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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM CASAMENTO SEM IMPORTÂNCIA / Alix André
UM CASAMENTO SEM IMPORTÂNCIA / Alix André

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Canes, na hora suave do crepúsculo. Ao longo da avenida que segue junto ao mar, dois homens e uma mulher caminhavam vagarosamente, encantados com o cenário e com a doçura daqueles minutos. Em volta deles, sobre a cidade e sobre o mar descera a calma. As vagas quebravam na praia quase em silêncio, franjando-a de espuma, e depois retiravam-se de mansinho. Tão longe quanto a vista podia alcançar, as águas azuis da baía mal se moviam.

O calor do dia - embora se estivesse no fim de Maio - fora intenso e rente à água flutuava uma espécie de nevoeiro que, pouco a pouco, com a aproximação da noite, se ia dissipando. O céu, porém, apesar da hora, estava claro e ainda luminoso.

 

 

 

 

 

- Gosto desta terra - declarou, de súbito, Patrício Gramont, voltando-se para o largo.

Os companheiros imitaram-no. A senhora sorriu com indulgência. E, incrédula, inquiriu:

- Gosta, de facto, de Cannes, doutor ? Gosta disto ?

Voltando-se, designou com um gesto largo os grandes hotéis de fachadas imponentes e todas

iguais, com os terraços e mesas floridas, por entre as quais circulavam os criados de casaco branco e os chefes de mesa com fato preto.

- Isto, madame, ignoro-o - respondeu Gramont

- Não tenho tempo para os ver. Guardo aquele de que disponho para contemplar o mar e o céu. E creio que em parte alguma do Mundo eles possam oferecer tanta beleza e espectáculo tão variado.

O amigo, que caminhava ao lado do médico, referiu-se apenas à primeira parte da frase.

- Tem razão. Você é o homem mais ocupado de toda a cidade.

- O título não é dos mais lisonjeiros. Em Cannes encontram-se tantos ociosos !

- Sei muito bem o que digo. E por isso, tanto minha mulher como eu nos sentimos particularmente reconhecidos por ter acedido a acompanhar-nos hoje, embora, iria jurá-lo, o meu amigo considere este jantar como uma maçada.

Falou com inflexão ligeiramente irónica. Gramont protestou:

- Deus me livre de ser tão ingrato para convosco e para quem me convidou. E a propósito, não acham que seria incorrecto fazê-la esperar por nós ?

Como se desejasse ser o primeiro a dar o exemplo da pontualidade, Patrício Gramont abandonou a balaustrada à qual se encostava. Juntos, prosseguiram o seu caminho, enquanto a senhora observava:

- Pode estar descansado, doutor. Não faremos esperar mademoiselle Heybrand. Conserva o hábito das colónias, onde se janta muito tarde e não deve contar connosco antes das nove.

Mais tranquilo, Gramont abrandou o passo, e o grupo continuou a avançar, passeando, seguindo a Croisette em direcção ao porto onde estavam ancorados os iates.

O doutor Gramont fizera havia pouco trinta anos. Era alto, muito direito, corpo musculoso e nervoso. Conquanto envergasse, naquela altura, com perfeito à-vontade, um trajo de correcção impecável, ao vê-lo, pressentia-se não ser esse o seu trajo usual, da mesma forma que se adivinha sempre o militar sob o fato civil. E para quem o tivesse visto com o uniforme de cirurgião, essa impressão explicava-se. A bata, o avental, o boné não podiam ser considerados como acessórios, mas faziam parte do próprio Patrício, adaptavam-se-lhe como se lhe estivessem destinados desde sempre, como se não pudesse ter sido outra coisa senão «um homem de bata branca».

Gramont possuía também a calma inerente à profissão, uma calma perfeita, talvez mais adquirida do que natural, mas da qual ninguém poderia afirmar ser devida apenas à vontade do jovem médico.

Essa calma reflectia-se-lhe no semblante, habitualmente sério, quase grave, mas cujo sorriso talvez por ser raro - o transformava por completo. As leves rugas da testa e a contracção das sobrancelhas desvaneciam-se e as pupilas azuis e frias irradiavam nessa ocasião com o fulgor da mocidade.

O casal que seguia a seu lado tinha menos personalidade. Era um casal elegante, como tantos que se encontram na Cote d'Azur: ele, desembaraçado, ligeiramente corpulento, agradável aparência de homem já de meia idade; ela, esbelta, franzina, não bonita, mas encantadora, devia ser, pelo menos, quinze anos mais nova do que o marido.

Jorge Mériel, que viajara muito e ganhara uma fortuna com a importação de produtos coloniais, gostava de Cannes, onde passava sempre dois meses, na Primavera. Dois anos antes, o doutor Gramont, que acabava de se instalar, operara Clarisse Mériel de uma apendicite, agravada com peritonite, que pôs em perigo a vida da juvenil senhora. A habilidade do cirurgião, os seus cuidados e, graças a eles, a cura de madame Mériel, uniram o casal ao médico e a tal ponto que as suas relações ultrapassaram as de um cliente e tomaram o carácter de profunda amizade. A vida extremamente ocupada do doutor Gramont, cujos dias e muitas vezes as noites eram dedicados aos seus doentes e também o aborrecimento que este sentia pela vida de sociedade tornavam muito raros os passeios do médico. Portanto, adivinha-se como Jorge Mériel estava surpreendido e ao mesmo tempo encantado por o ter a seu lado com aparência despreocupada e feliz.

Despreocupada?... Talvez não. Apesar do evidente prazer manifestado por se encontrar diante do mar que tanto amava, de assistir ao cair da noite no firmamento incomparavelmente puro, de respirar a plenos pulmões o ar iodado que vinha do largo, o médico conservava entre as sobrancelhas profunda ruga - de preocupação ou concentração talvez as duas coisas ao mesmo tempo.

Depois de caminharem algum tempo em silêncio, tendo ultrapassado os grandes hotéis como o Martinez, Miramar, Carlton, Jorge Mériel inquiriu:

- Muito trabalho, hoje, doutor ?

- Sim, muito. Quero dizer, muito para a clínica e não para mim. Eu sou de ferro. Nem podemos receber todos os doentes.

E quando proferiu as últimas palavras, a ruga da testa acentuou-se.

- E a nova clínica, em que altura vai ?

- Suspendi os trabalhos por falta de fundos.

- Mas conta prossegui-los ?

- Sim... um dia, mais tarde.

- Supunha que tanto a cidade como o Estado subsidiavam a construção.

- E não se engana, mas não basta. Actualmente, temos de contar com um milhão por cada cama e isto fazendo as coisas modestamente. E, no entanto - continuou Gramont, animando-se por forma desusada que indicava quanto o assunto o interessava - se soubessem como precisamos da nova clínica! A antiga não chega, está velha, é incómoda e pouco moderna...

Calou-se e pouco depois acrescentou, voltando-se para Clarisse Mériel:

- Sabe-o por experiência própria, madame.

- Sei, acima de tudo, que ali se operam milagres - respondeu ela, sorrindo - Quanto a isso, nunca o esquecerei.

O médico ergueu a mão, como se desejasse deter as palavras de gratidão de Clarisse. Depois encolheu os ombros, para afugentar as preocupações que de novo o assaltavam. Mas não ignorava que dificilmente o conseguiria. Pelo contrário, a que constituía a maior da sua vida tornara-se ainda mais obsidiante por ser evocada.

- O que o meu amigo precisava era de um rico, um riquíssimo comanditário - observou Mériel.

Calou-se bruscamente como se as próprias palavras acabassem de lhe despertar uma ideia. E, de repente, com entusiasmo, acrescentou:

- Um comanditário! Mas eu conheço um, Gramont, ou antes, uma. Porque não fala com mademoiselle Heybrand a esse respeito?

- Não se me afigura muito próprio pedir dinheiro a uma pessoa que nos recebe pela primeira vez e que, de resto, não conheço.

- Os negócios são assim, exactamente. Muitas vezes, os jantares não têm outro fim senão o de reunir pessoas desconhecidas, como o meu amigo e mademoiselle Heybrand, que precisam uns dos outros.

- É possível. Mas, infelizmente, eu não sou homem de negócios.

Sob a aparente banalidade, a resposta tornava impossível toda a insistência e Jorge Mériel compreendeu-o. Suspirando, limitou-se a dizer:

- É pena... Dez... vinte... trinta... cinquenta milhões o que representam para Gilda!

- É assim tão rica? - interrogou sua mulher, que havia algum tempo não tomava parte na conversa.

- Muito mais ainda. Um monte de oiro ou, para melhor dizer, de cana de açúcar, de café, de bananas, de cacau e de algodão.

- E dispõe sozinha dessa imensa fortuna ?

- Absolutamente. Mas não te falei já a respeito da Gilda Heybrand ?

- Falaste, mas talvez o doutor não desgostasse de saber mais alguma coisa sobre a pessoa a casa de quem o levas.

- Perdão. A casa de quem o levo, porque ela própria mo pediu - emendou Mériel - No entanto, tens razão. Mas Gramont é por tal forma inacessível que nunca temos muito tempo para lhe falar.

- Tem razão - concordou o médico - e por isso não lhe quero mal pelo seu silêncio.

- Silêncio que vai acabar, doutor. Gilda Heybrand é maior e, órfã há muitos anos, senhora de enorme fortuna. Os pais pereceram num desses terríveis tornados que, por vezes, assolam certas ilhas das Antilhas. Possuíam uma plantação que o furacão, na sua passagem, destruiu e arrasou. Desta forma, Gilda ficou não só órfã como arruinada. Ficando ilesa, por se encontrar na ocasião da catástrofe em casa de um tio, riquíssimo plantador da Martinica, a criança - tinha então cinco anos - foi adoptada por ele, assim como uma sua prima cuja família acabava também de desaparecer no cataclismo. No entanto, dessa não me lembro por ser, com certeza, uma garota como qualquer outra, enquanto Gilda já possuía então um encanto, uma beleza e personalidade que não seria fácil esquecer.

- Que entusiasmo, meu amigo! - censurou Clarisse, sorrindo.

- Muito justificado, afirmo-te. E em breve vão ter ocasião para o confirmar.

- Madame Mériel não conhece a nossa anfitriã?

- perguntou Gramont.

- Não. Minha mulher raramente me acompanha em viagens de negócio porque receia o mar. Fui sempre sozinho às Antilhas e recebido principescamente pelo velho Heybrand. Assim conheci Gilda e ela própria devia ter conservado qualquer recordação a meu respeito, visto ter-nos convidado.

- Convite um pouco misterioso, Jorge, tens de concordar.

- Misterioso porquê ?

- Talvez me exprimisse mal. Queria dizer surpreendente pelo facto de mademoiselle Heybrand, mal chegou a Cannes, ter tido conhecimento da nossa presença aqui.

- O facto é muito simples, pelo contrário. Por mo ter ouvido dizer, Gilda recordou-se de que

p assávamos sempre em Cannes os meses de Maio e Junho e também do nome do hotel onde, habitualmente, nos instalávamos, o Martinez. Um dia precisamente aquele em que foste a Nice - apareceu no hotel e a sua visita, que se prolongou bastante, causou-me, confesso, grande prazer. Quando se despediu, obteve a promessa de a visitar contigo no seu iate, numa data a combinar. Mais tarde chegou o bilhete que já conheces e cujo teor era o seguinte:

Meu amigo

Estaria disposto a dar-me o grande prazer de jantar comigo na quinta-feira e trazer Madame Mêen, a quem, como sabe, desejo imenso conhecer? O Désirade é o último iate ancorado junto ao cais. Espero-os das oito para as nove.

E num pós-escrito acrescentava :

Gostaria de conhecer o doutor Patrício Gramont. Creio que as boas relações que mantém com ele o autorizam a transmitir-lhe o meu convite».

«Eis, pouco mais ou menos, o que dizia o bilhete, ao qual respondi, aceitando. Encontras nisto motivo para espanto ?

- Pelo menos, acho estranho que mademoiselle Heybrand tivesse convidado o doutor, a quem não conhece.

- Isso é infantil, Clarisse! Como talvez se demore em Cannes, Gilda quis, precisamente, conhecer um excelente médico.

- Isso mesmo, mas Gramont não é médico.

- Então que é ?

- Um cirurgião. Faz sua diferença.

- Jogo de palavras, apenas. Então, como tínhamos um amigo cirurgião, Gilda pensou que, em caso de necessidade, ele poderia também ser médico. Não lhe parece, doutor?-interrogou, voltando-se para o amigo.

- com efeito, foi o que calculei. Caso contrário, não teria aceitado.

Mériel abanou a cabeça com ar satisfeito, enquanto sua mulher pedia:

- Continua a história de mademoiselle Heybrand ...

- Está acabada ou quase. A última vez que encontrei Gilda na Martinica tinha ela dezassete anos e já era admiravelmente linda. A prima acabava de casar com um amigo de infância, um dos seus vizinhos, creio eu, e ela ficara sozinha com o tio. Este morreu dois anos depois e Gilda, que, como já lhes disse, nada tinha, herdou a maior fortuna da ilha. Não voltei às Antilhas, visto o meu agente se desempenhar muito bem do seu cargo, evitando-me, assim, a viagem. Por ele, que veio a França há seis meses, pouco mais ou menos, soube que Gilda Heybrand - que tem agora vinte e dois anos - ainda estava solteira e que, num iate a que dera o nome de Désirade, talvez em memória da ilha das Antilhas com o mesmo nome, onde nasceu, corria o Mundo, tendo por única companhia a tripulação, a criada de quarto e uma espécie de secretária. Éis - concluiu, dirigindo-se a sua mulher - terminada, a história de Gilda Heybrand, como lhe chamas. Estás satisfeita, Clarisse ?

- É ao doutor e não a mim a quem deves fazer essa pergunta.

- Gramont, está satisfeito ?

- Plenamente! - afirmou o médico, rindo.

Os três passeantes acabavam de ultrapassar a gare marítima e seguiam pelo cais, no extremo do qual se ergue o simples e comovente monumento erigido à memória de grande navegadora Virgínia Hériot. À esquerda, o mar sobre o qual o sol no ocaso acendia cintilações rubras. À direita, como cavalos de corrida em repouso, os iates baloiçavam, embalados pelas vagas. O último, cujo casco de mogno brilhava docemente como uma castanha madura, de mastros finos erguidos para o céu, exibia à proa, em letras de cobre cintilante, o nome: Désirade.

com grande diferença, era, sem dúvida, o mais esguio, o mais belo e o mais elegante de todos os barcos de recreio ancorados no porto. Ao centro, as salas envidraçadas, das quais se podia contemplar o mar tão bem como na coberta.

À frente, sob uma tenda de lona vermelha, cadeiras, uma mesa e um sofá-baloiço, também vermelho, fixo a uma barra de madeira, por correntes. Uma gaiola doirada, pendurada numa armação de pé, encerrava papagaios e catatuas de plumagem azul e amarelo doirado, que a aproximação da noite emudecera. Em volta desta espécie de sala ao ar livre, vasos com plantas verdejantes e vistosas flores.

Precedendo alguns passos os companheiros, Jorge Mériel subiu a ponte. Disse o nome ao marinheiro que apareceu para os receber e este, provavelmente já avisado, mandou-os entrar.

Dados alguns passos no estreito corredor, o homem abriu a primeira porta à esquerda e introduziu os visitantes na sala de bordo, que não era pequena, e, para um iate, até bastante vasta. As anteparas eram de uma madeira exótica, branca, acetinada e da mesma madeira eram todos os móveis, de um modernismo luxuoso e prático. As poltronas e sofá, estofados de seda vermelha com grandes ramagens brancas igual à das cortinas que guarneciam as janelas. Uma jarra com enorme ramo de cravos vermelhos ocupava o centro da mesa redonda com tampo de espelho e, de pé, junto dessa mesa, uma rapariga compunha as flores. Quando a porta se abriu, voltou-se e Gramont reconheceu no mesmo instante que o entusiasmo de Mériel não era desproporcionado à realidade.

Gilda Heybrand era, de facto, maravilhosamente bela. Alta, esbelta, harmoniosa, envergava com uma graça um tanto altiva o vestido-sari de seda branca, cuja saia lhe moldava o corpo, enquanto a parte de cima, bordada a oiro, caía em pregas sobre os ombros e sobre os braços. O rosto poder-se-ia considerar demasiado perfeito se não o animasse uma chama interior e ardente. A boca, de lábios carnudos, admiravelmente desenhada, o nariz direito, de linhas puras, os olhos negros, profundos, sobrepujados pelas finas sobrancelhas. Os cabelos negros, anelados, com reflexos azulados, emolduravam o rosto lindo e caíam-lhe à vontade sobre os ombros. No pescoço delicado brilhava docemente o tríplice colar de pérolas com fecho de rubis. O reflexo nacarado da jóia, o oriente rosado de cada pérola como que se transmitiam à pele fina, sob a qual se adivinhava circular um sangue generoso.

Gilda Heybrand ficou por segundos imóvel, com um cravo apertado nos dedos e o médico teve a impressão de ser ele e não os companheiros em quem primeiro se fixava o olhar luminoso. Gilda avançou para eles, dizendo :

- Eis o meu «amigo da França». Era assim que lhe chamava, recorda-se ?

A voz estava em perfeita harmonia com a pessoa : grave, cheia, com quentes inflexões e sem o mais leve sotaque.

- Recordo-me, sim - respondeu Jorge Mériel e há dias, quando de novo nos encontrámos, gostei de ouvir dos seus lábios essa classificação. Quanto a mim, não posso dizer a mesma coisa, não posso dizer-lhe : «aqui está a Gilda», porque mal a reconheço. Quando a conheci já era linda, mas, agora, santo Deus!

Calou-se, incapaz de exprimir por outro modo a sua admiração.

Gilda esboçou um sorriso sem alegria.

- Mas sou eu, posso jurar-lhe. Simplesmente, envelheci. O tempo passou...

Ligeira amargura acentuou o final da frase e a voz harmoniosa teve como que imperceptível desfalecimento.

Mériel não teve tempo para protestar. Depois de se curvar sobre a mão de Gilda - o seu título de amigo velho conferia-lhe esse direito - apresentou sua mulher e depois Patrício Gramont. E dessa vez, ele teve a certeza de que o olhar de mademoiselle Heybrand o fixara com particular atenção.

Gilda convidou os seus hóspedes a sentarem-se. O mesmo marinheiro, que os acompanhara até ali, entrou, empurrando a mesa rolante, sobre a qual se viam, em volta do balde do gelo, garrafas, copos e shakers. Foi a criada de quarto, uma autêntica crioula da Martinica, com saias rodadas de cores vivas e touca vermelha, quem preparou os cocktails.

- A Madiana prepara como ninguém estas bebidas da minha terra - explicou a dona da casa Sabe dosear a pimenta, a noz-moscada, o cravo da índia e o rum na perfeição. O meu mordomo, que deixei na Martinica devido à exiguidade do iate, não o faria melhor.

- A exiguidade! - não pôde deixar de protestar Patrício Gramont, relanceando um olhar em volta. - com efeito, o Désirade é um iate dos mais belos e grandes...

- Pode dizer o mais belo dos que se encontram aqui, Gilda - acrescentou Mériel.

- Talvez. Mas ainda assim insuficiente para comportar todo o pessoal da minha casa, deve concordar. De resto, ser-me-ia perfeitamente inútil.

Ao mesmo tempo, chamou com ligeiro sinal a criada, que se dispunha a sair, e ordenou:

- Vai pedir à Inês, que deve estar no seu camarote, para vir ter connosco.

Voltando-se para Clarisse Mériel, explicou:

- Mademoiselle Arnaud é minha amiga e acompanha-me em todas as viagens. Há dois anos que não me abandona e suporta as minhas fantasias, que me levam hoje para um porto, amanhã para outro. Representa toda a minha família.

- Mas, se bem me recordo, tinha uma prima que foi educada consigo? - observou Mériel.

- Tinha, mas morreu - replicou, secamente, a interpelada.

Enquanto Jorge Mériel manifestava o seu espanto e pesar, a porta abriu-se e uma rapariga entrou na sala. Devia ser um pouco mais velha do que Gilda. De altura média, bonita, trajando com elegância, aproximava-se o menos possível do que Mériel classificara como dama de companhia. A cor dos olhos, principalmente, era estranha e chamava logo a atenção. As pupilas amarelas, de um amarelo doirado, ainda pareciam maiores e mais brilhantes em contraste com a palidez das faces. Os cabelos castanhos, cortados muito curtos, emolduravam as feições finas, a testa alta, as maçãs do rosto um pouco salientes. Não usava jóias e o vestido de seda azul, de corte perfeito, era, no entanto, muito sóbrio.

- Apresento-lhes a minha paciente e querida Inês - disse Gilda, enlaçando carinhosamente os ombros da recém-chegada.

Apresentou, um após outro, madame Mériel, Jorge Mériel e o doutor Gramont. Quase logo anunciavam que o jantar estava servido.

Na sala de jantar, igualmente revestida de madeira acetinada, com móveis brancos, a refeição prolongou-se num ambiente agradável. Um estranho que, por acaso, entrasse no Désirade nunca poderia calcular que os convivas sentados em volta da mesa, carregada de flores, uma hora antes ainda não se conhecessem. Evidentemente, a antiga amizade que ligava Gilda Heybrand a Mériel, as mútuas recordações, bastavam para animar a conversa. No entanto, nem a dona da casa nem o convidado abusaram. Por várias vezes, o médico teve a impressão de que o olhar da gentil rapariga se velava quando o importador recordava certos factos, proferia nomes ou citava datas.

Terminado o jantar, Gilda e os seus hóspedes regressaram à sala. Mademoiselle Arnaud serviu o café e os licores, ofereceu cigarros e charutos. Era discreta, sempre atenta, cuidadosa, mas sem o servilismo de uma subalterna. A sua gentileza, distinção e elegância colocavam-na a par de Gilda e o doutor Gramont não soube explicar por que motivo se sentia mal disposto quando o olhar da dama de companhia - que rapidamente o desviava, de resto

- se cruzava com o seu.

 

Era tarde quando Clarisse Mériel se levantou para se despedir. Enquanto mademoiselle Arnaud ficava na sala, Gilda Heybrand acompanhou os seus amigos até à coberta e parou um instante a conversar junto da ponte. Apertou a mão aos Mériel, aceitou o convite que estes lhe fizeram para jantar com eles num dia próximo, mas quando, por sua vez, Patrício lhe estendia a mão para se despedir, disse-lhe:

- Se mo permite, prendo-o por mais uns momentos, doutor.

E, voltando-se para os Mériel, acrescentou:

- Se mo permitem também.

Embora no escuro fosse impossível distinguir os rostos e as suas expressões, Gilda devia ter «sentido» o espanto e talvez a contrariedade do médico, pois acrescentou com ligeira ironia:

- Se não lhe causa transtorno conceder-me alguns minutos do seu precioso tempo.

Patrício conseguira dominar-se e, inclinando-se, respondeu com cortesia:

- O tempo que passo no Désirade também é precioso, mademoiselle.

Gilda sorriu e murmurou :

- Obrigada.

Clarisse e Jorge Mériel, sem manifestarem surpresa, desceram para o cais e daí trocaram ainda algumas palavras com Gilda, que, junto do portaló, os via afastar; o ruído dos seus passos foi diminuindo e só então ela se voltou para o médico. Gramont ofereceu-lhe a cigarreira aberta, acendeu-lhe o cigarro e também o que tirara para si; depois encostaram-se à amurada e, durante alguns momentos, conservaram-se calados.

Habituados à escuridão, começavam a distinguir melhor os objectos. Além disso, a noite estava clara. No firmamento, milhares de estrelas cintilavam às quais as luzes da cidade, mais próximas, davam réplica. Ao ruído surdo das ondas, embatendo na margem, respondia a música suave, que partia, sem dúvida, de outro iate. O ar da noite era vivo, impregnado de iodo e salitre.

Sob o vestido leve, Gilda teve um arrepio. Nesse instante preciso, mademoiselle Arnaud apareceu com uma capa de raposas brancas que foi colocar nos ombros da amiga.

- Está fresco, Gilda - observou - Devias entrar para a sala.

- Obrigada, Inês - agradeceu Gilda, abanando a cabeça - Não me demoro aqui, está sossegada.

- A noite está húmida.

A insistência fez sorrir Gilda, mas não a irritou.

- Vais fazer acreditar ao doutor que sou a pessoa mais frágil deste mundo, quando afinal acontece precisamente o contrário. Não te preocupes comigo, Inês, vai dormir.

Apesar do conselho, esta não se moveu, como se não tivesse ouvido. Foi preciso Gilda repetir:

- Não esperes por mim, Inês. Boa noite.

Só então mademoiselle Arnaud se afastou vagarosamente e a custo, pelo menos foi essa a impressão do médico.

Quando ela desapareceu no corredor, Gilda, que a seguira com a vista, voltou a encostar-se à amurada e sacudiu para o mar a cinza do cigarro. Patrício, ligeiramente voltado, contemplava, por cima dos mastros, o Suquet iluminado de verde e alaranjado. Coisa estranha, aquele momento que ficaria profundamente gravado na sua memória, naquela altura não lhe pareceu assumir qualquer importância ou gravidade.

Considerando, por certo, que entre ela e o médico o silencio não podia prolongar-se, Gilda, bruscamente, começou :

- Em primeiro lugar, doutor, agradeço-lhe ter aceite o meu convite.

Patrício esboçou um gesto de protesto, mas ela não lhe deu tempo para o precisar em palavras.

- Não tinha motivo para desejar ser-me agradável, visto não me conhecer.

- Peço-lhe perdão, mademoiselle. Jorge Mériel conhece-a e...

- E falou-lhe de mim? Provavelmente, terei de agradecer-lhe a indulgência com que me tratou.

Patrício sorriu.

- Para ser sincero, devo dizer-lhe que já não estávamos muito longe do iate quando Jorge se decidiu a dizer alguma coisa sobre o Désirade e a sua proprietária. Mesmo que o desejasse, não podia, nessa altura, voltar para trás.

Na sombra, Gilda volveu-lhe rápido olhar.

- Eis o que se chama falar sem rodeios - murmurou - Tanto melhor.

Calou-se, reflectindo um instante. Maquinalmente, puxou a capa para os ombros.

- De resto - prosseguiu Patrício - um médico nunca se recusa quando o chamam.

- Não se trata de médico - replicou Gilda com certa impaciência.

Mas, no mesmo instante, fugaz sorriso lhe entreabriu os lábios, como se, de si para si, pensasse que o médico não podia saber do que se tratava.

- Senhor Gramont, o senhor é homem para se admirar, para se escandalizar se o conduzirem por caminhos desusados ou aceita facilmente o imprevisto, por muito desconcertante que seja ?

A bela voz grave de mademoiselle Heybrand era firme, sem hesitações. A de Patrício revelava idêntica firmeza quando respondeu:

- A minha profissão habituou-me ao imprevisto e à calma que se impõe guardar quando o enfrentamos. Posso, portanto, escutar sem surpresa seja o que for que deseje dizer-me.

Enquanto falava, Gramont não deixou de a fitar. Mas não conseguiu surpreender qualquer coisa de particular, excepto, talvez, leve contracção das feições quando os lábios proferiram a espantosa proposta :

- Quer casar comigo, doutor Gramont ?

O domínio próprio, que Patrício afirmara ter pouco antes, por certo era real, porque nem sequer estremeceu. Ficou calado por alguns instantes e depois respondeu, simplesmente:

- com certeza não se admirará por não lhe responder imediatamente ?

- Por certo que não. O assunto pede reflexão e também algumas explicações.

- com efeito, parece-me necessário saber a que devo a honra da sua escolha.

Gilda voltou-se bruscamente para ele. As finas sobrancelhas contrairam-se-lhe. Mas devia ter verificado no seu interlocutor a completa ausência de ironia porque respondeu:

- Não se trata de uma honra, mas de um negócio, tanto para mim como para si, um negócio que vou tentar explicar-lhe. Sentemo-nos, por favor.

E designava-lhe uma das poltronas agrupadas perto da mesa. Silencioso, Patrício sentou-se. A gaiola com as catatuas havia sido retirada e levada para dentro enquanto jantavam, a tenda vermelha enrolada, a fim de as preservar da humidade.

Gilda tomou lugar no sofá-baloiço, ficando assim afastada de Gramont, que não podia ver-lhe o rosto. Mas com certeza não o fizera para lhe ocultar embaraço ou fugitiva emoção. Estava perfeitamente calma e parecia, com efeito, preparar-se para tratar de um negócio, um negócio pelo qual nem mesmo tivesse muito interesse.

- Antes de mais nada, quero dizer-lhe que já o conhecia, doutor Gramont. Encontrei-o hoje pela

primeira vez, é verdade, mas quando entrou no ésirade já sabia quem o senhor era. Se o nosso amigo Mériel - continuou após breve pausa - lhe falou pouco a meu respeito, em compensação, falou-me muito de si e com entusiasmo... Não me interrompa - atalhou com frieza como Patrício erguesse a mão para protestar - Não estamos aqui para trocar cumprimentos, acredite. Por acaso, o seu nome foi proferido quando conversámos, no Martinez, e, em pouco tempo, fiquei sabendo muita coisa a seu respeito, sobre a sua autoridade, inteligência e valor. Sei que se dá de corpo e alma à profissão que escolheu, a ausência de sentimentalismos, na sua vida. Sei que não teve tempo para amar, pois uma única paixão o domina: a da mesa de operações e os seus doentes. Sei que é indiferente, nobre, entusiasta, justo, rigoroso, infatigável, desinteressado, voluntarioso...

Desta vez não conseguiu evitar que Gramont falasse.

- Nunca poderia supor que Mériel fizesse semelhante retrato da minha modesta pessoa-observou com ligeira ironia - Mas julgo, mademoiselle, que deve desconfiar dos amigos...

- E desconfio, esteja descansado. Unicamente, por estranhas coincidências, pude verificar a exactidão do retrato. Um dia foi um operário que veio a bordo fazer uma reparação; acabava de sair da sua clínica onde fora tratado carinhosamente, apesar de não possuir um cêntimo e, não sei bem por que motivo, não poder reivindicar as vantagens dos seguros sociais. No dia seguinte, um médico de Cannes, que chamei para a minha criada de quarto, atacada por um acesso de febre, falou-me nos mesmos termos. Desta forma, considerei que o doutor não devia muito à benevolência de Jorge Mériel. No entanto, devo confessar-lhe que este último não me disse só bem de si.

- Tanto melhor. A unanimidade do elogio é muito monótona.

- Falou-me também das dificuldades materiais com que luta. Para exercer como entende a profissão de cirurgião, não deve ter enriquecido, doutor Gramont. Pelo contrário, deve ter dívidas.

O médico franziu a testa. O elogio incomodara-o, mas a reprovação que supôs adivinhar na voz de Gilda ainda lhe desagradou mais. O facto daquela estranha conhecer as preocupações materiais que o afligiam, era-lhe muitíssimo desagradável.

- Verifico que o nosso amigo não esqueceu o mais pequeno pormenor a meu respeito - observou.

- Se não o tivesse feito, não estaríamos aqui os dois, esta noite - respondeu Gilda com tranquilidade.

A voz profunda não devia ser feita para pronunciar palavras banais e, no entanto, era fria, indiferente: «uma verdadeira voz para tratar de negócios» - pensou Patrício.

Gilda baloiçava-se vagarosamente no sofá-baloiço. E, conquanto o movimento imprimido pelo pé fosse apenas perceptível, o médico via, no escuro, mover-se a ponta esbraseada do cigarro.

- Éis como os nossos destinos podem reunir-se -prosseguiu com firmeza-Eu sou órfã, livre e disponho da fortuna que lhe falta. O senhor pouco sabe a meu respeito, mas pode obter as informações necessárias. Não pense que a minha resolução de casar nasça do desejo de encobrir qualquer falta ou oculte sombrio e tortuoso desígnio - e soltou uma risadinha estranha - Nada disso, e, como já lhe disse, poderá certificar-se. A verdadeira razão é simples. Como já lhe disse, sou livre, mas ainda não tanto como desejava. Uma rapariga que vive sozinha, correndo mares e portos, e procede como entende, sujeita-se a críticas e arrisca a sua reputação. Por muito estranho que isso lhe pareça, receio umas e desejo conservar a outra. Não quero somente uma vida límpida, embora livre, mas desejo que tenha a aparência disso.

- E supõe que o facto de ser casada lhe dará essa aparência ?

- Não suponho, tenho a certeza. Só Deus sabe porquê, mas a respeitabilidade na espécie de vida que desejo levar é mais facilmente concedida às mulheres casadas do que às raparigas solteiras.

- Isso quer dizer que não tenciona mudar de vida?

Gilda voltou-se e Patrício, apesar da escuridão, pôde notar a surpresa expressa no semblante.

- Não - replicou com naturalidade - Não desejo ser um peso morto na sua vida. Residirei de boa-vontade nesta região que, em minha opinião, possui verdadeiro encanto, mas abandoná-lo-ei muitas vezes. Passarei algum tempo nas plantações, voltarei... para partir de novo. Como compensação para esta... situação, porei à sua disposição parte da minha fortuna, o que lhe permitirá terminar a construção da clínica.

A oferta brutal, que as palavras nem tentavam suavizar, quase arrancou um gesto de irritação a Patrício. Mas, no mesmo instante, zombou de si mesmo e da sua susceptibilidade. O assunto que naquele momento discutiam ambos não seria apenas uma questão de dinheiro?

E não disse uma palavra para não deixar adivinhar o que pensava. Pausadamente, Gilda acrescentou :

- Bem entendido, esta proposta só terá valor se o seu espírito e coração estiverem livres.

O médico começou a rir.

- Estão, mademoiselle. Não virá daí o obstáculo.

- De quê então ?

- De si.

A resposta de Gilda revelou ligeira impaciência.

- Calcula, por certo, que não se faz uma proposta desta natureza sem termos reflectido por muito tempo sobre as vantagens e riscos. Estou segura de mim, tanto no presente como no futuro.

A voz grave tomou de súbito inflexões de inexplicável dureza. Mas, mais do que isso, a segurança da afirmação impressionou Patrício. Sorriu com cepticismo.

- Está ainda muito nova para falar dessa forma, mademoiselle

- E, contudo, posso garantir-lhe o que afirmo. O baloiço deteve-se bruscamente e as palavras

foram proferidas com uma espécie de violência, com a cabeça erguida e os olhos brilhantes. O médico encolheu imperceptivelmente os ombros. Aquele orgulho desagradava-lhe.

- Ninguém pode saber de antemão o que será, sentirá ou desejará amanhã-respondeu - Nem eu, nem mademoiselle. O principal, neste caso, é saber se o prémio vale o sacrifício.

- Para si, acha que vale ?

- Creio que sim. Mas não sou o único a arriscar-me na aventura.

- Volto a repetir-lhe que reflecti profundamente no assunto.

- Terá de reflectir mais ainda. No entanto, antes de nos comprometermos mais, posso fazer-lhe uma pergunta ?

- Por favor.

- Porque motivo recaiu sobre mim a sua escolha ? Tenho a certeza de que bastaria falar para obter o que deseja e não vejo qual a particularidade que me distinguiu.

Mais uma vez o sofá se imobilizou e Patrício teve a impressão de que uma espécie de frémito agitava Gilda Heybrand. A mão puxou maquinalmente a capa de raposas, mas a emoção, se emoção houve, pouco durou.

- Tem razão. Se é isso que pretendia dizer, encontrei muitos homens que aspiravam à minha mão. Ninguém pode calcular como o Oceano é pequeno e, principalmente, como um barco como o Désirade pode assumir importância. Supomo-nos ignorados sobre as ondas, calmas ou alterosas, numa imensidade que nos parece infinita e, por fim, somos assinalados, assaltados, perseguidos por aqueles que passam a vida a espreitar ocasiões. Só o reconhecemos quando chegamos aos portos onde os aventureiros lançam mão de todos os pretextos para se aproximarem de uma rapariga só e rica. Por mim, nunca toquei em terra que não aparecesse uma dessas personagens: pirata, aventureiro, homem de sociedade ou filho de família que, de boa vontade, teriam unido ao meu o seu destino... Em Veneza, foi um príncipe que, às ocultas, ia despojando o seu palácio das esculturas, para fazer dinheiro: na Alexandria, um diplomata cujo pai, segundo afirmava, tinha conhecido intimamente a minha família, embora o rapaz, prudentemente, se abstivesse de me dar pormenores a esse respeito. Em Cádis, um jovem toureiro pretendeu organizar uma corrida em minha honra e até se deixou ferir ligeiramente para se tornar mais interessante a meus olhos. Em Bergen, um riquíssimo pescador de bacalhau, a quem, no entanto, faltavam capitais para aumentar a flotilha, tentou persuadir-me de que a minha beleza e a minha saúde-se dariam melhor com os climas frios e com a vida de emoções que me oferecia. Em Siracusa... Mas fico por aqui. Estes foram os mais recentes.

Ao proferir as últimas palavras, Gilda Heybrand tentava ser irónica, mas o médico ficou impressionado com a inflexão desprezadora, quase inexprimível, que acompanhara esta espécie de confissão.

- Eis do que pretendo fugir, doutor Gramont, do que desejo libertar-me - prosseguiu Gilda - Se aceitar a minha proposta, poderei continuar a viver como gosto, sem me considerar uma espécie de caça, constantemente perseguida. Ficar-lhe-ei imensamente grata se quiser reflectir no assunto.

com estas palavras pareceu indicar o desejo de terminar a conversa. Patrício, porém,-não seria da mesma opinião, porque, em vez de lhe responder no sentido desejado, insistiu:

- Não respondeu à minha pergunta, mademoiselle.

- Qual pergunta ? - repetiu ela como se não se recordasse de ter sido interrogada.

- Volto a repeti-la, porque a minha modéstia se recusa a admitir que me tivesse escolhido pelos meus méritos. Porquê... eu ?

Gilda não conseguiu evitar um gesto de impaciência, mas logo se dominou. Talvez para ganhar tempo, esmagou, vagarosamente, o cigarro no fundo do cinzeiro poisado em cima da mesa. Depois levantou a cabeça e disse em voz firme :

- Creio ter-lhe já explicado claramente, doutor Gramont. Escolhi-o a si porque, tendo de me decidir por alguém, não podia deixar de escolher um homem digno da minha estima... Escolhi-o porque o preço da minha liberdade seria empregado numa obra útil e não disperso nas mesas de jogo... ou doutra qualquer maneira semelhante. Escolhi-o por me ter parecido que as nossas vidas poderiam unir-se sem se confundirem e cada um de nós guardaria, no seu sentido, na sua direcção, a mais absoluta liberdade. Escolhi-o, justamente, por não ter demonstrado desejo de ser escolhido e porque, por essa mesma razão, nunca se considerará obrigado a manifestar-me sentimentos... que não existem. Escolhi-o, enfim...

Poisou o cinzeiro e recostou-se no sofá, concluindo :

- Escolhi-o por tê-lo encontrado no momento exacto em que decidi escolher.

Mais tarde, muitas vezes, depois de ter revivido em pensamento aquela noite, recordando as palavras empregadas e o tom em que haviam sido pronunciadas, o médico descobriu na última frase uma espécie de emoção. Naquela altura, porém, não o notou e sorriu:

- As razões são boas e numerosas, mademoiselle. Agradeço-lhe por mas ter revelado. Agora posso retirar-me ?

- Como queira, doutor.

Ergueram-se ao mesmo tempo e Patrício ficou um pouco surpreendido por a ver tão alta, a seu lado. O luar prateava as ondas, os mastros esguios aprumados para o céu, o cordoame que dir-se-ia feito de fios de prata. O médico tentou em vão encontrar o olhar de Gilda, descobrir-lhe as feições.

Todavia, durante dois ou três segundos, a sua atenção desviou-se. Por trás dos vidros que indicavam os aposentos do iate, uma cortina oscilou e voltou imediatamente ao seu lugar, enquanto a mão ligeira que a erguera a abandonou e desapareceu. Gramont não pôde descobrir a quem pertencia essa mão.

Vagarosamente, encaminharam-se para o portaló.

- Venha dar-me pessoalmente a sua resposta, aqui - pediu Gilda.

E, mais uma vez, Patrício se admirou com a calma e à-vontade manifestados em circunstâncias tão estranhas e imprevistas. No mesmo instante, porém, pensou que o imprevisto fora para ele e não para ela.

- Não deixarei de o fazer, mademoiselle. Demora-se muito tempo em Cannes ?

Gilda começou a rir, como se considerasse a pergunta ridícula e, de si para si, o médico concordou que, de facto, era.

- Não posso precisar, doutor. Oito dias... ou alguns meses. A minha decisão depende da sua.

- Não porei a sua paciência à prova - afirmou o médico.

- Obrigada.

O comprido vestido-sari, de seda branca, roçou pela ponte que ligava o iate a terra. Gilda parou e estendeu a mão ao seu hóspede.

- Boa noite, doutor.

- Boa noite, mademoiselle. Permita-me que lhe diga que conservarei desta noite uma recordação...

- Inesquecível ? - concluiu ela com ironia O termo é um pouco forte. Será melhor dizer... especial. Concordo que tivessem sido, com efeito, momentos surpreendentes para si... e talvez para mim.

Calou-se e voltou a dar-lhe as boas-noites, enquanto Patrício transpunha a ponte.

Pouco depois, o médico afastava-se do Désirade, enquanto Gilda Heybrand, imóvel, escutava o martelar do passo firme, que se desvanecia pouco a pouco, e o marulhar suave das ondas.

 

Quando saiu da igreja, Gilda achou a noite muito escura. Tinha ainda os olhos um pouco ofuscados pelo brilho das lâmpadas eléctricas do coro e pela pequenina chama, cem vezes multiplicada, das velas dos altares. Custava-lhe readaptar-se à escuridão. Todavia, a seus pés, apesar da hora tardia, a cidade cintilava e lá no alto as estrelas refulgiam no firmamento esplendoroso daquela noite de Agosto. A temperatura era agradável e suave, mas, sob o vestido de seda, Gilda teve um arrepio, Voltou-se para o marido.

- Estas igrejas são glaciais, não achas ?

- Não o notei.

E, com indiferente delicadeza, acrescentou :

- Tens frio ?

- Não, obrigada.

Deram mais alguns passos em silêncio. Na extremidade da esplanada dois carros aguardavam: um Chrysler branco e esguio, como um barco de corridas ao qual tivessem tirado as velas e o carro confortável de Jorge Mériel, também de marca americana.

O importador, sua mulher e Inês Arnaud caminhavam alguns passos atrás dos recém-casados. O primeiro parou um instante e olhou em volta.

- Clarisse - murmurou a meia-voz - acorda-me! A terra vai ceder debaixo dos nossos pés ou o céu vai cair, desfeito em mil bocados, em cima das nossas cabeças, como nos sonhos mais extraordinários ? Em todo o caso, este casamento à meia-noite, do qual fomos as únicas testemunhas, não foi real, pois não ?

- Tranquilize-se, senhor Mériel, pelo contrário, foi bem real e, de futuro, ninguém poderá duvidar.

A resposta foi de Inês Arnaud e Clarisse não pôde deixar de notar a agressividade do tom. Mériel recomeçou a andar.

- Então sempre é verdade ! - repetiu a meia-voz - Há pouco servimos de padrinhos a Gilda e a Patrício, como ontem fomos testemunhas do casamento civil... Há pouco?... Ontem?... Já não sei bem.

- Ontem, meu amigo, visto acabar de dar uma hora. Fomos pontuais e a cerimónia realizou-se à meia-noite em ponto. Tento avivar-te a memória, porque me parece muito fraca - prosseguiu, rindo.

- Recorda-te. Casamento civil esta tarde, jantar em casa do doutor, missa nupcial à meia-noite e agora regresso ao iate, onde iremos beber uma taça de champanhe, conforme os desejos de Gilda. Depois abandonaremos o barco, que levantará a âncora e vogará sem se afastar muito da costa para... voltar amanhã.

- Podes dizer o que quiseres - protestou Mériel - Mas o Gramont poderia ter conseguido mais alguns dias. Algumas horas de cruzeiro parece-me muito pouco para uma viagem de núpcias.

- Talvez. Mas Patrício tem os seus doentes e para ele isso está acima de tudo, bem sabes.

- Mesmo acima de sua mulher? Ora adeus! O Patrício não é tolo.

Calou-se bruscamente. Num gesto discreto, Clarisse designou-lhe Inês Arnaud, que seguia poucos passos adiante. O importador mascarou a sua atrapalhação com ligeira tosse e, dirigindo-se à rapariga, perguntou:

- Fica a bordo, mademoiselle ?

- Não, senhor Mériel. Pela primeira vez depois de muitos anos, separo-me de Gilda. O meu quarto está preparado em casa do doutor - respondeu, sorridente e calma.

- Nesse caso, se nos permite, deixá-la-emos em casa antes de regressarmos ao hotel.

- Agradeço-lhe e aceitaria se a Gilda não me pedisse para ir no seu carro.

O grupo atingiu os automóveis junto dos quais Patrício e Gilda já tinham parado. Dirigindo-se à amiga, Gilda pediu:

- Vem connosco, Inês.

Abriu a porta e sentou-se ao volante. Patrício aguardou, para tomar o seu lugar, que a dama de companhia entrasse e se instalasse no banco do fundo, enquanto, por sua vez, Mériel embraiava.

Nas ruas que, apesar da hora adiantada, não estavam desertas, o Chrysler branco deslizou suavemente, como um brinquedo de criança. A capota azul, levantada, deixava que a aragem afagasse as faces dos passageiros. Gilda sentia-se bem. A sensação desagradável que durante a cerimónia a dominara dissipara-se por completo. Sentia-se lúcida e calma «como, em geral, nos encontramos depois de praticar uma grande loucura» - pensou.

Sorriu. A palavra parecia-lhe desproporcionada para uma coisa tão simples como o seu casamento. Sim, na verdade, muito simples. Escolher alguém entre mil, não porque nos agradasse, mas porque se nos afigurou ser o mais apto a desempenhar o papel que lhe destinamos, será coisa muito difícil?... Pelo que lhe dizia respeito, não achava e quanto a Patrício Gramont, tinha a impressão de que desejara tanto como ela aquele casamento.

Pela segunda vez, um sorriso levemente desprezador esvoaçou pelos lábios de Gilda. Muito normal, de resto, o imediato acordo estabelecido entre os dois. Ela proporcionava ao médico o que ele mais ambicionava: uma fortuna, uma fortuna que ele empregaria conforme o seu gosto e esse gosto era o de um homem de estudo, de ciência, um homem de bem ; mas uma fortuna que Patrício desejava tanto como a desejaria qualquer outro para fins menos altruístas e menos nobres. Estavam quites e devia ser essa também a opinião de Gramont. Fora isso que deduzira das suas palavras quando, poucos dias depois do primeiro encontro, lhe fora dar a resposta. E, durante o tempo decorrido para o cumprimento das formalidades necessárias, a atitude do médico nunca se desmentira, atitude não de um devedor, mas de quem recebia e também dava, isto é, proporcionava a liberdade que Gilda supunha indispensável para o género de vida que pretendia levar. Os seus direitos ao mútuo reconhecimento eram iguais.

Chegando a este ponto das suas reflexões, Gilda sorriu e uma chama intensa lhe iluminou o olhar. «Pelo menos, é o que ele supõe - pensou - como poderia adivinhar que este casamento representava para mim uma questão de vida ou de morte... ou, pelo menos, do meu equilíbrio físico e moral?»

Nas mãos de Gilda, o volante deu uma volta brusca. Os faróis acabavam de bater num homem que, a poucos metros, atravessava a estrada. O carro, lançado a toda a velocidade, deu uma guinada, subiu o passeio e depois, endireitando-se, continuou a correr. com tranquilidade, Patrício comentou :

- Se pudesses, como eu, observar de perto as consequências de certos desastres, serias um pouco mais prudente.

Sua mulher encolheu os ombros num gesto fa talista e limitou-se a responder:

- Talvez não fosse.

No entanto, abrandou um pouco, não por causa da observação, mas para atravessar a encruzilhada que fica diante da gare marítima. Pouco depois, o Chrysler parava na extremidade do cais.

O iate continuava amarrado no mesmo sítio e baloiçava docemente. A bordo poucas luzes brilhavam e não havia sinal de quaisquer preparativos. Como se quisesse explicar esta ausência de movimento e de vida, Gilda voltou-se para seu marido.

- Dei descanso à tripulação até ao nosso regresso. Não levantaremos ferro antes de duas horas.

A sala do Désirade, na qual Gilda foi a primeira a entrar, estava profusamente florida. Rosas, orquídeas, gladíolos transbordavam dos cestos poisados no chão. Vasos com hortênsias brancas guarneciam a galeria que corria diante das janelas. Junto da mesa rolante, Madiana, com a saia garrida, o lenço cruzado sobre o peito, a touca amarela e vermelha, coroando o rosto moreno, com o pescoço e pulsos guarnecidos de colares e braceletes, aguardava.

A dama de companhia aproximou-se e, num olhar rápido, examinou a bandeja carregada com taças de cristal e os dois baldes de prata dos quais saíam os gargalos de duas garrafas.

- Pode ir deitar-se, Madiana - disse-lhe Inês. A criada voltou-se para Gilda como se quisesse significar que só dela recebia ordens.

- Vai, sim, Ma. Não precisamos mais de ti, obrigada.

Inês libertou a amiga da malinha de mão, das luvas e do pequeno chapéu de tafetá branco, e levou-os para o seu próprio quarto, enquanto Clarisse Mériel se sentava.

- Mademoiselle Arnaud é uma amiga preciosa - verificou Clarisse, seguindo-a com a vista - Regressa ao seu país ou ficará convosco ?

- Não há motivo para que a Inês me abandone retorquiu Gilda com vivacidade - Creio que, tanto como eu, ela não o deseja. - com efeito, não o deseja.

Fora o médico quem falara e Gilda supôs adivinhar certa ironia na voz. Voltou-se bruscamente e as finas sobrancelhas uniram-se. Mas Patrício não demonstrava ter tido qualquer propósito malévolo. Muito calmo, acendeu o cigarro, oferecendo em seguida o acendedor a Jorge Mériel.

Gilda observou-o durante alguns momentos. Parecia mais alto ainda, com o fato azul escuro, quase preto; a fisionomia reflectia unicamente serena satisfação. Para vincar a sua vontade e a preponderância dos seus desejos, Gilda continuou:

- Eu e Inês conhecemo-nos há muitos anos e sempre vivemos juntas. Madame Arnaud, que é viúva, governava a casa de meu tio, onde continua ainda. Mas quando decidi viajar, a filha quis seguir-me e tem sido para mim a companheira mais atenciosa, mais dedicada, agradável... mais preciosa repito o termo que empregou há pouco, madame que eu poderia sonhar. Portanto, não me sinto disposta a renunciar a ter junto de mim uma pessoa com semelhantes e tão raras qualidades.

Enquanto falava, Gilda tirava uma rosa - reine de neiges - da jarra e, sentada num puf estofado de vermelho, fazia girar a flor entre os dedos.

Como no primeiro dia em que acolhera os amigos, os cabelos negros caíam-lhe sobre os ombros. O trajo, pelo contrário, era mais simples. Vestido saia e casaco de seda pesada, cinzenta, com gola de veludo. Como jóia, unicamente a aliança de casamento.

- Não posso recordar-me de mademoiselle Arnaud - disse Mériel, sempre pronto a aproveitar a ocasião para avivar recordações do passado - nem, tão-pouco, da sua prima, que, segundo me disse, infelizmente, morreu. Mas, quanto a si, Gilda, como eu a vejo ainda!... A si e também a um rapaz, seu vizinho, que não abandonava a plantação e sobre quem a Gilda exercia a sua tirania. Era extremamente belo e muito submisso, pelo menos para consigo. Devia estar apaixonado por si.

Riu e perguntou ainda:

- Que é feito dele?

Gilda baixou-se para apanhar do tapete a rosa que lhe caira das mãos. Apanhou-a e foi metê-la outra vez na jarra.

- Não tenho notícias dele - respondeu por fim com voz indiferente e com as costas voltadas para os seus convidados - Deixou de residir regularmente nas Antilhas depois da morte de sua mulher.

Fez ligeira paragem e concluiu:

- Foi ele quem desposou minha prima.

Jorge Mériel soltou uma exclamação de espanto.

- Ignorava que esse rapaz se tivesse tornado seu primo. Como se chamava ele ? Tinha um nome... um nome de Grande de Espanha e que lhe assentava muito bem. José...

Gilda, que dispusera a flor na jarra com todos os cuidados, voltou-se.

- De facto, descendia de antiga nobreza espanhola. Chamava-se José Montresa de Santemayor.

Foi nesse instante que a porta da sala se abriu e mademoiselle Arnaud apareceu. Ao ouvir o nome, estremeceu e, trémula, apoiou-se à ombreira. Depois, fechou a porta e aproximou-se vagarosamente da mesa.

- És tu, Inês? - exclamou Gilda, com satisfação

- Queres servir-nos o champanhe ?

O pedido era natural e, no entanto, ao pegar na garrafa, a mão de Inês tremia.

- Demorei-me um pouco, Gilda, desculpa. Mas estive a arranjar as tuas coisas para não teres de te preocupar com elas.

- Sei bem que fazes sempre tudo pelo melhor, minha querida.

Nas taças de cristal facetado, o vinho doirado espumava. Jorge Mériel fez um brinde aos recém-casados e não pôde deixar de congratular-se por ter sido, até certo ponto, a origem daquele casamento, visto os noivos se terem conhecido por seu intermédio. O assunto entusiasmava-o e, por certo, teria insistido, se Clarisse não lhe tocasse no braço, observando:

- Já é tarde, Jorge, ou antes, muito cedo. Não esqueças que o Désirade levanta ferro às duas horas.

- Eu sou, com o comandante e Deus, o único senhor a bordo - protestou Gilda - e o Désirade partirá quando eu entender.

Falava com calma, testemunhando aos seus convidados uma amabilidade sincera e solícita. Patrício não pôde deixar de a admirar pelo à-vontade demonstrado em todas as circunstâncias. Desde a primeira noite, em que Gilda lhe fizera a estranha proposta, nunca o médico alimentara ilusões sobre aquele estranho casamento e contava que aquela noite o aproximasse tanto de sua mulher como qualquer outra que passassem debaixo do mesmo tecto. E a certeza de não ser obrigado a desempenhar comédias ou suportar constrangimentos influía em grande parte no seu contentamento actual, como influira na decisão passada.

Daí.a pouco o Désirade afastar-se-ia e navegaria para o largo e aqueles que acabavam de o abandonar por certo imaginariam que transportava dois entes felizes, apaixonados, mas, felizmente, não seria assim. Gilda e ele demorar-se-iam algum tempo na coberta, intimamente ansiosos por descansar, mas esforçando-se por não o demonstrar. Mas, por fim, Patrício poderia retirar-se para o camarote e dormir... dormir para readquirir forças e energia para o trabalho do dia seguinte.

«Apesar de não estar prevista qualquer operação» - pensou como a seu pesar.

Evocou a sala de operações, limpa, branca, clara e a sua ajudante habitual, uma rapariga de vinte e sete anos, inteligente, fria, cuidadosa, atenta, cujas qualidades profissionais faziam esquecer quanto era bonita.

«Mónica não se esquecerá de vigiar a temperatura do sete ?» - pensou, inquieto.

No mesmo instante, porém, sorriu desta preocupação. A enfermeira nunca esquecera, até aquele dia, a mais simples prescrição, nunca cometera a mais pequena negligência. Á esse respeito podia estar sossegado, como sempre.

- Madame Gramont deu-nos licença para nos retirarmos, doutor. Concede-no-la também ?

Clarisse Mériel estendia-lhe a mão, sorrindo. Patrício Gramont, num esforço, tentou recordar-se de que estava no iate, junto dos seus convidados.

- com certeza, madame. Já abusámos demasiado da sua bondade, obrigando-a a vir aqui a hora tão tardia, para não lhe restituirmos a liberdade quando manifestar o desejo de a recuperar.

O médico e sua esposa acompanharam os amigos até ao portaló. Inês Arnaud seguia atrás deles.

Desceram todos e, pouco depois, os dois automóveis alinhados diante do Désirade partiram, rolando pelo cais ermo àquela hora e o ruído dos motores desvaneceu-se pouco a pouco na calma da noite.

Gilda instalou-se numa das cadeiras e Gramont sentou-se perto de sua mulher.

«Tudo se passa como eu calculei» - pensou, sorrindo.

O iate preparava-se para largar. Os motores começaram a trabalhar e transmitiam-lhe a sua vibração. Como na primeira noite em que os dois conversavam naquele mesmo lugar, o mar estava calmo, quase silencioso, as vagas ondulavam ligeiramente. De terra não chegava até eles o mais pequeno ruído. Cannes adormecera e apenas a iluminação denunciava a posição da cidade, ao longo da praia, franjada de prata.

Nem o mais pequeno ruído?... Não... e Patrício foi o primeiro a notá-lo. Um automóvel acabava de entrar no cais e, de princípio, o médico supôs que algum daqueles que havia pouco abandonara o iate, voltasse para trás. Não foi, porém, nem o sumptuoso Chrysler branco nem o carro dos Mériel que parou diante do Désirade, mas sim um carro modesto, muito diferente de qualquer deles. Uma mulher desceu e, depois de breve hesitação, dirigiu-se para a ponte, que ainda não havia sido retirada.

Patrício, que se pusera de pé, deu alguns passos para ela.

- Que aconteceu, Mónica ?

A enfermeira parou, talvez devido à escuridão, mas, segundo parecia, aliviada pela rápida intervenção do doutor Gramont.

- Peço-lhe perdão, mas creio ter feito bem vindo aqui.

- com certeza - afirmou Patrício, adoptando o estilo breve, sem palavras inúteis, empregado usualmente quando falavam - De que se trata ? A voz era clara e firme, mui diferente da «outra» que Gilda conhecia.

- Acabam de nos trazer uma vítima de um acidente.

- Grave ?

- Muito. Coluna vertebral fracturada e creio que hemorragias internas.

- Não podiam tê-lo levado para a clínica do doutor Dupuy?

- Não teria chegado lá com vida, doutor. Tomei a responsabilidade de o receber e penso que...

- Tem de ser operado imediatamente ? Mónica confirmou com a cabeça. Patrício não hesitou.

- Nesse caso, não percamos tempo. vou consigo.

Enquanto a enfermeira, sem mais uma palavra, se afastava - como se não tivesse dado por Gilda, sentada um pouco mais afastada - Gramont aproximou-se de sua mulher.

- Estou desolado, Gilda. Mas um cirurgião não pode recusar-se a apelos desta natureza.

Estava diante dela, consciente da situação, sentindo quanto a sua partida tinha de brusco e até de incorrecto, mas sabendo que não podia proceder de outro modo. A voz calma de Gilda tranquilizou-o.

- Compreendo, muito bem, não precisas de explicar. Não te preocupes. Boa noite, Patrício. Faço votos pelo êxito da operação.

- Obrigado.

Pegou-lhe na mão, que beijou, e, quase a correr, abandonou o iate. E, mais uma vez, o ruído de um motor se fez ouvir e se desvaneceu no silêncio profundo da noite.

Quando ficou só, Gilda recostou-se nas almofadas.

A fisionomia não exprimia contrariedade ou. pesar. Era evidente que Patrício Gramont colocava acima de tudo os deveres da sua profissão, mesmo o de ficar junto de sua mulher, pelo menos nas primeiras horas após o casamento. Mas o facto não lhe desagradava. Pelo contrário, na absoluta liberdade que Patrício acabava de reivindicar com a sua partida via a garantia da vida sem peias, constrangimentos ou qualquer espécie de dependência que seria a de ambos.

com a face apoiada na mão, ficou algum tempo pensativa. Realizara a sua ambição, aquilo que durante tantos meses considerara como imperiosa necessidade, sem conseguir encontrar alguém cuja personalidade tornasse possível a realização desses projectos. Depois, ao abordar Cannes, o destino benévolo, dessa vez, proporcionara-lhe o ensejo apetecido. Jorge Mériel falara-lhe de Patrício Gramont e, desde logo, Gilda pensou que poderia ser ele o homem por quem esperava.

E assim fora, com efeito. O sonho de Gilda Heybrand acabava de consubstanciar-se e, de futuro, poderia prosseguir o seu caminho sem preocupações ou cuidados.

As feições delicadas e as pupilas ardentes traduziram uma espécie de triunfo. Depois, Gilda passou lentamente a mão pela testa. Visto o fim ter sido alcançado, o coração poderia sossegar e, na embriaguez da vitória, esquecer a amargura e as recordações dolorosas. De resto, a noite estava tão calma que não dava margem a qualquer agitação. Tudo devia diluir-se na serenidade do céu e no sopro da brisa marítima.

Marítima?... E, bruscamente, Gilda teve consciência da imobilidade do iate. Provavelmente, a tripulação havia dado pela partida do doutor Gramont e aguardavam o seu regresso. Sem abandonar a poltrona, Gilda voltou a cabeça. Na coberta soaram passos. Reconhecendo de quem se tratava, chamou:

- Podemos largar, Silvestre. -Já? - com certeza.

- Está bem, madame.

A palavra, proferida com hesitação, fê-la sorrir. Quase imediatamente a ponte foi retirada e o Désirade começou a manobrar para sair do porto.

Gilda tinha vestido o casaco de fazenda branco que Inês colocara perto da cadeira, antes de sair de bordo. Mademoiselle Arnaud sabia como as noites de Verão, mesmo as melhores, são frescas quando se está a bordo e, mais uma vez, Gilda ficou sensibilizada com a solicitude nunca desmentida da amiga.

O barco afastava-se da terra e as luzes distanciavam-se ; por muito tempo ainda, apesar de diminuírem constantemente, se mantiveram perceptíveis. Por fim, a noite absorveu-as. A massa mais escura das ilhas, mais adivinhada de que entrevista, também se desvaneceu. O ruído monótono da proa do iate ao cortar as águas era como canção de embalar.

Antes que o inverosímil se desse, Gilda recordou-se de ter perguntado a si mesmo que horas seriam. Mas logo pensou que o facto não tinha importância. Não se sentia fatigada nem tinha sono. Sozinha entre mar e céu, instalada no ponto mais confortável do barco, abandonava-se a uma sensação de bem-estar que, havia muito tempo, não conhecia.

E, de repente, o seu nome proferido em voz baixa, embora distinta, fê-la estremecer. Durante alguns segundos, ainda tentou iludir-se: «Alucinação, nervosismo, estranho fenómeno dos sentidos sob a influência de persistente recordação, eis o que devia ser». Mas essa esperança de ser vítima de uma ilusão foi breve. Atrás dela, a mesma voz repetiu:

- Gilda, escute-me, por favor...

Qualquer outra, no seu lugar, não teria deixado de exteriorizar o seu espanto e perturbação, qualquer outra, sim, mas não Gilda Heybrand. Encobertas com os largos punhos do casaco, as mãos contrairam-se convulsivamente, mas a fisionomia estava calma quando se voltou para o rapaz parado a poucos passos.

- Boa noite, José Montresa - proferiu e a voz tremeu-lhe imperceptivelmente - Surpreendente visita, na verdade. Supunha-o a muitas léguas de distância.

O rapaz relanceou um olhar em volta.

- Está sozinha ? A Inês ?...

- Não tenho obrigação de lhe responder, mas, em compensação, exijo que me responda a uma pergunta. com que direito se julgou autorizado a representar o papel de passageiro clandestino ?

A calma de Gilda surpreendeu o rapaz, que respondeu com outra pergunta:

- Se lho tivesse pedido, receber-me-ia ?

- Por que não ?

- Por que não? -repetiu ele com amargura Porque nunca consentiu que me aproximasse de si quando os nossos caminhos se cruzaram e, nestes dois anos, cruzaram-se muitas vezes.

- Muitas vezes, com efeito - concordou Gilda, com ironia - Tantas que poderia acreditar-se que estranha e persistente coincidência nos levava a escolher os mesmos pontos da terra. Muitas vezes chegou a um porto pouco depois de eu lá chegar ou pouco antes de eu o abandonar. A tal ponto que, se não estivesse absolutamente segura da minha tripulação, me teriam nascido suspeitas sobre a sua fidelidade. Mas seria impossível. Quase sempre os meus marinheiros ignoravam para que destino navegávamos. Quanto a conceder-lhe uma entrevista particular, permita-me que classifique de estranha a sua obstinação em a obter e a procurar ocasiões para nos encontrarmos.

- Os mesmos encontros que nos três anos em que fui casado com Verónica tentei evitar, não é assim? - inquiriu Montresa, com amargura.

- O senhor o diz.

O tom era glacial. Mas, no mesmo instante, Gilda conseguiu dominar-se.

- Nada disso tem importância... absolutamente nenhuma - prosseguiu - Desejo apenas saber como se encontra a bordo.

Para lhe responder, o rapaz deu alguns passos para se aproximar dela. Bruscamente, Gilda levantou-se.

- Esta entrevista ao luar, por muito romântica que pareça, é imensamente incómoda. Quer ter a bondade de me seguir ?

Sem esperar pela resposta, passou-lhe pela frente, meteu pelo corredor e abriu a porta da sala onde, uma hora. antes, recebera os seus convidados. Acendeu o lustre do tecto e como para se habituar à claridade, passou em volta do aposento florido um olhar de relance. Depois, pela primeira vez, fitou Montresa. Era um rapaz novo - vinte e sete anos, quando muito - e tal como havia dito Jorge Mériel, verdadeiramente belo. De estatura média, esbelto, articulações delicadas, perfil de medalha antiga, olhos e cabelos negros, boca vermelha, destacando-se no rosto mate e naquele momento muito pálido. Essa palidez mais lhe acentuava a magreza. Principalmente as faces cavadas, os olhos afundados nas órbitas davam-lhe aspecto diferente do que Gilda lhe conhecera.

Esta voltara-se para despir o casaco e atirá-lo para cima de uma das cadeiras. Enquanto José não lhe podia ver o rosto, tomou expressão de intenso desespero, mas, quando se voltou, José Montresa não notou na fisionomia impassível mais do que fria indiferença.

- Volto a perguntar-lhe por que milagre se encontra a bordo do Désirade esta noite.

Não lhe pediu para se sentar e ela própria se conservou de pé, como para lhe indicar que a entrevista seria breve.

- Quem o deixou entrar aqui ?

José ficou calado, fixando-a intensamente.

- Então ? -insistiu Gilda, já impaciente. O rapaz, num esforço, respondeu:

- Quem me deixou entrar? Ninguém. Vim aqui à tarde e perguntei por si. Um dos seus marinheiros respondeu-me que não estava a bordo. Ignorava se mentia e não me afastei muito. Quando anoiteceu, entrei sem ser notado e escondi-me, disposto a procurá-la ou a aguardar a sua chegada se, de facto, estivesse ausente.

- E só depois de o iate ter levantado ferro se decidiu a aparecer? Isso afigura-se-me muito... deselegante e não me obrigará a recebê-lo e a atendê-lo, se não me apetecer.

Deu alguns passos pela sala e, encostando-se à mesa de vidro que ocupava o centro, dirigiu-se ao estranho visitante e ordenou:

- Vamos, diga o que pretende, mas depressa. José envolveu-a num olhar demorado. Mais do que no tempo em que brincavam juntos, no belo país perfumado com o aroma das baunilhas e das mangueiras, no esplendor dos dias de sol brilhante, nos crepúsculos suaves ou nas noites vibrantes de canções e danças, sim, mais do que nunca achava-a bela.

- Queria reconciliar-me consigo, Gilda. Ela aprumou-se e simulou o maior espanto.

- Por acaso, estamos zangados, primo ? - perguntou, acentuando propositadamente a última palavra.

- Uma reconciliação que há muitas semanas desejo ardentemente - prosseguiu o rapaz, como se não tivesse ouvido a pergunta - Estive muito doente, Gilda, preso à cama durante três meses, atacado por terrível febre e não queria morrer sem ter obtido o seu perdão.

Enquanto José falava, Gilda pegou numa revista e folheou-a, mas logo a abandonou para que ele não percebesse que as mãos lhe tremiam. Deixou passar um momento e só depois ergueu a cabeça e inquiriu:

- É tudo quanto tem para me dizer? Foi por isso que, nestes dois últimos anos, me tem perseguido ?

- Sim - confirmou o rapaz, com voz surda foi por isso.

Gilda ergueu as finas sobrancelhas, numa expressão trocista e examinou-o curiosamente.

- Os seus belos sentimentos despertaram tarde, José... depois da morte de meu tio, não é verdade ?

O rapaz recuou como se tivesse apanhado uma bofetada.

- Que pretende dizer com isso, Gilda ?

A voz era surda, mas firme. O olhar, longe de fugir ao da sua interlocutora, parecia, mais do que as palavras, formular ardente interrogação.

- Não me obrigue a precisar o meu pensamento - aconselhou Gilda - seria muito desagradável, tanto para um como para outro.

José abanou a cabeça.

- Não tenho medo. Sofri muito por a ter perdido e não creio poder sofrer mais ainda ao verificar que não compreendeu a razão por que a perdi. Gilda mordeu os lábios com tanta força que o sangue brotou. Santo Deus! Como aquela voz suave se assemelhava à outra que tantas vezes escutara, apertando na sua a mão de José!

- Pelo contrário, pode ter a certeza de que compreendi - declarou com implacável ironia Verónica Heybrand era rica, visto as plantações que lhe pertenciam não terem sido destruídas pelo tornado, como as minhas; eu, em compensação, era pobre. Como poderia adivinhar que, em vez de dividir a sua fortuna em duas partes iguais, o tio me legaria todos os seus bens?

José não se revoltou contra a ultrajante acusação. Limitou-se a sorrir com tristeza.

- Mereci ouvir isto-murmurou como se falasse consigo mesmo. Depois, em voz alta, continuou:

- A Verónica estava doente, Gilda. Sabíamos todos, e a Gilda também, que pouco tempo teria de vida. Renunciar à felicidade, aquilo que ela considerava como felicidade, teria sido a sua morte.

- E eu!

A exclamação brotou com tanta veemência, com tão apaixonada violência, que o rapaz estremeceu. Diante dele, Gilda aprumava-se, vibrante, como que animada por chama ardente.

- E eu - repetiu - eu não o amava ? Calou-se um instante como se pretendesse calar as palavras que lhe queimavam os lábios. E essas palavras foi José quem as pronunciou :

- Sim, Gilda, eu sei quanto gostava de mim. E se essa recordação me é dolorosa, ao mesmo tempo, é infinitamente doce. A nossa infância, a nossa juventude decorreram estreitamente unidas, no encantamento da formosa ilha. A nossa mocidade, porém, foi mais maravilhosa ainda, quando os nossos corações descobriram o amor e se deram um ao outro. Ficámos noivos certa noite, na harmonia de perfumes, de moribundas claridades, no encantamento do crepúsculo! Mas a vida continuava com as suas exigências, com a sua crueldade, os seus deveres, com a sua desumana inflexibilidade. .. Passou, matando a nossa felicidade, separando-nos, devastando...

O rapaz falou por muito tempo e Gilda teve a sensação de escutar aquela voz de muito longe, exactamente como a música da rua chega à cela de uma prisão. «Abençoada prisão ! - pensou - Louvado seja Deus por ter permitido que as grades fossem corridas antes... disto».

Isto era a voz persuasiva, de ternas inflexões, a voz que ressuscitava o passado, abolia o tempo, apagava rancores e sofrimento. Era a voz do homem a quem amava, do homem com quem poderia, naquele mesmo instante, fugir e prosseguir o seu caminho para outra vida mais bela!

Como se receasse que o semblante deixasse adivinhar o que pensava, voltou-se e, de pé, diante de uma das janelas da sala, afastou as cortinas e o olhar perdeu-se na noite.

Montresa calou-se e, durante alguns momentos, só o marulhar das águas se ouviu. Depois, embora os passos tivessem sido abafados pela alcatifa, Gilda sentiu que José se aproximava.

- Gilda - murmurou - Gilda, a nossa vida vai recomeçar. O meu amor é mais forte do que nunca e nenhuma força humana poderá agora separar-nos. Diga-me que me acredita e, principalmente, que o deseja. Meu amor, dize-me...

Bruscamente, calou-se. Uma gargalhada violenta acabava de soar. Voltando-se para José, que, interdito, recuou, Gilda Gramont ria, com os olhos brilhantes e os lábios trémulos. E essa gargalhada irónica, assim atirada, insultante, desprezativa, cruel, foi pior do que uma chicotada.

Como ele a olhasse sem proferir palavra, lívido, espantado, Gilda deixou de rir.

- Chegou tarde, José Montresa - disse-Demasiado tarde!

Num gesto lento, ergueu e estendeu a mão esquerda, em cujo anular cintilava docemente a aliança de casamento.

- Sou casada, José!

Se um raio tivesse caído a seus pés, José não ficaria mais impressionado do que ficou com a notícia. Petrificado pelo assombro, só conseguiu balbuciar :

- Casada?... Desde quando?

- Há pouco tempo, é verdade -respondeu Gilda, considerando inútil dar mais pormenores ao rapaz. Por momentos, receou que as flores brancas espalhadas pelo aposento lhe revelassem a verdade. Depois tranquilizou-se. Montresa sabia quanto ela gostava de flores, como procurava estar sempre rodeada delas, e tomaria a uniformidade de cor por uma fantasia. Nem poderia supor que a origem daquele cruzeiro nocturno fora uma viagem de núpcias. A ausência de Inês, sempre fielmente a seu lado, não devia causar-lhe espanto também, pois calcularia que, àquela hora, a dama de companhia já estivesse deitada.

Gilda abençoava a discrição do marinheiro que, à tarde, falando com Montresa, soubera calar o que se passava. Conseguiu, por fim, recuperar a calma, mas não sabia se esta poderia resistir muito tempo à prolongada conversa. Vagarosa, dirigiu-se ao telefone que ligava a sala com a câmara do comandante. Antes de lhe pegar, voltou-se para José.

- Vamos regressar a Cannes, José. Já o teria feito se não desejasse escutar até ao fim as suas reminiscências, mas é tempo... de nos resignar.

Interessaram-me imenso, acredite . digamos, envelheceu-as e temos e deixá-las no esquecimento. Vamos regressar, como disse. Espero que, quando atracarmos, ainda não tenha rompido o dia e possa abandonar o Désirade tão discretamente como entrou. Para lhe ser franca, prefiro que todos ignorem a sua presença a bordo, esta noite. Não acreditariam, por certo, que a nossa amizade de infância o autorizasse a fazer-me tão grande surpresa. Além disso, não desejo dar a conhecer entre nós relações que não tenho a intenção de continuar.

Ao mesmo tempo pegava no auscultador e, depois de breve silêncio, ordenou:

- Regressamos a Cannes.

Aproximou-se da cadeira onde deixara o casaco, apoderou-se dele e depois dirigiu-se para a porta. Quando ia a sair, voltou-se:

- Pode ficar aqui, José. Tem aí revistas e cigarros. Quanto a mim, aprecio muito o ar livre para não terminar esta noite como a comecei, isto é, sentada na coberta. Adeus.

Entretanto, José Montresa tinha recuperado o sangue-frio. com estranho sorriso, respondeu:

- Adeus, não, simplesmente até à vista, Gilda. Custa-me desagradar-lhe, mas para concluirmos certos assuntos de família que nos dizem respeito, teremos de nos encontrar mais vezes.

- Não o creio - retorquiu Gilda secamente. Abriu a porta. Quando ia a desaparecer, José

Montresa inclinou-se e afirmou com ironia:

- Pois eu tenho a certeza, Gilda.

 

A vivenda do doutor Gramont não ficava propriamente em Cannes, mas nos arredores da cidade, numa colina fronteira ao admirável panorama do mar e das ilhas Lérins. Antiga moradia da família, construída numa época em que as edificações dessa natureza não atingiam a loucura por que se pagam actualmente, desafiava com a sua beleza calma e sólida as luxuosas e modernas vivendas que, pouco a pouco, se construíram em volta.

Os avós de Patrício Gramont, ou antes, a avó do médico passara ali a sua vida a esperar... esperar o capitão da marinha mercante Jerónimo Gramont, que não vinha muitas vezes nem se demorava muito em terra. Mais tarde, João Gramont, o pai do médico, médico também, instalado em Paris, e sua mulher, visitavam a casa, apenas para passarem umas semanas de férias. Quanto a Patrício, que adorava tudo aquilo, prometeu a si mesmo instalar-se ali para sempre.

E o homem realizara os desejos, as preferências e os projectos da sua infância. Terminados brilhantemente os seus estudos, coisa alguma o prendeu em Paris. As mais lisonjeiras e vantajosas propostas dos seus professores para ficar na capital esbarraram com uma recusa. Os pais de Patrício morreram novos. Filho único, sem família, não teve de pedir opiniões alheias e a sua levou-o a fugir de Paris para se instalar na cidade da sua predilecção. Fê-lo imediatamente e todos os dias, quando abria as janelas, quando contemplava o céu profundo, a linha escura da costa, destacando-se no mar calmo ou tempestuoso, pensava que a sua resolução tinha sido mais sensata, mais benéfica e feliz do que contara.

A casa conservava-se tal como nos velhos tempos. Não dispondo de fortuna, Patrício não podia modernizá-la senão no essencial. De resto, as linhas sóbrias, elegantes e nobres não se alteraram com a fantasia muito frequentes naquelas regiões - da construção de alto pombal redondo, com telhado vermelho. As janelas do rés-do-chão, protegidas por gelosias, e as do primeiro andar eram numerosas e por elas entravam à vontade o ar, o sol e todos os perfumes do luxuriante jardim. No interior, aposentos vastos, frescos, pavimentados de tijolos vermelhos, com grandes fogões. A escada, o luxo das casas provençais, era de pedra com corrimão e balaustrada de carvalho. No primeiro andar, os quartos abriam para comprido corredor, ornamentado com móveis antigos e regionais: armários, cantoneiras, escaparates, tudo esculpido com a riqueza de ornamentação característica da região.

Logo nos primeiros dias, Gilda se encantou com a casa, tão diferente do que estava habituada a ver, adorara o seu quarto com o leito sobrepujado por um dossel de seda persa e as portas de carvalho esculpido, a sala de jantar, cujo móvel principal, espécie de aparador, exibia encantadora colecção de porcelanas antigas; e a sala com as poltronas estofadas de seda desbotada, mesas de épocas diferentes, um velho cravo e espelhos um pouco manchados.

- Se julgares necessárias algumas transformações não deixarás de mo dizer - observara Patrício num dos primeiros dias de casado.

Gilda, porém, não manifestou desejo de as fazer, talvez por considerar que tudo estava bem assim ou - conforme supunha Gramont - por não ter o mais pequeno interesse pela casa onde vivia.

Fosse pelo que fosse, o médico não voltou a falar no assunto. De resto, pouco tempo tinha para conversar com sua mulher. Levantava-se muito cedo, tomava o pequeno almoço sozinho, na sala de jantar, sem mesmo se dar ao trabalho de se sentar e saía logo para a clínica. Regressava ao meio-dia, almoçava à pressa e voltava a sair para a consulta das duas horas. À tarde - salvo em caso de urgência - nunca operava. No entanto, ou porque a consulta se prolongasse e como tinha de visitar depois todos os seus operados ou ainda para atender qualquer chamada, nunca regressava a casa antes das oito da noite. Nos primeiros tempos, Gilda não pôde deixar de admirar esse potencial de trabalho sempre renovado e, principalmente, o inabalável equilíbrio moral e físico que o marido conservava apesar de tão extenuante tarefa. Mas pensou - e com razão - que bastavam os trabalhos da nova clínica, que ficava do lado oposto da estrada e cuja construção avançava com regularidade, para proporcionar ao marido o dinamismo e a calma que ela tanto invejava.

«E eu - pensava muitas vezes - a que esperança posso amparar-me, qual o fim a alcançar, qual o trabalho que me apaixone e exalte ?»

Nenhuma ocupação absorvente ou leve a solicitava. O lar do médico era governado, e muito bem, pelo casal de velhos criados que já antes da instalação de Gramont, havia muitos anos, tomavam conta da casa. Madiana, que se reunira ao pessoal, encarregara-se especialmente de Gilda e de Inês. A vida, bem organizada, corria calma como um regato entre margens floridas. E, muitas vezes, Gilda perguntava a si mesmo qual o inesperado acidente, o rochedo que, ao cair nas águas serenas, as faria ressaltar, transbordar e cachoar tempestuosas ?

Depois sorria da sua exaltada imaginação. Seria o hábito de percorrer os oceanos que a fazia evocar a tempestade? Tantas havia suportado sem medo e sem medo voltaria a afrontá-las quando retomasse a sua liberdade. Sim, porque graças a Deus não estava ali para sempre, e Patrício não o ignorava. A sua vida prosseguiria como noutros tempos, ao sabor da sua fantasia. Partiria, voltaria, afastar-se-ia de novo por alguns meses ou anos. Considerava aquela casa como mais um ponto de escala, uma escala sem interesse, mas necessária. A sua linda casa das Antilhas não era também uma escala, desde que as recordações dolorosas e pungentes faziam parte dela? Não tinha Gilda a certeza de que nunca mais conseguiria fixar-se definitivamente ?

Onde viver, porém, quando pretendemos não só fugir de alguém como de nós mesmos ? Onde encontrar horizontes calmos e suaves onde o coração readquirisse a paz e seguisse novos rumos ?

Eram estes ainda os pensamentos que atormentavam a mulher de Gramont quando, sentada no jardim, deixava vaguear a vista pelo esplendoroso panorama que o sol no ocaso ainda tornava mais belo. Aquele jardim possuía estranha sedução. Prudente, o criado do médico, tratava dele a seu modo. Nas ruas bem tratadas não se via a mais pequenina erva. Em compensação, as flores e arbustos cresciam à vontade, conforme o seu capricho, entrelaçavam-se, caíam uns sobre os outros, confundindo-se na mais bela e exuberante desordem. Os gerânios vermelhos enroscavam-se no tronco dos ciprestes escuros, os jasmins de lindas flores brancas disputavam no muro o lugar à videira brava; as glícinias assaltavam as mimosas e faziam-lhe vergar os ramos com os seus cachos perfumados; cactos apertavam as pimenteiras em sebes cerradas. No enorme cerrado florido ia uma orgia de cor, de perfume e formas. E, de repente, ramos, árvores, arbustos e flores desapareciam como que absorvidos pela luz. No fundo do jardim esplanava-se o terraço, completamente despojado de plantas, rodeado por uma balaustrada de pedra, com vista sobre os campos em volta, sobre a cidade, a costa e o mar. Nessa espécie de esplanada, rodeada por uma sebe de loureiro-rosa, havia pequena fonte, delgado fiozito de água, correndo num tanque esverdeado.

A aproximação do Outono emprestava a este ponto do jardim, mais do que a qualquer outro, uma suavidade e uma harmonia às quais Gilda não podia ficar insensível. Ia muitas vezes sentar-se no banco, escutando o murmúrio da fonte e do vento nos ciprestes, o zumbido dos insectos tontos de sol e o canto das cigarras. Entre esses rumores, na vida intensa da natureza em plena maturidade, não existia qualquer semelhança com o país onde decorrera a sua infância e do qual a sua mocidade conservava, suave e amarga ao mesmo tempo, profunda recordação. No entanto, com surpresa, Gilda sentia de novo qualquer coisa parecida com a sedução, a magia maravilhosa dos dias passados. Naquela tarde, depois de algumas horas de trabalho fatigante, deixou-se estar ali mais tempo. Fora obrigada a pôr em dia a correspondência referente à plantação, que se amontoava em cima da secretária, tomar decisões importantes, verificar as contas que o administrador lhe submetera. De costume, Inês auxiliava-a, mas naquele dia fora com o Chrysler à garagem, a fim de proceder a pequena reparação. Gilda tinha limitada confiança na competência mecânica de Prudente, embora este tratasse do automóvel do médico.

Sentada no terraço, com as mãos cruzadas nos joelhos, deixava vaguear a vista pelo mar. Do ponto em que se encontrava não podia ver o pequeno ancoradoiro onde amarrara o iate. Todavia, como gostaria, mesmo àquela distância, de poder acariciar com os olhos o seu barco, mandado construir de propósito para fugir, por pôr, entre ela e o homem a quem amava, o mundo inteiro... o barco que a trouxera ao porto irrisório, mas seguro, do seu casamento com Patrício Gramont.

Não sabia dizer se essa circunstância aumentava ou diminuía a sua gratidão para com o Désirade. De resto, não teve muito tempo para pensar no assunto, porque atrás dela uma voz perguntou :

- Não podes ver daqui o iate, pois não, Gilda? Voltou-se. Entregue aos seus pensamentos, não ouvira os passos do marido. O médico afastava os ramos da sebe de loureiro que limitava a rua do jardim. Depois aproximou-se no passo firme e tranquilo que tão bem condizia com a sua pessoa. Como sempre, trazia a cabeça descoberta e trajava de escuro. No semblante calmo não havia vestígios de fadiga, embora a mulher não ignorasse ter ele passado um dia de trabalho intenso.

- Boa noite - saudou, sem lhe dar tempo a responder-lhe - Posso sentar-me aqui ?

Visto estarem sozinhos, não julgou necessário beijar-lhe a mão. Mas, como pensou Gilda, também não teria sido preciso pedir tão cerimoniosamente uma coisa tão natural.

Afastou-se um pouco a fim de lhe dar lugar no banco.

- Por favor - disse.

- É lamentável - continuou o médico, conservando-se de pé ainda um instante, olhando o mar - que uma reintrância da costa oculte precisamente o teu iate. Hei-de conduzir-te a um ponto do jardim onde poderás vê-lo.

- Como queiras, mas o facto não tem importância- declarou Gilda, quase impaciente.

Desagradava-lhe que o marido lhe tivesse adivinhado o pensamento. O médico, como se não o tivesse notado, prosseguiu:

- Regressei hoje um pouco mais cedo, pois tive de visitar um doente na cidade e como não te encontrei em casa, procurei-te no jardim. Prudente, que, todo afadigado, anda a limpar os arbustos, indicou-me o teu recanto favorito. Disse-me também que mademoiselle Arnaud havia saído e a informação redobrou o meu desejo de te encontrar.

Gilda fixou o marido com olhar carregado.

- Não gostas da Inês?

- Não e espero que mademoiselle Arnaud acolha com resignação a minha indiferença - comentou Gramont, com ironia -No fundo, limito-me a considerar que certas amizades só a ti dizem respeito.

Calou-se, aguardando, talvez, uma aprovação que não ouviu, e continuou:

- Falávamos do teu iate. Fizeram-me há pouco propostas para o vender. Trata-se de um inglês que deseja adquirir excelente barco de recreio e...

A surpresa emudeceu Gilda durante alguns momentos. Por fim, pondo-se de pé, protestou:

- Vender o iate? Nunca pensei em tal coisa.

- Não o ignoro e creio não duvidares de que sou estranho à tentativa. O Inglês veio ter comigo e eu limitei-me a dizer-lhe que te transmitiria a proposta. Nada mais.

- Vender o iate! - repetiu Gilda em voz alterada, como se mais nenhuma das palavras do marido lhe tivessem chegado aos ouvidos - Nunca! Não te disse que desejava conservá-lo para viajar... viajar nele como no passado? - com efeito, disseste-mo - concordou o médico com absoluta indiferença.

- E não o afirmei irreflectidamente, podes acreditar. Ser-me-ia odioso e até perfeitamente impossível saber-me presa em qualquer ponto, obrigada a suportar sempre as mesmas caras e os mesmos cenários. Quero saber-me independente, unicamente sujeita à minha própria vontade, transpor a ponte do meu iate para me separar de tudo quanto me aborrece e voar para o que me atrai. Quero, acima de tudo, e não importa por que preço, conservar intacta a independência e a liberdade que me confere o meu iate.

Enquanto Gilda falava, o médico assumia expressão cada vez mais rígida.

Quando sua mulher se calou, esboçou glacial sorriso.

- A tua fortuna permite todas as fantasias concordou - e essa tanto como as outras. Nunca me passou pela cabeça privar-te desse custoso brinquedo. Mas fiz mal, reconheço-o, ao considerar-me na obrigação de te transmitir uma comunicação desta natureza. Fui desastrado, desculpa-me.

A voz era firme, calma e, a despeito de certas vibrações, traía simplesmente um sentimento de culpabilidade e o desejo de justificação. Gilda adivinhou-o e corou ligeiramente.

- Seja como for - declarou secamente - peço-te para transmitires a quem te fez a proposta, uma resposta negativa... categoricamente negativa.

- Assim farei - respondeu-lhe Gramont, com frieza.

Durante algum tempo, o silêncio reinou entre eles. Anoitecia. O mar, cor de aço, assemelhava-se a grande lago. Na terra, no céu e nas águas todos os cambiantes tomavam um tom suave, atenuado, delicado. A linha da costa tornava-se imprecisa, a cor do firmamento esbatia-se, fundia-se, como se invisível véu de seda os envolvesse. Por uma dessas subtis mudanças, da qual só temos consciência quando se realizam totalmente, a paisagem tomara um aspecto quase nórdico, mas nem um nem outro o notou.

Gilda supôs que o marido, feita a comunicação, se retirasse. A inacção não estava nos hábitos de Gramont e, conquanto admirasse as belezas da região, sua mulher não se lembrava de o ter visto entregue a contemplações estéreis.

- Outro assunto, Gilda - disse - Tive esta tarde outra visita, a de um teu parente que está de passagem por Cannes e que gostaria de te cumprimentar. Recordo-me de ter ouvido o seu nome proferido por Jorge Mériel e por ti. Em consequência, ofereci-lhe a casa.

- Fizeste bem - respondeu ela em voz firme Trata-se de José Montresa, não é assim ?

- Exactamente. Encontrando-se na cidade para tratar de negócios, desejava saber se o podias receber um destes dias, pois ainda não sabe quanto tempo se demorará em Cannes. Como eu estranhasse ter-se dirigido primeiro a mim, deu-me uma explicação muito natural. Em Cannes apenas lhe souberam dar a direcção da clínica e não a da minha casa, o domicílio que os médicos sempre defendem cuidadosamente. Quanto ao nosso casamento, tivera conhecimento dele por uma carta vinda das Antilhas. Fiquei, confesso, um pouco admirado por não o terem comunicado ao teu único parente; Montresa, porém, não parecia ofendido com o esquecimento.

com os dentes cerrados, Gilda escutava a voz calma de Patrício. Cada palavra chegava-lhe aos ouvidos com o seu sentido exacto, preciso. Todavia, abafando-as, rolava surdo rumor, o rumor da cólera que era obrigada a ocultar para que o marido não desse por ela.

José ainda se encontrava em Cannes. .. instalara-se ali. Desde a tarde em que o expulsara do Désirade nunca mais dera sinal de vida, aguardando, discreto, paciente, que chegasse a hora propícia.

Mas propícia a quê?... com que contava ele? Que preparava e, principalmente, por que razão procurara Patrício ?

Quanto a isso, tornava-se fácil de explicar. Se José lhe tivesse batido à porta, não o receberia. Introduzido naquela casa por Gramont, não devia nem podia ser repelido. O médico poderia interpretar mal a antipatia de Gilda.

Montresa adivinhara e aproveitara o desejo que Gilda teria de ocultar ao marido sentimentos de inimizade dificilmente explicáveis. Ganhara e impunha-lhe assim a sua presença com tudo quanto comportava. E essa imposição, à qual não sabia como fugir, desencadeava nela uma onda de cólera e de revolta.

Sentindo-se observada pelo marido, voltou-se para ele.

- Não ficaste aborrecida por ter feito o convite sem te consultar ?

- Absolutamente nada.

- Montresa disse-me que não só era teu primo como um amigo de infância muito querido. Conheço tão pouco da tua vida que sou obrigado a acreditar aquilo que, por acaso, me é revelado.

Nas palavras do médico não podia notar-se o intuito de censura, mas apenas a tranquila certeza de uma asserção.

- Não sei em que ocasião poderia falar-te da minha vida passada - retorquiu Gilda - Os momentos em que nos encontramos juntos são tão raros como curtos.

Patrício olhou-a com espanto. Na voz quente de sua mulher perpassava uma inflexão de censura.

- Tens razão - concordou - a clínica absorve-me por completo. Mas creio não ser isso para ti motivo de espanto. Coloco a minha profissão acima de tudo e nunca to ocultei.

A alusão ao acordo feito na altura do casamento foi bem discreta, mas, pela segunda vez desde a chegada do médico, Gilda sentiu-se corar e ficou contrariada com isso.

- De facto, nunca me dissimulaste a tua maneira de pensar e de viver e sou-te reconhecida por isso. Evitaste-me surpresas. Mas-continuou logo

- como temos agora algum tempo ao nosso dispor, quero falar-te desse passado que lamentas não conhecer.

- Não o lamento, Gilda - respondeu Gramont

- De resto, creio que Mériel me contou tudo quanto se impunha saber a teu respeito.

- Tudo quanto ele sabia, o que não é bem a mesma coisa.

Patrício não protestou. A profunda ruga que vincava a testa de Gilda indicava-lhe que não renunciaria a falar. Por momentos, observou-a. Naquele instante voltava a encontrar a mulher que vira no primeiro dia, a mulher de sari branco bordado a oiro, com o pescoço cingido pelo tríplice colar de pérolas, os ombros cobertos pela sumptuosa capa de peles. Voltava a encontrá-la, não pelo trajo, mas pela expressão do rosto, ardente, resoluta e até dura, que, inconscientemente, o havia impressionado tanto.

Gilda recostou-se para trás, no espaldar de pedra. com o olhar perdido no horizonte, concentrou-se uns momentos, como para reunir todas as recordações do passado. Depois abanou a cabeça, com um sorriso irónico.

- No fundo, a minha vida foi sempre muito simples, Patrício, e eu agora pretendo dar-lhe demasiada importância. Vê lá como é grande o meu orgulho!

Gramont não lhe respondeu. com efeito, sempre classificara o orgulho de Gilda como desmedido.

- Já sabes o principal - prosseguiu - Fiquei órfã muito nova. Meus pais, a conselho de um tio, um Heybrand, que tinha fortuna nas Antilhas, partiram para a Désirade, onde se estabeleceram, conquanto eu tivesse nascido na Martinica, onde o irmão mais velho de meu pai já se encontrava em prósperas condições. Desta forma, a nossa família reconstituiu-se nas Antilhas, mas infelizmente por pouco tempo. Tinha eu cinco anos e minha prima Verónica seis quando nossos pais nos levaram a casa do nosso tio, que desejava conhecer-nos, deixando-nos lá ficar por algum tempo. Tratava-se de Eduardo Heybrand, que, tendo chegado ali simplesmente como colono, aos sessenta anos possuía imensa fortuna e as mais belas plantações da ilha. Era um homem frio, original, bastante duro e não sei bem a que inspiração obedeceu, chamando-nos para sua casa. Talvez desejasse ter um herdeiro visto ser celibatário - e pretendesse formar uma ideia dos nossos caracteres, personalidade e inteligência, o que, dada a nossa pouca idade, parecia um pouco ridículo. Porém, como já te disse, era um original e o destino quis que o seu exame se prolongasse por muitos anos. Encontrávamo-nos em sua casa havia pouco tempo quando recebemos a trágica notícia. Um tornado arrasara justamente a parte da ilha em que vivíamos, nossos pais haviam perecido na catástrofe e as minhas plantações já não existiam. As de Verónica, pelo contrário, pouco haviam sofrido. Além disso, minha prima possuía um depósito no Banco e eu não. Desta forma, ela continuava sendo rica e eu ficava pobre.

No entanto, Eduardo Heybrand educou-nos sem fazer a mais pequena diferença entre nós.

Gilda calou-se como se quisesse vincar a distância que separava as duas épocas da sua vida, mas logo prosseguiu:

- A nossa infância e depois parte da mocidade decorreram na luxuosa casa de meu tio, nos jardins encantados, povoados por colibris, nos grandes bosques de limoeiros e mangueiras que os rodeavam. Madame Arnaud, uma francesa, que enviuvara mal chegara à ilha, desempenhava em casa de meu tio funções de governanta e encarregou-se de nós. A filha, pouco mais velha do que Verónica, foi nossa companheira de brinquedos. A este grupo pertencia também José Montresa, filho de um plantador nosso vizinho, a quem meu tio tratava com muitas atenções porque ambicionava comprar-lhe as plantações.

A bela voz grave e harmoniosa calou-se por momentos e depois elevou-se de novo, calma e indiferente :

- Tinha quinze anos quando eu e José ficámos noivos, noivado que, como é de calcular, todos ignoravam. Meu tio não teria ficado contente se soubesse que havíamos tomado compromissos - que ambos supúnhamos inquebráveis - sem o consultar. De resto, passados dois anos, esse compromisso foi esquecido e José casou com minha prima, que lhe dedicava afecto exclusivo e mórbido. Depois da partida de Verónica fiquei sozinha com Eduardo Heybrand. Sozinha, não. Madame Arnaud e Inês ficaram comigo, demonstrando-me ambas um carinho e dedicação difícil de exprimir em palavras. Eis o fim da história - avisou, voltando-se para Patrício - ou antes, o fim do primeiro episódio, o da minha mocidade que lamentavas não conhecer. Decorreram dois anos e meu tio morreu, deixando-me toda a sua fortuna, aparte alguns legados sem importância. Pouco depois, minha prima, cuja saúde havia sido sempre precária, morreu, vitimada por uma crise cardíaca. E logo em seguida, tendo-me sido entregue o iate já encomendado meses antes, quando entrara na posse da herança, abandonei as ilhas para viajar. Parti há vinte e três meses e não voltei à Martinica senão uma vez e por pouco tempo. Graças a Deus, não preciso de ocupar-me com as plantações. Estão em boas mãos, dirigidas por homens de confiança que meu tio ensinou e cuja fidelidade está a toda a prova. Desta forma, posso viver como me apetece. De resto, tudo isto já tu sabias - concluiu Gilda- não por mim, pois não gosto de falar no passado, mas por Mériel. O nosso amigo, porém, desconhecia certos pormenores. .. que acabo de te revelar. Desculpa-me se a narrativa não teve grande interesse.

Gramont fez um gesto vago e não lhe respondeu. Enquanto sua mulher falava, descrevendo-lhe a sua vida simples, mas nem sempre calma, ocorreu-lhe um pensamento. E esse pensamento que, para ser franco, teria de confessar não lhe ocorrer pela primeira vez, assumiu de repente extraordinária importância. Gilda, órfã, riquíssima, não dependendo de ninguém, nem tendo contas a dar fosse a quem fosse, tinha casado com ele, Patrício Gramont, para salvar as aparências e conquistar a sua liberdade, essa liberdade que já possuía e adquirira por suas próprias mãos! Era irrisório! Quanto às aparências, com a sua altivez indiferente, Gilda pouco se preocupava com elas. Mais do que nunca, com maior nitidez naquela noite, o médico adivinhou que sua mulher lhe havia mentido. De resto, pouco lhe importava!

Gilda abandonou o seu lugar e Gramont levantou-se também. com certeza, Gilda nem sequer suspeitou das reflexões do marido. Simplesmente, disse:

- Estamos na hora do jantar. Voltemos para casa. Os teus criados não gostam que os façamos esperar.

- Por acaso o Prudente ou a Miette te importunaram a esse respeito ou a qualquer outro ? - inquiriu Patrício, vivamente.

- Podes estar tranquilo - sossegou Gilda com o sorriso orgulhoso daqueles que estão seguros da sua sedução - Adoptaram-me. Infelizmente, não acontece o mesmo com a Madiana... ainda não se habituaram a ela.

E ria enquanto atravessavam o terraço. Quando chegaram junto da sebe de loureiro-rosa, Patrício afastou os ramos para sua mulher passar e seguiu atrás dela.

- A Inês já teria regressado? - murmurou Gilda, mais para si do que para o marido - A reparação foi demorada.

Estranho sorriso perpassou pelos lábios de Gramont, que, no entanto, não lhe respondeu. Continuou seguindo-a até que a rua alargou e lhe permitiu caminhar a seu lado.

Ao aproximarem-se de casa, Gilda ficou mais sossegada. Inês já tinha regressado, havia pouco tempo, com certeza, porque ainda tinha as luvas calçadas e a malinha na mão e subia a escadaria quando Patrício e Gilda saíam do bosque. Avistando-os, imobilizou-se e a distância não permitiu que os recém-chegados notassem o breve estremecimento que a sacudiu ao vê-los. Dominando-se, Inês voltou a descer a escada para ir ao seu encontro.

- A reparação prolongou-se, Gilda – explicou - mas preferi dar tempo para que o garagista procedesse a exame minucioso, que foi feito com toda a consciência, podes ter a certeza. Eu assisti.

- Agradeço-te - murmurou Gilda afectuosamente - Passaste uma tarde muito aborrecida.

O mesmo sorriso que pouco tempo antes adejara nos lábios de Patrício, reapareceu. No entanto, mais uma vez o médico guardou silêncio.

Na grande sala de jantar, caiada de branco, pavimentada de tijolos vermelhos, pela primeira vez naquele ano tiveram de acender o lustre. Embora se estivesse ainda em Setembro, os dias diminuíam e o atraso na hora da refeição explicava que anoitecesse antes de findo o jantar. A escuridão colada à vidraça, quando na véspera, ainda, o sol no ocaso a iluminava com todo o seu esplendor, impressionou extraordinariamente Gilda, que estremeceu como se nunca tivesse experimentado a influência deprimente da sombra e a tristeza que provoca nos espíritos sensíveis.

O serão, que habitualmente era passado na sala, naquela noite não se prolongou. Usualmente, se o médico, fatigado por um dia de trabalho, se retirava cedo, Gilda e Inês ficavam ainda por muito tempo. Naquela noite, porém, foi Gilda a primeira a levantar-se. Sentia-se profundamente cansada e, apesar de todos os esforços de Inês, das tentativas feitas para alimentar a conversa, desejava descansar. Fechou o livro que tinha na mão e nem sequer aflorara com o olhar e abandonou-o em cima da cadeira. Depois, como se na altura de se retirar lhe tivesse ocorrido súbito pensamento, voltou-se para a amiga.

- Já me esquecia, Inês - disse-O Patrício anunciou-me uma visita, que, creio, te dará tanto prazer como a mim. José Montresa encontra-se em Cannes e virá visitar-nos um destes dias.

Ao mesmo tempo, arrumou a cadeira, foi colocar o livro em cima da mesa e estendeu a mão a Patrício.

Mademoiselle Arnaud deixou escapar uma exclamação de espanto.

- José! Mas por que acaso...

- Não sei. Perguntar-lhe-emos - atalhou Gilda, sorridente - Também ele parece gostar muito de viajar.

Notando que a amiga ainda não havia arrumado o trabalho, acrescentou:

- Irás dar-me as boas-noites ao quarto, não é verdade ?

Depois de Gilda sair, Inês apressou-se a apanhar os novelos de lã com os quais confeccionava um casaco muito complicado e guardou-os em gracioso cesto de palha. O médico, enterrado numa poltrona, com o livro aberto sobre os joelhos, o cigarro consumindo-se entre os dedos, levantara a cabeça e observara-a em silêncio.

Inês voltou-se para ele a fim de lhe dar as boas-noites. Patrício deteve-a com um gesto.

- Poderia conceder-me uns momentos de atenção antes de se retirar, mademoiselle?

Breve lampejo perpassou nas pupilas claras, mas o sorriso de Inês não deu tempo a Patrício para o notar.

- com todo o gosto - respondeu com amabilidade - Que deseja ?

- Em primeiro lugar, pretendo fazer-lhe uma pergunta. Perdoe-me se caminho direito aos factos, mas não estou habituado a preâmbulos e, em geral, a tudo quanto se refere ao jogo das palavras. A pergunta é esta: Tinha algum motivo particular para ocultar a Gilda que conhecia a presença do primo em Cannes ?

Gramont estava de pé e observava atentamente a fisionomia da rapariga para não lhe escapar a mais pequena reacção. Mas a expressão de Inês foi unicamente de surpresa.

- A presença de José Montresa ? - repetiu Como poderia revelar-lhe, visto eu própria a ignorar? Acabo de a conhecer pela boca de Gilda, doutor.

- Tem a certeza ?

Na pergunta havia incredulidade e ironia.

- Tenho - confirmou a rapariga com a maior calma - De resto, não sei...

- Por que motivo a ocultaria e se calou há pouco, simulando surpresa. Eu também o ignoro e se tivesse a menor ideia não teria feito, para o saber, esta tentativa, que, de antemão, considerei inútil.

Começou a passear de um lado para o outro na sala, enquanto a dama de companhia dizia com voz suave, mas firme:

- Sinto-me desolada, doutor, por ter podido admitir a ideia de uma mentira entre mim e Gilda. Espero que reconsidere sobre essa impressão - porque não pode passar de impressão - absolutamente falsa. Não haveria explicação para essa atitude da minha parte... nem justificação.

Aguardou um instante a aprovação ou, pelo menos, a resposta. Gramont, porém, não lhe deu qualquer delas. Continuou a andar e quando atingiu a extremidade da sala, Inês compreendeu que se dispunha a sair. Começou então a apagar os pequenos candeeiros disseminados pelo aposento, ouviu a porta abrir-se e voltou-se para responder às boas-noites de Patrício.

O médico já se encontrava no corredor e de lá deu-lhas friamente. Depois, como Inês voltasse à sua ocupação, parou.

- Um instante, mademoiselle.

E, com tranquila ironia, prosseguiu:

- Sejam quais forem os motivos que a levam a encontrar-se com José Montresa às ocultas de Gilda, permita-me que lhe dê um conselho. Quando isso acontecer, não deixe, como deixou esta tarde, o carro arrumado nas traseiras do hotel onde está instalado o seu compatriota. Eu sei que essa rua é pouco frequentada, mas, justamente por isso, notam-se mais os carros que ali estão parados e o Chrysler branco é muito... conhecido para passar despercebido.

E tendo proferido estas últimas palavras, fechou a porta. O seu passo firme e sempre igual, pouco a pouco, desvaneceu-se no corredor.

 

A poucos metros da casa do doutor Gramont, mesmo em frente, do lado oposto da estrada, a nova clínica erguia-se com a fachada branca e múltiplas e regulares aberturas. A construção caminhara com rapidez e, da sua janela, Gilda podia ver, para lá dos grandes ciprestes, aquela espécie de colmeia em plena actividade.

Embora estivesse tão perto, nunca dera os poucos passos que a separavam da obra, e não soube nunca porque naquele dia travou o Chrysler bruscamente quando ia a passar para entrar o portão da vivenda.

Regressava do cais, onde passara algumas horas no Désirade, numa visita sem intuitos reservados. Sentir debaixo dos pés a coberta do iate, ver os mastros finos desenharem-se no céu e seguir com a vista o desenho do cordoame, eis tudo. Mas não sentiu a alegria com que contava. O Désirade, silencioso, imóvel como um corpo sem vida, só conseguiu despertar-lhe tristeza e melancolia. Impunha-se dar alguns passeios, enquanto não empreendia viagem maior.

Ao abandonar o cais, hesitou antes de seguir a Croisette. Gostava da animação, do movimento, da vida daquela avenida e, nas semanas anteriores, muitas vezes a percorrera a pé com Inês ou os Mériel. Naquela altura, porém, Inês não estava a seu lado e quanto aos Mériel, pouco depois do casamento haviam partido para Paris e depois para uma propriedade que possuíam na margem do Sena, para os lados de Saint-Germain. E Gilda renunciou ao seu projecto, não porque receasse encontrar-se isolada no meio da multidão, mas por temer as atenções que, sozinha ao volante do luxuoso carro, não deixaria de despertar.

Então, regressou a casa, sem pressa, pois ninguém a esperava, nem mesmo a dama de companhia, que nessa manhã fora de comboio a Nice a fim de se encontrar com o notário da sua família, de passagem pela cidade, para tratarem da venda de uma propriedade que madame Arnaud ainda possuía na Ilha de França. Devia regressar à tarde e Gilda propôs-se ir esperá-la à estação.

Mas, ao passar diante do vasto terreno ao centro do qual se erguia a nova clínica, Gilda pensou que ainda faltava muito tempo para a hora da chegada da amiga e, cedendo a súbito impulso, diminuiu a velocidade do carro e conduziu o Chrysler para dentro do jardim, arrumando-o à sombra dos ciprestes e do muro. Depois, atravessou a estrada e entrou na obra.

Ficou surpreendida por não encontrar a animação habitual. Conquanto ainda não tivesse chegado a hora do descanso, viu um único operário, que arrumava debaixo de um telheiro sacos de cimento, pás e outras ferramentas, Aproximando-se, interrogou-o :

- A obra está terminada ?

- Não, isso sim! - respondeu o homem com acentuada pronúncia meridional - Temos ainda pela frente algumas semanas e não podemos perder tempo, uma obra destas não se acaba assim!

- Então porque não trabalham hoje ?

- Nem hoje, nem amanhã, nem por estes dias mais próximos, visto terem-me dado ordem para arrumar o material. Viemos todos esta manhã, mas o empreiteiro mandou-nos para outra obra. Parece-me que surgiram dificuldades e desacordos entre ele e o doutor Gramont, mas não sei do que se trata.

Gilda não insistiu, contentando-se em perguntar:

- Posso visitar a obra ? - com certeza.

Afastou-se e, saltando por cima de montes de areia, de bocados de madeira, através do terreno cheio de covas, conseguiu atingir a entrada principal.

Sucediam-se corredores desertos, salas grandes e pequenas. Gilda era leiga no assunto, mas pareceu-lhe que a obra estava pouco adiantada interiormente para poder formar uma ideia do aspecto que teria, do conforto proporcionado, uma vez concluída. No entanto, mesmo um profano não deixaria de avaliar a importância e a concepção moderna das instalações previstas.

«O Patrício também tem o seu brinquedo caro - comentou com irónico sorriso.

Ao mesmo tempo, recordou as palavras do operário. Parar os trabalhos ! Qual a razão que levara o marido a fazê-lo quando demonstrava tanta pressa em abandonar a velha clínica com as suas instalações incómodas e antiquadas ?

Continuando a visita, subiu a larga escadaria de pedra e chegou ao primeiro andar. À esquerda e à direita, uma série de aposentos dando para o corredor central, por certo os quartos para os doentes. Estavam quase prontos, até com caixilhos nas janelas, não concebidas como as janelas ordinárias, mas sim de báscula. Aproximando-se de uma delas, Gilda olhou para fora e imobilizou-se numa expressão de surpresa.

Duas pessoas caminhavam pelo terreno que, pouco antes, atravessara: Patrício e uma rapariga em quem Gilda reconheceu imediatamente a enfermeira que fora buscar Patrício ao iate, na noite do casamento.

com um gesto de contrariedade, recuou. Não lhe agradava encontrar-se ali com o marido. Mas talvez o médico não entrasse, contentando-se com uma visita exterior. Nessa esperança, recuou mais ainda, não perdendo, no entanto, de vista os dois visitantes.

Patrício e a companheira caminhavam devagar, com os olhos fixos no edifício. Depois Gramont parou e começou a falar. com a mão estendida para a nova clínica, sem dúvida dava explicações à enfermeira. Estava como que transfigurado.

Do ponto onde se encontrava, Gilda não podia ouvir o que dizia; em compensação, não perdia um único dos seus gestos, sorrisos, e a expressão do médico e ficou estupefacta. Seria aquele o calmo e indiferente Patrício ? Naquele semblante animado, fremente e expressivo, mal reconhecia o marido.

Perpassou-lhe pelos lábios um sorriso irónico. Nessa manhã, Patrício avisara que, tendo um dia muito trabalhoso, não podia vir almoçar a casa. A sua presença, porém, desmentia a desculpa. Se o trabalho fosse muito, não poderia encontrar-se ali àquela hora.

Não teve, porém, muito tempo para aprofundar estas suspeitas. Os dois prosseguiram o seu caminho e, muito contrariada, Gilda compreendeu que transpunham a porta principal.

A voz do marido chegou-lhe aos ouvidos, Uma voz também diferente, animada, ardente, com inflexões calorosas. A companheira respondia-lhe, mas as palavras de ambos, em si, não tinham importância. Desagradava-lhe, porém, surpreender a conversa, mas não podia, salvo se quisesse mostrar-se - o que lhe repugnava - abandonar o seu lugar. Permitisse Deus que os visitantes não entrassem na sala onde se encontrava.

O seu desejo realizou-se, mas por muito tempo os ouviu andar de um para outro lado, nos compridos corredores, antes de se afastarem.

Aproximando-se de novo da janela, Gilda viu-os atravessar o terreno em sentido inverso e alcançarem a estrada. O carro do médico devia encontrar-se perto do tapume que fechava a obra, porque Gilda escutou o ruído de um motor que se afastava. Quando se desvaneceu de todo, desceu e, por sua vez, abandonou a clínica.

Ao entrar no Chrysler, felicitou-se por o ter arrumado dentro do jardim e não na estrada, onde o marido não podia ter deixado de o notar. Mas, no momento de se sentar ao volante, pensou que não valia a pena levá-lo para a garagem, visto ter de o utilizar daí a duas horas para ir buscar Inês à estação. Abandonando-o, prosseguiu, portanto, o seu caminho e entrou em casa.

Tendo entregado a Madiana o casaco de fazenda vermelha que envergava por cima do vestido, entrou na sala. Levava consigo alguns mapas de Itália, que trouxera do iate e desejava consultar. Mal havia desdobrado um deles em cima da mesa, a porta abriu-se e Prudente apareceu.

- O senhor Montresa pergunta se madame pode recebê-lo.

Gilda aprumou-se. Ouvira parar um automóvel e, conquanto não usasse regressar tão cedo, supôs tratar-se de Patrício. Franziu a testa e o seu primeiro impulso foi o de recusar-se. Todavia, conseguiu dominar-se. Fossem quais fossem os seus sentimentos para com José, não podia fechar-lhe a porta da sua casa. Não podia nem desejava, pois só Deus sabia que suposições a sua recusa, mesmo momentânea, poderia provocar.

Ao entrar no jardim, o rapaz devia ter visto o automóvel e seria essa mais uma razão para não se escusar.

Todos estes pensamentos lhe cruzaram rapidamente o cérebro. A hesitação foi breve. Gilda voltou a curvar-se para o mapa, dizendo ao mesmo tempo:

- Pode mandar entrar o senhor Montresa. Quando a porta se abriu não fez um movimento nem levantou a cabeça.

- bom dia, Gilda. Agradeço-lhe ter consentido em...

- Suponho que vem despedir-se - atalhou a dona da casa - Infelizmente, estou só. A Inês vai ficar muito desapontada quando tiver conhecimento da sua visita.

- Também fico desolado com a sua ausência. Mas não se trata de me despedir.

Gilda não lhe respondeu imediatamente e dirigiu-se para uma poltrona, indicando outra ao visitante. Afectava tratá-lo com cerimónia, como se o passado não existisse entre eles e desejasse vincar bem a delicada indiferença das suas passageiras relações. Mas bem depressa teve de reconhecer que o primo não perfilharia o seu modo de proceder.

- Então do que se trata, poderei saber, José? - inquiriu.

- Mais do que ninguém, Gilda. Desejava conhecer a casa onde vivia, vê-la.

Gilda deixou escapar uma risadinha.

- Que solicitude! Pode ficar tranquilo. Não me falta nada e tenho um tecto para me cobrir.

- Não era bem isso o que eu desejava verificar.

- Calculo. Quis dar-lhe uma saída para não cair no ridículo.

José não se sentara ainda. Quando o fez, Gilda não pôde deixar de notar como conservava ainda a sua graça felina e a flexibilidade de movimentos que ocultava uma grande força. A fadiga e a magreza que, dias antes, lhe transtornavam as feições, haviam desaparecido. Gilda tinha diante de si um homem na força da vida, cuja radiante beleza chegava a surpreender na sua perfeição e teve de fazer um esforço para recordar que esse mesmo rapaz, alguns anos antes, a havia voluntariamente abandonado para casar com sua prima, uma doente.

Silencioso, José relanceava a vista em volta de si. O aposento, com os móveis antigos, de mogno brilhante, tinha aparência simples. Cadeiras estilo Restauração, estofadas com seda amarela um pouco puída, mesas pequenas, uma estante em forma de obelisco e o velho cravo, eis do que se compunha, com algumas poltronas, o mobiliário da sala. Sobre o mármore do fogão, vasto e artístico, um relógio de alabastro ladeado por duas jarras opalinas. As paredes não eram caiadas de branco como as da maior parte dos outros aposentos, mas forradas com papel, representando as aventuras de Telémaco.

Depois do exame, Montresa voltou-se para a dona da casa e murmurou em voz surda:

- O que faz aqui, Gilda? Pelo amor de Deus, diga-mo. Nada disto lhe convém, está em harmonia consigo... não pode agradar-lhe! Não vai afirmar-me que vive por gosto no meio... disto tudo!

com um movimento desdenhoso da cabeça designava a sala e tudo quanto encerrava.

Gilda semi-cerrou as pálpebras, talvez para não deixar adivinhar o que pensava e que o olhar não deixaria de exprimir. Os lábios abriram-se-lhe num sorriso quando afirmou:

- Não é indulgente, José, nem mesmo muito delicado. Gosto disto. Precisarei de dizer-lhe mais para explicar a minha presença nesta casa ?

- Sim, seria preciso mais.. . muito mais.

E, de repente, mudando de tom, insistiu com energia:

- Não tenciona ficar aqui, pois não, nesta casa, neste país ?

Gilda fixou-o com espanto como se não o compreendesse, afastando da testa os cabelos negros, num gesto que lhe era habittual.

- Quero eu dizer - prosseguiu Montresa - que este casamento não conta nem pode prendê-la toda a vida. Foi um casamento sem importância.

Calou-se, interrompido por forte gargalhada.

- Um casamento sem importância! Eis uma classificação inesperada... tão inesperada como a sua visita, José! Claramente, diga o que pretende.

- Tirá-la daqui-e mais uma vez, com um gesto desdenhoso, indicava a sala-Restituí-la à sua vida, à sua terra.

com a face encostada à mão, Gilda observava-o com a maior calma e ninguém poderia calcular quanto essa calma lhe custava.

- E, provavelmente, foi nesse intuito que prolongou a sua permanência em Cannes ?

- Exactamente.

- E a esperança... diremos, a certeza do meu consentimento, quem lhe deu, posso sabê-lo?

José sustentou-lhe o olhar e depois, lentamente, respondeu :

- Adquiri-a pelo facto de saber que a noite em que nos encontrámos, no iate, era a do seu casamento.

- Está muito bem informado, José.

- Cannes não passa de uma aldeia pequena.

- Não o ignoro e dessa forma pôde, com certeza, saber muito mais coisas. Disseram-lhe, por certo, que o doutor Gramont põe o seu dever acima de tudo e que, para salvar uma vida, não escolhe ocasião, não se prende com acontecimentos ou circunstâncias.

- Disseram-me, sim, e eu acreditei, excepção feita no caso de que falamos. Ninguém neste mundo, nem mesmo a Gilda, poderá convencer-me de que um homem, no momento em que sua mulher ia pertencer-lhe, a abandonasse para cumprir um dever, fosse ele qual fosse. Salvo se esse homem não lhe quisesse, não lhe tivesse amor!

Uma cólera violenta tumultuava no peito de Gilda, acelerando-lhe as palpitações do coração.

- E é essa a verdade, Gilda - prosseguiu Montresa, sem lhe dar tempo a responder-lhe - A voz pública ainda me deu a saber outra coisa. Que Patrício Gramont, o célebre cirurgião, o homem probo e honesto estava crivado de dívidas... dívidas que já foram pagas.

Apesar da sua audácia, José calou-se bruscamente. O olhar que o fixava era de tal ordem que hesitou em prosseguir.

- Sei o que pensa - murmurou com voz alterada - Daqui a pouco poderá avaliar o seu erro e a sua injustiça. Salvo se...

Fez um gesto vago e em seguida baixou os olhos, como para se concentrar. Depois de breve silêncio, bruscamente levantou a cabeça.

- Gilda - murmurou - não é possível que tencione ficar aqui para sempre. Olhe em volta de si e depois deixe-me ler nos seus olhos. Isto não é a sua casa, mas sim a sua prisão. Sim, uma prisão, a despeito da aparência de liberdade de que dispõe.

Sei bem que, mais cedo ou mais tarde, se aperceberá do que afirmo e então não haverá força humana capaz de a prender. Libertar-se-á. Mas quantos meses, quantos anos, talvez, perdidos, os melhores dias da sua mocidade desfeitos em pó! Quanta força perdida, quantas energias e possibilidades desprezadas!... Esta perspectiva não lhe mete medo? Não sente, de antemão, revolta e pesar? Que compensação pode esperar em troca do que abandona, Gilda? O doutor Gramont é um estranho para si. Esse homem, que vive apenas para os seus doentes, para o seu trabalho, não pode ocupar um lugar no seu coração, nem dar-lhe um no dele. Que estranha aberração, capricho ou erro a levaram a casar com ele? Ignoro-o. Mas todos os caprichos têm fim, os erros reparam-se e não existe decisão que não possa revogar-se.

José calou-se. Estava de pé diante de Gilda, que nem por um gesto ou palavra lhe deixara adivinhar o que sentia. Curvando-se para ela, prosseguiu com veemente insistência:

- Gilda, Gilda, escute-me e liberte-se! A sua verdadeira casa espera-a, a nossa linda terra, cheia de luz e magia está pronta a acolhê-la com toda a sua ternura. Restituir-lhe-á o encanto dos seus jardins, do oceano, do luar, dos seus perfumes e harmonias. Fuja daqui, onde não é nem nunca será mais do que uma viajante de passagem. Abandone o seu marido!...

Calou-se de repente. Gilda pusera-se de pé, ao mesmo tempo que a porta envidraçada que dava para o jardim se abriu e o doutor entrou.

Gramont, por instantes, imobilizou-se no limiar e o silencio foi tão profundo que se ouviu distintamente o pairar das catatuas, cuja gaiola se encontrava no terraço. Depois, Patrício fechou tranquilamente a porta e avançou, sorridente.

- Ignorava que estivesse aqui, senhor Montresa, embora tivesse visto um automóvel desconhecido parado no jardim. Encantado com a sua visita.

E estendeu-lhe a mão, antes de se ter voltado para sua mulher.

- O comboio de mademoiselle Arnaud não chega às vinte horas, Gilda ?

Ela confirmou com a cabeça. Intimamente, amaldiçoava a emoção, a perturbação que não a deixara ouvir a chegada do automóvel de seu marido.

- Chega - disse por fim - às vinte menos dez. vou esperá-la à estação.

- Não é necessário. O Prudente substituir-te-á. O senhor Montresa - acrescentou, sorrindo - teria o direito de nos considerar pouco hospitaleiros se o despedíssemos bruscamente. Infelizmente, não posso ficar e lamento-o. Fui chamado com urgência a Grasse. Passando por aqui, vim avisar-te para não me esperares, porque se uma intervenção se impuser terá de ser imediata e, nesse caso, devo regressar muito tarde.

Depois dirigiu-se a José.

- De novo lhe apresento as minhas desculpas, senhor Montresa, mas espero tornar a vê-lo em breve. Demora-se mais alguns dias em Cannes ? Sim ? Nesse caso, a Gilda combinará consigo o dia em que nos dará o prazer de jantar connosco. Nem sempre sou tão pouco pontual na hora de regressar a casa.

Ao mesmo tempo, dirigiu-se para o fogão e premiu o botão da campainha, colocado à direita da porta. Quando o criado apareceu, ordenou:

- Mete-te no Chrysler - dás licença, não é verdade, Gilda ? - e vai à estação buscar mademoiselle Arnaud. Chega no comboio das dezanove e cinquenta.

Voltando-se para Montresa, de novo lhe estendeu a mão.

- Até breve, senhor Montresa.

Depois de uma troca de cumprimentos banais, Patrício encaminhou-se para a porta por onde entrara. Saiu, íechou-a sobre si e em breve se ouviu o rodar do automóvel no saibro do jardim.

O silêncio manteve-se durante algum tempo entre os dois que ficavam. Gilda voltara a instalar-se numa poltrona e José, de pé diante dela, conservava-se de olhos baixos.

- Dizia então, José - interrogou Gilda com perfeita calma - que eu devia abandonar meu marido ?

O rapaz estremeceu imperceptivelmente, um pouco admirado com tão fria precisão. Porém, logo recuperou o sangue-frio.

- Exactamente, Gilda - afirmou, com os belos olhos negros iluminados por uma chama ardente Aconselho-a a partir imediatamente para não se sujeitar nem mais um instante a este jugo que por suas mãos procurou, mas que não poderá suportar por muito tempo. Conheço-a bem, minha amiguinha, e suspeito quanto a sua inteligência, sensibilidade e coração devem sofrer, revoltar-se com tanta mediocridade! A Gilda, que na sua casa era uma rainha, nunca poderá viver em tão miserável reino, embora o partilhasse com alguém a quem adorasse. Mas não é esse o caso. Ama o seu marido tanto como ele a ama a si. Felizmente, casamentos desta natureza são fáceis de anular. Mas, quanto mais espera, mais difícil torna a separação. Não perca tempo. Pelo amor de Deus, abandone tudo, deixe-se convencer e venha comigo!

José animara-se um pouco à medida que falava. A voz harmoniosa tomava inflexões apaixonadas, comoventes. Ao proferir as últimas palavras, vibrou como se, com a sua persuasão, tentasse arrancar Gilda à morte. Ao mesmo tempo, curvava-se para ela. Uma só palavra, porém, obrigou-o a recuar.

- Miserável!... Miserável - repetiu Gilda, atirando para o fogão o cigarro meio consumido - Na verdade, contou que eu anuiria aos seus desejos?

Como que fulminado por um raio, o rapaz conservava-se imóvel a poucos passos. Sem que ele pensasse em dominar-se, a fisionomia exprimiu primeiro espanto, depois decepção e por fim cólera.

Apoiando-se nos braços da poltrona, Gilda soergueu-se, prosseguindo:

- Fugir consigo!... Ou mesmo fugir, simplesmente, acedendo às suas exortações. Não sei como classificá-lo, se, de facto, supôs conseguir persuadir-me a fazê-lo. Como pôde iludir-se a tal ponto? Não lhe disse na noite em que clandestinamente se introduziu a bordo do iate, não lhe dei a entender que o desprezava e não queria voltar a vê-lo ?

As palavras e o tom em que eram proferidas não admitiam dúvidas. Montresa compreendeu imediatamente que havia perdido a partida.

- E eu, nessa altura, garanti-lhe que teríamos de nos encontrar...

- Basta!... Queira sair.

- Depois de discutirmos certos assuntos de família.

Fez ligeira pausa, breve demais para que Gilda pudesse falar, mas bastante para acentuar a importância do que ia dizer. Depois, em voz firme, começou :

- Gilda, está pobre, tão pobre como no dia em que o cataclismo lhe roubou ao mesmo tempo a sua casa, as plantações e seus pais! A fortuna de Eduardo Heybrand não lhe pertence.

Gilda olhou-o com tranquilo espanto, como se não compreendesse onde ele queria chegar, nem apreendesse o sentido exacto da declaração.

- Desculpe-me, mas não compreendo - disse simplesmente.

- É natural que a minha revelação a surpreenda, Gilda.

- Revelação? - repetiu com uma gargalhada. Recostada na poltrona, fixava-o com olhar irónico e frio.

- Chama revelação às extravagantes fantasias que acaba de dizer? Nesse caso, meu tio, cujo testamento fez de mim sua herdeira universal, não me deixou a sua fortuna ?

- Assim é, Gilda, não a deixou.

- Começo a achar-lhe graça. Quem é então o feliz herdeiro?

- A herdeira era Verónica, minha mulher. Calou-se, enquanto Gilda o olhava com espanto.

Sabendo-se perfeitamente lúcida e equilibrada, Gilda não duvidava da sua razão, mas sim da de José. E, por momentos, pensou que a doença que ele lhe revelara no primeiro encontro lhe havia transtornado o cérebro.

Montresa, sem dúvida, adivinhou-lhe os pensamentos, porque abanou a cabeça.

- Não estou doido, Gilda. Quer ter a bondade de me ouvir?

- É inútil. As derradeiras vontades de meu tio foram exaradas num testamento perfeitamente legal e muito claras. A esse respeito não podem existir dúvidas.

- Avive as suas recordações. Tem a certeza de que esse testamento era o único do género?

Gilda franziu a testa. A obstinação de José, a sua insistência no assunto afigurava-se-lhe de péssimo gosto. No entanto, quase involuntariamente, porque diante dos seus olhos certas imagens reviviam, fez o que ele lhe aconselhava. Tentou recordar-se.

Viu de novo o grande quarto sumptuoso e sombrio, a cama de madeira doirada onde o velho colono, derrubado por um ataque de paralisia, travava o seu último combate. Eduardo Heybrand fora sempre um homem estranho, autoritário, duro, um pouco indiferente às pessoas que o rodeavam e, ao mesmo tempo, um original. A sua grande, a sua única preocupação consistia no desejo de que depois da sua morte as plantações, as terras, tudo a quanto verdadeiramente se dedicara, não fossem divididas. Aguardara muitos dias antes de se resolver a falar com Gilda, mas, por fim, fê-lo. E, naquele momento, a esposa do médico revivia nitidamente a cena. Enquanto Inês e madame Arnaud, que rodeavam o velho colono de todos os cuidados, andavam pelo quarto, Eduardo Heybrand chamou Gilda e pediu-lhe para se sentar ao lado da cama. De um cofre que estava em cima da mesa, tirou dois documentos, dois testamentos dobrados, perfeitamente iguais quanto à forma. Entre eles, porém, existia uma diferença e essa era de capital importância: um mencionava o nome de Gilda o outro de Verónica Heybrand.

com o olhar penetrante, o velho colono examinava a fisionomia grave da sobrinha e, decorridos instantes, a voz seca e irónica elevou-se:

- Estes dois papéis estão escritos há muito tempo, quase desde o dia em que tu e Verónica entraram em minha casa. Durante muitos anos hesitei, mas chegou o momento da escolha e, como vês, a escolhida és tu. Este testamento que vou assinar torna-te herdeira de todos os meus bens, sem possibilidade de contestações. Num destes dias, pediremos a presença de duas testemunhas. Por agora, não há pressa.

com mão ainda firme, datou o documento e assinou. Voltou a encerrá-lo no cofre e pediu a Gilda para o ir guardar no cofre-forte que se encontrava no quarto. Depois não se preocupou mais com a sobrinha. Silencioso e irónico, olhava, voltava e tornava a voltar entre os dedos o segundo testamento como se quisesse avaliar-lhe o peso, o nada que representava a perda de uma fortuna para Verónica, antes de o rasgar.

«Não há pressa» - dissera o ancião... E decorridos poucos minutos, novo ataque prostrara-o e dois dias depois a morte entrou no magnífico quarto. Nesse espaço de tempo, os períodos de lucidez e de fraqueza sucederam-se e Gilda recordou-se de que o tio acolhera com a habitual ironia mordaz a presença de José e de Verónica, que, solícitos, haviam acorrido à sua cabeceira.

Todas estas imagens desfilaram rapidamente no cérebro de Gilda e com tal intensidade que esta fechou os olhos. Ao mesmo tempo as palavras de José soavam-lhe aos ouvidos como se fossem gritadas por cem bocas ao mesmo tempo: «Gilda está pobre, tão pobre como no dia...»

O receio de que Montresa pudesse supô-la abatida obrigou-a a reagir. Fixou-o com altivez e respondeu :

- Sim, existia outro testamento a favor de minha prima. Mas Eduardo Heybrand rasgou-o.

- Diante de si?

- Não. Em todo o caso, aquele que me nomeia sua herdeira foi o único encontrado no cofre, datado e assinado.

- É possível. Mas o que legava todos os seus bens a Verónica também estava assinado e datado e o que lhe confere o predomínio sobre qualquer outra disposição é, justamente, essa data, por ter sido o último assinado por Eduardo Heybrand. Fê-lo diante de mim e de Verónica, na véspera da sua morte.

Calou-se um instante antes de proferir as palavras decisivas e concluiu :

- E está em meu poder.

Se contava esmagá-la com a revelação, enganou-se redondamente. Sem dúvida, Gilda possuía um domínio próprio pouco comum, porque se limitou a sorrir.

- E aguardou três anos para me fazer essa revelação. Muito verosímil!

- Talvez não seja verosímil, mas é verdadeiro, Gilda. Como sabe, depois da morte do tio, o estado de Verónica agravou-se. A sua doença tornou-se séria e solicitou todos os meus cuidados e atenções. Nessa altura, não tive tempo nem desejo de fazer valer os meus direitos. Mais tarde, depois da morte de minha mulher, repugnava-me tirar-lhe a si a fortuna que me pertencia. Aguardei, tentando encontrá-la no decurso das suas viagens, visto ter abandonado a ilha. Fugiu-me sempre. Só aqui consegui falar-lhe e se o meu amor tivesse sido aceite, se a Gilda acedesse em me confiar a sua vida, nunca teria falado, juro-lhe.

Calou-se e só então Gilda compreendeu o sentido das palavras proferidas no princípio da conversa : «Daqui a pouco poderá avaliar o seu erro e injustiça... salvo se...»

Salvo se, consentindo em abolir o passado e a reatar o edílio, Gilda tornasse inútil a revelação. Montresa, porém, teria guardado silêncio, conformando-se com a aparência de tudo receber da mão dela quando afinal era ele quem lhe restituía tudo ?

Entretanto, José prosseguia:

- Infelizmente, cheguei tarde demais... quando, por motivos que desconheço, a Gilda já era mulher de outro. E, perdoe-me, como não posso consentir que esse outro aproveite a fortuna que, exclusivamente, o levou a casar consigo, estou disposto a reivindicar aquilo que me pertence. Pela última vez, teima em ficar junto dele?

- Fico e ordeno-lhe que abandone imediatamente esta casa. O seu procedimento é ignóbil, mas não surpreende quem já sabe que espécie de homem o senhor é.

A atitude de Gilda era firme e bem clara. Estava de pé e tanto a voz, como a expressão, toda a sua pessoa indicavam não estar disposta a suportar-lhe a presença um segundo mais.

Montresa não obedeceu imediatamente. Olhava para Gilda e nas pupilas escuras brilhou um lampejo de admiração.

- Como é linda, Gilda!-balbuciou - Muito mais do que dantes, quando passeava pelo meu braço, orgulhosa e feliz; no tempo em que íamos sentar-nos à beira-mar, nas noites de sonho em que eu lhe beijava a testa...

Talvez naquele instante José fosse sincero. Talvez que as recordações, afluindo-lhe ao coração, abolissem o tempo, os acontecimentos, as palavras de Gilda e até o implacável desprezo com que ela o esmagava. Sincero ou não, o semblante exprimia apenas apaixonada exaltação. Deu alguns passos para se aproximar dela.

- Não se aproxime de mim! - ordenou Gilda em voz surda.

Estava de pé, perto do cravo sobre o qual se via um único objecto, uma jarra de cristal com aspecto pesado e resistente, mas cujas paredes, trabalhadas pelo artista que a modelara à mão, ofereciam pouca resistência. Como Montresa teimasse em se aproximar, Gilda, num gesto rápido, pegou na jarra e levantou o braço.

Se tivesse ali um chicote, teria fustigado a cara de José. Os instintos primitivos acordados, os instintos de criança criada à-vontade, despertaram-lhe o desejo de o marcar para sempre. Mas, por muito rápido que fosse o impulso, o reflexo de protecção do rapaz foi mais rápido ainda. Aparou o golpe com o braço dobrado, contra o qual a jarra se quebrou, desfazendo-se, em mil bocados, na mão de Gilda, que, mordendo os lábios, sufocou a custo um grito de dor.

Da palma da mão ao pulso, profundamente golpeados, o sangue brotou em abundância. Mesmo assim, num gesto imperioso, Gilda mostrou-lhe a porta.

- Vá-se embora!

- Gilda, estou desolado. Não posso abandoná-la assim.

- Retire-se, ordeno-lhe...

Calou-se, apurando o ouvido. Um carro acabava de entrar no jardim e pelo ruído do motor reconheceu tratar-se do Chrysler que trazia Inês. Instantes depois, a porta abriu-se e mademoiselle Arnaud entrou sorridente. Num olhar de relance, envolveu o aposento e o sorriso desvaneceu-se. Voltou-se para fechar a porta, cujo puxador ainda não largara, mas a voz de Gilda soou imperiosa:

- Um instante, Inês. Deixa sair o José. Lentamente, Montresa atravessou a sala. De passagem, agarrou nas luvas que abandonara em cima da mesa e, sem uma palavra, passou diante da dama de companhia e desapareceu no jardim.

Só então mademoiselle Arnaud correu para Gilda. Sem se preocupar com os estilhaços da jarra que juncavam o tapete, pegou-lhe na mão e examinou-a. Dos profundos golpes, o sangue continuava a correr, manchando o vestido branco e caindo gota a gota no chão. Inês tirou rapidamente a écharpe e com ela amarrou o braço da ferida, por cima do cotovelo. Sem fazer caso dos protestos de Gilda sobre a gravidade dos ferimentos, afirmou :

Temos de prevenir o doutor. Está em casa ?

Gilda fez um gesto de contrariedade.

- Não, nem tão-pouco na clínica.

- Nesse caso, enquanto ele não vem, chama-se a enfermeira.

- É inútil. Chega a ser ridículo.

A dama de companhia não fez caso. com a autoridade que empregava às vezes, autoridade que a sua dedicação permitia e explicava, saiu do aposento e dirigiu-se ao vestíbulo onde estava o telefone. Quando voltou a aparecer, declarou simplesmente :

a enfermeira não tarda. Entretanto, será melhor recolheres ao quarto.

Gilda seguiu-a de má vontade. A importância dada ao caso provocava-lhe viva contrariedade. Todavia, dificilmente podia recusar os cuidados da enfermeira.

Introduzida por Madiana, que soltava exclamações aflitivas, Mónica examinou imediatamente os ferimentos com um cuidado e atenção que revelavam longa experiência.

- Os golpes precisam ser cozidos, primeiro as veias e depois a pele. Não é grave, mas é preciso ter cuidado.

Reflectiu uns momentos e depois, voltando-se para Inês, pediu:

- Pode telefonar para Grasse, e pedir ao doutor Gramont para vir a casa logo que possa?

Quando a dama de companhia se afastou, substituiu a écharpe por um verdadeiro garrote. Depois tirou da maleta frascos, uma seringa, caixas metálicas e pensos e espalhou tudo pela mesa que lhe foi indicada para esse fim.

Enquanto que, metódica e ligeira, procedia a estes preparativos, Gilda examinava-a com curiosidade. Achava-a simpática, fisionomia agradável, mas pouco expressiva, muito diferente da que lhe vira, nesse mesmo dia de manhã, da janela da nova clínica. E estava tão absorvida pelo exame que não ouviu passos aproximarem-se.

- É o doutor! Pedi para lhe telefonarem. Ainda bem que já não o encontraram! - exclamou a enfermeira, voltando-se para o médico, que acabava de entrar.

- Acabo de chegar de Grasse. Felizmente, não foi precisa a operação. Mas o que se passou ? Quem está ferido?

- Sou eu, Patrício, mas não tem importância. Um desastre estúpido.

Como se não tivesse ouvido, Patrício pegou-lhe na mão e examinou-a.

- Como aconteceu isto? - interrogou.

- A Gilda quis mudar de lugar a jarra do cravo e partiu-a na mão... - informou Inês.

- Apertou-a com muita força, com certeza, para que os vidros se lhe tenham enterrado na carne por esta forma!

- Assustei-me imenso, acredite. Quanto a José Montresa, que estava presente, ficou tão transtornado que nem sequer pensava em socorrer Gilda quando eu entrei na sala.

Gilda franziu a testa. Aquela Inês, tão esperta e inteligente, como era desastrada, por vezes!

O semblante de Patrício não deixou adivinhar o que sentia ao escutar a explicação. Voltando-se para Mónica, interrogou:

- Trouxe tudo quanto é preciso, Mónica? Agulhas, suturas, pinças, seringa e gaza? Então coloquem uma toalha nessa mesa e aproximem-na de madame Gramont para ela estender o braço.

Ao mesmo tempo ia despindo o casaco e arregaçando as mangas da camisa. Depois passou ao quarto de banho, lavou cuidadosamente as mãos, enxugando-as à toalha que lhe apresentou Inês e só então regressou ao quarto de sua mulher.

- Não tenhas medo, Gilda. Não demora muito e não sofrerás.

A voz tomara inflexões meigas, as mesmas com que falava aos seus doentes. Voltando-se para a enfermeira, perguntou noutro tom :

- Está pronta, Mónica ? Então pode dar a injecção...

 

O sol banhava o quarto de Gilda, cujas janelas haviam ficado abertas.

Acordara havia muito tempo. Estendida na cama, vira nascer o dia, as paredes claras saírem pouco a pouco da sombra, a claridade envolver lentamente os móveis, os cortinados e todos os objectos. Ouvira também o despertar da casa.

Inês, que insistira por dormir a seu lado, numa cama de campanha, erguera-se muito cedo e saira nas pontas dos pés. Devia encontrar-se no seu quarto, contíguo ao de Gilda, mas desse lado não partia o mais pequeno ruído. Talvez a dama de companhia descansasse um bocadinho naquela altura.

A noite, todavia, não fora má. O efeito anestésico da injecção durara o bastante para que a ferida não sentisse dores na mão. E se permanecera muitas horas acordada, fora mais pelo seu estado de nervosismo do que pelo sofrimento.

Pouco tempo depois da saída de Inês, Prudente começara a cortar a relva do jardim; Gilda gostava do ruído monótono, mas familiar, que lhe chegava nitidamente aos ouvidos pela janela aberta. Evocava o vulto do velho criado com o grande chapéu de palha, os seus modos lentos, que faziam Miette, sua mulher, mais desembaraçada, dizer que se o marido andava devagar de manhã, não andava muito mais depressa à tarde.

Depois o ruído cessou e a voz de Prudente respondeu a outra, a de Patrício, que, provavelmente, acabava de almoçar. Por certo subiria a saber notícias de sua mulher e talvez para examinar o ferimento ou, pelo menos, fazer-lhe - como operada na véspera - embora a operação tivesse sido ligeira uma visita de médico.

Gilda sentou-se na cama, num gesto maquinal compôs os cabelos e tocou para chamar Madiana a fim de auxiliar o marido, no caso de ser preciso. Mas às palavras trocadas debaixo da sua janela, sucedeu-se logo o rodar do carro pelo jardim e, estupefacta, teve de render-se à evidência: Gramont saía, sem mesmo se ter informado do seu estado, como fazia com todos os doentes.

Para melhor se certificar da partida do marido, Gilda saltou da cama e correu à janela. O terreno ensaibrado que se estendia diante da casa estava vazio, vendo-se ainda a marca das rodas do carro.

Depois o olhar passou por cima do arvoredo e foi pousar um pouco mais longe, sobre a futura clínica em construção. Habitualmente, àquela hora, os operários já se encontravam a trabalhar, mas, naquela manhã, tudo estava calmo e silencioso. Nem mesmo o aprendiz a quem na véspera falara se encontrava ali e, involuntariamente, Gilda recordou as palavras que lhe ouvira.

Quando Madiana entrou no quarto, encontrava-se ainda perto da janela.

- O senhor doutor já saiu ? - interrogou. Depois da resposta afirmativa da criada, ficou hesitante, pensativa. Por fim, ordenou bruscamente:

- Auxilia-me a vestir, Na. Preciso de sair.

A criada começou por protestar. Autoritária e familiar e tendo visto nascer a patroa, nunca mais a abandonando desde o dia em que Gilda entrara em casa de Eduardo Heybrand, permitia-se admoestá-la e discutir-lhe as ordens.

Adorava Gilda com toda a sua alma e essa afeição era tão profunda, tão exclusiva e total que só podia comparar-se ao sentimento totalmente oposto que lhe inspirava Inês Arnaud: a mais intensa aversão.

Pode ser que no momento em que protestava contra o desejo de Gilda lhe tivesse ocorrido que a dama de companhia também não devia gostar da saída, o que a levou a mudar imediatamente de opinião. Deixando de se opor, começou a auxiliá-la a vestir-se. Ajoelhando a seus pés, calçou-a, como fazia noutros tempos à pequenita confiada aos seus cuidados, depois penteou carinhosamente os bastos cabelos negros, que apertou na nuca com um travessão.

Desde o instante em que tomara a resolução de sair, Gilda confinara-se no mutismo absoluto. Contudo, sorriu para Madiana quando esta a ajudou a vestir o casaco.

- Quando mademoiselle Arnaud perguntar por mim, dize-lhe que não esteja em cuidado.

No quarto de Inês o silêncio continuava e Gilda pensou que a amiga, tendo passado parte da noite em claro, preocupada com o seu estado, adormecera. Nesta ideia, vestiu-se e arranjou-se para sair, evitando fazer barulho. Quando acabou de se preparar, desceu a escada, atravessou o vestíbulo e saiu para o jardim.

Prudente abandonou o trabalho para vir ao seu encontro e, com o ridículo chapéu de palha na mão, respeitoso, perguntou-lhe, com evidente sinceridade, se estava melhor, E Gilda sentiu-se estranhamente comovida com essa simpatia, calma, segura, tão em harmonia com a velha casa, com o seu ambiente tranquilo, com a branda claridade que a envolvia...

Patrício havia deixado a porta da garagem aberta de par em par. Gilda sentou-se ao volante do Chrysler e embraiou. Quando passou diante de Prudente simulou não ver o seu ar assustado, mas ela própria perguntava de si para si se poderia conduzir apenas com uma das mãos. Felizmente, conhecia bem o carro, este obedecia-lhe na perfeição e o trajecto não era longo.

Gilda não conhecia a clínica onde trabalhava o marido. Sabia pouco mais ou menos onde ficava, mas nunca a visitara. Quando entrou no vestíbulo pouco iluminado, sentiu ligeira hesitação. O cheiro a éter sufocava-a. Todavia, essa hesitação foi breve. Avançou ao acaso e bateu na primeira porta que encontrou no corredor.

Escolhera bem. Para lá dessa porta cessou o ruído da máquina de escrever. Uma mulher de certa idade, trajando de preto, empurrou o batente, mas não fez um gesto para acolher a elegante visitante.

- O doutor não dá consulta esta manhã, madame.

- Eu sei. Sou madame Gramont e desejo falar com meu marido.

Gilda notou certa surpresa no semblante da senhora que a defrontava. Mas abriu a porta de par em par e afastou-se para a deixar entrar no gabinete de Patrício.

Era um aposento muito simples, mobilado com uma estante e secretária de carvalho encerado, esta carregada de cartas, revistas e brochuras; poltronas de cabedal e, ao fundo, diante de uma das janelas, uma mesa suportando a máquina de escrever onde a senhora que a recebera estava instalada.

Parecia perturbada com a imprevista visita; pediu a Gilda para se sentar numa das poltronas. Depois dirigiu-se para a máquina, não sem ter dito primeiro:

- Sou a secretária do doutor Gramont, minha senhora. Se puder ser-lhe útil em alguma coisa enquanto espera...

Gilda, que ainda estava de pé, inquiriu com a testa franzida:

- Espero o quê?

- Que venha o doutor Gramont.

- Agradeço-lhe, mas não deve demorar se tiver a bondade de ir avisá-lo imediatamente da minha presença.

- Lamento, mas é impossível. O doutor está a operar neste momento.

Embora visivelmente atrapalhada e desolada, a secretária falava sem uma hesitação. Como o telefone tocasse foi atender e, com o auscultador na mão, tomou diversas notas num bloco. Quando desligou o aparelho, Gilda perguntou em voz breve:

- Terei de esperar muito tempo?

- Suponho que não, madame. Esta manhã só estavam previstas duas intervenções. vou dizer lá para cima que avisem o senhor doutor quando a segunda terminar.

«Lá para cima» devia referir-se às imediações da sala de operações. A secretária abandonou a sala e Gilda, com ar aborrecido, aguardou o seu regresso.

Estava sozinha e o silêncio permitia que os rumores chegassem melhor até ali. Disciplinados, abafados, revelavam, no entanto, a vida da clínica, uma vida discreta, mas ardente, com tudo quanto comportava de luta perpétua contra o sofrimento e contra a morte.

Aproximou-se da secretária e relanceou a vista pelos papéis que a sobrecarregavam. Toda aquela desordem era impessoal, não evocava Patrício, mas apenas a falta de tempo de um homem cujas horas são úteis, ocupadas, todas dedicadas ao trabalho, cujos minutos são preciosos. O verdadeiro domínio de Gramont não era ali, naquele gabinete, onde, de manhã e à tarde, passava alguns instantes, mas sim nas enfermarias e sala de operações.

A secretária voltou, afirmando a Gilda que o médico seria avisado logo que fosse possível; depois de novo se sentou diante da máquina.

Gilda sentou-se por sua vez. Sentia-se fraca e tinha a impressão de que a febre lhe latejava nas veias. A mão ligada doía-lhe ligeiramente, mas nem por instantes pensou ter sido imprudente em sair de casa.

O tique-taque monótono da máquina como que a embalava, ruído interrompido por vezes pela campainha do telefone ou pela entrada de alguém. Paciente, a secretária abandonava a sua cadeira, ia atender ao aparelho ou abria a porta, respondia e depois recomeçava a trabalhar. Por duas vezes a resposta dada aos invisíveis interlocutores foi a mesma: a clínica estava cheia e via-se na impossibilidade de receber mais doentes. Naquela altura, nem mesmo os casos de urgência poderiam ser atendidos, por falta de lugar.

A manhã já ia adiantada quando Patrício apareceu. Envergava a bata branca, com as mangas arregaçadas até ao cotovelo e a cabeça coberta com o barrete indispensável às operações. Seria tensão nervosa provocada pela operação difícil que acabava de realizar? Mas no semblante trazia vestígios de fadiga e tinha aspecto sombrio. As pupilas azuis haviam perdido a sua doçura luminosa.

Quando o viu entrar, a secretária levantou-se. Mesmo antes de falar a sua mulher, Gramont indicou-lhe o telefone.

Madame Maubran, desligue o aparelho e leve-o para a sala de espera do primeiro andar, onde atenderá as comunicações.

Só depois da secretária sair se voltou para Gilda.

- Como vieste até aqui ? - perguntou com desusada rudeza.

- No automóvel, naturalmente.

- Quem conduzia ? -Eu.

Embora não contasse com acolhimento caloroso, tanto o tom como a atitude do marido lhe provocaram espanto. Todavia, não o deu a perceber. Instalada na poltrona, aos olhos de Gramont apresentava uma atitude impassível.

- Sabes que em minha opinião cometeste uma imprudência?

- Como poderia sabê-lo e quem mo diria ?

- O teu bom senso.

- Quando se está doente ou ferido, o bom senso leva-nos a procurar os cuidados precisos onde podemos encontrá-los.

Patrício, que dera alguns passos para a secretária, voltou-se às primeiras palavras de sua mulher e ergueu a cabeça com uma espécie de violência.

- Cuidados ? Só de ti dependia recebê-los esta manhã, antes de eu sair. Mas quando me apresentei à porta do teu quarto para te ver, mademoiselle Arnaud, com quem cruzei no corredor, disse-me que estavas a dormir e afirmou ser preferível não te incomodar. Interpretei estas palavras como uma ordem dada por ti e não insisti.

Sem notar o espanto reflectido no semblante de sua mulher, passou por trás da secretária, à qual apoiou as mãos, fazendo face à sua interlocutora.

- É a primeira vez, em toda a minha carreira, que uma censura desse género me é dirigida - comentou com amargura.

E, encolhendo os ombros, concluiu:

- Mas isso não tem importância. Podes estar tranquila, Gilda. Se o teu caso fosse grave ou, pelo menos, exigisse os cuidados que me acusas de ter esquecido, nem mademoiselle Arnaud nem tu própria conseguiriam evitar que tos desse. Unicamente, e isso é preciso que o saibas, um ferimento suturado deve conservar-se alguns dias sem ser examinado ou tocado, salvo se o doente se expuser ao perigo de o reabrir. Se te visitasse esta manhã, seria mais por cortesia do que como médico.

Calou-se um momento, sem deixar de fitar sua mulher e concluiu sem cólera:

- Nunca conheci, em toda a minha vida, uma pessoa cujo orgulho se aproximasse do teu!

Gilda quase não escutou o comentário. Pensava que a indiferença, a negligência que tanto a haviam ofendido, não passavam de simples aparência. Tinham sido originadas pela demasiada solicitude de Inês. Pobre Inês, que velava por ela com tanta ternura ! Não lhe revelaria como essa solicitude fora mal interpretada por Gramont.

Calado, de pé, Patrício parecia aguardar que sua mulher se retirasse. Após prolongado silêncio, declarou : - vou ordenar que te conduzam a casa, Gilda. Não deves cometer duas vezes o mesmo erro.

Dispunha-se a sair quando ela o deteve:

- Não te preocupes comigo. Quando chegar a altura de me retirar, voltarei para casa sozinha, sem que por isso corra maior perigo ou me fatigue mais do que quando vim aqui.

Um franzir de testa traduziu a impaciência do médico.

- Quando chegar a altura ? Julgo não ser este o momento mais indicado para te demorares. Deves recolher a casa. De resto - prosseguiu, consultando o relógio - o meu trabalho desta manhã ainda não terminou. Talvez nem vá almoçar.

Gilda, com um sorriso irónico, ergueu a mão válida.

- Mais uma razão para eu ficar. Visto não ser fácil poder falar-te aqui, desejo aproveitar esta ocasião... rara, se não excepcional.

Gramont teve a impressão de que a voz de sua mulher traduzia ligeira amargura. Resignado, puxou a cadeira da secretária e sentou-se.

- Desculpa-me. Supus que tivesses vindo apenas para me censurar e recordar-me que faltei a todos os meus deveres de médico.

Escolheu um cigarro na caixa que tinha diante dele, depois de a ter oferecido a Gilda, que a recusou. Enquanto ele o acendia, Gilda examinava o homem diferente que tinha diante dela, envergando a bata branca e com aspecto grave e ainda mais severo do que o de costume.

Como ela não se resolvesse a falar, foi Gramont quem perguntou:

- Então que desejas dizer-me, Gilda?

Não teve tempo para lhe responder, interrompida por ligeiras pancadas na porta, que se abriu para dar passagem à enfermeira. Detendo-se no limiar, Mónica desculpou-se:

- Perdão, doutor. Vinha perguntar-lhe se devemos esperar por si para o 7. As sondas são ineficazes.

- Verei isso daqui a pouco.

- Antes de se ir embora?

- Não vou a casa. Avise na cozinha que almoço aqui.

- Muito bem, doutor. Deseja que telefone para sua casa ?

- Não, obrigada. Madame Gramont já está avisada.

A enfermeira não reconheceu Gilda, sentada de costas para a porta e quase inteiramente oculta pelo espaldar da poltrona. Retirou-se depois de ter cumprimentado, como usava.

Os seus passos afastaram-se pelo corredor e, ao mesmo tempo, outros soaram no primeiro andar: um carro rodou, os degraus da escada rangeram. Todos estes ruídos, já ouvidos, e que Gilda considerou insignificantes, quase imperceptíveis, chamaram a atenção do médico. Um instante distraído, escutou-os com ar descontente.

- Felizmente, o isolamento da nova clínica será total - murmurou.

Falava como se o fizesse só para si. Depois, voltou-se para sua mulher, aguardando a resposta que a entrada da enfermeira interrompera.

- Será, de facto, possível a insonorização total?

- com certeza. Quando estiver concluída, de um quarto para outro não passará o mais pequeno ruído e o doente desfrutará um silêncio e isolamento absolutos.

Calou-se um instante e, por fim, um pouco impaciente, interrogou:

- Vieste, então, Gilda?...

- Para te falar da nova clínica, precisamente.

- A que respeito? - inquiriu Gramont, com ligeiro espanto.

- Sobre a interrupção dos trabalhos.

- Estás ao facto ?

- Seria difícil ignorá-lo. Da janela do meu quarto vejo a obra e, para mais, falei ontem com um dos operários, que me revelou existir desacordo com o empreiteiro. Mas, segundo a sua opinião, esse desacordo estaria solucionado hoje e os trabalhos recomeçariam. Ora esta manhã notei que tudo continuava parado como na véspera e foi por isso que decidi vir aqui.

Falava com calma, devagar, com a bela voz grave e harmoniosa que transformava a frase mais simples numa melodia. Gramont escutava-a com ar distraído, fixando a ponta esbraseada do cigarro. Quando Gilda se calou, os lábios entreabriram-se-Ihe com estranho sorriso.

- Compreendo! Vieste como comanditária. com efeito, tens direito a todas as explicações.

Gilda franziu ligeiramente a testa, mas não interrompeu o marido, que continuou:

- Disseram-te a verdade. Estou em conflito com o empreiteiro por uma razão muito simples. Não quer respeitar o contrato e avisou-me de que o preço de certos trabalhos aumentou.

- Foi só por isso ?

- Por «isso», exactamente. «Isso» representa uma centena de milhares de francos.

- Que importância tem ?

- Importa-me não me endividar por forma estúpida e abusiva.

Desta vez foi a expressão de Gilda que traduziu o mais profundo espanto.

- Endividar-te ? Como é isso possível ? O empreiteiro será pago quando quiser. Precisa de um adiantamento suplementar ? É só dizê-lo. Não discutas tão ínfimos pormenores. Se os operários forem mandados para outra obra, arriscas-te a perdê-los por muito tempo.

Enquanto sua mulher falava, o mesmo sorriso reapareceu nos lábios de Patrício. Sacudiu a cinza do cigarro numa concha de madre-pérola que estava em cima da secretária e disse :

- Não nos compreendemos, Gilda. A minha credora és tu.

-Eu!

- com certeza. Conto reembolsar-te das somas avultadas que me permitem concluir as obras.

Profundo silêncio acolheu esta declaração. Só decorridos alguns segundos, Gilda lhe respondeu.

- Isso para mim constitui novidade e... é inesperado. Posso perguntar-te desde quando tomaste essa estranha decisão ?

- Foi sempre essa a minha maneira de pensar, Gilda.

- Lamento não poder acreditar-te - replicou ela com voz glacial -Se antes de nos casarmos decidiste considerar-te meu devedor, o nosso casamento foi inútil.

Patrício cerrou os dentes.

- com efeito, foi um erro-concordou com dureza - um erro que deves ter notado tanto como eu.

Ao falar como falava, Gilda esquecia provavelmente ter sido ela quem havia feito a proposta a Patrício. Esquecia também que se ele não a tivesse aceitado, a continuação da futura clínica pouco lhe importava.

Estremeceu ligeiramente. Pela primeira vez, Patrício desvendava o seu pensamento. Pela primeira vez, confessava que lhe pesava a presença de Gilda na sua vida.

Levantou a cabeça com altivez e suportou sem pestanejar o olhar sombrio do marido. Depois, com ar desprendido, declarou:

- Perdoa-me, Patrício, mas este casamento teve para mim tão pouca importância que não me passou pela cabeça lamentá-lo. No entanto, podes estar descansado. A minha passagem pela tua casa não será prolongada. O tempo conveniente para salvaguardar as aparências depressa passará e o Désirade partirá, levando-me. Durante muitos meses cada um de nós recuperará a sua liberdade...

- Essa liberdade que pagaste por tão grande preço - comentou o médico com ironia.

Uma onda de sangue tingiu as faces de Gilda.

Naquele instante compreendeu que o marido não acreditara no motivo que dera para explicar o seu estranho procedimento. Numa voz que tentou tornar firme, assentiu:

- Sim, para mim, ao casar contigo, tratava-se de a alcançar. Para ti, porém, talvez de muito mais.

Levantou-se, mas o médico não deu por isso. Esmagando o cigarro no cinzeiro, concordou, pensativo :

- De muito mais, com efeito. Os profanos não podem compreender o que representa para um cirurgião a perfeição de um instrumento, do ambiente em que trabalha, de uma organização. Orgulho, pensarão, ridícula vaidade de operar em salas brilhantes, dotadas com aparelhos importantes e modernos... Desejo de comodidade, de simplificação de trabalho, maiores probabilidades de êxito... Sim, talvez haja um pouco de tudo isso. Também podem salvar-se vidas na mais modesta instalação de campanha, nos hospitais sumariamente aparelhados sob as tendas, no mato, longe de todos os socorros. Mas, infelizmente, não se pode salvar todas as vidas. Enquanto que, se as disputarmos à morte num terreno apropriado, rodeados de todas as garantias que oferecem os mais modernos aperfeiçoamentos, do que há de melhor e de mais perfeito na técnica ao serviço da cirurgia, suponho não existir um só médico no mundo, um médico digno desse nome, que para o obter não sacrifique, não venda uma parte da sua vida.

Calou-se bruscamente. A profissão de fé brotou involuntariamente, como uma espécie de justificação e talvez nem sequer tivesse tido consciência do que dizia senão depois de proferidas as últimas palavras.

Passou a mão pela testa, ergueu os olhos para Gilda e, notando que ela estava de pé, abandonou a secretária e aproximou-se.

- Desejas regressar a casa, Gilda? Espera um instante, vou ordenar que te reconduzam.

com vivacidade, a doente protestou e Patrício teve de lutar contra a irritação causada pela recusa. Depois, num gesto brusco, pegou na mão ligada e examinou-a. Estava tudo em ordem e o ferimento não devia ter reaberto, visto as ligaduras não estarem manchadas de sangue. com modos mais brandos, largou-lhe a mão e murmurou :

- Está bem. Procede como entenderes. Contudo, aviso-te de que podes ter ligeira subida de febre, esta noite. Deita-te cedo e toma um suporífico leve, passitlorina, por exemplo.

- Obrigada. Não deixarei de o fazer. Quando atingiu a porta, voltou-se:

- Irás jantar ?

- Não sei, talvez.

Então Gilda fechou a porta, atravessou rapidamente o corredor e encontrou-se na rua.

Aspirou profundamente o ar fresco, que ainda lhe parecia mais leve depois da atmosfera pesada da clínica. E quando o Chrysler começou a andar, silencioso e rápido, o movimento causou-lhe verdadeiro prazer.

De propósito, passou pelo cais e, sem parar, apenas abrandou a velocidade e olhou demoradamente o Désirade. O casco de mogno brilhava docemente. O cordame desenhava-se no céu, delicado e resistente, ao mesmo tempo. Mais desafogado e livre dos outros iates, em menor número do que em pleno Verão, ainda parecia mais belo. com a aproximação dos temporais do equinócio, os barcos de recreio haviam quase todos regressado ao porto de matrícula e Gilda pensou que um dia também o seu partiria, que veria a costa esbater-se e desaparecer, sentiria nas faces a rude carícia do vento do mar alto, que respiraria melhor ainda do que naquele momento o ar puro, embriagador, a atmosfera da partida e da liberdade.

Devagar, seguiu pela Croisette. Os estabelecimentos, palaces, as grandes agências ofereciam o aspecto calmo das estações mortas. Do lado oposto, o mar cor de violeta, encrespado por uma brisa ligeira, baloiçava-se numa ondulação larga, estriada de prata.

com pesar, decidiu regressar a casa. Tomou pelo boulevard Alexandre in, alcançou a rua de Antibes, enganou-se e perdeu algum tempo para virar à esquerda. O relógio do carro marcava onze horas quando, depois desta volta inútil, passou diante do posto do correio. Bruscamente, travou e parou. Um vulto que logo reconheceu transpunha nesse momento a porta do edifício e, embora àquela hora e naquele ponto o movimento fosse grande, Gilda estava certa de não se ter enganado. E, paciente, aguardou a saída de Inês, sorrindo ao prever as censuras severas que a amiga não deixaria de dirigir-lhe.

Mademoiselle Arnaud demorou-se bastante tempo, ou, pelo menos, Gilda, que não olhou bem para o relógio, teve essa impressão. Quando o vestido azul-pervinca surgiu de novo à porta, que não deixara de fixar, ergueu a mão válida e chamou Inês.

A dama de companhia reconheceu logo o carro e a sua condutora e teve uma espécie de recuo. Mas, dominando-se rapidamente, aproximou-se do automóvel, abriu a porta e, sem uma palavra, sentou-se ao lado da amiga.

- Que fazias ali, Inês ? Receei não poder esperar por ti, tão grande foi a demora. Creio ter infringido todos os regulamentos de circulação e estacionamento de carros.

O Chrysler corria de novo e Gilda voltou a cabeça para Inês. Encontrou um olhar severo, traduzindo o maior descontentamento.

- E tu? - murmurou a dama de companhia, respondendo a uma interrogação com outra interrogação - Como te encontras aqui ao volante do carro com a tua mão ferida ? Porque saíste, onde foste?

Gilda não se ofendeu com as palavras nem com o tom. Pelo contrário, as feições contrairam-se-lhe com leve emoção.

- Falas-me como tua mãe me falava quando eu era pequena e fazia alguma tolice.

- Talvez porque as circunstâncias são idênticas.

- Pode ser. Mas eu já não sou criança e sei o que faço.

O tom não foi duro nem agressivo. No entanto, Inês empalideceu e calou-se.

Voltando-se ligeiramente, Gilda notou a passageira alteração e acrescentou, pesarosa:

- Não quis magoar-te, Inês. Chegámos.

Juntas, entraram em casa, atravessaram o vestíbulo e subiram a escada para o primeiro andar. Ouvindo o ruído dos passos, Madiana apareceu no corredor. Gilda disse-lhe para ir tirar o talher do médico e avisar Miette de que podia servir o almoço daí a um quarto de hora. Depois abriu a porta do quarto.

- Entra um bocadinho, Inês.

A dama de companhia obedeceu.

- Desculpa, querida - pediu Gilda, estendendo-lhe a mão num gesto afectuoso - Sou ingrata para a tua dedicação e pela noite sem dormir, que, estou certa, passaste junto de mim. Dormi muito mal ?

E pensava na quase intimação feita a Patrício para não a acordar.

- Não muito bem, com efeito. Quanto à minha insónia, não importância. Tem mais importância a tua imprudência de hoje. Se eu soubesse ao menos a que propósito...

A fisionomia de mademoiselle Arnaud recupera a expressão natural. Voltando-se para Gilda, observou-a com inquieta atenção, como se desejasse certificar-se se a imprudência, como lhe chamava, não a prejudicara.

- Não estava cansada e resolvi sair - explicou Gilda - De resto, não fui muito longe. Fui à clínica falar com meu marido.

- Não podias aguardar a hora do almoço?

- Patrício não vem almoçar e volta tarde.

Entretanto, ia despindo o casaco. Inês apressou-se a auxiliá-la, apoderando-se do abafo, que foi pôr em cima de uma cadeira. Todos estes gestos foram executados em silêncio, cada uma delas entregue às suas reflexões.

Parada diante do espelho Luís XV que encimava o fogão, Gilda compunha os cabelos que o vento desarranjara. Mais uma vez, mademoiselle Arnaud a auxiliou, levantou as madeixas rebeldes e tirou o travessão para que os cabelos caíssem à vontade, Quando acabou, a amiga voltou-se para ela:

- Estranha vida, não achas, Inês!

Eram as primeiras palavras que proferia depois de ter dado a conhecer a nova ausência de Patrício e podia depreender-se que, se não se referiam apenas ao médico, haviam sido inspiradas pelo seu procedimento.

- Estranha vida, sim -concordou Inês - Muito diferente da que foi a tua até casares! Mas o teu marido tem tanto que fazer!

- Que foi a nossa, podes dizer - emendou Gilda, que parecia ter escutado apenas a primeira parte da frase.

Depois, pegando mais uma vez na mão da amiga, concluiu:

- Não podes calcular quantas vezes me censuro pelo egoísmo que me leva a prender-te junto de mim e pelo sacrifício constante que te exijo.

Um sorriso entreabriu os lábios da dama de companhia, sem contudo iluminar as pupilas doiradas.

- Não fales em sacrifício, Gilda. A tua companhia compensa todos os meus aborrecimentos.

- Eu sei. No entanto, muitas vezes pergunto a mim mesma se tenho o direito de te prender.

Calou-se um instante para logo prosseguir com a voz trémula de emoção:

- Não, Inês, não tenho o direito de prender a tua vida, a tua dedicação e sinto-me cobarde por não te restituir a liberdade. Até hoje tem-me faltado a coragem de te dizer para regressares à nossa ilha e aí aguardares o meu regresso. Além disso, pensava que tudo fosse mais simples, mais rápido. .. Mas, para ti, já chega esta vida aborrecida. Abandona-me e parte. Quando puder, irei ter contigo.

E abandonou a mão de Inês, que recusou, fazendo-se muito pálida.

- Desejas, de facto, o que me propões ? - inquiriu em voz trémula.

Gilda fixou-a ardentemente, sem lhe responder. Depois, os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. A atitude de Inês não equivalia à mais categórica recusa ?

- Não, não o desejo. Tal como tu. Já sabia que ias responder-me dessa forma.

Durante alguns instantes, Inês conservou-se de olhos baixos, ocultando com as pálpebras a cintilação das pupilas doiradas. Quando voltou a erguê-las já recuperara a expressão habitual.

- Não falemos mais no assunto, Gilda, pelo menos, no que me diz respeito. Todavia, o que sofres e temes, pensando na vida sem interesse que é a nossa, também eu o temo, sofro e lamento por ti. Cabe-me agora a vez de perguntar: porque persistes em ficar aqui se coisa alguma te prende?

Enquanto a amiga falava, Gilda começara a passear de um lado para o outro, pelo quarto. As palavras de Inês, a pergunta, não lhe causavam espanto. Não obstante a intimidade que as unia, Inês pouco sabia a respeito do seu casamento, apenas aquilo que ela, Gilda, desejara que ela soubesse. Sem protestos, aceitara a mudança total de vida, e a constante dedicação, a ausência de curiosidade, maior valor davam â sua amizade.

- Porque fico?... Porque, apesar de tudo, sou madame Gramont.

Breve silêncio se seguiu a esta declaração. Depois foi mademoiselle Arnaud quem falou : - com efeito, és madame Gramont, mas conheço-te o bastante para saber que entre ti e o doutor não existe comunhão de sentimentos e de gostos, o mais pequeno terreno onde se encontrem, a menor afinidade. Patrício Gramont deve-te o ter feito um casamento brilhante e rico. Sem dúvida, era tudo quanto desejava. Quanto à tua presença, receio muito que lhe seja indiferente. Se não fosse assim, passaria ele os dias na clínica, multiplicaria as ocasiões para permanecer fora de casa, separaria ele, por forma tão absoluta, a sua vida da tua?... Sabes isto tão bem como eu, Gilda, e se o digo é por ter a certeza de que não te sentirás humilhada nem sofrerás com as minhas palavras. E, principalmente, para te incitar a partir.

Gilda não interrompera o passeio enquanto a amiga falava. E, enquanto as palavras caíam uma a uma no mais profundo silêncio, parecia-lhe ouvir outra voz que, na véspera, empregara os mesmos argumentos e com idêntica insistência. Não se encolerizou, mas sentiu-se profundamente desanimada.

- Havemos de partir, Inês, não duvides. Retomaremos a nossa vida livre, rica, cheia de imprevisto e de horizontes sempre diferentes que tanto apreciamos. Voltaremos às nossas bem-amadas ilhas, onde ficaremos muito tempo, prometo-te. Mas... mais tarde. Seja qual for o procedimento de Patrício Gramont e a sua maneira de organizar a sua vida sem contar comigo, não merece que sua mulher o abandone tão pouco tempo depois do casamento. A sua situação e o seu nome poderiam sofrer. E como a maior parte da responsabilidade nesta aventura me cabe a mim, não quero infligir-lhe essa afronta. Daqui a alguns meses tudo será diferente e ninguém poderá admirar-se se a minha fantasia e espírito caprichoso me obrigarem a partir. Nessa altura poderemos então erguer voo. Esperemos pela Primavera.

Quando acabou de falar, Gilda levantou a cabeça, mas demasiado tarde para captar o terrível olhar que a envolveu. Tentando sorrir, insistiu:

- Ficas mal disposta?

- Não - respondeu mademoiselle Arnaud com imperceptível esforço.

E quase logo acrescentou :

- Só te censuro por uma coisa, Gilda, por aceitares o aborrecimento, a mediocridade das horas que ainda teremos de passar nesta casa como inevitável provação, por deixares a tua saúde alterar-se, afastando-te de todas as distracções. Numa palavra, por te resignares a viver como reclusa, sem entusiasmo, apática.

Calou-se um instante e, de repente, como se lhe tivesse ocorrido súbita ideia, propôs:

- Porque não saímos esta noite, Gilda? Conheço um cabaret recentemente inaugurado que apresenta, segundo dizem, atracções interessantes...

- Estás bem informada sobre os divertimentos de Cannes - observou Gilda, sorrindo.

Inês corou ligeiramente.

- Divertimentos que não têm coisa alguma de secreto, visto todos os jornais da terra os anunciarem. Então está combinado?

- Pois sim. Confesso que envergarei com prazer um vestido de noite. É pena a ligadura ser tão deselegante.

- Dissimulá-la-emos o melhor possível - afirmou Inês, que havia esquecido por completo o ferimento da amiga - Vamos almoçar, então. Parece-me que o quarto de hora fixado a Miette já passou há muito tempo.

Abriu a porta e as duas dirigiram-se à sala de jantar. Quando desciam a escada, Gilda recordou-se de que Inês não chegara a dizer-lhe porque tinha ido ao Correio. Mas considerou o facto sem importância e não voltou a falar-lhe no assunto.

 

Depois de se preparar, enquanto Madiana arranjava o quarto, Gilda foi encostar-se à janela. Seriam nove horas e havia muito que anoitecera. Não se via o mar e a linha da costa esbatera-se na sombra. Só os múltiplos pontos luminosos indicavam o seu contorno como faróis de vida e movimento em volta dos quais evolucionavam os homens.

Na estrada passavam automóveis. A cada um deles, Gilda prestava ouvido atento, porque Gramont ainda não regressara e as duas tinham jantado sem esperar pelo seu regresso. No entanto, não lhe desagradava que o marido a encontrasse já vestida e reconhecesse a pouca importância dada, tanto à sua presença como à sua ausência.

Tinha chovido e da terra subia ligeira humidade, um perfume fresco, misto do cheiro da terra molhada e de folhas mortas. Terminado o forte aguaceiro, o jardim ficara silencioso e calmo. Nem o mais pequeno sopro da brisa agitava as pimenteiras e os loureiros-rosa ou fazia gemer os ramos dos grandes agaves. A pequena fonte, situada no fim do jardim, estava muito longe para que o seu doce murmúrio pudesse chegar até ali. Durante alguns instantes, um passo pesado perturbou a calma nocturna e depois afastou-se. Como todas as noites, Prudente fazia a sua ronda de vigilância em volta da casa. Em seguida, pacatamente, não obstante a hora pouco avançada, as portas da casa foram fechadas e o serão começou.

Gilda voltou-se tão bruscamente que Madiana assustou-se.

- Aconteceu alguma coisa, minha filha ? - murmurou num misto de censura e inquietação.

-Não, minha boa Na. Simplesmente, estou alegre por me arrancar a este torpor e sair. Que me falta?

- As jóias, minha pomba.

- Tens razão, dá-me as pérolas. Não, espera... Reflectiu um instante e depois aproximou-se do

espelho e contemplou a sua imagem, talvez para escolher o que melhor lhe ficaria.

Se naquele momento Patrício pudesse vê-la, por certo encontraria de novo a desconhecida maravilhosamente linda e um pouco misteriosa que vira a bordo do iate. Não envergava um vestido branco, como nessa noite, mas, pelo contrário, um todo preto, com a ampla saia de tule e o corpo de veludo cingido ao busto, deixando-lhe os ombros a descoberto. Os cabelos negros com reflexos azulados estavam apertados num rolo pesado que sobressaía sobre a nuca muito branca. Calçara luvas altas, até ao cotovelo e a mão direita, descoberta, passava pela abertura da luva; a ligadura, dessa forma, ficava um pouco encoberta.

Imóvel, atrás da patroa, Madiana aguardava.

- Dá-me as minhas esmeraldas, Na.

- As mais belas ? - interrogou a criada - As que levou ao baile, em Veneza?

- Exactamente.

Quando a criada se encaminhava para o cofre, colocado em cima do toucador, Inês entrou no quarto. Moldava-lhe o corpo um elegante vestido de cetim cinzento, sóbrio e discreto, que, como sempre, a colocava no lugar que devia ocupar: uma amiga que, dedicada e sensata, de boa vontade deixava o primeiro lugar à beleza e elegância de Gilda.

Auxiliou Madiana a colocar no pescoço, no pulso esquerdo e nas orelhas o magnífico adereço de esmeraldas rodeadas de brilhantes que esta havia escolhido. Depois envolveu-lhe os ombros numa capa de raposas prateadas, que encobria o vestido quase até,à fímbria da saia. Mostrava-se ainda mais contente com o passeio do que Gilda, mas esta sabia que, desta vez, como sempre, era menos por si própria do que por ela, Gilda, que Inês se alegrava.

Quando as duas entraram na sala, quase todas as mesas, encostadas às paredes, decoradas com pinturas exóticas, ou dispostas em volta das colunas, simulando enormes palmeiras, estavam já ocupadas. Uma orquestra feminina tocava em surdina uma música banal que embalava o rumor das conversas. Ao centro da sala, a pista, onde os bailarinos deviam executar o seu número, estava erma.

A brusca passagem da obscuridade exterior para a brilhante claridade derramada pelos lustres cegou Gilda, que semi-cerrou as pálpebras. Durante todo o trajecto se sentira extremamente abatida e no carro descoberto, apesar da capa de peles, humidade e temperatura já fria, tivera constantes arrepios.

O chefe de mesa encaminhou-as para uma das mesas vagas, mas imediatamente um criado veio murmurar-lhe algumas palavras ao ouvido. O zelo profissional manifestado foi substituído por uma expressão de profunda contrariedade. Voltando-se para Gilda, desculpou-se:

- Estou desolado, madame. Não compreendo como isto aconteceu. A mesa que lhe reservei, já estava tomada.

Foi Inês quem respondeu:

- Semelhante erro é indesculpável - observou friamente - Reservei a mesa pelo telefone e conto ocupá-la.

- Eu sei, mademoiselle, e volto a apresentar-lhes todas as minhas desculpas. A afluência que tivemos esta noite explica a confusão, um erro que nunca se deu. Aquele senhor acaba de se instalar e talvez não se importe de...

Dirigindo-se a um dos criados, depois de ter relanceado a vista pela sala, perguntou:

- Temos ainda alguma mesa vaga, Afonso? Uma mesa bem colocada? Não... Nem mesmo perto da porta?

Como se não se preocupasse com a atrapalhação do chefe de mesa e com as suas palavras, Inês encaminhou-se para o ponto onde se encontravam os lugares que mandara reservar. Aborrecida de antemão com o contacto obrigado com o possessor ilegítimo da tão falada mesa, Gilda seguiu-a.

De súbito, a dama de companhia deteve-se, fazendo um gesto de surpresa:

- Bondade divina, José! Foste tu quem nos roubou o lugar?

Gilda estremeceu violentamente, olhando para o homem que até ali se mantivera meio oculto com o pilar e acabava de levantar-se. Num gesto involuntário, estendeu a mão como para deter a amiga, mas logo a deixou cair. Não seria natural que a dama de companhia, ignorando o que se passara entre ela e José naqueles últimos dois meses, manifestasse a sua alegria ao encontrá-lo ?

Se estivesse menos perturbada, não deixaria de achar estranha a coincidência que levara José precisamente àquela sala e para aquela mesa. Também não teria deixado de pensar que a atitude do rapaz, na véspera, à tarde, na altura precisa em que Inês entrara na sala e a sua rápida partida, poderiam ter sido classificadas como pouco naturais pela dama de companhia. Mas o tempo escasseava para reflexões e para tomar resolução diferente daquela que tomou. Seguindo mademoiselle Arnaud, parou diante da mesa de Montresa, que, de pé, muito pálido, as cumprimentava, e estendeu-lhe a mão.

Radiante com a feliz solução, o chefe de mesa arrastou rapidamente duas cadeiras e, solícito, atendeu as duas novas clientes. Inês e José conversavam, mas as palavras trocadas por ambos chegavam aos ouvidos de Gilda indistintas, abafadas, como se fossem proferidas a grande distância. A certa altura, porém, viu-se forçada a responder ao rapaz e fê-lo com tanta calma, com olhar tão indiferente que ninguém poderia adivinhar que aqueles dois entes não se encontravam naquela noite pela primeira vez.

Conquanto nem todos os que se encontravam na sala se vestissem a rigor, José envergara um smoking e, com esse trajo, a sua elegância era perfeita. Os olhos e os cabelos negros emprestavam-lhe nova sedução e o seu perfil de medalha parecia ainda mais belo.

Se desejassem chamar as atenções, os três poderiam considerar-se satisfeitos. A sua reunião oferecia um desses espectáculos completos, absolutos na beleza e harmonia, que o destino, por vezes, se compraz em realizar por forma imprevista.

Involuntariamente, José procurou com a vista a mão ligada, mas Gilda deixara-a caída no regaço, ocultando-a com as amplas pregas da saia de tule. Mesmo assim, perguntou, hesitante:

- Está melhor, Gilda? Espero que o acidente não tenha sido grave.

- Por forma alguma, pode estar sossegado tranquilizou ela - Foi tão insignificante como estúpido.

José não ficou muito convencido. Demoradamente, observou-a. O semblante de Gilda, apesar da leve pintura, pareceu-lhe transtornado. O exame incomodou-a. Olhando-o bem a direito, perguntou :

- Não me acredita?

- Acredito - afirmou José - Gostaria também de poder acreditar - acrescentou em voz surda que me perdoou.

Gilda ergueu a cabeça com altivez, fazendo cintilar os brincos magníficos que lhe pendiam das orelhas.

- Perdoar o quê ?

- A... minha responsabilidade no... nesse...

- Deplorável incidente ? - concluiu Gilda - A responsabilidade foi unicamente minha.

Calou-se. O chefe de mesa aproximou-se com a lista na mão. Gilda escolheu um champanhe seco, da melhor marca. Enquanto o criado dispôs as taças e trouxe o balde de gelo com a garrafa que desrolhou, a conversa foi suspensa. Depois encheram as taças e beberam em silêncio. O champanhe correspondia à marca. Pelo contrário, as variedades eram banais. No entanto, Inês mostrou-se muito interessada.

Esse interesse bastava para revelar quanto mademoiselle Arnaud, desde que o Désirade se encontrava amarrado ao cais, achava aborrecido o ambiente em que vivia e como aproveitava com alegria a mais simples distracção. No tempo não muito afastado em que ela e Gilda, a bordo do iate, corriam mundo, também as semanas seguidas passadas entre céu e mar poderiam parecer aborrecidas, sem imprevisto, monótonas. De um porto a outro, decorria por vezes muito tempo, mas quando os atingiam tudo era diferente; conquanto que, para a banalidade daquela vida aborrecida e sem imprevisto, não surgia a esperança de uma compensação.

Em Veneza haviam assistido ambas a sumptuoso baile de máscaras, no palácio de autêntico descendente dos doges. Em Palermo, um dos seus compatriotas tentara prendê-las durante algum tempo, multiplicando no seu palácio na «Conque d'or» as festas e divertimentos. Em Cádis, um dos mais célebres toureiros recebera-as principescamente. E por toda a parte, em Xangai, Alexandria, Tânger, Filadélfia e Estocolmo as portas se abriam diante de Gilda Haybrand, uma das mais ricas herdeiras das Antilhas.

Nem sempre agradava a Gilda transpor essas portas, mas, de vez em quando, fazia-o e essas poucas vezes mais flagrante tornava o contraste com a vida presente.

Estes pensamentos atravessaram o cérebro da própria Gilda.

Quanto a Inês, colocada num dos extremos da mesa, enquanto Gilda e José ficavam um pouco mais afastados, não desviava a atenção do número exibido. Parecia ignorar os companheiros como se não existissem de facto, a ponto de Gilda se convencer de que não escutava uma só das palavras que ambos trocavam.

A meia voz, Montresa prosseguiu:

- Abençoo o acaso que nos reuniu aqui esta noite, pois reconheço que, de futuro, não posso voltar a apresentar-me em sua casa.

- Já o devia ter reconhecido desde o nosso primeiro encontro a bordo do Désirade - replicou Gilda - Depois da conversa que tivemos nessa noite, nada mais havia a dizer entre nós.

- Engana-se. Havia muito mais e ainda há. Não sob o ponto de vista sentimental - apressou-se a acrescentar, vendo a ruga que, subitamente, se cavara entre as sobrancelhas de Gilda - O nosso amor pertence ao passado, visto assim o querer...

Ligeira gargalhada fugiu dos lábios de Gilda e, caso estranho, fez estremecer mademoiselle Arnaud, embora esta parecesse completamente absorvida pelo espectáculo. Mas Gilda não deu por isso.

- Efectivamente, assim o desejo, e sinto-me encantada porque, finalmente, o José o compreendeu. Não acha, porém, que a palavra Amor é classificação demasiada para o idílio pateta, inevitável e clássico entre dois adolescentes que vivem junto um do outro ?

José não lhe respondeu e durante alguns minutos só a música preencheu o silêncio que os separou, uma música barulhenta e rápida. Na pista um dançarino volteava como um peão, suspendendo pelos braços o par, cujos véus vermelhos esvoaçavam como borboletas tontas.

Quando se imobilizou e poisou a bailarina, soaram aplausos. José pegou na garrafa e encheu as três taças. Ele e Gilda beberam alguns golos enquanto mademoiselle Arnaud parecia não ter notado que havia sido servida. Ao par de bailarinos sucederam-se russos com blusões de seda bordada, calças de seda tufadas sobre as botas altas e brilhantes. Os seus saltos, com as pernas cruzadas quase rente ao chão, eram admiráveis. Inês, com as costas completamente voltadas para os companheiros, só tinha olhos para eles, enquanto José, elevando um pouco a voz para cobrir o ritmo ardente das czardas, interrogou:

- Recorda-se do que ontem lhe revelei, Gilda?

- Creio que sim, pouco mais ou menos.

- E já reflectiu ?

- Absolutamente nada.

- Pois devia tê-lo feito; falei a sério, acredite.

- Calculo. Porém, eu não o escutei da mesma maneira.

- Fez mal. Que deverei dizer para a convencer ?

- Não procure, porque não encontra.

Um lampejo de cólera perpassou pelas pupilas do rapaz, que, no entanto, se esforçou por dar uma inflexão triste à voz, quando afirmou:

- Custa-me intentar uma acção para restituição da herança, sem que a Gilda esteja avisada e, principalmente, apreenda bem o que isso significa.

Gilda encolheu os ombros.

- É muito amável em se preocupar comigo. Mas, como o fez, pode ficar em paz com a sua consciência.

Montresa devia ter pressentido a ironia do tom, qualquer coisa de provocante, porque corou.

Voltada para os bailarinos, que cruzavam e descruzavam as pernas com inacreditável agilidade, Gilda não o notou, como não notara também o estremecimento de Inês. Nem viu também José tirar a carteira da algibeira interior do smoking e procurar nela alguma coisa. A voz ardente do rapaz chamou-a de novo ao assunto.

- vou satisfazer a sua incredulidade, Gilda! Este papel nunca me abandona. Veja.

Estendendo a mão sobre a mesa, mostrou-lhe um documento que, ao primeiro olhar, Gilda reconheceu.

com o coração palpitante, mas aparentemente indiferente e até trocista, curvou-se. Não podiam restar dúvidas nem ilusões: era o segundo testamento de Eduardo Heybrand.

Por momentos, Gilda, curvada para o papel, examinou-o demoradamente, comparando-o com o outro que vira o tio assinar alguns anos atrás e a nomeava sua herdeira universal. Mas o exame só serviu para confirmar a certeza que tinha da sua autenticidade. Não, não havia impostura de um lado, nem podiam restar dúvidas do outro. O documento que estava ali, debaixo dos seus olhos, era o mesmo que vira na mão do tio poucos dias antes da sua morte. Reconhecia as palavras e até uma ruga do papel, no lado direito, que, sem saber bem porquê, havia notado nessa altura. Uma única coisa tornava aquele documento diferente do outro que Gilda tão bem conhecia. Quando o velho Heybrand lhe mostrara os dois testamentos, um deles ficara sem assinatura e sem data. Agora, porém, aquele também estava assinado e datado, mas - e esse pormenor dava-lhe um valor e supremacia incalculáveis- enquanto o primeiro estava datado de treze de Novembro, aquele, com a caligrafia nítida, de letras bem recortadas que reconhecia ser a do tio, havia sido assinado a quinze de Novembro, isto é, dois dias mais tarde.

Lentamente, ergueu a cabeça. A febre martelava-lhe as fontes, mas, num esforço de vontade, manteve-se calma, com o sorriso nos lábios.

- Não devia trazer consigo tão precioso documento, José - aconselhou com ironia - É perigoso.

- Não tenha medo - respondeu ele no mesmo tom - Em breve se encontrará em sítio mais seguro. Quis, unicamente, fazer a última tentativa junto de si.

E como ela o olhasse com espanto, concluiu precipitadamente:

- Era essa a minha intenção quando ontem a fui visitar.

- Muito bem. A tentativa falhou. Pode tomar as suas decisões.

O rapaz esboçou um gesto de impaciência, gesto que tentou mascarar, e, pegando na taça, levou-a aos lábios.

- Desejo que se conforme e que o doutor Gramont se conforme também com a mesma facilidade com a perspectiva da pobreza - murmurou em voz surda - ou, pelo menos, com aquilo que não deixará de considerar como pobreza, comparado com a fortuna de que hoje dispõe.

- Bebamos à minha resignação e ao êxito do seu empreendimento, José. Não queres beber connosco, Inês ?

- De que se trata ? - inquiriu a dama de companhia num tom que exprimia demasiado espanto para ser sincero.

Não recebeu resposta. O sorriso de Gilda imobilizara-se-lhe nos lábios e a mão que segurava a taça tremia ligeiramente. Voltou a colocá-la em cima da mesa sem a levar aos lábios, enquanto não desviava o olhar da extremidade da sala. O cortinado carmesim que encobria a porta de entrada acabava de ser afastado e, sobre o fundo de cor brilhante, um vulto se recortou.

Patrício Gramont, com a vista, percorreu a sala - os bailarinos não o interessavam, mas apenas a assistência - até ao momento em que avistou o grupo. Então aproximou-se rapidamente da mesa.

Sem parar, respondeu com algumas palavras breves à pergunta do chefe de mesa, que, solícito, foi ter com ele, e só se deteve junto da mesa de Gilda. Não tivera a preocupação de mudar de fato, envergando aquele que sempre vestia quando de manhã ia para a clínica. As feições estavam um pouco contraídas e as pupilas haviam passado de azuis a um cinzento carregado.

Montresa pôs-se de pé e ofereceu-lhe a cadeira, enquanto o criado, rapidamente, trazia outra. Como Patrício, com um gesto, declinasse o tácito convite, José insistiu:

- Não recusa, com certeza, uma taça de champanhe, doutor?

À pergunta sucedeu-se prolongado silêncio, temível pelas prováveis reacções do médico. A tensão de nervos daqueles que se encontravam reunidos à volta da mesa - com excepção de Patrício - era tal que todos eles sentiram que seria difícil aguentá-la por muito tempo. Após ligeira hesitação, o médico aceitou a cadeira abandonada e sentou-se, estendendo ao rapaz a taça que o criado acabava de trazer. Bebeu o seu conteúdo e depois, voltando-se para Gilda, articulou friamente:

- Desola-me ser obrigado a privar-te dos teus divertimentos, mas impõe-se, como te avisei, que te deites cedo esta noite. O meu carro está à porta. vou levar-te a casa.

A perturbação sentida ao ver o marido transformara-se em surda cólera. No entanto, a autoridade, a decisão e a energia de Patrício causaram-lhe tão profundo espanto que não a deixaram manifestar-se.

- E se eu recusar? - inquiriu com falsa tranquilidade.

- És muito inteligente para eu admitir essa possibilidade, Gilda. Queres mandar buscar o teu abafo ?

Mas, vendo a capa de peles nas costas da cadeira, acrescentou:

- Trouxeste para aqui a capa? É mais simples, de facto.

- Posso saber, pelo menos, a que devo atua intervenção ?

- Ao cuidado pela tua saúde, Gilda. Esta manhã recomendei-te, recordas-te, por certo, que te deitasses cedo depois de tomares um calmante.

- Recordo, mas considerei um pouco ridícula a precaução e preferi tratar-me a meu modo.

- Fizeste mal. Não é o marido, mas o médico que fala. De resto, basta olhar para ti para perceber que estás a arder em febre. Se o confirmo é por descargo de consciência.

E antes que Gilda pudesse fugir-lhe, estendeu a mão por cima da mesa e tomou-lhe o pulso.

- Não me enganei - murmurou, abandonando-o quase logo.

Dirigindo-se a sua mulher, continuou:

- Devia ter-te avisado de que uma das injecções ontem aplicadas provoca sempre reacções violentas, que, sem serem graves, exigem certo repouso. Não quis assustar-te. Supus que já estivesses deitada na altura em que ela se produzisse e não a notasses. Portanto, será melhor recolheres imediatamente a casa.

Ao mesmo tempo, levantou-se e, passando por trás de Gilda, envolveu-lhe os ombros com a capa de peles. Depois curvou-se e, amparando-a pelo cotovelo, auxiliou-a a levantar-se. Aguardou que se despedisse dos companheiros, cumprimentou-os também e seguiu Gilda, que se encaminhava para a porta.

Durante o trajecto até casa não proferiram palavra. Logo que entraram, Gilda dirigiu-se à sala, abriu a porta e accionou o comutador que iluminava os dois candelabros de parede, colocados um de cada lado do fogão.

- Procuras alguma coisa?- perguntou Patrício do corredor.

- Não, desejava falar-te. Queres fazer-me o favor de entrar ?

- Vais fatigar-te inutilmente, Gilda. Amanhã, se quiseres...

- Amanhã, não. Agora.

com resignação, o médico acedeu aos desejos de sua mulher. Gilda libertou-se da capa e atirou-a para as costas de uma cadeira. Depois começou a passear de um lado para o outro do aposento.

Era um espectáculo imprevisto o que oferecia a linda mulher, com o vestido sumptuoso, ombros nus, jóias magníficas cintilando no pescoço, pulso e orelhas, passeando febrilmente naquela sala mobilada com móveis antiquados e simples.

Os candelabros de cristal espalhavam em volta uma claridade fraca que deixavam no fundo do aposento recantos de sombra. A tapeçaria da parede, representando as aventuras de Telémaco, mal se distinguia, enquanto que em certos pontos, mais perto da luz, personagens e paisagem se recortavam com absoluta nitidez. A própria Gilda, conforme se aproximava ou afastava do fogão, tomava o aspecto de um ser cheio de vida e movimento ou de uma aparição imprecisa e vaga.

Patrício fechou a porta e aguardou durante algum tempo, olhando-a em silêncio. Por fim, disse-lhe:

- Quero agradecer-te por me teres atendido e acedido a voltar para casa.

Gilda parou bruscamente. Aquelas eram, justamente, as palavras que o médico não devia ter proferido.

- E eu - replicou ela com violência - censuro-me por tê-lo feito. Para que me levantei quando mo pediste ? - prosseguiu, recomeçando o febril passeio-Para que obedeci a essa intimação ridícula?

- Não foi uma intimação, foi um pedido. Como se não o tivesse ouvido, Gilda continuou:

- Obedeci, sem dúvida, com medo do escândalo que as nossas atitudes poderiam causar. Gosto pouco de me dar em espectáculo e despertar as atenções.

Gramont sorriu com ironia:

- Admira-me o que dizes, Gilda. As jóias que usas esta noite não são, parece-me, de molde a passarem despercebidas. Para dizer a verdade - concluiu após breve silêncio - essas principescas esmeraldas estão um pouco deslocadas na mulher do doutor Gramont. Lamento que não o tenhas compreendido.

Gilda estava nesse momento perto de Patrício. Involuntariamente, levou a mão ao colar, cujo motivo central, grande estrela de diamantes, rodeando a mais bela das esmeraldas, se erguia e baixava, seguindo o ritmo um pouco ofegante da respiração. Olhava-o com espanto, não conseguindo de momento apreender o pensamento do médico. Quando, por fim, o conseguiu, a sua expressão tornou-se ainda mais dura.

- Acho o teu amor-próprio um pouco deslocado

- notou - e, desse ponto de vista, nunca farei coisa alguma para o poupar, fica sabendo. Talvez te desagrade que os outros saibam teres casado com uma mulher muito rica; no entanto, tens de concordar que essa mulher nunca te demonstrou o propósito de cobrir a cabeça de cinzas e de levar vida mortificada e austera. Além disso, não achas um pouco injusto censurar as manifestações de uma fortuna que constituiu para ti o motivo, o único motivo deste casamento ?

Gilda proferiu estas palavras com uma dureza e amargura que a si mesmo causaram espanto. Mas teve a satisfação de ver empalidecer o marido.

- Isso é outro assunto perfeitamente à parte, acredita-me, da ostentação de que falei. Mas, para abreviarmos esta conversa, não seria melhor dizer-me o que desejavas de mim ?

- com todo o gosto. Queria, simplesmente avisar-te de que, se esta noite me submeti aos teus desejos, farias mal se alimentasses a esperança de que essa submissão constitua um precedente. De futuro, seja em que altura e circunstâncias forem, nunca mais me considerarei obrigada a ceder à tua autoridade. Não foi para suportar o jugo, por muito leve que seja, que desejei, procurei e comprei a minha liberdade.

Calou-se, continuando a passear no aposento, de costas voltadas para o marido. Surda gargalhada obrigou-a a parar e a fazer-lhe face.

- A tua liberdade! - exclamou o médico - Supões que aceitei como verdadeira a razão alegada na primeira noite em que nos encontrámos ?

Desta vez foi Gilda a tocada. Recuou, envolvendo o marido num olhar assustado. Patrício, porém, conseguira dominar-se e, num gesto vago, como que repeliu a recordação evocada.

- Não vale a pena voltarmos ao passado. Vamos, Gilda, deves recolher ao quarto.

Falava-lhe com certa doçura, como quem fala a uma doente. Quanto a ela, reconhecia perfeitamente que a prolongação da conversa apenas serviria para se ferirem mutuamente, conduzindo-os a proferirem palavras de que mais tarde talvez viessem a arrepender-se. No entanto, naquele momento, considerava superior às suas forças abandonar aquela espécie de combate, evitar os choques, renunciar à luta, durante a qual contava ferir tanto quanto se sentia ferida. Voltou-se lentamente para o marido e, apoiada às costas de uma cadeira, inclinou-se um pouco para ele:

- A verdadeira causa do incidente ridículo suscitado entre nós é o teu descontentamento por eu ter ido divertir-me sem te avisar, sem te pedir para me acompanhares. Confessa, se o tivesse feito, não te preocuparias com a minha febre, que para ti foi mais pretexto do que realidade.

Enquanto falava, numa voz breve, ofegante que reflectia não só a sua irritação como confirmava a existência da febre que negava, Patrício olhou-a com espanto.

- Sair contigo ! - exclamou, como se tivesse necessidade de repetir as palavras de sua mulher para lhes apreender o sentido - Ir perder num cabaret as horas que devo consagrar ao sono, isto é, aos meus doentes de amanhã ? com certeza, não dizes o que sentes ao afirmares que eu desejava acompanhar-te e que estou sentido por não mo pedires. Não gosto nem tenho possibilidades de me entregar a essa espécie de divertimentos e não deves ter a esperança - admitindo que o desejes - que eu empregue assim as minhas noites.

Gilda esboçou leve sorriso.

- Nem sempre foi esse o teu modo de pensar, Patrício, ou, pelo menos, certa noite infringiste os teus hábitos de austeridade.

Essa alusão à noite passada a bordo do Désirade, em companhia dos Mériel, trouxe uma contracção ao semblante do médico.

- Infelizmente! - murmurou entre dentes. Teria ela ouvido? Provavelmente, não, porque prosseguiu imediatamente:

- De resto, esse tempo precioso do qual não podes perder a mais pequena parcela, esse tempo exclusivamente consagrado aos teus operados, ao qual nem roubas sequer os minutos para comer em casa, tens a certeza de que nunca o perdes ?

- Absoluta - respondeu o médico, sem hesitar - Deus sabe que, mesmo que o desejasse, não poderia.

Gilda voltou a sorrir.

- Nem mesmo para dar pequeno passeio com a tua enfermeira?

A surpresa que Patrício começara a manifestar, mais se acentuou. Erguendo as sobrancelhas com ar de espanto, repetiu:

- Um passeio?... Já sei, referes-te à visita que ontem fizemos à nova clínica ?

E sem dar tempo a sua mulher para lhe responder, nem se preocupando a indagar a forma como ela tivera conhecimento do facto, esclareceu:

- Não se tratava de um passeio, para empregar as tuas próprias palavras, mas de uma visita útil, absolutamente dentro do quadro profissional. Falei-te de certos aumentos exigidos pelo empreiteiro. Mademoiselle Dorger é excelente conselheira em tudo quanto diz respeito à organização da clínica e eu quis ouvir a sua opinião sobre certos pormenores susceptíveis de modificação, a fim de obter uma redução de preços. Eis a exacta significação do que tu chamas «um passeio».

Ao proferir as últimas palavras a ironia vibrava-lhe na voz. O rosto de Gilda, já afogueado, corou ainda mais.

- Evidentemente, é uma explicação.

Mas, pela maneira de falar, via-se que não aceitava a «explicação».

Patrício voltou-se. Considerava a conversa terminada e desejava que sua mulher recolhesse ao quarto, como seria razoável. Mas não contava com a tenacidade e obstinação de Gilda. Uma espécie de vertigem apoderara-se da juvenil senhora. A cabeça andava-lhe à roda, de minuto a minuto os calafrios aumentavam e só com grande esforço evitava que os dentes lhe batessem. Mas todo esse mal-estar, em vez de a quebrar, mais aumentava a sua combatividade, a obrigava a exteriorizá-la numa cegueira quase dementada, mas que, no entanto, conservava a aparência da calma reflectida.

Como Gramont se dirigisse para a porta, sem dar um passo para sair também, Gilda observou:

- Pergunto a mim própria, Patrício, porque não casaste com Mónica Dorger?... Mas... não me lembrava - acrescentou, soltando uma gargalhada - ela não tem fortuna.

O médico já poisara a mão no puxador da porta. Abandonou-o e voltou-se. Gilda ficou assustada com a expressão das feições transtornadas.

- A minha paciência tem limites, Gilda - articulou - Deixa-te de provocações ridículas que não estão no teu carácter. Mais, uma vez, vai-te deitar.

- Maneira hábil de não me responderes.

- Não tenho que responder-te porque tu própria o fizeste!... Mas, se desejas confirmá-lo, digo: com efeito, não podia casar com Mónica porque ela não é rica. Estás satisfeita ? Quanto ao resto, coração, carácter, modéstia, dedicação, capacidade e inteligência, em tudo isso é infinitamente superior a todas as mulheres que até hoje conheci.

Desde que conhecia Patrício, nunca Gilda o vira perder assim o domínio próprio. Tinha o rosto lívido, os olhos brilhantes, a voz surda fustigava. Deu alguns passos para ela, dizendo:

- A tua incursão no domínio onde não tens qualquer direito de penetrar é lamentável, Gilda, De futuro, tem o bom gosto de te absteres de o fazer. .. Não me arrogo qualquer direito sobre a tua vida sentimental... afectuosa, amigável... sobre qualquer preferência nesse domínio, mas exijo a mais absoluta reciprocidade. Ignora mademoiselle Dorger como eu ignoro o senhor Montresa de Santemayor. Ao fazê-lo, tenho o maior desejo de te ser agradável e de não ferir os teus sentimentos de família, embora estes me pareçam estranhos, visando uma espécie de aventureiro de péssima reputação, crivado de dívidas, conhecido em toda a Cote como jogador furioso, mas não dos mais leais.

Calou-se, encaminhou-se para Gilda e com uma autoridade que ela lhe desconhecia, agarrou-lhe o pulso. Ela quis resistir-lhe, mas não o conseguiu. Além disso, sentia as fontes a latejar cada vez com maior violência e só a sua vontade enérgica a mantinha de pé. Se não queria que as forças a traíssem diante de Patrício, impunha-se alcançar o quarto o mais depressa possível. Libertou-se e declarou com fria impertinência:

- Posso subir sozinha, Patrício, obrigada.

Passou-lhe pela frente, transpôs a porta e, erguendo a comprida saia de tule, começou a subir a escada. Atingindo o patamar do primeiro andar, não se voltou e caminhou direita ao quarto, do qual abriu rapidamente a porta.

Quando a fechou atrás de si, encostou-se à parede, sentindo as pernas fraquejarem. Só decorridos alguns minutos conseguiu abandonar esta posição e dirigir-se à campainha que ligava o quarto com o de Madiana, mas não chegou a atingi-la. Foi obrigada a parar e a agarrar-se à cómoda. Conservou-se assim alguns instantes e depois, lentamente, deslizou e tombou na alcatifa.

Pouco depois, a criada a quem Patrício, antes de sair, havia despertado e avisado, entrou no quarto e encontrou-a estendida no chão, inanimada.

 

Estava-se em Dezembro, mas em Canes brilhava o sol, doirando a cidade e os campos, acendendo cintilações no Mediterrâneo muito azul.

A temperatura, excepcionalmente suave, daquela tarde permitiu que Gilda e Inês se sentassem ao fundo do jardim, no terraço ao centro do qual a fonte cantava e onde o olhar podia abraçar toda a costa e o mar.

Gilda ainda não recuperara por completo a saúde robusta que no fim do Verão e pela primeira vez na sua vida a havia abandonado. Estava, porém, em plena convalescença. Havia uma semana que retomara a vida normal, sem precauções exageradas ou demasiados cuidados. No entanto, o aspecto exterior não era o mesmo. As faces estavam ainda pálidas e as feições, mais vincadas devido à magreza, tomavam nova expressão, quase dolorosa.

Gilda estivera gravemente doente, com uma congestão pulmonar contraída quando, no Chrysler descapotável, se expusera à humidade da noite. A violência do mal tinha sido espantosa, proporcionada, talvez, à robustez da doente e tanto mais brutal quanto menos o organismo se encontrava habituado ou pelo menos preparado para essa espécie de ataques. Talvez devesse a vida aos constantes cuidados de que fora rodeada.

Enrolada no quente casaco de peles, a convalescente saboreava a doçura do céu e do calor excepcional para aquela época do ano. com as pálpebras semi-cerradas, mergulhada na espécie de suave entorpecimento que todos os que regressam à vida após grave doença costumam sentir, deixava o espírito vaguear por regiões só dela conhecidas. Mas, sem dúvida, encontrou nessas regiões rostos que lhe desagradaram, pessoas cuja presença a enervava, porque, inconscientemente, esboçou um gesto de impaciência.

Inês, que a observava, perguntou:

- Estás aborrecida, Gilda ?

- Não, por forma alguma - protestou - Pelo contrário, não me canso de contemplar esta paisagem, de escutar o doce murmúrio da fonte e o do vento passando pelos ramos dos agaves do jardim.

Enquanto a amiga falava, as feições da dama de companhia iam assumindo dura expressão. Quando ela se calou, observou com um sorriso irónico:

- Vento ? Não sopra. Caso contrário, não estaríamos aqui.

- Pelo amor de Deus, não me fales em doenças. Não evoques nem exijas de mim precauções já inúteis.

Inês não protestou. Devia saber quanto é difícil conseguir que uma doente, cujas forças renascem, seja prudente. No entanto, os seus olhos deviam ter reflectido certo descontentamento porque Gilda emendou :

- Bem sei que nenhum dos teus cuidados é inútil. Nunca saberei agradecer-te suficientemente a tua afeição e constante dedicação.

A bela voz grave calou-se, sufocada pela emoção. Inês abanou a cabeça.

- Não fui a única pessoa a tratar-te. Sem contar com as pessoas da casa, mademoiselle Dorger esteve aqui muitas noites para nós podermos descansar. . . ou antes, para que o doutor descansasse.

Depois de reflectir durante alguns instantes, Gilda perguntou:

- Exprimiste-lhe o meu reconhecimento, Inês ?... Quero eu dizer, recompensaste-a pelo seu trabalho?

- Não, supus que preferirias ser tu a fazê-lo antes de partirmos. Sim - continuou após ligeira hesitação - temos de obedecer às ordens da Faculdade.

Gilda não lhe respondeu e Inês não teve a certeza de que ela a ouvira. Decorridos alguns instantes, interrogou :

- Foi meu marido quem prescreveu essa mudança de ares e de clima para o meu completo restabelecimento ?

- Não foi bem ele, mas, sim, o professor chamado para uma conferência. Mas quando ficaste livre de perigo, o doutor insistiu para que cumprisses a prescrição.

Gilda encostou a face à mão direita, que já não estava ligada. Apenas as ligeiras cicatrizes esbranquiçadas que a sulcavam da palma ao pulso recordavam o incidente.

- Onde poderei encontrar céu mais luminoso, ar mais puro e temperatura mais suave do que nesta região? - murmurou como se falasse de si para si.

- Na nossa terra... nas Ilhas - respondeu Inês com ar surpreendido.

- Tens razão - concordou em voz surda a mulher do médico.

Calou-se um instante e prosseguiu logo:

- Então não tardaremos a partir.

Um lampejo perpassou pelas pupilas doiradas, que logo se baixaram para o chão. Fazendo girar em volta do dedo pesado anel de oiro, mademoiselle Arnaud prosseguiu:

- O mês passado admitimos a perspectiva de partir na Primavera. Seja qual for a tua decisão, o Désirade encontrar-se-á a postos. Enquanto estiveste doente, fui a bordo sempre que podia abandonar-te. Está tudo em ordem.

Num gesto cansado, Gilda recostou a cabeça ao espaldar da cadeira.

- Na Primavera... antes... depois... ainda não sei, Inês. Preciso de tempo para reflectir e tomar decisões.

- Quando quiseres, minha querida - protestou a outra com doçura - Não serei eu quem pense em contrariar-te as preferências e desejos. O meu único fim, a minha preocupação é o teu completo restabelecimento e só nele pensava quando falei em partirmos.

Mais uma vez, o quente olhar de Gilda envolveu o rosto de Inês com uma expressão de ternura. E, conquanto não tivesse falado, o olhar e o sorriso que o acompanhou traduziram claramente todo o reconhecimento e a imensa afeição que lhe dedicava.

O sol descia no firmamento, luminoso e límpido. Os seus raios tornaram-se mais pálidos e o calor mais brando. Num gesto instintivo, não porque sentisse frio, Gilda conchegou o casaco.

E foi nessa altura que Inês pareceu tomar uma resolução.

- Gilda, desejava falar-te de alguém... ou antes, da parte de alguém. . .

A mulher do médico franziu a testa. Bastavam aquelas palavras para ressuscitar uma pessoa e um nome. De facto, quem poderia interessar-se por ela, em Cannes, senão Montresa ? Em voz breve, interrogou:

- Trata-se de José? Que me quer ele?

A dama de companhia não respondeu à pergunta.

- Devo dizer-te que, enquanto estiveste doente, não deixou de me escrever para saber notícias tuas.

Gilda fez um gesto vago, difícil de interpretar. Inês continuou :

- Embora me admirasse por ele não vir aqui sempre lhe respondi. Quero dizer-te isto primeiro, com a esperança de que não ficarás contrariada. Suponho que não guardaste rancor a teu primo por causa da quebra do vosso noivado - concluiu, sorridente.

Gilda não lhe respondeu. Levantou a cabeça, olhou demoradamente Inês e murmurou:

- Será possível que as pessoas, vivendo tão perto do nosso coração, na realidade estejam tão distantes de nós, que tudo ignorem a nosso respeito ?

Inquieta, a dama de companhia curvou-se um pouco para ela.

- Que pretendes dizer com isso, Gilda? É uma censura ?

- Não, Deus me livre! Mas fico sempre admirada quando verifico que as vidas podem confundir-se, correr lado a lado, numa constante intimidade e as almas ficarem sempre estranhas umas às outras.

A resposta foi dada como se Gilda falasse em sonhos. A inquietação de Inês aumentou:

- Pelo amor de Deus, dize-me, querida. Que aconteceu de bem ou de mal que eu não visse, não compreendesse, não partilhasse contigo? Fala, suplico-te. Não te referes ao pueril noivado com o José, ou antes, ao seu rompimento. Teve tão pouca importância. ..

- Muito pouca, com efeito, Inês. Tão pouca que por causa disso quase morri!

Num gesto imperioso, deteve as palavras que acudiam aos lábios da amiga e, com súbita tranquilidade, acrescentou:

- São recordações antigas. Não devemos ressuscitá-las. Deixemo-las no esquecimento, peço-te. Será preferível dizeres-me o que pretende o José. Vamos, fala, que quer ele ?

Mademoiselle Arnaud não se mostrou impressionada com a brusca intimação. Sem se comover, respondeu:

- Na sua última carta, sabendo-te restabelecida, o José pedia-me para te recordar a conversa que tiveram no dia do teu... desastre e no dia seguinte, no cabaret, e pede-te para lhe transmitires as tuas decisões. Naturalmente - acrescentou desconheço do que se trata.

Durante alguns instantes, Gilda hesitou, não na resposta a dar a Montresa, mas se devia ou não pôr Inês ao corrente das reivindicações do rapaz. Não lhe passou pela ideia duvidar da afirmação da amiga. Aceitou, não como verosímil, mas como absolutamente exacto, o facto de esta ignorar as pretensões de José e a existência de provas para basear a sua ligitimidade. Considerou, porém, perfeitamente inútil partilhar as suas preocupações com Inês e calou-se.

Durante a doença esquecera as ameaças que pesavam sobre a sua fortuna. E, de repente, essa ameaça, renovada pelas palavras da dama de companhia, ergueu-se na sua frente como perigo iminente, temível, como uma força poderosa e fatal.

Mesmo assim, com um encolher de ombros, respondeu despreocupada:

- Quando vires o José, dize-lhe.. .

- Como posso eu vê-lo ? - atalhou com vivacidade a dama de companhia -Só por acaso...

- Tens razão. Queria eu dizer que lhe escrevesses agradecendo o seu interesse pela minha saúde e lhe afirmasses que, pelo contrário, eu não tenho nenhum pelas suas «histórias». Ele compreenderá.

Inês levantou-se com um nervosismo que a amiga não notou.

- Seria melhor regressarmos a casa. O tempo refrescou e seria imprudente ficares aqui mais tempo.

A passos lentos, percorreram as ruas do jardim. Não falavam. O ruído do saibro, estalando-lhes debaixo dos pés, era a única coisa a perturbar o silêncio. O jardim, despojado de folhagem, conservava, no entanto, o seu aspecto selvático. O Verão fizera crescer os belos maciços de agaves azulados, os ciprestes e as mimosas que em breve se carregariam de cachos dourados.

«Não as verei florir» - pensou Gilda.

E este pensamento súbito provocou-lhe tão agudo sofrimento que, por momentos, teve a impressão de que o coração ia saltar-lhe do peito.

Depois, olhando por cima do muro, fixou a nova clínica, que, do outro lado da estrada, se erguia já concluída.

Depois de novo acordo entre Patrício e o empreiteiro, os trabalhos haviam recomeçado em ritmo acelerado. Desta forma, quinze dias atrás, o doutor Gramont já havia podido efectuar à sua primeira operação nas salas do novo edifício.

Algumas das instalações ainda não possuíam a disposição definitiva e os quartos dos doentes não estariam todos prontos antes de Janeiro. Mas, enfim, o coração da clínica já palpitava, quase todas as dependências funcionavam cada dia com maior precisão e eficácia, os operados recebiam os cuidados a que tinham direito sem que a incompleta instalação de certas salas, de importância secundária, pudesse prejudicá-los.

Esta proximidade entre a clínica e a sua própria casa não modificara em coisa alguma a vida do médico. Não regressava mais cedo, não saía mais tarde nem destinava às refeições tempo suplementar. A doença de Gilda, porém, prendera-o muitas horas, passadas exclusivamente à sua cabeceira.

Nessa ocasião, todos os que conviviam com ele poderiam perguntar a si próprios onde iria o médico buscar forças, pois passara as noites junto de Gilda, abandonava-a muito cedo, de manhã, para ir operar e durante, o dia entrava várias vezes em casa para vigiar o estado da doente.

E isto dias seguidos, enquanto Gilda não se encontrou fora de perigo.

Passado o período de maior gravidade, cedeu o lugar a Mónica Dorger, a Inês e a Madiana que velavam de noite. E, durante o dia, as suas visitas tornaram-se cada vez menos frequentes até que, tendo a convalescença de Gilda correspondido à mudança para a nova clínica, Patrício se tornou quase invisível, quase como um estranho na sua própria casa, onde aparecia unicamente para comer à pressa - e a horas tão diferentes que ninguém esperava por ele - e para dormir.

Desta forma, Gilda podia dizer sem mentir que nunca mais falara com o marido desde a noite em que ele fora buscá-la ao cabaret.

E, ao verificá-lo, sem bem saber porquê, sentiu-se ainda mais ferida do que habitualmente. Conquanto ela e Patrício tivessem vivido e estivessem destinados a viver sempre como estranhos um para o outro, não podia admitir que a indiferença do médico atingisse o máximo para além do qual poderia ser classificada como incorrecção.

«Tem de me escutar, pelo menos uma vez pensava - Tem de conhecer as reivindicações do José e saber que de um momento para o outro posso ficar pobre, absoluta e totalmente pobre!

Essa perspectiva já se lhe impusera com implacável nitidez, mas era a primeira vez que a imagem de Patrício lhe surgia como necessariamente envolvida no caso. Como ele estava no direito de manifestar a sua decepção e sua cólera! A ruína de Gilda transformava aquele casamento num contrato o mais desvantajoso e detestável que seria possível imaginar e realizar.

A voz de Inês arrancou-a às suas reflexões. Entravam em casa e mademoiselle Arnaud alvitrava :

- Talvez fosse conveniente acender o fogão ? vou encarregar a Madiana de o fazer.

Não duvidando do consentimento da amiga, foi dar as suas ordens, depois voltou, libertou-a do casaco e abriu a porta da sala a fim de verificar se as ordens haviam sido cumpridas. Como no fogão ardessem já altas labaredas, chegou uma poltrona para junto dele e ajudou Gilda a instalar-se.

A porta da sala de operações abriu-se e a maca rolou, transportando o paciente adormecido. Patrício descalçou lentamente as luvas de borracha, enquanto a enfermeira, atrás dele, lhe desatava os cordões da máscara.

O anestesista, uma enfermeira auxiliar e o segundo cirurgião, admitidos para o secundar, afastaram-se. Salvo caso inesperado, não estavam previstas mais operações para aquele dia. Esta, de urgência - uma perna esmagada na queda de um andaime - terminara já para a tarde. Até ao dia seguinte, a sala de operações, depois de ser limpa meticulosamente, ficaria fechada.

Patrício e Mónica atravessaram a sala dos curativos, onde acabaram de se libertar do trajo de operadores e entraram em terceira sala, pequeno gabinete que não era o das consultas e onde o médico poderia descansar um instante.

Enquanto o médico se instalava numa cadeira de braços, diante da mesa cheia de fichas, a enfermeira ficou de pé, aprovando sorridente:

- Que magnífico trabalho, doutor! Todos aqueles fragmentos de ossos reunidos e presos no seu lugar por uma placa, as artérias laqueadas, os músculos suturados. O homem teve sorte. Qualquer outro cirurgião teria, simplesmente, feito uma amputação.

- Podia evitar-se, mas esta operação poderia ter dado uma baralhada. Felizmente, não houve infecção.

Tropearam ainda alguns comentários, como sempre acontecia depois de qualquer operação. Gramont apreciava o auxílio precioso e inteligente dado pela sua primeira enfermeira e esta não ocultava a sua admiração pelo cirurgião, principalmente quando uma operação complicada os reunia.

De súbito, Gramont recordou a frase de Gilda: «Porque não casaste com Mónica Dorger ?»

Enquanto, distraído, escutava a enfermeira, pensou que nunca tal ideia lhe passara pela cabeça.

Mónica era bonita, não podia negar-se, e, acima de tudo, uma auxiliar perfeita, insubstituível. Mas todas estas qualidades, mesmo o físico agradável, para Gramont não existiam senão no plano profissional. «E ela ? - perguntou de si para si e pela primeira vez - não existirá no seu zelo, no esforço cotidiano da sua inteligência, competência e dedicação mais do que amor pela profissão ou também simplesmente o Amor?»

Por muito que procurasse e interrogasse lealmente as suas recordações, não encontrou qualquer pormenor que pudesse revelar em Mónica Dorger um sentimento mais terno, diferente da admiração. Não, por muito estranho que isso pudesse parecer, aquela rapariga honesta, simples e corajosa não alimentava na sua vida ideias românticas. Era tão calma, tão pouco complicada e retraída, quanto Gilda se revelava misteriosa e, por vezes, adivinhava-o, um pouco atormentada.

A imagem de sua mulher, que se lhe impôs no fim destas reflexões, trouxe ligeiro rubor às faces do médico. com impaciência, empurrou a pasta que tinha na sua frente e esforçou-se por prestar maior atenção à enfermeira. Mas sentia-se esgotado, cansado, com o cérebro vazio, depois da tensão exigida pela delicada operação que acabava de realizar.

Mónica Dorger devia ter adivinhado o seu estado, porque, interrompendo uma frase a meio, observou :

- Podia talvez regressar a casa, doutor. O nosso dia de trabalho acabou.

Patrício levantou a cabeça.

- Regressar a casa ? Ainda não são cinco horas. . . -concluiu, olhando para o relógio.

- A hora pouco importa. A sua presença já não é precisa aqui.

- Gostaria de verificar se o aparelho ficou bem colocado na perna do nosso operado.

- Isso não leva muito tempo.

E como Gramont se calasse, deu alguns passos para ele e continuou :

- Perdoe-me o que vou dizer-lhe, doutor. Precisa absolutamente de descansar. Não sei se deu por isso, mas a soma de trabalho que forneceu nestes últimos tempos pode considerar-se extenuante. As forças humanas têm limites e eu tenho a impressão de que o doutor não tardará em os atingir. Um pouco mais e será obrigado a parar e creio não ser isso o que pretende.

Pálido sorriso entreabriu os lábios de Patrício. Reconhecia que Mónica tinha razão. Havia alguns dias já que lutava contra a fadiga e até contra o esgotamento, pensava muitas vezes.

Mas, com enérgica tenacidade, decidira triunfar e, em vez de procurar limitar os seus esforços, mergulhara completamente no duro labor da sua profissão.

- A sensatez fala pela sua boca, Móníca, mas creio que se assusta sem razão e pretende assustar-me também. Na minha vida tenho tido muitos períodos de trabalho excessivo e nunca adoeci.

- Não é razão para afirmar que desta vez aconteça o mesmo, doutor. Já o tenho visto muitas vezes cansado, extenuado, mas não com esse... abatimento para o qual não encontro outro remédio senão o imediato repouso e talvez... sim, é isso, uma mudança momentânea e total de vida.

Ao escutar as últimas palavras da enfermeira, Patrício tomou uma expressão dura. A palavra «abatimento», que parecia referir-se menos ao físico do que ao moral, desagradara-lhe e também essa espécie de incursão num domínio muito diferente do domínio profissional. Contudo, conhecia demasiado Mónica para atribuir ao que dizia mais do que a amizade, a veneração que sempre lhe demonstrara e o desejo ardente de defender a todo o custo, mesmo, se fosse preciso, contra si próprio, o seu valor, habilidade e talento.

- Uma mudança de vida, Mónica! - proferiu com ironia-Uma medida drástica, já vejo. Mas não seria o mesmo que há pouco me citou, isto é, parar ?

- Não, não é a mesma coisa e estou certa de que o doutor o compreende. Parar, no sentido que eu temo, significa não poder prosseguir, enquanto que uma mudança de vida representa breve descanso exigido para a continuação.

- Deve ter razão. Mas seria preciso que esse descanso se tornasse possível.

- Se é necessário tem de ser possível - retorquiu com calma a enfermeira - A clínica caminha com regularidade. O pessoal está completo e o seu adjunto, o doutor Pascal, é, como já pôde verificar, um excelente cirurgião, muito capaz de o substituir durante algum tempo, doutor Gramont.

- Está a receitar-me um período de completo descanso, doutora Mónica - comentou o médico, sorrindo.

- Exactamente, absoluto.

- E que mais me aconselha?

Mónica desviou o olhar, furtando-se ao exame de Patrício. A sua expressão era séria e grave.

- Madame Gramont possui um iate. Devia acompanhá-la num cruzeiro. Seria o melhor meio, se não o único, em minha opinião, de esquecer por algum tempo esta vida extenuante, recuperar as forças e o equilíbrio.

Alguns instantes de silêncio se sucederam a estas palavras. Patrício conhecia demasiado a enfermeira para pensar que falava à toa. Trabalhavam juntos havia muitos anos e uma espécie de corrente de compreensão se estabelecera entre eles. Como nas operações, quando uma palavra ou um só olhar bastam para que a enfermeira execute os gestos e tenha as reacções necessárias e correspondentes, assim, naquela altura, ela adivinhava os pensamentos, o que se passava no coração do médico.

Gramont levantou-se bruscamente e em voz breve declarou:

- Agradeço-lhe a sugestão, Mónica. Mas esse projecto, que se lhe afigura tão simples, na realidade é irrealizável.

A rapariga curvou a cabeça.

- Será, com efeito ? Absolutamente ?

- Absolutamente!

Calou-se e, para dar por finda a conversa, curvou-se sobre a secretária e começou a folhear os papéis. Decorridos alguns instantes, Mónica interrogou :

- Não precisa mais de mim, doutor ?

- Não, obrigado.

Sem pressa, dirigiu-se para a porta, mas, no momento de a transpor, voltou-se:

- Se mudar de opinião e se decidir a abandonar momentaneamente a clínica e Cannes, pode contar comigo para tudo quanto estiver dentro das minhas atribuições. Faço votos para que esta certeza o decida a partir.

A porta fechou-se antes de Patrício ter tempo para manifestar a sua impaciência e irritação. Quando ficou sozinho, deixou-se cair pesadamente na cadeira e apertou a cabeça nas mãos. Mónica tinha razão. A fadiga esmagava-o e não faltariam muitas semanas, talvez, para o derrubar por completo, tornando-o incapaz de continuar a exercer uma profissão que, mais do que nenhuma, exigia energia constantemente renovada, uma saúde de ferro, espírito lúcido e o domínio absoluto dos nervos.

E a enfermeira aconselhara o único remédio para o mal. Impunha-se parar, descansar alguns dias, embora poucos, fugir... Mas quase logo o médico reconheceu a inanidade da receita. Fizesse o que fizesse, fosse para onde fosse, quando voltasse encontrar-se-ia a braços com a mesma obsessão, as mesmas amarguras e, para as esquecer, recomeçaria a trabalhar como um forçado. De si para si, não podia deixar de confessar que, se a sua vida tomara um ritmo extenuante, se a transformara numa sucessão de horas fatigantes, fora por sua própria vontade. A organização e o começo dos trabalhos na nova clínica, reunidos com a actividade do cirurgião, que nunca afrouxara, bastariam para explicar a fadiga passageira. Mas havia mais. Assumira a vigilância dos operados, que poderia ter confiado ao doutor Pascal, dava consultas, fazia, visitas na cidade a que nunca se eximia, fosse a que hora fosse, demorava-se à noite no laboratório instalado na própria clínica... e tudo isto lhe tomava tempo e roubava horas que deviam ser dedicadas ao sono e ao repouso.

- E tudo por causa de uma mulher! - murmurou em voz surda - Por uma mulher!

As palavras proferidas em voz alta não eram mais do que a expressão do pensamento. Patrício não precisava de o exteriorizar para saber quem era a verdadeira responsável... A inocente responsável deste estado de coisas era sua mulher. Para fugir a Gilda e de todas as ocasiões que poderiam aproximá-los, para ocupar nessa vida que desejava ser livre o menor espaço possível, desertara de casa, onde, no entanto, tão pouco se encontravam, e lançara-se ao trabalho com toda a sua alma.

Naquele instante teve a consciência onde o desprezo da própria resistência poderia conduzi-lo.

Se a fadiga que o esmagava naquele momento o atacasse durante uma operação ou, como consequência de uma noite perdida, a mão lhe tremesse, o doente confiado à perícia do seu bisturi pagaria talvez com a vida o breve desfalecimento.

- Isso não, meu Deus! - protestou em voz alta

- Antes ceder o meu lugar do que desempenhá-lo mal.

A perspectiva evocada nunca se tornará realidade, Patrício podia jurá-lo. Ainda naquele dia, durante a operação levada a cabo com êxito, sentira-se na posse absoluta de todas as suas faculdades, seguro do seu domínio. Mas esse estado de coisas não poderia prolongar-se indefinidamente.

É preciso que Gilda parta -pensou com súbita resolução - é preciso».

O sofrimento que tal pensamento lhe provocou foi tão intenso que cerrou os dentes. Dir-se-ia que nunca lhe ocorrera, tão abalado ficou. No entanto...

No entanto, quantas vezes já havia evocado a partida do Désirade, a largada do cais e o iate afastando-se cada vez mais até desaparecer no horizonte ! Seria irremediavelmente o fim ou, pelo menos, a inevitável suspensão da estranha aventura, do «casamento sem importância», como lhe chamava Gilda. E essa suspensão poderia durar anos. Além disso, se Gilda voltasse, entre eles coisa alguma mudaria.

Como fora louco em aceitar a proposta que, uma noite, a linda mulher de branco lhe fizera, a bordo do seu iate, Gilda oferecera-se-lhe?... Não, oferecera-lhe algumas migalhas da sua imensa fortuna em troca de... pouca coisa, na verdade: em troca do nome de Gramont e da liberdade de viver conforme os seus caprichos!

O médico, no entanto, não levara muito tempo a descobrir a tranquila mentira. Gilda tinha um móbil diferente, um motivo estranho àquele que lhe confessara. E se, depois de tantos meses decorridos, Patrício ainda não podia dar um sentido ao gesto de Gilda, à sua resolução, à sua mentira, conseguira no entanto dar-lhe um rosto: o de um rapaz novo, feições harmoniosas, olhos e cabelos negros e brilhantes.

- O senhor Montresa pede para lhe falar, doutor. Não lhe disse que estava livre e, se quiser recusar-se, pode fazê-lo.

Gramont estremeceu violentamente. Depois de uma pancada breve na porta, a enfermeira entrara para anunciar a visita e aguardava a resposta.

- Montresa? - repetiu com incredulidade.

E, como Mónica confirmasse, após ligeira hesitação, ordenou:

- Pode mandá-lo entrar, Mónica. Não deve demorar-se e irei ver o nosso operado depois dele sair.

Durante a curta demora da enfermeira, abandonou a cadeira e foi encostar-se à janela. Voltou-se no momento preciso em que José, introduzido pela rapariga, transpunha o limiar da porta.

José desculpou-se, afirmando saber quanto o tempo do doutor era precioso e garantiu-lhe o seu reconhecimento por o ter recebido.

Patrício limitou-se a breve cumprimento sem dar um passo para o recém-chegado. As informações que tinha sobre a reputação do rapaz, nas casas de jogo da Cote, bastavam para o receber como estranho e não como parente de sua mulher. José teria notado logo a atitude do médico ? com certeza, porque leve sorriso lhe entreabriu os lábios. Como Patrício continuasse de pé, com os braços cruzados, nem sequer pensou em lhe estender a mão. O médico envergava ainda a bata branca e com esse trajo assumiu aos olhos de Montresa aspecto mais temível e mais forte do que lhe conhecia.

Deu alguns passos para se aproximar, perguntando ao mesmo tempo:

- Posso pedir-lhe notícias de minha prima ?

- Agradeço o seu cuidado, mas deixe-me acreditar que as recebeu sempre. Mademoiselle Arnaud por certo o manteve ao corrente do estado de saúde de minha mulher.

Breve trejeito contraiu os lábios do rapaz. Mas, conseguindo dominar-se, respondeu com ar natural:

- com efeito, sei que a Gilda entrou em plena convalescença e alegro-me com isso.

Gramont não se deu ao trabalho de lhe responder, aguardando, numa atitude impassível, que José lhe revelasse o motivo da visita. José compreendeu não ser possível adiar a revelação por mais tempo.

Colocou em cima da secretária o chapéu e as luvas que trazia, na mão e ergueu os olhos para Patrício:

- Antes de lhe dizer o motivo que me obrigou a forçar a sua porta, permite-me que lhe faça uma pergunta, doutor ? Espero que me responda com sinceridade. A Gilda revelou-lhe a causa do desentendimento surgido entre nós ?

- Desentendimento? Dou-lhe a minha palavra que o ignorava e estava longe de supor que entre o senhor e minha mulher havia alguma coisa de comum.

O tom era duro e até um pouco insultante. José dissimulou a afronta com um sorriso.

- No entanto, é a pura verdade. Mas não me espanta que minha prima o ocultasse, até não ser possível fazê-lo.

Calou-se um instante. com ar aborrecido, Patrício ergueu um pouco o braço para consultar o relógio de pulso.

- Lamento não poder conceder-lhe muito tempo. Não seria melhor ir direito ao assunto ?

- com todo o gosto. A revelação é brutal, mas faz-se em poucas palavras. A fortuna de que até hoje Gilda dispôs não lhe pertence, de facto. Não tem direito a ela e não tardará que seja legal e inteiramente desapossada.

Se a revelação impressionou o médico, coisa alguma na sua atitude e expressão o deixou adivinhar. Repetindo a última palavra de José, interrogou:

- Desapossada?... Em seu proveito, naturalmente?

- Exactamente.

- Muito a propósito, não é verdade ? A dar crédito a boatos, as suas dívidas de jogo reduziram-no à última extremidade.. .

Ligeiro rubor tingiu as faces mates de José. No entanto, ficou impassível.

- Exagera um pouco – declarou - Mas, voltando ao que nos preocupa. Um segundo testamento, cuja autenticidade a própria Gilda reconheceu, torna-me possuidor de toda a fortuna de Eduardo Heybrand.

- Os meus cumprimentos!

- Depois de muitas hesitações e perplexidades que seria inútil descrever-lhe, decidi fazer valer os meus direitos.

- Muito bem. Desejo-lhe muitas felicidades. Mas não vejo em que o assunto possa interessar-me.

A total indiferença de Gramont, a sua calma inabalável começavam a irritar José. Dominava a cólera e conservava-se sorridente e calmo em aparência, quando, no fundo, estava furioso e nervoso.

- Interessa-o, pois se trata da fortuna de sua mulher.

- Lamento, mas Gilda não me encarregou de defender os seus interesses.

- Que são também os seus.

- Não seja tão categórico, Montresa. Pode enganar-se.

José calou-se por instantes. Abrindo a cigarreira, ofereceu-a ao doutor, que recusou, e, depois de ter pedido licença para fumar, acendeu um cigarro.

Impassível, Patrício seguia com a vista todos os seus gestos. com a energia que o caracterizava esforçava-se por não trair a perturbação que as palavras do visitante lhe haviam causado. Estava certo de o conseguir, certo, principalmente, de que o rapaz nunca adivinharia o sentimento de profunda alegria que o dominava. De resto, como poderia um homem que ia anunciar a outro a completa ruina supor que lhe dava com isso a maior felicidade ;

- Se bem compreendo - observou José, voltando-se para o médico - Gilda não o pôs ao facto do novo estado de coisas provocado pelas minhas reivindicações ?

- Possivelmente, considerou que não podiam interessar-me.

- Ou talvez duvide ainda de que estou resolvido a intentar o processo.

- Quanto a isso - replicou Patrício com profundo desprezo - suponho que não deve ter a menor dúvida.

Mais uma vez José se sentiu fustigado como por uma chicotada. No entanto, sorriu com calma.

- Faz mal em o supor doutor e, se o pensasse, a Gilda teria razão. com efeito, hesito em pôr em marcha o maquinismo complicado de semelhante processo. A revisão de testamentos, assinados com tão pequeno intervalo um do outro, será difícil, demorada, semeada de dificuldades... Por outro lado, repugna-me despojar minha prima e dificilmente me resolverei a uma extremidade perante a qual recuo há alguns anos.

Calou-se um instante talvez para dar mais importância ao que ia dizer ou ensejo para que o médico falasse. Este, porém, não se mostrava muito disposto a fazê-lo. Aparentemente, o seu propósito de indiferença e de silêncio era absoluto, visto ter aceitado a surpreendente revelação sem fazer perguntas. Por fim, José decídiu-se a continuar:

- A ruína de minha prima e, para mim, as delongas para entrar na posse dos meus bens podem ser evitadas, doutor, mas com uma condição: que entre mim e Gilda se estabeleça um acordo amigável. Quer servir-nos de intermediário ?

- Como ?

Finalmente, Gramont falava, interessava-se pelo assunto. Sem notar o brilho glacial das pupilas azuis, José alegrou-se com o facto.

- A herança de Eduardo Heybrand, tanto em dinheiro como em propriedades, atinge centenas de milhões - prosseguiu o rapaz - e, mesmo se a dividissem em duas partes iguais, cada um dos beneficiários ficaria com enorme fortuna. Proponho a Gilda uma divisão equitativa, esperando que a minha boa vontade a tornará compreensiva. Já lhe expliquei, e não me desdigo, quais as razões que me impelem a este procedimento. As mesmas razões, ou antes, a mesma e única razão guiarão minha prima na resposta a dar-me. Estará disposto a dizer-lhe que espero essa resposta digamos... uma semana ? Decorrida ela, decidir-me-ei a fazer valer os meus direitos e a pedir a revisão do testamento.

- Deseja, com certeza, não só que eu transmita a sua proposta a minha mulher como também que influa na sua decisão ?

Montresa estremeceu. Havia na voz do doutor uma vibração estranha que o impressionou. Esmagou o cigarro no fundo do cinzeiro que se encontrava em cima da secretária, murmurando:

- Naturalmente.

Ligeira gargalhada de Patrício obrigou-o a erguer a cabeça. Encostado à parede, o médico fitava-o com olhar quase insolente.

- Não conte com isso, Montresa - declarou em voz fria - Não conte com o meu apoio. E fique sabendo, essa influência que me pede para exercer, se eu a empregasse, fá-lo-ia em sentido contrário ao que deseja. Falando claro, declaro-lhe que farei o possível para que minha mulher não aceite qualquer combinação feita consigo.

Montresa empalideceu e recuou.

- Não lhe basta a metade desta formidável fortuna... precisa de tudo!

Estranha expressão perpassou pelo semblante do médico.

- Sim, preciso de «tudo» - murmurou - mas duvido de que eu e você demos o mesmo sentido a essa palavra.

José já não o ouvia. Num gesto nervoso, pegou no chapéu e nas luvas que abandonara em cima da secretária e declarou:

- Nesse caso, só me resta retirar-me.

- É essa a minha opinião.

Depois de ligeira hesitação, Montresa dirigiu-se para a porta. Nem ele nem Gramont tornaram a falar e separaram-se sem um cumprimento, sem mesmo trocarem um olhar.

Ficando sozinho, o médico manteve por alguns momentos a sua imobilidade. Depois, num gesto maquinal, passou a mão pela testa e olhou em volta de si .como se acabasse de despertar. Devagar, aproximou-se da secretária. Uma felicidade imensa tumultuava-lhe no peito por forma imprecisa, e, aterrado, recusava-se, ele o homem enérgico e resoluto, a analisar a causa dessa alegria.

Gilda despojada da sua fortuna... Gilda pobre! Seria possível que semelhante milagre se realizasse !

com a cabeça pendida para o peito e mão trémula, maquinalmente pegou, largou e mudou de lugar aos diversos objectos que tinha na sua frente e tudo isto sem mesmo saber o que fazia. A esperança abandonava-o pouco a pouco. Montresa, aquele aventureiro, mentira. Sem dúvida, preparava nova cilada, nova trapaça. Esgotados todos os recursos, jogava a sua última cartada, arriscava a suprema tentativa destinada a apoderar-se da imensa fortuna do velho colono.

No entanto, seria verosímil que ele arquitectasse toda aquela história sem ter provas formais, preparasse a impostura e se decidisse a formular a espantosa reivindicação ? E, além disso, não afirmara ele que a própria Gilda reconhecera a legitimidade dos seus direitos ?

- É de enlouquecer! -exclamou em voz alta.

Os cantos dos lábios contraídos em profunda ruga davam-lhe à boca uma expressão amargurada. Como teria rido se, alguns meses atrás, alguém lhe tivesse dito que a perspectiva da pobreza de Gilda o tornaria louco de alegria!

Hesitou durante algum tempo e depois acabou por premir o botão da campainha. A enfermeira apareceu quase logo.

- Visto não ser preciso aqui, vou abandonar a clínica mais cedo, Mónica.

Ao mesmo tempo, ia tirando a bata. Depois vestiu o casaco, que a enfermeira lhe apresentou, e deitou para o braço a gabardina, que Mónica foi buscar ao armário.

Sairam juntos. A rapariga fechou atrás de si a porta do gabinete e acompanhou-o ao rés-do-chão, onde a chamavam os seus deveres. Ao passarem diante da porta do quarto do operado de manhã, Patrício quis ir verificar a forma como o aparelho havia sido colocado na perna fracturada. Após este exame, continuaram o seu caminho e atingiram o vestíbulo, onde o médico se despediu de Mónica, abandonando imediatamente a clínica.

 

Tomando pela larga rua recentemente traçada, que ligava a clínica com a estrada, Gramont atravessou o terreno desigual que se estendia diante do edifício. .Os carros dos amigos ou parentes que visitavam os doentes eram numerosos e, ao verificá-lo, o médico pensou com orgulho que as entradas na última semana haviam sido tantas que quase ultrapassavam a lotação do estabelecimento.

Mas o pensamento de Gramont desviou-se imediatamente. A clínica, que durante tantos anos havia sido a sua maior preocupação, o alvo das suas ambições, passara para plano secundário, assumia ínfima importância, comparada com o problema único, com o seu tormento obsidiante e oculto.

Atravessou a estrada e, transpondo o largo portão, entrou no jardim. Enquanto se dirigia para casa, olhou em volta de si. Como saía todos os dias de manhã muito cedo e regressava já de noite, ainda não tinha reparado que o Outono terminava e o Inverno se aproximava. Ao tomar consciência da fuga do tempo, o coração oprimiu-se-lhe... talvez se recordasse de que estava perto a data fatal, inevitável. O corredor pavimentado de tijolos vermelhos estava deserto. Patrício pendurou a gabardina no cabide e depois, ao acaso, dirigiu-se para a sala. Gilda e Inês encontravam-se ali e acabavam de tomar chá, como o provava o tabuleiro com as chávenas e pratos de bolos e torradas meio vazios. No fogão dançavam altas labaredas e o seu clarão incerto iluminava fracamente o aposento, pois o lustre ainda não fora aceso. Em cima do cravo de mogno escuro, o grande ramo de cravos vermelhos - os preferidos por Gilda - dir-se-ia absorver toda a claridade, reflectindo-a pela sala, substituindo a luz artificial. No entanto, quando Gramont abriu a porta, o aposento estava já mergulhado numa semi-obscuridade.

Quando o viu, mademoiselle Arnaud levantou-se e foi acender a luz. Gilda, dissipado o primeiro espanto, observou:

- Regressaste hoje muito cedo, Patrício! Aconteceu alguma coisa de desagradável?

- Não, obrigado.

Arrastou uma cadeira de braços e sentou-se. Gilda, ao examiná-lo, ficou admirada com a mudança operada em tão pouco tempo, com a alteração das feições, com a palidez e expressão de cansaço.

Inês dirigiu-se para a janela e correu os pesados cortinados de seda. Patrício contava, talvez, que se retirasse, mas, terminada a tarefa, a dama de companhia voltou a sentar-se e, tranquilamente, começou a procurar em cima da mesa um trabalho de agulha em que pudesse ocupar as mãos.

Um lampejo de cólera perpassou pelas pupilas do médico. Ao mesmo tempo, Gilda, apontando a bandeja, perguntou:

- Queres tomar uma chávena de chá, Patrício? Este já deve estar frio, mas a Inês num instante vai pedir outro à cozinha.

Gramont abanou a cabeça.

- Agradeço-te. Não me apetece chá, mas conto que mademoiselle Arnaud me faça um favor.

Sorridente, Inês replicou :

- O que deseja, doutor? Tenho o maior empenho em lhe ser agradável.

- Poderia deixar-nos por uns momentos, mademoiselle? Preciso de falar com minha mulher e gostaria de o fazer a sós.

A dama de companhia contraiu os lábios delgados. No entanto, a sua atitude conservou-se calma, enquanto enrolou o trabalho e o arrumou em cima da mesa.

- O seu pedido é tudo quanto há de mais natural e será imediatamente satisfeito.

Levantou-se e dirigiu-se para a porta, não sem ter agarrado, de passagem, na bandeja com os pratos, testemunhando assim a sua vigilância, o seu cuidado nunca desmentido por tudo quanto fazia parte das suas atribuições.

Depois de Inês fechar a porta atrás de si, Patrício dirigiu-se a sua mulher:

- Perdoa-me esta... brutalidade, indispensável para podermos ter alguns minutos de conversa.

- Brutalidade, com efeito - replicou Gilda em voz surda.

Patrício observou-a com espanto. Gilda parecia lutar contra violenta emoção que, de resto, logo exteriorizou.

- A tua antipatia por Inês não se dissipou com o tempo. Todavia, gostaria de saber porque embirras com ela.

Gramont encolheu os ombros. Não havia sido para falar da dama de companhia que naquela tarde procurara sua mulher.

- Seja. Admitamos que sou injusto, parcial, até odioso para com mademoiselle Arnaud e não falemos mais nisso.

com nervosismo, Gilda contraiu os dedos nos braços da poltrona em que estava sentada.

- Acho cómoda essa maneira de confessar os erros para não seres obrigado a dar-me uma razão - observou - Mas talvez essa razão se explique em duas palavras. Detestas Inês porque é minha amiga, ou a sua presença te recorda, tanto como a minha, o constrangimento, a sujeição, as abdicações a que te sujeitaste nesta tua nova vida.

Calou-se. Falara em voz trémula, com os olhos fixos no marido. O espanto manifestado por Patrício no princípio da conversa acentuou-se.

- Em termos mais claros, isso significa que, segundo tua opinião, em reúno mademoiselle e minha mulher no mesmo sentimento de aversão, não é assim, Gilda?

- Assim parece.

Uma espécie de dolorosa ironia contraiu as feições do médico, ironia logo substituída por uma expressão de cólera. Para dominar a irritação, abandonou a cadeira e deu alguns passos pelo aposento.

O passeio, porém, não lhe proporcionou a calma desejada. Depois de alguns instantes de íntima luta, parou diante de sua mulher:

- Visto insistires, Gilda, vou dizer-te porque detesto mademoiselle Ernaud. E se, ao fazê-lo, destruir algumas das tuas ilusões, recorda-te de que foste tu quem o quis.

Calou-se um instante e depois prosseguiu:

- Nunca ouviste falar de pessoas nefastas, funestas, cuja influência pode destruir uma vida inteira ? Pois mademoiselle Àrnaud é uma dessas pessoas. Sei que vais defendê-la, alegando a sua dedicação, os seus cuidados desinteressados, os seus sacrifícios. Santo Deus! Como será possível que uma pessoa inteligente como tu, Gilda, se deixe iludir assim? O que seria dela sem ti, sem a tua amizade, sem a vida brilhante que vive a teu lado? Se ela tem por ti consideração e amizade, tu retribuis largamente tudo isso, acredita.

Calou-se. Gilda, muito pálida, fixava-o com um olhar quase aterrado. Por fim, a muito custo, proferiu :

- Um ente nefasto ? - murmurou em voz baixa, como se lhe custasse pronunciar semelhantes palavras - Uma influência má na minha vida? Como, Patrício, como ?

O médico viu-a tão emocionada que lamentou a explosão de cólera e a sua sinceridade. Além disso, que sabia ele, de facto, de Inês Àrnaud ? Mesmo o seu entendimento secreto com Montresa, do qual estava certo, nem mesmo desse podia fornecer provas formais. Todas as suas impressões e suspeitas, por muito profundas que fossem, não passavam de impressões e de suspeitas e coisa alguma poderia obrigar Gilda a partilhá-las. Esboçou um gesto vago e, mais calmo, prosseguiu:

- Pelo menos, já deves ter notado uma coisa, Gilda. A espécie de sentinela que a tua dama de companhia faz junto de nós. Até hoje não perdeu ocasião de se colocar entre ambos, nas nossas conversas, nos raros momentos em que nos encontramos reunidos. Acrescentarei que se esforçou por despertar entre nós pequenos rancores e mal-entendidos... com que fim, compete-te descobri-lo. Eu ainda não o consegui, mas não deixarei de o fazer, mais tarde ou mais cedo. Entretanto, como prova do que afirmo, posso recordar-te um facto não muito afastado: no dia seguinte ao teu desastre, quando me dirigia para o teu quarto, mademoiselle Arnaud, que por acaso se encontrava no corredor, aconselhou-me a não entrar, afirmando-me que dormias depois de teres passado uma noite muito agitada. Mentia porque não passaste a noite agitada nem dormias. Pouco depois entravas na clínica e acusavas-me de falta de cuidado e negligência para contigo. Recordas-te disto?

Calou-se. A voz calma, mas firme, não revelara qualquer animosidade. Enquanto falara, Gilda não deixara de o fixar com doloroso espanto.

- Como és duro e injusto! - protestou após alguns instantes de silêncio - Sim, profundamente injusto! Os teus agravos são tão vagos, as tuas impressões tão pessoais e tão pouco baseadas em factos reais que se torna impossível combatê-las. E é isso - concluiu em voz mais baixa - que eu acho pouco generoso da tua parte.

As feições de Patrício contrairam-se, mas Gilda não o notou. Voltara a cabeça e olhava as chamas bailarem no fogão.

- Deixemos esse assunto de parte. Tens o direito de conceder a tua simpatia, a tua afeição e fidelidade a quem quiseres - decidiu Patrício Já to disse uma vez. Mas não me peças para as partilhar.

Gilda levantou a cabeça e mais uma vez fitou o marido.

- Existe uma coisa, principalmente, que nunca te pedirei para partilhares, Patrício, é a minha vida. Sei que o peso desta existência em comum e, as obrigações que te impõe se tornam dia a dia mais insuportáveis e pesadas para ti. Quando decidimos este casamento sem importância, não fazia parte do nosso acordo que um de nós fosse prejudicado.

E, como conclusão natural, declarou:

- Partirei em breve.

Encostado a um dos lados do fogão, Patrício escutava-a com atenção. O seu rosto impassível não deixava adivinhar o que sentia.

- Estamos de acordo, não é verdade ? - insistiu Gilda - Coisa alguma teria o poder de nos algemar, prender ou constranger, na nova vida que empreendemos. Cada um de nós, pelo contrário, desejou encontrar as maiores facilidades para continuar a viver segundo os seus gostos e foi essa a condição essencial deste casamento.

Calou-se um instante, como a pedir a confirmação, que não demorou.

- Essencial, com efeito - repetiu Patrício com glacial frieza.

As palavras e o olhar que as acompanhou desnortearam um pouco Gilda, que recostou a cabeça no espaldar da poltrona e cerrou os olhos.

- Além disso - continuou pouco depois - não posso retardar o projecto de mudança de ares e de clima que tu me receitaste.

- Que o professor Vieux receitou - emendou o médico.

Gilda ergueu vivamente a cabeça.

- És de opinião diferente ? Consideras demasiado cedo para...

O marido interrompeu-a com um gesto.

- Não disse semelhante coisa. Desejei apenas dar a César o que é de César e ao doutor Vieux a iniciativa da receita que fez, da mudança de ares que recomendou.

- Que tu aprovas, no entanto.

- Que eu aprovo, sim - confirmou ele, após ligeira hesitação.

Inclinada para o fogão, Gilda remexia as brasas. Quando se endireitou, o semblante revestira-se de expressão dura.

- Deixarei Cannes no sábado - declarou - isto é, daqui a quatro dias. Será mais do que suficiente para que o Désirade aparelhe e eu e Inês acabemos os nossos preparativos.

Como o marido não lhe respondesse, continuou :

- Todavia, antes de partir, torna-se imprescindível ter uma conversa contigo. Podes conceder-me alguns momentos, agora ?

A voz firme e as frases concisas revelavam uma resolução e altivez que Patrício já conhecia. De si para si, o médico não pôde deixar de rir da sua ingenuidade. Como pudera acreditar, momentos antes, que sua mulher estava um pouco comovida!

- Estou à tua disposição - afirmou com frieza

- Tanto mais que desejo também falar-te e foi por isso que pedi a mademoiselle Arnaud para nos deixar sozinhos.

- Preferes que seja eu a primeira a falar?

- Como quiseres. O assunto deve ser o mesmo.

- Causar-me-ia espanto se assim fosse.

- Verifica se me enganei. Montresa foi visitar-me à clínica para me revelar as suas reivindicações e insistir para que eu influa nas tuas decisões no sentido de aceitares uma combinação com ele.

Interrompeu-se para observar sua mulher. Gilda não conseguira evitar um estremecimento e uma onda de sangue lhe tingiu as faces. José atrevera-se a dar semelhante passo !...

- com efeito, é sobre esse assunto que desejava falar-te. O meu primo, no entanto, deveria ter tido o bom-senso de esperar que eu te informasse.

- Montresa calculava que eu já estivesse ao facto. Não seria natural que já mo tivesses dito, Gilda?

A observação era justa, mas ela considerou-a ofensiva. Se Patrício permanecesse mais tempo em casa já ela teria tido ocasião para lhe revelar o que se passava.

- Pouco importa que to tivesse dito ou não. O resultado é o mesmo. Sabes que posso ficar arruinada de um dia para o outro. Que contas fazer?

- É a ti a quem devo dirigir essa pergunta, Gilda.

- Eu? Que conto fazer? Absolutamente nada

- replicou ela com uma risadinha seca.

- Não pensas lutar, defender-te, defender a tua fortuna?

- Não.

O coração do médico palpitou com força. Seria possível que Gilda desprezasse assim os seus bens e se resignasse a ser uma mulher como outra qualquer? Súbito pensamento destruiu essa esperança. Lentamente, perguntou :

- Desejas assim tanto poupar o José ?... Julgo não ser difícil fazê-lo condenar por uma tentativa de burla.

Gilda mordeu os lábios. O tom de Gramont, a forma como acentuava as frases, feriram-na e despertaram-lhe a cólera, ou antes, um sentimento de dolorosa impossibilidade perante a vida.

- Se me tivesses deixado falar primeiro, ter-te-ia evitado essa... observação. Não tenciono poupar seja quem for. Porém, acontece que o testamento que está em poder do José é autêntico. Foi entregue a minha prima pelo próprio Eduardo Heybrand, na véspera de morrer e tem uma data posterior ao que me deu, o que o torna o único válido. Quanto à sua autenticidade, ninguém pode contestá-la.

- Nesse caso, aceita a combinação proposta por Montresa. Se acederes a dar-lhe metade da tua fortuna, renunciará a fazer valer os seus direitos.

Patrício havia afirmado ao próprio Montresa que faria o impossível por dissuadir sua mulher de qualquer combinação ou acordo com ele. No entanto, impelido por ardente e dolorosa curiosidade, falou, no intuito de conhecer as reacções de Gilda.

Gilda aproximou-se e, com altivez, respondeu:

- Aceitar qualquer coisa da mão de José?... Nunca!

Mal acabou de falar, arrependeu-se. Estranho sorriso entreabriu os lábios do médico.

- Sou da tua opinião e Montresa não o ignora. Todavia, não podia deixar de te transmitir tão generosa proposta.

Calou-se e durante alguns instantes só o crepitar da lenha interrompeu o silêncio. Gilda foi a primeira a falar:

- Suponho que a visita de meu primo te deixou acabrunhado ? - murmurou, hesitante.

De novo o sorriso perpassou pelos lábios de Patrício.

- Acabrunhado não é bem o termo. Mas não falemos nisso, sim ?

- Pelo contrário, devemos falar. Sinto-me responsável perante ti, pela trapaça de meu primo.

Aflige-me o facto de teres sido, quando casaste comigo, iludido com o contrato.

O médico fez um gesto vago. Naquele instante sofria horrivelmente por sua mulher evocar as condições do casamento e abordar semelhante assunto. Para ocultar o que sentia, afastou-se do fogão e deu alguns passos ao longo da sala. Ela acompanhou-o com a vista, dizendo em voz alterada:

- Em poucos dias posso ficar pobre, Patrício, muito pobre. Ficarei sem nada.

O médico voltou-se bruscamente. Era o máximo que podia ouvir.

- Ficarás nesta casa, Gilda e tentaremos...

Calou-se, tornando-se lívido. Como se a perspectiva a aterrasse, Gilda recuou. Patrício não podia adivinhar quê esse gesto havia sido inspirado unicamente pelo orgulho.

com um sorriso de amargura, comentou:

- Assusta-te o pensamento de continuares nesta casa, junto dos que nela vivem ?

- Não é isso - balbuciou ela - Não...

- A vida aqui é menos agradável do que a que tens vivido no teu iate, concordo, daquela que te propunhas continuar a viver e para a continuação da qual consentiste no sacrifício de casar comigo!

As últimas palavras soaram agressivas e irónicas. Gilda levantou a cabeça. Sentia que pairava no ambiente uma tempestade, um ciclone que tudo iria destruir, derrubar e abater, deixando atrás de si apenas ruínas.

- Foi para isso, não é verdade, Gilda, para alcançares a tua «liberdade» que casaste?

O tom era cada vez mais cortante, mais sarcástico. Gilda revoltou-se. Num gesto brusco, afastou para trás a farta cabeleira e depois, contraindo as mãos nos braços da poltrona, inclinou-se para a frente e afirmou:

- Se chamas isso a independência que me conferia a situação de mulher casada e a possibilidade de correr mundo à minha vontade sem me arriscar a sofrer perseguições e pedidos que me enojavam, com efeito casei contigo para isso.

- Muito verosímil, na verdade, Gilda! Aceitar um jugo para te libertares de outros, constrangimentos e obrigações para alcançares a independência ! De resto, tudo na nossa aventura tem sido extraordinário - continuou sem dar tempo a que sua mulher falasse - E mais do que tudo o facto de Montresa esperar tanto tempo para dar a conhecer os seus direitos! Eis uma paciência... uma abnegação fora dos limites normais.

Por outros termos, Gilda já manifestara a José o seu espanto pelo mesmo facto. No entanto, naquela altura, não deixando de fixar o marido, perguntou :

- Que pretendes dizer com isso, Patrício? Peço-te para te explicares melhor.

- com todo o gosto. Para que teu primo desse prova de tão grande desinteresse, para que se calasse durante tantos anos, só tendo a consciência de ser culpado para contigo, medo de ti e te poupasse ou reconhecesse dever-te uma reparação. Vamos, fala - prosseguiu em voz dura - Que representas tu para ele ? Porque esperava ? Quais as razões da sua generosidade e desta súbita mudança ?

Eis onde a conversa os havia conduzido; a palavras violentas, a subentendidos, ao embate de dois orgulhos, sob diversos aspectos tão violento um como o outro! Gilda abandonou a poltrona e aprumou-se diante do marido, com a cabeça deitada para trás.

- Responder-te-ei como certa tarde me respondeste, Patrício - protestou com firmeza - Não te permito incursões num domínio ,que só a mim diz respeito.

O médico recuou e as pupilas azuis tornaram-se quase negras.

- Não me permites falar em Montresa?

- Não, nem na minha vida antes de te conhecer! Basta saberes que essa vida foi sempre honesta e sem mancha. Quanto a José, não te ocultei, logo nos primeiros tempos de casada, que ele e eu havíamos sido noivos durante algum tempo e, nessa altura, o facto não te emocionou. Devo pensar que a tua susceptibilidade, subitamente acordada, se dirige a Gilda Heybrand já pobre? Queres que pense que procuras pretexto para te desligares de uma mulher que deixou de ter alguma coisa para te dar?

O golpe foi tão violento que Patrício cambaleou :

- Supões, na verdade, o que acabas de afirmar? - articulou numa voz sem timbre.

- Suponho, sim, ou antes, tenho a certeza. Perdoaste tudo à mulher rica, aceitaste tudo e a tua actual intransigência tem por fim unicamente justificar o gesto pelo qual contas afastares-me definitivamente da tua vida.

Calou-se aterrada. Patrício agarrara-a pelos ombros e sacudiu-a:

- Cala-te - ordenou - Cala-te!

No mesmo instante, porém, largou-a e começou a rir num riso amargo que pesou por forma estranha no ambiente calmo do aposento. Depois voltou-se, começou a passear de um lado para o outro, com a cabeça baixa e punhos cerrados, os músculos contraídos no esforço violento que fazia para recuperar a calma. Quando supôs tê-lo conseguido, aproximou-se lentamente de sua mulher.

- Apresento-te as minhas desculpas, mas julgo mais sensato não prosseguirmos esta tarde semelhante conversa.

Incapaz de falar, Gilda aquiesceu com a cabeça. Encostara os braços ao fogão, voltando as costas para o marido, e não fez um movimento quando ele saiu.

Já no corredor, o médico disse ainda, sem que a sua voz tivesse recuperado a calma e firmeza habituais.

- Não janto em casa esta noite e volto tarde, Gilda. Não vale a pena esperarem por mim.

Não lhe deu tempo a responder e afastou-se. Gilda conservou-se por muito tempo na mesma posição. Ouviu os passos do marido desvanecerem-se no corredor e, pouco depois, o carro de Patrício passar debaixo da janela e rolar pela rua principal do jardim, até ao portão.

Não soube quanto tempo decorreu entre a partida do marido e a entrada de Inês. A dama de companhia também ouvira o rodar do carro, porque, ao ver Gilda, não pôde deixar de manifestar o seu contentamento.

- Receei que tivesses saído também, Gilda, o que seria uma imprudência. A tarde está muito fria.

Calou-se perante a lividez e expressão amarga da amiga. Gilda fixava-a com olhar vago e mal parecia dar pela sua presença. No entanto, decorrido algum tempo, respondeu a custo:

- Imprudência porquê ? Já estou boa. Mas, na verdade, não me apetecia sair.

Inês aceitou a explicação. Preocupada, examinava a amiga e não pensava em contradizê-la.

Como se coisa alguma tivesse ocorrido e as duas acabassem de regressar a casa depois de terem passado a tarde no jardim, a dama de companhia foi atiçar o lume, aproximou da poltrona de Gilda a pequena mesa com o candeeiro aceso e foi sen tar-se na cadeira que abandonara a pedido de Grã mont.

Por sua vez, Gilda retomou o seu lugar, mas até à hora do jantar mal falou, respondendo com palavras concisas a Inês, que, parecendo não dar por isso, fazia sozinha as despesas da conversa.

Quando Madiana lhes disse que o jantar estava servido, Gilda saiu da sua apatia.

- Podes retirar um talher, Na.

O facto repetia-se com tanta frequência que a criada não se admirou. Saiu para cumprir a ordem, meneando as ancas e agitando as compridas argolas de oiro que lhe pendiam das orelhas.

Mademoiselle Arnaud, que a seguira com a vista, voltou-se bruscamente para a amiga e com voz fremente, exclamou:

- Estas saias berrantes, o lenço vermelho, as argolas de oiro não te recordam a nossa ilha? Não te sentes transportada de alegria ao pensar que não tardaremos a vê-la ?

Gilda já dera alguns passos em direcção à sala de jantar. Para responder a Inês voltou-se com o sorriso nos lábios e respondeu-lhe:

- Dizes bem, Inês, estou radiante - afirmou E a propósito, quero avisar-te. Partimos daqui a quatro dias.

A refeição, servida na vasta sala de jantar adornada com ricas porcelanas, foi rápida. Em casa do doutor a comida era sempre cuidada e a cozinha de Miette digna das melhores tradições provençais. Mas por muito boas que sejam as iguarias, uma refeição não pode prolongar-se quando os convivas mal lhes tocam e quase não falam. Logo no início do jantar, Gilda queixou-se de ligeira fadiga e declarou que desejava deitar-se cedo. Em consequência, Inês, para quem os desejos da amiga constituíam ordens, esforçou-se para que o jantar fosse servido com rapidez.

Mal acabaram de comer subiram ambas para o primeiro andar. Mademoiselle Arnaud também preferiu deitar-se a ficar sozinha na sala. Gilda despediu-se; quando empurrou a porta do quarto e se encontrou sozinha sentiu uma espécie de alívio.

Não se despiu nem procedeu à toilette nocturna e despediu Madiana, que pretendia, como todas as noites, auxiliá-la, um auxílio mais carinhoso do que útil.

Dominava-a um desejo imperioso, uma sede de solidão tão intensa como não se recordava de ter sentido em toda a sua vida. Apagou o lustre, cuja luz forte a incomodava, conservando apenas acesa a pequena lâmpada da mesa de cabeceira. Depois instalou-se no sofá estilo Directório que guarnecia um dos ângulos do quarto, e só então cedeu à fadiga.

Patrício ainda não regressara, pois não ouvira o automóvel recolher à garagem. Quando este entrasse o portão, Gilda, cuja janela deitava para o jardim, seria a primeira a dar por isso. Entretanto, perguntava a si mesmo onde e com quem o marido passaria aquela noite.

Não devia ter pensado em voltar para a clínica, pois, nesse caso, não utilizaria o automóvel. Talvez fosse visitar algum doente na cidade ou arredores. Nesse caso, não devia demorar-se muito.

Nem tentou analisar-se para conhecer a razão porque não deixara Madiana auxiliá-la a despir e se conservava assim, de ouvido à escuta, atenta ao mais pequeno ruído que lhe indicasse o regresso do médico. Limitava-se a esperar, eis tudo.

Passava da meia-noite quando Patrício voltou. Depois de arrumar o carro na garagem, dirigiu-se para casa. Gilda ouviu distintamente o saibro do jardim ranger sob os seus passos e a chave dar volta na fechadura da porta de entrada. Por fim, o médico subiu a escada.

Abandonou o sofá, atravessou o aposento e, na altura em que Gramont passava diante da porta do quarto, abriu-a e deu alguns passos no corredor.

- Queres fazer-me o favor de entrar um bocadinho no meu quarto, Patrício?

O médico sobressaltou-se. A luz, no corredor, era fraca, mas bastante para Gilda notar que o semblante do marido estava mais sombrio e severo do que nunca. Mesmo assim, não mudou de resolução. Sabia que desde que lhe anunciara a sua tenção, até ao dia da partida, Patrício multiplicaria as ausências, acumularia impossibilidades, dificultando as probabilidades de uma conversa entre eles. Talvez também por saber que nos dias seguintes poderia não encontrar a energia suficiente para falar, por coisa alguma teria desistido de o fazer naquela noite.

Gramont parou, hesitante. Olhou para sua mulher e a expressão tornou-se-lhe ainda mais amarga.

- Para recomeçarmos a ferir-nos e a ofender-nos mutuamente?-murmurou-Será necessário, Gilda?

- Sim, é necessário.

Contra vontade, o médico entrou. Enquanto Gilda fechava a porta, relanceou os olhos pelo quarto, pela cama aberta mas não utilizada, pelo sofá cujas almofadas conservavam ainda as marcas do corpo de sua mulher.

- Estiveste à minha espera?

- Estive.

- Já é muito tarde e eu poderia ter dormido na clínica.

- Calculei que não tivesses lá ido. Patrício confirmou:

- Não fui, tens razão. Jantei, sozinho, num restaurante e depois fui dar uma volta no carro. Precisava de ar. O ambiente desta casa depois do da clínica exige, por vezes, uma desintoxicação.

Falava sem amargura e sem o intuito de ferir sua mulher. Gilda, que, no entanto, sofria dolorosamente a cada palavra pronunciada pelo marido, sorriu tristemente.

- Em breve encontrarás a calma da tua casa, Patrício. E sem a presença de estranhos o teu lar voltará a ser acolhedor e agradável.

- Talvez, sim - concordou lacònicamente o médico.

- Não queria, no entanto - prosseguiu ela deixar aqui amargas recordações. Eu também gosto desta casa, Patrício.

- Será possível ? - observou ele com ironia Tu, proprietária de magnífica moradia na Martinica, do mais lindo iate que até hoje amarrou ao cais de Cannes, tu, habituada, quando tocavas num porto, a instalar-te nos mais luxuosos hotéis, gostas desta casa ? Não ias morrendo de aborrecimento entre estas quatro paredes ?

Gilda respondeu-lhe com um gesto vago que exprimia o seu desejo de não discutir e, num esforço, prosseguiu:

- Seja como for, Patrício, vou partir, deixá-la e deixar-te, possivelmente para sempre. Sei que na altura do nosso casamento te disse: «Ficarei a teu lado, partirei, voltarei e tornarei a partir e, segundo o meu capricho, encontrar-nos-emos, mas ficaremos livres para nos separarmos outra vez». Mas as circunstâncias tornaram impossível esta combinação. Se eu perder tudo, a minha fortuna e o meu iate, não terei possibilidades de voltar, Patrício.

De pé, com os braços cruzados, Gramont escutava-a impassível. Como estava longe e classificava de ridícula a alegria que o invadira naquela tarde, depois da visita de José! Gilda pobre não era nem nunca seria mais acessível do que a rica herdeira, adornada com jóias cintilantes e valiosas, com sumptuosas peles, a milionária orgulhosa que lhe oferecera a sua mão. O movimento de recuo, quase de terror com que Gilda acolhera, poucas horas antes, a perspectiva de ficar ali para sempre, havia sido bem eloquente.

Profundo silêncio se seguiu às últimas palavras proferidas por Gilda. Talvez ela contasse com um protesto... mas perante o obstinado mutismo do marido, prosseguiu:

- A certeza desta separação definitiva impele-me a fazer-te uma confissão, Patrício. Se nunca mais nos encontrarmos, não quero que a tua recordação seja envenenada por suspeitas, quero dar-te a certeza de que este casamento não foi inspirado por motivos inconfessáveis e vis. Estavas no direito de formular as mais desagradáveis e temíveis suposições, mas decidi contar-te a verdade, esta noite.

Gramont poderia ter respondido que, nessa mesma tarde, Gilda lhe recusara o direito de penetrar nesse campo sentimental, nesse domínio cujas portas lhe facultava agora. A versatilidade de espírito era, parecia-lhe, um dos mais pequenos defeitos de sua mulher. No entanto, considerava a mudança de atitude não como um capricho, mas como uma resolução inspirada pela certeza da separação.

Todavia, quando Gilda pronunciou a palavra «verdade» assumiu uma expressão de implacável ironia.

- Eis, portanto, destruída a lenda dessa sede de liberdade.

- Não, eu desejava ser livre e desejava também que acabassem as odiosas perseguições daqueles cuja única e exclusiva ocupação é a caça às herdeiras milionárias. Mas tudo isso não era mais do que motivo secundário.

- E qual era o principal ?

A voz do médico soava dura, fustigante e de antemão Gilda compreendeu que a sua confissão iria esbarrar contra as prevenções do marido.

Estava de pé, perto do grande leito que fora da mãe de Patrício, em frente do marido, que não deixava de a observar. A lâmpada dava fraca claridade e, nessa semi-obscuridade, Gilda encontrou um pouco mais de coragem para falar.

- Já sabes o que o José foi para mim, o lugar que ocupou na minha vida, não é verdade ?

Era realmente de Montresa de quem se tratava! Embora já contasse com esse nome, o médico cerrou os dentes.

- Sim, disseste-me que tinhas estado noiva do teu primo.

- Nessa altura não era meu primo, mas apenas um vizinho de plantação, um amigo de infância criado comigo e com Verónica.

Calou-se durante alguns momentos e depois prosseguiu:

- Eu tinha quinze anos e ele pouco mais, não se vive impunemente na perpétua euforia de um país de sonho, com manhãs luminosas e radiantes, dias esplêndidos, noites prateadas pelo luar, vibrantes de música e de perfumes. .. amámo-nos e ficámos noivos. Noivado secreto, mas pressentido pelos que viviam junto de nós. Para mim, porém, considerei-o solene, pois adorava o meu noivo.

A voz de Gilda desfaleceu, mas como tinha decidido ir até ao fim, continuou:

- Amava-o e toda a minha vida passou a pertencer-lhe, ardente, concentrada, aguardando ansiosa o dia em que me tornaria sua mulher. Os meses passaram. José transformou-se num homem, um homem reflectido e calculista.. Connosco, em casa de meu tio Eduardo, vivia também minha prima Verónica, como já te disse, que era rica, enquanto eu tudo perdera na catástrofe que vitimara meus pais. Mais tarde, também eu seria rica, por certo, se o tio dividisse entre nós a sua fabulosa fortuna, visto sermos as suas únicas parentas. Todavia, quando atingiu a idade de avaliar os inconvenientes e vantagens de um gesto, de encarar calmamente as suas consequências, de pesar todas as circunstâncias, José optou pela mais prudente. A fortuna de Eduardo Heybrand podia demorar muito tempo para lhe vir ter às mãos. Meu tio era saudável e forte. Pareceu-lhe preferível casar com uma mulher já rica e decidiu-se a pedir a mão de Verónica. Minha prima aceitou encantada- pois também o amava - e o seu noivado tornou-se oficial. Antes de assistir ao casamento, eu, dia a dia, presenciava os seus transportes. Talvez não possas avaliar quanta perturbação, desespero e rancor a primeira decepção pode semear num coração confiante... Fiquei profundamente ferida, revoltada; o meu orgulho sofreu profundamente.

- E também o teu amor, Gilda.

- Sim, o meu amor. Mas ninguém o notou. A vida continuou e mais tarde a morte surgiu, levando primeiro meu tio e um ano depois a minha prima Verónica. José estava viúvo e quase arruinado pela forma como administrara a fortuna de sua mulher; eu, pelo contrário, fiquei riquíssima e livre para levar a vida que entendesse. O destino vingava-se para além das minhas esperanças. Abandonei a ilha e comecei a viajar.

O final da confissão devia ser para Gilda infinitamente doloroso porque, a partir desse instante, a voz tornou-se menos firme, mais enfraquecida. Adivinhava-se quanto lhe custava cada palavra.

- Então, Patrício, começou através do mundo a mais estranha perseguição que possas imaginar. Enquanto estive na Martinica, José tentou falar-me, reatar o noivado interrompido. Quando parti, procurou por todos os modos alcançar-me. Não se tornava fácil, mas, não sei como, conseguiu descobrir parte dos meus itinerários, os portos onde parava. Mais de uma vez o encontrei no meu caminho e essa espécie de perseguição, conjugada com a que suportava por parte dos aventureiros, envenenou-me a vida. Além disso, Patrício, além disso quero dizer-te toda a verdade - tinha medo! Medo de me deixar iludir, enganar, medo de fraquejar, medo de acreditar naquele homem que fora para mim o sonho da mocidade, medo de continuar a amá-lo e sucumbir.

Calou-se um instante e continuou:

- Não podes avaliar quanto era terrível. Conhecer a duplicidade de uma pessoa, avaliá-lo tal como era e não poder deixar de o amar, amar sem nobreza, sem estima, sem respeito!

- Continua! - ordenou Gramont com voz dura. Gilda fixou-o com olhar um pouco desvairado.

- Continuar para quê?... Exiges?... Pois bem, seja. O Désirade chegou a Cannes. Instalado no Martinez encontrei um velho amigo. Conversámos e ele falou-me de ti. Muitas outras pessoas, por acaso, pronunciaram diante de mim o teu nome e não regatearam elogios. Fiquei sabendo que, para construíres a clínica, o alvo da tua vida, estavas crivado de dívidas, apesar dos subsídios alcançados. Nessa altura encontrava-me na maior das desorientações. Havia alguns meses já que não encontrava José - soube mais tarde que grave doença o prendera na ilha - mas não conseguia esquecê-lo.

E sentia-me desesperada quando pensava que, apesar de todo o meu orgulho, poderia chegar a cair-lhe nos braços. Foi então, Patrício, que me ocorreu uma ideia louca. Só uma coisa me defenderia de ceder às suas súplicas, de transigir, de casar com ele. Era casar com outro. E corri para esse outro, para ti, Patrício, como num perigo mortal corremos para a salvação.

Calou-se mais uma vez. Depois, a bela voz, de inflexões graves, mas tão quebrada, tão trémula que mal se poderia reconhecer, concluiu :

- Tudo quanto te disse naquele dia era verdade, simplesmente...

- Simplesmente, ocultaste-me o verdadeiro motivo que te impelia.

- Não terias consentido no nosso casamento.

- Porque não? Talvez fosse bastante cobarde para aceitar o contrato: dar o meu nome em troca do dinheiro de uma mulher que amava outro!

A implacável ironia e a dureza do tom desfaleceu com as últimas palavras. De repente, apertou a cabeça nas mãos.

- E fui eu o escolhido! Precisamente eu!

- Sim, tu, porque me seria impossível casar com um aventureiro, porque já conhecia a nobreza do teu carácter, a elevação da tua alma, o ardor generoso do teu labor cotidiano e, além disso, sabia o emprego útil e fecundo que terii a minha fortuna. Escolhi-te, sem dúvida, por sentir que podia estimar-te. Patrício, tu...

O médico mal a escutara. Continuava com o rosto oculto nas mãos e só quando Gilda proferiu as últimas palavras as deixou cair.

- É tudo quanto tinhas para me dizer? - perguntou em voz surda.

Gilda hesitou, mas logo curvou a cabeça numa atitude desanimada:

- Sim, não podia deixar esta casa sem o ter feito.

Patrício sorriu com amargura.

- Agora a tua consciência está em paz. Poderás seguir o teu caminho com o espírito desanuviado e o coração leve. Mas nem todos podem dizer o mesmo.

Deu alguns passos para a porta e Gilda adivinhou que o marido se dispunha a deixá-la. Estava tudo dito e a confissão, sobre a qual fundara nem sabia bem que loucas esperanças, servira apenas para cavar mais fundo o fosso que os separava. Até ao dia da partida, estava certa de que Gramont procederia por forma a nunca mais se encontrar sozinho com ela.

Já com a mão no puxador da porta, Patrício voltou-se. A expressão era sombria e a contracção das sobrancelhas tornava mais fundas as rugas da testa.

- Boa noite, Gilda. Devia talvez agradecer-te a franqueza. Perdoa-me se não o faço, mas, neste momento, torna-se-me impossível.

Saiu e Gilda ouviu-lhe os passos ressoarem no silêncio da casa adormecida e depois abrir-se e fechar-se a porta do quarto do marido, situado na extremidade do corredor.

 

Chegou finalmente o último dia que Gilda devia passar em casa de seu marido. No dia seguinte, sexta-feira, dezoito de Setembro, ao meio-dia, o Désirade levantaria ferro. com todos os preparativos já feitos, só lhe restava aguardar a hora de abandonar o seu quarto, já despojado de todos os objectos pessoais, a sala onde a cesta da costura se encontrava vazia e o jardim cujos agaves azulados se erguiam para o céu, um céu cinzento, carregado de nuvens.

Chovia, uma chuva miudinha e monótona, muito rara naquela região e que oprimia o espírito com a sua tristeza.

O almoço, para Gilda, pareceu interminável. Gramont não conseguira deixar de comparecer e Gilda perguntava de si para si se não seria preferível que o médico passasse aqueles últimos momentos na clínica, a demonstrar-lhe tão completa indiferença, aquele rosto impassível e frio.

Tal como havia suposto, Patrício, depois da última conversa, evitara encontrar-se sozinho com ela. E Inês pudera conservar-se na sala sem que o médico renovasse o pedido, ou antes, a ordem, dada certa tarde para se retirar.

Acontecia, porém, que esta saía muitas vezes, deixando a amiga. Mas isso acontecia sempre - por acaso - nas horas em que Patrício, preso na clínica por causa das operações, não podia ir a casa. Gilda deixara a mademoiselle Arnaud o cuidado de organizar a viagem. Na última semana não fora ao Désirade mais do que uma vez. Não tencionava pisar a pequena ponte senão no dia da partida e então seria definitivamente.

Na tarde daquele último dia, Inês foi a bordo para verificar se tudo estava em ordem. Gilda estava-lhe infinitamente reconhecida pela forma como, sem olhar ao trabalho e à fadiga, se multiplicara para que tudo ficasse pronto no mais breve espaço de tempo.

Poucos minutos depois da saída de Patrício, Inês, já pronta, entrou na sala.

- Posso utilizar-me do Chrysler? - perguntou

- Não tencionas sair esta tarde ?

- Podes. Não arredarei pé de casa.

Mas como o carro já estivesse vendido havia alguns dias a um garagista que devia tomar conta dele na altura da partida, perguntou ainda:

- O homem não vem hoje buscá-lo?

- Não. Só amanhã, muito cedo.

- Nesse caso, aproveita.

Ficou de pé, perto da porta envidraçada e quando Inês passou ao volante correspondeu ao gesto afectuoso que ela lhe fez com a mão enluvada.

Tinha parado a chuva, mas o jardim apresentava um aspecto triste com o solo ensopado e as árvores gotejantes. Os altos ciprestes assemelhavam-se a postes aguçados, sustentando a abóbada celeste e nas alamedas alastravam grandes poças de água.

Quando Madiana entrou, Gilda deixara cair a cortina, mas conservava-se ainda perto da janela, com a cabeça pendida e olhos postos no chão. A criada apresentou-lhe um sobrescrito e quando, admirada, madame Gramont lhe perguntou do que se tratava, explicou-lhe que a carta fora trazida por um criado do Martinez.

Gilda apressou-se a rasgar o sobrescrito e leu extenso bilhete de Clarisse Mériel, anunciando-lhe a chegada do casal a Cannes, onde tencionava passar as festas do fim do ano. Pedia-lhe desculpa por ter empregado aquele meio em vez de lhe falar ao telefone e pedia-lhe para a ir visitar, alegando não ter conseguido a ligação.

Era natural. A instalação de um ramal de casa para a clínica exigia demorado trabalho que começara na véspera.

Após ligeira hesitação, Gilda aproximou-se da escrevaninha e traçou algumas linhas como resposta, dizendo à criada para entregar o bilhete ao portador que ficara à espera. Em seguida, subiu apressadamente ao quarto, envergou o casaco de peles já preparado para a manhã seguinte, agarrou na malinha e nas luvas e desceu à garagem, utilizando-se do carro do médico. Assim, por vezes, os mais simples actos da nossa vida, os gestos mais insignificantes, as resoluções mais banais põem em marcha o mecanismo do destino, com as suas reacções imprevistas, de profundas consequências.

Gilda alcançou rapidamente o hotel, onde, já avisados, os Mériel a aguardavam. Embora não o confessasse a si mesma, aproveitara o pretexto da visita para não ter de suportar a lenta fuga das horas, com tudo quanto poderia comportar de tristeza dilacerante. Mas, só na altura de entrar na salinha clara que fazia parte dos aposentos do casal, pensou na forma como explicaria aos amigos a próxima partida para a Martinica.

No entanto, conseguiu-o e com a maior naturalidade. E a tal ponto que Jorge Mériel não achou singular que, depois de quatro meses de casada, Gilda pensasse em dar uma vista de olhos pelas plantações.

- O doutor Gramont, como é natural, não pode acompanhá-la ? - perguntou - O facto não me causa espanto. Pertence aos doentes, de corpo e alma, mas creio que umas semanas de descanso, de tempos a tempos, lhe seriam muito proveitosas. Estes homens de ciência! Quando nos encontrarmos, depois da sua partida, conto dizer-lhe o que penso a esse respeito.

Gracejava, contente e lisonjeado com o facto de Gilda, ao ter conhecimento da presença de ambos em Cannes, não ter querido adiar a visita e, principalmente, abandonar a França sem se despedir.

A visitante instalara-se numa poltrona, perto da varanda envidraçada. O casaco de peles, afastado, acusava a sua magreza e a claridade do dia que lhe batia em cheio no rosto mais lhe acentuava a palidez.

- Apesar do conforto do seu iate, a viagem deve ser muito fatigante - observou Mériel - Não a receia ?

- Estou habituada - respondeu Gilda com um sorriso - Além disso, devo olhar pelos meus interesses, de longe em longe.

- com certeza. E eles são tão importantes que justificam a viagem. Aqui para nós, Gilda, não sei como pensa em aumentar os seus domínios e as suas preocupações. Estará possuída do mesmo vício de Eduardo Heybrand, que teria comprado a Martinica em peso se lha oferecessem ?

Gilda olhou para ele sem compreender a alusão.

- Estou a ser indiscreto, já vejo. Desculpe.

- Absolutamente nada. Gostaria apenas de saber o que comprei. Afirmo-lhe que o ignoro.

- O segredo foi bem guardado, com efeito. Todavia, o meu agente na Martinica, que esteve em Paris há meses, afirmou-me que o nome de mademoiselle Arnaud é citado como a possível compradora dos terrenos que Montresa procura vender. Como calculasse que o nome da sua dama de companhia escondia outro, comecei a pensar e não me foi difícil adivinhar.

Enquanto Mériel falou, Gilda não abandonou o ar de espanto, mas quando ele se calou, limitou-se a dizer:

- Pode estar descansado, meu amigo. Essas plantações nunca me darão cuidados. O que supôs não é verdade, pelo menos no que se refere a Inês e a mim.

O importador inclinou-se ligeiramente, como para afirmar à visitante que a acreditava. Mudaram de assunto, falando na viagem.

De resto, Gilda levantou-se quase logo e desculpou-se, perante o pesar manifestado pelos seus amigos, com a brevidade da visita, alegando preparativos a fazer. Acompanhada por Mériel, desceu, entrou no carro e dispôs-se a regressar a casa.

Pensou ainda em passar pelo cais, mas desistiu.

Inês com certeza tomara as últimas disposições e o Désirade devia estar pronto para largar. A visita tornava-se inútil.

Ao pensar em Inês sentiu-se perturbada. Recordou as palavras de Mériel, mas acabou por encolher os ombros. Boatos estúpidos e sem fundamento! Que José vendesse o que lhe restava para pagar as dívidas mais exigentes e cobrir as despesas do processo que se propunha intentar, admitia. Mas que Inês pensasse em adquirir as plantações sem dizer coisa alguma a Gilda, não podia acreditar.

Censurou-se por dar tanta importância à conversa tida pouco antes e prestou toda a sua atenção ao volante. E em boa hora o fez. Numa encruzilhada surgiu comprido carro a impedir-lhe o caminho e Gilda mal teve tempo de se atirar para o lado a fim de lhe dar passagem. Fazendo, maquinalmente, a guinada não conseguiu reprimir uma exclamação. O carro branco com capota azul que por pouco não a esmagava era o Chrysler, o «seu Chrysler». Inês conduzia e, sentado ao lado, encontrava-se um rapaz: José.

Tê-la-iam reconhecido ? A custo evitando a colisão, os carros roçaram um pelo outro e, embora tudo tivesse sido muito rápido, os ocupantes do automóvel não podiam ter deixado de olhar para ela. Iam parar, com certeza. Mas a esperança foi ilusória. O Chrysler afastou-se e estava quase a voltar a esquina.

Impulsiva, antes que ele desaparecesse, Gilda lançou-se em sua perseguição. E desta forma, correndo nas ruas de Cannes, sem saber se voltava para trás ou se seguia direcção oposta aquela que tencionara tomar, a condutora só tinha um alvo : apanhar o carro e, em primeiro lugar, não o perder de vista.

De princípio, ainda admitiu um engano de sua parte, ao supor-se reconhecida. Inês não reconhecera o carro do médico, parecido com tantos, nem a sua condutora. Mas não tardaria a vê-la no espelho retrovisor e a notar a perseguição de que era vítima. E então deter-se-ia.

Mas a ilusão pouco durou. O Chrysler abandonou a cidade, tomando a primeira estrada à direita, a estrada de Grasse, e corria como uma flecha. Sem hesitação, Gilda seguiu-o. Era então verdade. Inês procurava afastar-se. Mas porquê, santo Deus, se o seu próprio procedimento provava que sabia ter sido reconhecida?

Curvada sobre o volante, espírito e corpo tendidos para o mesmo fim, não consentir que o carro fugitivo se distanciasse, Gilda reflectia. Inês ia acompanhada por José, este sentava-se-lhe ao lado, quando dias antes ela afirmara à amiga que nunca encontrava o colono. Teria sido a contrariedade por se ver apanhada que impelira mademoiselle Arnaud à estúpida e imediata reacção da fuga ? Contaria, no momento em que tomou essa resolução, não ter sido notada ?

Essa esperança era pueril e não podia durar muito tempo. Que de princípio Gilda não tivesse podido identificar a condutora e o companheiro, admitia-se. Mas que não tivesse reconhecido o seu próprio carro, o esguio Chrysler branco e azul, propositadamente carroçado para ela, único em toda a Cote, ninguém poderia acreditá-lo. Nesse caso...

Então - Gilda, cujo espírito se conservava perfeitamente lúcido, supôs ter adivinhado as intenções de Inês - mademoiselle Arnaud, convencida de que a amiga não notara a presença de José, pensava distanciar-se bastante e tomar o avanço necessário para parar num sítio afastado e obrigar o rapaz a descer. Depois prosseguiria o seu caminho mais devagar, deixava-se apanhar e, calma e sorridente, persuadiria Gilda que se tratava de uma brincadeira.

Cerrou os dentes. Apanhá-los-ia antes que tivessem a possibilidade de se separarem e exigiria uma explicação.

De pouco depende o destino! Se, pouco antes, Mériel não tivesse aproximado os nomes de Inês e de Montresa, ao encontrá-los, Gilda não teria feito caso ou, pelo menos, não se sentiria impelida a surpreendê-los juntos para os confrontar e descobrir se eram cúmplices.

A cidade de Grasse apareceu. Inês iria prosseguir? Não, com certeza devia compreender que uma estrada mais tortuosa e difícil lhe asseguraria a ela, Gilda, incontestável superioridade. O carro fugitivo meteu pela estrada de Pont du Loup e depois pela de Vence. E a louca perseguição continuou.

Ao contar com grande vantagem, Inês enganara-se. O Chrysler, de facto, era muito mais possante que o carro do médico, mas o seu tamanho tornava mais difíceis certas manobras. Quando na sua frente encontrava um automóvel menos rápido, um carro de bois ou um autocarro, buzinava por muito tempo antes de conseguir passagem e perdia alguns segundos, que Gilda ganhava por ultrapassar sem custo o carro já afastado para o lado.

Os dois automóveis seguiam numa corrida louca Por vezes, uma guinada na estrada, que a chuva tornava escorregadia, atirava-os de um lado ao outro, mas a habilidade das condutoras conseguia endireitá-los e a estranha perseguição continuava.

Gilda, porém, perdia terreno. Por várias vezes as curvas da estrada escondiam-lhe a bólide branca que ao longe prosseguia a carreira vertiginosa. com as mãos contraídas no volante, as fontes a latejar, esforçava-se, não por ir mais depressa, porque isso seria impossível, mas por manter a velocidade. Contanto que não lhe faltasse a gasolina... Mas um olhar para o mostrador tranquilizou-a... Depois, diversas curvas fizeram-lhe perder o Chrysler de vista. Mordeu os lábios com violência. Os fugitivos iriam aproveitar a ligeira vantagem para se separarem ? E, nesse caso, como acusar Inês de mentira ? Como poderia provar que José se encontrava a seu lado minutos antes ?

Este pensamento foi como uma chicotada. Sabia ser ela, das duas, a melhor condutora. Porque não aproveitar a sua habilidade para ganhar a partida?

Uma recta permitiu-lhe avistar de novo o Chrysler. Parara atrás de um autocarro que metia passageiros na estrada, enquanto um grupo de ciclistas, vindo em sentido contrário, o obrigava a aguardar que eles desfilassem com todo o seu vagar.

Em poucos segundos, Gilda chegou junto do Chrysler, tão perto que a ponta do capot quase tocou as traseiras do outro carro. Gilda avançou, tentando colocar-se-lhe ao lado, segura, naquele instante, de os ter apanhado. Mas o autocarro bateu as portas e partiu. Inês não hesitou. com louca imprudência, ultrapassou-o sem se importar com a visibilidade. O carro partiu, quase deu um salto e retomou a corrida, enquanto Gilda se lançava em sua perseguição. Anoitecia. Os campos, prados, olivais e grupos de ciprestes perdiam pouco a pouco a cor e esbatiam-se. Em breve seriam absorvidos pelas trevas. No entanto, ainda não chegara a hora de acender os faróis. Daqui a pouco - pensou Gilda - impõe-se que os alcance.

Conseguiria ? ... Começava a duvidar. Eles tomavam avanço.

A estrada subia toda em curvas. O Chrysler, pesado e comprido, virava com dificuldade, mas essa desvantagem era compensada pela superioridade da força. Seguiu-se uma recta, na qual, a trezentos metros um do outro, os dois carros, com a máxima velocidade, devoravam o espaço. Uma curva! Ao atingi-la, a buzina do carro fugitivo soou num toque prolongado. Demasiado tarde, por certo. Gilda não viu, porque Inês e José já se encontravam do outro lado, mas ouviu... ouviu o choque surdo, seguido pelo ruído do esmagamento, que se lhe afigurou interminável. Depois foi o silêncio.

Accionando os travões, parou mesmo na curva, mas durante alguns segundos não conseguiu fazer um gesto, paralisada pelo terror.

A poucos passos, viu um carro puxado por um cavalo, parado no meio da estrada e os seus ocupantes, dois homens, estavam por tal forma aterrados que pareciam duas estátuas. Um pouco mais adiante, o Chrysler estava voltado, esmagado contra o tronco de um plátano. A marca dos pneus, profundamente riscada na estrada, contava sem palavras todo o desastre. O automóvel, correndo a toda a velocidade, ao fazer a curva encontrara pela frente o obstáculo, o vagaroso carro; para o evitar, Inês tinha dado uma volta tão brutal no volante que não conseguira endireitar o veículo.

Gilda, por fim, conseguiu arrumar o carro à beira do talude. Depois saltou e dirigiu-se para os destroços do automóvel. De princípio, não viu Inês. Em breve, porém, avistou um vulto caído no valado, um pouco mais abaixo. com a violência do choque a rapariga fora projectada e talvez por isso não sofrera grande mal. Quanto a José, derrubado nas almofadas, lívido, sangrando na fronte, parecia morto.

Gilda voltou-se e chamou os dois homens, que mal pareciam acreditar no que acontecera. com sangue-frio, calma e lúcida, deu as suas ordens. A custo, tiraram José dos destroços e foram deitá-lo no carro do médico. Seguiu-se Inês, que, quando Gilda se curvou para ela, recuperou os sentidos.

- Podes andar ? - interrogou Gilda.

Impossibilidade real ou fingimento, Inês não respondeu e voltou a cerrar os olhos. Então a mulher do médico ordenou que a levassem também para o carro e a deitassem no espaço livre a seu lado.

Quando tudo ficou pronto, sem uma palavra para os dois homens, sem um olhar para o seu belo carro, completamente destroçado, sentou-se ao volante, deu meia volta e, em sentido inverso, percorreu o caminho para Cannes, caminho que se lhe afigurou tragicamente comprido.

No entanto, a velocidade era idêntica, embora o alvo fosse diferente. Não se tratava já de confundir Inês, mas sim de salvar duas vidas.

Por duas ou três vezes afrouxou um pouco e voltou-se. Estendido no banco do fundo, José perdia muito sangue. Talvez não chegasse a tempo...

Anoitecera por completo. Gilda acendeu os faróis, que projectaram sobre a estrada o seu feixe luminoso. Ultrapassando Grasse, o tráfego intenso obrigou-a a abrandar. Por fim, avistou as luzes da clínica e isso animou-a. O edifício reconhecia-se de longe, com fachada regularmente picada de rectângulos luminosos.

Mais algum tempo e estaria junto de Patrício e seria a salvação para aqueles a quem, sem uma hesitação, iria entregar-lhe. Alcançou por fim o muro do jardim exuberante e, voltando à direita, atravessou a estrada provisória traçada no terreno desigual. Parou, saltou do carro e subiu, correndo, a rampa que conduzia à entrada principal.

Quando entrou no vestíbulo, a forte claridade obrigou-a a cerrar as pálpebras. Dominou-se e prosseguiu o seu caminho.

- O doutor Gramont ainda se encontra aqui? - perguntou.

A enfermeira, uma rapariga muito nova, respondeu afirmativamente.

- Quer fazer-me o favor de lhe dizer que lhe trago feridos ?

- Quantos?

- Dois.

- Já chegaram ?

- Estão no meu carro.

A enfermeira voltou-se e premiu um botão de campainha. Então, com uma rapidez que deixou Gilda estupefacta, tudo se organizou para os primeiros socorros. Momentos depois, Gilda via passar duas macas com José e Inês.

Enquanto os dois feridos eram levados para os ascensores que conduziam à sala das observações, Gilda perguntou:

- Posso subir também ?

Recebendo resposta afirmativa, subiu a escada. Quando seguia pelo corredor do primeiro andar, uma das portas abriu-se e Patrício apareceu.

O espanto imobilizou-o. Observando sua mulher, notou-lhe o rosto pálido, o vestido amachucado e sujo de sangue. Gilda estava sem casaco, porque o colocara como almofada debaixo da cabeça de Inês e esse facto mais estranho tornava o seu aspecto.

- Santo Deus! Que aconteceu ?

Gilda ainda encontrou forças para sorrir.

- A mim, nada, felizmente. Mas a Inês e o José sofreram um desastre. Trouxe-os para aqui.

E numa voz que, de súbito, desfaleceu, acrescentou :

- É preciso salvá-los.

Graças à insonorização, não se ouvia qualquer ruído, mas na sala de observações já tudo estava a postos. Adivinhavam-se os preparativos, essa espécie de febril actividade que precede as operações e que reúne em volta do paciente tudo quanto ta ciência humana dispõe para salvar vidas.

Gilda, de pé, com a cabeça pendida, aguardou durante um tempo que lhe pareceu interminável. Por fim, alguém entrou no aposento. Era Mónica Dorger.

- As suas vidas correm perigo ?-perguntou, levantando a cabeça.

- Não a de mademoiselle Arnaud. Vinha justamente tranquilizá-la a esse respeito. O doutor Gramont afirma que as suas contusões não têm gravidade. Sofreu ligeira comoção nervosa... mas já recuperou os sentidos e em breve ela própria virá sossegá-la.

- E quanto a Montresa ?

- O estado de José é muito mais grave, Gilda

- afirmou Gramont, que acabava de entrar.

Já envergara a bata branca, cujas mangas arregaçava. Deu algumas instruções à enfermeira e, depois dela sair, voltou-se para sua mulher.

- O teu primo sofreu graves lesões internas. Tem algumas costelas partidas e uma fractura de crânio. Desejas que o doutor Pascal o opere?

- Porquê o doutor Pascal e não tu ? - perguntou, admirada.

Estranho sorriso entreabriu os lábios de Patrício.

- Porquê, Gilda ? Simplesmente, porque odeio esse homem.

Disse-o com calma, como se enunciasse uma verdade banal e indiscutível.

Gilda ergueu a cabeça e observou-o. Viu-lhe a expressão grave e fria, a atitude resoluta que noutros tempos supusera inabalável, mas que sabia agora poder exprimir cólera e violência.

- Isso não tem importância agora, Patrício.

O marido olhou-a com fixidez e nesse olhar Gilda supôs descobrir sentimentos idênticos àqueles que a haviam agitado pouco antes, diante do corpo imóvel de Montresa. No entanto, murmurou em voz dura:

- O que importa é salvá-lo, não é verdade ?

- Sim, e eu sei que tentarás o impossível.

- Tens razão. Todavia, quis avisar-te, para que, com conhecimento de causa, escolhesses as mãos a quem ias confiar a sua vida.

- Já escolhi, Patrício.

- Muito bem.

Quando se dispunha a sair, alguém bateu à porta e a enfermeira apareceu.

- Doutor, já demos as injecções. O doente recuperou os sentidos.

- Queres vir também ?

Antes de seguir o marido e a enfermeira, Gilda hesitou. Depois, os três atravessaram a sala contígua e detiveram-se na antecâmara da sala de operações. José apareceu, conduzido numa maca rolante. Um lençol cobria-lhe o corpo, deixando-lhe a descoberto o rosto exangue, cor de cinza, emoldurado nas ligaduras que lhe envolviam a cabeça. Quando Patrício se aproximou, reconheceu-o e a custo murmurou:

- Doutor, eu quero viver...

Todo o carinho, toda a bondade que animavam Gramont quando estava junto de um doente se manifestaram quando, docemente, poisou a mão no ombro do ferido e declarou :

- A sua vida não corre perigo, Montresa, pode estar sossegado.

José escutou com avidez estas palavras simples e tranquilizadoras, mas que não acalmaram os receios. Naquele espírito vacilante talvez despontasse uma espécie de terror: o medo de se saber à mercê do homem a quem pretendia arruinar. Arquejante, numa voz fraca, mas perfeitamente audível, acrescentou :

- Toda a fortuna de Gilda em troca da minha vida. Sim, a fortuna dela, visto que...

Calou-se, respirou a custo e, durante alguns segundos, só essa respiração desigual perturbou o silêncio. Pela porta entreaberta, via-se na sala das operações uma enfermeira de bata branca e luvas de borracha que dispunha os instrumentos em cima da mesa e nos tabuleiros esterilizados, ao alcance da mão. Todos os seus gestos eram precisos e silenciosos.

- Não tenho direito a coisa alguma - prosseguiu José - O doutor, como marido da Gilda, deve sabê-lo. O segundo testamento... é falso. Foi redigido por Eduardo Heybrand... mas não assinado por ele. É falso - repetiu-nunca o farei valer. Salve-me e eu desaparecerei.

Calou-se, esgotado. Gramont voltou-se para Gilda, que tinha escutado tudo e estava um pouco mais atrás, muito pálida. Todos quantos rodeavam o ferido, Mónica Dorger e o doutor Pascal, também haviam ouvido. Gramont inclinou-se para o vulto coberto com o lençol.

- A sua revelação teve testemunhas, Montresa. Mantém-na?

- Mantenho - murmurou o ferido em voz fraca, mas firme - Pela salvação da minha alma, juro ter dito a verdade.

Calou-se como se tivesse de novo perdido os sentidos. Patrício aprumou-se. Estava transfigurado. Era outro homem, um homem para quem tudo deixara de existir, excepto o ferido, cuja vida se impunha salvar. Nem sequer olhou para Gilda. Talvez nem mesmo se lembrasse de que ela se encontrava ali. Voltou-se para a enfermeira:

- Está tudo pronto, Mónica ?

- Tudo.

- Então vamos.

E como se estas palavras fossem mágicas, as portas da sala de operações abriram-se de par em par para deixar passar a maca. Depois voltaram a fechar-se.

 

Gilda, vagarosamente, voltou para trás. Na ocasião em que se dispunha a abandonar a clínica, hesitou. Não seria seu dever aguardar Inês para a levar para casa? Entrando no gabinete do médico, deixou-se cair numa das poltronas de cabedal.

Estava esgotada. Dir-se-ia que toda a energia que a animara, primeiro na perseguição e depois para salvar Inês e José, a abandonara, deixando-a quebrada de espírito e de corpo.

Pensou em chamar para saber em que ponto da clínica se encontrava Inês e se podia ir ter com ela, mas não teve coragem. Nem a confissão de José e a certeza de conservar a sua fortuna lhe davam alegria, nem também se sentia indignada com a odiosa manobra de que ia sendo vítima.

Depois, com o decorrer dos minutos foi acalmando. O ambiente daquela salinha, onde Gramont costumava passar muito tempo, era calmo e agradável. Respirava-se ali uma espécie de força tranquila e segura, paz de consciência, o amor ao trabalho e qualquer coisa de muito alto que pacificava o coração e o espírito.

Patrício! Quando se refugiava ali, quais seriam os seus pensamentos, tristezas, alegrias, desgostos, esperanças e desejos ? Evocaria, por vezes, a imagem de sua mulher? E, nesse caso, o que sentiria? Indiferença ou rancor ? Ou, desde que conhecia o motivo que a impelira à louca aventura, uma cólera justa ? Esse motivo, o medo de sucumbir ao amor! Seria possível que tivesse existido algum dia ?

Ergueu-se bruscamente e começou a passear de um lado para o outro. No instante em que José podia ter já deixado de existir, não era para ele que dirigia o pensamento, os seus temores, toda a ternura do seu coração, mas sim para o «outro», para aquele que com mão firme e segura tentava salvar um homem a quem odiava.

Como gostava dele! Como amava o marido! Como se lhe afiguravam distantes e apagados os anseios da sua adolescência, agora que conhecia o sofrimento e as alegrias do verdadeiro amor! Pobres alegrias, bem raras, apenas proporcionadas pela presença do médico. Em compensação, como pagava esses instantes com pesadas tristezas, ocultos sofrimentos e profundos desesperos! E não se dispunha a pagá-las com a renúncia total, visto a partida estar marcada para o dia seguinte ?

com desespero, ocultou o rosto nas mãos. Partir! Partir para quê ? A resolução fora inspirada pela certeza de perder a sua fortuna, pelo desejo de não ser um estorvo na vida de Patrício, visto não poder dar-lhe coisa alguma em troca.

- Dizer-lhe que o amava quando a pobreza me espreitava, tornava-se impossível - murmurou Mas agora. ..

Agora?... Mais do que nunca, devia calar-se. Conhecia bem Gramont, o seu orgulho, para saber que a repeliria.

Todavia, se ele quisesse ouvi-la, acreditá-la e tentasse amá-la, como tudo seria simples e fácil ! com que alegria Gilda fixaria a sua vida junto do marido! A casa da Martinica, os seus interesses na ilha, as plantações, nada disso exigia a sua presença. Tinha um administrador honesto e competente. Podia confiar nele e entregar-lhe a gerência da sua fortuna. Ela, a vagabunda, encontraria finalmente o porto! E com que alegria se deixaria amarrar!

A porta abriu-se e a enfermeira que atendera Gilda à chegada imobilizou-se no limiar.

- Perdão, madame. Não sabia que estava aqui. Mas antes assim - continuou - Por ordem do doutor Gramont, venho guardar o fato do ferido.

com efeito, trazia no braço o fato de José. Colocou-o nas costas de uma cadeira e dispunha-se a sair quando Gilda perguntou :

- Já acabou ?

- Ainda não, mas não deve afligir-se com isso. A operação começou há meia hora e as fracturas de crânio exigem, por vezes, intervenções muito demoradas, sem que isso signifique maior gravidade do estado do doente.

Gilda fez um gesto vago. Mais uma vez acabava de evocar, não o ferido, mas o operador.

Mal a porta se fechou, recomeçou o febril vaivém. De passagem, roçou pelo casaco colocado nas costas da cadeira e, sem querer, atirou-o ao chão. Quando o levantou, a carteira de José caiu. Apanhou-a e dispunha-se a metê-la na algibeira, mas não concluiu o gesto. com a queda, a carteira abrira-se e algumas folhas de papel espalharam-se.

Por momentos, Gilda ficou imóvel, com o braço estendido. As folhas estavam cobertas com uma caligrafia que muito bem conhecia, a de Inês, e o facto causou-lhe estranha perturbação.

De súbito começou a rir, mais sossegada. Recordava-se de ter ouvido Inês dizer que, durante a doença de Gilda, escrevera a José para lhe dar notícias. Provavelmente, era dessas cartas que se tratava.

Provavelmente... mas não tinha a certeza. Depressa, para não ceder à tentação, apanhou os papéis dispersos, reuniu-os numa das mãos, antes de os meter na carteira. Não conseguiu, porém, evitar que os seus olhos aflorassem algumas das linhas, nem deixassem de ler certas palavras que pareciam escritas a fogo. E o que leu foi o bastante para abalar a sua hesitação, repugnância e escrúpulos. Sentiu que não só podia como devia conhecer a infâmia de Inês.

Aproximou-se da secretária do marido, sobre a qual estava um candeeiro eléctrico aceso. Ao mesmo tempo, apoiava-se com a outra mão, como se procurasse, inconscientemente, um sustentáculo para a sua fraqueza.

Os bilhetes eram numerosos. José gostava de conservar aquilo que deveria ter destruído. Ou talvez, por prudência, quisesse guardar a prova do auxílio, da cumplicidade de Inês.

Diziam pouco e se falavam na doença de Gilda era unicamente para marcar a hora em que, liberta das obrigações de enfermeira, a dama de companhia podia ir ter com ele para lhe revelar todos os pormenores, favoráveis ou desfavoráveis à execução dos seus projectos. Mas abordavam ainda outros assuntos que Gilda dificilmente poderia tomar por provas de interesse, de solicitude ou afecto. O procedimento mútuo de Patrício e de Gilda, a forma como mademoiselle Arnaud procedia para precipitar a partida, as possibilidades de aproximação que teriam - ou contavam ter - quando estivessem na Ilha e de um entendimento amistoso entre Gilda e o primo, antes de José iniciar certo processo, eis os assuntos principais tratados em todos os bilhetes num estilo conciso, quase telegráfico. E foi assim que Gilda conheceu a odiosa face da traição. Quando acabou de ler o último bilhete, deixou cair os braços. Então, ligeiro ruído obrigou-a a voltar a cabeça. A porta abrira-se e Inês estava no limiar, acompanhada pela enfermeira.

Devia ter batido e como não recebesse resposta, entrou. Ao primeiro olhar, viu as cartas na mão de Gilda. Por segundos, cambaleou e foi obrigada a encostar-se à parede. Estava lívida. Mas quase logo, como se tomasse uma resolução, aprumou-se e as pupilas doiradas brilharam. Voltou-se e, dirigindo-se à enfermeira, disse com naturalidade :

- Agora sinto-me bem. Pode deixar-me sozinha com madame Gramont. Obrigada.

Quando a porta se fechou, as duas mulheres ficaram, por momentos, imóveis, olhando uma para a outra. Inês não estava ferida e a comoção nervosa que sofrera não lhe causara grande abalo. O choque do carro projectara-a para longe e tinha sido essa a sua sorte. À parte ligeiras contusões, nada mais havia sofrido. Dois pensos, um por cima do cotovelo, outro no pulso esquerdo indicavam arranhões sem importância. Lentamente, aproximou-se de Gilda. O silêncio tornava-se intolerável. Foi a mulher do médico quem o quebrou. Como se o facto fosse, entre todos, o mais importante, inquiriu:

- Para que fugiste, Inês ?

- Para que me perseguiste, Gilda?

As palavras soaram calmas e frias. Que domínio próprio, que poder de dissimulação possuía aquela rapariga para ter tomado tão rapidamente o seu partido perante o inevitável e, acima de tudo, para se adaptar sem a mais pequena hesitação ?

Estava ainda encostada à parede, mas não para procurar apoio. Encolheu os ombros e, com um gesto, designou as folhas de papel reunidas na mão da amiga.

- Deves estar suficientemente elucidada para evitar certos assuntos.

Não tentava negar nem mesmo interpretar os factos de uma forma que os tornasse mais favoráveis. Não fez qualquer protesto, nem ensaiou a comédia do arrependimento, que talvez tivesse chegado a comover Gilda. Considerava-a vencida e arruinada e não tentava reconquistá-la, nem mesmo poupá-la.

- com efeito, estou elucidada. Mas isto não explica o teu gesto desta tarde.

Inês sorriu.

- Não tem importância. Simples reflexo de alguém que foi apanhado. Supus que não tivesses notado a presença de José e contava poder livrar-me dele em qualquer altura. Mais nada.

Assim o havia interpretado Gilda. Esse último episódio da tragédia que Gilda vivera, sem o saber, não tinha, de facto, importância... ou antes, assumia apenas uma: a de ser o último.

Este pensamento não ocorreu a Gilda. Acima de tudo, impressionava-a a calma e o sangue-frio de Inês, a indiferença demonstrada ao ser desmascarada, a completa ausência de emoção.

- Mentias-me - murmurou Gilda surdamente- enganavas-me havia muito tempo. Encontravas-te com José às minhas ocultas. Não sei para quê. Na minha vida não existem mistérios.

- Dizia-lhe que não gostavas do teu marido e dava-lhe esperanças.

Gilda estremeceu.

- Fizeste semelhante coisa? Inês voltou a encolher os ombros.

- Que importância tem ? - Gilda soltou uma gargalhada.

- Que importância, dizes tu ? As perseguições que suportei desde que cheguei a Cannes, foste tu quem as preparou, assim como o encontro no cabaret onde me conduziste e nos encontrámos «por acaso». Recordo-me agora de te ver quando saías da estação do Correio. Foste telefonar ao José para lhe marcar uma entrevista. Mesmo assim, hesitavas em o fazer de casa... E, muito antes, no decorrer das nossas viagens... Compreendo agora a facilidade com que ele nos descobria, o número de vezes que se encontrou no nosso caminho. Como fui cega em não suspeitar de alguém que vivia muito perto de mim e estava bem informada, alguém que lhe dava todas as indicações. Calou-se. Imóvel, com os olhos no chão, a dama de companhia não fez um gesto de protesto.

- É então verdade! - prosseguiu Gilda em voz trémula, como se, a despeito das aparências, contasse com uma justificação - Atraiçoaste-me, tu, a quem amava, que partilhavas a minha vida.

Pela primeira vez, Inês despojou-se da sua impassibilidade e animou-se. Não foi, porém, para proferir um protesto de arrependimento, de ternura ou pesar, mas sim uma exclamação de amargura.

- Partilhar a tua vida! Gracejas, Gilda. Eu servia-te.

O espanto paralisou a mulher do médico. Era tudo quanto tantos anos de afeição, de delicada ternura, de uma amizade constante e delicada inspiravam ao orgulho de Inês! Estas três palavras: «Eu servia-te». E não havia necessidade de procurar mais para explicar o seu procedimento!

- E ao José, não o servias também ?

- Era diferente. Sempre nos tratámos de igual para igual e ele dependia mais de mim do que eu dele. Além disso, sabia recompensar os meus serviços.

- E eu não os recompensava ? - perguntou Gilda com profunda amargura - Recorda-te, Inês - prosseguiu, incapaz de dominar a sua dor - Eu cumulava-te de mimos, não para recompensar os teus serviços, como dizes, porque entre nós não havia criada e patroa, mas porque te queria e gostava de te ver feliz.

Calou-se um instante, dominada pela comoção. O rosto de Inês parecia de mármore e Gilda não pôde deixar de compreender o que representava essa indiferença pela sua dor.

Após breve silêncio, prosseguiu noutro tom:

- Como podia o José ser tão generoso? Não tem nada.

- Ainda há pouco tempo possuía alguma coisa. E mesmo agora, algumas das suas plantações...

- Que tu compraste...

- Que eu comprei, sim.

Mériel não mentira. As primeiras palavras que, a respeito de Inês, tinham lançado certa perturbação no espírito de Gilda, essas primeiras palavras, proferidas havia apenas algumas horas, representavam a mais exacta das verdades.

- As somas que o José te dava como recompensa pelas tuas informações, pelo teu auxílio, pela influência que exercias sobre mim no sentido de voltar para ele não te bastavam ? Precisavas de mais, querias constituir um domínio ? Como conseguirias, mais tarde, explicar-me essa compra, tu, que afirmavas não ter segredos para mim ?

Mademoiselle Arnaud não lhe respondeu logo. Leve sorriso lhe entreabriu os lábios.

- Havia duas soluções, Gilda. Ou casarias com o José depois de recuperares a liberdade e por certo não ficarias zangada comigo por o ter auxiliado nos momentos difíceis ou o processo que ele vai intentar te arruinaria e, nesse caso, não teria de dar-te explicações.

- Quer dizer que, se ficasse pobre, me abandonarias sem hesitar ? - observou Gilda em voz tão baixa que mal se ouvia.

Não recebeu resposta. Então, num gesto de horror, o que se sente quando nos encontramos diante de um monstro, cobriu o rosto com as mãos.

- Existe ainda terceira solução, que não mencionou e que eu vou expor-lhe.

As duas estremeceram. Inês, bruscamente, voltou-se e Gilda ergueu a cabeça. Patrício, ainda com o trajo operatório, acabava de entrar; mais uma vez, a perfeita insonorização evitou que o ouvissem aproximar. Estava parado no limiar da porta, onde, provavelmente, se encontrava havia muito tempo. Fechou-a com cuidado e, atravessando o aposento, aproximou-se da secretária.

- Já acabou, Patrício ? - perguntou Gilda. -Já.

- Levou muito tempo, não é verdade ?

- Quase duas horas. Mas tudo correu como eu desejava. Não houve complicações, pelo menos por agora, nem hemorragias. Amanhã já poderemos saber se o doente está fora de perigo.

Tendo dado estes esclarecimentos, voltou-se para Inês. - vou agora revelar-lhe a terceira solução, mademoiselle. Contra todas as previsões, Gilda não casa com o José, nem fica arruinada. O seu cúmplice renunciou ao processo. Que será de si, visto ter apostado num mau jogador?

Falava com calma e essa impassibilidade perturbou Inês.

- Parece-me pouco provável que Montresa renuncie aos seus direitos - replicou - Não se abandona assim uma fortuna colossal.

- No entanto, foi o que aconteceu.

- Não compreendo como o José... ferido, inconsciente, pôde... Não, é impossível. Fez essa declaração porque se encontrava nas suas mãos.

- Talvez - concordou Patrício, sempre impassível - Em todo o caso, ninguém o obrigou a declarar, perante testemunhas, que o testamento era falso.

Pela segunda vez, depois da chegada de Patrício, Inês estremeceu violentamente. Baixou os olhos, mas não tão depressa que o médico não surpreendesse o lampejo odiento que lhe iluminou as pupilas. As feições transtornaram-se-lhe e os lábios tremiam-lhe.

Quis, como disfarce, apoiar-se nas costas da cadeira mais próxima, mas as mãos tremiam-lhe tanto que foi obrigada a deixá-las cair ao longo do corpo.

- Essa história é inverosímil. Permita-me que não acredite.

- Como queira, mademoiselle. Simplesmente, eu acredito e não posso admitir que, de futuro, a minha casa abrigue a cúmplice de um falsário.

Ao mesmo tempo, voltava-se para sua mulher como a pedir-lhe aprovação. O olhar que encontrou dava-lha plenamente.

Inês, de princípio imobilizada pelo espanto, acabou por soltar uma gargalhada insolente.

- A sua casa! Não ficaria lá nem por um império. Não tenha medo. Amanhã partiremos.

- Partiremos?... Supões que suportaria a tua presença no Désirade ?

Desta vez, foi Gilda quem falou. E, apesar da tristeza que lhe vibrava na voz, esta era firme e categórica.

com um movimento de fera, Inês voltou-se para a amiga. Era de admitir que os últimos acontecimentos a tivessem abalado a ponto de lhe fazer perder a noção das coisas. Ou talvez que, cega pela cólera, furiosa por ter sido descoberta, não medisse as consequências das palavras, do procedimento, da sua atitude, da espécie de impudor manifestado ao desvendar a Gilda os seus verdadeiros sentimentos.

Dir-se-ia no entanto que a sanção que a atingia, a expulsão definitiva da vida de Gilda e das vantagens que lhe proporcionava, a deixava desamparada e louca de raiva.

- Despedem-me!... E só porque o delírio de um ferido... Mas apelarei para a justiça, revelarei como aproveitam a doença, como, talvez, apressam a morte...

O sobressalto do médico teria assustado outra, mas não Inês. Nem se moveu quando Patrício deu alguns passos para ela.

- Cale-se! - ordenou numa voz aterradora.

- Incomoda-o, doutor Gramont? - prosseguiu com um riso mau - Talvez ainda o incomode mais, quando eu tomar a meu cargo os interesses do José e não deixarei de o fazer, pode estar certo. Essa confissão arrancada no delírio, ao seu terror e sofrimento, não conta. Revolverei céus e terra para conseguir arruiná-lo.

- Para isso seria preciso que o testamento ainda existisse - replicou Patrício com a maior calma - Talvez o seu entusiasmo se acalme quando eu lhe disser que Montresa não se contentou em declarar, ainda não há duas horas, que o documento não tinha valor. Fez mais do que isso. Exigiu a sua imediata destruição.

O estratagema, um pouco inverosímil, adoptado por Gramont, na esperança de que Inês se traísse, deu o melhor resultado. Já estava perto da porta e dispunha-se a sair, mas parou ao escutar as últimas palavras do médico.

Dementou-a uma cólera louca, uma cólera que tornou impossível a mentira.

- Imbecil! Estúpido!... Agora que estávamos tão perto de triunfar!

Em seguida, afrontando os dois, com o rosto contraído e olhar fuzilante, confessou em voz rouca:

- É verdade, sim, era falso! E o José não foi o único responsável. Cúmplice de um falsário, como disse, mas não pode saber até que ponto! Num dos seus momentos de inconsciência, Eduardo Heybrand largou o testamento feito em nome da tua prima, Gilda. Caiu junto do leito e fui eu quem o apanhou. Como estava quase a morrer, o teu tio nunca mais se lembrou dele e eu guardei-o para o dar ao José. Faltava apenas a data e a assinatura. Mas nós dispúnhamos de muitos exemplares da caligrafia de Eduardo Heybrand e da própria tinta de que usava servir-se, de forma que a legalização se tornou fácil. Desafiaria todos os peritos a quem submetessem o documento, a provar a falsificação. Para que foi o José tão cobarde e hesitou tanto tempo antes de se utilizar dele ?!

Calou-se, mas a sua voz violenta e carregada de amargura pareceu vibrar por muito tempo no ambiente.

Quase a desfalecer, Gilda ainda conseguiu dominar-se e perguntou em voz fraca:

- Para que fizeste isso ? Por dinheiro ?

- Queria ser rica eu também... Queria - repetiu Inês com violência.

- Nesse caso, nunca gostaste de mim ? A tua dedicação, atenções e cuidados...

Inês encolheu os ombros.

- Não, não gostava de ti.

- Talvez até me odiasses?

- Sim, odiava.

A declaração caiu no silêncio, ainda mais doloroso do que o que precedera a entrada da dama de companhia.

- Como podia ser de outra forma ? - prosseguiu Inês, com ressentimento cada vez maior à medida que evocava a situação - Supunhas que tinha muita afeição por ti ? Não tinha nenhuma, Gilda, nenhuma, fica sabendo. O que era eu para ti? Impunha-se aceitar as tuas decisões, submeter-me aos teus caprichos sem os discutir e segui-los com tão boa vontade como se fossem meus. Ir onde tu quisesses, fazer o que fizesses, perfilhar as tuas preferências, os teus gostos e, por toda a parte onde nos encontrássemos, apagar-me, passar para segundo lugar, por causa da tua fortuna! Supões que me agradavam as intermináveis viagens pelo mar? Quanto às paragens nos portos, que me teriam ajudado a suportar o exílio, a sua curta duração quantas vezes me arrancou lágrimas de desespero e de revolta, lágrimas que te ocultava, porque se impunha sorrir para te agradar. E estes meses passados aqui, num aborrecimento mortal ? Não podes imaginar o que foram para mim e o sacrifício que representaram! A minha mocidade sequestrada longe da pátria, os dias que fugiam na banalidade da casa sombria, o tempo perdido sem remissão e sem compensação... Como, depois de ter suportado isto tudo, seria possível não te odiar?

Havia momentos já que Gilda, repetindo o gesto de início, ocultara o rosto nas mãos. Escutava a voz odiosa, proferindo acusações injustas, multiplicando argumentos egoístas, transtornando a verdade, acumulando mentiras. Mas já não via Inês, o espectáculo repugnante daquele rosto contraído, transtornado pela raiva. Esse espectáculo, sentia-o, estava acima das suas forças...

Patrício adivinhou o que se passava com sua mulher e ordenou:

- Retire-se, mademoiselle Arnaud. Já basta!

- Vou-me embora, sim, mas não antes de lhe dizer tudo. Na verdade, seria cómodo reservar para ela o lado mais belo do papel, acusando os outros de se terem ligado para a perseguir. Gilda considera-se nossa vítima, minha e do José?... Talvez. Mas, se o foi, o doutor foi também vítima dela.

Gramont ergueu o braço, como se desejasse deter as palavras que pressentia.

- Isso é comigo - protestou imperiosamente Ordeno-lhe que se cale.

Naquele momento, porém, coisa alguma poderia deter Inês, excepto a força e Patrício hesitava em a empregar.

- A sua mulher está pronta a acusar, a admirar-se, a ofender-se. A sua consciência será muda ou elástica? Está assim tão segura da sua honestidade ? Não se recorda de que também o enganou e o transformou num joguete? Fosse qual fosse a razão que a impeliu a casar consigo, ela gostava de outro, doutor... E não será preciso procurar muito para adivinhar essa razão. Casou consigo porque tinha medo de sucumbir ao amor pelo José. Dê graças a Deus ou maldiga-O, como quiser, doutor Gramont. Mas se Montresa, na altura em que chegámos a Cannes, não estivesse preso na Martinica por causa da doença, teria sido avisado por mim e chegado a tempo para impedir esse casamento.

Do mais íntimo da alma, Gilda deu graças a Deus. Ao escutar aquelas palavras venenosas, agradeceu ao Céu por Patrício o ter sabido da sua boca e já estar preparado para receber a confissão ditada pelo monstruoso ódio de Inês.

Lentamente, deixou cair as mãos e olhou para o marido. Patrício estava lívido de cólera. Avançou para Inês numa atitude tão resoluta e ameaçadora que, instintivamente, ela recuou.

- Saia!- ordenou com mal contida violência Saia e que nunca mais eu e a Gilda a encontremos no nosso caminho.

Atirando a última flecha antes de sair, Inês soltou uma gargalhada insultante.

- O doutor e a Gilda! Seria preciso que ambos seguissem o mesmo caminho. Como podem segui-lo, como podem prever, no futuro, qualquer comunhão, os dois que até hoje não tiveram coisa alguma de comum, nem mesmo o quarto!

Mal teve tempo de concluir a frase. Uns dedos de ferro apertaram-lhe o braço, impeliram-na para a porta que abria para o corredor e não o abandonaram senão quando Inês estava fora do gabinete.

Quando voltou para o escritório, o médico trazia os maxilares cerrados, o que lhe dava uma expressão de violência.

- Peço-te perdão - murmurou Gilda em voz baixa.

Quase instantaneamente, o rosto de Patrício suavizou-se.

- Perdão de quê, minha pobre Gilda ? Está mais acabrunhada do que eu.

- Sinto-me só... tão só!

Um soluço convulsivo estrangulou-lhe a garganta. E Patrício, nesse instante, não soube como pôde resistir ao desejo de apertá-la nos braços. Aproximou-se dela e com infinita ternura murmurou :

- Não podes ficar aqui, Gilda. vou mandar que te acompanhem a casa. Precisas de tranquilidade e de dormir.

- Dormir, sim... se for possível.

Patrício perguntou ainda.

- O desastre deu-se com o teu Chrysler, não é verdade ?

- A Inês serviu-se dele para ir ter com o José.

- Mandaste proceder à contestação ?

- Não tive tempo. Importava, antes de mais nada, trazer os feridos para aqui. Por muito grande que seja o prejuízo - acrescentou dolorosamente para mim não teve importância. Esta noite perdi muito mais.

Afastou-se da secretária à qual estava encostada, mas cambaleou. Patrício amparou-a. Gilda agradeceu-lhe com leve sorriso.

- Que horas são? Não faço ideia.

- Nove. Mas a Madiana não deve estar em cuidado. Mandei que a avisassem pelo telefone.

No meio de tanta preocupação o marido ainda tivera tempo para pensar naquilo e evitar que a pobre criada se afligisse!

O médico pareceu reflectir, hesitou e disse :

- vou eu mesmo acompanhar-te, Gilda. Não devo abandonar-te esta noite a tristes pensamentos. Amanhã...

- Amanhã é o dia da minha partida.

- Não modificaste os teus projectos?... Supus que desejasses ficar até à completa cura do José.

Gilda abanou a cabeça.

- A sorte do José é-me indiferente. Fiz o que devia e o que podia para o salvar. O resto é com o médico e com Deus. Se se salvar, conto oferecer-lhe um auxílio material... que mereceu pela sua espontânea confissão. Quando sair daqui encontrar-se-á a braços com as dificuldades da vida e eu não quero que volte a ser um falsário, um jogador. É novo, ainda está a tempo de aprender a trabalhar. Auxiliá-lo-ei e talvez tu acedas em nos servir de intermediário.

Calou-se um instante e acrescentou em voz baixa:

- Dou-te a minha palavra de que esta resolução não é inspirada pela mais pequena parcela de amor.

Gramont inclinou a cabeça. - Acredito-te - afirmou.

Passando à sala vizinha, tirou o avental de borracha, o barrete e a blusa e pouco depois voltou, pronto para sair. Abriu o armário, arrumou cuidadosamente o fato de José e tirou o seu próprio sobretudo. Em seguida, mandou buscar o casaco de sua mulher, que haviam tirado do carro antes de o conduzir à garagem, e auxiliou Gilda a vesti-lo.

Depois abandonaram ambos a clínica e dirigiram-se a casa para passarem juntos, mas ao mesmo tempo tão separados quanto é possível estar-se, o serão mais triste da sua vida de casados.

 

A manhã acabava. O sol, o sol pálido de Inverno entrava pelas largas janelas da clínica e inundava os mosaicos do chão, e as paredes brancas do corredor que Patrício percorria.

Uma após outra, o médico empurrava as portas dos últimos quartos a visitar, os do segundo andar. Parava junto das camas, trocava algumas palavras com os doentes, examinava-os rapidamente e depois seguia. Mónica Dorger acompanhava-o, verificava as papeletas da temperatura, informava Gramont, caso fosse necessário, da evolução de alguns dos casos, nas últimas horas decorridas.

Quando já não havia mais doentes para visitar, voltaram os dois para o gabinete do médico. Na galeria clara, o sol parecia acentuar a brancura da touca da enfermeira e a da bata de Patrício. Assim, caminhando lado a lado, assemelhavam-se muito. E, no entanto, para quem os examinasse melhor, que profunda diferença no seu aspecto !

Mónica, sem despertar a atenção do companheiro, consultou o relógio de pulso.

- Acabámos muito cedo, hoje, doutor. Patrício, que seguia com os olhos no chão, estremeceu.

- Graças a si. Está tudo tão em ordem, o meu trabalho foi tão bem preparado esta manhã...

A enfermeira começou a rir.

- Não mais do que nos outros dias, suponho ?

- Engana-se. Melhor do que nos outros dias. Hesitou e por sua vez consultou o relógio.

- Onze horas - murmurou involuntariamente. Continuaram pelo corredor. O semblante de Gramont, pálido e transtornado, imobilizara-se numa expressão rígida. As rugas da testa mais se acentuavam com a contracção das sobrancelhas. As comissuras dos lábios descaíam num vinco de amargura. Quando a claridade de uma das janelas, largas e sem cortinas, lhe bateu em cheio, alguns fios de prata brilharam-lhe nas fontes.

- O operado de ontem encontra-se num estado que ultrapassa as previsões mais optimistas, não é verdade, doutor? - observou Mónica.

- com efeito. Salvar-se-á. Por momentos receei que o fígado tivesse rebentado, o que seria muito mais perigoso. A fractura das costelas e mesmo a do crânio nada têm de assustador.

- Quer dizer, na clínica não existe doente de gravidade?... Coisa alguma que o preocupe?

O médico fitou-a com espanto. Nunca tinham conversas daquele género por as considerarem verdadeiramente inúteis.

- Assim é - limitou-se a confirmar. Desceram a escada e seguiram pelo corredor até ao gabinete de Patrício, que caminhava como um autómato, olhar fixo e o espírito tão preocupado que nem mesmo notava a atenção de que era alvo por parte da enfermeira.

Absorvido pelas tarefas da manhã, conseguira fugir à cruel obsessão, ou, pelo menos, afastá-la um pouco. Mas depois, naquela hora, não de ociosidade, mas de mais sossego, o sofrimento tenaz, violento e inexorável, voltava a assaltá-lo, exasperado pelo remorso.

Gilda partira. Logo de manhã abandonara a casa que a sua presença iluminara durante algum tempo; e em breve abandonaria Cannes e a França, provavelmente para sempre. Daí a alguns minutos, cinquenta, quando muito, o Désirade levantaria ferro, afastar-se-ia do cais... e sumir-se-ia no horizonte sem fim.

Como era simples! Como tudo tinha sido simples, mesmo as despedidas ! Voltava a ver Gilda, naquela manhã, quando entrara na sala onde ele a aguardava.

Na véspera, tinham-se separado cedo, fisicamente cansados e esgotados pelas emoções sofridas. A conversa, durante e depois do jantar - o último que comiam juntos -abordara unicamente o assunto do desastre do automóvel e as suas consequências.

De manhã, tal como haviam combinado, encontraram-se. Gilda estava já pronta. Envergara um vestido género alfaiate, de fazenda escura, muito simples. Não pusera jóias. Os cabelos, apertados num rolo na nuca, descobriam-lhe o rosto magro, mais pálido ainda do que de costume. Patrício não teve dificuldade em adivinhar a noite passada em claro.

- Não dormiste ? - inquiriu com pálido sorriso.

- Muito pouco. Apreensão ridícula - apressou-se a acrescentar - Sabia perfeitamente que Inês não voltaria. Ao sair da clínica, passou por aqui e, sem uma palavra de explicação para Madiana, levou todas as suas coisas, mas como a maior parte ficara no iate, suponho que também teria passado por lá. Todavia, como deves calcular, não consegui partilhar a alegria da Na, que nunca gostou da Inês e ficou radiante com a sua partida.

Calou-se e Patrício, numa voz que nem ele próprio reconheceu, observou:

- Esta noite dormirás melhor, com certeza. No alto mar não terás de recear o regresso seja de quem for, nem maus encontros. Serás completamente livre.

Gilda não lhe respondeu, mas o olhar que fixou no marido exprimia tanto desespero que, vivesse ele cem anos, estava certo de que nunca mais o esqueceria.

Depois separaram-se simplesmente, banalmente, com breve aperto de mão. Patrício abandonou a sala e sem se voltar dirigiu-se para a porta num passo de autómato. Estava tudo acabado.

Passando-lhe adiante, Mónica abriu a porta do gabinete. Patrício entrou, aproximou-se da janela e o seu olhar perdeu-se no espaço.

- Que horas são, Mónica ?

- Onze e dez, doutor.

O médico tirou o lenço da algibeira e passou-o repetidas vezes pela fronte coberta de suor.

E depois conservou-se no mesmo sítio, sem fazer um gesto, sem proferir palavra.

Teria esquecido a presença da enfermeira? Possivelmente, porque as funções de Mónica não a obrigavam a ficar ali mais tempo. Além disso, no seu espírito, absorvido por um único pensamento, coisa alguma contava, nada tinha importância.

- O Désirade levanta ferro ao meio-dia, não é assim, doutor?

Gramont estremeceu violentamente e voltou-se.

- Sim, ao meio-dia.

- Se deseja ir até ao porto para dizer adeus a madame Gramont, ainda tem tempo, mas não pode perdê-lo.

O médico abanou a cabeça. Tinha uma expressão amargurada.

- Não, Mónica, não irei ao porto. Minha mulher afasta-se... por muitos meses. Foi uma ordem do médico para lhe restabelecer a saúde, mas cuja execução nos custa a ambos. Considero inútil repetir a cena dolorosa das despedidas.

Nesta afirmação existia uma parte da verdade de que Patrício nem sequer suspeitava. Como se não desse importância às palavras do médico, Mónica prosseguiu:

- Receio que se engane e que madame Gramont espera vê-lo ainda. Desconheço os usos do seu país, mas aqui, em França, ninguém deixaria partir um ente querido sem «agitar o lenço» até ao último minuto. Esquecia-me dizer-lhe. Ainda para não deixar de cumprir os usos da nossa terra, mandei esta manhã para bordo um ramo de cravos, sem cartão de visita, é claro, pois decerto o meu nome não interessaria a madame Gramont.

Calou-se. Patrício observava-a com espanto. Por instantes ficaram assim, um diante do outro, o olhar de Gramont confundindo-se com o olhar luminoso de Mónica Dorger. Depois, a meia-voz, o médico comentou:

- A Mónica é uma rapariga estranha, toda bondade, compreensão, autoridade e também...

- Obrigada, doutor. Mas não podemos perder tempo. Vamos.

Abriu o armário, auxiliou Patrício a vestir o sobretudo e saiu para voltar pouco depois, já com um casaco vestido por cima da bata.

- O meu carrinho está à porta. vou levá-lo. Patrício não protestou. Faltavam-lhe forças para recusar a última e dolorosa alegria que lhe oferecia Mónica.

Antes de saírem, a enfermeira aproximou-se da secretária e tirou alguns papéis da pasta.

- Quer fazer-me o favor de assinar estes documentos, doutor ? A sua secretária precisa deles para os juntar ao processo de diversos doentes.

Patrício acedeu, admirado por ela ter perdido tempo com formalidades que poderiam esperar.

- Muito bem, doutor. Estes não podiam ser assinados por outra pessoa. Quanto aos outros, o doutor Pascal os assinará.

O médico não lhe respondeu. Rapidamente, sairam da clínica. O carro de Mónica, um pouco antiquado, estava diante da porta. Na altura de entrar, Patrício olhou distraidamente para o banco do fundo e teve um sobressalto.

- Que é isto, Mónica ?

- Suba, doutor.

Já estava sentada ao volante, um pouco nervosa, mas sorridente. Maquinalmente, Gramont obedeceu. Mas enquanto o automóvel embraiava e partia com alguma velocidade, repetiu a pergunta:

- Que faz ali a minha maleta ? Quem a trouxe? Quem a preparou e para quê ?

A cada pergunta o tom tornava-se mais imperioso, mais irritado, a tal ponto que Mónica receou ver o seu plano falhado.

- Foi a Miette quem preparou a maleta e Prudente quem a trouxe - respondeu, tentando falar com naturalidade - Mas a responsabilidade foi toda minha. É preciso que parta, doutor. Embora por pouco tempo, necessita absolutamente de repouso.

Não voltemos a discutir o assunto. Sabe-o tão bem como eu. Tinha a certeza de que não deixaria de ir despedir-se de madame Gramont e quis dar-lhe a possibilidade de uma resolução rápida. Se fiz mal, perdoe-me, mas vá-se embora. Seja por oito dias ou por um mês, parta. A clínica não sofrerá com a sua ausência, garanto-lhe. E, quando voltar, já terá recuperado as forças, a sua capacidade de trabalho, toda a sua «eficácia».

O automóvel chegou ao cais e Patrício teve a impressão de que o coração deixara de lhe bater no peito quando avistou o Désirade. Se Gilda tivesse adiantado a hora da partida e o ponto onde estivera atracado o lindo iate se encontrasse já desocupado!... Patrício perguntava de si para si se, nesse caso, a decepção não teria excedido as suas forças e coragem.

Meteram pelo cais. O mar, de um azul suave, estava calmo, quase silencioso. Ao longe, as ilhas, rodeadas por ligeira névoa esbranquiçada, evaporação da chuva caída na véspera, assemelhavam-se a magnífica miragem poisada sobre as ondas. No céu, nuvens pequeninas e brancas conservavam-se imóveis, como que entorpecidas. Por todos os lados, na costa, na cidade e no mar, o sol pálido de Inverno brilhava com uma claridade doce, doirada e maravilhosa.

Mónica parou diante do Désirade e saltou para o chão. Fez sinal a um dos marinheiros, que, na coberta, pendurava a gaiola dos papagaios, para descer a buscar a maleta. Depois do homem, um pouco surpreendido, mas dócil, a ter levado, Mónica voltou-se para o médico. Patrício lembrou-se de que não havia respondido às últimas palavras da enfermeira, à sua explicação e, comovido, murmurou :

- Não sei o que dizer-lhe, Mónica...

A enfermeira deteve-o com um gesto e sorriu:

- Operei apenas uma restituição. Certa tarde vim buscá-lo a bordo... esta manhã trago-o. Saldei a minha dívida para com o Désirade. Agora, creio que deve subir, doutor.

Patrício não hesitou. Apertou-lhe longamente a mão, transpôs a distância que o separava do iate e subiu a ponte.

Na coberta faziam-se os preparativos para a partida. O marinheiro que transportara a maleta aguardava ordens. O médico mandou que a levasse para um dos camarotes e dirigiu-se para a sala.

No curto espaço de tempo que levou a alcançá-la, tumultuaram-lhe no cérebro os mais desencontrados pensamentos, mas nenhum deles conseguiu abalar-lhe a resolução. Que importância tinham, naquele instante, a fortuna de Gilda, José, a insensata aventura em que a linda crioula os envolvera a ambos ? Que lhe importava o passado ? Só contava o desespero de um homem que não queria perder a mulher amada, um homem que não permitiria que lhe roubassem a felicidade.

Empurrou a porta. Gilda encontrava-se ali, não de pé, perto da vigia adornada com cortinas de chintz branco com flores vermelhas, no desejo de ver desaparecer a costa para se encontrar enfim entre mar e céu, mas sentada numa das poltronas, com as mãos cruzadas nos joelhos, a cabeça recostada no espaldar e os olhos fechados.

Em volta estava tudo como na primeira noite. As anteparas de madeira branca, acetinada, as cadeiras agrupadas em volta da mesa com tampo de vidro, em cima da qual, numa jarra de cristal, rutilava um ramo de cravos vermelhos, o ramo enviado por Mónica.

Ouvindo a porta abrir-se, Gilda descerrou as pálpebras.

Então, transtornado, com voz trémula, o médico aproximou-se e declarou :

- Gilda, não podia deixar-te partir sozinha, não podia. Consentes que fique contigo?

Ela olhava-o com espanto e receio, o receio de se enganar. Pusera-se de pé, hirta, como que petrificada.

- Ficar para quê? - murmurou, confundido o seu com o olhar de Gramont - para continuarmos a viver nesta indiferença, nesta frieza, neste afastamento que constituiu até hoje a nossa vida?... Ficares algum tempo para depois me deixares?.. Não e não!

E, em voz surda, concluiu:

- Não posso mais, Patrício! Eu amo-te !

O médico respirou fundo. Que fosse ela a primeira a dizê-lo enchia-o de assombro e comovia-o profundamente. Deu mais alguns passos e abriu-lhe os braços.

- Ficarei para sempre, Gilda, ou antes, serás tu quem ficará para sempre junto de mim. Como poderia viver sem ti, meu amor, eu que desde o primeiro dia te quero!

O grito de alegria que ela soltou ao cair-lhe contra o peito bastou para abolir para sempre o passado.

Gracioso e lento, brilhante ao sol, o iate seguia rumo ao mar alto. Mais tarde, por certo, teria de seguir outro diferente do primeiro estipulado, porque Gramont não poderia consagrar ao cruzeiro nupcial todo o tempo necessário para realizar a longa viagem prevista. Mas isso pouco importava. Voltaria a Cannes com Gilda. A casa sumptuosa da ilha teria de aguardar muito tempo a visita - visita muito curta - da sua proprietária. Esta fixara o seu destino em ponto muito afastado.

Um vulto delicado conservou-se por muito tempo imóvel no cais. Mónica Dorger não «agitava o lenço» porque os dois enamorados viajantes não o teriam notado; limitava-se a seguir o Désirade com olhar pensativo e as suas feições revestiam-se de estranha melancolia.

Mas em breve conseguiu arrancar-se à contemplação para regressar à clínica, que a esperava com o acréscimo de trabalho, de tarefas pesadas, de responsabilidades, de canseiras que a ausência do médico fazia recair sobre ela, a enfermeira-chefe.

Essa ausência fora obra sua! Dava graças a Deus por nunca se ter apaixonado por Patrício, apaixonado como homem. Para ela só existia a grandeza, a nobreza da sua missão e, quanto a essa, continuava a ser tanto dela como de Gilda.

Tranquila, voltou para o carro e dirigiu-se para a clínica, a clínica que se impunha defender e continuar. 

 

                                                                  Alix André

 

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