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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM NOVO REINO / Licia Troisi
UM NOVO REINO / Licia Troisi

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS GUERRAS DO MUNDO EMERSO Um Novo Reino

 

Uma aliança que inspira perigo e ameaça. De um lado, Dohor, cavaleiro do dragão e atual déspota da Terra do Sol, um homem despido de escrúpulos em sua sede por mais e mais poder; do outro, Assassinos que veem no sacrifício de San, único semielfo ainda existen­te, neto da valente Nihal, a forma certeira de trazer de volta Aster, o messias capaz de restau­rar a lógica de terror e sangue.

Cabe a Ido, velho gnomo e Supremo Gene­ral, proteger San a qualquer custo, enquanto o jovem mago Lonerin e o lendário herói Senar partem em busca do Talismã do Poder, antigo artefato élfico que, mais uma vez, poderá deci­dir os rumos da guerra. Dubhe, no entanto, não pode esperar a rendição do rei: o selo da maldição que lhe fora impresso pela Guilda dos Assassinos pulsa ardentemente em seu braço, e a única maneira de se ver livre de tal sortilé­gio é procurar por Dohor e matá-lo antes que seja tarde.

Quanto mais a Fera, mortífera, se debate e rasga o seu peito, impaciente para sair, mais determinada Dubhe mergulha em sua missão — até o momento em que conhece Learco, filho de Dohor, jovem como ela e em quem identifica aflições e angústias similares às que corroem o seu íntimo.

O último combate se anuncia e, sob a som­bra do iminente e temível fracasso, todos terão que prestar contas ao próprio passado. O desti­no do Mundo Emerso caberá às mãos de quem aliar paciência e bravura para lutar por um novo reino.

 

DO DIÁRIO PESSOAL DA MAGA THEANA

Estou com medo. Agora há pouco acabei de juntar as minhas coisas. A mochila está em cima da cama. Guardei nela todos os livros dos quais talvez eu venha a precisar; e também ampolas, vidros e o necessário para os encantamentos. O silêncio é tão profundo que chega a doer nos meus ouvidos.

Tomei uma decisão bastante estranha. Uma coisa que não combi­na nem um pouco comigo. Talvez tenha cometido um engano. Sou aluna de Folwar, acostumada a ficar em segundo plano, atrás de Lonerin; sou Theana, a maga do palácio. Como acabei me ligando a uma assassina, perambulando pelo Mundo Emerso, numa missão que pretende matar o rei da Terra do Sol?

Ela é miúda. Tem cabelos castanhos, que usa bem curtinhos, e olhos ne­gros como a noite. Não é particularmente bonita. Chama-se Dubhe. Pelo que sei, fez parte daquela seita que em nome do meu deus, The- naar, mata apregoando que esta é a vontade divina. A Guilda aliciou-a em suas fileiras enganando-a, pelo que pude entender, e a marcou com uma maldição. Trata-se de um selo que dá vida à parte mais maldosa que há nela, que traz à tona a sua sede de sangue. Disseram-lhe que só eles podiam curá-la, e com esta mentira conseguiram enredá-la; na ver­dade o selo só pode ser quebrado pelo mago que o impôs. Apesar do des­tino terrível que a aflige, no entanto, não sinto pena dela.

Por mais que me esforce para entender as suas razões e o seu so­frimento, não consigo ter nem uma pontinha de compaixão. E tam­pouco sinto-me culpada por isso. Talvez eu seja uma pessoa mesquinha. Talvez eu seja uma má pessoa.

Acontece que estamos separadas por um homem: Lonerin. Ela o conheceu quando ainda estava na Guilda. Ele fora para lá numamissão por conta do Conselho das Águas. Havíamos recebido a notícia de que o rei da Terra do Sol, Dohor, assinara um pacto secreto com os hereges do culto. Pois, afinal de contas, não era possível que tivesse con­seguido conquistar sozinho quase todas as terras do Mundo Emerso. Lonerin oferecera-se como voluntário para infiltrar-se e descobrir pes­soalmente o que estava havendo: com a desculpa de ter nascido na Terra da Noite e de conhecer bem os costumes do lugar, não lhe foi difícil ser escolhido para a missão. Viajou para lá disfarçado de Postulante, um dos muitos desesperados que se apresentam no templo da seita dos As­sassinos oferecendo a própria vida em troca de uma graça do deus. Conheço-o tão bem, o meu Lonerin, que só de pensar no verdadeiro mo­tivo que o levou a tomar a sua decisão o meu coração dói. Além dele, sou a única no Conselho das Aguas a conhecer a verdade. Fez tudo por causa da mãe. Ela se sacrificou no templo, pedindo que o deus salvasse o filho livrando-o da febre vermelha. Desde aquele dia a vingança nun­ca mais abandonou o seu coração. E só olhar para ele para perceber isso.

Foi lá, na Casa, na base subterrânea da Guilda, que Lonerin e Dubhe se conheceram. Fizeram um trato: ela cuidaria da investiga­ção, e ele encontraria algum jeito de livrá-la do selo. Fugiram juntos quando descobriram que os hereges queriam trazer à nova vida Aster, o Tirano, que há quarenta anos conquistara quase inteiramente o Mundo Emerso. A Guilda considera-o um messias, o único que pode instaurar aquele mundo de sangue pelo qual desde sempre a seita aspi­ra. A alma de Aster jaz agora suspensa entre o mundo dos mortos e o dos vivos, num lugar secreto nas entranhas da Casa, e a seita pretende infundi-la no corpo mais apto a recebê-la: o de um semielfo como ele. E o único semielfo ainda existente no mundo é o filho de Nihal e Senar.

Alguma coisa agita-se dentro de mim quando penso na viagem de volta de Lonerin e Dubhe, do templo até aqui, os dois juntos, que se livram da morte apoiando-se um no outro. Foi aí que tudo começou. Quando voltamos a nos encontrar em Laodameia, Lonerin já tinha algo diferente no olhar. Despedira-se com um beijo, ao partir. Agora, no entanto, só tem olhos para ela.

Se fosse só isso, talvez a coisa não chegasse a deixar-me tão magoada. Se Dubhe tivesse desaparecido logo após a viagem, se tivesse voltado àstrevas das quais surgira, talvez eu ainda conseguisse recobrar-me. Mas, infelizmente, não foi bem assim.

Quando Lonerin deixou o Conselho a par de tudo aquilo que des­cobrira, decidiram consultar Senar, o mago que, junto com o semielfo Nihal,já tinha derrotado Aster no passado. O Conselho acreditava que só ele seria capaz de banir de novo Aster para o mundo dos mortos.

Lonerin ofereceu-se imediatamente para a missão. Saber que arris­cava mais uma vez a vida doía no meu peito. Ao vê-lo tão seguro de si, no entanto, percebi que um abismo já nos separava para sempre. Para mim ele é tudo, mas obviamente eu sempre lhe pareci apenas uma companheira de estudos, nada mais do que isto: a mocinha que só fica à vontade nas salas de aula dos palácios reais.

Ainda o pior foi, para mim, saber que Dubhe iria acompanhá-lo para descobrir se Senar poderia de alguma forma livrá-la do selo. Na­quela hora senti-me completamente impotente. Eu estava perdendo Lo­nerin para sempre, e tudo por causa de Dubhe.

Assim sendo, enquanto Ido partia para procurar o filho de Nihal e Senar, vi Lonerin passar mais uma vez por esta porta, talvez para nunca mais voltar.

Não entendo. Não posso entender o que ela tem que eu não tenho, nem o motivo pelo qual ele corre atrás dela, enquanto eu não consigo mantê-lo ao meu lado. Mas talvez sejam perguntas sem sentido. Não foi por isso, afinal, que decidi partir?

Não sei o que houve entre eles, durante a viagem. Passaram pelas Terras Desconhecidas, viram lugares obscuros e misteriosos, escaparam das garras dos Assassinos que a Guilda enviara ao seu encalço. Talvez seja por isso que ficaram unidos, ou talvez eu prefira iludir-me, e não queira admitir que houve algo mais entre os dois. Mas a maneira com que se olham, com que se tocam, a intimidade entre eles me assusta. Sou e sempre fui uma sonhadora, e agora preciso encarar a desilusão. Em dois meses ela conseguiu tudo aquilo em que durante anos eu falhei.

O Conselho reuniu-se mais uma vez. Ido voltou com San, o neto de Nihal e Senar. Desde o começo, o verdadeiro objetivo da Guilda era ele. Um menino estranho, provido de poderes desconcertantes. Dei-me conta disto quando toquei nele pela primeira vez. Quando fui salvá-los. O gnomo tinha sido envenenado pela espada de Learco, o filho de Dohor, depois que conseguira tirar San das mãos de Sherva, um Assas­sino da Guilda. Havia sido justamente ele a sequestrar o neto de Senar, matando os pais e arrancando-o do seu mundo. Quando fui socorrer Ido, usei pela primeira vez os meus poderes de sacerdotisa. Foi bastante estranho. Finalmente estava realizando uma coisa que me fazia sentir útil. Estava com medo e as minhas mãos tremiam, mas foi gratificante. Talvez tudo tenha começado ali mesmo, quem sabe...

Seja como for, agora Ido se encarregará de deixar San em seguran­ça, enquanto Lonerin e Senar tratarão de reencontrar o talismã do poder, o único artefato — no entender do velho mago — capaz de liber­tar o espírito de Aster. O talismã é o mesmo que Nihal usou, muitos anos atrás, para derrotar o Tirano.

Desta vez, no entanto, eu não ficarei esperando. E éjustamente esta decisão que me deixa assustada, enchendo o meu coração de trêmula ansiedade. Não posso ficar apenas esperando pela volta dele, preciso fazer alguma coisa.

Resolvi partir com Dubhe. Senar explicou-lhe o que tem de fazer para livrar-se do selo. A maldição não era endereçada a ela, mas sim a Dohor. Tinha a ver com alguns documentos que ela roubara por conta do rei. Agora precisamos encontrar pelo menos um fragmento daqueles papéis e usá-lo durante um ritual mágico bastante complicado, mas que eu posso realizar. Então ela matará Dohor e ficará livre.

Qualquer outro mago poderia fazer o mesmo, inclusive Lonerin. Mas, por minha escolha, agora caberá a mim.

Não me perguntem por quê. Nesta altura, sozinha no meu quarto, nem consigo reconstruir a sequência de pensamentos que me levou a dizer-lhe que a ajudaria.

Não tenho o menor interesse na salvação dela. O seu destino deixa-me indiferente. Lá no fundo, quem sabe, talvez a odeie.

Mas estou muito cansada. Sempre vivi aqui, na segurança do pa­lácio, e nunca usei realmente a minha magia. Fiquei o tempo todo à espera, enquanto via Lonerin arriscar a própria vida. Amei-o e admirei-o. Mas ele não me quis. Está na hora de dar um basta. De mudar. De fazer alguma coisa que até contrarie a minha natureza, mas que me sinto na obrigação de enfrentar.

Irei com Dubhe. Ajudá-la-ei a matar um homem. Usarei a minha magia para algo inconcebível. Algo que não tem absolutamente nada a ver comigo.

Gostaria de ser forte, de reprimir as lágrimas. Gostaria de não pen­sar mais em Lonerin, na maneira com que se despediu agora há pouco, nas palavras com que pediu para eu não partir, naquele beijo que ainda queima na minha pele, aqui na testa. Ele precisa desaparecer, deixar de existir para mim. Foi por culpa dele que passei esses anos todos sem realizar qualquer coisa que prestasse. Foi por causa dele que não cresci, que não me realizei encontrando o meu próprio caminho. Irei esquecê-lo, nesta viagem. A plena consciência da missão apagará tudo aquilo que já senti por ele. E, no fim, ficarei livre.

Amanhã terei de acordar bem cedo. O palácio real da Terra do Sol, em Makrat, fica longe daqui.

 

Learco foi apresentado ao povo. O pai levantou-o para mostrá-lo à multidão, e ouviu-se um grande grito de júbilo. Ao escutar o estardalha­ço de alegria, a rainha tapou os ouvidos com o travesseiro.

Cheguei a pensar que, apesar dos pesares, este filho poderia ajudá- la a reencontrar um sentido na vida. Claro, é fruto de uma violência, mas mesmo assim é carne da sua carne. Mas eu estava errada. Sulana rejeita o filho. Não quer vê-lo e muito menos amamentá-lo.

Posso entender que a morte do primeiro Learco tenha deixado uma ferida incurável. Era uma criança adorável... Os deuses reservaram- lhe o pior dos destinos, a agonia e a morte por febre vermelha... Nin­guém deveria sobreviver aos próprios filhos, jamais.

Esta noite, no entanto, não consigo deixar de pensar neste novo menino. Nascido de pais que se odeiam, repelido pela mãe. Qual será o seu futuro?

Novas sombras, cada vez mais densas, pairam sobre este reino. Mal­dito seja, Dohor. Traz consigo a morte, qualquer coisa que faça.

DO DIÁRIO PARTICULAR DE SIBILA, DAMA DE HONRA DA RAINHA SULANA

DUBHE E THEANA

A aldeia estava deserta. O cheiro acre de fumaça irritava a garganta e envolvia tudo numa nuvem espectral. Ossadas de animais carbo­nizados estavam espalhadas de ambos os lados do caminho.

Theana não se mexia, com a mão tapando a boca e os olhos cheios de lágrimas. Dubhe olhou para ela com uma mistura de pena e comiseração. Até ela, entretanto, tinha tido aquela mesma reação alguns anos antes, diante do ignóbil espetáculo da guerra. Fora jus­tamente naquela época que encontrara o Mestre. Ainda se lembra­va da sua figura que desaparecia na cortina de fumaça, da sua capa que esvoaçava quando se deslocava no ar imóvel do acampamento.

—        Acho melhor sairmos logo daqui — disse com um fio de voz, levando instintivamente a mão à cintura, onde costumava guardar o punhal.

Maldição!

A arma não estava lá, pois havia sido costurada num bolso se­creto sob a saia, fora do alcance dos seus dedos.

Theana não respondeu, enfeitiçada pelo horror daquela cena. A companheira segurou-a rudemente pelo braço e a levou embora.

Parar naquela aldeia de fronteira havia sido uma péssima ideia. Muito próxima da divisa entre a Terra do Mar e a Terra do Sol, es­tava perto demais da frente de combate entre as forças de Dohor e as do Conselho das Águas, e Dubhe sabia muito bem o que podia estar à espera delas. Mesmo num lugar tão remoto, os sinais da guerra eram evidentes e aquilo tornava o local perigoso para duas mulhe­res que viajavam sozinhas, vestidas como elas.

Os mantimentos, no entanto, já estavam no fim, e ela não ti­vera a coragem de se impor proibindo qualquer contato com o vila­rejo. Tinha a cabeça avoada e os sentidos meio entorpecidos.

Avançaram entre os cadáveres, procurando o caminho mais cur­to para sair daquele inferno. Theana soluçava e Dubhe reagiu aper­tando ainda mais o braço da companheira. Achava irritante aquela fraqueza, aquele jeito pávido de ser mulher.

Quando só faltavam uns poucos metros para chegarem à cerca de muralhas, um ruído metálico de passos pegou-a desprevenida. Tinha de sair o quanto antes do caminho, precisava encontrar um abrigo e desembainhar o punhal. Coisas que, sem dúvida alguma, faria sem maiores problemas, não fosse pelo fato de sentir-se tão ler­da, com os reflexos lentos, as pernas moles e os músculos entorpeci­dos. Apoiou-se no muro nos fundos de uma casa para não tropeçar e fez sinal para Theana ficar calada.

As vozes tornaram-se pouco a pouco mais próximas, o clangor das espadas que esbarravam na armadura mais distinto. Soldados. Dubhe prendeu o fôlego, tentando tornar-se invisível.

-           Quem passou por aqui? - perguntou alguém.

-           Malga e os seus, acho — respondeu outra voz.

-           Está querendo dizer que provavelmente não encontraremos coisa alguma neste vilarejo?

-           Incendiaram tudo. Se havia alguma coisa para levar, eles já levaram.

Ouviram-se as passadas dos homens do outro lado da casa que as escondia. Theana estava apavorada e não parava de tremer. Mais uma vez Dubhe se perguntou por que a outra decidira acompanhá-la numa missão tão desesperada e impiedosa. Insinuar-se na corte do mais poderoso monarca daquela época e matá-lo para livrar uma assassina da maldição que a oprimia: um trabalho que positivamente nada tinha a ver com a discípula de um mago do Conselho das Aguas.

Os soldados começaram a derrubar as portas sem a menor ce­rimônia, revistando o interior das poucas casas que ainda estavam de pé. Dubhe não podia calcular o número deles, mas deviam ser muitos, certamente mais de quantos ela poderia enfrentar sozinha e debilitada daquele jeito.

Espere até eles irem embora. Não há outra saída. Espere...

Quando achou que já estavam bastante longe, começou a des­lizar lentamente ao longo do muro, fazendo sinal para que Theana fizesse o mesmo, devagar e com todo o cuidado.

-           Veja só o que temos aqui!

O rosto suado e vermelho de um homem armado apareceu diante dos seus olhos.

Sacar o punhal e lutar. Acertar o primeiro na garganta, do­brar-se para esquivar o golpe do outro, atrás dele. Lançar as facas de arremesso, e depois deixar-se levar, como já tinha feito muitas outras vezes durante um combate, para permitir que a memória do corpo agisse por ela, enquanto a mente se esvaziava por comple­to. Era o que ela precisava fazer. A mão de Dubhe procurou instin­tivamente o punhal, mas devagar, devagar demais. Dois braços poderosos seguraram-na por trás. Viu o outro soldado agarrar e le­vantar Theana, que gritava desesperada. Viu-a espernear, enquanto o homem ria, devasso.

Não, não!

Seus dedos procuraram a espada do inimigo, chegaram a roçar na empunhadura, quase conseguiram desembainhá-la.

-           Fique quietinha, sua víbora! - exclamou o homem que a se­gurava, e o seu bafo que exalava a cerveja empestou-lhe o rosto.

Dubhe procurou desvencilhar-se, mas seu corpo não respon­dia. O golpe na nuca chegou quase esperado, e apagou tudo a sua volta.

Haviam saído a cavalo três semanas antes. Dubhe abria o caminho, Theana a seguira. Durante os primeiros dias não trocaram uma única palavra. Paravam quando Dubhe assim decidia e comiam evitando os olhos uma da outra. De manhã bem cedo, quando Du­bhe desaparecia na mata fechada para treinar, Theana espreguiçava o corpo para logo a seguir dobrar-se sobre os livros de magia e estudar. Eram papéis que lhe haviam sido entregues por Senar, e lá dentro se encontravam todas as fórmulas para realizar o ritual que deveria livrar a companheira do jugo da maldição. Mesmo na hora das refeições, lá estava ela, atenta a sublinhar as partes mais impor­tantes dos pergaminhos, com todo o cuidado e a mais escrupulosa dedicação.

Quanto mais Dubhe a observava, tentando entendê-la, mais se convencia de que Theana era para ela um mistério, como se pertencesse a outra espécie. Não era a corriqueira e fria isenção que sen­tia pelos demais seres humanos, era algo diferente.

Durante o último Conselho das Águas chegara a pensar que já podia ter uma ideia clara sobre ela. Theana nada mais era do que uma jovem maga crescida no ócio, cheia de feminilidade e perfeita ao lado de Lonerin. Mas então a jovem decidira acompanhá-la na viagem, e agora tinha de aguentá-la em seu caminho, com seus pés inchados e cheios de bolhas por muito andar, mas sem queixas. O que podia ter levado uma pessoa tão certinha a se juntar a uma assassi­na pela qual, além do mais, sentia rancor e antipatia?

Às vezes, quando a via perto da fogueira, absorta a recitar suas ladainhas de olhos fechados, Dubhe não podia deixar de pensar em Lonerin. Aquela viagem deles também começara na maior parci­mônia de palavras. Mas eles tinham alguma coisa em comum, algo que os levara a se aproximarem até demais. O que podiam compar­tilhar, no entanto, ela e aquela jovem?

Desde que deixara a carta do Mestre na aldeia dos Huyés, no coração de Dubhe abrira-se uma voragem que a fazia sentir árida e solitária. A recordação dele enchera-lhe o coração por tempo demais, representando o seu único vínculo com a humanidade. Naquele va­zio brotava agora a lembrança de Lonerin, dos seus beijos e das suas palavras. Uma lembrança às vezes constrangedora, mas sempre mui­to doce. Talvez, com o passar do tempo, aquela saudosa amargura desaparecesse, e com ela também o sentimento de culpa. Sobraria somente um sonho pequeno e distante, que iria fazer-lhe companhia nos momentos de solidão. Se havia algo que toda aquela história de fato lhe ensinara, era que a sua existência seria fatalmente solitária. Não havia mais ninguém, no mundo, capaz de partilhar os seus pe­cados, e Lonerin não fugia à regra. Talvez o Mestre fosse capaz, mas ele escolhera um caminho diferente.

Dubhe tinha certeza de que, se conseguisse sobreviver à maldi­ção, o seu futuro seria uma longa sequência de dias passados a es­conder-se do mundo. Pois a grande pergunta que pairava sobre ela desde quando, com oito anos de idade, sem querer matara Gornar durante uma brincadeira, continuava até agora sem resposta.

Desde a primeira noite, Dubhe reparou que havia alguma coisa elusiva no ar. Theana tinha hábitos estranhos e fazia o possível para ocultá-los. Sempre era a primeira a deitar-se, envolvendo-se na capa como que num casulo, e fingia estar dormindo. Dubhe sabia mui­to bem que era fingimento, mas no começo preferiu ignorar o assunto. Então, certa noite, a curiosidade levou a melhor, e ficou a espiá-la na escuridão. Não confiava naquela mulher, talvez porque ela também tivesse amado Lonerin.

Foi na calada da noite que a viu levantar-se, silenciosa e furtiva como uma gata. Tinha uma natural elegância nos movimentos que Dubhe quase invejava: sem dúvida alguma os homens deviam achá-la muito sensual.

Theana apertou em volta do pescoço um cadarço de couro no qual estava preso um pingente e segurou-o entre as mãos. Entoou baixinho uma ladainha e começou a prostrar-se no chão a intervalos regulares. As palavras transformavam-se em música ao ritmo dos seus movimentos, como que numa dança hipnótica.

Dubhe sentiu-se tomar de repentina ira. Apertou os punhos por baixo da capa, enquanto à imagem de Theana sobrepunha-se a multi­dão de Assassinos que se moviam em uníssono durante as cerimônias no âmago da Casa. Suas narinas encheram-se do cheiro adocicado do sangue que pairava lá dentro, nas piscinas aos pés da estátua de Thenaar, e lembrou-se de Rekla, a Guardiã dos Venenos, dos seus olhos alucinados pelo ódio.

Theana rezava como Dubhe já tinha visto muitas vezes os sacer­dotes fazerem, e aquela atitude pareceu-lhe blasfema. Teve vontade de pará-la e de jogar na sua cara a verdade que aprendera durante os longos anos de solidão, e que o Mestre lhe ensinara pagando com a própria vida. A fé leva à loucura, e na melhor das hipóteses não passa de um inútil ouropel ao qual os homens recorrem para fugir da morte. Mas quem tinha a morte por dentro, como ela, podia olhar fixamente a realidade dos fatos.

Conteve-se. Não fazia sentido tomar inimiga a única pessoa que podia ajudá-la a livrar-se da maldição. Eram certamente duas pes­soas que nada tinham em comum, mas o melhor a fazer era conti­nuarem a se ignorarem, como haviam feito até aquele momento.

As primeiras palavras que trocaram entre si foram apressadas e rís­pidas.

-           Procure aprender sem demora. Daqui a pouco teremos de nos livrar da nossa bagagem.

Já anoitecera, estavam ambas sentadas perto da pequena foguei­ra. Theana, que já começara a aprontar-se para a noite, fitou-a atô­nita.

-           Por quê? - perguntou com um tom pasmo que Dubhe achou irritante.

-           Porque precisamos nos infiltrar na corte de Dohor - explicou com calma. - É a única maneira de matá-lo e de recuperar, ao mes­mo tempo, os documentos de que precisamos para quebrar a minha maldição.

Theana teve um leve estremecimento.

-           Não estou entendendo... O que é que isso tem a ver com a nossa bagagem?

Dubhe agachou-se até ficar na mesma altura da outra e a enca­rou fixamente.

-           Acha que podemos nos insinuar no palácio vestidas deste jei­to? Chegando à entrada e nos apresentando como uma maga do Con­selho das Águas e uma Assassina da Guilda?

Theana ficou vermelha e baixou a cabeça.

-           Há muita coisa que ainda preciso estudar... É um ritual mui­to complexo e...

-           Tem mais dois dias. O tempo de chegarmos a Shilve. Então comprarei o necessário para o nosso disfarce. A partir de Shilve va­mos deixar para trás os nossos nomes e as nossas coisas. Dali em diante seremos duas pessoas totalmente diferentes, esquecendo por completo as nossas verdadeiras identidades.

Como resposta, Theana limitou-se a tirar os livros do saco de viagem, acendeu um pequeno fogo mágico e recomeçou a estudar.

Quais pensamentos se debatiam na sua cabeça? Estava enfada­da, cansada? Ou, quem sabe, arrependida por estar ali, por ter-se oferecido para aquela missão?

Dubhe considerou com alguma irritação aquela atitude condes­cendente, mas não fez comentários. Envolveu-se na capa e se deitou para dormir. Naquela noite não a ouviu rezar.

As roupas tinham de ser as mais humildes que podiam encontrar na praça. Depois precisariam de algum tipo de pomada para o rosto, capaz de modificar a cor da pele, e finalmente de um veneno leve­mente cáustico para envelhecer as mãos.

Dubhe circulou pelos bairros mais mal-afamados com aquele seu jeito furtivo e sinuoso de se movimentar. Entrava segura nas lojas que lhe interessavam, enquanto Theana limitava-se a acompa­nhá-la sem fazer comentários.

Mais uma vez, nada explicara. Mantinha-se distante, de pouca conversa. A jovem maga ficava imaginando, cada vez mais espanta­da, como Lonerin conseguira viajar com ela. Havia sido tão fria com ele também? O que o levara a apaixonar-se por ela, então? Ou talvez agora se portasse daquele jeito só porque as duas tinham, de certa forma, uma espécie de rivalidade no amor?

Observou-a em silêncio enquanto pedia aquilo de que precisa­va e, na loja dos venenos, mencionava com precisão as mais varia­das plantas, pomadas e infusões.

Havia alguma coisa terrível e fascinante naquela sua gélida com­petência. Quantas pessoas já tinha matado graças àqueles conheci­mentos?

Logo que saíram da loja, Dubhe levou-a para um canto.

-           Terá de preparar um filtro que faça crescer os meus cabelos.

A sua cabeleira, com efeito, havia sido sacrificada durante um

dos ritos da Guilda.

-           Diga-me do que precisa.

Theana gaguejou. Não estava acostumada com mágicas daquele tipo.

-           Não sei, nunca fiz antes...

Dubhe continuou a fitá-la com firme determinação.

-           Pense rápido, não temos tempo a perder.

Disfarçaram-se durante a noite. Já estavam perto do seu destino e precisavam agir com cautela. Até então haviam viajado pelas trilhas na floresta, justamente para evitar rondas de soldados ou grupos de mercenários. Agora, no entanto, tinham de sair em campo aberto e sem ser reconhecidas.

Vestiram as roupas novas, e Dubhe queimou as velhas numa fo­gueira. Fez isto sem remorsos, segura de si. Theana, por sua vez, ti­tubeava. A sua túnica tinha para ela um profundo valor. Nenhum mago do Mundo Emerso vestia uma roupa parecida. A dela era a veste dos antigos sacerdotes de Thenaar, uma túnica que lhe havia sido doada pelo pai.

—        Vamos lá - disse Dubhe, fitando-a.

Theana apertou o tecido entre os dedos.

—        Não há outro jeito?

O olhar de Dubhe gelou-a.

—        O nosso disfarce tem de ser perfeito. Deixar a roupa no bos­que seria o mesmo que deixar uma pista.

—        Esta túnica significa muito para mim... — objetou Theana com um fio de voz.

—        Sinto muito — limitou-se a dizer Dubhe, impassível. Seu rosto, iluminado pelas chamas, não deixava transparecer qualquer emoção.

Theana despiu-se devagar, quase a desafiá-la. Segurou as lágri­mas que queriam encher seus olhos só de pensar naquela veste con­sumida pelo fogo.

Assim como o fogo da Guilda consumiu o verdadeiro culto de The­naar, pensou, lembrando uma frase do pai. Saboreou o derradeiro contato do tecido com a pele.

Mas não teve ânimo de jogar o pano nas chamas. Dubhe teve de fazê-lo. Theana pensou em quando finalmente voltaria ao Con­selho e na outra túnica parecida que tinha no quarto, nos aposentos do mestre Folwar, tentando abrandar a humilhação daquele gesto.

Vestiu suas novas roupas esquivando-se do olhar indagador de Dubhe. Enxugou a única lágrima que não conseguira evitar, e en­tão ficou pronta.

Juntou-se a Dubhe, que, sentada no chão, remexia nas ervas que tinha comprado. Com gestos seguros, passava algumas delas no ros­to, outras na palma e no dorso das mãos. Os cabelos, por sua vez, estavam envolvidos numa espécie de compressa que emanava um vago cheiro de musgo. Quando a viu chegar, entregou-lhe uns vidrinhos.

-           Pegue isto, terá de fazer o mesmo.

Sempre aquelas ordens secas, como se ela fosse uma empregada. Theana não se sentou nem esticou a mão para segurar os vidros.

-           Para que servem?

-           As suas mãos são lisas demais, ninguém vai acreditar que você seja uma camponesa. E o mesmo vale para o seu rosto pálido, de­veria estar enrugado, torrado pelos raios do sol. Essa ampola ajudará a torná-la um pouco mais velha. A outra é para os cabelos, para mu­dar a cor.

Theana ficou olhando para os pequenos frascos. Já tinha disfar­çado a própria aparência antes. Existiam filtros que tornavam a coisa possível. Mas sempre havia sido por pouco tempo, só para treinar e experimentar as fórmulas. Além do mais não eram práticas que lhe foram ensinadas pelo pai, mas sim magias comuns, que conhecia graças aos ensinamentos de Folwar. Agora, no entanto, era diferente. Desta vez era mais do que um mero disfarce, teria de manter uma aparência que não era a dela por muito tempo. E a coisa a assustava.

Com o canto do olho viu Dubhe, que continuava a espalhar lí­quidos e pomadas pelo corpo. Sentiu-se terrivelmente sozinha e es­ticou a mão para as ampolas.

-           A das mãos, só use por alguns minutos, mas a do rosto terá de ficar com ela a noite inteira. Aparecerão algumas rugas. O efeito dura um mês, aí teremos de preparar uma nova dose. Fique a noite inteira também com a dos cabelos.

Theana observou as cataplasmas que logo a seguir iria aplicar na pele. Eram ervas que conhecia muito bem e que só um botânico sa­bia usar e dosar de forma correta.

-           Os ingredientes que me pediu estão na minha mochila. Já pode preparar o filtro de que preciso - acrescentou Dubhe.

Theana deu uma rápida olhada na sacola. Pegou tudo e se afas­tou. Apesar de só haver elas duas no bosque, sentia a necessidade de ficar sozinha. Aqueles gestos significariam a ruptura definitiva en­tre a Theana que tinha amado Lonerin, que sentira a sua falta es­tudando magia, fechada nas salas do Conselho, e a nova Theana, uma mulher de ação em busca de si mesma e que iria ajudar a sua inimiga a matar um homem.

Suspirou, enquanto as estrelas brilhavam frias acima da sua ca­beça. Então, decidida, mergulhou os dedos na primeira pomada.

Na manhã seguinte ambas estavam diferentes. Dubhe tinha uma fluente cabeleira loira, que prendera numa trança macia. A suavi­dade do olhar, que amenizava o abismo dos seus olhos negros, os lábios que deixavam entrever um tímido e casto sorriso, o recato com que mantinha as mãos juntas no colo faziam-na parecer outra pessoa.

Quanto a Theana, ela simplesmente ficou pasma ao olhar-se. Tinha as mãos calejadas e a testa toda encrespada por pequenas ru­gas, como aquelas que tantas vezes já vira na fronte das camponesas extenuadas pelo trabalho nos campos e pela espera dos seus homens chamados à guerra. Pela primeira vez deu-se conta de quanto se pa­recia com o pai. Todo mundo sempre lhe dissera isso, mas ela nunca acreditara. No começo não gostara nem um pouco, uma vez que o considerava um vadio devotado a um culto esquecido, desprezado por todos, até mesmo pela filha. Depois, pouco antes de ele morrer, quando havia começado a admirá-lo, convencera-se de que não era digna dele. Apesar de tudo, agora que a erva a envelhecera, reencon­trava em cada canto do próprio rosto a expressão do pai.

Estou indo pelo mesmo caminho, disse para si mesma, um tanto atemorizada. Mas não teve tempo de pensar muito no assunto. Du­bhe aproximou-se pelas costas, de punhal na mão. Segurou-a pelos cabelos.

—        O que está fazendo? — perguntou Theana, esquivando-se.

—        Temos de cortá-los.

—        Já não basta que mudaram de cor?

—        Não, estão brilhosos e bem cuidados demais, não se parecem com os de uma camponesa.

Theana sentiu-se tomar de ira. Não queria sujeitar-se a mais aquele ultraje.

-           Não acredito que seja necessário - disse virando-se para enca­rar Dubhe. Apertou as melenas nas mãos, como a protegê-las, apal­pando com pena a maciez delas entre os dedos.

Dubhe não se mostrou zangada. Somente chateada, o que tal­vez fosse pior ainda.

-Tem de botar na cabeça que isto não é brincadeira. Se nos des­cobrirem, é morte certa para nós, está entendendo? Tudo depende do nosso disfarce, que precisa ser perfeito. Você é uma maga do Con­selho, pode ser reconhecida.

-           Sou apenas a discípula de um conselheiro, ninguém jamais se importou em conhecer a minha cara! A maioria das pessoas nem conhece o meu nome. - Theana segurou com mais força ainda seus cabelos.

Dubhe suspirou. Baixou o punhal e seus olhos assumiram uma expressão pesarosa.

-           Por que veio comigo? Não sabia que haveria um preço a pa­gar? Não se importa com a minha salvação, e eu posso entender. Talvez me odeie, e também posso entender. Por quê, então?

Theana mordeu os lábios. Os dedos soltaram lentamente os cabe­los, a tensão dos ombros afrouxou. Tentou evitar o olhar de Dubhe. Eram um remoinho aqueles olhos, um abismo no qual era impos­sível não se deixar cair. Lonerin também acabara se perdendo neles.

-           Precisa mesmo?

-           Precisa.

Theana voltou a virar-se, devagar, ficando de costas para Dubhe.

-           Então corte.

Logo que os cabelos caíram no chão, Dubhe ficou diante de Theana e juntou as próprias armas uma em cima da outra. Por algum motivo estranho sentia que precisava demonstrar alguma coisa. Havia facas de arremesso, as setas, o arco e, obviamente, a capa, aquela que tinha comprado com as primeiras moedas que o Mestre lhe dera pelos seus serviços. Quer dizer, havia a sua vida inteira naquele montículo.

-           Não levarei nada disso comigo - disse fitando Theana nos olhos. Pareceu-lhe vislumbrar neles um lampejo de compreensão, rápido e fugaz.

Só houve uma coisa que não conseguiu deixar para trás: o pu­nhal. Disse a si mesma que precisava da arma, e que afinal ninguém repararia nela, pois ficaria escondida num bolso interno da saia. Mas, na verdade, simplesmente não queria separar-se dele. Desde que o Mestre lhe dera, aquele punhal havia sido a única coisa que a mantivera viva.

-           Vai ficar com ele?

Não havia raiva na pergunta, apenas mera curiosidade, mas Dubhe sentiu-se pega em flagrante.

-           Acho melhor levarmos alguma coisa com que nos defender

-           respondeu.

E era a pura verdade: tinha de precaver-se contra possíveis im­previstos. Os seus sentidos ainda estavam meio entorpecidos, depois do ritual ao qual a maga a submetera algumas noites antes. E Theana não estava certamente capacitada a lutar.

Em seguida partiram em silêncio.

Não demorou muito tempo, depois do começo da viagem, para a Fera voltar a mostrar as suas garras.

Só para evitar problemas, Theana tinha levado consigo uma boa reserva da poção preparada por Lonerin, sabendo muito bem que ao longo da missão haveria certamente necessidade dela. A cada sete dias Dubhe precisava tomar pelo menos uma pequena dose para acalmar a Fera que lhe rasgava as entranhas, e pouco a pouco perce­beu que havia alguma coisa errada. Já a partir da segunda semana a poção deixara de ter o mesmo efeito no seu corpo. Passava mal, mas por nenhum motivo no mundo queria dizer isso a Theana. Se Lo­nerin estivesse lá, ele teria sem dúvida alguma percebido logo aquilo que estava acontecendo. Iria segurar seu braço, examiná-la, e ficaria com os olhos cheios daquela insuportável pena que, no fim das con­tas, havia sido o verdadeiro motivo que a levara a deixá-lo.

Theana, por sua vez, parecia viver num mundo todo dela. Eram duas estranhas que o acaso decidira chamar para partilhar a mesma aventura. E era por isso que Dubhe decidira apertar os dentes e fazer de conta que estava tudo bem. Não confiava nela, mas no fim teve de render-se. Os sintomas estavam piorando. Percebia que orugido da Fera crescia em seu peito, suas mãos começaram a tremer, os seus sonhos estavam cheios de chacinas e de sangue. Foi aí que decidiu falar:

-           Há um problema. — A própria voz pareceu-lhe rouca, irreco­nhecível.

Theana, sentada perto dela, ao lado da fogueira, devia ter per­cebido, pois fitou-a de forma estranha. De repente, só mesmo por um instante, Dubhe teve saudade do excessivo desvelo de Lonerin.

Explicou a situação de forma rápida e direta. Era a primeira vez que mostrava às claras a sua fraqueza, e era como contar um terrí­vel segredo a um desconhecido.

Theana olhou em volta, perdida, e Dubhe teve a impressão que ela não soubesse o que fazer.

-           Se ainda tivesse aqui as minhas coisas... - murmurou a maga. Então levantou-se. - Espere por mim - acrescentou, e desapareceu na mata fechada ali perto.

Voltou com umas ervas e alguns pequenos galhos que ia livran­do das folhas com as mãos.

-           Descubra o braço - disse.

Dubhe obedeceu. Sentia-se nua e indefesa, como sempre acon­tecia quando alguém a examinava.

Theana ficou avaliando por um bom tempo o símbolo, pas­sando os dedos por cima dele e entoando uma ladainha, baixinho. Em seguida mascou as ervas que havia trazido e espalhou-as no bra­ço marcado. Estava de olhos entreabertos e balançava a cabeça de­vagar, enquanto passava repetidamente os raminhos sobre o selo.

-           Está ficando acostumada com a poção - disse afinal, enquanto a limpava livrando-a delicadamente com os dedos da papa esver­deada.

Não era uma novidade para Dubhe. Já tinha acontecido quando ainda estava na Guilda. Com o passar do tempo, a poção que Rekla lhe dava também tinha perdido o efeito, e quando conseguira fugir passara a usar aquela que Lonerin preparava.

-           Achei que a poção de Lonerin tinha resolvido o problema...

Theana meneou a cabeça.

-           Esse aí é um selo. A poção, após algum tempo, torna-se cada vez menos eficaz. O corpo se acostuma e, uma vez que nenhum filtro consegue de fato vencer a maldição, a coisa está fadada a se re­petir.

Dubhe baixou a cabeça. Estava terrivelmente cansada de toda aquela história. Pensou em Dohor e no imenso desejo que agora tinha de tê-lo em suas mãos e matá-lo.

-           Mas eu posso ajudá-la.

Dubhe endireitou imediatamente os ombros.

-           Pratico artes mágicas há muito tempo esquecidas no Mundo Emerso. Acho que posso bloquear momentaneamente o seu selo com alguma coisa diferente de um filtro.

Dubhe ficou surpresa. Desde o começo da viagem, sempre acha­ra que Theana só lhe seria de alguma utilidade no ritual definitivo que iria livrá-la da maldição. Nunca lhe parecera uma mulher de ação, e tampouco dava a impressão de ser uma maga particularmen­te poderosa.

-           Eu posso conter os efeitos da magia, dos venenos e até de doenças que não sejam graves demais.

-           Pode fazer isto com a minha maldição?

Theana anuiu. Assumira uma expressão decidida, agora que estava falando de magia.

-           Além do mais, isto nos permitirá ocultar o poder do selo dos outros magos que apareçam no nosso caminho. Assim como você está agora, um mago pode perceber a sua presença devido à aura mágica na qual está envolvida.

-           E por que não me disse antes?

A voz de Dubhe não pôde evitar uma nota de sarcasmo, e Thea­na fechou-se imediatamente numa posição defensiva.

-           Há um preço a pagar. No começo, esta magia irá entorpecer os seus sentidos.

-           Como assim?

-           Ficará atordoada, confusa. Os seus músculos deixarão de reagir como de costume. É uma magia bastante poderosa; o seu corpo sairá dela enfraquecido, e por alguns dias você passará mal, sentir-se-á enjoada. Pouco a pouco, no entanto, ficará acostuma­da, até voltar a sentir-se normal.

Dubhe suspirou.

—        Se continuar a usar a poção, quanto tempo acha que ainda poderei aguentar?

—        Terá de diminuir cada vez mais os intervalos entre cada dose; pelo que me contou, agora precisa dela a cada cinco dias, ou até me­nos, e a situação só pode piorar.

—        E se, em vez disto, eu usar a magia?

—        Precisará renovar o rito a cada quinze dias, mas acho que po­derei aumentar os intervalos.

Dubhe ficou alguns momentos pensativa.

—        Está bem, faça o que achar necessário. - Acabou concordando. Afinal de contas não esperava encontrar inimigos. O sucesso da mis­são, desta vez, não dependia das suas capacidades de combate, mas sim nas de camuflagem. E, neste aspecto, a fraqueza física só podia vir a calhar.

-           Deixe-me ver o braço.

Dubhe levantara-o para mostrar o símbolo. As cores estavam mais vivas do que de costume, dava para sentir o calor que o dese­nho emanava, a pele em volta estava vermelha. Podia sentir a Fera que lentamente consumia a sua mente: uma tortura cotidiana que já estava cansada de suportar.

Theana segurava agora o mesmo ramo desfolhado que tinha usado para controlar as condições da maldição. Mergulhara-o nos tições quase apagados a fim de enegrecer a ponta, para então testar o seu calor com o dedo.

—        Vai demorar um pouco e vai doer - avisou.

Dubhe deu-se ao luxo de um sorriso sarcástico. O que podia saber, a outra, da dor? Uma jovem que nunca tinha sido ferida, que não trazia em si uma maldição tão terrível.

Theana aproximou-se, impassível. Dubhe ficou imaginando se não sentia alguma satisfação ao infligir-lhe aquele sofrimento.

—        Feche os olhos e procure concentrar-se em si mesma. Durante alguns instantes a maldição levará a melhor, mas você estará parali­sada e não poderá mexer-se. Não vai ser agradável.

O olhar da maga era extraordinariamente intenso, e Dubhe fi­cou surpresa. Aí fechou os olhos e preparou-se para o pior.

Theana recitou uma lenta ladainha, parecida com as orações que pronunciava na calada da noite, quando tinha certeza de que ninguém estava olhando. Então enrijeceu instintivamente os mús­culos do braço.

Depois de uns poucos minutos apoiou o canudo na pele e co­meçou a traçar sinais no corpo de Dubhe, pequenas runas esgalha­das e incompreensíveis que se imprimiam no braço graças à fuligem.

Agia leve e segura, de olhos fechados, seguindo linhas imaginá­rias de luz que, devido à magia, ficavam gravadas no fundo das suas pálpebras cerradas. Era assim que ela praticava a sua arte. Os corpos apareciam-lhe como uma série de linhas luminosas que transporta­vam fluxos energéticos e líquidos corpóreos. Era como levantar a pele do mundo para revelar seus segredos. Era o que o pai lhe ensi­nara, e era justamente este o poder que Thenaar outorgava aos seus verdadeiros sacerdotes.

Dubhe abriu um olho, curiosa. Não ouvia coisa alguma, a não ser aquela lenta salmodia que pouco a pouco a atordoava. Seu braço estava cheio de símbolos, e Theana traçava ainda mais. A cada novo sinal, Dubhe sentia o próprio corpo tornar-se mais fraco, enquanto a Fera parecia espernear, como que aborrecida. Seus músculos foram amolecendo, perdendo a sensibilidade, tanto que foi forçada a dei­tar-se. Theana acompanhou o movimento, para ajudá-la, mas não soltou por um só momento seu braço.

Depois levantou a ponta chamuscada do pequeno galho e respi­rou fundo. Dubhe estava deitada no chão, completamente inerte. Não estava acostumada a perder o controle, e esta nova condição a deixava preocupada. Seu peito começou a se levantar e baixar mais depressa.

-           Já estou acabando - murmurou Theana, mas a voz era distante.

Dubhe estava atordoada. Percebeu que a maga passava de novo o canudo enegrecido em cima das linhas já traçadas, murmurando sobre cada uma delas sons numa língua desconhecida. Mas que a Fera parecia conhecer muito bem.

Respondia a cada uma daquelas invocações afiando as garras, pronta a atacar. O desejo de morte rugiu prepotente, e Dubhe en­frentou-o com força, lembrando as imagens das chacinas que, devi­do à maldição, até então cometera: a matança dos soldados no bosque,a primeira vez que os sintomas do selo apareceram; e aí Rekla, o es­talo sinistro do seu pescoço que se partia; a morte de Filia. Mas foi tudo inútil. O horror daquelas lembranças esmaecia para deixar o lugar ao cheiro de sangue que em todas essas oportunidades ela per­cebera: um cheiro convidativo, que enchia suas narinas com reno­vada euforia.

Então sua mente explodiu, e seus ouvidos encheram-se do urro ensurdecedor da Fera. Seu corpo foi sacudido por tremores e con­vulsões, e por alguns instantes pareceu transfigurar-se, assumindo o aspecto de um monstro. Dubhe experimentou um terror puro, atávico. Soube com certeza que nunca mais conseguiria sair daquele abismo, que estava perdida, que bastaria uma única mordida para aniquilar, para sempre, qualquer resquício da sua consciência. Em­bora já vivesse com a maldição havia bastante tempo, só naquele momento compreendeu de verdade qual seria o fim que a aguarda­va, preparado para ela por Dohor e Yeshol.

Theana permaneceu impassível, não arredou pé e não se deixou amedrontar por aquele corpo que estremecia entregue a uma vio­lência selvagem, e tampouco ficou impressionada com a sua trans­figuração.

Foi isto que você amou, Lonerin? Esta Fera, esta obscura maldição? Mas logo sentiu vergonha deste pensamento mesquinho. Precisava manter-se concentrada, aquele era um feitiço muito poderoso, e a situação podia desandar a qualquer momento. Fechou os olhos e pronunciou a última palavra para concluir o rito. As runas que ha­via traçado sumiram na mesma hora do braço, e o símbolo do selo desbotou rapidamente.

Dubhe sentiu a Fera desaparecer, como que rechaçada para o fundo da mente, enquanto ela voltava a tomar posse do próprio cor­po, pesado e dolorido. Respirou fundo e se dobrou de lado, tossin­do. Era mais uma vez ela mesma.

Theana continuou imóvel, também muito cansada. Observava Dubhe, que tentava sentar. Perguntou a si mesma por que resolvera ajudá-la, procurou a determinação que a levara até ali, sem encontrá- la. Enxugou o suor da fronte e recolheu-se num canto, para a noite.

Dubhe jamais poderia imaginar que o rito a deixaria tão esgotada. Não era apenas o corpo a funcionar mal, mas a mente também. Se até então havia sido ela a liderar a missão, impondo tempos e modos da viagem, agora estava tão fraca e confusa que teve de confiar com­pletamente em Theana.

-           Você não disse que a minha capacidade de raciocínio também ficaria afetada - chegou a desabafar, com raiva.

Theana assumiu então uma expressão culpada.

-           Os efeitos do encantamento podem mudar de uma pessoa para outra, e também depende do selo...

Para Dubhe, de nada adiantavam aquelas patéticas desculpas. O que realmente a preocupava era o fato de não poder dispor ple­namente das suas faculdades mentais.

E com toda a razão, pois quando Theana quis parar naquela al­deia fronteiriça ela não soube dizer não. Numa outra ocasião teria agido de forma diferente. Sabia muito bem que duas mulheres nun­ca deveriam passar por um lugar que acabava de ser saqueado. Era tudo que os mercenários queriam. Mas faltara-lhe a lucidez para tomar uma atitude, justamente como quando o soldado a surpreen­deu atrás do muro e a capturou.

 

O EXÉRCITO  DE DOHOR

Dubhe ouviu o ruído estrídulo de armas se chocando, vozes que riam e uivavam.

Sua cabeça doía, mas não era somente devido à pancada que recebera. Ainda estava confusa, e levou algum tempo antes de en­tender onde estava e o que havia acontecido.

Um lado do seu rosto estava espremido contra uma camada de palha bolorenta e diante de si via um par de pés amarrados com uma corda.

Sacudiu a cabeça tentando aclarar as ideias. Lembrava-se muito bem da causa daquele entorpecimento. O símbolo no braço pulsa­va bem devagar, quase apagado.

Maldição...

-           Você está bem?

A voz, estrídula e preocupada, foi acompanhada quase imedia­tamente pela aparição de um rosto no seu campo de visão. Levou algum tempo para reconhecê-lo. Era Theana, camuflada com o dis­farce que as duas haviam posto em prática alguns dias antes. Esta lembrança puxou outras, devagar, como as contas de um colar.

Dubhe anuiu exausta.

-           Ajude-me a ficar de pé.

Theana arrastou-se até ela e segurou-a pelo braço com as mãos. Só então Dubhe percebeu que estavam ambas de mãos atadas atrás das costas.

Conseguiu ficar sentada, com algum esforço. Theana, diante dela, estava pálida e desgrenhada. Fitava-a à espera de alguma coisa. Dubhe olhou em volta. Encontravam-se num carro com a plata­forma coberta por uma camada de palha úmida e cercada por uma armação que formava uma espécie de gaiola. Só havia elas duas, lá dentro, além de um bom número de caixas amontoadas num canto.

Tentou virar a cabeça, lutando contra o enjoo que lhe revirava o estômago. Soldados por todo lado. Pouco a pouco a situação tor­nou-se clara na sua cabeça.

—        Ficou inconsciente por muito tempo. Tentei rebelar-me, mas não havia muita coisa que eu pudesse fazer; aí, também perdi os sentidos. Quando me recobrei, estava presa aqui. Procurei de todo jeito soltar as mãos, até me machuquei...

Theana falava rápido, aflita, e não parava de olhar nervosamente para todos os lados.

—        Silêncio — disse Dubhe.

Estavam bem no meio de um acampamento. Havia uma dúzia de barracas brancas, em condições bastante lastimáveis, e um pavi­lhão maior não muito longe do carro onde estavam sendo mantidas prisioneiras. Alguns soldados circulavam sem uma meta precisa, en­quanto outros ficavam sentados na entrada das suas tendas. Dubhe olhou para as insígnias e nem teve de recorrer à sua desastrada me­mória. Eram as tropas de Dohor.

—        Quando aconteceu? - perguntou.

—        Ontem à tarde.

Dubhe observou o céu. O sol já estava perto do horizonte. De­via ter recebido uma pancada e tanto. Tentou mexer os braços à cata do punhal, mas percebeu que estava atada tão bem que a coisa re­sultava praticamente impossível. Apalpou os músculos. Ainda não recobrara completamente as forças, mas talvez a agilidade já bastasse. Fez um único movimento fluido com os ombros, levando ao mes­mo tempo os joelhos ao peito, e conseguiu passar as mãos sob as pernas. Seus braços estavam agora na frente.

Theana ficou pasma.

—        Como conseguiu?

—        Muito treino — disse Dubhe, lacônica. — Com um homem da Guilda, além do mais - acrescentou baixinho, olhando à sua vol­ta. Mais uma vez tinha de agradecer a Sherva, o Monitor da Guilda, que lhe havia ensinado a tornar o corpo ágil e flexível.

A mão correu rápida para o bolso. O punhal ainda estava lá.

—        Revistaram-nos? - perguntou.

Theana meneou a cabeça.

-           Não sei, também fiquei inconsciente, como já disse... - Estava ofegante, dava para ver que morria de medo.

Dubhe, com efeito, viu-a de repente encostar os lábios trêmulos nos seus ouvidos.

-           Precisamos fugir logo daqui - murmurou de olhos arregala­dos, em pânico.

-           Fique calma, talvez não seja a melhor coisa a fazer.

-           Ficou doida? E a missão?

Dubhe colocou rapidamente a mão na sua boca.

-           Calada! - intimou. - A nossa missão já começou, procure por­tanto não revelar coisa alguma acerca de quem somos e do que esta­mos fazendo. — A sua voz era um sussurro. — Somos duas camponesas, Sane e Leia, e morávamos naquela aldeia, claro? Safamo-nos da pre­cedente incursão ficando escondidas num estábulo, e saímos de lá quando achávamos que tudo tinha acabado. Está me entendendo?

Theana anuiu.

Naquele momento a porta do carro se abriu.

-           Desçam daí, vocês duas, rápido!

Eram dois soldados: um jovem e magro, o outro mais velho e musculoso. A voz do mais idoso bastou para Theana começar a tre­mer apavorada. Dubhe não procurou animá-la: aquele terror era coerente com o disfarce delas. Por isso mesmo mostrou-se igual­mente assustada, enquanto o soldado que abrira a porta segurava-a pelo braço. A encenação foi bem-sucedida, ainda mais porque estava fraca e atordoada. Cambaleou, deixou-se cair nos braços do homem.

-           Tentou fugir, não foi? - disse o sujeito, reparando nas mãos dela. Dubhe não respondeu, procurando assumir a expressão mais perdida e pesarosa do mundo. Não pensara naquilo, tudo aconte­cera depressa demais. Não costumava cometer erros daquele tipo, e olhou para a companheira amedrontada.

O soldado meteu-se entre as duas, fitando-a fixamente. Sacou a espada e, com a mão livre, apertou seu rosto até machucá-la.

-           Se tentar de novo, está morta - disse com maldade. A lâmina da espada acariciava seu pescoço fino, e Dubhe sabia que ele não es­tava brincando.

Ao ver aquilo, Theana gritou, e o outro soldado que a mantinha presa subjugou-a com força.

-           Quieta! - disse, como que domando um animal. - Se não quiser que a gente tome uma atitude mais séria.

Depois de se entreolharem, os homens empurraram-nas então por um caminho esburacado que cortava a mata cerrada e cheia de vegetação rasteira. Dubhe aproveitou para dar uma olhada em vol­ta. O panorama pareceu-lhe imediatamente familiar. O ar tinha perdido o cheiro característico que até então tivera: o perfume pe­netrante de iodo e maresia, típico da Terra do Mar, tinha deixado o lugar para o odor de grama e de musgo. Não havia nada de par­ticular no pequeno bosque que estavam atravessando, mas ainda assim Dubhe sabia perfeitamente onde se encontravam. Estavam na Terra do Sol, a sua terra. A fronteira não ficava longe, e eram le­vadas para onde Dohor reinava. Era bastante estranho pensar numa coisa dessas, mas ela estava voltando para casa.

O breve translado concluiu-se às margens de um riacho. Dubhe ficou sem fôlego. Conhecia o lugar, e não conseguiu esconder a sua perturbação.

Os dois homens fizeram com que se ajoelhassem perto da água. Dubhe podia ouvir a respiração ofegante de Theana, completamente apavorada. Viu que estava chorando, e teve de controlar-se para não a consolar.

Suas mãos ainda estavam um tanto insensíveis, mas deslocou-as mesmo assim para perto do punhal no caso de a situação piorar.

-           Lavem o rosto e tomem um gole. Sujas e desgrenhadas desse jeito, ninguém vai querer comprá-las.

Dubhe já ia obedecer quando o soldado agarrou-a pelos cabelos torcendo-lhe a cabeça.

-           Mas nada de brincadeiras, está me entendendo?

Sorria feroz, e ela deixou escorrer uma lágrima. O homem re­laxou levemente o aperto, mas obrigou-a a mergulhar a cabeça na água.

O impacto com a água, com a agradável e fria correnteza que lhe acariciava a pele, fez com que se reanimasse. Era sempre assim, quando mergulhava na água, um antigo ritual que costumava cum­prir toda vez que concluía um trabalho. Agora ajudou-a a tornar mais claras as ideias. Foi como se a névoa que pesava em sua cabeçadesde o encantamento de Theana fosse lentamente desaparecendo. Até mesmo seu corpo recobrou uma parte do costumeiro vigor.

Tomou quanto mais água possível. Sua garganta estava seca. Aproveitou para molhar e limpar a nuca, onde havia um corte que ainda ardia.

Então o soldado puxou com força sua cabeça fora da água.

—        Já chega, vamos embora! — disse empurrando-a para longe.

Theana a viu afastar-se da margem do riacho. Por que as esta­vam separando? Se levassem Dubhe, para ela estaria tudo acabado.

—        Não! — gritou virando-se para a companheira. — Não nos se­parem!

Dubhe percebeu que dali a pouco a outra iria chamá-la pelo seu verdadeiro nome. Estava abalada demais para se lembrar do engano que levavam adiante. De forma que ela também berrou, desvenci­lhando-se para dar credibilidade à cena.

—        Leia, Leia!

Como já esperava, o golpe chegou certeiro bem no meio das costas, deixando-a sem fôlego. Caiu ao chão, mal conseguindo esti­car as mãos para não se espatifar de cara no tapete de folhas secas.

—        Parem com esta gritaria! Não temos a menor intenção de se­pará-las - ralhou o soldado que estava com ela.

Dubhe levantou levemente a cabeça. Estava toda dolorida, mas procurou manter-se plenamente consciente. Olhou para Theana e tentou comunicar-lhe, com aquele único e rápido olhar, tudo aquilo que pensava. Nunca iria deixá-la sozinha. A incolumidade de ambas era a prioridade básica da missão.

Theana pareceu acalmar-se e parou de oferecer resistência.

—        Vamos lá - disse o soldado mais velho ao companheiro, en­quanto puxava Dubhe de pé. - Segure logo a sua. Estas duas só sa­bem resmungar, e não estou a fim de ouvi-las gralhar pelo resto do caminho.

O outro bufou e empurrou de mau jeito Theana. Dubhe esforçou-se para avançar sem cair, cambaleando, sem poupar toda uma série de soluços e lamúrias.

—        Chega de choradeiras! Ainda bem que daqui a, no máximo, dois dias vamos chegar e vocês deixarão de ser problema nosso — disse o soldado.

-           Para onde estão nos levando? - murmurou Dubhe.

O homem deu uma risadinha.

-           Onde poderemos finalmente transformá-las num punhado de lindas moedas de ouro: ao mercado dos escravos de Selva.

Na tigela havia uma espécie de comida líquida na qual boiavam dois pedaços secos de pão preto. Theana suplicou em vão que lhe desa­tassem as mãos: como resposta, a tropa inteira riu na cara dela.

-           Vamos lá, coma - disse uma voz.

A tigela estava diante dela, mas Theana recusou-se a arrastar-se no chão e comer como um animal na pocilga. Sentiu as lágrimas que lhe enchiam os olhos de humilhação, enquanto Dubhe limita­va-se a olhar em silêncio para ela. Então ficou de quatro e alcançou a tigela. Curvou-se e meteu a cara na sopa, começando a comer.

-           Estou vendo que aprendem depressa! - comentou o soldado, entre mais risadas e gritos dos companheiros. Incrédula e assustada, Theana não teve outro jeito a não ser imitá-la.

Quando a tropa já se divertira bastante, ambas foram levadas de volta à gaiola, no carro. O sol já havia desaparecido atrás do horizon­te e estava ficando escuro. Ataram mãos e pés das mulheres com uma única corrente de ferro, presa às barras com um pesado ferrolho, mais uma vez com os braços nas costas.

-           Bons sonhos - disse o soldado mais velho, em tom de troça.

Aí a porta fechou-se e ficaram novamente sozinhas.

Não trocaram uma palavra sequer. Ambas sabiam que estavam acordadas, mas ficaram um bom tempo sem conversar. Dubhe só pensava no lugar para onde estavam indo. O mercado de escravos. Selva.

Era a sua aldeia natal, onde tudo começara. Sabia muito bem que a mãe já não vivia lá: vira-a gerenciar uma loja de tecidos junto com um homem que não era seu pai, em Makrat. Mas ainda havia muitas pessoas que a conheciam no vilarejo: a sua melhor amiga, Pat, e também Mathon, o seu primeiro amor, além dos pais de Gornar. Nenhum deles poderia reconhecê-la, não só porque estava ca­muflada, mas também porque já fazia quase dez anos que partirada aldeia. Nada sobrara daquela Dubhe endiabrada que brincava com a garotada nos bosques por perto. Mas a culpa, no entanto, continuava gravada na sua pele. Selva, afinal de contas, havia deci­dido expulsá-la.

Não conseguia dormir. A certa altura percebeu que Theana se arrastava na palha e se prostrava encostando a testa no chão. Rezava, como de costume, e as suas palavras eram acompanhadas por leves gemidos, quase imperceptíveis.

Dubhe ficou ouvindo, tentando entender o sentido daquela la­dainha. Entre as tantas palavras, uma só foi suficiente para fazê-la levantar com um pulo: Thenaar. Sussurrada com devoção, cheia de esperança e de fé. Os seus sentidos ficaram aguçados. Theana esta­va invocando Thenaar.

Num piscar de olhos caiu em cima dela, levando mais uma vez os braços adiante depois de passá-los por baixo dos joelhos. Num único movimento contínuo empurrou a cabeça da maga contra a grade e, com a corrente, apertou seu pescoço. Theana soltou um lamento esganiçado.

-           O que foi que disse? - A voz de Dubhe estava carregada de ódio.

A expressão de Theana era de puro terror, ela abria inutilmente

a boca à cata de ar. Dubhe soltou a presa de leve, só para deixá-la respirar.

-           Murmurou um nome, agora há pouco, enquanto estava re­zando. Disse Thenaar.

A surpresa pareceu sumir dos olhos de Theana, mas não o pavor.

-           Solte-me.

-           Só depois de você se explicar.

Dubhe estava cheia de dúvidas. Seria possível que Theana fosse uma espiã da Guilda? Era então por isso que decidira acompanhá- la na missão, para levá-la de volta à Casa? Era uma traidora?

-           É o meu deus - disse ela com uma espécie de orgulho.

Dubhe apertou a corrente em volta do seu pescoço, cortando-

lhe a respiração.

-           Traidora - sibilou e apertou mais ainda. Theana mal conse­guiu menear a cabeça. Os olhos esbugalhados. Resmungava alguma coisa enquanto seus lábios ficavam roxos.

As lembranças da permanência na seita, o horror daquilo que a Guilda lhe infligira, misturavam-se na mente de Dubhe cegan­do-a. Mesmo assim, lentamente, relaxou o aperto. Era absurdo que uma espiã da Guilda se traísse de forma tão óbvia. Theana não po­dia não saber que ela estava acordada. Por que então pronunciar o nome de Thenaar se arriscando daquele jeito?

-           Tente ser convincente - murmurou ameaçadora.

Theana tossiu afundando a cara na palha, mas Dubhe puxou-a

para cima.

-           Thenaar é uma antiga divindade élfica, Shevrar.

-           Isto eu já sei.

A jovem maga procurou recuperar o fôlego antes de continuar:

-           Com o passar do tempo o nome foi distorcido, assim como o seu culto. Pouco a pouco a antiga crença em Shevrar ficou irre­conhecível, e alguns hereges transformaram-na num culto sangui­nário. Matam para glorificar o deus, só vendo nele a parte obscura e destrutiva, e esquecendo que Thenaar também é um deus que cria, que ama.

-           Não estou interessada na teoria. Só quero saber quem você é e o que quer.

Theana arregalou os olhos, dando-se conta do equívoco.

-           Está pensando que sou um deles? Que vim com você para entregá-la, porque eu também sigo aquele culto absurdo? - De re­pente tornara-se séria, quase zangada. - É igualzinha àqueles que mataram meu pai - disse com raiva, entre os dentes.

Dubhe não entendia.

-           Do que está falando?

-           Ora, é claro, você nada sabe de magia, e portanto não repa­rou que as minhas práticas não são como as outras. Eu sou uma sacerdotisa do verdadeiro Thenaar. Meu pai fazia parte da ordem, e era o último remanescente a oficiar o culto. A Guilda considera­va-o um estorvo, uma sobra do passado que era preciso eliminar, e por isso nunca deixou de persegui-lo. Ele pregava o amor, a grandeza de Thenaar, a sua essência de deus da criação e da mudança. E, prin­cipalmente, declarava sem meias palavras que o da Guilda era um culto herético, um terrível desvio da verdadeira fé.

Dubhe ouviu tudo, sem na verdade entender.

-           Foi com o poder de Thenaar que contive a sua maldição. Eu pratico uma magia misturada com os ritos sacerdotais do deus: foi o meu pai que me ensinou.

-           Está querendo dizer que o culto de Thenaar não é só aquele da Guilda?

Theana sacudiu a cabeça.

-           O deles é uma perversão da verdadeira fé. Afinal de contas você sabe muito bem que Nihal era a Consagrada de Shevrar, e quem salvou este mundo foi ela.

Dubhe apoiou as costas nas barras. Achava tudo aquilo absur­do. Os homens matavam-se entre si para impor a sua interpretação da vontade de um deus.

-           Isto não impede que toda noite você reze a Thenaar bem diante dos meus olhos... os olhos de alguém que foi destruído pela Guilda - disse afinal.

-           Falou a coisa certa, foi a Guilda. Thenaar nada tem a ver com a seita dos Assassinos. A crença em Thenaar é outra coisa.

Dubhe olhou para ela com sarcasmo.

-           Então você está aqui para botar as coisas no devido lugar, não é isso? Para provar a veracidade da sua fé contra a da Guilda.

Theana não conseguia entender aonde a outra queria chegar.

-           Eu... eu não sei. Só me limito a usar aquilo que meu pai me ensinou.

-           Pois é... — Dubhe olhou para cima, com um sorriso maroto.

-           Está rindo de quê?

-           Acho engraçado. Aqui estou eu, às voltas com mais uma faná­tica daquele deus absurdo.

Theana amuou-se, melindrada.

-           Eu não sou uma fanática. Não me confunda com quem trans­formou uma fé autêntica e pura num culto de morte.

-           Mas quando você reza é como eles - insistiu Dubhe, im­piedosa. - Ficam repetindo aquela ladainha até ela perder qualquer sentido.

Theana fitou-a gélida.

-           A minha oração não é como a da Guilda. Você que os viu de­veria saber melhor.

Dubhe espiou fora da gaiola, para a noite profunda e escura.

-           O que eu sei é que essa sua crença me trouxe aqui e botou no meu peito um monstro cujo horror supera até a sua imaginação. Na pior das hipóteses, a fé leva a isto e à morte, e na melhor só serve de mero consolo para os fracos.

-           Esse é só o aspecto dela que você viu na Casa - replicou Thea­na. - Há uma fé que nada tem a ver com a morte, e que tem muito a ver com a vida. Guiou a mim e o meu pai nos anos do exílio, e deu-me estas mãos com as quais selei a sua maldição.

Dubhe fingiu não ouvir.

-           Eu só sei que os sacerdotes enchem a boca com suas mentiras, dizendo que encontraram o significado, o sentido do mundo. Mas só continuo vendo pessoas que morrem. A vida, como eu a conhe­ço, não passa de um caos.

Theana encarou-a com firmeza, mas não demonstrou revolta nem indignação.

-           É porque você ainda não encontrou o seu caminho.

Dubhe sentiu uma vaga irritação remexer no seu estômago.

-           E você encontrou?

Theana hesitou.

-           Não, mas sei que existe.

Um pesado silêncio seguiu-se a estas palavras. Dubhe voltou a olhar para o céu estrelado. Uma miríade de pequenas luzes frias assistia impassível, noite após noite, ao lento escorrer da vida na Terra. Como se nada de feio pudesse ameaçar o seu esplendor.

-           Quando vamos fugir? - perguntou Theana, de repente.

-           Não vamos. Estamos nos dirigindo para o coração da Terra do Sol, a direção certa. Daqui a três dias chegaremos a Selva, e então tomaremos o nosso próprio caminho. Até lá, não vejo nada de erra­do em viajarmos de carro, em lugar de seguirmos a pé.

-           Eu sei, mas...

-           Não temos nada a recear - acrescentou Dubhe com seguran­ça. — Estou recobrando as minhas forças. Não vou deixar que algo de mal nos aconteça.

Theana desviou o olhar, preocupada e incerta.

-           Obrigada por antes — disse com sinceridade. — Entendi o que fez, seja no riacho, seja depois, e... - Baixou a cabeça, evidentemente incapaz de continuar.

Dubhe sentiu-se igualmente incapaz de responder: aquela clara admissão de fraqueza pegara-a de surpresa.

-           Não fiz aquilo somente por você.

-           Mas foi por mim que levou a pancada.

Dubhe não soube rebater.

-           Nunca mais irá acontecer - acrescentou Theana. - Não que­ro ser um estorvo para você.

Foi a vez de Dubhe desviar o olhar. Não achava que as coisas pudessem mudar entre elas, mas apreciava aquele impulso de sin­ceridade.

-           Não pense nisto, e procure dormir - disse apenas. - Acho me­lhor descansarmos. - Em seguida se ajeitou da melhor forma possí­vel na palha e deitou-se. Logo a seguir ouviu Theana fazer o mesmo.

 

Rumo ao Abísmo

Ido e San avançavam lentamente. Ou, pelo menos, esta era a im­pressão de San, desde que haviam adentrado o Mundo Submerso.

A viagem tinha começado sob os melhores auspícios. A ideia de ir visitar um lugar mítico como o Mundo Submerso, a excitação de uma nova aventura ao lado daquela lenda viva que era Ido, tudo contribuíra para deixar San animado. Depois da vida sem graça que por algum tempo tinha levado junto ao Conselho das Aguas, onde era constantemente vigiado e protegido por um soldado, o garoto partira acreditando piamente que algo grandioso esperava por ele. Era disto que ele necessitava, pois parar, descansar, significava en­frentar o tumulto que o agitava por dentro.

Precisava aturdir-se, tinha de ocupar-se tão intensamente até não pensar em mais nada. Muita coisa havia acontecido nos últimos meses, e a sua vida fora completamente transtornada. Primeiro a irrupção da Guilda na sua casa, com o assassinato dos seus pais; de­pois o sequestro do qual tinha sido resgatado por Ido; e finalmente a descoberta do enorme poder que possuía e de cuja existência até então nunca desconfiara. Era como se, no próprio instante em que Sherva e o companheiro derrubaram a porta da sua casa, a realidade tivesse sido suspensa, e tudo houvesse assumido a incerta consistên­cia de um sonho ou de um pesadelo.

A Guilda procurava-o a fim de usar seu corpo como algum tipo de receptáculo para a alma de Aster e, se porventura o plano fosse bem-sucedido, isto significaria um novo inferno, como aquele que a sua avó Nihal tivera de enfrentar mais de quarenta anos antes. Até mesmo a magia, que percebia vibrar poderosa dentro de si, era uma descoberta perturbadora. Sentia-se só, mais só do que já se sen­tira antes na vida.

Ido era o único ponto de referência, a única certeza. Era a se­gurança e a salvação. Sabia das coisas, e era o único capaz de indicar- lhe o caminho. Observava suas costas rijas apesar de já estar velho. Gostaria de ser como ele, algum dia. Em volta só havia escuridão e confusão, mas com Ido, no dragão que os levava ao Mundo Submer­so, existia luz.

Quando montara no dragão, San ficara de queixo caído: a bele­za da paisagem abaixo deles, o vento que empurrava seus cabelos para trás e gelava suas faces, os cheiros e as cores da primavera que ia chegando.

Mas o seu desejo de novidades e aventura só foi realizado quan­do já podiam ver o oceano. Ele nunca vira o mar antes. A sua família jamais tinha saído do morno abrigo da Terra do Vento, e ele tivera de contentar-se com leituras acerca de longos rios e extensões de água sem fim. Agora tinha tudo aquilo bem diante dos olhos, e o oceano era imenso, desmedido e mutável.

Na primeira manhã que o viu, nas bordas do horizonte, era ape­nas um fino risco reluzente nos confins do céu. Ao meio-dia já se transformara numa escura chapa cinzenta, dominada por grandes nuvens negras carregadas de chuva. Ao entardecer, quando os Reci­fes Esconsos estavam à vista, tornara-se uma paleta de infinitas tonalidades de azul.

Ido fez pousar o dragão em cima do penhasco. Havia ventania e, de tão forte, o cheiro de maresia quase inebriava. A coisa mais im­pressionante, contudo, era o estrondo das ondas.

San pulou impulsivamente do dragão, tão afoito que Ido teve de segurá-lo pelo cangote.

-           Calma, garoto! - Diante da sua expressão impaciente, sorriu. Apontou para o precipício não muito longe dali. - Faz ideia da altura do penhasco?

San olhou para o pequeno platô rochoso que acabava abrupta­mente à beira do abismo e sacudiu a cabeça.

-           Quase mil braças - disse Ido. De repente a boca do rapaz pa­receu ficar seca. - Razão pela qual, se quiser dar uma olhada, fique à vontade, mas tome cuidado - aconselhou antes de soltá-lo.

O garoto aproximou-se da beira, cauteloso. O estrondo que vinha lá de baixo era ensurdecedor, até mais redondo e fragorosoque o da cachoeira de Laodameia sobre a qual se erguia o palácio real, e que já o deixara profundamente impressionado.

Ao chegar à margem do precipício, observou por um rápido instante o céu e o mar, e sentiu um aperto no coração. Perguntou a si mesmo se poderia realmente haver alguma coisa lá ao longe e se alguém já teria cruzado até o fim aquela extensão. Talvez aquele azul nunca acabasse, talvez o céu e o mar continuassem a espelhar- se um no outro para sempre, sem nunca juntar-se. Era alguma coisa grande demais até para ser simplesmente pensada, era o infinito, e ele sentia-se esmagado.

Então teve a coragem de olhar para baixo, a menos de um pal­mo diante dos seus pés. Lá no fundo, a uma distância que lhe pa­receu incalculável, as ondas arrebentavam entre gigantescos borrifos. O mar, até ali azul, primeiro tornava-se quase preto, e aí transformava-se em espuma branca. A água parecia agredir a rocha, tentando subir por ela, como se fosse um animal selvagem querendo sair do abismo.

-           Impressionante, não acha?

Era Ido, e olhava para baixo como ele.

San fitou-o, achando que devia estar pensando nas mesmas coi­sas. Tinha certeza de que aquele vazio também devia ter um signi­ficado especial para o gnomo.

Somos iguais, nós dois, porque ambos estamos sozinhos.

Naquela noite San não dormiu. Ele e Ido tinham encontrado hospe­dagem na casa de um pescador que morava à beira do precipício. Era um homem taciturno, de pele escura e ressecada como couro curtido. San tinha ouvido falar bastante da hospitalidade dos ho­mens da Terra do Mar e sempre os imaginara de cabelos ruivos e bonachões. Senar não possuía esta aparência, no entanto, e aquele pescador também não tinha absolutamente nada de hospitaleiro.

Ofereceu-lhes uma sopa quente e logo a seguir despediu-se, su­mindo em seus aposentos.

San dormia numa cama, Ido num estrado no chão. O rapaz po­dia ouvi-lo roncar de leve. Mas o que chamava a sua atenção era outra coisa. Era mais uma vez o rumorejar das ondas, incansável. Era umestrondo que no silêncio absoluto da casa se tornava quase ensur­decedor. Pensou que, se os sentimentos tivessem um som, o do seu sofrimento seria como aquele estrondo, e igualmente ensurdecedor.

O dragão azul afastou-se no ar limpo da manhã junto com o cava­leiro que os acompanhara.

-           E agora? - perguntou San apertando a capa em volta do cor­po. Fazia frio e principalmente ventava muito.

-           Não perde por esperar - respondeu Ido, enigmático. Em se­guida observou o mar. - Eles vêm nos buscar. E nós vamos en- contrá-los.

Desceram até a praia por um caminho tão estreito e íngreme que, de cima, era completamente invisível. Era uma espécie de esca­daria, uma senda tortuosa cavada na pedra, que descia pela encosta até os recifes agredidos pelas ondas. Acabava numa pequena ensea­da que mal dava para permitir a entrada de um barco de tamanho médio.

Depois de chegarem ao nível do mar, ficaram um bom tempo esperando. O vento fazia esvoaçar as capas, enquanto o sol levava adiante a sua costumeira parábola no céu. Então, finalmente, viram- nos chegar.

San tinha lido alguma coisa a respeito deles nas Crônicas do Mun­do Emerso: os homens pálidos que viviam nas profundezas do mar, os eleitos que haviam abandonado o Mundo Emerso porque esta­vam cansados das guerras, e que tinham realizado a sua utopia sob as ondas marinhas.

Vê-los ao vivo era tão emocionante quanto estranho. Em sua maioria, eram magros, com pele cândida e olhos claros, perdidos num olhar de gelo. Todos eles tinham longas cabeleiras brancas, como fantasmas, e os seus movimentos eram tão elegantes e lentos que quase pareciam ainda estar se movendo embaixo da água.

O barco do qual desembarcavam dava a mesma impressão: ágil, com amplas velas azuladas e proa pontuda, como se pudesse voar acima do mar.

Quando chegaram perto, ajoelharam-se diante de Ido e cumpri­mentaram San com um simples mas respeitoso sinal de cabeça.

-           O rei Tiro envia as suas saudações; estamos aqui a mando da condessa - disse aquele que parecia ser o chefe.

Ido retribuiu com a mesma simples mas mui digna saudação.

-           Quanto tempo levará a viagem? - perguntou enquanto pulava a bordo.

-           Duas semanas de navegação e mais três para chegarmos ao contado.

Nos primeiros dias San ficou muito excitado com a ideia de atraves­sar o mar. Passava muito tempo no convés, observando as mudan­ças de luz. Cada hora tinha a sua cor e, conforme a altura do sol acima do horizonte, até a água parecia mudar de aparência. À noite ficava olhando para as estrelas. Na solidão noturna o seu humor tor­nava-se contemplativo, e a ferida da morte dos pais voltava a doer. Dava então meia-volta e abrigava-se no seu camarote.

—        Fale-me da minha avó — dizia a Ido, que quase sempre o con­tentava, relembrando anedotas e lendas. Apesar de já conhecê-las de cor, ouvi-las de viva voz de quem as vivera produzia nele um efei­to totalmente diferente. Pouco a pouco a dor desaparecia, e tudo pa­recia dispersar-se para ficar guardado em algum lugar longínquo. Era por isso que gostava de ficar com o gnomo. Porque ele o en­tendia.

No meio da viagem, no entanto, a expressão de San tornou-se sombria. Ficar confinado num ambiente tão apertado deixava-o ner­voso. Não conseguia fugir de si mesmo, lá em cima, e o tédio sem­pre acabava trazendo consigo todo o seu séquito de fantasmas.

Foi por esta razão que começou a se entreter com a magia. Em geral evocações de lampejos de luz e pequenas chamas. Coisas, de qualquer maneira, que se o pai ainda estivesse vivo nunca se atreveria a fazer. Agora, no entanto, o bem e o mal, o certo e o errado, pare­ciam se confundir. Já duas vezes, na precedente viagem com Ido, tinha salvado a vida de ambos com a ajuda do seu dom. Por que não se exercitar, então? Para um garoto da sua idade, ter um poder como aquele podia ser extremamente fascinante e divertido. Tinha até con­seguido derrubar um dragão. Mas quanto a mostrar as suas capacida­des em público nem passava pela sua cabeça. Ficava com vergonha e, embora soubesse que Ido estava a par destas diversões, preferia esperar que ele saísse de perto ou fosse descansar.

—        No Mundo Submerso também existe a magia, já lhe contei? Exatamente como no nosso - disse certa tarde o gnomo, enquanto fumava o cachimbo saboreando com calma cada baforada.

San mostrou-se indiferente.

—        Poderia treinar seriamente, enquanto estivermos lá embaixo.

Um longo silêncio foi a única resposta.

—        Já levou em consideração a minha sugestão de você tornar- se um mago?

—        Mais ou menos — respondeu o garoto, dando de ombros.

—        Não quero apressá-lo, e não me leve a mal, mas acho que se divertiria muito mais do que fazendo essas brincadeiras de princi­piante antes de ir para a cama - replicou o gnomo, dando-lhe uma olhada de soslaio, com ar maroto.

Pois é, San estava certo. Ido o conhecia realmente muito bem.

No fim da segunda semana chegaram finalmente à ilha. Não havia uma casa sequer, somente árvores bastante estranhas e flores multi-coloridas que San nunca tinha visto antes.

—        Senar desceu ao Mundo Submerso através da Voragem. Dá para passar por lá, mas é um caminho muito perigoso, e nunca a usa­mos, a não ser em casos de extrema necessidade. Foi o primeiro aces­so que construímos, quando pensávamos que nunca mais iríamos voltar ao Mundo de Cima. Em seguida construímos outros, mais seguros — explicou o guia. Considerando que era um habitante de Zalênia, era até balofo e gorducho demais; barrigudinho e de meia- idade, parecia guardar da sua raça somente os olhos extremamente claros e os cabelos níveos. Fânia era o seu nome.

Ouvir pronunciar o nome do seu avô e mencionar aquela lon­gínqua aventura, que para ele tinha matizes quase mitológicos, pro­duzia um estranho efeito em San. Conhecia a missão de Senar de cor e salteado: Aires, a mulher pirata que com o navio do pai o acom­panhara por mais da metade da viagem, a tempestade, o monstroe, finalmente, a Voragem. Nunca lhe passara pela cabeça que iria re­petir a mesma viagem.

Não gostou nem um pouco quando percebeu que se tratava de uma galeria que parecia mergulhar no subsolo de um lado da ilha.

-           É por aqui? - perguntou indeciso.

-           Depois de vocês - responderam os homens que os escolta­vam. — Lá embaixo vamos encontrar os cavalos para a viagem.

Por algum tempo foram descendo nas entranhas da terra, mas então, de repente, as paredes de rocha da passagem juntaram-se com as de um túnel de vidro.

-           Bem-vindos ao Mundo Submerso - disse o guia.

San olhou em volta. Estavam dentro do mar, quanto a isto não havia dúvidas. A umas dez braças abaixo dos seus pés, rocha e algas. À sua volta, um azul absoluto e denso, no qual apareciam vez por outra peixes das formas mais variadas. Lá em cima, ao longe, o re­flexo do sol.

Ficou de queixo caído. Nunca poderia pensar que o Mundo Submerso fosse um lugar tão fabuloso.

O tempo pareceu prolongar-se. O túnel desembocou numa imensa ampola, uma das muitas que formavam aquele mundo. San ficou profundamente impressionado: aquela enorme construção de vidro continha um vilarejo inteiro, com suas casas, os seus campos culti­vados e os seus espectrais habitantes. A primeira ampola seguiu-se outra, e depois mais outras. A viagem transformou-se numa monó­tona alternância de lugares mais ou menos iguais.

O território era dividido em condados, e quando a comitiva su­perava uma fronteira perdiam pelo menos um dia até os guardas receberem as autorizações necessárias para deixá-los passar. Tudo indi­cava que lá embaixo tinham uma espécie de obsessão pela segurança, principalmente se tratando de pessoas, como eles, que vinham do Mundo Emerso.

Os olhares dos aldeões mostravam-se cheios de desconfiança pelos Habitantes de Cima, como os chamavam aqueles que os viam passar. San sentia-se indagado, espiado, e achatava-se nas costas de Ido no maior constrangimento.

Começou a ficar cada vez mais irrequieto. Compreendia perfei­tamente a importância daquela viagem. Era indispensável esconder-se da Guilda, pois, se o encontrassem, para ele seria o fim. Mas, ao mesmo tempo, estava se esquivando da confrontação com os seus inimigos e, mais ainda, fugindo dos assassinos dos seus pais. Era jus­to, afinal, que eles continuassem a circular impunemente no Mun­do de Cima enquanto ele se escondia embaixo do mar? Era justo que, enquanto o Conselho das Águas se empenhava de todas as formas para derrotar a Guilda, ele se limitasse apenas a ficar ao lado de Ido?

Depois de um tempo que lhe pareceu interminável, finalmente che­garam ao destino.

-           Este é o lugar onde o seu avô se hospedou depois de sair da Voragem. — Ido apontou com o dedo para indicar alguma coisa aci­ma das suas cabeças, e San levantou o olhar. A ampola em que se encontravam, como todas as demais pelas quais haviam passado até então, estava ligada ao exterior por uma enorme tubulação de vidro. No topo vislumbrava-se alguma coisa impetuosa e inimaginável.

O garoto ficou perplexo.

-           A Voragem?

Ido anuiu com um sorriso satisfeito.

-           Isso mesmo.

-           Quer dizer que estamos no território dominado pelo conde Varen - comentou San, com algum entusiasmo.

-           Pelo menos, onde ele dominava - corrigiu Ido. - Sabe como é, nem todos têm a sorte dos gnomos, que passam facilmente dos cem anos. Duvido que Varen ainda esteja por aqui...

San pensou nas Crônicas do Mundo Emerso, que já lera tantas ve­zes. Voltou a lembrar a heróica viagem, o medo e a excitação que sem dúvida o avô experimentara ao permanecer lá embaixo e, quase pasmo, ficou pensando no velho que encontrara em Laodameia. Não conseguia associar aquela figura severa e cansada, dobrada pelos anos, à imagem do jovem atrevido e corajoso que levara a cabo a aventurosa empresa.

O palácio da condessa apareceu diante deles imponente e, ao mes­mo tempo, sóbrio. Era uma simples construção retangular ponti­lhada por numerosas janelas, e que só tinha dois guardas de vigia na entrada.

Por dentro era igualmente essencial e luminoso, com aquelas paredes brancas que faziam ricochetear para todo lado a luz ofuscan­te do ambiente. Os guardas que os acompanhavam se ajoelharam logo a seguir.

-           À vontade - disse a figura, quando ficou mais perto.

Era uma mulher que usava uma longa túnica que deixava seus braços à mostra. Devia estar com pelo menos cinquenta anos, con­siderando as numerosas rugas que tinha em volta dos olhos, mas seu rosto guardava traços quase infantis que lhe conferiam um aspecto bastante fora do comum: havia nela alguma coisa inocente e ingê­nua, mas as suas feições também deixavam transparecer firmeza e uma força de caráter fora do comum. San sentiu-se imediatamente acanhado.

Ela também tinha olhos azuis, muito claros, mas o que a tornava especial eram os cabelos. Sua cabeleira quase era completamente branca, mas entremeada por mechas grisalhas, umas mais claras e outras mais escuras.

Ido ajoelhou-se.

A mulher colocou a mão no seu ombro, convidando-o a le­vantar-se.

-           Por favor, francamente... não é preciso.

Em seguida passou a olhar San, e o fez com tamanha intensida­de que o garoto viu-se forçado a baixar mais uma vez a cabeça.

-           Bem-vindo a Zalênia, San - disse com uma voz suave que não combinava com a sua aparência. - Espero que a sua estada seja me­lhor que a do seu avô.

San se atreveu a levantar a cabeça.

-           Apresento-lhe Ondine, a condessa do condado de Sakara - disse Ido.

San foi levado a explorar o jardim do palácio. Estava inseguro, des­norteado, o que era bastante normal levando-se em conta tudo pelo qual tinha passado. Ondine não tirava os olhos dele. Estudava os seus traços quase à procura de alguma coisa.

Ido, ao lado dela, fumava tranquilamente o cachimbo. Sabia muito bem o que a mulher estava sentindo. Já lhe acontecera mui­tas vezes ver-se às voltas com o próprio passado.

-           Acha que se parece com ele?

Tinham decidido esquecer as formalidades e se tratar desde logo por você. Afinal haviam percebido de imediato algo que os unia e que estabelecera entre os dois uma espécie de fraternal familiarida­de, estranha para duas pessoas que nunca se viram antes, mas que muito tinham lido sobre a outra.

Ondine pareceu sair dos seus devaneios.

-Acho que sim, a maneira de se mexer, a conformação do corpo...

Haviam conversado durante mais de uma hora sobre o passa­do e Senar. Antes mesmo de querer conhecer em detalhe a atual si­tuação do Mundo Emerso, Ondine quisera saber tudo do mago. O gnomo intuiu logo quais haviam sido os verdadeiros sentimentos daquela mulher; ele também sabia muito bem que a lembrança so­brevive justamente nas pequenas coisas, nos pequenos detalhes coti­dianos que tornam a pessoa de fato verdadeira. Não se fez de rogado e contou tudo mais uma vez.

-           Imagino que reconheça nele Nihal — disse Ondine em certa altura.

Ido anuiu tirando o cachimbo da boca.

-           É parecido com ela até no caráter. Para mim, é quase como voltar a vê-la. Têm os mesmos olhos.

Ondine suspirou. Tinha uma infinita tristeza no olhar.

-           Cada um de nós procura nele o que perdeu, não é verdade? É o preço que temos de pagar pelas recordações e pela saudade.

Ido deu uma longa tragada. Ondine era muito mais jovem que ele, e não tivera a oportunidade de ver o próprio mundo se despe­daçar d’ante dos seus olhos. E mesmo assim compartilhavam a n es- ma sensação de falta, a mesma saudade daquilo que existira e que nunca mais voltaria a ser. E este sentimento era o que mais os unia agora, em cima daquele banco onde sentavam.

-           Disse-lhe que viria para cá?

Ido acenou que sim.

-           E ele? - murmurou Ondine.

O gnomo fechou os olhos por um instante. Comentara o as­sunto com Senar ao se despedir, logo antes da partida. Por alguma estranha razão, naquela ocasião chegaram a pensar que nunca mais voltariam a se ver.

“Diga-lhe que nunca a esqueci. E diga, principalmente, que não se passou um só dia sem que eu sentisse com força o remorso daqui­lo que lhe fiz. Diga-lhe que para mim ela sempre continuou sendo a jovem à beira do caminho, daquele caminho que me recusei a seguir, há tantos anos. Na minha memória, continua sendo bonita como então, na minha lembrança continua esperando por mim. Talvez eu mesmo nunca a tenha abandonado, não sei. Mas diga-lhe que sem ela eu nunca teria chegado ao fim daquela viagem, que lhe devo a vida e muito mais. Diga, finalmente, que tentei manter a promes­sa, mas que a vida foi mais forte, e que não consegui.” Foram estas, as palavras de Senar.

Ido deu uma longa tragada, segurando e saboreando a fumaça, depois soprou uma nuvem evanescente.

-           Lembra-se da promessa que lhe fez, de ser feliz ao lado de Nihal. Fez o possível, mas a vida foi mais forte. - Os olhos de On­dine encheram-se de lágrimas. — Nunca se esqueceu de você. E ainda hoje pensa naquilo que aconteceu naquele dia.

As lágrimas começaram a correr pelas suas faces, mas sem solu­ços. Respirava com calma, impassível, de olhos fixos em San. Uma mulher forte, fortalecida por longos anos de dor silenciosa. Ido pensou nas muitas mulheres parecidas com ela que tinha conheci­do: lembrou-se de Sulana no dia do casamento e do corpo dela no esquife, no dia do enterro. Pensou na calma hierática de Soana, na sua compostura, na sua força. E alguma coisa doeu no fundo da sua alma.

Que imensa solidão devia ter acompanhado os dias daquela mulher! Que vida difícil a dela!

-           Não consegui — disse ela interrompendo o silêncio dos seus pensamentos. - Bem que tentei, mas há encontros que mudam a nossa vida, e ele foi um destes encontros. Esforcei-me, fiz de tudopara esquecê-lo enquanto trabalhava para o conde, quando fui cha­mada para ser criada no palácio, e ao entregar-me, mais tarde, a outros abraços. Mas sempre faltava alguma coisa. Talvez seja culpa minha, talvez seja porque, como uma boba, nunca quis desistir das lembranças.

Com um dedo enxugou uma lágrima no canto do olho.

-           E depois houve a adoção, e tornei-me a filha de Varen. A po­lítica pegou-me no seu turbilhão: os negócios de estado, a luta para mudar as coisas, para que também os Novos como eu fossem aceitos e deixassem de ser tratados como escória da sociedade, como cria­dos indignos de consideração. Talvez esta fosse mais uma tentativa para esquecer, para dirigir alhures a insatisfação que me queimava por dentro e que tirava o meu sono.

Ido olhou para o chão. Quantas vezes, após a morte de Soana, ele tentara sufocar a própria dor na batalha? Quantas vezes procurara o esquecimento no choque das armas? Ele também se esforçara para fugir do inelutável, procurando em algum outro lugar o desa­bafo para uma dor que não tinha outra saída.

-           E agora aqui estou eu, condessa, sem nem mesmo saber como pude chegar a este ponto. Sou a primeira Nova a conseguir um cargo desses, uma vitória extraordinária que muitos invejam. Deveria sentir-me orgulhosa toda vez que vejo um Novo que alcança uma posi­ção de poder, que leva normalmente a sua vida. E, no entanto, tudo aquilo que fiz durante estes anos parece-me sem importância.

Qual foi o sentido da minha luta? Ainda existe algum sentido naquilo que continuo fazendo? A obstinação que me leva a combater apesar do meu braço cada vez mais fraco, do meu olho cada vez mais embaçado? Ido já pensara naquilo tudo, havia muito tempo, e agora podia perfeitamente imaginar a agitação interior dela.

Ondine sorriu.

-           Queira me perdoar, estou aborrecendo-o com palavras fúteis, e além do mais não vejo por que você deveria interessar-se pelas mi­nhas vicissitudes. - Tinha os olhos vermelhos de pranto e o fitava entre as lágrimas.

Ido deu mais uma baforada. O sabor antigo do tabaco acalmava-o.

-           Não está me aborrecendo, e na verdade entendo muito bem o que diz. Quando as pessoas como você e eu, que já percorreram um longo caminho, começam a enfrentar a descida que leva ao fim, é claro que acabam pensando em coisas como essas. Mas acredito que nada daquilo que fazemos seja vão, mesmo que nos custe so­frimento. É por isso que a nossa alma parece não ter paz, ninguém pode evitar lástimas e saudades, mas tampouco podemos deixar de lembrar os sucessos com objetividade, não concorda?

Ondine sorriu de novo, passando o dorso da mão no rosto. Pare­cia, de algum modo, aliviada. Ido achou-a bonita, apesar da juventu­de consumida na solidão. Ela tinha transformado a própria fraqueza em força.

-           Mais tarde um dos meus ajudantes mostrar-lhes-á as acomo­dações que mandei preparar para vocês.

-           Oh, obrigado - disse Ido.

Ela se levantou.

-           O garoto parece ter um notável pendor para a magia - acres­centou Ido, segurando-a pelo pulso antes que fosse embora.

-           Bom, afinal é o neto de Senar...

-           Acredita que alguém, aqui no palácio, possa treiná-lo? Sabe como é, percebi que ele anda meio irrequieto, e ainda está muito aba­lado com a morte dos pais. Precisaria de alguma coisa que o manti­vesse atarefado.

-           Há vários magos muito respeitados, no meu condado. Tenho certeza de que encontraremos alguém que cuide do caso - respon­deu a condessa, sorrindo com os lábios e com os olhos.

Ido retribuiu o sorriso.

-           Você é realmente uma anfitriã excepcional.

Ondine corou levemente.

-           E você um adulador — disse, afastando-se com passos ligeiros.

Ido observou os movimentos decididos. Provavelmente nunca

se concedera, até então, um momento de sinceridade como aquele com que o presenteara. E compreendeu como aquilo foi precioso. Sentiu no fundo do coração uma profunda e singela compaixão por aquela mulher sozinha que tanto já fizera na sua vida, e a imagem dela sobrepôs-se à de Soana. Percebeu que já estava velho e cansado.

Já está quase na hora de sair de cena. Mas logo ficou esmagado pelo peso daquela ideia.

Olhou para San. Embaixo da árvore, o seu protegido havia ador­mecido.

O cheiro do sangue, naquele dia, era intenso. Houvera um grande sacrifício e, na Casa, pairava uma sensação de euforia. O Supremo Guarda, Yeshol, conhecia-a muito bem. Era a exaltação do homicí­dio. Uma coisa que os Assassinos experimentavam com particular intensidade quando ainda eram jovens, quando matar ainda os en­chia com um louco sentimento de onipotência. Aí o tempo passava, e no fim somente uns poucos permaneciam exaltados. Rekla era justamente um deles. Ela sentia prazer no sangue, e só encontrava um sentido para a própria existência em Thenaar.

Yeshol nunca pararia de lastimar a sua perda. Nunca se sentira ligado a qualquer um dos Assassinos: para ele não passavam de ins­trumentos a serem usados para os próprios fins. Só Thenaar era im­portante. Mas tinha amado Rekla como um irmão pode amar uma irmã. Vira-a chegar à Casa quando era apenas uma garotinha magra e assustada, acompanhara o seu crescimento até ela se tornar uma mulher segura de si e das suas capacidades, vira-a desabrochar na fé. Era muito mais que uma mera peça da engrenagem. Para ele, era a única ligação dentro do santuário.

Yeshol sabia que ela estava morta. Rekla nunca mais enviara rela­tórios da missão, nem mesmo através da magia. Já se haviam passa­do semanas desde a sua última comunicação, e isto nunca acontecera antes. Ele sempre sabia quando um dos seus descia para o reino de Thenaar. A Fera devia tê-la matado.

Para celebrar sua morte, decidira levar a cabo aquela hecatombe. Massacrara aos pés da estátua de Thenaar uma boa parte dos Postu­lantes presentes na Casa. Havia sido um verdadeiro banho de sangue, uma terrível orgia. As vítimas eram arrastadas aos pés de Thenaar onde os Assassinos escolhidos afundavam as lâminas em seus cora­ções, uma de cada vez. Os olhos apagados dos Postulantes criavam um esplêndido contraste com os olhos acesos dos verdugos. Gritos de júbilo, berrantes orações, risadas e cantos.

E Yeshol de pé ao lado da estátua do deus, impassível mas sa­tisfeito. Todos tinham perdido a cabeça, todos menos ele. Na euforia geral, permanecera lúcido. Em nenhum momento esquecera a mis­são e os tempos difíceis que estavam vivendo.

Os seus haviam-no informado que o garoto destinado a hospe­dar o espírito de Aster tinha chegado a Laodameia, mas depois de­saparecera e ninguém sabia para onde fora.

Nesta altura coubera a Sherva prosseguir com as investigações, o mesmo Sherva que fracassara ao deixar escapulir bem debaixo do seu nariz aquele pirralho. Mesmo os fracassados ainda podiam can­tar a glória de Thenaar, de forma que tinha descoberto tudo. Sabia aonde Ido estava levando o rapazinho. Mas havia pouco tempo, e as medidas a serem tomadas eram arriscadas.

Quando a chacina terminou, chamou quatro dos seus, que en­traram ajoelhando-se diante da sua escrivaninha. A pele deles exa­lava o cheiro acre perceptível na sala.

-           Tenho para vocês uma missão de absoluta importância que não admite a possibilidade de fracasso.

Os quatro levantaram por um momento os olhos.

-           Terão de partir para o Mundo Submerso para trazer-me de volta o jovem San.

-           É ali que ele está, em Zalênia? - perguntou um deles.

Yeshol anuiu secamente.

-           Foi para lá com Ido. Façam o que bem entenderem com o gnomo, ele é seu. Mas quanto ao menino quero que o tragam de volta a qualquer custo.

Os quatro baixaram a cabeça. Obediência cega e absoluta. Jus­tamente o que Yeshol esperava deles.

-           Podem ir - disse afinal, virando-se para a estátua de Thenaar. Os quatro levantaram-se e passaram pelo limiar com passos avelu­dados. Yeshol fechou os olhos. Pela primeira vez em muitos anos re­ceava a derrota. E tinha medo. A Fera começava a fugir do controle da Casa, tanto assim que tinha matado Rekla, e San mostrara-se muito mais escorregadio do que eles esperavam. E se, porventura, acabassem fracassando? Era preciso estudar um plano de emergên­cia, e ele já começara a pensar nisso. Uns poucos dias antes havia encontrado Dohor e falara com ele a respeito.

-           Preciso de mais livros.

—        E eu preciso de mais homicídios — replicara o rei com uma careta de escárnio.

—        É o que podemos chamar de convergência de interesses — respondera Yeshol, com uma mesura.

-           Do que precisa, exatamente?

Textos hológrafos de Aster, antiquíssimos tomos élficos perdi­dos durante a destruição de Enawar, a antiga cidade que se encon­trava na Grande Terra e que Aster, o Tirano, mandara destruir como primeiro ato do seu reinado sanguinário. Somente Dohor podia ter acesso àquelas relíquias: era dele, com efeito, a fortaleza que estava construindo sobre as antigas fundações da cidade. Em troca daquele favor, Yeshol havia deixado à solta os seus Assassinos e até permitido que Dohor participasse de alguns rituais que aconteciam no templo. Naquelas ocasiões chegara até a pensar que o homem, se não fosse tão pragmático e ambicioso, poderia ser um ótimo cren­te. Pena que só pensasse em si mesmo e na própria desmedida sede de poder.

 

O MERCADOR DE HOMENS

Quando Dubhe acordou, o sol já estava alto no céu. A primavera estava chegando, dava para sentir no ar que cheirava a grama e flo­res. Havia dois dias que a caravana estava a caminho, e naquela altu­ra não demoraria muito a chegar a Selva.

Uma longa corrente mantinha-a presa às barras da jaula em que as duas haviam sido trancafiadas, mas conseguiu mesmo assim es­preguiçar os braços entorpecidos.

Theana estava diante dela, imóvel e com o olhar perdido não se sabe quais pensamentos. Devia ter acordado ao alvorecer. Talvez estivesse rezando em silêncio; desde que haviam conversado acerca de Thenaar, com efeito, nunca mais a vira adorar o seu deus em voz alta. Tornara-se mais precavida, e já não procurava resistir aos carce­reiros como antes. Era como se, finalmente, tivesse aceitado a mis­são, enfrentando os imprevistos com maior elasticidade e facilidade de adaptação. Dubhe apreciara bastante a mudança.

-           Bom-dia - disse a maga, com um sorriso.

Dubhe respondeu com um sinal de cabeça. Sentia-se bem me­lhor; seu corpo começava a responder, a mente se tornara mais lúci­da. A primeira coisa que fez foi examinar o disfarce da companheira. Tudo parecia estar certo. A camuflagem ainda servia.

—        Continuo com a aparência de alguns dias atrás? — perguntou levantando-se, para a outra vê-la direito.

Theana concordou.

—        Ótimo, pois preparar as tais compressas não seria nada fácil.

-           Não se esqueça, no entanto, que daqui a nove dias terei de repetir o ritual contra a sua maldição.

Dubhe virou-se para ela na mesma hora. Não tinha a menor vontade de passar de novo por aquela tortura, principalmente ago­ra que estava recuperando as forças.

A jovem maga sorriu. Devia ter notado a sua expressão des­gostosa.

-           Não se preocupe, desta vez não vai ser tão ruim. Nesta altura o seu corpo já se acostumou, sofrerá muito menos e só levará um ou dois dias no máximo para se recobrar.

-           Assim espero - disse Dubhe. - Porque então estaremos mais uma vez fugindo.

A porta da gaiola abriu-se de repente.

-           Vamos lá, belezocas, hora de tomar banho! - exclamou um dos soldados.

Dubhe e Theana interromperam na mesma hora a conversa, prontas a reassumir cada uma o próprio papel.

Acontecera dez anos antes, quando o futuro ainda parecia cheio de esperança e o sol brilhava claro no céu, justamente como agora.

Quando os soldados as levaram à margem do rio, Dubhe re­conheceu de imediato a pedra contra a qual se chocara a cabeça de Gornar. Ainda estava lá, redonda e perfeita. Por um instante a ima­gem do sangue que lhe manchara as mãos naquele dia longínquo voltou a ser nítida e presente. Naquela época ela levara alguns mo­mentos para entender o que tinha feito. A cabeça de Gornar era um peso inerte, entre as suas mãos, mas ela não conseguia dar-se conta do que havia acontecido, não podia acreditar que acabara de matar alguém. Era impossível.

-           Mexam-se, não temos o dia todo!

Um soldado empurrou-a para a água e Dubhe fechou os olhos. Tinha de tirar da cabeça aquelas lembranças, estava numa missão e não podia permitir-se um passo em falso, pois Selva era apenas uma etapa da viagem que devia levá-la até Dohor. Tentou concentrar- se, mas mesmo assim suas mãos ficaram trêmulas.

A água parecia-lhe vermelha, e teve de fazer um esforço para molhar o rosto. Viu de soslaio que Theana a espiava com ar inter­rogativo. Ignorou-a, continuando a lavar-se no riacho enquanto ar­repios estremeciam seu corpo.

-           Dispam-se — disse o soldado quando acabaram de limpar o rosto.

Dubhe enrijeceu.

—        Com esses trapos ninguém vai querê-las, no mercado. Lavem- se direitinho e depois vistam isto.

O soldado jogou no chão dois corpetes de pele bastante reve­ladores e saias de dançarina formadas de véus.

Theana examinou rapidamente aquela roupa, e aí dirigiu um olhar desesperado para Dubhe. Esta engoliu em seco, levou as mãos aos cordões do casaco e começou a desamarrá-los um depois do outro. Ficou de costas em relação ao soldado. Vamos lá, vamos lá, está na hora de mostrar até que ponto quer realmente ir comigo.

Por uns instantes que pareceram sem fim, Theana permaneceu imóvel. Aí deu as costas, fechou os olhos e, devagar, visivelmente aflita, também se despiu. Pela primeira vez desde que a viagem co­meçara, Dubhe pôde realmente vê-la. Ambas ficaram vestindo so­mente suas camisolinhas curtas e quase transparentes, de gaze, que costumavam usar por baixo da roupa.

Apesar de o encantamento ter mudado a aparência das duas - principalmente envelhecendo Theana -, o soldado olhava para elas de uma forma que não deixava dúvidas quanto aos seus pensamentos.

—        Que pena, ter de vendê-las... Estou quase torcendo para que ninguém as compre — disse aproximando-se.

Enfiou a mão embaixo da camisolinha de Dubhe e apertou a carne branca com os dedos. Ela fechou os olhos, tentando manter- se impassível, enquanto sentia uma raiva cega crescer dentro de si. Sua mão tremia, queria pegar o punhal escondido no bolso interno da saia que estava no chão.

—        Já lhe disse para não tocar na mercadoria!

A pancada chegou violenta e inesperada. Ambas as jovens segu­raram a respiração. Outro soldado havia surpreendido o homem e o golpeara na nuca.

Como resposta, ele limitou-se a dar de ombros soltando uma risada debochada.

-Já estou indo, já estou indo! - disse quase achando graça, e puxou as duas correntes.

Aproveitando a pequena altercação entre os dois homens, Du­bhe tirou o punhal do bolso da saia e pegou duas pequenas ampolasnas roupas da companheira. Foi tão rápida que ninguém percebeu, nem mesmo Theana, que mantinha os olhos fixos no chão, ainda constrangida.

—        Portou-se muito bem - murmurou Dubhe, passando ao lado dela.

A aldeia estava cheia de gritos e de soldados. Por toda parte havia escra­vos acorrentados: homens, mas principalmente mulheres e crianças. Selva estava apinhada de gente, como nunca estivera antes. Dubhe não conseguia reconhecer um rosto sequer. Era como se naqueles dez anos a “sua” Selva tivesse se dissolvido, como se todas as pessoas que ela conhecera houvessem desaparecido, substituídas com o passar do tempo por perfeitos desconhecidos. As casas, no entanto, conti­nuavam as mesmas, com os mesmos muros, nas mesmas ruas.

O soldado empurrou-as por todo o percurso entre duas alas de olhares curiosos, enojados ou simplesmente desejosos. Vez por outra as jovens encontravam rostos compadecidos, que logo a seguir, no entanto, desviavam os olhos.

Antigamente não havia mercado de escravos em Selva. A cidade era pequena demais, afastada demais. Agora que a guerra avizinha­ra a frente de batalha, no entanto, a sua proximidade da zona de combate tornara-a o lugar ideal para este tipo de comércio. O vila­rejo também se expandira. A periferia estava cheia de novas casas, mas o centro ainda continuava o mesmo.

Dubhe voltou ao passado, relembrou o seu processo. Tinha per­corrido aquele mesmo caminho antes de receber a sentença; sabe lá se Trarek, o Ancião da aldeia que a julgara, ainda estava vivo. E o rapaz que a libertara no bosque, que fim levara? De qualquer for­ma, não podia certamente saber que tinha poupado a vida de uma Assassina da Guilda, de uma mulher que agora tencionava matar o seu rei.

—        Tudo bem? - perguntou Theana.

Dubhe anuiu.

—        Está me parecendo meio aérea. Alguma coisa a ver com a sua maldição? Será que o meu encantamento está perdendo o efeito?

69

Dubhe deteve-a com um olhar.

-Tudo certo. - Por alguma razão ainda era difícil, para ela, con­tar a verdade.

—        Acontece que nasci aqui — disse afinal, de um só fôlego. Em seguida acelerou as passadas para impedir que Theana fizesse per­guntas.

Logo a seguir chegaram à praça. Na lembrança de Dubhe era um espaço bastante amplo. Sempre lhe parecera um lugar especial, quase elegante, aonde se ia nos dias de festas, vestindo as melhores roupas. Ficou surpresa ao reparar que não passava de um quadrado com apenas trinta braças de lado. O palanque de madeira construí­do pelos mercadores de escravos quase não cabia nele, e as pessoas apinhavam-se em volta às cotoveladas. Alguns fregueses eram força­dos a ficar nas ruas laterais, onde se levantavam na ponta dos pés para tentar ver melhor a mercadoria.

O soldado levou-as até a barraca atrás do palanque, onde na cer­ta devia estar o mercador. Havia cheiro de homem, lá dentro, e de medo. Amontoadas num canto, umas mulheres choravam, enquan­to outras procuravam de alguma forma manter a dignidade. Mais outras pareciam conformadas, e seus olhos se mostravam distantes e vazios. No meio de todas, estava sentado o mercador. Dubhe le­vou algum tempo para reconhecê-lo. Havia engordado e aparentava muito mais dos vinte anos que devia ter. Mas o olhar era inconfun­dível: Renni, o seu companheiro de jogos infantis.

Ele também estivera lá, no dia do processo. Dubhe lembrava muito bem que fora o primeiro a acusá-la. Tinha uma vozinha estrídula e irritante que espetava palavras venenosas no seu sentimento de culpa. Fitou-o com olhos apavorados. De repente sentiu que não conseguia mexer-se, que não podia seguir adiante.

O soldado empurrou-a por trás.

—        Mexa-se, deixe de histórias!

Renni virou-se. O pescoço mergulhava em sobrepostas camadas de banha, as mãos enormes apertavam a ponta dos braços da cadei­ra que mal conseguia contê-lo. Dubhe lembrava-se de um menino magro e saltitante, que nada tinha a ver com aquela nojenta bola de banha. Ficou atordoada diante daquela expressão asquerosa e, en­quanto o homem a esquadrinhava, lembrou o que ele sibilara logo antes da sentença: “Terá o que bem merece, pode ter certeza disso.”

-           Algum problema? - perguntou Renni dirigindo-se ao solda­do. A voz continuava a de antigamente.

-           Nada de mais, como sempre as rameiras só dão dores de ca­beça.

Renni sorriu com condescendência.

-           Não é problema nosso, não acha? Quem terá de aguentá-las são os compradores.

O soldado puxou a corrente, e logo que Dubhe ficou separada do contato com Theana sentiu-se como se tivesse a pele transparen­te, como se cada órgão interno fosse visível. Era impossível que ele não a reconhecesse, que não percebesse o horrível cheiro do seu pecado. Dali a pouco lembraria certamente aquelas mãos sujas de sangue, ainda mais porque havia sido ele a declará-la culpada, sem qualquer possibilidade de redenção.

Renni começou a rodar em volta dela, examinando-a do mesmo jeito com que se poderia avaliar um animal. Apalpou-lhe um braço, pediu que abrisse a boca. Passou seus dedos gordos no corpo dela, até sua mão parar onde a culpa de Dubhe assumia uma forma vi­sível: o símbolo. Ela começou a agitar-se. Renni puxou para cima a manga até deixar à mostra o duplo pentáculo.

-           O que é isto?

Fitou-a fixamente nos olhos, e Dubhe não foi capaz de proferir coisa alguma.

-           Então? — trovejou.

-           É o símbolo de uma casta sacerdotal.

Dubhe virou-se. Era a voz de Theana. Incerta, trêmula, mas quem estava falando era ela.

-           Nunca vi uma coisa dessas - disse Renni, demorando-se a examinar o desenho mais de perto.

-           A minha amiga foi consagrada ao deus, ainda criança, para curá-la da febre vermelha.

O homem olhou para ela com admiração.

-           Ah! Quer dizer que você é uma sobrevivente...

Dubhe anuiu, confusa. Era verdade. Era a mera e horrível ver­dade.

Então Renni começou a examinar Theana e passou a avaliar o preço total. Afinal sentou-se de novo na cadeira, a muito custo, e meio ofegante fez a sua oferta:

—        Cem carolas cada.

O soldado fez uma careta.

—        Ficou louco? Estas mulheres são mercadoria de primeira!

—        É o máximo que posso oferecer. Pegar ou largar.

Dubhe ouvia as vozes deles distantes. Quase não conseguia acre­ditar que, apesar do feitiço, o seu antigo companheiro de infância não a tivesse reconhecido. Tinha quase vontade de revelar-lhe quem era só para saber se, afinal, acabara perdoando-lhe. Os outros tam­bém haviam esquecido tudo ou apenas continuavam a considerá-la perdida? Estes pensamentos remoinhavam em sua cabeça e não de­morou para ela ficar totalmente confusa.

A certa altura Theana segurou-a pelo braço e a fez sentar.

—        Acabou — murmurou no seu ouvido, aliviada.

O carcereiro fora embora com um saquinho de moedas nas mãos, mas Dubhe nem se dera conta. Estava irremediavelmente entregue ao passado, e de repente as lembranças haviam se tornado mais vivas e contundentes que a realidade.

Renni prendeu a corrente delas na única estaca livre da barraca, em seguida afastou-se sem dizer mais uma única palavra.

Dubhe tinha uma expressão alucinada, e Theana logo percebeu. Apontou com um gesto da cabeça para a abertura da tenda por onde o mercador de escravos acabara de sair.

—        Conhece?

Dubhe anuiu, apoiando a testa nos joelhos puxados para o peito.

—        Conheço. Brincávamos juntos quando crianças. Estava entre os que me condenaram ao desterro expulsando-me do vilarejo.

Theana ficou calada.

Dubhe levantou a cabeça.

—        Não há tempo para explicações. É uma longa história, e você não entenderia.

A companheira fez uma careta de irritação ao ouvir aquilo, mas não insistiu.

—        Vai dar tudo certo, não precisa se preocupar — disse Dubhe.

Mas, na verdade, estar naquele lugar acabava com ela. O senti­mento de culpa - que por tantos anos havia sido apenas uma vaga presença no fundo das suas entranhas, uma chapa de vidro entre ela e o mundo - ali, diante dos olhos de Renni, transformara-se num sofrimento dilacerador.

Naquele momento a cortina abriu-se de novo. Um jovem solda­do entrou com passo decidido e desatou algumas mulheres para levá-las ao palanque, onde o pregoeiro iria apresentá-las aos possíveis compradores enaltecendo as suas qualidades. Theana observou a cena toda com visível ansiedade. Estava certamente imaginando quando chegaria a vez delas e o que iria acontecer em seguida. Sempre que o soldado voltava, as outras mulheres encolhiam-se procurando es­conder-se na escuridão: algumas murmuravam palavras animado­ras, mas a maioria chorava.

Dubhe alheou-se por completo. Continuava afundando a ca­beça entre os joelhos e sentia-se como nos dias seguintes à morte de Gornar, quando se refugiara no sótão da casa e se fechara numa obs­tinada mudez. Nada mudara desde então, apesar de se terem passa­do dez anos e de ela ter conhecido pessoas que a prezavam, tais como o Mestre e Lonerin. Durante a viagem pelas Terras Desconhecidas chegara a pensar que havia mudado, que tinha dado um minúsculo passo adiante. Escolhera levar a cabo uma missão que no fundo ca­bia a outra pessoa, e sentira brotar dentro de si um sentimento di­ferente, que nada tinha a ver com os seus pecados ou a sua maldição. Na desesperada desolação daquela barraca convenceu-se de que fora tudo inútil: nada poderia salvá-la da culpa corrosiva que serpenteava dentro dela.

-           Vamos, levante-se.

Com expressão abobalhada e olhar distante, Dubhe levantou a cabeça, o soldado estava falando justamente com ela. Obedeceu sem dizer uma única palavra. Aí o homem segurou a corrente de Theana e a arrastou também.

Quando finalmente subiram ao palanque, a gritaria da multidão tornou-se mais ruidosa. Theana apertou convulsamente seu braço, mas Dubhe não reagiu.

O pregoeiro fez um sinal, e o soldado que as levara ali em cima tentou separá-las. Theana reagiu berrando como uma doida e esperneando para opor resistência. A chicotada foi violenta e imediata. Acertou ambas nos tornozelos, e a maga caiu ao chão enquanto Dubhe mordia os lábios. A dor física trouxe-a finalmente de volta à realidade.

Você tem uma missão a cumprir, disse para si mesma.

-           Jovem sacerdotisa de dezesseis anos, lindíssima. Poderá ser de quem estiver disposto a pagar pelo menos quinhentas carolas - come­çou a berrar o pregoeiro, enquanto o soldado retirava à força Theana do palanque.

Dubhe deu mais uma olhada na multidão, tentando não se dei­xar tragar pelo passado.

-           Eu lhe peço, não nos separem! — A voz de Theana alcançou-a como um chamado longínquo.

Era preciso formular um plano, bem depressa. Os seus pensa­mentos interromperam-se de estalo quando uma segunda chicota­da feriu-a no dorso do pé. Caiu de joelhos. Podia perceber à sua volta as vozes cacarejantes dos homens e os olhares que esquadrinha­vam seu corpo.

-           Mil e quinhentas carolas cada, quero ficar com as duas.

O silêncio tomou conta da praça. Até mesmo o leiloeiro ficou sem palavras. Dubhe levantou de leve a cabeça para ver quem tinha feito o lance.

A voz vinha de um canto afastado, onde um jovem sobressaía na multidão pela altura bastante acima da média. Vestia uma longa capa sob a qual se vislumbrava um colar de prata finamente traba­lhado. Dubhe observou seu rosto. Conhecia-o.

Traços finos e cabelos tão louros que quase pareciam brancos. Lembrou-se logo do episódio arrepiador que acontecera na época do seu treinamento.

Forra, cunhado de Dohor e chefe das operações na Terra do Fogo, pisoteava os cadáveres dos rebeldes que acabara de mandar trucidar pelos seus soldados, e um jovenzinho ao seu lado olhava para aquilo tudo montado em seu cavalo. Fora a primeira vez que tivera a oportunidade de ver Learco, o filho do rei.

Depois da momentânea surpresa, o pregoeiro não demorou a retomar as rédeas da contratação.

-           Não temos o hábito de vender juntas duas escravas como essas...

-           Dez mil carolas, e procure manter sob controle aquele chicote.

Todos os presentes deixaram escapar um murmúrio de espanto.

A quantia havia sido quase decuplicada. Até mesmo Theana parara de se queixar e olhava em volta, atônita. Dubhe ficou imaginando o que poderia estar fazendo, num lugar como aquele, o filho do rei, e por que estaria a ponto de desembolsar uma quantia tão vultosa por duas escravas inúteis e nem tão atraentes.

O pregoeiro fez uma profunda reverência. Obviamente não ti­nha reconhecido o príncipe, pois achou por bem fazer um comentá­rio atrevido:

-           Queira me perdoar, senhor, mas será que pode mostrar-me o dinheiro?

Learco abriu caminho na multidão movendo-se com rapidez e elegância. Chegou aos pés do palanque e jogou nas tábuas desco­nexas um saquinho que se abriu, espalhando uma porção de moe­das reluzentes: deviam ser pelo menos cinco mil carolas.

-           Pagarei o resto mais tarde, quando me entregarem as mulheres.

A madeira do palanque estalou pesadamente.

-           Não será necessário, Alteza! - gritou uma voz estrídula. Renni abriu caminho até o pregoeiro, jogando-o ao chão e forçando-o com uma das mãos a ajoelhar-se. - Honre o seu soberano, animal! - bra­dou, ele também curvando-se até encostar a testa no tablado.

Foi como se de repente o encantamento tivesse sido quebrado. Só então os presentes entenderam quem era a misteriosa figura, e num piscar de olhos a praça inteira virou um soalho de cabeças baixas.

-           Senhor, permita-me a honra de oferecer-lhe como presente estas duas escravas. Pegue de volta o seu dinheiro, eu lhe peço. - Renni empurrou de volta o saquinho de moedas de ouro, sem con­seguir evitar, entretanto, um olhar ávido.

O príncipe não perdeu a fleuma, mas fitou-o com comiseração.

-           Pode ficar com o dinheiro, mercador, mas em troca quero que me entregue os seus chicotes.

-           Tudo que desejar, Alteza — replicou Renni. Deu então um chute no pregoeiro que se aproximou e entregou os chicotes.

Learco subiu no palanque e ajudou primeiro Dubhe e depois Theana a se levantarem. Dubhe ficou imaginando se porventura ele a tivesse reconhecido. Ela não se esquecera dos olhos do jovem príncipe, fervilhando de raiva reprimida. O jovem, no entanto, nem olhou para ela.

Claro, afinal de contas disfarcei a minha aparência, pensou ali­viada.

Renni ofereceu as correntes a Learco.

-           Solte-as - ordenou, e o outro anuiu apressadamente, revi­rando os bolsos para encontrar as chaves.

Uma voz solitária lançou um breve grito:

-           Viva o príncipe! - Outra logo se juntou à primeira, e mais ou­tra, até que todos começaram a aplaudir, exaltando o jovem futuro soberano, tão magnânimo e bonito.

Learco não se mostrou particularmente interessado e desceu com as moças do tablado.

-           Obrigada, meu senhor, obrigada... - murmurava Theana com voz incerta, visivelmente aliviada.

-           Não fiz nada de excepcional - replicou Learco.

Dubhe reparou que o seu olhar estava ainda mais triste e apa­gado do que ela se lembrava. Mas não havia tempo para este tipo de considerações; sabia que a sorte estava lhe oferecendo uma oportu­nidade única.

-           Não se sintam de forma alguma presas a mim - acrescentou o príncipe, dirigindo-se a ambas. - Voltem para casa, estão livres.

Mal tinha acabado de falar e já dera as costas para ir embora. A sua capa que esvoaçava no ar límpido da manhã lembrou a Dubhe outra capa e outro homem que procurara deixá-la sozinha, entre­gue ao próprio destino.

-           Espere!

Learco parou, olhando para trás.

-           Não temos lugar algum para onde voltar — disse Dubhe com voz alquebrada, massageando os pulsos. - O nosso vilarejo foi ar­rasado, e aqui estamos perto demais da frente de batalha... Sabe muito bem o que acontece com duas mulheres sozinhas em tempos de guerra. De que adiantaria nos salvar, para depois nos deixar aos caprichos da sorte?

O jovem trespassou-a com o olhar. Seus olhos verdes brilhavam intensamente, mas aquela cor tão viva criava um estranho contraste com a dolorosa apatia que os preenchia.

-           Eu sou um soldado, passo a minha vida lutando, não posso protegê-las.

Dubhe ajoelhou-se até tocar em suas botas.

-           O senhor é o filho do rei! Tenho certeza de que na corte pre­cisam de duas moças. Nós sabemos fazer muitas coisas: a minha irmã cuidava de todos os afazeres da casa, lá na aldeia, depois da morte da nossa mãe. Eu suplico...

Theana entendeu na mesma hora o que Dubhe estava plane­jando e também prostrou-se aos pés do príncipe.

Como resposta, ele só conseguiu recuar, constrangido.

-           Fiquem de pé - disse.

Dubhe não obedeceu, mas dirigiu-lhe um olhar cheio de palpi­tante esperança. Alguma coisa nele pareceu tomar vida, enquanto os olhos assumiam uma expressão compadecida.

Depois de um momento de hesitação, Learco disse:

-           Estou sozinho, e estou a caminho do acampamento principal, em Karva. Lá poderei confiá-las a alguém que as leve a Makrat, no palácio, com uma carta de apresentação minha. Não posso prometer nada, no entanto...

Dubhe pulou de pé e segurou uma das mãos do rapaz, bei­jando-a.

-           Obrigada, muito obrigada!

-           Chega! - replicou ele, tirando a mão, para então ajeitar a capa nos ombros. — Só partirei ao entardecer. Se quiserem realmente ir comigo, estejam aqui na hora do pôr do sol. - Sacou então algumas moedas do alforje preso ao cinto. - Usem isto para comprar umas roupas. Roupas de verdade — disse, olhando rapidamente para os su­mários trajes das duas. Logo a seguir, desapareceu na multidão.

Dubhe acompanhou a sua figura esbelta que se perdia na confu­são da praça. Sem saber por quê, sentia o coração pesado e a cabeça atordoada.

Foi mais uma vez a mão de Theana a trazê-la de volta a terra.

-           Você tinha dito que ficaríamos livres — disse.

Dubhe olhou fixamente para ela. O seu alívio já tinha se esvaído.

-           Do que está se queixando? Tínhamos de ir ao palácio de Dohor, em Makrat. E quem melhor que o filho do rei para nos ajudar a entrar?

Theana soltou a presa, suspirando.

—        Não se preocupe, enquanto estivermos com ele nada de mau poderá nos acontecer.

Agora, no entanto, Dubhe precisava afastar-se dali e ficar algum tempo sozinha. O passado tinha voltado, e quase fizera fracassar os seus planos.

 

VIAGEM A TRÊS

Logo que deixou para trás as muralhas que cercavam a cidade, Dubhe sentiu novamente o ar encher-lhe os pulmões.

Percorrera as vielas tortuosas quase de um só fôlego, avançando rápida e furtiva como quando estava em Makrat e vivia do fruto dos seus roubos. Mandara Theana comprar tudo aquilo de que iriam precisar, inclusive as roupas novas, e então sumira na multidão.

Agora saboreava o perfume intenso que pairava nos arredores do bosque. Sentou perto de uma árvore e tentou meditar. Aquele era o melhor sistema para desanuviar a cabeça: o Mestre sempre lhe dizia isso durante o treinamento. Desde que entrara na Guilda, no entanto, tinha perdido o hábito de levantar-se ao nascer do sol para pôr em ordem os seus pensamentos.

Fechou os olhos e encostou os ombros no tronco, esperando encontrar um pouco de paz, mas as imagens da sua infância volta­ram mais vivas do que nunca. Havia alguma coisa naquele lugar, al­gum tipo de ligação poderosa e sofrida que ela não conseguia apagar. E como poderia? Aqueles eram os bosques por onde andara, ainda criança, com o pai. Quem sabe, talvez o espírito do pobre homem ainda errasse por lá, procurando sem parar por ela. Quando a filha fora banida da aldeia, ele começara imediatamente a seguir o seu ras­tro. Morrera na tentativa de trazê-la de volta, e ela nunca tivera real­mente tempo para chorar por ele. Agora sentia terrivelmente a sua falta, e era a primeira vez.

Percebeu que, quase sem querer, estava chorando.

Levantou-se e compreendeu que era impossível fugir. Nunca houvera atalhos na sua vida: somente caminhos íngremes e difíceis, que nunca conseguira percorrer até o fim. Sentia que Selva estava se fechando em cima dela como uma armadilha, sem escapatória, e acabou se rendendo.

Certa vez, quando era bem pequena, ela e o pai soltaram uma lebre do laço do caçador justamente naquele lugar. O pai sorrira para ela, enquanto o animal desaparecia na mata.

“Será um segredinho entre nós dois, está bem?”

Ela concordara. Estavam fazendo uma coisa proibida, o caçador ficaria uma fúria, se soubesse. Mas se sentira orgulhosa de compar­tilhar um segredo com o pai.

Entre aquelas moitas, por sua vez, escondera-se durante uma tarde inteira só para deixar a mãe com sentimento de culpa. Jogara no rio toda a sua coleção de insetos e, de pirraça, fugira para o bos­que. Ninguém vai me encontrar aqui, vão pensar que algo errado acon­teceu comigo, e aí vão aprender a não me tratar mal, ela pensara.

Franziu os lábios num sorriso cansado. Estava se aproximando do lugar onde tudo tinha começado, sabia disso, e nada podia fazer para evitá-lo. Quando chegou nas proximidades da caverna parou, fincou o pé perplexa. Na sua lembrança era muito maior, quase um antro assustador e sem fundo. Mas, longe disso, não passava de um buraco úmido e escuro, coberto de musgo. Na medida certa para uma criança, pensou antes de entrar. Era ali que costumava abrigar- se com os companheiros - Mathon, Renni, Pat e Gornar - durante as horas mais quentes do dia. Era ali que guardavam o seu tesouro.

Arrastou-se para dentro com uma sensação de derrota. Qual havia sido o sentido das suas longas andanças, durante aqueles dez anos, sofrendo e lutando, se afinal nunca conseguira sair dali?

No interior nada tinha mudado. Ninguém mexera em coisa al­guma. Num canto ainda se via a espada enferrujada, o mais precioso trunfo que eles guardavam, e então a madeira, naquela altura apo­drecida, das varas de pesca. Dubhe procurou imaginar os amigos parados diante da entrada da gruta, agora sem Gornar e ela. Talvez se tivessem demorado, indecisos, sem saber se deviam entrar ou não para recuperar o tesouro. Mas depois deviam ter desistido, come­çando por Renni. Talvez tivessem entendido, naquele momento, que tudo tinha mudado, para sempre.

Pela primeira vez, Dubhe compreendeu a gravidade do seu gesto. Naquele dia não matara somente Gornar. Naquele primeiro dia de verão a turma toda havia morrido. Nenhum deles voltara a ser o que era antes, ali dentro tudo acabara, e ela era a única culpada.

Caiu de joelhos quase sem perceber, os punhos fechados encos­tados na pedra. Teria dado qualquer coisa para voltar atrás, para lim­par-se daquele remorso, mas nada, nem mesmo a água do riacho que tudo alisa e leva embora, podia lavar o sangue das suas mãos.

Arrastou para fora da gruta e se ajoelhou à beira da correnteza, enquanto os soluços a sacudiam.

-           Perdão - murmurou olhando para a água. - Perdão, eu não queria...

O barulho de passos a fez estremecer. Esticou automaticamente a mão para o punhal escondido sob o corpete que o soldado lhe dera. Quando levantou os olhos, no entanto, seus dedos soltaram imedia­tamente a presa. Diante dela, de pé na outra margem do riacho, es­tava Learco. Olhava para ela, imóvel, na sua reluzente armadura, mas apesar da aparência de grande capitão seu rosto nada tinha da segu­rança que se espera ver em quem tem em suas mãos o destino de mui­tos homens. Observava-a com tristeza, quase com compreensão.

Dubhe voltou a pensar naquele longínquo dia em que se en­contraram pela primeira vez. Naquela ocasião também percebera que, diante da horrenda chacina, os dois estavam experimentando a mesma coisa; aquele momento terrível tornava-os diferentes de todos os demais e iguais entre si. Como agora. Quase parecia que Learco entendia a razão da sua dor e a compartilhasse.

Dubhe enxugou apressadamente as lágrimas enquanto ele atraves­sava o riacho, com as botas mergulhadas na água até a panturrilha.

Quando chegou, curvou-se em cima dela.

-           Não tinha nada a fazer no vilarejo?

Dubhe sacudiu a cabeça, confusa.

-           Não, eu...

Um silêncio constrangido envolveu os dois, mas Learco não desviou o olhar.

-           Sejam quais forem os motivos da sua angústia, agora tudo acabou - disse.

Dubhe virou a cabeça, engolindo para livrar-se das lágrimas. Havia algo tranquilizador no tom da voz do jovem, mas lá no fundo sentia que ele mesmo não acreditava no que acabava de dizer.

Ajudou-a a levantar-se oferecendo a mão. Dubhe não se retraiu, e acabou fitando-o diretamente nos olhos.

—        Aproveite estas últimas horas no vilarejo — disse o príncipe.

-           Mantenha a cabeça ocupada. A solidão não ajuda em nada.

—        Mas o senhor também está aqui, sozinho — replicou ela.

Learco sorriu com amargura.

-           Neste caso, não aconselho que siga o meu exemplo. - Então, sem acrescentar mais nada, embrenhou-se na mata e desapareceu.

Dubhe experimentou dentro de si uma emoção estranha. As­sim como ela, aquele jovem estava procurando um momento para ficar sozinho consigo mesmo.

Pela primeira vez, após tanto tempo, sentia estar partilhando alguma coisa com alguém. Pedira perdão à beira do riacho e ele a vira. Tinha sido como confiar-lhe o terrível peso do seu segredo. Mas talvez o príncipe também escondesse outra verdade.

Quando Dubhe e Theana voltaram a se encontrarem, o sol incen­diava a praça de Selva. Os mercadores tinham desmontado as suas barracas; sobravam apenas armações de madeiras vazias e miudezas espalhadas por toda parte. Era uma visão desoladora, mas Dubhe sentia-se estranhamente aliviada.

Embora a visita à caverna a deixara abalada, ter sido descoberta num momento tão íntimo fizera-lhe bem. Talvez a ida até lá tivesse um sentido e fosse algo mais que um mero mergulho no passado.

Theana chegou arfando, puxando atrás de si duas grandes sa­colas cheias de coisas e dois embrulhos com as novas roupas.

—        Tentei arranjar todo o necessário, e com fartura — disse apoian­do os volumes no chão. Arquejava de cansaço, mas parecia satisfeita.

Dubhe encarou-a com sarcasmo: evidentemente a companheira não estava acostumada com aquele tipo de viagem e, muito menos, com uma missão como a delas, de sicários.

-           Estou vendo - respondeu fria.

Theana fitou-a com ar interrogativo.

-           Quanto mais coisas levarmos conosco, mais difícil será mentir­mos para o Learco. Achei que já tinha entendido isso — repreendeu-a Dubhe.

Theana deu uma olhada preocupada na bagagem. Não tinha pensado no assunto. Por mais que se esforçasse, continuava a raciocinar como se ainda fosse a assistente de Folwar. Ainda se movia entre os alambiques do laboratório e não num campo de batalha.

Ao ver a sua expressão, Dubhe arrependeu-se na mesma hora da alfinetada. Afinal deixara-a sozinha para resolver a tarefa.

-           Esconderemos tudo por baixo das roupas - disse então, com gesto displicente. - Vamos nos trocar na tenda das escravas, pois, de qualquer forma, agora está vazia.

Fizeram tudo em silêncio, enquanto o céu assumia uma cor cada vez mais roxa e escura.

A hora roxa. Dubhe suspirou. Ainda criança, às vezes aconte- cera-lhe assistir àquele estranho capricho dos elementos. Depois do pôr do sol tudo parecia tingir-se de uma cor irreal, e a pessoa tinha a impressão de haver sido vítima de algum tipo de feitiço. Era um momento extraordinário do qual ela sempre gostara.

-           Acredita que seja prudente viajarmos com o príncipe?

Dubhe virou-se de estalo. Ainda bem que a voz de Theana che­gara antes que as antigas lembranças voltassem mais uma vez a do­miná-la, pensou.

-           Se conseguirmos ganhar a sua confiança, não haverá proble­mas - respondeu decidida.

Mesmo assim, uma estranha sensação de mal-estar acometeu-a de surpresa. Continuou a trocar de roupa ignorando a repentina in­quietação e, quando levantou o olhar, reparou que a companheira continuava ali, imóvel de olhos fixos nela.

Theana corou de leve e Dubhe enrijeceu. Sabia muito bem qual era o problema.

-           Isto a incomoda, não é verdade? Quer dizer, a minha maneira de ser... o que eu sou. — Parou de enlaçar a saia e encarou a outra com ar desafiador. - Deve estar se perguntando como alguém pode ser tão frio e usar os outros de forma tão descarada, não é isso?

O tom da sua voz tornara-se duro, mas sentia a necessidade de deixar bem claro a distância entre as duas, entre a assassina e a moça crescida na corte dos magos.

Theana assumiu uma expressão sombria, mas não reagiu como de costume. Empertigou os ombros, aliás, e aguentou com firmeza seu olhar, em silêncio.

-           Só fico imaginando como deve ser difícil suportar o peso da maldição que carrega nos ombros - disse afinal.

-           Não preciso da sua piedade — replicou logo Dubhe. — Não precisava da de Lonerin e muito menos preciso agora da sua.

-           Não é piedade. E de qualquer maneira, mesmo que fosse, não haveria nada de mau nisso. A piedade nos aproxima dos outros, faz com que possamos entendê-los.

Dubhe sentiu-se pega com a boca na botija. Era o que ela mes­ma pensara naquela tarde, na margem do riacho. Admiti-lo, po­rém, significava baixar a guarda, e ela não queria absolutamente fazer uma coisa dessas.

-           Bonitas palavras, que provavelmente deve ter aprendido com os seus amigos sacerdotes - observou com sarcasmo.

Theana procurou refrear a raiva, mas já não aguentava aquela atitude provocativa, e acabou desabafando:

-           Eu, pelo menos, tenho a minha fé, que você tanto escarnece. E não são palavras de sacerdotes: é assim mesmo que eu sou, pro­cure se acostumar. Sou a jovem que reza à noite e que corre atrás da esperança.

Dubhe ficou surpresa com aquele repentino arroubo de orgu­lho. Mas nem por isso estava disposta a ceder.

-           Eu não preciso de rezas, nem de esperança.

O olhar de Theana tornou-se feroz.

-           É mesmo? E, com todo esse vazio que carrega por dentro, aonde conseguiu chegar até agora? Além de sobreviver e matar, o que mais fez na vida?

Aquelas frases desceram no núcleo da dor de Dubhe como uma faca incandescente. Sua boca secou e, de repente, ficou sem palavras.

-           Eu tenho um propósito — sibilou finalmente a maga. — E quan­to a você, além de se livrar de Dohor, o que mais tenciona fazer?

Não havia resposta àquela pergunta. Dubhe sentiu-se aniqui­lada. Limitou-se a guardar as velhas roupas na mochila e carregá-la nas costas. Em silêncio.

-           Está na hora - disse então, com um fio de voz. Mas quando olhou para ela viu que já não havia atrevimento no olhar de Theana, e sim apenas compaixão.

-           Para mim também é difícil viajar com você - suspirou a maga.

-           Acho que já ficou bem claro que não nos suportamos. Mas não há motivo para continuarmos esta guerra subterrânea.

Dubhe ficou surpresa com aquela abordagem tão direta. Nunca passara pela sua cabeça que Theana fosse capaz de dominar a situa­ção daquele jeito. Além do mais, não se deixara levar pelo remorso, nem pensara em pedir desculpas.

-           Talvez tenha feito um erro de avaliação, talvez nunca devesse ter vindo com você. Mas agora estou aqui, e acredito na nossa missão. Estou fazendo o possível para mostrar-me à altura da tarefa, e acho que já sabe disto. Assim sendo, pare de escarnecer-me por aquilo que sou: e não esqueça que também é graças à minha fé que você ainda está viva.

Dubhe desviou o olhar. Mais uma vez, tudo estava desmoro­nando sob seus pés.

Learco estava no meio da praça, sozinho. Vestia a mesma armadura que usava de manhã e esperava por elas com olhar distante. Dubhe sentiu um estranho aperto no estômago ao vê-lo. Correra o risco de revelar-lhe a sua verdadeira identidade e, de repente, aquilo a dei­xava em condições de inferioridade. Ficou para trás, permitindo que Theana tomasse a iniciativa. A mesura com que ela cumprimentou o príncipe foi perfeita: percebia-se que estava acostumada a conviver com a nobreza. Dubhe imitou-a, baixando também a cabeça.

-           Já lhe disse que não é preciso.

A voz cansada de Learco lembrou-lhe com algum embaraço as palavras ouvidas perto do riacho. “Sejam quais forem os motivos da sua angústia, agora tudo acabou.”

-           Viajaremos juntos por alguns dias, é inútil que continuem a tratar-me de maneira tão formal. - O jovem deu uma rápida olhada em ambas, sem se deter em nenhuma das duas. — Estamos na terra do meu pai, mas aqui também não faltam inimigos. Se quiserem acompanhar-me, precisam estar cientes de que não será uma via­gem fácil.

Foi a vez de Dubhe tomar a palavra:

-           Meu senhor, já passamos por momentos muito difíceis e, ago­ra que já não temos uma casa, a nossa única esperança é acompanhá- lo. Até as maiores dificuldades serão pouca coisa, comparadas com o triste destino que tiveram as nossas lavouras, lá no vilarejo.

Poderia jurar que Learco estava a fitá-la com maior intensidade do que fizera com Theana.

Fique calma. Não épossível que saiba alguma coisa. Lá no riacho deve ter pensado que você estava chorando devido àquilo que lhe acon­teceu.

Ele anuiu com um rápido aceno.

-           Então vamos andando, sem demora. Estou sendo esperado em Karva daqui a cinco dias, e pelo menos por esta noite podere­mos viajar despreocupados. Estamos numa zona segura.

Apoiou a mão na empunhadura da espada e seguiu em frente, sem olhar para trás.

Marcharam durante a noite inteira. Na manhã seguinte pararam numa aldeia. Learco providenciou do próprio bolso a acomodação das duas jovens numa hospedaria e desapareceu pelo resto do dia.

Dubhe e Theana aproveitaram para repetir o ritual contra a Fera. Poderiam esperar mais seis dias, mas não sabiam se mais tar­de teriam o tempo e a oportunidade para o encantamento. Theana tinha as mãos trêmulas de cansaço, mas o desejo de mostrar a sua força de ânimo à companheira era grande demais. Não conseguia perdoar-lhe pela troca de alfinetadas do dia anterior. Não eram tanto as ofensas e o desprezo que Dubhe lhe demonstrara para deixá-la irritada mas sim o fato de ela ter conseguido arrancar-lhe da boca pa­lavras cruéis das quais se envergonhara quase na mesma hora. Flavia sido levada a um descontrole ao qual nunca deveria ter chegado.

De qualquer maneira, não deixou que o seu estado de ânimo a perturbasse durante o rito. Esvaziou a mente, como sempre fazia antes de um encantamento, e tentou olhar para Dubhe da mesma forma com que olharia para qualquer uma das pessoas que viessem procurá-la para serem curadas.

Desta vez foi tudo mais simples. Quando acabou, Dubhe con­trolou as próprias forças dando uns rápidos golpes de punhal. Pare­ceu ficar satisfeita. Theana apoiou-se na parede atrás do catre, com­pletamente esgotada e com a testa molhada de suor: aquela opera­ção sempre exigia o gasto de muita energia.

-           Sinto-me bem melhor do que da outra vez - murmurou Dubhe. - Obrigada...

-           É o meu dever - respondeu Theana, meio sem jeito. Depois calou-se.

Dubhe sentou na cama, para então deitar-se, olhando para o teto.

-           Não faz muito tempo que lhe perguntei, mas não posso deixar de pensar nisso toda vez que olho para você. Desde que partimos, teve de aguentar provas que devem ter sido terríveis para você, e tudo por uma pessoa que no fundo deve odiar. Por quê?

Theana corou. Era uma pergunta pela qual não esperava.

-           Cada uma de nós salvou a vida da outra. Temos portanto alguma coisa em comum, não acha? - insistiu Dubhe. - Só quero saber o verdadeiro motivo que a levou a enfrentar esta missão...

Theana segurou uma mecha de cabelos entre os dedos e, por um momento, achou melhor não responder, mas em seguida se lembrou daquele “obrigada” com que Dubhe acabava de mostrar- se grata.

-           Não sei - respondeu indecisa. - Talvez fosse a vontade de mudar, a vontade de pôr à prova a minha capacidade. Talvez... esti­vesse cansada de esperar a volta de Lonerin, enquanto ele realizava feitos extraordinários.

Falei, falei mesmo!, disse a si mesma, escandalizada. Lonerin era um assunto tabu, entre elas. Não sabia ao certo o que havia aconte­cido entre ele e Dubhe, mas fora na certa alguma coisa com que ela sonhara por muito tempo, sem consegui-la.

Receava a reação da companheira, mas Dubhe olhou para ela com um sorriso que derreteu alguma coisa na sua garganta.

-           Vai ver que, na verdade, eu só queria fugir - acrescentou então com uma risadinha forçada.

-           Não deveria fazer uma coisa dessas - replicou Dubhe, séria.

-           De alguma forma, ele também está fugindo de você.

Theana ficou quase comovida. Dubhe poderia ter afundado a faca na carne e se vingado das palavras duras que ela lhe dirigira aofalarem de fé e esperança. E, ao contrário, ouvira-a. Teve vontade de dizer alguma coisa, talvez mostrar-se também agradecida, mas antes mesmo de abrir a boca a outra falou primeiro:

—        Durma. Amanhã um dia duro espera por nós, e acho melhor você recobrar as forças.

Então levantou-se para fechar a janela do quarto enquanto Theana deitava-se no catre e fechava os olhos. Na penumbra acon­chegante do quarto, Lonerin desceu sobre ela como uma doce lem­brança.

Na manha seguinte, quando foi buscá-las na hospedaria, Learco já não usava a armadura.

-           Prefiro andar por aí sem muitos adornos - explicou. - Tornam-me reconhecível, e não gosto de ter por perto pessoas que me reverenciam e pedem favores. Sem contar os inimigos do meu pai...

Carregava um saco de viagem nas costas, onde evidentemente guardara as suas coisas. Quanto ao resto, estava vestido como um jovem qualquer, com um par de calças de algodão e um casaco de linho fechado na cintura com uma tira de pano. Por cima da tira, um cinturão de couro no qual estava pendurada uma espada bas­tante elaborada. Dubhe ficou surpresa com a sua magreza. Devia ter uns dois anos mais que ela, mas o corpo era tão esguio quanto o de um rapazinho. Os músculos, desenvolvidos durante o treina­mento militar, mal apareciam sob o leve pano do casaco.

Puseram-se a caminho em silêncio. Depois daquele momento de familiaridade na hospedaria, na tarde anterior, as duas jovens haviam-se tornado novamente distantes. Tinham deixado de conver­sar, e Theana só abria a boca para murmurar as suas orações a Thenaar. Estranhamente, Dubhe desistira de prestar atenção, e quando a ouvia aquilo já não a incomodava.

Era, no entanto, com Learco que ela tinha algum problema. Tudo começara com o encontro dos dois à beira do riacho. Dubhe não podia deixar de sentir uma espécie de instintiva simpatia por aquele jovem e, ao mesmo tempo, uma estranha gratidão que a irri­tava. E era justamente isso que ela queria evitar. O rapaz nada mais era do que o filho do homem que ela devia matar: um meio, por­tanto, apenas isso. O que agora sentia era um obstáculo ao cumpri­mento da missão. Ela tinha de manter-se lúcida e friamente im­piedosa.

“A pessoa que tem de matar é apenas um boneco de pau.” As palavras de Sarnek, o seu Mestre, ressoavam continuamente na sua cabeça. Nunca conseguira se adaptar a esta regra, mas agora era imprescindível fazê-lo com Learco.

O jovem era o filho do seu acérrimo inimigo. Dohor era a primeira pessoa que ela realmente desejava matar. Até então nunca experimentara alegria no homicídio e, quando lhe acontecera come­ter um assassinato, sempre fora para ela um sacrifício. Mas não agora com Dohor. Aquele homem impusera-lhe a maldição, colocara a Fera no seu coração: um crime imperdoável, que nenhum preço ja­mais poderia resgatar. Queria, portanto, que ele sofresse, e o me­lhor jeito daquilo acontecer seria matando-lhe o filho!

Dubhe sabia muito bem que não era a hora mais oportuna para livrar-se de Learco: afinal ele era o salvo-conduto para entrar no pa­lácio de Dohor. Mais cedo ou mais tarde, porém, matá-lo seria um golpe de morte no coração do inimigo. Tudo não passava de uma obscura fantasia, algo que a ajudava a desligar-se daquele jovem, a vê-lo apenas na justa perspectiva.

Mesmo assim, certa vez, chegou a levantar-se no meio da noite. Learco dormia a uns poucos passos de distância, de espada na mão. Dubhe reconheceu o sono leve de quem recebeu treinamento de guerra. Deteve-se a observá-lo, olhando para o pescoço macio. Matá-lo. Quebrar o obscuro elo que os unia. Matar a única pessoa que tinha assistido à sua fraqueza. Um pensamento que a perturbava, com uma mistura de desejo e de sentimento de culpa.

Foi justamente o hábito dos campos de batalha que acordou Learco. Teve a estranha sensação de um perigo iminente, de uma presença ao seu lado, algo que conhecia muito bem. Abriu os olhos e virou- se de estalo. A mais jovem das duas moças que tinha salvado estava a poucos passos dele, sentada no seu leito improvisado, apertando os joelhos entre os braços. Ele relaxou.

-           Não consegue dormir?

A jovem, que estava de costas, virou-se para ele na mesma hora, quase assustada. Tinha um olhar que Learco conhecia muito bem, um olhar familiar que já vira muitas vezes simplesmente se mirando no espelho. Sentiu um aperto no fundo do coração.

-           Não, meu senhor.

Pronunciara aquelas palavras num tom que queria ser neutro, mas havia por trás algo mais: um pedido de ajuda, quase um grito. Learco sentiu-se de repente muito próximo daquela criatura ame­drontada.

E como as longas noites que passei diante da porta fechada da mi­nha mãe, à espera de um sinal, de um aceno dela. É como eu, quando a batalha acabava com a chegada da escuridão e ficava sozinho na ten­da, com os fantasmas dos homens que tinha visto morrer como minha única companhia.

Uma ruga sutil de dor formou um sulco entre as suas sobrance­lhas. Não era a primeira vez que sentia uma estranha forma de co­munhão com aquela jovem. Já acontecera no riacho.

-           Eu tampouco consigo dormir - disse com um sorriso. Fitou-a na pálida luz do luar: era miúda e perdida. Sentiu-se tomar de ter­nura. - Continua a chorar pela mesma razão do outro dia? - per­guntou.

-           Continuo - murmurou ela.

Diante dos seus olhos chispou rápida a imagem das muitas noi­tes insones que ele também passara, sem ninguém por perto que pu­desse consolá-lo, ninguém a quem confessar a própria dor.

-           Pois é... Não é fácil livrar-se dos demônios do passado, não é verdade? Cada ação nossa fica marcada na pele, e aí as cicatrizes nunca mais desaparecem.

A jovem não pareceu ficar surpresa com a frase. Tinha no olhar a expressão de quem entendia até bem demais.

Quase parece que estou dizendo isto a mim mesmo.

-           Pelo menos, agora estou salva - murmurou ela.

Aquelas palavras deixaram Learco estranhamente irritado. Até a idade de treze anos, quando começara o seu treinamento de sol­dado nos campos de batalha, nunca mantivera contato com o povo sobre o qual o pai agora reinava. Para ele os súditos eram somente uma multidão informe e confusa da qual Dohor dispunha a seu bel prazer, decidindo friamente quem devia morrer e quem devia viver. E não achava nada de mais nisso. Seu pai era o rei, e um rei tem este direito.

Mas então a guerra levara-o de um vilarejo para outro, ao en­contro da verdadeira cara daquele povo sobre o qual algum dia ele também teria o direito de vida ou morte. Uma multidão de rostos sofridos; homens, mulheres e crianças que se arrastavam às margens dos acampamentos, só mantidos vivos pelo mero instinto de sobre­vivência.

“Não precisa, nem deve, pensar neles, não passam de peões num tabuleiro, nada mais que isso”, dizia o tio Forra.

E aquela moça era um deles. Suas mãos tremiam de raiva.

-           Fico triste por não ter chegado antes; não pude impedir que a sua aldeia fosse destruída.

Ela continuou a olhar para ele com expressão conformada, per­dida.

-           É a guerra, meu senhor.

-           Desculpas - foi logo dizendo ele. - É uma guerra inútil. Nun­ca deveria ter começado. Juntar conquistas e mais conquistas... Por quê? Com que finalidade?

-           Pelo bem do nosso povo... - arriscou Dubhe.

Learco fitou-a com atenção.

-           Olhe para si mesma e para a sua irmã: foi pelo bem de vocês, tudo isso? Tinham uma casa e uma família. Agora estão seguindo alguém que lhes prometeu a escravidão, só que de forma menos bru­tal. Onde é que fica o seu bem?

Logo que acabou de falar, sentiu-se aliviado. Eram palavras, aque­las, que tinha remoído longamente durante os últimos oito anos, mas que nunca conseguira dizer. E agora desabafara.

A jovem parecia incapaz de fazer qualquer comentário. Learco ficou perguntando o que deveria estar pensando. Sentia pena? Estava escandalizada? Não importava. Haviam compartilhado alguma coisa, um dia antes, e ele a salvara. O dique se rompera. Era a pessoa certa com quem falar.

-           Vi tantos horrores, derramei tanto sangue... Talvez, no come­ço, achasse que aquilo estava realmente certo. Era o que me haviamensinado, afinal. Mas o sangue acabou encobrindo tudo: todo ideal, todo sonho. Agora só há morte, e eu caminho em cima de cadáveres.

Viu-a estremecer de leve na noite: tinha os olhos tristes de quem realmente entende, e ele se sentiu confortado.

O que diria meu pai? O herdeiro do trono que se confessa com uma escrava...

Não estava se importando nem um pouco.

-           Um rei não deveria falar assim, não é verdade?... Qual é o seu nome?

A jovem pareceu ter um momento de hesitação, seus lábios abri­ram-se, mas pararam por um instante.

-           Sane - disse afinal, baixinho.

-           Pois é, Sane, um rei não deveria falar deste jeito...

Learco sentiu-se vazio, mas de alguma forma também satisfeito consigo mesmo. Acabara de fazer o inconcebível, jogara para fora um peso que havia muito lhe oprimia o coração.

-           Procure esquecer, pelo menos esta noite — disse. - A vida é uma eterna fuga de nós mesmos, não há nada que possamos fazer.

-           Então virou-se novamente de lado, ainda segurando a espada. Sen­tiu os olhos da jovem cravados em suas costas, olhos sofridos e pro­fundos. Ficou acordado um bom tempo, até notar que ela também se deitava.

 

UM ADEUS DEFINITIVO

Salazar estava diante deles. A partir das ruínas da torre, as casas es­palhavam-se na planície como peças caídas de uma sacola de moe­das cheia demais. Era a primeira vez que Lonerin via aquela cidade lendária que só conhecia pelos livros. Mesmo assim não se sentia emocionado, provavelmente porque não tinha qualquer ligação com aquele lugar, ao contrário de Senar. Desde que haviam chegado, com efeito, o mago parecera-lhe agitado, quase nervoso. Talvez os lon­gos anos de solidão passados correndo atrás do fantasma de Nihal lhe tivessem gravado na mente cada tijolo, cada pedra ou fio de gra­ma daquele lugar.

Lonerin virou-se e olhou para ele, mas só encontrou um olhar frio, quase indiferente, que o fez pensar.

Havia sido assim desde o começo da viagem, uns poucos dias antes. Duas noites depois da decisão do Conselho, puseram-se a ca­minho da cidade onde Tarik fora morto para dar início à procura do talismã. Senar batera à porta do seu quarto no meio da noite. Lo­nerin ainda estava deitado na cama, olhando para o teto: pensava em Theana. Vira-a tão decidida enquanto preparava a bagagem para acompanhar Dubhe na sua missão que quase não a reconhecera. Parecera-lhe uma pessoa completamente diferente da frágil e insegura assistente de Folwar com a qual estava acostumado. E apesar de tudo haviam crescido juntos, tinham compartilhado todos aqueles anos estudando magia. Ficaram sutilmente unidos, de uma forma da qual, talvez, nem eles mesmos se tivessem dado conta. Só então Lonerin percebera com clareza como e até que ponto a sua vida se moldara a partir daquela de Theana; e compreendeu que o seu papel, no es­tranho trio que eles dois formavam ao lado de Folwar, tinha conse­guido algum tipo de equilíbrio graças à presença dela. Não conseguiaentender o motivo daquela decisão. Theana não era uma mulher de ação, ao menos pelo que ele a conhecia. A distância que de repente surgira entre eles deixara-o incrédulo.

Senar entrara justamente naquele momento, quando os seus pensamentos estavam pegando um caminho doloroso. Havia sido lacônico:

-           Apronte as suas coisas.

Lonerin levara algum tempo para entender.

-           O... o que está querendo dizer?

-           Quero dizer que estamos de saída. Espero você lá fora, perto das muralhas. Não demore.

Lonerin aprontara tudo na maior precipitação, incapaz de dar-se conta daquilo que estava fazendo. Então saíra correndo, sem fôlego, com um embrulho feito de qualquer jeito. A figura de Senar sobres­saía na esplanada fortificada, perto da cachoeira, na luz viva da lua cheia. Não levava qualquer bagagem consigo.

-           Estou esperando há muito tempo - disse impassível.

-           Queira me perdoar, mas não pensei que fôssemos viajar de noite...

Senar olhou para ele, enfastiado, em seguida fez um simples ges­to com a mão e, detrás das muralhas, apareceu uma enorme sombra negra que obscureceu a lua. Duas asas diáfanas e poderosas estica­ram-se na escuridão.

-           Usaremos Oarf até a fronteira. Não dispomos de muito tempo, e é melhor não perder mais ainda com inúteis deslocamentos a pé.

O dragão fincou seus olhos de brasa em Lonerin, avaliando-o com desconfiança. O jovem lembrou o primeiro encontro com ele, nas Terras Desconhecidas, quando Oarf quase chegara a matá-lo e à Dhu be. Durante a viagem de volta para Laodameia tinham aprendido, de alguma forma, a tolerar-se, mas nem por isso o dragão deixara de fitá-lo com ferocidade. Era óbvio que, mesmo agora, só estava obe­decendo ao dono.

Senar só conseguia montar na garupa com alguma dificuldade devido à perna enferma que o forçava a usar o cajado. Lonerin acu­diu para ajudar, mas ele o deteve, de cara fechada.

—        Não preciso me apoiar em você, ainda não sou tão velho - disse gélido. - Suba atrás.

Lonerin obedeceu, mas logo que tentou puxar-se para cima do dragão percebeu os músculos de Oarf se mexendo sob o toque das suas mãos. Era difícil encontrar um ponto de apoio naquelas esca­mas escorregadias, mas afinal conseguiu, e num piscar de olhos es­tavam no céu.

Por toda a duração da viagem, Lonerin teve a impressão de que Senar estava fugindo de alguma coisa. Haviam partido sem avisar nin­guém, e agora voavam como se tivessem inimigos em seu encalço. Oarf deixava para trás léguas e mais léguas com as batidas regulares das suas asas, mas Senar nunca parecia satisfeito. Estava irrequieto, devorado pela ansiedade de agir com a maior pressa.

A noite, diante da fogueira do bivaque, seus olhos não paravam um só momento, e o único assunto do qual falava era a magia.

Senar começou desde logo o treinamento.

—        O feitiço que terá de realizar é particularmente complexo; terá de libertar Aster da prisão na qual está atualmente preso, e fará isso atraindo o seu espírito no talismã, que funcionará como catalisador. Precisará arriscar no jogo a sua alma, e isso requer poderes dos quais, por enquanto, não dispõe.

Lonerin ficou perplexo diante daquela afirmação. Acreditava ter alcançado, já havia alguns anos, o ápice dos seus poderes, um ní­vel máximo inato em cada mago, tão próprio e natural quanto a cor dos cabelos ou a altura. Achava que dali em diante seria só uma questão de aprender novos encantamentos, sem que a coisa tivesse algo a ver com o grau da sua capacidade.

—        Mas, se não disponho deles, o que poderei fazer?

—        Todo mago tem uma força latente que não usa. Só precisa fazer com que ela venha à tona.

—        Queira me perdoar, mas eu acho que já desenvolvi toda a mi­nha capacidade, e o meu mestre também...

Senar calou-o com um gesto da mão.

—        Chega de bobagens. Eu perdi grande parte das minhas forças, mas sei com certeza que você ainda não explorou todas as suas po­tencialidades. Há encantamentos bastante poderosos que, por en­quanto, você considera inviáveis, mas que, ao contrário, estão ao seu alcance. É apenas uma questão de treinamento.

Recomeçaram partindo do princípio, dos mais elementares exer­cícios de concentração. Lonerin aplicava-se com diligência; até mes­mo durante o voo, Senar explicava coisas que poderiam ser-lhe úteis.

-           É um ritual muito antigo, e terá portanto de recitá-lo em élfico. Deverá aprendê-lo de cor, junto com os gestos necessários para acompanhá-lo. É preciso separar a alma do corpo e elevar-se num êxtase místico. Trata-se de uma espécie de morte aparente, difícil e dolorosa, que pode até tornar-se real...

Toda vez que paravam para a noite, Senar fornecia alguma nova informação ou pedia que cumprisse aquilo que aprendera no dia anterior. Alguns exercícios pareciam a Lonerin elementares demais.

-           Concentre-se na respiração do mundo.

-           É uma coisa que já sei fazer...

-           Não o bastante para o nível que será necessário - rebateu seco Senar,

Outros exercícios pareciam simplesmente bizarros.

-           Quero que tire daquela folha a sua seiva vital, assim. - Senar pegou uma folha, colocou-a no meio da própria mão cobrindo-a com a outra palma e franziu as sobrancelhas por um instante. Quan­do abriu novamente as mãos, de um lado havia uma folha seca e, do outro, uma luz verde brilhante.

Aquilo lembrava a Lonerin uma magia proibida que já estudara, e a coisa deixou-o inquieto.

Senar percebeu.

-           Não banque o virtuoso. Até mesmo os mais puros podem ver­se obrigados a recorrer a meios como este. E, de qualquer maneira, não é uma magia proibida.

Senar era sempre assim, brusco e irascível, e sem a menor pa­ciência.

-           Sinto muito se não estou tão preparado quanto o senhor de­sejaria - disse uma noite Lonerin.

-           Pois é. Infelizmente o destino colocou em minhas mãos um aluno um tanto lento - respondeu Senar, no evidente intuito de hu­milhá-lo.

Mas Lonerin não ficou ofendido. A admiração que sentia por aquele homem não tinha limites, sempre havia sido um modelo para ele, um herói. Estava disposto até a deixar-se maltratar, pois percebia os abismos de sofrimentos de onde ele vinha.

Além do mais, àquela altura, já haviam penetrado num terri­tório que Senar não via fazia quarenta anos. Lonerin ficava imagi­nando o que podia estar sentindo, ao vê-lo de novo. Ali fora escrita a sua história e, principalmente, se cumprira o destino de Nihal. Aqueles lugares falavam. Havia a grande estepe que Nihal, Senar e Soana tinham percorrido fugindo, após o ataque contra Salazar. Só por sorte Nihal se salvara, naquela ocasião. E também havia a Flores­ta, que mal dava para vislumbrar no horizonte onde, no passado, es­tava escondida a última pedra que era preciso colocar no talismã do poder, a pedra da Terra do Vento.

Lonerin contemplava o rosto de Senar e esperava ver nele uma emoção, uma lembrança ou uma saudade. Mas aquele rosto mar­cado pelas rugas continuava sendo uma máscara indecifrável.

Deixaram Oarf aos cuidados de um posto de fronteira e segui­ram em frente a cavalo, cobertos da cabeça aos pés por longas capas. Quase toda a estepe ao norte da Terra do Vento estava, àquela altura, sob o controle do Conselho das Águas, mas a maior parte do territó­rio continuava nas mãos de Dohor e dos seus aliados.

—        Um velho mercador e o seu aprendiz, ninguém vai reparar numa dupla dessas! - disse Senar, explicando como se deveriam por­tar dali em diante.

Lonerin ainda teve tempo de reparar num inesperado e fugaz, lampejo nos olhos claros do companheiro de viagem, e acreditou conhecer o motivo. Senar já usara um disfarce parecido muitos anos antes. Foi quando ele e Nihal penetraram na Terra dos Dias, para em seguida se dirigir a Seférdi.

Talvez, para ele, fosse o começo da única redenção possível, depois de tantos anos vividos a remoer em silêncio os pesadelos do passado. Lonerin esperou que a proximidade daqueles lugares pu­desse torná-lo, pouco a pouco, mais loquaz, mas aquele foi o único momento em que Senar deixou transparecer alguma emoção. De­pois disso, nenhum comentário, nenhum suspiro.

Quando Salazar apareceu no horizonte, pararam a poucas lé­guas da entrada. Quem se deteve primeiro foi o velho mago. Ficou em silêncio, observando as muralhas por vários minutos, com ares de estretegista. Depois esporeou o cavalo com displicência.

—        Vamos. Precisamos começar pela casa de Tarik.

Salazar era caótica e paupérrima. Tudo mudara, não era mais o lugar em que a história de Senar começara.

Pararam numa hospedaria só o tempo necessário para comer alguma coisa e deixar descansar os cavalos.

—        Ido contou-me que Tarik morava na casa da mãe.

A voz segura com que pronunciou aquele nome deixou Lonerin surpreso.

Serd que superou realmente a morte do filho?

—        Neste caso, é para a torre que precisamos ir. Faremos isso de tarde, de acordo? Com uma pitada de sorte, não deveremos encon­trar dificuldades.

Lonerin não pôde deixar de fitá-lo longamente, e por sua vez o velho mago também dirigiu-lhe um olhar interrogativo.

—        Então?

—        Nada, nada. — Baixou os olhos para o caneco de cerveja. — Estou plenamente de acordo.

Senar não fez outras perguntas, e o jovem concentrou-se no caneco, passando o dedo na borda.

Teria gostado de preencher a distância que os separava, mas Senar não parecia disposto a ajudar. Tomava a sua sopa rapidamente, mergulhando e tirando a colher quase com fúria.

Logo que passaram pelo portão de acesso, o passo do velho mago tornou-se mais inseguro. Seus olhos ficaram turvos, enquanto exa­minava lentamente as grandes pedras enegrecidas pela fumaça do antigo incêndio. Lonerin sentiu um nó na garganta. Subiram no que sobrava da velha torre devagar. As escadas estavam desconexas e, coxo daquele jeito, Senar tinha dificuldade em percorrê-las.

-           Deixe-me segurar no seu braço, esta maldita perna torna tudo mais difícil - disse Senar com raiva, e ele foi solícito em ajudá-lo.

O aperto daquela mão no seu braço pareceu-lhe no começo fir­me como de costume. Na realidade, Senar estava agarrando-se quase com desespero, e Lonerin se deu conta disso pelo leve tremor dos seus dedos ossudos.

-           Tarik morava em cima do portão. Precisamos ir por aqui - disse o mago, virando num corredor lateral. - Os fâmins chegaram depressa, naquele dia, porque conheciam este atalho. Era um cami­nho que eu mesmo usava quando ia visitar Nihal.

Então acelerou as passadas, soltando de repente o braço de Lo­nerin. Nem mesmo o seu cajado parecia tocar no chão, enquanto a mão procurava apoiar-se na parede. Lonerin quase foi forçado a correr atrás.

-           Livon, o pai adotivo de Nihal, tinha escolhido morar em cima do portão por comodidade. A sua oficina de armeiro ficava dentro de casa, e a localização perto da entrada da torre era a melhor pos­sível para um comerciante. Mas, infelizmente, a escolha acabou se revelando fatal.

Senar caminhava febrilmente, superando com destreza os pe­dregulhos e as fendas no pavimento que impediam a passagem. Pa­recia ter reencontrado toda a força e a agilidade da juventude, e até a perna inerte que arrastava penosamente dava a impressão de já não ter peso. Lonerin via suas costas iluminadas a intervalos regu­lares pela luz que filtrava através das janelas e das brechas nos muros. Enquanto isso, falava cada vez mais alto e mais rápido.

-           É aqui, aqui mesmo, que Nihal vinha brincar com os amiguinhos, entre os jarros dos negociantes e as barracas cheias de fruta.

—        Virou-se para o jovem com olhos brilhantes. — Havia muita gente morando aqui, não era como agora!

De repente, parecia voltar ao passado: agora estava vendo a Salazar da sua juventude, a Salazar de Nihal e da idade de ouro, da época em que Aster ainda não tinha conquistado a Terra do Vento.

-           Mais devagar, por favor - tentou dizer Lonerin, mas Senar não ouvia, entregue daquele jeito às suas recordações. Mais uma vi­rada, e Lonerin perdeu-o de vista.

Que droga!

Acelerou o passo seguindo o som da sua voz. De repente, si­lêncio. Repentino e profundo.

-           Onde o senhor está?

Virou a esquina do corredor e o viu. Emoldurado no vão de uma porta aberta que dava para uma melancólica penumbra. Lo­nerin parou, ciente do que estava se passando. Era a primeira vez que via a casa de Nihal, ou melhor, a casa de Tarik. Ido descreve­ra-a ao Conselho das Aguas com fartura de detalhes, mas mesmo assim não conseguira transmitir o aspecto gélido e assustador daque­le lugar, parado no instante em que tudo acontecera. Da entrada vislumbrava-se um cômodo bastante amplo, completamente de­vassado. Móveis quebrados espalhados pelo chão, cacos de vidro e sangue por toda parte. Grandes manchas ainda sujavam o soalho de madeira, enquanto pegadas confusas chegavam à porta. Lonerin não sabia o que dizer, que palavras usar, mas Senar tirou-o do des­conforto falando primeiro. Meneou e baixou lentamente a cabeça, depois olhou para ele decidido.

-           Vamos nos separar - disse. - Procure na cozinha, eu cuidarei do quarto. Sabe qual é a forma do talismã?

Lonerin não foi capaz de responder. Olhou indeciso para Senar, e o fez com tamanha intensidade que o mago ficou irritado.

-           Não fique olhando para mim como um bobo! Não dispo­mos de muito tempo. Sabe ou não sabe?

-           Sei, li a respeito - respondeu Lonerin baixinho.

-           Então procure.

Senar entrou rápido, pisoteando os cacos, e enfiou-se no quarto de dormir.

Lonerin seguiu-o logo depois, com passo incerto. Entrar ali pro­vocava nele uma sensação estranha. Havia o fedor da Guilda, naque­le lugar. Por onde a seita dos Assassinos passasse, deixava atrás de si uma aura de morte e desespero. Evitou uma mancha de sangue maior que as demais, mas não demorou a perceber que era impos­sível mexer-se sem pisar nas nódoas ressecadas espalhadas no chão. A cor apagada e poeirenta do sangue trouxe-lhe à memória a lem­brança inapagável do corpo da mãe no meio de outros cadáveresmassacrados pela Guilda. A raiva arrebatou-o de surpresa, como sempre. Por mais que corresse, o ódio era sempre mais rápido que qualquer fuga, como um inimigo perenemente de tocaia.

Fechou os olhos tentando voltar ao momento presente e reas­sumir o controle de si mesmo. Do outro aposento chegava o baru­lho de armários abertos, de baús deslocados, de objetos removidos. Olhou mais uma vez em volta, tentando focalizar a imagem do ta­lismã que procurava: era um medalhão de ouro, com um grande olho no meio e oito engastes ao redor que abrigavam oito pedras de cores diferentes. No lugar da íris, havia uma pedra iridescente, a mesma que Nihal tinha quebrado quando decidira sacrificar a pró­pria vida pelo marido e o filho nas Terras Desconhecidas.

Lonerin começou a procurar entre os pedaços de madeiras do soalho, as lascas dos móveis arrebentados e os cacos de vidro espalha­dos por toda parte. Depois passou a examinar as poucas alfaias ainda intactas e até a lareira, no caso de haver nela algum nicho secreto. Tinha a impressão de ser uma espécie de ladrão, enquanto enfiava as mãos na intimidade daquelas pedras enegrecidas.

Será que Dubhe, alguma vez, também se sentiu assim, enquanto roubava a casa de algum ricaço?, perguntou a si mesmo, e a imagem da jovem explodiu na sua mente sem ele querer. Era uma ferida que não sarava. Ou, quem sabe, naquela altura não passasse de orgulho, de humilhação por ter sido rechaçado de forma tão cruel. Tudo se confundia na sua cabeça: amor e afeição, amizade e ódio. Até mes­mo os rostos das mulheres da sua vida se sobrepunham: Dubhe e Theana; e no meio delas umas poucas imagens confusas do rosto da mãe.

Onde estarão, agora?

Lonerin passou a examinar as paredes, batendo um por um em cada tijolo. Todos pareciam firmes e sólidos, no entanto. Voltou a examinar o soalho levantando as tábuas ainda presas ao chão: nada.

A certa altura os ruídos no quarto ao lado tornaram-se ensur­decedores e ouviu-se um grito. Correu imediatamente para lá, mas parou na ombreira da porta. Senar estava no chão, no meio de um amontoado de roupas. Devia ter esvaziado por completo a arca, para então derrubá-la com raiva. Agora estava de joelhos, apertando comos punhos os lençóis manchados de sangue, o rosto contraído numa careta atroz.

-           Não está aqui, maldição, não está! - gritava olhando para Lonerin, desesperado, com as faces riscadas de pranto. Tentou levantar- se, mas a perna cedeu, forçando-o a ficar novamente de joelhos. - Não está, maldição! - trovejou.

A sua voz era um rugido, mas logo mitigou-se numa espécie de surdo ganido. Afundou a cabeça entre os lençóis.

Lonerin chegou perto, devagar, quase na ponta dos pés. Incli­nou-se com delicadeza e colocou a mão no seu ombro. O velho mago virou-se de estalo, abraçando-o. O jovem ficou surpreso, ator­doado com aquele gesto tão repentino e inesperado.

-           Aqui era a sua vida, entende? Morreu naquela cama, e eu não estava! Ido estava ao lado dele, naquele dia, mas não o pai. Nem tive a oportunidade de dizer-lhe quanto me custou deixá-lo ir embora daquele jeito... Nunca lhe contei da falta que sentia dele! Não pude pedir-lhe perdão e tampouco desculpas por ter deixado morrer a nossa Nihal sem fazer coisa alguma!

Lonerin sentiu como que uma ardência nos olhos, enquanto revia de repente a mãe que corria desesperada ao templo de Thenaar para oferecer a própria vida em troca da do filho. Compreendeu o tamanho da dor que devia trespassá-la, o infinito sofrimento que a levara a fazer aquela escolha. Não conseguiu dizer coisa alguma, não existiam palavras para um fato como aquele, não podia haver qual­quer tipo de consolo para uma coisa tão insensata quanto a morte de um filho.

Permaneceu calado, imóvel, de braços apertados em volta dos ombros do velho mago.

Lonerin levou-o para fora da torre. Depois daquele momento de desânimo, Senar havia voltado a ser o mesmo de sempre. Enxugara quase com raiva as lágrimas do rosto, procurando recuperar a com­postura, mas seu corpo estava cansado, alquebrado após exumar cul­pas enterradas no passado.

-           Encontrou alguma coisa? - perguntou apoiando-se no muro de uma viela lateral.

Lonerin sacudiu a cabeça, desconsolado.

-           Não estava lá - disse Senar, olhando para cima. - Ou talvez estivesse e eles levaram. A casa estava cheia de alfaias e roupas de todo dia, mas não havia coisa alguma de valor, coisas que pudes­sem ser vendidas para obter algum lucro.

-           Acha que as coisas valiosas foram levadas embora?

Senar anuiu.

-           Tarik tinha levado consigo a espada da mãe.

Lonerin se lembrou da arma de cristal negro de Nihal, descrita em todos os livros como um objeto de inestimável valor. Talvez Se­nar estivesse certo, mesmo só a empunhadura trabalhada devia valer uma fortuna.

O velho mago desencostou-se da parede.

-           Precisamos encontrar quem cuidou da matança, quem a in­vestigou e, finalmente, quem enterrou os corpos.

Encaminhou-se pela rua que levava ao centro da cidade, ainda coxeando de leve.

Lonerin ficou um bom tempo olhando para ele, então decidiu falar:

-           Acho que Tarik sabia.

Senar virou-se.

-           Sabia que o senhor o amava, sabia tudo. E também amava profundamente o senhor.

Um lampejo de ternura passou pelos olhos do mago. Conti­nuou calado, limitou-se a olhar fixamente para Lonerin por alguns instantes. Em seguida retomou o caminho.

—        O gnomo veio me procurar, ofegante, e levou-me imediatamen­te para lá. Fiz o possível para salvar aquele homem, mas era tarde demais.

O sacerdote que havia cuidado de Tarik tinha uma aparência bastante lastimável, com uma túnica toda esfarrapada e um olhar conformado de aninal machucado. Não devia ser tão velho assim, pelo menos a julgar pela voz e a maneira com que falava, mas a vida fora certamente ingrata com o pobre coitado. Lonerin e Senarestavam sentados diante dele numa taberna de Salazar, cercados pela espessa cortina formada pela fumaça de muitos cachimbos e pelo cheiro da cerveja.

-           A mulher já estava morta - acrescentou o sacerdote -, e as feridas do homem eram graves demais para serem curadas. Na ma­nhã seguinte, quando voltei, já estava morto. Prometi ao gnomo que cuidaria dos corpos, e foi o que fiz.

Lonerin reparou que as mãos de Senar continuavam a ser sacu­didas por um quase imperceptível tremor.

-           Sepultou-os? - perguntou o mago com voz neutra.

O sacerdote concordou titubeante.

-           Enterrei-os no dia seguinte. Levavam uma vida muito fecha­da, e eram realmente muito poucos os que os conheciam. Tentei ave­riguar, mas não encontrei ninguém disposto a organizar o funeral, de forma que eu mesmo tive de fazê-lo. Não havia mais de dez pes­soas durante a cerimônia.

-           Onde foi? - perguntou Senar. O sacerdote olhou para ele sem entender.

-           Onde os enterrou? — esclareceu o mago.

-           No cemitério do lado de fora das muralhas. Eu mesmo gravei as lápides. Coloquei-os lado a lado. O senhor os conhecia?

-           Não - apressou-se a dizer Lonerin. Depois continuou: - Hou­ve algum tipo de investigação? O que foi feito com as suas coisas?

O sacerdote ficou olhando indeciso para os dois magos. Dava para ver que estava com medo e media cuidadosamente as palavras. Com toda a certeza devia se perguntar o motivo daquele interroga­tório e quem eram aqueles dois.

-           Não havia muito a investigar. Um roubo que acabou em tra­gédia, pelo menos foi o que disse o mensageiro do Ancião. Quanto às coisas deles, não havia ninguém para ficar com elas. Em suma, ti­nham muito poucos amigos, e nenhum parente, pelo menos aqui em Salazar. Ela não era da Terra do Vento, e ninguém sabia onde estava o resto da família. Quanto aos pais dele, então... — Fez um gesto vago com a mão.

Os dedos de Senar contraíram-se, os nós ficaram brancos.

-           Então? — prosseguiu Lonerin.

-           Então nada. Vendemos tudo aquilo que podia ser vendido. Mas as roupas, os móveis e as alfaias continuam lá. Quem poderia querer as roupas de pessoas mortas de um jeito tão brutal?

-           Quem se encarregou do negócio? - perguntou Senar.

-           Mólio, um mercador que mora no primeiro andar da torre. Ficou com tudo, e acho que conseguiu revender alguma coisa. Não o conheço bem, mas a sua loja é bastante frequentada: pode-se encontrar um pouco de tudo nela.

Lonerin recostou-se na cadeira. A situação não era nem um pou­co animadora. As coisas de Tarik podiam estar em qualquer lugar.

-           Fico-lhe grato. O senhor foi realmente muito útil - disse com um suspiro, e o sacerdote pareceu relaxar.

-           Digam a verdade, eles se haviam metido em alguma encrenca, em algum negócio escuso? Sabem como é, aquele gnomo tinha muita pressa, foi embora sem nem mesmo dizer quem era... E, além do mais, a maneira com que foram mortos... Deixando de lado a versão oficial, sempre achei que devia ter algo mais, algo de errado.

Senar fulminou-o com o olhar, e o sacerdote encolheu-se no banco.

-           Só queria saber...

-           Não, não é nada disso. Acontece que somos colecionadores

-           apressou-se a explicar Lonerin. - Sabíamos que aquele homem possuía alguns objetos interessantes, principalmente armas, que es­távamos interessados em comprar. Quando fomos procurá-lo, sou­bemos que tinha morrido.

-           Entendo - comentou o sacerdote, num tom neutro.

Lonerin e Senar pagaram-lhe a cerveja e saíram silenciosamen­te da taberna.

Pegaram um quarto numa hospedaria na periferia para passar a noi­te. Ambos estavam exaustos, e Senar não tinha certamente condi­ções para ir logo falar com o mercador.

Mesmo assim sabia que tinha de fazer mais uma coisa.

-           Onde fica o novo cemitério? — perguntou à hospedeira. Ele só se lembrava do antigo, que naquela altura já devia ter sido englo­bado pela cidade.

—        Para o oeste, meia milha além da área urbana. Não pode errar, há um grande muro preto todo em volta.

Senar virou-se para Lonerin.

—        Preciso ir sozinho.

O jovem mago fitou-o preocupado.

—        O senhor está cansado, deve ficar a pelo menos duas milhas daqui...

Senar calou-o com um gesto.

—        Posso chegar lá. Não me subestime.

Moveu-se através do caos da cidade, com a perna que doía, mas principalmente com o coração pesado devido àquilo que tinha visto. A imagem da casa de Tarik violada por ignóbeis sicários continua­va a atormentá-lo. Quase podia ver o filho deitado naquela cama, mal conseguindo respirar enquanto Ido segurava sua mão. Ido, e não ele.

Sabia que não era hora de perder-se em saudosas lamúrias e que tinha de concentrar-se com todo o seu ser na missão, porque Nihal havia amado o Mundo Emerso, e seu filho passara nele a sua breve existência. Eram as únicas razões pelas quais valia a pena salvá-lo. Mas como esquecer?

Pouco a pouco as casas começaram a rarear, e o muro preto que mencionaram não demorou a aparecer diante dos seus olhos, imenso e imponente, definitivo como a morte. Passou pela porteira já quase sem fôlego. Encontrava-se agitado, embora não quisesse admitir. O sol estava a ponto de esconder-se atrás do alto muro e projetava no interior longas sombras escuras.

Senar avançou lentamente pelas alamedas, entre fileiras de lápi­des. Lembrava uma espécie de melancólico jardim, onde cada cepo anônimo representava uma vida.

Foi lendo distraidamente os nomes. Havia famílias inteiras. Per­guntou a um homem que estava cavando uma cova onde poderia estar o túmulo de Tarik. O sujeito olhou para ele do jeito com que se olha qualquer velho e indicou vagamente o lugar para onde devia ir. Ninguém, no Mundo Emerso, sabia mais quem ele era. Lembravam-se certamente dele e de Nihal, como atestavam as muitas está­tuas erguidas nos cruzamentos e nas praças, mas ninguém era capazde reconhecer naquele homem idoso o herói que tinha salvado o mundo inteiro.

Ao se aproximar do lugar indicado, foi avançando mais devagar, então parou. Duas lápides, nem mesmo uma única flor. Sinais de terra recém-mexida. Afinal de contas, haviam-se passado menos de três meses. A vida deles transcorrera fugaz e silenciosa naquele lugar, e agora ninguém ia vê-los.

Senar caiu de joelhos, exausto. Tálya e Tarik. Como teria sido Tálya? Não conseguia imaginar o tipo de mulher do qual o filho pu­desse gostar. Ainda lembrava-se dele como garotinho imberbe, e mesmo assim pronto a tomar uma decisão de capital importância para a sua vida. Não sabia em que homem se transformara. Teria ficado parecido com ele? Ou lembraria mais os traços da mãe? Qual havia sido o seu ofício? Conseguira ser feliz, e chegara a lastimar alguma coisa, a ter alguma saudade, antes de morrer? Realizara, pelo menos em parte, os seus desejos?

-           Eu não consegui - murmurou. - Durou muito pouco a mi­nha felicidade, e depois da morte da sua mãe perdi tudo. Até você.

Aqui embaixo há um estranho, uma pessoa que não conheço. Se passasse na minha frente, nem mesmo o reconheceria, pensou. E esta constatação deixou-o sem fôlego.

-           Sinto muito por não ter estado aqui, filho - disse com voz trê­mula, olhando a terra remexida. — Você estava certo, só agora me dou conta disso claramente. Talvez seja tarde demais, mas quero compensar. Quero usar estes últimos anos que me sobram para rea­lizar os seus sonhos. Está vendo? Voltei a lutar, ainda acredito em al­guma coisa. Não era isso que queria de mim?

Sentiu as lágrimas subir-lhe aos olhos, mas as rechaçou. Estava cansado até de chorar.

-           O seu filho está em segurança, com Ido e com uma pessoa que muito me ajudou no passado. Não deixarei que nada de mau lhe aconteça. Eu juro. É a única coisa que me resta, e o protegerei.

Apoiou a mão na terra fria para o último adeus. Tarik tinha ido embora, para sempre. Houvera um breve período em que poderia tê-lo trazido de volta, mas preferira deixá-lo escolher o próprio cami­nho. Talvez, agora, estivesse fazendo o mesmo com San. Suspirou.

Já vivera bastante para saber que não há escolhas certas ou erradas. A vida sempre acaba nos levando aonde ela quer.

Estava na hora de ir mais uma vez à luta: devia isso à memória do filho e à lembrança de Nihal.

Levantou-se com muito custo, deu meia-volta e se dirigiu lenta­mente para a saída.

 

DOIS ASSASSINOS

Karva era um vilarejo como muitos outros da Terra do Sol ou pelo menos tinha sido no passado. As costumeiras casas de grandes blocos de pedra, a habitual rede de ruas que se cruzavam em ângulo reto e o calmo caos que era o sinal distintivo da terra natal de Dubhe. A menos de uma légua de distância, no entanto, havia surgido um enorme acampamento militar, e isso mudara tudo. A cidade pulu­lava de soldados vindos até ali de todas as terras controladas por Do- hor. Os habitantes mal conseguiam disfarçar o seu desgosto por toda aquela gritaria, pela maneira atrevida e vulgar com que se dirigiam às criadas nas tabernas e aos mercadores pelas ruas. Em volta do acam­pamento, por sua vez, havia os retirantes que acompanhavam o exér­cito à cata de uma comida quente ou de um trabalho qualquer. Aquela vista fez com que Dubhe se lembrasse de Makrat; era como se a guerra estivesse lentamente mudando o semblante da Terra do Sol, transformando toda a cidade num posto avançado.

Observou Learco: de alguma forma, parecia perturbado. Disse para si mesma que nada tinha a ver com aquilo. Haviam chegado ao fim de sua viagem com o príncipe, o que era ótimo. Ficar perto da­quele jovem só lhe dava um vago mal-estar, embora não conseguisse entender direito a razão daquele incômodo.

Dirigiram-se para o acampamento. Os guardas na entrada prostraram-se numa profunda mesura, mas Learco passou diante deles sem se dignar sequer olhar e seguiu até encontrar um soldado de passagem.

-           Estou procurando Forra.

Ao ouvir aquele nome, Dubhe sentiu um arrepio correr pela es­pinha. Forra era o ajudante mais fiel de Dohor, o homem que ela vira massacrar os rebeldes, com Learco, naTerra do Vento alguns anos antes. Quem encomendara o roubo que lhe tinha imposto a maldição havia sido ele. Ficou involuntariamente dominada pelo pânico por alguns momentos, mas depois respirou fundo e se acalmou. As raras vezes que tinha falado com o homem estava de rosto cober­to; não havia como ele pudesse reconhecê-la.

-           Na tenda principal, meu senhor, no fim desta rua.

Learco seguiu rapidamente em frente. Quando chegaram à en­trada do grande pavilhão, Dubhe parou e segurou Theana pelo pul­so. O príncipe percebeu a hesitação e virou-se para elas.

-           Venham comigo. Tenciono confiá-las a ele.

Por esta eu não esperava. Dubhe limitou-se a anuir com um sinal de cabeça.

A tenda era decorada com luxo exagerado. Havia almofadas por todo lado e um catre de campanha, num canto, que, quanto à magnificência, não ficava devendo nada à cama de um rei. Ao lado, em cima de uma pesada mesa dobrável cheia dos mais variados tipos de fruta, havia uma jarra de prata. Forra estava sentado no fundo, num imponente assento trabalhado, de peito nu e mostrava uma com­pleição taurina, incrivelmente vigorosa levando-se em conta que já estava havia algum tempo na casa dos cinquenta. Atrás dele, uma mulher esguia e fascinante lavava-lhe os ombros com uma esponja, massageando-lhe o pescoço.

Dubhe não conseguiu reprimir um frêmito. O rosto feroz do homem, agora aparentando uma espécie de calmo êxtase, fez ferver dentro dela uma raiva incontida. Quem a enganara fora ele, que rea­lizara o plano de Dohor condenando-a para sempre. O símbolo no seu braço vibrou, a Fera gritou um lamento que atravessou seu cé­rebro como um punhal de fogo. Fechou os olhos para acalmar-se, mas sabia que a vontade de sangue que experimentava naquele mo­mento não se devia somente à maldição.

Learco ajoelhou-se e Theana achou por bem fazer imediata­mente o mesmo, acompanhada logo a seguir por Dubhe.

-           Tio...

-           Aqui está você! - exclamou Forra, abrindo os olhos e afastan­do rudemente a mulher que lhe prestava seus serviços. — O meu sobrinho predileto. — A sua risada era um verdadeiro trovão. — Le­vante-se, ora essa, até que provem o contrário o príncipe é você.

Learco obedeceu, mantendo-se cabisbaixo. Forra deu-lhe uma vigorosa palmada nas costas, em seguida dirigiu um olhar ambí­guo às duas jovens.

-           Quem são elas?

Não esperou por uma resposta e se aproximou delas. Segurou cada uma por um braço forçando-as a ficar de pé, então observou-as atentamente, roçando de leve em suas carnes com a mão pesada e calejada.

-           Uns despojos de guerras de não se jogar fora, principalmente esta aqui - disse apontando para Dubhe e soltando mais uma sono­ra, debochada risada. - Não pensei que você fosse dado a este tipo de coisa... E não pense que estou criticando, acho aliás muito bom. Fico contente que você comece finalmente a aproveitar os prazeres da vida.

Learco permaneceu impassível.

-           Encontrei-as no mercado de escravos de Selva e as comprei. São duas irmãs, e a mais moça também tem algum conhecimento de artes sacerdotais.

Dubhe agradeceu mentalmente a Theana por ter tido o bom- senso de comprar casacos de manga comprida que cobriam o símbolo que possuía no braço. Havia o risco de Forra poder reconhecê-lo.

-           Não quero saber, o importante é que você goste - replicou ele, voltando a se sentar e acenando para que a mulher recomeçasse a massageá-lo. — Embora me atreva a dizer que o meu gosto é mais aprimorado que o seu... - acrescentou, piscando o olho para a cria­da atrás dele.

-           Gostaria de arrumar um trabalho para elas.

Forra fitou-o interrogativo.

-           Deixe-as aqui mesmo, a tropa vai certamente gostar.

-           Não é isso, gostaria que fossem levadas a Makrat, ao palácio do meu pai.

O tio ficou imóvel por mais uns momentos. Depois sorriu sar­cástico.

-           É incrível como certas coisas nunca mudam. Já se passaram muitos anos desde que comecei a treiná-lo, mas você continua mais ingênuo do que nunca.

Learco ficou firme, limitando-se a digerir o insulto.

-           Comprei-as, elas me pertencem. Tenho o direito de fazer o que bem quiser com elas.

Forra agitou a mão com descaso.

-           A vontade, cada um se diverte como pode. — E, depois de uma pausa, acrescentou: — Já sabe que seu pai não vai gostar, não sabe?

Learco olhou para o chão apertando os punhos.

-           Já aprontou muitas, e esta não será certamente a última vez, nem a pior. De qualquer maneira, falaremos a respeito disso mais tarde, a sós. - Forra olhou enviesado para as jovens. - Não deve ser difícil arrumar algum serviço para duas ajudantes de cozinha, na corte, embora eu possa imaginar algo melhor para duas mocinhas.

-           Estão sob a minha proteção - insistiu Learco.

-           Está bem - respondeu o tio com ar de enfado. - Mas agora quero falar com você a sós.

A mulher atrás dele guardou delicadamente a esponja e se apro­ximou das duas jovens.

-           Sigam-me - limitou-se a dizer.

Forra pegou as roupas, lentamente.

-           Ajude-me - disse com arrogância, e Learco obedeceu. Aju­dou-o a vestir a armadura, uma peça depois da outra, prendendo com firmeza cada atilho e cada fivela. Já fazia muito tempo que cuidava desta tarefa, em todos os campos de batalha em que eles haviam estado juntos.

O homem olha para ele imóvel, trêmulo. E um velho, e seus olhos estão cheios de medo. Imploraria por piedade, se pudesse, mas o terror tornou-o mudo. Learco sente a empunhadura da espada escorregar da sua mão. Um suor gélido molha a sua palma.

Forra está atrás e observa.

-           Mexa-se — diz.

É a segunda vez que lhe ordena agir, e o tom da sua voz está cada vez mais irritado. Faz dois meses que é o seu mestre, e ele só tem treze anos. Até então estava convencido de que não houvesse nin­guém mais inflexível e tremendo que o pai. Tinha passado anos ten­tando corresponder aos seus desejos, treinando com a espada até o esgotamento, procurando reforçar o próprio corpo esguio para moldá-lo conforme as artes da guerra. Mas nunca recebera um sorriso, um sinal de aprovação.

—        Você não passa de um fraco — continuava lhe dizendo, com voz cortante. Palavras frias como um machado.

A mãe não existe, só a vê quando participa das cerimônias oficiais mais importantes. Quanto ao resto, ela vive uma existência reclusa em seu quarto, no qual se fechou voluntariamente alguns anos antes. Nunca conseguiu falar com ela, nem tocá-la. Uma mulher esquiva, quase uma estranha. Naquela época, Forra, o tio, era um mito longínquo, um homem enorme, com uma força descomunal, do qual nunca se aproxi­mara.

Então, certo dia, a decisão paterna.

—        Irá combater na frente da Terra do Vento com o seu tio. Está na hora de você aprender as maneiras do combate e treinar para a guerra de verdade.

Ao ouvir aquilo, o seu criado pessoal, Volco, tentara protestar:

—        Meu senhor, é apenas uma criança...

—        Quando eu entrei na Academia, era um ano mais moço que ele.

—        Mas a guerra...

—        Sou o rei, e eu decido o que é melhor para o meu filho!

E assim Forra tornou-se o seu mestre, e Learco começou a acompanhá-lo em todos os campos de batalha. Sempre com uma armadu­ra pesada demais, constantemente brandindo uma espada que nunca sentiu como sua.

Desde então, só sangue, só membros decepados e o fedor das terras dilaceradas pelo combate. E ele sempre no meio, sempre atrás daquele tio pronto a incentivá-lo o tempo todo à vingança.

Ninguém receia que ele possa ferir-se, que possa morrer, fogam-no na briga como se fosse um soldado qualquer. Quem cuidou de salvá- lo, até agora, foram alguns companheiros de armas. Ficam ao seu lado na hora da luta, matam por ele. Dois meses, e na verdade ainda pode dizer que não matou ninguém.

Learco sabe que daquele jeito não está certamente contentando o pai. Entende que ele quer que seja impiedoso como um assassino. Está com treze anos, mas sabe muito bem que os reinos têm alicerces feitos de cadáveres e veias em que escorre o sangue de milhares de homens. Mas não consegue. Não quer.

Forra o castiga por qualquer inadimplência. Cinquenta chicota­das, que cada vez abrem riscos de sangue nas suas costas.

—        Precisa ser sempre o primeiro em combate, está me entendendo?

E uma ladainha infinita, que penetra em sua mente com a mes­ma violência com que o açoite incide a sua carne.

E finalmente aquele dia.

—        Hoje vamos matar uns rebeldes. Quero que você assista.

Learco baixou a cabeça. Não é a primeira vez que assiste a uma

execução. Houve muitas outras, naqueles cinco meses, mas ainda não se acostumou. Sempre fecha os olhos quando a espada baixa, e naquela altura o grito da multidão lhe inflige o derradeiro doloroso suplício. Mas não tem escolha. Acompanha Forra, sem nada dizer, para o local escolhido.

A espada baixa, inexorável, sobre cinco infelizes. Sobra apenas o último, o velho.

—        Este, você mesmo mata.

As palavras do tio ecoam terríveis.

—        Mas eu...

—        Nunca poderá ser um homem, e muito menos um soldado, en­quanto não matar alguém de verdade.

Como num sonho, Learco se deixa levar ao palanque de madeira. Puseram em suas mãos a espada que o carrasco costuma usar nas exe­cuções, aquela em que estão gravadas poucas e importantes palavras: “Queiram receber, ó deuses, a alma do homem que estou a ponto de matar. ”

Não olha para aquela lâmina. Só vê os olhos apavorados do velho e fica com pena.

—        Não quero - murmura então virado para Forra. Sabe que não se trata de um homem piedoso, mas acredita que o seu olhar, naquele momento, poderia derreter até o coração do seu pai.

—        Faça, e basta.

—        Eu lhe peço...

—        Mexa-se!

Learco percebe os olhares da multidão, a espera dos soldados à sua volta.

O carrasco força o velho a se ajoelhar e a deitar a cabeça no cepo. O coitado começa a berrar como um bezerro e os seus gritos paralisamde novo a mão do príncipe. O homem nada lhe fez de mau, e agora está ali, inerte, à espera de um destino que não merece.

—        Não, não posso, sinto muito — consegue dizer afinal.

Um pontapé no meio das costas joga-o ao chão. O frio da lâmina sob a sua face contrasta com o calor do sangue que escorre do arranhão que fez em si mesmo.

—        Faça!

A ordem de Forra é uma imposição definitiva, da qual é impossí­vel esquivar-se.

Learco chora em silêncio. Apoia-se na espada, fica de pé. O ho­mem implora piedade, continua gritando. Ele não encontra a coragem de agir. Então Forra puxa-o para si, segura suas mãos e as aperta em volta da empunhadura, quase a ponto de machucá-lo. E juntos dão o golpe, mas é sozinho que Learco baixa a lâmina no pescoço da vítima. Não pode parar, a arma é pesada demais. Fecha os olhos para não ver, ele também grita, mas, no exato momento em que sente o gume cortar a carne, sabe que a partir daquele dia não será mais o mesmo. Aquela execução é o fim da sua infância.

Chicote.

Um golpe, cinco, dez.

Learco recebe-os com prazer. Procura não soltar um gemido se­quer, achando que no fundo merece, já decidiu: não matará nunca mais. Talvez fosse capaz de fazer uma exceção em relação a Forra. Quer vê-lo morto, sem cabeça, anseia matá-lo com uma espada maldita que contamine a sua alma pela eternidade.

—        Nunca mais se atreva a ser medroso como menininha, está me entendendo? - berra Forra em seus ouvidos, enquanto Learco limpa o sangue da boca. Mordeu os lábios até eles sangrarem, só para não dar- lhe a satisfação de vê-lo gritar. Depois fita-o enviesado, com rebeldia, e o tio ri satisfeito.

—        Eis, finalmente, um olhar de rei! E assim mesmo que você pre­cisa encarar o mundo! Nada pode impedir que você exerça o seu poder! E agora ajude-me a vestir a armadura.

Learco fica de pé, não consegue dizer não. Pouco a pouco junta as várias peças e, enquanto aperta as fivelas, ainda ouve ressoar nos ouvi­dos os gritos aflitos do velho no patíbulo.

Learco tira os dedos do último nó atado no corpete de ferro. Oito anos mais tarde, tudo estava se repetindo.

Forra acomodou-se novamente em seu assento e o fitou.

-           Sente-se.

Ele pegou um banquinho num canto e obedeceu. Ficava com raiva ao constatar quanto ainda estava submisso àquele homem.

-           O seu pai decidiu que precisa voltar a Makrat.

Ficou surpreso. Havia sido enviado para longe devido ao seu fracasso com Ido, quando se defrontara com ele e não o tinha ma­tado. Achava que a punição duraria muito mais.

-           Há algum motivo específico, se me for permitido perguntar?

-           Neor. Foi perdoado.

Learco arregalou os olhos. Neor era um primo de Dohor. Fazia muito tempo que não o via, e a última lembrança que tinha dele era de um homem cansado, talvez até doente.

“Procure aguentar, Learco, faça isto por mim”, dissera-lhe segu­rando seu rosto entre as mãos. Naquele tempo ele ainda era uma criança e não tinha entendido. Então o pai entregara-o a Forra, e aquelas palavras haviam assumido um sentido.

-           Parece surpreso - disse o tio, com um sorriso.

-           Pensei que o perdão jamais fosse chegar, só isso.

-           Sabe como é, passaram-se muitos anos, e a mulher dele agora está morta.

Sibila. Lembrava-se muito bem dela: quando o marido fora con­denado ao desterro, havia sido ela a encarregar-se da completa assis­tência da mãe, a rainha Sulana. Cuidara dela com a maior dedicação, informando-a acerca daquilo que acontecia no palácio e transmitin­do os seus desejos à criadagem.

Quando Sulana, por ironia do destino, morrera de febre ver­melha como o seu primogênito, Sibila decidira morar no seu quarto e, pouco a pouco, também se alheara do mundo. Learco só a conhe­cia superficialmente, mas a simpatia que sentia pelo seu marido, Neor, também se estendia a ela.

-           Você agora é um homem, e já pode entender certas coisas. Sem a ameaça de algo poder acontecer à mulher, Neor tornou-se perigoso. Já conspirou uma vez, poderia fazê-lo de novo. Sua Majes­tade, no entanto, chama-o magnanimamente de volta ao palácio,presenteia-o com algum título de nobreza e algum cargo do qual gabar-se, e o lobo mau logo se transforma num cordeirinho.

Forra deu uma fragorosa risada.

Learco fitou-o sem participar daquela hilaridade. Neor não era do tipo que se deixa comprar tão fácil, pelo menos era como se lem­brava dele.

-           Haverá alguma cerimônia? - perguntou.

O tio anuiu.

-           Com toda a pompa. E a família ficará novamente unida. Até eu estarei lá, o açougueiro da Terra do Sol, assistindo a uma cerimô­nia, emperiquitado com suas melhores roupas.

Forra era certamente o mais chegado a Dohor, o seu braço di­reito, mas não perdia uma só oportunidade para pintar a si mesmo como um sujeito alheio à corte: era o filho ilegítimo do rei anterior, e sabia que devia tudo a Dohor. Sem o atual monarca, que o aco­lhera apesar de ele ser o meio-irmão de Sulana, teria certamente tido um triste fim.

-           E você também estará na primeira fila.

Learco levantou-se sem fazer comentários. Despediu-se com uma mesura, como já se acostumara a fazer, e saiu da sala.

-           Partirão amanhã de manhã - disse a mulher a Theana e a Dubhe. Tinha um rosto esplêndido e glacial, do qual parecia ter apagado qualquer emoção. — Com o príncipe — acrescentou.

O coração de Dubhe deu um pulo, mas conseguiu disfarçar.

-           O que houve? - perguntou com aparente descaso.

-           O primo do rei conseguiu ser perdoado pelo soberano; o prín­cipe precisa assistir à cerimônia. A corte inteira participará dos fes­tejos.

A mulher saiu silenciosamente da tenda para onde haviam sido levadas, deixando-as sozinha.

-É melhor viajarmos com o príncipe-disse Theana com um sus­piro. - Não me sentiria segura saindo por aí com qualquer um destes homens.

Dubhe concordou, não muito convencida. Não ficava à von­tade com Learco por perto, a proximidade do rapaz provocava-lheestranhas sensações que não conseguia decifrar: de atração e repulsão ao mesmo tempo.

Mas, afinal, não havia outro jeito, e aquela era, aliás, a única ma­neira de arranjar um emprego seguro no palácio. Um trabalho qual­quer que lhe garantisse o mínimo indispensável de liberdade de que precisava. Decidiu então não pensar em mais nada que não fosse a missão.

Mesmo assim, no entanto, naquela noite custou bastante a ador­mecer.

No dia seguinte viajaram através dos bosques, rumo a Makrat. Eram novamente em três, pois Learco não quisera levar consigo qualquer tipo de escolta. A sua armadura e a sua bagagem haviam sido arru­madas em dois amplos sacos de viagem presos à garupa do cavalo. Theana e Dubhe, por sua vez, partilhavam o limitado espaço na sela do mesmo animal.

Enquanto avançavam, Learco mostrava-se de alguma forma preo­cupado, como se alguma coisa o atormentasse no fundo da alma. Dubhe ficou imaginando se não teria sido o encontro com Forra. Sentia-se curiosamente tentada a falar com ele, a participar daqui­lo que o atribulava. Para afugentar estes pensamentos inúteis, pro­curou conversar baixinho com Theana acerca de como deveriam portar-se na corte.

Noite. A lua estava alta no céu, o ar suave.

Learco parecia estar dormindo mais profundamente do que de costume. Dubhe sabia que, se aparecesse algum perigo, ele pularia de pé quase na mesma hora, mas tinha razoável certeza de que não podia perceber tudo aquilo que acontecia à sua volta. Escolheu por­tanto aquele momento para preparar a compressa de que precisava: não seria certamente seguro circular pelo palácio com aquele sím­bolo bem visível no braço. Ela mesma aprontou a cataplasma, mas Theana acrescentou um ingrediente particular.

-           É pó de lua, uma pedra moída que possui brandas proprieda­des miméticas — explicou num sussurro. — Não é propriamente uma magia, mas quase.

Dubhe observou o símbolo que sumia devagar, uma fantástica ilusão.

-           Quais são os planos, quando chegarmos lá? - perguntou en­tão Theana.

Dubhe deu uma rápida olhada em Learco, que continuava dor­mindo. Mesmo assim levou a companheira mais longe e procurou falar ainda mais baixo.

-           Você não terá nenhum papel específico a desempenhar en­quanto eu não conseguir aquilo de que preciso. Cuidarei das inves­tigações, seja para encontrar os documentos, seja para... - Preferiu não continuar, a prudência nunca é demais. - A minha tarefa não será nada fácil.

Como sempre acontecia quando se falava no assunto, Theana teve um estremecimento.

-           Já fez muitas vezes? - perguntou num instante.

-           Não, pratiquei muito pouco a arte do homicídio — respondeu Dubhe seca. - Sou basicamente uma ladra. Só recebi o treinamento dos Assassinos.

-           Como foi que começou? - A jovem maga parecia sem jeito, ao fazer a pergunta, e a resposta não foi menos constrangida.

-           O meu Mestre pertencia à Guilda. - Theana entesou-se. - Saíra da seita por amor de uma mulher, e depois sobrevivera por algum tempo trabalhando como sicário. Salvou a minha vida quan­do fui banida de Selva, e eu, para ficar com ele, forcei-o a aceitar- me como aluna.

Theana fitava-a com intensidade. Em seguida desviou o olhar para a fogueira e fez a tal pergunta, aquela que pairava entre elas des­de que haviam ficado no mercado dos escravos.

-           Por que foi banida?

Dubhe suspirou e fechou os olhos. Sem nem saber ao certo por que estava fazendo aquilo, contou tudo, talvez por sentir que algu­ma coisa havia mudado entre elas. E assim, a meia-voz, falou de Gornar e daquele primeiro dia de verão.

Quando acabou, um silêncio pesado tomou conta da pequena clareira. Theana mantinha os olhos fixos na fogueira.

Não sabe o que dizer. Ninguém jamais sabe, porque sou diferente demais deles, pois não há palavras que combinem comigo.

-           Se não a tivessem banido, hoje você não estaria aqui — disse Theana, afinal. - Se em lugar de condená-la a tivessem mantido entre eles, você nunca mais iria matar, e aquele garotinho ter-se-ia tornado uma longínqua lembrança.

-           Não posso censurá-los por aquilo que fizeram. Estavam certos. Talvez tivesse sido melhor se me matassem.

-           Por causa de um acidente? Uma menina? - Theana levantou a voz, tanto assim que Dubhe pediu que se calasse.

-           Eu tinha matado.

-           Era tão vítima quanto o menino que morreu.

Dubhe meneou a cabeça.

-           Você não pode entender. Não importa como ou por quê, o que importa é o fato de matar. Depois disso, as coisas nunca mais voltam a ser como antes.

-           Só porque você não consegue se perdoar. Se eles também tivessem tentado, quem sabe...

-           Certas coisas não têm perdão.

Theana estava a ponto de rebater quando Dubhe percebeu al­gum movimento atrás de si. Virou-se instintivamente. Viu Learco, que se levantava, rápido, e pegava a espada.

-           Caladas - ordenou. Percebera que havia algo errado. - Fiquem atrás de mim.

De estalo, Dubhe perguntou a si mesma se ele podia tê-las sur­preendido enquanto falavam, descobrindo tudo. Não teve tempo para pensar no assunto porque Learco segurou-a pelo braço e a for­çou a encolher-se atrás dele. Fez o mesmo com Theana, e então pre­parou-se para atacar. O perigo fez Dubhe esquecer qualquer outro pensamento.

Eram pelo menos cinco e estavam perto. Podia sentir a presença deles e seus passos apressados entre as samambaias da mata rasteira. Muitos, demais para Learco. Ela fechou instintivamente a mão no vazio, preparada a levá-la à empunhadura do punhal. O que fazer?

-           Não importa o que irá acontecer, fiquem sempre entre mim e a árvore aqui atrás de nós - sussurrou o príncipe, e na sua voz per­cebia-se a tensão da luta iminente.

Eles apareceram de repente entre as moitas. Não usavam qual­quer insígnia e vestiam roupas humildes. Assaltantes. Homens que,sem dúvida, antes da guerra trabalhavam nos campos e que agora ignoravam estar diante do filho do rei.

Dubhe agarrou Theana pelo pulso e a forçou a encostar, como ela, o corpo na árvore. A outra mão moveu-se para baixo da saia, on­de estava o punhal. Não podia usá-lo diante de Learco, mas no caso de ele morrer na luta precisaria dele para defender a si e a compa­nheira.

Learco partiu logo ao ataque, sem hesitar. A sua rapidez de re­flexos permitiu-lhe abater o primeiro inimigo de impulso, com um golpe bem acertado no abdômen. Num só movimento, sem qual­quer interrupção, virou-se e conseguiu matar outro. Depois enca­rou os outros dois com tamanha presteza e habilidade que Dubhe ficou pasma. Sabia realmente o que estava fazendo, era um verda­deiro soldado.

A rinha começou, violenta, e Learco não se poupou. Era pre­ciso, letal. Forçava o ritmo na tentativa de não deixar espaço aos inimigos. Eles, por outro lado, não estavam acostumados com o combate e só dispunham mesmo da superioridade numérica.

Por algum tempo houve uma série confusa de ataques e defe­sas. O silêncio da clareira só era quebrado pelo choque das espadas e o arquejar dos homens. Então, o primeiro gemido. Learco recebera um golpe de raspão num flanco. Não perdeu o ânimo. Continuou a lutar enquanto o sangue começava a escorrer do ferimento.

Dubhe virou-se de chofre: um inimigo à sua direita investia contra elas. Teve um momento de indecisão: salvar a própria vida, e revelar o disfarce, ou confiar em Learco?

Não precisou decidir. Learco intrometeu-se entre elas e o agres­sor, detendo com precisão o golpe, mas deixando ao mesmo tempo a descoberto o flanco esquerdo. Mais um corte, mais profundo que o primeiro, rasgou seu braço. Dubhe o viu apertar os olhos de dor e aí partir de novo ao ataque, para defender a si mesmo e elas duas. Enquanto o via lutar com furioso desespero, ficou imaginando o que o levaria a defendê-las tão ardorosamente, por que estaria pron­to a morrer para salvar duas desconhecidas. Percebeu que o combate era sem esperança, que o príncipe acabaria morrendo. A mão dela apertou com ainda mais força o cabo do punhal.

Você não tem nada a ver com a morte dele, o seu plano não de­pende da sobrevivência dele. Se desembainhar o punhal, depois você mesma terá de matá-lo.

E mesmo assim estava a ponto de agir, alguma coisa dizia-lhe que precisava intervir. Já ia sacar a arma quando a mão fria de Theana a deteve.

-           Tampe os ouvidos.

Dubhe fitou-a perplexa: estava um trapo, pálida e cansada, mas parecia totalmente determinada.

-           Nada de perguntas, só faça!

Obedeceu. De repente o ruído das espadas esmoreceu, os gemi­dos e os arquejos pararam de estalo. Os cinco homens que os haviam atacado jaziam todos no chão, assim como Learco.

-           O que...

-           Já leu as Crônicas do Mundo Emerso?

Theana apoiara-se na árvore, ofegante. Dubhe olhava para ela, sem entender.

-           É um encantamento que Senar usou durante a sua fuga de Salazar com Nihal. Permite adormecer um certo número de pessoas, pelo menos por algum tempo.

Dubhe olhou para os corpos inertes. Havia sido uma ótima ideia, mas agora?

-           Como acha que explicaremos o recurso à magia, quando Lear­co se recobrar? - perguntou num tom entre irritadiço e curioso.

-           Não se lembrará de coisa alguma - respondeu Theana, sen­tando. - Achei que seria uma solução melhor do que deixar que você interviesse, concorda?

Dubhe teve de admitir que a maga estava certa. Theana tivera bastante tino e frieza para escolher um bom plano numa situação de perigo.

-           Mexa-se, não estou acostumada com este tipo de encantamen­tos, eles poderiam despertar a qualquer momento.

Dubhe concordou. Sabia perfeitamente o que tinha de fazer.

Tirou do alforje do cavalo do príncipe uma longa corda com a qual amarrou com firmeza os homens caídos no chão. Deveria matá-los, é claro, mas não queria despertar a Fera. A barreira quea mantinha presa era bastante forte, mas de qualquer maneira não tinha a menor intenção de pô-la à prova.

-           Ajude-me a levantar Learco, depois vamos embora.

Theana ajudou-a a levantar o príncipe e a colocá-lo no cavalo.

-           Os ferimentos não são graves, mas é melhor que sejam trata­dos sem demora - disse.

-           Precisamos encontrar um abrigo seguro, e além do mais não creio que você queira demorar-se mais algum tempo por aqui.

Pularam no cavalo e partiram apressadas.

Pararam numa pequena clareira suficientemente afastada e abrigada. Estavam cansadas demais para seguir adiante, e Learco começava a gemer. Passara do sono provocado pelo feitiço a uma penosa incons­ciência.

Deitaram-no delicadamente na grama, e então começaram a agir. Dubhe procurou as plantas que Theana lhe indicou e mais al­gumas outras com as quais queria preparar uma compressa curativa.

-           Vejo que conhece bem a botânica... - observou a maga.

-           Um assassino tem de conhecer as plantas para os venenos, e um ladrão para os soníferos — explicou Dubhe, como se fosse a coisa mais normal do mundo. - E eu sempre tive uma verdadeira paixão pelas ervas.

Theana não fez mais perguntas e deu início ao encantamento. Os gestos não eram lá muito diferentes daqueles que usara para con­finar o selo. Como da outra vez, usava um fino ramo de bétula cuja ponta molhava num unguento que preparara. Então, de olhos fe­chados, em transe, desenhava estranhos símbolos no corpo de Lear­co, em volta das feridas. Com voz quase inaudível recitava uma lenta ladainha, uma verdadeira oração. Toda vez que pronunciava o nome de Thenaar, Dubhe estremecia. Mas dava para ver como a cor de Learco tornava-se vagarosamente mais rosada, como a sua respiração entrecortada voltava a ficar regular. Era então aquele o verdadeiro Thenaar, o deus do qual tinham falado havia algum tempo? De re­pente começou a entender o que Theana quisera dizer-lhe, naque­la noite. Havia outro aspecto da religião, um aspecto bondoso que,ainda assim, permanecia para ela incompreensível. O aspecto da pie­dade e da compaixão.

Agora que Theana chegara ao fim, Learco parecia descansar tranquilo. Os ferimentos já não sangravam.

-           Pode usar uma das suas compressas, se quiser - disse a maga, visivelmente exausta. - Ficará bom mais depressa, e amanhã pode­rá novamente andar.

Dubhe não se fez de rogada. Começou a espalmar a sua poma­da com afinco, acariciando a pele de Learco. Logo que cuidou da ferida no braço dele, lembrou-se por um instante do Mestre. Ele também se ferira de forma parecida, e fora justamente cuidando dele que ela o condenara à morte. Teve um súbito arrepio, enquanto aque­le contato enchia-a de uma estranha inquietação. Tentou agir o mais rápido possível.

-           Ficaremos nos revezando, de vigia, até o alvorecer. Os homens que nos assaltaram estão bem amarrados, mas ninguém nos garan­te que só havia eles por perto. De qualquer forma, temos de cuidar dele também - disse Dubhe, e Theana concordou.

A noite pareceu a Dubhe longa, sem fim. Não parava de pensar em Learco, que lutava por elas, e não conseguia entender o motivo. Observava seu rosto pálido e tranquilo, e sentia uma muda admi­ração por aquele rapaz. E, ao mesmo tempo, não sabia explicar por que ficava tão impressionada, quase abalada, com a sua presença. Alternava momentos em que o procurava, em que se sentia feliz por ele estar por perto, com outros em que o via como uma ameaça e esperava que algo acontecesse para separá-los.

Então, de repente, viu-o abrir os olhos. Pela primeira vez per­cebeu quão vivo e aceso era o verde da sua íris, quantas profunde­zas se escondiam entre os seus matizes.

Learco virou-se para ela.

-           O que aconteceu?

-           Fomos atacados, Alteza - respondeu Dubhe.

-           Disto eu me lembro. E depois?

-           Derrotou-os, os cinco deles - mentiu ela -, mas ficou ferido.

Learco deu uma olhada no braço, tentou examinar o flanco também, mas teve de desistir devido à dor.

-           Fique parado, meu senhor, o ferimento poderá voltar a sangrar.

O jovem olhou para ela sorrindo.

-           Por favor, não seja tão formal. Chame-me de você.

Dubhe olhou à sua volta, confusa, procurando desesperada­mente alguma coisa na qual fixar os olhos, alguma coisa que não fosse o rosto dele. Theana dormia e não podia ajudá-la.

-           Foi você?

Ela fitou-o com ar interrogativo.

-           A cuidar de mim.

Dubhe lembrou-se da mentira de Theana, recordou que nos tra­jes que agora vestia era uma sacerdotisa.

-           Sim, fui eu - mentiu de novo.

-           Obrigado.

Alguma coisa mexeu-se dentro dela.

-           O senhor não precisa... você não precisa agradecer, você nos defendeu.

Learco puxou-se levemente para cima, apoiando-se no cotovelo e dando de ombros.

-           Não faria sentido salvá-las em Selva para depois deixá-las morrer aqui.

Dubhe continuava não entendendo.

-           Somos duas desconhecidas para você. Por que se esforça tanto para nos ajudar?

O jovem fitou-a com intensidade.

-           Acho que também já fiz muito contra vocês...

Dubhe deixou claro que continuava sem entender.

-           É o que lhe contei outra noite, está lembrada? O que fez de vocês duas fugitivas foi a guerra, e eu sou a guerra. Sabe quantos homens matei na minha vida?

Dubhe poderia ter achado graça, se pudesse.

E sabe quantos foram mortos por mim? E o último será justamen­te o seu pai.

Sentiu um arrepio correr pela sua espinha.

-           Você é o filho do rei. Se matou, foi pelo seu reino.

-           Não finja. Sei que pode me entender.

Fitou-a com tamanha intensidade que ela sentiu-se gelar. Pen­sou naquilo que dissera a Theana apenas umas poucas horas antes.

Ouviu a gente. Fui descoberta. Preciso matá-lo.

Só de pensar uma coisa dessas ficou abalada.

-           Eu...

-           Logo antes do assalto ouvi-a conversar com a sua irmã. Esta­vam conversando sobre aquilo que lhe aconteceu quando você ainda era criança.

Sabe, ele sabe! Está a par dos nossos planos!

-           Na verdade não sei quem você é, nem sei se a moça com quem viaja é realmente sua irmã, mas para mim não faz diferença. Mas basta-me olhar em seus olhos para entender que você vem do mesmo lugar obscuro onde eu moro. Você e eu sabemos de coisas que a maioria das pessoas não imagina e jamais poderia entender.

Dubhe estava tensa, angustiada só de pensar no que Learco po­dia saber dela e da sua missão, mas aquelas palavras, agora, mexiam com ela de uma forma que nunca poderia ter imaginado.

-           Foi por isso que estava chorando perto do riacho, não é ver­dade? Foi por isso que estava pedindo perdão.

Dubhe desistiu de qualquer defesa.

-           Foi.

Learco sorriu com tristeza.

-           Quando eu tinha treze anos, Forra, o homem que viu na tenda, forçou-me a justiçar um homem. Cortei a sua cabeça diante de uma multidão aos berros e, antes daquilo, eu nunca tinha mata­do. Você sabe do que estou falando, não sabe? Sabe o que acontece quando a gente mata, quando a nossa vida se desfaz num só mo­mento, e o mundo muda completamente de cor e consistência.

Dubhe sentiu que seus olhos ficavam úmidos. Ninguém jamais lhe dissera coisas como aquelas, nem mesmo o Mestre falara com ela assim. Sentiu a primeira lágrima escorrer pela face, quente.

O príncipe levantou lentamente a mão e a enxugou com o po­legar.

-           Se pode entender tudo isso, então também é capaz de com­preender por que estou tentando salvá-las.

Dubhe não conseguia parar de chorar, e as suas lágrimas molha­vam a mão de Learco.

-           Por quem morreu, não há mais nada que possamos fazer, e a culpa não se apaga. Mas ainda é possível fazer alguma coisa para quem está vivo. Vocês são a minha oportunidade perdida, a primeira em muitos anos.

Continuava a acariciar-lhe a face; em seguida, com um gemido, puxou-se para cima e a abraçou delicadamente. Dubhe ficou rígida entre os seus braços, mas só por um instante, depois toda a resistên­cia desmoronou, permitiu-se chorar no seu peito, entregando-se ao calor daquele abraço. No fundo da escuridão daquela noite vislum­brou um lampejo de serenidade, uma paz que jamais pensara poder encontrar.

 

Decidi que já está na hora de deixar de ser clemente com o meu filho. Acreditei durante muito tempo que poderia moldar com a disciplina o caráter mole que herdou da mãe, mas fui otimista demais. Confiá-lo a Neor também foi um grave erro. Ele precisa de alguém que o bote nos eixos de verdade, e acho que encontrei a pessoa certa. Forra é sem dúvida alguma o mais confiável dos meus homens. Rude e primário, talvez, mas impiedoso. E como guerreiro não há ninguém que se lhe compare. Caberá a ele forjar o meu filho transformando-o no combatente cruel que eu sempre sonhei. Tirará do seu coração qualquer piedade, fará com que se torne um filho digno do pai. Finalmente terei o herdeiro que sempre desejei, desde que o primeiro Learco morreu de febre ver­melha. Um meu igual, alguém que possa eternizar o meu domínio sobre o Mundo Emerso. Porque eu entrarei na história, e pelos séculos afora lembrar-se-ão de mim com terror e admiração. O meu reinado nunca terá fim...

Do Diário de Dohor, Rei da Terra do Sol

 

DO PASSADO

Quatro dias depois do ataque dos ladrões, Makrat apareceu diante deles, tentacular e caótica. Haviam sido forçados a diminuir a mar­cha porque, apesar das curas, Learco ainda estava fraco e se cansava facilmente. Por isso só tinham percorrido breves distâncias, diaria­mente, fazendo longas pausas para as refeições e parando durante a noite. Dubhe encarregara-se de todos os turnos de vigia, apesar dos protestos do príncipe em várias ocasiões. Ela, no entanto, insistira: desde que haviam conversado pela última vez, custava bastante para adormecer, e de qualquer maneira ele tinha de recobrar as forças.

Nunca se sentira tão confusa na vida. Por um lado, percebia nas­cer em si a miragem de uma nova tranquilidade, uma paz que já não era apenas uma esperança irrealizável, mas sim alguma coisa concre­ta. Por outro, estava totalmente insegura e odiava a si mesma pela maneira absurda com que se deixara ir naquela noite, entregando- se ao pranto como uma mulherzinha qualquer.

Estava tomada, ao mesmo tempo, por admiração e ódio, e quando à noite o silêncio era absoluto as suas lembranças vinham visitá-la, atormentando-a. No meio daquele turbilhão havia Learco. A perfeição do seu corpo ágil e esbelto a atraía cada vez mais, en­quanto a melancolia do seu rosto, junto com a consciência de sabê- lo tão cúmplice dos próprios sentimentos, repelia-a criando nela um profundo mal-estar. Para ela o príncipe era um intruso que se apro­priara dos seus segredos aproveitando um momento seu de fraqueza.

Assim sendo, quando começaram a andar pelas ruelas mal-afamadas de Makrat, Dubhe suspirou aliviada. Estava acabado. Já po­dia voltar a concentrar-se na missão e livrar-se de uma vez por todas daquela obsessão doce e amarga ao mesmo tempo.

Movimentaram-se sem chamar a atenção, escondendo a sua ver­dadeira identidade. Learco encobriu o rosto com o capuz da capa.

Dubhe tinha a impressão de estar em casa. O seu ambiente era aquele, o lugar podre e corrupto de onde vinha e ao qual pertencia.

Selva era o passado, o local onde ainda se encontravam os res­tos dela mesma menina; mas Makrat, e principalmente os bairros mais perigosos, era o lodo no qual ela se abrigara após a morte de Gornar. Ali tudo falava da sua antiga vida de ladra e do Mestre. Era estranho, mas a lembrança dele já não voltava à sua mente tão viva. Amara-o, ele fora tudo para ela, mas naquela altura já pertencia a outra época. Aquilo provocava um estranho efeito nela. Sentia-se quase culpada por permitir que aquela sombra a abandonasse para sempre. Quem mais poderia lembrar-se de Sarnek, no mundo, a não ser ela?

Theana mantinha-se bem junto dela, inquieta.

—        Nunca esteve aqui? - perguntou Dubhe

Ela meneou a cabeça.

—        Conheço o palácio real, mas não a cidade.

Claro. Dubhe podia imaginar como a cidade a deixasse assusta­da, com as casas amontoadas umas em cima das outras e seus becos malcheirosos. Apesar de tudo aquilo que tinham compartilhado du­rante as semanas em que haviam viajado juntas, as diferenças entre elas não podiam ser esquecidas.

Ao chegarem ao palácio, Learco tirou finalmente o capuz da cabeça. Os guardas curvaram-se imediatamente em sinal de respeito, sem contudo deixar de olhar para ele de forma enviesada e interrogativa.

—        O meu pai está?

—        Está à sua espera na sala do trono, Alteza.

Ele virou-se para Dubhe e Theana.

—        Sigam-me.

Avançaram pelos corredores da morada real. Dubhe conhecia o palácio porque já lhe fora descrito, mas nunca tinha tido a opor­tunidade de visitá-lo. Afinal, tentar roubar ou matar alguém num lugar como aquele não era aconselhável.

A primeira coisa que a impressionou foi a imponência das salas. Já do lado de fora o paço mostrava toda a sua magnificência: pináculos, abóbadas, frisos dourados e baixos-relevos por toda parte, num excesso de adornos que quase dava um sentimento de sufocação. O interior, no entanto, era ainda mais espetacular, com toda uma série de grandes salões decorados com mármores brancos, arcos bu­rilados, pesados trípodes nos cantos das paredes para iluminarem os ambientes com sua luz calorosa, enchendo o ar com seu cheiro de especiarias.

Dubhe caminhava curva, olhando à sua volta com espanto e embaraço. Theana, por sua vez, avançava com passo decidido e olhar firme diante de si. A sua familiaridade com os ambientes do poder era evidente, só mesmo um leve tremor das mãos denunciava o seu nervosismo. Dubhe achou que talvez estivesse assustada com a ideia de conhecer Dohor, um homem que todos consideravam terrível, a própria nêmesis do Conselho das Águas.

A certa altura viram-se diante de um grande portão de bronze, decorado com complicadas miniaturas. Logo que viram o príncipe, os dois soldados armados de lança que vigiavam a entrada curvaram- se numa profunda mesura.

—        Peço para ser recebido por meu pai.

—        O rei já foi informado da sua chegada — disse um dos guardas, empertigando-se. - As duas mulheres terão de esperar aqui fora.

—        Peço que também sejam admitidas à sua presença. Preciso con­versar com o rei a respeito delas.

O guarda teve um momento de hesitação.

—        Meu senhor, os plebeus não podem ser admitidos à presença de Sua Majestade, Vossa Alteza sabe muito bem quais são as ordens.

—        Assumo a total responsabilidade pelo meu pedido.

O soldado continuou a olhar para Learco, indeciso, então, aju­dado pelo companheiro, abriu os pesados batentes de bronze.

Uma sala imensa descortinou-se diante deles, quase completa­mente decorada com mosaicos dourados. No meio estava pendura­do um enorme lampadário de ouro com gemas preciosas, ameaça­doramente em cima das cabeças dos que estavam prestes a chegar perto do rei. O espaço da sala era dividido em três naves por maci­ças colunas de granito preto, polidas e reluzentes, e as laterais eram enfeitadas com nichos que abrigavam estátuas. Learco, Dubhe e Theana desfilaram sob os olhares severos daqueles rostos de pedra. No fundo havia o trono, extraordinário trabalho de ourivesaria, todo encastoado com pedras preciosas. Ficava sobrelevado em relação à sala, e o seu tamanho fora pensado para deixar bem claro o poder de Sua Majestade.

À medida que se aproximavam — com o espaço sendo marcado pelo ecoar ritmado dos seus passos -, a figura do rei tornava-se mais nítida. Era incrível como Dohor se parecia com o filho: os mesmos cabelos muito claros, quase brancos, mas com traços menos delica­dos. Parecia um Learco maldoso, que tinha banido da sua alma qual­quer forma de gentileza para só deixar lugar ao pragmatismo da política e à crueldade de um rei guerreiro. Vestia uma armadura sem muitos enfeites e tinha uma espada presa à cintura. Esperou pelo fi­lho, impassível, e encarou-o com olhar severo. Quanto às duas jo­vens, não lhes concedeu a menor consideração.

Ao chegar a uns dez passos do trono Learco ajoelhou-se, baixan­do a cabeça. Os seus ferimentos não haviam ainda completamente sarado e, portanto, moveu-se com cuidado, aguentando em silêncio as fisgadas de dor que lhe rasgavam o flanco.

-           Pai...

-           Demorou muito - foi logo dizendo Dohor.

As costas de Learco tiveram um leve estremecimento.

-           Melhor tarde do que nunca, de qualquer forma - acrescen­tou o rei, continuando a fitá-lo com condescendente enfado.

O príncipe não reagiu, permaneceu imóvel, cabisbaixo, assim como Dubhe e Theana.

-           Vejo que teve de enfrentar alguns contratempos.

-           Uns ladrões nos atacaram. Eram cinco e tive alguma dificul­dade para vencê-los. Acabei ficando ferido, mas por sorte as duas escravas que trago comigo são espertas nas artes do sacerdócio e pu­deram curar-me.

O rei levantou-se, com uma careta sarcástica a desfigurar-lhe o rosto.

-           Já não lhe basta ser vencido por um velho, agora até uns mi­seráveis ladrões levam a melhor sobre você!

Aproximou-se lentamente do filho, dominando-o com a sua figura imponente. Olhou-o fixamente por alguns instantes e, então,desferiu-lhe um violento pontapé no flanco. Learco levou instinti­vamente a mão ao ferimento, mal conseguindo sufocar um grito de dor.

Dubhe e Theana ficaram geladas, incrédulas.

-           Você não passa de um fraco... - sibilou o rei.

-           Perdoe-me, pai - disse Learco, com um fio de voz.

-           É só isso que sabe fazer, pedir perdão. Perdão por não me ter trazido a cabeça de Ido, perdão por não se sair bem com um ban­do de vagabundos, perdão por ter precisado da ajuda de umas meras mulheres do povo para salvar-se! - berrou Dohor.

Dubhe teve de controlar-se.

-           Perdoe-me, pai, nunca mais irá acontecer...

O rei sentou novamente no trono, perdido em seus pensamentos.

-           Por que trouxe consigo aquelas duas mulheres?

Só então Learco levantou a cabeça.

-           Salvei-as numa aldeia não muito longe da fronteira. Os nossos inimigos destruíram suas casas, não têm do que viver. Trouxe-as para cá para que se tornem criadas.

Dohor sacudiu a cabeça.

-           Mas como é magnânimo o nosso príncipe... Por que o destino não quis dar-me um filho à altura do encargo? Com você só estou perdendo o meu tempo. Nunca poderá ser o meu digno sucessor. Dobra-se como um vime e é desprovido de qualquer severidade. - Soltou um longo suspiro, olhando para fora da ampla janela envi­draçada que se abria à sua esquerda. — Seu irmão... ele sim teria sido capaz, se tivesse sobrevivido.

A sua voz teve um leve tremor, e Learco apertou o punho apoia­do no chão.

-           Leve-as para Volco e faça com que nunca mais apareçam na minha frente - concluiu afinal. - Arrume um lugar para elas na co­zinha ou em qualquer outro lugar, mas se voltar a vê-las não garanto a sua integridade, estou sendo claro?

-           Está, meu senhor.

Dohor fez um gesto enfastiado com a mão.

-           Suma daqui, agora. Recolha-se aos seus aposentos. Voltaremos a nos falar na hora do jantar.

Learco ficou-se de pé e caminhou de volta à saída, coxeando de leve.

Theana foi atrás, enquanto Dubhe permaneceu ajoelhada por mais uns instantes. Sentia-se tomada de ira, de uma raiva intolerável e profunda. Finalmente conseguira. Estava diante do homem que tinha de matar. Nunca o havia encontrado, mas o odiava desde que entrara na Guilda. E pela primeira vez experimentou uma vo­lúpia de morte que brotava genuinamente do seu coração. Não era a Fera a exigir sangue: era ela, somente ela. Levantou-se lentamente, os olhos fixos no trono, com uma expressão carregada de ameaça. Por uma fração de segundo, o rosto do soberano foi obscurecido por uma sombra, como se percebesse alguma coisa no ar. Mas foi só um momento, então virou a cabeça e Dubhe dirigiu-se à saída, cabis­baixa.

Volco era um velho de ar gentil. Abraçou Learco com afeição e o fitou longamente.

-           Deixe-se examinar quanto antes pelos curandeiros, meu prín­cipe - disse preocupado.

-           Não receie, eu o farei.

-           Por que faz tanta questão de descuidar de si mesmo?

Learco sorriu para ele, em seguida mudou de assunto, explican­do sumariamente quem eram as duas jovens e as entregando aos seus cuidados.

-           Não se preocupe, encontrarei um bom lugar para as suas pro­tegidas - disse o velho, acariciando paternalmente o rosto de quem, havia muitos anos, era o seu amo.

Learco pareceu ficar quase constrangido, mas de alguma forma também feliz.

-           Estão em boas mãos — disse a Dubhe e a Theana. — Não nos faltarão oportunidades de nos encontrarmos de novo, no futuro.

Acenou então uma leve mesura com a cabeça, em sinal de des­pedida, e saiu pela porta afora. As duas jovens ficaram sozinhas com Volco.

-           Sigam-me - disse ele.

Obedeceram, acompanhando aquele velho de passo inseguro. Era um homem magro e fraco, e inspirava confiança. Dubhe achou que valia a pena conquistar a sua simpatia. Ainda estava incerta e confusa quanto aos sentimentos que a haviam dominado na sala do trono, mas estava lentamente voltando a ser dona de si.

—        Quer dizer que vocês também tiveram a oportunidade de cons­tatar a bondade do nosso príncipe - suspirou Volco. - Fiquem sa­bendo que o reino está cheio de pessoas que ele ajudou ou às quais salvou a vida. Mulheres, crianças, até mesmos inimigos, às vezes, ainda que ele não queira que se saiba disto.

Falava como se Learco fosse seu filho, e cada palavra estava car­regada de afeto.

-           Mas nunca trouxera alguém para o palácio, até agora. Sua Ma­jestade não tolera este tipo de liberalidade, acha que é sinal de fraque­za. Pois, afinal de contas, o rei acha a inflexibilidade imprescindível

-           disse corrigindo de imediato a rota das suas palavras, percebendo que elas poderiam ser consideradas ambíguas.

Enquanto isso, percorria os corredores sem hesitar, com total segurança. Não demorou para os baixos-relevos deixarem o lugar a meras paredes de pedra e a passagens mais estreitas. Estavam des­cendo para as entranhas do palácio.

—        Sempre há lugar para umas moças, principalmente se ela é apresentada pelo nosso príncipe — continuou o velho. — Devem sen­tir-se gratas pela honra que lhes foi outorgada.

—        Estamos profundamente agradecidas — respondeu Theana com modéstia.

Acabaram chegando a um corredor para o qual davam umas dez portas fechadas. Volco tirou da túnica um pesado molho de chaves, pegou uma e enfiou-a na fechadura da porta diante dele. O interior lembrou a Dubhe a Casa: era um quartinho modesto, sem aberturas para fora, com dois catres e duas arcas.

-           Podem ficar aqui - disse o velho, com um sorriso.

-           Está ótimo - comentou Dubhe entrando.

-           Como se chamam?

—        Eu sou Sane e ela é a minha irmã Leia. Temos alguma noção das artes do sacerdócio e conhecemos muito bem as plantas.

Volco concordou.

-           Imagino que se contentem com qualquer serviço na cozinha, não é verdade?

— Já tivemos muita sorte ao termos as nossas vidas salvadas pelo príncipe, para nós qualquer coisa serve - disse Theana, com humil­dade.

Volco sorriu enternecido.

-           Vou ver o que posso fazer. Agora descansem, voltarei mais tar­de para informá-las.

Saiu, fechando lentamente a porta atrás de si.

Logo que foi embora, Theana deixou-se cair na cama.

-           Aqui estamos.

Dubhe sentou no catre, calada. Era isso mesmo. Afinal, havia sido menos complicado do que imaginara. Sem dúvida alguma a sorte decidira ajudá-las.

-           Durante os primeiros dias ficaremos tranquilas - começou a explicar. — Precisamos nos acostumar com o lugar, saber das regras e não chamar a atenção. Somos duas desconhecidas, e portanto en­contraremos uma certa desconfiança por parte das pessoas. Eu avisa­rei quando a hora de agirmos chegar. De qualquer forma, na pri­meira fase não precisarei de você, eu mesma procurarei as coisas de que precisamos. Você entrará em campo na hora de realizar o ritual.

Theana anuiu.

Dubhe, no entanto, percebeu alguma hesitação no seu rosto.

-           No que está pensando? — perguntou.

A jovem maga desviou os olhos e deitou-se, contemplando o teto.

-           Nunca imaginei que iria envolver-me numa coisa como esta

-           murmurou.

-           Você mesma decidiu vir.

-           Eu sei... eu sei...

Theana não podia evitar, mesmo assim, uma certa apreensão. Antes de partir pensava que só iria precisar usar os seus poderes, que a coisa iria ser rápida e indolor e que, ao mesmo tempo, lhe daria a chance de contribuir realmente para a salvação do Mundo Emerso. Mas agora, de repente, a magnitude da tarefa esmagava-a. Tratava- se de matar um homem, afinal de contas, que era sem dúvida umtirano, mas que tinha um filho, uma família. Nem mesmo matar um déspota é uma brincadeira.

-           Quer desistir? - perguntou Dubhe, fitando-a.

Theana meneou a cabeça.

-           É que até agora não era real. Agora... agora está para acontecer.

-           Não dá mais para você voltar atrás.

-           Eu sei... sei muito bem.

Isto, no entanto, não mudava as coisas. Onde fica a justiça, naquilo que fiaremos?

-           Deixe tudo por minha conta. - Dubhe tinha um olhar per­dido, distante. - Caberá a mim matá-lo, você só terá de livrar-me da maldição. Nenhum sangue cairá sobre você.

Theana suspirou. Ficava quase pior, daquele jeito: esconder-se atrás de Dubhe, absolver-se dizendo que os outros cuidariam do tra­balho sujo. Apreciou mesmo assim a tentativa da companheira livrá- la do sentimento de culpa. Sorriu.

-           Somos duas a fazer isto, e seremos duas na hora de prestar contas.

-           Eu sempre agi sozinha - objetou Dubhe.

-           Talvez esteja na hora de mudar.

Learco percorreu com largas passadas o corredor que levava ao seu aposento. Sentia uma espécie de alívio no fato de voltar à sua toca, o lugar onde desde criança se abrigava quando queria ficar sozinho. Era ali que se escondia quando voltava do campo de batalha. Os hor­rores da guerra esmaeciam diante da imagem tranquilizadora daque­le ambiente em que havia sido criado. E além disso, um pouco mais adiante havia o quarto da mãe. Um lugar proibido onde nunca en­trava, mas no qual identificava uma parte essencial do seu espírito. Embora a mãe já não estivesse, era como se continuasse ali, presente. E presente ainda era a dor por sempre ter sido recusado por ela.

Estava pensando nisso quando reparou num vulto escuro no fim do corredor. Seguiu andando, mais devagar. Era um homem ves­tindo roupas um tanto extravagantes, com umas calças verdes muito justas e uma blusa vermelha, de mangas bufantes. Avançava deste­mido e, logo que viu Learco, agitou animadamente o braço e acenouque queria falar com ele. O príncipe parou de estalo: era como ver­se subitamente diante do passado.

O homem aproximou-se com um largo sorriso. Tinha os mes­mos cabelos, de um loiro quase branco, mais compridos e mais cui­dados. Usava-os presos num rabo fluente e sedoso. Não estava tão diferente, afinal, da última vez que Learco estivera com ele: algumas rugas a mais, as costas um pouco menos rijas, mas era ele, Neor.

-           Tio...

Neor abraçou-o com força.

-           Olhe só, Learco, você é um homem feito, agora... — Parecia comovido. Afastou-se dele e fitou-o. — Faz quanto tempo... nove, dez anos?

-           Oito - respondeu Learco, igualmente emocionado. - Oito anos.

Neor desviou o olhar.

-           Venha comigo, há muitas coisas que precisamos nos contar.

Ficaram no jardim interno, aquele em que Sulana e Dohor haviam celebrado o casamento. Learco, ainda pequeno, ia muito para lá quando procurava alguma tranquilidade.

O tio escolheu um canto apartado, onde ninguém poderia in­comodá-los. Sentaram no chão, como sempre faziam quando Neor ainda era o mestre e Learco o seu aluno predileto.

Era um dos muitos primos de Dohor, e era famoso pelas suas excentricidades, mas também pela sua habilidade com a espada. Ha­via sido por este motivo que o rei decidira chamá-lo ao palácio, ape­sar de ele ter um caráter rebelde. Por algum tempo até que as coisas correram bem, e Neor demonstrara ser um instrumento precioso. Muito cedo, porém, revelara a mais total falta de entusiasmo pelo projeto político do primo. Começou se recusando a realizar algu­mas missões, contestou o rei, primeiro privadamente, depois até mes­mo diante do Conselho em sessão plenária. Foi então que Dohor tomou distância do aliado; passou a mantê-lo afastado das decisões mais importantes, enquanto ao mesmo tempo estreitava os vínculos com o mais moldável e impiedoso Forra.

Naquela época, Learco ainda era criança e havia muitas coisas que não conseguia entender; só mais tarde, pelos cochichos quecirculavam na corte, concluiu que Neor tinha levado a própria rebel­dia para fora das paredes do palácio.

Antes de mais nada, o tio percebera quão injustos e perigosos eram os sonhos de grandeza de Dohor. Tinha tentado resolver o pro­blema sem brigas, levando a voz da sua dissensão ao Conselho, mas não tivera sucesso. No fim começara a incitar os súditos para que depusessem o rei.

O epílogo consumou-se quando Dohor decidiu encarregá-lo do treinamento de Learco. O monarca devia achar a tarefa bastante fácil e, principalmente, capaz de manter o primo longe de amizades perigosas.

Foram somente uns poucos meses, mas Learco lembrava-os como os melhores da sua vida. Neor era um mestre perfeito, que sabia harmonizar a severidade com a medida certa de carinho e afei­ção. Naquela corte gélida, entre uma mãe ausente e um pai exigen­te demais, Neor havia sido para Learco uma verdadeira tábua de salvação: não exigia coisas impossíveis dele, não receava mostrar-se orgulhoso dos seus progressos e, principalmente, sempre tinha um tempo para ouvi-lo com atenção.

Naqueles quatro meses que passaram juntos, o tio foi um verda­deiro mestre de vida. Learco achava ter encontrado nele uma alma parecida, alguém em quem confiar e com o qual podia falar aber­tamente.

Então, de repente, tudo acabou. O pai considerou o treinamen­to mole demais e decidiu tirar o cargo do primo para entregá-lo a Forra.

Learco ainda se lembrava de ter espionado a longa altercação que acontecera entre os dois. Ouvia as suas vozes que se acaloravam tornando-se cada vez mais alteradas, enquanto ele, do lado de fora da porta, chorava em silêncio. Foi então que Dohor descobriu que Neor não se limitara somente às palavras. Tinha elaborado estraté­gias para deixar o rei minoritário no Conselho, o que demonstrava que tentara simplesmente tirá-lo do caminho.

Tudo foi resolvido sem estardalhaço. Neor foi banido para a Terra dos Dias. Oficialmente ia se mudar para tomar conta da ad­ministração de uma província. Na verdade fora exilado para umafortaleza bem no meio do deserto, onde não podia manter contato com nenhum dos seus amigos. A sua mulher foi mantida no palá­cio, para chantageá-lo no caso de ele mudar de ideia. A partir daí, Learco nunca mais soubera dele.

-           Soube que já participa de muitos combates.

Learco olhou para o tio e, por um instante, as duas imagens, a real e a das recordações, confundiram-se.

-           É verdade... mas não gosto muito da guerra. — Dizer aquilo foi como tirar um peso do estômago. Já fazia tanto tempo que não podia dar-se o luxo de dizer a verdade. Sabia que, com o tio, não pre­cisava mentir, tinha certeza que ele o conhecia melhor que todos.

Neor sorriu.

-           Não mudou muito, afinal.

Learco engoliu em seco.

-           Tornei-me um assassino.

O tio baixou os olhos com um sorriso amargo.

-           Se me deixassem, teria ficado com você.

-           Você não tem motivo para se censurar. Naquela época não entendia, agora sei como tudo aconteceu.

O silêncio desceu novamente sobre eles.

Quem primeiro o quebrou foi Learco.

-           Como foram estes seus últimos anos?

-           Não melhores que os seus, ao que parece. Para mim, ficar na Terra dos Dias foi um suplício. Não estava presente quando Sibila morreu. A última recordação que tenho dela é o seu rosto riscado de lágrimas no dia em que nos despedimos. Você nem pode imagi­nar como isto me dói.

Learco nada disse, mas a sua expressão ficou séria.

-           Estou enfraquecido e cansado, e seu pai sabe disso. Mas não subjugado. - Neor virou-se de estalo para o sobrinho e fitou-o di­retamente com olhos cheios de ardor. - Nunca mudei de ideia, nes­tes oito anos, e embora tivesse de pagar um alto preço faria tudo de novo.

Learco desviou o olhar. De repente aquela conversa deixava-o constrangido. Na corte, o tio era lembrado como um traidor, um co­varde que mordera a mão que o alimentara. Mas ele não conseguiaver as coisas deste jeito. Na verdade sentia que o tio tinha feito a coisa certa. Ele mesmo gostaria de portar-se daquela forma, se pelo menos tivesse a força de opor-se a Dohor.

-           O que acha? - perguntou Neor de repente.

Learco fitou-o meio perdido.

-           Eu...

-Já se passaram oito anos desde a última vez que nos vimos, e as pessoas mudam depois de tanto tempo, ainda mais se levarmos em conta que você só tinha treze anos, e agora é um homem. Sei, porém, que não pode ter renegado a sua natureza. Confio em você.

Um leve tremor tomou conta das mãos de Learco.

-           Baixarei a cabeça diante do rei durante a cerimônia. Serei todo sorrisos e abraços como se nada tivesse acontecido. Mas já não tenho nada a perder. Acabarei aquilo que comecei.

Learco olhou para o chão.

-           Prefiro não saber o que quer me contar.

Estas palavras surpreenderam o tio.

-           Está querendo dizer que o apoiará? Você nunca quis fazer isso quando era criança, e quer fazer agora?

-           É o meu pai.

-           Um pai que o transformou num assassino, você mesmo disse. Uma pessoa que, além do mais, continua a desprezá-lo.

-           Mas que ainda assim é meu pai.

O silêncio encheu-se de coisas não ditas.

-           Sei que sua mãe falou com você antes de morrer.

Learco estremeceu. A imagem daquela mulher perdida entre os cobertores rasgou a sua mente golpeando-o no estômago com a vio­lência de um soco.

-           Sibila enviou-me uma carta na qual me contou. Foi uma das raras missivas que recebi. Sei o que ela lhe disse.

As mãos de Learco ficaram úmidas de suor gélido.

-           Estava morrendo, totalmente devorada pelo ódio.

-           Pode ser. Mas havia alguma verdade no seu pedido.

-           E agora você está pedindo que eu o satisfaça, para resgatar a sua vontade? Está pedindo que o ajude a matar o rei só porque a mi­nha mãe intimou que a vingasse depois da morte?

Por um instante Neor fitou-o, mudo. Então prosseguiu:

—        Não peço que faça coisa alguma contra a sua vontade, mas pense bem nos motivos que a levaram a pedir-lhe algo tão atroz.

Learco começou a atormentar as mãos. Sabia que as lembranças, naquela altura, iriam dilacerá-lo longamente. O tio apoiou a mão no seu ombro, e aquele contato transmitiu-lhe todo o calor da antiga afeição entre os dois.

—        Não era minha intenção perturbá-lo logo agora que nos en­contramos depois de tantos anos. Mas você é a única pessoa com a qual posso dizer como as coisas estão e queria que ficasse a par dos meus planos. O meu é um pedido de ajuda. Estamos vivendo tem­pos terríveis, e sei que o estou colocando diante de uma decisão tre­menda. Mas pense bem no assunto. As suas terras precisam de um novo soberano.

Neor levantou-se, devagar, e antes de ir embora virou-se para o sobrinho, como que surpreso por alguma coisa.

—        Fiquei contente em revê-lo. Seguiu o meu conselho, resistiu. Ainda bem! — disse com um sorriso triste.

Os olhos de Learco se umedeceram. O tio se metera num cami­nho sem volta.

 

LIRIOS NEGROS

Sherva curvou-se numa profunda mesura. A sala de trabalho de Yeshol estava escura, o cheiro de sangue mais penetrante que de cos­tume. Nos últimos dias o ritmo dos sacrifícios havia aumentado de forma vertiginosa, sinal de que os eventos estavam se precipitando.

Yeshol continuou a tomar nota no livro que tinha diante de si, impassível.

-           Meu senhor...

Só então o Supremo Guarda levantou os olhos.

-           Descansar.

Sherva endireitou-se. Percebia uma sensação desagradável na boca do estômago. Desde que falhara no sequestro de San não se sentia mais seguro de nada. Havia sido tratado, é claro, e longamente in­terrogado. Atordoado pela dor dos ferimentos e pelos estranhos re­médios ministrados pelo novo Guardião dos Venenos, contara tudo aquilo que sabia e mais ainda. Descrevera San, falara dos dias pas­sados juntos, dera preciosos indícios acerca de Ido. Cumprira com o seu dever de serviçal, em resumo, mas continuava a ter medo, por­que tinha fracassado. Um pecado imperdoável para um Vitorioso. Quem falhara, antes dele, havia quase sempre pagado com a vida, e ele não queria morrer. E não era propriamente a morte a apavorá-lo, estava acostumado a tê-la por perto, durante os seus longos anos como sicário. Era, antes disto, a consciência de que, se morresse agora, seria em vão: degolado nas piscinas como um Postulante qualquer. Não era certamente aquilo que ele almejara desde criança. O seu so­nho era tornar-se um Assassino lendário, o melhor de todos. E, lon­ge disto, até agora não conseguira matar Yeshol, que continuava a vencê-lo quanto à força e à astúcia. Sem este fecho final, a sua vida seria uma obra inacabada, e este pensamento era para ele intolerável.

Logo que voltou, fora rebaixado: nada mais de Monitor da Aca­demia, mas sim mero Assassino, um sicário como qualquer outro.

-           Você deveria morrer, sabe disso, mas é uma arma preciosa para a Guilda, e não costumo desperdiçar os meus instrumentos - dissera Yeshol, mirando-o de cima para baixo. Ajoelhado aos seus pés, Sher- va rangera os dentes apertando o queixo. Aí estava o seu fim: morto por um velho fanático que o considerava apenas um instrumento com o qual glorificar um deus que ele desprezava.

-           Permita-me recuperar o meu cargo. O senhor sabe que mereço.

Yeshol fitara-o com condescendência.

-           Já recebeu um tratamento especial, não lhe basta?

-           O senhor me conhece. Sabe que não me contento facilmente.

Foi então que o enviaram para descobrir para onde Ido e San

haviam fugido. Sherva dera o melhor de si e encontrara as informa­ções de que precisava, mas de nada adiantara. De uma hora para outra a sua vida parecera-lhe insignificante e mesquinha. Rastejar se tornara a sua especialidade, humilhar-se a sua maneira de sobre­viver. Mas não fora isto que a sua mãe lhe ensinara, a ninfa que não se dobrara nem mesmo depois de ter sido banida pelas companhei­ras porque amara um homem. Ele tinha o mesmo orgulho.

“Quando a hora chegar, você sobressairá entre todos e mostrará a potência do seu sangue misto a quem me humilhou”, dissera para ele, olhando-o nos olhos.

E ele acreditara. Ser o melhor, sobrepujar. E não importava se para fazê-lo tivesse de derramar o sangue dos outros. Lembrava-se perfeitamente do jeito com que olhavam para ele e a mãe. Foi-lhe então fácil decidir que o mundo merecia ser agredido, atacado, des­truído. E para isto escolhera os caminhos do homicídio, ao qual se dedicara como um asceta. Tinha de demonstrar a todos a garra que o distinguia. Mas agora, daquele sonho, nada sobrara.

Logo que voltou da missão, entregou o seu relatório. Desco­brira que os dois fugitivos estavam viajando para o Mundo Submerso, e já fazia três semanas que tinham partido. Naquela altura já de­viam estar pisando no fundo do mar. Yeshol ouvira tudo com a maior atenção e, obviamente, iria tomar as devidas providências. Mesmo assim, Sherva ainda não tinha sido convocado. Por isso decidira dar ele mesmo o primeiro passo. Falaria com o seu superior e pediriapara ser envolvido na operação. Só assim poderia ter alguma espe­rança de recuperar o cargo perdido.

Yeshol olhou para ele.

-           Então?

Depois de endireitar-se, Sherva encarou-o com firmeza.

-           Fiz aquilo que me mandou fazer. Agora lhe pergunto se o se­nhor pensou no meu pedido de reintegração.

O silêncio que se seguiu foi denso, e a Sherva pareceu infinito.

Finalmente Yeshol suspirou.

-           Fez um bom trabalho, mas era apenas o seu dever, nada mais que isso.

Sherva apertou os punhos.

-           Deixe-me então ir no encalço do garoto. Além do mais, tenho umas coisas a resolver com o gnomo.

Yeshol fitou-o intensamente.

-           Não creio que seja a pessoa certa.

-           Não faz sentido que me deixe viver, se depois não me dá a chance de remir o meu fracasso!

Sherva tinha de repente levantado a voz, e um imediato lampejo de ira passou nos olhos do seu superior. Yeshol deu a volta na escri­vaninha com passos lentos e pesados, até parar diante dele. Fitou-o com severidade e botou a mão no seu ombro, empurrando-o para baixo. Sherva opôs resistência. Não iria se ajoelhar, não desta vez.

-           Tenciona realmente ficar contra mim?

A voz do Supremo Guarda era um sibilo, uma lâmina fria nas costas, mas Sherva não experimentou outra coisa a não ser raiva. Não entendia como podia ter chegado tão longe, como podia ter- se afastado tanto do caminho. Baixou a cabeça.

-           Eu...

Yeshol soltou-o.

-           Já enviei outras pessoas nesta missão - disse, ignorando o olhar emocionado do inferior. - Para você terei, muito em breve, outra tarefa, um excelente homicídio que, tenho certeza, achará à altura da sua capacidade. Precisa ficar novamente em contato com o sangue e com o seu deus.

O que eu preciso mesmo é livrar-me de você e do seu maldito Thenaar!

Sherva apertou os punhos até os nós dos dedos se tornarem brancos.

-           Está me dizendo que nunca voltarei a ter o meu título de Monitor?

Yeshol sentou-se de novo.

-           Isso mesmo. Um título é apenas um título, Sherva, não au­menta nem diminui o seu valor. Você sabe quanto vale, e eu tam­bém. Mas fracassou, e a coisa é ainda mais grave justamente porque você é um dos nossos melhores homens. Por isso, não mudarei a minha decisão, terá de conformar-se. E agora vá.

Sherva permaneceu imóvel por alguns segundos, perdido entre o desejo de agir logo, ou mais tarde, com mais frieza. Tinha vontade de agarrar Yeshol pelo pescoço para estabelecer de uma vez quem era o mais forte. Até mesmo morrer na tentativa parecia-lhe melhor do que ficar ali, cabisbaixo.

Levou os punhos ao peito, na saudação dos Vitoriosos, e enca­minhou-se para a porta.

-           Não fique contra mim - disse Yeshol de repente, atrás dele.

-           Não só porque é meu inferior, de uma forma tão grande que você nem pode imaginar, como também porque eu tenho um deus no qual me apoiar, está entendendo? Eu, para ele, estou pronto a tudo, consagrei-lhe cada minha respiração e a minha alma. E ele me pro­meteu que não falharei.

Sherva não se virou. Ouviu aquelas palavras tremendo de raiva.

-           Vá ao templo e também procure por ele. Este seu pecado está tornando-o insano.

Sherva anuiu com um aceno de cabeça, em seguida saiu quase batendo a porta. A imagem do corredor da Casa deixou-o sem fô­lego. E compreendeu. Ficar tanto tempo lá embaixo enfraquecera-o. Ajoelhar-se, mesmo que fosse uma única vez, significava fazê-lo para sempre. Era um hábito fácil de pegar. Tinha de sair da Guilda, aca­bar de uma vez com o passado. Até que a Casa havia-lhe dado mui­to, fora lá que ele desenvolvera as suas artes marciais, a sua desumana capacidade de torcer as articulações. Mas já fazia muito tempo que a Casa nada mais tinha a oferecer-lhe. Estava na hora de ir embora e trair de verdade.

San olhou para fora com ansiedade. Do outro lado da parede de vidro descortinava-se diante dos seus olhos um panorama fantásti­co de peixes suspensos no azul. Como poderia alguém ficar senta­do com uma tentação como aquela bem diante dos olhos?

-           San! - O garoto virou-se na mesma hora. - Quer parar de fan­tasiar em lugar de me escutar?

O menino bufou.

-           Está bem, Quar.

-           Mestre Quar - disse num tom severo o homem empertigado diante dele.

-           Mestre — acrescentou San, sem muita convicção.

Já fazia três semanas que estava tendo aulas. Ido entrara no seu quarto no segundo dia de permanência no fundo do mar.

-           A condessa me disse que tem um mestre muito bom e dispos­to a ensinar-lhe a magia. O que acha disso?

Tomar uma decisão não foi nada fácil. Desenvolver os próprios poderes era a coisa que San mais desejava, mas ao fazê-lo estaria in­fringindo uma ordem específica do pai. Ao mesmo tempo, no en­tanto, queria realizar alguma coisa, manter a mente ocupada. O ócio e a imobilidade sempre traziam consigo dor e ideias nas quais pre­feria não pensar. E foi assim que começou a estudar.

O mestre era um velho mago de modos pretensiosos que lhe enchia a cabeça de noções inúteis.

-           Quando é que começamos com os encantamentos, afinal?

-           A magia não consiste em executar truques bobos de ilusionis­tas, ela é principalmente estudo, profundo conhecimento da natu­reza.

Com esta desculpa, com Quar nunca se fazia grande coisa, só se estudava. San começou a passar tardes inteiras dobrado em cima dos livros, com o mago idoso que logo o batia com uma varinha toda vez que levantava os olhos.

-           Então, como foi? - perguntava Ido à noite, quando jantavam juntos.

San não tinha ânimo de contar que havia sido terrivelmente en­fadonho. Ido demonstrava sempre tamanho entusiasmo que não que­ria decepcioná-lo.

De qualquer maneira, continuava a sentir falta de ação. Tinha urgente, desesperada necessidade de movimentar o corpo, e pediu então que o gnomo lhe desse aulas de esgrima. Também era uma boa desculpa para ficar com ele e ouvir mais histórias da avó e das aventuras que tinham vivido juntos.

Foi justamente treinando com a espada que San se deu conta de quão grandes eram os seus poderes. Era para ele natural recorrer à magia quando se via em dificuldade. Certa vez, quando já estava a ponto de ser golpeado pela espada de madeira de Ido, evocou instintivamente uma barreira protetora em torno do próprio corpo.

-           Fantástico! Foi Quar que lhe ensinou?

San pensou por um momento.

-           Foi.

Não sabia ao certo por que não dissera a verdade. Mas sentira muito orgulho de si mesmo.

Acostumou-se então a praticar a magia sozinho. Durante o dia estudava com Quar, de tarde treinava com Ido e à noite dedicava- se aos próprios truques. Aprender novos encantamentos parecia-lhe muito mais interessante do que encher a cabeça com noções inúteis acerca da natureza e outras bobagens parecidas.

-           Quar me contou que às vezes você demonstra ser um tanto impaciente - disse-lhe certo dia a condessa.

Gostava de conversar com ele e de tê-lo por perto, quando tinha a possibilidade. Costumava jantar com ele e com Ido.

-           Está aborrecido?

-           Não, não é isso... Acontece... — Não queria parecer ingrato. Afinal, a condessa havia sido muito amável em oferecer-lhe até um mestre de magia. - Acontece que gostaria de saber o que está ha­vendo lá em cima, na minha terra...

O que estava se passando no Mundo Emerso? O que acontecia dentro da Guilda? E Dohor? Pensamentos que o angustiavam junto com as lembranças da noite em que tudo mudara.

-           San! - repreendeu-o Quar.

San deu um pulo. Diante dele, o mestre fitava-o, vermelho de raiva. Havia-se deixado levar mais uma vez pelos devaneios.

-           Quer fazer o favor de prestar atenção? Precisa ouvir atenta- mente o que digo, se quiser algum dia aprender alguma coisa!

Quar deu um tapa na mesa com a mão aberta, fazendo sobres­saltar San, que ficou incomodado. Afinal, que autoridade tinha sobre ele aquele mago?

-           Vamos, repita o que eu estava dizendo.

San dirigiu-lhe um olhar arrogante.

-           Não faço a menor ideia.

-           E ainda se gaba?

-           O senhor mesmo disse que eu estava distraído, por que me pergunta coisas às quais não posso responder?

-           Pare de usar esse tom comigo, procure mostrar respeito!

-           Não estou usando “tom” algum.

Os lábios de Quar ficaram duas linhas finas, os olhos arregalaram-se de raiva. San achou-o um homúnculo ridículo. Lembrou rapidamente algumas fórmulas com que dar uma lição nele, coisas que provavelmente aquele mago, em sua mesquinhez, nem conhe­cia. Já estava a ponto de pronunciá-las quando o homem fechou de estalo o livro que tinha na frente.

-           Recuso-me a dar aula a um garoto bobo que nem mesmo me escuta. Por hoje, já chega.

Devia pensar que aquele, para San, seria um castigo, mas o me­nino foi logo enrolando o pergaminho no qual estava tomando nota.

-           Ótimo - disse, nem um pouco assustado; aí pulou da cadeira todo satisfeito por ter o resto do dia só para si.

-           Vai se arrepender - sibilou Quar. - Antes de mais nada, quero que amanhã saiba de cor a composição dos quatro tipos de terra, inclusive com seus espíritos protetores.

-           Sem problema! — exclamou o garoto, chispando pela porta afora.

Estava cansado daquelas aulas. Aprendia muito mais sozinho que com aquele velho bolorento. Era muito estranho; até uns pou­cos meses antes olhava para os próprios poderes com horror, mas agora, ao contrário, considerava-os com orgulho e interesse. Era po­deroso, sentia a força dentro de si. Já conseguia enfrentar com su­cesso algumas das coisas que o avô fazia ainda pequeno e, até mesmo, algumas do Tirano. Claro, este último não era certamente a melhor das referências, mas Aster fora antes de mais nada um grande mago.

Que depois tivesse decidido usar a sua capacidade para o mal, este era outro assunto, que Ido também dizia.

San dirigiu-se correndo para a biblioteca. Era um trajeto que costumava fazer à noite, prestando a maior atenção para que nin­guém o visse. O acesso àquele lugar fora o primeiro privilégio que a condessa Ondine lhe concedera. Passou tranquilamente pela en­trada, nunca havia guardas por ali. Era um lugar que, praticamente, só ela frequentava, onde tinha classificado muitos volumes sobre a história de Zalênia, mas principalmente muitos outros acerca do Mundo Emerso e da sua magia.

-           Pode pegar os livros quando quiser. Vai descobrir que são, tal­vez, os bálsamos mais poderosos para uma alma sofredora - tinha dito para ele certa noite.

E, de alguma forma, era verdade. Aqueles livros serviam a abran­dar as penas do seu espírito. Talvez, no entanto, não somente no sentido que Ondine imaginava.

San foi direto para o setor que interessava. Não fazia muito tem­po que descobrira aquela sala, mas a partir daí ela tornou-se a sua meta obrigatória. Passava horas lá dentro, roubando-as ao sono.

Parou diante das estantes: eram duas, de sólido ébano, e che­gavam até o teto. Seu coração sempre batia um pouco acelerado, quando as via. Estavam repletas de livros negros. Era por isto que haviam atraído a sua atenção.

O primeiro fora um livro histórico: a biografia de Aster. Um volume escrito em forma de longa canção por um autor anônimo. O homem assinava apenas como “O Menestrel”. San lera tudo, fas­cinado. Tornara-se natural, para ele, medir os próprios progressos mágicos conforme os do Tirano. Aster tinha provocado um feri­mento na mãe quando ainda era uma criança de colo.

Não, na verdade nunca fiz nada disso... admitia San, quase com pesar. Ou talvez meu pai nunca tenha me contado, ele não via com bons olhos os meus poderes, dizia então para si mesmo, com uma pontinha de orgulho.

Lia do trabalho de Aster na Terra da Noite, sobre como havia tentado ajudar aquele povo paupérrimo a cultivar plantas comestí­veis em seus campos nunca abençoados por um raio de luz. Sen­tia-se pessoalmente envolvido ao saber da desmedida paixão que o mítico mago possuía pela justiça, do seu desejo de consertar o mun­do. Era como se percebesse uma ressonância no seu coração. Claro, ele tinha metas muito mais modestas: vingar a morte dos pais era um pensamento cada vez mais presente na sua mente. Não passava de uma fantasia, ou pelo menos era o que ele dizia a si mesmo: às vezes pensava nisso enquanto lutava com Ido e se via como um gran­de guerreiro, quem sabe até um Cavaleiro de Dragão. Voaria então até a Terra da Noite, até aquele templo que imaginava terrível, onde destruiria, sozinho, a seita dos Assassinos. Ou então pensava no as­sunto durante as aulas de Quar: usar a magia para aniquilar os ini­migos, matar Sherva, o homem que lhe tinha massacrado o pai e a mãe. Era uma ideia particularmente agradável, que acalmava os gri­tos que amiúde brotavam no seu coração.

Em seguida passara às histórias élficas: antigas lendas, relatos de terríveis guerras. E magia. Uma magia estranha que Quar jamais mencionava. Uma magia que nada tinha a ver com os espíritos na­turais e bobagens parecidas. Nada disso, aquela era uma magia que dobrava a natureza à sua vontade e fazia milagres. Era algo que o deixava realmente fascinado.

Naquele dia San revistou longamente as prateleiras de livros ne­gros. Já tinha lido vários, mas naquela tarde estava a fim de alguma coisa especial. A sua atenção foi chamada por um volume relativa­mente pequeno; no pano da encadernação viam-se escritas pratea­das, um tanto corroídas pelo verde do bolor. Eram runas, a única coisa interessante que estudava com Quar. O compêndio da luta. Um título que prometia bastante ação. Estava tão gasto que teve medo de vê-lo desfazer-se entre as suas mãos. Era de veludo, e na capa es­tava gravado um complexo pentáculo vermelho. San apalpou-o. As bordas dos reforços metálicos nas pontas eram gastas e cortantes, e teve de prestar atenção para não se ferir.

Sentou de pernas cruzadas no chão e o abriu na primeira página. Lá dentro havia um marcador de um vermelho desbotado, uma cor que lembrava cruelmente sangue ressecado.

Virou a página e seus olhos encontraram uma escrita regular e miúda.

Chegou para mim o momento de instruir-me nas práticas mágicas do homicídio durante a Guerra dos Pequenos. Não foi uma escolha fácil, e a fiz com a morte no coração. Mas a morte e o sangue já eram parte de mim, e o seu cheiro já penetrara na minha alma até preenchê-la. Foi para punir o meu inimigo que tomei a decisão, foi para vingar as pessoas amadas que ele arrancara de mim. Não me esquivei de nenhum horror, pois a guerra já me acostumara a tudo, e o meu desejo de dar paz aos mortos tornara-se uma obsessão.

San levantou os olhos por um instante. A Guerra dos Peque­nos. Um acontecimento longínquo da época em que os Elfos eram os donos do Mundo Emerso. Achou terrível que mesmo naquele tempo se falasse de morte e sangue como agora, e sentiu uma estra­nha simpatia por aquele homem que usava uma linguagem que en­tendia até muito bem.

Porque ele também desejava dar paz aos mortos ou pelo menos esperava que estes o deixassem em paz. Era uma coisa que estava aprendendo devagar, à sua custa: a ausência das pessoas amadas é mais opressora que a sua presença, e as suas sombras, a reverberação da sua dor e do seu ódio, nunca nos abandonam.

Mergulhou na leitura, tendo nos olhos a imagem do pai ferido de morte que se arrastava para a porta.

Saiu quando já era noite. Tinha lido quase o livro inteiro e não se dera conta de ter demorado demais na biblioteca. Foi só pisar do lado de fora para dar de cara com um criado bastante agitado.

—        Onde é que o senhor se meteu? A condessa e o cavaleiro aguar­dam-no para o jantar, e estão preocupados!

—        Só estava lendo...

—        Sua Excelência Ido espera pelo senhor nos seus aposentos.

O criado segurou-o pelo braço e o arrastou embora. Passaram

por corredores entre alas de serviçais atarefados e inquietos.

—        Encontrei-o, encontrei-o! Digam à condessa que está tudo bem. O criado abriu finalmente a porta do quarto de Ido.

O gnomo estava sentado à mesa e fumava nervosamente. Pulou de pé logo que a porta se abriu.

-           Maldição! - gritou. - Onde foi se meter?

-           Encontrei-o diante da biblioteca - disse o criado.

Ido dava seguidas tragadas, quase sem parar, soltando densas nuvenzinhas de fumaça. San já tinha aprendido que a coisa não pro­metia nada de bom.

-           Pode ir embora - sibilou Ido ao serviçal, que não se fez de ro­gado. A porta se fechou e San ficou de repente de pernas bambas.

-           Onde foi que se meteu? - A voz do gnomo vibrava irada, com uma fúria que ele mal conseguia reprimir, e seu olhar era pene­trante.

-           Não foi nada, eu...

-           Responda!

-           Na biblioteca - disse San num sopro. - E de qualquer maneira Ondine me disse que poderia ir lá quando eu quisesse - acrescen­tou baixinho, ofendido.

-           Acho que você não está entendendo direito a situação.

Ido segurou-o pelo braço, com uma firmeza que deixou o garoto surpreso. Puxou-o para si até os dois rostos quase se tocarem. O chei­ro do tabaco deu um nó na garganta do menino.

-           Será que já esqueceu a razão de estarmos aqui?

-           Não estava fazendo nada de mau.

-           Não é este o ponto. Eu achei bom que você se sentisse à von­tade e deixei-o fazer o que bem entendesse. Francamente achei que fosse algo mais que um bobo, um desmiolado...

San sabia que o melhor a fazer era pedir desculpas, mas conti­nuava achando que nada tinha a se recriminar.

-           Ido, creio que está exagerando, eu só...

-           Cale-se! - A voz do gnomo ressoou tão forte que San estreme­ceu. - Está pensando que estamos seguros aqui embaixo? Não esta­mos não. Acha que Yeshol desistiu, que se conformou? Fique saben­do que não é assim. Quando você desaparece, eu fico logo pensando que lhe aconteceu alguma coisa, entende?

O menino desviou o olhar. Os olhos de Ido, furibundos, deixavam-no constrangido, apavorado.

-           Tudo bem... se for assim... — Queria rebater, mas no fim fal­tou-lhe coragem. - Desculpe - disse com um fio de voz.

-           Continua não entendendo.

-           Pedi desculpas, o que mais quer que eu faça?

Ido sorriu com sarcasmo.

-           Vejo que herdou o lado pior da sua avó. Fez a mesma cena comigo, muitos anos atrás, e eu acreditei nela. Mas não tenciono repetir o erro. A partir de amanhã, só andará por aí acompanhado de um guarda.

San arregalou os olhos.

-           Não pode fazer isto comigo.

Ido caminhou para a janela.

-           Não é um castigo. Não estamos aqui para passar férias, a sua proteção é a prioridade máxima para a salvação do Mundo Emerso.

-           Ora essa, Ido, estava na biblioteca! Lendo!

-           De agora em diante só poderá ir lá acompanhado.

San emitiu um longo suspiro. Sentia-se tomado de raiva, e não só por causa daquela conversa. Era por causa de um mês inteiro pas­sado sem fazer nada, por causa de toda a frustração que guardara dentro de si, deixando que se acumulasse um dia depois do outro.

-           Não preciso de uma porcaria de guarda, sei defender-me so­zinho.

Ido virou-se e encarou-o com escárnio.

-           É mesmo? E com o quê? Com as suas mãos?

-           Você está me treinando.

-           A espada não é o seu forte, e de qualquer maneira só está co­meçando.

-           Tenho poderes... tenho a magia. - San apertou os punhos, cada vez com mais força.

-Ah, sim, claro, a magia, já ia esquecendo o mais importante: Quar veio falar comigo, furioso, queixando-se porque o seu aluno, o que tem grandes poderes, nem consegue ficar uma hora sentado, a ouvir os ensinamentos de quem sabe mais que ele.

-           Ele não sabe mais que eu. Não sabe nada, nem chega a ter a décima parte do meu poder!

Ido deu uma risada debochada.

-           Claro... Você disse que queria aprender, que queria tomar aulas. Se estava de fato tão desinteressado, poderia pelo menos ser mais coerente, recusando a minha proposta.

-           É uma chateação, é tudo um grande aborrecimento - insur­giu-se San. - Quer que eu fique sentado e fica o tempo todo falan­do de coisas sem sentido, enquanto eu já derrubei um dragão com estas mãos, e você viu, pois estava lá!

Ido não se deixou perturbar pelos protestos.

-           Uma façanha que não saberia repetir. O estudo também é aborrecimento, San, a magia também é esforço. Achava que só seria diversão? A vida é isto, San: empenho e dedicação.

-           Ele quer que eu fique parado, aliás, todos nós não fazemos outra coisa: só ficamos parados! Que diabo estamos fazendo aqui embaixo? Estamos nos escondendo como coelhos! Você, no entan­to, fez coisas grandes no passado, derrotou Dola, e... e... eu não que­ro mais ficar escondido como um covarde. Sabe-se lá o que a Guilda está tramando, lá em cima? A Guilda matou meus pais, será que você não entende? E o homem só sabe falar de alambiques e espí­ritos naturais!

San ficou no meio do aposento, ofegante. Achava que ia estou­rar, seu peito subia e descia violentamente, como se não houvesse bastante ar entre aquelas quatro paredes.

Ido fitou-o, imóvel, de cachimbo na mão.

-           Acabou?

A sua voz estava calma, gélida, o que exasperou San ainda mais.

-           Não se atreva a não me levar a sério!

O tapa chegou inesperado, o seu ruído seco encheu o cômo­do. De repente San sentiu-se vazio. Olhou para Ido, incrédulo.

-           E você não se atreva a tratar-me como trata o seu mestre de magia. Já vi muito mais coisas que você, garoto, e já me vi às voltas com muitos pirralhos bobos e arrogantes.

San sentiu as lágrimas queimando nos olhos.

-           Estamos nos escondendo porque se a Guilda pegá-lo você morre. Mas você é um grande herói, não é verdade? E não se impor­ta minimamente com a morte. Mas quero lembrar-lhe que com você cairia o Mundo Emerso inteiro. É por isso que estamos aqui.

Ido deu as costas, dirigiu-se à janela, apoiou-se no parapeito. San viu-o através de um véu das lágrimas. A percepção de não estar sendo compreendido dilacerou-o. Até aquele momento o gnomo fora a sua única certeza: eram dois sobreviventes, partilhavam a mes­ma dor. Se havia alguém que não precisasse de palavras, era Ido. Mas não mais. Agora San sentia-se sozinho, abandonado.

-           Entendo você - disse o velho guerreiro, quase como resposta aos seus pensamentos. - A inatividade também me deixa louco, isto não passou pela sua cabeça? Fiquei três anos parado: fazendo planos, na retaguarda, para a rebelião, vi os meus homens morrerem enquanto eu ficava ao abrigo em Laodameia. Como acha que me sentia? Mas há um tempo para agir e um tempo para esperar, e en­tender isso é uma das maiores qualidades de um guerreiro.

Calou-se, olhou para ele com compreensão e então aproxi­mou-se.

-           San, pensei que já tínhamos deixado isto bem claro... A sua contribuição à luta é justamente esta: ficar vivo, não se deixar matar. E pode ficar certo de que não é pouca coisa.

Mas não é o mesmo que lutar. E não me ajuda a esquecer aquele quarto cheio de sangue, e meu pai que se arrasta para a porta, e minha mãe imóvel no chão.

San deixou as lágrimas correrem soltas. Seus ombros começa­ram a estremecer pelos soluços. Quando falara pela primeira vez com Ido, achara ter compreendido e que poderia aguentar a inati­vidade. Mas não era assim, como agora percebia. Era este o motivo de ele ficar irrequieto durante a viagem, de não suportar as aulas de Quar. Todas facetas de uma única verdade: a vontade de vingança. E se então ele não tinha meios, agora era diferente. Porque sabia que era forte, pois sentia o poder crescer dentro de si, porque estava aprendendo depressa.

Gostaria de contar para Ido. Ele já vira morrer muitas pessoas que amava, talvez tivesse uma resposta que não se limitasse àquele “espere”. Mas nada disse. Soluçou no seu ombro sem encontrar qual­quer consolo.

-           Jure que não voltará a fazer uma coisa dessas, nunca mais.

San ficou olhando longamente para o chão, depois concordou

lentamente, e Ido abraçou-o.

-           Não vou colar um guarda em você, mas é a última vez. Sei que você é um menino esperto e que irá se comportar.

San anuiu de novo, cansado. Enxugou as lágrimas e, quando Ido sorriu para ele, não conseguiu retribuir com sinceridade.

 

O QUARTO DE SULANA

Dubhe e Theana começaram a trabalhar na mesma tarde da sua chegada. Volco bateu delicadamente à porta e, quando abriram, encontraram-no sorridente no limiar.

-           Encontrei um bom lugar para vocês.

Seriam ajudantes, junto com muitas outras mulheres, numa enorme cozinha encoberta por uma cortina de fumaça. Sempre ha­via movimento, lá dentro, e trabalho que não acabava mais, pois Dohor tecia continuamente suas tramas de alianças e conspirações com jantares mais ou menos suntuosos.

Logo que entrou, Dubhe teve a impressão de estar de volta à Casa. Ali também havia cozinhas como aquelas, e lembrou que Lonerin tinha trabalhado duramente nelas nos meses em que bancara o espião. Ela as vira uma única vez, e os corpos que se mexiam na fumaça — corpos de pessoas que haviam vendido o próprio sangue à seita por desespero - quase lhe pareceram fantasmas. Por isso mesmo ficou tomada de enjoo logo que passou pela porta. Mas se conteve e continuou a desempenhar o papel de humilde camponesa ajoe­lhando-se aos pés de Volco e beijando-lhe as mãos com gratidão.

—        Devem isto ao príncipe, não a mim — disse ele, eximindo-se.

Naquela noite foram dormir bastante tarde, exaustas. Theana

não estava acostumada a trabalhar: até aquele momento na sua vida só fizera principalmente estudos meticulosos, feitos muito mais de esforço intelectual do que físico. Dubhe tampouco estava acostuma­da com aquele tipo de tarefas. Jogaram-se em suas camas com os músculos doloridos e as mãos entorpecidas pela água gelada. Theana meteu-se logo embaixo dos cobertores sem dizer uma palavra, en­quanto Dubhe permaneceu mais algum tempo acordada. Apesar do cansaço, estava custando a adormecer. O seu inimigo dormia não muito acima dela, na parte nobre do palácio, e escondidossabe-se lá onde naquele labirinto estavam os documentos que iriam ser a sua salvação. Como podia dormir sabendo que a sua vida es­tava ligada àqueles dois elementos, tão próximos e ao mesmo tem­po tão distantes? A necessidade de agir, de mexer-se para procurar a sua vingança pessoal, estava se tornando uma obsessão. Era como se depois da viagem às Terras Desconhecidas alguma coisa houvesse mudado nela, algo que tivesse sido desbloqueado. Sentia-se final­mente preparada para tomar uma decisão, segurar as rédeas da pró­pria vida.

Fechou os olhos e, no fim, como que em sonho, com uma es­pécie de doce sofrimento, deu-se conta de que em algum lugar, além daquelas paredes, também Learco estava tentando dormir.

Dubhe manteve o plano de ação que já determinara com Theana: durante os primeiros dias ambas realizaram com silenciosa dedicação o seu trabalho, para não despertar suspeitas. Não foi fácil porque, uma vez que eram novatas, as demais mulheres da cozinha incum­biam-nas das tarefas mais enfadonhas e, amiúde, maltratavam-nas sem qualquer motivo. À noite, Dubhe ouvia a companheira chorar baixinho em seu catre, enquanto recitava as suas rezas com mais fer­vor do que de costume.

- Tentarei agir o mais cedo possível - ciciava para ela, não con­seguindo encontrar outras palavras para consolá-la. Theana não rea­gia, desconsolada diante daquela situação absurda e perigosa.

A hora chegou uma semana depois da vinda delas. Na calada da noite, quando o palácio inteiro estava adormecido, Dubhe levan­tou-se silenciosamente da cama. Guardou suas roupas de mulher num alforje e vestiu uma calça e um corpete de pele masculino que tinha roubado um dia antes na lavanderia. Os trajes escuros lembra­ram-lhe demais o uniforme dos Vitoriosos, mas eram o único disfar­ce possível para circular sem problemas pelo breu dos corredores. Foi com uma espécie de mudo alívio que prendeu ao cinto o punhal; por mais que ela percorresse os caminhos da vida, por mais variadas que fossem as roupas que vestia, o combate fazia parte do seu ser, e somente armada podia sentir-se realmente à vontade. Prendeu os cabelos loiros com uma fita e saiu.

A noite recebeu-a suave como um amante há demasiado tempo esquecido. Dubhe saboreou as sombras e o prazer de mover-se na es­curidão cheia de silêncio. Fazer pesquisa sempre fora a parte do seu trabalho de ladra de que mais gostava.

Avançou furtiva pelos corredores, percorrendo-os com cautela, pronta a reagir de imediato em caso de necessidade, mas não encon­trou nenhum guarda; nos andares mais baixos só morava a criada­gem e era impossível alcançá-los do exterior. Não havia motivo para vigiá-los.

Foi com incrível facilidade que conseguiu arrombar a sala do ecónomo e roubar pergaminho e tinteiro. Queria ter certeza de não esquecer qualquer detalhe e achava portanto melhor tomar nota.

Deixou as suas roupas de criada num embrulho, que escondeu num canto bem na entrada dos pisos inferiores. Se alguém a sur­preendesse, poderia recuperá-las e se trocar rapidamente.

Então prosseguiu com sua volta de exploração pelos andares bai­xos, a fim de preparar um mapa pormenorizado do lugar. O Mestre sempre lhe dissera que a primeira coisa a fazer era conhecer bem o ambiente em que iria se movimentar. O caminho de fuga deve ser claro, se tiver de escapar às pressas sem muito tempo para pensar. A finalidade daquela noite, no entanto, também era pôr à prova as suas forças. Theana realizara o ritual com ela na noite anterior, e era a terceira vez; Dubhe animou-se ao reparar que seu corpo reagia bem aos estímulos, parecia, aliás, que os seus sentidos até se haviam aprimorado em relação ao passado. Obviamente constatou isto com um arrepio de medo: sabia que aquilo indicava claramente que a Fera dentro dela não estava vencida, mas sim que crescia cada vez mais. De qualquer maneira, aquilo até que podia tornar-se útil.

A partir da segunda noite começou a aventurar-se nos andares superiores do palácio. Decidira prosseguir a sua exploração de forma metódica, razão pela qual adentrou primeiro o setor das criadas de quarto e dos assistentes pessoais dos cortesãos, depois a ala destinada aos vários dignitários. Tomava nota de qualquer coisa interessante no pergaminho que levava consigo, mas dedicou-se particularmente a estudar os hábitos dos guardas. Desde que um andar tivesse comu­nicação com o exterior, era imediatamente vigiado por uma porçãode homens. Dubhe encontrou vários que rondavam pelos corredores e reparou que às vezes até controlavam os quartos vazios.

Raros caminhos de fuga e poucos lugares onde esconder-se, pensou amargamente.

Os soldados eram todos bastante jovens. Parecia que Dohor os cooptava diretamente na Academia, da qual era Supremo General já havia muitos anos. Alguns deles passavam todo o período de apren­dizagem vigiando salões vazios e alas abandonadas do palácio: uma maneira um tanto enviezada de usar um recurso que, no passado, servia para proteger todos os povos do Mundo Emerso.

A julgar pela diligência e a dedicação deles, no entanto, Dubhe concluiu que deviam ter tido a oportunidade de enfrentar amiúde condições de perigo real. Para ela, isso não era nem um pouco ani­mador.

Na noite seguinte foi direto para o piso nobre. Não era diferente dos demais, a não ser pelos controles mais cuidadosos e contínuos. Teve de prestar muito mais atenção na hora de se movimentar, e mais uma vez ficou agradecida a Sherva, que lhe ensinara a ser tão sinuosa quanto uma cobra.

Houve muitos quartos em que não conseguiu entrar, e afinal nem chegava a ser necessário. Na maioria dos casos só precisava de algum detalhe para entender quem estaria lá dentro. Vigilância fra­ca, um cortesão; corredor vigiado por um único soldado, auxiliar de algum ministro; guarda plantado diante da porta, um ministro.

Só havia uma porta sem qualquer vigilância. Pareceu-lhe estra­nho, levando-se em conta que aquele era o andar das pessoas impor­tantes, aquelas que contavam nos jogos de poder do rei.

Entrou num aposento contíguo, que sabia estar vazio, e foi di­reto para a sacada. Ao chegar lá, um arrepio correu pela sua espinha. A última vez que tinha feito uma coisa dessas fora durante aquele roubo que mudara completamente a sua vida entregando-a nas mãos da Fera. Sentiu uma espécie de tontura, mas abriu mesmo assim a porta envidraçada. Só levou um segundo para sair, para saborear o vento fresco que a investia com seus perfumes. Abaixo dela estendia- se um viçoso jardim, pontilhado por vários chafarizes. Um lugar perfeito para se esconder, registrou num canto da mente. Aí subiuno parapeito e deixou-se balançar no vazio. Sempre gostara daqueles malabarismos, nos quais se saía muito bem.

Achatou-se entre as sombras do prédio, criadas pela lua cheia, e deslizou sinuosa ao longo da fachada, sem fazer qualquer barulho. Pulou para a sacada da outra janela e segurou-se com firmeza férrea na pedra. A altura daquele pulo, apesar de não haver lugar nenhum onde se agarrar numa eventual queda, não lhe criou qualquer inde­cisão. Só estava levemente ofegante quando se puxou para dentro do balcão e se tornou totalmente invisível fundindo-se com as som­bras. Esticou o pescoço, de leve, só para dar uma olhada no interior. Seu coração parou, suas mãos tremeram e quase caiu.

No centro do quarto, sentado a uma mesa, tendo ao lado uma taça meio cheia, encontrava-se Learco. Estava imóvel, olhando para o chão. Os raios do luar caíam exatamente em cima dele, dando aos cabelos matizes prateados. A cabeça parecia envolvida num halo de luz, e Dubhe ficou olhando, admirada. O coração batia violento em seu peito, o tempo pareceu parar. Por que o príncipe provocava nela aquele efeito? Só houvera umas raríssimas ocasiões em que os dois se falaram realmente, mas no seu íntimo ela reagia como se estivesse apaixonada. Este pensamento deixou-a aturdida, talvez ela tivesse ido longe demais. Pulou de lado saindo do campo visual do jovem, tão assustada que nem conseguia respirar direito. Na certa ele iria agora abrir a janela e a descobriria.

Mas nada aconteceu. As ramagens abaixo dela mexeram-se ao sopro delicado do vento, enquanto uma coruja soltou o seu chama­do na noite. Não podia continuar. Não agora. Desceu lentamente pela fachada do edifício e desapareceu na escuridão.

Learco olhou para a janela. Parecera-lhe vislumbrar alguma coisa, um vulto. Sem saber lá por quê, pensara imediatamente na jovem que salvara em Selva: Sane. Ficou de olhos fixos para fora, vendo as sombras das árvores que provocavam estranhos reflexos no vidro. Teria sido bom se ela estivesse ali. Na corte, e até mesmo fora do palácio, não havia ninguém com quem sentisse alguma afinidade. Aquela jovem, por sua vez, ouvira-o, e ele compreendera que os doistinham a mesma visão do mundo. Era a única pessoa com a qual se atreveria a falar do próprio passado

Chamou a si mesmo de bobo. Sane era apenas uma estranha que ele encontrara no caminho, uma camponesa qualquer com a qual partilhara uma parte do percurso. Como podia formular juízos tão absolutos, tão definitivos sobre ela? E mesmo assim experimen­tava algo diferente em relação a ela, alguma coisa que sentia crescer dentro de si.

Era por isso que voltava a pensar nela. Porque, talvez, ela en­tendesse.

A noite era imensa, e as palavras de Neor, alguns dias antes, ha­viam cavado nele um sulco que já não conseguia preencher. Era como se tivesse sido aberta uma porta através da qual os fantasmas do pas­sado pudessem entrar sem qualquer problema na sua vida. Learco segurou a cabeça entre as mãos, enquanto aquela lembrança maldita, que queria cancelar a qualquer custo da sua vida, voltava a visitá-lo com violência.

Está com quatorze anos, e a sua mãe está morrendo. Mandaram-no voltar às pressas do campo de batalha para que a possa assistir durante os últimos momentos de vida. A rainha quer falar com ele, disseram, e ele ficou ofegante ao saber disso. Nunca acontecera antes, a mãe jamais o convocara, tanto assim que mal consegue se lembrar da sua aparên­cia. Learco avança lentamente para o quarto de Sibila, a dama de honra. Aquela mulher, para ele, é um mistério quase tão grande quanto a mãe. Apesar de nunca tê-la encontrado, sente mesmo assim alguma simpatia por ela. E a esposa de Neor, e isto já basta para despertar boas lembranças. Apoia temerosamente a mão na maçaneta e, quando entra, vê uma dama idosa vestida de preto, de longos cabelos brancos presos numa cândida touca, que o recebe com olhos frios e hostis.

—        Chegou, finalmente.

Learco baixa a cabeça em sinal de saudação.

Sibila levanta-se e vai ao seu encontro sem fazer barulho.

—A sua mãe está esperando por você há dias. Está piorando rápido, receava que você não chegasse a tempo.

Learco engole em seco. De repente sente-se confuso e assustado. Tudo parece irreal, como um sonho. Não consegue dizer coisa alguma: limi- ta-se a acompanhar Sibila com os olhos enquanto abre com delicadeza a porta do quarto da mãe dele. A mulher desaparece na escuridão e ele só consegue ouvir as suas palavras.

—        Minha senhora, o filho de Dohor está aqui...

Learco permanece imóvel, petrificado pelo som daquelas palavras. O filho de Dohor. Então é só isto que ele é para a mãe?

Sibila reapareceu com uma expressão severa no rosto e fez um sinal com a mão.

—        Pode entrar.

O primeiro passo foi o mais difícil. Suas pernas tremiam, como a primeira vez que chegou ao campo de batalha. Agradece de todo o co­ração a escuridão reinante naquele quarto, que lhe permite esconder- se de quem faz na cama. O cheiro de fechado e de morte é penetrante. Os batentes das janelas foram encostados, e a luz que passa pelas fres­tas joga lâminas de fogo no chão. Pouco a pouco Learco se acostuma com a penumbra e se dá conta dos poucos móveis que decoram aquela prisão. Só há dois quadros nas paredes, uma arca num canto e uma mesa de tamanho modesto. No meio do aposento ergue-se o majestoso e trabalhado dossel que encima a cama, enquanto o piso é inteiramente coberto de tapetes que amortecem o ruído dos seus passos.

Learco avança aturdido, com o coração que parece explodir em seu peito. Um dos quadros retrata a mãe ainda jovem. Tem traços finos, de criança, os cabelos castanhos levemente cacheados que caem sobre os om­bros magros. Há muito pouca luz para distinguir as cores, mas Learco sabe que aqueles olhos são verdes, exatamente como os seus.

Sempre a lembrou daquele jeito, bonita e inalcançável. Agora, no entanto, nem sabe qual seja o rosto dela. Antes de chegar à cabeceira, dá uma rápida olhada no outro retrato. Um menino de, no máximo, três anos, empertigado e muito nobre, olha diante de si com uma expres­são séria que mal combina com seus traços infantis. Os cabelos são de um louro escuro, e Learco sabe quem é. É o seu homônimo, o único filho que Sulana reconheceu. O irmão arrancado da vida pela febre verme­lha, aquele que todos lembram como uma dádiva preciosa. Toda vez que ele falha, o pai e qualquer outra pessoa da corte comparam-no comaquele menino. Inimitável e perfeito, justamente porque não teve tempo para decepcionar as expectativas de ninguém. Learco sabe que não pode competir com aquele ideal, pois ele cresceu e teve a oportunidade de tornar-se adulto.

Um seco estertor, repentino, desvia a sua atenção daqueles pensa­mentos tristes. Por baixo dos cobertores, que se ondulam de leve a in­dicar a forma imprecisa de um corpo, alguma coisa se mexe. E ela.

Sibila leva-o até a beira da cama; aí, sem mais uma palavra, sai e o deixa sozinho.

A mãe faz quase afogada entre as colchas. Os cabelos brancos estão espalhados de forma descomposta sobre o travesseiro. O rosto ossudo e cavado pela doença parece uma máscara espectral. As mãos jazem lar­gadas em cima do cobertor, magras e nodosas. A boca está aberta, contraída numa careta que enche Learco de horror. Não pode deixar de contemplar aquela imagem, na qual pensou durante anos, quase com enojado desgosto. Sabe que chegou tarde demais.

Está com medo, um medo insano e cego, como aquele que tomava conta dele quando ouvia os gritos dos soldados que se tornavam cada vez mais selvagens e desesperados, e o sangue começava a avermelhar o solo. Se pudesse, fugiria para longe, fora daquele quarto e do pesadelo que para ele é Makrat.

Uma das mãos move-se de estalo e agarra seu pulso. Um arrepio de asco corre pelas costas de Learco.

Os olhos verdes abrem-se de repente: ainda estão vivos, flamejan­tes. A expressão deles, no entanto, emana um ódio inextinguível.

—        Demorou demais.

Por quanto tempo Learco fantasiou acerca daquela voz? Nas suas noites solitárias imaginou-a suave e amorosa, cantarolando uma música de ninar para ele adormecer. E quão diferente ela soa agora: seca e me­tálica, quase assexuada.

—        Vim o mais depressa que pude — respondeu com a garganta seca.

-Aproxime-se, preciso falar com você.

Learco espera que queira dizer-lhe aquilo que nunca lhe disse. Tal­vez lhe revele a razão de tantas coisas em sua vida: por que o recusou, por que o odiou. No fundo da alma, deseja aquele momento de recon­ciliação.

—        Sei que é o filho dele e imagino que tenham muitas coisas em comum. Ele plantou-o no meu ventre para que você roubasse o lugar do meu Learco.

A mãe custa a retomar fôlego, entre estertores Learco fica imóvel, tomado de horror. Sente o sangue zunir em seus ouvidos, percebe cada batimento, lento e cruciante, do próprio coração.

—        Mas você me deve a vida, uma vida que gostaria de não lhe ter dado, e que agora peço de volta.

—        Mas mãe...

A palavra vem espontânea aos seus lábios, ainda que o som lhe pareça absurdo logo que acaba de pronunciá-la. Se lhe pedisse para morrer, ele fiaria, pois apesar de tudo amava aquela mulher.

—        Estou prestes a morrer, e na minha vida já cometi muitos erros. Um deles remonta a muitos anos atrás, quando concordei com um matrimônio que não tinha razão de ser. Mas tentei com todas as mi­nhas forças consertar aquele engano! — diz Sulana, levantando a voz.

—        Tenho os deuses como testemunhas de como tentei redimir-me! Mas aquele verme subjugou-me, doando-me aquela flor que era Learco, e eu não pude impedir que o tirassem de mim...

Sofre um ataque de tosse, e Learco procura desesperadamente a jarra de água. Encontra-a na mesa e, livrando-se com força do aperto da mãe, corre para encher o copo. Entrega para ela, que o toma com grandes goles, engolindo avidamente cada gota. Depois agarra nova­mente seu pulso e continua:

—        O meu segundo erro foi não tentar matá-lo. Permiti que se tor­nasse o que é agora, e eu mesma lhe entreguei o seu maldito poder.

—        Eu lhe peço, mãe, não se canse. Pare de falar e deixe-me ficar um pouco ao seu lado...

Learco sente o calor das lágrimas que descem pelas faces. Nem se dera conta de que estava chorando.

—        Por isso quero de você uma única coisa, e quero que me prometa que a fará, porque eu podia matá-lo antes que nascesse e não matei. E agora você está me devendo.

Com grande esforço tenta erguer-se, encostando os lábios em seus ouvidos.

—        Mate-o — sibila com um fio de voz, antes de se deixar cair de novo no travesseiro, exausta.

Learco está incrédulo, não sabe o que dizer.

—        Ele o forjou à sua imagem e semelhança, e talvez você nem consiga amá-lo. Mas este é o meu último desejo. Mate Dohor, ou então que você seja maldito.

Os olhos verdes fitam-no diretamente, gélidos, e ele não consegue desviar o olhar.

—        Saia daqui, agora. Nada mais tenho a lhe dizer.

Learco fica de pé, perto da cama, incapaz de se mexer. Olha para a mãe esgotada, sente suas mãos formigarem. E como se o seu sangue fosse de cera; sente-o circular lento e viscoso nas veias.

—        Suma! - grita Sulana, e com a mão, com muito esforço, pega uma campainha ao lado do travesseiro. Agita-a provocando um leve tilintar.

A porta abre-se quase imediatamente, e Sibila aparece rápida e silenciosa.

—Já está na hora de ir embora - diz segurando Learco pelo braço e puxando-o com delicadeza, mas com força.

Learco deixa-se levar para fora, incapaz de olhar para outra coisa que não seja a cama. Não pode vê-la, mas sabe que a mãe está a fitá- lo com imenso ódio.

A taça caiu ao chão, derramando o vinho no soalho. Learco levan­tou-se de chofre e saiu do aposento. Precisava de ar. O corredor era iluminado pela luz dos trípodes de bronze. A tranquilidade à sua volta contrastava com o tumulto que sentia no peito. Por que aquele lugar maldito não ruía, agora, diante dos seus olhos?

Percorreu os vários andares quase que correndo, sem se importar com os olhares assustados dos guardas que se inclinavam apressada­mente ao vê-lo passar. Ao chegar ao jardim, deixou-se cair na grama, olhando para o céu estrelado e respirando a plenos pulmões. O ar fresco e o som gotejante da água dos chafarizes deram-lhe um mo­mentâneo alívio, purificando a sua alma atormentada.

Nada poderá realmente limpar-me.

Olhou a lua, redonda e extremamente luminosa, e soube afinal para onde ir. Foi um pensamento que o fulminou, de tão absurdo, mas não pôde esquivar-se.

Seguiu em frente decidido, descendo pouco a pouco para os an­dares mais baixos. As paredes tornaram-se mais sujas, os corredores mais esquálidos. Errou um tanto perdido, à procura da porta que Volco lhe indicara. Não conhecia bem aquela ala.

Devem estar dormindo, depois de um longo dia de trabalho. Que ideia mais doida, um príncipe não busca consolo junto de pessoas do povo, um príncipe não confessa suas penas à criadagem.

Virou no último corredor e parou de estalo. Lá estava ela. Mais adiante. Caminhava furtiva, de volta ao quarto.

-           Espere!

Dubhe gelou. Agradeceu mentalmente ao próprio espírito pre­cavido por ter mudado de roupa logo que voltara aos alojamentos dos serviçais. De qualquer forma, teria de explicar a razão daquela saída no meio da noite. Achou melhor prevenir as perguntas. Virou- se de chofre.

-           Sinto muito, eu...

Deteve-se. Era o príncipe, não havia reconhecido a sua voz.

-           Estava à sua procura.

Ficaram parados, olhando um para o outro. Agora que estava diante dela, Learco já não sabia o que dizer.

-           Príncipe, eu... não conseguia dormir - murmurou Dubhe num tom patético.

-           Não precisa se justificar. Não é uma prisioneira. Pode ir aonde bem quiser.

Ela mordeu o lábio.

-           Como pode ver, eu tampouco consigo pegar no sono — disse o jovem sorrindo. E, contra qualquer lógica, Dubhe ficou feliz por ele estar ali, perto dela. - Gostaria de dar uma volta pelo jardim?

Ela ficou incerta: talvez fosse melhor evitar, talvez fosse melhor voltar para a cama, talvez tivesse sido melhor nunca ter chegado àquela familiaridade. E, no entanto, limitou-se a acompanhá-lo, in­capaz de dizer não.

Começaram a passear pelas alamedas iluminadas pela lua. Dubhe estava acostumada a mexer-se de noite, já realizara muitos trabalhos com a ajuda da escuridão, durante os anos passados com o Mestre.

Por um instante a lembrança dele, junto com o fato de estar com Learco, a fez estremecer.

O príncipe percebeu.

-           Tudo bem com você?

-           Tudo, eu...

Learco convidou-a a sentar na grama, perto dele, protegendo- lhe os ombros com a sua capa. Havia umidade no ar, e o sereno pe­netrava nas roupas.

Procure tirar dele algumas informações, esta é uma oportunidade preciosa para a sua investigação, disse Dubhe para si mesma, mas a sua vontade se opunha.

-           Que tal o trabalho? - perguntou Learco.

Dubhe fitou-o, atônita.

-           Bom, muito bom mesmo - apressou-se então a dizer. - Você nos salvou, e...

-           Não precisa agradecer toda vez que nos encontramos, nem demonstrar um entusiasmo forçado.

-           O serviço é bom. Estou longe da guerra, e isto já é muito - disse ela, procurando dar à voz um tom de sinceridade.

-           Não estão trabalhando demais?

Ela meneou vigorosamente a cabeça.

-           Sempre dá para descansar um pouco.

Um pesado silêncio tomou conta dela. Dubhe não estava en­tendendo: por que ele viera procurá-la? Por que a mantinha ali?

-           Tenho a presunção de tê-la ajudado, no outro dia - disse Lear­co de repente, fitando-a. - Por isso, agora, peço que fique aqui co­migo. Porque quem precisa de ajuda, agora, sou eu.

Dubhe sentiu-se trespassada por aquele olhar, só conseguiu ace­nar que sim, com a cabeça, e ficar olhando, à espera.

-           Sou um prisioneiro, Sane, e nem sei por que estou lhe contan­do isto, mas acontece que aqui não há ninguém que... - Suspirou.

-           Aqui dentro eu sou um estranho para todos.

-           Prisioneiro? Prisioneiro do quê?

Os olhos de Learco pareceram tornar-se ainda mais claros. Dirigiu-lhe um sorriso cansado.

-           De um passado que não quer ir embora.

Falou tudo de uma vez, apressadamente, como se as palavras jorrassem da sua alma com a força incontida da maré. Contou-lhe da mãe, do ódio dela por ele, do pedido atroz que lhe fizera logo antes de morrer.

-           É isso — disse afinal. — Sinto-me mais leve, agora. Precisava livrar-me deste segredo. Acredito que você possa entender o que quero dizer.

Dubhe anuiu.

-           Passei estes anos todos me perguntando por quê; nunca de­monstrou qualquer carinho por mim, nunca me abraçou nem me procurou. Para ela, sempre fui apenas o filho do marido, e me odiou pelo menos tanto quanto odiou meu pai. E durante todos os anos da minha infância me perguntei se tinha feito alguma coisa, se tinha cometido algum erro que justificasse aquele tratamento. Mas naque­le dia compreendi que a minha única culpa era simplesmente ter nascido.

Dubhe olhou para ele, abalada.

-           É um pecado do qual, para ela, nunca me redimi; talvez pen­sasse que, extorquindo-me aquela absurda promessa, eu poderia pu­rificar-me.

-           Por que me conta isso?

-           Porque na outra noite vislumbrei o seu passado e descobri o seu segredo. Agora estamos quites. Desejava contar-lhe. Não há mais ninguém, na corte, que poderia ouvir-me. - Os cantos da sua boca esticaram-se num sorriso amargo.

-           Há pessoas que nascem com uma sina funesta - disse Dubhe, e quando Learco olhou para ela sentiu-se mais uma vez exposta, vul­nerável como naquela noite, no bosque. - Conhece os rituais da Guilda dos Assassinos?

Ele continuou a sorrir, mas desta vez com sarcasmo.

-           Conheço até bem demais.

-           E sabe quem são as Crianças da Morte?

Ele meneou a cabeça. Dubhe sentiu-se como que à beira de um precipício. Jogar-se era uma loucura, mas o vazio a chamava. Nada continuaria a ser igual, se agora decidisse falar.

-           São crianças que mataram; seja no caso de recém-nascidos cujas mães morreram ao pari-los, seja no de garotos que matam por engano ou por expressa vontade de matar, a Guilda considera-os uns elei­tos. Procura por eles em todo lugar, alista-os em suas fileiras e os treina para que se tornem assassinos.

Pelo jeito com que Learco olhou para ela percebeu que tinha en­tendido. E não se importou. Era o filho do seu inimigo, alguma coi­sa dentro dela continuava a dizer aquilo aos berros, mas era tarde para voltar atrás.

-           Aquelas crianças nasceram com um destino marcado. A sua maior culpa é de terem nascido. - Dubhe sentiu o desespero abrir caminho entre as lágrimas.

-           Você não tem culpa; a Guilda é uma turma de insanos.

-           Pode ser, mas certa vez um homem me disse que quem mata na infância é um predestinado, e que o seu caminho só pode ser um e já está traçado.

-           E você acha que o meu caminho também está traçado? Acha realmente que eu deveria fazer o que a minha mãe me pediu em seu leito de morte?

Dubhe hesitou por alguns instantes.

-           Só estou dizendo que você tampouco era culpado. Era o ódio dela, da sua mãe, e não o seu.

-           Pois é - comentou ele, baixando a cabeça. - Não o meu...

-           Nas margens do riacho, durante a viagem, contou-me que, não importa do que se tratasse, estava tudo acabado.

Learco virou-se para ela.

-           Sei que talvez tenha dito isto só para me consolar. - Dubhe engoliu as lágrimas. — Mas talvez baste acreditar.

O príncipe sorriu e acariciou-lhe suavemente a face. Parecia mais sereno.

-           Quer dizer, então, que estamos descarregando cada um os nossos pecados em cima do outro para que desapareçam...

Foi a vez de Dubhe também sorrir.

Learco levantou-se.

-           Imagino que amanhã terá de acordar cedo. Acho melhor ir­mos embora.

Atravessaram em silêncio os jardins mergulhados no escuro, en­quanto a aurora começava a colorir levemente o Oriente com uma lista violeta um pouco mais clara.

Quando chegaram à entrada do palácio, ele se virou e ficou dian­te dela.

—        Há algo misterioso em você, Sane, ou seja qual for o seu nome.

Dubhe procurou manter-se calma, mas aquelas palavras gela­ram-na.

-           De qualquer maneira, o seu passado é seu, e eu não me atre­veria a tirá-lo de você - acrescentou Learco, falando baixinho en­quanto abaixava a cabeça para murmurar algo em seus ouvidos. - Posso vir visitá-la, de vez em quando?

Um único, longo arrepio correu pela espinha de Dubhe. Quan­do ele se afastou, fitou-o intensamente. Então anuiu.

 

UMA BUSCA ENTRE OS LÍVROS

Theana acordou antes de o sol raiar. Nos primeiros tempos sempre coubera a Dubhe sacudi-la em seu catre; depois de um dia inteiro trabalhando na cozinha a jovem sentia-se completamente esgotada. A noite, só mesmo a sua força de vontade permitia que ainda rezasse ao seu deus antes de adormecer profundamente. No fim, no entan­to, acabara encontrando um ritmo, e muitas vezes já estava de pé quando Dubhe voltava das suas explorações noturnas.

-           Você nunca dorme? — perguntava, enquanto se preparava para ir à cozinha.

-           Aprendi a só precisar de poucas horas de sono - respondia Dubhe.

Theana tinha lá suas dúvidas. A companheira andava muito pá­lida e estava emagrecendo a olhos vistos.

-           Se estiver se sentindo mal, precisa dizer.

-           Farei isso - respondia Dubhe, mas pareciam palavras ditas com indiferença.

Naquela manhã também, Theana já se levantara e estava se ves­tindo quando a viu entrar furtiva. Parecia mais cansada que de cos­tume.

-           Não deveria voltar tão tarde.

Dubhe virou-se, quase surpresa.

-           Só estou tentando aproveitar da melhor forma possível o tem­po de que dispomos. - Mas a resposta era evasiva e havia algo es­tranho no seu olhar.

Automaticamente Theana observou o símbolo no braço dela. Já recorrera ao encantamento três vezes para deter a maldição e ti­nha a impressão de que o efeito estivesse tendo uma duração menor.

-           Precisamos repetir o ritual antes do que imaginávamos - dis­se, dando uma olhada numa tábua do assoalho. Não estava presa,era onde estavam guardados os frascos necessários ao feitiço. Dubhe não deu sinal de ouvir. Theana teve de plantar-se diante dela e se curvar para segurar suas mãos para chamar-lhe a atenção. Parecia consumida por uma espécie de fogo interior, e suas mãos não paravam de tremer. Não podia ser apenas a maldição, devia haver outra coisa.

—        Diga a verdade — murmurou.

Dubhe deu as costas, e Theana suspirou.

-           Qual é o sentido da minha presença aqui, Dubhe? Desde que chegamos, você sai por aí dando suas voltas, não para de se me­xer, e eu continuo bancando a serviçal.

—        Sempre foi o seu papel, desde o começo, e você sabia perfei­tamente disso. Além do mais, você não é capaz de movimentar-se de forma furtiva, e...

—        Eu sei, eu sei — interrompeu-a Theana, seca. — Não estou me queixando. Mas se você não me contar a verdade sobre as suas con­dições não poderei ajudá-la, está me entendendo?

Tentou olhar para ela com sinceridade. Naquela altura já fazia quase dois meses que viviam lado a lado, e Theana tinha começado a entender aquela sua estranha companheira de viagem: o seu jeito esquivo, os seus silêncios e sofrimentos. Agora podia compreender o que tinha fascinado tanto Lonerin, e era alguma coisa que a atraía também. Os abismos de onde Dubhe vinha eram sedutores, e o gri­to de socorro que se percebia era impossível de ser ignorado por pes­soas como eles.

-           Está se sentindo pior?

-           Às vezes.

—        Acha que o feitiço está ficando menos eficaz?

Dubhe levantou-se com um pulo.

—        Pare com isso—disse, afastando-se para o outro canto do quarto.

—        Mas é por isto mesmo que estou aqui...

-           Não gosto do jeito com que olha para mim!

Theana levantou-se.

-           Dubhe, eu posso entender...

-           Não pode entender coisa nenhuma, ora essa! Já olharam para você com piedade, com comiseração? É intolerável! Lonerin também olhava para mim desse jeito, como se tivesse de salvar-me a qualquer custo, como se tivesse de ser a sua vitória pessoal sobre o destino. Mas eu não preciso ser salva por ninguém.

-           Não há nada de mau em ter alguma fraqueza. Todos precisam da ajuda de alguém.

-           Pois é, e você sabe tudo a respeito, não é? Você que recorre ao seu deus idiota todas as noites, só para afugentar o medo da morte...

Dubhe calou-se, percebeu de imediato a enormidade daquilo que acabava de dizer. Mesmo assim Theana não deu sinal de ficar ofendida, não protestou. Só pensou em como a sua fé continuava sendo maltratada, incompreendida, agora como na época do seu pai.

-           Chega de conversa. Só responda à minha pergunta: quero saber como está se sentindo - disse afinal, num tom severo.

Dubhe fitou-a, cansada e finalmente sincera.

-           De uns dias para cá a Fera me agride sem motivo. E tampouco acredito que haja uma ligação com o enfraquecimento da sua magia. Só que, de repente, sinto-a dentro de mim, e o mundo começa a rodar e a ficar vermelho. Depois a coisa passa. Sozinha.

No silêncio que seguiu, Theana procurou as palavras, mas não foi necessário.

-           Senar contou-me que não existe cura, sei muito bem disso. A única solução é a morte do meu inimigo, e é por isso que não paro, que me desgasto todas as noites. Não há outra saída.

-           Não sei como ajudá-la mais do que já estou fazendo.

-Já está fazendo muito - disse Dubhe, com um sorriso nervoso.

-           Sem você a Fera já teria vindo à tona; e mais importante ainda será o que fará quando encontrarmos os documentos.

Theana tentou responder com um sorriso, mas não conseguiu. Era engraçado como nada tivesse mudado; tudo continuava igual a quando ainda estava no Conselho das Águas, e mais uma vez ela se sentia totalmente inútil. Agora, depois de tudo aquilo que enfren­tara durante a viagem, lá se encontrava ela sem poder fazer coisa al­guma, a não ser assistir impotente. Como sempre fora.

Seguram-na. As explicações de nada adiantam.

—        Não é como vocês pensam! Nunca fez nada de mau!

As pessoas gritam, enquanto seu pai é levado embora, agrilhoado.

—        Assassino!

—        Está em conluio com aqueles malditos!

—        Enforquem o sacerdote dos Assassinos!

O laço está à espera, logo adiante.

Finalmente haviam encontrado um lugar onde viver em paz, depois de toda aquela longa andança; tinham conseguido assentar-se ali, na Terra do Mar. Nunca fizeram nada de mau, só procurando levar uma vida afastada. Mas ela não podia pedir que o pai parasse de rezar ao seu deus. Efora suficiente alguém ouvir aquele nome para que tudo pre­cipitasse. Thenaar.

—        Não é o que vocês estão pensando! — grita ela com todo o fôlego que tem nos pulmões, enquanto passam a corda em volta da cabeça do pai. Ele ainda tem ânimo para dizer-lhe que vá embora, quefuja, mas ela não consegue e fica assistindo àquela injustiça sem poder fazer coisa alguma. Rejeitou os ensinamentos e o culto de Thenaar, blasfemou e renegou o seu nome, até pensou em deixar o pai sozinho, entregue à sua loucura. Mas agora percebe quanto precisa dele. A sua existência depende daquele homem.

Inúmeras pessoas foram ao templo do Deus Negro e nunca mais voltaram. O ódio pelo culto é enorme naquela terra cujo senhor feu­dal, um homem justo e estimado, foi morto pela Guilda.

—        Assentar-nos-emos aqui porque neste lugar a Guilda perpetrou o seu horror. Caberá a nós purificar o nome de Thenaar de toda a su­jeira que a Guilda construiu em volta dele.

Foi o que o pai dissera quando decidiram morar naquela aldeia. Agora olha para ela com tristeza e também com resignação. Só quer que ela se salve e não veja o que está para acontecer.

Uma mão puxa-a pelo braço e a afasta da multidão.

—        Cale-se — diz alguém, levando-a para um canto, atrás de uma casa.

—Não fez nada, vão matá-lo e ele não fez nada! Diga isto para eles!

E um homem idoso, mais velho que seu pai, de expressão doce e condoída, raros cabelos no crânio. Tapa a boca dela com a mão.

-           Não há nada que possamos fazer contra a ira das pessoas.

Ela tenta desvencilhar-se, fugir, mas o aperto do homem, é firme.

Afinal de contas ela só tem doze anos. Completamente impotente, assiste ao enforcamento de longe, vê o corpo do pai estremecer nas últimas con­vulsões e depois as pessoas que começam a pisoteá-lo e chutá-lo logo que o cadáver cai ao chão. Mais, mais e mais. Até Folwar cobrir seus olhos com a mão e apertá-la contra o peito.

Volco chegou à cozinha logo depois do almoço. Theana limpava o chão, ajoelhada nas pedras do piso, um pano sujo entre as mãos. Dubhe estava por perto, mas fora do ângulo de sua visão.

A jovem maga levantou os olhos e ficou na mesma hora de pé.

-           Meu senhor...

Volco botou a mão no seu ombro e sorriu com benevolência. Lembrava-lhe Folwar, o seu salvador. Ele também tinha aquela ex­pressão suave.

-           Deve estar cansada de trabalhar o tempo todo aqui...

-           Não, meu senhor, fico contente em poder servir ao meu rei

-           respondeu ela sem hesitar.

-           Fique tranquila, não a estou acusando de coisa alguma - ob­servou Volco, sorrindo. — Só estava imaginando se gostaria de fazer outro trabalho para mim. Fora daqui.

A ideia de deixar de lado o trapo e de dar algum descanso aos joelhos doloridos era tentadora, mas não queria mostrar-se impa­ciente demais.

-           Como o meu senhor achar melhor.

-           Venha comigo.

Saíram, percorreram lentamente todos os corredores que, das entranhas do palácio, levavam aos andares superiores, aqueles onde a corte aproveitava a sua vida suntuosa e urdia suas intrigas.

-           É uma tarefa mais tranquila, que nada tem a ver com aquilo que fez até agora. É a biblioteca.

Acabaram diante de uma grande porta de bronze, só parcial­mente aberta. Volco entrou e Theana foi atrás, hesitante. A vista que se descortinou diante dela acalentou seu coração. Tratava-se de umaampla sala retangular, dividida em estreitos corredores por nume­rosas estantes de madeira de cerejeira. Cada uma estava cheia, de ambos os lados, de livros de toda espécie. Não era uma biblioteca enorme, mas ela nunca poderia imaginar que um tesouro daqueles existisse naquele lugar.

-           Em geral, cuido dela pessoalmente - disse Volco com visível satisfação. - É aqui que o príncipe, seu benfeitor, realizou a sua edu­cação.

Theana mostrou-se surpresa.

-           A tarefa, afinal, não tem nada de mais; já faz um bom tempo que ninguém dá uma limpeza por aqui. Trata-se de deixar os livros respirarem um pouco e de colocar dentro deles folhas de louro secas para manter longe as traças.

Ela anuiu diligentemente, enquanto o velho lhe mostrava o am­biente. Sentia-se finalmente em casa; claro, a biblioteca de Laodameia, onde ela estudara, era imensa em comparação com aquela, mas seus olhos treinados compreenderam na mesma hora que ha­via obras preciosas, ali dentro, e muitos, muitos livros proibidos.

Volco entrou num cubículo poeirento no fim da sala. Estava cheio de sacos de folhas secas e farrapos de la.

-           Usará isso, certo? Uma folha para a primeira página e outra para a última.

Theana continuava concordando. A ideia de trabalhar na bi­blioteca deixava-a entusiasmada; sabia que lugares como aquele eram fontes inesgotáveis de informações.

-           Já teve a ver com livros antes?

Procurou a resposta certa.

-           Não, mas estou acostumada a cuidar de objetos delicados.

-           Sabe ler, pelo menos?

Theana meneou a cabeça. Melhor admitir a maior falta de pre­paro possível.

-           Que pena - comentou Volco, lastimando. - Quem sabe, eu poderia dar-lhe algumas aulas...

-           Se o meu senhor tiver a paciência necessária... - disse ela sor­rindo, com uma mesura.

O velho pareceu ficar comovido.

-           A partir de agora, de tarde ficará aqui, está bem? Durante os primeiros dias acompanharei o seu trabalho, para ter certeza de que não provoque desastres. Aí, se tudo correr bem, poderemos pensar nas aulas.

E assim foi. Theana passou a tarde inteira folheando livros, fin­gindo não saber ler e só dando rápidas olhadas. Volco sentou num canto e logo depois estava entregue à leitura de um pesado volume de história. Theana ficou o tempo todo imaginando de que forma poderia aproveitar aquela situação. Certamente deveria haver, por ali, documentos a respeito da vida na corte e, quem sabe, informa­ções sobre os que Dubhe estava procurando. Em silêncio, enquanto abria e fechava as capas, sorriu. Finalmente a hora dela chegara.

Contou tudo a Dubhe naquela mesma noite.

-           Encarregaram-me de um trabalho na biblioteca.

-           Então foi lá que você se meteu... - observou ela, trocando de roupa. A coisa sempre deixava Theana um tanto impressionada. Pa­recia que Dubhe mudava de pele: quando vestia roupas masculinas, a gentileza e a suavidade dos traços que ostentava durante o trabalho na cozinha e toda vez que houvesse estranhos por perto desapare­ciam. Apesar do penteado diferente, voltava a ser ela mesma. Era incrível como conseguia modificar a própria aparência apenas mu­dando de atitude.

-           A minha tarefa consiste em folhear os livros.

-           Contou que sabe ler?

Theana sacudiu a cabeça, e Dubhe sorriu para ela.

-           Parece que está aprendendo depressa...

-           Conte-me como são os documentos.

Dubhe sentou na cama.

-           Não creio que estejam lá.

-           Poderia haver lugar melhor, para esconder um pergaminho, que uma sala cheia de outros pergaminhos?

-           Quando os roubei, estavam murados dentro de um cubículo secreto, atrás de uma tapeçaria.

Theana não desanimou.

—        Deixe-me tentar.

Dubhe suspirou.

—        Não tinham nada de particular. Estavam escritos num perga­minho enrolado, lacrados com um selo muitos simples, vermelho, sem qualquer sinal especial.

—        E do que tratavam?

—        Não faço ideia.

Theana não disfarçou a decepção.

—        Acha que se fossem mais facilmente identificáveis eu já não os teria encontrado? De qualquer forma, uma biblioteca é uma ex­celente fonte de informações: não vamos certamente desperdiçar uma oportunidade tão preciosa.

Theana concordou de imediato.

Começou no primeiro dia em que Volco deixou-a sozinha. Procurou arrumar depressa alguns livros, embora na realidade ninguém lhe tivesse imposto prazos para concluir o trabalho. Mas era melhor não deixar Volco desconfiado.

Ficou no meio da sala e olhou à sua volta. Não tinha a menor ideia de por onde começar. Como é que você pode encontrar uma coisa da qual não conhece a aparência, que talvez esteja escondida em algum canto e que talvez nem mesmo se encontre no lugar onde você está procurando?

Você nunca fez uma coisa dessas antes, é inútil que tente bancar a espiã...

Theana teve um gesto de raiva. Nada disso, maldição! Era jus­tamente para deixar de bancar a vítima, para evitar aquela forma de derrotismo tolo que decidira acompanhar Dubhe. Tinha de parar de choramingar suas mágoas e partir para a ação.

Deu o primeiro passo procurando o catálogo. Por experiência própria, sabia que toda biblioteca tinha um: normalmente um livro volumoso, contendo a lista de todas as obras e as indicações neces­sárias para encontrá-las.

Começou passando um pente-fino em várias prateleiras e ficou surpresa ao reparar no grande número de textos escritos pela própriamão de Aster que se encontravam naquele lugar. A maioria deles ela não conhecia, mas afinal muitos dos manuscritos do Tirano fo­ram queimados nas fogueiras que haviam marcado a euforia da sua queda. Também encontrou, empilhados nas estantes, muitos textos élficos. Provavelmente o escriba desconhecido que os copiara nem dominava direito a língua, uma vez que algumas runas soavam tor­tas e irreconhecíveis.

Finalmente a sua procura foi premiada: no fundo de uma das es­tantes, enterrado num monte de pergaminhos apinhados de notas, jazia um livrinho branco bastante gasto que dava as coordenadas para os demais volumes. Obviamente não fora usado havia muito tempo. Talvez Volco tivesse uma fantástica memória acerca daquele lugar e lembrasse a localização e o conteúdo de todos os textos ali guardados. Não era afinal uma façanha tão excepcional, considerou com olhar crítico Theana: os livros não passavam de uns poucos mi­lhares. Mília, o encarregado da biblioteca de Laodameia, conhecia de cor a colocação e o conteúdo de uma boa metade dos cem mil volumes ali guardados.

Abriu o livrinho com todo o cuidado e não conseguiu segurar um gemido. Parecia cifrado. Os livros não eram indicados pelo tí­tulo completo, mas apenas pelas iniciais, e a posição nas várias pra­teleiras também seguia uma lógica bizarra. Talvez o escriba tivesse achado conveniente usar aquele tipo de escrita para facilitar o seu trabalho.

E agora?

Theana hesitou. Levar o livrinho para fora da biblioteca pode­ria ser perigoso: Volco poderia reparar na sua ausência. Mas ela não podia desistir sem mais nem menos.

Vou decifrá-lo aqui, disse para si mesma. Vou ficar num canto e o decifrarei aqui mesmo.

Logo que tomou a resolução sentiu-se melhor. Pelo menos faria alguma coisa em que sabia ser bastante habilidosa.

Passou a tarde inteira estudando o assunto. As anotações eram miúdas e, além do mais, a escrita não era muito clara. Para emba­ralhar as cartas ainda mais, o escriba não tinha usado sempre as mes­mas abreviaturas para designar uma coisa. Uma vez “Crônicas” eraindicado com “C.”, outra com “Cro.”. E em outros casos aquele mes­mo “C.” queria dizer “Cronologia”. Theana sentiu-se tomar pela frus­tração.

Então a porta chiou. A jovem levantou instintivamente a cabeça e o olhar divisou o retângulo da janela: escuro. Escondeu rapida­mente o catálogo sob a veste e pegou na mesma hora o primeiro li­vro ao seu alcance junto com uma folha de louro. Vòlco entrou com passo cauteloso, enquanto ela procurava manter sob controle o co­ração que batia como louco.

-           Ainda aqui? - disse o velho, com um sorriso.

-           O tempo voa quando estamos atarefados - respondeu ela, procurando assumir a expressão mais inocente possível.

-           Daqui a pouco será hora de jantar. Vamos, você pode acabar amanhã.

-           Mas os livros...

-           Deixe tudo assim mesmo - disse Volco, agitando a mão num gesto de descaso. - Amanhã recomeçará de onde parou. Pois, afinal, ninguém mais bota os pés aqui dentro a não ser eu e o príncipe, quando está no palácio.

Com um gemido que mal conseguiu reprimir, Theana saiu da sala. O livro, apertado no seio embaixo do vestido, parecia queimar na sua pele.

-           O que é?

Já era noite, e Dubhe estava se preparando para sair. Diante dela havia um mapa do palácio, bastante preciso mas com algumas salas ainda desprovidas de anotações. Estava tudo ali. Para cada cômodo, especificava de que tipo de aposento se tratava, dizia quantas portas e janelas ele tinha e, principalmente, descrevia os hábitos dos que os ocupavam: a que horas costumavam ir para a cama, como dormiam, quantos guardas ficavam de vigia.

Theana estava por sua vez deitada de bruços com o livrinho aberto diante de si.

-           O catálogo da biblioteca — explicou.

Dubhe aproximou-se e deu uma olhada.

-           Está cifrado.

-           Quem me dera... Foi o que também pensei, mas as abrevia­turas parecem casuais. Está vendo? O “E.” aqui quer dizer estante, enquanto mais adiante a mesma indicação vem junto com um nú­mero e fica no fim da titulação.

Dubhe permaneceu olhando com atenção. Em seguida, deva­gar, deslocou o olhar do livro para Theana. Fitou-a por alguns instantes, até ela ficar meio constrangida.

-           O que foi? - perguntou a maga, confusa.

-           Roubou? - Dubhe sorria.

A outra ficou toda vermelha.

-           Volco chegou de repente enquanto o consultava, não dava para botá-lo de volta no lugar, tive de agir depressa e...

Dubhe afastou-se sem parar de sorrir de forma marota.

-           Parece que a minha companhia é contagiosa...

-           Não roubei! — rebelou-se Theana. — É um... empréstimo.

Dubhe voltou a ficar séria.

-           Só estava brincando com você. Agiu certo - disse. — Está se tornando cada vez mais útil - acrescentou enquanto ajeitava os ca­belos. Depois saiu pela porta com a elegância macia e fluida de um gato.

Theana não demorou muito a decifrar aquelas anotações. Num perga­minho, tomava nota dos volumes que poderiam interessar. Tratava- se em sua maioria de papéis oficiais do palácio, atestados, escrituras de compra, registros de posse e coisas parecidas. Mas no fundo do peito esperava encontrar algum indício que ajudasse Dubhe a loca­lizar os documentos de que precisava.

Logo que voltou à biblioteca começou a folhear os volumes que havia assinalado. Viu-se mergulhada num mar de números e nomes mais ou menos desconhecidos, reconstruindo peça por peça a histó­ria daquele lugar. Descobriu que, em sua maioria, os Livros Proibi­dos, principalmente os mais raros, vinham todos da mesma fonte. “G.T.”, designara-a o zeloso bibliotecário, que, pelo menos desta vez, usara a mesma sigla para todos os volumes.

 “Escrito élfico secreto”, “Verdadeira crônica da idade arcaica”, “Fórmulas em runas desconhecidas”.

Todas cópias. Cópias recentes. E os originais? Que fim haviam levado? E todos aqueles volumes escritos pelo Tirano, por que Do- hor os possuía, quando nenhuma das bibliotecas do Mundo Emerso os tinha?

Descobriu então que vários dos documentos indicados no catá­logo não estavam na biblioteca. Tinham, como todos os demais, um código de colocação, mas quando ia ver na prateleira em ques­tão no lugar deles encontrava cópias de outros livros regularmente fichados em outro lugar. Talvez tivessem sido perdidos, mas, neste caso, por que não indicar claramente esta perda?

Ficou um bom tempo pensando, perplexa. Parecia um enigma sem solução. Foi só por acaso que percebeu a existência de uma pe­quena diferença nas anotações que se referiam aos volumes duplica­dos: um símbolo, pequeno e em tinta vermelha, ao lado dos livros que faltavam. Copiou-o com cuidado num pergaminho, e achou que o melhor a fazer seria comentar aquilo com Dubhe. Sentia-se excitada; depois de vários dias passados ali à procura de um indício, finalmen­te tinha encontrado alguma coisa.

Já estava a ponto de sair quando um título chamou a sua aten­ção: O caminho do Consagrado.

Seu coração parou e o tempo pareceu congelar, enquanto o passa­do vinha ao seu encontro.

Acontecera certa noite, quando só tinha oito anos de idade. O pai estava lendo para ela um trecho das Crônicas do Mundo Emerso na luz trêmula de uma vela. Já ouvira aquele relato dúzias de vezes, tor­nara-se tão conhecido quanto as citações acerca de Thenaar e Shevrar. Longas, enfadonhas e, além do mais, secretas. Ela não podia falar com ninguém a respeito das suas identidades, assim como não podia deixar transparecerem em público os seus dotes de futura sacerdo­tisa. O pai sorrira ao vê-la bufar: podia entender, mas o único outro texto que falava do culto sem ter sido poluído pelas mentiras da Guilda havia sido perdido. Chamava-se O caminho do Consagrado. Na­quele livro narra-se o papel dos Consagrados e o seu poder no mundo,como demonstração da grandeza e magnanimidade do seu deus. Ao ouvir aquilo, Theana ficara atenta e logo perguntara se a obra tam­bém falava da sua heroína, Nihal.

-           De alguma forma - respondera o pai, e ela começara a fanta­siar, como se fosse o começo de um conto de fadas.

Theana não conseguiu se conter. Procurou a indicação e dirigiu-se para a estante. Era uma das mais poeirentas e menos iluminadas. Encontrou o que procurava entre outros livros gastos pelos anos.

Tinha a capa de pele clara e tachas de cobre esverdeado pelo tempo. Pensou imediatamente no pai e em como teria ficado feliz ao encontrar aquele escrito. Apalpou-o com a ponta dos dedos, e a lembrança da sua voz que lia as Crônicas mexeu alguma coisa na sua alma.

Puxou o volume com cuidado. Não era uma cópia. Era o livro autêntico, o que tinha passado por todos aqueles séculos acabando, sabe-se lá como, naquela estante, para chegar às mãos da última sacerdotisa de Thenaar. Theana não pôde deixar de rezar no íntimo do coração, enquanto apertava no peito aquele pequeno livro que certamente ninguém tinha lido por ali, que havia sido considerado insignificante a ponto de ser relegado a uma prateleira secundária, onde ninguém podia vê-lo.

Desta vez foi mais fácil. Bastou guardá-lo com cuidado sob o corpete, sem qualquer hesitação. De alguma forma, aquele livro lhe pertencia. Quando Volco veio chamá-la para o jantar, Theana o le­vou consigo apertando-o carinhosamente embaixo do tecido, como se fosse um tesouro precioso.

Dubhe não estava, como de costume à noite. A vela mal dava para iluminar fracamente o quarto. Theana abriu o livro com delicadeza. O cheiro de mofo que as páginas exalavam pareceu-lhe um perfume que sabia a infância e a coisas perdidas.

Leu as primeiras linhas com ansiedade. Começava com uma oração que ela conhecia muito bem, uma que o pai a mandava rezartodas as manhãs, e que ainda repetia toda vez que se aprontava para um ritual.

Louvado seja Shevrar. louvado seja o senhor do raio e da espada, criador e destruidor, dono do eterno ciclo da vida, louvado seja. Em seu nome eu, Heiraal, apresto-me a narrar dos seus filhos predile­tos, contando como vieram ao mundo e descrevendo o modo com que o Deus se serve deles. Possa o Deus inspirar as minhas palavras e levar-me com sucesso ao fim da tarefa.

Na margem das folhas, Theana logo viu umas anotações. Quan­do as leu, o sangue gelou em suas veias.

“Thenaar, não Shevrar.”

“Consagrado, Aster.”

Não podia haver qualquer dúvida. O livro tinha passado pelas mãos da Guilda. Ninguém, a não ser um Assassino, teria chamado Aster de Consagrado.

Mergulhou na leitura com uma mistura de comoção e indigna­ção. Ficava impressionada em reparar quão fundo as mentiras da seita tinham penetrado, em ver como naquela altura ninguém mais se lembrava de Shevrar e daquilo que realmente era, mas sim so­mente de Thenaar.

As vezes os Consagrados são escolhidos pelo Deus: capitães e guer­reiros, sábios e magos, sacerdotes, homens destinados ao serviço que mostram desde cedo um pendor particular pelas artes da guer­ra ou à manutenção da paz. Pois duplo é o semblante de Shevrar, e isto é algo que nunca deve ser esquecido.

“Heresia” estava escrito ao lado, com tinta vermelha. Theana sentiu-se tomar de raiva. Era assim mesmo que a Guilda tinha ta­chado o pai, quando descobrira a sua pregação. Herege. Começaram a persegui-lo quando ela ainda era menina. Mal conseguia lembrar a época feliz em que ainda eram uma família e não precisavam esconder-se de ninguém.

Os Consagrados aparecem principalmente em tempos de muita confusão e são o meio através do qual o Deus restabelece a ordem no mundo. Porque o eterno equilíbrio entre paz e guerra, entre morte e vida nunca deve ser rompido. Esta é a função deles: restabelecer a ordem através das suas ações.

Miravar foi o quarto Consagrado. Ele derrotou o Grande Inimigo rechaçando-o para as profundezas do inferno de onde vinha. A pro­fecia que lhe dizia respeito foi pronunciada por Krissa, sacerdotisa do templo de Seférdi, que predisse a sua chegada durante a fúria da Suprema Guerra.

Fatos remotos, dos quais só tinha ouvido falar pela boca do pai. O Grande Inimigo era aquele contra o qual Miravar havia invocado o poder do talismã, assim como Nihal o fizera contra o Tirano. Se­férdi, naquele tempo, era a capital de um reino élfico

A leitura prendia Theana, enquanto as anotações deixavam-na indignada. Observações sobre a heresia, partes salientadas e refutadas conforme a doutrina da Guilda. O resultado era para ela intolerá­vel. O que Senar tinha dito a Lonerin quando se encontraram era verdade: no Mundo Emerso havia forças que agiam no sentido de corromper tudo aquilo que era puro. De forma que a profundidade da sua fé fora dissipada ao longo dos séculos, tinha sido corrompida até ficar completamente desvirtuada. Finalmente compreendeu o pai, a sensação de fria solidão que o oprimira durante os anos em que vagueara de um lugar para outro com ela. O fato de serem os últi­mos, os únicos. Sem ninguém com quem compartilhar os mais ocul­tos segredos do coração, as dúvidas e as certezas e, ao contrário, só encontrar escárnio, como a própria Dubhe fazia amiúde com ela.

Qual era o plano que se escondia por trás daquele sofrimento ao qual o pai e agora ela estavam sujeitos? Ele não se cansava de dizer que existia um sentido, apesar de naquele momento ele não o poder discernir. Havia um plano do qual Miravar participava, e Nihal tam­bém fora guiada por alguma coisa, dirigida ao longo do caminho. E ela? Qual era o sentido do seu sofrimento, da sua solidão?

Havia toda uma parte dedicada aos artefatos de que o Consa­grado poderia servir-se. Mencionava o talismã do poder assim comocada uma das pedras em particular. Explicava onde poderiam ser en­contradas, quais eram as suas peculiaridades e como aproveitá-las.

O coração de Theana acelerou. Aquele livro poderia ser extrema­mente útil a Lonerin na sua missão. A lembrança dele atropelou-a com força e deixou-a surpresa. Por muitos dias quase o esquecera. Mas agora que a imagem voltara a ocupar a sua mente era como se não tivesse deixado de pensar nele por um só momento, e apare­ceu-lhe como no último dia em que se viram, quando ela não quis saber de despedidas. A lembrança era tão forte que doía, uma dor física e real.

Precisa esquecer. Também foi por isso que você partiu.

Mas era difícil, talvez impossível. Os anos passados juntos ha­viam entremeado suas vidas com uma densa rede de laços da qual não conseguia livrar-se.

“Perdido. Ainda a ser reencontrado” estava escrito no fim do ca­pítulo sobre o talismã do poder.

Theana sentiu-se aliviada. Não estava com a Guilda, e Lonerin não teria de voltar à Casa para recuperá-lo.

O capítulo seguinte falava de outros artefatos usados pelos Con­sagrados ao longo dos séculos. A maioria deles acabara sendo des­truída junto com os seus donos, mas outros se haviam salvado e, na época do escritor, continuavam guardados em algum lugar. O des­conhecido escriba tomara nota, num canto, do destino de cada um deles.

“Fragmento conservado na Fortaleza, perdido entre os destro­ços da mesma.”

“Estilhaço guardado no Anel Capitular.”

E então uma nota diferente: “Intacta. Guardada na Casa.” Theana leu sobre o objeto em questão.

LANÇA DE DESSAR

Trata-se de uma das relíquias principais, uma das poucas às quais se dedicou um templo inteiro. É a lança que Dessar, o Consagrado, usou contra Ratahar, o dragão do Grande Levante. Muitos acreditam que se trate de um objeto lendário, afirmando que nunca houve dragões maldosos e que o Grande Levante não passa de um conto alegóri­co, com o fim de mostrar os efeitos da perda de comunhão entre osElfos e a natureza. A lança, no entanto, demonstra possuir poderes extraordinários; na sala do templo onde é guardada crescem conti­nuamente flores de Leitescência, mesmo na ausência de terra e de água. A lenda conta que Dessar usou-a como catalisador para au­mentar o próprio poder. Conseguiu, desta forma, anular a força de Ratahar e, em seguida, matá-lo. Contam que a lança é capaz de in­validar qualquer tipo de magia, inclusive os selos. Em tempos histó­ricos, porém, ninguém jamais chegou a usá-la com este fim. Não se deve esquecer que somente os Consagrados dispõem de um espíri­to bastante forte para poder usá-la sem perecer. Todos que tenta­ram, nestes últimos tempos, acabaram morrendo, pois o enorme poder da lança drena completamente o espírito.

Quem, na Guilda, lera o trecho antes dela anotara mais alguma coisa sob o verbete dedicado à lança.

“Possível catalisador do espírito de Aster? Chamamento do mun­do dos mortos.”

Theana engoliu em seco. Pelo que Dubhe lhe contara, Aster estava aprisionado num limbo, na forma de puro espírito, numa cela secreta da Casa. Seria possível que realmente tencionassem usá-la para chamá-lo de volta ao mundo dos vivos?

Quebrar os selos era uma coisa inacreditável. Só podia ser feito por um mago extremamente poderoso, e em alguns casos nem por ele. Theana pensou logo no selo de Dubhe. Seria bom ter aquela lança. Dubhe livrar-se-ia da maldição sem precisar derramar mais sangue.

Pena que a última Consagrada tenha morrido vinte anos atrás... ficou pensando, com um sorriso amargo.

A porta se abriu chiando.

-           Ainda acordada?

Dubhe entrou sem fazer barulho. Seus olhos estavam estranha­mente acesos de algum tipo de fogo, algo que contrastava com o seu aspecto cada vez mais emaciado.

-           Que horas são? - perguntou Theana.

-           Faltam duas horas para nos levantarmos.

Quase com raiva, a maga arrependeu-se mentalmente. Iria ser um dia duro, com tão poucas horas de sono. Fechou apressadamenteo livro e guardou-o sob o travesseiro. Por alguma estranha razão ti­nha vergonha de mostrá-lo a Dubhe. Era uma coisa íntima demais.

—        Encontrou algo interessante nos seus livros?

Theana estava a ponto de dizer que não quando se lembrou do símbolo. Sacou o pergaminho.

-           Talvez tenha mesmo.

 

A ESPADA NEGRA

Senar e Lonerin dirigiram-se para a torre de manha bem cedo.

O velho mago insistira pessoalmente naquele horário, parecia que a visita ao cemitério no dia anterior tinha reavivado nele uma incontrolável vontade de agir. Dava a impressão de ser uma pessoa que reencontrara uma razão de resgate, e foi só na entrada que Lo­nerin o viu hesitar por uns momentos, olhando para uma pequena janela logo acima deles. Aquela era a casa em que ele e Nihal foram morar depois da Batalha do Inverno. Durante cinco anos haviam tentado encontrar a paz na Terra do Vento, antes de tomarem a deci­são de desaparecer do Mundo Emerso. Senar ficou olhando de um jeito estranho, mas Lonerin preferiu não fazer perguntas. Logo a se­guir estavam lá dentro, subindo ao primeiro andar.

A loja do mercador encontrava-se no setor destinado ao comér­cio. Antigamente fora um lugar que fervilhava de bancas e tendinhas que vendiam de tudo, enquanto agora só restavam desanimadoras lojas de tecidos e variadas quinquilharias. Encontrar a porta certa não foi difícil. O sacerdote fora bastante preciso e, de qualquer for­ma, era quase impossível errar. Virando num corredor, com efeito, viram-se diante da única loja que havia ali, com a entrada quase obs­truída por objetos de todo tipo. A mercadoria ocupava uma boa parte do corredor, só deixando livre uma estreita passagem que os transeuntes podiam percorrer com as costas espremidas contra a pa­rede. Na cortina esticada ao lado da entrada estavam pendurados quadros, espadas e vários tipos de recipientes. No chão havia tapetes, vasos, cestas, cadeiras e até mesmo mesas, amontoados uns em cima dos outros. Sobre a porta da loja, um bonito letreiro em ferro batido dizia: MÓLIO - ANTIQUÁRIO.

Senar foi o primeiro a entrar, fazendo tilintar com a cabeça as vasilhas suspensas no ar. O som ecoou ao longo dos muros do beco,ribombando sombriamente. Lonerin acompanhou-o de forma um tanto mais cuidadosa, mas, uma vez lá dentro, não pôde deixar de ficar surpreso com a confusão que ali reinava. Parecia impossível que um lugar tão pequeno pudesse conter tantas coisas. Pregadas nas pa­redes, dúzias de prateleiras dobravam-se sob o peso dos objetos que continham, enquanto um forte cheiro de couro invadia as narinas.

Senar puxou-o pelo braço.

-           Deixe a conversa comigo. Enquanto isto, procure dar uma boa olhada em tudo - disse. Então, em voz alta, acrescentou: - Tem alguém aí?

As suas palavras se perderam no interior da loja sem receber res­posta.

Senar então usou de astúcia:

-           Somos dois colecionadores de objetos antigos... Temos a in­tenção de comprar mercadoria, e o preço não nos assusta.

Desta vez o silêncio foi breve. O barulho de passos arrastados revelou um gnomo já um tanto idoso, que coxeou até os dois des­conhecidos. Era realmente pequeno, até para alguém da sua espécie. Era careca, enquanto a barba longa e fluente estava enfeitada com trancinhas e pedras coloridas segundo a moda do seu povo. Usava em cima do nariz rombudo duas lentes redondas com aro de ouro, e a sua expressão era desconfiada.

-           Em que posso ajudá-los? - disse fitando-os de baixo para cima.

-           Viemos da Terra do Sol, onde temos uma loja em Makrat. Viajamos para tão longe porque entramos em contato com um jo­vem desta terra, um tal de Tarik...

Senar fez uma pausa estudada e, com efeito, o gnomo franziu a sobrancelha. Quanto ao resto, permaneceu impassível.

-           Infelizmente, ontem fomos informados que o rapaz morreu já faz algum tempo...

O gnomo assumiu uma expressão sentida, de circunstância.

-           É verdade, uma história muito triste... Mortos, tanto ele quan­to a mulher, e por causa de um roubo malsucedido! Nem tiveram tempo de levar o pouco que podia haver de precioso na casa...

Pois é, ainda bem que você cuidou disto...

Senar mordeu a língua. Sentia uma instintiva repulsa por aquele gnomo. Reparou nos seus dedos aduncos, magros, ressecados, e imaginou-os revistando as coisas do filho. Percebeu uma presença atrás de si, o toque muito leve de uma mão nas suas costas. Lonerin. Bas­tou para ele se acalmar.

-           Pois bem... Contaram-nos que o senhor cuidou das merca­dorias valiosas que ainda havia na casa.

-           Exatamente. Entendam, aqueles dois levavam uma vida muito recatada, não tinham amigos que pudessem reclamar seus haveres, e ninguém tinha conhecimento de eventuais parentes. Quanto a um testamento, então, nem sombra.

O gnomo sentou atrás do que devia ser um balcão, mas que acabava sendo um quadrado de madeira sitiado por pelo menos uns cinquenta bibelôs de todas as formas e cores.

-           Ainda estamos interessados na compra - acrescentou Senar.

O gnomo suspirou.

-           Não vai ser fácil... Nesta altura já se passaram alguns meses do assalto, e a mercadoria acabou depressa. Ninguém podia imagi­nar que houvesse alguma coisa valiosa.

-           Vamos fazer o seguinte - interveio Lonerin. - Nós vamos lhe dizer as peças a respeito das quais havíamos chegado a um acordo com aquele homem, e o senhor nos diz se ainda as tem.

-           Como quiserem.

Senar tomou em suas mãos as rédeas da situação. Tratava-se de correr algum risco, era uma espécie de jogo de azar. Lonerin nem mesmo chegara a conhecer Tarik, e portanto Senar era o único que podia imaginar os gostos do filho. Começou mencionando alguns quadros. Lembrou com um aperto no coração que Tarik, desde crian­ça, demonstrara uma excepcional aptidão para o desenho e que tinha enchido a casa de esboços cada vez mais bonitos e aprimorados. Não parara nem mesmo quando a mãe morrera. Só passara a guardá- los para si: cobria com eles as paredes do seu quarto, mas não dei­xava que saíssem dali ou que o pai os pegasse para colocá-los em algum outro lugar.

-           Foram os primeiros a ser vendidos; eram realmente bonitos, além de numerosos - respondeu o gnomo. - Encontramos um pa­cote inteiro de pergaminhos cheios de desenhos embaixo de uma cristaleira: esplêndidos dragões, em sua maioria, e uma infinidade de retratos de Nihal de qualquer ângulo e jeito.

Senar engoliu. A situação estava se tornando mais difícil do que esperava. Precisava de coragem, e de muita, para seguir adiante.

-           Também nos falara de algumas joias antigas - apressou-se a acrescentar Lonerin. Senar apreciou a sua intervenção, muito apro­priada.

-           Imagino que estejam se referindo às da mulher. Não creio que as guardasse pensando em vendê-las, no entanto, pareciam mais he­rança de família. Daquelas peças, para dizer a verdade, acho que ain­da sobrou alguma coisa...

Moveu-se seguro para um canto bastante poeirento e escuro da loja e apanhou uma caixa de madeira. Dentro dela, uns poucos cola­res quase sem valor. Eram quase todos feitos com materiais pobres: ferro batido e contas de vidro colorido. Senar esforçou-se para repri­mir as lágrimas. Aquelas eram as joias da nora: presentes que talvez tivesse recebido ainda criança, lembranças de aniversários, quem sabe até mesmo do marido. Uma vida inteira da qual ele jamais saberia coisa alguma.

Lonerin adiantou-se e avaliou as peças com olhar crítico, depois começou a regatear a mercadoria. Desta vez até que Senar ficou con­tente com a presença do jovem: estava demonstrando nervos firmes e inteligência, duas qualidades que naquele momento ele não tinha.

Concordaram com a compra de um par de brincos e de um colar, mas antes de pagar, e quase de forma casual, Lonerin chegou ao que realmente interessava.

-           Tarik também nos falou a respeito de um pingente que não estou vendo...

O gnomo se fez atento.

Senar interveio:

-           Chegou a nos enviar um desenho, que infelizmente agora não temos. Era uma espécie de pesado medalhão, enfeitado com oito pedras coloridas, e com um olho no meio.

-           Ah, sim, claro. O que estava quebrado!

Senar voltou a vê-lo diante dos olhos como se nunca tivesse saído da sua casa. Circular, dividido em oito setores, cada um preen­chido pelas pedras sagradas que Nihal encontrara na sua longa via­gem pelo Mundo Emerso; no meio, um olho que tinha como írisuma opala, o famoso talismã do poder. Lembrava muito bem o mo­mento em que Nihal o quebrara para salvar a vida do marido e do filho. O sorriso que ela lhe endereçara naquele instante ficara grava­do como uma marca de fogo na sua mente, e nunca mais conseguira livrar-se dele.

-           Não foi nada fácil vendê-lo - concluiu o mercador.

Lonerin ficou visivelmente de ombros caídos, mas Senar pro­curou não demonstrar sua decepção.

-           Quer dizer, então, que não está mais com ele?

O gnomo sacudiu a cabeça.

-           Foi adquirido por um colecionador. Ficou muito animado com a ideia de comprá-lo, pagou até um preço desproporcional para o seu valor real. Examinava-o com olhos que brilhavam de pura ale­gria, juro que...

-           E por acaso se lembra do nome da pessoa à qual o vendeu? — interveio Senar, sem deixá-lo acabar.

O gnomo fitou-o pensativo, bastante desconfiado.

-           É um cliente antigo, aparece por aqui uma vez por mês e fica mexendo em tudo com grande paixão. Os prazeres estão entre as coisas velhas. É um sujeito da Terra do Mar, chama-se Ydath, um ri­caço de Barahar.

Senar tomou nota mentalmente. Parecia realmente que tudo, naquela missão, o levasse de volta ao passado. Depois da Terra do Vento, teria agora de ir à sua terra natal.

-           Entendo...

-           Está pensando em comprar dele? - quis saber o gnomo. Es­tava claro que perguntava a si mesmo o motivo de tantas pessoas estarem interessadas naquele objeto.

Senar deu de ombros.

-           Vamos ver, embora não acredite que esteja disposto a vender. Nós colecionadores damos um valor muito grande a este tipo de ob­jeto e acabamos não querendo nos separar deles.

-           Por falar nisso, há mais uma coisa que poderia nos interessar.

Senar virou-se para Lonerin. Não estava entendendo.

-           Sim?

-           Trata-se de uma espada, uma linda espada de cristal negro.

Os olhos do gnomo brilharam de repente, e o coração de Senar deu um pulo no seu peito. Parecia estar vendo de novo a espada guardada na bainha, apoiada nos pés da cama.

—        Vai mantê-la ali para sempre? — pergunta, com um sorriso, a Nihal.

Ela se vira para ele, achando graça.

—        Pelo menos por mais algum tempo. Preciso entender de que for­ma ela possa participar da minha nova vida.

E beija-o com doçura.

-           É uma rara e preciosa reprodução da espada de Nihal, a que a nossa heroína levou consigo. É um objeto extraordinário, nunca vi uma cópia tão perfeita, e posso assegurar que vi muitas - disse o mercador com orgulho. - Venham comigo.

Moveu-se rápido com suas perninhas curtas e os levou a uma portinha que parecia feita sob medida para ele. Do outro lado havia o único cômodo arrumado da loja inteira. Era onde o gnomo guardava os objetos mais valiosos. Havia, sobretudo, armas parti­cularmente cinzeladas e também alfaias e bandejas que nada tinham a ver com a mercadoria trivial da outra sala. Estava tudo cuidado­samente guardado nas prateleiras, lustroso e sem a menor sombra de poeira.

—        Antes de mais nada, trata-se de verdadeiro cristal negro, e isto já faz subir o preço bastante - disse Mólio ao galgar uma escadinha insegura. - E não podemos esquecer a finura das gravações... E a pedra! A pedra branca é fantástica, é uma Lágrima verdadeira!

O         mercador desapareceu por alguns momentos, aí voltou a des­cer pela escadinha de madeira mantendo bem  apertado no peito um longo pano de veludo. Movimentava-se meio desajeitado, mas o peso não parecia mesmo assim criar um problema para ele. Ao voltar ao chão, apoiou o pano na mesa que se encontrava no meio do aposen­to e o desdobrou.

Senar sentiu o coração martelar no peito, fora de qualquer con­trole, e quando reviu a espada sua cabeça começou a rodar. Lá es­tava, finalmente: reluzente, ainda afiada, marcada por milhares derachaduras e arranhões, lembranças das batalhas que Nihal tinha en­frentado. Também devia haver a marca do último golpe, o golpe fatal com que quebrara o talismã e, com ele, a própria vida. A lâmina de cristal negro brilhava na luz mortiça daquele lugar, o dragão na empunhadura parecia fremir. A Lágrima, a pedra que o duende Phos tinha dado de presente a Nihal, reluzia de reflexos vivos, quase in­toleráveis. A sua mulher estava toda ali, naquela arma.

-        Estava jogada num armário, imaginem só... E não está sendo

nada fácil vendê-la! Os meus fregueses, em sua maioria, não têm bastante dinheiro para um objeto tão valioso, e até mesmo aquele homem que mencionei, Ydath, está esperando recobrar-se da des­pesa do medalhão para vir buscá-la. Mas, para vocês, estou disposto a cedê-la por um preço especial.

Senar nem conseguia ouvir. A espada deixara-o como que hip­notizado. Parecia-lhe estar revendo a própria Nihal. Depois da sua morte, tinha colocado a arma em cima da lareira, bem à mostra, e nem se podia contar as noites que passara, desesperado, olhando para ela no escuro. Esticou o braço e a apalpou delicadamente com a ponta dos dedos. Reconheceu as asperezas da lâmina, as lembran­ças agrediram-no com violência.

-           Parece até usada - disse o gnomo.

Senar fitou-o com ar ausente, quase alucinado.

-           Quanto quer? - perguntou Lonerin, com voz firme.

-           Mil carolas. - Um verdadeiro disparate.

Lonerin fez cena, procurou contemporizar.

-           Posso entender que é uma peça rara, mas por uma quantia des­sas daria para comprar a espada original... Não acha demais?

-           Posso baixar para oitocentas.

Lonerin continuou a tergiversar, até conseguir pagar setecentas. Ele mesmo pegou-a com delicadeza, envolvendo-a com todo o cui­dado no pano roxo.

-           E a bainha? — perguntou em seguida.

O gnomo fez uma careta, dando de ombros.

-           Foi vendida à parte. Um objeto sem valor algum, um mero estojo de couro encarquilhado... E afinal que tipo de colecionador compraria uma peça dessas para guardá-la numa bainha? São mara­vilhas que precisam ficar à mostra...

-           O senhor nos foi imensamente útil — concluiu então Lonerin, com um sorriso.

-           Eu que agradeço. São bons clientes. Não se esqueçam de mim quando precisarem de mais alguma coisa.

-           Pode deixar.

Saíram, mas Senar continuou calado. A vista da espada deixa­ra-o abalado. Sentia uma vaga ardência nos olhos e não conseguia entender se estava feliz em ter novamente nas mãos aquela arma que para a mulher havia sido mais importante do que a própria vida ou se ficava arrasado pelo fato de ela não estar mais ali para segurá-la.

Lonerin esperou até saírem da grande torre.

-           Acho que isto lhe pertence.

Entregou-lhe a espada solenemente, como um escudeiro faria com o seu cavaleiro.

Senar fitou-o.

-           Por quê? - perguntou simplesmente.

-           Porque já perdeu muito, e a sua história não merece acabar num canto bolorento de uma loja qualquer, e muito menos num estojo poeirento da casa de um ricaço.

O velho mago passou os dedos no cabo, na lâmina. Sentiu o cristal negro ferir a pele, mas foi uma dor suave. Segurou a arma com firmeza.

-           Eu não sei usá-la. Sem ela, esta espada não é coisa alguma.

-           Mas o espírito dela ainda está aí dentro. — Lonerin fitava-o com solenidade, como se pode olhar para um mito, um herói.

E de fato era o que Nihal deixara atrás de si, era a sua herança. Senar pensou que talvez ele tivesse fracassado, mas não ela. A lem­brança de Nihal ainda circulava por aquelas terras, o seu exemplo ainda significava alguma coisa para muitos.

-           Obrigado - murmurou.

Lonerin limitou-se a sorrir.

Decidiram partir de Salazar imediatamente. Foram à hospedaria e pegaram suas coisas. O taberneiro olhou para eles desconfiado, quan­do pagaram a conta. Sabia que tinham ido à torre e que falaram com o sacerdote que cuidara daquela família chacinada uns tempos atrás.

Os comentários corriam soltos pela cidade, e os negócios não muito claros como as conspirações eram severamente punidos pelo rei. Nin­guém podia sentir-se realmente seguro, nem mesmo um simples hospedeiro.

-           Disseram que iriam ficar pelo menos dois dias...

-           Concluímos os nossos negócios mais rápido do que esperá­vamos - comentou Senar.

Aquilo não bastou para tranquilizar o taberneiro.

-           Eu não quero encrencas, estão me entendendo? Sou uma pes­soa honesta.

Senar jogou na mesa a quantia combinada e acrescentou mais dez carolas.

-           A sua honestidade se contenta com uma gorjeta?

O homem olhou para as moedas com desconfiança.

-           Não sei e não quero saber de nada - disse, guardando-as no bolso.

-           E não há mesmo coisa alguma a saber - replicou secamente o velho mago.

Montaram em seus cavalos e logo a seguir estavam novamente correndo pela estepe.

Lonerin começou a ficar cansado daquela fuga contínua, como se eles tivessem em seu encalço toda uma legião de fantasmas. Às vezes ficava simplesmente com vontade de parar por uns instantes, para entender melhor o que estava acontecendo. Desde que haviam partido, não tivera um só momento de calma para pensar. A sua missão, o olhar de Dubhe na hora da despedida, a inesperada de­cisão de Theana, o rancor pela Guilda que às vezes gritava mais alto que qualquer outra voz: tudo parecia confundir-se, misturando-se e atropelando-se num caos que o deixava esgotado.

Naquela noite dormiram ao relento, num pequeno bosque que surgia isolado no meio da estepe.

Lonerin deixou-se cair no chão, exausto. O céu acima dele es­tava opaco, as estrelas mortiças. Começava a fazer muito calor, prin­cipalmente na Terra do Vento, um lugar que sempre tinha verões particularmente estafantes.

-           Nada de deitar, ainda não é hora de descansar.

Lonerin olhou para Senar, desconsolado.

-           Estou exausto... Já faz um bom tempo que não fazemos outra coisa a não ser correr.

-           Este não é um passeio de férias.

O velho mago já estava tirando uns livros da sacola. Treina­mento. Lonerin achou que realmente não iria aguentar.

-           Sinto muito, mas esta noite realmente não consigo.

Senar fitou-o com escárnio.

-           Tenho o triplo da sua idade e uma perna que não funciona, e mesmo assim continuo tendo muito mais energia que você.

Não era verdade. Olheiras profundas marcavam seu rosto, as mãos tremiam. Também estava esgotado, mas não podia parar, não conseguia, e Lonerin sabia muito bem disso.

-           Acho que deveríamos descansar um pouco. Não nos concede­mos um só momento de descanso, e o senhor também está chegan­do ao limite. Não poderemos ajudar em nada, se esgotarmos todos os nossos recursos nesta procura. Ainda mais eu que, para levar a bom termo o ritual, precisarei estar em plena forma e descansado.

-           Temos muito pouco tempo, meu rapaz. Você poderá descan­sar depois de aprender o encantamento. A ação é a única coisa que pode nos salvar, em todos os sentidos.

Senar olhou para ele com intensidade, e Lonerin compreendeu perfeitamente o terror que tomava conta do velho mago ao ficar para­do: era perseguido por um passado que sempre corria rápido demais e que se alimentava de lembranças, as mais profundas e dolorosas. A única solução era mexer-se ainda mais rápido, atordoar-se na ação, e encobrir com o barulho dos próprios passos as vozes que o ator­mentavam por dentro.

-           Não é bem assim, comigo - disse com ímpeto. - Eu preciso entender. Vivo nesta angústia desde que me meti na Casa da Guilda, e as coisas à minha volta acontecem rápido demais para que possa até mesmo vê-las direito. E isto me perturba.

Senar abriu calmamente o livro.

-           Não há nada a entender, porque os eventos não têm o menor sentido. O seu curso não segue um único caminho, não há qualquer propósito oculto a ser decifrado. E, de qualquer maneira, não há como deter o fluxo.

Lonerin esticou lentamente os membros entorpecidos, com a mente ainda turvada pela falta de sono.

-           É devido ao seu neto que o senhor está aqui?

A pergunta saiu espontânea dos seus lábios. Nunca se atrevera a fazê-la, mas agora, atordoado pelo cansaço, tinha baixado a guarda.

Senar só diminuiu por um instante o ritmo com que folheava as páginas.

-           Não pense que perguntas inúteis poderão adiar os seus estu­dos - disse sorrindo.

-           O senhor é muito diferente de como eu o imaginara - con­tinuou Lonerin, imperturbável.

As coisas à sua volta estavam perdendo a consistência, e naquele limbo em que se encontrava sentia que podia atrever-se até a ser irreverente com o maior mago que já aparecera no Mundo Emerso.

-           Foi, para mim e para muitos como eu, um verdadeiro modelo nos anos dos estudos. Mas agora parece que perdeu por completo a fé que o animava. Por que está aqui, então?

-           Porque acho que o Mundo Emerso ainda precisa de mim.

Lonerin fitou-o em silêncio.

-           Por quê? - repetiu depois de um momento.

Senar suspirou, fechando o livro de estalo.

-           E você? Por que está aqui? Por que se mete em todas as missões mais perigosas e continua a oferecer-se como voluntário? Primeiro se infiltra na casa do inimigo, depois enfrenta como mártir, comigo, uma aventura da qual há muito poucas esperanças de sair vivo.

-           Porque acredito nela - respondeu impetuosamente Lonerin.

Mas o olhar de Senar revelou-lhe claramente que era uma men­tira. Já fazia um bom tempo que ele também se mexia e se atarefava sem sentido. Da mesma forma tentava compensar com a ação o imen­so vazio que sentia por dentro.

-           Acho que posso ser útil - disse afinal, com sinceridade. - Em­bora os motivos que me empurram continuamente para a linha de frente possam ser outros, acho ainda assim que a minha contribui­ção tem um sentido. Ainda há esperanças para o Mundo Emerso, tenho certeza disso. Realmente acredito naquilo que o senhor escre­veu no fim do seu livro, que tudo é apenas um ciclo, e que, no fimdele, há paz. Não importa se, mais tarde, haverá guerras de novo. O que importa é que aquele momento de paz realmente existiu.

Os traços do rosto de Senar suavizaram-se, e nos seus olhos apa­receu uma espécie de dolorida pena.

-           Estou aqui porque, embora este sonho talvez já não me per­tença - disse baixinho pertenceu mesmo assim a Nihal e também ao meu filho. Eles acreditaram no Mundo Emerso e morreram por esta crença. E agora há San. Ele vive aqui, ele precisa ter um futuro, pela avó e pelo pai que não o tiveram.

Suas mãos tremiam, apoiadas na capa do livro. Baixou a cabeça.

Lonerin deitou-se lentamente.

-           Precisamos descansar - disse quase que para si mesmo. - É ver­dade, deste jeito talvez consigamos ser mais rápidos que os fantas­mas, mas nos desgastamos sem qualquer proveito e corremos o risco de não levar a termo os nossos propósitos.

Senar guardou o livro e também se deitou. Gemeu enquanto as costas aderiam lentamente ao chão.

-           Que tal contar-me os seus verdadeiros motivos? - disse, en­tão, de repente.

Lonerin sentiu o coração dar um pulo dentro do peito. As ima­gens daqueles anos de ódio pela Guilda tomaram conta dele cegan­do-o. Mas conseguiu falar sem hesitação, com facilidade.

-           Minha mãe ofereceu-se à Guilda para que eu me salvasse da febre vermelha. Deste então sinto por aquela seita um rancor ina- pagável. No começo pensava em pegar uma espada e ir à Casa para fazer uma chacina. O meu mestre, no entanto, salvou-me e iniciou- me na magia. Depois estudei, estudei muito, e juntei-me à resis­tência, e nesta luta encontrei uma razão de vida, um sentido. Mas quanto ao ódio, ele nunca me deixa. Destruir a Guilda é a razão fun­damental da minha existência.

O canto de um grilo fechou aquele breve relato, e Lonerin sen­tiu-se extraordinariamente em paz consigo mesmo. Lembrou-se de uma tarde distante, quando contara a mesma história a Theana, e ela partilhara com ele o próprio fardo. Foi a primeira e única vez em que a jovem mencionou o pai, e o fez com tão pungente sinceridade, com tamanha dor que ele se sentiu totalmente dilacerado por dentro.

-           No fim, até o ódio desaparece.

Lonerin arregalou os olhos. Desde que se encontraram, era a primeira vez que ouvia da boca de Senar palavras de esperança.

-           O cansaço chega antes. As cinzas permanecem, e às vezes você acaba cedendo, como aconteceu comigo. — Por alguns momentos ficou calado, e Lonerin compreendeu que estava se lembrando da­quela vez na clareira, quando matara pela primeira vez na vida. - Mas no fim tudo passa. Nihal também teve de sofrer, mas superou a prova. E com você vai acontecer o mesmo. Ainda é jovem, e os jovens vivem a vida sem se poupar, deixam-se consumir pelas pai­xões. Mas o tempo não para, os anos voam e ajudam a apagar até os incêndios mais violentos. Eu já não odeio mais. O Tirano, os fâmins... até mesmo os Elfos. Não odeio mais ninguém. Limito- me a sobreviver.

Lonerin olhou o céu e as estrelas veladas de neblina. Não conse­guia reconhecer uma constelação sequer. Perguntou a si mesmo se convinha pagar um preço tão alto para ver o inimigo sucumbir. Valia a pena perder tudo e conformar-se com o absurdo do mundo para deixar de sentir a tentação da morte?

-           Amanhã vou lhe ensinar a transferir o seu espírito num objeto

—        disse Senar.

A pergunta de Lonerin ficou pairando no ar, não dita.

-           Hoje descanso, mas amanhã trabalho dobrado - concluiu o velho mago com um longo suspiro cansado.

 

PROGRESSOS

 I heana desdobrou na cama uma folha de pergaminho toda cheia de anotações. Dubhe curvou-se para olhar. Era uma lista que a pró­pria maga tinha compilado, onde estava indicada toda uma série de livros e documentos com notas, ao lado, que especificam a sua localização. Cada um era reconhecível por um símbolo: um grifo estilizado que tinha na boca o que parecia ser um pentáculo.

-           No catálogo da biblioteca constam muitos livros que na ver­dade não estão lá, e todos eles são assinalados por este símbolo. No seu lugar, só encontrei cópias e, se entendi direito as abreviaturas, trata-se em sua maioria de legados, doações e acordos assinados. Talvez os documentos que procura estejam justamente entre eles.

Dubhe se concentrou, fechou os olhos. Avaliou com cuidado suas lembranças tentando reviver cada instante da investigação, até então sem sucesso, na qual se empenhara. Voltou a ver as salas, as paredes, os quadros, até mesmo os móveis. Então viu o símbolo.

-           Está me escutando?

Dubhe nem ouviu a voz da maga. Lembrara-se de repente de um aposento bastante despojado onde vislumbrara uma pintura que chamara a sua atenção. Uma das figuras segurava na mão um perga­minho no qual se via algo impresso. Lá estava, bem claro, vermelho. Ele mesmo, o grifo que Theana lhe mostrara, e não era só ali que ela o vira.

-           Tudo bem com você, Dubhe? Está parecendo estranha, desde que voltou ao quarto...

-           Eu vi - respondeu reabrindo os olhos. - Vi o símbolo. Estava num quadro, assim como na arquitrave de uma lareira. Também aparecia na porta de uma cristaleira, mas era muito pequeno, quase invisível.

Theana fitou-a surpresa, mas com um sorriso de esperança que desabrochava em seus lábios.

-           Que documentos são esses? — perguntou Dubhe, tirando a lis­ta da mão dela.

Nomes genéricos: “Documentos de 15 de março”, “Relatório de 23 de dezembro”, “Livro reencontrado em 8 de janeiro”.

Sentiu alguma coisa se mexer dentro dela. Talvez estivessem no caminho certo.

-           Só podem ser eles - murmurou.

-           Eu bem que achei que poderiam ser-lhe úteis - respondeu Theana, com compreensível orgulho na voz.

Muito certo, ela fora realmente esperta, pensou Dubhe. Sen­tou na cama e começou a ler avidamente o pergaminho.

-           Só precisamos identificar todos os símbolos espalhados pelo palácio e encontrar o que esconde o documento certo — observou.

Theana, ao seu lado, sorria satisfeita. Dubhe ficou quase com ternura.

O cansaço, no entanto, não demorou a levar a melhor. Suspi­rou, aí guardou o pergaminho embaixo do travesseiro.

-           Vamos lá - disse. - Acho melhor descansarmos um pouco, pois não falta muito para fazermos o trabalho.

Em seguida largou a cabeça no travesseiro esperando que a in­consciência logo viesse envolvê-la. Estava exausta, não só por ter cir­culado a noite inteira, mas também porque naquelas horas a Fera voltara a visitá-la e a pegara de surpresa. Acontecera depois do seu encontro com Learco, nos baluartes do jardim. Aquelas conversas noturnas sempre deixavam-na prostrada e confusa, e ao voltar para os andares baixos tinha tido uma repentina tontura, aparentemen­te sem qualquer motivo. Apoiara-se na parede, com a cabeça estou­rando, e reparara naquela comichão no esterno, naquela sensação que a deixava gelada logo que surgia.

Descobrira o braço e percebera de imediato que o símbolo es­tava novamente visível. Quando era necessário, disfarçava-o usando a poção preparada por Theana, e em geral o efeito durava pelo me­nos dois dias. Mas naquela noite pulsava de leve, e até mesmo os sinais traçados pela maga durante o ritual pareciam um tanto tortos e leitosos, brilhando pálidos na sua pele.

Estava piorando. Decidira fechar os olhos e respirar fundo, e quando olhara de novo o símbolo já não pulsava. Sabia perfeitamen­te que era um péssimo sinal, mas preferiu não dar importância demais àquilo. Algo muito mais importante estava acontecendo, alguma coisa que tinha indiretamente a ver com Learco.

Naquela altura encontrava-se com o príncipe quase todas as noi­tes, e para ela era sempre uma sublime tentação. Começara dizen­do a si mesma que ele era uma ótima peça para o sucesso da sua missão. Mas as conversas entre os dois jamais tinham a ver com as­suntos que poderiam interessar nas investigações. Longe disso, eles costumavam sentar num banco e falar do passado. Learco era pertur­bado pelas lembranças da infância quase tanto quanto ela: a guerra, as sevícias por parte de Forra, os choques com o pai que amava e odiava ao mesmo tempo. Dubhe ouvia embevecida; até então acre­ditara que ninguém pudesse conhecer o mesmo inferno que ela.

Ficava tomada de emoção diante de cada segredo revelado e, no fim, quase sem se dar conta, começou por sua vez a abrir seu co­ração.

Já na segunda noite contou-lhe a história do processo. No co­meço procurou mascarar a verdade mantendo a fachada da humil­de criada, mas não demorou a compreender que seria inútil. As pa­lavras vinham à sua boca incontidas, tanto assim que não conseguia refrear-se. Acabara fugindo às pressas, repreendendo-se por ter sido tão ingênua e impulsiva. Não podia baixar a guarda, ela era uma as­sassina que viera ao palácio por uma razão bem precisa. Tudo o mais era bobagem, meras coisas risíveis que não deveriam afetá-la.

Jurou a si mesma que não voltaria a ver o príncipe, mas só con­seguiu pular um encontro. No dia seguinte, quando Learco cruzou com ela nos corredores do subterrâneo, segurou-a pelo braço for­çando-a a fitá-lo.

-           O que falei para deixá-la tão magoada, na outra noite?

-           Nada - respondeu ela, e baixou imediatamente o olhar.

-           Então nos vemos amanhã?

-           Não posso - disse Dubhe, mordendo os lábios. Era difícil não ceder à tentação, pois uma parte dela queria realmente continuar. Só que não podia, porque mais cedo ou mais tarde aqueles olhosiriam ficar cheios de ressentimento. Ela tinha de matar o pai do ra­paz, e com certeza Learco passaria a vê-la como inimiga. Para sempre.

-           Por quê?

Dubhe olhou para ele, implorante.

-           Não posso. E você também não deveria.

Learco continuou a fitá-la.

-           Amanhã estarei no jardim. Se quiser ver-me, sabe onde po­derá me encontrar.

E ela foi, as mãos suadas, os olhos baixos. Diante dele nem con­seguia assumir o olhar doce que mantinha durante todo o dia e que era a sua melhor camuflagem. Perante ele, seus olhos voltavam a ser poços de trevas.

Quando retornava ao quarto, uma estranha sensação de alívio percorria seu corpo, e jurava que nunca mais iria acontecer.

Mas toda noite fazia um pouco mais depressa a ronda pelo pa­lácio, para estar no baluarte do jardim quando a lua ainda brilhava no céu. Ele sempre estava lá, esperando por ela, com seus olhos verdes aos quais Dubhe não podia mentir.

Contou-lhe daquela vez em que o Mestre a mandara matar o pequeno veado, falou-lhe do treinamento. A verdade saía dos seus lábios sem querer, deixando-a totalmente aflita. Enfeitava-a com piedosas mentiras, o suficiente para Learco não ficar desconfiado de­mais. Algo enorme, alguma coisa descontrolada e terrível estava acon­tecendo. Mas também era doce. Nunca se abrira daquele jeito com ninguém. Não tinha feito aquilo com Jenna, apesar de partilhar tan­tos anos de trabalho com ele, nem com o Mestre, e tampouco com Lonerin.

Learco assimilava o seu sofrimento, entendia-o. Era igual a ela, e também diferente, uma parte dela e ao mesmo tempo um corpo estranho, bastante perto para participar da sua dor e muito distante para conseguir aliviá-lo. Como poderia ela dizer não a uma coisa como essa?

Dubhe só teve tempo de demorar uns instantes nestes pensa­mentos, aí o sono encobriu tudo.

Dedicou a noite seguinte ao estudo. Até então tinha saído todas as noites em busca de informações. Descobrira muita coisa, mas a sen­sação de dar passos curtos demais era desanimadora diante da velo­cidade com que a maldição a devorava. Ela eTheana, naquela altura, repetiam o ritual a cada dez dias, pois no sétimo a Fera já começava a se agitar no fundo do seu estômago.

Durante aquele mês de trabalho conseguira ganhar a confiança da criadagem do palácio e pudera finalmente aproximar-se de Dohor para estudar os seus hábitos. Nunca saía por aí sem estar acom­panhado de dois homens que vestiam roupas anônimas e escuras, sem qualquer enfeite ou divisa, que pareciam ter rostos banais difí­ceis de ser lembrados. Mas não para ela. Eram dois Assassinos: vira os dois na Casa no dia da sua iniciação. Os dois acompanhavam- no o tempo todo, como sombras, um deles era até o seu provador de comida pessoal; à noite vigiavam os aposentos reais revezando-se con­tinuamente diante da entrada. Dubhe, para criar ânimo, não se can­sava de repetir a si mesma que conseguira derrotar a sua temível torturadora, Rekla, razão pela qual não precisava preocupar-se no caso de enfrentar dois meros Assassinos.

Durante o dia, Dohor seguia uma rotina bastante rígida. Acor­dar bem cedo, audiência matinal com os ministros - principalmente com Forra, quando este estava no palácio -, depois uma hora de trei­namento para o combate armado, embora já se tivessem passado muitos anos desde que usara a espada em batalha pela última vez. Dubhe conseguiu espioná-lo fingindo-se doente na cozinha. O fato de ela e Theana serem as queridinhas de Volco resultara muito útil na obtenção destes pequenos privilégios. A julgar pelo seu jeito de se mexer, o rei devia ter sido um espadachim bastante razoável, mas a distância dos campos de batalha havia enfraquecido suas habilida­des. Afinal de contas já tinha passado da casa dos cinquenta, e era normal que seus reflexos já não fossem os mesmos.

Dubhe sabia que não seria fácil matá-lo, mas era uma façanha ao seu alcance. Já decidira agir no escuro, de noite, penetrando no seu quarto de dormir depois de enganar a vigilância dos Assassinos.

O que mais a preocupava, no entanto, eram os documentos. Não havia indícios, nem mesmo uma única palavra que alguém tivesse deixado escapar. Por isso a descoberta de Theana, no dia anterior, viera realmente a calhar.

Deitada na cama, Dubhe começou a examinar atentamente a lista da companheira, que dormia ao seu lado, exausta.

Reparou que perto de cada volume aparecia uma data. Era a melhor maneira para remontar ao lugar onde poderiam estar escon­didos os documentos que lhe interessavam. Lembrava-se muito de quando lhe pediram para roubar o material: fora em 16 de outu­bro, o mesmo dia em que a Fera entrara na sua vida. Foi suficiente dar uma olhada na lista para encontrar o dado que procurava.

“Car. 1.106.”

Os números haviam sido trocados, para disfarçar, mas ela esta­va com sorte, pois se tratava do décimo sexto dia do décimo mês. Por um momento ficou exultante, e logo passou a 1er as anotações.

“P. Qua. Tr. Li. Oit.”

Theana tinha dito que os volumes eram classificados por pra­teleira, número do livro e fileira anterior ou posterior. “P.” signifi­cava certamente prateleira, e “Qua.” só podia ser quatro ou qua­torze, mas neste último caso deveria ser uma estante muito alta, improvável pelas dimensões com que a amiga descrevera a biblio­teca. De qualquer maneira, Dubhe levou em conta ambas as pos­sibilidades e prosseguiu. “Tr.” podia indicar que os documentos se encontravam atrás de alguma outra coisa, pois de fato muitos ou­tros volumes levavam a marca “Tr.” ou “Atr.” para apontar o lugar na fileira. Quanto a “Li. Oit.”, era quase certamente livro oitavo. Ou octogésimo, mas não era provável que houvesse bibliotecas com fileiras tão compridas.

Em resumo, os documentos estavam em algum lugar, sob um daqueles símbolos espalhados pelo palácio, na quarta prateleira, fileira detrás, oitavo livro. Mas onde?

Dubhe suspirou e deitou-se de barriga para cima, com o per­gaminho achatado embaixo da cabeça. Não podia desanimar. Na­quela altura estava perto da solução e sabia que matar Dohor não seria impossível. Todos os homens, quando dormem, têm algo depatético, e ele não seria certamente a exceção. Já se via entrando no seu quarto, levantando o punhal. Sabia que a alegria daquela ma­tança não seria por causa da Fera, neste caso. Seria um contentamen­to só dela, um júbilo genuíno e sincero.

E depois? Certa vez um sacerdote lhe dissera que a vida é uma espera. Colocamos diante de nós seguidas metas a serem atingidas, e a existência desenrola-se na expectativa de alcançá-las. A cada passo dado corresponde a um novo caminho a ser percorrido, do contrário é a morte. No fim do seu percurso havia o assassinato de Dohor e a morte da Fera. Mas podia realmente dizer que era o que ela de­sejava? Um objetivo que ansiava alcançar com todas as suas forças? E qual seria o caminho que aquele novo homicídio abriria diante dela?

Lonerin perguntara-lhe o mesmo muitas vezes. Ela sempre fica­va furiosa quando ele demonstrava suas dúvidas quanto ao seu real desejo de salvar a própria vida. Mas talvez não estivesse errado, ficou pensando agora, olhando para o teto. A possibilidade de voltar para Makrat e viver novamente como ladra encheu-a de imensa solidão. Lonerin lutava em nome do Mundo Emerso, e Theana também, mas ela? Na sua alma só havia um terrível vazio impossível de ser preenchido.

O pensamento de Learco irrompeu na sua mente. Ele também suportava um fardo igualmente pesado, mas encontrara a força para correr atrás do próprio caminho. Não se detivera no sentimen­to de culpa, tinha seguido em frente questionando a si próprio. Du- bhe acabara descobrindo que acreditavam nos mesmos valores. E por isso mesmo ele era um fruto proibido do qual ela tinha de ficar longe. Não podia sentir coisa alguma, se queria realmente matar Dohor, aquele arrebatamento precisava ser cortado definitivamente. Uma vez no trono, Learco iria persegui-la por todos os cantos do rei­no para vingar a morte do pai. E se não quisesse fazê-lo por vontade própria, os cortesãos certamente o forçariam.

Dubhe virou-se bruscamente na cama.

Pensar nisso não faz sentido. Preciso portar-me como se estivesse certa daquilo que estou fazendo, como se fosse a coisa mais desejável do mundo. Porque não quero morrer, e dessa vontade tenho absoluta cer­teza. Não quero e não posso. E é só disso que preciso me lembrar.

A sensação de vazio, no entanto, continuava a atormentá-la. Ficou no escuro, parada, olhando para Theana; as palavras que a maga lhe dissera havia algum tempo continuavam a zunir em sua cabeça.

“E com esse nada que traz dentro de si, aonde conseguiu che­gar até agora?”

 

A DECISÃO

O ar cheira a sangue. Nesta altura Learco aprendeu a reconhecer aquele sabor metálico e adocicado que gruda nas narinas. No começo ficava enjoado. Forra, por sua vez, considerado o melhor perfume do mundo e, quando possível, faz de tudo para encher dele os pulmões.

O vento fustiga a planície e levanta nuvens de poeira. O Thal, o maior vulcão da Terra do Fogo, rumoreja ao longe, mas Learco nada ouve. Seus ouvidos ainda ribombam com os gritos de dor e os golpes de espada. A essência da morte está justamente ali, naquele silêncio ensur­decedor e aflitivo. Treme, e só a muito custo consegue segurar a espa­da nas mãos: o sangue tornou o cabo escorregadio. Só espera conseguir preencher aquele vazio com o som ofegante da sua respiração. Mas o silêncio parece engolir tudo, até mesmo o som sibilante do ar que entra e sai dos seus pulmões.

O terreno está coberto de cadáveres. Despontam entre os escombros ainda fumegantes das casas, e ele se sente acossado por aqueles olhares sem vida. Aos dezesseis anos já viu mais chacinas do que um homem possa aguentar numa vida inteira. Forra, desde que mandou matar aquele velho, nunca deixou de postá-lo na frente de combate, forçan­do-o a arriscar-se sem a proteção dos companheiros. Mas ele já não receia a morte, pois reconhece nela o único consolo que lhe será conce­dido para livrar-se daquela tortura. O que realmente mexe com sua cabeça são as aldeias assoladas onde pousam os corvos, as agonias que ele é forçado a ver.

—        Dê uma volta de exploração e não deixe sobreviventes — intima- lhe o tio.

Uma ordem já ouvida muitas vezes, mas com a qual ainda não se acostumou. Afinal, ele não é um assassino. Durante a batalha fere e golpeia só porque o instinto de sobrevivência move suas mãos. Naverdade, no poço de todo aquele sofrimento, ele só busca a aprovação do pai.

Mas o rei nunca tem uma boa palavra para ele. Toda vez que volta ao palácio, Dohor quer ouvir primeiro o relatório do seu fiel lugar- tenente antes de dizer qualquer coisa. Não confia na palavra do filho, que enquanto isso espera, fiorçado a uma profunda reverência diante do trono. Se as palavras de Forra forem lisonjeiras, o rei liquida seus acertos dizendo simplesmente que cumpriu com seu dever, mas quando é informado das suas contínuas resistências só lhe reserva palavras de escárnio e desprezo.

De nada adianta ser impiedoso na oportunidade seguinte. Learco já tentou empenhar-se com ainda mais afinco na luta, sufocando o nojo e a repulsa por si mesmo, avançando destemido pelo caminho que Forra não se cansa de lhe mostrar. Mas para quê, se depois o pai nem lhe reconhece o fato de ter tentado?Jamais será como o primeiro Learco, qualquer coisa que ele faça nunca passará de uma mera cópia, de uma folha cheia de garatujas que só merece ser jogada fora.

No silêncio absoluto daquelas lembranças, ouve o tilintar de uma espada, o ruído surdo epesado dos passos de um homem. Forra. Poderia reconhecê-lo entre milhares, mas evita olhar para trás e deixa que se aproxime.

—        Gostei de ver — diz o tio, dando-lhe um tapinha nas costas.

O silêncio foi quebrado, finalmente. Mas alguma coisa dentro de Learco se rompeu. O que aconteceu foi atroz, e só agora se dá conta disso. Ofuscado pelo desejo de agradar ao pai, lutou contra os rebeldes ao lado dos seus companheiros de armas, mas ao fazê-lo permitiu que Forra exterminasse civis inocentes. Um grito dilacerante nasce dentro dele, en­surdece-o pelo resto do dia, encobrindo os festejos, as apreciações elogiosas de Forra, as lisonjas dos demais soldados, que finalmente o veem como um deles. Learco move-se aturdido, consciente de ter superado a última fronteira, a única que jamais deveria superar. Tornou-se um cúmplice, agora, como todos os outros.

Com a chegada da noite, a escuridão é rasgada pelas chamas. A fo­gueira queima os corpos amontoados, apagando qualquer lembrança ligada àquele vilarejo.

—        E o que acontece com quem se levanta contra o nosso rei!—grita Forra, entre o delírio selvagem da tropa.

Learco dobra-se de repente atrás de uma tenda, sacudido pelas ân­sias de vômito.

—        Desmiolado — murmura-lhe entre os dentes o tio ao ver a cena. O rapaz vira-se, olha para ele sem ter a coragem de reagir. — Não tem estômago para isto, mulherzinha? Eram malditos rebeldes!

—        Eram mulheres e crianças...

—        Que iriam crescer! Ensinam às moças e às crianças o uso da es­pada, e as mandam treinar golpeando bonecos com o semblante do seu pai. Sabia que matam a pedradas os emissários que mandamos para es­tas bandas?

Learco não responde. Falar não tem sentido. Forra pertence a outro mundo, nunca poderá entender o que ele sente no coração. Nenhum pecado merece uma punição como aquela que infligiram ao vilarejo. Uma criança continua sendo uma criança, e até mesmo sob a arma­dura de um soldado ainda corre o sangue de um simples garoto.

—        Levante-se logo daí e pare com essa vergonha. A guerra é o ali­mento de todo rei que merece este nome. Acostume-se, pois do contrá­rio esta noite irá saborear de novo o meu chicote.

Learco obedece, fica de pé e limpa a boca com o dorso da mão. Nem se importa com o fato de já não conseguir rebater, pois de qualquer ma­neira nunca mais poderá esquecer.

No meio da festança sai de mansinho e se recolhe aos seus aposentos. Ninguém nota. Estão todos ocupados demais se divertindo para reparar no vazio absoluto dos seus olhos.

Senta num banco e segura a espada. A lâmina brilha convidativa, e ele comprime nela o pulso até desenhar na carne uma fina linha ver­melha. A última coisa que vê é o rosto contraído de Forra, na entrada da tenda.

Learco mostrou a Dubhe o pulso esquerdo. Havia uma longa cica­triz branca, uma marca delgada que o atravessava de um lado ao outro. Ela ficou olhando, quase fascinada. Reluzia na luz pálida dalua. Esticou os dedos para apalpá-la e sentiu um arrepio correr pela espinha. Estavam ambos na sombra de um canto afastado do jar­dim. Ninguém podia vê-los, ali, nem incomodá-los.

-           Não sei por que Forra veio me procurar. Nem sei dizer se foi um milagre ou a pior coisa que me pudesse acontecer. Começou a berrar como um possesso, chamou o sacerdote e alguns magos. Eu perdi quase imediatamente os sentidos. Só sei que acordei no dia seguinte e que me haviam tirado das garras da morte.

Learco olhava diante de si. Dubhe observou fixamente o seu perfil angustiado e pensou nas muitas vezes em que fora tentada a fazer o mesmo. Depois do desaparecimento do Mestre queria mor­rer; a última vez que aquilo lhe acontecera estava justamente nas cavernas das Terras Desconhecidas, quando se deixara escorregar para o fundo do lago.

-           O meu pai não mexeu um dedo, nem mesmo então. “Você fez uma coisa idiota, típica dos fracos. Mas não passa de um garoto, e ainda não pode entender. Por isso, farei de conta que nada acon­teceu.” Foi o que ele disse, e então mandou-me trabalhar como or­denança de Forra por um mês.

Learco virou-se e segurou a mão dela. Dubhe não conseguiu esquivar-se daquele contato: manteve os dedos inertes entre os dele, percebendo o frescor da sua palma.

Mãos que matam, como as minhas.

-           Também aconteceu comigo - disse num sopro.

Não conte isto também, já falou demais... Mas não podia calar- se. As palavras pressionavam, já pesavam em seus lábios como pe­dregulhos.

-           Foi quando morreu o homem que me salvou a vida. - Espe­rou ser interrompida, desejou encontrar um jeito de fugir, mas era seu corpo que queria ficar, como se estivesse sob o efeito de um fei­tiço. - Era o meu Mestre, e eu o matei.

A sua voz ficou hesitante, mas não parou.

-           Quando se feriu para salvar-me a vida, decidi cuidar dele com as ervas. Com a ajuda de alguns livros, consegui preparar uma po­mada para curá-lo. Queria que se salvasse e parasse de olhar paramim de forma tão sofrida. Então, certo dia, espalmei o remédio e ele começou a tremer sob as minhas mãos. Sorria e murmurava bai­xinho que muito em breve tudo acabaria. Nunca o vira sorrir an­tes. Abracei-o gritando, soluçando, pedindo desesperadamente que não me deixasse sozinha, mas logo a seguir ele abandonou-se inerte nos meus braços, sem vida. Encontrei um veneno dentro da mistura, e só então descobri que se havia deixado intoxicar pouco a pouco, porque queria que coubesse a mim matá-lo. E, sem perceber, eu o contentara.

Virou-se de estalo, temendo encontrar no olhar do príncipe a mesma insuportável expressão piedosa de Lonerin. Sentiu que não poderia tolerar aquela comiseração, e seus olhos ficaram úmidos.

Em lugar disso, Learco segurou-a entre os braços e a deixou de­sabafar. As lágrimas desciam fartas e quentes pelas suas faces, e Du­bhe saboreou cada instante daquele contato tão íntimo e inespera­do. Então ele se afastou, segurou seu rosto nas mãos e aproximou os lábios dos dela. Era como seguir rumo a um precipício, desejan­do parar e cair ao mesmo tempo. A tentação era grande demais e Dubhe acabou se rendendo. Deixou-se beijar e, na mesma hora, a do­çura daquele gesto encheu-a de um sentimento novo, bonito e peri­goso. Os lábios do príncipe eram macios e úmidos, e Dubhe sentiu uma onda de calor descer da garganta até o estômago, vencendo o gelo que até então a dominara. Arregalou os olhos no escuro, quase como se estivesse com medo de descobrir que não era verdade. Em seguida recobrou-se, voltou à realidade e se afastou com força. Olhou para o príncipe com uma mistura de censura e incredulidade.

Ele parecia constrangido.

-           Desculpe, eu...

Não o deixou acabar. Levantou-se com um pulo e saiu para o pórtico sem dizer uma palavra. Learco mal teve tempo de alcançá- la e segurar sua mão.

-           Sinto muito, não quero que fuja de mim...

-           Não posso - disse ela, sem conseguir olhar para ele. Então des­vencilhou-se e seguiu a caminho dos subterrâneos.

Correu até o quarto. Mas não entrou. Theana estava lá, e Dubhe pre­cisava de solidão. Foi então à cozinha, usando a chave que Volco lhe dera para que pudesse cuidar das suas tarefas a qualquer hora do dia.

Agachou-se no chão, apertando as pernas dobradas no peito. Chorou, abafando os soluços entre os joelhos. Sentia-se confusa e perturbada. Ainda tinha na boca a maciez dos lábios de Learco e percebia que queria mais. Sofria, pois estava certa de que nunca mais poderia passar sem. Learco insinuara-se sob a sua pele como uma droga. Envenenara-a devagar, de forma sub-reptícia. Não haveria como salvar-se da maldição se não passasse por cima de tudo aquilo que sentia por ele e não matasse o seu pai; mas tampouco haveria salvação sem ele, e agora se dava conta disto com súbita e dolorosa clareza.

Afundou a cabeça entre os joelhos, perguntando a si mesma, com um desesperado sorriso, se não era melhor antes, quando não havia luz nos seus sonhos, nem qualquer esperança de encontrar uma saída. Agora, ver aquela luz e saber que não poderia alcançá- la, dilacerava-a.

Voltou para o quarto de olhos vermelhos, com a cabeça que rodava. Theana dormia tranquilamente na cama. Tirou devagar o pergami­nho debaixo do travesseiro e começou a examinar com calma o ma­pa que tinha traçado nos últimos dias.

Agiria. Só assim poderia dar um basta naquele sonho absurdo que preenchera suas noites. Tinha nascido assassina, e isto era uma coisa que ninguém podia mudar: a Guilda estava certa. Razão pela qual faria aquilo que tinha de fazer, com Learco ou sem ele.

Sentiu-se fria e determinada como na tarde em que decidira ficar com Sarnek para seguir pelo caminho do homicídio. Lonerin havia-lhe ensinado a se decidir. Pois bem, agora tomaria uma deci­são clara e definitiva.

Observou o mapa e comparou-o mentalmente com os lugares onde lhe parecia ter visto o símbolo que Theana lhe mostrara. De­finiu em sua mente o itinerário que iria percorrer na noite seguinte, e então guardou tudo. Não faltava muito para o alvorecer, tinha dedormir pelo menos duas horas para enfrentar o trabalho na manhã que se aproximava.

Ficou um bom tempo no escuro, obstinadamente deitada de lado, imovel, só mexendo de vez em quando a mão para afastar com violência as lágrimas do rosto, que continuavam a escorrer contra a sua vontade. Até a alvorada, não conseguiu tirar da boca a sensa­ção daquele beijo.

 

A VERDADE

Learco não conseguiu voltar aos seus aposentos. Sentia nas pernas uma espécie de frenesi que lhe impedia ficar parado e o levava a perambular nervosamente pelo jardim. Tudo rodava em volta da pergunta: quem era Sane? E por que se abrira tanto com ela sem to­mar qualquer precaução? Agora que ela se fora, tudo se mostrava aos seus olhos sob uma luz diferente. A comunhão que sentira não pas­sara de mera ilusão. Aquela moça, para ele, era e continuava sendo uma desconhecida com um passado sombrio e misterioso. Só mes­mo a sua desesperada necessidade de confessar a alguém os próprios pecados fizera com que lhe parecesse melhor do que era. E agora percebia que se havia portado de forma totalmente inconsciente.

Sentou-se num canto, segurando a cabeça entre as mãos. Preci­sava acalmar-se, mas não conseguia: a imagem de Sane que fecha­va os olhos e abria a boca para beijá-lo continuava a atormentá-lo. Era tão intoleravelmente bonita que se sentia despreparado para en­frentar as consequências daquele gesto. Talvez porque nunca houve­ra outras mulheres na sua vida.

Forra tinha tentado levar para ele algumas prostitutas, mas nem chegara a tocá-las. O tio não se cansava de dizer que um homem não precisa de amor, mas sim de carne. Ele, no entanto, sentia-se dife­rente. Os rostos daquelas mulheres, tão carregados de promessas, só conseguiam lembrar-lhe as agonias às quais assistira naquele mes­mo dia. Conhecia a dor bem demais para entregar-se aos sentimen­tos e à ternura. Sabia que mais cedo ou mais tarde o seu destino seria casar com uma nobre de alguma outra terra, com a aprovação do rei, mesmo que fosse apenas para ter um herdeiro que levasse adiante a estirpe e o poder. Uma união falsa e vazia.

Nada disso iria acontecer com Sane. Apesar de todas as dúvidas, sentia que o deles era um relacionamento sincero, percebera-o quan­do ela se apoiara no seu peito. O coração da jovem batia com força, e tinha certeza da honestidade daquela emoção.

Mas, ao beijá-la, deixara-a transtornada, forçara-a a um gesto que ela não desejava.

Levantou-se de repente, dirigindo-se para seus aposentos. Nun­ca mais deveria vê-la. Permitir que se tornasse sua amiga havia sido um terrível engano que não se deveria repetir. Passou pelos corre­dores com passo marcial, desta vez sem importar-se em não fazer barulho. Então, na última curva, parou de estalo. Viu-se diante de Neor e corou na mesma hora, achando que qualquer um poderia ler no seu rosto o que acabara de lhe acontecer.

-           Não consegue dormir? - perguntou o tio com olhar inda­gador.

-           Isso mesmo. Lembranças demais - disse brusco, já com a mão na maçaneta. - E você?

-           Vinha procurá-lo.

Não gostou nem um pouco daquela resposta. Abriu a porta em silêncio e o deixou passar.

O tio sentou-se numa poltrona num canto do aposento e come­çou a olhar distraidamente para o jardim, pela janela. Ele trancou a porta com cuidado, acomodou-se na beira da cama e ficou à es­pera. Neor fitou-o por alguns instantes nos olhos, e Learco percebeu então, finalmente, o sentido daquela visita repentina.

-           Daqui a uma semana vai acontecer a cerimônia.

O jovem suspirou, passando a mão entre os cabelos. Chegara a hora de prestar contas.

-           Pensou no assunto? — insistiu o tio.

Nem teve tempo de responder.

-           Enquanto isso, eu já me mexi - acrescentou Neor com voz cortante. Learco ficou quase assustado e invejou a calma glacial do outro. Às vezes até gostaria de possuir a mesma terrível força. - Não sou a única pessoa a não aprovar a conduta do seu pai.

-           É um déspota - disse Learco sem meias palavras, e percebeu com raiva que admitir tal coisa ainda o incomodava. - A maioria o apoia porque ele é forte, mas nas várias terras tem certamente um grande número de inimigos.

-           Não seja por isso, até mesmo aqui na corte ele tem inimigos. A Terra do Sol está morrendo de fome, devido à sua mania de con­quistas.

Learco apoiou as costas na cabeceira da cama.

-           Eu sei.

Aquela conversa era realmente constrangedora.

-           Muitos veriam com bastante simpatia a tomada do poder por alguém mais ajuizado...

-           Como você? — A frase veio à sua boca com um tom escarnecedor que teria preferido evitar.

-           Como você.

As palavras caíram no silêncio do aposento como pedregulhos.

Então Neor continuou:

-           Eu já não passo de um velho cansado, meu caro sobrinho. Mas as alas mais moderadas do nosso Conselho aprovam a sua conduta e a sua recusa da guerra. A fama da sua magnanimidade circula por todo o reino e as pessoas o amam.

-           As pessoas me bajulam - corrigiu o príncipe.

Neor sorriu.

-           Julgava-o mais maduro, Learco. Não tem nada a ver com ba­julação. Diferente de seu pai, que só sabe ser temido, você realmente consegue ser amado.

Ao ouvir aquilo o jovem ficou de pé.

-           E então?

-           Então há muita gente pronta a destronar Dohor e a botar você no lugar dele.

Learco começou a suar frio. Passou a andar descompostamente de um lado para outro. Sentia-se sufocar.

-           Está pedindo que o mate?

-           Estou pedindo que salve o seu reino.

-           Pois é, matando meu pai.

-           Não necessariamente.

Esta resposta pegou-o desprevenido. Nunca chegara a avaliar direito a ideia de ser rei. Já pensara, algumas vezes, em rebelar-se contra o pai. Mas aquele sentimento de amor e ódio que sentia por ele sempre o refreara. Agora a possibilidade era-lhe servida numa bandeja de prata.

-           Imaginei que já tivesse tomado uma decisão, afinal dei-lhe bastante tempo para pensar - continuou Neor. - Sei que é difícil, justamente por se tratar do seu pai, mas as coisas precisam mudar.

-           Não é isso — disse Learco com um suspiro. — Acontece que ainda sou um rapazola, e você me pede para chefiar uma conspiração e depois sentar no trono. Não me sinto preparado, sinto muito...

No fundo do coração sabia muito bem que aquelas eram ape­nas desculpas, pretextos para não admitir que queria fazer o que havia muito tempo devia ser feito. A mãe estava certa, e ele tinha a responsabilidade de manter-se fiel a uma promessa. Era a sua opor­tunidade de redenção.

-           Poderia contar com muitos cortesãos que o ajudariam a admi­nistrar o reino. Afinal de contas, só teria de cuidar mesmo da Terra do Sol, as demais regiões seriam devolvidas aos seus legítimos habi­tantes. E você, Learco, poderia tornar-se como Nâmen, o príncipe com que sempre gostou de identificar-se.

Learco não conseguiu evitar um sorriso escarnecedor. Nâmen sempre fora um mito para ele, desde pequeno. Havia sido o úni­co rei élfico que, depois de tornar-se soberano absoluto do Mun­do Emerso, devolvera as terras aos povos originários para que eles mesmos escolhessem os seus reis. Um louco, para alguns. Um herói para ele.

-           Nem sou capaz de controlar direito a minha vida, imagine só, então, um reino... - respondeu com raiva.

-           Tem todas as qualidades de um bom rei, e nem mesmo se dá conta disso. É culto e ponderado, conhece e ama o seu povo, e sabe avaliar suas obrigações.

Neor ficara de pé e agora olhava diretamente em seus olhos. Learco evitou aquele olhar. Sentia-se acuado, o beijo de Dubhe ainda queimava em seus lábios, e decidir assim, em cima da hora, sem mais nem menos, parecia-lhe uma façanha além do seu alcance.

-           Não consigo - disse com ar de rendição.

Neor não se abalou.

-           Posso entender, embora desaprove. Fique sabendo, no entan­to, que nós seguiremos em frente de qualquer maneira, com a suaajuda ou sem ela. Sinto muito, mas qualquer que seja a sua escolha acabará sendo forçado a assumir uma posição.

-           É uma ameaça?

-           Uma constatação.

O tio deu um passo para trás.

-           Pense bem nisso. Chegou a hora de você entender qual é a sua vocação. Não é mais o garoto que ainda acredita ser, já é um homem, e tem de portar-se como tal. Cada um de nós luta por al­guma coisa, Learco. Ainda dispõe de algum tempo, procure apro­veitá-lo da melhor maneira possível. - Neor abriu a porta. - Eu acredito em você, lembre-se disto - disse virado de costas.

Learco não falou mais coisa alguma. Limitou-se a olhar a capa do tio que desaparecia no corredor.

Na noite seguinte, Dubhe retomou suas investigações. Além do mais, movimentar o corpo era o único remédio que conhecia para o sofrimento, tanto físico quanto emocional.

Aprontou-se com calma, saboreando cada gesto que marcava a volta da verdadeira Dubhe. Estava na hora de parar com aquelas brincadeiras; a realidade era outra, muito mais triste e dura. Ela era uma assassina, e este era um fato que não podia mudar. Vestiu suas roupas como um sacerdote que se prepara para a cerimônia, aí pren­deu os cabelos num coque, igual a uma noiva.

Pena não ter aqui as minhas armas, pensou. Mas o punhal já era suficiente, bastava o contato com aquele metal para ela se sen­tir à vontade. Abriu a porta e penetrou no silêncio sonolento do pa­lácio, dirigindo-se aos pisos nobres. Naquela noite começaria a sua busca lá em cima.

Algum tempo antes, numa daquelas salas acontecera algo es­tranho. Ela tinha entrado de forma um tanto descuidada e acabara permanecendo, não vista, na presença de um Assassino. Escondida na sombra, ficara a espioná-lo, e quando chegou um soldado para checar se tudo estava certo, o homem disse que se encontrava ali para uma visita de controle. Dubhe pensou logo que só podia ser uma desculpa, porque aquele era um trabalho para soldados e nãopara sicários, mas, quando Theana salientara o mistério a respeito dos volumes desaparecidos da biblioteca, ela se lembrara daquela in­congruência. Talvez, naquela noite, o Assassino estivesse controlan­do alguma coisa que a Guilda e Dohor queriam manter oculta... Sendo assim, que tal ir verificar? Provavelmente iria descobrir algo.

Decidiu passar pelo jardim, onde havia fartura de esconderijos. Dirigiu o olhar para o lugar secreto que por um mês fora o cenário dos seus encontros noturnos com Learco. O jovem não estava, mas ela sentiu mesmo assim um aperto no coração. É justo que seja assim, é a coisa certa, pensou.

Chegou ao andar desejado por uma porta secundária, desli­zando suavemente ao lado de um guarda bêbado. O aposento que lhe interessava estava no fundo, fechado mas não vigiado.

Moveu-se furtivamente de uma mancha de sombra para outra, com as passadas distantes de um guarda de vigia a servir de acom­panhamento musical. Quando os passos se afastaram, virou a ma­çaneta e entrou.

A sala encontrava-se vazia. Talvez só fosse uma impressão ou quem sabe a maldição estivesse realmente piorando, pois sentiu a Fera se agitar e gritar dentro dela. A sua odiada e inseparável com­panheira continuava sedenta de vingança.

Avançou para o lado onde tinha vislumbrado o Assassino. Havia uma mesinha, encimada por um gaveteiro com toda uma série de escaninhos separados. Estavam todos trancados, mas o verdadeiro problema era descobrir qual era o certo. Dubhe aproximou-se e co­meçou a roçar na superfície com a ponta dos dedos. Era lisa e quase grudenta, devido ao verniz brilhoso que a cobria. Numa das pe­quenas gavetas, no entanto, havia algo parecido com uma pequena protuberância. Seus dedos não conseguiram decifrar o que era. Tra­tava-se de uma coisa tão pequena que podia passar por um mero ar­ranhão. Mas aí entendeu.

Era uma incisão quase imperceptível, e logo reconheceu o dese­nho. Era um grifo, com um pentáculo na boca. Estudou então aten­tamente a minúscula fechadura. Se estivesse com os seus utensílios de ladra, forçá-la seria uma verdadeira brincadeira, mas talvez pudes­se dar um jeito com as poucas coisas que trazia consigo.

Tirou do cinto uma fina haste de metal que tinha arrumado a partir de um dente de garfo, justamente prevendo uma eventualida­de como aquela.

As mãos começaram a tremer levemente, de forma que a ope­ração foi mais demorada do que o esperado. Então um animador clique deixou entender que conseguira. Puxou devagar e a pequena gaveta escorregou para a frente com facilidade.

O interior estava forrado de veludo vermelho, e só havia espaço suficiente para um pedaço de pergaminho com a largura de uma polegada. Não havia coisa alguma, mas Dubhe não desanimou. Per­correu com uma unha a borda da minúscula gaveta e levantou o tecido. Encontrou por baixo uma folha muito fina, dobrada para que ninguém reparasse nela. Pegou-a com as mãos suadas e desdo­brou-a com delicadeza.

Não era aquilo que ela queria. Tratava-se apenas de um legado acontecido em 13 de maio. Deixou escapar um suspiro de tensão. Pegou então o papel com os apontamentos copiados por Theana e procurou a nota ao lado do documento que correspondia àquela data.

“S. Ci., li. qui.” Ficou pensando por alguns instantes. Aquelas letras não indicavam nem estantes nem prateleiras, significavam al­guma coisa diferente, e de repente tudo ficou claro. A sala em que se encontrava chamava-se Sala Ciano. No começo nem prestara aten­ção nisso, mas ela também tinha transcrito no seu mapa os nomes com que a criadagem costumava indicar os aposentos. Contou as gavetas. O documento estava na décima quinta. Neste caso, “li.”, livro, era apenas a maneira de indicar a gaveta; “qui.” queria dizer quinze, décima quinta.

Experimentou uma íntima e profunda alegria. Estava destrin- chando o enigma.

Dobrou cuidadosamente o documento e voltou a guardá-lo no lugar. Fechou a gaveta de modo que ninguém pudesse reparar no ar­rombamento, e aí sentou no chão com as anotações desdobradas entre as mãos. Tinha marcado com um círculo as letras correspon­dentes à data que lhe interessava. “S. Qua., li. oit.”

Voltou a passar mentalmente no crivo todos os aposentos. Sala do Trono, Sala da Caça, Sala das Audiências, Sala Capitular, Saletado Príncipe, Sala da Rainha, Primeiro Salão, Sala Diplomática e... Sala Quadrangular.

Era um cômodo relativamente pequeno, com quatro entradas não vigiadas. Tinha reparado que nas paredes havia tapeçarias colo­ridas que contavam a história da casa de Sulana.

De repente arregalou os olhos. Os documentos estavam ali, ti­nha certeza disto.

Ficou silenciosamente de pé, saiu com todo o cuidado e aden­trou os meandros do palácio.

Lembrava muito bem o caminho a seguir, mas um encontro in­feliz pegou-a de surpresa. Um guarda fazia ronda justamente no cor­redor de onde subiam as escadas que levavam à sala, e estava agora se aproximando dela. Dubhe achatou-se atrás de uma protuberância do muro e prendeu o fôlego. Agira depressa demais, irrefletidamente, e agora não tinha escolha.

Tirou o punhal do cinto e esperou na sombra com os músculos tensos. O soldado chegou perigosamente perto e ela se preparou para atacar; mas, quando, justamente, tudo parecia perdido, o guar­da virou-se para o outro corredor e sumiu.

Dubhe não esperou nem mais um instante. Correu escadas aci­ma e entrou na Sala Quadrangular. Naquele local do palácio os guardas faziam rondas duplas e, agora que ela olhava a sua volta, ela percebeu que não podia haver lugar melhor para esconder um te­souro precioso. As outras três entradas levavam aos apartamentos nobres, ao jardim e às salas de representação, e aquilo expunha a um grande risco, qualquer um que tentasse tirar alguma coisa dali, pois todas as saídas tinham sentinelas.

Tentou acalmar-se, estava no caminho certo e agora só precisava agir do jeito mais rápido possível. Respirou fundo e lembrou a ano­tação encontrada no papel: “li. oit.”

Deu uma olhada nas tapeçarias, mas eram complexas demais, muito cheias de detalhes e cores. Reconheceu Sulana ainda jovem, segurando nos braços o primeiro Learco, e então Kharva, o patriarca da família, mas não conseguia entender o nexo que aquilo poderia ter com o que ela procurava. Principalmente um desenho, que re­presentava uma batalha naval, parecia não fazer o menor sentido.

Não se deixou tomar pelo desânimo e fechou por um momento os olhos, para concentrar-se. O que realmente contava era a visão de conjunto, só assim poderia descobrir o indício que faltava. Um ba­rulho de passos interrompeu o curso dos seus pensamentos.

Virou-se e apertou com firmeza o cabo do punhal. Só faltava!

Escondeu-se ao lado da entrada de onde vinha o barulho e se preparou para atacar. Logo que viu um vulto indistinto passar pelo limiar, apoiou a mão livre na sua boca e o empurrou com força, fa­zendo com que chocasse a cabeça contra a parede. Levantou o pu­nhal, pronta a golpear sem misericórdia, mas quando a lâmina já ia penetrar na garganta parou de estalo. Diante dela, de olhos arre­galados de pasmo, estava Learco. Dubhe sentiu-se trespassar pelo seu olhar e o soltou na mesma hora.

-           Quem está aí?

Uma voz trovejou do fundo das escadas. Logo a seguir o som metálico de uma espada saindo da bainha encheu o vão do corredor. Dubhe sentiu as pernas amolecerem. Coube a Learco empurrá-la prontamente para fora da sala e escondê-la atrás de uma porta en­treaberta no saguão lateral. Fez sinal para ela ficar em silêncio, depois alisou a roupa no corpo e esperou a chegada do guarda como se nada tivesse acontecido.

-           Sou eu - disse com calma glacial quando o soldado apareceu no corredor.

-           Queira me desculpar, Alteza, não sabia que estava aqui... - A voz do soldado encontrava-se a uma pequena distância da porta. Dubhe ouviu o ruído da lâmina que voltava para dentro da bainha, e logo a seguir o homem que se ajoelhava.

-           Não precisa pedir desculpas, soldado. Só estava cumprindo o seu dever. Pode ir.

Quando ficaram sozinhos, o príncipe segurou-a pelo pulso.

-           Calada e siga-me - intimou.

Ela não reagiu. Deixou-se levar como um peso morto pelos cor­redores do palácio, até chegarem a uma íngreme escadinha de ferro. Dubhe sabia que a conduzia a uma ampla e baixa água-furtada com os varais para secar a roupa, onde só raramente apareciam os guardas.

Uma vez lá, Learco jogou-a ao chão sem se importar em machu­cá-la. Mantinha a mão firme na empunhadura da espada e estava sério, terrivelmente sério, como Dubhe jamais o tinha visto antes.

-           O que estava fazendo lá?

Não havia qualquer resquício do jovem que ela conhecera du­rante os seus encontros secretos. Seu rosto tinha uma expressão fria e hostil.

Precisa matá-lo, disse-lhe uma voz cheia de dor. Deveria ter feito isto logo da primeira vez, quando estavam na clareira, após o encontro com os assaltantes. Tomou ou não uma decisão definitiva, ontem à noite?

-           Por que está vestida desse jeito? - insistiu o príncipe.

Dubhe não conseguia tirar os olhos dele, sem deixar de pensar

por um só momento que deveria matá-lo naquela mesma hora.

-           Trouxe-a para cá em lugar de entregá-la ao guarda. Sabe o que isto significa?

No tom da sua voz ainda havia um resquício de ternura, mas Dubhe só teve vontade de rir. O rapaz nada sabia dela, nem mes­mo agora conseguia entender. Encrespou a boca num sorriso. Learco fitava-a, incapaz de definir aquela reação.

-           Posso saber qual é a graça?

Dubhe cruzou o olhar dele, e a segurança da noite anterior va­cilou. Contra toda e qualquer lógica, alguma coisa continuava a di­zer-lhe que podia haver um fim diferente, que ele era realmente a sua tábua de salvação.

-           Acho engraçado que você não faça a menor ideia de quem eu seja... - disse com um toque de estudado sarcasmo.

Learco desembainhou a espada e apontou-a para sua garganta.

-           Ainda acha engraçado?

Ela não afastou o sorriso dos lábios.

-           Poderia matá-lo como e quando eu quisesse, sem qualquer problema. Três espadas e mais dois soldados não seriam suficientes para deter-me.

Os véus estão a ponto de cair e com eles todas as mentiras. Final­mente vai entender quem sou, e será a última coisa que fará antes de morrer, pensou, enquanto uma onda de gelo subia do seu coração até a cabeça.

Learco não disfarçou a sua decepção.

-           Quem realmente você é, afinal?

Houve um momento de silêncio, durante o qual nenhum dos dois teve ânimo de continuar aquela farsa.

-           O meu nome é Dubhe.

A mão de Learco teve um leve tremor na empunhadura da espa­da, mas logo voltou a apertá-la com firmeza.

-           É por mim que está aqui?

-           Não.

-           Por meu pai, então.

Uma mera constatação que saiu dos seus lábios quase com ver­gonha.

Dubhe fechou os olhos, só capaz de anuir com a cabeça.

A severidade no olhar de Learco começava a vacilar, e ela conse­guiu vislumbrar atrás daquela pose de príncipe guerreiro o garoto do riacho que lhe confessara o seu passado. Alguma coisa ardeu no seu peito, algo intolerável que lhe fazia brotar lágrimas nos olhos.

-           Quem a mandou para cá? A Guilda?

-           Não.

-           Ido?

-           Não.

Dubhe desviou o olhar, incapaz de aguentar aquele interroga­tório.

-           O meu tio? - perguntou ele depois de uma curta pausa.

-           Não - respondeu desconsolada. Percebia que já não podia de­ter as lágrimas.

Learco encostou a espada no seu pescoço, suavemente mas com firmeza. Dubhe lia em seus olhos a imensa pena que aquele gesto lhe custava.

-           Quero a verdade, e é bom que diga logo, pois do contrário irei matá-la.

Não estava blefando, dissera aquilo com o tom de quem não tem nada a perder. Dubhe sentiu uma lágrima escorrer cálida pela face. Não seria um mau momento para morrer, ainda mais se a quie­tude chegasse pela mão de Learco.

-           Vim para cá a fim de matar o seu pai, mas ninguém me man­dou. O meu é um assunto pessoal - disse com um fio de voz.

-           Foi por isso que se deixou salvar por mim, e depois me sedu­ziu para entrar no palácio?

Algo dentro dela gritava tão alto que encobria qualquer outra coisa, mas como explicar? Como dizer-lhe que tudo que acontecera entre os dois nada tinha a ver com a missão e que, ao contrário, se tornara justamente um obstáculo para ela. Como explicar-lhe até que ponto o amava, contra qualquer lógica e qualquer bom-senso? Como dizer-lhe que, até aquele momento, ela nem confessara tal coisa a si mesma?

-           Não foi nada disso — respondeu de um só fôlego.

Quem riu, desta vez. Foi Learco.

-           Está mentindo — disse com desprezo.

-           Não é verdade. Estou aqui porque há um ano seu pai salvou a própria vida à custa da minha, e a única coisa que agora posso fazer para evitar uma morte horrenda é matá-lo.

Learco não se deixou impressionar, aliás aumentou a pressão da espada na garganta dela.

-           Por que deveria acreditar?

-           Porque nunca lhe menti.

O príncipe deu outra gargalhada, e ela sentiu-se tomar pelo mais total desânimo.

-           Só me contou mentiras. O seu nome, quem você é, de onde vinha...

-           Não! O que lhe contei do meu passado é a verdade, a mais pura verdade!

As lágrimas escorreram fartas pelas suas faces, pelos lábios.

Descobriu o braço, pois o efeito da magia de Theana estava aca­bando; sabia disso porque sentia o símbolo latejar sob o pano da blusa. Mostrou-o para ele e, entre soluços, contou como havia sido trapaceada. Falou do roubo e nem mesmo poupou-lhe os horrores que tinha cometido. Contou da sua longa viagem para salvar a pró­pria vida e daquele único caminho que Senar soubera indicar: matar quem a havia amaldiçoado.

Quando parou de falar, sentia-se vazia, exausta, cansada do seu próprio sofrimento, mas de alguma forma até um pouco aliviada. Agora ele estava a par de tudo, já não importava o que iria acontecer.

Learco baixou lentamente a espada e sentou no chão, ao lado dela. Passou lentamente a mão entre os cabelos, suspirando.

-           O que vou fazer com você? - disse fitando-a com um sorriso desconsolado.

Ela permaneceu por um momento calada, imóvel.

-           Mate-me - disse afinal, num sopro quase inaudível.

-           O que foi que disse?

-           Do contrário terei de matá-lo. Não há escolha. Você tem de salvar seu pai e eu tenho de salvar a mim mesma.

Learco fitou-a com olhos tão desesperados que ela se sentiu ani­quilar.

-           E por que deveria fazer uma coisa dessas? Para proteger um homem que vive da morte dos outros? Não, francamente não posso. Não a deterei - acrescentou jogando a espada longe. - Quer matar- me? Então o faça! - Seus olhos ardiam num frenesi febril. - Se tudo aquilo que contou for verdade, acabe comigo, mas faça logo - con­cluiu indicando o punhal que Dubhe ainda segurava.

Ela viu o estilete brilhar no escuro, como se a lâmina tivesse cap­turado toda migalha de luz existente no lugar.

Por um momento chegou até a levantá-lo. O punhal que lhe havia sido dado pelo Mestre... Então arremessou-o para longe e, en­quanto ouvia o tilintar do metal no chão, abraçou Learco com força e se entregou ao mais desconsolado pranto. Ele ficou inerte entre os seus braços, mas a ela já bastava senti-lo junto a si, pensando que nada daquilo realmente acontecera.

Então a mão do jovem subiu lentamente pelas costas dela e pa­rou na altura do pescoço, onde o seu aperto caloroso a fez estremecer de prazer. Beijou como da primeira vez, e foi um beijo longo, fora do tempo. Dubhe percebeu que alguma coisa tinha irremediavel­mente mudado. Tentar seguir por uma caminho diferente, fingir que Learco não existia e voltar a ser a de um ano antes seria simples­mente uma loucura.

Sentia-se livre, finalmente; o Mestre e Lonerin eram somente suaves lembranças do passado. Só existia a muda promessa de Learco, que a abraçava, e das suas mãos que a afagavam, que acariciavam de leve o seu pescoço, a curva do seu seio.

Despiu-a delicadamente da blusa, que colocou no chão, e ela apertou-o com força. Talvez a beleza daquele momento só durasse um instante, mas Dubhe tinha certeza de que aquele tempo valia uma vida inteira.

 

A DEClSÃO DE SAN

A luminosidade era difusa, sob a superfície do mar. Refletia-se de forma cambiante nas capas pardas, desenhando estranhos jogos de luz. Os quatro Assassinos, dois homens e duas mulheres, movimen­tavam-se rápido e silenciosos.

Demar, um dos quatro, olhou-se em volta. Já estavam em Zalênia havia uma semana, mas ainda não se tinham acostumado com aquela paisagem de alguma forma espectral e com a aparência ma­cilenta dos seus evanescentes habitantes.

Sentia orgulho de si mesmo. Para um sujeito como ele, que en­trara tarde na Guilda, aquela missão significava bem mais que uma promoção. Tinha sido admitido na seita depois que matara a irmã aos quatorze anos de idade, o limite máximo depois do qual não poderia ser considerado uma Criança da Morte. Durante o treina­mento fora escarnecido muitas vezes pelos companheiros por ter chegado tão tarde, embora as suas qualidades fossem notáveis e a sua fé inabalável.

“Não importa quando somos escolhidos. O que realmente im­porta é sermos escolhidos”, dissera certa vez o Supremo Guarda, e ele tinha confiado cegamente naquelas palavras. Achava que Yeshol era o único realmente capaz de entendê-lo. Na verdade, ansiava para demonstrar a sua devoção e o seu valor. Por isso mesmo esforça- va-se ao máximo para levar a bom termo, com a maior diligência e crueldade possíveis, as tarefas que lhe eram confiadas. Apesar disso, aos vinte e três anos, só tinha cometido dois homicídios e alguns roubos, e a dúvida do próprio Yeshol não considerá-lo um verdadei­ro Vitorioso não parava de atormentá-lo.

Então, certo dia, fora convocado na presença dele junto com Fenula, Tess e Jalo.

-           Tenho uma missão da mais capital importância para vocês.

Aquelas simples palavras haviam sido suficientes para que o coração de Demar disparasse em seu peito. Seus ouvidos zuniam en­quanto era instruído sobre a tarefa. Tratava-se de ir buscar San, o garotinho que hospedaria a alma de Aster. Escapulira das mãos de Sherva, um Monitor, e buscara abrigo no Mundo Submerso, jun­to com Ido, o gnomo lendário que escolhera ser seu protetor.

Demar sentira a excitação tomar conta de cada fibra do seu cor­po. Finalmente uma missão importante e a oportunidade de mostrar a sua capacidade.

Partira cheio de entusiasmo e, antes de deixar a Casa, prostrara- se no templo para oferecer o seu tributo ao deus. Não havia motivo para fazê-lo: afinal ele era um Vitorioso e não um Postulante qual­quer, mas foi mais forte do que ele. Esfregara as mãos nas colunas de cristal negro, pedindo para que o deus realizasse os seus desejos. Tinha feito aquilo porque lhe parecia necessário, pois precisava; Thenaar escolhera-o entre muitos para confiar-lhe a sua ascensão ao poder, e esta era uma dádiva que bem merecia algumas gotas do seu sangue.

A viagem para chegar a Zalênia havia sido longa e cansativa, mas tinham conseguido usar um antigo portal subterrâneo que o próprio Aster avocara. Quem o encontrara de novo fora o Infiel: era assim que os Vitoriosos chamavam Dohor, porque não aprovavam que es­tivesse construindo o seu palácio justamente sobre as ruínas de Ena- war. Este privilégio permitira que o rei tivesse acesso aos labirintos de passagens secretas e corredores que se espalhavam por grandes áreas do Mundo Emerso. E neste dédalo também havia a mítica pas­sagem evocada naquele tempo pelo Profeta graças à magia. Só tinha sido usada uma vez, para enviar um emissário ao Mundo Submerso. Essa missão ficou na história porque o escolhido topou com Senar, o marido da Meretriz, e morreu durante a luta. O homem tornou- se um mártir, e a sua aventura uma lenda conhecida por todos.

O portal levava diretamente sob o mar, a um canal cavado pelos serviçais de Aster. Era um longo buraco estreito e mal ventilado, agora abandonado, que os habitantes de Zalênia nesta altura rara­mente usavam. Só a entrada era vigiada, mas Demar e os outros ti­nham mesmo assim conseguido passar graças aos truques de Fenula.

Por dias e mais dias tinham andado sem parar, na eterna noite que a escuridão daquele lugar lhes oferecia. Comiam durante a mar­cha e só paravam umas poucas horas para descansar, o mínimo in­dispensável para recobrar as forças.

Demar rejubilava-se com o sofrimento dos músculos. Aceitava com alegria as cãibras que as pernas lhe infligiam e, quando dormia, encolhido no espaço apertado do cubículo, rezava a cada fisgada de dor. Morrer pelo deus era a melhor das graças, e a dor física pa­decida em seu nome era o selo com que Thenaar marcava os seus filhos mais amados.

“Você ocupa um lugar especial no meu coração. Você será o ins­trumento da minha volta.” Era a mensagem que o sofrimento lhe transmitia.

Haviam saído para a luz rarefeita do sol sob as águas depois de três semanas de marcha. Disfarçaram-se sem demora. Longas ca­pas pardas, mas principalmente filtros para modificarem a sua apa­rência. Tinham sido preparado pelo novo Guardião dos Venenos, um velho carrancudo de mãos queimadas devido ao contínuo con­tato com venenos e substâncias tóxicas. Graças às suas misturas, confundiam-se com a multidão, combinando perfeitamente com os habitantes daquela cidade. Cabelos brancos, pele clara e descon­certantes pupilas negras mergulhadas numa íris tão cândida que pa­recia transparente.

Fenula deteve-os com um gesto. Demar despertou dos seus de­vaneios.

-           Está na hora.

Entraram numa hospedaria, as capas que pareciam ondear em uníssono.

Fenula, chefe da expedição na sua condição de Guardiã dos En­cantamentos, descobriu o rosto diante do taberneiro, mostrando um semblante angélico de menina e um radioso sorriso. Pediu delicada­mente um quarto, sorriu coquete, e Demar não pôde deixar de pen­sar que um verdadeiro Vitorioso sabia aproveitar até as armas do inimigo. Na Casa as mulheres eram estimuladas a abandonar qual­quer sinal de feminilidade. Os filhos de Thenaar não têm sexo, são meras armas nas mãos do deus, e ser mulher só serve para criar novosadeptos do culto. Mas, fora das paredes da Casa, a beleza e a faceirice de uma jovem voltavam a mostrar sua utilidade.

O taberneiro sorriu, atraído pela aparência suave e convidati­va da moça. Nem reparou nas três pessoas que vinham logo atrás. Deu-lhes um quarto e acompanhou-os ao andar de cima, abrindo caminho. Logo que a porta se fechou, no entanto, Fenula apagou do semblante qualquer sinal de ternura. Seu rosto voltou a ser a máscara impassível de sempre.

Eis a verdadeira aparência de um Vitorioso, a imagem imutável de um rosto sem expressão, uma tela branca na qual Thenaar pinta as suas feições, pensou Demar com um arrepio de excitação.

Os quatro sentaram-se no chão, e Fenula tirou da capa alguns discos de metal. Era um dos feitiços mais simples que se aprendiam durante o treinamento na Casa, mas muito eficaz. Servia para iden­tificar a aura mágica das pessoas e, neste caso específico, havia sido regulado pela Guardiã dos Encantamentos para encontrar os semielfos. Fora aquele rastro que os guiara até ali.

Fenula juntou os pequenos discos de metal na palma da mão, sacudiu-os e aí jogou-os ao chão murmurando uma palavra em élfico. Os disquetes caíram tilintando, mas quando os Vitoriosos estica­ram as mãos em cima deles os discos começaram a rodar como loucos, como se estivessem vivos. Os Assassinos salmodiaram o nome de San, e aquele remoinho foi assumindo pouco a pouco uma ordem definida, até desenhar uma ponta que indicava uma direção precisa no espaço.

Demar olhou para Fenula e viu que uma veia estava latejando na sua têmpora.

-           O que significa? - perguntou com voz trêmula.

-           Quer dizer que estamos perto. Menos de um dia de viagem.

O silêncio que se seguiu estava denso de alusões.

-           Eu estou pronto - afirmou Demar, com orgulho, e Tess fi­tou-o com um sorriso entre paternal e escarnecedor.

Não vai mais rir da minha determinação quando eu levara Yeshol a sua presa, pensou o jovem, rangendo os dentes.

-           Seguiremos o plano combinado - disse Fenula, quebrando o círculo e guardando os pequenos discos. - Ido não interessa. Se for­mos forçados, matá-lo-emos, mas se não for necessário nos limitare­mos a evitá-lo.

Demar anuiu rapidamente, aí olhou para fora: uma luz leitosa envolvia aquele lugar. Mas aos seus olhos a paisagem tingiu-se da tranquilizadora cor do sangue, o vermelho de Thenaar.

San não conseguia dormir.

Acabava de voltar de mais uma briga com Quar e já não aguen­tava mais. O mestre tornara-se pedante, além de maçante, e um tanto sádico nos castigos. Desde que Ido lhe dera permissão para pu­nir do jeito que achasse mais oportuno as escapadas do seu aluno, a vida de San só tinha piorado. Às vezes tratava-se de copiar inter­mináveis trechos de história ou de aprender de cor algumas passa­gens importantes da cultura élfica, mas a coisa pior era que aquela velha múmia não demorara muito a entender qual era o seu verda­deiro ponto fraco, e era cada vez mais comum que lhe proibisse o acesso à biblioteca.

-           Tudo menos isso - queixava-se o garoto.

-           E por isso mesmo ficará quatro dias sem entrar nela. Assim você vai aprender a portar-se direito.

Desta vez Quar proibira que ele fosse à biblioteca por uma se­mana inteira. E San tampouco conseguira convencer Ido a inter­ceder.

-           Não estou gostando de como as coisas estão indo com o seu mestre - comentara o gnomo.

-           Eu já lhe disse mil vezes que ele é um implicante.

-           E eu também lhe expliquei mil vezes que a magia também pode ser aborrecimento. É preciso aceitar algum sofrimento, quando se começa a aprender alguma coisa.

-           Mesmo que isto fosse verdade, por que não quer que eu vá à biblioteca? Aprendo muito mais sozinho, trancado lá dentro, do que a ouvi-lo; e além do mais os livros são a única coisa que ajuda o tempo a passar.

Ido tirou o cachimbo da boca, suspirando.

-           Sei que este lugar não é assim tão rico de atrativos, para você, mas como pode pensar em se distrair se nem mesmo quer estudar?

A verdade era que Ido já não o entendia. As histórias que con­tava sobre o Mundo Emerso eram sempre deprimentes e muito so­fridas, e os únicos momentos em que San conseguia tirar da cabeça os maus pensamentos era quando se exercitava no combate com a espada. Mas até disso logo se cansava.

Ficar o dia inteiro sem fazer nada de interessante consumia suas energias, e tinha a impressão que Ido era o culpado dos seus maus humores. O pensamento da morte dos pais já se tornara, naquela altura, uma obsessão. Sentia claramente que a única maneira de livrar-se daqueles fantasmas era agir. O resto eram apenas mentiras, bobagens que só serviam para evitar a realidade. Era isso que ele pen­sava, e não entendia como Ido pudesse portar-se como um covarde.

Todos estavam se mexendo, no Mundo Emerso todos faziam al­guma coisa, e ele não queria ficar de mãos abanando. Por isto estava tão furioso com Quar e as suas proibições, porque os livros de fór­mulas da biblioteca representavam a sua salvação. Lia o tempo todo, e à noite experimentava os encantamentos. Muitas coisas não davam certo, mas ele aprendia rápido. E só com a magia conseguia esque­cer o passado.

Revirando-se na cama com raiva, agora San se perguntava o que iria fazer durante uma semana inteira sem aquele único conforto.

A noite dos abismos olhava para ele pelas janelas, e aquela es­curidão só conseguia enchê-lo de angústia.

Quando fechou os olhos, sentiu uma mão que lhe tapava a boca. Arregalou-os de imediato e gritou tentando desvencilhar-se. Com o canto do olho vislumbrou três vultos que se moviam perto dele. Fora do quarto, o guarda jazia no chão de garganta cortada.

O ataque foi silencioso e terrível. San não percebera coisa algu­ma: haviam entrado sem fazer qualquer barulho, como os fantasmas com que se pareciam. O aspecto era o dos habitantes de Zalênia, mas a expressão dos seus rostos era inconfundível. O menino preci­sou de menos de um segundo para entender, e na mesma hora a rea­lidade sobrepôs-se às lembranças.

Dois homens vestidos de sicários arrombam a porta de casa. Usam lon­gas facas e investem primeiro contra o pai. Ele foge para o outro apo­sento e debaixo da cama ouve os gritos da mãe que tenta opor-se. À sua volta tudo perde consistência, seu corpo fica como que bloqueado, gos­taria de intervir, de fazer alguma coisa, qualquer coisa, mas o medo é mais forte. Aí, de repente, só há silêncio, e ele sabe que se portou como um covarde.

A raiva irrompeu do seu coração.

San começou a agitar braços e pernas, mas dois Assassinos logo o imobilizaram.

Ido, onde está você? Por que não está aqui?

Estava sozinho. Não havia ninguém, justamente como da outra vez. Alguma coisa dentro dele gritou de dor, e num instante tudo explodiu em milhares de faíscas vermelhas. Um calor terrível atraves­sou seu peito, descendo até as mãos, inflamando suas veias; acumu­lou-se na ponta dos dedos, queimou a carne viva. Logo a seguir, foi só fogo. San sentiu o calor roçar na pele, mas com impiedosa preci­são deu-se conta de que não lhe faria mal, que na verdade não podia tocar nele. Os Assassinos soltaram a presa, e de repente ele ficou de mãos livres. Tudo em volta era um inferno de fogo. Dois sicários contorciam-se no chão.

Naquela hora a porta abriu-se. As chamas apagaram-se imedia­tamente e San divisou o brilho de uma espada que fendia o ar e se abatia sobre os Assassinos ainda de pé. Dois golpes rápidos; um caiu logo, trespassado, o outro ficou estertorando no piso. Ido nem se dignou de olhar para eles, correndo para o garoto e segurando-o pe­los ombros. Seu rosto estava transtornado.

—        Você está bem?

San não soube responder, ficou olhando para o quarto. As pare­des estavam enegrecidas, os móveis incinerados e quatro corpos ja­ziam no chão. Um ainda estava vivo, um havia sido morto por Ido, os outros dois morreram queimados. Os cadáveres de dois Assassi­nos. E quem os matara tinha sido ele.

Ido olhou para o único Assassino sobrevivente. Devia ter uns vinte e poucos anos, não mais que isso. Tinha um bonito rosto limpo, de bom rapaz. Baixou os olhos para as suas roupas. Facas de arremes­so, dois punhais, um cordel para estrangular. Não se sabe por quais estranhas reviravoltas do destino tinha acabado nas mãos da Guilda.

-           Como chegaram aqui embaixo?

O Assassino fitou-o com um olhar absolutamente neutro. Nem mesmo havia nele um vago pesar pelos companheiros perdidos.

-           Vou matá-lo, se não me contar. - Uma ameaça que lhe pare­ceu inútil logo que a proferiu.

-           É como se eu já tivesse morrido.

Finalmente ouvia a sua voz. Já fazia duas horas que tentava in­terrogá-lo, e até então o sujeito não emitira qualquer som. O tom era jovem, justamente como o seu aspecto. Ido criou ânimo e tentou aparentar uma careta feroz. Na verdade, só sentia imensa pena da­quele rapaz.

-           Pode ter certeza de que a morte de verdade é bem diferente.

-           Se eu morrer, juntar-me-ei a Thenaar. Pode matar-me à von­tade.

Não havia como lutar com aqueles sujeitos; a única razão de vida deles era a missão. Se ela fracassasse, nada mais sobrava para sus­tentá-los. Tinham abdicado de qualquer forma de pensamento livre em troca de graníticas certezas que lhes indicassem o caminho.

-           Haverá outros? - perguntou cansadamente.

O jovem voltou a fechar-se em seu silêncio.

O gnomo soltou um longo suspiro e dirigiu-se à porta.

-           Havia um mundo inteiro à sua espera, lá fora, e você o recu­sou para enfiar-se como um verme embaixo da terra. Tinha tanto medo assim de pensar com a sua própria cabeça?

O Assassino endereçou-lhe um olhar cheio de desprezo. Foi um lampejo. Então voltou a ser o nada de antes. Ido fechou a porta atrás de si. Marna, o chefe dos guardas do palácio, fitou-o com ar inter­rogativo.

Ele meneou a cabeça.

-           Não fala e nunca falará. Já vivi o bastante para saber como funciona a cabeça dessas pessoas.

-           E então?

-           Então vigilância tripla. Quero um guarda ao lado de San o tem­po todo, a partir desta mesma noite.

Marna anuiu, concordando plenamente. Em seguida, olhando Ido nos olhos, disse:

-           Descobrimos por onde eles entraram. Usaram o canal subter­râneo que leva a Zalênia, aquele sob o fundo do mar. Evidentemente conseguiram ludibriar a guarnição militar com a magia. Acredita que irão tentar de novo?

-           É possível - respondeu o gnomo com um suspiro, para logo a seguir afastar-se.

Sentia-se imensamente cansado. Já não era o guerreiro lendá­rio de que todos se lembravam. E não aguentava mais toda aquela maldita loucura. O asco e a repulsa haviam tomado conta dele pela primeira vez diante do corpo de Tarik e da mulher, mas só agora per­cebia que a guerra o tinha completamente enojado. Ver jovens que jogavam fora a sua vida e até se vendiam a cultos absurdos e sangui­nários, sem qualquer motivo, era uma coisa que já não podia tolerar.

Estou cansado de lutar, eis a verdade.

Ao chegar à porta do seu quarto, viu-se diante de San. O guar­da encarregado da segurança do garoto foi logo dizendo que não fora ideia dele. Quem insistira para que ele saísse havia sido o me­nino.

-           Quero ver o prisioneiro. — A voz de San era decidida, embora levemente trêmula. O gnomo não respondeu.

Entraram, e San ficou no meio do aposento, fitando-o de pu­nhos fechados. Com infinita dor, Ido encontrou naqueles olhos o furor e a excitação de quem matou.

Passou a mão na barba.

-           Então? - perguntou desanimado.

-           Deixe-me ver o Assassino.

-           Tem algo especial a dizer-lhe?

-           Só quero falar com ele.

Está fugindo de minhas mãos. Não fui capaz de ouvi-lo, e aqui está o resultado.

Uma surda aflição oprimiu-lhe o peito.

-           Acho melhor você ir dormir. Foi um dia ruim, e precisa des­cansar.

-           Não, aquilo de que preciso é conversar com aquele homem. Ele também é responsável pela morte dos meus pais. Onde está? Já o interrogou?

-           Não respondeu às minhas perguntas. É um daqueles sujeitos que não respondem. Este lugar já não é seguro. Acho que teremos de nos mudar.

-           Ido, eu os derrotei.

O gnomo lembrava a aparência do quarto de San, os muros carbonizados, os corpos no chão. Havia um poder imenso guarda­do naquele menino, um poder terrível e perigoso.

-           Não precisa se gabar - respondeu ríspido.

-           Mas não podemos continuar nos escondendo, não adianta, pois mais cedo ou mais tarde eles voltarão a nos encontrar. Eu tenho bastante poder para derrotar a Guilda; se ficarmos juntos, podemos conseguir! - gritou San de um só fôlego.

-           Ouça, o que aconteceu foi um mero acaso - respondeu im­piedosamente Ido. - Os seus poderes são imensos, é verdade, mas você ainda não sabe usá-los a contento.

-           Estou aprendendo com os livros da biblioteca.

-           Leva anos, para aprender, e não dispomos de todo este tempo.

-           Quero lembrar-lhe que há um mês derrubei um dragão e ago­ra matei dois homens. Se ainda acha que isto não é aprender...

Ido ficou abalado por aquela maneira de falar; era como se o garoto se orgulhasse de a sua magia ter sido capaz de provocar danos e morte.

-           San, hoje você matou dois homens.

-           Dois Assassinos.

-           Não faz diferença.

-           Claro que faz! Eles tinham matado meu pai e minha mãe, e eu só botei as coisas no devido lugar. Faria tudo de novo, sem pensar duas vezes!

Ao ouvir aquilo o gnomo pulou de pé.

-           Será que não se dá conta do que está dizendo? Você só tem doze anos! Os garotos não devem matar e muito menos ficar felizesem fazê-lo! Seja quem for que você mata, trata-se de uma pessoa, não de um pedaço de carne qualquer, uma pessoa com sonhos, me­dos e esperanças!

San encarou o olhar irado do gnomo com gélida calma.

-           E todos aqueles que você matou ao longo dos anos? Não eram inimigos? Por que lutava, então?

-           Não houve um só dia em que não me fiz a mesma pergunta. E é justamente isto que você não quer entender - sibilou o gnomo.

-           Não tenho qualquer remorso - disse San com frieza. - Fiz a coisa certa. E onde é que você estava? A única coisa que pode salvar- me é o meu poder. Posso perfeitamente passar sem os seus sermões e os seus complexos de culpa.

A bofetada foi violenta. Era a segunda vez que aquilo acontecia. A distância que Ido percebia separar os dois era insuperável, terrível, um abismo horrendo que ele tinha até medo de contemplar. O seu fracasso estava diante dele em toda a sua grandeza.

O menino fitou-o com olhos úmidos, mas não chorou. Ido teria gostado imensamente de saber o que dizer para que entendesse, mas diante do homicídio sempre estamos sozinhos.

-           Agora você está transtornado, não consegue perceber a gravi­dade do que fez, e nem imagina como muito em breve terá de pagar um duro preço por isso. Amanhã veremos o que podemos fazer, mas agora volte ao seu quarto com o guarda encarregado de protegê-lo, sem criar mais problemas. Se eu souber que se afastou, juro que nunca mais vou deixá-lo sair.

San nada disse. Foi embora com passo seguro, sem olhar para trás. Ido deixou-se cair na cadeira e segurou a cabeça entre as mãos. Teria gostado que Soana estivesse ali, que Vesa, o seu amado dragão, se encontrasse lá fora. Gostaria de não se sentir tão horrivelmente só.

San esperou pela hora certa sem pensar em dormir. Por sorte, o livro que lhe interessava estava no seu quarto. Acostumara-se a tirar da bi­blioteca os volumes que queria estudar, e aquele era o último que conseguira surripiar antes de Quar castigá-lo.

Depois de algum tempo levantou-se e abriu a porta devagar.

-           O que foi? - O guarda estava acordado e vigilante.

San nem se importou em responder. Só cuidou de murmurar as palavras. O soldado escorregou ao longo da parede. Com aquele mesmo feitiço o seu avô tinha conseguido atravessar um acampa­mento inimigo inteiro.

Moveu-se veloz pelo palácio, os pés descalços que pareciam voar sobre as pedras lisas do piso. Murmurou as palavras mágicas mais umas poucas vezes. Então encontrou o caminho para a masmorra. Tirou as chaves do cinto do guarda. Havia quatro celas e só uma es­tava ocupada. Aproximou-se da grade com circunspecção. Teve tem­po de sobra para examinar o vulto fracamente iluminado pela luz que um archote espalhava pela prisão.

O jovem estava pálido e ferido. Tinha o olhar gélido de uma ave de rapina, e San sentiu-se encher de ódio até as entranhas. Era como se aquele homem fora o próprio matador dos seus pais. Lastimou impulsivamente que as chamas se tivessem apagado antes de consu­mi-lo, mas depois pensou melhor.

Foi a mão do destino. Este homem agora poderá ser-me útil, disse a si mesmo.

-           Levante-se.

O jovem encarou-o com escárnio.

-           Não recebo ordens de alguém que é destinado a ser um mero recipiente.

San apertou as mãos nas barras de ferro.

-           Qual é o seu nome?

-           Um Perdedor não tem o direito de conhecer o nome de um Vitorioso.

O garoto levantou a mão e mostrou o molho de chaves.

-           Diga o seu nome e o libertarei.

-           A liberdade não me interessa. A única liberdade está em Thenaar.

-           Quero que me leve até a Guilda.

A expressão escarnecedora no rosto do Assassino mudou na mes­ma hora. O menino tinha conseguido pegá-lo desprevenido.

-           Qual é o seu nome? - repetiu San.

-           Demar.

San enfiou a chave na fechadura, teve de fazer força mas, com alguma dificuldade, acabou abrindo a porta. O Assassino saiu trô­pego, segurando um braço.

-           Vai me levar à Guilda?

O homem anuiu lentamente. San aproximou-se dele, segurou seu braço e colocou a mão sobre a ferida. Recitou o encantamento e o largo rasgo vermelho na pele deu imediatos sinais de melhora.

-           Leve-me ao lugar de onde veio, Demar.

 

CONSPIRAÇÃO

A quietude reinava absoluta. A lua tinha percorrido um trecho do seu arco no céu e já não era visível das baixas janelas da água-furtada. Dubhe sentia o batimento calmo e sossegado do coração de Learco sob o ouvido e ficou imaginando quando fora a última vez que experimentara uma sensação de paz tão profunda. Tinha de voltar à infância para lembrar-se de algo parecido, à época em que Gornar ainda não havia morrido e ela morava com os pais em Selva. Naquele tempo o futuro ainda tinha um sentido.

-           Lembro-me de você, estávamos na Terra do Fogo.

Dubhe levantou a cabeça de leve e olhou para ele. Mantinha

os olhos fixos no teto.

-           Ainda éramos bem jovens, e nenhum dos dois conseguia des­viar o olhar de Forra, que matava os rebeldes sobreviventes. Não havia mais ninguém, ainda vivo, da nossa idade, e lembro que naquele pesadelo de olhos abertos fitei-a de cima do meu cavalo, porque você me parecia a única coisa ainda intacta naquela desgraça.

Dubhe apoiou o queixo no seu peito.

-           Eu era diferente, naquela época - disse, sem nem mesmo ela saber se falava da aparência exterior ou de algo mais profundo.

-           Mas os olhos continuam os mesmos.

Sentiu um aperto no coração. Aquelas palavras fizeram-lhe entender que pela primeira vez queria seguir um caminho diferente do homicídio. Alguma coisa dentro dela levara-a a amar em lugar de matar, e este pensamento transtornou-a.

-           É estranho que eu tenha demorado tanto a entender quem você era.

-           É normal. Durante este tempo todo disfarcei o meu aspecto, os meus movimentos e até as expressões do meu rosto.

-           Como é que você realmente é, então?

Dubhe sentiu-se um tanto constrangida. Era verdade, ele nunca vira a sua aparência costumeira.

-           Não sou muito diferente da menina que você conheceu na­quele dia - respondeu de forma evasiva.

Puxou-se para cima. O céu lá fora começava a esmaecer. Tinha de ir, mais um dia de labuta esperava por ela e, depois, mais uma noite de pesquisas.

E agora? Tinha feito o possível para adiar aquele momento. Afi­nal de contas foi só uma noite, uma noite de loucuras, pensou.

Começou a vestir a roupa, enquanto Learco afagava cada cen­tímetro da sua pele com os olhos.

-           Quero vê-la de novo - disse de repente, e Dubhe teve de fazer um esforço para fitá-lo.

-           Não creio que seja uma boa ideia.

-           E por quê? - A voz dele parecia sinceramente surpresa.

-           Nada pode existir entre nós. E você também sabe disso.

-           Não concordo.

Havia tamanha determinação naquelas palavras que, por um momento, Dubhe deixou-se levar pela ternura da ideia. Mas só foi um instante. Atou as tiras do corpete e voltou à realidade.

-           Foi uma loucura - sussurrou.

Learco também levantou-se, segurou o queixo dela entre os de­dos e forçou-a a olhá-lo nos olhos.

-           Repita isto agora.

Conhecia o poder que tinha sobre ela, sabia que Dubhe não po­dia mentir quando a olhava daquele jeito.

-           O que foi para mim, não faz diferença. Estou aqui para matar seu pai, é o que basta a nos tornar inimigos.

Learco olhou duramente para ela.

-           Acha que não seria capaz de traí-lo?  Odeio-o.

-           Mas durante estes anos todos lutou por ele e nunca se rebelou. É seu pai, afinal, e é algo que ninguém pode mudar.

Irritado, o príncipe afastou-se dela e mudou de assunto.

-           Procurarei os documentos de que precisa, e depois de en­contrá-los...

Mas Dubhe meneou a cabeça sem deixá-lo acabar.

-           Não, não quero que faça isso. Não quero que se torne meu cúmplice, pois sei que algum dia se arrependeria.

-           Já fiz minha escolha quando entrei neste aposento com você

-           rebateu ele decidido. - Viemos do mesmo inferno, Dubhe, e se eu tiver de ser condenado que pelo menos o seja com você ao meu lado.

Não lhe deu tempo para replicar e a beijou.

-           Amanhã à noite estarei aqui. E você?

Dubhe fitou-o enfeitiçada. Aí levantou-se com um pulo.

-           Eu também. - E saiu correndo escadas abaixo.

Learco ficou parado, naquela água-furtada, sozinho. Já não se julgava louco e não tinha dúvidas no coração. Conhecia os abismos dos quais era capaz, mas aquele último crime, gratuito e cruel, pas­sava de algum modo da medida e o enchia de nova raiva.

Desceu as escadas e percorreu os corredores do palácio que co­meçava a acordar. Dirigiu-se sem titubear para o aposento onde po­deria encontrar a única pessoa capaz de ouvir seus motivos.

O meu pai destruiu a última das minhas ilusões. Dubhe não é um sonho, e não permitirei que a tire de mim.

Entrou sem bater. Neor já estava de pé, vestindo-se. Só faltavam mais uns poucos dias para o seu perdão.

-           Diga-me o que fazer, e eu farei.

Dubhe moveu-se o dia todo como que num estado de transe. Tinha a impressão de o seu corpo já não lhe pertencer, como se aquele segredo desabrochado entre ela e o filho de Dohor tivesse sido im­presso na sua carne tornando-a diferente aos olhares do mundo. Sen­tia-se eufórica e ao mesmo tempo perdida. Era a primeira vez que acalentava a ideia de ficar com alguém e de ser por ele correspondida com o mesmo ardor em seus sentimentos. Learco parecia não se im­portar minimamente com o fato de ela ser uma assassina, e ela final­mente compreendera a ligação existente entre as suas almas: um sutil e íntimo jogo de equilíbrios que os dois levavam adiante, de mãos dadas. Era inacreditável, mas agora havia espaço para pensar no fu­turo. Learco quebrara o feitiço e a presenteara com uma finalidade pela qual valia a pena lutar.

-           O que é que você tem?

Dubhe redescobriu estar na cozinha, com uma batata descas­cada nas mãos e o olhar de Theana que a perscrutava. Pegou outra batata e continuou a descascar.

-           Nada. Está tudo bem.

-           Está parecendo diferente...

Limitou-se a sorrir com expressão ausente. Ficou com vontade de contar tudo, de dizer a verdade, como quando, ainda criança, abria seu coração à amiga Pat, mas um estranho pudor a deteve. Era uma coisa só dela, e queria afagá-la no peito por mais algum tempo.

Quando a noite chegou, precipitou-se para a água-furtada sem pensar duas vezes. Encontrou Learco, que, no topo das escadas, espe­rava por ela com um sorriso. Parecia-lhe impossível, mas na verdade só agora percebia quão grande fosse nela a necessidade de compar­tilhar a sua existência com alguém. Passara longos anos só contando a si mesma mentiras.

Jogou-se em seus braços e deixou o resto com ele. Mas foi dife­rente da noite anterior, mais calmo e natural. Havia muitas maneiras de amar, e Dubhe saboreou aquele momento como uma revelação.

-           Tentei informar-me acerca dos tais documentos - disse ele de repente.

-           Não quero falar disso.

-           Dei uma boa olhada na biblioteca, mas o meu pai não confia bastante em mim para deixar-me a par de coisas tão delicadas. Eu nem sabia da existência de documentos secretos espalhados pelo palácio.

Dubhe olhou para ele com expressão amuada.

-           Já disse, não quero falar no assunto.

-           Só queria ajudar.

-           Eu sei - replicou ela, acariciando-lhe o rosto. - Mas as palavras têm um estranho poder. Você diz uma coisa e, de repente, ela se tor­na verdadeira. Enquanto eu estiver aqui com você, a Fera não existe, e posso ninar-me na ilusão de haver um futuro. Mas quando me fala a respeito tudo volta a ser real, e ela começa a atormentar-me. Não, prefiro esquecer, pelo menos agora.

-           Este futuro existe, Dubhe, e quero que ele seja o meu presente para você.

Por um momento seu rosto sobrepôs-se ao de Lonerin. Naque­las palavras havia a costumeira, intolerável piedade.

-           Não precisa dizer isso para me agradar, sei muito bem qual é o meu destino - rebateu ela seca.

Learco, no entanto, não se mostrou ressentido.

-           Se achar que a minha é comiseração, está enganada. Estou fa­lando por mim, porque quero gozar da sua presença para sempre.

Dubhe sentiu como que um véu descer sobre seus olhos e se aconchegou naquele abraço caloroso e tranquilizador.

-           Eu lhe peço, não agora. Vamos ficar em silêncio, esquecendo tudo o mais.

As noites seguintes foram melhores ainda. Rolavam no chão brincan­do como amantes, confessando entre uma e outra pausa tudo aquilo que até então não se haviam dito. Na manhã seguinte, quando via no próprio corpo os sinais daqueles encontros furtivos, Dubhe sor­ria. A Theana, nada dizia. Aquela beatitude levou-a rapidamente a esquecer o escopo da sua missão. Só a Fera, vez por outra, voltava a visitá-la com seus pesadelos, mas ela procurava rechaçá-la logo, prin­cipalmente se Learco estivesse presente.

Não queria admitir que também havia outra realidade, desejava congelar o tempo, mas certa noite foi o próprio príncipe que a rece­beu com um beijo menos caloroso do que de costume.

-           Temos um encontro.

Dubhe enrijeceu, aí reparou que ele segurava alguma coisa.

-           Confia em mim? - disse Learco, entregando-lhe uma capa com um grande capuz.

Ela fitou-o, desconfiada.

-           Aonde está me levando?

Ele sorriu.

-           Num lugar onde, com isto, você ficará inteiramente à vontade.

E, de fato, logo que baixou o capuz em cima do rosto, Dubhe

sentiu-se imediatamente melhor. Já fazia tanto tempo que usava roupas de mulher que quando roçou na superfície áspera da capa sentiu um arrepio correr pela espinha. Era inútil iludir-se: aquelaera a verdadeira Dubhe e não certamente a mocinha loira que ela se obstinava a representar no palácio.

Fizeram todo o caminho de volta juntos. Desceram lentamente dos andares altos para o jardim e seguiram andando até um peque­no palacete de dois andares que Dubhe já tinha notado e que pen­sara ser a morada do jardineiro.

-           Este era o meu parquinho, quando era menino. A minha mãe mandou construir a casa para o meu irmão, mas ele não teve a opor­tunidade de aproveitá-la. Então entregaram-na a mim, pelo menos até meu pai chegar à conclusão de que eu era crescido demais para continuar a usar tais folguedos. Eu não deixava passar um só dia sem vir para cá, pois era o único lugar onde me sentia realmente em casa.

Dubhe observou a construção na luz da lua. Era um gracioso chalé de madeira, com teto de duas águas e tijolos fictícios pintados nos muros. Estava em péssimas condições e dava a impressão de es­tar caindo aos pedaços.

Learco abriu a porta lentamente, e uma luz amarelada projetou- se na grama do jardim. Passou pelo umbral segurando Dubhe pela mão. Ela entrou hesitante, e logo deu um passo para trás desvenci­lhando-se.

Havia umas dez pessoas na sala. Todas vestiam capas iguais à dela. Só Learco não escondia o rosto.

Um pensamento passou rápido e terrível pela cabeça dela. Ele me traiu.

A mão correu automaticamente ao punhal, mas os dedos detive­ram-se no cabo. O príncipe, diante dela, fitava-a diretamente. Aque­le olhar não podia enganá-la, pensou. Acabou puxando mais ainda o capuz em cima do rosto e esperou na penumbra para ver no que aquilo iria dar.

-           Pensei que tivesse desistido de vir - observou uma voz. Dubhe reconheceu-a na mesma hora: era Neor, o primo de Dohor que no dia seguinte iria ser oficialmente perdoado pelo rei.

-           Tive de esperar pela pessoa que pode nos ajudar.

Dubhe percebeu sem vê-los que os olhares de todos os presentes estavam fixos nela.

-           Imagino que esteja perguntando a si mesma quem somos e o que queremos - disse Neor.

Ela deu uma rápida e cautelosa olhada no pessoal.

-           Fique sabendo que o que vier a ser dito aqui dentro não sairá destas quatro paredes.

Dubhe gostou do preâmbulo e se sentiu levemente aliviada.

-           Nós participamos do grupo daqueles que se opõem ao poder de Dohor. Muitos, no reino, concordam que a sua política de terror deve ser detida. É por isso que estamos aqui. Learco contou-nos que você também tem claros motivos de rancor pelo rei, motivos que neste momento não temos interesse em analisar. Sabemos, no entanto, que além da vingança está ligada a ele por uma chantagem pessoal.

Dubhe virou instintivamente a cabeça para Learco, que não se mexeu, mas continuou a observar os presentes. Não gostava do que estava acontecendo.

-           Confirma isto?

Ela hesitou um instante, então anuiu.

-           Sabemos que Dohor deixará o palácio daqui a duas semanas para controlar pessoalmente como andam as coisas na Terra da Noi­te. Na verdade, o motivo da sua viagem será encontrar-se com os seus aliados secretos, os Vitoriosos da Guilda.

Dubhe permaneceu imóvel, sem dizer coisa alguma.

-           Learco ficará no palácio e assumirá o poder... Você, por sua vez, encarregar-se-á do rei.

O silêncio que se seguiu ficou denso de insinuações.

Ela não o quebrou, e então Neor solicitou:

-           Alguma pergunta?

-           Os meus motivos nada têm a ver com os seus — respondeu com voz trêmula.

-           E verdade, mas todos nós queremos a mesma coisa. Só es­tamos pedindo que leve a termo aquilo que tenciona fazer de qual­quer maneira, mas de forma que nós também possamos tirar disto alguma vantagem. A passagem dos poderes é uma coisa que precisa ser estudada com toda a atenção.

Dubhe fechou os punhos com força.

-           Vou ter de pensar no assunto.

-           Está assustada com o fato de participar de um complô? - acrescentou um dos encapuzados.

-           Quer dinheiro? - insistiu outro.

-           Não é isso — respondeu ela, ríspida.

-           O quê, então?

Dubhe endereçou um olhar nervoso para Learco.

-           Podemos levar o plano adiante sozinhos — continuou Neor.

-           Mas só você poderá fazer com que pareça um acidente.

Dubhe segurou a capa, apertando convulsamente o pano entre as mãos.

-           Preciso pensar.

-           São dez mil carolas, se conseguir.

-           Preciso pensar — repetiu ela, inflexível.

Os conspiradores entreolharam-se, e finalmente Neor retomou a palavra:

-           A resposta foi dada. Que o destino de cada um se cumpra.

A reunião foi encerrada e lentamente, um depois do outro, os

presentes saíram do palacete. Só ficaram Dubhe e Learco, na escu­ridão pegajosa daquele lugar que cheirava a mofo. Ela mantivera os olhos fixos nele o tempo todo, enquanto os encapuzados deixa­vam silenciosamente a sala.

-           O que deu na sua cabeça? - sibilou.

-           Acabo de demonstrar-lhe que está livre para fazer o que bem quiser.

A voz de Learco era firme, e a sua calma irritou Dubhe.

-           É um assunto que só tem a ver comigo! Por que deixou toda aquela gente se intrometer?

Ele sorriu com amargura.

-           Eu sou um deles, Dubhe, estou cansado de baixar a cabeça. Preciso fazer por mim, por esta terra e por você. Faz tempo demais que me escondo atrás do nome do meu pai. Dei-lhe tudo: a minha inocência, os meus sonhos, até mesmo o meu sangue. E só tive em troca o seu olhar gélido e o seu desprezo. Estou correndo o risco de tornar-me como ele, e esta é uma coisa que não quero. Por muito tempo fiquei dizendo a mim mesmo que não havia outro caminho a não ser obedecer. Ele iria morrer e eu continuaria perpetrando as suas chacinas, porque nesta altura eu teria ido longe demais e já nãopoderia voltar a ser aquilo que era. Mas não é verdade. Você me ensinou, e você é a razão de eu estar aqui agora. Quero que me ajude a fazê-lo, Dubhe.

Ela sacudiu a cabeça com horror.

—        Matá-lo não é o caminho que você escolheu.

-           Se não o matar, você irá embora. Tornar-se-á mais uma das coisas que eu só pude tocar de leve e que ele tirou de mim.

-           Então é isto que eu sou para você? A moeda com que você pode resgatar-se de seu pai? - sibilou ela com maldade.

—        Você é a minha única possibilidade de salvação.

Dubhe não soube o que dizer. Sempre buscara nos outros o per­dão e a salvação, e agora alguém procurava as mesmas coisas nela. Aproximou-se cautelosamente, mas acabou apertando-o com força contra si.

—        Não quero que mande matá-lo. Nunca iria se perdoar, Learco, e acredito que você tenha plena consciência disso.

Ele a afastou lentamente e colocou alguma coisa na palma das suas mãos. Dubhe olhou: era uma pequena sacola de pele.

—        Abra — disse ele.

Ela o fitou interrogativa. Enfiou os dedos na abertura e acabou segurando um pedaço de pergaminho gasto e meio rasgado. O co­ração deu um pulo no seu peito, enquanto os olhos enchiam-se de lágrimas. Virou-o e viu na parte de trás alguma coisa que conhecia muito bem. Impressa em vermelho e preto havia a imagem de dois pentáculos sobrepostos, tendo no meio duas serpentes entrelaçadas que formavam um círculo. O símbolo da sua maldição. Era o do­cumento de que precisava.

-           Estava exatamente onde você procurava naquela noite, escon­dido numa das tapeçarias. Havia sido costurado dentro de uma das ondas do mar que servem de fundo para a batalha naval.

“Li. oit.” Linha oito. A oitava linha do mar. Dubhe fez a cone­xão de imediato. Olhou para o pergaminho que segurava nas mãos, a sua salvação estava naquele pedaço de tripa.

-           Peguei-o hoje. Pensei em dar uma olhada enquanto ninguém andava por lá, e lembrei-me das escritas que você mencionara algu­mas noites atrás. Não foi tão difícil, afinal.

Dubhe fitava-o entre as lágrimas. Não tinha palavras.

-           Não me olhe desse jeito. Se você se salvar, eu também me sal­varei - disse Learco. - A culpa das suas ações cairá sobre mim e não sobre você. É por isso que quero que faça. Faça por mim, Dubhe. Faça por nós dois.

Ela não respondeu. Olhou aquele insignificante pedaço de per­gaminho e apertou-o com força.

Quando voltou ao quarto, Theana ainda estava dormindo. Dubhe aproximou-se da cama sem fazer barulho, sentou-se na beirada e ficou olhando por alguns momentos para a companheira. Tinha uma desesperada necessidade de confessar-se com alguém, e ela era a úni­ca pessoa à qual podia contar tudo que havia acontecido. Depois de alguns instantes de hesitação acordou-a sacudindo-a de leve no ombro.

-           Aconteceu alguma coisa? - perguntou logo Theana, com ar preocupado. Ainda tinha os olhos embaçados de sono e levou alguns momentos para focalizar a cena.

-           Precisamos falar - limitou-se a dizer Dubhe.

A maga sentou-se e prestou atenção. Foi um discurso direto, sem pausas. Dubhe contou-lhe cada detalhe daquele mês, revelando o que havia acontecido entre ela e Learco e como aquilo tinha mu­dado as perspectivas da missão. Finalmente, abriu a palma da mão e mostrou o fragmento do pergaminho.

Theana esbugalhou os olhos.

-           É o que estava procurando?

Dubhe simplesmente anuiu.

-           Quem encontrou foi Learco.

A maga suspirou, aí ensaiou um sorriso forçado.

-           Quer dizer que chegamos lá. Eu estou pronta - disse com se­gurança. - Conheço o ritual e...

-           Não quero mais.

Dubhe falou aquilo de um só fôlego, sem pensar duas vezes. Theana olhou para ela sem entender, e um lampejo de medo passou pelo seu olhar.

-           É o pai dele, e esta é uma coisa que jamais será esquecida. Um homem como ele não pode pensar em matar alguém ao qual querbem e depois continuar vivendo como se nada tivesse acontecido. Matar deixa uma marca profunda, sempre, é como perder toda vez um pedaço de nós mesmos.

-           Mas ele o odeia!

Dubhe fitou-a com intensidade, e Theana sentiu-se forçada a baixar os olhos.

-           Está lhe pedindo isso porque a ama - acrescentou baixinho.

-           Está passando por cima daquilo em que acredita por causa de você. Se você não fizer, terá de morrer, e ele o sabe.

-           Estou sabendo.

-           E então?

-           Então não quero. Porque depois ele também morrerá, lenta­mente, e o meu amor jamais poderá salvá-lo. Quando olhar para mim, nunca deixará de lembrar o que eu fiz, e só verá uma assassina.

Theana segurou-a pela mão e fitou-a diretamente.

-           Mas, Dubhe, você não tem outra escolha.

-           Mate-me.

As palavras vibraram no quarto como o som metálico de uma espada sendo desembainhada.

-           A maldição impede o suicídio, eu já tentei. A Fera protege-me de qualquer um que tente matar-me, mas quem sabe você, com sua magia...

-           Não! - gritou Theana arregalando os olhos de medo. - Nun­ca, nunca farei isso, não posso, não me peça uma coisa dessas!

Dubhe fitou-a, muito séria.

-           Nestes meses superamos toda espécie de perigo, e você sem­pre me ajudou, até mesmo quando eu jamais pensaria que seria pos­sível. Apesar de eu tê-la ofendido, apesar de tornar a sua vida difícil, nunca deixou de ficar ao meu lado. Agora tornou-se minha amiga, eu confio em você.

-           Por favor, eu repito, não me peça uma coisa dessas - disse a outra com voz desconsolada.

-           Então encontre um jeito para que eu possa fazer sozinha. Mas ajude-me. Se não matar Dohor, terei uma morte horrenda. Preciso sair de cena do meu jeito e na hora em que eu escolher. Estou pe­dindo muito, eu sei, mas finalmente encontrei alguma coisa pela qualvalha a pena lutar. Certa vez falou que eu só tinha em mim o vazio, e estava certa...

-           Eu estava zangada, não era minha intenção...

-           Mas já não é assim - interrompeu-a Dubhe. - Agora tenho al­guma coisa pela qual viver. E, por isso mesmo, posso até morrer, está me entendendo?

Theana não pôde deixar de anuir. Ninguém melhor do que ela, que tinha lutado e sofrido por aquela única certeza, estava em con­dições de entender.

-           Encontrarei uma maneira de salvar você - disse entre as lágri­mas. — Conseguirei salvá-la sem que precise matar Dohor. Tenho uma biblioteca inteira ao meu dispor e começarei imediatamente a trabalhar.

Dubhe sorriu com tristeza. Tinha passado por demasiadas de­cepções para ainda acreditar que existisse uma saída indolor.

-           Mas jure que, se for necessário, me ajudará a morrer.

-           Só se não houver nenhuma outra escolha - murmurou Thea­na, com um soluço.

Dubhe abraçou-a e ela entregou-se àquele gesto de afeto quase com desespero. Lá fora, a alvorada começava a pintar com suas cores mais um novo dia.

Aquela mesma claridade jogava uma pálida luz num aposento luxuoso, quatro andares mais acima dos alojamentos dos serviçais. Forra, que acabava de voltar ao palácio, estava acomodado num am­plo assento. Diante dele, estava ajoelhado um homem encapuzado.

-           Fale - murmurou o lugar tenente de Dohor, com um sorriso manhoso nos lábios.

 

O PERDÃO E A VINGANÇA

Dubhe e Theana acordaram ao alvorecer. Era o dia do perdão de Neor, e o palácio era um contínuo vaivém.

Deram andamento ao feitiço. Theana aplicou-o em Dubhe em silêncio, com uns poucos gestos rituais. Já se tornara um hábito en­tre elas. Logo que acabaram, vestiram-se sem nada dizer e sem nem mesmo olhar uma para a outra. Em seguida foram à cozinha a fim de receber as ordens para os preparativos.

Dubhe estava distraída, por mais que se esforçasse não conse­guia tirar Learco da cabeça. Entre ela e o príncipe ainda havia uma pergunta pairando no ar cuja resposta ela meditara a noite inteira. Quanto mais pensava no assunto, mais ficava convencida de que Lear­co não suportaria a morte do pai. Matar alguém não era da natu­reza dele, nem mesmo os anos de treinamento podiam mudar este fato. E ela não iria ajudá-lo.

Morrerei antes de vê-lo no trono. Para nós dois não há qualquer futuro.

Um estremecimento correu pelos seus braços e ela deixou cair uma grinalda que estava entrelaçando no jardim.

-           Cuidado Sane! Preste atenção! - exclamou uma companheira que andava por perto.

Dubhe sorriu.

-           Desculpe, deve ser o cansaço - eximiu-se, retomando imedia­tamente o trabalho.

Francamente, não sabia o que fazer. Era melhor deixar Learco seguir pelo próprio caminho ou ficar com ele o máximo possível até a maldição consumi-la por completo?

Estava tentando encontrar uma resposta, quando um reflexo sob o pórtico chamou a sua atenção. Atrás de uma coluna vislum­brou o príncipe que a fitava, muito sério. Vestia a armadura derepresentação, com a espada reluzente presa à cintura. Dubhe quase ficou sem fôlego. Era perigoso encontrar-se daquele jeito, em campo aberto, mas por outro lado também era excitante. Deixou a grinalda no gramado e aí, quando teve certeza de que ninguém estava olhan­do naquela direção, levantou-se e correu para a colunata tentando manter sob controle o coração que palpitava em seu peito. Logo que alcançou Learco ele a empurrou contra a coluna e a beijou com transporte.

-           Podem nos ver - disse ela, separando-se logo daquele abraço.

Learco sorriu, enquanto ela, meio constrangida, ajeitava os ca­belos.

-           Amanhã terá de dar uma resposta. - Dubhe engoliu em seco.

—        Quero que me diga qual será.

-           Irei com você - disse ela após uns instantes.

-           Quando o matará?

Um barulho de passos fez estremecer ambos. Esconderam-se melhor na sombra, mas Learco insistiu:

-           Então?

-           Eu já disse, irei com você.

O príncipe suspirou com um toque de decepção na voz.

-           Ele morrerá de qualquer maneira, Dubhe. Se for por sua mão, no entanto, você e eu poderemos viver em paz.

-           Está mentindo para si mesmo. Jamais poderá superar a morte dele.

-           Você estará comigo, e isto já basta.

-           Onde está o príncipe? — Uma voz não muito longe dali gelou-os.

-           Você precisa ir - disse Dubhe num sopro, e se afastou dele.

Learco segurou-a pelo braço.

-           Quero que fique comigo - murmurou.

-           Você precisa ir - insistiu ela, e desvencilhou-se voltando ao seu lugar.

A cerimônia foi saudada por um sol esplendoroso. O jardim estava apinhado de pessoas, entre as quais se salientavam nobres e dignitários de outras terras que haviam caído sob o domínio de Dohor. No meio fora montado um palanque de madeira com um imponen­te trono. Aos seus pés, um longo tapete vermelho. Era ali que Neor se prostraria antes de pedir perdão ao seu rei, para que a mensagem daquela cerimônia se tornasse bem clara.

Dubhe olhava para a cena de um dos pórticos. Ela e Theana não teriam papel algum a desempenhar até a hora do almoço, razão pela qual lhes fora permitido acompanhar a primeira parte da cerimônia num lugar não excessivamente distante dos assentos nobres. Haviam encontrado um cantinho discreto de onde tinham uma ampla visão de todo o cenário.

Os soldados foram os primeiros a chegar, de lanças em riste e roupas escarlates. Dubhe mal conseguia discernir seus rostos, mas um logo pareceu-lhe estranhamente familiar. Lançou um olhar in­quieto para a multidão e reconheceu outros vultos. Assassinos. Ha­via muitos Vitoriosos entre o público, e era a primeira vez que os via participando de um evento oficial no palácio. Que interesse pode­riam ter em se mostrarem tão abertamente?

Os dignitários começaram a desfilar no meio da multidão, pa­ramentados em seus trajes de brocado. Forra e Learco estavam entre eles. Dubhe acompanhou-os com o olhar até se sentarem na pri­meira fila.

Finalmente chegou o rei. Tinha o ar severo e terrível do grande guerreiro. Dubhe reconhecia aquela expressão; nos dias que passara no palácio sempre a vira, nele, em todos os eventos oficiais. O mo­narca severo e justo, o homem que carregava nos ombros a respon­sabilidade da vida do seu povo e que por ela estava disposto até a cumprir atos cruéis. Era justamente a máscara que Dohor gostava de usar.

Quando chegou ao trono, o arauto levantou-se entre novos to­ques de clarim.

—        Hoje o Augusto Soberano reúne aqui o seu povo para torná- lo partícipe da sua sublime clemência. Ele, terrível na cólera, mas magnânimo no perdão, acolhe novamente em sua corte um súdito que muito errou. Sua Majestade perdoará este erro, concedendo que seja readmitido no palácio e que nele volte a morar.

Gritos de júbilo nem um pouco espontâneos selaram o anúncio. Logo que o público se acalmou, Neor entrou. Não estava usando os costumeiros trajes chamativos, e seus cabelos haviam sido corta­dos. Tudo, nele, falava de penitência e sobriedade. Vestia um casaco de pano grosseiro, igual ao que os rapazolas usavam no primeiro ano da Academia.

Dubhe sorriu com sarcasmo. Dohor podia até ser magnânimo ao conceder o perdão, mas não tencionava certamente abrir mão do prazer de humilhar aquele a quem perdoava.

O brilho repentino e inconfundível de uma lâmina chamou a sua atenção. Estava acontecendo alguma coisa. Olhou instintivamen­te para Learco. No palanque tudo tranquilo. Neor havia chegado aos pés do trono e estava prostrando-se lentamente no chão. Quando ficou inteiramente de bruços, dois soldados apontaram suas lanças nas suas costas.

Um murmúrio insistente correu pelos presentes.

Dohor ficou de pé.

-           Hoje, meu querido primo, você está aqui para costurar um rasgo que se criou entre nós há muitos anos. Deitado no chão, está me pedindo para que o readmita no meu séquito e o reintegre nos seus cargos aqui no palácio. E isso me deixa feliz. Você foi um va­lioso colaborador, antes de se rebelar contra mim. - Sorriu manhoso.

-           Agora tenciono recuperar um válido aliado para voltar a contar com seus dotes militares e sua inteligência.

Dubhe reparou que Learco tamborilava nervoso no cabo da es­pada. Ela também, então, enfiou vagarosamente a mão por baixo da saia e apertou os dedos no metal do punhal. O ar estava carregado de tensão.

-           Mas infelizmente houve um pequeno problema. Ontem acon­teceu uma coisa que não devia acontecer - continuou o rei.

Neor tentou levantar de leve a cabeça, mas um dos soldados forçou-o a baixá-la de novo.

-           E é justo que o meu povo também saiba.

O rei só precisou de um rápido aceno para que dois guardas trouxessem um homem ao palanque. Seguravam-no pelos braços, enquanto os pés arrastavam-se inertes no chão. O casaco que vestia estava rasgado e manchado de sangue em vários lugares. Seu rostotumefacto estava irreconhecível. Os guardas forçaram-no a ajoelhar- se, entregando-o aos olhares curiosos do público.

Dubhe mexeu-se.

-           Fique aqui — disse a Theana.

-           O quê...? - tentou perguntar ela, mas Dubhe já se encaminha­ra para o palanque.

Enquanto isso, Forra ficara de pé, mandando os seus homens brandirem as espadas.

-           Vamos lá, Karno, diga a todos o que nos contou na noite passada.

Dubhe estremeceu, achatando-se rápida contra a parede para ouvir melhor. Karno era um alto dignitário, e a multidão rumore­jou inquieta. Atrás dela, uma sombra suspeita desapareceu no meio do público. Alguém estava no seu encalço, tinha certeza.

O homem parecia não entender, e então Forra golpeou-o com um pontapé nas costas.

-           Fale!

-           Há algum tempo... - começou a murmurar Karno, mas Forra segurou-o pelos cabelos e puxou violentamente sua cabeça para trás.

-           Em voz alta, para que todos ouçam!

O homem gaguejou, aí continuou, mais claramente:

-           Há alguns meses Neor e outros dez dignitários encontram- se na Casa dos Jogos, no jardim do palácio, para tramar a deposição de Sua Majestade... e o príncipe participou do complô.

A multidão prorrompeu num grito de pasmo. Dubhe contor­nou o palanque. Tinha de alcançar Learco. Mais lâminas, mais As­sassinos. E a sombra atrás dela estava chegando perto.

-           Ouviram? — berrou Dohor com um sorriso de triunfo. — O meu filho e o meu primo conspiraram para matar-me!

A sua voz estentórea teve o poder de calar todos os presentes. Uma pesada capa de terror tomou conta do jardim, mergulhado no sol escaldante.

-           Tinham urdido uma complexa teia que custei a desenredar, mas agora está tudo extremamente claro.

Learco tentou intervir, mas Forra foi mais rápido e apontou a lâmina na sua garganta. Dubhe chispou para o palanque, de punhal na mão.

Neor ensaiou uma reação, levantando-se do chão, mas Dohor bloqueou-o com a espada.

-           Estava querendo decapitar este reino, não é verdade? E aí assumir o poder e tornar-se rei - gritou triunfante. - Mas não será a minha cabeça a rolar, hoje - sibilou afinal.

A espada rodou no ar e abateu-se com um único golpe, nítido e preciso, no pescoço de Neor. Sua cabeça voou acima da multidão berrante para então cair aos pés do palanque. Foi o sinal.

Cada Assassino escondido entre os presentes desembainhou a espada e investiu contra o conspirador mais próximo, enquanto os guardas de Dohor cuidavam dos demais rebeldes. Dubhe procurou alcançar o palanque para ajudar Learco, mas de repente foi detida por um vulto que a agarrou por trás. O homem jogou-se contra ela sem titubear, procurando logo o coração com a lâmina da faca. Duas serpentes entrelaçadas ornavam o cabo, e Dubhe não teve mais dú­vidas sobre o que estava acontecendo.

Rolaram no chão, enquanto à sua volta tudo virava um caos. Por alguns minutos só houve espaço para seus corpos engalfinhados, para as lâminas que tentavam vencer as defesas do adversário e afun­dar na carne. O símbolo no braço de Dubhe começou a latejar, e o rugido da Fera encheu a sua mente. A magia de Theana, no entanto, ainda aguentava e aquele grito só teve o efeito de estonteá-la. Mal teve tempo de evitar a lâmina que ia entrar direto no seu ombro. Desvencilhou-se do aperto e ficou de pé, mas o inimigo já estava em posição de ataque.

Permaneceram imóveis por alguns segundos. À sua volta, gritos, clangor de armas e cheiro de sangue, forte e penetrante. A cabeça de Dubhe rodava, mas a Fera não podia sair do seu limbo.

Então um pensamento: Learco! E finalmente decidiu reagir. O Assassino arremessou duas facas, que Dubhe evitou com um pulo. Ele dispunha de todas as armas da seita, ela só tinha o punhal. Estava em desvantagem, ainda mais devido ao estorvo da longa saia que vestia. Foi a primeira a atacar, para desnortear o adversário, mas o sujeito deteve todos os golpes que ela dava de forma um tanto con­fusa. Dubhe acabou baixando a guarda. Um sorriso triunfante apa­receu no rosto do Assassino, que investiu com um golpe de baixopara cima. Ela abaixou-se, forçou os ligamentos e deslizou entre as pernas do homem para então levantar-se com um pulo atrás dele. Segurou-o pelo pescoço e foi questão de um momento. O ruído do osso que se partia arrepiou-a, enquanto a Fera dentro dela exulta­va. O corpo inerte do Vitorioso amoleceu entre os seus braços: dei­xou-o cair ao chão com uma sensação de repulsa.

Virou-se para o palanque. Learco já não estava lá, e Forra tam­pouco. Theana também ausente, enquanto as pessoas fugiam para todos os lados, apavoradas. Por uns instantes sentiu-se perdida, aí de novo um barulho sibilante atrás dela. Virou-se de chofre e afundou o punhal na carne de mais um Assassino. O homem desmoronou como um saco vazio, sem um lamento. Ela havia sido descoberta: tinha de agir, e bem depressa.

Começou a correr em disparada, atropelando e matando os ini­migos à medida que cruzavam o seu caminho. Dirigiu-se para o can­to mais escondido do jardim, onde sabia que o muro da cerca era mais baixo. Os guardas tentaram detê-la, mas a imagem de Forra que ameaçava Learco com a espada falou mais alto. Galgou na maior rapidez a galhada de hera que encobria o muro, enquanto as primei­ras setas já começavam a assoviar. Ao chegar ao topo, deixou-se es­corregar do outro lado o mínimo indispensável, para então pular quando só faltavam três braças até o chão. Sabia como aterrissar, mas mesmo assim seus joelhos gritaram de dor. Ignorou-os, levan­tou-se imediatamente e num piscar de olhos perdeu-se na confusão de Makrat.

A sala do trono pareceu a Learco maior do que de costume. Estava ajoelhado no piso de mármore, de mãos e pés acorrentados. Ha­viam-no despido da armadura, assim como da espada. Nem mesmo as botas estava usando. Atrás dele, no fundo da sala, os dois guardas que o tinham acompanhado controlavam seus movimentos de lon­ge. Nos subterrâneos onde havia as celas, vira os poucos conspirado­res sobreviventes chorando e pedindo perdão. Procurara com o olhar, mas não vira Dubhe. Talvez tivesse sido levada alhures ou quem sabe conseguira fugir. A companheira, por sua vez, fora trancafiadana masmorra com ele. Learco lembrou ter reconhecido no rosto da jovem uma dignidade que o deixara impressionado. Não fazia ideia de quem, na verdade, aquela mulher fosse, mas alguma coisa os uni­ra, e era justamente Dubhe.

-           Vai dar tudo certo - murmurara em seus ouvidos, suavemen­te. Ela respondera com um sinal de cabeça. Então ele criara ânimo e perguntara: — Sabe que fim levou Dubhe?

A moça respondera meneando a cabeça e, por um momento, ele se sentira perdido, como se alguém tivesse de repente drenado toda a sua força vital.

A grande porta de madeira escancarou-se e Dohor entrou com passo marcial, sem nem olhar para ele. Já sentado no trono, fitou-o com aquela expressão gélida e severa que Learco conhecia bem de­mais. Percebeu na mesma hora que Dubhe estava certa. Nunca con­seguiria matá-lo e tampouco poderia delegar o homicídio a outra pessoa. Toda vez que o pai olhava para ele daquele jeito, qualquer coisa que houvesse ao seu redor perdia consistência e sentido. Ficou envergonhado, pois sentiu que receava a sua punição como quando era criança.

-           Volco nada tem a ver com isso - ainda teve coragem de dizer. Tinha visto na cela o velho criado pessoal que chorava, implorando que o rei libertasse Learco. Até naquela hora tentava protegê-lo, sem se importar com a própria sorte.

-           Talvez não tenha nada a ver com toda esta história, mas é responsável por aquilo que você se tornou — disse o pai com raiva.

-           Amanhã mandarei cortar a sua cabeça. Já está na hora de eu dar uma boa limpeza neste lugar.

Learco apertou os punhos e rangeu os dentes. Não podia tolerar que Volco sofresse uma punição daquelas por culpa dele, mas mes­mo assim não conseguiu protestar.

-           Eu não acreditava que pudéssemos chegar a uma situação como esta - começou o pai. - Você me surpreendeu, dá para acreditar? Sempre o considerei um inepto, e nunca pensei que poderia ser tão ousado. Chegar a urdir um complô e ficar contra mim... Mas, afinal de contas, se eu tivesse tido de matar meu pai para chegar ao trono, provavelmente teria feito a mesma coisa. Há sonhos maiores, sonhos que merecem alguns sacrifícios.

Olhou para Learco quase achando graça.

-           Aquele Karno é realmente um fraco, está sabendo? Só de ver os instrumentos de tortura começou a tremer como uma mulherzinha. Não demorou nada para dar com a língua nos dentes, e para mim foi bastante fácil juntar as peças - acrescentou com um escarnecedor sorriso de satisfação. - Achei estranho, de qualquer ma­neira, que você fosse a mente atrás disto tudo, e, de fato, acabou ficando claro que o mentor era Neor. Você nada mais fez do que juntar-se a ele, porque o considerou a aposta vencedora. Nem mes­mo percebeu em que tipo de complô barato estava se metendo. Se fosse por mim, eu iria ao quarto do meu pai e o degolaria enquanto estava dormindo.

Learco corou, sentindo nojo de si mesmo. Era a pura verdade. Chegara até a hesitar antes de juntar-se à conspiração. Fechou os olhos, enquanto um tremor sacudia seu corpo.

Não posso deixar que continue a tratar-me deste jeito, preciso livrar-me da minha ligação com ele.

A imagem de Dubhe ficou clara na sua mente.

-           Eu não sou como você.

-           Como é? - disse Dohor, levando a mão ao ouvido. - Se tem alguma coisa a dizer, aconselho que fale mais alto, porque não dá para escutar murmúrios.

Continuava a sorrir, do jeito que um adulto ri das bobagens ditas por uma criança.

Learco sentiu brotar no peito o ódio que procurava.

-           Não sou como você. Não construo o meu caminho com ca­dáveres de pessoas inocentes.

A perfeição do sorriso de Dohor permaneceu intacta.

-           Sei muito bem disso, não preciso que você me lembre. Sempre foi mole demais, e nunca entendeu os mecanismos do poder. Não queria tornar-se rei, você só queria livrar-se de mim. Foi por isso que se escondeu atrás de Neor.

Learco sentiu o coração acelerar, mas não quis render-se.

-           Engano seu. A sua morte nada mudaria aquilo que foi feito. Tornou-me um assassino, abrindo o vazio à minha volta e forçan­do-me a tornar-me igual ao seu filho.

A expressão do rei se fez subitamente sombria.

-           Não se atreva a mencionar o seu irmão.

Quem sorriu, desta vez, foi Learco.

-           Claro, o meu irmão, um modelo inimitável. Se tivesse tido o tempo de crescer, tornar-se-ia como eu, não se iluda.

-           Ele não era um desmiolado, nunca me decepcionaria. - Os nós dos dedos ficaram brancos enquanto apertavam os braços do trono.

-           Cresceria, e você conseguiria fazer-se odiar até por ele, pois é a única coisa que sabe fazer. Só sabe destruir tudo que toca. Fez isto com a minha mãe, fez com esta terra e agora tenciona fazer o mesmo com este mundo.

-           Um rei precisa segurar o poder - afirmou Dohor.

-           Sim, claro... mas você já não pode confiar em ninguém, não? Está sozinho nesse trono e acha ótimo. O poder já lhe basta, fica satisfeito em dormir toda noite num quarto diferente e nem se im­porta com o fato de o seu primo ter tentado matá-lo. Ele só queria fazê-lo para livrar esta terra de toda a sujeira que você jogou nela, e foi por isso que eu o apoiei.

Dohor deu uma gargalhada e o eco do aposento amplificou aquele som grotesco. Learco continuou imóvel. Seu coração, agora, batia lento, enquanto o fluxo ininterrupto de palavras que guardara no peito durante tantos anos subia finalmente aos seus lábios.

-           Ah, filho... Você é apenas um covarde que enfeita a própria natureza com bobos ideais para esconder o seu medo.

-           Você forçou-me a viver no medo e no desgosto de mim mes­mo, mandando-me massacrar civis inocentes. É uma coisa que não lhe perdoo e jamais perdoarei. Mas, diferente de você que apodre­cerá no inferno sem poder voltar atrás, eu ainda tenho uma vida e seguirei o meu caminho. Eu posso salvar o Mundo Emerso.

-           O Mundo Emerso é uma fera que precisa ser domesticada — disse Dohor com severidade. - Se eu não estivesse aqui, no coman­do, haveria outro para tomar o meu lugar.

-           Erro seu. Se eu ficar no trono no qual agora está sentado, de­volverei todas as suas conquistas, e de você não sobrará nem a mais pálida lembrança.

Dohor apoiou-se no espaldar, com expressão sombria. Depois franziu os cantos dos lábios numa careta feroz.

-           E você acha mesmo que ninguém voltaria a tentar? Não seja tão patético, Learco. Dominar, sobressair sobre os demais está na natureza do homem, e isto é algo que você não pode mudar.

-           Não é verdade, pois enquanto houver um sopro de vida no meu corpo eu impedirei.

O rei fitou-o por um instante com ar alucinado, em seguida re­laxou, como se de repente tivesse encontrado a solução para todos os seus problemas.

-           Seja como for, está tudo acabado. Já me cansei de você - disse, fazendo um gesto de descaso com a mão. - Está na hora de eu saldar as dívidas com os meus amigos. Mandarei levá-lo à Casa, onde será imolado a Thenaar, o mesmo deus que muito em breve me proporcionará um poder inimaginável. Você vai gostar, poderá viajar com aquela mocinha que salvou e que, só para sua informação, também é uma assassina. Uma traidora, para sermos mais precisos.

Learco quase deixou transparecer um suspiro de alívio. Quer dizer que Dubhe estava viva. Prisioneira, provavelmente, mas viva. Sorriu.

-           Quem está sendo ingênuo, agora, é você.

Dohor fitou-o com ar interrogativo.

-           O vento está mudando, e o seu tempo está para acabar. Acre­dita mesmo que esta conspiração tenha surgido do nada? Acha que matar a mim e aos outros resolve a situação? Você mesmo semeou, e não vai demorar a colher os frutos. Pode ser que eu morra, mas não terá de esperar muito para seguir pelo mesmo caminho.

Dohor ficou de pé e se plantou diante dele. Learco contou as rugas na sua testa, reparou nos olhos esbranquiçados por uma inci­piente catarata, considerou seu corpo aquela altura flácido, e deixou de ter medo. Um homenzinho que podia esmagá-lo, mas que dali a pouco sofreria a avassaladora desilusão de ver o seu reino destruído.

Porque Learco sabia de Ido, de Senar e da missão levada adiante pelo Conselho das Águas. Dubhe lhe contara, quando entre eles já não existia o véu da mentira.

E um velho. Apenas um velho feito de carne como todos, e para ele também basta uma lâmina.

-           Morrerei na minha cama, daqui a muitos, muitos anos, e o Mundo Emerso estará aos meus pés. Eu terei sucesso onde Aster fracassou... Lembrar-se-ão de mim pelos séculos afora.

Learco não parou de sorrir.

-           Estarei esperando por você no inferno, junto com minha mãe. O olhar seguro de Dohor vacilou por um instante, então fez um

sinal para os guardas no fundo da sala. Os dois soldados avançaram e seguraram o príncipe pelos braços. Learco saiu sorrindo. Final­mente livre do pai.

 

PERTO DA META

—        Não está funcionando - bufou Senar.

Lonerin, suado e ofegante, estava totalmente esgotado. Segurava na mão o punhal que o mago lhe entregara, e para o qual já tentava havia algumas horas transferir o seu espírito.

—        Não consegue dominar o objeto por tempo suficiente.

Lonerin olhou para a arma, desanimado. Havia sido forjada pelo

próprio Livon em pessoa, e Senar ganhara-a de Nihal num duelo, quando os dois ainda eram crianças. Tratava-se, portanto, de um ob­jeto lendário, mas para ele, naquele momento, era apenas um punhal.

—        Tento resistir - disse, quando conseguiu recobrar o fôlego. - Mas é como se alguma coisa me chamasse de volta...

Senar permaneceu gélido.

—        Parece-me bastante óbvio. A natureza da sua alma não é cer­tamente ficar presa num punhal.

Lonerin suspirou.

—        Será que não há algum truque para...

—        Já deveria ter descoberto sozinho.

Ficou surpreso com aquela resposta. Como era possível que um mago genial como Senar fosse tão pouco propenso a ensinar? Jus­tamente o contrário de Folwar, que nunca se zangava e costumava enaltecer suas qualidades com paciência infinita.

—        Entendo, só que não o encontrei — respondeu irritadiço. — Razão pela qual alguma sugestão talvez viesse a calhar.

Arrependeu-se quase imediatamente do tom agressivo das suas palavras, ainda mais porque os olhos de Senar ficaram turvos com uma sombra de desaprovação.

—        Nada tenho a dizer-lhe. Cada mago tem de encontrar o seu próprio caminho.

-           E se eu não encontrar?

-           Nada de ritual.

Lonerin sentiu a raiva crescer dentro de si.

-           O meu mestre procurava dar um incentivo quando eu tinha alguma dificuldade, quando não entendia logo alguma coisa. Des­culpe, mas o senhor não está me ajudando em nada e, aliás, não per­de a oportunidade para desmerecer o meu trabalho.

Senar assumiu uma atitude jactanciosa.

-           Duvido muito que o seu mestre já tenha tentado ensinar-lhe um encantamento deste nível. Seja como for, acho que você já é bastante crescido para seguir adiante sem alguém segurar a sua mão. Já domina as artes mágicas. Agora cuide de encontrar uma solução sozinho. Não há nada que eu possa fazer. - Botou diante dos seus olhos a mão enegrecida e ressecada. - Eis aqui o que sobrou dos meus poderes! Queimei-os quase completamente numa única noite, e quando digo queimar estou falando literalmente. E não posso su­perar este limite. Razão pela qual, ou resolve sozinho ou esquece de uma vez os seus sonhos de glória e desiste de querer bancar o herói a qualquer custo. Encontraremos outro mago que possa aprender mais rápido do que você.

O jovem olhou para o chão, ofendido. Estava cansado de todos aqueles queixumes e repreensões, daqueles modos irritantes com que Senar o tratava desde que empreenderam viagem.

-           Continuaremos amanhã - disse curto e grosso, preparando- se para a noite.

Senar acompanhou toda a cena sem parar de sorrir.

-           Desiste facilmente de ser um homem sedento de vingança.

Lonerin virou-se de estalo.

-           Por que disse que eu servia para a missão, se na verdade me considerava um inepto? Poderia ter levado consigo outra pessoa, explicando ao Conselho que eu não estava à altura.

-           Porque você tem todas as potencialidades - disse Senar sem perder a calma. - Tem a capacidade e até mesmo a vontade. Mas foi acostumado pelo seu mestre a considerar-se o melhor da turma, e continua acreditando que tudo pode brotar do nada, sem qualquer esforço, como aconteceu até agora.

Era a pura verdade, mas aquela atitude era intolerável. Lonerin não aguentava mais uma convivência tão difícil. Virou-se para di­zer-lhe aquilo, mas parou ao cruzar o olhar do velho mago.

Era sarcástico, mas também havia nele um toque de desafio.

Não, não desistiria tão fácil.

—Tentarei de novo - disse convicto, apertando com força o pu­nhal entre as mãos.

Barahar era um grande porto, o maior de todo o Mundo Emerso. Senar ouvira falar muito a respeito, mas só estivera lá uma vez, ainda criança. Era a cidade natal do seu pai, e lembrou-se que naquela época já o deixara impressionado. Havia casas de verdade, por lá, com sólidos telhados e não apenas sapé, e um contínuo vaivém de pessoas atarefadas. Era uma série ininterrupta de ruelas cheias de su­jeitos mal-encarados que não gostaríamos de encontrar à noite. Um lugar fascinante, mas também perigoso.

-           Barahar é uma terra em que circula muito dinheiro, e como todos os lugares ricos é corrompida pelo ouro - explicara-lhe o pai.

Nunca mais voltara lá desde então. Havia muitas lembranças dolorosas ligadas àquela cidade. Sua mãe morrera ali quando ele e Nihal ainda moravam no Mundo Emerso, enquanto sua irmã sim­plesmente desaparecera. Certo dia disse que queria ser deixada livre para seguir o próprio caminho, e a partir do momento em que pas­sou pela porta de casa ninguém mais a vira ou ouvira falar dela, como se nunca tivesse existido.

Logo que chegaram ao porto, o ar do mar preencheu suas na­rinas. Senar saboreou cada matiz daquele perfume que sabia a casa. Os chamados das gaivotas perseguiam-se pelas ruelas, e ele se sentiu tomar por uma pungente saudade daqueles anos tão distantes em que ainda era jovem e cheio de mil esperanças.

A parte mais antiga da cidade espalhava-se pela íngreme encos­ta, enquanto a mais nova apinhava-se na base do penhasco, à beira do mar.

O porto ficava de lado e desenvolvia-se ao longo da enseada bastante ampla, na qual os rochedos mergulhavam. Os becos eram sujos e de difícil acesso, com calçamento irregular e desconexo. O desnível era considerável, tanto assim que o próprio Lonerin não demo­rou a ficar ofegante. Mas aquele caos de fachadas coloridas, cada uma diferente das outras pelos afrescos que a distinguiam, falava com Senar numa linguagem conhecida. Barahar era a cidade mais típica da Terra do Mar. Homens provenientes de todos os cantos do Mundo Emerso circulavam por lá. Tudo que havia de bom e de horrível podia ser visto naquelas ruelas.

Lonerin acelerou o passo, tentando acompanhar o velho mago mais de perto. Parecia desnorteado, naquele lugar, e Senar não podia censurá-lo. Sabia que vinha da Terra da Noite, um lugar bastante frio e quieto. Em Barahar as pessoas berravam de uma janela para outra, os becos ecoavam com vozes gritantes e debochadas, e o ar cheirava a peixe. Eram todas as coisas que um verdadeiro habitante da Terra do Mar amava, mas que certamente deviam deixar um vi­sitante bastante confuso.

Infelizmente, àquela altura, ele tampouco conhecia bem a cida­de, e depois de algum tempo acabaram zanzando sem uma meta pre­cisa no gueto nas proximidades do porto. Quando o sol a pique in­dicou o meio-dia, abrigaram-se numa taberna para comer alguma coisa e decidir o que fazer em seguida.

O local fedia a fumaça de comida e tabaco, e Lonerin pareceu ficar pouco à vontade.

-           Não está gostando, não é? - perguntou Senar com um sorriso.

-           Não estou habituado - respondeu ele.

O taberneiro não demorou a reconhecer em Senar um conter­râneo. O mago ficou lisonjeado. Chegara a pensar que a longa per­manência em terras estrangeiras o tivesse despido de qualquer res­quício das suas origens, mas evidentemente não era assim. Foi um prazer saborear de novo a fala singela e mansa da sua gente, aquele jeito engraçado de arrastar as últimas letras das palavras. E a fami­liar