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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM ERRO JUDICIÁRIO / A. J. Cronin
UM ERRO JUDICIÁRIO / A. J. Cronin

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UM ERRO JUDICIÁRIO

 

Paul, personagem principal desta história, acaba de completar 21 anos e é convidado para assumir a cátedra de Inglês da universidade onde terminou os seus estudos, em Belfast, mas, para isso, deverá apresentar a sua certidão de idade. Providência tão corriqueira, marca no entanto o início de todas as atribulações pelas quais o jovem terá de passar.

Ele vive só com a mãe, funcionária pública, uma mulher profundamente religiosa que o educou dentro dos mais rígidos princípios da Igreja Anglicana. Certo dia Paul lhe pede a certidão e ela começa a inventar uma série de desculpas e evasivas. Em vista da insistência do filho, que ameaça ir ao cartório para obter outra via da certidão que a mãe alegava ter perdido, ela resolve aconselhar-se com o seu pastor e decide contar a Paul a terrível verdade que se escondia por trás de tudo.

A mãe o criara com o seu nome de solteira, Burgess, em lugar de lhe dar o do pai, Mathry, um nome que ela procurava esquecer desde quando o marido fora condenado como autor de um assassinato sórdido e inominável de uma moça na cidade de Wortley, em 1921, quando Paul tinha apenas cinco anos.

A vida de Paul se converte num verdadeiro tormento: ele quer, a qualquer preço, descobrir exatamente o que houve, pois se recusa a aceitar a idéia da culpabilidade do pai. Dele guarda as melhores recordações dos tempos de sua primeira infância, e lhe causa imensa dor vê-lo agora, um farrapo humano, cumprindo há 15 anos uma pena de prisão perpétua, comutada que fora de morte na forca.

Um Erro Judiciário, que os críticos colocam entre as melhores obras de A. J. Cronin, é um livro com a marca do gênio do autor, e o suspense durante o desenrolar de toda a sua maravilhosa história é tão intenso que o torna um romance policial no melhor estilo inglês...

 

 

Nas noites de quarta-feira, a mãe de Paul tomava o bonde depois de haver terminado o seu trabalho no City Hall e ia pegar seu serviço semanal em Merrion Chapei, e ele saía da universidade, depois da sua aula de filosofia às cinco horas, e ia ao encontro dela caminhando a pé. Naquela quarta-feira, no entanto, sua entrevista com o Professor Slade atrasou-o e então, depois de consultar o relógio, ele resolveu ir direto para casa.

Já era o mês de julho e a perspectiva de uma noite agradável chegava a embelezar os tristes e sujos edifícios de Belfast. Tendo por fundo o céu amarelado, os telhados e as chaminés da parte irlandesa ao norte da cidade perdiam seus contornos prosaicos e tornavam-se misteriosos e resplendentes como uma cidade de sonho.

Quando chegou em Larne Road, a tranqüila rua lateral de casas de tijolos aparentes onde morava com a mãe no andar térreo do número 29, com três aposentos, Paul sentiu-se envolvido por uma onda de pura satisfação. Sentia naquele momento toda a beleza que a vida lhe prometia. Ficou de pé, do lado de fora da porta, durante alguns minutos, enchendo os pulmões com aquele ar extremamente agradável. Era um rapaz de aparência vulgar, cabeça descoberta e com um terno de tweed já bem surrado. Logo depois, num movimento brusco, ele enfiou a chave na fechadura.

O canário estava cantando na cozinha. Assobiou para o passarinho ao mesmo tempo que tirava o casaco para pendurá-lo num cabide do bali e então, já em mangas de camisa, colocou a chaleira com água no fogão e começou a preparar a ceia. Alguns minutos depois o despertador de níquel que estava em cima da lareira bateu as sete horas e ele ouviu os passos de sua mãe do lado de fora na varanda. Cumprimentou-a com alegria assim que ela entrou. Era uma mulher seca e forte e estava ligeiramente inclinada para um lado por causa de sua inseparável sacola onde enfiava tudo que havia. Seu vestido respeitável era preto.

- Desculpe-me se não fui esperar você hoje, mamãe, mas o Slacde deu-me o trabalho - falou o rapaz, sorrindo. - Parece que já estou empregado.

A Sra. Burgess olhou-o com atenção. A mecha de cabelos grisalhos que lhe escapava por baixo do chapéu já bem velho fazia sobressair a impressão de cansaço e de decisão com resignação cristã, tudo isso fruto do rosto enrugado e muito atento e olhos míopes. Sua expressão, no entanto, modificou-se gradativamente diante do olhar franco e alegre do filho. Sempre agradecia a Deus pelo fato de ele ser um rapaz simpático, embora não propriamente bonito, e isso era ainda uma outra razão para seus agradecimentos à Divindade, já que sabia bem os perigos que havia para os rapazes muito bonitos. Seu filho tinha um rosto agradável com traços finos, mandíbulas salientes demais e uma aparência sadia, claros olhos cinzentos, testa larga e cabelos escuros cortados rentes. Era muito estudioso, e sua aparência física era boa, embora claudicasse um pouco da perna direita por causa de um acidente num jogo de futebol.

- Ainda bem que isso ficou resolvido, filho. Sabia que deveria haver uma boa razão para você não me esperar. Ella e o Sr. Fleming sentiram sua falta.

A mulher tirou as luvas de algodão com as quais fez uma bola e depois, olhando para a mesa, tirou da sacola um pedaço de presunto frio embrulhado num papel gorduroso, junto com um saquinho de biscoitos de trigo que ele gostava muito. Sentaram-se à mesa e, depois de uma rápida oração, começaram a comer a refeição simples. O rapaz percebia que a mãe, apesar de não demonstrar, estava muito satisfeita.

- Foi mesmo um golpe de sorte, mamãe. São três guinéus por semana, e durante todas as nove semanas de minhas férias.

- Deve ser uma boa coisa para você depois do duro que deu para os exames finais.

- De fato. Ensinar durante o verão é, para mim, como se fosse umas férias.

- Deus tem sido bom para você, Paul... Ele escondeu um sorriso antes de responder.

- Preciso mandar minha certidão de nascimento para o Professor Slade ainda esta noite.

Houve uma pausa. A mulher inclinou a cabeça e, com a colher, tirou fora uma folhinha de chá que flutuava na xícara. Sua voz não era muito clara.

- Para que é que eles precisam de certidão de nascimento, Paul?

- É uma simples formalidade, mamãe. Não contratam estudantes com menos de vinte e um anos. Foi com dificuldade que consegui convencer Slade quanto ao fato de haver feito vinte e um anos no mês passado...

- Você quer dizer, então, que ele não aceitou sua palavra? O rapaz olhou-a com uma mistura de surpresa e espanto.

- Mamãe! Você não tem razão! Ele está apenas obedecendo aos regulamentos. Meu pedido deve ser apresentado à Diretoria junto com a certidão.

Ela não respondeu. Depois de um breve silêncio, Paul pôs-se a fazer uma descrição um tanto humorística de como fora a entrevista com o professor que também era o diretor da escola de verão em Portray. Depois de haver tomado sua terceira xícara de chá, ele se levantou da mesa, e foi só então que sua mãe falou, interrompendo-lhe a descrição.

- Paul... Eu... Eu, afinal de contas, não sei bem se estou gostando dessa sua ida para Portray...

- O quê! Mas que história é essa! Durante as últimas semanas sempre esperamos por isso!

- Mas isso quer dizer que você vai ficar longe de mim... - Ela hesitou um pouco e tornou a baixar a cabeça. - Não vai poder passar sua semana de férias com os Fleming. Ella vai ficar desapontada. Isso vai ser demais para você.

- Mas que tolice, mamãe! Está-se afligindo sem razão!

Ele demonstrou que não estava dando muita importância para aquelas preocupações de sua mãe, e antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa levantou-se e saiu pelo corredor, para ir fazer o requerimento em seu quarto.

Era um aposento pequeno que servia ao mesmo tempo, de quarto de dormir e de estudar, na frente da casa, com um papel de parede muito claro, onde se viam molduras penduradas com fotos de grupos com jogadores de futebol e de hóquei. Em cima da lareira havia taças e outros troféus ganhos por ele em competições na universidade. Embaixo da janela havia uma estante onde se viam livros de ficção juntos com coisas mais sérias, principalmente clássicos, indicando um gosto inteligente e bem equilibrado. Na alcova do outro lado, oculta por uma cortina de chita verde, ficava a estreita cama onde ele dormia e, em cima de uma mesa não envernizada encostada à parede, estavam bem arrumadinhas as apostilas da universidade ao lado dos programas das aulas. Tudo que ali havia era um testemunho silencioso da qualidade do caráter de Paul, da integridade de seu corpo jovem e do sensato vigor de seu espirito. Para quem procurasse uma falta, isso poderia, talvez, ser encontrado no excesso de arrumação que existia ali no quarto e que dava a impressão de muita exigência e de perfeccionismo que poderiam ter sido causados pelas influências de sua mãe que também era assim.

Paul sentou-se à mesa, tirou a tampa da caneta e preencheu o formulário com os cotovelos apoiados na mesa e o busto empertigado. Releu o que escrevera para ter certeza de que não havia nenhum erro, acenou com a cabeça e voltou para a sala.

- Quer me dar a certidão, mamãe? Quero ver se ainda pego o correio das nove horas...

A mulher levantou a cabeça. Ainda não tinha tirado a mesa e estava na mesma posição que o filho a deixara antes. Tinha o rosto vermelho e a voz estava mais estridente do que de costume.

- Nem sei onde ela está, Paul. Você sabe como é. São essas coisas que a gente nunca sabe direito onde estão guardadas.

Ele olhou para um móvel antigo, onde a mãe costumava guardar todos os papéis, lembranças de família, seu testamento, óculos e outras coisinhas particulares.

- Deixe disso, mamãe. .. deve estar ali na gaveta de cima... A mulher olhou-o com a boca meio aberta deixando entrever sua dentadura barata e mal fixada. Já não estava mais corada e a vermelhidão fora substituída por uma palidez fora do comum. Levantou-se, tirou do bolso uma chave e abriu a gaveta de cima do móvel. De costas para ele, a mãe procurou metodicamente durante cinco minutos, fechou a gaveta e voltou-se para ele, falando-lhe com uma voz sem expressão.

- Não, não está aqui. Não consigo encontrá-la.

Ele mordeu o lábio numa demonstração de contrariedade. Era um filho atencioso e carinhoso restrito à educação que tivera, sempre muito severa, mas, naquele momento, simplesmente não podia compreender a atitude da mãe. Conseguiu controlar-se para responderlhe.

- Olhe aqui, mamãe. Este documento é muito importante e preciso dele agora...

- Como é que eu podia saber que você iria precisar dessa certidão? - A voz dela tremia um pouco, num ressentimento repentino. - São coisas que a gente perde. Você sabe bem a luta que tenho enfrentado todos esses anos depois que enviuvei, depois que tive de cuidar de você com centenas de outras coisas que também precisava atender. Posso garantir-lhe que tive coisas muito mais importantes para cuidar e por isso não me ia preocupar com certos papéis, especialmente quando nem mesmo tenho onde guardá-los.

Paul ficou espantado com aquela explosão a que não estava acostumado e que era tão contrária à natureza sempre muito controlada dela. Mas também estava perplexo diante da maneira como sua mãe raciocinava. A severidade de sua expressão, no entanto, não lhe permitia discutir mais o assunto, principalmente porque ele já a conhecia bem, e foi por isso que respondeu com muita calma.

- Ainda bem que é muito fácil conseguir uma segunda via escrevendo para o cartório de Somerset House, em Londres.

Ela fez um gesto mostrando-lhe que aquilo não seria necessário e então falou com a voz já bem mais calma.

- Não precisa fazer isso, Paul Não há motivo para tanto barulho por causa de uma coisa à toa. O dia hoje não foi nada bom para mim. Amanhã mesmo eu escrevo pedindo a certidão em papel timbrado do City Hall...

- Você não vai esquecer, mamãe?

- Paul!

- Desculpe, mamãe.

- Está bem, meu filho. Acenda o gás que vou tirar a mesa e depois nós estaremos prontos para passar a noite. - O sorriso da mulher iluminava um pouco seu rosto pálido e atribulado.

 

Durante os dois dias seguintes Paul andou muito ocupado. As longas férias estavam começando para a Universidade de Queen, e havia muitas coisas a fazer com o fim do ano letivo. Atendendo a um pedido geral, ele serviu de pianista na festa dos estudantes. Estava sendo difícil encontrar um livro que estava faltando na biblioteca. Houve uma prova de última hora, de química, e ele passou pela tensão costumeira, enquanto esperava o resultado, mas quando foram afixadas as listas, viu que tinha tirado uma boa nota. De um modo geral, como bom estudante, como colega agradável e bom atleta, Paul era muito bem-visto pelos colegas, mas sua popularidade sempre sofria algumas restrições, principalmente entre os estudantes de medicina - uma turma de reputação duvidosa - que sempre ridicularizavam sua mania de extrema propriedade de conduta e que achavam sua abstenção às diversões desinibidas dos colegas uma atitude por demais quadrada.

Uma ou duas vezes, no meio de suas várias preocupações, Paul voltou a pensar na recente cena com a mãe e, quando a observava com atenção, achava que ela talvez estivesse mostrando sinais de estafa. Mostrava-se sempre aflita, mais pálida do que de costume e com estranhos momentos de alheamento. Normalmente, a despeito de um temperamento naturalmente dominador, e duplamente fortalecido por uma convicção austera, ela sempre fora uma mulher extremamente nervosa, e ele se lembrava ainda como antigamente, em Belfast, uma repentina batida na porta a deixava tão nervosa e assustada que chegava a mudar de cor. Agora, porém, era diferente, e ela parecia estar constantemente aflita. Nas noites de quinta e sexta-feira ela saíra depois da ceia para passar uma hora com seu velho amigo e pastor, Emmanuel Fleming, em Merrion Chapei, de onde voltara mais tranqüila, embora ainda com um ar ausente e apreensivo, e com os olhos vermelhos.

Na manhã de quinta-feira, Paul lhe perguntara, diretamente, se já havia escrito pedindo a certidão.

Ela lhe respondera: "Não".

Várias vezes, depois disso, ele esteve a ponto de tornar a perguntar, mas sempre lhe faltava coragem em vista da autoridade que ela sempre exercera sobre ele. Não era possível que houvesse alguma coisa errada. Não era mesmo. Aquilo, no entanto, deixava-o intrigado e então ele começou a procurar uma explicação pensando no estranho comportamento da mãe no passado, naquilo que se referia a ele. Não encontrava, contudo, senão fatos comuns e normais.

Ele passara os primeiros cinco anos de vida no Norte da Inglaterra, em Tynecatle, onde nascera. Era um passado um tanto apagado do qual só se lembrava do ruído dos marteletes automáticos cravando os arrebites e da sirene chamando o pessoal dos estaleiros para o trabalho. Entremeado com essa impressão apagada havia uma fulgurante lembrança do pai, uma figura alegre e incomparável que, aos domingos, levava-o pela mão até Jesmond Dene para soltar pequeninos barcos feitos de papel azul no lago e depois, quando ele já estava cansado, sentava-o num dos bancos do parque, na sombra, e onde, com um talento natural, desenhava tudo que havia por ali como, por exemplo, pessoas, cachorros, cavalos, árvores que o deixavam encantado e despertavam nele maravilhosos sonhos infantis. E então, como se aquilo ainda não fosse o bastante, depois dos domingos, trazia-lhe doces que imitavam morangos com as suas hastes verdes, bananas amarelas, pêssegos avermelhados, tudo delicioso para ser admirado e comido, e feito de marzipã numa confeitaria do lugar, que o empregava como caixeiro viajante.

Depois de haver completado cinco anos, eles mudaram-se para uma cidade maior no Midland chamada Wortley, e aí as lembranças já eram mais cinzentas e menos alegres, sempre misturadas com fumaça, chuva e mudanças constantes, a luz ofuscante dos fornos de aço e as caras tristes dos pais, tudo culminando numa viagem de negócios do pai para a América do Sul. Como ele sentira falta daquela companhia agradável e cheia de alegrias! Lembrava-se do suspense com a constante espera de sua volta, e então, como se aquilo fosse a realização de suas previsões de criança, vinha a dor terrível ao saber de sua morte num desastre na estrada de ferro perto de Buenos Aires.

Depois disso, como um melancólico judeu errante, ainda com menos de seis anos, ele viera para Belfast, e ali, por intermédio dos bons ofícios de Emmanuel Fleming, sua mãe conseguira um emprego na contabilidade da Saúde Pública, no City Hall. O salário era pequeno mas era também garantido e permitia que a viúva tivesse um teto respeitável para se abrigarem e para educar o filho para o magistério, mediante tremenda economia e parcimônia. Agora, depois de 15 anos de esforços da parte da mãe, ele ia, finalmente, formar-se na universidade.

Pensando no passado, Paul tinha a impressão que aquela intensidade dos esforços de sua mãe havia levado a vida dos dois em Belfast aos seus mais apertados limites. A não ser para freqüentar com assiduidade a capela, sua mãe não ia mais a lugar nenhum. Não tinha outras intimidades além do Pastor Fleming e sua filha Ella. Mal conhecia os vizinhos de seu prédio. Na universidade, ele nunca tivera oportunidade para dar vazão aos seus instintos sociáveis já que sempre tinha medo que aquilo desagradasse à mãe. Havia ocasiões em que se revoltava contra aquilo, mas no fim, como gratidão ao que a mãe fizera por ele, e que ela estava sempre a lembrar-lhe, Paul resignava-se.

No passado, ele sempre acreditava que aquela atitude protetora de parte da mãe era principalmente devida a seus extremados sentimentos religiosos. Agora, no entanto, levando em conta sua conduta, ele ficava imaginando se não haveria talvez outras causas. Lembrou-se, de repente, de um incidente. No ano anterior ele fora honrado com um convite para jogar em uma partida internacional de rúgbi entre a Irlanda e a Inglaterra. Aquilo era coisa que não poderia deixar de ser uma grande satisfação para um coração de mãe, mas, apesar disso, ela proibira-lhe terminantemente que aceitasse o convite. Qual seria a razão para aquilo? Era coisa que ele, nem mesmo, poderia, suspeitar. Agora, de forma um tanto confusa, adivinhava a razão. Na realidade, levando em conta o padrão da existência dela, nas suas reservas tranqüilas, na fuga a todos os contatos, no mistério, na sua apaixonada dependência ao Todo-Poderoso, ele via, com susto e apreensão, que a vida dela era a de alguém que tem alguma coisa que precisa esconder.

No sábado, quando trabalhava somente em meio expediente, ela voltou às duas horas. Paul, já então, tinha resolvido que ia pôr tudo em pratos limpos com a mãe. Tinha começado a chover e, depois de largar o guarda-chuva na entrada, ela entrara na sala onde ele já estava sentado folheando um livro. Quando olhou para ela, Paul levou um susto. Seu rosto estava cinzento, mas, afora isso, parecia controlada.

- Já almoçou, filho?

- Comi um sanduíche no sindicato. E você, mamãe?

- Tomei um chocolate quente que Ella fez para mim. .. Paul logo olhou-a com atenção.

- Você foi lá outra vez?

Ela sentou-se com um ar desaninado.

- Fui sim, Paul. Fui lá outra vez para orar e pedir uma orientação...

Houve uma pausa até que ele se esticou na poltrona e segurou-lhe os braços mostrando-se nervoso.

- Mamãe. Nós não podemos continuar assim. Estou vendo que há alguma coisa errada. Será que você foi buscar minha certidão hoje de manhã?

- Não, meu filho. Não fui e nem mesmo escrevi pedindo-a. O rapaz sentiu o rosto esfogueado.

- E por que não escreveu?

- Porque ela sempre esteve comigo, filho. Menti para você. Está aqui agora na minha bolsa.

A indignação já tinha desaparecido do rosto dele. Olhou-a espantado, enquanto a mãe remexia a bolsa à procura do papel. Afinal, tirou de lá uma folha azulada e dobrada.

- Durante todos esses anos eu lutei para manter isso escondido de você, Paul. No princípio, eu pensava que nunca iria mostrá-la, já que era doloroso e difícil. Todos os passos nas escadas e todas as vozes na rua faziam com que eu tremesse por sua causa. Então, com o decorrer dos anos e com o seu crescimento, pensei que Deus me ajudara e que tudo tinha passado. Mas isso não era o que Ele queria. Eu sempre tivera medo das coisas grandes, mas, afinal, foi uma coisa pequena que aconteceu. Foi só o fato insignificante de você ser nomeado para ensinar na escola de verão. Aliás, acho mesmo que teria de acontecer mais cedo ou mais tarde. Foi o que me disse o pastor. Fui implorar-lhe para que procurasse fazer com que você desistisse, mas ele não concordou. Disse que você já é um homem e que tem o direito de conhecer a verdade.

A agitação dela tinha aumentado à medida que falava, e apesar de sua decisão para se manter calma, terminou com uma espécie de gemido. A mão tremia-lhe, quando lhe entregou o papel. Ele tomou-o, meio tonto, olhou-o e viu, imediatamente, que não era dele o nome que ali estava na certidão. Em lugar de Paul Burgess, que era o sobrenome da mãe, o nome que ali se achava era Paul Mathry.

- Isto aqui não está certo... - Ele parou e ficou olhando para o papel e para ela. E então, bem lá no fundo de suas recordações, uma corda, tocada de leve pelo nome Mathry, vibrou com um lamento parecido com uma corda de harpa tocada numa sala deserta. •- E o que significa isto aqui, mamãe?

- Quando nós viemos para cá, adotei meu nome de solteira que era Burgess. Meu sobrenome é realmente Mathry, já que seu pai era Rees Mathry e você é Paul Mathry. .Só que esse era um nome que eu queria esquecer. Não queria que você jamais visse ou ouvisse esse nome... - Os lábios tremiam ao mesmo tempo que ela falava.

- E por que, mamãe?

Houve uma pausa e ela baixou os olhos. Mal se ouvia o que dizia quando respondeu.

- Para poupar-lhe... uma horrível vergonha, Paul.

Sentindo que seu coração batia descompassadamente e com um nó no estômago, ele ficou ali esperando, sem se mexer, até que a mãe continuasse, mas isso não podia acontecer porque ela não conseguia falar, e então lançou-lhe um olhar de desespero.

- Não me obrigue a continuar, filho. O pastor prometeu-me que lhe contará tudo. Ele está à sua espera. Vá até lá.

Paul percebia a tortura que representava para a mãe a continuação do que havia para contar, mas seu sofrimento também era grande e ele não via razão para poupá-la, e então falou com uma certa frieza.

- Continue. É você quem tem a obrigação de me contar tudo. Ela começou a chorar e depois caiu num pranto com soluços

convulsivos que lhe sacudiam os ombros muito estreitos. Paul jamais em sua vida vira lágrimas nos olhos dela. Depois de alguns minutos, ela respirou fundo como se quisesse reunir todas as forças para prosseguir. Sem mesmo encará-lo, continuou a falar com dificuldade.

- Seu pai não morreu na América do Sul. Ele estava tentando fugir para lá quando a polícia o prendeu.

De todas as coisas que ele esperara ouvir aquela era a que jamais lhe ocorrera. Sentiu como se o coração lhe fosse saltar pela boca.

- De que era acusado?

- Assassinato...

Houve ali na salinha um silêncio mortal. Assassinato. Aquela palavra aterradora ecoava sem parar nas convulsões do cérebro dele. Sentia-se arrasado. Um suor frio inundou o seu corpo. Sua pergunta veio num sussurro que tremia.

- Então ele foi enforcado?

Ela sacudiu a cabeça e seus olhos faiscavam de ódio.

- Teria sido melhor se fosse. Foi condenado à morte mas foi perdoado no último minuto... Está cumprindo pena de prisão perpétua na Prisão de Stoneheath.

Aquilo fora demais para ela. Deixou pender de lado a cabeça, balançou-se e caiu para a frente, na cadeira.

 

A casa do Pastor Fleming estava situada na parte mais movimentada do coração de Belfast, perto da Estação da Great Northern, e era um prédio feio e estreito ao lado da capela, pintado de cinza. Embora se sentisse fisicamente exausto, desejando apenas esconderse em algum canto escuro, um desejo incontido tinha levado Paul até lá, atravessando as ruas molhadas e muito iluminadas, cheias de gente, já que era uma noite de sábado, pois precisava conversar com o religioso. Sua mãe recuperara-se do desmaio e tinha ido para a cama. Paul não podia descansar, enquanto não soubesse do resto, enquanto não soubesse de tudo.

Logo que bateu na porta, a luz do hall acendeu e Ella veio recebê-lo.

- É você, Paul ? Vamos entrando...

A moça acompanhou-o até a sala com o teto baixo e cortinas vermelhas e mobília acolchoada com uma pequena lareira.

- Papai está falando com um de seus paroquianos, mas não vai demorar. Está muito úmido lá fora e eu vou preparar um chocolate para você.

Ella dizia tudo aquilo com um sorrisinho forçado. A panacéia que mais aconselhava para todas as doenças era uma xícara de chocolate, e aquilo era um verdadeiro gesto paroquial. Embora não tivesse a menor vontade para beber coisa alguma, ele estava por demais exausto para poder recusar. Seria somente na sua imaginação que as maneiras dela davam a entender que sabia do que se tratava? Sentou-se completamente desanimado enquanto a moça ia até a cozinha para buscar o chocolate. Trouxe tudo numa bandeja e preparou ali mesmo diante dele.

A jovem era dois anos mais velha do que ele, mas seu corpo esbelto com o rosto pálido davam-lhe uma aparência de garotinha. Seus olhos de uma cor verde acizentado eram grandes e expressivos, e também o que ela tinha de mais bonito para apresentar. Eles eram, geralmente, brilhantes e pensadores, mas também havia ocasiões em que se enchiam de lágrimas, ao passo que em outras faiscavam de ódio. Ella cuidava muito de sua aparência e, naquela noite, estava com uma saia escura pregueada, meias pretas e uma blusa branca solta com decote, e que parecia ter saído da lavandaria.

Paul tomou o chocolate em silêncio. Uma ou duas vezes ela levantou os olhos para fixá-los nele interrogativamente, interrompendo o tricô que fazia. Gostava de conversar e tinha grande facilidade para isso, e o fato de ser a dona da casa para o pai viúvo dava-lhe uma certa respeitabilidade social. No entanto, quando viu que não conseguia obter respostas, ela arqueou as sobrancelhas e resignou-se ao silêncio que lhe era imposto.

Logo ouviram-se vozes lá fora seguidas do clique da porta ao fechar-se e a moça correu para lá.

- Vou dizer a papai que você está aqui, Paul.

A moça saiu da sala e logo depois o reverendo apareceu. Era um homem de uns 50 anos, ombros largos e mãos um tanto desajeitadas. Vestia calça preta, botinas pesadas de trabalhador e um casaco preto de alpaca já com as mangas bem puídas. A barba pontuda já era bem grisalha, mas seus olhos azuis-claros davam-lhe uma aparência infantil.

Entrou apressado e apertou a mão de Paul com muito carinho e depois levou-o pelo braço

- Ainda bem que você está aqui, meu filho. Estou muito satisfeito. Venha comigo e vamos conversar um pouco.

Levou Paul para o escritório que era uma pequena sala austera nos fundos da casa, sem tapete e com o assoalho manchado, um mobiliário reduzido e uma escrivaninha de carvalho com tampo de correr. As cadeiras eram de madeira vergada e havia uma estante de livros com porta de vidro. Um relógio de mármore verde, horroroso, ganho de presente, com anjos dourados segurando-o, estava em cima da lareira forrada com um pano de veludo com franjas e bolinhas verdes. Depois de fazer sentar seu visitante, o pastor sentou-se também, devagar, à sua mesa. Hesitou um pouco antes de começar com uma voz cheia de afeição e simpatia.

- Meu caro rapaz, sei que isso deve ter sido um tremendo choque para você. Mas a primeira coisa que precisa pensar é que essa foi a vontade de Deus. Com Sua ajuda, você logo se recuperará...

Paul engoliu em seco.

- Não poderei recuperar-me antes de saber toda a verdade. Preciso saber de tudo.

- É uma coisa triste e sórdida, meu filho. Não acha que seria melhor se enterrássemos o passado?

- Não. Quero ouvir tudo. Isso é necessário para que eu não passe o resto da vida imaginando coisas. - E se interrompeu, sem poder continuar.

Houve um silêncio. O pastor estava com os cotovelos fincados em cima da mesa e protegia os olhos com as mãos, como se estivesse entregue a alguma oração implorando ajuda. Ele era um homem sincero e cheio de boas intenções que mourejara durante muito tempo "nas vinhas do Senhor". Só que era coibido de diversas formas e então, muitas vezes, com grande desânimo, ele via desperdiçados os seus melhores esforços. Era uma alma solitária que conhecia muitos sentimentos de autocomiseração. Até mesmo seu amor pela filha tornava-se, para ele, uma acusação, já que conhecia bem as imperfeições, as mesquinharias e as vaidades dela, sem que pudesse repreendê-la dado seu grande amor pela filha. Sua tragédia estava no fato dele desejar ser santo, um verdadeiro discípulo que poderia curar pelo toque, que poderia tornar radiante seu rebanho com a palavra de Deus que ele próprio sentia bem no fundo de sua alma. Queria voar, mas, infelizmente, não tinha o dom da palavra e seus pés estavam atolados na terra de onde não podia sair. Agora ali, ao começar a falar, a voz lhe saía perturbada e suas frases, graves e pedantes, pareciam sintonizadas com o sombrio tique-taque do relógio.

- Há vinte e dois anos, efetuei o casamento de Rees Mathry e Hannah Burgess, em Tynecastle. Já conhecia Hannah desde muitos anos e ela era uma das mais queridas de meu rebanho. Não conhecia Rees, mas sabia que ele era um jovem atraente e de muito boas maneiras, galés de origem. Gostava muito dele e também achava que era digno de confiança. Tinha um emprego excelente como caixeiro viajante para os municípios do norte de uma grande firma atacadista de doces e balas. Tinha todas as razões para imaginar que seriam felizes, especialmente quando tiveram um filho. Fui eu, meu filho, quem o batizou com o nome de Paul Mathry...

Ele fez então uma pausa como se quisesse pesar suas palavras com um grande cuidado.

- Não poderia dizer que não havia pequenos desentendimentos na família. Sua mãe era estritamente religiosa, uma verdadeira cristã, ao passo que seu pai, para ser, pelo menos, caridoso, tinha opiniões mais liberais e isso, naturalmente, resultava em brigas. Sua mãe, por exemplo, era irredutivelmente contra o vinho e o fumo na casa, e isso era uma coisa com que seu pai não podia concordar e, nem mesmo, compreender. Acontece que o trabalho de seu pai era viajar e isso o afastava de casa uma semana por mês, pelo menos, uma coisa que pode ter contribuído para desorientá-lo um pouco. Ele sabia fazer amigos e tinha muitos, já que era um homem bonito e simpático, embora certas companhias suas não fossem lá grande coisa, principalmente as que ele encontrava nos bilhares, nos bares e outros lugares de má fama. Mesmo assim, eu nada tinha contra ele até o dia dos terríveis acontecimentos em 1921...

Ele suspirou e, tirando as mãos da testa, juntou as pontas dos dedos com um olhar doloroso e perdido como se estivesse contemplando, em retrospectiva, todos aqueles anos do passado.

- Em janeiro daquele ano, a firma onde seu pai trabalhava fez uma modificação no pessoal e então seu pai mudou-se com vocês para os Midlands. Aliás, nessa mesma ocasião, eu mesmo fui transferido para Belfast, aqui para esta paróquia, mas sempre mantive contato com sua mãe por cartas, mas devo confessar que a vida de vocês em Wortley, desde o princípio, não era muito satisfatória. Seu pai parecia não ter gostado da transferência, já que seu novo distrito oferecia menos possibilidades de vendas. Wortley era rodeada por uma paisagem campestre muito agradável, embora a cidade fosse cinzenta e triste e, aliás, sua mãe também não gostava dela. Não conseguiam encontrar uma casa que lhes servisse e então moraram numa sucessão de quartos mobiliados. Então, de repente, exatamente no dia nove de setembro, para ser preciso, seu pai simplesmente chegou à conclusão de que não podia mais agüentar aquilo e que sua paciência se esgotara. Achou que seria melhor abandonar o emprego e emigrar para a Argentina onde achava que todos teriam melhores oportunidades, uma vez que se tratava de um novo mundo. Comprou três passagens no Eastern Star, cuja saída estava marcada para o dia quinze de setembro. No dia treze ele embarcou você e sua snãe para Liverpool onde deveriam esperá-lo no Hotel Great Center. Na noite do dia quatorze ele saiu de Wortley, de trem, para ir ao encontro de vocês, mas nunca chegou lá. Às duas da madrugada, quando ele desembarcou na estação, a polícia estava à sua espera. Foi preso depois de uma luta violenta e foi levado para a cadeia na Rua Canon. Deus do céu! Como ainda me lembro daquele tremendo choque! Ele era acusado de assassinato premeditado.

Houve uma longa pausa cheia de tensão. Paul estava encolhido em sua cadeira como se estivesse hipnotizado. Parecia estar com a respiração suspensa até que o pastor recomeçou a contar o que houvera.

- Na noite de oito de setembro havia sido perpetrado um crime horrível e sórdido. Mona Spurling, uma moça bonita de vinte e seis anos, empregada numa loja de flores perto de Leonard Square, foi brutalmente assassinada no apartamento onde morava no número cinqüenta e dois de Ushaw Terrace, em Eldon, um subúrbio de Wortley. A hora do crime ficou bem estabelecida, já que ele ocorrera entre oito horas e oito e dez minutos. Voltando do trabalho às sete e meia, a moça tinha aparentemente feito uma ligeira refeição e depois vestira urna leve e transparente camisola de dormir com a qual foi encontrada. As oito horas, um casal chamado Prusty, que morava no apartamento de baixo, ouviu um barulho de violência vindo do apartamento de cima e então Alfred Prusty, atendendo aos insistentes pedidos da mulher, subiu para ver o que havia. Bateu com força na porta do apartamento mas não teve resposta. Estava sem saber o que fazer do lado de fora, quando chegou um rapaz chamado Edward Collins, motorista de uma caminhonete de entregas, que vinha trazer um embrulho com roupa lavada. Na hora exata em que Collins chegava, a porta foi aberta e um homem saiu do apartamento da moça, passou por eles correndo e despencou-se pela escada. Os outros dois entraram e encontraram Mona com a cabeça quase decepada estirada no tapete da frente da lareira numa enorme poça de sangue.

" Prusty correu, imediatamente, para chamar um médico das redondezas que veio no mesmo instante, mas que nada mais pôde fazer, pois a moça já estava morta. Chamaram a polícia e logo chegaram o médico-legista junto com o Inspetor Swann. Logo de saída parecia que o criminoso não deixara pistas, mas, depois de algumas horas de buscas, o inspetor conseguiu encontrar três delas. Encontrou numa escrivaninha um cartão-postal com um desenho feito a lápis e que fora entregue aos Correios de Sheffield uma semana antes, com as seguintes palavras: A ausência aumenta, as saudades. Quer encontrar-se comigo para jantarmos no Drury quando eu voltar? A assinatura era Bon-bon.

"Ele encontrou ainda um bilhete meio queimado, sem assinatura, com o carimbo do Correio de oito de setembro, e que dizia: Preciso ver você esta noite. Finalmente, no tapete, ao lado do corpo, achava-se uma estranha sacolinha de dinheiro feita de um couro macio e muito bom, que se fechava com uma argola de metal, e continha cerca de dez libras em notas e moedas. Na mesma hora, com detalhes fornecidos por Collins e Prusty, foi feita uma descrição do homem procurado junto com uma substancial importância em dinheiro para qualquer informação que resultasse na captura do criminoso.

"No dia seguinte, a dona de uma lavandaria local procurou a polícia levando com ela uma de suas empregadas chamada Louise Burt que era prima de Collins e dizia que o havia acompanhado até Ushaw Terrace na noite do crime e que, enquanto esperava no beco junto ao prédio, já que não gostava de subir escadas, fora esbarrada, e quase atirada ao chão, por um homem que saíra correndo do número cinqüenta e dois. No seu depoimento constava a descrição do indivíduo. A polícia já tinha então três pessoas que haviam visto o assassino.

Fleming parou e olhou para Paul que ali permanecia perturbado e com um olhar perdido.

- Não me é nada agradável reviver certas coisas, Paul, mas, infelizmente, tudo isso tem grande importância para essa trágica história. Antes de mais nada devo dizer que Mona não era uma moça de bons costumes. Era realmente promíscua, mas um dos homens que a procurava era o que a visitava com freqüência regular. Ninguém sabia quem ele era, mas as outras colegas que trabalhavam com ela na loja de flores afirmavam que Mona parecia muito preocupada ultimamente, e até mesmo aflita. Tinham ouvido uma conversa sua no telefone em que ela se mostrava zangada e cheia de recriminações usando frases como: "Você é responsável, e se me abandonar agora eu vou desmascará-lo completamente." Afinal, a autópsia constatou que a pobre moça estava grávida e isso mostrava qual era o motivo. Não havia dúvida de que o assassino deveria ser aquele que era o responsável por sua condição. Talvez já estivesse cheio dela. Diante daquela ameaça, ele lhe escrevera marcando um encontro e então a matara.

"Armada com aquelas provas, a polícia empregou todos os seus recursos para descobrir o homem procurado. Todos os jornais reproduziram a foto do postal assinado Bon-bon com aquele desenho a lápis, e todos eles convidavam as pessoas que soubessem de alguma coisa para procurarem a polícia de Wortley. Todas as estações de estradas de ferro e portos de embarque ficaram sob severa vigilância e, durante uma semana, a polícia intensificou suas atividades. Então, na noite de treze de setembro, um empregado de bookmaker chamado Harry Rocca procurou a polícia num estado de grande agitação para fazer uma declaração. Confessou logo que tinha relações íntimas com Mona e que estivera com ela na noite da véspera do crime. Continuou seu depoimento dizendo conhecer quem havia enviado aquele postal, e que era um amigo com quem costumava jogar bilhar e que também era muito bom no desenho. Alguns meses antes ele o apresentara a Mona. E mais ainda, quando o postal apareceu nos jornais, fora procurado pelo tal amigo que parecia muito aflito e que lhe pedira para ajudá-lo dizendo: Se alguém vier perguntar a você onde eu estava na noite de oito de setembro, quero que responda dizendo que estávamos jogando bilhar no Hotel Sherwood.

"Isso então, naturalmente, foi o bastante. O Superintendente da Polícia, acompanhado do Inspetor Swann, foi imediatamente para o endereço que Rocca lhes dera, mas ali foram infermados de que a pessoa procurada partira pelo expresso noturno da estação da Rua Leonard, com destino a Liverpool, uma hora antes. Seguiu-se então a prisão na estação em Liverpool e o homem procurado era seu pai, Paul.

Houve um novo silêncio enquanto o pastor bebia um gole de água do jarro que tinha em cima da mesa. Depois, continuou com a testa franzida.

- Aconteceu, no entanto, que Prusty, a principal testemunha, estava de cama com um acesso de asma. Ele era fabricante de cigarros e o pó da nicotina causava-lhe aqueles acessos periódicos, mas as duas outras testemunhas foram imediatamente levadas a Liverpool pelo superintendente e pelo inspetor e ali, no meio de um grupo de doze pessoas, imediatamente reconheceram o homem que haviam visto saindo do apartamento na noite do crime. Collins exclamou logo que o viu: Que Deus me perdoe! Foi eses homem aí! Louise Burt teve um acesso de histeria diante da responsabilidade e desatou em pranto. "Eu sei que lhe estou colocando a corda no pescoço, mas foi ele mesmo!"

"A indignação popular foi tremenda contra o preso e começaram a querer linchá-lo, mas a polícia conseguiu escamoteá-lo e leválo para a prisão em Wortley. Deus bem sabe, Paul, como estou dilacerando seu coração. O julgamento teve início a quinze de dezembro no tribunal de Wortley presidido pelo Juiz Oman. Você bem pode imaginar nossa angústia durante todo esse tempo! A acusação chamou todas as testemunhas, uma de cada vez, e seus depoimentos eram terríveis. A polícia examinou as malas de seu pai e encontrou uma navalha que os seus peritos afirmaram ter sido a arma do crime. Um outro perito- afirmou que o bilhete meio queimado, encontrado no apartamento, tinha sido escrito por seu pai com a mão esquerda. Ele fora visto muitas vezes na loja comprando uma flor para a lapela e conversando e rindo muito com Mona. E o processo prosseguia sempre incriminando-o cada vez mais com sua fuga frustrada para a Argentina e sua tremenda resistência à prisão, mas a pior de todas as provas foi a do depoimento de Rocca contando como tinha sido procurado por ele para lhe fornecer um falso álibi. E quando foi chamado a depor, Mathry, infelizmente, saiu-se muito mal contradizendo-se, perdendo a compostura e até mesmo gritando para o juiz. Ele não conseguia prestar contas de seus movimentos na hora do crime, dizendo apenas que passara uma parte do tempo num cinema, mas essa triste tentativa foi logo desmascarada pela acusação. No meio de toda aquela tenebrosa confusão, havia apenas uma luz muito fraquinha a seu favor. Prusty, embora reconhecendo que ele era muito parecido com o homem que saíra do apartamento, recusava-se a garantir que fosse ele mesmo. No entanto, a acusação logo mostrou que a visão da testemunha era deficiente e também que Prusty guardava uma certa mágoa por não haver sido levado a Liverpool junto com Collins e Louise.

"As instruções do juiz para os jurados mostravam que ele era contra o acusado. O júri retirou-se para dar a conhecer sua decisão às três horas da tarde do dia vinte e três de dezembro, mas, vinte minutos depois, voltou com o veredicto de "Culpado". Eu estava lá na sala do tribunal, mas sua mãe não compareceu porque se achava doente, e jamais me esquecerei daquele pavoroso momento, quando o juiz, colocando sua toga, pronunciou a sentença entregando a alma de seu pai à mercê de Deus. Debatendo-se e vituperando quando o levaram da sala, seu pai ainda soltou um grito. Deus não existe! Que se danem sua mercê e a dEle. Não preciso de nenhuma delas.

"Ninguém pode fazer pouco de Deus, Paul. Mesmo assim, talvez fosse para responder à blasfêmia que o Todo-Poderoso demonstrou seu perdão ao pecador. Embora ninguém esperasse aquilo, bem na véspera de sua execução, a sentença foi comutada para prisão perpétua, e ele foi então levado para a Prisão de Stoneheath.

Junto com a cadência decrescente do que dizia o pastor, o silêncio invadiu o escritório. Os dois homens não se olhavam. Paul estava tão mergulhado na poltrona que até parecia fazer parte dela, e então enxugou a testa com o lenço amarrotado que tinha na mão.

- E ele ainda vive?

- Ainda...

- Alguém foi visitá-lo depois que ele foi para lá? O pastor soltou um profundo suspiro.

- No princípio, ainda tentei manter-me em contato com ele por intermédio do capelão da prisão, mas ele recebeu minhas tentativas com tal ressentimento, e até mesmo com tal ferocidade, que fui obrigado a desistir Quanto à sua mãe... bem, meu caro Paul... ela achava que tinha sido tratada com muita crueldade e, além disso, precisava cuidar de você. No seu próprio interesse, meu filho, ela achava que o melhor mesmo seria apagar esse triste capítulo de sua vida ainda tão no começo Não vem ao caso se conseguiu isso ou não. Você tem boas condições para enfrentar este choque da revelação e foi por isso que eu lhe contei toda a verdade em lugar de procurar enganá-lo com meias-verdades Contei tudo o que aconteceu, mas agora, depois de fazer isso, quero que você esqueça tudo, já que ainda tem toda uma vida para enfrentar. Deve seguir em frente como se jamais houvesse acontecido tudo o que lhe contei. Siga em frente, sempre em frente, não só com sua fé como também com seu perdão

 

Já se passara uma semana depois daquela conversa no escritório de Fleming. Era uma tarde de domingo e a aula de catecismo em Merrion tinha terminado. A última criança já havia saído, e Ella ficou esperando Paul na porta de entrada, ostentando o seu mais bonito costume azul e o chapeuzinho de palha que ela mesma enfeitara com fitas. O rapaz desceu muito ereto e passou por entre as carteiras vazias para chegar até onde ela estava. Embora aceitasse aquelas aulas com o intuito principal de agradar à sua mãe, ele gostava daquela petulante garotada, mas, naquele dia, sentia-se tonto com a cabeça pesada depois de mais uma noite em claro, e só Deus sabia como havia conseguido chegar até o fim.

Ella foi a seu encontro, procurando sondá-lo.

- Tenho certeza de que você não está muito disposto para música, Paul, mas o dia está tão bonito que nós bem que poderíamos dar umas voltas por aí.

Era seu costume, antes de sair a passeio aos domingos, sentar-se diante do pequeno órgão e ali tocar para ela coisas agradáveis, quando estava de bom humor. Seu talento para a música estava bem acima do normal e então, conhecendo bem o gosto da moça, bem diferente do seu, ele tocava Hãndel ou Elgar, ou qualquer outra coisa que fosse do agrado dela que, aliás, era bem restrito. Naquele domingo, no entanto, aquilo estava fora de qualquer cogitação, da mesma forma que também não lhe agradava a perspectiva do passeio, mas concordou porque percebia que a intenção dela era apenas distraí-lo.

Ella tomou-lhe o braço apertando-o um pouco como se quisesse afirmar sua posse e Paul acompanhou-a na rua caminhando na direção do Parque Ormeau. Ainda era cedo, mas o parque já estava cheio com as mulheres procurando exibir o que tinham de melhor enquanto os homens exibiam suas respeitabilidades e seus trajes domingueiros e com isso criavam a ortodoxia dos sábados dos judeus, coisa que não agradava muito a Paul. No momento em que atravessavam o portão, ele resmungou numa voz em que se notava o cansaço.

- Não estou muito disposto a esta espécie de desfile, Ella...

A moça não gostou mas ficou calada. Embora sua natureza não tivesse grande capacidade para as emoções, suas afeições, desde muito, se concentravam nele. Seu agudo sentimento sobre convenções não permitia que ela deixasse transparecer aquilo, e Paul, embora aceitando-a como amiga íntima e também para satisfazer as insinuações da mãe, tinha-se deixado envolver naquele relacionamento de forma um tanto descuidada, sem perceber a grande incompatibilidade entre o seu caráter franco e generoso e a religiosidade estreita e estereotipada que lhe marcavam todas as ações. Apesar de tudo, Ella considerava aquilo como assunto resolvido e todos os seus planos para o futuro giravam em torno do casamento dos dois. Ela era extremamente ambiciosa no que lhe dizia respeito e essa ambição também se estendia a ele. Reconhecia que a vivacidade dele combinava bem com sua própria habilidade para "arrumar" as coisas. Ele já via como a sua boa influência poderia ajudá-lo na carreira até que atingisse uma alta posição acadêmica que permitisse aos dois a livre circulação entre os mais elevados círculos.

Sendo assim, a recente descoberta tinha ferido profundamente seu orgulho, mas via também como fora um tremendo choque para Paul. E no entanto, se ela estava disposta a tolerar e esquecer aquilo, por que então Paul não poderia fazer a mesma coisa? O dano não era irremediável, já que tudo estava bem enterrado no passado remoto e, com um pouco de cuidado, não haveria possibilidade daquilo vir novamente à tona. Essa era a atitude dela. E agora ali, vendo-o ainda deprimido, Ella já começava a ficar contrariada e magoada. Embora conseguisse dominá-lo com grande sabedoria, a moça tinha um gênio terrível que era mais mordaz do que violento, e então, naquele exato momento, quando ele tornou a falar, foi com dificuldade que conseguiu dominar-se.

Como se sentisse vergonha, ele procurava dar vazão aos pensamentos que o atormentavam.

- Tenho a impressão de que, durante todos esses anos, vivi enganando todo mundo. Nem mesmo posso continuar me chamando Paul Burgess porque meu nome é Paul Mathry. Se não usar esse nome, serei um vigarista mentiroso, mas, se usá-lo, terei sempre a impressão de que as pessoas estão olhando para mim, apontando-me e segredando coisas a meu respeito. Aquele ali é Mathry... o filho do homem que...

- Pare com isso, Paul. É você mesmo quem está tornando as coisas mais difíceis... Ninguém precisa saber.

- Mas mesmo que os outros não saibam, Ella, eu sei... É isso aí, eu sei, e então o que posso fazer? - Ele caminhava falando sempre de cabeça baixa.

- Mas você precisa esquecer tudo isso, Paul...

- Esquecer? - falou, encarando-a com um olhar onde se v a incredulidade.

- É isso mesmo, Paul. - A moça já sentia o fim de sua paciência. - Esquecer! Você precisa varrer completamente de sua existência esse... esse tal de Mathry...

Ele virou-se com um olhar de espanto magoado.

- Repudiar meu pai, Ella?

- Então você acha que ele é alguém de quem pode orgulhar-se ?

- Seja lá o que for que ele fez, o coitado já pagou bem caro... com a metade da vida passada na prisão... pobre-diabo...

- Só estou pensando em você, Paul. Peço-lhe o favor de não praguejar em minha presença...

- Mas eu não disse nada, Ella.

A moça não conseguia mais conter-se. Ficou muito vermelha e falou com rispidez.

- Você disse sim, Paul. Usou uma palavra imprópria que nenhuma senhora pode tolerar. Não vejo desculpas para a maneira como você está se comportando...

- E como você espera que eu me comporte?

- Apenas com um pouco mais de civilidade. Você parece não se dar conta de que isso afeta tanto você como a mim também...

- Olhe aqui, Ella, pelo amor de Deus, não vamos agir como crianças numa situação como esta!

Ela reagiu, de repente, dominada pela sensação de sentir-se magoada e pelo desejo de fazer valer sua influência sobre ele. O rosto tomara uma tonalidade esverdeada e os olhos estavam molhados.

- Eu acho que... já que você se sente assim... o melhor mesmo é interrompermos o passeio.

Houve uma pausa em que ele a olhou como se estivesse tonto. Seus pensamentos estavam muito longe dali.

- Como você quiser...

A moça ficou desconcertada vendo que ele lhe fazia a vontade ao pé da letra e mordeu o lábio procurando esconder as lágrimas de indignação. E então, vendo que ele não fazia menção para detê-la, ela esboçou um tímido sorriso cheio de reprovação e de bondade ultrajada, aquele mesmo sorriso de mártires que tinham as virgens cristãs de outrora quando lhes rasgavam os seios com ferros em brasa.

- Muito bem. Então vou voltar para casa. Adeus por enquanto. Espero que você esteja com melhor disposição na próxima vez que nos encontrarmos.

Ela fez meia-volta e seguiu em frente de cabeça erguida, como se houvesse passado por alguma provação. Durante alguns momentos ele ficou ali olhando para ela, lamentando sinceramente o desentendimento, mas sentindo-se aliviado, profundamente aliviado mesmo, por ficar sozinho. Quando já não a via mais, começou a caminhar lentamente na direção oposta.

Não tinha coragem para voltar para casa, onde, certamente, iria encontrar a mãe à espera com uma solicitude ansiosa e insuportável. Detestava aquela voz lamurienta, a apresentação servil de seus chinelos, a insinuação silenciosa para uma noite segura e tranqüila no aconchego do lar.

Como era estranha aquela nova atitude que ele adotara para com a mãe! Mais estranho ainda, porém, e também mais ilógica era a atitude e o sentimento que, inconscientemente, começava a se formar em seu espírito, a respeito do pai. Ali, na realidade, estava o criminoso e a causa de toda a sua infelicidade. Mas, apesar de tudo, Paul não conseguia odiá-lo. Em lugar disso, durante aquelas últimas horas torturadas e insones, havia pensado muito nele com um estranho sentimento de pena. Quinze anos de prisão! Então não seria aquilo um castigo adequado para qualquer homem? Sentia-se envolvido pelas recordações da infância, recordações vagas e pungentes. Lembrava-se de toda a ternura que sempre recebera do pai, mas não se lembrava de nenhuma coisa desagradável. Sentiu as lágrimas que lhe turvavam a visão.

Já se encontrava agora no cais Donegal que era o distrito pobre das docas da cidade. Sem que ele mesmo percebesse, tinha sido levado até ali por um estranho impulso. Com a cabeça baixa, continuava a andar, atravessando os trilhos da estrada de ferro e enveredando por uma confusão de fardos e sacos que enchiam o calçamento de pedras. Um nevoeiro noturno vinha-se aproximando do cais junto com a escuridão da noite, e isso fazia com que os guindastes parecessem fantasmas. A buzina dos barcos no nevoeiro começara a soar melancolicamente.

Afinal, detido por uma barreira de caixas, sentou-se numa delas. Ali bem na sua frente, do outro lado, um cargueiro pequeno e enferrujado estava ultimando seus preparativos para partir com a maré alta e ele logo reconheceu o Vale of Avoca que atravessava o canal entre Belfast e Holyhead. Havia ocasiões em que ele levava passageiros misturados com a carga, e então ali estava um pequeno grupo de homens e mulheres, que iam colher batatas nas fazendas de Lincolnshire, todos levando suas bagagens e despedindo-se de amigos.

Sentado no meio da neblina que já o envolvia, como se fosse um manto, com o jruido das buzinas enchendo-lhe os ouvidos, Paul ficou olhando para o barco com um interesse cada vez maior. Já estava de férias e não havia mais condições para assumir seu cargo como professor na escola de verão, e então ele poderia fazer de seu tempo o que bem entendesse. Sentiu-se tomado por um entusiasmo repentino, estranho e predestinado. Impulsivamente, tirou do bolso seu caderno de notas e escreveu um bilhetinho.

Vou viajar durante alguns dias. Não se ajlija.

       Paul

Rasgou a página, dobrou e escreveu por fora o nome e endereço de sua mãe e chamou um garoto que estava ali olhando o barco e entregou-lhe o bilhete com uma moeda para que ele o entregasse no destino. Depois, levantou-se e foi até o escritório da companhia onde comprou uma passagem para Holyhead que lhe custou alguns xelins. Quando pisou na prancha, o navio já se estava movimentando. Logo depois soltaram uma grossa corda e os velhos motores do cargueiro começaram a arquejar, enquanto ele zarpava para o mar.

 

Eram seis horas da manhã e chovia muito quando o Avoca atracou em Holyhead. Um tanto enregelado, Paul atravessou os trilhos da estação e mal teve tempo de tomar uma xícara de chá, porque o trem já estava apitando para partir. Pagou à garçonete ainda tonta de sono e correu para tomar um lugar num canto do vagão da terceira classe, e o trem logo apitou e partiu.

Foi uma viagem longa atravessando Shrewsbury e Gloucester, com duas baldeações, e com isso ele ficou encharcado já que não trouxera capa, mas, apesar de todo o desconforto, ele estava cada vez mais decidido. A paisagem agora já era mais triste e desolada e aquilo parecia coadunar-se com seu estado de espirito. Já não se viam mais os campos divididos por cercas vivas e, em seu lugar, o terreno era pedregoso e desolado. Lá estavam os altos monolitos em grupos formando círculos, estranhos e pré-históricos, que chocavam sua visão. Para o lado oeste, saindo de uma floresta de pinheiros, via-se uma cadeia de montanhas lívidas com os cumes cobertos por nuvens cinzentas, onde a chuva se despencava em cataratas. A máquina prossegua enfrentando o vento que vinha do mar e, numa das curvas, Paul via as ondas frias que se quebravam nos penhascos.

Finalmente, por volta das quatro horas da tarde, o trem parou numa pequenina estação que era o destino da Paul. A única plataforma estava quase deserta, quando ele entregou sua passagem ao solitário empregado da estação, sentindo o sangue latejar-lhe nos ouvidos. Sua intenção era perguntar ao homem o caminho para a prisão, mas as palavras não lhe saíam da boca e ele passou em silêncio pela cancela da estação. Logo que chegou do lado de fora, viu ao longe, através da terra avermelhada e encharcada, escondido pelas altas paredes acasteladas, o enorme complexo cinzento que era a Prisão de Stoneheath. Seguiu em frente para atravessar o pântano.

Quanto mais perto chegava da prisão, mais rápidas eram as batidas do coração. Estava com a boca seca, o coração apertado e sentia-se enjoado e vazio. Durante todo o dia só tomara uma xícara de chá e comera um sanduíche. Quando chegou a um aclive do ca-

minho, ele se encostou a um tronco para recuperar o fôlego. Agora já se via no horizonte um pedaço de céu limpo e claro e, tendo por fundo aquela cortina delicada, e na pequena elevação onde se encontrava, ele já via melhor os detalhes da prisão.

Lá estava ela, um bloco quadrado sem janelas e apenas com vigias baixas e as torres dos guardas que pareciam planar como águias em todos os cantos, lisa como rocha, sinistra como uma fortaleza medieval. Do lado de fora estavam duas fileiras de casas dos guardas com barracões e várias oficinas, mas tudo que havia em torno era a desolação do pântano. Um muro muito alto, impossível de escalar, com pontas agudas no topo, cercava todo o conjunto onde saltavam aos olhos três pedreiras avermelhadas que pareciam enormes feridas. Em uma delas, havia uma turma de presidiários trabalhando e, vistos à distância, eles pareciam formigas cinzentas guardadas por quatro homens em uniformes azuis e armados que caminhavam lentamente, de um lado para outro, com ar ameaçador. Ali, à vista de Paul, aquelas figurinhas tristes, curvadas e cansadas, trabalhavam, e o silêncio reinante dava ao quadro uma impressão de eternidade.

Paul voltou-se rapidamente quando ouviu às suas costas o ruído de passos e o seu susto foi como se tivesse ouvido estalar o dia do juízo final. Era um pastor que vinha acompanhado de seu cão com uma triste aparência. O homem tinha um certo aspecto misterioso que parecia um reflexo da tristeza que reinava em torno, e quando ele parou ao lado de Paul, apoiando-se em seu bordão, seus olhos mostravam a desconfiança que fazia parte daquela região. Passou-se algum tempo antes que dissesse alguma-coisa.

- A vista aqui não é nada bonita...

- Não.

Paul não se mostrava muito disposto a falar, e então o outro apenas acenou com a cabeça, concordando.

- É um lugar amaldiçoado, se é que isso existe mesmo. Já faz quarenta anos que vivo aqui... No mês passado houve uma revolta na prisão. Morreram cinco presidiários e dois guardas, mas nada mudou na sua aparência. Está agora como era antes. Tudo tranqüilo e cego. É isso aí. Agora mesmo, enquanto estamos aqui conversando, um guarda lá naquela torre deve estar nos vigiando com seu binóculo. Está observando todos os nossos movimentos.

Paul conseguiu evitar um tremor e reuniu as forças necessárias para fazer a pergunta que era a coisa mais importante em seu espírito.

- Quais são os dias de visitas?

O outro olhou-o como se estivesse ouvindo uma piada.

- Dia de visitas? Isso é coisa que não existe aqui em Stoneheath.

Paul sentiu um aperto no coração, mas logo reagiu.

- Mas é claro que... deve haver dias... quando os parentes dos presos podem vir visitá-los...

- Aquela gente não recebe visitas. Isso nunca acontece. É tão difícil para alguém entrar lá da mesma forma que é difícil sair... E agora, boa tarde, moço.

O rosto curtido do velho, que não parecia muito dado a coisas alegres, mostrava agora um certo ar divertido com as respostas que dera a Paul. Ele assobiou chamando o cão e foi embora.

Sozinho, e novamente envolvido no completo silêncio, Paul ficou absolutamente imóvel endo desmoronar-se suas expectativas cheias de esperanças. Nada de visitas... nunca! Então ele não ia poder ver o pai... não podia nem mesmo trocar uma única palavra com ele... Era completamente impossível aquilo que ele viera fazer ali. Na verdade, naquele momento, diante da triste realidade daquela prisão, Paul percebia como eram fúteis e inúteis as esperanças que havia alimentado e também aquela sua viagem sentimental até ali.

O dia começava a escurecer e, enquanto ele ainda ali estava de pé, um sino começou a tocar lá na prisão, devagar e forte, rompendo o silêncio como se fosse um toque fúnebre. Depois, ele viu os presos largarem o trabalho na pedreira e, sob as ordens dos guardas, formarem as filas que, lentamente, se encaminhavam para a prisão. Logo os portões se abriram para recebê-los e fecharam-se em seguida. Nesse momento, os últimos restos da transparência no céu já tinham desaparecido.

Paul sentiu que alguma coisa se lhe despedaçava dentro do peito. Fustigado pela dor física e moral, numa tremenda frustração, ele soltou um grito selvagem e desarticulado. As lágrimas candentes saltavam-lhe dos olhos e corriam-lhe pelo rosto. Ele deu as costas àquela visão maldita e caminhou de volta, quase às cegas, para a estação.

 

Na periferia da cidade de Wortley, na esquina da Rua Ayres com a Avenida Eldon, existe uma charutaria com uma placa já bem apagada onde se lê: A. PRUSTY - Importador de Charutos de Burma. A loja, em estilo bem antigo, mas ainda com um ar de solidez comercial, possui duas vitrinas. Uma delas exibe, com sobriedade, charutos, rape, cachimbos e as melhores qualidades de fumo. Na outra, o vidro é opaco, tendo apenas um pequeno círculo com moldura dourada pelo qual se pode espiar a banca onde o proprietário fabrica manualmente os cigarros Robin Hood de fumo escolhido e que tornam a loja famosa.

Na tarde daquele dia de julho, Prusty estava sentado ali de avental e em mangas de camisa, enrolando sua marca especial de cigarros com rapidez e delicadeza. Era um velhinho magro que já passara dos 60 com um nariz chato e poroso e um rosto apoplético. Era quase completamente calvo e tinha apenas uma mecha de cabelos brancos e uma verruga muito grande que quase parecia uma ameixa. O bigode eriçado estava manchado de nicotina da mesma forma que as pontas dos dedos. Tinha no nariz um pince-nez com aro de metal.

Sentado ali na sua banca, e olhando pelo círculo transparente da vitrina, ele vinha acompanhando, desde alguns minutos, os movimentos de um rapaz que já fizera algumas tentativas para entrar, mas sempre hesitava no último instante e continuava lá fora. Afinal, tomando-se de coragem, o estranho entrou, pálido, mas resoluto, depois de haver atravessado a rua. Prusty não tinha empregado, e então se levantou lentamente e, de uma forma um tanto brusca, dirigiu-se ao rapaz.

- Sim...?

- Eu desejava falar com o Sr. Albert Prusty, se é que ele ainda está vivo.

O outro olhou-o com um sorriso ácido.

- Até onde eu saiba, ele ainda está bem vivo. Sou Albert Prusty.

O rapaz, como um mergulhador atirando-se num mar gelado, respirou fundo como se quisesse tomar coragem.

Eu sou Paul Mathry... - Conseguira afinal. Uma vez pronunciado aquele nome, sentiu-se invadido por uma onda de alívio e sua língua já estava solta. - ...Isso mesmo. Mathry. Escreve-se M-a-t-h-r-y. Não é um nome comum. Será que ele significa alguma coisa para o senhor?

Não houve mudança na expressão do rosto do fabricante de cigarros, e foi com voz irritada que ele respondeu.

- E o que deveria significar para mim? Lembro-me do caso Mathry se é disso que você quer falar. A gente nunca esquece as coisas muito desagradáveis que nos acontecem. Mas que diabo está você querendo dizer com isso? O que tem a ver com você?

- Eu sou o filho de Rees Mathry.

Um silêncio pesado caiu sobre a loja com seu teto muito baixo. O velho olhou Paul dos pés à cabeça, aspirou lentamente uma pitada de rapé que tirou de uma lata ali na sua frente.

- E por que veio me procurar?

- Não posso explicar... mas eu precisava vir. - Em frases interrompidas, Paul fez um esforço para contar a respeito das circunstâncias que o haviam levado até Stoneheath. - Qieguei hoje de manhã... Há um trem que parte às nove da noite e que faz a ligação com o barco que parte para Belfast à meia-noite. Achei que se apenas conseguisse descobrir alguma coisa .. alguma coisa que eu mesmo não sei o que possa ser... talvez alguma a.tenuante... então eu voltaria para casa mais tranqüilo. Foi por isso que vim aqui... porque o senhor foi a única testemunha favorável no caso...

A resposta do velho veio de uma forma um tanto agressiva.

- O que está querendo dizer com essa história de favorável? Não vejo até onde você quer chegar...

- Então... isso quer dizer que o senhor não tem nada para me dizer?

- E que diabo você queria que eu dissesse?

- Eu... não sei... - Paul suspirou, resignado. Depois de uns segundos empertigou-se e caminhou para a porta, e então falou com voz firme. - ... Muito bem, eu vou andando. Desculpe-me se o perturbei. Muito obrigado por me haver ouvido.

Ele já estava no meio do caminho, quando a voz autoritária do velho o interrompeu.

- Espere aí...

Paul voltou devagar e, mais uma vez, Prusty olhou-o dos pés à cabeça. Viu seu rosto aflito e a calça cheia de lama, e então aspirou mais uma pitada de rapé.

- Está com uma pressa dos diabos. Você me aparece aqui, de repente, vindo sem que eu saiba de onde, depois de tanto tempo que só Deus sabe, e entra-me por aqui apressado como se quisesse apenas comprar uma caixa de fósforos. Mas que diabo! Você não pode esperar que, em quinze minutos, eu recue quinze anos.

Antes que Paul pudesse responder, a campainha da porta tocou e chegou um freguês. Era um homem forte que, depois de haver escolhido e acendido um charuto, parecia disposto a puxar uma conversa. Prusty veio até onde Paul estava e íalou em voz baixa.

- Esta é a hora do almoço e a gente nunca fica só. Não podemos conversar aqui. Aliás, eu nada tenho a dizer, mas como fecho às sete e o seu trem só saí às nove, você terá tempo de vir até o meu apartamento para tomar um cafezinho, aí pelas sete e meia.

- Muito obrigado... - De repente, porém, Paul lembrou-se de alguma coisa e arregalou os olhos. - No seu apartamento?

Prusty sacudiu a cabeça, fazendo uma careta e apertando os seus olhos de míope.

- Sim. No mesmo endereço: Ushaw Terrace cinqüenta e dois. Estarei esperando. Ele ainda está lá, da mesma forma que eu.

Afastou-se para conversar com seu freguês, e Paul saiu caminhando pela rua ainda tonto de cansaço, já que passara a noite no banco duro da estação, enquanto esperava o trem. Sentia-se fraco e com fome, e então lembrou-se de que havia passado pela Associação Cristã de Moços quando viera da cidade. Tomou um bonde amarelo que passava e em cinco minutos estava lá. Depois de um banho quente, ele passou uma escova nas roupas e arrumou-se para ir almoçar. Comeu uma sopa, carne e pudim de arroz.

Eram ainda duas horas e quando saiu do salão de refeições, já reconfortado, ficou imaginando como iria passar o tempo de espera que tinha pela frente. Foi então que lhe ocorreu uma idéia. Indagou na portaria e depois de uma caminhada de 10 minutos na Rua Leonard, muito congestionada, ele atravessou para a Praça Kenton e entrou na Biblioteca Pública da Cidade.

No saguão embaixo da cúpula muito alta onde os sons reverberavam, ele indagou onde era a sessão de consultas a jornais.

- O senhor pode dar-me o nome do melhor jornal de Wortley? O rapaz que estava por detrás do balcão levantou os olhos com ar petulante.

- E será que existe algum que seja bom mesmo? - Logo corrigiu-se e assumiu o ar de alguém cuja função era de prestar informações a quem as pedia e respondeu mais amável. - Creio que o Courier ainda é o melhor e o mais digno de confiança.

- Muito obrigado. Será que eu poderia ver os números de 1921?

- De todo o ano?

Apesar de querer mostrar-se confiante, Paul corou um pouco.

Não. Não. Acho que os últimos quatro meses seriam suficientes.

- Quer preencher o formulário, por favor?

- Claro...

Ele apanhou o lápis preso por uma correntinha, preencheu o formulário e o entregou ao funcionário.

O jovem bibliotecário sorriu com afabilidade e bateu na campainha que tinha sobre sua mesa. Poucos minutos depois veio um empregado trazendo uma pesada pasta que colocou em cima da mesa que estava ao lado.

Foi com certa agitação que Paul começou a folhear as páginas já amareladas e logo ficou muito tenso quando viu, de repente, a primeira notícia sobre o crime. Ali estava.

 

         CRIME HORROROSO EM ELDON

         UMA MOÇA

         BRUTALMENTE ASSASSINADA

 

Paul controlou-se, apertou os dentes e começou a ler. Leu com a cabeça baixa até o fim, enquanto os ponteiros do relógio lá no alto da cúpula continuavam andando. Em essência, ele já sabia de tudo, só que ali era descrito de forma mais espetacular. Quando chegou à notícia da prisão, sua testa estava alagada de suor. Quando, palavra por palavra, o drama do julgamento se desenrolou na sua frente, o rapaz soltou um gemido ao ler o que dissera o advogado que funcionou na acusação, Mathew Sprott, e aquilo cortou-o como se fosse uma chicotada.

"Este assassinato atroz, cometido por um malfeitor frio e resoluto em circunstâncias de feroz selvageria que não podem ser expressas em palavras, quase não encontra um paralelo nos anais do crime. O assassino que cometeu um crime desta natureza chegou ao mais baixo nível da degradação humana. A forca somente, senhores jurados, ainda é coisa muito boa para ele."

Depois, na última página, num suplemento especial, ele encontrou as fotos que mostravam a vítima, uma moça bonita com uma blusa cheia de fitas; das testemunhas; de Rocca, o desprezível informante, uma criatura nojenta, os cabelos repartidos ao meio emplastados de brilhantina; do cartão-postal fatal com sua frase pretenciosa. "A ausência aumenta as saudades"; o instrumetno do crime, uma navalha de fabricação alemã da marca Frass. Nada fora omitido. Até mesmo o navio estava lá, singrando as ondas, o Eastern Star em que o criminoso ia fugir. E no centro da página, entrando no tribunal no dia em que fora condenado, entre dois policiais, estava o condenado. Paul ficou olhando para aquela foto mal podendo acreditar. Ali estava o rosto de seu pai com uma expressão apavorada e estranhamente abatida, como um animal que foi, finalmente, encurralado e que vai ser abatido, e sentiu-se então dominado por uma tremenda angústia.

Largou rapidamente os jornais, sentindo-se agora privado da única esperança que ainda vinha alimentando com tenacidade. E então ficou murmurando para si mesmo! "Culpado! Culpado! Sem a menor sombra de dúvida."

Olhou para o relógio e viu, com surpresa, que eram quase oito horas. Levantou-se e entregou os jornais de volta ao mesmo rapaz que ainda ali estava de plantão.

- Vai precisar disto outra vez? Se assim for, nós podemos deixá-lo separado...

Apesar do estado de agonia em que se encontrava, Paul não pôde deixar de reparar que o rapaz o olhava com um interesse amistoso. Devia ter uns 19 anos, era pequenino e magro com uma boca bem grande, onde se percebia o bom humor, olhos cinzentos e inteligentes, e um nariz arrebitado que lhe dava ao rosto uma expressão de petulância. Ficou imaginando, um tanto encabulado, se o rapaz percebera seu estado ansioso.

- Não. Não vou precisar mais disso...

Paul ainda ficou ali de pé por uns momentos, como se esperasse ainda uma resposta do rapaz que continuava olhando para ele, embora calado. Saiu então da biblioteca e mergulhou nas ruas barulhentas.

 

Agora que já sabia de tudo, o seu primeiro impulso foi desistir da visita a Prusty, a fim de se poupar a uma repetição sem sentido de tudo que já tinha ouvido e lido. Mesmo assim, afinal, com o estranho fatalismo que o vinha perseguindo desde a primeira revelação, e que orientara todos os seus passos, ele seguiu na direção de Eldon.

Caminhava devagar, e o crepúsculo começava quando entrou no calçamento de pedra de Ushaw Terrace. Era uma rua estreita com uma fileira de casas altas dos dois lados, todas elas com uma varanda e um degrau para o desembarque de carruagens que eram como uma recordação de eras passadas e bem mais amenas. Embora ainda fosse um bairro respeitável, a transformação das mansões em casas de pequenos apartamentos tinha privado a área de sua antiga dignidade, tornando-a mais feia e até mesmo mais triste. Paul não pôde evitar o arrepio que sentiu quando chegou àquela casa onde fora cometido o crime, mas, afinal, encheu-se de coragem e entrou subindo a escadinha de pedra que cheirava a mofo. Chegou ao segundo andar e tocou a campainha.

Depois de uma ligeira espera, Prusty veio abrir-lhe a porta e ele atravessou o hall até uma pequena sala mal arrumada e escura, onde, num pequeno fogareiro a gás, estava uma cafeteira íumegante e cheirosa.

O velhinho estava com chinelos e um velho casaco de veludo, mas, para fazer sobressair sua excentricidade, ostentava um surrado fez árabe. Ele demonstrava sua hospitalidade andando de um lado para outro, servindo café com açúcar mascavo e oferecendo uma xícara a seu convidado.

Paul bebia o café em pequenos goles, sentindo o seu gosto agridoce junto com o próprio pó do café mal coado, mas que estava bom e refrescante. Enquanto isso, Prusty tirava a palha enrolada numa longa cigarrilha que cheirou como bom apreciador, e depois acendeu-a.

Tirou uma tragada com o cuidado de um apreciador antes de falar.

- Não tenho empregada. Faço tudo sozinho. Já faz seis anos que minha mulher morreu. Espero que esteja gostando do café. É importado por mim diretamente...

Paul apenas resmungou uma resposta cortês. Dominado pela estranha posição em que se encontrava, ele olhava em torno da salinha com veludos já bem gastos e, atraído pelo lustre de bronze muito enfeitado, os seus olhos chegaram ao teto que ali estava em cima de sua cabeça, e Prusty logo percebeu sua expressão.

- Pois é... eu estava aqui mesmo nesta cadeira quando começou a barulhada lá em cima. Era tão forte que eu saí para ver o que havia e subi a escada correndo. Meu Deus! Jamais poderei esquecer aquilo que vi... ela estava deitada ali, quase nua, um pedaço de mulher... mas com a garganta aberta de uma orelha à outra... - Fez uma pausa. - Não, não olhe assim tão espantado! Não há ninguém lá agora... O apartamento está vazio. Tenho a chave que o senhorio deixa comigo... se você quiser subir para ver...

Paul sacudiu a cabeça recusando, mas logo se desculpou apertando a testa.

- Não. Não. Por hoje eu já li e ouvi tudo que precisava saber. Passei a tarde toda na biblioteca lendo o Courier...

- Sim, sim. Eles fizeram uma boa cobertura. Foram até bem justos comigo. E eu fiz uma figura bem triste. Sprott fez de mim um palhaço. E tudo porque eu não queria jurar que o homem que eu vira sair de lá era... era o Rees Mathry.

- O senhor não o reconheceu... como o meu pai...

- Estava escuro ali na entrada e eu estava sem óculos. Eu poderia dizer que estava errado... O Ed, o rapaz da lavanderia, e todos os outros mostravam muita certeza, mas eu sou um cara teimoso. Não tinha certeza, e por mais que o tal Sprott me apertasse, eu não poderia jurar. Você, algum dia, já compareceu como testemunha a algum julgamento? - Ele parecia sentir-se vaidoso com aquela sua teimosia.

- Não.

- Deus do céu! Quando eles pegam a gente ali... eles nos deixam bem amarradinhos! Na metade do tempo, a gente nem mesmo sabe o que está dizendo. Na outra metade, eles não deixam a gente dizer o que deseja. E então havia uma coisa estranha que eu nunca tive oportunidade de dizer. Eu sempre costumava falar nisso com minha mulher e com o Dr. Tuke, o médico que eu chamei para vir ver o corpo. Eu sei que ele nunca foi mencionado no processo porque eles tinham lá os seus médicos e os seus peritos, mas ele sempre se interessara muito pelo caso e então nós sempre falávamos naquilo.

O velho puxou uma grande tragada, ao mesmo tempo que, pensativamente, mexia o seu café.

- Quando entrei naquela sala e vi que ali tinha havido um crime, eu instintivamente fui até a janela e abri-a completamente. Eu queria dar mais uma olhada no homem que fugira. E então, por Deus, eu o vi bem. Lá embaixo na rua, com a luz que vinha da janela aberta, eu vi quando ele apanhou uma bicicleta que ali estava encostada e saiu pedalando como um louco. A bicicleta era verde. Posso jurar que era... uma bicicleta verde. Você não acha estranho?

Prusty adorava fazer suspense, e então fez uma pausa.

- Especialmente quando, em toda a sua vida, Mathry jamais possuíra uma bicicleta!... - Fez um gesto com a mão para reforçar o que dizia. - É claro que eles acharam que Mathry tinha simplesmente roubado alguma bicicleta para poder fugir mais depressa, mas, se fosse assim, como foi que a bicicleta desapareceu? Dragaram quase todo o canal e nunca a encontraram...

Houve mais uma pausa bem significativa.

- E há mais uma coisa ainda. Aquela bolsa de couro encontrada junto do corpo. Ela não pertencia à mulher assassinada, mas também não era de Mathry. E então de quem era? Ali estava um ponto, e era um ponto que desafiava gente mais esperta do que eu. O cara que se encarregara do caso logo de saída, o tal Swann...

- Swann... - Paul repetiu aquele nome quase sem sentir. Prusty acenou com a cabeça, de repente sério.

- O Inspetor-Detetive James Swann. - Instintivamente, Prusty olhou em torno como se tivesse medo de estar sendo ouvido, e então puxou sua cadeira para mais perto de Paul. - Não sou nenhum benfeitor da humanidade e não gosto de arriscar meu pescoço para salvar seja lá quem for, mas, sendo você quem é, acho que precisa ficar sabendo quem é esse Swann.

A mudança que se operara no outro fez com que Paul despertasse da completa apatia. Ajeitou-se na cadeira enquanto Prusty continuava falando sempre com grande cautela.

- Swann era um cara agradável e também muito esperto. Mas não era somente isso. Quando ele estava de plantão, por exemplo, e alguns dos rapazes se metiam em encrencas, ele não os atirava logo na prisão. Tinha uma longa conversa com eles como se fosse um velho tio. Você sabe como é. Era um cara decente. Infelizmente, porém, ele tinha uma fraqueza bem séria que era a bebida. - Prusty ficou olhando com ar ausente para a brasa de sua cigarrilha e sacudiu a cabeça. - Por Deus! Aquilo foi muito estranho. Estranho mesmo!

Paul sentiu um arrepio na cabeça, mas agora já era todo ouvidos.

- Conhecia-o bem porque ele costumava vir à loja duas vezes por semana para comprar fumo, e é claro que tive muito contato com ele durante todo o caso de seu pai. Depois que tudo acabou e as coisas voltaram à normalidade, comecei a notar uma mudança nele. A primeira era que estava bebendo muito mais. Nunca fora muito falador, mas depois daquilo era difícil a gente arrancar uma palavra de sua boca. Já não era mais alegre e folgazão como antes e parecia sempre preocupado. Costumava brincar com ele perguntando se estava apaixonado, mas Swann sempre desconversava. Então um dia, mais ou menos um ano depois, ele entrou na loja mais soturno do que eu jamais o vira... e até mesmo me parecia um pouco alto na bebida. Vou fazer uma longa viagem, Albert. Vou falar com o Walter Gillett.

O velho fez mais uma pausa para tomar um gole de café.

- Esse Walter Gillett é um dos grandes advogados criminalistas e eu, naturalmente, perguntei-lhe por que ia procurá-lo, mas ele apenas sacudiu a cabeça e respondeu de forma bem estranha: "Não posso dizer nada a você agora, mas talvez você venha a saber de tudo em breve."

Mais uma vez o velho parou para tomar outro gole de café, e Paul mal podia conter-se. E então Prusty continuou falando sombriamente.

- Bem, de fato fiquei sabendo logo depois. Logo no dia seguinte ele se apresentou no serviço estupidãmente embriagado. Estava dirigindo um carro da polícia e causara um sério acidente. Atropelara uma mulher que quase morrera. Claro que houve um tremendo escândalo e ele foi julgado e demitido da polícia, como bem merecia, e foi condenado a seis meses de prisão com trabalho forçado.

- Prisão! Então.. . e que fim ele levou?

- Ele estava acabado. Quando foi posto em liberdade, tentou vários empregos como, por exemplo, investigador particular, porteiro de hotel, gerente de cinema, mas nunca ficou muito tempo em nenhum deles. Era um homem completamente mudado e, para ser franco, em vista da bebida e tudo mais, ele ficou completamente arrasado. Não sei por onde anda porque já faz uns dois anos que não o vejo.

- Mas por quê? Por que foi que tudo isso aconteceu? E ele chegou a falar com o Gillett?

- Pois é aí que pega o carro. Pergunte-me qualquer outra coisa.

Bebeu o último gole de café e falou sempre baixinho.

- Eu raramente o via depois de ele sair da prisão. Uma noite, porém, ele me apareceu na loja. Já vinha bebendo muito nos últimos dias e estava mesmo alto. Ficou lá, de pé, balançando-se de um lado para outro sem dizer uma palavra. Finalmente, falou. "Quer saber de uma coisa?" Eu não queria provocá-lo e respondi. "Não, Jimmy."

Pois muito bem, é o seguinte. Nunca conte coisas fora da escola."

E então aí ele desandou a rir sem parar e saiu da loja, cambaleando e rindo ainda, mas não era um riso que você gostaria de ouvir.

Paul não podia mais conter-se e perguntou, gritando.

-. E o que foi mais que ele disse?

- Nada... nunca mais disse nada. Nem mais uma palavra. Mas, e que Deus me perdoe, posso estar certo ou errado, eu tive uma nítida impressão de que ele chegara àquele ponto por causa de alguma coisa ligada ao caso de seu pai.

Houve um longo silêncio. Paul sentia um aperto no coração e não tinha coragem para levantar-se. Continuava rígido na cadeira. Depois, aos poucos, ali sentado, ele olhava para o teto. Nada estava claro para ele. As nuvens da escuridão eram cada vez mais densas do que antes, mas, mesmo assim, apesar de tudo aquilo, ele sentia aquela estranha incitação para que seguisse em frente. Prusty já havia jogado na lareira o resto da cigarrilha e olhava para o relógio.

- Está ficando tarde. Não estou querendo apressá-lo, mas se não o fizer você vai perder o trem.

Paul levantou-se para sair e, quando falou, foi com uma voz muito firme.

- Não vou mais nesse trem. Eu quero descobrir... o que têm a. nizeo Swann e Gillett.

 

O dia seguinte amanheceu com uma linda manhã. Paul se levantou cedo na A.C.M., onde havia alugado um quarto na noite anterior após sua conversa com Prusty. Depois de tomar o café, ele escreveu uma carta muito breve para sua mãe. Não queria que ela ficasse muito preocupada e depois, com uma firme decisão, dirigiu-se para o centro da cidade. Prusty não sabia onde Paul poderia encontrar Swann ou Gillett já que raramente saía fora da vizinhança onde morava, mas, remexendo em papéis velhos, ele, finalmente, encontrou um antigo endereço no escritório de Gillett em Temple Lane, junto com um outro endereço perto do Mercado do Milho onde Swann morara durante algum tempo, uns dois anos antes.

Paul chegou no número 15 de Temple Lane às nove e meia e teve a sorte de encontrar um homem com um avental verde e que, aparentemente, tinha acabado de abrir o prédio e estava limpando uma placa de metal do lado de fora da porta.

- É aqui o escritório do Sr. Walter Gillett?

O homem parou o que estava fazendo. Era um cara cujo rosto lembrava um cavalo, tinha pernas tortas e os olhos injetados. Sua resposta foi bastante delicada.

- Já foi...

- Ele saiu daqui?

- Certo... Houve uma pausa.

- E será que o senhor sabe qual é o seu atual endereço? O faxineiro olhou Paul de esguelha, dos pés à cabeça.

- Não poderia dizer que não sei...

- E onde é que posso encontrá-lo?

O outro continuava a responder olhando só de esguelha.

- Bem... Duvido um pouco que consiga encontrá-lo, mas também não custaria muito tentar... - Esfregou o nariz como quem está pensando. - Será que isso valeria uns trocados?

De seus recursos já escassos, Paul tirou um xelim que entregou ao homem.

Ele rodou o xelim na mão com perícia e limpou a boca com as costas da mão.

- Ele está na Praça Orme. É bem perto daqui. É na cidade velha próximo da igreja. Vá até o fim de Temple Lane, vire para a direita e siga em frente. Olhe por ali e logo verá sua placa. É muito fácil.

Paul jamais esperara que aquilo fosse tão fácil. Sentia que o homem continuava a olhá-lo, quando seguiu em frente naquela rua de edifícios de escritórios.

Encontrou logo a rua sem dificuldade. Era bem perto da igreja conforme lhe dissera o seu informante. Era, aliás, o próprio quintal da igreja. Era o cemitério da igreja e a entrada era por um velho portão que dava acesso a uma alameda sombreada por velhos olmos. Paul não percebeu logo o significado do endereço que o cara lhe dera, mas isso não demorou muito. Gillett estava ali no cemitério da igreja. Estava morto. Ficou indignado e pensou logo em voltar para tomar satisfações com o homem de avental verde, mas logo desistiu e entrou no cemitério. Ali, depois de meia hora de buscas, encontrou o que queria. Uma lápide de mármore branco escondida num dos cantos do cemitério e com um breve epitáfio.

Consagrado à memória de Walter Gillett Nascido em 1881 - Morto em 1930 Muito lamentado e altamente estimado honrou sua comunidade O trabalho de todos deve ser sempre lembrado.

Três vezes, mecanicamente, Paul repetiu baixinho a frase final. Sabia agora que, com Gillett morto, ele precisava, mais do que nunca, encontrar James Swann. Fez meia-volta e saiu dali apressado.

Logo a seguir estava ele batendo na porta de uma casa com porão que fazia parte de uma fileira situada por detrás do Mercado de Milho. Uma senhora de meia-idade, de aspecto respeitável, enrolada num xale de xadrez azul, apareceu na porta do porão.

- Estou procurando o Sr. Swann... James Swann. Disseramme que ele já morou aqui... - Paul esforçava-se para tornar a voz natural, sem deixar transparecer sua tremenda ansiedade.

- Morou sim. Teve um quarto aqui durante alguns meses, mas já faz uns dois anos que saiu.

- E para onde foi?

A mulher pensou durante algum tempo.

- Eu não tinha nada contra o pobre homem... pagava o aluguel quando podia. Será que o senhor está à sua procura, porque ele fez alguma coisa errada?

- Não, não... Nada disso, muito pelo contrário...

- Bem... ele foi para uma casa de cômodos na Rua Ware. Não sei o número, mas sei que o encarregado chama-se Hart.

Aquela rua ficava apenas a um quilômetro dali. Era longa e atravessava um bairro muito pobre e congestionado da cidade. Havia nela muitas lojas baratas e o tráfego ali era sempre congestionado e tumultuado com o barulho dos bondes que passavam. Paul verificou na lista telefônica que obteve numa agência dos Correios e logo encontrou o endereço de Hart.

Era uma casa de cômodos de tijolos aparentes situada num pátio esquálido e espremida entre edifícios altos e sujos de fumaça. A entrada era muito estreita. A corda da campainha tinha sido arrancada, deixando um furo e não havia aldrava para se bater na porta já bem bombardeada. Paul bateu várias vezes com a mão até que apareceu um menino de uns 12 anos, de cara suja e com os gânglios do pescoço inflamados e enrolados numa flanela vermelha.

Antes mesmo que Paul perguntasse alguma coisa ele foi logo dizendo, com uma voz rouca, que não tinha ninguém em casa. Disse que estava doente e por isso não fora à escola e que todos os homens tinham saído para trabalhar, a maior parte deles na fundição. Não conhecia ninguém chamado Swann. Disse que sua mãe era a encarregada do prédio e que estaria em casa às quatro horas.

Paul disse ao menino que voltaria. Saiu dali e entrou novamente na Rua Ware. Não conseguia ficar parado já que seus nervos não o permitiam, tensos como estavam aguardando por ação. Atendendo a um impulso que vinha tomando conta dele desde a noite anterior, resolveu voltar à biblioteca pública.

Já estava na parte da tarde e quem o atendeu foi o mesmo rapaz da véspera. Quando Paul entrou, ele estava na sua mesa sem fazer nada, com um aspecto sonhador, mas quando levantou a cabeça e reconheceu Paul, que vinha caminhando em sua direção, ele logo ficou atento e recebeu em silêncio o papel que Paul já preenchera.

Tocou a campainha e, depois que o empregado veio e saiu com o pedido, ele abriu a gaveta da mesa.

- O senhor esqueceu estas notas quando esteve aqui ontem...

Paul ficou olhando para a folha de papel onde começara a escrever uma espécie de resumo, mas que logo abandonara. Seu instinto dizia-lhe que o rapaz lera o que ele havia escrito, apesar de suas maneiras não darem a entender que o fizera. Talvez, até mesmo, já desconfiasse de sua identidade. Ele hesitou um pouco antes de apanhar o papel.

- Eu, realmente, não preciso disso, mas, assim mesmo, muito agradecido.

O rapaz continuava olhando para Paul de uma maneira peculiar, e os seus olhos brilhantes e espertos mostravam um certo interesse.

- Então o melhor mesmo é destruir tudo isto...

Paul ficou olhando enquanto ele rasgava o papel e, nesse momento, chegou o empregado trazendo duas pastas dos números do Courier do ano 1922. Paul acompanhou-o até a mesa e abriu a primeira pasta.

Examinou atentamente as páginas, correndo todas as colunas com os dedos. Aquilo era um trabalho cansativo e seus olhos já doíam, mas ele não desanimava. Terminou com a primeira pasta e passou para a segunda, e depois ficou ali sentado esfregando os olhos com a testa franzida. O relógio lá em cima mostrava que já passava das quatro horas, e ele então devolveu as pastas, lembrando-se de que tinha um outro compromisso.

- Conseguiu encontrar o que queria? - O rapaz fez a pergunta como se aquilo fosse uma parte da rotina da biblioteca, mas Paul, de uma certa forma, sentia que havia na pergunta uma certa curiosidade.

- Não. Não encontrei...

Houve uma pausa e ele sabia que o rapaz não iria falar de novo. Só lhe restava ir embora e dar o caso como encerrado. No entanto, de uma forma mais ou menos estranha, ele sentia que o outro, com o seu silêncio e com uma espécie de convite no olhar, estava-lhe oferecendo, quase com impertinência, embora com a melhor das intenções, uma oportunidade, e então, de repente, foi tomado de um desejo impulsivo para confiar nele.

- Eu estava procurando a notícia de um caso em que o inspetor da polícia, chamado Swann, foi julgado e condenado em 1922...

Aquilo foi uma surpresa para o bibliotecário, mas ele conseguiu disfarçar.

- Isso não deve ser difícil. Se descobrir alguma coisa em outros números, eu a guardarei para lhe mostrar... Será que... será que está interessado nesse homem?

- Estou tentando encontrá-lo.

- E tem alguma idéia de como conseguir isso? - A pergunta foi feita demonstrando um certo interesse.

- Ele ainda deve andar por aqui. Pelo que tenho ouvido, é um cara liquidado...

- Estou vendo...

Houve um silêncio. Paul ficou ali ainda um instante e então, já intrigado com a falta de reserva do outro, ele agradeceu canhestramente, enfiou o chapéu e saiu.

Continuou andando na direção da Rua Ware e eram cinco horas quando chegou à casa de Hart. A encarregada do prédio já estava de volta. Era uma mulher grande com uma saia de lã e um xale de xadrez em cima dos ombros e na cabeça, preso por dois alfinetes, estava um boné de homem.

- Eu me lembro bem do Swann. Muito bem, até. Anda muito por baixo... Ficou doente e perdeu o emprego na fundiçã. Andava entornando muito, se é que me compreende. Não fiqu( triste quando ele foi embora.

- E quando foi isso?

- Faz uns seis meses.

- E sabe para onde ele foi?

- Se quer saber mesmo, acho que foi para Bromlea, para trabalhar nas construções que estão fazendo lá.

- É bem perto daqui, não é mesmo?

- Pertinho... uns cinco quilômetros...

- E ele deixou algum endereço ?

- Swann não era homem para deixar endereços. Ninguém consegue arrancar uma palavra dele. Mas espere aí... Deixe-me pensar um pouco... Ele me disse que estava esperando uma carta e pediu-me que a mandasse, mas a carta nunca chegou aqui. Será que anotei o endereço que ele me deu? - Voltou-se para o garoto que estava a seu lado. - Vá buscar o livro lá no quarto, Josey...

Pouco depois, o menino voltou trazendo um velho caderno de notas. A mulher molhou a ponta do dedo na língua e começou a folhear o caderno.

- Pois não é que está bem aqui? Eu não lhe disse? - Paul aproximou-se dela cheio de esperanças e olhou a página que ela apontava. E ali, escrito a lápis, estava o endereço que ele procurava.

James Swann c/o Roberts Castle Road 15 Bromlea

O rapaz copiou o endereço rapidamente no seu caderno de notas, agradeceu à mulher e foi-se embora. Ao caminhar apressado pelo beco, já agora iluminado por uma única lâmpada bem fraca, ele ia pensando que o dia fora bem proveitoso. Estava agora realmente na pista certa de Swann e, até mesmo, tinha sua descrição. Era um homem liquidado, infeliz e que, a cada dia, afundava-se mais tentando afogar suas tristezas e vivendo de um trabalho braçal, para atender às suas necessidades. Já era tarde para ir a Bromlea naquela noite. Iria no dia seguinte. Sim, amanhã ele teria seu encontro com Swann.

 

Na noite seguinte, precisamente 24 horas depois, Paul estava novamente de volta à A.C.M. Caía uma chuva constante desde a tarde, mas ele continuava a andar sem se dar conta dos sapatos encharcados e das roupas ensopadas. Todas as suas grandes esperanças tinham desaparecido e todas as expectativas tinham desmoronado íragorosamente. Estivera em Bromlea no endereço que lhe fora dado e tinha conversado com o encarregado das construções onde Swann havia trabalhado. Tinha vasculhado todo o distrito de uma ponta à outra sem o menor sucesso. Swann desaparecera sem deixar vestígios.

Completamente desanimado, Paul entrou no hotel e subiu as escadas devagar. Colocou uma moeda no medidor e acendeu o gás. Depois, quando se aprumou, notou que havia um telegrama em cima da lareira. Abriu-o e leu-o:

 

         TERRIVELMENTE AFLITA

         VOLTE IMEDIATAMENTE

         NOMEAÇÃO ESCOLA VERÃO

         SUA ESPERA

         SAUDADES DE TODOS, MAE

 

Agachado diante do fogo fraquinho, com a fumaça saindo da roupa molhada, ele tornou a ler o telegrama. Achava muito natural que ela lhe pedisse para voltar como também achava, realmente, que na sua situação atual, aquilo seria mesmo a melhor coisa a fazer. A ausência amenizara a irritação que sentia contra a mãe. Era claro que ela falara com o Professor Slade ou então, e o mais provável, ela teria pedido a Fleming que o fizesse, e então o emprego em Portray ainda estava à sua disposição. Aquela expressão "saudades de todos" trouxe-lhe aos lábios um sorriso ligeiramente amargo, já que aquilo, evidentemente, se referia a Ella, sempre disposta a perdoar. Depois de haver secado toda a roupa, Paul desligou o gás e desceu para comer alguma coisa. Quando entrou no salão de jantar um mensageiro veio a seu encontro.

- Há um rapaz procurando o senhor e está à sua espera na sala das visitas.

Paul seguiu o mensageiro, um tanto surpreso, até a salinha mobiliada com cadeiras e mesas de vime e uma planta num vaso modestamente escondida por uma cortina de contas de vidro e separada da portaria. Logo que atravessou a cortina com as continhas tinindo, ele viu, com espanto, que a pessoa ali sentada numa das cadeiras era o funcionário da biblioteca, e ele se adiantou com alguma hesitação.

- Boa noite.

- Não me esperava, não é mesmo?

- Claro que não...

O moço aceitou aquela resposta ríspida com um sorriso. Separado de seu cargo oficial ele parecia ainda mais petulante, com uma franqueza que desarmava qualquer um mas que, para Paul, na situação em que se encontrava, parecia um tanto constrangedora. O rapaz correu os olhos espertos pela sala ainda vazia.

- Tenho alguma coisa para lhe dizer e estou vendo que podemos conversar aqui mesmo, sem medo de sermos ouvidos.

Paul olhou-o de tal maneira agressiva que o outro não se conteve e achou graça.

- Estou vendo que ainda não me compreendeu bem, mas pode crer que sou um cara legal. Meu nome é Mark Boulia.

E estendeu a mão que Paul apertou e sentou-se. Aquela situação estava começando a lhe dar uma sensação de estranha expectativa. Antes de continuar, Mark observou-o com mais atenção.

- Naquele primeiro dia que você apareceu lá na biblioteca eu não podia deixar de reparar que estava... com dificuldades. Fiquei com pena e senti uma certa simpatia por você. Uma simpatia amistosa. Sabe como é... a gente simpatiza com alguém logo à primeira vista. Depois então eu verifiquei o que havia naqueles jornais antigos. - Via-se que era com satisfação íntima que ele constatava um fato. - Sei quem é, e estou a par de tudo a seu respeito...

Tudo aquilo era coisa que Paul já desconfiara. Então ficou calado ouvindo com atenção tudo o que o outro tinha para lhe dizer.

- Ontem voltou para procurar mais alguma coisa, mas não encontrou o que queria. Só que, depois que saiu, eu encontrei. Encontrei em outro jornal, no Clarion, que é um jornal liberal com uma circulação insignificante. Encontrei um comentário sobre o julgamento de Swann e, por estranho que pareça, era um protesto em relação à dureza da sentença contra ele.

O rosto de Paul estava pálido mas impassível, porém os olhos tinham um brilho estranho e sombrio. Afinal, conseguiu falar.

- E por que veio aqui dizer-me isso? Mark deu de ombros e achou graça.

- Porque você estava querendo encontrar Swann.

- Não adianta - retrucou Paul, sacudindo a cabeça, desanimado.

- E por que não?

- Não depois de quinze anos.

- Não fique tão certo disso. - O jovem fez uma pausa só para dar mais força às palavras. - Eu, aliás, já o encontrei.

Paul sentiu a boca seca. Ficou olhando, sem acreditar, para aquele cara que ali estava e que acenava com a cabeça como alguém que sabe o que está dizendo.

- Nem mesmo foi muito difícil depois daquilo que me disse... segui um palpite e procurei na lista dos que estavam recebendo pensão do governo como desempregados e também verifiquei todos os registros da Casa do Trabalhador e de todos os hospitais da cidade. Ele está no Hospital Belvedere.

 

A enfermaria onde Swann estava era comprida e estreita com as paredes caiadas de branco e um teto inclinado com uma quantidade de clarabóias. Ali, era o setor dos indigentes, um dormitório triste e nu.

A cama, cercada de biombos, achava-se em cima de blocos de madeira e no chão havia um cilindro de oxigênio com o tubo e a máscara para respirar. Dominando o cheiro forte do ácido carbólico, havia um odor indefinido de doença e de dissolução orgânica.

Recostado em dois travesseiros, Swann achava-se deitado com as pernas esticadas e olhando para teto. A face encovada fazia ressaltar ainda mais seu nariz adunco e amarelado em contraste com o branco das fronhas e a pele curiosamente cheia de manchas escuras. Os seus dedos inertes na beira do colchão tinham as pontas muito grossas. Sua respiração fraca e arquejante mal se mostrava no peito.

Era a hora das visitas da tarde e Paul estava ali ao lado da cama junto com Mark. Tinham chegado 10 minutos antes e Mark, com muito tato, tinha dito ao doente quem era Paul que, então, fez um apelo apaixonado. E agora, dominado pela importância do momento, ele esperava para ouvir o que Swann tinha a dizer.

O doente não tinha pressa e estava perdido em seus pensamentos, mas logo, sem se mexer, ele virou os olhos para Paul. Depois de uma pausa falou, afinal, com voz rouca.

- Você é bem parecido com ele...

Depois, ele ficou olhando para a clarabóia, sem falar, durante algum tempo, até que afinal continuou com uma voz muito fraca.

- É estranho você aparecer por aqui agora. Depois do que me aconteceu, eu jurei que ficaria calado e, afinal, fui um idiota quando falei. Mas você é o filho de Mathry e eu, de qualquer maneira, estou liquidado. E então vou falar...

Houve uma pausa curta e Swann parecia estar olhando para um passado distante.

- Quando fui encarregado do caso do assassinato em Eldon, eu estava em plena forma. Bem diferente do que estou agora. Lembro-me como se fosse ontem, quando surgiu aquela pista muito im51

portante. Foi um tal de Rocca, empregado de um bookmaker, que apareceu lá na polícia... o cara mais nojento que já vi em minha vida, e estava num tal estado de pânico que mal conseguia falar. Mas, afinal, falou. Ele vinha tendo relações com a moça durante um ano e costumava passar as noites lá, e isso acontecera no dia sete de setembro... mas ele dizia que não tinha nada a ver com o assassinato, e nem mesmo poderia, porque nos dias oito e nove ele estivera nas corridas em Doncaster e tinha uma dúzia de testemunhas para provar isso. Ele estava ali voluntariamente, só para limpar seu nome...

"Aquilo não nos ajudava muito, já que sabíamos como a moça tinha uma quantidade de admiradores, mas, de qualquer maneira, achamos que sempre seria bom deter Rocca. Quando soube que ia ficar preso, Rocca ficou verde e então despejou tudo que sabia. Contou-nos a respeito de seu camarada Rees Mathry que andava de amores com a moça. Contou como ele se mostrara aflito a respeito da publicidade dada ao postal desenhado a lápis, e então contou como Mathry tinha-lhe pedido que confirmasse seu álibi. Aquilo foi uma maravilha para nós, uma vez que, depois de uma semana sem conseguir pista alguma, tínhamos ali uma que parecia muito quente. E tudo ficou ainda mais quente, quando soubemos que o cara que estávamos procurando ia embarcar em Liverpool. Telefonamos logo para a polícia de lá e ele foi preso...

Swann fez uma pausa enquanto molhava os lábios.

- Infelizmente para ele, Mathry era um cara de maus bofes e então resistiu à prisão e ainda cometeu o erro fatal de agredir um policial. Se acrescentarmos o fato de que, como disse, ele estava de saída para a América do Sul, então sua situação se tornava ainda mais séria. E logo a seguir ele tornou tudo ainda pior. Naturalmente, nas investigações preliminares, a primeira pergunta que lhe fizemos foi para saber onde ele estava entre oito e nove horas da noite do dia oito de setembro. Sem saber que seu amigo já o denunciara, ele logo contou a tal história dizendo que passara a noite jogando bilhar com seu amigo Rocca. Assim sendo, nós logo imaginamos que estávamos com o criminoso na mão.

Swann deixou a cabeça pender no travesseiro e, nos seus olhos já meio apagados, surgiu uma estranha expressão.

- Preciso contar alguma coisa a respeito do meu chefe naquela ocasião, que era o Delegado-Chefe Adam Dale, hoje Chefe de Polícia de Wortley. Ele era filho de um fazendeiro de Cumberland que começara bem por baixo e era exigente em matéria. de disciplina. Dava mão forte a seus subordinados e era um grande policial que jamais fora subornado em sua vida. Adorava seu trabalho e gostava de gabar-se comigo que, só pelo cheiro, ele conseguia des-

cobrir qualquer criminoso a quilômetros de distância. E, desde o princípio, ele estava de olho em Mathry...

Cheio de entusiasmo com sua descrição, o doente tentou fif* mar-se nos cotovelos.

- Para mim, no entanto, a coisa não era tão fácil assim. Em~ bora as provas parecessem concludentes, eu alegava que Mathry tinha comprado as passagens em seu nome e que, também em seu not*16" havia reservado quartos num hotel para ele e a família sem tentar esconder sua identidade, uma coisa inconcebível, no caso de um homem que tentava fugir e que desejasse esconder-se. Além disso, e a despeito de todas as provas contra ele, Mathry sempre me causara boa impressão. Não tentou negar suas relações com a moça, e confirmava haver-lhe enviado o tal postal desenhado. Dizia que tudo aqU&> fora uma brincadeira, e aquela mensagem no cartão confirmava ° fato, apesar de ser um tanto tola. Acontecia ainda que o ferimento era tão terrível que somente poderia ter sido feito por um homem muito forte, e Mathry estava longe disso. E o seu caráter também não se coadunava com uma tal violência já que era, naturalmente, delicado, e aquilo me dava a impressão de ser uma explicação cabível para o fato dele haver tentado conseguir aquele álibi com o Rocca. Talvez estivesse nervoso e aflito, cada vez mais alarmado com a publicidade dada ao postal idiota, e então ele poderia ter sentido a necessidade de se garantir com aquele álibi. Aquilo fora uma coísa estúpida, mas que se enquadrava bem com o seu caráter, e também com a história que contava.

"Expus tudo isso a meu chefe, mas ele não me dava ouvidos Ja que estava convencido, sinceramente convencido, vejam bem, de qt*e tinha apanhado o homem certo.

Swann mergulhou nos travesseiros para descansar um pouc°> mas logo recomeçou bem mais calmo.

- A mentalidade oficial é bitolada para certos canais, e ninguém sabe disso melhor do que eu, e a rotina estabelecida por DaJe seguia o mesmo padrão que, na prática, era o certo. Ele queria cí1 contrar a arma do crime entre as coisas de Mathry; queria encontrar manchas de sangue nas roupas; queria encontrar as testemunhas que reconhecessem Mathry como o homem que fugira do apartamento.

"Não demorou muito e logo encontrou em suas malas a arm que estava procurando. Era uma velha navalha de fabricação alemãjá um tanto enferrujada pelo desuso, e Mathry logo, no auge d" indignação, a reconheceu como sua desde muitos anos já que pertencera a seu pai. Estivera para jogá-la fora várias vezes, mas continuava sempre a guardá-la por uma questão de sentimentalismo. Agora, vejam bem, se ele tivesse mesmo usado aquela navalha par#- o crime, vocês acham que voltaria a guardá-la cuidadosamente no meio de suas coisas? Claro que não! A primeira coisa que os assassinos fazem é livrar-se logo do instrumento do crime. E, no entanto, Dale estava quase pulando de contentamento e orgulho, quando me mostrou a navalha. Pois então eu não lhe dizia? Agora já temos o cara!

"Ela foi enviada para ser examinada pelos peritos que deviam procurar manchas de sangue, junto com uma trouxa de roupas de Mathry, Enquanto isso, as testemunhas continuavam sendo interrogadas, especialmente aquelas que haviam visto o criminoso fugir na noite do crime. . . Eram Prusty, Edward Collins e Louise Burt. Prusty era míope. Edward era um rapaz amável que prestava seus depoimentos com certa relutância, mas Louise era completamente diferente. Naquela noite escura e chuvosa de setembro, numa rua muito mal iluminada, ela só vira o criminoso de relance, mas, apesar disso, julgava-se habilitada a dar os mínimos detalhes de sua aparência. Ainda vejo seu rosto redondo e parecendo ansiosa, exibindo toda a sua satisfação depois de prestar os depoimentos.

"Ela afirmava que ele era um homem de uns trinta e cinco anos, alto, magro e moreno com um rosto pálido, nariz reto, barbeado. Estava com um boné de xadrez, uma capa de chuva muito desbotada e calçava botinas marrons...

"A princípio, Dale mostrava-se satisfeito com aquela descrição, mas, quando Mathry foi preso a coisa mudou de figura, já que ele não era alto, moreno e tampouco barbeado, e sim de estatura média, rosto claro e um bigode castanho. E suas roupas também eram diferentes. Louise, no entanto, não se perturbou e logo disse que fizera confusão porque, no seu primeiro depoimento, não medira bem suas palavras porque queria falar depressa. Com a maior das calmas ela descartou o homem alto e de rosto raspado, substituindo-o por um outro que era mais baixo e tinha bigode. Edward Collins, que no seu primeiro depoimento tinha declarado positivamene que não poderia reconhecer o homem, logo passou a confirmar tudo o que a Louise dizia. O boné claro de xadrez passou a ser um chapéu mole escuro e a capa passou a ser uma capa comprida de inverno. Em resumo, a descrição se ajustava a uma outra que bem poderia ser a de Mathry.

Swann descansou novamente, com os lábios pálidos apertados e procurando controlar a respiração.

- A providência seguinte foi a do reconhecimento a ser feito pelas testemunhas. O chefe acompanhou-as e eu também estava presente. Onze policiais à paisana foram alinhados numa sala junto com Mathry. Aquela era a rotina usada para os reconhecimentos e que muita gente acha justa. De qualquer forma, as duas testemunhas foram_ unânimes ao reconhecer Mathry. Ele foi então levado para Wortley e formalmente acusado da morte de Mona Spurling.

O doente virou de lado com dificuldade e ficou olhando para Paul.

- Mesmo assim, eu não me convencia de que ele estivesse mesmo enrascado... a acusação contra ele estava tão certinha que eu tinha certeza de um fracíisso a qualquer hora. Só que não tinha pensado no advogado que fora escolhido para a acusação. Alguém poderia pensar que o superintendente, o honesto e teimoso Dale, foi o responsável pelo que aconteceu com Mathry, mas, na realidade, não foi ele e sim o tal Sprott muito vivo que liquidou Mathry. Ele é agora Sir Matthew, chegou quase ao topo da árvore e, certamente, ainda irá mais alto, mas, naquela ocasião, era um desconhecido que desejava, desesperadamente, vencer na vida. No mesmo instante em que eu o ouvi, logo percebi que ele queria enforcar Mathry...

"E então tudo começou. A acusação chamou todos os seus peritos. Só não chamou o Dr. Tuke, o médico que tinha visto o corpo em primeiro lugar. Além de Dobson, o legista da polícia, apresentaram um professor chamado Jenkins, e este disse que a navalha alemã poderia ter sido o instrumento do crime. Não poderia jurar que houvesse manchas de sangue nela nem mesmo nas roupas de Mathry, mas encontrara vestígios de corpos que poderiam ser corpúsculos da mama. Depois veio o perito em grafologia, e ele jurou que o bilhete meio queimado encontrado junto ao corpo fora escrito por Mathry, embora disfarçado com a mão esquerda. Quando Edward e Louise foram chamados para depor, ambos se excederam, especialmente Louise, com o seu rostinho inocente e olhos muito grandes que pareciam sinceros e que causaram uma tremenda impressão sobre os jurados. Ela se apresentou ali como um anjo e jurou: É o mesmo casaco. É esse homem aí. E então, referindo-se ao reconhecimento na polícia, ela ainda acrescentou com muito orgulho: Fui a primeira a reconhecê-lo.

"Depois veio a fala da Coroa. Durante três horas, Sprott deu tudo que tinha, falou sem uma só pausa e sem ler qualquer nota. As palavras lhe jorravam da boca e deixavam o tribunal numa espécie de fascinação, como se as pessoas estivessem hipnotizadas. Quando descreveu o crime, Deus do céu, ele não usou meias-palavras. Mostrou como o acusado, com a navalha escondida no bolso, atacara brutalmente sua amante indefesa, a mãe de seu filho que estava para nascer, a fuga desordenada e a tentativa para se esconder num país estrangeiro... Confesso que ele foi, realmente, magistral. O júri, de boca aberta, estava fascinado por suas palavras.

"O que disse depois o advogado de defesa tornou-se completamente inútil. Os recursos financeiros da defesa eram mínimos, o advogado era um velho que arrastava as palavras com uma voz muito fina e que desconhecia muitos pontos do processo. E especialmente ele parecia não se dar conta de muitas provas que poderiam ser favoráveis ao réu.

"Pois é... tudo estava logo acabado. Culpado. Os protestos de inocência do acusado me atravessaram como se fosse uma faca. Ele foi arrastado para fora e todo mundo parecia satisfeito. As quinhentas libras oferecidas como recompensa pela condenação foram pagas a Edward Collins e Louise Burt e só Deus sabe se eles a mereceram.

As forças do doente pareciam ter chegado ao fim e foi com voz exausta que ele disse não lhe ser mais possível continuar.

- Voltem outra vez dentro de uns dois dias e eu lhes contarei o resto.

Houve um silêncio longo e penoso naquele pequeno quarto. Mark Boulia levantou-se sem uma palavra, virou um pouco de água num copo que levou à boca de Swann. O doente engoliu sem fazer um movimento. Durante todo esse tempo, Paul estava ainda assombrado e segurava a cabeça com as mãos sentindo dentro dele desencadear-se uma tempestade de emoções. Tinha ainda, na ponta da língua, uma quantidade de perguntas, mas sabia que não podia fazê-las naquela entrevista que já considerava terminada. Swann tinha fechado os olhos e estava completamente inerte e incapaz do menor esforço. Quando Mark saiu do quarto na ponta dos pés, Paul levantou-se ainda meio tonto, apertou a mão do doente e depois saiu.

 

Seria possível que um homem inocente tivesse sido enterrado vivo durante 15 anos? Perturbado e confuso, completamente tonto, Paul nem mesmo tinha coragem para articular aquela pergunta terrível. Swann ainda não apresentara provas concretas e sim apenas sua própria opinião. Tudo aquilo parecia inconcebível, mas a simples possibilidade de uma tal monstruosa injustiça cometida contra seu pai era o suficiente para enlouquecê-lo. Ele não devia pensar naquilo. Resolveu controlar suas emoções e percebeu que, acima de tudo, ele precisava mostrar-se calmo, prático e resoluto.

A primeira coisa que fez foi escrever para casa pedindo roupas limpas e depois resolveu procurar um outro lugar para morar onde pudesse contar com mais liberdade de ação do que na A.C.M. Acabou descobrindo um sótão barato num quinto andar de uma casa de cômodos na Rua Poole, uma rua feia mas respeitável que ficava na margem do Canal Sherwood e que era principalmente ocupada por casas de cômodos baratas perto da Rua Ware, onde o tráfego era intenso. A senhora, cujo nome era Coppin, magra, pequenina e com voz muito aguda, levou-o para ver o quarto e deu-lhe um pedaço de sabonete e uma toalha muito áspera mas limpa. O pagamento adiantado do quarto praticamente exauriu o dinheiro que ele trouxera de Belfast, e então, depois de lavar-se, ele saiu à procura de alguma coisa que pudesse contribuir para seu sustento.

Wortley era uma cidade muito ativa, uma vasta colméia de atividades encravada numa área agrícola, mas, da mesma forma que as cidades vizinhas de Coventry e Northampton, tinha indústrias muito especializadas principalmente na fabricação de louças, cutelaria e artigos de couro, atividades essas que exigiam treinamento que ele não possuía. Também não era afiliado a nenhum sindicato nem tinha referências que pudesse exibir, já que ainda não se formara como professor. Passou dois dias sem nada conseguir, embora consultasse sempre a seção de classificados dos jornais.

Na manhã seguinte, no entanto, a sorte lhe sorriu. Quando saía do prédio onde morava, para caminhar na calçada cheia de gente da Rua Ware até uma lanchonete que descobrira e onde era muito barato um sanduíche com café, ele viu, colado na vitrina de uma grande loja chamada The Bonanza Bazaar, um papel dizendo:

Precisa-se de um pianista

Procurar o Sr. Victor Harris aqui na loja

Depois de um momento de hesitação. Paul entrou na loja. Era um desses empórios que vende tudo que se possa imaginar para necessidades caseiras. Havia ali ferragens, produtos de beleza, roupas de baixo e brinquedos de crianças, e tudo ficava exposto ali em cima dos balcões ao alcance dos fregueses. O gerente era um homem de uns 30 anos, muito bem penteado, de maneiras delicadas e fala macia. Olhou rapidamente para Paul e depois levou-o para uma seção da loja onde havia um piano comum no meio de uma porção de partituras. O homem trajava um jaquetão listrado e a gravata florida esvoaçava com o vento dos ventiladores. Apanhou uma das partituras, sem escolher, e colocou-a no piano.

- Toque!

Paul sentou-se no banquinho e correu os dedos pelo teclado. Ele sabia interpretar, à primeira vista, e sem dificuldade, as músicas mais difíceis e aquela valsa popular ali na sua frente era a própria simplicidade em pessoa. Tocou-a toda primeiro e depois repetiu-a com algumas variações improvisadas. Apanhou outras músicas e tocou-as todas. Antes que ele acabasse já as moças das outras seções estavam prestando atenção e o próprio gerente acompanhava o compasso batendo no balcão com seu anel. O homem fez com a cabeça um sinal de que estava satisfeito.

- Está bem. Você serve. O emprego é seu. Três libras por semana e um sanduíche para almoço. Só quero que toque sem parar. Se isso acontecer, logo estará na rua. E use sempre o pedal para o maior volume. Isso ajuda as vendas.

Dispensou para Paul um sorriso protetor, deixando ver um dente de ouro e depois, fechando a cara para as moças que estavam ouvindo, foi-se embora.

Paul tocou durante todo o dia. Aquilo não era uma sinecura. Ele começou com muita disposição, mas, com o correr das horas, seus músculos começaram a doer por estar ali sentado no banco duro do piano. Quando a loja mal ventilada se encheu, a multidão que o cercou, acotovelando-se e apertando-o, com alguns quase sentados no teclado, passou a ser um sacrifício para ele. E, além disso, seu espírito estava sempre em ebulição, vergastado por pensamentos sobre seu pai e por planos e projetos malformados, sentindo a necessidade de se resolver quanto ao que devia fazer.

Por volta de uma hora, o gerente Harris saiu para o almoço e logo depois veio uma moça trazendo café e um prato com sanduíches para Paul. Satisfeito com aquela folga, ele se levantou, estirouse e, com um sorriso, perguntou-lhe o nome. Ela respondeu secamente que era Lena Andersen, e quando ele pensou que poderia trocar algumas palavras ela logo se virou e foi-se embora. Não havia nenhuma indelicadeza naquela sua atitude de reserva, mas, por baixo da superfície daquele seu procedimento, ele sentia um certo constrangimento que logo lhe despertou a curiosidade, apesar de seus próprios problemas. E depois, quando ela voltava para a lanchonete, ele, quase instintivamente, olhou na sua direção antes de começar a tocar novamente.

Ela não podia ter mais de uns 20 anos e ele tinha a impressão de que era um tipo escandinavo. Era alta, mnito loura e com pernas compridas. Seus traços eram regulares e, embora prejudicados por uma fina cicatriz branca que riscava seu rosto desde a orelha, ela poderia ser considerada bonita, se não fosse uma espécie de expressão melancólica. Aliás, quando estava descuidada, seu rosto mostrava uma tristeza fora do comum, um olhar distante, concentrado e sério. Várias vezes, naquela tarde, os olhos de Paul, quase contra sua vontade, eram atraídos por aquela trágica amazona ainda bem jovem. Reparou que usava seu uniforme demonstrando bom gosto e sempre muita calma. Embora parecesse ter boas relações com os outros empregados, ela não se misturava com eles. Até mesmo com os seus fregueses regulares, com algumas poucas exceções, a jovem mostrava-se sempre reservada e distante. Que espécie de pessoa seria aquela moça? Paul tentou dirigir-lhe um olhar amistoso que foi ignorado, e ela até mesmo baixou a cabeça virando-a para o outro lado.

A tarde custou a passar. Ele fechou os olhos enquanto seus dedos martelavam uma melodia que já conhecia de cor por havê-la tocado um sem-número de vezes. As seis horas chegaram, afinal, e ele soltou um suspiro, de alívio, quando viu que estava livre. Saiu correndo da loja e foi direto ao hospital, onde, depois de alguma dificuldade, conseguiu ser admitido para falar com Swann. Ele parecia pior e também não se mostrava muito disposto a conversas. Aliás, Paul tinha a impressão de que ele já estava arrependido por haver falado tão francamente na véspera. Paul ficou ali sentado ao lado de sua cama, mostrando muita paciência e sem forçá-lo de forma alguma, e então, aos poucos, o doente foi-se tornando mais acessível. Voltou a cabeça e ficou olhando Paul como se sentisse pena dele. Afinal, resolveu falar.

- Então você voltou, hem?

- Sim - respondeu Paul numa voz muito baixinha.

- Quero avisá-lo... se você persistir, isso vai transformar toda a sua vida... Foi o que aconteceu comigo. E lembre-se de que depois de começar não poderá mais recuar.

- Não vou recuar nem desistir.

- E então, como quer fazer para começar?

- Pensei em bater à máquina uma declaração para o senhor assinar e que eu levaria às autoridades...

Swann não tinha mais condições para rir, mas foi sacudido por um tremor sardônico.

- Que autoridades? A polícia? Mas ali todos já estão muito bem informados e estão satisfeitos com o estado das coisas. O homem que fez a acusação em nome da Coroa, Sir Matthew Sprott? Conheço pessoalmente esse cavalheiro e meu conselho é no sentido de que não se meta com ele. - O enfermo foi obrigado a interromper por causa de um acesso de tosse. - O Secretário do Interior, no Parlamento, é o único que tem o poder de reabrir o caso, e você nunca poderia nem mesmo chegar a um quilômetro de distância dele com as provas que possui agora. Achariam que você estava apresentando provas fornecidas por um antigo policial desacreditado, num delírio de moribundo. Provas que não valiam nada. Simplesmente ririam na sua cara.

- Mas o senhor acredita na inocência de meu pai?

- Claro que acredito. Sei que é inocente. No resumo que fez no julgamento, o juiz disse que aquele crime era vil, brutal e monstruoso e que, por isso, deveria ser punido com a pena capital, mas, ainda assim, eles comutaram a sentença. E por quê? É o que eu lhe pergunto. Por quê? Talvez, afinal de contas, não tivessem certeza quanto à culpa do homem condenado e então, num gesto de generosidade, para mostrar seus bons corações, eles não o enforcaram logo. Preferiram condená-lo à morte lenta em Stoneheath.

Paul ficou ali sentado e apalermado, sem dizer palavra, enquanto o doente se esforçava para controlar a respiração, e logo depois continuar falando secamente e de forma muito diferente.

- Não. Existe apenas uma forma para obrigá-los à reabertura do caso. Você terá que descobrir quem foi o verdadeiro assassino.

Aquilo apanhou Paul desprevenido e ele sentiu um calafrio correr-lhe pela espinha. Até ali, ele vinha pensando somente na inocência de seu pai, e aquela outra alternativa só lhe ocorrera muito por alto. Aquilo era como se uma nova e formidável sombra se atravessasse no seu caminho. Depois de um silêncio prolongado, ele afinal falou

- E esse cara, o Rocca? O que acha dele? Swann sacudiu a cabeça como se sentisse nojo.

- Ele nada teve a ver com o crime. Não teria coragem suficiente para tanto. É um pulha que só queria salvar a própria pele. E por falar em pele... - O doente fez uma careta. - Voltamos à bolsa que foi encontrada junto ao corpo. Acredite ou não, aquela bolsa era coisa fina, feita com o melhor couro que existe neste mundo... Era de pele humana curtida...

Houve um momento de silêncio absoluto, e depois Swann continuou com o mesmo amargor satírico.

- Por aí você pode ver. É só botar a mão num tarado com gosto para possuir uma coisa assim. Depois estabeleça uma ligação entre ele e umas outras coisinhas que foram esquecidas... e então você terá o assassino. Depois de quinze anos, isso deveria ser relativamente fácil... - Mais uma vez, seu rosto mostrava um tremor sardônico.

- Não faça isso! Pelo amor de Deus! Preciso de sua ajuda! A expressão no rosto de Swann transformou-se e ele olhou para Paul quase com desânimo.

- Bem... já que você insiste... vou contar-lhe mais algumas coisas a respeito das duas testemunhas principais... aquelas que identificaram o homem errado em lugar do certo... Edward Collins e Louise Burt.

"Quando os dois chegaram à delegacia para receber a recompensa, era eu quem estava de plantão. Como já lhe disse antes, eu tinha dúvidas a respeito daquela dupla, dúvidas muito sérias. Elas não eram tantas a respeito de Edward que era apenas um bom rapaz, tolo mas com boas intenções, mas a moça, apesar de ter apenas dezessete anos, já me parecia diferente... eu achava que seria bom mantê-la de olho... Mandei que os dois entrassem numa salinha ao lado e, enquanto trabalhava, ouvia bem o que eles diziam já que aquela sala fora preparada para isso. Fui anotando tudo que os dois diziam. Logo de saída eles falaram pouco. Depois, o rapaz, que parecia apavorado, falou Será que vamos mesmo receber o dinheiro? Claro que vamos, Ed, não se afobe... A voz dela era fria como você nem pode imaginar. Nós ainda poderíamos ter feito melhor, Ed. O que você quer dizer com isso? Ela deu uma risadinha. Tenho uma coisinha escondida na manga do casaco que vai deixar você espantado, Ed. Aquilo pareceu chatear Edward. Ficou calado durante algum tempo, mas depois falou como se fosse um papagaio, como se estivesse repetindo alguma coisa já ouvida muitas vezes: Foi o Mathry mesmo, não foi Louise? Cale essa boca, Ed. Agora já é tarde demais para recuar. Nós não prejudicamos ninguém... Com todas aquelas provas, Mathry estaria encrencado de qualquer maneira. E, afinal de contas, ele não foi enforcado. Pois então você não sabe, seu paspalhão, que a gente nunca deve ser contra a polícia. Além disso, o resultado de tudo isso pode ser muito melhor do que você jamais sonhou em sua vida. Nestes últimos dias eu percebi certas coisas, ela estendia naquilo como se estivesse mesmo sonhando. Eu ainda vou ter uma vida de grande dama, Ed. Talvez viva como uma rainha, com criados para me servirem e para lavarem os pratos e as latrinas. Dê-me só uma chance e eu cuspirei no mundo inteiro, e nunca mais passarei a ferro uma camisa.

Swann fez uma pausa porque já sentia fata de ar, mas quando recomeçou estava olhando Paul bem de frente.

- Aquilo foi o fim da conversa, mas eu já ouvira o bastante para confirmar minhas piores suspeitas. Louise Burt, afinal, confessara tudo. Ela tinha visto o assassino e tinha feito sua descrição, mas quando viu que não combinava com Mathry, ela logo resolveu mudar de depoimento. Sabia que iria haver muitas perguntas na polícia e queria ficar por dentro, já que tudo mais apontava Mathry como o culpado. Ela queria ficar bem com as autoridades e queria ser a prima-donna do show e também, naturalmente, queria receber a recompensa prometida. Edward agira sob sua influência. Ela até mesmo talvez já estivesse convencida que tinha sido Mathry... Isso pode acontecer com gente dessa laia. E então, quando tudo acabou, depois das manchetes, da publicidade, dos elogios, de toda a palhaçada em suma, e quando parou para pensar, ela começou a imaginar sobre as coisas que não haviam vindo à luz no tribunal e a perguntar a si mesma se, afinal, não teria sido uma outra pessoa que já vira antes, que conhecia bem, nas suas andanças a serviço da lavandaria. E então, de repente, ela lembrou-se... ocorreu-lhe uma possibilidade sobre quem poderia ser o cara... havia uma possibilidade... e ela percebia que a fortuna lhe batia à porta.

"Eu deveria ter falado com o chefe sobre isso, mas não falei... Já o havia chateado muito no começo do processo e ele não me iria ouvir, quando tudo estava acabado. Além disso, ele me fizera uma advertência dias antes a respeito de serviço e nós não nos víamos com bons olhos. Então, durante algum tempo, fiquei ruminando tudo sozinho até que me resolvi a procurar um advogado chamado Walter Gillett, um bom advogado e uma pessoa que eu apreciava muito e em quem também confiava. E tenho certeza que ele também gostava de mim. E o que você acha que ele me aconselhou a fazer? Ele me disse que ficasse afastado e que não me metesse naquilo. Ele sabia que eu já não era bem-visto na polícia. Sabia que eu andava bebendo e então é possível que não acreditasse muito nas novas provas que eu descobrira. Suas palavras foram: Jimmy, não vá mexer em casa de marimbondos. E o que foi que eu fiz? Eu vivia sob uma tensão tão tremenda, andava tão confuso, que resolvi tomar um porre, cheguei embriagado ao serviço e... bem... você sabe o que aconteceu. Depois que saí da prisão, eu não queria mais saber de nada...

As palavras dele tinham-se tornado cada vez mais baixas e as últimas quase não podiam ser ouvidas. Depois, um forte acesso de tosse o interrompeu, e ele ficou calado. Fez um gesto mostrando que nada mais tinha a dizer.

Rígido e emocionado, Paul rompeu o silêncio.

- E eles ainda andam por aqui, Edward e Louise?

- Você não vai poder falar com Edward. Ele se casou há alguns anos e emigrou para a Nova Zelândia. Mas a Louise ainda anda por aqui... Louise... a pequena Louise... meu Deus! Ela não presta mesmo, mas é também a chave para todo o enigma... A probabilidade é de uma em um milhão de você conseguir tirar alguma coisa dela.

- E onde é que posso encontrá-la? - indagou Paul.

- Ela trabalha para uma família muito respeitável e isso é mais uma prova de sua capacidade para enganar as pessoas decentes...

Ele meteu a mão embaixo do travesseiro e tirou de lá um pedaço de papel com umas coisas escritas e entregou-o a Paul sem dizer palavra.

- Eis aí. Mas não acho que isso possa ajudá-lo. Agora, deixe-me em paz. Já fiz muito por você e não vou fazer mais nada. Não me sinto nada bem e quero dormir um pouco.

Ele deitou-se de lado e puxou a coberta até o queixo, mostrando que a entrevista terminara.

Paul levantou-se e, quando falou, sua voz estava carregada de emoção.

- Muito obrigado. Eu voltarei em breve...

O rapaz olhou mais uma vez para aquele homem que ali estava arrasado mas impassível e depois fez meia-volta e saiu. Ao descer as escadas, seu coração estava aos saltos, cheio de novas esperanças. Recebera de Swann uma ajuda que estava além de todas as suas melhores expectativas. No entanto, de uma certa forma, ele não conseguia livrar-se da impressão que sentia. Aquele homem doente ainda estava escondendo alguma coisa, algo que não queria revelar, e era até possível que tivesse medo de fazê-lo. Garantiu a si mesmo que descobriria aquilo na sua próxima visita ao hospital.

 

Na noite seguinte, depois do trabalho, Paul encontrou-se com Mark do lado de fora do Bonanza, já que o rapaz havia telefonado para ele na parte da manhã daquele dia. Mark demonstrava prazer em encontrá-lo e depois de se apertarem as mãos, exclamou com entusiasmo.

- Vamos começar esta noite!

- Vamos sim, Mark, mas primeiro vamos comer alguma coisa?

- Não para mim, obrigado. Já comi às cinco horas. E você?

- Eu estou bem...

- Eu mal conseguia me conter depois que telefonei para você, Paul. Agora conte-me esse negócio da Louise Burt.

Mark mostrava-se aflito e falava nervoso enquanto caminhavam pela calçada cheia de gente.

Paul estava calado. O temperamento exaltado do amigo, e sua tendência para tratar daquilo sem lhe dar muito valor, como se fosse apenas uma alegre aventura, fazia com que ele se perguntasse se andara certo quando o convidara para acompanhá-lo, mas, por outro lado, ele se sentia obrigado, já que o outro lhe prestara um grande favor e com isso não podia recusar sua companhia. Então, depois de alguns instantes, ele resolveu responder à pergunta.

- Louise está empregada como doméstica. Parece que as coisas não lhe correram bem. Esta é a sua noite de folga. Eu sei, mais ou menos, qual é a sua aparência e onde podemos encontrá-la.

- Bom trabalho, Paul. E como foi que você deixou Swann? Paul sacudiu a cabeça e olhou-o de lado. Mark perdeu logo todo

o seu entusiasmo, mas perguntou baixinho.

- Está pior?

- Passei no hospital na hora do almoço, mas ele não podia receber visitas. Parece que estava pior...

Depois disso, eles atravessaram o parque em silêncio, passando pelo coreto da banda que ficava fechado no inverno e que ali, na luz crepuscular, tinha uma aparência fantasmagórica com o lago ornamental ao lado e no alto do aclive estava a Galeria Municipal de Arte e o Museu de História Natural. Estavam agora em Brimlock Hill, um dos melhores bairros da cidade, cheio de belas mansões e cercado de alamedas de castanheiros muito altos. Junto da área residencial havia, no entanto, estranhos sobreviventes de outros períodos com ruas transversais calçadas de pedra e becos modificados com algumas lojas e uma taverna chamada The Royal Oak. Logo que viu a tabuleta, Paul falou para Mark.

- É aqui. Lembre-se de que precisamos ser cautelosos. Se não souber o que dizer, o melhor mesmo será ficar calado.

Atravessaram o beco na direção da luz amarela que vinha das janelas e empurraram a porta de mola da taverna.

O salão era velho e bonitinho, forrado de veludo manchado e com lâmpada em cima das mesas já bem usadas, e nas paredes havia reproduções de quadros de corridas ao passo que por trás do bar havia um espelho quebrado com moldura dourada. O salão estava começando a encher com os fregueses da noite, quando Paul encaminhou-se para uma das mesas de carvalho escuro. Sentou-se e pediu duas cervejas, e depois olhou em torno com cuidado para não despertar atenção.

- Ainda não chegou. Talvez esta não seja nossa noite de sorte, Mark.

Mal tinha acabado de falar quando a porta de vaivém se abriu para dar passagem a uma mulher que caminhou com o desembaraço de uma habitue e para um dos reservados num canto. Paul desconfiou logo, com um aperto no coração, que aquela era a Louise Burt que ele procurava. Devia andar pelos 30, mas já estava gorda, com ancas largas e busto farto. Estava com um vestido de fazenda barata, tinha luvas amarelas e carregava uma bolsa de fantasia. Ela era, na verdade, tão completamente comum, tão obviamente uma criada doméstica na sua noite de folga que Paul se sentiu momentaneamente confundido apesar de seu coração estar batendo em ritmo bem acelerado.

A mulher sentou-se, pediu uma dose de gim e, depois de haver mexido na bolsa, olhou em torno do salão. Quando seu olhar cruzou com o de Paul, o rapaz sorriu, mas a mulher logo virou o rosto como se estivesse insultada. Mas, dois minutos depois, ainda com um ar ofendido, ela tornou a olhar na sua direção. Paul levantou-se então e foi até à sua mesa. Nada era mais estranho para seu caráter do que aquilo que estava fazendo, mas, com uma nova maturidade, saiu-se muito bem. Falando com facilidade e exibindo grande delicadeza, como exigia a ocasião, ele abriu o jogo.

- Boa noite... Houve uma pausa.

- Está falando comigo?

- Estou sim. Se estiver sozinha, quem sabe a gente poderia se juntar para beber alguma coisa...

- Não. Não estou sozinha. Estou esperando um amigo.

- Mas que pena!

- Claro que ele talvez não venha esta noite... quem sabe vai trabalhar até tarde. Ele é um cara muito importante.

- Então é bem provável que não venha mesmo. E assim, o que ele perde nós ganhamos. Quer beber alguma coisa?

- Não. Realmente não quero. Não sou dada a bebidas. Mas já que você insiste...

Paul fez um sinal a Mark, por cima do ombro, e ele logo veio trazendo os dois copos.

- Dá licença para eu lhe apresentar meu companheiro?

- Muito prazer em conhecê-lo. Esqueci meus cartões de visita, mas o meu nome é Louise Burt.

Quando os dois se sentaram a seu lado, ela afastou-se um pouco e ajeitou a saia como se fosse uma senhora. Depois, curvando o dedo mínimo, esvaziou o copo.

- Agora é a minha vez. O que vai ser?

- Olhe que eu nem estava pensando nisso. Pode ser um gim. Mark sorriu.

- Foi o que desgraçou minha mãe - disse Mark, rindo.

Ela não retribuiu o sorriso. Seus olhos azuis de boneca estavam fitos neles como se quisesse descobrir quem eram. Tinha o rosto pálido e a pele grossa muito empoada com um nariz arrebitado. Suas bochechas gordinhas, como de criança, chupadas nos cantos da boca, davam a seus lábios finos e úmidos uma estranha espécie de sorriso já que a sua expressão era completamente desprovida de graça. Quase não tinha testa.

Logo que o gim dela chegou, Paul levantou seu caneco de cerveja.

- À nossa saúde! Boa sorte para todos. Mark retomou a palavra.

- Vocês sabem como é. Não há nada melhor do que uma noite em boa companhia. Entre bons amigos... A gente sente-se mais animado. É uma fuga da velha rotina...

- Preciso voltar para casa às nove horas... Esta noite eu não posso ir a lugar nenhum. - Foi com a dignidade de mulher que ela falou isso muito séria.

- Não faz mal - disse Paul, alegre. - Na próxima vez teremos mais sorte. Já então seremos velhos conhecidos...

Ela olhava para os dois como se estivesse de acordo.

- Estou vendo que são mesmo uns cavalheiros. A gente sempre encontra alguns que querem andar depressa demais, e chegam mesmo a ser cruéis. - Voltou-se para Paul. - Será que já não o vi em algum lugar?

- Acho que não. Infelizmente...

- Isso é um prazer que ele ainda não teve - falou Mark, rindo.

Mantendo-se sempre alerta, Paul não deixava morrer a conversa e explorava a vaidade da mulher, aceitando seus modismos e suas explicações. Dizia-se governante de uma grande mansão em Brimlock Hill. Depois de alguns drinques, ela já não se mostrava mais tão precavida e já exibia um ar mais agradável, mas então, de repente, seus olhos já vidrados foram invadidos por uma onda de sentimentalismo barato.

- Sempre é muito agradável a gente conhecer perfeitos cavalheiros. Vocês não são como alguns que eu poderia mencionar, mas que não menciono porque esse não é o meu feitio, já que sou uma senhora. Tive uma educação muito severa, sabem. Fui educada num convento de freiras na França. Aquilo lá era mesmo muito bom, muito sossegado e as freiras eram encantadoras. Elas mimavam-me demais. Era Louise pra lá e Louise pra cá a toda hora. Especialmente da parte da Madre Superiora que fazia tudo por mim, desde o café da manhã servido na cama até as rendas feitas à mão em todas as minhas camisolas. É claro que o fato de eu ser meio francesa também ajudava muito. Elas todas sabiam o que eu poderia ter sido, se os meus direitos não tivessem sido usurpados e talvez elas desconfiassem das desgraças que ainda iam desabar em cima de mim. Vocês se surpreendem comigo? - Ela parou e ficou olhando para eles com os olhos úmidos.

Paul sacudiu a cabeça gravemente, ao mesmo tempo que pensava consigo mesmo jamais haver esperado, em sua vida, encontrar uma mentirosa nata tão completa e perfeita.

A mulher segurou-lhe o braço com força.

- Vocês nem podem imaginar tudo o que sofri! Meu pai era do Exército, não do Exército da Salvação, do Exército mesmo. Era coronel. Era um bruto que espancava minha mãe, especialmente quando voltava para casa embriagado, nos sábados à noite. Eu sentia desejos de fugir de casa. O palco sempre foi a minha maior ambição. Queria que todo mundo me visse e me admirasse. Só pensava nessa oportunidade...

- E ela apareceu? - disse Mark, interessado.

Ela sacudiu a cabeça e seus cílios longos esconderam um lampejo de tristeza.

- Aconteceu uma coisa... Mas eu fiz o que era certo, sabem ? Eu só disse a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade, em nome de Deus. E qual foi a minha recompensa? Umas poucas pratas que só me duraram uns seis meses.

Paul concordou com uma amargura fingida.

- É sempre assim... você pratica uma boa ação e nem mesmo lhe agradecem.

- Eu não queria agradecimentos. - Ela se mostrou indignada. - Só queria que reconhecessem os meus méritos... queria o meu lugar. Nunca esperei que viria a ser uma cri... quero dizer uma governante, para o resto de minha vida.

Paul ainda teve juizo e ficou calado, mas Mark não se conteve e se inclinou para a frente.

- E por que não conta para nós o que aconteceu? Quem sabe a gente poderia ajudar?

Seguiu-se uma pausa. Paul mordeu o lábio e baixou os olhos. Ela olhou para Mark e, de repente, pareceu dar-se conta do que estava fazendo. A vermelhidão da indignação desapareceu de seu rosto e ela olhou para o relógio que estava em cima do bar. Esvaziou o copo e levantou-se.

- Estão vendo que horas são ? Preciso ir andando...

Paul conseguiu esconder seu desapontamento, ajudou-a a juntar suas coisas e acompanhou-a até a porta depois de pagar a despesa. Já lá fora, ele olhou para o céu.

- Está uma noite tão bonita! Será que não poderíamos acompanhá-la até em casa?

Ela hesitou um pouco, mas depois, não de muito boa vontade, acabou concordando.

- Está bem, mas será só até o portão... Lembrem-se disso.

Saíram da rua calçada de pedras e seguiram pela estrada deserta. Louise ia entre os dois, caminhando com cuidado por causa dos saltos altos do sapato. Mais do que nunca, Paul fazia o possível para se mostrar amável. Logo chegaram a uma avenida larga, ladeada por árvores altas e cheias de residências bonitas no meio de grandes jardins. Quando chegaram na frente da última casa, Louise parou.

- Muito bem. Aqui estamos...

- Mas que linda mansão! - falou Paul.

- É mesmo. - Ela pareceu satisfeita com o elogio. - Pertence aos Oswalds... gente muito fina.

- Sim, sim. Naturalmente. Será que poderemos nos encontrar outra vez na próxima quarta-feira?

Ela hesitou, mas foi só por pouco tempo.

- Está bem. À mesma hora lá no bar.

- Esplêndido!

Paul tirou o chapéu com muita cortesia e estendeu a mão. No mesmo instante, a porta da frente da casa abriu-se e um senhor idoso saiu fumando um charuto, com algumas cartas na mão e sem chapéu. Foi até o portão e abriu-o, encaminhando-se para a caixa do Correio que ficava na estrada. Ali naquela escuridão era quase impossível ver-lhe o rosto claramente, mas Paul percebia que ele tinha um ar abstrato e uma expressão benevolente, e também via que seus cabelos eram prateados. Quando passou pelo grupo, ele viu que era a Louise e, com uma voz muito agradável, cumprimentou-a.

- Boa noite, Louise.

- Boa noite, senhor. - A resposta foi dada numa voz humilde, numa mudança de tom para um servilismo respeitoso que era quase cômico.

Depois que ele se afastou, deixando para trás um cheiro agradável do charuto, Louise despediu-se muito encabulada. Após atravessar o portão, ela tomou o caminho da entrada de serviço que ficava à esquerda e logo desapareceu por detrás de uma moita de louro. Quando iam voltar, os dois ainda escutaram a porta de serviço bater.

Durante uns cinco minutos, eles caminharam de volta em silêncio e foi Mark quem o quebrou.

- Desculpe, Paul. Ela ia começar a falar... e eu fiz com que ela se fechasse como uma concha.

A única resposta de Paul foi apertar os lábios.

 

Quando Paul subiu para seu quarto já eram quase 11 horas, mas ele não conseguia dormir. Andava de um lado para outro no quartinho muito apertado quase não ouvindo através das paredes muito finas os ruídos noturnos dos outros inquilinos. Havia um indiano, estudante de medicina que estava com o rádio ligado no andar de baixo; James Crocket, um contador que escovava seus sapatos e assobiava uma música triste no quarto ao lado; e o velho Garvin, um leiloeiro aposentado que descia a escada para encher sua moringa. Paul lutava com a excitação que lhe causara aquela noite.

Despiu-se afinal, e caiu na cama. Dormiu mal porque seus pensamentos ainda estavam em ebulição e os nervos achavam-se tensos e bem afinados para a ação. Ficou satisfeito quando o primeiro clarão da madrugada chegou até seu quarto, através das frestas da janela.

Durante todo o dia, na loja, mostrava-se cansado e preocupado. Quando Lena chegou com o almoço, ele comeu os sanduíches sem mostrar o apetite de costume. Ela devia ter notado porque, com um ar sério e impessoal, perguntou-lhe se o presunto não estava bom.

Aquilo despertou-o de sua abstração, e o rapaz levantou os olhos procurando sorrir.

- Está até muito bom. O caso é que hoje não estou com fome. Você se mostra muito agradável comigo. Sei que Harris me disse que eu poderia comer alguma coisa, mas você sempre me aparece com um verdadeiro almoço...

- Também não é tanto assim. Os sanduíches não são assim tão bons, mas quero crer que você tem um bom jantar à noite.

Paul não quis contradizê-la. A despeito do peso de todas as suas preocupações, ele gostava da maneira como a moça ficava ali conversando, não com muita vontade, mas com uma espécie de tensão dolorosa que se manifestava contra a vontade dela. Talvez fossem os olhares silenciosos dele, aos quais já se acostumara, os responsáveis pela mudança de atitude. Aquilo era como se ambos se dessem conta da mútua condição de solidão e então resolviam conversar.

- Você mora sozinho, não é mesmo?

- Moro sim. E você?

- Não. Eu não. Tive muita sorte. Moro num lugar agradável. Tenho quarto e sala na casa de uma amiga em Ware Terrace.

- Puxa vida! É quase um paraíso!

Ela sacudiu a cabeça e desviou os olhos. Eles eram castanhos escuros e pareciam exprimir o desejo e os encargos da vida.

- Eu posso me dar a esse luxo. Trabalho duro mesmo. Muitas vezes vou servir em banquetes públicos à noite, onde pagam bem.

- Quer dizer que nunca sai para dançar ou para ir ao cinema, como fazem as outras moças? - indagou Paul, curioso.

- Não - ela deu de ombros. - São coisas que não me interessam.

Ela ficou ali, de pé, com um olhar perdido mas logo em seguida apanhou a xícara vazia, sorriu e voltou para a lanchonete.

Aquelas conversas dos dois não tinham passado despercebidas por algumas outras garçonetes muito vivas, e então, quando ela voltou para o balcão, e como havia pouco movimento, uma das mais moças, chamada Nancy Wilson, cutucou sua companheira. Ela era uma garota muito viva, produto das sarjetas da Rua Ware, que ostentava um cinto vermelho por cima do uniforme e botas de cano alto. Fez um aceno leve com a cabeça.

- Está vendo aquilo? Lena teve hoje uma longa lição de música.

- Dó, ré, mi! - cantarolou a outra.

Uma outra abriu-se num largo sorriso e gritou.

- Oi, Lena! Você está querendo arranjar um afinador para o seu piano?

Todo mundo riu, e Nancy tentou melhorar a piada.

- Cuidado, Lena. Você sabe como é. As que são mordidas uma vez ficam duplamente tímidas...

Seguiu-se um silêncio incômodo. As moças voltaram ao trabalho e algumas olharam zangadas para Nancy. Lena parecia nem mesmo ter ouvido e apanhou uma nota começando a somar as parcelas. Ela tinha sempre uma resposta pronta para aquela espécie de brincadeira, mas continuou calada naquela ocasião.

Paul ficou imaginando o que estaria acontecendo, mas logo esqueceu daquilo. Ele, na realidade, estava sempre num tenso estado de expectativa e não conseguia pensar em outra coisa que não fosse seu próximo encontro com Louise, e chegava, até mesmo, a contar os dias da semana.

Chegou afinal a esperada quarta-feira, e ele ficou ainda mais tenso pensando no que iria acontecer. O dia custou muito a passar. Tinha combinado o encontro com Mark na frente do Bonanza às sete horas, e quando a loja fechou foi um dos primeiros a sair. Como Mark ainda não houvesse chegado, ficou esperando junto a um poste.

Paul sentia-se desanimado, mas ainda não se sentia derrotado. Custasse o que custasse, ele pecisava falar com Louise.

A noite estava seca e fresca com uma escuridão que se tornava mais suave e luminosa por causa das estrelas. Havia uma promessa de geada; o céu estava muito limpo e as folhas secas no chão estalavam sob os seus pés, quando Paul voltou para a frente da casa. Ali, numa janela muito iluminada, cujas cortinas não tinham sido corridas talvez devido à beleza da noite, Paul viu o dono da casa, aquele mesmo que já vira antes, e que tinha a seu lado uma senhora idosa, com expressão de bondade e que, provavelmente, era sua mulher. Havia ainda um outro casal que, provavelmente, ali estava de visita, na sala mobiliada com sobriedade. Todos estavam com trajes a rigor. Protegido pelos arbustos, Paul ficou contemplando aquela cena cheia de dignidade e graça, tão diferente da paixão desordenada que sentia dentro do peito. Viu que havia ali uma mesa de bridge. Pela forma lenta e despreocupada como corria o jogo, com as risadas e conversas, aquilo iria acabar muito tarde, mas ele estava preparado para uma longa espera.

De repente, na sombra, ele ouviu passos pesados e, voltando-se, deu de cara com um policial.

 

- O que você está fazendo por aqui?

Ao ouvir as palavras do policial, Paul ficou gelado e, por um instante, chegou a pensar em fugir, mas conseguiu conter-se.

- Eu queria falar com uma pessoa da casa...

- E é assim que você faz suas visitas? Escondendo-se atrás de uma moita no escuro?

- Eu não estava escondido.

- Claro que estava. Eu o venho observando desde que chegou. Chamo a isso vagabundagem com más intenções...

- Não. Não... Posso explicar-lhe tudo direitinho, se o senhor quiser me ouvir.

- Pois então venha explicar ao sargento na delegacia. É melhor não tentar resistir.

Com a cara amarrada, Paul ficou olhando o policial uniformizado que estava ali na sua frente. Aquilo era a pior desgraça que lhe poderia acontecer. Nada mais podia fazer senão submeter-se. Seguiu em silêncio ao lado do policial.

Foi uma longa caminhada pelas ruas iluminadas e cheias de gente até o centro da cidade. Paul percebeu logo que não estava sendo levado para a delegacia local que era ali perto. Afinal atravessaram uma porta em arco iluminada por uma lâmpada azul e quadrada e entraram na sala da Chefatura de Polícia de Wortley.

Era uma sala pequena e bem iluminada que tinha uma janela com grade, duas portas, sendo que uma delas tinha uma pequena grade quadrada e dois bancos encostados às paredes. Por detrás de uma mesa alta, com a túnica desabotoada, escrevendo laboriosamente, como se fosse um menino fazendo seus deveres num caderno, achava-se um sargento grandalhão, de rosto muito vermelho e cujo nome estava ali bem à vista na folha de ocorrências. Chamava-se Jupp. Tinha a aparência de um taverneiro do interior. Cabeça quadrada, cabelos ralos e untados, divididos ao meio e que brilhavam embaixo da lâmpada de um abajur verde.

Manteve Paul ali diante dele durante uns cinco minutos, enquanto botava o pingo no último "i" e cruzava o último "t" de forma satisfatória, e então levantou os olhos, virou a página e, finalmente, falou.

- Muito bem. Agora vamos ver o que temos aqui... Obedecendo à rotina e de forma quase perfunctória, Jupp foi

anotando os detalhes que lhe fornecia o subordinado, retorcendo a ponta do bigode e olhando calmamente para Paul de tempos em tempos pelo canto dos olhos. Finalmente, apontou com a ponta da caneta para o banco.

- Acho que o chefe vai querer ter uma conversinha com você. Fique aí sentado e espere que eu chame.

Paul fez o que lhe era mandado, mas já então ele tinha a certeza que sua prisão não fora apenas um acidente, e que sua presença ali fazia parte de um plano mais amplo. Ficou sentado cerca de meia hora. Durante esse tempo, passaram por ali dois marinheiros embriagados que pareciam ter rolado em todas as sarjetas da cidade e uma pobre criatura com uma triste cara e com a pena do chapéu quebrada. Era uma vagabunda acusada de estar procurando homens. Os três foram levados pela porta com grade à esquerda. Quando a porta se abriu, veio de lá uma catinga de humanidade suja um pouco diminuída mas não completamente eliminada pelo cheiro de desinfetantes.

Afinal, o sargento fez um sinal a Paul e ele levantou-se para acompanhá-lo, passando por um corredor à direita. Abriu-se então uma outra porta, protegida por uma cortina, e Paul encontrou-se num gabinete confortável, com poltronas de couro e uma grande mesa de mogno além de um armário grande com portas de vidro cheio de taças e troféus. As paredes estavam cheias de fotos emolduradas das equipes de atletismo e de futebol da polícia e uma vitrina com uma coleção de armas antigas. O chão era coberto por um espesso tapete vermelho.

Paul, no entanto, não se deixou impressionar muito com tudo aquilo já que toda sua atenção era dirigida para o homem que estava sentado do outro lado da mesa. Reconheceu-o imediatamente pelas fotos que já vira, e sabia que estava na presença de Adam Dale, o Chefe de Polícia de Wortley.

- Sente-se aí, meu filho. Esta poltrona é bem confortável.

A voz muito calma, mostrando uma amizade calorosa, foi, para Paul, um verdadeiro choque, e ele deixou-se cair na poltrona que lhe era indicada. Não conseguia desviar os olhos de Dale.

O Chefe de Polícia era agora um homem de uns 55 anos e já havia talvez chegado ao ponto mais alto de sua força física. Era uni Homem grandalhão, pescoço taurino e braços tão grossos como as coxas de qualquer homem normal. Ali não havia gordura. Tudo era músculos sólidos e ossos, e seu rosto parecia esculpido em granito. Sua aparência chegava a meter medo. A testa era larga e inteligen76

te, mas o queixo, que mais parecia uma rocha, com aparência implacável, parecia desafiar o mundo. Os olhos eram cinzentos e gelados. Ele continuava a falar de maneira calma e delicada.

- Já faz alguns dias que venho querendo ter uma conversa com você, meu rapaz. Foi uma boa oportunidade essa que o trouxe até aqui.

Paul estava imóvel e tenso na poltrona.

- Não fiz nada...

- Espero que não tenha feito mesmo. Falaremos disso depois. Antes de mais nada, quero dizer-lhe que sei quem você é e também sei de tudo que há a seu respeito. Para você, Wortley pode parecer uma cidade grande, mas, para nós, ela não passa de uma aldeia. Sabemos de tudo que acontece nela. É para isso que estamos aqui. Recebi informações a seu respeito logo que chegou na cidade. - Ele brincou com um telegrama que estava na caixa de laça ali ao seu lado. - Recebemos um pedido de Belfast, que nos foi enviado por amigos seus de lá, para que o encontrássemos e para que nada de ruim lhe acontecesse. Sei onde você mora, onde trabalha, e tudo que tem feito desde que chegou.

Pegou numa régua de ebonite e ficou virando-a em suas mãos tremendamente fortes. Aquelas manoplas já haviam derrubado muitos adversários antigamente, quando ele praticava luta livre em Cumberland.

- Agora então, meu rapaz, veja bem... sei exatamente o que você pensa a meu respeito. Está cheio de ódio. Eu sou o bruto que enviou seu pai para a prisão perpétua. Foi por pouco que ele escapou da forca. Esse é o seu lado do caso. Muito bem, agora vou-lhe contar qual é o meu. Simplesmente, cumpri meu dever. Diante de provas irrefutáveis, eu não tinha outra escolha. Seu pai foi apenas um dentre as centenas que passaram pelas minhas mãos. Aliás, eu até mesmo já me esquecera completamente dele até que você apareceu por aqui.

Mais uma vez Dale fez uma pausa e olhou firme para Paul.

- Estou aqui para garantir a tranqüilidade da comunidade. Nossa sociedade está dividida em duas classes. Há os que agem certo e há os que agem errado. Minha obrigação é proteger os que andam certos e condenar os que andam errados. Compreendeu bem isso? Se compreendeu mesmo eu quero, então, fazer-lhe uma pergunta.

Fez mais uma pausa e apontou para Paul com a régua.

- De que lado você está? Faça esta pergunta a si mesmo. Se se colocar contra as forças da lei e da ordem, vai acabar seriamente enrascado. Veja o que já lhe está acontecendo. Foi encontrado dentro do quintal de uma casa depois de escurecer, sem o consentimen77

to e, até mesmo, sem o conhecimento do proprietário. Logo a seguir talvez seja encontrado lá dentro. Veja bem que não vou prendê-lo agora. Acontece, porém, que nosso lema aqui é que "é melhor prevenir do que remediar". Então, só lhe quero avisar e mostrar, para o seu próprio bem, até onde essas infrações podem levá-lo.

Houve ainda uma outra pausa em que Paul ficou ali rígido e calado. No princípio, ele pensara em falar com toda a sua alma, em expor seu lado do caso, discutir, reclamar e explicar, mas fora contido por uma força íntima, um sentimento secreto de previsão. Dale continuou, e agora já falava com evidente sinceridade e sua voz era persuasiva e razoável.

- Não me compete aconselhá-lo, mas, assim mesmo, digo-lhe que volte para sua casa e para sua mãe em Belfast. Você tem lá um bom emprego à espera e, pelo que me disseram, tem também uma boa moça. Desista de remexer na sujeira da vida. Será que me está ouvindo? Também tenho filhos, sabe? Eu sou humano. Detestaria vê-lo sofrer. É tudo o que tenho a dizer. Pode ir embora, e se tiver juízo, espero que não torne a aparecer por aqui.

Ele fez um gesto dando por terminada a entrevista, e que fora mais cordial do que formal. Paul levantou-se e, sem uma palavra, saiu do gabinete, passou pelo corredor e pela sala sem que ninguém o detivesse, e saiu para o ar fresco da noite. Estava livre. Sentia-se alagado de suor e caminhava rapidamente. Ficara abalado com a franqueza de Dale. Não havia como negar sua sinceridade de propósito. Apesar disso, no entanto, no tumulto desordenado de seu pensamento, ele sentia um ressentimento íntimo e profundo. Ele nada fizera de errado e, naquele país livre, ninguém tinha o direito de lhe ditar ordens e ele não iria submeter-se ao que Dale exigia. Em lugar disso, a própria natureza daquela exigência, e as circunstâncias que a haviam precedido despertavam nele uma tremenda desconfiança, um desejo para ações mais enérgicas que, já desde alguns dias, vinham martelando em seu espírito.

Ele precisava urgentemente de conselhos e então, apesar da hora, ele pensava desesperadamente.

"Preciso falar com Swann... imediatamente. Ele já me disse que fosse devagar... mas então... ele ainda não sabia o que ia acontecer. Se eu for cerceado aqui em Wortley... preciso usar métodos mais diretos... é isso mesmo. Afinal de contas foi ele mesmo quem me disse que eu só conseguiria alguma coisa favorável recorrendo aos mais altos escalões."

Caminhando rapidamente pelas ruas vazias, ele logo chegou ao hospital onde pediu licença para entrar. O porteiro já velho correu o dedo no registro, levantou os olhos por trás dos óculos, e sacudiu a cabeça.

- S warm... James Swann. Sinto muito, rapaz. Ele já não está mais na lista. Morreu tranqüilamente às quatro horas da tarde.

Naquela noite, já bem tarde, depois de madura reflexão, Paul tomou uma decisão. Escreveu uma carta para Westminster e colocou-a no Correio.

 

O membro liberal do Parlamento para a região de Wortley gostava de fazer suas breves visitas a seu distrito eleitoral especialmente em outubro que era a melhor época para a caçada às perdizes. George Birley era filho do lugar, e seu sucesso em Londres, onde casara com Lady Ursula Duncaster, aliara-o a uma das famílias liberais mais influentes do país, mas ele nunca desprezara seus velhos amigos nem deixara de adorar seu esporte predileto. Era uma figura popular em Wortley, tinha 50 anos, um rosto curtido e vermelho, cara raspada, era alegre, gostava de contar casos e era também grande apreciador de charutos. Andava sempre bem trajado e, nas horas de lazer, gostava de ostentar roupas de xadrez. Estava sempre pronto para uma ajuda aos amigos, a contribuir para as obras de caridade da região e tornara-se uma espécie de símbolo para o homem bemsucedido mas que não se estragara com o sucesso.

Era verdade, no entanto, que sua carreira no Parlamento não tinha sido muito notável até então. Ele comparecia com regularidade às sessões, votava com fidelidade ao partido e participava dos torneios anuais de golfe dos Comuns com os Lordes. Todos os homens públicos encontram sempre detratores, e então havia muita gente que dizia não ter Birley inteligência nem qualificações para sua posição e que um bom camarada não era, necessariamente, um bom estadista, que ele tinha medo de sua nobre esposa e, aliás, até mesmo de todos os Duncasters senhoriais e que toda sua euforia era apenas um esnobismo invertido e que se não fosse por sua mulher e suas boas relações com todos os ministros e políticos em geral, George jamais teria conseguido um lugar no governo da nação durante tanto tempo.

Naquela determinada manhã ele estava de muito bom humor. Sua viagem a Wortley pelo expresso da manhã fora muito boa e agora, sentado diante do café da manhã na suíte que tinha sempre reservada no Queens Hotel, ele se regalara com ovos e bacon, rins grelhados e uma costeleta de carneiro de quebra, e já estava nas torradas com geléia junto com a terceira xícara de café. Gostara de ler o Courier que estava ali com ele e gostara de saber que seu partido ia sair-se bem nas eleições em Cotswold, já que não havia perspectivas de greves e a Bolsa estava em alta. Geara um pouco durante a noite, o suficiente para refrescar a teira, e o sol já estava aparecendo. Dentro de 10 minutos seu carro estaria na porta e, em uma hora, ele já estaria sentindo o cheirinho gostoso da terra de sua meninice, caminharia com três outros companheiros, também bons caçadores, embora não tão bons como ele. Tinha ainda um novo cão bem treinado e esperava que o animal fosse bom mesmo.

Logo apareceu um garçom, um velhote de costeletas, muito correto e respeitoso. George gostava do ambiente daquele hotel que ainda respeitava as antigas tradições e não se passava para as tolices modernas que ele detestava cordialmente.

- Está lá fora um rapaz que quer falar com o senhor. Ele levantou os olhos do jornal e franziu a testa.

- Não posso atendê-lo. Vou sair dentro de dez minutos.

- Ele diz que tem um encontro marcado, senhor. Deu-me esta carta.

Birley segurou a carta que o homem lhe estendia com respeito. Ele mesmo a escrevera em papel timbrado da Câmara dos Comuns. Franziu ainda mais a testa. Aquilo era uma maçada! Ele tinha marcado aquilo dias antes, em resposta a uma vaga carta solicitando uma entrevista, mas esquecera completamente o compromisso. Acontecia, porém, que ele era uma pessoa que se orgulhava de jamais faltar a um compromisso.

- Está bem. Traga-o aqui.

Um momento depois, Paul entrava na suíte. Birley estava acendendo um charuto caro mas logo apertou-lhe a mão afavelmente, fazendo-lhe sinal para sentar junto da mesa. Soltou uma baforada mostrando-se alegre.

- Muito bem. Tenho estado à espera deste momento desde que recebi sua carta. Quer uma xícara de café?

- Não, obrigado, senhor.

Paul estava pálido, mas sua expressão firme e a postura de seu corpo causaram uma boa impressão em Birley que sempre gostava de ajudar os jovens que pareciam promissores.

- Então vamos ao que veio, meu jovem. Tenho outros compromissos, sabe como é... Tenho uma importante conferência fora da cidade. E vou voltar a Londres no expresso da noite. - Ele falava com um tom amistoso como se fosse um protetor de bom humor, e aquilo era sua especialidade.

Paul tirou um papel que trazia no bolso.

- Eu sabia que seu tempo era curto, senhor. Então preparei um relatório batido à máquina explicando os fatos.

- Muito bem, muito bem... - Ao mesmo tempo que falava ele fazia um gesto com a mão, indicando que dispensava o relatório. Detestava a leitura de relatórios. Era para isso que ele tinha duas secretárias na Câmara. - Diga-me o que há em poucas palavras.

Paul passou a língua nos lábios secos e respirou fundo.

- Meu pai está na prisão já faz quinze anos por um crime que não cometeu.

Birley ficou ali de boca aberta com os olhos arregalados para Paul, como se aquilo fosse alguma coisa ofensiva. Paul, no entanto, não lhe deu tempo para falar e continuou dizendo tudo o que tinha para dizer e que era o motivo para aquele encontro.

Logo de saída parecia que Birley ia detê-lo, mas não o fez embora se mostrasse cada vez mais aborrecido e não escondesse seu desagrado aos olhares que dirigia a Paul. Continuava a ouvir e o charuto apagou-se.

A exposição durou exatamente sete minutos, e quando terminou Birley ficou ali sentado como alguém que cai numa armadilha desagradável e inesperada. Ele apenas pigarreou.

- Não posso acreditar que isso seja verdade. Para mim isso parece uma história mal contada. Mas mesmo que não seja... é uma história bem antiga.

- Não para o homem que está lá na prisão em Stoneheath. Ele continua a viver todos os seus minutos.

Birley fez um gesto de desinteresse.

- Não posso aceitar nada disso. Não quero remexer um lamaçal. De qualquer maneira, isso não é de minha alçada...

- Mas ainda é um membro do Parlamento representando Wortley, senhor.

- Claro que sou, com todos os diabos! Mas não represento Stoneheath. Represento gente decente e não um bando de presidiários!

Ele levantou-se e começou a andar de um lado para outro, furioso por ver o seu dia estragado daquela maneira. Nunca deveria ter concedido aquela entrevista com aquele rapaz doido que ali estava. Não podia enfiar a cabaça naquela casa de marimbondos. Nenhum homem sensato tocaria naquilo nem mesmo com uma vara muito grande. E no entanto, enquanto olhava zangado para Paul que continuava ali sentado, sentia-se inquieto. De repente olhou para o relógio e resolveu contemporizar.

- Está bem. Deixe comigo este seu maldito relatório. Eu vou lê-lo com- cuidado ainda hoje. Volte aqui às sete horas.

Paul entregou-lhe o documento, levantou-se e saiu, e quando chegou lá fora encheu os pulmões com o ar agradável da manhã. Se ele, ao menos, conseguisse convencer um membro do Parlamento para levantar a questão na Câmara, então o processo seria reaberto. Ao

caminhar apressado para o Bonanza ele só esperava que houvesse causado uma impressão favorável em Birley.

O dia transcorreu numa lentidão intolerável. Ele só pensava no que estaria acontecendo no espírito de Birley e não tirava os olhos do relógio. Várias vezes o gerente veio ficar de pé por trás dele como se desejasse vê-lo afrouxando seu vigor. Afinal, a hora já estava bem perto. Pouco antes de a loja fechar ele foi ao banheiro e mergulhou a cabeça na água fria para refrescar as idéias. Chegou no hotel às sete e quinze e, logo depois, foi levado para cima.

Nessa ocasião, porém, quando entrou, já não encontrou afãbilidade da parte de Birley. Ele estava de pé, de costas para a lareira, e com a mala pronta para a viagem junto com um sobretudo atirado em cima da mesa. O único cumprimento foi um leve aceno de cabeça e depois ficou olhando para Paul de forma bem pouco amistosa, até que, finalmente, falou.

- Li com muita atenção seu relatório. Não perdi uma só palavra. Li durante a viagem para o interior. Tornei a lê-lo na volta. Devo dizer-lhe que você apresentou seu caso muito bem, mas sempre há dois lados para um caso. E você só apresentou um deles.

- E isso foi porque só um deles representa a verdade, senhor. O outro franziu a testa e sacudiu a cabeça.

- Coisas como essa não podem acontecer aqui em nosso país. Poderiam acontecer em algum país estrangeiro já podre... mas nunca aqui. Pois então não temos nós o melhor sistema de justiça que há em todo o mundo ? Como em tudo mais, aliás, nós aqui estamos na vanguarda. O que pode haver de mais justo além do julgamento por um júri? Deus do céu! Isso já vem funcionando há mais de setecentos anos!

Paul respondeu falando muito baixo.

- Pois isso, justamente, poderia ser um argumento contra ele. Pensei muito a respeito, senhor. Aliás, seria natural nas minhas circunstâncias. Pois então o senhor não acha que os júris são muitas vezes compostos de pessoas estúpidas, ignorantes, cheias de preconceitos e que nem mesmo entendem os pontos técnicos, não possuem conhecimentos de psicologia e que são facilmente enganados por provas circunstanciais e pela retórica emocional dos advogados espertos?

- Deus do céu! Não vai demorar muito e você já estará atirando lama até mesmo no Lorde da Suprema Corte!

O ressentimento apaixonado que perseguia Paul, noite e dia, uma fermentação negra e amarga, obrigou-o a responder.

- Um homem cujo sucesso na carreira depende muito de sua capacidade para tirar a vida de uma pessoa colocada diante dele no banco dos réus merece, na minha opinião, tão pouco respeito como o próprio carrasco que coloca a corda no pescoço do condenado.

- Só que você esquece que nós precisamos desse carrasco.

- E por quê?

- Mas com todos os diabos! Precisamos dele para enforcar os assassinos.

- E será que é preciso enforcá-los?

- Mas claro que precisamos. Temos a obrigação de proteger a comunidade. Se não fosse pelo medo da forca, qualquer malfeitor estaria disposto a nos matar, na calada da noite, mediante uma nota de cinco libras...

- Nos países onde foi abolida a pena de morte, as estatísticas mostram que não houve aumento na incidência de crimes.

- Não acredito nisso. A forca ainda é a melhor precaução. E é também uma morte humana, melhor do que a guilhotina ou a cadeira elétrica. Seria um ato de completa loucura acabarmos com ela.

Acossado pela pressão em seus sentimentos, Paul deixou de lado toda e qualquer cautela.

- Isso foi o que disse Lord Ellenbourough, Chefe da Corte Suprema da Inglaterra, há alguns anos, quando Samuel Romilly tentou abolir a pena de morte para aqueles que roubassem mais de cinco xelins.

O sangue subiu à cabeça de Birley e ele gaguejava quando respondeu.

- Você é um maldito jovem idiota! Não pode me acusar de uma coisa dessas. Eu sou um liberal. Sou a favor de toda a humanidade! E nosso sistema também é. Nós não queremos enforcar ninguém. Deus do céu! Você deveria saber disso por experiência própria. Sempre é possível comutar uma pena!

- O seu sistema legal, que é o melhor do mundo, primeiro prova que um homem é culpado de assassinato e depois condena-o a ser enforcado. Aí, então, põe em dúvida seu próprio julgamento, arrepende-se e manda-o para viver o resto da vida no inferno de uma prisão. Será que isso é um gesto de bondade? Uma espécie de perdão? Será que isso é justiça? Pobre humanidade! - Paul levantou-se. Seu rosto estava branco e os olhos faiscavam. - Foi isso o que aconteceu com meu pai. Ele está lá em Stoneheath vítima de um procedimento criminoso de um sistema que confia em provas circunstanciais e em testemunhas sem idoneidade, um sistema que permite a manipulação dos fatos pela acusação, recorrendo a peritos que nada mais são do que indivíduos pagos para dizerem "sim" a favor da Coroa, e o emprego de advogados de acusação cujo único propósito é conseguir, por todos os recursos à sua disposição, enforcar o acusado que está no banco dos réus sem se preocuparem muito com a justiça.

Já não dando mais atenção a Birley, e empolgado por sua obsessão, Paul continuou a falar em voz baixa.

- O crime é o produto da ordem social de um país, e aqueles que elaboram essa ordem são, muitas vezes, mais culpados do que os que são considerados criminosos. A sociedade não deveria tratar os malfeitores dentro dos mesmos princípios que a levaram a enforcar um garoto faminto, há cem anos, só porque ele tinha roubado um pão. No entanto, se estamos mesmo resolvidos a aplicar a lei de olho por olho e dente por dente, então, pelo menos, deveríamos esperar uma certa eficiência de parte da lei. Em lugar disso, o que temos? Especialmente nos casos da pena capital? Métodos tão antiquados como as forcas, onde, depois da palhaçada das orações, tetmos então a última cena de vingança...

Já quase sem fôlego, Paul continuava arrastado pela emoção.

- Já é tempo de adotarmos um sistema mais novo e melhor, mas ninguém quer mudar. Todo mundo quer que tudo continue sempre como nos bons tempos do antigamente. Quem sabe se, até mesmo, ainda haja alguns que desejem voltar aos velhos tempos feudais e quando, por falar nisso, começou o sistema do julgamento por um júri. Muito bem, o senhor tem o direito de defender seu ponto de vista, mas nunca deve esquecer que é um representante do povo, que é o meu representante no Parlamento. Mesmo que não acredite no relatório que lhe entreguei, seu dever é fazer com que ele seja devidamente ouvido e examinado. Se não o dizer, eu mesmo irei para a praça pública gritar com todas as minhas forças.

De repente, percebendo o que acabara de dizer, Paul ficou calado. Sentia as pernas fraquejarem e foi obrigado a sentar-se, cobrindo o rosto com as mãos. No longo e pesado silêncio que se seguiu, ele nem mesmo tinha coragem para encarar Birley. Sentia que tinha destruído completamente qualquer possibilidade de sucesso.

E, no entanto, estava errado. Embora as solicitações obsequiosas não o impressionassem, Birley podia ser convencido com uma demonstração de audácia. Ele admirava a coragem e muitas vezes passava a gostar de adversários que, conforme suas próprias palavras, "tinham tutano suficiente para enfrentá-lo". Ele sentia, também, que talvez houvesse alguma verdade naquele estranho e desagradável caso. Além disso, ao pôr em dúvida seu sentimento de dever, Paul tinha tocado no ponto mais sensível do parlamentar. Ele se dava bem conta de que sua crescente indulgência por si mesmo e o padrão de vida estipulado por sua autocrática consorte tinham, nos últimos anos, contribuído para se esquivar de encargos desagradáveis no exercício de suas funções.

Andou de um lado para outro ali na sala, para se acalmar, e então conseguiu falar.

- Vocês, os jovens de hoje, parecem pensar que são donos de todas as virtudes. Esse é o problema de vocês todos. Ninguém mais é bom no seu modo de pensar. Jamais me considerei um santo, mas, apesar de todos os adjetivos que você me lançou no rosto, ainda defendo algumas coisas, e uma delas é um jogo limpo. Confesso que este seu caso não me agrada de forma alguma, mas, por Deus, não é por isso que deixarei de lutar por ele. Vou cuidar disso e trarei tudo para a luz do dia, direto da tribuna da Câmara dos Comuns. É isso mesmo, juro pelo Todo-Poderoso, juro-lhe solenemente, que tudo isso vai acabar nas mãos do Secretário do Interior a quem o caso está afeto.

Paul levantou os olhos. Tão inesperado era aquele discurso, e tão formidável era a vitória, que ele sentia toda a sala rodar.

Tentou gaguejar alguma espécie de agradecimento, mas não conseguia pronunciar uma só palavra, e tudo em volta continuava a girar com maior força.

Birley tirou, às pressas, um frasco portátil que trazia no bolso e forçou um pouco da bebida entre os lábios de Paul.

- Deus do céu!... Agora sim. Já está melhor. Abaixe a cabeça ...

Ficou ali de pé vendo as cores voltarem ao rosto do rapaz com um novo ar protetor, enquanto, ao mesmo tempo, virava também um trago substancial. A intensidade da reação de Paul tinha afastado os últimos resquícios de sua indignação, restaurando-lhe um sentimento confortador de sua própria autoridade. E mais tarde, depois de haver expurgado aquelas tolices a respeito de injustiças, ele teria muito que contar lá no seu clube! Até mesmo já ouvia as palavras que usaria "e ali estava ele, aquele jovem idiota, caído a meus pés". Mas já estava ficando tarde.

- Você já se sente bem agora? Meu trem sai às oito horas. Paul levantou-se e, ainda às cegas, segurou a mão que Birley lhe estendia, e logo depois já estava na rua com os ouvidos cheios de canções e outras ainda mais fortes dentro de seu coração.

 

No dia seguinte, Paul falou com o jornaleiro da esquina para lhe entregar o Courier todas as tardes, já que esse jornal fazia uma boa cobertura diária de todas as sessões da Câmara dos Comuns, e embora soubesse que não poderia haver ainda nenhuma notícia, já que Birley teria que esperar por uma oportunidade, ele leu o jornal inteiro naquela noite quando voltou do trabalho.

Muito animado e cheio de esperanças, Paul enfrentava as circunstâncias do momento aproveitando-as ao máximo com grande alegria. No edifício onde morava ele fez relações mais estreitas com um outro rapaz chamado James Crocket e que era ajudante de contador. Era um tipo sossegado e seus hábitos podiam servir para acertar relógios. Usava colarinhos duros e gravatas-borboleta com o nó já feito, e retribuía os cumprimentos de Paul com muita reserva, mas num sábado pela manhã, quando os dois saíam de seus quartos, ele tirou duas entradas do bolso.

- Quer ficar com elas ? Foi meu chefe que me deu. Ele é sócio da Sociedade...

Paul olhou para as entradas.

- Mas você não as quer?

- Minha namorada não está passando bem e por isso, infelizmente, nós não podemos ir. .É muito bonito. Aos domingos, somente os sócios podem entrar, ou então os seus amigos.

Paul não quis magoar o rapaz e aceitou as entradas com uma palavra de agradecimento e saiu apressado para a loja. No estado de espírito em que estava agora, tocava com muita disposição e, de tempos em tempos, olhava para Lena, que licava do outro lado da sala, tentando romper sua barreira de reserva, mas aquilo não era coisa fácil. Ultimamente, depois daquele período em que ela conversara com ele mais francamente, sua reticência parecia ter aumentado e, algumas vezes, havia nos seus olhos uma certa teimosia dolorosa. Sentia-se magoado com a recusa da amizade que lhe oferecia e então, na hora do almoço, naquele sábado, Paul se encheu de coragem.

- Lena, você não quer dar uma saidinha comigo amanhã à tarde?

Ela não respondeu e ele resolveu insistir.

- Um cara que mora lá no prédio deu-me duas entradas especiais para o Jardim Botânico. Talvez não seja uma coisa extraordinária, mas, pelo menos, servirá para amenizar um pouco nossas vidas por demais monótonas.

A expressão no rosto dela modificou-se perceptivelmente e, durante uns instantes, a moça ficou muito quieta. Ele estava intrigado e encabulado com o seu silêncio e então tentou uma piada.

- O que há? Está com medo de ser mordida pelas orquídeas? Ela sorriu levemente, mas seu rosto continuava rígido e havia nele uma expressão de medo, medo do mundo e da humanidade. Afinal respondeu evitando-lhe os olhos.

- É muita gentileza sua. Eu raramente saio...

Ele não conseguia compreender a confusão dela tão fora de propósito para aquele seu convite, mas a loja já estava começando a encher.

- Pense nisso e depois diga-me se quer ir. - Ele girou o banco do piano e enfrentou o teclado.

Lena caminhou de volta para o seu lugar numa excitação estranha. Durante os últimos seis meses, desde que chegara a Wortley, ela jamais encorajara ou aceitara qualquer espécie de atenção de homem algum. Claro que isso lhe trouxera dificuldades, e algumas bem desagradáveis. Harrib, por exemplo, não lhe dera uma folga logo nos primeiros dias de sua chegada à loja, mas, afinal, acabara desistindo em vista de sua rígida indiferença. Era comum também ela ser seguida nas ruas, quando, parecendo uma jovem Juno, voltava para casa à noite, e então, nessas ocasiões, ficava realmente apavorada e passava a caminhar mais depressa com a cara fechada. Agora, no entanto, a coisa era diferente e, talvez por isso mesmo, poderia ser ainda mais perigosa. Aquilo faria com que se afastasse da regra que estabelecera para si mesma de um comportamento inflexível.

No entanto, à medida que o tempo ia correndo, ela se dizia que não poderia haver grande perigo se aceitasse o convite de Paul. Estava claro que aquilo não significaria nada de sério para ele, já que sua atitude a seu respeito fora sempre muito franca e amistosa. Nunca a olhara de forma inconveniente e nunca lhe tocara a mão até então. Ela achava que não deveria exagerar uma resolução que tomara em ocasião de grande aflição e angústia. Logo que o movimento diminuiu um pouco, e na primeira oportunidade que se apresentou, ela foi até ele para dizer que aceitava com prazer seu convite. Ele poderia ir buscá-la quando fossem duas horas.

Assim, depois do almoço, no dia seguinte, Paul caminhava na Praça Ware que, embora ficasse perto da loja, era muito tranqüila e respeitável. Muitas das casas altas e sujas de fuligem tinham pintado as esquadrias das janelas e isso sempre alegrava um pouco aquela rua antiga. Logo que chegou diante do nº 61 a porta abriuse e Lena saiu trajando casaco e chapéu escuros e veio a seu encontro. Lá na porta estava aquela senhora idosa que ele já vira naquela noite na saída da loja e que, de repente, resolveu-se também vir ao seu encontro, já que desejava conhecê-lo.

Ela veio sorrindo e com a mão estendida, com os dedos deformados pela artrite.

- Meu nome é Hanley. Lena me fala muito do senhor.

Ela devia andar pelos 50, tinha os cabelos grisalhos, baixa e tão curvada pelo reumatismo que era obrigada a levantar a cabeça para poder falar com ele. Apesar de tudo, tinha um ar alegre e muito decidido, e isso tornava-se mais expressivo por causa de seus olhinhos brilhantes como os de um passarinho. Ela continuava a olhá-lo atentamente ao mesmo tempo que falava.

- Já me disseram que é um grande músico... Paul soltou uma gargalhada.

- Eu apenas martelo as teclas. Sou tão músico como o homem que toca realejo.

- Seja lá o que for, estou bem satisfeita vendo que vai levar Lena para passear. Ela nunca sai de casa. Não quero atrasar vocês. Só queria cumprimentá-lo. - Ela pareceu satisfeita com o que vira e já não olhava tanto para Paul. Sorria agora para Lena, com muito carinho. - Divirtam-se bastante.

Então voltou capengando para casa, segurando-se no corrimão da escadinha.

Os dois seguiram em frente, logo que a porta se fechou. O bonde vermelho levou-os ao longo da Rua Ware na sua tranqüilidade domingueira, atravessou a Praça Leonard e saiu na grandiosidade da Garland Road com suas casas de tijolos aparentes escondidas por trás de cercas vivas e de árvores altas. O Jardim Botânico ficava na periferia daquele bairro. Eles desceram do bonde quando chegou o fim da linha e entraram pelo grande portão ornamentado.

- Podia ser pior. - Ele falou sorrindo para Lena ao mesmo tempo que corria a vista pelos bonitos gramados e avenidas de castanheiros que iam até o lago ao longe e as numerosas estufas que se espalhavam pelo terreno. - Creio que não haverá muita coisa para se ver nesta época do ano, mas vamos dar umas voltas antes de entrarmos nas estufas. E por falar nisso, Lena, já ia me esquecendo de dizer que você hoje está muito bonita.

Ela não respondeu aquele cumprimento formal, mas o fato era que ele representava a verdade, e Paul notara aquilo logo ao vê-la quando saíra de casa, da mesma forma como a via ali agora chamando a atenção de todo mundo que cruzava com eles ao caminharem para o lago. O rapaz só a vira com o uniforme do serviço e com sua capa muito surrada e, por isso, nunca chegara a perceber toda a sua graça natural e a sua individualidade. Ela era ali uma pessoa diferente, e também incomum com sua aparência saudável, fartos cabelos cor de mel e um porte gracioso e elegante. Os olhos, que ele jamais antes vira à luz do dia, eram escuros e amendoados. O mais notável de tudo era sua maneira completamente desinibida, sua simplicidade com ar digno e tocante. Sentiu-se possuído de um grande desejo para saber mais a respeito da jovem.

- Conte-me alguma coisa a seu respeito, Lena... a sua família, o seus país...

Passou-se um momento até que, olhando os reflexos prateados do lago ao longe, entre as altas árvores já sem folhas, e em frases breves, ela contou-lhe que nascera na cidade de Sleescale, uma cidade de pescadores da Costa Leste, e que seus ancestrais eram, provavelmente, pescadores suecos que se tinham instalado ali muitos anos antes. Seu pai enviuvara quando ela tinha apenas sete anos, e era sócio num barco pesqueiro de arenques e, como todos os outros de sua profissão, tinha passado pelas dificuldades havidas com aquela espécie de atividade em completo declínio. As condições meteorológicas eram cada vez piores, e havia ocasiões em que os barcos voltavam apenas com alguns latões de peixes. Se não fosse pelo que conseguiam tirar da fazenda, eles teriam passado maus bocados mas, afinal, até mesmo ela, situada a cavaleiro do Mar do Norte, chegou a um ponto em que não mais podia sustentar toda a família. Quando o pai morreu, seus dois irmãos emigraram para Manitoba, onde pretendiam tentar fazer fortuna com as lavouras de trigo. Haviam, finalmente, conseguido comprar umas terras lá no Canadá, que pareciam promissoras. Antes deles partirem, Lena já tinha conseguido um bom emprego e por isso eles já não precisariam mais se preocupar com ela. Quando tinha 18 anos ela fora para Astbury, uma estação de cura a uns 30 quilômetros de distância de Wortley, para trabalhar como recepcionista no Hotel County Arms.

Depois disso houve uma pausa.

- Então você é a única que sobrou da família? Ela concordou com a cabeça e ele logo continuou.

- E você não gostou de Astbury?

- Até que gostei muito.. .

- E mesmo assim saiu de lá?

- Isso mesmo.

Houve uma longa pausa. Ele achava que ela poderia ter-lhe dito mais, muito mais, porém isso não aconteceu.

- E foi aí que você veio morar com aquela senhora?

- Foi sim. - Voltou-se e olhou-o bem de frente, e seus olhos grandes tinham uma expressão de um sentimento bem profundo. - E você nem imagina como ela tem sido boa para mim...

- Ela aluga quartos?

- Não aluga, propriamente. Apenas permite que eu use dois no sobrado. O marido está sempre viajando. É o maquinista-chefe de um navio-tanque.

Parecia estranho que ela preferisse abandonar um bom emprego como recepcionista para ser garçonete de uma lanchonete barata. Aquilo no entanto era coisa que só ela poderia resolver, e ele não queria insistir, porque, a despeito da frarqueza em seu olhar, ela já se havia retraído outra vez, e então Paul achou melhor irem visitar as estufas onde um sem-número de plantas florescia no ar úmido fornecido pelo grossos canos de vapor.

À medida que iam percorrendo as lindas coleções, Paul mostrava apenas um interesse relativo, mas ficou realmente espantado ao ver a mudança que se operara em sua companheira. Já não tinha mais aquele ar triste que nunca a abandonava, e então começou a conversar animadamente com uma delicadeza de sentimentos realmente inesperada. Reparava muitas coisas que escapavam à observação de Paul, e o que lhe faltava em conhecimento era substituído pelo bom senso. Sua apreciação era natural e sem afetação. Quando pararam diante de uma laranjeira, que estava com frutos e flores, ela ficou olhando para aquilo em silêncio com um ar de admiração como se a beleza e fragrância da árvore houvessem finalmente atravessado seu corpo completamente. Parecia tão fascinada que não conseguia afastar-se daquela pequenina árvore. Paul percebeu que duas lágrimas se formavam como contas de cristal por baixo dos cíüos dela. Sentiu então, inesperadamente, que seu coração também pulsava mais rápido e ficou silencioso.

Tomaram chá num pagode japonês que servia de restaurante. Era uma sala pequenina cheia de correntes de ar e de bambus, e o chá estava fraco e morno, e o bolo que acompanhava só servia mesmo para os passarinhos que esvoaçavam em torno na esperança de migalhas. O sentimento de camaradagem entre os dois soltou-lhes as línguas, fazendo com que esquecessem as deficiências do chá. Ela era uma boa companheira que ouvia tudo mostrando simpatia e interesse com as coisas que também o interessavam e sempre tinha pronta uma observação sensata que mostrava a Paul como conseguia entendê-lo bem.

Então, de repente, depois de uma pausa, ele falou.

- Você não me perguntou por que fui trabalhar no Bonanza. Talvez pense que ali é o meu lugar.

Ela respondeu baixando os olhos.

- Nada disso. Eu acho é que você deve ter uma boa razão para estar lá.

- E tenho mesmo. Lena levantou os olhos.

- Está metido em alguma encrenca?

A resposta do rapaz foi um simples aceno de cabeça.

- Então espero que tudo acabe bem.

Ela falou em voz baixa, mas alguma coisa em suas palavras tocaram-lhe o coração. O perfil da moça era sereno e triste, fazendo lembrar uma jovem Madona. Os cílios lançavam uma ligeira sombra em seu rosto, e estavam iluminados apenas pela luz crepuscular.

Afinal, saíram do Jardim para o caminho de volta a casa. A expressão nos olhos de Lena estava agora bem mais pensativa, e ela parecia estar debatendo alguma coisa em seu espírito. Uma ou duas vezes olhou-o como se fosse falar, mas as palavras não lhe saíam da boca.

Ele também, de seu lado, permanecia calado sabendo que estavam voltando à realidade. Quando chegaram na frente da casa, Paul estendeu a mão para a despedida, e ela falou muito devagar.

- Foi uma tarde maravilhosa. Simplesmente adorei. Muito obrigada por haver-me levado lá.

Houve um intervalo durante o qual os olhos dela percorriam as janelas da casa numa forma indecisa. Ele ficou imaginando se ela iria convidá-lo para entrar, mas isso não aconteceu. O silêncio já se tornava opressivo, mas ela continuava a hesitar com os olhos fitos em seu rosto e a respiração tornando-se ofegante como se aquele desejo íntimo de se comunicar com ele se tornasse, de repente, mais intenso.

- Paul... - Aquela era a primeira vez que ela usava o seu nome de batismo.

- O que é?

Ela encarou-o e logo desviou o olhar, afetada por uma dolorosa tensão que era, na verdade, uma dor física.

- Não tem importância. Deixe pra lá.

Fosse lá o que fosse que desejava falar, ela, simplesmente, não o conseguia. Em lugar disso, deu apenas um "Boa-noite" apressado e logo correu para a porta de casa.

Paul ainda ficou ali por um momento, mesmo depois de a porta se fechar, perplexo pela maneira inesperada de como terminara aquela tarde, um pouco deprimido e vagamente perturbado. Finalmente, saiu de volta para casa caminhando pelas ruas tranqüilas do domingo.

De noite, quando voltou para casa, encontrou o Sunday Courier em cima da mesa, acendeu o gás e lavou-se para então ver o que havia no jornal.

Logo de saída, ele pensou que, mais uma vez ainda, nada havia do que esperava, mas, no fim da última coluna, ele viu logo o nome que estava procurando. A notícia saltou-lhe aos olhos e o coração bateu descompassado tal era sua alegria, e aquilo foi mergulhando nele como se fosse chumbo.

Era uma notícia bem pequena.

Na Câmara dos Comuns, George Birley (Wortley, L.) levantou a questão do caso Rees Mathry que agora cumpre sentença na prisão de Stoneheath. Ele perguntou se as novas provas que apresentara não justificavam a reabertura do caso. Além disso, em vista do fato de Mathry já haver cumprido 15 anos da sentença, já não seria a hora de soltá-lo?

Sir Walter Hamilton (Secretário do Interior) respondeu que a decisão era negativa. Em primeiro lugar, tendo considerado com atenção os argumentos apresentados pelo ilustre membro, ele não via razão alguma para interferir com o processo normal de justiça e, em segundo lugar, a ficha de Mathry na prisão era das piores, havendo, inclusive, casos de flagrante insubordinação, e ele, com isso, tinha perdido o direito de comutação do resto da sentença. O assunto deveria ser considerado como definitiva e irremediavelmente encerrado.

Paul largou o jornal em cima da mesa e nem mesmo levantou os olhos, quando a senhoria entrou no quarto e entregou-lhe uma carta expressa que acabara de chegar.

Ele abriu-a e leu-a com atenção. Era de George Birley e complementava o que fora publicado no jornal. Ele tinha cumprido a palavra empenhada, tinha feito o que era possível, mas encontrara uma recusa completa e final. Dizia ainda na carta que seria completamente inútil insistir, e procurando amenizar o golpe da melhor maneira que podia, aconselhava ao "seu jovem amigo" que esquecesse completamente aquele caso infeliz. Era uma carta amável, cheia de boas intenções e, sem dúvida alguma, bondosa. Ela quase despedaçou o coração de Paul.

 

Na manhã seguinte, depois de uma noite em claro, Paul automaticamente bebeu uma xícara de café e depois atravessou as ruas enlameadas para chegar ao Bonanza, onde se sentou ao piano e começou a martelar as teclas tocando uma música comum. As luzes fortes que eram mantidas acesas dentro da loja quando o tempo estava fechado lá fora chegavam a doer nos seus olhos insones, mas ele reparou que, em cima do piano, havia um ramo de flores, quatro ou cinco flores amarelas num jarro de cerâmica e viu logo que Lena as comprara para colocá-las ali.

Era tão grande a amargura que sentia que nem mesmo agradeceu aquela lembrança do passeio da véspera e ele, tampouco, podia imaginar o quanto a moça lutara consigo mesma para chegar àquele gesto. Quando Lena lhe trouxe o almoço, no entanto, ele resmungou algumas palavras de agradecimento.

Ela estranhou os seus modos e depois de alguns minutos conseguiu juntar coragem para encará-lo de frente.

- Há alguma coisa errada? Ele respondeu com voz cansada.

- Tudo está errado, Lena.

Nesse ponto, antes que pudesse dizer mais alguma coisa, ela foi chamada à lanchonete. Quando a moça se afastou, Paul reparou que Harris olhava-o de esguelha enquanto fingia estar brincando com um palito, e o gerente logo aproximou-se com uma expressão estranha que era uma mistura de malícia e de hostilidade, procurando puxar conversa.

- Então você e a sua amiguinha saíram numa expedição ontem à tarde, não foi?

- Expedição? - indagou, Paul, franzindo a testa.

- Claro. As moças me disseram que vocês saíram juntos, e devo confessar que isso me surpreendeu. - O rosto do gerente mostrou uma espécie de careta irônica e maldosa. - Achei que devia alertá-lo a respeito da Lena. Será que não sabe o que todos nós sabemos?

Paul deixou a pergunta sem resposta.

- Pois então não sabe que ela teve um filho? E não é casada. Isso mesmo, um filho natural que nasceu surdo-mudo, mas morreu com uma espécie de ataque... Veja só. Muito romântico, não é? Converse com ela a respeito na primeira vez que forem dar os seus passeios. Pode ser que ela lhe conte os detalhes, enquanto vocês passeiam de mãos dadas...

Na pausa que se seguiu, a careta ficou ainda mais maldosa, e Harris sacudiu a cabeça e foi andando sempre com o palito entre os dentes.

Paul ficou completamente imóvel com os olhos fitos nas costas do gerente que se afastava. Deus do céu! Como era possível que existisse um animal tão nojento! Então aquela era a razão para os acessos de tristeza de Lena. Pobre moça! Nunca a julgaria capaz de uma coisa assim. Sentia uma imensa pena dela, mas era uma pena muito fria que, de uma certa maneira, servia para abafar a pequenina chama que havia em seu coração. Todo o puritanismo que existia nele, com aquelas restrições que lhe haviam sido impostas por sua educação, sentia-se ferido e ultrajado com aquela revelação. Ele não podia deixar de sentir que ela forçara a aproximação dos dois com aqueles seus ares de serenidade virginal e sua expressão de candura. Manter uma coisa assim em segredo era, realmente, o cúmulo do fingimento. Ele virou o rosto ostensivamente para não encará-la. Deus do céu! Quanta infelicidade para um dia só!

Naquela tarde, enquanto martelava seu último tango, sentia-se envolvido por ondas seguidas de amargura e desânimo. O pobre Swann tinha razão. Seria uma futilidade esperar qualquer ajuda oficial para o seu caso. Ele teria que agir sozinho. Apertava a boca cada vez mais decidido. Ainda não estava vencido. A luta apenas começara. Qualquer que fosse o risco, Paul deveria tentar uma nova aproximação com Louise Burt. Ela era agora sua única esperança.

As autoridades tinham conseguido amedrontar Mark Boulia, mas nada poderiam fazer contra ela. Era bem possível que a, mulher não houvesse sido incomodada.

Naquela noite, ele voltou a seu quarto logo que saiu da loja, pegou num bloco de papel e num envelope escreveu:

Querida Louise,

Senti muito não ter comparecido ao nosso encontro anterior, mas a culpa não foi minha. Espero que me perdoe porque, depois que nos vimos, tenho pensado em você todos os dias. É por isso que lhe peço para se encontrar comigo na próxima quarta-feira lá naquela taverna. Meu amigo não estará comigo. Não falte, Louise. Aí por volta das sete horas. Estou desde agora pensando no prazer que sentirei com sua com95

panhia, garanto-lhe que não a desapontarei outra vez como aconteceu da última, sem que a culpa fosse minha.

Sempre seu

Paul.

Dois dias depois, ele recebia a resposta.

Prezado Senhor,

Será um prazer encontrá-lo novamente, mas peço-lhe que tenha o cuidado de não aparecer aqui no jardim. Espere-me no lugar marcado e eu procurarei estar lá também. Com os meus respeitos, nada mais e nada menos por enquanto.

  1. B.

Paul soltou um grito de satisfação. Louise ainda não desconfiava de nada e ele ainda podia contar com aquela oportunidade. Estava aflito para que chegasse a quarta-feira. Durante as últimas 48 horas, ele vivera numa preocupação constante pensando que a atitude de Birley poderia comprometê-lo ainda mais com as autoridades. Agora, com uma sensação de alívio, ele já se convencera de que aquela pequenina notícia no Courier a respeito de seu pai escapara às autoridades de Wortley.

Quanto a isso, no entanto, ele, infelizmente, estava completamente enganado.

 

Naquela mesma -manhã, no momento preciso era que Paul recebia a carta de Louise, um homem com cerca de 50 anos, um pouco gordo e com o rosto raspado e aparência de ator, estava de pé, depois do café da manhã, na sala de almoço de sua casa, olhando pela janela para o gramado e os canteiros de flores cercados de moitas de rododendros. Da sala ao lado, vinham as vozes de suas duas filhas que se aprontavam para ir ver a exposição de cavalos na Escola St. Winifred e, de vez em quando, uma voz mais grossa se interpunha com alguma observação jocosa. Era a voz de Catherine, sua mulher muito querida, mas, a despeito daquela alegria na família, Sir Matthew Sprott estava bastante irritado.

A entrada de um criado que veio tirar a muito bem-arranjada mesa, em completo silêncio, interrompeu o seguimento de seu pensamento e então, com um olhar de mau humor que reservava para os criados, ele saiu para o saguão onde já estavam todas prontas. Sua mulher enfiava as luvas compridas e se mostrava muito atraente com um chapeuzinho de peles combinando com a gola do vestido. As moças vestiam trajes de montaria com bonés de veludo e os chicotinhos com ornamentos de ouro que ele lhes dera como presentes de Natal. A mais velha estava com 16 anos, era esbelta, morena e serena, da mesma forma que sua mãe, ao passo que a outra era mais parecida com ele. Acabara de completar 12 anos e era gorduchinha e muito corada.

A expressão dele modificou-se logo que as filhas vieram a seu encontro abraçando-o e pedindo-lhe que as acompanhasse, enquanto sua mulher olhava a cena com um tranqüilo sorriso de satisfação e falando persuasivamente.

- Seria bom para você, querido. Tem trabalhado muito ultimamente.

Era esbelta e delicada com um rosto oval e pálido e uma expressão de grande bondade. Com seus 40 anos e rosto muito fino, ela ainda parecia uma mocinha, mas sua aparência frágil mostrava que, durante toda a vida, sempre estivera às voltas com doenças. A pele muito branca era quase transparente, e os dedos eram longos.

Sprott olhou-a com uma afeição que não procurava esconder e passando o dedo indicador nos lábios num gesto que lhe era comum. Tentou amenizar a recusa com uma brincadeira.

- E depois quem é que vai conseguir o dinheiro, se eu for me esbaldar junto com vocês?

Ele abriu a porta da frente para elas saírem, e o carro fechado já estava ali esperando junto com Banks, o motorista, e logo elas estavam sentadas e agasalhadas. Quando o carro partiu, Catherine voltou-se e acenou-lhe uma despedida pelo vidro traseiro do carro.

Ele entrou devagar na casa, atravessando a biblioteca para chegar a seu escritório, com a testa ligeiramente franzida e parando para olhar com ar ausente o magnífico quadro que ali estava à sua frente. A casa era rica e muito confortável. Durante os últimos 10 anos, ele, valendo-se do bom gosto da mulher, tinha feito tudo para conseguir o máximo de luxo e refinamento. Adorava as coisas boas que tinha, as cadeiras bordadas, a tapeçaria Aubusson, os bronzes de Rodin e Mailiol e as duas paisagens de Constable. Todas aquelas posses materiais eram a prova exuberante de seu sucesso.

Ele chegara às culminâncias à custa de seus próprios esforços, partindo da camada mais humilde e desprezível da sociedade e costumava dizer que viera "de menos do que nada". Órfão desde criança, fora criado por uma tia que de xale na cabeça e tamancos nos pés passava o dia inteiro no meio do carvão ganhando o pão de cada dia na região carvoeira do pobre distrito de Galdshill, perto de Nottingham. Desde o princípio, a despeito de todas as adversidades, da sordidez da vida num só quarto nas fileiras das casas dos mineiros, dos socos e pontapés que recebia, Matthew Sprott era perseguido por uma única ambição. Ele queria vencer. No seu coração estava gravado de forma permanente o seu lema: "Eu irei em frente, em frente, em frente."

Como acontesse na evolução dos homens que se fazem por sua própria conta, havia sempre, no começo de sua vida, o padrão comum de uma aplicação febril e um bocado de sorte. Ele era um menino esperto e o professor da escola em Gadshill, um homem que adorava os clássicos, dava-lhe aulas noturnas de graça. Quando tinha 14 anos, em lugar de ir trabalhar nos poços de carvão, ele fugiu para Wortley, e ali empregou-se como mensageiro e depois escriturário na firma Marsden & Company, que publicava livros de direito e vendia artigos de papelaria. Foi ali que viu, pela primeira vez, como funcionavam as engrenagens nos tribunais e então, impressionado com aquilo, passou a estudar muito nas suas horas de folga até que lhe surgiu a oportunidade para trabalhar no escritório de Thomas Hailey, um advogado de boa reputação, como seu assistente.

Ele escolheu o direito não por predileção e não porque se sentiu moralmente adaptado à profissão e sim porque achava que era a que lhe oferecia melhores possibilidades para chegar ao poder. Aquele seu lema perseguia-o sem cessar como se fossem engrenagens girando dentro do cérebro. Principiou fazendo tudo para se tornar indispensável a seu chefe já idoso, mas jamais lhe passara pela cabeça a idéia de ficar ali para sempre como seu prestimoso auxiliar. Ao fim de cinco anos, depois de formar-se em direito, Sprott abriu seu próprio escritório e deixou seu antigo chefe em má situação já que andava doente e dependia muito do auxiliar. Ele, porém, não dava importância a tal situação.

Era agora advogado embora trabalhasse sempre nos tribunais de instâncias inferiores, mas já dera o primeiro passo na direção de suas ambições. Embora desempenhasse todas as suas obrigações com um vigor exemplar, ele continuava a estudar direito consuetudinário e direito constitucional. Quando achou que estava pronto e depois de. já haver poupado o dinheiro necessário para o pagamento das taxas, pediu que seu nome fosse riscado da lista dos "solicitadores", ingressou no Inner Temple e foi, finalmente, chamado para funcionar como advogado junto aos tribunais superiores.

Ele sabia bem o que estava fazendo. Dispunha de pouco dinheiro e tinha poucos conhecidos, e durante muitos meses freqüentou os tribunais vagando por ali como um advogado sem causas. Foi então que lhe ofereceram uma oportunidade para conferências legais. Ele aceitou apenas como um cargo provisório, enquanto não aparecia alguma coisa melhor e como uma espécie de trampolim para se tornar útil aos que estavam no poder. Tornou-se aos poucos conhecido como homem inteligente e muito industrioso com conhecimentos especializados em direito criminal. Melhor ainda, ele tinha grande facilidade com a palavra, era dotado com um dom especial para os apartes, contundentes ou joviais, conforme exigisse a ocasião, e tinha um poder especial, que chegava às raias do gênio, para tocar nas cordas sensíveis dos membros do júri. Em 1910, por ocasião das eleições parlamentares, ele se alistara nas hostes do candidato conservador de seu distrito, Sir Henry Longden, e não poupou esforços na campanha, fazendo discursos a todas as horas. Longden foi eleito, e Sprott logo recebeu sua recompensa. Os casos legais corriam todos para o seu escritório e ele, cada vez mais, era escolhido como advogado de acusação nos tribunais de Wortley.

Quando voltou à sua terra natal, embora sua renda fosse modesta, a fama tinha crescido muito. Durante cinco anos, ele trabalhou como um escravo em Wortley e tornou-se uma figura conhecida e temida no mundo do crime já bem desenvolvido ali. Cultivava assiduamente a amizade das pessoas que lhe poderiam ser úteis e a verdade era que, quando queria, não havia no mundo melhor companheiro do que ele. No entanto, apesar de todos os seus esforços, o sucesso nunca lhe batia à porta. Foi nesse período que se casou e sua mulher, muitas vezes, fora obrigada a animá-lo para que não desesperasse. Ele ficava então imaginando se sua hora jamais chegaria, se ele nunca conseguiria ir em frente, em frente, em frente"...

De repente, quando ele já parecia condenado a passar toda a sua vida naquela mediocridade provinciana, surgiu sua oportunidade como se fosse um presente caído do céu. Ia haver o julgamento de um assasinato que havia despertado o interesse popular, mas, na época da realização do júri, o advogado de acusação ficou muito doente. Então, em lugar de adiarem o julgamento, resolveram chamar Sprott, já que os seus colegas mais eminentes estavam todos envolvidos em outros casos e não tinham condições para cuidar daquele que era muito complicado.

Ali estava o ponto crucial de sua carreira. Enquanto aquela voz íntima lhe segredava exultante "Siga em frente, em frente, em frente, esta é, finalmente, sua oportunidade", ele se atirava com todas as armas que tinha a seu dispor à acusação de Rees Mathry. Sua intenção era chamar a atenção de sua capacidade para tontear, para dominar com seu brilho, a qualquer custo, e para conseguir a condenação do acusado. E foi isso o que aconteceu.

Antes de se passarem oito meses, ele fora nomeado para um bom cargo em Upmarston e, sem abrir mão de sua residência oficial em Wortley, coisa fácil em vista do magnífico serviço de trens expressos entre Wortley e Londres, ele ingressava no Temple. Em parte devido à sua experiência anterior e em parte também pelo seu grande conhecimento forense, ele era, cada vez mais, chamado para representar a Coroa nos casos de crimes capitais e se saía sempre tão bem que, em 1933, foi sagrado cavaleiro. Agora, com 50 anos, mas ainda cheio de energia, e com a ambição aumentada pelo sucesso, ele se sentia pronto para galpar posições ainda mais altas. A decisão de manter sua residência em Wortley tinha sido frutífera e ele fora convidado a se apresentar candidato pelo Partido Conservador como adversário de George Birley, e com grandes possibilidades de sucesso. Uma vez na Câmara, o cargo de Procurador-Geral já estaria a seu alcance. Depois disso, não lhe seria difícil chegar a Lord Chanceler e até mesmo, quem sabe, ao posto mais alto de primeiro-ministro.

Claro era que, para aquela escalada homérica, ele se vira forçado a ser um tanto impiedoso, e não alimentava ilusões quanto ao que dizia respeito às qualidades necessárias para o sucesso. A vida era um sério combate em que somente sobreviviam os mais capazés. Na medida em que conquistava mais autoridade, seu cenho ia ficando mais carregado e mais duro, e sua língua passava a cortar como navalha. Obrigado a se tornar bem-visto, a qualquer preço, entre os altos círculos políticos, ele aprendera como se ver livre, com grande habilidade, das pessoas que já lhe haviam servido e como cruzar com alguém que já antes bajulara, sem sequer lhe dirigir um cumprimento. E, acima de tudo, adquirira a facilidade de estar sempre se mantendo a um passo à frente de todos os seus rivais, mediante constantes provas de seu valor e a demonstração de sua capacidade com formidáveis exibições de força.

Conquistara, naturalmente, inimigos e conhecia bem a reputação que conquistara. Diziam que ele era um forçado e um verme submisso para os grandes e que conquistara cada degrau de sua ascensão esmagando o que estava embaixo dele. Era acusado de haver feito mal sério a muita gente. Murmurava-se especialmente que, no exercício de suas funções oficiais, como advogado de acusação , por parte da Coroa, ele se valia muito de seu talento natural para orientar o curso da justiça.

Ali em seu gabinete, andando inquieto de um lado para outro, seu rosto estava cada vez mais carrancudo. Reconhecia, afinal, a causa de sua irritação. Era, sem dúvida, a questão levantada de repente, na Câmara dos Comuns. Claro que George Birley era um toleirão que já fora severamente repreendido pelo líder de seu partido. Além disso, o Secretário do Interior logo desacreditara aquela tolice com grande firmeza. Apesar disso, as implicações eram sumamente desagradáveis. Dentro de um círculo muito restrito, os comentários tinham sido muitos e até mesmo haviam chegado aos ouvidos de sua querida mulher, que o interrogara certa noite quando estavam sós.

Embora não fosse aquele o seu costume, ele chegou a praguejar em surdina. A única paixão desinteressada em sua vida era a que sentia pela família e, especialmente, por sua mulher. Ela não lhe trouxera dinheiro nem posição, já que era apenas filha de um médico de Wortley e, ao casar-se com ela por amor, ele, pela primeira vez, se mostrara inconsistente com os seus princípios. No entanto, sua amabilidade como companheira, sua admiração constante e a doçura de sua disposição sempre presente tinham sido, para ele, uma ampla compensação. Sprott não tinha amigos, e o fato de saber que podia sempre contar com ela lhe valera muito em condições difíceis. O que, finalmente, levou-o a uma decisão foi o medo de ver sua reputação ligeiramente abalada aos olhos da mulher.

Com um gesto decisivo, ele pegou o telefone e pediu uma ligação com a Chefatura de Polícia de Wortley, cujo número era Central 1234.

 

Dez minutos depois, o Chefe de Polícia Dale vestia seu casaco do uniforme com bordados de prata e, atendendo ao chamado, seguia para Grove Quadrant, atravessando o parque.

Ele preferiu caminhar em lugar de usar o carro oficial porque gostava de receber as demonstrações de respeito e amizade quando atravessava as ruas, sem falar nas formais continências que recebia de seus subordinados. Gostava de ver como os varredores do parque se tornavam mais ativos logo que eie aparecia.

Quando chegou à casa de Sprott a porta foi aberta por uma empregada já idosa com um uniforme verde-malva que logo o conduziu ao escritório que ficava no lado direito do saguão. Ela disselhe, com a voz abafada que usava para as pessoas importantes na sua qualidade de criada de maior categoria, que Sir Matthew viria imediatamente. Dale apenas tomou conhecimento de sua resposta com um leve aceno de cabeça, sabendo bem que seria obrigado a esperar embora não gostasse disso.

Deixou-se cair numa poltrona de couro com a pasta no colo e olhou em torno. O escritório tinha lambris de pinho e tapetes espessos, e as paredes eram cobertas de estantes com livros bem encadernados. Com um certo sentimento de inveja, Pale pensou que também poderia ter feito o mesmo, se houvesse recebido a instrução necessária. Da forma como as coisas estavam agora ele era obrigado a guardar seu orgulho, já que não podia brigar com quem lhe dava o pão e a manteiga.

Sprott entrou, já de mão estendida num gesto amistoso, e em seu rosto não havia nem vestígios de sua irritação anterior.

- Muito bem, Dale, aqui está você. Quer beber alguma coisa?

- Não, obrigado, Sir Matthew. Sprott sentou-se.

- Espero que esteja bem.

- Muito bem. - Sir Matthew fez uma pausa enquanto alisava o lábio. - Ótimo. Você viu, Dale, aquela besteira... na Câmara... a respeito do caso Mathry ?

O policial levou um susto, mas conseguiu esconder o seu espanto.

- Não vi nada, Sir Matthew...

- Claro que é tudo um absurdo... sujeiras da política. Mas, mesmo assim, precisamos ter cuidado, nos tempos que correm, para que ela não nos atinja...

Dale rodava lentamente seu quepe nas mãos enormes sem compreender ainda o que estava acontecendo. Sprott continuava pensativo.

- Foi aquele rapaz idiota... o filho do... como era mesmo o nome dele?... Mathry... Será que ainda está na cidade?

Dale mexeu-sc na cadeira e ficou olhando para as solas grossas das botinas.

- Ele ainda anda por aqui. Tenho mantido o rapaz em estrita vigilância todo esse tempo.

- Pois é. Ele rne parece um criador de casos. . . Bem, você sabe o que quero dizer. . . aquele cara que anda sempre atrás de nós. .. que está sempre enfiando petições em nossas mãos... um maluco completo com suas reivindicações... Nós já estamos bem acostumados a isso. - Houve uma curiosa pausa até que Sprott, batendo no dente com a unha, afinal falou: - A questão é... o que podemos fazer com ele?

Durante um minuto, o Chefe de Polícia ficou calado. Ele descobria agora a razão do telefonema de Sir Matthew, e sentiu-se envolvido por uma curiosa sensação de dúvida e uma vaga malícia. Então levantou os olhos com decisão.

- O senhor quer apresentar queixa contra ele?

- Mas de modo algum! Afinal de contas, por mais enganado que ele esteja, esse rapaz não é um criminoso. E nós devemos ser caridosos, Dale. A mercê é duplamente abençoada, quando ela cai como o orgulho suave nas planícies. Espero que minha citação esteja certa. - Olhou bem de frente para o Chefe de Polícia. - No entanto, você poderia talvez convencer esse nosso amigo meio desorientado a desaparecer dessa nossa boa cidade de Wortley...

- Eu já lhe disse para ir embora...

- As palavras, meu caro Adam, conforme sei por experiência própria, significam muito pouco. Não estou sugerindo coisa alguma. Mas, mesmo assim, sei que você sempre pode encontrar uma forma para fazê-lo pensar de maneira diferente.

Sprott levantou-se e ficou de costas para a lareira de onde falou com voz autoritária.

- Não quero que me entenda mal, Dale. Eu já me dei ao trabalho, apesar de não me sobrar tempo para isso, de repassar todo o caso de Mathry.

- Ah! - Dale sentiu-se tornado daquele mesmo tremor, mas não deu a perceber

- Nada há ali de que nos possamos arrepender. Nada mesmo. Merecemos a aprovação dos mais altos escalões. Não obstante, a situação apresenta ainda certos perigos. No momento atual, com as eleições dentro de alguns meses, a simples sugestão de um erro judicial, por mais infundada que fosse, poderia ter sérias conseqüências para todos nós. Você sabe que eu vou me candidatar ao Parlamento pelo Partido Conservador com razoáveis probabilidades de sucesso. Mas minha preocupação não é puro egoísmo. Não é só no meu futuro que estou pensando e sim no seu também... no efeito que teria diante do público, se essa falsidade diabólica se transformasse num escândalo promovido pelos partidos contrários, e que só serviria para solapar a confiança em todo o Poder Judiciário e no próprio governo. Essa é a razão para pormos um fim a essa história idiota.

Quando acabou de falar, Sprott tornou a olhar atentamente para Dale. Em seguida, logo estendeu a mão dando a entrevista por encerrada. Quando já estava lá fora na rua, Dale sentia-se completametne decidido. De uma certa forma ele agora já pensava de modo diferente e sentia como se fosse um espinho incomodando sua honestidade natural. Era com um rosto frígido que ele, teimosamente, resmungava para si mesmo: "Não pode ser... não pode ser verdade..." Mas aquilo soava tristemente em seus ouvidos, e com sua combatividade despertada, ele achou que seria melhor amenizar as exigências de Sprott. Ele continuaria a vigiar o jovem Paul, mas não lhe faria mal nenhum desde que ele não infringisse a lei.

 

A noite de quarta-feira estava escura e chuvosa. Quando saiu para ir ao encontro, a tensão no espírito e no corpo de Paul dava aos seus movimentos uma impressão enganadora de calma. Ele chegou ao bar pouco depois das sete, examinou bem as redondezas e depois espiou lá para dentro por uma janela que estava sem cortina. Tudo parecia normal e ele então entrou rapidamente, foi até a mesa que Louise costumava ocupar e sentou-se.

Olhou em torno e viu que a sala ainda não estava cheia. Duas empregadas domésticas estavam conversando e brincando com os namorados, um casal de meia-idade bebia cerveja em completo silêncio, dois velhos cocheiros estavam jogando dominós, enquanto outros colegas seus observavam, um homem de cabeça chata de terno escuro, que parecia um mordomo, lia com atenção um jornal vermelho de esportes. Paul achou que não havia razões para se preocupar e que ninguém parecia interessado nele.

Então, quando olhava novamente para a porta, ele a viu chegar e caminhar na sua direção.

Levantou-se logo e estendeu-lhe a mão.

- Louise! Mas que prazer vê-la novamente!

Ela respondeu com um meio sorriso e apertou-lhe a mão com a ponta dos dedos enluvados como se fosse uma grande dama, e depois acomodou-se na cadeira junto à mesa com muita afetação. Ele logo reparou que ela estava mais maquilada do que na outra ocasião, trazia um colar de contas de vidro azuis, um lenço bordado com perfume muito forte enfiado na manga do vestido, e parecia arrependida de ter vindo.

- Eu não devia ter vindo depois da maneira como você me desapontou antes, com certeza porque saiu com alguma outra moça.

- Nada disso, Louise, eu só penso em você.

- Isso é o que você diz. Vocês, os homens, são todos iguais. - Ela fez uma pausa para ajeitar os cabelos em cima das orelhas e acenou um cumprimento íntimo para o garçom que veio servi-los. - Traga-me o de costume, Jack...

Paul inclinou-se com um sorriso fingido de admiração.

- A diferença é que eu sou sério. Você hoje está de abafar...

- Vamos deixar disso. - Ela estava realmente lisonjeada e falava com afetação, ao mesmo tempo que tomava um gole do gim. Depois então olhou-o de lado. - Não pense que não sei o que você está querendo, mas eu sou uma moça de respeito...

- Pois é justamente isso que me atrai em você, Louise.

- Bem... não sou nenhuma puritana, embora seja uma senhora. Só saio com os caras que me agradam... desde que ele me trate direitinho. Você tem um emprego certo, não é mesmo?

- Claro que tenho, e você sabe muito bem que estou vidrado por você. - E Paul apertou-lhe a perna com o joelho por baixo da mesa.

Ela soltou uma risadinha inesperada.

- Então é isso, hem? Sempre é bom para a gente quando se consegue um pouco daquilo que se deseja... Conheço um lugar onde a gente pode ir depois... É uma espécie de hotel com muita classe e nós podemos escolher o quarto grande. Mas fique sabendo que não é para passar a noite. Eu preciso estar de volta às onze.

- Mas claro... e por falar nisso, você teve qualquer problema para chegar até aqui?

Ela se arrepiou toda.

- Por que você me fez essa pergunta?

- Bem... foi você mesma que falou nisso em sua carta, dizendo que era preciso ter cuidado...

- É isso mesmo. Foi o que eu disse, sim. Ela recostou-se e bebeu mais um gole.

- O negócio é que a gover. . . que o Sr. Oswald é muito exigente a respeito de certas coisas. É muito rigoroso. Você, com certeza, já ouviu falar dele, não é mesmo? É um dos que mais contribuem para as obras sociais de Wortley. Todos os anos ele dá centenas e centenas de libras para os hospitais e todos os invernos ele oferece café de graça... na Cantina Silver King. Ele é realmente um cavalheiro, apesar de ser muito rigoroso. E ele sempre me tratou como uma senhora, pois, se não fosse assim, eu não ficaria lá...

- Isso quer dizer que já faz tempo que você está lá? Ela acenou com a cabeça com um ar complacente.

- Eu não tinha mais de dezoito anos quando entrei para lá. Você não me acredita? - Cruzou as pernas grossas com afetação e ajeitou a saia.

- Mas claro - Paul estava imaginando se ela estaria mentindo a respeito da idade - ...só você parece tão mais moça...

- Pareço mesmo, não é?

- Só me surpreendo com o fato de você não ter-se casado...

Ouvindo os elogios dele, ela se pavoneava toda.

- O Sr. Oswald e sua mulher sempre quiseram que eu me casasse. Estou falando sério mesmo. Estão sempre dizendo que seria bom para mim, se eu casasse para organizar a minha vida. Eles acham que poderia ser com o Frank, o faz-tudo da casa, ou então com o Joe Davies que faz a entrega do leite. Eles são realmente uns caras sérios, mas já andam pelos cinqüenta e tantos. E você pode imaginar eu casada com um dos dois? Aliás, é bem possível que eu me case mesmo qualquer dia desses. A gente nunca sabe o que pode acontecer. Só que, por enquanto, ainda quero gozar a vida. Você não acha que estou certa?

- Mas claro que está.

Ele apertou-lhe a mão num gesto de carinho. O padrão que ele suspeitava estava surgindo lentamente com toda a clareza. O casal filantrópico tinha-se tomado de amizade por aquela moça infeliz e errática, tinha feito o que podia para mantê-la no caminho certo e, até mesmo, procurando casá-la com um cara respeitável e sério, mas, a despeito de tudo isso, sempre continuava existindo nela um sentimento de queixa profundamente enraizado, uma espécie de amargura contra a vida. E então, de repente, ele viu como poderia tirar proveito daquilo que era, justamente, o que procurava. Conseguiu controlar o entusiasmo que sentia e murmurou.

- Acho bem estranho que uma pessoa tão viva e inteligente como você não consiga um emprego melhor.

- E você está com a razão. Eu nunca teria me resignado a um emprego de doméstica. . . isto é, de governanta, se eles não me houvessem convencido. - Â medida que falava ela ia perdendo aquele seu ar de gabolice e seus olhos já estavam cheios de lágrimas, como se tivesse pena de si mesma. A verdade é, querido, que eu fui embrulhada. E depois disso tive que agüentar firme.

Ele fingiu que não acreditava.

- Ninguém jamais faria uma sujeira com uma moça decente como você.

- Isso é o que você pensa. E tudo porque eu fiz uma coisa certa, alguma coisa que, até mesmo, poderia ser considerada nobre.

Paul conseguiu conter-se e continuou falando baixo, sempre demonstrando uma certa pena.

- É muito comum ver pessoas que sofrem por ter praticado uma boa ação...

- É isso aí! Você agora falou certo. Bem, no princípio tudo andou direitinho e eu apareci em todos os jornais... com fotos e tudo o mais... em manchetes de primeira página... como se eu fosse uma rainha.

Enquanto ela o olhava de esguelha, como se quisesse avaliar o efeito de suas palavras, ele soltou uma risadinha na conta certa para mostrar incredulidade, e ela reagiu imediatamente.

- Então você está pensando que sou uma mentirosa, hem? Isso só serve para mostrar sua ignorância quanto à pessoa com quem está falando. Talvez lhe interesse saber que houve uma ocasião em que... - de repente, ela se interrompeu.

- Eu sabia bem que você estava brincando - disse ele, sorrindo e sacudindo a cabeça.

Ela ficou muito vermelha, olhou por cima do ombro e debruçou-se em cima da mesa para falar mais de perto.

- Acha então que foi uma brincadeira, quando um cara quase foi enforcado?

- Essa não! - Ele conseguiu exibir uma admiração chocada. - Você nunca se meteu numa dessas...

Ela acenou lentamente com a cabeça e, em seguida, virou o seu segundo gim.

- Pois foi isso mesmo que eu fiz...

- Era algum assassinato? - Paul fingia-se assombrado.

Louise tornou a sacudir a cabeça com um ar orgulhoso, e estendeu a mão com o copo que o homem do bar veio logo encher, obedecendo a um sinal de Paul.

- E se não fosse por esta sua criada aqui, eles jamais pegariam o cara. Eu fui a que fez mais barulho em todo o caso.

Paul fingia-se cada vez mais assombrado.

- Ora, ora. Essa não. Essa é mesmo de morte! Eu nunca poderia sonhar...

- Pois que isso lhe sirva de lição. - Ela estava no máximo diante da bajulação dele. - Veja bem agora quem é a senhora que está sentada aqui na sua frente. E, aliás, se eu quisesse, ainda poderia surpreendê-lo com muitas outras coisas...

- Pois então conte lá...

Ela olhou-o com um ar matreiro e amoroso.

- Isso seria uma indiscrição de minha parte, seu curioso... Mas eu simpatizo com você. Digo-lhe, com franqueza, que é um perfeito cavalheiro. E isso já foi há tanto tempo que não pode mais prejudicar ninguém. Bem... Pois então foi... saúde e tudo de bom... Pois então faça de conta que esta sua criada tinha alguma coisa escondida na manga... alguma coisa que poderia ter liquidado tudo de uma vez. Por exemplo... você já ouviu falar sobre uma bicicleta verde?

- Uma bicicleta verde?

- Isso mesmo, amorzinho. Verde claro. Verde como o capim... - Ela começou a rir baixinho.

- Nunca vi uma coisa assim...

- E foi isso mesmo que todo mundo disse lá no tribunal. Todo mundo riu quando um velhote jurou que tinha visto o assassino fugir numa bicicleta verde. Eu poderia ter feito eles rirem de forma diferente. Eu conhecia bem as ruas desde criança. Sabia muita coisa a respeito de bicicletas verdes.

Quando percebeu que ela hesitava, Paul soltou uma risadinha incrédula.

- Acho que você está inventando tudo isso, Louise... Ela ficou vermelha de indignação.

- O quê!... Está querendo dizer que sou mentirosa? Naquela ocasião havia em Eldon um clube de ciclistas que se chamava Os Gafanhotos. E então, só para esnobar, e pára combinar com o nome, as bicicletas dos sócios deviam ser pintadas de verde claro.

- Os Gafanhotos? - Paul continuava a mostrar uma indiferença completa. - Então o cara que tinha a tal bicicleta que você falou devia ser sócio do clube.

- Exatamente. E devia ter grana também para poder ter gostos extravagantes e, aliás, bolsas também extravagantes... vamos dizer uma que tivesse sido feita com pele humana curtida. Você se sente chocado?

Paul tentava desesperadamente não demonstrar o mínimo interesse por tudo aquilo que ela dizia. Fez sinal ao cara do bar para trazer outro gim para a mulher.

- Claro que me sinto...

- Agora então eu lhe pergunto, queridinho, que espécie de pessoa poderia ter uma bolsa como aquela?

- Um maluco?

- Essa não! E que tal um estudante de medicina que disseca os cadáveres para os exames de anatomia?

- Meu Deus! - exclamou Paul. A ele jamais ocorreria aquela conclusão, embora percebesse agora que era absolutamente correta. Paul lembrava-se agora que em Queen havia estudantes de medicina que faziam aquilo para guardar como lembrança.

Houve um silêncio tão tenso que Paul nem mesmo conseguia falar. Encantada com o resultado que estava conseguindo, Louise Burt soltou uma risadinha prolongada e bebeu mais um gole do gim. Já não estava muito firme na cadeira.

- Eu poderia deixá-lo completamente arrepiado se quisesse. Por exemplo... o cara que eles pegaram era casado. Todas as moças que trabalhavam na loja de flores onde ele sempre aparecia sabiam disso. Mona também sabia. Esse era o nome da moça que foi assassinada. Eu conhecia bem a Mona e sabia que ela jamais se meteria com um homem casado. Ela era muito bonitinha e queria encontrar um bom partido... Em outras palavras, o cara com quem ela andava e que a engravidara... devia ser solteiro. Além disso, a gravidez já era de quatro meses. Mas o cara que eles acusavam só conhecera Mona umas seis semanas antes. Ele não podia ser o responsável por sua condição. Aquela acusação contra ele era completamente impossível.

Paul levou a mão aos olhos para esconder a emoção que o dominava. Foi com voz rouca que ele murmurou.

- Mas por que... por que isso nunca veio à tona no processo ? Ela soltou uma risada.

- Não me pergunte isso. Pergunte aos caras que eram os donos do show. Eles tinham um advogado que conseguia enrolar todo mundo...

Volta e meia ele estava sempre encontrando esse homem chamado Sprott que, permanecendo sempre remoto e invisível, parecia ser também onipresente, parecia ser o elemento crucial que esmagara seu pai, impiedosamente, transformando-o num morto-vivo na prisão de Stoneheath. Pela primeira vez em sua vida, Paul sentia o que era o ódio, e então com uma pergunta candente na boca ele se inclinou em cima da mesa para falar com a mulher.

Naquele momento exato, no entanto, o rosto de Louise passou por uma transformação radical. Seu rosto gorducho estava pálido e ela olhava apavorada, por cima dos ombros de Paul.

- Desculpe-me - conseguiu gaguejar ela. - Estou-me sentindo tonta...

- Beba mais um gim. Espere aí que vou buscar...

- Não, não. Mas que tolice. Preciso ir embora...

- Não. Não. Vamos ficar mais um pouco.

- Eu preciso ir.

Paul mordeu o lábio perplexo. Era de enlouquecer aquela interrupção exatamente na hora em que ele conseguira levá-la à mais importante revelação. Ele precisava agarrar-se a ela, custasse o que custasse. Inclinou-se e falou ainda mais baixo.

- O que há?

- É um policial...

Sem se voltar completamente, Paul conseguiu olhar para o cara de cabeça chata que estava na mesa ao lado. Talvez, inconscientemente, ele houvesse percebido aquele cara de roupa escura que estava tão interessado nas notícias esportivas. Interessado até demais. Durante os últimos 20 minutos ele não virará uma única folha do jornal que escondia seu rosto imóvel. Agora ele baixara muito pouco o jornal e Paul via que era o Sargento Jupp.

Paul tomou coragem e virou-se para Louise.

- Vou sair junto com você. Aqui está muito quente e o ar fresco da noite vai ser bom para você.

Antes que ela pudesse protestar, ele já tinha pedido a conta e pago a despesa. Muito nervosa, sempre olhando desconfiada para a mesa ao lado, ela apanhou as suas coisas e enfiou o casaco e então levantou-se. O sargento levantou-se também, imediatamente, dobrando o jornal que enfiou no bolso, e então, com ar muito distraído, saiu do bar na frente deles.

Paul sentia seus nervos vibrarem como se fossem sinos. Escava imaginando se, ao sair dp bar, iria sentir novamente aquela mão em cima de seu ombro para levá-lo outra vez à Chefaíura de Polícia, sob uma falsa acusação. Ele estava resolvido a não se submeter mais àquilo. Via o policial de pé lá na sua frente, esperando que a porta se abrisse. Ele segurou o braço de Louise e. com ar muita decidido, seguiu em frente.

- Espere um minuto...

Paul parou de frente para o sargento que se aproximou deles, e seu rosto não demonstrava nenhuma expressão

- Estive olhando você lá dentro. Estava sendo inconveniente com esta moça...

- Você está mentindo!

- Acha que estou mesmo? - Ele voltou-se para Louise. - Este cara aqui estava se metendo com você, não é mesmo?

Houve uma pausa antes que ela respondesse com voz muito aguda.

- Bem... ele estava me convidando para sairmos juntos... sabe como é... mas eu não queria...

- Está bem. Vá dando o fora bem depressa...

Logo que a mulher saiu apressada, Jupp olhou para Paul.

- Está vendo? Agora olhe aqui, Mathry, não vou encanar você, mas este é o segundo aviso e espero que tenha juízo Instante para compreender.

Em lugar de sentir-se aliviado, Paul foi tomado de uma raiva louca. Aquela indulgência fingida era mais dura de aceitar do que um ferimento de verdade. Não esperou mais nada. Seria inútil tentar seguir a mulher. Com a respiração acelerada, fez meia-volta e embrenhou-se nas sombras até chegar na esquina da rua.

Depois de passar por três cruzamentos de ruas sem importância, ele entrou numa rua lateral e foi até a Rua Marion sempre muito cheia. Chegando ali, diminuiu o passo e misturou-se com as pessoas que caminhavam em direção à Ponte Tron e o centro da cidade. Em sua maioria eram mulheres que passeavam sozinhas, ou em pares, de braços dados, ao longo da avenida poeirenta e ladeada por árvores, com olhares convidativos apesar da boa iluminação que havia ali.

À medida que seguia em frente, ainda com os dentes cerrados de raiva e engolindo em seco, ele sentia aumentar sua indignação. Escapara ao perigo imediato, mas os seus contatos com Louise estavam irremediavelmente terminados. Ela jamais se recuperaria do susto. Ele soltou um tremendo palavrão. Aquela sensação de estar sendo sempre vigiado e ameaçado só servia para inflamar cada vez mais as brasas que ferviam sempre em seu peito.

Quando chegou em casa, arrancou as roupas e deixou-se cair na cama completamente exausto. Viriam eles procurá-lo ali? Não acreditava que tal acontecesse. A verdadeira ocasião já passara e, embora ficasse constando de sua ficha, ele duvidava que aquilo fosse usado como um pretexto para prendê-lo. Fosse aquilo certo ou errado, ele sabia que o objetivo da polícia era de apavorá-lo, obrigando-o a fugir de Wortley. Ele já nem se importava mais se eles viriam ou não. Fechou os olhos e logo adormeceu profundamente.

 

Na manhã seguinte, quando acordou, ele já via com maior clareza as perspectivas de tudo que descobrira na noite anterior. Embora a entrevista tivesse sido interrompida, ele conseguira obter de Louise uma série de fatos vitais entre os quais estavam a bicicleta verde e a bolsa de pele humana. Refletindo bem ele chegava à conclusão de que o dono da bolsa devia ter sido um estudante de medicina naquela ocasião e que agora devia ser certamente médico. Se ele conferisse o catálogo dos médicos com uma velha lista dos sócios do Clube dos Gafanhotos, talvez fosse possível determinar a identidade do dono da bolsa.

Muito animado com essa nova esperança, ele saltou da cama. Já passava das oito e quinze que era a sua hora de levantar-se. Fez a barba, vestiu-se, tomou o café às pressas e correu para a loja. Quando chegou lá viu Harris que o esperava na porta principal. Aquilo era estranho porque ele só chegava às 10.

O gerente adiantou-se e barrou-lhe a entrada...

- Você está atrasado.

Paul olhou para o relógio que ficava lá no fundo da loja e viu que ele marcava nove horas e seis minutos. Ainda não havia nenhum freguês lá dentro onde só estavam os empregados e todos eles, inclusive Lena, estavam olhando para o gerente, sendo que ela se mostrava aflita.

- Desculpe-me. Acho que dormi demais...

- Não admito respostas. Você tem alguma justificativa? - Harris estava ficando cada vez mais exaltado.

- Justificativa para quê? Só estou com seis minutos de atraso...

- Estou perguntando se tem alguma justificativa.

- Não. Não tenho nenhuma.

- Pois então está despedido. Nesta loja nós não aceitamos empregados que tenham encrencas com a polícia.

Harris não esperou pela resposta e entrou na loja, a caminho de seu escritório. Quando atravessou o salão, todos o. Empregados se puseram ocupados junto a seus balcões, com exceção de Lena que ficou de pé, muito pálida, próximo à sua mesa.

Com aquela ferida aberta no peito, Paul saiu dali e quando caminhava pela Rua Ware tinha a sensação de estar sendo seguido.

No principio, cheio de indignação, começou a caminhar rapidamente e sem propósito pelas ruas movimentadas perdendo-se no meio da multidão que havia nas calçadas. Depois, pouco a pouco, foi ficando mais calmo. Livre da tirania daquele insuportável piano, ele, pelo menos teria liberdade para verificar se estavam certas ou não as concluções a que chegara na noite anterior.

Entrou numa cabina telefônica e verificou pela lista que o Touring Club dos Ciclistas tinha seu escritório no número 62 da Rua Leonard. Em 10 minutos ele chegou lá no prédio, passou por baixo da tabuleta com uma roda dourada com asas e chegou ao balcão de informações numa sala cheia de mapas pendurados nas paredes.

A secretária era uma senhora de meia-idade que o recebeu sem mostrar surpresa quanto à pergunta e logo apanhou uma pasta cujas páginas folheou com grande habilidade, mas sem nenhum resultado.

- Parece que esse clube não consta de nossos registros. O senhor sabe se ele era afiliado?

- Não. Não sei. É até possível que não exista mais, porém preciso descoLri-lo de qualquer maneira. Por favor, ajude-me. É muito importante...

Houve uma pausa.

- Eu não tenho tempo, mas se é tão importante assim eu poderei permitir que verifique nossos registros antigos. Ele deve estar lá.

Ela levou-o até um pequeno anexo ao lado do escritório e mostrou-lhe uma estante de brochuras amarelas e verdes.

Paul ficou ali sozinho e percorreu todos os livros e relatórios auuais dos últimos 20 anos. Sua busca minuciosa levou três horas, mas ele nada encontrou a respeito do Clube dos Gafanhotos.

Desapontado, mas não desanimado, ele refletiu com toda lógica que conseguia reunir que, se aquele clube realmente existira, seus sócios deveriam, sem dúvida alguma, comprar suas máquinas em alguma loja do lugar. Ele começou então a percorrer, sistematicamente, todas as lojas de bicicletas da cidade.

Nessa busca, no entanto, ele só encontrava respostas negativas, indiferença e, em alguns casos, chegou a ser ridicularizado e até mesmo insultado. Ninguém jamais ouvira falar naquele clube e muita gente chegou, até mesmo, a pensar que aquilo era alguma brincadeira de mau gosto. Ele cometera um erro, pensando, no auge de seu entusiasmo, que se encontrasse algum sócio daquele clube antigo e que fosse agora médico praticante, sua busca estaria terminada. Agora, ele estava desanimado e dizia a si mesmo que aquilo tudo talvez fosse um mito, uma fantasia criada pelo espírito conturbado e perverso de Louise.

Às quatro horas ele tinha chegado, cansado e desanimado, na periferia de Eldon onde estava o último endereço da lista de casas de bicicletas e aquela ali era apenas uma pequena garagem que ostentava o nome Jos. Stevens. Era pouco mais do que um posto de gasolina com duas bombas manuais, mas no lado de fora havia algumas bicicletas de segunda mão, para vender ou alugar. Nada poderia ser de aparência menos promissora. Contudo, depois de ligeira hesitação, e quase automaticamente, ele entrou e falou com um homem de macacão que regava a calçada.

Já então, a forma usada por Paul para fazer interrogações eram mais agressivas e peremptórias. No entanto, enquanto esperava a resposta que, certamente, seria também no mesmo tom, ele ficou surpreso ao constatar no rosto do proprietário um olhar cheio de consideração. Sem responder imediatamente, ele fechou primeiro o registro de água e olhou para Paul com um ar pensativo.

Parecia que estava falando para ele mesmo.

- Os Gafanhotos... Pensando bem, creio que já ouvi meu pai falar deles...

- Ouviu mesmo?

- Ouvi sim. No tempo dele isto aqui era apenas uma oficina de bicicletas. Foi depois que ele morreu que eu aumentei para garagem. Acho que ele costumava fazer os consertos para um clube com esse nome. Eles só usavam bicicletas New Hudson pintadas de verde...

- Então o senhor deve saber os nomes dos sócios...

- Eu era apenas um garoto. - O homem sorriu. - Já faz tantos anos...

- Mas seu pai, com certeza, devia anotar alguma coisa... as contas... um livro de endereços... alguma coisa desse gênero...

- Nada disso. Com ele era só pagamento à vista contra entrega das máquinas...

- Mas devia havef uma lista dos sócios... coisas impressas... atas de reuniões...

- Duvido muito. A impressão que tenho é de que devia ser uma coisa mais ou menos informal, constituída por um grupo de rapazes mais como brincadeira do que por qualquer outra razão. Uma espécie de mania... sabe como é... e aquilo não deve ter durado muito.

Seguiu-se uma pausa. Levado ao máximo da esperança só para ver tudo desmoronar outra vez, Paul tentava evitar toda a amargura e frustração que sentia.

- Quando o senhor tiver tempo, eu lhe pediria que verificasse nos papéis de seu pai, e se encontrar alguma coisa relacionada com o tal clube, avise-me, por favor. Ser-lhe-ei muito grato.

Com uma voz bem calma, ele deu-lhe seu nome e endereço e guardou o cartão comercial que o outro lhe oferecia, e depois de agradecer mais uma vez voltou para a cidade.

E então, exausto com todos aqueles esforços, e desanimado com o fracasso, ele se perdeu e, quando se deu conta, estava inesperadamente no Grove Quadrant, um distrito residencial onde havia esplêndidas mansões. Sem mesmo se aperceber do que estava fazendo, ele ia andando e lendo os nomes nos portões. The Towers, Wortley Hall, Robin Hood Manor. Todos eles tresandavam opulência e grandeza. De repente, por cima de uma caixa de correio num importante portão senhorial, seu olhar foi atraído por uma pequena placa de bronze que trazia apenas o nome do dono da casa. Estava escrito Sir Matthew Sprott.

Paul parou de repente, varado por aquele nome, sem conseguir despregar os olhos daquela placa brilhante, dos jardins, da mansão, com o rosto tão pálido que dava a impressão de não haver nele mais sengue. Ali então estava a casa do advogado de acusação. Ele chegara a um ponto em que só encontrava esse nome para Sprott. Ao descobrir-se ali, de repente, tão perto dele, Paul sentiu-se invadido por uma onda de acusação que fora acicatada por Swann e que crescera dentro de seu peito.

Ali morava um homem de inteligência invulgar, um especialista em direito criminal, com uma competência elevada a seu mais alto grau na técnica de dedução e elucidação. Como poderia ter acontecido que ele não houvesse tomado conhecimento das provas da maior importância como as da bicicleta verde, da bolsa de pele humana e do tempo de gravidez da mulher assassinada? Teria sido então uma omissão deliberada? Poderia alguém ignorar propositadamente fatos favoráveis ao acusado para concentrar-se apenas nas provas prejudiciais, desempenhando assim o papel de advogado do diabo, e usando toda a sua força e personalidade para esmagar uma oposição fraca e incompetente a fim de conseguir uma condenação qeu sabia ser errada? Seria assim a lei?

Só de pensar naquilo, Paul sentia-se tomado de um verdadeiro caos de emoções, de raiva e rancor que lhe estrangulavam o peito. Ele tremia ao pensar que o advogado poderia surgir ali agora, naquele portão, e que eles poderiam encontrar-se frente a frente. Ele pensou logo em fugir dali, mas suas pernas se negavam e ele não conseguia mover-se e então segurou-se no gradil para não cair. Seus pés pareciam de rhumbo. Afinal, conseguiu afastar-se e foi refugiar-se no meio da multidão que andava pelas ruas.

De volta a seu quarto, Paul atirou o casaco em cima da cama e começou a andar de um lado para outro muito nervoso. Provara, pelo menos, que havia substância naquilo que Louise lhe contara, mas a impossibilidade de fazer qualquer coisa deixava-o desorientado. Ele queria ação drástica e imediata. À medida que passava o tempo, ele sentia aumentar a inquietação. No momento exato em que pensava não lhe ser possível agüentar mais, alguém bateu na porta. Ele abriu-a imediatamente e deu de cara com Lena enrolada na sua capa de chuva e sem chapéu. O ar frio da noite ou então, talvez, sua rápida passagem pelas ruas tinha-lhe puxado o cabelo para trás e ela estava bem corada. Ela ficou ali na porta sem saber o que fazer com os olhos muito abertos e espantados e a testa franzida numa expressão de aflição que não procurava esconder.

- Paul... desculpe-me se vim incomodá-lo... Eu precisava vir, Esta tarde, lá na loja... apareceu uma pessoa para falar com você...

- Sim? - Quando a viu ali, daquela maneira inesperada, o olhar dele, instintivamente, se tornara mais brilhante. Imediatamente, porém, insidiosa como se fosse veneno, veio-lhe a lembrança do que Harris lhe contara. Ele não se resignava a pensar nela à luz daquele descrédito e sentia-se tomado por um pensamento mau, que não lhe agradava, de que ela com aquele seu arzinho fingido de simplicidade fizera-o de tolo. Inconscientemente, seus modos se tornaram mais frios e duros. - Entre, por favor...

- Não, preciso voltar imediatamente. - Ela falava impulsivamente. - Harris foi injusto com você hoje de manhã...

- Acho que ele tinha lá suas razões.

Ela continuava a olhá-lo muito agitada. Por cima da gola abotoada da capa, ele percebia a pulsação na sua garganta muito branca.

- Você já encontrou outro emprego?

- Ainda não procurei...

- Mas então o que vai fazer?

A aflição que ela não conseguia esconder amargurou ainda mais o espírito já torturado dele, mas Paul, simplesmente, deu de ombros.

- Não se preocupe. Eu me arranjarei de qualquer maneira. Quem era que queria falar comigo, afinal? Era alguém da polícia?

Ela atalhou-o rapidamente, e seus lábios tremiam.

- Não, não. Foi um homenzinho engraçado.. . Harris foi muito bruto com ele. Não quis receber o recado e não lhe deu nenhuma informação. Mas eu consegui falar com ele. É um tal de Prusty que mora no cinqüenta e dois de Ushaw Terrace... Quer que você vá falar com ele esta noite.

- Esta noite?

- Isso mesmo. Pode ir a qualquer hora. Ele disse que é terrivelmente importante...

- Muito obrigado. Você me fez um grande favor.

- Qual nada... eu não quero me meter... mas se houver alguma coisa em que possa ajudar...

A simpatia que ela demonstrava, muito retraída, mas espontânea, envolveu-o num intenso desejo para confiar nela. Ainda uma vez, porém, ele não cedeu. Em lugar disso, esforçou-se para nostrar um sorriso convencional que mais parecia uma careta na forma como torceu a sua boca.

- Será que seus problemas e encrencas não lhe bastam?

Ela olhou-o de uma forma estranha, quase inquiridora, e baixou o rosto.

- Se eu os tiver, realmente, isso fará com que entenda melhor os seus.

Ela esperou sua resposta com um ar de aflição. Vendo que ele continuava calado, ela apertou os lábios como se quisesse abafar um suspiro.

- Então... pelo menos, tenha cuidado.

Durante um instante, ela o encarou, mas, logo em seguida, com um rápido movimento, voltou-se e foi embora.

Ele sentiu-se imediatamente tomado por um calafrio, uma sensação de privação misturada com raiva por sua fraqueza ao desejar que ela ficasse ali. Quase correu para chamá-la de volta. Desistiu quando ouviu o relógio da Praça Ware bater as horas. Contou nove badaladas e logo apanhou o chapéu e o casaco e desceu as escadas, pensando qual seria a razão para aquele recado de Prusty. Aquela insólita atitude ia bem de encontro à natureza cautelosa do velho. Com a testa franzida, tentando encontrar uma resposta para aquele quebra-cabeça, ele caminhou para Eldon a passos apressados.

 

O tempo tinha, afinal, mudado, e a noite estava fria. Uma noite de inverno. Por baixo de um céu carregado, as ruas estavam silenciosas e desertas. A cidade parecia congelada. A neve logo começou a cair. Os flocos secos flutuavam no ar e depois caíam muito macios, em cima das calçadas. Com os passos abafados, Paul passou pela chárutaria fechada e caminhou para a casa de Prusty.

Ele estava em casa todo enrolado numa grossa manta de lã. Olhou para ver quem era pela porta entreaberta e logo abriu-a toda ao reconhecer Paul que entrou depois de haver sacudido a neve das botinas na escada. A sala estava sempre como antes, escura e empoeirada, com aquele mesmo cheiro pungente de fumaça de charuto e a luz do gás iluminava o tapete de pele de carneiro. Ali, pelo menos, estava confortável e quente em comparação com o frio lá fora.

Prusty olhou-o com atenção por cima do pince-nez.

- O inverno chegou cedo. Sinto nos meus ossos. Sente-se. Vamos comer alguma coisa. É a hora de minha ceia.

Ele encheu uma xícara com o indispensável café que oferecia às visitas e insistiu com Paul para fazer-lhe companhia num pastelão de carne que comprara na padaria e esquentara no fogão. A despeito daquela demonstração de hospitalidade, Paul tinha a impressão de que o velho já não o via com tão bons olhos como antes. Ele continuava a examiná-lo de soslaio e com uma série de perguntas indiretas, mas todas elas ligadas ao ponto crucial, ele ia conseguindo descobrir o que Paul andara fazendo nas semanas anteriores.

Depois de já saber o que queria, ele não fez comentário algum, mas seu ar era bem sombrio, quando escolheu e acendeu sua cigarrilha tossindo espasmodicamente e depois inclinando-se para a lareira.

- Então é isso aí. - O velho ficou pensando com a testa franzida. - Não é de admirar eu ter sentido que toda a história tinha renascido. Depois de ter permanecido enterrada durante todos esses anos... agora é como se você tivesse colocado o ouvido no chão e descobrisse que lá embaixo havia alguma coisa se mexendo...

Houve um completo silêncio, e a sala parecia estar cheia de sombras.

- Mas tudo ainda continua escondido. Só que já aparecem sinais e sintomas... e também há presságios e portentos... para melhor ou pior, é coisa que não posso dizer, mas sinto em meus ossos que vai haver uma ressurreição. Sinto isso até mesmo aqui nesta sala... e na sala lá em cima.

Ao mesmo tempo que falava ele olhava para o teto. Ouvindo aqueles estranhos presságios do velho, Paul sentiu um arrepio e olhou também para o teto.

- O apartamento ainda está vazio? Prusty concordou com um aceno de cabeça.

- Completamente vazio. Depois do crime, ele nunca permaneceu ocupado durante muito tempo.

Paul mexeu-se inquieto na cadeira. Sentia-se agora acossado por pensamentos perturbadores e pela necessidade urgente de continuar, custasse o que custasse.

- O senhor está pensando em alguma coisa. Será que isso é devido ao que tenho feito ultimamente?

- É isso mesmo. Já estão começando a falar nisso. São apenas sussurros e ecos que já chegaram em lugares bem estranhos. E foi por isso que mandei chamá-lo.

Paul inclinou-se ainda mais e trançou bem os dedos para esconder o tremor das mãos.

- Na última sexta-feira apareceu-me aqui, neste apartamento, um cara que queria falar comigo. Eu estava lá na loja mas a faxineira que vem duas vezes por semana para arrumar o apartamento estava trabalhando aqui. Ela é uma mulher simples e sensata que não se deixa intimidar com facilidade, mas aconteceu que ficou realmente apavorada quando viu aquele homem... você quer que eu continue ?

- Qaro...

- O homem era um desses caras que a gente não consegue saber a idade. Tanto podia ser moço como velho. Parecia forte mas também parecia doente. As roupas eram grandes demais para ele. Seu rosto era duro com a palidez da morte. Tinha a cabeça raspada, e a faxineira jurava que ele era um presidiário.

Paul sentia os lábios secos.

- Quem poderia ser?

- Só Deus sabe... Eu não sei, mas poderia apostar como viera de Stoneheath. Não deixou nome. Só o que deixou antes de ir embora foi um recado.

Com movimentos graves, mas decididos, Prusty tirou do bolso do colete um pedacinho de papel que entregou a Paul. Meio apaga120

das no papel amarelado estavam umas palavras escritas em letras muito pequeninas, e Paul leu-as um sem-número de vezes.

Pelo amor de Deus não permita que eles o afastem. Procure Charles Castíes em Lanes. Ele lhe dirá o que fazer.

O que poderia significar aquilo? Quem teria escrito aquele recado desesperado? Quem poderia ter dado aquele grito de desespero? Paul estava empertigado na cadeira, petrificado por uma louca conjetura. Não, não. Não poderia ser. E no entanto, por alguma possibilidade inconcebível, poderia ser verdade. E se aquele pedaço de papel viesse de seu pai? Se houvesse atravessado secretos canais subterrâneos para ser entregue às escondidas por um companheiro de prisão solto depois de haver cumprido a sua pena?

Paul teve a sensação de que um choque elétrico corria-lhe pela espinha. Naquele doloroso apelo ele via uma inspiração, uma ordem para que continuasse. Sentiu uma convulsão no peito, dobrou o papel e perguntou ao velho se poderia ficar com ele.

Prusty teve um gesto de resignação como alguém que procura fugir a uma responsabilidade.

- É até um prazer ver-me livre disto. Não pedi para me envolverem nessa trapalhada.

A sala estava numa meia escuridão e a luz do gás da lareira era muito fraca. Lá fora o silêncio era cada vez maior e a neve já se amontoava nos vidros das janelas. Paul ficou ali sentado mergulhado em suas refleções e cheios de novas esperanças. Continuava imóvel na cadeira.

De repente, sem qualquer aviso, ouviu-se o barulho de passos no apartamento de cima.

Paul retesou-se na cadeira e durante um momento pensou que se enganara, mas os passos logo recomeçaram com uma regularidade abafada. Insinuando-se daquela forma nos seus pensamentos do momento, aquela manifestação assumia um caráter de tremenda significação. Ele sentia os cabelos arrepiados e seus olhos não se desviavam do teto. Prusty também estava atento e olhava para cima com a mesma consternação. Afinal, foi Paul quem falou baixinho.

- O senhor disse que o apartamento estava vazio...

- E juro que está mesmo, Paul.

Com uma agilidade incomum, Prusty levantou-se de um salto e precipitou-se para fora do apartamento. Ao mesmo tempo a porta lá em cima bateu e ele ouviu passos na escada. O primeiro impulso de Paul fora o de seguir Prusty mas logo foi detido por uma exclamação de alívio que vinha lá de fora. Ficou ouvindo uma voz desconhecida que cumprimentava e logo depois a voz do velho já em tom normal. Depois houve uma conversa em voz baixa seguida por um amistoso "Boa-noite" dos dois lados.

Prusty voltou logo depois ainda enxugando a testa. Fechou a port? acendeu o lustre e depois voltou-se para Paul com um ar meio encabulado.

- Era o nosso senhorio. Há uma goteira no telhado por causa de algumas telhas que saíram do lugar. Ele subiu para ver o que era. - Enrolou-se na manta, aconchegando-se bem. - Quando a gente fica sentado no escuro logo começa a imaginar coisas... Foi isso que me aconteceu agora.

Paul mexeu-se lentamente na cadeira.

- Mas aquele pedaço de papel não foi imaginação sua...

- Nada disso. Mas quando ouvi aquele barulho lá em cima e logo saí correndo... Meu Deus! Aquilo estava igualzinho ao que eu ouvira quinze anos antes. Muito bem... será que não quer mais um cafezinho?

Paul não aceitou. Já não podia ficar parado. Aquelas palavras apagadas naquele pedaço de papel queimavam-lhe a pele atravessando o pano do bolso, como se fosse chumbo derretido. Já não pensava mais na bicicleta verde e na bolsa de pele, coisas que, até algumas horas antes, lhe pareciam de importância capital. Aquela última pista afastava de seu espírito todas as outras. Ao voltar apressado para seu quarto, seus pensamentos estavam febris e confusos. Haveria possibilidade de suas ações terem resultado naquele bilhete? Naquele doloroso pedido de socorro? Também poderia ser que aquela notícia sobre Birley houvesse chegado até a prisão pelos misteriosos canais de comunicação. Paul suspirou profundamente, sentindo que aquele estado de suspense estava acima de suas forças. Agora, pelo menos, ele já tinha uma orientação segura, direta e poderosa. Iria segui-la até o fim.

- Eu sinto muito, mas o senhor já está atrasado uma semana no pagamento do aluguel de seu quarto. - Quem assim falava era a senhoria, quando Paul acabara de vestir-se na manhã seguinte.

- Será que a senhora não poderia esperar até sábado? Eu agora estou com pouco dinheiro.

Ela estava de pé na porta com um vestido sujo envolvendo seu corpo sem busto e olhando para ele com um ar de dúvida. Sabia que o rapaz perdera o emprego e, embora não fosse impiedosa, a luta pela vida fizera com que a pena fosse um objeto de luxo fora de seu alcance.

- Não gosto que abusem de mim. Vou esperar até amanhã à noite. Se não houver conseguido emprego até lá, serei obrigada a pedir-lhe que se mude.

Ele não tinha a menor intenção de procurar emprego e, no seu bolso, havia apenas 10 xelins. Tampouco queria prejudicá-la. Depois que a mulher saiu, Paul abriu a mala para avaliar suas posses, entre as quais estava seu relógio e a corrente de prata. Se ela vendesse aquilo, era possível que conseguisse a importância que Paul lhe devia. Além do que tinha no corpo, ele levou apenas os papéis que se relacionavam com o caso e que guardou no bolso interno do sobretudo. Depois, olhou em torno e saiu.

Chegou a Lanes por volta das dez horas. Aquele era o nome de um dos mais antigos bairros de Wortley e constituía uma abreviação de Fairhall Lanes. Nos tempos medievais aquilo fora um acampamento e, mais tarde, transformara-se numa feira. No fim do século XIX, o processo de deterioração continuara com a construção de habitações baratas para trabalhadores, uma das demonstrações da era vitoriana industrial. O resultado, no momento, era uma favela, a pior região da cidade, uma rede de ruas estreitas e tortuosas esmagadas por edifícios altos em ruínas. Durante todo o dia, Paul percorreu todas as ruas tentando, sem sucesso, localizar o homem chamado Castles. Quando anoiteceu, uma chuva fina começou a cair. O rapaz, porém, estava resolvido a continuar e então dirigiu-se para o centro do distrito, onde, por nove penies, conseguiu um quarto para uma noite num alojamento de trabalhadores.

Ali era ainda um lugar mais pobre do que a casa de Hart que ele visitara um dia e consistia apenas de um longo quarto no sobrado para onde se subia por uma escada de madeira bem precária. As camas eram sacos velhos esticados como redes baixas entre duas cordas que corriam por toda a extensão do dormitório. Numa das extremidades havia uma cozinha suja onde, amontoados em torno de um fogão, uma quantidade de homens maltrapilhos se acotovelava e empurrava a fim de conseguir uma brecha para fazer suas comidas em frigideiras e "penicos" velhos, naquele vapor que tresandava a ranço.

Depois de olhar para aquilo, Paul esticou-se na sua cama completamente vestido e puxou o cobertor cinzento muito fino e surrado.

- Você não vai querer jantar, companheiro?

Paul voltou-se. Na rede a seu lado estava um homenzinho com um rosto gaiato e enrugado apoiando-se nos cotovelos com dois sacos sujos de papel na sua frente. Ele estava embrulhado num sobretudo todo rasgado e calçava tênis de lona rasgados, sujos e forrados com um papel escuro, e um suéter de gola alta. Com seus olhos muito vivos espetados em Paul, o homem enfiou os dedos magros num dos sacos e tirou dali uma ponta de cigarro que cortou ao meio e sacudiu o fumo para dentro do outro saco com gestos fáceis e rápidos.

- Posso cozinhar para nós dois, companheiro, se você tiver aí alguma coisa que se coma...

- Desculpe, mas eu comi antes de vir para cá.

- Puxa vida! Você tem sorte, companheiro. Eu, por mim, podia comer um boi com chifres e tudo.

Quando acabou o que estava fazendo, ele fechou o saco já cheio e escondeu-o dentro da camisa. Do fumo que ainda restava ele enrolou um cigarro que colocou atrás da orelha. Depois levantou-se como se fosse um roedor humano pequenino, olhando para Paul e para o letreiro que estava pregado ali dizendo "É PROIBIDO FUMAR", ele saiu na direção dos sanitários.

Logo que ele voltou, Paul inclinou-se para seu lado.

- Eu estou procurando um cara chamado Castles. Você já ouviu falar dele?

- O Charlie Castles? Claro que já ouvi. Todo mundo já ouviu.

- E onde é que posso encontrá-lo?

- Ele está fora no momento. Deve estar fazendo algum trabalhinho... Deve estar de volta em poucos dias. Se não for fisgado outra vez... Fique por aqui que eu logo o avisarei... Será que sabe bem quem ele é?

- Não - disse Paul, sacudindo a cabeça negativamente.

- Pois então vai logo descobrir, companheiro. ..

- Conte-me você mesmo.

- Bem! - O homenzinho deu de ombros. - Ele dá azar mesmo... trapaceia nas corridas... recebe coisas roubadas nas horas vagas. Já passou anos atrás das grades. Assalto e coisas parecidas. .. a verdade é que acaba de ser libertado depois de cumprir muitos anos... Ele é da velha guarda. Mas fique sabendo que já esteve por cima, embora agora esteja bem por baixo.

- Não diga... E qual foi a prisão onde ele esteve?

- Foi em Stoneheath. Paul respirou aliviado.

A barulhada aumentava ali no dormitório com gritos, palavrões e gargalhadas. Alguém começou a tocar uma gaita. Já era quase meia-noite quando se fez um silêncio relativo. Paul dormiu mal.

Na manhã seguinte, às seis em ponto, todo mundo foi obrigado a acordar. O processo era fácil. Consistia em desamarrar uma das cordas e todas as redes vinham abaixo. Os que insistiam em dormir eram acordados com pontapés do encarregado. Paul saiu com os outros para a manhã fria, mas o seu vizinho de cama não o largava e levou-o até o café mais próximo onde ficou batendo com os pés enfiados nos tênis rasgados e soprando nas mãos com um ar de expectativa bem-humorada.

- Que tal um cafezinho, companheiro? Você paga. Eu só tenho uma nota de cinco...

Paul trocou um dos seus poucos xelins e pagou um café com pão para ele e seu companheiro.

O nome dele era Jerry. Jerry, o Jumento, para os íntimos. Confessava com seu sorriso maroto quê era um mordedor. Durante os últimos anos nunca tivera um trabalho firme, mas conhecia todos os golpes para conseguir viver. Sua ocupação mais comum era a de apanhar pontas de cigarros nas ruas e vender o fumo por preços que variavam, mas sempre compensavam. Com o mau tempo, no entanto, era difícil apanhar as pontas de cigarros e então, naquela manhã, ele ia trabalhar com os cartazes. Convidou Paul para irem juntos.

- Venha comigo, companheiro. Com esse seu corpo você logo vai ser escolhido.

Paul estava quase recusando, mas resolveu arriscar. E por que não? Ele precisava ficar com o seu companheiro para poder encontrar Castles. Ali era quase certo que ficaria bem escondido da polícia. Com o pouco dinheiro que tinha, ele era obrigado a tentar tudo para sobreviver. Foi então junto com Jerry, caminhando na direção de Dukes Row.

Lá no fim do beco, do lado de fora de um terreno mal tratado com um cartaz

 

         COMPANHIA LANES

           DE PROPAGANDA E CARTAZES

 

eles ocuparam um lugar numa fila onde já havia alguns homens esperando. Depois de mais ou menos uma hora, o portão abriu-se para deixar entrar os primeiros 20 da fila e entre eles estavam Jerry e Paul.

Dentro do terreno havia uma fileira de cartazes-sanduíches, todos eles recentemente pintados e onde estavam colados os cartazes em vermelho e amarelo anunciando o Teatro Palace. Seguindo o exemplo dos outros, Paul caminhou para um deles, enfiou-o nos ombros e caminhou na direção do portão. Formaram novamente uma fila onde Paul entrou ficando logo atrás de Jerry.

Durante todo o dia a fila percorreu as ruas mais movimentadas da cidade. Os cartazes eram pesados e incômodos e estavam sempre escorregando e machucando os músculos dos ombros. Às cinco horas, estavam todos de volta à sede e cada um recebia dois xelins e nove penies. Quando saíram juntos, Jerry disse a Paul que estava na hora de comer alguma coisa e, com o seu sorriso de sempre, levou-o para a lanchonete mais próxima.

Todos os dias, naquela semana, Paul saía com os cartazes. Era um trabalho humilhante. Para chamar mais a atenção, os homens eram obrigados a exibir sempre alguma coisa estranha e numa das manhãs Paul saiu, como todos os outros, ostentando uma cartola bem surrada. À tarde, quando desfilavam pela Rua Ware, ele viu Nancy Wilson, uma das empregadas do Bonanza, caminhando na sua direção. Abaixou rapidamente a cabeça mas já era tarde e ela já o reconhecera e ficara muito espantada.

Ele pouco se importava. Estava conseguindo existir com o dinheiro que ganhava. Uma parte ia para a dormida e o resto para a comida. Como era mais econômico usar a cozinha do dormitório, ele seguiu o conselho de Jerry e comprou uma frigideira de segunda mão do gerente do dormitório. A carne mais barata, quando fritada com cebolas, constituía-se numa boa refeição.

Aquele cortiço recebia uma estranha coleção de gente abandonada e desabrigada. Era a verdadeira escória da população de Wortley. Nenhum dos homens tinha trabalho certo, e até mesmo os melhores dependiam sempre da sorte. Essa podia manifestar-se numa fila de barcaças que chegavam, de repente, e precisavam ser descarregadas ; da abertura de novas valas de esgotos; de uma forte nevasca que entupia as ruas; e então, nesse caso, como dizia Jerry, eles tinham o que comer e tvber. Outros havia que escolhiam coisas mais estranhas. Eram os trapeiros, os das garrafas e ossos ou coisas parecidas, figuras silenciosas que vasculhavam as latas de lixo da cidade, sempre curvados, e olhando para o chão, perpetuamente procurando o tesouro de uma garrafa vazia, uma peça de louça, um pedaço de metal. Havia ainda os que faziam verdadeiros shows nas ruas. Eram os contorcionistas que comiam lingüiças com os pés; o violinista cego, um velho de maus bofes que, todas as noites, depois de tirar os óculos escuros e de largar a bengala branca que usava para ir batendo pateticamente no chão, deitava-se confortavelmente em sua cama para ler o jornal do dia; um vocalista que se especializava como "ponto" para teatros; um ardoroso filho de Dublin que não dispensava sua ceia habitual de batatas quentes com arenques salgados. Finalmente, havia ainda os aleijados. O homem sem pernas que se arrastava pelas calçadas com o auxílio das mãos, o falso paralítico, os repelentes que se valiam de feridas abertas e os que simplesmente mendigavam ostensiva e desavergonhadamente. Muitos eram corruptos e maus. Outros já estavam irremediavelmente doentes. Quando se juntavam ali, naquele dormitório baixo e mal ventilado, sujos e com alguns que despertavam gritando por causa de pesadelos, eles exalavam, na escuridão, odores fétidos que se misturavam com a catinga das latrinas.

E aquilo tudo só serviu para agravar rapidamente a aflição de Paul. Começou a temer que jamais resolveria o mistério e, com a crescente sobrecarga de inação, começou a desejar alguma atividade decisiva que cortasse definitivamente as peias que ainda o cerceavam. Seu espírito jovem era, cada vez mais, fustigado pela injustiça feita a seu pai, e então passava noites em claro e seu pensamento se voltava sempre, e cada vez com mais indignação, para o principal instrumento dos sofrimentos do pai, na pessoa de Sir Matthew Sprott, o advogado de acusação.

Quando chegou o fim da semana, a agência de publicidade suspendeu os anúncios com os cartazes. Quando receberam a notícia, Paul olhou para Jerry que apenas sacudiu seus ombros magros.

- Eles costumam fazer isso. Escolhem outros meios. Vamos tentar a estação.

Foram juntos para a estação da estrada de ferro e, durante dois dias, ficaram por ali, na esperança de encontrarem alguma mala para carregar, mas sempre de olho nos carregadores registrados que não toleravam aquela invasão em seus domínios. Com as poucas gorjetas que recebeu, Paul conseguiu agüentar-se até o sábado. Nessa noite, logo que entraram no dormitório, Jerry parou de repente e apontou para um estranho, um homem magro que devia andar pelos 40, com rosto pálido e estreito, barba por fazer, olhos pequenos, com uma roupa escura, chapéu-coco e uma écharpe no mesmo tom solta em torno do pescoço.

- Olhe ali, companheiro - disse Jerry, em voz bem baixa. - Aquele é o Castles, mas cuidado quando falar com ele.

 

Mais tarde, naquela mesma noite, num pequeno quarto de fundos que Castles tinha alugado numa rua lateral, Paul encontrou o homem que tão ansiosamente esperara. A despeito de sua aparência pouco recomendável e de sua voz grosseira, ele era, conforme já dissera Jerry, educado e, obviamente, inteligente. Havia, realmente, na sua aparência, uns resquícios da lei. Seu rosto longo e magro dava-lhe um ar de empregado de escritório e, nos seus olhos amarelados e sinistros, havia a expressão de alguém que já redigira muitos documentos bem escritos. No entanto, fosse lá o que fosse que já tivesse sido na vida, ele agora, sem sombra de dúvida, já se embrenhara na escuridão do submundo.

- Estou vendo que você está querendo descobrir quem eu sou. Desista. Eu já não existo mais - Ele interrompera tão repentinamente os pensamentos de Paul que este ficou muito vermelho e confuso. Os olhos do homem não tinham nenhuma expressão, mas seus lábios pálidos se retorciam para baixo demonstrando um completo desprezo. - O que deseja de mim?

Houve um novo silêncio. Então, sem conseguir falar e sem tirar os olhos de cima dele, Paul entregou-lhe o bilhetinho que recebera de Prusty. Castles desenrolou-o, olhou-o sem lhe dar muita importância, demonstrando uma indiferença amarga, e depois devolveu-o.

- Então foi por isso que você veio até aqui?

- Quem foi que me mandou este bilhete ? Terá sido... terá sido meu pai?

Houve uma outra pausa curta, mas cheia de suspense.

- Acho que pode ter sido...

- Então... o senhor conhece meu pai ?

- Talvez...

- Em Stoneheath?

- Naquele maldito lugar... sim... Já que quer saber, nós costumávamos conversar com batidas na parede durante a noite... quando ele não estava na solitária... As nossas suítes eram pegadas ...

Paul passou a mão na testa que escaldava. Mal podia falar.

- E como está ele?

- Está mal. - Ele tirou do bolso do sobretudo um saquinho com fumo e uma folha de papel de arroz e, com uma só mão, enrolou um cigarro. - Aliás, não podia estar pior.

Apesar de toda a sua coragem, Paul não conseguiu evitar um soluço que lhe escapou do peito.

- O senhor não tem nada para me dizer? Não pode dar-me nenhuma esperança?

- E você acha que há esperanças em Stoneheath?

O latejar do coração de Paul parecia encher-lhe os ouvidos como se fossem as batidas de um tambor fúnebre. Apesar de tudo, ele achava que deveria haver alguma coisa por trás da reserva sinistra e inescrutável daquele homem, e mordeu com força o lábio.

- E então por que eu recebi este recado para vir procurá-lo?

- Seu pai sabia que eu ia sair. Ele achava que seria bom nos conhecermos. Então me entregou esta porcaria...

Paul recebeu os papéis que o outro lhe entregava. Eram pouco mais do que pedaços de papel sujos e cobertos com palavras escritas a lápis, mas embora lesse e relesse tudo aquilo escrito de forma quase ininteligível, ele ia ficando, cada vez mais, desanimado. Aquilo era apenas uma seqüência de gritos e lamentos vindos das trevas, protestos e reclamações sempre repetidos, provas de sofrimentos que dilaceravam o coração de Paul, sem mesmo lhe oferecer nenhuma outra prova ou alguma coisa com valor material. Completamente acabrunhado, ele levantou os olhos para Castles, que esperava com paciência exemplar.

- Isto quer dizer que o senhor não me pode ajudar? O outro puxou fundo o cigarro e falou lentamente.

- Isso depende. Preciso saber que espécie de ajuda você espera de mim.

Paul respondeu exaltado.

- O senhor sabe o que eu quero. Eu só quero arrancar de lá um pobre-diabo enterrado vivo durante quinze anos.

- Ninguém consegue sair daquela sepultura... Paul estava fora de si, completamente alucinado.

- Pois eu vou tirá-lo de lá. Ele é inocente... e posso provar. Vou encontrar o verdadeiro assassino...

- Nunca - respondeu o outro, com ar desdenhoso. - Depois de quinze anos você não tem a menor possibilidade. O autor do crime pode estar a milhares de quilômetros de distância. Pode ter mudado de nome e de identidade. Pode estar morto. Não há esperanças. - Fez uma pausa para dar tempo, a fim de as palavras calarem bem no espírito de Paul, e seus olhos amarelos não saíam de cima dele. - E por que você não corre atrás do assassino legal? Daquele que, realmente, condenou seu pai?

- De quem o senhor está falando?

- Estou falando do advogado de acusação...

Paul pôs-se de pé num salto como se houvesse sido mordido, e ficou com a respiração suspensa.

- Pelo amor de Deus... quem é o senhor ?

Houve uma pausa pesada. Depois, lentamente, com aquela indiferença que o escondia como se fosse uma máscara, Castles respondeu.

- Isso não é nenhum segredo. Está registrado no processo... condenado por apropriação indébita. Pelo menos foi assim que começou. Eu só precisava de um pouco de clemência... precisava de tempo para devolver o dinheiro. E foi isso o que implorei em pleno tribunal. Em lugar do que eu pedia o que recebi foram sete anos com trabalhos forçados...

Fez-se mais um silêncio, antes que ele continuasse.

- E então por aí você vê que estamos os dois no mesmo barco. Foi talvez por isso que Mathry achou que seria bom nos conhecermos. Ele e eu devemos tudo ao mesmo cara. E somos tão moles que nada fizemos a respeito.

Paul soltou um grito de desespero.

- E o que podemos fazer? - E mergulhou a cabeça nas mãos, esmagado pelo peso de seu próprio desapontamento, mas aquela voz candente ainda continuava.

- Você não conhece o cavalheiro?

- Não.

- Não desanime. Nós dois estamos no lugar que nos cabe, mas até mesmo um gato pode levantar os olhos para um rei.-Um brilho estranho faiscou nos olhos de Castles. - O que você precisa, antes de mais nada, é um pouco mais de animação. Por que não me dá licença para oferecer-lhe algum divertimento?

- Divertimento?

- E por que não? Você não anda lendo os jornais como deveria fazer. Se lesse ficaria sabendo que existe um grande show na cidade nestes últimos dez dias... Duas representações de primeira ... Eu sei que sempre se exibem aqui em Wortley regularmente, mas esta é uma de suas maiores atrações. E o melhor ainda é que tudo é de graça...

A voz dele tinha, aos poucos, assumido uma inflexão que fez correr um arrepio pela espinha de Paul. Houve uma pausa, e Paul ficou esperando.

- O tribunal está funcionando. O presidente é Lord Oman, e a acusação está a cargo de Sir Matthew Sprott.. . você não gostaria de assistir a uma sessão?

Paul ficou ali de olhos arregalados e sem responder.

- É uma oportunidade formidável... o último dia do julgamento. - Castles estava brincando com ele outra vez, daquela mesma maneira sinistra. - Estou certo de que gostará de vir comigo amanhã à tarde... só para ver como eles trabalham.

- Como assim?

- Ora, ora. - Charles Castles afetou uma surpresa ingênua. - Você sabe muito bem. É claro que sabe. Só que este não será tão emocionante. É só uma pobre coitada que esfaqueou o amante. Mas, mesmo assim, aquelas capas pretas não deixam de ser interessantes. Chega a ser bonito e está sempre em moda.

- Não! - disse Paul, violentamente.

O rosto de Castles endureceu e ele varou Paul várias vezes com seus olhos amarelados.

- Você está com medo?

- Não, não estou com medo, mas não vejo razão para ir lá.

- Pois eu lhe digo que está com medo. - Essas palavras frias e cortantes vieram mais depressa. - Eu, logo de saída, pensei que você tivesse tutano. Mas já estou vendo que me enganei. Você diz que quer pôr tudo em pratos limpos. Pois muito bem, então, pelo amor de Deus, por que não faz isso? Pois então ainda não percebeu que há duas espécies de pessoas no mundo de hoje? Há aquelas que se apossam do que querem e há as que não têm1 coragem para isso.

Suas narinas estavam dilatadas e o sangue lhe fugira do rosto.

- Que espécie de jogo você pensa que é esse em que nós dois estamos empenhados? Pensa que estamos brincando? Conheço bem todas as suas dificuldades! Mas você... você está permitindo que eles o espezinhem... você está querendo as duas coisas... você quer correr junto com a lebre e quer caçar junto com os cachorros... Muito bem! Faça isso! Se não quer a minha ajuda, siga então por seu caminho que eu seguirei pelo meu.

Calou-se, levantou-se e jogou a ponta do cigarro na lareira apagada. Paul ficou de pé olhando para ele, sentindo-se magoado e excitado ao mesmo tempo, sem saber o que fazer.

Aquela palavra "ajuda" que Castles lhe atirara foi decisiva para ele. Por mais obscura e incompreensível que fosse, ele não poderia rejeitá-la.

- Está bem. Eu irei. A que horas nos encontramos?

- Não! - O outro sacudiu a cabeça. - Não adianta fingir. Nada mais temos a dizer.

- A que horas nos encontramos?

Castles voltou-se devagar abotoando o sobretudo, e olhando firme nos olhos de Paul.

- Você está falando sério? Muito bem. Na porta do tribunal às duas horas, amanhã.-E se voltou, abrindo a porta para Paul sair.

 

Na tarde seguinte, cinzenta e úmida, Paul encontrou-se com Castles conforme fora combinado. O tribunal funcionava num nobre edifício de pedra cinzenta construído no estilo grego, com colunas no pórtico muito alto, e na entrada, num nicho central, estava uma estátua de mármore com os olhos vendados e segurando a balança da justiça.

Castle estava de barba feita e respeitavelmente vestido com um terno escuro, colarinho e gravata preta, e parecia conhecer bem o lugar. Levou Paul por uma entrada lateral e subiram por uma ampla escada circular até uma pesada porta de mogno onde um policial impassível levou a mão à boca para recomendar silêncio e fazendo-os entrar para a galeria pública muito estreita, onde os dois se espremeram para sentar-se em duas cadeiras vazias.

Lá embaixo estava todo o tribunal. O juiz de toga no seu estrado elevado de um lado, e do outro o recinto dos jurados à esquerda e a cadeira das testemunhas à direita, o recinto do tribunal cheio de gente com togas e perucas e no centro o banco dos réus, onde se achava uma moça embrulhada num xale entre duas guardas da prisão. Embora tudo ali fosse cinzento e sombrio, aquilo explodia na visão de Paul com tanta força que chegava a cegá-lo. Agarrado ao gradil da galeria e inclinado para a frente, ele tinha os olhos pregados em Lord Oman já bem velho, e cuja estatura era um pouco acima da normal, mas sempre ligeiramente curvado como se fosse pelo peso das honrarias recebidas. Seu rosto, da cor de vinho do Porto em contraste com a brancura do arminho, era altivo e mostrava uma severidade implacável. Dos dois lados de seu nariz adunco, as bochechas pesadas e flácidas pareciam penduradas, como se fossem as de um buldogue. Por baixo das sobrancelhas carregadas, seus olhos senis tinham uma aparência formidável.

Um aperto no braço de Paul fez com que ele se virasse para Castles que lhe apontou um personagem que se apresentava diante do júri. Castles segredou-lhe baixinho:

- Não se preocupe com Oman. Ele já está senil e nem sabe o que faz. Seu amigo é aquele que se levantou para falar agora... Sprott.

Paul começou a suar, quando olhou na direção indicada e viu o vulto atarracado do advogado de acusação de peruca e envolto na sombria toga. Seu rosto duro e redondo era bem visível até mesmo na luz fraca do recinto. Ele apertava os lábios e seu olhar dardejava pela sala como se fosse um ator procurando impressionar a platéia. Depois de uma pequena pausa, ele começou a falar para os jurados na recapitulação final e cuidadosa do caso em pauta.

Os fatos, sórdidos e miseráveis, eram os mais simples possíveis. A acusada era uma prostituta da classe mais pobre, com 24 anos, que, desde os 17, vinha exercendo sua profissão num dos piores bairros da cidade. Tinha, como todas as outras, um "protetor" que a vigiava sempre na esquina e que vivia com ela à custa do que conseguia ganhar e que sempre a espancava brutalmente. Uma noite, sem provocação, quando estava embriagada, ela, num ímpeto de revolta, e de remorso, matara-o com a faca de cozinha e depois tentara também esfaquear-se, mas não conseguira seu intento.

Tudo indicava que aquele fato sórdido não merecia ser dissecado, mas Sprott tratou dele e de todos os seus tristes e nojentos aspectos com detalhes dramáticos e com candentes recomendações para que o júri nem sequer pensasse em atenuantes que pudessem tornar o veredicto mais ameno. Se a acusada, com intento deliberado, tinha assassinado seu amante, então ela era, sem dúvida alguma, culpada de assassinato. Para Paul, aquilo era como se Sprott estivesse usando toda a sua força intelectual de uma tal maneira que deixava a acusada sem qualquer oportunidade para apresentar as atenuantes que houvessem em seu favor, e ele fazia aquilo de uma tal maneira que dava a impressão de estar apresentando o seu caso de forma justa e imparcial.

Quando concluiu, com um gesto dramático, ele voltou a sentar-se no meio de um silêncio mortal.

- Olhe bem para ele - disse Castles, baixinho. - Foi assim mesmo que fez com seu pai.

Mesmo sem aquele aviso, olhando atentamente para Sprott, Paul sentia-se profundamente emocionado, de uma forma tão intensa e violenta que chegou a sentir náuseas e a ficar com a testa alagada de suor. Antes, na sua vida, ele já sentira instintivas manifestações de repulsa, uma vez que certas naturezas são mutuamente antagônicas e por isso sentem, logo à primeira vista, uma recíproca onda de animosidade. Mas naquele caso tudo era muito pior e mais violento do que uma simples aversão. Aquilo veio, negro e predestinado, do mais profundo recesso de seu ser. Ele pensava ali em tudo que aquele homem fizera a seu pai e da forma impiedosa e implacável a que o submetera. Claro que era verdade o fato de a familiaridade gerar o desprezo e que o uso constante chega a embotar as maiores sensibilidades. Não obstante, havia no comportamento estudado daquele representante da Coroa alguma coisa tão impenetrável e tão desprovida dos menores resquícios de humanidade normal que Paul se sentiu invadido por um insaciável desejo de vingança.

De repente, fez-se um completo silêncio. O juiz tinha concluído seu resumo. Ouviram-se pés arrastando-se e os jurados retiraramse. A sala logo se esvaziou.

Castles também se levantou com urn trejeito na boca.

- São quatro horas. Calhou certinho na hora deles todos tomarem o chá.

- Como você pode saber?

O outro deu de ombros com uma indiferença cínica.

- Para eles isso faz parte do trabalho do dia... Oman & Sprott, só que não é Limitada. Fico pensando quantos eles já terão liquidado juntos nestes últimos quinze anos. Você quer sair um pouco ?

Paul responde que não queria, falando com os dentes cerrados e virando o rosto.

O seu vizinho do outro lado estava comendo um sanduíche que tirara de um saco de papel com o ar de um freqüentador inveterado. Ele era um homenzinho magro com uns poucos fios de cabelos grudados, atravessando a cabeça calva. Inclinou-se e falou em tom confidencial.

- Vocês dois chegaram um pouco tarde. Perderam o melhor da festa. Sprott saiu-se mais ou menos no resumo final, mas vocês deviam tê-lo visto de manhã. Mandou brasa mesmo. Chamou-a de restos das sarjetas... coisas terríveis. Pouco faltou para fazê-la chorar. Já está tudo acabado. O júri não vai levar mais de dez minutos para deliberar. Claro que vai ser enforcada. Pelo que eu vi daquele porta-voz do júri, a mulher dele não o deixa em paz. Não haverá recomendação para clemência. É uma beleza, não é mesmo? Eu prefiro isto aqui a qualquer jogo de futebol, seja lá qual for.

Paul pensava consigo mesmo se todos os que estavam ali pensavam da mesma maneira. O calor na galeria causava-lhe náuseas. O júri estava voltando junto com o juiz e todo mundo mais.

- Culpada!

Claro. Não podia deixar de ser. Aquele homenzinho, o especialista, fizera sua previsão. Ele só não previra o grito lancinante da pobre infeliz que se escondeu no xale, ali no banco dos réus. Tampouco previra o acesso de tosse, o prolongado e doloroso paroxismo que se seguiu. Lord Oman, frigidamente aborrecido, foi obrigado a esperar que aquilo tudo passasse. Afinal veio a toga negra e Paul olhava fascinado com os olhos arregalados ouvindo aquelas palavras "pendurada pelo pescoço até que esteja morta". Já se tinham passado 15 anos, mas ele sentia agora o mesmo que seu pai sentira então. Dominado por seu tormento, ele nem mesmo conseguia chorar, mas podia respirar e voltou a si com as mãos agarradas ao gradil da galeria.

- Acabou-se. - Castles parecia satisfeito. - Nada mal para uma matinê!

Ainda atordoado, Paul acompanhou-o descendo a escada e, quando chegaram lá fora, Castles parou.

- Quer ir comer alguma coisa?

Ele parecia estar querendo avaliar as reações de Paul com uma curiosidade fria, como se estivesse observando um inseto espetado, através de uma lente de aumento. Havia, no entanto, mais do que isso... por trás daquela máscara sinistra, Paul parecia perceber a presença de emoções talvez ainda mais tenebrosas do que as suas.

- Não conseguirei engolir coisa alguma...

O outro colocou-lhe a mão no braço, num gesto amistoso.

- Que tal se voltássemos para minha casa para um drinque? Nós dois estamos precisando...

- Está bem, vamos... - No fervilhar de suas emoções, Paul já não se importava com o que fazia nem para onde iria.

Seguiram, então, juntos.

 

Quando chegaram de volta ao quarto em Lanes, Paul deixou-se cair numa cadeira enquanto Castles baixava cuidadosamente as cortinas, tirava a garrafa do armário e enchia dois copos. Antes de falar, ele entregou um deles a Paul.

- Nós bem merecemos isto. Vai fazer bem a você. É coisa boa que consegui no lugar certo.

Ó estimulante esquentou o estômago de Paul e acalmou seus nervos. No meio de toda a sua aflição, o rapaz sentia que precisava daquilo e então não se preocupava com os efeitos que poderia causar a seu atual estado de espírito. Jamais em sua vida sentira uma amargura tão negra e tão desesperada na alma. Virou tudo de uma só vez e não se lembrou de protestar quando Castles tornou a encher o copo.

Depois de colocar seu copo em cima da lareira, o antigo presidiário ficou observando seu companheiro pelo canto dos olhos. Passou a língua nos lábios, disfarçadamente, percebendo bem que a crise estava perto. Aquela única combinação de possibilidades, que ele tanto desejara, estava agora ali a seu alcance. Ele não podia perder a oportunidade que se lhe apresentara, quando aqueles papéis haviam sido passados para as suas mãos com uma recomendação em voz baixa na hora do exercício no pátio poucos dias antes de ser posto em liberdade. Mathry, aquele presidiário em Stoneheath, nada representava para ele e, aliás, estava irremediavelmente liquidado já que a sua sentença de prisão perpétua jamais seria computada. Não ligava a mínima para Paul que considerava como um simples instrumento de vingança que lhe caíra do céu.

Na ocasião de sua "desgraça", Castles era funcionário da grande Companhia de Seguros dos Municípios de Midland. Era um solteirão que gostava dos esportes, que vivia folgadamente e até mesmo participava das caçadas locais e freqüentava as corridas de cavalo com regularidade. Para um homem nas suas condições, astuto e amante de aventuras, constituía uma segunda natureza o fato de querer arriscar "numa coisa boa e certa", uma "barbada" em suma. Assim, quando recebeu uma informação de fonte segura sobre um plano para a fusão planejada entre a sua companhia e uma outra menor, a Companhia de Seguros Haddon Hall, um ótimo negócio para a companhia menor. Ele viu naquilo a oportunidade de sua vida e então, usando dinheiro de sua companhia, que estava sob seu controle, comprou 50.000 ações da Haddon Hall.

A compra foi feita discretamente, mas a importância em jogo era tão grande que os boatos começaram a circular e logo foram ter aos ouvidos das autoridades. Com grande surpresa para Castles, os auditores vieram fazer um exame nos livros a pedido de Matthew Sprott que tinha poderes para isso. Castles correra imediatamente para falar com Sprott, já que o conhecia por se haverem encontrado em reuniões sociais, e contando tudo com a maior sinceridade pediu-lhe que suspendesse a auditoria por mais 10 dias, mas ele, muito acertadamente recusou, e então ordenou uma rigorosa investigação onde o crime de Castles foi descoberto, e ele foi então julgado e condenado à pena máxima. Nesse meio tempo, as ações da Haddon tinham triplicado de valor, mas em lugar de um lucro de 70.000 libras, Castles foi condenado a sete anos de trabalhos forçados.

Para um homem com o seu temperamento, aquilo era imperdoável. Passou a alimentar um ódio mortal contra Sprott e não pensava em outra coisa senão numa vingança que não o comprometesse. E agora... depois de todos aqueles anos, ali estava o filho de Mathry, um jovem idiota e idealista atirado numa aventura melodramática para "limpar o nome do pai". Deus do céu, aquilo era para se morrer de rir. Nos círculos que ele freqüentava agora, tudo o que se relacionava com atividades da polícia era logo conhecido, e então não demorou muito até ele ficar sabendo das atividades de Paul. Foi fácil para ele se valer de tal vantagem.

Castles rião podia mais resistir. Tremendo, quase como se estivesse embriagado, ele tomou coragem. Com a cara muito séria, ele se encaminhou para Paul.

- Devo reconhecer que você se saiu muito bem esta tarde. - Ele sentou-se no braço da cadeira onde o rapaz estava. - Você tomou coragem e agüentou firme, não foi mesmo?

Paul continuava calado.

- Acho que fui injusto com você na noite passada. - Na voz dele começava a se insinuar uma inflexão de reconhecimento, embora essa não fosse sua intenção. - Afinal de contas, as coisas ficaram ruins para o seu lado. Com tudo dando errado e, ainda por cima, com a perseguição da polícia, não seria de admirar se você perdesse a coragem...

Fez uma pausa e sacudiu a cabeça.

- Você está batendo com a cabeça contra um muro de pedra. Foi por isso que eu quis que você visse aquele precioso par hoje. Não, não se trata de Oman que já está velho demais e acabado, embora ainda goste da brincadeira. Ali, o que vale mesmo é o Sprott.

Só de falar em seu nome o rosto de Castles ficava sombrio, e apesar de querer manter um tom de ironia, ele era duro como pedra.

- Ele é o cérebro mestre do sistema. O mais amaldiçoado reacionário de Wortley. Nem mesmo poderia contar-lhe todo o mal que ele fez até agora, mas sempre indiretamente e sempre disfarçado. Foi ele quem mandou seu pai para o inferno de Stoneheath. E enquanto de andar por aqui, você jamais conseguirá arrancar seu pai de lá.

No silêncio que se seguiu, a visão de Sprott cheio de si mesmo levantou-se diante de Paul, e uma estranha febre começou a percorrer-lhe as veias.

Castles continuava a falar já tendo voltado à calma, como se estivesse pensando em voz alta.

- É isso aí... Os outros foram apenas estúpidos. Veja o Dale, por exemplo. É um cabeça-dura bitolado por seus preconceitos profissionais. Ele, provavelmente, convenceu-se de que estava certo. Para odiá-lo, você teria que se rebaixar. Oman, o juiz, só segue as regras, mas Sprott... Sprott é diferente. Seu espírito é brilhante. Ele devia ter visto logo, de relance, como as provas apresentadas eram inconclusivas. Mas, apesar de tudo isso, seguiu em frente, completamente insensível, e condenou seu pai a uma pena pior do que a forca. Condenou-o a ser um morto-vivo durante quinze anos. Foi ele quem fez isso. Foi ele e mais ninguém.

Diante daquela lógica irrefutável, Paul sentia ferver-lhe o sangue de uma forma que não podia mais suportar. Ele via o caso numa clara perspectiva, e então, como um deslumbrante facho de luz, ele via, sem sombra de dúvida, a responsabilidade de Sprott. Quase por acaso, Castles deixou cair seu braço sobre o ombro de Paul num gesto que parecia um carinho.

- Compreendo bem como você se sente, Paul. Tenho pena de você. .. Mas como é que você vai chegar até um cara assim ? Ele é inacessível.

Paul levantou a cabeça e seus olhos injetados se fixaram em Castles.

- Deve haver alguma maneira para eu chegar até eles...

- Não, Paul... acho que não há... - O outro falava num tom de comiseração. Depois hesitou escondendo uma ligeira contorção no rosto. - ... Bem... Existe, pelo menos, um meio... mas é claro que é impossível. . .

Os olhos de Paul faiscavam no rosto muito branco.

- Mas impossível por quê?

Castles ficou pensativo de uma forma estranha, mas depois pareceu desistir daquilo que pensava.

- Não. Não. Você é muito moço. Você não poderia ir até ele... até a sua casa para acertar suas contas com ele...

Ao dizer aquilo, ele olhou rapidamente para Paul e ficou ofegante, ofegante demais, para um homem que, geralmente, se mostrava desligado e calmo, mas já então Paul não estava em condições de perceber coisa alguma e muito menos o que se passava no espírito de Castles. Ele apenas resmungou com um trejeito no rosto.

- E por que eu não me poderei defrontar com Sprott? Eu posso fazer isso...

- Será que pode mesmo, Paul? - Ele falava com aquela mesma intensidade estranha.

Paul encarou-o, percebendo vagamente onde ele queria chegar. Sentia o sangue latejar-lhe nos ouvidos, martelando na cabeça como se fosse a batida de uma centena de martelos.

- Será que pode mesmo, Paul? - repetiu Charles Castles a pergunta, num tom mais insistente.

O rapaz apenas respondeu com um aceno de cabeça.

- É a única forma que lhe resta para fazer justiça. Fazer justiça por suas próprias mãos. Ninguém irá culpá-lo. Todos os fatos virão à tona. Se você fizer isso... então eles já não poderão mais esconder o caso de seu pai. Todo mundo precisa saber a verdade. Pense bem. Uma completa exposição à luz meridiana de tudo que eles estão tentando esconder. Vão ficar todos com caras de tolos... se você fizer isso. Tudo vai poder ser atribuído a eles... desde o começo até o fim. E Sprott, o instrumento, o que arquitetou toda a injustiça, já não existirá mais. Terá sido liquidado. .. se você o fizer.

Paul levantou-se diante daquela incitação que excedia seu raciocínio, por aquelas palavras, e por tudo mais que vira naquele julgamento, pelo processo de desmoralização que lhe tinha sido incutido naqueles últimos 10 dias. Seu cérebro estava cheio de relâmpagos. Ele tornou a encher o copo e virou tudo de um só gole.

- Leve isto aqui - falou Castles com voz rouca - para o caso de alguém procurar detê-lo...

Era uma pistola automática preta, da marca Webley. Paul não se mostrou surpreso. Nenhum dos dois falou. Castles abriu a porta e Paul saiu. Ao descer a escada, ele sentia aquele peso no bolso batendo-lhe no quadril, e logo desapareceu na escuridão da rua.

Sozinho na sala, Castles encostou-se no portal durante um instante como se estivesse tentando recuperar sua respiração, com a boca contorcida e o rosto estranhamente pálido. Depois, com os dedos que tremiam, ele enrolou e acendeu um cigarro e olhou para o relógio. Havia um trem que partia para o Norte em 10 minutos. Era melhor não demorar. Enfiou o sobretudo e ficou ali de pé tirando sucessivas baforadas do cigarro. Seus pensamentos, pensamentos esses que só ele conhecia, faziam com que arreganhasse os dentes. Com um gesto violento, ele esmagou a ponta do cigarro com o pé, voltou-se e saiu.

 

Naquela mesma noite, quando Sir Matthew Sprott saiu do vestiário do tribunal, ele ficou de pé na entrada pensando na melhor maneira para passar as duas horas que ainda faltavam antes do jantar às sete. Havia uma competição de sinuca entre Smith e Davis, no Burroughs Hall. Mas, embora gostasse do jogo e fosse, até mesmo, bom jogador com uma mesa do tamanho maior em casa, ele imaginou que a partida já deveria ter terminado, e então achou que seria melhor ir para seu clube, o Sherwood, que ficava ali na Praça Leonard.

Havia ainda um restinho de sol quando saiu e que tornava o céu muito vermelho, especialmente uma nuvenzinha que estava ali no horizonte e parecia pequenina, do tamanho da mão de uma pessoa. Os olhos de Sir Matthew ficaram estranhamente presos e fascinados por aquela nuvem que ali estava ficando mais escura, como se fosse algum presságio de calamidade lá no céu, e ele se sacudiu de repente. Durante aquelas últimas semanas, não se sentira bem. Talvez fosse estafa. Estava trabalhando muito para as eleições, que se aproximavam. Embora sempre se gabasse de que "não tinha um único nervo no corpo", ele, ultimamente, vinha sendo assaltado, de uma forma absurda, por coisas sem a menor importância. Por que, por exemplo, levar a sério aqueles sonhos insignificantes que vinham perseguindo sua mulher?

Ele fez uma careta bem clara ao tornar a pensar naquele assunto realmente ridículo. Aqueles fantásticos farrapos de tolices, aparentemente desprovidos de sentido, eram coisas realmente incompreensíveis, mas todos eles, no entanto, tinham um ponto em comum. Ele aparecia em todos os sonhos da mulher e em todos eles lhe acontecia sempre alguma coisa ruim. Ela sonhava que ele estava no tribunal, mas tinha esquecido seus papéis referentes ao caso; ele levantava-se para se dirigir ao júri, mas não conseguia falar; ele era severamente admoestado pelo juiz; e então, quando ele saía do tribunal, todo mundo se levantava para caçoar dele, imitando-lhe os gestos e palavras, e este último era o que mais freqüentemente acontecia. E fora esse, na verdade, que mais a atormentara e que a levara a contar-lhe tudo.

A cor pesada do céu refletia-se no rosto de Sprott, quando ele entrou na praça, solitário e lento. Por mais que fizesse pretendendo desprezar a psicologia moderna, ele era forçado a reconhecer que aqueles distúrbios do subconsciente que assaltavam sua querida Catherine pareciam um eco daquele caso Mathry num passado bem remoto. E ele sentia-se dominado por uma chama de indignação ao perceber corno eram desproporcionados os estragos feitos por aquele terrível mosquito que, de forma tão ultrajante, saía dos pântanos do passado para vir atormentá-lo agora,

Ele mentira ao dizer a Dale, o Chefe de Polícia, que relera todo o processo. Fora uma mentira completamente desnecessária, já que sua memória era infalível e ele lembrava-se de todos os seus detalhes. E como poderia realmente esquecer, até mesmo depois de 15 anos, o que fora o primeiro impulso para chegar à eminência que agora desfrutava ?

Ele ainda via sempre, bem na sua frente, o rosto do preso que ali estava no banco dos réus. Via o rosto bonito do tipo que agradava às mulheres, embora estas sempre viessem a se arrepender mais tarde. Sprott lembrava-se bem como explorara aquele ponto, junto com muitas outras fraquezas evidentes no caráter do acusado, reduzindo-o, durante sua inquirição na cadeira das testemunhas, a uma irremediável e completa confusão. Ora essa! E por que não deveria agir assim? Pois então sua obrigação não era a de fazer sobressair completamente todas as deficiências do acusado? Resumindo, sua obrigação consistia em vencer a causa.

Já ele tinha chegado à praça com seus graciosos gramados centrais cheios de estátuas perseguidas pelos pombos e que representavam dignitários cívicos do passado, e então, fazendo um esforço, procurou livrar-se de todos aqueles pensamentos que o aborreciam. Atravessou os portais nobres do clube, entregou o chapéu e o sobretudo e foi sentar-se num canto do salão para pedir um chá. Enquanto aguardava ser servido, lançou um olhar em torno do salão.

O Sherwood era uma instituição exclusiva cujos sócios vinham de famílias antigas do interior e da aristocracia de Midland. Ele não era bem-visto ali. Na realidade, antes de conseguir ser aceito como sócio ele fora recusado três vezes com inúmeras bolas pretas, e sua vaidade ficara muito satisfeita por haver, finalmente, conquistado o que desejava. Ele sabia que todo mundo tinha inveja de seu sucesso e, por isso, chegava até mesmo a vangloriar-se de sua impopularidade e de sua força para derrubar qualquer oposição. Muitas vezes, de pé diante do espelho no aposento onde se vestia com a indumentária do tribunal, enquanto Burr, seu auxiliar de meia-idade, cor de rape, obsequiosamente lhe entregava a peruca, ele sorria complacentemente para seu reflexo no espelho e exclamava: "Burr! Eu sou o homem mais odiado em toda a cidade de Worthy."

Naquela noite, no entanto, sua atitude era estranhamente calma e delicada, e ao perceber que havia alguns sócios espalhados no salão, ele desejava, intimamente, que algum deles viesse até a sua mesa para conversarem um pouco. Quando entrara, além de alguns distantes acenos de cabeça, ninguém mais o cumprimentara. No canto do outro lado da sala, havia quatro sócios jogando bridge e, entre eles, estava um colega seu, Nigel Grahame, que ele conhecia ligeiramente e que era Advogado do Rei. Uma ou duas vezes eles olharam na sua direção e então, instintivamente, ele sentira a estranha desconfiança de que os jogadores deviam estar falando do caso Mathry. Não, não. Aquilo era impossível. Ele precisava cuidar-se. Mas então por que Grahame não falara com ele? Enquanto tomava o chá, ele tinha os olhos fitos no outro.

Grahame, na sua opinião, era um indivíduo estranho, um expoente de credos esquisitos e inexplicáveis. Era filho de um reitor do interior e, ainda menino, conseguira a distinção de ganhar um lugar em Winchester. Depois de sair daquela escola famosa, que o marcara com o seu tipo de escolaridade e maneiras, ele fora para Oxford. Um ano após haver colado grau, seu pai morrera deixando-lhe uma pequena renda de 200 libras por ano. Logo depois do enterro, ele viajara para o exterior, onde, nos cinco anos seguintes, levou uma existência movimentada. Uma parte desse tempo ele passou como preceptor de um rapaz austríaco que era tuberculoso e por isso via-se obrigado a. viver em lugares altos como o Tirol. Durante o resto do tempo, ele vagou pela Europa, quase sempre a pé, com uma mochila às costas. Passava os invernos no Jura e os verões nas Dolomitas. Adorava as caminhadas nas montanhas e, em um dia, fora de Merano a Innsbruck, cobrindo uma distância de 80 quilômetros.

Naturalmente, essa vida, aparentemente sem destino, inquietara muito os seus amigos, mas, no ano seguinte, ele voltou para Wortley aparentemente em perfeito estado de saúde mental e física, e então, da maneira mais natural deste mundo, como se se houvesse ausentado apenas na véspera, ele voltou a dedicar-se à sua profissão. Aos poucos, foi fazendo uma clientela que, não sendo muito grande, era, pelo menos, muito escolhida e distinta. Diziam que ele devia muito às suas maneiras distintas e à boa aparência. Era alto e magro com traços regulares e olhos escuros e ascéticos. Apresentava-se sempre imaculado, cortês e reservado. No entanto, por trás desses atributos superficiais, havia uma camada especial de integridade de objetivos que formava a estrutura invisível, o verdadeiro cerne de sua reputação. Era fantasticamente honesto e sincero. Havia nele alguma coisa imponderável que sempre intrigara e perturbara Sir Matthew.

Este lembrava-se bem, por exemplo, daquela ocasião em que, num dos grandes jantares oferecidos em sua mansão, sabendo que Grahme se interessava pela arte e também desejando exibir suas posses, ele o levara para longe dos outros convidados para lhe mostrar os seus Constables. Grahame portara-se com uma perfeita cortesia, mas, durante todo o tempo, Sprott sentira sua completa indiferença em face de seus tesouros, quase como se eles fossem falsificações. Afinal, provocado por sua atitude, ele deixara escapar uma exclamação.

- E então, meu rapaz... como connoisseur que é, você não sente inveja de mim?

O outro se abrira num sorriso agradável antes de responder.

- Mas por que sentir inveja quando eu posso ver quadros, pelo menos tão bons como estes, na Galeria Municipal do outro lado do parque?

- Mas que diabo, homem! Eles não são seus. São da Galeria! Grahame sorria cada vez mais e aquilo já estava inquietando Sir Matthew.

- Será que não são mesmo? Pois então não sabe que todas as grandes obras-primas pertencem a todos nós?

Agora ali no seu canto, Sprott sentia a mesma coisa daquela ocasião. Vendo que tinham acabado de jogar e que todos se levantavam, um impulso perverso levou-o a fazer um sinal a Grahame.

O outro hesitou de forma quase imperceptível, mas afinal veio a seu encontro.

- Sente-se aqui um pouco. Estou sozinho... - Sprott fez o convite com uma falsa efusão, mas o outro respondeu com muita delicadeza.

- Já tomei meu chá...

- Mas sente-se um pouco aqui. Nós nos vemos pouco... Sempre sorrindo com delicadeza, Grahame sentou-se no braço da cadeira que ali estava.

- Assim está bem. - Sir Mathew mostrou seu apetite servindo-se de mais um bolinho. - Fique sabendo que não mordo, apesar de todas as fofocas que se contam neste clube.

O outro mostrou-se ligeiramente embaraçado, mas continuava a manter suas boas maneiras.

-Posso garantir-lhe... tanto quanto eu saiba...

Sprott riu satisfeito, mas sua risada saiu um pouco mais alta do que ele pretendia.

- Pois então vocês não estavam falando a meu respeito, alguns minutos atrás? É difícil enganar uma raposa velha como eu.

Não foi à toa que me especializei nos poderes de dedução durante todos esses anos...

Sprott sabia que se estava excedendo, mas havia alguma coisa dentro dele que o fustigava. Houve uma pausa enquanto ele levava a xícara à boca para tomar o chá.

- Você sabe, Grahame, um homem não chega à posição que eu alcancei sem que uma multidão de invejosos se junte à sua porta, esperando a hora de dar o alarme. Basta um idiota irresponsável como o George Birley para começar. Você não concorda comigo?

O outro respondeu, falando devagar.

- Eu só vi uma pequena notícia no Courier, mas não lhe dei a menor atenção...

- Aquilo foi apenas para efeitos de publicidade. Ninguém sabia o que ia acontecer até que Birley pediu a palavra na Câmara. O Secretário do Inferior ficou furioso. Naquela mesma noite houve uma recepção na casa de um dos Duncasters. A mulher de Birley estava presente e disse para quem quisesse ouvir: "Eu sempre soube que George era um idiota, mas também sempre pensei que tivesse juízo bastante para não remexer nessa espécie de sujeira!" Você já viu uma imbecilidade igual? Ouvi dizer que não vão apresentá-lo para as próximas eleições.

Houve um curto silêncio durante o qual Grahame continuava de olhos baixos, mas afinal falou.

- É bem possível que seus motivos fossem sinceros. De qualquer forma, você não acha que sempre é melhor ser um tolo do que ser um canalha? - Olhou para o relógio. - Desculpe, mas preciso ir andando.

Leevantou-se e despediu-be muito cortesmente.

Com a cara amarrada, Sprott serviu-se de mais uma xícara de chá, mas este pareceu-lhe bem amargo. Aquela conversa não lhe proporcionara a menor satisfação e a saída repentina do outro era mais um prego no seu sapato. Sua expressão tornou-se mais dura e ele sentiu-se envolvido numa onda de ressentimento e raiva. Lembrou-se, então, como já passara por piores coisas no passado e sempre conseguira sobreviver.

Instintivamente, pôs-se a pensar em seus triunfos e então empertigou-se esticou o lábio inferior e assumiu uma atitude parecida com aquela que sempre exibia nos julgamentos. Arrependia-se de se haver deixado levar por aquela momentânea fase de desânimo e fraqueza. Estaria ele perdendo aquele seu ardor? Iria desistir agora que estava para chegar ao Parlamento? Ali onde todas as grandezas estariam ao seu alcance? Não... mil vezes não.

Levantou-se de mau humor e saiu do clube. O porteiro que lhe abriu a porta comentou sobre o tempo. Com incivilidade estudada, ele nem mesmo respondeu. Entrou num táxi e mandou tocar para Grove Quadrant.

Ao entrar em casa, teve a surpresa de ver sua mulher vir a seu encontro, beijando-o e ajudando-o a tirar o sobretudo.

- Querido, há um rapaz esperando por você na biblioteca. Ele tem demonstrado tanta paciência... Você quer falar com ele antes do jantar?

Sprott fechou a cara. Esteve quase dizendo a ela que ninguém tinha licença para invadir sua privacidade de acordo com ordens que já dera muitas vezes. Adorava-a muito e por isso não disse nada. Baixou a cabeça e caminhou para a biblioteca.

 

A biblioteca era um belo aposento coberto com um tapete creme muito espesso e algumas preciosas gravuras nas paredes. Imóvel como uma estátua, Paul estava ali esperando já fazia uns 10 minutos. Fora a própria mulher de Sprott que o fizera entrar. Ela era bonita, devia ter uns 40 anos, rosto pálido e delicado e trajava um vestido cinzento. Paul percebia que ela o tomava como um dos empregados do escritório do marido, e por isso o recebera com um sorriso calmo.

- Espero que não esteja trazendo mais trabalho para Sir Matthew - dissera ela. Depois oferecera um conhaque com biscoitos. Tornou a sorrir, quando ele recusou, e saiu.

Tudo ali estava muito silencioso. Então, lá em cima, alguém começou a estudar piano. Era o Prelúdio nº 7 de Chopin, tocado muito devagar e com alguns erros. Parecia uma criança tocando e ele ouviu risadas e conversas. O som daquele piano afetou-o cruelmente. Ficou pensando naquele homem que tinha uma mulher tão bonita e filhas tão alegres. Mas pensou também naquele outro homem trancado na sua cela úmida. Já não agüentava mais. E então ouviu o barulho de um carro que chegava. Sabia que devia ser Sprott. Empertigou-se na cadeira. Estava pronto para ele. Ouviu a porta da frente abrir-se e fechar-se. Ouviu vozes no hall. Um minuto depois abria-se a porta da biblioteca.

Paul ficou sentado, completamente imóvel quando Sprott entrou. Olhou para o rapaz, mas ficou calado. Durante um momento o silêncio era absoluto. Depois, então, Sprott falou.

- Qual é a razão para esta intrusão? Você não tem o direito de vir aqui. Esta é a minha residência particular. - Estava realmente indignado, mas, ao mesmo tempo, havia alguma coisa em seus olhos. Paul percebeu logo que ele o conhecia.

Aquela observação de Sprott revelou tudo para Paul. Ele percebeu a fenda que se escondia por trás da fachada imponente. Seu pensamento foi que aquele homem não tinha o direito para condenar quem quer que fosse. Seu espírito tornou-se de uma clareza cristalina, e o rapaz falou devagar.

- Quando alguma coisa já esperou muito tempo, então ela se torna urgente.

As veias estufaram na testa de Sprott. Ele nem mesmo tentou aproximar-se de Paul e ficou junto da porta. Conseguiu reunir toda a sua dignidade e agora já era o ator declamando seu papel.

- Não pretendo esconder o fato de que, já desde alguns meses, eu venho sabendo de sua presença e de seus movimentos aqui na cidade. Você é o filho do homem que está cumprindo sua sentença de prisão perpétua e está querendo criar problemas a respeito de um caso que foi julgado há quinze anos.

- Existem dúvidas sobre ele, e também existem provas novas que precisam ser ouvidas.

Durante um momento, Sprott deixou-se levar pela indignação até mesmo esquecendo a desconfiança que sentira.

- Não seja tolo. Depois de quinze anos, isso é legalmente impossível. Devido à sua infernal intromissão, houve uma petição para a reabertura do caso, mas o Secretário do Interior a recusou categoricamente.

- Mas o senhor não precisa recusar. O senhor foi o advogado de acusação e seu dever principal é fazer com que a justiça seja feita. E o senhor mesmo se sentiria obrigado a fazer alguma coisa, se ficasse convencido da inocência de meu pai.

- Mas não estou convencido! - Sprott disse isso quase aos berros.

- O senhor se convencerá, se quiser me ouvir. O menos que pode fazer é tomar conhecimento das novas provas na sua função oficial.

O outro estava agora tão furioso que mal podia falar. O rosto estava vermelho. Afinal, conseguiu controlar-se e falou friamente.

- Eu, realmente, devo pedir-lhe que se retire. Você nem sabe o que me está pedindo... não conhece as dificuldades técnicas, as engrenagens legais e as repercussões envolvidas. Está-me parecendo uma criança estúpida que está querendo derrubar um grande edifício só porque está pensando que, nos seus alicerces, há um tijolo que foi mal colocado...

- Se os alicerces estiverem podres, então o edifício vai desmoronar.

Sprott achou que aquilo não merecia resposta. Seu rosto agora era de completo deboche. Mas quando ele olhou de lado, com a cabeça esticada e os olhos apertados, Paul percebeu outra vez aquela vaga ilusão, aquela fenda secreta na fachada, e ficou sabendo, finalmente, que, se apenas devido ao fato de ele precisar manter escondida aquela fenda a qualquer custo, Sprott jamais concordaria em reabrir o caso. Mesmo assim... ele lhe daria mais uma oportunidade.

- Quando um condenado já cumpriu quinze anos de uma sentença de prisão perpétua. . . não existe um costume humano. . . para a comutação de sua pena?

O outro continuava a observar Paul de esguelha com os olhos esbugalhados e injetados, mas logo respondeu decisivamente. - O Secretário do Interior já se pronunciou a respeito... Paul sentia-se quase sufocado.

- Mas o senhor ainda não se pronunciou. Uma palavra sua nos círculos competentes seria uma grande influência. Uma palavra só... uma insinuação das novas dúvidas surgidas. ..

Sir Matthew sacudiu a cabeça irrevogavelmente, até mesmo com certa ferocidade, descartando sua responsabilidade. Levou uma das mãos às costas e abriu a porta, falando com o mesmo ar de deboche.

- Quer sair agora, ou será preciso que eu chame alguém para atirá-lo lá fora?

Paul percebeu então, definitivamente, que era inútil. Aquele homem jamais faria alguma coisa a seu favor, jamais faria alguma coisa pelo perdão. Enclausurado em seu orgulho, só o que lhe importava era a sua dignidade, a sua posição e o seu futuro. Eram coisas que deviam ser conservadas fosse a que custo fosse.

Quando pensou naquilo, Paul foi assaltado por uma indignação incontrolável, pela raiva e pelo desespero que percorria seu corpo como se fosse uma droga. Castles estava com a razão! Seu pai, Swann, ele mesmo, todos os obstáculos ou obstruções humanas, tudo era derrubado pelo insaciável orgulho do homem que ali estava. Não lhe restava outra saída. Só havia uma coisa a fazer. Levantou-se. Suas juntas estavam endurecidas e as pernas não lhe pertenciam. Ele começou a caminhar para aquele homem grande que estava ali na porta. Sua voz mal podia ser ouvida e ele quase não respirava.

- Pela última vez...

- Não...

Ele estava com a mão no bolso. Durante todo o tempo, quando estava falando, a arma estivera em sua mão. Ela já não estava fria... ele a esquentara com o calor de sua mão... ela parecia fazer parte de seu corpo. Tinha o dedo no gatilho e sentia a força da mola. Ele nem precisaria tirar a arma do bolso. Ela estivera todo o tempo apontada para Sprott, o ator, o homem sem alma, que de nada suspeitava. Ele estava ali de pé sem olhar para Paul, sempre com aquela careta de dignidade ofendida estampada no rosto. O rapaz estava agora bem na sua frente a menos de um metro. Percebia o arredondado da sua barriga bem alimentada. A arma estava bem apontada para ele. Seria um tiro à queima-roupa. Paul não sentia o menor medo. Ele os olhos sentindo-se muito tenso, com a boca entreaberta, numa espécie de êxtase, como se todo o seu ser estivesse sendo elevado por um supremo desejo físico.

Então, de repente, seu corpo foi sacudido por uma convulsão, com as dores do renascimento e, finalmente, voltou à razão. Não, Deus meu! Não. Aquele pensamento ocorreu-lhe como se fosse um relâmpago que o apunhalava. Eles chamaram meu pai de assassino. Iriam eles fazer com que ele, Paul, também fosse um assassino? Largou a arma no bolso. Abriu os olhos e encarou Sprott sem, contudo, vê-lo. Estava ofegante como se houvesse apostado uma corrida. Não conseguia falar. Quando, porém, cruzou com os olhos hostis do outro, seus lábios se abriram num tênue sorriso e todo o seu rosto se iluminou de forma estranha. Enquanto Sprott olhava-o lívido, Paul passou por ele e saiu da casa.

Lá fora, na escuridão fresca embaixo das estrelas, uma torrente de lágrimas jorrou-lhe do rosto. Com uma voz triunfante, ele sussurrou.

- Eu não consumei o crime. Graças a Deus, eu não consumei o crime.

 

Três semanas antes, quando Paul fora despedido pelo gerente do Bonanza, Lena presenciara o incidente muito aflita, mas isso melhorou um pouco quando foi procurar Paul em seu quarto, naquela mesma noite. Conversara com ele e levara-lhe um recado que o deixara muito animado e então ela acreditava que o havia ajudado. O tempo foi passando sem que ela tivesse mais notícias dele e a vida lhe parecia triste e vazia. No fim da semana foi contratada uma nova pianista e as notas do piano chegavam outra vez até a lanchonete, mas a música já não era, infelizmente, a mesma, embora a moça tocasse bem. Lena continuava triste e oprimida. Sentia-se, cair novamente numa profunda depressão, a pior que já tivera desde a outra calamidade que lhe destruíra a vida.

Ao contar para Paul que fora feliz e satisfeita no emprego de recepcionista no Hotel County Arms, dois anos antes, ela dissera a verdade. Astbury era uma antiga cidade encantadora, famosa por sua abadia em ruínas, por muitas casas pintadas em preto e branco em estilo elisabetano e alguns interessantes túmulos romanos situados nos lugares mais bonitos ao longo do Rio Trent, e era uma espécie de cidade de repouso para os meses de primavera e verão. O hotel era muito bom e o seu gerente era um oficial do Exército reformado, chamado Prentice, que era ajudado por sua mulher. A freguesia principal do hotel era formada por pescadores e turistas que vinham do Sul do país. Lena gostava muito da cidade e do trabalho e achava que o resto do pessoal do hotel também gostava dela.

De 15 em 15 dias, aos sábados, ela tinha a metade do dia de folga e então gostava de ir de trem até Wortley onde passava o dia percorrendo as grandes lojas cheias de coisas bonitas que eram novidade para uma moça do campo. Tomava o seu chá às cinco horas, sempre sozinha, no Green Lantern, um café bonitinho e agradável que descobrira perto da Praça Leonard. Depois, alegre e satisfeita, ela pegava o trem de volta às seis horas carregando seus embrulhos. O hotel ficava bem longe da estação, mais de três quilômetros e a estrada ao longo do rio era sinuosa e sombreada. Isso, porém, nã constituía dificuldade para ela que gostava muito de andar e já estava acostumada a percorrer grandes distâncias em Sleescale.

Um sábado à noite, já no fim do verão, Lena partiu, alegre como sempre, de volta para o hotel depois de um "Boa-noite" amistoso para o funcionário da estrada de ferro encarregado de recolher os bilhetes na estação. A lua estava escondida atrás de nuvens e a estrada estava escura e ela ouvia os ruídos do mato junto com os que faziam os insetos noturnos. A escuridão dava a impressão de um jângal estagnado, e até mesmo ela tinha a impressão de estar sendo seguida. Lembrou-se de que no trem havia uma turma muito barulhenta e então, ao contrário do que fazia geralmente, ela caminhava olhando sempre para trás. Quando ouviu o barulho de um galho seco quebrando-se bem perto, ficou nervosa e apressou o passo chegando quase a correr. De repente, quando se aproximava do lugar mais deserto da estrada, um braço saiu da escuridão e agarrou-a pelo pescoço. Ela gritou mas logo sentiu a mão que, brutalmente, lhe tapava a boca. Lutou desesperadamente com toda a força de seu corpo jovem, mas tudo foi inútil. Os atacantes eram cinco robustos rapazes. Foi atirada ao chão com brutalidade e, ao cair, bateu com a cabeça numa pedra e, felizmente para ela, desmaiou.

Existem atos que são indignos de serem mencionados já que pertencem à degradação dos brutos, e o melhor mesmo é deixá-los no lodo das épocas primevas. Existe, porém, uma certa continuidade fatal no crime, uma interdependência de sorte e de circunstâncias que ligam acontecimentos que podem ter ocorrido com anos de diferença. O horror que aconteceu com Lena precisa ser registrado aqui já que ele está ligado ao caso Mathry e, se não tivesse acontecido, o caso talvez jamais seria solucionado. Lena voltou a si gemendo, tentando compreender o que havia acontecido, levantando-se para tornar a cair e, finalmente, conseguindo reunir forças para caminhar até a segurança que lhe oferecia o hotel.

O choque imediato resultante do crime abalou toda a comunidade. Foram organizadas turmas de buscas, mas os assaltantes nunca foram descobertos. Eram estranhos e, provavelmente, vinham da escória dos maus elementos de Nottingham que invadia aquela região por ocasião da feira em Mosley.

Major Prentice e sua mulher trataram Lena com muita bondade. Depois de haver passado o primeiro choque e quando ela já podia andar, eles insistiram para que tirasse umas longas férias antes de reassumir seu cargo no hotel e ofereceram-se para lhe pagar todas as despesas, mas Lena não aceitou. Ela não podia tolerar as solicitudes exageradas, os olhares disfarçados, as óbvias atenções com que a cumulavam, sempre com as melhores intenções. Sabia que não podia mais continuar naquele hotel. Além disso, e por uma outra razão, ela também queria sair dali. Embora não dissesse a ninguém, mantendo-se num silêncio estóico, ela descobrira, apavorada, que estava grávida.

Nessa ocasião, um dos hóspedes do hotel era um homem chamado Dunn, um indivíduo taciturno e sem muitos amigos no hotel, mas que vinha regularmente a Astbury para tentar pescar os salmões prateados que abundavam no rio durante o outono. Ele, entre outras coisas, era um estudioso da natureza humana e então, quando não estava pescando, gostava de observar Lena.

Embora se orgulhasse de ser uma pessoa que não se deixava impressionar facilmente, Dunn observava, com admiração, o silêncio e a coragem da moça, o seu desejo de tirar o melhor proveito de uma coisa tão horrorosa e, acima de tudo, a tranqüila resistência que oferecia à histérica efusão, apesar do sofrimento em sua alma independente. Enquanto permanecia pacientemente sentado à beira do rio, expondo a sua calvície ao sol, no meio de todos os seus sonhos, ele imaginava a possibilidade de escrever um livro a respeito de Lena, embora não fosse escritor, mas tinha medo de fracassar. Mesmo assim, ele tinha percepção bastante para adivinhar o que estava procurando o espírito amargurado da moça. Ela queria fugir definitivamente, queria perder sua identidade, queria ir para bem longe de todos que a conheciam. Sem fazer daquilo grande alarde, ele conseguiu que ela fosse para Wortley, para ficar com uma mulher chamada Hanley, uma velha amiga em quem depositava completa confiança.

Dunn não era rico e tinha mulher e família para sustentar. Não obstante, as peculiares qualidades de seu caráter levaram-no a apoiar Lena na sua hora mais difícil, quando ela já tinha sido esquecida por toda aquela gente cheia de boas intenções, sempre prenhe de demonstrações de amizade e que corria para oferecer-lhe almofadas quando ela vinha sentar-se na varanda do hotel.

Foi ele quem cuidou de todas as providências para o parto que foi difícil e perigoso. A criança não era normal, nasceu surda e muda e morreu em poucas semanas, felizmente para ela. Só meses depois, Lena, arrasada, física e moralmente, conseguiu voltar para a casa da boa Sra. Hanley.

Dunn não se ofereceu para arranjar um emprego para ela. Agora que o pior já tinha passado, ele queria que ela voltasse a cuidar de si mesma. Quando Lena, finalmente, arranjou aquele emprego na lanchonete do Bonanza, ele achou melhor não lhe dizer que aquilo não era grande coisa. Apenas acenou com a cabeça concordando. E então, freqüentemente, quando ia para o seu trabalho, ele passava por lá para tomar um café e ver como ia passando sua protegida. Escondendo sua maneira habitual de desligamento das coisas, Dunn acompanhava a situação com interesse, percebendo a luta pela regeneração que se processava naquela alma ferida e estóica. Divertia-se quando percebia que o remédio infalível para os seus acessos de tristeza era enfrentar um trabalho duro.

E era esse mesmo antídoto que ela aplicava agora à sua melancolia. Logo que chegava em casa, quando saía do trabalho na loja, ela se enfiava num macacão e começava, com uma determinação silenciosa, a esfregar e lustrar o assoalho, a lavar as cortinas das janelas, a limpar a lareira e polir os metais e depois ia para os seus dois aposentos, onde se afanava até que eles ficassem brilhantes.

Certa noite, olhou em torno e ficou desanimada. Não havia mais nada para limpar, não havia um só grão de poeira contra o qual ela pudesse investir, e então foi para a cozinha onde fez um bolo. Depois foi sentar-se na sala para ouvir as novidades que havia na última carta recebida de Joe, o marido da senhoria, que zarpara de Tampico e deveria atracar em Tilbury na segunda-feira seguinte. Seus pensamentos, no entanto, estavam muito longe da carta recebida, e aquilo não escapou à atenção da boa senhora.

- O que há com você, Lena ? Você não parece a mesma. Está trabalhando demais...

- Não há nada - respondeu a jovem com um sorriso forçado.

- Pois você está muito pálida. Acho que não vou deixá-la aqui sozinha. É uma pena que o Joe, seja obrigado a ficar lá para reabastecer o navio... vai perder também suas férias.. .

- Estou bem. Pode ir divertir-se em Londres.

- Está bem... Eu estava mesmo com vontade de ir. A companhia paga as quatro semanas do hotel. Mas mesmo assim... quero que me prometa que se cuidará bem, sim?

- Pode ficar descansada... Amanhã vou ficar à toa... to meu sábado de folga...

O sábado, no entanto, não melhorou muito as condições de Lena. Na manhã seguinte, depois de levar sua amiga à estação, ela foi assaltada por uma dolorosa solidão e, estranhamente, tomou um caminho diferente do que costumava nos seus dias de folga. Foi com confusão e contrariedade que ela se viu na entrada do Jardim Botânico.

Franziu a testa diante de sua fraqueza e pensou consigo mesma que, uma vez que já chegara até ali, e que a entrada era grátis, o melhor mesmo seria entrar para aproveitar.

Atravessou os portões largos e começou a caminhar numa alameda que seguia na direção oposta àquela que seguira quando ali estivera antes com Paul. Durante uma hora, lutou contra seu desejo, mas, afinal, quando já pensava em ir embora, entrou na estufa onde estavam as laranjeiras. Lá dentro da estufa toda de vidro e muito alta, à medida que se aproximava daquela laranjeira que admirara na companhia de Paul, ela sentia seu coração bater descompassado e então logo encostou seu rosto a um galho cheio de flores muito cheirosas e macias. Quando se afastou, uma única lágrima, salgada e amarga, caiu em sua mão.

Naquela noite, enquanto se despia, reparou, de repente, no seu corpo que se refletia no espelho, completamente despido, onde as marcas da gravidez apareciam claramente como cicatrizes azuladas na sua pele muito branca. Ficou ali imóvel e então, enojada de si mesma, sem saber o que estava fazendo, esbofeteou-se com violência, e murmurou para si mesma: "Não seja tola... não adianta... nunca mais. .."

Desligou a luz e fechou bem os olhos na escuridão.

No entanto, toda a sua resolução era insuficiente para livrá-la daquilo que sentia em seu íntimo, e que era mais forte do que ela e então, envergonhada, acabou cedendo. No dia seguinte, ela foi procurar Paul no seu antigo endereço e ali a senhoria, Sra. Coppin, olhou-a dos pés à cabeça com os olhos apertados.

- Ele foi embora. . .

Lena sentiu um aperto no coração, mas insistiu.

- Para onde foi ?

- Não faço a menor idéia. Talvez lhe interesse saber que a polícia esteve aqui à sua procura. Fiquei com sua mala em pagamento do aluguel que ele ficou devendo.

Houve uma pausa enquanto um pensamento se formava na cabeça de Lena.

- Se eu lhe pagar, a senhora me entrega suas coisas?

A mulher refletiu um pouco. O valor das coisas que tinha era muito pequeno e ela sabia que não seria o suficiente para pagar a dívida. Com aquilo ela "jamais veria a cor de seu dinheiro". Num caso como aquele ninguém iria perder tempo fazendo perguntas. Era uma coisa boa demais para se desprezar, e ela concordou de má vontade e entrou deixando a porta encostada.

Muito vermelha, e com um ar de mistério, Lena levou para casa a mala já em estado bem precário que havia recuperado, e que continha apenas algumas roupas usadas. Lavou e passou as roupas, cerziu as meias. Limpou e passou as calças e até mesmo colocou alguns níqueis no bolso. Sentia-se aliviada ao fazer aquilo, mas quandotudo já estava lavado, arrumado e pronto, de volta à mala, ela não se sentia melhor do que antes. Cada vez mais se convencia de que alguma coisa ruim tinha acontecido com ele.

Então, ao chegar à loja, ela teve notícias de Paul. Nancy estava contando alguma coisa que todo mundo achava muito engraçado. Estavam todos ouvindo, até mesmo Harris. Devia ser bem interessante.

- Pois é o que lhes digo... cheguei a ficar tonta. Eu ia para o cinema com o meu namorado, quando vi aquele homem enfiado no cartaz. Logo de saída não o reconheci. Estava muito magro e mal vestido. Quase em farrapos. . . sem sobretudo. "Espere aí um pouco, George", disse a meu namorado. "Acho que conheço aquele cara". E então vi quando ele passou bem na minha frente desfilando junto com aqueles outros infelizes. Era o Paul mesmo. Ele virou a cara logo que me viu do outro lado da rua.

Os ouvintes soltaram exclamações e Lena quase desmaiou.

- Vocês deviam tê-lo visto. Está mesmo liquidado. - Nancy acompanhava o seu relato com gestos dramáticos e com o espanto estampado nos olhos.

Harris encerrou a sessão com um ar de superioridade.

- Eu sabia que ele não prestava. Fui avisado pela polícia. Bem... vamos trabalhar. Voltem para seus lugares.

Foi nessa ocasião que se romperam as últimas defesas de Lena. Ela se dava conta de sua loucura e percebia também que estava acumulando desgraças para a seu futuro. Mesmo assim, ela não conseguiu conter-se. Todas as manhãs, quando ia para o trabalho, e todas as noites, quando saía da loja, ela percorria as ruas mais pobres da cidade, olhando sempre com atenção para os vultos mais pobres. Quando estava de folga, ela passava horas por perto da estação ferroviária na Rua Leonard. Tentou também outras estações, sempre sem sucesso. Todos os seus esforços resultavam em fracassos, e ela passava dias e noites num desapontamento amargo.

 

Quando Paul saiu da casa de Sprott, atravessando sem olhar as ruas silenciosas, a noite estava clara e fria, mas havia um vento cortante que prenunciava geada. Quase dominado pela fraqueza da reação, havia uma idéia que não lhe saía da cabeça. Na hora em que chegou ao canal, ele tirou a pistola do bolso e, com um soluço, atirou-a bem longe dentro d'agua, ouvindo o barulho que a arma fez quando caiu.

Ficou ali, meio tonto, olhando os círculos excêntricos que se formavam e só foi embora quando eles desapareceram.

Nesse momento o relógio público batia 11 horas.

Aquelas pancadas fortes trouxeram-no de volta à realidade e então, de repente, apesar do tumulto em seu cérebro e do tremendo cansaço que sentia, ele percebeu que não tinha nem mesmo um níquel no bolso, e ficou imaginando onde poderia passar a noite. Aos poucos foi chegando à conclusão de que só havia uma saída. Teria que fazer aquilo que o Jerry e todos aqueles outros lá do dormitório detestavam. Teria que dormir ao relento. Havia na cidade um lugar conhecido como os Arcos, e que era o único lugar, com exceção do cemitério, onde todo rnundo podia dormir sem ser incomodado. Ao caminhar lentamente para aquele triste destino, ele sentia que se desmoronava o último e fraco baluarte de sua respeitabilidade. Agora, certamente, ele já tinha chegado ao fim.

Os Arcos ficava perto do canal e embaixo da ponte da estrada de ferro. Quando chegou ali já encontrou outros infelizes que se haviam acomodado para passar a noite. Levantou a gola do sobretudo e deixou-se cair na sombra fria com as mãos nos bolsos, encostado numa das colunas redondas de ferro. O frio era intenso e Paul procurava não tremer, enquanto tirava alguns cochilos. A manhã chegou acompanhada de um nevoeiro cinzento e com o troveejar de um trem que passava lá em cima. Paul sentia tanto frio, e estava tão enregelado, que mal podia mexer-se, mas sempre conseguiu levantar-se para ir embora. A fome causava-lhe dores no estômago, mas ele não tinha dinheiro nem mesmo para um pedaço de pão. Instintivamente, dirigiu-se para a companhia dos cartazes, mas lá encontrou os portões fechados. Seguiu então para a estação ferroviária da Rua Leonard e passou o dia inteiro rondando por ali, escorraçado pelos outros carregadores registrados, mas sempre conseguiu ganhar nove penics, mas aquilo não chegava para comer e dormir. Num café de trabalhadores que havia ali por perto ele comeu uma lingüiça e tomou uma sopa gordurosa que lhe caiu no estômago como se fosse chumbo, causando-lhe fortes dores. Depois, arrastou-se novamente para os Arcos.

Na manhã seguinte chovia muito e ele não podia ir para a estação, e então ficou vagando pelas ruas à procura de um abrigo. Sentia-se muito cansado, mas, naquela cidade grande, não havia um único lugar onde pudesse sentar sem pagar. Finalmente, chegou a um salão de bilhares e, no sobrado, numa atmosfera cheia de fumaça, iluminado por lâmpadas com abajures verdes, ele encontrou um refúgio. Aquilo durou pouco. Depois de haver assistido a algumas partidas sem jogar, o encarregado veio pedir-lhe que se retirasse.

De volta à rua, a única coisa que sabia era que precisava continuar andando sem se preocupar com o destino.

Já no fim da tarde, viu-se na parte do canal onde havia rebocadores, uma área suja e triste flanqueada por fábricas e cerâmicas, Ao chegar ali um homem de uma barcaça gritou-lhe pedindo que segurasse uma corda para ajudá-lo na manobra da comporta acionada à mão. Dentro da barcaça havia uma mulher de aspecto maternal que fritava bacon com ovos no fogão da cabina. Ela, naturalmente, percebeu logo as condições de Paul e então, depois de completada a manobra e quando a barcaça ia seguir viagem, deu-lhe um substancial sanduíche ainda bem quentinho.

Aquela demonstração de bondade e o olhar de pena da mulher abalaram Paul e ele sentiu um tremendo desejo de abandonar tudo, de voltar para casa, voltar para uma vida normal com um decente conforto humano, mas sempre conseguiu dominar tal impulso. Ele não ia desistir. Jamais desistiria. Encharcado até os ossos, o rapaz caminhou de volta para os Arcos.

Começou então para Paul um período de tanto sofrimento que, quando, de tempos em tempos, chegava a perceber seu estado, ele mal podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Dependendo sempre da sorte de conseguir uma moeda, havia dias em que ele passava sem comer. Havia momentos em que a lembrança das coisas lhe escapava e ele vagava pelas ruas numa espécie de estupor. Naquele pesadelo contínuo em que se encontrava, Paul chegava a esquecer quem era e então, quando se lembrava, sentia um desejo irracional de se dirigir às pessoas para lhes explicar seu caso. Havia outras ocasiões em que via as pessoas na rua como se estivessem fora de foco e então esbarrava nelas balbuciando uma desculpa e seguindo em frente. Durante tudo aquilo, ele tinha sempre a impressão de estar sendo seguido, e era sempre a figura de Jupp, o sargento da polícia, que lhe aparecia vigiando-o e esperando, com o rosto sem expressão mas hostil, pelo fim inevitável. Ele se perguntava, vagamente, por que não o prendiam. Suas roupas estavam sujas, seus sapatos furados, sua barba era de muitos dias. Os cabelos caíam-lhe sobre a gola do casaco e os olhos não tinham mais expressão. Ele ficava pensando, no meio da tonteira, se seria possível alguém morrer de fome naquela cidade tão grande e tão próspera.

Era claro que havia as instituições de caridade, e então, afinal, arrasado demais para sentir qualquer orgulho, ele apelou para aquele último recurso. Uma tarde, quando já começava a escurecer, ele conseguiu arrastar-se até o Mercado do Milho, onde, num pequeno espaço triangular, entre os trilhos da estrada de ferro, havia um caminhão com uma chaminé e uma espécie de balcão onde já estava uma fila de mendigos esperando. Às cinco horas em ponto, o balcão abriu-se mostrando no interior do caminhão uma cozinha moderna. Um empregado de avental branco ficava atrás do balcão e entregava uma tigela de sopa e um pedaço de pão a todos que se apresentavam numa fila ordeira. Quando chegou a vez de Paul receber sua parte, a sopa muito quente percorreu suas veias, fazendo-o renascer. Ele tomou a sopa e comeu o pão como um esfomeado e depois saiu em silêncio.

No meio de toda a escuridão de sua vida, na sua luta desnecessária mas feroz pela sobrevivência, aquela cantina gratuita tornou-se o ponto fixo de sua existência. Todos os dias, ao anoitecer, fizesse bom ou mau tempo, ele estava sempre silenciosamente ali na fila, onde ninguém falava. Simplesmente esperavam. Depois de comer, todos eles iam saindo, voltando para as sombras, mas sempre em silêncio.

Então, depois de uma semana, mais ou menos, na noite de quartafeira, apareceu um companheiro para o empregado de avental branco. Era um senhor com cerca de uns 50 anos, alto e desempenado, vestido de preto, com aparência sacerdotal, olhos escuros e um sorriso bondoso. Paul reconheceu-o imediatamente. Era Enoch Oswald, e só então percebeu que vinha freqüentando a Cantina Silver King. Realmente, logo que ele tirou o chapéu preto de abas largas os seus cabelos brilharam como prata à luz das lanternas do caminhão, mostrando o traço característico do homem que havia recebido aquele apelido pelo qual era ".onhecido por todos os sofredores que recebiam sua caridade.

Sem chapéu, sempre com seu inefável sorriso nos lábios, ele percorria a fila devagar, parava junto de cada um, sem olhar e sem falar, mas colocando-lhe na mão uma moeda de um xelim recentemente cunhada. Quando Oswald chegou a seu lado e embora estivesse com a cabeça baixa, Paul logo se deu conta de sua presença. Logo de saída, sua emoção foi apenas de gratidão, mas, aos poucos, um outro sentimento foi-se apossando dele, um desejo intenso e desvairado, fruto de seu desespero, para pedir a ajuda daquele homem bom que sentia necessidade de estender a mão aos mais necessitados e que, certamente, não deixaria de vir em seu auxílio. Traído por Castles, atolado nas areias movediças da baixeza humana, perdido e perseguido, ele precisava, diante de Deus, de alguém que viesse em seu socorro disposto a apoiá-lo.

O desejo de falar, de se identificar e de explicar sua situação tornou-se irresistível. Ele estava sem fôlego diante daquela oportunidade. Cada vez mais, depois de horas de penosas meditações, Paul chegara à conclusão de que somente por intermédio de Louise Burt ele poderia desvendar o mistério do assassinato. O rapaz tinha certeza de que ela sabia. Ela estava ali viva e real, ao passo que o resto eram sombras, eram coisas perdidas na escuridão dos anos. E ali, a seu lado, estava a única pessoa que, mais do que ninguém, devido à sua posição e influência, poderia obrigar aquela infeliz mulher a dizer o que sabia. Era claro que nas circunstâncias tristes em que ele se encontrava, e que haviam contribuído para aquele encontro cara a cara, havia alguma coisa providencial e predestinada.

Sentiu-se tomado de uma espécie de vertigem. No seu estado enfraquecido e nervoso, aquela oportunidade repentina era demais para Paul. Foi assaltado por um espasmo na laringe e as palavras lhe morriam na boca, e nem mesmo conseguia abri-la. Quando sentiu que a cabeça já não girava mais, e já voltara a seu estado normal, seu benfeitor já não estava mais ali. Ficou furioso maldizendo-se por sua fraqueza. Não tinha coragem para procurá-lo em casa. Indagando com o empregado, ele ficou sabendo que o "chefe" visitava a cantina todas as quartas-feiras e então teve a certeza que a oportunidade se repetiria na semana seguinte. A moeda de prata continuava na sua mão como se fosse um talismã.

Os próximos dias foram duros de aturar. No fim da semana, o frio aumentou. Os nevoeiros consecutivos envolviam a cidade como se fosse uma praga. Nos crepúsculos tristes o ar estava carregado com a fumaça de enxofre e Paul contraiu uma tosse convulsiva. Nos intervalos de lucidez, o rapaz chegava a reconhecer que não agüentaria mais.

Chegou então a quarta-feira e a esperança deu-lhe vida nova. •Chegou cedo e tomou seu lugar na fila da cantina. A noite caiu rapidamente. Acenderam-se as lanternas do caminhão e abriram o balcão. De repente, quando ainda estava ali na fila, ele sentiu que havia alguém a seu lado. Só que não era a presença inspiradora de Oswald. Depois de um momento, o rapaz levantou a cabeça. Era Lena Andersen que ali estava.

 

Era isso mesmo. Ela ali se encontrava a seu lado sem dúvida alguma, mas ele estava tão mudado que Lena chegou a ficar comovida. Ela quis fingir que o encontro era apenas acidental.

- Ora essa... é você, Paul ?

Extremamente pálido, ele evitou olhá-la e não respondeu.

- Mas que surpresa... Vamos descer a rua juntos?

- Eu preciso esperar aqui - disse ele, após uma pausa.

- Por quê?

Ele sabia que Lena não entenderia, se lhe dissesse a verdade.

- Aliás, é aqui que eu como, e se sair da fila perderei minha ceia, e isso será ruim...

Ela sentiu um novo choque, vendo a maneira ausente que ele usava para responder.

- Estou justamente indo para casa, Paul. Venha comigo e nós comeremos juntos lá.

Ele voltou para ela seus olhos cansados. Havia no olhar da moça uma solicitude que só servia para intensificar aquela dor perene que havia no coração dele.

- O melhor mesmo é você se afastar de mim, Lena - murmurou Paul.

Ela, porém, não desistia e continuava a olhá-lo.

- Venha, Paul... por favor...

Ele hesitou sem ter coragem, vítima de sua fraqueza e também porque precisava falar com Silver King. Foi assaltado por uma onda de indecisão ae ficou completamente tonto. Afinal, resmungou ao mesmo tempo que olhava para sua calça suja e rasgada e para seus sapatos furados.

- Não posso andar a seu lado na rua deste jeito. Deixe... preciso ficar aqui mais meia hora. Depois, eu irei até a sua casa...

- Você promete, Paul? Você vai mesmo?

Ele respondeu afirmativamente com a cabeça. Durante um momento, ela ficou ali olhando-o muito aflita, mas logo afastou-se lentamente.

Ele deixou pender a cabeça e não a seguiu com o olhar, mas, de uma certa maneira, aquela sua presença inesperada, no vasto oceano de rostos desconhecidos, servira para restaurar suas esperanças de que, afinal, as coisas mudariam para melhor.

Começou a chover. Era aquela chuva impiedosa em diagonal que caracterizava o inverno inglês. Paul, instintivamente, levantou a gola do casaco e acompanhou a fila que seguia para o balcão a fim de receber as refeições, mas sempre atento esperando a chegada de Enoch Oswald, o Silver King.

Naquela noite, no entanto, ele estava atrasado e ainda não tinha aparecido, quando chegou a sua vez de receber a sopa e o pão no balcão, Paul estava aflito e olhava em todas as direções, mas afinal não se conteve e falou com o empregado.

- O chefe está atrasado esta noite...

- Ele só vem amanhã... O próximo...

O desapontamento de Paul foi tremendo. Estava contando tanto com aquele encontro que agora aquele novo adiamento, embora bem curto, deixava-o tonto. Os que estavam atrás dele na fila reclamaram e ele saiu do balcão, mas ficou ali sem tomar a sopa ou comer o pão. Ele ficou parado durante um instante olhando indeciso para o relógio do mercado e depois saiu arrastando os pés sem destino definido.

Lena, porém, não tinha ido para casa e ficara escondida do outro lado da rua, na esquina da praça, e veio a seu encontro.

- Venha comigo, Paul.

- Por uma questão de princípio... isto é, no domínio da pura lógica... bem... eu não sei realmente se...

Ele agora falava de uma forma estranha e vaga, e aquilo deixou-a muito alarmada, mas já não hesitava mais.

Segurou-o pelo braço e ele deixou-se levar, mas não pronunciou uma só palavra até chegarem à casa, embora ela percebesse que seus lábios se moviam, de tempos em tempos, como se falasse consigo mesmo. Uma ou duas vezes, ele olhou para trás.

Quando chegou em casa e subiu as escadas, ela estava ainda mais pálida do que antes, mas suas maneiras eram firmes, e ao chegarem lá em cima, do lado de fora da sala dela, Lena olhou-o de frente. Embora estivesse tremendo por dentro, sua expressão era firme.

- Você vai comer em um minuto, mas primeiro precisa mudar essa roupa.

Mostrou-lhe onde era o banheiro, abriu a torneira da água quente, deu-lhe um sabonete e toalha junto com seus petrechos de barba e uma muda de roupa. Ele olhava com estranha fixidez aquelas roupas limpas.

- De quem são estas roupas?

São suas mesmo. Deixe de perguntas e trate de se arrumar.

Enquanto ele estava no banheiro, ela acendeu a lareira da sala, foi até a kitchenette, colocou duas frigideiras no fogão e arrumou a mesa às pressas. Quando Paul saiu do banheiro com sua calça de flanela, camisa esporte aberta ao peito e bem barbeado, já tudo estava quase pronto. Sempre calada, ela trouxe uma cadeira para a mesa, fez-lhe sinal para sentar-se e colocou na sua frente uma vasilha com sopa.

Ele segurou a vasilha com as duas mãos, antes de ver a colher que ali estava em sua frente. Mergulhou-a então na sopa grossa e suas mãos tremiam quando a levou à boca. Depois que acabou a sopa, Lena deu-lhe um prato com ensopado de carne. Ele comia em silêncio e tão distraído que nem mesmo notava que ela o observava. Ele estava magro demais, embora o mais sério fosse a fixidez de seu olhar quando estava em calma. Quando, afinal, acabou de comer, ele levantou a cabeça e suspirou, para logo em seguida falar baixinho.

- Já fazia semanas que eu não comia uma coisa tão gostosa...

- Sente-se melhor agora? - Ela se levantou às pressas para esconder as lágrimas que lhe desciam pelo rosto.

- Estou muito melhor. - O rapaz levantou-se como se pretendesse sair e parecia obcecado com a idéia de ser preciso ir embora dali.

Abruptamente, ela pegou a cadeira dele e virou-a para a lareira. Quando viu que era para ele aquela cadeira, Paul sentou-se com as mãos cruzadas e os olhos fixos nas chamas da lareira. Vez por outra, com uma espécie de susto e assombro, ele olhava em torno da sala apreciando a novidade e o conforto daquelas quatro paredes que o cercavam.

Lena observava-o enquanto tirava a mesa e seus lábios estavam apertados como se tivesse tomado uma decisão. A situação, em vista da ausência da senhoria, era penosamente difícil. Mas ela estava resolvida a enfrentá-la. Quando acabou de lavar a louça e arrumar tudo, ela desenrolou as mangas e saiu da sala. Dez minutos depois voltou e foi até onde ele estava sempre olhando para as chamas da lareira.

Logo que a viu ali de volta, ele se levantou.

- Bem... já é tempo de eu ir andando...

- E para onde vai?

- Vou voltar para meu hotel.

- E onde é isso?

Ele tentou sorrir mas não conseguiu. Deixou cair os ombros e baixou a cabeça.

- Já que você quer saber, fica embaixo dos Arcos. Se não chegar cedo, não encontro mais lugar e tenho que ficar ao relento... - Dizendo isso, ele soltou uma risadinha divertida. - É bem desagradável quando a chuva começa a entrar pela gola do casaco.

- Nada disso. Você não vai sair daqui, Paul.

- Mas eu preciso ir, Lena. - Ele foi tomado de grande agitação. - Pois então você não compreende? Não posso ficar a noite toda vagando pelas ruas. Onde está meu sobretudo? Se eu não pegar meu lugar lá, onde é que vou dormir então?

- Aqui. É aqui mesmo que você vai dormir, Paul. A casa tem mais um quarto onde você pode ficar. E o melhor mesmo é você ir logo para a cama.

Ela virou-se e saiu na frente para mostrar o caminho e então abriu a porta do quarto que já tinha arrumado para ele. As cortinas vermelhas estavam corridas, a. lâmpada, acesa, a lareira brilhava e as cobertas da cama confortável se achavam dobradas à sua espera.

O rapaz esfregava os olhos, lentamente, com as costas das mãos como se não conseguisse compreender bem o que estava acontecendo.

- Realmente... comida... e uma cama. Como é que a gente pode expressar adequadamente... Ainda falava aos arrancos e completamente tonto.

- Deixe disso, Paul... não diga mais nada... agora trate de cair na cama para descansar... - Lena ainda falava com a voz alterada.

- Sim... É isso mesmo... descansar.

Enquanto estavam os dois ali, uma rajada de chuva fustigou os vidros das janelas. Paul estremeceu instintivamente. Virou-se de lado para que ela não percebesse o tique nervoso de seu rosto, entrou no quarto e fechou a porta.

 

Paul acordou quando a primeira luz do dia invadiu o quarto. Ficou ali deitado, quieto, até perceber bem onde estava. Depois, ouvindo barulho no quarto ao lado, levantou-se e vestiu-se depressa e foi para a cozinha. Lena estava lá arrumando a mesa para o café. quando ele entrou, ela ficou muito vermelha. Passara a noite quase sem dormir pensando nele que, finalmente, estava ali bem perto dela ao mesmo tempo que se culpava pela liberdade que tomara com a senhoria ausente. Não obstante, a despeito das dificuldades de sua posição, seu instinto lhe dizia que ela devia conservá-lo ali, longe das ruas, custasse o que custasse, até que sua amiga voltasse. Serviu-lhe o café, um ovo com torrada, e ficou olhando enquanto ele começava a comer. Paul não falava muito e ela achou mais acertado manter-se em silêncio também. Finalmente, depois de tomar o seu café, e sem dizer mais nada, como se sua presença ali fosse a coisa mais natural do mundo, ela saiu para o seu trabalho no Bonanza.

Depois dela sair, Paul voltou ao quarto e ficou ali, vencido pelo cansaço, a maior parte da manhã. Depois de tudo aquilo que sofrera, aquela sensação de abrigo, de segurança transitória, dava-lhe uma boa oportunidade para pensar. Livre da miséria dos Arcos, bem vestido e alimentado, ele sentia voltar-lhe a coragem, seu cérebro começava a funcionar mais normalmente, com maior lucidez, e ele chegava à conclusão de que precisava procurar o Sr. Oswald em sua casa.

Saiu do apartamento quando eram quatro horas. Era uma longa caminhada até lá e ele viu-se obrigado a sentar-se num dos bancos do parque. Cerca de uma hora depois, chegava ao lugar que evitara durante muito tempo.

De repente, ao atravessar a rua, ele cruzou com um homem que o olhou com curiosidade, parou, e logo veio a seu encontro. Era Jack, o homem do bar que o olhou surpreendido.

- Então é você, hem? Espere aí que tenho alguma coisa para lhe dar.

Aquelas palavras conseguiram romper a apatia de Paul. Ficou ali parado enquanto o outro metia a mão no bolso para tirar uma carteira já bem usada e começava a procurar alguma coisa lá dentro.

- Ah... Aqui está. Já faz duas semanas que estou com isto aqui. Foi Louise Burt quem me pediu para lhe entregar...

O olhar esgazeado de Paul fixou-se no envelope sujo que o outro lhe estendia e, imperceptivelmente, seu coração começou a bater descompassado. Estendeu a mão e pegou no envelope, enquanto Jack o olhava com muita curiosidade.

- Você nunca mais apareceu por aqui...

- É sim... não tenho aparecido...

- Andou passando maus pedaços, hem?

- Não, não. Estou bem. - Paul falava quase automaticamente, sem poder desviar os olhos do envelope e sentindo dentro dele um estranho presságio ainda não muito definido.

Houve um silêncio, enquanto Jack continuava ali esperando, mas, afinal resolveu-se.

- Bem... preciso ir andando. Boa sorte para você...

Olhou ainda, inquisitivamente, para Paul, mas, afinal, deu de ombros e desceu a rua.

Enquanto o homem do bar descia a rua e desaparecia, Paul ficou ali de pé na luz crepuscular, sem fazer um movimento, e passou a língua nos lábios pálidos. Com o papel sujo apertado na mão ele correu até a primeira lâmpada da rua e abriu o envelope. Levantando a carta para a luz muito trêmula, ele conseguiu lê-la.

Caro Sr. Sabichão. Já que você tentou me fazer de palhaça, conforme me disseram, esta tem por fim comunicar-lhe que vou casar direitinho na igreja e então não preciso mais de suas propostas e promessas. O Sr. Oswald arranjou tudo para mim e para o meu marido e eu vou para a Nova Zelândia no mês que vem, junto com meu marido. Ele já fez a mesma coisa antes com meu amigo Edward, que estava empregado aqui antes de mim, e eu vou me encontrar com ele lá. Portanto, espero que você morra de inveja sabendo que estou lá vivendo com luxo e conforto.

Louise Burt P.S. Você nunca me enganou. Tenho pena de você.

Paul levantou lentamente os olhos desiludidos. Afinal de contas, aquilo não era nada. Mesmo assim, porém, estranhos pensamentos levantavam-se em seu espírito, como se fosse um nevoeiro em cima de um lago sujo. Com uma espécie de assombro doloroso, ele flutuava no crepúsculo entre a realidade e a ilusão. A rua oscilava vagamente ali na sua frente. Sentia a cabeça zunir. Então, como se seu espirito, adormecido naquelas últimas semanas, houvesse recuperado, de repente, toda a sua lucidez, depois do repouso que tivera, ele sentiu a força de um lúcido clarão. Os véus se abriam lentamente.

Com um ombro caído e com o braço estendido para a luz trêmula da rua, ele tornou a ler a carta estúpida e desprezível, tresandando a uma vaidade barata ofendida. Havia uma frase vital, significativa e terrível que sobressaía como se tivesse sido escrita com letras de fogo: o mesma coisa antes com o meu amigo Edward... que estava empregado aqui antes de mim. Ali, naquela meia-luz, seu rosto mostrava uma rigidez que não era natural, mas seus olhos brilhavam e o coração batia acelerado.

Sempre com a carta na mão, Paul agarrava-se ao poste de luz como se estivesse sendo esmagado por um peso terrível. Por que nunca antes suspeitara aquilo? Com a cabeça ainda girando, ele procurava recuperar a calma para reorganizar suas idéias ainda tumultuadas.

Já fazia 12 anos que Louise era empregada na casa dos Oswalds. Isso em si, embora raro, era um fato sem o menor significado, mas logo assumia uma importância capital quando reunido ao fato de Louise Burt e Edward Collins terem sido ambos empregados da casa ao mesmo tempo.

Como poderia ser que aqueles dois, as principais testemunhas contra seu pai, houvessem encontrado emprego, ao mesmo tempo, na casa de Oswald? A filantropia poderia, talvez, explicar tudo, mas aquilo não deixava de ser uma bondade exagerada que levava o patrão a casar os dois e depois despachá-los para os confins do globo.

Paul sentia os nervos vibrarem e seu pensamento se focalizava em Oswald, alto e imponente, com a cabeça grande mergulhada nos ombros altos e angulares, os olhos escuros cheios de benevolência por baixo das sobrancelhas grossas e prateadas. Seria possível que aquele homem bom estivesse envolvido de alguma forma no caso de seu pai?

Os tentáculos de seus pensamentos se estendiam tateando e procurando, coordenados com uma condição de alerta pouco natural. Ele não conseguia explicar a razão, mas naquele momento exato toda a sua consciência parecia estar sendo arrastada e dirigida para uma recordação extraordinária. Era o timbre da voz daquele homem que falara com Albert Prusty no patamar escuro da escada daquela noite em que haviam ouvido a tempestade de neve, o homem que era o dono de Ushaw Terrace.

Como um feixe de luz saído da escuridão, Paul foi assaltado por novas suspeitas, e então empertigou-se numa crescente agitação. Era quase certo que encontraria Prusty em casa, já que era quinta-feira, dia em que ele fechava a loja mais cedo. Ainda não eram cinco horas. Ele tomou coragem e dirigiu-se para lá debaixo da chuva que caía.

 

Vinte minutos depois, Paul estava batendo na porta de Prusty, na Ushaw Terrace 52. Ninguém respondeu às primeiras batidas, mas depois de insistir a tampa da caixa do Correio abriu-se para deixar passar a voz do velho.

- Quem é? Não posso receber ninguém agora... Paul curvou-se diante da fresta e deu-se a conhecer.

- Estou com um acesso de asma - disse Prusty. - Vou para a cama agora mesmo. Volte amanhã.

- Não. Não... Preciso falar com o senhor. É urgente...

Paul não se dava por vencido e então, finalmente, depois de muitos resmungos o velho abriu-lhe a porta e deixou-o entrar no hall que estava muito quente e tresandava a pó de estramônio que ele estava queimando. Prusty achava-se em mangas de camisa, espirrando espasmodicamente ao mesmo tempo que olhava para Paul com o rosto ligeiramente congestionado e uma expressão de zanga bem justificada.

- Mas que diabo quer você agora?

- Não vou levar mais de um minuto... eu só queria perguntar-lhe quem é o dono desta casa. - Ele falava muito depressa e sentia a boca seca.

Ali naquela passagem estreita e muito quente, os espirros do velho pareciam suprimidos com a surpresa. Olhou bem para Paul.

- Ora essa! Você me viu falando com ele naquela outra noite... esta casa é do Enoch Oswald.

Ainda uma vez, Paul sentiu-se como se houvesse sido atingido por um martelo de gelo. Encostou-se à parede para não cair.

- Naquela noite eu não percebi que era ele.

- Pois era... e continua sendo. Tudo isto aqui é dele. Era antes de seu pai. É um dos maiores proprietários de Wortley e também um dos melhores. Já faz dez anos que ele não aumenta os aluguéis. E ele trata muito bem de meu apartamento.

- E o apartamento lá de cima? Ele também o conserva direitinho? - O timbre de voz de Paul era estranho e abafado.

- Mas claro! Ele demonstrou um bom sentimento de decência e respeito. Mas que diabo está acontecendo com você, Paul?

- Não sei... O senhor ainda tem a chave ?

- Claro que estou com ela, mas também estou com asma. Não posso mais ficar aqui em mangas de camisa. - Já estava começando a empurrar Paul para fora.

- Espere um pouco. O senhor me prometeu que me deixaria ver o apartamento lá de cima. Quer me dar as chaves agora?

O rosto de Prusty mostrava bem como ele estava aborrecido com aquilo tudo. Esteve quase recusando, mas só queria ver-se livre de Paul e então entrou na cozinha e saiu de lá com as chaves na mão.

- Aqui estão. Agora deixe-me em paz. Bateu a porta com estrondo.

Paul ficou ali no patamar escuro ouvindo Prusty colocar a tranca na porta. Estava com os olhos fitos na escada que levava ao andar de cima. Quando subiu o primeiro degrau ocorreu-lhe uma idéia melhor e então ele parou, refletiu e enfiou as chaves no bolso. Ainda não chegara a hora. Voltou-se e desceu a escada.

Chegando lá fora, levantou a gola do sobretudo para se proteger do vento cortante e caminhou rapidamente. Uma terrível suspeita começava a se formar em seu cérebro que fervilhava. Se estivesse mais calmo, ele consideraria aquilo uma rematada loucura. Agora, porém, ele já não podia permanecer calmo e aquele pensamento que germinava dentro dele ia crescendo de tal modo que já o sufocava. Oswald era o dono do apartamento onde morava Mona quando fora assassinada. Uma vez que era ele que cuidava pessoalmente de todos os seus prédios, ele devia vê-la pelo menos uma vez por mês, quando ia receber o aluguel. Mas mesmo que a visita fosse com mais freqüência, isso não seria de admirar. Ele era o proprietário e suas idas e vindas seriam consideradas sempre tão razoáveis como as do carteiro ou do caixeiro do armazém que vinha trazer as compras. Se Mona fosse mesmo sua amante, quem jamais suspeitaria a verdade? Se ele a houvesse assassinado...

O rapaz foi assaltado por uma tremenda convulsão. Aquilo poderia ser uma loucura, mas seu espirito torturado não o deixava em paz, porém, ao contrário, continuava a persegui-lo, reunindo, como se fosse uma estranha cadeia, todas as ações daquele homem muito rico, Até mesmo sua caridade pública parecia uma farsa, ou melhor, uma forma de necessidade de perdão que sentia sabendo-se culpado.

Quase correndo agora, Paul chegou ao centro da cidade e, qu .e sem fôlego, entrou na biblioteca, onde, meses antes, começara sua busca.

Mark já não estava mais ali, e em seu lugar havia uma moça que o atendeu com delicadeza inteligente, quando percebeu sua pressa.

Ela lhe trouxe uma quantidade de livros e levou-o para uma das mesas onde ele logo se pôs a folhear febrilmente as páginas.

O primeiro volume, que era a última edição do Whos Who, continha apenas ligeiras informações condensadas de ascendência, títulos oficiais e o atual endereço de Enoch Oswald. Os dois seguintes eram iguais e não serviam para o que ele queria. Um quarto volume fornecia apenas uma longa lista de fundações patrocinadas por sua família. Finalmente, porém, numa edição local em brochura publicada por uma firma de Wortley sob o título Worthy and its Notables, Paul, com um suspiro de satisfação, encontrou a biografia completa do mais importante filantropo da cidade. Avidamente, com a velocidade de um relâmpago, ele passou por cima dos parágrafos convencionais e elogiosos.

Enoch Oswald, nascido em 13 de novembro de 1885, filho único de Saul Oswald e Martha Cleghorn... Curso primário em Wortley e Universidade Nottingham... Ia seguir uma carreira profissional, mas, por motivos de saúde, e depois de dois anos no Hospital St. Mary, foi obrigado a abandonar seus estudos de medicina...

Paul sentiu um arrepio quando percebeu o significado das últimas palavras, mas continuou a ler, embora mal pudesse respirar.

Depois disso... ingressou nas atividades comerciais de seu pai... muito prósperas e antigas... com muitos imóveis em Eldon... começou exemplarmente por baixo como recebedor dos aluguéis semanais e mensais... Apesar de freqüentes ataques de indisposição, o jovem Oswald não era um maricás... mostrava-se interessado em esportes ao ar livre... particularmente o ciclismo... e por alguns meses... foi um dos membros mais ativos do Clube dos Gafanhotos, o qual, aliás, durou muito pouco.

A descrição continuava, mas as palavras já estavam muito borradas e Paul não conseguia lê-las. Recostou-se completamente estarrecido. Entre as sinistras reflexões que saíam como torrente do cérebro de Paul ele sabia muito bem o que teria a fazer logo a seguir. Com seu supremo objetivo exposto ali diante dele, já não havia mais tempo para hesitações ou cerimônias. Cheio novamente de uma energia sobrenatural, afastou a cadeira com barulho e, deixando os livros espalhados em cima da mesa, saiu apressado da biblioteca.

Dez minutos depois, Paul chegava na casa onde Lena morava e foi ela mesma quem lhe abriu a porta. Então, no mesmo momento em que ela o recebia com um sorriso, Paul falou de uma maneira que a deixou assustada.

- Lena... preciso de sua ajuda... imediatamente.

 

Ainda ali de pé na entrada do apartamento, sem dar atenção às perguntas dela nem às suas solícitas atenções, Paul explicava-lhe detalhadamente o que ela teria que fazer. As palavras custavam tanto a sair-lhe da boca e seu ar era tão estranho que ela chegou a desconfiar de que ele não estava bom da cabeça. A despeito da aflição dela e do aparente absurdo de seus pedidos, havia nas maneiras dele alguma coisa tão profunda e terrível que ela se via forçada a obedecer-lhe. Ela foi à cozinha e voltou com uma caixa de papelão, papel pardo, barbante, e um pedaço de lacre. De seu quarto, trouxe um velho caderno de notas com algumas folhas em branco.

Ali no hall meio escuro, com a mão apertada a seu lado, ela viu quando ele, metodicamente, embrulhou a caixa, amarrou-a e selou-a com o lacre vermelho.

Depois ele pegou no caderno de notas, escolheu uma folha limpa e escreveu nas seis primeiras linhas nomes e endereços.

- Mas, Paul, pelo amor de Deus, o que você está fazendo? Ele hesitou. Era possível que sentisse uma ligeira desconfiança

de que aquilo que estava fazendo parecesse fantástico, mas o choque tinha embrutecido seus processos mentais, e então, tendo elaborado seu plano, ele se agarrava a ele tenazmente. Só lhe era preciso agora descobrir uma coisa a mais. Só uma coisa.

- Explico depois. Agora vamos sair.

Ela estava ali ao lado dele sem saber o que fazer, já que seus sentimentos eram desencontrados. Não sabia se devia ou não obedecer. Pensava então que talvez naqueles preparativos triviais e sem sentido houvesse alguma coisa de importante.

- Não se preocupe, Lena. É tudo muito simples.

- Pode ser simples ou difícil, farei o que você quiser, Paul. Olhou-a e depois explicou-lhe direitinho o que ela teria que

fazer.

- Compreendeu bem?

- Acho que compreendi... Mas, Paul... não há nada no embrulho...

Os olhos dele mostravam um brilho estranho.

- Não há nada... mas talvez haja tudo. - Olhou para o relógio na parede que marcava cinco minutos para as nove. - É melhor irmos andando. Você está pronta? A coisa toda não vai levar nem meia hora...

Saíram juntos e caminharam em silêncio pela Rua Ware na direção de Lanes, dobraram à direita na Northern Road, e depois saíram por uma passagem que era conhecida como Weavers Alley. No fim do beco, ele parou e ficou olhando à procura do triângulo onde ficava o Mercado do Milho. A cantina já estava aberta e a fila já se movimentava. Ficou todo arrepiado quando viu que Oswald já tinha chegado. Ele estava ali ao lado do trailer, bem visível à luz do poste com os cabelos prateados brilhando como se fossem uma auréola naquela luz crepuscular.

Instintivamente, Paul recuou para um ponto mais escuro do beco. Bem no fundo de seu espírito ele estava convencido de que Oswald conhecia sua identidade e por isso ele achara melhor não se mostrar a fim de não sacrificar a validade daquele teste crucial. Durante muito tempo, ele ficou ali imóvel até que, com um imperceptível movimento do braço, ele fez com que Lena fosse até a cantina.

A moça cruzou a rua com passos firmes e aproximou-se de Silver King. Paul estava com a garganta cada vez mais seca. Inclinouse com os olhos quase saltando-lhe das órbitas e o corpo completamente rígido. Viu quando Lena falou com ele e quase podia saber o que lhe dizia pelo movimento dos lábios dela.

- Sr. Oswald?

O homem voltou-se para ela, inclinando a cabeça com dignidade.

- Recebi ordens para lhe entregar isto aqui, senhor.

Como era perfeito o desempenho de Lena! Que calma! Que compostura! Paul suspendeu a respiração, quando ela lhe entregou o embrulho e lhe apresentou o caderno para o recibo oferecendo-lhe o lápis.

- Assine aqui, senhor, por favor... Oswald já tinha o lápis na mão.

O lápis já estava agora na mão dele. O momento se prolongava de forma quase insuportável e o silêncio era tão grande, tão rígido e tão fora do natural que Paul tinha a impressão de que ele lhe iria arrebentar os tímpanos. Então, Oswald assinou o caderno de notas. Paul soltou um profundo suspiro. Lena já estava de volta caminhando firme e sem pressa. Chegou até onde ele estava e os dois foram embora com os passos abafados na escuridão do beco deserto.

 

Paul jamais soube como conseguiu voltar para casa. Não falou durante todo o percurso e caminhava como um cego, com a cabeça baixa quase à beira de um colapso físico. Logo que chegaram, o rapaz sentou-se dominado por um único pensamento. Sentia uma tremenda dor de cabeça e era assaltado por ondas de calafrios. Oswald era canhoto. Enoch Oswald, antigo estudante de anatomia, sócio do Clube dos Gafanhotos, recebedor de aluguéis, dono de Ushaw Terrace 52, era o homem. A descoberta sufocava-o e cegava-o com a intensidade de sua luz. Ele não podia agüentar aquilo sozinho. Com os cotovelos fincados na mesa, ele segurava a cabeça com as duas mãos.

- Lena... preciso contar-lhe uma coisa...

Ela estava muito pálida, mas a sua expressão era de firmeza. Deu-lhe um prato de sopa que estava fumegando na panela e insistiu para que ele a tomasse.

- Ainda não, Paul...

Depois que ele acabou, Lena sentou-se na sua frente.

- Agora pode contar, Paul...

Houve uma pausa. Depois, levantando a cabeça, ele começou a falar contando-lhe tudo enquanto ela o ouvia com atenção. Embora sua voz fosse baixa e trêmula, seus modos deixavam ver sua tremenda amargura.

- E então agora eu já sei de tudo. Sei de tudo mas não sei o que fazer. Nada há que eu possa fazer. A quem devo procurar? Não há ninguém. Quando não me ouviram antes, o que você acha que eles vão fazer agora, se eu voltar a procurá-los? Sprott, Dale ou até mesmo Birley? Não existe justiça. Aqueles que se sentem confortáveis, que podem comer, beber e gastar dinheiro à vontade e que contam com um bom teto, pouco se importam para saber o que está certo ou errado. O mundo inteiro está podre...

Seguiu-se um rígido silêncio. Lena estava profundamente comovida e sacudia lentamente a cabeça.

- Não, não está, Paul. Se as pessoas soubessem a verdade... Ninguém permitiria que isso acontecesse... As pessoas comuns são sinceras... e bondosas.

Paul olhou-a com incredulidade.

- E sua experiência prova isso?

Ela ficou vermelha e fez menção de falar, mas então, como se não tivesse certeza do que pretendera dizer, ficou calada. Logo depois, porém, respirou fundo e tomou coragem.

- Paul, não sou muito esperta, mas acho que sei o que você deveria fazer...

Ele ficou olhando para ela com se a interrogasse.

- Isso mesmo. Conheço uma pessoa que você deveria procurar ...

Ele repetiu as palavras dela, com incredulidade, antes de completar :

- E quem é?

Ela hesitou e seu rosto estava muito vermelho.

- Bem... é um amigo meu.

- Um amigo seu ? Um amigo... - Ao repetir as palavras dela, o rapaz as achava tão fora de propósito, tão impossíveis à vista de seu tremendo dilema, que um sorriso doloroso aflorou-lhe ao rosto. Um amigo de Lena! Depois de todos os seus esforços, depois de tudo que ele tentara fazer, aquela solução ingênua parecia-lhe tão ridícula que, inesperadamente, num acesso de completa histeria, ele soltou uma tremenda gargalhada. Por mais que fizesse não conseguia contê-la e, antes de saber o que estava acontecendo, toda aquela angústia que lhe enchia o peito explodiu em soluços sufocantes. A moça levantara-se e estava olhando para ele, profundamente aflita mas com medo de, até mesmo, colocar-lhe a mão no ombro. Quando, afinal, ele se acalmou, Lena conseguiu falar.

- Você agora precisa descansar. Amanhã nós falaremos outra vez.

- Amanhã. - Ele repetiu a palavra com um timbre estranho e desesperado. - Sim, sim... amanhã muitas coisas podem acontecer.

Sozinho, no mesmo quarto que já ocupara na véspera, Paul sentou-se na beira da cama. Sentia a cabeça escaldando e seus pés estavam frios. Sentia, vagamente, que apanhara um resfriado, mas aquilo não tinha a menor importância. Na verdade, seu espírito ficava mais lúcido à medida que seu resfriado piorava. Via com a máxima clareza todas as suas fúteis tentativas até aquele momento. Via também que a situação iria continuar da mesma forma, a não ser que ele descobrisse um meio para precipitar uma crise. A necessidade de uma ação decisiva e ostensiva crescia dentro dele como se fosse um grande rio em vésperas de inundar suas margens. Naquela estranha urgência de seu espírito, o equilíbrio natural e o bom senso tinham desaparecido e haviam sido suplantados por um acesso de loucura audaciosa. Ele queria ir para o meio da rua, levantar os braços e gritar aos quatro ventos toda a iniqüidade de que estava sendo vítima.

Ao pensar naquilo, um brilho quase irracional lhe iluminou os olhos. Levantou-se então, e depois de verificar que a porta estava fechada com a chave, ele foi até a escrivaninha que estava no canto do quarto e tirou todas as folhas de papel branco que forravam as gavetas. Esticou o papel no chão e apanhando caneta e tinteiro ajoelhou-se e começou a escrever em letras maiúsculas. Ele sempre tivera um talento especial para pintar, e então, dentro de mais ou menos uma hora, tinha acabado apesar de a mão lhe tremer muito e de a vista não estar muito clara. Deixou os papéis no chão para secarem e então estirou-se na cama completamente vestido.

A despeito do projeto que lhe queimava o cérebro, Paul conseguiu dormir intermitentemente e sempre com aquela mesma sensação de febre lhe correndo nas veias. Eram cerca de sete horas quando acordou assustado. A dor de cabeça aumentara, mas aquilo apenas servia para reforçar seu intento. Apanhou as folhas de papel, enrolou-as, passou pela porta do quarto de Lena e saiu de casa.

Já quase não chovia, quando ele caminhava apressado descendo a rua e a manhã estava clara e fresca como se ainda fosse madrugada. Ao chegar à guarita do vigia, do outro lado de Dukes Court, ele parou. Viu que tinha algumas moedas no bolso e então pediu café com pão e margarina e aquilo animou-o um pouco, mas tinha dado apenas alguns passos quando se sentiu assaltado por um intenso enjôo, e então se inclinou na sarjeta e vomitou.

Lá no fim da rua, o terreno da Companhia de Cartazes Lanes estava deserto, já que era ainda muito cedo. Ele conseguiu esgueirar-se por uma brecha da cerca de madeira já podre, onde, tantas vezes, ficara na fila à espera do seu cartaz junto com seus outros companheiros. Lá dentro as armações duplas dos cartazes estavam todas alinhadas num telheiro. Paul escolheu a mais nova delas e depois, valendo-se dos potes de goma que ali estavam, colou as folhas de papel que tinha trazido de casa. Já ia enfiar-se dentro dos cartazes quando viu, atiradas num canto e cheias de ferrugem, as correntes que haviam sido usadas pelo ilusionista Houdini quando se exibira recentemente no Teatro Palace. Sem hesitação, já que agora nem sabia o que fazia, ele apanhou a que lhe pareceu melhor, encontrou um cadeado ainda em boas condições, e cinco minutos depois, com a corrente enrolada ao corpo e enfiado nos cartazes, ele saiu do terreno.

O relógio da Catedral batia as oito horas, quando ele chegou de volta à Rua Ware e começou a caminhar para o centro da cidade.

O movimento intenso do dia já tinha começado. As multidões saltavam dos ônibus e saíam das escadas do metrô caminhando para seus destinos, mas eram poucos os que davam atenção àquele rapaz com um cartaz nas costas dizendo

 

         ASSASSINATO: O INOCENTE CONDENADO

 

e na frente

 

         ASSASSINATO: O CULPADO EM LIBERDADE

 

Se alguém dava atenção àquilo, a idéia que logo ocorria era que se tratava de uma inteligente campanha de propaganda com um slogan que calava no espírito do povo, deixando as pessoas intrigadas durante semanas até chegar a hora de desvendar o mistério.

Eram nove horas e ele continuava caminhando ao longo das sarjetas, olhando firme para a frente com um rosto sem expressão e segurando o pesado cartaz com as mãos rígidas. Paul desejava evitar um encontro com a polícia e por isso evitava os cruzamentos onde havia sempre um policial de serviço. Uma ou duas vezes ele teve a sensação que estava sendo observado, mas a sorte parecia protegê-lo e ninguém o deteve.

A manhã já ia avançada e ele começava a sentir-se fraco, mas, como a parte mais importante de seu plano ainda não fora realizada, já que aquele desfile era apenas um prelúdio para a intenção principal, ele não queria desistir. Ensurdecido pelo barulho do tráfego, enlameado pela água espalhada pelas rodas dos veículos, ele continuava marchando, mas não conseguia dominar a fraqueza cada vez mais forte que se apoderava de seu corpo, e houve mesmo instantes em que chegou a cambalear.

Já na parte da tarde, uma onda de curiosos começou a segui-lo. Eram em sua maioria vagabundos e desempregados, a escória da cidade, alguns mensageiros e cachorros esfomeados que ladravam. No princípio ele fora perseguido por caçoadas e epítetos vulgares, mas como não lhes dava atenção e continuava em silêncio, eles foram desistindo das piadas mas continuavam a acompanhá-lo, intrigados mas instintivamente certos de serem recompensados. Pouco depois de uma hora da tarde, o desfile chegou à Praça Leonard e ali, afinal, ele descansou ao lado da estátua de Robert Greenwood, que fora o primeiro Prefeito de Wortley. Saiu para fora dos cartazes deixando-os ali na calçada e depois, apertando os pulsos com a corrente, ele prendeu-se na grade da estátua com o cadeado que levava. Os que ali estavam soltaram uma exclamação de espanto e imediatamente, já que era a hora do almoço, a multidão aumentou em torno dele. Paul percebeu que já havia ali quase 100 pessoas.

Com a mão que tinha livre, Paul afrouxou a gravata que o sufocava. Não estava com medo nem se achava excitado. Apenas sentia uma desesperada urgência para apresentar seu caso perante os cidadãos de Wortley. Ali estava agora a sua grande oportunidade. Lena já lhe dissera que a gente comum era cheia de bondade e ele jamais teria uma melhor oportunidade para se certificar disso, e para tentar convencê-los. Se, apenas, sua dor de cabeça passasse. Pior ainda do que ela era a náusea e a sensação de irrealidade que o invadia como se seus pés estivessem em cima de balões que flutuavam às tontas no ar. Passou a língua nos lábios rachados, e começou seu discurso.

- Meus amigos! Estou aqui porque tenho alguma coisa para lhes dizer... alguma coisa que vocês precisam saber. Meu nome é Mathry e meu pai está na prisão...

- Você também vai acabar lá se não se cuidar, meu chapa... A interrupção provocou risadas, e Paul esperou que elas acabassem.

- Ele já está na prisão há quinze anos por um crime que não cometeu.

- Ora, deixe disso. Vá contar isso para os trouxas... Vieram, de novo, as gargalhadas, mas desta vez ouviam-se

também gritos de "Silêncio", "Vamos dar ao pobre coitado uma oportunidade..." "É preciso que haja jogo limpo".

- Eu tenho as provas todas da inocência de meu pai, mas não encontro quem me dê ouvidos...

- Nós também não podemos fazer isso, meu chapa, se você não falar logo dizendo o que há.

- É isso aí. Fale logo, fale logo!

Paul engoliu em seco. Ele percebia vagamente que, por mais que se esforçasse para falar alto, sua voz lhe saía da garganta fraca e rouca. Fez então um esforço sobre-humano.

- Há quinze anos meu pai foi condenado por assassinato com base apenas em provas circunstanciais, apesar de não ser ele o assassino ...

O vira-latas que vinha acompanhando Paul com persistência começou a latir.

- Eu repito... não foi ele quem cometeu o crime! E a prova disso...

O cachorro agora já latia tão alto, rosnava e mordia-lhe os pés que Paul não conseguia fazer-se ouvir. Depois, enquanto ele fazia uma pausa, o animal, sem dúvida encorajado pela aprovação dos que ali estavam, saltou, de repente, em cima dele. Paul cambaleou e quase foi ao chão. Enquanto procurava agarrar-se, ainda tonto, às armações dos cartazes, a multidão começou a resmungar.

- Está de porre...

- Está pensando que nos pode fazer de trouxas!

- Fora com o cachaceiro...

Uma casca de banana saiu da multidão e bateu-lhe em cheio no rosto. Aquilo foi o sinal para uma fuzilaria de pedaços de pão e restos de comida. Seguiram-se restos de maçãs, mas, na mesma ocasião, dois policiais romperam a multidão, e um deles era o Sargento Jupp.

- O que está havendo aqui? Pois então não sabe que está perturbando a ordem?

Paul olhou para aquelas duas figuras azuis um tanto fora de foco, mas, vagamente, reconheceu Jupp. Já chegara ao fim de suas forças. Abriu a boca para se justificar, mas as palavras não saíam. A multidão se apertava em torno dele cada vez em maior número.

Uma voz de quem procura agradar veio do meio da multidão.

- Ele está de porre, sargento. Está dizendo uma porção de tolices...

- Você afinal conseguiu o que queria. Eu estava só esperando por isso. Venha conosco...

O sargento pegou Paul pelo braço e tentou fazê-lo atravessar a multidão. Como encontrasse resistência, ele puxou com mais força quase deslocando o pulso de Paul, antes de perceber a corrente. Ficou muito vermelho e encabulado. Resmungou, então, para o companheiro.

- Ele se acorrentou ali. Acho que vai ser preciso vir o carro.

Os dois estavam zangados e procuravam soltar Paul de qualquer maneira, puxando-o de um lado para outro, enquanto a multidão se comprimia em torno. Chegou mais um policial que logo começou a apitar. Todo mundo parecia empurrar e gritar ao mesmo tempo, o trânsito engarrafou e houve uma confusão geral. Tinha chegado o momento esperado por ele como o ponto alto de sua resistência. Era o momento para lançar o seu apelo apaixonado, e então tentou gritar.

- Meus amigos... só estou pedindo justiça. Um homem inocente ...

Um dos policiais tinha conseguido arrebentar a corrente com um golpe de cassetete. Paul foi levado para o carro policial que já estava ali e que logo disparou para a delegacia. Dentro de sua insensibilidade, ele não percebia o que estava acontecendo até ser atirado para o interior de uma cela. Sua cabeça bateu com toda a força no piso de cimento, mas aquilo não fez diferença diante da tremenda dor de cabeça que sentia, porém, em lugar disso, serviu para despertá-lo do estado de inconsciência em que se encontrava. Soltou então um gemido que não agradou aos três policiais que ali estavam consideravelmente chateados com o trabalho que ele lhes dera.

- O porquinho já se está recuperando do porre...

- Nada disso - falou o Sargento Jupp. - Ele não está de porre.

O terceiro policial, um cara grandalhão, ainda estava vermelho e furioso. Na confusão, alguém lhe dera um pontapé na barriga.

- Seja lá o que for, ele não vai-se livrar dessa depois que me agrediram...

Abaixou-se, segurou Paul pelo pescoço e colocou-o de pé como se fosse um saco de farinha. Depois, fechando a mão, assentou-lhe um soco entre os olhos. O sangue espirrou de seu nariz e ele desabou no chão onde não se mexeu mais.

Jupp não gostou daquilo e repreendeu-o friamente.

- Você não devia ter feito isso. Ele vai receber o bastante... e não demora muito para isso acontecer.

Quando a porta da cela bateu com estrondo deixando lá aquele corpo encolhido, o policial mais novo riu meio sem jeito.

- De qualquer forma - disse, talvez procurando acalmar sua consciência - foi ele mesmo quem pediu.

 

A tarde já ia bem adiantada quando Paul, de uma maneira ainda incerta, percebeu onde estava. Ficou ali deitado durante muito tempo olhando para a única luz que havia no teto da cela e devidamente protegida. Depois, arrastando-se de joelhos, foi até um jarro que havia num dos cantos perto da cama que era apenas uma prancha de madeira. Inclinou o jarro, bebeu um gole de água e molhou a cabeça inchada. A água era fria e refrescante, mas quase imediatamente ele sentiu o calor em seu rosto.

Com muita cautela conseguiu sentar-se na prancha. A cabeça já não lhe doía tanto, mas, para sua surpresa, estava encontrando dificuldade para respirar. Ele via-se obrigado a respirar aos poucos mas aquilo não era muito inconveniente.

De repente, quando se acomodava para se adaptar à nova situação, a porta da cela abriu-se e um homem entrou. Apesar de seus olhos inchados, Paul logo o reconheceu como o Chefe de Polícia de Wortley.

Dale ficou ali muito tempo olhando para ele sem dizer nada, como se estivesse examinando bem suas condições. Em contraste com o encontro anterior, as suas maneiras eram desligadas e sua expressão estranhamente sombria. Quando falou, sua voz era baixa e calma.

- Então, afinal de contas, você não quis seguir meu conselho. Se bem me lembro, eu lhe disse que voltasse para casa. Mas não, achou que meu conselho não era bom. Preferiu continuar aqui para criar mais problemas. E agora aqui está você, justamente como lhe disse, somente pior, muito pior...

Houve uma pausa.

- Você, semi dúvida, pensou que era muito esperto. Conseguiu embrulhar o meu sargento e andou por aí todas essas semanas sem ser descoberto. Não se engane, meu amigo. Durante todo esse tempo, você conseguiu sobreviver graças a mim. Eu poderia ter prendido você a qualquer momento. Mas, de certa forma, e até mesmo contra minha vontade, eu lhe queria dar mais uma chance, mas você não quis aproveitá-la.

Dale apertou a boca.

- E então você agora está aí num estado bem triste, pelo que posso ver. Pode ser que meus rapazes tenham sido um tanto brutos, mas... não ligue muito para isso. É o que acontece quando alguém resiste a uma ordem de prisão. A culpa é só sua.

Seguiu-se um novo silêncio e até parecia que o Chefe de Polícia queria dar a Paul uma oportunidade para dizer alguma coisa. Talvez, até mesmo, ele se comprometesse mais com alguma palavra mal escolhida. No momento em que vira Dale entrar na cela, Paul se prometera a não dar uma palavra. Sua oportunidade viria mais tarde, quando comparecesse perante o juiz. Ele ouvia, num estranho silêncio, tudo que Dale lhe dizia. Chegava a parecer desligado.

- E o que acha que vai acontecer com você agora? Talvez esteja pensando que vai-se safar apenas com mais alguns conselhos, mas não acho que isso vai acontecer. Creio que a hora dos conselhos já passou. Você teve sua oportunidade e não soube aproveitá-la. Agora está-se metendo em coisas que não são da sua conta, perturbando a comunidade, chateando cidadãos decentes e policiais e, até mesmo, membros do Parlamento, mas, além de tudo isso, é a mim que você anda chateando. Isso, aliás, não faz diferença. Sei onde piso. É só em pedra sólida. Mesmo assim, porém, isso já me encheu. Já estou farto de sua persistência e de sua insinuação que andei errado. Agora, tenho um pressentimento curioso que chegou a hora de você pagar por tudo isso. Agora foi você quem errou. Amanhã cedo você vai comparecer perante o magistrado. Não me surpreenderia se ele levasse a sério o seu caso e se estabelecesse uma fiança bem alta... talvez umas cinqüenta libras... O que você acha ? Claro que não vai poder conseguir essa quantia, não é mesmo? Não, acho que não conseguirá mesmo. - Sacudiu a cabeça como se aquilo fosse uma sátira silenciosa. - Isso quer dizer que você será mandado de volta para aqui... E você tem uma celazinha bem boa aí à sua espera. É pena que não tenha boa vista para o exterior... mas tem tudo mais que precisa. Só espero que goste dela, porque tudo indica que você vai ficar muito tempo por aqui.

Durante mais uns momentos, os seus olhos apertados ficaram olhando para Paul, mas depois o policial fez meia-volta e foi-se embora.

Logo que saiu da cela a expressão no rosto de Dale tornou-se diferente. Franziu bem a testa. Achava que na D se saíra bem. Era como um ator que houvesse representado mal o seu papel- e sentiase contrariado por isso. Mas que diabo poderá ele ter feito senão aquilo mesmo? Ele recebera um recado urgente de Sir Matthew dizendo-lhe que telefonasse para ele no tribunal, mas antes de fazer isso ele queria estar em condições para lhe dizer que falara com o preso.

Ao entrar em seu gabinete particular e sentar-se em sua mesa, seu rosto mostrava uma preocupação maior. Por mais empedernido que estivesse com todos os tipos de problemas e trapalhadas, com o sórdido emaranhado das coisas humanas, resultantes da vida de crimes, ele não gostava de ver aquilo surgir novamente e cair em suas mãos fazendo com que ficasse com o estômago embrulhado. Ele desejava ardentemente que aquele jovem louco houvesse ouvido os seus conselhos e houvesse voltado para casa naquelas últimas semanas. E, mais uma vez, aquela pergunta incômoda vinha-lhe do mais remoto canto de seu espírito, parecendo mais um sussurro do que uma pergunta: "Haverá nisso tudo alguma coisa... afinal de contas ?"

Atirou a cabeça para trás zangado como se fosse um touro provocado. Não, por Deus, até onde podia saber, não havia nada. Ele se conhecia bem. Podia apresentar uma ficha de absoluta honestidade, de integridade sem mácula, em condições de resistir aos mais severos exames. Não era como muitos outros, que poderia citar, e que estavam sempre dispostos a transigir com suas consciências. Sua divisa sempre fora Ninguém pode mexer no piche sem sair sujo. Suas mãos estavam limpas.

Mesmo assim, ficou olhando para o aparelho durante muito tempo antes de se resolver a pegar no fone. Discou o número devagar com se estivesse em dúvida. Quem atendeu foi Burr, o auxiliar, mas logo ao mesmo tempo a voz de Sprott estava na linha.

- Alô! Alô! É o senhor, Sir Matthew?

Imediatamente, Dale ouviu o clique que significava estar o aparelho de Sprott em linha direta e desligado dos outros. Ouviu então aquela voz suave e amistosa embora zangada.

- Qual é a razão para esta nova mancada?

- Que mancada, Sir Matthew?

- Você sabe bem o que quero dizer. Essa trapalhada de hoje lá na praça. Pois então eu já não lhe dei instruções específicas a respeito desse indivíduo?

- As suas instruções foram executadas...

- Mas então como foi que isso aconteceu? Uma palhaçada em público! Justamente o que eu queria evitar! Você deve ter condições para, de vez em quando, usar um pouco sua inteligência.

Dale procurava conter-se. Não podia dar-se ao luxo de estrilar.

- Não foi coisa fácil para nós, Sir Matthew. Quem era que poderia imaginar o que esse jovem idiota ia fazer? Nós o vigiamos até onde era possível. Encarreguei disso um dos meus melhores homens. Só não o prendemos porque o senhor recomendou-me que não o fizesse. Desta vez, porém, ele exagerou. Vai pegar uns seis meses, sem dúvida alguma...

- Não seja tolo.

Seguiu-se um silêncio estranho e quando Sir Matthew continuou sua voz já estava mais macia e mais razoável.

- Olhe aqui, Dale. Você estava certo quando usou a expressão idiota. Parece não haver dúvida que esse rapaz é um psicopata.

Dale, para poder controlar-se, vinha desenhando coisas no seu mata-borrão, mas parou, de repente, e ficou com os olhos fitos na parede que estava à sua frente.

- Então, se for assim - a voz de Sprott continuava muito mansa - ele se torna imediatamente passivo, não de punição judicial com julgamento, mas sun de uma internação numa dessas instituições destinadas à terapia das aberrações mentais...

- Um manicômio? - indagou Dale, alarmado. Sprott soltou uma exclamação de aborrecimento.

- Meu caro Dale, pois então você não sabe que essas expressões incômodas de manicômio, lunáticos, loucos já passaram de moda no linguajar civilizado? Classificar dessa forma a nossa admirável instituição em Dreem seria quase um insulto injustificável.

- Ah! Dreem! - Dale repetiu aquilo falando baixinho mas o timbre de sua voz era indescritível.

- Naturalmente, vamos classificá-lo como louco! Só que, para isso, precisamos de alguns dados. Fale-nos a respeito dele, Adam. Você acha que suas maneiras são estranhas, fora de propósito e excêntricas ?

- Acho que realmente poderiam ser...

- E os seus amigos? Será que tem alguém para cuidar dele?

- Ele tem a mãe... e uma namorada em Belfast, mas parece que já se cansaram dele. Ultimamente ele tem vivido nas ruas bastante solitário.

- Pobre rapaz... Tudo indica que ele deve mesmo ser internado. Deve apresentar-se ao juiz amanhã cedo, não é mesmo?

- Vai sim. Não se pode evitar isso. - A voz de Dale já estava mais dura.

E a voz de Sprott não demonstrava mais pena. Já não havia mais aquela untuosidade e sua resposta atingiu Dale como se fosse uma facada.

- Só quero uma solução que sirva para nós dois. - Agora já não havia mais dúvidas para saber quem era o mais forte. Ele continuou mais calmo. - Acho que Battersby, é um homem muito sério.

Dale continuava falando naquele mesmo tom que não lhe era natural.

- E é mesmo. Se ele fixar uma fiança muito alta, o preso voltará para nós.

- Não quero que você pressione a coisa num sentido venal ou duvidoso. Mas sempre seria bom se tivesse uma conversinha com ele explicando-lhe os aspectos psicológicos do caso, dizendo-lhe que sua devolução dar-nos-ia o tempo suficiente para arranjar um competente exame mental que, afinal de contas, seria do interesse do próprio rapaz.

- Está bem.

- Estamos entendidos, então, Dale. Trate de não cometer mais erros. - Sprott falou muito claramente, desligado o telefone em seguida.

O Chefe de Polícia, no entanto, só fez o mesmo, muito devagar, depois de passar um minuto.

 

A sessão do juízo que funcionava junto à polícia abria às 10 horas da manhã. A sala era no sobrado, pequena e informal. Havia um estrado de mogno para o juiz, de um lado, e do outro uma fileira de bancos para o público. Do lado direito do juiz ficava o banco dos réus e do esquerdo a cadeira para as testemunhas. Era uma sala cheia de correntes de ar e então haviam colocado um biombo entre a janela e a cadeira do juiz, e isso diminuía muito a luz da sala. No teto havia um afresco com as armas da cidade ao qual ninguém dava atenção. Eram dois arqueiros com os arcos prontos para atirar embaixo de um carvalho.

O policial de cara muito vermelha levou Paul para cima. Ele parecia estar de bom humor naquela manhã e, pelo seu hálito, viase que acabara de fumar um cachimbo depois do café da manhã. Quando saíram da cela, ele olhou para o rosto de Paul cujos olhos estavam machucados e inchados.

- Isso foi um tombo que você levou ontem, meu chapa. Tenha cuidado para não cair outra vez hoje. Está-me entendendo?

Paul não respondeu. Ele adormecera de madrugada durante algumas horas. Aquilo fora uma espécie de desmaio doloroso e inquieto em que se deixara cair de exaustão, como se fosse um poço fundo e escuro. O repouso, no entanto, não fora suficiente. Não conseguia compreender por que se sentia tão fraco já que, mesmo para respirar, ele precisava fazer um grande esforço. Sentia muita dor do lado esquerdo e então tinha que conservar o braço sempre apertando o corpo daquele lado para melhorar um pouco. Por outro lado, no entanto, seu espírito estava novamente bem aguçado, naquele ponto de percepção febril que havia caracterizado todos os seus processos mentais desde que recuperara o conhecimento das coisas. Ele percebia tudo com uma brilhante lucidez que não era natural. E estava firmemente decidido a falar para revelar tudo. Agora já nada havia para detê-lo.

Quando entrou escoltado pela porta lateral e colocado no banco dos réus, o Juiz Battersby, um homem magro de meia-idade, com uma aparência bondosa mas preocupada, já tinha despachado com presteza três velhos bêbados, um rapaz que recebia apostas para as corridas, um vendedor ambulante que não tinha licença, um velho músico que pedia esmolas e um vagabundo preso porque "não tinha condições aparentes para se manter".

Os lábios do juiz eram finos e sua profissão tinha feito com que eles tivessem uma aparência de sinceridade, mas seus olhos eram espertos e humanos. Ele nunca sorria ao ouvir as lamúrias e pedidos de clemência dos infelizes que eram trazidos à sua presença, mas, apesar disso, suas sentenças nunca eram pesadas. Paul olhou-o e logo chegou à conclusão de que "ali está um homem que vai-me ouvir".

De repente, ele sentiu que havia alguém que o olhava com atenção e com insistência. Levantou os olhos para as galerias e logo deu de cara com Lena, vendo também que ela não estava só. A seu lado estava uma pessoa que ele nunca vira antes. Era um homem com cerca de 40 anos, grandalhão, com cara decidida, trajando um terno de casimira e gravata com um nó mal dado e um sobretudo de tweed já bem usado. Ele tirara o seu chapéu mole bem surrado deixando à mostra uma cabeça grande e calva. Seu rosto era redondo e gorducho, e apresentava, a despeito da barba por fazer, uma curiosa franqueza que os olhos com cílios muito longos não conseguiam esconder, exibindo uma aparência de desligamento aborrecido. Ele, aparentemente, já vinha examinando Paul durante algum tempo com aquela mesma expressão de desinteresse desiludido, mas, agora, apesar de ela continuar da mesma forma, o homem tinha levantado a mão e estava com o dedo indicador apoiado nos lábios. Aquele foi um gesto rápido e trivial, mas sua significação era tremenda, Paul lançou um rápido olhar para Lena, leu o que seus olhos imploravam e depois olhou para o corpulento indivíduo que estava a seu lado e que sacudia a cabeça ligeiramente, uma só vez, mas então, novamente, com um significado irresistível, antes de se recostar na cadeira examinando as unhas e mostrando um completo desinteresse por tudo que se passava ali.

Paul ficou de pé para ouvir a acusação feita contra ele, mas ainda estava muito tonto. Viu quando o Chefe de Polícia entrou na sala.

- O que tem a dizer? Culpado ou inocente? Paul sentia-se confuso e não respondeu.

- Vamos lá... diga o que há com você - insistiu o magistrado.

Ele olhou para Paul com muito mais atenção do que aquela que dispensara aos outros que já haviam passado por ali. Mais uma vez houve uma curta pausa. A avalanche de palavras estava pronta para jorrar de sua boca, mas, por alguma razão que ia até mesmo contra a sua vontade, ele continuava calado. Ele agora já nem mesmo se atrevia a olhar para as galerias, para Lena ou para aquele homem, que lhe fizera aquele sinal tão estranho mas compulsivo. De repente, porém, independente de sua própria vontade, ele baixou a cabeça e com uma voz de arrependimento fingido, falou muito baixinho.

- Desculpe, meritíssimo... Acho que bebi um pouco demais... Houve um silêncio curto mas geral. Paul via que Dale se mexia na cadeira. O juiz pigarreou.

- Você estava embriagado? Mas, na sua idade, isto é uma grande infelicidade...

- Sim, meritíssimo...

- E não sente vergonha ao confessar isso?

- Sinto sim, meritíssimo...

Havia na voz de Paul uma entonação de submissão que deixou o juiz perplexo e ele franziu a testa. Examinou umas notas que tinha ali na frente e depois inclinou-se novamente.

- Qual foi a razão para você fazer aquela demonstração? Por que se acorrentou ali no lugar mais central da cidade?

- Como já disse, meritíssimo. Eu tinha bebido demais e então tive vontade de me exibir...

- E qual é a sua explicação para aquele... aquele cartaz monstruoso que desfilou pela cidade?

- Não tenho explicação, meritíssimo... Não queria fazer mal a ninguém... Quando a gente entorna além da medida... o resultado é uma porção de tolices...

Embora Paul não visse, um pequenino tique, que poderia ser um sorriso, aflorou aos lábios do homem que já não olhava mais para as unhas, mas parecia interessado em interpretar o brasão da cidade que estava lá no teto. Dale empertigara-se na cadeira e virara-se de lado, ficando de perfil para o tribunal. O juiz olhou imperceptivelmente para ele antes de fazer a pergunta seguinte.

- Você já, alguma vez, fez uma demonstração assim?

- Não, meritíssimo...

- Já teve, por vezes, ataques nervosos?

- Acho que nunca tive, meritíssimo... Houve mais uma pausa.

- Quais são as suas opiniões políticas?

- Eu não as tenho, meritíssimo.

Mais uma vez, o juiz hesitou e tornou a olhar para Dale, que continuava ali impenetrável.

- Meu rapaz, se eu agisse na forma do costume, o resultado seria uma multa de dois guinéus e o pagamento das custas, para depois mandá-lo embora com alguns conselhos. Acontece que recebi informação de fontes responsáveis que me fazem pensar ser o seu •caso mais sério do que realmente parece. Sendo assim estipulo a fiança em cinqüenta libras. Se não pagá-la, você será enviado de volta para a polícia a fim de procurarem mais informações a seu respeito.

Quando a sentença foi pronunciada, o homem que estava lá nas galerias deixou de lado seu alheamento. Não parecia indignado nem surpreso, mas os seus olhos biliosos demonstravam um interesse peculiar. O rosto de Lena deixava ver o seu espanto e preocupação.

- Pode arranjar as cinqüenta libras de fiança? - A pergunta era feita pelo escrevente do tribunal, numa voz cantante.

- Não.

- Pode apresentar o nome de alguém que garanta esta importância ?

Paul ainda não tinha sacudido a cabeça na negativa, quando o homem da galeria levantou-se.

- Estou pronto para prestar a fiança...

Paul ficou completamente imóvel com as mãos trançadas. Ao mesmo tempo o Chefe de Polícia virara-se na cadeira e sua expressão de surpresa e desapontamento transformava-se em raiva.

- Eu protesto. Quero saber de onde vem esse dinheiro.

- Ele vem de mim mesmo, L. A. Dunn, Rua Grant, quinze, nesta nobre e histórica cidade. Tenho o dinheiro aqui em meu bolso.

- Eu protesto...

- Silêncio no tribunal!

- Protesto, meritíssimo - insistiu Dale. Estava agora de pé, completamente indignado. - Acho que a importância estabelecida para a fiança não é suficiente. Acho que deverá ser muito maior...

- Silêncio no tribunal!

O juiz esperou de cara amarrada até o Chefe de Polícia sentar-se novamente. Depois, com voz muito séria e provocadora, ele falou.

- Este tribunal deseja tornar bem claro que não se submete à influência da polícia ou de quem quer que seja. Não vê razão alguma para modificar sua decisão. A fiança será prestada na importância de cinqüenta libras. O próximo caso...

Quando Paul saiu da sala de audiências, ele se deu conta da existência de uma certa confusão, de Dale discutindo com o juiz e logo saindo, furioso, pela porta particular. Apesar de tudo, 15 minutos mais tarde, depois de se submeter às formalidades conduzidas pelo escrevente, ele foi posto em liberdade.

Quando chegou à rua, a claridade do dia ofuscou-o de tal maneira que ele chegou a cambalear. Depois, viu Lena e seu acompanhante que o esperavam de pé na calçada logo adiante. A vista de Lena trouxe uma estranha tranqüilidade ao coração dilacerado de Paul. Ela ficou ali imóvel. Foi o seu companheiro gorducho que veio até ele com seu sobretudo aberto esvoaçando, com as mãos nos bolsos e o chapéu atirado para trás mais do que de costume.

- Desculpe-me. Meu nome é Dunn. Sou amigo da Lena. Estamos esperando aqui para levar você de volta para casa.

- Qual é a razão para o senhor estar fazendo isto comigo?

- E por que não? - Dunn sorriu com um ar ausente. - Quando uma pessoa está doente assim como você, ela precisa de ajuda.

Houve um silêncio constrangido. Paul olhava para Lena que, por sua vez, não tirava seus olhos de cima do rapaz, deixando transparecer sua aflição.

- Eu me sinto constrangido metendo vocês nesta embrulhada. - Paul falava baixinho, dominando as marteladas que sentia na cabeça.

- Não se preocupe, meu filho. Nós vamos sobreviver. . . Dunn colocou dois dedos na boca e soltou um penetrante assovio para um táxi que passava e que logo encostou no meio-fio.

Ele ajudou Paul entrar e depois Lena, e entrou em seguida, a caminho da casa dela.

Meia hora depois, Paul já estava de banho tomado, deitado e encostado em dois travesseiros com uma compressa fria de vinagre na testa e uma garrafa de água quente nos pés gelados. Tinha conseguido engolir, sem vomitar, o copo de leite que Lena lhe trouxera. Ainda sentia aquela dor terrível do lado esquerdo, mas aquilo era largamente compensado pelo alívio que sentia por estar fora daquela cela e de volta a seu quarto tranqüilo.

Dunn estava sentado na poltrona de vime, ainda com o chapéu e o sobretudo, e dando a impressão de que até mesmo dormia com aquilo, e não despregava os olhos de Paul.

- Está melhor agora?

- Muito melhor, senhor. - Mas ainda falava com dificuldade. Dunn não fez comentários e dava a impressão de que já tinha

juízo formado sobre o assunto. Mais uma vez ele olhava para as unhas roídas, dando a impressão de que alimentava por elas uma grande admiração.

- Olhe aqui, meu filho. Não quero afligi-lo quando você está doente, mas estou achando que você tem alguma coisa que ainda o preocupa. Lena já me contou tudo. Ela, aliás, é uma velha amiga minha, mas se você quiser desabafar. - E deu de ombros de forma expressiva.

- O senhor é advogado?

- Deus me livre e guarde!

Lena veio lá de baixo onde estava e sentou-se numa banqueta ao lado de Dunn.

Os dois estavam bem ali à sua vista, e ele não precisava virar-se para lhes falar. Paul começou a falar olhando para eles e, de vez em quando, era obrigado a parar para recuperar o fôlego e, sentindo na atenção silenciosa de Dunn e na absoluta imobilidade de Lena um encorajamento, ele descarregou todo o peso que guardava na alma.

Houve um longo silêncio quando ele acabou. Dunn, que durante o tempo todo mergulhara, cada vez mais, na cadeira, já agora se levantava, bocejava e esticava-se. Afastou a cortina e olhou lá para fora.

- Já está chovendo outra vez. Mas que tempo horroroso! - Tornou a bocejar e voltou-se para Lena. - Cuide dele. Temos cinco semanas diante de nós com a fiança,

Dunn encostou-se na porta durante uns minutos, tirou do bolso da capa um cigarro que acendeu e botou na boca. Havia nos seus olhos uma aparência sonolenta. De repente, girou nos calcanhares com o seu corpanzil e foi-se embora sem mais uma palavra.

 

Aquele homem, Dunn, com olhos cansados e unhas roídas, era um produto da cidade de Wortley e de algumas circunstâncias estranhas e hereditárias. Seu nome por inteiro era Luther Aloysius Dunn, que ele escondia como se fosse um crime, e as pessoas que o usavam passavam a ser seus inimigos mortais, e ele dava indicação de suas origens já que nascera de um casamento "misturado" e que tinha sido um desastre, ao contrário de muitos outros parecidos que tinham sido bem-sucedidos graças a uma tolerância mútua. Sua mãe calvinista e seu pai católico estavam sempre brigando ferozmente. A vida do filho foi uma tristeza, situado como estava entre as duas religiões. Mais tarde ele contaria aos amigos íntimos que tinha sido batizado nas duas igrejas e cresceu alimentando tremenda antipatia pelas religiões organizadas.

Quando completou quatorze anos, seu pai morreu num acidente de rua. Ele saíra depois de um lauto café da manhã, praguejando contra John Knox e voltara depois do almoço numa padiola e já morto. Aquilo fora uma justa desforra! A viúva, no entanto, depois de um período de completo alheamento, estava inconsolável pois descobrira, tarde demais, sua completa dependência àquele fanático defensor da infalibilidade do papa e, por mais incrível que pareça, resolvera então mudar radicalmente a orientação de sua vida. Essas suas lutas, no entanto, não eram importantes mas apresentavam, pelo menos, conseqüência para a vida do filho. Tirou-o da escola local e jnatriculou-o no colégio dos jesuítas em Hassock Hill.

Ali, ele foi tratado pelos padres com uma muito prudente consideração. Por ocasião de seu ingresso, o velho reitor observara-o atentamente e depois recomendara à congregação que "deixasse o menino em paz". Nada poderia ter ultrapassado aquela recomendação, mas o rapaz já tinha 15 anos e o dano já estava feito. Ele nunca se sentiu como fazendo parte da vida do colégio. Mostrava-se muito retraído e ia assistir a jogos de futebol sozinho em lugares distantes da cidade, fugia para um salão de bilhares em Hassock Hill, onde ficava sentado durante horas olhando as partidas com um ar muito sério naquele ambiente enfumaçado. Adorava jogos, embora não praticasse nenhum, e tinha um conhecimento quase enciclopédico dos resultados em todos os esportes. Como possuía uma boa inclinação para composições, seu professor de inglês, o Padre Marchant, pedia-lhe sempre que escrevesse pequenos artigos para a revista do colégio a respeito de atletismo. Por ocasião de sua matrícula, um jovem caladão e meio encabulado, ele obteve, por intermédio do reitor, um emprego no escritório do Chronicle de Wortley que era um jornal diário com pouca circulação, mas muito independente e que gozava de excelente reputação.

Durante os anos seguintes, sua vida seguia mansa sem acontecimentos dignos de nota. Ele fazia papel de mensageiro, cortava e colava, e, em raras ocasiões, saía para fazer reportagens de encontros esportivos de menor importância. Sua primeira contribuição para o jornal tinha aparecido no pé de uma coluna, mas ele a recortara e a guardava ciosamente.

Mais tarde, no entanto, começou a sair para reportagens mais importantes como jogos de water polo nos Corporation Baths, partida de boxe na Arena de Blakely, e o editor reconhecia que ele era bom e vivo, em suas avaliações, e sabia redigir bem, embora nunca reconhecesse isso abertamente. Num dia de Ano-Novo, quando tinha apenas 25 anos, ele foi designado inesperadamente para a cobertura do mais cobiçado acontecimento esportivo e que era um jogo de futebol que, todos os anos, empolgava completamente a cidade, levando para o campo dois terços de sua população, e que era uma verdadeira loucura de entusiasmo entre os torcedores dos dois times. Do local reservado para a imprensa no estádio, Dunn ditara, sem titubear, duas colunas e depois, na manhã seguinte, escrevera um comentário que, na realidade, nada dizia a respeito do jogo e sim apenas de um incidente ocorrido durante o mesmo.

Naquela mesma tarde, James McEvoy, editor e proprietário do jornal, saiu de seu gabinete e veio para a sala da redação com o artigo na mão. O que havia de característico em McEvoy era que nunca chamava ninguém a seu gabinete. Sentou-se ao lado da pequena mesa de Dunn.

- O que isto quer dizer? - falou, batendo com o pince-nez no artigo. - Mandei você fazer a cobertura de um jogo de futebol e você me aparece com um artigo sobre um jogador que, acidentalmente, levou um pontapé na cabeça. Enquanto ele continua inconsciente, você me apresenta trinta mil seres humanos furiosos contra ele. Depois apresenta-me os mesmos trinta mil querendo arrasar um jogador do adversário. Você fala dos gritos, dos insultos, das brigas entre torcedores, das garrafas atiradas no campo, do juiz com o rosto ferido... em uma palavra, você me pinta um quadro do esporte nas selvas, da intolerância racial e religiosa que chegaria para fazer corar um esquimó sentado na porta de seu iglu...

- O senhor me desculpe, mas sentei-me à máquina e foi isso que saiu...

McEvoy ficou calado. Pensava na estranha contradição que oferecia aquele rapaz forte e caladão meio encabulado, que não gostava de conversar e que, certamente, seria incapaz de contar uma piada depois de um jantar, nem mesmo se isso fosse necessário para lhe salvar a vida, mas que, com um papel em branco diante de si, era um verdadeiro leão de verbosidade, um gêiser espirrando água, um vulcão em erupção com uma torrente de expressão, que entusiasmava o leitor, que lhe tocava nas cordas mais sensíveis e que o fazia rir ou chorar.

McEvoy se levantou.

- É o pior artigo que já li neste ano, mas amanhã ele vai sair na primeira página. Quero que você venha cear comigo em minha casa no domingo.

Quando ele falou fazendo aquele convite, Dunn já estava a olhálo atônito e apavorado, mas McEvoy sorria.

Aquilo foi o fim da ligação de Luther Aloysius Dunn com o mundo dos esportes e. o verdadeiro começo de sua carreira. Ele foi primeiro designado para cobrir os tribunais de polícia que lhe proporcionavam uma boa safra daqueles incidentes humanos que, tão particularmente, se adaptavam à sua pena. Depois, começou a percorrer o país escrevendo artigos que ocupavam meia página sobre costumes e assuntos diferentes. Uma vez que a comédia de seus nomes não era mais segredo para McEvoy, ele descobrira um excelente pseudônimo para o seu repórter principal. Dessa data em diante, todos os seus artigos eram assinados "O Herege", e as suas séries tinham por título "Questões Candentes" seguido de "Mais Lenha para a Fogueira" e eram muito procurados e chegaram, até mesmo, a serem honrados com dois processos que o jornal defendeu com sucesso. A circulação do jornal aumentava espasmodicamente, assim como também crescia a amizade entre o repórter e seu patrão, amizade essa que foi fortalecida em 1929 quando a irmã de McEvoy, uma mulher alta e senhorial, que desde muito o tinha na alça de mira, finalmente fisgou-o com seus olhares modestos e tímidos.

O casamento, apesar de não curar a mania de Dunn pela cerveja e roupas velhas, foi uma união feliz e duradoura que lhe trouxe duas meninas que eram secretamente idolatradas pelo pai. Eva era uma mulher bonita que lembrava um cisne e tinha paixão por contas de marfim, saquinhos de alfazema e brincos muito compridos. Dunn dava inteira liberdade à mulher na administração do lar, e sendo ela muito religiosa, acompanhava-a à missa com as filhas de forma perfeitamente ortodoxa. Aliás, eles eram sempre citados na paróquia de São José como a família exemplar. Acontecia, no entanto, que o coração de Dunn não estava realmente naquilo que fazia devido ao que lhe acontecera na infância. Ele dava pouca importância às formas externas, achando que o verdadeiro valor estava naquilo que se passava no coração das pessoas. Se ele tivesse que adotar uma divisa, ela seria certamente: "Viver e deixar que vivam", e na sua própria vida ele estava sempre pronto para corrigir um erro e sempre pronto, também, para defender os que estavam por baixo.

Esse sentimentalismo inerente tornava-o altamente vulnerável, especialmente para si mesmo, porque, até mesmo com 40 anos, sua natureza ainda era essencialmente retraída e sensível como fora na adolescência. Ele não tolerava que o considerassem, nem mesmo de forma muito remota, um "consolador" ou um reformador portador de uma mensagem. Era apenas um jornalista que cumpria suas obrigações. E fora por isso que ele criara e se cobrira com uma camada de verniz protetor da melancolia do cinismo e da espécie de alheamento que é geralmente atribuído aos membros de sua profissão. Aquilo era uma pose, encenação perpétua, que, provavelmente, não enganava a mais ninguém além dele próprio. Havia sempre, de uma certa maneira, remendos cheios de ternura que escapavam, apesar de estarem bem escondidos nos enxertos de uma pele dura, mas aquele homem bom não via nada disso, e então, como o avestruz, sentia-se completamente seguro.

Já falamos aqui de seu primeiro contato com Lena. Durante o último ano ele sempre se mantivera em contato com ela e muitas vezes passava por sua lanchonete para um café com bolo e um dedo de prosa quando ia a caminho do seu escritório no Chronicle, na Rua Arden. Então, quando ela o procurara em sua casa em Hassock Hill, já tarde, na noite em que Paul fora preso, ele compreendeu bem o seu desespero e ouviu-a com toda a atenção. Não obstante, quando, na manhã seguinte, acompanhou-a ao tribunal, ele ainda não sabia bem em que aventura ia meter-se. O que presenciara lá no julgamento, no entanto, logo serviu para esclarecê-lo. Ouvira depois a narrativa de Paul e se dera conta de todo o seu desespero, sem dúvida alguma autêntico, sem uma única falha do começo ao fim.

Dunn se acostumara a não tirar logo suas conclusões, mas todo o seu instinto lhe dizia que encontrara afinal a grande história de toda a sua vida. Ele era um cara plácido, tornado, de certo modo, letárgico por causa de sua corpulência, mas, ao voltar para casa naquela noite, sentia-se tomado de um tal entusiasmo que seus passos pareciam os de um garoto.

Durante uma semana, ele nada disse a James McEvoy. Por todo esse tempo, embora não aparecesse na redação nem um só dia, ele andava extremamente ocupado e fez algumas viagens bem longas. Então, cerca das 11 da noite da quinta-feira seguinte, ele foi para a sede do Chronicle onde só foi visto pelo vigia noturno, e trancou-se em seu escritório. Estava cansado e sujo da viagem, mas seus olhos brilhavam e ele já não tinha mais aqueles seus modos desprendidos, quando tirou fora o sobretudo, o paletó e o colete, afrouxou o colarinho e sentou-se em sua mesa, deixando à mostra os suspensórios. Pensou durante algum tempo até que, finalmente, muito devagar, com uma expressão de alegria, cuspiu nas mãos, esfregou-as, puxou a máquina de escrever e começou a martelar-lhe as teclas, com aquela sua inimitável mistura de sentimento e sensação.

Na escuridão úmida da cela do condenado, nesta grande cidade de Wortley, um inocente está sentado esperando a hora de ser enforcado. No exterior, no pátio da prisão, ele ouve as marteladas dos homens que estão construindo sua forca. Dentro de algumas horas, eles virão para amarrar-lhe as mãos nas costas e, em seguida, levá-lo para a madrugada fria lá de fora. E então, ali embaixo da forca, passarão a corda em seu pescoço e cobrirão sua cabeça com um saco branco...

Na manhã seguinte, às nove horas, Dunn levantou-se do sofá do escritório, ainda tonto, com ar cansado e a barba por fazer, sempre em mangas de camisa, e levou para McEvoy as laudas que tinha batido à noite.

- Este aqui é o primeiro dos próximos artigos do Herege. Está também aí uma sinopse completa dos outros nove que completam a série. Leia. Eu vou tomar o meu café.

Meia hora depois, quando Dunn voltou, encontrou o editor em seu escritório, sentado em sua mesa, tão imóvel e imerso em seus pensamentos que não se mexeu imediatamente. Depois então virou o rosto devagar. Ele era um homem magro e bem-arrumado num terno azul, rosto fino e cabelos escuros já grisalhos nas têmporas, repartidos no meio, bem certinho, com um pince-nez sem aro preso no colete por uma fitinha. Ele era absolutamente imperturbável, e orgulhava-se muito dessa sua qualidade. Mas agora era fácil ver que estava um tanto aflito. Aliás, embora procurasse esconder, ele estava realmente estarrecido.

- Onde, em nome de Deus Todo-Poderoso, você conseguiu descobrir isto?

- Não fui eu quem descobriu.

- Mas então quem foi?

- Foi o filho do Mathry. Ele descobriu tudo...

- E onde é que ele está agora?

- Foi solto depois de pagar a fiança e agora está de cama bem doente.

-"E você tem certeza de que tudo isto aqui é verdade?

- Positivo. Conferi tudo que está escrito aí.

McEvoy esfregou o rosto magro. Estava preocupado, indeciso e profundamente nervoso.

- Podemos publicar isto?

Dunn simplesmente deu de ombros.

- Faça como entender...

- Mas, Deus do céu! Isso vai direitinho aos mais altos escalões do judiciário... Chega ao próprio Secretário do Interior. E o que vamos fazer com este Sr. O.? Não podemos publicar isto. Vamos tomar com um processo de calúnia pelas costas. Pode contar com isso.

- Não há perigo. Nem pense nisso. Pois então não percebe como eu planejei tudo ? Nós vamos deixar tudo para o fim. Não vamos citar nomes. Nós apenas diremos o Sr. O- ou melhor ainda, o Sr. X. Depois, ficamos sentadinhos esperando para ver o que acontece. Puxa vida! É tremendo! É a maior coisa que já tivemos até hoje... Pense bem nisso... então temos um coitado que está lá em Stoneheath já faz quinze anos... e que não fez nada.

- Mas... quem sa-a-a-be se se ele não fe-fe-fez mesmo? - Na, sua excitação, o preciso McEvoy chegava a gaguejar.

- Nada disso. Juro que ele é inocente.

- Mas eles jamais reconhecerão isso... jamais...

- Pois nós vamos obrigá-los. - Dunn já falava agora andando de um lado para o outro. - Vamos mostrar-lhes a força de uma imprensa livre. E também a força da opinião pública. Vou lançar um ataque tão violento que as partes interessadas serão obrigadas a abandonar suas falsas defesas oficiais. Vamos obrigá-los a reabrir o caso. Vamos forçá-los a novas investigações, a novos depoimentos. Durante meses o filho de Mathry vem batendo em todas as portas, sem o menor sucesso. E por quê? Simplesmente porque sabem que cometeram um erro e então fazem tudo para deixá-lo lá escondido no porão. Que diabo adianta dizer que somos uma democracia, quando permitimos que um bando de burocratas nos amedrontem? Daí para o comunismo é apenas um passo. Se quisermos continuar sendo uma democracia, então é preciso arrumarmos bem a nossa casa. Precisamos ter progresso e desenvolvimento dentro da ordem. Se escondermos um único caso de injustiça, se suprimirmos a liberdade da palavra, nem que seja por um segundo, então nós estamos liquidados. A praga tomará conta de nós e seremos destruídos. Veja o que quase aconteceu com esse moço, o filho de Mathry. Pouco faltou para que o liquidassem e, aliás, ainda podem fazer isso. E por quê? Simplesmente porque tudo que lhe fizeram foi negar-lhe o direito de ser ouvido. Se somos um país livre e se queremos continuar a sê-lo, então> qualquer um deve ter o direito de elevar sua voz...

- Está bem! Está bem! - exclamou McEvoy. - Não precisa citar todo o artigo. Vamos publicá-lo até mesmo se isso representar nossa ruína. E é isso exatamente o que vai acontecer. - Então, com repentina decisão, tocou a campainha que estava em cima •da mesa.

Dunn voltou para o seu escritório, tornou a vestir-se e colocou o chapéu na cabeça. Lá embaixo as máquinas estavam começando a rodar com um barulho que fazia vibrar todo o prédio. Esfregou o queixo pensativamente. Eva estava sempre atrás dele, querendo que se apresentasse bem. Era melhor ir fazer a barba. Sentir-se-ia mais refrescado. Também estava com sede. Seus olhos brilharam. Pouco faltava para o meio-dia e ele ia passar no Hannigan para uma cervejinha.

 

Na tarde de quarta-feira anterior, quando Dunn saíra da casa de Lena, ela viu que Paul já estava dormindo.

Olhando-o com um ar preocupado, era forçada a reconhecer que ele estava doente, bem doente mesmo. Ela tinha um estranho pressentimento, que não conseguia reprimir, e que fazia com que desejasse mantê-lo ali, naquele refúgio seguro e tranqüilo a seu lado. Pelo menos, poderia tentar. Sua natureza, endurecida pela brutalidade que sempre a deixava aflita quando pensava naquilo, e sem mesmo poder pensar também em amor, já despertara completamente e suas emoções já haviam chegado a um ponto que ela, antes, havia imaginado ser-lhe impossível alcançar. Quando poderia Lena jamais imaginar que na sua vida de uma Juno jovem e triste, ferida e solitária, fugindo dos homens com as desconfianças de uma freira, o amor se apossaria dela, daquela forma, transformando-a completamente e enchendo seu coração com doçuras e angústias, mas era justamente aquela dor que lhe dava força.

Sentou-se numa cadeira ao lado da cama sem tirar os olhos do rosto de Paul. De quando em quando levantava-se para enxugar a testa molhada de suor dele. Achava que aquilo era um sinal e que a febre já passara e então sentia-se mais aliviada. À noite, ela deu-lhe uma gemada. Quando o deixou para ir dormir, ela tinha esperanças de que ele já estaria melhor de manhã e que ela poderia ir trabalhar. Não queria perder seu emprego no Bonanza.

Na manhã seguinte, quando ela o acordou, Paul disse-lhe que estava melhor e que poderia ficar só, mas quando já estava pronta para sair e já tinha colocado no fogo a sopa para o almoço dele, Lena pegou-lhe a mão e sentiu que ele estava ardendo em febre. Não deixou transparecer o susto em seu rosto mas ficou ali na porta hesitando, já pronta para sair.

- Acho que vou ficar mesmo em casa... Ele sacudiu a cabeça.

- Pode ir que estou bem...

- Tem certeza?

- Claro...

Ela saiu sem muita vontade, mas durante todo o dia, enquanto se afanava por trás de seu balcão, o pensamento estava sempre lá com ele. Às quatro horas ela pediu ao gerente o favor de deixá-la sair mais cedo. Ele franziu a testa sorrindo com maldade, mas deixou-a sair. Ela deixou a loja às pressas, parando num verdureiro para fazer umas compras. Quando subia as escadas sentiu na garganta uma estranha opressão, e seu coração bateu com mais força.

Paul estava sentado na cama, recostado num travesseiro e olhando lá fora os telhados que se enfileiravam. Logo que ela entrou, seu rosto perdeu a expressão distante e aflita e tornou-se mais alegre. Apesar disso, logo que olhou para ele, Lena percebeu que Paul estava pior. As suas duas faces estavam muito vermelhas, e ele recebeu-a com uma respiração ofegante.

- Chegou cedo, hem?

- O dia foi muito fraco. - Ela tirou devagar a capa. - Você não acha que devia estar deitado?

- Sinto-me melhor assim recostado...

- Tomou a sopa?

- Tomei um prato cheio.

Ela começou a arrumar-lhe a cama, tentando esconder sua preocupação.

- Eu trouxe um bolo para você... e também frutas. Quer uma limonada ?

- Quero sim. - Ele conseguiu evitar um acesso de tosse. - Estou com uma sede terrível mas não consegui comer nada.

Ela ficou logo assustada.

- Paul, acho que vou chamar um médico... Ele protestou logo.

- Não... Eu prefiro ficar só... Você sabe como é... depois de tudo por que passei... eu quero mesmo é ficar só.

Olhou-o indecisa, sem saber o que fazer entre o bom senso e o desejo de ficar ali junto dele, sem serem perturbados. Só por causa dele, Lena não gostava de pensar numa interferência externa que poderia resultar em novas dificuldades para ele. Quem sabe, até mesmo, entregá-lo novamente à polícia. Sentia-se aflita sem saber o que fazer.

Ainda irresoluta, ela acendeu o gás e fechou as cortinas. Paul olhava-a com um alheamento que tornava os movimentos dela estranhos e irreais. Durante todo o dia, ele cochilara intermitentemente, mas nos intervalos seus pensamentos iam para Dunn. Não acreditava muito que ele tivesse condições de fazer alguma coisa em seu benefício. Em verdade, à medida que recapitulava tudo que fizera nos últimos meses, ele chegava à conclusão de que sua luta fora inútil. Tinha chegado ao fim e nada mais podia fazer.

Nesse estado de espírito de completo desespero, ele pensava em Lena com uma dor inesperada. Sua grande amizade por Dunn e a óbvia compreensão que existia entre os dois, não permitia dúvidas quanto à natureza daquele relacionamento. Ele achava que aquele homem de meia-idade, casado, devia ser o pai do filho dela e continuava sendo o seu protetor oculto. Aquela era uma conclusão que o deixava perplexo e chegava, até mesmo, a causar-lhe uma dor física que, de uma certa forma, intensificava aquela fisgada aguda que acompanhava sua respiração. Um desejo compulsivo para se mortificar ainda mais levou a uma pergunta decisiva.

- Lena...

- O que é?

- Você tem-me ajudado muito e estou sempre me perguntando qual poderá ser a razão para isso.

Ela virou o rosto bruscamente.

- Ora essa... Por que a gente faz as coisas ? Só por fazer.

- Quero que saiba como me sinto agradecido...

- Não foi nada... Seguiu-se um breve silêncio.

- Acho que já faz tempo que você conhece o Dunn, não é mesmo ?

- Uns três anos...

- E ele sempre tem sido bom para você? - Tem sido sim. Devo-lhe tudo...

- É o que estou vendo...

Ele pareceu ler um desafio nos olhos orgulhosos e tristes dela. No entanto, ao mesmo tempo, seu rosto tenso exprimia uma resignação tão misteriosa que ele foi assaltado por uma espécie de terror, e então virou-se para a parede.

- De qualquer forma, isso não faz diferença. Eu já sabia... Ela fez um gesto de espanto e ficou muito pálida. Fez menção

de falar, enquanto os seus olhos o interrogavam com um sorriso triste que era uma imploração inconsciente. Foi o seu único momento de fraqueza, mas apertou bem os lábios.

Houve um silêncio maior. Ele fechou os olhos e foi atacado por um acesso de tosse rouca.

- Acho que estou meio bombardeado...

Ela não hesitou mais. Sem uma palavra, desceu depressa a escada, enfiou a capa e saiu.

O consultório do Dr. Kerr era ali pertinho, na mesma rua, a uns 200 metros. Era moço e formara-se recentemente. Fazia pouco tempo que colocara a placa na porta e se esforçava por conseguir uma clientela ali no bairro. Lena já tinha ouvido dizer que ele era muito amável e competente.

Quando chegou lá encontrou o consultório fechado, mas havia uma nota pregada na porta com o número do telefone onde ele poderia ser encontrado. Ela foi a uma cabina e discou o número. Quem atendeu foi uma mulher dizendo que ele tinha sido chamado para um caso urgente, mas, assim que voltasse, ela lhe daria o recado.

Lena saiu da cabina muito pálida e aflita. Teria agido bem deixando aquele recado por tempo indefinido? Não seria talvez melhor procurar um outro ali por perto? Depois de haver hesitado tanto, ela sentia-se muito culpada por aquilo, agora já parecia que era urgente a presença de um médico.

Voltou ao quarto onde encontrou Paul aparentemente dormindo. Ficou ali esperando muito aflita e aguçando os ouvidos para saber se o médico estava chegando. Pouco depois das 11, quando ela já não se agüentava mais, ele, finalmente, chegou. Ela percebeu logo que ele estava fatigado, com o rosto tenso, e suas perguntas eram bruscas, mas examinou o doente meticulosamente. Quando acabou, afastou-se da cama e consultou o seu relógio.

- O que ele tem, doutor? - Lena mal podia falar. - É coisa séria?

Ele tinha tido um dia duro, já perdera a hora do jantar, mas, assim mesmo, respondeu com paciência exemplar.

- Ele teve uma pleurisia seca, e era isso que lhe causava a dor. Depois veio a transpiração e ele está com muitos fluidos comprimindo-lhe o pulmão.

- Pleurisia? - Então não era tão ruim assim. O médico encarou-a e depois desviou os olhos.

- Acho que deve haver pus... É um empiema, e isso significa que precisa ir para o hospital.

Ela mudou de cor e apertou a cintura.

- Será que o senhor não pode tratar dele aqui?

- Deus me livre! Nada disso. Precisa de uma ressecção nas costelas. É preciso drenar toda a cavidade. Vai ficar lá seis semanas. A senhora tem telefone?

- Fica lá embaixo no hall.

Ele desceu a escada com barulho e ela ouviu-o falando e mostrando a necessidade de urgência já que o caso era grave, e então desceu também muito pálida.

O médico estava encontrando muita dificuldade para encontrar uma vaga já que os hospitais gratuitos estavam cheios, em sua maioria, e como ele era novo no bairro as recepcionistas não lhe davam muita atenção. Conseguiu afinal encontrar uma vaga e depois de combinar tudo largou o telefone com um suspiro de alívio.

-- Ele vai ficar no St. Elizabeth. Fica a uns cinco quilômetros daqui, em Oakdene Road... É pequenino mas é muito bom. A ambulância já vem aí.

Ela chegou, realmente, em quinze minutos e foi logo embora.

Sentindo-se ainda completamente arrasada, confusa e exausta, vencida por suas emoções, Lena voltou para o sobrado. Tudo ali parecia quente e abafado. Ela apagou a lareira e abriu a janela para respirar fundo o ar úmido da noite, e depois, pela força do hábito, começou a arrumar tudo direitinho.

Seu terno muito usado, aquele que ele usara quando dormira nos Arcos, naqueles tempos atribulados, estava dobrado em cima da cadeira ao lado da cama e ela apanhou-o com a intenção de pendurá-lo no armário e, nesse momento, viu que a velha carteira de Paul caía de um dos bolsos, espalhando pelo chão uma quantidade de papéis.

Lena abaixou-se para apanhá-los e viu logo que se tratava de anotações feitas por ele, todas relacionadas com o caso, e foi colocando-as de volta, uma por uma, quando, de repente, entre as folhas, encontrou uma pequena foto recortada que ela instintivamente olhou com atenção. Era um retrato de Ella Fleming, tirado em um estúdio, em sépia e extremamente lisonjeiro, e por baixo havia uma dedicatória muito cheia de ternura. Aquilo era, na realidade, uma lembrança dela por ocasião dos seus 19 anos, e fora ela mesma que a enfiara ali na carteira esperando que ele sempre a tivesse junto de seu coração.

Paul já desde muito esquecera que tinha aquela foto, mas, para Lena, aquele rostinho bonito, os olhos suaves e os cabelos crespos e aquelas palavras carinhosas indicavam, acima de tudo, o quanto aquele tesouro era querido para ele.

Lena não exalou nem mesmo um suspiro, mas no seu corpo imóvel e em sua fixa expressão petrificada, a não ser por um ligeiro tremor nos cantos da boca, jazia escondida uma angústia inominável. Levantou-se de onde estava ajoelhada juntando os papéis, tornou a colocar a foto na carteira que voltou para o bolso de onde caíra. Pendurou o terno no cabide que colocou no armário e foi para a cozinha. Chegando ali encostou-se na pia, fechou os olhos, virou a cabeça sentindo-se presa de uma náusea que não conseguia evitar.

Durante todo o tempo ela lutara contra uma sensação de medo achando que estava criando para si mesma uma situação impossível. Nunca, porém, chegara a imaginar uma tal contingência, tão comum mas também inesperada, e que deixara claro a enormidade de sua presunção. Sentia arrepios ao pensar na sua luta desnecessária contra si mesma e de sua rendição triste e abjeta. Em sua estupidez, enganando-se e pensando que a gratidão era afeto, ela chegara quase a contar a tragédia de sua vida, de se tornar, cegamente, o instrumento de seu desapontamento. Agora, já nunca mais lhe poderia contar. Nunca mais. Completamente arrasada, fechou os olhos deixando-se possuir novamente pelos demônios já conhecidos da vergonha e do ódio que nutria por si mesma. Ao fazer uma comparação entre ela, que já estivera mergulhada na sujeira, e aquela criatura angélica do retrato, que estava comprometida com ele, Lena desejava morrer ali mesmo naquele momento, e desejava ardentemente que a dor que sentia agora em seu peito fosse o sinal da dissolução final.

Ela jamais soube quanto tempo ficou ali naquela angústia. Afinal, com energia repentina, ela despertou, atirou para trás os cabelos que lhe caíam na testa, e sentou-se numa banqueta. Com os olhos secos, com a boca apertada numa linha firme que eliminava qualquer possibilidade de autocomiseração, ela esforçou-se para pensar. Passaramse minutos e então através de toda a confusão que havia em seu espírito, ela encontrou o remédio que procurava e que, na verdade, também lhe parecia ser a única solução. Por mais difícil que fosse era o que ela ia fazer. Tudo que desejava agora era fugir, era desaparecer, para apagar definitivamente a lembrança de seu supremo ato de loucura. Em seguida ela começou a traçar os seus planos.

 

Na manhã de segunda-feira do dia 21 de fevereiro, o Chronicle de Wortley publicou na primeira página o primeiro artigo de Dunn a respeito do caso Mathry.

Contrariando seus hábitos já que costumava acordar tarde e custava a se aprontar para sair, Dunn caminhou cedo para a sede do jornal. Nas calçadas, os jornaleiros estavam apregoando as manchetes e levando os cartazes especiais que McEvoy tinha mandado fazer. Quando ouviu os meninos gritarem e viu o nome Mathry em letras muito grandes esvoaçando ao vento, Dunn sentiu que uma onda de contentamento lhe invadia lentamente o corpo. Ele não era vaidoso e não alimentava grandes ilusões quanto à sua profissão, mas acreditava apaixonadamente na liberdade da imprensa e no poder de um jornal orientado para o bem. Ia pensando consigo mesmo que: "Agora já saiu, já está em letra de fôrma, e então vamos ver o que eles vão fazer."

Quando ele chegou ao escritório, McEvoy já estava lá, pois haviam combinado esperar juntos no escritório as reações da série de artigos, e ele não resistiu para dizer ao editor o que pensava.

- Eu gostaria bem de ver a cara do Sprott e do Dale, quando lhes servirem isso na mesa do café da manhã.

Já McEvoy não se mostrava tão eufórico e então deu de ombros com um ar apreensivo.

- Nós agora já estamos atolados nisto até os olhos e só nos resta pedir a Deus para que tudo ande direitinho.

Durante aquele dia não aconteceu nada de importante. Algumas bancas telefonaram pedindo mais exemplares às centenas. Não houve encalhes. Quando saiu para o almoço, Dunn viu que todo mundo nas ruas, nos bondes e no restaurante que ele freqüentava lia o seu artigo. Tudo estava calmo e ele sabia que aquilo era a calmaria que precede a tempestade.

No dia seguinte, cerca de 11 horas da manhã, o telefone tocou. O segundo artigo, muito mais contundente do que o primeiro que apenas passava em revista as particulares do caso, já acusava a polícia por haver errado. Quando McEvoy levou o fone ao ouvido os seus olhos estavam fitos em Dunn e ele acenou com a cabeça, fazendo com os lábios, sem falar, um sinal que significava "Dale".

- Sim, aqui fala o editor do Chronicle. Bom dia, Chefe! Espero que esteja bem...

Houve uma pausa. Não havia uma extensão no escritório, e Dunn não podia ouvir o que o outro dizia. Ouvia apenas um dos lados da conversa mas, pelo rosto de McEvoy, ele podia imaginar o outro lado.

- Sinto muito, Chefe. Mas qual é o artigo a que se está referindo ?. Sim, sim, o do caso Mathry. Puxa vida... espero que isso não lhe cause muitas preocupações...

O rosto do editor estava completamente impassível.

- Bem... realmente... não vejo por que o senhor tenha o que reclamar... A nossa obrigação é publicar os fatos, e é justamente isso o que estamos fazendo. Como é? Não, não, não temos a menor dúvida. O que temos mesmo são provas bem interessantes...

Houve um longo intervalo e a resposta de McEvoy já não era tão amável como antes.

- Olhe aqui, Chefe, nós não temos medo de processo de calúnia nem de qualquer outra espécie. Só achamos que o público deve ser informado da verdade a respeito desse caso. E juro-lhe por Deus que é isso o que vamos fazer...

Seguiu-se uma pausa final e os olhos de McEvoy brilhavam por trás do pincez-nez.

- Eu não faria uma coisa dessas se estivesse em seu lugar, Dale. Nós podemos distribuir o resto da série para a cadeia Howard Thompson que tem cinco jornais nas províncias e um em Londres. Já nos procuraram para isso. Não. Eu não faria isso se estivesse em seu lugar, Dale. Procure acalmar-se. Você vai precisar de todo o seu controle até chegar ao fim. E, por falar nisso, se quiser ler o depoimento do Inspetor Swann, procure no jornal amanhã. Isso vai ser o próximo artigo.

McEvoy estava ligeiramente exaltado quando desligou e então acendeu um cigarro para acalmar os nervos.

- Dale está furioso e muito assustado. Achei melhor falar grosso com ele.

- Dale não é um mau sujeito. Ele é, fundamentalmente, honesto. Está sendo pressionado pelo que está de cima, mas nada há que ele possa fazer.

- Ele poderia, mas não se atreve - falou McEvoy. - Se fizerem alguma coisa contra nós, isso seria o mesmo que confessar a culpa. Aí é que pega o carro. Aposto um drinque com você que, amanhã ou depois, vamos ter a visita do chef ao. - Apanhou um biIhetinho que lhe tinham trazido, antes de continuar de forma despreocupada. - Tudo isto é bom para o negócio. Nossa tiragem de hoje cresceu em mais vinte mil exemplares. Tudo foi vendido.

Na manhã seguinte, já era evidente que todo mundo estava falando a respeito do caso. O Correio trouxe uma quantidade de cartas dos leitores e muitos outros jornais comentavam a série de artigos do Herege, mas a maioria deles mostrava-se cautelosa, e o Guardian, de Blankshire, chegou até mesmo a censurar o autor: "Nossa opinião é de que, na sua missão para reformar o universo, o nosso estimado colega excedeu-se um pouco desta vez." No entanto, o Record, de Londres, um jornal liberal da mais alta reputação, chegou a publicar um artigo de fundo em que dizia o seguinte para começar: "O Chronicle, de Wortley, está fazendo uma acusação muito séria que, se for verdade, será um grande choque para todo o país...", e terminava dizendo: "Como sempre aconteceu com todas as contribuições anteriores da pena altamente dotada do Herege, todas as palavras possuem o timbre de uma sincera convicção. Esperamos, com grande interesse, o resto dos artigos desta notável série."

McEvoy entregou os recortes a Dunn.

- A coisa já começou. Vamos esperar para ver o que eles dizem a respeito do depoimento de Swann. E, por falar nisso, eu, se fosse você, não andaria por aí à noite...

- Deus do céu! Eles jamais se atreveriam a uma coisa dessas... A voz do editor tinha um timbre estranho.

- Não, não fariam... mas você poderia apanhar um resinado ...

Bateram na porta e um jovem, o secretário de McEvoy, entrou.

- Desculpe-me, senhor, mas o auxiliar de Sir Matthew está no telefone para lhe dizer que seu patrão lhe agradeceria se pudesse ir falar com ele esta tarde.

Os dois trocaram olhares, e McEvoy esticou as pernas embaixo da mesa.

- Diga-lhe que sinto muito não poder ir vê-lo. Diga-lhe que estamos muito ocupados. Por outro lado, no entanto, diga-lhe que, se Sir Matthew quiser vir até aqui, nós teríamos grande satisfação em recebê-lo.

- Muito bem, senhor.

- Ele jamais virá - disse Dunn. McEvoy deu de ombros.

- Talvez não venha mesmo, Dunn, mas nestes últimos quinze anos ele tem vivido metendo medo em todo mundo. Então já é tempo de alguém começar a meter medo nele também.

Os dois artigos seguintes falavam, sem deixar sombra de dúvidas, a respeito do tempo da gravidez que não fora mencionado no processo e também a respeito da maneira estranha como a polícia tratara as testemunhas. Já agora, na realidade, a avalanche se desencadeara. O jornal recebia sacos cheios de cartas e os telegramas eram tantos que a redação viu-se obrigada a destacar um grupo especial para fazer .uma triagem numa sala ao lado, enquanto McEvoy e Dunn, em mangas de camisa, esperavam no escritório. Alguns dos telegramas "ram de maníacos, outros eram de sociedades que pleiteavam a abolição disto, daquilo e de mais alguma coisa, alguns eram insultuosos, protestando que os artigos só serviam para solapar as forças da justiça e da ordem, mas, de uma maneira geral, a absoluta maioria, vinda dê todos os cantos do país, era de congratulações. Era apenas uma questão de separar o joio do trigo.

Receberam ainda o seguinte, da parte do Reverendo Foster Bowles, o sensacional publicista e pregador do Tabernáculo da Cidade de Londres:

 

         CALOROSAS FELICITAÇÕES

         MANEIRA CONDUZEM CAMPANHA

         PT PRÓXIMO DOMINGO

         MINHA PREDICA SERÁ

         CASO MATHRY

         DEUS VOS ABENÇOE

         IRMÃOS BOWLES

 

- Por que é que ele quer se meter agora? - indagou Dunn, enciumado. - Ele é apenas um falastrão esperto...

McEvoy sacudiu a cabeça, fingindo uma reprovação.

- Por onde é que anda o seu amor fraternal, irmão? Bowles é justamente o cara que estamos precisando. Quando fala, o Tabernáculo fica repleto e junta gente até mesmo do lado de fora. Há milhares que ficam de boca aberta lá na velha Kent Road.

Apanhou depois o outro telegrama, e pediu a Dunn que ouvisse aquela peça:

 

         APROVO INTENSAMENTE SUA CONTINUAÇÃO

         CASO MATHRY

         ASSUNTO LEVANTADO POR MIM

         CÂMARA DEZENOVE NOVEMBRO

         PT DEVIDO PRÓXIMAS ELEIÇÕES

         AGRADECERIA SE MENCIONASSEM MEUS ESFORÇOS

         PT AFINAL FUI PRIMEIRO

         PT CONTINUAREI PROCURANDO            JUSTIÇA

         SAUDAÇÕES, GEORGE BIRLEY

 

- Nosso bom e velho George. Ele quer tirar vantagem...

- O que ele quer mesmo é ir à forra com os Duncasters, a família da sua mulher. Eles o maltrataram tanto que ele até chegou a ficar sem poder jogar o seu golfe, Dunn. Achei bom o que ele disse "continuarei procurando justiça".

Pegou noutro telegrama, leu-o com atenção, e passou-o para Dunn, perguntando-lhe o que achava daquilo.

O outro leu-o com a testa franzida. Era um telegrama pessoal que vinha do editor do Record.

 

         CARO MCEVOY

         EM VISTA GRANDE INTERESSE

         AQUI CASO MATHRY

         OFEREÇO PUBLICAÇÃO

         ARTIGOS HEREGE IMEDIATAMENTE

         AO PREÇO QUE QUISER

         CORDIALMENTE, LLOYD BENNETT

 

Durante um momento houve silêncio no escritório. Como jornalistas que eram os dois estavam pensando exatamente a mesma coisa... McEvoy rabiscava o mata-borrão, mas, de repente, levantou a cabeça.

- Eu sei como você se sente, Dunn. Está numa pescaria e encontrou um magnífico pesqueiro, um pesqueiro só para você, e então chega um outro cara na margem oposta que lhe pede licença para pescar ali também. Claro que isto é um grande cumprimento... o Record... e o fato de Lloyd Bennett ser também um bom pescador ... será que me compreende ?

Dunn levantou-se e foi até a janela onde ficou de costas para McEvoy, mas afinal falou.

- Isto aqui é maior do que qualquer vaidade pessoal. Seria bom aceitarmos...

- Ótimo! Eu sabia que você ia concordar. Vamos pedir um dinheirão!

Dunn ainda continuava na janela.

- Cale essa boca, Jimmy. Isto é uma coisa que não pertence a nenhum de nós. Aqui estamos nós como uma dupla de bookmarkers torcendo num grande páreo e cheios de entusiasmo... e o garoto que fez realmente todo o trabalho, que lutou como o diabo para descobrir as provas está lá no hospital com duas costelas de menos e um buraco no pulmão. Está tudo errado.

- Ele ainda está passando mal?

- Bem mal, mesmo. Mas os médicos acham que ainda há esperanças. Se, ao menos, ele pudesse ler os meus artigos... Eles seriam mais eficazes do que todos os remédios.

- Puxa vida!... Seria um furo e tanto. - O editor não conseguia conter-se e sonhava em voz alta. - Quero dizer, se no momento psicológico o rapaz morresse...

Quando viu Dunn voltar-se indignado, ele arrependeu-se e apertou o botão da campainha.

- Você sabe como é, Dunn, a gente não pode deixar de pensar numa coisa dessas... está no sangue... Vou telegrafar já para Lloyd Bennett.

Na manhã seguinte, o Record publicava um suplemento de três páginas com os três primeiros artigos da série e no dia seguinte estava publicando o mesmo artigo junto com o Chronicle. Naquela mesma noite, quando os dois estavam saindo da redação, um mensageiro apareceu com uma folha do teletipo.

 

NA CÂMARA DOS COMUNS O SR. DOUGLAS GIBSON (L) DEPUTADO POR NEWTOWN PEDIU A PALAVRA PARA PERGUNTAR SE, EM VISTA DOS RECENTES DESENVOLVIMENTOS NA IMPRENSA E OUTRAS PARTES, O SECRETARIO DO INTERIOR NÃO ESTARIA PREPARADO PARA RECONSIDERAR SUA DECISÃO ANTERIOR A RESPEITO DO CASO MATHRY.

EM RESPOSTA O SECRETARIO DO INTERIOR, SIR WALTER HAMILTON, DISSE QUE PRECISAVA RECEBER A PERGUNTA POR ESCRITO.

 

Ali no escritório os dois se olharam num silêncio eletrizante. O dia tinha sido cansativo e sem grandes resultados, e aquilo estava começando a transparecer nos rostos dos dois.

Afinal McEvoy conseguiu falar com uma voz estranha.

- Então ele quer "uma pergunta por escrito". Já não é uma recusa definitiva. Eles querem ganhar tempo para poder pensar. Essa noite os fios das comunicações com Wortley vão ficar bem quentes. Amanhã, com certeza, vamos ter uma visita.

Eles apertaram-se as mãos em silêncio mas com efusão, e depois apanharam seus chapéus e sobretudos e saíram.

O dia seguinte era uma terça-feira, e então, por volta das quatro horas, quando toda a administração do jornal tomava o seu chá muito forte feito pelo mensageiro do escritório e servido em xícaras de louça já lascadas, alguém bateu na porta.

- Pode entrar...

Ainda não era o chá, mas sim o secretário de McEvoy, Ted Smith, que parecia nervoso, e logo atrás dele vinha Sir Matthew Sprott muito bem vestido e que, com suas maneiras, não dava sinal de grandes preocupações. Suas feições, exibindo sua expressão normal de dignidade e desprendimento, não demonstravam nervosismo.

Houve uma pequena pausa.

- Sente-se, por favor - disse o editor.

- Muito obrigado. Tem sido bem difícil encontrá-lo nesses últimos dias, Sr. McEvoy. Eu ia passando por aqui e então lembreime de dar uma chegada... Claro que não é, absolutamente, oficial.

A expressão no rosto de McEvoy era completamente impassível, mas ele não tirava os olhos de seu interlocutor.

- Sim, compreendo. O senhor aceita um cigarro?

Sprott fez um gesto com a mão para afastar a caixinha de prata.

- Não, obrigado. É uma sorte encontrá-lo aqui também, Sr. Dunn. Tudo o que eu disse aplica-se também ao senhor.

Seguiu-se uma pausa ainda mais longa. Sprott estava absolutamente calmo e decidido a não se trair deixando transparecer sua inquietação. Chegava até mesmo a sorrir para mostrar como se sentia à vontade.

- Cavalheiros, eu não vim aqui para me entregar a divagações dialéticas. O assunto é por demais trivial. Além disso, reconheço que os senhores têm a liberdade para administrar o seu jornal da maneira como bem entenderem. Quero avisá-los, no entanto, que sua série de artigos está criando sérias dificuldades para o Governo de Sua Majestade.

Houve outro silêncio. Os dois olhavam para Sprott e viam que, por trás de toda a sua pomposidade, havia uma aflição que ele não conseguia disfarçar. Quando tornou a falar, havia na sua voz uma efusão que nada tinha de natural.

- Nós somos homens do mundo, senhores. Estou certo de que todos reconhecemos as dificuldades para administrar o país nestes tempos de incertezas. Dentro de três meses teremos as eleições. Não quero tirar deduções a respeito de tudo isso, mas só espero que os senhores se lembrem. Não há dúvida alguma de que o Governo de Sua Majestade vê com muita simpatia o assunto que está sendo ventilado pelo seu jornal.

- Vê mesmo? - disse o editor.

- É uma coisa que posso garantir... Na noite passada falei com o Secretário do Interior pelo telefone, durante uma hora. - Sem que Sprott percebesse McEvoy lançou um olhar rápido para Dunn. - E quero reiterar dogmaticamente que Sir Walter é homem muito esclarecido e deseja agir com completa humanidade a respeito desse estranho caso.

- Ah!

Sir Matthew olhou-os com um sorriso ainda mais aberto.

- Conforme já lhes disse, não estou aqui em caráter oficial, e aliás, na minha posição, isso não poderia ser de outra forma, não é mesmo? Mas francamente, e em absoluta confiança, estou aqui para lhes apresentar uma oferta generosa e, até mesmo magnânima, que, na minha opinião, deveria, uma vez por todas, resolver o assunto com uma justa conclusão.

Sprott passou a língua nos lábios e inclinou-se para a frente.

- Tenho poderes para lhes dizer que, se os senhores interromperem a publicação dos artigos, já que então não teriam mais razão de ser, Sir Walter estaria disposto a conceder o perdão ao preso que seria imediatamente libertado de Stoneheath.

O sorriso altruísta de Sir Matthew não saía de seu rosto. Dunn e McEvoy nem mesmo trocaram olhares.

- Muito bem, senhores, estão dispostos a aceitar?

- Não. Nós recusamos.

Muito devagar, Sprott tirou o lenço do bolso e enxugou as mãos. Já não sorria mais. Não conseguia manter o sorriso.

- Então recusam? Isso me surpreende muito. Posso saber qual é a razão para isso?

McEvoy tinha os olhos pregados nele.

- Em primeiro lugar, seria uma traição à integridade do Chronicle se fizéssemos qualquer acordo agora. E, em segundo lugar, um homem inocente não pode ser perdoado.

Houve um novo silêncio em que Sprott tornou a colocar o lenço no bolso do casaco.

- O senhor deu duas razões. Pode dizer-me então qual é o seu objetivo final?

McEvoy nem mesmo alterou a voz para responder.

- Nós queremos conseguir a liberação incondicional de Mathry. Queremos que se proceda a um inquérito completo, imparcial e público sobre as circunstâncias de sua condenação... e se tiver havido um erro judicial... nós queremos amplas e satisfatórias indenizações pelo horrível crime perpetrado contra um inocente.

Sir Matthew sorriu arqueando as sobrancelhas. Tentou, pelo menos, simular um sorriso contrafeito, mas seu rosto não cooperou. O sorriso ficou pelo meio e mais parecia uma careta, e ele logo escondeu o rosto com as mãos, ficando nessa posição durante algum tempo como uma pessoa atacada por forte dor de dentes. Depois levantou-se com grande esforço e falou friamente.

- Só me resta esperar, senhores, que não se arrependam do caminho que escolheram. Não lhes preciso dizer que encontrarão sempre a minha oposição dentro dos limites de meus poderes. Devo lembrar-lhes ainda que sai muito cara uma briga com a Coroa.

Ele tinha uma larga experiência e era um mestre para se apresentar ao público e por isso conseguiu manter a calma. Inclinou-se diante de cada um e saiu da sala aparentando grande tranqüilidade. Seu rosto, porém, traía as suas emoções já que estava positivamente cinzento. E seus passos eram trôpegos.

No fim daquela mesma semana, McEvoy, sempre pensando no futuro, abriu, pelas colunas do jornal, o Fundo para a Ação Legal de Mathry, e as contribuições logo choveram vindas de todos os recantos do país. Ele esfregava as mãos de satisfação e não podia conter-se.

- É um problema de âmbito nacional que vai ter agora sua solução.

Num país livre, onde a opinião pública não é arregimentada nem suprimida, sempre surge, em determinadas circunstâncias, quando os sentimentos públicos atingem um certo ponto, uma grande onda de protesto. Isso pode começar apenas com sussurros individuais, mas logo cresce e se expande com incrível velocidade e força até chegar à violência de um ciclone. E quando isso acontece, é inútil qualquer resistência dos poderes constituídos. Eles ficam com a escolha para cederem ou para serem esmagados. É então que fica em pleno vigor o governo do povo pelo povo.

E foi justamente o que aconteceu no caso de Rees Mathry. Na ocasião de seu julgamento, o caso era apenas de âmbito regional e foi logo esquecido e relegado à obscuridade durante 15 anos. Agora, como dizia McEvoy, aquilo era um problema nacional. Os jornais do país, uns atrás dos outros, exigiam unanimemente uma investigação imparcial de todos os fatos. Milhões de palavras passavam pelas linotipos tratando do caso Mathry. Escritores e políticos, pregadores de todos os credos, publicistas, conferencistas, professores universitários, chefes de sindicatos, cientistas eminentes, médicos notáveis e artistas, todo mundo, em suma, juntava sua voz ao clamor já existente. Em vários centros foram formadas Sociedades Rees Mathry e foram fabricados e vendidos, em todo o país, botões com o seu nome. Crianças de escola, que ainda não tinham nascido na ocasião em que ele fora condenado, saíam às ruas com faixas: Soltem Mathry. Não havia como conter a onda, principalmente quando o próprio governo não estava muito firme.

Numa tarde chuvosa e triste, mais ou menos no fim do mês, McEvoy e Dunn estavam no escritório, inquietos e calados, exaustos com a tensão dos dias anteriores, quando ouviram gritos e confusão no corredor. Logo a seguir Smith, o secretário, entrava na sala seguido por todo o pessoal da redação.

Ele estava excitado e tinha na mão uma folha do teletipo.

- Isto acaba de chegar, senhor...

Lá de baixo da sala das máquinas vinha também o barulho de outras demonstrações.

- Pois então leia logo, pelo amor de Deus! - disse McEvoy. Smith leu em voz alta.

 

AS CINCO HORAS DA TARDE NA CÂMARA DOS COMUNS O SECRETÁRIO DO INTERIOR LEVANTOU-SE PARA ANUNCIAR QUE REES MATHRY SERÁ LIBERTADO INCONDICIONALMENTE DA PRISÃO DE STONEHEATH NO ULTIMO DIA DESTE MÊS E QUE UM TRIBUNAL ESPECIAL SERÁ CRIADO JUNTO AO TRIBUNAL DO JÚRI DENTRO DE QUATRO SEMANAS. ESSA DECISÃO FOI RECEBIDA COM GRANDES APLAUSOS.

 

Como se fosse o ponto final daquelas palavras, ouviu-se no prédio a explosão dos aplausos. O editor olhou para aquele pequeno grupo amontoado à porta do escritório. No estado de exaustão em que se encontrava ele percebia com surpresa a alegria geral que havia ali naqueles rostos contentes. Sentiu-se então obrigado a dizer alguma coisa.

- Vocês todos fizeram um grande trabalho, e agora que temos estas boas notícias eu quero agradecer a todos pelo apoio que me deram. No dia em que Mathry sair vai haver uma boa gratificação para todo mundo.

Dunn e McEvoy sabiam perfeitamente que aquela decisão do Secretário do Interior era apenas uma "tapeação", já que ele não conseguia mais resistir ao clamor público que exigia a liberdade de Mathry. Ao mesmo tempo, aquilo significava a condenação daqueles que estavam envolvidos no processo que julgara Mathry culpado, embora o Secretário não estivesse ainda convencido de sua inocência. Ele se decidira então a exercer os poderes que lhe eram atribuídos, pedindo que o Tribunal de Apelação, por meio de um julgamento aberto e formal, verificasse as novas provas que existiam e que justificassem a concessão do perdão. Era de presumir que o Secretário sediasse o tribunal em Wortley, para amenizar um pouco a situação.

Depois de o pessoal sair, McEvoy voltou-se para Dunn que ali estava examinando as unhas. Ele sentia-se vazio e gasto por ter sido apanhado pela marola da reação.

- Bem, afinal conseguimos. Estou que não me agüento mais e vou já para casa.

Começou a enfiar o casaco devagar.

- Eu queria que você escrevesse um curto editorial para a edição de amanhã. Sabe como é... falando sobre a instituição parlamentar, o poder da vox populi e coisas parecidas... Você escreve?

- Claro...

- Muito obrigado. Traga Eva para jantar conosco. Precisamos comemorar. - Ele apanhou o sobretudo e parou. - Nós ganhamos a parada, não foi mesmo? Deveríamos estar nos congratulando e dançando. Que diabo há de errado conosco?

- Acho que é a reação. Demos um duro danado. Mas Mathry está livre... Nós o trouxemos de volta à vida...

- Eu não sei... Estou pensando como se sentia o Lázara quando saiu do túmulo... - Depois dessas palavras enigmáticas, McEvoy sacudiu a cabeça e foi-se embora.

Em quinze minutos, Dunn tinha pronto o editorial, apertou a campainha e deu os originais a Smith. Depois foi para sua sala. Tinha a intenção de telefonar para o hospital a fim de dar as boas novas a Paul, e já desde muito ele vinha pensando naquele momento agradável. Deteve-se, porém, quando lhe ocorreu um pensamento. Sorriu para si mesmo com aquele ar de cansaço do qual não conseguia livrar-se. Atirou o chapéu na cabeça e saiu.

Quando chegou na casa de Lena, verificou que a Sra. Hanley, a senhoria, já havia voltado de sua viagem a Londres e estava perto do fogão passando umas roupas lavadas.

- A senhora já sabe a novidade? O pai do Paul vai ser solto. É definitivo e oficial. Quero que Lena vá já ao hospital para dar a notícia a ele. Acho que ela vai fazer isso melhor do que eu. Chame-a para que desça até aqui.

A mulher não se moveu, e sua boca estava apertada quando o encarou.

- Lena não está mais aqui. Quando voltei na semana passada, os seus quartos estavam azios. Deixou um bilhetinho dizendo que ia embora definitivamente.

 

A madrugada do dia 2 de março chegou clara e suave com um bando de passarinhos que pipilavam entre as flores amarelas no gramado do lado de fora do Hospital St. Elizabeth. O tempo era de uma perfeita primavera e o sol já se apresentava com algum calor, os olmos que beiravam a curta entrada de carros já começavam a exibir os brotos verdes e delicados nos seus galhos mais altos. A terra úmida, murmurando com invisíveis fios de água, parecia explodir para a vida.

Paul ia ter alta naquele dia.

Muito antes da tarde, na hora que Dunn prometera vir buscálo, ele já estava pronto, esperando, sentado na sala de espera do hospital depois de ter feito as despedidas, com uma palavrinha a mais de gratidão e um aperto de mão especial para a Irmã Margaret, uma freirinha gorducha, vermelha e sempre alegre que fora sua enfermeira. Ele tinha estado bem doente, mas a costela já cicatrizara, o pulmão já se expandira e a tosse tinha desaparecido. Agora, apesar de não ter recuperado completamente suas forças e ainda mostrar sinais de debilidade, ele era considerado como completamente curado.

Dunn chegou num táxi pontualmente. Depois de uma cena um tanto longa na sala, que mostrava como Paul era querido no hospital, por todas as boas irmãs, e depois de se haverem livrado com habilidade da insistência da Madre Superiora que lhes oferecia vinho com biscoitos, eles conseguiram sair. A caminho da cidade, com o agradável ar fresco entrando pelas janelas do carro, Paul sentia, de repente, uma explosão de antecipação alegre, fruto do que estava à sua espera imediatamente. Ele via, afinal, realizado tudo aquilo por que se batera durante todos aqueles meses de sofrimentos e tristezas. Afinal, Dunn rompeu o silêncio.

- Reservei um quarto para você no Windsor. Não é um hotel importante, mas, pelo menos, é tranqüilo. Um lugar bom para você se recuperar e arrumar sua vida.

Com um olhar cheio de agradecimentos, Paul mostrava a Dunn que estava disposto a aceitar tudo que ele quisesse.

- Aliás, quando sua mãe chegar amanhã, ela pode ficar com você no hotel até o fim do inquérito. O jornal vai pagar todas as despesas. Não tem que me agradecer. O show é por nossa conta. E também por conta do jornal aqui estão trinta libras. Você vai precisar comprar roupas e outras coisas para seu pai. Depois, se você quiser, poderá acertar as contas quando receber a indenização.

- Mas que indenização é essa? Dunn olhou-o de lado.

- Tudo indica que seu pai vai receber uma indenização do governo. O advogado acha que deve andar em torno de umas cinco mil libras.

Paul recebia em silêncio todas aquelas informações inesperadas. Embora no seu presente estado de espírito aquela indenização lhe parecesse coisa de somenos, ele já podia aceitar sem-cerimônia o maço de notas que Dunn lhe oferecia. Seria muito bom para ele usá-las para os fins sugeridos por Dunn. E pensando naquele prazer próximo, sentia-se especialmente grato e satisfeito porque iria ter um dia inteiro a sós com o pai antes que sua mãe chegasse na manhã seguinte.

- O senhor já o viu? -"perguntou Paul, após uma pausa.

- Ele está no hotel. Um rapaz lá do jornal está com ele.

- O senhor pensa em tudo.

- Eu bem gostaria que isso fosse verdade. - A resposta dele foi seca. Suas maneiras, embora sempre muito delicadas, eram bruscas e ele logo mudou de assunto. - Você tem visto Lena, Paul?

- Não. - A face de Paul alterou-se.-Não a vi mais depois daquela noite que fui para o hospital.

- Você nada sabe a respeito dela, Paul, mas já é tempo de ficar sabendo.

Olhando sempre para a frente e em poucas palavras, Dunn contou tudo sem omitir nenhum detalhe.

Paul ficou completamente tonto e abalado sentindo apertar-lhe a. garganta. Como a julgara mal! Ele fora um tolo... como tinha sido cego e mau! Sentia-se perseguido pela recordação de seu rosto, com aquela expressão de tristeza e sinceridade. Afinal, conseguiu controlar-se para poder falar.

- Eu preciso vê-la.

- Ela foi-se embora.

- Mas como?

- Largou o emprego e desapareceu. - Dunn parecia sentir uma satisfação amarga ao dizer aquilo.

- Mas qual foi a razão?

- Como posso saber?

- Mas sabe, pelo menos, para onde ela foi? Dunn olhou de lado para Paul.

Nós não sabíamos... mas agora já sabemos. Está trabalhando como garçonete num restaurante barato de Sheffield...

- E o senhor tem seu endereço?

- Mesmo que tenha não posso dá-lo... - Ele disse aquilo com uma reticência que encerrava o assunto.

O táxi tinha fugido do centro da cidade, cruzara a ponte de Nottingham Road e estava agora nos bairros do sul. Muitas das ruas que atravessavam agora já tinham sido palmilhadas por Paul durante os seus dias amargos de miséria, quando estava completamente desesperado. Logo, porém, chegaram a Fairhall e o carro parou na porta do Windsor, um edifício velho e malconservado com sacadas de madeira, alguns torreões e coberto com telhas vermelhas. Era um hotel do tipo residencial construído na década anterior, em estilo grandioso que nunca fora rentável e então tinha caído aos poucos até chegar a um estabelecimento meio comercial, mas bastante respeitável, quase sempre só com a metade ocupada. Passaram pela porta giratória, subiram as escadas com uma passadeira verde e pararam na porta de uma suíte do primeiro andar, e Paul percebeu que Dunn queria dizer-lhe alguma coisa, mas ele agora já não podia mais esperar. Tremendo diante da expectativa, ele abriu a porta.

Na sala, numa mesa perto da janela, um homem velho estava comendo presunto com ovos enquanto o secretário de McEvoy observava-o de longe. O homem devia ter uns 60 anos, tinha um corpo forte, embora não bem proporcionado, um torso forte e braços musculosos. A cabeça, em parte calva, com cabelos raros por trás das orelhas salientes, era redonda como uma bala de canhão, ligada ao corpo por um pescoço grosso e ombros fortes. A peie do pescoço estava como se fosse um pergaminho amarelo, pelancuda, cheio de arranhões e manchas azuladas. Estava com um terno escuro brilhante muito apertado e quase arrebentando nas costuras, velho e grotesco, parecendo um velho marinheiro no seu dia de folga.

Depois, enquanto Paul ficava ali de pé, com o coração aos saltos, olhando para aquele estranho, ele levantou a cabeça cofn os cabelos cortados rentes, franziu a testa ainda mastigando com seus dentes fortes descobridos, e encarou-o com olhos rígidos e hostis. Durante um momento de agonia, Paul não conseguiu falar. Já mil vezes e em outras tantas maneiras diferentes, ele imaginara aquele encontro, imaginara o rápido reconhecimento, o abraço afetuoso e as lágrimas desculpáveis. Ah! Com que ternura ele havia embelezado o encontro com aquele pai tão amado de sua meninice! Embora estivesse preparado para as mudanças, que não poderiam deixar de ocorrer em todos aqueles anos, Paul, na sua imaginação, jamais poderia esperar por uma tal devastação. Foi com esforço que ele conseguiu controlar-se e dar um passo à frente com a mão estendida. Os dedos que apertaram os seus, depois de uma ligeira hesitação, eram grossos e calejados, duros como chifres e as unhas estavam lascadas e amareladas.

Dunn fez um esforço para amenizar o ambiente, falando com uma alegria forçada, tão fora de seu natural retraído até então, que aquilo chegou a arranhar os ouvidos de Paul.

- E então, senhor? Espero que o estejam tratando bem...

O outro levantou os olhos para Dunn, mas não respondeu e continuou a comer como se quisesse tirar daquilo o máximo proveito. Dunn salvou a situação virando-se para Smith.

- Você tomou todas as providências, Ted?

- Está tudo providenciado, Sr. Dunn.

- Você não permitiu que os repórteres chateassem muito o Sr. Mathry, não foi mesmo?

- Foi o que fiz, senhor... Entreguei a todos eles a declaraçãoque preparamos.

- Muito bem.

Houve uma pausa. Smith pegou o chapéu que estava no chão a seus pés.

- Muito bem! - exclamou Dunn, fitando os pés. - Vocês dois não se vêem já faz muito tempo e nós não queremos nos intrometer... Amanhã eu apareço por aqui. Chamem-me se precisar de alguma coisa.

Paul sentiu-se realmente apavorado. Daria tudo para que aqueles dois ficassem ainda ali, mas aquilo era impossível, e o rapaz percebeu que ambos estavam aflitos para ir embora.

Depois da porta fechada, ele ficou ali de pé ainda por um minuto, mas depois apanhou uma cadeira e sentou-se perto da mesa. Aquele que ali estava, o seu pai Rees Mathry, abaixou-se ainda mais sobre seu prato e continuou a comer, empurrando a comida com os dedos, ao mesmo tempo que, de quando em quando, levantava os olhos numa espécie de interrogação muda. Paul já não agüentava mais. Tomadode desespero, de forma quase incoerente, em frases lentas e curtas, ele começou.

- Você nem imagina como estou contente por vê-lo outra vez, papai. Isto significa muito para mim. Claro que... depois de todos estes anos... isto se torna difícil para nós dois... Posso até dizer que você se sente tão desajeitado como eu. Temos tanta coisa para nos dizer que nem mesmo sei como começar. E, aliás, também temos muito o que fazer, e a primeira delas é arranjar umas roupas decentes para você. Logo que você acabar de comer, nós vamos dar uma. saída aí pelas lojas . . .

Aquilo que dizia e que, para ele, parecia tão inadequado, foi-se transformando em silêncio. Ele assustou-se, mas sentiu-se aliviado,, quando, afinal, seu pai falou.

- E você tem as pratas?

Embora chocado pela crueza da pergunta, Paul logo respondeu dizendo que tinha o suficiente para aquilo.

- Não consegui arrancar um níquel daquele Dunn. - Depois, continuou como se estivesse pensando em voz alta. - Eu vou ter dinheiro. Vou fazer eles pagarem por tudo que me fizeram.

A voz era dura e rouca como um instrumento pouco usado, mas pior ainda do que a aspereza era a completa amargura, o rancor negro e violento que se percebia em tudo que ele falava. Paul estava cada vez mais aflito.

- Você tem um cigarro aí?

- Que pena! - Paul sacudiu a cabeça. - Já faz uns tempos que deixei de fumar...

Mathry olhou-o com atenção franzindo as sobrancelhas como se estivesse procurando descobrir se ele estava falando a verdade. Logo depois, com relutância, tirou do bolso um maço de cigarros que Paul reconheceu como sendo a marca usada por Dunn. Ele tirou um e abaixou-se para acendê-lo como se estivesse fazendo alguma coisa proibida. Com o cigarro escondido na concha da mão, ele fumava rapidamente, às escondidas, e tragando toda a fumaça. Observando bem o seu rosto, Paul percebeu, pela primeira vez, e quase com horror, como ele parecia ser de pedra. A boca, especialmente, era dura como aço e fechada como uma armadilha, por baixo do lábio superior mal barbeado. De repente, sem qualquer aviso, Mathry apagou o cigarro e guardou a guimba no bolso do colete.

- Que horas são?

Quando tirou o relógio de prata para ver as horas, Paul repaTOU que o pai olhava aquilo com olhos cobiçosos e ávidos.

- Eu não tenho relógio...

Paul pegou no relógio com a corrente e entregou-lhe.

- Fique com o meu até comprar um melhor.

Sem uma única palavra de agradecimento, Mathry sopesou o relógio e a corrente e depois com um movimento rápido e solene, como, aliás, eram a maior parte dos que fazia, guardou-os no bolso interior.

Alguém bateu na porta e uma camareira entrou para tirar a mesa do café.

Paul levantou-se. Ele sabia que havia desculpas para o procedimento de seu pai, mas não podia deixar de se sentir muito chocado, e então falou numa voz que quase não se podia ouvir.

- É melhor nós irmos andando... vamos fazer umas compras ...

- Vamos lá. Olhe que eu quero coisa boa...

Saíram para o agradável sol de primavera e tomaram um táxi que desceu a Rua Leonard e deixou-os no Dron que era uma das melhores lojas da cidade. Paul estaria redondamente enganado, se esperasse algum alívio naquela empreitada. O resto da tarde tornou-se, para ele, um verdadeiro pesadelo. A aparência de seu pai fazia com que todo mundo olhasse para ele, e seus modos grosseiros com a moça que os atendia quase fez com que ele desandasse em prantos. Pior do que isso, no entanto, era a truculenta perversidade com que ele escolhia as roupas mais impróprias. A roupa de xadrez que escolheu era coisa para gente moça, a camisa de seda artificial era de cor muito viva da mesma forma que a gravata, e os sapatos eram pontudos demais. Ele ficou na seção de joalheria durante mais de uma hora olhando fascinado para as mostras, e Paul só conseguiu arrancá-lo dali depois de lhe comprar um anel com sinete.

Quando voltaram ao hotel, às seis horas, Paul estava cansado e desanimado e deixou-se cair numa cadeira da sala. Mathry levou seus embrulhos para o quarto e ficou lá uns 20 minutos. Quando voltou, envergando as roupas novas, o relógio e o anel, era fácil ver que se sentia vaidoso.

- Você está vendo. Ainda não estou liquidado, apesar do que fizeram comigo. Gostaria bem que aqueles porcos lá me vissem aqui agora, especialmente o Hicks. Nós precisamos sair para nos divertir e também para ir a um teatro.

- Nós acabamos de chegar. O melhor mesmo é jantarmos aqui hoje...

Mathry olhou para ele com a testa franzida.

- Então vamos beber alguma coisa...

- Claro. Boa idéia. O que vai querer?

- Uísque... - respondeu o velho, estirando-se no sofá e abrindo o jornal da noite que pedira a Paul para comprar. - Eu devo estar por aqui. Tiraram muitas fotos. Eles vão ter que me pagar por tudo que publicarem a meu respeito.

Paul tocou a campainha e quando a mesma camareira veio atendê-los, pediu o jantar e uma garrafa de uísque enquanto Mathry, deitado no sofá, não tirava os olhos dela, olhando-a por cima do jornal. Era uma moça alta com cara de tola e rosto chupado, e aquela atenção da parte de uma pessoa tão notória fazia-a ficar muito vermelha e cheia de trejeitos. Logo que ela saiu, Mathry vangloriou-se.

- Ela sabe quem eu sou...

Paul mal pôde tocar no jantar que veio para os dois, ao passo que o outro comeu com uma voracidade de espantar e sem dizer uma só palavra. Depois que acabou, desarrolhou a garrafa e serviu-se. Levou o copo e a garrafa e foi sentar-se numa cadeira de espaldar alto que estava encostada à parede. Ficou sentado ali muito empertigado, em silêncio absoluto, com o olhar perdido e com os olhos apertados de maneira a meter medo. De tempos em tempos, tornava a encher o copo. Havia momentos em que seus lábios se mexiam como se estivesse falando consigo mesmo. Não se dava conta da presença de Paul e, quando a moça veio para tirar a mesa, ele não lhe deu a mínima atenção, deixando-a completamente desapontada.

Como o silêncio continuasse, Paul olhou para a grotesca figura do pai, ali entregue aos seus pensamentos. Como era que aquele homem ali poderia ser aquele mesmo delicado e elegante que o levava para soltar barquinhos de papel na Praça Jesmond Dene, que tanto se esforçava para diverti-lo desenhando silhuetas e recortando figurinhas e que, em todos os fins de semana, nunca se esquecia de lhe trazer um presente e que em todos os seus atos só demonstrava amor e consideração. Qual fora o pavoroso processo de brutalização que o transformara e reduzira àquele estado? Paul lutava por imaginar como poderia ter sido o sofrimento do pai naqueles 15 anos. Sentia que uma pequenina chama de pena surgia em seu peito. Ele pensava naquela cela apertada, no uniforme dos presidiários e na comida intragável, nas grades de ferro, as horas da escuridão solitária, os gritos e as catingas daquela horda, na vigilância constante, nos arrasadores trabalhos forçados no verão e no inverno, debaixo de sol e de neve, os dias tristes e as noites sem fim. Tudo aquilo, porém, desaparecia no mesmo instante diante da triste realidade daquela presença física que ali estava sentada na cadeira do outro lado da sala.

De repente, com um movimento que era quase uma carícia, Mathry tirou o relógio do bolso e ficou olhando para ele durante muito tempo antes de começar a falar.

- São nove horas. Agora eles já estão todos no escuro . . . nas suas macias camas de pranchas. Estiveram na pedreira-, trabalhando duro debaixo da chuva... Tomaram aquela sopa aguada... tiveram sorte os que encontraram pedacinhos de gordura... e a espuma que tem gosto de sabão. Ela está sempre presente cinzenta e suja . . . embrulha o estômago. Tudo está escuro... mas eles sempre o ouvem lá fora na galeria... para cima e para baixo, sempre a vigiá-los por aquele buraquinho na porta. É possível que o Hicks esteja hoje de plantão... todos logo sabem quando é ele.

"Alguns esmagaram os dedos na pedreira... outros estão com as mãos cheias de bolhas... e com dores nas costas... todos sofrem de reumatismo por causa daquela neblina infernal. Isso, porém, nada significa diante do que estão pensando. Todo mundo só pensa no que está cá fora... ficam ali deitados nas pranchas, tentando lembrar como era a vida cá fora, pensando nas farras, nas camas macias e num bom bife, além de muitas outras coisas. Os veteranos ficam batendo nas paredes para contar as novidades... quem foi chicoteado... quem vai chegar... e quem vai sair. São os que cumprem pena de prisão perpétua. Não podem alimentar esperanças. São os enterrados vivos...

"Mas também há aqueles que não gozam de tanto conforto, e que não estão em suas celas. Cometeram um engano ou fizeram alguma coisa errada. Então vão para a solitária de dois metros e meio por dois lá embaixo no porão... é escuro como breu. E não recebem nem mesmo a espuma suja. É só pão e água... pão seco e água. Não há espaço nem mesmo para se virar... se tentar logo baterá com a cabeça na parede de cimento. E é ali que a gente começa mesmo a pensar... a pensar quem somos... e onde estamos, e que diabo fizemos para ir ter ali. É ali que a gente começa a pensar na possibilidade de as paredes se abrirem para nós irmos à forra... para fazer alguém pagar por tudo quanto sofremos, para odiar todo mundo amaldiçoado... para nos apossarmos de tudo... se, ao menos, as paredes se abrissem.

"Pois bem, por Deus, elas se abriram para mim. Então agora você já pode imaginar o que eu vou fazer.

Depois que acabou, ele se levantou e, sem mesmo dar boa noite ou apenas olhar para Paul, saiu da sala. Podiam-se ouvir os seus passos pesados caminhando pelo corredor até o quarto. Houve então um curto silêncio. Logo depois, Paul ouviu uma cigarra tocar e, a seguir, passos leves no corredor. Por mais que tentasse, Paul não conseguia levantar-se. Ficou então ouvindo com atenção. Os passos leves não voltaram.

Paul soltou um gemido. Não se atrevia a ir até a porta para confirmar suas suspeitas, mas por um processo de associação do inconsciente, ele lembrou-se daquele momento, quando saíam da loja, em que alguém esbarrara em seu pai e, instintivamente, a mão dele enfiara-se no bolso de dentro do seu paletó. Tudo que restava do dinheiro, umas 15 libras, tinha desaparecido.

 

O dia seguinte amanheceu também bonito e a luz clara da manhã fazia com que as perspectivas fossem menos sombrias. Ao contrário do que esperara, Paul dormira bem e, ao acordar, sentia-se pronto para enfrentar suas dificuldades com mais determinação. Sua mãe devia chegar de Belfast às 11 horas e, enquanto se vestia e fazia a barba, ele esperava que aquilo lhe traria mais apoio e que, materialmente, viria melhorar a situação. Afinal de contas, era mais do que inevitável que a prisão houvesse mudado o pai, e fora somente sua ansiedade natural que o levara a esperar outra coisa, mas com o tempo e o carinho da família, seria fácil suavizar e regenerar o mais duro dos corações.

Ele tomou o seu café no restaurante do hotel, sozinho, e depois subiu de volta. Ao passar pelo corredor, ainda um tanto apreensivo, experimentou a outra porta que se abriu sem barulho e entrou. Seu pai ainda dormia tão profundamente que até parecia morto com a cabeça grisalha enfiada nos braços, os lençóis atirados para o lado e o travesseiro no chão. Sentiu uma nova onda de pena vendo-o ali todo encolhido e indefeso num sono profundo. Achou melhor não acordá-lo. Apanhou uma folha do papel do hotel que havia na mesinha do canto e escreveu um recado. Fui esperar o trem. Espero que esteja pronto quando voltarmos. Paul. Colocou-o bem à vista em cima da cadeira onde estavam as novas roupas e depois saiu.

Caminhou para a cidade sentindo o frescor agradável e revigorante. O caminho margeava o canal cheio de atividade com as barcaças descarregando no cais e havia também uma pequena lancha de recreio que estava pronta para partir. Quando chegou à estação, soube que o expresso estava atrasado, mas o trem chegou às 11:20. Paul viu logo o pequeno grupo que saltava de um dos compartimentos da frente. Lá estavam sua mãe, Ella e Emmanuel Fleming.

O rapaz assustou-se imperceptivelmente já que não esperava o pastor com a filha, que, desde algum tempo, estavam afastados de seus pensamentos, e sentiu-se um tanto constrangido, mas não havia tempo para reflexões. Eles já o tinham visto, e o pastor acenava-lhe com o braço enquanto a filha fazia o mesmo com um lencinho branco. Logo a seguir já estavam todos juntos se abraçando com entusiasmo, falando todos ao mesmo tempo numa confusão de frases desencontradas. Os olhos da mãe estavam molhados, e Ella parecia não querer largar o braço do rapaz, que apertava com a mão enluvada, enquanto o pai dela, em segundo plano, olhava tudo aquilo com um sorriso aprovador.

Caminharam todos para a parada de bonde. Sua mãe e Fleming iam na frente, e Paul vinha atrás com Ella. O rosto da moça estava corado pela excitação e seus cabelos curtos tinham sido recentemente lavados e frisados. Trajava um costume cinza novo e um chapeuzinho da mesma cor, por baixo do qual brilhavam os olhos.

- Pois é isso, Paul. Nós devemos a você muitas desculpas envergonhadas. Devíamos todos nos ajoelhar a seus pés. E é isso mesmo que faremos, se você quiser. Eu, pelo menos, vou fazer isso. - Tais palavras foram ditas acompanhadas de um olhar carinhoso e cheio de promessas. - É claro que nós não fazíamos a menor idéia do que estava acontecendo. Se soubéssemos, tudo teria sido muito diferente. Nós todos pensávamos que você estava arruinando sua esplêndida carreira e prejudicando sua vida a troco de nada. E para nós que o amamos tanto, isso era o que havia de pior. Nós achávamos que, se o apoiássemos, tudo ficaria ainda pior. Como já disse... jamais poderíamos sonhar que... e então veja o que aconteceu. Veja o que você fez. Você é a pessoa mais maravilhosa deste mundo, Paul! Quase desmaiei de alegria quando soube... Eu estava na cozinha preparando um chocolate, quando papai entrou e me contou. Paul, meu querido, não tenho passado bem ultimamente. Quase tive um esgotamento nervoso por causa de minhas preocupações a seu respeito ... aquela desgraça e tudo mais. Mas não vou falar de meus pobres sofrimentos agora, já que agüentei tudo sem dar a perceber. Você, Paul, é a pessoa mais maravilhosa deste mundo! Só queria que você lesse o que dizem os jornais de Belfast, mas acho que os daqui também devem dizer a mesma coisa, então você veria o que todo mundo pensa a seu respeito. No país inteiro, só se fala no seu nome. Naturalmente, ninguém haveria de querer ser vulgar ou sensacionalista numa hora como esta. Fiquei, realmente, bem satisfeita quando vi que não havia fotógrafos na estação... tinha quase a certeza que iriam aparecer por lá. Que tal você acha este meu vestido novo, querido? Acho que vai bem com a primavera, embora seja discreto como exige a ocasião. Como eu estava dizendo, Paul, o triunfo é todo seu e quero que você o aproveite ao máximo. Naturalmente, as orações também devem ter ajudado muito, conforme nós dois sabemos muito bem, e não se passou uma só noite sem que eu rezasse por você com súplicas ao Todo-Poderoso.

O olhar dela estava cada vez mais terno e carinhoso, como sempre acontecia quando falava em religião, e Paul podia ver isso nos seus olhos claros e esverdeados voltados para ele.

- Como é maravilhoso, Paul, estarmos nós todos aqui, novamente juntos com todo o futuro à nossa frente! É claro que no meio de toda a nossa alegria pelo reencontro, não devemos esquecer o seu pai. Como sinto pena dele! Meu coração sangra por ele. É difícil para nós compreender como uma coisa dessas pôde acontecer... mas acho que certas coisas são enviadas lá das Alturas para nos submeter à provação e para purificar nossos espíritos... Eu mal posso esperar para falar com ele, para lhe mostrar minha simpatia e tristeza diante do que aconteceu. E quero garantir-lhe, Paul, que, se houver alguma coisa que eu possa fazer por ele, tudo o que você tem a fazer é ordenar.

A moça afinal parou e tornou a levantar os olhos para ele, juntando-se aos outros que entravam no bonde. O rapaz mordeu o lábio diante daquele prolongado e possessivo monólogo tão vazio e vão, que tão bem mostrava uma natureza barata e mesquinha. Estaria ele, realmente, tão comprometido a seu respeito como as suas palavras davam a entender? Espantava-se ao pensar que algum dia houvesse sentido qualquer afeição especial por aquela criatura, e como fora grande a transformação que se operara nele. Pensou em Lena e seu coração encheu-se de tristeza. Depois de estarem todos sentados, ele achou que seria bom dizer-lhes como seu pai estava completamente mudado. O pastor, de uma forma mais reservada do que geralmente, olhava pela janela como se debatesse consigo mesmo, e parecia ser o único que ainda alimentava alguma dúvida secreta enquanto Ella continuava a tagarelar sem descanso. As duas mulheres, da mesma forma que ele mesmo, obviamente, não estavam preparadas para o encontro. Ele tinha a obrigação de avisá-las, mas, à medida que o bonde seguia seu caminho, levando-os, cada vez mais, para perto do hotel, ele permanecia em silêncio. Havia no entusiasmo fácil de Ella, e até mesmo na antecipação nervosa que percebia em sua mãe, uma qualidade que, de forma peculiar, era completamente diferente de tudo que ele sentia, e isso fazia com que se sentisse mais do lado daquele homem que fora tão brutalizado e que os esperava no quarto do hotel. Sua mãe até mesmo se havia embonecado com o que tinha de melhor para a sua condição de matrona respeitável.

Após saltarem do bonde na frente do Windsor, Paul seguiu pelo caminho de entrada do hotel sem dar uma palavra. Quando chegaram no andar de cima, Paul, apertando os lábios satiricamente, abriu a porta da suíte, deixando os demais entrarem na sala.

Mathry tinha acabado de tomar o seu café e estava fumando um cigarro. Achava-se somente de calça e suspensories, com a camisa desabotoada no pescoço e os sapatos novos desamarrados para maior conforto dos pés. Estava ainda sentado à mesa que não tinha ainda sido tirada. Sua expressão, quando se virou para olhar os que chegavam, era ainda mais impenetrável do que antes. Levou a xícara de café à boca sem tirar os olhos deles. Pelo seu pescoço enrugado era fácil ver quando engolia o café. Largou a xícara e voltou-se para Paul, como se ele fosse a única pessoa que conhecia e tolerava.

- O que eles querem?

Diante da interrogação, Paul procurou uma resposta que não piorasse a situação.

- Pois então você não sabe, papai... querem ficar aqui com você...

-- Mas eu não quero ficar com eles. Você, pelo menos, sempre fez alguma coisa, mas eles não fizeram nada. Deixaram-me lá apodrecendo todos esses anos. Agora que estou livre, eles voltam rastejando para me lamberem os sapatos e ver o que conseguem tirar de mim...

O pastor deu um passo à frente, muito pálido mas menos surpreendido do que os outros com aquela recepção, e talvez até mesmo, conforme Paul desconfiava, já esperasse alguma coisa assim, e falou com voz baixa e cheia de persuasão.

- Você está cheio de razão quando nos reprova. Tudo que podemos fazer é esperar que nos perdoe...

Mathry olhou para o pastor com a cara amarrada.

- Você não mudou nada. Lembro-me bem de você, Fleming.. . Lembro-me muito bem de você. Não quero saber dessa porcaria de desculpas... Já aturei o máximo que podia naqueles velhos tempos. Perdão! - Os seus beiços rachados abriram-se numa expressão de nojo. - Havia lá um guarda que se chamava Hicks. Um dia nós estávamos na pedreira... foi no meu primeiro mês. Eu ainda era novato e aquele trabalho quase me matava. Mas Hicks estava ali bem a meu lado, tomando conta de mim. O suor escorria nos meus olhos e eu mal podia ver. Quando desci a minha picareta, ela escorregou do granito e bateu na sua bota. Não chegou nem mesmo a arranhá-lo. Apenas tirou um pedaço da bota. Você acha que ele me perdoou? Jurou que eu tentara matá-lo. Levou-me à presença do diretor. Mas não ficou satisfeito com aquilo. Dava-me pontapés e socos, cuspia na minha comida, atirou-me na solitária e não me deixava em paz. Durante 15 anos, ele fez de minha vida um verdadeiro inferno. E você me vem aí com essa conversa de perdão!

Eu sei que você sofreu muito. Sei que sofreu horrivelmente, e isso é mais uma razão para nós querermos ajudá-lo. Queremos que volte a ser o que era, que encontre paz no seio de sua família...

O rosto de Mathry voltou a mostrar aquela mesma teimosia que já demonstrara na escolha das roupas.

- Pois eu tenho outras idéias. Ainda não estou liquidado. Eu vou gozar a minha vida...

- Como?

- Você pode esperar para ver, seu hipócrita pregador. Eles se divertiram comigo, mas agora chegou a minha vez...

Diante daquelas palavras, Fleming lançou um olhar desesperado para a mãe de Paul que, com a boca entreaberta e uma expressão de assombro, estava de olhos arregalados para o marido. Até ali ela não se manifestara. Aliás, não poderia falar mesmo se quisesse. Agora, porém, impelida por uma nova emoção desconhecida, talvez por algum impulso do passado, ela soltou um grito e estendeu os braços.

- Rees... vamos tentar começar tudo de novo.

A repulsa dele veio com um olhar antes mesmo que ela se aproximasse, e Mathry deu um soco na mesa.

- Não me venha com esta. Tudo está acabado entre nós. Eu quero uma mulher mais nova e com bastante sangue. - Seus olhos se dirigiram para Ella que ficou muito vermelha e encabulada, depois voltaram-se novamente para a sua mulher com uma expressão cheia de amargura. - Você vivia me chateando, choramingando porque eu não queria ir para a igreja e preferia ir beber uma cervejinha com os amigos. Eu não chegaria perto de você agora nem mesmo se fosse a única mulher no mundo...

Hannah deixou-se cair numa cadeira com o coração humilhado, a cabeça caída e as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. Ella correu para o seu lado ajoelhando-se e tentando consolá-la. Fleming estava calado com os olhos fitos no tapete. Paul olhou para sua mãe, mas não saiu de onde estava, mostrando assim, mais uma vez, que queria ficar do lado do pai.

Mathry continuava ali sentado na mesa com a testa franzida e os olhos baixos, completamente imóvel como se, de alguma forma, estivesse em recolhimento. Logo a seguir levantou-se e foi até a porta. Antes de sair, porém, contemplou-os todos com o seu olhar perdido.

- Oito lambadas da chibata... vocês nem sabem o que é isso... Foi o que eu recebi deles.

Bateu a porta com estrondo ao sair e, lá dentro, só ficaram os soluços angustiados. Fleming foi até a janela e olhou lá para fora com tristeza.

- Meu Deus! Meu Deus! - disse a mãe de Paul. - Eu preferia estar morta...

Ella chorava de uma forma que parecia apavorada.

- Eu não compreendo. Não compreendo. Pensei que ia ser tudo tão bonito... tal como diziam os jornais. Quero voltar para casa.

O pastor virou-se lentamente, falando com a voz embargada mas cheia de autoridade.

- Não. Nós precisamos ficar aqui para o inquérito. Já lhe faltamos uma vez e não podemos fazer isso novamente. Pode ser que ainda não seja tarde. Ainda poderemos salvá-lo, se rezarmos e se tivermos esperanças.

 

Às dez horas de segunda-feira, do dia 25 de março, numa manhã quente e úmida, o Tribunal do Júri de Wortley estava cheio de sufocar, e o público, até mesmo, já havia extravasado para a rua. Nas galerias os espectadores estavam apertados como sardinhas em lata não só nos bancos como nas passagens e nas escadas, numa tremenda excitação. Lá embaixo, no recinto, a aglomeração era a mesma. O exército de repórteres estava pronto com papel e canetas à mão. Na frente da galeria pública havia o lugar reservado para as pessoas importantes não só da cidade como do país, e entre elas estavam Lord Oman e Sir Matthew Sprott. O Procurador-Geral com o seu advogado e outros altos funcionários da Coroa estavam sentados do lado esquerdo e do outro lado estava o advogado do apelante, Nigel Grahame, o seu ajudante, e o solicitor que era o advogado encarregado de instrução. Paul e sua mãe, Ella e seu pai, Dunn e McEvoy, com alguns outros amigos, estavam na primeira fileira das galerias do público e, ao lado de seu advogado, estava Rees Mathry, o antigo presidiário que passara 15 anos em Stoneheath, e que insistira em ficar ali bem à vista do público, contrariando os conselhos de seus advogados, sempre de cara amarrada e mordendo o beiço, e olhando tudo com muita atenção.

De repente, o zunzum constante das conversas cessou completamente com o aviso "Silêncio no Tribunal!" Logo a seguir, abriu-se a porta e todos ficaram de pé ao entrar o Juiz Frame seguido de um dos juizes de Apelação, todos solenes e imponentes em suas togas esvoaçantes. O silêncio tornou-se ainda maior até que todos houvessem tomado seus lugares. Depois, os juizes sentaram-se e, logo em seguida, uma voz entoou:

- Está em julgamento o caso Rees Mathry...

Apertado e tenso em seu lugar, Paul respirou fundo sentindo uma dor no peito. Dia após dia, vivendo à custa de seus nervos, ele tinha acompanhado a formação do processo por Nigel Grahame. Mal podia acreditar que, finalmente, o inquérito ia começar. Sentiu os olhos turvos quando Grahame levantou-se muito calmo. Ele era alto, benvapessoado, e então, com a mão na lapela, na atitude característica e tradicional, o jovem advogado dirigiu-se ao juiz. O seu timbre, da mesma forma que suas maneiras, era perfeitamente informal, despido de retórica e quase como se fosse uma conversa.

- Meritíssimos, no dia 15 de dezembro de 1921 e nos que se lhe seguiram, Rees Mathry, o apelante, foi julgado pelo Tribunal do Júri de Wortley, acusado de haver assassinado Mona Spurling no dia oito de setembro de 1921, na cidade de Wortley. Como o peticionário se declarasse inocente, o julgamento teve lugar perante um júri presidido pelo então Juiz Oman e que, no dia 23 de dezembro de 1921, condenou-o à morte. Depois disso, no entanto, a pena foi comutada para prisão perpétua e ele foi então removido para a prisão de Sua Majestade em Stoneheath, e ali permaneceu durante quinze anos. O Secretário do Interior, valendo-se da Prerrogativa Real, constituiu este tribunal para proceder a inquérito minucioso e completo sobre o assunto que condenou o apelante e, em vista dos problemas em causa, ordenou que o inquérito fosse público. Eu funciono aqui como defensor do apelante e vou mostrar que ele é inocente do crime que lhe foi imputado e que resultou na sua condenação, uma condenação errada e injusta que constituiu um sério erro judicial.

Sem que fosse notado, Paul olhou para os três representantes da lei que estavam ali tão perto dele que até mesmo poderia tocá-los com a mão, se assim desejasse. Eram o Chefe de Polícia Dale com o rosto impassível de sempre, Oman, com um ar arrogante e ausente, e Sprott que estava estirado na cadeira, muito vermelho mas com o olhar firme e determinadamente indiferente. Depois, o rapaz desviou os olhos para a figura solitária e pouco atraente de seu pai que sofria novamente a prova de um tribunal público, e então seu coração começou a bater com violência. Não podia haver dúvida de que, finalmente, ele seria inocentado. Logo porém, com medo de não resistir mais, ele desviou os olhos para o outro lado.

Grahame, tendo completado sua abertura preliminar, fizera uma pequena pausa enquanto seus olhos contemplavam gravemente o tribunal. Em seguida, sempre muito calmo, ele continuou sua peroração.

- Meritíssimos, doze meses depois, o caso Rees Mathry foi sepultado nos arquivos poeirentos do Departamento do Interior. Durante quinze anos ele ficou esquecido, com o criminoso condenado cumprindo sua sentença de prisão por toda a vida e que poderia ser comparada com a própria morte, numa prisão de Sua Majestade, enquanto o mundo continuava a girar tranqüilamente...

"Então, por um simples golpe da sorte, o filho do condenado, que desconhecia completamente tudo que se passara, descobriu, de repente, o ódio e a mancha terrível que era imputada a seu pai e que, natu-

ralmente, de alguma forma, envolvia-o também como se fosse uma praga. Surpreso e indignado, ele, não osbtante, confiava na força da lei, mas foi com horror que se viu obrigado a reconhecer a vergonha de ter um assassino como pai. No entanto, em conseqüência do amor profundo que nutria por ele, o filho sentiu-se também obrigado, quase contra a sua vontade, a esmiuçar as circunstâncias terríveis que teriam levado seu pai a cometer tão nefando crime. Pôs-se então em campo e, depois de meses de investigações, de sofrimentos e das mais cruéis oposições, ele foi descobrindo, passo a passo, todos os fatos já esquecidos do caso. Meritíssimos, foi devido a todos esses esforços e os resultados apurados que nós estamos aqui hoje reunidos neste tribunal.

A abertura de Grahame e a calma solenidade que ele emprestava às palavras provocaram uma grande sensação. Paul continuava de olhos baixos e sentia um tremor interior, ao passo que Grahame continuava a falar, consultando por vezes as notas que tinha diante de si, para, finalmente, definir e analisar os fatos da prisão, do julgamento e da condenação de Rees Mathry, em dezembro de 1921. Por mais familiarizado que estivesse com tudo aquilo, Paul não podia deixar de se comover, quando, ponto por ponto, numa seqüência sem falhas, Grahame calmamente examinava e logicamente dissecava os detalhes das provas circunstanciais que haviam enredado seu pai.

A fala, brilhante e magistral, durou quase três horas, com um intervalo para o almoço. E no final, antes que passasse o efeito causado, Grahame continuou tranqüilamente. Sem mostrar sinais de cansaço, o advogado inclinou-se perante o tribunal e pediu licença para chamar suas testemunhas.

- Mteritíssimos, proponho, em primeiro lugar, chamar como testemunha o próprio apelante. Durante o seu julgamento, e em vista do tremendo ataque contra o seu caráter feito pelo advogado da Coroa, Rees Mathry não teve licença nem oportunidade para se defender. Agora, em seu depoimento, ele apresentará todas as provas de sua completa inocência e também responderá a todas as perguntas que lhe forem feitas com relação à acusação.

Imediatamente, o Procurador-Geral levantou-se para protestar. Durante todo o tempo da apresentação de Grahame, ele se remexera na cadeira.

- Meritíssimos, estou desejoso, e até mesmo ansioso, para presenciar um inquérito legítimo com respeito a esta apelação, mas não permitirei que haja um novo julgamento. Oponho-me absolutamente à convocação do acusado como testemunha.

Houve uma onda de excitação em todo o tribunal. Paul viu seu pai mexer-se na cadeira olhando para Grahame. Os juizes estavam com as cabeças juntas numa consulta recíproca, mas logo o Juiz Frame anunciou a decisão.

- Este tribunal quer investigar todas as provas novas que possam relacionar-se com o veredicto anterior. É desnecessário e indesejável ouvirmos o próprio acusado. Temos diante de nós as provas do julgamento anterior que nos satisfazem plenamente. A credibilidade do acusado já foi determinada por um júri. O que precisamos fazer não é uma avaliação subjetiva de sua credibilidade e sim até onde ela pode ser reavaliada mediante a apresentação de novas provas. É isso o que esperamos agora, Sr. Grahame.

Mathry inclinara-se para a frente a fim de melhor ouvir o que dizia o juiz e sua indignação era cada vez maior. E agora, no meio do zunzum que predominava, ele levantou-se, de repente, tremendo dos pés à cabeça dentro de sua estranha indumentária. Paul, viu, horrorizado, que ele sacudia os punhos para o tribunal e gritava com voz rouca.

- Isto não é direito. Eu preciso dizer o que sei. E tenho muito a dizer. Quero que todos ouçam. Quero que saibam como me liquidaram. Como fui tratado na prisão durante quinze anos. - Sua voz já atingira o ponto mais alto. - Vocês não podem mais me prender agora... como fizeram antes. Eu quero ser ouvido. Eu quero justiça... justiça...

Gesticulando como um louco, ele foi, afinal, obrigado a sentar-se de novo por Grahame e outros que ali estavam, funcionários do tribunal que logo haviam corrido para junto dele. Durante alguns minutos, houve uma grande confusão seguida por uma sensação de consternação que logo se transformou em completo silêncio. Desolado também, Paul logo notou que sua mãe e Ella estavam chorando. Dunn e McEvoy trocaram olhares aflitos. Sprott e Dale que, pela primeira vez davam sinais de emoçãc, pareciam satisfeitos.

Então, com grande severidade, o Juiz Frame inclinou-se para Mathry.

- Nós estamos preparados para sermos muito tolerantes, mas devemos avisar ao apelante que esta sua conduta não vai melhorar a opinião que este tribunal tem a seu respeito. Mais ainda, devo avisarlhe que, se houver uma repetição, o apelante poderá ser condenado por desacato ao tribunal.

Grahame. já de volta a seu lugar, intercedeu a favor de Mathry.

- Meritíssimos, em nome do apelante, ofereço suas desculpas sinceras pela lastimável explosão que talvez possa ser compreendida. Então, com a vossa permissão, chamarei minha primeira testemunha, Sir Malcolm Garrison, eminente especialista em assuntos pertinentes ao Departamento do Interior.

De novo, o Procurador-Geral logo se levantou.

- Meritíssimos, mais uma vez eu protesto. Não há necessidade de novas opiniões de especialistas, a não ser que sejam apresentadas novas provas ou novos fatos.

O Juiz Frame sacudiu a cabeça concordando.

- Em que fatos o senhor se respalda, Sr. Grahame, para desejar trazer aqui o testemunho de Sir Malcolm Garrison?

- Meritíssimos, Sir Malcolm, conforme sabeis, é um dos nossos mais notáveis criminologistas e ele fez a descrição dos ferimentos encontrados na mulher assassinada. Ele viu todas as fotos do corpo tiradas na ocasião do crime e também da navalha que a Coroa presume ter sido o instrumento letal, e sua opinião definitiva é que esse instrumento nada teve a ver com o crime.

O Juiz Frame tornou a consultar seu colega e logo depois olhou para Grahame.

- Mais uma vez, Sr. Grahame, o senhor não está compreendendo bem a nossa função. Não estamos aqui para um novo julgamento do caso. Se fosse assim, as especulações de especialistas poderiam ser pertinentes. Estamos aqui para julgar novas provas que o senhor nos possa apresentar e que possam afetar as conclusões anteriores. Não existe nenhum caso neste mundo em que a defesa não possa conseguir novas opiniões de especialistas repetidamente depois da condenação. Aqui não se trata de nova prova e sim apenas de uma nova conjetura.

Paul estava no auge da indignação. Sentia-se esfogueado, ao mesmo tempo que arrepiado de frio. Iriam eles ser obstruídos em todas as suas tentativas? Grahame, no entanto, apenas curvou-se diante do tribunal aceitando a decisão sem discutir.

- Meritíssimos, vejo que a vossa intenção é limitar ao mínimo possível o número de testemunhas e, sendo assim, chamarei apenas cinco que não poderão ser recusadas. Com relação à questão que haveis levantado a respeito daqueles que viram o corpo, ser-vos-á fácil verificar, da leitura do caso, que o Dr. Tuke, o médico que viu a mulher assassinada logo depois de sua morte, não foi chamado para depor durante o julgamento. Meritíssimos, durante toda a vossa experiência, jamais ser-vos-á possível citar um só caso em que o médico que foi o primeiro a examinar o corpo, não tenha sido chamado para prestar seu depoimento. Por que então, neste caso, aconteceu isto com uma testemunha de tanta importância? O Dr. Tuke já morreu, mas sua viúva está aqui presente para responder a esta pergunta absolutamente pertinente.

Houve um movimento geral no tribunal, quando o nome da viúva foi chamado e logo depois ela se sentava na cadeira das testemunhas. Era uma senhora idosa, toda de preto, e trazia estampado no rosto simples e enrugado, sem sombra de dúvida, a honestidade, sinceridade e respeitabilidade. Ela prestou o juramento sem titubear e voltou-se para Grahame, o qual logo iniciou o interrogatório com calma e delicadeza.

- A senhora é a viúva do Dr. Tuke, que morreu em 1933, e que teve seu consultório durante muitos anos, até a sua morte, noDistrito de Eldon, em Wortley?

- Tudo isto é correto, senhor.

- Sabe que seu marido foi chamado à casa da Srta. Spurling na noite em que ela foi assassinada?

- Sei.

- Ele falou alguma coisa com a senhora a respeito?

- Claro que falou. Disse que tinha sido uma coisa terrível. Em muitas outras ocasiões falamos sobre esse crime.

- E o seu marido alguma vez falou com a senhora, achandoestranho o fato de ele não ter sido chamado para depor no julgamento?

- Ele, realmente, falou sobre isso comigo. Disse que era muito estranho, ele disse que... - parou e olhou atemorizada para os juizes.

- Não tenha medo, Sra. Tuke. O objetivo deste tribunal é obter e não suprimir a prova que a senhora apresentar. O que foi então que ele lhe disse?

- Ele disse que as autoridades não consideravam sua opinião como relevante.

Mais uma vez uma onda de interesse varreu o tribunal, e também pela primeira vez, a atenção dos espectadores se concentrava em Sir Matthew Sprott. Embora Paul conhecesse bem todos os fatos, ele também sentia-se empolgado pela excitação que havia no ar.

- Diga-nos então, minha senhora, em suas próprias palavras, tudo que seu marido lhe disse nas inúmeras conversas que tiveram a respeito desse caso.

Houve uma pausa enquanto a testemunha bebia um gole de água do copo que estava na sua frente.

- Meu marido sempre dizia que aquele ferimento não poderia ter sido feito com uma navalha. Na sua opinião, o instrumento deveria ter sido um objeto pontudo e afiado como, por exemplo, um bisturi...

- E como foi que ele chegou a essa conclusão?

- Foi com o exame minucioso que fez do ferimento. Ele encontrou um Juro que penetrava profundamente no lado direito do pescoço e daí um corte profundo na direção da orelha esquerda.

- Foi então assim que ele concluiu que um instrumento pontudo e afiado tinha sido primeiro enterrado para cortar as artérias do pescoço antes de rasgar o sulco profundo para a esquerda?

- Sim, senhor.

- E uma navalha comum, devido à sua configuração, jamais poderia ter feito aquilo...

- Era justamente o que ele sempre dizia, senhor. Ele também dizia que o crime deveria ter sido cometido por uma pessoa muito forte e violenta... Além disso, pela disposição do ferimento e a maneira como o sangue se espalhara pelo tapete perto do corpo, ele me dizia que tinha a certeza, sem sombra de dúvida, de que o assassino era canhoto.

- Um homem canhoto... - Grahame repetiu com muita ên, fase e olhou para a testemunha com um laivo de severidade. – A senhora está certa de que foi isso mesmo que ele disse? Lembra-se bem?

- Lembro-me perfeitamente. Foi isso mesmo. - Os seus lábios tremiam ligeiramente e ela respondia com muita dignidade. - Ele foi um bom marido para mim, senhor, e eu respeito sua memória. O senhor pensa que eu lhe atribuiria palavras que não fossem realmente verdadeiras ?

- Nem por um momento, minha senhora. Eu só queria que este tribunal percebesse, sem sombra de dúvida, sua completa boa fé...

Como se sentisse um desafio naquelas palavras e no olhar que Grahame lhe dirigiu, o Procurador-Geral logo retrucou.

- Ainda não cheguei a compreender a razão para esta testemunha estar sendo interrogada tão minuciosamente. Por enquanto nada tenho a dizer.

- Então isto é tudo, minha senhora. Nós lhe agradecemos muito. Agora vou chamar a minha próxima testemunha.

Atendendo a um sinal de Grahame, a viúva do médico voltou para o seu lugar, e logo a seguir foi chamado o Professor Valentine.

A pessoa que se apresentou era um homem baixo com cerca de 50 anos e um traje bem profissional. Vestia um fraque já meio surrado com lapelas de cetim, colarinho duro e alto e gravata preta. Seu rosto era pálido e a testa era larga. Os cabelos escuros eram compridos atrás e aquilo lhe emprestava um ar de empresário de segunda classe. Depois de prestar o juramento, ele fez uma pose, com uma das mãos na cintura e a outra na beira da mesa que estava à sua frente, com a cabeça atirada para trás dando a impressão de que estava pronto para o que desse e viesse.

- Tanto quanto eu saiba, Sr. Valentine, os seus conhecimentos a respeito de caligrafia são bem grandes, não é mesmo?

- Sou professor de grafologia e tenho um diploma do D.G.W. Creio poder afirmar que a minha reputação como perito é universalmente conhecida...

- Excelente. Por ocasião do julgamento, creio que o senhor ífarantiu que o bilhete encontrado no apartamento da mulher assassinada tinha sido escrito por Rees Mathry, não foi mesmo?

- Sim. senhor... eu fui chamado especialmente pela acusação. ..

- Estou certo que, naquela ocasião, o senhor conhecia a gravidade e a importância de sua opinião e o senhor estava convencido de que ela era correta?

- Era correta, sem dúvida alguma, senhor. Eu tenho grande experiência em atestados de validez de documentos públicos e particulares em casos da maior importância.

- Apreciaria muito então, senhor... desculpe-me... Professor Valentine, saber como foi que chegou a uma conclusão tão positiva.

- Eu uso lentes de aumento, senhor, para examinar os documentos e depois faço ampliações fotográficas que comparo com a caligrafia e foi assim que fiz neste caso. Comparei com a caligrafia do postal que fora escrito pelo acusado conforme ele mesmo reconheceu. Foi assim, usando meus conhecimentos especializados, que cheguei à conclusão definitiva de que o bilhete fora escrito por Mathry com a letra disfarçada...

- Mas disfarçada de que forma?

- Pela maneira simples e muito comum de escrever com a mão esquerda.

- Ah! Então o bilhete foi escrito com a mão esquerda?

- Sem dúvida alguma. E foi escrito por Mathry.

- E foi escrito por Mathry. - Grahame esboçou um sorriso agradável e amistoso. - Esta sua convicção nos tranqüiliza muito. Não tenho qualificações, professor, para me imiscuir nos mistérios de sua arte. Não obstante, tenho a impressão, com base nas maiores autoridades sobre este assunto, que as provas dessa natureza, com base em opiniões e teorias, nem sempre são dignas de confiança. O senhor já ouviu falar do caso Adolf Beck?

O professor não respondeu, mas seu ar já era mais arrogante.

- Nesse caso, professor, um perito em grafologia de reputação reconhecida jurou que certas cartas tinham sido escritas por um homem chamado Adolf Beck, que, por força dessa prova, foi condenado a cinco anos de prisão com trabalhos forçados. No fim desse tempo, depois de o condenado cumprir sua sentença até o fim, ficou definitivamente provado, sem a menor sombra de dúvida, que ele não tinha escrito as cartas, que era completamente inocente, e que o perito grafológico cometera um terrível e triste engano, engano esse que levou um homem inocente a cinco anos de sofrimentos e angústias, e que lhe arruinou o resto da vida.

Valentine sacudiu a cabeleira com um ar ofendido.

- Eu nada tive a ver com esse caso Beck.

- Claro que não, professor. O seu caso foi o de Mathry e é dele que nós estamos tratando aqui. Então, em sua opinião, havia três pontos distintos. Primeiro, o bilhete fora escrito com a mão esquerda; segundo, isso fora feito como disfarce; terceiro, que o autor fora Mathry. O senhor quer nos dizer quais dessas conclusões se respaldam em fatos e quais são apenas suas deduções pessoais?

O professor já estava bem nervoso e respondeu exaltado.

- Um simples novato, senhor, pode distinguir logo pela inclinação e configuração das letras que o bilhete em questão foi escrito com a mão esquerda para disfarçar. O terceiro ponto, no entanto, já envolve conhecimentos técnicos especializados de alta ordem... talvez até mesmo poderíamos usar a expressão intuição... uma espécie de sexto sentido que permite ao perito o reconhecimento de uma caligrafia específica entre muitas outras.

- Muito obrigado, professor - falou Grahame, calmamente. - Era só isso o que eu queria saber. Afinal, o senhor afirma com segurança que o bilhete foi escrito com a mão esquerda para disfarçar. Estribandp-se no seu sexto sentido, na sua intuição, sua opinião é que Mathry o escreveu. Muito obrigado.

O professor, cada vez mas aborrecido, fez menção de querer dizer ainda alguma coisa, mas logo pareceu julgar mais sensato ficar calado.

Depois dele sair, Grahame voltou-se para o tribunal.

- Meritíssimos, com a vossa permissão, chamo, agora, o Dr. Dobson, o médico-legista da polícia.

Mais uma vez, o Procurador-Geral levantou-se de um salto apesar de seu corpanzil.

- MeritíssLmos, quero protestar com veemência! Este tribunal já concordou que não estamos aqui para fazer um novo julgamento, já que no anterior o médico-legista prestou seu depoimento. É inadmissível que ele possa fornecer novas provas...

- A não ser que - falou Grahame, com muita calma - como o senhor mesmo já disse, isso se torne necessário em vista de novos fatos.

Seguiu-se um momento de tensão, um conflito de pontos de vista, logo interrompido pelo Juiz Frame.

- É por causa disso que o senhor deseja ouvir o médico?

- Se isso for do vosso agrado...

Houve um aceno de cabeça concordando e logo um homem ágil, de cabelos pretos com um terno azul-marinho, porte atlético e agradável, e um rosto viril caminhou apressado atravessando a sala e, com a compostura de alguém já muito habituado àquilo, sentou-se na cadeira das testemunhas.

Grahame dirigiu-se a ele de forma bastante amistosa.

- Dr. Dobson, o senhor ouviu as teorias do Dr. Tuke com relação aos ferimentos da mulher assassinada, apresentadas a este tribunal de forma concisa e lúcida por sua viúva. O que tem a dizer sobre elas?

- Tolices...

Aquela palavra dita com naturalidade sem qualquer intenção de desprezo ou ridículo, e sim com um sorriso encantador, fez correr nas gaterias um murmúrio de divertimento. Embora conseguisse logo suprimi-lo, Mathry rangeu os dentes e olhou com raiva nanuela direção.

- Tolices, doutor? NSo acha que é uma palavra muito forte?

- O senhor pediu a minha opinião e eu a dei...

Paul levou um susto. Não achava boa aquela idéia de chamar o médico-legista e temia que Grahame se saísse mal diante daquele homem tão confiante e decidido, mas o jovem advogado também parecia confiante e continuou.

- Talvez, de um modo geral, o senhor seja contra as teorias.

- Quando encontro uma mulher com a garganta aberta e com a cabeça quase decepada, eu não vejo necessidade para teorias ou especulações.

- Pois é. Então o senhor logo conclui que a arma só pode ter sido uma navalha...

- Nunca usei a palavra navalha em meu laudo.

- Mas a acusação apresentou uma navalha como o instrumento do crime e isso pesou muito no julgamento.

- Isso não pertence ao meu setor.

- Então, se me dá licença, vamos voltar ao seu setor. Deixando de lado as teorias, qual foi a sua conclusão pessoal, se é que chegou a alguma, a respeito da arma do crime?

- Na minha opinião, o ferimento foi ocasionado por um instrumento muito afiado.

O médico, com uma certa razão, mas erradamente, estava ficando zangado; porém, o advogado continuava sorridente e atencioso.

- Então, conforme achava o Dr. Tuke, o assassino poderia ter usado uma lâmina fina e afiada como um bisturi, por exemplo.

No rosto do médico via-se uma expressão que era a mistura de honestidade e desagrado, mas, afinal, respondeu.

- Sim. Acho que poderia ter sido, mas seria preciso que ele tivesse algum conhecimento de anatomia.

- Algum conhecimento de anatomia. - A despeito de sua calma, Grahame dava àquela frase um timbre de grande significação. - Muito obrigado, doutor. Muito obrigado mesmo! Então, depois o senhor fez a autópsia do corpo?

- Naturalmente.

- E verificou que ela estava grávida?

- Isso consta de meu laudo.

- E o senhor também declarou o tempo de gravidez?

- Mas naturalmente! Ou será que o senhor quer insinuar que não cumpri a minha obrigação?

- Longe disso, doutor. Por mais que discordemos em questões de metafísica, estou convencido de sua completa e absoluta integridade. E quantos meses tinha ela de gravidez, doutor?

- Três meses.

- Tem certeza?

- Tanta certeza como a que tenho de estar aqui prestando este depoimento. Estava grávida de três meses... talvez um ou dois dias a mais.

V - E o seu laudo foi enviado para o advogado de acusação?

- Naturalmente...

- Muito obrigado, doutor. É só isso. - Grahame sorriu para o médico e depois virou-se para o tribunal. - Meritíssimos, com vossa permissão, chamarei minha quarta testemunha.

Apresentou-se um homenzinho de rosto fino, calvo, prematuramente envelhecido e enfiado num terno de xadrez muito grande para o seu corpo magro e franzino.

- Qual é o seu nome?

- Harry Rocca.

- Sua atual ocupação?

- Cavalariço... no Hipódromo de Nottingham.

- Foi o senhor que, há quinze anos, informou à polícia a respeito do falso álibi que Mathry queria arranjar?

- Sim.

- O senhor conhece bem Mathry?

- Nós andávamos por aí juntos.

- Como foi que o conheceu?

- No Salão de Bilhares Sherwood... aí por volta de janeiro de 1921.

- E depois então apresentou-o a Mona Spurling?

- Isso mesmo, senhor.

- Poderá lembrar-se com precisão quando foi que fez essa apresentação ?

- Lembro muito bem. Foi no dia do grande páreo do Handicap de Julho, em Catterick. Lembro bem porque apostei cinco libras no vencedor... Foi o Warminster...

- Foi então no Handicap de Julho?

- Sim, senhor. Na corrida de quatorze de julho.

- E o senhor disse às autoridades a data exata? Houve uma pausa, e Rocca baixou a cabeça.

- Não me lembro...

- Levando em conta o laudo médico, essa data mostrando que Mathry só conhecera Mona sete semanas antes era da maior importância. Então as autoridades não insistiram sobre esse ponto?

- Não me lembro.

- Procure refrescar sua memória.

- Não. - Rocca sacudiu a cabeça com vigor. - Não me lembro. Eles não estavam assim tão interessados... Achavam que não tinha grande importância.

- Então não era importante provar que a mais odiosa acusação e o elo mais comprometedor em todas as provas contra Mathry era uma absoluta impossibilidade, levando em conta o tempo de gravidez. É só isso. Muito obrigado.

Logo que Rocca saiu, Grahame ficou olhando para o tribunal.

- Meritíssimos, minha próxima testemunha é Louise Burt. Ela se apresentou muito faceira, apesar de, no canto de seus

olhos, haver um vislumbre de desconfiança. Sentou-se, arrumou-se toda e olhou em torno com aquele ar afetado que Paul conhecia muito bem. Ela ainda não o vira nem tampouco olhou na direção de Mathry, que, logo à sua entrada, olhou-a com uma expressão de ódio violento.

Depois de ela haver prestado o juramento, Grahame dirigiu-se a ela da sua maneira mais encantadora.

- A senhora é Louise Burt?

- Sim, senhor. Isto é, eu era. Como o senhor provavelmente sabe, eu me casei recentemente.

- Meus parabéns. Realmente, devemos agradecer-lhe sua presença aqui, especialmente nessas circunstâncias...

- Devo dizer que foi uma surpresa, quando nos detiveram a bordo. Mas, para mim, é um prazer, colaborar, senhor.

- Muito obrigado. Posso garantir-lhe no entanto que a senhora não foi intimada sem justa causa. Estou certo de que a senhora se dá conta de que o seu depoimento de há quinze anos foi de importância capital, e provavelmente o que levou à condenação do acusado.

- Eu fiz o melhor que podia, senhor. É só o que posso dizer - respondeu Louise, modesta.

- Muito bem. A noite do crime era muito escura e chuvosa não era mesmo?

- Sim, senhor. Lembro-me como se fosse ontem.

- E o fugitivo que saíra do número cinqüenta e dois de Ushaw Terrace estava correndo muito, não estava?

- Estava mesmo, senhor.

- Correndo tanto na verdade que passou pela senhora em um segundo...

- Creio que foi mesmo, senhor.

- Mas, mesmo assim, a senhora conseguiu guardar bem sua fisionomia e tudo mais, não foi? A senhora disse que ele estava com uma capa de chuva amarelada, um boné xadrez e botinas escuras. Quer nos contar agora como foi que, num momento tão rápido e em plena escuridão, a senhora conseguiu guardar tudo isso? Uma descrição tão completa?

- Bem, senhor. - Ela já se sentia mais confiante agora. - O caso foi que ele passou bem por baixo da lâmpada da rua e a luz deu em cheio em cima dele.

- E faltavam vinte minutos para as oito?

- Exatamente, senhor. Saí da lavandaria com o meu amigo às sete e meia, e de lá até o número cinqüenta e dois é menos de dez minutos a pé.

- Então a senhora tem certeza absoluta sobre a hora?

- Eu posso até jurar... Na realidade, já jurei.

- Nesse caso, como é que poderia ter visto o fugitivo à luz da lâmpada? No Distrito de Eldon, com a lei municipal que vigorava em 1921, as luzes das ruas só eram acesas às oito horas da noite.

Pela primeira vez, Louise pareceu surpreendida e então, muito disfarçadamente, seus olhos procuraram Dale que estava ali sentado e que não olhava para ela, mas, afinal, recuperou-se.

- Eu tinha a impressão de que a luz estava acesa, senhor. Aquilo aconteceu tão de repente, mas consegui registrar tudo direitinho...

- Então como é que esses detalhes tão bem registrados figuram diferentes em seu depoimento na polícia, depois de um interrogatório rigoroso?

Ela baixou a cabeça e ficou silenciosa.

- Será que recebeu insinuações da polícia?

- Eu protesto, Meritíssimos! Isto é uma imputação imperdoável e injustificável! - O Procurador-Geral estava indignado.

- Vamos deixar isso de lado - falou Grahame, mostrando-se Tazoâvel. - Se bem me lembro, a senhora disse que o fugitivo tinha o rosto raspado.

- Sim - respondeu ela, após uma pequena demora.

- A senhora fez essa declaração espontaneamente e isso foi publicado nos jornais. Não poderia contradizer-se, pois senão ficaria completamente desacreditada. - Grahame fez uma pausa. – E no entanto, Mathry, o homem que a senhora identificou em Liverpool como sendo o fugitivo, usava bigode há cerca de seis anos.

- Não sei como foi - retrucou Louise, mal-humorada. - Pensando bem, porém, pareceu-me que ele tinha bigode. Como já lhe disse, fiz o melhor que podia...

- Claro - falou Grahame, calmamente. - Isto está-se tornando cada vez mais evidente. Muito bem. Vamos então deixar de lado essas coisas de lâmpada, bigode e diferenças nas roupas, para passar a coisas mais interessantes.

Houve um silêncio constrangido. A pose da mulher já desaparecera. Ela procurava os olhos de Dale e de Sprott, para ganhar coragem, mas eles não a encaravam, e então, em vista disso, ela olhou em torno já desesperada. De repente, viu Paul. Levou um susto, arregalou os olhos e seu rosto tornou-se lívido.

- Vamos tratar agora de suas relações com Edward Collins - continuou Grahame. - A senhora era muito amiga dele, não era mesmo?

Louise Burt rompeu em pranto, agarrou-se aos braços da cadeira e começou a gemer.

- Eu não me sinto bem. Não posso continuar. Preciso deitarme. Acabo de me casar...

O Juiz Frame amarrou a cara para fazer cessar a tensão que se notava no tribunal.

- A senhora está doente? - indagou o- juiz.

- Estou sim, senhor. Sim, Meritíssimo. Preciso repousar...

- Meritíssimos - falou Grahame, de maneira razoável - com vossa permissão, acno que a testemunha precisa de um descanso. Voltarei a chamá-la, no entanto, com referência a um assunto que reputo da maior importância e para o qual preciso comprovação.

Depois de se consultarem, os juizes concordaram. Quando Louise desceu da cadeira das testemunhas, o Juiz Frame olhou o relógio do tribunal e, vendo que faltavam cinco minutos para as quatro, resolveu suspender a sessão para a manhã seguinte, anunciando isso com sua voz autoritária.

 

Logo depois de os juizes saírem, Sprott, que já não se agüentava mais esperando o fim da sessão, saiu sorrateiramente pela porta particular dos fundos e chegou à saída particular do tribunal numa porta lateral. Estava fugindo dos repórteres e não queria ser detido para conversas. Tinha mandado seu carro esperá-lo às quatro e ele já estava ali. Atravessou a rua quase correndo e sentiu uma imensa sensação de alívio e alegria ao ver que sua mulher o esperava no carro. Refugiou-se no veículo e mandou o motorista levá-lo para casa. Levantou o vidro da janela e recostou-se no estofamento macio, segurando a mão da mulher.

Aquele dia tinha sido uma tortura para seu espírito dominador. O desempenho de Grahame tinha-o colocado num pelourinho. E o preocupante era que o seu instinto profissional dizia-lhe que o pior ainda estava para vir. Pensava naquela mulher e no que Grahame conseguiria tirar dela na manhã seguinte. Fechou os olhos durante um momento e ficou silencioso.

- Como foi bom você ter vindo, Catherine. Sabia que podia contar com você.

Ela não respondeu.

Entreabrindo os olhos. Sprott percebeu que ela estava muito pálida e que, em lugar de seu vestido de seda para as tardes, ela usava um casaco simples de tweed com um chapéu mole de feltro puxado sobre os olhos. Ela retirou a mão que ele segurava.

Ele sentou-se direito, e então falou como se quisesse consolála, ao mesmo tempo que também se consolava.

- Afinal de contas não foi tão ruim assim. Claro que Grahame esteve sensacional, como seria de esperar. Mergulhou a pá no estéreo e atirou tudo em cima de nós... aquele rafeiro medíocre...

- Não faça isso, Matt.

Ele inclinou-se para ela com um ar surpreso e interrogador.

- O que há?

- Não acho que o Sr. Grahame seja medíocre...

- O quê!

- Acho que ele é honesto e sincero. Ele ficou vermelho como um pimentão.

- Você não diria isso, se tivesse ouvido o que ele disse hoje...

- Mas eu o ouvi. - Ela virou-se da janela e apoiou o rosto nos dedos longos e delicados, e depois olhou-o pela primeira vez com tristeza. - Fiquei lá nas galerias, na fila de trás. Eu tinha que ir. Fui para lhe dar apoio, para lhe dar forças com o meu amor e queria ir ver você ser inocentado de tudo aquilo que o acusam, das insinuações... E em lugar disso...

Olhou-a espantado e ficou muito pálido. A última coisa que desejaria nesse mundo seria que ela lá estivesse e que ouvisse tudo. Ele estava zangado.

- Você não deveria ter ido. Eu tinha dito que não fosse. Aquele tribunal não é lugar para uma mulher. Pois então eu não lhe disse tudo isso antes? Todo homem público é obrigado a engolir a sua dose de remédio amargo uma vez na vida. Mas isso não é razão para que sua mulher assista ao sacrifício.

- Mas eu queria ir. Alguma coisa me dizia que eu precisava ir. Houve uma pausa e ele ficou mais calmo já que a amava muito, e então procurou segurar-lhe a mão outra vez.

- Muito bem. Não faz mal. Isso tudo estará acabado em breve. Eles vão dar uma compensação qualquer a esse Mathry... Então tudo estará acabado e esquecido.

- Estará mesmo, Matt? - Ela continuava a demonstrar aquela mesma apatia.

As suas maneiras e o timbre de sua voz foram para ele como se houvesse sido atingido por um golpe. Sprott estava quase a ponto de praguejar, mas, naquele momento, estavam justamente chegando em casa e o carro parava na porta principal. Catherine entrou em casa apressada.

- Vai precisar do carro outra vez esta noite, senhor? - perguntou Banks, o motorista.

Ele respondeu com raiva.

- Não... que vá para o inferno!

Haveria mesmo um estranho brilho de satisfação nos olhos obsequiosos do motorista? Matthew não saberia dizer. E também, para de, aquilo não tinha importância. Seguiu apressado atrás da mulher e foi encontrá-la no hall.

- Espere aí, Catherine, preciso falar com você...

A mulher parou sem dizer nada com a cabeça caída no peito. Impressionado por sua atitude e por sua grande palidez, ele hesitou e, em lugr de continuar a importuná-la, perguntou-lhe apenas onde estavam as filhas.

- Elas foram para a casa da mamãe. Achei que você gostaria de poupar-lhes a publicidade desta... calamidade.

Ele sabia que ela tinha agido acertadamente e que ele mesmo aconselhara aquela providência. Mesmo assim, sentia saudade dos carinhos com que as filhas costumavam recebê-lo. Depois de um breve silêncio, Sprott olhou-a de soslaio.

- Esta não é uma maneira muito alegre para se receber alguém que foi massacrado o dia inteiro. Será que não poderíamos esquecer tudo num jantar só para nós dois?

- Já mandei tirar o jantar para você, Matt, mas peço que me desculpe. Não me estou sentindo bem...

Novamente ele ficou muito vermelho e olhou-a com olhos injetados.

- Mas que diabo há de errado com você hoje, Catherine?

- Será que você não desconfia? - respondeu desolada.

- Não. Não desconfio. E também não vejo razão para ser tratado como um leproso em minha própria casa.

Ela colocou uma das mãos na balaustrada da escada e olhou para trás.

- Desculpe, Matt. Preciso deitar-me um pouco...

- Não! - Sprott quase gritou. - Não antes de me dar alguma espécie de explicação...

Houve uma longa pausa. Depois, sempre segurando o corrimão e com o pé no primeiro degrau da escada, ela levantou a cabeça e olhou-o como se fosse um pássaro ferido.

- Eu pensei... pensei que você talvez compreendesse... o choque que isso foi para mim. Durante todos estes anos, sempre que ouvia todo mundo falando mal de você... desancando-o... eu até achava graça. Recusava-me a acreditar no que ouvia. Eu era a sua mulher e confiava em você. Mas agora... agora eu vejo... percebo agora o que queriam dizer. Hoje, no tribunal, Grahame não estava atirando lama em cima de você. Ele estava apenas dizendo a verdade, Matt. Você condenou um homem à morte e depois a algo pior do que a própria morte, só para satisfazer sua ambição. Para subir. - Num gesto de angústia, ela passou a mão pela testa. - Meu Deus, como foi que você pôde fazer uma coisa dessas? Como pôde fazer isso, Matt ? Foi horrível... quando olhei para aquele pobre infeliz e vi o que ele tinha sofrido.

Ele foi a seu encontro.

- Catherine... você não sabe o que está dizendo. Minha obrigação é conseguir a condenação.

- Não! Sua obrigação é zelar para que a justiça seja feita.

- Mas, querida... eu sou o instrumento da justiça. Quando um criminoso é culpado sem sombra de dúvida, sou obrigado a condená-lo.

- Mesmo que, para isso, seja preciso escamotear provas a favor dele?

- Quem tem que cuidar disso é o advogado de defesa...

- Enquanto você emprega todos os meios para fazer com que ele seja condenado... Você é... você é o que eles chamam o advogado do diabo, Matt.

- Catherine! Só pelo fato de estar exausta e aflita, isso não lhe dá o direito de deixar de ser razoável. Você mesma viu hoje quem é esse Mathry...

- Eu vi o que ele acabou sendo. E até mesmo assim ele não me pareceu um assassino. Ele parecia... ele antes parecia com • alguém que tivesse sido assassinado.

- Não fique histérica. Ele ainda não foi inocentado.

- Mas vai ser - falou ela, baixinho.

- É o que nós vamos ver...

Os seus lábios tremiam muito, mas, assim mesmo, ela olhou-o durante algum tempo.

- Matt, você sabe... aliás, sempre soube, que ele era inocente ...

Ao ouvir aquela palavra "inocente", que já tantas vezes ouvira do banco dos réus mas que, agora, na boca de sua mulher, assumia um significado aterrador, ele sentiu-se inundado de uma estranha combinação de raiva e desejo. Sentia desejo de consolá-la, mas também queria magoá-la, e no meio de tudo um desejo abjeto de aninhar a cabeça em seu seio e chorar. Aproximou-se dela e tentou passarlhe a mão pela cintura, mas foi repelido por um espasmo nervoso, quando ela se encolheu.

- Não me toque.

Aquela exclamação deixou-o estarrecido. E no rosto dela, devastado pelo sofrimento e pela dor, havia alguma coisa que ele jamais lhe vira antes. Havia um olhar de hostilidade e, o que era ainda pior, também de medo. Ficou ali embaixo olhando enquanto ela subia a escada lentamente.

O gongo tocou chamando para o jantar.

Ele foi para a sala de jantar e viu que a mesa estava posta só para uma pessoa. Em silêncio, a copeira trouxe-lhe a sopa de rabada, que era o seu prato predileto, linguado grelhado, bife, torta de maçã e um delicioso queijo Stilton. Para Sprott, no entanto, tudo aquilo era sem gosto e ele mastigava completamente distraído, sentindo a raiva crescer-lhe na alma. Uma ou duas vezes, quando a porta de vaivém se abria para a copeira, ele ouvia, lá para os lados da cozinha, o amarfanhar de um jornal e o sussurro de conversas. Ele não se conteve mais e então explodiu em vituperações contra a copeira, uma senhora idosa, reclamando do serviço.

Levantou-se logo que acabou, com um safanão, e foi para o seu escritório. Ali, acossado pela necessidade, e pela condição torturada de seus nervos, ele fugiu a seus hábitos servindo-se de uma grande dose de uísque com água e depois deixou-se cair na poltrona. O torvelinho que lhe ia no espírito era uma coisa como nunca antes tivera igual, mas, ainda assim, havia uma espécie de vazio, um vácuo cruel dentro do qual ele se sentia perdido. Sentia-se apavorado com o que lhe estaria reservado para o dia seguinte, mas, por outro lado, pouco se estava preocupando. Ele parecia um homem que acabava de ser derrubado por uma apoplexia e sentia-se confuso e atrapalhado, procurando, sem sucesso, descobrir onde estava. Tudo o que tinha buscado e conseguido, todas as suas ricas posses que o cercavam, seus livros ricamente encadernados, seus lindos quadros, pareciam ter perdido toda a razão de ser de repente. Só pensava em Catherine e ali, na casa silenciosa, ele prestava atenção para ver se conseguia ouvi-la andando lá em cima.

Tomou mais um uísque e, aos poucos, seus sentidos foram melhorando e as coisas já não lhe pareciam tão negras. Catherine era mulher muito nervosa, uma perfeita puro-sangue, mas logo esqueceria tudo aquilo. Afinal de contas, ela também partilhara com ele sua prosperidade e seu sucesso. Iria falar com ela agora mesmo. Mais do que nunca, ele precisava da mulher naquela contingência. Sentia o coração bater mais acelerado, quando pensava em todas as suas qualidades, sua delicadeza, sua obediência, seus favores, seu bom gosto e a bondade inveterada que demonstrava por ele.

Eram 11 horas, os empregados já estavam todos em seus quartos e a casa se achava em completo silêncio. Sprott levantou-se, apagou a luz e subiu a escada na ponta dos pés.

Do lado de fora da porta do quarto da mulher, Sprott parou com o coração aos saltos, dominado por uma onda de desejo, de carinho e consolação. Levou a mão à maçaneta e girou-a com cuidado. A porta estava trancada. Espantado com aquilo, chamou-a em voz baixa... e depois mais alta. Não houve resposta. Tornou a tentar torcendo a maçaneta com violência e empurrando a porta com o ombro. Ela continuava fechada. Durante um momento, seu corpo forte empertigou-se num movimento de paroxismo como se fosse tentar derrubar aquela barreira, mas logo, aos poucos, foi ficando mais descontraído. Sir Matthew fez meia-volta e com o lábio pendente arrastou-se para o seu próprio quarto.

 

Naquela mesma noite, à medida que as horas passavam, Paul sentiu-se tomado por uma compulsão cada vez maior. Sua mãe junto com o pastor tinham saído para procurar consolo no serviço das oito horas na igreja mais próxima, mas ele se recusara a acompanhálos apesar da insistência dos dois. Ella tinha ficado no quarto emburrada. Mathry, seguindo as estritas instruções de McEvoy e Dunn, já estava na cama. Paul achava-se sozinho na sala do hotel, ainda sofrendo as conseqüências dos acontecimentos do dia e assaltado por um- desânimo estranho e complexo junto com um pressentimento ao qual não conseguia fugir.

A seus pés estavam espalhados vários jornais. Os boatos do "nvolvimento de Oswald tinham-se multiplicado rapidamente e agora os jornais proclamavam em manchetes as últimas notícias sensacionais do caso Mathry. Ali mesmo, de sua cadeira ele via uma delas.

 

         ONDE ESTÁ ENOCH OSWALD?

         MISTERIOSO DESAPARECIMENTO

         DE SILVER KING

 

Ao ler aquilo ainda uma vez, cresceu dentro dele o impulso para agir de forma tão forte que se tornava irresistível. Ainda não eram nove horas. Ele se levantou, enfiou o casaco e o chapéu e saiu do hotel. Seu pressentimento era tão intenso que quase se tornava realidade. Pouco antes caíra um orvalho bem forte que deixara as calçadas molhadas e isso resultará num forte nevoeiro que tomava conta das ruas. O rapaz tinha caminhado na direção de Eldon e agora era fácil ver que seu destino era Ushaw Terrace, onde entrou no número 52. Subiu as escadas como se fosse uma sombra, passou pela porta de Prusty e, com uma calma aparente, embora com o coração aos saltos, subiu até o último andar, parou e bateu na porta do apartamento fatal.

Não houve resposta. Estaria ele enganado? Impulsivamente, tirando do bolso a chave que Prusty lhe emprestara, Paul abriu a porta com facilidade. Entrou e tornou a fechar a porta e então falou alto com voz firme.

- Há alguém em casa?

Não houve resposta.

Não havia luzes acesas. Ele ficou imóvel no hall escuro, sentindo-se envolvido pelo silêncio, o silêncio que o jog amortecia, tornando mais intenso o frio que fazia no apartamento vazio. Apesar de tudo, ele não parecia abandonado já que não se via mofo nem se sentia o cheiro de umidade. Encontrou no bolso uma caixa de fósforos e acendeu um. O linóleo do assoalho estava limpo e não havia poeira na chapeleira. Quando o fósforo já se estava apagando, ele percebeu que estava aberta a porta de comunicação com a sala. Deu mais três passos e entrou.

- Há alguém aí?

Ainda uma vez não houve resposta e ele então pensou que, afinal, era bem possível que estivesse sozinho ali no apartamento.

Acendeu o gás num globo vermelho. Até aquele momento ele se mantivera moderadamente calmo, com os nervos congelados pela coragem que o trouxera até ali. Agora, no entanto, olhando aquele aposento onde houvera a tragédia que viria afetar tantas vidas, ele tremia de medo. A qualidade aterradora do aposento, revelada pela fraca luz do gás, era sua completa normalidade. Ali estava a mesa de carvalho redonda embaixo do lustre de bronze, duas cadeiras de veludo ao lado da lareira, onde, por trás de um biombo de papel, tudo estava direitinho. Os atiçadores e os protetores, com o espelho e os ornamentos em cima da lareira, estavam todos limpinhos, e o relógio marcava a hora certa.

De repente, Paul levou um susto. Lá do quarto de dormir, veio o estalido de uma tábua do assoalho que, embora muito fraco, soou como se fosse um raio no dia do Juízo Final. Paul parou e olhou para a porta do quarto. Foi preciso apelar para toda a sua virilidade para não fazer meia-volta e sair correndo, quando, logo depois, ouviu passos que se arrastavam para a porta. Embora já esperasse aquilo, já que fora com esse intuito que viera até ali, ele ficou estarrecido quando a porta do quarto abriu-se e Enoch Oswald apareceu, sempre vestido de preto mas com os cabelos em desalinho e a camisa desabotoada, o rosto pálido, a testa coberta pelos cabelos, os olhos com olheiras como se tivesse acabado de acordar. Como se fosse uma aparição, ele caminhou até onde estava Paul e olhou-o profundamente.

- Então é você, hem? Eu imaginava que me viria visitar. Sabia que tinha a chave. - Sua voz era profunda e cansada, cheia de ressonâncias ásperas que combinavam bem com sua aparência. Deixouse cair na cadeira ao lado da mesa e, com um gesto comedido, fez-lhe sinal para sentar-se também. - Sinto muito não poder oferecer-lhe alguma coisa para beber. Foi só ontem que me mudei para cá, seguindo uma espécie de impulso que também poderia ser um palpite. Ainda não cuidei das comidas. - Enquanto falava ele corria os olhos em torno da sala e depois fixou-os em Paul. - Diga-me uma coisa. Por que foi que veio aqui?

Paul estava com a boca seca sem saber como responder. Como poderia jamais explicar? Tentou recuperar a voz fazendo o jjossível para mantê-la bem firme.

- Achei que deveria estar aqui. Eu vim... eu vim para dizerlhe que caia fora... que fuja enquanto é tempo.

Houve uma pausa estranha. Através de toda a sua letargia, do peso que carregava, Oswald olhou firme para Paul.

- Você me surpreende, moço. Você me surpreende muito mesmo. Sempre estive bem a par de todas as suas atividades nesses últimos meses. Minha impressão era de que você não devia gostar muito de mim... que não tinha boas intenções a meu respeito...

- Eu agora encaro as coisas de modo diferente - respondeu Paul, com voz baixa. - Tudo por que passei, tudo que vi no tribunal hoje, o que aprendi sobre as engrenagens da lei... tudo isso, em suma, contribuiu para mudar minhas idéias. Esse caso já causou muitas infelicidades e sofrimentos. Fez com que meu pai sofresse durante quinze anos. Qual será a vantagem de se começar tudo outra vez, tendo o senhor como vítima? Portanto, fuja enquanto é tempo. O mais depressa que puder. A ordem de prisão contra o senhor só poderá sair amanhã à noite. Tem vinte e quatro horas para fugir do país. Isso, pelo menos, lhe dá uma oportunidade.

- Uma oportunidade. - Oswald repetiu a palavra com um timbre indefinível. - Uma oportunidade. - Ele estava numa espécie de êxtase. Seu lábio superior muito longo tremia e seu rosto pálido estava vermelho. Seus olhos grandes rolavam úmidos por baixo de suas sobrancelhas espessas e prateadas. De repente, exclamou numa voz alta e fervorosa. - Meu jovem, ainda há esperanças para a humanidade! Agora já tenho certeza... tenho certeza de que o meu Redentor ainda vive!

Sem poder conter-se mais tempo, ele levantou-se e começou a andar de um lado para outro em passos rápidos, estalando os dedos e levantando a cabeça reptidas vezes como se estivesse dando graçasa Deus. Afinal, fez um esforço para dominar sua emoção, tornou a sentar-se e agarrou o braço de Paul.

- Meu querido jovem. Além de minha gratidão eu ainda lhe devo uma explicação. Você tem o direito de ficar sabendo como foi toda essa tragédia.

Sem largar-lhe o braço, Oswald olhou bem para Paul e, depois de um silêncio, com voz muito rouca, começou a contar tudo de maneira tão arcaica e com tais citações das Escrituras que chegava a ultrapassar as raias da razão.

- Meu jovem, durante toda a minha vida eu fui sempre visitado pelas forças do além. Sou epiléptico desde menino. - Parou para respirar fundo e continuou. - Meus pais eram velhos... eu era filho único. Em vista disso fui criado de forma muito isolada e, em lugar de freqüentar a escola comum, tive um professor particular, e era mimado de todas as formas.

"Tive um desenvolvimento retardado, mas, como tinha inclinação para a medicina, fui enviado para a universidade quando tinha dezenove anos e dali fui para o Hospital St. Mary. Infelizmente, porém, minha doença interrompeu e, finalmente, terminou o meu estudo de medicina. Fui obrigado a voltar para casa. Meus ataques foram aos poucos diminuindo e quase desapareceram quando eu já tinha vinte e um anos e então eu passei a trabalhar com as empresas de meu pai, assumindo todas as responsabilidades já que era o único herdeiro. Quando completei trinta anos, fiquei noivo de uma moça de uma boa família que gozava de uma posição igual à nossa e que consentiu no casamento desde que, depois de um período de provação, eu fosse considerado definitivamene curado...

Oswald parou mais uma vez e suspirou com tristeza. - Infelizmente, durante esse período, fiquei conhecendo Mona Spurling que, como você sabe, trabalhava numa loja de flores onde eu entrei, por puro acaso, para comprar flores que queria levar para minha noiva. Não vou falar aqui da trivialidade desse primeiro encontro, e tampouco quero entrar em detalhes quanto à maneira insidiosa que resultou na nossa ligação. Aceito toda a culpa por minha fraqueza e meu pecado. Não obstante, cumpre-me afirmar que na minha fraqueza eu recebi de minha amante toda a assistência possível. Nunca em sua vida, meu jovem amigo, você deve deixar-se enredar por uma mulher vã e exigente. Mona espremeu-me até a última gota. Dei-lhe roupas, jóias, dinheiro e um apartamento. Quando lhe ofereci para lhe dar tudo que fosse preciso, para garantir o seu futuro e o futuro da criança, ela recusou redondamente e de forma muito ofensiva. Só ficaria satisfeita com o casamento...

"Foi justamente nesse ponto que meu pai morreu. O choque da dor fez com que me voltassem os ataques epilépticos. Depois de um muito violento eu fui ter com Mona com quem havia marcado um encontro. Meu caro amigo, você nem mesmo pode imaginar como é dolorosa e perigosa a fase que se segue a um desses ataques. Depois que a pessoa se levanta, pálida e lívida, com a língua mordida e a boca espumando, o espírito permanece numa narcose profunda que é uma espécie de abulismo, mas as paixões, embora convulsas, são violentas e excitadas. E foi nessa condição que, provocado até não poder agüentar mais, perdi a noção das coisas e cometi o crime.

Seguiu-se uma longa pausa e a fisionomia transtornada de Oswald transformou-se num pálido sorriso com um olhar tão secreto, tão expressivo de um espírito conturbado, que Paul se agarrou à cadeira.

- Meu primeiro impulso foi entregar-me à polícia. Então, pela primeira vez, ouvi a Voz Interior que me falava. Disse apenas: "Não faças isso." Eu não sentia medo das conseqüências do meu crime, mas simplesmente percebia, desdobrando-se à minha frente, como se fosse uma grande e sagrada paisagem, o que eu poderia fazer para reparação e arrependimento, desde que não fosse preso. - As maneiras de Oswald tornaram-se desprendidas e cheias de dignidade. - E desde então venho dedicando minha vida ao serviço da humanidade. E então gritei bem alto: "Cuidarei dos pobres, dos aleijados, dos cegos, e serei abençoado e a minha recompensa virá na ressurreição do justo!"

- Mas, e o homem que foi condenado? - indagou Paul. Oswald suspirou como se estivesse muito arrependido.

- Essa era a única falha no meu plano para a redenção. Mas eu recebera ordens. Não nego que, várias vezes, fui tentado a confessar e a entregar-me, mas a Voz falou outra vez repetidamente, cada vez mais imperiosa na calada da noite. "Mas como? Então és como o homem que começou a construir sua casa e não conseguiu terminá-la? Se te entregares, então, de acordo com a lei, todos os teus bens serão confiscados pelo Estado. Não faças isso!" Eis aí, meu caro jovem. Eu estava profundamente contrito, mas o que poderia fazer? Todos nós somos instrumentos dos Poderes Mais Altos. Fomos feitos para sofrer. O fim justifica os meios...

Ainda uma vez aquele mesmo sorriso triste aflorou ao rosto de Oswald de uma forma estranha.

- A Voz Interior chegou até mesmo a sugerir meios e modos, precauções, para garantir a minha segurança, de forma que a minha grande obra pudesse continuar. Como você bem sabe, houve alguns que procuraram aproveitar-se levantando suspeitas quanto à minha culpa. Embora eu conseguisse fazer prevalecer minha vontade sobre eles, levando-os para a minha casa e moldando-os como o oleiro faz com o barro, eles eram sempre motivo para preocupações. Não pense que minha vida foi fácil. Ao contrário, sempre me impus as mais rigorosas austeridades. Minha doença voltou e os ataques eram constantes. Vinham duas vezes por semana e, até mesmo, três. Suportei tudo. E, acima de tudo, aquela minha ação mais difícil e opressiva era a que eu precisava vigiar com maior atenção, sendo obrigado a conter-me dentro dos limites mundanos das convenções para que nenhum olho indiscreto penetrasse meu segredo.

Excitado por suas palavras, Oswald levantou-se outra vez e começou a andar pela sala com os ombros encolhidos e os braços balançando, raciocinando consigo mesmo em voz alta e agitada.

Ao constatar a agitação de Oswald, Paul sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Via-se que era um triste infeliz torturado que piorava a cada instante. Era uma coisa horrível de contemplar os destroços daquela alma humana, mas sua desolação aumentou ainda mais a pena que sentia por ele. Via claramente que estava diante de um louco.

De repente, rompendo a bruma que havia lá fora, e sem dúvida alguma vindo do canal distante, ouviu-se o fraco som de uma sirene como as que os barcos usavam quando havia nevoeiro. Aquele som que parecia vir de outro mundo, como o gemido de um espírito atormentado, deixou Oswald completamente aflito. Soltou um gemido e levantou-se de um salto com os olhos arregalados e o pescoço esticado.

- A hora se aproxima. Abençoa o teu servo...

No término dessas palavras, a voz dele cessou. O rosto ficou cinzento, os braços ficaram rígidos e ele tinha a aparência de um louco. Aos poucos, porém, depois de alguns minutos, relaxou, olhou em torno e voltou lentamente. Apoiando-se na beira da mesa, tirou um lenço do bolso e enxugou a testa. Depois, sorriu desanimado para Paul.

- Meu caro jovem, quero, mais uma vez, agradecer-lhe as suas bondosas atenções. Pode ir, se quiser, porque já estou bem...

Paul hesitava ainda, sentindo aquela estranha pena que lhe afogava o peito.

- O senhor me promete que vai fugir?

Ele sorriu outra vez, acenando com a cabeça e colocando o braço nos ombros de Paul.

- Eu vou fugir. Eu já previa isso. Posso dispor de recursos... Adeus, e que Deus o abençoe.

Sua mão estava gelada quando apertou a de Paul, e ele logo abriu a porta para o rapaz sair.

 

Na manhã seguinte, na hora da abertura do tribunal, a atmosfera estava eletrizante e a multidão se comprimia em toda a parte conversando em voz baixa. Havia no ar sussurros estranhos. Quando perceberam que Sir Matthew não estava em seu lugar, começaram a correr os boatos mais desencontrados que logo cessaram, no entanto, assim que ele chegou. Vinha atrasado e apressou-se para tomar o seu lugar com cara de quem não dormiu e com um lanho no rosto feito quando se barbeava.

Logo que os juizes tomaram seus lugares, Grahame levantou-se, sempre calmo, mas suas maneiras já eram agora mais frias.

- Meritíssimos, com a vossa permissão, desejaria continuar interrogando a testemunha Louise Burt.

Houve uma breve pausa enquanto tinham lugar as formalidades habituais e ela então apareceu e sentou-se na cadeira das testemunhas.

Grahame começou de forma muito cortês, mas também muito fria:

- Espero que a senhora já esteja bem depois do descanso de ontem para hoje.

- Estou bem - respondeu ela, mas não havia mais em suas maneiras a faceirice de antes para conquistar simpatias e ela se mostrava agora até mesmo rude. A hesitação do dia anterior tinha desaparecido dando a impressão de que, naquele interim, ela fora bem instruída e animada, e estava ainda ereta, encarando firme o advogado.

- Nós ontem estávamos falando de suas relações com Edward Collins, o rapaz que levou a roupa lavada da mulher assassinada. Os dois se viam muito antes e durante o julgamento?

- Eu não podia evitar. Nós estávamos sempre juntos a maior parte do tempo.

- Ah! Então estavam sempre juntos... Então a senhora falava sempre com ele a respeito do julgamento.

- Não. Nós nunca tocávamos nesse assunto.

Grahame levantou ligeiramente as sobrancelhas e olhou para o Juiz Frame antes de continuar.

- Isso é realmente surpreendente, mas vamos adiante. E a senhora falou com ele a respeito do caso depois do julgamento?

- Não. - A resposta dela foi categórica.

- Devo avisá-la de que a senhora está sob juramento e que as penalidades para o perjúrio são muito sérias - falou Grahame, decididamente.

O Procurador-Geral fez menção de levantar-se, e disse:

- Meritíssimos, protesto contra essa insinuação. Ela tem por fim intimidar a testemunha.

- Então quer dizer que tanto a senhora como o Collins nunca falaram sobre o caso - insistiu Grahame.

Pela primeira vez, a mulher baixou os olhos.

- Isto é... Eu não me lembro bem... é possível que tivéssemos ...

- Em outras palavras, falaram mesmo?

- Pode ser.

- E muitas vezes?

- Sim.

Grahame respirou fundo.

- Na noite do crime, quando o homem saiu correndo e passou por Collins no patamar da escada, ele não o reconheceu nem vagamente?

- Não - respondeu Louise, em voz alta.

- E a senhora? Ele lhe era completamente desconhecido?

- Sim.

- A - A senhora nunca disse a Collins que tinha a impressão de já o haver visto antes?

- Nunca.

- A senhora nunca lhe falou, em confiança, bem baixinho, num determinado nome?

Houve uma pausa cheia de curiosidade.

- Vamos voltar então ao que a senhora viu naquela noite tão importante... mesmo não levando em conta que a luz ainda estava apagada... mesmo se a senhora não pudesse ver claramente as feições do fugitivo, viu ainda assim o que ele estava fazendo... Estava correndo ?

- Estava sim. Já disse isso tantas vezes que até estou cansada. ..

- Desculpe-me se a estou fazendo ficar assim tão cansada. O homem correu toda a vida?

- Como assim, toda a vida?

- Quero dizer até o fim da rua.

- Sim... suponho, naturalmente, que correu.

- Supõe mesmo? Será que ele, por acaso, não montou numa bicicleta, uma bicicleta verde que estava encostada à grade, e saiu pedalando até desaparecer?

- Não.

Grahame olhou para ela muito sério.

- Tendo em vista informações que possuímos, devo avisá-la novamente de que precisa ter cuidado. Repito a pergunta. Ele fugiu ou não numa bicicleta? Uma bicicleta verde?

Ela estava abalada.

- Eu já lhe disse que não. Não posso fazer mais. - E Louise começou a fungar dentro do lenço.

Ainda uma vez o Procurador-Geral protestou.

- Meritíssimos, protesto energicamente com os meios empregados para intimidar a testemunha.

Grahame ficou vermelho, mas respondeu com vivacidade.

- Talvez o Procurador-Geral ache que estou usurpando os seus direitos. Já houve ocasiões, neste mesmo tribunal, quando ouvi o advogado da Coroa fazer com as testemunhas a mesma coisa que um cão faz com um rato encurralado, levando-as a um tal estado de agitação e confusão que elas, simplesmente, nem mesmo sabiam mais o que estavam dizendo. Estou fazendo o possível para dar à testemunha um máximo de consideração, e posso garantir-vos que ela vai precisar muito disso.

A essas palavras, seguiu-se um silêncio mortal. Sir Matthew Sprott olhou para os magistrados, mas, dessa vez, o Juiz Frame não se manifestou.

Grahame esperou até a testemunha acabar de enxugar os olhos.

- Quando o julgamento terminou, a senhora foi para a Central de Polícia, junto com Edward Collins, para receber o prêmio de quinhentas libras que cabia aos dois...

- Sim, foi isso mesmo. E não vejo nenhum mal nisso.

- Claro que não. Quando chegaram lá, os dois foram levados para uma sala a fim de esperar que se completassem certas formalidades.

- Isso mesmo. Fomos muito bem tratados na polícia... e já não posso dizer o mesmo daqui, de sua parte.

- Mais uma vez, eu lhe peço que tenha paciência e me desculpe, e peço-lhe também que volte seus pensamentos para aquela meia hora em que os dois passaram lá na polícia. Sem dúvida, o julgamento tinha sido penoso para os dois. É possível que a senhora se sentisse nervosa e incerta e isso justificaria a conversa entre a senhora e Collins.

- Que conversa?

- Pois então não se lembra?

- Não. Não me lembro de nada.

- Pois então eu vou tentar refrescar sua memória. - Grahame apanhou um pedaço de papel entre os muitos que tinha na sua frente. - Tenho a impressão de que a conversa entre os dois foi, mais ou menos, a seguinte:

 

"COLLINS: Muito bem. Está tudo acabado. Ainda bem. Eu estava muito aflito.

LOUISE: Não se aflija, Ed. Você sabe que fizemos o que era direito e certo...

COLLINS: Eu sei... Acho que fizemos mesmo, mas...

LOUISE: Mas, o quê?

COLLINS: Ora... você sabe como é, Louise. Por que foi que você não falou da... você sabe o que é.

LOUISE: Porque nunca ninguém me perguntou, seu estúpido.

COLLINS: É acho que não... Será que nós... Será que vamos receber o prêmio?

LOUISE: Claro que vamos receber, Ed. Não fique aflito... Nós ainda poderíamos fazer melhor.

COLLINS: Como assim?

LOUISE: Espere e verá. Ainda tenho uma coisa escondida na minha manga...

COLLINS: Mais foi Mathry mesmo, não foi, Louise?

LOUISE: Cale essa boca. Agora já é tarde para recuar. Nós não fizemos mal a ninguém. Com todas as provas que tinham, eles pegariam o Mathry de qualquer forma. E, afinal de contas, ele escapou da forca. Pois então você não sabe, seu bobalhão, que não adianta a gente ir contra a polícia? Além disso, você ainda pode ter muito mais do que nunca sonhou por causa de tudo isso. Ainda vou viver como uma grande dama."

 

Mal tinha acabado de ler, e sem dar tempo, à Coroa para protestar, já Grahame se voltava com ar severo para a testemunha.

- A senhora nega a realidade dessa conversa que foi ouvida e registrada ?

- Eu não sei. Não me lembro. Não posso ser responsável pelo que Collins possa ter dito. - Ela respondeu com a voz perturbada, mas era fácil ver que estava com medo.

- E o que foi que fez depois que recebeu o dinheiro da polícia ?

- Não me lembro o que fiz exatamente.

- Pois então não foi passar uns dias em Margate, com Edward Collins?

- Acho que fui sim.

- E os dois ficaram no mesmo quarto no Hotel Beach?

- Certamente não. E não vim aqui para ser insultada.

- Então, com certeza, não vai querer que eu mostre ao tribunal o registro do hotel naquela data...

- Meritissimo, devo protestar contra essas alegações irrelevantes a respeito do caráter moral da testemunha - interrompeu o Procurador-Geral.

- E, no entanto, quando alegações muito mais sérias e menos verdadeiras foram levantadas contra a moral de meu cliente há quinze anos, a Coroa não se lembrou de protestar.

Houve um silêncio, e Grahame voltou-se para a testemunha.

- Depois dessas férias, os dois voltaram para Wortley, e perceberam que a atmosfera já tinha mudado e estava mais fria. A senhora não era considerada como a heroína que pretendia ser. Viu que era difícil encontrar trabalho. E então, foi justamente nesse ponto que os dois, a senhora e Edward Collins, receberam um excelente convite para ser empregados de uma ótima casa em Wortley e que logo aceitaram. Estou certo?

- Está.

- E quem era o dono dessa casa?

Louise já não exibia mais aquele seu ar de desafio. Lançava olhares furtivos para Paul. Durante alguns momentos parecia que estava engasgada, mas, afinal, conseguiu falar.

- O Sr. Enoch Oswald.

- Estarei falando a verdade se disser que o Sr. Oswald foi extremamente bondoso para Collins, que lhe arranjou um casamento, e que o despachou para Nova Zelândia? Casou-se com uma de suas empregadas ?

- Acho que ele foi bacana com o Edward - murmurou ela.

- E com a senhora ? - A voz de Grahame tornou-se mais suave. - Também não foi tratada com muita consideração embora com alguma severidade? Deu-lhe um bom emprego em sua casa, também casou-a e quase que também a despachou para Nova Zelândia com todas as despesas pagas?

Logo que ela confirmou de má vontade, houve um zunzum em todo o tribunal t o interesse já parecia ter atingido seu ponto de rutura. Todos tinham os olhos pregados em Grahame, quando ele fez sua próxima pergunta.

- A senhora pode, de alguma forma, explicar o notável interesse demonstrado pelo Sr. Oswald para com as duas principais testemunhas do caso Mathry?

Ela sacudiu a cabeça como se estivesse aparvalhada. Grahame fez a pergunta seguinte, com muita tranqüilidade.

- Poderia isso estar, de qualquer forma, ligado, ao fato... ao fato de Enoch Oswald ser o proprietário do apartamento ocupado por Mona Spurling, a mulher que fora assassinada?

Mais uma vez a pergunta ficou sem resposta, e o silêncio no tribunal era mortal.

- O Sr. Oswald visitava sempre o apartamento, sem dúvida por motivo comerciais como, por exemplo, para receber o aluguel e ver se tudo estava em ordem... Como essas visitas eram feitas, geralmente, à noite, era possível que Collins o conhecesse de vista já que ele também costumava andar por ali à noite, entregando roupas lavadas.

- Eu... acho que poderia ser.

E então, de repente, como se fosse uma punhalada, ele perguntou.

- E Oswald fazia essas visitas de bicicleta?

- E daí?... Aliás, era uma bicicleta verde... Aquilo nada tinha a ver comigo - falou Louise.

Sensação no tribunal.

- Aliás.. . tenho ainda uma última pergunta. Já ouvimos falar muito aqui de alguém que é canhoto. Será que o Sr. Oswald é canhoto ?

Podia-se ouvir uma mosca voar no tribunal. A mulher já não se agüentava mais. Ela olhou em torno, apavorada, e afinal exclamou bem alto.

- É sim... e, para mim, isso tanto faz...

Depois disso ela ficou histérica e a sala do tribunal vibrava de excitação. Os repórteres pegaram suas notas e correram para os telefones que ficavam lá fora.

Depois de haverem retirado Louise da cadeira, Grahame voltou-se para o tribunal para suas considerações finais. Sua voz, que durante todo o tempo permanecera calma e moderada, assumiu agora um timbre de indignação sincera.

- Quero agradecer a este tribunal pela paciência com que fui ouvido durante tanto tempo, mas agora serei breve Meritíssimos, nós, em nosso sistema judicial, nos orgulhamos com o princípio de que todo homem deve ser considerado inocente até que seja provado ser culpado. Qualquer um pode ser suspeito, mas o ônus da prova cabe à Coroa.

"E então, Meritíssimos, o que acontecerá se a Coroa não desempenhar a sua parte com honestidade? Se os agentes da lei, depois de prenderem um suspeito, se valerem de todas as tricas e futricas da lei, de todos os recursos da oratória, de todas as persuasões sutis e secretas, de todos os métodos de pressão e de perseguição, para mostrar que estão com a razão e que, em verdade, prenderam a pessoa certa ?

"A Coroa, Meritíssimos, conta com grandes recursos como sejam dinheiro, gente capaz e autoridade indiscutível. Os seus agentes, sendo humanos, querem sempre, não somente justificar suas legítimas suspeitas, como querem também galgar postos mais altos na carreira para serem bem-vistos pela opinião pública. Os peritos que são chamados são o que pode haver de melhor em suas especialidades, mas, apesar disso, podem ser influenciados pelo estado de espírito reinante. O Chefe de Polícia, em sua firme convicção de que prendeu a pessoa certa, remove céus e terra para conseguir que ela seja condenada. Os médicos da polícia, quando chamados para examinar um instrumento do crime, seja ele uma faca, um porrete ou um martelo, raramente dizem, logo de saida: "Não há sangue nesta arma." Mais facilmente dirão: "O mateial não se prestava para testes conclusivos." Ou então: "Havia traços de uma substância que poderia ser sangue." Em resumo, Meritíssimos, quando um infeliz se torna suspeito ou quando, por seu modo de proceder, dá azo a que seja considerado como tal, então, inconscientemente, logo surge uma atitude preconcebida, quase instintivamente, hostil e prejudicial para o acusado.

"Vamos considerar o caso deste cidadão comum, cujo caráter não é dos mais fortes, um pouco irresponsável, talvez vaidoso, mas, de um modo geral, nem melhor nem pior do que a maioria das outras pessoas. Com uma vida conjugal infeliz e prejudicada pela austeridade, ele, naturalmente, lança seus olhares em torno na esperança de encontrar um rosto mais simpático e atraente, e é nesse estado de espírito que é apresentado a uma moça bonita que lhe agrada e depois de algumas semanas, encontrando-se solitário numa cidade distante, num hotel comercial de segunda classe, envia-lhe um postal no qual, usando o seu talento especial para desenho, rabisca uma cena rústica e a convida para jantar. E então, horrorizado, poucos dias depois, ele vê nas manchetes dos jornais, que aquela mulher foi brutalmente assassinada e que a policia procura ativamente o autor do postal cuja foto aparece estampada em todos os jornais.

"Ele fica desatinado sem saber o que fazer. Saber que o certo seria apresentar-se à polícia, mas o medo da publicidade e do envolvimento que talvez, nem mesmo tenha razão de ser, não permite que o faça. Além disso, ele sabe que a primeira pergunta na polícia vai ser no sentido de saber onde ele estava na noite do crime, entre oito e nove horas, e ele se lembra então que estava num cinema e sozinho, e que, aliás, chegara a adormecer durante o filme. Aquilo será um álibi inútil! Quem poderia tê-lo visto lá no escuro? Ele notara ainda que a moça da bilheteria, que lhe vendera a entrada, nem mesmo levantara a cabeça para olhá-lo. Não havia ninguém que pudesse responder por ele naquela noite fatal...

"Ele está cada vez mais apavorado, perde completamente a cabeça, e em lugar de se apresentar às autoridades, num acesso de pura estupidez, inventa e prepara um álibi com seu amigo. Logo, porém, o descobrem como o autor do postal e então ele apresenta o seu álibi que é logo desmascarado. A partir daí, ele está completamente enredado. Falsus in uno falsus in omnibus. Levanta-se contra ele toda uma estrutura de provas incriminadoras, mas, à medida que esse edifício se ergue, começam a surgir certas discrepâncias, tais como uma bolsa de dinheiro muito estranha encontrada junto ao corpo, uma bicicleta verde que poderia muito bem ter sido usada pelo criminoso, sem que nada disso possa ter qualquer ligação com o acusado, mas, apesar de tudo, essas discrepâncias são consideradas irrelevantes, são ignoradas e, praticamente, afastadas do processo. Já que não se enquadram nele, o melhor mesmo será então afastá-las. E quando o advogado de acusação se levanta no tribunal desejoso de ver a justiça feita, aliás, com muita propriedade, nada daquilo é mencionado...

"Meritíssimos. A minha opinião é de que a conduta da Coroa no caso Rees Mathry foi calculada para impedir um julgamento justo, e foi isso o que ela conseguiu. Por mais inadequada que tenha sido a minha apresentação dos fatos, a conclusão final a que ireis chegar é que, realmente, houve uma séria omissão de provas. Além disso, o advogado de acusação, no decorrer do julgamento, fez as mais prejudiciais insinuações e as mais graves acusações especialmente quando se dirigiu ao júri.

"Tudo o que ele disse ao júri, na realidade, estava espetacularmente carregado de insinuações prejudiciais, deliberada e sutilmente calculadas, para influir no júri e conseguir a condenação do réu.

"Meritíssimos, quando a vida de um homem está em jogo, não se justifica esse tipo de oratória que atinge, não os espíritos dos jurados, e sim os seus sentimentos, induzindo-os não à clara luz calma da lógica e sim às mais violentas emoções de horror, ódio, repulsa e vingança. Essa espécie de oratória é ainda mais vilificada, quando feita como se fosse uma representação teatral, quando o ilustre advogado apresenta uma arma atirando-a ao chão e até mesmo imitando o golpe fatal, tudo isso como uma espécie de melodrama mórbido que transforma um solene tribunal de justiça num espetáculo barato. Na minha opinião, a acusação feita pelo advogado da Coroa contra Rees Mathry, e a maneira como foi apresentada ferem os próprias raízes da nossa administração criminal, e estou certo de que este Tribunal não hesitará em concordar comigo.

Quando Grahame fez uma pausa, Paul, mal podendo conter-se tal era sua excitação, olhou para onde estava Sprott. O seu rosto, geral266

mente vermelho, tinha-se tornado pálido como a morte, sua boca estava apertada. Em que estaria ele pensando? Seria naquela sua humilhação? Ou seria na sua carreira interrompida e esfacelada definitivamente ... nas suas ambições políticas completamente liquidadas ?

- Eu ainda digo mais - continuou Grahame - que o juiz no julgamento, ao dirigir-se ao júri, orientou-o mal dentro da lei. O sumário que lhe apresentou, aliás, não era verdadeiro, era inadequado e induzia a erro. Acompanhando a linha de acusação, o juiz deliberadamente prejudicou o caráter do acusado e deixou de chamar a atenção do júri para as graves irregularidades que existiam no processo. No que diz respeito à polícia, embora tenha ela sempre agido de boa fé, de acordo com o que sabia, não se pode negar que não deu atenção aos pontos mais importantes para a identificação do criminoso. Vemos com toda a clareza que ela possuía provas, favoráveis ao acusado, mas desconhecidas para ele e seus advogados, provas essas que foram deliberadamente omitidas no processo policial com grande prejuízo para o condenado.

Grahame, fazendo seu primeiro gesto durante todo aquele dia, estendeu, de repente, o braço apontando para o tribunal.

- Meritíssimos, Rees Mathry não foi o assassino. Com base em nossas investigações e na análise do julgamento, torna-se claro e cristalino que é inocente, que foi vítima de um tremendo arremedo de justiça, de uma verdadeira mascarada. Tendes diante de vós a testemunha Louise Burt, perjura que se condenou, mas que, saindo do seu lamaçal de mentiras, indicou com toda clareza quem foi o criminoso.

"Meritíssimos, não sou policial e não faz parte de minhas obrigações ir buscar o criminoso para entregá-lo à justiça, mas tenho provas suficientes para dizer o seu nome. Compete agora às autoridades prenderem este homem a fim de se afastar, definitivamente, qualquer sombra de dúvida que ainda possa pairar sobre este caso. Meritíssimos, por todos os sagrados mandamentos da justiça, eu vos imploro que corrijam esse tremendo erro, reconhecendo a culpabilidade da Coroa e proclamando para todo o mundo a inocência de Rees Mathry.

Grahame sentou-se no meio do mais profundo silêncio, mas isso logo foi quebrado por calorosos aplausos, e só a ameaça de mandar evacuar a sala conseguiu restabelecer a ordem. Paul tinha os olhos cheios de lágrimas. Jamais em sua vida ouvira coisa tão comovente como aquele apelo final. O rapaz olhava para a tranqüila figura do jovem advogado e depois para o pai que ali estava confuso, como se não conseguisse compreender que estava agora sendo ovacionado por aquele mesmo público que, 15 anos antes, o condenara e execrará.

Quando, afinal, foi restabelecida a ordem, o Procurador-Geral levantou-se, depois de uma longa consulta com seus colegas, para defender a Coroa. Embora sua expressão fosse digna e calma, via-se claramente que não estava gostando daquilo que seria obrigado a fazer, mas que não podia, de forma alguma, ser evitado. Falou durante quase uma hora com muita moderação em tudo que dizia. Em contraste com as veementes e prolongadas palavras de Grahame, as suas eram ditas sem muita inflamação e era bem possível que aquilo fosse de propósito. Logo que ele se sentou, o Juiz Frame levantou a sessão que continuaria no dia seguinte.

O tribunal reuniu-se novamente às duas e meia da tarde do dia seguinte, quando, no meio de um completo silêncio, o Juiz Frame, digno e impenetrável, finalmente se pronunciou. À medida que ele falava, o coração de Paul parecia que ia explodir da maneira como batia descompassadamente, como se fose uma perfuratriz automática, Olhou para seu pai que ouvia tudo numa espécie de desespero doloroso.

- O Secretário do Interior foi informado sobre os novos fatos apresentados a este tribunal e que o deixaram convencido de que não existe motivo para o veredicto de culpado.

Houve uma longa pausa, durante a qual Paul mal conseguia respirar.

- Recebemos instruções para dizer que, sendo assim, o Secretário do Interior vai recomendar imediatamente a Sua Majestade que o condenado seja considerado inocente.

Pandemônio... Chapéus atirados ao ar... Aplausos calorosos. Dunn, McEvoy, Grahame e Paul apertavam-se as mãos efusivamente. As pessoas se comprimiam para abraçar Paul. Até mesmo o velho Prusty estava ali, sempre espirrando e fungando, para abraçá-lo, Ella e a mãe de Paul estavam ali juntas, tontas e espantadas, e ainda envergonhadas. O pastor achava-se com os olhos fechados como se rezasse. O rosto de Dale era mais duro e inescrutável do que nunca. Sprott procurava a saída ainda tonto com o choque. Lá em cima, na galeria, havia uma pessoa gesticulando... parecia Mark Boulia.

Então, Paul voltou-se e caminhou para onde estava ainda sentado, apesar de todo aquele tumulto, de cabeça baixa, como se ainda não compreendesse bem o que se passava, aquele homem arrasado a quem já ninguém mais poderia chamar de assassino.

 

Paul voltou para o Hotel Windson, às quatro horas. Eles tinham vencido... Nem mesmo as frases legais e as maneiras formais dos juizes, a fria displicência do tribunal poderiam diminuir o valor da vitória final. Seus nervos, porém, ainda estavam tensos e ele se sentia num estado de estranha irrealidade, diante de um futuro que ainda lhe parecia incerto e precário.

Quando passou pelo corredor que levava à saída do hotel, ele viu a bagagem de Ella arrumada e pela porta entreaberta, Paul via sua mãe lá dentro do quarto arrumando o que faltava e então aquilo, de uma certa forma, preparou-o. Quando entrou na sala, viu Ella sentada, já de chapéu e luvas, e aquele ar decidido e autoritário que, no passado, pressagiava uma decisão tomada para os dois.

A presença dela ali serviu para cristalizar todas as indecisões do rapaz. Foi ao aparador e bebeu um copo de água, sempre sentindo que os olhos dela estavam em cima dele.

- Muito bem... então está tudo acabado.

- Espero que esteja mesmo... e. não é sem tempo...

Ela estava sentada ali muito empertigada, com a boca apertada e a cabeça atirada para trás. Paul procurou mostrar-se razoável.

- Eu sei que não foi nada agradável, Ella, mas era preciso fazer tudo isso...

- Então era preciso? Você acha que era mesmo? Mas eu já não penso assim. Acho que tudo isso era desnecessário. E mais do que completamente desnecessário, era também inútil. E foi você quem fez tudo. Você começou e você acabou sem levar em conta o que todo mundo achava. E o que foi que você conseguiu? Nada. Absolutamente nada...

- Mas, certamente, já é alguma coisa termos ganho a nossa causa...

- E o que você vai lucrar com isso ? Você viu o que eles fizeram. Esses advogados são sempre solidários. Você vai ter que recorrer ao Parlamento para conseguir uma indenização. E, mesmo que a receba, ela não virá para as suas mãos.

Ele estava rubro de indignação mas esforçou-se para não demonstrar rancor.

- Não estou interessado no dinheiro, Ella. Isso nem mesmo me ocorreu. Tudo que eu queria era limpar o nome de meu pai e foi isso que consegui.

- E vai lucrar muito com isso! Pela maneira como ele vem-se comportando, seria melhor se o tivesse deixado lá, uma vez que se preocupa tanto com a sua reputação. Ele se revelou justamente o que é... um nojento velho bêbado...

- Ella! Foi a prisão que o modificou. Ele não era assim antes...

- Mas é agora. E já estou cheia! Já era bem ruim quando ele estava na prisão, mas, pelo menos, estava afastado da gente. Ninguém o via e ninguém nem mesmo sabia que ele existia. Ora essa! Pois até mesmo lá no tribunal ele se desmandou. Procurou exibir-se. Foi por isso que os juizes nos trataram como se fôssemos lixo. Nunca me senti tão humilhada e envergonhada em toda a minha vida, só em pensar que gente de bem possa saber que eu tenha a mais remota ligação com uma pessoa assim. Fique sabendo que, se não fosse por você, eu já teria pegado minhas coisas e estaria longe daqui.

Ele percebeu que ela era perfeitamente incapaz para se dar conta dos problemas em jogo. Ela, tampouco, mostrava a menor consideração pelos sacrifícios que ele fizera, a luta em que se empenhara. Só levava em conta sua perpétua vaidade e a maneira como tudo aquilo poderia prejudicá-la. E então, por causa disso, ela lhe atirava no rosto queixas e recriminações que se tornavam ainda mais mesquinhas, porque se mostravam justificadas. Como poderia ele ter sido jamais tão tolo para se deixar apaixonar pelo seu rostinho bonito, sempre com uma auréola de sentimentos religiosos extremados e incompreensíveis ?

Seguiu-se uni silêncio que ela, à luz de suas experiências do passado, pensava ser um indício da submissão dele. Mais calma por isso e pelo fato de ele não lhe dar resposta, a moça passou a falar com mais suavidade, com a aparência de mártir de alguém que, embora profundamente ferido, sempre está disposto a perdoar dentro dos preceitos cristãos.

- Venha logo. Ande daí. Arrume suas coisas.

- Para quê?

- Ora essa, seu tolinho. Porque nós vamos embora. Nada mais temos a fazer aqui... O Sr. Dunn já pagou as contas do hotel e não fez senão sua obrigação, já que seu jornal está-se enchendo à nossa custa. Vamos pegar o barco das sete que parte de Hollyhead.

- Não posso deixá-lo, Ella.

Ela olhou para ele espantada e logo depois assombrada.

- Nunca ouvi tolice igual em minha vida. Você não precisa dele e ele não precisa de você. Logo que sair do tribunal, ele irá se embebedar em algum bar. Ele que fique por lá. Quando voltar, verá que já fomos todos embora. . .

Paul sacudiu a cabeça.

- Não vou com vocês...

A moça ficou vermelha e seus olhos faiscaram.

- Quero avisar-lhe, Paul, que vai-se arrepender se não vier. Já aturei muita coisa por sua causa, por causa de nosso amor. Mas isso já é demais. Não aturarei mais. . .

Enquanto Ella continuava a repreendê-lo, a porta se abriu, e Paut viu entrar sua mãe e o pastor, ambos já vestidos para a viagem. Ele olhou para Paul e depois para a filha.

- O que há?

- Está havendo tudo, papai. Depois do que fizemos por ele aqui, Paul tem agora a coragem de dizer que não vai voltar conosco.

Fleming mostrou-se contrariado. Durante aquelas últimas semanas, ele sofrera muito, vítima de uma luta que se desencadeava no seu íntimo. Tinha alimentado esperanças quanto à regeneração de Mathry, mas tinha falhado lamentavelmente a despeito de todos os seus esforços e orações. Aquela derrota significava muito para ele e atingia as raízes de sua crença. E agora ali estavam sua filha e Paul, e a situação o deixava perturbado e atônito. Procurou contemporizar com chavões que ele já quase desprezava.

- Você não acha que já fez o bastante, meu filho? Você trabalhou tanto... de uma forma tão nobre...

A mãe juntou-se ao pastor, falando baixinho.

- Pois é, Paul. O melhor mesmo é você vir conosco...

- Afinal de contas, do ponto de vista moral, você não tem obrigação de ficar. - Fleming pensou um pouco e depois encontrou um meio-termo. - Ou talvez... nós poderíamos ir agora... e você voltaria depois.

- Ele vai-se arrepender amargamente se não vier conosco, papai...

- Cale a boca, Ella - interrompeu Fleming. - Será que esse seu egoísmo não tem limites?

A moça rompeu em prantos, sem se deixar vencer.

- No que me diz respeito, isto é o fim. Isso quer dizer que aquele velho maldoso significa mais para ele do que eu. Nunca mais falarei com ele. Nunca mais mesmo!

Pálido e com a testa franzida Fleming fez um esforço para se recompor e para apaziguar a filha, mas não adiantava. Ela já estava furiosa demais para se deixar levar pelas palavras do pai. A mãe de Paul, completamente arrasada pelo que passara naqueles dias. não se sentia com forças para ajudar o pastor. Só pensava em ir embora imediatamente.

Afinal, Fleming desistiu, pôs em paz sua consciência e salvou em parte sua dignidade, caminhando para Paul cuja mão apertou em silêncio durante muito tempo.

Alguns minutos depois, já todos tinham ido embora.

Paul mal podia acreditar. Sentiu como se um grande peso tivesse sido tirado de suas costas. Sozinho na sala, deixou-se cair numa cadeira soltando um profundo suspiro de alívio. Aquela sua resolução de ficar não fora premeditada, mas sabia que, por causa dela, ele jamais veria aquela moça. Sentia-se livre.

Sentado ali, imóvel, ouviu passos pesados no corredor e logo depois a porta se abria e seu pai entrava.

Paul olhou-o admirado. Ele, geralmente, só voltava para o hotel depois de meia-noite, já um tanto "alto". Não parecia ter bebido, mas via-se que estava cansado, que seus movimentos eram lentos e com um ar inteiramente desligado que não condizia bem com sua vitória recente. A roupa amarrotada não lhe assentava bem, estava rasgada embaixo do braço e havia respingos nas lapelas. A mancha de lama no joelho, resultante de algum tombo, tinha sido precariamente limpa. Arrastou-se até uma cadeira onde se deixou cair e olhou para o filho. Parecia esperar que o outro falasse primeiro, mas quando viu que isso não acontecia, resolveu falar ele mesmo.

- Eles já deram o fora?

- Sim.

- E não era sem tempo, já foram tarde. - Depois então, com um toque daquela aspereza que lhe era peculiar, ele acrescentou: - E o que você ainda está fazendo por aqui? Acho que está esperando para pegar um pouco da minha grana, quando eu a receber...

- É isso mesmo - concordou Paul, calmamente. Ele chegara à conclusão de que aquela era a única maneira para responder às tiradas sardônicas do pai. E a resposta, realmente, fez calar o outro que, no entanto, lançava-lhe de quando em quando aqueles seus estranhos olhares, ao mesmo tempo que mordia o lábio superior, como se, ainda uma vez, esperasse que o filho lhe falasse alguma coisa. Quando não agüentou mais, perguntou:

- Será que perdeu a língua? - Não.

- Já comeu?

- ja, agora mesmo, pedir alguma coisa.

- Então peça para mim também...

Paul foi ao telefone do quarto e pediu que servissem um jantar para dois ali mesmo. Continuou calado, de propósito, e pegou num livro enquanto esperavam o jantar.

Este não demorou para chegar e constava de uma sopa, carneiro assado com batatas e ervilhas, e torta de maçã, tudo coberto com tampas duplas para não esfriar. E então sentaram-se em silêncio. O velho comeu com menos apetite do que o comum e, em poucos minutos, parecia estar satisfeito. Sem mesmo terminar a sobremesa, Rees se levantou e foi até a poltrona onde começou a encher o cachimbo muito devagar e depois acendeu-o. Fazia pouco tempo que ele começara a fumar cachimbo. Sua aparência era a de um velho bem cansado. Afinal não se conteve mais.

- Você não está admirado de me ver tão cedo assim em casa? Agora que o show terminou, eu devia estar me esbaldando por aí...

- Nada que você faz me surpreende mais...