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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM MERGULHO NAS TREVAS / Rubens Saraceni
UM MERGULHO NAS TREVAS / Rubens Saraceni

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UM MERGULHO NAS TREVAS

 

O MESTRE DA ESTRELA

O Divino Criador havia aproximado Salete de mim não por acaso. Ele já preparava o terreno para a nossa semeadura. Nosso reencontro significava muito trabalho pela frente. De minha parte, eu já havia localizado e me harmonizado com as outras sete mulheres que me haviam sido destinadas, restava apenas uma que ainda vivia na carne, mas que logo se reuniria a nós.

A oitava mulher era uma escrava negra que um dia, com o auxílio divino, eu salvara de uma picada de cobra. Foi por estar na carne que eu nada falei sobre ela. Cumpria mais uma missão junto aos nossos irmãos encarnados. Era uma poderosa mãe de santo no rito africano e magnífica benzedeira, procurada até pelos ricos senhores de engenho.

Ruth, a minha nobre princesa negra e seu pai, o velho amigo João de Mina, eram seus mentores espirituais e guiavam-na pela senda luminosa do culto à natureza do panteão africano.

Eu, sempre que possível, visitava-os e orava por aquela mulher maravilhosa que era o bálsamo de enfermos do coipo e da alma. Como poderia deixar de amar alguém tão maravilhoso quanto ela? Só por que era uma negra e escrava?

Quem pensa assim é por que não sabe das coisas do amor. Pensa que sabe mas está enganado, só conhece o mistério do desejo das formas, nada mais.

Quanto a mim, fui ter com o mestre Han.

Como vai, guardião Saied?

Muito bem mestre Han, o vaso transborda!

Então está na hora de espalhar a água da vida aos que têm sede, filho meu.

Gostaria de tê-lo como mentor dos passos que vou dar, mestre de mestres e luz do meu saber.

Está preparado para integrar-se ao Grande Oriente Luminoso?

Sim, mestre de mestres.

Sente-se suficientemente equilibrado para ser um mestre, filho meu?

Sim senhor.

Saiba que não será fácil. Onde os guardiões dos mistérios designarem, terá que servi-los com toda a dedicação e amor que o vaso sagrado lhe derramou.

Não sei do quanto eu sou capaz, mas o que souber ou puder não deixarei de fazer.

Então dê-me suas mãos. Eu vou conduzi-lo à morada dos guardiões dos mistérios da criação. Se for aprovado pelos vinte e um guardiões, as portas do Grande Oriente Luminoso se abrirão para você e terá tudo o que precisar para bem realizar algo grande e luminoso. Tudo em honra e graças à bondade do Criador de Tudo e de Todos.

Ainda sou um discípulo seu! Mostre-me a senda luminosa que devo trilhar para me tornar mais um dos incontáveis mestres formados pelo seu saber, luz do meu sa­ber.

Vamos, filho meu. O Grande Oriente Luminoso já nos abre sua porta luminosa. Trilhemos a sua senda.

Neste momento um facho de luz dourada chegou até nós e fomos levados por ele. Mestre Han depois explicou que esta é a única via de acesso para o mais elevado plano espiritual, onde se localiza a sede do Grande Oriente

Luminoso. Ninguém chega até ele se não for levado por aquele facho de luz dourada.

Um segundo depois já nos encontrávamos na sede do Grande Oriente Luminoso. Então me veio a fascinação pelo que eu via. Se me foi difícil falar das coisas do amor, agora me é impossível falar da beleza e harmonia do lugar. Só posso dizer que eu estava fascinado. De vez em quando eu parava um pouco para observar os detalhes. Logo era alertado pelo meu mestre!

Vamos filho meu, alguém nos aguarda. Não percamos tempo com detalhes. O que interessa a você é o que há no interior deste local sagrado.

Desculpe-me, senhor, mas estou fascinado. Sim, esta é a palavra. Tudo aqui me fascina e encanta!

Quando cheguei aqui pela primeira vez causou-me a mesma sensação. Agora façamos silêncio pois não nos é permitido falar.

Eu o segui em silêncio. Logo adentramos um pórtico luminoso encimado por uma estrela. Reconheci-a de imediato. Era a Estrela Guia, o primeiro dos sete símbolos sagrados.

Quando já estávamos em seu interior um ser sem feições, pois era apenas uma luz, veio ao nosso encontro e nos conduziu até um imenso salão, que era todo formado por luzes. A harmonia luminosa era fantástica. As formas eram perfeitas e as cores extasiantes. Muitas luzes de moviam no seu interior. Eram espíritos que já não possuíam forma humana. Haviam se libertado do carma reencarnatório há milênios e ali serviam aos guardiões dos mistérios. Ninguém falava nada, tudo eu intuía apenas de ver.

Mestre Han assentou-se diante de uma pedra verde. Nem a mais bela das esmeraldas possuía sua beleza , e nem o mais puro dos cristais possuía sua pureza. Ele era o mago da pedra verde! O grande M.. L.. da luz verde. Isto eu já sabia, mas desconhecia que ele tivesse assento na sede do Grande Oriente Luminoso. Sentei-me atrás dele e procurei me desligar dos detalhes.

Pouco depois o recinto foi totalmente tomado por seres luminosos. Era o momento da chegada dos vinte e um guardiões dos mistérios. E então eles surgiram à minha frente. Quanto esplendor! E que fidalguia nos semblantes...

Devo dizer que o dom da voz ali não era necessário. Tudo era dito através dos olhos. Um olhar dizia tudo, e eu me lembrei do meu pai, quando ainda na carne: quando eu fazia ou dizia algo que o desagradava, ele me encarava e, sem dizer nada, eu já sabia o que ele estava-me "dizendo".

Quando na carne, somos somente uma imitação imperfeita do mundo espiritual, trazemos em nosso mental adormecido tudo o que aprendemos no mundo maior.

Como eram maravilhosos os vinte e um guardiões da lei! Havia sete para o plano superior, sete para o plano infe­rior e sete para o plano carnal. Sete são as linhas de atuação na natureza e vinte e um, os guardiões, um para cada plano. Ali também havia sete símbolos que eu já conhecia, mas somente agora eu os via no todo. É cada um se dividia em outros onze, que por sua vez dividiam-se em outros setenta e sete. Tudo como eu aprendera junto aos magos do Oriente quando ainda caminhava na carne. Também confirmavam o que eu tornara a estudar no Templo Dourado do mestre Han.

Mas agora eu chegava até a casa-mater que os vivificava. Era dali que provinha a força contida em cada um deles. Tudo o que me foi dito, exigido e ensinado durante longos anos de aprendizado, estava agora na minha frente.

Muito pouco posso dizer a respeito do que foi falado ali, na sede onde os guardiões dos mistérios habitavam. Devo dizer que são os mesmos para qualquer religião. Apresentam-se conforme a concepção que cada um faz deles.

Muitas nem os conhecem porque julgam que eles não existem. Estão enganados, mas mesmo assim são guiadas pelas leis que regem toda a criação, pois só aceitam tal princípio os entes humanos que ainda não estão aptos a penetrar nos mistérios sagrados da criação.

Se não estão aptos, por que exigir tal coisa deles? Mesmo aqueles que já se acham preparados cometem enganos e erros imensos quando começam a absorver os mistérios. Melhor viver na ignorância de tais mistérios, que absorvê-los e deturpá-los. Este é um dos princípios básicos do símbolo da lei, o que rege a aplicação da Lei Maior entre os encarnados.

Devo dizer também que me foram mostrados todos os erros e enganos cometidos na aplicação deste princípio em todas as minhas encarnações terrenas. Então eu tive consciência dos enormes erros e enganos cometidos quando envolto na pele do cordeiro. Ali eu fiquei sabendo o porque de tantas dificuldades em minhas encarnações, e de como eu poderia ter agido de forma mais prática ou mais sutil para atingir os meus objetivos. Eu sempre fui impulsivo e cometi enganos monumentais.

Mas agora era o tempo de repará-los por todo o sempre. Se falhasse de agora em diante, seria por burrice e não por ignorância.

Depois que tomei conhecimento das formas de procedimento em relação aos erros cometidos, foram mostrados a mim os acertos, e isso me tranqüilizou um pouco. Afinal, se eu era guiado por meu ancestral místico, por que ele não intervinha quando eu errava?

A resposta me veio na forma de um enigma: será que eu entendi certo e ensinei errado? Ou entendi errado e por isso ensinei errado? Ou talvez eu tenha sido muito perfeccionista nos meus ensinamentos, e não consegui transmitir claramente tudo o que devia ter ensinado? Ou teria eu vivido de forma mais prática do que aprendi e acabei descuidando da preparação de sucessores? Talvez por isso muitas vezes meus esforços foram em vão quando falava das coisas divinas. Ou será que eu falei certo mas a pessoas erradas? Ou será que entenderam errado tudo que eu procurava colocar com tanta perfeição? Também poderiam não saber usar corretamente o que tão bem eu os ensinava. Muitas outras alternativas ainda me foram colocadas pelos guardiões dos mistérios. Eu os ouvia e aguardava o momento certo de me justificar.

Quando eles se calaram, eu fiquei meditando sobre suas colocações. Eu sabia a resposta para o enigma de minhas vidas passadas, todas elas dedicadas a propagar, de uma forma ou de outra, as coisas divinas. E lembrem-se que estou me referindo a sete mil anos de encarnações sucessivas, não à última apenas! Eram sete mil anos de lutas, lágrimas, sorrisos, vitórias e derrotas, todos dedicados em honra e glória ao Criador! Algumas foram grandiosas e deixaram sementes eternas, outras foram de lágrimas, lágrimas e lágrimas!

Mesmo ali, diante dos guardiões dos mistérios sagrados de toda a criação, eu chorava o meu passado quando o via tão claramente como agora. O prato da vitória pesava mais que o prato dos insucessos, mas eu não me conformava. Por que tantas coisas erradas maculando um passado, todo dedicado às coisas divinas?

Eu sabia qual era a resposta, mas não ousava dizê-la. Não diante dos guardiões, pois eles também a sabiam, e se eu tentasse me justificar, estaria negando minha condição de guardião dos símbolos sagrados.

Ali, eu era isto: um guardião dos mistérios dos símbolos sagrados, um dos setenta e sete mil guardiões menores que têm por regra primeira vir à carne todas as vezes que assim determinar um dos quatro ancestrais místicos: o da luz do saber, o da luz da vida, o da luz da lei e o da luz das formas e da transformação. Ora servia a um, ora a outro, mas sempre guiado pelo ancestral místico da luz do saber. E como tal, não podia esmorecer! Como um guardião pode se abater quando há tanto por ser feito?

Se eu pronunciasse a resposta, estaria negando minha própria condição de guardião. E isto eu não faria nunca! Jamais negaria minha condição de espírito criado para a disseminação das coisas divinas. Preferiria ser lançado no negativo do meu ancestral místico, ou seja, nas trevas da ignorância, a negar a minha origem. Podia sofrer mil derrotas, que não negaria. Semearia as coisas divinas nos meios mais adversos, e mesmo assim não desanimaria. Isto era parte de minha natureza e eu não renunciaria a ela, ainda que o preço fossem as trevas da ignorância. Pensava em tudo isso rapidamente, em silêncio, sem olhar nos olhos dos guardiões dos mistérios sagrados.

Em dado momento elevei minha visão turvada pelas lágrimas das derrotas, não para os vinte e um guardiões, mas para além deles, e muito mais acima, e clamei do fundo de meu ser pensante: "Meu Deus, se tudo fiz, foi por honra e glória de Seu nome sagrado. E sei que o Senhor sabe que em tudo o que fiz, jamais me deixei levar pela vaidade ou orgulho, por ódio ou inveja às Suas criações, assim como sabe que, se em determinados momentos tomei ou deixei de tomar certas medidas, foi por me sentir fraco diante de Sua grandeza, e não ao contrário. O Senhor sabe também que se falhei foi porque me vi colocado na carne e em situações as mais adversas possíveis, mas jamais temi o Seu juízo porque jamais me julguei perfeito. Tudo o que eu fiz foi divulgar as Suas coisas sagradas da melhor forma que eu podia ou sabia, e jamais me furtei a este encargo que tanto me honra. E como me honra servir ao Senhor, meu Deus!"

Não falei mais nada, pois meu pranto já não podia ser contido. Eu já pronunciara as últimas palavras misturadas com o choro convulsivo que brotava de meu peito.

Abaixei novamente a cabeça sobre o peito e chorei minhas derrotas. As vitórias não me interessavam, mas as derrotas, como me incomodavam! No meu pranto sentido, eu as rememorava uma a uma e chorava todas elas, ali, diante dos guardiões dos mistérios sagrados.

Não sei o que eles disseram entre si. Mestre Han me falou mais tarde, pois eu não tinha coragem de encará-los mais, não depois de conhecer minhas derrotas e erros. Mas em dado momento, uma luz cristalina, muito poderosa, me envolveu e fui colocado em pé por sua força que me elevava. Neste momento, de cada um dos guardiões saiu uma luz dourada em minha direção. Como queimavam! Eu estava ereto e rijo. Mantive meus olhos bem abertos, apesar da dor que sentia. As luzes dos guardiões dos mistérios sagrados arderam em mim por um breve instante, cessando a seguir.

O guardião do símbolo da lei olhou-me fixamente e pude ler em seus olhos a sentença definitiva, comum a todos:

- Nós o seguimos em cada instante de sua existência, tanto como ente encarnado, quanto desencarnado. Nós conhecemos seu passado, presente e futuro. Nós o tivemos, temos e sempre o teremos como um servidor dedicado à divulgação dos mistérios sagrados. E como tal, nós reavivamos em você os sete símbolos sagrados da criação e seus vinte e um mistérios, os quais são sete do alto, sete do meio e sete do embaixo. Sete da Luz, sete da carne e sete das trevas. Honre-os como sempre tem feito e nos o honraremos com nossa proteção eterna. Tudo por honra e glória do Criador de tudo e de todos.

Nada mais me foi dito, mas eu ainda olhei cada um deles para jamais esquecê-los. A cada um eu dizia, com os olhos lacrimejantes: Obrigado!

Não era a mais rebuscada forma de agradecer, mas era a minha maneira pessoal de agradecê-los por terem em mim mais um dos muitos servidores. Não eram eles que deviam me agradecer mas eu a eles por confiarem em mim. Não é um superior que deve se sentir honrado com um inferior, mas o inferior é que deve se sentir honrado em poder servi-lo. Assim como não é um mestre que deve se orgulhar com um discípulo, mas sim o discípulo que deve se orgulhar do seu mestre.

Foi este sentimento que passei no meu olhar aos vinte e um guardiões dos mistérios sagrados. E eu tenho certeza que eles o acolheram pois o meu "obrigado" foi sincero, puro e verdadeiro.

E assim como surgiram, foram embora. Ainda hoje, alimento a esperança de um dia, após vitórias e derrotas, sorrisos e lágrimas, acertos e erros, poder revê-los. Quando isto poderá acontecer? Que importa o tempo que demorar? Deus não é eterno? Não é eterna Sua criação? Eternos não são os mistérios sagrados e seus guardiões? E eu também, não sou eterno, um espírito imortal e uma das infinitas criações de Deus? Então, que importância tem o tempo que irá passar até este outro encontro, se o tempo é eterno? Até lá, irei acertando e errando, sem jamais abdicar de minha condição de um dos setenta e sete mil guardiões dos mistérios que estão ligados à propagação das coisas divinas, tanto na carne como em espírito. A única coisa que peço é que possa sempre trilhar a senda da luz do saber das coisas divinas, nada mais!

 

RETOMANDO A CAMINHADA

Mestre Han levantou-se e, olhando para mim, falou:

- Olhe-se guardião. Saia e veja como está seu corpo.

Eu abaixei meus olhos e notei que estava nu. Minha roupagem espiritual havia desaparecido e restava apenas meu espírito puro, sem nada a cobri-lo. Senti-me envergonhado por estar nu em recinto sagrado. Ele notou meu incômodo e tornou a falar:

- Não foi para isso que mandei você se olhar, mas sim para ver os símbolos marcados pela luz dos vinte e um guardiões maiores dos mistérios sagrados.

Só então eu os vi em todo esplendor e grandeza que caracteriza cada um deles. Eu havia passado pelo crivo dos vinte e um símbolos, por isso fui marcado por todos. Já não me importava mais com minha nudez. Minha veste espiritual havia sido dissolvida pela luz cristalina que me envolveu. Isto foi o que me disse mestre Han!

- Vê agora, guardião Saied? O Criador todo poderoso o elevou e o colocou como um dia Ele o criou, sem nada para cobri-lo, diante dos guardiões da lei. Ao clamar por Ele, você se dignou ante os vinte e um guardiões. Esta é a verdade maior que todos deveriam saber. Podemos estar diante dos maiores, mas só devemos procurar o perdão ou a compreensão de Deus por nossas falhas ou erros ou pecados. Só Ele, em verdade, sabe a origem e causa de tudo, pois tudo é Seu, desde o mais primitivo dos espíritos até o próprio ser planetário que vivifica o mundo em que estamos. Seu gesto, nesta situação, o tornou merecedor do reconhecimento com o qual lhe honraram os vinte e um guardiões.

Eu fiz o que fiz porque era o que eu sentia naquele momento, mestre de mestres. Meu ser clamou o que sentia, nada mais.

Pois é isto, filho meu. O que diz o Guardião da Lei?

Honre a um só Deus, pois dois não existem.

E o que diz o Guardião da Fé?

Tenha fé em um só Deus, pois dois não existem.

E o que diz o Guardião do Amor?

Ame a um só Deus, pois dois não existem, e se ama a mais de um é porque não ama a nenhum.

E o que diz o Guardião da Vida?

Ame a um só Deus Criador, pois dois não existem, e se ama a mais de um é por que está morto e não sabe.

E o que diz o Guardião da Razão?

Ame a um só Deus, pois amar a mais de um seria irracional.

E o que diz o Guardião das Trevas?

Ame a um só Deus, pois quem amar a dois, na verdade estará cultivando as trevas.

E o que diz o Guardião do Saber?

Ame a um só Deus, pois se tiver mais de um, não terá nenhum.

Então?...

Mestre Han tinha por hábito ntão dar a conclusão dos seus raciocínios, deixava para que seus discípulos tirassem suas conclusões.

-           Então eu fiz o que fiz, ainda que passando por cima da autoridade dos vinte e um guardiões, somente porque achei que eles, assim como nós, são servidores do único e indivisível Criador.

- Sim, filho meu. Só Deus pode dizer se você agiu certo porque assim Ele quis ou se errou porque assim Ele permitiu. Quando nós servimos com fé e amor, justiça e sa­ber, razão e lealdade, tudo é guiado por Ele. Tudo mais são meios que Ele tem à disposição para que sejamos conduzidos através dos caminhos que pertencem unicamente a Ele e a ninguém mais. Os guardiões são só o que dizem os seus nomes: guardiões das leis da criação. Executam o que, num tempo imemorial, lhes designou o Criador de tudo e de todos. Como tal, velam para que as coisas divinas nunca sejam esquecidas pelos espíritos e também para que ninguém passe uma encarnação sem ao menos saber que Deus existe e que todos são regidos por Suas leis eternas e imutáveis.

Isto eu conheço bem, mestre de mestres. Mesmo os índios que viviam isolados há milênios, sem contato com qualquer outra cultura, sabiam que havia um Deus Criador e uma hierarquia regente que possuía poderes sobre a natureza e por isto eram chamados de gênios da criação.

Vê como até entre eles, sem escrita alguma, a luz do saber das coisas divinas se fazia presente?

Sim. Ainda que fossem guiados pelo ancestral místico da luz da vida, possuíam a luz do saber das coisas divinas adaptadas ao seu meio de vida. Ninguém sabe mais ou menos sobre as coisas divinas, apenas absorve o que o meio permite ou oferece ou obriga a conhecer a respeito da natureza divina.

Você já é um mestre, guardião Saied. Atingiu o grau máximo que nos é permitido alcançar. Mais que isto só se o seu ancestral assim designar. Nada mais podemos lhe dar.

Como não, mestre Han?

Explique-se, mestre Saied!

Eu sinto que é hora de me lançar em uma nova caminhada. Preciso dos seus sábios conselhos para me guiar.

O que pensa fazer?

Primeiro, conhecer todo o Grande Oriente Luminoso e ver como posso obter auxílio caso necessite. Depois, reunir alguns amigos e iniciar algo parecido com o Templo Dourado, próximo ao Brasil. Se possível, sobre o seu espaço.

Não nega o seu cargo junto ao Grande Oriente e nem sua origem, mestre Saied. Eu sabia que algo grande e iluminado nasceria quando você atingisse o grau máximo.

Ainda não sei se é possível ou se os guardiões permitirão, mestre Han.

Sua iniciativa será apoiada, meu filho. E posso afirmar que receberá mais auxílio que imagina.

Assim espero, mestre de mestres. Não negarei minha origem nem meu ancestral místico. Tão pouco vou deixar de honrá-lo como mais um dos milhares que se tornaram mestres graças ao seu saber, mestre Han!

Já me honrou com a conquista do seu grau. Tudo o que fizer de agora em diante que seja em honra ao Criador.

Sabe o que mais admiro no senhor, mestre Han?

Não. O que é?

Seu desprendimento quanto a honrarias, elogios e tentativas de agradecimento por parte dos que, um dia, acolheu tão amavelmente.

Algum dia eu lhe pedi algo, mestre Saied?

Não. Mas o que me pedir eu farei.

Procure nunca permitir que alguém faça estas coisas tolas com você. Só assim poderá ver a todos com os mesmos olhos e extrair o melhor juízo das ações de cada um. Nunca negue apoio a quem queira ou tenha, por menor que seja, a possibilidade de galgar um degrau na Luz. Mas também não fique a elogiar alguém, porque com isto só estará atrapalhando sua evolução. Cada um deve ter consciência de que tudo o que fez, faz ou fará em beneficio dos semelhantes deve ser creditado ao Criador, e nada mais é que uma retribuição de nossa parte à confiança depositada por Ele em nós, Sua criação.

Jamais me esquecerei disso, mestre Han. Guardarei isso em meu mental como uma lição pessoal do senhor.

Então, vamos visitar as sub-sedes do Grande Oriente Luminoso.

Mestre Han colocou suas mãos sobre meus ombros e novamente eu me vi vestido. Quão elevado era ele!

Nos dias seguintes, levou-me a conhecer todo o Grande Oriente Luminoso. Em cada local onde chegávamos, éramos recebidos com alegria. Reencontrei muitos amigos do passado longínquo. Em todos reinava a mesma harmonia.

Fiquei maravilhado com o que vi. Só podia me sentir feliz vendo a imensidão de servidores abnegados que possuía o Criador. Tudo isso fortalecia em mim o amor pelos seres humanos. Quanto mais observamos as obras que o Criador nos confiou, mais os amamos.

O ser humano é grande. Basta que vejamos o que faz e já nos convencemos dessa grandeza.

O último lugar a visitarmos foi a sede do Grande Oriente Luminoso no Brasil. Lá, já nos aguardavam todos os seus mestres dirigentes.

Mestre Han sabia se antecipar aos nossos desejos! Quem estivesse em sua companhia podia ficar despreocupado quanto a isso. Se eram nobres, ele os tornava possíveis de serem realizados; se não o eram, ele os extinguia em nós.

Depois das apresentações fui inquirido em como pretendia iniciar meu projeto de auxílio aos semelhantes. Comecei a explicar a eles que iria usar os conhecimentos adquiridos junto ao Templo Dourado e também tudo o que eu vira em minhas caminhadas quando procurava me harmonizar com meu passado. Fui apoiado por todos os mestres dirigentes. Também soube de algo que me deixou muito feliz. O Cavaleiro do Mar era um dos dirigentes do lugar. Eu já o conhecia porque tivera contato com ele em anos recentes. Mas também o identifiquei como um dos grandes mestres que tive a honra de ter no passado longínquo.

Devo dizer que entre nós, se já havia laços antigos, dali em diante só se tornaram mais fortes, pois tínhamos muito em comum.

Até hoje ainda conservamos os laços que criamos com o tempo e o amor. Como mestre Han, logo ele se tornou uma mão amiga me auxiliando em minha intenção de realizar algo em prol dos espíritos menos favorecidos.

Após ter recebido total apoio, voltei ao Templo Dourado com mestre Han.

Perguntei-lhe se fazia aquilo com todos os seus discípulos.

Não, mestre Saied. Só com os que eu, olhando o seu passado, vejo que já se sacrificaram em missões nobres e, olhando seus futuros, vejo bons frutos a serem colhidos pelas sementes que estão semeando. A estes, eu me dedico por inteiro porque sei que deles só brotarão árvores da vida.

O senhor é o mais abençoado dos mestres que eu já conheci. Deus permita que eu possa, um dia, ser um espelho límpido e que possa refletir sua luz aos que procurarem um pouco de luz em suas vidas.

Já está esquecendo do conselho que lhe dei, mestre Saied!

Não é bajulação, mestre de mestres. Se há alguém em quem me espelho, este alguém é o senhor. Não quero ser grande nem poderoso e tão pouco almejo outra coisa que não servir ao Criador. Mas espero nunca me tornar indigno de seu amor, afeição e amizade. Só peço que nunca se esqueça de mim, mestre Han.

Tenha certeza que isso jamais acontecerá, filho. Você só faz com que eu me sinta útil ao Criador. Se não fosse por seres iguais a você, de que me serviria tanto saber? Onde eu o usaria? Cada vez que o Criador me envia alguém como você, eu me sinto honrado por ser lembrado por Ele e isto me faz muito feliz. Afinal, quem não ficaria feliz, sabendo que Deus confia nele e que o que tem que fazer é só amparar a árvore, tenra ainda, que só quer crescer para poder dar bons frutos e uma sombra onde muitos possam descansar um pouco quando cansados de suas jornadas rumo ao Criador?

Mestre Han calou-se. As lágrimas corriam de seus olhos. Era a primeira vez que eu o via chorar em tantos anos. Como estava emocionado o meu amado mestre! Era um pai se despedindo de mais um filho que iria partir. Foi um pai amoroso que tive a honra de ter por duas longínquas encarnações. Em seu coração, sempre fui um filho amado.

Abraçamo-nos comovidos. A grande árvore do saber que era ele, dava mais um fruto. Foi um longo abraço de dois espíritos que se amavam.

Após prometer-lhe que voltaria assim que tivesse iniciado meu projeto, parti.

Ainda hoje, muito distante de mestre Han e seu maravilhoso Templo Dourado, sei que não se esqueceu de mim. Um dia voltarei a reencontrá-lo para ser novamente despertado para o mundo maior. Quando isso acontecerá, não posso saber, mas com certeza ele sabe qual é o tempo certo para tal reencontro. Isto eu sei porque já o revi, uma vez, em sonho e o reconheci como o incansável mestre de mestres.

Mestre Han é o joalheiro que recebe pedras preciosas em estado bruto e, depois de lapidá-las como só os bons artesãos sabem fazer, aquilata cada uma delas. Em seguida, distribui as "pedras" como só os mestres da Luz sabem fazer. Preparam as mais brilhantes e valiosas, mas não as incorporam às suas coleções de preciosidades. Muito ao contrário, enviam-nas onde a pobreza de luz se mostra gritante.

E foi isso que aconteceu comigo.

Após partir do Templo Dourado, fiquei sem um lugar que me servisse de morada. Adorava meus pais, mas não me sentia à vontade na casa deles.

Poderia ter ido para junto de Raios de Lua, mas, creio eu, só iria incomodá-la e desviá-la do serviço maravilhoso que fazia junto a seu povo com o auxílio do pajé Anhanguara, de Sol da Manhã e sua companheira inseparável, Lua Branca.

Também havia o pajé Tamoio, um amigo do passado que reencarnara entre os indígenas. O velho feiticeiro era a reencarnação de um mago que muito me ajudara numa encarnação longínqua, quando de minha estada junto ao templo da esmeralda no antigo Lairmen, hoje Yêmen. Já era um mestre da magia naquela época, e só confirmou isso nesta última encarnação, junto aos indígenas brasileiros.

Ás vezes fico imaginando que o Criador nos dota de uma natureza especial, e por causa disso, não importa qual a profissão que exerçamos na terra quando encarnados, sempre teremos esta compulsão em nos aproximarmos do nosso "eu" interior, a natureza que nos deu o Criador.

Poderia ir até Soraya. Mas não achei justo desviá-la de seu trabalho meritório junto aos irmãos menos favorecidos com a luz do saber das coisas divinas que haviam caído ao longo caminho. Talvez eu devesse ir para junto dos negros amigos. Afinal, lá havia o velho João de Mina, seus filhos Ruth e Marinho, pai Jorge, pai Moisés e centenas de outros amigos. Mas estavam todos eles envolvidos com o amparo espiritual aos irmãos negros escravizados.

Salete já tinha serviço demais no hospital e minha presença só iria tumultuar um pouco mais sua vida já sem tempo para outra coisa que não aqueles que desencarnavam.

Só me restou Sarah. Sim, Sarah! Junto a ela eu poderia iniciar o que me propusera. Foi pensando nisso que parti ao seu encontro. Só que não a via desde nosso último encontro, à beira-mar, quando fomos abençoados com a aparição maravilhosa do gênio das águas, a senhora da coroa estrelada.

Dela eu não tivera mais notícias. O único que poderia me conduzir até ela, era o Cavaleiro do Mar. Volitei-me e fui ao seu encontro. Logo estava em frente a ele.

Salve, Cavaleiro do Mar!

Salve, Cavaleiro da Estrela da Guia, algum problema?

Não senhor. Eu gostaria de saber onde está Sarah.

Por que, Cavaleiro?

Acho que poderia me unir a ela para realizar meu plano na crosta terrestre.

Impossível, ela não está disponível Cavaleiro. Você se demorou demais em escolher um caminho. A guardiã do ponto de forças do mar já a requisitou.

Eu me entristeci de imediato. Era uma surpresa para mim tal incumbência confiada à minha querida Sarah. Não contava com isso! O Cavaleiro do Mar, vendo minha tristeza, procurou confortar-me.

- Não se preocupe com ela, Cavaleiro. Sarah tem a proteção da rainha do mar, não está desamparada. Além disso, seu trabalho é de grande importância junto às falanges negativas.

Não me fiz de indiferente:

Qual o tipo de trabalho, Cavaleiro do Mar?

Se você prometer se controlar, eu o levarei até ela.

Tem minha palavra.

Então, desfaça sua forma plasmada e me acompanhe.

Eu me transformei num ponto luminoso e o segui. Segundos depois, avistei Sarah à beira-mar. Já não era a minha Sarah meiga e delicada que eu via, mas uma mulher, ainda que bela, pois jamais sua beleza se apagaria, profundamente triste. Sua luz natural havia se apagado. Seu sorriso encantador dera lugar a um rosto triste. Sarah estava marcada pela solidão. Trazia na mão esquerda um cetro com os símbolos do ponto de forças do mar. Sarah era, agora, uma guardiã do ponto de forças cósmicas do mar.

Quanta tristeza eu senti com aquela visão. Pedi licença ao Cavaleiro do Mar para me retirar porque já não estava conseguindo me manter na forma de luz.

Quando nos afastamos do seu posto junto à guardiã do ponto de forças do mar, voltei à minha forma antiga.

A imagem de Cavaleiro da Estrela da Guia se apagara em mim. Voltava a ser o velho e triste Simas de Almoeda. Regredi décadas em poucos minutos. Meu coração, antes luminoso, apagara-se. Não conseguia dizer nada, só olhava para o Cavaleiro do Mar sem entender o porque de a terem lançado nas trevas. Ele tomou a iniciativa do diálogo.

Lembre-se que agora você é um mestre da Luz, Cavaleiro da Estrela da Guia. Não pode se deixar cair tão facilmente como fez há pouco.

Sou um idiota desprezível, Mago da Luz Cristalina. Como fui estúpido!

- Por que diz isso?

- Eu não devia tê-la abandonado quando do nosso último encontro. Novamente estamos separados por barreiras intransponíveis.

- Você não poderia evitar uma ordem da rainha do mar. Ou pensa que poderia alterar o destino dela?

Eu poderia não alterá-lo, mas teria seguido junto a ela para o outro lado.

Acha que seria feliz do outro lado?

Acaso ela está feliz?

Mas ela foi preparada para tal missão. Eu a preparei muito bem, mestre da Estrela.

Então, por que a tristeza em seu rosto? Será que o senhor escolheu a pessoa certa?

Sim, minha escolha foi muito bem avaliada. Sarah será, com o tempo, a melhor guardiã deste ponto de forças. Eu a acompanho há milênios, e conheço todo o seu poder e firmeza quando direcionada para um objetivo. Do ponto de forças do mar ela poderá doutrinar, educar e enviar para a lei muitos espíritos que hoje vagam sem rumo nas trevas do mar.

Ótimo trabalho para alguém que teve o inferno como companhia em sua última encarnação, não, Cavaleiro do Mar?

Você está muito confuso para o grau que atingiu, filho. Será que já se esqueceu do passado?

Não. E é por isso que não me conformo. Até quando ele vai nos perseguir?

Você sabe a resposta. Basta que aguarde o fim da sentença.

É uma sentença eterna. Jamais terá fim!

Um dia ela cessará e neste tempo já não haverá mais nada a separá-los.

Quando será, Cavaleiro do Mar?

Ainda não sei, mas quando souber, aviso. Você será o primeiro a saber.

-Até lá...?

-Eu cuidarei bem dela. Sou o responsável pelo trabalho que ela desenvolve.

O senhor não tinha uma outra para tal missão?

Não fui eu quem a escolheu. Quando eu soube, o máximo que consegui foi trazê-la para junto de mim. Acredite, foi o máximo que pude fazer.

Eu acredito no senhor. Mas diga-me, quem a escolheu?

Foi a própria guardiã do ponto de forças. Ela é guiada pelo ancestral místico da água. Traz em seu cetro todo o poder sobre as trevas do mar.

Então é melhor que eu a esqueça. Jamais a terei ao meu lado.

O tempo solucionará tudo.

Sim, o tempo. O eterno tempo tudo soluciona. De tanto esperar que ele passe, acabamos esquecendo que aguardamos, e então o tempo soluciona tudo.

Você está se deixando abater pelo negativismo.

O senhor conhece minha natureza. Sabe que obstáculo algum impede que eu me levante após uma queda, mas isso que sinto agora, não sei como definir.

Aguarde um pouco. Quando eu conseguir, levarei você até ela.

Eu sei que posso confiar no senhor. Agora peço sua licença, vou me retirar.

Lembre-se que até há pouco você tinha um belo projeto de vida. Não deixe que morra por causa da tristeza que se instalou em seu coração.

Agora já não sei por onde começar meu projeto. Talvez nem o inicie mais. Até a vista, Cavaleiro do Mar!

 

Até a vista, Cavaleiro da Estrela da Guia. Eu o olhei e disse com um pouco de ironia:

Cavaleiro da Estrela da Guia, não!?

Parti muito triste. Não volitei meu ser, não tinha lugar algum para ir.

 

A VOZ DO SILÊNCIO

Saí do local, uma sede do Grande Oriente, caminhando. Caminhava devagar. Já não havia mais pressa alguma. Afinal, para que correr se meu sonho havia sido desfeito?

Eu vinha sonhando com a possibilidade de voltar até Sarah e juntos iniciarmos algo grandioso. Tudo se enfumaçara, tal como a neblina que eu via à minha frente. Ainda me virei para dar uma olhada na grandiosa sede. Sob o seu portal luminoso, eu avistei a figura do Cavaleiro do Mar. Ele me seguia à distância sem nada poder fazer para me consolar. Acenou-me com a mão direita. Eu retribui o aceno e voltei a caminhar lentamente rumo à espessa neblina. Aquele era o limite entre a Luz e as trevas.

Não me incomodei em avançar para seu interior. Que me importava a Luz?

Eu, um Cavaleiro da Estrela da Guia!? - Meu grito ecoou através da neblina acinzentada como uma contestação ao meu próprio grau, conquistado com tanto esforço e dedicação.

Eu não sou nada! - tornei a gritar com toda a potência de meus pulmões.

Caminhava indiferente a tudo. Lamentos, gritos e gemidos de dor eram comuns nestas paragens, mas eu não os ouvia. Seus habitantes eram espíritos deformados, seres que haviam caído ante a Lei Maior, entes infernais e outras aberrações, mas eu não os via e se via não lhes dava maior atenção. Alguns que tentavam barrar meu caminho eu afastava empunhando, ameaçador, minha longa espada.

Eu que não a puxava por bobagem, agora a empunhava ameaçador. Ai de quem ousasse ficar na minha frente! Eu o despedaçaria em poucos golpes.

Eu mergulhava nas trevas da amargura, da dor e da tristeza. A Luz já não me atraía mais. Já não sentia mais prazer algum em viver nela. Eu havia dado um mergulho nas trevas.

Caminhava lentamente, sem me importar com mais nada. Se Sarah não podia ficar na Luz, melhor seria eu viver nas trevas. Não me sentia bem, no meu conforto, sabendo que ela não o conheceria. Se Sarah não podia alcançar a Luz, por um desejo da rainha do mar em tê-la à sua esquerda, eu podia facilmente fugir da Luz e caminhar nas trevas. Eu, que pouco tempo atrás havia estado junto aos guardiões dos mistérios sagrados, me via derrotado mais uma vez. Afinal, para que lutar para subir se é tão fácil descer? Por que culti­var o amor, se num instante o tiram do nosso alcance? Por que almejar algo que não está ao nosso alcance? Melhor seria desaparecer nas trevas e não mais lutar.

Foi pensando nisso que o peso dos milênios se fez sentir em meus ombros. Senti-me cansado e desiludido. Por que todas as outras mulheres podiam viver na Luz e Sarah não? Por que o seu ancestral místico lhe fechava a porta da Luz toda vez que ela estava tão próxima de mim?

Confesso que tudo que eu aprendera ou cultivara das coisas do amor já não me interessavam.

Eu podia ter convidado Raios de Lua, ou Soraya, ou Salete, ou meus pais, e até mesmo Ruth e seus amigos negros, que me acompanhariam com muita alegria ou até me acolheriam com muito amor, mas não era isso que eu queria.

- Sarah! Por que tudo isso? Quando posso vê-la é o momento em que está mais longe. Por que tudo isto?

Após estas palavras, olhei à minha volta. Era um lugar solitário como Sarah e eu. Recostei-me a uma árvore seca e calei-me. Para que falar? Para que pensar mais? Depois de caminhar sem direção por tanto tempo, eu já não o desejava mais. Depois de lamentar tanto, já não o faria mais. Depois de pensar tanto na minha desilusão, decidi que não o faria mais. Devia haver um motivo para que tudo tivesse que ser assim. Eu não iria mais lutar contra o meu destino. Assim como Sarah se conformou com o dela, eu me resignaria ante meu ancestral místico.

Deixei que o vazio absoluto tomasse conta de meu men­tal. Iria ouvir a voz do silêncio. O silêncio também tem voz. E como ele nos fala, quando deixamos que o vazio absoluto tome conta do nosso mental!

Se há um momento em que podemos ouvir o que realmente nos interessa, é deixando que o silêncio absoluto converse conosco. A voz que ouvimos é bálsamo curador para qualquer espírito magoado como eu.

E depois de um longo tempo de vazio absoluto, comecei a ouvir a voz do silêncio. Ela é tão silenciosa quanto ele, por isso devemos não pensar para poder ouvi-la. Se assim o fizermos, o silêncio gritará em nosso ouvido e seu grito ecoará em nosso mais profundo e oculto mental.

E o silêncio do vazio absoluto começou a me falar. E como era eloqüente:

Um dia eu provarei o seu amor em relação a mim. -Era meu ancestral místico que me falava.

Como poderia eu me elevar a uma esfera superior e deixá-lo para trás? Onde eu acharia outro igual a você? -Agora era Salete que me falava.

Uma a uma, fui ouvindo as vozes do silêncio. Minha mente registrava todas as suas palavras. E o silêncio falou, falou e falou!

Finalmente, quando ouvi o vazio do silêncio absoluto silenciar, eu abri os olhos e saí de minha posição de ser absolutamente vazio. Eu já não era mais um ser sem uma causa ou ideal. A última frase despertou em mim um desejo imenso de lutar:

- Filho meu! Eu sou você e você é uma de minhas partes. Portanto, faça com que eu reviva onde eu morri, ainda que nada mais lhe possa oferecer além do dom da vida.

Como foram belas, encorajadoras e abençoadas as palavras de nosso Criador, o Deus poderoso. Sua voz ecoa por todo o cosmo. Nós precisamos apenas nos colocar em silêncio absoluto para poder ouvi-La.

E eu conseguira ouvir a Sua abençoada voz, que nos põe em sintonia perfeita com o Seu mental universal e divino.

Tinha ouvido o meu ancestral da luz do saber, os meus amigos e também aqueles que me consideravam seu inimigo, ainda que assim eu não os considerasse.

Olhei para cima e nada vi além de uma espessa camada de neblina cinzenta. Ao meu redor, a visão era a mesma.

Dei uma gargalhada de alegria. Se alguém me visse naquele momento diria que eu era um espírito enlouquecido ou demente de tanto que eu ria. Sorria e chorava ao mesmo tempo. Além disso, eu orava em agradecimento ao Criador bendito. Finalmente eu O encontrara. Quem eu havia encontrado? Deus, é claro! Eu O havia encontrado em meu vazio absoluto, e no silêncio do vazio absoluto eu O ouvira claramente.

Eu já havia localizado meus amigos de jornada, meus amores eternos, meus mestres de sempre, os guardiões dos pontos de força da natureza, os vinte e um guardiões dos mistérios e meu ancestral místico da luz do saber.

Por estar envolvido com todos, eu não havia me dado conta de que um projeto voltado para as coisas divinas só viceja se ouvirmos a voz de Deus. Caso contrário, será só um projeto e nada mais.

Todos podem nos incentivar, pois, se é um projeto com fins nobres, os de nobreza de espírito nunca irão nos desanimar. Muito pelo contrário, só nos incentivarão. Então nós vamos alimentando o nosso projeto com nossos desejos mais nobres, e nossa concepção do que seja algo divino.

Deus nos reduz ao nada absoluto quando nos tira o que mais amamos e então lança Sua semente bendita que faz brotar em nosso interior a verdadeira árvore da vida, que dará muitos frutos saborosos e abençoados que alimentarão aos famintos e saciarão a sede dos sedentos da água da vida.

Eu estava tão feliz que nem percebi que uma brecha se abrira em meio à espessa neblina, bem sobre mim. Do alto jorrava a luz de um sol invisível. Eu não podia ver o sol, mas sabia como era chamado tal sol que consegue fazer com que a luz penetre tudo o que estiver à frente apenas para iluminar e aquecer, para que viceje a semente lançada por Deus no solo escolhido por Ele.

Eu era a semente lançada por Ele num lugar onde Ele havia morrido. Eu O faria reviver no meio das trevas e assim ele me ressuscitaria também. Se nós morremos, Deus morre conosco, mas para renascermos é preciso fazer com que Ele renasça em nós e conosco. E a luz foi aumentando à minha volta. Vi-me num vale ressequido evitado até pelos seres das trevas.

A primeira vista pareceu-me feio, muito feio, mas à medida que eu o observava, comecei a me encantar com ele. Como era lindo o pedaço de vale dado a mim pelo Doador da vida! Suas árvores retorcidas e ressecadas por gemidos e lamentos milenares, para mim se pareciam com belas e frondosas árvores frutíferas. Não eram nada disso, mas eu as via assim. Pois é assim que se tornariam um dia, com meu amor e dedicação a serviço de Deus.

Quando a luz parou de se expandir, vi um imenso vale todo iluminado. Quem o visse, diria que era feio aquele lugar, mas eu elevei meus olhos às alturas e disse:

- Obrigado, senhor meu Deus! Como é lindo o vale que me doou. Eu farei com que o Senhor reviva onde havia morrido. Deu a mim o dom da vida e o solo para ser cultivado e eu o farei por honra e glória do Seu santo nome!

Como era bela e radiante a luz que iluminava o meu vale! Se eu não estivesse tão envolvido por ela, talvez não conseguisse encará-la. Mas eu era parte dela e ela me era por inteiro. Por isso eu conseguia olhar para o alto e fixá-la em meus olhos turvados pelas lágrimas. Foi assim que divisei, no meio dela, um ser imenso.

Como era belo aquele ser! Ele era dourado e se distinguia claramente no meio da luz cristalina. Foi se tornando cada vez mais visível aos meus olhos. Quando eu o vi por completo, senti-me dissolver ante seu poder e esplendor. Eu o via nas alturas e ainda assim me sentia em seu interior. Eu estava inteiramente absorvido por ele e ouvia sua voz celestial na forma de um canto. E o anjo de Deus me disse:

- Vejo que está feliz com o solo bendito que o Doador Eterno lhe deu, filho meu. Sabe por que Ele lhe deu este belo lugar? Foi porque você recusou a Luz quando havia alguém que ama ainda nas trevas. Ela não está lá por castigo divino, mas por uma necessidade da Lei Maior, a lei das coisas divinas. Mas você recusou-se a viver na Luz só porque ela ainda não a tinha ao alcance. Não agiu de forma egoísta, como quem só pensa nele mesmo, que nada mais importa se está tudo bem para si. Não! Preferiu afastar-se da Luz porque não teria paz sem seu outro lado. Não chorou pelo que pedia, mas pelo que ela deixava de obter. Só aqueles que são infelizes quando vêem alguém na tristeza são merecedores do amor divino. Deus, pai eterno, também tem Seus momentos de tristeza quando vê Seus filhos amados, centelhas de Seu amor divino, tristes e infelizes, por isso Ele chora. E como Ele chora! Mas só quem sofre, não porque sinta alguma dor, mas por ver outros semelhantes sofrendo, pode compreender o choro divino do Criador e Senhor de tudo e de todos. Também só os que conseguem ver uma bela árvore frutífera no lugar de um tronco seco e retorcido está apto a ver num espírito ressequido pela dor, ignorância e sofrimento, mágoas e rancores, um futuro espírito luminoso iluminando seus semelhantes caídos. E você não viu um vale ressequido quando Ele o iluminou, mas sim imaginou aquilo no que poderia torná-lo. Num relance, viu tudo o que estava à sua disposição e como poderia usá-lo em honra e glória do santo nome de Deus. Ele nunca vê um tronco seco e retorcido, mas sempre árvores frutíferas e frondosas. Você é uma semente divina e tem à sua disposição um pedaço de solo divino. Germine na terra onde Ele, o eterno sementeiro o lançou, cresça e dê bons frutos. Frutos esses que eu, seu anjo da Luz, servirei à mesa do eterno Criador em Sua santa ceia. Que seus frutos sejam doces e suculentos e possam agradar ao seu Senhor e, assim, sempre será uma árvore da vida do pomar divino. Se seus galhos crescerem muito, serão cortados e com eles na mão, o Criador enxertará outros ramos estéreis para que possam, também eles, se tornarem frutíferos. Olhe à sua volta, semente divina! - disse-me ele com um sorriso nos lábios.

Eu olhei e me admirei com a beleza do meu vale. Como era lindo! Novamente eu sorria e chorava ao mesmo tempo.

Meu Deus! exclamei. - Meu sonho não é um sonho, é uma realidade, e meus desejos são os Seus desejos, Criador meu!

Sim, semente divina. Deus o ama porque você também O ama. Você quer servi-Lo com a luz do saber das coisas divinas, por isso Ele o ampara com o amor do coração divino e concede a você tudo de que necessita para fazê-Lo reviver onde já havia morrido.

Calei meu pranto de alegria e abaixei os olhos em reverência ao Criador e seu mensageiro, o meu anjo da Luz. Fui interpelado por sua voz suave e potente.

- Não desvie seus olhos dos meus, semente divina, porque tudo o que tenho a dizer, digo aos ouvidos, razão e visão de quem está à minha frente.

- Perdoe-me, meu anjo da Luz. Só o fiz por reverência.

Eu sei disso, semente divina! Agora diga-me, qual o nome que quer dar a este lugar abençoado por Deus?

Nenhum nome que desse me satisfaria, anjo meu. Mas o nome que você lhe der será eterno. E ainda que um dia eu venha a me afastar daqui, ele permanecerá, pois foi o anjo de Deus quem o nominou de acordo com o desejo d'Ele. Meus desejos nada mais são que reflexos de Sua vontade.

Se assim prefere, assim será. Por honra e glória de Deus eu o nomeio de Sagrado Coração do Amor Divino. O que desperta em você esse nome?

- O que de mais nobre há num espírito: o amor!

- Pois assim será chamado tanto no céu como na terra, tanto na Luz como nas trevas. Eis aí o seu "Sagrado Coração do Amor Divino", semente divina. Faça com que o amor se derrame por toda essa região. Todo fruto que der será colocado na mesa do senhor nosso Deus para Sua santa ceia.

Eu farei com que muitos frutos doces e suculentos sejam colocados à mesa divina por suas mãos benditas, anjo da Luz.

Pois assim será. Cada fruto seu que já estiver maduro, eu virei apanhar e o servirei ao Criador Divino.

Então eu o vi levantar sua mão direita e direcioná-la. Dos seus dedos saíam feixes de luz dourada que iam formando um portal magnífico. A medida que o portal ia se materializando, uma altíssima muralha, partindo de seus dois lados, ia se formando ao redor de seu vale. Quando terminou, vi a beleza dos artesãos de Deus. Sua perfeição era inimitável, seu poder incomparável e sua beleza inigualável. Só o artesão divino poderia fazer aquilo. Só ele podia tornar real seus pensamentos. Nada poderia se igualar a ele.

Tornei a olhar para seus olhos e novamente ele levantou sua mão direita. Dela tornou a jorrar a luz dourada e uma imensa fachada de um edifício começou a se formar. Quando terminou, pude ver a imponência e majestade da construção.

Olhe o portal de entrada, semente divina, e diga-me o que vê.

Um edifício onde eu poderei abrigar dezenas de irmãos caídos à beira do caminho, anjo meu.

Sua visão está fraca hoje, semente divina? Avance-a em direção ao interior do edifício.

Admirei-me com que via. Ele não tinha fim. Quanto mais eu avançava minha visão, mais ele se estendia e havia de tudo em seu interior. Eu o via por todos os ângulos e em todos eles, era infinito.

- Vê como são perfeitos os presentes divinos? Quanto mais acolher, doutrinar e preparar para servirem ao Criador, mais espaço terá à sua disposição. Deus é perfeito e perfeitas são todas as Suas criações, semente divina.

Eu o olhava extasiado. Não conseguia dizer nada.

- Vejo que ainda não conhece todo o poder de Deus, semente divina.

Eu sou apenas uma semente, anjo meu! - exclamei meio zonzo ante à grandiosidade que se me mostrava.

Como acha que surgiram as moradas luminosas por onde passou esses anos todos?

Não sei, anjo da Luz. Jamais perguntei e mestre algum jamais me falou sobre elas; jamais despertaram minha atenção.

Pois agora conhece um pouco mais do poder divino.

Eu estava todo envolto pela luz dourada, não me sentia como um ser com corpo espiritual mas só um mental absorvido por outro muito superior. E não percebi que tudo que eu pensasse, refletiria no dele, que absorvera o meu e criara à minha volta tudo o que eu um dia havia sonhado em construir em honra e glória de Deus. Então eu pensei em alguém que, naquele momento, pulsava tristeza através do meu coração. Então ouvi novamente sua voz doce e potente.

Eu o ouço, semente divina. Sinto o pulsar do seu coração e o dela também.

Perdoe-me, anjo meu. Não era minha intenção me desviar de sua obra divina.

O amor que tem em seu coração é obra divina. A lei não pode ser quebrada, mas gostaria de tê-la, ainda que por pouco tempo, ao seu lado?

Como você mesmo disse, a lei não pode ser quebrada. Melhor ficar como está. Assim a dor não terá sua intensidade aumentada. O tempo fará com que ela seja adormecida.

Engano seu, semente divina. A dor do amor só aumenta com o tempo. Mas eu tenho o bálsamo que neutraliza a dor do amor e estou lhe oferecendo agora.

Não sei o que fazer, anjo meu. O coração pede que eu o faça mas a razão diz para tomar cuidado com meus atos.

O que move um ser a acreditar em Deus, semente divina?

Sua fé, anjo meu.

E o que desperta a fé em um ser, é a razão ou é o amor?

É o amor.

Então?

Eu aceito o seu bálsamo para a dor do amor.

Só que agora poderei dar-lhes apenas uma pequena

dose.

- Será o bastante para nossa dor, pois seu bálsamo deve durar por muito tempo.

Num piscar de olhos eu vi a minha doce Sarah ao meu lado. Trazia no rosto as marcas da tristeza e solidão.

Foi então que o meu anjo da Luz, tão perto e tão distante ao mesmo tempo, estendeu sua mão direita e com o dedo indicador tocou o rosto de Sarah. Um sorriso desabrochou de seus lábios. Ela voltava à vida e também via tanto ao anjo quanto a mim.

Eu lhe devolvi outro sorriso e peguei sua mão entre as minhas. Após um rápido olhar, voltei-me para ele e indaguei:

Por que faz tudo isso por nós, anjo da Luz?

É porque, um dia, num tempo esquecido pela memória humana, mas inesquecível na memória divina, vocês preferiram morrer a ter que renunciar ao único e imortal Deus. Num tempo em que muitos renunciaram ao Deus-Verdade, vocês abominaram o deus de mentira. Num tempo em que muitos abraçaram a curta vida material, vocês ficaram com a vida eterna. Num tempo em que tantos pregavam a mentira sobre as coisas divinas, vocês se apegaram com fé e amor às verdadeiras coisas divinas. Por tudo isso vocês foram, são e sempre serão os iniciados guardiões das coisas divinas. Quando mergulham na carne, eu os vigio e quando despertam dela, eu desperto seus mentais adormecidos. Por um desígnio d'Ele, o Deus Imortal, eu os amparo tanto na alegria como na dor. Mais alguma pergunta, semente divina?

Quando tornarei a vê-lo, anjo meu?

Não deixe que eu me apague em seu coração e em seu mental. Todas as vezes que quiser me ver, recolha-se ao vazio absoluto e me verá em seu interior. Se precisar de meu auxílio para propagar o saber das coisas divinas, basta orar e virei ver se realmente precisa de meu auxílio. Se assim for, eu o ajudarei, caso contrário eu mostrarei qual o caminho a seguir para que consiga seu intento abençoado.

O que posso dizer para agradecê-lo, anjo meu?

Não precisa dizer nada semente divina. Eu não ouço palavras, mas sim, ações nobres em benefício dos seus semelhantes.

Então como posso agradecer ao nosso Pai Eterno, anjo meu?

Torne real o seu sonho e o desejo d'Ele e verá como Ele, o Pai Eterno, ficará agradecido por sua gratidão.

Olhei para Sarah e ela pediu para que eu agradecesse por tanta bondade.

Nós lhe agradecemos, anjo nosso.

Não precisam agradecer, filhos meus, pois, se sorrirem, eu sorrio; se chorarem ,eu choro e se sofrerem, eu sofro.

Por que é assim, anjo meu?

É porque eu sou vocês dois e vocês dois, juntos, são uma parte de mim, filhos meus.

O anjo do Senhor, o meu anjo da Luz sorria. Nós sorríamos também. Então ele levantou sua mão direita e com sua luz dourada desenhou o símbolo do Sagrado Coração do Amor Divino sobre o portal de entrada do vale. O mesmo símbolo surgiu no portal do edifício e em vários outros pontos.

Depois elevou-a sobre nós e dela começou a cair uma linda chuva de pingos de luz multicoloridas. Voltamos nossos olhos para seus olhos e vimos claramente duas lágrimas caírem deles. No ponto onde elas tocaram o solo, à nossa frente, duas fontes brotaram.

Lentamente ele foi subindo pela luz que nos chegava do infinito.

Ainda ficou no ar uma frase que disse no momento da partida:

- Quando dois seres humanos choram por amor, eu choro ante o Pai Eterno por eles!

A cascata luminosa continuou a jorrar sobre nós assim como as duas fontes de água nascidas de suas lágrimas benditas.

Até hoje só Sarah e eu podemos dizer realmente como se iniciaram as fontes e a bela cascata luminosa que as enfeita. Elas são imortais, como tudo que o anjo do Senhor criou.

O Sagrado Coração do Amor Divino é imortal e quem sabe, um dia, todos possam conhecê-lo. Só assim saberão como é belo o amor que Deus Pai nos dedica.

Eu me abaixei e provei um pouco da água que brotava das fontes. Como era boa! Sarah olhou-me com firmeza e perguntou:

Como você conseguiu tudo isto, Simas?

Não fui eu que consegui, Sarah! Foi você!

Como, se só há pouco eu fui trazida para cá sem saber de nada?

Pois foi por sua causa que tudo foi construído pelo anjo do Senhor. Creio que minha tristeza por vê-la à esquerda da guardiã do mar me abalou muito.

Só por minha causa ele lhe concedeu um lugar tão belo como este? Não brinque comigo!

Não estou brincando. Venha, vamos dar uma olhada em tudo enquanto conto o que aconteceu aqui.

Andamos lentamente por todo o vale. Eu já não o chamava de "meu vale", mas de jardim celestial, tal a efusão de cores harmônicas que havia entre as flores. Um riacho terminava próximo ao grande portal de entrada. Caminhamos até sua nascente. Aquele era o lugar mais lindo que se pode imaginar. Suas águas brotavam do interior de umas rochas e caíam em cascata, formando um pequeno lago a seguir. Enquanto conversávamos, íamos observando tudo à nossa volta. Ficamos encantados. Quando terminei de relatar o que vi o anjo da Luz fazer, Sarah olhou me com tristeza e disse:

Pena não podermos desfrutar desse paraíso juntos.

Não se preocupe. Ouviu suas últimas palavras, não?

Mas de que adiantam suas palavras?

Se ele fez tudo o que fez só por amor à humanidade, certamente não se esquecerá de nós. Penso que, quando terminar o tempo da sentença, nós já não teremos que servi-lo separados, mas sim juntos.

Diga-me, por que arriscou-se a cair nas trevas por minha causa?

Como poderia viver feliz, sabendo que você era infeliz?

Muito nobre de sua parte, Simas. Mas cuidado, ambos poderíamos ter que viver nas trevas. Você se arrisca demais por causa de seu amor por mim. Um dia poderá se perder para sempre. Não faça isso outra vez! Não quero que o faça!

Pensarei em suas palavras se vier a acontecer novamente.

Pois que siga seu caminho e me deixe para trás.

Como poderia ser feliz deixando-a para trás? Melhor atrasar um pouco a caminhada para que possamos um dia caminhar juntos.

Então, calei-me.

O que houve? Por que ficou calado e triste de repente?

Lembrei-me das palavras que alguém me disse algum tempo atrás.

Quem lhe disse o quê?

Acho que você não a conhece. Melhor não lembrar dela agora. Acho que estou envolvido num vendaval.

Vamos, diga-me! Quem é ela? Fiquei curiosa.

Para que falar de meus envolvimentos do passado? Talvez você não compreendesse.

Acaso pensa que não conheço seu passado? - Ela me olhava de uma forma estranha.

Até onde você o conhece?

Até onde o Cavaleiro do Mar me deixou retroceder.

Então você conhece todas elas.

Sim, agora diga-me quem é, pois já não consigo conter minha curiosidade.

Salete é seu nome. Creio que poderia estar em uma esfera muito mais elevada. Mas não o faz por minha causa.

Ah! sua sereia encantada.

Você já sabia?

Desde que fui levada para o hospital dela após meu desencarne. Foi ela quem me esclareceu sobre isso.

Como solucionar esse emaranhado de ligações?

Não sei! O que me interessa é que elas podem ter uma parte do seu coração mas só eu o tenho por inteiro.

Eu gostaria que fosse de outra forma. Às vezes me sinto confuso.

Não ouviu as palavras do anjo da Luz?

Todas, mas a quais você se refere?

Se sorrimos ele sorri; se choramos, ele também chora.

Sim, mas isso era para nós dois!

Será que somos os únicos? E para quem é aquele símbolo no portal?

Mas isto é diferente, Sarah. Aquilo é pessoal.

E existem casos de amor impessoais?

Está tornando mais difíceis minhas palavras. Já não consigo saber o que é certo e o que é errado.

Nada está errado. Continue cultivando o que de melhor há em você. Eu me importo com algo que me parece lindo. O tempo solucionará tudo.

Agora é você quem fala do tempo? Quanto tempo?

Que importa o tempo que durar? O que sei é que daqui a pouco tempo estarei longe novamente.

Venha, vamos ver como é aquele edifício por dentro. Não adianta ficarmos falando de algo que não tem solução.

Assim é melhor. Vamos sorrir um pouco para que eu possa sorrir também, Simas.

Ao ver uma linda rosa no jardim, abaixei-me e apanhei-a, colocando nos cabelos de Sarah. Ela sorriu com meu gesto.

- Como fiquei, Simas?

- A rosa ficou um tanto ofuscada com sua beleza, mas acho que ela não se incomodou nem um pouco.

Fazendo um ar inocente, Sarah perguntou-me:

Por que ela não se importou?

Disse-me que talvez, ficando em contato com você, ela possa se tornar mais bela um dia desses.

Estávamos frente a frente. Abraçando-me ela fez uma nova pergunta:

Onde posso encontrar outro como você?

Não sei, mas mesmo que soubesse não lhe diria.

Ah, é um egoísta mesmo! Eu não me incomodo em dividi-lo, mas você não me divide.

Quem tem alguém como você somente dividirá se for um tolo.

Também é ciumento!

Só porque não a dividiria com outros?

-Isso mesmo. Se ousasse me dividir, eu o abandonaria para sempre.

- Que criatura estranha é você, Sarah. As vezes tento compreendê-la, mas sempre chego à mesma conclusão.

-Qual?

Concluo que não a compreendo, mas que a amo. Se fosse diferente, talvez eu me libertasse do seu encanto.

Gostaria de ficar livre do meu encanto, Simas?

Nem pense nisso! Se um dia isso acontecer, eu me anulo como ente humano.

Isto quer dizer que eu o terei por toda a eternidade à minha procura.

Não tenha dúvida quanto a isso. Se o Criador nos fez com esta natureza e este sentimento, foi para melhor compreendermos a natureza de nossos semelhantes.

Vou procurar entender um pouco de nossas naturezas e afeições. Assim descobrirei quem é você, Simas.

O dia em que conseguir, quebrará o encanto que nos une e nos move na luz do saber das coisas divinas.

Temos algo que a maioria não tem!

E o que é este "algo" mais?

Um amor encantado. Amor, todos têm, assim como são amados, mas como encantamento, poucos têm, Sarah.

Como você me explicaria este amor?

Sabe algo sobre a natureza do anjos?

Não! Só sei que existem e estão ao lado dos seres humanos, mas sua natureza, só quem os criou deve conhecer.

Mas só alguns os vêem, não?

Sim, e nós vimos um há pouco.

Devo continuar a explicar o que é um amor encantado?

-Já entendi.

Nada mais falamos por um longo tempo. Visitamos o interior do edifício-sede e ficamos admirados com tudo. A perfeição se fazia presente nos pequenos detalhes. Quanto mais eu via, mais me encantava com a obra divina. Deus é perfeito! Quando ordena que seja tirado o que, um dia, Ele nos deu, tiram-nos tudo sem deixar nada, mas quando ordena que algo seja dado, não Se esquece de nada.

Eu sabia que havia um oratório, só precisava descobrir onde se localizava. Pouco depois, eu o encontrei. Como era belo o local dedicado a reverenciar Deus. Instintivamente, num gesto espontâneo, abençoei-o em nome de Deus. Num ato de reverência, ajoelhei-me e orei agradecendo ao Criador por Sua generosidade. Eu me entreguei totalmente a Ele naquele momento. Minha forma plasmada se dissolveu e, de minha ligação com o Deus vivo e onipresente, misturaram-se a luz divina e a minha. Meu espírito imortal, a partir daquele momento, não mais me pertenceria. Foi isso que eu senti em meu ser imortal. Eu sabia que ele havia completado sua semeadura de amor em mim. Agora eu deveria ser sua árvore da vida e servir à sua mesa meus frutos doces e suculentos. Isso eu jurei pelo Seu santo nome. Tudo faria por honra e glória do Deus único, indivisível e imortal.

 

O SAGRADO CORAÇÃO DO AMOR DIVINO

E a câmara inundou-se de luz. A luz se fez na forma dos vinte e um guardiões dos mistérios sagrados. Não com forma plasmada mas luz, somente luz. Então ouvimos uma voz. Sarah estava um passo atrás de mim e também via e ouvia. Eu os saldei como havia aprendido com mestre Han.

- Você não nega sua origem, iniciado da Estrela da Guia!

Eu nada falava, só ouvia.

Você só honra o seu ancestral místico!

Você só cumpre o que a lei lhe ordena!

Você se eleva e logo cai novamente para, em seguida, se levantar!

Você avança e conquista, depois retrocede e distribui o que conquistou!

Você cresce o suficiente para poder ajudar outros a crescerem!

Você não quer crescer para subir, mas para poder ensinar a outros como é bom crescer!

Você ama a Luz, mas não teme as trevas!

Você conquista a Luz mas não a quer para si!

Você cresce na Luz mas multiplica-se nas trevas!

Você é iluminado na Luz, mas brilha nas trevas!

Fale agora iniciado da Estrela da Guia!

Fiquei por um instante em silêncio, depois iniciei minha fala.

- Eu passei os últimos vinte e um mil anos solares só servindo-os na divulgação dos mistérios sagrados da criação. Tudo o que fiz foi por um desígnio do Criador. Lutei, venci e perdi, sorri e chorei, cresci e caí, semeei a vida ainda que para isto tivesse que causar a morte. Às vezes pensei em desistir de tudo, mas o amor às coisas divinas me fez voltar à senda da Luz. Sou guiado pelo ancestral místico da luz do saber, mas sirvo aos quatro ancestrais místicos. Sei que não sou diferente de nenhum ser humano, mas não consigo ser igual a eles, pois em mim estão impressos os sete símbolos sagrados. Muitos também os têm impresso e ainda assim, somos diferentes. Eu sei que enquanto houver alguém nas trevas, terei motivos para lutar, para libertá-los da ignorância em relação ao saber das coisas divinas. Sei que se não quiser servir mais o meu ancestral místico na luz do saber, irei servi-lo nas trevas da ignorância. Conheço os sete símbolos sagrados e seus mistérios, tanto os maiores, quanto os menores. Enfim, tudo eu sei, mas sei também que nada sei pois sozinho eu não existo. E, se só não existo, é porque ainda que saiba tudo que me é permitido e possível saber, só terá algum valor diante do Criador se eu me dividir com os meus semelhantes que ainda não conhecem a luz do saber das coisas divinas. Pelo que me foi possível saber, por vinte e um mil anos eu semeei por todos os lugares as sementes da árvore da vida. E eis que agora eu vi o fruto sagrado ser depositado em minhas mãos para que eu possa dividi-lo com os que têm fome do alimento sagrado.

Com tudo o que sei, ainda assim não poderei dividi-lo sozinho. Peço-lhes, então, que me auxiliem a dividi-lo pois, se eu o consegui, não foi sozinho. Que todos aqueles que um dia me ajudaram, possam também partilhar do fruto sagrado. Se o Criador designou Seu anjo para tão maravilhoso lugar de socorro espiritual bem no meio das trevas é porque eu ousei renunciar à Luz.

Eu estava enganado em meu projeto de querer levar luz onde a luz já existia. A luz só tem sentido se houver trevas à sua volta. Caso contrário só acrescentaria mais luz à luz. Agora estou feliz. Após vinte e um mil anos realizei o meu juramento ao nome sagrado. Finalmente me dignei ante o Criador misericordioso para que no meio das trevas mais escuras, brotasse a luz divina. Desde que foi criado o círculo sagrado do Oriente Luminoso, eu o sirvo como um dos setenta e sete mil iniciados que juraram fazê-lo se derramar por todo o planeta e todos os povos, raças e religiões.

Como só o Oriente Luminoso acolhe a todos sem distinção de raça, credo ou cor eu, um dos seus iniciados que já reencarnou em todas as religiões, raças e cores, peço-lhes que consagrem este lugar sagrado como mais uma das muitas sedes do Grande Círculo do Oriente Luminoso.

- Assim será feito, iniciado da Estrela da Guia!

E as luzes viraram fogo. Sim, fogo dos mistérios sagrados que imprimia os símbolos na câmara de orações. Lá ficaram impressos os símbolos eternos. Jamais força alguma os destruiria, isso eu sabia.

- O que mais quer nos pedir, iniciado da Estrela da Guia?

- Que Salete seja designada dirigente deste local sagrado pelo tempo que ela quiser.

Você renuncia ao comando dele?

Sim, guardiões sagrados.

Não se sente preparado para tal missão?

- É claro que sim! Mas se há alguém que renuncia ao avanço a esferas superiores por minha causa, então ainda não posso me afastar do campo de semeadura, pois se assim eu fizer, muitos deixarei para trás.

- Sabe ao que está renunciando?

- Sim, guardiões sagrados. Mas eu ouvi a voz do silêncio e ela me dizia para derramar todo o amor acumulado nestes vinte e um mil anos entre os que não conheciam as coisas do amor. Dizia também que era para eu semear no solo árido as sementes sagradas da luz do saber. A mim não resta outra alternativa senão me lançar em campo e mergulhar nas trevas. E já que a colheita será farta eu poderei colher frutos que, quando maduros poderão ser servidos na santa ceia do nosso Senhor. Além do mais, todas as sedes do Grande Oriente Luminoso são dirigidas por um mestre.

Mas você é um mestre também, iniciado da Estrela da Guia.

Salete já é mestre há dois mil anos e renunciou à direção de uma sede por mim. Só agora eu posso agradecê-la à altura. Também quando eu mergulhei nas trevas e consegui o vazio absoluto no meu mental, ouvi na voz do silêncio a voz do Criador que me dizia: "Filho meu! Eu sou você e você é uma das minhas partes. Portanto, faça-me reviver onde morri pois se você morrer eu o despertarei do sono da morte, ainda que nada mais possa lhe oferecer além do dom da vida".

Eu vou mergulhar nas trevas e colher nela tudo o que for possível. Só assim estarei seguindo a voz do silêncio e estarei fazendo reviver o Deus misericordioso nos corações onde Sua luz divina se apagou.

Iniciado da Estrela da Guia, você honra o Deus único honra também o seu ancestral místico e honra ainda os sete símbolos sagrados da criação. Com isso nos honra, e todo o sagrado Grande Círculo do Oriente Luminoso. Você enobrece a sua origem. E por tudo isso nós, os vinte e um guardiões dos mistérios sagrados, o honramos com o título de Cavaleiro da Estrela da Guia. Mais algum pedido?

Sim. Nunca me deixem cair nas trevas da ignorância, pois só assim estarei cumprindo o que me disse a voz do silêncio.

Assim será Cavaleiro da Estrela da Guia. Nós saberemos quando isso poderá acontecer, então interviremos em seu favor.

Eu agradeço pois tudo que fiz e faço é sempre creditado à bondade do Criador Divino e por honra do Seu nome sagrado.

Uma a uma, as vinte e uma luzes se foram. A câmara de orações havia sido iluminada pelos símbolos sagrados impressos nela.

Eu sorria feliz. Virei-me para Sarah e a vi sorrindo também.

Abraçamo-nos felizes. Quando nos acalmamos ela disse:

- Simas, agora eu volto feliz para o trabalho que a guardiã do mar me designou pois, se eu cair, você me levantará.

- É tão difícil assim o seu trabalho?

Um dia você irá me visitar e lhe mostrarei como é difícil.

Assim que me for permitido pelo Cavaleiro do Mar, irei visitá-la.

- Promete não me virar as costas?

Eu a conheço muito bem, Sarah. Sei que o aceitou por um motivo muito forte. Sei também que você vai vencer sua luta.

Só você consegue me transmitir o alento necessário para continuar quando penso em desistir.

O mesmo digo eu, querida Sarah. Nós fomos feitos da mesma centelha luminosa do Criador. Quando um se apaga, o outro o ilumina e quando os dois se iluminam muitos são iluminados.

- Onde eu encontraria outro igual a você Simas? Uma voz conhecida nos assustou:

-Eu disse isso antes, Sarah!

Viramos assustados. Era Salete que tinha chegado.

- Pensei que estávamos sozinhos aqui. Quando chegou?

Cheguei há pouco. Não quis interromper sua alegria mas acho que já está na hora de agradecer o que fizeram por mim.

Mas nós não lhe fizemos nada, Salete. Como nos encontrou?

Salete respondeu com outra pergunta.

Simas, onde eu encontraria outro igual a você?

Em você mesma, Salete, e em ninguém mais.

Por que fez isto? Devia ter aceito a direção deste jardim celestial. Já está preparado para tal esfera de trabalho.


- Diga-me, Salete! Por que um dia você renunciou à esfera superior?

- Foi por amor, Simas. Você sabe muito bem disso!

Pois eu fiz o mesmo só por amor. Amor a você, a Sarah e a todas as outras do mesmo grupo. Também por amor aos que caíram e ficaram para trás. Além do mais você se adapta melhor a esta função que eu. Minha vida está lá fora, só venho até a Luz para me refazer dos choques com as trevas e quando já me sinto refeito, mergulho mais uma vez.

Se eu não conhecesse sua natureza diria que é louco. Mas como eu me vejo em você, sei que é um sábio, que aprendeu a conhecer sua natureza e a segue fielmente.

- O que achou do lugar?

- É um jardim celestial, Simas. Ainda não o vi por inteiro mas sei que é um jardim celestial. Sarah, pode soltá-lo um pouco para que eu possa abraçá-los?

- Oh! desculpe-me Salete, é todo seu.

- Não é ele que quero abraçar primeiro, mas você. Só você consegue o que nós tanto desejamos!

Ambas se abraçaram. Foi um abraço afetuoso de dois seres que se amam em perfeita harmonia. O amor havia dado os seus laços fortes e eternos nelas também. Sempre que o amor dá os seus laços de afeto, os espíritos se amam por toda a eternidade.

- Simas, por favor venha até nós, não saia agora!

Voltei até elas e fui abraçado pelas duas. Dos nossos olhos, lágrimas de amor caíam no solo sagrado.

Obrigada por ter me honrado com este lugar tão lindo, Simas, não sei como agradecer-lhe.

Só por você aceitar eu já me sinto agradecido. Não sabe como fico feliz em poder lhe devolver um pouco do muito que já deu, tanto a mim como a Sarah e às outras seis. Quanto aos incontáveis irmãos que já auxiliou, creio que o Criador é quem lhe agradece, Salete.

Um dia, quando o Criador permitir, todos estaremos juntos novamente, Simas. Um não ficará triste por ver o outro


envolvido com alguém que ficou para trás.

Daqui você nos auxiliará a buscar todos eles, Salete.

Venham vocês dois! Vamos, me dêem seus braços, eu os conduzirei até o jardim celestial. Mas os proíbo de olharem para a frente! Só abrirão os olhos quando eu disser que já podem fazê-lo, prometem?

Sim! - respondemos em uníssono, Sarah e eu.

Lentamente Salete foi nos conduzindo através do longo corredor que mais parecia uma rua larga. Começou a entoar um canto sagrado do Grande Oriente Luminoso que falava sobre o amor às coisas divinas. Como era lindo ouvi-lo na sua voz suave e melódica. Se havia algo que admirávamos em Salete, era o seu dom para o canto.

Quando chegamos à porta, ela aumentou o tom de sua voz e muitas outras vozes, em coro com ela, entoaram o canto sagrado que falava sobre amor às coisas divinas.

Salete não conseguiu cantar mais, o pranto brotou de seu peito impedindo-a de continuar com a canção. Sarah e eu lhe demos um abraço apertado. Como nós também chorávamos de alegria, o canto terminou e um novo foi entoado pela multidão de espíritos amigos que se achavam à nossa frente.

Quando o anjo do senhor criou o Sagrado Coração do Amor Divino, todo o Grande Oriente Luminoso ficou sabendo de imediato. E todo ele ficou aguardando minha consagração do local.

Quando eu o abençoei e, por um pedido meu, os vinte e um guardiões dos mistérios se fizeram presentes, o Grande Oriente Luminoso se fez em festa. Sabiam que eu iria entregar a direção do lugar ao Grande Oriente. Sabiam que eu não negaria minha origem.

Quando renunciei em favor de Salete, os mestres do saber da luz divina sorriram de alegria. Sabiam que Salete era uma mestra da luz do saber, o nosso ancestral místico. Ela bem merecia o Sagrado Coração do Amor Divino. Todos a amavam de verdade!

E imediatamente ela foi levada até onde estávamos. Nós só a vimos algum tempo depois, mas ela ainda viu os vinte e um guardiões dos mistérios sagrados.

Tudo isso eu fiquei sabendo mais tarde, quando mestre Han e o Cavaleiro do Mar me contaram. Por isso estavam ali, diante de nós, tantos amigos. Eu havia pedido aos guardiões que fosse dividida com eles a honra pela conquista de mais um ponto de luz nas trevas. Eram eles quem mais mereciam os méritos desta conquista.

Há pessoas que dizem "Eu aprendi!", quando o mais correto seria dizer: "Ensinaram-me!". Ou dizem "Eu ganhei!", ao invés de dizer: "Deram-me!" Dizem também, "Eu conquistei", ao invés de dizer: "Nós todos, irmanados, conquistamos". Ninguém aprende, ganha ou conquista nada sozinho. Só os egoístas, vaidosos e mesquinhos falam assim pois não conseguem valorizar a quem de direito.

Aquele lugar era um tesouro divino. Quanto mais fosse divino, mais aumentaria em quantidade e valor. E como o Grande Oriente Luminoso valorizou o tesouro divino!

Salete conseguiu finalmente controlar seu pranto de alegria e, entre soluços, pediu que abríssemos os olhos. Nós havíamos mantido a promessa de não abri-los apesar de sabermos que milhares de irmãos da Luz nos observavam.

Nós abrimos os olhos. Lentamente fomos divisando os rostos amigos que partilhavam da nossa alegria. Em todos havia lágrimas de alegria. Eu olhei o grande coração luminoso que encimava o portal do vale. Sua luz havia aumentado de intensidade. Ele absorvia o amor às coisas divinas que extravasavam do coração de cada um dos irmão que ali se encontravam.

Caminhei até meus pais e os abracei carinhosamente. Depois fui até o mestre Han e também o abracei. Por fim, fui até o Cavaleiro do Mar e o abracei.

Alguém chegou naquele momento. Era o velho amigo João de Mina que vinha ao meu encontro. Além do abraço amigo, disse-me:

Eu sempre soube que você um dia o conseguiria, pescador!

Obrigado por ter vindo, meu amigo!

Voltei-me para meu pai e pedi-lhe que falasse por mim, pois eu não tinha condições de fazê-lo naquele momento.

Não consigo falar, filho!

Então fale o senhor Cavaleiro do Mar.

Pelas lágrimas de seus olhos vi que ele também não iria falar nada.

- Mestre Han, fale o senhor então!

- Não saberia o que dizer, filho meu. -Mamãe?

Não, filho, não vê como estou emocionada? Deixe Salete falar, ela já está calma e emocionalmente equilibrada.

Isso mesmo! Por favor, Salete, fale por mim. Se eu tentar não saberei o que dizer.

- Obrigada pela honra, Simas.

E Salete falou o que todos nós sentíamos. Falou da generosidade do Criador, do amor e da amizade leal, da fé e do saber, da razão e da justiça, da humildade e da caridade. Falou tudo o que eu gostaria de falar e que não conseguia, tal o estado que me encontrava.

Para encerrar, disse:

- Simas já foi meu pai assim como foi meu filho, já foi meu irmão como foi meu esposo, por isso eu o conheço bem. Simas é como a lava de um vulcão que entra em erupção. Primeiro ele começa a aumentar o calor e acumular pressão. Quando a pressão interior se torna forte o bastante, começa a mover as lavas no interior do vulcão. Lentamente as vai fazendo subir para o cume. Os que estão próximos começam a ficar inquietos pois já sentem pequenos tremores. Todos se acautelam e até evitam se aproximar muito dele. Os tremores vão aumentando de intensidade, todos se afastam dele à espera da explosão de toda aquela pressão acumulada. Ninguém sabe se vai ficar só nos tremores e, depois de algum tempo, ele mesmo recolhe tudo novamente e se aquieta ou se explode de um momento para outro. Por isso todos se acautelam. Mas desta vez a pressão era tão grande que a explosão foi muito maior que das outras vezes. As lavas romperam o in­terior da montanha e, com toda a pressão que seu calor provocou, subiram até os céus e depois se derramaram por uma faixa muito grande à volta do vulcão. Tão grande foi a explosão que muitos, de lugares distantes, vieram correndo ver o que causara um brilho tão grande. Era Simas que, como as lavas do vulcão, atingia os céus e se derramava agora sobre a terra.

Não havia necessidade de falar mais nada.

Querida Salete, gostei de sua comparação.

É a verdade, Simas. Eu sabia que algo grande surgiria de você ou então você ficaria com tudo o que acumulou por milênios, guardado em seu interior, até que chegasse a hora certa de fazer vingar mais um projeto seu.

Obrigado por suas palavras. Onde eu encontraria alguém como você, Salete?

Em você mesmo ou em qualquer uma das outras seis, Simas!

Novo canto sagrado foi iniciado e todos nós o entoamos.

Após muitos cumprimentos entre velhos amigos que se reencontraram ali, os mestres dirigentes reuniram-se com Salete. Fui convidado a participar, mas me abstive de tal compromisso, pois Salete era a diretora do Sagrado Coração Divino.

Preferi ficar junto de meus pais e os amigos mais próximos conversando. Tinha Sarah de um lado e minha mãe do outro. Eu estava feliz, e isso era o que me importava. Bem mais tarde, os mestres da Luz retornaram até onde estávamos.

- Já está tudo organizado, Simas. O Sagrado Coração do Amor Divino será mais uma dependência do Grande Oriente. Ficou decidido que acolheremos aqui os espíritos sofredores que vierem das trevas da ignorância. Cada sede enviará alguns servidores para cá. Teremos servidores oriundos de todas as raças e religiões, tal como você pediu aos guardiões dos mistérios sagrados.

- Obrigado pelo que fez, Salete. Eu sabia que poderia me encontrar em você, por isso, só você para entender meu

- desejo e torná-lo realidade.

Mestre Han me fez uma pergunta.

Filho meu, você é um mestre de luz também. Sendo assim o que oferecerá a este lugar sagrado?

Seu posto socorrista terá o auxílio dos guardiões iniciados, Salete?

Sim, Simas! - Ela sorria ao responder.

Então eu serei mais um deles.

Gostaria de dirigi-los?

- Não. Mas sei de alguém que não recusará tal incumbência!

- Nós aceitamos sugestões de todos os mestres, quem

éele?

- Vamos ver se você me conhece bem, adivinhe quem é!

Ela olhou para meu pai e sorria ao dizer:

Um dia ele acreditará realmente que eu o conheço, mas até lá, terei que dar-lhe muitas provas, não é mesmo, guardião diretor?

É verdade, diretora Salete. Eu sei que isso acontecerá um dia. Por onde começo meu serviço?

—Acompanhem-me, eu lhes indicarei acomodações adequadas.

- Você falou: "Acompanhem-me", Salete? O chefe é ele, eu ainda estou de fora.

- Não foi você que convidei mas seu pai e sua mãe. Ou pensa que iria separá-los? Preciso de uma auxiliar à altura do lugar.

Se o fizesse eu não a reconheceria em mim, Salete.

Filho, quando achar que é hora de agir, venha ter comigo.

Obrigado papai, logo eu irei ao seu encontro, até a

vista!

Eles retornaram ao interior do edifício após se despedirem de todos os mestres presentes. Salete, ao se despedir de Sarah, falou-lhe:

Nós tomaremos conta dele na sua ausência, está bem?

Obrigada, irmã amada. Ore por mim também, pois senão serei eu quem ficará para trás desta vez.

Não me esquecerei de você, Sarah, nunca mesmo!

Como todos ficaram em silêncio após a partida de Salete, os mestres também começaram a se despedir de nós. Quando me vi frente a frente com mestre Han, falei-lhe:

Mestre de mestres, depois que meu mental foi absorvido pelo do anjo do Senhor, também posso penetrar no mental dos mestres e, num impulso incontrolável, penetrei no seu há pouco. Logo eu lhe darei um presente que, creio eu, irá fazê-lo muito feliz.

Se você não fosse o meu filho amado eu não o perdoaria por tal intromissão em meu mental.

Acredite-me mestre Han, mal eu me lembrei do anjo da Luz e não pude conter meu desejo. Acho que alguém lá em cima está dizendo que não se esqueceu do senhor.

Se você diz, eu acredito, filho meu! Só um filho amado pode dar ao pai o presente tão desejado. Mas mesmo conhecendo-o tão bem creio que não conseguirá ganhar tal coisa pois muitos já tentaram e não conseguiram.

O Cavaleiro do Mar interveio em meu favor.

- Mestre Han, não duvide do poder do Cavaleiro da Estrela da Guia. Depois de ver o que ele conseguiu em nosso último encontro já não duvido de mais nada a que ele se proponha a conseguir.

- Então eu também vou acreditar que ainda é possível ver meu tesouro resgatado, mestre da Estrela da Guia. Até a vista meus amigos!

Todos o abraçaram comovidos. Era realmente um mestre de mestres. Ficamos os quatro conversando. Em dado momento, o Cavaleiro do Mar falou-me:

Você prefere que eu a leve ou que a guardiã do mar venha buscá-la?

Não posso levá-la?

Seria melhor não fazer isso. Além do mais, já não há impedimento às suas visitas quando quiser vê-la.

Mas o senhor me disse...

Isto foi antes de tudo isso aqui. Alguém já conseguiu o que havia preparado para você, então não há mais nada que o impeça de fazer o que quiser.

Então tudo já era do conhecimento dela, não?

Eu não diria isso, mas sim que ela não quis vê-lo se desviar do seu objetivo maior. E vejo que ela foi a mais sábia dos amores, filho meu! No momento em que você pensou que o estava rejeitando, era, na verdade, ela que mais amor derramou sobre você.

Tem razão, Cavaleiro do Mar. Não podia ser de outra forma.

Pode ficar sossegado e cumprir com seu destino, eu velarei por Sarah. Afinal, num tempo longínquo ela também foi minha filha!

Eu confio no senhor!

Despedimo-nos com tristeza. Como Sarah e eu sempre nos encontrávamos logo nos separávamos! Era a sentença. De que adiantava avançar se algo nos mantinha tristes? Ainda meditava sobre estas coisas quando o velho amigo João de Mina me fez voltar à realidade.

Não vale a pena pensar sobre isso, pescador! Num momento estamos com todos ao nosso lado e num instante nos encontramos solitários.

Tem razão, meu amigo. O consolo é que não somos esquecidos por ninguém.

Já me vou também, pescador. Deixo-o com seu jardim encantado.

Também vou sair por uns dias!

Não vai auxiliá-los na organização deste lugar?

Prefiro que os que o habitarão e dirigirão por muito tempo o façam de acordo com seus próprios meios. Não vou interferirem nada.

Você é um ser estranho, pescador. De vez em quando conquista tesouros imensos, mas não sabe o que fazer com eles. Prefere deixá-los nas mãos de outros para que os dividam.

É minha natureza, meu amigo. Olhe como é sua natureza e verá que nós somos muito parecidos.

Creio que sim e talvez seja por isso que nos entendemos tão bem. Gostaria de me acompanhar?

Se não me convidasse eu ia me oferecer para acompanhá-lo!

 

NO REINO DO "SETE COBRAS

Os dias, meses e anos foram se passando. Era o tempo de amparar os espíritos de meus filhos que haviam ficado na terra. Consegui acolher a todos com o auxílio de Raios de Lua e outros amigos. Cada vez mais eu me envolvia com as trevas. Já estendia por muitos lugares meu campo de ação. Não havia lugar onde eu não procurasse um amigo. Em todos eu semeava um pouco do meu amor.

Devo dizer que como um simples guardião do templo do Sagrado Coração do Amor Divino eu era livre para fazer o que quisesse. A quantidade de almas sofredoras que eu conseguia resgatar das regiões escuras era incontável. No astral inferior o nome Cavaleiro da Estrela da Guia era sinônimo de socorro, amizade e amor.

Eu ia preparando outros guardiões. Não mais na Luz, como eu havia feito no Templo Dourado, mas nas trevas. Lá existem ótimos guardiões e eu conseguia ganhar a confiança deles com minha objetividade e sinceridade. Provavelmente eu era um dos guardiões da Luz que melhor se entendia com os das trevas. Eu sabia que por trás de tudo estava o meu anjo da Luz me guiando e amparando. Se disser que tinha um minuto para mim mesmo, não estaria sendo sincero.

O tempo passava tão rápido que eu não percebia. Voltava à Luz só para entregar almas sofridas ou para me refazer do desgaste que sofria, pois estava seguindo à risca o que um dia eu dissera para mim mesmo. Eu dera um mergulho nas trevas! E só voltaria à tona quando atingisse o meu objetivo. Até lá eu continuaria imerso nelas.

Vou contar o que um dia eu consegui, só para terem uma idéia.

Caminhava por um profundo vale, plasmado com a forma de meu desencarne, e encontrei um lugar fora do comum naquela região. Eu sabia o que procurava, mas não sabia como atingir meu alvo.

Aproximei-me cauteloso da entrada do lugar. Até o inseparável amigo Cascavel se assustou com o que viu: o lugar era assustador. E os seus habitantes não eram menos. Gigantescos seres com cabeças de serpente nos observavam à distância.

Eu me sentei e fiquei observando por um longo tempo. Meu amigo Cascavel enrodilhou-se em meu corpo e com sua cabeça acima da minha, também os vigiava. Não tínhamos ido até ali procurar encrencas. Não, isso não!

Ficamos ali muito tempo. Não diria dias, porque isso não existe naquele lugar. Mas posso afirmar que o tempo equivaleu a vários dias dos nossos aqui na terra.

De vez em quando víamos alguns daqueles seres chegarem com vários espíritos que davam gritos medonhos, tal o pavor que sentiam. Eram espíritos de assassinos cruéis, destes que matam por prazer. Eu sabia disso e meu amigo Cascavel também. Foi para um lugar parecido com este que ele foi levado após a morte do corpo carnal. Como era horrível de se ver e ouvir aqueles seres. O pânico beirava a loucura. Acredito eu que eles já estavam loucos de pavor. Nos dias que ficamos observando o lugar, uma infinidade de espíritos veio parar naquele local! Era a Lei Maior dando a cada um segundo seu merecimento. Se a visão era deprimente, nada mais refletia que a natureza daqueles seres. De que adiantaria deixá-los livres na espiritualidade, se tornariam a destruir com seus mentais desequilibrados?

Um daqueles entes das trevas veio em nossa direção e parou a poucos metros diante de nós. Perto, suas feições eram piores de se ver.

- O que você quer aqui, mago?

Quem lhe disse que sou um mago?

Meu chefe disse!

Volte e diga a seu chefe que eu gostaria de falar com ele.

Então acompanhe-me, mago.

Prefiro ficar esperando aqui, amigo.

Ele não virá vê-lo. Se quiser falar com ele, acompanhe-me.

Então diga a ele que ficarei aqui até ele sair.

Ficar por aqui é perigoso, mago!

Só para os que têm algo a temer da lei. Quanto a mim, estou a serviço dela!

O ente das trevas se recolheu ao interior do estranho lugar.

Chefe é melhor cairmos fora. Não gostei do jeito que este ser nos encarava! - exclamou o Cascavel.

Está com medo, amigo Cascavel? - disse eu sorrindo.

Não brinque assim, chefe. Se um ser desses aí me apanhar, me fará de cinto ou laço no braço. Só de pensar, me arrepio todo. Não está sentindo minhas escamas infladas?

É, de fato está com medo!

Pouco depois o ente infernal voltava até nós.

- Meu chefe virá vê-lo. Aguarde um pouco!

Quando ele surgiu à porta da gruta eu estremeci. Meu amigo Cascavel falou:

Chefe, se eu me afastar um pouco, o senhor não se incomoda?

Pode ir, meu amigo. Se algo de ruim acontecer, que seja só comigo. Vá logo!

Ele desapareceu em segundos e me vi frente a frente com o mais horripilante ser que eu já encontrara. Procurei me acalmar. Não adiantava temê-lo, devia encará-lo com firmeza. Foi o que fiz. Afinal seja tinha chegado até ali, não devia retroceder.

Quem é você, mago?

Sou um iniciado da Estrela. E você, amigo?

Eu sou o ser das Sete Cobras.

Já tinha ouvido falar sobre você, amigo. Vejo que não mentiram quando o descreveram.

Como me descreveram?

Como um dos mais poderosos entes das trevas. Não mentiram quanto ao seu poder também. Sinto que estou diante de um ser que deve ser temido.

Quanto a mim, digo que estou diante de um ser de luz que deve ser respeitado.

Obrigado por merecer seu respeito amigo das Sete Cobras.

Você é diferente de outros que vieram até aqui, mago da Estrela. Os outros não eram magos, mas você é. Eu o respeito por seu grau e por seu símbolo. O que você quer no meu reino?

Conhecê-lo pessoalmente e também o seu reino e ver se posso ser ajudado por você, meu amigo.

Como posso eu, um ser das trevas, ajudar um mago da Luz?

Ainda não sei ao certo, mas se me aceitar como um amigo acabarei descobrindo.

Neste momento o amigo Cascavel voltou e não vinha sozinho: junto dele vários guardiões das trevas já meus conhecidos, e alguns, verdadeiros amigos. Todos pararam à minha retaguarda.

- O que é isso, mago da Estrela? Acaso está querendo destruir meu reino?

-Não, amigo Sete Cobras. Penso que o amigo Cascavel ficou com medo que você viesse a me prender e por livre vontade trouxe outros amigos meus que reinam nas trevas. Mas, creia-me, eles só querem me ver bem, e não vê-lo mal. Vou apresentá-los um a um.

E fui nomeando a todos os guardiões das trevas que vieram em meu auxílio. Quanto terminei já não havia animosidade entre eles.

Quem é você, mago da Estrela? - perguntou-me o ser das trevas.

Sou um guardião também. Por que duvida de minha

palavra?

Alguém que reúne tantos entes das trevas ao seu lado não é igual aos outros.

Eu não sou igual aos outros. Eu sou eu, um guardião da luz do saber, e Cavaleiro da Estrela da Guia.

Já tinha ouvido de alguém o seu nome. Sim, ele não me é estranho. Cuidado, mago da Estrela, pois está ficando muito conhecido nas trevas!

Eu nada faço que não esteja amparado na lei. Só ela me move e ampara. E quem é você amigo Sete Cobras?

Eu sou um ser do baixo astral. Minha última encarnação se deu a vinte e um mil anos atrás, mago da Estrela. Depois, só a escuridão, esquecimento, sofrimentos incontáveis, dores horríveis, e por fim, a revolta. A partir daí, o crescimento nas trevas eternas.

Como ele se calou, eu o animei a continuar.

- Vou dizer-lhe o que fui, mago da Estrela. Era eu, num tempo imemorável, um mago mas, por ambição e vaidade, caí para o lado negro. No princípio fiz por interesse, mas quando me dei conta, já estava envolvido de tal forma com os rituais negros que já não havia mais retorno. Ou eu continuava ou morria. Preferi viver e me entreguei por inteiro às trevas. Pratiquei todo o tipo de afrontas às leis maiores. Cultuei o deus Serpente Negra e lhe fiz incontáveis sacrifícios humanos. Tudo em homenagem a ele. Primeiro eram virgens, depois crianças ainda em idade tenra. Finalmente, a barbárie. Sacrificava qualquer ser humano. Enfim, veio a morte com seu manto negro e sua foice afiada e ceifou minha vida. Depois, o nada. O horror tomou conta do meu ser e a queda era interminável. Cada vez mais eu ia descendo e me transformando em algo horrendo e pavoroso. Eu já havia afrontado o Criador e toda a sua criação, mas ainda assim eu amaldiçoei e conjurei a luz do saber. Eis o que restou de um ser sábio mas ganancioso, invejoso e orgulhoso.

Eu sou o que está vendo há vinte e um mil anos.

Primeiro a revolta em ver que tudo o que fiz em vida na carne não me levou ao paraíso, depois a descoberta de que o que eu havia conquistado era uma existência eterna onde só há choro, ódio e ranger de dentes. Onde só os mais fortes e maus sobrevivem e ainda assim, se não dormirem sobre o solo conquistado. Então consegui este espaço do inferno e o conservo como meu reino.

Você caiu ante a luz do saber e agora serve às leis nas trevas da ignorância, meu amigo. Já ouvi esta advertência de meu ancestral místico. Por isso sou cauteloso no que faço. Só tomo uma iniciativa quando a lei me ordena.

Sua vinda ao meu reino obedece a um desígnio da lei?

Sim. Há muito tempo eu queria vir ao seu encontro mas não sabia como me aproximar. Por fim achei melhor vir e ver o que conseguiria saber sobre seu reino e você.

E o que achou do que viu?

Você é um guardião das trevas. Os que vi chegarem ao seu reino não mereciam viver na Luz. Não souberam honrar o Criador e nem respeitar os semelhantes como filhos de meu Pai.

Sim, isso é verdade. Eu sei como fazê-los ver o erro que cometeram. Faço-o com prazer e com ódio por terem tido uma oportunidade na pele do cordeiro e não saberem aproveitar.

O que pode me oferecer, amigo Sete Cobras?

Os necromantes, magos negros e falsos sacerdotes me invocam em seus cultos das trevas, para que os ajude em seus objetivos asquerosos. Eu os ajudo porque sei que um dia serão meus escravos. E isso que você quer, mago da Estrela?

- Não, eu abomino tais coisas. Pertenço à luz do saber e gostaria de ver se há alguns no seu reino que eu possa reconduzir a ela.

Muitos clamam por isto, mas quando o fazem eu os castigo um pouco mais. São escória da humanidade, não merecem viver na luz do saber.

Talvez eu possa colocar alguns a serviço da lei se você me deixar ver os que posso aproveitar.

Acredita mesmo que possa usar esta escória peçonhenta, mago da Estrela?

Olhe o meu amigo Cascavel. Ele me auxilia muito em minhas missões nas trevas. E um servidor leal que está à minha disposição sempre que se faz necessário. Um dia ele caiu mas, com o tempo, poderá deixar de se rastejar e então se levantará. Quanto tempo vai demorar? Não sei, isso só a lei sabe pois ela o vigia o tempo todo. No tempo certo, ela lhe fará justiça.

Em vinte e um mil anos você é o primeiro que diz algo sensato, mago da Estrela. Se acha que pode colher algo útil neste antro venenoso, eu lhe dou total liberdade de ação. Quer dar uma olhada no meu reino?

Eu aceito o seu convite, meu amigo. Quem sabe um dia eu possa convidá-lo a visitar o meu, não?

Duvido que isso venha acontecer um dia!

Depois de vinte e um mil anos eu vim ao seu reino, não? Quem sabe daqui a vinte e um mil anos você possa entrar no meu?

Sim, quem sabe, mago da Estrela!

Alguém sabe, amigo. Só que não diz e quem diz é porque não sabe.

Como você pode reconhecer alguém que possa ser aproveitado pela lei?

Alguém que não se mostra a muitos me permite reconhecer os que estão prontos a serem recolhidos para pos­terior transformação.

- Então me acompanhe, amigo mago da Estrela. Vou mostrar-lhe o meu reino. Nada lhe ficará oculto. Está preparado para o que vai ver?

Não sei, meu amigo. Só vendo para saber. Caso eu fraqueje, me traga de volta, está bem?

Tem minha palavra que não ficará no interior do reino. Temos alguns que vieram até aqui e caíram e eu não os devolvi, mas você eu não desampararei.

Porque esta preferência comigo?

Quem conquistou a amizade de tantos seres das trevas, como você, é porque é alguém especial. Alguém que se distingue pela coragem e lealdade. E se veio até mim, não para exigir algo que havia perdido, mas para ver o que eu poderia oferecer à lei, merece mais que meu respeito, merece minha confiança e pode contar comigo para ajudá-lo caso venha a precisar de auxílio.

Neste momento todos os seres das trevas que estavam às minhas costas fizeram um enorme alarido de alegria. Sim, eu havia aberto mais uma porta das trevas. Onde Ele havia morrido há milênios, eu tentava fazê-Lo renascer.

Alguns deles podem me acompanhar?

Hoje só você e o Cascavel. Um dia, quem sabe, eu abra a porta para eles também.

Então vamos, amigo Sete Cobras. Eles ficarão aqui aguardando minha volta.

O amigo Cascavel enrolou-se em mim e fomos rumo ao interior do reino do amigo Sete Cobras. Mentalmente eu pedi o amparo do anjo da Luz. Eu adentrava um dos mais temidos e pavorosos reinos das trevas. Temia sucumbir ante ao horror que veria.

Sete auxiliares dele ficaram ao meu redor e estavam armados com longas lanças com forquilhas na ponta. Só de vê-las eu imaginei qual era sua utilidade.

Lentamente fomos entrando e a cada ponto ele parava e me explicava o que eu via. As visões eram pavorosas. A cada nova camada, novos horrores. Só vou revelar um para que tenham uma pequena idéia do que eu via: os espíritos que eu vi serem levados, há pouco tempo atrás, eram lançados em gigantescos ninhos de cobras imensas. Ali elas se alimentavam dos seus perispíritos e com isso cresciam.

Os novos condenados eram inoculados com um tipo de veneno que lentamente ia transformando-os em novas serpentes.

Neles agia a parte escura do ancestral místico da luz das formas e da transformação. Era o ancestral místico das reformas e regressões que atuava em todo o seu poder modelador. Cada um é o que traz em seu mental. Se não podemos nos transformar em seres melhores, regredimos para formas piores.

Eu assistia a tudo calado. Só raramente eu fazia alguma pergunta. Ele falava sobre tudo com propriedade de conhecimento do por que de cada um estar ali. Em certas câmaras, o que eu via deixava-me abalado, mas com muito esforço eu me refazia. Numa determinada câmara eu vi várias pessoas sem terem sofrido qualquer transformação.

- Quem são eles, amigo Sete Cobras?

- Ousaram vir até aqui para exigirem que eu libertasse os seus que me pertencem.

Posso vê-los de perto?

À vontade, amigo mago da Estrela.

Eu comecei a observar o mental de cada um e vi o quanto estavam desequilibrados. Mereciam uma oportunidade, me dizia uma voz interior.

- Posso levá-los comigo?

- Se quiser... Não posso tocá-los mesmo. Só ocupam um espaço do meu reino.

- Então por que os prende aqui, meu amigo?

Não gosto de ser desacatado nem amaldiçoado. Não mais do que já sou.

Você não é amaldiçoado. Apenas não soube servir à luz do saber e foi lançado no seu lado escuro e serve-a nas trevas da ignorância.

Você sabe como bajular alguém, amigo mago da Estrela.

Eu não o bajulo, amigo Sete Cobras. Só digo o que aprendi com os mestres da luz do saber e com o meu ances­tral místico. Se falar as verdades da lei é bajulação, então sou isso, mas eu acredito que não é nada disso. A verdade tem a força da lei e a lei, doa a quem doer, é a expressão da verdade. Só coloco as coisas de forma racional, nada mais!

- Suas palavras me instruem, amigo.

- Assim como as suas, sobre tudo em seu reino, me ajudam a aumentar minha compreensão sobre o efeito da ação da Lei Maior sobre o ser humano.

—O mesmo acontece comigo quando você fala!

E virando-se para o auxiliar, ordenou-lhe que os levasse para fora do seu reino que ficava no interior de uma enorme montanha num abismo nas trevas.

Logo, vários outros seres se juntaram a ele e levaram para fora os espíritos mantidos em cativeiro.

Andamos por quase todo o interior do seu reino e, em dado momento, eu vi um ser disforme que me chamou a atenção.

- Quem é aquele ser, amigo Sete Cobras?

Já não me lembro mais dela, é um espírito feminino. Por que?

Não sei mas chamou minha atenção. Posso me aproximar?

Cuidado! Você pode ser atacado por ela. Deixe antes que meu auxiliar a segure para que possa se aproximar.

Com ela presa nas longas lanças com forquilhas cortantes, eu me aproximei e ouvi seu mental. Eu sorri de alegria. Finalmente eu a encontrava. Seu mental clamava por socorro; —Ajude-me pai! Perdoe-me pai! Não se esqueça de mim, meu pai! E, quase inaudível, dizia: —Deus me perdoe!

As lágrimas caíam dos meus olhos. Ao olhar para o amigo Sete Cobras ele notou minhas lágrimas e falou:

Que ser estranho é você, mago da Estrela! Chora por um ser inútil como este. Já sei quem ela é. Matou o pai e o irmão só para agradar um canalha que se servia de sua carne quando era uma bela jovem. Que ser imundo!

Aí está onde eu começo meu trabalho, meu amigo. O mental dela clama por perdão e auxílio. Não é sua boca quem fala, mas sim o seu mental.

Fale-me sobre o mental, mago da Estrela.

A consciência não tem controle sobre o mental. Ele é nossa última ligação com o Criador. É nele que estão gravadas todas as nossas existências e atos, bons ou ruins. Eu ouço a voz do mental de um ser antes de tomar qualquer iniciativa de auxílio ou de distanciamento.

Quando eu ouço alguém gritar com a própria voz: "Me ajude", eu me acautelo, mas quando penetro em um mental e o ouço pedir socorro, perdão ou outras palavras neste sentido, então eu vejo um solo fértil para semear a vida e o saber da Luz.

Você não nega que é um mago da Estrela, amigo sábio. Se quiser, pode levá-la.

Quero sim, meu amigo.

-Levem-na também! - ordenou ele. - Venha até aqui, quero mostrar-lhe algumas pessoas, mago.

Levou-me a uma câmara fechada e com guardas na porta. Quando a abriram, eu me espantei.

- Quem são elas, meu amigo? -Minhas filhas.

Por que estão guardadas aqui se são espíritos perfeitos?

Eu temo deixá-las sair daqui.

Mas por quê?

Já lhe contei minha história, não?

Sim. Lembro-me de todas as suas palavras.

Pois esta é a causa. Eu amealhei muitos inimigos em vida. Como não podiam comigo, começaram a perseguir minhas filhas no intuito de me atingirem. Lutei muito para trazê-las para cá. Só assim pude ficar tranqüilo.

Será que você fez o melhor por elas?

Não sei se foi o melhor, mas foi o que achei mais seguro para defendê-las!

Elas participavam dos seus cultos?

Não. Só eram beneficiadas por meu poder e riqueza material.

O que posso fazer para ajudá-las?

Se me prometer protegê-las, eu o deixo levá-las para o seu reino.

Será que elas aceitarão minha ajuda?

Ouça o mental delas e veja se querem ser ajudadas.

Eu me aproximei delas e ouvi. Seus mentais gritavam: "Tire-nos daqui, pelo amor de Deus. Estamos no inferno há tanto tempo que não sabemos mais como é a vida!"

Eu as protegerei, meu amigo. Elas estão marcadas pelo medo de tudo e de todos. Eu diria que elas o temem muito.

Sei disso, mago da Estrela. Mas como poderia libertá-las se não tinha para onde enviá-las?

- Confia totalmente em mim? -Sim!

- E deixará que eu as encaminhe para a Luz de acordo com minhas regras de procedimento?

Sim, meu amigo.

Não tentará interferir na existência delas?

- Não. Eu confio em sua palavra. Mas, e se algum dos meus inimigos tentar prejudicá-las?

Tirei minha espada da bainha e levantando-a disse-lhe:

Enquanto eu estiver de pé, esta espada encantada cortará quem ousar molestá-las.

São suas de agora em diante, Cavaleiro da Estrela da Guia! Não me preocuparei mais com elas.

Voltando-se para elas, ele falou:

Vocês vão partir com o mago da Estrela. Sejam leais a ele e estarão protegidas para sempre. Esqueçam que me tiveram um dia como pai, mas saibam que se as mantive sob vigilância, foi só para protegê-las. Agora saiam e me esqueçam para todo o sempre.

Há mais coisas para se ver em seu reino meu amigo?

Não, mago da Estrela. Eu o observei o tempo todo. Queria ver suas reações para ver se podia confiar em você.

E o que o convenceu a fazer isto?

Sua reação quando via aquela entidade asquerosa pouco tempo atrás. Suas lágrimas diziam tudo sobre os seus sentimentos. Olhe estes sete auxiliares meus e se um dia precisar de ajuda chame-os mentalmente que de imediato irão em seu auxílio.

Obrigado, meu amigo. Sempre que eu sentir que há algo em seu reino para mim, virei incomodá-lo com minha presença.

Nunca me incomodará, pois foi a visita que mais me agradou nestes vinte e um mil anos de trevas. As portas do meu reino estarão sempre abertas para você, meu amigo mago da Estrela.

Espero um dia poder fazer ou dizer o mesmo por você, meu amigo Sete Cobras.

Quem sabe, não?

Sim, quem sabe! Até a vista, meu amigo. Acompanha-nos até a porta da saída?

Leve-as primeiro, depois eu vou pois elas me temem muito. Nem posso me aproximar delas que já ficam histéricas.

Sete eram as filhas dele. Voltei a me aproximar delas e tomei a mão de uma, mandando que dessem as mãos umas às outras. Num piscar de olhos, estávamos fora da montanha prisão.

Elas ficaram à minha volta. Os outros espíritos libertados e a jovem disforme estavam perto.

Os amigos das trevas gritaram de contentamento quando nos viram. Para eles, eu era um guardião da Luz amigo e leal. Alguém que os compreendia e tentava ajudá-los a se levantarem da ignorância.

Pedi a todos que voltassem para seus lugares de origem pois eu iria me volitar levando aqueles espíritos junto ao meu corpo. O amigo Cascavel, que já sabia como eu fazia, tratou de se afastar de mim e foi para junto deles.

Fiz um círculo no solo negro com meu cajado e todos entraram em seu interior. Dei um "até a vista" a todos e ergui meu cajado. Numa concentração mental invoquei o auxílio das forças superiores. Em segundos meu ser foi envolto por uma luz intensa e fomos todos transportados daquele abismo para um campo iluminado pelo luar. Estávamos à beira-mar. Eu teria muito trabalho mas sabia que seria gratificante!

 

UMA GRANDE LIÇÃO

Olhei o grupo à minha volta. Havia aproximadamente uns cinqüenta seres humanos em desequilíbrio emocional profundo. Separei os que estavam menos alterados num grupo à parte. Com eles eu teria menos trabalho.

Alguns me observavam como se nem notassem os outros ao seu lado. Que estranho sentir-se alheio a tudo! Mas haviam passado pelo pior dos pesadelos que possamos imaginar. Eu os compreendia bem.

Aquelas jovens de aparência mortiça que eram filhas do ser das trevas me pareceram as mais fáceis de equilibrar. Começaria por elas. Levei-as até a água salgada e lhes tratei os perispíritos com os fluídos que eu ia retirando da água. Elas tinham várias chagas no perispírito e o melhor remédio era a maravilhosa irradiação do mar. Eu, como tantos outros socorristas do baixo astral, conhecia a fundo os mistérios do mar e suas qualidades terapêuticas. Pouco a pouco, vi melhorar suas aparências. As chagas cediam à medida que eu aumentava a dosagem de irradiações. Algum tempo depois, estavam curadas de tão horríveis chagas. Procurei ganhar-lhes a confiança ao conversar, enquanto lhes aplicava o tratamento. Quando as vi bem melhor, comecei a estudar seus mentais. O pavor havia se instalado neles. Conversava com elas na sua língua original. Elas a haviam conservado pelo tempo de vinte e um mil anos, mais ou menos. Eu conhecia dezenas de línguas modernas e muitas da antigüidade sem memória, que só os mestres antigos conheciam. Fascinavam-me as línguas antigas. E eu tinha à minha frente um grupo de seres que não só a conservava, como era a única que conheciam. Pouco a pouco eu lhes ganhava a confiança conseguindo extrair frases mais eloqüentes. Odiavam os seres que as haviam mantido aprisionadas naquele lugar de pavor. Tinham medo até dos outros espíritos que nos observavam à distância. E odiavam seu pai, o guardião daquele local de transformação de espíritos. Ás vezes sorriam histéricas com a alegria que sentiam por não vê-los mais, outras choravam desesperadas com a possibilidade de ter que voltar àquele lugar.

Eu procurava esclarecê-las, confortá-las e prometia cuidar bem delas. Tudo o que possamos imaginar em evolução, nelas não havia o menor sinal. Conservavam todos os traços de um tempo perdido no passado e do qual já não havia o menor sinal. Haja visto que meu mestre mais antigo estava há sete mil anos no mundo espiritual. Era o mestre Han, mas ele havia participado de toda evolução tanto do lado espiritual quanto material da humanidade. Com elas isso não se sucedia. Tinham em seu mental lembranças tão arcaicas da forma de vida que eu logo pensei em estudá-las para ter uma idéia de como era o passado esquecido. De tudo o que me aparece na frente, eu procuro tirar uma lição. Com elas eu poderia colher muitas coisas originais.

Depois de conseguir conquistar totalmente a confiança delas e prometer-lhes - prometer não, jurar - da forma que lhes parecia segura de não abandoná-las, pedi-lhes que me auxiliassem no tratamento dos outros. Diziam que não me abandonariam nunca mais, que eu era o novo dono - na sua língua - de todas elas. Diziam também que eu era o melhor homem do mundo.

Que criaturas estranhas eu tinha à minha frente! Posso afirmar que, com o tempo, só confirmei minhas primeiras impressões: naqueles tempos imemoriais não havia diversidade de pensamento e de idéias. Os seres humanos se guiavam pelas primeiras impressões. Estas ficavam marcadas em seus mentais para sempre.

Em meus estudos sobre a personalidade daquelas jovens, eu descobri que o mental dos espíritos humanos daquela época eram mais sensíveis e límpidos que os da atualidade. O tempo só fortalece o mental humano. Este é o mistério maior das sucessivas reencarnações dos espíritos humanos. Além do fortalecimento do mental, há uma absorção de energia elementar original.

Com o que aprendi delas nos anos seguintes escrevi um volume com mais de mil páginas enviei-o aos mestres da Luz para posterior confirmação dos pontos já conhecidos e elucidação dos misteriosos. Meu estudo em torno daquelas jovens recebeu um longo elogio dos mestres do saber do Grande Oriente Luminoso e meu livro foi arquivado após posterior reprodução, em todas as bibliotecas que ele possuía. Quando já não estavam mais temerosas sobre o futuro, puseram-se a me auxiliar. Voltamos para junto do grupo que nos aguardava.

Assim que me aproximei deles, um homem em desequilíbrio profundo atirou-me uma frase cortante:

Só porque eram moças bonitas o senhor cuidou delas primeiro, não? É sempre assim. Todos vão atrás das mulheres bonitas e não se importam com mais nada.

Por que diz isto, meu amigo? Acaso sabe como é a melhor maneira de se auxiliar um grupo tão grande de pessoas doentes?

- Eu sei. Devemos começar pelos mais necessitados.

- Muito bem, vou seguir seu conselho. Obrigado por ter me ensinado como fazer meu trabalho.

E fui levar até a água uma outra mulher que me pareceu muito bonita apesar do sofrimento que a atormentava. Ele tornou a me interpelar:

- Ei! Você não vai me socorrer agora?

- Você não me parece o mais necessitado. Aguarde sua vez pois estou seguindo seu conselho. Ela está sofrendo mais que você.

Deixei-o falando sozinho e fui cuidar da mulher. Não havia me enganado. Com as chagas curadas e a confiança conquistada, vi o quanto era bela. Conversamos por um bom tempo e ela contou-me o que a tinha levado até aquele local das trevas. Tinha ido em busca do filho. Como não a deixaram vê-lo, começou a desafiá-los, por isso foi aprisionada lá. Depois de lhe falar das leis que regem a todos sem exceção e prometer-lhe ver o que poderia fazer por seu filho, levei-a para junto dos outros. Ela também começou a me auxiliar. Eu podia tê-los levado até o posto de socorro do Sagrado Coração, mas achei melhor tratá-los separadamente, pois pretendia voltar muitas vezes até o local de onde os havia resgatado e tinha que estudá-los bem para poder auxiliar aos que viesse a resgatar. Eles não tinham sido atingidos diretamente pelo horror, só haviam assistido a ele. Isso era da maior importância para mim.

Deixei com elas um bálsamo extraído do mar que iam passando nas chagas das picadas que haviam sofrido. O bálsamo anestesiava um pouco as dores.

O homem que havia me interpelado da outra vez tornou a me acusar de interesseiro:

Você é igual a todos. Só se interessa pelas mulheres bonitas.

Tem algo contra as mulheres bonitas, amigo?

Ele ficou um tanto desconcertado com minha pergunta mas se refez logo e voltou mais ferino em suas acusações.

Contra elas não, mas contra pessoas iguais a você que só pensam nelas, sim.

Mas vou auxiliar todos vocês, é só uma questão de tempo.

Então por que não me ajuda agora? Eu estou sofrendo muito.

Acaso eles não sofrem também? Acha que sua dor é maior que a dos outros?

Sim. Olhe para mim, sou o mais ferido de todos. Eu estou sofrendo muito mais que eles.

Enquanto conversávamos penetrei em seu mental e o analisei por completo. Decidi dar uma lição naquele espírito. Eu o compreendia muito bem. Ainda não tinha aprendido sua lição! Diria mesmo que era um idiota. Escolhi uma outra mulher e levei-a até as águas do mar. Fiz isso com todas as mulheres que estavam ali. Eleja havia se conformado com meu procedimento, apesar de continuar a resmungar. Quando me viu levantar um homem que estava aparentemente melhor que ele, voltou à carga com suas ofensas.

E agora, qual o motivo para me deixar aqui?

Não compreendi o que insinuou, meu amigo. O que quis dizer com "motivo"?

Sim, é isso mesmo. Agora você já saciou sua vontade de apalpar todas as mulheres que estavam entre nós e ficou longo tempo conversando com elas, lá, à distância. No mínimo as estava seduzindo com conversas que eu já conheço muito bem.

Fiquei observando com pena. Era um caso muito difícil de solucionar. Ordenei que não mais passassem o bálsamo em suas chagas. Ele ficou furioso e começou a me dizer impropérios e às pessoas já curadas que seguiam minhas ordens.

Continuei com o meu trabalho sem lhe dar atenção. Já sabia qual era a solução para o caso dele. O mal, às vezes só se cura com o mal, quando queremos fazer o bem.

Mentalmente chamei o amigo Cascavel até junto de mim. Imediatamente ele veio e enrolou-se em minha perna esquerda.

- O que há para mim, chefe? - perguntou-me com seu jeito direto de falar.

- Nada, só quero dar uma lição neste sujeito impertinente. Aproxime-se dele mas não o toque.

Todos se assustaram com a chegada da imensa cascavel e mais ainda em ver que me obedecia e não me picava. A imagem do réptil os apavorava. Mas logo se acalmaram quando mandei que o Cascavel ficasse em sua posição preferida. Ele se enrolava em meu corpo e ficava vigiando tudo à minha volta por sobre minha cabeça. Depois mandei-o voltar a vigiar o tal homem que ao ver as presas ameaçadoras apavorou-se e suplicando falou:

Pelo amor de Deus, afaste-a de mim. Tenho pavor de cobras.

Então, por que não se cala como todos enquanto eu os trato? Por acaso quer ensinar ao médico como tratar de sua doença? Se é assim, então não precisa de médico. Trate­-se sozinho.

Não pode fazer isso comigo, senhor.

Você não sabe como dar conselhos? Deve saber muito mais que eu, não?

Não é assim. Eu só quero parar de sofrer com meus ferimentos. É só isso que eu peço!

Ouça bem isso que vou lhe dizer, amigo. Você só quer o próprio bem. Os outros pouco lhe interessam! Só sua dor é importante, pois a dor alheia não lhe toca. Você não está preparado para receber o auxílio que posso oferecer-lhe.

Mas eu só quero parar de sofrer.

Já pensou um pouco no que o levou a ficar neste estado?

Foram aquelas criaturas que, com seus venenos, me causaram estas chagas.

Diga-me! Por que você foi ferido?

-Eu... queria minha filha de volta e eles não quiseram me devolvê-la.

Então você, assim como fez há pouco aqui, começou a destilar o seu veneno, não?

Eu só a queria de volta. E muito para um pai, querer sua filha de volta?

Por que sua filha foi levada para lá?

Eu não sei. Ela não merecia tal castigo.

Está dizendo que as leis de Deus são injustas? Será que é isso que eu ouvi de você?

Não foi isso que eu disse.

Como não? Você disse que ela não merecia tal castigo. Mas ele não foi imposto por nenhum humano. Quem a conduziu para aquele local foi a Lei Maior. A justiça divina não condena um inocente, tão pouco liberta um devedor. Acaso não se lembra mais das vidas dos semelhantes que ela tirou?

Mas eles só queriam se aproveitar dela por causa de sua beleza.

Será que não era ela quem usava a beleza para se aproveitar deles?

Não, isso não!

Como não? Por que ela se insinuava a eles? Não teria sido mais correto que ela tivesse se casado com alguém e constituído uma bela família?

Ela nunca encontrou um homem que a amasse. Todos só queriam se aproveitar do seu corpo.

Mas qualquer um deles teria aceito se casar com ela.

Ela sempre me dizia que eles só queriam o prazer!

E você acreditava em todas as palavras dela, não?

Sim, como poderia duvidar de suas palavras? Minha filha era tão boa!

Para você, que a protegia enquanto ela destruía muitos lares e vidas! Mas para todos ela não passava de uma sedutora fingida e malvada. Será que nunca lhe ocorreu que alguma coisa estava errada em suas histórias tão bem contadas? Não lhe ocorreu que talvez ela é que não estivesse sendo sincera? Como pode ser tão cego, ou estúpido?

-Mas ela me dizia...

Ela lhe dizia, mas o que disseram os que ela tirou a vida? Acaso se propôs a investigar um pouco sua linda filha? Ou será que você não era mais um fascinado por sua beleza também?

Como pode dizer tal coisa? Era minha filha!

Eu já vi muitas desgraças causadas pelos ciúmes e desejos reprimidos dos pais em relação a seus filhos. E você é um caso igual a tantos outros que há por ai. É por isso que lhe incomoda tanto ver mulheres bonitas sendo tocadas, ainda que seja para curá-las. Não se conforma em não poder fazer o mesmo. Você que teve alguém muito linda ao alcance da mão, não podia tocá-la pois sua consciência o impedia. Então sentia-se feliz quando ela assassinava os que haviam feito tal coisa. Foi por isso que você acabou indo parar no mesmo lugar que ela, amigo. A lei que nos rege o conduziu até ela para que você padecesse um pouco também. O que você não impediu, quando poderia ter feito, pesa contra você!

O homem estava assustado com minhas palavras duras e diretas.

Além do mais, você se lembra do ser que o picou muitas vezes durante sua estada naquele lugar?

Sim, como eu poderia esquecê-lo? Sempre me picava e só se afastava quando vinham tirá-lo.

Pois vou lhe mostrar algo que o deixará muito confuso.

Volitei até o reino do amigo Sete Cobras.

Minutos depois eu voltava com um daqueles seres que guardavam o lugar. Ele trazia presa a uma longa forquilha uma serpente raivosa. Quando a viu, começou a gritar!

Não a deixe me picar mais, por Deus, não a solte.

Fique calmo amigo, ela não vai picá-lo mais. Só lhe peço que observe bem tudo que vai ver e ouvir agora.

O ser das trevas subjugou a cabeça da serpente e então eu a toquei. Tocando no seu mental eu a transformei na linda filha do homem. Ela continuava com a forquilha no pescoço segurando-a, pois queria se atirar sobre ele:

- Solte-me, quero matá-lo! Minha filha, sou eu, seu pai!

Você não é meu pai, é meu carrasco. Não vê o que fez comigo, seu canalha?

O que está dizendo? Eu sempre quis o seu bem!

Como pode dizer tal coisa? Por que não me impediu de cometer tantos crimes? Não percebe o mal que me fez deixando que eu fizesse o que você queria? Poderia ter me impedido. Se o tivesse feito hoje eu não estaria naquele lugar horrível sofrendo tanto. Eu o odeio! - gritou ela numa histeria incontrolável.

Tornei a tocar em seu mental e ela voltou à sua forma como a lei determinou. Eu pedi ao ser das trevas que a levasse:

- Obrigado amigo, fico-lhe agradecido pelo auxílio. Pode voltar ao seu reino agora.

Ele desapareceu no mesmo instante. Voltei a falar com o homem.

Então, o que me diz agora, amigo?

Era minha própria filha que me torturava. Meu Deus, o meu carrasco era minha filha amada e eu nem sabia.

O que acha que eram aquelas serpentes que se emaranhavam numa luta eterna? Apenas assassinos cruéis que se acusavam pela queda brutal que tinham sofrido devido aos seus crimes. Um tenta matar o outro ainda que isso seja impossível no estado em que se encontram.

E eu falei, falei e falei! Quando parei de falar todos os presentes choravam. Eu havia lhes mostrado as falhas de cada um, como são as coisas divinas e os desígnios maiores impostos a todos nós sem nenhuma exceção. Também falei do perdão e da fé, do amor e da razão.

Rapidamente cuidei de todos, só deixando aquele espírito deformado. Quando vi que estavam todos bem, voltei-me para ela. Em seus olhos, as lágrimas brilhavam. Estava despertando do terrível pesadelo. Toquei-lhe o men­tal e ela voltou a ser um espírito feminino perfeito. Como ela chorava! Eu a levei até o mar e curei seu perispírito. Ela ainda não cessara seu pranto. Com muito tato eu falei do seu remorso e sua queda. Ela havia assassinado o pai há alguns milênios atrás. Sua queda foi muito grande e somente as preces do pai impediram que viesse a sofrer a transformação total. Quando já havia se acalmado um pouco, eu lhe pedi que contasse o motivo de sua queda aos presentes.

Ela começou a falar com eloquência:

- Eu era filha de um mestre da Luz, um sacerdote muito querido. Vivia para sua família e seus semelhantes. Mas um dia surgiu em nossa aldeia um rapaz muito bonito que me encantou. Apaixonei-me imediatamente por ele. Tinha um gênio explosivo e arrebatador. Eu fui contra os conselhos de meu pai e me entreguei a ele. Nós vivíamos como amantes. Meu pai vivia tentando me afastar dele mas eu não escutava suas palavras de advertência. Um dia, a conselho de meu amante, envenenei meu pai. Ninguém suspeitou de mim, pois era sua filha. Meu amante tomou o lugar dele e pouco tempo depois modificou o culto religioso que meu pai pregava aos moradores da aldeia. Ele instalou um ritual negro e blasfemo, eu o apoiei em tudo de tão apaixonada que estava e um dia fui vítima de seu culto satânico, pois ele havia encontrado outra mais jovem e bonita que eu. O resto já conhecem. Caí, caí e caí! Descobri muito tarde o erro cometido. Uma luta se travava entre mim e meu castigo. Algo tentava evitar que eu caísse mais.

Eram as preces de seu pai, minha irmã. Só as preces dele e o trabalho que tem desenvolvido em benefício da humanidade! Se não fosse por ele você teria se transformado em um ser das trevas sem mais retorno. Você deve agradecer a ele.

Eu sinto vergonha, remorso e não sou digna dele, senhor!

Ele tem sofrido por muito tempo, irmã querida. Você deve ir até ele e amá-lo como ele merece.

Mas eu cometi tantos erros ao abraçar o culto negro de meu amante que sinto vergonha de mim mesma. Não teria coragem de ficar diante dele novamente.

Ao menos lhe dê a alegria de vê-la novamente. Só isso já será um motivo de alegria para ele. Vamos?

- O senhor me ajudará quando chegarmos diante dele?

- Sim, querida irmã, eu a ajudarei. Agora vou fazer uma prece de agradecimento ao Deus único e bondoso que nos criou à sua semelhança e tudo faz para que assim permaneçamos por todo o sempre.

A seguir, fui até as águas do mar e agradeci com outra prece à guardiã do mar por permitir que eu purificasse aqueles espíritos com o poder de suas águas. Um lindo gênio das águas se mostrou a mim enquanto agradecia. Fiquei encantado com sua visão. Ela então me disse:

Estou vendo você desde que chegou aqui, pescador. O seu socorro a estes irmão menos esclarecidos me encantou. Já o havia visto outras vezes à beira-mar, mas nunca prestara muita atenção ao seu trabalho. Você me encantou pela sua paciência, coragem e senso de justiça, pescador!

Procuro transmitir o que sei e sinto sobre as coisas divinas e faço o que posso ou me é permitido, gênio encantador!

Recebo muitos pedidos de ajuda por parte dos aflitos, mas nem todos podem ser atendidos porque me faltam servidores para realizar determinadas missões.

Não tenho muito tempo disponível, pois, quando cumpro minhas obrigações de guardião junto ao Sagrado Coração, procuro levar caídos à beira do caminho já equilibrados. Mas se a senhora me aceitar como mais um de seus seguidores, eu me sentirei imensamente agradecido. Ficarei muito feliz em poder retribuir um pouco do muito que já recebi e recebo de seu ponto de forçass na natureza.

Então quero tê-lo como mais um dos muitos que me auxiliam no meu ponto de forças. Meu guardião o procurará quando precisar de seu auxílio.

Como poderei reconhecê-lo como seu enviado?

Ele, antes de lhe dar qualquer missão, o convidará a conhecer meu reino. Só depois de conhecê-lo poderá me auxiliar.

Eu fico honrado com a sua deferência. Procurarei honrá-la com o que sei e posso fazer.

Eu sei do que você é capaz e o que sabe e pode fazer. Quando já me tiver auxiliado pelo tempo que se fizer necessário eu lhe darei uma lembrança minha.

-           Certa vez ganhei um presente de uma sereia encantada. Foi o presente dela que me devolveu à vida num tempo em que eu já não tinha motivos para lutar por ela.

Quando eu lhe der o meu presente, terá motivo suficiente para sorrir sempre e jamais se esquecerá de minha generosidade e do meu amor pelos que amam os que sofrem nas trevas da ignorância.

Nada lhe peço, senhora, apenas quero servi-la. Isso já é um motivo de alegria para mim.

Jamais deixo de presentear aos que me servem. Geralmente, dou-lhes a maior riqueza que há no tesouro divino. Até a vista, pescador!

Até a vista, senhora das águas!

Ela desapareceu no mar e eu voltei para junto dos amigos que, sabia eu, haviam sido amparados por aquela entidade que se mostrara a pouco. Eu ainda não sabia, mas no futuro ela me influenciaria de forma marcante e nem percebi que seu emissário já estava ali na pessoa do Cavaleiro do Mar que acabara de chegar. Mas o tempo iria me esclarecer tudo.

Como vai, Cavaleiro do Mar?

Muito feliz em ver o que você fez, Cavaleiro da Estrela da Guia. Você não nega sua origem, filho meu!

O senhor é muito generoso comigo, grande Mestre da Luz Cristalina.

Sabe que não sou de elogiar quem não faz jus a um elogio, mas não deixo de fazê-lo quando vejo uma ação igual a esta que está fazendo.

Mestre da Luz, acabo de libertar a filha do mestre Han.

Você conseguiu finalmente! Bendito seja, mestre da Estrela. Ele ficará muito feliz com sua ação.

O senhor poderia me acompanhar?

Será um prazer imenso poder ver o sorriso de mestre Han quando ver sua filha amada.

Envolvemos e conduzimos todos eles até o Sagrado Coração. Lá, fomos recebidos por Salete, que sorriu ao me ver.

- Simas, seu fujão! Por onde tem se ocultado todos

estes dias?

Primeiro fui visitar Raios de Lua, depois Jasmim e finalmente o senhor das Sete Cobras.

Você fez isto? Conte-me como conseguiu. Deve ter sido emocionante.

Antes gostaria de alojar estes irmãos em seu templo.

Por que sempre diz "meu" templo? É tão seu quanto meu. Não quero ouvi-lo falar mais assim. Prometa-me que não o fará mais!

Prometo-lhe. Será o templo do anjo da Luz, então.

Assim é melhor. Vamos levá-los ao interior do prédio.

Salete, não separe aquelas sete jovens muito parecidas.

Quem são elas, Simas?

São filhas do amigo Sete Cobras, ele as confiou a mim. Ainda preciso ver como cuidar delas.

Como ele as manteve ocultas por tanto tempo?

Você quer dizer, vinte e um mil anos?

Tanto tempo assim? É impossível, Simas! - Salete ficou espantada.

Eu também me espantei quando as vi. Procurem entendê-las pois falam e compreendem uma língua muito, mas muito antiga. O mental delas é muito sutil e trazem marcas muito fortes do passado e do sofrimento pelo qual passaram.

Simas, só você para ganhar a confiança de um ser das trevas como ele e ainda ter recebido as filhas em confiança. Onde existe outro igual a você?

Em você mesma, Salete. E agora o Cavaleiro do Mar irá comigo até mestre Han.

O que vão fazer lá?

Levar sua filha de volta à Luz. Aquela ali é a filha

dele.

- Você é maravilhoso! Tantos falharam no intento de libertá-la. Posso acompanhá-los? Quero partilhar um pouco deste momento.

Então venha conosco.

Por favor, aguardem até que eu encaminhe estes irmãos queridos aos seus aposentos, volto num instante.

Quando todos foram levados para o interior do edifício, a filha de mestre Han começou a chorar. Aproximei-me dela e a envolvi nos braços procurando acalmá-la.

Não chore, irmã querida, logo sua aflição passará!

Eu temo reencontrá-lo após tanto tempo, senhor!

Pois devia ficar muito feliz com o reencontro. Não sabe o quanto é amada. Até eu já a amo! Espere aqui que vou apanhar um manto para cobri-la. Coberta se sentirá mais protegida.

Obrigado, senhor, não sei como agradecer.

Logo depois voltei com um manto azul e a cobri com ele. Ela encostou-se em mim e continuou com seu pranto silencioso. Quando Salete voltou, disse sorrindo:

Perdi o meu lugar, Simas?

Seu lugar é eterno, ninguém poderá tirá-lo ainda que muitos venham fazer sua morada em meu coração. Ele é como o edifício do Sagrado Coração, quantos mais entram nele, mais lugares vazios existem para serem ocupados.

O Cavaleiro do Mar entrou em nossa conversação.

Venha comigo, cara Salete. Nós iremos na frente para anunciar a mestre Han a chegada da filha amada. Assim terá tempo para se preparar.

Simas, qualquer dia eu o deixo para fora do meu coração e alojo nele o Mestre da Luz Cristalina.

Duvido que faça isso!

Por que duvida?

Eu sei que ele mora no seu coração há tanto tempo quanto eu. E você nunca me dispensou por causa dele e nem a ele por minha causa. Lembre-se de quem é o Sagrado Coração, Salete!

Eles partiram sorrindo com minhas palavras. Procurei transmitir um pouco de alegria à filha de mestre Han. A muito custo ela deu um leve sorriso. Achei que era o suficiente e, abraçando-a com carinho, volitei no espaço rumo ao Templo Dourado. Fui direto aos aposentos de mestre Han.

Fiquei enternecido quando o vi sorrir e chorar de alegria e emoção. Foi comovente o reencontro do velho pai com a filha amada. Nós, que a tudo assistimos também nos entregamos às lágrimas que a emoção do momento nos causava.

Durante muito tempo eles ficaram abraçados e envoltos por tão pungente emoção. Mestre Han me falou:

- Filho, você me deu o mais belo dos presentes: deu-me a alegria do amor. Existirá algo mais valioso que a alegria do amor?

Não, mestre de mestres.

Como poderei retribuir um presente tão valioso?

- Era eu quem lhe devia um presente assim, lembra-se? Acolheu-me quando me senti tão só e vazio. E aqui, nesta sala o senhor me fez reencontrar meus pais. Eu não esqueci daquele momento, mestre de minha luz. O senhor me devolveu a alegria do amor de meus pais porque possuía muito amor para dar a quem se sentia solitário. Foi o senhor que fez renascer em mim o amor. De que maneira eu poderia agradecer-lhe tão valioso presente? Só dando-lhe a mais valiosa das coisas do amor, a alegria do amor.

Ele veio até mim e abraçando-me, disse:

- Só um filho amado sabe o que torna um pai amoroso

feliz.

Eu nada respondi. Não tive resposta alguma para dar além de um longo e forte abraço. Quando consegui, disse-lhe:

- Sua alegria é minha alegria, velho pai amado!

- E sua vitória é minha alegria, filho amado. Onde eu encontraria outro igual a você?

- Olhe o seu interior, velho pai. Poderá me ver aí dentro, pois é no senhor que eu me espelho.

Separamo-nos e ele disse para Salete e o Cavaleiro do

Mar:

Divido com vocês minha alegria, amigos de todos os momentos.

Nós também compartilhamos de sua alegria, irmão amado - disseram em uníssono os dois.

A filha de mestre Han aproximou-se de mim e falou:

- Ampare-me senhor, pois vou cair, tal a emoção que sinto.

Mal tive tempo de abraçá-la e ela perdeu os sentidos. Eu a coloquei sobre a cama que mestre Han me indicou. Quando tive a certeza de que estava bem, comuniquei a eles que iria me afastar um pouco pois estava precisando ficar sozinho.

Despedi-me deles e mergulhei no espaço infinito. Fui parar ao lado da palmeira onde eu havia me recostado no dia em que vi meu ancestral místico e ele me ordenou que derramasse meu amor entre os que tinham carência dele.

Era ali que eu ficava, naquela palmeira, sempre que precisava me refazer depois de uma árdua vitória. Buscava o meu anjo da Luz. Eu sabia que ele não estava ali, mas podia senti-lo vibrar em mim. Mesmo ausente e distante, sentia que ele me enviava sua mensagem de amor.

Eu era, sou e sempre serei um iniciado. E um iniciado só vive se sente a proximidade do seu ancestral místico, a origem de sua natureza! E eu não negava minha origem. Ela é a luz do saber, o ancestral místico que contém entre outras coisas, as coisas do amor. Lembrando de mestre Han, eu olhei para o infinito e disse:

- Um dia você me ordenou que derramasse o amor. Hoje, eu o fiz por alguém a quem só faltava a alegria do amor para ter todas as coisas do amor. Só peço uma pequena ajuda. Envie-me um pouco do seu amor pois apesar de conhecer todos os seus mistérios, eu não possuo sua alegria.

Eu sei que meu pedido foi ouvido pois um facho de luz, vindo do infinito, iluminou-me em profusão e logo eu adormeci. Foi um sono tão bom que quando despertei, senti-me o mais feliz dos filhos de Deus.

Se eu não negava minha origem, ele também não me negava seu amor.

Ao me levantar, vi que Salete estava sentada ao meu lado. Recostei-me nela e perguntei-lhe:

Como me achou aqui?

Um anjo me revelou o seu esconderijo, querido Simas!

Eu conheço este anjo?

Sim! é um anjo muito bondoso e belo.

Ah! já sei. É o nosso cupido, não?

Não queria ter seu paraíso dividido?

-Não me importo de dividi-lo com quem amo! Mas só com quem amo, ninguém mais! - exclamei sério.

Não precisa se alterar assim, pois não vou revelá-lo para mais ninguém. Por que não me trouxe com você? Acha que não me sinto solitária no meio de tantos? Ou pensa que eu não gostaria de me dividir um pouco?

Perdoe-me, Salete, mas eu estava esgotado. Tudo o que vi no abismo nos últimos tempos me deixou um pouco enfraquecido.

Como se sente agora?

Alguém lá em cima me derramou um pouco do seu amor. Por isso me sinto ótimo. Meu coração está radiante.

Não gostaria de doar um pouco dele para mim?

Salete acariciava meu rosto e tinha os olhos lacrimejantes.

- Vamos, ajeite-se ao meu lado que vou lhe falar das coisas do amor, Salete querida. Vou dizer como elas nos dão força para continuarmos cultivando o amor a tudo e a todos e também sobre como elas permitem nos doarmos um pouco, principalmente se é para quem amamos muito.

Salete ajeitou-se bem junto a mim e ficamos falando das coisas do amor por um longo tempo. Nós tínhamos muito pouco tempo livre, e aquele era um desses momentos, por isso nós o aproveitamos bem.

 

UM PROBLEMA DELICADO

Quando voltamos ao Sagrado Coração ficamos preocupados com uma informação que nos chegou: as sete jovens, que eram filhas do amigo Sete Cobras, haviam sofrido uma queda vibratória muito grande. Os amigos seguidores responsáveis por elas não sabiam o que fazer para reanimá-las. Fomos vê-las. Preocupado eu comentei:

Salete, é impossível que sintam saudades do lugar de onde vieram. Não posso imaginar que alguém tenha uma queda violenta na vibração, estando alojado aqui.

Algo muito grave deve estar incomodando. Não será o pai chamando-as de volta?

Duvido que seja isso. Ele me pareceu feliz em ficar livre da responsabilidade de guardá-las e protegê-las. Eu senti seu mental se libertar de um tormento. Não! certamente ele não é a causa da queda vibratória delas.

-Temos que ser cautelosos e sutis no tratamento delas, Simas. Eu também penetrei no seu mental e vi o quanto são sensíveis.

- Estou assustado com uma possibilidade, Salete. Se for isso, temos um problema muito grande e de difícil solução.

O que é?

Não! Não pode ser isso! É bobagem imaginar tal coisa.

- Mas o que é que o assusta tanto?

- Não é nada, Salete querida. Foi só uma idéia boba que me passou pela cabeça.

Você não costuma ter idéias tolas. Seu instinto deve estar de sobreaviso.

É possível. Mas pode ser só um temor infundado.

Ainda não me disse o que pode ser, Simas.

Já estamos chegando. Você verá o que é. Você compreende a língua que elas falam?

Um pouco.

Pois então ouça e observe. Verá como eu coloquei um peso enorme em minhas costas.

Abri a porta do aposento reservado a elas. Tinham voltado ao mesmo estado vibratório de quando estavam nas trevas. Só lhes faltava o pavor, agora substituído pela melancolia profunda.

Saudei-as em sua língua e lhes sorri. Quando me viram, começaram a se lamentar e chorar:

Por estão nesse estado de melancolia?

Você nos abandonou. Foi embora sem nos dizer nada.

Eu não abandonei. Só fui levar ao seu pai aquela outra jovem. Como podem imaginar que eu as abandonaria? Não prometi cuidar de vocês? Eu vou fazer isso com muito carinho.

Você só está dizendo isso para nos alegrar - falou outra delas que só me observava.

-Não, minhas filhas. Com o tempo vocês serão muito felizes aqui.

Mas nós não queremos ser felizes aqui e, sim, ao seu lado. Não nos abandone mais.

Aqui só querem ser seus amigos e ajudá-las a reviverem as belezas da vida.

Apontando Salete, lhes disse:

- Ela vai ajudá-las pessoalmente a se adaptarem à nossa vida.

-Você prometeu ficar conosco! Porque nos abandona agora?

Compreendam que eu não posso ficar com vocês o tempo todo. Eu tenho certas obrigações que me mantêm afastado por longos períodos.

Leve-nos com você. Podemos ajudá-lo muito.

Não percebem o estado em que estão? Precisam se refazer um pouco mais e aprender muitas coisas.

Você nos ensinará tudo e ao seu lado nós estaremos muito bem.

Esperem um pouco. Preciso conversar com a diretora Salete.

Ela é sua também?

Não, ela não é minha! - respondi-lhe sorrindo pela forma inocente como falou.

Mas logo tive meu sorriso transformado em motivo de maiores preocupações pela sua nova afirmação.

É sim, eu sinto que é. Não poderia me enganar sobre os sentimentos que ela emite em sua direção. Acho até que posso senti-los também, porque já os estou vendo.

Um momento e já volto. Não comecem a chorar que não irei embora.

Saí do aposento conduzindo Salete pelo braço.

Quando chegamos à sua sala de trabalho ela estava tão preocupada quanto eu.

Como podemos entender isso, Simas?

Diga-me você que é uma mulher igual a elas. Você tem a vibração feminina e deve entender bem o sentimento delas.

É o mesmo que sinto por você. Como é possível uma coisa dessas?

Não sei, Salete, mas estou achando que seria melhor eu não ter ido até aquele abismo horrível.

Por que diz tal coisa? Não valeriam a pena os irmãos nossos que você resgatou de lá?

Não foi isto que eu quis dizer. Perdoe-me por dizer desta forma o que eu vejo à minha frente. É o amor mais puro que elas emitem em minha direção. Pude vê-lo nos olhos delas e sentir suas vibrações que eram muito fortes.

Eu também as senti e vi estampado em seus rostos a tristeza do abandono dos que sofrem por amar alguém e não serem correspondidos.

O mais difícil nesta situação é que não trazem, um mínimo que seja, de maldade.

Preferia que elas tivessem isso também?

Assim você as encaminharia para um reformatório?!

Simas! Como pode alguém como você imaginar uma coisa dessas?

Você não está no meu lugar ou não viu a extensão do perigo que se avizinha para mim. É uma situação sem solução. Eu me meti num labirinto.

Com o tempo você as ensinará como devem viver na espiritualidade. Eu sei que você vai conseguir.

Como consegui-lo sem regredir tanto como eu pressinto?

Não precisa regredir. Apenas volte um pouco para conseguir trazê-las até nós.

Acaso pensa que é fácil? Não sei como equilibrar-me sem magoar a você, ou às outras e agora um caso desta gravidade é colocado à minha frente.

Nenhuma o culpa ou cobra sobre nada. Apenas gostamos de tê-lo por perto ou junto de nós.

Por causa disso você sempre se atrasa.

Mas eu sou feliz aqui, não penso em me tornar um anjo. Aqui tenho tudo o que sempre pedi a Deus. Sirvo-o com tanto amor e alegria no coração que me é impossível almejar algo melhor. Você não consegue entender isso, Simas?

Posso compreendê-lo em você pois sei o quanto ama ajudar os nossos semelhantes, mas e quanto a elas, o que pode me dizer?

É falso quando lhe pergunto onde encontrar alguém igual a você e me responde para olhar dentro de mim, que o encontrarei?

- Não, e você bem o sabe!

- Então faça-as encontrarem você dentro delas e tudo se resolverá.

- Como fazê-lo? Por acaso sabe o que isso envolve?

Sim! Ame-as como ama a todas, doutrine-as e ensine-lhes o saber das coisas divinas. Não é tão difícil fazer isso.

Fazer tal coisa pode levar anos, décadas ou até séculos.

Para onde pretende ir? -Como assim?

Sim, acaso pensa em abandonar este planeta?

Você sabe que isto é impossível e nem pretendo, pois tudo o que eu amo está aqui neste mundo abençoado pelo Criador.

Então não tema assumir tal tarefa. Se não fosse para serem amparadas, não lhe teriam sido confiadas. Alguém lá em cima vigia suas ações e você sabe muito bem disso.

Sim, eu sei. É justamente por isso que eu temo tanto uma queda.

Volte para junto delas e veja o que é possível fazer para reanimá-las, Eu vou ver como ajudá-lo nesta tarefa tão difícil.

Eu voltei e pude ver a alegria em seus rostos ao me verem de volta, devolvi-lhes um sorriso triste.

Por que está triste, mago da Estrela? - perguntou uma delas.

Problemas, minha amiga. Só problemas, nada mais.

Podemos ajudá-lo?

Todas elas ficaram preocupadas comigo. Estranho como são os seres humanos! Muito estranho mesmo.

Causam-nos o maior dos problemas e ainda oferecem ajuda. Resolvi deixar a solução para outra hora.

-        Sim, vocês podem e muito. Vamos sair deste aposento e passear um pouco pelos jardins. Precisamos nos conhecer um pouco melhor.

Um clima de felicidade tomou conta do ambiente.

Eu ia prestando atenção a todas as reações delas. Descobriria uma forma de penetrar em suas naturezas para tentar modificá-las.

Quando saímos, Salete passou por nós e me endereçou um sorriso e uma piscadela de cumplicidade.

Já no jardim começamos a conversar sobre a beleza das flores. Perguntei a cada uma qual a que lhe parecia a mais bonita.

Quando uma escolhia a sua preferida eu lhe dava seu nome. Ao terminarem as escolhas eu tinha um jardim humano ao meu lado. Havia a Rosa, a Azaléia, o Lírio, a Margarida, o Girassol a Flor da Primavera e a Flor de Palmas.

Ensinei-lhes a pronunciar o nome de cada uma e disse-lhes que assim seriam chamadas. Ensinei-as a pronunciar o meu nome e o de Salete. Lentamente iam aprendendo nossa língua.

A princípio lhes era difícil a nova pronúncia mas logo conseguiram dominá-la. Eu lhes ensinei muitas palavras naquela tarde.

Quando chegamos junto às fontes, a que se chamava Lírio convidou as outras para se sentarem e cantarem uma canção que falava da beleza das fontes.

Sentei-me um pouco afastado delas e fiquei encantado com a beleza da canção. Como eram harmônicas suas vozes, e como cantavam bonito!

Salete se aproximou no momento em que terminavam a canção.

Por que pararam, Simas?

A canção terminou, Salete!

Eu a ouvi e vim só para ouvi-las cantarem, que pena!

- Quer que eu lhes peça para cantá-la novamente? -Eu quero!

Elas concordaram com o meu pedido e voltaram a cantá-la. Depois cantaram muitas outras, tão lindas quanto a primeira. Nós até repetimos alguns estribilhos com elas.

Sei apenas que ficamos até tarde cantando. Muitos outros amigos se juntaram a nós e quando percebemos, elas já tinham uma grande platéia. Salete também cantou algumas de suas lindas canções, depois de lhe pedirmos com insistência.

Quando nos recolhemos ao edifício sede, Salete sorriu-me e disse:

Este é o caminho, Simas. Peça a elas as letras das canções e adapte-as à língua moderna. Assim nosso coral poderá cantá-las também.

Vou fazer isso, Salete, mas terei que me afastar um pouco de meu trabalho externo junto às trevas.

Você merece um pouco de descanso. Quase metade dos que aqui se encontram internados foram trazidos por você. Não acha que já fez demais em tão poucos anos?

Não posso abandonar os que clamam por auxílio, Salete. São tantos que se pudesse me multiplicaria por muitos só para socorrê-los.

Mas você já tem feito isso. Os que tem preparado como guardiões não contam?

O que eles fazem é por esforço próprio e não conta!

Então, o que conta para você?

Nada! Eu só disse que gostaria de poder ajudar um pouco mais.

Vá descansar, Simas. Depois nós falaremos sobre elas. - disse Salete apontando para as jovens. - Vê como estão lindas, animadas e felizes?

Olhei para elas e, realmente, estavam muito bem. Levei-as ao seu aposento.

Depois de instaladas, indiquei-lhes os jarros com alimentos diluídos em líquido especial que era servido a todos os habitantes do Sagrado Coração. Havia também outros alimentos que não posso descrever, pois a lei não me permite, e mandei que se servissem.

Logo, Lírio do Campo começou a servir às irmãs o néctar especial. Antes de se servir, trouxe uma taça para mim.

Não tive coragem de recusar. Sentei-me num pequeno banco e fiquei observando enquanto servia o néctar. Mas logo notei que eu é que estava sendo observado, e com muita curiosidade.

Procurei penetrar em seus mentais inferiores e o que ouvi não me agradou. O desejo pulsava naqueles espíritos. Jamais tinham superado tal impulso.

Quando terminei de beber o líquido da taça, Lírio veio prestimosa me servir outra. Aceitei-a pois me daria tempo para pensar em como me safar de tal situação.

Em dado momento, ela me perguntou:

- Com qual de nós você ficará esta noite?

A pergunta me deixou atônito. Não sabia como resolver o impasse.

Por que devo escolher uma?

Não pode levar todas juntas com você. Primeiro tem que escolher uma.

Mas é preciso?

Eu procurava ganhar tempo e encontrar uma saída.

- Sim, mago da Estrela. Uma tem que ser a primeira e as outras a auxiliarão para sempre junto ao escolhido.

Ótimo, pensei eu. Menos mal. Assim me livrarei de seis. Com uma será mais fácil lidar.

Compreendo. Uma é eleita a rainha e as outras serão suas damas de companhia.

O que é isso, mago da Estrela?

Um costume muito em uso nos tempos atuais, Lírio do Campo

Não era assim antes. Mas até agora não escolheu uma. Até parece que não o agradamos!

Vocês todas são muito bonitas. É muito difícil dizer qual é a mais bela.

Não precisa escolher a mais bela e, sim, a que mais o agradar. Todas respeitarão sua escolha.

Preciso de um pouco de tempo para me decidir. Eu não sabia que este era o seu costume e não reparei muito em vocês. Afinal, tenho muito pouco tempo livre. Penso até que não serão felizes ao meu lado pois sou um guardião do templo e tenho que sair para o campo. Não se lembram mais como eu as encontrei?

Não tem importância. Nós ficaremos felizes de saber que nos quer ainda que não possa ficar muito tempo conosco. Nós o ajudaremos no que for possível, assim poderemos ficar junto de você.

Está bem, mas dêem-me tempo para me decidir.

Não pode escolher uma agora? Só assim terminará nossa angústia.

Por que se sentem angustiadas, se estão bem protegidas e acomodadas aqui?

É que nós precisamos saber quem será a escolhida.

Então vou escolher uma de vocês, se isso as livrar da angústia.

Mais tarde eu iria me arrepender por ter feito tal escolha, mas com o tempo vi que nem tudo é tão ruim se conseguirmos tirar algo de bom dos piores problemas.

A expressão de contentamento em seus rostos me descontraiu um pouco e sorri para elas. Todas se mantinham à minha frente na expectativa. Posso afirmar que eram todas muito bonitas, diria mesmo que a beleza delas era diferente dos espíritos femininos da atualidade.

Eu as olhava com atenção. Já que ia escolher uma líder, que fosse a que me parecesse mais bela e equilibrada. Não que alguma fosse equilibrada naquele momento!

Antes devo avisá-las que não são as únicas que gostam de mim. Há outras que eu amo e quero muito bem.

Nós sabemos - falou Flor da Primavera.

Já sabemos quem são elas e achamos todas muito bondosas.

Como podem saber disso?

É só olhar para você.

Apenas olhando vocês conseguem ver tal coisa?

Sim, e sabemos que a primeira está muito distante do senhor, mago da Estrela.

Poderiam me ensinar como se descobre tal coisa?

E muito difícil e demorado, mas com o tempo conseguirá.

Eu fiquei observando por um longo tempo. Quantos mistérios não estariam ocultos no passado e elas tinham a chave deles. Fui tirado de meu estado de meditação por uma ação chocante. De repente soltaram do corpo as vestes que as cobriam e ficaram nuas à minha frente.

Quando saí do estupor, perguntei-lhes:

Por que fizeram isto?

Você está com muitas dúvidas. Talvez assim seja mais fácil decidir-se.

Eu as recolhi nuas quando seu pai as confiou a mim. Tratei-as ainda nuas de seus ferimentos. Não acham que já ficaram assim por muito tempo na minha frente? Vamos vistam-se imediatamente!

Depois que se compuseram, ainda tentaram justificar tal atitude.

Não queríamos irritá-lo, mago da Estrela - falou Flor da Primavera.

Eu não sou mago da Estrela. Chamem-me de Simas. Este é o meu nome e se eu vir alguma de vocês sem roupa, mando-as de volta para aquele lugar onde nunca devia ter ido.

Mas o senhor é um mago da Estrela, pois só eles possuem uma espada igual à sua. Era assim que nós os chamávamos. Prometemos nunca mais tirar nossa vestes, mas, por favor não nos mande de volta para aquele lugar. Não conseguimos paz só por causa das lembranças.

A aflição se instalou nos seus olhos quando fiz menção de enviá-las novamente para junto das serpentes. Logo, choravam copiosamente.

- Está bem, não vou mandá-las de volta, apenas não gostei da forma como agiram!

Eu dei uma rápida olhada e me decidi a escolher uma para terminar com tudo aquilo. A que me pareceu ser a melhor escolha foi Flor da Primavera. Quando lhes disse o nome dela, todas se abraçaram de contentamento. Eu só as olhava sem entender o porquê das outras estarem tão felizes se não haviam sido as escolhidas.

A comemoração foi esfuziante, até que alguém bateu à porta. Ao abri-la me deparei com minha mãe e Salete.

- Que barulho todo é este, Simas? - Era minha mãe que me inquiria.

Tudo isso só porque elegi a líder do grupo.

E elas precisam ficar tão felizes assim?

- Ainda não entendi o motivo, mas esperem que saberemos logo.

Virando-me para elas, pedi-lhes silêncio na língua delas.

- Por que tanta alegria e comemoração?

- Sua escolha foi correta. Flor da Primavera era a primeira e nós já sabíamos, mas não podíamos dizer nada!

- Como sabiam?

- Era só olhar a que o envolvia por completo e qual dos envolvimentos ficava mais junto de vocês.

- Sei! É a tal visão, não?

Sim e é uma pena que não possa ver, senão veria que a sua ligação com ela também está completa, sem uma falha ao menos.

Viram a causa de tanta alegria? - falei olhando para minha mãe e Salete.

Interessante o poder que elas possuem, Simas. Creio que você tem um campo muito vasto de pesquisas. E está começando pelo melhor de todos, o campo do amor.

Se eu não a conhecesse diria que está com ciúmes ao invés de dizer que está sendo irônica com meu embaraço diante destas moças.

- Se dissesse que são as duas coisas eu diria que acertou, Simas.

- Vou colocar estas crianças na cama e então conversaremos um pouco mais.

Quando lhes pedi que fossem dormir um pouco, que precisavam descansar, Flor da Primavera deu-me um forte abraço. Retribuí seu gesto e a mandei deitar-se. Ainda beijou-me as duas faces do rosto antes de me largar.

Quando saímos, contei-lhes tudo o que se passara junto delas. Falei também de minhas descobertas.

Tem muito a descobrir ainda, Simas! - afirmou Salete.

Quer dizer que agora consegue conquistar mulheres em grupo e não havia me avisado, filho?

Não é bem assim, mamãe. Eu estou tentando me livrar delas sem magoá-las.

Duvido que você consiga. Já vi aquele olhar apaixonado em outro rosto! - disse, olhando para Salete.

Ainda pensa em mandá-las de volta, Simas?

Só de ameaçá-las com tal possibilidade, elas entraram em pânico. Ao menos sei como assustá-las quando se excederem.

E como é o tal envolvimento de que elas falaram?

Ainda não sei, Salete. E olhe que já estudei muito sobre a natureza e as emoções. Isso é totalmente novo para mim. Vocês conhecem algo parecido?

Ambas afirmaram desconhecer tal coisa. Sabiam, assim como eu, que há uma harmonia de vibrações entre os que se amam. Mas o tal envolvimento do perispírito era novo. Principalmente por não podermos vê-lo e elas sim. Deduzimos que o conseguiam por terem uma visão das coisas mais sutis. Mamãe ficou de pesquisar junto à biblioteca do Grande Oriente tudo sobre o assunto, Salete iria indagar dos sábios sobre o assunto e eu junto a elas. Depois compararíamos nossas descobertas.

Pedi licença a elas e fui cuidar de uns assuntos que exigiam a minha presença.

 

FLOR DA PRIMAVERA

Parti ao encontro de um guardião das trevas para recolher espíritos prontos para o regresso à Luz. Depois que eu ganhava a confiança deles, tudo era mais fácil. A partir daí eu já não precisava implorar ou ameaçar para libertar os que assim determinava a lei. Eles os entregavam com prazer, pois me consideravam um igual, só que agindo na Luz.

Só voltei ao Sagrado Coração no entardecer do dia seguinte. Trazia comigo duas centenas de almas caídas que clamavam pelo perdão divino. Quando eu conquistava um guardião das trevas, já não precisava ficar à cata das almas. Eles sabiam quais estavam prontas e as separavam para mim. Esta era a chave do meu sucesso como guardião da Luz. Eu já tinha ganho a confiança de mais de três centenas de guardiões das trevas. Muitos eu colocava a serviço da lei e gozava de total lealdade da parte deles. Sempre conseguia novos amigos nas trevas e sempre recebia o auxílio deles em minhas investidas para novas conquistas. Depois de aplicar-lhes os primeiros socorros, levava-os para o Sagrado Coração do Amor Divino. Como eu não podia passar em todos os pontos conquistados, ia colocando novos guardiões na função de resgatadores de almas caídas à beira do caminho.

Pode parecer vaidade dizer tal coisa, mas a maioria dos guardiões das trevas ficavam felizes ao me ver e tristes com minha partida. Sentiam-se honrados com minha amizade e se orgulhavam de serem meus amigos. Eu sempre lhes levava alguma coisa como presente. Para eles, que viviam nas trevas e só tinham o que elas podiam oferecer, receber algo de um guardião da Luz era sinal de distinção e alegria.

Não podia levá-los para a Luz, pois estavam jungidos à lei do carma, mas procurava presenteá-los com coisas do agrado deles. Por tudo isso, o Cavaleiro da Estrela da Guia era bem recebido onde outros tinham a maior dificuldade em recolher uma alma ao menos. Primeiro eu conquistava a amizade, depois a confiança e por fim, a lealdade deles. E sempre que possível, colocava-os a serviço do Grande Oriente Luminoso como guardiões da lei nas trevas. Quando via que um estava no ponto de ser incorporado ao serviço ativo da lei, conduzia-o até os mestres e iniciados do Grande Oriente, onde eles, assim como eu, ficavam ligados à execução da lei. Eu preparava o terreno com muito tato pois estava tratando com entes sujeitos aos choques das trevas. Tudo tinha que ser feito com muita cautela e diplomacia.

Deixei os resgatados no Sagrado Coração e já me preparava para partir, quando Flor da Primavera aproximou-se de mim e falou:

Vai partir novamente, mago da Estrela?

Sim. Tenho que recuperar o tempo perdido nos últimos dias.

Leve-me, então. Gostaria de fazer algo pelo senhor.

Você não me deve nada, Flor da Primavera.

Gostaria de ficar junto do senhor um pouco. Não pode fazer isso por mim?

Seus olhos tinham lágrimas contidas e em seu coração vibrava a solidão.

Está bem, mas não vamos a nenhum jardim. Vou mergulhar nas trevas. Talvez você não goste do tipo de trabalho que faço.

Lembra-se de onde eu saí e quem me tirou de lá?

Sim, eu me lembro muito bem!

Não vou lhe causar problemas. Espere só até eu avisar minhas irmãs.

Logo ela voltava acompanhada das irmãs que me abraçaram com ternura quando se aproximaram. Beijaram as duas faces do meu rosto.

Pensando ser um cumprimento, devolvi-lhes os beijos. Ficaram felizes com meu gesto.

Pouco depois eu parti do Sagrado Coração e levava comigo a bela Flor da Primavera. Sempre quando saía, o amigo Cascavel respondia ao meu chamado mental e me encontrava e acompanhava ainda no ar durante a volição e posterior mergulho.

Quando ele se incorporou a nós, ela se assustou. Interrompi o mergulho e procurei acalmá-la.

Não precisa temê-lo. Ele é meu amigo e não lhe fará mal algum.

Não consigo evitar o medo! - exclamou ela apavorada.

- Feche os olhos e só o sinta, sem se alterar.

Eu ordenei a ele que a envolvesse e depois se afastasse. Quando ele se enrolou, ela ficou como pedra tal sua rigidez.

Abra os olhos agora. O que sentiu?

Pavor. Um imenso pavor!

Então converse com ele um pouco.

Não sei o que dizer.

- Diga qualquer coisa. Ele ouve os nossos pensamentos e também nos fala.

Olá, eu sou Flor da Primavera!

Bonito nome o seu, patroa.

Eu, sua patroa?

- Sim, se está ao lado do chefe é minha chefe também, se precisar de minha ajuda é só chamar.

- Obrigado, mas tenho medo. Você é uma serpente!

- Sim, eu sou uma cascavel, mas um dia já fui como vocês, e espero um dia voltar a sê-lo de novo.

- Boa sorte para você.

Obrigado e desejo o mesmo para você agora que está livre daquela prisão infernal.

Devo tudo ao mago. Se não fosse por ele eu ainda estaria lá.

Eu também devo muito a ele. Foi o único que me ajudou. Vamos pode tocar em mim que não vou picá-la.

Eu tenho medo.

Se quer andar com o chefe não deve ter medo de nada, pois só o atrapalhará, e a mim também. Vamos toque em mim e perderá seu medo para sempre.

Lentamente ela estendeu o braço e tocou-lhe a pela escamosa.

- Vamos, pode tocar sem medo.

Ela o alisou um pouco mais e ele pediu para enrolar-se em seu braço. Ela consentiu e ele se enrodilhou vagarosamente nela. Pouco a pouco ela perdia o medo. E logo o Cascavel estava enrodilhado em seu corpo e com a cabeça sobre a cabeça dela.

Ei chefe, com o devido respeito, mas é melhor ficar junto dela que do senhor. Ela tem umas saliências onde posso me firmar melhor.

Vamos, amigo Cascavel. Já está na hora de voltar ao seu lugar!

Já sei, não gostou de minha brincadeira!

Não é bem assim, amigo. Não quero que Flor da Primavera goste muito de você, senão eu o perco como auxiliar.

Olhando para ela, disse sorrindo:

Então, viu como não foi difícil vencer o medo?

Mas eu senti um arrepio quando ele se enrolou em mim.

- Com o tempo vai se acostumar. Vamos continuar que temos muito a fazer.

Naquele momento não me dei conta de que o Cascavel conversava mentalmente com ela, quando só Salete e eu conseguíamos, e isto por termos estudado sua língua arcaica. Mas quando me lembrei do diálogo dos dois, tive mais um motivo para me interessar por aquelas jovens. Falavam línguas diferentes e se entendiam. Aliás, uma cobra não ouve nada e não vê muito bem, mas pressente a aproximação de outros seres. Ela possui algum tipo de sentido original que já não existe mais no ser humano.Daqui para frente, minhas pesquisas seriam muito interessantes.

Em pouco tempo chegávamos ao nosso destino. A princípio, Flor da Primavera ficou assustada com o que via, mas logo se adaptou ao ambiente e me ajudou a recolher os que haviam caído à beira do caminho. Eu procurava despertar nela não o amor no trabalho, mas sim, no material a ser trabalhado. Ia lentamente mostrando-lhe o porquê da existência de tais regiões onde tantos seres humanos eram mantidos como prisioneiros. Em certos momentos ela não continha as lágrimas ao ver o estado em que se encontravam os caídos ante a Lei Maior.

Quando todos já haviam sido recolhidos me despedi do guardião do local com um abraço. Ela também o abraçou e lhe sorriu. Creio que, onde eu tinha que usar de todo o meu saber e poder para conseguir uma amizade, ela conseguia isso só com um sorriso. Aquele ser das trevas não era de sorrir nem das piadas bem humoradas do amigo Cascavel, mas não pôde conter-se com a atitude inocente dela. Ainda sorriu para mim quando notou que eu o observava.

Mas foi o amigo Cascavel quem definiu bem o que eu vira no rosto dele.

Você viu só, chefe! Aquele guardião seria capaz de destruir tudo novamente se ela mandasse.

Você observa tudo, não, meu amigo?

Aprendi isso com o senhor, chefe. Além do mais, para um ser como eu, sem pés ou mãos, até que é bom ser observador!

Mas você é respeitado pelo medo que infunde nos outros.

Sim, isso é verdade, assim como ela será respeitada pela beleza e inocência nas palavras. Estou certo, chefe?

E como! Ela já está me cativando.

Vai viver com ela de agora em diante, chefe?

Como assim?

O senhor me entendeu! Meus sentidos não se enganam. Ela é igual às outras e já o conquistou.

Preciso amortecer um pouco o seu mental e apagar um pouco os seus sentidos, amigo.

Por que, chefe?

Você está falando demais.

Mas foi o senhor que me ensinou a não temer quando estiver falando a verdade.

Chega de conversa sem futuro. Vamos embora. Temos muito trabalho a realizar.

Ele só deu uma de suas gargalhadas irônicas. Ele foi reduzido a uma cobra mais já recuperava o gosto pela ironia e sarcasmo. Ainda por cima pediu-lhe que permitisse a ele ir com ela, pois eu levaria as almas caídas. Ela consentiu com certo receio. Quando ficamos a sós perguntei-lhe:

Por que fez isto?

Eu só quero ajudá-lo, chefe. Já pensou como vou ser tratado quando o senhor levá-la até o pai? Se ele me vir enrolado na filha vai me fazer seu braço direito num instante.

Você pensa em tudo não, amigo? Já consegue até descobrir minhas intenções.

Há quanto tempo estamos juntos, chefe?

Mais ou menos um século, por que?

Em cem anos, até um ser como eu tem que aprender a forma de agir e pensar de seu chefe, ou então merece ir para o inferno sem retorno.

Paramos de conversar e me dediquei ao trabalho curador junto aos irmãos doentes no mental, no perispírito e no emocional. Flor da Primavera me pediu para ensiná-la e, pouco depois, já estava trabalhando também.

Após terminarmos, eu lhes fiz minha habitual palestra antes de levá-los ao Sagrado Coração. Ela prestava a maior atenção ao que eu falava. Tentava entender as palavras que seu mental já havia absorvido.

Eu procurava ensinar a língua que usava em minhas palestras. Mas como nunca voltava ao mesmo local, a língua mudava conforme a região a que pertenciam os socorridos. Quando terminei, ela pediu:

Assim que for possível, pode repetir tudo para mim?

Você não entendeu?

Não. Só algumas palavras fazem sentido para mim, mas eu vi como eles se emocionavam com elas. Alguns até conseguiram se iluminar um pouco.

Farei isso e algo mais. Vou ensinar-lhe minhas línguas mais usadas, assim poderá participar delas. Agora vamos levá-los até o Sagrado Coração.

Quando já tinha entregue todos e me preparava para partir, novo pedido de Flor de Primavera, e nova concessão ante sua insistência. Novo encontro no espaço com o amigo Cascavel, só que desta vez ela não se assustou. Até sorriu para ele. A quantidade era bem maior agora e ficamos vários dias na crosta terrestre cuidando deles antes de levá-los ao Sagrado Coração. O resgate havia sido enorme. Sabendo que já estavam bem para o transporte até o Sagrado Coração, resolvi refazer um pouco nossas energias no ponto de forças da natureza junto às cachoeiras. Eu ia sempre a um dos pontos de força da natureza para cuidar dos irmãos enfermos. Neles eu tinha à minha disposição a energia que purifica e cura um espírito.

Como eu a vi abatida também, convidei-a para se fortalecer um pouco. Quando já estava refeito, olhei para Flor de Primavera. Como estava bonita! Os raios luminosos que partiam de seu coração chegavam até mim e me envolviam. Dei uma olhada ao redor e localizei um arvoredo todo florido. Fui até ele e tirei de um de seus ramos o seu duplo astralino. Voltando diante dela, fiz-lhe uma meia coroa florida e a prendi em seus cabelos. Quando terminei, disse:

- Esta é a mais linda coroa para uma princesa. Espero que goste. Saiba que esta tiara só realça sua beleza.

- Por quanto tempo ela permanecerá assim, com vida?

- Pelo tempo que você desejar. Basta mantê-la onde eu a coloquei.

Então você sempre a verá me embelezando, pois nunca mais eu a tirarei.

Por que usá-la para sempre Flor de Primavera?

Tudo o que lhe agradar eu conservarei e o que não o agradar, eu lançarei fora e jamais tocarei.

Como você diz coisas agradáveis de se ouvir. Creio que o gênio do amor a inspira.

Duvido que isto esteja acontecendo.

Por que?

Eu não preciso de inspiração para dizer-lhe do amor que sinto, o máximo que ele pode fazer é não deixar que eu desfaleça, tal a intensidade dele.

É tão forte assim o amor que sente, Flor de Primavera?

Sim. E aumenta a cada momento que passa. Quanto mais eu o conheço mais ele aumenta de intensidade. Por que se recusa a receber um pouco do meu amor, Simas?

Eu não me recuso, apenas não sei se devo.

Com poderia sabê-lo?

Ainda não sei como descobrir tal coisa, por isso me mantenho afastado de você, Flor de Primavera.

Não seria melhor juntar-se a mim enquanto não descobre a resposta?

Por que acha que seria melhor?

Pelo menos eu poderia receber um pouco do seu amor e dar-lhe todo o meu. Caso venha a descobrir que estava certo, só prosseguiria com tudo e caso tenha agido errado, só teria feito para alegrar um pouco o coração de quem o ama muito.

Se não é o gênio do amor que a inspira, então você é um gênio de amor.

Saiba que foi ele que me manteve viva por tantos milênios. Eu e minhas irmãs vivemos todo o tempo sonhando com o amor. Sabíamos que um dia Deus nos libertaria por causa do nosso amor. Nós devíamos ter cometido algo muito grave e não importava a extensão da pena, mas a nossa certeza era que um dia, só por amor a nós, Ele nos libertaria.

Então é muito grande o seu amor, Flor de Primavera!

Nem imagina o quanto! São milênios acumulando o amor só para dividi-lo com aquele que Ele me enviaria só por amor a mim!

Só há uma outra que diz estas coisas como você.

Eu sei quem é ela. Por que não me deixa ocupar o seu lugar enquanto ela está ausente?

Um dia espero tê-la ao meu lado novamente.

Até lá viva comigo e ela nada sentirá pois, em mim, você viverá o amor dela.

E como ficará quando ela voltar?

Eu terei aumentado tanto o seu amor que terá o bastante para as duas e ainda restará o suficiente para todas as que já o têm e as que ainda o terão.

Será você o presente que a encantada do mar me prometeu?

Não sei, mas se o agrado como um presente, então me tome em seus braços senão desfalecerei.

E eu tomei em meus braços o meu belo e perfumado ramo de Flor da Primavera.

Devo dizer que ela desfaleceu, mas não soltou seus braços que me envolviam com todo aquele amor acumulado por milênios. Eu a recebi por completo. Já não me importava mais se estava agindo certo ou errado. Se era certo, eu já o recebera e se fosse errado, não me importava em pagar o preço que poderia ser muito alto, pois o amor de minha Flor de Primavera era impagável! Mas afinal, que importância teria tal preço se o amor só é amor quando vivido a dois, e o seu resultado é só mais amor?

Após algum tempo abraçados, despertamos para o trabalho que nos esperava.

Vamos, minha bela Flor. Há alguns que estão precisando conhecer os mistérios da Luz para então poderem conhecer um pouco as coisas do amor.

Você já é o dono da minha fonte do amor, mago da Estrela!

Pois vou procurar fazer com que esta fonte jorre cada vez e muitos possam beber um pouco do amor puro que existe em seu ser imortal.

Então eu o nomeio guardião da minha fonte do amor, iniciado da Estrela da Guia!

Pois eu lhe digo que, como guardião da sua fonte do amor, eu a farei brilhar tanto quanto minha estrela quando brilha nas coisas do amor.

Mago da Estrela, onde eu poderei encontrar outro igual a você?

Cultive o meu amor em seu coração e me encontrará em você mesma, Flor da Primavera.

Você me ensinará como cultivá-lo?

Um dia destes eu o farei, agora vamos que os que nada têm nos aguardam. Reserve sempre um pouco do seu amor para eles e verá como alguém lá em cima aumentará, e muito, a vazão da sua fonte do amor.

Voltamos para junto dos irmãos que nos aguardavam. Não havia ansiedade nem desespero em seus rostos. Creio que nossa indiscrição com as coisas do amor diante deles acabou ensinando mais que muitas palestras doutrinárias.

Ei chefe, - era o amigo Cascavel quem me interpelava - Ainda é pecado sentir inveja?

A inveja nunca deixará de ser um pecado, meu amigo. Por que?

Então eu regredi mais um pouco pois senti inveja de vocês dois agora há pouco.

O que você sentiu não foi inveja, meu amigo, só vontade de amar e ser amado. Acredite-me, você evoluiu mais um pouco! Agora vamos levar estes amigos que ainda temos muito o que fazer.

Partimos. Antes dei uma olhada para o alto da bela cachoeira e avistei apenas de relance a figura do amor, que assim que percebeu que eu o vira, ocultou-se. Estranho, mas sempre que o amor se manifesta, seu gênio sorri de felicidade.

 

DESVENDANDO ALGUNS MISTÉRIOS DO AMOR

Após chegarmos no Sagrado Coração e encaminharmos os socorridos, fui me encontrar com Salete. Precisava de algo para levar de presente ao guardião que me aguardava.

Quando nos encontramos, ela me olhou com tristeza. Assustei-me pois Salete não era de se entregar a ela. Abracei-ae perguntei-lhe:

O que houve Salete querida? Por que este semblante triste?

E a filha do mestre Han. Está regredindo novamente e não consegue se perdoar pelo que fez milênios atrás.

Ele deve estar sofrendo muito, não?

Não é só ele. Ela já está começando a voltar ao estado do qual você a retirou nas trevas.

Eles não conseguem fazer nada para retirá-la desta

regressão?

Só se a adormecerem, mas mestre Han não quer fazer isto. Esta não é a forma de solucionar o problema.

Irei até lá para vê-la assim que resgatar as almas que estão à minha espera. Você me separou o que havia pedido?

Sim vou mandar buscá-lo.

- Enquanto isso, vou procurar por alguém e já volto. Fui ao encontro de Flor de Primavera que se juntara a

suas irmãs. Minha mãe estava com elas.

Como vai, mamãe? - saudei-a beijando o seu rosto.

Observando o progresso delas.

Como acha que estão?

Muito bem Simas. Só você para transformar tão rapidamente as pessoas.

Qual delas vai levar, agora?

Nenhuma pois onde vou é muito perigoso. Console-as na minha ausência por favor. Não sei quanto tempo vai se passar até que eu volte.

Virando-me para Flor de Primavera, pedi-lhe que fizesse diversas coisas até minha volta. Salete lhes explicaria o motivo da minha ausência. Dei-lhes um beijo em cada face, como era seu costume, e sorri.

Mamãe, lembra-se do que me disse uma vez, há muito tempo atrás?

Já disse tantas coisas que não lembro a que se refere.

Algo como transformar uma pedra de gelo em uma brasa ardente?

Quem é ela?

A filha do mestre Han. Não vou descansar enquanto não a trouxer para a Luz por inteiro.

Salete me contou. Pode demorar muito em tal tarefa!

Então ore para que sejam verdadeiras as suas palavras ditas naquele dia. Se não forem, ela cairá e mestre Han sofrerá muito.

Desejo-lhe boa sorte! Sua vontade de ajudar será sua força e seu amor, sua arma.

Ajude-as mamãe, pois têm muito a nos oferecer e sozinho eu não conseguirei.

Muito pouca coisa conseguimos fazer sozinhos. Vá cuidar dos seus afazeres e não se preocupe com mais nada.

Até a vista, mamãe. Dei uma última olhada para as jovens e vi que não devia me preocupar.

Fui ao encontro de um amigo leal. Era o guardião das Sete Espadas. Quando me viu, deu-me um forte abraço.

Como vai, guardião da Espada?

Feliz em revê-lo, guardião da Estrela. O que há de novo?

Preciso de sua ajuda meu amigo.

Qual o problema?

Não poderei concluir esta missão sozinho. Por acaso está livre?

Ainda que não estivesse largaria tudo para auxiliá-lo.

Você é um grande amigo, guardião da Espada.

Só dedico a você a mesma estima que tem por mim. Onde eu devo ir?

Nós iremos juntos e depois de conseguir o que ele tem para nós, você cuidará do resto para mim.

Quem é o ser que vamos encontrar nas trevas?

Você não vai gostar de ouvir o nome dele.

Vamos não faça mistérios, diga logo!

E o guardião da Caveira.

Eu ainda corto aquele canalha com a minha espada, Simas!

Ele, instintivamente levou a mão até o cabo de sua espada.

Não acha que já é tempo de pacificar o passado?

Depois de ele ter sumido com o meu auxiliar nas trevas? Um dia eu ainda o pego fora do seu ponto de forças e parto todos os ossos dele a golpes de espada.

Eu acho que posso contornar tudo e evitar a luta que não lhe trará prazer algum.

Como pensa agir, guardião da Estrela?

Confia em mim, não?

Totalmente, meu amigo.

Então vou contando no caminho até o ponto de forças dele. Antes tenho de apanhar algo com Salete, volto já!

Pouco depois partíamos rumo a uma das maiores prisões de almas que existem no baixo astral. Não vou dizer aqui tudo o que foi dito até que voltasse a paz entre os dois, mas houve queixas entre ambas as partes, ameaças recíprocas e até um desembainhar de espadas que quase iniciou uma luta terrível entre nós dois e todo um ponto de forças das trevas. O ar estava eivado de odor de sangue. Se o guardião da Caveira possuía seus auxiliares sanguinários, nós tínhamos nossas espadas encantadas que destruiriam tudo o que tocassem. A muito custo consegui pacificar o ambiente. Quando tudo se acalmou e conseguimos esclarecer os pontos obscuros, o guardião da Caveira me perguntou:

É sempre assim que você age, guardião da Estrela?

Nem sempre, meu amigo. Cada caso é um caso. Não sei se me considera um amigo mas eu ainda o tenho como um dos muitos que possuo nas trevas. Mas, como o guardião das Sete Espadas é meu amigo também, achei que devia pacificar uma amizade rompida por causa do ato impensado e pouco inteligente de um auxiliar dele. Vêem agora como grandes lutas advêm de pequenos erros? Fico feliz que agora tudo esteja em paz entre vocês. Com o tempo eu acredito que a confiança mútua retornará e verão que certas lutas não valem a pena.

Posso dizer que o auxiliar do guardião das Sete Espadas voltou para as trevas e dois dos principais auxiliares do guardião da Caveira caíram em desgraça no ponto de forças dele. Por isso eu digo até hoje: Nunca mande subalternos fazerem o trabalho de um chefe, pois logo se julgam importantes e cometem erros monumentais. Este foi um deles e posso afirmar com plena certeza que a confiança, ainda que tenha demorado um pouco, voltou a reinar entre eles e perdura até hoje. Melhor assim! Quando dei o presente ao Guardião da Caveira, que também não direi o que era, ele abriu as portas do seu reino para nós.

A partir deste dia, jamais fechou para nenhum de nós dois e voltamos ali muitas vezes. Houve um tempo que parei de ir, mas o guardião das Sete Espadas continua indo lá até hoje e resgatando milhares e milhares de frutos para serem servidos à mesa do Criador, quando se tornarem doces e suculentos.

Saímos do ponto de forças do guardião da Caveira com quase duas mil almas. Levaríamos dias para prepará-las para a nova realidade. Salete nos enviou ajuda quando chegamos ao ponto de forças do mar. Deixei tudo a cargo do amigo guardião das Sete Espadas e parti rumo ao Templo Dourado de mestre Han.

Uma missão não menos difícil me aguardava.

Ao me ver chegar, mestre Han deu um sorriso triste.

Salve, mestre de mestres! Não se entristeça meu pai amado, pois no final tudo ficará bem.

Salve, filho amado. Desculpe-me por não recebê-lo com um sorriso alegre, mas imagino que veio por causa de minha tristeza.

Mestre Han, eu pedi licença a Salete no Sagrado Coração para tentar ajudar sua filha amada. O senhor me permite auxiliá-lo?

Eu fico honrado com seu oferecimento, filho meu, mas os mestres do Templo Dourado já esgotaram todo o saber que possuem e não conseguiram reverter o processo de regressão. Só nos resta duas alternativas: adormecê-la ou devolvê-la ao seu antigo abrigo nas trevas e deixar o processo de transformação se consumar de vez. Então não sobreviverei à tristeza de ver minha filha rastejar nas trevas por tanto tempo.

Todos nós temos a nossa Sarah, não?

Tem razão, todos nós a temos de uma forma ou de outra.

Por que isso, mestre da Luz?

É a forma que o Criador tem de dizer que ainda nos quer ligados à terra. Do contrário, nos fundiríamos à Luz e não mais olharíamos para os que sofrem e padecem. Só Ele sabe como construir a mais sólida das prisões: a prisão do amor.

Mestre Han, lembra-se do que me disse certa vez?

Tantas coisas eu lhe disse que já não sei à qual se refere.

Minha mãe disse isso antes de eu partir. Estranho, mas sempre me lembro de tudo o que me disseram os que amo.

O que foi que eu lhe disse, filho meu?

Disse que quando um mago da Luz falha, um sábio toma-lhe o lugar e quando um sábio falha, um iniciado vence, pois só eles têm coragem de fazer o que o mago não se lembra mais e o sábio não ousa devido ao seu saber.

Só um iniciado se lembra como fazer, ousa fazê-lo e não se importa!

Mestre Han finalmente sorriu de alegria. De seus olhos lágrimas jorraram em grande quantidade.

- Filho meu, só quem é um mago, um sábio e um iniciado pode conseguir tal coisa, não tanto por mim, mas por ela mesma.

-Eu vou até o fim, mestre Han! Só voltarei aqui quando puder fazê-la sorrir de alegria ao vê-lo. Antes não me espere e nem se preocupe.

Como disse um dia o Cavaleiro do Mar, não duvido que consiga.

Se eu me demorar, tranqüilize Salete e traga para cá as jovens que libertei junto ao amigo Sete Cobras. Distraia-as com os encantos do Templo Dourado. Eu já sei qual é o problema de sua filha e não quero que elas voltem a decair novamente.

Vai deixar sete por uma, filho meu? Não acho justo o preço a ser pago, não vou concordar com seu auxílio!

A principal das sete já não cairá mais e se a ampararem com as palavras certas, manterá as outras seis junto a ela e em boa vibração.

Se é assim, fico mais tranqüilo. Quer que eu mande alguns guardiões para substituí-lo?

Só se meu pai precisar. O amigo guardião das Sete Espadas tomará meu lugar.

- Venha comigo até onde ela está. Só estamos conseguindo mantê-la à custa de muitos esforços.

Quando chegamos ao quarto onde ela estava eu me comovi até às lágrimas. Já havia se deformado até o ponto em que eu a havia recolhido. Não a trouxera direto para o Templo Dourado pois não queria chocar mestre Han. Mas agora eu via que sofria muito mais. Ele estava assistindo sua filha amada regredir drasticamente. A regressão continuaria até ela se transformar em uma serpente, pois não conseguiria se perdoar. A consciência a acusava de forma brutal.

Quem não se alteraria ao ver um espírito perfeito regredir tanto a ponto de se ocultar na forma de uma serpente? Isso acontece. Devido ao remorso, ela se sentia uma serpente traiçoeira que, às escondidas, picara com o veneno mortal o próprio pai. E devido à continuidade dos erros, não se perdoava. Era a lei imutável e implacável do Criador agindo de maneira brutal sobre Sua criação. Quando Deus dá, Ele é generoso, mas quando tira, é implacável. A nós resta a fé em Sua bondade e o amor à justiça divina que a tudo corrige no seu devido tempo.

E foi pensando na fé, no amor e na justiça que fiz uma pungente oração ao Criador e implorei por Sua misericórdia com o espírito de Flor do Campo. Este era e ainda é o seu último nome, quando vestida na "pele de cordeiro".

Implorei à luz do saber, meu ancestral místico, e ao anjo da Luz que me guiasse, coisa que eu sempre fazia antes de me lançar em uma nova tarefa. Quando terminei minha oração ao lado dela, senti que minhas energias se multiplicaram. Toquei em seu mental e ela voltou a ser a bela Flor do Campo. Sentei-a na beira de seu leito e falei-lhe ternamente.

- O que houve, minha querida Flor do Campo? Por que chora de maneira tão sentida?

-Não consigo me perdoar, meu salvador. Estou caindo novamente.

Ela falava entre soluços doloridos.

- Sinto-me tão só. Nada mais existe para mim, só vejo à minha frente as trevas me chamando de volta ao esquecimento dos horrores que cometi.

Acaso pode me ver?

Sim, eu o vejo.

Então está tudo bem, pois pode me ver e ouvir.

Mas é só a você que vejo e ouço. O resto não existe.

Não gostaria de me abraçar um pouco?

Não se enoja por me abraçar?

Como poderia sentir nojo de alguém que amo tanto?

Está sendo sincero em suas palavras?

- Olhe nos meus olhos e veja se estou mentindo quando digo que a amo!

- Seus olhos estão inundados de água tanto quanto os meus.

Pode alguém mentir com as lágrimas brotando não dos olhos, mas do coração, minha querida Flor do Campo?

Não sei ao certo. Minha fonte do amor secou há tanto tempo que não sei mais nada sobre ele.

Então deixe-me irrigar novamente sua fonte com o meu amor e lhe garanto que jamais voltará a secar.

Ela nada mais falou. Atirou-se em meus braços estendidos em sua direção. Eu a envolvi com força e novamente ela chorou. E como chorou a minha querida Flor do Campo. Ocultava seu rosto em meu peito e o banhava com suas lágrimas. Rapidamente transmiti uma mensagem aos mestres ali reunidos e parti. Fiz isso porque o pai dela, o meu querido mestre Han, também chorava copiosamente.

Mergulhei rumo à crosta terrestre levando comigo um ser carente das coisas do amor. Quando terminei meu mergulho, estava num lugar muito bonito à beira-mar. O mar sempre me atrai. O que mais me encanta é ficar observando o vai e vem das ondas. No seu movimento incessante conseguem nos embalar na maior das calmarias.

Onde estamos? - perguntou-me ela.

A beira-mar, junto à crosta terrestre, minha querida!

Você me chama de minha querida e nem sei seu nome.

Chame-me de Simas.

Posso chamá-lo de querido Simas?

- Se o fizer, só aumentará o amor que sinto por você, bela Flor do Campo.

Você é tão bondoso. Posso beijá-lo?

Será um prazer imenso ser beijado por alguém tão bela como você.

E Flor do Campo me beijou com ternura. Muitos outros beijos trocamos, e muitas carícias também. Lentamente eu fazia brotar nela o sentimento que faz um espírito vibrar com mais intensidade. E eu sentia que ela vibrava cada vez mais. Até onde chegou não vou dizer aqui, mas devo confessar que eu vibrei com a mesma intensidade.

Uma coisa devo dizer. Se alguém se propuser a auxiliar seus semelhantes, que comece a fazê-lo em primeiro lugar por onde eles caíram, ou falharam ou não souberam compreender o que os puxava para baixo. E Flor do Campo havia caído por não ter visto que era por amor que se afundava. Tanto afundou, que só um outro amor a reergueria. Era isso que eu estava fazendo. Fazia renascer nela o desejo de ser novamente amada e justamente da maneira que a desiludira. Primeiro havia morrido o amor pelo amante e só depois é que veio o remorso pelo envenenamento do pai, preparado a partir do veneno de uma cobra. Por isso sua fixação em se sentir como tal. Eu nada mais tentava fazer que dar-lhe algo para se agarrar, ou seja, dava a mim mesmo. E ela se agarrou quando eu despertei nela um dos mistérios do amor.

Era o prazer do amor, o mistério a que me refiro. Eu conhecia todos os mistérios do amor, mas só praticava alguns. Para ajudá-la tive que voltar a reviver este mistério novamente. Não posso dizer que o fazia contra minha vontade, pois estaria mentindo. Só uma coisa me preocupava: qual seria o preço a ser pago? Apesar de ter pedido o auxílio divino para ajudá-la, não sabia se me seria permitido descer tanto. Mas como eu dissera ao relembrar mestre Han, um iniciado se lembra, ousa e não se importa de fazê-lo. Se tiver que pagar algum preço, ainda que a contragosto, o pagará e algum tempo depois se levantará novamente. É sua natureza e a causa disto é sua origem. Um mago ou um mestre não são iniciados na sua origem, mas um iniciado tanto é um mago, como um mestre, já em sua origem.

Ficamos vários dias naquele lugar. Colhíamos alimentos nas árvores frutíferas e água junto a uma fonte. Quando vi que Flor do Campo já se sentia uma mulher de verdade, convidei-a para vermos como andava a evolução da humanidade no plano material. Ela não gostou do meu convite. Queria continuar ali para sempre, mas isso não se adaptava aos meus planos feitos antes de sair do Templo Dourado.

Com muito tato e escolhendo bem os lugares para não lhe causar qualquer lembrança desagradável, fui levando-a a vários locais do planeta. Foi com alegria que ouvi quando ela me pediu para ouvir melhor uma música que saía de um teatro. Volitamos até seu interior e ficamos ouvindo até o término da apresentação dos músicos.

Visitamos muitas cidades em todo o mundo. Eu sempre comentava sobre tudo o que lhe despertava a atenção. Incutia nela a confiança na humanidade em geral e no ser humano em particular. Enquanto preenchia seu mental com novas realidades, ia lentamente adormecendo as antigas. Pouco a pouco eu via a minha linda Flor do Campo crescer. Eu só estava esperando ela crescer o suficiente para poder, na hora certa, transplantá-la para a realidade dos espíritos em evolução.

Senti com alegria que ia se acalmando seu desejo do prazer do amor, ao mesmo tempo que lhe brotava a satisfação da companhia do amor. Chegamos a passar noites inteiras só contemplando as ondas prateadas do mar ou as longínquas estrelas no firmamento. Eu lhe recitava versos ou cantava algumas canções que ainda podia me lembrar. Ela, lentamente, adquiria o gosto pela música e a poesia. Ainda não era a hora de tirar a minha Flor do Campo do viveiro bem cuidado e plantá-la no campo, sujeita às intempéries do tempo. Mas sabia que logo chegaria este tempo.

Quando vi que ela já tinha aprendido muitas poesias lindas e também muitas músicas, só de ouvir os poetas declamarem os seus versos ou os músicos tocarem suas lindas canções, convidei-a a conhecer o local onde eu vivera por algum tempo em minha última encarnação.

Eu ia começar a transplantar minha Flor do Campo. Mostrei-lhe as terras que um dia haviam me pertencido e os vestígios do tempo em que eu estivera por lá. Mostrei onde era a aldeia dos índios e falei-lhe de Raios de Lua, minha primeira esposa.

- Onde está ela agora?

- Raios de Lua está servindo à guardiã do ponto de forças da natureza das águas nas cachoeiras.

Ao ver seu interesse, indaguei-lhe:

Gostaria de ouvir-me falar dela e do gênio que guarda este ponto de forças?

Sim, Simas. Parece ser muito bonito. Fale-me dela primeiro.

Contei-lhe como era Raios de Lua e sua tribo, de nossa pouca convivência, dos nossos filhos e de sua morte. Então falei do ponto de forças. Quando terminei, ela me pediu para que falasse mais.

Então contei-lhe sobre Sarah, e todo o seu sofrimento até me reencontrar. Falei a ela tudo sobre Sarah e nosso imenso amor. Com muito tato falei-lhe de minha busca no esclarecimento do mistério das Três Cruzes e no encontro do templo dos magos. Parei de falar no ponto em que era tentado pelo guardião do templo.

- Por que parou sua narrativa tão linda, Simas?

- Recordando-me daqueles tempos, me deu vontade de fazer uma prece. Você me acompanha, Flor do Campo?

- Não sei rezar.

- Minhas preces são livres, não obedecem a um ritual. Só falo a Deus o que sinto em meu coração.

- Então faça-a que eu o acompanho mentalmente.

Eu fiz minha prece. Nela eu agradeci a Deus pelo dom que nos deu da eternidade do espírito, de sua generosidade em nos ceder a sua pele de cordeiro para que nós voltássemos à carne a fim de evoluirmos. Agradeci-lhe por muitas coisas, todas iguais em importância à evolução dos espíritos, Suas criações.

Falei, falei e falei. Tanto falei que me comovi com minhas próprias palavras de agradecimento a Deus e sua infinita bondade para conosco. Quando terminei, Flor do Campo soluçava ao meu lado. Acariciei seus longos cabelos e a abracei, perguntando-lhe:

Por que chora, minha querida?

Sua prece me tocou fundo. Há quanto tempo eu não endereço uma prece a Ele? Meu Deus, há quanto tempo!

Porque não o faz agora? Eu sinto que é um bom momento.

Não saberia como fazer uma prece, Simas querido.

Faça como eu, faça uma prece livre. Diga só o que lhe passa no coração. Tenho certeza que Ele a ouvirá.

Como posso saber se me ouvirá?

Só criando coragem e transmitindo ao Sagrado Coração Divino o que sente no seu.

Mas eu sinto muita dor em meu coração, apesar de você tê-lo inundado com seu imenso amor.

Pois então, transmita toda a sua dor e verá que Ele a absorve por inteiro e ainda lhe derrama um pouco do seu misericordioso amor. Vamos, Flor do Campo, só é difícil no começo, depois ela brota como a água da fonte. Você quer estancá-la mas não consegue enquanto não a derramar toda. Faça. Você terá dois ouvintes atentos, eu ao seu lado e Deus lá nas alturas, e estamos os dois ansiosos para ouvir o que se passa em seu coração tão magoado.

Então dê-me suas mãos, Simas. Você é minha única ligação com Ele.

E, segurando minhas mãos, ela começou sua prece ao Criador Divino.

No princípio, pensava no que iria dizer, mas como eu havia lhe dito, chegou um momento em que ela não conteve mais as palavras que jorraram de seu coração magoado. Flor do Campo orava uma prece de perdão. Pedia perdão por todos os erros e pecados cometidos. Orava chorando ou chorava orando, isso não importa. O que importava eram suas palavras. Abençoado é o dom que Deus nos deu de falar, pois é através dele que nos comunicamos com Ele. O que e o quanto ela falou em seu pedido de perdão não vem ao caso, pois cada um deve dizer o que lhe passa no coração.

Estávamos ajoelhados durante as preces. E foi assim que vi uma luz jorrar do infinito e envolvê-la por inteiro, à medida que aumentava o seu pranto e a dor contida em suas palavras. Quando notei que ela cessou sua prece e só chorava convulsivamente, pedi-lhe que olhasse para o alto. Assim fez e só disse mais algumas palavras.

Simas, finalmente Ele me ouve! Ele me ouve, Simas! Finalmente eu consegui me reconciliar com Deus. Obrigada, Senhor, por me reviver. Obrigada por me aceitar de volta ao Seu seio e me dar uma nova oportunidade. Obrigada também por ter me enviado um anjo Seu em meu auxílio, lindo e cheio de amor que me reconduziu até o Senhor.

Onde está este anjo, Flor do Campo? Também gostaria de poder vê-lo.

Olhe-se, Simas, e o verá. Você é o meu anjo amado. Não vê que é só luz neste momento?

As últimas palavras ela mal conseguiu dizer pois desfaleceu a seguir. Passei meus braços por baixo de seu tórax e pernas e elevei-a do solo. Ainda fiz mais uma prece ao Criador por ter permitido que eu O fizesse renascer onde havia morrido há muito tempo.

A intensidade da luz aumentou e, se antes era cristalina, agora se tornava dourada. Pouco depois ela despertava e também viu a luz dourada nos envolvendo. Passou seu braço por cima do meu ombro e se aconchegou bem junto a mim. Ficamos assim abraçados até que a luz cessasse. Só então abaixamos nossos olhos que haviam se fixado no infinito, ansiosos por ver o Criador.

Eu a olhei com ternura. Devo dizer ainda que lhe dei um longo beijo de amor. Pode parecer uma falha minha, mas eu não me fazia de difícil diante de uma mulher apaixonada. E Flor do Campo era uma mulher assim naquele momento. Se o preço do amor é mais amor, então eu estava decidido a pagar logo minha dívida. Então eu amei a minha linda Flor do Campo num campo florido e muito lindo. E como a amei! Eu possuía esta qualidade. Sarah era a dona do meu coração, mas, na sua ausência, eu o dava por inteiro a quem estivesse ao meu lado. E se agora era Flor do Campo quem estava junto a mim, então ela o recebia por inteiro.

E era da mesma maneira que ela me retribuía o seu amor. Uma das coisas que não deixava morrer o meu amor é que quanto mais eu dava, mais eu recebia. E nesta vida, quem divide ou dá seu amor a muitos, de muitos recebe amor. Só assim para não ver secar nossa fonte de amor.

O importante é saber dar amor. Não adianta dar a quem tem outro amor. Assim nada recebemos em troca. Mas quando damos a quem não o conhece, ou não o tem, fazemos com que ele jorre novamente de sua fonte e com a vantagem de ser um fruto de nosso amor. Então ele será igual ao nosso. Assim, quando o recebermos de volta, ele só aumentará porque são iguais e se fundem instantaneamente. Este é um dos mistérios do amor. Eu os conheço muito bem. E quando digo isso, não estou falando apenas de uma mulher amada, mas também de um irmão, pai, filho, amigo ou de um dos nossos semelhantes, assim como do Criador e de toda a Sua criação. Se amamos a natureza, ela também nos ama e se amamos um animal irracional, à sua maneira, ele retribui o nosso amor com seu amor. Deus criou o universo, e tudo o que o compõe, só por amor à vida.

Mas, voltando à minha história, quando o sol despontou no horizonte e com seus raios iluminou a campina florida, eu mostrei a Flor do Campo a beleza da visão que se nos mostrava. Como estava deitada, levantou-se um pouco para vê-la.

Flor do Campo, veja como é bela a natureza que o seu nome quer mostrar.

É muito lindo o campo florido, Simas. Você sabe como despertar alguém para a vida.

E que eu amo a vida, Flor do meu jardim.

O seu jardim tem muitas flores, Simas?

-Tem sim. E como são lindas as flores do meu jardim! Não saberia dizer qual delas é a mais bonita.

- Quer que eu lhe diga o porquê, Simas?

Sim, quero saber porque acho todas tão lindas e amo a todas elas.

E que você fertiliza os seus solos em amor, planta suas sementes com amor, rega-as quando têm sede com a água que jorra da sua fonte do amor e, como um jardineiro caprichoso, não deixa que suas flores sejam envoltas por ervas daninhas. Como um sol, as faz crescer sob a sua luz.

E a mais inspirada das poetisas das coisas do amor, Flor do Campo.

Você gosta de meus versos?

Sim, principalmente quando falam do nosso amor.

- Então lhe farei muitos versos de amor e só os declamarei para seus ouvidos.

Vou cobrar-lhe isso, Flor do Campo!

Pois saiba que ficarei triste se não o fizer.

Ainda ficamos muito tempo deitados naquele campo florido falando das coisas do amor. Então, ela me pediu para continuar a falar do tempo dos magos e eu lhe propus acompanhar minha história mais de perto e a levei até a Espanha, em Cadiz para ser mais exato. Mostrei-lhe a casa onde nasci e vivi até que a tragédia destruísse nossas vidas. Mostrava os lugares e contava minha história. Quando terminei de contá-la, estávamos na praia onde desencarnei.

-           Sua história também é muito triste, Simas. Não foi tão grave a sua falha, pois ainda na carne você resgatou seus erros. Mas não deixa de ser uma história triste.

- Ainda não lhe falei como foi após o desencarne.

Fale-me disso também Simas. Estou aprendendo muito com você.

Eu tive uma dificuldade, minha querida Flor do Campo. Todos os que me amavam queriam me auxiliar, queriam me ver feliz para serem felizes. Mas eu me recusava a perdoar-me, quando meus pais nunca haviam me condenado.

Eles entenderam o que havia acontecido. Morreram por eu não ter tido confiança n'Ele e confiado num servo das trevas travestido em sacerdote.

- E o meu morreu por eu ter amado a um homem que se dizia sacerdote. Só que era das trevas.

- Sabe o que somos nós dois? -Não!

Semelhantes no amor e também na dor. Por isso nos damos tão bem.

Simas, não sabe como eu o amo! Você é a vida da minha vida.

Sabe o que você é para mim? A razão da minha vida. E se depender de mim nunca lhe faltará força para viver.

Pois se depender de mim, você sempre terá uma razão para viver.

Gostaria de tirar de sua mente o que mais a incomoda?

Sim, mas você sabe o que é?

Sim, é seu antigo amante. Quer ir até ele?

Não teme ir até onde ele se oculta? Pode ser perigoso e não lhe quero mal algum.

Vou mudar minha forma plasmada, depois iremos até ele. Você está preparada para esse encontro?

Mais forte que nunca!

Mudei minha forma. Eu voltava a ser o Cavaleiro da Estrela da Guia, e ia mergulhar nas trevas de novo. Tudo por amor!

- Abrace-me Flor do Campo, logo estaremos lá.

Pouco depois adentrávamos um abismo sombrio. Logo estávamos diante de uns seres mal encarados e sombrios. Pedi para ver o chefe deles. Falei com tal autoridade que logo ele veio até nós. Ela estava agarrada a mim e tremia muito. Assustou-se com a chegada do guardião das trevas que cuidava do local.

- O que deseja do meu reino, Cavaleiro da Estrela da

Guia?

- Quero ver o "fulano de tal", meu amigo. Sei que é seu escravo. (Não vou dar o nome dele pois não estou autorizado.)

A uma ordem dele, logo nos foi trazido o escravo das trevas. Flor do Campo assustou-se quando o viu. A aparência era horripilante.

- Converse com ele, Flor do Campo. Procure saber de tudo que o levou a fazer tais coisas e tudo o mais. Nós nos afastaremos um pouco até que terminem de conversar.

Convidei o guardião do lugar para conversarmos um pouco também. Procurei saber quem tinha vindo recolher os que estavam no ponto durante a minha ausência.

- Foi outro Cavaleiro da Estrela da Guia acompanhado do guardião das Sete Espadas. Ele é tão amistoso quanto você, meu amigo.

Fico feliz em saber que se deram muito bem.

Diga-me cavaleiro, como vai meu filho?

Da última vez que o vi já estava integrado a uma falange de irmãos curadores que atuam junto aos encarnados. Não se preocupe com ele. Está muito bem assistido em seu trabalho pelos outros irmãos mais antigos. Um dia ele voltará para visitá-lo. Deixe-o primeiro conquistar o seu grau.

Não vou atrapalhar a evolução dele, cavaleiro. Já lhe fiz muito mal, agora chega. Quero que avance cada vez mais e me esqueça.

Ele não o esquecerá nunca, meu amigo. Quanto mais avançar, mais se lembrará de você. Acredite-me, essa é a mais pura verdade.

Eu acredito em você, meu amigo. É por tudo isso que o estimo e respeito.

Nós somos iguais meu amigo, apenas estamos em lados opostos. Quem sabe um dia você possa voltar a caminhar na Luz novamente.

- Quem sabe, não, cavaleiro?

- Sim, meu amigo, Quem o saberá? - falei olhando para o alto.

Nisso Flor do Campo veio para junto de mim.

Já se livrou dos tormentos do passado?

Sim. Já não o temo mais, apenas sinto pena dele. Estou pronta para ver meu pai agora.

Fui até o guardião do lugar e me despedi dele com um aperto de mãos. O seu sorriso de alegria me fez sorrir também.

Até a vista, meu amigo!

Até a vista, Cavaleiro da Estrela da Guia. Volte a me visitar quando quiser.

Obrigado.

Envolvi Flor do Campo e volitamos rumo à crosta. Parei no plano terrestre e ela quis saber o motivo de não irmos direto ao encontro de seu pai.

- Antes gostaria de lhe mostrar mais um pouco deste plano. Você viu tão poucas coisas que ainda não tem uma noção completa do modo de vida atual.

Então eu lhe mostrei tudo o que havia de crueldade, ódio, inveja e crimes; as guerras desnecessárias e o extermínio puro e simples de nações indígenas e negras pelos brancos, cultos e civilizados europeus, guerras cruéis e insanas que ceifavam centenas de milhares de vidas de espíritos humanos que só queriam uma oportunidade para poderem evoluir rumo ao Criador. Mostrei-lhe também as loucuras que tomavam conta dos seres humanos que não haviam se perdoado devido a erros do passado e tinham que voltar à carne para reconstituírem, primeiro o perispírito e, posteriormente, o mental inferior e só então poderem chegar ao superior.

Quanto tempo demora a reconstituição e posterior despertar de um espírito nestas condições, Simas?

As vezes leva milênios, outras apenas alguns séculos. Mas são sempre muito difíceis e dolorosas para as famílias que os acolhem.

Onde se encontra a justiça num caso desses?

Na maioria deles, foram participantes da queda, por culpa direta ou por omissão. Só em poucos casos eles são aceitos por altruísmo, quando são pessoas que voltam à carne para desempenharem alguma função ligada à sua corrente evolutiva e aceitam de bom grado acolher tais irmãos caídos à beira do caminho.

Estes são os Simas da vida, não?

Por que diz isto?

Eu sou uma que caiu à beira do caminho e não tinha coragem de me reerguer e voltar a caminhar. Foi preciso você largar tudo para me socorrer.

Fiz o que pedia meu coração. E agora vejo que estava mais certo que nunca, porque você é um ser maravilhoso.

Mas ainda assim, sou um peso que só tem impedido sua evolução natural.

- Sabe quanto tempo estamos juntos aqui na crosta? -Nem imagino!

Estamos aqui há exatos cento e vinte dias. Não são nada se comparados à eternidade de nossas existências.

Mas ainda assim peso a você e a meu pai. Onde não poderia estar ele neste momento se eu não o tivesse mantido prisioneiro de meus erros?

Estaria onde está, pois é assim que deseja o Criador. Mas diga-me, onde estaria eu se não fosse o auxílio de seu pai?

- Você teria conseguido sair de sua depressão.

- Está enganada, Flor do Campo. Todos tentaram me auxiliar e eu não aceitei a ajuda. Mas por um desígnio divino, fui conduzido até seu pai que já me aguardava, porém, não me disse nada. Primeiro deixou-me evoluir em todos os outros sentidos, menos no do amor. Quando viu que eu já o desejava, me fez ver que o possuía, só precisava desobstruir minha fonte. Daí para frente tudo foi muito mais fácil. Ainda tenho meus momentos de angústia e nunca apaguei as marcas da minha mágoa. Mas são estas mesmas marcas que me fazem sofrer quando vejo alguém que sofre como eu sofri. Lembre-se sempre disto Flor do Campo: só quem já sofreu e ainda tem marcas deste tempo pode auxiliar de verdade um semelhante. Sabe quantos dias seu pai dedicou a mim?

Não, mas creio que foram poucos.

Engana-se. Tomei uma centena de dias.

Ainda assim foi menos que já gastou comigo.

Você se esquece de uma coisa. Com mestre Han eu só conversava sobre coisas do Templo Dourado, meu trabalho e estudos, enquanto nós dois passamos muito mais de vinte dias envoltos no prazer do amor.

Mas...

Não tem mas algum! Ainda me deve alguns dias e não desejo deixar para recebê-los mais tarde. Pensa que vai escapar tão facilmente de mim?

Neste momento ela voltou a me abraçar e com ternura me falou:

Simas, acaso acha que quero me afastar de você?

Não sei. Você quer?

Não, e pretendo saldar os dias que estou devendo de uma forma que você jamais esquecerá, Simas!

Pelo brilho de seus olhos acredito que não mesmo! Flor do Campo, gostaria de conhecer Ângela? Ela está trabalhando junto à crosta há muitos anos.

Sim, mas não pode ser mais tarde?

Por quê?

Estou com vontade de saldar uma parte de minha dívida com você. Não gostaria de recebê-la?

Sim, mas e quando terminar sua dívida comigo?

Não será fácil pagá-lo, Simas.

Muito tempo depois, quando percebi que Flor do Campo já pensava em saldar mais um pouco de seu débito do amor, levei-a para conhecer Ângela.

 

AS SEMENTES GERMINADAS

Quando chegamos à casa onde ela assumira o compromisso de auxiliar, sua alegria foi incontida.

Simas, meu querido Simas. Quanta felicidade em reve­lo.

Também fico feliz sempre que a revejo, Angela querida. Como tem se saído no seu trabalho?

Ia muito bem até pouco tempo atrás. Mas agora estou tendo alguns problemas. Você ouviu meus pedidos de auxílio?

Sim. Estou aqui para saber a causa, mas antes dê-me um abraço como só você sabe dar.

Estou tão aflita que nem sei mais como receber um amigo querido, desculpe-me.

Após um longo abraço, apresentei-lhe Flor do Campo. Disse-lhe que estava em visita à crosta e nada mais. Logo eram boas amigas. Só então procurei me inteirar dos seus problemas.

A casa estava sofrendo a ação de uma magia negra lançada sobre um dos membros da família que a habitava. Enquanto ela me contava sobre suas dificuldades em manter o equilíbrio familiar, eu já localizava o tipo de magia negra e quem estava movimentando forças tão poderosas. Localizei também a causa de tudo.

Este era um dos muitos serviços que eu prestava junto ao Templo Dourado. Eu gostava muito de fazer isso, apesar de estar afastado há muito deste tipo de atividade.

- Como pode me ajudar, Simas?

Vou procurar resolvê-lo em pouco tempo, não se preocupe. Flor do Campo, ainda tem medo de cobras?

Sim,por quê?

Bom, vou trazer uma aqui. Mas não se assuste pois é meu auxiliar há cem anos.

Vou tentar me conter.

Eu me concentrei e num instante lá estava o amigo Cascavel me saudando com sua maneira alegre.

E então, chefe? De volta à ativa?

Só um pouco amigo.

Nisso eu plasmei uma de minhas formas, ele se alegrou mais e perguntou-me:

Vamos destruir algum buraco negro, chefe?

Não! Por que pergunta?

Gosto quando o senhor assume esta forma. Ela significa que vamos ter encrencas e encrenca é sinal de lutas. Vou trazer auxílio.

Não vá chamar nenhum guardião das trevas. Não é preciso.

Vou chamar meu pessoal, chefe.

Seu pessoal?

Sim. Na sua ausência não tinha nada para fazer e resolvi praticar o que me ensinou por tantos anos. Acabei conquistando um bocado de auxiliares.

Que argumento usou?

Os mesmos que o senhor usa só que modificado e adaptado às trevas.

Fale-me mais disso.

Bom, o senhor sabe que cobra é sempre escravo dos outros e tem que tomar cuidado pois se dormir com os dois olhos ao mesmo tempo pode acabar amarrada com um laço quando acordar. Então resolvi dar uma oportunidade a alguns amigos cobras que não têm um Cavaleiro da Estrela da Guia protegendo-os e doutrinando-os a serviço da lei.

E o que você lhes prometeu?

Nada, chefe. Só a oportunidade de me ajudarem e terem minha proteção, caso sejam leais. Eu nada tenho a oferecer além disso.

Muito bem. Nunca se comprometa com o que não tem certeza de poder honrar.

Eu só faço o que aprendi com o senhor, chefe. Assim como o senhor me disse que, se um dia subir, não se esquecerá de mim, eu lhes disse a mesma coisa.

É, mas eu posso cair um dia, tudo é muito instável no meu campo.

Tudo bem, chefe. Se depender de mim, o senhor subirá. Mas caso isso não venha a acontecer e cair, eu descerei junto pois não vou abandoná-lo.

Agradeço sua lealdade, mas cuidado para não cometer o mesmo erro do auxiliar do guardião das Sete Espadas. Você assistiu a toda a confusão e o trabalho que deu para repararmos o erro dele.

Eu o consultarei sempre naquilo que tiver que fazer. E o que fizer sem consultá-lo, não o envolverei.

Ainda assim cuidado pois pode atrasar sua libertação desta forma que lhe impôs a lei.

Vou me cuidar e ser mais escorregadio que uma co­bra.

Ele deu uma gargalhada da própria ironia a seu respeito. Não pude conter um sorriso também.

Muito do sucesso de um guardião da Luz depende de seus auxiliares nas trevas. A recíproca também é verdadeira. Só um bom guardião consegue elevar seus auxiliares nas trevas.

Neste momento eu olhei para Flor do Campo, e vi como estava assustada.

Não se preocupe, minha querida Flor do Campo, ele é leal comigo e com meus amigos.

Não consigo me libertar do medo do passado, Simas. Está gravado em meu mental.

- Com o tempo tudo passará e eu a ajudarei a superar o seu medo.

Nisso Ângela perguntou-me:

Ela é mais que uma visitante da crosta, não é, Simas?

Sim, Ângela. Digamos que é uma visitante especial, alguém a quem dedico amor e afeição.

Então estou um pouco mais distante de você a partir de agora?

Não encare as coisas desta forma, mas como mais uma companheira de jornada rumo ao Criador. Você nada perde pois quem cultiva o amor só faz nascer mais amor.

Eu deveria tentar esquecê-lo, tirá-lo mesmo de meu coração, mas não ouso fazer isso.

Por que não tenta?

Diga-me, onde eu encontraria outro igual a você?

Não sei, mas se descobrir alguém igual a mim, eu avisarei. Até lá cultive-me no seu coração e sempre que me procurar, me encontrará em si mesma, pois é assim que eu sempre a encontro.

Não há outro igual a você, Simas!

Mais tarde falaremos, entre outras coisas, disso também. Agora vou partir em busca da solução das suas dificuldades.

Abracei Ângela e depois Flor do Campo. Ainda disse-lhes:

- Sejam boas amigas agora e o serão por toda a eternidade.

A um sinal meu, o amigo Cascavel assumiu sua posição de vigia e partimos ao encontro de seres ainda inamistosos. Pouco depois nos materializávamos num covil que cheirava a encrencas. Logo fomos cercados por homens negros armados com longos tridentes em atitudes ameaçadoras.

- Não vim em busca de problemas, amigos, e sim de soluções.

Aqui não os solucionamos, só os criamos. Vá embora ou o aprisionaremos como já fizemos com outros que ousaram entrar aqui.

Quer dizer que vocês têm servidores da lei presos por aqui?

E acho que teremos mais um a partir de hoje, pois já sabe demais, estranho.

Amigo, não estou gostando do seu modo de falar. É insolente, convencido e prepotente. Ainda não ouviu o que tenho a dizer e nem me fez seu prisioneiro.

Depois que alguém entra aqui não sai mais, estranho.

Eu não saio daqui enquanto não falar com seu chefe e não serei seu prisioneiro.

Isso é o que veremos daqui a pouco.

Ele levantou a mão esquerda, eu previ o que iria acontecer e puxei de minha espada encantada com os símbolos sagrados. Ela brilhou na escuridão como um raio.

Peguem-no!

Quando ele gritou, eu já havia sido atacado e na primeira investida, por ter baixado minha vibração, fui atingido pelos longos tridentes em várias partes do corpo. Mas, ao mesmo tempo, abri vários clarões com minha espada no meio daquela turba violenta e cruel. Como eu nunca abandonei o hábito de carregar o sabre do Templo Dourado, puxei-o também e devastava à direita e à esquerda.

O amigo Cascavel me defendia ao seu modo, mas também já tinha sofrido vários ferimentos.

As armas deles eram impotentes contra as minhas e como eu, quando em luta era impiedoso e destemido, ia ceifando muitos deles. Todos que minha espada tocava, caíam. Eu era um só e sabia disso, por isso não esperava ser atacado, mas avançava sobre todos os que estavam ao meu alcance. Quantos desapareceram? Não saberia dizer. Vi muitos serem cortados ao meio ou degolados pelos meus golpes. Muitos outros chegaram e aquele buraco se tornou um inferno na acepção do termo.

Os urros de dor misturavam-se aos de ódio e às imprecações. Meus sentidos de guardião estavam todos ativos e meu instinto de crueldade e ódio, já adormecido há muito tempo, brotou com força total. Quantos mais eu via cair ou desaparecer para sempre, mais eu queria derrubar.

A certa altura, o horror tomou conta do lugar. Os novos auxiliares do amigo Cascavel chegaram e começaram a atacá-los também. Os gritos de horror e pânico superaram a todos os outros e eu continuei a derrubá-los com minhas espadas. Não sei como o meu auxiliar nas trevas havia conseguido tantos auxiliares, mas devo dizer que mais tarde eu lhe agradeci com sinceridade, pois a partir da chegada deles, passamos a dominar a situação.

Em dado momento, entrou no local um ser das trevas protegido por um grupo bem poderoso. Eu já avançava em sua direção. Sabia que ele era o chefe do local e iria destruí-lo. Só assim cessaria o combate. Num repente, lancei-me sobre ele e levantei minha espada para decepar sua cabeça. Ao me ver à sua frente e tão próximo, deu um grito:

- Chega de luta, guardião! Não há motivos para lutarmos!

Não sei o que me conteve ou porque me contive, mas detive minha espada a centímetros do seu pescoço. Até hoje me chamo de idiota por não tê-lo degolado.

Quem é você, ser das trevas?

Eu sou o chefe deste lugar.

Pois a partir de agora me deve sua existência.

Afastem-se e abaixem as armas, escravos! – disse ele.

Imediatamente todos recuaram e largaram seus punhais, espadas e tridentes.

- Está melhor assim, guardião?

- Ainda não, ser das trevas. Solte suas armas e venha para cá. Mas bem devagar, porque posso encostar minha espada em sua garganta e então você cairá para sempre.

- Eu desejo continuar com meu reino, guardião. Pode ficar tranqüilo que ninguém o tocará.

A um gesto seu todos recuaram para o interior da caverna. Só então eu afastei minha espada de seu pescoço.

Vai me ouvir em paz, ser das trevas?

Sim, guardião. O que quer do meu reino?

Várias coisas.

Diga quais são e serão atendidas.

Primeiro, eu quero que mande libertar a todos os da Luz que mantém prisioneiros em seu reino.

São muitos, guardião. Como os levará até a crosta?

Disso me preocupo eu. Mande que me tragam todos e cuidado com o modo de falar pois se algum ficar para trás eu saberei! Enquanto conversava com seus auxiliares localizei a câmara onde estão acorrentados.

Ele deu ordem com determinação e pouco depois centenas de espíritos sofridos começaram a sair do fundo da caverna.

Nós havíamos nos colocado frente a frente e nos encarávamos com firmeza. Quando vi que estavam todos ali, falei:

Agora quero que chame o responsável pela magia negra instalada no local que me pediu ajuda.

Qual o local, guardião?

Eu falei sem comentar nada sobre Ângela, que era minha protegida no seu trabalho como protetora da casa.

Logo chegava um outro ser das trevas à minha frente. Eu lhe falei com firmeza:

Você, ser maligno, vai desfazer a magia negra que há sobre aquelas pessoas, e para sempre.

Mas e se voltarem a nos pedir auxílio, guardião?

Você se serve daquela criatura idiota, então trate de tirar-lhe a possibilidade de tornar a fazer o mal a qualquer encarnado.

Está pedindo que eu tire sua vida, guardião?

Não, eu não tenho esse direito, mas quero que faça-a pagar em vida um pouco dos males que já provocou a muitos com sua magia negra.

Isso poderá matá-la, pois já destruiu muitos.

Pois então, cuide para que ela sofra só o suficiente para continuar vivendo. Assim como vocês, eu posso vê-la na hora que quiser e já sei a data do seu desencarne. Mantenha-a viva até aquela data, ser das trevas.

Assim será feito, guardião. O que mais deseja de mim?

Algum outro guardião o procurará e estabelecerá ligação para posterior resgate de espíritos que a lei ordena que sejam resgatados. Fará isso mesmo a contragosto, senão eu voltarei e terminarei o que hoje comecei e só descansarei quando degolá-lo.

Devo considerá-lo como um inimigo, guardião?

Faça o que quiser, mas só o respeitarei se me respeitar também.

Você mudou a aparência, guardião, mas não o estilo de agir.

Nem você, ser da trevas. Mudam os tempos mas nós não.

Você me deve uma vida na carne, guardião!

E você também! Então estamos quites quanto ao passado. Mas no presente momento você me deve muito mais que apenas uma vida na carne. Deve-me sua existência como ser pensante. Nunca se esqueça disso quando se lembrar de mim.

Não me esquecerei disso, guardião dos Sete Portais de Luz. Mudam os tempos, mas nós nunca mudaremos. Sempre vamos estar em campos opostos, não?

Sim. Agora vou partir rumo à crosta. Diga aos seus que não me sigam, senão eu voltarei.

Daqui até a crosta eu poderei ver sua ascensão, guardião. Não preciso dos olhos alheios para acompanhá-lo.

Mas duvido que alcance a crosta. Você está muito ferido. Provavelmente algum outro ser das trevas o faça prisioneiro ao tentar subir.

Ainda tenho forças suficientes para abater quem cruzar o meu caminho. E minhas espadas, quanto mais golpes eu desfiro, mais cortantes se tornam. Quem quiser prová-la é só tentar!

Do meu reino não sairá ninguém para prová-las.

Assim espero, ser das trevas!

Ordenei ao meu auxiliar que afastasse seus amigos cascavéis e fui até a multidão que tinha às minhas costas. Quando vi um com o símbolo apagado no peito, toquei-o com o símbolo de minha espada e ele se iluminou por completo. Imediatamente ordenei-lhe que procurasse outros com os outros símbolos de minha espada. Logo estavam à minha frente. A cada toque, novo ser iluminado.

Em dado momento, ordenei aos que já estavam bem que conduzissem os outros. A imensa massa começou a mover-se rumo à crosta. Seria uma longa jornada com todos aqueles espíritos feridos. Eu não consegui volatilizar-me devido aos ferimentos.

Quando todos já tinham se retirado virei-me para o ser das trevas e falei:

Espero que, se algum dia nos encontrarmos de novo, seja em outras condições, ser das trevas!

Eu também, guardião. Interessante esta sua espada!

Você viu apenas um dos seus poderes. Ainda existem 7.776 outros.

Espero não precisar conhecer mais nenhum. Como a conseguiu?

Servindo à Luz, ser das trevas. Eu vivo na Luz da justiça e sirvo à justiça da Luz.

Um dia talvez eu consiga compreendê-lo, guardião.

Assim espero, ser das trevas. Até a vista!

E parti também. Eu sentia dores horríveis nos ferimentos, mas procurava não demonstrar a ninguém. E muito menos ao ser das trevas.

À medida que subíamos, o ar se tornava menos impregnado e me tornava mais leve. Isso facilitou minha subida. De tempo em tempo parávamos um pouco.

Quando já estávamos próximos da crosta, encontramos um guardião igual a mim e eu lhe pedi ajuda.

De onde vem, guardião da Estrela?

Do reino de Lúcifer.

- Você é um louco. Ninguém ousa ir até lá e você foi sozinho.

- Não pensei que iria ser recebido assim.

- Estou vendo o seu estado. Quase é destruído de uma vez por todas. Como libertou todos estes amigos?

- Com minha espada na garganta dele.

Você é mais louco que pensei. Foi uma ação temerária. Nunca devia ter ido até lá.

Estou aqui, não? Então me ajude a levar estes infelizes até a crosta e já fico agradecido.

Pouco depois ele voltava com vários outros guardiões. Juntos, nos transportaram até a crosta. Quando vi o céu estrelado ajoelhei e, agradecido, orei ao Criador.

Muitos outros amigos acorreram ao chamado do amigo guardião dos Sete Escudos. Muitos deles reencontraram velhos amigos entre os libertados do reino de Lúcifer.

Assim como eles, eu fui socorrido também. Quando comecei a sentir que já absorvia energia, fui até onde estava o amigo Cascavel e, com o toque de minha mão, fui refazendo seu corpo de réptil. Ele também sofreu alguns arranhões na luta, mas como eu, suportou tudo em silêncio pois tinha que passar a impressão de chefe.

Ser chefe não é fácil. Quando todos gritam de dor e não se envergonham de fazê-lo, temos que sufocar a nossa dor e ainda consolar a dos comandados.

Quando ele se viu bem, olhou para os seus e falou :

Como faço com eles, chefe?

Vou refazê-los também, não se preocupe.

E pouco a pouco tratei de todos. Quando terminei, pude sentir o quanto queriam evoluir, todos aqueles espíritos que haviam sofrido regressão na forma. Transmiti-lhes os agradecimentos pelo auxílio e voltei para junto dos outros guardiões que também terminavam o trabalho socorrista junto aos libertos.

E então amigos, valeu a pena a colheita de hoje?

Apesar de sua loucura, valeu, guardião da Estrela da Guia. Encontramos muitos auxiliares que haviam desaparecido há muito tempo. De outra vez que ousar tal empreitada, chame-nos!

Não me esquecerei da oferta. Poderiam encaminhá-los por mim?

Deixe conosco pois você ainda não está muito bem. Precisa de alguém para acompanhá-lo?

Não, meus amigos, pouco a pouco me refarei por completo. E só uma questão de tempo.

Até a vista, guardião da Estrela.

Até avista, amigos.

Eles partiram num piscar de olhos levando os libertos que logo estariam encaminhados e amparados nos postos socorristas.

Fiquei com o amigo Cascavel e seu pessoal.

Bem amigo, vamos voltar à casa de Ângela?

Posso levar meu pessoal?

Traga-os, assim verão porque lutaram e começarão a doutrinar-se neste tipo de trabalho.

Volitamos até a casa de Ângela. O amigo Cascavel ficou fora a minha espera.

Quando cheguei ao interior da casa, ela se assustou com meu estado.

- Simas, o que houve? Você saiu tão bem daqui e volta todo ferido.

Já estou melhor, Ângela. Pouco tempo atrás estava muito pior.

Meu Deus, até parece que você mergulhou no in­ferno!

-Mais ou menos. Mas já está resolvido o seu problema, Ângela querida.

Flor do Campo também ficou aflita com meu estado. Realmente, eu não estava com boa aparência.

- Sente-se, Simas, enquanto vejo o que consigo para você se alimentar.

Pouco depois ela voltava com o duplo de algumas frutas deliciosas.

Tome, Simas, isso lhe fará muito bem.

Obrigado, Ângela, você é muito bondosa.

Absorvi com prazer a essência das frutas e me senti melhor.

- Flor do Campo, Ângela, venham ver quem me salvou de uma queda brutal hoje.

Quando saímos para fora da casa elas assustaram-se com a grande quantidade de cascavéis que me olhavam.

Ângela ficou pálida e quase desmaiou. Flor do Campo começou a gritar de pavor.

Procurei acalmá-las rapidamente.

Não se preocupem, pois são amigos e não vão atacar ninguém aqui.

Chefe, como são fracas estas duas mulheres. A outra até que é legal, mas essas aí são moles demais.

- Tudo se resolve no tempo certo. Ângela, venha cá! Ela, timidamente, aproximou-se de mim que estava

junto das cascavéis.

- Veja, este é o meu auxiliar e estes outros são os auxiliares dele. Toque-o e superará o seu medo.

Ainda com medo ela o tocou e eu a incentivei a se deixar envolver por ele. Quando ela concordou, ele se enrolou nela e logo estava na sua posição preferida.

Ei chefe, aqui também é melhor que com o senhor. Esta saliência ajuda muito.

Que saliência é esta que ele falou, Simas? - perguntou Ângela.

- Esta aí. - disse, mostrando os seus seios.

O velho Cascavel deu a sua gargalhada característica, mas Ângela ordenou que descesse.

- Vamos, seu devasso. Saia de cima de mim imediatamente!

Desculpe patroa, não falei por maldade. É que é mais fácil me fixar quando há certas saliências.

Certo, mas não quero vê-lo mais enrolado em mim.

Patroa, a senhora quer que eu designe alguns auxiliares meus para darem proteção externa a esta casa?

Não sei se é preciso.

Quem é perseguido uma vez por magias negras, com certeza será novamente, e seria muito bom ter um pouco de ajuda.

Ele tem razão, Ângela. Procure elevar a vibração dos seus protegidos para que possuam uma melhor defesa contra as investidas das trevas. E as cascavéis que ficarão aqui não entrarão na casa a menos que você lhes ordene. Com elas protegendo a casa no lado de fora, você ficará livre das influências externas e poderá intuir melhor os moradores. Além disso, quando sair para proteger alguém daqui, poderá levá-las como escolta.

Não há perigo nisso, Simas?

Não, Ângela. Se acaso elas se excederem, você as doutrina. Vou ver três que estejam prontas para o trabalho de guarda.

Se você diz, eu aceito. Escolha as que mais estejam evoluídas e as instrua bem.

Escolhi apenas três e as instruí no que poderiam fazer para auxiliar Ângela. O amigo Cascavel também as instruiu que em caso de necessidade, bastaria pedir ajuda e receberiam. Depois ele partiu com sua nova falange de cascavéis.

O tempo mostraria que ele agira certo, pois se tornou um dos melhores guardiões das trevas a serviço da lei. Ele incorporou milhares de espíritos caídos e lhes deu uma pequena esperança de um dia, não importa quando, poderem recuperar sua antiga forma humana, após purgarem todo o carma adquirido com crimes e erros imensos, cometidos no passado longínquo.

Isso tudo pode ser de difícil entendimento aos não iniciados nas coisas da lei e do amor. Não conseguem entender que a lei divina é perfeita e o amor d'Ele, o Criador de tudo e de todos, é imensurável. E não conseguem entender também que a lei, na verdade, não pune, apenas dá a cada um o que se faz por merecer, mas, por amor, Deus não os desampara nunca, apenas espera um gesto de amor para com Ele e então lhes dá uma nova oportunidade de evolução.

E o amigo Cascavel um dia aceitara meu amparo, e agora, cem anos depois, no seu plano vibratório, repetia o meu gesto para com ele no passado e começava a reparti-lo com outros espíritos menos favorecidos.

Com o tempo, as cascavéis colocadas a serviço da lei por ele chegariam a vários milhares e foram todas integradas ao ritual do culto à natureza, quando renasceu no Brasil com o nome de Umbanda. Posso dizer com muito orgulho que eu fui o seu apresentador e fiador, assim como de muitos e muitos outros guardiões das trevas, perante os guardiões do culto à natureza, os orixás.

A cadeia evolucionista jamais cessa seu serviço meritório de reintegração dos que um dia caíram à beira do caminho ou escorregaram da beira do abismo profundo em que se encontravam. Mas, para que tal coisa aconteça, é preciso alguém que conheça as coisas da lei e o amor do Criador a toda Sua criação. A partir daí, ele será o responsável pela evolução dos que retirou do abismo profundo. E muitas vezes tem que agir às escondidas para permitir que os resgatados cresçam novamente perante o Criador.

Era isto que eu fazia no meu trabalho de guardião da lei, guardião da Estrela Guia, Guardião dos Sete Símbolos Sagrados, sábio da Luz Cristalina, mestre da Pedra Dourada, servidor das Três Cruzes, mago dos mistérios sagrados, semeador da lei do amor e do amor à lei. E finalmente, Cavaleiro da Estrela da Guia, um iniciado em sua origem.

São muitos títulos pomposos? Não. Eu passei milênios praticando. Era um ou vários ao mesmo tempo. A cada encarnação e no intervalo vivido na espiritualidade, entre uma e outra encarnação, jamais estacionei mais que o tempo necessário para um despertar do meu mental. Ainda possuía muitos outros títulos menores, todos conquistados nos cam­pos eternos do Criador.

Não era uma conquista minha, mas sim, de todo um grande grupo de espíritos em evolução rumo ao Criador. Todos possuíam seus títulos que não vou descrever aqui pois só recebi ordens para falar sobre o Cavaleiro da Estrela da Guia. Talvez alguém um dia fale sobre os outros cavaleiros, mas agora estou escrevendo sobre um único espírito.

O que importa é que o amigo Cascavel foi colocando os seus auxiliares recolhidos nas trevas, a serviço da Luz.

Quanto a mim, ao vê-lo partir, derramei algumas lágrimas de alegria.

Por que chora, Simas? Acaso está sentindo as dores dos ferimentos?

Não, minha querida Angela. Choro por ver mais uma semente germinar. Um dia Ele falou comigo. Através do vazio absoluto eu ouvi Sua voz no silêncio.

- O que Ele lhe disse?

- "Onde Eu tiver morrido, faça-Me renascer". E é o que tenho feito com amor e dedicação. Começo no lugar onde os espíritos pararam. E este aí parou quando deixou morrer o senso de justiça em seus sentimentos. Quando ele tiver absorvido todo o senso de justiça, todos os outros sentidos explodirão como um vulcão adormecido que, durante seu sono, acumulou muita energia. Quando isso acontecer, espalhará sua lava luminosa por grande extensão de terra, ar e águas à sua volta. Meu choro é de alegria. E a alegria de um pai que vê seu filho dar os primeiros passos sozinho, ou repetir as suas palavras.

-Diga-me, Simas! Como estou me saindo como mais uma de suas sementes?

-Não sou um juiz isento para julgá-la pois estou muito ligado a você pelos laços do amor, mas posso afirmar com muita segurança que está crescendo muito.

- Pena que eu seja semente de uma planta que sempre lhe fere quando cuida dela. Devo ser um espinheiro.

Eu a abracei carinhosamente e falei:

Você não é um espinheiro, mas uma roseira que está crescendo muito rapidamente e bastante viçosa que, espero eu, logo faça desabrochar as mais lindas rosas perfumadas. Todos os ferimentos que esta roseira me causar enquanto não der seus primeiros botões, serão compensados com a beleza da primeira de suas rosas.

Ninguém mais sabe como dar alento a alguém da forma como você faz. Ensina amando e ama ensinando. Se cometi erros foi por não encontrá-lo em outro.

Pelas suas palavras, logo me verá em seu coração e então não me procurará em mais ninguém pois me possuirá por inteiro.

Como eu sonho em tê-lo por inteiro, Simas. Quando eu o terei?

Cultive a perseverança e um dia me terá, Ângela.

Ela me abraçou com força, muita força. Eu indaguei o motivo de tal gesto.

- Só quero absorver um pouco de sua luz para que, quando estiver distante, eu possa ter um pouco de você em mim. Assim não precisarei sonhar com a sua companhia e o terei sonhando que uma parte está em mim.

Eu vi a pouca luz de Ângela crescer com seu amor e isso me deu muita alegria. E foi assim que eu a envolvi com a luz do amor que eu sentia por ela.

Ao olhar para Flor do Campo, eu a vi sorrir de alegria pela felicidade de Ângela. Convidei-a a se irmanar conosco, ela aceitou. Logo nós éramos três em um e um em três.

Às vezes, as pessoas têm dificuldades em interpretar as frases colocadas assim, mas eu vou decifrar esta para que possam interpretar corretamente as outras colocações.

Três em um queria dizer: os três se integrando no amor; um em três queria dizer: o amor se integrando nos três. Ou se preferirem de outra forma: os três crescendo no amor à medida que o amor crescia nos três.

As coisas do amor servem a todas as interpretações possíveis, pois o amor é uma das coisas divinas e como tal, por mais que falem sobre ela, nunca a esgotarão.

Algum tempo depois nos separamos e então eu sorri. Tanto Ângela quanto Flor do Campo estavam muito, mas muito iluminadas. Foi Ângela quem primeiro falou:

Vocês não sabem como me sinto bem! Cada vez que eu o reencontro mais crescem em mim as coisas do amor, Simas.

O amor é o mistério divino que mais facilmente nos transforma, minha querida Ângela. As outras formas são sempre difíceis, quando não traumáticas. Mas o amor torna o ser humano doce, meigo e carinhoso, compreensível e acessível, tolerante e justo e por fim, o torna um amante de tudo e de todos.

Devem ser verdadeiras as suas palavras, Simas. Eu antes sentia ciúmes de quem conquistasse um lugar no seu coração, mas agora sinto amor por quem conseguiu e amarei quem vier a consegui-lo.

Virando-se para Flor do Campo ela disse:

- Eu a amo muito, minha querida irmã.

- Também a amo, Ângela. Não estarei deixando de ser sincera se disser que a amo tanto quanto a ele.

Eu sorria ao vê-las se abraçando. Como era bom ver o amor crescer onde um dia ele havia perecido. Ainda estava imerso nos meus pensamentos, quando Flor do Campo me trouxe de volta com sua voz doce e suave.

- Simas, lembra-se quando passamos por um lugar encantador à beira-mar?

Sim, como poderia esquecê-lo?

Por que não leva Ângela para conhecê-lo também? Eu não sei ainda como proteger uma casa, mas acho que posso tentar durante sua ausência. Além do mais olhem quem acaba de chegar.

Era o amigo Cascavel que voltava.

Salve, chefe! Já levei de volta meu pessoal.

Para onde?

Eu descobri um lugar muito bom para cobras. Lá estarão em segurança.

Flor do Campo tornou a falar.

Agora já não estarei desprotegida. Acredito que ele me protegerá também.

Não tenha dúvida disso, patroa. Ainda vou ensiná-la a não ter medo de uma cascavel. E só confiar em mim como o chefe confia. Quanto ao resto, deixe por minha conta. Estou aprendendo com ele como conquistar as belas jovens desprotegidas.

Meu amigo, não está se excedendo um pouco? -indaguei seriamente.

Desculpe-me, chefe, me excedi realmente, mas só procuro imitá-lo. Se o seu jeito dá certo, eu o aplico a mim.

Vá logo, Simas! Deixe que eu me entenda com ele. Afinal, por pouco hoje eu não sou igual a ele. Por que temer o que nos ameaçou e já superamos?

Vejo que não haverá problema algum em deixá-los juntos um pouco.

Não tenham pressa de voltar. Eu não estou com pressa de sair desta casa.

Segurei Ângela pelas mãos e a levei até o lugar encantador à beira-mar. Ficamos conversando por longo tempo e admirando tudo à nossa volta.

 

REENCONTROS E DESPEDIDAS

Só voltamos no dia seguinte à casa que Angela guardava.

Quando chegamos, Flor do Campo nos disse:

Mas já! Podiam ter ficado um pouco mais.

Não é culpa minha, foi ela quem quis voltar! -exclamei.

-É claro! Se eu ficasse um pouco mais, não iria querer continuar aqui na crosta. Flor do Campo, vou revelar-lhe um segredo.É bom que saiba.

-Qual é Angela?

Você pode passar cem anos sofrendo por ele, mas quando o tiver ao lado por algum tempo guardará na lembrança tudo o que disse, ouviu ou fez junto a ele por outros cem anos.

Então, este é o segredo de Simas?

Sim. Poucas o sabem mas muitas gostariam de conhecê-lo.

Não acham que estão exagerando a meu respeito? Olhem que começo a revelar os seus segredos também. E são tantos!

Você não teria coragem! - exclamaram as duas em uníssono.

Não, eu não teria! - disse sorrindo. - Flor do Campo, já perdeu o seu horror a cobras?

Um pouco. Pelo menos já não temo o seu auxiliar.

Onde está ele?

Foi dar uma volta por aí. Acho que volta logo.

Quem me chamou, chefe? Foi o senhor ou as patroas? Era ele de volta.

Só quis saber de seu paradeiro, meu amigo. Vejo que já cativou mais uma jovem desprotegida.

Ela agora é só uma jovem, chefe, mas não desprotegida porque eu estou aqui para protegê-la.

Mas, depois de mim, não, meu amigo? - disse sorrindo com suas palavras.

Certo, chefe. Mas sabia que ela...!

Já sei! Tem uma saliência para você se apoiar, não?

Desse jeito já não preciso mais falar o que me vem à mente, chefe. O senhor já está adivinhando o que eu vou dizer!

Certo, meu amigo. Pode voltar para o seu pessoal que eu assumo a defesa dela, está bem?

Até a vista, patroas. E se precisarem é só me chamar que auxiliarei como puder.

Ele deu sua gargalhada típica e sumiu no espaço.

Nós também nos despedimos de Ângela que ficou com os olhos cheios de lágrimas ao nos abraçar. Como é difícil a separação dos que se amam!

Flor do Campo pediu se eu a deixava conduzir o mergulho no espaço desta vez. Ela queria testar seu sentido direcional. Concordei e lhe estendi as mãos fechando os olhos.

Volitamos no espaço e fomos parar em outro lugar. Ela pediu que eu abrisse os olhos então. Vendo o lugar, perguntei:

Por que me trouxe até aqui, Flor do Campo?

Estou com vontade de voltar até meu pai e me harmonizar com ele para todo o sempre.

Então por que não foi para lá?

Primeiro, porque eu não saberia como e segundo...

E segundo?...

Você me trouxe até aqui para que eu tivesse uma visão da beleza e harmonia que há na natureza, para melhor poder me auxiliar. Esse lugar jamais sairá da minha mente, mas quando cheguei aqui não tinha condições de notar tanta beleza. Agora que me sinto harmonizada com o Criador e toda a Sua criação quer dividir minha alegria com alguém que amo.

Obrigado por suas palavras. Elas me deixam muito

feliz.

Mas tem mais. Você me deu um grande tesouro chamado amor. Eu nunca poderei pagá-lo mas posso dividi-lo com você.

Por que dividir comigo o seu tesouro?

Só dividindo-o com quem amo poderá aumentá-lo um pouco mais.

Flor do Campo, como você é generosa! Só os seres generosos dividem os tesouros divinos.

Eu já estou começando a encontrá-lo dentro de mim.

Está me deixando mais feliz a cada palavra.

E como logo voltarei para junto de meu pai, antes quero conhecer todo o seu segredo de como dar algo que durante cem anos não me esquecerei.

E o que me dará em troca? — perguntei curioso.

Algo que jamais esquecerá. Pode viver por toda a eternidade e ainda terá este algo em você.

O que é que terei por toda a eternidade?

Uma Flor do Campo perfumando os seus sentidos e embelezando os seus mais belos sonhos. Tem agora, não uma flor do campo murcha e frágil e dependente, mas sim, uma flor vibrante e radiante e com muita vontade de viver.

Ao dizer esta palavra sentou-se meio de lado na relva florida.

Como posso ter tudo isto?

Basta colher neste campo florido sua perfumada Flor do Campo e então terá tudo o que ela tem e gostaria de oferecer-lhe num gesto de amor.

Eu, como um bom jardineiro, havia semeado um campo com amor, e colhia agora todo amor no corpo de uma Flor. Nada mais eu vou dizer, pois, quem tiver a imaginação do amor, um dia também poderá colher a sua flor do amor neste campo.

Algum dia mais tarde voltou ao Templo Dourado de mestre Han. Não sem antes termos feito uma prece cheia de amor à generosidade do Criador e o Seu imenso amor.

Quando chegamos, fomos direto ao encontro de mestre Han. Ele estava no jardim do Templo Dourado ouvindo umas jovens cantar numa língua que eu logo reconheci. Rumamos para lá rapidamente. Ao nos ver, ele se levantou e ficou nos olhando com lágrimas nos olhos e um sorriso nos lábios.

Quanto a mim, ao ver Flor do Campo sorrir para ele e chorar ao mesmo tempo, dei-lhe um leve empurrão. Ela se atirou em seus braços e cobriu o seu velho rosto de beijos e o apertou com força contra si mesma.

Não pude apreciar por muito tempo a cena porque fui envolvido por tantos braços que quase não podia me mexer. Eram as sete flores do jardim do meu amor. Só depois de muitos abraços e beijos nas duas faces do rosto, pude voltar a me mover um pouco. Eu propus que nos juntássemos a mestre Han e Flor do Campo. E nós os envolvemos com todo o nosso amor e carinho. Quando tudo se acalmou, Flor do Campo falou:

Papai, perdoe-me por tê-lo feito sofrer por tantos milênios. Multiplique-os por toda a eternidade e ainda não terá todo o tempo que me dedicarei em fazê-lo o mais feliz que possa.

Eu já a perdoei há milênios atrás, minha filha amada, mas e você, já se perdoou?

Sim. Alguém me ensinou a substituir a dor, a mágoa, o remorso e a vergonha por umas coisas que suplantam a tudo.

- Que coisas são estas, minha filha?

É as coisas do amor, meu pai amado. Prometo-lhe transformar cada lágrima que derramou por mim numa fonte de amor que alimentará a sede de amor dos que tiveram sua fonte esgotada como eu já tive a minha.

Mestre Saied, já sei como irrigou, com seu inesgotável amor, a fonte de Flor do Campo!

A fonte dela não estava seca, mestre de mestres, era só uma obstrução que não deixava jorrar todo o seu amor. Creia-me, mestre Han, sua fonte de amor inundará o seu coração. Penso até que milhares virão aqui somente para beber um pouco na fonte de amor de sua Flor do Campo.

Flor do Campo me falou:

Simas, não se esqueça que lhe devo sete mil anos de vida e se não vier aqui recebê-los, irei até você para que os receba, ainda que seja uma pequena parcela.

Não se preocupe que nunca me esqueço de uma dívida de amor.

Mestre Han falou:

- Iniciado da Estrela da Guia, só mesmo quem se lembra, sabe como e não teme fazê-lo, consegue as mais belas vitórias. Saiba que alguns foram criados para ensinar, e outros para fazer depois que aprendem. Você é um destes.

- Só procuro honrar o meu mestre.

- Tem razão quando diz que todos temos a nossa "Sa­rah". Flor do Campo é a minha! Um dia, ao procurar o Templo Dourado, você me devolveu um filho amado que eu já esperava há muito tempo. Num gesto de amor, tudo fiz para devolvê-lo a seus pais. Agora, você me devolve minha Sa­rah. Quem sabe um dia eu possa lhe devolver sua querida Sarah também.

Ao me ver sombrio ele se arrependeu do que acabara de dizer.

- Sinto muito, filho meu, não queria tocar em sua mágoa. Acho que na minha alegria, tornei-o infeliz.

Procurando demonstrar que não estava infeliz, disse-lhe:

O senhor não pode tornar infeliz aquele que já é. Isto é algo meu e só eu poderei quebrar o encanto. Mas por causa disso eu consigo fazer outros felizes.

Você não a viu mais desde aquele dia especial?

Não. Ás vezes penso que seria melhor esquecê-la. Quem sabe assim o encanto se quebrasse e ela talvez pudesse se libertar?

Isto resolveria o seu problema?

Não, mas certamente a libertaria de algo que a está atormentando muito.

Se eu tivesse abandonado minha filha não a teria libertado do seu sofrimento, muito pelo contrário! Hoje ela estaria rastejando pelas trevas sem ter ninguém para lembrar-se dela. E você bem sabe o que acontece a quem está nas trevas e não tem ninguém para chorar por ele: fica lá para sempre. Feliz é aquele que tem alguém sofrendo na Luz por sua queda. Este poderá alimentar a esperança de um dia, não importa o tempo que demore, retornar a ela.

Desculpe-me por desonrá-lo, mestre de minha luz. Não deveria ter dito tal coisa.

Eu não o culpo. Isso também passou por minha mente muitas vezes. Mas sempre tive alguém que me lembrasse disso e então persisti na minha fé e me desdobrei ainda mais no serviço socorrista. Tenha certeza, filho meu, foi isso que a resgatou das trevas, ainda que não tenha sido eu, mas você a fazê-lo.

Nada respondi. Eu o encontrava em mim. O mesmo desejo de aprender para depois colocá-lo em prática, o mesmo desejo de elevar o máximo possível de irmãos menos esclarecidos e também a mesma dor. Se eu tinha facilidade em amar uma mulher, também amava os homens. Amava-os por tudo que possuíam de bom.

Eu despertava neles o mesmo amor de irmãos que vivem em perfeita harmonia pois era assim que entendíamos o amor.

Algo me tirou dos meus pensamentos mais íntimos. Um pouco afastadas de nós, Flor do Campo e as outras sete, com nomes de flores, conversavam.

Mestre de minha luz, acaso sua filha fala a língua delas?

Não, mas elas falam a língua de minha filha.

Mas quando as deixei, não falavam!

Quando você desapareceu, elas sentiram sua ausência. Salete me pediu auxílio e eu as trouxe para junto de mim e comecei a falar a elas como você era e o que estava fazendo. Conquistei o coração delas, filho meu. Já não choram sua ausência mas torcem para que volte sempre. Ensinei-lhes nossa língua também.

Só um mestre de mestres para conseguir tal proeza. Onde eu encontrarei outro igual ao senhor após sua ascensão a uma esfera superior?

Em você mesmo, filho meu. Procure-me em seu coração e lá estarei eu vivendo eternamente em seu interior.

Eu o abracei com força e demorei muito para soltá-lo.

Meu pai, como eu o amo!

Também o amo muito, meu filho. Agora venha comigo, elas estão com ciúmes de nós. Olhe só como nos olham e cochicham entre si!

Sorrimos e juntos fomos ao encontro delas. Mais tarde, Flor da Primavera entregou-me um bloco de manuscritos que havia preparado. Tinha centenas de páginas.

Estava sentado no jardim do Templo Dourado folheando-as quando meu pai chegou. Atirei-me em seus braços com forte aperto.

-Como vai, filho?

Muito bem papai, e todos no Sagrado Coração?

Melhor depois que souberam de seu retorno.

Pretendo voltar logo, papai. Quero dar uma olhada neste material antes. Pode ser que tenha muito a fazer quando voltar.

Do que se trata?

Uma descrição de como era o nosso mundo e modo de vida há vinte e um mil anos atrás.

O que pretende com isso?

Dar minha contribuição à biblioteca do Grande Oriente. Se eu conseguir tempo, farei um bom trabalho.

Você pode dispor do tempo que precisar.

Mas tenho meus compromissos, não posso esquecê-los!

-Esqueça um pouco o trabalho. Eu estou gostando do seu tipo de serviço. Já estabeleci contato com a maioria dos guardiões das trevas que você conquistou.

-Com isso deixa seu próprio trabalho junto ao Sagrado Coração e o Grande Oriente!

Também preciso de um pouco de atividade externa senão acabarei me esquecendo como é o mundo fora dos templos. Ou já se esqueceu que também sou um guardião da Estrela da Guia? Como vão os seus ferimentos?

Que ferimentos?

Não é bom um filho ocultar algo tão grave de seu próprio pai. Por que não me conta tudo?

O senhor já sabe quem é o ser das trevas?

Sim. Nós nos cruzamos há muito tempo. Fale-me do começo do seu envolvimento com ele.

Contei ao meu pai tudo o que houve. Não omiti nada porque ele já devia saber de tudo. Quando terminei ele comentou:

De agora em diante acautele-se pois a besta já sabe que você está no campo de luta e qualquer descuido poderá ser fatal. Não ande mais sem uma escolta para protegê-lo.

Não creio que seja tão perigoso assim, papai!

Creia-me filho, eu o conheço muito bem e sei que ele não o esqueceu ainda.

Vou me proteger, não se preocupe.

Fique mais algum tempo fora de atividade, quem sabe ele pense que você se recolheu, não?

Se o senhor preferir assim, eu o obedecerei. Não quero que fique preocupado por minha causa novamente.

- Por que não visita sua mãe e todos os outros e depois volta aqui para continuar com seu trabalho junto às jovens que resgatou?

Pouco depois nós partíamos para o Sagrado Coração. Eu revi todos os meus amigos, mamãe e Salete. Reencontrá-las era sempre sinônimo de momentos de felicidades. Conversamos sobre muitas coisas, mas o que mais lhes interessava era Flor do Campo. Contei-lhes por alto sobre o método usado e como ela estava bem agora. Ao ver que eu evitava falar mais claro, minha mãe comentou:

Eu estava certa naquele dia, não?

Não vou responder a isso, mamãe. Prefiro que sua intuição a esclareça ou então deixe na dúvida, mas assim mesmo, obrigado pelas preces.

Continua reticente, não?

Tenho meu modo de alcançar meus objetivos, mas também pago um preço alto. Um dia alguém cobrará de uma só vez. Até lá, agirei da forma que melhor se adaptar a cada caso.

Porque está tão agourento consigo mesmo?

Cada vitória tem seu preço. E eu os pago da pior forma que há. Reergo alguém das trevas e depois o equilibro para logo descobrir que tudo não passou de uma ilusão passageira.

Por que diz isso, Simas? - inquiriu-me Salete com o semblante sério. - Acaso não é sincero no que faz?

Sou sincero até demais e por causa disso só estou acumulando desilusões.

Explique-se filho, não estamos entendendo direito.

Sentem-se que vou falar algo que as deixará tristes e felizes ao mesmo tempo. Felizes porque mestre Han ascenderá a outra esfera agora que tem sua filha de volta à Luz. E tristes por não o terem mais por perto e tão acessível.

As duas ficaram mudas com minha revelação. Não conseguiam pronunciar nenhuma interjeição de espanto. Minha mãe foi a primeira a romper com o estupor.

Como sabe, Simas? Ele lhe falou sobre isso?

Não. Ele ainda não sabe, mas tenho certeza que logo nos comunicará sua partida.

Então como você pode afirmar, Simas? - Era Salete quem me perguntava.

Eu sei porque vi, no reencontro dos dois, alguém da quinta esfera se aproximar. Mestre Han não a viu porque estava muito emocionado e Flor do Campo ainda não está apta a vê-la. Creio que em pouco tempo conseguirá desobstruir sua visão e então será o momento da partida.

Mestre Han merece muito algo assim. Eu não conheço ninguém igual a ele na quarta esfera - falou Salete.

Minha mãe, com um aceno da cabeça, também confirmou suas palavras. Eu nada disse, pois dos três, era o que mais convivera com ele e sabia de seu merecimento.

Você gostou de Flor do Campo, filho?

Sim, mamãe. Ela tem na alma o dom da poesia, da música e do canto, além do amor. Durante o tempo em que ficamos juntos eu penetrei em seu mental adormecido muitas vezes e descobri muitas coisas.

Diga-nos algumas, Simas, por favor!

Está bem, Salete. Eu descobri que ela pertencia à quinta esfera e retornara à carne só para auxiliar mestre Han a cumprir sua última reencarnação para então voltarem a ela. Mas aquele que reina absoluto nas trevas a envolveu através de um dos seus servidores na carne e conseguiu desviá-la da senda da Luz. Com isto evitou que mestre Han ascendesse à quinta esfera e a impediu de retornar para ela após o desencarne. Mestre Han não sucumbiu à sua prova e libertou-se da influência dele. Lutou por sete mil anos para evitar que ela caísse sob seu domínio.

Como ela não deve ter sofrido estes milênios todos, não? Creio que ela também venceu sua prova, filho.

Sim, mamãe. Agora que já sabem, peço-lhes que não comentem com eles. Quero que eles mesmos recebam a alegria do chamado do alto.

Nós manteremos segredo sobre o que nos contou, Simas. Seu pai já sabe disso?

Não tive tempo de contar-lhe, Salete. Agora peço licença para ficar um pouco a sós. Preciso meditar um pouco sobre tudo o que vi, ouvi e fiz ou deixei de fazer.

Saí rapidamente e sentei-me perto das fontes. Por um longo tempo fiquei observando a fonte fazendo fluir a água com uma constância perfeita. As vezes eu me sentia como ela. Precisava dar vazão aos meus sentidos, mas logo via que não era como ela pois tinha que interromper minha vazão. Mas logo voltava a me achar igual a uma fonte pois, se era bloqueado num lugar, ficava acumulando pressão para poder desaguar em outro.

O que seria eu na origem? Isso eu precisava saber. Os guardiões dos mistérios diziam que eu não negava minha origem, os grandes mestres ou mestres de mestres, como eu os chamava carinhosamente, diziam a mesma coisa. O meu anjo da Luz já o dissera também. Afinal, para não negar minha origem, quem seria eu?

- Sim, quem é você, Simas? - Era Salete quem falava.

Sempre chega silenciosa, Salete. Creio até que já estava me ouvindo faz tempo.

Quem o ama tanto não pode dividir suas dúvidas, querido Simas?

Estas são muito íntimas, Salete. Só eu poderei esclarecê-las um dia.

- Então diga-me Simas, quem é você?

- Sou um ser que nas alturas procuro os anjos, no in­ferno, os demônios; e na terra, os homens.

- Ainda não me disse quem é você!

No céu procuro imitar os anjos; no inferno, dominar os demônios; na terra, ser um homem.

É assim que você é. Um ser da Luz que combate as trevas com a mesma paixão de um encarnado.

Eis o que sou, Salete. Por que perde o seu tempo comigo?

- Porque não encontrei outro igual a você ainda.

- Então, no dia em que encontrá-lo, pergunte-lhe qual é a sua origem depois conte para mim, só assim, num igual, saberei qual é minha origem.

Se eu encontrar outro igual a você, nada falarei.

Por que?

-Ficarei dividida entre os dois. Não estarei agindo bem?

- Você está errada, pois é assim que sou, e não sou

feliz.

- Mas sabe como deixar alguém feliz. Que o digam mestre Han e Flor do Campo.

Eu não respondi. Não podia dar vazão aos meus sentimentos mais íntimos. Ainda ficamos muito tempo conversando. Só bem mais tarde decidi voltar ao Templo Dourado.

Até a vista, Salete.

Quando volta?

- Não sei. O tempo não conta no tipo de trabalho que vou realizar.

- Pode me dizer o que é que vai fazer?

O que você e mamãe descobriram sobre as jovens que agora estão com mestre Han?

Muito pouco. Quer ver o que encontramos? Está tudo separado.

- Posso levar comigo?

Sim, mas devolva-nos porque temos que devolvê-los aos lugares de origem.

Então vou ver aqui mesmo. Posso demorar muito até voltar.

- Aceita uma companhia em sua pesquisa?

- Sim. Mostre-me onde estão guardados. E já fomos caminhando para o interior do edifício.

Ficamos até tarde olhando todo o material reunido por elas. Quando me dei por satisfeito, dei-lhe um beijo e parti.

Não era muito, mas, com o que elas haviam escrito, eu já tinha por onde começar.

Devo confessar que passei vários meses em minha pesquisa. Fiz tudo ao meu modo. Fazia-as imitarem os anjos no modo de ser, combatendo seus demônios íntimos e vivendo como mulheres. Foi um longo tempo dedicado a elas.

Assim que a última das flores do meu jardim já não corria o risco de, ao ser transplantada, murchar, eu me dei por satisfeito. Então as fiz regredir até onde era possível. E as descobertas foram fascinantes. A tudo eu registrava com minúcias sendo primoroso nos detalhes.

Quando me dei por satisfeito, comecei a compilar meu livro para posterior envio ao Grande Oriente Luminoso. Demorei várias semanas neste trabalho.

Devo dizer também que levei-as até seu pai para que pudessem dominar todo o medo e ódio que sentiam por ele. Tudo eu fiz, ainda que com muito esforço. No final, elas sentiam tristeza por ver alguém que as havia criado, prisioneiro de seus próprios erros.

Ao superarem a última barreira, tiveram uma súbita iluminação interior. O desejo que nutriam, deu lugar à afinidade mais elevada possível, tal como eu possuía com Salete e Raios de Lua.

Quando entreguei o livro com as anotações de minhas descobertas a mestre Han, ele perguntou:

Por que não o leva pessoalmente aos grandes mestres da Luz, mestre Saied?

Antes gostaria que o senhor lesse. Caso aprove, leve-o e diga que foi feito com o auxílio do Sagrado Coração e do Templo Dourado. Só isso.

Não vou tirar-lhe o mérito por um trabalho tão importante. O máximo que posso dizer é que foi feito com os auspícios dos dois templos.

Como quiser, mestre de mestres, mas não vou estar presente, pois me acho indigno de estar diante dos grandes mestres da Luz. Não depois de tudo que eu fiz.

O que você fez, mestre Saied?

Na terra, agi como os homens.

Você as despertou para a vida, não?

Sim, mas não pude evitar de agir como um homem.

Tinha outra alternativa?

Não. Se tivesse, não tenha dúvida, eu a teria usado. O que sou eu, mestre de mestres?

Você, guardião Saied, é um ser que se lembra, ousa e faz. Lembre-se sempre disso e não terá quedas por causa de suas dúvidas.

Mas por que tem que ser assim?

Enquanto está realizando algo, você não é feliz?

Eu me deixo envolver no que faço. Se me decido a fazer alguma coisa, não quero saber o preço por antecipação.

Isso é o que o torna tão especial. Se ficasse pensando em tudo, você não faria nada. Quero que saiba de uma coisa, mestre Saied. Nós já o estamos usando há milênios. Sempre que há um trabalho difícil e que muitos recusam, você vai e faz. Muitas coisas você já descobriu por si mesmo, outras com nossa ajuda, mas muitas ninguém ousa dizer para não deixá-lo mais triste ainda. Poucos são como você, assim como poucos são os cavaleiros da Estrela Guia. Muitos cavaleiros têm os outros símbolos, mas não o da Estrela. E você já o tem por inteiro. Nenhuma das suas partes lhe falta mais. Enquanto continuar conseguindo fazer alguém feliz sem tornar mais ninguém infeliz, vá em frente pois estará em seu campo de ação. Você conhece os seus limites. Respeite-os e nada terá a temer de sua consciência. Você ouviu a voz do vazio absoluto. Qual foi a principal entre todas?

Foi esta: "Faça-Me renascer onde morri, pois se você morrer Eu o despertarei do sono da morte, ainda que nada mais possa lhe oferecer além do dom da vida".

Então você O fez reviver onde já havia morrido e também Lhe devolveu o dom da vida. Tudo com o auxílio das coisas do amor que tão bem conhece. Qual o motivo de dúvidas? Fique feliz com a vitória delas, pois estas sim, são suas vitórias e ainda que se passe milênios e todos sejam esquecidos, no coração delas, você nunca será, porque você foi a fonte da vida para elas.

O senhor fala de uma forma que não dá para contra-argumentar.

E que eu falo a verdade e contra ela não há rodeios. Ela é o que é e ponto final.

O senhor tem razão. Eu jamais o esquecerei ainda que tudo o mais passe em minha vida. O senhor é a minha fonte de vida. Pena que....

Eu parei de imediato de pensar. Bloqueei meu mental na mesma hora.

- Do que sente pena, mestre Saied?

Eu fiquei olhando-o com lágrimas nos olhos e por fim disse-lhe outra coisa que também me deixava triste.

- Pena que minha Sarah, a fonte do meu amor não possa estar comigo.

Consegui consertar uma quase indelicadeza e inconfidência para com o ser que avisara de sua partida. Mestre Han era muito perspicaz e difícil de se enganar.

- Não se preocupe com isso, um dia você a terá. É só uma questão de tempo. A minha, que voltou pelas suas mãos, demorou sete mil anos. Um dia desses alguém lhe devolve a sua. Até lá, faça como eu, cresça, cresça e cresça. Só assim a conseguirá de volta. Lembre-se, quanto mais elevados ficamos, mais valiosos são os presentes que ganhamos do Criador. E há presente mais valioso que o presente do amor?

Quando mestre Han esgotava uma conversa, nada mais falava. Deixava que quem o ouvisse, tirasse suas conclusões e as colocasse em prática. Por isso e tantas outras coisas eu o amava tanto.

Pode cuidar das outras sete flores por mim, mestre de mestres? Já esgotei meu tempo de ausência no Sagrado Coração e sinto que tenho de voltar.

Filho meu, quem ganha uma flor do amor poderá ganhar muitas outras ainda, mas quem ganha muitas flores do amor, como você está me dando, já tem um lindo, imenso e perfumado jardim. Pode ir em paz, que eu regarei com a luz do saber o jardim que você semeou com a luz do amor.

Mestre de mestre, luz do meu saber e fonte de minha vida, onde eu encontrarei outro como o senhor?

Olhe-se num espelho, filho do meu amor, e me verá por inteiro, pois eu vivo em você e enquanto você viver, eu não morrerei.

Espero que o Doador divino do dom da vida nunca me deixe morrer só para que eu possa mantê-lo vivo em mim por toda a eternidade, luz da minha vida.

Lembre-se de outra coisa, filho. Quando Ele, o supremo e divino Doador lhe der a flor que inebriará os seus sentidos, ela não virá sozinha. Junto com ela receberá todo o jardim, para que nele, cultive todo o seu amor.

Como sabe disso, mestre Han?

Que importa isso agora, filho meu?

Não respondi à sua pergunta, que não comportava outra. Despedi-me de todos no Templo e parti de volta ao Sagrado Coração. Parti com tristeza. A cada partida, deixava mais um pouco de mim para trás. Estranhos os doadores do amor: sofrem quando vêem alguém sem amor, e choram ao deixar para trás quem se inundou na sua fonte do amor.

De volta à prática do trabalho socorrista do Sagrado Coração junto às trevas mais profundas, adormecia em meu mental mais algumas criaturas adoráveis, amorosas e insubstituíveis. Tudo voltava à rotina.

Meu pai achou que não havia mais perigo de eu ser colhido pela força da besta das trevas e me deixou voltar ao campo de ação. Só me pediu para ser mais cauteloso. Já me preparava para partir quando alguém muito querida chegou. Era minha querida Jasmim, a luz dos meus olhos. Abracei-a com ternura. Como era bom revê-la após tanto tempo. Já fazia alguns anos que eu não a via.

- Mago da Luz, estou muito contente, por isso vim até o senhor!

Eu sinto sua alegria. Diga-me o que a deixa tão feliz.

Fui convidada por uma servidora da quinta esfera a ir para lá.

Isso quer dizer...?

Sim, meu amado mestre. Estou livre do carma reencarnatório.

Tornei a abraçá-la e girei seu frágil e delicado corpo no ar. Como eu fiquei feliz com a notícia!

Jasmim, luz dos meus olhos, você é uma criatura abençoada por toda a eternidade! Louvado seja o Criador por Sua generosidade, e amada seja você por merecê-la.

Devo isso ao senhor, mago branco. Se não fosse sua aparição em minha vida quando na carne, talvez eu tivesse que retornar a ela.

Não, minha querida criança. Deve a você mesma. Você venceu sua prova. Não pode imaginar o quanto estou feliz, luz dos meus olhos!

Posso sim, luz do meu amor ao Criador. O senhor foi a minha fonte da vida quando ela secou, a fonte do meu amor quando ele se magoou, e a fonte do meu saber quando só as trevas me restavam. Mago branco, você é a luz do meu amor. Subo um pouco agora mas jamais o esquecerei. Em meu coração haverá sempre uma pepita muito valiosa brilhando. Será o senhor que estará vivendo em meu coração por toda a eternidade.

Você também não morrerá em meu coração Jasmim. Quando me sentir ferido, magoado e nas trevas, eu a farei reviver em toda a sua luz e só assim terei um Jasmim a me conduzir.

Luz do meu amor, meu mago da Luz, quero agradecer-lhe por ter sido tudo em minhas muitas vidas junto ao senhor. Já fui sua filha e também sua mãe, já fui sua irmã, mas também sua esposa. Na última encarnação fui tudo ao mesmo tempo. Substituí sua mãe quando chorava por ela, fui sua esposa quando chorava por Sarah. Fui seus filhos quando chorava por eles. Mas também, o senhor foi meu pai e minha mãe quando eu chorava por eles; foi meus irmão ceifados pela morte precoce, quando eu chorava suas ausências e foi meu filho pequeno quando chorava muito e adormecia recostado em mim. Tudo fomos um para o outro sem nunca macularmos o nosso amor por desejos, prazeres, invejas, discórdia, vaidade ou ódios. E quando dois seres que se amam há milênios incontáveis, vivem sem nada ter além do dom da vida, da pureza do amor só pelo amor, um deles ascende aos céus. Fico triste por ter sido eu a escolhida, mas feliz por poder, de lá, enviar-lhe só o melhor do amor. Finalmente eu o encontro por inteiro em mim, luz do meu saber das coisas divinas e fonte do amor divino.

No jardim celestial da quinta esfera eu terei, só meu, um lindo e perfumado jasmim, luz dos meus olhos! - exclamei soluçando de alegria.

Que lhe dará sementes de amor que nunca terão fim.

Oh! Meu Jasmim! Fruto de todo o meu amor, você é a mais bela das flores no jardim do nosso Senhor.

Não poderiam ser outra coisa, os frutos do seu amor, meu mestre inspirador.

Eu chorava e ao mesmo tempo sorria, tão grande era minha alegria por saber para onde meu jasmim partia.

Como não podia ser de outra forma, fui o último a ser abraçado por ela antes de sua partida para a quinta esfera, a esfera dos que já não reencarnam mais. Ela não desaparecia da minha vida, apenas conquistava mais um degrau na escada que nos conduz ao Criador Divino, o nosso eterno e bondoso Senhor.

Ainda hoje eu me pergunto onde estará meu Jasmim que eu sei que vive muito longe, mas também vive em mim. Tantas são suas sementes de amor, que nunca, mas nunca mesmo, terão fim. E faço tudo para ver se envio ao jardim celestial, mais uma muda de jasmim. Se depender do seu amor por mim, estas mudas jamais se acabarão, tão grande é o amor do meu Jasmim.

 

MAIS DESPEDIDAS E NOVA MISSÃO

Eu voltava a viver com imensa alegria depois da ascensão de Jasmim. Desenvolvia meu trabalho junto às trevas com a eficiência costumeira. Não havia obstáculos que eu não superasse. Pouco tempo depois de Jasmim ascender, outro ente querido me procurou para dar-me mais alegria. Era Raios de Lua, minha primeira esposa na última reencarnação. Eu sempre a visitava no ponto de forças da natureza nos rios, as cachoeiras. Era lá que ficávamos relembrando o passado e sonhando para o futuro. Mas Raios de Lua só viera uma vez ao Sagrado Coração do Amor Divino. Sempreera eu quem a procurava. No seu ponto de forças, ela havia desenvolvido o mais belo trabalho junto ao gênio das águas doces. Muitas vezes eu levava para ela centenas de almas que com amor e carinho eram cuidadas por minha querida Raios de Lua. Como era dedicada! Ainda hoje, mergulhado na carne, sempre que vejo a lua cheia, sinto seus raios. Sua beleza, assim como sua luz, eram imensas. Eu me via sempre envolvido quando me aproximava dela em seu ponto de forças. Assim como um dia, ela ainda jovem, me envolveu com seus encantos de mulher e me fez conhecer o prazer do amor, agora me envolvia sempre e me fazia conhecer a luz do amor. Assim era e ainda é, minha amada Raios de Lua. Foi com surpresa que a recebi no Sagrado Coração.

- Raios de Lua, fico feliz em vê-la aqui. Quanta alegria me traz!

- Alegria e tristeza, pajé branco.

- Por que as duas coisas ao mesmo tempo, se você só me tem dado a primeira desde nosso reencontro na carne?

Antes de falar-lhe, me abrace forte. Quero senti-lo como da primeira vez que tocou em mim.

Ainda não se esqueceu de algo ocorrido há tanto tempo, minha querida Raios de Lua?

Você se esqueceu?

Não! Como poderia se eu tremia todo? É uma lembrança inesquecível.

Pois abrace-me e sinta como agora sou eu quem está trêmula.

Eu a abracei e senti todo o seu corpo vibrar. Como estava tremendo minha Raios de Lua.

O que houve?

Não fale nada, só me acalme um pouco para que eu volte ao meu normal, meu querido pajé branco.

Acariciei seus longos cabelos com delicadeza. De seus olhos corriam dois filetes de lágrimas. Nada lhe disse, só a abracei pelo tempo que achou necessário. Eu não sabia, mas este seria o nosso último abraço por muito tempo. Até o momento da queda, só o repeti por mais uma vez.

Quando ela se sentiu mais calma falou:

- Meu querido, vou partir para outra esfera, mas se me pedir para ficar, eu não o deixarei.

Desta vez foram meus olhos que verteram, não dois filetes, mas grossos fios de lágrimas. Estavam me tomando a fonte de luz do amor. Alguém lá em cima levava para perto de si minha lua radiante de amor.

E eu chorei. Como chorei!

Não era choro de alegria como com Jasmim, mas o choro da solidão, e eu me sentei para chorar. Não conseguia contê-lo. Meu choro partia do coração. Ela também chorou comigo. Quando esgotamos nossas lágrimas, entre soluços eu lhe perguntei:

Quem a convidou a ascender?

Foi o próprio gênio do símbolo do Amor. Foram tantos os que acolhi no seu ponto de forças na cachoeira que ele me quer um pouco mais em cima. Uma vez tive que partir contra minha vontade e deixei-o chorando. Sei que se eu partir de novo, você vai sentir muito. Se não quiser, eu não parto desta vez.

Não tenho o direito de impedi-la de receber o que conquistou com o amor que há em seu coração. É dolorido mas não vou impedir sua ascensão. Prefiro chorar por sua ascensão agora e sorrir no futuro, que sorrir agora e chorar no futuro.

Por que não me pede para ficar? Eu estou dividida entre você e o gênio guardião do símbolo do Amor e não sei o que fazer. Ajude-me meu amado pajé branco, pois meu coração está partido entre os dois.

Raios de Lua, meu raio do amor, como posso segurá-la comigo? Acaso já viu alguém que conseguisse segurar um raio de lua? Não, eu acredito que não! Um raio de lua ninguém segura, apenas recebe sua luz e encanto, nada mais.

Mas se quiser, desta vez poderá segurar o seu raio de lua. Será o primeiro a conseguir tal proeza.

Se eu segurar meu raio de lua agora, o gênio do símbolo do Amor lhe tirará o seu encanto. Então logo ele se apagará para sempre. Diga-me, como pode um amante da Luz ver seus raios se apagarem e ficar insensível? Como poderei ser feliz em ter uma lua sem seu brilho encantador? Prefiro chorar sua partida para as alturas que ver sua prisão ao meu lado. Nós só somos felizes assim como somos: minha lua me iluminando com seus raios enquanto eu caminho na terra. Só assim minhas noites não são escuras. Elas são sempre iluminadas pelos raios de lua do meu amor luminoso.

-Meu amado pajé branco! Quantos eu já não iluminei com meus raios! Mas nenhum é como você. Os outros eu ilumino com os raios do meu amor e eles só o absorvem. Mas você não! Você os absorve e os devolve a mim como raios de sol. Saiba que a sua lua brilha raios de amor que nada mais são que reflexos dos raios do amor do sol que a ilumina. Você é o meu sol radiante! Como sua lua, choro quando me distancio um pouco de minha fonte de luz. Eu só reflito sua grande luz e seu imenso amor. Sou toda escura porque não tenho luz própria, mas do lado que você me ilumina, eu sou brilhante. Feliz será a sua lua no dia em que você, com sua força gravitacional, a puxar para si e a absorver por inteiro na sua luz, que aquece e ilumina os meus raios. Muitos não sabem, mas quando o sol se esconde para eles é porque ele está se mostrando para a lua. E é nesses momentos que o amor ganha intensidade, chegando mesmo à paixão. Eles não sabem mas estão apenas recebendo o reflexo do amor do sol e da lua. Como eu o amo, sol dos meus dias!

E como a amo, luar de minhas noites! Se eu fosse um poeta lhe faria o mais belo poema de amor e se fosse músico, a mais bela canção. Mas como sou somente o seu sol, enviarei a você meus raios luminosos de amor para que os reflita quando eu caminhar nas longas noites solitárias. Só assim não me importarei de não ter companhia alguma pois saberei que minha lua querida me envia, lá do alto, seus raios de amor. Suba um pouco mais, minha lua querida, assim receberá com mais intensidade os raios da luz do amor do Divino Criador e mais intensamente os refletirá em mim. aqui em baixo.

Eu sou sua lua amada que vive entre sua força e a do Criador. Cada um me querendo para si! Não sabe como é difícil viver com meu coração dividido entre dois amores. O primeiro é o amor ao Criador e o segundo, a um homem que é o próprio amor.

- Quando será sua partida?

-Daqui a sete dias. Vim até aqui para, caso não quisesse que eu ficasse para sempre ao seu lado, pedir-lhe que os passe ao meu lado no meu sagrado ponto de forças na natureza. Aceita ir até lá comigo?

- Sim, e espero que durem uma eternidade estes sete

dias.

Foram sete dias que duraram apenas sete segundos, tão rápido passaram. Quando nos abraçamos antes de sua partida nossas lágrimas douradas se misturaram com as águas que caíam da cachoeira. O pranto era tanto, que a corrente abaixo da cachoeira tornou-se luminosa. Devo acrescentar que só a soltei de meus braços quando o próprio gênio das cachoeiras a tirou de mim.

Mais uma vez o gênio do amor nos separava. Mas ele próprio chorou a nossa separação. De seus olhos, pingos dourados caíram e iluminaram todo o ponto de forças. O gênio se retirou com Raios de Lua e eu fiquei ali, aos pés da cachoeira, chorando a perda dos raios do meu amor. A partir daquela noite eu, sempre que olhava a lua, deixava uma lágrima denunciar a ausência do meu amor.

Até hoje eu choro a sua ausência. Meu coração possui um vazio que ninguém pode preencher, porque ele pertence a Raios de Lua, uma servidora do Símbolo do Amor.

Voltei muitos dias mais tarde ao Sagrado Coração e ainda tinha momentos em que eu não continha o meu pranto. Tanto mamãe quanto Salete procuraram me consolar. Durante algum tempo só havia o vazio. Meu coração esgotara suas lágrimas de amor por Raios de Lua. Meu coração ficou um pouco mais escuro porque já não tinha a minha lua para iluminá-lo.

Logo chegou até nós a notícia da partida de mestre Han e sua filha para a quinta esfera. Como não podia deixar de ser, ele realmente colhera um jardim: ele havia recebido a ordem de levar consigo todas as sete belas flores que um dia eu resgatara das trevas.

Sua partida coincidiu com a data de comemoração do primeiro centenário do Sagrado Coração do Amor Divino. Como já havia uma programação a ser cumprida, mestre Han designou seu sucessor no Templo Dourado com antecedência e aceitou o convite de Salete em irmanar os seguidores dos dois templos e fazer-lhes uma bela festa em comemoração à sua ascensão. Os dois templos uniram seus corais e as mais belas canções se fizeram ouvir. Eu chorava minha tristeza com mais essa partida. Não era um gesto de egoísmo, mas de orfandade. Tiravam-me o mestre amado. Em dado momento, não pude conter minha dor e volitei-me no ar. Estavam todos tão encantados com a melodia entoada pelo coral que nem notaram minha ausência. Fui a um lugar ermo e chorei minha dor sem medo ou vergonha de ser ouvido. Eu estava só. Como eu chorei! Chorei a partida de Jasmim, de Raios de Lua, de Flor do Campo e das suas sete novas irmãs, as flores do meu jardim. Mas chorei muito mais a partida de mestre Han. Ainda chorava, quando sua voz carinhosa interrompeu meu choro.

Por que o filho de meu amor chora minha elevação de forma tão sentida? Acaso não quer se despedir de mim?

Não tenho coragem de olhá-lo, pois sei que as lágrimas turvarão minha visão, pai do meu amor.

Acaso minha elevação não o deixa feliz, filho meu?

Sua elevação só me honra, Mestre, e poderei dizer a todos que tive como mestre um sábio que ascendeu a uma esfera muito superior à minha. Só a menção do seu honrado nome já fará com que muitos queiram ser meus discípulos.

E isso não o deixa feliz?

Não, mestre de mestres, com sua partida apaga-se a luz do meu saber. Onde irei buscar a luz que me falta adquirir? Onde irei quando a dúvida tomar conta da minha razão?

Você me cultivou muito bem todo o tempo que passamos juntos. Eu cresci dentro de você como uma árvore forte que teima em espalhar, para fora de seu ser, toda a sua sombra onde muitos poderão descansar. Quando tiver uma dúvida e não puder encontrar ninguém para esclarecê-la, pro­cure-me no seu interior que lá estarei para responder-lhe. Cultive na lembrança tudo o que fizemos juntos e eu não estarei longe, filho meu. Você é um reflexo meu e eu me reflito em você.

Ensine-me pela última vez, luz do meu saber. Por que tem que ser assim?

Um espírito, quando volta à carne, não precisa ter alguém preparado para o seu nascimento?

Sim, meu pai amado.

E quando alguém vai deixar a carne e retornar ao mundo maior, também não precisa ter alguém que o ama esperando-o, senão ele se perde na ascensão?

-Sim, isso também.

- Então, filho. Encare minha partida como alguém que vai na frente para recepcioná-lo quando for chegada sua hora.

Como poderei me elevar se já não terei mais a luz do meu saber a me iluminar?

Absorva-me por inteiro e terá toda a luz que precisa para tomar o rumo certo na hora certa, filho meu. Se escolher o caminho certo e o trilhar corretamente, logo me alcançará novamente e aí a nossa união será por todo o sempre na causa comum que é a elevação da humanidade. Saiba que eu parto incompleto deixando para trás o meu Cavaleiro da Estrela da Guia, o cavaleiro que espalha o saber da luz da Estrela. Ainda que demore outros sete mil anos, eu a elevarei para perto de mim, pois só esta estrela consegue refletir meu saber tão bem e para tantos que estão na escuridão da ausência do saber das coisas divinas.

Desculpe-me por ser tão egoísta, mestre de mestres, mas eu vou chorar sua ausência enquanto ela durar.

Que Deus abençoe o seu choro, filho do meu amor. Será através dele que voltará a viver próximo de mim.

Eu orarei por este dia, meu pai amado. Peço o seu perdão por ter vindo tão longe chorar minha dor.

Não tenho nada a perdoar, meu filho. Como disse um dia: uns não se lembram mais, outros sabem mas não ousam e ainda há outros que se lembram, sabem como e ousam chorar. Tudo o que você chorou, só honra a sua origem. Se você reagisse de outra forma, eu não o reconheceria. Você é o que é e age de acordo com sua natureza. Isso ninguém poderá modificar ou tirar de você; é a essência do Criador depositada em seu espírito imortal no momento da sua criação. Se a deformarem, algum tempo depois você a remodela com perfeição; se a despedaçarem, lentamente você irá juntando os pedaços, até que tenha recolhido todos eles. Aí então se reconstituirá por inteiro novamente. Esta é sua natureza e veio de sua origem. E o que sei é que até hoje você só honrou sua origem. Vamos voltar agora que os irmãos do quinto plano o estão esperando.

Esperando por mim, meu pai amado?

Sim. Aquela que se mostrou a você muito antes de se mostrar a mim, quer que você faça algo por ela.

Ela falou que já havia se mostrado a mim?

Sim. Por que não disse antes que sabia de minha elevação?

Eu não quis tirar-lhe o prazer de receber dos lábios dela tal notícia.

Então preferiu se afastar para não se trair, não é?

É isso mesmo, meu pai amado. Ultimamente estou vendo aqueles que mais amo partirem para o quinto plano.

E não é bom que muitos do mesmo grupo afim comecem a se elevar? Você não acha que alguém deve ter os seus motivos para elevá-los?

Sim, alguém os tem com certeza.

Mas ainda há muitos por aqui que ama e que o amam. Portanto, não os deixe sofrer com sua dor. Você é a estrela que os guia. Se a sua estrela se apagar, eles não saberão qual o caminho que leva ao plano superior.

E como eu saberei qual é este caminho?

Olhe sempre para sua estrela. Ela é a sua guia e você é o seu cavaleiro amado.

Não esquecerei suas palavras, mestre de mestres!

Então vamos voltar que a hora da partida está chegando.

Logo estávamos novamente no Sagrado Coração do Amor Divino. Todos aplaudiram a volta de mestre Han. Ele então nos ensinou mais uma vez com o seu saber :

- Não estranhem a fuga do meu filho amado. Todos eles choram quando têm o cordão umbilical cortado e são separados de sua mãe. Este filho eu venho gestando no meu coração há muito tempo e agora ele chora porque é filho do meu amor, assim como muitos de vocês também são. Não sintam medo ou vergonha de chorar por amor, pois só os covardes não choram.

E não houve quem não chora-se a partida do velho e amado mestre Han. Mesmo os que não haviam convivido com ele, choraram. Sabiam que quando um grande mestre ascende a uma esfera superior, muitos mestres discípulos seus se tornarão grandes um dia. Ele nos abençoou com um gesto que todos nós imitávamos quando abençoávamos alguém ou alguma coisa e partiu com as oito filhas. De cada uma delas eu recebi um abraço e um beijo em cada face, além de uma frase que não vou repetir aqui. Eram confidências de amor e somente os tolos fazem isso, não quem conhece as coisas do amor. E eu as conhecia muito bem. Só aquela venerável senhora ficou após a partida. Ela, e uma escolta que a acompanhava. Depois que todos se retiraram voltando aos seu afazeres, ela me chamou para me dizer algo.

Filho da Luz, gostaria de pedir-lhe algo que para mim é muito importante.

Então ordene que farei, senhora da Luz.

Eu não ordeno, filho, só lhe peço. Se aceitar ficarei feliz e se não, eu entenderei.

Eu a ouço, senhora da Luz. Pode dizer o que deseja. Se eu puder realizar o seu desejo, ficarei honrado. Se não, procurarei crescer o suficiente para logo mais realizá-lo.

Prefiro assim, filho da Luz. Há algum tempo atrás um ser muito amado ousou penetrar no meio e se perdeu. Nunca mais tive noticias dele.

Quem era ele, senhora da Luz?

Um cavaleiro da justiça. Ousou ir até o meio à procura de nosso filho e não voltou mais. Choro não mais a ausência do meu filho, mas também a do seu pai.

Acredita que eu possa encontrá-los e resgatá-los do meio, senhora da Luz?

Sim, pois onde um cavaleiro da justiça falha, um cavaleiro do amor não falhará. Sua estrela o guiará até eles.

Eu nunca me arrisquei a ir até o meio, mas se a senhora diz que os encontrarei, então tenha certeza que só retornarei quando encontrá-los e achar um meio de tirá-los de lá.

Bem que o Cavaleiro do Mar me disse! Eu rezarei por sua vitória, filho da Luz.

Desculpe-me a curiosidade, mas, o que lhe falou o Cavaleiro do Mar?

Disse-me para pedir-lhe isso que ele tinha certeza que você aceitaria tal risco. E se aceitasse, com toda certeza você os traria de volta.

Preciso agradecer ao Cavaleiro do Mar a confiança que ele deposita em mim. Senhora da Luz, logo terá o seu companheiro, o Cavaleiro da Justiça, e o seu filho amado de volta, além de ter também um Cavaleiro da Estrela da Guia a seu serviço. Se o seu filho amado foi lançado no meio por um ato desumano de magia maligna quando socorria os caídos à beira do caminho, a justiça já está a seu lado amparando-o e logo o amor chegará para libertá-lo com a justiça do amor.

Então eu o nomeio meu Cavaleiro da Justiça do Amor, Cavaleiro da Estrela da Guia.

Procurarei honrar o título que me concede, senhora.

Eu sei que o honrará, filho da luz da justiça divina.

Agora, dê-me licença, vou partir para o meio. Deixarei para chorar a partida de mestre Han quando retornar.

Se você conseguir retornar do meio, não terá motivos para chorar a ausência dele, filho da Luz.

E se eu não conseguir sair do meio, serão muitos os que chorarão minha ausência.

Eu serei mais uma que chorarei sua ausência, caso não saia de lá!

Saiba que farei tudo para sair. Já são muitas as mulheres que chorarão minha ausência e não vou querer que a senhora da Luz chore por mim também!

Você não nega sua origem, filho da Luz! - ela sorriu ao dizer isso.

Ainda não sei qual é a minha origem, mas confio nela para sair de lá. Só peço que conserve este sorriso nos lábios pois ele será a última coisa de que me esquecerei enquanto estiver no meio.

Que Deus misericordioso o abençoe, filho da Luz e da justiça divina.

Eu me ajoelhei e fui abençoado por ela.

 

O MERGULHO NO MEIO

Volitei no ar e parti para o meio. O temido meio!, lugar onde poucos ousavam penetrar, pois é neutro. Ali reina a lei do horror. E para lá que são lançados os devedores da lei para posterior redirecionamento às suas escalas evolucionistas. Muitos jamais saem do meio. Se não são acolhidos pela Luz e nem pelas trevas, se perdem por todo o sempre!

Mas há uma exceção. É quando o Criador, num ato de misericórdia, varre aquela faixa vibratória com o seu vento arejador e colhe as milhares de almas que já purgaram todo o fel do ódio. Então, são lançados num movimento coordenado pelo próprio Criador e reencarnam.

É nele que têm origem os aspectos horrendos dos seres infernais. Só os poderosos demônios infernais ousam penetrá-lo ou os poderosos anjos da sétima esfera. O maior problema não é entrar e sim sair. Ali é o umbral de acesso ao horror. Quem o penetra, pode, com grande probabilidade, nunca mais sair.

Eu parei no ar antes de entrar. Divisei a densa neblina que separa o resto da criação. Um pavor imenso se apossou de meu ser. Eu arriscava tudo que havia conquistado em milênios num gesto de coragem. Se, por acaso, eu tivesse algum ajuste de contas com a lei e ele fosse muito grave, provavelmente eu jamais sairia.

Mentalmente chamei o velho amigo Cascavel. Num segundo lá estava ele enrolado em meu corpo, os dois pairando no ar que circundava o meio.

- O senhor está louco, chefe?

Esta foi a única coisa que ele me disse quando divisou o meio.

Ainda não sei, mas quer arriscar-se a participar de minha loucura, meu amigo?

O senhor está mesmo decidido a se aventurar no meio, chefe?

Sim, por que?

Pensei que estivesse brincando comigo. Foi aí que fui lançado após o meu desencarne. Eu conheci o horror da minha transformação no que sou.

Por isso eu o chamei. Você conhece os seus perigos e eu não. Mas não é obrigado a me acompanhar. Só me fale algumas coisas sobre ele.

Quem lhe pediu para fazer tamanha loucura, chefe?

Uma senhora, meu amigo.

Eu já imaginava. Quando o vejo em encrencas, já sei quem o colocou nelas. Sempre é uma mulher!

Mas é uma linda senhora da Luz, meu amigo. Eu não podia fugir ao seu pedido.

Não importa que ela seja uma senhora da Luz. Fosse quem fosse, o senhor não fugiria, chefe. Eu já estou começando a conhecê-lo um pouco.

Então é sinal que eu já estou começando a viver em seu interior.

Isto é verdade, chefe. Recebi um pedido de ajuda da mais linda mulher que existe!

Já está derretendo o coração de suas conquistas, meu amigo?

Como assim, chefe, não entendi direito o que quis

dizer.

- Eu explico, meu amigo. Se uma dama tiver coragem de lhe pedir um favor especial, é porque você já conquistou sua confiança. E quem conquista a confiança de uma dama tem a porta do seu coração aberta ao merecedor dela. A ele só resta adquirir confiança em si mesmo e atravessar esta porta para estabelecer morada definitiva naquele coração.

- Depois das suas conquistas, não ouso duvidar de suas palavras, chefe. E olhe que até eu, um ser vil e asqueroso, me apaixonei por elas!

-Não se diminua, meu amigo, mas alimente a esperança de um dia voltar a ser grande novamente.

Só o senhor para me dizer estas palavras animadoras, chefe. Onde posso encontrar outro como o senhor?

Cultive-me em seu interior e quando menos esperar, me encontrará por inteiro em você mesmo!

Certo, chefe. Eu vou com o senhor, porque caso não volte mais, prefiro vagar no meio ao seu lado que rastejar sozinho nas trevas.

Obrigado pela confiança. Quem é a dama que precisa de sua ajuda?

Lembra-se daquela serpente que o senhor mandou retirar do reino do Sete Cobras só para calar a boca daquele canalha, lá na beira da praia?

Sim, como poderia me esquecer dela! Tem bom gosto meu amigo, ela é muito bela!

É isso, chefe. Eu fiquei apaixonado quando a vi como mulher, não como serpente. Nas vezes em que o senhor vai até lá, eu converso sempre com ela. Já consegui fazer com que desejasse servir à lei. Só preciso de uma ajuda do único guardião da lei que confia em mim para dar-lhe a oportunidade de voltar a ter esperanças.

Se nós conseguirmos sair do meio, farei muito mais meu amigo. Nós vamos resgatar um cavaleiro da justiça. Se o salvarmos pedirei a ele para marcá-los com o seu símbolo e assim poderão ter duas formas. Tanto a da cascavel como a de homem, ainda que com certas limitações.

Quais as limitações, chefe?

Estará ligado ao símbolo com que for marcado e se o desonrar, estará destruído. Vê este símbolo em meu peito?

Sim, é a Estrela.

Eu a trago desde minha origem. Às vezes o torno mais luminoso, outras ele quase se apaga, mas procuro não desonrá-lo pois conheço as conseqüências de negar a minha origem. Aceita minha oferta, meu amigo?

Sim, chefe, mas antes posso buscar minha futura companheira?

Não teme a possibilidade de não voltarmos?

Sim, mas acredito em nossa volta. E, caso não voltemos, ao menos eu a terei ao meu lado.

Então vá buscá-la, eu os espero.

Olha ela ali, chefe. Estava ouvindo a nossa conversa.

Mande-a enrolar-se em mim também meu amigo, só assim não nos separaremos no mergulho ao meio. Depois de estarmos no seu interior, já não correremos esse risco.

Não teme que ela lhe dê uma picada? O veneno dela é muito mais forte.

Eu sou imune ao veneno da maioria das cobras. Só vou sentir a dor de suas presas, mas diga-lhe que se fizer isso eu lhe arranco as presas do resto do corpo, com a cabeça junto.

Já lhe falei do senhor, chefe. Se voltarmos do meio vou ter que me preocupar com mais uma coisa.

O que é?

Preciso tomar cuidado para ela não me abandonar pelo senhor.

O que você andou dizendo a ela sobre mim?

Só o que sei.

E isso com toda a sua peculiar modéstia e discrição,

não?

O senhor já me conhece chefe, sou modesto e discreto em todos os momentos.

Esta particularidade de sua natureza eu já havia notado faz tempo, quando me mostrou a sua "pequenina" falange de cascavéis. Muito modesto mesmo! Imagino então o quanto deve ser discreto.

É isso, chefe! Só está faltando minha terceira e quarta qualidade.

Quais são?

Corajoso e eficiente!

Já tenho um auxiliar nas trevas quase perfeito. Modesto, discreto, corajoso e eficiente. Falta-lhe muito pouco para se tornar um anjo da Luz, meu amigo.

Qualquer dia destes eu adquiro o que ainda me falta. Primeiro vou esperar o senhor virar um anjo, depois eu faço tudo o que fez para ser um.

Você não está com pressa disso, não? Pode demorar um pouco.

Ah! Eu ia me esquecendo de mais uma qualidade,

chefe!

Também é paciente!

Isso mesmo, chefe. Muito paciente!

Pois precisará de muita paciência, caso não saiamos de lá. Vamos, mande-a enroscar-se em mim pois vamos penetrar no meio do meio.

Eu estava atento a ela e ouvi bem quando seu mental inferior vibrou no contato com meu corpo. O pensamento que ela emitiu? "Ah como é bom voltar a tocar no corpo de um homem".

Bom! Eu já tinha ouvido tais pensamentos do amigo Cascavel, quando ele tocava numa mulher. Ambos haviam desrespeitado a sagrada pele do cordeiro, o corpo humano. Ele, ao torturar os escravos negros e matá-los. Ela, ao usar seu belo corpo feminino como instrumento do ódio que nu­tria pelos homens.

Por isso a lei lhes negou um corpo fluídico na forma humana. Ao tirar-lhes o perispírito, só lhes restou o que possuíam em demasia no mental. Eram como serpentes: em quem se fixassem, causavam a morte.

Como é perfeita a lei! Ela só confirmava a eles sua perfeição ao permitir-lhes poderem novamente sentir o contato com um corpo humano. Não mais desejavam deformá-lo ou destruí-lo, mas sim ao menos enroscarem-se nele. Ela, que um dia odiou os homens e tirou a vida de muitos que ousaram tocá-lo, agora sentia prazer em rastejar sobre o corpo de um homem. E ele, que mutilou e matou tantos, agora só almejava ter de volta um corpo humano e o que mais o deixava feliz era ter alguém com uma certa saliência onde viesse a se enroscar, tal como um bebê no colo materno.

Como é perfeita a lei divina, e o ancestral místico da luz das formas e da transformação que a executa. Ele os castigara sem tirar-lhes nada além do que possuíam em excesso. Se eram serpentes, não podiam ter um perispírito humano. Só lhes tirou o que não lhes pertencia. E ao verem realmente como eram, começaram a procurar a transformação, não externa, mas interna.

E como é difícil transformar o interior! Leva-se muito, mas muito tempo mesmo, para consegui-lo. Mas, como eu sabia das coisas da lei, permitia-lhes que tocassem novamente num corpo humano. Eles sentiam um imenso prazer ao fazer isto e ansiavam pelo dia em que a lei lhes permitiria ter novamente seus corpos humanos.

Acariciei lentamente a nova companheira do meu auxiliar nas trevas e novamente ouvi sua voz íntima dizendo: "Como é bom ser acariciada por um homem!"

Vamos amigos? O meio nos aguarda!

Certo, chefe! - disseram os dois ao mesmo tempo.

Volitei-me no ar e, levando-os comigo, mergulhei. Como era terrível o meio. Raios cortavam a escuridão, verdadeiras tormentas o castigavam incessantemente. O clarão provocado pelos raios iluminava figuras grotescas. Urros imensos ecoavam por longo tempo e a longas distâncias.

Eu não sabia como era o inferno, mas aquele lugar era pior que os abismos onde eu descia para resgatar almas. Lá havia uma queda de vibração constante, mas ali não. Tudo se modificava em fração de segundos.

Talvez o caos a que se referiam os sábios que escreveram a Gênese no Livro Sagrado fosse este. Que sensação horrível é sentir-se no meio do meio. O horror nos percorre todo o corpo causando uma sensação de perda dos sentidos. Eu tinha que me manter alerta ao máximo pois ali minha luz de nada valia como defesa, muito pelo contrário, era algo que me denunciava e atraía o olhar dos colhidos pela lei e lançados no meio para posterior direcionamento.

Eu vaguei pelo meio por longo tempo. Os lamentos, os gritos de horror e pavor era o que me incomodava. Como direcionar minha mente com tanta interferência? Talvez tenha sido por isso que um cavaleiro da justiça tenha se perdido em seu interior, pensei eu. Que pretensão a minha pensar que poderia entrar nele, resgatar alguém, e sair facilmente.

Só para terem idéia, eu já havia perdido o sentido de direção. Sem ele seria difícil me guiar no retorno. O meio era como o edifício do Sagrado Coração. De fora era abrangido pela visão, mas quando entrávamos em seu interior, crescia por todos os lados.

Subi num promontório e do alto procurei me direcionar. O vento cortava a imensidão. Minha longa capa, azul por dentro e vermelha por fora esvoaçava, tal o furor da ventania. As duas cobras cobriam, com suas visões, minha retaguarda e as laterais. Da frente cuidava eu. Quando os coriscos cortavam a penumbra, eu fixava minha visão em algo, até um novo clarão. Nuvens negras ameaçavam temporais que nunca caíam. O solo era seco e todo rachado. Ali nunca tinha caído uma gota d'água! Quando finalmente eu consegui estabelecer um rumo, me alegrei. Ao me ver sorrir, o Cascavel me perguntou:

Chefe, já sabe onde estamos?

No meio do meio, meu amigo. Ou seja, no inferno!

- Muito animadoras as suas palavras, chefe. Não sabe como me tranqüilizam! Se até os demônios, que são seus moradores milenares, não conseguem sair dele sem ajuda externa, como nós vamos sair?

- Nós não somos demônios, meu amigo!

Fale só pelo senhor, chefe. Eu, com este corpo e neste lugar, me sinto muito próximo de ser um. Se não fosse a sua presença para me fortalecer, eu já teria saído por aí em fuga, sem rumo, mordendo a todos que cruzassem o meu caminho.

Acalme-se meu amigo e também à sua companheira. Já sei onde estamos, agora só preciso apurar minha direção para partirmos rumo ao nosso objetivo. Antes vou direcionar nossa saída do meio, mas para consegui-lo, devo me concentrar ao máximo.

Como? Com este inferno miserável à nossa volta, chefe?

-Protejam-me e vigiem. Se alguém se aproximar muito me avisem. Preciso me desligar totalmente. Só assim encontrarei a saída.

- Vá em frente, chefe, que nós cuidamos do resto.

Eu me isolei do horror do meio e mentalmente fui fazendo o trajeto de volta. Lentamente eu ia conseguindo. Quando divisei a neblina que delimitava o meio da primeira esfera, eu, mentalmente, dei uma gargalhada.

Já sabia onde estava e como voltar. Estabeleci o meu norte direcional e já ia começar a vasculhar o meio, quando, primeiro o chocalhar insistente do guizo e depois um chamado aflito, me tirou da concentração.

O que é, meu amigo? - perguntei ainda meio concentrado.

Acorde logo, chefe, ou não vai acordar nunca mais. A morte ronda o promontório.

Saí imediatamente de meu estado e puxei de minha longa espada encantada. As palavras dele foram pronunciadas com um tom de pavor.

-Fiquem atrás de mim. Eu resolvo esta situação, meus amigos.

- Agora não posso chamar por socorro, chefe, estamos perdidos. Eu conheço estes camaradas. Já senti na pele o poder das armas que carregam. Dissolvem tudo o que tocam.

- Acalme-se e deixe-me cuidar de tudo.

Centenas de homens encapuzados, todos vestidos com longas roupas negras e montando terríveis cavalos negros, com um chifre na testa, se aproximavam subindo o promontório. Tanto os olhos deles como os dos cavalos eram rubros como ferro incandescente. Outro talvez tivesse procurado fugir, mas não eu! Tirei a outra espada e com as duas em posição de combate, esperei que se aproximassem.

Não dá para acalmar este guizo, meu amigo? estou tenso demais para suportar o som dele.

É porque estou tenso também, chefe. Assim como o senhor está pronto para degolar o primeiro que ultrapassar a sua linha de defesa, eu também estou pronto para voar na garganta dele.

Então salte no segundo, pois o primeiro é de minha espada encantada. O segundo será seu e o terceiro será da outra espada.

Certo, chefe. Como o senhor sempre diz: "no céu como os anjos, na terra como os homens e no inferno como os demônios". Que venham os demônios do inferno provar o fio de sua espada e nossas presas afiadas. Do jeito que estou, uma picada mata pela segunda vez um ser destes aí.

Este era o velho Cascavel falando:

- Modesto e discreto, não amigo?

- É isso, chefe. Quando o medo é maior que a coragem, temos que ser "modestos e discretos"!

- Cale-se, amigo. O chefe deles se aproxima. Lentamente um cavaleiro de destacou dos outros. Eu

sabia que era o chefe deles, porque a cada dois passos do seu cavalo negro os outros davam um atrás. Sua longa veste negra também esvoaçava ante a fúria da ventania. Ali os elementos eram incontroláveis.

Um corisco cortou o ar próximo de nós e o seu clarão iluminou a cavidade escura do capuz do cavaleiro das trevas. Foi assim que eu o saudei.

- Salve, cavaleiro das trevas. O que o traz até nós?

Eu estou no meu meio, cavaleiro da Luz. Eu é que pergunto o que o traz ao meio?

Venho em busca de outro cavaleiro da Luz e de seu filho que foi enviado ao meio através de magia negra.

O que está no meio não tem dono, cavaleiro da Luz. É de quem pegar primeiro. Se o filho dele foi enviado para cá, então já deve ter um novo amo, e se você está a procura dos dois é porque o pai também se perdeu.

Não se perderam não, cavaleiro das trevas. Eu estou aqui para resgatá-los.

Com o que, cavaleiro da Luz? Sua voz tinha o tom de desafio.

Com minhas espadas, se for necessário.

Você é valente, cavaleiro da Luz! Não teme a morte? -Já morri uma vez, meu amigo, não será difícil suportar duas.

Você me chama de amigo, cavaleiro da Luz? Acaso não sabe que sou o seu carrasco?

Muitos já disseram isso antes e ainda estão à procura de seus pedaços no inferno.

Como um cavaleiro da Luz fala uma linguagem dessas? Nunca vi usarem estes termos. E olhe que já vi muitos!

Eu sempre falo de acordo com o lugar onde estou. No céu, como os anjos, na terra como os homens e no in­ferno como os demônios. Por isso só você os ouviu e ninguém mais. Quanto a mim, ainda pretendo ser visto por muitos, e por longo tempo assim ser ouvido.

Daqui saem apenas aqueles que não têm forma, cavaleiro da Luz. E você ainda conserva uma forma. Como pretende sair daqui?

Eu conservo minha forma para que meus símbolos possam ser vistos e quem os conhecer, que lhes dedique o respeito que merecem. Caso contrário conhecerá a força que está contida neles e na espada que os carrega.

Você não tem travas na língua, não é mesmo, cavaleiro da Luz?

Como eu já disse, no inferno, como os demônios.

Não teme o poder do meu alfanje?

Tanto quanto você teme o poder de minha espada!

Ele tirará todas as energias daquilo em que tocar.

E no que minha espada tocar, será tão energizado que explodirá.

Meu alfanje já derrubou muitos guerreiros valentes.

E minha espada já levantou muitos guerreiros caídos no campo de batalha.

Meu alfanje, ao tocar em alguém, faz com que odeie continuar vivendo.

- Minha espada, ao tocar em alguém, o revive imediatamente.

Meu alfanje, abre-lhe as portas do inferno.

Minha espada, abre-lhe as portas do céu.

- Meu alfanje marca com um dos sete símbolos das trevas.

É minha espada, com um dos sete símbolos da Luz.

Eu, ao tocar num ser luminoso, tiro-lhe toda a luz.

- Eu não. Se tocar num ser sem luz, ilumino-o de imediato.

Eu só espalho o pavor, o medo e o horror.

E eu só espalho a fé, a confiança e o amor.

Eu sei quem você é, cavaleiro da Luz!

Sim, isso eu também sei! Eu sou você na Luz e você é como eu nas trevas.

Isso mesmo! Os dois lados de um mesmo ser. Pensamos do mesmo modo, mas em lados opostos. Você serve ao Senhor da Luz e eu ao Senhor das trevas.

Isso mesmo, cavaleiro das trevas! Eu não posso destruí-lo, senão mato a mim mesmo pois não terei o meu lado negativo.

Você é sábio, cavaleiro da Luz. Conhece os mistérios da criação.

Você também é, pois conhece os da destruição.

Num tempo longínquo, que só quem viveu não esquece, conheci alguém igual a você e cavalguei ao seu lado.

-Eu já tive o meu mental um pouco adormecido pelas sucessivas reencarnações, mas guardo ainda uma vaga lembrança de um tempo em que alguém igual a você cavalgou ao meu lado.

Eu ainda me recordo de alguém que, só como está hoje, dominou o maior exército que já houve na face da terra.

E eu, na lembrança, ainda que adormecida pelo tempo, recordo do comandante deste poderoso exército que servia às trevas e depois serviu à Luz.

Eu ainda guardo em minha mente um guardião da Luz que trazia em si todos os sete símbolos sagrados.

E eu de um comandante que, ao ver que havia terminado seu trabalho a serviço das trevas, morreu servindo a Luz.

Eu ainda me lembro de Hash-Meir.

E eu do comandante chefe do exército de Ptal, o Grande.

Eu chorei a morte deste guardião dos sete símbolos dos portais da Luz.

Eu choro até hoje a perda de um auxiliar igual a você.

Até que enfim o reencontro, Guardião dos Sete Portais da Luz!

E eu reencontro o meu comandante dos cavaleiros negros, os cavaleiros das trevas da morte.

Posso finalmente tocar em alguém que não destruirei, porque é meu igual só que na Luz.

E eu posso tocar em alguém das trevas sem alterá-lo porque é o meu lado negro e meu irmão na origem.

Ele desceu do seu cavalo negro e deixou seu alfanje preso no arreio da montaria. Eu embainhei minhas espadas.

Demos vários passos e nos abraçamos longamente. Depois disso, ele me falou:

A Ptal eu servi, a você ajudei e à bela Shir, ainda que em silêncio, amei.

Quanto a mim, de Ptal me servi, de você recebi ajuda e à bela Shir amei e ainda a procuro em todas as mulheres que vejo.

Eu só não a tomei de você porque sabia que ela não me queria.

Quando ela partiu, confiei-lhe sua guarda até seu destino. Sabia que a respeitaria.

Por causa dela, muitas vezes pensei em matá-lo, guardião.

Caso tivesse tocado nela, quem morreria seria você, comandante.

Onde está ela agora?

No ponto de forças do mar. Não a vejo há muito tempo.

A aparência é a mesma?

Só no corpo, o rosto mudou um pouco.

Então quebrou-se o meu encanto. Eu procuro um rosto igual ao dela há sete mil anos.

Quanto a mim, procuro uma mulher que conserve o seu encanto há muitos, mas muitos milênios.

Quem sabe um dia você consiga, irmão da Luz!

Talvez sim, talvez não. Até lá vou continuar minha jornada.

Você já não fala mais como um mago e, sim, como um guerreiro.

E você já não fala como um guerreiro, mas como um sábio.

É que eu tive um como chefe em minha última encarnação a serviço da lei.

Quanto a mim, tive um guerreiro a me servir numa das muitas encarnações a serviço da luz do saber.

Todos sofremos transformações profundas quando a servimos, irmão na Luz!

Sim, a lei nos transforma de tal modo que, quando percebemos, já não somos os mesmos.

Saiba que eu ansiava por revê-lo, Guardião dos Sete Símbolos!

Eu devo dizer que nunca consegui apagá-lo do meu mental.

Cuidado com o seu mental, pois aquele que vive nas trevas, das trevas e pelas trevas, um dia poderá destruí-lo. Tentou isso comigo e não o conseguiu.

- Como você resistiu?

- Agarrei-me ao meu único senhor: o Senhor das Trevas. A este ele teme, quanto ao seu senhor, ele o odeia. Tome cuidado pois o seu tempo se aproxima, guardião da Luz.

- Procurarei resistir a ele.

Você não deve só resistir, deve também subjugá-lo se quiser ficar livre de sua perseguição!

Como posso subjugar um ser tão poderoso, irmão nas trevas?

Se você resistir a ele una as duas pontas da linha divisória e faça um círculo. Mas procure fechar o círculo com ele no meio. Só assim o subjugará à sua vontade.

Você fala por enigmas, irmão nas trevas. Qual é a linha, o que ela divide ou ao que conduz e onde estão suas pontas?

Isso você terá que decifrar, senão eu estarei quebrando o primeiro mistério e você o conhece tão bem quanto eu.

Não vou querer vê-lo contra a lei, irmão. Um dia eu uno as duas pontas da linha divisória e faço o círculo que o envolverá.

Mas antes tem que resistir a ele, pois só assim conhecerá sua natureza e seu modo de agir.

Sou seu devedor mais uma vez, irmão nas trevas.

Eu preciso de você, irmão na Luz. Já não bebo água há sete milênios e me sinto seco. Só quando você unir as duas pontas da linha, voltarei a beber a água da vida.

Se eu conseguir unir as duas pontas da linha, tenha certeza que sua sede será saciada.

Tenha a certeza que vencerá porque eu estarei ao seu lado, neste tempo.

Quem tem um irmão de origem nas trevas não perecerá nunca.

E quem tem um irmão na Luz, viverá para sempre pois os dois extremos sempre se tocam, ainda que a cada sete mil anos.

- Tem algo que me pertence, irmão nas trevas!

- Se meu irmão na Luz chegou até o meio, então o meio também é seu domínio. Eu abrirei as portas do meio e lhe revelarei todos os seus mistérios. Só assim retribuirei o que me revelou dos portais de luz há sete mil anos. Com o que aprendi com você, resisti ao que reina nas trevas. E com o que lhe ensinarei agora sobre as trevas do meio e o meio das trevas, você também resistirá a ele no seu tempo. Está com pressa, irmão na Luz?

Agora que atingi o meio, o tempo não conta mais.

Acompanhe-me, então!

Com prazer, irmão nas trevas.

Poderá ficar chocado com o que vai ver no meio!

Só assim saberei como é o meio.

E quanto aos seus auxiliares cobras?

São tão leais quanto um comandante que um dia me auxiliou.

Eu não gosto de cobras. Foi uma cobra negra que me tirou a vida.

Mas elas não são negras. Estão mescladas pela dourada.

Só por isso não cortei a cabeça delas assim que as vi. Um dia vou lhe falar sobre as cobras negras.

Quero que me fale também como era a bela Shir. Sinto necessidade de conhecer um pouco mais sobre aquela que foi picada junto comigo pela serpente dourada.

Não há antídoto contra seu veneno. Quando você pensa que já foi todo eliminado, ele o contamina por inteiro e o lança de encontro a ela. Você está condenado a procurá-la por todo o sempre.

Como sabe disso?

Eu conheço os mistérios da criação na origem. Meu mental não tem limitações nem barreiras que me impeçam de saber o que eu desejo.

Você é um privilegiado!

Como você mesmo disse, no inferno faça como os demônios. Vamos, monte num cavalo e iremos conhecer o meio, do começo ao fim. Depois veremos o que eu tenho para você, irmão na Luz.

Um dos cavaleiros desceu do seu cavalo e entregou-o para mim. Não me fiz de rogado, montei-o com desenvoltura após acariciá-lo um pouco para que se habituasse comigo.

Meus dois auxiliares estavam enrolados em mim, e do alto, vigiavam tudo. Então nós conhecemos o meio em toda a sua miséria e horror.

Não posso revelar nestas páginas tudo o que vi no meio, mas posso afirmar que quem acha o inferno horrível, precisa conhecer também o meio. Ali o ancestral místico da luz das formas e da transformação atua com todo o vigor de uma de suas sete principais leis: a lei do carma. É no meio que os devedores da lei são marcados por ela, para posterior reajuste ou transformação. O meio é o purgatório dos cristãos. É onde um espírito hiberna por alguns dias, meses, anos ou até mesmo séculos, até que a lei decida o que fazer com ele. Se ela ordena que desça, então é levado às esferas correspondentes. Se não, deixa que fiquem por ali mesmo até que encontre outro rumo para eles.

Eu via tudo com o semblante neutro. Mas o coração estava partido, tal a dor e miséria que imperava no meio. Em dado momento, chegamos a um local mais aprazível e o comandante me chamou.

- Venha para este lado, Cavaleiro. Atrás daquela colina é onde estaciono o meu exército de cavaleiros das trevas.

Quando subimos até o topo da colina a visão me deixou pasmo.

Espanta-se com o número de soldados que comando, cavaleiro da Luz?

Meu Deus! É espantoso! Você tem o maior exército que já vi em minha existência como ser humano.

Ainda não estão todos à sua vista. Milhares estão espalhados no meio em missão de execução da lei, e outro tanto espalhados nos sete círculos descendentes. De vez em quando até os mais temíveis entes da trevas tremem de medo dos meus cavaleiros.

Por que?

São mandados para executar ordens. Então são lançados no novo círculo descendente.

E o que lhes acontece?

O que aconteceria se você conseguisse superar o sétimo círculo ascendente?

Sobre isso nada sei. Mas imagino que, ou seria absorvido pelo Senhor da Luz ou enviado para regiões do universo que nem imagino como sejam.

Daí se deduz o que?

Que estes que vocês capturam e enviam ao novo círculo estão superando o próprio regente das trevas em malvadezas, não?

Você usa um termo brando demais, cavaleiro da Luz. Agora abra a sua armadura, irmão.

Para que?

Faça o que eu lhe peço, depois eu explico. Olhe no meu peito e entenderá tudo.

E o comandante abriu seu manto negro. No seu peito havia uma estrela de cinco pontas invertida. Era rubra. Parecia ser de ferro incandescente. Ele se ergueu sobre a montaria e levantou o alfanje. Dele saiu uma vibração horrível e raios que vinham dos céus se descarregavam ao seu contato. Todos embaixo o saudaram de forma infernal: brandiam suas armas em sinal de aclamação ao líder inconteste.

Eu abri minha armadura prateada e também me levantei sobre a montaria negra que usava. A estrela em meu peito brilhava intensamente. Desembainhei minha espada encantada e elevei-a acima de minha cabeça. Os seus símbolos adquiriram vida e de cada um saiu um tipo de energia fantástica. Os elementos se agitaram no contato com ela. Lentamente minha estrela projetava sua luz à distância. Eu olhei para o alto e vi que um raio de luz vinha do infinito e cobria minha cabeça.

No vale a nossos pés, o silêncio era total. Quando vi que já tinha mostrado o poder de minha espada, guardei-a novamente e sentando-me na montaria, fechei minha armadura. Nós formávamos uma dupla indescritível. Ele com sua longa capa negra e eu com minha, bem mais curta, agitando-se ao vento.

- Levante sua mão direita, irmão da Luz. - ordenou-me ele.

Eu levantei e acenei para eles lá embaixo. Um clamor maior que o anterior se fez ouvir.

Por que isso, irmão nas trevas?

Eu sempre disse a eles que possuía um irmão na Luz, e também que um dia lhes provaria isso. Se um dia estiver no meio ou embaixo e ver algum cavaleiro das trevas, não lute com ele, use-o à vontade porque ele sabe, a partir de hoje, que você é como eu na Luz, e eu sou você nas trevas.

Por que isso?

Não vou permitir que você caia nas trevas da ignorância por ignorância. Você pertence à luz do saber e eu às trevas da ignorância. Somos iguais na origem mas diferentes no modo de servir ao nosso ancestral místico. Temos que ser assim, meu irmão, um na Luz e outro nas trevas.

Por que tem que ser assim?

Dois iguais não podem habitar no mesmo lado ao mesmo tempo. E como eu não vou deixar de servir ao nosso ancestral místico nas trevas da ignorância, procure servi-lo na luz do saber senão um de nós dois sucumbirá ante o outro porque somos iguais na origem.

Procurarei lembrar disso, meu irmão!

Caso eu perceba que você está se esquecendo, darei um jeito para que você se lembre.

Como?

De que forma você atua?

No amor.

Eu só atuo na dor. Quando você se esquecer de tudo o que lhe disse hoje, a dor o lembrará a que lado você pertence e ela o reconduzirá ao seu caminho original.

Um dia eu conheci um guerreiro frio, hoje reencontro um sábio amadurecido pelo tempo.

Quando você se libertar da lei da reencarnação também terá tempo para amadurecer, irmão na Luz. Venha comigo que vou lhe ensinar as portas naturais de acesso ao meio. Por elas você entrará ou sairá sem o mínimo esforço. Venham também cobras miseráveis, pois se um dia meu irmão correr perigo quero que venham me avisar, ou então eu as localizo e separo suas cabeças de seus corpos. Foi por isso que tudo falei e tudo mostrei ao meu irmão na Luz e deixei que vissem e ouvissem também.

Nós estamos atentos, comandante da morte! -exclamaram as duas cobras.

Caso precise retirar alguém do meio, pode enviá-los que eu os ouvirei, irmão na Luz.

Por que o oferecimento?

A lei não abre uma porta por acaso. Eu vi o raio de luz que cobriu sua cabeça lá na colina. Era nossa origem nos unindo nos serviços de seus desígnios.

Você sabe muito mais do que eu, sábio das trevas!

Um dia você soube muito mais que eu, mestre da Luz! Isso é assim mesmo. Um tempo sabemos mais e outro menos e assim tudo caminha como quer tanto o Senhor da Luz como o das trevas, que se encontram nos extremos.

Você não nega a sua origem, comandante dos cavaleiros das trevas da morte.

E você honra a sua origem, Cavaleiro da Estrela da Guia da Luz do Saber.

Agora vou lhe mostrar a última porta deste lugar. Depois você poderá partir e voltar quando quiser, pois seus guardiões o reconhecerão ainda que passem mil milênios e sua aparência mude outras mil vezes.

Quando chegamos à última porta uma surpresa me aguardava: milhares de espíritos de olhares aflitos. Eu busquei no meio deles o Cavaleiro da Justiça. Foi o próprio comandante quem me mostrou onde ele estava. Um dos seus o trouxe e ao seu filho até nós. Ao me ver, ele falou:

Graças a Deus que você veio, Cavaleiro da Estrela da Guia. Eu sabia que um dia sairia daqui, por isso sou grato ao Criador. Eu morro pela segunda vez mas não recuso o Seu santo nome nem nego minha origem.

Certo, meu amigo! Eu rei que você só honra sua origem e isso para a glória Criador. Deixe-me tocá-lo com o seu símbolo que há em minha espada. Tudo ficará bem.

Assim que eu o toquei com minha espada ele se iluminou todo e o símbolo em seu peito voltou a brilhar. Ele me abraçou chorando de alegria.

- Se tivesse desonrado a sua origem eu saberia, Cavaleiro da Justiça!

Desta vez foi o comandante quem falou.

Se ele tivesse desonrado sua origem eu o teria agregado ao meu exército da morte e serviria às trevas do castigo e não à luz da justiça. Espero que não guarde rancor de mim, Cavaleiro da Justiça, mas esta foi sua prova e do seu filho.

Eu não guardo rancor de nada ou ninguém, meu amigo. Se Ele permitiu que eu caísse é porque assim quis. E se Ele achou que era hora de me libertar também é porque assim quis. Eu não discuto os desígnios do meu Criador. Se Ele quis que eu conhecesse a dor, eu agora a conheço e sei que tudo o que Ele faz é só por amor.

- Podem partir agora e levem todos estes com vocês. É um presente do meio ao alto. Se um suporta sua provação e consegue se levantar, outros sete mil subirão de grau. Quanto a vocês, cobras, lembrem-se do primeiro mistério.

- Qual é o primeiro mistério, chefe?

- É aquele que diz mais ou menos isso: "O primeiro mistério proíbe a divulgação dos mistérios."

E o segundo chefe?

Diz assim: "Não falarás do primeiro mistério."

Assim está ficando difícil. E o terceiro?

- Este diz assim: "Não revelarás nenhum dos mistérios anteriores."

-Está certo, já entendi. Um mistério é para ser vivido, não revelado!

- Já está aprendendo, meu amigo.

Saberei ser discreto, chefe, e sem ironias desta vez! Vou instruir minha companheira também sobre os mistérios. Acho que depois de tudo que ela viu hoje, vai mudar muito.

Está bem, meu amigo. Vamos sair do meio. Conduza estes irmãos para o reencontro com a Luz. Quando o meio dá um presente, nem o alto nem o embaixo o recusa.

Quando todos saíram, eu abracei o comandante e falei:

Cuide-se, irmão nas trevas, não vá querer subir senão eu caio e se eu cair vou sentir muita dor.

O mesmo digo eu, irmão na Luz. Não caia senão vou ter que subir e para isso terei que ter muito amor e só o conseguirei se conseguir me livrar de toda minha dor. Quanto ao senhor, Cavaleiro da Justiça, esta porta do meio está aberta quando quiser vir ao meio. Agora que sabe como é, não precisa temê-lo mais.

Eu nunca o temi mas sempre o respeitei. Eu sempre soube que o meio é a lei em ação.

Nós parti mos pelo portal de acesso. No meio da neblina que o envolvia, divisamos ao longe meu irmão nas trevas e sua estrela rubra invertida no peito. Estranho este mundo. Muito, mas muito estranho mesmo.

Quando rios afastamos o bastante do meio, oramos ao Criador por Sua imensa generosidade. Oramos também por auxílio e logo milhares de irmãos de luz acudiram às nossas preces. Cada um levou um resgatado consigo e ficamos só o Cavaleiro da Justiça, seu filho,meus dois auxiliares e eu.

- Como posso agradecer-lhe, Cavaleiro da Estrela da Guia?

- O senhor sabe que a mim não tem o que agradecer. Tal como o senhor sempre fez e sempre fará, tudo é por honra e glória do nosso Senhor. Mas, gostaria que olhasse os meus dois auxiliares que se arriscaram a entrar no meio comigo e, se achar que eles merecem, dê-lhes o direito à dupla forma. Eu sou testemunha deles diante da lei.

O cavaleiro da justiça os olhou longamente e disse:

O que viram e ouviram será um aviso do que é a lei. Estão preparados para servi-la?

Sim, senhor! - responderam os dois.

Eu vou marcá-los com o símbolo da lei. Se o honrarem, a lei os amparará, mas se o desonrarem o próprio símbolo os castigará. Estão preparados para recebê-lo?

Sim, senhor! - tornaram a responder.

E o Cavaleiro da Justiça os fez voltar à antiga forma humana. Estavam nus à nossa frente e num gesto instintivo, cobriram certas partes do corpo.

O Cavaleiro da Justiça os tocou com o símbolo de sua espada e a pele deles ardeu. Deram um grito de dor. Quando ele afastou sua espada eu os vesti tocando-os como mestre Han havia me ensinado. Ele ficou com um vistoso terno cinza e ela com um belo vestido encarnado. O Cavaleiro da Justiça plasmou uma bela rosa e pôs nos cabelos dela.

- Enquanto você não conquistar a Luz, que a tornará a mais bela das mulheres, esta rosa realçará sua beleza natural.

Lembre-se que quem lhe deu esta rosa foi um cavaleiro da justiça, num gesto de amor pela sua coragem e lealdade. Então cultive o amor, a coragem e a lealdade que estará cultivando alei.

Obrigada, Cavaleiro da Justiça. Posso abraçá-lo em agradecimento?

Claro, minha filha. Abrace a lei e a lei a amparará para sempre.

Depois o amigo Cascavel o abraçou também e recebeu as boas e nobres palavras do Cavaleiro da Justiça. Então vieram até mim e ele foi o primeiro a me abraçar. Não conseguia dizer uma palavra ao menos. Seus olhos diziam tudo o que sentia.

Quando ela me abraçou, disse:

Obrigada por me devolver à vida, Cavaleiro da Estrela da Guia. Jamais me esquecerei que foi um homem quem fez isso.

Olhem-se os dois. Um foi feito para o outro. Ele odiava a todos porque não conseguia saciar seu prazer com uma mulher, por isso as detestava. Quanto a você, não conseguia sentir prazer na paixão que eles lhe dedicavam. Meu amigo, por que não ensina para ela que certas saliências e reentrâncias servem para coisas melhores que simples ornamentos? E quanto a você moça, por que não ensina a ele como encontrar o verdadeiro valor destas coisas que não são simples ornamentos, mas verdadeiras preciosidades da recompensa divina?

Chefe, o senhor continua falando adiantado o que eu ainda ia pensar...

Só procuro facilitar a coisas para você, meu amigo. Vão agora e se conheçam bem pois no futuro a Luz os aguarda.

Não importa quanto tempo demore, não é mesmo, chefe?

- Isso mesmo, meu amigo. Já sinto que estou começando a viver em você.

- Até a vista, chefes. Se precisarem é só chamar. Eles partiram felizes como um casal de recém casados.

Olhei para o Cavaleiro da Justiça e falei:

No céu, como os anjos.

No inferno como os demônios! - respondeu-me ele.

- E na terra, como os homens. Dissemos os dois ao mesmo tempo e sorrindo.

O filho dele que assistira a tudo em silêncio, só então criou coragem e falou :

Papai, precisa me ensinar o que significam estas palavras que os dois parecem saber de cor.

Quer dizer mais ou menos isso, filho: Um cavaleiro deve saber se portar diante de um superior, de um adversário das trevas e de seus semelhantes no mundo todo.

Preciso conhecer um pouco mais o seu modo de atuar no astral.

Vamos para casa que alguém ora por nós.

Prefiro seguir para o Sagrado Coração, Cavaleiro da Justiça.

Por que, meu amigo?

Pode ser que eu goste da quinta esfera e vá querer ficar por lá para sempre.

Tenho certeza que vai gostar. Quanto a ficar, isso eu duvido.

Como pode afirmar tal coisa com tanta certeza?

Assim como eu, você tem uma origem e sua natureza não a nega. E você, além do mais, é um cavaleiro da Estrela e vai onde a luz dela o guia.

Se é um cavaleiro, que conhece as coisas da lei, quem diz isso, eu os acompanho.

E lá fui eu conhecer uma morada celestial na quinta esfera. Devo dizer que é quase um paraíso. Só não chega a tanto porque seus habitantes também se preocupam com toda a criação e atuam sobre toda ela de uma forma mais sutil que os da quarta esfera.

 

A RAINHA DO PONTO DE FORÇAS DO MAR

Não tive tempo de ver ou ouvir muita coisa. O Cavaleiro da Justiça recebeu a visita do Cavaleiro do Mar que veio rápido ao saber de seu retorno ao lar.

Para mim foi um motivo de alegria reencontrá-lo. Sua forma discreta de nos cumprimentar ocultava muitas coisas a seu respeito. Uma delas é que ele não pertencia nem à quarta e nem à quinta esfera, mas sim, à sexta.

Ao me despedir, pouco depois de sua chegada, ele me falou:

Já vai partir, Cavaleiro da Estrela?

Sim, grande mestre. Meu pai deve estar preocupado com minha ausência.

Eu estava com ele até antes de vir aqui. Ele já soube de sua última façanha e pediu-me para dizer-lhe que tem uns dias de descanso.

Mas o que vou fazer com um dias de descanso, grande Mestre da Luz Cristalina? A única coisa que me distrai é a atividade.

O que achou do meio?

Nunca tinha visto nada igual. O senhor já o conhece?

Sim. Eu já estive lá algumas vezes. Por que não falamos sobre ele enquanto visitamos o ponto de forças do mar? Garanto-lhe que ficará encantado com sua beleza.

Eu fiquei pensativo por um instante, depois falei:

- "Um enviado meu o convidará para conhecer o meu reino". Sim, foi isso que ela me disse! E o senhor é o enviado!

Sim, sou eu. Aceita o convite?

Já aceitei há muito tempo. Só estava à espera do meu guia! - e eu sorria de alegria.

Acho que vamos nos dar muito bem, meu filho.

Eu também acredito que sim, guia da minha estrela.

Não lhe falei, filho da Luz? Não terá que chorar a separação com mestre Han. Tem agora o próprio mestre de mestre Han para iluminá-lo.

Quem falou isso foi a senhora da Luz. Eu sorri ao ouvir as palavras dela. Então fixei meus olhos nos do mestre à minha frente e falei:

Obrigado, Mestre da Luz Cristalina. Procurarei honrar sua luz. Obrigado à senhora também, pois foi por acreditar no Cavaleiro do Mar que eu pude honrar sua confiança em mim.

Não lhe disse que não teria motivos para chorar a partida de mestre Han?

Tem razão. Para que chorar uma ascensão? Devemos chorar uma queda, enquanto ela durar, mas não quando um mestre se eleva um pouco mais.

A conversa continuou por mais algum tempo até o Cavaleiro do Mar partir. Eu ia penetrar no ponto de forças do gênio da natureza marinha.

Devo dizer que eu já o conhecia pelo lado de fora há muito tempo, mas desconhecia sua estrutura interior. Lentamente fui conhecendo um dos mais poderosos pontos de força da natureza. E, segundo dizem os mais sábios e antigos, o mais belo de todos. Como eu não conhecia o inte­rior de nenhum outro, aquele era o paraíso para mim.

Com o tempo fiquei sabendo que os pontos de força da natureza estão ligados à sétima esfera. Há toda uma hierarquia em cada esfera que está ligada à sua superior imediata.

Eu aceitei o tipo de trabalho que me foi oferecido. Já possuía experiência neste campo desde o Templo Dourado. Também trabalhara com um mestre encarnado por uns poucos anos. Nada que aprendemos é inútil pois com certeza será usado uma hora qualquer.

Depois de conhecer toda a estrutura de funcionamento na Luz, o grande mago levou-me a conhecer o outro lado, o lado das trevas.

Novamente fiquei admirado com seu funcionamento. Finalmente ele me levou a um lugar que quase ninguém penetrava. Depois de algum tempo, vendo tudo o que me era mostrado, comentei:

Isso é fantástico, grande mestre. Por que tudo esteve fechado para mim até hoje?

Isso só é aberto a uns poucos, filho da Luz. Só os que provaram que possuem algo especial conseguem penetrar neste lugar. Aqui reside toda a defesa do ponto de forças contra as investidas do astral inferior. Vou retornar agora pois estão me chamando. Você pode continuar a conhecê-lo sozinho.

Não saberei como me conduzir neste lugar tão complexo, grande mestre.

Então vá até o final deste caminho e dobre à direita. Lá haverá alguém que lhe mostrará como tudo funciona.

- Quem é o amigo? Eu o conheço?

Você o conhece, só não sei se irá se lembrar de onde. Na dúvida, apresente-se que será reconhecido.

Obrigado, grande mestre. Procurarei não me demorar muito.

Sacie toda a curiosidade primeiro, depois vá me procurar! Não tenha pressa, apenas não se esqueça que tem que retornar à superfície, pois muitos o aguardam.

- Não vou querer ficar aqui, grande mestre!

Depois de conhecer os mistérios desta parte do ponto de forças do mar, creio que pensará muito antes de voltar à superfície.

É tão misterioso assim? Quais os mistérios deste lo­cal, grande mestre?

- Vá até onde eu disse e descobrirá o primeiro. Até a vista, filho da Luz, encontro-o na superfície.

E o grande Mestre da Luz Cristalina desapareceu no ar. Eu continuei o caminho bem devagar. Ia guardando cada detalhe que via.

Quando dobrei à direita, me vi diante de um enorme salão. Havia uma atividade intensa em seu interior. Pessoas iam e vinham, cada uma com tarefas que lhes tomavam toda a atenção Não eram espíritos de luz e sim oriundos das trevas. Passavam por mim com a cabeça baixa em sinal de respeito. Eu possuía um grau muito elevado se comparado com eles. Como passavam muito rápido por mim, não havia meios de abordá-los.

Decidi caminhar mais para seu interior à procura de alguém superior. Como não vi ninguém da Luz, já me decidia a retornar à superfície quando uma voz conhecida me chamou.

- O que procura neste local, cavaleiro? - Ela falava às minhas costas.

-Já encontrei o que procurava, encanto do meu amor! - e então me virei.

Era minha querida Sarah quem me abordava. Não me havia reconhecido nas vestes de cavaleiro. Ao me ver de frente, exclamou bem alto:

- Simas! Meu Simas! - e ficou me olhando.

-Em outros tempos já teria se atirado em meus braços, Sarah querida. Já que não vem até mim, vou até você.

Não fica constrangido de encontrar sua amada num lugar como este?

A única coisa que me constrange é eu ter demorado tanto tempo para reencontrá-la.

Eu a tomei nos braços com força. Como era bom voltar a abraçar o encanto do meu amor. Cobri Sarah de carinho.

- Como está bela, minha Sarah! Diga-me quem é o superior deste local que vou dizer-lhe para libertá-la dos seus afazeres imediatamente.

- E se ele não permitir minha partida com você?

Eu o faço mudar de opinião ao ver o fio da minha espada.

É tão grande assim seu desejo de me levar embora?

Não imagina o quanto tenho sonhado com este momento. Só não desisti de tudo por sua causa. Sabia que um dia eu a encontraria em algum lugar.

E agora que me achou o que vai fazer?

Já falei o que pretendo fazer!

Sarah olhava-me desafiadora. Isso só realçava a sua beleza. Tornei a abraçá-la, desta vez, com carinho.

Venha Simas, pois estão todos nos observando. Você é um cavaleiro da Luz e não fica bem abraçar e acariciar uma servidora deste lado do ponto de forças.

Deixe que olhem à vontade. Não me importo nem um pouco. Você se importa?

Eu me orgulho de ter um cavaleiro que me ama muito e não se incomoda nem um pouco em demonstrar o seu amor, ainda que eu esteja no lado negativo.

Meu amor por você é grande tanto na Luz quanto nas trevas.

Então me acompanhe que vou levá-lo até o responsável por este lugar.

Caminhamos por um longo corredor que terminava num aposento amplo e confortável.

- Onde está ele, Sarah? Só estamos nós neste local.

Você está diante do responsável por este local, Simas. E então? Não vai colocar sua espada em meu pescoço e ameaçar-me a acompanhá-lo senão me ferirá com ela?

Eu, feri-la? Nunca! Vou é raptá-la já, já. Ninguém nos encontrará nunca mais.

Alguém deve saber que você está aqui. E vai querer saber para onde me levou.

Direi que você não estava mais aqui quando cheguei.

Mas muitos nos viram abraçados no salão.

Eu os aprisiono só para que sirvam à minha rainha.

- Muito romântico!

Muito mesmo, pena que é apenas um sonho. Mas um dia hei de tornar este sonho uma realidade. Depois disso ninguém nos separará.

Enquanto não chega este tempo, por que não vivemos o nosso sonho por alguns momentos?

Se você quer viver um sonho, então sonhará por muito tempo com as recordações que lhe deixarei.

Ainda não me esqueci das últimas. Você ainda se lembra delas?

Sim, como iria me esquecer? Quer que lhe reavive a memória?

- Não só a memória!

E eu reavivei não só a memória de minha adorada Sa­rah. Ficamos vários dias juntos. Só nos separamos quando o grande mago veio me chamar de volta.

Não lhe disse que quando conhecesse os encantos deste lugar não iria querer voltar à superfície? É hora de partir, filho da Luz.

Desculpe-me, grande Mestre. Poderei voltar a este lado do ponto de forças?

- De vez em quando sim, mas me avise antes de vir. Despedi-me de Sarah com um forte abraço.

- Até a volta, minha rainha encantada. Um dia eu a tirarei daqui.

- Eu o esperarei, meu Cavaleiro da Luz.

Nós partimos pouco depois e minha Sarah passou a ser chamada de rainha no seu ponto de forças no mar. Ela possuía a altivez de uma rainha e o encanto do meu amor.

Eu me multipliquei por muitos cavaleiros. Servia ao ponto de forças do mar, resgatava irmãos caídos, buscava outros nas trevas, conquistava novos servidores da lei e ainda me restava algum tempo para visitar Sarah.

Não abandonei Salete, Soraya e Angela, mas era com Sarah, a menos acessível, que eu gostaria de estar.

 

A QUEDA NA ASSEMBLÉIA SINISTRA

No princípio do século XX, muitos guardiões receberam nova incumbência. Todo o Grande Oriente os convocou. As reuniões iriam se derramar por todo o país em auxílio dos guardiões do panteão africano e indígena no novo ritual do culto à natureza que iria desabrochar por todo o Brasil.

Os indígenas estavam desaparecendo com a supremacia dos brancos e os negros, oriundos da África, escasseavam dando lugar aos Europeus que aqui aportavam.

Todo o potencial místico acumulado tinha que ser direcionado para um ritual de ligações com a natureza, tanto indígena, como africana.

Nós nos envolvemos a fundo no novo ritual do culto à natureza. A espiritualidade era tabu entre as grandes populações que se aglomeravam nas cidades.

Cada guardião entrou com todos os seus auxiliares. Cada um formou uma estrutura de trabalho adaptada não a mestres iniciados, mas a pessoas comuns que já haviam reencarnado aos milhares. Eram espíritos de negros e índios já educados na imortalidade da alma, no mistério das reencarnações e na lei do carma.

Os europeus ainda estavam na pré-história do mundo espiritual. Só alguns tinham contato com o mundo espiritual e, ainda de forma científica, não mística. Era um empecilho aos mestres da Luz, no derrame de espiritualismo que tinham iniciado com o reencarne maciço de negros e índios no corpo branco.

Milhares de iniciados na origem, espalhados por todo o planeta, uniram-se no novo ritual de culto à natureza, que nada mais era que a união do ritual africano e do indígena adaptados a uma sociedade católica apostólica romana tradicional.

Por que o lançamento do novo ritual de massa? Muito simples! Os europeus que aqui aportaram já há alguns séculos trouxeram consigo legiões de demônios que os tinham como joguetes bem controlados. A ambição, o ódio, a inveja e a crueldade eram as portas das trevas que eles abriam com muita competência, graças ao mental eivado de ligações malignas.

Aqui aportaram muitos magos reencarnados que se infiltraram em certas irmandades e após terem certos mistérios das trevas à mão, não impediam que as portas do inferno fossem abertas para usá-los em seus objetivos obscuros.

Tudo isso, mais o preconceito espírita, impedia que se combatesse o mal no plano terrestre. Muitos negros tentavam como podiam, mas tinham o agravante de serem negros e pouco valorizados.

Então veio a ordem do sétimo plano ou sétima esfera. A ordem foi direta e incisiva: Que o dom do oráculo desperte de forma maciça. Não importa como, mas façam-no despertar!

E cada iniciado na origem formou sua falange de auxiliares luzeiros e das trevas. O maior combate iria ter início. Eu entrei com milhares de amigos que eu havia um dia tirado das trevas e enviado à Luz. Formávamos a falange de luz da Estrela da Guia. Onde houvesse alguém com o nome Estrela incluso no seu, lá estava eu. Havia Estrela do Mar, Sete Estrelas, Estrela Matutina ou da Manhã, Estrela da Noite, Estrela Azul, Estrela Dourada etc. Esta tinha sido a contribuição dos meus amigos ao nascente ritual do culto à natureza, a Umbanda. Era a reunião dos sete pontos de força da natureza sob o comando dos magos, mestres, sábios, iniciados e sacerdotes que ainda se lembravam, sabiam como e ousavam iniciar uma nova religião, tão antiga quanto a própria humanidade.

O ritual do culto à natureza é uma tentativa de reunião dos sete símbolos sagrados num só movimento religioso. O Grande Oriente Luminoso entrou com o apoio logístico e seus servidores mais aptos ao novo ritual. O panteão africano, com as suas divindades ancestrais já incorporadas ao mental de milhões de espíritos, e os indígenas, com o seu culto puro à natureza e toda a sua mística.

Nós, os iniciados na origem, não a negávamos e combatíamos os magos negros, feiticeiros e outros mais com nossa tenacidade habitual. Eu não era o ente incorporante. Minha função era dar apoio a todos os meus comandados que atuavam através do dom de incorporação oracular.

Neste movimento, eu incorporei todos os meus auxiliares nas trevas agregando-os às falanges de luz, que era uma forma rápida de resgatarem o pesado carma adquirido no passado, tanto longínquo como recente. Tudo caminhava assim, como caminha hoje, e caminhará no futuro. O ritual do culto à natureza é eterno, nunca o eliminarão, ainda que o combatam fortemente.

Os negros criaram a sua linha das almas; os iniciados, a linha do oriente; e os indígenas, a linha de caboclos. Tudo era harmônico, como hoje ainda o é.

Eu reencontrava no novo ritual, velhos amigos do passado. Nós nos uníamos em grandes agrupamentos na crosta terrestre junto aos pequenos e humildes templos de Umbanda.

Não tínhamos como auxiliares, no plano material, grandes mestres iniciados no ritual, mas sim, seres humanos com uma vontade imensa de trabalhar em benefício da humanidade como um todo e dos seus semelhantes no par­ticular.

Graças a Deus que continuam assim!

Enfim, tudo caminhava como fora planejado na sétima esfera e colocado em andamento pelas outras seis. Em poucas décadas já superava o espiritismo, o ritual africano puro, e outros mais de origem européia, tais como maçonaria e rosa cruz. A Umbanda abria frentes de ação em todos os cantos do País. Só haviam pequenas diferenças de origem funcional ou de linha de força que preponderavam nos trabalhos rituais.

Em certo momento começaram a acontecer algumas desaparições de entidades que atuavam através das linhas de força. Entidades espirituais que lutavam com amor e perseverança nos pequenos templos ou mesmo isolados em lares de médiuns dedicados, sumiam e os guardiões das linhas de força não mais as localizavam nos sete planos inferiores.

Que alguém caísse em trabalho, era natural e aceitável. Nós mesmos, às vezes corríamos riscos medonhos no combate à magia negra e aos seres infernais. Muitos caíam, mas logo alguém os libertava e a luta continuava. Só que, o que acontecia agora era diferente. Entidades, tanto de alto grau como os que ainda estavam dando os primeiros passos, simplesmente sumiam. Nem os grandes magos da Luz da sexta esfera os localizavam com todos os recursos à mão.

O Grande Oriente Luminoso começou a tomar providências quando cinco iniciados na origem e grandes mestres da Luz desapareceram. Não se tratava só de irmãos em evolução, mas de dirigentes de falanges imensas. E nem vestígio deles.

Uma grande reunião foi convocada. Num dos templos do Grande Oriente nós nos reunimos com os grandes magos da Luz. Tínhamos que localizar o ponto obscuro e combatê-lo. Alguém teria que se arriscar conscientemente para desvendar o mistério. Muitos se ofereceram, mas só alguns foram incumbidos da missão. Ninguém sabia quais seriam os escolhidos. Alguns dias mais tarde foram chamados. Eu fazia parte do pequeno grupo. Assim se passou a reunião:

- Vocês foram escolhidos por terem melhores contatos e experiência com os seres das trevas. Sabem dos riscos e das dificuldades que encontrarão. Poderão desaparecer também e se perder para sempre. Quem quiser recusar tal missão, poderá fazê-lo, pois não são obrigados a isto.

Todos aceitamos, como ponto de honra, desvendar o mistério que já alcançava a cifra de milhares de seres da Luz e também das trevas. Todos a serviço da lei.

Eu saí da reunião com o grande Mago da Luz Cristalina, guardião do ponto de forças do mar e meu superior.

Filho da Luz, sabe qual é o risco. Muito cuidado com o caminho a seguir.

Ainda não sei que rumo tomar, grande mago. Como procurar algo que some no tempo e no espaço?

Descendo o máximo possível, com muita precaução. Encontre-se com o mago das Três Cruzes e tenha nele um apoio para os passos que dará. Só assim nós não o perderemos de vista.

Mais tarde nos separamos e fui ao encontro do mago das Três Cruzes. Ele era meu amigo pessoal de longa data. Era nada menos que o velho João de Mina, chefe de uma falange de mestres africanos ligados à sétima linha de força, a linha africana pura dedicada aos velhos sacerdotes negros. Nós estabelecemos uma linha de ação que previa uma perfeita sincronização. Cada passo meu seria secundado por outro dele.

Pouco depois consegui, de um amigo nas trevas, a promessa de ser levado a conhecer a assembléia. Era assim que era chamada a congregação dos grandes entes das trevas. Eu imaginava poder penetrar no mental de algum deles e descobrir o sumidouro dos irmãos que tanto haviam feito pelos semelhantes.

No dia da grande assembléia, pela primeira vez, me separei de minhas duas espadas e de minha vestimenta de cavaleiro. Voltei à forma original de Simas de Almoeda, um ser marcado por muitas cicatrizes e com o rosto deformado pelo punhal incandescente de meu próprio irmão, que o usara para cegar-me em minha última encarnação. Voltei ao ponto de partida para o mundo espiritual. O velho João de Mina me acompanhou até a reunião infernal. Quem nos conduzia era o Guardião da Meia-Noite, um leal amigo nas trevas. Dele nada precisávamos temer e tão pouco sabia de nossa missão. Só lhe dissemos que gostaríamos de conhecer a assembléia.

Eu não sabia, mas o meu maior erro foi ter me separado de minha espada encantada e que me fora dada na origem.

Se eu estivesse com ela, talvez a história fosse outra. Por outro lado, poderia não ter obtido êxito algum, pois o ser que eu procurava também cometeu um erro. Deixou livre o velho João de Mina e o Guardião da Meia-Noite.

Quando ingressamos na assembléia, o ar era irrespirável. Nós só procurávamos nos manter em pé, tal a intensidade da vibração negativa. Como eu dizia: no céu como os anjos, na terra como os homens e no inferno, como os demônios. Mas estava difícil manter a aparência. Não conseguia projetar meu mental sobre nenhum dos que tinha em mente.

Em dado momento o horror tomou conta da assembléia. O próprio ser infernal a invadiu com o objetivo específico de me levar com ele. Eu era o seu alvo. O prazer que sentia em me capturar, após milênios de luta, extrapolava a tudo que se possa imaginar. Tal era seu prazer que nem quis o meu amigo João de Mina, assim como não molestou o Guardião da Meia-Noite.

Se eu cometera um erro ao me separar de minha espada encantada ele cometeu o seu ao deixá-los livres.

Quando voltaram à Luz, todo o Grande Oriente ficou sabendo quem era o responsável pelo desaparecimento dos servidores e tomaram as providências cabíveis em situações iguais a esta. Sempre que um novo culto forte e luminoso, ligado à origem, é iniciado, ele o persegue para bloqueá-lo no nascedouro, quebrando suas forças na origem.

Bem, quanto a mim pouco posso dizer sobre o que me aconteceu. Como eu já disse em uma das páginas anteriores, era imune à maioria das picadas de serpente, mas havia uma que eu temia, era a serpente negra! E foram elas que cravaram suas presas em mim quando o que rasteja nas trevas me subjugou antes de levar-me consigo.

Poderia existir um inferno no meio e outro no astral inferior, mas o meu começava ali ao ser levado por ele. Era o inicio de uma grande queda. A queda do Cavaleiro da Estrela da Guia!

O que me aconteceu? O horror, o pavor, o medo, a angústia, a aflição, o desespero, a loucura, o remorso, a tentação, a luxúria, o desejo, e muitos outros mistérios das trevas da ignorância se fizeram vivos no meu mental, tanto superior quanto inferior. Todo o meu ser imortal foi violado e violentado. O horror de me ver sendo levado pelo próprio senhor dos horrores. O medo do que me aconteceria. A angústia por não saber se voltaria à Luz. A aflição pelo meu estado energético que se enfraquecia a cada instante. O desespero pelas dores horríveis que sentia ao ser torturado cruelmente. A loucura pelas visões horrendas que tive. O remorso ao ter, diante dos meus olhos, todos os meus fracassos diante da lei na execução de determinadas tarefas. A tentação, ao ter o meu mental inferior ativado ao máximo por aquele que tem a chave de acesso a ele. A luxúria ao dar vazão à tentação, ampliada em muito na sua intensidade. O desejo ao ver, ainda que ilusório, o ser dos meus encantos e desejos.

A tudo eu ouvia, via ou reagia com uma observação apenas: eu sou você e você é parte de mim.

E eu lutava contra meus instintos adormecidos! Só uma coisa me importava: manter intacto o meu mental superior. Ele usou de muitos artifícios e ilusões, mas a todos eu conseguia reagir, quando já estava quase cedendo. E ele se enfurecia com minha resistência.

Eu senti sua fúria destruir meu perispírito como se fosse o corpo de carne. Sim, como se fosse de carne, pois eu estava numa região de baixíssima vibração. E onde havia um símbolo impresso, eu recebia descargas de energia negativas que ele ou os seus auxiliares lançavam na tentativa de apagá-los do meu ser. Tal dor só pode ser imaginada por alguém que já sentiu um maçarico queimar-lhe a pele. E isso durava muito tempo até que conseguissem tornar o local totalmente negro ao ponto de o símbolo sumir.

Como foi horrível! Meu Deus, como foi horrível!

Devo dizer que foi tão intensa a dor, que até hoje tenho medo de sentir dor, por menor que seja.

Apenas um símbolo eles não conseguiram eliminar. Foi a estrela em meu peito. Muito tentaram, mas não conseguiram.

Ainda que sem luz e enegrecido seu contorno, lá estava ela, negra sobre o fundo negro. Uma estrela pode, sim, ser apagada, mas não eliminada.

O tempo que durou esta tortura? Todo o tempo que fiquei em seu reino nas trevas. Lá não havia dia ou noite, pois tal como a Luz, as trevas também são permanentes e não sofrem alteração alguma.

Tudo o que ele tentou foi somente para conseguir de mim uma única coisa: Que eu renegasse o Nome Sagrado!

Mas isso ele não conseguiu de mim! Conseguiu fazer com que eu me inundasse no desejo ou no prazer, na dor ou na revolta, mas nunca contra o Santo Nome. Isso ele não conseguiu. E a tortura aumentou de intensidade a tal ponto que me senti todo perfurado, queimado e quebrado. Eivou o meu ser com toda a sua pestilência, mas não vergou a minha fé no único e indivisível Deus que existe. E tanto sofri que caí no vazio da dor. E no vazio da dor eu ouvi a voz da morte que me dizia: "Morra que a sua dor cessará!"

Então, num último esforço, criei em meu mental o vazio absoluto. No vazio absoluto nada tem ressonância. Ali só se ouve a voz do silêncio. Ele conseguiu penetrar em meu vazio absoluto e tentou criar em meu mental a confusão, misturando sua voz à voz do silêncio. Lançou-me todos os meus fracassos, todos os meus erros, todas as minhas dores, meus anseios, angústias e desejos. E o meu vazio absoluto ficou inundado com as suas coisas. Já não conseguia ouvir a voz do silêncio.

Lá também ele tentou me fazer negar o meu Criador ao me dizer: "Negue-o e viverá para sempre!". E eu me recusei a ouvir sua voz imunda no vazio absoluto.

Quando até ali ele falhou, uma voz se sobrepôs à dele. Era a voz do silêncio que finalmente me falava. Eu a conhecia pois ela é inconfundível para quem já a ouviu pelo menos uma vez.

A voz do silêncio é a voz dos nossos ideais e sonhos mais elevados possíveis. Só a ela eu daria ouvidos, mas até isso ele tentava evitar. Ele não podia permitir que eu ouvisse a voz do silêncio, mas não conseguiu.

E eu tornei a ouvi-la, no meu vazio absoluto, dizendo. "Se você morrer por mim, eu, o seu Criador o reviverei em mim, pois só eu sou a Vida, o resto é apenas um meio de vida da Vida. Eu sou a Vida, e quem vive em mim, por mim e para mim, jamais morrerá. Mas, quem perece por mim, em mim renascerá e outra vez não perecerá. Eu sou a Luz e quem honrar minha luz, sem ela jamais ficará. Eu sou a Glória, e quem por ela morrer, nela viverá. Eu sou a Honra, e quem por ela lutar, honrado será. Eu sou o Único, e quem não me dividir, jamais será dividido. E se você morrer por mim, ainda que mais nada eu possa lhe dar, o dom da vida terá, pois eu sou você por inteiro e você é parte de mim!"

Tudo parecia um sonho. Eu voltava a ouvir a voz do silêncio no meu vazio absoluto. Então comecei a sentir meu ser flutuar e ouvi um grito arrepiante penetrar o meu mental. Era o grito do horror que me dizia: "Eu ainda o dobrarei à minha vontade, pois você é a fonte do meu ódio. E só apagarei o meu ódio no dia em que você O odiar."

Mas ele sabia que eu jamais negaria a minha origem.

Eu não podia saber quem era, pois até a minha visão havia sido apagada, mas senti meu anjo da Luz me colher em seus braços e flutuei no espaço.

Não podia me mover. Tudo em mim havia sido destruído. Só uma coisa permanecia intacta: o amor ao meu Criador. Não me lembrava de mais nada. Tudo havia sido destruído. Tudo, mas tudo mesmo, ele destruiu!, menos o amor ao meu Criador.

Eu só existia no vazio absoluto e ali, na minha última defesa, eu havia resistido a ele, pois só ouvia a voz do meu silêncio. Alguém pode querer saber, ou quem sabe, desconhecer o que é a voz do silêncio que ouvimos no vazio absoluto. Eu explico aos que a desconhecem ou nunca ouviram falar.

Diante do Criador nada existe que possa se comparar. E para ouvi-Lo, nada podemos pensar ou imaginar. Se conseguirmos criar o vazio absoluto, lá ouviremos Sua voz, pois quando nada mais existir, Ele ainda existirá e quando nada mais pensarmos, Ele nos falará.

Minha prova havia terminado. Um dia meu ancestral místico havia me dito: "Um dia eu testarei o seu amor por mim". Este havia sido o dia. Meu corpo já não tinha coordenação alguma. Meu mental já não tinha mais o poder de outrora. Os símbolos sagrados já não mais existiam em mim. Tudo eu havia perdido. Só me restava o amor ao meu Criador.

E foi este amor que me resgatou da queda nas trevas do mental inferior. Senti-me depositado numa cama macia e depois uma mão tocou em meus olhos vazados. Voltei a ver, mas não reconhecia nada. Via rostos tristes chorando, mas nem o choro eu reconhecia e o porquê daquilo eu não sabia. Alguns falavam, mas eu não entendia. Outros acariciavam o meu rosto, mas eu não sentia. Eu via toda a movimentação ao meu redor, mas tão pouco a compreendia.

Então eu soube de tudo! Eu havia morrido, não na carne, mas no espírito. Restava apenas um lugar e era ali que eu me refugiava. Eu havia caído no vazio absoluto. E o hor­ror tomou conta do meu ser superior. O pavor me ameaçava a todo instante.

Só me restava a última esperança dos que morrem: Deus! E a Ele, mentalmente, eu clamei! "Meus Deus, me ajude!". E tantas vezes clamei, que Ele me ouviu. Um sono profundo tomou conta de mim no meu último refúgio. Então e só então eu adormeci no vazio absoluto.

 

O VAZIO ABSOLUTO

Por quanto tempo eu dormi, não sei, pois foi um sono profundo que tomou conta do meu vazio absoluto. Quando despertei, já entendia o que diziam, mas ainda tinha dificuldades em coordenar meus pensamentos e o raciocínio. Agora eu via pessoas e sabia o que eram, só não me lembrava delas. Minha memória havia enfraquecido ou, quem sabe, tinha sido apagada.

Uns vinham, me olhavam e me falavam alguma coisa, mas eu não sabia como responder pois sentia minha mente vazia. Sabia apenas de uma coisa: eu havia revivido. Por isso eu chorava.

Muitos me perguntavam:

- Onde ainda lhe dói?

Mas eu ainda não sabia o que era dor. Quando me explicaram o que era dor, eu lhes disse:

-Nada me dói!

- Então por que chora?

Foi então que consegui responder porque chorava.

- Eu choro porque vivo no meu Criador. É por isso que choro!

E vi lágrimas caírem do rosto daquela senhora. Eu lhe perguntei:

- Por que chora? Sente alguma dor?

A muito custo para conter o pranto, ela me falou:

- Sim meu filho, eu choro a dor do amor. É só por isso que choro, meu amor.

Estranho, mas eu já começava a entender um pouco das coisas da dor e do amor. Alguém chorava de dor e de amor.

Quem é a senhora?

Não me reconhece?

Não. De nada me lembro.

Eu sou sua mãe.

O que é mãe? Ela não me respondeu, pois seu choro aumentou e alguém a retirou de perto de mim. Chorei por ver aquela senhora chorar. Como eu queria entender o seu choro! Mas nem isso eu conseguia. Eu não tinha memória! Aquela cena me marcou profundamente e até hoje, não posso ver uma mãe chorar por seu filho que sinto a sua dor. Como é estranha a dor do amor.

Outra mulher se aproximou de mim e perguntou:

- Você não se lembra de mim?

Contive meu choro e tentei me lembrar, mas não consegui.

Não, não me lembro. Quem é você?

Você sempre dizia que eu era a sua fonte do amor. Não se lembra mesmo? Procure puxar pela sua memória.

O que é memória?

Lembranças adormecidas em nosso íntimo. Procure reavivá-las que logo se lembrará de tudo.

Eu tenho feito isso mas não consigo sair do vazio absoluto onde me refugiei.

Mas agora pode sair do seu refúgio pois nada mais o ameaça. Tudo já passou.

Eu não quero sair do meu refúgio!

Por que?

Eu tenho medo do que há fora dele. Foi por causa disso que me refugiei no vazio.

Olhe à sua volta. Só há amigos que o amam e ninguém vai lhe fazer mal.

Não posso me mover, estou preso no vazio.

- Eu o ajudo a mover-se, assim poderá ver todos à sua

volta.

Ela me colocou numa posição na qual eu podia ter uma visão maior e divisei vários rostos sorrindo para mim.

Por que eles sorriem, ao invés de chorar?

Eles sorriem porque o amam.

Então não têm só a dor do amor! Existe também a alegria do amor.

Sim, amor de minha fonte de amor.

E também o amor da fonte do amor?

Sim. E muitas outras coisas do amor. Quer que eu lhe fale delas?

Não.

Por que não?

Porque me sinto preso no vazio e nele nada mais cabe além da voz do silêncio.

O que é a voz do silêncio?

A voz do meu Criador.

Por que não deixa as coisas divinas do seu Criador entrarem no seu refúgio? São coisas d'Ele!

No meu vazio só cabe a Sua voz. Nada mais deixo entrar. Se assim eu fizer, terei que sair e não quero sair.

É tão pequeno assim o seu vazio?

Nele só cabe a voz do silêncio, nada mais. Nem a voz do outro conseguiu permanecer no meu refúgio.

E então gritei e chorei de pavor.

- Não! Ele está tentando entrar no meu vazio absoluto.

Não!

E eu gritava de medo e pavor. Não iria permitir que ele se apossasse do meu último refúgio e mergulhei no vazio absoluto clamando pelo meu Criador. Só parei quando o expulsei do meu vazio. Aí me senti seguro e me acalmei. Ela chorava ao meu lado. Não era um choro alto, mas contido.

- Por que você está chorando? - perguntei.

Você já o expulsou do seu vazio?

Sim, eu não vou deixá-lo tomar a morada do voz do silêncio.

Você pode sair do seu vazio que ninguém mais vai incomodá-lo. Olhe como estão preocupados com você. Só querem ajudá-lo. Dê-lhes uma oportunidade e verá como é bom viver fora do vazio. Existem muitas coisas boas fora do vazio absoluto. Todas foram criadas pelo seu Criador.

Mas também tem outras ruins. Não quero revivê-las!

Mas se conhecer as coisas boas poderá evitar as ru­ins.

Para conseguir isso tenho antes que sentir de novo as ruins e eu não as quero nunca mais.

Olhe para o seu corpo. Foi o seu Criador quem lhe deu.

Eu não preciso dele. No vazio absoluto eu não me movo, apenas ouço a voz do silêncio.

Por que não tenta mover sua mão? - e ela me mostrou a mão. - Vamos tente, você pode pois não é um paralítico.

Se eu movê-la, ela doerá como antes.

Você está sentindo ela fora do seu vazio?

Não; Nada existe para mim, só meu vazio. - e eu disse a ela que poderia arrancá-la fora que eu não sentiria dor alguma, pois no meu refúgio não havia dor, só o silêncio e sua voz.

Eu via lágrimas caírem em silêncio do seu rosto.

Posso segurar a sua mão?

Sim, pois não a sinto mais. Nada sinto. Nada mais existe para mim.

Ela levou minha mão ao seu rosto e chorou mais forte.

Por que você chora?

Eu choro a morte do amor da sua fonte do amor.

Não sei como, mas senti o calor de suas lágrimas em minha mão e, instintivamente, acariciei seu rosto procurando enxugar-lhe as lágrimas. Também não sabia o porquê dela ter aumentado a intensidade do seu pranto, mas levantei a outra mão e segurei seu rosto entre elas.

- Não chore! - disse. - Também sinto vontade de chorar a morte do amor de sua fonte do amor.

Um senhor já idoso que estava ao nosso lado falou:

- Por que você não chora também? Todos devemos chorar, quando chora a nossa fonte do amor.

Quando olhei para seu rosto, já caíam as lágrimas dos meus olhos e desde aquele dia sofro quando vejo morrer o amor de uma fonte do amor. Eu ainda não tinha noção de nada, mas já movia as minhas mãos sem sentir dor alguma.

Novamente aquele senhor com um rosto meigo, e muito carinhoso falou:

- Por que você não abraça a sua fonte do amor? Toda mulher gosta de ser abraçada quando chora o amor de sua fonte do amor.

Eu a abracei e acariciei seu rosto cheio de lágrimas e seus longos cabelos. Eu gostava do que fazia, e seu choro foi cessando. Quando ela não mais soluçava, enxuguei as últimas lágrimas de seu rosto. Ela ainda deu um sorriso triste para mim. Eu lhe retribuí o sorriso e continuei a acariciar-lhe os cabelos e o rosto. Ela tomou minhas mãos entre as suas e ternamente as beijou.

- Eu não sinto dor em minhas mãos.

- Eu sei que você não sente dor, por isso eu as beijei. Você não sente dor alguma mais. Nem nos pés ou em qualquer outra parte do seu corpo. Gostaria de andar um pouco?

- Andar?

- Sim! Olhe para eles. Andam e sentem alegria por poderem andar. Venha, eu o ajudo a sair da cama.

O senhor de rosto bondoso também me ajudou. Tinha dificuldades em coordenar meus movimentos, por isso ia caminhando lentamente apoiando-me nos dois. Andamos bastante e logo eu já coordenava melhor os meus passos. Conduziram-me a um bonito lugar que chamavam de jardim. Fiquei observando suas flores coloridas por um longo tempo.

Vi uma outra mulher e perguntei-lhe:

Quem é ela?

Uma boa amiga sua.

Parece triste. Por quê?

Ela ainda não o viu, senão, não choraria.

Posso vê-la mais de perto? Ela não me é estranha!

Deixe que eu a trago até aqui, filho.

Foi até ela e ficaram conversando um pouco. Eu vi como ela sorria e também chorava.

Por que ela faz assim? - perguntei à mulher que me amparava.

Ela chora de alegria.

Sim! Alegria tem o seu choro também, assim como o choro tem sua alegria. Eu já a vi antes.

Você a conhece?

Conheço mais não me lembro de onde. Não consigo me lembrar por mais que tente. Como é difícil não ter memória. Até isso ele me tirou. Ele me tirou tudo. Eu tento lembrar de você e não consigo. Por que ele fez isso comigo? Eu não lhe devia nada, só ao meu Criador!

Eu já começava a me desequilibrar quando ela me falou:

Elas estão demorando, vamos até lá, quem sabe mais de perto você se lembre dela.

Por que ele fez isso comigo?

Porque ele não sabe como é bom o amor. Agora esqueça-se dele e vamos até ela.

Não consigo me esquecer.

Para esquecer basta não se lembrar. Deixe-o para trás e vamos andar um pouco. Isso lhe fará bem.

Nós caminhamos lentamente até ela. Eu já a conhecia, isso eu sabia. Só não me lembrava de onde.

Ao vê-la bem de perto perguntei-lhe:

Como você se chama?

Não lembra do meu nome?

Estou tentando mas não consigo.

Isso o incomoda?

Muito, pois eu gostaria de me lembrar de onde, quando e como a conheci. Talvez um dia eu consiga.

Posso dar-lhe um abraço por estar caminhando tão bem?

Alguém merece ser abraçado só por isso?

Quem eu amo merece... Quer você queira ou não vou abraçá-lo e beijá-lo.

Ela me beijou o rosto e apertou-me contra si. Eu correspondi ao seu gesto. Não sabia porque, mas fazia. Eu ouvia seu choro calado e sentia seu rosto molhado, colado no meu ombro. Lágrimas brotaram em meus olhos lentamente.

Por que você chora em silêncio? - perguntou-me o senhor bondoso.

Eu não me lembro nem do nome do amor do meu amor. Meu Deus! Ele me tirou tudo! - exclamei, olhando para o alto.

Ele não lhe tirou nada. Apenas o fez esquecer-se de tudo, mas logo voltará a lembrar. Agora só precisa se recuperar, meu filho.

Um dia! Mas quando será, se temo lembrar-me das coisas boas por causa das ruins? Como eu gostaria de sair do vazio absoluto.

Eu falava agitado e dava sinais fortes de desequilíbrio.

- Venha conosco. Vamos lhe mostrar o resto do jardim.

Eu os acompanhei, mas mal podia caminhar. Um formigamento começou a tomar conta de minhas pernas. Eu lutava contra ele, mas ia subindo pouco a pouco. Dei mais alguns passos e caí. Eles ainda tentaram me amparar, mas não puderam.

O senhor bondoso me tomou em seus braços e imediatamente me vi deitado na cama. Logo a seguir, alguém me deu um copo com algo adocicado para beber. Pouco a pouco, o torpor de minhas pernas foi sumindo. Quis saber o que havia acontecido e me explicaram que eu estava fraco ainda. Mandaram-me descansar e se possível adormecer.

As duas mulheres ainda ficaram conversando um pouco comigo e depois saíram também. Só o senhor de rosto bondoso ficou ao meu lado.

O senhor não vai sair também?

Prefiro ficar ao seu lado, meu filho. Estou muito feliz por estar ao seu lado.

Também gosto de sua companhia. Sinto-me seguro ao seu lado. Penso que aqui ele não irá me tocar ou tentar me destruir se souber que estou ao seu lado.

Ele não voltará mais, isso eu lhe prometo, meu filho.

O senhor me chama de meu filho. Aquela senhora que saiu chorando também me chamou de filho. Quem são vocês e quem sou eu?

Nós somos os seus pais. Um dia, quando ainda pequeno, nós o educamos à nossa semelhança, amparado por nosso amor paterno.

Eu ainda estou lhe dando muito trabalho, não?

Por acaso ajudar quem amamos é trabalho?

Não, não é. Mas já não posso ajudar a mais ninguém. Hoje eu é que dependo da mão alheia para me mover.

Eu não tinha noção de que era vigiado nos mínimos gestos e palavras. Ele me incentivou a continuar falando.

Lembra-se como era bom ajudar, filho?

Sim, como me sentia feliz em ajudar a quem quer que fosse. Cada um, não importava quem fosse, que eu ajudasse, me deixava muito feliz. Foram tantos que não saberia dizer quantos foram. Onde estarão eles agora?

Todos estão por este mundo de Deus ajudando a outros que necessitam de uma mão para se levantarem.

Ele disse que me odiava por isso também. Como eu sentia o seu ódio penetrar meu corpo!

Sabe de uma coisa filho?

O que é, pai? Posso chamá-lo assim, não?

Sim, pode. Mas como eu dizia, sabe que ele é um ser infeliz e sem paz alguma? Ele não sabe que há muitas coisas mais fortes e belas que o que ele sente. Se soubesse, não duvido que voltaria correndo para o lado da Luz.

Como alguém como ele iria saber de uma coisa dessas se não quis me ouvir? Tentei argumentar com ele, mas foi tudo inútil. Como eu tentei!

Acredito em você porque um dia eu o encontrei também. Ele tentou me levar para o lado dele de todas as maneiras, mas eu não quis. Ele tentou me convencer a mudar de lado. Prometeu-me tantas coisas ilusórias que até sinto pena dele.

O que ele lhe prometeu?

Riquezas, poder, tantas coisas tolas que até já esqueci.

Eu ainda não! Estão vivas e penso que nunca vão morrer.

Com você acontecerá o mesmo. Logo verá que tudo o que ele o fez passar foi ilusão criada em nossas mentes.

Mas não parecia ser ilusão, pai. Eram reais!

Tanto foram ilusórias as coisas dele que você conseguiu suportar a todas e está aqui conosco agora. Se não tivesse resistido, ele o teria ao seu lado neste momento. E você estaria vivendo na ilusão do seu reino ilusório.

Acho que comigo foi diferente. Tudo era real! Agora me lembro de onde conheço aquela mulher que vi lá no jardim. Foi lá que eu a vi. Primeiro tinha essa imagem mas se oferecia de maneira lasciva e ia se transformando num ser horrendo enquanto se enlaçava em mim. E isso mesmo, é de lá! Ele ainda me vigia.

Você está se deixando iludir por algo que não era real. Esta que você viu no jardim foi sua esposa e lhe deu lindos filhos. Ele só usou o que você possuía de bom no seu mental e, através da ilusão, a transformou num monstro para você; ao invés de se fortalecer no amor, fraquejar no horror. Tenho certeza que ele também lhe fez isso com outras mulheres, não?

Sim, todas elas. Ele as transformou em monstros que me apavoravam.

É isso, filho! Ele penetrou em seu mental e o submeteu ao dele. Tudo o que havia no seu mental, ele substituiu pelo que há no dele. Só que ele não sabia que você contava com o vazio absoluto, onde se uniu ao Criador e o derrotou. Ele deve estar dando os seus urros por ver que mais uma vez falhou diante de um Cavaleiro da Estrela da Guia. Quando falha, ele odeia a si mesmo. É um infeliz!

Mas ele sabia de tudo a meu respeito. Nada lhe era desconhecido.

É que ele se apossou do seu mental e tirava dele o que queria, modificando-o ao seu prazer aquilo que lhe interessava. Até posso imaginá-lo dizendo que eu o odiava por você ter me enviado à fogueira, não?

Sim, isso também. Mas peço o seu perdão, porque não fiz por querer, creia-me, por favor.

Eu acredito em você, meu filho. Na verdade, foi ele quem criou todo aquele drama. Tudo foi culpa dele, que nos odeia por que amamos e vivemos no amor ao único Deus. O que ele quer é ser um deus também. Só que ele nunca será nada enquanto houver seres humanos iguais a nós, que não aceitam outro Deus que não o Único e Indivisível e que não nos obriga a nada mais que ama-Lo e respeita-Lo, assim como a toda Sua criação.

Estranho mas agora que estou ao seu lado, não o temo tanto.

É que, em todas as suas tentativas, nós sempre o derrotamos e ele pode continuar tentando o quanto quiser que nunca nos subjugará. E cada vez, nos torna mais imunes às suas ilusões.

Onde está o meu mestre de mestres, pai?

No seu dia-a-dia. Como sempre, nunca pára. Amanhã ele virá vê-lo. Já esteve aqui há alguns dias. O Cavaleiro do Mar também veio vê-lo. Muitos amigos seus vieram até aqui para ver se precisávamos de ajuda. Eu agradeci a todos por você. Eu sei que faria isso.

Quando os vir de novo, torne a agradecer, pai.

Farei isso. Agora saberão que você não negou sua origem.

Enquanto eu tiver o Criador como Deus, não a negarei.

Eu sei disso, meu filho. Como estão suas pernas?

Bem, muito bem. Já não formigam mais.

Vou lhe dar mais um pouco do medicamento. Vai se sentir melhor a cada dia que passar.

Onde está Sarah?

Esteve aqui ainda hoje, mas eu pedi que voltasse outra hora. Você poderia se martirizar por não se lembrar dela.

Poderia chamá-la para mim?

Não se incomoda de ficar sozinho?

Não. Se eu não o venci, ele não me derrotou.

Neste momento as duas mulheres de antes, entraram no aposento. Meu pai lhes falou:

- Vou buscar Sarah. Conversem com Simas. Eleja as reconhece, minhas filhas.

Ele sumiu de minha vista num piscar de olhos.

Como ele fez isso, Salete?

Logo você também fará, Simas. É só uma questão de tempo.

Obrigado mais uma vez, doutora. Acho que já está cansada de me ver caído, não?

Por que? E o prazer que sinto em vê-lo se levantar, não conta?

Triste sina a minha. Cresço, depois caio. É sempre assim.

Um dia tudo cessará e então você não cairá mais. Além do que você não caiu, pois eu o vejo muito bem!

Isso é o que você vê. O meu exterior aparenta isso, mas na verdade sinto-me vazio, sem motivação. Sei que tanto você como Raios de Lua já significaram muito para mim.

E ainda significamos, Simas. É que ainda não se recorda de tudo. Em poucos dias estará se lembrando de tudo e todos.

Sim, é isso mesmo pajé branco! Logo você relembrará do amor do seu amor ou da sua fonte de amor.

Eu as acho encantadoras, sei que foram muito importantes, mas corno foi esta coisa tão importante, eu não me recordo. Assim como sei que meu pai tinha uma forte ligação comigo, mas não sinto nada disso dentro de mim. Eu estou vazio. A única- coisa que me restou foi o vazio. Tudo mais desapareceu em mim. Será que dá para entenderem isso?

Sim. E não nos preocupamos nem um pouco porque sabemos que, assim como saiu do vazio absoluto, relembrará de tudo.

Não creio nisso. O vazio é de sentimentos e emoções. Eu já consigo me lembrar de muitas coisas mas sem a menor emoção.

É porque a sua recuperação ainda é muito recente.

Não, Raios de Lua. E o vazio que se processou no meu mental. Deixe-me olhá-las bem. Quero guardar bem os seus rostos e não quero esquecê-los nunca mais.

Você não nos esquecerá jamais. Podem passar mil anos e nós estaremos vivas em suas recordações.

Neste momento entrou, ou melhor, apareceu no aposento meu pai com Sarah.

Ela veio ao meu encontro e me abraçou carinhosamente.

Como vai o meu cavaleiro?

Você já não tem mais um cavaleiro. Acho que já não tem mais ninguém que possa chamar por este nome.

Você está nos meus braços, então eu o tenho, Simas. Não vou largá-lo nunca mais.

Você continua bonita e encantadora.

Você também não mudou nada pois continua encantando o encanto do seu amor encantado.

Eu a olhava e admirava sua beleza. Mas ainda assim não sentia a menor emoção. Não quis falar nada para não vê-la chorar também. Definitivamente eu estava acabado como espírito humano.

Posso dar-lhe um último abraço?

Por que, Simas? - perguntou-me Salete.

É que sou neste momento um ser amorfo, inodoro e incolor. Quero voltar ao meu vazio absoluto. É lá que eu me sinto e tenho algo em que me agarrar.

Não volte para ele, Simas. Nós estamos aqui. Fique conosco.

Não consigo ficar aqui. O vazio em meu interior é imenso. Eu morri em mim mesmo. Só Deus poderá me re­viver.

-Nós faremos isso por você, Simas. Não nos abandone agora.

Não. Talvez ele tivesse razão quando me acusava de hipócrita por tê-las não as tendo, de amá-las não amando-as e muitas outras coisas.

Ele não entende das coisas do amor, Simas. Ele não sabe que os momentos que passamos juntos produzem mais amor do que ele consegue com seu ódio. Cada momento de amor que viveu com cada uma de nós deu imensos frutos que até hoje alimentam os que não conheciam o nosso amor.

Que importam os frutos se no final sempre caio e as deixo tristes? Já não sinto vontade de viver. Se não querem me abraçar, isso também não importa. Foi tudo ilusão de minha parte e eu as envolvi nesta imensa ilusão. Perdoem-me se as fiz sofrer tanto por nada. Vou guardar seus rostos no meu vazio absoluto. Serão as únicas coisas que eu permitirei que o habitem junto a mim.

A partir desse momento, Simas não pode mais relatar o que se sucedeu. Ele se apagou por completo e não saiu mais de seu vazio absoluto.

E, como mestre da Estrela e pai do Cavaleiro da Estrela da Guia, retomo os fatos daqui por diante.

- O que faremos agora?

O casulo de fechou em tomo do meu filho. Acabou-se o Cavaleiro da Estrela da Guia.

Não fique triste, mestre Tanyara. Ele voltará logo.

Eu sei que não voltará. Ele nos vê mas não nos ouve. O horror deve ter sido pior do que eu imaginava. O tempo foi muito longo e a destruição, total. Ele tanto tentou que finalmente eliminou o meu amado filho do seu caminho. Neste momento deve estar dando gargalhadas horrendas de prazer bestial. Vou sair um pouco para chorar minha dor em silêncio. Voltem vocês também aos seus trabalhos. Vocês fizeram o que foi possível. Eu vou chorar a perda do segundo filho para ele. Já tenho um fechado no remorso e agora outro. Até quando meu Deus! Até quando o Senhor vai deixar que os que O amam e lutam por Sua honra e glória, caiam um a um.

Não caia também mestre. E isso que ele quer.

Sim, eu sei disso minha filha. Agora só quero chorar um pouco minha dor, nada mais.

Enquanto eu me afastava, Salete saiu à procura de ajuda, Raios de Lua também. Vários mestres se aproximaram do leito e tentaram tirar meu filho do vazio absoluto. Sarah também foi chorar a sua dor. Estava acabada a carreira do Cavaleiro da Estrela da Guia. Mais tarde, os grandes magos da Luz e os grandes mestres chegaram. Nem eles conseguiram penetrar no seu vazio. Lá, ele habitava apenas com as três imagens que levara consigo. A ilusão do sonho havia terminado para ele. Chamaram-me e à minha companheira para nos comunicar das decisões que haviam tomado.

Cavaleiro da Estrela, nós vamos devolver seu filho à carne em poucos dias.

Para que? Será mais um deficiente mental fazendo alguém chorar também. Vamos terminar de fechar o casulo e guardá-lo como uma lembrança de um tempo em que um iniciado na origem brilhava tanto quanto sua estrela.

Nós o guiaremos pessoalmente na carne. Muitas vezes nós o usamos e ele nunca recusou um pedido nosso. Realizou tudo sem perguntar o preço. O mínimo que podemos fazer é ampará-lo na carne.

Não vêem que será um vegetal?

Nós o reviveremos na carne. Nosso débito para com ele é impagável. Eu mesmo o acompanharei até quando houver necessidade, mestre Tanyara.

Sabem que o que reina nas trevas terá acesso ao seu mental com muita facilidade?

Cuidaremos disso também. Você já dá amparo à sua irmã na carne. Ela o acolherá e nós o guiaremos.

Já não é o bastante sua cruz?

Quer que o enviemos a outra?

Não, senão eu o perco de vista. Mas por que querem lançá-lo tão rápido na carne?

Foi mestre Han interveio:

Um dia ele me contou que a voz do silêncio havia lhe dito que se morresse pelo Criador, o mínimo que Ele faria, seria lhe dar o dom da vida se mais nada pudesse oferecer.

Isso um vegetal também tem.

Não consegue perceber que isto é um oráculo?

Como assim?

O oráculo, mestre da Estrela! Não se recorda mais? Ele era um guardião do dom do oráculo na origem. E aqui continuou sendo por muitos milênios. E o gênio do oráculo que o anima há sete mil anos, e isto é um oráculo.

Interpretem o oráculo para mim, por favor.

O oráculo quer dizer que o Criador lhe dará o direito ao dom da vida. Quem receber d'Ele o dom da vida não será um ser imperfeito na carne; quem tem o dom da vida, vive! O que o Criador não pode lhe dar porque ele, o das trevas, lhe tirou, nós, os da Luz, sedimentaremos em seu interior até que se fortaleça o bastante para ser despertado novamente.

E a imundície que lhe foi infiltrada pelo das trevas?

Com o tempo poderá purgá-la totalmente.

Se os senhores chegaram a esta conclusão, eu só peço o direito de acompanhá-lo na carne pelo tempo que se fizer necessário.

Eu o acompanharei, mestre da Estrela - falou o Mago da Luz Cristalina.

Eu também - falou mestre Han.

E eu os defenderei com meu escudo - falou o iniciado das Sete Espadas.

E eu os guiarei no meu campo - falou o iniciado das Sete Pedras.

Um a um os mestres, magos e iniciados se propuseram a acompanhá-lo na carne. Cumpririam o que haviam prometido durante o encontro em que mestre Han o levou à presença dos vinte e um guardiões dos mistérios: "Nós o seguimos em cada instante de sua existência, tanto como ente encarnado quanto desencarnado. Conhecemos seu passado, presente e futuro. Nós o honraremos com nossa proteção eterna".

E assim ficou decidido. Três dias depois ele seria enviado à carne. Tomaria o lugar de outro espírito que iria reencarnar através de sua mãe nesta encarnação: a filha do Mago das Três Cruzes, nossa boa e querida amiga Ruth.

Bem, o que aconteceu é que ele ganhou o dom da vida como lhe havia prometido um dia o nosso Criador.

Hoje, três magos trazem a história do Cavaleiro da Estrela da Guia. Estes que a inspiraram foram: Pai Benedito de Aruanda, Meon, o Espírito da Fonte do Saber da Luz Divina e o grande Mago da Luz Cristalina, Ogum Beira-Mar. Todos sob a proteção da Sereia Encantada, que um dia prometeu-lhe um presente.

E quem sabe o Cavaleiro da Estrela da Guia, um dia, possa voltar aos campos eternos...

É, quem sabe, não?

 

                                                                                 Rubens Saraceni  

 

                      

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