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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UMA ESPOSA COMPRADA / Ann Hulme
UMA ESPOSA COMPRADA / Ann Hulme

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

“O vento murmurava lá fora, derrubando as primeiras folhas secas do outono, e a lua apareceu entre as nuvens pondo reflexos de prata nas vidraças. Emily Weston teve a perturbadora impressão de que naquela casa nâo existia mais ninguém a nâo ser ela e o capitão Adam Harcourt... O homem que a comprara por uma dívida de jogo! Um estranho que lhe despertava as mais contraditórias emoções. Será que um dia conseguiria amá-lo?”

 

 

 

 

O vento penetrou com um assovio lúgubre por uma fresta ao lado da janela, fazendo dançar as chamas das grandes velas de sebo, que gotejavam e soltavam fumaça. Um oficial, apoiado na parede, pró­ximo da fresta, se afastou um pouco do ar frio e continuou a obser­var os jogadores. Foi então que um destes soltou um palavrão e jogou as cartas na mesa. Era moço, ainda, e atraente apesar de suas faces encovadas, olhos avermelhados, farda amarrotada e camisa suja. Os outros se encontravam nas mesmas condições. Tinham sobrevivido às lutas na Península Ibérica e se encontravam acampados numa al­deia perdida dos Pireneus, no inverno de 1813, esperando pelo avanço conjunto das forças britânicas no território francês. Nessa aldeia de montanha cuidavam dos feridos, dos enfermos; havia escassez de ca­valos e de mantimentos: era difícil imaginar que na primavera esta­riam em Paris. As comunicações eram péssimas: os estafetas do general Wellington percorriam as trilhas tortuosas de uma serra pra­ticamente desconhecida.

A tropa estava feliz com o descanso. Os oficiais se embebedavam com vinho local, namoravam as mocinhas, brigavam e jogavam, per­dendo o soldo antes mesmo de recebê-lo. Todos ao redor da mesa achavam-se endividados: com o alfaiate, o sapateiro e o seleiro, na Inglaterra, com o barbeiro e seus próprios criados, mas sobretudo com os colegas de farda. A maioria não se preocupava com isso, por­que tinha renda ou a família era rica. Quando chegassem à França, e entrassem vitoriosos em Paris, todas as dívidas seriam pagas.

O rapaz que jogara suas cartas na mesa estava numa situação di­ferente. Apoiou-se no encosto da cadeira, contrariado; os músculos ao redor dos lábios se contraíram ao apanhar a garrafa.

O homem perto da janela se aproximou da mesa, sem propósito aparente, e parou ao lado de outro jogador. Curvou-se por cima do ombro deste, como para examinar as cartas.

Kit está perdendo a rodo — murmurou. — Pela terceira noite seguida. E está bêbado.

O jogador não levantou a cabeça, e continuou concentrado no jogo.

O que quer que eu faça? Que largue uma mão boa, quando estou ganhando? — perguntou, também num murmúrio.

Você poderia levá-lo daqui. Estão no mesmo alojamento e já passa da uma. Diga que está cansado e sugira que o acompanhe.

E se ele não quiser?

Não recusará, porque sempre ouve você. Pro inferno, Adam! Logo alguém recusará o vale dele e acontecerá o diabo. Pelo menos, evite que aconteça hoje.

Não sou responsável por ele, diacho! — Adam apertou os lábios.

Ele é um oficial deste regimento! Se houver escândalo, estaremos todos envolvidos! Ele respeita você, qUe não tem apenas obri­gação com ele, mas com todos nós. Faça alguma coisa.

O capitão Adam Harcourt grunhiu algo ininteligível e se levan­tou. Os outros ficaram surpresos com o movimento brusco. Era muito alto, quase encostava nas vigas do teto, das quais pendiam carnes salgadas e garrafas. O rosto queimado pelo sol e pelo vento fazia-o parecer mais espanhol do que inglês. Olhou para todos.

—   Cavalheiros, é tarde. Vou me deitar. Preciso levantar muito cedo amanhã. Deus queira que os percevejos me deixem descansar... Kit, você me acompanha?

Em silêncio, os homens olharam para o rapaz. Este pareceu aliviado:

—   Sim, claro. Bob, posso lhe dar meu vale?

O jogador ao seu lado hesitou por um segundo e todos retiveram o fôlego. Recusar o vale significava duvidar da honra de um homem. Mais de uma vez a recusa de um vale levara a um duelo. Entretanto, Bob assentiu e todos relaxaram. O capitão Adam apanhou sua pe­sada capa e desceu pela estreita escada em caracol. Ao sair, viu que o céu estava coberto por nuvens baixas e pesadas. Nos postos avan­çados havia fogueiras, acesas pelas sentinelas para se aquecer. A porta da estalagem rangeu e Kit saiu, procurando por ele na escuridão. Jun­tos se dirigiram até a extremidade oposta da aldeia, onde partilha­vam um quartinho miserável, com piso de terra batida.

Quando entraram, Adam acendeu a única vela que tinham. Kit se sentou na borda de sua cama, segurando a cabeça entre as mãos, enquanto Adam tirava o cinturão, com o sabre, e as botas.

Estou acabado! — murmurou Kit.

Você é um tolo — respondeu o capitão, segurando uma bota. — E não diga que não avisei, Christopher Godfrey!

Sei. Sou o único culpado. Bob Morton estava a ponto de não que rer meu vale, eu percebi. E não saberia o que fazer se ele recusasse. Está zangado comigo, não? Sempre está, quando diz meu nome inteiro...

 

Estou cansado de lhe dar conselhos — respondeu o oficial Harcourt e jogou a bota num canto, pondo em fuga um certo número de ratos. — Não sou seu guardião, mas ouça: fique longe do jogo, pelo menos até o fim desta campanha.

Se é que vai ter fim! — resmungou Kit, descrente.

O capitão Adam suspirou e disse, em tom menos brusco:

Calculo que em março, ao mais tardar, estaremos em Paris, passeando no bosque de Boulogne. Os russos já chegaram ao Reno há uma semana. Bonaparte está acabado, você e eu estaremos de volta à Inglaterra no verão, festejados como heróis!

Isto vale para você — respondeu Kit, desanimado. — Nem sei como poderei voltar para casa e contar quanto estou devendo, de­pois pedir a minha família que pague...

E sua família não pode? — Era uma pergunta tranquila, mas ele observava atentamente o rapaz.

Poder, pode... mas não é justo. Minha mãe é viúva. Teria que usar o dote de minha irmã e comprometer o futuro dela. Está noiva de um sujeitinho miserável e avarento, que poderia desmanchar o compromisso ao saber que o dote se foi para pagar minhas dívidas.

Você deve tanto assim? — O capitão o observava preocupado.

É... Noutro dia comecei a fazer contas e fiquei tão assustado, que parei quando cheguei a oito mil libras. Talvez pudesse arranjar dinheiro com um agiota.

Seria a maior de todas as tolices. Os agiotas cobram juros.

Às vezes realmente gostaria de ter a coragem de encostar a pistola na cabeça e terminar com tudo. — Caiu para trás, sobre a ca­ma, e cobriu os olhos com o braço.

Chega! — zangou-se Adam. — Se pensasse que você fala sério eu o desarmaria pessoalmente.

Não se preocupe, falta-me a coragem. — Observou o companheiro que se despia para se enfiar embaixo dos cobertores. — Adam, o que vai fazer quando voltar à Inglaterra? Vai dar baixa?

Acho que sim... — À luz bruxuleante da vela, a figura nua do capitão, parado no centro do quarto, parecia de um antigo gladiador; segurava a camisa, rasgada no ombro. — Não tenho mais uma camisa inteira! Vou ter que comprar algumas na primeira cidade que atravessarmos, na Espanha ou na França.

O que vai fazer depois de dar baixa? Você está bem de vida, não? Tem terras em algum lugar?

Em Essex. E acho que vou virar camponês...

Não consigo vê-lo assim... — O rosto juvenil de Kit deixou demostrar desânimo por alguns instantes. — Adam Harcourt passeando em seus campos de nabos, já imaginou?

E daí? Mas minha ideia é criar cavalos de corrida. Estou com muita vontade de criar um ganhador do Derby. Sou alto e pesado demais para montar um cavalo assim, é claro, mas seria interessante juntar um bom plantei. Só que, antes de qualquer outra coisa, terei que me casar.

Não sabia. Quem é a felizarda? — Kit perguntou, surpreso.

Eu não... Quero dizer, ela não existe. Não conheço moça ne­nhuma na Inglaterra. Não estive em casa nestes últimos cinco anos; tenho a obrigação de gerar um descendente e para isto preciso de uma esposa. Pode ser uma moça qualquer, entre os dezoito e vinte e oito anos, que seja sensata e tenha boa saúde.

Deu uma risada amarga e continuou:

—   É como criar cavalos de corrida. Precisa procurar uma boa égua, de fôlego, sem defeitos, de boa linhagem. Gostaria que não fosse feiosa como um poste e, sobretudo, que não cantasse. Odeio ouvir mulheres uivando nos saraus. Não é que não goste de música. Eu gosto, sim, por isso detesto quando a assassinam. — Levantou o cobertor e, com uma careta, deitou-se sobre o colchão de palha. — Deus, como gostaria de uma cama decente, com lençóis limpos... Apague logo essa vela, sim, Kit?

Kit tirou as roupas, amassou o pavio com dois dedos e, com uma exclamação de protesto, enfiou-se na cama gelada. Voltou a falar

no escuro.

—   Sabe, invejo você. Tem alguma coisa a fazer... Logo ouviu um resmungo:

—   Alguma coisa a fazer? Será um horror, passear pelos salões, à procura de uma esposa conveniente... Prefiro enfrentar a artilharia francesa. Pode acreditar, se você pudesse me poupar isto e me apresentar uma esposa sob medida, eu até pagaria todas as suas dívidas.

Fala sério? — perguntou Kit, ansioso. — Faria isto?

Faria, sim... — o capitão Adam virou a cabeça sobre o travesseiro. — Não diga que você conhece uma moça assim em algum lugar?

—   Conheço, sim! — Kit se sentou e começou a procurar o isqueiro, e conseguiu uma fagulha para reacender a vela. Seu rosto jovem apareceu, animado por um novo entusiasmo. — Conheço exatamente a moça que você procura, Adam, eu juro... e não é feiosa! Pelo menos não era quando a vi péla última vez.

— Quando foi isto? — perguntou o amigo, desconfiado.

       Deixe-me ver... — Kit contou nos dedos. — Há quatro anos.

Olhe que não era uma beleza... mas agradava. E tem cinco mil li­bras. Sei que não é muito, mas é melhor que nada.

O capitão Harcourt virou para o lado e se apoiou no cotovelo.

       E quem é esta campeã de meios modestos e com todas as vir­tudes?

       A pupila de meu finado pai. Emily Weston.

—   Emily! — exclamou o amigo. — Não posso passar o resto de minha vida casado com uma mulher chamada Emily. É um nome que detesto.

—   Ora, pode chamá-la por um outro nome, se quiser, aposto que ela se acostumaria. Ela é saudável e tudo o mais... Só é um pouco tímida. Foi criada num ambiente tranquilo. Meus pais não eram de muitas festas. Acho que Emily e minha irmã Hester não tiveram uma vida divertida. Se Hester tivesse tido oportunidade de conhecer mais gente, não estaria noiva daquele sujeito de cara avermelhada. Emily nunca conheceu ninguém. Ela não costuma cantar, tocar piano ou harpa. É uma moça muito prática: ou costura ou lê. Mas ler é ótimo, não faz barulho, e significa que você não é obrigado a conversar. E é cheia de boa vontade, sabe... sempre pronta a pregar um botão, coi­ sas assim, e não faria um escândalo se você chegasse em casa bêbado.

E se eu pagar suas dívidas de jogo, você me apresentará esta moça extremamente tediosa, mas excelente?

Darei um jeito... Sei que mamãe deseja muito que Emily se case. Quero dizer, ela gosta muito de Emily, que já deve ter seus vinte e seis anos, e uma moça deveria estar casada com essa idade, não é? Honestamente, Adam, seria uma esposa perfeita, não daria o me­nor trabalho, só ia querer criar os filhos e dirigir um lar harmonioso.

O sr. Harcourt se recostou com as mãos embaixo da nuca.

Está bem, concordo. Eu lhe darei dez mil libras... e você me dará essa... como se chama mesmo? Emily de Tal.

Emily Weston. E ela vale cada xelim dessas dez mil libras. Ju­ro, Adam, que é o melhor negócio de sua vida.

O capitão se lembrou de ter ouvido essas palavras em outras opor­tunidades, em geral de cavalheiros que desejavam lhe vender algum pangaré manco. Por outro lado, sabia que o rapaz tinha chegado ao fim da linha, por causa das dívidas de jogo, e, se alguém recusas­se seu vale, poderia até, num momento de bebedeira e desespero, estourar os miolos. E aquela moça provavelmente ia ser tão boa quan­to qualquer outra.

—   Neste caso, aqui está minha mão. Aperte — falou esticando o braço musculoso.

Kit apertou e sacudiu aquela mão com energia.

Você não vai se arrepender. E Emily ficará encantada de se casar com um herói da Península, condecorado e tudo o mais. Pen­sará que você é algo de muito especial.

Não sei quem é o capitão Harcourt — disse Emily Weston —, mas acho que deve ser uma pessoa muito indelicada e sem educação. Não deveria falar assim, mas mesmo sem conhecê-lo, e olhan­do para isto, eu já o detesto!

Esticou o pé e empurrou com desdém um pequeno baú, no centro do hall. Ao seu lado, Hester Godfrey suspirou.

—   É um amigo de Kit e teremos que lhe dar as boas-vindas. Só que concordo com você, Emily: há tanto tempo não víamos Kit, e ele passou muitas dificuldades na Espanha. Mal voltou, este Harcourt escreveu que viria para uma visita, sem dizer por quanto tempo. Mamãe está preocupada, porque Kit diz que o capitão tem uma renda de quinze mil libras e foi para a guerra por gosto. Está acostumado a viver muito bem em sua própria casa e aqui terá que se satisfazer com carneiro assado e bolinhos de maçã. Ele vem a cavalo, sozinho: parece que pretende cuidar de alguns negócios no cami­nho. Quem sabe quando vai chegar!

Maçãs! — exclamou Emily. — Estava justamente querendo ir até a chácara e trazer maçãs..

O dia está muito quente, Emily! — protestou Hester. — E não posso acompanhá-la, porque espero a visita de George.

Não faz mal — Emily se apressou a dizer.

Entre George e ela não havia muita simpatia. Limitavam-se a uma troca polida de banalidades, quando eram obrigados a conversar. A cozinha do chacareiro Honeyburge, com seu chão de pedra, o fo­gão sempre aceso, no inverno ou no verão, as galinhas que entra­vam e saíam à vontade e o nenezinho mais recente, bem enfaixado no cueiro e pendurado num gancho, longe de qualquer perigo, eram muito preferíveis a qualquer conversação com George.

—   Se eu me cansar — disse —, sento na beira do córrego...

Apesar de tanto otimismo, Emily reconheceu que o calor era can­sativo, sobretudo porque carregava uma cesta cheia de maçãs. Ca­minhava por teimosia, consciente de estar empoeirada, suada e com os pés doloridos. Quase desejava que George Arbuthnot, o noivo

de Hester, aparecesse na estrada e lhe desse uma carona. Achou me­lhor descansar um pouco.

Através das árvores podia ver uma campina, atravessada por uma fileira de choupos que margeava o córrego. A campina estava toda florida e cheirava a capim pronto para o corte. Emily a atravessou e foi se sentar na ribanceira, abanando-se com o chapéu de palha. O céu era de um azul profundo e ouvia-se o canto de um melro. Emily se entregou a reflexões sobre assuntos domésticos. Desejava que es­te verão de 1814 fosse feliz. Kit tinha voltado para casa, em boa saúde, bronzeado, e parecendo mais velho, a ponto de quase não o reco­nhecer. Estava sendo mimado por ela, por Hester e pela mãe. Emily sempre considerara Kit um irmão, da mesma forma que pensava em Hester como irmã. Vivia com os Godfrey desde os nove anos e pra­ticamente nunca se afastara de lá.

Viu um pato passar, flutuando, com a correnteza: pensou que se­ria gostoso viajar e lembrou de Kit, descrevendo países e povos dis­tantes. Ele dificilmente criaria juízo. A sra. Godfrey também pensava assim. Não dera baixa no Exército, esperava para ser desmobiliza-do, agora que Napoleão se encontrava preso na ilha de Elba e pre­tendia receber, até lá, seu meio soldo do governo.

A vinda do capitão Harcourt ia complicar o processo de amadureci­mento de Kit: parecia que o homem exercera uma grande e nem sempre benéfica influência sobre ele. Iam reviver, dias a fio, todas as bata­lhas. Leigholm ia parecer-lhe quieta e tediosa demais, sua mãe, a ir­mã e Emily, enfadonhas. Começou a desejar que o amigo de Kit se envolvesse em algum acidente, não muito grave, que evitasse sua visita. Sabia que o capitão tinha grandes e ricas propriedades em Essex e desejava criar cavalos de corrida. Neste caso, pensou Emily, pro­vavelmente ia se dar bem com George Arbuthnot, cuja disposição bucólica levava a entediar todos, enumerando as vantagens do gado de raça e das porcas premiadas.

Uma brisa fresca varreu a campina. Emily parou de se abanar, olhou para a estrada, que continuava deserta, e tirou sapatos e meias. Enfiou os pés n'água. Estava realmente fria. Começou a bater os pés, como uma menina e o movimento soltou os grampos que segu­ravam o coque no topo da cabeça. Cachos compridos caíram sobre seus ombros.

Emily sabia que aquele maravilhoso dia de verão não poderia durar para sempre... Tinha vinte e seis anos e ainda estava solteira. O lar dos Godfrey poderia ser seu lar até quando quisesse e a sra. Godfrey admitira que desejava sua companhia, depois do casamento de Hester.

Mas Emily, querida — acrescentara em seguida —, seria muito egoísta se lhe pedisse isto, caso haja uma possibilidade mínima de encontrar marido. Você precisa ter seu próprio lar, sua própria família, e não fazer companhia a uma velha.

Madame, realmente estou muito feliz aqui.

É possível, Emily... mas não está certo. Gostaria que algum cavalheiro se interessasse por você.

—   Madame, não penso nisto! — protestara Emily com veemência. A conversa terminara, como sempre, com a sra. Godfrey tentando acalmá-la, reafirmando que Leigholm House seria sempre seu lar.

—   Mas não poderá ser — disse Emily a meia voz. — Qualquer dia Kit terá uma esposa e não haverá mais espaço para mim.

Estava tão preocupada com o problema que não percebeu que o chapéu deslizara para a água e começava a se afastar com a corren­teza. Ficou indignada: era um chapéu relativamente novo e não de­sejava perdê-lo. Arregaçou a saia, levantou as anáguas até os joelhos e se aventurou no córrego. Era raso, mas a corrente era rápida, e não conseguiu agarrá-lo antes que fosse para águas mais profundas. Chegou até a curva do córrego, rodopiando no remoinho e depois se enroscou nos galhos baixos de um chorão. Ficou desapontada.

—   Ora, diacho! — exclamou, de modo não muito apropriado para uma moça.

Ouviu, atrás de si, uma gargalhada masculina e o rincho suave de uma cavalo. Virou a cabeça tão depressa que quase arranjou um tor­cicolo: a poucos passos da margem viu um oficial montado, com os braços cruzados sobre o cepilho. Parecia achar a cena divertida. Emily não achou graça. Descabelada, descalça, com a saia molhada e as anáguas arregaçadas até as coxas, colocou agressivamente as mãos na cintura.

Vá embora! — gritou.

Não se zangue, querida — ele respondeu, gentilmente. — Irei buscar seu chapéu.

Os calcanhares encostaram nos flancos da montaria, que entrou na água. Emily ficou a observá-lo, enquanto se aproximava do cho­rão. A água tocava na barriga do cavalo e molhava as botas lustro­sas do cavaleiro. Ele se curvou, apanhou o chapéu e o sacudiu, olhando para ela.

Emily saiu do córrego perto da cesta de maçãs, dos sapatos e das meias. Ouviu o cavalo saltar para a ribanceira e escondeu as meias embaixo das maçãs. Depois se sentou, enfiando os pés sob a saia. Ele parou o animal perto dela e desmontou. Emily achou que era

o homem mais alto que já vira até então; sua altura parecia ainda maior porque estava de pé e ela sentada no chão. Obviamente, este pensamento ocorreu ao oficial, porque se sentou na grama. Ficaram no mesmo nível.

Seu cavalo pode fugir — ela disse.

Não. Ele sabe que com as rédeas pendentes deve ficar parado. Seu chapéu está um pouco molhado. Não poderá usá-lo domingo para ir à igreja.

O tom era condescendente: devia pensar que ela era filha de al­gum chacareiro. Emily estendeu a mão, mas ele não soltou o chapéu.

—   Acho que mereço um prémio — disse com olhar malicioso e seus lábios indicavam a vontade de rir.

Emily resolveu não dizer que estava enganado. Considerando o seu estado, era melhor que ele não soubesse quem era.

—   Não pedi para buscar meu chapéu. Pode ficar com ele, se qui­ser — respondeu.

Ele encolheu os ombros e colocou o chapéu no chão, no lado mais afastado de Emily. Parecia ter tomado a frase ao pé da letra.

Se não posso ganhar um beijo, posso pelo menos pegar uma maçã? — perguntou.

Mas é claro — respondeu Emily, imitando a pronúncia cam­pestre, e acrescentou: — Sim, senhor.

Ele tirou uma maçã da cesta e deu uma boa mordida.

De onde vem? — perguntou, enquanto mastigava.

De lá debaixo — ela respondeu apontando para os tetos distantes da chácara Honeyburge.

Imagine que pensei ter descoberto uma náiade moderna dançando na água! Parei para deixar o cavalo beber e quando a vi pensei que fosse mágica do sol... mas a.,aparição era real. Você sabe ler, benzinho?

Sim, senhor. Leio minha Bíblia — foi a resposta recatada.

—   Ah, hum, isto é ótimo. Não posso dizer o mesmo, mas estou errado e você está certa. Queria saber se já ouviu falar em náiades. Acho que nãb, não pode ter estudado os clássicos. Eram ninfas aquáticas que, às vezes, agarravam um viajante e o arrastavam até o fun­do das águas, para ficar com ele.

Os olhos azuis de Emily o fitaram, maliciosos.

—   Acho difícil que possam fazer isto com o senhor, por causa de seu tamanho, e poderia se livrar dela num instante.

Ele se deitou de lado e agitou uma haste de capim.

—Mas poderia não querer me livrar dela! — devolveu-lhe o olhar malicioso e piscou.

bre a turfa e ficou em cima dela, imobilizando-a com seu peso con­siderável. Antes que Emily conseguisse soltar um grito, a boca dele apoderou-se dos lábios dela.

Ficou aterrorizada. Até aquele momento, nenhum homem fizera isso com ela. Não sabia o que fazer e, sobretudo, não sabia se ele não iria além. As moças do campo eram consideradas presas legíti­mas dos jovens cavalheiros, especialmente dos militares e dos estra­nhos de passagem. Talvez ele pensasse pagar uma certa quantia se o encontro tivesse consequências. Já oferecera meia coroa a ela... As jovens damas eram sempre tratadas com respeito, sobretudo por­que seus admiradores procuravam o prazer nas classes inferiores. As perguntas sobre a srta. Weston indicavam que ele planejava um pe­queno flerte com ela, durante sua estada, para espantar o tédio do campo, mas suas intenções com ela eram óbvias.

Emily conseguiu livrar uma das mãos, que colocou no rosto dele e empurrou com todas as forças.

—   Não faça isto — arfou, quando conseguiu falar. — Por favor...não queria provocá-lo. Era só uma brincadeira... na realidade não sou...

O peso que a sufocava ficou mais leve, graças a Deus. Ele se apoia­va nos braços e a examinava, pensativo. Emily não entendia sua ex­pressão, mas ele parecia ouvi-la e continuou:

—   Deixe-me ir. Não quero meia coroa, não quero nada, nem mes­mo meu chapéu...

Ele não disse nada mas a largou. Quando conseguiu se levantar, viu que ele se afastava um pouco. Assoviou. O cavalo, que pastava, levantou a cabeça e se aproximou. O homem segurou as rédeas e mon­tou com agilidade, depois virou o animal em direção de Emily. Ela estava de pé, tentando pôr os cabelos e as roupas em ordem. Viu que o capitão não parecia mais achar graça e, então, ela sentiu mais medo do que quando ele a segurava no chão. Sentiu-se profunda­mente envergonhada quando o oficial disse:

—   Devo-lhe meia coroa pela informação... Emily sacudiu a cabeça, sem poder falar.

—   Você ganhou honestamente — afirmou, seco. — Não precisa mentir a respeito, se lhe perguntarem onde arranjou o dinheiro.

Jogou a moeda, que descreveu um arco e caiu aos pés dela. De­pois, despediu-se com um aceno, bateu com os calcanhares nos flan­cos do cavalo, que se pôs a galope, dirigindo-se, ribanceira acima, para a estrada.

 

George Arbuthnot, o noivo de Hester, era um jovem fleumático, já bastante encorpado e o paletó azul abotoava-se a custo sobre uma cinta para cavalheiros. Suas feições não eram desagradáveis, embo­ra pesadas: os olhos azul-claros eram protuberantes. Estava um pouco contrariado porque uma túnica militar era sem dúvida mais atraen­te do que o paletó azul.

Já estava farto de todas as histórias contadas pelo irrequieto Kit, desde sua chegada, e tivera que aturar seus modos um pouco livres, por se tratar do irmão de sua prometida. Mas agora havia mais um militar, completamente diferente: tinha uma estatura de lutador e olhava para todos com insolência. Por outro lado, sabia por inter­médio de Hester que o capitão Harcourt tinha uma renda de quinze mil libras ao ano, uma grande extensão de terras e era primo em se­gundo grau de um Par do Reino: detalhes que impressionavam mui­to mais que uma túnica vermelha cheia de fitas de campanhas.

O senhor vai administrar suas terras, agora que está de volta, capitão? — perguntou, amavelmente, como mandava a boa edu­cação.

Duvido. Andei chafurdando por demais na lama durante es­tes cinco anos — respondeu secamente Adam.

George ficou ofendido, a sra. Godfrey pareceu um pouco choca­da, Hester soltou uma gargalhada e Kit lançou ao amigo um olhar agoniado.

Entretanto — o capitão continuou, vendo o efeito de suas palavras —, estou interessado na criação de animais puro-sangue. Como ainda não dei baixa do Exército, não fiz nada, a não ser olhar alguns animais promissores no Tattersalls.

Cavalos de corrida? — exclamou George, com entusiasmo. —Pessoalmente estou interessado na criação de animais de raça: suí­nos malhados, capitão. Gostaria de ver meu varrão premiado?

Onde está Emily? — perguntou Kit em voz alta. — Por que não está aqui? Eu esperava que ela, quero dizer, esperava que todos estivessem aqui quando Adam chegasse!

Ela foi até a chácara de Honeyburge — disse Hester. — Já deveria ter voltado. Aliás, tenho a impressão de ter ouvido a voz dela há meia hora. Provavelmente ficou cansada com o calor e está no quarto. Quer que vá chamá-la, mamãe?

Deixe-a estar, querida, que descanse um pouco. Emily aparecerá para o jantar e tenho certeza de que o capitão Harcourt poderá desculpar seu atraso.

O capitão, que até aquele momento parecia vastamente entedia­do, endireitou-se de repente.

A chácara Honeyburge? Onde há uma série de construções que podem ser vistas da campina ao lado do córrego?

Exatamente — respondeu a sra. Godfrey.

Por quê? — perguntou Kit, desconfiado.

Pedi informações sobre o caminho a uma moça, na campina. Talvez, uma filha de Honeyburge?

A este ponto Kit, sem se deixar enganar pelo tom displicente do amigo, ficou francamente alarmado e fez um sinal, indicando a mãe e a irmã. O sr. Arbuthnot, vendo aquela pantomima e entendendo perfeitamente seu sentido, chegou à conclusão de que o capitão trou­xera consigo a baixa moral da península. Não era de se admirar, mas se pretendia arruinar moças da aldeia, sua estada não seria muito longa... ^Recentemente, George fora indicado para magistrado.

—   Ele tem várias filhas — respondeu a sra. Godfrey, sem qualquer malícia. — Todas são garotas educadas e boas. Vai jantar conosco, George?

O sr. Arbuthnot pediu desculpas por ter um compromisso e, com grande alívio de todos, exceto Hester, explicou que não poderia ficar.

Emily passara, sorrateiramente, ao lado da porta da sala, ouvin­do o murmúrio da conversa, e se refugiara em seu quarto. Ficou sen­tada na beira da cama, refletindo sobre o que julgava ser o dia mais desastrado de sua vida. E o pior ainda estava para acontecer, por­que poderia ficar ali até o jantar, mas depois teria que descer e en­frentar o capitão Harcourt. Ao reconhecê-la, ele ficaria furioso por ter sido enganado e não aceitaria o fato de ela o ter feito de tolo. Precisaria pedir desculpas, por causa de Kit. Era claro que ele esti­mava muito o amigo. Além disso ela e Hester haviam prometido que lhe dariam as boas-vindas.

Não deveria ter entrado no córrego descalça e, depois de desco­berta, deveria ter revelado sua real identidade. O comportamento do capitão não podia ser considerado exemplar, mas fora o que era de se esperar naquelas circunstâncias.

Emily não era uma ingénua: alguns anos antes, uma empregada da casa recebera algumas fitas vermelhas de um mascate, para fazer amor. O resultado fora um bebé que acabara no asilo dos enjeita­dos e o mascate desaparecera. Pelo menos, me ofereceram um gui­néu, e foi um cavalheiro, refletiu Emily. Entretanto, deveria ter lembrado logo que o estranho só poderia ser o convidado de Kit e só lhe restava rezar para que ele fosse suficientemente cavalheiro para não contar o acontecido. Mais tarde ela pediria desculpa.

Lavou-se, pôs um vestido de musselina branca, bordada. Esco­vou os cabelos castanhos e os arrumou num penteado vagamente gre­go. Quando o campainha tocou para anunciar o jantar, desceu. Sua entrada foi triunfal, além de qualquer imaginação. — Emily! — gritou Kit, indo dar-lhe a mão. — Onde esteve? Meu amigo Harcourt chegou e queria que o conhecesse. Desculpe seu ta­manho, mas ele é inofensivo! Adam, esta é a pupila de meu pai, a srta. Weston, que desejava muito conhecê-lo.

O capitão Adam e Emily ficaram parados, se enfrentando, com-pletamente mudos. Kit percebeu que Emily estava muito pálida, mas julgou que fosse consequência da timidez. Quando, porém, olhou para o amigo, viu que erguera o rosto, muito vermelho, e apertava os lábios. Conhecia aquela expressão agressiva.

Seu criado, srta. Weston — murmurou finalmente o sr. Adam, segurou a mão de Emily e se curvou. — Ouvi falar muito na senho­rita, mas Kit não disse que era tão encantadora.

Como está, senhor? — sussurrou Emily. — Espero que tenha feito uma boa viagem.

Obrigado, foi excelente e repleta de aventuras!

Ele percebeu que a mão da moça tremia e compreendeu que ela receava o relato do que acontecera na tarde. Sacudiu quase imper-ceptivelmente a cabeça e os olhos azuis ficaram mais calmos.

—   Ótimo! — exclamou Kit. — Vamos demolir o carneiro assa­do! Mamãe... Hester! — Tomou o braço de ambas e disse por cima do ombro: — Adam levará a srta. Weston até a mesa!

O capitão Adam ofereceu-lhe o braço e ela olhou ao redor. Não podiam ser ouvidos.

Sinto muito — sibilou. — Foi uma brincadeira, não conte à Kit. Prometa!

Não direi nada — ele respondeu secamente. — Não costumo arruinar a reputação de damas, contando suas mais rematadas tolices! Não foi tolice! — A irritação substituiu a ansiedade, as feições clássicas ficaram coradas, lembrando as de algumas moças es­panholas, como também o génio, achou o capitão. — Já disse, foi uma brincadeira. Está bem, uma brincadeira tola, mas eu não sabia quem era o senhor.

E não sabendo quem eu era, foi tola em querer brincar! — ele retrucou, seco. — Nunca mais faça isto!

Que arrogância! Como ousa falar comigo deste jeito? Que di­reito tem de dizer o que posso ou não posso fazer?

Alguém deveria dizê-lo — ele explicou, calmo. — Não foi um comportamento digno de uma dama. Tanto assim que a senhorita não gostaria que Kit ou a sra. Godfrey soubessem.

Acredito — observou Emily, cerrando os dentes —, que o senhor também não gostaria que soubessem de seu comportamento. Se bem me lembro, o senhor me ofereceu um guinéu!

Sem dúvida. E se quisesse tomar o que julgava de direito por esse dinheiro, a senhorita não poderia ter feito nada para me impedir! — foi a resposta franca. — Eis porque a façanha foi tola e não vai repeti-la!

Não aceito ordens do senhor e aqui não é um quartel, capitão Harcourt. É óbvio que há tempos o senhor não tem o privilégio da companhia de damas, apenas teve outras companhias.

O que a senhorita sabe a respeito?

Não sou a idiota da aldeia, capitão — afirmou Emily. — Vivo na província mas tenho olhos e ouvidos! E um cérebro também!

Então, faça-o funcionar! — rosnou o sr. Adam, com um olhar furioso.

Muitos recrutas tinham tremido sob aquele olhar, mas ele se espi­chou em toda sua altura, o que permitia que seu nariz alcançasse a trança dourada do meio da túnica do oficial.

Serei educada com o senhor, capitão, enquanto estiver aqui, mas apenas como um favor a Kit e quero que saiba disto. Gostaria de ter nascido um homem — acrescentou com severidade. — Então poderia desafiá-lo!

Se a senhorita fosse um homem — respondeu ele e sua carranca desapareceu —, não teria acontecido nada. Mas que génio! Quase como o de uma cigana. Deveríamos entrar e comer. Se nos atrasarmos mais, só encontraremos ossos e é muito desagradável não conseguir encher a barriga.

Não faltará comida. Estive na cozinha e disse à cozinheira para fazer mais. Depois de conhecê-lo, tive certeza de que comeria fei­to um cavalo, de acordo com seus modos de estrebaria!

Ao redor da mesa, o ambiente ficou tenso e sem graça. Kit, po­rém, falava sem parar. O capitão Harcourt falava o menos possível e apenas por educação. Só uma vez deu um susto em Emily, quando chegou a sobremesa.

Ah! — exclamou. — Maçãs ao forno, meu prato preferido! Emily foi buscá-las na chácara hoje, são fresquinhas — expli­cou Hester.

Verdade? Agradeço de coração, srta. Weston. Madame, foi um jantar maravilhoso! — acrescentou, olhando para a anfitriã.

A sra. Godfrey ficou contente. Estivera muito preocupada por não haver pudim. A cozinheira era boa, mas estava acostumada apenas com o trivial e não saberia fazer um d©ce tão elaborado. O capitão não falara muito e ela pensou que talvez estivesse achando o jantar inferior.

— Nossa vida é simples — respondeu a senhora. — Espero que Christopher o tenha prevenido, capitão. Por outro lado, acredito que na Espanha precisaram se acostumar com toda espécie de alimentos estranhos.

O oficial sorriu, sem responder e Emily estranhou. Já percebera que ele preferia deixar Kit falar, no entanto, não era tímido. Talvez o fizesse por não gostar de se lembrar da guerra. Ou vai ver que, simplesmente, estava emburrado, apesar de ser um adulto. Não. Não podia ser isso. Com certeza apenas deixava que Kit contasse as aven­turas e entreveros, por saber o quanto ele gostava. Admirou-o e achou que se o rapaz continuasse falando daquele jeito acabaria ficando tão maçante com as histórias da península, quanto o sr. George, com as histórias dos porcos malhados.

Teve vontade de saber a idade do capitão. Devia ser mais velho do que Kit, só que não devia ter mais de trinta anos. O ar sombrio, a pele bronzeada, o tamanho e a estrutura sólida é que o faziam pa­recer mais velho do que era.

Emily mexeu-se na cadeira. Reconhecia que ele era muito atraen­te e, na certa, não estava acostumado a ver recusados os seus dese­jos. Poderia ter insistido em obter o que julgava valer um guinéu e ficou pasmada ao perceber que não conseguia descobrir o que a levara a tomar aquela atitude provocante. Sentindo-se um pouco cul­pada, tentou imaginar como poderia ter sido...

Ele teve a percepção de estar sendo observado e a fitou. Emily achou que havia nele uma atitude de desafio. Enrubesceu, mas um traço um pouco perverso de sua personalidade a levou a aceitá-lo.

Por que não nos conta suas aventuras, capitão Harcourt? —perguntou num tom levemente azedo, com uma certa ênfase na pa­lavra "aventuras".

Na verdade, srta. Weston — ele respondeu e havia um aviso em seus olhos escuros —, não pensei que quisesse ouvi-las. Tenho certeza de que Kit já contou tudo o que havia a contar.

Kit ficou indignado ao ver que seu convidado se recusava a bri­lhar por si mesmo e conseguiu lhe dar um pontapé por baixo da mesa.

Por que não conta daquela vez que nos perdemos e acabamos encontrando os irregulares espanhóis? — perguntou.

Quando fala em "irregulares", meu amigo Godfrey quer dizer guerrilheiros, espanhóis refugiados nas montanhas, que atrapalhavam as comunicações francesas. Era uma turma pitoresca mas pouco recomendável. Não acredito que a srta. Weston ou a srta. Godfrey achassem interessante uma descrição mais detalhada das atividades deles — declarou o capitão Adam.

Bobagens! — protestou Kit. — Fomos naquela direção para... ahn... jantar com oficiais,de um regimento de dragões acampado perto do nosso.

Ao ouvir "jantar", as sobrancelhas de Adam ergueram-se e Emily percebeu. Na verdade, e ela não podia imaginá-lo, aquela fora uma noite de bebedeira e de carteado com cacife altíssimo. Pelo jeito, nin­guém entre os parentes do rapaz suspeitava de sua fraqueza pelos jogos de azar. Mais cedo ou mais tarde á verdade teria de vir à tona pois nenhum jogador livrava-se com facilidade do vício. Kit levara um susto muito grande, mas acabaria por esquecer e logo voltaria à tnesa de jogos.

Enquanto voltávamos — dizia o rapaz —, tomamos o caminho errado. A noite parecia um breu, até o despontar da lua, e a chamada estrada era apenas uma trilha. De repente, deparamos com aqueles camaradas. Confesso que levei um choque e fiquei agrade­cido ao luar, que permitiu que vissem nossas fardas inglesas. Fomos logo convidados a tomar um trago e nos prometeram um guia. Não queríamos ofendê-los e fomos com eles até o acampamento. Ali des­cobrimos que tinham um prisioneiro francês, um estafeta, captura­ do pouco antes. Quando este nos viu, começou a fazer muito barulho. Eu não entendia direito as palavras, meu francês nunca foi muito bom, mas era claro que pedia para ser tirado das mãos daquela gente.

E estava certo — interrompeu o capitão. — Eles o matariam com certeza.

Portanto — continuou Kit —, explicamos que era um prisioneiro necessário aos ingleses, mas eíes não queriam entregá-lo. Adam não quis ouvir recusas. Desembainhou o sabre e os atacou, aos gri­tos em espanhol. Depois libertou o prisioneiro e explicou que te­riam que ir buscá-lo se o quisessem, mas eles desistiram. Saímos de lá com o francês. O pobre chorava enquanto agradecia ao capitão por lhe ter salvado a vida. Fiquei com uma sensação desagradável entre as espáduas, até que saímos do alcance dos mosquetes dos ir­regulares.

O senhor foi muito corajoso, capitão Harcourt — disse Hester, impressionada.

Fiz minha obrigação, srta. Godfrey. O estafeta tinha, com certeza, informações que poderiam ser úteis. Infelizmente, os guerrilheiros destruíram sua sacola de despachos quando descobriram que não poderiam lê-los, em vez de mandá-los à unidade inglesa mais próxima. O defeito daqueles camaradas era este: excesso de entusiasmo e pouco bom senso.

Mesmo assim, teve muita coragem! — comentou Emily, olhando para a toalha.

Ele hesitou, pareceu querer falar, mas voltou a emudecer.

O dia seguinte amanheceu radioso. Logo depois do desjejum Emily foi até o fundo do jardim e refugiou-se no velho quiosque, que já estava quase caindo aos pedaços, onde brincara de casinha com Hes-ter quando ambas eram crianças. Não queria que Kit a convidasse para dar uma volta com o capitão Harcourt no modesto parque da família. Ainda não sabia até quando o hóspede iria ficar. Ele prova­velmente era um homem de valor e um excelente soldado, que parti­lhara de muitas aventuras de Kit, mas ela ressentia-se pela sua presença. Não sabia se teria a mesma reação se não o tivesse encon­trado na campina, perto do córrego. Chegou à conclusão de que ainda assim o consideraria desconcertante e desejaria que ele fosse embora. Ouviu passos masculinos. O grito que lhe subiu à garganta se trans­formou numa exclamação de alívio. Era Kit.

Ah, é você, Kit!

Por quê? — Kit se sentou ao seu lado, sobre o banco. — Quem pensava que fosse?

Receava que fosse seu amigo, o capitão — ela confessou. —Acho que realmente não o aguentaria hoje de manhã. Ele é seu convidado e seu amigo, mas por favor, Kit, não faça qualquer progra­ma, porque se o fizer, vou inventar uma enxaqueca.

Não é possível que você sinta o que diz — ele protestou e Emilysentiu-se culpada ao vê-lo tão desgostoso. — Você não gosta dele, Emi?

Não gosto muito, não. Mas vou ser polida, não se preocupe.

Por que não gosta dele? O que ele fez para aborrecê-la?

Nada... Só que apareceu aqui tão depressa, depois de sua volta, e nós pensávamos que poderíamos ficar só com você por um tempinho.

É só isto? — Kit pareceu aliviado. — Então, não é não gostar! Tinha certeza de que gostaria dele!

Tinha, mesmo, é? — A irritação da moça crescia a cada mo­mento. — E posso saber por quê?

-r- Porque todas as mulheres gostam dele — explicou Kit. E logo acrescentou: — Ouça,.não pretendo que...

—   Você não precisa explicar, Kit! — interrompeu Emily. — Sei muito bem o que quer dizer. Não sou dessas mulheres loucas por farda e o capitão Harcourt não me interessa.

Kit ficou em silêncio por alguns momentos, depois murmurou:

Ele tem quinze mil libras de renda por ano.

Que bom para ele. Desejo-lhe muita sorte e uma longa vida. Apenas não quero sua companhia.

A maioria das mulheres pensaria que é um excelente partido! — teimou o rapaz.

Kit! — Ela arregalou os olhos azuis e ele enrubesceu. — Você não está sugerindo que eu o conquiste?

Não, não! De qualquer forma, isto não seria necessário. Eu sei que ele gosta de você.

Oh! — Emily o observou, desconfiada. — Ele disse isto?

Não exatamente. Apenas tenho certeza de que é assim. Francamente, você é um bocado mais bonita do que me lembrava. — Kit não percebeu até que ponto era pouco amável. — Eu disse a ele que você era uma pessoa agradável, até bonitinha. Ontem à noite, quando ficamos a sós na biblioteca, o capitão falou que eu sou mais cego do que um morcego e que apostaria cem guinéus que você ganharia em beleza de qualquer moça por aqui. Ele disse, "também Hester", mas foi apenas cortesia, porque ela é minha irmã. Ninguém pode dizer que Hester é atraente. Quero dizer, ela tem um rosto simpático, mas não faria virar qualquer cabeça, a não ser a de George Arbuthnot.

Kit! — ela mordeu os lábios para se controlar. — Como pôde discutir minha pessoa com aquele homem e deixar que ele falasse a meu respeito como se eu fosse um daqueles cavalos de corrida pelos quais se interessa!

_ Pare com isto, Emily! Ele quis elogiá-la e não vejo nada de errado nisto. Deveria se sentir lisonjeada!

       Pois não penso assim — ela retrucou e quis se levantar mas ele a segurou pela mão.

—   Vamos, acalme-se, Emi! Acontece que você, até agora, nunca conheceu alguém como Adam e nem poderia, pelo menos aqui. Não seja absurda. Queria muito que gostasse dele.

Por algum motivo inexplicável, Emily, ao observá-lo, sentiu uma ponta de medo.

Kit! Ele tem algum poder sobre você?

Meu Deus, Emi, que asneira!

Desculpe se pareço tola mas me ocorreu... que você parece tão ansioso em exibi-lo e ele fica sem fazer nada, ouvindo os elogios, como se soubesse o que você está fazendo e, mais, o que você fará a seguir. Como se ele tivesse assistido à representação e conhecesse a peça de cor, entende?

Emily, francamente, que imaginação! Você ficou demais isolada neste ambiente agreste. Precisa ampliar seus horizontes. De que forma ele teria poderes sobre mim?

Kit tinha um ar tão sério, era tão parecido com o rapaz que parti­ra anos atrás, que ela se acalmou.

Entenda, Kit, não estou zangada com você e nem poderia, depois de tantas preocupações por sua vida, tantas rezas para que fosse poupado! É apenas minha absurda maneira de pensar. Prometo que vou ser amável com o capitão Harcourt, está bem? Vou sorrir, ser simpática e fazer o que você quiser. Só quero que prometa não me deixar a sós com ele.

Eu juro, mas pode ficar sossegada, teria um comportamento exemplar. É um cavalheiro. Você é uma boa menina e sabia que não me decepcionaria!

Sorriu para Emily e lhe deu um beijo fraternal no rosto. Ambos perceberam um movimento na direção da porta e ouviram o rangi­do de botas masculinas, levantaram o olhar. Kit ainda segurava a mão de Emily.

Desculpem, não pretendia perturbar — falou o capitão Adam, sem qualquer expressão especial mas seus olhos notaram a cena. — Estava a sua procura, Kit, para um passeio, mas percebo que está ocupado.

De jeito nenhum — exclamou Kit e se levantou de chofre. — Irei até a estrebaria para que selem os cavalos. Faça companhia a Emily até eu voltar.

A moça ficou exasperada ao vê-lo quebrar uma promessa feita há um minuto.

Posso me sentar? — perguntou o sr. Harcourt.

Como quiser. — Ontem o senhor decidiu me fazer companhia sem pedir licença e não vejo por que agora precisa de meu consentimento.

A senhorita é realmente tão geniosa? — ele perguntou, sério.

Não sou geniosa! — retrucou Emily. — O senhor me faz per­der a paciência. Ficará por muito tempo?

Isto depende...

Recostou-se e esticou as pernas compridas. O banco tosco estre­meceu e Emily imaginou se ele conseguiria desconjuntá-lo. Kit não mantivera sua promessa e nem ela estava mantendo a que lhe fizera. Precisava se esforçar mais para ser amável.

—   É claro, gostamos muito que os amigos de Kit venham visitá-lo — conseguiu dizer, sem muito entusiasmo.

O capitão franziu a testa e apertou os olhos, fitando o raio de sol que entrava pela porta aberta.

—   Para ser franco, senhorita, era minha intenção procurá-la esta manhã e me desculpar pela cena estúpida perto do córrego. Repare, não pretendo assumir toda a responsabilidade pelo acontecido, mas a senhorita ficou tão transtornada! Não era essa a minha intenção.

O pedido de desculpas chegou de surpresa e fez Emily se sentir ainda mais culpada. De qualquer forma, precisava aceitá-lo.

Ambos erramos — ela concordou a contragosto — e imagino que deveríamos fazer de conta que nunca aconteceu.

Eu não disse isto! — Por instantes, o rosto moremo assumiu uma expressão esquisita. — Mas a senhorita não é absolutamente como pensei, pela descrição de Kit. Não que a descrição não fosse lisonjeira. Apenas, não foi completa.

Estou surpresa por saber que Kit falou em mim. Por que fez isso?

Os olhos azuis de Emily o fitavam e ele lembrou que precisava ter cuidado: o raciocínio dela era rápido. Não devia despertar sua des­confiança.

Oh, ele falou muitas vezes na família e em Leigholm. Acho que estava com saudade e agora, provavelmente, acha tudo muito diferente, não apenas a senhorita.

Kit é que está diferente — ela comentou pensativa.

Há quatro anos é um militar, lembre-se, senhorita.

—Não é apenas isto. Ele sempre foi muito franco, aberto; porém, desde que voltou, tenho a esquisita sensação que está escondendo algo... — Para complicar mais as coisas, ela o fitou com os olhos claros, que pareciam penetrar-lhe até a consciência, e pergun­tou: — O senhor, naturalmente, não sabe o que é?

—   Jamais conto os segredos alheios — ele respondeu, com suavidade. — Nem os da senhorita, nem os de Kit. Gosta dele?

—   Sim, gosto. Fiquei preocupada quando esteve na guerra. Pen­sava nas coisas horríveis que poderiam lhe acontecer.

—   Ele é um bom soldado, muito corajoso, aliás. É capaz de cui­dar de si próprio, não se preocupe.

Mas isto não é tudo, não é mesmo? Aqui, nossa vida é tão tran­quila! Kit também vivia assim e quando foi embora pensei que po­deria encontrar más companhias e adquirir maus hábitos, que poderia começar a beber ou coisa assim. Não podia falar disto com a mãe ou com a irmã dele, apenas ficava a me preocupar sozinha.

Um soldado na guerra aproveita os prazeres onde pode encontrá-los, srta. Emily.

O senhor deve pensar que sou tola, e quero Kit amarrado às minhas saias, mas não é assim. É claro que ele precisa de outras com­panhias, não apenas de um grupo de mulheres.

Exceto a minha? A senhorita acha que sou má companhia? —As grossas sobrancelhas pretas se ergueram e a voz indicou que es­tava curioso, mas não ofendido.

—   Admito que pensei assim, no começo — falou Emily, honestamente. — Cheguei até a desconfiar que o senhor tinha algum poder sobre Kit. Perdoe-me! Ele afirma que é uma tolice e eu concordo. Tive que mudar de opinião sobre sua amizade. Cheguei à conclusão de que o senhor é forte... — e explicou, corando: — Não quero dizer forte como Sansão, mas que tem força de caráter. Kit é um pouco fraco, às vezes. Suas intenções são boas, mas nem sempre consegue levá-las até o fim. E gostaria de lhe pedir um favor, capitão.

Peça o que quiser — ele murmurou.

Poderia cuidar de Kit? Dito assim, pode parecer esquisito, mas não sei como poderia me expressar melhor.

Vou vigiá-lo — respondeu o sr. Adam, sério. — Não se preo­cupe, eu também gosto do rapaz. Obrigada — ela respondeu no mesmo tom. Ele mudou de po­sição e o banco rangeu seu protesto. Ele parecia não estar muito à vontade e Emily achou que talvez a conversa fora embaraçosa, e não insistiu.

Kit apressou o cavalo e se emparelhou com o capitão.

Então? — perguntou, impaciente.

Então, o quê?

O baio, acostumado a avaliar o humor do cavaleiro pelo tom de voz, percebeu que nem tudo estava bem e agitou as orelhas.

Você gosta de Emily? Devo dizer que ela melhorou um bocado, pelo menos é o que eu achei. Lembrava-me dela muito mais apagada...

Você tinha quatro anos a menos, estava acostumado a vê-la todos os dias. E, claro, não era tão experiente. Escute, você me enganou. Não digo que foi de propósito, mas a moça não é como a descreveu e até você o admite!

É bem melhor, até! Não existe prejuízo. — Kit fitou o amigo, preocupado. — Ou vai me dizer que não a quer?

O sr. Harcourt suspirou. Cavalgavam num bosque, entre carva­lhos centenários. Olhou para os galhos e para as folhas farfalhan-tes, para as gralhas que voavam, grasnando. Estava satisfeito de ter voltado para a Inglaterra por muitas razões, mas às vezes ainda de­sejava estar nas planícies de Salamanca. Estava pensando assim, agora.

Não se trata disto, Kit. É que talvez nosso trato não tenha si­do uma boa ideia...

Você quer voltar atrás — comentou Kit, meio nervoso.

Não se preocupe, não vou querer que me devolva as dez mil libras. Você fez o que devia fazer, me apresentou a moça. Acho, porém, que ela vai se zangar quando souber. A srta. Emily não gosta de mim.

Besteira! — exclamou aliviado. — Ela é tímida. Claro que gosta. Você nunca teve qualquer dificuldade com mulheres, que eu sai­ba. É verdade, também, nunca o vi tão silencioso! Dei-lhe nem sei quantas deixas durante o jantar de ontem, para que contasse algu­ma coisa e mostrasse como é e você continuou mudo. A única vez que disse alguma coisa, se referiu a maçãs!

Acho que estou um pouco enferrujado, em matéria de conversa com moças respeitáveis. Sei muito bem como tratar as outras. — Irritado sem motivo aparente, gritou com o cavalo, quase o fazendo empinar. Continuou: — A srta. Emily gosta de você...

É claro — respondeu Kit, alegremente. — Sem dúvida, gosta. — Não viu a breve expressão de fúria do amigo. — E eu também gosto muito dela, sabe? — acrescentou, generosamente.

Mas você não se importa de dá-la a mim? — perguntou o capitão, com calma aparente.

De jeito nenhum. Você cuidará dela. É o mínimo que posso fazer para retribuir, depois que pagou nfírftiasr dívidas.

Maldito menino imbecil!, pensou o oficial, bravo. Deveria lhe dar uma surra, das memoráveis! Em seguida, Jembrou que ele mesmo não agira de maneira limpa. Concordara com o trato, era igualmen­te desprezível ou talvez pior, porque Kit sempre fora um desmiola­do e ele sempre se achara sensato. Pobre moça, seu mundo estava prestes a ruir e ela gostava do rapaz!

Como não havia meios de explicar tudo isso, ele bateu com os cal­canhares nos flancos da montaria que se assustou e saiu a galope pela alameda.

Eia! — gritou Kit, incitando seu cavalo. — Espere! Que loucura é esta? — Viu o capitão dirigir seu cavalo para uma porteira de cinco barras, saltar por cima e desaparecer nos campos, fazendo voar a turfa sob os cascos do animal.

Diacho, esse Harcourt é maluco, mesmo! — resmungou Kit. — É verdade que a coisa não vai indo como planejei, mas pretendo dar uma ajudazinha logo, logo...

Christopher Godfrey não tinha culpa por ter sido mimado pelas mulheres da família. Assim que deixara as fraldas, percebera que podia conseguir da mãe tudo o que quisesse.

Nessa mesma noite, foi até q quarto dela e acomodou-se na pol­trona, ao lado da penteadeira, com o ar mais inocente do mundo.

Não quero perturbá-la, mamãe, se estiver cansada, mas dese­jo muito ouvir sua opinião sobre um assunto.

É claro, meu querido — respondeu a sra. Godfrey e ficou lisonjeada porque o filho, com sua túnica vermelha enfeitada de ouro, ainda procurava seus conselhos. — De que se trata? — Uma dúvida surgiu de repente e ela acrescentou, com maior prudência: — É uma questão de dinheiro, Christopher? Entendo que você precise dele para suas despesas, mas sabe que Hester está para se casar no Ano-Bom e...

 

Não se trata de dinheiro — interferiu Kit. — O que a senhora achou de Adam?

O capitão Harcourt? Muito agradável, eu diria... muito quieto. À primeira vista, um pouco assustador, por ser tão alto. Parece uma pessoa honesta. — A sra. Godfrey amarrou as fitas da touca com gestos cuidadosos. — Tive a impressão de que George não gostou muito dele.

George que vá ao diabo — foi a resposta rude de Kit e a sra. Godfrey estalou a língua, censurando-o brandamente. — George é um chato. Não entendo o que Hester vê nele.

Hester está com vinte e sete anos — explicou a sra. Godfrey, tranquila. — Ela nunca foi de sobressair na companhia de rapazes. George tem uma renda de cinco mil libras ao ano, mora a pouca distância daqui. Hester terá uma vida muito confortável e sei que não poderia achar coisa melhor. Pensando bem, ela teve sorte de encon­trar George — acrescentou, com franqueza maternal.

Tanto faz. Não queria falar em George, queria falar em Adam e perdemos o fio. O fato é que ele tem quinze mil libras ao ano, é um homem formidável e se engraçou com Emily.

Com Emily? — exclamou a sra. Godfrey estupefata, deixando cair o anel que segurava. — Christopher querido, não consigo pensar que as intenções dele sejam sérias.

Pois são muito sérias. Emily, porém, não lhe dá qualquer atenção. — Ouça! — Kit se curvou, para convencê-la melhor: — Seria uma excelente oportunidade para Emi! Sei que ã senhora se preocupa com o futuro dela e eu faço o mesmo. O problema poderia ser resolvido!

Sem dúvida — concordou a sra. Godfrey, pensativa. — É extraordinário! Nunca poderia ter sonhado numa coisa tão boa para Emily!

Então, por que a senhora não conversa com ela?

Sim, meu querido, vou fazê-lo. Meu Deus, o capitão Harcourt! Quem iria imaginar isto?

Kit enrubesceu, mas conseguiu acalmar sua consciência. Beijou a mão da mãe e saiu, assoviando.

 

No dia anterior, ao se afastar a galope, o capitão Harcourt quise­ra apenas distanciar-se de Kit antes de perder o controle. Quando parara, afinal, percebera que na realidade desejava afastar-se daquela situação. Era impossível e ele praguejara, irritado. O cavalo arfava, suado; então, fizera-o continuar a passo. Ganhara aquele baio num jogo.... Essa lembrança trouxera,-lhe a Espanha à memória e sentira saudade do perigo, da incerteza da guerra, da vida militar, tão orga­nizada e simples. Apesar da luta, sabiam o que deviam fazer. Era diferente da vida civil, tão cheia de armadilhas e de situações impre­visíveis.

Ainda muito jovem, ao receber sua herança, ele descobrira que não era talhado para a vida de proprietário de terras. Os tambores rufavam, chamando às armas, e entrara para o Exército. A campa­nha espanhola, apesar de todos os horrores, oferecera-lhe tudo o que desejava da vida. Durante a luta, poucos soldados pensavam no que iria acontecer depois de dominado o teimoso adversário que conti­nuava uma guerra que não poderia ganhar.

Achava, também, que se envolvera em um problema sem saída. Era evidente que aquela moça estava apaixonada por Kit, que sabia e não se importava, achando que se tratava apenas de um flerte. Sur­preendera o amigo beijando Emily, no quiosque. Isso queria dizer que sentia algo por ela. Como era possível que a cedesse a outro? Não podia entender isso.

O capitão nunca se envolvera seriamente com uma mulher; tivera apenas casos passageiros. Nunca se detivera para pensar que o casa­mento era um envolvimento definitivo, até aquela noite, ao fazer o trato com Kit e apertar-lhe a mão. Conscientizara-se, então, de que se tratava de assumir uma responsabilidade duradoura. Como um tolo, não pensara na moça, ponto principal daquele trato. Para ele, era apenas um nome, uma estranha. Agora já se tratava de alguém com um rosto. Sua impressão era a de ter ficado contemplando uma mulher de costas, por algum tempo, e de repente ela se voltara fitando-o, tornando-se real.

Notara, então, que cavalgava ao longo do córrego e vira um ga-rotinho no raso, enquanto dois cavalos bebiam na beirada, turvan­do a água com o movimento dos cascos. O sr. Adam observara a cena e depois jogara uma moeda para o pequeno guardião. Em se­guida, a irritação voltara a dominá-lo. Estava tudo errado. Precisa­va falar com Kit.

A oportunidade apresentou-se nessa noite, depois do chá e de que as damas se haviam retirado. Ele e o jovem Godfrey estavam na bi­blioteca. O amigo não mencionara sua repentina fuga, naquela tar­de, de modo geral não falara muito, como era seu costume, e em certo momento desaparecera por uns vinte minutos, antes do jan­tar, o que levara o sr. Adam a desconfiar que ele tramava alguma coisa. Kit era ardiloso e as três mulheres, suas escravas voluntárias. O capitão, que praticamente não conhecera os pais e fora criado sob a tutela de um tio severo, intolerante, observava a situação familiar do rapaz admirado e sem compreendê-la. De qualquer forma, ela explicava algumas das facetas do caráter de Kit, que até então lhe pareciam incompreensíveis.

Aceitou uma dose de conhaque e cruzou as compridas pernas an­tes de falar no que o preocupava:

Precisamos conversar, Kit.

Poderíamos ter conversado à tarde, se você não fugisse. O que aconteceu?

Como já disse, você se enganou. Não quero desistir do casamento, mas sim ter certeza de que a srta. Emily vai aceitá-lo de boa vontade. Você sabe que não estamos agindo certo. Pare de dizer a ela o quanto sou formidável, pelo amor de Deus! Mais você me elo­gia, mais ela me hostiliza, além de ser embaraçoso.

A modéstia não lhe assenta bem, meu caro.

Escute, essa moça não aceitará a primeira oferta de casamento que surgir. Provavelmente, tem ideias firmes a respeito, talvez até se interesse por outra pessoa...

Ela já passou dos vinte e cinco. Nessa idade, as mulheres ficam em pânico, param de escolher e aceitam o que aparecer. Veja Hester, ela aceitou o George...

Não posso opinar sobre a escolha da srta. Godfrey, mas não acredito que a srta. Weston esteja em pânico, como você diz. É uma mulher bonita, inteligente e se não estivesse enterrada neste fim de mundo, teria filas de admiradores. Acho que eu posso, simplesmente, me aproximar dela, informá-la que está tudo decidido e que vamos nos casar? Ela pensará, no mínimo, que estou bêbado. Aliás, ela acha que sou um perdulário fardado e que exerço influência per­niciosa sobre você.

Onde está a sua força de caráter, homem? — surpreendeu-se Kit. — O que aconteceu com você? Será que é o mesmo camarada que vi galopando e urrando sob os narizes dos inimigos, de sabre desembainhado, que passou por cima de um canhão francês?

Isso foi muito mais fácil do que propor casamento a uma mu­lher que, claramente, não me quer! — rugiu o sr. Adam.

Já sei o que faremos! Vamos cortar um baralho. O ás é a maior carta. Se eu ganhar, você pede Emily em casamento amanhã; se você ganhar, fará isso no fim de semana. — Kit embaralhou as cartas e abriu-as em leque: — Tire uma.

O sr. Harcourt tirou um valete; o jovem Godfrey, um rei.

—   Amanhã é o dia — declarou o rapaz, rindo.

A sra. Godfrey ficara tão impressionada com as palavras do filho que passara a noite quase sem dormir, examinando todas as possibi­lidades. Quando clareou, ela não apenas sabia o que precisava dizer a Emily, como também já tinha organizado o casamento, nos míni­mos detalhes, e planejava idas a Oxford, para comprar o enxoval.

Mandou chamar a moça logo cedo e conversou com ela de manei­ra muito comedida, segundo sua própria opinião, enumerando as muitas e boas qualidades do capitão Harcourt, inclusive sua renda.

Minha querida — continuou a sra. Godfrey, com um brilho malicioso, confesso que sempre sonhei com algo assim. E acho que... — Calou-se, surpresa ao vê-la empalidecer.

Madame — balbuciou a moça. — Deve haver um engano.

 

Absolutamente. Ele conversou com Kit, como os homens costumam fazer, e disse que gosta de você. Agora, Emily, ouça, por favor: sei que tem sido feliz aqui e vou sentir muito a sua falta, porque a considero minha filha, também. Preocupei-me muito com o seu futuro e acho que deve dar a entender ao capitão Harcourt, da maneira mais digna possível, que suas atenções não serão rejeitadas.

Mas vou rejeitá-las! Não são bem-vindas! — exclamou Emily, nervosa. — Madame, acredite, esta é mais uma das brincadeiras de Kit e ele vai me pagar! Como ousou fazer uma coisa assim? É ina­creditável!

Christopher está preocupado com o seu futuro tanto quanto eu e sei que ele não brincaria com assunto tão sério! — declarou a sra. Godfrey.

Emily, então, saiu correndo e desceu, mas não encontrou os cavalheiros na sala do café, nem na biblioteca. Tornou a subir e coli­diu com uma criada que levava água quente para os quartos.

—   Onde está o capitão Harcourt? — perguntou, agitada.

A criada assustou-se com a expressão feroz da senhorita e expli­cou que os cavalheiros haviam se deitado tarde, mas que já levara água ao quarto do capitão. Emily esperou que a moça descesse, en­tão foi ao quarto do sr. Harcourt e bateu à porta.

—   Capitão, preciso falar urgentemente com o senhor. Há um terrível mal-entendido e precisamos esclarecê-lo.

O sr. Adam, em mangas de camisa, abriu a porta.

Pare de fazer barulho! — advertiu, em voz baixa. — Desse jeito, vai alertar a casa inteira.

Preciso falar com o senhor!

Ele examinou o corredor vazio e deu um passo atrás.

—   Nesse caso, é melhor entrar, embora não seja certo. Aliás, se ninguém souber, não haverá objeções.

Emily entrou e ele fechou a porta» Quando o bom senso prevale­ceu sobre as emoções, ela viu que mais uma vez fizera a coisa erra­da: estava no quarto do sr. Adam e não podia prever o que ele pensaria disso. Ficou perto da porta, para o caso de precisar fugir. Ele percebeu, encolheu os ombros e voltou ao lavatório, onde uma espiral de vapor subia do jarro.

Não se importa se eu me barbear? — indagou, solícito. — A água não está muito quente e fazer barba com água fria, posso ga­rantir, é muito dolorido.

Não...

Ficou fascinada, observando-o enquanto ele ensaboava o rosto e encolheu-se ao ver a navalha cintilante, ao ouvi-la raspar. Parecia uma coisa perigosa, dolorida.

Por que não senta? — perguntou ele, observando-a ao espelho, enquanto esticava a pele, a fim de raspar perto da garganta.

Obrigada, ficarei aqui mesmo... — murmurou ela e, depois, disse: — Parece muito difícil.

É difícil. Quando fui para a Espanha tinha um camareiro, mas precisei dispensá-lo: a mão dele tremia demais. Desde então, adotei os serviços de ordenanças, bons rapazes, porém maçantes. Aqui na Inglaterra, faço tudo sozinho e preciso contratar um camareiro... — Fez uma pausa e indagou: — Por que veio, toda agitada, falar comigo?

Ah! — surpreendeu-se ela, vendo que esquecera o propósito de sua visita. Prosseguiu, nervosa: — A sra. Godfrey mandou me chamar. Kit disse uma porção de bobagens a ela, ontem... que o se­nhor gosta de mim. E o senhor precisa falar com ela imediatamente e explicar que não é verdade. Sabe como são as velhas damas... Vi­vem de imaginação e adoram interferir na vida dos outros, para aju­dar. Precisa, também, dizer a ele para não dizer mais essas coisas bobas!

O capitão afastou a navalha do rosto e resmungou, em tom zan­gado, mas ela não entendeu o que dissera:

O senhor se cortou? — perguntou, preocupada.

Não! — A voz dele soou tão afiada quanto a navalha.

Maldito garoto! Sente-se, srta. Emily. Vou terminar num ins­tante e conversaremos com calma.

Ela sentou-se perto da porta, enquanto ele enxaguava o rosto e o secava com a toalha felpuda. Voltou-se, então, e Emily notou que havia sangue em seu rosto.

Não posso dizer nada disso à sra. Godfrey! — exclamou, com raiva. — Mas, acredite, vou dizer uma porção de coisas a Chistopher Godfrey! — Jogou a toalha numa cadeira, abaixou as mangas, começando a abotoar os punhos e uma das abotoaduras caiu. — Diabo!

Dê-me a abotoadura, que eu abotoo para o senhor — disse a moça, automaticamente, e ficou surpresa ao vê-lo rir.

Kit me disse que a senhorita sempre reprega os botões das rou­pas dele...

Enfiou as mãos nos bolsos e fitou-a, pensativo. O colarinho da camisa encontrava-se aberto e Emily via o ponto onde começavam a nascer os pêlos negros, sedosos, que desciam pelo peito largo. Sentiu-se confusa, ignorante e compreendeu que a vida ali, em com­panhia de duas mulheres, não a ensinara a lidar com os homens, mui­to menos com aquele homem. Ele a olhava com a mesma expressão que tivera na beira do córrego. Ao lembrar-se do que acontecera lá, ela enrubesceu e tentou apagar a imagem dele deitado, com o cha­péu de palha cobrindo-lhe o rosto.

Ele respirou fundo, como se também expulsasse pensamentos, e falou, em tom decidido:

Emily... srta. Weston... preciso lhe dizer uma coisa que Kit e eu deveríamos ter dito logo de começo. Peço desculpa pela minha omissão e ele também terá de se desculpar, se não quiser levar uma surra. Mas, por favor, prometa-me que não ficará zangada... se for possível. Bem, eu acho que vai ficar, sim.

Continue, por favor — pediu ela, sentindo o coração pesado.

De algum jeito, as coisas têm a ver com Kit, não?

—   Sim e não...

O sr. Adam reorganizou os fatos com habilidade, escolhendo o que devia dizer e o que ela jamais deveria descobrir. Saber o que Christopher fizera, realmente, poderia partir-lhe o coração e ele não queria que isso acontecesse.

—   Uma noite, numa pequena aldeia dos Pireneus, varrida pelo vento gelado, Chistopher e eu conversávamos... — começou, pigarreando. — Disse-lhe que quando voltasse para a Inglaterra pretendia me casar, mas não conhecia nenhuma dama conveniente. Kit, então, sugeriu...

Calou-se. Não conseguia dizer a ela que o rapaz de quem gostava tanto a dera a outro ou melhor, simplesmente a vendera.

Ele sugeriu meu nome — ajudou-o a moça, com voz trémula.

Sim... Ele não queria prejudicá-la, acha a senhorita maravilhosa! — Curvou-se para a frente, dando ênfase às palavras. —Descreveu-a de tal modo que sua imagem me pareceu ideal e, então, vim aqui... para cortejá-la. — Sorriu, acanhado. — Mas até agora só consegui enfiar os pés pelas mãos.

Emily, meio atordoada, tentou entender e disse:

Bem, não importa o que conversaram na península. Agora a situação é diferente. Quero dizer, estavam longe de casa, sentiam-se isolados, tinham saudade. O senhor voltou e pode cortejar quem quiser.

Mas vim para cá... — a voz dele soou baixa, rouca.

Sim. Admiro sua determinação em manter a palavra que deu a Kit, mas o que quer que tenha dito, então, não se aplica ao mo­mento. O senhor não precisa casar comigo.

Fez-se um longo silêncio, por fim ele admitiu:

É, não preciso. Mas estou preparado para... Quero dizer, eu me sentiria muito honrado se a senhorita quisesse considerar meu pedido. Não sou pobre e...

Sei disso, senhor. No entanto, jamais me casaria por dinheiro. Agradeço, capitão Harcourt, mas vou desconsiderar. O senhor cumpriu sua obrigação, fez o que prometeu ao Kit, recusei e, portanto, está livre. — Ergueu-se, corada, e segurou a maçaneta. — Eu sabia que ele tinha algum segredo, sabia que a vinda do senhor aqui não era uma simples visita! Gostaria muito que fosse embora, capitão.

—Naturalmente — concordou ele, calmo. — Tratarei de ir imediatamente. Kit poderá mandar meu baú, depois.

Recusou? Você o recusou? — berrou Kit, vermelho e com uma expressão de raiva que ele jamais vira. — Não podia, não devia ter feito isso!

—   Podia, sim! — teimou Emily. — E fiz! Não grite comigo, Kit. Não fui eu que agi mal. Mas não vou dizer nada, embora você não devesse ter feito o que fez. Pelo menos, devia ter sido honesto comigo, contando tudo. Aí eu saberia de que modo falar com o capitão Harcourt. — Ela esforçou-se por manter a calma. — Você nos colocou em posição intolerável, sua mãe, o capitão, eu... Por que falou com sua mãe, Kit? Bom, de qualquer jeito, eu disse a ele que gostaria que fosse embora e ele concordou. Claro, não há condições de ficar.

—   O quê?! — O vermelho da raiva desapareceu do rosto do rapaz, que ficou muito pálido. — Ele não pode! Emily, será que não entende o que fez?

Como se as pernas não suportassem mais seu peso, o jovem God-frey deixou-se cair numa poltrona e cobriu o rosto com as mãos. As­sustada, Emily aproximou-se, ficou de joelhos junto dele e tentou afastar-lhe as mãos do rosto, mas ele a impediu e sacudiu a cabeça.

—   Kit... O que foi? Por favor, conte-me a verdade, pois não adianta mentir. Sempre sei quando você esconde alguma coisa e desta vez também. Diga-me o que aconteceu, mesmo.

Por fim, ele descobriu o rosto. Estava desfigurado.

Não posso, Emi. É horrível demais.

Deve me contar, Kit. Vamos, pare com isso! Sabe que não sou de gritar e desmaiar... nem vou contar a Hester ou a sua mãe, se você não quiser.

Elas não podem saber! — exclamou ele, apertando com força os delicados pulsos da moça. — Não devem saber, nunca! Estou mui­to envergonhado, Emi! E sei que você vai ficar furiosa comigo.

Solte-me, Kit! Está me machucando.

Desculpe... — murmurou o rapaz e soltou-a.

Emily ergueu-se, puxou uma cadeira para perto dele, sentou-se e esperou. Por fim, ele começou, em voz baixa:

—Procure entender a situação, Emi... Entre uma batalha e ou­ tra acampávamos. Era marchar, lutar e acampar, com sol, chuva, vento, neve, lama... Um tédio! As cidades lá são bonitas, mas monótonas... Muito vinho barato em aldeias pobres... moças ciganas. As respeitáveis são vigiadas por um exército de mães, tias e aias. Não há nada para distrair... só carteado...

Você... você jogou! A voz de Emily era quase um sussurro. — Jogou e perdeu.

Demais — admitiu o rapaz.

Perdeu para o capitão Harcourt?

Não apenas para ele, o que não faria diferença: Adam jamais me cobraria. Mas os outros, não. Depois de algum tempo perdendo, é preciso pagar. Eu sempre esperava uma noite de sorte, para me refazer, porém ela nunca chegou. As dívidas se avolumaram. Fiquei desesperado. Muitos perdiam, mas não se importavam: suas famílias são ricas. Nós não somos... Hester escreveu, dizendo que ia casar com George e que mamãe ia gastar uma fortuna no casamento. Sabia que se eu pedisse dinheiro elas mandariam, mas seria o do­te de Hester.

Fez uma pausa. Baixou os olhos, não conseguindo suportar o olhar triste de Emily, e continuou:

—   Você é maravilhosa, Emily, e Deus a abençoe... Nunca teria pensado em Adam e você se não soubesse que ele é o melhor homem do mundo. Não iria... dar você a qualquer um... Quando meu capitão disse que queria uma esposa e que pagaria minhas dívidas se eu lhe arranjasse uma...

Então era isso. Não fora uma promessa, mas apenas um sórdido trato, um acordo vergonhoso. Simplesmente, Christopher a vende­ra ao capitão Adam Harcourt.

Você me vendeu — disse ela, com voz embargada, retirando a mão que ele pegara. — Você me vendeu ao capitão!

Não veja as coisas assim, Emi, por favor! — pediu ele, enver­gonhado.

De que outro modo posso definir o trato que fizeram? E quanto foi, Kit? Quanto ele pagou por mim?

Dez mil libras... — murmurou o jovem Godfrey, abaixando os olhos.

Dez?... — Ela ficou horrorizada e as palavras não queriam sair de sua garganta. — Tanto assim? Você devia tanto, Kit? — conse­guiu dizer, dolorosamente.

 

Sim. Harcourt cumpriu sua parte do trato, pagou. Então, tive que cumprir a minha, fazendo-o vir aqui...

Para buscar a "mercadoria"!   — interrompeu ela, com amargura.

Emily, sinceramente, não pensei que as coisas iam acontecer assim. Achei que você ia gostar dele. Tinha certeza e não entendo por que não gosta!

A moça permaneceu calada. Então, o arrependimento desapare­ceu da voz de Christopher e foi substituído por um tom ressentido, como se a culpa de tudo fosse dela.

Você vai fazer vinte e seis anos, Emi, e acho que quer casar. Por aqui não há muita escolha, pois não é Hester e jamais aceitaria alguém como George. Adam é rico, teve uma brilhante carreira militar, é bem relacionado, as mulheres o perseguem... Por que você tem que ser diferente?

Pare de querer justificar-se, Kit! — irritou-se ela. — Pelo menos ele não tentou fazer isso. Agora, vamos ser práticos. Se eu não me casar com ele, acha que o capitão pedirá o dinheiro de volta?

Ele garantiu-me que não. Mas é uma dívida de honra! Será que não pode entender isso, Emily? Fizemos um trato, apertamos as mãos, ele pagou minhas dívidas. Se eu não lhe der a noiva que prometi, serei obrigado a devolver o dinheiro, mesmo que Adam não queira. Se alguém souber que fiquei com o dinheiro dele e não cumpri minha palavra... vai ser pior do que antes, porque o capitão se­ria considerado um tolo...

Tornou a segurar as mãos dela e fitou-a com um olhar implorante:

—   Emi, não quer reconsiderar? Olhe, se recusar, o único jeito será pedir o dinheiro a mamãe. Isso significaria gastar o dote de Hester e ela nunca mais se casaria! Não-pode fazer isso comigo, Emi, com mamãe, com Hester! Depois de tudo que elas fizeram por você, tantos anos, dando-lhe carinho, um lar...

Emily ouvia e a voz de Christopher Godfrey passava pelos ouvi­dos dela como a água quente que removera a espuma do rosto do sr. Adam. Pela primeira vez via o rapaz como realmente era: fraco, egoísta, estróina, pronto para pôr a culpa de seus erros nos outros, capaz de receber amor sem nada oferecer em troca. Um garotinho mimado que se tornara um rapaz mimado e nunca mais poderia sentir o carinho que até então sentia por ele.

Kit dizia a verdade: se tivesse que pegar dinheiro da família para devolver ao capitão, os Godfrey seriam destruídos. E do jeito que as coisas encontravam, seria ela, Emily, a causadora dessa destruição.

—   Compreendo e não vou desapontá-lo, Kit — murmurou ela, por fim, com voz abafada.

O rosto do rapaz iluminou-se, readquirindo vida imediatamente, para assumir uma expressão perplexa ao ouvir a irmã de criação dizer:

—Engraçado... A filha de Honeyburge valia apenas um guinéu e a srta. Weston vale dez mil libras. Gostaria de saber o valor atual que o capitão Harcourt me atribui!

Ele abriu a boca para perguntar o que aquilo significava, mas ela virou-lhe as costas e retirou-se.

O sr. Adam Harcourt não perdera tempo em cumprir o que pro­metera. Seu alforje estava pronto, no hall e ele se encontrava na es­trebaria, onde Emily foi encontrá-lo conversando com o cavalariço. O sol que entrava pelo enorme portão criava reflexos azulados nos cabelos negros do capitão. Ele segurava uma cigarrilha acesa na mão esquerda, do mesmo tipo que o jovem Christopher trouxera da Es­panha; a fumaça azulada desprendia-se, em volutas, quando ele mo­vimentava a mão grande e morena, indicando o que devia ser feito.

Era muito alto, forte, de estrutura imponente; o rosto de traços marcados, de uma beleza máscula e morena, tinha um certo ar de arrogância, de quem está acostumado a ver suas ordens imediata­mente obedecidas, a conseguir tudo o que quer, sem se deter diante de obstáculos.

Hesitante, Emily avançou com dificuldade sobre as pedras irre­gulares que calçavam o eorredor central da estrebaria. Quando o sr. Adam a viu reparou na expressão transtornada do rosto tenso, páli­do, colocou-se entre ela e o criado, para que este não percebesse sua aflição. Jogou a cigarrilha fora e esmagou-a com um pé, enquanto a observava com atenção.

Falei com Kit... — disse a moça, quase sem voz.

Aqui não, por favor — avisou ele, com calma. — Venha comigo...

Deu o braço a Emily e guiou-a para fora, em direção à alameda coberta de cascalho que contornava a casa, a partir da alameda que ia dar na entrada principal. Emily se deixou levar, sem resistir, até chegarem ao gramado, onde pararam, de frente um para o outro.

Christopher contou-lhe tudo? — perguntou o capitão, fitando-a com intensidade.

Sim. Contou sobre o trato... contou tudo.

Os ombros largos do capitão se retesaram e ele cerrou os punhos. Sem querer, Emily pensou que o rapaz tinha sorte de não estar por perto.

Sinto muito ele ter falado... aquele rapaz é um idiota! — A voz do capitão mostrava-se repassada de ira; então acrescentou, com um suspiro: — Não posso dizer que me orgulho do papel que fiz. O que aconteceu não traz nada de louvável para Kit ou para mim...e nem sequer tenho a desculpa de que estava desesperado.

Ele disse que deverá devolver-lhe o dinheiro... se eu não.... não quiser... — e a voz de Emily sumiu.

De jeito nenhum! — O sr. Adam ficou enfurecido. — Nem se fala nisso e eu já tinha dito a ele que não precisa devolver nada.

Mas Kit pensa de outra maneira... E acho que ele está certo. É uma questão de honra, senhor. Deus sabe que se, por uma vez, Christopher Godfrey quer agir de forma honrada, não devemos atrapalhá-lo.

Escute — começou o capitão, constrangido —, as coisas não são bem assim como a senhorita e ele pensam. Eu sabia que Kit estava endividado e que não tinha a menor possibilidade de pagar as dívidas sem a ajuda de alguém. Ele começara a beber exageradamente, proclamando-se um infeliz, dizendo que ia procurar um agiota ou, então... que ia terminar com tudo de uma vez.

Emily estremeceu ao ouvir aquilo, abriu a boca para dizer alguma coisa, porém o capitão a fez calar-se, com um gesto da mão enor­me, morena, no entanto delicada nesse momento.

— Antes que ele chegasse a esse ponto eu já decidira ajudá-lo e procurava um jeito de fazê-lo sem ofender-lhe a dignidade, o orgu­lho. Kit encontrava-se desanimado, sem sorte nenhuma, sem apoio e seria muito fácil deslizar para o abismo, na disposição com que se encontrava. Foi então que ele mesmo teve a ideia, a partir de uma frase minha, quando lhe disse que voltando para cá pretendia pro­curar uma esposa... — Ele gesticulou, meio aflito, como se quisesse apagar aquelas palavras. — Não é que eu esteja querendo me justi­ficar com isto, srta. Emily.

—   Eu devia agradecer ao senhor por tentar ajudar — disse Emily, muito séria e pálida. — E agradeço...

Ergueu os olhos, para fitá-lo. A brisa passou pelos longos cabelos castanhos, presos, soltando um dos caracóis que ficou a balouçar junto à face da moça.

—   Na verdade, também tentava ajudar a mim mesmo... — explicou ele. — Sou muito acanhado, quando se trata de manobras sociais. Salas de visitas, saraus musicais, bailes, não combinam comigo... ou eu com eles. Costumo derrubar as coisas, pisar nos pés das damas, dizer inconveniências... A vida militar, companhias mais rudes são a minha preferência.

Ela percebeu que ele queria dizer que se sentia muito mais à von­tade com companhias masculinas. Imaginou que para aquele homem as mulheres significavam apenas a satisfação de uma necessidade, quando esta se apresentava. Ele não saberia como encaixar uma mu­lher em sua vida de maneira permanente e qualquer uma que tentas-se partilhá-la teria que se conformar com solidão e omissões invo­luntárias. O sr. Adam jamais permaneceria em casa, sentado ao la­do da lareira. No entanto, pensou Emily, se tivesse uma casa a ser dirigida, filhos, até que sua vida poderia ser razoável. Confortável, tinha certeza de que seria. Precisava reconhecer, de qualquer ma­neira, que muitas mulheres tinham que se contentar com muito me­nos do que isso.

—   O senhor disse que estava preparado para se casar comigo —murmurou ela, por fim, com grande esforço. — Ainda pensa do mesmo jeito ou já desistiu?

Ele olhou-a profunda e seriamente, antes de responder, com voz grave e um tanto presa:

Ainda faço o mesmo pedido. Mas se a senhorita não quiser...

Nesse caso, aceito — interrompeu-o Emily, em voz ainda mais baixa, porém firme, determinada.

Aceita, apenas por causa de Christopher? — indagou ele, sem conseguir esconder a irritação.

Não é só por causa dele... — respondeu a moça e ficou cala­da, pensativa.

Havia Hester e a sra. Godfrey que eram mais importantes para ela do que Kit. Mas cometeu o erro de não declarar isso, desfazendo a impressão errada que o capitão tinha a respeito, achando que ela amava o irmão de criação.

Ela fez isso por causa do rapaz, pensou ele, e aquele vadio sem caráter não merece tanta devoção!

—   Nesse caso — disse porém, afastando o pensamento —, vamos entrar e dar a boa notícia à sra. Godfrey.

 

A notícia do noivado do capitão Harcourt e da srta. Emily cau­sou verdadeira sensação. As pessoas mais interessadas dividiram-se em dois grupos, o primeiro composto por Christopher Godfrey, e sr. George Arbuthnot, que estavam entusiasmados, e o segundo pe­los noivos, cuja felicidade parecia estranhamente discreta.

O sr. Adam Harcourt, na opinião da sra. Godfrey, era por natu­reza pessoa pouco falante, e como se demonstrasse mais calado ain­da, realmente silencioso, ela começou a temer que estivesse arrependido. A notícia, porém, além de sair no jornal local fora pu­blicada também no Times, portanto ele não mais poderia mudar de ideia... Aliás, a boa senhora achava aquele noivado algo bom de­mais para ser verdade e imaginava se a decisão dele não teria sido causada pela euforia de voltar à Inglaterra, pelo fato de Emily ser a primeira moça inglesa com quem entrara em contato mais demo­rado, logo depois do retorno. O capitão podia ter perdido tempora­riamente a cabeça. Quem sabe?

Quanto a Emily, em vez de mostrar-se radiante, como ficaria qual­quer moça com vinte e seis anos, vivendo naquele cantinho esqueci­do por Deus, onde a única perspectiva era se tornar uma velha solteirona, ao ver-se escolhida por um homem bonito e rico como o capitão, parecia mais uma condenada à morte nas proximidades da execução.

Pensando nisso, a velha senhora pensou que deveria ter com a jo­vem uma boa conversa sobre as realidades do casamento: tinha cer­teza de que o desânimo e a tristeza dela se deviam a preocupações nesse sentido, provavelmente ligadas ao leito nupcial. Já tivera uma conversa parecida com Hester e suas informações haviam sido es-toicamente recebidas pela filha, que não fizera muitos comentários. E, na ocasião, a sra. Godfrey pensara que não podia esperar qual­quer entusiasmo por parte de alguém prestes a se deitar com George Arbuthnot. Mas com o capitão Harcourt era outra coisa...

A alegria do sr. George Arbuthnot diante do noivado era de natu­reza diferente. Ficara surpreso. Não conseguia entender como um homem do tipo do sr. Harcourt, primo de um Par do Reino e com um rendimento de quinze mil libras por ano, quisesse casar com uma moça que tinha apenas cinco mil libras como dote e génio tão agres­sivo. Em várias ocasiões a srta. Weston fora rude com o sr. Arbuth-not e embora ele houvesse perdoado, como bom cristão, não esquecera. Já havia decidido que não aceitaria a srta. Emily Weston em seu lar se um dia Kit resolvesse casar, como teria que acontecer, e não a escolhesse e se nessa ocasião a sra. Godfrey já tivesse morri­do, como também teria que acontecer. O sr. George achava que as coisas deviam sempre ser pensadas e planejadas com antecedência.

Ficou decidido que o sr. Adam iria imediatamente para Essex, onde tinha sua propriedade, para mandar pôr a casa em ordem. Voltaria a Leigholm para o casamento. Emily compreendeu que seria dona de seu nariz por mais umas poucas semanas. Talvez fosse melhor assim. Era como precisar arrancar um dente: quanto antes, melhor.

A conversa planejada pela sra. Godfrey acabou sendo apenas um monólogo da boa senhora, que usara eufemismos quase incompreen­síveis para explicar o relacionamento íntimo de um casal. De modo quase cínico, Emily pensara que as atenções do marido não iriam incomodá-la muito: era claro que ele gostava de outro tipo de mu­lher e a adquiria apenas com finalidade de reprodução. Quando fi­casse grávida, ele iria dedicar-se a outras diversões e ela só esperava que o fizesse discretamente. Conseguiu não pensar nos próprios sen­timentos, determinada a não levá-los em consideração.

Christopher Godfrey, como era de se esperar, pensava apenas em si, em divertir-se. Antes de Adam ir para Essex, propôs que fossem a Oxford, para jantarem juntos.

Vai ser nossa última saída com você solteiro, amigo! — argumentara. — Quando você voltar, vai ter que ficar com sua noiva, namorar, exibir aquele ar apaixonado... principalmente depois que se casarem. Como sabe, os recém-casados têm sempre um ar bobo, meio besta, mesmo!

Não acho — retrucou o sr. Adam, um tanto brusco — que a srta. Emily queira que eu a namore. E nem saberia eomo fazer isso. Não diga asneiras, Kit.

De qualquer modo, tem que ir comigo para Oxford e vai ser meu convidado para jantar — declarou o rapaz. — Vamos esvaziar uma garrafa para brindar aos seus últimos dias de liberdade. Acho que vamos ter que convidar George, aquele traste! Tenho certeza de que não sabe beber e que nosso fim será carregá-lo para casa e enfiá-lo na cama.

Preocupação inútil, essa, pois o sr. Arbuthnot recusou o convite e, afinal, o sr. Adam deixou-se convencer pelo jovem amigo. Não sentia vontade alguma de festejar, mas aquilo pelo menos era uma desculpa para sair de Leigholm, do jantar durante o qual teria que ver sua noiva olhando para a comida com o maior desânimo. Era melhor, mesmo, não ficar onde não fazia falta e já que ia a Oxford, o melhor seria divertir-se.

Deixaram os cavalos na Estalagem Mitre e saíram andando pelas ruas, a fim de ver as possibilidades. Logo descobriram que eram nu­merosas e que as fardas que usavam faziam todas as portas se abri­rem. Experimentaram as bebidas de uma porção de locais e quando resolveram voltar para casa enveredaram pela Turl Street com pas­sos trôpegos. Kit, como sempre, bebera bem mais do que aguentava e recusava-se a ir embora, dizendo que ainda era cedo, embora meia-noite já tivesse soado fazia tempo. O capitão amparava o amigo; se não fosse o fato de temer que Emily se preocupasse, de manhã, ao ver que não haviam voltado para casa, preferiria ficar numa es­talagem.

Chegavam ao local onde haviam deixado os cavalos quando um vulto feminino saiu das sombras: os dois oficiais fardados e obvia­mente bêbados, tinham atraído a atenção de uma das mulheres que percorriam as ruas de Oxford, à noite.

—   Alô, amor... — disse ela a Kit, que se encontrava mais perto.

—   Tão garboso e sozinho? Isso não pode ser!

Tem razão, querida! — concordou Kit, desvencilhando-se do braço do amigo e segurando a moça. — Vamos tomar um trago, beleza!

Pelo amor de Deus! — exclamou o capitão. — Não dê aten­ção ou nunca mais nos livraremos dela!

Ele também bebera demais, porém, ainda sabia o que fazia.

AdorQ soldados! — afirmou a mulher e agarrou-se ao braço do jovem Godfrey.

E uma moça muito in... — e Kit não conseguiu terminar, caindo de frente, quase desmaiado.

Que horror! — assustou-se a moça. — Este bebeu além da me­dida, mesmo!

Como vê, nem se aguenta mais ! Ajude-me a colocá-lo de pé —       pediu o capitão, bruscamente. — Que diabo, Kit! Levante-se! Estalajadeiro! Está me ouvindo! Mande selar nossos cavalos!

—Vão embora, mesmo? — indagou a moça, melosa, encostando-se no capitão.

Os longos e emaranhados cabelos dela, de um amarelo duvidoso, embaraçaram-se nos botões da farda. Ele já tivera contato com mui­tas jovens daquele tipo, mas naquele momento sentiu uma repug­nância inexplicável e uma vontade imensa de afastá-la o mais depressa possível. Fez isso e tratou de cuidar do amigo.

Que pena! — lamentou-se ela. — Você é grandão, forte... aposto como sabe gozar a vida!

Sei, sim, mas não agora!

O tom de voz do capitão não deixou dúvida: ela compreendeu que não havia jeito e virou as costas para ir embora. Ele sentiu pena: com certeza a moça estava ali tentando ganhar para viver. Pegou uma moeda e pôs na mão dela.

—   Vamos, vá tratar de sua vida — disse, com mais suavidade.

Eu não tenho tempo e ele... — olhou para Kit, sentado no chão ele não está em condições, bebeu muito.

A moça encolheu os ombros, depois se afastou. O sr. Adam e o estalajadeiro conseguiram, por fim, colocar o jovem Godfrey na se­la. Ao cair ele machucara o rosto; não era grave, mas sangrava bas­tante e a dor parecia ter-lhe devolvido um mínimo de consciência, fazendo-o compreender em que estado se encontrava. Não protes­tou quando o capitão, já montado, pegou as rédeas de seu cavalo e o fez encaminhar-se na direção certa.

—   Venha atrás de mim, entende? Se tiver tontura ou enjoo, gri­te, que eu paro. Vamos embora, temos uma hora a cavalo pela frente.

Emily não conseguia dormir e o luar penetrava por uma fresta da cortina. Começava a se preocupar: passava das duas horas da ma­drugada, Kit e o capitão não tinham voltado. Levantou-se, foi até o banco sob a janela e ajoelhou-se nele, observando o jardim ba­nhado pela luz da lua. Podia ver tudo, mas como por entre uma né­voa prateada, que eliminava as cores. Quando seus olhos percorreram o caminho de cascalho que levava à porta principal, viu surgir dois vultos escuros. Abriu a janela e debruçou-se no peitoril, perigosa­mente, para vê-los dirigirem-se à estrebaria. O sr. Adam ia à frente, firme na sela, mas a postura de Kit a impressionou: parecia encolhi­do. Teria tido algum acidente? Ele prometera à mãe que voltariam antes da meia-noite mas, claro, na companhia de Adam Harcourt esquecera a promessa.

Tornou a deitar-se, mas ficou ouvindo, atenta. Percebeu-os en­trar tropeçando, batendo em móveis, sussurrando. Ela acabou se con-

vencendo que tinha, mesmo, acontecido, algo e, aflita, levantou-se de novo, vestiu o robe e foi para o patamar da escada.

Ouviu um corpo pesado cair ao chão e, em seguida, uma enfiada de palavrões. O capitão Harcourt estava xingando Kit. Metade das palavras eram desconhecidas para ela, mas o sentido estava mais do que claro. Transtornada, ela só compreendia uma coisa: Kit, seu ami­go, seu companheiro de infância encontrava-se em apuros e, sem pen­sar se era sensato ou prudente, Emily fez o que sempre fizera quando eram crianças: correu para ajudá-lo.

Desceu a escada voando e foi para o hall de entrada. As duas ve­las acesas, deixadas para a chegada dos dois cavalheiros, estavam quase consumidas, mas produziam luz suficiente para revelar uma cena alarmante: Kit sentado no chão, com o rosto banhado de san­gue, e o sr. Adam, inclinado, procurava erguê-lo, sem qualquer cui­dado. Ao contrário, os modos dele eram brutais.

Levante-se, seu idiota! Vamos! — rugia o capitão. — Se não levantar, fica aqui no chão! — Devia tê-lo deixado na estrada!

O que aconteceu com ele? — perguntou Emily.

O sr. Adam voltou-se e ficou estupefato ao vê-la de camisola e robe, descalça.

—   Meu Deus! O que está fazendo aqui? Vá para a cama, vai apa­nhar uma friagem.

Ignorando-o, ela ajoelhou-se junto de Kit.

Está machucado... O que aconteceu? O que o senhor fez com ele?

Nada! Ele tropeçou nos próprios pés e caiu. Nesse momento, o jovem Godfrey abriu os olhos:

Ah! Eis Emily, a moça admirável! Arranjei marido para você, viu? Onde ele está?... Hum, está aqui. Pare de balançar desse jeito, Adam!

Emily sentiu o bafo azedo de vinho e fez uma careta.

Ele está bêbado!

Fantástico! A senhorita percebeu! — exclamou o capitão, sar­cástico. — É muito observadora. Volte para a cama!

E deixo Kit aos seus carinhosos cuidados? Coitadinho! Não estaria assim se não saísse em sua companhia. Olhe quanto sangue! Vou buscar água e...

Não precisa! — E o sr. Harcourt agarrou-a por um braço, sem qualquer gentileza. — É só um arranhão e eu cuido dele. Já está pa­rando de sangrar. Volte para a cama!

Não! O que vai fazer com Kit?

       Pretendo deitá-lo. Saia do caminho, por favor, antes que ele faça mais barulho e acorde a mãe e a irmã. Não quer que elas o ve­jam assim, não?

Era verdade. Emily adiou o que tinha vontade de dizer e ajudou o capitão a erguer o irmão de criação e mantê-lo de pé. Subiram a escada quase arrastando o rapaz e levaram-no para o quarto dele, que estava às escuras. Kit, então, pareceu reconhecer onde estava, pois empurrou os dois, cambaleou até a cama e deixou-se cair sobre ela, permanecendo imóvel.

Ele desmaiou! — assustou-se a moça.

Está dormindo — contrapôs o sr. Adam.

Encontrou uma vela, acendeu-a. Kit jazia de costas na cama, a cabeça no travesseiro, as botas sobre a colcha e um sorriso angelical nos lábios.

O que vamos fazer? Acordá-lo? — sussurrou Emily.

Ele não acordaria nem com as trombetas do Juízo Final. Vou tirar-lhe as botas e deixá-lo dormir.

Não posso deixá-lo dormir nessas condições! — revoltou-se ela. — Deve haver água aqui, vou limpá-lo um pouco.

Conseguiu, de fato, retirar a maior parte do sangue do rosto do rapaz e quando terminou, o sr. Adam tratou de tirar a primeira bo­ta. Puxou-a e o resultado foi irritante: ela não saía e Kit deslizava na cama.

Diacho! — exclamou irritado. — Sente-se em cima das pernas dele! — comandou.

O quê? — os enormes olhos azuis abriram-se mais.

Já que está aqui, faça algo útil. Sente-se sobre as pernas dele e mantenha-o no lugar, para eu tirar essas malditas botas!

Sem saber o que dizer, ela obedeceu: sentou-se sobre os joelhos do rapaz inconsciente. Depois de arrancar-lhe as botas, o capitão segurou-o pelos ombros e virou-o, fazendo-o ficar de lado; então amontoou vários travesseiros junto às costas dele.

O que está fazendo? — indagou ela, num sussurro.

Ele está cheio de vinho e pode vomitar dormindo; muitos homens morreram sufocados, por isso. Deitado de lado, nada de ruim vai lhe acontecer.

Terminou de ajeitar o amigo e endireitou-se.

—   Ainda está aqui? — indagou, fitando a moça, depois deu-lhe a vela. — Vá para seu quarto, agora. Ele vai acordar, com uma dor de cabeça dos diabos e será bem-feito! Espero que sofra bastante. Não esperou resposta e saiu do quarto. Emily seguiu-o, fechando

a porta com cuidado. Pensou que ele fosse para o quarto, mas o ca­pitão começou a descer a escada, procurando algo nos bolsos e res­mungando.

—   Perdi minhas cigarrilhas... Esta maldita casa! Fria como um túmulo, cheia de mulheres virtuosas como freiras!

Emily hesitou, depois não se conteve e espiou por cima do corri­mão. Ele atravessou o hall, foi para a biblioteca e fechou-se nela. Só então a moça percebeu que estava com frio e que a vela gotejava, a cera quente quase lhe queimando os dedos. Devia ir para a cama, mas o que desejava dizer àquele homem ainda estava entalado em sua garganta. Desceu.

Ele levara um dos tocos de vela do hall para a biblioteca e pratica­mente não havia luz. Emily entrou e pôs a vela que carregava sobre uma mesinha. Iluminava Um pouco mais, não muito. O sr. Adam encontrava-se recostado no sofá, com uma garrafa de conhaque nu­ma das mãos, um copo na outra. Olhou-a.

Ah! Aí está a noviça! Esta casa parece um convento dos romances da sra. Radcliffe. Aparições fantásticas, vestidas de branco, flutuam pelas salas e corredores, gemendo. Por que ainda está an­dando por aí? Parece lady Macbeth! Já lhe disse para ir se deitar! Vá embora, aparição!

Vejo que vai beber mais — observou ela, fria. — Acha que é comportamento adequado?

Pouco importa.

Se continuar, vai ficar como Kit — observou ela, exasperada. —    Não pense que tenho forças para arrastá-lo até lá em cima e colocá-lo na cama... — só então reparou na inconveniência do que dissera.

Minha querida, não precisaria me arrastar, eu iria com a maior boa vontade! — Ele ergueu o corpo, numa saudação. — Pode se apo­derar de mim: sou todo seu...

O   senhor   pensa que   está   sendo   engraçado?   — Emily aproximou-se e estendeu a mão. — Dê-me essa garrafa, já!

A senhorita é uma megera! — exclamou o capitão, sombrio.

—   Kit mentiu! Disse que você — esqueceu-se completam ente da boa educação, empolgado como estava — não se importaria se eu bebesse um pouco, mas você é uma harpia! — Suspirou profundamente e, para surpresa de Emily, entregou-lhe a garrafa.

—Pode me chamar de megera o quanto quiser — ela tratou de pôr a garrafa fora do alcance dele —, mas tenho umas coisas a lhe dizer, sr. Adam Harcourt. Por que deixou o pobre Kit ficar naquele estado?

O pobre Kit!... — repetiu ele, irritado. — Não pude controlar o seu querido e pobre Kit! Além disso, um homem tem direito de beber de vez em quando. Mulheres sensatas tapam os ouvidos e fazem de conta que nada aconteceu. — Esvaziou o copo, como se a desafiasse.

Prometeu-me que cuidaria dele!

E cuidei. Até o trouxe para casa. Agora chega de lamúrias, mo­ça! Deixe-me em paz!

Essas palavras a fizeram cair em si. Ele também bebera bastante e não se encontrava em condições de ouvir sermão. Era melhor dei­xar para o dia seguinte.

Por que não vai se deitar? — indagou, mais calma. — Se não, acabará adormecendo aí no sofá. Não é confortável.

Já dormi em lugares piores, Flor....Mas tem razão, vou me dei­tar. — Estendeu a mão e pediu: — Ajude-me a levantar.

Por quê? — Emily ficara desconfiada.

Por educação. Vamos, ajude-me — e os olhos quase negros espelhavam inocência. .

Como vou poder ajudá-lo sé... Está bem!

Emily segurou a mão dele, morena e rude, mão enxuta, firme, de homem que ficava muito tempo ao ar livre, que cavalgava, muito diferente da mão gorducha e mole de George. Mas não teve tempo para avaliar as diferenças.

Ele riu baixinho, rouco, puxando-a para si com força e ela voou para a frente. Sem saber como, viu-se sentada sobre os joelhos dele.

—   Solte-me! — exclamou furiosa.

Começou a debater-se, esperneando, agitando os braços e o robe que não amarrara acabou caindo no chão. O capitão passou um braço pela cintura, segurando-lhe os dois pulsos com apenas uma das enor­mes mãos, e firmou-a no lugar.

Pare de fazer confusão, Flor. A sra. Godfrey poderá ouvir o barulho e descer para ver o que há. Não quer isso, não é?

Voe... O senhor está bêbado! — a voz dela soou desesperada.

Só um pouco. Vamos, Flor, passe seus braços pelo meu pes­coço e me dê um beijo. Eu não trouxe o seu precioso Kit para casa, são e salvo? Mereço uma recompensa, Flor...

Pare de me chamar de Flor! E não quero beijá-lo.

Não, você não quer — concordou ele, mal-humorado. Emily corou e mordeu os lábios. Depois murmurou:

Posso ir, agora?

Não, não pode. — Ele se recostou, apoiando a cabeça no encosto do sofá e fitou-a por entre as pálpebras semicerradas. — Seus cabelos são lindos e gosto deles assim, soltos, não cheios de cachinhos e fitinhas, como no jantar da minha chegada.

Enfiou uma das mãos entre os cabelos castanhos, fartos e macios. A jovem estremeceu e não foi de frio.

Aquele era um penteado grego! — reagiu, indignada.

Moda não me interessa, as mulheres parecem gárgulas quando estão todas paramentadas. Gosto de moças naturais, alegres... — Deu uma palmadinha no joelho dela e sua mão ficou ali, parecendo queimar-lhe a pele através do fino tecido de algodão. — Só um beijo, Flor. Não é impróprio, pois vamos nos casar, você sabe.

É, eu sei...

Ao mesmo tempo pensou: Isto é horrível, mas vou ter que beijá-lo, pois se não o fizer não me deixará ir e ficará ofendido.

Você beijou Kit, no quiosque, eu vi — disse ele, ressentido.

Mas era diferente! Está bem... Mas depois tem que me deixar ir embora. Prometa!

Ele fez que sim com a cabeça e ergueu uma das mãos, como que para jurar. Ela hesitou, depois inclinou-se, respirou fundo e, por fim, comprimiu os lábios contra o rosto dele. Sentiu que a barba feita naquela manhã já estava crescendo e imaginou que provavelmente ele esperava que o beijasse na boca, mas não conseguira fazer isso. Seria uma atitude íntima demais. Sozinha com o capitão, naquela sala quase às escuras, sentia-se insegura. E um pouco assustada, tal­vez, mas também sentia-se emocionada de forma inexplicável. Ele cheirava a vinho, porém, muito menos do que Kit, e a leve suor. Cui­dar de Kit, arrastá-lo, colocá-lo em cima do cavalo devia ter sido um grande esforço. Principalmente, ele tinha cheiro de homem, não era como George, embebido em água de colónia.

O sr. Harcourt não se mexeu. Permaneceu sentado, fitando-a com expressão enigmática. Emily ficou atónita, pois esperava que ele rea­gisse de algum jeito, talvez abraçando-a e beijando-a, como fizera à beira do córrego. Ficara tensa, esperando por isso e surpreendeu-se ao verificar que se sentia desapontada por nada ter acontecido. A tensão foi desaparecendo e, por fim, ela viu-se tomada de leve em­baraço, diante do silêncio dele. Por fim, o capitão indagou, com voz sóbria e muito sério:

Foi muito ruim?

O quê? — perguntou a moça, sentindo uma certa culpa.

Ser obrigada a me beijar. Foi uma experiência terrível? Algo assim como um destino pior do que a morte?

Não... — ela conseguiu sussurrar. Ele soltou a fina cintura da moça.

—   Então, pode ir, agora. Cumpro minhas promessas e trato é trato. Vá. Não precisa correr que não vou segui-la.

Na voz do capitão, além da ironia, havia uma nota de amargura que ela jamais percebera. Não podia calcular até que ponto ele se encontrava bêbado. Sabia, com certeza, no entanto, que não tinha vontade de se erguer dos joelhos dele e, sem entender por quê, gos­taria de lhe dizer algo agradável, em vez de criticá-lo. Não era de admirar que ele a chamasse de harpia. Estendeu uma das mãos e to­cou timidamente os alamares da túnica militar.

Eu não queria repreendê-lo — começou, baixinho. — Fiquei assustada com Kit, aquele sangue todo no rosto dele. Não estou acostumada com essas cenas. Acredito que você... o senhor esteja. Tal­vez até com cenas bem piores.

É... Vi cenas muito desagradáveis. Posso pedir um favor? —Ela acenou que sim. — Não me chame de "senhor".

Está bem... O se,.. Você nunca fala da Espanha e Kit não fala de outra coisa.

Não preciso: ele fala por nós dois. Não preciso tagarelar sobre essas coisas, mesmo porque você não quer ouvi-las de mim. Prefere Christopher...

Acha que sou mal-educada e implicante, não? — Ela suspirou. — Acredite, não sou assim.

E você acha que sou um beberrão que gosta de mulheres pou­co recomendáveis. Mas isso não é verdade.

Desculpe.. — murmurou ela, em tom quase inaudível.

Os dedos de Emily deslizaram pelo galão dourado da túnica e al­go fino perdeu-se sob uma de suas unhas. Algo fino e resistente. Olhou e viu que era um fio de cabelo loiro, muito comprido. Foi como se lhe jogassem um balde de água fria. A aflição e a meiguice desapareceram num passe de mágica.

Isto não é meu — disse, com voz cortante.

O quê? — Ele observou o cabelo. — Claro, deve ser da moça que encontramos na Turl Street.

Encontraram uma moça? Refere-se a... a uma "daquelas" criaturas? E tenta me convencer de que não costuma... procurá-las?

Emily ergueu-se, rápida, com os olhos azuis soltando faíscas.

Não se zangue à toa, Flor — pediu ele, com voz cansada. —Só conversamos com ela, juro que foi só isso.

E não lhe deram dinheiro?

Dei, sim, dei meia coroa... — admitiu ele, novamente irritado.

O senhor é muito generoso! Dá meias coroas a todas as moças que encontra! Adora distribuir dinheiro, pelo jeito. Só que me pare­ce pouco. Afinal, eram dois!

Já disse que não tivemos os favores da moça! — exclamou o sr. Adam, endifeitando-se no sofá. — Eu estava ocupado, amparando Kit, e ele não tinha capacidade para entender qualquer coisa. Já não dei meia coroa a você por nada, uma vez? Esqueceu disso? Não ve­jo por que não pode acreditar que fiz a mesma coisa esta noite.

Parece que está acostumado a fazer maus negócios! — retru­cou ela, enfurecida.

É, parece mesmo! — rosnou ele, erguendo-se. — Fiz um péssimo negócio na Espanha: paguei dez mil libras por você e começo a achar que foi o pior negócio da minha vida! Agora, faça o que quiser, que eu vou me deitar. Boa noite, prezada senhorita!

Atravessou a biblioteca com passo duro e bateu a porta ao sair. O estrondo ecoou na casa inteira, como um trovão.

 

O capitão Harcourt resolveu voltar para Essex dois dias depois. O tempo estava péssimo, ameaçando tempestades que não aconteciam e de repente a temperatura caiu. Emily estava parada no início da ala­meda, para despedir-se dele. Depois do incidente daquela noite mal haviam trocado uma dúzia de palavras. A fisionomia do sr. Harcourt encontrava-se tão sombria quanto o céu carregado de nuvens. Ela achou que não ficaria surpresa se ele nunca mais voltasse, depois de classificá-la de "o pior negócio da minha vida". Bebera mais do que o limite, era verdade, mas as palavras tinham sido sinceras.

Deve entrar, agora — disse ele, inclinando-se sobre a sela. —Seu vestido é muito leve e o vento está frio, úmido.

Sua viagem não será confortável... — murmurou a moça, com certo esforço.

Um pouco de vento e chuva não impressionam um velho sol­dado — respondeu o sr. Adam, com um breve sorriso.

Desejo-lhe uma viagem segura e... e nós ficaremos a sua espera.

As palavras soaram falsas, mas na verdade a despedida machuca­va o coração de Emily. Só conseguia lembrar o que desejava não ter dito a ele... e as coisas que não dissera, mas gostaria de dizer. Ergueu a mão, ele segurou-a e beijou-lhe os dedos, de leve.

—   Voltarei dentro de um mês. Acho que não terei conseguido aprontar tudo, mas então você irá e poderá ajeitar as coisas a seu gosto. Entre, está começando a chover.

Ajeitou a capa de lã, grossa, acenou um adeus e tocou o baio a meio galope, afastando-se sem olhar para trás. Não era uma separação de namorados, pensou Emily, apertando o xale ao peito. As gotas de chuva misturaram-se às lágrimas, enquanto corria para a entrada da casa.

O sr. Adam fora embora sem se voltar porque Emily lhe parecera tão pequenina e infeliz que sentira impulsos de dizer-lhe algo para consolá-la,. porém não sabia o quê. Então, tocara o baio e mais uma vez colocara distância entre ele e seus problemas. Achou que a moça se consolaria, pois durante sua ausência teria Christopher Godfrey apenas para ela.

A viagem progrediu bem, apesar do mau tempo, e ao anoitecer do terceiro dia já se encontrava numa paisagem familiar, quando notou um homem caminhando, pouco adiante, na beira da estrada. A altura e a compleição física pareceram-lhe conhecidas. Quando ia passar por ele um raio rasgou o firmamento e o caminhante ergueu a cabeça.

—   Andrew Morris! — exclamou o sr. Harcourt, parando o cavalo e voltando. — Você não é o filho do nosso administrador, no tempo de meu tio? — perguntou, quase aos gritos, para fazer-se ouvir entre o assovio do vento e o matraquear da chuva.

—   Sim, capitão Harcourt, sou eu mesmo — gritou o outro. —Não pensei que me reconheceria, depois de tanto tempo.

—   Como não? Fizemos tantas traquinagens e pescarias juntos! E logo você que era o único garoto que conseguia lutar comigo...Onde vai?

Ouvi dizer que o senhor tinha voltado da guerra e ia visitá-lo.

Olhe, duzentos metros adiante há uma estalagem. Vou na frente, para pedir que preparem comida quente. Espero por você lá —e saiu a galope.

Quando Andrew chegou à estalagem viu o capitão sentado junto da lareira, as roupas molhadas soltando vapor.

Sente-se, Andrew. Pedi uma bebida para nós "dois, tome um trago enquanto esperamos a comida. Veio de onde?

De Londres — foi a resposta acompanhada por uma careta.

O sr. Adam observou o companheiro de infância, pensativo. Sou­bera que Andrew se casara, tinha um negócio, mas pelo jeito as coi­sas não iam bem. Não falou nisso enquanto comiam. Depois, pediu dois cachimbos de argila e acomodou-se mais confortavelmente em sua cadeira, perguntando o que acontecera.

A história de Andrew era breve e triste. Depois de casar, abrira uma pequena loja com a ajuda da esposa, que adoecera e morrera, meio de repente. Daí por diante tudo desmoronara. Por sorte não haviam tido filhos. Ia procurá-lo para ver se lhe arranjava emprego. Sabia fazer muitas coisas.

Sinto que esteja viúvo. Isso é triste... — comentou o capitão, penalizado.

Sim. Com uma boa esposa ao lado pode-se enfrentar qualquer coisa. Mas um homem só...

Estou para me casar — comunicou o sr. Adam, esvaziando o cachimbo na lareira.

Que boa notícia, senhor! Permita-me felicitá-lo.

Não sei se é o caso — murmurou ele, depois, em tom normal: — Vamos às coisas práticas, Andrew. Vai trabalhar para mim. Preciso de alguém de confiança e você é o ideal, vai saber me cuidar...

Seria uma honra, senhor — respondeu Andrew, surpreso. —Mas não sei se poderia ser criado particular... O senhor cansaria logo de mim: sou desajeitado.

Bobagem. Não preciso de um boneco de cabelos encaracolados, que use meu nome para ter crédito e minhas camisas quando eu virar as costas. Preciso de um homem firme, de confiança, que cuide de meus negócios, de minha propriedade quando eu não puder fazê-lo pessoalmente. Necessito de uma pessoa que seja meu braço direito, pois tenho que fazer uma centena de coisas em menos de um mês, para então voltar a Oxfordshire, a fim de casar e trazer minha esposa para casa. Ela não pode chegar e encontrar tudo por fazer.

—   Suspirou. — Espero que ela goste da casa, Andrew.

Claro, senhor! "The Hall" é a casa mais linda que já vi. Nunca a esqueci e adorava andar com meu pai pela propriedade. Tam­bém lembro do tio do senhor...

Eu não esqueço aquele velho tirano — murmurou o sr. Adam —       Muitas vezes agradeci a Deus por ter me feito grande e forte, caso contrário não teria sobrevivido a minha infância. — Encolheu os ombros, sorrindo. — Bom, isso passou. A melhor coisa que me aconteceu desde que voltei à Inglaterra foi este encontro com você, meu amigo!

Andrew sentiu-se intrigado ao ouvir aquilo de um homem prestes a se casar, porém nada comentou. Pelo jeito, o capitão não estava muito entusiasmado com o casamento e ele sentiu curiosidade em conhecer a noiva.

O sr. Harcourt chegou em casa bem mais animado do que saíra de Leigholm: as lareiras dos principais aposentos encontravam-se ace­sas, tudo havia sido arejado e arrumado para recebê-lo. Havia mui­ta correspondência, entre a qual uma carta de seu ilustre e aristocrático primo. Começou por ela, querendo saber o que levara o Par da Inglaterra a escrever-lhe. Não era possível que já soubesse do noivado... Aí, lembrou-se: The Times. E, de fato, o distinto mem­bro da Câmara dos Lordes vira a notícia no jornal e protestava, com classe, por não ter sido avisado pessoalmente. O restante da carta referia-se ao desejo expresso pela maioria dos franceses de ter de volta seu "imperador" e de como ele poderia escapar facilmente da ilha de Elba, onde fora confinado. Sabia-se da conspiração para libertar Bonaparte, cuja palavra de ordem era "O imperador voltará com as violetas", quer dizer, na primavera de 1815. O nobre primo desa­conselhava que ele desse baixa do exército e recomendava, se possí­vel, que adiasse o casamento. Por fim, pedia que destruísse a carta.

O sr. Adam não se surpreendeu. Era bobagem pensar que Napo-leão Bonaparte, que dominara uma nação e impusera sua vontade aos reis da Europa, permaneceria numa ilhota do mar Mediterrâ­neo, acompanhado por uns poucos fiéis.

—   Eu não ficaria — disse ele, em voz alta. — Tentaria mais uma vez, arriscando tudo numa única jogada. Afinal, que mais ele pode perder?

Levantou-se e observou a carta sendo consumida pelas chamas. Não podia adiar o casamento. Naquela noite fatídica, ao voltar para casa com o jovem Godfrey, estava embriagado, mas não o suficiente para esquecer o que havia dito e feito. Falara com Emily demonstrando rai­va, por causa da bebida e, para ser honesto, também por ciúme. La­mentava suas palavras, mas não podia apagá-las. Dissera-lhe que ela era o pior negócio que fizera na vida e com certeza a moça não se es­quecera disso. Se adiasse o casamento, ela pensaria que iria deixá-la e com a notícia do casamento já publicada no The Times, a reputação dela seria prejudicada se não houvesse casamento.

Voltou para Leigholm no começo de setembro. Tudo estava pronto e a sra. Godfrey não disfarçou a alegria e o alívio ao vê-lo chegar. Chamou a noiva e deu-lhe conselhos que eram quase ordens.

Emily, faça o favor de mostrar mais entusiasmo, alegria ao ver seu noivo! Meu Deus, não sei o que há com você: vai se casar com um homem atraente, excelente partido, e andar por aí com cara de velório! O que ele vai pensar? Você está doente, menina?

Não, senhora.

Então, melhore esse rostinho! — disse a sra. Godfrey, um tanto irritada. — Sua modéstia de donzela já passa dos limites.

De fato, a moça parecia não querer ficar perto do noivo e este, por sua vez, só se mostrava satisfeito quando estava longe dela, na estrebaria ou na biblioteca ou com o jovem Godfrey, jogando bilhar. A anfitriã não conseguia, de modo algum, entender a nova geração. Resmunga­va, dizendo que parecia haver antipatia entre aquele casal de noivos...

Kit, no entanto, sentia-se felicíssimo e demonstrava:

—   Que bom você ter voltado, Adam, eu morria de tédio! Só tinha George como companhia e quanto mais o conheço, menos gosto dele. Quando bebe dois copos, fica roxo e só sabe falar em suínos. É a primeira vez que encontro um homem como ele, incapaz de qualquer coisa. Pobre Hester... Provavelmente — continuou, dando uma tacada — a atividade dele entre os lençóis não vai valer nada. E nem sequer sabe jogar bilhar!

O sr. Adam detestava a maneira grosseira com que o amigo se re­feria à futura vida matrimonial da irmã. Nada comentou e tratou

de perguntar, ao dar a volta na mesa:

Jogamos por um guinéu ou coisa assim? Jogar de graça é um tédio. Sabe, não consigo fazer o George arriscar dinheiro: ele tem medo de perder um cent, que seja!

Foi só o que você fez? Mais nada? — perguntou o capitão, passando giz na ponta do taco.

Não! Vou contar o que fiz — respondeu o rapaz, sern notar a ironia do amigo. — Aprendi a valsar e isso é muito útil, sabe? As moças não se interessam por um homem que não dança a valsa. Agora, quando falo na Espanha, parecem um tanto aborrecidas: já não é novidade. Precisa aprender, também!

Jamais aprenderei a dançar, pois não posso: tenho dois pés es­ querdos... Onde você aprendeu?

Aqui mesmo, ora! — Kit afastou-se e o capitão inclinou-se sobre a mesa. — Hester toca piano e Emily se dispôs a ser minha parceira. Aprendemos os dois, bem depressa. Ela dança melhor do que eu e sempre lhe piso os pés, quando praticamos. Hoje, depois do jantar, faremos uma exibição. Hester tocará, mamãe e você verão o que Emi e eu sabemos fazer.

O taco, manejado pelo capitão, quase rasgou o feltro da mesa e bateu na bola com violência, ela caiu.

—   Oh! Essa foi uma tacada digna do George! — riu o rapaz. —Falei que íamos jogar por um guinéu? Que tal dez? Você está sem prá­tica e sem golpe de vista... ou será que é alguma coisa que o preocupa?

Quando Christopher Godfrey resolvia fazer alguma coisa era impos­sível demovê-lo. Depois do jantar, levou todos para a sala de visitas, mandou a irmã para o piano e empurrou as poltronas para a parede.

—   Mamãe, sente-se aqui, e você, Adam, naquela outra. Hester, primeiro pratique um pouco, para não errar demais.

Quando Emily percebeu as intenções do irmão de criação ficou horrorizada. Na ausência do noivo não se importara de brincar com Kit e aprender a dançar a valsa, mesmo com ele pisando em seus pés. Mas uma exibição pública era diferente. O sr. Adam não pro­curava esconder o desagrado, através de uma expressão tempestuo­sa e ela não entendia a indiferença do rapaz às opiniões do amigo.

Isso é loucura, Kit! O sr. Adam não vai gostar... — sussurrou ao ouvido dele.

Besteira — respondeu Kit, aéreo como sempre —, ele não sabe dançar. Depois de mostrarmos como é, vamos ensiná-lo. Ele bem que pode tentar.

Não! — exclamou a moça, agoniada. — Ele não vai querer... nem eu quero, Kit. Acho uma péssima ideia.

Hester praticava escalas para aquecer os dedos, a sra. Godfrey encon­trava-se junto da mesinha onde logo um criado colocaria o chá e o ca­pitão, de braços e pernas cruzados, lançava olhares ferozes ao redor.

Pronto! — ordenou Kit e enlaçou a cintura da jovem, num gesto íntimo, como a nova dança exigia. — Comece a tocar, Hester, e pare de se torcer, Emi!

Você está me apertando demais!

Não é verdade!

Está me amassando contra o seu peito e ele vai bater em você! Pelo amor de Deus, sou noiva dele, embora apenas pelo trato que fizeram — dizia ela baixinho, aflita. — Mas tenho certeza de que meu noivo quer que me comporte com decência!

Ele não se importa, você é como minha irmã. Adam, não seimporta de dançarmos, não é mesmo? — berrou Kit.

Sei que essa dança é considerada aceitável em todos os lugares — interferiu a sra. Godfrey, séria —, mas na minha opinião não é muito decente. Não pode se afastar um pouquinho de Emily, Christopher? Acho que não seguraria uma moça desse jeito, se ela não fosse da família!

O capitão Harcourt que lembrava bem das noitadas passadas com Kit, em companhia de moças desfrutáveis, na Espanha, resolveu ir olhar pela janela.

Sem atender a mãe, o rapaz ordenou:

—   Ande, Hester. Comece a tocar.

Hester tocava com prazer e Kit rodopiou com Emily, que vivia um ver­dadeiro pesadelo. Enquanto volteavam pela sala, um-dois-três, passaram por Hester ao piano, um-dois-três, então pelo sr. Adam, que parecia prestes a assassiná-los, um-dois-três. Afinal, graças a Deus, Hester parou de tocar e Kit deu um aperto carinhoso no ombro delicado de seu par.

Muito bem, Emi! Eu disse a Adam que havíamos praticado muito. É fácil. Por que você não tenta dançar com Emi? É só ir con­tando, um-dois-três, e seguir o ritmo, girando...

Muito obrigado — disse o capitão, gélido. — Provavelmente pisaria na barra da saia ou nos pés de meu par... Além disso, acho que a srta. Godfrey está cansada de tocar.

Mas eu... — começou Hester e corrigiu depressa, ao ver a expressão negra do convidado: — Sim, acho que prefiro descansar um pouco...

Ah! Chegou o chá! — anunciou a sra. Godfrey e todos respi­raram melhor.

A valsa dá muita sede! — comentou Kit.

O capitão ergueu-se, aceitou sua xícara de chá e foi para a ampla porta envidraçada que dava para o terraço, no outro extremo da sa­la. Parou de costas para os outros, olhando a escuridão do jardim. Com uma certa hesitação, Emily pegou a xícara dela e foi para jun­to do noivo, que pareceu não tomar conhecimento de sua presença. Por fim a moça falou:

Você ficou zangado... Acha que essa dança não é apropriada para uma dama.

Quem sou eu para dar opinião? A sra. Godfrey explicou que está na moda e não me oponho a que as pessoas se divirtam.

Eu não me diverti — disse ela, baixinho.

O sr. Harcourt colocou a xícara sobre uma mesinha:

Se não se divertiu porque não dancei com você, perdoe-me, mas é como disse. Não sei dançar e garanto que você não gostaria. É melhor ter Kit como seu par.

Não foi ideia minha... — disse ela, contrariada.

Está bem... Não estou zangado. Claro que você deve se diver­tir como gostar e quiser.

Ele continuou olhando para a escuridão e o silêncio se prolongou, de novo.

—   Pensei — disse Emily, quase num murmúrio — que você não ia voltar...

Isso chamou-lhe a atenção e ele encarou-a.

Esperava que me considerasse um homem de palavra...

Nunca duvidei disso. Só acho que toda essa história deve ser maçante para você e que não deve ter pressa em se casar comigo.

O sr. Adam abriu a porta envidraçada.

—   Vamos, sair, preciso de ar fresco. Além disso, podem ouvir o que dizemos aqui.

A sra. Godfrey observou-os sair para o terraço e sorriu, satisfeita.

Que bom! — murmurou para Hester. — Eles pareciam tão... tão frios um com o outro! Agora quiseram ficar a sós e isso é nor­mal, entende?

George nunca me leva para o terraço? — comentou Hester.

Ele nem saberia o que fazer no terraço — resmungou Kit, que tentava tocar algumas melodias ao piano, com um dedo só.

A noite de setembro estava fresca. Não chovia há dias e o chão encon­trava-se seco. Os dois desceram os antigos degraus de granito e saíram ca­minhando pela alameda do jardim. Pequenas formas escuras de vez em quando esvoaçavam acima de suas cabeças. Ela olhou-as, preocupada.

       São apenas morcegos, caçando insetos — explicou o capitão. — Não vão se emaranhar em seus cabelos.

Sim... Foi bom sairmos, Kit às vezes me irrita. Ao ouvi-la dizer aquilo, ele ergueu as sobrancelhas.

Mas você logo o perdoa, claro.

É... Acho que sempre perdoei tudo a ele. Kit era terrível! Aprontava coisas endiabradas, o tempo todo.

Posso imaginar. Quando foi que ele perdeu o pai?

Há muito tempo. O sr. Godfrey era vivo quando vim para cá, com nove anos, porém morreu pouco depois. Kit foi criado entre mulheres indulgentes e acho que isso teve consequências...

Teve, sim. Mas eu fui criado, se é que posso usar esse termo, de modo muito diferente...

Haviam chegado ao quiosque. O sr. Adam hesitou, depois abriu a porta, entraram e sentaram-se num banco tosco. Vendo que Emily estremecia de frio, ele tirou a túnica e colocou-a nos ombros dela, que se aconchegou em seu calor e fitou-o.

Obrigada. Estava falando de sua infância. Kit disse-me que perdeu seus pais, como eu.

De fato. E foi muito cedo, porque não me lembro deles. Meu tio, irmão caçula de meu pai, que morava conosco em The Hall, foi nomeado meu tutor contra a vontade dele, e também contra a minha, quando cresci o suficiente para ter opiniões. Se eu fosse mais velho, quando meu pai morreu, ele teria se acostumado a me ver co­mo herdeiro, mas ficou furioso ao perder tudo para um nené chorão.

Ele não tinha direito de pensar assim! — exclamou Emily, in­dignada. — Era o filho caçula e sabia que não ia herdar.

Por quê? Ele poderia herdar se eu morresse. Ele morava em The Hall, considerava a propriedade seu lar e, de repente, viu que tudo pertencia a um bebé pelo qual era o responsável. Portanto, não posso censurá-lo por não gostar de mim.

Eu posso! — retrucou a moça e ele riu.

Fico feliz com seu apoio! Não foi uma infância agradável e não gosto de lembrar. Há coisas que é melhor esquecer.

Seu tio ainda vive? — indagou ela, em tom agressivo.

Sinto desapontá-la, pois parece belicosa, decidida a tirar satis­fações com ele. Meu tio morreu.

Detesto pensar que alguém seja capaz de maltratar crianças ou negligenciá-las. É o pior que pode acontecer.

Você gosta de crianças? — quis saber ele.

Sim, claro! O sitiante Honeyburge... — Calou-se, confusa, ao lembrar que ele a tomara por uma filha desse homem. — Quer di­zer, no sítio dele há uma criancinha nova todos os anos e eles gos­tam disso. Todos crescem saudáveis. A sra. Godfrey acha que os bebés dos Honeyburge deveriam pegar todas as doenças, mas isso não acontece. Nem aftas eles têm!

Uma linhagem saudável, então — comentou o capitão.

Você está pensando em cavalos de corrida! — irritou-se Emily. — De bom fôlego e ossatura forte... como eu.

Não, eu não pensava isso. Escute, Emily, sobre a criação de cavalos, sobre meu futuro, devo lhe dizer que recebi uma carta de um parente que participa da Câmera dos Lordes. Isto é confidencial, portanto não conte à sra. Godfrey, nem a Hester. Há uma conspiração para tirar Bonaparte de Elba e restituir-lhe o trono. Não sei se conseguirão, mas haverá uma tentativa, por isso pedi baixa do Exército. Talvez ainda haja guerra.

Isso vale também para Kit?

Receio que sim — respondeu ele, com ar triste.

Espero que não haja outra guerra, embora desconfie que você está com saudade das batalhas e gostaria de fazer mais uma compa­nha pela Europa.

Só até certo ponto. Perde-se bons amigos... — Ele ficou em silêncio por instantes, depois continuou: — Espero que você goste de The Hall. Todos estão limpando, renovando, preparando tudo para recebê-la. Temos uma governanta ótima.

Sei que vou gostar, mas parece-me muito grandiosa e nunca dirigi uma casa de grandes proporções.

Sei que vai conseguir e a governanta irá ajudar muito. Só me preocupa que você fique entediada. Aqui, tem sua família...

Não sou parente dos Godfrey, como sabe. Meu pai era amigo do sr. Godfrey e ele se tornou meu tutor. Além disso, você quer fi­ lhos, não é? Bem, quer pelo menos um herdeiro... Espero não decepcioná-lo e isso irá me manter ocupada.

O sr. Harcourt ficou estupefato ao ouvi-la falar no assunto com tanta franqueza e por alguns momentos não soube o que dizer.

Você é mesmo extraordinária! — exclamou, afinal. — Altera-se diante de coisas que para mim não têm a menor importância e quando acho quer vai ficar chocada, permanece impassível. Sim, eu gostaria de ter um herdeiro. Foi o motivo principal que me levou a procurar uma esposa. — Logo percebeu a grosseria. — Desculpe, isto não foi nada gentil...

Não há o que desculpar. É a verdade. Acho que é sempre bom as pessoas serem honestas.

—   Tem razão — concordou ele, seco. — Mas nem todos são... Essas palavras pareciam ter um sentido que ela não conhecia.

—   Não estou mais zangada com o trato que você e Kit fizeram — disse, baixinho. — Isto é, prefiro não pensar nisso, mas já aceitei o fato e não vou mais me queixar. Você disse que eu sou uma harpia, uma megera... Espero que esteja errado.

Na escuridão, ele procurou a mão de Emily. Estava fria e o sr. Adam procurou aquecê-la, entre as suas.

—   Kit disse que você era uma moça esplêndida e é verdade. Você é ótima, sensata, prática e vamos nos entender bem, pode apostar...

Emily teve a sensação de que os adjetivos "sensata" e "prática" eram como acusações. Preferia que ele tivesse usado outros termos.

Ele deve me achar extremamente maçante, pensou. Eu gostaria tan­to de saber como posso ficar diferente. Gostaria tanto que tudo não tivesse começado da maneira errada. Gostaria... eu nem sei o quê. É uma situação desagradável, sinto-me confusa, nada sensata ou prática...

—   Farei tudo que estiver ao meu alcance — murmurou, afastando os pensamentos.

Ele segurou-lhe o queixo, com suavidade, e a fez erguer o rosto.

—   Não fique deprimida... Vamos, Flor, me dê um beijo. Depois, temos que voltar para a sra. Godfrey não ralhar conosco.

Ela não vai ralhar — respondeu Emily, sombria —, pois acha que devíamos estar sempre de mãozinhas dadas e arrulhando, como tolos.

Estamos de mãos dadas.

É, mas acho que essa não é a maneira certa — foi a resposta impaciente da moça.

E qual é a maneira certa? — indagou ele, achando graça.

Não sei... — respondeu ela, com um suspiro, tentando ver o rosto dele, na escuridão.

Ele via-lhe o rosto como uma mancha clara. Inclinou a cabeça e beijou-a nos lábios, com delicadeza.

—   Não sou um canalha, Emily. Pelo menos, eu acho que não. — Fitou-a, hesitando. — Compreendo você e sinto muito. Sei que não teria me escolhido, mas espero que, pelo menos, eu venha a ser um bom substituto dele.

Emily não entendeu o que o noivo queria dizer e ele não explicou. Quando seus lábios se tocaram, sentiu um arrepio na espinha e afastaram-se, ambos encabulados. Quando voltavam para casa, ela teve a obscura sensação de um mau presságio no céu cheio de estrelas.

 

Como poderia imaginar que você ia se casar antes de mim? — perguntou Hester. — Quando fiquei noiva de George, nem conhecíamos o capitão Harcourt. — Passou os dedos sobre a seda cor de marfim. — Que vestido lindo! Deve ter sido muito caro.

Sua mãe achou que eu devia ter o melhor...

Emily não mostrava muito entusiasmo e olhou com ar ressentido o vestido sobre o manequim, com mangas bufantes junto aos om­bros, depois justas, abotoadas, até os punhos, o corpete bordado com pérolas e a barra, ampla, com aplicações de renda e pérolas.

É o presente de casamento que ela me deu — acrescentou —, dizendo que poderá ser facilmente adaptado para a noite.

Será que o emprestaria para mim, primeiro? — pediu Hester, tímida. — Gostaria muito de me casar com seu vestido.

Se quiser, posso até dá-lo a você — concordou Emily —, pois não sei se terei outras chances de usá-lo.

Terá, sim! Os amigos do capitão Harcourt devem ser muito mais elegantes do que os nossos, aqui. Vai precisar vestir-se sempre bem. Acho que as damas de Essex são vaidosas e as tonalidades do branco continuam na moda.

Não costumo seguir a moda — declarou Emily — e Adam disse que não gosta de mulheres embonecadas. —Observou a irmã de criação, que ainda admirava o vestido. — Diga-me, gosta do Geor­ge? Quero dizer, está apaixonada por ele?

Não — respondeu a jovem, com sinceridade. — Mas não des­ gosto dele.

Não quero ser indiscreta, Hester, mas não acha que depois de certo tempo a convivência com ele vai ser aborrecida?

Um casamento deve ser construído, Emi! Além disso, eu não teria ninguém mais com quem me casar. Sei que você não gosta do George, mas nós duas somos diferentes... Você sempre foi mais atirada, acompanhava o Kit em tudo e eu ficava num canto, chorando de medo. Sabe? Foi uma sorte o capitão ter vindo visitar meu irmão e se apaixonar por você. Deve ter sido amor à primeira vista...

Não, não foi. Ele procurava uma esposa e examinava todos os exemplares disponíveis como se estivesse escolhendo uma égua re­produtora. Ele entende de criação de cavalos.

Emily! — exclamou Hester, chocada. — Como pode falar assim?

Indiferente, Emily sentou-se no peitoril da janela, encolheu as per­nas junto ao peito e passou os braços pelos joelhos. Isto não é nem metade da verdade, pensou, mas a verdade precisa ficar entre nós três.

Não fique aí, é muito impróprio! — censurou a outra. — Se alguém entrasse logo descobriria que você não usa espartilho, pois se usasse não se dobraria desse jeito!

Não me importo! Sabe, Hester? Às vezes você fala como o George.

Nem sempre ele está errado, Emi. Sei que não é atraente como o capitão ou maluco como Kit, mas não é culpa dele! — rebelou-se e saiu do quarto.

Emily, revoltada contra tudo e todos ficou na mesma posição. Fal­tavam apenas dois dias para o casamento e todos estavam agitados. A casa vivia cheia de gente, na maior parte mulheres que queriam ver o vestido ou o noivo e ela sentia-se à margem: um corpo para exibir o vestido ou um apetrecho do sr. Adam.

A porta se abriu e Kit entrou, interrompendo o devaneio.

O que faz aí?

Estou pensando — disse, observando irritada os cabelos loi­ros do rapaz, que lhe caíam na testa.

Kit tinha vinte e quatro anos, aparência de dezenove e agia como se tivesse essa idade.

Emi, você não está contrariada por se casar com Adam, está? Está sendo bondosa comigo e fiquei pensando que...

Você devia ter pensado antes! Já disse que não vou mais me queixar. "Melhor aguentar o que não se pode mudar"... Vi isso num pano de parede, na cozinha dos Honeyburge.

Por falar nisso, pretende dar um monte de filhos a Adam?

Não é da sua conta, mas ele quer um herdeiro...

Estou contente em ver que você aceitou a ideia. Devo dizer que ultimamente andei sentindo remorsos por sua causa, mas vejo que está tudo bem. Foi pura sorte Adam querer uma esposa e eu estar por perto, para sugerir você e... Ei! Pare com isso!

Emily tinha pulado do peitoril da janela e dera um sonoro tapa no rosto do irmão de criação.

—   Eu devia ter feito isso logo que você chegou, quando descobri o qi fez! Devia ter feito isso há anos, quando você fazia suas hor­rorosas brincadeiras comigo e com os outros!

Pare, não me bata de novo! — pediu ele , segurando-a pelos pulsos. — Você está nervosa, precisa descansar... Soltou-a e passou-lhe um braço pela cintura esguia. — Calma, Emi, o grande dia está chegando... Ei! Você não usa espartilho! Parece que a imperatriz Josephine também não usa... — beliscou-lhe junto das costelas e fugiu do quarto.

Não uso espartilho, não estou nervosa e não quero me casar com o capitão Harcourt! — berrou ela, descontrolada.

Olhou para o vestido. Sim. Era lindo e gostaria de poder usá-lo em outras circunstâncias.

—   Não quero me casar... — murmurou, com lágrimas empanando os lindos olhos azuis. — Não quero me casar com ninguém... Não quero me casar com alguém que me comprou como um cavalo ou um par de botas. Eu gostaria de...

Mas não adiantava pensar nisso.

O dia do casamento amanheceu lindo e passou sem qualquer pro­blema. Emily, aprisionada em um espartilho comprado especialmente para a ocasião, e que a mantinha rígida, saiu da igreja pelo braço do capitão Adam Harcourt, passando pelo arco de sabres formado pela milícia local. O almoço foi excelente e a sra. Godfrey ficou sa­tisfeita ao ver que não faltava comida e bebida. O bolo de casamen­to, encomendado em Oxford, chegou inteiro e lindo. O capitão ajudado pela linda noiva, cortou-o com seu sabre. Afinal, passaram para o salão de baile, onde a pequena orquestra começou a tocar. Como mandava a tradição, o noivo levou a noiva para o centro do salão.

Já avisei que não sou dançarino — lembrou ele. — Se não se importa, daremos uma volta andando.

Está bem — concordou ela, olhando para o ombro dele, em vez de fitar-lhe diretamente os olhos.

Escute — murmurou o capitão, sério —, você está linda!

Não é verdade!   — protestou ela, erguendo os olhos e encarando-o.

É, sim — confirmou ele, com certa irritação. — Se não fosse verdade eu não diria. Acontece que você ignora isso... Prefere agir como uma moleca, mas hoje parece uma princesa.

O vestido cor de marfim era lindo, realçava a tez delicada, os olhos azuis. Os cabelos castanhos exibiam um penteado de bom gosto, em

que as madeixas, entrelaçadas com fios de pérolas, desciam do alto da cabeça como uma cascata escura, emoldurando o rosto, até abai­xo dos ombros. Ele podia perceber uma artéria palpitando no pes­coço esguio, e sentiu vontade de beijar aquele sinal vibrante de vida.

Acha que alguém se chocaria se eu a beijasse agora? — per­guntou, sorrindo, enquanto volteavam ao som da valsa.

Pode beijar minha mão — respondeu ela, nervosa.

o capitão Harcourt ergueu-lhe a mão onde brilhava a aliança, levando-a aos lábios. Algo nos olhos escuros, nos cabelos negros, suavemente ondulados, nas pequeninas rugas ao redor dos olhos e da boca firme, provocou uma ansiedade incontrolável que a fez di­zer, para disfarçar:

Você não me disse a verdade! — exclamou ela, só então notando que valsavam há algum tempo, em vez de caminhar.

Sobre o quê?

Disse que não sabia dançar e dança muito bem? Por que mentiu para mim e para Kit?

Será que pelo menos hoje não poderíamos conversar sem fa­lar em Cristopher Godfrey?

Como queira — respondeu ela, surpresa. Depois de alguns vol­teios, indagou: — E de George, posso falar?

Se não houver outro jeito...

Acho que ele vai passar mal... comeu demais. Está quase roxo, o rosto suado.

O noivo volteou de maneira a ficar de frente para George, que parecia esforçar-se muito, dançando com Hester.

Parece um peixe agonizante! — comentou. — É por causa da cinta emagrecedora que usa. Não pode respirar direito.

Nem eu! — riu Emily.

Já percebi — comentou ele, dando-lhe uma palmadinha discreta na cintura. — Não vou precisar puxar os cordões dessa coisa todas as manhãs, vou?

De modo algum!

Então Emily ficou chocada ao pensar nessa cena de intimidade do­méstica e perdeu toda a naturalidade. O sr. Harcourt ficou triste ao ver o brilho sumir dos olhos azuis. Então, a valsa terminou e Kit apareceu junto deles.

—   É a minha vez de dançar com a noiva! Eu a devolvo daqui a pouco, Adam!

O noivo afastou-se sem um sorriso, indo conversar com o capitão da milícia. Enquanto dançavam, toda vez que passavam por perto do sr. Adam, ele se encontrava de costas. Terminada a música, ou­tro cavalheiro tirou a noiva, depois outro e mais outro.

Um pouco mais tarde, Kit encontrou o capitão num canto, com um copo de vinho na mão. Perguntou, rindo:

O que faz aqui, todo amuado? Algo errado?

Nada, tudo ótimo.

Entendo... — falou o rapaz, com ar compreensivo.

Entende o quê? — indagou o sr. Adam.

Claro! Tudo isso é um tédio! Gente aborrecida. Se Bonaparte realmente conseguisse escapar...

Cale a boca! O que lhe disse é confidencial!

Não se preocupe, ninguém nos ouve. Se "ele" quiser chegar à glória, vai voltar para o continente, nem que tenha de fazê-lo num barquinho, ele mesmo remando. E eu, meu caro, daria qualquer coisa para voltar à ativa, para lutar numa campanha.

Talvez consiga o que quer.

Mas você não gostaria, não é? Afinal, acaba de se casar... — E Kit apertou os olhos, para observar Emily que, naquele momento, começava a dançar com George, no outro extremo da sala. — Ela está muito bonita! Uma beleza! Estou começando a achar que fui um pouco apressado ao desistir de Emi em seu favor...

Naquele instante, Emily olhou para ele e teve a impressão de que o capitão dizia algo desagradável a Kit, antes de virar-lhe as costas. Certamente, o rapaz tinha feito algum de seus costumeiros comen­tários inoportunos.

Durante o resto do dia Emily não teve chance de ficar a sós com o noivo. Quando muito, tinham trocado uma dúzia de palavras e o que Kit dissera permaneceu um mistério. Precisou retribuir os cum­primentos de uma multidão que lhe deáejava felicidade. O burburi­nho de vozes e risos, o tilintar dos copos e o turbilhão das danças não lhe permitiam pensar.

Somente à noite, sentada na beira da cama, de camisola, pôde, afinal, analisar com clareza a situação. Alisou a colcha com gestos nervosos e olhou seu quarto, tão familiar, que iria partilhar com um homem pela primeira vez. No consolo da lareira, um par de velas proporcionavam uma suave iluminação dourada. Os móveis eram simples, não se tratava de um quarto elegante. Nele viviam as lem­branças da infância e da adolescência: flores secas, uma boneca de madeira, meio chamuscada, alguns potinhos de cerâmica colorida, que Kit ganhara num tiro ao alvo, distribuindo-os por igual entre Hester e ela.

O quarto estava enfeitado com flores, mas isso não fazia diferen­ça. Continuava sendo seu quarto, seu pequeno santuário, que de­pois dessa noite nunca mais seria o mesmo. Uma outra pessoa teria o direito de entrar ali, sentar-se nas cadeiras, olhar-se no espelho, mexer nos enfeites e até dormir naquela cama. Ela também ficaria diferente. Ia entregar-se a outro ser através daquela inacreditável in­vasão de sua intimidade, que era o ato do enlace matrimonial, uma rendição que, na sua opinião, nenhum homem poderia entender em toda sua significação.

A porta estalou de leve atrás dela e Emily não se voltou. Apenas entrelaçou nervosamente as mãos e esperou que seu marido entrasse no quarto, se aproximasse. Ele sentou-se na beira da cama, ao lado dela, fazendo o colchão ceder com seu peso. Sabia que Adam vestia roupas de dormir, então achou embaraçoso fitá-lo e voltou os olhos para o chão, o que foi quase tão ruim, pois viu os enormes pés mo­renos, descalços, e uma parte das pernas musculosas, cobertas por sedosos pêlos escuros.

De repente, ficou evidente demais que estava prestes a deitar-se com um homem nu, ou quase, e que fariam amor. Além das impli­cações físicas do amor, ela sabia que palavras carinhosas deviam acompanhar normalmente esse processo amoroso e tinha certeza de que não conseguiria pronunciá-las, como também não queria ouvi-las dele, pois sabia que não seriam sinceras.

Não quero que você me diga bobagens românticas! — ouviu a si mesma dizendo, sem saber como aquelas palavras lhe saíam da garganta apertada.

Veja só — respondeu ele, calmo —, e eu que ensaiei tanto, pen­sando na nossa noite de núpcias!

Emily fitou-o, então, e viu que ele se apoiava na guarda da cama de latão e sorria.

—   Não ria de mim! — A voz de Emily soou rouca, tensa. — Não agora. Não é justo. Não precisaria ensaiar, se sentisse o que quer dizer. Mas como não sente essas coisas, prefiro que não as diga.

Adam estendeu o braço e segurou uma das mãos de Emily, que estava muito fria e um tanto trémula. Colocou-a sobre seu próprio joelho.

—   Por favor, madame, permita que eu julgue o que sinto.

Para você isso tudo é fácil... Já fez tudo antes... Ele desatou a rir.

Perdoe-me, Emily, mas você diz coisas inesperadas! — explicou. Depois, sério, continuou: — Claro que fiz, não posso negar. Mas nunca me casei e, por isso, hoje é diferente. É uma situação nova para mim e para você. Não pretendo mais repetir as aventuras de solteiro e espero que você saiba perdoá-las.

Não posso censurá-lo por essas coisas.

Está com medo de mim, Emily? — indagou ele, depois de um breve silêncio.

Ah, não — Emily respondeu com voz fraca. — Não é propria­mente de você...

Entendo. — Ele hesitou, então disse: — Não vou machucá-la, Emily. Ou melhor, espero não machucá-la. Não sou um monstro, na cama ou fora dela.

Não é isso... — Ela sacudiu a cabeça, aflita. — Preciso lhe dizer uma coisa. Por favor, ouça, e se achar esquisita tenha paciên­cia... Principalmente não ria, porque é muito importante para mim.

O tom de Emily parecia decidido, mas ele percebeu que a moça reunia toda a sua coragem, que estava desesperada. Ficou triste, pen­sando que ela ia confessaF que amava Kit e o capitão não queria ou­vir isso. Se algum demónio da honestidade a impelisse a dizê-lo, ele ficaria numa situação impossível: em nome de sua própria dignida­de, teria que sair daquele quarto e daquela casa, teria que ir embora sem olhar para trás.

No entanto, ali estava porque numa noite, nos Pireneus, apertara a mão de Christopher Godfrey selando um trato sórdido, que ardia em sua consciência como se gravado com letras de fogo. Se ela qui­sesse confessar, ele não teria meios de fazê-la calar-se. Mas podia tornar as coisas mais fáceis para ela: devia-lhe isso.

—   Não vou rir, é claro — prometeu. — O que quer dizer? Ela engoliu em seco, desviou o olhar.

Quero lhe dizer que vou tentar, com todas as minhas forças, ser uma boa esposa — começou Emily, com voz trémula. — Espero poder lhe dar o herdeiro que deseja e acho também que seremos razoavelmente felizes. Não quero que pense que fez um péssimo negócio, mas sim que suas dez mil libras foram bem gastas... ou que, pelo menos, seu dinheiro lhe dê uma satisfação, por menor que seja...

É só isso? — indagou ele, depois de aguardar um pouco.

Sim — respondeu a moça, parecendo surpresa.

O sr. Adam fitou a mão pequena, delicada e branca, contrastan­do com suas mãos morenas.

—   Está querendo destruir minha auto-estima... — comentou, pesaroso. — Gostaria que não tivesse mencionado aquele trato imbecil. Pensei que tivesse esquecido ou, pelo menos, concluído que foi absurdo, que houvesse decidido perdoá-lo. Mas você não perdoou. Ela perdoara a Kit, mas não ao capitão. Ele sentia isso. No entan­to, Emily não dissera que gostava de Kit, portanto estavam como que numa trégua.

—   Estou contente com nosso acordo e também acho que seremos razoavelmente felizes, como você disse. Agora, seja terminou o sermão e se eu me demonstrar arrependido, será que podemos esquecer aquele episódio estúpido?

Ela fez que sim com a cabeça e o sr. Adam levantou-se, foi até a lareira e apagou as velas. Na escuridão, Emily enfiou-se sob as co­bertas e ouviu o marido se aproximando. Ele não conhecia o quar­to, tropeçou em alguma coisa e praguejou. Afinal, a cama rangeu sob o peso dele e a colcha escapou dos dedos crispados dela.

—   Afaste-se um pouco, Flor...

Ela achou que ele falara como se ela fosse, de fato, uma égua. Chegou até a esperar um tapinha no lombo, mas isso não aconte­ceu. Lembrou-se, então, do encontro junto ao córrego, como ele au­mentara a oferta de meia coroa para um guinéu, se ela estivesse disposta...

Recuou na cama até a outra beirada, porém ele a envolveu nos braços e beijou-a sob uma orelha. Foi quando Emily percebeu que, por algum motivo desconhecido, lágrimas começavam a descer-lhe pelo rosto.

O que foi? — perguntou ele, tocando-lhe as faces com os dedos.

Nada... — murmurou Emily.

Mas sabia o que era: ele não dissera que a amava e nunca o diria. Estava ali porque precisava de uma esposa. Sem dúvida, gostava dela, porque era um homem bom e isso Emily já sabia. Talvez, com o tem­po, o capitão chegaria a sentir carinho por ela. No entanto, e a pai­xão? O amor, que era a união dos corpos, mentes e espíritos? Descobrira, agora, que queria o amor daquele homem, de verdade, porque o amava. E a dor que devastava seu coração era tanta que ameaçava destruí-la.

Sinto muito... — sussurrou ele ao seu ouvido, a respiração quente arrepiando-lhe a espinha.

Você não tem culpa — ciciou ela, zangada consigo mesma. — É bobagem minha.

Adam Harcourt puxou-a com delicadeza e Emily rolou entre seus braços, indo aninhar-se sobre o peito largo, quente, procurando con­forto. Sentia que ele se preocupava, de fato. Fungou, enxugando as lágrimas no camisolão do marido, que estava desabotoado e os pê­los sedosos fizeram-lhe cócegas no nariz. Imaginou que ele não sou­besse o que fazer com uma chorona como ela, tão diferente das "moças naturais, alegres" que ele dissera preferir. Percebeu, então, que ele lhe alisava as costas, com suavidade.

Já estou bem... — murmurou, a cabeça, em silêncio e só falou depois de algum tempo:

Sinto por não ser Kit — e a voz dele soou estranha, densa.

Kit? — perguntou ela, erguendo a cabeça tão depressa que sua testa bateu no queixo do marido.

Sim. Fique quieta e ouça. Não diga nada. Sinto por não ser Kit, pelo estúpido acordo que fiz com ele. Não posso ser quem não sou e não posso apagar os erros que cometi. Estou aqui como sou e prometo fazer tudo para cuidar de você, para que seja feliz, Emily. É isso.

Ela sussurrou "sim" e, num gesto espontâneo, ergueu os braços e passou-os pelo pescoço dele, tendo a sensação que seu marido era muito infeliz, coisa que não conseguia compreender. Mas faria tudo para confortá-lo.

—   Oh, Flor... — murmurou ele, abraçando-a com força.

O vento murmurava nas árvores lá fora, derrubando as primeiras folhas secas do outono. A lua apareceu por entre as nuvens e colo­cou uma luz de prata nas vidraças. Então Emily teve impressão que naquela casa, no mundo inteiro, não existia ninguém a não ser ela e Adam, que não eram dois, porém um só e que nada mais importava.

—Aqui estamos! Tudo pronto! — declarou Kit, depois de ver que a última caixa fora bem amarrada no teto da caleça em que o capi­tão ia levar a esposa para Essex.

Emily, parada na alameda, com capa e touca de veludo, para via­gem, olhou desconfiada para o veículo.

—   Não vamos conseguir chegar, nessas condições — comentou. —       Está pesada demais.

—   Pois é, aí está tudo que uma recém-casada precisa e muito mais. Você achou que devia comprar tudo em Oxford... — ironizou Kit.

—   Talvez pensando que em Essex não existem lojas!

Não percebi que tinha comprado tanta coisa!

Emily — interferiu a sra. Godfrey, saindo da casa —, escreva logo, pois quero saber se vocês chegaram bem. Eu detesto viajar, é tão desconfortável!

E conte tudo sobre sua nova casa! — pediu Hester.

Sim, eu prometo — Emily beijou-as. — E viremos para o seu casamento, Hester.

O Natal vai ser esquisito sem você! — lamentou-se a sra. Godfrey. — Oh, aí está o capitão Harcourt! Pretende fazer a viagem to­da montado?

Sim, madame, Não posso viajar numa carruagem onde não há lugar para minhas pernas. Está tudo cheio de caixas de vestidos e de serviços para chá...

Por falar nisso, querida, se, Deus não queira, alguma coisa quebrar, não jogue fora. Traga, quando vier, que em Oxford há um per­feito restaurador de porcelana. Já consertou três xícaras minhas.

Depois das muitas recomendações da sra. Godfrey, dos beijos e lágrimas, Emily acomodou-se na carruagem, com Betsy, a sobrinha da cozinheira, contratada como criada da sra. Harcourt. Andrew Morris, que viera para o casamento, sentou-se na boleia com o co­cheiro e o capitão Adam montou no baio.

Tudo estava pronto e,"pouco depois, eles transpunham os portões de Leigholm House, em direção a Essex.

 

Emily sabia que seu novo lar era maior do que Leigholm, mas não esperava aquela vasta mansão estilo paladiano que seu marido, virando-se na sela e esticando um braço indicou-lhe como "a casa". Não esperava, também, pela criadagem enfileirada diante do pórti­co, semelhante a um pequeno exército encabeçado pela governanta, prontos todos para saudar a patroa com sorrisos e mesuras.

Atravessou, muda, o enorme hall de mármore, imponente, com o teto abobadado pintado com afrescos, e a ampla, imensa, escada­ria. Só recobrou a voz na sala pequena, no entanto bem maior do que a sala de visitas principal de seu antigo lar, onde sentaram-se para tomar uma xícara de chá.

Santo Deus! — exclamou ela, ainda abafada. — Que casa enor­me, maravilhosa! Sinto-me perdida...

Concordo. Parece um pouco com um quartel, mas você logo vai conhecê-la inteirinha — tranquilizou-a o marido, sentando-se no sofá estofado em gobelim. — E é antiga. Não sei há quantos anos aqui não entram móveis novos. Tudo isto — mostrou a decoração da sala, com um gesto — é Hepplewhite, se não me engano. Em algum lugar há um livro com os desenhos originais, caso você queira mandar fazer outros.

Santo Deus... — repetiu Emily.

Sentia-se alarmada com a ideia de precisar escolher móveis para aqueles magníficos aposentos, só então compreendendo o que signi­ficava um poder aquisitivo de quinze mil libras por ano.

O mordomo entrou naquele instante, carregando com esforço a enorme bandeja de chá, parte da prataria da família, posta em uso para dar boas-vindas à sra. Harcourt.

—   Adam, você pretende receber muito? — indagou ela, apreen­siva, quando tornaram a ficar sós.

Ele encolheu os ombros.

—   Imagino que os importantes locais virão nos visitar. E vamos ter que fazer um sarau, um baile ou algo assim.

As dúvidas de Emily sobre a própria capacidade para dirigir aquela casa logo se desfizeram. Os ambientes assustadores no início tornaram-se familiares e depois de algum tempo ela passou a ter ideias pessoais sobre a disposição dos móveis e a acalantar o sonho de re­formar a sala de jantar, que tinha uma mesa enorme, com lugar pa­ra vinte e quatro convivas. O ambiente nela era meio sombrio devido aos muitos retratos de antepassados da família, que cobriam as paredes.

Quando expunha suas ideias, o capitão concordava, respondendo quase sempre "Faça como quiser" e Emily não sabia se isso era pa­ra agradá-la ou porque ele não se importava. The Hall era o lar de­le, mas não no verdadeiro sentido da palavra. Voltara para aquela mansão depois da guerra porque ela lhe pertencia, porque sempre vivera nela e porque estava sob sua responsabilidade. Mas sua espo­sa sabia que, no fundo do coração, ele desejava viver longe dali.

Então, sua finalidade tornou-se transformar The Hall num ver­dadeiro lar e os dias pareciam poucos e curtos para seus esforços. O Natal aproximava-se e, afinal, chegou o dia em que ela se sentiu recompensada. Seu marido chegou depois de uma cavalgada pela pro­priedade, deixando um rastro de pegadas lamacentas no mármore e no soalho, empurrou a lenha na lareira, com as botas molhadas, e aproximou as mãos enregeladas do fogo.

—   Ah, isto sim é que é bom! — exclamou, suspirando. — Fico feliz por ter chegado. Pelo jeito vai nevar. Ainda há um pouco de chá?

Eram palavras simples, porém muito importantes para Emily, um sinal que The Hall se transformava num lar. No entanto, estava sendo otimista demais.

Depois de uma semana, ela arrumava um centro de mesa com fo­lhas e frutas da estação, na sala de jantar, quando Andrew Morris chegou com uma braçada de galhos de azevinho, repletos de frutinhas vermelhas.

—   Achei-os perto do velho cercado, madame.

Colocou-os sobre a mesa, com cuidado para não arranhar a su­perfície polida. Emily agradeceu e pegou alguns galhos para o seu arranjo. Então, quis satisfazer uma curiosidade.

Pode me dizer, Andrew, se entre esses retratos há algum do tio do capitão?

Não, madame — e ele reforçou com a cabeça.

Esquisito! Todo mundo parece ter seu retrato aqui, até cães!

Havia um retrato do sr. James Harcourt, madame, mas o pa­trão mandou tirá-lo e queimar.

Embora soubesse que não havia qualquer afeto entre tio e sobrinho, ela ficou surpresa. Quando lhe falara da infância infeliz, o ma­rido lhe parecera conformado, desejoso apenas de esquecê-la. Pare­cera até compreensivo com a atitude do tio. Mas a remoção e a queima do retraio dele indicava uma faceta diferente, assustadora, na personalidade de Adam Harcourt, um ódio alimentado durante muito tempo. Ele, então, era rancoroso, implacável e paciente na espera da vingança.

—   Entendi, Andrew, obrigada — disse, com calma.

Mas o homem parecia sem jeito, querendo dizer algo mais.

—   Não quero parecer atrevido, madame, mas o tempo de criança do patrão não foi feliz. Só os criados cuidavam dele. Minha mãe era quem tratava de seus machucados, ouvia-lhe as queixas, consolava-o quando ele sentia medo. Por isso, o patrão não gosta muito desta casa. Quando foi para a guerra, todos pensavam que nunca mais voltaria e ficaram felizes quando ele retornou, casado com a senhora. Isso quer dizer que pretende ficar aqui e todos desejam isso.

O que todos desejavam, o que ela desejava... mas seria o que o capitão desejava? A pergunta do administrador das propriedades do marido a surpreendeu:

E a madame, gosta desta casa?

Sim, gosto...

Ele fitou-a por instantes, em silêncio, depois desviou o olhar, en­quanto dizia:

—   O patrão jamais esquece uma traição, senhora, mas é leal para com os amigos. Sempre foi assim.

Parecia uma declaração esquisita, sem ligação com o assunto, e antes que ela lhe pedisse para explicar, Andrew disse que tinha um serviço urgente e retirou-se.

A temperatura caía sensivelmente e o céu permanecia cinzento. Apesar do fogo aceso em todos os aposentos, a casa continuava fria, cheia de correntes de ar. Foi preciso armar biombos na sala para se estar confortável. Entre a correspondência havia uma carta de Hes-ter, o que alegrou Emily, porque sentia saudade de Leigholm. Du­rante as últimas três semanas não se sentia muito bem, sem qualquer motivo específico. Imaginava que devia ser cansaço.

—   Hester está se preparando para o casamento — disse, enquanto voltava a folha. — Espero que possamos ir, que em fevereiro não haja nevascas.

O capitão Harcourt murmurou um "sim" sem tirar os olhos de uma carta em papel que trazia o emblema da Câmara dos Lordes. Já recebera duas dessas, ultimamente, ambas destruídas depois de ler. Emily ficava inquieta, com a sensação de que não traziam boas notícias.

Kit está bem — continuou.

Ótimo — disse o marido, distante.

Ela parou de ler e fitou as chamas, exclamando de repente e cha­mando a atenção do marido:

Pobre Kit!

Por quê? — indagou, seco. — O que aconteceu?

Nada de especial. Deve estar entediado em Leigholm. Como sabe, ele não simpatiza com George e não há nada lá para distraí-lo. Não poderíamos convidá-lo para ficar aqui por algum tempo, depois do casamento de Hester? Claro, a sra. Godffrey não iria gostar, pois ficaria muito só. Hester diz que ele anda muito triste, que atrapalha todo mundo...

Vai ver que sente saudade de seu par de valsa — disse o sr. Harcourt, dobrando a carta com cuidado.

Deve ter arranjado outra e talvez seja isso: pode estar apai­xonado!

É como querer trancar a cocheira depois que o cavalo fugiu... — disse ele, enigmático. — Kit devia casar.

Não consigo imaginá-lo casado! Dificilmente se acharia uma moça adequada para ele nos arredores de Leigholm.

Por quê? Não estão à altura dele? — indagou o sr. Adam, com certa ironia.

Pode ser. O fato é que sinto saudade de todos e só percebi agora, que estou menos ocupada. Pena a distância ser tão grande; se fosse mais perto, poderíamos nos ver sempre.

O capitão colocou a carta numa pequena pasta, fechou a gaveta à chave, enfiou-a no bolso e virou-se:

—   Você disse que quer ir a Leigholm para o casamento de Hes­ter... Não será para consolar Kit?

A agressividade na voz dele surpreendeu Emily.

—   É claro que desejo animar Kit! — exclamou.

O sr. Adam enfiou as mãos nos bolsos, deu uns passos pela sala e, de repente, disse que ia sair. Só voltou na hora do jantar, durante o qual não disse uma palavra. Emily achou melhor não forçá-lo a conversar. Talvez estivesse preocupado com as notícias trazidas pe­la carta do primo. Mais tarde, foram para a sala pequena.

—Você está muito calado — comentou ela, depois que o chá foi servido. — Teve más notícias hoje?

Pode ser. Apenas ouvi o que esperava há tempo.

O que quer dizer? — indagou ela, notando que um sorriso amargo entreabria os lábios do marido.

Pensei que você gostasse daqui — disse ele.

E gosto. Quer dizer que ficou emburrado só porque eu falei em irmos a Leigholm?

Não estou emburrado! — rebelou-se, zangado.

Está, sim, e não é a primeira vez. Ficou emburrado naquela primeira noite, em Leigholm, quando descobriu que eu era a moça que encontrara junto ao córrego. Quase não falou durante o jantar.

Claro, Kit hão parava de falar! — Fez uma pausa e depois con­tinuou: — Deixei que você mudasse as coisas como bem quis, aqui...

Eu sei. — Ela começava a perder a paciência. — O que está havendo, Adam?

Nada. Parece que você prefere Leigholm.

Não diga tolices! Desde o começo combinamos ir para lá no casamento de Hester.

Ele soltou uma espécie de rosnado e não disse nada.

Não admito isso! — declarou Emily. — Fale, Adam. Se existe algo errado, vamos conversar. Por que resolveu, de repente, que não quer ir para Leigholm no Ano-Novo?

Talvez não seja possível. — Ele se remexeu, sem jeito. — Se Bonaparte fizer o que todos temem, não poderei ir.

Pois acho que não é isso... Sempre percebia quando Kit queria me enganar e você agora faz o mesmo. Há outra coisa, diga a verdade!

—   Talvez você já saiba o que é! — explodiu ele, furioso. Emily percebeu que a discussão ia se tornar uma briga e que um deles tinha que evitá-lo. Mas seu sangue também já fervia. Desde que chegara ali trabalhara muito, por ele, para fazê-lo feliz e, ago­ra, aquele homem lhe dizia que estava entediada.

—   Como posso saber, se você não fala? Que infantilidade, Adam!

—   É mesmo? Eu não acho infantil cuidar de minha honra pessoal e da honra da minha família, madame! Sei que nunca me teria escolhido para marido, mas concordamos que viveríamos o melhor possível, apesar de tudo. Mas é só Kit isto, Kit aquilo... o que estará fazendo o pobre Kit? Desde nossa chegada fiquei em casa, não fui a Londres, não visitei amigos, só recebi os que nos vieram visitar. Não lembro mais qual foi a última vez que peguei um baralho! Mas cansei! Cansei de esperar que Bonaparte se mexa, cansei, principalmente, de saber que a senhora só se interessa pelo que acontece com Christopher Godfrey!

Emily reteve o fôlego. Adam mostrava-se tão zangado que quase sentia medo dele. De repente, a verdade surgiu, ofuscando-a como um raio de luz incandescente. Entendeu o que deveria ter entendido há tempo, viu o que corroía a paz de seu marido: ele acreditava que ela amava Kit, que sempre o amara e que se casara com ele para salvá-lo. E apesar dos primeiros meses de casamento, tão felizes, ele ain­da pensava assim. Por instantes, não conseguiu encontrar palavras. Até respirar era difícil. Por fim, ergueu-se, mas teve que segurar-se no encosto da cadeira, para não cair.

Você não tem o direito de dizer isso, principalmente porque está errado.

Por favor, não minta, Emily! Quando cheguei a Leigholm pecebi logo o que havia. E sei que não se pode comprar o amor, o ver­dadeiro amor!

O capitão não era um tolo, mas se enganara. Jamais vivera num círculo familiar e não podia entender que o carinho dela por Kit era o de uma irmã.

Você está errado, Adam — balbuciou desesperada.

Nunca mais falaremos nisto, entendeu? Uma vez você afirmou que devíamos ser honestos... O que sente por Kit não é sua culpa, mas por favor, não finja que isso não existe. Vamos deixar esse as­sunto de lado e nunca mais falar nele!

Emily fitava o marido com os olhos azuis repletos de lágrimas e, de repente, sentiu-se mal, profundamente enjoada. Colocou a mão na boca e saiu correndo. O grande hall de mármore encontrava-se gelado, mas apesar do frio sua impressão era de que o corpo ardia. Precisava sair, escapar daquela casa. Esforçou-se por abrir o gran­de ferrolho de bronze e afinal conseguiu, quebrando várias unhas. Saiu pela fresta que entreabriu e parou no pórtico. O vento gelado investiu e ela viu que começara a nevar. Desceu a escada e saiu cor­rendo pelo jardim, escorregando na neve fresca. Os sapatinhos de cetim logo ficaram encharcados e seus pés insensíveis por causa do frio. Parou junto de uma árvore, ouviu algumas vezes a voz do mari­do, chamando-a, mas não respondeu. Viu uma construção de madei­ra, a pouca distância: era o depósito de ferramentas do jardineiro. Foi até ele, abriu a porta, sentindo-se atordoada e sonolenta. Viu sacos amontoados a um canto, pegou um e colocou-o sobre os ombros.

Não queria voltar, não podia continuar vivendo com aquele ho­mem, sabendo que ele se agarrava a um mal-entendido que não queria esclarecer. Sabia que os Harcourt não eram de mudar de opinião. Sentou-se sobre o monte de sacos e, com as costas apoiadas na pare­de fria, de madeira, foi entrando num estranho estado de semiconsciência, cheio de tormento.

Não teve a menor ideia do tempo que passava, nem que todos os criados a procuravam, ansiosos, no imenso jardim.

Durante alguns minutos, o capitão não percebera que Emily saíra de casa. Pensara que ela tivesse subido para o quarto e censurara-se por ter iniciado uma discussão inútil a respeito de algo que não ti­nha solução. De repente, parecera-lhe que sentia mais frio e atribuí­ra isso a seu estado emocional. Fora injusto acusando-a de desonestidade. Desde que chegara ali, Emily fizera tudo para tornar The Hall mais acolhedora e confortável. Apesar de apreciar essa ati­tude, ele jamais dissera algo e deveria ter dito. Não havia nada de extraordinário no fato de ela ter saudade de Leigholm, afinal vivera lá desde que tinha nove anos até se casar e, agora, devia estar pen­sando que ele não a levaria ao casamento de Hester. Chamara-se, mentalmente, de estúpido e começara a pensar em subir para pedir perdão.

Então, reparara que havia uma forte corrente de ar gelado na sa­la. Fora até a porta para fechá-la e, ao olhar para a entrada, perce­bera que a enorme porta de carvalho maciço encontrava-se aberta. Mesmo assim não lhe passara pela cabeça que Emily poderia ter saí­do. Só quando fora fechá-la e dera uma olhada distraído para fora, levara um choque: à luz bruxuleante do candelabro com quatro ve­las que carregava, percebera na neve fofa a marca dos pequenos pés.

Horrorizado, descera os degraus e chamara a esposa, aos gritos. O vento arrastara o nome dela e o levara, rodopiando entre a nevas-ca. Gritara, então, por Andrew, que atendera de imediato.

— Chame todos os criados, a sra. Harcourt está em algum lugar do jardim e precisamos encontrá-la — ordenara.

O administrador nem sequer pensara em esclarecer a estranha si­tuação, apressando-se a executar a ordem. O vento apagara as velas e ele entrara a fim de pegar uma lanterna, atormentando-se: Emily estava exposta ao frio, com um vestido leve, um xale de seda e sapa-tinhos de cetim. Sabia que ela não conseguiria encontrar o caminho de volta para casa, na densa nevasca. Mas tinha que se manter cal­mo, pensara: a vida de sua esposa dependia dele.

Caminhava pela alameda principal do jardim, com a mansão atrás de si, quando colidiu com alguém. Andrew Morris.

Vá pela direita, eu irei pela esquerda e preste atenção no que eu gritar — disse, quase berrando, a fim de ser ouvido. — Andare­mos em círculos e se encontrar algo, grite.

E continuou andando, procurando as pequenas pegadas na neve. Encontrou algumas, quase encobertas, que logo desapareceram. Es­tava a ponto de se desesperar quando lembrou do depósito de ferra­mentas. Usara-o muito, quando criança, para esconder-se do tio. Conseguiu localizá-lo. A porta encontrava-se apenas encostada. Ele entrou, o coração saltando de ansiedade. No primeiro momento viu só o carrinho de mão, ferramentas e sacos amontoados. Ia sair quan­do percebeu um pé sobressaindo entre os sacos. Largou a lanterna no chão, ergueu alguns sacos e deixou-se cair de joelhos.

—   Flor... — murmurou, com voz rouca.

Emily não percebia as coisas direito. De maneira nebulosa alguém debruçava-se sobre ela, soava uma voz masculina, porém não en­tendeu o que dizia. Não sabia se era levada ou se movimentava-se por si mesma. Não tinha consciência dos braços poderosos que a le­vavam de volta a casa. Os flocos de neve que lhe caíram no rosto fizeram com que voltasse a si o suficiente para murmurar:

—   Não é assim... Não...

Mas não conseguiu lembrar o que não era assim.

—Sra. Harcourt — disse o médico, fechando a maleta —, felizmente a senhora é muito forte! Teve muita febre, mas, graças Deus, não contraiu pneumonia, como era de se esperar. Espero que não faça mais audaciosas expedições na,neve...

Emily achava a situação embaraçosa e evitou encarar o doutor, que era homem discreto, educado, e não perguntara o motivo da­quela loucura. Ela também não sabia por que fizera aquilo: deixara-se levar, num momento de pânico, e a consequência fora uma semana de febre e delírio. Felizmente o marido a encontrara a tempo.

O médico abotoava os punhos das mangas lentamente, como se procurasse a melhor maneira de dizer alguma coisa.

Fico contente ao ver que se recuperou depressa, senhora. Há algo que... hum... não foi mencionado e que... provavelmente...hum... a senhora desconheça.

O que é? — indagou ela, preocupada.

Querida madame, não se impressione. É coisa comum, que acontece com frequência... — Era um senhor idoso, com ar paternal e sorriso cheio de bondade. — A senhora é jovem, saudável, e terá outras oportunidades... — Vendo a perplexidade e a apreensão nos lindos olhos azuis, ele acrescentou, com voz suave: — Não con­segui salvar o bebé... sua condição era muito recente e isso aconte­ce... Não houve qualquer prejuízo ao seu organismo e da próxima vez tenho certeza de que a senhora terá uma gravidez saudável e feliz.

—   Eu... eu não sabia... — murmurou Emily, soerguendo-se dos travesseiros. — Sentia-me um pouco cansada, nervosa e enjoada...

—   Cobriu os olhos com as mãos. — Adam... Meu marido sabe?

Sim, madame. Falei com ele e pedi que não mencionasse o assunto com a senhora, até que ficasse boa. Ele ficou triste, claro, mas é um homem sensato e aceitou a situação.

Ele queria tanto! — exclamou ela, contendo as lágrimas a cus­to. — A culpa foi minha! Que estupidez ter ido lá para fora!

Não, senhora! — A voz do médico era firme, positiva. — Ninguém pode saber qual foi a causa. Eu já disse, sra. Harcourt, que é comum isso acontecer no início de uma gravidez. A senhora deve­ ria usar um calendário, para marcar determinados dias, assim, poderá cuidar-se no começo da gravidez e calcular a chegada do bebé... Agora descanse, por favor. Voltarei a vê-la amanhã.

O capitão Harcourt entrou logo depois da saída do médico, que certamente falara com ele, pois sentou-se na beira da cama e pegou as mãos de Emily.

Anime-se! O médico disse que tudo está bem, que essas coisas acontecem...

A culpa foi minha! — Ela não conseguia conter o desespero. —       Adam, não imagina o quanto eu sinto!

—   Não, você não teve culpa... — Apertou as mãos dela e suspirou. —   Se alguém é culpado, sou eu. Naquela noite, estava muito mal-humorado por causa de notícias vindas de Londres. Não queria alarmá-la e, desastrado, acabei por brigar com você, dizendo coisas que não ti­nha o direito de dizer. Só me resta pedir perdão... — Fitou-a, a ansie­dade brilhando nos olhos quase negros. — Será que poderá me perdoar?

—   Sim... — murmurou ela.

Ela perdoava, mas ambos sabiam que isso não mudava um fato: o sr. Harcourt dissera o que pensava, por mais que não devesse dizê-lo.

Não precisamos ir para Leigholm em fevereiro, se você não quiser — acrescentou Emily — porque...

Claro que iremos — interrompeu-a ele. — Combinamos com a sra. Godfrey que iríamos e Hester ficará desapontada se não for­mos. Iremos, se você estiver em condições de viajar.

Em fevereiro? Estarei perfeitamente bem até lá. O médico disse que já estou bem. — Voltou o rosto para a janela, por onde via a fronde das árvores, cobertas pela neve. — Não sabia que esperava um filho, Adam, ou não teria feito o que fiz. Acho que uma mulher deveria "sentir" isso, mas pensei que estivesse apenas cansada. Fi­quei muito ocupada, perdi a noção do tempo e...

Era embaraçoso falar com ele sobre assuntos tão femininos. Em geral, os cavalheiros toleravam que as damas ficassem de cama três ou quatro dias por mês e quando isso acontecia não faziam pergun­tas indiscretas.

O doutor disse-me que marcasse certos dias num calendário — continuou ela — para ter certeza e saber se... quando estiver esperando outro nené, mais ou menos a época em que ele irá nascer. Não sei muito sobre essas coisas — concluiu, corada.

Nem eu! — exclamou o sr. Adam, pesaroso. — Você está muito sozinha aqui, Emily. Precisa de alguém, de uma amiga... uma pes­soa como a sra. Godfrey, talvez, para lhe dar conselhos...

Não me sinto solitária, Adam. Mas deve ser tedioso para você ficar sempre em casa. Talvez devesse ir de vez em quando a Lon­dres... Eu não me importarei se quiser rever amigos...

Não quero ir a lugar algum — respondeu ele, seco. Depois, mudando de tom: — Estamos na véspera do Natal.

Já? — Ela perdera a noção do tempo. — Nesse caso, vou me levantar amanhã, para ir à igreja.

Não. Está frio demais e você deve ficar abrigada. Falei com o pastor, ele virá visitá-la, depois do culto. Não quero que pegue outra friagem.

Isso não causaria boa impressão aos meeiros e criados, Adam. É meu primeiro Natal aqui, como dona de The Hall e pretendo ir ao culto. Irei bem agasalhada, não se preocupe.

Não quero que adoeça de novo, Emily! — exclamou ele, com uma ponta de exasperação na voz. — Afinal, você é minha única esposa — acrescentou, tentando brincar.

—   Uma esposa tola e confusa... — completou ela. Ele inclinou-se e beijou-lhe a testa.

—   E com um marido que é um burro teimoso. Mas logo virá o Ano-Novo, faremos nossos bons propósitos, entre eles o de sermos mais compreensivos e tolerantes um com o outro.

Fitaram-se, sorrindo, e Emily acariciou-lhe o rosto.

Haviam superado uma crise. A primeira. E Emily imaginou quan­tas outras viriam no futuro, se teriam forças para superar juntos to­das as dificuldades e manter seu casamento.

 

A viagem a Leigholm foi um tanto acidentada, porque as estra­das encontravam-se em péssimas condições. Quando, afinal, chega­ram, Kit desceu a escadaria do pórtico aos pulos, agitando os braços.

—   Entrem! Devem estar gelados! — Beijou Emily ruidosamente. — Querida, você está uma beleza! — Estendeu a mão a Adam: —Bem-vindo, velho amigo! Vai me salvar de enlouquecer na companhia de George! — Continuou falando, enquanto não largava a mão do amigo e a sacudia. — Jamais consegui que apostasse dinheiro no bilhar e só consegui ganhar o cavalo ruão dele porque naquela noite bebeu um pouco a mais...

Emily, então, chegou à conclusão de que Kit não exercia boa in­fluência em ninguém, muito menos em George, mas todos estavam tão felizes que achou melhor não dizer nada nesse momento.

O casamento de Hester celebrou-se duas semanas depois. A igreja estava linda, cheia de flores brancas e velas. Emily emocionou-se com a cerimónia. George tinha um colorido normal no rosto e Adam in­sinuou, baixinho, que era porque a polidez do medo se misturara com o roxo, tornando-o rosado. Depois, perguntou à esposa por que Hester usava o vestido de noiva que havia sido dela.

Ela me pediu para usá-lo e eu o trouxe. Talvez você ache isso piegas, mas...

Não ficou bem nela — interrompeu o sr. Adam. — Hester é baixa e redondinha demais. Além disso, o cor-de-rosa da pele dela não combina com o marfim do vestido.

Psiu, quieto! — ralhou ela, com medo que ouvissem.

O sr. Harcourt franziu as grossas sobrancelhas e Emily concluiu que, na verdade, ele não gostava de ver outra com seu vestido de noiva.

Não pensei que você se importasse — murmurou —, caso con­trário, não o teria emprestado.

Isso é com vocês, mulheres. Que palpite um homem pode dar nisso — retrucou ele, mal-humorado.

Os recém-casados almoçaram em Leigholm, depois viajaram para Bath, na nova caleça que o sr. George comprara para corroborar seu status de homem casado.

Por que Bath, em fevereiro? — admirou-se Emily. — Deve estar deserta!

Porque agora deve ser muito mais barato! — exclamou Kit, rudemente. — Isso é importante para o George. Aliás, ninguém iria a Bath em qualquer mês do ano: essa cidade vive cheia de velhos reu­máticos. O chique é ir para Brighton.

Pois eu não iria a nenhuma das duas — afirmou o capitão.

Leigholm vai ficar muito vazia sem Hester — lamentou-se a sra. Godfrey.

Vocês ficarão alguns dias aqui, não é Adam e Emi? Mamãe gostaria muito e eu também... — disse o rapaz.

Decidiram ficar até fim de março, porém isso não aconteceu por­que no continente as coisas aceleraràm-se. Entretanto, Emily volta­ra à velha rotina, enquanto os dois homens dedicavam-se aos vários esportes que podiam ser praticados por lá. Infelizmente, um dia Kit caiu do cavalo e chegou em casa carregado sobre uma tábua.

O que houve? Ele quebrou uma perna? — indagou Emily ao marido, que vinha atrás do grupo, zangado e sujo de lama.

Não me olhe como se eu tivesse culpa! — exclamou o capitão. — É apenas uma contusão em local que não convém mencionar!

Como você é cruel! — indignou-se Emily. — Podia, ao me­ nos, ter mandado chamar um médico.

Ele não precisa dêmédico! — foi a resposta exasperada. —Quis obrigar o ruão a saltar uma barreira que o melhor cavalo do mundo superaria só se tivesse asas. Caíram os dois. Se tiver que chamar alguém, será o ferreiro, pois o ruão está mancando e pode ser grave. Kit ganhou o ruão de Arbuthnot, no jogo. Tenho certeza de que ele gosta muito desse cavalo e vai ficar triste quando souber que o cunhado está tentando acabar com ele!

Mais tarde, a pedido da sra. Godfrey, o capitão foi buscar um mé­dico que confirmou seu diagnóstico e recomendou alguns dias de repouso.

Nos dois dias seguintes o rapaz permaneceu em um sofá da sala, com Emily e a mãe cobrindo-o de mimos. O sr. Harcourt mal falava com eles e ia constantemente à estrebaria para ver como ia indo o ruão, no qual o cavalariço aplicava cataplasmas quentes. Emily acha­va o comportamento do marido execrável. Ao vê-lo voltar da co­cheira, na terceira manhã depois do incidente, interpelou-o:

Creio que gostará de saber que Kit está bem melhor...

Quer dizer que ele não vai precisar mais que você segure a mãozinha dele e o alimente com geléia de mocotó?

Sua ironia não tem graça, Adam Harcourt! Sabe que não dou comida ao Kit e que ele não está comendo geléia de mocotó. Só fico ao lado dele e leio para distraí-lo, coisa que você se recusa a fazer!

O "menino" tem vinte e quatro anos, sabe ler há muito tempo e é um oficial britânico!

Como vai o cavalo? — perguntou Emily, rápida, vendo a cara feia do marido e o rumo da discussão. — Não quer ir ver Kit? Ele tem perguntado por você.

Ah, o cavalo! Enquanto você punha compressas na testa daquele vadio, eu cuidava do pobre cavalo. Está melhor. Christopher Godfrey quer me ver? Oh! Irei já beijar a mão dele.

Minutos mais tarde o jovem Godfrey cochilava, tranquilo, quan­do a porta abriu-se com estrondo. Ele abriu os olhos e viu o capitão de pé a seu lado, com expressão nada amistosa.

Espera aí! — exclamou, sentando-se. — Sei o que vai dizer...

Sabe, hein? Escute, seu vagabundo: caso não se levante neste minuto vou arrancá-lo desse sofá!

Mas eu me machuquei de verdade! Ei!

Nem bem acabara de exclamar, o jovem viu-se erguido e coloca­do de pé.

Seu preguiçoso! Você está bem e só explora a bondade daquelas duas mulheres. Se não cavalgar comigo hoje, irei embora amanhã. Naquele mesmo dia, levei um tombo, tornei a montar e ninguém ficou sabendo disso!

Ora, Adam! Eu só estava me divertindo, vendo Emily preocupada comigo. Agora não tenho mais essa chance, então tratei de aproveitar ao máximo... — Sorriu desavergonhadamente, sem notar a expressão feroz do amigo. — Vamos pegar duas espingardas, dois cães e caçar patos selvagens no pântano!

Apesar desse incidente, anos depois Emily lembraria daqueles dias em Leigholm como um tempo feliz. Sentia-se muito bem e achava que engravidara de novo. Conversou a respeito com a sra. Godfrey.

Não quero contar a Adam, sem ter certeza, para não desapontá-lo outra vez. Deve ser o comecinho, mas tenho quase certeza de que estou grávida, entende?

Entendo sim, minha filha. As mulheres sempre sabem.

Da outra vez eu não sabia...

É que se encontrava preocupada com muitas coisas — e a boa senhora afagou-lhe a mão —, além de não conhecer os sinais. Tal­vez deva consultar um médico...

Vou esperar mais um pouco. Se eu chamar o médico, Adam vai perceber. Daqui a um mês, eu trato disso.

Ela não podia saber, mas a tempestade avolumava-se no céu de sua vida e estava prestes a desabar.

O dia fatídico começou de maneira normal, quase tediosa. Kit saiu cedo, para Oxford, a fim de tratar de uns negócios e avisou que vol­taria ao anoitecer. George e Hester haviam regressado e, finalmen­te, o capitão aceitara o insistente convite do sr. Arbuthnot para conhecer as criações de gado e de porcos. Emily saíra para visitar os Honeyburge, sendo recebida com demonstrações de carinho por adultos e crianças. Ao entrar na cozinha, ela vira imediatamente o novo bebé, e rostinho vermelho, que dormia placidamente enfaixa­do e enrolado no cueiro de flanela.

—   É o décimo sétimo! — disse a sra. Honeyburge, orgulhosa.

Seguiu-se uma animada discussão sobre as vantagens e desvanta­gens de enfaixar e imobilizar crianças em cueiros. A sra. Honeybur­ge ganhou, exibindo sua produção.

—   Dezessete filhos, todos vivos, saudáveis, e todos foram en­faixados!

Emily achava, mas não disse, que isso devia-se mais ao ar puro e à boa alimentação do que ao enfaixamento. Enquanto voltava pa­ra casa, considerou que dezessete filhos era muita coisa. Queria fi­lhos, mas não tantos e achava que o marido concordaria com ela.

O som de cascos de cavalos interrompeu-lhe os pensamentos. Ela olhou para trás. Era o jovem Godfrey, que se aproximava o galope. Quando a viu, ele puxou as rédeas e o cavalo deteve-se perto dela, empinando espetacularmente. Achava-se coberto de espuma, suor, e ela compreendeu que ele vinha fazendo o animal correr daquele jeito desde Oxford. Se o capitão visse isso, diria mais uma vez que Kit só sabia destruir os cavalos. Ia censurá-lo, mas não teve tempo. Coberto de lama espirrada pelas patas da montaria, o rapaz agitou um jornal diante dela e exclamou, ofegando:

The Times, Emi! Na primeira página!

Sim, Kit! O que há? Olhe, o seu cavalo... Não entendo por que tem que correr desse jeito por estradas tão ruins!

Bonaparte fugiu de Elba, Emi, e está a caminho de Paris! —berrou ele, interrompendo-a. — É a melhor coisa que podia açontecer! — Desceu do cavalo, pulando de alegria. — Terei que ir para lá!

Adam também... — murmurou ela, pálida.

Vai ser uma campanha curta: vamos acabar com Napoleão Bonaparte num instante. Sei que não vai gostar de ficar sem seu mari­do, mas ele estará de volta até o fim do ano.

Espero que não haja guerra, Kit! Sei que você tem saudade da luta, provavelmente Adam também. Mas vou fazer de conta que isso não me desespera...

Calma, calma... Não chore, Emi! — Passou um braço pelos ombros dela. — Quem sabe Bonaparte vai ser preso antes de chegar a Paris...

Dois dias depois chegou uma carta do primo do sr. Harcourt. Hes-ter e o marido foram jantar com eles naquela noite e quando, mais tarde, reuniram-se na saleta, o capitão leu trechos da carta. Era ver­dade: Napoleão dirigia-se a Paris e o povo o aclamava como herói. Ninguém sabia onde se encontrava Luís XVIII de Bourbon, o legíti­mo rei de França. Todos queriam o imperador.

Tudo .depende do que farão os militares franceses — comentou o sr. Adam. — Os velhos marechais serviam o rei, mas parece que uma parte apoia o imperador. Acho que haverá guerra.

Isso é péssimo! — exclamou o sr. George Arbuthnot, preocupado com seus investimentos. — Guerra não faz bem a ninguém.

Para mim, faz! — interferiu o jovem Godfrey.

Ah, meu menino — protestou a mãe dele —, como pode pensar assim? Ficamos tão preocupadas enquanto você lutava na Espa­nha e agora vai começar tudo de novo!

Acalme-se, mamãe — e ele abraçou a senhora. — Sou um sol­dado e para que servem soldados se não lutarem? Não é, Adam?

—   Mais ou menos... — respondeu ele, dobrando a carta. Emily nada disse, Hester levantou-se, também sem falar, indo abraçá-la e beijá-la.

Mais tarde, quando Betsy escovava os cabelos de Emily, a porta do quarto abriu-se e o capitão entrou. A criada depositou a escova na penteadeira, fez uma mesura e saiu. Ele sentou-se numa cadeira, perto da esposa, suspirou e disse:

Kit tem razão. Para que serve um soldado se não para lutar?

Quer dizer que está decidido a ir?

—   Preciso e ele também precisa ir. Não demos baixa ao voltar para casa, então continuamos no Exército. Precisamos voltar para casa amanhã, onde aguardarei ordens. Imagino que iremos direta-mente para os Países Baixos, pois não há tempo a perder. Graças a Deus ainda temos muitas tropas no continente. Bonaparte não vai escapar, eu garanto!

E para isso você tem que ir lutar contra ele...

Lembre-se de que eu sempre disse que ele não se conformaria em permanecer na ilha de Elba. E a fuga dele foi muito bem plane­jada. Agora temos que lidar com essa situação.

Emily decidiu que não era o momento de falar de sua gravidez: não adiantaria nada, ele iria para a guerra do mesmo jeito. Fitou-o intensamente:

Adam, leve-me com você.

Comigo? Como? Que absurdo!

Não é absurdo — rebatou ela, animada. — Outras esposas acompanham os maridos, até mesmo de soldados rasos. Por que não posso ir com você?

Porque... — Calou-se, procurando motivos para convencê-la. — Porque não é um piquenique! Porque você não imagina o que é. Porque será difícil arranjar onde morar, haverá escassez de ali­ mentos. Porque é uma vida de cigano, um dia aqui, outro lá... E se houver luta vão acontecer coisas que você não gostará de ver e eu não quero que veja!

Não pretendo ficar em casa, morrendo de aflição, imaginando que pode estar ferido, sem ninguém para cuidar de você. Não vou atrapalhar, Adam! Por favor, leve-me!

Pegou a mão dele, implorante, e o capitão franziu a testa, preo­cupado.

Não gosto dessa ideia, Emily. Sei que há esposas que acompanham os maridos, mas nunca aprovei isso, guerra não é coisa para mulheres.

Não é coisa para qualquer criatura humana, seja mulher ou homem! — afirmou ela, convicta. — E marido e esposa devem per­manecer sempre juntos!

Depois discutiremos isso, Emily. Pense bem...

Mas ela já pensara. Não ia contar sobre a gravidez, senão ele não a levaria, mesmo, talvez com razão. Já abortara uma vez e poderia pôr em risco a nova esperança. Mas não queria ficar em casa, sem notícias. Iria, de qualquer jeito.

O capitão se erguera e encontrava-se perto da porta. Ela também ergueu-se e fitaram-se por cima da cama.

—Há muito a fazer. Preciso ir para meu quarto, escrever umas cartas — explicou ele.

—   Cartas sào mais importantes do que nós? — Ele não respon­deu e ela sussurrou: — Por favor, fique comigo.

Os longos cabelos castanhos caíam por sobre os ombros, os gran­des olhos azuis brilhavam no rostinho pálido, de expressão desam­parada. Emily jamais tomara aquela atitude... Muitas vezes ele desejara que ela o procurasse, que tomasse a iniciativa, mas não ti­nha esperanças que acontecesse. Estava certo de que a esposa não tinha muito entusiasmo em fazer amor com ele, além das conven­ções proibirem que as mulheres dessem o primeiro passo para tal coi­sa. Imaginou que Emily devia estar assustada, mas não sabia se ela temia por ele ou por Kit.

—   Sim, claro... — murmurou ele, por fim. Aproximou-se da cama e despiu o robe. Deitaram-se em silêncio, ele apagou a vela e puxou o cortinado do leito antigo. Então, colo­cou uma das mãos num ombro da esposa.

Não se preocupe demais. Kit e eu temos experiência e saire­mos dessa campanha sem um arranhão. Não se aflija.

Eu também vou — murmurou ela. — Já decidi.

Se quiser, mesmo — disse ele, na escuridão, depois de instan­tes de silêncio —, irá comigo.

Mais tarde, entre os braços do marido, ouvindo sua respiração pro­funda, regular, ela pensou: Eu o amo tanto, querido! Queria saber dizer isso de um modo que o convencesse!

Sabia que o capitão não acreditava em seu amor por ele, mas se lhe desse provas suficientes de fidelidade e constância, talvez aca­basse por compreender.

Chegaram a Essex quatro dias depois, onde ele encontrou as ins­truções. Teriam que estar nos Países Baixos na primeira semana de abril. Os Exércitos europeus reuniam-se na Bélgica a fim de se opor, pela última vez, ao avanço do homem que fizera a história da Euro­pa nos últimos vinte anos.

Em Harwich, embarcaram para Ostend. Além do casal, iam An-drew Morris, Betsy, um cavalariço, cinco cavalos e volumosa baga­gem. O pequeno porto encontrava-se apinhado de militares e muitos deles estavam com a família, inclusive crianças. A confusão era enor­me e o embarque foi vagaroso. Quando tudo ficou pronto, o vento parou e desceu denso nevoeiro. Afinal, soprou o vento e o barco zar­pou. A travessia foi boa; chegaram a Ostend antes de escurecer. Des­cobriram, então, que não havia barcaças para levar os cavalos a terra.

O jeito foi simplesmente lançá-los ao mar, para que nadassem até a praia. Os homens, principalmente os da artilharia, que eram en­carregados de cuidar dos animais, despiram-se e também pularam na água, a fim de guiar os animais. A população de Ostend deliciava-se com o espetáculo de cavalos e homens emergindo das ondas, co­mo num baixo-relevo antigo. A cidade encontrava-se quase lotada e Andrew Morris descobriu, com dificuldade, um quartinho numa modesta estalagem. Emily e Betsy passaram a noite lá, procurando secar as roupas molhadas por respingos do mar, diante de uma pe­quena lareira.

O duque de Wellington encontrava-se em Bruxelas e para lá se di­rigiram no dia seguinte, muitas vezes errando o caminho, pois nin­guém tinha mapa do lugar. Depois de vagar uma semana pelos campos belgas, as forças inglesas começaram a se organizar. Os Har-court acomodaram-se em uma cidadezinha a poucos quilómetros de Bruxelas e Emily descobriu, com surpresa, que a vida social come­çava a surgir na pequena comunidade. Kit hospedara-se a pouca dis­tância deles e divertia todo mundo com engraçadas descrições da filha de sua senhoria, que pelo jeito se apaixonara por ele,

O capitão clamava contra as dificuldades de alimentar as tropas, pois os camponeses, querendo tirar lucro maior na situação propí­cia, criavam dificuldades de abastecimento para encarecer os géne­ros. Apesar disso, ele e o jovem Godfrey pareciam radiantes. Emily, por sua vez, ia se acostumando àquela vida agitada e quando escre­veu para a sra. Godfrey e Hester encerrou a carta com otimismo:

"Moramos numa estranha casa antiga, que eu pintaria de uma cor clara, se o soubesse fazer. O andar superior projeta-se por cima da rua, sustentado por muitas vigas entalhadas. Estamos bem instala­dos e nossos senhorios são amáveis. Os oficiais queixam-se da im­possibilidade de conseguir uma só garrafa de vinho do Porto e contentam-se com o branco..."

Parou de escrever e foi até a janela. Viu homens fardados movimentando-se em várias direções. Um cabriole aproximava-se e viu-o parar diante da casa deles. Logo a senhoria subiu, pois mora­va no térreo, para anunciar a visita de uma senhora.

Emily ajeitou o vestido: ia receber ali a primeira visita, como a esposa do capitão Harcourt. Visita essa que a admitiria no círculo de esposas destemidas que acompanhavam o regimento.

 

A senhora aparentava uns quarenta anos. Era simpática, vestia-se com discreta elegância. Apresentou-se como esposa do major She-ridan. Estabeleceu-se imediata simpatia entre ela e Emily. Trazia um convite para aquela noite, uma reunião em sua casa, da parte do re­gimento Brunswick que ficaria lá, por vinte e quatro horas.

—   Naturalmente, haverá mesas — disse e, ao ver a expressão intrigada de Emily, explicou: — Para os homens jogarem. A maioria deles adora jogar e não adianta convidá-los se não houver jogo. Vo­cês irão?

Emily prometeu que iriam e agradeceu. Tinha vontade de conhe­cer os "Brunswick pretos", cujo apelido deviã-se à cor da farda e que tinham fama de muito corajosos.

Como ao fazer as malas ela não pensara em festas, tratou de en­feitar um vestido simples, com a ajuda de Betsy.

Não se preocupe — disse o marido, quando chegou e as encontrou atarefadas com agulhas, linhas, rendas. — Minha esposa será a mais elegante de todas e os Brunswick irão cortejá-la, com seu forte sotaque alemão.

Eles falam inglês? — quis saber ela.

Mais ou menos e às vezes é difícil entendê-los. Uma vez tentei conversar com um deles durante uma hora até que descobrimos que era melhor falarmos em francês...

A sra. Sheridan dissera que muita gente iria, mas Emily não espe­rara encontrar a casa apinhada daquele jeito. Havia convidados vin­dos de Bruxelas e essas senhoras eram elegantíssimas. Ela sentiu-se meio campônia no vestido azul-claro, enfeitado com renda de Flan-dres. Enquanto entravam, com dificuldade, no burburinho ouviu uma voz feminina chamando seu marido. Uma mulher aproximou-se de­les e era daquelas que chamaria a atenção em qualquer lugar: alta, bastos e longos cabelos muito pretos, vestido cor de violeta, na últi­ma moda. Ela fechou o leque e bateu com ele no peito do capitão, com familiaridade.

Então, aqui está?! Quando nos despedimos, não imaginei que iríamos nos reencontrar tão depressa.

Arabella! — exclamou ele e beijou a mão dela. — É um pra­zer revê-la... e tão bonita!

Ah, não tente me amaciar com elogios! Já soube que me abandonou, casando-se. É esta a sua esposa? — E observou Emily com ar superior.

Emily, quero lhe apresentar a sra. Morton. O marido dela, Bob, é um dos nossos e estivemos juntos na Península. Arabella percor­reu o caminho de Portugal aos Pireneus montando uma mula.

Ah, meu caro, mas eu sabia que iríamos a Paris e agora tenho minha carruagem. Bob ganhou-a no carteado. Ele está ali... — E apontou para uma mesa onde um grupo de oficiais jogava.

Vou até lá, dar uma olhada — disse o sr. Harcourt.

E me abandona de novo! Logo quando estou sendo perseguida por um Brunswick com cicatrizes no rosto! E vou fugir, pois ali vem ele! — Com uma gargalhada, ela sumiu entre os demais con­vidados.

Que mulher bonita! — observou Emily, com uma pontinha de inveja. — Realmente, ela atravessou a Espanha no lombo de uma mula?

Sim — respondeu o sr. Adam, rindo. — Não subestime Ara­bella, jamais!

E é muito elegante...

Sentia-se triste com seu simples vestido azul, tinha medo que as rendas se soltassem, pois tinham sido alinhavadas.

—   Morton tem sorte no jogo, senão estaria arruinado.

O comentário do capitão indicava que ele não desaprovava o fato e Emily teve impressão que ele aprovaria também qualquer coisa que a sra. Morton fizesse. Ficou surpreendida ao descobrir que sentia ciúme. Foi, então, envolvida pela sra. Sheridan que levou-a para co­nhecer outras convidadas. Quando conseguiu livrar-se delas, procu­rou pelo marido, mas não o encontrou. Foi às mesas de jogo, ele não estava. Mas viu Kit jogando e ele parecia um tanto embrigado. Notou, assustada, que o cacife era bastante alto e notou que seu ir­mão de criação perdia o dinheiro que não tinha.

Sentiu necessidade de respirar ar puro: tomara duas taças de pon­che e sua cabeça doía; como o jovem Godfrey fingiu não vê-la, afastou-se. Precisava encontrar o marido e ele tiraria o rapaz da mesa de jogo.

Deu uma volta na sala sem encontrar o capitão, então desceu a escada, a fim de respirar ar fresco, na rua. Era noite e a praça dian­te da casa encontrava-se iluminada por muitos lampiões. Criados iam e vinham, ocupados com as montarias e caleças dos oficiais, senho­ras desciam de carruagens. Com o ar friozinho, logo ela passou a sentir-se melhor. Deu uns passos pela calçada e chegou à entrada de uma viela e parou, surpresa, ao ouvir a voz do marido.

—   Precisamos voltar, Arabella. Vão notar nossa ausência.

Bobagem — respondeu a sra. Morton. — Bob não está preocupado comigo. E você, preocupado com sua mulherzinha? Adam, jamais imaginei que você seria tiranizado por uma mulher!

E não sou — a voz dele indicava que se zangara, mas a mulher riu.

Sei... Casou-se há pouco tempo e ainda está deslumbrado com a lua-de-mel, não? — provocou-o Arabella, maliciosa.

Preciso voltar, pense o que você quiser.

Ouviu-se sons de passos e Emily escondeu-se no vão de uma porta.

Visite-me , quando puder escapar! — insistiu a mulher. — Bob nunca está e não liga para rninhas companhias. Vá me ver, por favor... — e continuou, num sussurro: — Éramos tão "amigos" na Espanha...

Isso passou, Arabella — respondeu o capitão.

Mesmo? Olhe, decidi recuperá-lo para seus velhos amigos e me considero o mais importante deles.

Emily espremeu-se contra a porta e os viu passar: Arabella segu­rava o braço do sr. Harcourt com ar de dona. Entraram na casa. Ela esperou alguns instantes, depois entrou e quando se misturava aos convidados, o marido aproximou-se.

—   Onde você esteve?!

Ao ouvir o tom dessa pergunta, ninguém imaginaria que ele esti­vera ausente por mais de meia hora.

Sentada por aí... Estou cansada, Adam. Precisamos ficar até o fim?

Não, se você não quiser — respondeu ele, seco.

Kit está jogando e perdendo. Fiquei observando, à espera que ele olhasse para mim, porém fez de conta que não me viu. Não pode fazê-lo parar?

Pelo amor de Deus, Emily! Não sou tutor dele! Além disso, o rapaz tem idade bastante para saber o que faz. Se perder muito hoje, talvez amanhã não jogue. Vamos nos despedir da sra. Sheridan, então.

Se você quer ficar mais um pouco... — começou ela, porém seu marido já estava a caminho.

Viram Arabella Morton flertando descaradamente com um jovem oficial dos Brunswick e o capitão sorriu. Era evidente que perdoava qualquer coisa àquela mulher.

Na tarde seguinte o jovem Godfrey chegou à casa deles, todo sem jeito. Sabia que Emily o vira jogando.

Não vai escrever para mamãe e Hester, contando que eu joguei, não? Sei que desaprova, mas nada há de mal...

O cacife era altíssimo, Kit! Quanto você perdeu?

Pouco. E preciso fazer algo para passar o tempo.

Não posso dizer o que deve fazer, mas você sabe o que aconteceu da outra vez. Não espere que Adam o ajude de novo.

Só não quero deixar mamãe preocupada.

Sabe, Kit? Ontem conheci a sra. Morton. Linda!

É bonita, mas muito interesseira. O marido está apaixonadíssimo e faz tudo que ela quer.

Pareceu-me muito íntima de Adam...

Escute, Emi, sei o que está pensando e não me peça para contar mexericos, que talvez nem existam. Precisamos respeitar a repu­tação daquela senhora e do marido.

Ela não parece ter boa reputação — rebateu Emily.

Hum, acho que está com ciúme — exclamou o rapaz, atónito.

E por que não deveria estar?

Ela sentou-se numa poltrona, não tentando esconder a tristeza. Ele observou-a por instantes, depois aproximou-se, abaixou-se ao lado dela e pegou-lhe as mãos.

Não fique assim, Emi. Você tem razão: aquela mulher não inspira respeito... todos os homens flertam com ela. Isso não quer di­zer nada!

Mas ela combinou um encontro com Adam, na ausência do marido. Eu ouvi. Acho que ele cansou de mim...

Não entendo por quê! — O jovem a observou durante alguns instantes. Depois: — Você nunca me cansou.

Porque não está casado comigo.

Não... — ele hesitou, depois continuou: — e às vezes penso que seria bom se estivesse.

Emily empertigou-se e desvencilhou as mãos, dizendo:

Não. Não seria e nunca mais diga isso. Adam ficaria furioso. Mas é verdade! Sabe, quando voltei da Espanha, você me pa­receu diferente. Foi um choque. Não sei por que não pensei nisso

antes, Emily. Acho que é porque éramos crianças e me arrependi por fazer Adam casar com você.

—   É, mesmo? — indagou o capitão, sarcástico, parado à porta. Os dois fitaram-no, paralisados. Não podiam saber há quanto tem­po ele se encontrava ali, ouvindo-os.

—   Levante-se, Kit. Parece um idiota, aí de joelhos. É uma pose ridícula e sentimental. Pode agradar minha mulher, mas me dá vontade de rir.

—   Não admito que me chamem de idiota — respondeu o rapaz, vermelho, levantando-se — na frente de Emily, nem que seja você!

—   Se não é um idiota, lembre-se que também não sou! — explodiu o sr. Harcourt, rude. — Vá beijar sua égua flamenga, que mi­nha esposa dispensa as suas atenções!

—   Kit não tinha qualquer intenção maldosa — protestou Emily, por fim. — Conversávamos, apenas. Céus, Adam, nós nos conhe­cemos desde pequeninos!

Estou saindo — avisou Kit, percebendo que ia haver um vendaval no qual não queria s_er envolvido. — Eu não estava namorando Emi, portanto não precisa se zangar. Falo com você quando estivermenos nervoso... — saiu e desceu a escada assobiando.

Vai descobrir que Christopher Godfrey é um admirador volúvel, minha cara — advertiu o capitão, irónico. — A constância não é o forte dele. Abandonou-a uma vez e irá abandoná-la outras. Não esqueça disto.

Talvez ele não seja a única pessoa volúvel que conheço — retrucou ela, zangada. — Adam, não entende que Kit agiu como o tolinho que é? Acha, talvez, que ele está apaixonado por mim ou eu por ele? Conheço-o deste que nasci e para mim é um irmão!

Mas não se comportava como irmão! — O queixo do capitão estava saliente e seus olhos soltavam fogo. — E o que você quis di­zer com isso de outra pessoa volúvel?

Pare de se fingir de santo! — exclamou ela, já de mau humor. — Esse papel não lhe fica bem. O que me diz da sua amiga, a sra. Morton?

Eu já esperava uma insinuação dessas. Vi como você a olhava. Se Kit é seu amigo, Arabella é minha amiga. O marido dela é meu companheiro de regimento. Só.

Só, mesmo? — controlou-se para não revelar o que sabia sobre o encontro marcado.

Só, mesmo! — berrou ele, fora de si. — E acho que a senhora não tem direito de criticar. Há muito aguento Christopher sempre ao seu redor, entrei aqui e ele estava de joelhos aos seus pés. Por­tanto, é a última a poder se queixar!

Ela quis se defender, mas foi impedida por um mal-estar violen­to, por uma ânsia quase incontrolável. Empalideceu e foi para a ja­nela, em busca de ar, enquanto o marido a observava, sem qualquer simpatia.

—   E não me impressiona com essa cenazinha, minha senhora! E vá se deitar. Avisei que a vida não seria fácil. Caso não consiga aguentá-la, volte para a Inglaterra.

Os olhos de Emily encheram-se de lágrimas, mas controlou-se. Era o resultado de não ter contado a ele sobre a gravidez.

A discussão ou algum outro motivo fez o humor do capitão per­manecer sombrio nos dias seguintes. Quase não falou com ela, saía muito, alegando motivos militares. Uma tarde, Emily separava rou­pas para a lavadeira quando um lenço de mulher, bordado e com renda, caiu do bolso de uma calça dele. Percebeu logo a quem per­tencia pelo "A" bordado num canto. Era a confirmação para suas suspeitas. Sentou-se no chão, entre a roupa suja, e começou a cho­rar. Enxugava as lágrimas, tentando se recompor, quando a sra. She-ridan chegou.

O que foi, minha querida? — perguntou, aflita.

Nada, obrigada...

Venha, sente-se aqui e coloque os pés sobre o tamborete... Assim. Nas suas condições, não deve se cansar. Mande a Betsy preparar um chá... — Ao ver que ela arregalava os olhos, a boa senhora riu. — Querida Emily, desconfiei desde o momento em que a vi. A mulher grávida tem expressão mais suave, um brilho diferente no olhar.

Não conte a ninguém, por favor! Adam não sabe e não quero que saiba... ele me mandaria de volta à Inglaterra. Não queria me trazer e eu perdi um nené antes do Natal... Vai ficar zangado comigo, por eu ter vindo assim.,.

Fique sossegada, não direi nada. Mas acho que você devia dizer. Seu marido não a mandará de volta, acredito. Temos ótimos médicos e a viagem de volta seria pior do que ficar.

Mas não quero que ele saiba — teimou Emily.

Querida, desculpe insistir, mas acho que está preocupada com alguma coisa...

Emily enrubesceu, abriu a boca para negar, mas a sra. Sheridan, que estivera na Espanha e devia saber do relacionamento anterior entre o capitão e a sra. Morton, continuou, suave:

Adam não é tolo, meu bem. Não vai arriscar seu casamento pelos caprichos de uma mulher cujo nome não vou dizer e que tem uma reputação que não é das melhores. Um flerte superficial e um galanteio nada significam. Todo mundo sabe que a senhora em questão gosta disso, mas é considerada uma pessoa sem juízo, que não merece atenção.

Adam acha que é divertida e espirituosa — murmurou Emily — e eu não sou.

Outra tolice! Você é linda! Não precisa passar nada nas faces e nos lábios para dar-lhes cor... Aqueles cabelos negros também não são naturais, pelo menos, a tonalidade varia muito...

A moça, afinal, desatou a rir e a sra. Sheridan também.

Viu? Você estava sofrendo, remoendo essas coisas sozinha. Fa­lou comigo e viu que não é o drama que pensava.

Há outra coisa, sra. Sheridan... Como sabe, fui criada pela família Godfrey e sempre considerei Christopher meu irmão... Adam não entende isso e também não tenho coragem de magoar Kit.

Kit Godfrey é maluco — riu a boa senhora. — Tem excelentes qualidades, muito apreciadas por todos do regimento, mas duvido que alguém possa magoar os sentimentos dele. Afinal, quem é mais importante para você: Adam ou Kit? Diga a ele que não apareça quando seu marido não estiver em casa.

Quando o marido chegou, nesse dia, ela estava animada, costu­rando umas fitas em seu chapéu e cantarolando. Ele mantinha-se em­burrado há dias, sem arranjar o jeito de pedir desculpa pelo seu comportamento. Como ela também se mantinha séria, fechada, era pior ainda. Ao vê-la alegre, sentiu uma possibilidade e perguntou:

O que é isso? Chapéu novo?

Você sabe que é velho, mas coloquei umas fitas, como se cos­tuma fazer por aqui.

Colocou o chapéu e esperou o comentário.

Muito bonito! — disse ele e, curvando-se, beijou-a.

Adam, detesto brigar com você... — murmurou ela, passando os braços pelo pescoço dele.

Beijaram-se e nessa noite ele ficou em casa.

 

Abril e maio passaram: junho chegou com o calor do começo do verão. A gravidez de Emily já aparecia, embora disfarçada pela mo­da da época. Era o momento de contar ao marido.

A Bélgica encontrava-se repleta de militares ingleses, prussianos, franceses monarquistas, holandeses, e belgas. Todos os dias prendiam-se espiões, declarados ou suspeitos. E onde estaria Bona-parte? Corriam mil boatos, mas ninguém sabia ao certo. Enquanto isso, os militares iam a festas, dançavam, jogavam.

Christopher Godfrey jogava e perdia. Emily não mais mencionara sua preocupação, porém o sr. Harcourt notava o que acontecia. Certa manhã, perdeu a paciência e foi ao alojamento do rapaz. Era cedo, porém encontrou-o acordado, sentado numa tina de madeira e sendo lavado por Marie, a filha da senhoria do prédio onde Kit morava.

O que está acontecendo aqui? — indagou o capitão.

Marie, pode deixar... Pode ir, merci.

A moça sorriu, colocou o pano úmido sobre o lavatório e saiu do quarto, obediente. O capitão riu e comentou:

Não entendo por que as mulheres, todas elas, gostam de mimar você! Parece que o consideram um menininho, que nem se lavar sabe...

É... E Marie fica feliz fazendo isso.

E você, importa-se com elas, Kit? Aceita seus carinhos e atenções como se lhe fossem devidos, abusa da boa vontade delas e aca­ba sempre por traí-las, de um modo ou outro.

Isso está me cheirando a sermão — observou o rapaz, desconfiado. — Veio tomar o café da manhã comigo?

Não, obrigado, já tomei. Vim porque, acho eu, sou tão tolo quanto essas mulheres... Quero evitar que Emily se preocupe e que sua família vá à falência.

Emi o mandou? — perguntou o jovem Godfrey, com expres­são de teimosia.

Não, ela não sabe que vim aqui. Quanto deve, desta vez?

Não é da sua conta. Arranjo o dinheiro em algum lugar.

Está nesse ponto? Precisa "arranjar" dinheiro?

Deixe-me em paz, Adam! Somos velhos amigos, estimo sua amizade, mas não tolero sermões.

Pelo menos, fique longe do jogo por algum tempo.

Está bem, se isso o deixa tranquilo. Mas não conte nada a Emi...— Levantou-se e pôs-se a pentear os cabelos. — E ela, está bem?

Claro que sim — respondeu o capitão. — Por quê?

Bem, não sei... — Achei-a diferente... Vamos, coma um pouco, Adam. Meio quilo de presunto e meia dúzia de ovos só poderão melhorar seu humor!

Obrigado. Quero sua palavra de que não vai jogar.

Juro — disse o rapaz, com tanta indiferença que até a pessoa mais ingénua duvidaria dele.

Precisa falar com Adam, Emily, querida — insistiu a sra. Sheridan. — Já deve ter completado quatro meses e mesmo com esse vesti­do parece redondinha. Tenho certeza de que não a mandará para casa.

Sei que preciso falar... que ele vai ficar contente... mas tam­bém contrariado por eu ter vindo.

Por quê? Todas as esposas que vieram fizeram isso porque se ficassem em casa não estariam com seus maridos e é o que mais querem. Temos excelentes médicos, não há motivo para temer dar à luz aqui... Será ruim se ele descobrir sozinho...

Uma porta bateu lá embaixo e a boa senhora ergueu-se.

—   Não esqueça o que eu disse, Emily. Prometa que vai contar a ele.

—   Prometo — respondeu ela, mas não parecia convencida. Assim que a sra. Sheridan cumprimentou o capitão e foi embora, ela comentou:

Saiu cedo, hoje.

Fui tentar conseguir notícias. Prenderam mais um espião. Enquanto respondia, ele observava a esposa. Kit tinha razão. Ela estava linda como sempre, vestida de azul, mas era evidente que en­gordara um pouco. Falta de exercício e comida flamenga, pensou.

—   E era, mesmo, um espião? — quis saber Emily.

Era e dos mais audaciosos, usando a farda de monarquista fran­cês. Foi preso por franceses, aliás.

Meu Deus! Quem lhe contou?

Havia sido o jovem Godfrey, mas ele não quis dizer''

—   Um soldado...

Lembrou-se, então, de que os Morton receberiam nessa noite e que as festas lá sempre incluíam mesas de jogo, com cacife alto. Com certeza Kit iria e não resistiria à tentação. Precisarei ir também, pensou o capitão Harcourt, para vigiá-lo, como prometi à Emily.

Adam — começou ela, hesitante —, também tenho uma notícia para você...

Tem, mesmo? Incrível como correm boatos por aqui. Ah! Escute, hoje há uma festa na casa dos Morton e devemos ir, por corte­sia. Você não se importa, não é?

Os Morton? Claro que me importo! — rebateu ela, já se sentindo irritada. — Não quero ir.

Pelo amor de Deus, Emily! Não vamos começar de novo com aquela besteira sobre Arabella!

Eu não quero brigar com você, Adam, mas tenho sentimentos e não quero ir à casa daquela mulher!

Muito bem! Então, irei sozinho.

Faça como quiser!

Houve um pesado silêpcio, quebrado pelo sr. Adam:

Que notícia você queria me dar?

Não tem importância — os olhos azuis faiscavam. — Eu conto o que ia contar quando você não estiver preocupado com os Morton!

Você é uma mulher irritante! — exclamou ele, erguendo-se e empurrando a cadeira, dominado pela cólera. — Faço tudo que posso mas, que Deus me ajude, começo a me arrepender por ter me envolvido com os Godfrey e com você! Talvez tenha sido um bom negócio, reconheço que ganhei mais do que esperava, mas como você é difícil! Não me espere. Se eu ficar até muito tarde na casa dos Mor­ton, dormirei em qualquer lugar para não vir incomodá-la!

E saiu furioso, pisando duro, deixando-a zangada e aflita. Nada dava certo! Claro, se tivesse contado logo do bebé... Mas não o fi­zera e parecia que jamais teria chance de falar.

Antes de chegar ao térreo o capitão Adam já se arrependera. Te­ve o impulso de subir e pedir desculpas à esposa, mas hesitou. A ir­ritação contra o jovem Godfrey, que era a verdadeira causa de seu mau humor, aumentara devido à insensatez de Emily, que se recus-va a ir à casa dos Morton.

Não vou pedir desculpa de novo, pensou. Passo o tempo todo ten­tando ajudar o queridinho dela e é assim que Emily me agradece!

Nem sequer lembrou que ela não sabia que a intenção dele era ir à festa para ajudar Kit, pois ele nada dissera. Sentia-se injustiçado e só.

Chegou à casa dos Morton mais tarde do que previra e encontrou uma porção de gente. Mal parou à porta sentiu um perfume pene

trante: Arabella aproximou-se, abanando-se com o leque.

Cheguei a pensar que você não viria! Então, traidor, resolveu nos dar a honra de sua presença?!

Está sendo injusta, Arabella — respondeu ele e beijou-lhe a mão. — Não pode querer que eu permaneça a seu lado, como fazia quando solteiro.

Claro! A adorável mulherzinha! Onde ela está? Não veio? Não me diga que fugiu! — E olhou-o com malícia.

Está indisposta — respondeu ele, brusco.

Que pena, sinto muito! — Enfiou um braço no dele. — En­tão, vai ser meu acompanhante.

Ele olhou ao redor e notou que várias pessoas tinham visto sua chegada e o ar possessivo da anfitriã.

—   Não, querida — respondeu, desvencilhando-se dela. — Não é de bom gosto essa exibição.

Os olhos verdes relampejaram.

Quer dizer que tem medo que alguém conte à pobre Emily que escapou e ela puxe as rédeas?

Já lhe disse — respondeu ele, por entre os dentes cerrados — que não é isso. E, se fosse, só interessaria a minha mulher e mim. E não admito que fale de minha esposa nesse tom!

Arabella abaixou os olhos e quando os ergueu estavam cheios de rancor. Sibilou, venenosa:

Como um marido tão fiel vem a uma festa sozinho?

Para ser franco, quero saber se Kit está aqui.

O jovem Godfrey? — Ela franziu a testa. — Sim, está lá, jogando. Quer dizer que veio aqui para ver esse rapaz? Vocês se vêem todos os dias, tenho certeza!

Ele estava jogando, pensou o capitão. Não perdeu tempo em que­brar a promessa feita pela manhã.

—   Escute, Arabella — disse, apertando a mão da anfitriã —, voltaremos a falar, mas agora preciso ter uma palavrinha com Kit. É importante.

Ela desvencilhou a mão, sem esconder a raiva que sentia.

Não quero ser usada por você, nem por ninguém! Acha que quando está entediado ou sua mulher indisposta, pode vir aqui, divertir-se e depois me abandonar quando ela o exige? Vá falar com Kit ou jogar, pouco me importa! Não preciso da sua companhia! — Virou as costas e foi embora.

Ah, as mulheres! — resmungou o capitão. — Parece impossí­vel raciocinar com qualquer uma delas.

Foi para a mesa onde o jovem Godfrey jogava e colocou a mão no ombro dele.

Preciso falar com você — disse. — Em particular.

Tire a mão de mim e vá embora! — rosnou o rapaz.

Levante-se agora mesmo, Kit! — e apertou-lhe o ombro.

Kit ficou vermelho de raiva, jogou as cartas na mesa, desculpou-se com os parceiros e ergueu-se. Os dois atravessaram o salão e des­ceram a escada.

Por aqui — disse o sr. Harcourt, empurrando-o para uma porta estreita que ia dar no pátio da casa. — É um bom lugar para conversarmos sem que nos escutem. Não vou falar muito, mas é bom que preste atenção, se não quiser que eu rebente sua cabeça oca na parede!

Pois tente! — desafiou o rapaz, belicoso. — Eu disse que não tolero sermões. Você nada tem a ver com minha vida!

Você jurou, hoje de manhã, que não ia jogar.

Eu sei, mas não posso ser anti-sòcial. Convidaram-me, não pu­de recusar. Mas de amanhã em diante vou parar. Tem minha pala­vra, Adam!

Acha que eu sou um idiota? — O capitão se enfurecera. — Você nem sabe o que diz, bêbado como já se encontra. Pode se arruinar, arruinar sua pobre mãe, não me importa. Mas não vou deixar que destrua a estima que Emily tem por você. Ela pensa que é melhor do que é e não quero que a magoe.

Como ousa me criticar, seu hipócrita? — rugiu o rapaz. — Caso se importasse com os sentimentos de Emily não estaria o tempo to­do flertando Arabella Morton!

Não flerto com ela — berrou o capitão, de volta. — Admito que a visitei algumas vezes e talvez não devesse ter ido, mas não a vi nestas duas últimas semanas.

Mas veio hoje, não? E onde está Emi? Não a trouxe... Olhe, deixei que ficasse com Emily porque achei que iria cuidar dela e não que iria partir-lhe o coração.

Eu? Partir o coração dela? — explodiu o oficial, agarrando Kit pelas lapelas da túnica. — Seu calhorda barato! Ela o adora e o que acha que sentiria se soubesse como você está agindo aqui, hoje?

Largue-me! — O jovem Godfrey deu um inútil soco no peito amplo do capitão. — Vou lá para cima e você não vai me impedir!

Não vai, não, senhor. Garanto! Nem que isso me leve à corte marcial.

Atingiu Kit com um soco no queixo e o rapaz caiu, ficando imóvel.

—Provavelmente isto é o fim para minha carreira militar — disse então, curvando-se sobre o amigo. Então, ouviu passos, olhou e viu Andrew Morris.

Esse cavalheiro parece ter bebido demais — disse ele, calmo. — Deixe que eu o levo de volta ao alojamento, senhor.

Deixe-me ajudá-lo a colocá-lo no seu ombro... Assim. Mas espere um pouco, Andrew: vou subir e dar uma desculpa para nossa partida. — Suspirou, triste. — Agredir um oficial... a que ponto cheguei!

E, pensou, aos olhos de Emily seria ainda pior: batera no adorado menino dela! .

—   Não se preocupe, senhor — disse Andrew. — Amanhã cedo, quan­do acordar, o cavalheiro terá bom senso. Não irá contar o que aconte­ceu e compreenderá que o senhor agiu com a melhor das intenções.

Mas Christopher Godfrey não encarou as coisas dessa maneira. Quando acordou, na manhã seguinte, com o queixo machucado e a cabeça dolorida, procurou um jeito de se vingar.

—   Diabo! — resmungou, zangado. — Não admito ser tratado como um garoto, ouvir o que devo ou não fazer, ser tirado à força de uma mesa de jogo e depois surrado!

O rapaz nem sequer sonhava reconhecer que chegara àquela si­tuação humilhante por sua causa, mesmo. Só conseguia ver que fo­ra mjustiçado e seu único desejo era desferir um golpe que magoasse Adam profundamente. Enquanto tomava o café da manhã teve ideia de como conseguir isso. Não adiantaria brigar com o capitão, nem desafiá-lo para um duelo: era bom demais com pistola ou espada. Mas todos têm seu calcanhar de Aquiles e o capitão Harcourt pode­ria ser atingido em sua reputação.

Terminou de comer, animado, despediu-se de Marie, prometendo que lhe compraria mais fitas, e foi para a casa dos Morton.

Não pensou, nem por um segundo, que o capitão pudesse estar inte­ressado em Arabella Morton. Podiam ter flertado, mas era coisa sem importância, como a orgulhosa mulher também sabia. Pensou, satis­feito, que não existe fúria pior do que a de uma mulher desprezada. Queria vingar-se e tinha certeza de que a sra. Morton também o queria.

E também não pensou, sequer por um segundo, que atingindo Adam Harcourt atingiria também Emily.

No começo da tarde, enquanto costurava, Emily surpreendeu-se ao ver a sra. Morton entrar em sua sala. Esperava pela sra. Sheri-dan e quando a senhoria anunciara uma visita, imaginara ser a ami­ga. Largou a costura e levantou-se.

Sra. Morton, que surpresa! — disse, quando conseguiu recuperar a voz.

A visitante ofertou-lhe um sorriso encantador. Vestia-se na últi­ma moda, como sempre. O chapéu de aba larga ostentava preciosas penas de avestruz, que ondulavam. Tudo, chapéu, vestido, xale, lu­vas, sapatos, pareciam novíssimos e ela lamentou não ter trocado de vestido, arrumando-se melhor, ao mesmo tempo que tentava adi­vinhar o motivo da visita. Convidou-a a sentar-se.

Soube que estava indisposta — explicou a sra. Morton, ajeitando o xale sobre os ombros bem-feitos. — Adam foi à nossa festa, ontem, e me disse. Não fiquei surpresa, pois o dia ontem foi muito quente. Claro, nós que acompanhamos a campanha na península não achamos este verão muito quente, mas você, recém-chegada da Inglaterra, deve sofrer...

Sim, de fato faz calor, mas não o acho desagradável. — Certamente fora a desculpa que o marido dera para sua ausência, ima­ginou. — Mas, de vez em quando...

Oh, sim! E os homens nunca entendem — disse a sra. Morton, inclinando-se para a frente com ar confidencial. — Homem nenhum pode avaliar o sofrimento de nós, mulheres. É uma triste realidade, querida, e precisamos nos conformar... Claro que como Adam foi um homem livre por tanto tempo... Não há nada pior do que um solteirão, para se preocupar consigo mesmo. Eles não pensam em mais ninguém!

Não acho que isso se aplique ao Adam — protestou Emily, com segurança.

Você é muito leal, meu bem...,— observou a visitante, com ar indulgente. — Acho isso comovente, considerando que seu casa­ mento foi realizado de maneira tão incomum...

O que quer dizer? — ela sentiu-se gelar.

Ora, meu benzinho! Não se zangue, mas seu segredo foi revelado. Todo mundo sabe que Adam comprou você, de Kit, por dez mil libras. E é incrível que mesmo assim você seja tão dedicada a ele!

Adam... Adam lhe contou?

Emily ficara muito pálida. Jamais imaginara que ele iria contar a.alguém o escandaloso acordo que os havia levado a se casarem, muito menos que ele contaria àquela mulher. Na noite anterior, ele saíra de casa muito zangado, mas como supor que chegaria a ponto de revelar aquele vergonha?

—   Adam? — Arabella fingiu uma leve hesitação. — Claro, Adam... Essas coisas sempre acabam sendo descobertas, cedo ou tarde, meu bem. Neste regimento não existem segredos. Tudo que se faz é do conhecimento de todos. Até mesmo nossos pequenos pecados...

Sra. Morton — conseguiu dizer Emily, com calma sobre-humana —, não sei se veio me visitar apenas para me contar isso e não entendo sua finalidade, mas peço-lhe que se retire.

A senhora não se abalou:

—   Claro, meu bem! Espero que logo se recupere...

E saiu flutuando, muito satisfeita com o sucesso de sua missão.

Quando o capitão chegou, naquela tarde, percebeu que algo mui­to grave havia acontecido. Sua esposa encontrava-se sentada junto da janela, imóvel, as mãos esquecidas no colo, o rosto como que esculpido em mármore. A primeira coisa que lhe ocorreu é que Kit havia estado ali e contara que ele o agredira. Preparou, portanto, para ouvir as acusações de ter tratado o rapaz de maneira injusta.

Imagino que alguém tenha estado aqui contando boatos — disse, com ar de desafio.

Sim — respondeu ela, com voz abafada.

Vou torcer o pescoço dele!, pensou o sr. Harcourt, furioso. Pena não ter batido mais forte.

—   Não havia qualquer necessidade de envolvê-la — comentou, frio. Ao ouvir aquilo ela pôs-se de pé, os cabelos agitando-se ao redor do rosto, os olhos azuis flamejantes.

Não me envolver? De que jeito? Não sou eu a pessoa em questão?

Não! É um assunto entre Kit e eu!

—   Entre você e... E não fui eu o objeto do acordo? Como não me envolver, se essa história sórdida é do conhecimento de todos?

Ele dominou-se e procurou um modo de acalmar a esposa.

Emily, por favor, não fique assim... Sinto se a história se espalhou. Eu esperava que... Bem, é melhor esquecer! Aconteceu e não há jeito. Ele não quis me ouvir e não tive escolha.

Não teve escolha? — gritou ela, mais zangada ainda. — Oh, Adam! Como pôde contar aquilo a alguém... justamente àquela mulher horrível?

O capitão sentiu-se perdido, não entendendo mais o que acontecia.

Eu não contei a ninguém... Que mulher?

A sra. Morton!

Arabella esteve aqui? — Começou a perceber que alguma trama traiçoeira fora tecida e teve mau pressentimento. — Ela lhe disse que bati em Christopher?

Você bateu nele? — Por um instante, ela esqueceu das acusações. — Você bateu no pobre Kit? Eu não sabia... Isso é mau, mas o que ela disse que você fez é mil vezes pior. Disse que você lhe contou que me comprou de Kit por dez mil libras e que todo mundo aqui já sabe. Como pôde contar a ela, Adam?

Ele não se conteve e soltou um palavrão, fazendo-a enrubescer. Então, caiu em si.

Desculpe... Quem disse que eu contei a ela?

Ela mesma e não negue! — Ela inspirou o ar profundamente. — Errei em querer vir com você... Devia ter ficado em casa. Gostaria de voltar para lá agora, Adam. Não posso ficar aqui, sabendo que eles todos conhecem a história do meu casamento, isso me humilha demais... Acho que nunca mais poderei encarar ninguém. Você me comprou, como se eu fosse um par de botas, um cavalo... Não sou sua esposa, mas sim sua propriedade...

Emily! — Ele segurou-lhe as mãos trémulas. — Você tem que acreditar em mim: juro que não disse nada àquela mulher... Tem que me acreditar! Acha que sou do tipo de sair contando meus as­suntos íntimos para todo mundo?

Nunca pensei nisso... — respondeu ela, amargurada. — Não quero ouvir negações, desculpas ou justificativas. O que está feito, está feito. A sra. Morton disse que cedo ou tarde os segredos vêm à tona e acho que tem razão, que com o tempo a verdade aparece. Só que agora não posso mais ficar aqui. Por favor, entenda isso, Adam!

Sim... entendo — murmurou ele, soltou-lhe as mãos e virou-se de lado, enxugando o suor frio que lhe cobria a testa. — Cuidarei disso. Andrew irá com você... se estiver mesmo decidida... Vejo que está. Compreendo. Como disse, a esta hora a história do acordo de­ ve ter se espalhado.

Desta vez, pensou ele, você foi longe demais, Kit. Vou desafiá-lo a um duelo por isso, meu rapaz. Só que depois, quando ela já esti­ver a caminho da Inglaterra e não puder saber. É mesmo melhor que Emily vá para casa, consolou-se.

—   Então, vou tratar de tudo — começou, em tom forçadamente calmo.

Mas não pôde terminar. Alguém começou a bater, repetida e violen­tamente na porta lá embaixo, depois passos pesados subiram a escada, correndo. A porta escancarou-se e o jovem Godfrey entrou, ofegando.

Adam!...

Seu canalha, maldito! — exclamou o capitão e saltou sobre ele, o rosto congestionado, as feições alteradas. — Como ousa aparecer aqui? Saia, antes que eu o mate! Terá notícias minhas, mais tarde, mas agora saia!

Escute! — pediu o rapaz, com voz rouca, defendendo-se dos safanões como podia. — Não há tempo para isto, Adam! Olhe, pa­re, por favor! Pare e me escute! Ele está aqui... Bonaparte! Por instantes, tudo pareceu congelar e fez-se silêncio.

O quê? — perguntou o capitão, por fim. — Não pode ser! Ele está a quilómetros daqui...

Está aqui, sim! Um grupo foi a um baile em Bruxelas, ontem, e ao sair chegou um mensageiro anunciando que Napoleão atacara os prussianos. Precisamos ir, já! Afinal chegou a hora da batalha decisiva! — Ele ergueu os braços, agitando-os. — Chega de esperar sem fazer nada, vamos lutar! Viemos aqui para isso, não é?

Meu Deus, ele nos enganou! Bonaparte nos enganou! Está bem, irei já! Vá indo, Kit, que logo o alcanço.

Emily deu um passo à frente e segurou-o pela manga:

Batalha... Vai haver uma batalha?

Sim. Agora, ouça com atenção. — A voz dele tornara-se calma, persuasiva. — Você precisa ficar aqui. Andrew lhe fará companhia e a protegerá. Lembre-se, sempre, que durante uma batalha os boatos voam, são desencontrados, e ninguém pode ter certeza de nada até tudo acabar. Por isso, não saia daqui e não se alarme se ouvir falar em fracasso, mortandade, derrota... Entendeu o que eu disse?

Sim, entendi! Mas onde vai e quando voltará? Por favor, to­me cuidado!

Ela já não se importava.com o que a mulher dissera que ele fizera ou que todos soubessem como se haviam casado. Só sabia que o ho­mem que amava ia para a guerra e que poderia não voltar.

—   Mando recados ou virei pessoalmente, se puder. Não se preocupe. — Beijou as mãos pequeninas, entrelaçadas de angústia. — Se ficar muito nervosa, vá para junto da sra. Sheridan.

Fitou-a intensamente, abriu os lábios para dizer mais alguma coi­sa, mas seus olhos velaram-se de dor e ele sacudiu a cabeça. Então, voltou-lhe as costas, saiu e desceu a escada ruidosamente.

Nesse momento, como que para marcar a mudança em suas vi­das, gotas grossas, começaram a bater nas vidraças, indicando o fim da violenta onda de calor. A chuva foi molhando as estradas, cami­nhos e ruas empoeirados, formando grandes poças escuras, que pouco depois foram pisadas por patas de cavalos, respingadas pelas rodas de canhões e espalhadas pelas botas dos soldados que marchavam para a frente de batalha.

 

Você ficará aqui, com a sra. Harcourt, Andrew — ordenou o capitão, ao sair para a rua. — Cuide bem dela e... se algo sair er­rado, leve-a de volta à Inglaterra, em segurança.

Não quer que eu o acompanhe, senhor — perguntou o empregado, sem esconder a decepção. — Se for ferido, que Deus não o permita, quem irá cuidar do senhor e levá-lo até um médico? Minha obrigação é estar ao seu lado!

Andrew Morris tinha razão. Todos os oficiais, normalmente, le­vavam criados consigo, a fim de ter certeza de que alguém os socor­reria se fossem feridos, pois ninguém podia preocupar-se com isso, até a luta terminar. Os que podiam, arrastavam-se para fora do cam­po de combate. Os que não podiam e não tinham quem os atendes­se, ficavam por lá...

—   Faça o que mandei — respondeu o sr. Harcourt, nervoso. — Não há tempo para discussões. Higgins irá comigo, para qualquer eventualidade.

Higgins era o cavalariço, que cuidava dos cavalos e que no mo­mento, com ar assustado, segurava as rédeas do baio do patrão. An­drew Morris, aborrecido e preocupado, ficou olhando o capitão montar o cavalo que, parecendo saber que iam para a batalha, agitava-se, batendo os cascos no chão.

—   Faça o que eu disse, Andrew. Cuide bem dela... — repetiu o capitão, enquanto fazia a montaria voltar-se e erguia o braço a fim de acenar um adeus à esposa, que olhava para ele através da vidraça.

Higgins montou seu cavalo e saiu atrás do patrão, quando ele pôs o baio a galope.

Emily só saiu da janela quando o marido desapareceu, ao longe. Fora um adeus apressado, sem abraços, beijos, palavras bonitas. E talvez fosse um adeus final.

Durante o resto do dia, homens, cavalos e canhões passaram pe­las ruas da pequena cidade, dirigindo-se para a linha de fogo, mas o local da batalha permanecia um segredo para os que ali ficavam. Poucos mensageiros regressavam com informações confiáveis, porém, afinal, soube-se que a ação desenrolava-se nas proximidades do cruzamento de duas estradas cujo nome em francês Quatre Brás significava Quatro Braços, ou seja, uma encruzilhada.

Cerca de uma hora depois da partida do capitão Harcourt alguém bateu à porta da casa dela e deu a Emily uma notícia diferente. Tratava-se de Marie, a namorada belga de Kit. Ela entrou fazendo reverências, muito corada, depois entregou-lhe um papel dobrado.

Obrigada, Marie — disse Emily. — O que é isso?

É de God... frii... — explicou a moça, tentando alisar a saia do vestido, meio amarrotada. — Para a senhora, madame... Godfrii quer que a senhora leia.

Quando será que Kit arranjou tempo para me escrever este bilhete? — perguntou-se ela, porém em voz alta, enquanto desdobra­va o papel.

Era uma folha arrancada de um livro. O bilhete denotava pressa, todo manchado de tinta e com manchas de gotas de chuva. Algu­mas palavras estavam meio apagadas e a assinatura era apenas um "K". Ela foi decifrando como podia:

"Querida Emi. Estamos saindo e eu precisava lhe dizer que sinto muito ter contado a A.M. o trato que Adam e eu fizemos na Espa­nha. Eu fiquei furioso com ele e quis me vingar... Agora, A. M. vai contar a todo mundo e não quero que você pense que foi seu marido que contou a ela. A culpa é toda minha. Não fique triste e deprimi­da! K."

Então, era isso! Kit tentara vingar-se de Adam contando tudo pa­ra Arabella Morton!, pensou ela. Ficara furioso por ter levado um soco do amigo, que devia ter tido bons motivos para dá-lo, e esco­lhera aquele modo para dar o troco.

Pensando friamente em tudo, ela chegou à conclusão de que seu marido não bateria em Kit sem um sério motivo. O culpado era o rapaz e ela acusara Adam, como viera fazendo desde que o conhecera.

—   Obrigada, Marie — disse, sorrindo.

A moça fez outra mesura e foi embora, deixando no chão um ras­tro da água que pingava de seu guarda-chuva.

—   Adam, Adam... — murmurou Emily, com profunda tristeza. — Eu o acusei e mais uma vez foi Kit, como quase sempre aconteceu, que fez a trapalhada toda... Por que elé vive provocando con­fusões?

Não adiantava mais se recriminar. Antes que o dia terminasse Adam ou Kit, até mesmo ambos poderiam perder a vida. Por isso o jovem mandara o recado: quisera que ela soubesse a verdade, caso ele não pudesse voltar... Teve que admitir que seu irmão de cria­ção era mais um rapaz estouvado, tolo, do que mau.

Ouviu passos e, pouco depois, Andrew Morris bateu à porta. Quan­do ela lhe disse que entrasse, viu que o rapaz ficara frustrado e triste por não ter ido com o patrão. Seu coração confrangeu-se mais ain­da e ela tentou disfarçar, pois não queria demonstrar o quanto se sentia desesperada.

Sinto, Andrew, que tenha precisado ficar aqui. Sei que gosta ria de estar ao lado do capitão Harcourt e confesso que eu também preferia isso. Estou em segurança, aqui, e sentiria um grande conforto sabendo que alguém dedicado e capaz encontrava-se com meu marido.

Sem querer ofendê-la, madame — resmungou o rapaz, vermelho —, aqui nada poderia acontecer à senhora. O que posso fazer pelo capitão, ficando três quilómetros longe do campo de batalha?

Compreendo... Mas precisamos fazer o que o capitão mandou — respondeu ela, com mais energia. — Por favor, saia e veja se con­segue alguma notícia.

O rapaz reanimou-se diante da possibilidade de uma opção práti­ca e sumiu.

Com a saída de todos os soldados, a cidadezinha se tornara silen­ciosa. Agora era possível perceber ao longe o pipocar da fuzilaria e, à medida que anoitecia, o lampejo das explosões da artilharia.

Já noite mais entrada começaram a chegar os primeiros feridos em condições de andar. Pertenciam às Terras Altas da Escócia. Emily desceu, correndo, com a senhoria e levou três ou quatro deles para a cozinha, a fim de tratar-lhes os ferimentos e dar-lhes um pouco de aguardente que os ajudasse a suportar melhor a dor. Os homens agradeceram num linguajar ininteligível e pareciam estar conforma­dos com suas condições precárias. Nenhum deles se queixou dos fe­rimentos nem da pouca sorte que haviam tido na batalha.

Um dos feridos, que caminhara quase todos os três quilómetros sem ajuda, tendo levado um tiro na barriga de uma perna, explicou:

—   Estão lutando ferozmente. Quando vim embora a situação para nós havia piorado bastante...

Essa notícia foi confirmada por Andrew, que falara, na estrada, com outros feridos que chegavam. O general Wellington ordenara às divisões britânicas que recuassem e se reagrupassem ao redor da aldeia de Waterloo. A noite descera completamente e a batalha teria uma trégua até o dia seguinte. Quatre Brás fora uma luta indecisa, sem vencedores.

A chuva caía sem parar. As ruas, antes cobertas de poeiras, agora recobriam-se de lama pegajosa. Pouco depois, não chegaram mais feridos.

—   Madame deveria ir descansar — aconselhou Andrew. — Nada mais há para se fazer, por enquanto. Teremos que esperar até amanhã.

Exausta, Emily foi para seu quarto, deitou-se, porém não conse­guia conciliar o sono. A fuzilaria terminara, mas em seu lugar en­trara o estrondo de um violento temporal, com raios, chuva grossa e trovões.

Ela não podia deixar de pensar no marido, se estaria a salvo, se encontrara um abrigo. Recriminou-se por não ter pensado em pre­parar um lanche para ele levar. Onde quer que o capitão Harcourt estivesse, devia estar molhado, com frio e com fome. Mas, se ele es­tivesse vivo e são, isso não tinha mais importância.

No dia seguinte o tempo continuou feio, com vento, chuva e tro­voadas. Emily estremecia cada vez que ouvia um trovão, imaginan­do que fossem explosões da artilharia.

Andrew fora, a cavalo, até Bruxelas, à cata de informações e vol­tou dizendo que chegavam reforços britânicos. Os prussianos e de­mais aliados que ajudavam o general Wellington tinham sofrido grandes baixas e não se sabia se resistiriam a um novo ataque.

Mais um dia angustiante passou e à noite Emily tornou a deitar-se, semivestida, pronta para qualquer eventualidade, como fizera na noite anterior. Mergulhou num sono negro, sem sonhos, e acordou por volta das onze horas da manhã seguinte. Betsy e Andrew ha­viam discutido a respeito e decidido que era melhor deixá-la descan­sar bem.

Sentou-se na cama, pensando que trovões ribombavam, porém lo­go percebeu que ouvia a artilharia, distante, porém intensa. Lutava-se acirradamente nos arredores de Waterloo.

Saltou da cama, pôs um vestido, pegou um xale e foi para a rua. Havia pessoas passando, gente ávida de notícias. Ela decidiu ir até a praça, a fim de falar com a sra. Sheridan, que também nada sa­bia, mas insistiu para que Emily ficasse e almoçasse com ela.

Não posso! — recusou ela, alterada pelo nervosismo.

Você precisa comer alguma coisa, querida, nem que seja um chá com torradas. Lembre-se do seu estado, tem que se alimentar por causa de seu filhinho! Talvez só consigamos notícias à noite... Se ficar sem comer, irá enfraquecendo e poderá adoecer, o que será péssimo para a criança...

E Adam, o que ele tem para comer? — indagou ela, sentindo-se uma traidora por ter comida à disposição.

Emily, querida, se ele não tem comida, você nada pode fazer e não o ajudará passando fome! Não a deixarei sair daqui se não comer, menina!

Por fim, ela concordou em tomar uma xícara de chá e comer uma torrada, antes de ir à praça para ver se havia informações.

Por volta do meio-dia e meia chegou uma carruagem com um ca­valheiro e duas damas, que havia saído cedinho de Bruxelas a fim de ver á batalha, mas que, horrorizados com o que tinham visto, estavam agora retirando-se apressadamente para uma pequena pro­priedade campestre, bem longe de qualquer agitação bélica. Disse­ram que a situação encontrava-se tão indefinida que preferiam ir para longe, para o caso do imperador vencer a luta.

Emily voltou para casa e lá ficou, silenciosa e infeliz, na compa­nhia de Betsy e Andrew. À tarde as notícias pioraram. A sra. Sheri­dan procurou por Emily, muito aflita. .

—   Os nossos entraram em ação — contou, nervosa —, pois ouvi dizer, agora mesmo, que Bob Morton foi gravemente ferido e nem sequer pode ser transportado para cá. Teve um braço praticamente decepado por tiros e tem outros ferimentos. Foi levado para trás da linha de frente, onde um cirurgião amputou-lhe o braço e besuntou o ferimento com alcatrão, para estancar o sangue. Não se sabe se ele sobreviverá, pois entrou em estado de choque e sofreu uma he­morragia muito séria.

A sra. Sheridan não quis ficar com Emily, quando esta a convi­dou, pois poderiam levar notícias do marido à casa dela e queria es­tar lá para recebê-las. Enquanto se despediam, na porta que dava para a rua, uma caleça passou rapidamente e perceberam que no in­terior ia Arabella Morton. Apesar do que ela lhe fizera, Emily só conseguiu sentir compaixão pela mulher que ia ao encontro do ma­rido agonizante.

Vieram notícias de outras baixas. O regimento de Brunswick, cu­jos oficiais haviam sido admirados por muitas jovens românticas, resistira bravamente a um ataque de uma tropa napoleônica, mas fora quase destruído, restando poucos sobreviventes, pouquíssimos deles sem ferimentos.

Assim continuou até o anoitecer, quando finalmente a fuzilaria terminou e um pesado silêncio pareceu envolver o mundo. Ninguém falava, a não ser aos sussurros, e todos esperavam.

A notícia chegou com um belga a cavalo, rapaz muito jovem, a farda suja de lama e enegrecida pela fumaça, que vinha sem escolta e a galope. Sua montaria estava suada e espumando. Ainda ao lon­ge, ele ergueu o chapéu, agitou-o e gritou:

—   Eles estão se retirando! Estão se retirando!

Ao chegar, puxou as rédeas do cavalo que se deteve empinando e depois permaneceu meio saltitante sobre as patas nervosas. Repe­tiu a informação:

—   Quem está se retirando? Os ingleses? — perguntou Emily, gritando.

Ela ia ver a sra. Sheridan naquele momento e parara ao ver o ca­valeiro surgir lá longe. Com medo que o cavaleiro fosse embora sem lhe responder, ela correu para ele e segurou uma das rédeas.

Wellington? Não, madame! — gritou o soldado quase menino e tornou a agitar os braços. — Napoleão está batendo em retira­da! Napoleão!

Será verdade, mesmo? — duvidou ela, aflita.

Claro que é! — garantiu o jovem a ela e aos que o rodeavam, ansiosos. — Até a Guarda Imperial... fugiram todos!

Essa notícia parecia mais inacreditável ainda. A tropa de elite de Napoleão, contou então o soldado, juntara-se a um outro agrupa­mento, mas ao ver a fuga da Guarda Imperial, a infantaria francesa perdera o ânimo. A retirada se transformara em fuga e os soldados distanciavam-se do campo de batalha largando os mosquetes pelo caminho, enquanto o marechal Ney, de pé na beira da estrada, com o sabre desembainhado e lágrimas nos olhos pedia inutilmente aos desertores em pânico que voltassem à luta, porque ainda poderiam ganhar. O imperador também fugira e acreditava-se que cavalgava em direção a Paris.

—   É uma vitória! Uma grande vitória! Viva Wellington! — gritou o jovem soldado e todos começaram a gritar vivas e a bater palmas.

Emily atravessou a multidão a muito custo até conseguir ver An-drew Morris, que sobressaía dos demais pela alta estatura.

—   Andrew, você ouviu? — gritou para ele, arfante. — Agora, podemos ir procurar o capitão Harcourt. Ele disse que devíamos ficar aqui durante a batalha e ela já terminou... Vá selar dois cavalos!

O sol descia para o horizonte, num céu muito vermelho, estriado pela fumaça. Enquanto cavalgavam em direção a Waterloo podiam calcular o elevado preço daquela vitória pelos corpos caídos à beira do caminho e no meio dele. Eram os soldados que tinham tentado voltar, mas não haviam resistido aos ferimentos.

As tropas, esgotadas, que retiravam-se do campo de batalha pas­savam pelos cadáveres como se fossem bonecos ou homens sem al­ma, os olhos ausentes que não viam os mortos, os rostos marcados, enegrecidos pela fumaça.

O campo de batalha propriamente dito era um verdadeiro pesa­delo, repleto de homens e cavalos mortos. Cavalos soltos, alguns deles feridos, vagavam sem rumo entre os corpos caídos. Canhões atingi­dos pareciam estranhas esculturas metálicas. Por todo lado ouvia-se gritos e lamentos dos feridos. Havia homens imóveis, sentados na lama, que não haviam sido atingidos, mas que estavam exaustos de­mais para se erguer e andar. Havia de todas as fardas, vencedores e vencidos unidos na mesma triste sensação de angústia e de vazio, depois da luta. Começava a movimentar-se por ali um tipo de ave de rapina horrível, que sempre aparece nos locais de tragédias: os ladrões dos mortos, que despojavam os cadáveres de seus haveres mais valiosos.

O ar era quase irrespirável, carregado de fumaça e do cheiro acre da pólvora, misturado ao odor adocicado e nauseante do sangue. Os olhos de Emily lacrimejavam por isso e pelo horror que viam.

Afinal, chegaram ao local onde o regimento do capitão Harcourt havia lutado e resistido. Ela viu sobreviventes que conhecia. Des­montou e pôs-se a procurar pelo marido, desesperada. Por entre os rolos de espessa fumaça negra divisou um vulto muito alto, forte, que desapareceu em seguida. Seu coração disparou eela correu na direção em que vira o vulto, rezando para que não fosse impressão.

E Adam Harcourt apareceu entre a fumaça, com o rosto e a farda enegrecidos. Ela parou, trémula, e estendeu-lhe as mãos.

—   Olá, Flor... — disse ele, a voz quebrada pelo cansaço. — O que está fazendo aqui?

—   Adam! — soluçou ela, correndo a se aninhar nos braços dele. O capitão não falou, apenas abraçou-a, enquanto ela apoiava a cabeça em seu peito. Afinal, ele beijou-lhe os cabelos e murmurou:

Isto não é lugar para você, Flor. Deixe que Andrew a leve de volta.

Tive tanto medo! — balbuciou ela, entre as lágrimas. — Não conseguíamos notícias confirmadas, mas assim que um soldado chegou, anunciando a vitória, viemos depressa... Oh, Adam, eu o amo tanto! Queria que você acreditasse... Senti tanto medo ao pensar que poderia morrer!

—   Sim, sim... — sussurrou ele, afagando-lhe os cabelos com as mãos feridas e sujas de lama. — Mas não é assim tão fácil livrar-se de um soldado experiente como eu... — Segurou-a pelos ombros e afastou-a, com suavidade. — Vá, agora. Irei mais tarde, assim que puder. Ainda tenho muito a fazer por aqui...

Olhou para um ponto mais adiante, onde um homem à paisana, com roupas velhas, surradas, atravessava o campo de batalha, ob­servando os cadáveres. De repente, ele se apressou, abaixou-se, e ti­rou algo de um soldado francês, morto.

—   Chacais! — indignou-se Adam. — Roubando os mortos! Empunhou o sabre, num gesto violento, e avançou para o homem, tropeçando, a arma ameaçadoramente erguida. O ladrão ergueu-se e começou a recuar, arreganhando os dentes podres, escuros, lem­brando o repelente animal que Adam mencionara. Então, voltou-se de repente e saiu correndo, curvado, arrastando um saco, procuran­do um ponto mais sossegado onde pudesse continuar seu nojento tra­balho sem ser perturbado.

O capitão voltou para junto "da esposa, embainhando o sabre com ar desanimado.

—   Andrew! — chamou, elevando a voz que pareceu arranhar dolorosamente a garganta seca. — Leve a sra. Harcourt de volta. Leve-a embora deste lugar horrível!

A volta foi mais demorada porque as estradas achavam-se toma­das pelas tropas que se afastavam do campo de batalha. Bandos de prisioneiros de guerra franceses mais pareciam arrastar-se do que an­dar, sem ânimo para nada.

Andrew fazia perguntas a todos que encontravam e ficaram sa­bendo que a sorte mudara com.a chegada, atrasada porém no mo­mento certo, das forças prussianas comandadas pelo excêntrico e idoso marechal Blucher. Alguns feridos tinham sido recolhidos em carroças que os levavam para os médicos.

Quando chegaram, Emily encontrou o major Sheridan na praça... Uma de suas mãos encontrava-se enfaixada e manchada de sangue. Ficou encantada ao vê-lo, sabendo que a sua velha amiga ficaria tão feliz quanto ela e apressou-se a ir contar-lhe que o capitão Harcourt estava bem.

—   Nem sei como — riu o major, apesar do cansaço e tristeza que havia em seus olhos —, pois é muito mais alto do que todos e, por isso, um bom alvo para os inimigos. Deve ter muita sorte ou um anjo da guarda muito atento ou, ainda, São Pedro não deve estar com pressa de recrutá-lo.

Nesse momento, uma carruagem passou por eles e o major Sheri­dan fitou-a, pensativo, depois comentou:

A viúva de Morton... Ele só deve ter deixado dívidas.

O que ela vai fazer? — perguntou Emily, os olhos no veículo que se afastava.

O regimento fará uma coleta, no entanto, por mais que arrecademos mal dará para pagar a metade do que ele deve. A sra. Arabella não vai poder continuar vivendo do modo que está acostumada. Mas é uma mulher bonita, tem iniciativa e duvido que use roupa de luto por muito tempo... — Cumprimentou Emily e foi embora.

Apesar da promessa de voltar logo, o capitão chegou à noite. A cidadezinha estava toda iluminada com lanternas e tochas, havia mui­to movimento. Os regimentos passavam e repassavam revista para a verificação dos que não tinham voltado, soldados procuravam suas unidades, amigos procuravam amigos, irmãos procuravam irmãos e todos estavam ansiosos por saber quem sobrevivera. As mulheres procuravam seus maridos entre toda aquela confusão, oficiais de al-moxarifado procuravam avaliar o que sobrara e o que precisava ser substituído, enquanto que dos hospitais improvisados vinham gri­tos e gemidos dos que estavam sob os cuidados dos médicos. Muitos que não gozavam desse duvidoso privilégio, por terem sido encon­trados ao cair da noite, teriam que permanecer ao relento, deitados no chão, até o raiar do dia, quando seria possível providenciar so­corro e acomodação para eles. Poucos, provavelmente, sobrevive­riam àquelas horas.

O capitão Harcourt entrou em casa quando a água da banheira, laboriosamente carregada para o primeiro piso por Andrew e Betsy, esfriara pela segunda vez. Entrou com passo incerto, pesado, quase cambaleante, parecendo em pior estado do que quando a esposa o vira no campo de batalha. Tropeçou e foi amparado por Andrew, que o ajudou a chegar e sentar na poltrona mais próxima. Ele esti­cou as longas pernas, suspirando. Emily imediatamente foi para junto dele.

Desculpe chegar tão tarde... Estive procurando Kit. Prometia você que cuidaria dele...

Adam... — segurando a mão do marido, ela notou que se esquecera do irmáo de criação. — Você entende que nunca amei Kit... do modo que você pensava, não é?

       Sim, sim... — Os dedos morenos, longos e fortes, envolveram a mão de Émily. — Sei disto, agora... Mas fui procurá-lo e o encontrei. Ele está bem. Um tiro atingiu-lhe uma orelha, de raspão... San­grou muito, mas não é grave. Tive que levá-lo ao atendimento mé­dico do campo, depois trazê-lo para cá. Está exibindo a cabeça enfaixada, como um grande herói da batalha... Marie ficou cuidan­do dele e acho que não está com muita dor. — Tentou sorrir e acres­centou: — Tenho impressão que não vou conseguir tirar as roupas... Andrew precisará cortá-las.

Foi o que precisaram fazer. Ele ficara com a farda por três dias e duas noites, ao relento, e o tecido encontrava-se rígido devido ao suor, lama e sangue alheio. Por um verdadeiro milagre, ele não so­frera sequer um arranhão. Estava fraco, pois ficara dois dias sem comer; Emily providenciou sopa, pão e carne assada, fria, que ele devorou como um lobo esfomeado. Afinal, depois de livrar-se da sujeira com um bom banho, e acalmar a fome, o sr. Adam deixou-se cair na cama e adormeceu profundamente.

O capitão Harcourt dera ordens para ser acordado às oito horas do dia seguinte e assim o fizeram, senão teria dormido por vinte e quatro horas seguidas. Embora achasse uma crueldade acordá-lo, Emily abriu as cortinas e sacudiu o marido por um ombro. Levou uns cinco minutos tentando, até que ele abriu os olhos. Em seguida, ele sentou-se na cama, recostou-se nos travesseiros e passou as mãos no rosto e cabelos. Tomou o café que a esposa lhe trouxera. Sorria, fitando-a por cima da xícara fumegante.

Ela sentou-se na beira da cama e ficou a observá-lo. O rosto e o pescoço dele estavam avermelhados, queimados pela exposição à fu­maça e à intempérie. Ficara sem se barbear durante os últimos dois dias e duas noites. Rindo, disse a ele que mais parecia um bandido do que um soldado britânico.

Você já viu Kit? — indagou ele, depois de acabar o café.

Sim. Você não vai acreditar! Fui visitá-lo, às seis da manhã, pensando que ainda estivesse dormindo, mas encontrei-o sentado na cama, comendo galinha ensopada, escandalosamente mimado por Marie. Ainda bem que me preveniu, senão teria me impressionado com o tamanho das ataduras que lhe envolvem a cabeça. Ele parecia muito contente e não parava de repetir "Nós os pusemos a cor­rer!", enquanto me contava a grande vitória.

Adam soltou uma gargalhada rouca. Sua garganta ainda se res­sentia da fumaça que aspirara.

—- Deus abençoe aquele rapaz! — exclamou, ainda rindo. — Ele é impossível... Mas vale a pena aguentar as trapalhadas que arma.

Emily levantou-se e foi abrir uma gaveta da cómoda, voltando para perto do marido em seguida.

—   Kit mandou-me isto no dia em que vocês foram para Quatre Brás.

Entregou-lhe o papel amassado, borrado; o capitão abriu-o com cuidado, alisou-o e leu. Franziu a testa.

—   Eu estava disposto a desafiá-lo para um duelo por causa disto —       disse, baixinho. — Agora já não me parece tão importante, perto de tudo que vi no horror da batalha...

—   Sim — concordou ela —, não tem importância. Ele fitou-a com intensidade e Emily enrubesceu.

Kit me disse, também, que você se destacou pela coragem, sob o fogo inimigo, que com certeza será promovido a major.

Pode ser, caso Wellington seja da mesma opinião que ele... Mas, lembra-se, eu tinha decidido pedir baixa.

Acho que você jamais pedirá baixa do Exército — retrucou ela, calma. — Esta é a vida da qual gosta e jamais escolherá outra, pela própria vontade.

O sr. Harcourt pegou a mão da esposa, que estava sob as cobertas.

Está enganada. Chega de ser militar: passei tempo demais lutando. Estou disposto a deixar as honras e glórias para Kit e desejo que ele chegue a general. Minha ideia é ficar em casa, com você.

Para criar cavalos de corrida? — perguntou Emily, com um suave sorriso.

Mais ou menos... — respondeu ele e piscou-lhe, malicioso.

Então, devo avisá-lo que não vamos ficar sozinhos em casa — começou ela, tranquila. — Espero que não se importe com a presen­ça de mais uma pessoa.

Desde que não se trate de Christopher Godfrey, eu concordo —       disse ele, com ar aflito. — Perdoei aquele patife, mas minha pa­ciência acabou.

—   Não. Eu não me refiro a Kit...

Emily hesitou, depois aproximou-se dele e murmurou-lhe algumas palavras ao ouvido.

Uma expressão indefinível passou pelos olhos dele, enquanto aper­tava com força a mão da esposa. Ficou em silêncio, por alguns mo­mentos, depois sua voz soou num leve murmúrio emocionado:

Você devia ter me contado...

Eu quis contar mas, primeiro, tive medo que você não quises­se me trazer, depois, que me mandasse de volta para casa...

Eu não ia me separar de você tão facilmente! — exclamou ele beijando-lhe os dedos. — Eu a amei desde o primeiro momento que a vi, Flor, dentro daquele córrego. Desde então, soube que era tudo para mim e que não conseguiria amar outra mulher.

—   Oh, Adam! — ela escondeu o rostinho corado no peito dele e abraçou-lhe o pescoço.

O capitão puxou-a para cima da cama, acomodando-a nos traves­seiros, a seu lado.

—   Senti tanto ciúme daquele rapaz idiota que quase enlouqueci! Pode dizer que eu também sou um idiota, mas o fato é que não podia acreditar que você me amava, que minha sorte era tanta. E tinha medo de que você jamais perdoasse o trato que Kit e eu fizemos na Espanha.

Ela ergueu a mão esquerda, na qual brilhava a aliança de ouro, símbolo da união com aquele homem tão amado.

—   Você e eu fizemos nosso próprio trato, Adam... e ele é o único que importa.

Ia dizer mais alguma coisa, porém os lábios do marido a impedi­ram, colando-se aos dela, num beijo que era uma promessa de feli­cidade eterna.

 

 

                                                                  Ann Hulme

 

 

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