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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM DRAMA NA VIDA DE UM MÉDICO / Alix André
UM DRAMA NA VIDA DE UM MÉDICO / Alix André

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

O dr. Filipe Forestier terminara a aula. Como de costume, os estudantes dos dois sexos, sentados nas bancadas do anfiteatro, a quem ele, durante uma hora havia mantido subjugados pela sua palavra, levantaram-se com pesar.

Aquela reunião fora a última do ano.

 

 

 

Lá fora, o sol ardente de Julho queimava Paris. O ar turvo e o cheiro do asfalto esquentado faziam arder a garganta. No entanto, a despeito da perspectiva das frescas sombras, das fontes cristalinas, das serras ou das praias de brisas refrescantes, todos, mesmo os que iam para férias, haviam prestado ao professor idêntica atenção.

A personalidade do professor Forestier explicava, de resto, o ascendente exercido sobre os alunos e a admiração que estes lhe tributavam. Forestier era um dos mais novos professores da Universidade. Naquela altura, após muitos anos de professorado, apesar dos seus cabelos brancos, dir-se-ia não ter ainda atingido a maturidade da vida. Mas, no meio científico, ninguém deixava de reconhecer-lhe o saber, o valor e a importância dos seus trabalhos, que bastavam, já para ilustrar uma vida inteira.

Forestier não era um homem bonito. Possuía, porém, o rosto pálido de feições acentuadas, testa alta, olhos escuros e luminosos e ainda um vigor físico que muitos dos seus alunos mais novos e desportivos lhe invejavam. A sua elegância condizia em absoluto com a pessoa. Não resultava apenas do trajo sóbrio e requintado, mas da harmonia que se adivinhava existir entre o seu aspecto físico e o que se conhecia ou supunha saber-se da sua personalidade moral.

Raramente sorria ou se animava. No entanto, a sua máscara fria, mas expressiva, exercia estranho poder sobre aqueles com quem convivia e, principalmente, sobre os alunos.

Durante muitos anos, a cirurgia moderna tivera nele um dos seus mais extraordinários apóstolos. Especialista em operações no cérebro, o moço professor adquirira, sobretudo nas intervenções mais delicadas, um renome que, rapidamente, se espalhara por toda a França. As suas opiniões, diagnósticos e decisões faziam lei. com notáveis comunicações à Academia das Ciências despertou o interesse da classe médica de todo o Mundo. E, coisa muito rara, a unanimidade foi geral, apesar da sua pouca idade. Nem um só dos colegas lhe contestou o valor.

Chefe do serviço de cirurgia, Forestier dividia a sua intensa actividade entre o hospital onde todas as manhãs operava e a Faculdade onde regia a cadeira de anatomia e dirigia os trabalhos de laboratório a ela inerentes. Um dia, o imponderável, uma estúpida catástrofe pôs termo a esta brilhante carreira. Numa excursão pela Provença, o automóvel do doutor Forestier, lançado a toda a velocidade, foi esmagar-se contra uma árvore. Um dos ocupantes morreu e outro ficou gravemente ferido. Quanto ao professor que, de todos parecia o menos atingido, perdeu, no desastre, o uso da mão direita. Não os movimentos habituais. À primeira vista, coisa alguma denunciava a inferioridade. Não podia, porém, dominar esses movimentos, faltava-lhe a destreza, a precisão, em resumo, a leveza e ao mesmo tempo a certeza, indispensáveis ao manejo do bisturi.

Desde esse dia, Filipe Forestier nunca mais operou. Os alunos chegaram a recear que ele deixasse de os guiar nas dissecações e nos trabalhos práticos de laboratório e até - correu esse boato - que ele abandonasse a cadeira de anatomia.

Felizmente, nada disso aconteceu. Forestier, em Outubro, reapareceu no anfiteatro, como sempre eloqüente, grave e frio, mas também com os primeiros cabelos brancos. Era aquele o terceiro ano em que, tendo abandonado por completo as actividades cirúrgicas, se consagrara, unicamente, ao professorado.

Já de pé, proferiu algumas palavras na voz clara e de profundas ressonâncias, que dava aos seus ensinamentos tanta autoridade e atractivo. Agradeceu a atenção prestada pelos alunos durante os meses decorridos, felicitou-os pelos resultados obtidos nos exames a que haviam sido submetidos durante o ano e afirmou a sua esperança de êxito para aqueles que iriam começá-los no dia seguinte. Por fim, pôs-se à disposição dos alunos, se desejassem fazer-lhe algumas perguntas, antes de se separarem.

Enquanto ele falava, Karen olhava-lhe para as mãos, mãos admiráveis, harmoniosas na forma, nervosas e bem tratadas. E, de si para si, lamentou que tivessem deixado de ser dispensadoras da vida.

Como não tivesse perguntas a fazer, não se aproximou do professor. Os seus estudos, tal como a sua vida, seguiam um caminho direito e sombrio para um horizonte igualmente sombrio... sem esperanças de possível modificação. Para ela, os meses de férias, de passeios, de descanso, seriam meses de trabalho ainda mais duro do que os precedentes... se chegasse a encontrar trabalho.

Os alunos começaram a debandar. Karen pegou na pasta onde guardava os apontamentos, abandonou o lugar e dirigiu-se para a saída. Quando estava prestes a atingi-la, alguém chamou:

- Mademoiselle Rochel!

Parou, olhou para o grupo que, pouco antes, ocultava o professor Forestier e corou. Este último, destacando-se do círculo dos rapazes que, respeitosamente, o rodeavam, deu alguns passos para ela.

- Mademoiselle Rochel! - repetiu. E, logo a seguir, acrescentou:

- Não serei importuno se lhe pedir para se demorar mais um pouco?

Surpreendida, Karen respondeu negativamente, tentando adivinhar o que o "patrão" pretendia. E esperou que Forestier, depois de todos os rapazes sairem, se aproximasse dela.

- Peço-lhe perdão, mademoiselle-começou Forestier com a habitual cortesia - por tê-la demorado e por obrigá-la, talvez contra vontade, a uma conversa não muito indicada para um anfiteatro. Mas, como ignoro a sua morada, não podia pedir-lhe para ir a minha casa nem ir visitá-la.

Calou-se um instante, e Karen aguardou, sem proferir palavra, o seguimento cujo sentido não conseguira descobrir pela declaração do professor.

Este continuou quase logo:

- Se não me engano, o ano que hoje termina foi para si muito satisfatório. Obteve os maiores triunfos, tanto nos interrogatórios aos quais respondeu com brilho, como nos trabalhos práticos, para os quais a considero excepcionalmente dotada.

Ignorando a atrapalhação de Karen, surpreendida com tantos elogios, prosseguiu:

- Que idade tem?

- Vinte e dois anos.

- Há quanto tempo é externa?

- Há dois anos.

- Se não estou em erro, obteve excelente classificação no concurso para o externato. Qual foi?

- acrescentou, procurando uma confirmação.

- A primeira - murmurou Karen.

- É isso. É uma pessoa de mérito.

Karen esboçou um gesto de confusão que Forestier pareceu não notar. Envolveu-a num olhar penetrante, quase de reprovação, como se lhe desagradasse que a inteligência mais brilhante do seu curso tivesse aquele aspecto. Um rosto pálido com olhos cinzentos claros sob sobrancelhas pretas e cabelos cor de oiro. Pouco sensível aos atractivos físicos das alunas, era, a despeito do contacto quase quotidiano, a primeira vez que via Karen Rochel.

- O cuidado que lhe mereceram os estudos, durante o ano, autoriza-me a perguntar-lhe o que vai fazer nas férias. Trabalhar, naturalmente?...

Karen mordeu os lábios. Súbito pudor, que ela mesmo classificou de ridículo, impediu-a de confessar a Forestier a sua necessidade de começar a ganhar a vida.

- Sim, professor, trabalhar - respondeu evasivamente.

Ele fixou-a com um olhar ao qual coisa alguma devia passar despercebida e Karen censurou-se, imediatamente, pela meia mentira. Corajosa, dispunha-se a emendá-la, quando Forestier interrogou:

- Ainda é um pouco cedo, mas... já pensou na sua tese?

- Já - declarou ela com súbita animação.

- Qual é?

- Gostaria de demonstrar como, nas operações do cérebro, o choque operatório pode, em determinados casos, provocar...

Calou-se, estupefacta com a palidez do médico.

- Acabe - ordenou este em voz surda - provocar o quê?... A loucura... a morte? É esse então o assunto que a tenta? - prosseguiu sem lhe dar tempo a responder - É árduo. Não lhe falta coragem, mademoiselle! Permita-me apenas manifestar-lhe o meu espanto por uma aluna do terceiro ano, a quem falta a experiência pessoal, se achar com forças para levar a cabo semelhante tarefa.

Aterrada, Karen escutou-o em silêncio. Quando Forestier se calou, limitou-se a murmurar:

- Pareceu-me que qualquer das suas alunas podia, sem demasiada presunção, abordar esse assunto, professor. Mas visto a sua opinião ser outra, renuncio.

A saída de dois estudantes atrasados que atravessaram a sala e, de passagem, cumprimentaram Forestier, dispensou este de responder. Depois deles sairem, a porta voltou logo a abrir-se para dar entrada a uma rapariga que devia ter perdido alguma coisa, pois se dirigiu ao lugar que ocupara durante a aula e se demorou bastante tempo a procurar. Esta incursão irritou o médico.

- Impossível conversar aqui! -murmurou. E, dirigindo-se a Karen, acrescentou em voz alta:

- Importa-se de continuar esta conversa noutro lado? Em minha casa, por exemplo? O meu carro está à porta. Se pode dispensar-me algum tempo...

A voz era calma e o semblante retomara a expressão normal. Mesmo assim, Karen sentiu desejo de recusar. No entanto, a extraordinária autoridade que o médico exercia sobre os seus alunos levou-a a responder com uma afirmativa. Forestier pegou no chapéu e nas luvas que, ao chegar, colocara como sempre em cima da secretária e, acompanhado pela estudante, dirigiu-se para a porta.

Diante do edifício muitos dos camaradas de Karen discutiam antes de se separarem. Ao verem o professor calaram-se. O facto de Karen o acompanhar e entrar com ele para o carro, deixou-os mudos de espanto. Karen pressentiu a estranheza dos companheiros, a troca de palavras, os comentários e as suposições feitas nas suas costas. Isso causou-lhe certo constrangimento, que a tornou incapaz de proferir palavra durante todo o trajecto.

Da resto, o professor também não parecia disposto a conversar. Conduzia com velocidade, mas com absoluta segurança, por forma alguma atrapalhado com a rigidez da mão direita. Não levou muito tempo a chegar ao prédio em que habitava, a dois passos do Luxemburgo.

Como Forestier entrasse com ela num vestíbulo bastante escuro, todo atapetado, um criado apareceu e, aproximando-se do médico, proferiu algumas palavras que Karen, por discreção, se esforçou por não ouvir. O professor voltou-se para ela.

- Um maçador que não vou receber, mas despedir. Quer ter a bondade de esperar uns momentos no meu escritório?

Afastou-se, enquanto o criado abria diante de Karen a porta de um aposento tão escuro como o vestíbulo e com aspecto severo. A rapariga sentou-se numa poltrona, com as mãos cruzadas sobre a pasta, um pouco oprimida pelo silêncio e pela austeridade do ambiente.

Os cortinados, cuidadosamente corridos, deixavam filtrar um raio de sol. Graças a ele emergiam da sombra as grandes estantes de madeira escura que guarneciam as paredes, a secretária do médico, carregada de livros e papéis, e as pesadas poltronas de cabedal dispersas pela casa atapetada de alcatifa escura. com aquela obscuridade tinham tentado, talvez, fugir ao calor e, de facto, a temperatura, ali, era agradável. No entanto, a semi-obscuridade e o aroma leve, mas persistente, do tabaco inglês, provocavam uma sensação opressiva, sensação que mais se agravava com a ausência completa de uma nota pessoal: estátua, quadro ou fotografia sobre os quais o olhar pudesse repousar.

Karen tentava analisar as suas impressões quando se abriu a porta, à qual voltava as costas. Pelo ruído estranho, uma espécie de martelar que acompanhou a entrada da pessoa recém-chegada, Karen adivinhou não se tratar do professor Forestier. Em conseqüência, abandonou a poltrona e, a supor pela exclamação que a outra soltou pois se tratava de uma rapariga - a sua presença devia ter provocado viva surpresa. No entanto, depressa se dominou. Inclinando a cabeça, disse:

- Ignorava que o professor tivesse visitas. Desculpe, madame.

Lamentando o susto que involuntariamente provocara, Karen respondeu:

- O professor Forestier pediu-me para esperar aqui por ele.

Talvez surpreendida com a voz da visitante, um timbre suave e melodioso, que deixava adivinhar a sua origem estrangeira, a rapariga parou, mas logo continuou, dirigindo-se à secretária, enquanto a estudante seguia com a vista a estranha aparição ou, pelo menos, o que a penumbra do aposento lhe deixava entrever.

A pessoa que se aproximava da secretária do médico era alta, esbelta e, pelo que Karen pôde aperceber, muito bonita. Envergava elegante vestido caseiro de cetim verde pálido, cujas mangas, muito largas, ao mais pequeno gesto lhe punham a descoberto os braços. Numa das mãos trazia algumas rosas vermelhas, mas a outra segurava uma bengala. O andar era hesitante, difícil e, apesar das compridas pregas da saia, Karen notou-lhe a deformidade sem contudo descobrir a causa.

Ao pensar não existir uma nota alegre naquela sala, Karen enganara-se. Em cima da secretária do médico, encoberta com uma rima de livros, encontrava-se uma jarra de cristal que já devia conter água fresca, porque a desconhecida dispôs nela as rosas, tarefa desempenhada com cuidado, mas com rapidez. Em seguida, aproximando-se de uma das janelas, correu os cortinados, para deixar entrar o sol. Depois voltou-se para Karen e envolveu-a num olhar persistente, que lhe provocou uma sensação desagradável. Acabava de pegar na bengala, que largara um Instante a fim de ter as duas mãos livres, quando Forestier entrou. Franziu a testa, mas a desconhecida não lhe deu tempo para fazer observações:

- Não sabia que estava em casa nem que tinha visitas, Filipe - murmurou.

- Não tem importância - respondeu a voz fria do médico - com efeito, esqueci-me de avisar que voltava hoje mais cedo. As últimas aulas do ano nunca são seguidas por trabalhos de laboratório.

A desconhecida aproximara-se do médico e o martelar da bengala, embora amortecido pelo tapete, continuou a impressionar desagradavelmente Karen.

Adivinhando, pelo silêncio que se seguiu, que o médico abria a porta para a outra passar, Karen voltou-se e viu o olhar duro e sombrio que, momentos antes, a havia fixado.

Depois a porta fechou-se e o martelar resignado afastou-se e sumiu-se, sufocado pelos tapetes do vestíbulo.

Forestier aproximou-se da secretária e, num gesto de impaciência, afastou a Jarra com as rosas vermelhas. Não se sentou no lugar habitual, diante da mesa carregada de livros e revistas e, talvez para tirar à conversa toda a solenidade, encostou-se num dos ângulos.

Karen seguia-o, com a vista. Tal como todos os estudantes, durante as aulas, atentos e interessados, tentavam, antes dele falar, atribuir um sentido a todos os seus gestos, também ela procurava adivinhar o que Forestier ia dizer-lhe.

Filipe Forestier cruzou os braços.

- Não conheço as minhas alunas, mesmo as melhores. Em conseqüência, sou obrigado a fazer-Lhe algumas perguntas, mademoiselle. Se as considerar indiscretas, faça-mo notar.

Karen sorriu, por tal forma a palavra lhe pareceu oposta ao caracter do professor. Sem hesitação, Forestier interrogou:

- É estrangeira, não é assim?

- Engana-se - protestou Karen - Só minha mãe é dinamarquesa. Nasci e vivi muitos anos na Dinamarca onde meu pai, como engenheiro, dirigia uma grande fundição em Copenhaga.

- Dirigia? - notou o médico.

- Sim, tinha eu dez anos quando ele morreu.

- E depois dessa perda abandonou a Dinamarca?

- Imediatamente, não. Só mais tarde vim para Paris, porque minha mãe não queria deixar o país. Meu pai, porém, havia manifestado tanta vez o desejo de que eu viesse estudar para França que, quando chegou a altura, ninguém pôde impedir-me de partir.

Por momentos, Forestier examinou a face calma e resoluta de Karen.

- Nesse caso, sua mãe teve de ceder e abandonar a cidade onde viviam?

A expressão de Karen ensombrou-se. Num relance, reconstituiu a imagem daquela mãe acriançada, egoísta, inconsciente e fútil, que se assustara com o desconhecido e preferira separar-se da filha a afrontá-lo.

- Minha mãe continua na Dinamarca - respondeu-Habitualmente, vou passar com ela as férias grandes. Este ano, porém, não é possível.

Forestier só deu atenção à primeira parte da frase.

- Então vive sozinha em Paris?

- Vivo, sim, professor.

- Não tem aqui qualquer laço? Quero eu dizer

- emendou logo - obrigações ou projectos que a prendam?

- Nenhuns - respondeu Karen.

- Não me disse há pouco ser impossível ir este ano a Copenhaga?

Pálido sorriso entreabriu os lábios vermelhos e carnudos de Karen. Recuperara a coragem e lamentava a forma como, pouco antes, mascarara um pouco a verdade.

- Trata-se de impossibilidade material, professor. As despesas com a minha instalação em França e com os meus estudos aumentaram muito, são demasiado pesadas para que eu as deixe todas ao encargo de minha mãe, cujos rendimentos são diminutos. A resolução de não lhe aceitar mais de que a pensão habitual obriga-me a renunciar às férias e a trabalhar.

Forestier descruzou os braços e, maquinalmente, arredou uma pilha de livros que estava em cima da secretária.

- Não me enganava - murmurou como se falasse consigo mesmo.

- Segundo creio, revelou esse projecto ao meu colega, o doutor Tellier? - perguntou em voz alta.

Karen, reunindo as suas recordações, confirmou:

- com efeito, encontrei o doutor Tellier em casa de uma colega doente a quem fui visitar. Foi ela quem, provavelmente, depois de eu sair, lhe falou no meu empenho em arranjar emprego até Novembro... ou talvez depois.

- É isso - confirmou Forestier, fixando, distraidamente, o tapete - Foi o que me disse Tellier, há dias, quando nos encontrámos num jantar, durante o qual trocámos impressões e lamentámos a exiguidade do ordenado atribuído aos externos. Dois mil e quinhentos francos, não é assim?

- Dois mil quatrocentos e setenta e cinco, para sermos exactos, professor.

- Tomando-a como exemplo, Tellier lamentava que pessoas excepcionalmente dotadas, fossem, por vezes, por míseras questões materiais, obrigadas a abandonar a medicina.

- Eu nunca desistirei - afirmou Karen, revelando tanta energia na voz e na expressão, que Forestier ergueu os olhos.

- Por que não?

- Porque a adoro.

- com paixão?

- E também com coragem o que, segundo creio, vale muito mais.

Forestier observou-a durante algum tempo e depois, abandonando o lugar, deu alguns passos para a janela onde ficou de costas voltadas para que a aluna não pudesse ver-lhe as feições alteradas. Por fim voltou-se.

Também eu tive desses entusiasmos. Como tudo isso vai longe! No entanto, acho que tem razão. A coragem vale tudo.

Depois, mudando de tom, acrescentou:

- Sendo assim, vou direito ao fim, mademoiselle. Pretende trabalhar. Desagradar-lhe-ia fazê-lo comigo?

- Consigo, professor! -balbuciou Karen, que supunha ter ouvido mal - Mas como?

- Muito simplesmente. Substituindo a minha secretária que adoeceu subitamente, e auxiliando-me nos trabalhos de laboratório.

Karen não respondeu logo. O inesperado da proposta não dava margem a outro sentimento além do espanto. Fixava Forestier com olhar incrédulo e fez um esforço para responder:

- Agradeço ter-me considerado capaz de lhe ser útil. Mas sê-lo-ei, de facto?

- com certeza - afirmou o médico - Quem

melhor poderia apreciar as suas aptidões senão aquele que dirigiu, durante um ano, todos os seus trabalhos práticos? Quanto a agradecer-me, ainda é cedo. Ouça-me primeiro.

Calou-se um instante e depois continuou:

- Não se trata de ficar em Paris, mas de passar os próximos quatro meses numa quinta que possuo na Camargue, uma propriedade isolada no meio de lagoas, terra agreste e doentia... As pessoas e os animais são igualmente rudes... isolamento absoluto. E não lhe pinto o quadro com cores demasiado sombrias, pode acreditar. Deve reflectir.

Naquela altura, Forestier quase desejou ouvir uma recusa, por tal forma o pungiu a evocação daquela região à qual andavam ligadas dolorosas recordações. Teria a coragem de voltar ao mas? E não seria excelente pretexto para adiar a partida ou mesmo fixá-la para o ano seguinte, a impossibilidade de encontrar auxiliar competente para poder prosseguir os seus trabalhos?

Mas a expressão radiante de Karen dava a resposta antes que a voz a confirmasse.

- Já reflecti, professor, ou antes, não preciso reflectir para aceitar a sua proposta. Se, na verdade, o deseja, estou pronta a acompanhá-lo.

- Está bem. Resta-nos discutir a questão material - respondeu Forestier num tom que ele próprio considerou glacial.

Karen interrompeu-o com um gesto e levantou-se.

- Isso fica para mais tarde, professor. É possível que eu o desaponte e não possa prestar-Lhe a colaboração que espera de mim. Depois decidirá.

Forestier observou-a com atenção. Aquela rapariga, desarmada perante a vida, cuja dignidade sofria com a possibilidade de receber um salário não merecido, surpreendia-o.

- Como queira - declarou - Mas, em todo o caso, quero dizer-lhe que vai viver connosco, no mas, em casa de minha mãe e que, além do auxílio exigido para os trabalhos de laboratório, não terá de preocupar-se com coisa alguma.

Karen agradeceu-lhe mais uma vez e dirigiu-se para a porta. Estava tudo dito e o doutor não tentou retê-la. Quando se dispunha a sair, interrogou:

- Quando partimos, professor?

- Quando? - repetiu ele, como se ainda não tivesse pensado no assunto - Ainda não sei, mademoiselle. Avisá-la-ei.

- Mas... não ignora a minha direcção?

Era verdade. Ele mesmo o dissera no princípio da conversa.

- Tem razão. Quer ter a bondade de ma dar?

Karen abriu a pasta, tirou um livro de apontamentos do qual rasgou uma folha, escreveu algumas palavras e deu-a ao professor. Este guardou-a e acompanhou-a à porta.

Pouco depois, atravessando o vestíbulo em sentido inverso, Filipe Forestier entrou no escritório, fechou a porta e deixou-se ficar encostado a ela com os olhos baixos, numa atitude alheada. No seu espírito, os últimos incidentes do dia, Incluindo o rosto de Karen, tudo se esbatia. Persistia, unicamente, o facto de ter dado nova orientação à sua vida ou antes, de a renovar.

"Vamos - murmurou - os dados estão lançados e só Deus sabe o que será de mim se voltar à Camargue".

 

             FORESTIER

Numa tarde tórrida de Julho, o automóvel conduzido por Filipe Forestier abandonou a estrada de Aries e entrou na ilha da Camargue.

A longa viagem de um dia, apenas interrompida por uma paragem à hora do almoço, parecia não ter fatigado o médico. No entanto, Karen notou que, ao aproximar-se da região, a expressão do companheiro se tornava sombria, modificava-se, como se os últimos quilômetros a percorrer fossem os mais difíceis.

Para ela, que mal conhecia a França, o caminho afigurou-se-lhe curto. Felicitava-se por ter, dominando as suas hesitações e o receio de ser importuna, aceitado o convite de Forestier, formulado dez dias depois da primeira conversa.

- Tenho de partir sozinho - dissera ele - Minha mãe quer arranjar a casa, que não é habitada há mais de três anos, e deve partir algumas semanas antes de mim. Se não tem outros projectos, ofereço-lhe um lugar no meu carro onde poderá também levar a bagagem. De resto, julgo ser esta a melhor solução. Para quem não conheça a região, torna-se difícil alcançar o mas, mesmo de Aries onde o comboio a deixaria.

Aceitou reconhecida, certa, sem bem saber porquê, de que o médico procurava poupar-lhe as despesas de viagem.

O mas não devia ficar muito longe. O "mas, como lhe chamara Forestier, referindo-se à propriedade. E como Karen achasse o nome interessante, acrescentara:

- Receio que a casa lhe pareça menos interessante do que o nome dessas aves migratórias que, no fim do Verão, se reúnem aos milhares nas margens das lagoas para iniciarem a grande viagem até ao continente africano. É um espectáculo interessante na Camargue, ao qual talvez lhe seja dado assistir se o Outono não vier muito tarde: a superfície calma das águas desaparece sob a massa movediça de milhares de asas a adejarem.

O Outono, porém, estava ainda longe. A sua evocação mais parecia acentuar o calor tórrido que tombava sobre a sansouire (*) O sol ardente absorvera pouco a pouco toda a água acumulada pela estação das chuvas. Algumas lagoas conservavam ainda certa humidade no fundo lamacento e então, uma garça cinzenta instalava-se na margem, com ar melancólico e grave, equilibrada numa das patas. Da terra fendida ressumava o

 

(*) Terrenos estéreis da Camargue

 

sal; as depressões de terreno que, com as primeiras chuvas, se transformavam em pequenos lagos, estavam secas e igualmente os canais. O olhar de Karen só encontrava na sansouire tamargueiras ressequidas pelo sol, murtas de hastes compridas e secas e, por vezes, um bosquezito de pinheiros retorcidos pelo vento.

Num banco de areia esbranquiçado, na margem do Ródano, alguns touros, deitados, nem levantaram a cabeça quando o carro passou. No entanto, aproximava-se a hora de irem beber ao rio. Mas o calor sufocante do dia deixara-os esmagados, numa sonolência pesada na qual talvez perpassasse a visão dos frescos e verdejantes prados de Cailar, para os quais em breve seriam levados.

De súbito, de um pequeno bosque de tamargueiras saiu uma égua, seguida pela poldra que, assustada com o barulho do motor, saltou para o meio da estrada. Para a não matar Forestier fez uma brusca manobra: carregou a fundo no travão de pé ao mesmo tempo que accionava o de mão, num gesto rápido e preciso. Num ranger de freios, o carro estacou a poucos metros do animal, levantando uma nuvem de poeira. Karen, com a paragem inesperada foi projectada para a frente.

- Magoou-se? - inquiriu Forestier, voltando-se para a companheira com ar inquieto.

- Não. Foi apenas o susto - tranqüilizou a rapariga.

- Estes animais não estão habituados às nossas invenções modernas - resmungou o médico, seguindo com olhar aborrecido a fuga precipitada da poldra - Poucos automóveis passam por aqui.

Recomeçaram a andar. No entanto, Karen não conseguia dominar o seu espanto pela forma como Forestier accionava o freio com a mão diminuída.

A condução do carro não absorvia a atenção do médico a ponto de o alhear do que se passava a seu lado, mesmo das reacções da companheira porque, decorrido algum tempo, perguntou:

- Teve muito medo, mademoiselle?

- Não muito... um bocadinho apenas.

- É corajosa! Presentemente, muitos dos meus amigos doutros tempos hesitam em confiar-me a vida, quando conduzo um carro.

Karen tomou estas palavras como alusão ao desastre ocorrido alguns anos atrás e no qual ele fora o menos atingido. Protestou:

- Isso é injusto e ridículo. Um acidente nem sempre depende da perícia do condutor. Ouvi dizer que o seu tinha sido provocado por um pneu rebentado.

Ele interrompeu-a, declarando conciso:

- Não me referia a essa espécie de apreensão, mademoiselle, mas ao receio devido à minha enfermidade.

O protesto de Karen brotou espontâneo e veemente:

- Enfermidade! Está muito longe de...

- Pelo contrário - atalhou Forestier - estou muito mais perto do que as aparências o indicam da incapacidade absoluta. No entanto, posso arriscar-me a certas actividades, sem perigo para os outros. Por exemplo, a condução de um carro.

A voz, dolorosamente Irônica, calou-se um instante e em seguida prosseguiu:

- Quanto ao desastre há pouco invocado por si, mademoiselle, não me cabe nele a mínima responsabilidade, como disse, porque, quando ocorreu, eu não me encontrava ao volante.

Calou-se e Karen compreendeu que não desejava continuar a conversar. Os últimos quilômetros foram percorridos rapidamente. Em breve surgiu à direita um bosque de carvalhos de troncos retorcidos. Por uma ponte rústica atravessaram um canal que não estava de todo seco pelos calores do Verão e entraram numa estrada ladeada por pinheiros.

O mas ficava no extremo dessa estrada. Rodeada por um muro, que entre o portão de entrada e a casa abrangia vasto pátio, a segunda era comprida, baixa, formada por um só andar além do rés-do-chão. Num dos lados elevava-se um torreão redondo e atarracado. Alguns degraus de pedra conduziam à porta, pintada de verde, assim como as persianas. O telhado vermelho procurava dar à casa uma nota de alegria, mas as suas velhas paredes, que o tempo escurecera, dir-se-ia nunca terem sido tocadas pelos raios do sol. Não conservavam vestígios de ardências de Estio, nenhuma irradiação. Os dois pilares que sustentavam a porta de entrada exibiam, como ornamento, troféus cinegéticos: um grupo de aves mortas, pendendo de uma bolsa de caçador. Talvez alusão às possibilidades de caça nessa zona.

O automóvel entrou o portão, aberto de par em par, e parou diante da casa. Apesar do ruído do motor, ninguém apareceu. Sem aguardar o auxílio do professor, Karen abriu a porta do carro e saltou para o chão. Depois voltou-se para ele como se lhe perguntasse o que devia fazer. Forestier, porém, não deu pela muda interrogação. Não saira do seu lugar. Encostado ao volante, de faces lívidas, olhava em volta com expressão alucinada. Interdita, a rapariga não se atreveu a fazer um gesto nem a proferir palavra, enquanto durou o estranho abatimento do médico.

De súbito, esta estremeceu. Uma mulher surgira à porta. Robusta, alta, apesar da idade-devia ter ultrapassado os sessenta - trajava de preto: saia, casaco justo e avental. Sobre os cabelos brancos e lisos, a touca das artesianas. O semblante rude cheio de rugas iluminou-se quando viu o médico. Desceu rapidamente os poucos degraus e precipitou-se nos braços de Forestier que, por fim, descera do automóvel.

- Filipe... Filipe! -murmurou com voz trêmula.

Depois afastou-o de si e contemplou-o.

- Sempre o mesmo, meu filho - comentou com infinita ternura - E, no entanto, já passaram três anos!

Energicamente, reprimiu a comoção e as lágrimas que lhe subiam aos olhos.

- Sentes-te feliz por te encontrares aqui? interrogou.

Calou-se de repente como se as próprias palavras a impressionassem fortemente.

Forestier recuara e, em voz surda e baixa, respondeu:

- Não, Marthoun, bem sabes que não!

A velhota curvou a cabeça, acabrunhada. Foi Forestier quem primeiro conseguiu dominar-se. Voltou-se para Karen, que se conservava um pouco afastada e chamou-a.

- Mademoiselle Rochel - disse quando esta se aproximou-A Camargue acolhe-a na pessoa de Marta-Maria, que foi minha segunda mãe e vela pela casa da minha infância.

A mulher ergueu a cabeça. Na emoção da chegada não dera por Karen e só naquele momento tomava consciência da sua presença. Fixou-a com os olhos negros e brilhantes e o rosto magro tornou-se mais duro. Não proferiu uma palavra, mas Karen teve a certeza de que bastaram dois ou três segundos para o olhar penetrante a examinar, pesar e classificar, muito para além do que a sua aparência física permitia descobrir.

- Preparaste o quarto para mademoiselle Rochel, Marthoun? - perguntou o médico, ao mesmo tempo que abria a caixa do carro para tirar as bagagens.

- Preparei-o ontem, logo que madame mo ordenou.

- com efeito, minha mãe só ontem soube da minha chegada... E... qual foi o quarto que te ordenou para abrir?

- Fui eu quem o escolheu. Madame disse-me para proceder como entendesse... Escolhi o quarto verde, que é alegre e confortável...

- Muito bem - aprovou Forestier que mal a escutara.

Fechando a caixa do carro, dispunha-se a pegar nas maletas.

- Deixa isso - ordenou Marta-Maria nesse tom misto de ternura e autoridade empregado sempre que se dirigia ao médico - O Félix virá buscá-las.

Depois, precedendo os recém-chegados, subiu os degraus e entrou em casa. Atrás dela, Karen penetrou no vestíbulo claro, pavimentado com tijolos vermelhos e mobilado com móveis provençais.

Conquanto, segundo dissera o médico, a casa não fosse habitada havia três anos, tinha um aspecto acolhedor e por toda a parte reinava o mais escrupuloso asseio. Karen, mais tarde, soube que Forestier quisera referir-se apenas ao tempo da sua ausência da Camargue. Marta-Maria, viúva do bayle (*) e que fora ama de Filipe, vivia ali todo o ano, guardava a casa e velava pelo asseio de todos os aposentos.

Para o vestíbulo abriam diversas portas construídas em arco. Por cima de todas elas viam-se formidáveis pares de chifres, que em tempos deviam ornamentar a cabeça de touros de combate, campeões nas arenas de Aries ou de Sainte, cujo nome estava indicado em pequenas placas de cobre.

- A manada das "Avocetas" tornou-se célebre-explicou o médico, indicando os troféus.

 

(*) Chefe dos guardas.

 

O mas havia sido transformado e embelezado por muitas gerações de Forestier. De forma que a casa, conservando o seu aspecto simples e puramente provençal, apresentava um luxo e conforto que agradava à primeira vista.

O avô de Filipe fora o último dos Forestier a fixar-se, definitivamente, no mas, depois de ter abandonado a clínica. Filipe, tendo ficado órfão muito novo, ali passara a infância e mais tarde as férias, depois de ir estudar para Paris.

Karen, a quem estes pormenores haviam sido, sucintamente, revelados durante a viagem, pensou que o médico devia amar aquele recanto belo e selvático e a casa cheia de recordações. No entanto, a sua fisionomia, quando percorria o comprido corredor, pavimentado de branco e vermelho, não revelava contentamento ou comoção.

Marta-Maria, ao atingir a última porta à direita, abriu-a sem bater.

- O senhor Filipe chegou.

Porém, os passos dos recém-chegados já haviam despertado a atenção dos ocupantes da sala, conforme Karen depreendeu.

Precedida pelo martelar que já uma vez a impressionara, a rapariga que encontrara nos aposentos do médico em Paris, apareceu à porta. Acolheu-o sorridente e, ao contrário do que havia feito no primeiro encontro, pouca importância deu à nova secretária. Pelo menos, foi esta a impressão de Karen.

Nos dias seguintes tal impressão modificou-se por completo. Naquela altura, porém, dava os primeiros passos na sua nova vida e pelos rostos não podia adivinhar as paixões e as tragédias que em si se reflectiriam.

A sala era vasta igualmente pavimentada de tijolos, cobertos com espessos tapetes e iluminada por duas janelas, que deixavam entrar à vontade os últimos fulgores do sol já no ocaso. Os móveis, elegantes e robustos, brilhavam, cuidadosamente encerados. O fogão era construído também com tijolos. Nas paredes, algumas aguarelas da região: lagoas povoadas de garças, pinhais com árvores quase negras contra um céu de cobalto, uma manada bebendo, quase invisível entre os altos canaviais da margem do Ródano, e duas belas marinhas: o golfo de Beauduc, do lado do cabo Satolon e um mar anônimo, de enormes vagas.

Madame Forestier levantou-se da poltrona que se encontrava perto da janela. Era baixa, franzina, de rosto meigo, quase sem rugas. Trajava de claro e. parecia ainda nova, apesar dos cabelos brancos. Entre ela e o filho não existia a mais pequena semelhança. Só as vozes eram idênticas. Simplesmente, o timbre surdo e grave do médico, como que se suavizava na mãe.

- Apresento-lhe mademoiselle Rochel, minha mãe - disse, depois de a ter beijado - a mais brilhante das minhas alunas. Adora a medicina e acedeu a servir-me de secretária e de auxiliar no laboratório, durante este Verão.

Madame Forestier apertou as mãos de Karen com sincera e espontânea afabilidade.

- Seja ben vinda, mademoiselle. Vivemos aqui isolados, afastados de todos os divertimentos a que uma rapariga tem o direito de pretender.

Mas as palavras de meu filho fazem-me alimentar a esperança de que não se aborrecerá muito, visto ter escolhido o trabalho.

Karen mal teve tempo para afirmar o seu contentamento por ter a possibilidade de continuar os estudos ao lado do professor. Por trás dela elevou-se uma voz um pouco trêmula.

- Falou de laboratório, Filipe?... Eu não podia ajudá-lo como noutros tempos?

O médico franziu, ligeiramente, a testa. Parecia aborrecido por ser obrigado a responder-lhe.

- Não quis impor-lhe essa fastidiosa tarefa, Elvira - murmurou - Além disso, minha mãe está tão habituada à sua companhia, que me pareceu injusto privá-la dela, precisamente aqui, nesta solidão.

Karen não soube explicar qual o impulso que a levou a voltar-se para a porta ainda aberta e no limiar da qual se encontrava Marta-Maria. Nem tão pouco poderia exprimir a sensação causada pelo olhar da ama, um olhar sombrio, ardente, que fixava a aleijada com atenção.

Dirigindo-se a Karen, o médico prosseguiu:

- Mademoiselle de Marges é engenheira química e muitos dos meus trabalhos devem-se à sua inteligência e dedicada ajuda.

Era uma espécie de apresentação. Quanto à estudante estava já apresentada pelas palavras que o médico dirigira à mãe. No entanto, Elvira de Marges não lhe estendeu a mão nem teve para ela o mais simples gesto de acolhimento. Lentamente, dirigiu-se para uma das poltronas que ocupavam o vão da janela e retomou o lugar onde devia estar instalada antes da chegada do médico. À porta, Marta-Maria indagou:

- Não sobes, Filipe?

O médico abanou a cabeça.

- Não preciso. A viagem não me fatigou. Manda levar as minhas bagagens para o quarto e isso basta.

A sala estava clara ainda. A alta estatura de Filipe, aprumada junto do fogão, contrariava toda a possibilidade de fadiga. No entanto, as feições pareciam transtornadas. Desde que entrara no mas, estava pálido, abatido.

- Em compensação - continuou - suponho que mademoiselle Rochel aceitará os teus serviços com prazer.

E, voltando-se para Karen, acrescentou:

- Não é verdade, Mademoiselle, que gostaria de passar uns momentos no seu quarto antes da hora do jantar?

Karen aquiesceu, tanto por discreção, para deixar os habitantes do mas conversar em liberdade, depois de alguns dias de separação, como para corresponder ao seu próprio desejo de ficar só.

Atrás de Marta-Maria, subiu a escada com degraus de tijolo emoldurados em madeira, e entrou num pequeno quarto, situado na extremidade do corredor do primeiro andar. As persianas estavam fechadas. Marta-Maria abriu-as e depois correu a rede que servia de protecção contra os mosquitos.

- Deve conservar as redes sempre bem corridas - aconselhou - Os mosquitos são terríveis por aqui e as suas picadas provocam febres.

O aviso divertiu Karen que, no entanto, não o deixou perceber e agradeceu à ama, como se ignorasse a voracidade dos mosquitos da Camargue. Examinou, rapidamente, o quarto com as suas paredes caiadas, os móveis encerados, os cortinados de tecido verde liso e a impressão agradável recebida à entrada mais se acentuou.

Sobre a pedra do fogão, situado a um canto, via-se uma redoma encerrando um destes ramos antigos que voltaram a estar na moda e de cada lado uma candeia provençal. Por cima de uma secretária com tampo de correr, um espelho. Do lado oposto, a cama envolta no mosquiteiro de tule branco. À esquerda, um armário de madeira escura com veios, lindamente esculpido.

- O quarto de banho fica deste lado - indicou Marta-Maria, abrindo uma porta.

Falava com voz neutra, impessoal, bem diferente da que empregava para se dirigir ao médico. Pouco antes, pela autoridade de todas as suas palavras e a familiaridade empregue aparecera a Karen como a verdadeira dona da casa. Agora retomara o papel de criada, desempenhando escrupulosamente as suas funções. O rosto magro e indiferente, os olhos baixos, haviam perdido toda a expressão.

Karen aproximou-se da janela e contemplou com interesse a paisagem árida que se estendia a perder de vista. Aquela parte da Camargue não era a que haviam atravessado nesse dia para alcançar o mas. Via-a pela primeira vez.

A uma centena de metros da casa, um reflexo metálico indicava uma lagoa, tão vasta que mal se distinguiam as margens opostas. A superfície não era uniforme, mas semeada de ilhotas, de línguas de terra e de bancos de areia, que a seca pusera a descoberto. Num desses bancos, aos últimos clarões do dia, destacava-se um bando de flamingos cor-de-rosa. No horizonte longínquo aparecia uma linha indistinta, apenas adivinhada: o mar. E até lá, para qualquer lado que o olhar alcançasse, só se via o imenso ermo nu, com excepção de pequenos bosques em torno dos quais voavam garças brancas.

- Como esta terra nos prende! - murmurou Karen - Tem um encanto indefinido, um encanto que nos envolve desde que a pisamos!

Quase esquecera a presença de Marta-Maria e falava só para si. A ama fechou a porta do quarto de banho e aproximou-se da rapariga. Parou a meio do quarto e no seu rosto impassível passou como que uma espécie de frêmito.

- É uma terra árida e selvática - respondeu friamente - NO Inverno a água e o céu, no Verão o céu e a terra ressequida. Geralmente, os que não são daqui não gostam dela.

E, para demonstrar que desejava mudar de conversa, acrescentou logo:

- vou mandar subir as suas malas.

- Agradeço-lhe - murmurou Karen.

Marthoun dispunha-se a sair do quarto. Chegando à porta, imobilizou-se subitamente e, depois de breve hesitação, voltou para trás.

- O meu quarto fica ao lado do seu, mademoiselle avisou - se uma noite se sentir doente

ou, simplesmente, precise de alguma coisa, basta bater na parede. Eu ouvi-la-ei.

Depois dirigiu-se para a porta e saiu à pressa, antes que a estudante, um pouco surpreendida, tivesse tempo de lhe agradecer de novo.

Pouco depois, uma criadita nova depunha perto da cama as duas maletas que compunham toda a bagagem de Karen. Era, segundo esta soube nessa mesma tarde, sobrinha de Marthoun. Durante o Verão ela, a tia e o filho do guarda, assumiam o serviço dos patrões. Fora esse o desejo do médico que não tinha querido trazer para o mas qualquer dos seus criados parisienses.

Anoitecera quando Karen, tendo trocado o vestido de viagem por um outro mais fresco, desceu à sala de jantar. Nas Avocetas jantava-se tarde e Inês, a criada de quarto, tinha-lhe dito que uma sineta, colocada no vestíbulo, costumava anunciar as refeições. Desta forma, Karen esperou que ela tocasse para sair do quarto.

A refeição prolongou-se demasiado, na opinião de Karen. Os pratos eram bem cuidados e apetitosos. Marta-Maria não devia recear a crítica de estranhos ao apresentar o seu pilau de mexilhão nem a lebre guisada à moda de Nice. Por certo se excedera na confecção do jantar para agradar ao médico. Este, porém, não demonstrava ter dado por isso e a ama, quando entrava na sala para vigiar o serviço da sobrinha, ainda um tanto desajeitada, tentava, em vão, descobrir na fisionomia de Forestier um vislumbre de satisfação.

Filipe falou pouco e com esforço evidente. Karen. mal reconhecia a bela voz grave, profunda, a "voz luminosa", como diziam os alunos, e que conferia às aulas um cunho especial. Ao sentar-se à mesa, relanceara um olhar inquieto para o lugar ocupado por Karen, lugar indicado por madame Forestier, à esquerda de Elvira de Marges. Ela e o filho sentaram-se do lado oposto. Depois confinou-se num silêncio quase total, deixando à mãe e à aleijada todas as despesas da conversa.

Madame Forestier parecia desolada com aquele mutismo ao qual tentou arrancá-lo, fazendo-lhe perguntas ou descrevendo-lhe os mais pequenos incidentes ocorridos no mas. Elvira, por seu lado, não deixava transparecer as suas impressões. Um sorriso constante descerrava-lhe os lábios, talvez demasiado finos para uma beleza perfeita. No entanto, Karen notou que as faces pálidas se lhe coloriam pouco a pouco, como se a dominasse uma comoção reprimida. Teve então a absoluta certeza de que, se ela não estivesse presente, entre os três se teria desenrolado uma cena, seriam proferidas palavras reprimidas por muito tempo. Qual a sua natureza e significação, não poderia dizê-lo.

Como a refeição terminasse, o médico, bruscamente, abandonou no prato o cacho de uvas magníficas moscatéis pretas temporãs que mal provara.

- Foi vaidade da minha parte afirmar que a viagem, num dia de tanto calor, não me fatigou. Se me dão licença, retiro-me.

Não se dirigiu a qualquer das três em particular. E, da mesma forma se despediu, dando-Lhes um "boa-noite" colectivo, já no limiar da porta. Olhou para Karen com ar indiferente, como se a sua presença não constituísse novidade e não lhe deu instruções para o dia seguinte, como ela esperava. Em toda a evidência, o seu pensamento andava muito longe do laboratório, das pesquizas e dos outros trabalhos.

Quando o passo do médico se desvaneceu no corredor, madame Forestier levantou-se por sua vez. A sobremesa, feita por Marthoun com tantos cuidados, não alcançou grande sucesso. Karen foi a única que, também com esforço, a provou.

- Costuma tomar qualquer coisa em cima das refeições, minha filha? - perguntou a dona da casa, dirigindo-se à estudante-Chá ou um refresco gelado? Se é esse o seu hábito, não hesite em dizê-lo. Está em sua casa. Geralmente costumamos passar os serões na sala, muito mais fresca do que esta e, tanto eu como mademoiselle Marges, temos o mau hábito de os prolongar até tarde. Mas, se está também fatigada, como é natural após tão comprida viagem, não se considere na obrigação de ficar connosco.

Ao mesmo tempo, dirigia-se para uma porta que estabelecia comunicação da casa de jantar para a sala. Karen dispunha-se a agradecer e despedir-se quando a viu voltar-se.

- Onde vai, Elvira? - inquiriu, dirigindo-se a mademoiselle de Marges que, tendo abandonado o seu lugar, se dirigia para a porta por onde o médico havia saído.

O comprido vestido que Elvira envergava, as saias dos seus vestidos eram sempre amplas, tocando o chão, a fim de ocultar o defeito da perna - o vestido azul pálido ondulou graciosamente em volta dela, quando se voltou para madame Forestier. O rosto retomara a palidez usual ou talvez estivesse ainda mais pálido do que o costume e a cabeça inclinava-se um pouco para trás como se vergasse ao peso dos abundantes cabelos castanhos, apertados num rolo na nuca. com um movimento de cabeça, indicou o tecto e respondeu simplesmente: - vou lá acima.

- Não sei para quê, Elvira.

- Nem eu tão pouco, madame. No entanto, não deixarei de ir.

Madame Forestier não lhe respondeu. Contentou-se em segui-la com olhar preocupado e soltar profundo suspiro. Depois voltou-se para Karen.

- Dizíamos, minha filha, que preferia deitar-se cedo, hoje.

Karen não tinha dito semelhante coisa. No entanto, essa declaração correspondia aos seus desejos.

- Muito bem - continuou a mãe do médico - Nesse caso, vá descansar. Deseja que a acompanhe? Não?... Tem a certeza de que não precisa de nada? Se lhe faltar alguma coisa basta tocar a campainha para chamar a Inês ou Marta-Maria.

- Agradeço-lhe, madame. A Marta-Maria teve a bondade de me indicar o seu quarto, contíguo ao meu, e a parede na qual devia bater, segundo me disse, se precisasse dela.

- com efeito, Marthoun quis, não sei bem porquê, alojá-la no quarto verde, quase nunca ocupado porque, dando para o lado da lagoa, pode ser doentio. Marthoun, no entanto, dorme para esse lado há mais de quarenta anos. Está vacinada contra as febres desta região. Se, por qualquer razão, quiser mudar de quarto, não hesite em mo dizer. Será fácil.

- Acho o meu quarto encantador e confortável, madame. com certeza me sentirei ali muito bem - afirmou Karen com convicção.

- É esse o meu desejo. Boa noite, minha filha, e - acrescentou após breve hesitação - se sonhar com a Camargue, não a carregue de cores muito sombrias.

Pressentiria madame Forestier a perturbação que as poucas horas vividas no mas haviam semeado no seu espirito e com um gesto afectuoso tivesse querido apaziguá-la?

Fosse pelo que fosse, apertou entre as mãos o rosto de Karen e beijou-a.

- Boa noite, madame - murmurou esta, mais comovida do que desejava aparentar.

Deu alguns passos para a porta, mas parou e voltou-se para a mãe do médico.

- Esqueci-me de perguntar ao professor... a que horas pretendia começar a trabalhar, amanhã.

- A que horas? repetiu madame Forestier como se quisesse ganhar tempo para preparar a resposta.

Por fim, sorriu.

- Não tenha pressa, minha filha. Não é muito provável que comece amanhã a desempenhar as suas funções. Aconselho-a a descansar, como meu filho deve querer descansar também.

O vestíbulo, quando Karen o atravessou, não estava muito iluminado. As duas lanternas de latão, que em tempos deviam ter pertencido a qualquer navio e baloiçavam do tecto, não estavam acesas. Apenas ardia uma lâmpada aos pés de uma imagem de "Santa Maria do Mar", em madeiça. esculpida, colocada num nicho junto da escada. A claridade, no entanto, bastava para Karen regressar ao quarto. Começou a subir a escada, mas, de súbito, parou, ao ouvir o ruído de vozes.

Essas vozes, logo reconhecidas, partiam do andar superior, de um dos quartos cuja porta não estava bem fechada, a calcular pela nitidez das frases que lhe chegaram aos ouvidos. Parou, indecisa, não sabendo se devia recuar se continuar pois o médico e Elvira de Marges dariam pela sua presença.

O doutor Forestier, com inflexão dolorosa e irritada ao mesmo tempo dirigia-se-lhe com frases desprovidas de sentido para Karen, frases às quais ela respondia com protestos e pedidos de calma.

- Sossegue, Filipe. Não era minha intenção Perturbá-lo a esse ponto. Não podia calcular a que ponto o impressionaria...

- Impressionar... impressionar! -replicou o médico, soltando irônica gargalhada - Impressionar!

Pergunto a mim próprio se a Elvira avalia o que sinto neste momento!

Elvira de Marges quis falar, mas Forestier não lhe deu tempo.

- Não será dolorosa provação para mim este regresso ao mas, a permanência que, segundo os seus desejos e de minha mãe, eu terei de fazer aqui? Cedi aos rogos das duas, às vossas súplicas, submeti-me ao que ambas consideravam como Indispensável para... o meu interesse. Fiz mais ainda. Demonstrei tanta boa vontade, tão grande desejo de "recomeçar" que, conforme puderam verificar, abri a minha casa e aceitei na nossa intimidade uma desconhecida que trouxe como colaboradora...

- Nem eu nem sua mãe - protestou maddemoiselle de Marges em voz surda - lhe pedimos tanto.

- E, desde o primeiro minuto tudo voltou ao princípio, todos os meus esforços se encontram comprometidos - continuou o médico como se não tivesse ouvido a interrupção - Pensa ser preciso ter diante dos olhos uma materialização para me recordar? Que o meu sofrimento precisa de ser reavivado? Não encontrarei entre estas paredes bastantes razões para expiar e sofrer? Diga? Ou deseja ver-me louco de todo?

- Filipe! -quase gritou mademoiselle de Marges.

E a inflexão da palavra foi tão dilacerante, tão vibrante de censuras, que o nome do médico assim pronunciado fez estremecer Karen e quebrou o encantamento que a Imobilizara.

Bruscamente, recomeçou a subir a escada. Tinha surpreendido uma cena que não deveria ter tido testemunhas e isso decidiu-a a alcançar o quarto.

Enquanto subia, ainda escutou algumas palavras de pesar proferidas por Elvira e as respostas vagas do doutor Forestier. Depois o silêncio ou antes, a pancada de uma porta ao fechar-se e o martelar da bengala no corredor.

No patamar, Karen encontrou mademoiselle de Marges. Caminhava com dificuldade como de costume e tinha as feições transtornadas. A mão direita segurava a bengala, mas na outra trazia um objecto raso, de tamanho médio e que podia muito bem ser um quadro, retrato ou fotografia, como calculou Karen. De resto, não teve tempo nem desejo de cometer nova indiscrição, examinando melhor o tal objecto para o qual mal olhou de passagem.

Hesitou ao cruzar com Elvira de Marges, Mas a outra não lhe deu oportunidade para parar. Inclinou um pouco a cabeça, murmurando um rápido "boa-noite" e continuou o seu caminho. Não pareceu surpreendida nem contrariada com a aparição da estudante. Calculou, sem dúvida, que esta acabava de deixar madame Forestier e não chegara à escada antes da altura dela fechar a porta.

Karen penetrou no quarto com grande satisfação. Devagar, sem acender a luz, encaminhou-se para a janela, cujas vidraças estavam abertas, e encostou a cabeça à rede de arame.

Deixou-se ficar assim por muito tempo, sem pensar em despir-se e deitar-se.

A noite quente pesava sobre a Camargue. No firmamento cintilavam as estrelas e o luar prateava a lagoa e os bosques.

Diversos ruídos cortavam, de tempos a tempos, o silêncio que depois parecia tornar-se mais profundo e misterioso: regougos de raposa, coaxar de rãs nos canais, pio de algum mocho alojado nos ramos dos pinheiros mais próximos. E, ao longe, nas margens do Rôdano, nos canaviais, um veado começou a bramar.

 

                     ELVIRA

Depois da primeira semana passada no mas, Karen perguntava-se porque razões Forestier a tomara ao seu serviço.

Logo de princípio, a vida se organizara, uma vida calma, perfeitamente ordenada. Karen poderia mesmo dizer "monótona", se o seu espírito inquieto não tivesse encontrado naquela região desconhecida milhares de coisas que lhe despertavam o interesse. Às perguntas que, logo no dia seguinte à chegada, fizera ao médico sobre as suas funções, este respondera que, depois do excesso de trabalho ocasional pelo final do ano lectivo, pretendia descansar e desejava que a sua auxiliar descansasse também. Mas não precisou a duração deste período de descanso.

Forestier mantinha-se à parte da vida familiar do mas e passava a maior parte do dia fechado no seu gabinete de trabalho. Esse aposento ficava no andar superior e, decorridos oito dias depois da chegada, Karen ainda lá não entrara.

Quanto ao laboratório, encontrava-se fora da habitação, mas ligado a esta por estreita passagem, como uma ponte, que estabelecia comunicação entre o edifício principal e a pequena dependência. Karen vira-o de relance, pela porta deixada aberta por Marta-Maria, a pessoa encarregada de o limpar.

Enquanto aguardava que lhe dessem licença para lá entrar, tirara da mala os livros e os apontamentos e, sozinha no quarto, ia revendo a matéria do ano antecedente. Mas, por muito que fizesse, o estudo não lhe absorvia por completo o pensamento. Quantas vezes, no meio das mais árduas revisões, absorvida por um assunto dos mais palpitantes, supondo-se toda entregue ao trabalho, a assaltava brusca recordação e, no silêncio pesado e adormecido da casa julgava escutar de novo as exclamações abafadas, as palavras violentas, as censuras que certa tarde Forestier dirigira a Elvira de Marges!

Mas não. O mas, consumido pelo sol de Agosto, estava perfeitamente calmo. E Karen quase supunha ter sonhado a cena que não tivera explicação nem seguimento, a cena tão contrária ao domínio próprio e fria impassibilidade do médico.

Em todo o caso, as relações entre Forestier e mademoiselle de Marges não pareciam alteradas pelo incidente. No dia seguinte, Karen verificou que o médico e Elvira se encontravam sem manifestar o menor constrangimento nem indício de rancor. De resto, o professor mostrava-se sempre mais do que cortês para com a hóspede, talvez devido à sua enfermidade. Estava tão à vontade com ela como com a mãe. Com Forestier acontecia o mesmo em todos os pormenores da vida quotidiana e nos hábitos que as duas mulheres tinham em comum. De sorte que, a estudante, a quem ninguém elucidara sobre a personalidade de Elvira, continuava na ignorância do papel por esta assumido no lar dos Forestier.

Interrogar os criados? Tal expediente repugnava-lhe. Inês, que Marta-Maria vigiava de perto a fim de a iniciar nos segredos de um serviço irrepreensível, não tinha tempo nem ensejo para tagarelices. Quanto à própria Marthoun, qualquer coisa na sua maneira de ser, simultaneamente autoritária e apagada, no olhar severo, levava Karen a considerá-la como a última pessoa a quem pediria explicações.

Mais uma vez, depois de terminado o almoço e quando as três senhoras tomavam o café na sala, Karen perguntava de si para si se Elvira de Marges não seria para madame Forestier mais do que uma dama de companhia. Forestier, que bebera, rapidamente, o café, retirara-se para o seu gabinete de trabalho, apesar de Elvira se lamentar, sorrindo, por ele as abandonar tão depressa. Estas palavras e a confiança que traduziam, bastaram para persuadi-la de que mademoiselle de Marges não ocupava naquela casa um lugar subalterno, mas sim o de amiga. Além disso, a elegância e luxo dos seus vestidos, indicavam possuir fortuna suficiente para não ser obrigada a ganhar a vida.

Depois do médico sair, Karen observou-a em silêncio. Quando a porta se fechou atrás de Forestier, o semblante de Elvira tomou uma expressão amarga e sombria que logo se desvaneceu, sendo substituída pela habitual indiferença. Calma, começou a mexer o café, e a larga pulseira de oiro que usava no braço direito batia na chávena com uma regularidade obsidiante.

Por sua vez, madame Forestier levantou-se. Em geral, depois do almoço, recolhia ao quarto para descansar algumas horas.

- Como esta região é deprimente! -lamentou - Tenho a impressão de experimentar a dureza deste clima pela primeira vez.

- Perdeu o hábito, simplesmente - replicou Elvira.

- É possível. No entanto, nunca me lembro de ver as águas tão baixas nem a terra tão fendida. O sal ressuma na sansouire, as murtas e as estevas estão secas, as tamargueiras parecem ter sido queimadas. Já reparou como a lagoa desceu? Isso não impede as avocetas de se reunirem ali em tão grande número que os seus pios, de noite, muitas vezes não deixam dormir Filipe.

Mademoiselle de Marges deixou a mãe do doutor falar sem a interromper. Mas as últimas palavras provocaram-lhe certa impaciência.

- Era de prever - murmurou. E com amargura acrescentou:

- Como seria de prever que este regresso ao mas lhe fosse mais prejudicial do que benéfico, como supúnhamos.

Madame Forestier, que já havia atravessado a sala, parou para a interrogar:

- Isso representa uma censura, Elvira? No entanto, quando se falou em abandonarmos Paris para passarmos algum tempo na Camargue, as nossas opiniões concordaram.

Elvira encolheu os ombros.

- Não digo o contrário. Isso não impede que contasse com outro resultado.

- Estamos aqui há tão poucos dias...

Mademoiselle de Marges não respondeu. Limitou-se a relancear rápido olhar para Karen, sem dúvida para lembrar à sua interlocutora a presença da rapariga. Depois voltou-se para depor a chávena vazia em cima da bandeja que se encontrava ao alcance da mão, enquanto madame Forestier abandonava a sala.

Karen dispunha-se a imitá-la. Elvira interpelou-a bruscamente.

- E mademoiselle Rochel? Dorme bem, não é perturbada pela passagem das aves migratórias e pelo barulho que fazem na lagoa, pelo bater de asas e gritos?

Karen mal dissimulou a surpresa. Era raro Elvira interessar-se por ela e muito menos que lhe dirigisse, directamente, a palavra.

- Durmo sempre bem, mademoiselle, e todos os ruídos próprios das estações e da noite são-me mais agradáveis do que hostis. Embalam-me em vez de me importunarem.

- Essa calma no repouso é indício de uma consciência pura - murmurou Elvira com mal disfarçada ironia - Felicito-a. Ainda bem que as noites lhe parecem curtas, pois, em compensação, os dias devem parecer-lhe compridos.

E, sem intervalo que indicasse mudança de pensamento, prosseguiu:

- A que horas trabalha com o doutor?

Seria uma crítica, ataque directo ou simples curiosidade?

- O professor Forestier ainda não considerou o momento próprio para começar...

- Ficaria muito admirada se esse momento surgisse.

Karen olhou-a com espanto. Não compreendia onde Elvira pretendia chegar.

- Estou no mas para isso, mademoiselle. Para secundar o professor nos seus trabalhos, para lhe servir de auxiliar e secretária, numa palavra, para lhe ser útil de qualquer forma que ele desejar.

Um sorriso trocista entreabriu, por segundos, os lábios de Elvira de Marges.

- Ser útil a Filipe! -repetiu-Como se alguma coisa ou alguém pudesse dar ciência e luz a quem é a própria luz e ciência!

Karen estava muito perturbada para notar o entusiasmo com que Elvira falava do médico, nem tão-pouco a magoou a injusta reflexão. De resto, sem lhe dar tempo para pensar, a enferma interrogou-a:

- É órfã, não é verdade?

- Ainda tenho mãe.

- Mas vive sozinha em Paris?

- Vivo, sim. - com poucos recursos, por certo? - com uma pensão enviada de Copenhaga por minha mãe, mas que não me dispensa de trabalhar fora das aulas.

O estranho interrogatório terminou com breve silêncio. Depois, mademoiselle de Marges, fazendo girar a pulseira de oiro em volta do braço, prosseguiu em voz pausada:

- O doutor Forestier é muito bom, mademoiselle. Não é a primeira vez que... auxilia um ou uma das suas alunas, cujo valor lhe merece particular interesse. Não se aborreça por ele não lhe exigir o auxílio que, segundo supõe, espera de si. É muito possível que as férias acabem sem a chamar para o seu gabinete de trabalho ou para o laboratório.

Desta vez, Karen compreendeu. Elvira acabava de lhe revelar ser ela apenas o alvo de um gesto caridoso, uma estudante pobre a quem a generosidade do professor oferecia umas férias e até um ordenado em troca do qual não exigia trabalho.

Por instantes, ficou imóvel e muda, com os dentes cerrados, incapaz de proferir palavra. Toda a hostilidade de Elvira de Marges a seu respeito, que, desde o primeiro dia e sem poder defini-la, pressentira, acabava de se exteriorizar naquela conversa. com o ardor de um caracter vibrante e recto, pouco habituado aos ataques da vida, Karen procurava a maneira de retribuir o golpe vibrado.

Recordou-se a tempo da enfermidade de Elvira e da decepção por ela manifestada ao saber que Forestier lhe destinara o papel de auxiliar no laboratório. com aparente calma, respondeu:

- Se o doutor Forestier não precisar dos meus serviços, não ficarei no mas.

Depois abandonou o lugar que ocupava, de pé, junto da mesa de costura de madame Forestier e encaminhou-se para a porta. Enquanto percorreu a curta distância que dela a separava, teve a sensação de ser seguida pelo olhar penetrante de Elvira.

Quando se encontrou no vestíbulo respirou fundo, mas não como nos dias anteriores. Tinha a impressão de que nunca mais poderia reencontrar o ritmo normal da vida sem a certeza da sua utilidade no mas ou, pelo menos, sem a esperança de que a sua actividade em breve seria solicitada.

Subiu a escada devagar. De uma janela, cujas portas interiores estavam cerradas, filtravam-se alguns raios de sol que alastravam pelo pavimento. O corredor do primeiro andar, porém, estava escuro. No entanto, Karen percorreu-o sem hesitação e foi bater a uma das portas, a do gabinete de trabalho de Forestier. E, enquanto assim procedia, pensava ser precisa extraordinária coragem para chegar até ali.

Do interior, uma voz respondeu com um "entre", uma voz reflectindo espanto e, sobretudo, irritação. Só então, Karen avaliou bem a sua audácia.

Forestier passeava no aposento de um extremo ao outro. Na mesa de trabalho, o cinzeiro quase cheio indicava que, de passagem, o médico sacudia a cinza ou abandonava o cigarro meio fumado. Quando a rapariga entrou, imobilizou-se e olhou-a com assombro.

- Peço-lhe perdão, professor, mas... Como se calasse, ele interrogou-a:

- Deseja falar-me?

Karen hesitou uma fracção de segundo.

- Exactamente.

- Estou às suas ordens.

Nem a voz nem a atitude traduziam impaciência. No entanto, o tom breve e a maneira de ir direito ao fim desnortearam Karen.

- Trata-se do meu trabalho, professor.

- Do seu trabalho? - repetiu ele franzindo a testa.

- Sim - confirmou Karen com decisão - Quando me contratou como sua secretária e assistente durante as férias, supus que tivesse, na realidade, necessidade de mim e que, mal chegássemos à Camargue, me seria confiado qualquer trabalho, fosse ele qual fosse.

Enquanto ela falava, a expressão de Filipe modificou-se e a ironia substituiu o espanto.

- Compreendo! - murmurou com ligeira risada - tem medo de perder aqui o seu tempo!

Karen corou violentamente.

- Não se trata disso! -protestou, desolada Por ter sido mal compreendida - Simplesmente, tenho perguntado a mim mesma se, na verdade, Posso ser-lhe útil e, no caso contrário, não queria que a minha presença...

Forestier já não lhe dava atenção. Tendo esmagado no cinzeiro o cigarro meio consumido, voltara-lhe as costas e aproximara-se da janela.

- Já reparou como os flamingos se afastaram, nestes últimos dias? - inquiriu-Naturalmente, acompanham a retirada das águas e, à noite, ao crepúsculo, a sua ilhota de coral mal se vê. Em compensação, quantos chegam? Quanta vida nesta charneca ardente e triste! Os galos, as perdizes vermelhas e as cercetas pululam pelos canaviais num número que, segundo me parece, nunca foi igualado! E as garças brancas, por vezes, são tantas que quase escondem o céu. Tanta coisa para admirar, observar e estudar! concluiu - Merecem que se lhes dedique horas, dias e semanas!

Calou-se, conservando-se junto da janela, mas, de repente, voltou-se para Karen como se pretendesse apanhar-lhe de improviso a expressão do rosto.

- Mesmo assim, prefere a medicina, não é verdade?

A rapariga não lhe respondeu. Observava-o. Desde o dia em que chegara ao mas, não cessava de se espantar com a descoberta de um Forestier tão diferente do professor da Faculdade, calmo, lúcido e frio. Mas só naquele instante teve a revelação de uma transformação que nenhuma causa normal poderia explicar. Não pôde deixar de pensar numa espécie de encantamento exercido pelo ambiente.

No fim, com expressão grave, proferiu uma frase que não era uma resposta à pergunta do médico:

O doutor também prefere a medicina.

Forestier teve um riso breve.

- Posso saber como adquiriu essa certeza? - Não só eu a tenho, professor, mas todos os meus camaradas a quem guiou este ano e nos anos anteriores. Os que freqüentaram os seus cursos no anfiteatro e receberam os seus ensinamentos no laboratório; aqueles que o consideram como a personificação da ciência e da verdade, cuja admiração cresce com a confiança, entusiasmo, devoção absoluta e total...

Karen não dava bem uma resposta; fazia, sim, uma profissão de fé, tão espontânea, tão sincera, que não pudera prevê-la, prepará-la ou escolher os termos mais próprios para se expressar. Forestier assim a devia ter considerado, porque profunda emoção lhe transtornou as feições. Estendeu a mão como se desejasse deter as palavras da aluna e murmurou:

- Não deve conceber-se tão grande admiração por um homem, Karen. Um homem nada vale. As suas fraquezas e os seus erros tornam-no semelhante, apesar da sua ciência inútil, ao mais miserável dos ignorantes, cuja incapacidade estéril, mas inofensiva inércia, por vezes inveja... Nada tendo recebido, nada pode dar e, principalmente, não comete erros. Imagine o peso terrível, tremendo, da infalibilidade!... E o receio de vacilar, as hesitações, as tristes recordações com tudo quanto comportam de escrúpulos tardios, de remorsos! O terror de ter falhado, de usurpar uma posição, de atraiçoar a ciência... e talvez a vida!

A voz do médico sumiu-se na última palavra, Forestier passou pela testa a mão trêmula deixando-a cair de seguida. Karen sentia que não tinha falado para ela e quase se esquecera da sua presença. Esperou algum tempo para lha recordar. Como o silêncio se prolongasse e Filipe, com a cabeça baixa, não se mostrasse disposto a interrompê-lo, pensou que seria altura de retirar-se. Mas não queria fazê-lo sem obter a certeza de que o médico em breve utilizaria os seus serviços. Por fim, interrogou:

- Então quando poderei começar, professor? A pergunta arrancou o médico à sua abstracção. Estremeceu, fez um gesto vago e declarou:

- Voltaremos a falar no assunto, mademoiselle. Não lhe disse que desejava descansar primeiro?

E como ela se preparasse para falar, acrescentou quase com irritação:

- Por favor... Dar-lhe-ei parte dos meus projectos quando estiverem definidos. Entretanto, poderá utilizar-se do laboratório, se lhe interessa. Tornava-se impossível Insistir mais. Forestier acompanhou-a à porta e Karen calculou com que satisfação ele lha fechou nas costas.

Maquinalmente, desceu a escada e atravessou o vestíbulo. Nessa altura, dois vultos, embora distantes um do outro, surgiram na sombra do corredor. Mademoiselle de Marges, atraída pelo ruído dos passos de Karen, apareceu à porta da sala e Marthoun saiu do laboratório. Vendo Elvira, recuou, precipitadamente, deixando contudo uma nesga da porta aberta de forma a não a perder de vista. Quanto à aleijada, imóvel, viu Karen atravessar o vestíbulo e parar um instante como que ofuscada pelo sol, antes de sair. Quando a porta se fechou, dirigiu-se à janela do corredor e, encostada às persianas descidas, seguiu com a vista a estudante que se afastava. Pouco depois voltava a entrar na sala.

Marta-Maria aguardou que o martelar da bengala se desvanecesse para sair do laboratório. Apertava os lábios um contra o outro, num ricto irônico e duro e nas pupilas negras brilhava-lhe estranho clarão.

Sem suspeitar as diversas reacções provocadas pela sua saída, Karen atravessou o pátio e caminhou sempre em frente. Sufocada de princípio pelo tremendo calor, ainda mais sensível ao abandonar a casa fresca, em breve se habituou; ou talvez, absorvida pelos seus pensamentos, quase nem o notasse. A conversa com Forestier impressionara-a e enchera-a de espanto.

Aquele homem inquieto, céptico e talvez desanimado, esmagado pela consciência das responsabilidades, afastando de si todos os projectos de trabalho, seria o mesmo a quem sempre supusera ser dedicado à sua profissão?

Percorreu a alameda ladeada de pinheiros, atravessou o canal ressequido que circundava o mas e contornou este último. Pela estrada dura, batida pelo sol que a cegava, caminhava sem parar... Precisava de movimento para esquecer a surpresa da descoberta e a humilhação de ver o seu auxílio recusado. Era então hábito de Forestier auxiliar os alunos mais pobres... e mais dotados. A escolha recaira nela por acaso, porque o seu curso contava outros alunos de idêntico valor e também pobres.

Os mas mais pequenos, disseminados em volta do maior, e que também faziam parte da propriedade, pareciam dormitar, com portas e janelas cerradas. Quase todos eram habitação dos guardas; estes ali viviam com as famílias, embora Forestier tivesse renunciado, havia já muitos anos, à criação das manadas. O seu forçado afastamento da Camargue e as suas ocupações não lhe permitiam ocupar-se com os touros. Filha de bayle e viúva do último bayle das "Avocetas", Marta-Maria, segundo pensava Karen, devia lamentar este abandono. Instalada no mas desde que enviuvara, conforme desejo do doutor, não sonharia ainda, na sua solidão, com as esperas e touradas?

Diante de Karen, a estrada estendia-se erma e calcinada pelo sol, pois a passagem das manadas nem mesmo deixava impressas na poeira as inúmeras pegadas. com semelhante calor ninguém se atrevia a correr a sansouire. As aves, ocultas nos canaviais, dir-se-iam adormecidas, mal se ouviam. Só uma pega, a certa altura, se elevou nos ares.

A vibração da luz em volta da lagoa, cujas águas tomavam um tom azul quase metálico, incomodou Karen que cerrou as pálpebras. Quando as ergueu teve como que um deslumbramento e foi obrigada a aguardar algum tempo antes de prosseguir. Só nesse instante notou a imprudência de se aventurar com a cabeça descoberta aos ardores de um sol a que não estava habituada.

Não fazia a mais pequena idéia do caminho percorrido. Caminharia há muito tempo? Voltando-se, avistou o mas ao longe, muito afastado, talvez a uma distância de quilômetros. Seria mais sensato voltar para trás, mas sentiu-se, de súbito, tão cansada que desejou repousar um instante antes de regressar a casa.

Abrigando os olhos com a mão em pala, percorreu com a vista os campos ressequidos. Aqui e ali, multiplicavam-se as placas refulgentes de sal. Tamargueiras queimadas e pequenas lagoas, que deixavam ver o fundo fendido e seco, quebravam a monotonia do conjunto. Perto de Karen, um touro, para se defender dos mosquitos, mergulhara até ao ventre numa delas, que ainda conservava alguma água. Finalmente, a pouca distância, avistou, à beira da estrada, uma capela arruinada, meio oculta por enfezados pinheiros. Apressou-se a alcançar o abrigo.

Quando ia a entrar, um guarda a cavalo abandonou a magra sombra das árvores onde devia ter parado para descansar um pouco. Do alto da sela, característica da região, com uma boina, envolvendo completamente o busto, observou-a com curiosidade. Depois saudou-a e seguiu o seu caminho, enquanto Karen, tendo verificado com satisfação que a porta da capela estava aberta, entrava no pequeno templo.

Deixou-se cair no degrau de pedra que corria em volta da parede, mas a frescura do ambiente não lhe proporcionou o alívio com que contava. A capela, construída talvez em honra de qualquer deus pagão - a própria igreja da Santa-Maria devia ter sido, antes de ser consagrada a Cristo, um templo do Sol-a capela, dizíamos, era das mais primitivas. Estava escura e Karen não pôde examiná-la à vontade. De resto, o seeu abatimento impediu-a de dar-lhe atenção.

Durante algum tempo, conservou-se com os olhos fechados. A cabeça pesava-lhe e o sangue martelava-lhe as fontes. A dor que de princípio se localizara na testa, surda e persistente, em breve se propagou até à nuca. com lucidez própria dos seus conhecimentos no assunto, Karen tacteou o pulso, contou as pulsações e murmurou:

- Um ataque de insolação! Serei forçada a adiar a partida por alguns dias.

Depois, conservou-se quieta a fim de reunir todas as forças para regressar ao mas calculando, ao mesmo tempo, as probabilidades de consegui-lo, caso a febre, subindo rapidamente, como é hábito em tais casos, não a impedisse de o fazer.

Lá fora, a ardência do sol mantinha-se queimando a charneca erma. Depois do trotar do cavalo do guarda, nem o mais pequeno ruído quebrara o silêncio da sansouire. De repente, teve a impressão de uma vibração surda que, pouco a pouco, se aproximava. Decorreram alguns segundos e no limiar da porta, aberta com violência, perfilou-se um vulto de homem.

Está aqui, Karen? - inquiriu a voz forte de Forestier.

- Estou-. respondeu ela, erguendo-se. Mas a escuridão era tanta que o médico não conseguiu vê-la.

Soltou uma exclamação de contentamento e continuou:

- Felizmente, encontrei o guarda do mas vizinho que me afirmou tê-la visto entrar na capela. Se não fosse ele, não sei quanto tempo teria perdido a procurá-la.

E como Karen se aproximasse, observou em tom severo:

- Não sabe como é perigoso e imprudente sair à hora do sol, nesta região?... E, para mais, com a cabeça descoberta! -exclamou quando Karen chegou junto dele-Não podia acreditar, quando a Marthoun me avisou. Graças a Deus, ela viu-a sair e depois de ter aguardado uns minutos, na esperança de que voltasse para trás, foi prevenir-me. Que imprudência, uma rapariga inteligente, não ignorando a natureza das febres desta região, sair assim, à hora de maior calor!

- Não reflecti - murmurou Karen - Não tinha em que me ocupar e...

Calou-se. Forestier, contudo, não o notou logo. com a involuntária alusão ao seu aborrecimento e ociosidade, a estudante acabava de lhe recordar a conversa dessa manhã. Sem dúvida, reconheceu as suas culpas, porque mordeu os lábios. Por fim, admirou-se com o silêncio de Karen e voltou-se para ela:

- Está doente, Karen? com efeito, encostada à parede de pedras toscas, ela quase desmaiava.

- Um pouco - murmurou, tentando sorrir. Forestier observava-o com atenção.

- Venha - ordenou em voz breve - Já é tempo de regressar ao mas para se deitar.

Karen obedeceu e instalou-se no automóvel que o médico parara à porta da capela. Forestier tomou conta do volante e em poucos minutos chegaram diante do portão do mas.

Quando entraram em casa, Marthoun, como por acaso, encontrava-se no corredor. O médico chamou-a:

- Marthoun, auxilia mademoiselle Rochel a deitar-se. Daqui a pouco irei vê-la.

Não achou necessário dar novas instruções, nem precisava. A ama já tinha compreendido ter tido o passeio as conseqüências que receara. Baixou os olhos, talvez para ocultar a expressão sombria que os animava. A precaução, porém, tornava-se inútil. O médico prestava toda a sua atenção a Karen e esta estava cada vez menos apta a dar fosse pelo que fosse.

Mesmo assim, tentou protestar:

- Não é preciso, Marta-Maria. Não se incomode comigo.

- É preciso, sim, mademoiselle - teimou a ama num tom mais brando do que o usual.

Depois, pegou no braço de Karen que, inerte, deixou de opor resistência, e arrastou-a para o quarto.

Devagar, o médico dirigiu-se à sala. Quando entrou, mademoiselle de Marges que estava a ler, meio-estendida no divã, soergueu-se. As janelas da sala davam para o lado oposto do pátio, de forma que Elvira, não tendo dado nem pela saída nem pelo regresso do carro, acolheu-o com olhar surpreendido.

Filipe atirou para cima da cadeira o capacete de lona que trazia na mão e aproximou-se dela. A expressão sombria, a contracção das sobrancelhas, todo o seu aspecto iam provocar uma pergunta quando o médico se antecipou:

- Decididamente, sou um ente nefasto, Elvira.

E como ela continuasse a olhá-lo interrogativa, continuou:

- Se acontecer qualquer coisa à Karen, nunca mo perdoarei.

Mademoiselle de Marges compreendeu e estremeceu. No entanto, conseguiu dizer com ironia:

- Não sei o que lhe possa acontecer.

- Por exemplo, expor-se ao sol e morrer por causa disso.

Os olhos verdes da rapariga brilharam. compondo a saia, replicou:

- Mademoiselle Rochel não é uma criança para ignorar os perigos das insolações.

Filipe encolheu os ombros.

- Não compreende que o mal já aconteceu? Karen saiu esta manhã para a sansouire e acabo de a trazer a tremer com febre. Não posso ainda dizer se foi gravemente atingida, mas conheço bem esta região para saber que, com mais freqüência do que se pensa, os casos são graves e muitas vezes mortais.

- Mesmo assim, não tem qualquer responsabilidade.

- Tenho. Devia dar-lhe com que se ocupar, ceder ao seu desejo de trabalho, numa palavra, cumprir o contrato que estabeleci quando a trouxe para o mas. Mas a opressão desta casa, o estado de espírito em que me encontro desde a chegada aqui, a minha cobardia, enfim, impediram-me de cumprir o meu dever. E, repito, se a morte entrar aqui, terei horror a mim mesmo.

A voz sumira-se ao proferir as últimas palavras, que impressionaram menos Elvira do que a sua inflexão. Levantou a cabeça e olhou Forestier nos olhos:

- Que profundo arrependimento!... Que insistência em se sobrecarregar com as culpas, Filipe!... Cautela com os escrúpulos! Cautela com a verdadeira natureza dos remorsos! Parecem-me excessivos, para traduzirem apenas os sentimentos que pretendem deixar adivinhar!

Mademoiselle de Marges, com certeza, lamentou estas palavras mal acabou de as pronunciar. A fisionomia do médico traduziu o mais profundo espanto. Levou algum tempo para compreender a irônica alusão da companheira e, quando o conseguiu, riu com amargura.

- Isso é inesperado, Elvira! Inesperado e surpreendente, vindo de si - continuou após ligeira pausa - Considero-me o homem mais imperfeito deste Mundo e tenho a consciência de merecer grande número de censuras. Mas a que me dirigiu, isso nunca! E confesso não esperar recebê-la de si.

Elvira quis falar. Ele não lhe deu tempo a fazê-lo. Desde que entrara na sala conservava-se de pé, junto do divã. Naquela altura, porém, começou a passear de um extremo ao outro da casa.

- infiel! -exclamou - Sou-o tanto como a Elvira. Nunca poderia sê-lo, bem sabe. Não lhe dei já tantas provas dessa constância? Como pode duvidar, conhecendo a minha vida?

- Não duvido, Filipe! -afirmou ela com voz surda.

- Na tarde em que cheguei aqui - continuou sem ouvir o protesto - nessa tarde, não sei se desejou agradar-me ou... experimentar-me, quando colocou a fotografia no meu quarto... Fosse pelo que fosse, a minha comoção devia ter-Lhe provado que estou longe de esquecer. Nada mais posso dizer-lhe senão que seria loucura pensar que essa rapariga de vinte e dois anos pudesse ser para mim mais... olhe para os meus cabelos brancos!

Elvira fez o que Filipe lhe pedia. Olhou-o intensamente. Nunca, como naquele dia, o vira tão belo, com o rosto pálido, as feições acentuadas, os olhos escuros, os cabelos prateados nas fontes, a testa alta, a expressão que durante a conversa se animara e parecia irradiar força, luz e doçura.

- A minha mocidade morreu, Elvira. E, se tentasse regressar, sufocá-la-ia porque perdi o direito de a viver.

Elvira cerrou as pálpebras, apoiou a cabeça nas costas do divã e murmurou:

- Ainda não fez quarenta anos, Filipe.

- É como se tivesse cem, Elvira. Suportei tantos remorsos, revoltas e sofrimento que chegavam para encher muitas vidas!

Ela não lhe respondeu. O médico, pressentindo quantas recordações dolorosas a cena despertara, aproximou-se e, pegando-lhe na mão, beijou-a.

Acabava de a largar quando Marthoun abriu a porta.

- Podes vir - disse na sua voz decidida que, desta vez, não tinha a inflexão de ternura que costumava usar quando se dirigia ao médico.

- Como está ela? - inquiriu Forestier, aproximando-se da ama.

- Delira.

Elvira abandonou o divã.

- Felizmente, conseguiu encontrá-la antes dela se expor ainda mais ao sol - observou Foi por acaso que soube ter ela saído? Julguei-o no seu escritório...

- Não houve acaso-declarou Marta-Maria

- Fui eu quem, tendo visto sair a pequena, o avisei.

Uma nota de triunfo vibrava na voz e animava o olhar que observava Elvira. Esta não demonstrou tê-la ouvido. Seguira atrás do médico, dizendo:

- Acompanho-o, Filipe. Talvez possa auxiliá-lo.

MartaMaria, que parara no limiar da porta, não fez um movimento para a deixar passar.

- É inútil. Eu chego.

A frase foi dita de tal modo que a outra parou e dirigiu-se a Forestier:

- Posso vê-la esta noite, se for preciso. Durmo pouco, como sabe, e não me custará.

- Eu ainda durmo menos - interrompeu Marta-Maria- Está indicado que seja eu a velar pela doente esta noite.

Forestier franziu a testa.

- Parece-me mal escolhido o momento para discussões. Veremos isso depois.

E, voltando-se para mademoiselle de Marges, acrescentou em voz branda:

- Se precisar de si, avisá-la-ei. Agradeço-Lhe, Elvira.

E, atrás da ama, saiu da sala, fechando a porta. Quando se dispunha a subir a escada, Marta-Maria poisou-lhe a mão no braço e teimou:

- Não farás uma coisa dessas, Filipe.

- Não farei o quê? - inquiriu o médico com espanto.

- Permitir que uma doente trate outra doente. É impossível.

Apesar de não ter disposição para rir, o médico não conseguiu evitar um sorriso.

- Teimosa! A despeito dos anos, continuas a ser a mesma! Parece-me ouvir-te ainda quando querias arrancar-me a promessa de não me aproximar muito dos touros no dia da ferra! Pois bem, seja como desejas, visto que teimas em ficar no teu posto! De resto, prefiro que sejas tu a tratar de mademoiselle Rochel.

- Tens razão - concordou Marta-Maria com estranha expressão - É preferível, sim.

 

                   A MENTIRA

Embora a vida de Karen não tivesse corrido perigo, no entanto, foi obrigada a ficar na cama durante oito dias. A febre declarada depois da insolação foi violenta, acompanhada por delírio e por absoluta inconsciência. O tratamento enérgico ministrado pelo médico e os cuidados de Marta-Maria depressa a debelaram.

A ama velou por Karen com cuidado e dedicação e, tal como havia decidido com a sua habitual autoridade, ninguém a substituiu durante as duas noites que a doente teve de ser vigiada.

Posta ao facto desta dedicação, Karen ficou tão sensibilizada como surpreendida e não deixou de manifestar a Marthoun o seu reconhecimento. A ama encolheu os ombros e, afastando-se da cama, respondeu com a indiferença do costume:

- Não tem importância, mademoiselle. Na minha idade não custa passar uma noite em claro.

Mostrava-se sempre retraída, pouco comunicativa e não demonstrava preocupar-se com Karen mais do que antes da doença.

No entanto, a estudante tinha a impressão de que as poucas palavras e o olhar de Marta-Maria revelavam, quando se lhe dirigia, um pouco mais de interesse, uma simpatia encoberta.

Quanto a madame Forestier, tratava Karen com atenções e bondade. Mas adivinhava-se que deixava o campo livre à ama, nem interferia nos encargos que esta havia assumido por sua vontade. Mademoiselle de Marges, como a sua oferta do primeiro dia não fora aceite, limitara-se a fazer breve visita ao quarto da doente. Não se demorou, porque, segundo disse depois a madame Forestier, "Marthoun, perfilada junto da cama, fazia guarda, numa ridícula ostentação, e não me deixou aproximar! "

A espécie de abatimento que, durante uma semana ainda, Karen sentiu, impediu-a de falar na partida, Além disso, perguntava a si mesmo com ansiedade se, depois dos cuidados de que fora rodeada, não seria deselegante e até ingratidão, abandonar as "Avocetas" logo que estivesse completamente restabelecida. Por outro lado, conservar-se ao serviço de um patrão que não se resolvia a exigir-lhe trabalho, era coisa inadmissível. Foi o próprio Forestier quem resolveu a questão e deu a Karen ensejo para revelar os seus projectos.

Certa manhã, Filipe entrou atrás de Marthoun no quarto onde a doente terminava o almoço. Era cedo e, conquanto se pudesse considerar quase restabelecida, o médico exigira que ficasse na cama parte da manhã.

O sol de Verão entrou no quarto pelas janelas que Marta-Maria acabava de abrir. Da lagoa subiam os gritos das aves, dominando por instantes o pairar dos gaios e o agudo piar das pegas.

Depois de ter apertado a mão de Karen, Forestier puxou uma cadeira e sentou-se perto da cama.

- Parece uma rapariguita dos contos de Andersen - comentou-Como foi possível eu não ter notado ainda que a Karen tinha saído de um desses livros de contos da sua terra!

Sorrindo, a doente afastou da testa os cabelos cortados curtos e emaranhados. Afigurava-se-Lhe que o professor, naqueles últimos dias, se mostrava menos sombrio do que na altura da chegada ao mas. Pensava que a sua doença, solicitando os cuidados do médico, tinha representado para este um derivativo ao abatimento.

Não teve oportunidade para exteriorizar o seu pensamento, porque Forestier prosseguiu logo:

- Considero-a de todo restabelecida, Karen, e julgo que a partir de hoje pode retomar uma vida normal. Peço-lhe, unicamente, para não sair à hora do calor. Para a tarde, se o desejar, pode fazê-lo sem perigo.

Karen mal o escutava. Desde as primeiras palavras do médico, classificava de providencial o ensejo por este proporcionado para lhe anunciar que tencionava deixá-lo. Porém, na altura de o fazer, súbita hesitação, uma espécie de covardia, um sentimento que nem ela própria conseguia explicar, reteve-lhe as palavras.

Mas, como o professor se levantasse e se mostrasse disposto a sair, chamou a si toda a coragem: - com efeito, sinto-me completamente boa - afirmou - e já há alguns dias. Portanto, não quero abusar da hospitalidade que me concedeu. A mínha doença causou no mas um incômodo que me envergonhou e desolou e nunca perdoarei a mim própria a minha leviandade. A minha estadia em sua casa, professor, não pode prolongar-se indefinidamente. Se mo permite, partirei amanhã para Paris.

O médico escutara-a impassível. Quando ela se calou, continuou a fixá-la em silêncio, durante alguns minutos ainda. Depois murmurou:

- Gostaria de saber que espécie de rapariga é a Karen... Conheço a sua inteligência e não posso admitir que fale e proceda ao acaso. O entusiasmo quando lhe propus acompanhar-me e passar aqui o Verão, afigurou-se-me sincero. E agora mudou de parecer...

Calou-se, bruscamente, e deu alguns passos para a janela. Atrás dele, a voz de Karen explicou:

- com efeito, fiquei radiante com a perspectiva de trabalhar consigo, de o auxiliar, professor. Qual seria aquele ou aquela das suas alunas que não o ficaria? Depois... como o projecto não se realizou, julgo que a minha presença no mas não tem justificação.

Forestier permaneceu algum tempo calado, com as costas voltadas para a cama. Talvez que, naquele instante, enquanto o olhar fixava a superfície azulada da lagoa, concentrasse o pensamento sobre a atitude de Karen e tentasse descobrir-lhe as causas, ou então tivesse a fugidia revelação do perigo que a estudante representava para ele. O destino das pessoas, muitas vezes, depende de uma só palavra, de uma aceitação ou recusa. Por fim, voltou-se.

- Raciocina admiravelmente - declarou com uma pontinha de ironia - Em resumo, recomeçamos a conversa que tivemos, se bem me recordo, no dia da sua imprudência.

- Exactamente, professor.

- É obstinada, mas não posso censurá-la por isso. Obstinação contra obstinação recuso-me a deixá-la ir embora.

Karen baixou os olhos, dominada por intensa alegria.

- E não tenha receio, não tardarei a pedir a sua ajuda. Trabalharemos... visto assim o desejar.

- Agradeço-lhe, professor. Quando começamos?

Forestier, que já ia perto da porta, parou para a observar outra vez e sorriu. Aquela tenacidade não estava em harmonia com a aparência juvenil da rapariga. Como bom jogador, aceitou a derrota. Consultou o relógio de pulso e pareceu reflectir.

- São oito horas - disse - Creio que às nove poderá ir ter comigo ao laboratório.

O Verão passou sobre a Camargue e o calor ardente acabou de a ressequir. Havia muito tempo que as águas menos fundas se tinham evaporado e só a grande lagoa reflectia ainda, quando a noite caía, o céu incendiado pelo ocaso, onde não aparecia a mais pequena nuvem.

No entanto, todos quantos estavam habituados à região afirmavam que o Outono seria precoce. A passagem das aves migratórias naquele ano, dera-se muito cedo. Quanto aos animais próprios da terra, não escasseavam. Os coelhos eram tão numerosos como os tufos de erva ressequida; na sansouire, abundavam gaios, perdizes e cerestas, cuja matança havia começado com a abertura da caça.

A essa agitação juntaram-se as batidas dos guardas, para separarem os animais destinados às corridas do ano. Todo esse barulho, porém, morria às portas do mas.

Marta-Maria, no entanto, não deixava de o notar e não se sabia como conseguia estar ao facto de todas as novidades da sansouire. Dizia: "O mas do Farol manda este ano quatro ternen (*) à festa das Santas" ou então: "Amanhã virão buscar os touros da manada de S. João". E Karen observava que a voz neutra da velha criada tinha, ao proferir estas palavras, leve vibração. O amor à sua Camargue natal devia ser ardente e animado por íntima chama, tão profundo como a ternura

 

(*) Touros de três anos

 

por Filipe e a aversão, talvez o ódio, que sentia por Elvira de Marges.

A impressão que, desde o dia da chegada, Karen tivera da antipatia existente entre mademoiselle de Marges e a ama, com o tempo mais se confirmava. Antipatia recíproca, de resto, sem causa aparente, mas mais intensa e violenta por parte de Marthoun. Pelo menos, era o que se afigurava à estudante.

Diante de Karen brilhavam todos os objectos próprios do laboratório: tubos de vidro, ampolas, provetas e frascos. O microscópio encontrava-se mais longe, em cima da prateleira baixa que corria ao longo da parede caiada de branco e Forestier ocupava-se a regulá-lo. Pelas largas janelas, a luz entrava, mas não o calor excessivo, visto a exposição do laboratório o defender do ardor do sol.

Voltada para a varanda envidraçada, deixando o olhar vaguear pelos vidros foscos que impediam a visão do lado de fora, Karen, durante algum tempo, conservou-se completamente alheia ao que se passava em volta dela.

De Elvira, o seu pensamento passou para o médico, enquanto associava as duas imagens. com que atenções e cuidados o médico rodeava a doente! Como tomava em conta todas as suas palavras, opiniões e desejos! o modo como a consultava e como se mostrava solícito em lhe agradar! No fundo, Karen pensava haver na atitude de Filipe mais do que delicadeza e amizade, mais do que generosidade e compaixão por uma pessoa fisicamente, diminuída. O que seria então? Amor? Elvira era dotada de tão extraordinária beleza que se tornava fácil esquecer-lhe a deformidade.

- Karen onde está?

A estudante estremeceu e voltou-se para Forestier. A poucos passos dela, o professor observava-a, sem dúvida, havia alguns minutos.

- Onde estava? - respondeu Karen, corando -Mas... aqui.

- Não.

Aproximou-se mais. Envergava uma bata branca cujas mangas, arregaçadas até ao cotovelo, lhe deixavam a liberdade precisa para os seus trabalhos. E, conquanto não fosse a primeira vez que o via com semelhante trajo, não pôde deixar de notar quanto lhe ficava bem.

A vivacidade da resposta surpreendeu-a, pois não estava habituada a modos tão imperiosos. No entanto, verificou logo que a expressão do professor não correspondia à exclamação.

- Tem de se habituar - continuou ele, sorrindo- a ver as suas mentiras, mesmo as mais inocentes, serem descobertas. É um facto independente da sua vontade, impossível de evitar, mas não consegue mascarar a verdade.

E como ela esboçasse um gesto de espanto, Forestier prosseguiu:

- Não vai teimar outra vez que o seu pensamento estava aqui?... Não proteste. Estava talvez em Paris ou em Copenhaga, mas não nas "Avocetas", tenho a certeza.

Karen ergueu a cabeça. Também envergara bata branca e, com os cabelos curtos, mais se assemelhava a uma garota.

- No entanto, insisto, professor. Estava aqui.

- No laboratório?

- Perdão. No laboratório não, mas no mas.

- com efeito, é diferente. Não receie que eu leve a minha indiscrição a ponto de lhe pedir pormenores sobre o que pensava.

Karen baixou os olhos para a folha de papel que tinha na frente. O médico aproximou-se e olhou por cima do ombro dela. Depois puxou um banco e sentou-se ao seu lado.

- Veremos amanhã este caldo de cultura disse, designando a grade onde estavam metidos os tubos cheios com um líquido esbranquiçado - Suponho que não será muito difícil isolar o micróbio da febre de Malta.

- Também me parece! Quem lhe mandou o doente para a colheita do sangue?

- O doutor Dufaux, das Santas Marias. Daqui a pouco já lhe falo a seu respeito. Segundo parece, o rapaz, cujos sintomas exigiam uma análise, mora perto, numa das casas dos guardas. Nestes dias mais próximos, ficaremos no meu gabinete de trabalho - continuou, após breve interrupção - então pedir-lhe-ei para dactilografar a primeira parte da minha comunicação à Academia de Medicina, que concluí a semana passada.

Interessada, Karen voltou-se para ele.

- Introduziu-lhe modificações, professor?

- Bastantes, sim, e, no fim das férias, farei mais. Não esqueça que comecei este estudo... há muitos anos e que nunca o concluí. As observações então feitas sobre as febres desta região e sobre as suas origens, mesmo exactas, já devem ter sido objecto de várias comunicações de outros médicos. Temos de prosseguir, de caminhar. A medicina é uma contínua ascensão, Karen, e quem não avança por este caminho íngreme, escorrega e recua. Evidentemente, os mosquitos são os mesmos e o paludismo conserva-se em estado latente nestas terras. No entanto, se as recentes experiências detiveram a doença, impõe-se continuar as pesquizas. O doutor Dufaux, de quem falei há pouco e que exerce clínica para estes lados há mais de trinta anos, escreveu-me para dizer que ficaria muito satisfeito por poder comunicar-me os resultados obtidos nas suas inúmeras experiências. Tenho tenção de visitá-lo talvez ainda hoje. Se o assunto lhe interessa, pode acompanhar-me. Há sempre muito a ganhar com esta espécie de discussões.

Karen aceitou com alegria. Desde o primeiro instante em que ela e Forestier se haviam encontrado na atmosfera do laboratório, entregues ao trabalho e ao estudo, Filipe voltara a ser o professor lúcido, conciso e cheio de autoridade que conhecera na Faculdade. E Karen chegava a perguntar a si mesma se não teria sonhado as singularidades de caracter e o abatimento a que ele se abandonara nos primeiros dias.

De resto, não havia sido ela a única a notar a feliz mudança do doutor. Madame Forestier, sem se manifestar, com certeza experimentava profunda alegria com isso, pelo menos a alegria que o seu temperamento calmo podia sentir. E redobrou de solicitude para com a estudante, como se as novas ocupações de Filipe e, principalmente, o prazer que demonstrava sentir com elas, fossem obra de Karen.

Quanto a mademoiselle de Marges e a Marthoun eram, uma e outra, demasiado retraídas para deixarem adivinhar os seus sentimentos.

Naquele instante preciso, uma das duas pessoas que a estudante acabava de evocar surgiram no limiar da porta. Foi Marta-Maria.

- Aqui tens a correspondência, Filipe. Forestier agradeceu-lhe, abandonou em cima

da mesa as cartas e os jornais que a ama lhe entregou, depois de ter empurrado alguns frascos com a mão e pediu:

- Diz ao Felix para preparar o carro, Marthoun. Conto sair daqui a um instante.

Quando a ama saiu, voltou-se para Karen:

- Acompanha-me até às Santas?

- com todo o gosto, professor.

- Se isso a aborrece, não se julgue na obrigação de o fazer.

Dir-se-ia que se arrependia por ter feito o convite. Karen, porém, como se não desse por isso, continuou a sorrir ao mesmo tempo que desabotoava a bata e a pendurava num cabide. Forestier seguia-lhe todos os gestos e franziu as sobrancelhas num indício de reflexão.

Quando Karen se voltou, pronta para sair, com o vestido simples de algodão azul, do mesmo tom suave dos seus olhos - não pôde deixar de notar o médico - este não se mexeu. Como o olhar de Karen o interrogasse, observou:

- O que mais me surpreende em si, Karen, é a sua docilidade. Já vivi muito para aprender a estudar as fisionomias. De resto, a minha profissão obriga-me a isso. Quase sempre impõe-se arrancar a máscara aos doentes, descobrir-lhes os segredos. Supunha, portanto, saber interpretar bem o íntimo das pessoas, as suas qualidades e defeitos. Desde que vive aqui descobri quanto é independente, resoluta, senhora de uma vontade forte. E, ao mesmo tempo, comigo mostra-se dócil, é este o termo, de uma docilidade absoluta.

Calou-se e o seu olhar penetrante ao qual nada escapava fixou Karen com atenção. A estudante ficou calada durante algum tempo e depois replicou com leve sorriso:

- Não constituo caso único, doutor. Em todos os seus alunos, se tivesse ocasião para os estudar, encontraria o mesmo fenômeno.

- Na verdade?

A interrogação foi despida de interesse. Tornava-se evidente que, naquele instante, só Karen contava para ele.

Na sua voz harmoniosa, um pouco surda em certas sílabas, noutras quase musical, ela respondeu:

- Suponho que nunca soube o que representava para nós, professor, nem a absoluta submissão a si e aos seus ensinamentos...

Filipe deteve-a. Estava mais pálido do que o costume.

- Já mo disse não há muito tempo, Karen.

- É por tal forma verdadeiro e tão belo representar para os outros uma força poderosa, nobre, generosa e construtiva: a força da vida! e ser digno dela!

- Digno! Sabe-se lá.

- Pode ter-se a certeza quando, durante muitos anos, se serviu não só a ciência, mas a vida humana; quando se salvou entes condenados, quando se tentou e se conseguiu levar a cabo intervenções que os mais eminentes cirurgiões não se atreviam a fazer; quando, numa palavra, se realizaram milagres dos quais ninguém, no Mundo inteiro, teria sido capaz.

Forestier estava de pé, encostado à mesa, com os braços cruzados. Como voltava as costas para a janela, Karen não pôde ver-lhe as feições alteradas.

- Isso tudo pertence ao passado - replicou ele com voz surda.

Calou-se, descruzou os braços e tirou da algibeira um cigarro que acendeu antes de concluir:

- Já não tenho nada de comum com esse passado.

A estudante não lhe respondeu logo a seguir. Olhava, como lhe acontecia muitas vezes, para a mão direita, fina, comprida, na qual coisa alguma revelava o mal, mas que devia representar para Forestier como um peso morto. Depois, exteriorizando pela primeira vez e a despeito da sua vontade, o pensamento que tantas vezes a atormentava, murmurou:

Será possível que esse poder esteja perdido

para sempre? - com espanto, Filipe observou-a e seguiu-lhe a direcção do olhar.

- Sim... a minha mão...

Respondendo à pergunta de Karen, num tom que tentava ser despreocupado, afirmou:

- Não tenha dúvidas. Não me atreveria a manejar o bisturi senão para demonstrações anatômicas.

Ao mesmo tempo, abandonou o cigarro em cima da mesa e, estendendo o braço, movimentou as articulações da mão.

- Não parece, não é verdade? - interrogou com amarga ironia.

- com efeito, assim é. E gostaria de saber...

- O que aconteceu de irreparável? Um dia lho explicarei, como quem dá uma lição e por forma circunstanciada. Talvez mais tarde lhe possa servir. Por agora, basta-lhe saber que, se as articulações se conservam pouco mais ou menos normais, isso não passa de aparência; e, além disso, falta-me força para cortar em carne viva.

- Força? - repetiu Karen.

- Sim, o vigor ou, se prefere, a precisão, a força incisiva. A minha mão, por exemplo, não Pode apertar um objecto com força, prender-se à borda de um barco ou agarrar alguém que tente fugir. E isto está em completa oposição ao princípio que exige ser o bisturi manejado com energia, mas com leveza. Para isto, impõe-se que a mão seja forte. Dou-lhe estes exemplos, tão pouco anatômicos, para melhor lhe fazer compreender como foi irremediável a perda das minhas faculdades.

Falava com voz surda, embora quisesse aparentar calma indiferença. De si para si, a estudante censurava-se por ter reavivado a ferida. No entanto, desejara tantas vezes, e tão ardentemente, aquela conversa, que não pôde conformar-se a encerrá-la e prosseguiu:

- Como é natural, nessa época, consultou os seus mais eminentes colegas?

- Não, não era preciso. O meu próprio diagnóstico chegava.

Proferiu estas palavras num tom categórico que não permitiu a Karen qualquer insistência. Levantou-se e, como quem abre um baralho de cartas, espalhou em cima da mesa a correspondência para a qual ainda não olhara. Verificando não haver coisa alguma de importância, decidiu:

- Temos de sair já, Karen. Espere-me aqui. É só o tempo de tirar a bata.

E, enquanto ela anuía com um gesto de cabeça, abandonou o laboratório. Maquinalmente, Karen foi lavar as mãos e, diante do espelho, tentou disciplinar os cabelos. Acabava de pegar no livro de apontamentos e no lápis, quando Forestier voltou.

- Leve o preciso para escrever, Karen.

- Já tinha pensado nisso - respondeu a estudante, indicando o bloco que tinha na mão.

- Muito bem. É uma auxiliar preciosa.

juntos abandonaram o laboratório, saíram de casa e subiram para o carro. Apesar de já ser tarde, o calor ainda se fazia sentir na sansouire. À passagem do automóvel, algumas aves, espantadas, esvoaçavam entre os canaviais, mas não levantavam vôo. Como único senhor do espaço, um abutre pairava com as enormes asas abertas.

De súbito, à distância, na charneca, os dois automobilistas avistaram uma nuvem de poeira que se levantava rente ao solo.

- Estão a separar os touros para a corrida

- declarou Forestier que adivinhara a origem da nuvem.

Não se enganava. Em breve, a manada se definiu. Em volta dela, impelindo-a, os cavalos galopavam, com os cavaleiros em mangas de camisa, grandes chapéus e calções de camurça. Ao longe cintilava o aço dos forcados.

Ao chegar próximo dos animais, o médico parou o carro.

- Gostaria de assistir ao espectáculo mais de perto, Karen?

Ela não respondeu, mas a expressão era de alegria e os lábios tremiam-lhe.

- Desçamos - decidiu Forestier. Saltaram do carro e aproximaram-se da berma da estrada que cortava a sansouire. Não existia valado a separá-las.

com os gritos dos guardas, alguns touros tresmalhavam-se, mas eram logo apanhados. Outros, mais dóceis, deixavam-se separar sem custo e iam reunir-se aos animais já escolhidos que, num dos lados do terreno, eram vigiados por um cavaleiro. Os cavalos educados para guardar os touros, belos camargueses brancos, com comprida crina, conheciam bem a sua missão. Muitos deles já deviam estar habituados àquele trabalho, porque demonstravam notável perícia, galopando atrás dos animais, empinando-se em caso de necessidade, mudando de direcção, parando bruscamente ou partindo como raios para cortar o caminho aos fugitivos, e tudo isto com rapidez e destreza. E os touros por eles manobrados, galopavam, faziam fintas, mas iam sempre esbarrar com os forcados, com os cavalos ou com a vara dos cavaleiros.

Surdos mugidos atroavam os ares. O bafo cálido da manada espalhava-se pela sansouire, que parecia tremer debaixo das patas dos animais. Alguns ainda tentaram fugir, ouviam-se gritos, invectivas que os homens bradavam no dialecto provençal, e os animais estavam apartados.

- O principal está feito-murmurou Forestier, voltando-se - Mas na vila, para onde vão os touros, está tudo preparado para a espera. Em novo gostava de assistir a esse espectáculo e muitas vezes tomei parte nele.

Os guardas rodeavam os touros separados. Depois, a uma ordem do tayle, puseram-se em movimento, impelindo os animais e, ao mesmo tempo, conservando-os reunidos, enquanto o resto da manada, ainda mal refeita da perturbação, se mostrava inquieta e agitada.

Soltando prolongados mugidos, espalhou-se pela sausouire. Não tardou que um barulho de chifres, entrechocando-se, denunciasse uma luta entre dois animais que, enervados com as corridas, com os gritos e talvez com os mosquitos, se enraiveciam contra os companheiros.

Alguns dos guardas puseram termo à batalha, empregando o forcado à esquerda e à direita. No entanto, a ordem não foi imediatamente restabelecida. E, de repente, um touro dos mais vigorosos, correu sempre a direito, com a inexperiência dos animais novos e desnorteados.

Em menos de um segundo estava em cima dos dois espectadores. Karen não gritou. Forestier atirou-se para a frente do touro, que parou de repente, com as pernas retesadas, lutando contra a força que o dominava. com espanto, a estudante viu Forestier que, agarrado aos chifres do animal, o obrigara a parar.

Viu a formidável cabeça rodar, lentamente torcida pelo homem, que não largava a sua presa, apesar dos repetidos abalos. Notou os sobressaltos do corpo vigoroso, a luta tremenda, o vergar das patas dianteiras, a língua pendente e, por fim, a queda. Mas o que viu, acima de tudo, foi Forestier... Forestier, ou antes, as suas duas mãos contraídas nos chifres, as duas mãos que dominavam o animal, triunfavam dos seus esforços e o derrubavam no solo. As suas mãos! Tão fortes, tão temíveis, tão eficazes! As suas mãos que, tanto uma como a outra, poderiam ainda dispensar vida, Karen tinha agora a certeza!

O animal ergueu-se e afastou-se enquanto um dos cavaleiros, que, demasiado tarde, acorrera, o perseguia para o obrigar a regressar à manada.

Sem dar tempo ao guarda para vir ter com eles, Forestier regressou ao carro, dizendo para a aluna:

- Venha, Karen.

Instalaram-se os dois e o carro partiu. O trajecto realizou-se em silêncio e só quando estavam perto das Santas, Filipe abrandou e voltou-se para a companheira.

- É uma estranha rapariga, Karen, e eu estou-lhe muito agradecido por me ter poupado os lugares-comuns que outra qualquer não hesitaria em empregar nestas circunstâncias.

- Quais circunstâncias, professor? - perguntou Karen, como se não o compreendesse - Que lugares-comuns?

- Por exemplo, afirmar que eu lhe tinha salvo a vida!

- Peço-lhe perdão. Devia tê-lo dito, com efeito.

Filipe sorriu.

- Não, não devia. Acima de tudo, não queria que se julgasse na obrigação de o notar.

- Tem razão. Não o notei.

A resposta foi tão espontânea, tão sincera que Forestier, divertido, quase parou o carro para a observar.

- O que notou então, Karen?

Deitando à estrada um olhar vago, Karen não lhe respondeu imediatamente, como se concentrasse o pensamento. Por fim, ergueu para Forestier o rosto ardente e, em voz baixa e fervorosa, murmurou:

Notei que não é, nunca foi um homem

doente, fisicamente diminuído, professor... que todos os seus dons permaneceram intactos... que amanhã, se quisesse, poderia voltar a operar!

 

             O MISTÉRIO TINHA UMA FACE

O mistral soprava na Camargue havia mais de seis dias. Os seus ataques furiosos abalavam o mas, cujas paredes, apesar de sólidas, pareciam oscilar. O ruído infernal do vento, os seus rugidos e assobios, os rangidos da casa que, semelhante a um navio desmastreado, lutava contra a tempestade, toda essa orquestração obsidiante abalava os nervos mais fortes. A própria Karen, sempre equilibrada, sentia-se deprimida por aquela força cega e destruidora.

Todos os dias se instalava no gabinete de trabalho de Forestier para dactilografar relatórios. Mas o médico, que tinha começado por lhe ditar os apontamentos, passara a deixá-la sozinha, desenvencilhando-se conforme podia com o rascunho.

Em toda a evidência, o mistral também exercia sobre ele uma influência nefasta, porque Karem, quando o via às horas das refeições, achava-o de novo com o aspecto sombrio dos primeiros dias.

Entre os dois, nem a mais pequena alusão ao passeio às Santas e à descoberta feita por Karen. para não voltar a abordar o assunto, bastava-lhe ter ouvido a voz glacial que respondera ao seu grito de alegria e de convicção:

- Eu operar! Está louca, Karen!

E o incidente, com tudo quanto com ele se ligava, parecia ter entrado no domínio do esquecimento.

No entanto, quantas vezes Karen, durante as horas de insónia, sentada na cama, com os olhos muito abertos na escuridão ou à luz do luar recordava a cena: o animal correndo para eles e Filipe dominando-o com as mãos possantes.

Certa noite, incapaz de fugir à obsessão, saltou da cama e foi encostar-se à janela. Sem querer, tropeçou numa cadeira e derrubou-a, queda que perturbou o silêncio da casa adormecida; e, segundos depois, com a maior surpresa, ouviu bater à porta do quarto e Marthoun apareceu. Só com a camisa de noite, os cabelos entrançados caídos pelas costas abaixo, o rosto lívido, a ama tinha um aspecto de pessoa alucinada.

Pediu desculpa - afirmando que, ao ouvir o barulho, receara que Karen estivesse doente e logo se retirou. Se o facto não lhe parecesse inVerosímil, Karen poderia supor que Marta-Maria velava por ela e a instalara no quarto contíguo ao seu para poder fazê-lo melhor.

No sexto dia, as iras do mistral acalmaram um pouco. Karen que, desde manhã cedo trabalhava sozinha no laboratório, ao abrir uma das enormes janelas que davam para a quinta, verificou que os pinheiros já não se torciam ao sabor das rajadas. O imenso clamor diminuía, por vezes chegava a calar-se, causando grandes períodos de silêncio que, começando por provocar espanto, acabavam por apaziguar os nervos.

O facto dispô-la bem. A reclusão dos últimos dias e também o excesso de trabalho haviam-na abatido, causando-lhe uma espécie de lassidão que nunca tinha sentido e que, segundo lhe parecia, atingia menos o físico de que o moral. Levantou-se, acendeu um cigarro e voltou a sentar-se, apoiando o cotovelo na mesa e encostando o queixo à palma da mão, sem pensar que, pouco antes, lhe apetecera fumar.

A impressão de uma presença obrigou-a a voltar a cabeça. Forestier, com as luvas na mão, assomara à porta e observava-a. Vendo-a levantar, aproximou-se.

- Não sabia que estava aqui, Karen.

- Há muitos dias que não entro no laboratório, professor. Hoje acabei por pôr em ordem os apontamentos que me confiou e de os passar à máquina. Resta classificá-los, mas, para isso, suponho que...

- Que se torna indispensável a nossa colaboração - concluiu Filipe - Tem razão. Trataremos disso amanhã, se não deseja descansar.

- Não preciso de descanso, professor. Forestier envolveu o rosto de Karen num olhar

rápido e murmurou:

- Parecia-me...

Ao mesmo tempo, aproximou-se mais dela. Abandonou as luvas em cima da mesa e consultou o relógio.

Tenho uma entrevista esta tarde, nas Santas - explicou - O doutor Dufaux pediu-me para examinar um doente a quem trata, um caso que o preocupa e... lhe causa certo embaraço. Evidentemente, não posso recusar. A complacência de Dufaux é grande e não admitiria uma recusa.

- De que se trata? - inquiriu Karen.

- Em primeiro lugar provavelmente, de uma paralisia facial de origem otológica.

- Um caso incurável, então...

- Já foi Karen. Presentemente, está provado que uma perda de substância no rochedo ósseo pode ser reparada por um enxerto, formando-se através dele a regeneração nervosa.

- Operação das mais complicadas, não é assim, doutor?

- Bastante e da qual o doente pode sair surdo ou desfigurado, impõe-se o conhecimento absoluto da anatomia do nervo no sector do rochedo e parótida e uma experiência não menos absoluta da dissecação. A constante ameaça da hemorragia, o acesso difícil ao nervo - que por vezes temos de ir buscar à emergência do rochedo, na região parotidiana - tornam a intervenção ainda mais delicada. Só o prolongado estudo do facial parotidiano pode preparar para tão difícil trabalho. Por outros pormenores que Dufaux me revelou, receio também que o doente tenha um tumor no cérebro.

Seguiu-se prolongado silêncio durante o qual se ouviu assobiar o mistral. Depois, a voz de Karen interrogou:

- Quem se arriscará a fazer essas operações? Não me refiro à primeira, embora, sem dúvida, raras vezes tenha sido tentada. Mas a segunda, conforme o ponto onde esteja localizado o tumor, arrisca-se...

- Marselha tem excelentes cirurgiões - afirmou Forestier num tom indiferente.

Mais uma vez se calaram. Lá fora, o temporal recrudescia. Dir-se-ia que a recente acalmia apenas servira para lhe dar novas forças, maior loucura de devastação.

"Quando o mistral abrandar - pensava Karen-ainda que seja por pouco tempo, falarei... "

Mantinha-se de pé, em frente de Forestier, com uma das mãos apoiadas na mesa, a outra sustentando o cigarro que se consumia lentamente. E, de súbito, depois de forte crescendo, o vento caiu.

"Meu Deus, inspirai-me" - murmurou, mentalmente, Karen, apertando com tanta força o cigarro que este se desfez. Depois ergueu os olhos para Forestier.

- Porque não opera o professor?

As negras pupilas do médico exprimiram tanta violência que ela se assustou.

- A Karen é de uma obstinação que ultrapassa todos os limites - observou, tentando mascarar o tremor da voz com certa ironia - com isso deve vencer na vida. Em compensação, a sua fantasia afigura-se-me demasiado exuberante para uma futura médica! De si para si, decidiu: eu devo recomeçar a operar e, principalmente, posso fazê-lo!

Qualquer outra resposta teria intimidado Karen. Mas a ironia de Forestier só teve como resultado exasperar-lhe o gênio combativo. Deixou de ser Karen, a estudante, a Karen que confiava em Forestier e cuja docilidade surpreendera o professor, para se transformar numa espécie de juiz lúcido apesar do seu ardor.

- com efeito, tenho a convicção de que pode fazê-lo, professor. Quanto a dever recomeçar, isso não tem discussão. Seja qual for a razão que o afastou da mesa de operações, não pode prevalecer contra a certeza de salvar muitas vidas humanas.

Esta lição representava, para o médico, a mais cruel que podia receber. O semblante de Forestier transtornou-se e o médico recuou:

- Sei bem qual é o meu dever - retorquiu em voz surda-o que aceitei e escolhi a primeira vez que vesti a bata branca de cirurgião. Se deixei de o cumprir, foi por razões imperiosas. Peço-lhe que não volte a falar-me no assunto.

Deu alguns passos para a janela como se necessitasse de respirar ar mais puro. Karen não baixara o vidro e pela larga abertura o vento engolfava-se na sala, sem grande violência, pois a sua força era quebrada pelo muro do pátio. No entanto, mais longe, viam-se os pinheiros e tamargueiras debaterem-se, contorcendo-se como se estivessem prestes a ser arrancados do solo.

Filipe estava de costas voltadas para Karen. Por muito tempo esta contemplou a silhueta robusta que avultava contra a janela, os ombros largos, a cabeça erguida, coroada por cabelos negros, levemente branqueados nas fontes. Mais do que nunca, teve a sensação da força que dele emanava, não só força física, mas melhor do que isso, a força consciente que durante tantos anos combatera a morte.

com passos leves aproximou-se dele.

- Opere o doente, professor - pediu num tom suplicante.

Filipe não protestou, nem mesmo se revoltou com a insistência. Em voz baixa respondeu:

- Se a intervenção for indicada, será feita por um cirurgião competente, já lho disse.

- Nessa espécie de operações, ninguém é tão competente como o professor.

- É essa a sua opinião, mas muitos outros me igualam, acredite.

- Não, sabe-o bem. Desde que abandonou o bisturi, têm sido tentadas algumas operações, é verdade. Muitas difíceis, outras audaciosas, outras desesperadas. Mas ninguém falou em milagres, milagres que só o professor Forestier podia realizar!

- Só Deus pode fazê-los, Karen.

- Deus, por vezes, serve-se das suas criaturas como instrumento. E recusar representa contrariar a sua vontade...

Calou-se de repente, porque o médico se voltara para ela e a expressão do seu rosto perturbou-a a ponto de a impedir de continuar.

- Deus serve-se das suas criaturas para realizar milagres... - murmurou Filipe, lentamente.

Ficou calado durante breves segundos e a estudante teve a certeza de que, nessa altura, ele estava muito longe da cirurgia, do laboratório mesmo. Depois suspirou, conservou-se algum tempo com as pálpebras semi-cerradas como se quisesse avivar todas as recordações ou recuperar a calma. Em seguida, em voz natural, embora revelasse profundo cansaço, interpelou-a:

- Que dizia, Karen?... Ah! Sim! Afirmava que eu podia e devia voltar a pegar no bisturi. Que loucura! É impossível! E, por muito que o desejasse, tenho a certeza de que ninguém confiaria em mim.

O argumento foi tão imprevisto, que a rapariga, apesar do tema grave da conversa, não pôde deixar de sorrir. Ele notou-o e irritou-se.

- A Karen é como as crianças que aceitam uma idéia, porque ela a seduz e corresponde à sua maneira de ver. Mas, repito, quem se entregaria nas minhas mãos? Conhece algum doente que, confiante, afrontasse uma intervenção feita por mim?

- Conheço, doutor. Pelo menos eu, entregar-me-ia nas suas mãos como diz, com uma confiança total, absoluta, plenamente segura...

- Karen! -interrompeu o médico com voz sufocada.

Estava lívido, mas, dominando-se por um esforço de vontade, concluiu:

- Permita Deus que nunca se veja obrigada a isso!

Maquinalmente, afastou-se, caminhou direito à janela, baixou o vidro e olhou para o relógio. A

hora indicada para a entrevista ainda estava longe mas queria afastar-se do laboratório para furtar-se às ciladas de Karen.

Pegou nas luvas e despediu-se:

- Até logo.

Estava tudo dito. Parecia que Filipe iria abandonar o laboratório e depois o mas com relativa calma. Porém, a tempestade desencadeou-se.

Karen seguiu atrás dele. No seu espírito de novo voltava a imagem, por instantes afastada, do doente cujo mal, sem dúvida, exigiria a operação. E, sem repetir as palavras empregadas pouco antes para incitar Forestier a operá-lo, teimou, poisando-lhe a mão no braço:

- Recorde-se de que a vida ou a morte de uma pessoa depende de si, doutor.

Foi o supremo argumento de Karen. A sangue-frio, talvez nunca o tivesse empregado. Mesmo assim, estava longe do efeito produzido em Forestier.

O médico voltou-se bruscamente e fixou-a com as pupilas dilatadas. Depois, num gesto inesperado, agarrou-a pelos ombros e, aproximando dela o rosto, murmurou:

- A vida ou a morte!... Sim, alguém morreu por minha culpa, Karen, uma jovem, bela, exuberante, na força da vida. Morreu, não por a entregar noutras mãos, mas, pelo contrário, porque, com imbecil vaidade, quis eu operar. Matei-a, apesar de toda a minha habilidade e a infalibilidade da minha ciência... Matei-a! E era a pessoa a quem mais desejaria salvar, neste Mundo!

Calou-se de súbito e, depois de breve hesitação, afastou-se. Mas antes de sair, voltou-se para Karen:

- Quis desvendar o mistério, Karen, e conseguiu-o. Penso que esta revelação arrancada à minha fraqueza deve bastar-lhe. Em todo o caso, é sincera e verídica, não duvide.

A porta fechou-se. Decorreu muito tempo. Sem dúvida, o automóvel, cujo ruído não conseguira dominar o do mistral, já devia estar longe, mas Karen conservava-se no mesmo lugar, sem ter dado um passo ou esboçado um, gesto. Estendeu a mão para a mesa e encostou-se procurando apoio para a sua fraqueza. E assim ficou por muito tempo, a fixar a parede branca com o olhar vago e inexpressivo.

Tremendo barulho arrancou-a desta abstracção. Sem dúvida, uma árvore arrancada pelo vento, acabava de abater. E, no mesmo instante, Karen pensou em Filipe, correndo as estradas que o temporal tornava perigosas. No entanto, em breve o seu pensamento voltou ao terrível drama que devia ter destruído a vida do médico.

Quanto tempo decorreu antes que alguém a arrancasse a tais reflexões? Não poderia dizê-lo. Estremeceu quando Marta-Maria, menos cuidadosa do que Forestier, abriu a porta com ruído. Pareceu admirada ao ver que a estudante se encontrava sozinha.

- Supus que o doutor estivesse no laboratório e trazia-lhe a correspondência.

Mas calou-se de repente quando observou melhor Karen.

- Santas Marias do Mar! -murmurou, imobilizando-se - O que tem?

Involuntariamente, Karen passou a mão pelo rosto, como se quisesse ocultar a sua perturbação. Respondeu apenas à primeira frase da ama.

- O doutor limitou-se a passar por aqui, Marthoun. Foi às Santas.

Apesar da ausência do médico, a ama não parecia disposta a retirar-se. Aproximou-se de Karen sem deixar de a fixar.

- A imprudência de Filipe preocupa-a a tal ponto que, quando entrei, a supus prestes a desmaiar? - interrogou com a habitual concisão.

Karen não se ofendeu com a pergunta directa. Depois da sua passageira doença, tinha a impressão de conhecer melhor Marthoun e estavva certa de que a ama, sem querer manifestá-lo, a olhava com simpatia.

- O doutor não receia o mistral, Marta-Maria. Não pode assustar quem nasceu e foi embalado por ele.

- Não é verdade? - replicou a ama com o olhar brilhante-E depois torna o mar e a lagoa tão azuis!

Mais uma vez, Karen sentiu vibrar na voz de Marta-Maria o seu profundo amor pela Camargue.

- Então, porque estava tão transtornada?

- teimou a ama - A não ser que...

Calou-se, franzindo a testa. Depois, com um sinal da cabeça, designou a sala.

- Salvo se alguém a tratou mal.

Tornava-se fácil de adivinhar que a alusão não visava madame Forestier.

Antes de Karen poder responder, pegou-lhe na mão.

- Não faça caso do que vier daquele lado, mademoiselle. Não abandone o mas, fique aqui sem receio. Eu... não lhe acontece nada de mau, acredite.

Talvez receasse ter ido longe demais porque mordeu os lábios e, bruscamente, calou-se.

Como se estas palavras não lhe causassem espanto, Karen respondeu com naturalidade:

- Não tenho razão de queixa de mademoiselle de Marges.

Marta-Maria não respondeu. Ia a sair com a correspondência de Forestier na mão, quando Karen se decidiu:

- Marthoun, foi a primeira a falar... numa pessoa a quem desconheço por completo, apesar de vivermos em comum. Por essa razão, atrevo-me a fazer-lhe uma pergunta que ainda não fiz a ninguém...

Calou-se um instante e concluiu:

- Quem é mademoiselle de Marges?

A ama abandonou em cima da mesa a correspondência destinada a Filipe. Depois meteu as mãos nas algibeiras do avental preto e voltou-se para Karen, com expressão sombria.

- Quem é Elvira de Marges? - repetiu, encolhendo os ombros - Nada... Ninguém. O Filipe encontrou-as num dia de romaria às Santas Marias do Mar. Estavam paradas na estrada, atrapalhadas, e ele ofereceu-lhes hospitalidade no mas. No Verão seguinte, instalaram-se aqui como em sua casa.

Na voz da ama vibrava tão evidente animosidade, que a estudante hesitou antes de prosseguir. No entanto, sentia ser-lhe impossível contentar-se com aquelas meias confidências.

- Refere-se apenas a Elvira de Marges, não é verdade, Marta-Maria? - inquiriu em voz baixa.

- Não, porque não estava sozinha. Acompanhava-a a irmã mais nova.

Tornava-se impossível dizer qual das duas estava mais emocionada com a conversa. Todavia, tanto uma como a outra, por diferentes razões, desejava ir até ao fim.

- A irmã acompanhava-a - repetiu a ama com visível esforço e com o mesmo acento rancoroso que empregara ao referir-se a Elvira - No ano seguinte, quando voltaram ao mas, Chantal de Marges era noiva de Filipe e o casamento devia realizar-se aqui, no fim do Verão. E então...

- E então?

A própria Karen estranhou a sua voz.

- Então, três dias antes da data fixada deu-se o desastre. Elvira de Marges ficou aleijada para toda a vida e a irmã morreu durante a operação.

- E foi Filipe quem a operou - murmurou, dolorosamente, a rapariga.

E, recordando as palavras pouco antes empregues pelo próprio Forestier, repetiu com voz surda:

- Matou a pessoa a quem mais desejava salvar!

Mas calou-se logo, assustada com a reacção de Marta-Maria. A velha ama prendeu-a pelos braços e fixou-a com olhar cintilante.

- Quem lho disse? É mentira! Não há uma parcela de verdade nessa versão!

com brandura, Karen libertou-se.

- Foi uma desgraça, Marthoun, mas ninguém pode negá-lo. O doutor contou-me tudo, como um facto terrível, mas certo. Acaba também de dizer-me que ela morreu durante a operação...

o semblante de Marta-Maria tomou estranha expressão, misto de cólera e desânimo.

- Porque não emprega ele outras palavras para descrever factos, no fundo, tão diferentes do que parecem? - murmurou com desespero - Çhantal de Marges morreu na operação, mas Filipe não teve qualquer responsabilidade na sua morte.

- Isso é verdade Marthoun. Quantas vezes a ciência mais esclarecida se vê impotente para lutar contra...

A ama interrompeu-a com um gesto.

- Não me referia a isso. Da parte de Filipe não houve inaptidão ou erro. Simplesmente...

Hesitou um instante, relanceando em volta um olhar estranho. Os lábios mexeram, mas apertou-os um contra o outro e fixou a sua interlocutora.

- O Filipe... falou-lhe no assunto?

- Falou, por acaso, e porque algumas das minhas observações o impeliram a fazê-lo.

- Se ele falou - murmurou Marthoun - se Pôde falar é porque a cura está próxima, Deus seja louvado. No entanto - prosseguiu como se falasse só para si - como essa cura se me afigurou impossível, no dia da sua chegada ao mas! Talvez alguém mais perspicaz do que eu... já começasse a receá-la... Outra que, para conhecer as reacções de Filipe, a persistência e intensidade da sua dor, foi colocar uma fotografia de Chantal, bem à vista, no seu quarto...

Tornava-se evidente que a alusão de Marthoun visava Elvira e se referia ao incidente ao qual, involuntariamente, Karen assistira. Esta, porém, não lhe prestou grande atenção. Sentia-se tomada por uma espécie de vertigem, como alguém que se debruça à beira de um precipício profundo e experimenta a perigosa atracção do abismo. Perfeitamente lúcida, conhecia de antemão o perigo que o seu gesto significava e, no entanto, não podia fugir-lhe.

- O doutor sofreu muito, não é verdade, Marthoun?

- Muito - concordou Marta-Maria com expressão sombria - Quase endoideceu. Foi um desgosto tão grande, que nunca mais quis voltar a esta casa, tão cheia de recordações dolorosas para ele.

Por segundos, Karen voltou a ver o olhar quase alucinado de Forestier, no instante em que parara o carro diante do mas, e também aquele em que a envolvera quando se sentaram à mesa. Um ente querido, para sempre mergulhado na sombra, devia ter surgido diante dos seus olhos e essa imagem torturava-o.

sem mesmo tentar disciplinar a voz trêmula, interrogou de novo:

-Se Chantal de Marges se parecia com a irmã, devia ser linda, não é verdade Marta-Maria?

se era! Mais, muito mais, do que esta. E deslumbrava-nos por tal forma que não percebemos ser a beleza a única coisa que possuía. Apenas beleza, nem inteligência nem coração.

Calou-se um instante e prosseguiu:

- Deus me livre de me regosijar com uma desgraça. E a que feriu o Filipe não pode descrever-se com palavras. Mas talvez com ela... outra maior lhe fosse poupada porque, com Chantal, a vida de Filipe não tardaria a transformar-se num Inferno.

Marthoun calou-se e entre as duas caiu profundo silêncio, porque Karen não voltou a fazer perguntas.

Tinha a sensação de ter esgotado a curiosidade, como se as frases concisas de Marta-Maria tivessem dito tudo quanto desejava saber. Num gesto maquinal, aproximou-se da mesa e deslocou alguns dos objectos que estavam ao seu alcance.

A pouca distância de Karen, a ama envolveu-a em prolongado olhar. Muitas outras palavras se lhe atropelavam nos lábios, mas não as pronunciou. Vagarosamente, dirigiu-se para a porta.

- O doutor disse-lhe se regressava tarde? perguntou quando ia a sair.

- Não, Marthoun. No entanto, suponho que será melhor não esperar por ele antes das nove, visto a consulta dever realizar-se só à tarde.

com efeito, Filipe regressou ao mas noite fechada. Mesmo antes de escurecer por completo, nuvens pesadas obscureciam o céu e corriam, impelidas por vento furioso. Encostada à janela, Karen sentia-se oprimida ao contemplar essa cavalgada fantástica.

Não se atrevera a demorar-se no laboratório mais tarde do que a hora fixada para a refeição. Instalou-se na sala, onde foi acolhida, como sempre, pelo bondoso sorriso de madame Forestier e a indiferença hostil de Elvira.

Naquela noite, a aleijada, estendida numa poltrona, prolongada com uma almofada macia, envergara comprido vestido de seda, num tom vermelho violento, guarnecido com contas de azeviche no decote e cingido nas ancas por grosso cordão de seda preta.

Karen teve a impressão de que o rosto lindo estava um pouco alterado, mas, nem a crispação da boca tão vermelha como o vestido nem a contracção das sobrancelhas conseguiam desfeá-lo. Cada rajada de mistral, cada abalo que este imprimia às paredes do mas, sobressaltavam-na. De si para si, a estudante pensava que aquilo se devia à preocupação em que se encontrava por causa de Filipe.

Quando este entrou, o semblante de Elvira descontraiu-se. Quanto a madame Forestier, acolheu o filho com a calma habitual. Foi Karen a primeira pessoa a quem o médico se dirigiu.

- Trago muito trabalho, Karen. Quando passei pelo laboratório deixei alguns tubos para análise.

- Ocupar-me-ei deles amanhã, professor.

- ocupar-nos-emos - emendou ele.

Mostrava-se bem disposto. O passeio devia ter afastado do seu espírito a recordação da cena havida com Karen, antes de sair, porque falava num tom calmo. Pelo contrário, a voz de Elvira soou com certa aspereza quando pediu a Karen para a libertar do livro, visto não ter ali mesa ao seu alcance.

Forestier precipitou-se, pois era ele sempre quem prestava à doente estes pequenos serviços. Tirou-lhe o livro do regaço e colocou-o no rebordo da janela. Karen, que havia notado o tom imperioso, não pôde deixar de estabelecer relação entre o mau humor de Elvira e as palavras do médico, quando se referira ao próximo trabalho no laboratório. Elvira não lhe perdoava ter tomado o lugar que ela própria ocupara junto de Filipe Era, com certeza, essa a razão, não podia ser outra, da inimizade que lhe demonstrava.

Quando se sentou à mesa, Forestier encontrou, ao lado do prato, uma salva com a correspondência chegada nessa tarde. Examinou os sobrescritos com olhar distraído, mas pareceu, de súbito, interessado por um deles, timbrado do estrangeiro. Depois de ter pedido licença, rasgou-o, percorreu a folha branca com a vista, dobrou-a e voltou a metê-la no sobrescrito, tudo isto devagar, com ar absorto. No entanto, pouco depois, tomava parte na conversa.

Terminado o jantar, Karen ainda se demorou algum tempo na sala, mas, conforme o seu costume, retirou-se cedo. Quase sempre, conservava-se a pé algum tempo depois de recolher ao quarto. Sentada diante da secretária, abria livros e cadernos e estudava até bastante tarde. Naquela noite, porém, não obrigou o espírito à disciplina do estudo. Ainda impressionada com as revelações que tinham assinalado aquele dia, sabia, de antemão, o resultado inútil da tentativa. Ser-lhe-ia impossível fixar o pensamento noutra idéia além da terrível desgraça que destruíra a vida de Forestier. Não ignorava que, mesmo deitada, essa ideia a perseguiria com persistência, evocando imagens que não a deixariam conciliar o sono.

Mesmo assim, despiu-se rapidamente, apagou a luz e ficou imóvel, com os olhos muito abertos no escuro, escutando as rajadas do mistral e as palpitações do próprio coração.

Forestier também costumava recolher cedo. Como Karen, não se deitava logo e a lâmpada do gabinete de trabalho muitas vezes se conservava acesa pela noite fora. Dir-se-ia que os serões com a família lhe pesavam. Talvez lhe recordassem outros mais doces e alegres, desenrolados no mesmo cenário. Preferia a solidão ao constrangimento, às recordações e comparações inevitáveis. Naquela noite, porém, excepcionalmente, deixou-se ficar na sala e foi madame Forestier quem primeiro se retirou.

Depois da mãe sair, o médico levantou-se e foi encostar-se ao fogão. Tirou da algibeira a carta pouco antes recebida e lida durante a refeição e, dirigindo-se a mademoiselle de Marges, declarou:

- Preciso falar-lhe em particular, Elvira. Sem proferir palavras inúteis, ela baixou a cabeça. No fundo, ficou admirada, mas fez o possível por não o manifestar, sabendo que Filipe estava habituado a encontrar da sua parte uma compreensão imediata e sem discussões.

- Esta carta - prosseguiu Forestier - anuncia-me a chegada ao mas de um dos mais eminentes colegas, o professor Kisfoerg, da Universidade de Copenhaga, um compatriota de Karen.

Este nome provocou uma careta por parte de Elvira. Filipe não deu por ela e continuou:

- O doutor Kisberg alcançou fama mundial com operações aos membros e aos ossos da bacia. Compreende onde quero chegar, Elvira? - interrogou com suavidade.

Ela empalideceu e abanou a cabeça.

- Não muito bem.

- vou ser mais explícito. O doutor Kisberg deve assistir ao congresso cirúrgico que se realiza em Londres, no próximo mês. De regresso de Inglaterra, passará por minha casa a meu pedido e demorar-se-á o tempo suficiente para a examinar e discutir comigo as probabilidades de uma operação.

Enquanto Forestier falava, o semblante de Elvira transtornou-se ainda mais.

- Se esse médico vem aqui só por minha causa, é inútil incomodá-lo - ripostou, bruscamente.

Filipe examinou-a com espanto.

- Porquê, Elvira?

- Porque não vale a pena tentar. Não ignora que a minha deformidade é total, irremediável.

- Só da morte podemos dizer que é Irremediável - murmurou o médico em voz surda.

Elvira curvou a cabeça, conquanto não estivesse convencida nem calma. A sua respiração precipitada bastava para revelar-lhe a emoção.

Foi Forestier quem primeiro falou. com paciência continuou:

- Em cirurgia ninguém deve desesperar, Elvira. Quantas coisas, que supúnhamos prodigiosas e extraordinárias, se tornaram realidade nesse domínio. Na altura do... acidente, pedimos a autorizada opinião dos mais célebres cirurgiões e médicos que existem em França e nenhum deles, confesso, me deu esperanças numa cura total. Nessa altura, eu próprio fiquei muito abalado para me lembrar de consultar médicos estrangeiros. Porém, o doutor Kisberg é, repito, um especialista cuja sentença tem outro valor. Seria ridículo e até culpável não o consultar quando está tão perto de nós.

A voz de Forestier tornara-se mais firme e, nas últimas frases, tomou o tom de autoridade que lhe dava tanta influência sobre os alunos. Elvira, porém, não se mostrou impressionada.

- Para quê? - murmurou.

Meio deitada no divã, com as mãos cruzadas nos joelhos, o olhar fixo, limitou-se a encolher os ombros com desânimo.

- Para quê? - repetiu o médico - Para a restituir a uma vida normal e feliz, Elvira. É nova e bonita... Deve aspirar... ao amor, a ter um lar... filhos... e não à companhia de um homem liquidado como eu.

Elvira não o deixou acabar. Levantou-se de repente e o seu olhar fixava Forestier com ardor e desespero.

- Vamos, acabe - protestou - Diga que a minha presença lhe pesa- e que a minha cura seria abençoada, porque não me obrigaria a viver em sua casa.

Forestier encolheu os ombros por sua vez.

- Minha pobre Elvira! -murmurou - A sua indignação não me impressiona, pois sei que não pode ser a expressão sincera do seu pensamento. Depois - hesitou um instante, mas prosseguiu -depois da morte da Chantal, continuou a viver connosco, não devido à sua enfermidade, mas pelas exigências de uma afeição recíproca. É rica, Elvira. Podia, na sua própria casa, ter uma vida tão confortável como a que tem aqui ou em Paris. A sua saúde nem sequer a impede de viajar com todas as comodidades, é claro. Eu não teria escrúpulos em a deixar seguir o seu destino, se assim o desejasse e se, repito, a mútua afeição e as dolorosas recordações que nos são comuns, nos não prendessem um ao outro. Ficou aqui e, segundo espero, considera a minha casa como sua. Deste modo, não vejo razão para que as coisas mudassem, mesmo se a cura se tornasse realidade e, sobretudo, não percebo porque me atribui esse cálculo.

Enquanto Forestier falava, num tom calmo mas firme, Elvira não deixara de o observar.

Quando ele se calou, soltou profundo suspiro deixou-se cair para trás. A contracção do rosto desvanecera-se.

- Peço-lha perdão, Filipe. Não queria ofendê-lo. Mas não tente curar-me, suplico-lhe. Somos, eu e o Filipe, duas pessoas fora da vida e não devemos pedir-lhe coisa alguma. Amor... filhos, dizia?... Não. Continuarei aleijada até morrer, impossibilitada de viver. E não me lamento. Quanto a si, Filipe, também está prisioneiro. Fiel, mas, acima de tudo, impossibilitado de aspirar a um novo amor, pelo facto de ter morto Chantal.

Devia estar fora de si para ter proferido estas palavras. E, sem dúvida, não conseguiu acalmar imediatamente, porque insistiu:

- Não é assim, Filipe? Diga, não é assim? Como que petrificado pelo espanto, o médico não conseguia falar. Por fim, conseguiu murmurar:

- Sim, tem razão.

Depois olhou para a carta que ainda apertava na mão e começou a dobrá-la. Em seguida, tendo recuperado a serenidade, afastou-se do fogão.

- A conversa sobre o doutor Kisberg levou-nos muito longe-observou com glacial sorriso- Lamento-o. No entanto, não modififico a minha decisão, mantenho-a, mesmo a despeito da sua vontade, Elvira, se tanto for preciso. O meu colega permanecerá algum tempo em casa para a examinar. Se quiser, pode fazer o tratamento ou sujeitar-se a uma operação. se ele a aconselhar. Mas a minha consciência ficará em paz e só Deus sabe como poucas vezes o consigo.

Depois de proferir estas palavras, deu-lhe as boas-noites e saiu da sala, esquecendo-se, pela primeira vez, de lhe oferecer auxílio para apagar as luzes e conduzi-la ao quarto.

 

                 ENCONTRO com O PASSADO

Quando Karen acordou, no dia seguinte, nem o mais pequeno sopro de vento agitava as copas dos pinheiros ou encrespava a superfície da lagoa. O mistral abrandara de repente, depois de seis dias de furor. Devia ter provocado muitos estragos, arrancado telhas, derrubado árvores, atirado muitas aves contra as paredes do farol, mas perdoava-se-lhe a violência quando se verificava que a atmosfera havia, enfim, refrescado.

O céu apresentava-se de um azul profundo, sem uma nuvem. Na lagoa, os flamingos grasnavam, afastados da margem, como uma ilhota rosada que baloiçasse ao sabor das ondas. Mais perto, enormes garças cor de púrpura poisavam na areia, imóveis, observando os gaios que esvoaçavam com grande gritaria.

Karen pensou que já não devia ser muito cedo e COrOU ao lembrar-se de que, com certeza, o médico já a esperava. Vestiu-se à pressa e desceu à sala de jantar onde, em geral, tomava o pequeno almoço sozinha. Inês serviu-a como de costume e, decorridos dez minutos, entrava no laboratório.

Não viu Filipe. Por causa das análises a que se referira na véspera, ficou um tanto admirada. No entanto, envergou a bata e, para passar o tempo, começou a reler e a classificar observações anotadas, depois de experiências de cultura e reprodução dos protozoários da febre de Malta, observações que deviam fazer parte dos relatórios de Forestier.

Entregava-se à tarefa havia algum tempo quando o martelar da bengala nos ladrilhos a obrigou a voltar-se. Contava com Forestier e era Elvira quem anunciava a sua aproximação; não tardou a aparecer com um vestido de grandes flores estampadas, alta, elegante e, segundo pensou Karen, cada vez mais bonita.

Quando transpôs a porta, parecia transtornada e a estudante pensou que, possivelmente, não entrava ali há muito tempo, desde a época em que ajudava Filipe nos seus trabalhos. De resto, a perturbação de Elvira durou pouco tempo. Relanceou um olhar em volta, tomou uma expressão dura e aproximou-se de Karen a quem deu os bons-dias.

Esta levantou-se. A recém-chegada, com um gesto, pediu-lhe para não se incomodar e colocou a bengala em cima de uma cadeira, apoiando-se à mesa.

- Está à espera do doutor, não é verdade?

- com efeito, o professor falou-me em análises urgentes.

- Não devem ser muito, porque Filipe não virá esta manhã.

Não deu mais explicações a Karen que interrogou:

- Terei de as fazer sozinha? Ele deu-lhe instruções a esse respeito?

- Não me disse nada, mas acho preferível esperar. Para assuntos de certa gravidade, o professor só confia em si mesmo e recordo-me de que, ontem à tarde, ele insistiu na necessidade de estar presente.

- Nesse caso, esperarei - declarou Karen com calma.

Elvira dispunha-se a sair, mas, de repente, como que impelida por súbita idéia, voltou a largar a bengala e começou a rir.

- Como sou esquecida! Vim aqui de propósito para lhe entregar isto.

Ao mesmo tempo, tirava da algibeira grande sobrescrito que entregou a Karen. Quando esta lhe pegou, prosseguiu:

- Estamos em princípio de Setembro. Já é mais do que tempo de lhe pagar o ordenado. Se não me engano, chegou a 20 de Julho. Naturalmente, não se fala nos dias em que o doutor não lhe exigiu trabalho, nem nos da sua doença. Todos eles lhe são, integralmente, pagos. Filipe pensa que esta quantia será suficiente...

- Mais do que suficiente, mademoiselle. Karen não soube como tinha podido pronunciar estas palavras com aparente calma e até com uns laivos de ironia. Um rubor cobria-lhe as faces e estendia-se até à testa. Aquele dinheiro, o primeiro que ganhava, exceptuando o vencimento como externa, humilhava-a de tal modo que lhe dava a impressão de ter recebido um insulto. Parecia-lhe impossível que o doutor Forestier tivesse encarregado uma terceira pessoa daquela incumbência.

Do mais íntimo do coração elevou-se-lhe um protesto. Filipe não podia prever de que maneira a missão seria desempenhada e talvez tivesse sido obrigado a sair e a demorar-se.

Quase sem reparar no que dizia, perguntou:

- O doutor Forestier demorar-se-á muito?

- Até ao almoço, pelo menos. Decidiu ir à lagoa caçar patos bravos, mas eu ficaria admirada se o conseguisse. Na Camargue, como em qualquer outro ponto, para caçar impõe-se levantar cedo. A melhor altura é a madrugada. Mas enfim, como não tinha outra coisa a fazer...

Falava com indiferença e, ao mesmo tempo, dirigia-se para a porta.

- vou deixá-la, mademoiselle. Além das análises deve ter muito com que se entreter.

Saiu sem esperar resposta.

Quando o martelar da bengala se desvaneceu pelo corredor que reunia o mas ao laboratório, Karen ocultou nas mãos as faces ardentes. Ninguém, no entanto, poderia ver-lhe as lágrimas que corriam, lágrimas pesadas e por tal forma amargas que, desde a morte do pai, não se recordava de ter chorado outras assim.

Pouco depois, com mãos trêmulas, abriu o sobrescrito e tirou as notas. Contou vinte e cinco e, mais uma vez, teve a sensação de uma bofetada. Forestier fora de uma generosidade enorme e a soma ultrapassava em muito a remuneração correspondente ao trabalho por ela fornecido.

Abandonou o lugar e, dirigindo-se à janela, levantou o vidro. Nos apertados limites do laboratório sentia-se como que sufocada e parecia-Lhe não lhe ser possível suportar por mais tempo o intenso perfume a âmbar que Elvira espalhava em volta de si.

com a mão ainda no fecho, respirou longamente. Quase no mesmo instante, porém, recuou num movimento involuntário. Entre os dois pilares de pedra que ornamentavam o portão de entrada, Forestier acabava de aparecer. Calções de veludo, polainas, casaco de linho, com a espingarda ao ombro e o cão de Félix atrás, atravessou o pátio e subiu a escada.

Desvanecido o primeiro impulso de surpresa, Karen dominou-se. A sua perturbação tinha tempo para se dissipar, visto dever encontrar-se com o médico só à hora do almoço. com calma, fechou a janela. Quando se voltou, Filipe entrara no laboratório.

Dirigira-se ali directamente, depois de ter deixado no vestíbulo a bolsa de caça, a espingarda e de ter mandado o cão embora. O rosto, colorido pelo ar livre, revelava lassidão, não a calma benéfica conferida pelo passeio matinal, mas as conseqüências de uma noite de insónia.

- bom dia, Karen - cumprimentou, estendendo-lhe a mão e numa voz suave - Quero pedir-lhe desculpa por ter faltado à minha promessa. Passei uma noite terrível, sem poder conciliar o sono um minuto sequer. Em conseqüência, sentia-me incapaz de trabalhar. Agora o meu espirito está mais calmo. Quando saí estavam ainda todos deitados. Todos, excepto mademoiselle de Marges, que dorme tão mal como eu e que, ouvindo-me os passos, foi bater à porta do meu gabinete de trabalho. Encarreguei-a de a avisar, Karen.

- Não se esqueceu, pode estar sossegado.

O tom da réplica surpreendeu Filipe que, pela primeira vez, olhou com atenção para a ajudante.

- Por que chorou, Karen?

Depois calou-se como se lutasse com profunda emoção e não conseguisse dominá-la.

Karen protestou. Lamentava sinceramente aquele minuto de fraqueza. E ainda mais porque o médico, interrompendo os seus protestos, afirmou:

- Como mente mal, Karen! Já lho disse uma vez.

Observou-a com atenção durante algum tempo, deu alguns passos ao acaso e, de súbito, imobilizou-se diante do sobrescrito branco poisado em cima da mesa. com modos bruscos, voltou-se para a estudante e perguntou em voz breve:

- Como veio parar aqui este sobrescrito, Karen?

Karen não precisou de outras palavras para saber que Elvira de Marges havia ultrapassado os seus direitos. Todavia, repugnava-lhe acusá-la. Sorriu e murmurou:

- Queria dizer-lhe, professor... É demasiado. Não mereço...

O médico interrompeu-a e com olhar brilhante, insistiu:

- Peço-lhe para responder à minha pergunta.

Não havia forma de fugir.

- Foi mademoiselle de Marges quem mo entregou da sua parte.

Filipe fez um gesto de cólera.

- Já o supunha.

Voltou-se uns momentos para dar tempo a acalmar a irritação e depois, numa voz que tentou tornar natural, explicou:

- Mademoiselle de Marges ocupa no meu lar um lugar muito importante. Pouco a pouco, apesar do seu mal, tomou conta do governo da casa, decide muita coisa e toma sobre si, sem hesitação, certas responsabilidades que minha mãe lhe abandona. A nossa vida é, em parte, organizada por ela. É provável que, esta manhã, referindo-me a certos pormenores materiais, eu tivesse, acidentalmente, falado na destinatária deste sobrescrito... e ela decidiu entregar-lho.

Calou-se. A sua cólera fervia ainda e adivinhava-se que só a muito custo a dominava. Prosseguiu:

- No entanto, tomando consigo esta liberdade que desaprovo, mademoiselle de Marges ultrapassou as suas atribuições. Não deixarei de lho fazer notar.

Calou-se, com a testa franzida e aspecto sombrio. Num gesto espontâneo Karen poisou-lhe a mão no braço.

- Não diga nada, professor, suplico-lhe. Mademoiselle de Marges é aleijada e isso basta para evitarmos tudo quanto possa afligi-la.

Forestier não lhe respondeu, olhando para a mão poisada no seu braço. Pouco a pouco, a expressão suavizou-se-lhe. De súbito, ergueu os olhos, como se tomasse súbita resolução.

- Mesmo assim, quero revelar-lhe o papel que mademoiselle de Marges desempenha nesta casa e qual o conjunto de circunstâncias que a levou a viver connosco. Não somos família, mas...

Karen interrompeu-o. Não podia suportar a perspectiva de uma confissão de Filipe. Eu sei, professor.

Filipe olhou-a com espanto e depois voltou a cabeça. Não lhe fez perguntas para saber como Karen conhecera a trágica história. O facto dela estar ao corrente de tudo, acalmou-o e, de momento, não foi mais além.

- Não desculpo certos gestos - prosseguiu com esforço - e, visto a ocasião se proporcionar, devo, parece-me, dar-lhe algumas explicações. com certeza não deixou de notar, e hoje com maior razão, a atitude agressiva de mademoiselle de Marges para consigo.

Aguardou a resposta, mas Karen, com a cabeça baixa, não se manifestou. Pensava apenas na intuição de Filipe que, mesmo sem ela se queixar, adivinhara o vexame que lhe fora infligido.

- Há pouco - prosseguiu ele - disse-me estar informada do que se passou aqui há três anos. Sabe, portanto, que nessa altura vivia no mas com uma irmã a quem adorava. Não será natural que as suas tristes recordações a façam sofrer, vendo-a a si, nova, cheia de saúde, andar de um lado para o outro nesta casa transformada pela sua presença.

Calou-se, bruscamente. A sua voz, nas ultimas palavras, alterou-se por tal forma, que Karen estremeceu. Forestier não deu por isso. Cerrara os olhos, como se desejasse concentrar em si a força que lhe fugia e assim ficou durante algum tempo.

- Terei de pedir perdão por ser nova ou, simplesmente, por viver? - murmurou a estudante com leve ironia.

- Não, mil vezes não, Karen. A sua mocidade é... tão maravilhosa, tão dilacerante-concluiu em voz baixa.

E voltou-se para a janela como se, por momentos, desejasse contemplar uma imagem que lhe fugia.

- Suponho - continuou Karen - que a hostilidade de que sou alvo provém, sobretudo, de ter, desde que vivo no mas, roubado o lugar...

- O lugar? -atalhou, bruscamente, Filipe

- Que lugar? Não existe aqui nenhum para roubar.

- O lugar que mademoiselle de Marges ocupava antes da minha chegada, no tempo em que o auxiliava nos trabalhos de laboratório.

O médico apertou a cabeça nas mãos.

Desculpe-me - murmurou com pálido sorriso- - Que estava eu a pensar? com efeito, Elvira deve sofrer com isso. Mas não roubou coisa alguma, Karen. Durante um Verão que passámos aqui, ela foi-me muito útil. O seu diploma de engenheira química tornava-a apta para muitos trabalhos que nós fazíamos juntos, até que... ocorreu o desastre. Desde essa altura, o seu mal afastou-a do laboratório. E, visto falarmos no mal de Elvira - prosseguiu mudando de tom e como se aproveitasse a primeira ocasião para desviar a conversa - quero anunciar-lhe a próxima chegada do seu compatriota Kisberg. De passagem por França, o professor conceder-nos-á alguns dias, os suficientes para fazer um diagnóstico sobre a enfermidade de Elvira e decidir se a atrofia do membro é definitiva-do que eu não tenho a certeza - ou se uma intervenção pode trazer-lhe alívio.

Parecia ter recuperado a calma. Deu alguns passos, examinou os apontamentos transcritos por Karen, de manhã, e decidiu:

- Mudarei de fato depois do almoço e virei ter consigo aqui. Temos de trabalhar. Agora Já é tarde para começar. Aí está a Marthoun a chamar-nos para o almoço.

com efeito, a sineta do vestíbulo tocava, agitada pela ama ou por Inês.

Embora a tarde se passasse no laboratório, Karen achou-a muito comprida. Envergando a bata branca, o médico trabalhava a seu lado com a calma habitual e na sua atitude coisa alguma fazia recordar a agitação demonstrada horas antes.

A estudante, porém, menos habituada a dominar as impressões, menos senhora de si, não podia passar, facilmente, de um estado de espírito para outro ou, pelo menos, aparentá-lo.

A correspondência da tarde trouxe-lhe uma carta de Copenhaga. Madame Rochel escrevia pouco e, geralmente, por forma fútil. No entanto, Karen considerou a carta como uma prova de ternura, talvez por se encontrar num estado de receptividade muito especial. Leu, com avidez, as palavras de pesar escritas pela mãe a propósito da sua ausência e, pela primeira vez, sentiu como uma espécie de remorso. Por que não tinha ela tomado, como fazia todos os anos, o caminho da casa materna? Que fazia ali, naquela terra brava, no mas, perdida entre pessoas indiferentes ou hostis?

Qualquer coisa da sua emoção devia transparecer, porque Forestier, ao mesmo tempo que introduzia a lâmina no microscópio, perguntou:

- Recebeu más notícias, Karen?

A rapariga levantou a cabeça. O médico apenas relanceara um olhar para o seu lado, mas isso bastara para dar pela nuvem. Mais uma vez Karen lamentou a própria sinceridade que o médico muitas vezes assinalara. Abanou a cabeça e respondeu:

- Não, professor. Minha mãe escreve-me, lamentando a minha ausência e...

Exteriorizando o pensamento que lhe ocorrera no próprio momento em que o traduzia em palavras, concluiu: parece-me ser impossível evitar ir terminar as férias em minha casa.

Forestier não lhe respondeu. Ocupava-se em regular o microscópio e Karen não podia afirmar que ele tivesse ouvido.

Quando, à noite, se encontrou no quarto, não sentiu a calma nem o alivio com que contava. Podia fechar os olhos e conservar-se calada, não se via obrigada a tomar parte na conversa para a qual madame Forestier com a sua bondade, sempre a chamava, não era obrigada a suportar o passageiro olhar - sempre irritante -de Elvira, nem a responder com calma ao doutor Forestier. Mas, no silêncio da noite, tomavam-na as emoções durante o dia sufocadas, reprimidas, recalcadas, mas sempre vibrantes.

Silêncio relativo, de resto, cortado por ruídos que a estudante aprendera a amar. Num prelúdio de Outono, a lagoa povoava-se. De passagem, as aves migratórias poisavam na água para descansar e o seu bater de asas e gritos compunham uma sinfonia nocturna, familiar e agradável.

Naquela noite, porém, a calma não veio; e, depois de um tempo que lhe pareceu tão extenso como o de muitas noites sucessivas, Karen decidiu-se a acender a luz.

O relógio, colocado na mesa de cabeceira, marcava uma hora. Tão cedo, quando supunha poder espreitar já os primeiros clarões da aurora!

Levantou-se. Achava impossível suportar tantas horas de insónia. Na sua vida passada, até aos últimos dias, sempre tinha sido equilibrada, calma e nunca recorrera aos sonoríferos. Sabia, porém, que no armário do laboratório existia pequena farmácia. E, embora lhe custasse percorrer àquela hora os corredores da casa adormecida, decidiu-se a descer e procurar entre as caixas e frascos aquilo de que precisava.

Sem se dar ao trabalho de vestir o roupão por cima do pijama, empurrou a porta do quarto. Deixando-a aberta de par em par para ter claridade, desceu a escada e, no rés-do-chão, acendeu uma das lanternas de cobre e depois a pequena lâmpada do corredor. Tudo dormia no mas e, ao mesmo tempo que se esforçava por não perturbar esse sossego, não pôde deixar de sorrir. Quem a visse assim caminhar, furtivamente, pelos corredores, como poderia suspeitar que, com tantas precauções, desejava apenas alcançar um sonorifero?

Chegou à porta do laboratório, abriu-a e a custo reprimiu um grito de susto. Na extremidade da sala, diante do armário que era o objecto da sua visita nocturna estava alguém que, de modo brusco, se voltou.

Elvira de Marges devia ter explorado o pequeno móvel de canto a canto, conforme o indicavam os frascos e caixas poisados em cima da mesa. Karen só os viu quando se aproximou, porque Elvira se limitara a acender a lâmpada da parede que era-muito fraca.

O sobressalto que a enferma não conseguiu reprimir quando viu Karen, foi o único indicio de surpresa e perturbação que manifestou. Voltou-se para a recém-chegada e, numa voz surda, mas inteligível, perguntou:

- O doutor exigiu-lhe horas de trabalho suplementar... de noite? - inquiriu com agressiva ironia - Não sendo assim, não sei como explicar a sua presença furtiva a semelhante hora e neste lugar.

As pupilas verdes estavam cheias de ódio e, instintivamente, Karen pensou numa serpente.

Elvira observava a estudante, tão franzina no seu pijama claro, os cabelos de oiro pálido, despenteados e tão curtos que, na obscuridade do aposento, quase podia ser tomada por um rapazinho. Ela ainda envergava o vestido com flores estampadas, o que provava não se ter deitado. Mas desfizera o rolo dos cabelos e essa desordem pouco habitual transformava-a numa máscara dramática que assustou Karen.

No entanto, não deixou adivinhar essa angustia. Avançou e, com toda a calma de que foi capaz, respondeu decorrido algum tempo:

- Não me conformo com as palavras "presença furtiva", mademoiselle. É natural que, para andar numa casa cujos habitantes dormem quase todos, se tomem precauções, Mas a minha presença é tão pouco furtiva, que não receei deixar à minha passagem acesas todas as lâmpadas do corredor... Faço-lho notar, porque, apesar da sua presença não furtiva, até eu passar, a casa estava mergulhada numa escuridão quase total.

Elvira tentou falar mas Karen não lho consentiu.

- Desta forma, posso devolver-lhe a pergunta que me fez e preocupar-me com o motivo que a trouxe aqui. Mas seria inútil, pois a evidência salta aos olhos.

- A evidência? - repetiu Elvira numa voz pouco firme.

A estudante encolheu os ombros.

- Sim, a simulada ignorância não pode servir de pretexto para humilhações inúteis. Se, por estranho acaso, nos encontramos aqui esta noite, à mesma hora é, em toda a evidência, para o mesmo fim.

A fisionomia de Elvira alterava-se de minuto para minuto.

- Qual?

Karen designou o armário quase vazio.

- Contava encontrar aí remédio para a insónia. Aconteceu-lhe o mesmo, com certeza.

Uma gargalhada súbita e estridente fugiu dos lábios de Elvira que, com receio de chamar a atenção, baixou logo de tom. Depois, como Karen a fixasse com espanto, em voz baixa, mas irônica, explicou:

- Desculpe. O pensamento de que uma consciência tão pura como a sua não basta para lhe proporcionar um sono tranqüilo, divertiu-me. Mas tem razão - confirmou após ligeira pausa Também eu vim procurar o sono neste armário.

Nesse instante, Karen teve a certeza de que Elvira mentia e que a verdade da sua presença no laboratório era outra, muito diferente. Porém, no seu desejo de acabar com a cena, não quis 126

aprofundar o assunto. Decidida, aproximou-se do armário.

Teve a impressão de que Elvira começara a arrumá-lo, depois de o ter despejado no intuito de procurar alguma coisa. Um pouco afastada, mademoiselle de Marges observava-a com ironia.

Tendo descoberto o frasco de gardenal, Karen dispunha-se a sair. Elvira deu alguns passos para ela.

- Além disso - disse, como se continuasse uma conversa interrompida - não terei eu direito de prioridade neste laboratório? Privilégios de primeira ocupante? Não era este o meu domínio muito antes de ser o seu?

Bastava o tom das palavras para pressentir-se a provocação. com calma, a estudante replicou:

- Não lhe disputo coisa alguma, mademoiselle.

- Em tempos, passávamos as manhãs no laboratório - prosseguiu, pausadamente, Elvira como se contasse uma história - Minha irmã sentava-se aqui - explicou, designando um dos ângulos da casa - numa poltrona que ali estava. Mas levantava-se muitas vezes para vir ter connosco e interferir no nosso trabalho... Como é de calcular, não percebia nada de análises, tubos e provetas, mas até a sua ignorância era deliciosa. Tinha uma maneira tão engraçada de os tirar das mãos de Filipe quando os trabalhos se prolongavam demasiado, que ele não sabia resistir-lhe.

Breve olhar para o lado de Karen fez-lhe saber que esta, suspendendo o movimento de retirada, parara para a escutar.

- Filipe tinha com ela todas as solicitudes fraquezas e indulgências - prosseguiu Elvira e, apesar disso, acusava-se por não saber reconhecer a graça que ela lhe fazia, acedendo a ser sua mulher! Esposa de um cientista, grave, austero e trabalhador! Queria dar-lhe um ambiente de alegria, de encantamento, de doçura; e minha irmã era tão linda que ninguém estranhava toda esta exaltação de Filipe.

Nas últimas palavras, a voz de Elvira desfaleceu, como se elas representassem uma arma de dois gumes que também a feria. Mas, no intuito de terminar a sua obra, dirigiu-se a Karen, que se conservava imóvel e pálida. Interrogou:

- Já lhe falaram de Chantal de Marges, não é assim?

Sem uma palavra - pois seria incapaz de as proferir - Karen confirmou com a cabeça. As pupilas dilatadas não se desviavam da máscara dramática e os dedos, contraídos no frasco, apertavam-no com força, a ponto de lhe fazer doer.

- Mas o que ninguém poderia dizer-lhe, porque ninguém conseguiria descrevê-lo, era a sua sedução, a sua graciosidade... e a paixão de Filipe. E tudo isto desapareceu - prosseguiu em voz surda - Por suas próprias mãos, o grande Forestier destruiu a vida pela qual daria a sua! Essa vida tão preciosa que, sofrendo ainda devido ao desastre, mas bastante senhor de si para não duvidar da sua perícia, ele não quis confiar a outras mãos. Compreende agora, Karen Rochel, a que ponto Filipe morreu para a vida e para o amor? Adivinha o juramento que fez e cumpre de nunca mais expulsar do coração a mulher que matou?... Compreende como toda a ilusão, esperança ou intriga para construir o presente sobre as ruínas de um passado impossível de esquecer, são inúteis e de antemão destinadas ao malogro?

Calou-se por fim e, felizmente, porque Karen sentia-se sem forças. Tanto ódio, violência e também paixão vibravam na voz de Elvira que teriam abalado um espírito mais forte do que o da estudante.

Lentamente, sem proferir palavra - ninguém responde a um louco - Karen saiu. Quando se encontrou no estreito corredor, teve de se amparar à parede para não cair. Corajosa, lutou contra essa fraqueza, venceu-a e, sem saber como, conseguiu chegar ao quarto.

Quando ia a atingir a porta que tinha deixado aberta, a do quarto de Marthoun abriu-se. No limiar surgiu a ama, vestindo à pressa um roupão.

- Donde vem? - perguntou em voz baixa, mas imperiosa - Para que se demorou tanto? Não estava sozinha lá em baixo e...

Ansiosa, fez todas estas perguntas antes de notar que a rapariga mal podia aguentar-se de Pé. Quando deu por isso, agarrou-lhe no braço e com brandura, obrigou-a a entrar no quarto. Fechou a porta e voltou-se para examinar o semblante desfigurado.

- Que lhe fez ela? - perguntou num misto de cólera e de dó - Que Deus me perdoe, mas Por que não teria ela morrido como a outra?

Mais uma vez e apesar do seu estado de esPírito, Karen ficou admirada. No quarto ao lado do seu, Marta-Maria velava ou, pelo menos, dormia pouco, atenta ao mais pequeno ruído e sempre pronta para... para quê? - perguntava de si para si.

E não lhe respondeu. Já não podia duvidar da vigilância de Marthoun e da protecção que lhe dispensava.

com certeza - pensava Karen - ouvira-a descer ao laboratório e antes dela a Elvira, apesar das precauções por esta tomadas, tão grandes que ninguém mais dera pelo martelar da bengala no tapete. E, a ajuizar das suas palavras, a ama devia ter aguardado com ansiedade o regresso de Karen.

Procurando sorrir, abriu a mão direita.

- Fui buscar isto para tentar dormir, Marthoun - explicou.

A ama tirou-lhe o frasco e indagou com violência:

- Foi Mademoiselle de Marges quem lho deu?

- Não, eu...

- Nunca tome coisa alguma que ela lhe dê!

- atalhou Marta-Maria - e não a deixe entrar no laboratório. Não tem nada a fazer ali.

Calou-se de súbito e, exteriorizando o pensamento que a atormentava, murmurou:

- Que procuraria ela a esta hora?

- A mesma coisa que eu, suponho. Encontrei-a diante do armário da farmácia e...

Um lampejo de ironia passou nas pupilas de Marthoun.

- No armário da farmácia! -repetiu, soltando ligeira gargalhada.

E, sempre com ironia, proferiu estas palavras cujo sentido Karen não pôde compreender:

- Há quanto tempo o armário da farmácia está arrumado!... Como podia ela encontrar...

Depois, dirigindo-se a Karen com uma brandura pouco nos seus hábitos, aconselhou:

- Deite-se, mademoiselle. vou preparar-lhe um calmante que muitas vezes uso... quando julgo poder dormir. Quanto a isto - continuou indicando o frasco - é preferível não tomar remédios que estão à disposição de todos.

Adivinhando ser o principal conseguir que Karen dormisse e, em caso de necessidade, obrigá-la a isso, não lhe fez mais perguntas sobre o que se havia passado entre ela e Elvira de Marges.

Saiu do quarto, levando consigo o gardenal. Voltou pouco depois, trazendo um copo cheio de água com ligeira cor, que entregou a Karen. A estudante bebeu e deitou-se.

A ama conservou-se no quarto. Mas não decorreu muito tempo até que a respiração calma da rapariga lhe indicasse ter esta adormecido.

Então, aproximou-se do leito, contemplou-a através do tule do mosquiteiro e, vendo-a tranqüila e adormecida, sorriu contente e enternecida. Em passos leves saiu do quarto e, com precaução, fechou a porta atrás de si.

 

                   UMA RESPOSTA

O doutor Kisberg apareceu dias depois, anunciando-se por telegrama que, de resto, chegou ao mas depois dele. E dessa falha do correio resultou ser Karen a primeira a falar com ele.

Torrentes violentas e prematuras haviam desabado sobre a Camargue, anunciando que a estação chuvosa se aproximava. Quando a chuva deixou de cair, verificou-se ter começado a verdadeira migração. Numerosos bandos de aves afluiam à lagoa, tantos e tão densos como Karen nunca havia sonhado pudessem reunir-se.

Na primeira manhã de sol, como Forestier não lhe tivesse determinado trabalho, saiu de casa e dirigiu-se para as margens da lagoa, cujas águas começavam a subir, atingindo os limites máximos. Surpreendidos e desalojados pelo Outono precoce, os rebanhos de carneiros pertencentes ao mas vizinho desciam dos Alpes. As suas emanações transmitiam ao ambiente um odor acre e ao mesmo tempo suave. Nas margens, porém, em volta da lagoa, a animação era mais intensa. As galinholas pequenas, as tarambolas, os patos bravos, as cercetas, as abetardas e as avocetas preparavam-se para a partida. Passavam cegonhas e todas as manhãs grandes bandos de patos bravos riscavam o céu. As poupas ainda não se haviam reunido, mas num dia próximo levantariam vôo, tomando o caminho de Gibraltar.

Parada perto da lagoa, Karen toda a manhã assistiu às manobras das aves. Sem mesmo dar por isso, aquela manifestação do ritmo da vida e das estações acalmava-lhe os nervos, pela sensação de segurança transmitida e sólida continuidade de um plano secular. As aves que partiam agora para a África do Sul e para o Egipto, nunca deixariam de encontrar, quando voltassem, abrigo e repouso na lagoa das "Avocetas". Durante a curta paragem, ela, muito menos feliz do que as aves, não encontrara ali sossego e tranqüilidade. Quando se absorvia nestas reflexões, um automóvel de marca estrangeira parou na estrada. No mesmo instante, pela pronúncia da pessoa que a interpelou Karen adivinhou o doutor Kisberg. com efeito, era ele: um homem dos seus cinqüenta anos, com os cabelos loiros, entremeados de fios prateados, feio, mas de expressão inteligente, olhos azuis muito claros, cintilando num brilho vivo por trás das lentes dos óculos com aros de tartaruga. Ele próprio conduzia o carro e, não tendo avistado ainda o mas, temia ter-se enganado no caminho.

Karen não resistiu ao prazer de lhe responder no idioma que lhes era comum e a agradável surpresa de Kisberg em breve se transformou em simpatia. Essa simpatia mais se acentuou quando teve conhecimento da sua situação de externa e do cargo que desempenhava em casa de Forestier. Pediu-lhe para entrar no carro e disse-lhe com sinceridade:

- Felicito-a, mademoiselle. Deve possuir raras qualidades para o professor Forestier a ter escolhido.

Por infelicidade, Elvira estava ausente quando o professor Kisberg chegou. Aproveitara o ensejo de estar na Camargue para ir a Grasse onde possuía uma casa e a fábrica de perfumes que pertencia aos Marges. E, embora, devido ao seu mal, não pudesse tomar parte activa na indústria que antes dirigia, tinha ainda consideráveis interesses no negócio.

Não supondo que Kisberg chegasse tão depressa, Forestier dispensou a Elvira o automóvel e Félix, o rapaz que costumava conduzi-lo.

O facto não teve grande importância porque, no dia seguinte à chegada de Kisberg, Elvira regressou às Avocétas. A sua presença, de resto, não modificou a atitude do médico dinamarquês, porque este não pareceu recordar-se do motivo que o levara ao mas. Não pediu para examinar Elvira e demonstrou interessar-se muito mais por Karen de que pela aleijada.

Teria ele verificado, desde o primeiro instante em que a viu, que o mal de Elvira era incurável e desejava retardar o mais possível a triste revelação? Estudar-lhe-ia os movimentos para melhor estabelecer o diagnóstico? Ou, por fim, consideraria a hospitalidade de Forestier digna de maior consideração e não queria ofendê-lo, reduzindo a permanência no mas ao tempo indispensável para uma consulta médica? Karen não sabia o que pensar. E talvez, no fim de contas, o prazer que o dinamarquês experimentava na Camargue fosse o único motivo de demora.

Era, como a estudante pensou logo de princípio, um homem delicado, simples, espirituoso e de uma modéstia que não deixava adivinhar nele um dos maiores sábios da Europa. O ambiente do mas e a companhia de Forestier encantavam-no. E Filipe também experimentava, nas prolongadas conversas com o hóspede, na troca de idéias, na discussão dos novos métodos adoptados na cirurgia ou na medicina um prazer que lhe desanuviava o rosto e lhe proporcionava desusada animação.

"Eis como ele devia ter sido noutros tempos"

- pensava Karen quando a fisionomia de Forestier assim se modificava e a sua voz tomava inflexões que nunca lhe ouvira.

Muitas vezes, Kisberg dirigia-se à estudante, dizendo: "Aprenda isto, minha filha" ou "Nunca esqueça, minha querida compatriota que em medicina é preciso... " E seguiam-se indicações e conselhos que nunca mais seriam esquecidos por quem os recebia.

- Mas - acrescentava Kisberg, voltando-se para Filipe com um sorriso - o seu professor já lho deve ter dito muito antes de mim!

Elvira assistia a estas conversas com desdenhosa indiferença e não protestava quando o dinamarquês pedia desculpa a madame Forestier ou a ela pela aridez dos temas. Não demonstrava a mais pequena simpatia pelo médico, que atravessara a França por causa dela. Por momentos, Karen tinha a impressão de que, não podendo desprezar ou ignorar a ciência, Elvira a temia, isto é, receava que essa ciência pudesse curá-la.

Karen continuava a trabalhar no laboratório, mas, alegando a presença do hóspede, Forestier nunca aparecia.

Quando, depois da cena nocturna com Elvira, durante a qual esta lhe parecera tão próximo da loucura, entrou ali pela primeira vez, experimentou um desejo intenso de fugir. Não conseguia esquecer uma só das palavras escutadas nessa altura nem deixar de sofrer com elas. Muitas vezes, como movida por força oculta e imperiosa, interrompia o trabalho e olhava para a extremidade do laboratório, para o ponto onde, alguns anos antes, se encontrava uma poltrona... a poltrona onde se instalava a rapariga linda, caprichosa e adorada que ia tirar os tubos e frascos das mãos de Filipe.

Depois, corajosa, reagia e voltava ao trabalho. Não contando mais com Forestier, entregava-se com paixão às pesquizas. Os doentes chegavam directamente ao laboratório, introduzidos por Felix, silencioso, rude, tisnado pelo sol, ou por Inês. Karen tirava-lhes o sangue, fazia as fichas, e as pastas onde guardava o resultado das análises enriqueciam-se com apontamentos, observações que, mais tarde, deveriam ser muito úteis ao doutor Forestier.

O trabalho mergulhava-a num estado febril para o qual não procurava remédio, por ser ele, por sua vez, remédio contra mal maior e mais doloroso... Pelo contrário, desejava-o e mantinha-o como uma espécie de imunização necessária para não adoecer.

Naquela manhã, ao dirigir-se para o laboratório, quase se sentia liberta dos pensamentos perturbadores que, longe dali, nunca deixavam de a assaltar. Percorreu o estreito corredor e, mesmo antes de empurrar a porta, soube que mais de uma pessoa se encontrava no laboratório, porque lhe chegou aos ouvidos o som das vozes.

Entrou. Kisberg e o doutor Forestier cumprimentaram-na. Karen não se admirou com a presença dos dois médicos. Sabia que Elvira devia ser examinada nesse dia, de manhã, que o exame seria demorado e talvez penoso para a aleijada, a quem Filipe tinha pedido para ficar na cama todo o dia. Desta forma, não se admirava por os dois sábios se terem reunido tão cedo.

Kisberg sentava-se no alto tamborete e Filipe conservava-se de pé, a pouca distância. Conversavam sobre medicina, pelo que Karen pôde depreender pelas palavras que ouviu, mas impediram-na de sair, conforme o desejado por ela.

- Dizia, meu amigo - prosseguiu Kisberg que é contra as auto-transfusões?

- Positivamente contra, não sou. Apenas considero a auto-transfusão muito perigosa para ser empregada muitas vezes. Só em casos desesperados.

- O que chama casos desesperados?

- Por exemplo, na ausência de um dador de sangue da mesma categoria da doente, no momento em que se dá a hemorragia.

- Repare que o emprego do plasma pode deter a queda da pressão sangüínea.

- Mas em caso algum substituir o sangue perdido durante uma operação - não pôde deixar de observar Karen.

Kisberg sorriu.

- Perfeitamente exacto.

- Creio - prosseguiu ela - que utilizar o sangue do operado e voltar a injectá-lo na circulação, combinado com uma solução de citrato, deve ser considerado, conforme dizia o doutor Forestier, como medida excepcional.

O dinamarquês abanou a cabeça, aprovando:

- A sua discípula está em completo acordo com as suas idéias, doutor, e defende-as com energia.

Depois, dirigindo-se a Karen, perguntou:

- Viu alguma vez o professor Forestier proceder, num dos seus doentes, a uma auto-transfusão?

- O doutor esquece-se de que deixei de operar há muitos anos - observou Filipe.

- Com efeito, esqueci-me, desculpe. Mas, acima de tudo, esqueço que mademoiselle Rochel é apenas uma aluna do terceiro ano.

Karen corou com o elogio. Voltou-se para Filipe e só então reparou no seu aspecto sombrio e glacial. Enquanto ela e Kisberg trocavam impressões, conservara-se de pé, verificando maquinalmente as fichas e apontamentos abandonados, na véspera, por Karen, aos quais se esforçava por prender a atenção. No fundo, se os não tivesse examinado antes da chegada da estudante, em companhia do hóspede, nem sequer teria dado por eles.

Enquanto Karen vestia a bata, os dois médicos guardaram silêncio, o que a levou a censurar-se por ter vindo interromper a conversa. Quando se voltou para eles, notou que Kisberg a observava com benevolente atenção. Quanto a Filipe, continuava debruçado para as páginas cobertas de algarismos e fórmulas.

- Felicito-a pelo seu trabalho, mademoiselle

- cumprimentou Kisberg, indicando-as.

Falava um francês mais do que correcto, apenas com o leve sotaque que fazia palpitar o coração de Karen, por ser o da sua pátria. Depois, logo a seguir, dirigiu-se a Forestier:

- Posso ter agora com mademoiselle Rochel a conversa que não só autorizou como até aconselhou, doutor Forestier?

Filipe fez um gesto vago, que tanto podia ser considerado de assentimento como de indiferença. Afastou-se da mesa e deu alguns passos na intenção de se retirar.

- Fique - pediu Kisberg - Talvez queira dizer-lhe alguma coisa, também. Em todo o caso, estou certo de que mademoiselle Rochel não decidirá sem a sua aprovação.

Sem uma palavra, Forestier regressou e, voltando as costas à janela, cruzou os braços e aguardou. Por trás das lentes, o olhar de Kisberg tornou-se atento e penetrante.

- Será escusado dizer-lhe, Karen, que durante os agradáveis dias que passei nesta casa tão acolhedora - e inclinou-se, sorrindo, para Forestier - o doutor falou-me de si. "É uma aluna com dotes excepcionais - disse-me - brilhante e de grande futuro... " Dito isto, permita-me que lhe faça uma pergunta: por que abandonou a nossa pátria?

- Porque meu pai era francês e sempre manifestou desejos de que eu estudasse em Paris.

- Trata-se, simplesmente, de um desejo, ou de uma determinação formal?

- Apenas um desejo, doutor.

- Por conseguinte, poderia ou pode deixar de o satisfazer, sem incorrer na menor censura?

- Creio que sim.

Ainda não havia compreendido bem onde o doutor Kisberg pretendia chegar, no entanto, respondeu sem hesitações.

- Eu e o doutor Forestier - continuou o dinamarquês sem desfitar Karen, como se não desejasse perder as suas reacções-conversámos sobre a situação de muitos estudantes, quase sempre difícil: privações para alguns, trabalho fora das horas do curso para outros e, para todos, um excesso de ocupação para o qual não estão preparados e daí a fadiga... Em todo o Mundo a situação é pouco mais ou menos Idêntica. Mas, no que lhe diz respeito, mademoiselle, não lhe parece que as despesas com os seus estudos ficariam mais reduzidas se os fizesse na sua terra?

- Sem dúvida.

- Foi o que disse ao doutor Forestier - afirmou Kisberg.

Pela primeira vez, depois de iniciada a conversa, Karen observou Filipe. Fixando o seu hóspede, conservava-se imóvel e calado.

- Vamos então direitos ao fim e queira perdoar-me se for um tanto brusco. Por que não volta para Copenhaga? Em Paris arrisca-se a ver a sua carreira entravada por obstáculos. O doutor Forestier interessa-se por si, eu sei. Mas ele próprio me disse há pouco não ter tantas possibilidadas como eu de a ajudar a subir e de ampará-la com uma influência que, com ou sem razãO, pretende não ter. É demasiado modesto, tenho a certeza, mas acontece que, desta vez, a sua modéstia me convém e não a discuto. Vamos ao que importa. Não se me torna difícil tomá-la ao meu serviço e proporcionar-lhe um emprego bem remunerado e cujas obrigações não serão muito absorventes nem prejudicarão os seus estudos. Gostaria de a ter junto de mim, pela simples razão de não se nos proporcionar muitas vezes a possibilidade de formar médicos da sua categoria... uma inteligência de escol é coisa rara... mesmo em Copenhaga.

Calou-se. Karen pouca atenção deu aos elogios declarados ou encobertos. Durante alguns segundos. sentiu-se atordoada, como uma pessoa que sofre um choque imprevisto e não conseguiu evitá-lo. Quando pôde falar, perguntou com voz firme:

- Qual é a opinião do doutor Forestier a este respeito?

O doutor Kisberg começou a rir.

- Lamenta a sua partida, como é natural. Mas afirmou-me que achava bem eu propor-lhe esta mudança de vida, assim como lhe dava razão se aceitasse.

Breve silêncio se seguiu a esta afirmação que, de resto, Karen não demonstrou ter ouvido. Imóvel, com o rosto expressivo voltado para Filipe, aguardava que ele próprio lhe desse a resposta a que não podia fugir.

Pela primeira vez, este ergueu os olhos para ela.

- Que posso dizer-lhe senão que o projecto do doutor Kisberg tem a minha aprovação? - afirmou com calma-Encerra, para o seu futuro, excepcionais perspectivas e julgo insensato repeli-las.

As mãos de Karen, que num gesto familiar, se contraiam uma na outra, caíram ao longo do corpo.

- A partida será definitiva, não é isso?

- com certeza. Irá para sua casa, para junto de sua mãe... Suponho que não lhe desagradará.

Karen sorriu com leve amargura.

- Não, doutor, com efeito, não me desagrada. Baixou os olhos para os ladrilhos vermelhos

pelos quais alastrava um raio de sol. Forestier, considerando a discussão encerrada e decidida, voltou-se e de novo dedicou atenção às notas tomadas por Karen.

- A minha resposta tem de ser imediata? - interrogou esta, dirigindo-se a Kisberg.

- Quer dizer, que desejaria reflectir?

- Exactamente, professor.

- É natural.

Forestier não se manifestou, mas a expressão ensombrou-se. Talvez classificasse com severidade a falta de entusiasmo da estudante e receasse que o colega ficasse melindrado.

Todavia, o dinamarquês não deu indícios de se sentir ofendido nem pareceu duvidar da resposta de Karen. Num gesto que lhe era habitual, fez estalar as articulações dos dedos, tão perfeitas quanto o rosto era feio, e mostrava-se satisfeito.

Considerando, sem dúvida, o assunto encerrado, Forestier recordou ao colega que Elvira os aguardava e ambos abandonaram o laboratório para subir ao quarto da doente.

O toque da sineta, anunciando o almoço, encontrou Karen sentada no banco onde se deixara cair depois da saída dos dois médicos, com as mãos cruzadas nos joelhos e a cabeça pendida. Não fizera um movimento desde esse instante, senão erguer a vista para contemplar o vôo de um besouro estonteado que bateu nas vidraças.

Levantou-se, despiu a bata e dirigiu-se para a sala de jantar onde aguardou de pé, olhando, através da janela, a lagoa distante.

Quando madame Forestier entrou acompanhada pelos dois homens, Karen adivinhou, pelo olhar desolado que esta lhe relanceou, que Forestier ou o doutor Kisberg lhe haviam comunicado a sua partida. Assim dispunham dela, determinavam-lhe o futuro, sem querer saber do livre arbítrio a que toda a pessoa sensata tem direito, sem lhe darem, embora afirmassem o contrário, o tempo necessário para tomar uma decisão de tal importância.

Poucos dias antes manifestara a Forestier o desejo de ir terminar as férias em casa da mãe. Tomariam isso como resposta?... O desejo de Karen, ou antes, a necessidade de se afastar do mas, iria assim realizar-se?

Marthoun entrou na sala para ir buscar um prato de faiança de Vallauris que lhe era necessário. Madame Forestier foi ter com Karen à janela e perguntou:

- Minha filha, é verdade que decidiu regressar à sua pátria?

Como se estas palavras a tolhessem de espanto, a ama parou a meio caminho. Mas a paragem e a expressão fisionômica que a acompanhou, duraram breves segundos. Levando consigo o prato, abandonou a sala sem que dessem por ela.

Karen esforçou-se por demonstrar calma quando respondeu à dona da casa:

- Esse afastamento definitivo não passa de um projecto, madame, projecto que o doutor aprova - não pôde deixar de acrescentar com leve amargura.

Quando terminou o almoço, Kisberg pediu desculpa e levantou-se. Forestier acompanhou-o. Nessa tarde deviam ir falar com o doutor Dufaux e não queriam demorar-se para o não prejudicarem nas suas actividades profissionais. Durante a refeição, à qual não assistiu Elvira por ter ficado deitada, ninguém aludiu ao exame que pouco antes lhe havia sido feito. E Karen não conseguiu adivinhar, pela atitude de Kisberg, sempre amável e sorridente, nem pela de Forestier, mais carrancudo e preocupado, qual o resultado desse exame.

Como pouco depois da partida dos dois homens, se levantasse, por sua vez, para abandonar a sala, madame Forestier pediu-lhe para ficar mais um pouco.

- Hoje estou sozinha - lamentou - Não quer ficar um instante comigo? Temos tanto que dizer antes da sua partida... Víamo-nos tão pouco! Quase não aproveitei a sua presença. No entanto, tinha-a aqui, neste velho mas e isso dava-me uma sensação de conforto... era uma espécie de ressurgimento.

Suspirou e concluiu:

- Mal nos conhecemos e já somos obrigadas a separar-nos!

Dócil, Karen voltou a sentar-se na cadeira pouco antes abandonada, tentando ocultar a perturbação causada pelas últimas palavras. Sabia que o isolamento do qual se lamentava a mãe de Filipe não era real. Quando mademoiselle de Marges, fatigada, ficava no quarto - e isso acontecia várias vezes - Marta-Maria, autoritária e familiar, vinha substitui-la e, com um trabalho de malha entre os dedos, sentava-se junto de madame Forestier.

No instante em que Karen se recordou deste pormenor, a ama entrou na sala; mas não trazia o trabalho. Sem dizer palavra, reuniu as chávenas, colocou-as no tabuleiro que entregou a Inês. Depois desta sair, fechou a porta e aproximou-se da janela junto da qual as duas mulheres se haviam instalado.

Madame Forestier não se sentou diante do bastidor onde o bordado se animava com aves e flores raras. Olhou para Karen como se quisesse aprofundar-lhe o pensamento e murmurou:

- Por que se vai embora, minha filha? Marta-Maria parou. Poisou as duas mãos nas costas da poltrona e repetiu em voz dura:

- Sim, por que se vai embora, mademoiselle? Madame Forestier voltou-se para a ama.

- Marthoun, isto aqui não é um tribunal e mademoiselle Rochel não tem obrigação de nos responder.

Talvez pensasse que só ela, com a sua calma, podia conduzir a conversa cujo fim a estudante ainda não tinha compreendido. E, não obstante o pouco ou nenhum desejo de o fazer, Karen não pôde deixar de sorrir. As duas mulheres, igualmente bondosas, mas com caracteres tão diferentes, deviam, justamente por essa diferença e apesar da estima e mútua afeição, ter passado a vida em constante desacordo.

O mais calmamente que lhe foi possível, voltou-se para madame Forestier.

- Perdoe-me, mas não sei bem como responder-lhe. Por que me vou embora? Porque dois homens, cuja opinião e conselhos eu considero dignos da maior consideração, me incitaram a fazê-lo. Uma insistência que não pode ter por alvo senão o meu interesse... pois não tenho a vaidade de admitir que o doutor Kisberg ambicione ser meu professor.

- Ou que o doutor Forestier muito deseje deixar de o ser - concluiu com calma madame Forestier.

- É a mesma coisa, madame. A minha humilde pessoa não pode suscitar tais sentimentos.

Karen teve a impressão de que os lábios de Marthoun se descerravam para murmurar uma só palavra: "Cega". Mas não teve a certeza.

- Contudo, se o que a sua modéstia se recusa a admitir fosse verdade? Refiro-me, bem entendido, ao meu filho, porque o doutor Kisberg deve obedecer a razões muito mais simples, isto é, ao desejo de formar uma aluna da sua categoria. Se, com efeito, Filipe desejasse que se fosse embora...

- Nesse caso, madame - interrompeu Karen, empalidecendo-não podia, de facto, continuar ao serviço e sob a direcção de um professor que não me quisesse.

Como se procurasse a resposta, madame Forestier baixou os olhos e conservou-se calada durante algum tempo. Por fim, com a sua voz branda, continuou:

- Meu filho não deixou de estimá-la, Karen, sabe-o tão bem como eu. Creio que... não sei como explicar-lhe... creio que tem medo de si, porque representa a vida à qual, durante alguns anos, tentou fugir e não quer aceitar de novo.

Falava devagar, como se hesitasse e medisse cada palavra, mas não desse nem a essas palavras nem às frases a verdadeira significação.

- Não compreendo - murmurou Karen.

- Mas é preciso que me compreenda... A Karen representa para ele a sua profissão, o seu trabalho... a sua presença obriga-o a retomar contacto com um ambiente do qual se afastou, a repetir gestos esquecidos, a esboçar idéias e projectos que, no primeiro impulso, o assustam.

Seriam bem estas as palavras que madame Forestier desejava pronunciar, teriam de verdade só o aspecto profissional que lhe imprimira?

- Estou no mas por vontade do doutor, madame. Ao pedir-me para o acompanhar aqui, por certo encarou a possibilidade de continuar os seus trabalhos.

- com certeza. Mas...

- Terminadas as férias, voltarei para a Faculdade e coisa alguma me distinguirá das minhas colegas.

- Meu filho não podia supor - continuou a mãe de Filipe como se não tivesse ouvido a última frase de Karen - não podia supor que a sua presença fosse tão... inesperada... e eficaz.

- Inesperada?

- Inesperada nos seus efeitos, quis eu dizer.

Seguiu-se breve silêncio, findo o qual, a estudante fixou a interlocutora com expressão sombria.

- Era então verdade - murmurou, devagar

- Ao oferecer-me trabalho em sua casa, o doutor Forestier desejou apenas auxiliar uma das alunas mais falhas de recursos.

- Quem lho disse?

Karen encolheu os ombros com indiferença.

- Isso que importa?

A ama, no entanto, devia ter adivinhado porque em tom rancoroso, murmurou:

- Foi a víbora.

- Cala-te-ordenou Madame Forestier com voz surda.

Mais uma vez o silêncio caiu entre elas, silêncio que se tornou intolerável. Karen levantou-se.

- É tudo quanto tem para me dizer, madame?

A mãe de Filipe parecia desapontada e desorientada.

- Valha-me Deus, minha filha!... É tudo e com certeza não soube fazê-lo. Queria pedir-lhe para reflectir antes de aceitar as propostas do doutor Kisberg e tomar a decisão de regressar, definitivamente, a Copenhaga.

Pela última vez, Karen perguntou a si mesma quais seriam as verdadeiras razões que levavam madame Forestier, a lamentar o seu afastamento. Porque, enfim, terminadas as férias, de qualquer modo ela abandonaria o mas, talvez para nunca mais regressar e, tal como havia dito, voltaria a ser nas aulas uma aluna anônima, sem laços especiais que a unissem ao professor.

Renunciando a encontrar solução satisfatória- talvez por não se encontrar na disposição de espírito que lhe teria permitido fazê-lo - dirigiu-se para a porta.

Já não pôde ver, mas imaginou Marthoun diante de madame Forestier, numa atitude imperiosa e insistente, perguntando com voz surda:

- Posso falar, madame Luís, posso dizer-lhe agora...

- Não - respondeu com firmeza a mãe de Filipe.

Não pôde ouvir mais. Fechou a porta e começou a subir a escada.

A casa estava mergulhada em silêncio. O automóvel que transportava Forestier e Kisberg às Santas já devia ter abandonado o mas. Durante a permanência do dinamarquês nas "Avocetas", Filipe apresentara o professor ao seu colega e sem dúvida, Kisberg, com a sua habitual correcção, fora fazer as despedidas a Dufaux.

Karen desceu ao laboratório. Pôs em ordem os apontamentos, arrumou as fichas que deixara em cima da mesa para ir almoçar e, por fim, abandonou a sala.

Depois dos acontecimentos da manhã, que tanto a haviam perturbado, tinha necessidade de movimento e de actividade e não lhe parecia possível ficar fechada em casa. Tal como fizera no dia em que, sem bem saber qual o gênero de sofrimento e decepção que a magoavam, saiu e caminhou ao acaso pela sansouire.

O tempo modificara-se. Em vez do sol de fogo, a Camargue era batida por chuvas pesadas que enchiam poças e pequenos lagos. As águas da lagoa grande tinham subido, ultrapassando os limites das margens. Naquele dia, porém, a chuva parara, sendo substituída pelo vento norte, bastante frio para obrigar Karen a vestir o casaco.

Na Camargue tocavam-se os extremos e da terra ardente, rasa e imensa, passava-se, quase sem transição, a múltiplas ilhotas, boiando em enorme concha.

Karen avançava a custo pelos caminhos empapados. O vento dificultava-lhe o andar, mas não se importava, pelo contrário. Sendo obrigada a lutar, o espírito alheava-se dos pensamentos incômodos.

Quando o vento abrandou, ao longe, do lado do pântano, ouviu-se o apelo das galinhas de água. A voz destes animais e o encontro com uma manada que procurava abrigo debaixo das tamargueiras, foram as únicas manifestações de vida na estepe imensa. O vento, que soprava em rajadas, agitava a superfície da lagoa e obrigava as aves a conservarem-se entre os canaviais da margem.

O passeio de Karen - se passeio se podia chamar àquela difícil caminhada - não tinha destino. Depois, pouco a pouco, à medida que avançava pelos caminhos já percorridos, pensou, como ponto extremo a atingir, na pequena capela. Tinha a impressão de que, naquele asilo afastado, abandonado no meio da planície, o seu espírito e o seu coração poderiam concentrar-se para tomar as graves decisões que se lhe impunham.

Transpôs o pinhal e avistou a porta, que o vento entreabrira. Bastou empurrá-la para poder entrar na capela.

 

               DEUS E MARTHOUN DISPÕEM

No interior do pequeno templo reinava profunda obscuridade. No primeiro dia que ali entrara, porém, devia já estar febril para não ter visto o pequeno altar de pedra, por cima do qual se abria um óculo que não deixava passar qualquer claridade. Não se viam cadeiras e as paredes eram de pedra mal cimentada. E à direita... seria um pilar? De súbito, parou, quase desfalecida. O que tomara por pilar era, de facto, um vulto, um vulto masculino, imóvel, virado para o altar, mas que, ouvindo os seus passos, se voltara.

Teve a impressão de que os pés se lhe prendiam ao chão. No entanto, quase sem dar por isso, continuou a andar e, dois ou três segundos depois, encontrava-se junto de Filipe.

A semi-escuridão não deixava distinguir os rostos. Mas quando Karen se habituou, reconheceu que as feições do médico estavam transtornadas.

- Não acha estranha a coincidência? - murmurou quando ela parou, não lhe dando tempo a falar - Coincidência que marca o início da nossa existência em comum no mas... e o fim. Encontramo-nos aqui num dos primeiros dias depois da sua chegada à Camargue e encontramo-nos outra vez na altura em que a vai deixar.

Karen não respondeu à afirmativa que se antecipava à sua decisão e protestou:

- O nosso primeiro encontro aqui não foi coincidência, professor. Não vinha procurar-me?

Forestier não negou. Era verdade e ele sabia-o. Como sabia também, desde aquele instante, que a rapariga loira, de quem tudo O separava, lhe prendera o coração.

- Hoje é diferente - prosseguiu Karen Diferente e, no fundo, um pouco semelhante. Vim aqui procurar refugio ou antes, um abrigo calmo na vizinhança de Deus, onde possa tomar as minhas resoluções. Embora Deus não habite, materialmente, esta capela abandonada, está aqui mais presente do que em qualquer outro ponto.

Filipe não revelou que, pouco mais ou menos, o mesmo motivo ditara a própria conduta. O mesmo desejo de se concentrar, longe do mas onde recordações e contraditórios pensamentos o perturbavam. Limitou-se a explicar:

- Deixei o doutor Kisberg ir sozinho despedir-se de Dufaux. Não se tornava necessário acompanhá-lo.

Calaram-se. O vento, por momentos, engolfou-se pelo pequeno óculo, cujos vidros estavam partidos, produzindo um mugido semelhante ao do oceano em fúria. Já mais habituada à escuridão, Karen distinguia agora, perfeitamente, o médico, a contracção dos lábios, imóveis as feições, e nas fontes a mancha prateada dos cabelos. Dissipada a perturbação, experimentava uma profunda paz que não podia dizer se provinha do lugar em que estava ou se da presença inesperada daquele que não sonhara encontrar ali. Em todo o caso, sentia-se preparada para afrontar a luta que iria travar.

Depois de prolongado silêncio, Forestier voltou-se para ela e perguntou:

- Já terminou as suas devoções? Podemos sair agora?

Karen abanou a cabeça.

- Antes de regressar ao mas, gostaria de lhe comunicar a minha resolução e os motivos por que a tomei.

- Muito bem. Diga.

Esforçava-se por aparentar calma, aguardando que ela lhe comunicasse aquilo que temia e, ao mesmo tempo, desejava.

Karen olhou-o bem de frente e disse devagar:

- Decidi não aceitar as ofertas do doutor Kisberg.

Forestier não conseguiu calar uma exclamação:

- Mas isso é uma loucura! com certeza não reflectiu bem.

- com efeito, é uma loucura-confirmou Karen, esboçando um sorriso - Quanto a reflectir, só servirá para confirmar a minha demência.

- Não pesou bem todas as vantagens que despreza, repito: a possibilidade de viver em sua casa, junto de sua mãe; a de prosseguir os estudos sem preocupações materiais... O excelente ensejo de estar ao lado de Kisberg e de aproveitar, portanto, melhor do que ninguém, os seus ensinamentos.

- Esse argumento, para mim, não tem peso, professor. Em Copenhaga terei o doutor Kisberg, em Paris o professor Forestier. Não creio que a mudança me trouxesse qualquer vantagem.

Este protesto foi dito com certa violência.

- Quando regressar a Paris não posso ocupar-me consigo, Karen - observou Filipe com voz branda.

- Nem eu contava com isso, professor. Basta-me estar no anfiteatro quando falar e no laboratório, assistindo aos trabalhos práticos...

Calou-se como que oprimida pelo pensamento de ter perdido tudo quanto acabava de evocar. Voltando-se para Forestier, suplicou:

- Deixe-me regressar a Paris, professor, e retomar o meu lugar nas suas aulas. Por que deseja afastar-me?

Na sombra, o doutor estremeceu e o rosto tomou uma expressão patética. Em voz surda exclamou:

- Santo Deus, Karen! Nunca o desejei! Não, não o desejo! - repetiu com amarga Ironia.

Depois calou-se, procurando no espírito razões e argumentos decisivos para convencer Karen, sabendo ao mesmo tempo que esta os não aceitaria.

Melhor do que ela, descobrira havia muito tempo, em que apaixonado ardor se transformara a admiração de Karen. E ele que teria suportado com coragem o sofrimento e a renúncia se fosse o único atingido, sentia-se dilacerado com a necessidade de fazer sofrer a mulher amada.

Aproximou-se de Karen e fixou-a demoradamente. Mais do que nunca ela se parecia com uma garota dos contos de Andersen, como lho dissera uma vez e tantas o pensara. Dentro das pregas do casaco amplo tinha uma aparência frágil e, pela primeira vez, notou que a cabeça, adornada com os curtos cabelos doirados, mal lhe chegava aos ombros. Não conseguiu ver-lhe os olhos, mas imaginava-os tais como eram, verde suave, da cor dos mares do seu país.

Que loucura prender-se assim a tanta juventude, a tanta graça, voluntariamente oferecida! Mesmo se o passado não se erguesse entre os dois, como poderia ele, com cabelos brancos, perto da maturidade, se não a tivesse atingido já, como poderia ele sem cometer uma má acção, reter junto de si uma rapariga tão nova?

Do fundo do coração, uma voz se ergueu, protestando:

"Poderias sim. O verdadeiro e imperdoável erro, seria causar a sua infelicidade, repelindo-a! Afastá-la, deliberadamente, do teu caminho sem lhe explicar a razão! "

E foi então que ouviu a sua própria voz, quebrando o silêncio, uma voz alterada pelo sofrimento, mas resoluta:

- Karen, ignora a minha vida passada. Antes de nos separarmos, desejo contar-lha.

Karen ergueu a mão como se quisesse interrompê-lo.

- Já lhe disse uma vez que sabia tudo, professor.

A expressão de Filipe tornou-se mais dolorosa.

- Recordo-me. De resto, acaba-se sempre por descobrir o segredo da vida daqueles com quem a partilhamos.

Calou-se um instante e depois continuou:

- Tanto melhor se já está ao facto. Mesmo assim, perdoe-me se insisto, pois duvido muito da imparcialidade dos que me rodeiam. Podem ter calado certos pormenores que devem ser conhecidos.

Sem notar o gesto de protesto da estudante, prosseguiu:

- Há cinco anos, no Verão, no dia da romaria das Santas, parei na estrada junto de um automóvel avariado. Porquê, precisamente, eu? Mistério! Tantos carros, cavaleiros e ciclistas ou peões passavam por essa estrada... A avaria era grave. Reboquei o carro para o mas mais próximo e sabe quanto esta região é deficiente em matéria de hotéis - levei para as "Avocetas" as duas raparigas que não podia abandonar à sua sorte. Foi desta forma que Elvira e Chantal de Marges entraram em minha casa! Dessa vez demoraram-se pouco tempo. Voltei a vê-las em Paris, no Inverno seguinte, órfãs, viviam quase sempre em Grasse onde possuíam uma fábrica de perfumes que Elvira, engenheira química, dirigia. No princípio da Primavera, estava noivo de Chantal... Calou-se um instante.

- Era muito linda, não é verdade? - inquiriu Karen, como se as afirmações de Elvira e de Marthoun não lhe bastassem.

- Muito linda sim. Talvez lhe faltasse mocidade, frescura e limpidez de sentimentos e de coração que se reflectem em certos rostos... Nessa altura, porém, não o notei. Quando chegaram as férias, instalámo-nos na Camargue. Chantal não gostava deste sítio e, mais tarde, quando casássemos, tencionava vir aqui poucas vezes. Foram esses sentimentos não dissimulados, sem dúvida, que provocaram a inimizade de Marthoun pelas duas irmãs, inimizade que ainda se mantém, com respeito a Elvira. Mas isto não passa de pormenor insignificante, que não tem relação directa com a minha narrativa. O nosso casamento foi fixado para fins de Setembro e realizar-se-ia nas Santas, com a maior intimidade. Três dias antes, uma formalidade obrigou-nos a ir a Marselha. Chantal estava adoentada - um ataque de gripe teimoso do qual eu andava a tratá-la - mas sem gravidade. Devia, por causa dessa indisposição, ter-me oposto a que ela tomasse conta do volante, mas não sabia contrariá-la e temi o seu desagrado. Partimos os três. O resto, não o ignora: rebentou um pneu e o automóvel, que a condutora não conseguiu dominar, foi esmagar-se contra uma árvore. Chantal fracturou o crâneo e Elvira, projectada a distância, ficou com as duas pernas partidas. Eu, como seguia do lado oposto ao choque, fiquei milagrosamente indemne e conservei o meu sangue-frio e lucidez. Na clínica de Marselha para onde fomos transportados, quis ser eu próprio a operar a minha noiva e, quando souberam quem eu era, ninguém se opôs. Chantal fora gravemente atingida, mas não tinham conta as operações desse gênero que fizera e aquela não exigia mais ciência ou habilidade do que as outras. A minha mão não tremeu e tudo se passou conforme as previsões. Todavia, quando estava quase a terminar, o coração de Chantal deixou de bater. Estava morta, morta tão de repente que nem a enfermeira encarregada da anestesia, nem o cirurgião que me assistia tiveram tempo para notar que o sangue parara nas veias e a vida fugira daquele corpo.

Calou-se, emocionado com as recordações. Havia qualquer coisa de impressionante naquela confissão feita em voz alta, na sombra de uma capela abandonada, mas nem Filipe nem Karen deram por isso. Dir-se-ia que, pelo contrário, cada um deles abençoava o lugar e a sombra propícios às confidências e às decisões, que a claridade do dia tornaria mais difíceis e, sem dúvida, também mais cruéis.

ÀS últimas palavras, Karen ergueu a cabeça.

- O coração deixou, bruscamente, de bater?

- disse devagar - Isso absolve-o de toda a culpa. O coração de mademoiselle de Marges devia ter qualquer deficiência ou defeito no sistema circulatório que o doutor desconhecia.

- Não. O coração era normal e forte. Como médico muitas vezes o verifiquei. Conhecia bem a robustez da sua constituição. Teria suportado sem custo uma operação muito mais demorada e, difícil.

- Nesse caso?...

- Não sei, Karen, não compreendo... não sei, repito. Estaria eu, conquanto pensasse o contrário, abalado pelo desastre e as minhas faculdades momentaneamente enfraquecidas?... Teria, ao trabalhar tão perto do cérebro, cometido algum erro, atingido, sem querer, algum centro vital? Só a autópsia poderia tê-lo revelado. A autópsia! Essa palavra ainda hoje me faz estremecer por tudo quanto evoca. E, no entanto, nem um só dia passou depois dessa desgraça, sem que eu tenha pensado nesse meio como o único que me proporcionaria uma certeza, fosse ela qual fosse.

A esta confissão de ignorância, a esta explosão de remorsos, Karen só pôde responder com o silêncio. Não lhe competia fazer sugestões de qualquer espécie a quem, conforme as palavras de Elvira de Marges, proferidas nos primeiros dias em que se encontrava no mas, era a própria ciência. De resto, não podia formular hipótese que Filipe não tivesse já, em pensamento, examinado muitas vezes. Apenas perguntava a si mesma porque razão Forestier lhe revelava agora o drama da sua vida. E procurava, sem conseguir encontrar, a relação entre as palavras dele e as propostas apresentadas por Kisberg.

Como se adivinhasse estes pensamentos, Filipe continuou:

- O tempo passou, Karen, o tempo misericordioso que, por fim, me trouxe um pouco de paz e poderia ter-me dado ainda melhor do que a paz, a felicidade! Trouxe-a, com efeito, desvendou-a ao meu olhar deslumbrado e ao meu coração, mas, ao mesmo tempo, a sorte irônica diz-me ao ouvido: "Olha para essa rapariga de quem não és digno e a que a tua idade, o teu espírito envelhecido- e os teus cabelos brancos nunca poderiam ambicionar. Olha para ela. Representa tudo quanto há de melhor, de mais puro, tudo quanto amas: beleza, bondade, inteligência e pureza. Caminharias em sua companhia ao serviço do mesmo ideal. Convence-te disto e sofre. Sofre! Porque tendo morto aquela que devia partilhar a tua vida, já não tens direito a essa vida. Coisa alguma pode libertar-te do juramento que fizeste de nunca a substituir, pois foste responsável pela sua morte! "

Calou-se e entre eles caiu pesado silêncio, apenas interrompido pelo sibilar do vento.

Depois, Karen aproximou-se. A dor e a alegria emprestavam-lhe uma expressão patética e inesperada.

- Professor!... É por essa razão que deseja que me vá embora?

- Sim, é por isso que "deve" partir - murmurou com ternura - obrigo-a a partilhar o peso de um erro que não foi seu. Gostaria de lhe pedir perdão de joelhos.

Resistiu à tentação de o fazer, como desejava, por ter a certeza de que, para o levantar, Karen o apertaria nos braços. Entretanto, a estudante falou e o seu tom de súplica perturbou-o:

- Deixe-me ficar, professor. Não quero outra coisa nem ser mais do que sua aluna. Nunca o ambicionei, juro, mas, quanto a ficar perto de si, deséjo-o, ardentemente. Quero trabalhar a seu lado e, mais tarde, consigo. Quero...

Pela primeira vez, Forestier mostrou o seu desespero e, se estivesse menos perturbada, Karen teria adivinhado que ele mesmo, muitas vezes, admitira essa hipótese, para em seguida a rejeitar.

- É isso, justamente, que se torna impossível, Karen! Calcula o que seria a nossa vida, sempre juntos e sempre separados? Não conhece a vida, Karen, nem, por muito que julgue o contrário, o amor! Um dia encontrar-nos-íamos nos braços um do outro e... seria demasiado tarde para recuar!

- Aceito o risco - murmurou ela em voz baixa, mas firme.

- Mas eu não o aceito por si! -exclamou Filipe, quase num grito.

Depois examinou-a com espanto, como se não conseguisse compreender bem o sentido das palavras que ela acabava de pronunciar. Era então verdade? Karen amava-o bastante para se lhe oferecer com essa firmeza tranqüila, paixão e simplicidade que só a pureza podia explicar?

Foi a consciência dessa pureza oculta com tão aparente força e resolução, que restituiu a Forestier a calma mais absoluta e instantânea. Pela primeira vez, se atreveu a aproximar de Karen e a pegar-lhe nas mãos.

- Minha querida, fala debaixo da excitação e proferiu palavras que em muito devem ultrapassar o seu pensamento. Seja como for, não está, nem eu tão-pouco, em condições de encarar o futuro com calma nem de prosseguir agora esta conversa. Peço-lhe para regressar comigo ao mas. Amanhã ou mais tarde, daqui a dias, poderá então habituar-se à ideia de sair do caminho que o seu coração escolheu e, com maior lucidez e sangue-frio, aceitará a perspectiva de partir!

A hipótese de adiar para mais tarde a decisão, representava uma espécie de cobardia por parte de Filipe. No entanto, em consciência, o médico reconhecia que, de momento, isso os salvaria. Mais tarde, ele e Karen voltariam, com certeza, a sofrer perante a impossibilidade do seu amor, antes que a separação se consumasse. Mas continuar ali, naquela espécie de asilo de sombra, afastado de tudo, bastante oculto para que ninguém se lembrasse de ir procurá-los, seria caminhar para a derrota, para a capitulação!

Karen devia ter pressentido o violento desejo dele sair dali, pois não protestou quando este lhe puxou pela mão que continuava presa entre as suas e a arrastou para fora. Dócil, num passo de autômato, seguiu a seu lado.

Durante a permanência na capela, o vento aumentara de violência. Tão forte como o mistral, o vento do norte assobiava através dos juncos e canaviais da lagoa. Glacial, corria pela estepe e, tanto o médico como Karen, com a respiração ofegante, caminhavam curvados a fim de oferecer menor resistência às rajadas.

Por vezes, o ataque era tão forte que Forestier, sem dizer palavra, agarrava o braço da companheira e passava-o pelo seu. Assim unidos, prosseguiram o caminho até que, transposto o portão, se encontraram abrigados no pátio, diante do mas.

Só então Filipe largou o braço de Karen e, lado a lado, subiram os degraus e entraram em casa.

Elvira compareceu ao jantar. Que saberia ela da sorte que a esperava e da opinião do doutor Kisberg a seu respeito? Só os dois médicos poderiam dizê-lo. Todavia, não se mostrava preocupada ou desanimada.

Vestira-se e preparara-se com o cuidado habitual e Karen perguntava a si mesma se tanta calma seria indício da esperança de cura que lhe havia sido dada ou, simplesmente, uma máscara por trás da qual ela ocultava angústia e ansiedade.

Como poderia Karen adivinhar a louca paixão de Elvira e o absurdo desejo de ficar toda a vida aleijada o que, supunha, a prenderia para sempre a Filipe?... Como poderia ter adivinhado que, em vez de a desejar, Elvira temia a cura e a obrigação que dela resultaria de retomar, longe do médico, a sua vida normal?

No instante em que a estudante abandonava a sala para recolher ao quarto, Marta-Maria, surgindo não se sabia bem de onde, encontrou-se ao mesmo tempo do que Karen, nos primeiros degraus da escada.

- Daqui a pouco irei ter consigo ao quarto, mademoiselle Rochel-avisou em voz baixa e rápida - Será talvez muito tarde, mas não se assuste.

Desapareceu com tanta rapidez que a estudante, no fim de um dia que lhe trouxera tantas horas cruéis e perturbadoras, poderia ter perguntado a si mesma se o seu espírito fatigado não teria sonhado com a fugitiva presença da ama e com as suas palavras. No entanto, quando chegou ao quarto não se despiu e, sentada na borda da cama, aguardou a visita anunciada.

O vento continuava a soprar com fúria. As vidraças estavam fechadas, mas as persianas abertas deixavam ver ao longe, como ponto minúsculo, ou antes, como uma centelha rápida, a pincelada luminosa do farol que, a muitos quilômetros, dominava o mar.

Pelas onze horas ouviu os habitantes do mas subirem e separarem-se no corredor. Teve então a certeza de que Marta-Maria, se pudesse cumprir a sua promessa, não se demoraria. Contudo, decorreu ainda bastante tempo - ou pelo menos foi essa a impressão de Karen - antes de a ama aparecer.

Quando ouviu a porta abrir-se, Karen acendeu a lâmpada da mesa-de-cabeceira. Até então e sem dar por isso, deixara-se estar às escuras. Por uma espécie de intuição, sentiu que uma luz pequena conviria melhor para a conversa que ambas iam ter.

Marthoun aproximou-se No vulto, todo de negro, apenas a touca branca se destacava. Parou diante de Karen, sem querer aceitar a cadeira que esta lhe ofereceu. Sem preâmbulos, quase brutalmente, como se não quisesse dar-lhe tempo para preparar a resposta ou ocultar o seu pensamento, perguntou:

- Gosta do Filipe, não é verdade? Karen estremeu, mas não hesitou:

- Gosto, sim, Marthoun - confessou em voz baixa.

- Então não deve ir-se embora.

- Pelo contrário, justamente por causa disso, tenho de o fazer.

Sem reparar, repetia as palavras do médico.

- Partir e deixá-lo entregue à dor, abandoná-lo a novo desgosto que, desta vez, ele não conseguiria vencer! - protestou Marta-Maria irritada - Madame Luís não está aqui para me impedir de lhe dizer que seria muito culpada se o fizesse!

Karen sorriu com irônica amargura.

- Nem madame Forestier nem a Marthoun poderão modificar a minha resolução. Não a tomo por minha causa, mas sim pelo Filipe. Ofereci-me para ficar e ele recusou.

A ama desviou a vista que até ali não abandonara o rosto de Karen e voltou-se para a janela, como se esta não fosse um poço de sombra. E a estudante adivinhou que não olhava para fora, mas sim para dentro de si mesma.

Sem se voltar, a ama interrogou com os seus modos bruscos e directos:

- Parece-lhe que o Filipe desejaria a separação se pudesse fazer de si sua mulher?

- Não - declarou Karen que, pela primeira vez, realizava a crueldade do sacrifício.

- Pediu-lhe para casar com ele?

Nem por um segundo a estudante pensou revoltar-se com este interrogatório. Marthoun não era uma criada, mas sim aquela que, tendo perdido o filho, adoptara Filipe de todo o coração, que ambicionava vê-lo feliz com tanto ardor como madame Forestier.

- Não - respondeu numa voz surda que nem ela mesmo reconhecia - não, o doutor não mo pediu e sei que nunca mo pedirá.

A ama voltou-se para Karen e observou-a com atenção.

- Por causa da sua idade?... Ele vai fazer quarenta anos... e mademoiselle é sua aluna.

Pela expressão de surpresa da rapariga, Marta-Maria soube que se tinha enganado. De resto, não o sabia já?

- Então porquê? - perguntou, curvando-se para Karen.

- O Filipe não se julga no direito de reconstruir a vida.

- Porquê?

E, poisando as mãos nos ombros da estudante, apertou-os e repetiu:

- Sim, porquê?

- Por causa do passado e daquela a quem... a quem supõe...

- Acabe! - ordenou Marthoun, aprumando-se irritada - Aquela a quem supõe, não, que tem a certeza-como muitos afirmam - de ter morto.

Karen não conseguiu reprimir um gesto de susto. A explosão de cólera da ama metia-lhe medo.

A ama encolhendo os ombros, sossegou-a:

- Não se aflija. As paredes do mas são grossas. E por isso, nestas últimas semanas, tenho deixado aberta a porta do meu quarto.

Cruzou os braços, mas depois deixou-os cair ao longo do corpo, num gesto de desânimo.

- Que obsessão! -prosseguiu com dureza Uma mulher que surgiu, de repente, na nossa vida, cujo passado ignorávamos, uma rapariga caprichosa, autoritária e sem coração e que, mesmo depois de morta, ainda nos perturba!

- Como a detestava, Marthoun!

A ama calou-se, mas pouco depois confessou:

- Sim, detestava-a, porque o merecia e também porque ela própria detestava esta terra e teria conseguido, tenho a certeza, convencer Filipe a vender a casa.

Calou-se um instante para dominar a emoção e, depois, martelando as palavras, acrescentou:

- O Filipe não deve coisa alguma à sua memória!

Hesitou um instante, mas concluiu:

- Não deve porque não foi ele, mas outra pessoa quem a matou!

Durante algum tempo, Karen receou que a ternura e o ódio, que se degladiavam no coração de Marthoun, lhe tivessem abalado a razão ou, pelo menos, o bom-senso. com calma, replicou:

- Como poderia isso ser possível? Foi o doutor quem a operou, auxiliado por um médico, por um simples assistente. Ninguém conseguirá convencer o professor Forestier de que não cometeu um erro.

- Engana-se - protestou a ama com ar triunfante - Alguém o pôde fazer.

- Quem, santo Deus?

- Mademoiselle!

Devia ter notado como Karen a fixava com olhar estranho porque, pela primeira vez, sorriu:

- Sossegue, mademoiselle, não endoideci. Em seguida, sabendo não poder adiar por mais tempo a explicação, meteu a mão numa das algibeiras do avental e tirou uma caixa de cartão, do tamanho usado nas farmácias, e deu-a a Karen.

- Há três anos que guardo isto com cuidado. A estudante levantou-se e aproximou-se da luz com a caixa na mão. Ao ler o nome impresso na tampa: "cloromicetina", franziu a testa.

Ficaria muito surpreendida se lhe dissessem que, ao aguardar as suas reacções, a ama quase sufocava de ansiedade. com efeito, aquela caixa e o seu conteúdo representavam para a pobre ignorante que era, uma suposição que a estudante poderia transformar em certeza.

Depois de breves segundos de imobilidade e reflexão, Karen levantou a tampa. Nos seus cacifos alinhavam-se as ampolas, mas os espaços vazios indicavam aquelas que haviam sido utilizadas.

Os seus pensamentos caminhavam de dedução em dedução.

- As ampolas que faltam foram injectadas em...

- Chantal de Marges - afirmou Marta-Maria.

- Porquê?

A ama encolheu os ombros num gesto de ignorância. Pouco depois, acrescentou:

- As injecções que faltam nessa caixa foram dadas todas de uma vez.

- Já o suspeitava.

Karen antes de formular novas perguntas, quis reflectir. Junto do seu, o rosto de Marta-Maria debruçava-se sobre a caixa como se pretendesse arrancar-lhe o segredo. Foi a ama quem quebrou o silêncio:

- É um veneno, não é verdade, mademoiselle? Karen estremeceu.

- Não, Marthoun. É um remédio, um simples remédio, empregado em certos casos, no início de uma febre tifóide, por exemplo. Mas...

- Mas... - repetiu a ama, cuja vida parecia suspensa dos lábios de Karen.

Esta respondeu-lhe com outra pergunta:

- Em que altura deram estas injecções a mademoiselle de Marges?

- Pouco antes do desastre. No momento em que ia abandonar o mas na companhia de Filipe e da irmã.

Karen ergueu a cabeça e afirmou com tranqüila certeza:

- Sendo assim, Marta-Maria, não nos restam dúvidas. Foi isto que a matou.

A ama não proferiu uma palavra, mas uniu as mãos e fechou os olhos, erguendo a Deus uma prece muda, tão fervorosa acção de graças que ficou transfigurada. Por fim, numa voz vibrante de alegria, murmurou:

- Deus seja louvado!

Tão calma quanto Marthoun estava perturbada, Karen, numa voz sem timbre, continuou:

- A cloromicetina é muitas vezes empregada aos primeiros sintomas da doença, quando a febre é muito alta. Ataca esta e permite lutar com eficácia contra o mal. Mas, administrada em grandes doses, principalmente a uma pessoa sã, provoca a hipotermia, isto é, um abaixamento de temperatura tão grande que leva o doente a um estado mais perigoso do que o seria se tivesse febre de quarenta graus. Estou certa de que, se estas injecções foram dadas a Chantal de Marges pouco antes do desastre, portanto, pouco antes do transporte para a clínica, a morte foi provocada pela descida rápida e brutal da temperatura, durante a operação.

Profundo silêncio se seguiu a estas palavras. Em voz hesitante, menos firme, Karen perguntou por fim:

- Quem deu as injecções de cloromicetina, Marthoun?

Todos os vestígios de comoção desapareceram num instante. com um tom de rancorosa alegria, a ama revelou:

- Ainda o pergunta?... A mesma pessoa que a viu a si, sair, certa manhã, sob um sol de fogo e não fez um gesto para a deter, contando que a trouxessem morta... A mesma que, desde o primeiro dia, anda em volta de si e me obriga a deixar todas as noites aberta a porta do meu quarto para ouvir O ruído dos seus passos e o martelar da maldita bengala, se ela pensasse aproximar-se do seu... A pessoa que, naquela noite, com tardio cuidado, procurava esta caixa no armário da farmácia, talvez com a idéia de a destruir... A mesma pessoa que a odeia como odiava a irmã e que a matará a si, sem hesitação, sem remorsos, quando a ocasião se proporcionar e tiver assegurada a impunidade...

Apesar da expressão sombria e da voz trágica da ama, Karen esboçou um sorriso:

- Saberei defender-me, Marta-Maria.

- Ninguém se defende dos animais malfazejos, senão colocando-se fora do seu alcance, isto é, afastando-os.

Ficaram ambas caladas, como se reflectissem. Depois Karen perguntou ainda:

- Como sabe que Elvira de Marges injectou na irmã as ampolas que faltam aqui?

- Porque vi, mademoiselle. Iam sair os três e o Filipe já se encontrava sentado ao volante do carro. Como elas se demorassem, chamou-as e, da janela entreaberta do laboratório, a voz de Chantal respondeu:

- Vim buscar o meu anel, Filipe. Deixei-o aqui esta manhã. Vamos já.

Como eu chegasse nessa ocasião à porta de casa, Filipe pediu-me para ir apressá-las. Talvez já notasse que a porta do laboratório se abre sem fazer barulho. Elvira e Chantal estavam de costas voltadas e não deram por mim. A mais velha acabava de quebrar três ampolas, as que faltam aí e, aproximando-se da irmã, deu-lhe a injecção. Fechei, devagar, a porta e contei até vinte antes de bater. Quando entrei no laboratório, já estava tudo nos lugares. Vi Elvira meter a caixa das injecções na algibeira do vestido... onde mais tarde a encontrei quando acompanhei madame Forestier à clínica para onde as duas raparigas haviam sido transportadas. Penso - concluiu, depois de breve reflexão - que Elvira não se recorda do que fez dela, visto ter ido procurá-la ao armário da farmácia do laboratório.

Calou-se, por fim, mas Karen já sabia bastante, e sobretudo, que a ama dissera a verdade, exacta, absoluta, cuja garantia era a sua própria ignorância sobre assuntos médicos. E uma alegria imensa, dominadora, que em vão tentava reprimir, tumultuava-lhe no peito. Filipe estava livre, livre de tudo quanto naqueles últimos anos o esmagara: remorsos, o terrível peso da responsabilidade, tudo!

Muitos pontos, na sucessão dos factos, se conservavam ainda por esclarecer. Certas coincidências e, acima de tudo, o móbil que impelira Elvira a injectar na irmã dose tão forte de cloromicetina. A injecção poderia causar perturbações, talvez graves, mas o seu trágico epílogo não se teria dado sem o desastre e sem a operação. E Elvira não podia prever um e outra.

De momento, Karen renunciou a encontrar resposta a estas perguntas. Atingira, naquela noite, o extremo limite da resistência física e foi tomada, de súbito, por uma espécie de vertigem que a obrigou a fechar os olhos. Quando voltou a abri-los, encontrou o olhar de Marta-Maria que a observava com afecto.

Sorriu.

- Como vê, Marta-Maria, estou esgotada murmurou - Peço-lhe que me deixe sozinha agora. O dia está prestes a romper e tanto eu como a Marthoun devemos tentar dormir. Se não se importa, fico com isto - acrescentou, designando a caixa das injecções - Creio que nos virá a ser muito precisa.

Sem protestar, a ama dispôs-se a sair do quarto. Também ela devia sentir a fadiga, mais moral do que física.

Karen acompanhou-a até à porta e à despedida, disse-lhe:

- Amanhã, Marta-Maria, reflectiremos no assunto, pesaremos todas as resoluções antes de as pormos em prática. Agora, precisamos de repouso. Sim, de repouso - repetiu em voz desfalecida-de repouso, finalmente!

Depois da ama sair e fechar a porta, conservou-se ainda algum tempo imóvel, encostada à parede. Depois, chamando a si toda a coragem, encaminhou-se para a cama e, com a preciosa caixa apertada na mão, mesmo vestida, atirou-se-Lhe para cima e deixou cair a cabeça na almofada.

 

         KAREN ESCOLHE O SEU CAMINHO

Na vasta sala de jantar onde Karen tomava o pequeno-almoço, Kisberg entrou, cumprimentando-a com amabilidade. Aproximou-se da mesa diante da qual a estudante estava sentada.

- Não se incomode - protestou, como Karen esboçasse o movimento de se levantar - nem pense em me oferecer o seu almoço, porque poderia muito bem aceitar, embora já tenha comido no quarto. Mas esses bolos feitos no mas são tão apetitosos que, palavra de honra...

E, juntando o gesto à palavra, tirou do prato um bolo de bela crosta doirada e, ao mesmo tempo que o saboreava, declarou:

- E, no entanto, vejo-me obrigado a abandonar todas estas excelentes coisas! A reputação das sanduíches dinamarquesas está estabelecida, é certo, e Davidsen, o nosso artista nacional, consegue-as das mais apetitosas- recomendo-lhe as de ostras sobre uma camada de caviar – mas coisa alguma poderá fazer-me esquecer a cozinha francesa... a cozinha provençal, quero eu dizer. Calou-se e suspirou. Karen acabava de beber o café e poisou a chávena em cima da mesa.

- Por seu lado será capaz de esquecer a Camargue e todas as recordações que a ela se prendem?

Karen estremeceu e levantou-se.

- Suponho que, com isso, pretende conhecer a minha resposta, não é assim, doutor?

- Tal vez, mas não ma dê já. O terrível vento de ontem abrandou e o dia anuncia-se calmo. Gostaria, antes de abandonar esta região, de dar uma volta pela lagoa. O doutor Forestier, há dias, aconselhou-me a fazê-lo e prometeu acompanhar-me. Mas ainda não o vi, esta manhã. Se estiver disposta a substituí-lo, ficaria contente e poderíamos falar à vontade.

A estudante acedeu, com gosto, ao pedido de Kisberg. Chamou Inês, disse-lhe que ia sair e, pouco depois, encaminhavam-se os dois para a lagoa.

A manhã, com efeito, estava mais do que bonita, tépida e de uma serenidade muito rara naquela região. Na sansouire, as manadas que ainda não haviam recolhido aos abrigos de Inverno, pastavam, sossegadas. Os touros, deitados, pareciam entorpecidos: outros seguiam em passo vagaroso o doumptaáre, isto é o guia, ao pescoço do qual pendia um chocalho.

Sobre a água também havia vida... uma vida intensa, ruidosa, feita de gritos, bater de asas e vôos. Os flamingos aproximavam-se da margem e aquela espécie de ilha flutuante desfazia-se com a aproximação dos dois passeantes, enquanto uma nuvem vermelha e negra subia nos ares.

De comum acordo, Kisberg e a rapariga afastaram-se um pouco da margem da lagoa. Não só para não assustar as aves, mas também porque, com as chuvas recentes, as águas, em certos pontos, haviam subido tanto que, no emaranhado das plantas aquáticas, não se conseguia, saber qual o ponto preciso em que a lagoa e a sansouire se encontravam.

Caminharam durante algum tempo sem trocar palavra. Kisberg olhava em volta de si com interesse e mostrava-se encantado com o aspecto da região. Por fim, voltou-se para a companheira.

- Vou-me embora amanhã, mademoiselle, e, por isso, desejei ter esta conversa consigo.

Karen supôs que o médico ia continuar, mas não sucedeu assim. Calou-se, dando-lhe a palavra.

Levantou a cabeça com ar resoluto. As palavras que ia pronunciar já estavam preparadas desde o instante em que o dinamarquês lhe fizera a sua proposta.

- Vai considerar-me ingrata, com certeza, professor. Ingrata e estúpida por rejeitar uma oferta tal como a sua. Reconheço ser tudo isso e ainda mais ao desprezar a possibilidade de trabalhar a seu lado. No entanto...

- No entanto, recusa, não é verdade? - atalhou Kisberg.

- Perdoe-me, mas...

- Recusa sem hesitação?

Karen olhou-o surpreendida pela sua agudeza e, ao mesmo tempo, ansiosa por descobrir se o seu procedimento o magoava. Porém, as pupilas claras e penetrantes exprimiam a usual benevolência.

Declarou apenas:

- De antemão, sabia qual a sua resposta, mademoiselle.

Karen baixou os olhos para o solo ensopado onde os passos deixavam profundas pegadas, e não soube que responder-lhe.

- Resta-me desejar-lhe felicidades - prosseguiu o médico - Era esse, confesso o meu único intuito ao pedir-lhe para me acompanhar neste passeio. Sabia que não se abandona por livre vontade um professor tal como o doutor Forestier e nunca esperei que as vantagens, fossem elas quais fossem, conseguissem vencê-lo.

Karen sentiu-se muito confusa. com ou sem razão, afigurava-se-lhe que a voz do compatriota exprimia doce ironia. Essa impressão desvaneceu-se quando Kisberg, mudando de tom, continuou:

- Forestier é um dos homens mais excepcionais que encontrei na minha carreira de médico, mademoiselle. Estes poucos dias que passei a seu lado ensinaram-me mais a seu respeito do que a leitura dos seus trabalhos e o conhecimento da sua justa celebridade.

Calou-se um instante, como se quisesse dar mais força às palavras que ia pronunciar e, por fim, concluiu:

- Que irreparável perda para a cirurgia o seu abandono!

- Com efeito, assim é - concordou Karen, não encontrando palavras para traduzir os sentimentos que, ao recordar a renúncia de Filipe, lhe tumultuavam no peito.

No seu espírito passou, rápida, a recordação dos acontecimentos reveladores da constante mentira. Voltou a ver o prado batido pelo sol, o touro dominado e estendido no chão pelo impulso das mãos de Filipe; o olhar furioso quando ela lhe gritara a sua alegria e, mais tarde, no laboratório, a expressão desesperada quando, desorientado com a sua insistência, se atraiçoara.

Kisberg devia ter adivinhado a natureza das recordações que emocionavam Karen. Numa voz indiferente, prosseguiu:

- Por mim, creio que Forestier não está impossibilitado para sempre de voltar a operar, mas não deve perder tempo. Durante a minha permanência aqui - continuou como se não desse pela perturbação da companheira - estudei todos os movimentos da mão de Forestier e confesso que esse estudo me interessou muito mais do que o caso para que fui chamado. Pedi-lhe depois para se deixar examinar. Apesar de contrariado, não pôde recusar e eu verifiquei que o mal não tinha importância. Em resumo - prosseguiu, sorrindo - como estou habituado a tirar conclusões rápidas e claras, cheguei a esta: Forestier pode e deve retomar o seu lugar, o de um mestre do bisturi.

A impossibilidade consiste apenas numa espécie de... como direi... medo de não estar à altura da tarefa.

Calou-se e Karen ficou com a certeza de que o dinamarquês sabia que Filipe estava na posse de todas as faculdades.

Regressaram ao mas. Haviam andado sempre num passo certo e, dessa forma, tinham podido dar a volta completa à lagoa.

Na margem, as garças não se assustaram com a sua presença. De resto, nem um nem outro davam atenção ao que se passava em volta deles.

- Por essa razão - prosseguiu Kisberg, decorridos alguns momentos, como seqüência natural das últimas palavras pronunciadas - a sua recusa agrada-me no fundo, e consola-me a idéia de que continua a seu lado.

E, sublinhando as palavras, concluiu:

- Impõe-se, absolutamente, que Forestier volte a operar, mademoiselle. Não tem o direito de se recusar a fazê-lo. Mas só uma pessoa poderá reconduzi-lo à cirurgia e essa pessoa é a Karen.

A estudante estremeceu, mas, erguendo os olhos para Kisberg que abrandara o passo, compreendeu ser inútil qualquer protesto. Os poucos dias passados no mas haviam bastado para ele penetrar o segredo dos corações e os mais ocultos pensamentos daqueles com quem vivia. Foi talvez ao ler no olhar do professor afectuosa aprovação e até uma espécie de malícia, que a rapariga, depois da cena da capela, compreendeu tudo quanto representava para Filipe.

Em voz trêmula, inquiriu:

- Conhece o drama que levou Filipe a renunciar?

- Foi o próprio Forestier quem mo contou. Esse facto, porém, mais reforçou o meu convencimento: o doutor recomeçará e será a Karen quem o levará a isso.

Calou-se um instante e depois, afirmando mais do que interrogando, concluiu:

- Terá de ser assim, não é verdade?

A rapariga curvou a cabeça, mas respondeu com firmeza:

- Tentarei, professor.

- Tentará e conseguirá.

Pouco faltava para atingirem o mas. Antes de lá chegarem, Karen perguntou ainda:

- Examinou mademoiselle de Marges, professor? Resta-lhe alguma probabilidade de cura?

- Nenhuma. O diagnóstico de Forestier e o dos meus outros colegas a quem consultou foi rigorosamente exacto. Desde o princípio, o mal foi incurável e a rigidez da perna definitiva.

Entraram em casa, atravessaram o vestíbulo e separaram-se. Kisberg subiu para o quarto a fim de fazer as malas. Quanto à estudante, contava terminar a manhã no laboratório.

Mas, ao encontrar-se na sala onde, havia dois meses, vivera as horas mais intensas da sua vida, não foi capaz de se entregar ao trabalho. O dia da véspera, com a passagem, pela capela e as revelações de Marthoun emocionara-a de tal modo que não podia deixar de se sentir abalada. Tão abalada, tão tumultuosamente agitada pela alegria, pelo receio, pela Incerteza, pela dúvida, que chegava a experimentar uma espécie de vertigem, um desfalecimento contra o qual tentava lutar. Sabia que todas as suas forças, toda a lucidez e coragem seriam poucas para sustentar a luta que se preparava.

Filipe conformar-se-ia com a sua decisão? Não tentaria, pelo contrário, fazê-la mudar de idéias e arrancar-lhe a promessa de partir?

Desde a véspera que tinha sempre diante dos olhos o rosto do homem que, por certo, sempre amara, mesmo quando supunha não passar esse sentimento de admiração pelo médico e pelo professor. com as pálpebras cerradas via-o num estéril esforço de indiferença ou transtornado pela cólera, pela emoção... E, sobretudo contraído pelo desespero, iluminado por outro sentimento que não se atrevia a classificar.

Santo Deus! Se o milagre se realizasse! Se um dia esse homem de olhar luminoso, inteligente, se inclinasse para ela com amor! Se a sua maturidade precisasse de mocidade e alegria, com que emoção e reconhecimento ela lhas daria!

E, de súbito, no meio desta vertigem, outro rosto surgiu: o de Marta-Maria... firme, resoluta e poderosa pelo segredo que possuía!

Karen sabia que a ama estava decidida a fazer-se árbitro de muitos destinos e, conquanto desejasse a revelação que poderia salvar Filipe, libertando-o dos remorsos e daquela vida estéril, ao mesmo tempo, não podia deixar de recear as horas terríveis que se aproximavam. Por que motivo, Marta-Maria guardara, tão ciosamente, o seu segredo... e não o revelara a Filipe alguns anos antes?

Todavia, mal formulou esta pergunta reconheceu ser a ama muito ignorante para poder ter qualquer certeza a respeito das injecções dadas a Chantal. Além disso, Forestier devido ao desgosto na altura do desastre e mesmo muito tempo depois, encerrara-se na dor como numa couraça, obstinado, triste e solitário. Não teria suportado a mais pequena alusão às horas terríveis do passado e Marthoun sabia-o tão bem que não se atrevera a quebrar o silêncio. Aguardara, com paciência, alimentando a sua esperança com o ódio que professava por Elvira, contando que um dia o médico voltasse ao mas. Espreitara o momento das revelações, e agora como o seu coração devia palpitar de ansiedade, esse coração que nunca duvidara de Filipe! À medida que se aproximava o momento em que Forestier reconquistaria a confiança em si mesmo, a esperança e, sem dúvida a felicidade, também o coração de Karen palpitava de receio e de ternura.

De súbito, estremeceu. A sineta anunciou o almoço e Karen sabia que anunciava também o começo da difícil batalha. Enquanto percorria o corredor para se dirigir à sala de jantar, não podia deixar de experimentar um sentimento de compaixão por Elvira. Mas bastou entrar na sala e olhar para ela e logo esse sentimento se desvaneceu.

Mademoiselle de Marges tinha a expressão sombria dos maus dias. Como sempre, estava excepcionalmente bonita com o vestido vermelho enfeitado a preto, cujo tom violento mais fazia sobressair a sua palidez. Os olhos verdes brilhavam com expressão resoluta e cruel. Karen soube que não ia lutar com uma inimiga desarmada. Estaria ela ao facto da proposta do doutor Kisberg e contaria com a partida de Karen? A dúvida não ia prolongar-se muito. Pouco depois do princípio da refeição, o dinamarquês voltou-se para Forestier.

- Estive a despedir-me da lagoa das "Avocetas"-disse - acompanhado pela mais encantadora das guias.

Sorrindo, olhava para Karen. Filipe, como se não tivesse ouvido, não lhe respondeu.

Desde que se haviam reunido, a estudante ainda não lhe encontrara o olhar. Mas, quando o observava, via-lhe as feições, tão alteradas e a expressão tão sombria que se sentia oprimida sem bem saber porquê.

Ao sentar-se à mesa, cumprimentara-a com ar distraído e, depois disso, nem uma só vez lhe dirigira a palavra. De resto, falava pouco e, até então, só madame Forestier e o doutor Kisberg haviam feito as despesas da conversa.

Sem parecer notar o mutismo do colega, Kisberg prosseguiu com bom humor:

- No entanto, confesso que, apesar de tudo, o passeio me entristeceu. Compreenderá, Forestier, quando lhe disser que, enquanto passeámos juntos, mademoiselle Rochel me comunicou a sua resposta.

Calou-se um instante e depois concluiu, em tom desolado:

- Perdi, meu amigo! E, naturalmente, você ganhou!

Entre os convivas, o silêncio absoluto pesou durante alguns momentos. Filipe cravara os olhos no prato. Porém, coisa alguma na sua atitude indicou que experimentasse nesse instante a mais violenta emoção da sua vida. Madame Forestier ficou calada também, mas adivinhava-se que estava radiante. Quanto a Elvira, de testa franzida e olhar interrogador, manifestava ignorar o assunto de que falavam.

- Suponho - disse por fim Forestier, dirigindo-se a Kisberg-que faz alusão à decisão tomada por mademoiselle Rochel?

- com certeza, infelizmente - confirmou Kisberg, a rir - A sua aluna, meu amigo, não demonstrou o mais pequeno interesse pelo regresso a Copenhaga, mesmo com a certeza de que os estudos lhe seriam facilitados. Deseja continuar em Paris e, acima de tudo, seguir os cursos do professor Forestier.

Desta vez, Elvira compreendeu. Ignorando todos estes projectos, tinha conhecimento deles ao mesmo tempo que da recusa de Karen. instantaneamente, a cólera e a dor transtornaram-lhe as feições.

Forestier voltou-se para Karen. Estava muito pálido, mas falou em tom glacial.

- Devo concluir que optou pela Faculdade de Paris?

- Exactamente, professor - afirmou Karen em voz surda.

- A sua resolução é inabalável? Nada a poderá modificar?

- Nada, com efeito - replicou ela com firmeza idêntica à de Forestier.

Este sorriu com ironia.

- Supunha ter ontem conseguido demonstrar-lhe, com clareza, onde estava o seu interesse. Devo reconhecer que sou fraco advogado. No entanto, - acrescentou com súbita dureza, fixando-a bem a direito-deve saber que se trata de uma má causa.

Karen não respondeu à alusão - que só ela podia compreender - à conversa tida na capela. Além disso, apesar dessa última frase e de todos os subentendidos que encerrava, chegava a perguntar a si mesma se o encontro da véspera se dera na realidade e não fora uma criação da sua fantasia!

Voltado para a janela, Filipe parecia reflectir. O silêncio tornara a reinar na sala. Todos eles compreendiam que a partida jogada era muito mais importante do que as últimas palavras deixavam depreender.

Por fim, olhou para Karen e, instintivamente, ela aprumou-se como se se defendesse de um ataque.

- Manifestou o desejo de ir passar algum tempo com sua mãe em Copenhaga, antes da reabertura da Faculdade, não é assim, Karen?

Esta olhava-o sem baixar os olhos. Adivinhava, que ele ia exigir-lhe a partida imediata.

- É, sim, professor.

- Muito bem. Concedo-lhe a licença que me pediu.

Os lábios trêmulos de Karen mal deixaram passar algumas palavras de agradecimento, porque o doutor não lhe deu tempo para as proferir. Voltou-se para a mãe e para Elvira:

- E nós vamos regressar a Paris - declarou numa voz que não dava margem a réplicas - O tempo que podia permanecer na Camargue já foi em muito ultrapassado.

Elvira não replicou. Só madame Forestier interrogou:

- Quando desejas partir, Filipe?

- Depois de amanhã-declarou ele sem hesitação.

A mãe do médico ficou, por instantes, muda de surpresa. O filho devia tê-lo notado, porque, sem lhe dar tempo a fazer objecções, prosseguiu com calma:

- O tempo é pouco, eu sei, mas, na realidade, deve chegar para fazerem os preparativos. Como a Marta-Maria fica aqui, não precisam preocupar-se com a casa. Quanto ao resto, não tem importância. Não temos de dar conta seja a quem for dos nossos passos e a sua oportunidade ou rapidez só a nós diz respeito.

Mostrava-se de uma calma perfeita, demasiado perfeita, talvez, para ser real. E, por muito tempo, a sua voz ficou nos ouvidos de Karen, mesmo, quando, despedindo-se dos outros habitantes do mas reunidos na sala, se dirigiu para o laboratório.

Era, sem dúvida, a última vez que ali entraria. Relanceou em volta da grande sala branca um olhar de ternura. Daí a dois dias, conforme determinara Forestier, abandonaria para sempre o mas, esse mas onde o amor a dominara mesmo antes de saber que amava... o mas onde ficariam para sempre, como prisioneiros eternos e voluntários, o seu amor, a sua vida e mocidade, todas as energias do seu coração e do seu espírito.

Passou a tarde no quarto, arrumando as malas, enquanto Marthoun, desolada com a perspectiva da próxima partida, andava em volta dela como um corpo sem alma.

Por fim, reagindo contra a resignação, a ama perguntou-lhe quando tencionava utilizar a sua "descoberta" e o segredo que lhe confiara.

Karen, aniquilada, defendeu-se de modo frouxo:

- Não sei, Marthoun, ainda não chegou o momento. Agora, ele não me daria ouvidos.

E não mentia. Era essa a sua convicção; mesmo naquela altura em que se esforçava por reflectir e raciocinar com calma, tinha a certeza de que Forestier não a escutaria.

Recordava o homem de olhar luminoso, expressão grave e inteligente que, envergando a bata branca, trabalhara a seu lado. Viu em pensamento as mãos poderosas que tantas vezes haviam salvo vidas prestes a extinguir-se. Poder restitui-lo ao mundo! Se aquela ternura persuasiva conseguisse convencê-lo a fazer pesar a sua arte na balança do sofrimento e da morte!... Salvar os outros e salvá-lo a ele, restituindo-lhe a consciência da força e do orgulho, a sua razão de viver!

Infelizmente, Karen não se considerava mais do que uma empregada despedida, reunindo os seus objectos pessoais, na certeza da próxima partida!

O propósito de não esquecer coisa alguma levou-a ao laboratório. Nada lhe pertencia ali, visto que, apontamentos, notas e observações, tudo fazia parte do trabalho... apenas, pretendia deixá-lo em ordem perfeita e em condições de ser utilizado se, mais tarde, o professor, o julgasse digno disso.

O pequeno relógio pendurado na parede marcava dez horas. Os outros habitantes do mas, com certeza, em breve recolheriam aos quartos, porque o doutor Kisberg tinha de partir cedo, na manhã seguinte. Além disso, a atitude de Filipe e as suas inesperadas decisões haviam provocado um estado de espírito pouco favorável ao prolongamento do serão.

com efeito, ainda não havia decorrido uma hora quando Karen ouviu-vagamente, devido à situação do laboratório - passos que subiam a escada.

Ainda lhe faltavam muitas fichas para preencher e classificar no registo próprio para esse fim. Não sabendo se, no dia seguinte, teria tempo para esse trabalho, resolveu não se deitar até o concluir. Esquecendo a fadiga, continuou a escrever. O silêncio envolvera o mas quando leve ruído o perturbou: o ranger da porta ao abrir-se.

Elvira parou no limiar da porta. Karen, que não tinha ouvido o martelar da bengala, não pôde reprimir um sobressalto quando, ao voltar-se, avistou o vulto imóvel e aprumado.

Quando ela se aproximou, o brilho do vestido vermelho tornou-se-lhe quase insustentável. Como sempre, trazia os cabelos enrolados na nuca, descobrindo o lindo rosto que, no entanto, naquele momento, pareceu a Karen fatigado e envelhecido.

Mademoiselle de Marges devia considerar já Inútil conservar a mais leve aparência de delicadeza nas suas relações com a estudante, porque, mal chegou junto dela, a sua animosidade manifestou-se.

- Sou eu, mademoiselle Rochel - disse com ironia - Pelo seu olhar verifico como foi grande a sua decepção.

Decepção não era bem o termo, mas Elvira não deu tempo para protestos.

- Evidentemente, contava com o doutor - prosseguiu - Esperança vã, mademoiselle. A sua manobra vindo para aqui, de nada serviu. A idéia de vir ter consigo nem mesmo lhe passou pela cabeça. De resto, que teria o professor Forestier para lhe dizer?... Que está satisfeito com o seu trabalho?... Isso já o sabe há muito tempo. A sua importância, porém, não é tão grande que o obrigue a agradecimentos especiais.

Enquanto falava, aproximou-se de Karen. com voz trêmula, esta inquiriu:

- É tudo quanto tem para me dizer? Desvanecida a surpresa, sentia em si uma vaga de cólera:

- Não, não é tudo - ripostou Elvira, embora as palavras da estudante e a sua atitude lhe despertassem desagradável surpresa. Calou-se um instante e depois, de modo brusco, perguntou:

- Por que não aceitou a proposta do doutor Kisberg?

Antes de lhe responder, Karen olhou-a demoradamente. As palavras proferidas pelo dinamarquês no decurso do almoço, deviam ter-lhe revelado o bastante para lhe causar surpresa, mas coisa alguma explicava que se imiscuísse nos projectos da estudante.

- Queira perdoar - volveu Karen com calma -As minhas resoluções assim como as causas que as motivaram, só a mim interessam.

- Engana-se. Arriscamo-nos a prejudicar os outros quando se envereda por determinados caminhos.

- Não é esse o meu caso.

A firmeza e obstinação de Karen desconcertaram Elvira. Por fim, com os dentes cerrados, fez a pergunta directa: -O que espera do doutor Forestier?

- O desejo de conservar o doutor Forestier como meu professor não foi o único motivo que me obrigou a ficar em França - respondeu Karen.

Elvira começou a rir.

- Conservar o doutor Forestier como professor! - repetiu com ironia - Não se trata disso, bem sabe. Deseja mais e isso leva-nos à minha pergunta à qual não respondeu. De resto, torna-se absolutamente inútil - prosseguiu cada vez mais cáustica e impertinente-Não preciso da sua resposta para lhe dar um conselho. Ei-lo: Vá com o doutor Kisberg, mademoiselle. É um homem simpático que, é possível, deseja ser mais alguma coisa do que seu professor, mas que, para o conseguir só empregará meios honestos e... legítimos. Ensinar-lhe-á medicina, em seguida, antes ou ao mesmo tempo, pagará os seus estudos e por fim casará consigo! Quanto a Filipe, nunca poderá ir tão longe; e, conheço-a bastante para saber que não é rapariga para se contentar com uma situação obscura, incerta, uma situação falsa, em resumo.

Calou-se, mas pareceu a Karen que as palavras venenosas continuavam a soar aos seus ouvidos.

Por momentos, a indignação roubou-lhe a fala. Além disso, pensou que, se lhe respondesse logo, não poderia deixar de o fazer no mesmo tom, usando termos ofensivos; e empregou todas as forças para conservar o domínio próprio e dignidade.

Num gesto involuntário, meteu a mão na algibeira e encontrou um objecto duro: a caixa das ampolas confiada por Marthoun, e esse contacto animou-a. Sentiu-se forte e teve a consciência de poder responder com um golpe mais cruel àquele que lhe fora vibrado. Voltou-se para Elvira com expressão transtornada, mas calma.

- Então, segundo o seu parecer, procederei com mais sensatez se der a minha preferência ao doutor Kisberg? - perguntou - É isso o que pretende dizer?

Elvira esforçou-se por não deixar transparecer surpresa.

- Exactamente. Kisberg está apaixonado por si e depressa chegarão a acordo.

Karen estava certa do contrário. Sabia que bem pouco tempo fora preciso ao dinamarquês para adivinhar entre ela e Filipe a existência de um sentimento que eles mesmo ignoravam. Quase podia afirmar que a proposta de a levar consigo não fora mais do que um ardil empregado por Kisberg no intuito de lhes abrir os olhos. No entanto, não protestou contra a afirmação de El vira e prosseguiu:

- E se, a despeito dos seus avisos e conselhos, eu persistir em preferir o professor Forestier, mademoiselle? Creio que tenho o direito de escolher.

As faces de Elvira tingiram-se de vermelho. Adivinhava-se que tentava lutar, sem resultado, contra a violenta cólera que lhe fazia tremer os lábios e as mãos.

- Faria mal, porque essa escolha, como lhe chama, não lhe serviria de nada. Filipe não é livre, nem nunca o será, visto estar preso por um juramento e também pelo desejo de expiar o seu erro, àquela a quem matou.

- E, acima de tudo, porque mademoiselle está aqui a fim de lhe recordar, constantemente, a sua condição de homem à margem da vida.

- A morta era minha irmã - murmurou Elvira com voz surda.

- E também sua rival, não é verdade? Elvira ergueu a cabeça num movimento brusco.

- Está doida?

- Doida está mademoiselle de Marges e há muitos anos. Desde o dia em que o doutor Forestier trouxe para esta casa duas raparigas encontradas, por acaso, na estrada, junto de um carro avariado... quando ele lhe preferiu sua irmã, e durante todo o tempo de noivado... E, mais tarde, na sua obstinação em esmagar Filipe de remorsos, em alimentar o seu desgosto, em o arrancar à vida para o prender a si... infeliz, diminuído a seus próprios olhos, mas preso!

Aprumada diante de Elvira que, com o rosto convulsionado, se agarrava às costas de uma cadeira, Karen sentia-se tomada de violenta cólera que já não conseguia dominar.

- Pois bem, já basta! prosseguiu em tom tão imperioso que a outra nem pensou em interrompê-la- Basta de chantagem com a dor, basta de obstinação em prolongar o passado! Não continuará a destruir uma vida. Fico, não para lhe disputar o amor de Filipe, esteja tranqüila. Ainda que o amasse - e neste ponto a voz sumiu-se-lhe

- para mim a sua carreira estaria acima de tudo. Fico para tentar com todas as minhas forças restitui-lo a si mesmo, à plenitude das suas faculdades, à cirurgia, que nunca devia ter abandonado.

Calou-se, esgotada. Mas Elvira já recuperara o sangue-frio e, sem dúvida, espreitava este desfalecimento para atacar por sua vez.

- O projecto é excelente - murmurou com implacável Ironia - Infelizmente, implica uma influência sobre o doutor Forestier que está longe de ter. Confesso que esperava da sua inteligência um subterfúgio menos grosseiro. Em todo o caso, creio que madame Forestier não estará disposta a conservar em sua casa uma intrigante que...

- Nesta casa que a abriga a si, mademoisélle, e só Deus sabe se a sua influência é mais perigosa do que a minha!

- Tome cautela! -murmurou Elvira em voz surda.

O gesto de Karen não havia sido premeditado. Foi tão espontâneo, tão oportuno e tão audacioso, que nem sequer teve tempo de medir-lhe as conseqüências. Havia algum tempo já que apertava com força a caixa das injecções, e ainda Elvira não tinha acabado de falar e já essa caixa se encontrava em cima da mesa, diante dela.

- Tome cautela com quê? - interrogou desdenhosa - Talvez com esta cloromicetina?

Elvira, que tinha seguido com a vista todos os movimentos de Karen, abriu muito os olhos que acabavam de poisar na caixa, Todas as palavras da estudante eram supérfluas. Elvira teria reconhecido entre mil a pequena caixa de cartão cinzento!

Como fascinada, olhou-a, durante bastante tempo. Nem lhe passou pela cabeça simular indiferença ou ignorância, talvez por ter ficado muito surpreendida para o tentar. Quando quis reagir, já não era tempo. Karen observava-a com uma acuidade tal que não perdera o mais simples bater de pálpebras.

- Onde encontrou isso? - perguntou Elvira em voz trêmula.

- Pouco importa!

- No armário da farmácia, com certeza... Não me recordo onde a deixei... Desde o desastre, existe na minha memória uma falha que deixou fugir tudo quanto era secundário.

Falava como se o fizesse só para si. As duas raparigas estavam frente a frente, mas numa atitude diferente da que haviam mantido até ali. Encostada ao espaldar da cadeira, Elvira a custo se mantinha de pé. Estava lívida e tremia, embora se esforçasse por o ocultar. Quanto a Karen, pensativa, olhava para a caixa acusadora.

- Eis o que destruiu uma vida - murmurou

- Foi isto e não a incapacidade ou a imperícia de Forestier. E não o ignorava! Conscientemente, induzia-o no erro!

- Não quis matar minha irmã! -protestou Elvira com súbita violência - Como poderia eu ter previsto o desastre e a operação?

- Desconheço as suas intenções - replicou Karen- Em todo o caso, não as considero normais nem confessáveis. Era a saúde de sua irmã que desejava quando lhe injectou, às ocultas, uma dose de cloromicetina capaz de provocar a mais grave hipotermia? O professor Forestier...

- O professor Forestier devia dar graças a Deus pela minha intervenção se...

- Se a noiva não tivesse morrido por causa disto?

- Chantal não podia ser sua noiva... não podia vir a ser sua mulher - interrompeu Elvira com uma espécie de fúria - Já não podia, compreende?... "Chantal é uma rapariga encantadora"- diziam... Mas só eu sabia quanto era inconseqüente, egoísta, frívola e, acima de tudo, culpada! Só eu sabia que, antes de Filipe, outros homens tinham existido na sua vida! Além disso ela não gostava do noivo. Mas ia fazer vinte e cinco anos e esse casamento proporcionava-lhe tudo quanto ambicionava.

Respirou fundo e depois prosseguiu em voz patética:

- Via aproximar-se o dia que prenderia Filipe a uma mulher indigna e não podia fazer coisa alguma para impedir essa monstruosidade. Calou-se e Karen murmurou:

- Por que não o preveniu?

- Para que ele me odiasse? Não, mil vezes, não! Suplicar a minha irmã que abandonasse o projecto de casamento? Foi o que fiz e ela desatou a rir... Então, escute bem, mademoiselle Rochel, eis como as coisas se passaram...

De novo respirou fundo e continuou:

- No ano anterior, Chantal estava, oficialmente, noiva de um nosso primo. Escrevi-lhe, contando o que se passava. Ele adorava-a. Respondeu-me, dizendo que tinha pedido uma licença e não tardaria a chegar, para revelar a Filipe o que Chantal havia sido para ele. O avião, porém, só devia aterrar em Marselha a 20 de Setembro e o casamento estava marcado para o dia 18. Ocorreu-me então a idéia de impedir minha irmã de casar com Filipe no dia destinado. Nessa altura trabalhava muitas vezes com Filipe, aqui e em Grasse. Discutíamos medicina e eu nunca deixava de estar ao facto das últimas descobertas nesse campo. Conhecia os efeitos da cloromicetina, empregada com êxito nos casos de febre tifóide, e sabia que uma dose bem forte, provocando rápida descida de temperatura, mergulhava o doente num estado de profundo abatimento. Chantal estava ligeiramente engripada. Irritava-se e afirmava que o noivo não a tratava com a energia suficiente para estar curada no dia 18 de Setembro e em todo o esplendor da sua beleza.

Foi então que propuz... dar-lhe às escondidas de Filipe injecções que depressa a curariam e fariam desaparecer a febre. Como sempre, acreditou-me. Estava habituada a que eu tomasse iniciativas e em muitos casos a tratasse. Dei-lhe a injecção pouco antes de seguirmos para Marselha. No carro, exigiu que lhe entregassem o volante. O resto já é do seu conhecimento.

Calou-se. Caso estranho, à medida que falava, a voz tornara-se-lhe mais firme como se a exposição dos factos, em vez de a acusar, representasse uma espécie de justificação.

- E como pôde deixar Forestier na convicção de ter sido ele o causador da morte! -articulou Karen, no auge da indignação - Como pôde destruir tão brilhante carreira, abandoná-lo aos remorsos!

- Estive muito tempo entre a vida e a morte - murmurou Elvira - Depois... depois como confessar a Filipe que tinha sido eu?... Expulsar-me-ia.

Ao evocar o que poderia ter acontecido, estremeceu. A sua paixão cega e violenta pelo médico nunca fora tão patente aos olhos de Karen como ao pronunciar estas últimas palavras.

Entretanto, Elvira recuperara a calma e, fitando Karen, prosseguiu numa espécie de desafio:

- Sim, eis o que fiz. Não podia ocultar-lho, visto que, por um acaso que não sei explicar, encontrou essa caixa e estava disposta a conhecer, custasse o que custasse, o emprego que dei às ampolas... emprego de que já suspeitava!

Passou a mão pela testa e continuou com um riso de louca:

- Ficou sabendo. Matei minha irmã! E ainda supunha que eu estaria disposta a tolerá-la a si junto de Filipe! A assistir, tranqüilamente, à sua instalação nesta casa... a voltar a sofrer o tormento do ciúme de que ninguém, se não o suportou também, pode fazer uma idéia, e aguardar de braços cruzados o instante em que ele me afastasse da sua vida! Deve estar doida, mademoiselle Rochel, se imagina que vou consentir em semelhante coisa!

A sua exaltação era assustadora. Karen, porém, naquele momento apenas sentiu compaixão.

- Pela última vez, está disposta a partir com o doutor Kisberg? - prosseguiu Elvira - a regressar, em definitivo, à sua terra?

- Não, mademoiselle.

- Deve reflectir enquanto é tempo.

- É escusado. Já reflecti.

- Muito bem. A escolha está feita!

E riu como uma louca. Depois aprumou-se e, com a mão trêmula, pegou na bengala, enquanto o olhar brilhante, desviando-se de Karen, percorreu a sala, como se não a conhecesse e a examinasse. Por fim voltou-se de novo para a rapariga.

- Este laboratório é delicioso, não é verdade? Sossegado, afastado de casa... coisa alguma perturba o seu trabalho...

Karen olhou-a com espanto e não respondeu. Seria Elvira mais desequilibrada do que supunha?

Esta deu alguns passos para a porta e continuou:

- Quantas recordações tudo isto desperta! Como já tive o prazer de lhe contar, passávamos muitas horas aqui, eu e Filipe, para fazermos experiências. Já fez algumas, mademoiselle? - interrogou, bruscamente, dirigindo-se a Karen.

A convicção de que Elvira não tinha um cérebro normal mais se afirmava no espírito da estudante.

- Não, nunca - respondeu, de modo seco. -Não se lembra, mas já as tentou... para

passar o tempo, para se distrair... com tão excelente material, não pode resistir-se ao prazer de as fazer.

- É essa a sua profissão; não a minha - retorquiu Karen.

- Isso explica em. parte a sua... inexperiência.

Começou a rir e depois mudou de tom.

- Já é tarde. Tenciona demorar-se muito no laboratório?

- Tenciono - afirmou Karen - Talvez uma hora.

Mademoiselle de Marges já havia atingido a porta. Parou, olhou a estudante, o tamborete onde esta costumava sentar-se, a mesa sobre a qual estavam espalhados os apontamentos, as fichas e a larga janela envidraçada que, na frente de Karen, substituía a parede. Depois, numa voz tão estranha como a sua atitude, despediu-se:

- Boa noite.

Sem esperar pela resposta, abriu a porta e sumiu-se no corredor.

Depois dela sair, Karen ficou imóvel durante alguns instantes. Quase logo, porém, tentou esquecer os sentimentos que a agitavam, sobretudo o assombro. Mais tarde, quando se encontrasse sozinha no quarto, recordaria a dolorosa cena e concederia às palavras e à estranha atitude de Elvira toda a atenção que elas pediam. Naquele momento, porém, o trabalho estava primeiro... o trabalho que, acontecesse o que acontecesse, Filipe devia encontrar em ordem. E corajosa, de novo se debruçou sobre as páginas do livro de apontamentos.

No entanto, a despeito da sua vontade, sentia-se perturbada. Visionou mademoiselle de Marges passeando no quarto para cá e para lá, antes de se deitar. Mas, pouco depois, o rosto alucinado desvaneceu-se, porque o sono a venceu.

Como poderia supor que o comprido vestido vermelho arrastava, naquele instante, pelos degraus da escada... como poderia calcular que esse vestido e a sua dona avançavam na sombra com cautela, atravessavam o vestíbulo, saíam para o jardim e se aproximavam da parte exterior do laboratório? Como poderia ver a mão que poisava no rebordo da janela, no ponto exacto onde a luz acesa lá dentro indicava o lugar onde Karen estava sentada!

No escritório do primeiro andar, o doutor Klsberg despedia-se de Forestier. Depois de sairem da sala, os dois homens haviam prolongado o serão, pois Filipe desejava mostrar ao hóspede alguns dos seus trabalhos. Naquele momento, desculpava-se por a exposição ter demorado mais do que previa e o colega sorrindo, protestava:

- Já não tenho a sua mocidade, meu amigo e, portanto, não preciso de tantas horas de sono. Amanhã acordarei bem disposto, pode ter a certeza.

Amargo sorriso entreabriu os lábios de Forestier.

- A minha mocidade... -murmurou-Como vai longe!

O dinamarquês não lhe respondeu. Dirigiu-se para a porta, acompanhado por Filipe. De repente, parou e declarou:

- A propósito de mocidade... deixe-me dizer-Lhe que me sinto satisfeito por a sua aluna ficar. Não me parece conveniente contrariar as preferências de trabalho seja de quem for e ainda mais quando se trata de uma pessoa como Karen Rochel. Aquela pequena sabe o que quere e tem vontade própria. Terá a satisfação de a encaminhar.

Falava com calma, numa voz indiferente, sem parecer notar a súbita alteração das feições de Forestier. Filipe esforçou-se por lhe responder da mesma forma:

- Não tenciono fazer de Karen a minha aluna preferida, nem tão-pouco dirigir os seus estudos e preparar-lhe a carreira. Não está nos meus princípios fazer excepções nas aulas e, se mademoiselle Rochel persistir na sua decisão, é como se deixasse de existir para mim. Isto quer dizer que não deve contar com atenções especiais. Calou-se.

- É pena! - murmurou, por fim, o dinamarquês, recomeçando a andar.

Depois, movido por súbita decisão, parou e poisou a mão no braço de Forestier:

- Escute-me, Forestier...

Mas o médico nunca soube as palavras que o colega ia pronunciar. Nesse instante um rolar surdo e ao mesmo tempo violento, muito semelhante ao do trovão, povoou o silêncio da noite.

Pareceu aos dois homens que toda a casa oscilava. Logo em seguida, foi o barulho de uma derrocada, misturado com o estilhaçar de vidros.

Filipe adivinhou no mesmo instante.

- O laboratório! - exclamou- O laboratório explodiu!

- Impossível! Teríamos ficado sem luz!

- Não, a instalação é independente da do mas.

Mas, de repente, fez-se lívido e fitou Kisberg com olhar alucinado:

- Então... estava lá alguém... - balbuciou. Saiu como louco do escritório, correu pelo corredor, enquanto as portas dos outros quartos se abriam, galgou a escada e precipitou-se para a passagem que estabelecia comunicação da casa para o laboratório. Aí, porém, teve de parar, porque a porta, arrancada dos gonzos, caira e obstruía a entrada.

A explosão, bem preparada, quase destruira o laboratório, sem atingir a casa. Filipe notou-o logo, acendendo o isqueiro, visto a electricidade não funcionar. Mas o que pôde ver à fraca claridade projectada pela chama, o estado em que se encontrava tudo quanto existia na sala, deixou-o aterrado.

A parede que dava para o pátio abatera e os vidros das janelas que a cortavam quase em toda a extensão, juncavam o solo. As outras paredes estavam de pé, mas as prateleiras e armários, os frascos, os destroços dos instrumentos, tubos e outros objectos frágeis encontravam-se como pulverizados. A mesa que corria ao longo da parede e sobre a qual tantas vezes se inclinara para regular o microscópio e tomar apontamentos, já não existia. Mas, no chão, aberto e milagrosamente intacto, via-se um caderno e foi nele que as atenções de Forestier se fixaram.

- Karen! -gritou em voz arquejante - Karen, onde está?

Deslizara entre a porta e a parede, mas não se atrevia a dar nem mais um passo com receio de tropeçar num corpo... um corpo... que numa ansiedade crescente, numa impressão de angústia, julgava ver estendido no chão, mutilado, para sempre inerte!

O professor Kisberg também conseguira entrar. De súbito, soltando surda exclamação, Forestier precipitou-se. Pouco depois, pisando ou saltando por cima de móveis e objectos, voltou para o lado de Kisberg, trazendo nos braços Karen inanimada.

com uma força de que ninguém o suporia capaz, o dinamarquês arrancara a porta e, desta forma, Filipe pôde passar com o precioso fardo nos braços.

Alarmadas, madame Forestier e a ama apareceram e foi Marta-Maria quem, pálida até aos lábios, amparou a mãe do médico.

Karen foi deitada no divã da sala. Ágeis e competentes, as mãos do doutor Kisberg percorreram o corpo, tactearam os membros num exame rápido.

- O corpo está ileso - declarou, endireitando-se.

Filipe não demonstrou tê-lo ouvido. Ajoelhado junto do divã, amparava a cabeça de Karen com desespero, olhava para a fronte donde o sangue corria.

- Fractura de crâneo - diagnosticou numa voz sem timbre.

- Tem razão - concordou Kisberg que, por sua vez, examinara a ferida - e, provavelmente, com complicações. Tem de ser transportada, imediatamente, para uma clínica a fim de ser operada.

Marthoun saiu a correr para transmitir ordens a Felix.

Devagar, Karen descerrou as pálpebras e o seu olhar mortiço fixou Forestier.

- Operada... - repetiu em voz tão fraca que só os dois médicos, inclinados para ela, puderam ouvi-la - operada... por si, professor.

Forestier estremeceu e levantou para o colega o rosto transtornado, como a pedir-lhe socorro. Depois voltou-se para a ferida.

- Karen - balbuciou - não me peça...

A rapariga ergueu os braços e, suplicante, agarrou-se aos ombros de Filipe.

- Eu quero - repetiu - Filipe... Só o Filipe

pode salvar-me e eu... quero viver! Filipe... Filipe... prometa-me...

Forestier curvou-se para ela. Sentia-se dominado por profunda calma como se, pela força de vontade do ente querido retomasse o poder de triunfar da morte.

- Sossega, meu amor - murmurou - Eu mesmo irei operar-te e juro-te que te salvarei!

Depois, como Marta-Maria surgisse no limiar da porta e com um sinal indicasse ter chegado o momento da partida, Forestier envolveu Karen na manta que lhe dera madame Forestier e ergueu-a nos braços.

Kisberg sentou-se-lhe ao lado e o carro deslizou, correndo no silêncio profundo da Camargue, para a clínica, que já uma vez lhe roubara a felicidade.

Mais tarde, até à sala onde as duas mulheres se conservavam mudas e aniquiladas, chegou prolongado bramido. Parou um instante e depois recomeçou, lento e sinistro, passando sobre a estepe como o sopro gélido da morte.

O mugido trágico soou pela terceira vez, mais forte, cada vez mais lúgubre e então, um coro imenso de bramidos idênticos lhe respondeu.

Marta-Maria pôs-se de pé, trêmula e aterrada.

- O bramadisso! -murmurou.

O bramadisso! O clamor dos touros diante de um corpo morto, seja de animal ou pessoa, múltiplo e prolongado, tão tétrico que, na Camargue, quem o ouve nunca deixa de empalidecer e de persignar-se.

Madame Forestier ergueu a cabeça, deixando ver o rosto transtornado e, como se a ama pudesse saber, perguntou:

- Karen?...

A ama abanou a cabeça. Conhecia bem todos os mistérios da Camargue para saber que os touros nunca fazem ramadão senão diante de um corpo.

- Venha! - incitou.

Dócil, madame Forestier levantou-se, consentiu que Marthoun lhe pusesse um xaile pelos ombros e saiu atrás dela.

No pátio, a dedicada criada tomou-lhe o braço. A noite estava clara e a lua brilhava em todo o seu esplendor, ofuscado, de longe em longe, pela passagem de uma nuvem. Corajosas, as duas mulheres encaminharam-se para o ponto donde partia o clamor e em breve se encontraram à borda da lagoa.

Os touros já se avistavam nitidamente. Apertavam-se em volta da enseada, formando uma espécie de barreira negra donde partia, de espaço a espaço, o fúnebre bramido. Todas as outras vozes se haviam calado. As aves, os alcaravões, haviam emudecido e até o vento deixara de agitar os grandes canaviais.

- Temos de esperar - murmurou Marta-Maria - Eles não nos deixariam passar.

Aguardaram, trêmulas, encostadas uma à outra. O clamor da morte abrandou e, por fim, calou-se de todo. Lentamente, como a custo, os animais dispersaram. Só então as duas mulheres puderam aproximar-se da lagoa.

- Olhe! -exclamou Marta-Maria.

A lua continuava a brilhar no firmamento, reflectindo-se na água com cambiantes metálicos. E, perto da margem, o luar iluminava um vulto estranho... um vulto vestido de vermelho, um vestido cingido por um cordão preto e cujo decote, guarnecido com contas de azeviche, brilhava.

Oculto pelos canaviais que haviam prendido as roupas, o rosto de Elvira não se via.

 

               E TUDO RECOMEÇOU

Pela ampla janela do quarto, Karen avistava a torre de Notre Dame de La Garde", recortando-se num céu de cobalto.

Logo que pudera mexer-se e levantar a cabeça, os seus olhos encontraram a calma e aprazível paisagem, como calmo e aprazível era o quarto com os móveis pintados de branco, o chão de mosaico brilhante... Tudo em volta respirava alegria. Esta dir-se-ia ter-se concentrado no ramo de dálias desgrenhadas que, numa jarra de cristal, adornavam, a mesa de cabeceira de Karen,

Abandonando o firmamento luminoso, o olhar da rapariga poisou no ramo e o rosto iluminou-se-lhe de felicidade. Devia a vida àquele que todos os dias renovava esse ramo... e, de futuro, muito mais lhe deveria: a felicidade e a plenitude dessa vida no amor!

Ainda não seriam horas dele aparecer? Quando se dispunha a consultar o relógio pendurado na cabeceira da cama, ouviu o ruído de passos que se aproximavam. Depois de ter batido ao de leve na porta, entrou uma enfermeira.

- O doutor Forestier pode entrar? - perguntou.

Sem aguardar a resposta, que de antemão conhecia, afastou-se para o lado para dar passagem ao médico. Antes de se afastar, porém, lembrou, dirigindo-se a Filipe:

- Encarregaram-me de lhe pedir para não se esquecer de que às quatro tem de assistir a uma operação.

- Obrigado - agradeceu o médico com a sua bela voz de tons graves - Não me esquecerei, descanse.

Mal a porta se fechou, dirigiu-se para a cama. com o coração palpitante, como lhe acontecia sempre que Filipe entrava, Karen via-o aproximar.

Como sempre, emanava dele uma impressão de força, resultante, tanto da alta estatura como dos modos e da superioridade do seu espírito. Mas, a cabeça levantada e o busto aprumado, como se livre de tremendo peso, a autoridade da voz, os gestos, toda a sua atitude, faziam dele um homem diferente. Brilhava-lhe nos olhos a chama do triunfo, triunfo de lutador que defrontara a morte e conseguira dominá-la.

Karen sorriu para a fisionomia luminosa, tão fresca apesar das fontes prateadas e murmurou:

- Como as horas me pareceram compridas desde ontem, Filipe!

O médico não respondeu. Limitou-se num gesto apaixonado, a encostar a face contra a cabeça ligada, cujos cabelos loiros haviam sido cortados antes da operação.

- Temos toda a vida diante de nós, meu amor - murmurou com ternura.

Pouco depois, consciencioso e atento, examinou-a, consultou a papeleta da temperatura e chamou a enfermeira para tirar o penso a fim de ver a costura, já cicatrizada, da operação.

Estava tudo o melhor possível. A cicatriz partia da testa em direcção do alto da cabeça, numa linha delgada que com o tempo se desvaneceria.

A enfermeira notou-o com satisfação e, dirigindo-se a Karen, observou:

- Teve sorte, mademoiselle, em ser operada pelo doutor Forestier. Quanto mais não fosse por causa dessa costura que poderia tê-la desfigurado e que, daqui a seis meses, ninguém notará. Além disso, o anestesista afirmou-me que a intervenção tinha sido uma das mais notáveis a que havia assistido.

Quando a enfermeira se retirou, Karen perguntou:

- Poderei abandonar a clínica em breve, professor?

O nome de professor que ela ainda lhe dava de vez em quando, tomava na sua boca extraordinária doçura.

- Tencionas continuar a tratar-me assim?

- Sempre - replicou Karen, com vivacidade - Além disso, não devo desabituar-me desta fórmula de respeito. Ser-me-á necessária quando voltar a ser tua aluna.

- Não abandonas a idéia de concluir os teus estudos?

- Não devo, Filipe - afirmou ela com súbita gravidade-E estou certa de que não mo pedirás, para eu continuar a ser... o que desejas que eu seja.

- Minha mulher! - murmurou o médico numa voz ardente.

- Tua mulher na verdadeira acepção da palavra. Para isso devo partilhar a tua vida de trabalho e, sendo preciso, torná-la mais leve.

Calou-se. Filipe apertou as mãos que prendia entre as suas. Como abençoava aquela que lhe dava mais do que amor, mais do que a sua mocidade... uma confiança cega e apaixonada na sua competência, a força necessária para cumprir, inteiramente, o seu destino.

- Seria interessante, aluna Karen Forestier, se a ajudasse a defender a seguinte tese: "A paralisia do coração e a sua atrofia podem curar-se num homem de quarenta anos?... " É este o tema que vai escolher, não é assim?

Gracejava, mas, ao proferir as últimas palavras, a emoção alterava-lhe por tal forma a voz que os olhos de Karen arrasaram-se de lágrimas.

- Meu amor! -murmurou - Para mim serás sempre novo!

Tomou a mão de Forestier e contemplou-a demoradamente antes de a levar aos lábios. Depois, como se a frase fosse a conclusão natural do olhar e do gesto, perguntou:

- Vais operar esta tarde?

- Não. Limito-me a assistir. O operado é, creio eu, parente do director da clínica, mas, como se trata de um caso de gravidade, ele pediu-me para estar presente. A propósito de operação. Recebi uma carta de Paris. O hospital deseja que eu retome o serviço no dia 15 de Outubro. Há alguns casos que podem esperar, mas não muito tempo...

- Regressaremos nessa altura - afirmou ela.

- E o doente do doutor Dufaux?

- Prometi tratá-lo em Paris. Como pode ser transportado, será ali sujeito ao tratamento preparatório para a operação.

Calaram-se. Do mais íntimo da alma, Karen agradecia a Deus o maravilhoso renascer.

Em seguida, pediu notícias do mas. Depois da noite trágica, para não abandonar a doente, Forestier instalara-se em, Marselha. No entanto, ia muitas vezes por semana às "Avocetas", onde as duas mulheres permaneciam.

Diante de Karen nunca mais tinha voltado a pronunciar o nome de Chantal, nem fazia qualquer alusão ao passado. Mas, quando Karen se encontrou em estado de suportar o abalo, disse-Lhe, curvando-se para ela:

- Querida, a Marthoun contou-me tudo. Queres ser minha mulher?

Dias depois, com muitas cautelas, revelaram-Lhe a morte de Elvira, sem entrarem em pormenores. Além disso, a presença do doutor Kisberg, que adiara a partida para poder auxiliar Filipe, não facilitava as confidências sobre o assunto.

Por fim, o dinamarquês partiu, não ocultando a sua alegria pelo epílogo; e, naquela tarde, apesar de se sentir muito feliz, Karen não conseguiu expulsar a recordação da aleijada.

- Filipe, gostava de saber...

Solícito, apesar da breve pausa, o médico perguntou:

- O quê, meu amor?

Karen hesitou por breves segundos e depois continuou:

- Gostava de saber se a Elvira se afogou voluntariamente.

Ao ouvir o nome agora detestado, Forestier endireitou-se e tomou uma expressão dura:

- Voluntariamente?... Não creio. -Como poderá saber-se?

Forestier reflectiu durante algum tempo. Em seguida, compreendendo não poder por mais tempo deixá-la na ignorância dos factos que lhe diziam respeito, decidiu-se. Numa voz da qual em vão tentava encobrir a tremura de cólera, explicou:

- Não posso ter a certeza, mas suponho.

A estudante aguardava, atenta. A custo, Filipe prosseguiu:

- Tendo resolvido... matar-te, a Elvira quis dar a essa morte a aparência de desastre, ocorrido por tua culpa, por exemplo, durante uma imprudente experiência no laboratório...

Karen estremeceu. Pareceu-lhe ouvir essa mesma palavra experiência, proferida com cruel e insistente ironia na altura em que Elvira saía do laboratório. No entanto, não interrompeu Forestier.

- Todavia, não era admissível que te entregasses a experiências a semelhante hora... Mas ela não podia esperar mais. Colocou, não sei como nem aonde, provavelmente no rebordo exterior da janela, no ponto diante do qual era hábito sentares-te, uma carga de explosivo. Era esperta e soube calcular com certeza a dose necessária para fazer saltar o laboratório, sem prejudicar o resto da casa. Quanto ao explosivo, devia tê-lo trazido de Grasse, depois de tê-lo preparado na sua última viagem. Dispôs a carga, acendeu o rastilho, mas calculou não ter tempo para entrar em casa. Ou talvez receasse que a explosão já se tivesse dado quando o fizesse. Fosse pelo que fosse, preferiu sair e afastar-se, contando regressar depois e reunir-se-nos sem que ninguém reparasse donde vinha, devido à confusão. Estaria desorientada e não se lembrou de que a lagoa, cujas águas haviam saído fora do leito, estava tão perto. Ou, com a escuridão, supôs pisar terra firme quando já os pés se enterravam no lodo... Quem poderá sabê-lo!... De qualquer forma, escorregou, tentou levantar-se, voltou a cair, lutou e, por causa da enfermidade, embora a lagoa não seja muito profunda, mais se afundou no lodo. Só assim se explica que tivesse morrido afogada, tendo o corpo fora de água.

Calou-se. Demorado silêncio se seguiu a estas palavras, cuja exactidão Filipe mal podia adivinhar.

Por fim, em voz baixa, Karen murmurou:

- Gostaria tanto que tivesse tido um instante de arrependimento...

- Talvez o tivesse, meu amor.

Não o acreditava, mas não podia suportar a expressão dolorosa do rosto dela, tão pálido, no meio das ligaduras. Por fim, inquiriu:

- Continuarás a gostar do mas depois de tão tristes recordações?

- com toda a minha alma - afirmou ela com um ardor que revelava bem a sua sinceridade.

- Regressaremos em breve, Karen. Minha mãe e Marthoun esperam-nos para voltarmos a Paris. Não calculas quanto trabalho me deu a Marta-Maria. Não quis convencer-me a mandar embora as enfermeiras para a deixar vir tratar-te?

Karen sorriu, comovida. Depois falou na mãe que resolvera, por fim, abandonar Copenhaga. Estava certa de que a obstinação de Kisberg e a sua convincente amabilidade não eram estranhas a esse propósito.

- O que dirá ela deste noivo de cabelos brancos? Estará disposta a conceder-me a tua mão?

Karen fixou com as pupilas cor do mar o rosto ardente, de expressão inquieta, depois puxou-o para si.

- Não se concede nem se pede a mão de uma heroína dos contos de Andersen, professor. Escolhe-se e leva-se nos braços para um reino que será. mais maravilhoso do que todos os dos contos do seu país.

E, mais baixo ainda, com apaixonada ternura, concluiu:

- E dá-se-lhe um lugar a seu lado para sempre... professor. 

 

                                                                  Alix André

 

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