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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM DRAMA NA LIVONIA / Julio Verne
UM DRAMA NA LIVONIA / Julio Verne

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Quando Wladimir e Ilka se colocaram um de cada lado da modesta sepultura, disse o pope:

— Wladimir Yanof... a tua mão.

Depois, dirigindo-se à rapariga, acrescentou:

— Ilka Nicolef... a tua mão.

E uniu estas duas mãos, por sobre a campa. Era tal a energia do seu olhar e a expressão de bondade do seu rosto, que Ilka deixou ficar a mão sobre a de Wladimir.

O pope, então, pronunciou com voz grave estas palavras:

— Wladimir Yanof e Ilka Nicolef, estão unidos perante Deus.

A rapariga não pôde suster um movimento que a obrigou a retirar a mão.

— Deixa, Ilka Nicolef — ordenou o pope, brandamente. — A tua mão está sobre a daquele que tu amas...

— Eu... — exclamou Ilka. — A filha de um assassino?...

— A filha de um inocente, que não teve culpa de o terem assassinado! — respondeu o pope, olhando para o céu.

 

 

 

 

               FRONTEIRA TRANSPOSTA

No meio da escuridão da noite, este homem passava como um lobo por entre os blocos de gelo acumulados pelos frios de um longo Inverno. As calças forradas, o khalot, espécie de cafetã rugoso de pele de vaca, e o barrete com as abas descidas sobre as orelhas, mal o defendiam dos ataques da brisa áspera. Tinha as mãos e os lábios fendidos pelo cieiro. O frio intenso não lhe deixava dobrar as pontas dos dedos.

Caminhava no meio de profunda escuridão, debaixo de nuvens pesadas que a todo o momento ameaçavam resolver-se em neve, porque, conquanto já fosse Abril, estava-se a uma latitude de cinquenta e oito graus. De modo algum queria parar. A menor demora podia depois impossibilitá-lo de continuar a viagem.

Entretanto, pelas onze horas da noite, este homem parou, não porque as pernas se lhe recusassem a andar, não porque lhe faltasse o fôlego, nem sucumbisse ao cansaço. A sua energia física correspondia bem à moral, e, com uma voz forte, de um inexprimível acento de patriotismo, exclamou:

— Enfim... a fronteira... a fronteira livoniana... a fronteira da pátria!

Com que alegria olhou para o espaço que se estendia diante dele a oeste!

Com que força firmou o pé sobre a superfície branca do solo, como para nele o deixar gravado no termo desta última jornada!

É porque vinha de longe, de muito longe — de milhares de verstas(1) —, entre tantos perigos, afrontados pela sua coragem, desafiados pela sua inteligência, vencidos pelo seu vigor e paciência a toda a prova.

Havia dois meses que, fugindo, se dirigia para o poente, atravessando estepes intermináveis, arriscando-se a voltas perigosas para evitar os postos de cossacos, transpondo rudes e sinuosos desfiladeiros de altas montanhas, aventurando-se até essas províncias centrais do império russo, onde a Polícia exerce tão grande vigilância!

Enfim, depois de ter, por milagre, escapado a encontros em que podia ter perdido a vida, dizia novamente:

— A fronteira livoniana... A fronteira!

Era este então o país hospitaleiro aonde o ausente voltava passados muitos anos, sem ter nada a temer; a terra natal em que a segurança lhe é garantida; onde os amigos o esperam; onde a família lhe vai abrir os braços e uma mulher e filhos estão ansiosos pela sua chegada, a não ser que ele lhes queira dar a alegria de lhes aparecer de surpresa?...

Não! Só poderá atravessar este país como fugitivo. Procurará alcançar o porto de mar mais próximo. Tentará embarcar sem despertar suspeitas, e não estará seguro sem que o litoral livoniano desapareça ao longe no horizonte.

— A fronteira! — tinha dito este homem.

Mas que fronteira seria esta que não era assinalada por nenhum curso de água, nem pela vertente de uma cadeia de montanhas, nem pelo maciço de uma floresta? Não havia ali mais que um traço convencional, sem nenhuma determinação geográfica?

Efectivamente, era a fronteira que separa o império russo dos territórios da Estónia, Livónia e Curlândia, compreendidos pelo nome de províncias bálticas. E, neste sítio, a linha limítrofe dividia de sul para norte a superfície

 

*1. Medida de comprimento russa que vale cerca de 1067 metros.

 

sólida de Inverno e líquida de Verão do lago Paipous.

Quem era este fugitivo, com a idade aproximada de trinta e quatro anos, alto, vigoroso, ombros largos, tronco forte, membros sólidos e passo firme?

Por debaixo do capuz descido sobre a cabeça escapava-se uma barba loira, forte, e, quando o vento o levantava, poder-se-iam ver dois olhos vivos, cujo brilho o vento glacial não conseguia turvar.

Cingia-lhe os rins um cinto de grandes pregas, que dissimulava um pequeno saco de coiro onde levava o dinheiro, reduzido a alguns rublos em papel(2), importância que lhe não chegaria para acudir às exigências de uma viagem de alguma duração.

O seu fornecimento de viagem completava-se com um revólver de seis tiros, uma faca metida na sua bainha de coiro, um saco com uns restos de comida, uma cabaça meia de schnaps(3) e um forte cajado.

Tanto o saco como a cabaça eram para ele objectos menos preciosos do que as armas, que estava disposto a empregar no caso de ser atacado por feras ou perseguido pelos agentes da Polícia.

Por isso, viajava somente de noite, com a preocupação constante de chegar sem ser visto a um dos portos do mar Báltico ou do golfo da Finlândia. Até então, durante um percurso tão perigoso, tinha conseguido passar, não obstante não estar munido com porodojna(4) fornecido pela autoridade militar e cuja apresentação deve ser exigida pelos chefes dos postos militares do império moscovita. Teria, entretanto, a mesma sorte nas proximidades do litoral, onde a vigilância é mais rigorosa?

Era quase certo que tivessem dado pela sua fuga, e, quer pertencesse aos criminosos de direito comum, quer aos condenados políticos, seria procurado com o mesmo cuidado e perseguido encarniçadamente da mesma forma.

Com efeito, se a fortuna, até ali favorável, o abandonasse

 

*2. Moeda russa que tinha o valor aproximado de 600 réis.

  1. Bebida russa.
  2. Passaporte.

 

na fronteira livoniana, seria o mesmo que naufragar no porto.

O lago Peipous, com o comprimento de cerca de cento e vinte verstas por sessenta de largura, é frequentado durante o Verão por pescadores que exploram as suas águas abundantes em peixes. A navegação efectua-se por meio de barcos pesados, rudimentar conjunto de troncos de árvores apenas esquadrados, e de tábuas mal aplainadas, barcos chamados struzzes, que transportam para os escoadoiros naturais do lago, até às povoações vizinhas e ao golfo de Riga, cargas de trigo, linho e linhaça.

Ora, em tal época do ano, e sob latitude de Primavera tardia, o lago Peipous não é praticável para embarcações, e um comboio de artilharia podia passar por sobre a sua superfície, endurecida pelos frios de um Inverno rigoroso.

Não era mais do que uma vasta planície eriçada de blocos na parte central, obstruída por enormes massas de gelo nas nascentes dos rios. Tal era o medonho deserto que o fugitivo afrontava a pé firme, orientando-se sem dificuldade. Além disso, conhecia perfeitamente a região e avançava rapidamente, o que lhe permitiria atingir a costa ocidental antes de nascer o Sol.

— Ainda agora são duas horas da manhã! — exclamou ele então. — Basta andar mais umas verstas e encontrarei, com certeza, alguma cabana de pescadores abandonada, onde descanse até à noite. Daqui por diante, já não vou ao acaso neste país.

Parecia esquecer as fadigas e sentir voltar-lhe a confiança. Se, por infelicidade, os agentes encontrassem de novo a pista que tinham perdido, saber-lhes-ia escapar. O fugitivo, temendo ser surpreendido pelos primeiros clarões da aurora antes de ter atravessado o lago Peipous, impôs-se um último esforço. Reconfortado com um golo de schnaps que tirou da cabaça, tomou uma marcha mais rápida sem fazer nenhuma paragem.

Pelas quatro horas da manhã, finalmente, apareceram-lhe confusamente no horizonte algumas árvores enfezadas, pinheiros brancos da geada, bétulas e áceres.

Lá estava a terra firme! Mas, também, seriam ali maiores os perigos. Conquanto a fronteira atravesse o lago Peipous na sua parte mediana, compreende-se que não é nessa linha que estão os postos dos guardas de alfândega. O Governo colocou-os na margem ocidental, aonde os struzzes aportam durante o Verão. O fugitivo não o ignorava e por isso não se surpreendeu quando viu brilhar vagamente uma luz através das cortinas de nevoeiro.

«Aquela luz mexe-se ou não?...», disse consigo mesmo, parando junto de um bloco de gelo.

«Se se mexe, é sem dúvida de uma lanterna de mão levada por alguma ronda de guardas em marcha nocturna naquela parte do lago, e não convém encontrar-me na sua passagem.»

Se não se deslocasse, é porque iluminava o interior de algum posto da margem, porque nesta época ainda os pescadores não tinham voltado às suas cabanas, à espera do degelo, que não começava antes da segunda quinzena de Abril. A prudência aconselhava-o, em todo o caso, a dirigir-se para a direita ou para a esquerda a fim de não poder ser visto do posto. O fugitivo cortou para a esquerda. Desse lado, tanto quanto podia ver-se através da bruma que se erguia ao sopro da brisa matinal, as árvores pareciam mais cerradas. Poderia, caso fosse perseguido, encontrar lugar onde se escondesse mais facilmente e de onde pudesse depois fugir. Teria ele, contudo, dado uns cinquenta passos, quando se ouviu, da direita, um sonoro — «Quem vive?»

Este »Quem vive?», exprimido numa pronúncia acentuadamente germânica que se assemelhava ao werda alemão, produziu a mais desagradável impressão naquele a quem foi dirigido. A língua alemã é a mais empregada, se não pelos camponeses, ao menos pelos cidadãos das províncias bálticas.

O fugitivo não respondeu ao «Quem vive?». Deitou-se de bruços por detrás do bloco de gelo, o que o livrou de ser atingido no peito por um tiro dado logo a seguir. Escaparia contudo ao grupo dos guardas? Não havia dúvida nenhuma de que o tinham sentido. O grito e o tiro indicavam-no bem.

Entretanto, no meio do nevoeiro cerrado, talvez se julgassem vítimas de uma ilusão. Com efeito, o fugitivo reconheceu que tivera razão para assim pensar, quando ouviu as palavras trocadas pelos guardas ao aproximarem-se.

Pertenciam a um dos postos do lago Peipous, pobres diabos de uniforme outrora verde mas que com o tempo se tornou amarelo, e que facilmente estendem a mão à gorjeta, certo como é deveras insignificante a paga que lhes dá a tamojna, a alfândega moscovita. Eram dois, que voltavam ao posto, quando lhes pareceu verem uma sombra por entre os blocos.

— Tens a certeza de que o viste? — dizia um.

— Tenho — respondeu o outro. — Há-de ser algum contrabandista que queria entrar na Livónia...

— Já não era o primeiro deste Inverno e verás que não é o último. O outro ainda, naturalmente, vai a correr, porque nunca mais tivemos notícias dele!

— Safa! — disse o que tinha atirado. — Quase que se não pode atirar no meio de tal nevoeiro e lamento não ter prostrado o homem..., porque um contrabandista traz sempre a cabaça cheia... Podíamos partilhar como bons amigos...

— E é que não há nada melhor para compor o estômago — acrescentou o outro.

Os guardas continuaram as suas buscas, cuidadosamente, pensando, sem dúvida, mais em se aquecerem com um copo de schnaps ou vodka(5) do que em capturarem um transgressor da lei. Todas as tentativas foram, porém, inúteis.

O fugitivo, logo que os julgou suficientemente distanciados, retomou a marcha, dirigindo-se para a margem, e, antes de amanhecer, encontrou abrigo numa cabana deserta, a três verstas ao sul do posto.

A prudência aconselhava-lhe sem dúvida que velasse durante o dia, e ficasse em observação, para estar prevenido contra toda a aproximação suspeita, e preparado mesmo para fugir, se os guardas levassem as suas buscas até à cabana.

*5. Bebida russa.

 

Mas, morto de cansaço, este homem, apesar da sua tenacidade, não pôde resistir ao sono.

Deitou-se a um canto, embrulhado no gabão, e adormeceu profundamente, acordando a altas horas do dia. Eram com efeito três horas da tarde. Por felicidade, os guardas não tinham saído do posto, contentando-se com o tiro que haviam disparado durante a noite e muito dispostos a admitir terem-se enganado.

O fugitivo só tinha que se felicitar por ter escapado a este primeiro perigo, no momento em que acabava de passar a fronteira do seu país.

Uma vez acordado, satisfeita a necessidade de dormir, o fugitivo ocupou-se de saciar a vontade que tinha de comer. Alguns mantimentos que o saco continha chegavam para lhe garantir uma ou duas refeições.

Seria preciso renová-los na próxima paragem, assim como o schnaps, de que havia bebido as últimas gotas que a cabaça continha.

«Os camponeses nunca me repeliram», disse ele consigo mesmo, «e os da Livónia não repelirão um eslavo como eles.»

Tinha razão, mas era preciso que a sorte o não levasse a casa de algum estalajadeiro de origem germânica, como há tantos nestas províncias. Estes não faziam a um russo o acolhimento que ele encontraria entre os camponeses do império moscovita.

Demais a mais, o fugitivo não ia implorar caridade no seu caminho. Ainda lhe restavam alguns rublos, que lhe permitiriam satisfazer as suas necessidades, até ao termo da viagem, na Livónia pelo menos. É verdade que depois, para embarcar, precisava de dinheiro. Mas disso trataria ele mais tarde. O essencial era chegar, sem ser preso, a um dos portos do litoral no golfo da Finlândia ou do mar Báltico, e era para esse fim que deviam tender todos os seus esforços.

Logo que a escuridão lhe pareceu suficiente — pelas sete horas da noite —, depois de ter preparado o revólver, o fugitivo saiu da cabana. O vento tinha soprado do sul, durante o dia. A temperatura subira a 0 graus centígrados e a camada de neve, salpicada de manchas escuras, apresentava tendência a derreter-se.

A região continuava a apresentar o mesmo aspecto. Baixa na parte central, não apresentava elevações importantes senão a noroeste, não se elevando, contudo, a altitude a mais de cem ou cento e cinquenta metros. Estas grandes planícies não oferecem grande dificuldade à marcha de um viandante, a não ser que o desgelo torne o solo impraticável por algum tempo, o que era talvez para temer. Então urgia alcançar o porto, e se o desgelo se produzisse prematuramente, tanto melhor seria, porque a navegação tornar-se-ia possível mais cedo.

A distância que separa o lago Peipous da aldeola de Ecks, aonde o fugitivo chegou às seis horas da manhã, é de cerca de quinze verstas; mas o homem teve o cuidado de evitar a aldeia. Seria expor-se à exigência de papéis por parte da Polícia, papéis que não possuía. Não era na aldeola que lhe convinha refugiar-se. Passou o dia, a uma versta de distância, num casebre abandonado, de onde partiu às seis horas da tarde, cortando para sudoeste na direcção da ribeira de Embach, que encontrou depois de uma viagem de onze verstas, ribeira que reúne as suas águas às do lago Watzjero, no seu extremo setentrional.

Neste sítio, em vez de cortar pelo meio das matas de álamos e áceres das margens, o fugitivo achou que era mais prudente caminhar sobre o lago, cuja solidez não inspirava ainda receio.

Caía uma chuva grossa, proveniente das nuvens elevadas, activando o derretimento da camada de neve. Os sintomas de um desgelo próximo manifestavam-se seriamente. Dentro em poucos dias, produzir-se-ia o deslocamento dos gelos à superfície dos cursos de água da região.

O fugitivo avançava rapidamente, desejoso de alcançar a extremidade do lago antes de amanhecer. Vinte e cinco verstas era jornada rude de mais para um homem já fatigado e elevaria a marcha daquela noite a cinquenta verstas, ou seja uma dúzia de léguas métricas.

As dez horas de repouso, do dia seguinte, seriam bem merecidas.

Uma circunstância que piorava a situação era a de o tempo estar chuvoso. Um frio seco tornaria a marcha mais fácil e mais rápida. É verdade que sobre o gelo compacto do Embach o pé encontrava a firmeza que o caminho da encosta nunca ofereceria, por já estar cheio de lama do desgelo. Alguns rangidos surdos e fendas indicavam já uma deslocação próxima e derretimento dos gelos.

Por outro lado, se houvesse alguma ribeira a atravessar, era mais um obstáculo para um viajante a pé, a não ser que ele a atravessasse a nado. Por todas estas razões era necessário acelerar a marcha.

O viajante bem o sabia e por isso empregava uma energia sobre-humana. O gabão, estreitamente apertado, livrava-o da nortada. As botas em bom estado, porque tinham sido recentemente consertadas e reforçadas com brochas na sola, asseguravam-lhe o passo naquele solo escorregadio. Além disso, no meio daquela profunda escuridão, não tinha de se orientar, porque o Embach conduzia-o directamente ao seu fim.

Às três horas da manhã tinha percorrido quinze verstas. Nas duas horas que precediam a aurora chegaria a algum sítio onde pudesse descansar. Desta vez, não tinha necessidade de se arriscar em qualquer aldeia, nem em procurar abrigo em nenhum albergue, visto que as provisões ainda lhe chegavam para um dia.

Refugiar-se-ia em qualquer parte, contanto que estivesse em segurança até à noite. Nas matas que envolvem o extremo norte do Watzjero encontraria cabanas de rachadores de lenha, desabitadas no Inverno. Com algum carvão que lá encontrasse e lenha seca caída das árvores, ser-lhe-ia fácil arranjar uma boa fogueira que o aquecesse pode-se dizer de corpo e alma, e não era natural que o fumo de uma fogueira o fosse trair no meio daquela vasta solidão.

É verdade que aquele Inverno havia sido rigoroso; mas, posto de parte o seu rigor, não tinha ele favorecido o fugitivo da sua chegada ao solo do império?

Além disso, o Inverno não é o amigo dos russos, segundo o ditado eslavo, e não confiam eles na sua rude amizade?...

Nesse instante ouviu-se um uivo do lado da montante esquerda do Embach. Não fora engano: era o uivo de uma fera a alguns centos de passos. O animal aproximava-se ou afastava-se?... A escuridão não permitia verificá-lo. O homem parou um instante, aplicando o ouvido.

Convinha-lhe acautelar-se, para não se deixar surpreender.

O uivo reproduziu-se prolongado e mais intenso. Responderam-lhe outros uivos. Nenhuma dúvida restava de que vagueava pelas margens do Embach um bando de feras, e era possível que tivessem dado pela presença de uma criatura humana.

A certa altura, o lúgubre cortejo ouviu-se de tal modo que o viajante se viu em perigo de ser atacado.

«São lobos!», exclamou. «E a alcateia está perto!»

O perigo era extremo. Esfaimadas por um Inverno aturado e rigoroso, estas feras são verdadeiramente temíveis. De um lobo só ainda não é difícil defender-se, sendo-se vigoroso e tendo sangue-frio, mesmo com um simples cajado. Mas meia dúzia destes animais já é difícil de repelir, mesmo dispondo-se de um revólver, a não ser que todos os tiros sejam certeiros.

Encontrar um sítio onde se escondesse nem era bom pensar nisso. As margens do Embach são baixas e nuas. Nem uma árvore para onde pudesse subir. A alcateia não devia estar longe, a uns cinquenta metros, e, quer se lançasse por sobre o gelo, quer através da estepe, não havia outro partido a tomar senão fugir a toda a pressa, sem grande esperança de se distanciar destes carnívoros. Talvez fosse preferível parar e voltar-se para lhes repelir os ataques. Foi o que fez, mas sentiu logo as feras. Ouvia os uivos a menos de vinte passos. Parou e pareceu-lhe que a sombra estava iluminada com pontos brilhantes, brasas ardentes.

Eram os olhos dos lobos, lobos magros, esqueléticos, tornados ferozes por um jejum prolongado, ávidos daquela presa que sentiam ao alcance dos dentes.

O fugitivo voltou-se, com o cajado numa das mãos e o revólver na outra. Era melhor não fazer fogo, se o pau pudesse bastar, para não atrair a atenção de alguns agentes que por acaso andassem nas imediações.

Firmou-se bem, depois de ter desembaraçado os braços das pregas do gabão, e com um rápido sarilho fez parar logo os lobos que o atacavam de mais perto. Um deles saltou-lhe ao pescoço, mas antes de lhe morder caiu com uma cacetada. Mas em número de meia dúzia eram muitos para terem medo e muitos para que fosse possível matá-los sem empregar o revólver. Infelizmente, depois de nova pancada dada na cabeça doutro, o pau partiu-se nas mãos de quem o sabia manejar tão bem.

O homem fugiu então e, como os lobos corressem logo atrás dele, parou e fez fogo por quatro vezes. Duas feras, mortalmente feridas, caíram sobre o gelo, tinto do seu sangue; mas as últimas balas perderam-se porque as duas restantes feras se afastaram, num pulo, para uns vinte passos de distância.

O fugitivo não tinha tempo para tornar a carregar o revólver. Os lobos voltavam outra vez e precipitavam-se sobre ele. No fim de duzentos passos tinham-no alcançado e mordiam-lhe as abas do gabão, cujos bocados, despedaçados, lhes ficavam na boca. Sentia-lhes a respiração ofegante. Se pusesse um pé em falso, estaria perdido. Não se tornaria a levantar e seria devorado pelas feras.

Soara então para ele a última hora? Tantos trabalhos, tantos perigos e tantas fadigas para entrar na terra natal — e não deixar nela mais que alguns ossos!...

A extremidade do lago apareceu enfim com os últimos clarões da aurora. A chuva cessara e todo o campo estava envolvido por leve nevoeiro. Os lobos lançaram-se sobre a sua vítima, que os repelia a pontapés, a que eles respondiam com os dentes e garras.

Subitamente, o homem foi de encontro a uma escada... A que se apoiava esta escada?... Pouco importava. Se conseguisse subir os degraus, as feras não poderiam subir atrás dele e ficaria momentaneamente em segurança. A escada estava colocada um pouco obliquamente e, circunstância extraordinária, não assentava no chão: era como se estivesse suspensa. O nevoeiro não deixava ver a que se apoiava a parte superior. O fugitivo agarrou-se à escada e transpôs os primeiros degraus no momento em que os lobos se lançavam mais uma vez sobre ele. Despedaçaram-lhe o coiro das botas às dentadas. Entretanto a escada rangeu sob o peso do homem e oscilou com o seu esforço. Iria cair?... Desta vez seria, com certeza, despedaçado e devorado vivo. A escada resistiu e ele pôde, por fim, alcançar o último degrau, com a agilidade de um gajeiro nas enfrechaduras dos ovéns.

No alto sobressaía a extremidade de uma trave, uma espécie de cubo para onde podia saltar. Estava fora do alcance dos lobos, que saltavam ao pé da escada e se esfalfavam, uivando desesperadamente.

 

                     ESLAVO PARA ESLAVO

O fugitivo estava por enquanto em segurança. Os lobos não podiam trepar, como o teriam feito os ursos, que não são menos temíveis nem menos numerosos nas florestas livonianas.

Era preciso, contudo, que não fosse obrigado a descer antes de terem desaparecido as últimas feras, o que aconteceria naturalmente ao nascer do Sol.

E, antes de mais nada, porque estava colocada a escada ali e onde se apoiava na parte superior?

Era, como se disse, ao eixo de uma roda em que estavam implantadas três outras escadas da mesma espécie, que não eram mais do que as quatro asas de um moinho elevado numa pequena colina, perto do sítio em que o Embach recebe as águas do lago. Felizmente, o moinho não funcionava quando o fugitivo se pendurou numa das velas.

Restava o perigo de o aparelho se pôr em movimento ao romper do dia, se a brisa se acentuasse. Nesse caso ser-lhe-ia difícil manter-se em equilíbrio no cubo estando este a girar. Além de que, quando o moleiro viesse abrir as velas e manobrar a engrenagem exterior, veria com certeza aquele homem sentado no cruzamento das velas. Mas o fugitivo poder-se-ia arriscar a descer?... Os lobos conservavam-se na colina, soltando rugidos que não tardariam a acordar os habitantes das casas vizinhas.

Só havia um partido a tomar: entrar para o moinho, esconder-se ali durante o dia, se o moleiro lá não vivesse — suposição muito plausível — e pôr-se a caminho quando chegasse a noite.

Trepou, pois, ao tecto, chegou à trapeira, que era atravessada pela alavanca que punha o moinho em movimento, cuja haste pendia para o chão.

O moinho, como é costume naquele país, era coberto por uma espécie de querena invertida, ou, antes, por uma espécie de capacete sem viseira.

Este telhado girava sobre uma série de rodízios interiores, que permitiam orientar o aparelho conforme a direcção do vento. Daí segue-se que o corpo principal, em madeira, estava seguro ao solo, em vez de girar todo sobre um eixo, como na maior parte dos moinhos da Holanda, e entrava-se por duas portas abertas uma em frente da outra.

Atingida a trapeira, o fugitivo facilmente conseguiu entrar no moinho, por aquela estreita abertura, sem fazer barulho.

O interior formava uma espécie de água-furtada, atravessada horizontalmente pelo eixo, ligado, por meio de uma engrenagem, à haste vertical da mó, instalada na parte inferior do moinho.

O silêncio e a escuridão eram profundos. Parecia que, àquela hora, não havia ninguém no rés-do-chão. Uma escada íngreme, contornando a parede de madeira, estabelecia comunicação com o rés-do-chão, que tinha, em vez de soalho, a terra da colina. Era prudente contudo não se arriscar a sair do sótão. Comer primeiramente e dormir depois eram as duas necessidades imperiosas a que o fugitivo não se poderia esquivar por mais tempo.

Esgotou pois a reserva de provisões, pelo que tinha de as renovar quando se pusesse a caminho. Onde e como? Depois trataria disso.

Pelas sete horas e meia, depois de se espalhar o nevoeiro, era-lhe fácil reconhecer a posição do moinho. Olhando para fora da trapeira, via-se: para a direita, uma planície toda encharcada pelo derretimento das neves, atravessada por um caminho interminável que se estendia para oeste, com troncos de árvores justapostos, porque ela atravessava um pântano, por cima do qual as aves aquáticas voavam em bandos; para a esquerda, o lago com a superfície gelada, menos nos pontos em que encontrava a ribeira de Embach. Aqui e ali erguiam-se alguns pinheiros e abetos de folhagem escura, contrastando com os bordos e álamos, reduzidos a esqueletos. O fugitivo viu, primeiro que tudo, que os lobos, cujos uivos já não ouvia havia uma hora, tinham abandonado as proximidades do moinho.

«Muito bem», disse ele consigo, «o pior é que os guardas de alfândega e os agentes da Polícia são mais temíveis do que estas feras!... Nas proximidades do litoral ser-me-á mais difícil despistá-los. Estou a cair com sono... Mas, antes de adormecer, vamos ver como é que hei-de fugir em caso de perigo.»

A chuva cessara. A temperatura tinha subido, de novo, alguns graus e o vento virara para oeste.

Ora esta brisa, que soprava com bastante força, não decidiria o moleiro a fazer andar o moinho?...

Da trapeira também se podiam ver, a uma meia versta, várias casitas isoladas, cobertas de colmo esbranquiçado, e de onde subiam uns ténues fumos matinais. Era ali, com certeza, que vivia o moleiro e ele podia vigiar a aldeia muito bem. O fugitivo avançou então para os degraus da pequena escada e desceu até ao sítio em que estava a mó. Havia lá em baixo alguns sacos de trigo, de onde deduziu que o moinho não estava abandonado e que funcionava quando a brisa era bastante para fazer mover as velas. Por conseguinte, o moleiro podia vir, de um momento para o outro, orientá-las.

Nestas condições não lhe convinha ficar no andar inferior, mas subir à trapeira, para poder dormir algumas horas. Com efeito, arriscar-se-ia a ser surpreendido. As duas portas por onde se entrava no moinho eram fechadas com um simples ferrolho, e qualquer pessoa que precisasse de abrigo podia procurá-lo no moinho se tornasse a chover. Além disso, o vento refrescava e o moleiro não podia tardar.

O homem subiu pela escada de madeira, e, lançando mais uma vista de olhos pelas frestas da parede, chegou à trapeira e, vencido pelo cansaço, caiu num sono profundo.

Quando acordou eram perto de quatro horas. Era dia claro. Entretanto o moinho estava em repouso.

Quis a sorte que ele, ao levantar-se, não se espreguiçasse, apesar de meio entorpecido com o frio, o que o salvou de um grande perigo.

Com efeito, daí a pouco, ouviu algumas palavras trocadas por mais de duas pessoas que falavam animadamente no andar inferior. Estas pessoas tinham chegado meia hora antes de ele acordar e tê-lo-iam descoberto se subissem à trapeira.

O fugitivo evitou o mais pequeno ruído. Estendido no chão, aplicou o ouvido ao que se dizia por debaixo dele.

Logo às primeiras palavras percebeu que indivíduos eram. Compreendeu logo o perigo de que se livraria se escapasse, isto é, se conseguisse sair do moinho quer antes quer depois de o moleiro e os que falavam com ele terem partido. Eram três agentes da Polícia: um brigadeiro com dois dos seus guardas.

Nesta época a russificação da administração das províncias bálticas começava ainda só a excluir elementos germânicos, em proveito dos elementos eslavos. A maior parte dos polícias era, no entanto, ainda de origem alemã. Entre estes, distinguia-se o brigadeiro Eck, que, nas suas funções, favorecia muito os da sua raça, com preferência aos russos da Livónia. Muito zeloso e, além disso, muito perspicaz, era bem visto pelos seus superiores e entregava-se por completo ao seguimento das questões criminais que lhe eram confiadas, vangloriando-se com um sucesso, sem poder suportar um mau êxito. Agora, fora encarregado de uma diligência importante e empregava tantos mais esforços quanto era certo que se tratava de prender um evadido das minas da Sibéria, livoniano de origem moscovita.

Durante o sono do fugitivo, o moleiro tinha vindo ao moinho com tenções de trabalhar durante todo o dia.

Pelas nove horas, a brisa parecera-lhe favorável, e, se as velas tivessem sido abertas, o fugitivo teria acordado com o primeiro barulho. Mas, devido a uma chuva fina, o vento não refrescava. O moleiro tinha ido para a porta, quando Eck e os seus agentes o viram, e entraram no moinho para lhe pedirem algumas informações. Naquele momento dizia Eck:

— Não sabes se ontem passou nesta ponta do lago um homem de uns trinta e cinco anos?

— Não passou cá ninguém — respondeu o moleiro. — Neste tempo pode dizer-se que não aparecem ao todo na aldeia duas pessoas de fora... Trata-se de algum estrangeiro?

— Estrangeiro?... Não, de um russo, de um russo das províncias bálticas.

— Ah! Um russo!... — repetiu o moleiro.

— Sim, de um patife cuja prisão muito me honrará! Com efeito, para um polícia um fugitivo é sempre um

patife, quer tenha sido condenado por crime político, quer por crime de direito comum.

— E os senhores andam a persegui-lo?... — continuou o moleiro, naturalmente curioso.

— Se te parece! — respondeu Eck. — Anda a ver se embarca em o mar estando livre e naturalmente vai para Revel em vez de ir para Riga.

O brigadeiro tinha razão em indicar esta cidade, a antiga Kolyvan dos russos, onde se reconcentram as comunicações marítimas do norte do império. Esta cidade estava directamente ligada com São Petersburgo pelo caminho-de-ferro do litoral da Curlândia. Um fugitivo tinha vantagens em ir a Revel, que era ao mesmo tempo uma estância balnear, ou, não indo para Revel, pelo menos para Balliski, seu arrabalde, situada na extremidade do golfo, pois que pela sua posição se livra mais cedo dos gelos. É verdade que Revel, uma das cidades hanseáticas mais antigas, com um terço da população constituída por alemães e dois terços por estónios, os verdadeiros originários da Estónia, estavam a umas cento e quarenta verstas de distância do moinho e que este trajecto tinha de ser feito em quatro compridas jornadas.

— Não sei porque vá para Revel!... Esse patife fazia melhor se fosse para Pernau! — observou o moleiro.

Efectivamente, nesta direcção só tinha de andar cem verstas.

Riga estava muito afastada, o dobro de Pernau: não era para lá que deviam dirigir as pesquisas.

Escusado será dizer que o fugitivo, imóvel, no fundo da trapeira, continha a respiração, escutando todas estas propostas, de que saberia tirar proveito.

— Sim... Pernau... dizes bem — respondeu o brigadeiro — demais a mais foram prevenidas as esquadras de Fallen para vigiarem a região; mas tudo leva a crer que o nosso fugitivo vá para Revel, onde poderá embarcar mais facilmente.

Era aquela também a opinião do major Verder, que então dirigia a Polícia da província debaixo das ordens do coronel Raguenof. Eck também recebera instruções neste sentido.

Conquanto o coronel Raguenof, eslavo de nascimento, não partilhasse das simpatias e antipatias do major Verder, de origem germânica, este entendia-se perfeitamente a esse respeito com o seu subordinado, o brigadeiro Eck. Para as fazer concordar, moderar e conter lá estava o general Gorko, governador das províncias bálticas.

Esta alta personagem representava, além disso, as ideias do Governo, que tendiam, como se disse, a russificar gradualmente a administração das províncias.

A conversa prolongou-se ainda durante alguns minutos. O brigadeiro descreveu o fugitivo tal como o indicavam os sinais mandados para as diferentes esquadras da região: estatura superior à média, constituição robusta, trinta e cinco anos de idade, a barba toda loira e forte, cafetã grosso e escuro, pelo menos quando passou a fronteira.

— Pela segunda vez lhe afianço que esse homem — um russo, pelo visto... — respondeu o moleiro.

— Sim... um russo!

— Pois bem. Afianço-lhe que não apareceu na aldeia e que não encontrará vestígios dele em nenhuma casa daqui.

— Sabes — advertiu o brigadeiro — que qualquer pessoa que lhe dê pousada será presa e considerada como seu cúmplice?

— Que o Pai nos proteja! Bem o sei e nunca me arriscaria!

— Fazes muito bem — acrescentou Eck — em não querer ter questões com o major Verder.

— Nós teremos cuidado, brigadeiro.

Depois, Eck preparou-se para sair, repetindo que os seus homens e ele continuavam a percorrer o país entre Pernau e Revel, tendo as esquadras da Polícia recebido ordem para estarem em comunicação.

— Agora reparo que o vento está a soprar do sudoeste — disse o moleiro. — Vai refrescar. Se os seus homens me pudessem dar uma ajudazinha para virar as velas, escusava de ir à aldeia e podia cá ficar toda a noite.

Eck prestou-se de boa vontade à manobra. Os agentes foram pela outra porta e, empurrando todos a engrenagem do telhado, fizeram girar este até as velas ficarem à feição do vento. Abertas as velas, o moinho começou o seu tiquetaque habitual depois de todas as peças estarem ajustadas.

O brigadeiro e os agentes partiram então na direcção do noroeste. O fugitivo não perdera uma palavra da conversa. O que podia deduzir dela é que corria os maiores perigos no fim da sua aventurosa viagem.

Ficava sabendo que a Polícia o perseguia. As esquadras deviam trabalhar combinadas para o prenderem... Convinha-lhe ir a Revel?... Pensou que não. Valia-lhe mais ir a Pernau, aonde chegaria mais depressa. Devido à elevação de temperatura, o desgelo não podia tardar, quer no Báltico, quer no golfo da Finlândia.

Tomada esta resolução, era preciso sair do moinho logo que a escuridão o permitisse. Como o havia de fazer sem o moleiro dar por isso? O moinho funcionava ao sopro da brisa, que devia conservar-se, e o moleiro ficaria lá toda a noite. Era inútil pensar em descer ao rés-do-chão para sair por uma das portas.

Seria possível sair pela cobertura da trapeira, subir até à alavanca que servia para fazer girar o telhado e saltar depois para o chão?...

Era operação para tentar um homem ágil e vigoroso, conquanto as velas estivessem em movimento e houvesse o perigo de ser colhido pelos dentes da engrenagem. Arriscava-se a ficar despedaçado, mas decidiu-se a fazê-lo.

Era preciso ser numa ocasião em que a escuridão fosse suficiente. E se, antes disso, o moleiro subisse à trapeira, se qualquer circunstância lá o chamasse, o fugitivo podia acaso esperar não ser visto?... Não, porque, se fosse de dia, facilmente o veria e de noite levaria alguma lanterna. Pois bem, se o moleiro subisse à trapeira e descobrisse o homem que lá estava escondido, este homem lançar-se-ia sobre ele, subjugá-lo-ia, amordaçando-o.

Se o moleiro resistisse, se tentasse defender-se e os seus gritos pudessem alarmar a povoação, tanto pior para ele. A faca do fugitivo abafar-lhe-ia os gritos na garganta.

Este não vinha de tão longe, afrontando tantos perigos, para recuar diante de qualquer meio de recuperar a liberdade.

Conservava, todavia, a esperança de não ter de verter sangue para prosseguir no seu caminho...

Que tinha o moleiro que fazer na trapeira? Não tinha que olhar pelas mós, que giravam com grande velocidade, impelidas pelas velas grandes?...

Passou-se uma hora no meio do tiquetaque das rodas, do ranger da engrenagem, do assobiar da brisa e dos gemidos do grão ao despedaçar-se. A sombra da noite começava a vencer o crepúsculo, sempre longo naquelas altas latitudes. No interior da trapeira a escuridão era completa. Aproximava-se o momento de tomar alguma resolução.

A jornada dessa noite devia ser fatigante — nada menos de quarenta verstas — e urgia não demorar a partida se ela fosse possível.

O fugitivo verificou se a faca que trazia à cintura entrava e saía bem da bainha. Meteu seis balas no revólver, para substituir as que disparou sobre os lobos.

Restava a dificuldade, aliás enorme, de sair da trapeira, sem ser apanhado pela engrenagem, e a extremidade desta apoiava-se justamente à abertura da mesma trapeira. Logo que tivesse feito isto, segurando-se à beira do telhado podia facilmente atingir a alavanca.

O fugitivo ia já a deixar-se escorregar pela abertura da trapeira quando sentiu um ruído, bastante perceptível no meio do barulho da mó e da engrenagem.

Era o ruído de passos pesados, que faziam ranger os degraus da escada. O moleiro subia à trapeira com uma lanterna na mão. E, com efeito, apareceu, no momento em que o fugitivo, de pé, se preparava, com o revólver na mão, para se lançar sobre ele.

O moleiro, no entanto, logo que ergueu meio corpo acima do nível do soalho, avisou:

— Paizinho, chegou o momento de partires... Não te demores... Desce... A porta está aberta.

Estupefacto, o fugitivo não sabia o que lhe havia de responder. O moleiro sabia então que ele estava ali?...

Tinha-o visto refugiar-se no moinho?...

Enquanto ele dormia, o moleiro subira efectivamente à trapeira, evitando acordá-lo. Era também um russo. Reconheceu-o facilmente pela expressão do rosto. Compreendeu que a Polícia livoniana perseguia aquele homem. Porquê? Pouco lhe importava, mesmo que o não quisesse livrar do brigadeiro Eck e dos seus agentes.

— Desce — tornou ele com suavidade.

O fugitivo, cujo coração batia de comoção, desceu ao pavimento inferior, que tinha uma das portas aberta.

— Aqui tens algumas provisões — continuou o moleiro, enchendo de pão e carne o saco do fugitivo. — Vi que estava vazio e a cabaça também... Enche-a e vai-te embora.

— Mas... se a Polícia o sabe? ...

— Foge tu da Polícia e comigo não te importes... Não te pergunto quem és... Só sei que és um eslavo e que um eslavo nunca deixou de livrar outro dos polícias alemães.

— Obrigado... obrigado!... — exclamou o fugitivo.

— Vai, paizinho! E que Deus te conduza e perdoe, se é que Ele tem alguma coisa que te perdoar.

A noite estava muito escura e o caminho que passava pela colina absolutamente deserto. O fugitivo dirigiu ao moleiro um último gesto de despedida e desapareceu.

Segundo o itinerário que tencionava seguir, nessa noite tinha de chegar a Fallen e esconder-se nas vizinhanças desta aldeia, para repousar durante o dia seguinte. Eram quarenta verstas que tinha a andar e achar-se-ia então a sessenta verstas de Pernau, distância que, se nenhum mau encontro o impedisse, ele contava andar em duas jornadas, de modo a chegar a Pernau antes da meia-noite do dia 11 de Abril. Esconder-se-ia ali à espera de ocasião conveniente para embarcar em algum dos numerosos navios que partiriam logo que o desgelo desobstruísse as águas do Báltico.

A marcha do fugitivo foi rápida, umas vezes por planícies, outras pela orla de matas de pinheiros e bétulas. às vezes era necessário rodear a base de uma colina, contornar barrancos, atravessar regatos semigelados por entre os juncos e rochedos graníticos das margens. O solo era menos árido do que nas imediações do lago Peipous, onde a terra, misturada com areia amarela, só se cobre com uma vegetação fraca. De vez em quando, encontrava aldeias adormecidas no meio de planícies monótonas que a charrua daí a pouco ia preparar para as sementeiras de trigo, centeio, milho e cânhamo.

A temperatura elevava-se sensivelmente. A neve semi-fundida formava lama, misturada com a terra. O desgelo seria prematuro. Pelas cinco horas, antes de chegar à aldeia de Fallen, o fugitivo descobriu uma espécie de pardieiro isolado, onde se pôde instalar sem ter encontrado ninguém. Uma parte das provisões que o moleiro lhe dera serviu para lhe restituir as forças; o sono faria o resto.

Às seis horas da tarde partiu, depois de um repouso que nada perturbara. Nessa noite de 9 para 10 de Abril contava andar metade das sessenta verstas que o separavam de Pernau. Seria, por isso, a penúltima jornada. Assim foi. Ao nascer do Sol o fugitivo devia parar, mas desta vez, à falta de melhor, no meio de um espesso pinheiral, a meia versta do caminho. Era isto mais prudente do que ir procurar comida e abrigo a alguma quinta ou estalagem.

Nem sempre se encontra gente hospitaleira como o moleiro do lago.

Durante a tarde desse dia, escondido no meio da mata, viu passar um destacamento de agentes na estrada de Pernau. Este destacamento parou por instantes, como se fosse sua intenção fazer uma busca na mata. Mas, depois de uma pequena demora, pôs-se outra vez em marcha.

À noite, a partir das seis horas, continuou o fugitivo a viagem debaixo de um céu sem nuvens, onde brilhava, resplandecente, a Lua, quase cheia. Às três horas da manhã, começou a seguir a margem esquerda de um regato, o Pernowa, cinco verstas acima de Pernau.

Seguindo-a chegava ao arrabalde da cidade, onde tencionava ficar numa modesta estalagem até ao dia da partida. Foi com grande satisfação que viu que o desgelo já arrastava os gelos de Pernowa para o golfo. Mais alguns dias e acabar-se-iam as caminhadas intermináveis, as jornadas penosas, as fadigas e perigos de toda a espécie. Assim o esperava pelo menos...

De repente, ouviu um grito. Era o mesmo com que fora saudado à chegada à fronteira livoniana do lago Peipous e que lembrava o werda, alemão.

Desta vez o grito não fora soltado por um guarda de alfândega. Acabava de aparecer um destacamento de agentes sob as ordens do brigadeiro Eck, quatro homens que guardavam o caminho nos arredores de Pernau. O fugitivo parou um instante e depois, costa abaixo, lançou-se, correndo sobre a margem. — É ele — gritou um dos agentes. Infelizmente, a intensa luz da Lua não lhe permitia salvar-se sem ser visto. Eck e os seus homens correram no seu encalço. O fugitivo, com as forças diminuídas pela longa viagem, não podia correr com a velocidade habitual. Ser-lhe-ia difícil escapar aos polícias, que não tinham, como ele, as pernas cansadas por uma caminhada de dez horas.

«Antes morrer do que deixar-me apanhar», murmurou ele.

E no momento em que passava, rio abaixo, um bloco de gelo, a cinco ou seis pés da margem, saltou para ele, num pulo formidável.

— Fogo!... Fogo!... — gritou Eck aos agentes.

Ouviram-se quatro detonações, mas as balas dos revólveres foram perder-se no meio da neve. O bloco de gelo em que ia o fugitivo caminhava rapidamente, porque a corrente do Pernowa é grande durante os primeiros dias do desgelo.

Eck e os seus homens seguiam a corrente, ainda que em más condições, é verdade, para poderem atirar, visto que os blocos se deslocavam. O melhor que tinham a fazer era imitar o fugitivo, saltando para um bloco e depois para outro e persegui-lo enfim no meio do desgelo. Iam tentá-lo, com Eck à frente, quando se produziu uma violenta perturbação: o bloco de gelo acabava de ser envolvido numa colisão de blocos provocada pelo estreitamento do rio numa volta brusca que o desviava para a direita. Submergiu, voltou à superfície, tornou a mergulhar e desapareceu no meio dos outros, que se acumulavam, fazendo uma barreira.

A corrente dos blocos estava imobilizada. Os agentes lançaram-se sobre o campo de gelo, percorreram-no todo, prolongando as suas buscas durante uma hora, sem encontrarem vestígios do fugitivo, que morrera com certeza no meio da colisão.

— Era bem melhor que o tivéssemos podido prender... — disse um dos agentes.

— Sem dúvida — exclamou o brigadeiro Eck —, mas, já que o não apanhámos vivo, procuremo-lo morto.

 

                     A FAMÍLIA DE NICOLEF

No dia seguinte — 12 de Abril — na sala de jantar de uma casa dos arrabaldes de Riga, habitada quase só por gente russa, conversavam, entre as sete e as oito horas da noite, três pessoas que esperavam por outra. Casa de modesta aparência, feita de tijolo, o que é raro naquele arrabalde, de que ocupava a extremidade, e cujas casas são quase todas feitas de madeira.

O fogão, construído numa abertura da parede da sala, funcionava desde manhã, mantendo uma temperatura de 15 a 16 graus, muito razoável, visto que o termómetro colocado no exterior marcava 5 ou 6 graus centígrados abaixo de zero.

O pequeno candeeiro de petróleo, coberto com um abat-jour, dava uma luz vaga. Sobre um aparador, com tampa de mármore, fervia um samovar, e quatro chávenas, com os seus respectivos pires, indicavam que iam tomar chá quatro pessoas.

A quarta pessoa é que ainda não tinha aparecido, conquanto passassem já quarenta minutos depois da hora do chá.

— Dimitri está a tardar... — observou um dos convidados, aproximando-se duma janela de vidraça dupla que dava para a rua.

Este homem, de uns cinquenta anos de idade, era o Dr. Hamine, um russo, amigo da casa e dos mais dedicados.

Exercia a medicina em Riga havia vinte e cinco anos, sendo muito procurado pelo seu talento de prático, muito estimado pelo seu carácter recto, e invejado pelos colegas. Sabe-se até onde chega a descer a inveja de profissional, tanto na Rússia como noutra parte qualquer!...

— Sim... são quase oito horas — acrescentou outro convidado, olhando para o relógio de pesos, suspenso na parede, entre as duas janelas. — Mas o Sr. Nicolef tem direito ao quarto de hora de tolerância, como diríamos em França, e sabe-se que esse quarto de hora tem geralmente mais de quinze minutos!...

A personagem que acabava de dar esta resposta era o Sr. Delaporte, cônsul francês em Riga.

De quarenta anos de idade, estabelecido havia cerca de dez anos naquela cidade, gozava, pelas suas maneiras distintas e génio cortês, de extrema consideração.

— Meu pai foi dar uma lição ao outro lado da cidade — explicou então uma terceira pessoa. — O caminho é comprido, e agora, com esta chuva e com a neve a derreter-se... Naturalmente, coitado, vem todo molhado...

— Bom! — disse o Dr. Hamine. — O fogão ronca como um magistrado numa audiência!... Está calor aqui na sala... O samovar rivaliza com o fogão... Com uma ou duas chávenas, Dimitri recobrará o calor externo e interno!... Não temas nada, minha querida Ilka!... Além disso, se teu pai precisasse de um médico, para que está aqui um, que é dos seus melhores amigos?...

— Bem o sabemos, caro doutor! — respondeu a jovem, sorrindo.

Ilka Nicolef tinha vinte e quatro anos e era eslava pura. Quão diferente era das outras riganas de origem germânica, mais coradas, com os olhos muito azuis, olhar sem expressão e indolência demasiado alemã! Ilka era morena, tinha a cor viva sem ser corada, era alta. de traços nobres, fisionomia um pouco severa, severidade adoçada por um olhar de uma suavidade infinita que não se turvava com nenhum pensamento triste. Séria e reflectida, nada tola, vestida simplesmente e com gosto, tinha o tipo característico da livoniana de origem russa.

Ilka não era a única filha de Dimitri Nicolef, viúvo havia dez anos. Tinha um irmão, chamado João, que completara dezoito anos e andava a terminar os seus estudos na Universidade de Dorpat. Ela é que lhe servira de mãe durante a infância, e, depois da morte da mãe, que mulher encontraria mais bondosa e que mais se sacrificasse por ele?!...

Devido às suas prodigiosas economias, o jovem estudante pudera satisfazer as exigências de uma instrução dispendiosa, fora de casa. Com efeito, Dimitri Nicolef não tinha outros meios além do produto das lições que dava em sua casa ou nalgumas casas da cidade.

Professor de ensino livre, de ciências matemáticas e físicas, todos sabiam que não tinha fortuna. Era muito instruído e apreciado, mas esta vida nunca dá fortuna e na Rússia menos do que em qualquer outra parte. Se a fortuna se pudesse adquirir pela estima pública, Dimitri Nicolef seria milionário e teria uma das maiores fortunas de Riga, onde, pela sua honradez, ocupava o primeiro lugar entre os seus concidadãos — de raça eslava, bem entendido.

Para não haver dúvida alguma a esse respeito, basta ouvir a conversa entre o Dr. Hamine e o cônsul, enquanto o professor não chegava.

Esta conversa era feita em língua russa, que Delaporte falava tão bem como os russos distintos falam o francês.

— Pois bem, doutor — dizia Delaporte —, estamos na véspera de um movimento de que resultará uma modificação nas condições políticas da Estónia, Livónia e Curlândia... Os jornais estónios assim o dão a entender, com todo o encanto da sua linguagem ariana!...

— A evolução faz-se gradualmente e não está longe o dia em que da administração e do governo do município sejam excluídas as corporações alemãs! Com que direito possuem os alemães as nossas províncias?...

— O pior é que, quando as não tiverem, continuam ainda a ser os senhores poderosos pela força do dinheiro, visto que são eles quase que os únicos possuidores das terras e empregos...

— Os empregos ainda se lhes podem tirar... — respondeu Delaporte. — As terras é que é mais difícil, senão impossível. Só na Livónia têm esses alemães a maior parte do domínio rural, pelo menos quatrocentos mil hectares.

Efectivamente assim era. Nas províncias bálticas os nobres, os cidadãos honorários, burgueses e negociantes são quase exclusivamente de origem teutónica.

É verdade que, ainda que convertido pelos alemães, católicos primeiro e depois protestantes, o povo nunca se chegou a germanizar. Os Estónios, esses irmãos dos Fineses, e os Letões, quase todos agricultores sedentários, não ocultam a antipatia de raça, aos patrões, e, em Revel, em Dorpat e em São Petersburgo ocupam-se muitos jornais da defesa dos seus direitos!...

O cônsul continuou:

— Numa luta entre russos de origem eslava e russos de origem alemã, não sei quem vencerá...

— Deixemos isso ao imperador — respondeu o Dr. Hamine. — É um eslavo puro e bem sabe reduzir o elemento estrangeiro nas nossas províncias.

— Oxalá que o consiga — disse gravemente a jovem. — Há setecentos anos, depois da conquista, os nossos camponeses e operários resistiram à pressão dos conquistadores e estes tiveram de ficar fora do país.

— E o teu pai, minha querida Ilka — declarou o Dr. Hamine —, tem combatido valentemente pela nossa causa!... É com toda a justiça que ele está à frente do partido eslavo...

— Não sem ter criado inimigos terríveis!... — observou Delaporte.

— Principalmente — replicou o doutor —, os irmãos Johausen, esses ricos banqueiros, que morrerão despeitados quando Dimitri Nicolef lhes tirar a direcção do município rigano!... No fim de contas, a nossa cidade não tem mais que quarenta e quatro mil alemães contra vinte e seis mil russos e vinte e quatro mil letões... A maioria é eslava e esta maioria é por Nicolef...

— Meu pai não ambicionava tanto — respondeu Ilka.

— Desde o momento em que os eslavos tenham maioria e dominem o país...

— Fá-lo-ão nas próximas eleições, menina Ilka — afirmou Delaporte —, e se Dimitri Nicolef se quiser propor...

— Isso seria um encargo muito pesado para meu pai, cuja situação é modesta — respondeu a jovem. — Além de que, apesar de tudo, Riga é uma cidade muito mais alemã do que russa!

— Deixemos correr a água do Dwina! — exclamou o doutor. — Os costumes velhos vão por água abaixo e as ideias novas sobem o rio... Nesse dia o meu bravo Dimitri virá com elas!

— Agradeço-lhe muito, doutor, e ao Sr. Delaporte, a simpatia que meu pai lhes inspira, mas é preciso ter cuidado. Cada vez anda mais triste, não sei se já repararam, e aquela tristeza inquieta-me!

Efectivamente, os seus amigos também já tinham notado isso. Havia algum tempo que Dimitri Nicolef parecia ter preocupações graves. Mas, muito reservado, pouco comunicativo, não dizia nada a ninguém, nem aos filhos nem ao seu velho amigo Hamine. Era no trabalho, um trabalho obstinado, que ele se refugiava, para talvez se esquecer. E, entretanto, a população eslava de Riga considerava-o como seu futuro representante, à testa de um novo município.

Era em 1876. A ideia de russificar as províncias bálticas já tinha um século. Já Catarina II pensara nesta reforma patriótica. O Governo tomava medidas para afastar as corporações alemãs da administração das cidades e aldeias. A eleição dos conselhos ia ser confiada aos cidadãos que estavam em condições particulares pela contribuição que pagavam e pela sua instrução. Nas províncias bálticas, cuja população andava então por um milhão e novecentos e oitenta e seis mil habitantes, ou, em números redondos, trezentos e vinte e seis mil na Estónia, um milhão na Livónia e seiscentos e sessenta mil na Curlândia, o elemento germânico era somente representado por catorze mil nobres, sete mil negociantes ou cidadãos honorários e noventa e cinco mil burgueses e o resto judeus, o que formava um todo de cento e cinquenta e cinco mil.

Podia-se pois arranjar uma maioria eslava com facilidade, debaixo da direcção do governador e do alto pessoal administrativo. Lutava-se contra o município actual, cujos maiores influentes eram os banqueiros Johausen, que vão desempenhar um importante papel no decurso desta história dramática.

É preciso notar que, no bairro, ou antes no arrabalde, onde se erguia a modesta casa da família Nicolef, que o pai deste habitara antes dele, o professor gozava da consideração geral. Com efeito, neste arrabalde não há menos de oito mil moscovitas.

A situação pecuniária de Dimitri Nicolef era má, e mesmo infinitamente pior do que se pensava. Devia-se atribuir esta situação ao facto de Ilka não ser ainda casada, conquanto já tivesse vinte e quatro anos?... Sucedia na Livónia o mesmo que em qualquer outra parte, quando se tem por única fortuna a beleza, como se costuma dizer nos países do Ocidente, quando o dote de uma rapariga só é constituído pelas suas virtudes, mesmo que estas valessem bem a beleza? Não, e talvez que na sociedade eslava da província o dinheiro não seja o factor mais importante para o casamento.

Não é, pois, para admirar que a mão de Ilka Nicolef tivesse sido pedida bastantes vezes; o que admira é que Dimitri e a filha tivessem recusado uniões que reuniam todas as conveniências.

Havia para isso alguma razão. É que há alguns anos que Ilka era noiva do filho único de Miguel Yanof, um eslavo amigo de Dimitri Nicolef. Viviam ambos em Riga, no mesmo arrabalde. Wladimir Yanof, que actualmente contava trinta e dois anos, era um advogado de talento. Apesar da diferença de idade, podia-se dizer que os dois tinham sido criados juntos. Em 1872, quatro anos antes do princípio desta narrativa, tinha-se resolvido o casamento de Wladimir Yanof e Ilka, tendo o jovem advogado vinte e oito anos e a rapariga vinte.

Devia realizar-se naquele mesmo ano.

No entanto, haviam guardado segredo nas duas famílias, e tão rigoroso que nem os amigos das duas casas o sabiam.

Quando estavam para o participar, malogrou-se o projecto.

Wladimir Yanof era membro de uma dessas associações secretas que na Rússia lutam contra a autocracia do czar. Não estava filiado nos niilistas que substituíram a propaganda moral pela propaganda pelo facto, mas a administração moscovita é que não quer ver diferença entre as duas.

Ela opera por medida administrativa, sem processo legal, «pela necessidade de impedir que se tente seja o que for», fórmula clássica, como se vê. Efectuaram-se prisões em várias cidades do império. Houve-as em Riga, e Wladimir Yanof, brutalmente arrebatado de sua casa, foi deportado para as minas de Minnsinsk, na Sibéria Oriental. Voltaria de lá?... Quem o poderia esperar?... Foi um golpe terrível para as duas famílias e toda a Riga eslava o sentiu com eles. Ilka morreria de desgosto se não procurasse a energia no seu amor-próprio. Decidida a ir ter com o noivo, quando lho permitissem, iria partilhar da sua terrível vida de exilado, para essas regiões longínquas. Mas estava à espera de saber o que tinha acontecido a Wladimir e para onde o tinham deportado, o que nunca conseguira, e havia quatro anos que não tinha notícias dele.

Seis meses depois da prisão de seu filho, Miguel Yanof sentiu aproximar-se a morte e entregou a Dimitri Nicolef o pouco que possuía — vinte mil rublos(6) em notas — que ele depois entregaria ao filho.

Aceitou o depósito, mas guardou-o tão secretamente que nem Ilka nunca soube dele, e conservou-o nas suas mãos tal qual o tinha recebido.

Sabe-se que, se um dia a fidelidade desaparecesse do mundo, seria na Livónia que encontraria o último refúgio. É lá que se encontram ainda estes admiráveis noivos que não casam senão depois de vinte ou vinte e cinco anos de uma corte assídua. E, muitas vezes, se esperam para se unir é porque a sua posição ainda não está perfeitamente definida e é preciso que o esteja.

 

*6. 54 000 francos, na moeda de então.

 

No caso de Wladimir e Ilka não acontecia assim. Não havia entre eles questão de fortuna.

A rapariga não tinha nada e sabia que o jovem advogado nada esperava, ignorando mesmo o que lhe deixaria seu pai. Não lhe faltava, contudo, talento nem inteligência e o futuro não o assustava, nem por sua mulher, nem por si, nem pela família que pudessem vir a ter.

Wladimir partiu para o exílio, e Ilka tinha tanto a certeza de que ele a não esqueceria como a tinha de o não esquecer. Não eram do país das (calmas irmãs», que muitas vezes se não chegam a unir na terra, quando Deus não tem dó do seu amor, mas que, sem nunca se separarem uma da outra, se confundem na eternidade por se não poderem unir neste mundo?

Ilka tinha esperança, e todo o seu coração estava com o exilado. Tinha esperança de que um perdão, tão pouco provável, lho restituísse. Tinha esperança em que uma permissão a deixasse ir ter com ele. Não era somente a sua noiva, considerava-se como sua esposa. E, no entanto, se ela partisse, o que aconteceria a seu pai, nesta casa abandonada aos seus únicos cuidados e na qual, devido ao seu método e economia, se revelava uma certa abastança?...

Ignorava ele, contudo, o mais grave desta situação. Nunca Dimitri Nicolef lho tinha dito, conquanto tudo fosse honroso para ele. E para que lho havia de dizer? Para que havia de ir aumentar as inquietações do presente com as do futuro?...

Sabê-lo-ia todavia, brevemente, visto que o prazo estava a terminar.

O pai de Dimitri Nicolef, negociante de Riga, deixou, quando morreu, os negócios muito atrapalhados. A liquidação, desastrosa, dava um passivo de vinte e cinco mil rublos. Dimitri, não querendo que o nome de seu pai ficasse manchado com uma falência, comprometeu-se a pagar as dívidas.

Reduziu a dinheiro tudo o que possuía e assim conseguiu pagar alguns milhares de rublos. Deram-lhe tempo para pagar o resto e todos os anos conseguia economizar pelo seu trabalho algum tanto para dar aos credores.

Ora os credores eram os irmãos Johausen. Presentemente, Dimitri Nicolef devia ainda, à conta de seu pai, a quantia, para ele enorme, de dezoito mil rublos.

E o que agravava mais a situação, tornando-a mesmo terrível, é que o prazo da entrega desta quantia terminava dentro em cinco semanas, no dia 15 de Maio seguinte. Poderia acaso esperar Dimitri Nicolef que os irmãos Johausen prorrogassem o prazo?... Não!

Não era só diante do banqueiro, do homem de negócios que se encontrava: era diante do inimigo político, de quem a opinião pública o considerava rival do movimento antigermânico que se preparava. Frank Johausen tinha-o preso a essa dívida, a última sim, mas a maior.

Seria inexorável.

A conversa do doutor, do cônsul e de Ilka continuou durante meia hora, mostrando-se a rapariga muito inquieta pela demora do pai, quando este apareceu à porta da sala. Conquanto somente tivesse quarenta e sete anos, Dimitri Nicolef parecia ter mais dez anos. De estatura acima do vulgar, barba grisalha, fisionomia severa, a fronte sulcada de rugas, como sulcos donde não pudessem nascer senão ideias tristes e pensamentos pungentes, com uma constituição vigorosa em suma, como parecia.

Da juventude apenas conservava um olhar vivo e uma voz forte, que Jean-Jacques disse que era a voz do coração. Dimitri Nicolef desembaraçou-se do capote, todo molhado da chuva, pôs o chapéu em cima de uma cadeira, beijou a filha na testa e apertou a mão aos dois amigos.

— Demoraste-te tanto, meu pai — disse-lhe Ilka.

— Demoraram-me... — explicou Dimitri. — Uma lição que levou mais tempo...

— Bem! Vamos ao chá!... — acrescentou a rapariga.

— A não ser que estejas muito fatigado, Dimitri... — observou o Dr. Hamine. — Não te incomodes. Vens com uma cara que me não agrada nada... Precisas de repousar...

— Sim — respondeu Dimitri —, mas isto não é nada... Em dormindo, passa... Vamos ao chá, meus amigos... Já os fiz esperar muito e, se o permitem, deitar-me-ei mais cedo.

— Que tens, meu pai?... — perguntou Ilka, fixando o olhar no pai.

— Não é nada, minha filha, já to disse. Se te estás a inquietar, Hamine é capaz de descobrir em mim alguma doença imaginária, quando mais não seja para ter a satisfação de me curar.

— São doenças incuráveis — volveu o doutor, abanando a cabeça.

— Não soube nada de novo, Sr. Nicolef? — perguntou o cônsul.

— Nada... a não ser que acaba de chegar a Riga o governador, general Gorko, que estava em São Petersburgo.

— Bom! — exclamou o doutor. — Duvido que este regresso agrade aos Johausen, que o não devem ver com bons olhos.

A fronte de Dimitri Nicolef franziu-se mais. Não lhe recordava este nome a dívida fatal que o tornava dependente do banqueiro alemão?...

O chá estava pronto — um chá de boa qualidade, apesar de não custar cento e sessenta francos a libra, como o dos ricos — e Ilka foi enchendo as chávenas.

Felizmente há chá de todo o preço, visto que é a bebida moscovita por excelência, que mesmo os pobres usam. As chávenas de chá foram acompanhadas por pequenos pães com manteiga, que mesmo a económica rapariga arranjou, e a conversa prolongou-se, durante meia hora, entre os três amigos.

Referiu-se ao estado dos espíritos em Riga, aliás o mesmo que reinava nas principais cidades das províncias bálticas.

A luta entre os dois elementos, germânico e eslavo, apaixonava os mais indiferentes. Com a exacerbação da efervescência política, era de prever que a luta fosse acesa sobretudo em Riga, onde as raças estavam mais directamente em contacto. Dimitri, visivelmente preocupado, tomava apenas parte na conversa, conquanto a sua pessoa fosse muitas vezes posta em evidência. O seu pensamento estava «noutra parte», como se costuma dizer... Onde? Só ele o sabia. Se lho perguntavam, respondia por evasivas que não contentavam o doutor.

— Então, Dimitri — repetia ele — tens o aspecto de quem está no fundo da Curlândia, quando nós estamos em Riga!... Será, por acaso, intenção tua desinteressares-te da luta?... A opinião pública e da alta administração está por ti, bem o sabes. Quererás acaso assegurar o sucesso dos Johausen?...

Outra vez este nome, que produzia sempre o efeito de uma violenta pancada no infeliz devedor da rica casa bancária!

— São mais poderosos do que julgas, Hamine... — respondeu Dimitri.

— Mas menos do que se diz, como veremos! — replicou o doutor.

No relógio deram nove horas e meia.

Era tempo de se retirarem. O doutor e Delaporte levantaram-se para se despedirem e irem para casa. O tempo estava medonho.

O vento açoitava as janelas, assobiava nas ruas e, entrando pela chaminé, apagava quase, por vezes, a chama do fogão.

— Que tempo! — observou o cônsul.

— Pouco próprio para um médico sair!... — declarou o doutor. — Vamos lá, venha daí, Delaporte, ofereço-lhe um lugar no meu carro... um carro de dois pés, sem rodas!

O doutor abraçou Ilka, como de costume, Delaporte e ele apertaram a mão a Dimitri Nicolef, que os acompanhou até à porta da rua. Depois desapareceram ambos no meio da escuridão, onde se debatia a tormenta.

Ilka veio dar o beijo de despedida ao pai e Dimitri Nicolef apertou-a nos braços, talvez com maior efusão do que de costume.

— A propósito, meu pai — disse ela —, não vi o teu jornal... O correio não o traria?...

— Trouxe, sim, filha... Encontrei-o à tarde, quando voltava, e, como estava em frente de casa, entregou-mo.

— E não havia nenhuma carta?... — perguntou Ilka.

— Não, minha filha.

Havia quatro anos que todos os dias assim acontecia: não havia nenhuma carta em que Ilka pudesse molhar com as suas lágrimas a assinatura de Wladimir Yanof!...

— Muito boa noite, meu pai... — despediu-se ela.

— Boa noite, minha filha.

 

                   EM MALA-POSTA

Nesta época, os meios de transporte, através das intermináveis planícies das províncias bálticas, reduziam-se a dois, a não ser que o viajante se contentasse com percorrê-las a pé ou a cavalo.

Só havia um caminho-de-ferro, o que fazia serviço no litoral da Estónia, contornando o golfo da Finlândia.

Se Revel estava em comunicação com São Petersburgo, as duas outras capitais da Livónia e da Curlândia, Riga e Mittau, não estavam ligadas por caminhos-de-ferro à capital do império russo.

Mala-posta ou telega eram os dois únicos veículos que havia à disposição de qualquer viajante.

Conhece-se muito bem a telega — um carro baixo, sem pregos nem ferragens, com as diferentes peças unidas com cordas. Em vez de banco, um saco com cortiça, ou simplesmente a bagagem, e, além disso, é preciso ter o cuidado de se segurar com uma correia, para prevenir as quedas, muito para temer em cima daquelas rodas desengonçadas.

A mala-posta é menos rudimentar.

Não é um simples carro: é uma carruagem, que deixa muito a desejar em conforto, mas onde, pelo menos, se vai ao abrigo da chuva e do vento. Só tem quatro lugares, e a que então fazia serviço entre Riga e Revel só partia duas vezes por semana. Escusado é dizer que, no Inverno, nem telega, nem mala-posta, nem qualquer outro veículo com rodas podia circular pelos caminhos gelados. Substituem-se, com vantagem, pelo perklwsnoio, espécie de pesado trenó com patins, que os cavalos levam com bastante rapidez através das estepes brancas das províncias bálticas.

Nessa manhã de 13 de Abril, a mala-posta que ia partir para Revel só esperava um viajante, que tinha o lugar guardado desde a véspera.

Era um homem de cinquenta anos, que chegou à hora da partida, um tipo de bom humor, sempre alegre e sorridente.

Optimamente agasalhado com um capote russo, vestido por cima de um fato de pano forte, levava debaixo do braço uma pasta que apertava cuidadosamente.

Quando entrou no escritório, travou-se entre ele e o condutor da mala-posta a seguinte conversa:

— Olá, Poch! Então foste tu que mandaste guardar um lugar na carruagem?

— Eu mesmo, Broks.

— Já te não chega uma telega!... Precisas de uma boa carruagem, com bons cavalos...

— E um bom condutor como tu, meu velho.

— Pelo visto, paizinho, não olhas a despesas...

— Principalmente quando não sou eu que pago, como agora...

— Então quem é?...

— É o patrão... o Sr. Frank Johausen.

— Oh! Então podia até tomar os lugares todos da carruagem, se lhe aprouvesse.

— Tal e qual, Broks, mas eu só tomei um e espero ter companheiros de viagem... Não se vai tão aborrecido...

— Pobre Poch, desta vez parece-me que tens de ir sozinho! Há muito tempo que isso não acontece, mas acontece hoje!... Só tu é que tens lugar tomado.

— O quê?! Ninguém?...

— A não ser que venha alguém pelo caminho, só se conversares comigo!... Mas não te importes. Bem sabes que não me mete medo conversar um pouco...

— Nem a mim, Broks...

— E até onde vais tu?

— Até ao fim da viagem, até Revel, a casa do correspondente dos Srs. Johausen.

Poch, piscando os olhos, indicava a pasta, apertada debaixo do braço, e que trazia segura à cintura com uma corrente de cobre.

— Olá! paizinho — respondeu Broks. — Já escuso de falar!... Já não vamos sós.

Com efeito, acabava de entrar no gabinete um homem que ainda vira o gesto do empregado do banco. Este homem parecia ter muito interesse em não ser reconhecido. Embrulhado num capote de coiro, trazia o capuz deitado sobre a cabeça, escondendo-lhe em parte a cara. Aproximou-se do condutor.

— Ainda há um lugar no carro? — perguntou ele.

— Há três — respondeu Broks.

— Um chega.

— Para Revel?

— Sim... para Revel — respondeu o viajante depois de alguma hesitação.

Dizendo isto, pagou com rublos em papel o lugar até o seu destino, uma distância de duzentas e quarenta verstas.

Depois:

— Quando se parte?

— Dentro de dez minutos.

— Onde ficaremos esta noite?

— Em Pernau, se o tempo o permitir... Com este tempo não se pode contar com coisa nenhuma...

— Há a temer algumas demoras?... — perguntou o empregado do banco.

— Hum! — fez Broks — este céu não me está a agradar nada!... As nuvens correm tão depressa... Enfim, se vier só chuva... O pior é se neva.

— Vamos ver, Broks, se, não economizando o schnaps para os postilhões, estaremos em Revel amanhã à noite...

— É para tentar! São trinta e seis horas, quase nunca demoro mais.

— Então — respondeu Poch — vamos embora, não percamos tempo.

— Os cavalos estão atrelados — replicou Broks. — Não espero mais ninguém.

— O sinal da partida, Poch... schnaps ou vodka?...

— Schnaps — respondeu o empregado do banco. Foram à taberna defronte, depois de fazerem sinal

ao postilhão para os seguir. Dois minutos depois, voltavam ao carro, onde o viajante desconhecido já tomara o seu lugar. Poch sentou-se ao lado dele, e a carruagem pôs-se em andamento. Os três cavalos, atrelados ao carro, quase que não eram maiores do que burros, amarelados, com o pêlo comprido e áspero, tão magros que se lhes conheciam os músculos, mas cheios de ardor. O assobio do iemschick bastava para os conservar a trote.

Já havia alguns anos que Poch pertencia ao pessoal da casa dos irmãos Johausen. Fora para lá em criança e ficaria na casa o tempo que quisesse. Gozava da máxima confiança dos patrões, que muitas vezes o encarregavam de levar, aos correspondentes de Revel, Pernau, Mittau e Dorpat, quantias importantes que seria imprudente confiar ao serviço das malas-postas.

Desta vez, levava na pasta quinze mil rublos em notas do Estado, cada uma do valor de cem francos da moeda francesa, ou seja um maço de quatrocentas notas, cuidadosamente guardadas.

Depois de entregar esta quantia ao correspondente de Revel, devia voltar a Riga. Não era sem razão que ele tinha pressa de voltar. Que razão era? Ver-se-á pela sua conversa com Broks. O iemschick fazia andar os cavalos rapidamente, pegando nas guias com os braços alargados à moda russa. Depois de ter atravessado a parte do norte da cidade, lançou-se a toda a pressa através dos campos.

Nas proximidades de Riga os campos cultivados são numerosos e os trabalhadores dirigiam-se já para a lavoira. Mas a dez ou doze verstas para além, o olhar perdia-se na interminável estepe, cuja uniformidade não era interrompida, visto os poucos acidentes que há na superfície das províncias bálticas, senão pelos maciços de alguma floresta verdejante.

Como Broks afirmara, a aparência do céu não era segura. O ar deslocava-se em violentas rajadas e a borrasca acentuava-se à medida que o Sol se erguia acima do horizonte. Felizmente, o vento soprava de sudoeste. De vinte em vinte verstas havia uma estação de muda que permitia substituir, ao mesmo tempo, os cavalos e os postilhões que os haviam conduzido.

Este serviço, convenientemente organizado, garantia aos viajantes uma viagem regular, bastante rápida.

Desde que partiram, Poch, por muito que lhe custasse, percebeu que não podia entrar em conversa seguida com o seu companheiro de viagem. Este, metido a um canto, com a cabeça enfiada no capuz, não deixando ver nada do rosto, dormia ou fingia dormir. O empregado do banco ainda tentou, mas em vão, conversar com ele.

Por isso, muito falador por natureza, viu-se obrigado a conversar com Broks, que ia sentado na almofada, ao lado do iemschick, embrulhado num capote de coiro.

Mas, descendo o vidro que fechava a frente do carro, era-lhe fácil conversar.

Ora como o condutor também gostava muito de falar, conquanto menos do que o empregado do banco, as línguas não descansaram.

— Afianças-me então, Broks — era a quarta vez que fazia esta pergunta depois da partida —, que estaremos em Revel amanhã à noite?

— Estaremos, sim, a não ser que o tempo nos faça demorar ou nos impeça de andarmos de noite.

— E, uma vez chegados a Revel, a carruagem partirá de lá vinte e quatro horas depois?

— Exactamente, vinte e quatro horas depois. É assim que o serviço está estabelecido.

— E és tu que voltas comigo para Riga?

— Sou.

— Por São Miguel!... Quem me dera estar já de volta... contigo, já se vê.

— Comigo, Poch?... Obrigado pela tua amabilidade... Mas para que é tanta pressa?

— Porque tenho que te fazer um convite, Broks.

— A mim?

— A ti, sim, e é um convite que te não desagradará, se gostas de comer bem e beber com boa companhia...

— Ah! — declarou Brocks — era preciso ser-se inimigo de si próprio para se não gostar dessas coisas! Trata-se de algum jantar?...

— Muito melhor! Um verdadeiro banquete de núpcias...

— De núpcias?... — exclamou o condutor. — E porque serei eu convidado para esse banquete de núpcias?

— Porque o noivo conhece-te pessoalmente.

— A mim?...

— E a noiva também.

— Então, mesmo sem saber quem são os futuros esposos, desde já aceito — anunciou Broks.

— Vou-to dizer.

— Antes disso deixa-me dizer-te que são boas pessoas!...

— Com certeza... Boas pessoas, visto que sou eu o

noivo!

— Tu, Poch!

— Eu mesmo; e a noiva é a amável Zenaida Parensof.

— Oh! Que excelente criatura!... Não esperava isso, palavra...

— Admiras-te?

— Não, e vocês fazem um bom casamento, apesar de tu já teres uns cinquenta bem puxados, Poch...

— E a Zenaida quarenta e cinco, Broks.

«Não seremos felizes tanto tempo, é o que é. Ah! meu caro, quando a gente ama quando quer não deve casar senão quando é possível. Tinha eu vinte e cinco anos quando comecei, e a Zenaida tinha vinte. Mas, os dois juntos, não tínhamos cem rublos!... O melhor era esperar. Quando eu, pelo meu lado, tivesse arranjado alguma coisa e ela, pela sua parte, um dote aproximado, devíamos casar as nossas economias. Agora já por lá há alguma coisa no fundo da arca! Não é assim que, na nossa Livónia, se passam as coisas com a gente pobre? Além de que não é por se esperar muitos anos que se ama menos e assim escusamos de nos importar com o futuro.

— Não há dúvida, Poch.

— Eu agora já tenho um bom lugar na casa Johausen: quinhentos rublos por ano, que os dois irmãos me vão aumentar no dia do casamento.

Quanto a Zenaida, ganha outro tanto, e estamos ricos... à nossa moda decerto!... Ao todo, não temos a quarta parte do que levo nesta pasta...

Poch calou-se, deitando um olhar de desconfiança para o seu companheiro de viagem, que continuava imóvel, parecendo dormir.

Quem sabe se não falara de mais...

Depois, continuou:

— Sim, Broks, ricos à nossa moda!... Além disso, com as nossas economias, Zenaida fará bem se comprar uma lojazinha de especiarias. Está uma à venda perto do porto...

— Desde já te desejo uma boa clientela, meu caro Poch! — exclamou o condutor.

— Obrigado, Broks, obrigado! Deves-me isso muito bem pelo banquete em que te guardarei um lugar.

— Qual?...

— Pouco depois do casamento! Verás como Zenaida estará bonita com o seu vestido de noivado, com a coroa de mirto na cabeça e o colar que lhe dá a senhora Johau-sen.

— Acredito, Poch, acredito! Uma pessoa tão boa nunca pode ser senão bonita... Quando é a cerimónia?

— Daqui a quatro dias, Broks, no dia 16 deste mês. É por isso que eu te digo que apresses os iemschicks! Não lhes negarei os copos que eles quiserem. Mas que não deixem adormecer os cavalos nos varais. Vai um noivo na tua carruagem e não convinha que ele envelhecesse durante a viagem.

— Com certeza! Podia a Zenaida não te querer depois!... — respondeu a rir o alegre condutor.

— Olha quem! Nem que eu tivesse vinte anos mais me deixaria!...

O caso é que, sob a acção benéfica das confidências que o empregado do banco acabava de fazer ao seu amigo Broks, os cavalos de muda, devido ao schnaps, foram rapidamente atrelados e nunca a mala-posta de Riga marchara com tanta velocidade.

A região continuava a apresentar o mesmo aspecto: longas planícies de onde no Verão saía um cheiro pronunciado de linhaça. As estradas, traçadas pelas rodas dos carros e carroças, deixavam a desejar pelo seu mau estado. De vez em quando atravessava-se a orla de vastas florestas e havia, invariavelmente, os mesmos perfumes que exalavam os áceres, álamos, bétulas e longos pinheirais, que gemiam sob as rajadas de vento. Pouca gente havia, quer no caminho quer nos campos. Ainda se sentiam os efeitos do rigoroso Inverno destas altas latitudes. O carro caminhava assim, de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, de estação em estação, sem perder um momento, graças às recomendações de Broks. Não se podia prever nenhuma demora e, quanto à tempestade, nada se podia dizer sem ela se desencadear. Quando os cavalos se mudavam, o empregado do banco e o condutor apeavam-se.

0 viajante desconhecido é que nunca saía do seu lugar. Mas aproveitava quando estava só para deitar uma vista

de olhos para fora.

— Gosta pouco de se mexer, o nosso companheiro!

— repetia Poch.

— E de falar! — acrescentava Broks.

— Não sabes quem será?

— Não... nem ainda lhe vi a cor da barba!

— É preciso que se resolva a mostrar a cara, quando jantarmos na estação de muda, ao meio-dia.

— A não ser que não coma, assim como não fala!

— respondeu Broks.

Antes de chegarem à aldeia em que a carruagem havia de parar para jantarem, quantos casais miseráveis encontraram pelo caminho: cabanas apenas habitáveis, choupanas de pobres, com os postigos sempre fechados, feitos de tábuas desconjuntadas que davam passagem livre ao vento frio do Inverno! E, entretanto, na Livónia os camponeses são robustos: os homens com a cabeça eriçada de vigorosos cabelos, as mulheres cobertas de andrajos, as crianças com os pés nus, braços e pernas imundas, como animais em estábulos desprezíveis. Desgraçados mujiques! E se suportam nas suas choças os calores do Estio, o frio no Inverno, a chuva e a neve em qualquer época, o que se há-de dizer da sua alimentação, o pão de cascas, negro e pastoso, misturado com um pouco de óleo de linhaça, com o cozido de cevada e aveia e só de vez em quando com um bocado de toucinho ou carne de vaca salgada! Que vida! Mas estão habituados a ela e não sabem queixar-se!... E para quê, no fim de contas?...

Felizmente, à entrada de uma aldeia grande, na muda da uma hora da tarde, os viajantes encontraram numa estalagem, menos má, um jantar mais substancial: caldo de leitão, pepino a nadar numa tigela de molho, grandes bocados do chamado «pão azedo», porque não se podiam dar ao luxo de exigirem pão branco, um bocado de salmão pescado nas águas do Dwina, toucinho fresco com legumes, ovas de solho, gengibre, rábanos silvestres e doce de calda de murtinha dos bosques, de um sabor singular. Para bebida o invariável chá, que corre tão abundantemente que bastaria para alimentar um rio das províncias bálticas. Enfim, um óptimo jantar que pôs Broks e Poch de excelente humor para o resto da viagem.

Quanto ao outro viajante, parecia não sentir tão bons efeitos. Fez-se servir à parte, num canto escuro da sala. Apenas ergueu o capuz, descobrindo uma barba grisalha. O empregado do banco e o condutor em vão tentaram ver-lhe a cara. Comeu rápida e sobriamente e voltou ao seu lugar no carro, muito antes dos outros.

Isto não deixou de intrigar os seus companheiros de viagem, principalmente Poch, muito desesperado por não conseguir arrancar uma única palavra ao taciturno.

— Não chegaremos a saber quem é este patusco?... — perguntou Poch.

— Eu digo-to.

— Conhece-lo?...

— Muito bem. É um cavalheiro que pagou o seu lugar, e isso basta-me.

Partiram alguns minutos antes das duas horas e a carruagem retomou uma marcha rápida. Os cavalos, gratificados com amáveis e carinhosas incitações: «Então, meus pombinhos!» — «Vamos, minhas andorinhas!», tomaram um trote largo, debaixo do chicote do postilhão.

Poch, com tanto falar, despejara naturalmente o saco e gastara o seu stock de novidades, porque a conversa tornou-se menos animada entre ele e o condutor. Um pouco pesado, além disso, com a digestão de um jantar tão farto, com a cabeça um pouco leve pelos vapores do vodka, não tardou a «pescar à linha», como se costuma dizer de uma pessoa cheia de sono que começa a baixar e levantar a cabeça. Um quarto de hora depois, dormia a sono solto, um sono cheio de sonhos, nos quais lhe aparecia a suave imagem de Zenaida Parensof.

Entretanto, o tempo turvava-se. As nuvens baixavam. A carruagem atravessava agora planícies encharcadas, impróprias para se poder estabelecer um caminho de carro. As terras movediças estavam niveladas pelos muitos rios que sulcam esta região setentrional da Livónia. Por isso, fora preciso colocar troncos de árvores apenas esquadrados, para dar alguma solidez a estes pântanos. Quase insuficiente para o transeunte, a passagem era difícil para uma carruagem. Numerosas pranchas mal seguras, apoiadas só numa das extremidades, oscilavam debaixo das rodas do carro, que soava com um ruído de ferragens inquietador. Nestas condições, o iemschick não pensava em forçar os cavalos. Marchava devagar, por prudência, e, apesar disso, tropeçavam a cada passo. Andaram assim muito, evitando todos os acidentes. Os animais chegaram, contudo, muito fatigados à estação de muda e não se lhes podia exigir mais.

Às cinco horas da tarde, sob o céu carregado de nuvens, fazia já bastante escuro. Era precisa muita atenção para se poder manter em boa direcção, no caminho confundido com o pântano. Os cavalos assustavam-se por não sentirem terra firme por debaixo das patas, espantavam-se e deitavam-se de lado.

— A passo, a passo, que assim é preciso — repetia Broks. — Antes chegar a Pernau com uma hora de atraso e não nos arriscarmos a ver-nos em apertos.

— Uma hora de atraso!... — exclamou Poch, que acordara com os solavancos.

— É o mais prudente! — respondeu o iemschick, que já se apeara algumas vezes para conduzir os cavalos à rédea.

O viajante tinha feito alguns movimentos, estendera a cabeça, procurando, em vão, ver através dos vidros da portinhola. A escuridão era muito grande para que se pudesse distinguir o quer que fosse. As lanternas da carruagem lançavam duas réstias luminosas, que dificilmente rompiam a escuridão.

— Onde estamos nós?... — perguntou Poch.

— Ainda a vinte verstas de Pernau — respondeu Broks — e, logo que cheguemos à estação de muda, parece-me que o melhor é esperarmos até amanhã de manhã.

— Que vá para o diabo a borrasca, que nos atrasa doze horas! — exclamou o empregado do banco.

Continuaram a avançar. Às vezes, o vendaval soprava tão violentamente que a carruagem ia de encontro aos cavalos, ameaçando virar-se. Os cavalos empinavam-se e caíam. A situação tornava-se extremamente difícil. Foi então que Broks e Poch discutiram se seria ou não melhor fazerem o resto da viagem a pé, até Pernau. Talvez isso fosse melhor, para evitar acidentes graves que lhes podiam acontecer se ficassem no carro.

Quanto ao companheiro de viagem, esse é que não parecia disposto a sair dela. Um inglês fleumático não teria mostrado maior indiferença pelo que se passava. Não era para viajar a pé que ele tinha pago o seu lugar na mala-posta, e esta mala-posta tinha obrigação de o levar ao seu destino.

De repente, às seis e meia da tarde, no mais forte da borrasca, produziu-se um choque terrível. Uma das rodas da frente enterrava-se num buraco e sob o esforço da puxada dos cavalos, instigados por uma vigorosa chicotada, partiu-se.

O carro inclinou-se bruscamente, e, perdendo o equilíbrio, caiu sobre o lado esquerdo.

Ouviram-se gritos de dor: Poch, com uma contusão numa perna, só pensava na preciosa pasta presa pela corrente. A pasta não tinha caído e ele apertou-a mais debaixo do braço, quando conseguiu sair da carruagem.

Broks e o viajante não tinham recebido mais do que contusões insignificantes e o postilhão, tendo-se desembaraçado, saltara para a cabeça dos seus cavalos. O sítio era deserto, com um maciço de árvores à esquerda.

— E agora? — exclamou Poch.

— A carruagem não pode continuar — respondeu Broks.

Da boca do desconhecido não saiu nem uma palavra.

— Serás capaz de aguentar a pé até Pernau?... — perguntou Broks ao empregado do banco.

— Quinze verstas! — exclamou este. — Com a perna assim?!...

— Pois bem... podes ir a cavalo...

— A cavalo!... Daqui a pouco estava no chão!...

O único partido a seguir era procurar abrigo nalguma estalagem vizinha, se a houvesse, e passarem lá a noite, pelo menos Poch e o outro viajante. Pelo seu lado, Broks e o postilhão, depois de desatrelarem os cavalos, montá-los-iam, dirigir-se-iam a Pernau o mais depressa possível e voltariam no dia seguinte com um segeiro para consertar a mala-posta.

Se o empregado do banco não trouxesse consigo uma quantia tão importante, acharia o alvitre excelente, mas com os quinze mil rublos...

Além disso, haveria na vizinhança alguma quinta, estalagem ou taberna onde os viajantes se pudessem refugiar até de manhã?... Foi a pergunta que Poch fez primeiro.

— Há... ali... efectivamente! — respondeu o viajante, e apontou com a mão uma luz ténue que ardia a uns duzentos passos para a esquerda, no extremo de uma mata, confusamente desenhada na sombra. Mas seria a lanterna de uma estalagem ou a chama da fogueira de um rachador de lenha?

Interrogado, o iemschik respondeu:

— É a estalagem do Kroff.

— A estalagem do Kroff? — repetiu Poch.

— Sim, o kabak(7), da «Cruz Quebrada».

— Pois bem — disse Broks, dirigindo-se aos companheiros —, se querem ficar neste albergue, nós amanhã de manhã vimos buscá-los.

A proposta pareceu agradar ao viajante. Era, enfim,

 

*7. Estalagem russa.

 

o melhor que tinha a fazer. O tempo tornara-se insuportável, a chuva não tardaria a cair torrencialmente. Dificilmente conseguiriam o condutor e o iemschick chegar a Pernau com os cavalos.

— Pois bem — disse Poch, que começava a sentir doer a perna. — Amanhã, depois de uma boa noite de repouso, poderei já partir, e conto contigo, Broks.

— Voltarei à hora combinada — prometeu o condutor. Desatrelaram os cavalos, e a carruagem, deitada de

lado, devia ser abandonada. Não era provável que naquela noite passasse pelo caminho qualquer carro ou carroça.

Depois de ter apertado a mão ao amigo, Poch, arrastando a perna, dirigiu-se para o sítio onde brilhava o clarão que indicava o albergue.

Como o empregado do banco andava com dificuldade, o viajante julgou dever seu oferecer-lhe o braço. Poch aceitou depois de ter agradecido ao seu companheiro, que, no fim de contas, era mais sociável do que se poderia supor pela sua atitude ao partir de Riga.

Andaram os duzentos passos sem dificuldade, seguindo o caminho à beira do qual se erguia o albergue. Suspensa à porta de entrada brilhava a lanterna com a sua lâmpada de petróleo. No ângulo da parede estavam umas grandes hastes de veado, cujo fim era atrair os olhares dos viajantes, durante o dia. Através das juntas dos contraventos, escoava-se a luz do interior e ouvia-se também, lá dentro, o ruído de vozes e de copos.

Por cima da porta principal estava uma tabuleta grosseiramente pintada, e podiam ler, à luz da lanterna, estas palavras: Kabak da Cruz Quebrada.

 

             O «KABAK» DA «CRUZ QUEBRADA»

A estalagem da «Cruz Quebrada» justifica o seu nome por um desenho feito numa das paredes do albergue, com sangue de boi, que representava uma cruz dupla russa, partida pela base e caída. Referia-se com certeza a alguma lenda relativa a qualquer profanação iconoclasta, perdida na noite dos tempos.

O dono da estalagem era um tal Kroff, de origem eslava, viúvo, de quarenta a quarenta e cinco anos de idade; já fora do pai dele, que ali vivera também, naquele canto isolado, perto da estrada de Riga a Pernau. Não havia, num raio de duas ou três verstas, nenhuma casa vizinha nem aldeia.

Estava completamente isolada.

Kroff não recebia como hóspedes, quer passageiros, quer habituais, senão raros viajantes que, por qualquer circunstância, tivessem de ficar ali, uma dúzia de camponeses que trabalhavam na cultura dos campos próximos e alguns rachadores de lenha ou carvoeiros ocupados nos bosques vizinhos.

O estalajadeiro tiraria lucros?...

Nunca ninguém, pelo menos, o tinha ouvido queixar-se. É verdade que não era homem que andasse a dizer o que só lhe importava a ele.

O kabak funcionava havia trinta anos, primeiro com o pai — que, caçador furtivo e contrabandista, conseguira arranjar alguma coisa — e agora com o filho. Dizia-se à boca pequena que na «Cruz Quebrada» nunca faltara dinheiro. Mas ninguém tinha que ver com isso.

Pouco comunicativo, Kroff vivia muito retirado, saindo raramente do albergue, aparecendo só de tempos a tempos em Pernau e trabalhando no jardim quando não havia fregueses para servir, porque não tinha nenhum criado nem criada para o ajudar. Era um homem vigoroso, corado, com a barba forte, cabelo abundante, e de olhar ousado. Nunca interrogava ninguém e respondia sucintamente ao que lhe perguntavam.

A casa, com jardim na parte de trás, compreendia simplesmente o rés-do-chão com a porta principal de um só batente.

Entrava-se primeiro na sala da venda, iluminada por uma janela ao fundo. À direita e à esquerda havia dois quartos que davam para a estrada. O quarto de Kroff era anexo ao albergue, do lado da horta.

A porta e as janelas do kabak eram sólidas e munidas de fortes ganchos e ferrolho no interior. O estalajadeiro, por precaução, fechava-as à tardinha. A taberna, no entanto, ficava aberta até às dez horas.

Naquele momento estavam lá meia dúzia de fregueses que o vodka e o schnaps conservavam de bom humor.

O jardim, com meia jeira, e cercado simplesmente por uma sebe, confinava com o pinhal que seguia para além do caminho. Produzia legumes de consumo diário, que Kroff cultivava com bastante proveito. Árvores de fruto, abandonadas aos cuidados da natureza, algumas cerejeiras raquíticas, macieiras que davam boas maçãs e alguns maciços de medronhos de frutos perfumados e de cor brilhante, que tanto abundam na Livónia.

Naquela noite, à roda das mesas, conversavam e bebiam uns três ou quatro camponeses e outros tantos rachadores de lenha das aldeias vizinhas. O schnaps, a dois kopeks o copo, atraía-os todos os dias antes de voltarem aos seus casais ou cabanas, a umas três ou quatro verstas de distância.

Nenhum deles passaria a noite na "Cruz Quebrada". Além disso, poucas vezes paravam ali viajantes para dormir.

Os postilhões e condutores de telegas e malas-postas paravam, contudo, de boa vontade, no kabak, antes da última etapa para Pernau.

Entre os hóspedes habituais, estavam nessa noite dois indivíduos, sentados, a conversar em voz baixa, olhando para os que bebiam. Eram o brigadeiro Eck e um dos seus agentes. Depois da perseguição feita ao longo do Pernowa, continuavam as suas buscas naquela região, onde se sabia da presença de alguns malfeitores, e tinham ficado em comunicação com as diversas esquadras encarregadas de vigiar as aldeias e povoados do norte da província.

Eck não vinha satisfeito com a sua última expedição. Do fugitivo que contava prender vivo para levar ao major Verder, nem o corpo encontrara no desgelo do Pernowa.

Era uma decepção para o seu amor-próprio.

E o brigadeiro dizia ao seu companheiro:

— O patife afogou-se, sem dúvida...

— Pela certa — concordou o agente.

— O pior é não haver a certeza, ou, antes, a prova material! Além disso, mesmo que o tivéssemos pescado morto, não era assim que o havíamos de reexpedir para a Sibéria!... Não! Vivo é que eu o queria, e o caso é que esta história não honra nada a Polícia!

— De outra vez seremos mais felizes, Sr. Eck — respondeu o agente, que se conformava muito filosoficamente com os maus sucessos da sua profissão.

O brigadeiro franziu a testa, sem procurar ocultar o seu despeito.

Nessa altura a tempestade desencadeara-se com toda a violência. A porta de entrada rangia nos gonzos, como para os arrancar do seu lugar. O fogão grande quase que se apagava, por vezes, para se reacender com a actividade de uma fornalha.

Sentiam-se gemer os pinheiros, cujos ramos partidos iam cair em cima do telhado da estalagem, em risco de o fazerem abater.

— Ora aqui está um serviço que poupa trabalho aos rachadores de lenha! — observou um dos camponeses. — Escusam de andar a cortar a carga...

— É um tempo magnífico também para os malfeitores e contrabandistas!... — acrescentou o agente.

— Sim... famoso... — confirmou Eck. — O que não quer dizer que os deixemos andar à vontade!... Anda por aí uma quadrilha... Já se soube de um roubo em Tarvart e de uma tentativa de assassínio em Karkus!... Na verdade, o caminho entre Riga e Pernau não está muito seguro... Os crimes aumentam e os criminosos escapam a maior parte das vezes. E, no fim de contas, a que se arriscam, quando são apanhados? A ir tirar sal para a Sibéria... Bem se importam eles com isso! Noutros tempos, faziam cabriolas na forca e tinham juízo... Mas as forcas quebraram-se, como sucedeu à cruz do kabak de mestre Kroff...

— Voltaremos ao passado — afirmou o agente.

— E não será já muito cedo — acrescentou Eck. Como poderia um brigadeiro da Polícia admitir que a

pena de morte, mantida para os crimes políticos, fosse abolida para os crimes de direito comum? Estava acima da sua maneira de pensar e da de muitos bons espíritos que não pertencem à Polícia...

— Vamos embora — anunciou Eck, que se dispunha a partir. — Tenho de ir falar com o brigadeiro da quinta esquadra, em Pernau, e não há tempo a perder!

Mas antes de se levantar bateu sobre a mesa. Kroff apareceu logo.

— Quanto se deve, Kroff?... — perguntou ele, tirando algumas moedas da algibeira.

— O brigadeiro bem sabe — respondeu o taberneiro. — O preço é o mesmo para todos.

— Mesmo para aqueles que vêm à tua taberna, onde sabem que tu não lhes pedirás nenhuns papéis nem perguntarás os nomes?

— Eu não sou da Polícia — respondeu Kroff, bruscamente.

— Ah! Se todos os taberneiros o fossem, estaria o país mais sossegado! — afirmou o brigadeiro. — Tem muito cuidado, Kroff, não seja caso que algum dia te fechem a estalagem por tu a não fechares aos contrabandistas e quem sabe se a piores fregueses ainda!...

— Dou de beber a quem me paga — retorquiu o taberneiro — e não quero saber de onde vêm nem para onde vão.

— Pois sim! Faze-te surdo quando eu te falo e depois queixa-te!... Vamos embora. Boa noite e até à vista!

O brigadeiro Eck levantou-se, pagou e dirigiu-se para a porta, seguido pelo agente. Os outros que estavam a beber imitaram-no, porque o mau tempo não os convidava a ficar toda a noite no kabak da «Cruz Quebrada».

Nesse momento abriu-se a porta, que foi logo violentamente fechada outra vez pela borrasca.

Acabavam de entrar dois homens; um deles amparava o outro, que coxeava.

Eram Poch e o companheiro, a quem a mala-posta deixara no meio do caminho. O viajante continuava com o capote estreitamente apertado ao corpo e o capuz deitado sobre a cara não a deixava ver.

Foi ele quem falou ao taberneiro:

— A nossa carruagem partiu-se a duzentos passos daqui. O condutor e o postilhão partiram para Pernau com os cavalos. Devem vir buscar-nos amanhã de manhã... Entretanto, tem dois quartos que nos possa ceder para esta noite?...

— Tenho — respondeu Kroff.

— Um deles é para mim — acrescentou Poch — e queria uma boa cama se fosse possível.

— Está bem. Tê-la-á — volveu Kroff. — Está ferido?

— Uma arranhadura numa perna — explicou Poch. — Isso não há-de ser nada.

— O outro quarto é para mim — acrescentou o viajante.

Enquanto falava, pareceu a Eck reconhecê-lo pela voz.

— É boa! — disse ele. — Ia jurar que era...

Não tinha a certeza e, na sua qualidade de polícia, por instinto que fosse, pareceu-lhe que seria bom certificar-se.

Entretanto, Poch sentara-se ao pé de uma mesa, em cima da qual pôs a pasta, que continuava segura à cintura pela corrente.

— Muito bem... um quarto já nós temos — disse ele a Kroff.

— Mas uma arranhadura não me impede de comer e eu estou com fome.

— Vou já servir-lhe a ceia — respondeu o estalajadeiro.

— O mais depressa possível — recomendou Poch. O brigadeiro avançou para ele.

— É na verdade uma felicidade, Sr. Poch, que o ferimento não seja grave.

— Oh! O Sr. Eck por aqui! — exclamou o empregado do banco. — Ora muito bons dias, ou antes boas noites!

— Boa noite, Sr. Poch!

— Então por aqui?

— É como vê. A sua ferida não será de cuidado?

— Isso sim! Amanhã já nem se conhece.

Kroff tinha posto na mesa pão, toucinho e a chávena para o chá. Depois, dirigindo-se ao viajante, perguntou:

— E o senhor?...

— Eu não tenho vontade. Diga-me onde é o quarto... Preciso de me deitar e é possível que não espere pela volta do condutor... Sairei amanhã às quatro horas da manhã.

— Como quiser — respondeu o taberneiro.

E guiou o viajante para o quarto que ocupava a extremidade da casa à esquerda da sala grande, reservando o da direita para o empregado do banco.

Mas, enquanto falava, o desconhecido deixou cair um pouco o capuz e o brigadeiro, que o observava, conseguiu ver-lhe uma parte da cara. Bastou-lhe isso.

«Está bem», murmurou, «é ele, não há dúvida... Porque quererá partir tão cedo, sem esperar pela mala-posta?...»

Com efeito, as circunstâncias mais naturais pareciam sempre extraordinárias às pessoas da Polícia!

«Para onde irá ele, assim?», perguntou Eck a si próprio, pergunta à qual o viajante não responderia, por certo, se lha fizessem. Além disso, este pareceu não ter notado que o brigadeiro reparara nele e o tinha examinado com atenção e reconhecido. Entrou, pois, no quarto que Kroff lhe indicou.

Eck voltou para junto de Poch, que comia com apetite.

— Este viajante vinha consigo na carruagem? — perguntou Eck.

— Vinha, sim, Sr. Eck... e por sinal que não consegui arrancar-lhe, todo o caminho, umas quatro palavras.

— Não sabe para onde é que ele vai?

— Não sei... Entrou para o carro em Riga e julgo que vai para Revel. O Broks é que lho podia dizer se aqui estivesse.

— Oh! Não vale a pena.

Kroff escutava esta conversa com o ar do estalajadeiro indiferente que não quer saber quem são os seus

hóspedes.

Passeava pela sala, enquanto os camponeses e rachadores se despediam dele, desejando-lhe boas noites.

O brigadeiro, entretanto, não tinha pressa de partir e entretinha-se a fazer falar o palrador do Poch, que estava nas suas sete quintas.

— E o senhor vai para Pernau? — perguntou ele.

— Não... vou para Revel, Sr. Eck.

— Ao serviço do Sr. Johausen?

— Exactamente — respondeu Poch.

E, instintivamente, chegou para si a pasta que estava sobre a mesa.

— Este acidente do carro é que lhe faz perder umas doze horas.

— Doze horas, se o Broks voltar amanhã de manhã, como prometeu, e só poderei voltar a Riga daqui a quatro dias para o casamento...

— Bem sei!... Com a boa Zenaida Parensof!...

— Acredito... o senhor sabe tudo...

— Tudo não, porque não sei para onde vai o seu companheiro de viagem. No fim de contas, partindo amanhã de manhã, tão cedo, sem esperar por si, é porque fica em Pernau...

— É provável — respondeu Poch — e, se nos não tornarmos a ver, boa viagem!... Mas o Sr. Eck tenciona ficar aqui esta noite?...

— Não, Poch; temos reunião em Pernau e partimos já.

Quanto a você, depois de cear bem, trate de dormir e não largue a pasta, hem?...

— Anda sempre comigo, como as orelhas na minha cabeça! — respondeu o empregado do banco, rindo a bom rir.

— Vamos embora — disse o brigadeiro. — Agasalhemo-nos bem para a chuva não nos entrar até aos ossos! Boa noite, Poch.

— Boa noite, Sr. Eck.

Os dois polícias abriram a porta e Kroff fechou-a depois com uma tranca interior e deu uma volta à chave, que tirou em seguida.

A essa hora não era natural que alguém viesse procurar asilo na «Cruz Quebrada»... Muito raro era já que dois viajantes ali procurassem quarto até ao dia seguinte, e fora preciso aquele acidente da mala-posta para o taberneiro não ficar só, como de costume, nesta taberna isolada.

Entretanto Poch acabava de comer e com grande apetite. Comera e bebera o preciso para reparar as forças.

O leito acabaria o que a mesa começara tão bem.

Kroff antes de ir para o quarto esperava que o hóspede se recolhesse também ao dele. Manteve-se ao pé do fogão, cujo fumo, com o vento, se espalhava pela sala.

Kroff entretinha-se a espalhá-lo com um guardanapo, cujas dobras, ao estenderem-se, produziram um estalido semelhante ao do chicote.

A luz da vela de sebo, que estava sobre a mesa, oscilava, fazendo dançar a sombra dos objectos.

Lá fora, o vento produzia tal barulho de encontro às vidraças que poderia dizer-se que estava alguém a bater.

— Não ouviu?... — chegou a observar, de uma das vezes, Poch, no momento em que a porta sofrera tal choque que podia chegar a iludir.

— Não é ninguém — respondeu o taberneiro. — Já estou habituado a isto... No pino do Inverno ainda há dias piores...

— E de resto é pouco provável — replicou Poch — que ande gente por estes caminhos, a não ser malfeitores ou agentes da Polícia...

— Não há dúvida! Eram quase nove horas.

O empregado do banco levantou-se, meteu a pasta debaixo do braço, pegou na vela acesa que Koff lhe deu e dirigiu-se para o seu quarto. O estalajadeiro tinha na mão uma lanterna de vidros grossos que lhe devia servir para o alumiar quando Poch fechasse a porta do quarto.

— Ainda se não vai deitar? — perguntou este antes de entrar para o quarto.

— Vou — respondeu Kroff — , mas antes disso quero ir dar a volta do costume.

— Pelo seu cerrado?

— Sim, pelo cerrado, para ver se as galinhas estão no poleiro, porque às vezes, de manhã, falta-me uma ou duas.

— Ah! — disse Poch. — São as raposas?

— As raposas e também os lobos. Estes malditos animais não se incomodam nada em saltar por cima da sebe. O que vale é que a janela do meu quarto dá para a horta e sempre que posso tempero-os com uma carga de chumbo!... Se ouvir algum tiro de noite, não se assuste.

— Oh! Parece-me que nem um tiro de peça era capaz de me acordar se eu dormisse como tenho vontade! A propósito, não tenho pressa de partir. O meu companheiro, se se quer ir embora mais cedo, é porque lá tem os seus negócios! A mim deixe-me dormir até tarde. Basta acordar-me quando Broks tiver voltado de Pernau com a carruagem já consertada.

— Está bem — respondeu o taberneiro. — Ninguém o acordará e quando o seu companheiro partir hei-de fazer com que o barulho não lhe interrompa o sono.

Poch, abafando os bocejos, muito justificados pelo cansaço, entrou no quarto e fechou a porta à chave.

Kroff ficou só na sala, apenas iluminada pela lanterna.

Aproximou-se da mesa, levantou a toalha que servira ao empregado do banco e arrumou os guardanapos, a chávena e a chaleira. Era um homem metódico: nunca deixava para o dia seguinte o que podia fazer na véspera.

Feito isto dirigiu-se para a porta do cerrado e abriu-a.

Desse lado, que era o noroeste, o vendaval soprava com menos violência e o anexo estava, em volta, resguardado por uma espécie de esteira. Mas para além do ângulo da casa o vento soprava rijo e o estalajadeiro pensou que não precisava de se expor. Bastar-lhe-ia uma vista de olhos pelo lado do pátio. Nenhuma sombra móvel que pudesse indicar a presença de um lobo ou raposa. Kroff agitou a lanterna em todas as direcções e depois, não vendo nada suspeito, voltou à sala.

Como não lhe convinha deixar apagar o fogão, deitou-lhe alguns bocados de turfa, lançou mais uma vez o olhar em volta de si e foi para o seu quarto.

A porta, quase contígua à do jardim, permitia entrar no anexo, onde se achava o quarto do estalajadeiro. Este quarto era a seguir àquele onde Poch já dormia a sono solto.

Kroff entrou no quarto com a lanterna na mão e a sala ficou completamente às escuras.

Dois ou três minutos depois, poder-se-ia ouvir o ruído dos passos do taberneiro enquanto se despia. Depois um ruído mais pronunciado indicou que ele acabava de se meter na cama. Passados alguns instantes tudo estava em silêncio no albergue, apesar do tumulto dos elementos, o vento, a chuva, apesar do gemer da tempestade no pinhal, a que já deitara abaixo os ramos mais altos.

Um pouco antes das quatro horas da manhã, Kroff levantou-se e entrou, com a lanterna acesa, na sala grande.

Quase ao mesmo tempo, abriu-se a porta do viajante.

Este já estava vestido e embrulhado, como na véspera, no capote e com o capuz na cabeça.

— Já pronto, senhor?... — observou Kroff.

— Já — respondeu o viajante, que tinha na mão uns dois ou três rublos em papel. — Quanto lhe devo por esta noite?

— Um rublo.

— Aqui está um rublo e faça favor de me abrir a porta.

— Vou já — respondeu o estalajadeiro, depois de ter verificado o valor do rublo à luz da lanterna.

Dirigiu-se para a porta com a grande chave, que tirara da algibeira, na mão. Antes, porém, parou e dirigiu-se ao viajante:

— Não quer tomar nada, antes de partir?...

— Nada.

— Nem um copo de vodka ou schnaps?

— Nada, já lhe disse. Abra, que estou com pressa...

— Como quiser...

Kroff tirou da porta as trancas grandes que a seguravam por dentro. Meteu a chave na fechadura, cuja lin-gueta rangeu.

A escuridão era ainda completa. A chuva cessara, mas o vento soprava tempestuosamente. O caminho estava cheio de ramos partidos.

O viajante segurou o capuz, abotoou o capote e depois, sem dar uma palavra, saiu precipitadamente e daí a pouco desapareceu no meio da escuridão da noite.

Então, enquanto ele seguia o caminho de Pernau, Kroff tornou a colocar as trancas interiores e fechou a porta do kabak da «Cruz Quebrada».

 

                 ESLAVOS E GERMANOS

Na mesa da sala de jantar dos irmãos Johausen servia-se o primeiro chá, com fatias de pão com manteiga, às nove horas da manhã. A exactidão «levada até à décima casa decimal», como eles próprios diziam, era uma das principais divisas destes ricos banqueiros, tanto na vida corrente, como nos negócios, quer se tratasse de receber, quer de pagar. Frank Johausen, o irmão mais velho, queria, sobretudo, que as refeições, as visitas, o levantar e o deitar fossem regulados militar-mente e até a alegria e a tristeza, como os livros da sua casa bancária, uma das mais importantes de Riga.

Ora, naquela manhã, à hora que se disse, o samovar(8) não estava em estado de servir. Porquê? Por preguiça de Trankel, que era o criado de quarto especialmente encarregado deste serviço junto do patrão.

Por isso, quando o Sr. Johausen, seu irmão, a senhora Johausen e sua filha, Margarida Johausen, entraram, ainda o chá não estava pronto para ser deitado nas chávenas, as quais se encontravam dispostas sobre a mesa.

Sabe-se da pretensão, aliás pouco justificada, que tinham os alemães ricos das províncias bálticas, de tratarem paternalmente o seu pessoal doméstico.

 

*8. Chaleira.

 

A família ficava patriarcal e os criados eram considerados como filhos da casa e, por conseguinte, não escapavam aos correctivos paternos.

— Trankel, porque não está já servido o chá?... — perguntou o Sr. Frank Johausen.

— Perdoe-me, patrão — respondeu Trankel, com voz trémula — , mas esqueci-me.

— Já não é a primeira vez, Trankel — replicou o banqueiro — , e tudo leva a crer que não será a última.

A senhora Johausen e a filha inclinaram a cabeça em sinal de aprovação e aproximaram-se do fogão grande de faiança artística, que, felizmente, não se apagara como o samovar.

Trankel baixou os olhos e não respondeu.

Não! Já não era a primeira vez que faltava a esta exactidão que os Johausen tanto apreciavam. O banqueiro então tirou da algibeira uma carteira de apontamentos, escreveu algumas linhas a lápis numa das páginas, arrancou essa página e entregou-a a Trankel, ordenando-lhe:

— Leva isto ao seu destino e espera pela resposta. Trankel sabia perfeitamente qual era o destino do

bilhete e qual seria a resposta do destinatário. Não pronunciou uma palavra, inclinou-se, beijou a mão ao patrão e dirigiu-se para a porta, para ir à repartição da Polícia. A página da carteira continha estas palavras:

"(Vinte e cinco vergastadas no meu criado Trankel.

Frank Johausen.))

No momento em que o criado saía, ainda lhe recomendou o banqueiro:

— Não te esqueças de trazer recibo.

Trankel teria cuidado de não se esquecer. Este recibo permitia, com efeito, ao banqueiro pagar o preço do castigo, conforme a tarifa adoptada pelo coronel da Polícia.

Era assim que as coisas se passavam naquela época e talvez ainda agora na Curlândia, Estónia, Livónia e, por certo, em muitas outras províncias do império moscovita.

Agora, algumas particularidades sobre a família Johausen.

Sabe-se qual é a importância que um funcionário público tem na Rússia.

É submetido ao imperioso regulamento do Tchin, essa escada de catorze degraus que os empregados do Estado têm de subir, desde o lugar menos importante até ao de conselheiro privado.

Há, contudo, classes elevadas, que nada têm de comum com os funcionários, e entre elas e em primeiro lugar está, nas províncias bálticas, a nobreza, que goza de uma consideração dupla, de um poder quase real.

De origem germânica, ela é mais antiga do que a nobreza russa e conservou privilégios importantes, entre os quais o de conferir diplomas que os membros da família imperial não se envergonhariam de obter.

Junto desta classe, há a classe burguesa, sua igual e até mesmo superior, pela intervenção na administração provincial e municipal, e, também, de raça alemã na sua quase totalidade, como se disse. Compreende os comerciantes e os cidadãos honorários e, um pouco abaixo, os simples burgueses, que formam uma classe intermediária; os banqueiros, os armadores, os artistas e os comerciantes que, segundo a guilda(9), pagam um imposto que lhes permite fazerem comércio com o estrangeiro

Nesta burguesia, a classe mais elevada é instruída, trabalhadora, hospitaleira e com uma moralidade e probidade perfeitas.

Entre os primeiros lugares desta é que a opinião pública colocava, com justa razão, a família Johausen e a casa bancária, cujo crédito, quer na Rússia, quer no estrangeiro, era inatacável.

Abaixo destas famílias e classes privilegiadas, que se impunham nas províncias bálticas, estavam os camponeses; os cultivadores e agricultores sedentários — um milhão pelo menos — , que formam a verdadeira população indígena; os letões, que falam o antigo idioma eslavo, ao passo que o alemão é reservado para os cidadãos, e que,

 

*9. Corporação municipal.

 

apesar de não serem servos, são tratados como tal, casados muitas vezes contra vontade, quando se trata de aumentar o número de famílias às quais os senhores têm o direito de exigir um foro.

É assim que se explica que o soberano russo pense em modificar este deplorável estado de coisas e que o Governo procure introduzir o elemento eslavo nas assembleias e administrações municipais.

Daí provém uma luta, cujos efeitos se verão no decurso desta narrativa.

O principal director da casa bancária era o mais velho dos irmãos, Frank Johausen. O mais novo era celibatário. O mais velho, com quarenta e cinco anos de idade, casara com uma alemã de Francoforte. Era pai de dois filhos, um rapaz, Karl, que tinha dezanove anos, e uma menina de doze.

Karl terminava então os seus estudos na Universidade de Dorpat, onde João, filho de Dimitri Nicolef, ia, dentro em pouco, também terminar os seus.

Riga, cuja fundação remonta ao século XIII, é — deve-se repetir — uma cidade mais alemã do que eslava. Reconhecia-se-lhe a origem mesmo nas casas, com telhados altos, com balcões para a rua, para onde se sobe por degraus, conquanto alguns edifícios afectem uma arquitectura bizantina, que se distingue facilmente pelas suas disposições estranhas e suas cúpulas doiradas.

Riga é no entanto uma cidade aberta.

A sua praça principal é a dos paços do concelho, onde se pode admirar, de um dos lados, o Rathaus, que é a casa do Conselho, terminada por uma torre com grandes bolas, e, do outro lado, o antigo monumento dos cavaleiros da Cabeça Negra, eriçado de pequenos campanários aguçados, cujos cataventos rangem lastimosamente e que apresenta um aspecto arquitectónico mais extravagante do que artístico.

É nesta praça que se acha instalado o Banco Johausen, um edifício bastante elegante, de construção moderna. Os escritórios são no rés-do-chão, as salas de recepção ocupam o primeiro andar. É pois situado em pleno bairro comercial, e, graças à importância dos seus negócios e extensão das suas relações, goza na cidade de uma influência considerável e preponderante.

A família Johausen é muito unida. Os dois irmãos entendem-se em tudo perfeitamente. O mais velho tem a direcção geral da casa. O mais novo ocupa-se mais especialmente dos escritórios e da contabilidade.

Madame Johausen é uma mulher como outra qualquer, tão alemã quanto possível, mas de um extremo encarniçamento para com o elemento eslavo e a quem a nobreza rigana fazia bom acolhimento, o que contribuía para aumentar os seus instintos naturais de vaidade.

Segue-se daí que a família Johausen ocupava o primeiro lugar na alta sociedade burguesa da cidade e o primeiro lugar também no mundo financeiro do país.

Além disso, gozava de um crédito excepcional no Banco russo para com o comércio estrangeiro, e igualmente com os Bancos de Volka-Kama, Banco de Descontos e o Banco Internacional de São Petersburgo. A liquidação dos seus negócios teria assegurado aos irmãos Johausen uma das maiores fortunas das províncias bálticas.

Frank Johausen, membro do conselho municipal da cidade e um dos maiores influentes, defendia sempre, com obstinada tenacidade, os privilégios da sua raça.

Admirava-se e exaltava-se nele o representante dessas ideias arreigadas no espírito das classes elevadas, depois da conquista.

Devia, por isso, ser pessoalmente visado e lesado pelas tendências que o Governo tinha para russificar as obstinadas raças de sangue germânico.

As províncias bálticas eram então administradas pelo general Gorko. Homem muito inteligente, compreendendo as dificuldades do seu cargo, muito prudente nas suas relações com a população alemã, trabalhava pelo triunfo do elemento eslavo, procurando introduzir esta modificação nos costumes públicos, sem usar de meios brutais. Era enérgico, mas justo, e evitava todos os processos que pudessem ocasionar conflitos.

À frente da Polícia estava o coronel Raguenof, um russo dos sete costados, menos hábil do que o seu chefe, e disposto a ver um inimigo em cada livoniano, estónio ou curlandês que não tivesse sido criado com leite eslavo. Este homem, com uns cinquenta anos de idade, polícia resoluto, audacioso e obstinado, não recuava diante de nada e o governador dificilmente o continha.

Teria afrontado qualquer obstáculo se o deixassem e vale mais gastar que quebrar. Ninguém se admire de darmos um desenho tão circunstanciado das personagens. Conquanto não estejam em primeiro lugar, desempenham um papel muito importante neste drama judiciário em que as paixões políticas e as divergências de nacionalidade tiveram tanta importância, nestas províncias.

Depois do coronel Raguenof, e por contraste, deve-se prestar atenção ao major Verder, seu subordinado directo na repartição da Polícia. O major é de origem germânica e, no exercício das suas funções, exalta exageradamente os da sua raça. Está para os alemães como o coronel Raguenof para os eslavos. Perseguia uns encarniçadamente e outros com brandura. Apesar da diferença de posto, haveria algumas vezes conflito entre os dois se o general Gorko não interviesse.

Deve-se, além disso, observar que o major Verder era secundado pelo brigadeiro Eck, que já vimos, no princípio desta história, perseguir um evadido das minas da Sibéria. Este não precisava que o animassem para cumprir o seu dever no decurso das diligências que lhe eram confiadas e fazia até mais do que o seu dever quando se tratava de prender algum eslavo.

Era também muito apreciado pelos irmãos Johausen, aos quais pudera prestar alguns serviços pessoais — serviços pagos generosamente no guichet do caixeiro do Banco.

Está pois conhecida a situação. Vê-se em que terreno é que se vão encontrar os adversários nas eleições municipais — Frank Johausen, resolvido a não ceder o seu lugar, e Dimitri Nicolef, apoiado, contra a sua vontade, pelas autoridades russas e pelas classes populares, às quais um censo novo ia alargar o direito eleitoral.

O facto de um simples professor livre, sem fortuna nem posição, ser convidado para esta luta contra o poderoso banqueiro, representante da alta burguesia e da altiva nobreza, era um sintoma em que os homens ilustrados deviam reparar.

Não pressagiava isto que, num futuro próximo, se modificariam as condições políticas destas províncias, com prejuízo dos que actualmente tinham o poder municipal e administrativo?

Os irmãos Johausen, contudo, não desesperavam de combater, com vantagem maior ou menor, o rival que lhes opunham. Esperavam cortar pela raiz a popularidade nascente de Dimitri Nicolef. Antes de dois meses se veria se um mandato público podia ser concedido ao miserável devedor, que uma condenação civil e um arresto que dela resultaria teria lançado à rua e arruinado. Não esqueceram que a 15 de Junho terminava o prazo da obrigação assinada por Dimitri Nicolef, a favor da casa Johausen, por causa das dívidas de seu pai.

Tratava-se da quantia de dezoito mil rublos, enorme para o modesto professor de ciências. Poderia este pagá-la?... Os Johausen estavam certos de que o pagamento, que acabaria de o libertar, não se efectuaria. Os últimos pagamentos já tinham sido feitos com dificuldade, e não era natural que, pouco tempo depois, tivesse melhorado a situação pecuniária de Dimitri Nicolef. Não! Era impossível que efectuasse o pagamento. Se viesse pedir prorrogação de prazo, seriam implacáveis. Não era só o devedor que eles atingiam, era o adversário político, que ficaria logo aniquilado.

Os irmãos Johausen não esperavam, porém, que uma circunstância imprevista os fosse favorecer nos seus projectos. Iam ter, à sua disposição, o fogo do céu, que não podia ferir mais a propósito e mortalmente a popularidade do rival.

Entretanto, conforme a ordem do patrão, Trankel apressou-se — talvez esta palavra não tenha aqui verdadeira significação — , apressou-se a obedecer.

Com uma cara enjoada e passo hesitante, de pessoa, contudo, que conhece o caminho da repartição da Polícia por lá ter ido já muitas vezes, saiu do Banco, passou ao lado da fortaleza de muralhas amarelas, onde é a residência do governador das províncias, atravessou pelo meio das barracas do mercado, onde se vende de tudo, objectos de brique-à-braque, bugigangas de um valor contestável, espólios lamentáveis, assuntos religiosos e utensílios de cozinha, e depois, para espairecer, tomou uma chávena de chá quente com vodka, com que os vendedores ambulantes fazem um comércio muito lucrativo; lançou um olhar vago para os lavadoiros, atravessou ruas por onde desfilavam os forçados puxando carroças, sob as ordens de um guarda, cheio de atenções para com as pessoas de bem que uma condenação às galés por qualquer infracção da ordem não desonra, e chegou finalmente à repartição da Polícia.

Aí, foi o criado acolhido pelos guardas como um conhecimento velho. Estenderam-lhe as mãos, que ele apertou afectuosamente.

— Olá! Tu por aqui, Trankel!... — disse um dos polícias. — Há que tempos que não te via: há seis meses, pelo menos...

— Não há tanto! — respondeu Trankel.

— Então quem te mandou cá?

— Foi o meu patrão, o Sr. Frank Johausen.

— Está bem! Naturalmente queres falar ao major Verder...

— Se puder ser...

— Chegou mesmo agora ao gabinete e, se quiseres dar-te ao incómodo de ir ter com ele, terá muito gosto em receber-te.

Trankel, muito lisonjeado, dirigiu-se para o gabinete do major e bateu discretamente à porta. A um convite lacónico que veio do interior, entrou.

O major, sentado à secretária, folheava um maço de documentos. Ergueu os olhos para o indivíduo que se lhe apresentava e disse:

— Ah! És tu, Trankel!...

— É verdade, senhor major...

— O que te traz por cá?...

— Venho por ordem do Sr. Johausen...

— Negócio grave?

— Foi o samovar que não quis funcionar esta manhã...

— Porque te esqueceste de o acender, com certeza... — observou, sorrindo, o major.

— Talvez...

— E quantas?...

— Aqui está a ordem.

E Trankel entregou ao major a nota que o patrão lhe tinha dado. O major leu-a.

— Olha que grande coisa!... — notou ele.

— Sim... sim... — respondeu Trankel.

— Só vinte e cinco vergastadas!...

Era evidente que Trankel preferia ter apanhado só uma dúzia.

— Está bem — declarou o major Verder. — Já te vão servir, para não te fazerem esperar!

Chamou um agente, que se perfilou, militarmente.

— Vinte e cinco vergastadas — ordenou o major — , mas pouco puxadas... como para um amigo... Ah! se fosse um eslavo! Vai, Trankel. Livra-te delas e, quando estiveres pronto, vem buscar o recibo...

— Muito obrigado, senhor major!

Trankel saiu do gabinete e seguiu o agente para o quarto onde devia ser feita a execução. Tratá-lo-iam como amigo, não tinha de que se queixar.

Trankel despiu-se, de modo a deixar as costas nuas, curvou-se e estendeu-se, ao passo que o agente, com uma vergasta na mão, se preparava para a brandir. No momento, contudo, em que ia ser dada a primeira vergastada, ouviu-se grande barulho à porta da repartição da Polícia. Chegou um homem, esbaforido por uma correria rápida, e exclamou:

— O major Verder! O major Verder!

A vergasta, erguida por sobre as costas de Trankel, parou e o agente abriu a porta do quarto, para ver o que se passava. Trankel, não menos interessado, o melhor que tinha a fazer era ir ver. Com o barulho, o major Verder saíra do gabinete e acabava de aparecer.

— Que é? — perguntou.

O homem avançou, levou a mão ao barrete e entregou-lhe um telegrama, informando:

— Cometeram um crime...

— Quando?...

— Esta noite...

— Que crime?...

— Um assassínio...

— Onde?...

— No caminho de Pernau... no albergue da «Cruz Quebrada»...

— E quem é a vítima?...

— É o empregado do Banco da casa Johausen...

— O quê!... O pobre Poch! — exclamou Trankel. — O pobre amigo Poch?

— Conhece-se o móbil do crime?... — continuou o major Verder.

— Foi o roubo, porque encontraram vazia a pasta de Poch, no quarto onde ele foi assassinado.

— E sabe-se o que ela continha?...

— Ignora-se, mas pode-se ir saber ao Banco...

O telegrama expedido de Pernau continha tudo o que o portador acabava de saber no telégrafo.

O major Verder dirigiu-se aos seus agentes e ordenou:

— Tu... vai prevenir o juiz Kerstorf...

— Sim, senhor major.

— Tu... corre, a casa do Dr. Hamine...

— Sim, senhor major.

— E digam-lhes que vão ter ao Banco Johausen, que eu estou lá à espera deles.

Os agentes saíram precipitadamente da repartição da Polícia, e pouco depois o major dirigiu-se para o Banco.

E eis como, no meio do tumulto produzido pela notícia do crime, Trankel se livrou das vinte e cinco vergastadas que devia apanhar por não ser diligente no seu serviço.

 

                     A POLÍCIA EM CAMPO

Duas horas depois, corria pelo caminho de Pernau uma carruagem, com toda a velocidade. Não era uma telega nem uma mala-posta. Era a berlinda de viagem do Sr. Frank Johausen, à qual tinham sido atrelados os cavalos da posta que deviam ser substituídos nas estações da muda. Por mais depressa que andasse, não podia chegar antes da noite ao kabak da «Cruz Quebrada».

Esperariam na última estação de muda e no dia seguinte, logo de madrugada, chegariam ao albergue. Na berlinda iam o banqueiro, o major Verder, o Dr. Hamine, para as verificações, o juiz Kerstorf, que estava encarregado da instrução, e o escrivão. No assento de trás iam dois agentes da Polícia.

Uma palavra sobre o juiz Kerstorf, pois que as outras personagens já figuraram nesta narrativa e são suficientemente conhecidas.

Este magistrado, com cerca de cinquenta anos de idade, era justamente considerado pelos seus colegas e pelo público. Era para admirar a perspicácia e frieza com que andava nas causas-crimes que lhe eram confiadas. De uma integridade absoluta, nunca se deixava influenciar: era inacessível a qualquer pressão viesse ela de onde viesse, e nunca a política lhe ditava as suas conclusões.

Era a lei personificada. Pouco comunicativo, muito reservado, falava pouco e pensava muito.

Mesmo neste caso, havia, como se diz em física, fluidos contrários que dificilmente se combinariam se a política se intrometesse: de um lado, o banqueiro Johausen e o major Verder, de origem alemã; do outro, o Dr. Hamine, eslavo por nascimento.

Só o juiz Kerstorf é que estava livre das paixões das raças, que então fermentavam nas províncias bálticas. Durante o trajecto, a conversação — muito interessante — foi sempre entre o major Verder e o banqueiro.

Frank Johausen não ocultava o pesar que lhe causara a morte do desgraçado Poch. Tinha uma particular estima por aquele rapaz, de uma perfeita probidade e dedicação a toda a prova, que estava ao serviço da casa havia já muitos anos.

— E a pobre Zenaida — acrescentou ele — , que dor não sentirá quando souber da morte daquele com quem ia casar!...

Efectivamente, o casamento devia realizar-se em Riga, dentro em poucos dias, e agora era para o cemitério e não para a igreja que ia ser conduzido, já cadáver, o desgraçado empregado do Banco.

Quanto ao major, apesar de sentir muito a sorte da vítima, interessava-o mais a prisão do assassino. Não se podia dizer nada a esse respeito sem visitar o teatro do crime, nem saber em que condições fora cometido. Talvez se encontrasse algum indício, alguma pista a seguir. Intimamente, o major inclinava-se a ver neste assassínio a mão de algum dos vagabundos que então infestavam o território livoniano. Se assim fosse, poder-se-ia esperar, graças às esquadras policiais que o percorriam, que a justiça conseguisse descobrir o assassino da «Cruz Quebrada».

O papel do Dr. Hamine limitava-se às verificações médico-legais no cadáver de Poch. Esperava este exame para se pronunciar.

O doutor, porém, neste momento tinha outra preocupação, inquietação até. Com efeito, na véspera, quando fora fazer a visita quotidiana ao professor, este não estava em casa.

Soubera, por Ilka, que o pai se encontrava em viagem. Naquele mesmo dia, Nicolef, que ela não vira antes de partir, anunciara-lhe que ia sair de Riga por dois ou três dias. Para onde iria?... Não se podia dar nenhuma explicação a esse respeito. Aquela viagem fora projectada na véspera?...

Evidentemente, visto que Nicolef não recebera nenhuma carta depois de ter entrado em casa.

E, no entanto, durante toda a noite não falara de nada nem à filha, nem ao cônsul, nem ao doutor. Não parecera ele mais preocupado do que costume?... Talvez, mas a um homem tão concentrado quase que não tinha que se lhe perguntar a causa das suas preocupações. O certo é que no dia seguinte prevenira Ilka em duas palavras e saíra sem indicar o fim da sua viagem. O Dr. Hamine deixara Ilka verdadeiramente inquieta e ele próprio participava das suas inquietações.

A berlinda desfilava a passo rápido. Um homem, a cavalo, que tinha ido na frente, tomara as medidas devidas para que houvesse sempre animais prontos nas estações de muda. Não havia tempo a perder e se tivessem partido de Riga três horas mais cedo podia a investigação ter começado naquele mesmo dia.

O ar estava seco e um pouco frio. A borrasca cessara, com uma leve brisa de nordeste. O caminho é que ainda obrigava os cavalos a grandes esforços, por causa do vendaval.

A meio da viagem pararam meia hora, para almoçar, no modesto albergue da estação de muda, de onde partiram pouco depois.

Iam todos silenciosos, absorvidos nos seus pensamentos. A não serem algumas palavras trocadas entre o Sr. Frank Johausen e o major Verder, ia tudo calado na berlinda. Por mais depressa que esta deslizasse pelo caminho, parecia que nem se mexia. O mais impaciente dos viajantes, o major Verder, estimulava os postilhões com conselhos, importunava-os com repreensões, chegando até a ameaçá-los quando a carruagem se demorava mais nalguma curva.

Pouco depois das cinco horas a berlinda parou na última estação de muda antes de Pernau.

O Sol estava já muito inclinado, não tardaria a desaparecer, e a «Cruz Quebrada» estava ainda a umas dez verstas.

— Meus senhores — observou o juiz Kerstorf — , quando chegarmos ao albergue é noite, condição pouco favorável para começar uma investigação. Proponho que vamos para lá só amanhã de manhã... Além disso, como não encontraremos quarto conveniente nessa taberna, parece-me preferível passarmos a noite aqui no albergue da muda...

— A proposta é acertada — apoiou o Dr. Hamine — e, partindo cedo...

— Fiquemos, pois, aqui — disse então Frank Johausen — , a não ser que o major veja algum inconveniente...

— Só vejo um, que é o de retardar as nossas pesquisas — respondeu o major, que tinha pressa de chegar ao local do crime.

— O kabak com certeza que está guardado desde manhã?... — perguntou o juiz.

— Está — respondeu o major Verder. — O telegrama expedido de Pernau informa-me de que foram logo mandados para lá agentes, com ordem de não deixarem entrar ninguém e de impedir que o taberneiro Kroff comunique seja com quem for.

— Nessas condições a demora de uma noite não pode ser prejudicial à investigação — declarou o juiz.

— Com certeza — admitiu o major — , mas dá tempo a que medeie um bom número de verstas entre o autor do crime e a «Cruz Quebrada».

O major falava como polícia, compreendedor das suas funções.

Entretanto, adiantando-se a noite e afogando-se o dia nas sombras do crepúsculo, era melhor esperarem para o dia seguinte.

O banqueiro e os seus companheiros instalaram-se, pois, no albergue da estação de muda e passaram a noite, mais ou menos confortavelmente, nos quartos postos à sua disposição.

No dia seguinte — 15 de Abril — a berlinda pôs-se a caminho logo ao romper da alva e pelas sete horas chegou ao kabak.

Os agentes de Pernau receberam-nos à porta. Kroff passeava na sala.

Não fora preciso obrigá-lo a conservar-se no albergue. Para que havia de sair dali?...

A sua presença era precisa para fornecer aos agentes dados de que precisavam. Tinha de esperar as ordens dos magistrados que o interrogariam.

Que testemunha poderia haver, no início da investigação, mais importante do que ele?...

Demais a mais os agentes tinham tido o cuidado de conservar tudo no mesmo estado, quer no interior quer no exterior, tanto nos quartos, como no caminho ao pé da taberna. Tinham impedido que os camponeses das vizinhanças se aproximassem da casa; naquele momento estacionavam uns cinquenta curiosos à distância imposta.

Conforme prometera, o condutor Broks, acompanhado pelo iemschick com os cavalos e um carro, viera, pelas sete horas da manhã, ao kabak, onde esperava encontrar Poch e o viajante, que levaria logo que a carruagem estivesse consertada.

Calcule-se o horror de Broks quando o taberneiro o levou diante do cadáver de Poch, desse pobre Poch, tão impaciente por voltar a Riga para celebrar o seu casamento!

Montou num dos cavalos, deixando no albergue o postilhão com o carro, e correu logo a Pernau para avisar a Polícia. Mandaram um telegrama ao major Verder para Riga e foram imediatamente para a "Cruz Quebrada" alguns agentes.

Quanto a Broks, era sua intenção voltar ao kabak, a fim de se pôr à disposição dos magistrados, que, por certo, reclamariam o seu testemunho.

Entretanto, o juiz e o major Verder procederam imediatamente às investigações. Os agentes, colocados, uns no caminho, em frente da casa, outros por detrás, ao longo da horta, ou à direita, na orla do pinhal, foram encarregados de conservar os curiosos à distância.

O juiz, o major, o doutor e o Sr. Johausen encontraram na sala comum o taberneiro Kroff, que os conduziu ao quarto onde jazia o cadáver do empregado do Banco.

Em presença do infortunado Poch, o Sr. Johausen não pôde suster a sua comoção. Não havia dúvida de que era o antigo empregado da sua casa, com a cabeça cheia de sangue, o corpo inteiriçado pela morte, que remontava já a vinte e quatro horas, estendido no leito, na posição em que recebera o golpe durante o sono.

Na véspera, pelas sete horas da manhã, não ouvindo nenhum barulho no quarto, Kroff, segundo as suas recomendações, não o quisera acordar; uma hora depois, contudo, quando chegou o condutor, bateram-lhe ambos à porta, fechada por dentro. Não ouviram nenhuma resposta. Muito inquietos, arrombaram-na e acharam-se em frente de um cadável ainda quente.

Sobre uma mesa, perto da cama, via-se a pasta com as iniciais dos irmãos Johausen, com a corrente no chão e sem os quinze mil rublos em notas do Estado que Poch levava para Revel.

Primeiro que tudo, o Dr. Hamine submeteu o cadáver às verificações do costume.

A vítima perdera muito sangue, que se estendia desde a cama até à porta, já coagulado. A camisa de Poch, toda salpicada, apresentava, à altura da quinta costela e um pouco à esquerda, um buraco que correspondia a uma ferida, de forma bastante singular. Com certeza fora feita com uma dessas facas suecas, cuja lâmina, com o comprimento de cinco ou seis polegadas, e implantada num cabo de madeira, é munida de uma virola com mola. Esta virola tinha deixado sobre a pele, no orifício da ferida, um sinal bastante visível. O golpe fora dado com extrema violência e bastara um só para ocasionar a morte, visto ter atravessado o coração.

Quanto ao móbil do assassínio, não podia haver hesitações. Fora o roubo, visto que as notas que a pasta encerrava tinham desaparecido.

Mas como é que o assassino conseguira entrar no quarto? Evidentemente pela janela que dava para o caminho, visto que, estando a porta do quarto fechada por

dentro, tivera de ser arrombada pelo taberneiro, auxiliado por Broks. Para maior certeza, ver-se-ia o estado da janela, do lado de fora da casa. O que logo se verificou, pelos sinais de sangue que havia no travesseiro, é que Poch devia ter deixado a pasta debaixo deste e que o assassino a tinha procurado naquele sítio, com a mão ensanguentada, colocando-a sobre a mesa, depois de lhe ter tirado o que ela encerrava.

Estas diferentes verificações foram feitas com um cuidado minucioso na presença do taberneiro, que respondia concisamente a todas as perguntas do magistrado.

Antes de procederem ao interrogatório, o juiz e o major quiseram fazer as suas investigações no exterior. Era conveniente examinar o albergue em volta e ver se o assassino tinha deixado lá alguns sinais. Saíram ambos, acompanhados pelo Dr. Hamine e pelo Sr. Johausen.

Kroff e os agentes que tinham vindo de Riga seguiam-nos, ao passo que os camponeses eram contidos a uns trinta passos.

O que primeiro foi examinado, e com muito cuidado, foi a janela do quarto onde o crime fora cometido. Reconheceu-se imediatamente que o contravento da direita, que estava muito estragado, tinha sido forçado por meio de uma alavanca e que o fecho estava arrancado da madeira. Por um dos vidros, que fora partido e cujos bocados estavam no chão, é que o assassino tinha metido o braço e tirado o fecho do seu lugar, para o que bastava fazê-lo girar. Depois entrara, com certeza, no quarto por aquela janela, pela qual fugira depois do crime.

Quanto às pegadas ao longo do albergue, havia muitas e a tempestade da noite de 13 para 14 tinha-as conservado. Mas cruzavam-se, confundiam-se e afectavam formas tão diferentes que não podiam servir de indício. Mostravam tão-somente que, na véspera, antes da chegada dos agentes de Pernau, tinham andado muitos curiosos à roda da casa, sem que Kroff os pudesse impedir.

O juiz Kerstorf e o major chegaram então em frente da janela do quarto que durante a noite fora ocupado pelo desconhecido. Nada oferecia de suspeito. As vidraças, hermeticamente fechadas, não tinham sido abertas desde a véspera, isto é, desde que o viajante saíra do kabak.

No momento, o parapeito apresentava algumas arranhaduras e a parede igualmente, como se tivessem sido roçadas rudemente pelo sapato de alguém que tivesse escalado a janela.

Feito isto, o magistrado, o major, o doutor e o banqueiro tornaram a entrar no albergue. Tratava-se agora de visitar o quarto do viajante, contíguo, como se sabe, à sala comum. Tinha ficado sempre alguém de guarda, em frente da porta.

Abriram-na. No quarto reinava profunda escuridão. O próprio major Verder é que foi abrir a janela. Fez girar a tranca de madeira, abriu-a e, levantando a tranqueta fixa ao caixilho, abriu para fora os contraventos.

O quarto iluminou-se. Estava no mesmo estado em que o viajante o deixara: a cama aberta, onde este passara a noite; a vela de sebo quase completamente gasta e que o próprio Kroff apagara depois de ele ter partido; as cadeiras de madeira, nos lugares do costume, sem apresentarem desordem alguma; no fogão, ao fundo do quarto, contra a parede onde, do lado de fora, estava a lanterna, havia uns restos de cinzas e dois tições que não ardiam havia muito tempo; ao lado, um armário velho, cujo interior foi examinado e onde não encontraram nada.

Não apareceu neste quarto nenhum indício, a não ser as arranhaduras na parede e nos caixilhos da janela. Esta verificação podia ter muita importância.

Terminaram as pesquisas pela visita ao quarto de Kroff, no anexo que dava para o jardim. Os agentes examinaram cuidadosamente os telheiros. A horta foi explorada até à sebe que a cercava e não apresentava nenhuma arranhadura. O assassino viera, com certeza, de fora e entrara no quarto da vítima pela janela que dava para o caminho e cuja vidraça fora partida.

O juiz Kerstorf procedeu então ao interrogatório do estalajadeiro. Instalou-se na sala grande, ao pé de uma mesa, a que se sentou também o escrivão. O major Verder, o Dr. Hamine e o Sr. Johausen, desejosos de ouvir a deposição de Kroff, sentaram-se também em volta da mesa. Kroff foi convidado a dizer o que sabia.

— Sr. juiz — começou ele, num tom de voz que denotava exactidão — , anteontem à noite, pelas oito horas, chegaram ao meu albergue dois viajantes que me pediram dois quartos para dormirem. Um desses viajantes coxeava um pouco, devido a um acidente que acontecera à carruagem, uma mala-posta que tinha ficado tombada a uns duzentos passos daqui, no caminho de Pernau...

— Era Poch, o empregado do Banco da casa Johausen?...

— Era. Soube-o por ele próprio... Contou-me o que se tinha passado, que os cavalos se haviam espantado com a tempestade, fazendo tombar o carro... Se não fosse aquela contusão na perna, teria ido com o condutor para Pernau — e prouvera ao céu que assim tivesse acontecido!... O condutor é que não o vi nessa noite e devia voltar no dia seguinte para levar Poch e o companheiro, depois de ter consertado a mala-posta...

— Poch não disse o que ia fazer a Revel?... — perguntou o juiz.

— Não... Pediu-me que lhe servisse a ceia e comeu com apetite. Eram perto de nove horas quando foi para o quarto que lhe estava destinado. Fechou a porta por dentro à chave e com o ferrolho.

— E o outro viajante?...

— O outro viajante — respondeu Kroff — contentou-se com pedir um quarto, sem querer tomar parte na ceia de Poch. Quando se foi deitar preveniu-me de que não esperaria pelo regresso do condutor e que partiria no dia seguinte às quatro horas da manhã...

— Não chegou a saber quem era o viajante?...

— Não, senhor juiz, e o pobre Poch também não o sabia... Enquanto ceava, falou-me do companheiro, que não tinha dito ao todo dez palavras durante toda a viagem, recusando-se a conversar, com a cabeça sempre metida no capuz, como pessoa que não queria ser conhecida... Eu próprio não consegui ver-lhe a cara e é-me completamente impossível dar os sinais dele.

— E havia mais alguém na «Cruz Quebrada» quando chegaram os dois viajantes?...

— Meia dúzia de camponeses e rachadores de lenha e, além desses, o brigadeiro Eck com um dos seus homens...

— Ah! — exclamou o Sr. Johausen. — O brigadeiro Eck!... Mas ele não conhecia Poch?...

— Efectivamente, os dois conversaram durante a ceia.

— E essa gente foi-se toda embora? — perguntou o

juiz.

— Pelas oito e meia — informou Kroff. — Fechei então a porta da sala à chave, depois de ter segurado as trancas por dentro.

— Visto isso, não se podia abrir por fora?...

— Não, senhor juiz.

— Nem por dentro, sem a chave?...

— Também não.

— E de manhã encontrou tudo na mesma?...

— Exactamente. Eram quatro horas quando o viajante saiu do quarto... Alumiei-lhe com uma lanterna... Pagou-me o que devia, um rublo... Estava com o capuz pela cabeça, como na véspera, e não consegui ver-lhe a cara. Abri-lhe a porta, que tornei a fechar logo atrás dele...

— E não disse para onde ia?...

— Não me disse nada.

— E durante a noite não ouviu nenhum barulho suspeito?...

— Nenhum.

— Que lhe parece, Kroff — perguntou o juiz — , quando o viajante saiu do albergue já teria sido cometido o crime?...

— Acho que sim.

— O que fez depois de o viajante ter partido?...

— Tornei a ir para o quarto e deitei-me sobre a cama até amanhecer, mas parece-me que não cheguei a adormecer.

— De modo que, se alguém fizesse barulho entre as quatro e as seis, sentia-o com certeza?...

— Por certo, tanto mais que o meu quarto era perto do dele, e se tivesse havido luta entre Poch e o assassino...

— Sim, não há dúvida — disse o major Verder. — Mas não houve luta e o desgraçado foi fulminado na cama por um golpe que lhe atingiu o coração.

Não havia nada mais evidente, enfim, e não se duvidava de que o crime tinha sido cometido antes da partida do viajante. Entretanto, não havia a certeza absoluta a esse respeito, porque das quatro para as cinco horas da manhã ainda estava escuro e a borrasca desencadeava-se com violência; o caminho estava deserto e um malfeitor poderia entrar, por arrombamento, no albergue, sem ser visto.

Kroff continuou a responder muito categoricamente às perguntas que lhe foram feitas pelo magistrado. Nunca pensara, por certo, que as suspeitas pudessem recair sobre ele.

Além disso, estava completamente demonstrado que o assassino, vindo de fora, tinha arrombado o caixilho, partido um vidro e aberto a janela.

Depois de cometido o crime, estava igualmente provado que fugira pela mesma janela, com os quinze mil rublos roubados.

Kroff, depois, contou como dera pelo assassínio. Tendo-se levantado às sete horas, passeava na sala grande quando Broks, tendo deixado o carro e o iemschik a tratar de consertar a mala-posta, chegou ao albergue. Ambos tinham querido acordar Poch... Mas chamaram-no, e nada de resposta... Bateram à porta, e o mesmo silêncio... Arrombaram-na e acharam-se em presença de um cadáver.

— Tem a certeza de que, nesse momento, o desgraçado já não respirava?...

— Estou certo disso, senhor juiz — respondeu Kroff, que, por mais enérgico que fosse, estava comovido. — Estava completamente morto. Broks e eu fizemos todo o possível por o reanimar, mas não o conseguimos! Pudera! Com um golpe assim no coração!...

— E não encontrou a arma de que se servira o assassino?

— Não, senhor juiz. Ele teve o cuidado de a levar consigo.

— Tem a certeza de que o quarto de Poch estava fechado por dentro?

— Estava com certeza, à chave e com o ferrolho...

— assegurou Kroff. — O condutor Broks pode dizê-lo como eu. Por isso é que tivemos de arrombar a porta...

— Broks partiu logo?

— Partiu, sim, senhor juiz, e a toda a pressa. Estava ansioso por chegar a Pernau para avisar a Polícia, que mandou dois agentes.

— E Broks não voltou?...

— Não, senhor, mas deve voltar esta manhã, porque espera ser interrogado.

— Está bem — concluiu o Sr. Kerstorf. — Pode-se retirar, mas não saia do albergue e fique à nossa disposição.

— Ficarei.

No princípio do interrogatório Kroff tinha dado os seus nomes, apelidos, idade e profissão, de que o escrivão tomou nota, e era possível que tivesse de ser chamado no decurso da instrução.

Entretanto, foi o magistrado avisado de que acabava de chegar à "Cruz Quebrada" o condutor. Era a segunda testemunha e a sua deposição havia de coincidir por certo com a de Kroff e devia ser muito importante.

Broks entrou na sala.

A convite do juiz declinou o seu nome e apelidos, idade e profissão.

Convidado a depor sobre os viajantes que trouxera de Riga, acidente da mala-posta e resolução tomada por Poch e o seu companheiro de passarem a noite no kabak da "Cruz Quebrada", não omitiu nenhum pormenor.

Demais a mais, a sua deposição confirmou a do taberneiro, quanto à descoberta do crime e à necessidade em que se viram de arrombar a porta, visto que Poch não respondia ao chamamento que lhe faziam.

Entretanto, insistiu num ponto que se devia frisar bem, que era o de o empregado do Banco ter, durante o trajecto, falado talvez um pouco imprudentemente do que ia fazer a Revel, isto é, levar uma quantia importante por conta da casa Johausen.

— Certo é também que o outro viajante e os diversos postilhões — acrescentou — podiam muito bem ter visto a pasta, como eu próprio lhe fiz notar.

Interrogado a respeito do viajante que tinha tomado lugar na carruagem logo à partida de Riga, Broks respondeu:

— Não o conheço e não me foi possível ver-lhe a cara.

— Chegou no momento em que o carro ia partir?

— Alguns minutos antes.

— Não tinha mandado guardar o lugar?...

— Não, senhor juiz.

— Ia para Revel?

— Pelo menos pagou o bilhete até lá.

— Ele não sabia que você voltava no dia seguinte para consertar o carro?

— Sabia, sim, senhor juiz, assim como estava também combinado que Poch e o companheiro continuariam a viagem nele.

— E entretanto, no dia seguinte, às quatro horas da manhã, esse viajante saiu da «Cruz Quebrada»...

— Também fiquei admirado, senhor juiz, quando Kroff me disse que aquele sujeito já não estava no albergue...

— E o que concluiu daí?... — perguntou o Sr. Kerstorf.

— Concluí que a tenção dele era ficar em Pernau e que, como só lhe faltavam umas doze verstas, se decidiu a andá-las a pé.

— Se a intenção dele era essa — observou o magistrado — , é singular que não seguisse para Pernau logo à noite, depois do acidente do carro.

— Efectivamente, senhor juiz, também pensei nisso... O interrogatório do condutor não tardou a acabar e

Broks pôde sair da sala.

Logo que ele saiu, o major Verder perguntou ao Dr. Hamine:

— Não lhe parecem necessárias mais nenhumas verificações no corpo da vítima?...

 

95

 

— Não, major. Examinei atentamente o sítio, a forma e a disposição da ferida.

— O golpe seria realmente dado com uma faca?

— Com uma faca, que deixou sinal da virola na carne — afirmou o Dr. Hamine.

Talvez aquele indício pudesse aproveitar à instrução.

— Posso dar ordem para que o corpo deste pobre Poch seja transportado para Riga, onde lhe será feito o enterro?...

— Pode, sim — respondeu o juiz.

— Então, só nos resta partir? — perguntou o doutor.

— Só — respondeu o major — , visto que não temos de ouvir mais nenhuma testemunha.

— Antes de deixarmos o albergue — declarou então o Sr. Kerstorf — gostava de ir ainda uma vez ao quarto do viajante... Talvez nos tivesse escapado algum indício...

O magistrado, o major, o doutor e o Sr. Johausen tornaram a entrar no quarto.

O taberneiro acompanhava-os, pronto a responder a todas as perguntas.

A intenção do juiz era examinar bem as cinzas que estavam no fogão, para se certificar se tinham alguma coisa de suspeito. Ora quando olhou para a tenaz de ferro que estava a um canto da lareira, pegou nela, examinou-a e verificou que tinha sido deformada por um esforço violento. Seria aquela a alavanca de que se servira o assassino para arrombar a janela do quarto de Poch?...

Parecia evidente, e, comparando esta verificação com a que mostrara várias arranhaduras no caixilho da janela, podia-se chegar à conclusão, quase positiva, que o magistrado apresentou aos seus companheiros quando saíram do albergue e Kroff já os não podia ouvir:

— Este crime só pode ter sido cometido por três pessoas: ou por um malfeitor vindo de fora, ou pelo taberneiro, ou pelo viajante que passou a noite no outro quarto. O viajante não ignorava que a pasta de Poch continha uma soma considerável. À noite, depois de ter aberto a janela do seu quarto, saltou para fora e, servindo-se da tenaz como alavanca, abriu a janela do segundo quarto, matou o empregado do Banco enquanto dormia e, depois de o roubar, voltou ao seu quarto, de onde saiu às quatro horas da manhã, com a cara sempre escondida no capuz... Esse viajante é com certeza o assassino...

Não havia que responder a estes argumentos. Quem era, contudo, esse viajante e como estabelecer a sua identidade?

— Meus senhores — advertiu então o major Verder — , tudo se passou evidentemente como o senhor juiz Kerstorf acaba de dizer. Mas as investigações policiais reservam grandes surpresas e será preciso ter muito cuidado... Vou fechar o quarto do viajante, levarei a chave, e deixo aqui dois agentes permanentemente... Terão ordem para não sair do albergue nem perder de vista o estalajadeiro.

Esta medida foi aprovada e o major deu instruções neste sentido.

Um pouco antes de subir para a berlinda, o Sr. Johausen chamou de parte o juiz e comunicou-lhe:

— Há uma particularidade que ainda não dei a conhecer e que é bom que o Sr. Kerstorf saiba.

— Qual é?

— É que eu tenho os números das notas roubadas. Havia cento e cinquenta de cem rublos cada uma(10) e que Poch juntou num maço...

— Ah! Conserva os números? — perguntou o magistrado, reflectindo.

— Conservei, como costumo, e vou mandar esses números para os diferentes bancos das províncias e da Rússia.

— Parece-me que é melhor não fazer nada disso — respondeu o Sr. Kerstorf. — Se tomar essa medida,

 

*10. As notas russas são todas emitidas pelo Estado em notas de 500, 100, 50, 25, 10, 5, 3 e 1 rublo. Este papel-moeda representa quase exclusivamente o instrumento monetário da Rússia. Estas notas do Estado são de curso forçado. A sua emissão é regulada por uma ordem administrativa saída do Ministério das Finanças e colocada sob a vigilância do conselho dos estabelecimentos de crédito do império, aos quais se juntam dois conselheiros tirados da nobreza e negociantes de São Petersburgo. O rublo-papel valia perto de dois francos e 75 nessa época e o rublo-prata aproximadamente quatro francos. Posteriormente, houve reforma nas moedas russas. (Nota do Autor.)

 

pode o ladrão vir a sabê-lo, fugir para o estrangeiro e lá ir a um banco onde os números não sejam conhecidos. Deixemos correr e talvez se consiga prendê-lo.

Alguns instantes depois a berlinda levava o juiz, o escrivão, o banqueiro, o major Verder e o Dr. Hamine. O kabak da "Cruz Quebrada" ficava sob a guarda de dois agentes que não deviam sair de lá nem de dia nem de noite.

 

               NA UNIVERSIDADE DE DORPAT

No dia 16 de Abril — seguinte àquele em que se procedera às buscas no albergue da «Cruz Quebrada» — passeavam alguns estudantes no pátio da Universidade de Dorpat, uma das principais cidades da Livónia, discutindo, ao que parecia, com muito interesse. Batiam no chão com as suas grandes botas. Passeavam com um cinto de coiro a apertar-lhes a cintura e o barrete de cores vivas graciosamente caído sobre as orelhas.

Um dizia:

— Pela minha parte, garanto a frescura dos lúcios que hão-de aparecer na mesa... Vêm de Aa e foram apanhados esta noite... Quanto aos stroemlings(11), foram os pescadores, a quem se pagou bem, que os forneceram e eu cortava a cabeça se os não achassem todos óptimos acompanhados com um bom cálice de kummel!

— E tu, Sigfredo?... — perguntou o mais velho dos estudantes.

— Eu — respondeu Sigfredo — encarreguei-me da caça, e quem disser que as minhas perdizes e os meus galos do mato não são excelentes comigo se há-de haver...

— Reclamo o prémio de excelência para os presuntos assados — declarou um terceiro — e para os pourogens...

 

*11. Peixes pequenos, muito estimados na Livónia.

 

Eu morra se já se comeram melhores pastéis de carne! Recomendo-tos particularmente, meu caro Karl...

— Está bem! — respondeu o estudante a quem o colega acabava de tratar pelo nome. — Graças a todos esses pitéus, celebraremos condignamente a festa da Universidade... Mas só com a condição de que essa festa não há-de ser perturbada pela presença de algum eslavo-mos-covita-russo.

— Certamente! — exclamou Sigfredo — , nem um desses que começam a levantar a grimpa.

— Que nós depressa lhes faremos abaixar! — respondeu Karl. — E que tenha muito cuidado esse que eles querem reconhecer como chefe, esse João que eu farei conservar no seu lugar se se lembrar de querer chegar até nós... Qualquer dia temos questão os dois e eu não queria sair da Universidade sem o obrigar a humilhar-se diante destes alemães de quem desdenha...

— Ele e o seu grande amigo Gospodin! — exclamou Sigfredo, voltando os punhos fechados para o fundo do pátio.

— Gospodin e todos os que pensaram em se tornar nossos patrões!... — exclamou Karl. — Eles verão se não há razão para se ser da raça germânica!... Eslavo quer dizer escravo e nós acrescentaremos essas duas rimas no fim dos versos do nosso hino livoniano e depois fazemos-lhos cantar.

— E cantar como deve ser, em língua alemã — reforçou Sigfredo, enquanto os seus companheiros soltavam um hoch formidável.

Vê-se que estes rapazes, que tão bem tinham preparado tudo para o jantar do festival projectado, pensavam que o tornariam melhor ainda provocando um conflito e quem sabe se até uma briga com os estudantes de origem eslava. Eram todos uns cabeças de vento e muito particularmente Karl, que exercia, pelo seu nome e posição, uma influência séria sobre os camaradas e podia por isso levá-los a qualquer colisão desagradável.

Quem era, pois, esse Karl cuja autoridade se impunha a uma parte da juventude universitária, esse rapaz de um carácter audacioso mas vingativo e desordeiro?...

Alto, com o cabelo loiro, olhar severo, fisionomia de mau, nunca hesitava diante de nenhum obstáculo.

Karl era o filho do banqueiro Frank Johausen. Acabava naquele mesmo ano os seus estudos na Universidade de Dorpat. Passados alguns meses voltaria a Riga, onde tinha naturalmente lugar marcado na casa do pai e do tio.

E quem era esse João a respeito de quem Sigfredo e ele não tinham poupado ameaças?

Não se reconheceu já nele o filho de Dimitri Nicolef, o professor de Riga, que tinha pelo seu lado o seu colega Gospodin, como Karl Johausen tinha Sigfredo pelo dele?...

Dorpat, antiga cidade do Hanse, foi fundada pelos russos em 1750. Admite-se isto, conquanto alguns historiadores remontem a sua origem até ao famoso ano de 1000, em que devia acabar o mundo.

Se há dúvidas, entretanto, sobre a data da fundação desta cidade, uma das mais belas das províncias bálticas, não as pode haver relativamente à da célebre Universidade que Gustavo Adolfo fundou em 1632 e cuja reforma foi feita em 1812 e vigora ainda hoje.

Na opinião de vários viajantes, Dorpat era considerada como uma cidade da Grécia moderna, parecendo que as suas casas foram todas trazidas já feitas da capital do rei Otão.

Dorpat é uma cidade pouco comercial, toda de estudantes, com a Universidade dividida em corporações ou antes em "nações", pouco unidas pelos laços da fraternidade. Pelo que se viu, as paixões entre o elemento eslavo e o germânico são lá tão vivas como entre a população das outras cidades da Estónia, Livónia e Curlândia.

Segue-se daí que só há absoluta tranquilidade em Dorpat durante as férias, quando os intoleráveis calores da canícula conservam os estudantes junto das famílias.

Demais a mais, estes são em número considerável — cerca de novecentos — , o que exige um pessoal de setenta e dois professores para os diversos cursos de ciências e letras, cursos feitos em língua alemã e com que se gastam anualmente uns duzentos e trinta e quatro mil rublos.

A biblioteca, que é uma das melhores e mais apreciadas da Europa, encerra perto de quatro mil volumes.

Entretanto, Dorpat não é inteiramente desprovida de comércio em virtude da sua situação geográfica, no cruzamento dos principais caminhos das províncias bálticas, a duzentos quilómetros de Riga e a duzentos somente de São Petersburgo. Além disso, como se poderá esquecer que foi uma das cidades mais prósperas do Hanse? Por isso o seu comércio, por pouco desenvolvido que esteja, é exclusivamente feito por alemães. Os estónios, que formam propriamente a população indígena, compreendem somente operários e criados.

Dorpat está pitorescamente construída sobre uma colina, que domina ao sul o curso do Embach. Os três bairros que a compõem são atravessados por compridas ruas. Todo o visitante deve ir ver o observatório, a catedral, no estilo grego, as ruínas de uma igreja ogival e não deixa por certo, sem saudades, a álea do Jardim Botânico, muito apreciado pelos amadores.

Ao mesmo tempo que o elemento germânico predominava na população de Dorpat, predominava também na Universidade. Entre os novecentos estudantes haveria pouco mais de cinquenta de raça eslava. Entre estes, ocupava o primeiro lugar João Nicolef. Os colegas reconheciam-no, senão como chefe, pelo menos como porta-palavra nos conflitos que o siso e prudência do reitor nem sempre conseguiam evitar.

Neste dia, enquanto Karl Johausen e os do seu grupo passeavam no pátio, discutindo o que se sabe sobre as eventualidades que podiam ir turvar-lhes o festival, conversava sobre o mesmo assunto outro grupo de estudantes, moscovitas de coração e nascimento.

Um desses estudantes, com uns dezoito anos, vigoroso para a idade que tinha, mostrava altura acima da regular, olhar franco e vivo, rosto perfeito, as faces apenas com uns princípios de barba e uns pêlos finos no buço. Este rapaz, que inspirava simpatia logo à primeira vista, conquanto a sua fisionomia fosse severa — a de um cuidadoso, de um estudioso já preocupado com o futuro — , era João Nicolef, que ia terminar o segundo ano da Universidade. Parecia-se em tudo com sua irmã Ilka. Eram duas naturezas graves e reflectidas, muito compreendedoras do seu dever, mais talvez do que era natural para a idade.

Compreende-se que ele exercesse certa influência sobre os companheiros, pelo zelo com que defendia os ideais eslavos.

O seu colega Gospodin pertencia a uma família rica, estoniana, de Revel. Conquanto fosse mais velho um ano do que João Nicolef, parecia menos reflectido nos seus actos. Era um rapaz mais pronto para o ataque do que para a defesa, mais ávido de distracções, muito dedicado aos exercícios desportivos. Dotado de um coração excelente, sentia por João uma amizade sincera, capaz das maiores dedicações.

De que poderiam falar estes rapazes senão dos preparativos do festival que apaixonava as diferentes corporações da Universidade?...

Segundo o seu costume, Gospodin abandonava-se ao seu entusiasmo, à sua impetuosidade natural, que João tentava em vão reprimir.

— Sim, os tudescos pretendem excluir-nos do banquete! — exclamou ele. — Recusaram as nossas quotas para não termos o direito de tomar parte nele!... Envergonhavam-se de tocar os seus copos com os nossos!... Mas deixa-os lá, que talvez se lhes acabe o banquete antes da sobremesa!...

— É indigno, não há dúvida — concordou João. — Entretanto, não vale a pena ir armar questão. Querem fazer a festa sozinhos? Que a façam à vontade. Faremos outro tanto, meu caro Gospodin, e não despejaremos a taça com menos alegria, em honra da Universidade!

O impetuoso Gospodin é que não entendia as coisas assim. Aceitar esta situação equivalia a uma retirada e ele elevava-se e exaltava-se com as próprias palavras.

— Bem sabemos que tu és o bom senso em pessoa, João — replicou ele — , e ninguém duvida de que tenhas tanta coragem como razão. Eu cá é que, se não tenho razão, não a quero ter. Considero a atitude de Karl Johausen e da sua troupe injuriosa para nós e não posso aturar isto por muito tempo...

— Deixa lá esse Karl, esse alemão, em sossego, Gospodin — aconselhou João Nicolef — , e não te importes nem com o que ele diz nem com o que ele faz! Daqui a alguns meses tanto tu como ele deixam a Universidade e não é muito provável que se tornem a encontrar, pelo menos em condições de tratarem de origens de raças.

— É possível, sábio Nestor! — redarguiu Gospodin — e é muito bom a gente conseguir dominar-se, como tu!... Mas, a partir de hoje, não descanso enquanto não aplicar a esse Karl Johausen a lição que ele merece!

— Vejamos — advertiu João Nicolef. — Não convém que sejamos nós que nos metamos com eles primeiro, provocando-os sem razão, hoje pelo menos...

— Sem razão?! — exclamou o impetuoso rapaz. — Tenho mil razões: a cara dele, com que embirro; a atitude, que me irrita; o tom da voz, que me incomoda; o olhar desdenhoso; o ar de superioridade que ele quer dar-se e que os colegas animam, reconhecendo-o a ele como chefe da sua corporação!

— Nada disso tem importância, Gospodin — declarou João Nicolef, batendo no braço do colega num movimento instintivo de amizade... — Enquanto não houver uma injúria directa, não vejo motivo para provocação! Ah! Se houvesse insulto, não esperaria por ninguém para lhes responder, podes estar certo disso, meu caro.

— E ter-nos-ás ao teu lado, João — afirmaram os outros rapazes do grupo.

— Bem sei — disse o intratável Gospodin. — O que admiro é que o João não se veja particularmente visado por esse Karl.

— Que queres dizer tu com isso, Gospodin?

— Quero dizer que, se nós não temos contra os alemães mais do que rivalidade de estudantes, João Nicolef acha-se colocado doutro modo em frente de Karl Johausen!...

João bem sabia a que se referia Gospodin. A rivalidade dos Johausen e Nicolef era conhecida pelos rapazes da Universidade. Nenhum ignorava que os chefes destas duas famílias estavam opostos um ao outro na luta que dentro em pouco ia haver, pelas eleições, um levado pela opinião popular e pelas autoridades para derrotar o outro.

Por isto é que Gospodin tinha alegado esta situação especial do colega para estender aos filhos a rivalidade dos pais.

Entretanto, João não respondia. Tinha o rosto ligeiramente pálido por um refluxo de sangue ao coração.

Mas, muito forte para se poder conter, depois de lançar um olhar ardente para o fundo do pátio, onde estavam Karl e o seu grupo, recomendou, com voz grave e um pouco trémula:

— Não falemos nisso, Gospodin. Nunca fiz entrar o nome do pai do Johausen nas nossas discussões, e queira Deus que Karl fique assim também reservado para com meu pai, como eu o tenho sido para o dele! Se faltasse a essa reserva...

— O João tem razão e não o Gospodin — afirmou um dos estudantes. — Não queremos saber do que se passa em Riga, mas do que se passa em Dorpat.

— Com certeza — volveu João Nicolef, que queria dar à conversa o rumo primitivo. — Não nos precipitemos e vamos ver a volta que as coisas dão...

— Desse modo, João, não achas que devemos protestar contra a atitude do Karl Johausen e dos seus camaradas nesse banquete de que nos excluíram?... — perguntou o estudante.

— O que penso é que, salvo novos incidentes, devemos mostrar a maior indiferença.

— Seja indiferença! — admitiu Gospodin, abanando a cabeça, num ar pouco aprovativo. — Resta saber se os nossos colegas estarão todos pelos ajustes... Olha que andam exaltados, João, previno-te disso...

— Por tua causa, Gospodin.

— Não é, João, e bastará um olhar desdenhoso ou uma palavra malsoante para deitar o fogo à pólvora!

— Pois bem! — exclamou João Nicolef, sorrindo. — A pólvora não explodirá porque teremos o cuidado de a afogar em champanhe.

A razão que inspirava esta resposta era a mais acertada das que aqueles cabeças de vento tinham aventado. Mas os outros estavam exaltados!... Estariam dispostos a seguir estes conselhos prudentes?... Como terminaria aquele dia?... O festival não daria ocasião a uma desordem?... As provocações partiriam do lado dos eslavos ou do lado dos alemães?... Era para temer que houvesse alguma coisa.

Não é para admirar, por isso, que o reitor estivesse vivamente inquieto. Havia algum tempo que ele não ignorava que a política, ou, antes, esta luta do eslavismo e do germanismo, tendia a acentuar-se entre os estudantes. A grande maioria entendia que deviam manter-se na Universidade as ideias que datavam da sua fundação.

O Governo bem sabia daquele foco intenso de resistência às tentativas de russificação que ameaçavam as províncias bálticas. Previa-se quais seriam as consequências dos tumultos que então se produziriam? Era preciso ter cuidado. Por mais antiga e respeitável que fosse a Universidade de Dorpat não estava ao abrigo de um ucasse(12) imperial, caso se tornasse o centro de um movimento pan-eslavista. O reitor observava então bem de perto as disposições dos estudantes. Os professores, conquanto seguissem todos as ideias alemãs, também as temiam... Podia-se calcular a que extremos chegaria aquela mocidade envolvida nas lutas políticas?...

Na realidade, havia quem tivesse naquele dia mais influência do que o reitor. Era João Nicolef. Se o reitor não conseguira que Karl Johausen e os seus colegas renunciassem à exclusão de João Nicolef e seus amigos do banquete, este conseguiu que Gospodin e os seus lhes não fossem interromper o festival. Nenhum deles entraria na sala do banquete. Nenhum responderia com canções russas às canções alemãs, a não ser que os provocassem ou insultassem. E quem então poderia suster aquelas cabeças aquecidas pelo vinho? João Nicolef e os seus camaradas reuniriam-se fora e ficariam em sossego se ninguém se arriscasse a interromper a sua tranquilidade.

 

*12. Despacho do czar.

 

Entretanto o dia avançava. Os estudantes ocupavam em massa o grande pátio da Universidade. Os estudos estavam suspensos naquele dia. Nada mais tinham a fazer do que passearem em grupos, observarem-se e evitarem-se até. Podia acontecer que, mesmo antes da hora do banquete, houvesse algum incidente que originasse uma provocação e depois alguma conflagração. Atendendo às disposições dos espíritos, talvez tivesse sido melhor haver proibido o festival. Mas impedir a celebração daquele aniversário não seria excitar as corporações, fornecer um pretexto para os tumultos que se queriam evitar?... Uma Universidade não é um colégio onde se castigam os rapazes com punições e penitências. Aqui o caso é diverso: seriam precisas expulsões, castigar os cabeças de motim, e isso era uma medida grave.

Até à hora do banquete, Karl Johausen, Sigfredo e os seus amigos não saíram do pátio. A maior parte dos estudantes trocavam palavras entre si, como quem esperava ordens do chefe.

Tinha corrido o boato de que ia ser proibido o banquete, boato falso aliás, porque, como se disse, qualquer proibição poderia ocasionar uma colisão.

Mas fora o bastante para originar todo aquele movimento nos grupos.

João Nicolef e os seus amigos não tinham dado importância ao caso. Passeavam à parte, como de costume, cruzando-se por vezes com os outros estudantes.

Por enquanto só se olhavam. Dos olhares partiam provocações que os lábios por ora não deixavam sair. João fingia-se indiferente. Mas que dificuldade para conter Gospodin?!

Este não voltava a cabeça em sinal de desdém, nem baixava os olhos. O seu olhar incidia, como o ferro de uma espada, sobre o de Karl.

Era impossível que esta atitude não ocasionasse uma altercação em que não tomariam parte somente aqueles dois adversários.

Tocou, enfim, a sineta para o banquete e Karl Johausen, precedendo os seus camaradas — alguns centos —, dirigiu-se para a grande sala em anfiteatro que lhes fora reservada.

Daí a pouco só estavam no pátio João Nicolef, Gospodin e os cinquenta estudantes eslavos, à espera de saírem da Universidade para irem para casa das suas famílias ou dos seus correspondentes. Pois que nada os retinha, teria sido mais prudente que se tivessem ido logo embora. João Nicolef também assim pensava, mas em vão tentou despersuadir os camaradas. Parecia que Gospodin e alguns outros estavam pegados ao chão e como que atraídos para o anfiteatro como para um íman.

Passaram-se assim vinte minutos. Passeavam uns com os outros em silêncio. Aproximavam-se das janelas que abriam para o pátio. Que queriam eles então?

Escutar as conversas estrondosas e responder, se lhes chegassem aos ouvidos quaisquer palavras malsoantes... Na verdade, os convivas não precisaram de chegar ao fim do banquete para começarem os cantos e brindes. Tinham as cabeças aquecidas desde os primeiros copos que haviam bebido; tinham visto, pelas janelas, João Nicolef e os outros que os escutavam. Por isso começaram com as insinuações pessoais. João fez um último esforço: — Vamo-nos embora.... — recomendou aos camaradas.

— Não! — respondeu Gospodin.

— Nunca! — responderam os outros.

— Não me querem escutar nem seguir?...

— O que nós queremos é ouvir o que estes alemães dizem de nós e, se não nos agradar, és tu, João, que nos seguirás!

— Vem daí, Gospodin — insistiu João. — Peço-te eu!

— Espera — respondeu Gospodin — e daqui a pouco serás tu que não quererás partir!

Lá dentro, o tumulto redobrava, o barulho de vozes misturados, o ruído de copos que se chocavam, os gritos e incitações que detonavam como metralha.

Depois entoaram um coro — aquele canto que assenta sobre um monótono estribilho e que tanto louva as universidades alemãs:

 

Gaudeamus igitur Juvenes dum sumus!

Post jocundam juventutem, Post molestam senectutem, Nos habebit húmus.

 

Preciso é concordar que estas palavras não são nada alegres e que tinham um ar de enterro. Era o mesmo que cantar um De profundis à sobremesa. No fim de contas, este canto demonstra bem a nota alemã.

Fez-se então ouvir uma voz que disse:

 

«Ó Riga, quem te fez tão linda?... A escravidão dos livonianos!... Se pudéssemos um dia comprar com dinheiro o teu castelo aos alemães e fazê-los depois dançar a eles por cima das pedras aquecidas!...»

 

Fora Gospodin que acabara de entoar este hino russo, de tão grande extensão.

A seguir, os seus colegas fizeram ecoar, com ele, o estribilho de Boje-Tsara-Krani, o hino moscovita, que tem um carácter tão grande e religioso.

De repente, abriu-se a porta e precipitaram-se no pátio uns cem estudantes, que cercaram João Nicolef e o grupo dos eslavos que ele não conseguira suster, excitados como estavam pelos gritos e gestos dos adversários.

Conquanto Karl Johausen ainda não estivesse com os seus para repelir os outros à força — por não ter ainda saído do anfiteatro —, eles vociferando, urrando mesmo, o Gaudeamus igitur, queriam abafar o hino russo, cuja poderosa melodia sobressaía apesar dos seus esforços.

Nesse instante encontraram-se frente a frente dois estudantes, prestes a lançarem-se um ao outro: Sigfredo e Gospodin. Era entre os dois que ia decidir-se esta questão de raças? Os dois partidos não tomariam parte na luta, cada um pelo seu campeão?... Esta altercação não se transformaria numa desordem geral, cuja responsabilidade recairia sobre a própria Universidade?

Ouvindo o tumulto provocado pela saída dos convivas, o reitor apressou-se a intervir. Alguns professores, que se lhe reuniram, percorriam o pátio por entre os grupos. Tentavam acalmar os rapazes, prestes a lançar-se uns sobre os outros. Não o conseguiram. A autoridade do reitor não era reconhecida.

Como o poderia ser, além disso, no meio daqueles «germânicos», cujo número aumentava à medida que se evacuava a sala do anfiteatro?...

João Nicolef e os camaradas, apesar da sua inferioridade numérica, não cediam nem diante das injúrias.

Nesse momento, Sigfredo aproximou-se de Gospodin, com o copo na mão, e atirou-lhe o seu conteúdo à cara. Era o primeiro golpe, que por certo ia ser seguido de muitos.

Entretanto, à chegada de Karl, que acabara de aparecer nos degraus do patamar, tudo se suspendeu de um e outro lado. Abriram filas e o filho do banqueiro pôde dirigir-se para o ponto onde estava o filho do professor com o seu grupo.

É impossível descrever a atitude de Karl nesse momento. Calmo, a sua fisionomia não respirava cólera: era desdém, à medida que se aproximava do adversário. Os colegas não se podiam enganar: vinha ali somente para lhe lançar em rosto alguma nova injúria.

Ao tumulto sucedera um silêncio ainda mais terrível. Via-se que o conflito que precipitava uma sobre outra as duas corporações da Universidade ia-se resolver entre João Nicolef e Karl Johausen.

Entretanto, Gospodin, não querendo saber já de Sigfredo, esperava que Karl avançasse mais uns passos e fez um movimento para lhe impedir a passagem.

João reteve-o.

— Isto é comigo — afirmou simplesmente. Efectivamente, tinha razão para dizer que aquilo só

a ele dizia respeito.

Por isso, conservando o máximo sangue-frio, desembaraçou-se dos colegas que queriam interpor-se.

— Não me impedirás... — disse Gospodin, no paroxismo da cólera.

— Quero que assim seja — respondeu João Nicolef, com uma voz tão resoluta que não havia resistir-lhe.

Depois, dirigiu-se à massa dos estudantes de modo que todos o ouvissem:

— São aos centos e nós não passamos de cinquenta!...

Ataquem-nos mesmo assim!... Defender-nos-emos, sucumbiremos!... Mas vocês serão considerados como covardes!...

Respondeu-lhe um grito de furor. Karl fez menção de que ia falar.

Restabeleceu-se o silêncio.

— Sim — concordou ele —, seríamos covardes! Há algum eslavo que queira tomar o negócio por sua conta?

— Todos nós? — exclamaram os camaradas de João. Este aproximou-se e declarou então:

— Serei eu, e se Karl quer ser provocado pessoalmente, provocá-lo-ei!

— Tu?!... — exclamou Karl, com um gesto de desprezo.

— Eu mesmo! — respondeu João. — Escolhe dois dos teus amigos, que já escolhi os meus...

— Tu... bateres-te comigo?!...

— Sim, amanhã, se não estás já preparado... Imediatamente, se queres...

É muito frequente os estudantes terem questões destas sem que as autoridades intervenham, porque as consequências nunca são graves.

Desta vez, é verdade, era para temer que o fim fosse fatal, visto que os adversários estavam sob a acção de uma animosidade pessoal. Karl Johausen cruzara os braços e olhava João de cima a baixo.

— Ah!... — tornou ele. — Com que então já escolheste testemunhas?...

— Aqui estão — disse João, indicando Gospodin e

outro estudante.

— E eles aceitarão?...

— Se aceitamos! — exclamou Gospodin.

— Pois bem! Há uma razão pela qual, João Nicolef, não quererei bater-me contigo!...

— E qual é, Karl?...

— É porque ninguém se bate com o filho de um assassino!...

 

                         DENÚNCIA

Eis o que se passara, na véspera, em Riga, onde o juiz Kerstorf, o major Verder, o Dr. Hamine e o Sr. Frank Johausen tinham chegado na noite de 15 para 16 de Abril:

Doze horas antes, logo de manhã, se espalhou a notícia do crime "cometido no kabak da Cruz Quebrada» e indicava-se ao mesmo tempo o nome da vítima: Poch, o empregado do Banco.

Este infeliz era muito conhecido em toda a cidade. Todos os dias o encontravam com o saco a tiracolo e a pasta debaixo do braço, presa à cintura por uma cadeia de cobre, quando ia fazer as cobranças da casa dos irmãos Johausen.

Bom homem, prestável, de alegre e belo humor, muito amado e estimado, todos eram amigos dele, não tinha, que se soubesse, nenhum inimigo. Estava em vésperas de casar com Zenaida Parensof, depois de ter esperado muito tempo, graças ao seu trabalho, à sua conduta, à regularidade da sua vida, à simpatia que inspirava, e as suas economias permitiam-lhe, juntas às de sua mulher, assegurar-lhes o futuro. Daí a dois dias deviam os noivos ir à presença do padre protestante, que celebraria o casamento.

Haveria uma festa em família, à qual assistiriam também os colegas dos outros bancos, que tomavam parte na cerimónia nupcial. Todos sabiam que os Srs. Johausen a queriam honrar com a sua presença. Estavam já terminados todos os preparativos... E logo então é que Poch caiu nas garras dum assassino, numa taberna isolada, no meio de um caminho na Livónia!... Que efeito produziu esta notícia!

E, para cúmulo, não se pôde evitar que Zenaida soubesse de tudo, bruscamente, sem estar preparada, ao ler um jornal que inseria um telegrama sem mais nenhum pormenor.

A pobre mulher ficou como que fulminada. Primeiro as vizinhas e depois a senhora Johausen é que a consolaram. Todas recearam que sucumbisse a este golpe tão terrível!

Entretanto, se a vítima era conhecida, ninguém conhecia o assassino. Durante os dias 14 e 15, quando a justiça foi ao local do crime proceder às investigações, nada transpirou a este respeito. Convinha esperar que os magistrados voltassem, e mesmo assim podia acontecer que eles ainda não tivessem descoberto o autor do crime.

Quanto ao assassino, quem quer que fosse, estava votado à execração pública.

Toda a severidade da lei seria pouca para o castigar. Lamentavam alguns que não se estivesse ainda no tempo em que a expiação era precedida das mais terríveis torturas.

Não se podia esquecer que aquele drama judiciário tivera por teatro as províncias bálticas, onde, ainda há pouco, a justiça procedia barbaramente contra os condenados à pena capital.

Depois de os queimarem com ferro em brasa, submetiam-nos ao suplício das vergastadas, mil algumas vezes, seis mil até, que, por fim, eram dadas num cadáver.

Alguns dos pacientes eram metidos entre quatro paredes, onde morriam de fome, a não ser quando lhes queriam arrancar revelações.

Então davam-lhes a comer unicamente carne ou peixe salgados, sem nunca lhes darem uma gota de água, género de «perguntas» que arrancava muitas respostas.

Os costumes estão agora muito mais suaves, até ao ponto de que, sendo a pena de morte mantida na Rússia, para os crimes políticos, foi abolida para os crimes comuns e substituída por trabalhos forçados nas minas da Sibéria.

A população rigana não se contentava com a deportação do assassino do kabak da "Cruz Quebrada».

Como se disse, tinham sido dadas ordens para o transporte da vítima. Não era porque tivessem de fazer-se novas observações em Riga.

O Dr. Hamine tinha indicado minuciosamente no seu processo verbal a natureza e forma da ferida e os sinais da facada na parte exterior do orifício.

O Sr. Frank Johausen, contudo, queria que o funeral fosse feito na cidade, funeral que, por piedade e simpatia, ficaria inteiramente a cargo da casa.

Na manhã de 16 o major apresentou-se no gabinete do seu chefe hierárquico, o coronel Raguenof. Este funcionário esperava com impaciência ser posto ao facto de tudo, para mandar na pista dos assassinos os seus melhores rafeiros, caso as indicações o permitissem.

Veria mais tarde se devia dar parte de tudo ao governador das províncias. Até então, parecia tratar-se de um crime vulgar, um assassínio seguido de roubo.

O major apresentou todos os pormenores da investigação ao coronel Raguenof, as circunstâncias em que o crime fora cometido, os indícios que tinham encontrado no decurso das pesquisas e as verificações feitas pelo Dr. Hamine.

— Pelo que vejo, as suas suspeitas visam particularmente o viajante que passou a noite no albergue...

— Efectivamente, meu coronel...

— E o taberneiro Kroff não teve nenhuma atitude suspeita, durante a investigação?

— O que naturalmente vinha logo à ideia é que fora ele o assassino, conquanto nada houvesse que censurar nos seus precedentes. Mas, depois das arranhaduras encontradas na janela do quarto do viajante, que demais a mais partiu tão cedo... Depois de descobrirmos no mesmo quarto a tenaz que tinha servido para arrombar os caixilhos da janela, não duvidámos mais de quem seria o autor do crime.

— Não será mau, no entanto, vigiar esse Kroff...

— Com certeza, meu coronel. Por isso estão dois agentes de guarda à casa e o taberneiro encontra-se à disposição da justiça.

— Pelo visto, não atribuem então a morte a nenhum

malfeitor de fora que tivesse conseguido entrar no quarto da vítima...

— Eu não quero afiançar nada, mas é-me difícil admitir isso, porque as presunções se mudam em certezas quando aplicadas ao companheiro de Poch.

— Vejo que já tem opinião formada, major Verder.

— A minha opinião é a mesma do juiz Kerstorf, do Dr. Hamine e do Sr. Johausen... Naturalmente já notou que o viajante evitou sempre ser reconhecido, tanto à chegada ao kabak como quando partiu...

— E não disse para onde ia, quando saiu do albergue da "Cruz Quebrada»?

— Não, meu coronel.

— Não é de supor que a sua intenção ao sair de Riga fosse de se dirigir para Pernau?...

— Essa hipótese é realmente muito plausível, conquanto ele tivesse comprado bilhete até Revel.

— Não foi visto nenhum estrangeiro em Pernau durante os dias 15 e 16?

— Nenhum — afirmou o major Verder. — A Polícia estava à espreita e demais, tendo o crime sido cometido naquele mesmo dia... Para onde foi o viajante?... Chegaria a Pernau?... Não fugiria das províncias bálticas com o produto do roubo?... Efectivamente, tudo leva a crer que a proximidade do porto lhe proporcionasse ocasião para fugir.

— Proporciona-lhe má ocasião, porque por ora ainda é difícil a navegação no mar Báltico e no golfo da Finlândia... As notas que tenho recebido indicam, contudo, que ainda não saiu nenhum navio... Se o dito viajante procura embarcar, tem de esperar alguns dias, quer nalguma aldeia do interior, quer num dos portos do litoral,. Pernau, Revel...

— Ou Riga — lembrou o coronel Raguenof. — E porque não há-de ele voltar? É talvez, de resto, em Riga que ele poderia mais facilmente desorientar a Polícia...

— Parece-me isso pouco provável, meu coronel, mas enfim é necessário prever tudo e os nossos agentes serão encarregados de ir visitar todos os navios à partida. Em todo o caso o desgelo não será completo antes do fim da semana e até lá darei ordens para que tanto na cidade como no porto haja a maior vigilância.

O coronel aprovou todas as medidas propostas pelo seu subordinado, estendendo-as a todo o território das províncias bálticas.

O major Verder prometeu-lhe pô-lo sempre ao corrente de tudo. Quanto à investigação, devia continuar a ser feita pelo juiz Kerstorf, e podia-se confiar a este magistrado activo o cuidado de reunir todos os documentos relativos ao caso.

Além de que, depois desta conversa com o major Verder, o coronel não duvidava de que o assassino fosse o viajante que ficara com o empregado do Banco no albergue da "Cruz Quebrada».

Existiam contra ele indícios graves.

Mas quem era? Como se poderia estabelecer a sua identidade, se nem o condutor Broks, que o levou desde Riga na mala-posta, nem o taberneiro Kroff, que lhe tinha dado pousada no seu kabak, o conheciam?

Nem um nem outro tinham conseguido sequer ver-lhe a cara, nem ao menos podiam dizer se era velho ou novo. Nestas condições, na pista de quem se haviam de mandar os agentes?... Para que lado se haviam de dirigir as buscas?... De que novas testemunhas esperaria a instrução alguma revelação que lhes permitisse porem-se em campo com algumas probabilidades de bom êxito?

A obscuridade era completa no assunto.

Vai ver-se como esta obscuridade se iluminou, como o clarão de um dia a seguir a uma noite escura.

Naquela manhã, depois de ter redigido o relatório médico-legal sobre o caso da "Cruz Quebrada», o Dr. Hamine fora levá-lo ao gabinete do Sr. Kerstorf.

— Ainda não apareceu mais nenhum indício?... — perguntou ele ao magistrado.

— Mais nenhum, doutor.

Ao sair do gabinete do juiz o Dr. Hamine encontrou o cônsul francês, Sr. Delaporte. Pelo caminho falou-lhe no caso e nas dificuldades que apresentava.

— Com efeito — respondeu o cônsul —, se parece certo que o autor do crime é esse viajante, é pelo menos duvidoso que se chegue a descobrir quem ele é... O doutor dá grande importância ao facto de o golpe ter sido dado com uma faca, cuja virola deixou sinal em volta da ferida, não é verdade?... Pois muito bem!... Mas para encontrar essa faca?...

— Quem sabe?... — respondeu o Dr. Hamine.

— Veremos isso — disse o Sr. Delaporte. — A propósito: teve notícias do Sr. Nicolef?

— Notícias de Dimitri?... Como lhas havia de dar se ele anda em viagem?...

— É verdade — respondeu o cônsul —, e há já três dias!... E é singular, por mais que tenho reflectido...

— Sim — observou o Dr. Hamine.

— Até ontem, ainda a menina Nicolef não tinha recebido nenhuma notícia...

— Vamos ver Ilka — propôs o doutor. — Talvez o correio lhe trouxesse esta manhã alguma carta do pai. Quem sabe mesmo se ele já voltaria?...

O Sr. Delaporte e o Dr. Hamine dirigiram-se para o arrabalde na extremidade do qual era a casa do professor. Quando chegaram à porta, perguntaram se a menina Nicolef os podia receber. A uma resposta afirmativa da criada, entraram na sala onde estava Ilka.

— Minha querida Ilka, teu pai já voltou?... — perguntou logo o doutor.

— Ainda não... — respondeu a rapariga. E no seu rosto, pálido e assustado, via-se como devia estar inquieta.

— Mas, minha senhora, teve acaso notícias dele? — acrescentou o cônsul.

Um sinal negativo de Ilka foi a única resposta.

— Esta ausência é inexplicável e não o é menos o motivo da viagem de Dimitri...

— Contanto que não tenha acontecido nenhum mal a meu pai!... — murmurou a rapariga, com voz turvada. — Os crimes têm sido tão frequentes na Livónia há uns tempos para cá...

O Dr. Hamine procurou sossegá-la porque, enfim, estava mais surpreendido do que inquieto com a ausência.

— Não se deve exagerar — disse ele. — Ainda se viaja com alguma segurança!... É verdade que houve um crime para os lados de Pernau... e, se não se conhecem os assassinos, sabe-se pelo menos quem é a vítima... um desgraçado empregado do Banco...

— Bem vê, meu bom doutor — retorquiu Ilka —, que os caminhos não estão seguros... E meu pai há quatro dias que partiu... Ah!!... tenho o pressentimento de alguma desgraça...

— Sossega, pequena... — recomendou o doutor, pegando-lhe nas mãos. — É preciso não sucumbir... És tão forte, tão enérgica... Estou a estranhar-te!... Dimitri anunciou que se demorava dois ou três dias... A demora ainda não é para assustar...

— O doutor diz o que pensa?... — perguntou a rapariga, olhando para ele.

— Com certeza, Ilka, com certeza, e estaria perfeitamente tranquilo se conhecesse o fim da viagem... Ainda aí tens o bilhete que teu pai cá deixou quando partiu?...

— Aqui está!... — disse Ilka, tirando da algibeira o bilhete, que entregou ao doutor.

O Sr. Delaporte leu-o com toda a atenção. Nada mais se podia deduzir daquela frase lacónica de Dimitri, que sua filha já lera e relera muitas vezes.

— Teu pai então não te abraçou quando se foi embora?...

— Não, meu caro doutor, e já na véspera, quando o fez como de costume, pareceu-me que o seu pensamento estava noutra parte...

— Talvez o Sr. Nicolef tivesse alguma coisa que o preocupasse... — sugeriu o cônsul.

— Entrou mais tarde do que costuma. — o doutor bem se deve lembrar —, retido por uma lição que o tinha demorado... como ele pretendeu...

— Efectivamente, pareceu-me mais preocupado do que o costume!... Mas... Insisto sobre este ponto, minha querida Ilka: o que fez Dimitri depois que nós saímos?

— Deu-me as boas-noites e foi para o seu quarto, enquanto eu ia para o meu.

— E depois disso não poderia ter recebido alguma visita que o resolvesse a fazer a viagem?

— Com certeza que não. Creio que se deitou logo, porque não ouvi nenhum barulho durante toda a noite...

— Não lhe entregaria a criada alguma carta chegada

mais tarde?

— Não, doutor, e posso afiançar-lhe que a porta da rua não se tornou a abrir depois que saíram.

— Visto isso, é certo que naquela noite já tinha projectado fazer a viagem...

— Não há dúvida a esse respeito — acrescentou o

Sr. Delaporte.

— Nenhuma! — tornou o doutor. — E no dia seguinte de manhã, minha querida pequena, depois de leres o bilhete de teu pai, não procuraste saber que direcção tomou quando saiu de casa?

— Como e para que o teria eu feito? — volveu Ilka. — Meu pai teve alguma razão para julgar que não devia dar parte a ninguém, nem mesmo à filha. Por isso, se estou inquieta, não é por meu pai se ter ausentado, mas por a ausência se prolongar.

— Não, Ilka, não!... — afirmou o Dr. Hamine, que queria sossegar completamente a rapariga. — Dimitri está ainda onde quer que foi e esta noite ou amanhã, o mais tardar, terá regressado.

No fundo, o Dr. Hamine estava talvez mais inquieto pelos motivos que tinham determinado a viagem do que pela própria viagem.

Depois, o Sr. Delaporte e ele despediram-se, prometendo voltar à noite para saberem notícias de Dimitri Nicolef.

A rapariga ficou no patamar da porta até os dois desaparecerem numa volta da rua. Depois, pensativa, agitada por pensamentos tristes, foi para o seu quarto.

Quase à mesma hora, no gabinete do major Verder tratava-se de um facto referente ao crime da «Cruz Quebrada» que ia pôr o magistrado no rasto do criminoso.

Naquele dia tinha entrado em Riga a brigada dirigida por Eck.

Todos se lembram ainda de que estes agentes haviam sido mandados para o norte da província, onde, já há tempos, se cometiam vários atentados contra pessoas e propriedades.

Também se não esqueceu que, oito dias antes, Eck andava nas vizinhanças do lago Peipus em busca de um evadido das minas da Sibéria, que devia perseguir até Pernau, e que o fugitivo, lançando-se para o meio dos gelos arrastados pelo Pernowa, tinha desaparecido no desgelo do rio. Teria morrido aquele malfeitor? Era provável mas não certo. O brigadeiro Eck estava convencido disso, tanto mais que era certo que o corpo do fugitivo não fora encontrado nem no porto nem na foz do Pernowa.

O brigadeiro, tendo pressa de transmitir o seu relatório, breve voltou a Riga, e tinha ido para isso ao gabinete do major Verder quando foi informado do assassínio da «Cruz Quebrada». Ninguém esperava que tivesse a chave deste misterioso caso.

Por isso, foi grande a surpresa e satisfação do major Verder quando soube que o brigadeiro tinha declarações a fazer-lhe sobre o crime cujo autor procuravam em vão.

— O assassino do empregado do Banco?

— Exactamente, senhor major.

— Conhecias Poch?

— Conhecia, e vi-o pela última vez na noite de 13.

— Onde?

— No kabak de Kroff.

— Estavas lá?!

— Estava, sim, senhor juiz, com um dos meus agentes, antes de voltar a Pernau.

— E falaste com esse desgraçado rapaz?

— Falei durante alguns minutos e acrescento que, se o assassino é, como parece, o viajante que acompanhava o empregado do Banco e passou a noite no albergue... eu conheço esse viajante...

— Conhece-lo?

— Conheço, e se o assassino é efectivamente o viajante em questão...

— Isso ninguém o duvida, depois das verificações da

investigação...

— Pois bem, senhor major, vou dizer-lhe o nome dele...

Talvez me não acredite!

— Acredito, se tu o afirmas.

— Afirmo isto — declarou Eck — : o viajante, a quem não falei, reconheci-o contudo perfeitamente, conquanto tivesse a cara escondida debaixo do capuz... É o professor Dimitri Nicolef...

— Dimitri Nicolef?! — exclamou o major Verder, estupefacto. — Ele!... não é possível!...

— Bem lho tinha dito que não acreditava — repetiu o brigadeiro.

O major Verder tinha-se levantado e passeava a passos largos no gabinete, murmurando:

— Dimitri Nicolef! Dimitri Nicolef!

Pois esse homem, um dos candidatos nas próximas eleições municipais, este adversário da família Johausen, este russo em quem se resumiam todas as aspirações, todas as reivindicações do partido eslavo contra o elemento germânico, este protegido do Governo moscovita, era o assassino do desgraçado Poch!...

— Afiança-lo? — repetiu o major, parando diante de

Eck.

— Afianço,

— Dimitri Nicolef tinha então saído de Riga?

— Tinha... naquela noite pelo menos... Além do que é fácil verificar...

— Vou mandar um agente a casa dele — afirmou o major — e vou prevenir o Sr. Frank Johausen, para vir ao meu gabinete. Tu, espera aqui...

— Às suas ordens, senhor major.

Este deu as suas instruções a dois agentes do posto, que partiram logo. Dez minutos depois, o Sr. Frank Johausen estava na presença do major e, na sua frente, fazia o brigadeiro Eck a sua deposição.

Podem-se calcular, sem que seja preciso insistir, que sentimentos se revolveram na alma vingativa do banqueiro.

Finalmente, a eventualidade mais inesperada, um crime, um assassínio, livrava-o para sempre deste rival que ele perseguia com ódio!...

Dimitri Nicolef assassino de Poch!

— Afianças isso? — perguntou uma última vez o major, voltando-se para o brigadeiro.

— Afianço! — repetiu Eck, com uma voz que denotava absoluta certeza.

— Mas... se ele não saiu de Riga? — perguntou pelo seu lado o Sr. Frank Johausen.

— Saiu com certeza — assegurou Eck. — Na noite de 13 para 14 não estava em casa porque eu vi-o com os meus próprios olhos... e reconheci-o.

— Esperemos pelo agente que mandei a casa de Dimitri Nicolef — acrescentou o major. — Isso será daqui a cinco minutos.

O Sr. Frank Johausen, sentado ao pé da janela, abandonava-se ao tumulto dos seus pensamentos. Queria convencer-se a si próprio de que o brigadeiro não se tinha enganado e contudo sentia um instinto de justiça revoltar-se nele contra as probabilidades de uma tal acusação.

Entretanto, voltou o agente com a resposta: o Sr. Dimitri Nicolef partira de Riga no dia 13 de madrugada e ainda não tinha voltado.

Era a confirmação das revelações de Eck.

— Então, como vê, tinha eu razão, senhor major — disse ele. — Dimitri Nicolef saiu de casa no dia 13 de madrugada... Tomou lugar na mala-posta com Poch. O acidente no carro foi pelas sete horas da noite e os dois viajantes entraram às oito horas no kabak da «Cruz Quebrada», onde passaram ambos a noite. Se então um dos viajantes assassinou o outro, o assassino foi Dimitri Nicolef!

O Sr. Frank Johausen retirou-se, ao mesmo tempo confundido e triunfante com esta notícia terrível, que não podia tardar a espalhar-se.

Foi o que aconteceu pela cidade como um rastilho de pólvora a que tivessem chegado o fogo!...

Dimitri Nicolef, o autor do crime da «Cruz Quebrada» !

Felizmente, isto não foi sabido por Ilka Nicolef.

A sua casa ficou fechada para tal notícia. O Dr. Ha-mine teve o cuidado de olhar por isso. À noite, quando ele e o Sr. Delaporte se encontraram na sala, não disseram uma única palavra a esse respeito. Além disso, tanto um como outro tinham encolhido os ombros, duvidando... Nicolef um assassino! Não podiam acreditar.

Mas o telégrafo já tinha funcionado. Estavam prevenidas as brigadas da Polícia do território: ordem para prender Dimitri Nicolef, caso o encontrassem.

E foi assim que esta notícia chegou a Dorpat na tarde de 16. Karl Johausen foi um dos primeiros a ter conhecimento dela e sabe-se já a resposta que deu a João Nicolef, na presença de todos os seus colegas da Universidade.

 

                       INTERROGATÓRIO

Dimitri Nicolef voltou a Riga na noite de 16 para 17 de Abril, sem ter sido reconhecido pelo caminho.

Cheia de cuidados, Ilka não dormia. Em que estado teria ficado a pobre rapariga se soubesse a acusação que pesava sobre a cabeça de seu pai?! Por outro lado, tinha uma nova razão para estar ansiosa: naquela noite, depois de saírem o Sr. Delaporte e o Dr. Hamine, recebera um telegrama de Dorpat, anunciando a chegada, no dia seguinte, de João Nicolef, sem dizer os motivos desta partida brusca.

Entretanto, de que peso esmagador ficou aliviada Ilka quando, pela uma hora da manhã, sentiu o pai subir a escada!... Como ele não foi bater à porta do quarto, julgou que o melhor era deixá-lo ir deitar-se, para descansar das fadigas da viagem. Quando se levantasse iria abraçá-lo. Talvez então ele dissesse a razão por que fora obrigado a partir sem a ter avisado.

No dia seguinte, efectivamente, o pai e a filha encontraram-se logo de manhã e Dimitri Nicolef disse:

— Eis-me de volta, minha filha... A minha ausência durou mais do que eu esperava... Oh! Só mais vinte e quatro horas...

— Pareces fatigado, meu pai — observou Ilka.

— Um pouco, mas, com uma manhã de repouso,

depressa recuperarei as forças e à tarde já vou dar algumas lições.

— Talvez fosse melhor esperar até amanhã, meu pai...

Os alunos estão prevenidos...

— Não, Ilka, não... não os posso fazer esperar mais tempo... Não veio cá ninguém durante a minha ausência?

— Ninguém, a não ser o doutor e o Sr. Delaporte, que ficaram muito surpreendidos com a tua partida.

— Sim! — volveu Nicolef, com a voz um pouco hesitante. — Não lhes tinha dito nada... Também, para uma viagem tão pequena, durante a qual, creio, ninguém me reconheceu...

O professor calou-se e a filha, muito reservada, contentou-se com perguntar-lhe se vinha de Dorpat.

— De Dorpat?!... — exclamou Nicolef, muito admirado. — E porque me fazes essa pergunta?

— Porque não sei a que atribuir um telegrama que recebi ontem à noite...

— Um telegrama?... — disse Nicolef novamente. —

E de quem?

— De meu irmão, que me anuncia a sua chegada hoje.

— João vem hoje?... É extraordinário, com efeito... O que virá cá fazer?... Enfim, ele está certo de ser sempre bem recebido.

Entretanto, vendo pela atitude da filha que esta parecia querer interrogá-lo sobre os motivos da viagem, acrescentou:

— Foram negócios importantes, negócios que me obrigaram a partir precipitadamente...

— E estás contente, meu pai? — perguntou ela.

— Contente?... Estou, sim, minha querida filha — replicou ele, olhando-a a furto —, e espero que estes negócios não tenham consequências tristes.

E em seguida, como pessoa que está resolvida a não dizer mais nada, mudou de conversação.

Depois do primeiro chá da manhã, Dimitri Nicolef subiu ao escritório, onde pôs em ordem diversos papéis, e começou a trabalhar.

A casa voltara ao seu sossego habitual e mal pensava Ilka que ia sofrer um golpe terrível.

Meio-dia e um quarto tinha soado quando se apresentou um agente da Polícia em casa de Dimitri Nicolef. Este agente era portador de uma carta, que entregou à criada para esta a ir levar ao patrão imediatamente. Nem perguntou se o professor estava ou não em casa. A casa era de resto vigiada a ocultas, desde a véspera.

A carta chegou às mãos de Dimitri e este tomou conhecimento do seu conteúdo. Eram simplesmente estas palavras:

 

«O juiz Kerstorf convida o professor Dimitri Nicolef a vir sem demora ao seu gabinete, onde o espera para negócio urgente.»

 

Quando acabou a leitura, Dimitri Nicolef não pôde suster um gesto de surpresa. Empalideceu e a sua fisionomia indicou viva inquietação.

Depois, pensando sem dúvida que o melhor era aceder ao convite que lhe era feito de modo tão imperativo pelo juiz Kerstorf, vestiu o capote e desceu à sala onde estava a filha.

— Ilka — anunciou ele —, acabo de receber um bilhete do Sr. Kerstorf em que me pede que vá ao seu gabinete...

— Do juiz Kerstorf?!... — exclamou admirada a rapariga. — E o que quererá ele de ti, meu pai? Será por alguma questão em que o João esteja metido e que o obrigou a sair de Dorpat?

— Não sei, Ilka... Sim... Talvez... Mas já vamos saber tudo.

O professor saiu, não sem que a filha tivesse notado quanto ele ia perturbado. Perto do agente, caminhava com passo vacilante, automaticamente por assim dizer, sem reparar que era objecto da curiosidade pública e até da maldição de várias pessoas que o viam passar e o seguiam.

Logo que chegou ao Palácio da Justiça, foi levado ao gabinete onde estavam os juiz Kerstorf, o major Verder e o escrivão.

Cumprimentaram-se de parte a parte e Dimitri Nicolef esperou que lhe dirigissem a palavra.

— Sr. Nicolef — explicou o juiz Kerstorf —, mandei-o

chamar para me dar algumas indicações sobre um caso cuja investigação me foi confiada.

— De que se trata, senhor?... — perguntou Dimitri

Nicolef.

— Queira sentar-se e ouvir-me.

O professor sentou-se numa cadeira em frente da secretária do juiz, enquanto o major se conservava de pé junto da janela. A conversa tomou logo o carácter de um interrogatório.

— Sr. Nicolef — começou o juiz —, não se admire se as perguntas que vou fazer-lhe lhe dizem respeito e visam a factos da sua vida privada. É necessário que responda a tudo e sem demora, no interesse da questão e no seu próprio interesse.

O Sr. Nicolef, olhando mais para o juiz de que escutando-o, esteve alguns momentos sem responder, limitando-se a abanar a cabeça e com os braços cruzados.

O Sr. Kerstorf tinha sob os olhos o processo verbal do inquérito. Dispô-lo sobre a mesa e depois, gravemente e com voz calma, perguntou:

— O Sr. Nicolef esteve ausente alguns dias?

— Estive, efectivamente, senhor.

— Quando saiu de Riga?

— No dia 13, de madrugada.

— E voltou?...

— Esta noite, pela uma hora da manhã.

— Partiu só?

— Só.

— E voltou só?...

— Só.

— Para ir, tomou a mala-posta de Revel?...

— Tomei... — respondeu o Sr. Nicolef, depois de

alguma hesitação.

— E para voltar?...

— Vim numa telega.

— Onde encontrou essa telega?

— A cinquenta verstas daqui, no caminho de Riga.

— Foi então no dia 13, de madrugada, que partiu?

— Sim, senhor, às seis horas.

— E foi só na mala-posta?

— Não. Ia outro viajante. — Conhecia-o?

— Não conhecia.

— Mas não tardou a saber que era Poch, empregado no Banco dos irmãos Johausen?

— Assim foi, porque esse homem, muito tagarela, foi sempre a falar com o condutor.

— Falava dos seus negócios pessoais?

— Sim, senhor.

— E que dizia ele?

— Que ia a Ravel por conta dos Srs. Johausen.

— Não parecia estar impaciente por voltar a Riga, onde devia casar-se?

— Sim, senhor... se me não engano, visto que eu prestava pouca atenção à conversa, que não me interessava nada.

— Que não o interessava nada?!... — interveio então o major Verder.

— Sem dúvida, senhor — respondeu o Sr. Nicolef, lançando ao major um olhar admirado. — Que interesse poderia ter para mim o que esse homem dizia?...

— É isso talvez o que o inquérito vai estabelecer — replicou o juiz Kerstorf.

A esta resposta, o professor fez um gesto de quem não percebia.

— Esse Poch — continuou o magistrado — não levava uma pasta daquelas de que geralmente se servem os cobradores dos bancos quando vão fazer cobranças?...

— É possível, senhor, mas não lha vi.

— Visto isso não me pode dizer se ele a deixava imprudentemente sobre os bancos, à vista das pessoas que se aproximavam da mala-posta nas estações de muda...

— Eu ia a um canto, embrulhado no capote, algumas vezes dormitando sob o capuz, e mal via o que o meu companheiro de viagem fazia ou deixava de fazer.

— Entretanto o condutor Broks afirma isso.

— Está bem, senhor juiz, se o condutor afirma esse facto é porque é verdadeiro. Eu é que não posso anular nem confirmar a sua deposição.

— O senhor conversou com Poch?

— Durante a viagem, não... Só lhe falei quando precisámos de ir para o albergue, depois do acidente da mala-posta.

— E durante toda a viagem foi sempre ao canto com o capuz cuidadosamente caído sobre a cara?...

— Cuidadosamente!? E cuidadosamente porquê?... — perguntou o Sr. Nicolef, frisando bem esta palavra.

— Porque parece que não queria ser reconhecido.

Foi o major Verder quem, intervindo de novo na conversa, deu esta resposta, que evidentemente continha uma insinuação.

Desta vez, Dimitri Nicolef não replicou como o fizera ao juiz. Depois de um instante de silêncio, retorquiu simplesmente:

— Admitindo que me conviesse viajar incógnito, julgo que tenho esse direito, como qualquer homem livre, tanto na Livónia como noutra qualquer parte!

— Excelente precaução para não ser reconhecido pelas testemunhas com quem se arriscava a ser acareado! — replicou o major.

Mais uma insinuação muito significativa e cuja gravidade o professor não conhecia, e que o fez empalidecer visivelmente.

— Enfim — acrescentou o juiz —, não nega que teve nesse dia por companheiro de viagem o empregado do Banco Poch?...

— Não... e se efectivamente era esse Poch que ia comigo na mala-posta...

— Isso é mais que certo — asseverou o major Verder. O Sr. Kerstorf continuou:

— A viagem prosseguiu sem incidentes, de muda em muda... Ao meio-dia houve uma paragem para almoçar...] O senhor fez-se servir à parte, a um canto escuro da sala, sempre, ao que parece, com a preocupação de não ser reconhecido... Depois, a mala-posta prosseguiu o trajecto. O tempo estava muito mau e os cavalos dificilmente afrontavam a borrasca... Ora, pelas sete e meia da noite houve um incidente: um dos cavalos caiu e o carro, cujo eixo dianteiro se tinha partido, voltou-se...

— Senhor — disse o Sr. Nicolef, interrompendo o magistrado —, posso saber por que razão me interroga assim e com que interesse?

— Com o interesse da justiça, Sr. Nicolef... Quando o condutor Broks viu que o carro não se achava em estado de continuar até à estação seguinte de muda, a de Pernau, propôs-se que se passasse a noite numa estalagem que havia a duzentos passos do sítio onde estavam... Foi o senhor mesmo quem indicou essa estalagem.

— Que aliás não conhecia e onde entrei, pela primeira vez, naquela noite.

— Seja. O que é certo é que preferiu passar lá a noite a ir para Pernau com o condutor e o iemschick.

— Efectivamente assim foi... Tratava-se de andar vinte verstas a pé, com um tempo terrível, e pareceu-me preferível ir para esse albergue com o empregado do Banco.

— O senhor é que o convenceu a segui-lo?

— Eu não o convenci de nada — respondeu o Sr. Nicolef. — Ele ia ferido por causa do acidente da mala-posta, creio que com uma contusão numa perna, e não poderia afrontar a distância que nos separava de Pernau... Foi mesmo para ele uma felicidade encontrar o albergue...

— Uma grande felicidade, não há dúvida!... — exclamou o major Verder, a quem faltava o sangue-frio do impassível magistrado.

Dimitri Nicolef, voltando-se não pôde deixar de encolher os ombros desdenhosamente.

O Sr. Kerstorf, não querendo perder o rumo que dera ao interrogatório, limitou-se a continuar as perguntas.

— O condutor e o postilhão partiram para Pernau logo que os deixaram para irem para o kabak da «Cruz Quebrada»?

— Da «Cruz Quebrada»?... — repetiu o Sr. Nicolef.

— Não sabia que era esse o nome do albergue.

— Quando lá chegou com Poch, pediu cada um seu quarto... Kroff perguntou-lhe se queria cear e o senhor recusou-se a comer, ao passo que o empregado do Banco aceitou.

— Convinha isso, efectivamente.

— O que lhe convinha, Sr. Nicolef, era partir no dia seguinte logo de madrugada, sem esperar que o condutor voltasse. Por essa razão preveniu o taberneiro Kroff da sua intenção e recolheu-se logo ao seu quarto.

— Efectivamente, tudo se passou assim — declarou o professor, mostrando bem que esta série de perguntas já o começava a fatigar.

— O seu quarto era à esquerda da sala, onde ainda bebiam alguns fregueses de Kroff, e ocupava o extremo da casa.

— Ignoro isso, senhor!... Repito-lhe que não conhecia a taberna, onde entrava pela primeira vez, e, além disso, era noite tanto quanto cheguei como quando parti...

— Sem esperar que o condutor voltasse, insisto sobre esse ponto — observou o Sr. Kerstorf —, sem esperar pelo condutor que o devia levar na mala-posta, uma vez esta consertada...

— Sem esperar por ele — respondeu o Sr. Nicolef —, pela simples razão de que não tinha que fazer em Pernau, que ficava a vinte verstas dali.

— Seja. O que é certo é que essa ideia tinha-lhe acudido à mente nessa noite e que a pôs em prática às quatro horas da manhã.

Dimitri Nicolef não respondeu.

— Entretanto — continuou o juiz Kerstorf —, parece-me que chegou o momento de lhe fazer uma pergunta à qual, creio, me poderá responder.

— Espero, senhor.

— Qual foi o motivo da sua viagem, uma viagem que parece ter sido subitamente e secretamente resolvida e da qual não deu parte de véspera nem mesmo aos seus alunos, que já foram interrogados?...

Com esta pergunta, o Sr. Nicolef pareceu ficar extremamente perturbado.

— Negócios particulares... — disse finalmente.

— Que negócios?

— Não tenho que dá-los a conhecer.

— Recusa-se a falar?

— Recuso.

— Dirá ao menos para onde ia quando saiu de Riga?

— Não tenho precisão de dizê-lo.

— Tinha lugar guardado na mala-posta até Revel... Era então em Revel que tinha que fazer?

Não respondeu.

— Parece-me antes que era em Pernau — continuou o juiz —, visto que preferiu não esperar pela volta da mala-posta ao albergue da «Cruz Quebrada». Insisto: era em Pernau.

Dimitri Nicolef ficou calado.

— Continuemos — disse o juiz. — Pelas quatro horas da manhã, segundo o depoimento do taberneiro, o senhor levantou-se... Ele levantou-se ao mesmo tempo... Quando saiu do quarto, embrulhado no capote e com o capuz caído sobre a cabeça, como na véspera, e de tal modo que não se lhe via nada da cara, Kroff perguntou-lhe se queria tomar uma chávena de chá ou um copo de schnaps... O senhor não aceitou e pagou o que devia pela noite. Então Kroff, depois de ter tirado as trancas da porta, fez girar na fechadura a chave que tinha na mão... E então, sem pronunciar uma única palavra, o senhor saiu, seguindo a passo rápido pelo caminho de Pernau. Em tudo o que lhe tenho dito há alguma inexactidão?

— Nenhuma, senhor...

— É a última vez que lhe pergunto: qual foi o motivo da sua viagem e para onde se dirigia quando saiu de Riga?

— Sr. Kerstorf — declarou então Dimitri Nicolef, muito friamente —, não sei a que tendem essas perguntas, nem mesmo por que motivo fui chamado a este gabinete... Entretanto respondi a todas aquelas a que me pareceu poder responder... A mais não respondo! Estou no meu direito, creio. Acrescento que o fiz da melhor boa fé. Além de que, se eu tivesse querido ocultar que tinha feito essa viagem, por motivos de que só eu sou juiz, e quisesse negar que o viajante da mala-posta e por conseguinte o companheiro do empregado do Banco era também eu, quem me poderia desmentir, se, conforme as suas declarações, nem o condutor, nem Poch, nem ninguém me reconheceu, porque eu tomei as devidas precauções para isso?

Deve-se observar que toda esta argumentação fora feita por Dimitri Nicolef, estando ele muito senhor de si, e não sem um certo desdém, pelo que devia ter ficado muito surpreendido quando o magistrado lhe replicou:

— Se Poch e Broks não o puderam reconhecer, houve outra testemunha que viu bem que era o senhor...

— Outra testemunha?...

— Sim... e cuja deposição vai ouvir. E o magistrado, dirigindo-se a um agente, ordenou-lhe:

— Mande entrar o brigadeiro Eck.

Instantes depois o brigadeiro entrou no gabinete, fez a continência ao seu superior e ficou à espera de ser interrogado pelo magistrado.

— É o brigadeiro Eck, da sexta esquadra da Polícia?... — perguntou o juiz.

O brigadeiro disse o seu nome e profissão, enquanto Dimitri Nicolef olhava para ele como para alguém que visse pela primeira vez.

— Na noite de 13 de Abril último não esteve no kabak da "Cruz Quebrada»? — perguntou o juiz.

— Efectivamente estava lá, de volta de uma expedição ao longo de Pernowa, em busca de um fugitivo que nos escapou, atirando-se para o meio do desgelo do rio.

Ao ouvir esta resposta, Dimitri Nicolef não pôde conter um movimento que surpreendeu o Sr. Kerstorf.

No entanto, o juiz não fez nenhuma observação e, dirigindo-se ao brigadeiro, disse simplesmente:

— Faça a sua deposição.

O brigadeiro exprimiu-se nestes termos:

— Estava havia duas horas no kabak da "Cruz Quebrada» com um dos meus agentes e dispúnhamo-nos a partir para Pernau, quando se abriu a porta... e entraram dois homens, dois viajantes... A carruagem em que viajavam partira-se no caminho e iam procurar abrigo ao albergue, enquanto o condutor e o postilhão se dirigiam para Pernau com os cavalos.

Um desses viajantes era o empregado do Banco, Poch, de Riga, que eu conhecia já há muito tempo e com quem fiquei a conversar durante uns dez minutos. O outro viajante pareceu-me que procurava esconder a cara no capuz do capote. Achei estranho e procurei descobrir quem era esse homem...

— Fizeste simplesmente o teu dever, Eck — declarou o major Verder.

— Poch, que ia um tanto magoado numa perna, sentou-se a uma mesa e pôs em cima desta uma pasta com as iniciais dos Srs. irmãos Johausen. Como ainda estavam na taberna, a beber, uns cinco ou seis homens, recomendei a Poch que escondesse a pasta, que aliás estava segura à cinta dele por uma corrente. Depois fui para o pé da porta, a observar o desconhecido, a quem Kroff conduzia ao seu quarto, e foi então que o capuz lhe caiu por um instante e pude ver-lhe o rosto, que tornou logo a esconder...

— Bastou-lhe isso?

— Bastou, sim, senhor juiz.

— Conheceu-o?

— Conheci, porque o tinha visto muitas vezes nas ruas de Riga.

— Era com certeza o Sr. Nicolef?

— Ele próprio.

— Aqui presente?

— Aqui presente.

O professor, que escutara tudo sem interromper, disse então:

— O brigadeiro não se enganou. Acredito que estava no kabak porque assim o afirma... Simplesmente, se ele reparou em mim, eu é que não o vi. Além de que, não sei por que razão o senhor juiz nos confrontou depois de eu ter dito que estava nessa noite efectivamente no kabak da "Cruz Quebrada».

— Vai sabê-lo já, Sr. Nicolef — respondeu o magistrado. — Mas, antes disso, diga-me: recusa-se a dizer qual o fim da sua viagem?

— Recuso.

— Essa recusa é má para si.

— Porquê?

— Porque podia dar alguma explicação à justiça, que a impedisse de inquirir de si o que sabe a respeito do que se passou naquela noite no kabak da "Cruz Quebrada».

— Naquela noite?!... — repetiu o professor.

— Sim... O senhor não ouviu nada desde as oito horas da noite até às três da manhã?

— Não ouvi nada, porque estive a dormir até me levantar.

— Nem viu nada suspeito quando partiu?

— Nada.

Depois Dimitri Nicolef acrescentou com voz que não denotava nenhuma perturbação:

— Estou a ver, senhor, que, sem o saber, me encontro envolvido nalguma questão grave por causa da qual fui chamado como testemunha...

— Como testemunha... não, Sr. Nicolef.

— Não!... Como acusado! — exclamou o major Verder.

— Senhor major — observou o juiz num tom severo —, peço-lhe que não se pronuncie antes da justiça e espere o seu juízo.

O major conteve-se e pareceu que Dimitri Nicolef murmurou estas palavras:

— Ah! Foi para isso que fizeram com que eu viesse aqui?

Depois disse com voz firme:

— De que sou acusado?

— Poch, o empregado do Banco, foi assassinado na noite de 13 para 14 no kabak da "Cruz Quebrada»...

— Esse infeliz foi assassinado!... — exclamou o Sr. Nicolef.

— Foi — respondeu o Sr. Kerstorf — e sabe-se que o assassino foi o viajante que ocupava o quarto em que o senhor esteve...

— Ora... como esse viajante era o senhor, Dimitri Nicolef... — acentuou o major.

— Fui eu o assassino?!...

Dizendo isto, Dimitri Nicolef, afastando a cadeira, dirigiu-se para a porta do gabinete, guardada pelo brigadeiro Eck.

— Nega... Dimitri Nicolef? — perguntou o juiz,

erguendo-se também.

— Há coisas que não precisam ser negadas, tanto se

negam elas a si próprias!... — respondeu Nicolef.

— Tenha cuidado!

— Está por certo a gracejar.

— Falo muito a sério.

— Não me apraz discutir, senhor — respondeu o professor, altivamente desta vez. — Mas poderia saber por que motivo é que a acusação recai única e simplesmente sobre o viajante que passou a noite nesse quarto do kabak?

— Foi porque na janela desse quarto se encontraram vestígios materiais de que o assassino saltou por ela durante a noite para entrar no quarto de Poch depois de arrombar as vidraças; porque a tenaz que serviu para o arrombamento foi encontrada no quarto desse viajante.

— Se essas verificações foram efectivamente feitas — respondeu Nicolef —, é singular tudo isto!...

Depois acrescentou, como homem a quem este negócio não interessava:

— Mas, admitindo mesmo que essas verificações levem a crer que o crime não foi cometido por nenhum malfeitor de fora, não poderão provar que se cometeu depois de eu ter partido?

— Nesse caso, só se acusar o estalajadeiro, contra o qual não há nenhumas presunções...

— Eu não acuso ninguém — acrescentou, num tom ainda mais altivo, Dimitri Nicolef —, o que tenho o direito de dizer é que a justiça não me pode imputar semelhante crime!

— Esse assassínio foi seguido de um roubo — informou então o major Verder — e os rublos que Poch ia levar a Ravel, por conta dos irmãos Johausen, desapareceram da sua pasta.

— E isso o que me importa?

O juiz interveio de novo entre o professor e o major Verder, dizendo:

— Dimitri Nicolef, persiste em não querer dizer nem o motivo da sua viagem, nem a razão por que saiu do albergue às quatro horas da manhã, nem para onde foi quando de lá saiu?...

— Persisto.

— Pois bem, a justiça poderá dizer: o senhor não ignorava que o empregado do Banco era portador de uma quantia considerável... Depois do acidente da mala-posta, quando levou Poch para o kabak da «Cruz Quebrada», já lhe tinha vindo ao espírito a ideia do roubo... Quando lhe pareceu momento favorável saiu do seu quarto pela janela, entrou pela do quarto de Poch, assassinou-o para o roubar e às quatro horas da manhã, quando saiu do kabak, foi para ir esconder o produto do seu roubo, onde...

— Onde nós acabaremos por o encontrar!... — interrompeu o major.

— Pela última vez — tornou o Sr. Kerstorf — quer dizer para onde foi quando saiu do albergue?

— Pela última vez: não! — respondeu o professor. — Prenda-me se quer...

— Não, Sr. Nicolef — concluiu o magistrado, com enorme estupefacção do major Verder. — As acusações que pesam sobre si são muito graves, mas um homem da sua posição, conhecido pela sua vida honrada, tem direito a certas atenções... Não assinarei ordem de prisão... Hoje pelo menos... É livre. No entanto, fique à disposição da justiça.

 

                 EM FRENTE DA MULTIDÃO

Depois deste interrogatório, o major, e com ele mais pessoas, esperavam que se ordenasse a prisão de Nicolef.

Efectivamente, o professor tinha-se recusado a dar a conhecer os motivos da sua viagem. A sua precipitação em sair do kabak, às quatro horas da manhã, de que não dera nenhuma razão plausível, e o facto de não querer dizer onde passara os três dias em que andou fora de Riga, eram evidentemente recusas que reforçavam as presunções que já havia contra ele.

Por que razão é que, nestas condições, não tinha sido preso Dimitri Nicolef? Por que motivo podia voltar livremente para sua casa, em vez de ser conduzido para a prisão da fortaleza?... É verdade que ficava à disposição da justiça... Mas não se aproveitaria da liberdade para fugir vendo-se tão directamente implicado no caso da «Cruz Quebrada»?

Na Rússia, como em qualquer outro país, há independência na justiça civil. Há até independência absoluta. No entanto, quando o elemento político se intromete, a autoridade superior não tarda a intervir. Tal era o caso de Dimitri Nicolef, acusado de um crime horrível no momento em que o partido eslavo o punha à sua frente. Foi por isso que o governador das províncias bálticas, o general Gorko, teve de se pronunciar sobre a oportunidade da prisão, muito decidido a não a ordenar enquanto a culpabilidade pudesse apresentar algumas dúvidas. Por isso, à tarde, quando o coronel lhe levou o processo verbal do interrogatório, quis falar com ele a respeito do deplorável caso que tinha de participar ao Governo.

— Estou às ordens de V. Ex.a — respondeu o coronel. O general Gorko leu atentamente o processo e depois disse:

— Quer Dimitri Nicolef seja criminoso, quer não, as paixões germânicas vão por certo explorar a situação, visto ele ser de raça eslava. Era ele que nós íamos opor, na próxima luta eleitoral, à nobreza alemã, a essa alta burguesia que manda nas províncias e especialmente em Riga... E precisamente agora está sujeito a uma acusação criminosa de que se defende mal!...

— V. Ex.a tem razão — concordou o coronel. — E isto acontece nas piores circunstâncias, quando os espíritos estão excitados...

— O coronel acha que Nicolef é criminoso?

— Não posso responder, sobre esse ponto, a V. Ex.a, tanto mais tratando-se de Dimitri Nicolef, que sempre pareceu digno da estima pública.

— Mas por que razão se recusará a dar explicações relativamente a essa viagem? Com que fim a fez? Aonde foi? Com certeza que tem alguma razão para não dizer nada...

— Em todo o caso, V. Ex.a poderá observar que só o acaso o ligou ao desgraçado Poch, os reuniu na mala-posta à saída de Riga e os levou até o kabak da "Cruz Quebrada»...

— Sem dúvida, coronel, bem vejo que o que diz tem muita importância. E se esclarecesse tudo sobre a viagem inesperada, da qual nem a família preveniu, diminuiriam muito as presunções que pesam sobre ele...

— De acordo, e no entanto, por ele se calar, não se pode tirar a prova da culpabilidade... Não! E digo mais: apesar da sua presença, naquela noite, no albergue de Kroff, não quero crer que seja Nicolef o autor do crime!

O governador compreendia bem que o coronel estava a defender, em Dimitri Nicolef, um eslavo como ele.

Pela sua parte, além disso, só admitiria a culpabilidade se esta repousasse sobre provas incontestáveis, e, mesmo assim, era preciso que, como se costuma dizer, estivesse tudo provado dez vezes, antes de ele acreditar.

— Entretanto, deve notar-se — observou, folheando os autos — que há presunções graves. Não contesta que passou a noite de 13 para 14 no albergue; não nega que ficou no quarto em que foi encontrada a tenaz que serviu para arrombar a janela, o que permitira ao assassino entrar no quarto de Poch...

— Isso é verdade! — redarguiu o coronel Raguenof. — As circunstâncias indicam todas que o assassino foi o viajante que passou a noite nesse quarto e é fora de dúvida que o viajante era Dimitri Nicolef. Mas a sua vida privada, toda a sua existência proba e honrada defendem-no de tal acusação. Demais a mais, Excelência, quando se decidiu a partir, não sabia que o empregado do Banco dos irmãos Johausen ia viajar com ele, levando uma quantia importante para um correspondente de Revel... Admitindo mesmo que a ideia do crime lhe acudiu ao ver a pasta que o imprudente não escondia convenientemente, era ainda necessário demonstrar que Dimitri Nicolef estava numa situação desesperada, para não hesitar em cometer um assassínio para perpetrar um roubo. Ora, poder-se-á fazer esta demonstração, e permitirá acaso toda a vida, ao mesmo tempo honrada e modesta, do professor Nicolef, levar a crer que a falta de dinheiro o impelisse a cometer um assassínio?

Estas razões eram de molde a abalar o governador, que se debatia contra as presunções de que o major Verder e tantos outros faziam certezas. Por isso limitou-se a responder ao coronel Raguenof:

— Deixemos prosseguir o inquérito... Talvez outras verificações ou outras testemunhas dêem à acusação bases mais sólidas... Podemos confiar plenamente no juiz Kerstorf, encarregado da instrução. É um magistrado independente e íntegro, que só ouve a sua consciência e que nunca se deixará arrastar por influências políticas... Não devia ordenar a prisão do professor sem me consultar e deixou-o livre, que era sem dúvida o melhor que tinha a fazer. Se aparecerem circunstâncias que assim o exijam, serei o primeiro a dar ordens para Nicolef ser encerrado na fortaleza.

Entretanto, começava a notar-se, pela cidade, uma certa agitação. A maior parte dos habitantes, pode dizer-se, esperava que, depois do interrogatório, o professor fosse preso — uns, na classe elevada, porque o julgavam culpado, outros, porque o caso exigia que pelo menos o tivessem seguro. Por isso, houve grande surpresa, acompanhada de protestos, quando se viu que Dimitri Nicolef foi livre para sua casa.

Mas a terrível notícia penetrara enfim nesta casa. Ilka já sabia que seu pai era acusado de um crime. O irmão acabava de chegar e apertara-a muito nos braços, contando-lhe, muito indignado, toda a cena que houvera com os estudantes da Universidade de Dorpat.

— O nosso pai está inocente — exclamou ele — e eu obrigarei esse miserável Karl...

— Está, sim... inocente! — respondeu a rapariga, levantando altivamente a cabeça — e quem ousaria, mesmo entre os seus inimigos, julgá-lo culpado?

Escusado é dizer que era esta também a opinião dos íntimos de Dimitri Nicolef, o Dr. Hamine e o cônsu Delaporte, que não tardaram a aparecer, logo que o professor foi chamado perante o juiz de instrução de Riga.

As suas presenças e exortações foram um alívio para a dor dos dois irmãos. Mas dificilmente os impediram de irem ter com o pai ao gabinete do juiz.

— Não! — recomendou-lhes o Dr. Hamine — fiquem aqui connosco... É melhor esperarem! Nicolef não tarda a voltar e voltará inteiramente justificado.

— Para que serve então ter-se sido honrado toda a vida se se está exposto a acusações tão infames?!

— Isso serve para se defender! — exclamou João.

— Decerto, meu rapaz — concordou o Dr. Hamine. — E mesmo que Dimitri Nicolef confessasse, eu responder-lhe-ia: — Está doido, não o acredito!

Eis em que disposição de espírito encontrou Dimitri Nicolef a família, o Sr. Delaporte e alguns outros amigos que tinham ido também a casa dele.

Mas as paixões estavam tão excitadas que ele ouvira, pelo caminho, mais de uma insinuação insultuosa, à sua passagem.

O irmão e a irmã abraçaram-no e cobriram-no de beijos. E entretanto ele bem sabia como João fora insultado em Dorpat e que abominável injúria lhe dirigira Karl Johausen!

João tratado, diante dos colegas, como filho de um assassino!...

O Dr. Hamine, o cônsul e os outros amigos apertaram a mão a Nicolef. Protestaram, pelas suas palavras, pelos testemunhos de amizade, contra a acusação que lhe faziam. Nunca tinham duvidado da sua inocência! Nunca duvidariam nem lhe poupariam provas da mais sincera afeição.

Depois, naquela sala onde estavam reunidos, enquanto afluía às proximidades da casa uma multidão de mal-intencionados, devia Dimitri Nicolef contar o que se tinha passado no gabinete do juiz, dizer as prevenções que o major Verder não dissimulava e prestar homenagem à atitude digna e reservada do Sr. Kerstorf. Todavia disse tudo brevemente, com voz alterada, como homem a quem repugna voltar a tais minuciosidades.

Era natural que o professor tivesse precisão de repousar, de estar só e talvez até de procurar no trabalho o esquecimento de tão terríveis provas, e por isso os seus amigos despediram-se.

João retirou-se para o quarto da irmã e Dimitri Nicolef foi fechar-se no seu gabinete.

À saída, o Sr. Delaporte disse ao doutor:

— Meu caro, os espíritos estão excitados e, mesmo que Nicolef esteja inocente, é de grande necessidade descobrir o verdadeiro culpado, para ele não ser perseguido pelo ódio dos seus inimigos!

— O que é muito para temer! — respondeu o doutor. — Se alguma vez desejei a prisão de um criminoso, neste caso desejo-a ardentemente... A morte de Poch vai ser explorada pelos Johausen... Basta ver que Karl não duvidou tratar o João por filho de um assassino, antes mesmo de estar provada a acusação!...

— Por isso estou com medo — observou o Sr. Delaporte — de que ainda não tenha acabado tudo entre ele e esse Karl! O senhor conhece bem o João... Há-de querer vingar-se, vingando o pai!...

— Não — replicou o doutor. — Isso é que não convém de modo algum no estado actual das coisas... Ah! Aquela maldita viagem e a ideia que teve Dimitri Nicolef de a fazer... e a razão por que a fez!

Era o que a si próprio perguntavam os filhos e os amigos de Nicolef, pois que este nenhuma explicação dera a esse respeito.

Convém fazer notar que, mesmo quando contou o rumo que tomara o interrogatório perante o juiz de instrução, o professor não fez nenhuma alusão à sua viagem, nem disse que o magistrado lhe tinha perguntado os motivos que o obrigaram a sair de Riga, nem que se recusara a responder a esse respeito. Aquela obstinação em se calar devia parecer extraordinária, pelo menos. Mas talvez se desvendasse mais tarde. As razões por que se ausentara por três dias não podiam ser senão honrosas e não o eram menos aquelas por que persistia em não falar. E, por isso, como parecia inadmissível que um homem da sua classe e situação cometesse um crime, poderia, com uma palavra, ter, sem dúvida, confundido a acusação, mas teimava em não pronunciar essa palavra.

Entretanto, o facto de Nicolef não ter ficado preso depois de ter ido à presença do Sr. Kerstorf causou grande indignação na opinião da cidade, sobretudo entre os alemães, na sua grande maioria. A família Johausen, os seus íntimos, a nobreza e a burguesia consumiam-se em recriminações. Acusavam o governador e o coronel Raguenof de ser favoráveis ao professor, por serem todos da mesma raça. Que outro qualquer que não fosse eslavo teria sido logo encerrado na prisão da fortaleza... Porque não o haviam de tratar como um bandido vulgar?... Merecia mais consideração do que um Karl Moor ou João Sbogar ou um Jeromir?... Que não eram simples presunções que se levantavam contra ele, eram certezas, e que, apesar disso, a justiça deixava-o livre, que podia fugir e nunca mais seria citado para aparecer perante o júri, que, no entanto não hesitaria em o condenar!... É verdade que essa condenação seria muito favorável porque a pena capital está abolida no império russo em se tratando de crimes de direito comum. Que até se havia de livrar de ir deportado para as minas da Sibéria, este assassino que precisava ser morto!...

Estas asserções corriam sobretudo nos bairros ricos, onde predomina o elemento germânico. Na família Johausen, era uma guerra viva contra Dimitri Nicolef, o assassino do infeliz Poch, e no fundo mais ainda contra o modesto professor, adversário do poderoso banqueiro.

— É verdade — repetia o Sr. Frank Johausen — que Nicolef, à partida, não sabia que ia viajar com Poch nem que Poch levava uma quantia importante. Mas não tardou a sabê-lo e depois do incidente da mala-posta, quando propôs que passassem a noite no tal albergue da «Cruz Quebrada», já tinha formado o projecto de roubar o nosso empregado e não recuou perante o assassínio, para cometer o roubo... Se não quer dizer as razões por que saiu de Riga, que ao menos diga porque fugiu do kabak logo de madrugada e porque não esperou que voltasse o condutor. Que diga, enfim, para onde foi e onde passou os três dias de ausência! Mas não, nunca dirá nada! Era o mesmo que confessar o crime, visto que não fugira tão precipitadamente, sempre com a cara tão cuidadosamente escondida, senão para guardar em lugar seguro todo o dinheiro roubado à vítima!

Quanto às circunstâncias, em que se encontrava Dimitri Nicolef, que o obrigassem a cometer o roubo, eis o que o banqueiro esperava poder revelar, quando fosse preciso:

— A situação do professor é desesperada sob o ponto de vista pecuniário. Tem obrigações a que não poderá satisfazer... Daqui a um mês é o vencimento de uma dívida de dezoito mil rublos, a meu favor, e ele, por certo, não consegue os fundos necessários para fazer o pagamento. Pedir-me-á em vão uma prorrogação de prazo... Recusar-lha-ei sem piedade!

Frank Johausen apresentava-se tal qual era, impiedoso, odiento, vingativo!

Entretanto, nesta questão em que a política se tinha intrometido, o general Gorko precisava de andar com muita prudência. Conquanto a opinião pública reclamasse, não lhe parecia conveniente ordenar a prisão do professor; no entanto, não se opôs a que lhe fizessem uma busca à casa.

O juiz Kerstorf, o major Verder e o brigadeiro Eck procederam no dia 18 de Abril a essa busca. Dimitri Nicolef deixou desdenhosamente operar os agentes sem protestar e respondeu com frieza às perguntas que lhe fizeram. Remexeram-lhe a secretária e os armários, tomaram conhecimento dos seus papéis, correspondência, registo das despesas... E, pelo que verificaram, o Sr. Johausen tinha razão quando dizia que o professor não possuía quaisquer bens. Vivia somente do produto das suas lições e esse mesmo lhe ia naturalmente faltar no decurso destes acontecimentos.

A pesquisa não deu resultado, pelo que diz respeito ao roubo cometido com prejuízo dos irmãos Johausen. Nem era de esperar outra coisa, desde que, como o próprio banqueiro o dissera, Nicolef tivera tempo de pôr o dinheiro em segurança, isto é, no sítio para onde tinha ido no dia seguinte ao do crime, sítio que não queria indicar. Quanto aos bilhetes de que o banqueiro possuía os números, não podiam ser utilizados senão quando o ladrão o pudesse fazer sem correr perigo, como dissera com ele o Sr. Kerstorf. Havia de passar-se algum tempo por certo antes de as notas serem postas em circulação. Entretanto, os amigos de Dimitri Nicolef já conheciam o estado dos espíritos, não só em Riga, mas nas províncias, muito impressionadas com este caso. Sabiam que a opinião geral se declarava contra o professor e que o partido alemão procurava operar uma pressão sobre as autoridades para que ele fosse preso e julgado.

Entretanto, o povo, operário, trabalhadores, a população indígena numa palavra, estava disposta a tomar o partido de Nicolef contra os seus inimigos, mesmo que fosse só por instinto de raça, talvez mesmo sem estarem absolutamente convencidos da sua inocência. É verdade que essa pobre gente pouco poder tinha.

Com os meios que possuíam os irmãos Johausen e o seu partido, facilmente poderiam actuar sobre eles, levá-los a excessos e deste modo obrigarem o governador a ceder diante dum movimento a que era perigoso resistir.

No meio desta cidade profundamente exaltada; apesar de o arrabalde ser continuamente percorrido por grupos de burgueses e dessa população baixa pronta a servir quem mais lhe paga; conquanto se formassem grupos em frente de casa, Dimitri Nicolef conservava um altivo sangue-frio, de natureza a admirar todos.

A pedido de seus filhos, o Dr. Hamine interviera para que ele não saísse de casa. Corria o risco de ser insultado nas ruas, quem sabe se maltratado até. Tendo concordado com as observações do amigo, encolhendo os ombros menos comunicativo do que nunca, passava no entanto longas horas do dia no seu gabinete de trabalho. Lições, não tinha nenhuma, nem das que dava fora nem daquelas que os alunos iam dar a casa dele. Taciturno, sem gostar que lhe falassem, não fazia nunca alusão às imputações de que era objecto e tinha-se produzido no seu estado moral uma alteração que, com razão, assustava os seus filhos e amigos.

Por isso, o Dr. Hamine, com uma amizade que até à dedicação absoluta, consagrava-lhe todo o tempo que lhe restava dos seus deveres profissionais. O Sr. Delaporte e alguns outros reuniam-se à noite em casa dele, até onde chegavam às vezes os gritos hostis, apesar de a Polícia vigiar constantemente, por ordem do coronel Raguenof. Tristes serões aqueles, em que Dimitri Nicolef nem tomava parte!... Mas, enfim, os dois irmãos sempre estavam melhor, naqueles momentos que a noite tornava ainda mais penosos e que tanto custavam a passar! Depois que os amigos partiam, João e Ilka abraçavam-se, com o coração oprimido pela angústia, iam para os quartos e escutavam os ruídos da rua, enquanto o pai passeava no quarto em cima, como se não lhe fosse possível repousar. Escusado é dizer que João não pensava em voltar para Dorpat. Em que desgraçadas circunstâncias se iria apresentar na Universidade?!

Que acolhimento lhe fariam os estudantes, aqueles mesmos dos seus colegas que até então lhe tinham testemunhado tão sincera amizade!...

Talvez encontrasse somente, para o proteger, o bravo Gospodin, por os outros já estarem com a opinião pública. E como se poderia conter diante de Karl Johausen?

— Ah! Aquele Karl — repetia ele ao Dr. Hamine. — Meu pai está inocente! A descoberta do verdadeiro criminoso fará reconhecer a sua inocência. Mas quer seja reconhecida quer não, obrigarei o Karl Johausen a dar-me contas do seu insulto! E não sei para que hei-de esperar mais!...

O doutor dificilmente conseguia sossegar o rapaz.

— Não estejas impaciente, João — aconselhou-o —, e nada de imprudências! Quando chegar a ocasião serei o primeiro a dizer-te: cumpre o teu dever.

João não se rendia e se não fossem as instâncias da irmã talvez fosse arranjar algum escândalo que piorasse a situação.

Na tarde da sua chegada a Riga, quando foi para casa depois do interrogatório e logo que saíram os seus amigos, Dimitri Nicolef tinha perguntado se não viera nenhuma carta para ele.

Não!... O carteiro só trouxera o que vinha todas as noites — o jornal defensor dos interesses eslavos.

No dia seguinte, à hora da distribuição, o professor, saindo do gabinete, veio para a porta esperar o carteiro.

Nesse momento o arrabalde ainda estava deserto e diante da casa só passeavam alguns agentes.

Ilka tinha sentido o pai e foi ter com ele à porta.

— Esperas pelo carteiro? — perguntou.

— Espero — respondeu Nicolef — e parece-me que se está a demorar, esta manhã...

— Não, meu pai, é porque ainda é cedo, podes estar certo... O tempo está tão frio... O melhor é vires para dentro... Esperas alguma carta?...

— Espero, sim, filha... Mas é inútil ficares aqui... Vai para o teu quarto...

Dir-se-ia, pela sua atitude um tanto embaraçada, que a presença de Ilka lhe causava alguma opressão.

Nesse momento apareceu o carteiro. Não trazia nenhuma carta para o professor e este não pôde dissimular uma grande contrariedade.

À noite e no dia seguinte de manhã, Nicolef mostrou a mesma impaciência quando o carteiro passou diante da porta sem parar.

De quem esperaria carta Dimitri Nicolef, e que importância podia ter tal carta nas circunstâncias em que estava? Relacionar-se-ia com aquela viagem, de consequências tão deploráveis?

Não disse nada a esse respeito.

Naquela manhã, às oito horas, o Dr. Hamine e Delaporte tinham vindo a toda a pressa falar com os dois irmãos. Vinham preveni-los de que o enterro de Poch se realizava no mesmo dia. Esperava-se alguma manifestação contra Nicolef e talvez fosse conveniente tomar algumas precauções. Efectivamente, tudo havia a recear dos irmãos Johausen. Tinham resolvido realizar com pompa o funeral do empregado do Banco.

Que quisessem dar este testemunho de simpatia a um empregado fiel da sua casa, admitia-se! Mas era bem patente que viam naquilo um pretexto para excitarem a opinião pública.

É evidente que o governador faria melhor se proibisse aquela manifestação, anunciada pelos jornais antieslavistas. Entretanto, no estado actual dos espíritos, a intervenção da autoridade não provocaria represálias?...

Por isso o melhor era ordenar medidas necessárias para que a casa do professor não fosse teatro de violências pessoais, que eram para recear, visto que, para o cortejo ir para o cemitério de Riga, tinha de atravessar o arrabalde e passar diante da casa de Nicolef — circunstância lamentável que podia excitar a multidão e levá-la à desordem.

Neste estado de coisas, o Dr. Hamine foi de opinião que não dissessem nada a Dimitri Nicolef, porque, fechando-se, como costumava, no seu gabinete e não descendo senão às horas das refeições, evitava muitas sensa-borias e até perigos.

O almoço, para o qual Ilka convidou o doutor e Delaporte, correu silencioso. Não se trocou uma palavra a respeito do enterro, que se devia realizar à tarde.

Mais de uma vez, no entanto, fizeram estremecer os convivas os gritos furiosos que vinham da rua, à excepção do professor, que parecia nem sequer ouvi-los. Depois do almoço, apertou a mão aos amigos e voltou ao gabinete de trabalho.

João, Ilka e o doutor ficaram na sala, à espera. E que triste espera e triste silêncio ao mesmo tempo, interrompido, por vezes, pelo tumulto dos grupos e vociferações da multidão!

Além disso, o tumulto aumentava, à medida que acorria mais gente, principalmente defronte da casa do professor. Convém notar que a maioria dessa gente era contrária àquele que a opinião pública acusava de ter assassinado o empregado do Banco.

Na verdade, talvez tivesse sido melhor livrá-lo do perigo de cair nas mãos da turbamulta, ordenando a sua prisão. Se estivesse inocente, a sua inocência não seria menos patente pelo facto de ter estado encerrado na fortaleza... E quem sabe se naquele momento o governador e o coronel não pensavam já em tomar essa medida, no próprio interesse de Dimitri Nicolef?...

Pela uma hora e meia, um redobramento de gritos anunciou a aparição do cortejo ao fundo da rua. A casa ressoou com a violência das increpações.

Com extremo assombro do filho, filha e amigos, o professor saiu do seu gabinete e desceu até à sala.

— Que é isto? — perguntou.

— Deixa lá, Dimitri... — respondeu vivamente o Dr. Hamine. — É o enterro do infeliz Poch.

— Aquele que eu assassinei?... — disse friamente

Nicolef.

— Volta para cima, peço-te...

— Meu pai! — disseram, a um tempo, João e Ilka,

suplicando.

Dimitri Nicolef, num estado moral indescritível, sem esperar mais nada, dirigiu-se para uma das janelas da sala, tentando abri-la.

— Não faças isso! — exclamou o doutor. — É uma loucura!...

— Por isso mesmo, vou fazê-lo!...

E, sem que o pudessem impedir, abriu a janela e apareceu à multidão, que soltou mil gritos de morte.

Nesse momento o cortejo chegava à altura da casa.

Zenaida Parensof, vestida e considerada como uma viúva, seguia o féretro, que ia coberto de flores e coroas. Depois iam o Sr. Johausen e o pessoal da sua casa, precedendo os amigos e partidários, que não procuravam na cerimónia mais do que um pretexto para a manifestação. O cortejo parou diante da casa do professor, no meio do tumulto e dos gritos que se levantavam por toda a parte e das ameaças de morte que os acompanhavam.

O coronel Raguenof e o major Verder lá estavam, com um grande número de agentes. Mas eles, Eck e os agentes conseguiriam conter a cólera popular?...

Quando Dimitri Nicolef apareceu os gritos aumentaram por debaixo da janela:

— Morra o assassino!... Morra o assassino!...

O professor, de braços cruzados, cabeça altivamente erguida, imóvel como uma estátua — a estátua do desdém —, não pronunciava uma palavra. Entretanto o cortejo pôs-se de novo em marcha por entre a multidão. Os clamores redobraram. Os mais enraivecidos empurravam a porta da casa, tentando arrombá-la. O coronel e o major com os agentes tentaram repeli-los, mas logo viram que para salvar a vida de Nicolef precisavam de prendê-lo e que, mesmo assim, o podiam matar imediatamente!...

Enfim, apesar de todos os esforços da Polícia, a casa ia ser invadida quando pelo meio da multidão atravessou um homem que, chegando ao limiar, subiu os degraus e, colocando-se diante da porta, exclamou com uma voz que dominou o tumulto:

— Esperem!

Recuou toda a gente e escutaram-no, tão imperiosa era a sua atitude.

O Sr. Frank Johausen, avançando, perguntou:

— Quem é o senhor?...

— Sim, quem é? — repetiu o major Verder.

— Sou um proscrito que Dimitri Nicolef quis salvar comprometendo a sua vida!

— E como se chama?... — perguntou o coronel, avançando.

— Wladimir Yanof!

 

                     WLADIMIR YANOF

Retrocedamos quinze dias, até o princípio deste drama.

Um homem vinha de aparecer na margem oriental do lago Peipous. Durante a noite, lançou-se através dos gelos de que estava eriçada a superfície do lago. Uma ronda de guardas da alfândega, julgando seguir a pista de algum contrabandista, perseguiu-o e disparou sobre ele no momento em que se escondia atrás dos blocos. Este homem não foi atingido e conseguiu fugir para uma cabana de pescadores, onde passou o dia. Depois, à noite, tornou a pôr-se em marcha, tendo de fugir de uma alcateia de lobos, de que se pôde livrar refugiando-se num moinho, onde um valente moleiro lhe favoreceu a evasão. Enfim, perseguido pelos agentes do brigadeiro Eck, livrou-se por milagre atirando-se aos gelos do Pernowa. Só por milagre conseguiu também livrar-se de morrer no desgelo do rio e ficar em Pernau sem ser descoberto.

É Wladimir Yanof, filho de João Yanof, o amigo de Dimitri Nicolef, que antes de morrer lhe confiou toda a sua fortuna. Este depósito sagrado, de vinte mil rublos em notas do Estado, devia ser entregue a Wladimir Yanof quando o proscrito voltasse ao seu país natal, se ainda algum dia voltasse.

Com efeito, sabe-se por que crime político fora deportado para a Sibéria Oriental. Pesava sobre ele uma condenação a degredo perpétuo.

A noiva, Ilka Nicolef, poderia acaso esperar que ele voltasse para junto da sua família adoptiva, a única que lhe restava no mundo, onde encontraria repouso e felicidade?...

Não, por certo nunca mais se poderiam ver os dois, se ela não fosse ter com ele ao exílio, a não ser que conseguisse fugir!

Foi o que ele fez, quatro anos depois!...

Atravessou as estepes siberianas e europeias do império russo.

Chegou a Pernau, onde esperava embarcar para

França ou Inglaterra.

Escondeu-se ali, desnorteando a Polícia, à espera de que algum navio pudesse dar-lhe passagem, quando se derretessem os gelos no mar Báltico.

Quando se refugiou em Pernau, Wladimir Yanof estava sem recursos. Por isso, escreveu a Dimitri Nicolef e foi a sua carta que obrigou o professor a partir, para levar ao filho o depósito que o pai lhe confiara ao morrer.

E se Nicolef nada quis dizer, a respeito da sua viagem, nem aos amigos nem à filha, foi porque queria certificar-se primeiro se Wladimir estava efectivamente em Pernau, e à volta porque o proscrito lhe fizera jurar que não revelaria nada, nem mesmo a Ilka, sem receber uma segunda carta em que lhe dissesse que já estava seguro em qualquer país estrangeiro. Por isso é que Dimitri Nicolef saiu de Riga secretamente. Conquanto tivesse pago o seu lugar até Revel para que ninguém suspeitasse para onde ia, tencionava descer da carruagem em Pernau, aonde chegaria naquela mesma noite, e, se não fosse o acidente que se dera a vinte verstas da cidade, ter-se-ia feito a viagem nas melhores condições. Sabe-se que deplorável conjunto de circunstâncias comprometeu o plano de Dimitri Nicolef. Teve de passar a noite no kabak da «Cruz Quebrada» com o empregado do Banco, Poch. Partiu de lá às quatro horas da manhã para ir para Pernau, o que lhe convinha mais do que esperar pela volta do condutor da mala-posta... e acusavam-no agora de ter assassinado o seu companheiro de viagem!

Quando Dimitri Nicolef saiu do albergue era ainda de noite. Esperando não ser visto, tomou o caminho de Pernau, àquela hora deserto. Depois de uma caminhada rápida de duas horas, chegou a Pernau ao nascer do Sol e foi para o hotel onde estava Wladimir Yanof com um nome suposto.

Que alegria para os dois, depois de tão longa ausência, de sofrer tantas provações e de afrontar tantos perigos!...

Não era como que um pai que encontrasse o filho?...

Nicolef entregou a Wladimir a pasta que encerrava toda a fortuna de João Yanof e, desejando assistir ainda ao seu embarque, ficou mais dois dias.

Contudo, tendo sido adiada a partida do navio em que Wladimir Yanof tinha arranjado passagem, Dimitri Nicolef, não podendo demorar-se mais, partiu para Riga.

O jovem proscrito encarregou-o de levar recordações a Ilka e fez-lhe prometer que não diria nada à noiva a respeito da sua evasão enquanto ele não estivesse ao abrigo das perseguições da inexorável Polícia moscovita. Escrever-lhe-ia quando estivesse em segurança e talvez depois o professor e Ilka pudessem ir ter com ele...

Nicolef abraçou Wladimir, saiu de Pernau e entrou em Riga na noite de 16 para 17, sem sonhar por certo na terrível acusação que lhe pesava sobre a cabeça.

Viu-se, além disso, com que altivez o professor repeliu ou antes desdenhou daquela acusação e que atitude tomou diante do juiz de instrução. Sabe-se igualmente quanto o magistrado insistiu com Nicolef para que lhe desse a conhecer o fim da sua viagem e o sítio para onde fora, quando saiu do albergue da «Cruz Quebrada». Mas Dimitri Nicolef recusou-se a dar explicações a esse respeito.

Não diria nada sem que uma carta de Wladimir Yanof lhe fizesse saber que o proscrito estava em segurança.

A carta não chegou e sabe-se com que impaciência a esperou Nicolef, durante os últimos dois dias!

E então, comprometido por um silêncio que não queria romper, perseguido pelo ódio arreigado dos adversários políticos, com a própria vida arriscada às violências do povo, ia ser preso, quando apareceu Wladimir Yanof. E agora sabe-se já quem era o proscrito e porque este veio a Riga.

Aberta a porta da casa, Wladimir Yanof caiu nos braços de Dimitri Nicolef, apertou a noiva contra o coração, abraçou João, apertou as mãos que lhe estendiam e diante do coronel e do major, que o tinham seguido, disse:

— Em Pernau... quando soube que crime infame era imputado a Nicolef; que o acusavam de ser o autor do assassínio da "Cruz Quebrada»; quando os jornais acrescentavam que se recusava a dar a conhecer os motivos da sua viagem, conquanto não tivesse mais do que pronunciar uma palavra, um nome, que era o meu, para se justificar e que não o dizia para não me comprometer, não hesitei, compreendi qual era o meu dever, saí de Pernau e aqui estou!... Apenas fiz por ti, Dimitri Nicolef, amigo de João Yanof e meu segundo pai, o que tu fizeste por mim!

— E fizeste mal, Wladimir, fizeste mal!... Estou inocente, nada tinha que temer e nada temia, porque a minha inocência breve seria reconhecida.

— Tive ou não razão, Ilka?... — perguntou Wladimir, dirigindo-se à rapariga.

— Não respondas, filha — ordenou Nicolef —, porque não podes decidir entre o teu noivo e teu pai! Estou-te muito reconhecido pelo que fizeste por mim, mas censuro-te por o teres feito. Hás-de concordar que tinhas feito melhor refugiando-te em lugar seguro... Escrever-me-ias de lá e, quando recebesse a carta, falaria e revelaria então os motivos da minha viagem. O que me custaria a suportar mais uns dias estas tristes provas para que tu estivesses livre de perigo?...

— Meu pai — disse então Ilka, com voz firme —, sempre ouvirás a minha resposta. Aconteça o que acontecer, Wladimir andou bem e não bastará a minha vida para lhe pagar o meu reconhecimento.

— Obrigado, Ilka, obrigado! — exclamou Wladimir. — Mas eu já me paguei, visto que pude poupar a teu pai que fosse acusado mais um dia!

Entretanto, a justificação de Dimitri Nicolef, devida à intervenção de Wladimir Yanof, ninguém duvidava já dela!

A notícia espalhou-se logo. Conquanto os Srs. Johausen se obstinassem odientamente em não acreditar, o major Verder visse fugir-lhe, com evidente desgosto, aquele eslavo às acusações que lhe imputavam e os amigos do banqueiro fizessem a máxima reserva sobre o caso, o que aliás não admirava, o caso é que, como se verá, depuseram as armas diante do que lhes parecia evidente.

Sabe-se, contudo, com que rapidez, a maior parte das vezes ilógica e pouco duradoira, se produz um reviramento nas turbas, quando não é na própria opinião pública.

Foi precisamente o que aconteceu desta vez. A efervescência acalmou. Já ninguém pensava em invadir a casa de Dimitri Nicolef, nem os agentes da Polícia precisavam de o proteger contra a fúria popular. Mas era preciso regular a situação de Wladimir Yanof. Pelo facto de ter uma alma generosa e de ter vindo a Riga impelido pelo dever, não deixava de ser um condenado político, um evadido das minas da Sibéria. Por isso, o coronel Raguenof lhe disse, com uma voz trespassada de bondade e ao mesmo tempo temperada com a reserva de um funcionário moscovita, de um chefe de Polícia, enfim:

— Wladimir Yanof, fugiu do desterro, tenho de dar parte de si ao governador. Vou a casa do general Gorko. Entretanto não vejo inconveniente algum em o deixar ficar nesta casa se me der a sua palavra em como não tenta fugir...

— Dou-lhe a minha palavra, coronel — asseverou Wladimir.

O coronel partiu, deixando, no entanto, Eck e os seus homens de guarda na rua. É inútil insistir sobre a cena íntima que se passou entre João, Ilka e Wladimir. O Dr. Hamine e Delaporte tinham-nos deixado.

Foram alguns momentos de felicidade que a família do professor há muito não experimentava. Olhavam-se, falavam, faziam quase projectos de futuro!...

Esqueciam-se até da situação de Yanof, da condenação a que estava sujeito e das consequências da sua fuga, que podiam ser terríveis!...

O coronel, que devia chegar daí a pouco, lhes daria a conhecer as medidas adoptadas pelo governador.

Voltou, uma hora depois, e declarou, dirigindo-se a Wladimir:

— Por ordem do general Gorko, vai para a fortaleza de Riga, onde esperará as ordens que hão-de vir de São Petersburgo.

— Estou pronto a obedecer, coronel — respondeu Wladimir. — Adeus, meu pai — disse a Nicolef. — Adeus, meu irmão — continuou, dirigindo-se a João — e adeus, minha irmã... — acrescentou, pegando na mão de Ilka.

— Não!... Tua mulher! — corrigiu a rapariga. Fez-se a separação (quanto tempo duraria!?...) e Wladimir saiu da casa de onde levava tanta felicidade.

A partir deste momento, o extraordinário interesse que havia por esta questão, longe de diminuir, aumentou e incidia agora sobre o fugitivo que não hesitara em sacrificar a liberdade, se não a própria vida, visto tratar-se de um crime político. Com efeito, o seu procedimento era digno de toda a admiração, qualquer que fosse a opinião que se tivesse a respeito de Dimitri Nicolef. É certo que mesmo nos campos opostos as mulheres celebravam à porfia aquela generosidade de alma de Wladimir Yanof. Além de que, todos tinham ainda presente aquele momento tão triste da sua vida em que, amando tanto Ilka Nicolef, se separou bruscamente dela, quando estava para se realizar a sua união!

E, entretanto, quais seriam as ordens do imperador?... O fugitivo teria de voltar para o fundo da Sibéria Oriental, donde conseguira fugir, à custa de tantas fadigas, afrontando tantos perigos? A noiva, depois de ter tido a felicidade de o tornar a ver, por um instante, não seria condenada a ter de chorá-lo eternamente?...

No entanto, seria um erro acreditar que fora proclamada por todos a inocência de Dimitri Nicolef, devido à súbita e inesperada intervenção de Wladimir Yanof.

Em Riga, a cidade tão infestada de germanismo, não podia suceder assim. As classes elevadas, principalmente, não podiam suportar que o professor, o representante dos interesses eslavos, se livrasse da acusação que pesava sobre ele. Os jornais do partido continuavam a guardar reserva, com requintada má fé. No fim de contas, o assassino ainda não fora descoberto. Havia uma vítima que bradava vingança e que a bradava sobretudo pelas bocas odiendas e intratáveis dos inimigos da influência moscovita.

E Frank Johausen resumia assim a opinião daqueles principalmente que não queriam abandonar a presa:

— Conhecem-se agora os motivos que levaram Dimitri Nicolef a fazer a viagem... Ia ter com Wladimir Yanof a Pernau, seja... Quando saiu do albergue, às quatro horas da manhã, era para ir para lá, seja ainda... Mas passou ou não a noite de 13 para 14 no albergue da "Cruz Quebrada»?... Poch foi ou não assassinado e depois roubado, no mesmo kabak}... E o assassino podia ou não ser outro, além do viajante do quarto onde se encontrou o instrumento que serviu para arrombar a janela do quarto do desgraçado?... Esse viajante era ou não Dimitri Nicolef?...

Às perguntas feitas neste sentido só era possível dar uma resposta afirmativa. Mas se aos «sim» ou "não» do banqueiro se opusessem estes:

— Podia ou não ter cometido o crime qualquer malfeitor de fora?... O dono do albergue, Kroff, podia ou não ter cometido o crime?... Teria ou não, este, mais do que Nicolef, ocasião para ferir Poch, quer antes, quer depois da partida do professor?... Kroff sabia ou não que a pasta do empregado encerrava uma quantia considerável?...

A isto respondia-se apenas que as pesquisas nada tinham revelado contra o estalajadeiro, resposta aliás pouco convincente.

Por outro lado, a justiça não se recusava a admitir que o autor fosse algum dos malfeitores que, há uns

tempos a essa parte, tinham assinalado a sua presença na região da alta Livónia.

Era essa a opinião do coronel Raguenof, que no dia seguinte falou sobre o caso com o major Verder, sem, escusado é dizer, chegarem a acordo.

— Com franqueza, major, parece-me muito hipotético que Nicolef tivesse saltado pela janela do seu quarto para depois ir saltar pela do de Poch...

— E os vestígios que ficaram?... — objectou o major.

— Os vestígios?... Mas para isso era preciso saber se estavam ainda frescos, o que não está completamente provado... Esse kabak da "Cruz Quebrada» fica isolado no meio do caminho... É muito possível que andasse por ali alguém a rondar, que tentasse arrombar a janela...

— Devo-lhe fazer observar, meu coronel, que o assassino devia naturalmente saber que havia lá dentro que roubar e que Nicolef não ignorava.

— E outros não o ignorariam também — redarguiu vivamente o coronel Raguenof —, visto que Poch foi imprudente em não esconder a pasta e em tagarelar de mais sobre o caso... Não o sabiam bem, Kroff, o condutor Broks, os iemschicks que se sucederam nas diversas estações de muda e os camponeses e rachadores de lenha que estavam na sala, quando Nicolef e o empregado do Banco abriram a porta da taberna?

Este argumento tinha, evidentemente, valor. As presunções não pesavam unicamente sobre Dimitri Nicolef.

Além de que, não se tinha demonstrado que o professor se achava em tal situação pecuniária que precisasse de cometer um assassínio seguido de roubo para sair dela.

Apesar de tudo, o major não dava o braço a torcer e concluía sempre pela culpabilidade de Nicolef.

— E eu concluo que os alemães são sempre alemães... — respondeu o coronel.

— Como os eslavos são sempre eslavos — retorquiu o major.

— Por isso deixemos continuar a pesquisa ao juiz Kerstorf — disse, para terminar, o coronel Raguenof.

— Quando estiver acabada a instrução é que será ocasião de discutir os prós e os contras.

Entretanto, conservando-se completamente alheio a todas as opiniões tão influenciadas pelas paixões políticas do dia, o magistrado instruía a questão com um cuidado minucioso.

Sabia agora por que razão o professor se recusara sempre a dar a conhecer os motivos da sua viagem e isto justificava a sua repugnância em o julgar culpado. Mas quem era então o autor do crime?...

Foram chamadas numerosas testemunhas ao seu gabinete: os postilhões que tinham guiado a mala-posta entre Riga e Pernau, os camponeses e rachadores de lenha que estavam a beber no albergue quando chegou Poch, todos enfim os que estavam ao corrente do que o empregado do Banco ia fazer a Revel, isto é, um pagamento por conta dos irmãos Johausen. Nada permitia contudo incriminar nenhuma das testemunhas.

O condutor Broks foi interrogado várias vezes. Conhecia melhor do que ninguém a situação de Poch e sabia que era portador de uma quantia avultada. Mas este pobre homem não dava lugar a nenhuma suspeita. Depois do incidente do carro tinha ido para Pernau com os cavalos e com o postilhão e dormira no albergue da estação de muda. Não havia dúvida alguma a esse respeito. Sendo indiscutível o álibi, não podia ser inquietado nesta questão. Assim, pois, a intervenção de um malfeitor de fora tinha sido posta de parte. Como é que alguém que andasse nas imediações teria tido a ideia de roubar, a não ser que tivesse de qualquer modo comunicado com o empregado do Banco, ou sabido em Riga, de qualquer modo, de que missão estava encarregado Poch? E que, então, o seguisse, à espera de ocasião, e que tivesse aproveitado o acidente que obrigou Poch a refugiar-se no kabak da «Cruz Quebrada»...

Conquanto esta última hipótese fosse admissível, era contudo mais provável que o crime tivesse sido cometido por algum dos dois que passaram a noite no albergue. Ora estes eram o taberneiro e Dimitri Nicolef.

Kroff tinha, como se sabe, ficado no kabak, guardado por agentes, desde o princípio do inquérito. Levado algumas vezes ao juiz de instrução, fora submetido a longos e minuciosos interrogatórios. Nada do seu procedimento nem das suas respostas dera lugar à menor suspeita. Além disso, era afirmativo dizendo que Dimitri Nicolef é que devia ter sido o assassino, porquanto tinha toda a facilidade em cometer o crime.

— E não sentiu nenhum barulho durante a noite?... — perguntou-lhe o magistrado.

— Nenhum, senhor juiz.

— Entretanto, para abrir a primeira janela e para arrombar a segunda...

— O meu quarto dá para o pátio e as janelas dos outros dois dão para a estrada... Dormia profundamente e, além disso, naquela noite o tempo estava medonho e o temporal não deixava ouvir nenhum barulho.

O juiz, enquanto ouvia estas disposições, olhava-o atentamente, e, conquanto no íntimo estivesse de pé atrás com ele, não pudera surpreender nada que pusesse em dúvida a veracidade do que dizia o taberneiro.

Acabado o interrogatório, Kroff retomava livremente o caminho da «Cruz Quebrada». Se na verdade fosse criminoso não era melhor deixá-lo em liberdade, vigiando-o?...

Tinham passado quatro dias depois que Wladimir Yanof fora encerrado na fortaleza de Riga.

Conforme as ordens do governador, haviam arranjado um quarto para o prisioneiro. Tratavam-no com toda a consideração que mereciam a sua situação e comportamento. O general Gorko tinha a certeza de que em alta instância deviam ser aprovadas as suas deferências, qualquer que fosse a resolução dada à questão, com respeito a Wladimir Yanof.

Dimitri Nicolef, cuja saúde se ressentia com estas provas terríveis, retido no quarto, não o pôde ir ver, como desejaria. Era permitido o acesso na prisão à família Nicolef e mais amigos de Wladimir Yanof. João e Ilka iam todos os dias à fortaleza e eram levados à presença do prisioneiro. E aí que longas e íntimas conversas havia, donde não era excluída de todo a esperança!...

Sim! Os dois irmãos acreditavam, queriam acreditar, na magnanimidade do imperador. Sua Majestade não ficaria por certo incensível às súplicas daquela desgraçada família, tão rudemente magoada, há uns tempos a essa parte. Wladimir e Ilka não tornariam a estar separados por milhares de léguas e sobretudo por essa condenação a perpetuidade, mais terrível ainda que a distância. O enlace matrimonial destas duas criaturas que se amavam podia celebrar-se, enfim, dentro de poucas semanas, se Wladimir alcançasse a clemência imperial.

Sabia-se que o governador empregava para isso todos os esforços. A situação particular de Dimitri Nicolef em Riga, em vésperas das eleições em que era ele o representante do partido eslavo, as tendências do Governo em russificar a administração municipal nas províncias bálticas, tudo concorria para que o fugitivo alcançasse perdão completo das suas culpas.

No dia 24 de Abril, depois de se ter despedido de Yanof, do pai e da irmã, João voltou a Dorpat.

Era de fronte erguida que queria entrar na Universidade, ele, a quem tinham chamado filho de assassino.

É inútil insistir sobre o acolhimento que lhe fizeram os colegas da corporação e Gospodin mais do que nenhum. Escusado é dizer também que outros estudantes, os que eram pelo lado de Karl Johausen, também não tinham acalmado. Era impossível que aquilo não terminasse por alguma contenda.

Foi o que aconteceu no dia seguinte àquele em que João Nicolef chegou.

João pediu a Karl satisfação dos insultos e este recusou-se a dar-lha, agravando-os ainda mais. João deu-lhe uma bofetada. O duelo, que, desde então se tornou inevitável, realizou-se efectivamente e Karl Johausen ficou gravemente ferido.

Calcule-se o efeito que a notícia deste encontro produziu quando chegou a Riga! O Sr. Johausen e a mulher partiram logo para irem tratar do filho, quem sabe se mortalmente ferido.

E, quando voltassem, com que violência não recomeçariam a luta contra o seu inimigo!...

Entretanto, cinco dias depois, chegava de São Petersburgo resposta relativa a Wladimir Yanof.

Confiara-se com razão na generosidade do imperador.

Foi concedido perdão completo ao proscrito fugido das minas da Sibéria e Wladimir Yanof foi imediatamente posto em liberdade!

 

                   SEGUNDA PESQUISA

O perdão de Wladimir Yanof produziu enorme impressão não só em Riga como em todas as províncias bálticas.

Quiseram alguns ver nisso um sinal muito intencional da parte do Governo em favorecer as tendências anti-germânicas.

A população trabalhadora aplaudiu sem reserva. A nobreza e a burguesia protestaram contra a clemência imperial, que, pelo que acontecera com Wladimir Yanof, parecia querer atingir e pôr a coberto Dimitri Nicolef. Com efeito, o generoso procedimento do fugitivo merecia aquele perdão e com ele a completa reabilitação e recuperação de todos os direitos civis, de que fora privado por uma condenação política. Mas o perdão não seria ao mesmo tempo um protesto contra as incriminações feitas ao professor, um cidadão até ali respeitável e honrado e que estava designado por escolha para representar o partido eslavo nas próximas eleições?

Foi assim julgado, pelo menos, o acto do imperador e o general Gorko não ocultava a sua opinião a esse respeito.

Wladimir Yanof saiu da fortaleza de Riga em companhia do coronel Raguenof, que viera comunicar-lhe o ucasse do czar.

Wladimir foi logo para casa de Dimitri Nicolef e, tendo-se conservado a notícia secreta. Ilka e o pai ouviram-na da sua própria boca.

Que ondas de alegria e reconhecimento inundaram aquela modesta casa, aonde a felicidade parecia ter chegado finalmente! Pouco depois chegaram o Dr. Hamine, Delaporte e alguns outros amigos da casa. Wladimir foi felicitado e abraçado por todos. Quem pensava agora nas acusações que tinham sido feitas ao professor?!...

— Mesmo que tivesse sido condenado — disse-lhe Delaporte —, nenhum de nós duvidaria da sua inocência!...

— Condenado!... — exclamou o doutor. — Como o poderia ser?...

— E se realmente tivesse sido pronunciada uma condenação — declarou Ilka —, Wladimir, João e eu consagraríamos toda a nossa vida para te reabilitarmos, meu pai!

Dimitri Nicolef, com o coração oprimido e o rosto pálido das comoções, não pôde pronunciar uma única palavra. Sorria tristemente, dizendo de si para consigo que tudo se pode esperar da justiça incerta dos homens!...

Não há tantos exemplos de condenações iníquas e muitas vezes irreparáveis?!...

À noite, reuniram-se, para o chá, os amigos mais íntimos de Wladimir e Nicolef. E como palpitaram todos os corações e todos manifestaram a sua alegria quando Ilka disse, muito simplesmente:

— E agora, quando quiseres, serei tua mulher, Wladimir!...

Fixou-se o casamento para daí a seis semanas e dis-pôs-se logo um quarto do rés-do-chão para Wladimir Yanof. Conhece-se bem a fortuna dos dois noivos. Ilka não tinha nada e, até então, ainda Nicolef não dissera coisa nenhuma a respeito dos seus compromissos para com a casa Johausen, referentes à dívida paterna. À custa de economias já tinha pago uma boa parte e esperava a pouco e pouco satisfazer o resto. Foi por isso que ainda não tinha dito nada aos filhos, nem estes sabiam que a última letra, de dezoito mil rublos, devia ser vencida dentro de quinze dias.

A confissão impunha-se no entanto. Wladimir não podia ignorar um facto tão inquietador para a família... Além do que, não seria isso que faria mudar os seus sentimentos para com a rapariga. Ele, com a quantia em depósito que Dimitri Nicolef lhe tinha entregado, saberia esperar e, auxiliado pela sua energia e inteligência, assegurar o futuro.

Entretanto, se a família Nicolef era feliz, e agora era-o mais do que nunca tinha esperado sê-lo, que contraste com a família Johausen!...

Tudo levava a crer que Karl, tão gravemente ferido, se viria a curar com os cuidados e com o tempo e já tinham até conseguido transportá-lo para Riga. Contudo, na luta que directamente sustentava com o professor que julgava ter aniquilado, Frank Johausen sentia fugir-lhe a vitória. Parecia que as armas terríveis de que o seu ódio não hesitou em servir-se acabavam de partir-se-lhe nas mãos!

Só lhe restava, para aniquilar o inimigo político, a situação financeira do rival, a dívida que este naturalmente não conseguiria pagar no dia do vencimento!...

O que é certo é que a opinião pública — a das pessoas desinteressadas, que julgavam os factos sem opinião formada — esquecia a pouco e pouco a acusação imputada a Dimitri Nicolef.

Ela tendia mesmo a voltar-se contra o proprietário do kabak da "Cruz Quebrada».

Efectivamente, desde que se pusesse de parte a intervenção de um malfeitor vindo de fora, as presunções deviam recair sobre Kroff. Os antecedentes da sua vida defendiam-no ou acusavam-no?... A dizer a verdade, nem eram bons nem maus.

Kroff tinha a reputação de ser um homem rude e muito interesseiro.

Pouco comunicativo, metido consigo, vivia só, sem família, na taberna isolada, simplesmente frequentada por camponeses e rachadores de lenha. Seus pais, de origem alemã e (o que não é raro nas províncias bálticas) pertencentes à religião ortodoxa, tinham vivido sempre apenas com os produtos do albergue. A casa e o quintal era tudo o que herdara deles e o valor de tudo não chegaria a mil rublos.

Kroff, celibatário, sem ter criado algum, era quem fazia tudo por suas mãos e por isso só se ausentava quando precisava de ir buscar provisões a Pernau.

O juiz Kerstorf desconfiara sempre do estalajadeiro. Seriam fundadas as suas suspeitas e não teria querido Kroff livrar-se delas acusando o viajante que acompanhava o empregado do Banco? Não teria sido ele quem fizera as arranhaduras na janela do quarto e colocara a tenaz no fogão depois de se ter servido dela para arrombar a outra janela, e quem, enfim, cometera o crime, quer antes, quer depois de ter partido Dimitri Nicolef, sobre quem, graças às precauções que tomara, deviam recair todas as suspeitas?...

Não seria esta uma nova pista a seguir e não podia conduzir até ao fim, acompanhando-a com prudência?...

Além disso, depois que Dimitri Nicolef parecia ter sido posto de parte, com a chegada de Wladimir Yanof, podia Kroff recear que a situação se tornasse menos segura. Era necessário, custasse o que custasse, descobrir o autor do crime e nesse caso o inquérito não recairia, dali por diante, sobre ele?

Como se sabe, depois do assassínio, o taberneiro não saíra do albergue senão para ir ao gabinete do juiz. Conquanto estivesse livre, sentia-se no entanto muito vigiado pelos agentes que de noite e de dia guardavam o kabak.

O quarto do viajante e o de Poch estavam fechados à chave e esta nas mãos do magistrado, de modo que ninguém lá podia ter entrado. Estava tudo por conseguinte no mesmo estado em que se encontrava quando foi a primeira pesquisa.

E conquanto, por um lado, Kroff repetisse, a quem o queria ouvir, que a instrução se afastava do verdadeiro caminho, abandonando a acusação contra Dimitri Nicolef, afirmasse que o viajante era o verdadeiro culpado, não cessasse de o acusar perante o juiz Kerstorf e fosse acompanhado pelos inimigos do professor; e que, por outro lado, os amigos deste lançassem as culpas sobre o taberneiro, a verdade é que a situação, quer de um, quer de outro lado, não estava ainda definida e daria lugar às mais violentas incriminações enquanto o criminoso não caísse nas mãos da justiça.

Wladimir Yanof e o Dr. Hamine falavam muitas vezes sobre esta situação. Compreendiam que a única eventualidade que fecharia a boca aos Johausen e aos seus partidários seria não só a prisão do autor do crime, mas o seu julgamento e condenação.

E, enquanto Dimitri Nicolef parecia pôr-se de parte nesta questão e nem sequer aludir a ela, os seus amigos não cessavam de apressar o inquérito e de o auxiliarem com os indícios que iam aparecendo.

Além disso, acusavam tão categoricamente o taberneiro que, sob a pressão da opinião pública, o Sr. Kerstorf e o coronel Raguenof decidiram fazer uma segunda pesquisa ao albergue da "Cruz Quebrada». Esta pesquisa realizou-se a 5 de Maio.

O juiz Kerstorf, o major Verder e o brigadeiro Eck, tendo partido à tarde, chegaram ao kabak de manhã. Os agentes da Polícia destacados na casa nada tinham assinalado de novo.

Kroff, que esperava a visita do magistrado, pôs-se imediatamente à sua disposição.

— Senhor juiz — disse ele — sei que me querem comprometer nesta questão... Mas desta vez parece-me que irá convencido da minha inocência...

— Ver-se-á... — respondeu o Sr. Kerstorf. — Comecemos...

— Pelo quarto do viajante de que V. Ex.a tem a chave? — perguntou Kroff.

— Não — respondeu o magistrado.

— A intenção de V. Ex.a é visitar toda a casa? — perguntou o major Verder.

— É, sim, major.

— Creio, Sr. Kerstorf, que se resta algum vestígio é no quarto que Dimitri Nicolef ocupou.

Esta observação provava bem que o major não punha em dúvida a culpabilidade do professor e por conseguinte a completa inocência do taberneiro.

Nada pudera modificar a sua opinião, fundada nestes factos: o assassino fora o viajante e o viajante era Dimitri Nicolef. Não saía disto.

— Guie-nos — ordenou o juiz ao taberneiro.

Kroff obedeceu com uma prontidão que abonava em seu favor.

O anexo que dava para o jardim foi pela segunda vez visitado pelos agentes, dirigidos pelo brigadeiro Eck, na presença do juiz e do major.

Depois explorou-se o jardim com um cuidado minucioso, junto de cada árvore, ao longo da barreira e nos canteiros, onde vegetavam raros legumes. Talvez Kroff tivesse enterrado parte do produto do roubo, se é que efectivamente o cometera, o que era muito importante verificar.

As buscas foram inúteis. A respeito de dinheiro só havia no armário do taberneiro umas cem notas de vinte e cinco, dez, cinco, três e um rublos, isto é, de um valor inferior ao das que o empregado do Banco levava na pasta.

O major Verder, então, chamou o juiz de parte e fez-lhe notar:

— Não esqueça, Sr. Kerstorf, que, depois do dia do crime, Kroff não tornou a sair do kabak sem ir acompanhado, porque os agentes chegaram nessa mesma manhã...

— Bem sei; mas antes de chegarem os agentes, depois de ter saído o Sr. Nicolef, o taberneiro ficou só durante algumas horas.

— Enfim, Sr. Kerstorf, bem vê que não encontrámos nada comprometedor...

— Efectivamente assim tem acontecido... Mas a investigação ainda não terminou. Tem as chaves dos dois quartos, major?

— Tenho, sim, Sr. Kerstorf.

Com efeito, tinham sido depositadas na repartição da Polícia e o major Verder tirou-as da algibeira. Abriram a porta do quarto em que fora assassinado o empregado do Banco. Estava no mesmo estado em que o tinham deixado os agentes quando a Polícia lá fora da primeira vez. Facilmente verificaram que a janela tinha sido arrombada por fora.

Não se encontrou nenhum novo indício. O assassino, fosse quem fosse, não deixara vestígios da sua passagem. Depois de terem fechado a janela, o Sr. Kerstorf, o major, Kroff, o brigadeiro e os seus homens voltaram à sala grande.

— Visitemos o segundo quarto — disse o juiz.

Primeiramentte foi examinada a porta, que não apresentou nenhum traço exterior. Além disso, os agentes que tinham ficado no kabak afirmavam que ninguém tentara abri-la.

Nenhum deles havia saído da casa havia dez dias.

O quarto estava imerso em profunda escuridão. O brigadeiro Eck dirigiu-se para a janela, abriu-a completa-mente, desviou a barra das vidraças e abriu estas, de modo que puderam operar com muita luz.

Não se notava nenhuma alteração, desde que fora a última pesquisa. Ao fundo, o leito em que estivera deitado Dimitri Nicolef. Perto do leito, para o lado da cabeceira, uma mesa grosseira que tinha em cima um castiçal com uma vela meio derretida. A um canto, uma cadeira de palhinha e um escabelo a outro. À direita, um armário com as portas fechadas. Ao fundo, o fogão, isto é, uma lareira formada por duas pedras lisas. Por cima desta, o cano da chaminé, mais largo em baixo e subindo para o telhado e estreitando.

Examinaram o leito e, como da primeira vez, nada se lhe encontrou de suspeito.

No armário e gavetão não havia nenhum fato nem papéis: estava tudo vazio.

A tenaz, a um canto do fogão, foi objecto de minucioso exame. Estava torcida na extremidade, por certo devido a ser empregada como alavanca para arrombar a porta da outra janela. Mas também é certo que qualquer outro utensílio, uma bengala até, bastaria para isso, tanto mais que a porta estava em mau estado.

Lá estavam as arranhaduras na janela, que podiam realmente provir da passagem de um indivíduo por lá. O juiz voltou à lareira.

— O viajante acendeu lume?... — perguntou a Kroff.

— Não, com certeza — respondeu o taberneiro.

— E as cinzas foram examinadas da outra vez?

— Creio que não — replicou o major Verder.

— Vamos então fazê-lo.

O brigadeiro inclinou-se sobre a lareira, e ao canto da esquerda descobriu um papel meio queimado, uma espécie de quadrado de que só restava um ângulo que se confundia com as cinzas. Qual não foi a surpresa dos assistentes quando se reconheceu que aquele bocado de papel era o que restava de uma nota de banco! Sim! Não havia que duvidar. Era uma nota do Estado da série de cem rublos, cujo número fora consumido pela chama. E que outra chama poderia ter sido senão a da vela que estava sobre a mesa, tanto mais que não se tinha acendido lume na lareira?...

Por outro lado, aquele bocado de papel estava manchado de sangue. Não restava dúvida: foram as mãos do assassino que o mancharam e que depois o queimaram por estar ensanguentado.

E donde poderia ter procedido a nota, senão da pasta de Poch?...

Mas desta incineração incompleta tirava-se um testemunho importante.

Quem havia agora de hesitar? Como se poderia admitir que o crime tivesse sido obra de um malfeitor de fora?

O assassino não era manifestamente o viajante que ocupara o quarto, em que entrou pela janela depois do crime, e que saíra do albergue às quatro horas da manhã? O major e o brigadeiro olharam um para o outro como pessoas cuja convicção estava havia muito formada. Mas, como o Sr. Kerstorf se calava, conservaram-se em silêncio.

Kroff não se pôde conter.

— Que lhe tinha eu dito, senhor juiz?... — exclamou ele. — E ainda tem dúvidas sobre a minha inocência?...

O Sr. Kerstorf meteu o fragmento da nota na carteira de apontamentos, como objecto de convicção, e contentou-se com responder:

— Meus senhores, a nossa pesquisa está terminada. Vamo-nos embora.

Um quarto de hora depois o carro rodava pelo caminho de Riga, enquanto os agentes ficavam no kabak da "Cruz Quebrada». No dia seguinte, logo de manhã, o Sr. Frank Johausen foi posto ao corrente do resultado da investigação.

Tinha desaparecido o número da nota queimada, de maneira que não se pôde verificar se era alguma das que ficaram apontadas no Banco.

Mas como pertencia à série das que levara Poch, era evidente que fora roubada da sua pasta. A notícia espalhou-se rapidamente. A princípio, os amigos de Dimitri Nicolef ficaram aterrados: a questão ia tomar uma outra fase, ou, antes, voltar à primeira. Que terríveis provações ameaçavam ainda aquela família, que já se julgava livre!

Os partidários dos Johausen é que triunfaram ruidosamente. Para eles, a prisão de Dimitri Nicolef ia ser ordenada imediatamente e o professor não poderia escapar, perante o júri, à pena que tal crime merecia.

O Dr. Hamine informou Wladimir Yanof do que sucedera, e combinaram ambos nada dizer a Nicolef. Este só depois viria a saber que novas provas pesavam sobre ele. Wladimir bem teria querido evitar que a noiva viesse a saber fosse o que fosse... Mas no mesmo dia a foi encontrar abismada na sua dor.

— Meu pai está inocente! Meu pai está inocente! — repetia ela, sem poder dizer mais nada.

— Sim, querida Ilka, está e nós havemos de descobrir o criminoso e confundir os que o acusam!... Estou convencido de que há alguma maquinação infame com o fim de perder o melhor e o mais honrado dos homens.

E, na verdade, o seu coração generoso levava-o a raciocinar assim. Bem sabia até onde poderia chegar a vingança política. Portanto, temia que aquela infâmia pudesse ter bom êxito.

Aconteceu o que se esperava.

À tardinha, Dimitri Nicolef foi chamado ao gabinete do juiz de instrução. Antes de ir passou pela sala, onde Wladimir e Ilka o puseram ao corrente do que se passava.

— Não acaba esta maldita questão! — disse ele, encolhendo os ombros.

— Esperam de ti mais algum testemunho, meu pai!... — presumiu a rapariga.

— Quer que o acompanhe? — perguntou Wladimir.

— Não, obrigado, Wladimir.

O professor saiu apressado e daí a um quarto de hora entrou no gabinete do juiz de instrução. O magistrado estava nesse momento só com o escrivão. Depois de uma conferência que tivera com o governador e o coronel Raguenof, o magistrado resolveu com eles submeter o professor a um segundo interrogatório e depois deste é que resolveria se Dimitri Nicolef devia ou não ser preso.

O Sr. Kerstorf convidou Nicolef a sentar-se e com a voz um tanto comovida explicou-lhe:

— Sr. Nicolef, fez-se ontem, à minha vista, uma segunda pesquisa no albergue da "Cruz Quebrada». Os agentes examinaram cuidadosamente toda a casa, sem encontrarem mais nenhum vestígio. No entanto, no quarto que o senhor ocupou na noite de 13 para 14 de Abril, apareceu isto...

E apresentou ao professor o resto da nota queimada.

— Que bocado de papel é este?... — perguntou Dimitri Nicolef.

— É o que resta de uma nota de banco que foi queimada e depois atirada para as cinzas da lareira.

— Uma das notas que foram roubadas da pasta de Poch?...

— Com todas as probabilidades — respondeu o magistrado — e compreende perfeitamente, Sr. Nicolef, que isto constitui uma prova contra o senhor.

— Contra mim?... — replicou o professor, retomando o seu tom irónico e desdenhoso. — Pois ainda não terminaram as suspeitas, senhor juiz, nem as declarações de Wladimir Yanof me justificaram definitivamente?...

O Sr. Kerstorf absteve-se de responder. Olhava para Nicolef com extrema atenção, para aquele desgraçado, cujo rosto doentio atestava que ainda não estava restabelecido do abalo moral devido àquela série de provações.

E parecia que ainda não tinham acabado, pois se levantavam agora novas presunções contra ele!

Dimitri Nicolef passou a mão pela fronte e perguntou:

— Visto isso, então, este bocado de nota de banco foi encontrado na lareira do quarto onde eu passei a noite?...

— Foi, sim, Sr. Nicolef.

— E esse quarto foi fechado quando a justiça lá foi a primeira vez?...

— Fechado à chave, e há a certeza de que a porta não foi aberta...

— Por conseguinte, ninguém poderia ter entrado lá?...

— Ninguém.

Era evidente que convinha mais ao magistrado, invertendo os papéis, deixar-se interrogar.

— Esta nota estava suja de sangue — continuou Nicolef, depois de a ter examinado. — Foi queimada incompletamente e encontrou-se nas cinzas este fragmento?...

— Encontrou-se nas cinzas... Exactamente.

— Então, como se pode explicar que tivesse escapado às buscas que se fizeram da primeira vez?...

— Não o sei explicar, mas não me admiro, visto que devia estar naquele mesmo sítio e ninguém a poderia lá ir meter, depois.

— Eu não estou menos admirado que V. Ex.a — respondeu, um tanto irónico, Dimitri Nicolef. — Não devia dizer admirado, mas inquieto, visto que sou naturalmente o acusado de ter queimado a nota e de a atirar depois para a lareira...

— Efectivamente, o acusado é o senhor — respondeu o magistrado.

— E — continuou o professor, mais irónico ainda — como a nota fazia parte do maço que ia na pasta do empregado do Banco, como foi roubada dessa pasta depois do assassínio de Poch, não há dúvida de que o ladrão foi o viajante que ficou nesse quarto; ora como quem ficou nesse quarto fui eu, eu é que fui o assassino...

— É natural!... — admitiu o Sr. Kerstorf, que não perdia um gesto de Nicolef.

— Decerto!... Tudo isto se encadeia. A dedução é perfeita. Somente me há-de permitir que à argumentação de V. Ex.a eu oponha a minha.

— Diga, Sr. Nicolef.

— Saí do albergue da «Cruz Quebrada» às quatro horas da manhã... Nesse momento já fora cometido o crime?...

"Por certo que já, tendo eu sido o autor, e não, se outrem o cometeu... Pouco importa... Pois bem! O senhor juiz pode afiançar-me que o assassino não tivesse tomado, depois de eu sair, todas as medidas e precauções para que as suspeitas recaísssem somente sobre o viajante, isto é, sobre mim, e entrasse no quarto, deixasse lá a tenaz, atirasse para a lareira com uma das notas suja de sangue, depois de a ter queimado incompletamente, e tivesse enfim feito as arranhaduras no parapeito da janela para todos julgarem que efectivamente a tinha escalado para ir ferir o empregado do Banco na cama?...

— Do que o senhor diz deduz-se uma acusação directa do taberneiro Kroff...

— Kroff ou outro qualquer!... Tanto mais que não hei-de ser eu que terei de descobrir o culpado... O que preciso é defender-me e defendo-me por isso...

O Sr. Kerstorf estava impressionado com a atitude de Dimitri Nicolef. Não tinha ele próprio pensado muitas vezes no que o professor acabava de dizer?...

Não! O juiz não podia acreditar que um homem com uma vida tão honrada fosse um criminoso!

Mas como havia de suspeitar de Kroff se em todas as buscas feitas nada se provara contra o taberneiro!

O juiz fez observar isto mesmo a Nicolef, durante o interrogatório, que se prolongou ainda durante uma hora.

— Senhor juiz — disse enfim o professor —, é a V. Ex.a que incumbe determinar sobre qual de nós dois, Kroff ou eu, pesam maiores provas... Todo o homem justo, que examine os factos a sangue-frio, pode e deve afirmar agora que não estão do meu lado. Por motivos que sabe agora, calei as razões da minha viagem. Conhece-as, desde que Wladimir Yanof as declarou. Ora esse era o ponto duvidoso da minha causa, e está esclarecido... Foi o taberneiro que cometeu o crime? Foi um malfeitor de fora? À justiça incumbe averiguá-lo. Pela minha parte, não duvido da culpabilidade de Kroff... Sabia que Poch

ia a Revel fazer um pagamento por conta dos Srs. Johausen... Sabia que levava uma quantia considerável... Sabia que eu devia partir às quatro horas da manhã. Tudo, enfim, o que era preciso para cometer o crime e lançar a responsabilidade sobre o viajante que tinha vindo com o empregado do Banco... Antes ou depois de eu ter partido, assassinou o desgraçado. Depois de eu sair entrou no meu quarto, atirou para a lareira com o resto de uma das notas e dispôs tudo para estabelecer a minha culpabilidade... Pois bem! Se acredita que fui eu o assassino de Poch, coloque-me perante o júri. Acusarei Kroff. O debate será entre mim e ele e ficarei sabendo o que se deve pensar da justiça dos homens, se me condenarem.

Dimitri entusiasmara-se menos do que será para supor ao apresentar estes argumentos, que, segundo dizia, concluíam a sua justificação.

O Sr. Kerstorf não o interrompeu, e, quando o professor, ao terminar, acrescentou:

— V. Ex.a assina a minha ordem de prisão?

— Não, Sr. Nicolef — respondeu ele.

 

               DE MAL PARA PIOR

É evidente que a questão se limitava agora ao taberneiro Kroff e ao professor Dimitri Nicolef. O fragmento da nota encontrado ao canto da lareira excluía a ideia de o crime ter sido cometido por algum dos malfeitores por cuja presença a Polícia já tinha dado naquela região das províncias bálticas. Como poderia qualquer desses meliantes ter entrado, depois do crime, no quarto do viajante, deixado lá a tenaz, admitindo que foi com ela que a janela foi arrombada, e atirado para a lareira com aquela nota quase toda queimada, que foi encontrada debaixo das cinzas?... Como é que Dimitri Nicolef e Kroff não ouviram nada, mesmo que o seu sono fosse muito pesado?... E como é, finalmente, que o assassino poderia lembrar-se de fazer recair a responsabilidade do crime sobre o viajante?... O que é natural é que logo que o assassínio e o roubo foram perpetrados tivesse fugido o mais depressa possível e no dia seguinte já estivesse muito longe do kabak da "Cruz Quebrada».

Era evidente. A instrução devia pois restringir-se aos dois, que se encontravam em situações especiais tão diferentes, e pronunciar-se por algum deles...

Entretanto, o que não deixava de espantar os espíritos mais calmos é que, depois desta última pesquisa feita ao albergue, não se passasse mandado de prisão contra nenhum dos dois.

Imagina-se facilmente como, na série destas novas verificações, se desencadeou com mais paixão o interesse dos partidos. Além disso, convém notar que a questão redobrava mais a animosidade pública, que se dividia em dois campos, não só em Riga, mas nos três governos das províncias bálticas.

Dimitri Nicolef era eslavo e os eslavos apoiavam-no, tanto pelo interesse da causa como porque neste crime não podiam julgá-lo culpado.

Kroff era de origem germânica e os alemães defendiam-no, mais para combater Dimitri Nicolef do que pelo interesse que tivessem tomado pelo miserável proprietário de um kabak do campo.

Os jornais lutavam em artigos sensacionais, segundo a opinião que defendiam. Discutia-se nos palácios dos nobres, nas casas burguesas, nas lojas de comércio, nas casas dos operários e mercenários. Convém notar, por outro lado, que a situação do governador-geral se complicava. Aproximavam-se as eleições municipais. Os eslavos proclamavam, com mais calor e entusiasmo, Dimitri Nicolef, o seu candidato, e opunham-no a Frank Johausen. Por outro lado, a família do rico banqueiro, os seus amigos e fregueses, combatiam por todos os modos possíveis. Tinham pelo seu lado (vergonha é dizê-lo) o poder do dinheiro, e não o poupavam com os jornais do partido.

As autoridades e magistrados foram acusados de fraqueza e até de parcialidade. Exigiam a prisão do professor e os mais moderados pediam pelo menos a prisão do professor e do taberneiro. O que todos queriam era que esta questão se decidisse, fosse como fosse, antes de os dois partidos se encontrarem no terreno eleitoral, o que dentro em breve se devia realizar em condições novas, pela primeira vez.

E, no meio deste conflito que pouco lhe importava, o que era feito de Kroff?...

Kroff não saíra do kabak, onde os agentes exerciam rigorosa vigilância. Continuava com o seu mister. Todos os dias se reuniam, como de costume, na sala grande, os fregueses, camponeses e rachadores. Via-se, contudo, que esta situação não deixava de o inquietar. Desde o momento em que deixavam o professor em liberdade, temia muito ser preso. Mais insociável do que nunca, baixando os olhos diante dos olhares que mais directamente se fixavam sobre ele, acusava sem cessar Nicolef, com um excesso, uma tenacidade e uma cólera tais que lhe faziam subir o sangue às faces a ponto de fazer temer que viesse a ter alguma congestão.

Normalmente há grande júbilo numa casa em que se fazem preparativos de casamento. Toda a família está em festa. Abrem-se as janelas ao ar e à alegria.

A felicidade surge por todos os lados.

Não sucedia assim em casa de Dimitri Nicolef. Este talvez já não pensasse na questão que tanto turvara a sua vida; mas não tinha tudo a temer de credores impiedosos, os seus inimigos mais encarniçados?...

Tinham passado sete dias depois dos últimos interrogatórios no gabinete do Sr. Kerstorf. Eram 13 de Maio. No dia seguinte vencia-se a dívida assinada por Nicolef. Se logo de manhã não se apresentasse na caixa dos irmãos Johausen com os 18 000 rublos devidos, seria citado para pagar. Ora ele não possuía esta quantia. Depois de já ter pago parte das dívidas paternas, ou sejam 7000 rublos, esperava poder libertar-se do resto a pouco e pouco, mas agora estava sem dinheiro.

Era o que os Johausen esperavam e levantava-se contra o seu devedor um terrível dilema... ou Dimitri Nicolef podia pagar, ou não.

No primeiro caso, se a questão da "Cruz Quebrada» se resolvesse a seu favor, se o inquérito do Sr. Kerstorf viesse a descobrir novas provas contra o taberneiro, se, enfim, não pudesse duvidar-se da culpabilidade de Kroff se este fosse preso e condenado e afinal se tornasse bem patente a inocência do professor pela prisão do verdadeiro culpado, os Johausen ainda podiam valer-se da dívida que Nicolef não podia pagar. Executando-o sem dó, far-lhe-iam pagar o sangue do jovem Karl e tudo o mais que tinham sofrido, nos seus interesses e amor-próprio, a esse rival que levantava contra o elemento germânico a bandeira do pan-eslavismo.

No segundo caso, se Dimitri Nicolef possuía os fundos necessários para o pagamento é porque estes provinham do roubo feito no kabak. Os Johausen bem sabiam que fora com imensa dificuldade, sacrificando os últimos recursos, que o professor conseguira pagar os 7000 rublos. Aonde iria agora encontrar os 18 000 rublos restantes, senão nalgum acto criminoso?...

E então, levando aquela quantia no dia do vencimento em notas do Estado de que ignorava que os números existiam no Banco, Nicolef denunciava-se a si próprio e desta vez nem a protecção das autoridades nem a intervenção dos amigos lhe poderiam valer: estava irremediavelmente perdido.

A manhã do dia seguinte passou sem que Dimitri Nicolef se tivesse apresentado na caixa dos irmãos Johausen.

Pelas quatro horas da tarde, um aviso, assinado pelos banqueiros, preveniu Dimitri Nicolef de que tinha de pagar dezoito mil rublos, vencidos naquele mesmo dia.

Quis a desgraça que fosse Wladimir Yanof quem recebeu este aviso das mãos do distribuidor! Sim! A desgraça, como se vai ver.

Wladimir tomou conhecimento deste aviso. Dizia que Nicolef, obrigado pelas dívidas paternas, devia ainda aos Johausen uma quantia considerável. Wladimir compreendeu tudo; sabendo, além disso, que o professor tivera embaraços pecuniários pela morte de seu pai, compreendeu que Nicolef tinha respondido por ele; por outro lado, se nunca quisera dizer nada aos filhos, é porque não queria acrescentar este cuidado a tantos outros, é porque contava desembaraçar-se do resto à custa de economias e de trabalho...

Sim! Wladimir compreendeu isto e também qual era o seu dever.

O seu dever era salvar Nicolef, visto que o podia fazer. Não possuía ele uma fortuna mais que suficiente

- os vinte mil rublos provenientes do depósito deixado

por João Yanof ao professor e de que este lhe fizera entrega integral em Pernau?... Pois bem, tiraria a essa quantia o que fosse necessário para o pagamento completo da dívida, reembolsaria os Johausen e salvaria Dimitri Nicolef desta última catástrofe.

Eram cinco horas da tarde e a casa bancária fechava às seis.

Wladimir Yanof não tinha um instante a perder. Resolvido a nada dizer do que ia fazer, entrou no seu quarto, tirou da secretária o número de notas necessárias para pagar a quantia em dívida, saiu sem ser visto e dirigiu-se para a porta da rua.

Nesse momento entravam juntos João e Ilka.

— Vais sair, Wladimir?... — perguntou a rapariga, estendendo-lhe a mão.

— Vou, sim, querida Ilka — respondeu Wladimir —, mas pouco me demoro. Estarei de volta antes do jantar...

Talvez lhe tivesse passado pela ideia informar os dois irmãos do que ia fazer. Conteve-se. Se nenhum incidente o obrigasse a falar, não queria que se soubesse nada antes do casamento.

Depois, quando a rapariga fosse sua mulher, dir-lhe-ia tudo e bem sabia que concordaria com ele por ter salvo o pai, conquanto comprometesse o seu futuro.

— Vai, Wladimir, e volta breve... — pediu ela. — Estou menos inquieta quando sei que estás cá em casa. Temo sempre que meu pai...

— Anda mais triste e abatido do que nunca — observou João, cujos olhos brilhavam de cólera. — Estes miseráveis acabarão por o matar! Anda doente, mais doente do que nós julgamos...

— Exageras, João — acrescentou Wladimir. — Teu pai tem uma força moral de que os seus inimigos não triunfarão.

— Deus queira que assim seja, Wladimir! — respondeu a rapariga.

Wladimir apertou-lhe a mão e acrescentou:

— Tenham confiança! Dentro em poucos dias terão acabado todas as suas provações.

Deixou-os e vinte minutos depois entrava no Banco dos irmãos Johausen.

A caixa estava aberta e Wladimir dirigiu-se para o postigo do caixeiro. Este observou-lhe que este negócio

dizia respeito aos donos da casa, que deviam receber eles mesmos o pagamento de Nicolef, e convidou-o a ir ao gabinete dos banqueiros. Os Johausen lá estavam, e quando lhes entregaram o cartão de Wladimir Yanof exclamou um deles:

— Wladimir Yanof!... Vem mandado por Nicolef

pedir uma prorrogação de prazo...

— Nem mais um dia, nem uma hora — respondeu Frank Johausen, com voz de quem se sentia inexorável. — A partir de amanhã fá-lo-emos executar.

Wladimir Yanof, prevenido de que os Johausen o esperavam, entrou logo.

A conversa começou assim:

— Meus senhores — disse Wladimir —, venho aqui por causa de uma dívida de Dimitri Nicolef, dívida cujo prazo de vencimento termina hoje e devido à qual lhe mandaram um aviso.

— Efectivamente assim é — respondeu Frank Johausen.

— Essa dívida é de dezoito mil rublos, capital e juros.

— Assim é... dezoito mil rublos...

— E constitui o preço da obrigação que o Sr. Dimitri Nicolef contraiu para com os senhores, pela morte de seu pai...

— Isso mesmo — confirmou Frank Johausen. — Mas nós não podemos admitir nenhuma prorrogação...

— Quem lha pede, senhores?!... — replicou Wladimir

altivamente.

— Ah!... — observou o mais velho. — Como devíamos

ter sido reembolsados antes do meio-dia...

— Sê-lo-ão antes das seis horas, e julgo que a casa dos senhores não precisará por isso de suspender os seus pagamentos...

— Senhor!... — exclamou Frank Johausen, a quem estas palavras irónicas e frias excitavam a cólera. — Traz os dezoito mil rublos?!...

— Aqui estão! — declarou Wladimir, estendendo o

maço de notas do banco. — E a obrigação da dívida?

Os Johausen, não menos surpreendidos do que irritados, não responderam. Um deles foi ao cofre colocado a um canto do gabinete e tirou de lá uma pasta, dentro da qual estava a obrigação, que colocou sobre a mesa.

Wladimir pegou nela, examinou-a com atenção, verificou que era realmente a obrigação assinada por Dimitri Nicolef a favor dos irmãos Johausen e, entregando-lhes o maço de notas, disse:

— Queiram verificar.

Frank Johausen tornou-se pálido, enquanto Wladimir o cobriu com um olhar de desprezo. Tremiam-lhe as mãos ao pegar nas notas.

De repente animaram-se-lhe os olhos. Desenhou-se-lhe no rosto uma alegria feroz e afirmou com uma voz impregnada de ódio:

— Sr. Yanof, estas notas são as mesmas que foram roubadas.

— Roubadas!

— Sim, roubadas da pasta do desgraçado Poch.

— Não! Nunca! Estas notas são as que Dimitri Nicolef me foi levar a Pernau e tinham-lhe sido confiadas por meu pai!...

— Tudo se explica! — disse Frank Johausen. — Essa quantia... não podia ser entregue... e, aproveitando-se da ocasião...

Wladimir recuou um passo.

— A nossa casa conservara os números das notas e aqui está a lista deles — acrescentou Frank Johausen, tirando da gaveta da mesa uma folha de papel coberta de algarismos.

— Senhor... senhor... — balbuciava Wladimir, aterrado, sem poder pronunciar uma frase.

— Sim! — continuou Frank Johausen. — E visto que foi Nicolef quem lhe mandou vir cá trazer estas notas, é porque foi ele quem as roubou da pasta do nosso cobrador, depois de o ter assassinado no kabak da "Cruz Quebrada».

Wladimir Yanof não encontrou resposta para lhe dar... Sentia esvair-se-lhe a cabeça, abandoná-lo a razão... Entretanto, no meio do tumulto dos pensamentos, compreendeu que Dimitri Nicolef estava irremediavelmente perdido... Dir-se-ia que tinha dissipado o depósito que lhe fora confiado e que, ao sair de Riga, por ter recebido a carta de Wladimir Yanof, ia pedir perdão a este e não entregar-lhe dinheiro, que não possuía; que o acaso o fizera encontrar na mala-posta com Poch; este levava uma pasta do Banco; que ele o havia assassinado e roubado e que fora entregar as próprias notas dos Srs. Johausen ao filho do seu amigo Yanof, espoliado por um indigno abuso de confiança.

— Dimitri!... — repetiu Wladimir. — Dimitri teria!... — A não ser que tivesse sido o senhor!... — acrescentou Frank Johausen.

— Miserável!...

Wladimir, entretanto, tinha mais que fazer do que vingar este insulto pessoal.

Pouco lhe importava que se lembrassem de lhe imputar o crime... Pensava somente em Nicolef.

— Enfim! — exclamou o Sr. Johausen, depois de ter guardado o maço das notas. — Apanhámos finalmente o tratante! Agora já não são só presunções, são certezas, são provas materiais!... Bem me dizia o Sr. Kerstorf que guardasse segredo a respeito dos números das notas!... Cedo ou tarde havia de cair o assassino!... Já caiu! Vou a casa do Sr. Kerstorf e dentro de uma hora será passado um mandado de prisão contra Dimitri Nicolef!

Entretanto Wladimir Yanof saíra para a rua. Caminhava como um doido, a passo precipitado, para casa do professor.

Tentava afastar do espírito os tumultuosos pensamentos que lhe acudiam.

Não queria acreditar em coisa nenhuma sem que Nicolef se explicasse e era essa explicação que ele ia buscar. Porque, enfim, aquelas notas eram com certeza as que Dimitri Nicolef lhe levara a Pernau e ele ainda se não desfizera de nenhuma delas.

Wladimir Yanof chegou em frente da casa e abriu a porta. No rés-do-chão não estava ninguém, nem João nem Ilka, felizmente.

A simples vista de Yanof ter-lhe-ia mostrado que caíra sobre a família alguma outra desgraça e desta vez sem remédio!...

Wladimir subiu a escada que ia dar ao gabinete do professor.

Dimitri Nicolef estava encostado à mesa, com a cabeça apoiada nas mãos.

Levantou-se quando chegou Wladimir.

Este ficou na ombreira da porta.

— Que tens tu?... — perguntou Nicolef, dirigindo para ele o seu olhar cansado.

— Dimitri! — exclamou Wladimir. — Fala!... Diz-me tudo!... Não sei!... Justifica-te... É impossível!... Foge-me a razão!...

— Mas que foi?! — perguntou Nicolef. — Mais alguma desgraça que veio juntar-se às outras?!...

Pronunciou estas palavras desesperadas como pessoa que tudo espera e à qual nenhum golpe da sorte pode surpreender.

— Wladimir — continuou —, agora sou eu que te ordeno que fales... Justificar-me de quê?... Pois acreditas acaso que sou eu...

Wladimir não o deixou terminar, e disse, dominando-se por um esforço sobre-humano:

— Dimitri... há-de haver uma hora chegou cá a casa um aviso...

— Em nome dos irmãos Johausen!... — completou Nicolef. — Sabes agora qual é a minha situação para com eles... Não posso reembolsá-los e é uma dívida que há-de cair sobre a cabeça dos meus!... Wladimir, bem vês que é impossível vires a ser meu filho...

Wladimir não respondeu a esta última frase, impregnada de profunda aflição.

— Dimitri — disse depois —, pensei que era dever meu acabar com essa triste situação...

— Tu?...

— Tinha à minha disposição o dinheiro que me havias entregado em Pernau ...

— Esse dinheiro pertence-te, Wladimir... Era de teu pai. O que te entreguei era um depósito...

— Pois sim... bem sei... bem sei... e visto pertencer-me podia dispor dele à minha vontade... Peguei nas notas, as mesmas que me tinhas levado... e fui ao Banco...

— Pois tu fizeste isso! Fizeste isso! — exclamou Nico-lef, abrindo os braços para abraçar o rapaz. — Para que foste fazer semelhante coisa?... Era a tua única fortuna. Teu pai não ta deixou para ires com ela pagar as dívidas do meu!...

— Dimitri — prosseguiu Wladimir, baixando a voz —, as notas que entreguei aos Johausen... são as mesmas notas que foram roubadas da pasta de Poch no albergue da "Cruz Quebrada» e cujos números o Banco possuía...

— As notas!... As notas!...

Repetindo estas palavras, Dimitri soltou um grito horrível que se ouviu em toda a casa. A porta do gabinete abriu-se pouco depois e apareceram João e Ilka.

Ao verem o estado do infeliz, precipitaram-se sobre ele, enquanto Wladimir, à parte, escondia a cabeça entre as mãos. Nem o irmão nem a irmã se lembraram de lhe pedir explicações do acontecido.

Antes de mais nada, urgia tratar do pai, que sufocava.

Forçaram-no a sentar-se; de resto, não podia ter-se em pé. E da sua boca saíam somente estas palavras:

— As notas roubadas... As notas roubadas!...

— Que foi, meu pai? — exclamou a rapariga.

— Wladimir — perguntou João —, que aconteceu?!... Será loucura?...

Nicolef levantou-se e, indo até junto de Wladimir, pegou-lhe nas mãos, tirando-lhas da cara. Em seguida, disse-lhe com voz estrangulada, depois de o ter obrigado a olhá-lo de frente:

— Aquelas notas que tinhas recebido de mim... as que levaste à casa Johausen... são as mesmas que foram roubadas da pasta de Poch... de Poch, que foi assassinado?...

— São!... — afirmou Wladimir.

— Estou perdido!... Perdido!... — exclamou Nicolef.

E repelindo os filhos, sem que estes o pudessem impedir, saiu do gabinete e entrou no seu quarto, onde contudo se fechou, como costumava. Um quarto de hora depois, desceu a escada, abriu a porta da rua e desapareceu no bairro, no meio da escuridão da noite. João e Ilka nada haviam compreendido desta terrível cena. As palavras: «Notas roubadas! Notas roubadas!» nada podiam dizer-lhes que o pai ia ser esmagado pela evidência!

Voltaram-se para Wladimir e este, olhos baixos, a voz despedaçada, contou o que acabava de fazer e como, querendo livrar Nicolef, salvá-lo das mãos dos Johausen, o tinha perdido!...

Quem iria agora sustentar a sua inocência, quando as notas roubadas ao desgraçado Poch tinham sido encontradas senão em posse, pelo menos nas mãos de Wladimir Yanof?

Este não confessara diante dos banqueiros que aquelas notas provinham do depósito que Nicolef lhe entregara? ...

João e Ilka choravam, aterrados com esta revelação.

Neste momento a criada veio dizer-lhe que estavam à porta uns agentes da Polícia à procura do Sr. Nicolef. Enviados pelo juiz de instrução, vinham proceder à prisão do assassino da "Cruz Quebrada».

A notícia da prisão ainda se não espalhara pela cidade. Ignorava-se que a questão tomara esta nova fase — a última sem dúvida e cuja conclusão estava próxima.

Enquanto os agentes visitavam a casa para se certificarem de que Nicolef não estava, Wladimir, João e Ilka, sem trocarem uma palavra, movidos pelo mesmo sentimento, saíram para a rua.

Queriam encontrar o pai... Não o abandonariam... Apesar de tantos testemunhos terríveis e de tantas provas acumuladas, não o queriam julgar culpado. Estes pobres corações, tão unidos, revoltavam-se com este pensamento e contudo as últimas palavras pronunciadas por Nicolef: "Estou perdido! Estou perdido!» não eram como que uma confissão que lhe saía dos lábios?...

Anoitecera. Tinham visto Nicolef subir o bairro. Wladimir, João e Ilka, correndo nessa direcção, chegaram à antiga muralha da cidade. Estendia-se diante deles o campo escuro. Tomaram o caminho de Pernau, abandonando-se, por assim dizer, ao instinto que os levava para aquele lado.

À distância duns duzentos metros, pararam todos três diante de um corpo estendido à beira do caminho. Era Dimitri Nicolef! Perto dele estava uma faca ensanguentada... Ilka e João lançaram-se sobre o corpo do pai, enquanto Wladimir ia buscar socorros à casa mais próxima.

Vieram uns camponeses com uma padiola e Nicolef foi transportado para casa, onde o Dr. Hamine, chamado logo, só teve de verificar a causa da sua morte.

Dimitri estava ferido e, como o fora Poch, com um golpe no coração, que deixara em volta da ferida, à superfície da pele, um sinal semelhante ao que apresentara o cadáver do empregado do Banco.

O miserável, vendo-se perdido, suicidara-se, para escapar ao castigo do seu crime!

 

                     SOBRE UM TÚMULO

Terminara enfim este drama judiciário que tanto havia apaixonado a população das províncias bálticas e excitado a luta entre os partidos que deviam encontrar-se dentro em pouco no campo eleitoral.

Os alemães iam mais uma vez vencer, depois da morte do homem que representava o partido eslavo.

Entretanto, o antagonismo devia voltar brevemente e a russificação acabaria por operar-se sob a influência do Governo.

Dimitri tinha-se não só suicidado, mas acompanhado o suicídio por circunstâncias terríveis, que, no momento em que se produzira o incidente das notas, não permitiam pôr mais em dúvida a sua culpabilidade. Por conseguinte, quando saiu de Riga, obrigado pela carta de Wladimir Yanof que reclamava o depósito que lhe fora confiado, iria ter com o filho do amigo para lhe contar tudo, ou era projecto seu fugir, depois daquele abuso de confiança que não podia reparar?... Seria difícil saber-se isto ao certo.

O que é natural é que Nicolef tivesse ficado surpreendido com a chegada inesperada do proscrito, fugido das minas da Sibéria; que andasse empenhado nalguma maquinação onde jogasse a sua honra; que entre Wladimir, a quem não podia entregar a herança do pai, e os Srs. Johausen, a quem não lhe era possível pagar, não visse meio de salvação... E que então, encontrando o cobrador do Banco, Poch no caminho, o roubou e com o produto do roubo levou a Pernau a quantia que dissipara. Estava paga a primeira dívida... Mas por que preço?... Pelo preço de um duplo crime, um assassínio e um roubo.

Depois, quando foi descoberto, quando se fez luz sobre este caso tão obscuro até então, quando, graças aos números das notas apresentadas por Wladimir, estas tinham sido reconhecidas como sendo as mesmas que haviam sido roubadas da pasta de Poch, Dimitri Nicolef, o verdadeiro culpado, Dimitri Nicolef, o assassino, feriu-se com a mesma faca com que já ferira a sua vítima com um só golpe no coração.

O fim desta questão garantia ao taberneiro Kroff toda a segurança.

Já era tempo. No dia seguinte, o Sr. Kerstorf ia assinar a sua ordem de prisão. Desde o momento em que intervinha algum facto a favor de Dimitri Nicolef, Kroff ficava logo em evidência. Ou Nicolef ou Kroff, a justiça não podia procurar outros culpados.

Sabe-se, além disso, as presunções que se erguiam contra o estalajadeiro.

Quando o magistrado soube o que se passara no escritório dos Johausen não foi dos que ficaram menos admirados, ao ter de proclamar a inocência de Kroff e a culpabilidade de Nicolef.

Kroff voltou à sua vida habitual no kabak da "Cruz Quebrada» e soube aproveitar a situação e explorá-la.

Não era como que um condenado reabilitado, desde que se reconheceu a injustiça da sua condenação?!... Falou-se dele ainda durante alguns dias, depois todos o esqueceram.

Os banqueiros é que, se não haviam sido inteiramente reembolsados da dívida que para com eles contraíra Dimitri Nicolef, recuperaram pelo menos os 18 000 rublos que Wladimir lhes entregara.

Depois do enterro do professor, Ilka e João, que não tornaria a ir para a Universidade de Dorpat, voltaram para a casa cujos umbrais os numerosos amigos de Nicolef não se atreviam a transpor. Só três os não abandonaram na desgraça:

Wladimir Yanof, que nem era preciso nomear, o Sr. Delaporte e o Dr. Hamine.

Os dois irmãos não viam na sua vida nada iluminado. Tudo lhes parecia escuro, mesmo o que dizia respeito a Nicolef, que, contra vontade, parecia que acreditavam culpado!... Chegavam a dizer que talvez a razão lhe tivesse fugido com a persistência da má sorte em o perseguir, e tivesse endoidecido; que num acesso de loucura se suicidara, mas que esse suicídio não podia provar que tivesse sido ele o autor do crime da «Cruz Quebrada»...

Wladimir Yanof, escusado será dizer, pensava assim, recusando-se a admitir o que os factos demonstravam materialmente! E, todavia, como é que estas notas numeradas estavam nas mãos de Dimitri Nicolef, se este as não tinha roubado do cadáver de Poch?...

Quando discutia com o Dr. Hamine, o mais velho amigo da família, este respondia-lhe com uma lógica irrefutável:

— Admitiria tudo, meu caro Wladimir, admitiria que não foi Nicolef que roubou Poch, conquanto o produto do roubo lhe fosse encontrado, admitiria mesmo que o seu suicídio não prova que é culpado e que se matou numa crise de loucura ocasionada por tão terríveis provações... Mas há um facto que domina tudo... É que Dimitri Nicolef feriu-se com a mesma faca com que foi morto Poch, e diante deste facto é preciso rendermo-nos à evidência, por mais terrível e, direi mais, inverosímil que seja...

— Se assim é — continuou Wladimir, fazendo uma última observação —, Dimitri Nicolef tinha uma faca desse género e nunca nenhum dos filhos a viu?... Há qualquer coisa de inexplicável!...

— À qual eu vou responder, Wladimir... Não se pode duvidar de que Nicolef tinha essa faca, porque se serviu dela por duas vezes, contra Poch e contra si próprio!

Wladimir Yanof curvava-se diante da evidência, sem saber o que responder.

O Dr. Hamine lembrou-se então:

— E agora o que sucederá a estas duas desgraçadas crianças?... João e Ilka?...

— João será meu irmão quando Ilka for minha mulher!

O doutor pegou na mão de Wladimir e apertou-a com efusão.

— Pois o doutor sonhou sequer que eu renunciaria a casar com Ilka, a quem amo, que me ama... ainda que seu pai fosse culpado?

Se se obstinava em não acreditar Nicolef criminoso é porque só encontrava no seu amor forças para duvidar depois do que o Dr. Hamine dissera.

— Não, Wladimir! Nunca duvidei de que quisesses casar com Ilka!... Que culpa tem a infeliz de tudo isto?...

— Nenhuma, decerto! — exclamou Wladimir. — A meu ver, é a mais nobre e a mais santa das criaturas, a mais digna do amor de um homem honrado!... O nosso casamento foi adiado, mas há-de fazer-se. Depois, se for preciso sairmos desta cidade, sairemos...

— Wladimir, reconheço a nobreza do teu coração! Queres casar com Ilka... Porém ela... aceitará?...

— Se recusasse é porque me não amava.

— Se recusar, Wladimir, é porque te ama, e tanto que não quer que tu possas vir a corar por sua causa!

Esta conversa de modo algum alterou as tenções de Wladimir Yanof, resolvido, pelo contrário, a apressar o seu casamento com Ilka e a realizá-lo logo que as circunstâncias o permitissem. Não era homem que desse importância ao que viesse a dizer-se na cidade nem ao que os outros pensassem a seu respeito, nem à própria censura dos amigos. O que o inquietava era uma outra circunstância: a sua situação pessoal.

Do depósito que Dimitri Nicolef lhe entregara pouco lhe restava: uns 2000 rublos, depois do que pagara aos irmãos Johausen. É verdade que essa fortuna tinha ele sacrificado quando fora ao Banco pagar a dívida de Dimitri Nicolef. Pois bem! Se o futuro então o não inquietava, para que o havia de inquietar agora?...

Trabalharia para si e para sua mulher. Com o amor de Ilka nada lhe seria impossível.

Haviam passado quinze dias. João, Ilka, Wladimir e o Dr. Hamine não se tinham separado, por assim dizer.

O doutor e com ele, muitas vezes, o Sr. Delaporte foram os únicos que voltaram a casa do professor.

Wladimir ainda não pronunciara uma única palavra relativamente ao casamento. A sua presença dizia tudo. Por outro lado nem João nem Ilka haviam feito nenhuma alusão a esse respeito.

A maior parte das vezes os dois irmãos conservavam-se em silêncio e durante longas horas fechavam-se num quarto.

Wladimir resolveu então fazer sair a rapariga da reserva que conservava, e disse-lhe comovido, naquele mesmo dia, quando se encontrou a sós com ela:

— Ilka, quando saí de Riga há quatro anos, quando me separei de ti e fui mandado para a Sibéria, prometi que nunca mais te esqueceria... Esqueci-te?...

— Não, Wladimir.

— Prometi-te que sempre te amaria... Os meus sentimentos mudaram?...

— Nem os meus por ti, Wladimir, e, se me tivessem deixado, iria ter contigo e casaríamos lá...

— Ias casar com um condenado?!...

— Ia casar com um exilado... — respondeu a rapariga. Wladimir compreendeu que pensamento ia nesta resposta. Não quis, contudo, ficar por aqui e continuou:

— Pois bem! Não precisaste de ir lá para seres minha mulher... As circunstâncias mudaram e fui eu que vim cá para ser teu marido...

— Tens razão em dizeres que as circunstâncias mudaram, Wladimir!... Sim! Horrivelmente!

Ilka pronunciou esta palavra com tal acento doloroso que todo o seu corpo estremeceu.

— Querida Ilka — continuou Wladimir —, por mais cruel que antevejas o futuro, quero falar-te... Não me demorarei... Venho simplesmente pedir-te que mantenhas as tuas promessas...

— As minhas promessas, Wladimir! — respondeu Ilka, sem poder conter os soluços que a sufocavam. — As minhas promessas!... Quando as fiz era digna de as fazer... Hoje...

— Hoje, como sempre, Ilka, és digna de as manter!

— Não, Wladimir! É preciso esquecer os projectos que tínhamos feito...

— Bem sabes que nunca os esquecerei! Se se tivessem realizado já há quinze dias, não estaríamos um com outro se não fosse a desgraça que se produziu na véspera do nosso casamento?...

— Estávamos! — respondeu Ilka com resignação. — E Deus seja louvado por não se ter realizado essa união! Não terás agora de te arrependeres nem de corar por teres entrado numa família em cujo seio se introduziram a vergonha e a desonra!...

— Ilka — afirmou Wladimir com gravidade —, nunca me arrependeria, juro-to, e nunca coraria por ser marido de Ilka Nicolef, que de modo algum foi atingida por essa vergonha!

— Pois bem!... Sim... Acredito, Wladimir! — exclamou a rapariga, com o coração a transbordar. — Conheço a nobreza do teu carácter! Não te arrependerias!... Não corarias por minha causa!... Amas-me de toda a tua alma, mas não mais do que eu te amo...

— Ilka! Minha querida Ilka!... — exclamou Wladimir, tentando pegar-lhe na mão.

Ilka retirou-a docemente e respondeu:

— Sim, nós amamo-nos! O nosso amor era a felicidade... Mas o nosso casamento tornou-se impossível.

— Impossível!... — repetiu Wladimir. — Eu é que hei-de resolver, visto que sou o único juiz nesta questão. Não sou nenhuma criança, Ilka! A minha vida não tem sido tão sossegada nem tão feliz que me não tenha habituado a pensar sempre no que faço!... Parecia-me, visto que te amo e tu me tens amor, que havíamos de ser muito felizes... Esperava que tivesses confiança em mim para achares justo o que eu acho justo, quando tivesse de julgar uma situação que não podes julgar como deve ser...

— Que julgo como todo o mundo, Wladimir?...

— E o que me importa a opinião desse a quem chamas o mundo, querida Ilka?... O mundo para mim és tu, só tu... Sairemos desta cidade, se assim o quiseres... João irá connosco e seremos felizes, juro-to! Ilka, minha querida Ilka, diz-me que queres ser minha mulher!...

Wladimir lançou-se de joelhos, pediu, suplicou. Mas parece que Ilka teve ainda mais horror de si própria quando o viu nessa atitude.

— Levanta-te! Levanta-te!.,. — suplicou. — Ninguém se ajoelha diante da filha de um...

Wladimir não a deixou terminar.

— Ilka!... Ilka!... — repetia ele, com a cabeça perdida e os olhos cheios de lágrimas. — Sê minha mulher!...

— Nunca! — respondeu Ilka. — Nunca a filha de um assassino será a mulher de Wladimir Yanof!...

Esta cena tinha-os alquebrado a ambos. Ilka foi para o seu quarto. Wladimir, tendo chegado ao paroxismo do desespero, saiu da casa, andou ao acaso pelas ruas, vagueou pelos campos e refugiou-se enfim em casa do Dr. Hamine. O doutor compreendeu logo que tinha havido alguma explicação entre os noivos, separados agora por um abismo intransponível, cavado pelas convenções sociais.

Wladimir contou tudo o que se passara, repetindo as súplicas que fizera a Ilka para lhe fazer mudar a resolução.

— Oh! meu caro Wladimir! Bem te tinha dito — volveu o Dr. Hamine. — Conheço bem Ilka: nada a fará mudar de tenções...

— Ah! doutor. Não me tire as esperanças que me restam!... Ela consentirá...

— Nunca, Wladimir! É uma alma indomável!... Sente-se manchada e não quererá ser tua mulher, por ser filha de um assassino...

— E se o não fosse?!... — exclamou Wladimir. — Se o pai dela não fosse o autor do crime?...

O Dr. Hamine voltou a cabeça para não responder a esta pergunta, que, quanto a ele, estava resolvida. Então Wladimir, contendo-se, tomando plena e completa posse de si mesmo, disse com voz grave, em que transparecia uma força extraordinária de vontade:

— Eis simplesmente o que lhe quero dizer, doutor: considero Ilka como minha mulher perante Deus... e esperarei...

— O quê, Wladimir?...

— Que Deus intervenha!

Passaram-se alguns meses. A situação não tinha mudado. Reinava o silêncio entre as diversas classes da cidade, relativamente a este caso. Já ninguém falava em tal coisa. O partido germânico tinha vencido as eleições municipais. Frank Johausen, reeleito, fingia não se lembrar já da família Nicolef. Contudo, João e Ilka, absolutamente de acordo neste ponto, não se haviam esquecido da obrigação assinada pelo pai a favor do banqueiro. Consideravam como um dever libertarem-lhe a memória — pelo menos nesse ponto.

Para isso era preciso tempo. Era preciso desfazerem-se do pouco que tinham, venderam a casa paterna, a biblioteca do professor e tudo enfim que fosse possível. Talvez que, sacrificando-se até aos últimos recursos, conseguissem pagar toda a dívida.

Depois... veriam... Ilka podia dar lições... se houvesse quem a quisesse... Talvez noutra cidade, João procuraria entrar nalguma casa comercial.

Enfim, precisavam de viver! Os recursos esgotavam-se. Algumas economias, feitas por Ilka nos ganhos do pai, diminuíam de dia para dia. Era preciso fazerem a liquidação o mais cedo possível. Os dois irmãos depois decidiriam se haviam ou não de ficar em Riga.

Escusado é dizer que Wladimir Yanof, depois da recusa da rapariga, teve de sair da casa, pelo menos para guardar as conveniências. Instalou-se contudo no arrabalde, e tão perto, que ia lá a miúdo como se ainda lá vivesse. Dava conselhos para verem como haviam de arranjar o pecúlio destinado a reembolsar os irmãos Johausen e ele era ouvido como o dos mais devotados e sincero amigo da família. Pôs à disposição de Ilka tudo o que lhe restava da herança paterna, mas Ilka não quis aceitar nada.

Então Wladimir, admirando esta altivez da sua alma, subjugado pela nobreza do seu carácter, adorando Ilka, implorava-lhe que consentisse no casamento, que não se obstinasse em julgar-se indigna dele, que cedesse às instâncias dos amigos do pai...

Nada conseguia dela — nem sequer uma esperança para o futuro — e encontrava sempre uma vontade implacável.

O Dr. Hamine, testemunha do desespero de Wladimir, tentava algumas vezes demover Ilka do seu propósito, mas todos os seus esforços eram vãos.

— A filha de um criminoso não pode vir a ser mulher de um homem honrado! — era a resposta da rapariga.

Toda a gente sabia isto na cidade e todos admiravam esta natureza enérgica que ao mesmo tempo inspirava a maior simpatia.

Entretanto o tempo decorria sem a situação mudar.

Não houvera ainda mais nenhum incidente, quando, no dia 17 de Setembro, chegou uma carta, dirigida a João e Ilka Nicolef.

Esta carta era assinada pelo pope(13) de Riga, velho de setenta anos, venerado por toda a população ortodoxa, e junto do qual Ilka ia por vezes buscar as consolações que só a religião pode dar.

O pope convidava os dois irmãos a irem naquele mesmo dia, às cinco horas, ao cemitério de Riga. Ao mesmo tempo, o Dr. Hamine e Wladimir, que haviam recebido cartas idênticas, foram logo de manhã a casa de Dimitri Nicolef. João mostrou-lhe a carta do pope Axief.

— Que significará este convite — disse ele — e para que será esta reunião no cemitério?

Era no cemitério onde fora enterrado o corpo de Dimitri Nicolef, sem que a igreja tivesse tomado parte no funeral do suicida.

— Que pensa, doutor?... — perguntou Wladimir.

— Penso que devemos ir aonde nos manda ir o pope. É um padre respeitável, sisudo e prudente, e, se nos fez este convite, é porque há razões sérias para o fazer...

— Vens, Ilka?... — perguntou Wladimir, dirigindo-se à rapariga, que ficara silenciosa.

— Já tenho ido mais de uma vez rezar à sepultura de meu pai... — respondeu Ilka. — Irei... E que Deus nos oiça quando o pope Axief unir as suas orações às nossas...

 

*13. Padre russo do rito grego.

 

— Lá estaremos todos às cinco horas — afirmou o Dr. Hamine.

Wladimir e ele retiraram-se.

À hora combinada, João e Ilka chegaram ao cemitério, onde já encontraram os amigos, que os esperavam à porta. Dirigiram-se para o sítio onde repousava o corpo de Dimitri Nicolef. O pope, ajoelhado sobre a sepultura, orava por alma do infeliz. Com o ruído dos passos, ergueu a bela cabeça branca e levantou-se. Os olhos fais-caram-lhe com extraordinário brilho. Estendeu as mãos para fazer sinal aos dois irmãos e ao doutor para se aproximarem.

Quando Wladimir e Ilka se colocaram um de cada lado da modesta sepultura, disse o pope:

— Wladimir Yanof... a tua mão.

Depois, dirigindo-se à rapariga, acrescentou:

— Ilka Nicolef... a tua mão.

E uniu estas duas mãos, por sobre a campa. Era tal a energia do seu olhar e a expressão de bondade do seu rosto, que Ilka deixou ficar a mão sobre a de Wladimir.

O pope, então, pronunciou com voz grave estas palavras:

— Wladimir Yanof e Ilka Nicolef, estão unidos perante Deus.

A rapariga não pôde suster um movimento que a obrigou a retirar a mão.

— Deixa, Ilka Nicolef — ordenou o pope, brandamente. — A tua mão está sobre a daquele que tu amas...

— Eu... — exclamou Ilka. — A filha de um assassino?...

— A filha de um inocente, que não teve culpa de o terem assassinado! — respondeu o pope, olhando para o céu.

— E... o assassino?... — perguntou João, trémulo de comoção.

— Foi o estalajadeiro da "Cruz Quebrada»! Foi Kroff!...

 

                 CONFISSÃO

O estalajadeiro Kroff tinha morrido na véspera, quase de repente, com uma congestão pulmonar.

Antes de morrer, torturado pelos remorsos havia cinco meses, mandara chamar o pope para lhe ouvir a confissão. Esta confissão escreveu-a o padre e assinou-a depois Kroff.

Era a condenação de Kroff e a reabilitação de Dimitri Nicolef.

Pela confissão do autor do crime ver-se-á por que sucessão de circunstâncias conseguira Kroff que Nicolef ficasse responsável.

Na noite de 13 para 14 de Abril, Dimitri Nicolef e Poch tinham chegado ao kabak da "Cruz Quebrada». Quando viu a pasta de Poch, o estalajadeiro, cujos negócios corriam mal há uns meses a essa parte, concebeu o projecto de roubar o empregado do Banco. Entretanto a prudência aconselhava-o a esperar que o outro viajante, que devia partir às quatro horas da manhã, saísse do albergue.

Contudo, não podendo sofrear a impaciência, entrou pelas duas horas da manhã no quarto de Poch, julgando que ninguém o sentia. Poch, no entanto, não dormia e levantou-se do leito, iluminado pela lanterna de Kroff. Este somente queria roubá-lo, mas, vendo-se descoberto, precipitou-se sobre o desgraçado e com a faca que tinha à cintura — uma faca sueca com virola — feriu-o mortal mente no coração.

Revolveu então a pasta de Poch.

Dentro estavam 15 000 rublos, em notas de Banco de 100 rublos cada uma.

Qual não foi porém o espanto de Kroff quando numa das pregas da pasta viu um bilhete com estas palavras:

"Lista dos números das notas, de que está um duplicado nas mãos dos irmãos Johausen.»

Era uma precaução que Poch sempre tomava quando ia fazer pagamentos por conta do Banco.

Por isso aquelas notas, cujos números eram conhecidos, não podiam ser utilizadas sem grande perigo de ser preso!... Fora um assassínio inútil!...

Foi então que lhe veio à ideia fazer recair a responsabilidade do crime sobre o viajante que ocupava o outro quarto.

Saiu do albergue, fez as arranhaduras por debaixo dos caixilhos da primeira janela, arrombou os contraventos da segunda com uma tenaz e entrou na casa.

Enraivecido por ver que as notas eram não só inúteis mas até perigosas para quem as possuísse, atravessou-lhe então a imaginação a mais diabólica das inspirações.

Porque não havia de entrar no quarto do viajante e meter-lhe no bolso as notas, tirando-lhe as que lá trazia com certeza?...

Sabe-se que Dimitri Nicolef levava 20 000 rublos para Wladimir Yanof.

Enquanto ele dormia profundamente, Kroff encontrou-lhe no bolso aquela quantia em notas do Banco... Ninguém sabia os números delas!... Tirou 15 000 rublos, colocou no lugar delas as notas do empregado do Banco e saiu do quarto sem ser pressentido.

Depois foi esconder ao pé de um pinheiro aquela quantia e a faca com que matara Poch, e tão bem que escaparam às investigações da Polícia.

Às quatro horas da manhã, Dimitri Nicolef despediu-se do estalajadeiro e saiu da "Cruz Quebrada» para ir para Pernau, onde Wladimir Yanof o esperava. Compreende-se agora por que série de hábeis maquinações é que as suspeitas iam recair sobre o professor, para mudarem bem depressa em certezas.

Uma vez de posse das notas de Dimitri Nicolef, que não descobriu nem podia de modo algum descobrir a substituição, podia utilizar-se delas sem perigo. Não o fez, contudo, senão com a máxima prudência e somente para as suas necessidades imediatas.

No decurso da instrução do crime, Dimitri Nicolef foi reconhecido pelo brigadeiro Eck como sendo o viajante sobre quem deviam recair as suspeitas.

O professor, negando que fosse o autor do crime, recusava-se no entanto a dar a conhecer os motivos da sua viagem e teria por certo sido preso se a chegada de Wladimir Yanof não tivesse respondido por ele.

Ao ver que as suspeitas se afastavam de Dimitri Nicolef, Kroff teve medo de que se voltassem contra ele. Conquanto estivesse sempre debaixo da vigilância dos agentes, no albergue, imaginou uma nova maquinação, que a seu ver devia voltar as suspeitas para o viajante, apontando-o como autor do crime. Depois de ter queimado uma nota que sujara com sangue e de que deixara um bocado, conseguiu durante a noite subir ao telhado do albergue e deitar aquele bocado pela chaminé do quarto, onde foi encontrado na segunda busca.

No decurso da instrução sabe-se que Dimitri Nicolef foi de novo interrogado e sabe-se também que o Sr. Kerstorf, que no fundo não podia julgá-lo criminoso, não o mandou prender.

Kroff, mais inquieto do que nunca, estava ao facto do que diziam os defensores de Nicolef, acusando-o a ele de ter assassinado o empregado do Banco, ter preparado tudo para excitar a opinião pública contra um inocente e de ter, depois da partida do viajante, colocado a tenaz no quarto dele e misturado com as cinzas o bocado da nota, que escapara à primeira pesquisa.

Seguia-se daí que tudo o que Nicolef ganhava na opinião pública era perdido por Kroff. Esperava este, entretanto, que a apresentação das notas roubadas fosse um último golpe dado em Nicolef e do qual se não tornaria a levantar...

Mas Wladimir ainda não tivera ensejo de fazer uso de tais notas!...

Enfim, Kroff compreendeu que ia ser preso e se o prendessem estava perdido. Ah! se ele soubesse que as notas roubadas iam parar às mãos dos Srs. Johausen no dia 14 de Maio e que se reconheceria então que eram as mesmas que Poch levava na pasta, o que determinaria a definitiva condenação de Nicolef, não teria tido a ideia infernal de se justificar de um primeiro crime cometendo outro!

Mas não o soube, ou, antes, soube-o só depois de ter cometido o segundo crime. Estava livre ainda, e livremente ia a Riga, onde muitas vezes o chamavam ao juiz de instrução. Foi lá nesse mesmo dia à noitinha e rondou a casa do professor, resolvido a matar Nicolef para fazer acreditar num suicídio... As circunstâncias favoreceram-no.

Viu sair Nicolef, como doido, depois da terrível cena com Wladimir, diante dos filhos. Seguiu-o através dos campos e ali, num sítio deserto, feriu-o com a mesma faca com que assassinara Poch e que deixou perto dele.

Quem duvidaria então que Dimitri Nicolef, aterrado pela última verificação relativa às notas roubadas, se tivesse suicidado e que fora ele o verdadeiro assassino da «Cruz Quebrada»?...

Ninguém, e este novo crime ia dar ao seu autor o resultado esperado.

Por isso a instrução devia considerar-se terminada e Kroff, livre de toda a suspeita, se não de todo o remorso, podia gozar tranquilamente o fruto do duplo assassínio.

As notas de Banco que tinha em seu poder eram as mesmas que substituíra pelas que Poch trazia e das quais se conheciam os números. Podia facilmente servir-se delas sem perigo.

Kroff, no entanto, não gozou por muito tempo o fruto dos seus crimes. Na véspera, atacado por uma congestão e aterrado com a aproximação da morte, tinha ditado ao pope a sua confissão, pedindo-lhe que a tornasse pública e entregou-lhe, quase intacto, o depósito que constituía a legítima propriedade de Wladimir Yanof.

A reabilitação de Dimitri Nicolef foi completa. Mas no entanto, que dor para os seus filhos e amigos, agora que a morte o lançara num túmulo!...

E assim terminou este drama sensacional que tanto deu que falar nos anais judiciários das províncias bálticas. 

 

                                                                  Julio Verne

 

 

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