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UMA ESTRANHA REALIDADE / Carlos Castañeda
UMA ESTRANHA REALIDADE / Carlos Castañeda

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UMA ESTRANHA REALIDADE

 

                         

 

Há dez anos, tive a felicidade de conhecer um índio yaqui do Noroeste do México. Eu o chamo "Dom Juan". Em espanhol, don é um título usado para demonstrar respeito. Conheci Dom Juan por um acaso total. Estava sentado com Bill, um amigo meu, numa estação rodoviária numa cidade de fronteira do Arizona. Estávamos muito calados. Era de tardinha, e o calor parecia insuportável. De repente, ele se debruçou e bateu em meu ombro.

 

— Lá está o homem sobre quem lhe falei — disse ele, em voz baixa. Fez um sinal para a entrada, Um velho tinha acabado de entrar.

— O que foi que você me contou a respeito dele? — perguntei.

— É o índio que sabe a respeito do peiote. Lembra-se?

 

Lembrei-me de que eu e Bill certa vez tínhamos passado o dia todo rodando de carro, procurando a casa de um índio mexicano "excêntrico" que morava no lugar. Não encontramos a casa do sujeito e eu tinha a impressão de que os índios a quem havíamos pedido informações tinham-nos enganado de propósito. Bill me dissera que o homem era um yerbero, pessoa que coleta e vende ervas medicinais, e que ele sabia muita coisa sobre o cacto alucinógeno, o peiote. Disse ainda que valia a pena para mim conhecê-lo. Bill era meu guia no Sudoeste, na minha coleta de informações e espécimes de plantas medicinais usadas pelos índios da região.

 

Bill levantou-se e foi cumprimentar o homem. O índio tinha estatura mediana. Seus cabelos eram brancos e curtos e um pouco caídos sobre as orelhas, acentuando a redondeza de sua cabeça. Ele era muito moreno; as rugas profundas de seu rosto lhe davam uma aparência de idade, e no entanto seu corpo parecia ser forte e sadio. Fiquei olhando para ele por um momento. Movia-se com uma agilidade que eu teria julgado impossível para um velho. Bill me fez sinal para aproximar-me.

 

— Ele é um bom sujeito — falou. — Mas não consigo entendê-lo. O espanhol dele é esquisito, cheio de idiomatismos rurais, imagino.

 

O velho olhou para Bill e sorriu. Meu companheiro, que só fala algumas palavras de espanhol, inventou uma frase absurda naquela língua. Olhou para mim, como que perguntando se estava fazendo sentido, mas eu não sabia o que ele queria dizer; então, ele deu um sorriso encabulado e afastou-se. O velho olhou para mim e começou a rir. Expliquei-lhe que meu amigo às vezes se esquecia de que não sabia falar espanhol.

 

— Acho que também se esqueceu de nos apresentar — falei, e disse meu nome.

— Sou Juan Matus, às suas ordens — disse ele. Apertamo-nos as mãos e ficamos calados por um momento.

 

Rompi o silêncio e contei-lhe sobre meu trabalho. Disse-lhe que estava à procura de qualquer tipo de informação sobre plantas, especialmente o peiote. Falei de maneira forçada por muito tempo e, embora fosse quase totalmente ignorante naquele assunto, disse que sabia muita coisa sobre a erva. Pensei que, sé eu me gabasse de meus conhecimentos, ele poderia interessar-se e conversar comigo. Mas o velho não disse nada. Ficou escutando, pacientemente. Depois, meneou a cabeça, devagar, e olhou bem para mim. Os olhos dele pareciam brilhar com uma luz própria. Desviei o olhar. Estava encabulado. Tinha a certeza de que, naquele momento, ele sabia que eu estava dizendo tolices.

 

— Venha à minha casa um dia desses — disse ele, por fim, desviando o olhar. — Talvez lá possamos conversar mais à vontade.

 

Eu não sabia mais o que dizer. Estava constrangido. Decorrido algum tempo, Bill voltou. Reparou na minha perturbação e não disse nada. Ficamos ali sentados, calados, por certo tempo. Depois, o velho levantou-se. O ônibus dele tinha chegado. Despediu-se.

 

— Não se saiu muito bem, não é? — perguntou Bill.

— Não.

— Perguntou a ele a respeito das plantas?

— Perguntei. Mas acho que disse besteira.

— Já lhe disse, ele é muito excêntrico. Os índios aqui o conhecem e, no entanto, nunca falam dele. Isso já é alguma coisa.

— Mas ele me convidou, para ir à casa dele.

— Ele não estava falando sério. Claro, pode ir à casa dele, mas o que quer isso dizer? Nunca lhe adiantará coisa alguma. Se você lhe perguntar alguma coisa, ele vai-se fechar em copas, como se você fosse um idiota falando asneiras.

 

Bill disse, com ar convincente, que já tinha conhecido gente como ele, que dava a impressão de saber muita coisa. Na opinião dele, essa gente não valia a pena cultivar, pois, mais cedo ou mais tarde, podia-se obter as mesmas informações de outras pessoas que não eram tão difíceis. Falou que não tinha nem tempo nem paciência com velhos decrépitos, e que era bem possível que o velho apenas fingisse saber a respeito das ervas, quando, na verdade, só sabia pouca coisa.

 

Bill continuou a falar, mas eu não estava escutando. Só pensava no velho índio. Ele sabia que eu estava blefando. Lembrei-me dos seus olhos. Tinham brilhado mesmo.

 

Voltei para vê-lo uns dois meses depois, n5o tanto como estudante de antropologia interessado em plantas medicinais, mas como uma pessoa com uma curiosidade inexplicável. A maneira como ele me olhara fora um fato sem precedentes em minha vida. Queria saber o que significava aquele olhar. Aquilo tornou-se quase uma obsessão para mim. Pensei naquilo, e quanto mais pensava, mais estranho me parecia.

 

Dom Juan e eu nos tornamos amigos, e durante um ano eu o visitei inúmeras vezes. Achava o jeito dele muito tranqüilizador e seu senso de humor magnífico; mas, acima de tudo, achava que havia em seus atos uma coerência muda, uma harmonia que para mim era completamente inexplicada, Em sua presença, eu sentia um prazer estranho e, no entanto, também sentia um inexplicável desconforto. A simples companhia dele me obrigava a fazer uma tremenda reavaliação de meus padrões de comportamento. Eu tinha sido criado, talvez como todo mundo, para estar pronto a aceitar o homem como sendo essencialmente uma criatura fraca e falha. O que me impressionava em Dom Juan era o fato de ele não fazer questão de ser fraco e indefeso, e só de estar perto dele eu sentia uma comparação desfavorável entre o seu comportamento e o meu. Talvez uma das declarações mais impressionantes que me tenha feito naquela ocasião tenha sido a respeito de nossa diferença inerente. Antes de uma de minhas visitas, estava-me sentindo muito infeliz com o aspecto geral de minha vida e com vários sérios conflitos pessoais que eu tinha. Quando cheguei à casa dele, sentia-me irrita­do e nervoso.

 

Estávamos conversando a respeito de meu interesse pelo conhecimento; mas, como sempre, estávamos em setores diferentes. Referia-me ao conhecimento acadêmico que transcende a experiência, enquanto ele falava do conhecimento direto do mundo.

 

— Sabe alguma coisa do mundo que o rodeia? — perguntou.

— Sei muitas coisas diferentes — respondi.

— Quero dizer, sente o mundo em volta de você?

— Sinto tanto do mundo em volta de mim quanto posso.

— Isso não basta. Tem de sentir tudo, senão o mundo perde o sentido.

 

Rebati com o argumento clássico, dizendo que não era preciso provar a sopa para saber a receita, nem levar um choque elétrico para saber a respeito da eletricidade.

 

— Você faz a coisa parecer estúpida — disse ele. — Em minha opinião, quer agarrar-se a seus argumentos, a despeito do fato de eles não lhe darem nada; quer continuar assim, mesmo às custas de seu bem-estar.

— Não sei de que está falando.

— Estou falando do fato de que você não é completo. Não tem paz,

 

Aquela declaração me aborreceu. Ofendi-me. Achei que ele certamente não estava em condições de julgar meus atos nem minha personalidade.

 

— Você está atormentado por problemas — disse ele, — Por quê?

— Sou apenas um homem, Dom Juan — respondi, irritado. Fiz aquela declaração do mesmo jeito que meu pai costumava fazer. Sempre que ele dizia que era apenas um homem, implicitamente queria dizer que era fraco e indefeso; e a declaração dele, como a minha, era cheia de um sentido final de desespero.

 

Dom Juan ficou olhando para mim como tinha olhado da primeira vez que nos encontramos.

 

— Pensa demais em si —- disse ele, sorrindo. — E isso lhe dá um cansaço estranho, que o leva a fechar o mundo em volta de si e se agarrar a seus argumentos. Por isso, só tem problemas. Também sou apenas um homem, mas não digo isso do mesmo jeito que você.

— Como é que o diz?

— Venci meus problemas. É uma pena que minha vida seja tão curta que eu não me possa agarrar a todas as coisas de que gostaria. Mas isso não é um problema; é só uma pena.

 

Gostei do tom de sua declaração. Não havia nela desespero nem autocomiseração.

 

Em 1961, um ano depois de nosso primeiro encontro, Dom Juan me revelou que ele tinha um conhecimento secreto das plantas medicinais. Disse-me que era um brujo. Esta palavra espanhola pode ser traduzida por feiticeiro ou curandeiro. Desse momento em diante, as relações entre nós se modificaram; tornei-me seu aprendiz e, durante os quatro anos que se seguiram, procurou ensinar-me os mistérios da feitiçaria. Escrevi sobre esse aprendizado em Os Ensinamentos de Dom Juan; Um Método Yaqui do Conheci­mento.

 

Conversávamos em espanhol e, graças ao notável domínio daquela língua por parte de Dom Juan, consegui explicações detalha­das dos significados complexos de seu sistema de crenças. Refiro-me a esse cabedal de conhecimentos complexo e bem sistematizado pelo termo de feitiçaria, e dou-lhe o nome de feiticeiro, porque eram termos que ele próprio usava em conversas íntimas, No contexto de elucidações mais sérias, porém, ele usava os termos "conhecimento" para significar a feitiçaria e "homem de conhecimento" ou "aquele que sabe" para designar um feiticeiro.

 

A fim de ensinar e corroborar seu conhecimento, Dom Juan utilizava três plantas psicotrópicas bem conhecidas: o peiote, Lo­phophora williamsii; estramônio, Datura inoxia, e uma espécie de cogumelo pertencente ao gênero Psilocybe. Pela ingestão separada de cada um desses alucinógenos, ele produzia em mim, como seu aprendiz, alguns estados especiais de percepção destorcida, ou de consciência alterada, que denominei "estados de realidade não comum". Usei a palavra "realidade", porque era uma premissa básica no sistema de crenças de Dom Juan que os estados de consciên­cia provocados pela ingestão de qualquer daquelas três plantas não eram alucinações, e sim aspectos concretos, embora não comuns, da realidade da vida quotidiana. Dom Juan comportava-se para com esses estados de realidade não comum não "como se fossem" reais, mas como "sendo" reais.

 

Classificar essas plantas como alucinógenas e os estados que elas provocavam como realidade não comum, obviamente, foi um artifício meu. Dom Juan entendia e explicava as plantas como sendo veículos que conduziriam ou levariam o homem a certas forças impessoais, ou "poderes", e que os estados que elas provocavam eram os "encontros" que o feiticeiro tinha de ter com aqueles poderes, a fim de conseguir controle sobre eles.

 

Ele chamava o peiote de "Mescalito" e explicava-o como sendo um mestre benevolente e protetor dos homens. Mescalito ensinava a "maneira certa de viver". O peiote geralmente era ingerido em reuniões de feiticeiros, chamadas "mitotes", onde os participantes se reuniam especificamente para procurar uma lição sobre a maneira certa de viver.

 

Dom Juan considerava o estramônio e os cogumelos poderes de um tipo diverso. Chamava-os "aliados" e dizia que eram passíveis de ser manipulados; um feiticeiro, na verdade, conseguia sua força manipulando um aliado. Entre os dois, Dom Juan preferia o cogumelo. Afirmava que o poder contido no cogumelo era seu aliado pessoal e chamava-o "fuminho" ou "fumo".

 

O processo de Dom Juan para utilizar os cogumelos era deixai que secassem e se tornassem um pó fino, dentro de uma cabacinha. Conservava a cabaça fechada por um ano e depois misturava o pó fino com cinco outras plantas secas, produzindo uma mistura para ser fumada num cachimbo.

 

Para tornar-se um homem de conhecimento, a pessoa tinha de se "encontrar" com o aliado tantas vezes quanto possível; tinha de familiarizar-se com ele, Essa premissa significava, é claro, que a pessoa teria de fumar a mistura alucinógena freqüentemente. O processo de "fumar" consistia em ingerir o pó fino de cogumelos, que não se incinerava, e inalar a fumaça das outras cinco plantas que constituíam a mistura. Dom Juan explicou os efeitos profundos que os cogumelos tinham sobre as capacidades de percepção da pessoa como sendo o "aliado retirando seu corpo".

 

O método de ensino de Dom Juan exigia um esforço extra­ordinário por parte do aprendiz. Na verdade, o grau de participação e envolvimento necessários era tão grande que, em fins de 1965, tive de me retirar do aprendizado. Posso dizer agora, com a perspectiva dos cinco anos que se passaram, que naquela ocasião os ensinamentos de Dom Juan tinham começado a representar uma séria ameaça para a minha "idéia do mundo". Eu tinha começado a perder a certeza, que todos temos, de que a realidade da vida quotidiana é coisa que se pode considerar normal.

 

Quando me retirei, estava convencido de que minha decisão era final; não queria mais ver Dom Juan. No entanto, em abril de 1968 entregaram-me um dos primeiros exemplares de meu livro e senti-me, obrigado a mostrá-lo a ele. Fui visitá-lo. Nossa ligação de mestre-aprendiz restabeleceu-se misteriosamente, e posso dizer que, nessa ocasião, comecei um segundo ciclo de aprendizado, mui­to diferente do primeiro. Meu medo não era tão acentuado quanto no passado. Todo o ambiente dos ensinamentos de Dom Juan era mais descansado. Ele ria e também me fazia rir muito. Parecia haver da parte dele, um propósito de reduzir a seriedade geral. Fazia palhaçadas nos momentos verdadeiramente críticos desse segundo ciclo, ajudando-me assim a dominar experiências que facilmente poderiam ter-se tornado obsessivas, A premissa dele partia do princípio de que era necessário um temperamento leve e dócil para poder suportar o impacto e a estranheza dos conhecimentos que ele me ensinava.

 

— O motivo por que você se assustou e largou tudo foi estar-se sentindo muito importante — disse ele, para explicar minha desistência anterior. — A sensação de importância faz a pessoa sentir-se pesada, desajeitada e vaidosa. Para ser um homem de conhecimento, ela tem de ser leve e fluida.

 

O interesse especial de Dom Juan nesse segundo ciclo de aprendizado foi ensinar-me a "ver". Aparentemente, no seu sistema de conhecimento havia a possibilidade de estabelecer-se uma diferença semântica entre "ver" e "olhar" como duas maneiras distintas de perceber. "Olhar" referia-se a qualquer maneira comum em que estejamos acostumados a perceber o mundo, enquanto "ver" encerra um processo muito complexo, em virtude do qual um homem de conhecimento supostamente percebe a "essência" das coisas do mundo.

 

A fim de apresentar as complexidades desse processo de aprendizagem de maneira legível, condensei longos trechos de perguntas e respostas, e assim tornei a redigir minhas anotações de campo. Acredito, porém, que, nesse ponto, minha apresentação não se pode desviar do significado dos ensinamentos de Dom Juan. A revisão teve em mente fazer minhas anotações serem fluentes, como uma conversa, para poderem ter o impacto que eu desejava; isto é, eu queria, por meio de uma reportagem, comunicar ao leitor o drama e o caráter direto da situação de campo. Cada setor que separei como capítulo foi uma sessão com Dom Juan. Geralmente, ele sempre terminava cada uma de nossas sessões abruptamente; assim, o tom dramático do fim de cada capítulo não é um efeito literário meu, e sim um artifício próprio da tradição oral de Dom Juan. Parecia ser um recurso mnemônico que me ajudava a conservar a qualidade dramática e a importância das lições.

 

Certas explicações, porém, são necessárias para tornar meu relato inteligível, pois sua clareza depende da elucidação de uma série de conceitos chaves ou unidades chaves que eu quero frisar. Esse desejo de ênfase se coaduna com o meu interesse pela ciência social. É perfeitamente possível que outra pessoa, com um conjunto diferente de objetivos e esperanças, preferisse conceitos inteiramente diversos dos que eu mesmo escolhi.

 

No segundo ciclo de aprendizagem, Dom Juan fez questão da me garantir que o uso da mistura do fumo era o pré-requisito indispensável para "ver". Portanto, eu tinha de usá-lo o mais freqüentemente possível.

 

— Só o fumo lhe pode dar a rapidez necessária para ter uma visão daquele mundo veloz — disse ele.

 

Com o auxílio da mistura psicotrópica, produziu em mim uma série de estados de realidade não comum. A característica principal desses estados, em relação ao que Dom Juan parecia estar fazendo, era uma condição de "não aplicação". O que eu percebia naqueles estados de consciência alterada era incompreensível e impossível de interpretar por meio de nosso modo quotidiano de entender o mundo. Em outras palavras, a condição de "não aplicação" acarretava a cessação da pertinência de minha visão do mundo.

 

Dom Juan usava esse estado de não aplicação nos estados de realidade não comum a fim de apresentar uma série de novas "unidades de significado" preconcebidas. As unidades de significado eram todos os elementos isolados pertinentes ao conhecimento que Dom Juan procurava ensinar-me. Denominei-as de unidades de significado por serem o conglomerado básico de dados sensoriais e de suas interpretações, sobre o que se construía um significado mais complexo. Um exemplo de uma unidade dessas é a maneira de compreender o efeito psicológico da mistura psicotrópica. Provocava uma dormência e perda de controle motor que eram interpreta­das pelo sistema de Dom Juan como um resultado motivado pelo fumo, que nesse caso era o aliado, a fim de "remover o corpo do praticante".

 

Unidades de significado eram agrupadas de maneira específica, e cada bloco assim criado constituía o que denominei de uma "interpretação sensata". Obviamente, tem de haver uma infinidade de possíveis interpretações sensatas pertinentes à feitiçaria que o feiticeiro tem de aprender a fazer. Em nossa vida diária, enfrentamos uma infinidade de interpretações sensatas pertinentes a ela. Um exemplo simples poderia ser a interpretação não mais propositada, que fazemos dezenas de vezes todos os dias, da estrutura que denominamos de "quarto". É óbvio que aprendemos a interpretar a estrutura que chamamos quarto em termos de quarto; assim, quarto é uma interpretação sensata porque requer que, no momento em que a fazemos, tenhamos conhecimento, de uma maneira ou de outra, de todos os elementos que entram em sua composição. Um sistema de interpretação sensata é, em outras palavras, o processo em virtude do qual um praticante toma conhecimento de todas as unidades de significado necessárias para fazer suposições, deduções, previsões, etc, acerca de todas as situações pertinentes a sua atividade.

 

Por "praticante", quero dizer um participante que tem um conhecimento adequado de todas, ou quase todas, as unidades de significado relativas a seu sistema especial de interpretação sensata. Dom Juan era um praticante; isto é, era um feiticeiro que conhecia todos os passos de sua feitiçaria.

 

Como praticante, tentou tornar seu sistema de interpretação sensata acessível a mim. Essa acessibilidade, neste caso, era equi­valente a um processo de ressocialização, em que eram aprendidos novos meios de interpretar dados perceptíveis.

 

Eu era o "estranho", aquele que não tinha a capacidade de fazer interpretações inteligentes e congruentes das unidades de significado próprias da feitiçaria.

 

O trabalho de Dom Juan, como praticante tornando seu sis­tema acessível a mim, consistia em desmantelar uma certeza deter­minada que compartilho com todo mundo, a certeza de que nossas visões "de bom senso" do mundo são definitivas. Por meio da utilização de plantas psicotrópicas, e através de contatos bem dirigidos entre o sistema estranho e eu, conseguiu mostrar-me que minha visão do mundo não pode ser final porque não passa de uma interpretação.

 

Para o índio americano, durante talvez milhares de anos, o fenômeno vago que denominamos feitiçaria tem sido uma prática séria, de boa-fé, comparável à nossa ciência. Nossa dificuldade em entendê-la, provém, sem dúvida, das estranhas unidades de significado com que lida.

 

Dom Juan certa vez me contara que um homem de conheci­mento tem suas predileções. Pedi que ele se explicasse.

 

— Minha predileção é ver — disse ele.

— O que quer dizer com isso?

— Gosto de ver — respondeu — porque só vendo é que o homem de conhecimento pode saber.

— Que tipo de coisas você vê?

— Tudo.

— Mas eu também vejo tudo, e não sou um homem de conhecimento.

— Não. Você não vê.

— Acho que sim.

— Estou-lhe dizendo que não.

— O que o leva a afirmar isso, Dom Juan?

— Você só olha para a superfície das coisas.

— Quer dizer que todo homem de conhecimento na verdade vê através de tudo o que ele olha?

— Não. Não é isso o que quero dizer. Falei que o homem de conhecimento tem suas predileções; a minha é apenas ver e saber; outros fazem outras coisas.

— Que outras coisas, por exemplo?

— Sacateca, por exemplo, é um homem de conhecimento, e a sua predileção é dançar. Assim, ele dança e sabe.

— A predileção de um homem de conhecimento é alguma coisa que ele faz para saber?

— Sim, está certo.

— Mas como é que a dança pode ajudar Sacateca a saber?

— Pode-se dizer que Sacateca dança com tudo o que tem.

— Ele dança como eu? Quero dizer, como dança?

— Digamos que ele dança como eu vejo e não como você pode dançar.

— Ele também vê como você vê?

— Sim, mas ele também dança.

— Como é que Sacateca dança?

— É difícil explicar isso. E um jeito especial de dançar quando ele quer saber. Mas o que posso dizer a respeito é que, a não ser que você entenda os modos de um homem que conhece, é impossível falar a respeito de dançar ou de ver.

— Você já o viu dançando assim?

— Já. Mas não é possível para todos os que o vêem dançando verem que é sua maneira especial de saber.

 

Eu conhecia Sacateca, ou pelo menos sabia quem ele era. Fomos apresentados uma vez e eu lhe paguei uma cerveja. Foi muito amável e disse que eu fosse à casa dele quando quisesse. Pensei muito em ir visitá-lo, mas não disse nada a Dom Juan.

 

Na tarde do dia 14 de maio de 1962, fui à casa de Sacateca; ele me explicara como chegar lá e não tive dificuldade em encontrá-la. Ficava numa esquina e tinha uma cerca em volta. O portão estava fechado. Dei a volta para ver se podia espiar para dentro da casa. Parecia estar deserta.

 

Dom Elias — chamei.

 

As galinhas se assustaram e se espalharam, cacarejando furiosamente, Um cachorrinho foi até à cerca. Esperei que ele latisse para mim; mas não, ficou ali sentado, olhando-me. Tornei a chamar e as galinhas tornaram a cacarejar. Uma velha saiu da casa. Pedi que ela chamasse Dom Elias.

 

— Ele não está aqui -— disse ela.

— Onde posso encontrá-lo?

— Ele está na roça.

— Onde, na roça?

— Não sei. Volte à tardinha. Estará aqui por volta das cinco.

— A senhora é mulher de Dom Elias?

— Sim, sou mulher dele — respondeu, sorrindo.

 

Tentei perguntar acerca de Sacateca, mas ela se desculpou, dizendo que não falava espanhol direito. Entrei no carro e fui embora.

 

Voltei a casa por volta das seis horas. Fui para a porta e gritei o nome de Sacateca. Dessa vez, ele saiu da casa. Liguei meu gravador, que, em seu estojo de couro marrom, parecia uma câmara pendurada do meu ombro. Reconheceu-me.

 

— Ah, é você — disse ele, sorrindo. — Como vai o Juan?

— Está bem. Mas como está, Dom Elias?

 

Não respondeu. Parecia nervoso. Aparentemente, estava muito calmo, mas senti que ele não estava à vontade.

 

— Juan mandou-o aqui com algum recado?

— Não. Vim por mim mesmo.

— Para quê? — A pergunta dele parecia exprimir uma surpresa bem genuína.

— Só queria conversar — disse eu, procurando parecer bem natural. — Dom Juan me contou coisas maravilhosas a seu respeito, fiquei curioso e queria fazer-lhe algumas perguntas.

 

Sacateca estava de pé diante de mim. Seu corpo era magro e ágil. Ele estava de calças e camisa caqui. Seus olhos estavam semi­cerrados; parecia estar com sono, ou talvez bêbado. A boca estava meio aberta e o lábio inferior dependurado. Vi que, ele estava respirando ofegantemente e parecia estar quase roncando. Ocorreu-me a idéia de que Sacateca estava provavelmente inconsciente, de tão bêbado. Mas essa idéia parecia muito disparatada, porque alguns minutos antes, quando ele saiu da casa, estava muito alerta e cons­ciente de minha presença.

 

— Sobre o que quer falar? — perguntou, afinal.

 

Sua voz denotava cansaço; parecia que estava arrastando as palavras. Senti-me muito constrangido. Era como se o cansaço dele fosse contagioso e me estivesse puxando.

— Nada de especial — respondi. — Só vim aqui conversar com você, um papo amigável. Uma vez convidou-me para vir a sua casa.

— Eu sei, mas agora não é a mesma coisa.

— Por que não?

— Você não conversa com Dom Juan?

— Sim.

— Então o que quer comigo?

— Achei que talvez lhe pudesse fazer umas perguntas.

— Pergunte a Juan. Não lhe está ensinando?

— Está. Mas, mesmo assim, eu gostaria de lhe perguntar a respeito daquilo que ele me está ensinando, e de ter sua opinião. Assim, poderia saber o que fazer.

— Para que quer fazer isso? Não confia em Juan?

— Confio.

— Então por que não lhe pede que fale sobre o que quer saber?

— Eu peço, e ele me diz. Mas, se você também pudesse falar-me a respeito do que Dom Juan me ensina talvez eu entenda melhor.

— Juan pode contar-lhe tudo. Só ele pode fazer isso, Não entende isso?

— Entendo; mas eu gostaria de conversar com gente como você, Dom Elias. Não é todo dia que se encontra um homem de conhecimento.

— Juan é um homem de conhecimento.

— Sei disso.

— Então por que está falando comigo?

— Falei que vim para ser seu amigo.

Não veio, não. Desta vez há mais. alguma coisa em você.

 

Queria explicar-me e só conseguia balbuciar coisas incoerentes. Sacateca não disse nada. Parecia estar ouvindo atentamente. Seus olhos estavam novamente semicerrados, mas, senti que ele estava-me es­piando. Meneou a cabeça, quase imperceptivelmente. Depois, abriu as pálpebras e vi os olhos dele. Parecia estar olhando através de mim. Bateu no chão com a ponta do pé direito, logo atrás do calcanhar esquerdo. As pernas dele estava ligeiramente arqueadas; os braços, frouxos, junto do corpo. Em seguida, levantou o braço direito; a mão estava aberta, com a palma perpendicular ao chão; os dedos estavam esticados e apontando para mim. Deixou a mão tremer um pouco antes de erguê-la até ao nível de meu tosto. Deixou-a naquela posição um momento e depois me disse algumas palavras. A voz dele estava muito clara e, no entanto, as palavras saíam arrastadas.

 

Depois de um momento, deixou a mão cair e ficou imóvel numa posição estranha, Estava de pé, apoiado na planta do pé esquerdo. O outro estava cruzado atrás do calcanhar do pé esquerdo e ele batia no chão ritmada e suavemente com a ponta do pé direito.

 

Senti uma apreensão descabida, uma espécie de agitação. Meus pensamentos pareciam estar dissociados. Estava tendo pensamentos desconexos, tolos, que não tinham nada a ver com o que se estava passando. Reparei na minha ansiedade e procurei trazer minhas idéias de volta à situação presente, mas não consegui, apesar de lutar muito. Era como se uma força me estivesse impedindo de me concentrar ou de pensar coisas de interesse.

 

Sacateca não dissera nenhuma palavra, e eu não sabia o que havia de fazer ou dizer mais. Automaticamente, virei-me e saí.

 

Mais tarde senti-me obrigado a contar a Dom Juan a respeito de meu encontro com Sacateca. Ele riu-se às gargalhadas.

 

— O que foi que realmente aconteceu lá? — perguntei.

— Sacateca dançou! — respondeu Dom Juan. — Ele viu você, e depois dançou.

— O que foi que ele me fez? Senti muito frio e fiquei tonto.

— Parece que ele não gostou de você, e o fez parar atirando-Ihe uma palavra.

— Como é que pode fazer isso? — indaguei, incrédulo.

Muito simples. Fê-lo parar pela vontade dele.

O que foi que você disse?

— Fê-lo parar pela vontade dele!

 

A explicação não bastou. As palavras dele me pareciam besteiras. Tentei sondá-lo mais, porém não conseguiu explicar o incidente satisfatoriamente para mim.

 

Obviamente, aquele fato, ou qualquer outro que ocorresse dentro desse sistema estranho de interpretação sensata, só poderia ser explicado ou compreendido em termos das unidades de significado próprias daquele sistema. Esta obra, portanto, é uma reprodução, e deve ser lida como uma reprodução. O sistema que registrei era incompreensível para mim, de modo que pretender fazer outra coisa senão reproduzi-lo seria enganador e impostura. Nesse caso, adotei o método fenomenológico e procurei tratar da feitiçaria apenas como fenômenos que me eram apresentados. Eu, como perceptor, registrava o que percebia, e no momento de registra: procurava suster o julgamento.

 

As Preliminares de "Ver"

 

2 de abril de 1968

Dom Juan olhou para mim por um momento e não pareceu nada espantado ao ver-me, embora se tivessem passado mais de dois anos desde que eu o visitara. Pôs a mão no meu ombro e sorriu com delicadeza, dizendo que eu estava diferente, que estava engordando e ficando mole.

 

Eu tinha levada um exemplar de meu livro. Sem maiores preparativos, tirei-o da pasta e o entreguei a ele.

 

— É um livro sobre você, Dom Juan — disse eu.

 

Ele o pegou e folheou como se fosse um baralho. Gostou da cor verde da capa e do tamanho do livro. Passou a capa entre as palmas das mãos e virou o livro algumas vezes e depois devolveu-o. Senti uma onda de orgulho.

 

— Quero que você o guarde — disse eu. Sacudiu a cabeça, rindo baixinho.

 

— Não acho conveniente — disse ele, e depois acrescentou, com um largo sorriso: — você sabe o que fazemos com o papel, no México.

 

Eu ri. Achei lindo o seu toque de ironia.

 

Estávamos sentados num banco num jardim de uma cidadezinha na região montanhosa do México Central. Eu não tinha tido meio algum de avisá-lo de que pretendia ir visitá-lo, mas tinha certeza de encontrá-lo, e encontrei. Só esperei um pouquinho naquela cidade até que Dom Juan voltasse das montanhas e encontrei-o na feira, na barraca de um de seus amigos.

 

Dom Juan me disse, em conversa, que tu tinha chegado justo a tempo de levá-lo de volta a Sonora, e ficamos sentados no jardim esperando um amigo dele, um índio mazateca, com quem ele morava.

 

Esperamos umas três horas. Conversamos sobre coisas varia­das e sem importância e, no Cm do dia, pouco antes de chegar o amigo dele, contei-lhe alguns fatos que eu presenciara dias antes.

Na minha viagem para procurá-lo, meu carro enguiçara nos arredores de uma cidade e eu fiquei retido por lá cerca de três dias, enquanto o consertavam. Havia um motel defronte da oficina, mas os arredores de cidades sempre me deprimem, de modo que hospedei-me num hotel moderno, de oito andares, no centro da cidade.

 

O mensageiro me disse que o hotel tinha restaurante e, quando desci para comer, vi que havia mesinhas na calçada. Era uma arrumação bonita, numa esquina, debaixo de uma arcada baixa de tijolos, em linhas modernas. Estava fresco lá fora e havia mesas vazias, e no entanto preferi ficar dentro do hotel, onde estava mais abafado. Tinha reparado, ao chegar, que havia um grupo de engraxates sentados no meio-fio diante do restaurante e estava certo de que me perseguiriam se fosse sentar-me numa mesinha lá fora.

 

De onde eu estava sentado, via o grupo de garotos pela vidraça. Dois rapazes sentaram-se a uma das mesas e os garotos os rodearam, pedindo para engraxar os sapatos deles. Os rapazes recusa­ram e fiquei abismado ao ver que os garotos não insistiram, voltando a sentar no meio-fio. Depois de certo tempo, três homens de terno levantaram-se e os garotos correram para a mesa deles e começaram a comer as sobras de comida; em alguns segundos, os pratos estavam raspados, O mesmo aconteceu com os restos em todas as outras mesas.

Reparei que os garotos eram bastante cuidadosos; se derramavam água, enxugavam-na com seus próprios panos de engraxar. Notei, também, como eram meticulosos em seus métodos de limpeza. Comiam até os cubinhos de gelo deixados nos copos d'água e as fatias de limão do chá, com casca e tudo. Não desperdiçavam absolutamente nada.

 

Durante o tempo em que fiquei no hotel, descobri que havia um acordo entre os garotos e a gerência do restaurante: era permitido aos garotos ficarem no local para ganhar algum dinheiro dos hóspedes e também comer os restos, desde que não apoquentas­sem ninguém nem quebrassem nada. Havia onze deles ao todo, de cinco a doze anos de idade; mas o mais velho era mantido a distância do resto do grupo. Os outros o ignoravam propositadamente, provocando-o com uma cantilena de que já tinha pelos púbicos e que era muito velho para estar entre eles.

 

Depois de passar três dias vendo-os procurarem como abutres os mais parcos restos, fiquei muito desanimado, e saí daquela cidade achando que não havia esperança para aquelas crianças, cujo mundo já era moldado por sua luta quotidiana por migalhas.

 

— Tem pena deles? — exclamou Dom Juan, em tom de pergunta.

— Por certo — disse eu.

— Por quê?

— Porque me preocupo com o bem-estar de meus semelhantes. São crianças e o mundo deles é feio e vulgar.

— Espere! Espere! Como pode dizer que o inundo deles é feio e vulgar? — perguntou Dom Juan, fazendo pouco de minha declaração. — Você acha que sua. sorte é melhor, não é?

 

Respondi que sim; e ele me perguntou por quê; disse-lhe que, em comparação com o mundo daquelas crianças, o meu era infinitamente mais variado e rico de experiências e oportunidades para a satisfação pessoal e o desenvolvimento. O riso de Dom Juan era simpático e sincero. Falou que eu não estava tendo cuidado com minhas palavras, que eu não podia saber da riqueza e oportunidade do mundo daquelas crianças.

 

Achei que Dora Juan estava sendo teimoso. Pensei mesmo que ele estava adotando o ponto de vista oposto só para me aborrecer. Acreditava sinceramente que aquelas crianças não tinham a menor possibilidade de desenvolvimento intelectual.

 

Discuti meu ponto de vista mais um pouco e então Dom Juan me perguntou, abruptamente;

 

— Você uma vez não me disse que, em sua opinião, a maior realização da pessoa era tornar-se um homem de conhecimento?

 

Eu tinha dito aquilo, e repeti que, em minha opinião, ser um homem de conhecimento era uma das maiores realizações intelectuais.

 

— Acha que o seu mundo muito rico algum dia o ajudaria a tornar-se um homem de conhecimento? — perguntou Dom Juan, Com um ligeiro sarcasmo.

 

Não respondi, e ele tornou a fazer a pergunta, de maneira diferente, coisa que sempre faço com ele quando acho que não está entendendo.

 

— Em outras palavras — disse ele, sorrindo abertamente, sabendo certamente que eu estava vendo seu artifício — a sua liberdade e oportunidades o ajudam a tomar-se um homem de conhecimento?

— Não! — respondi, enfaticamente.

— Então, como é que pôde ter pena daquelas crianças? — continuou ele, muito sério. — Qualquer delas pode tornar-se um homem de conhecimento. Todos os homens de conhecimento que conheço foram garotos como os que você viu comendo sobras e lambendo as mesas.

 

O argumento de Dom Juan deixou-me com uma sensação in­cômoda. Eu não tinha sentido pena daquelas crianças desprivilegiadas por não terem o que comer, mas sim porque, a meu ver, o mundo delas já as condenara a serem intelectualmente inadequadas. E no entanto, para Dom Juan qualquer delas poderia conseguir o que eu acreditava ser a epítome da realização intelectual do homem, o objetivo de ser um homem de conhecimento. Meu motivo de com­paixão por elas era incongruente. Dom Juan me pilhara direitinho.

 

— Talvez você tenha razão — disse eu. — Mas como é que se pode evitar o desejo, o desejo sincero, de ajudar a seu semelhante?

— De que modo você acha que se pode ajudá-los?

— Aliviando a carga deles. O mínimo que se pode fazer por seu semelhante é procurar modificá-lo. Você mesmo está empenhado nisso. Não está?

— Não estou, não. Não sei o que modificar nem por que modificai nada em meus semelhantes.

— E eu, Dom Juan? Não me estava ensinando para eu poder modificar-me?

— Não. Não estou tentando modificá-lo. Pode acontecer que um dia você se torne um homem de conhecimento, não há meio de se saber isso, mas tal fato não o modificará. Um dia talvez você consiga ver os homens de outro modo e então compreenderá que não há meto de modificar nada neles.

— Qual é esse outro modo de ver, Dom Juan?

— Os homens parecem diferentes quando você vê. O fuminho o ajudará a ver os homens como fibras de luz.

— Fibras de luz?

— Sim, Fibras, como teias de aranhas brancas. Fios muito finos que circulam da cabeça ao umbigo. Assim, o homem parece um ovo de fibras circundantes. E seus braços e pernas são como espinhos luminosos, espocando em todas as direções.

— É assim que todos aparecem?

— Todos. Além disso, todos os homens estão em contato com tudo o mais, não por suas mãos, mas por meio de um punhado de fibras compridas que saem do centro de seu abdômen. Essas fibras ligam o homem a seu ambiente; mantêm seu equilíbrio; dão-lhe estabilidade. Assim, como algum dia você poderá ver, o homem é um ovo luminoso, quer ele seja mendigo ou rei, e não há jeito de modificar nada, ou melhor, o que poderia ser modificado naquele ovo luminoso? O quê?

 

Minha visita a Dom Juan iniciou um novo ciclo. Não tive dificuldade em voltar a meu antigo costume de apreciar o senso teatral dele, seu humor e paciência comigo. Sentia positivamente que tinha de visitá-lo com mais freqüência. Deixar de ver Dom Juan era real­mente uma grande perda para mim; além disso, eu tinha uma coisa de interesse especial que desejava debater com ele.

 

Depois que terminei o livro sobre seus ensinamentos, comecei a reexaminar as anotações de campo que não usara. Desprezei mui­tos dados porque dera maior ênfase aos estados de realidade não comum. Revendo minhas velhas anotações, cheguei à conclusão de que um feiticeiro hábil poderia provocar uma gama de percepções muito especializada em seu aprendiz, simplesmente "manipulando sugestões sociais". Todo o meu argumento a respeito desses processos de manipulação residia na suposição de ser necessário um líder para provocar a gama de percepções necessária. Como teste específico, tomei as reuniões de peiote dos feiticeiros. Aleguei que naquelas reuniões os feiticeiros chegavam a um acordo a respeito da natureza da realidade sem qualquer troca declarada de palavras ou sinais, e minha conclusão era que um código muito sofisticado era empregado pelos participantes para se chegar a tal acordo. Tinha construído um sistema complexo para explicar o código e o processo, de modo que voltei para procurar Dom Juan, para pedir sua opinião pessoal e conselhos a respeito do meu trabalho.

 

21 de maio de 1968

Nada de extraordinário aconteceu em minha viagem para visitar Dom Juan. A temperatura no deserto passou dos 38° e estava bem desagradável. De tardinha, o calor diminuiu e, quando cheguei à casa dele, no princípio da noite, havia uma brisa fresca. Eu não estava muito cansado, de modo que ficamos sentados no quarto dele, conversando. Sentia-me à vontade e tranqüilo, e conversamos durante horas, Não foi uma conversa que eu quisesse gravar: eu não estava realmente procurando encontrar muito sentido, nem descobrir muitos significados; conversamos sobre o tempo, as safras, o neto dele, os índios yaquis, o governo mexicano. Contei a Dom Juan o quanto eu apreciava a sensação rara de conversar no escuro. Ele disse que essa declaração se casava bem com meu temperamento falador; que era fácil para mim gostar de conversar no escuro, pois falar era a única coisa que eu podia fazer nesse momento, enquanto estava ali sentado. Argumentei que era mais do que o simples ato de falar que eu apreciava, Disse que gostava do calor calmante da escuridão que nos envolvia. Perguntou-me o que eu fazia em casa quando estava escuro. Respondi que eu sempre acendia as luzes, ou então saía para as ruas iluminadas, até chegar a hora de ir dormir.

 

— Ah! — disse ele, com incredulidade. — Pensei que você tivesse aprendido a usar a escuridão.

— Para que se pode usá-la? — perguntei.

 

Ele disse que a escuridão, em suas palavras "a escuridão do dia", era o melhor momento para se "ver". Frisou a palavra "ver" com uma inflexão especial. Quis saber o que ele queria dizer com aquilo, mas ele respondeu que já era muito tarde para tratar disso.

 

22 de maio de 1968

Assim que acordei de manhã, e sem qualquer preliminar, disse a Dom Juan que tinha elaborado um sistema para explicar o que ocorrera numa reunião de peiote, um mitote. Peguei minhas anotações e li para ele o que eu tinha feito. Ouviu com paciência enquanto eu lutava para elucidar meu esquema.

 

Falei que acreditava ser necessário um líder disfarçado para sugerir coisas aos participantes, para eles poderem chegar a um acordo pertinente. Observei que as pessoas comparecem a um mitote para procurar a presença de Mescalito e suas lições sobre a maneira certa de viver; e que essas pessoas nunca trocam uma palavra nem um gesto entre si, e no entanto estão de acordo quanto à presença de Mescalito e sua lição específica. Pelo menos era isso que eles supostamente faziam nos mitotes a que eu compareci: concordavam que Mescalito lhes aparecera individualmente e lhes dera uma lição. Em minha experiência pessoal, descobrira que a forma da visita individual de Mescalito e sua lição conseqüente eram impressionante­mente homogêneas, embora variando em conteúdo de pessoa a pessoa. Eu não conseguia explicar essa homogeneidade a não ser como resultado de um sistema sutil e complexo de sugestões.

 

Levei quase duas horas para ler e explicar a Dom Juan o esquema que tinha construído. Terminei pedindo-lhe para me dizer em suas próprias palavras qual era o processo exato para se chegar a um acordo.

 

Quando terminei, Dom Juan franziu a cara. Pensei que ele devia ter achado minha explicação um desafio; parecia que ele estava meditando profundamente. Depois de um silêncio razoável, perguntei-lhe o que ele achava, de minha idéia.

 

Minha pergunta fez com que ele de repente começasse a rir a depois gargalhar. Tentei rir também, e perguntei, nervoso, o que era tão engraçado.

 

— Você está maluco! — exclamou ele. — Por que alguém se ia dar ao trabalho de dar sugestões numa ocasião importante como um mitote? Você acha que a gente brinca com Mescalito?

 

Por um momento, pensei que ele estava despistando; não esta­va realmente respondendo à minha pergunta.

 

— Por que alguém haveria de dar sugestões? — perguntou Dom Juan, obstinado. — Você já esteve em mitotes.  Devia saber que ninguém lhe disse como devia sentir-se, nem o que fazer; ninguém, a não ser o próprio Mescalito.

 

Insisti que essa explicação não era possível e tornei a pedir que ele me explicasse como se chegava ao acordo.

 

— Já sei por que motivo você veio — disse Dom Juan, num tom misterioso. — Não lhe posso ajudar porque não existe nenhum sistema de sugestões.

— Mas como é que todas aquelas pessoas podem estar de acordo quanto à presença de Mescalito?

— Elas estão de acordo porque vêem — respondeu ele, dramaticamente; e depois acrescentou, com displicência: — Por que você não comparece a outro mitote e vê por si?

 

Senti que aquilo era uma cilada. Não disse nada, e guardei minhas anotações. Ele não insistiu.

 

Pouco depois ele me pediu para levá-lo à casa de um amigo. Passamos lá a maior parte do dia. Numa conversa, o amigo dele, John, perguntou-me em que dera meu interesse pelo peiote. John é quem dera os botões de peiote para minha primeira experiência, havia quase oito anos. Não sabia o que responder. Dom Juan ajudou-me, dizendo a John que eu estava indo bem.

 

Na volta para casa de Dom Juan, senti-me obrigado a comentar a pergunta de John e, entre outras coisas, disse que não tinha in­tenção de aprender mais nada sobre o peiote, pois aquilo exigia um tipo de coragem que eu não possuía; e que eu estava falando sério, quando disse que tinha desistido. Dom Juan sorriu e não disse nada. Continuei a falar até chegarmos à casa dele.

 

Ficamos sentados na clareira defronte da porta dele. Estava um dia quente e claro, mas havia uma brisa de fim de tarde que o tornava agradável.

 

— Por que tem de fazer tanta força? — disse Dom Juan de repente. — Há quantos anos você vem dizendo que não quer mais aprender?

— Três anos.

— Por que é tão veemente a respeito?

— Sinto que o estou traindo, Dom Juan. Acho que é por isso que estou sempre falando nisso.

— Você não me está traindo.

— Fracassei perante você. Fugi. Sinto que estou vencido.

— Você faz o que pode. Além disso, ainda não está vencido. O que tenho a lhe ensinar é muito difícil. Eu, por exemplo, talvez tenha tido ainda maior dificuldade do que você.

— Mas insistiu, Dom Juan. Meu caso é diferente. Desisti e vim procurá-lo não porque eu quisesse aprender, mas apenas porque queria que você esclarecesse um ponto em meu trabalho.

 

Dom Juan olhou para mim por um momento e depois desviou o olhar.

 

— Você devia deixar que o fumo tomasse a dirigi-lo — falou, vigorosamente.

— Não, Dom Juan, não posso mais usar seu fumo. Acho que estou esgotado.

— Você nem começou ainda.

— Tenho muito medo.

— Então tem medo. Não há nada de novo em se ter medo. Não pense no seu medo. Pense nas maravilhas de se ver!

— Desejo sinceramente poder pensar nessas maravilhas, mas não consigo. Quando penso em seu fumo, sinto uma espécie de escuridão me envolvendo. É como se não houvesse mais pessoas no mundo, ninguém a quem recorrer. Seu fumo me mostrou o máximo em solidão, Dom Juan.

— Isso não é verdade. Olhe para mim, por exemplo. O fumo é meu aliado e eu não sinto essa solidão.

— Mas você é diferente; já venceu seu medo. Dom Juan me bateu de leve no ombro.

— Você não tem medo — disse ele baixinho. Em sua voz havia uma estranha acusação.

— Estarei mentindo sobre meu medo, Dom Juan?

— Não estou preocupado com mentiras — falou, com severidade, — Estou preocupado com outra coisa. O motivo pelo qual você não quer aprender não é porque tenha medo. É outra coisa.

 

Insisti muito para que me dissesse o que era. Implorei, mas ele não falou nada; limitava-se a sacudir a cabeça, como se não pudesse acreditar que eu não soubesse.

 

Falei que talvez fosse a inércia que me impedia de aprender. Ele quis saber o sentido da palavra "inércia". Eu a li para ele, do meu dicionário: "A tendência de a matéria permanecer em repouso se está em repouso, ou movendo-se na mesma direção, se está em movimento, a não ser que afetada por alguma força estranha."

 

— "A não ser que afetada por alguma força estranha" — repetiu. — Essa deve ser a melhor palavra que você podia encontrar. Já lhe disse, só um doido empreenderia a tarefa de se tornar homem de conhecimento por sua própria vontade, Um homem sensato tem de ser levado a isso.

— Estou certo de que há dezenas de pessoas que de bom grado empreenderiam essa tarefa — disse eu.

— Sim, mas esses não contam. Geralmente são malucos. São como vasilhas que parecem boas por fora, mas que vazam no minuto em que são pressionadas, no minuto em que são enchidas de água.

— Tive de lográ-lo para aprender uma vez, do mesmo jeito que meu benfeitor me enganou. Senão, você não teria aprendido tudo o que aprendeu. Talvez esteja na hora de lográ-lo outra vez.

 

O logro a que ele se referia fora um dos pontos mais críticos de meu aprendizado. Ocorrera anos atrás e, no entanto, em meu espírito estava tão vivido como se tivesse acabado de acontecer. Por meio de manipulações muito astuciosas, Dom Juan me forçara um dia a uma confrontação direta e aterradora com uma mulher considerada feiticeira. O choque resultou numa profunda animosidade da parte dela. Dom Juan explorou meu medo da mulher como motivação para continuar com o aprendizado, alegando que eu tinha de aprender mais a respeito da feitiçaria a fim de proteger-me contra seus ataques mágicos. O resultados finais do "logro" dele foram tão convincentes que eu sentia sinceramente que não tinha outro recurso senão aprender o máximo possível, se quisesse continuar vivo.

 

— Se você está pretendendo apavorar-me de novo com aquela mulher, não volto mais — falei.

 

O riso de Dom Juan foi muito alegre.

 

— Não se preocupe — disse ele, tranqüilizando-me. — Os golpes do medo não funcionam mais. Você não tem mais medo. Mas, se for preciso, poderá ser logrado, onde estiver; não precisa estar aqui para isso.

 

Pôs o braço atrás da cabeça e deitou-se para dormir. Trabalhei em minhas anotações até ele acordar, umas duas horas depois; já estava quase escuro. Observando que eu estava escrevendo, sentou-se e, sorrindo, perguntou se eu tinha resolvido meu problema, escrevendo.

 

23 de maio de 1968

Estávamos conversando sobre Oaxaca. Falei a Dom Juan que certa vez chegara à cidade num dia de feira livre, dia em que quantidades de índios de toda a região vão para a cidade para vender alimentos e toda sorte de bugigangas. Disse que interessei-me especialmente por um homem que vendia plantas medicinais. Ele tinha um estojo de madeira, em que guardava uma quantidade de pontinhos com plantas secas picadas, e ficava no meio da rua, com um potinho, entoando uma cantilena muito especial.

 

"Aqui tenho", dizia ele, "para pulgas, moscas, mosquitos e piolhos".

"Também para porcos, cavalos, bodes e vacas".

"Aqui tenho para todas as doenças do homem".

"Caxumba, sarampo, reumatismo e gota".

"Aqui trago para o coração, o fígado, o estômago e virilha".

"Aproximem-se, senhoras e senhores".

"Aqui tenho para pulgas, moscas, mosquitos e piolhos."

 

Eu ficara escutando por muito tempo. O método dele era enumerar uma longa lista de doenças do homem, para as quais ele dizia ter cura; o artifício que usava para dar ritmo a sua cantilena era parar depois de enumerar uma série de quatro.

 

Dom Juan disse que também ele vendia ervas na feira em Oaxaca, quando era jovem. Disse que ainda se lembrava de sua cantilena de venda, e repetiu-a para mim, aos gritos. Disse que ele e seu amigo Vicente é que faziam os preparados.

 

— Aqueles preparados eram bons mesmo — disse Dom Juan. — Meu amigo Vicente fazia ótimos extratos das plantas.

 

Contei a Bom Juan que uma vez, em uma de minhas viagens ao México, eu conhecera o amigo dele, Vicente. Dom Juan pareceu espantar-se e quis saber mais a respeito.

 

Eu estava passando por Durango, na ocasião, e lembrei-me de que Dom Juan uma vez me dissera para ir visitar o amigo dele que morava lá. Eu o procurei, encontrei-o e conversei um pouco com ele. Quando fui embora, deu-me um saquinho com umas plantas e uma série de instruções para replantar algumas.

 

Parei a caminho da cidade de Águas Calientes. Certifiquei-me de que não havia gente por perto. Durante pejo menos dez minutos, eu vinha vigiando a estrada e os arredores. Não havia nenhuma casa à vista, meu gado pastando à margem da estrada. Parei no topo de um morrinho; dali eu podia ver a estrada na frente e atrás. Estava deserta nas duas direções, até onde minha visão alcançava. Esperei alguns minutos, para orientar-me e lembrar-me das instruções de Dom Vicente. Peguei uma das plantas, caminhei para um campo de cactos no lado leste da estrada e plantei-a como Dom Vicente me ensinara. Tinha comigo uma garrafa de água mineral, com a qual pretendia aguar a planta. Tentei abri-la batendo na tampinha com o ferrinho que eu usara para cavar a terra, mas a garrafa explodiu e um caco de vidro feriu meu lábio superior, que começou a sangrar.

 

Voltei ao carro para pegar outra garrafa de água mineral. Quando eu a estava tirando da mala, um homem dirigindo uma camioneta VW parou e me perguntou se eu precisava de socorro. Respondi que estava tudo bem e ele foi embora. Fui aguar a planta e voltei para o carro. Quando eu estava a talvez uns 30 metros dele, ouvi vozes. Apressei-me pela encosta até à estrada e encontrei três mexicanas junto do carro, dois homens e uma mulher. Um dos homens estava sentado no pára-choque da frente. Tinha seus 30 e muitos anos, era de estatura mediana e tinha cabelos pretos e crespos. Estava com uma trouxa nas costas e usava calças velhas e uma camisa cor-de-rosa desbotada e usada.. Os sapatos estavam desamarrados e talvez fossem grandes para ele; pareciam largos e incômodos. Ele estava suando muito.

 

O outro homem estava a uns seis metros do carro. Era miúdo e mais baixo do que o outro, e seu cabelo era liso e penteado para trás. Estava com um embrulhinho e era mais velho, talvez com cerca de cinqüenta anos. Sua roupa estava em melhor estado. Tinha um casaco azul-escuro, calças azul-claro e sapatos pretos. Não es­tava suando nada e parecia distante, desinteressado.

 

A mulher parecia estar na casa dos 40. Era gorda e muito morena. Trajava capris pretos, um suéter branco e sapatos pretos pontudos. Não portava nenhum embrulho, mas estava com um rádio portátil. Parecia muito cansada e seu rosto estava coberto de gotas de suor.

 

Quando me aproximei, o rapaz mais moço e a mulher me abordaram. Queriam condução. Respondi que não tinha lugar no carro, Mostrei-lhes que o assento traseiro estava totalmente lotado e que realmente não havia lugar algum. O homem sugeriu que, se eu dirigisse devagar, eles poderiam ir trepados no pára-choque traseiro, ou deitados no pára-lama dianteiro. Achei a idéia absurda. Mas havia uma tal urgência no pedido deles que fiquei triste e perturba­do.  Dei-lhes dinheiro para uma passagem de ônibus.

 

O rapaz mais moço pegou as notas e agradeceu-me, mas o mais velho deu as costas, com desprezo.

 

— Quero transporte — disse ele. — Não estou interessado em dinheiro. — Depois, ele se virou para mim. — Não nos pode dar comida ou água? — pediu.

 

Não tinha realmente nada para lhes dar. Ficaram olhando para mim por algum tempo e depois se afastaram.

 

Entrei no carro e tentei ligar o motor. O calor era muito in­tenso e o motor parecia estar afogado. O rapaz mais moço parou quando ouviu o motor de arranque girar e voltou, ficando atrás do carro, pronto para empurrá-lo. Tive uma apreensão imensa. Chegava a estar ofegante. O motor afinal pegou e eu parti rápido.

 

Depois que acabei de contar tudo isso, Dom Juan ficou pensativo durante muito tempo.

 

— Por que não me contou isso antes? — perguntou, sem olhar para mim.

 

Eu não sabia o que dizer. Dei de ombros e disse que não pensava que fosse importante.

 

— É um bocado importante! — disse ele. — Vicente é um feiticeiro de primeira categoria. Deu-lhe alguma coisa para plantar porque tinha lá seus motivos; e se você encontrou três pessoas que pareciam ter aparecido do nada logo depois que você a plantou, também havia um motivo para isso; mas só um tolo como você não ligaria para o incidente, pensando que não era importante.

 

Ele queria saber exatamente o que tinha acontecido quando visitei Dom Vicente.

 

Falei que estava circulando pela cidade e passei pela feira; então, tive a idéia de procurar Dom Vicente. Entrei na feira e fui para o setor das ervas medicinais. Havia três barracas seguidas, mas eram atendidas por três mulheres gordas. Fui até ao fim da rua e encontrei outra barraca depois da esquina. Ali vi um homem magro, miúdo, de cabelos brancos. No momento, estava vendendo uma gaiola de passarinho a uma mulher.

 

Esperei por perto até ele ficar sozinho e depois perguntei-lhe se conhecia Dom Vicente Mediano. Ficou olhando para mim, sem responder.

 

— O que deseja com esse Vicente Medrano? — perguntou, afinal.

 

Respondi que tinha ido visitá-lo por um amigo dele, e dei o nome de Dom Juan. O velho olhou para mim um pouco e depois disse que era Vicente Medrano e que estava às minhas ordens. Convidou-me para sentai. Parecia satisfeito, muito tranqüilo e sincera­mente simpático. Contei-lhe a respeito de minha amizade com Dom Juan. Senti que se estabeleceu um laço imediato de simpatia entre nós. Disse-me que conhecia Dom Juan desde que eram rapazes de seus vinte anos. Dom Vicente só tinha elogios para Dom Juan. No final de nossa conversa, ele disse, em tons vibrantes:

 

— Juan é um verdadeiro homem de conhecimento. Eu mesmo só tratei resumidamente dos poderes das plantas.  Sempre me interessei por suas propriedades curativas; cheguei a colecionar livros de botânica, que vendi há pouco tempo.

 

Ficou calado por um momento, esfregou o queixo umas vezes. Parecia estar procurando a palavra certa.

 

— Pode-se dizer que eu só sou um homem de conhecimento lírico — disse ele. — Não sou como Juan, meu irmão índio.

 

Dom Vicente tornou a calar-se por um momento. Seus olhos estavam vidrados e ele olhava para o chão, do meu lado esquerdo. Depois, virou-se para mim e disse, quase num sussurro:

 

— Oh, como voa alto o meu irmão índio!

 

Dom Vicente levantou-se. Parecia que nossa conversa terminara.

 

Se alguma outra pessoa tivesse dito alguma coisa a respeito de um irmão índio, eu teria achado que era um chavão barato. Mas o tom de voz de Dom Vicente era tão sincero e seus olhos tão límpidos que ele me cativou com a imagem de seu irmão índio voando tão alto. É acreditei que ele queria mesmo dizer aquilo.

 

— Conhecimento lírico, uma conversa! — exclamou Dom Juan, depois que contei a história toda. — Vicente é um brujo. Por que você o procurou?

 

Lembrei-lhe de que ele mesmo é quem me pedira para visitar Dom Vicente.

 

— Isso é um absurdo! — exclamou, teatralmente. — Falei que um dia, quando você aprendesse a ver, devia ir visitar meu amigo Vicente; foi isso o que eu disse. Parece que você não estava prestando atenção.

 

Argumentei que não podia haver mal em eu ter conhecido Dom Vicente, que fiquei encantado com as maneiras e a gentileza dele.

 

Dom Juan sacudia a cabeça de um lado para outro e, num tom meio zombeteiro, exprimiu seu espanto diante do que ele chamava "minha sorte incrível". Disse que eu ir visitar Dom Vicente era o mesmo que entrar num covil de leões armado com um galho seco. Dom Juan parecia estar agitado, e no entanto eu não via motivo algum para a sua preocupação. Dom Vicente era um belo homem. Parecia tão frágil; seus olhos, estranhamente impressionantes, faziam-no parecer quase etéreo. Perguntei a Dom Juan como é que uma pessoa assim tão bela podia ser perigosa.

 

— Você é um raio de um idiota — disse ele e, por um mo­mento, fez uma cara severa.  — Ele em si não lhe causará mal algum. Mas conhecer é poder, e uma vez que um homem enverede pelo caminho do conhecimento, não é mais responsável pelo que possa acontecer com aqueles que entram em contato com ele. Devia ter ido visitá-lo quando soubesse o suficiente para se defender; não dele, mas do poder que ele subjugou e que, aliás, não é dele nem de ninguém. Ao saber que você era meu amigo, Vicente supôs que você soubesse se proteger e depois lhe deu um presente.  Parece que deve ter gostado de você e deve ter-lhe dado um grande presente, e você o jogou fora. Que pena!

 

24 de maio de 1968

Passei o dia apoquentando Dom Juan para me contar a respeito do presente de Dom Vicente. Mostrei-lhe de várias maneiras que ele tinha de levar em conta as nossas diferenças; disse-lhe que o que era explicável em si para ele podia ser totalmente incompreensível para mim.

 

— Quantas plantas ele lhe deu? — perguntou, por fim. Respondi que eram quatro, mas, na verdade, não me lembrava.

 

Em seguida, Dom Juan quis saber exatamente o que tinha acontecido depois que deixei Dom Vicente e antes de parar à margem da estrada. Mas também não consegui lembrar-me disso.

 

— O número de plantas é importante e a ordem dos acontecimentos também — disse ele. — Como poderei dizer-lhe qual foi o presente dele, se você não se lembra do que aconteceu?

 

Tentei, sem êxito, visualizar a seqüência de acontecimentos.

 

— Se você se lembrasse de tudo o que aconteceu — disse ele — eu poderia ao menos dizer-lhe como é que jogou fora seu presente.

 

Dom Juan parecia estar muito perturbado. Insistiu impacientemente comigo para eu me lembrar, mas minha memória era um branco quase total.

 

— O que acha que eu fiz de errado, Dom Juan? — perguntei, só para continuar a conversa.

— Tudo.

— Mas eu segui à risca as instruções de Dom Vicente.

— E daí? Não entende que não tinha significado, seguir as instruções dele?

— Por quê?

— Porque essas instruções foram dadas para alguém que sabia ver, não para um idiota que se saiu com vida por pura sorte. Foi procurar Vicente sem preparo. Gostou de você e lhe deu um presente. E este podia facilmente ter-lhe custado a vida.

— Mas por que ele me deu uma coisa tão séria? Se é feiticeiro, devia saber que eu não sei nada.

— Não, ele não podia ter visto isso. Você parece que sabe, mas, na verdade, não sabe muita coisa.

 

Falei que estava sinceramente convencido de que nunca deturpara a verdade em relação a mim, pelo menos não conscientemente.

 

— Não quis dizer isso. Se você se estivesse metendo a importante, Vicente poderia ter visto o que era. Isso é algo pior do que aparentar o que não é. Quando vejo, você me aparece como se soubesse muita coisa e, no entanto, eu mesmo sei que você não sabe.

— O que é que eu pareço saber, Dom Juan?

— Segredos do poder, é claro; o conhecimento de um brujo. De modo que quando Vicente o viu, ele lhe deu um presente, e você agiu com ele como um cão age com a comida quando está de barriga cheia. Um cão urina na comida quando não quer mais comer, para outros cães não comerem. Você fez o mesmo com o presente. Agora nunca saberemos o que realmente aconteceu. Perdeu uma grande coisa. Que desperdício!

 

Calou-se um pouco; depois deu de ombros e sorriu.

 

— Não adianta reclamar — disse ele — e, no entanto, é difícil deixar de fazê-lo. Os presentes de poder acontecem tão raramente na vida da gente; são raros e preciosos. Veja-me a mim, por exemplo; nunca ninguém me deu tal presente. Há muito poucas pessoas, que eu saiba, que já receberam um desses. Desperdiçar uma coisa tão rara me parece uma pena.

— Entendo o que você diz — falei. — Há alguma coisa que eu possa fazer agora para recuperar o presente?

 

Ele riu e repetiu várias vezes: "Para recuperar o presente".

 

— Soa bem — disse ele. — Gosto disso, E no entanto, não há nada que se possa fazer para recuperar seu presente.

 

25 de maio de 1968

Hoje, Dom Juan passou quase o dia todo mostrando-me como montar pequenas armadilhas para animaizinhos. Passamos a manha quase toda cortando e limpando galhinhos. Eu estava com muitas perguntas na cabeça. Tentei falhar-lhe enquanto trabalhávamos, mas ele brincou e disse que, de nós dois, eu era o único que podia mexer com as mãos e a boca ao mesmo tempo. Afinal, Sentamo-nos para descansar e eu fiz uma pergunta.

 

— Como é que a gente vê, Dom Juan?

— Você tem de aprender a ver para saber isso. Não lhe posso dizer.

— É um segredo que não posso saber?

— Não. E só que não posso descrevê-lo.

— Por quê?

— Não faria sentido para você.

— Experimente, Dom Juan, Talvez faça sentido para mim.

— Não, Tem de fazê-lo por si. Uma vez que você aprenda, poderá ver cada coisa no mundo de maneira diferente.

— Então, Dom Juan, não vê mais o mundo da maneira normal,

— Vejo dos dois jeitos.  Quando quero olhar para o mundo, vejo-o da maneira que você vê. Depois, quando desejo vê-lo, olho para ele do jeito que eu sei e percebo-o de maneira diferente.

As coisas são sempre as mesmas, cada vez que você as vê?

As coisas não mudam. A gente é que muda a maneira de olhar, só isso.

— Quero dizer, Dom Juan, que se você vê, por exemplo, a mesma árvore, ela fica a mesma cada vez que a vê?

— Não. Ela muda e, no entanto, é a mesma.

— Mas se a mesma árvore muda cada vez que a vê, a sua visão pode ser apenas uma ilusão.

 

Ele riu e não respondeu por algum tempo, e parecia estar pensando. Por fim, falou:

 

— Sempre que você olha para as coisas, não as vê.  Apenas olha para elas, suponho que para se certificar de que há alguma coisa ali. Como não está preocupado em ver, as coisas parecem as mesmas cada vez que olha para elas. Mas quando aprende a ver, por outro lado, uma coisa nunca é a mesma cada vez que você a vê, e no entanto é a mesma. Já lhe disse, por exemplo, que o homem é como um ovo. Cada vez que veio o mesmo homem, eu vejo um ovo, e no entanto não é o mesmo ovo.

— Mas você não poderá reconhecer nada, pois nada é igual; então qual a vantagem de aprender a ver?

— Pode distinguir as coisas. Pode ver como realmente são. — Não vejo as coisas como realmente são?

— Não. Seus olhos só aprenderam a olhar. Por exemplo, veja as três pessoas que você encontrou, os três mexicanos. Descreveu-os detalhadamente, e me disse até que roupas estavam usando. E isso só me provou que você não os viu, em absoluto, Se fosse capaz de ver, teria sabido logo que não eram pessoas.

— Não eram pessoas? O que eram, então?

— Não eram pessoas, só isso.

— Mas isso é impossível. Eram tal e qual você e eu.

— Não eram, não. Tenho certeza.

 

Perguntei se eram fantasmas, espíritos, ou almas de mortos. Respondeu, que não sabia o que fossem fantasmas, espíritos nem almas.

 

Traduzi para ele a definição que dava o dicionário Webster para fantasma: "O espírito supostamente desencorpado de uma pessoa morta, concebido como aparecendo aos vivos como uma visão pálida, como sombra." E depois a definição de espírito: "Um ser sobrenatural, especialmente aquele considerado... como um fantasma, ou como habitando certa região, sendo de certo caráter (bom ou mau)."

 

Ele disse que talvez pudessem ser considerados espíritos, embora a descrição que dei não fosse propriamente adequada para descrevê-los.

 

São guardas de algum tipo? — perguntei.

— Não. Não guardam nada.

— São supervisores?  Estão-nos vigiando?

— São forças, nem boas nem más, apenas forças que um brujo aprende a conjurar.

— São os aliados, Dom Juan?

— Sim, são os aliados de um homem de conhecimento.

 

Era a primeira vez, nos oito anos de nossas relações, que Dom Juan chegara perto de definir o que era um "aliado". Devo ter-lhe pedido para fazê-lo dúzias de vezes. Geralmente desprezava minha pergunta, dizendo que eu sabia o que era um aliado e que era besteira falar o que eu já sabia. A declaração direta de Dom Juan a respeito da natureza de um aliado era uma novidade, e senti-me levado a sondá-lo.

 

— Falou-me que os aliados se encontravam nas plantas — disse eu — no estramônio e nos cogumelos.

— Nunca lhe disse isso — retrucou ele, com muita convicção.

— Você sempre tira suas próprias conclusões.

— Mas escrevi isso em minhas anotações, Dom Juan.

— Pode escrever o que quiser, mas não me venha dizer que eu falei isso.

 

Lembrei-lhe que, a princípio, ele me contara que o aliado do benfeitor dele era o estramônio e o seu próprio o fuminho; e que mais tarde ele esclarecera a questão, dizendo que o aliado era contido em cada planta.

 

— Não.  Isso não está correto — disse ele, franzindo a testa.

— Meu aliado é o fuminho, mas isso não quer dizer que meu aliado esteja na mistura do fumo, ou nos cogumelos, ou no meu cachimbo. Todos estes têm de ser reunidos para me levar ao aliado, e esse aliado eu chamo de fuminho por motivos meus, próprios.

 

Dom Juan disse que as três pessoas que eu tinha visto, que ele chamava "aqueles que não são pessoas" — los que no son gente — eram na verdade aliados de Dom Vicente.

 

Lembrei-lhe que ele afirmara que a diferença entre um aliado e Mescalito era que um aliado não podia ser visto, enquanto que Mescalito era facilmente visível.

 

Nesse ponto, entramos numa longa discussão. Ele falou que tinha dito que um aliado não podia ser visto porque o aliado adotava qualquer forma. Quando observei que certa vez ele também dissera que Mescalito adotava qualquer forma, Dom Juan mudou de assunto, dizendo que a "visão" a que ele se referia não era o "olhar para as coisas" normal, e que a minha confusão provinha de minha insistência em falar.

 

Horas depois, ele mesmo retomou o assunto dos aliados. Senti que ele estava meio aborrecido com as minhas perguntas, de modo que não tinha insistido mais. No momento, estava-me ensinando a fazer uma armadilha para coelhos; eu tinha de segurar um pau comprido e dobrá-lo o mais possível para ele poder amarrar um cordão nas beiradas. O pau era bem fino, mas assim mesmo era preciso bastante força para dobrá-lo. Minha cabeça e meus braços estavam tremendo com o esforço e eu estava quase exausto quando ele afinal amarrou o cordão.

 

Nós nos sentamos e ele começou a falar. Disse que era óbvio para ele que eu não poderia entender nada a não ser que falasse a respeito, e que não se importava com minhas perguntas e ia contar-me sobre os aliados.

 

— O aliado não está no fumo — disse ele. — O fumo leva você para onde está o aliado, e quando você se torna um com o aliado, nunca mais precisa fumar. Daí em diante pode chamar seu aliado à vontade e fazê-lo fazer o que você quiser. Os aliados não são nem bons nem maus, mas são utilizados pelos feiticeiros para qualquer fim que eles queiram.   Gosto do fuminho como aliado porque ele não exige muito de mim. E constante e justo.

— Como é que um aliado lhe aparece, Dom Juan? Aquelas três pessoas que eu vi, por exemplo, que se assemelhavam a pessoas comuns, como é que lhe pareceriam?

— Pareceriam pessoas comuns.

— Então, como pode distingui-los das pessoas reais?

— As pessoas reais parecem ovos luminosos quando você as vê. As não-pessoas sempre parecem pessoas. É isso que eu quis dizer quando disse que a gente não pode ver um aliado. Os aliados assumem formas diferentes. Parecem cães, coiotes, pássaros, até o amaranto, ou qualquer outra coisa. A única diferença é que quando você os vê, eles continuam a parecer exatamente o que fingem ser. Tudo tem o seu jeito de ser quando você vê. Assim como os homens parecem ovos, outras coisas parecem outras coisas, mas os aliados só podem ser vistos na forma que aparentam.  Essa forma serve para tapear a vista; isto é, a nossa vista. Um cão nunca é tapeado, nem um corvo.

— Por que eles haviam de querer tapear-nos?

— Creio que nós é que somos os palhaços. Nós nos tapeamos. Os aliados apenas tomam a aparência exterior do que estiver por perto e então pensamos que eles são o que não são. Não é culpa deles que tenhamos ensinado a nossos olhos a só olhar para as coisas.

— Não sei bem a função deles, Dom Juan. O que é que os aliados fazem no inundo?

— Isso é o mesmo que me perguntar o que é que nós homens fazemos no mundo. Não sei mesmo. Estamos aqui, é tudo, E os aliados estão aqui, como nós; e talvez estivessem aqui antes de nós.

— Como antes de nós, Dom Juan?

— Nós homens nem sempre estivemos aqui.

— Quer dizer, neste país, ou aqui no mundo? Começamos outra longa discussão nesse ponto. Dom Juan disse que para ele só havia um mundo, o lugar onde ele punha os pés. Perguntei-lhe como sabia que nem sempre estivemos no mundo.

— Muito simples — disse ele.  — Nós homens conhecemos muito pouco acerca do mundo. Um coiote sabe muito mais do que nós. Um coiote quase nunca se ilude com as aparências do mundo.

— E como é que os pegamos e matamos? — perguntei. — Se não se enganam com as aparências, como é que morrem com tanta facilidade?

 

Dom Juan ficou olhando fixo para mim até que fiquei encabulado.

 

— Podemos apanhar ou envenenar ou atirar num coiote — falou.

— Seja qual for o meio que usemos, o coiote é presa fácil para nós porque não conhece as maquinações humanas. Se o coiote sobrevivesse, porém, pode estar certo de que nunca mais o apanha­ríamos. Um bom caçador sabe disso e nunca arma a armadilha duas vezes no mesmo lugar, pois, se o coiote morrer numa armadilha, todos os outros vêem a morte dele, que perdura, e assim fugirão da armadilha e até da própria região em que foi preparada. Nós, por outro lado, nunca vemos a morte, que perdura no local em que morreu um de nossos semelhantes; podemos suspeitar, mas nunca a vemos.

— O coiote pode ver o aliado? — Por certo.

— Como é que o aliado parece ao coiote?

— Eu teria de ser coiote para saber isso. Mas posso dizer-lhe que, para um corvo, ele parece um chapéu pontudo.  Redondo e largo embaixo, terminando numa ponta comprida. Alguns brilham; outros, a maioria, são opacos e parecem muito pesados. Lembram um pano ensopado. São formas sinistras.

— Que aspecto têm para você quando os vê, Dom Juan?

— Já lhe disse; têm o aspecto daquilo que estejam fingindo ser. Tomam qualquer forma ou tamanho que lhes convenha. Podem ter a forma de uma pedrinha, ou de uma montanha.

— Eles falam, riem, ou fazem algum barulho?

— Em companhia dos homens, comportam-se como homens. Na companhia de animais, comportam-se como animais.  Os animais geralmente têm medo deles; mas se estiverem habituados a ver os aliados, não os importunam. Nós mesmos fazemos coisa semelhante, Temos centenas de aliados entre nós, mas não os importunamos. Como os nossos olhos só podem olhar para as coisas, nem reparamos neles.

— Quer dizer que algumas das pessoas que vejo na rua não são pessoas, realmente? — perguntei, intrigado.

— Algumas não são — respondeu, enfaticamente.

 

Essa afirmação me pareceu absurda e, no entanto, eu não podia pensar seriamente que Dom Juan dissesse uma coisa dessas só para fazer sensação. Falei que aquilo parecia conto de ficção científica sobre seres de outro planeta. Ele argumentou que não se importava com o que parecesse, mas que algumas das pessoas, nas ruas não eram pessoas.

 

— Por que você há de pensar que todas as pessoas numa multidão em movimento são seres humanos? — perguntou, com o ar mais sério do mundo.

 

Eu não sabia realmente explicar por quê, a não ser que estava acostumado a acreditar nisso como um ato de fé de minha parte.

 

Continuou a falar, dizendo que gostava muito de ficar olhando em lugares movimentados, com muita gente, e que, às vezes, via um bando de homens que pareciam ovos, e entre a massa de criaturas como ovos descobria uma que parecia exatamente uma pessoa.

 

— Ê muito agradável fazer isso — disse ele, rindo — ou pelo menos é agradável para mim. Gosto de ficar sentado nos jardins e estações rodoviárias, olhando. Às vezes, vejo logo um aliado; outras vezes só vejo pessoas de verdade. Uma vez vi dois aliados sentados num ônibus, lado a lado. Foi a única vez em minha vida que vi dois juntos.

— Teve um significado especial para você ver dois deles?

— Por certo. Tudo o que fazem tem um significado. Dos atos deles, às vezes, um brujo pode extrair seu poder. Mesmo que um brujo não tenha um aliado próprio, conquanto que saiba ver, pode manejar o poder observando os atos dos aliados. Meu benfeitor me ensinou a fazer isso e, durante anos, antes de ter meu aliado, eu procurava os aliados no meio do povo e cada vez que eu via um ele me ensinava alguma coisa. Encontrou três juntos. Que lição magnífica você desperdiçou.

 

Ele não disse mais nada, até terminarmos de montar a armadilha de coelho. Depois, virou-se para mim e falou de repente, como se acabasse de se lembrar, que outra coisa importante nos aliados é que, se a gente encontrasse dois deles, eram sempre dois da mesma espécie. Os dois aliados que ele viu eram dois homens, disse ele; e como eu havia visto dois homens e uma mulher, ele deduzia que minha experiência era mais rara ainda.

 

Perguntei se os aliados podiam apresentar-se como crianças; se as crianças podiam ser de sexos diferentes, ou do mesmo; se os aliados se apresentavam como pessoas de raças diferentes; se podiam aparecer como uma família composta de um homem, uma mulher e uma criança; e por fim perguntei-lhe se ele já tinha visto um aliado dirigindo um carro ou um ônibus.

 

Dom Juan não respondeu nada. Ficou sorrindo, deixando que eu falasse. Quando ouviu minha última pergunta, deu uma gargalhada e disse que eu estava sendo descuidado com minhas questões, e que teria sido mais apropriado perguntar se ele já tinha visto um aliado dirigindo um veículo a motor.

 

— Você não vai esquecer as motocicletas, não é? — perguntou, com um olhar malicioso.

 

Achei graça no fato de ele estar-se divertindo com minhas perguntas e ri com ele. Então, explicou que os aliados não podiam tomar o comando, nem agir sobre alguma coisa diretamente; mas que podiam agir sobre o homem de maneira indireta. Dom Juan disse que entrar em contato com um aliado era perigoso porque este era capaz de provocar o pior numa pessoa. O aprendizado era longo e árduo, disse ele, porque a pessoa tinha de reduzir ao mínimo tudo o que era desnecessário na vida, a fim de suportar o impacto de um encontro desses. Dom Juan disse que seu benfeitor, da primeira vez que teve contato com um aliado, foi levado a queimar-se e ficou ferido como se uma onça o tivesse estraçalhado. No caso pessoal dele, falou, um aliado o empurrou para dentro de uma pilha de lenha ardente, e ele se queimou um pouco num dos joelhos e num dos ombros, mas as cicatrizes desapareceram com o tempo, quando ele se tornou um só com o aliado.

 

No dia 10 de junho de 1968, parti numa longa viagem com Dom Juan, para participar de um mitote. Eu estava esperando aquela oportunidade havia meses, e no entanto não tinha multa certeza de querer ir. Creio que minha hesitação se devia a meu medo de ter de ingerir peiote numa reunião peiote, e eu não tinha a menor intenção de fazer isso. Eu tinha manifestado essas intenções várias vezes a Dom Juan. A princípio, riu, paciente, mas, por fim, declarou com firmeza que não queria mais ouvir uma palavra sobre meu medo.

 

No que me dizia respeito, um mitote era o terreno ideal para eu verificar o esquema que tinha elaborado. Para começar, eu nunca largara completamente a idéia de que era necessário um líder disfarçado nessas reuniões, para garantir a concordância dos participantes. De algum modo, tinha a impressão de que Dom Juan desprezara minha idéia por motivos próprios, pois ele achava mais eficaz explicar tudo o que ocorria num mitote em termos de "ver". Eu achava que meu interesse em descobrir uma explicação aceitável em meus próprios termos não estava de acordo com o que ele próprio queria que eu fizesse; por isso, ele tinha de abandonar meu fundamento lógico, como costumava fazer com tudo o que não se conformava com seu sistema.

 

Pouco antes de partirmos na viagem, Dom Juan aliviou minha apreensão de ter de ingerir o peiote, dizendo-me que eu só estava comparecendo à reunião para assistir a ela. Fiquei animado. Naquele momento, tinha quase certeza de que ia descobrir o processo oculto pelo qual os participantes chegam a um acordo.

 

Era de tardinha quando partimos; o Sol estava quase no horizonte; sentia-o no pescoço e desejei ter uma cortina no vidro traseiro do carro. Do topo do morro eu descortinava um vale imenso; a estrada era como uma fita negra estendida no chão, subindo e descendo por morros sem fim. Acompanhei-a com os olhos por um momento antes de começarmos a descer; dirigia-se para o sul, até desaparecer numa cadeia de montanhas na distância.

 

Dom Juan estava sentado calado, olhando para a frente. Não trocamos uma palavra por muito tempo. Estava quente demais dentro do carro. Eu tinha aberto todos os vidros, mas não adiantou porque o dia estava extremamente quente. Estava muito aborrecido e agitado. Comecei a reclamar do calor. Dom Juan franziu a testa e olhou para mim com uma expressão estranha.

 

— Faz calor em todo o México, nessa época do ano — disse ele. — Não há nada a fazer a respeito.

 

Não olhei para ele, mas sabia que me estava fitando. O carro ganhou velocidade, descendo a encosta. Vagamente, vi um sinal rodoviário, "Vado" — depressão. Quando vi a depressão, estava em muita velocidade e, embora tivesse diminuído a marcha, ainda assim sentimos o impacto e pulamos no assento. Reduzi bastante a velo­cidade; estávamos passando por uma área onde o gado pastava livre­mente às margens da estrada, zona em que a carcaça de um cavalo ou boi atropelado por um carro era coisa comum. A certa altura, tive de parar completamente para permitir que uns cavalos atravessassem a estrada. Eu estava cada vez mais agitado e aborrecido. Falei a Dom Juan que era o calor; disse-lhe que sempre detestara o calor, desde criança, pois todos os verões me sentia sufocado e quase não conseguia respirar.

 

— Você não é mais criança — disse ele.

— Mas o calor ainda me sufoca.

— Bem, a fome me sufocava quando eu era criança — falou, baixinho. — Estar sempre com muita fome era a única coisa que eu conhecia, em criança, e eu ficava inchado até não poder respirar, também. Mas isso era quando eu era criança. Hoje não posso mais sufocar, nem inchar como um sapo quando estou com fome.

 

Eu não sabia o que dizer. Sentia que me estava colocando numa posição sem fundamento e logo teria de sustentar um ponto de vista que não desejava realmente defender. O calor não estava assim tão insuportável. O que me perturbava era o pensamento de ter de dirigir mais de 1.600 quilômetros até ao nosso destino. Es­tava aborrecido com a idéia de ter de me esforçar.

 

— Vamos parar e comer alguma coisa — falei. — Talvez o calor melhore depois que o Sol se puser.

 

Dom Juan olhou para mim, sorrindo, e disse que não havia cidades limpas por uma grande distância e que ele sabia que eu tinha o hábito de não comer nos barracos de beira de estrada.

 

— Não tem mais medo de diarréia? — perguntou.

 

Eu sabia que ele estava sendo sarcástico e, no entanto, ele tinha uma expressão séria e ao mesmo tempo indagadora.

 

— Do jeito que você age — falou — era de pensar que a diarréia está à espreita ali fora, esperando que salte do carro para assaltá-lo. Está numa situação difícil: se escapar do calor, a diarréia vai acabar pegando-o.

 

O tom de Dom Juan era tão sério que comecei a rir. Então, seguimos em silêncio, por muito tempo. Quando chegamos a uma parada de caminhões chamada Los Vidrios (Vidro) já estava bem escuro. Dom Juan gritou do carro:

 

— O que é que há para comer hoje?

— Carne de porco — gritou uma mulher, lá de dentro.

— Por causa de você, espero que o porco tenha sido atropelado na estrada hoje — disse-me Dom Juan, rindo.

 

Saltamos do carro. A estrada era cercada de ambos os lados por cadeias de montanhas baixas, que pareciam ser a lava solidificada de alguma gigantesca erupção vulcânica. Na escuridão, os picos negros e dentados se destacavam contra o céu como enormes muros ameaçadores de cacos de vidro.

 

Enquanto comíamos, disse a Dom Juan que estava vendo por que o local se chamava Vidro. Disse que, para mim, o nome era obviamente devido à forma de cacos de vidro das montanhas.

 

Dom Juan falou, num tom convincente, que o local se chamava Los Vidrios porque um caminhão carregado de vidro tinha tombado ali e que os cacos de vidro foram deixados pela estrada durante anos. Achei que ele estava brincando e pedi que me dissesse se era aquele o verdadeiro motivo.

 

— Por que não pergunta a alguém daqui? — disse ele. Perguntei a um homem que estava sentado a uma mesa junto da nossa; ele respondeu que não sabia, com ar de desculpas. Fui à cozinha e perguntei às mulheres que estavam lá se elas sabiam, mas todas disseram que não; só sabiam que o lugar se chamava Vidro.

— Acho que estou certo — disse Dom Juan, em voz baixa. — Os mexicanos não costumam observar as coisas em volta deles. Tenho certeza de que não vêem as montanhas de vidro, mas não há dúvida de que podem deixar uma montanha de cacos de vidro por aí durante anos. — Nós dois achamos graça na imagem e rimos.

 

Depois que acabamos de comer, Dom Juan me perguntou como estava-me sentindo. Respondi que estava bem, mas, na verdade, sentia-me meio esquisito. Dom Juan olhou bem para mim e pareceu perceber minha sensação de desconforto.

 

— Desde que resolveu vir ao México, devia ter deixado de lado todos os seus receios mesquinhos — disse ele, muito severo. — Sua decisão de vir devia tê-los vencido. Veio porque quis. É assim que agem os guerreiros. Já lhe disse várias vezes: o meio mais eficaz de se viver é como guerreiro. Preocupe-se e pense antes de tomar qual­quer decisão, porém, uma vez tomada, siga seu caminho, livre de preocupações e pensamentos; haverá mil outras decisões ainda à sua espera. É assim a maneira do guerreiro.

— Acredito que eu faça isso, Dom Juan, pelo menos parte do tempo. Mas é muito difícil ficar-me lembrando.

— Um guerreiro pensa em sua morte quando as coisas se tur­vam.

— Isso é ainda mais difícil, Dom Juan. Para a maioria das pessoas, a morte é muito vaga e remota. Nunca pensamos nela.

— Por que não? — Por que pensar?

— Muito simples — disse ele. — Porque a idéia da morte é a única coisa que modera os nossos espíritos.

 

Quando saímos de Los Vidrios, estava tão escuro que as silhuetas irregulares das montanhas se haviam fundido na escuridão do céu. Rodamos em silêncio mais de uma hora. Eu estava cansado. Parecia que eu não queria falar porque não havia nada sobre que falar. O tráfego era mínimo. Poucos carros passaram, vindos da direção oposta. Tinha-se a impressão de que éramos os únicos a irem para o sul por aquela estrada. Achei que aquilo era estranho e fiquei olhando pelo espelho retrovisor, para ver se havia outros carros vindos de trás, mas não havia.

 

Depois de certo tempo, parei de procurar carros e recomecei a pensar na nossa viagem. Então, reparei que os faróis do carro pareciam extremamente brilhantes, em contraste com a escuridão que nos envolvia, e tornei a olhar pelo espelho retrovisor. Inicialmente, vi um clarão e, depois, dois pontos de luz que pareciam ter brotado do chão. Eram os faróis de um carro no topo de um morro, à distância, atrás de nós. Permaneceram visíveis por algum tempo e em seguida desapareceram na escuridão, como se tivessem sido arrebatados; depois de um momento, reapareceram no topo de outro morro e tornaram a desaparecei. Acompanhei seus aparecimentos c desaparecimentos pelo espelho por muito tempo. Em certo momento, pareceu-me que o carro estava-se aproximando de nós. Estava positivamente chegando perto. As luzes estavam maiores e mais fortes. Propositadamente, pisei no acelerador. Tive uma sensação de mal-estar. Dom Juan pareceu notar minha preocupação, ou talvez apenas notasse que eu estava acelerando. Primeiro olhou para mim e de­pois virou-se e olhou para os faróis distantes.

Perguntou-me se eu estava sentindo alguma coisa. Respondi que havia horas que não via nenhum carro atrás de nós e que, de repente, tinha observado os faróis de um auto que parecia estar-se aproximando cada vez mais de nós.

 

Ele riu e perguntou se eu achava mesmo que era um carro. Falei que tinha de ser um carro e ele disse que minha preocupação mostrava a ele que, de algum modo, eu devia ter sentido que o que estava atrás de nós era mais do que um simples carro. Insisti que eu achava que era apenas mais um automóvel na estrada, ou talvez um caminhão.

 

— O que mais pode ser? — perguntei, alto. As perguntas de Dom Juan tinham-me deixado tenso.

 

Virou-se e olhou bem para mim, depois meneou a cabeça de­vagar, como se estivesse medindo o que ia dizer.

 

— Aquelas são as luzes na cabeça da morte — respondeu, baixinho. — A morte as coloca assim, como um chapéu, e depois, parte a galope. Aquelas são as luzes da morte a galope se aproximando de nós, aproximando-se cada vez mais.

 

Senti um arrepio. Depois de algum tempo, tornei a olhar pelo espelho retrovisor, mas as luzes não estavam mais lá.

 

Disse a Dom Juan que o carro devia ter parado ou saído da estrada. Não olhou para trás; apenas esticou os braços e bocejou.

 

— Não — disse ele. — A morte nunca pára. Às vezes, apaga as luzes, só isso.

 

Chegamos ao Nordeste do México no dia 13 de junho. Duas índias velhas, parecidas e que deviam ser irmãs, e quatro garotas estavam reunidas à porta de uma casinha de barro. Havia um barraco atrás da casa e um celeiro decrépito que só tinha parte do telhado e uma parede. As mulheres pareciam estar à nossa espera; deviam ter visto o meu carro por causa da poeira que levantava na estrada de terra depois que saí da rodovia asfaltada uns três quilômetros antes. A casa ficava num vale profundo e, vista da porta, a estrada parecia uma longa cicatriz lá em cima dos morros verdes.

 

Dom Juan saltou do carro e falou com as velhas. Elas apontaram para uns bancos de madeira defronte da porta. Dom Juan fez sinal para eu ir sentar-me, Uma das velhas sentou-se conosco; as outras foram para dentro de casa. Duas garotas ficaram junto da porta, examinando-me com curiosidade. Acenei-lhes e elas riram e correram para dentro. Depois de alguns minutos, dois rapazes saí­ram e cumprimentaram Dom Juan. Não falaram comigo, nem mesmo olharam para mim. Falaram rapidamente com Dom Juan; então ele se levantou e nós todos, inclusive as mulheres, fomos para outra casa, a um quilômetro dali.

 

Lá, encontramos outro grupo de pessoas. Dom Juan entrou, mas disse que eu ficasse junto da porta, Olhei para dentro e vi um índio velho, mais ou menos da idade de Dom Juan, sentado num banco de madeira.

 

Ainda não estava escuro. Um grupo de índios de ambos os sexos estava quieto em volta de um velho caminhão estacionado defronte da casa. Falei-lhes em espanhol, mas eles propositadamente evitaram responder-me; as mulheres riam cada vez que eu dizia alguma coisa e os homens sorriam educadamente e desviavam o olhar. Era como se não me entendessem e, no entanto, eu tinha certeza de que todos falavam espanhol, pois os ouvira conversando entre si.

 

Depois de algum tempo, Dom Juan e o outro velho saíram e entraram no caminhão, sentando-se junto ao motorista. Isso pareceu ser um sinal para que todos subíssemos à carroçaria do caminhão, Não havia proteções laterais, e quando o caminhão começou a andar, agarramo-nos numa corda comprida amarrada nuns ganchos no chassi.

 

O caminhão ia devagar pela estrada de terra. A certa altura, numa encosta muito íngreme, ele parou e nos saltamos e andamos atrás dele; então, dois rapazinhos pularam de novo para a carroça­ria e sentaram-se na beirada, sem usar a corda. As mulheres riram-se e os encorajaram a conservar suas posições precárias. Dom Juan e o velho, a quem chamavam Dom Sílvio, andaram juntos e não pareciam estar preocupados com as brincadeiras dos rapazes. Quando a estrada se nivelou, tornamos a embarcar no caminhão.

 

Viajamos por mais ou menos uma hora. O caminho era extremamente duro e incômodo, de modo que eu me levantei e fiquei segurando o teto da cabina e viajei assim até pararmos defronte de um grupo de barracos. Ali havia mais gente; já estava muito escuro e eu só consegui divisar algumas pessoas à luz baça e amarelada de um lampião de querosene pendurado junto de uma porta aberta.

 

Todos saltaram do caminhão e se misturaram com as pessoas das casas. Dom Juan tornou a dizer que eu ficasse de fora. Encostei-me no pára-lama dianteiro do caminhão e, depois de um ou dois minutos, três rapazes se aproximaram de mim. Eu já conhecia um deles, de anos antes, num mitote. Ele me abraçou, agarrando meus antebraços.

 

— Você está ótimo — cochichou ele em espanhol.

 

Ficamos ali junto do caminhão, muito quietos. Era uma noite quente e ventosa. Eu ouvia o murmúrio baixinho de um riacho ali perto. Meu amigo me pediu um cigarro, cochichando. Ofereci o maço a eles. À luz dos cigarros, olhei o relógio. Eram nove horas.

 

Um grupo de pessoas saiu da casa logo depois e os três rapa­zes se afastaram. Dom Juan veio para junto de mim e disse que tinha explicado a minha presença a todos e que eu era bem-vindo e poderia servir água no mitote. Disse que seguiríamos imediata­mente.

 

Um grupo de dez mulheres e onze homens saiu da casa. O homem que chefiava o grupo era meio corpulento, devendo ter seus 50 e tantos anos. Chamavam-no "Mocho", apelido que quer dizer "tosado". Ele andava com passos firmes e rápidos. Levava um lampião de querosene e balançava-o de um lado para outro, ao andar. A princípio, pensei que ele o movia a esmo, mas depois descobri que ele o balançava para mostrar um obstáculo ou uma passagens difícil no caminho. Andamos por mais de uma hora. As mulheres conversavam e riam baixinho de vez em quando. Dom Juan e o outro velho seguiam na frente da fila; eu estava bem no final. Conservei os olhos abaixados para o caminho, procurando ver onde pisava.

 

Eram decorridos quatro anos desde que Dom Juan e eu tínhamos estado nos morros de noite, e eu tinha perdido muito de meu preparo físico. A toda hora eu tropeçava e involuntariamente chutava as pedrinhas. Meus joelhos não tinham flexibilidade alguma; o caminho parecia subir quando eu encontrava um ponto alto, ou parecia ceder quando havia um declive. Eu era quem fazia mais barulho ao andar e isso me tornava um palhaço, à minha revelia. Alguém no grupo dizia "Uuu" cada vez que eu tropeçava e todos se riam. Em certo ponto, uma das pedras que chutei bateu no calcanhar de uma mulher e ela disse alto, para gozo de todos: "Dêem uma vela ao pobre coitado!" Mas o máximo do vexame foi quando tropecei e tive de me agarrar à pessoa na minha frente; ele quase se desequilibrou com o peso e soltou um grito inteiramente fora de propósito. Todos riram tanto que o grupo todo teve de parar por algum tempo.

 

A certa altura, o homem que estava conduzindo sacudiu a lanterna para cima e para baixo. Parecia que aquele era o sinal de termos chegado a nosso destino. Havia a silhueta escura de uma casa à minha direita, pertinho. Todos no grupo se espalharam em várias direções. Procurei Dom Juan. Era difícil encontrá-lo no es­curo. Andei aos tropeções e fazendo algum barulho, antes de ver que ele estava sentado numa pedra.

 

Tornou a me dizer que minha obrigação era levar água para os homens que iam participar. Ele me ensinara o processo anos antes. Lembrava-me de todos os detalhes, mas ele insistiu em avivar minha memória e me mostrou de novo como fazê-lo.

 

Depois, fomos para os fundos da casa, onde todos os homens estavam reunidos. Tinham feito uma fogueira. Havia uma clareira, cheia de esteiras de palha, a talvez uns quatro metros da fogueira. Mocho, o homem que nos conduzira, foi o primeiro a sentar numa esteira; reparei que tinha a ponta superior da orelha esquerda cortada, o que explicava seu apelido. Dom Silvio sentou-se à sua direita e Dom Juan à sua esquerda, Mocho estava sentado de frente para o fogo. Um rapaz aproximou-se e colocou um cesto cheio de botões de peiote diante dele; depois, o rapaz sentou-se entre Mocho e Dom Silvio. Outro rapaz levou duas cestinhas, colocou-as junto dos botões de peiote e sentou-se entre Mocho e Dom Juan. Em seguida, dois outros rapazes postaram-se junto a Dom Silvio e Dom Juan, fechando um círculo de sete pessoas. As mulheres ficaram dentro da casa. Dois rapazes eram encarregados de manter o fogo aceso a noite toda, e um adolescente e eu vigiamos a água que ia ser fornecida aos sete participantes depois de seu ritual noturno. O rapaz e eu ficamos perto de uma pedra. O fogo e a vasilha d'água estavam diante um do outro e a uma distância igual do círculo de participantes.

 

Mocho, o chefe, cantou sua canção de peiote; estava de olhos fechados; seu corpo pulava para cima e para baixo. Era uma cantiga muito comprida. Não entendi as palavras. Depois, todos eles, um por um, cantaram suas cantigas de peiote. Não pareciam seguir qualquer ordem preconcebida. Então, Mocho pegou a cesta com os botões de peiote, tomou dois e recolocou-a no centro do círculo; em seguida, veio Dom Silvio e, depois, Dom Juan. Os quatro rapazes, que pareciam ser uma unidade separada, tomaram por sua vez dois botões de peiote, seguindo uma direção oposta aos ponteiros do relógio.

 

Cada um dos sete participantes cantou e comeu dois botões de peiote quatro vezes seguidas, depois passaram as duas outras cestas, que continham frutas secas e carne.

 

Repetiram o ciclo em várias ocasiões durante a noite, no entanto, não consegui perceber nenhuma ordem oculta em seus movimentos individuais. Não se falavam; pareciam antes estar a sós e para si. Não vi nenhum deles, nem uma única vez, prestando atenção ao que os outros estavam fazendo.

 

Antes de romper o dia, levantaram-se e o rapazinho e eu lhes fornecemos água. Depois, dei uma volta para me orientar. A casa era um barraco de uma só peça, uma construção de barro, baixa, com um telhado de sapé. A paisagem em volta era bem depressiva. O barraco estava situado numa planície árida, com uma vegetação mista. Arbustos e cactos cresciam juntos, mas não havia árvore alguma. Não senti vontade de me aventurar longe da casa.

 

As mulheres foram embora de manhã. Os homens se moviam calados na área. que rodeava a casa. Por volta do meio-dia, todos tornaram a sentar-se na mesma ordem em que haviam sentado na véspera. Passou-se em volta um cesto com pedaços de carne cortados do mesmo tamanho que um botão de peiote. Alguns dos homens cantaram suas canções de peiote. Depois de uma hora, mais ou menos, todos se levantaram e partiram em direções diversas.

 

As mulheres tinham deixado uma panela de papa para os encarregados do fogo e da água. Comi um pouco e, após, dormi a maior parte da tarde.

 

Depois de anoitecer os rapazes encarregados da fogueira arma­ram outra e recomeçou o ciclo de tomar botões de peiote, obedecendo mais ou menos à mesma ordem que na noite anterior, e terminando ao alvorecer.

 

Durante a noite, lutei para observar e registrar todos os movi­mentos de cada um dos sete participantes, esperando descobrir a mais vaga forma de um sistema visível de comunicação verbal ou não verbal entre eles. Mas não houve nada em seus atos que revelasse um sistema oculto.

 

No princípio da noite foi reiniciado o ciclo de ingestão de peio­te. De manhã, vi que tinha fracassado completamente na tentativa de descobrir pistas que revelassem o líder misterioso, ou de descobrir qualquer forma de comunicação oculta entre eles, ou qualquer traço de seu sistema de concordância. Passei o resto do dia sentado sozinho, procurando organizar meus apontamentos.

 

Quando os homens tornaram a reunir-se na quarta noite, eu sabia, de algum modo, que aquela seria a última reunião. Ninguém me dissera nada a respeito e, no entanto, eu sabia que se separariam no dia seguinte. Tornei a sentar-me junto da água e todos os outros retomaram suas posições na ordem já estabelecida.

 

O comportamento dos sete homens do círculo foi uma repetição do que eu tinha observado nas três noites anteriores. Fiquei absorto nos seus movimentos, como já tinha ficado antes. Queria registrar tudo o que faziam, cada movimento, cada pronunciamento, cada gesto.

 

Em certo momento, ouvi uma espécie de zunido em meu ouvi­do. Era um zumbido comum de ouvido e não prestei atenção. O zunido ficou mais alto, porém permaneceu no âmbito de minhas sensações orgânicas comuns. Lembro-me de que dividi minha atenção entre a observação dos homens e ouvir o zumbido que escutava. Então, num dado momento, as caras dos homens pareceram tornar-se mais brilhantes; era como se tivessem acendido uma luz. Mas não era bem como uma luz elétrica, nem um lampião, nem o reflexo do fogo nos seus rostos. Era, antes, uma iridescência, uma luminosidade rósea, muito tênue e, no entanto, visível de onde eu me encontrava. O zumbido pareceu crescer. Olhei para o rapazinho que estava comigo, mas ele tinha adormecido.

 

A luminosidade rósea, neste ponto, tornou-se mais marcada. Olhei para Dom Juan; ele estava de olhos fechados, bem como Dom Silvio e Mocho. Eu não conseguia ver os olhos dos rapazes mais moços, porque dois estavam debruçados para a frente e os outros dois estavam de costas para mim.

 

Fiquei ainda mais absorto olhando para eles. No entanto, não tinha compreendido plenamente que estava mesmo ouvindo um zumbido e via realmente um brilho rosado pairando sobre os homens. Após um momento, tive consciência de que a luz rosada tênue e o zumbido eram muito constantes. Tive um momento de uma perplexidade intensa e depois um pensamento me passou pela cabeça, um pensamento que não tinha nada a ver com a cena que estava presenciando, nem com o propósito que eu tinha em mente para estar ali. Lembrei-me de uma coisa que minha mãe me dissera uma vez, quando eu era criança. O pensamento era perturbador e muito impróprio; procurei livrar-me dele e empenhar-me novamente em minha vigília atenta, mas não consegui. O pensamento voltava; era mais forte, mais exigente, e então ouvi claramente a voz de minha mãe me chamando. Ouvi o arrastar de seus chinelos e depois a risada dela. Virei-me, procurando-a; imaginei que ia ser transportado no tempo por algum tipo de alucinação ou miragem e que ia vê-la, mas só vi o garoto dormindo a meu lado. Vê-lo ali me chocou e tive um breve momento de descanso, de sobriedade.

 

Tornei a olhar para o grupo de homens. Não tinham mudado de posição de todo. No entanto, a luminosidade havia sumido, bem como o zumbido em meus ouvidos. Senti um alívio. Pensei que a alucinação de ouvir a voz de minha mãe havia passado. A voz dela tinha sido muito clara e vivida. Repeti-me várias vezes que, por um momento, a voz quase me tinha pilhado. Reparei vagamente que Dom Juan estava olhando para mim, mas isso não importava. A recordação da voz de minha mãe me chamando é que era hipnótica. Lutei desesperadamente para pensar noutra coisa. E então tomei a ouvir a voz dela, tão claramente como se ela estivesse atrás de mim. Chamou meu nome. Virei-me depressa, mas só vi a silhueta escura do barraco e dos arbustos próximos.

 

Ouvir meu nome provocou em mim a maior angústia. Gemi, sem querer. Senti-me frio e muito só, e comecei a chorar. Naquele momento tive a sensação de que precisava de alguém que me cuidas­se. Virei a cabeça para olhar para Dom Juan; estava-me fitando. Não queria vê-lo, e por isso fechei os olhos. Então, vi minha mãe. Não era a idéia de minha mãe, como penso sempre nela. Era uma visão clara dela, de pé a meu lado. Sentia-me desesperado. Estava tremendo e queria fugir, A visão de minha mãe era por demais perturbadora, por demais estranha ao que eu buscava naquela reunião de peiote. Não parecia haver um meio consciente de evitá-lo. Talvez eu pudesse abrir os olhos, se realmente queria que a visão sumisse, mas, em vez disso, examinei-a detalhadamente. Meu exame foi mais do que meramente olhar para ela; foi um escrutínio e uma avaliação compulsivos. Um sentimento muito especial me envolvia, como se fosse uma força exterior, e eu de repente senti o peso horrendo do amor de minha mãe. Quando ouvi meu nome, senti-me dilacerado; a memória de minha mãe me enchia de angústia e melancolia, mas, quando a examinei, vi que nunca gostara dela. Aquilo foi uma revelação chocante. Os pensamentos e as imagens me chegavam como uma avalancha. A visão de minha mãe deve ter desaparecido, nesse meio tempo; não era mais importante. Eu não estava mais interessado no que os índios estavam fazendo, tam­pouco. Na verdade, esquecera-me do mitote. Estava absorto numa série de idéias extraordinárias, classificadas assim porque eram mais do que idéias; eram unidades completas de sentimento que eram certezas emocionais, provas irrefutáveis da natureza de meu relacionamento com minha mãe.

 

Num dado momento, esses pensamentos extraordinários para­ram de surgir. Reparei que tinham perdido sua fluidez e sua qualidade de serem unidades completas de sentimento. Eu tinha começado a pensar em outras coisas. Meus pensamentos divagavam. Pensei em outros membros de minha família, mas não havia imagens acompanhando os pensamentos. Depois, olhei para Dom Juan. Ele estava de pé; os outros homens também estavam de pé, e então todos se dirigiram para a água. Afastei-me e cutuquei o garoto que continuava dormindo.

 

Contei a Dom Juan a seqüência de minha visão surpreendente assim que ele entrou em meu carro. Riu com muita satisfação e disse que minha visão era um sinal, um augúrio tão importante quanto a minha primeira experiência com Mescalito. Lembrei-me de que Dom Juan tinha interpretado as reações que tive da primeira vez que ingeri o peiote como um presságio muito importante; de fato, ele havia resolvido ensinar-me o seu conhecimento por causa daquilo.

 

Dom Juan disse que, na última noite do mitote, Mescalito tinha pairado sobre mim de maneira tão evidente que todos foram obrigados a se voltar em minha direção, e era por isso que ele me estava fitando quando olhei para ele.

 

Eu queria saber qual a sua interpretação para minha visão, mas ele não quis falar a respeito. Disse que o que quer que eu tivesse experimentado era uma tolice, comparado com o augúrio. Dom Juan continuou falando da luz de Mescalito pairando sobre mim, e como todos a haviam visto.

 

— Foi mesmo uma coisa! — disse ele. — Eu não poderia desejar melhor augúrio.

 

Dom Juan e eu estávamos obviamente era dois rumos diferentes de pensamentos. Preocupava-se com a importância dos fatos que ele interpretava como augúrio e eu estava obcecado com os detalhes da visão que tivera.

 

— Não quero saber de augúrios — falei. — Quero que me diga o que aconteceu comigo.

Franziu a cara, como se estivesse aborrecido, e ficou muito rígido e calado por um minuto. Depois, olhou para mim. Seu tom era muito enérgico. Disse que a única coisa importante era que Mescalito tinha sido muito delicado comigo, tinha-me envolvido em sua luz e me dera uma lição sem que eu fizesse qualquer esforço, a não ser estar ali presente.

 

No dia 4 de setembro de 1968, fui a Sonora visitar Dom Juan. Atendendo a um pedido que ele fizera em minha visita anterior, parei no caminho, em Hermosillo, para lhe comprar uma tequilla não comercial, chamada bacanora. Esse pedido me pareceu muito estranho na ocasião, pois eu sabia que ele não gostava de beber, mas comprei quatro garrafas e as coloquei num caixote, junto com outras coisas que comprara para ele.

 

— Veja, você comprou quatro garrafas! — disse ele, rindo, quando abriu o caixote. — Pedi que comprasse uma. Deve ter pensado que a bacanora era para mim, mas é para meu neto, Lúcio, e você tem de dá-la a ele como se fosse seu presente pessoal.

 

Tinha conhecido o neto de Dom Juan dois anos antes; ele estava então com 28 anos. Era muito alto, com mais de l,80m, e se vestia extravagantemente bem, considerando seus recursos e seu meio. Enquanto a maioria dos yaquis usa roupa caqui e calças americanas, chapéus de palha e sandálias feitas em casa, chamadas guaraches, os trajes de Lúcio eram um paletó de couro preto, caro, com enfeites de contas na cor turquesa, chapéu de vaqueiro do Texas e um par de botas com monograma e decorações feitas a mão.

 

Lúcio adorou a tequila e levou logo as garrafas para a casa dele, aparentemente para guarda-las. Dom Juan observou, displicentemente, que nunca se devia guardar as bebidas, nem beber sozinho. Lúcio disse que não estava realmente guardando, era só até à noite, quando ia convidar os amigos para beberem com ele.

 

Naquela noite, por volta das sete horas, voltei à casa de Lúcio. Estava escuro. Distingui a silhueta vaga de duas pessoas de pé debaixo de uma árvore; eram Lúcio e um de seus amigos, que me estavam esperando e me fizeram entrar, à luz de uma lanterna elétrica.

 

A casa de Lúcio era uma construção frágil, de duas peças, de taipa e chão de terra batida. Tinha talvez uns seis metros de comprimento e era sustentada por vigas relativamente finas de algarobo. Como todas as casas dos yaquis, tinha um telhado de sapé, chato, e uma ramada de uns três metros, que é uma espécie de coberta sobre toda a frente da casa. O teto de uma ramada nunca é de sapé; é feito de galhos arrumados frouxamente, que dão sombra, mas permitem que a brisa circule livremente.

 

Quando entrei na casa, liguei meu gravador, que guardava na pasta. Lúcio apresentou-me aos amigos dele. Dentro da casa havia oito homens, inclusive Dom Juan. Estavam sentados à vontade em volta do centro da sala, sob a luz forte de um lampião de gasolina dependurado de uma viga. Dom Juan ocupava um caixote. Sentei-me diante dele, na ponta de um banco de uns dois metros, feito de uma trave de madeira grossa pregada em dois garfos espetados no chão.

 

Dom Juan colocara o chapéu no chão, ao lado dele. A luz do lampião de gasolina fazia seus cabelos curtos, brancos, parecerem mais brancos e brilhantes. Olhei para seu rosto; a luz também fazia sobressair as fundas rugas do pescoço e testa, fazendo-o parecer mais escuro e mais velho.

 

Olhei para os outros homens; sob a luz esverdeada do lampião de gasolina, todos pareciam cansados e velhos.

 

Lúcio dirigiu-se ao grupo em espanhol e disse, em voz alta, que íamos beber uma garrafa de bacanora que eu lhe havia trazido de Hermosillo. Foi ao outro quarto, pegou uma garrafa, tirou a rolha e deu-a a mim, junto com uma canequinha de metal. Pus um pouquinho de nada na canequinha e bebi. A bacanora parecia ser mais densa e mais cheirosa do que a tequila comum, e mais forte também. Tive de tossir. Passei a garrafa, e todos, à exceção de Dom Juan, se serviram de um pouco; ele apenas pegou a garrafa e co­locou-a defronte de Lúcio, que estava no fim da fila.

 

Comentaram muito sobre o sabor forte daquela garrafa deter­minada e concordaram que a bebida devia ser proveniente das altas montanhas de Chihuahua.

 

A garrafa foi passada uma segunda vez. Os homens estalavam os beiços, repetindo seus louvores, e se empenharam numa viva discussão sobre as notáveis diferenças entre a tequila feita perto de Guadalajara e a proveniente das grandes altitudes de Chihuahua.

 

Na segunda rodada, novamente Dom Juan não bebeu e eu só me servi de uma pequena dose, mas os outros encheram a caneca até à borda. A garrafa foi passada mais uma vez e acabou.

 

— Pegue as outras garrafas, Lúcio — disse Dom Juan.

 

O rapaz pareceu hesitar, e Dom Juan muito naturalmente explicou aos outros que eu tinha trazido quatro garrafas para Lúcio.

 

Benigno, beirando a idade de Lúcio, olhou para a pasta que eu tinha posto atrás de mim, disfarçadamente, e perguntou se eu era vendedor de tequila. Dom Juan respondeu que não, e que eu viera a Sonora para visitá-lo.

 

— Carlos está aprendendo a respeito de Mescalito e eu estou-lhe ensinando — disse Dom Juan.

 

Todos olharam para mim e sorriram, educadamente. Bajea, o entalhador, homenzinho magro de feições acentuadas, olhou para mim fixamente por um momento e depois disse que o dono do armazém tinha dito que eu era um espião de uma companhia americana que pretendia fazer mineração nas terras dos yaquis. Eles todos reagiram como se estivessem indignados diante dessa acusação. Além disso, todos tinham ressentimento do dono do armazém, que era mexicano, ou yori, como dizem os yaquis.

 

Lúcio foi ao outro quarto e voltou com outra garrafa de ba­canora. Abriu-a, serviu-se de uma dose reforçada e depois a passou em volta. A conversa mudou para as probabilidades de uma companhia americana estabelecer-se em Sonora e seus possíveis efeitos sobre os caquis. A garrafa voltou para Lúcio. Ele a levantou e olhou para ver quanto restava.

 

— Diga-lhe que não se preocupe — cochichou Dom Juan. — Diga que lhe trará mais da outra vez que vier.

 

Inclinei-me para Lúcio e lhe assegurei que, da minha próxima visita, eu lhe traria pelo menos meia dúzia de garrafas.

 

Em certa altura, os assuntos de conversa pareceram esgotar-se. Dom Juan virou-se para mim e disse em voz alta:

 

— Por que não conta aos nossos amigos sobre seus encontros com Mescalito? Acho que isso seria muito mais interessante do que essa conversa fiada sobre o que vai acontecer se a companhia americana vier para Sonora,

— Mescalito é o peiote, Vovô — perguntou Lúcio, curioso,

— Há quem o chame assim — disse Dom Juan secamente. — Prefiro denominá-lo de Mescalito.

— Esse raio de coisa provoca a loucura — falou Genaro, homem alto, corpulento, de meia-idade.

— Acho uma tolice dizer que Mescalito provoca a loucura — contestou Dom Juan baixinho, — Pois, se fosse assim, Carlos estaria numa camisa-de-força neste momento, em vez de estar aqui conversando com vocês. Ele o tomou, e olhem para ele. Está ótimo.

Bajea sorriu e replicou, encabulado:

 

— Quem pode dizer? — E todos riram.

— Olhem para mim, então — disse Dom Juan, — Conheci Mescalito quase toda a minha vida e nunca me fez mal algum.

 

Os homens não se riram, mas era óbvio que não o levavam a sério.

 

— Por outro lado — continuou Dom Juan — é verdade que Mescalito leva as pessoas à loucura, como você disse, mas isso é só quando vão procurá-lo sem saber o que estão fazendo.

 

Esquere, um velho que parecia ter a idade de Dom Juan, riu baixinho, sacudindo a cabeça de um lado para outro.

 

— O que você quer dizer com "conhecer", Juan? — perguntou ele. — Da última vez que o vi, você estava dizendo a mesma coisa.

— As pessoas ficam malucas mesmo quando tomam esse negócio de peiote — continuou Genaro. — Já vi os índios huichols comendo-o. Parecia que estavam com hidrofobia. Espumavam, vomitavam e urinavam por toda parte. A pessoa pode ficar epiléptica, por tomar aquele raio de coisa. Foi isso que o Sr. Salas, o engenhei­ro do governo, me disse. E a epilepsia é doença incurável, vocês sabem.

— Isso é estar pior do que os animais — disse Bajea, com ar solene.

— Só viu o que queria ver nos índios huichols, Genaro — disse Dom Juan. — Para começar, nunca se deu ao trabalho de descobrir deles como é a pessoa conhecer Mescalito. Que eu saiba, Mescalito nunca tornou ninguém epiléptico. O engenheiro do governo é um yori e eu duvido que um yori saiba alguma coisa a respeito. Você não está mesmo pensando que as milhares de pessoas que conhecem Mescalito são malucas, está?

— Devem ser malucas, ou quase, para fazer uma coisa dessas — disse Genaro.

— Mas se todas essas pessoas estivessem malucas ao mesmo tempo, quem é que faria o trabalho delas? Como conseguiriam sobreviver? — indagou Dom Juan.

— Macario, que é do outro lado (os E.U.A.) contou-me que lá, quem o tomar, está marcado para toda a vida — falou Esquere.

 

— Macario está mentindo, se disse isso — protestou Dom Juan. — Estou certo de que ele não sabe de que está falando.

— É verdade que ele é muito mentiroso — disse Benigno.

— Quem é Macario? — perguntei.

— É um índio yaqui que mora aqui — esclareceu Lúcio, — Ele diz que é do Arizona e que esteve na Europa durante a guerra. Conta todo tipo de histórias.

— Diz que foi coronel! — falou Benigno.

 

Todos riram e a conversa passou para as histórias incríveis de Macario, mas Dom Juan voltou ao tema de Mescalito.

 

— Se vocês todos sabem que Macario é mentiroso, como podem acreditar nele quando fala de Mescalito?

— Quer dizer peiote, Vovô? — perguntou Lúcio, como se realmente estivesse querendo entender o termo.

— Que diabos, sim!

 

O tom de Dom Juan era brusco. Lúcio recuou involuntariamente, e por um momento senti que eles todos estavam com medo. Então, Dom Juan deu um vasto sorriso e continuou, num tom brando.

 

— Vocês não vêem que Macario não sabe de que está falando? Não vêem que para falar de Mescalito a gente tem de conhecer?

— Lá vai você outra vez — disse Esquere. — Que diabo é esse conhecimento? Você é pior do que Macario. Pelo menos, ele fala o que pensa, quer saiba o que está dizendo, quer não. Há anos que venho ouvindo você dizer que temos de conhecer. O que é que temos de conhecer?

— Dom Juan diz que há um espírito no peiote — falou Be­nigno.

— Já vi o peiote nos campos, mas nunca vi espíritos, nem nada de parecido — acrescentou Bajea.

— Mescalito é como um espírito, talvez — explicou Dom Juan. — Mas seja o que for, isso não se esclarece até a pessoa conhecê-lo. Esquere reclama que venho dizendo isso há anos. Pois bem, venho mesmo. Mas não é minha culpa que vocês não entendam. Bajea diz que quem o toma. torna-se igual a um animal. Pois bem, não o entendo assim. Para mim, aqueles que pensam que estão acima dos animais vivem pior do que eles. Vejam meu neto aqui. Trabalha sem cessar. Eu diria que ele vive para o trabalho, como uma mula. E a única coisa que ele faz que é diferente dos animais é embebedar-se.

 

Todos riram. Victor, rapazinho que parecia ainda adolescente, riu num diapasão mais alto que o dos outros todos.

 

Elígio, jovem lavrador, até então não pronunciara uma única palavra. Estava sentado no chão à minha direita, encostado nuns sacos de adubos químicos que tinham sido empilhados dentro da casa, por causa da chuva. Era um dos amigos de infância de Lúcio, robusto e, embora mais baixo do que este era mais forte e bem feito. Eligio pareceu ficar preocupado com as palavras de Dom Juan. Bajea quis retrucar, mas Eligio interrompeu-o.

 

— De que modo o peiote mudaria tudo isso? — perguntou ele. — Parece-me que o homem nasceu para trabalhar a vida toda, como as mulas.

— Mescalito muda tudo — disse Dom Juan — e, no entanto, ainda temos de trabalhar como todo mundo, como mulas. Falei que havia um espírito dentro de Mescalito porque é uma coisa como um espírito que produz a modificação nos homens. Um espírito que podemos ver e tocar, um espírito que nos modifica, às vezes até contra a nossa vontade.

— O peiote faz a pessoa ficar louca — disse Genaro — e então naturalmente ela acha que mudou. Certo?

— Como pode modificar-nos? — insistiu Eligio.

— Ensina-nos a maneira certa de viver — disse Dom Juan, — Ajuda e protege os que o conhecem. A vida que vocês, camaradas, estão levando não é vida nenhuma. Não sabem a felicidade de se fazer as coisas propositadamente. Não têm um protetor!

— O que quer dizer com isso? — perguntou Genaro, indigna­do. — por certo que temos. Nosso Senhor Jesus Cristo, a Virgem Maria, e a Virgem de Guadalupe. Não são nossos protetores?

— Uma boa turma de protetores! — falou Dora Juan, com escárnio. — Eles lhe ensinaram uma maneira melhor de viver?

— Isso é porque as pessoas não lhes dão ouvidos — protestou Genaro — e só prestam atenção ao diabo.

— Se eles fossem protetores de verdade, obrigariam vocês a escutarem — disse Dom Juan. — Se Mescalito se tornar seu protetor, você terá de atender, quer queira quer não, porque pode vê-lo e atentar no que ele diz. Mescalito o fará aproximar-se dele com respeito. Não do jeito que vocês estão habituados a se aproximarem de seus protetores.

— O que quer dizer com isso, Juan? — perguntou Esquere. — O que quero dizer é que, para um de vocês chegar a seu protetor, tem de tocar o violino, e um dançarino tem de colocar a máscara e vestes e chocalhos e dançar, enquanto os outros se embebedam. Você, Benigno, já foi dançarino, conte-nos a respeito.

— Desisti depois de três anos — disse Benigno. — É trabalho pesado.

— Pergunte a Lúcio — disse Esquere, com ironia. — Ele desistiu depois de uma semana!

 

Todos se riram, com exceção de Dom Juan. Lúcio sorriu, aparentemente constrangido, e tomou dois bons tragos de bacanora.

 

— Não é pesado, é estúpido — falou Dom Juan. — Pergunte a Valencio, o dançarino, se ele gosta de dançar. Não gosta! Acostumou-se, só isso. Vejo-o dançar há anos, e observo sempre os mesmos movimentos, mal executados. Ele não se orgulha de sua arte, a não ser quando fala dela. Não tem amor por ela, e por isso, ano após ano, repete os mesmos movimentos. O que era mau era sua dança a princípio, fixou-se. Ele nem repara mais.

— Aprendeu a dançar assim — disse Eligio. — Eu também fui dançarino na cidade de Torim. Sei que a gente tem de dançar como nos ensinam.

— Valencio não é o melhor dançarino, de qualquer forma — disse Esquere. — Existem outros. E Sacateca?

— Sacateca é um homem de conhecimento, não está na mesma categoria de vocês — replicou Dom Juan, severamente. — Ele dança porque assim é a sua natureza. Eu só queria dizer que vocês, que não são dançarinos, não o apreciam. Talvez, se as danças forem bem dançadas, alguns de vocês terão prazer nisso, Mas não são muitos de vocês que sabem assim muita coisa a respeito da dança; portanto, ficam com um prazer muito mesquinho. É por isso que vocês são todos uns bêbados. Olhem para meu neto aqui!

— Deixe disso, Vovô! — protestou Lúcio.

— Não é preguiçoso nem burro — continuou Dom Juan — porém, o que mais faz ele, a não ser beber?

— Compra casacos de couro! — observou Genaro, e todos deram gargalhadas. Lúcio engoliu mais bacanora.

— E de que modo é que o peiote pode mudar isso? — indagou Eligio.

— Se Lúcio procurasse um protetor — respondeu Dom Juan — a vida dele se modificaria. Não sei exatamente como, mas tenho certeza de que seria diferente,

— Ele deixaria de beber, é isso? — insistiu Elígio.

— Talvez. Ele precisa de mais alguma coisa, além da tequila, para tornar a sua vida agradável. E essa coisa, seja o que for, pode ser fornecida pelo protetor.

— O peiote então deve ter um gosto muito bom — disse Eligio.

— Eu não disse isso — falou Dom Juan.

— Mas se não tem gosto bom, como é que podia fazer-nos gozar mais a vida? — insistiu Eligio. — Isso não faz sentido.

— Claro que sim — disse Genaro, com convicção. — O peio­te deixa a pessoa maluca, e então ela pensa que está tendo uma vida ótima, não importa o que fizer.

 

Todos riram de novo.

 

— Faz sentido sim — continuou Dom Juan, sem se perturbar. — Se você pensar em como é pouco o que conhecemos e quanto mais existe para se ver. A bebida é o que enlouquece as pessoas. Turva as imagens. Mescalito, por outro lado, faz tudo se destacar. Faz a gente ver tão bem. Tão bem!

 

Lúcio e Benigno se entreolharam e sorriram, como se já tivessem ouvido aquela história. Genaro e Esquere ficaram mais impacientes e começaram a falar ao mesmo tempo. Victor ria, acima de todas as outras vozes. O único que parecia interessado era Eligio.

 

— Como é que o peiote pode fazer tudo isso? — perguntou.

— Em primeiro lugar — explicou Dom Juan — você tem de querer conhecê-lo, e eu acho que isso é de longe o mais importante. Depois, tem de ser oferecido a ele, e tem de o encontrar muitas vezes antes de poder dizer que o conhece.

— E então o que é que acontece? — perguntou Eligio.

— Você caga no teto com a bunda no chão — interrompeu Genaro. Os outros deram gargalhadas.

— O que acontece depois depende inteiramente de você — continuou Dom Juan, sem perder a paciência. — Você deve ir até ele sem medo e, pouco a pouco, ele lhe ensinará a levar uma vida melhor.

 

Fez-se uma pausa longa. Os homens pareciam estar cansados. A garrafa estava vazia. Lúcio, com uma relutância evidente abriu outra.

 

— O peiote também é protetor de Carlos? — perguntou Eli­gio, em tom de brincadeira.

— Não posso falar sofre isso — disse Dom Juan. — Ele já o tomou três vezes, peça que lhe conte a respeito.

 

Todos se viraram para mim, curiosos, e Eligio perguntou:

 

— Você o tomou mesmo?

— Sim.

 

Parecia que Dom Juan tinha ganho um tento com o pessoal. Ou eles estavam interessados em saber de minha experiência, ou eram educados demais para rir na minha cara.

 

— Não lhe machucou a boca? — perguntou Lúcio.

— Machucou. E tinha um gosto horrível.

— Então, por que o tomou? — perguntou Benigno. Comecei a explicar-lhes, em linguagem complicada, que, para um ocidental, o conhecimento que Dom Juan tinha sobre o peiote era uma das coisas mais fascinantes que se podia encontrar. Disse que tudo o que ele dissera a respeito do peiote era verdade e que cada um de nós poderia verificar essa verdade por si.

 

Reparei que todos estavam sorrindo, como se estivessem disfarçando seu desprezo. Fiquei muito encabulado. Tinha consciência da minha falta de jeito para transmitir o que eu realmente estava pensando. Falei por mais algum tempo, mas tinha perdido o impulso e só repeti o que Dom Juan já dissera. Este me socorreu, perguntando num tom tranqüilizador:

 

— Você não estava buscando um protetor quando procurou Mescalito pela primeira vez, estava?

 

Respondi que não sabia que Mescalito podia ser um protetor e que fui levado apenas por minha curiosidade e um grande desejo de conhecê-lo.

 

Dom Juan confirmou que minhas intenções eram impecáveis e que, devido a isso, Mescalito tinha tido um efeito benéfico sobre mim.

— Mas fez você vomitar e urinar por toda parte, não foi? — insistiu Genaro.

 

Disse-lhe que, de fato, o peiote me afetara daquela maneira, Todos riram constrangidos. Senti que me desprezavam ainda mais. Não pareciam estar interessados, a não ser Eligio, que me estava olhando fixamente.

 

— O que foi que você viu? — perguntou ele.

 

Dom Juan pediu-me que lhes contasse todos ou quase todos os detalhes marcantes de minhas experiências, de modo que descrevi a ordem e a forma do que eu tinha percebido. Quando ter­minei, de falar, Lúcio fez um comentário.

 

— Se o peiote é assim tão esquisito, fico contente por nunca o ter tomado.

— É assim mesmo como eu falei — disse Genaro a Bajea. — Aquele negócio deixa a pessoa maluca.

— Mas Carlos não está maluco agora. Como é que você explica isso? — perguntou Dom Juan a Genaro.

— Como é que sabemos que ele não está maluco? — retrucou Genaro. Todos riram, inclusive Dom Juan.

— Você teve medo? — perguntou Benigno.

— Por certo que sim.

— Então, por que o fez — perguntou Eligio.

— Ele disse que queria conhecer — respondeu Lúcio por mim. — Acho que Carlos está ficando igual a meu avô. Ambos ficam dizendo que querem saber, mas ninguém sabe que diabo eles querem saber ou conhecer.

— Ê impossível explicar esse conhecimento — falou Dom Juan a Eligio — porque é diferente em relação a cada homem. A única coisa que é comum a todos nós é que Mescalito revela seus segredos em particular a cada homem. Sabendo o que Genaro sente, não recomendo que ele conheça Mescalito. No entanto, a despeito de minhas palavras, ou dos seus sentimentos, Mescalito poderia ter um efeito inteiramente benéfico sobre ele, Mas somente ele poderia descobrir isso e é esse o conhecimento de que venho falando. — Dom Juan levantou-se. — Está na hora de ir para casa — disse ele. — Lúcio está bêbado e Victor está dormindo.

 

Dois dias depois, no dia 6 de setembro, Lúcio, Benigno e Eli­gio foram à casa onde eu estava hospedado, para ir caçar comigo. Ficaram calados por algum tempo, enquanto eu continuava a escrever minhas anotações. Então, Benigno sorriu educadamente, como aviso de que ia dizer alguma coisa importante. Depois de um silêncio preliminar embaraçoso, ele tornou a rir e disse:

 

— Lúcio está dizendo que tomaria um peiote. — Tomaria mesmo? — perguntei.

— Sim. Eu não me importaria.

 

O riso de Benigno vinha aos borbotões.

 

— Lúcio diz que toma peiote se você lhe comprar uma motocicleta.

 

Lúcio e Benigno se entreolharam e deram uma gargalhada.

 

— Quanto custa uma moto nos Estados Unidos? — perguntou Lúcio.

— Você provavelmente conseguiria uma por uns cem dólares. — disse eu.

— Isso não é muito dinheiro lá, não ê? Você poderia facilmente comprá-la para ele — indagou Benigno.

— Bem, deixe eu perguntar a seu avô primeiro — falei a Lúcio.

— Não, não — protestou ele. — Não lhe diga nada. Ele vai estragar tudo. Ê um esquisitão. E além disso, está muito velho e caduco, e não sabe o que faz.

— Ele já foi um feiticeiro mesmo — acrescentou Benigno, — Quero dizer, de verdade. Meu pessoal diz que ele foi o maior, Mas deu para tomar peiote e virou um joão-ninguém. Agora está muito velho.

— E fica repetindo as mesmas histórias manjadas de peiote — disse Lúcio.

— Esse peiote é uma besteira — disse Benigno. — Sabe, experimentamos uma vez. Lúcio arranjou um saco cheio do avô. Uma noite, estávamos indo para a cidade e o mascamos. Filho da mãe! Feri toda a minha boca. Tinha um gosto horrível!

— Vocês o engoliram? — perguntei.

— Nós o cuspimos — disse Lúcio — e jogamos fora o saco inteiro.

 

Os dois pareciam achar o incidente muito divertido. Enquanto isso, Eligio não dizia uma palavra. Estava distante, como sempre. Nem ria.

 

— Você gostaria de provar, Eligio? — perguntei.

— Não, Eu não. Nem mesmo por uma motocicleta.

 

Lúcio e Benigno pareceram achar aquilo engraçadíssimo e tornaram a dar gargalhada.

 

— Não obstante, — continuou Eligio — tenho de confessar que Dom Juan me intriga.

— Meu avô é velho demais para conhecer alguma coisa — disse Lúcio, muito convicto.

— Sim, está muito velho — repetiu Benigno.

 

Achei que a opinião que os dois rapazes tinham de Dom Juan era infantil e infundada. Pensei ser meu dever defender o caráter dele e disse-lhes que, a meu ver, Dom Juan era naquele momento, como o fora no passado, um grande feiticeiro, talvez até o maior de todos. Falei que achava que havia nele alguma coisa, algo de realmente extraordinário. Incitei-os a se lembrarem de que ele tinha mais de 70 anos e, no entanto, era mais ativo e forte do que nós todos juntos. Desafiei os rapazes a tirarem a prova disso, tentando apanhar Dom Juan de surpresa,

— A gente não pode apanhar meu avô de surpresa — disse Lúcio, com orgulho — Ele é um brujo.

 

Lembrei-lhe que eles tinham dito que ele estava muito velho e caduco, e que uma pessoa caduca não sabe o que se passa em volta de si. Falei que me admirara da vivacidade de Dom Juan inúmeras vezes.

 

— Ninguém consegue apanhar um brujo de surpresa, mesmo que ele seja velho — disse Benigno com autoridade. — Mas podem dominá-lo quando está dormindo. Foi o que aconteceu com um sujeito de nome Cevicas. As pessoas se cansaram de seu feitiço malvado e mataram-no.

 

Pedi que me descrevessem todos os detalhes dessa ocorrência, mas disseram que aquilo acontecera antes do tempo deles, ou quando ainda eram muito crianças. Eligio ajuntou que as pessoas acre­ditavam, secretamente, que Cevicas só tinha sido um louco, e que ninguém conseguia fazer mal a um feiticeiro de verdade. Procurei indagar mais sobre suas opiniões a respeito dos feiticeiros, mas não pareciam estar muito interessados no assunto. Além disso, estavam ansiosos por partir para experimentar a carabina calibre 22 que eu tinha levado.

 

Caminhamos calados por algum tempo, em direção ao chapar­ral fechado, e depois Elígio, que estava na frente da fila, virou-se para mim e disse:

 

— Talvez nós é que sejamos os loucos. Talvez Dom Juan tenha razão. Veja como vivemos.

 

Lúcio e Benigno protestaram. Procurei conciliar as coisas. Concordei com Eligio e disse-lhe que eu mesmo tinha achado isso, que minha maneira de viver era errada, de alguma maneira. Benigno disse que eu não tinha o direito de reclamar de minha vida, que eu possuía dinheiro e um carro. Respondi que era fácil eu dizer que eles estavam em melhor situação, porque cada qual tinha a sua terrazinha. Argumentaram em coro que o dono de suas terras era o Banco Federal. Disse-lhes que também não era dono de meu carro, que o dono era um banco na Califórnia, e que minha vida só era diferente, e não melhor do que a deles. A essa altura, já estávamos ao meio do mato.

 

Não encontramos nenhum veado nem javali, mas conseguimos três coelhos. Na volta paramos na casa de Lúcio e ele declarou que a mulher ia fazer um ensopado de coelha. Benigno foi ao armazém comprar uma garrafa de tequila e umas sodas. Quando voltou, Dom Juan veio com ele.

 

— Encontrou meu avô no armazém comprando cerveja? — perguntou Lúcio, rindo.

— Não fui convidado para essa reunião — disse Dom Juan. — Só passei aqui para perguntar se Carlos vai para Hermosillo.

 

Disse-lhe que estava pretendendo partir no dia seguinte, e en­quanto conversávamos Benigno distribuiu as garrafas. Eligio deu a dele a Dom Juan, e como, entre os yaquis, uma recusa, mesmo por cortesia, é uma falta de educação tremenda, Dom Juan aceitou-a calado. Dei a minha a Eligio e ele foi obrigado a ficar com ela. Assim, Benigno por sua vez me deu a garrafa dele. Mas Lúcio, que já tinha obviamente concebido todo o esquema de boas maneiras yaqui, já tinha acabado de beber a sua soda. Virou-se para Benigno, que estava com uma expressão patética na fisionomia, e disse, rindo:

 

— Você foi ludibriado com sua garrafa.

 

Dom Juan disse que nunca bebia soda e colocou sua garrafa nas mãos de Benigno. Ficamos sentados debaixo da ramada em silêncio. Eligio parecia estar nervoso. Ficou remexendo na aba do chapéu.

 

— Estive pensando no que você disse a outra noite — falou de a Dom Juan. —- De que modo o peiote pode modificar a nossa vida? Como?

 

Dom Juan não respondeu. Ficou olhando fixamente para Eligio por um momento e depois começou a cantar em yaqui. Não era propriamente uma canção, mas uma recitação curta. Ficamos cala­dos por muito tempo. Depois, pedi a Dom Juan que me traduzisse as palavras yaquis.

 

— Isso foi só para yaquis — falou ele, com naturalidade. Senti-me deprimido. Estava certo de que ele dissera coisas de muita importância.

 

— Eligio é um índio — disse Dom Juan para mim, afinal —. e como índio, Eligio não possui nada. Nós, índios, não possuímos nada. Tudo o que você vê por aqui pertence aos yoris. Os yaquis só possuem seu ódio e aquilo que a terra lhes oferece de graça.

 

Ninguém pronunciou uma palavra por algum tempo, e depois Dom Juan levantou-se, despediu-se e foi embora. Ficamos olhando-o, até que desaparecesse numa curva do caminho. Nós todos parecíamos estar nervosos. Lúcio nos disse, de maneira meio desorientada, que o avô não tinha ficado porque detestava ensopado de coelho. Eligio estava absorto em seus pensamentos. Benigno virou-se para mim e disse, bem alto:

 

— Acho que o Senhor vai castigar você e Dom Juan pelo que estão fazendo.

 

Lúcio começou a rir e Benigno acompanhou-o.

 

— Você está fazendo palhaçada, Benigno — replicou Eligio, sério. — O que você acabou de dizer não vale nada.

 

15 de setembro de 1968

Eram nove horas da noite, num sábado. Dom Juan estava sentado defronte de Eligio, no meio da ramada da casa de Lúcio. Dom Juan colocou seu saco de botões de peiote entre eles e cantou, ba­lançando o corpo levemente para a frente e para trás. Lúcio, Benigno e eu estávamos sentados a mais ou menos um metro e meio atrás de Eligio, encostados na parede. A principio, estava bem es­curo, Tínhamos ficado sentados dentro de casa, debaixo do lampião de gasolina, esperando Dom Juan. Ele nos chamara para a ramada quando chegou e nos dissera onde sentar. Depois de certo tempo, meus olhos se acostumaram com o escuro. Reparei que Eligio parecia apavorado. O corpo dele tremia todo; os dentes batiam incontrolavelmente. Estava convulsionado, com repuxões espasmódicos da cabeça e das costas.

 

Dom Juan falou com ele, dizendo-lhe para não ter medo e confiar no protetor e não pensar em mais nada. Displicentemente, tomou um botão de peiote e ofereceu-o a Eligio, dizendo-lhe que o mastigasse muito devagar. Eligio ganiu como um cachorrinho e recuou. Sua respiração estava muito rápida e parecia o som de foles. Tirou o chapéu e enxugou a testa. Cobriu a cara com as mãos. Pensei que ele estivesse chorando. Passou-se um momento prolonga­do e tenso, até ele conseguir controlar-se. Endireitou-se no lugar e, ainda cobrindo o rosto com uma das mãos, pegou o botão de peiote e começou a mascá-lo.

 

Senti uma apreensão tremenda. Até então eu n5o tinha percebi­do que talvez estivesse com tanto medo quanto Eligio. Minha boca tinha uma secura semelhante à produzida pelo peiote. Eligio mastigou o botão por muito tempo. Minha tensão aumentou. Comecei a ganir involuntariamente, enquanto minha respiração tornava-se ofegante.

 

Dom Juan começou a cantar em voz mais alta; ofereceu outro botão a Eligio e, depois que o rapaz o terminou, ofereceu-lhe frutas secas, mandando que mastigasse bem devagar.

 

Eligio levantou-se várias vezes, dirigindo-se para o mato. Em certo ponto, pediu água. Dom Juan disse-lhe que não a bebesse, e apenas bochechasse com ela, Eligio mastigou mais dois botões e Dom Juan lhe deu carne-seca.

 

Quando chegou a mascar seu décimo botão, eu já estava quase doente de ansiedade. De repente. Eligio caiu para a frente e bateu com a testa no chão. Rolou para o lado esquerdo e teve convulsões. Olhei para o relógio. Eram onze e vinte, Eligio se remexeu, tremeu e gemeu por mais de uma hora, deitado no chão.

 

Dom Juan permaneceu na mesma posição, defronte dele. Suas canções de peiote eram quase um murmúrio. Benigno, que estava sentado à minha direita, parecia estar desatento; Lúcio, junto dele, tinha caído de lado e estava roncando.

 

O corpo de Eligio amontoou-se numa posição contorcida. Es­tava deitado sobre o lado direito, de frente para mim e com as mãos entre as pernas. Seu corpo deu um salto imenso e ele se virou de costas, com as pernas ligeiramente dobradas. Sua mão esquerda agitou-se para fora e para cima, num gesto extremamente livre e elegante. A mão direita repetiu o gesto e, depois, ambos os braços alternaram-se num movimento lento e trêmulo, semelhante ao de um harpista. O movimento foi-se tornando mais forte, aos poucos. Os braços dele tinham uma vibração visível, e subiam e desciam como pistões. Ao mesmo tempo, suas mãos giravam para a frente, com movimento do pulso, e seus dedos vibravam. Era uma visão bela, hipnótica e harmoniosa. Achei seu ritmo e controle muscular uma coisa incomparável.

 

Então, Eligio levantou-se devagar, como se se esticasse contra uma força envolvente. Seu corpo tremeu. Ele se agachou e depois empurrou-se, tomando uma posição ereta. Seus braços, tronco e cabeça tremiam como se uma corrente elétrica intermitente estivesse passando por eles. Era como se uma força fora de seu controle o estivesse impelindo ou levantando.

 

Os cânticos de Dom Juan estavam bem altos. Lúcio e Benigno acordaram e olharam para a cena desinteressadamente por algum tempo, e depois voltaram a dormir.

 

Eligio parecia estar-se levantando cada vez mais. Era como se estivesse trepando em alguma coisa. Punha as mãos em concha e parecia agarrar objetos fora de meu campo de visão. Endireitou-se e parou para tomar fôlego.

 

Queria olhar seus olhos e me aproximei dele, mas Dom Juan me lançou um olhar feroz e eu recuei para meu lugar.

 

Então, Eligio deu um salto. Era um salto final, formidável. Aparentemente, tinha alcançado sua meta. Bufava e soluçava com o esforço. Parecia estar agarrado a uma saliência de rocha. Mas alguma coisa o perseguia. Gritou desesperadamente. Suas mãos de­ram mostras de que se iam soltar e ele começou a cair. Seu corpo arqueou-se para trás, convulsionando-se da cabeça aos pés com um tremor lindo e coordenado. O tremor percorreu-o talvez umas cem vezes, até seu corpo cair como um saco sem vida.

 

Depois de certo tempo, ele estendeu os braços diante de si, como se estivesse protegendo o rosto. Suas pernas se esticaram para trás, enquanto Eligio se deitava de bruços; elas estavam arqueadas alguns centímetros acima do chão, dando a seu corpo a aparência exata de estar deslizando ou voando numa velocidade incrível. Sua cabeça estava arqueada o mais possível para trás, seus braços cruzados sobre os olhos, protegendo-os. Eu sentia o vento uivando em volta dele. Prendi a respiração e, sem querer, dei um grito alto. Lúcio e Benigno acordaram e olharam para Eligio com curiosidade.

— Se você prometer comprar-me uma motocicleta, eu agora o tomarei — declarou Lúcio em voz alta.

 

Olhei para Dom Juan. Ele fez um gesto imperioso com a cabeça.

 

— Filho da mãe! — resmungou Lúcio, e voltou a dormir.

 

Eligio levantou-se e começou a caminhar. Deu uns dois passos em minha direção e parou. Via-o sorrindo com urna expressão feliz. Tentou assobiar. Não havia som claro, e no entanto havia harmonia. Era uma melodia. Só tinha alguns compassos, que ele repetia muitas vezes. Em seguida, o assobio tornou-se distintamente audível, e depois virou uma melodia definida. Eligio murmurava palavras ininteligíveis. Elas pareciam ser a letra da melodia. Repetiu-o horas a fio. Uma canção muito simples, repetida, monótona, e no entanto estranhamente bela.

 

Eligio parecia estar olhando para alguma coisa, enquanto cantava. Em certo momento, chegou bem perto de mim. Vi seus olhos na semi-escuridão. Estavam vidrados, petrificados. Ele riu alto. Caminhou, sentou-se e tornou a caminhar, gemendo e suspirando.

 

De repente, alguma coisa pareceu empurrá-lo por trás. O corpo dele arqueou-se no meio, como se movido por uma força direta. Em certo momento, Eligio estava equilibrado nas pontas dos pés, descrevendo quase um círculo completo, as mãos tocando o chão. Ele tomou a cair, lentamente, de costas, e esticou-se todo, numa estranha rigidez.

 

Ficou choramingando e gemendo um pouco, e depois começou a roncar. Dom Juan cobriu-o com uns sacos de aniagem. Eram 5:35 da manhã.

 

Lúcio e Benigno tinham adormecido ombro a ombro, encostados na parede. Dom Juan e eu ficamos ali sentados, calados, mui­to tempo. Ele parecia estar cansado. Rompi o silêncio e perguntei-lhe acerca de Eligio. Dom Juan me disse que o encontro de Eligio com Mescalito tinha sido excepcionalmente bem sucedido. Mescalito lhe ensinara uma canção da primeira vez que o encontrava e isso era realmente extraordinário.

 

Perguntei-lhe por que não tinha deixado que Lúcio tomasse peiote em troca de uma motocicleta. Respondeu que Mescalito teria matado Lúcio se o rapaz se aproximasse dele nessas condições. Dom Juan confessou que tinha preparado tudo com cuidado para convencer o neto; disse que contava com minha amizade com Lúcio como parte central em sua estratégia. Disse que Lúcio sempre o preocupara muito e que, em certa ocasião, eles tinham morado juntos e sido muito íntimos, mas que Lúcio ficou gravemente doente aos sete anos s o filho de Dom Juan, católico fervoroso, fez uma promessa à Virgem de Guadalupe de que Lúcio ingressaria para uma sociedade religiosa de danças, se sua vida fosse poupada. Lúcio restabeleceu-se e foi abrigado a cumprir a promessa. Ele permaneceu uma semana como aprendiz, e então resolveu quebrar a promessa. Pensou que iria de morrer por isso, preparou-se e durante um dia inteiro esperou que a morte chegasse. Todos caçoaram do garoto e o incidente nunca mais foi esquecido.

 

Dom Juan ficou calado por muito tempo. Parecia estar absorto em seus pensamentos.

 

— Preparei tudo para Lúcio — falou — e, em vez dele, encontrei Eligio. Eu sabia que era inútil, mas, quando gostamos de uma pessoa, devemos insistir, corno se fosse possível refazer os homens. Lúcio tinha coragem quando era pequeno e depois perdeu-a pela vida afora.

— Você não pode enfeitiçá-lo, Dom Juan?

— Enfeitiçá-lo? Para quê?

— Para ele se modificar e recuperar sua coragem.

— A gente não enfeitiça ninguém para ter coragem. Ela é uma coisa pessoal. O feitiço é para tornar as pessoas inofensivas, ou doentes ou burras Não se enfeitiça para fazer guerreiros. Para ser um guerreiro, e preciso ser claro como o cristal, como Eligio. Este é um homem de coragem!

Eligio roncava pacatamente debaixo dos sacos de aniagem. Já era dia claro. O céu estava de um azul puríssimo. Não se via uma nuvem.

 

— Eu daria tudo no mundo — falei — para saber a respeito da viagem de Eligio. Importar-se-ia se eu pedisse a ele para me contar?

— De maneira alguma você deve fazer isso!

— Por que não? Conto-lhe todas as minhas experiências.

— Isso é diferente. Não está na sua natureza guardar as coi­sas para si, Eligio é índio. A viagem dele é tudo o que tem. Quem me dera que tivesse sido Lúcio.

— Não há nada que você possa fazer, Dom Juan?

— Não. Infelizmente, não há jeito de se dar ossos a uma água-viva. Foi uma loucura minha.

 

O Sol saiu. Sua luz ofuscou meus olhos cansados.

 

— Já me disse várias vezes, Dom Juan, que um feiticeiro não pode cometer loucuras. Nunca pensei que você cometesse.

 

Dom Juan olhou para mim de maneira penetrante. Levantou-se, dirigiu um olhar para Eligio e outro para Lúcio. Meteu o chapéu na cabeça, batendo em cima dele.

 

— É possível insistir, insistir realmente, mesmo sabendo que o que se está fazendo é inútil — disse ele, sorrindo. — Mas primeiro temos de saber que nossos atos são inúteis e, no entanto, temos de proceder como se não soubéssemos, É esta a loucura controlada de um feiticeiro.

 

Voltei à casa de Dom Juan no dia 3 de outubro de 1968, com o único objetivo de indagar acerca dos fatos referentes à iniciação de Eligio. Uma torrente de perguntas quase infindável me ocorrera ao reler o relato do que acontecera naquela ocasião. Eu queria explicações muito precisas, de modo que preparei uma lista de perguntas com antecedência, escolhendo com cuidado as palavras mais adequadas.

 

— Naquela noite eu vi. Dom Juan? — perguntei.

— Quase.

— Você viu que eu estava vendo os movimentos de Eligio?

— Sim. Eu vi que Mescalito estava permitindo que você visse parte da lição de Eligio, pois senão você estaria olhando para um homem sentado ali, ou talvez deitado ali. No último mitote você não reparou que os homens estivessem fazendo alguma coisa, não foi?

 

No último mitote eu não tinha reparado em homem algum fazendo movimentos fora do comum. Falei-lhe que podia dizer com segurança que só o que eu registrara em minhas anotações era que alguns deles se levantavam e iam ao mato mais freqüentemente do que outros.

 

— Mas você quase viu toda a lição de Eligio — continuou Dom Juan. — Pense só nisso. Entende agora como Mescalito é generoso com você? Mescalito nunca foi tão delicado com ninguém, que eu saiba. Ninguém. E, no entanto, você não tem consideração pela generosidade dele. Como é que pode desprezá-lo tão rudemente? Ou talvez eu deva perguntar, em troca de que está desprezando Mescalito?

 

Senti que Dom Juan estava mais uma vez me encurralando. Não era capaz de responder à pergunta dele. Eu sempre acreditara que havia largado o aprendizado para me salvar, e no entanto não tinha idéia do que me estava salvando, nem para quê. Quis mudar logo o rumo da conversa, e para isso desisti de minha intenção de continuar com todas as minhas perguntas preconcebidas e fiz a pergunta mais importante de todas.

 

— Será que você me conta mais a respeito de sua loucura controlada?

— O que é que você quer saber a respeito?

— Diga-me, por favor, Dom Juan, o que é exatamente a loucura controlada?

Dom Juan riu à grande e provocou um estalo, dando uma palmada em sua coxa.

 

— Isto é loucura controlada! — falou, e tornou a dar uma palmada na coxa.

— O que quer dizer?.. .

— Estou contente que você afinal me pergunte acerca de minha loucura controlada, depois de tantos anos, e no entanto não teria a mínima importância para mim, se você nunca perguntasse. E no entanto resolvi ficar feliz, como se me importasse, porque você perguntou, como se importasse que eu ligasse. Isso é loucura controlada!

 

Nós dois rimos muito. Abracei-o. Achei a explicação dele uma delícia, embora não a entendesse muito bem.

 

Estávamos sentados, como sempre, na área bem defronte da porta da casa dele. Era o meio da manhã. Dom Juan tinha um monte de sementes em frente de si e estava catando-as. Ofereci-me para ajudar, mas ele recusou; disse que as sementes eram um presente de um dos amigos de!e no México Central e que eu não tinha poder suficiente para tocá-las.

 

— Com quem você pratica a sua loucura controlada, Dom Juan? — perguntei, depois de um longo silêncio. Ele riu.

— Com todo mundo!

— Então, quando é que você resolve praticá-la?

— Cada vez que eu ajo.

 

Achei necessário recapitular, nesse ponto, e perguntei-lhe se a loucura controlada significava que os atos dele nunca eram sinceros, e apenas os atos de um ator.

 

— Meus atos são sinceros — disse ele — mas são apenas. os atos de um ator.

— Então, tudo o que você faz deve ser loucura controlada! — falei, realmente surpreendido.

— Sim, tudo.

— Mas isso não pode ser verdade — protestei — não acredito que todos seus atos sejam só loucura controlada.

— Por que não? — respondeu ele, com um ar misterioso.

— Isso significaria que nada lhe importa e você não liga real­mente para nada ou ninguém. Veja o meu caso, por exemplo. Quer dizer que não se importa se eu me tornar um homem de conhecimento, se eu viver ou morrer, ou fizer qualquer coisa?

— É verdade! Não me importo. Você é como Lúcio, ou qual­quer outra pessoa em minha vida, minha loucura controlada.

 

Senti uma sensação especial de vazio. Evidentemente, não ha­via um motivo no mundo por que Dom Juan devesse importar-se comigo, mas, por outro lado, eu tinha quase certeza de que ele me estimava, pessoalmente; achava que não podia deixar de ser assim, pois ele sempre me dera toda sua atenção, em todos os momentos em que estivera com ele. Ocorreu-me que talvez Dom Juan estivesse apenas dizendo aquilo por estar aborrecido comigo. Afinal de contas, eu tinha largado os ensinamentos dele.

 

— Estou com a impressão de que não estamos falando sobre a mesma coisa. Eu não devia ter usado o meu caso como exemplo. O que eu queria dizer era que devia haver alguma coisa no mundo com a qual você se importe e que não seja loucura controlada. Não creio que seja possível a gente continuar a viver se nada realmente nos importa.

 

— Isso se aplica a você — respondeu. — As coisas impor­tam a você. Perguntou-me acerca de minha loucura controlada e eu lhe disse que tudo o que faço com relação a mim e meus semelhante é loucura, pois nada importa.

 

— O que eu digo, Dom Juan, é que, se nada lhe importa, como é que você pode continuar a viver?

 

Riu depois de um momento, em que parecia estar resolvendo se devia ou não responder-me; levantou-se e foi para os fundos da casa. Acompanhei-o.

— Espere, espere, Dom Juan — falei, — Quero mesmo saber; você tem de me explicar o que quer dizer.

— Talvez não seja possível explicar — disse ele. — Certas coisas em sua vida lhe importam porque são importantes; seus atos certamente são importantes para você, mas, para mim, não há mais nenhuma coisa importante, nem os meus atos nem os de meus semelhantes. Mas continuo a viver porque tenho minha vontade. Porque temperei minha vontade em toda minha vida, até ela se tornar limpa e sadia, e agora não mais me importa o fato de nada importar. Minha vontade controla a loucura de minha vida.

 

Agachou-se e passou os dedos por umas ervas que tinha posto a secar ao Sol num pedaço de pano.

 

Eu estava confuso. Jamais poderia ter antecipado o rumo que minha pergunta tomaria. Depois de algum tempo, pensei num bom argumento. Disse-lhe que, em minha opinião, alguns dos atos de meus semelhantes tinham a maior importância. Observei que a guerra nuclear era positivamente o exemplo mais dramático de um desses atos. Disse que, para mim, a destruição da vida na face da terra era um ato de uma enormidade arrasante.

 

— Você crê nisso porque está pensando. Está pensando na vida — disse Dom Juan, com um brilho nos olhos. — Não está vendo.

— Eu sentiria outra coisa se estivesse vendo? — perguntei.

— Quando o homem aprender a ver, ele se encontra sozinho no mundo, apenas com a loucura — disse Dom Juan, misteriosa­mente. Parou um momento e olhou para mim como se quisesse avaliar o efeito de suas palavras. — Seus atos, bem como os atos de seus semelhantes em geral, parecem-lhe importantes porque você aprendeu a pensar que são importantes.

 

Ele usou a palavra "aprendeu" com uma entonação tão especial que me levou a perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Parou de mexer nas plantas e olhou para mim.

 

— Aprendemos a pensar sobre tudo — disse ele — e depois exercitamos nossos olhos para olharem como pensamos a respeito das coisas que olhamos. Olhamos para nós mesmos já pensando que somos importantes. E, por isso, temos de sentir-nos importantes! Mas quando o homem aprende a ver, entende que não pode mais pensar a respeito das coisas que ele olha, e se não pode mais pensar sobre as coisas que olha, tudo fica sem importância.

 

Dom Juan deve ter percebido minha expressão intrigada, de modo que repetiu suas declarações três vezes, como que para me fazer entendê-las. O que ele dizia a princípio me parecia besteira, porém, depois que pensei naquilo, suas palavras apareciam mais como uma declaração complexa a respeito de alguma faceta da percepção.

 

Tentei imaginar unia boa pergunta que o levasse a esclarecer seu argumento, mas não consegui pensar em nada, De repente, senti-me exausto e não consegui mais raciocinar claramente.

 

Dom Juan pareceu observar minha fadiga e me afagou delicadamente.

 

— Limpe essas plantas — falou — e depois pique-as com cuidado e ponha nesse pote aqui.

 

Entregou-me um vidro de café grande e foi embora.

 

Voltou para casa horas depois, já de tardinha. Eu tinha acabado de picar as plantas dele e tinha tido bastante tempo para escrever meus apontamentos. Queria logo fazer-lhe umas perguntas, mas ele não estava disposto a me responder. Disse que estava faminto e que primeiro tinha de preparar a comida. Acendeu o fogo era seu fogão de barro e pôs a ferver uma panela com um caldo de ossos. Olhou no saco de gêneros que eu tinha levado e pegou uns legumes, picou-os e jogou-os na panela. Depois, deitou-se em sua esteira, tirou as sandálias e disse-me para sentar mais perto do fogão, para poder ver o fogo.

 

Já estava quase escuro; de onde eu estava, via o céu no oeste. As bordas de umas nuvens densas estavam tingidas de um amarelo escuro, enquanto o centro das nuvens era quase negro. Eu ai comentar sobre a beleza das nuvens, mas ele falou primeiro.

 

— Bordas fofas e um centro espesso — disse ele, apontando para as nuvens.

 

As palavras dele foram tão perfeitamente a propósito que me sobressaltei

 

— Ia justamente falar-lhe sobre as nuvens.

— Então eu lhe passei a perna — falou. ele; e em seguida riu com uma despreocupação infantil.

 

Indaguei se ele estava disposto a responder a algumas perguntas.

 

— O que é que você quer saber?

— Aquilo que você me disse hoje à tarde sobre a loucura controlada me perturbou muito. Não consigo compreender o que você queria dizer.

— Claro que não consegue compreender — falou. — Você está tentando pensar a respeito, e o que eu disse não se coaduna com seus pensamentos.

— Estou tentando pensar a respeito, porque esse é o único meio pelo qual eu, pessoalmente, consigo entender alguma coisa. Por exemplo, Dom Juan, quer dizer que uma vez que o homem aprenda a ver, tudo no mundo passa a ser sem valor?

— Eu não disse sem Valor. Falei sem importância. Tudo é igual, e dessa forma sem importância. Por exemplo, não há meio de eu dizer que meus atos sejam mais importantes do que os seus, ou que uma coisa seja mais essencial do que outra; e, portanto, todas as coisas são iguais, e sendo iguais são sem importância.

 

Perguntei-lhe se suas declarações eram uma afirmação de que o que ele chamara de "ver" era realmente um "meio melhor" do que apenas "olhar para as coisas". Ele disse que os olhos do homem podiam desempenhar ambas as funções, mas que nenhuma das duas era melhor do que a outra; no entanto, treinar os olhos apenas para olhar, para ele, era um desperdício desnecessário.

 

— Por exemplo, precisamos olhar com nossos olhos para rir — disse ele — porque só quando olhamos para as coisas é que pegamos o lado engraçado do mundo. Por outro lado, quando os nossos olhos vêem, tudo é tão igual que nada é engraçado.

— Quer dizer, Dom Juan, que o homem que vê nunca pode rir?

Ficou calado por algum tempo.

— Talvez haja homens de conhecimento que nunca riem —

falou. — Mas não conheço nenhum. Aqueles que eu conheço vêem e olham, de modo que riem.

— Um homem de conhecimento também pode chorar?

— Suponho que sim, Nossos olhos olham, de modo que podemos rir, ou chorar ou regozijar-nos, ou ficar tristes, ou felizes. Pessoalmente não gosto de ficar triste, de modo que sempre que presencio alguma coisa que normalmente me entristeceria, limito-me a mudar meus olhos e vejo a coisa, em vez de simplesmente olhar para ela. Mas quando encontro alguma coisa engraçada, eu olho e rio.

— Mas então, Dom Juan, o seu riso é verdadeiro, e não a loucura controlada.

Dom Juan ficou olhando para mim fixamente.

 

— Converso com você porque me faz rir — disse ele. — Você me lembra uns ratos do deserto, de cauda peluda, que ficam presos quando enfiam os rabos nos buracos, tentando amedrontar os outros ratos, para roubar a comida deles. Você fica preso em suas próprias perguntas. Cuidado! Às vezes, aqueles ratos arrancam a cauda, tentando livrar-se.

 

Achei a comparação dele tão engraçada que ri. Dom Juan uma vez me mostrara uns roedores de cauda peluda, que pareciam uns esquilinhos gordos; a idéia de um daqueles ratos gorduchos arrancando o rabo era triste e, ao mesmo tempo, morbidamente engraçada.

 

— Meu riso, como tudo o que faço, é real — disse ele — mas também é loucura controlada porque é inútil; não altera nada e, no entanto, continuo a fazê-lo.

 

— Mas, a meu ver, Dora Juan, seu riso não é inútil. Ele o torna feliz.

— Não! Sou feliz porque prefiro olhar para coisas que me fazem feliz e depois meus olhos percebem o lado engraçado e eu rio. Já lhe disse isso inúmeras vezes. A gente deve sempre escolher o caminho com coração para ficar o melhor possível, talvez para poder sempre rir.

 

Interpretei o que ele dissera como significando que o choro era inferior ao riso, ou pelo menos talvez um ato que nos enfraquecia. Garantiu que não havia urna diferença intrínseca e que ambos eram sem importância: mas disse que ele preferia o riso, pois este fazia seu corpo se sentir melhor do que o choro.

 

Nesse ponto, sugeri que, se a gente tem uma preferência, então não há igualdade; se ele preferia rir a chorar, o primeiro era real­mente o mais importante.

 

Obstinadamente insistiu que sua preferência não significava que os dois não fossem iguais: eu argumentei que nossa discussão podia ampliar-se logicamente até se dizer que, se as coisas fossem assim tão iguais, por que também não escolher a morte?

 

— Há muitos homens de conhecimento que fazem isso — falou. — Um dia eles podem simplesmente desaparecer. As pessoas podem pensar que eles caíram numa emboscada e foram mortos por causa de seus atos. Preferem morrer porque não se importam. Por outro lado, prefiro viver e rir, não porque importe, mas porque essa escolha é de minha natureza. O motivo por que digo que prefiro é que eu vejo, mas não é que prefira viver; minha vontade me faz continuar a viver a despeito de tudo o que eu possa ver. Você não me está entendendo agora por causa de seu hábito de pensar enquanto pensa.

 

Essa declaração me intrigou muito. Pedi que ele explicasse o que queria dizer. Repetiu a mesma frase várias vezes, como que se dando tempo para arrumá-la em termos diferentes, e depois expôs seu argumento, afirmando que, por "pensar", ele queria dizer a idéia constante que temos de tudo no mundo. Disse que "ver" eliminava esse hábito e até eu aprender a "ver" eu não podia real­mente compreender o que ele queria dizer.

 

— Mas se nada tem importância, Dom Juan, por que importa que eu aprenda a ver?

— Já lhe disse uma vez que nosso destino como homem é aprender, para melhor ou pior — afirmou. — Aprendi a ver e lhe digo que nada realmente importa. Agora é sua vez. Talvez algum dia você aprenda a ver e então saberá se as coisas importam ou não. Para mim nada importa, mas talvez para você tudo importará. Você já devia saber que um homem de conhecimento vive pelos atos, não por pensar nos atos, e não por pensar no que vai pensar depois que acabar de agir. Um homem de conhecimento escolhe um caminho de coração e o segue; e depois olha e se regozija e ri; e então ele vê e sabe. Sabe que sua vida terminará muito depressa; sabe que ele, como todos os outros, não vai a parte alguma; sabe, por que vê, que nada é mais importante do que qualquer outra coisa. Em outras palavras, um homem de conhecimento não tem honra, nem dignidade, nem família, nem nome, nem prática, mas apenas a vida a ser vivida, e, nessas circunstâncias, sua única ligação com seus semelhantes é sua loucura controlada. Assim, o homem de conhecimento se esforça, transpira e bufa; e, se se olhar para ele, parece um homem comum, só que tem que a loucura de sua vida está controlada. Como nada é mais importante do que outra coisa qualquer, um homem de conhecimento escolhe qualquer ato e age como se lhe importasse. Sua loucura controlada o leva a dizer que o que ele faz importa e o faz agir como se importasse, e no entanto ele sabe que não é assim; de modo que, quando pratica seus atos, ele se retira em paz, e quer seus atos sejam bons ou maus, dêem certo ou não, isso não o afeta de todo.

 

"Um homem de conhecimento pode preferir, por outro lado, permanecer totalmente impassível e nunca agir, e comportar-se como se ser impassível realmente lhe importasse; ele também será sincero agindo assim, pois isso também seria sua loucura controlada".

 

Nesse ponto, meti-me num esforço muito complexo para explicar a Dom Juan que eu estava interessado era saber o que poderia motivar um homem de conhecimento para agir de determinada maneira, a despeito do fato dele saber que nada importava. Ele riu baixinho, antes de responder.

 

— Você pensa em seus atos — falou. — E, portanto, tem de acreditar que seus atos são tão importantes quanto você pensa que são, quando, na realidade, nada do que se faz é importante. Nada! Mas então, se nada importa realmente, conforme você me perguntou, como posso continuar a viver? Seria mais simples morrer; é isso que você diz e acredita, pois está pensando na vida, assim como agora está pensando em como seria ver. Queria que eu o descrevesse para você para poder começar a pensar a respeito, assim como faz com tudo o mais. No caso de ver, contudo, pensar não é a questão, em absoluto, de modo que não lhe posso dizer como é ver. Agora quer que eu descreva os motivos de minha loucura controlada, e só lhe posso dizer que a loucura controlada é muito parecida com ver: é uma coisa sobre a qual não se pode pensar.

 

Ele bocejou. Deitou-se de costas e esticou os braços e as per­nas. Os ossos dele estalaram.

 

— Esteve fora muito tempo — disse ele. — Você pensa de­mais.

 

Levantou-se e foi para o chaparral espesso ao lado da casa. Alimentei o fogo, para conservar a panela fervendo. Já ia acender um lampião de querosene, mas a penumbra era muito calmante. O fogo do fogão, que dava luz suficiente para eu escrever, também criava uma luminosidade vermelha em volta de mim. Larguei minhas notas no chão e deitei-me. Estava cansado. De toda essa conversa com Dom Juan, a única coisa pungente em meu espírito era que ele não ligava para mim; aquilo me perturbou muito. Durante vários anos, eu depositara confiança completa nele. Se não tivesse essa confiança, eu teria ficado paralisado de medo cora a idéia de aprender o conhecimento dele; a premissa em que eu baseara minha confiança era a idéia de que ele me apreciava pessoalmente; na verdade, eu sempre o temera, mas controlava meu medo porque confiava nele. Quando tirou aquela base, fiquei sem nada para me apoiar e senti-me desamparado.

 

Fui possuído de uma angústia muito estranha. Fiquei extrema­mente agitado e comecei a andar para um lado e outro diante do fogão. Dom Juan estava demorando muito. Esperei-o com impa­ciência.

 

Voltou um pouco depois; tornou a sentar-se defronte do fogo e eu exprimi meus receios. Disse-lhe que estava preocupado porque não era capaz de mudar de direção no meio do caminho; expliquei que, além da confiança que eu tinha nele, também havia aprendido a respeitar e considerar o modo de vida dele como sendo intrinsecamente mais racional, ou pelo menos mais funcional do que o meu. Disse que as palavras dele me haviam lançado num conflito terrível porque me obrigavam a modificar meus sentimentos. Para ilustrar meu ponto de vista, contei a Dom Juan a história de um senhor de minha cultura, um advogado muito rico e conservador, que viveu sua vida convencido de estar sustentando a verdade. No princípio dos anos de 1930, com o advento do New Deal, ele se viu envolvido apaixonadamente no drama político da época. Tinha certeza absoluta de que a mudança era nociva para o país e, por dedicação a seu modo de vida e a convicção de estar certo, jurou lutar contra o que considerava um mal político. Mas a maré dos tempos foi poderosa demais e venceu-o. Lutou durante dez anos contra aquilo na arena política e no setor de sua vida privada; depois, a Segunda Guerra Mundial reduziu seus esforços a uma derrota total. Sua queda política e ideológica produzira nele uma amargura profunda; tornou-se um exilado voluntário por 25 anos. Quando o conheci, tinha 84 anos e voltara para sua cidade natal para passar seus últimos anos num asilo de velhos. Parecia inconcebível para mim que tivesse vivido tanto tempo, considerando a maneira como havia desperdiçado sua vida na amargura e autocompaixão. Não sei por que motivo ele gostava de minha companhia e conversávamos muito.

 

Da última vez que o vi, ele concluiu nossa conversa com as seguintes palavras: "Tive tempo de olhar para trás e examinar minha vida. Hoje, os problemas do meu. tempo são apenas história; e nem mesmo uma história interessante. Talvez eu tenha desperdiçado anos de vida perseguindo uma coisa que nunca existiu. Ultimamente, tenho tido a impressão de que acreditei numa farsa. Não valia a pena. Creio que sei disso. No entanto, não posso recuperar os 40 anos que perdi."

 

Falei a Dom Juan que meu conflito era oriundo das dúvidas suscitadas pelas palavras dele a respeito da loucura controlada.

 

— Se nada importa realmente — disse eu — ao se tornar um homem de conhecimento, a pessoa se encontrará forçosamente tão varia quanto meu amigo, e numa situação nada melhor.

— Isso não é verdade — replicou Dom Juan, num tom cortante. — Seu amigo está solitário porque há de morrer sem ver. Em sua vida, apenas envelheceu e agora tem de ter mais pena de si ainda do que antes. Sente que jogou fora 40 anos porque andou atrás de vitórias e só encontrou derrotas. Nunca há de saber que ser vitorioso e ser derrotado são a mesma coisa.

 

"Então, agora tem medo de mim porque eu lhe disse que você é igual a tudo o mais. Está sendo infantil. Nosso destino como homens é aprender e a gente procura o conhecimento como vai para a guerra; já lhe disse uma centena de vezes. Vai-se ao conheci­mento ou à guerra com medo, com respeito, sabendo que se vai à guerra, e com uma confiança absoluta em si mesmo. Deposite sua confiança em si, não em mim".

 

"E então você teme o vazio da vida de seu amigo. Mas não existe vazio na vida de um homem de conhecimento, posso garantir-lhe, Tudo está cheio até à borda".

 

Dom Juan levantou-se e esticou os braços, como se estivesse tocando em coisas no ar.

 

"Tudo está cheio até à borda — repetiu ele — e tudo é igual. Não sou como seu amigo que apenas envelheceu. Quando lhe digo que nada importa, não o digo do jeito que ele o faz. Para ele, sua luta não valeu a pena porque ele foi vencido; para mim não há vi­tória, nem derrota, nem vazio. Tudo está cheio até à borda; tudo é igual, e minha luta valeu a pena".

 

"A fim de se tornar um homem de conhecimento, a pessoa tem de ser um guerreiro, não uma criança choramingas. É preciso lutar sem desistir, sem reclamar, sem hesitar, até ver, só para compreender então que nada importa".

 

Dom Juan mexeu a panela com uma colher de pau, A comida estava pronta. Tirou a panela do fogo e colocou-a num bloco de tijolo retangular, que ele tinha construído encostado à parede e que servia de prateleira ou mesa. Com o pé, ele empurrou dois caixotinhos, que serviam de cômodas cadeiras, especialmente se a pessoa se sentasse encostada nas vigas que sustentavam a parede. Fez-me sinal para sentar e depois serviu uma tigela de sopa. Sorriu; seus olhos brilhavam, como se ele realmente estivesse gostando de minha companhia. Empurrou a tigela para mim com delicadeza. Havia tanto carinho e bondade no seu gesto que parecia até um apelo para restabelecer minha confiança nele. Senti-me idiota; tentei mudar de disposição procurando minha colher, mas não a encontrei. A sopa estava muito quente para poder ser tomada diretamente da tigela, e enquanto ela esfriava, perguntei a Dom Juan se a loucura controlada significava que o homem de conhecimento não podia mais gostar de ninguém. Ele parou de comer e riu.

 

— Você se preocupa demais em gostar das pessoas ou em pensar se gostam de você — falou. — Um homem de conhecimento gosta e pronto.  Gosta daquilo ou da pessoa que quer, mas utiliza sua loucura controlada para não se preocupar com isso. O oposto do que você está fazendo agora. Gostar das pessoas ou ser apreciado por elas não é tudo o que se pode fazer, como homem.

 

Ficou olhando fixamente para mim, com a cabeça inclinada para um lado.

— Pense nisso — disse ele.

— Há mais uma coisa que desejo perguntar, Dom Juan. Você falou que temos de olhar com nossos olhos para rir, mas acredito que rimos porque pensamos.  Veja um cego, ele também ri.

— Não — respondeu. — Os cegos não riem. Seus corpos estremecem um pouco com o riso. Nunca viram a parte engraçada do mundo, e têm de imaginá-la. O riso deles não é uma gargalhada.

 

Não conversamos mais. Eu tinha uma sensação de bem-estar, de felicidade. Comemos em silêncio; depois, Dom Juan começou a rir. Eu estava usando um galho seco para pôr os legumes na boca.

 

4 de outubro de 1968

Em certo momento, perguntei a Dom Juan se ele se importava de falar mais um pouco a respeito de "ver". Pareceu pensar por um instante e depois sorriu, dizendo que eu estava de novo metido na minha rotina de sempre, querendo falar em vez de agir.

 

— Se você quer ver tem de deixar o fumo guiá-lo — disse ele, enfaticamente. — Não quero mais falar sobre isso.

 

Eu estava ajudando-o a limpar umas ervas secas. Trabalhamos num silêncio total por muito tempo. Quando sou forçado a permanecer calado por muito tempo, fico apreensivo, especialmente junto de Dom Juan. Num dado momento, fiz-lhe uma pergunta, num rompante impulsivo, quase truculento.

 

— Como é que um homem de conhecimento pratica a loucura controlada, quando se trata da morte de uma pessoa que ele ama?

 

Dom Juan foi colhido de surpresa por minha pergunta e olhou para mim de modo estranho.

 

— Veja seu neto, Lúcio, por exemplo — disse eu. — Seus atos seriam loucura controlada, no momento da morte dele?

— Veja meu filho Eulálio, é um exemplo melhor — respondeu Dom Juan, calmamente. — Foi esmagado pelas pedras quando trabalhava na construção da Estrada de Rodagem Pan-Americana. Meus atos para com ele no momento de sua morte foram loucura controlada. Quando cheguei à área das explosões, ele estava quase morto, mas o corpo dele era tão forte que continuava a se mexer e dar pontapés. Fiquei diante dele e disse aos rapazes da turma da estrada para não mexerem mais nele; obedeceram-me e ficaram ali em volta de meu filho, olhando para o corpo estraçalhado. Também fiquei ali, mas não olhei. Desviei os olhos para poder ver sua vida pessoal se desintegrando, expandindo-se incontrolavelmente além de seus limites, como uma neblina de cristais, pois é assim que a vida e a morte se misturam e expandem. Foi o que fiz no momento da morte de meu filho. É só isso que se poderia fazer, e isso é loucura controlada. Se eu tivesse olhado para ele, teria visto que ele ficava imóvel e teria sentido um grito dentro de mim, pois nunca mais havia eu de ver sua bela figura andando pela terra. Em vez disso, eu vi a morte dele, e não houve tristeza, nem sentimento algum.   Sua morte foi igual a tudo o mais.

 

Dom Juan foi calado por algum tempo. Parecia triste, mas depois sorriu e bateu na minha cabeça.

 

— Por isso você pode dizer que, quando se trata da morte de uma pessoa que eu amo, minha loucura controlada consiste em desviar o olhar.

 

Pensei nas pessoas que eu mesmo amo, e uma onda de autocomiseração terrivelmente opressiva me envolveu.

 

— Sorte a sua, Dom Juan — falei. — Pode desviar o olhar, mas eu só posso olhar.

 

Ele achou graça naquilo e riu.

 

— Sorte, uma bosta! É trabalho duro.

 

Nós dois rimos. Depois de um longo silêncio, recomecei a sondá-lo, talvez apenas para afastar minha própria tristeza.

 

— Se entendi corretamente, Dom Juan, os únicos atos na vida de um homem de conhecimento que não são loucura controlada são aqueles que ele pratica com seu aliado ou com Mescalito. Certo?

— Certo — respondeu, rindo. — Meu aliado e Mescalito não estão num plano de igualdade conosco, os seres humanos. Minha loucura controlada só se aplica a mim e aos atos que pratico quando em companhia de meus semelhantes.

— No entanto, é uma possibilidade lógica — falei — pensar que um homem de conhecimento também considera seus atos com seu aliado ou com Mescalito como loucura controlada, não é verdade?

 

Olhou-me por um momento.

 

— Você está pensando outra vez — disse ele. — Um homem de conhecimento não pensa e, portanto, não pode encontrar essa possibilidade. Veja meu caso, por exemplo. Digo que minha loucura controlada aplica-se aos atos que pratiquei em companhia de meus semelhantes; digo isso porque eu posso ver meus semelhantes. No entanto, não posso ver através de meu aliado e isso torna a coisa in­compreensível para mim; dessa forma, como poderia eu controlar minha loucura se não vejo através dele? Com meu aliado ou com Mescalito sou apenas um homem que sabe ver e que fica confuso com o que vê; um homem que sabe que nunca há de compreender tudo o que o cerca.

 

"Veja seu caso, por exemplo. A mim não importa que você se torne um homem de conhecimento ou não; no entanto, isso importa a Mescalito. Obviamente, importa a ele, senão não faria tanta coisa para mostrar seu interesse por você. Observo o interesse dele e ajo nesse sentido, no entanto seus motivos me são incompreensíveis,"

 

Estávamos entrando no meu carro para começar uma viagem ao Centro do México, no dia 5 de outubro de 1968, quando Dom Juan me fez parar.

 

— Já lhe disse — falou ele, com uma expressão séria — que nunca se deve revelar o nome nem o paradeiro de um feiticeiro. Creio que você compreendeu que nunca deve revelar meu nome, o lugar onde está meu corpo. Agora, vou-lhe pedir que faça o mesmo com um amigo meu, um amigo que chamaremos Genaro. Vamos à casa dele; passaremos algum tempo lá.

 

Assegurei a Dom Juan que eu nunca traíra a confiança que ele tinha em mim.

 

— Sei disso — respondeu, sem mudar sua expressão séria. — Mas fico preocupado que você se tome descuidado.

 

Protestei e Dom Juan disse que seu único objetivo era lembrar-me de que, cada vez que eu me descuidasse em matéria de feitiçaria, estaria brincando com uma morte iminente e sem sentido, que poderia ser evitada se se fosse cuidadoso e consciente.

 

— Não vamos mais falar sobre esse assunto — disse ele. — Depois que sairmos de minha casa, não vamos mencionar Genaro, nem pensarmos nele. Agora, quero que você ordene seus pensamentos. Quando o conhecer, tem de estar com a cabeça clara e sem nenhuma dúvida.

— Que tipo de dúvida, está-se referindo, Dom Juan?

— Qualquer uma. Quando você o conhecer, deve estar claro como o cristal. Ele o verá!

 

Suas estranhas advertências me deixaram muito apreensivo. Mencionei que talvez eu não devesse conhecer o amigo dele de todo, mas apenas ir até às vizinhanças da casa e deixá-lo lá.

 

— Isso que eu lhe disse foi apenas uma precaução — falou. — Você já conheceu um feiticeiro, Vicente, e ele quase o matou. Dessa vez, tome cuidado!

 

Depois de chegarmos ao Centro do México, levamos dois dias para caminhar do lugar onde deixei o carro à casa do amigo de Dom Juan, uma cabaninha empoleirada na encosta de uma montanha. Dom Genaro estava à porta, como se estivesse esperando por nós. Reconheci-o logo. Já o conhecia, embora ligeiramente, da vez em que levara o livro a Dom Juan. Eu não tinha olhado bem para ele naquela ocasião, a não ser de relance, de modo que tinha a impressão de que ele era da idade de Dom Juan, Mas, ao vê-lo à porta da sua casa, reparei que era bem mais moço. Talvez tivesse seus 60 e poucos anos. Era mais baixo do que Dom Juan e mais magro, muito moreno e ágil. Seus cabelos eram espessos e grisalhos e um pouco longos; cobriam-lhe as orelhas e caíam pela testa. Seu rosto era redondo e duro. Um nariz muito protuberante o fazia perecer uma ave de rapina, com olhinhos escuros.

 

Falou com Dom Juan primeiro. Este meneou a cabeça, concordando. Conversaram brevemente, Não estavam falando espanhol, de modo que não entendi o que diziam. Então, Dom Genaro virou-se para mim.

 

— Seja bem-vindo à minha humilde cabana — disse ele, em tom de desculpas, em espanhol.

 

As palavras dele eram uma expressão cortês que eu já ouvira em várias regiões rurais do México. No entanto, ao pronunciá-las, ele sorriu alegremente, por nenhum motivo aparente, e eu sabia que ele estava pondo em prática a sua loucura controlada. Não se importava a mínima que sua casa fosse uma cabana. Gostei muito de Dom Genaro.

 

Nos dois dias seguintes, fomos às montanhas colher plantas. Dom Juan, Dom Genaro e eu saímos todos os dias ao amanhecer. Os dois velhos iam juntos para alguma parte determinada mas não identificada da montanha e me deixavam sozinho num setor dos bosques. Eu tinha uma sensação rara ali. Não notava o passar do tempo, nem ficava apreensivo por estar sozinho; a experiência extraordinária que tive nos dois dias foi uma capacidade incrível de me concentrar na tarefa delicada de encontrar as plantas específicas que Dom Juan me encarregara de colher.

Voltávamos para casa no fim da tarde c, em ambos os dias, eu estava tão cansado que adormeci imediatamente.

 

O terceiro dia, porém, foi diferente. Nós três trabalhamos jun­tos e Dom Juan pediu a Dom Genaro para me ensinar a selecionar certas plantas. Voltamos por volta do meio-dia e os dois velhos ficaram horas sentados em frente da casa, num silêncio total, como se estivessem num estado de transe. No entanto, não estavam dormindo. Andei em volta deles umas vezes; Dom Juan acompanhava meus movimentos com os olhos, e Dom Genaro também.

 

— Deve falar com as plantas antes de colhê-las — disse Dom Juan. Ele pronunciava as palavras displicentemente e repetiu a frase três vezes, como que para me chamar a atenção. Ninguém pronunciara uma palavra, até ele falar. — Para poder ver as plantas, tem de falar com elas pessoalmente — continuou ele. — Tem de conhecê-las individualmente; então as plantas lhe dirão tudo o que você quiser saber sobre elas.

 

Era de tardinha. Dom Juan estava sentado numa pedra chata, olhando para as montanhas ocidentais; Dom Genaro estava sentado junto dele, numa esteira, virado para o norte. Dom Juan me dissera, no primeiro dia que passamos lá, que aquelas eram as suas "posições" e que eu teria de sentar no chão era qualquer lugar defronte de ambos. Acrescentou que, enquanto estivéssemos sentados nessas posições, eu tinha de conservar o rosto para sudeste e só olhar para eles de relance.

 

— Bem, é assim com as plantas, não é? — disse Dom Juan, virando-se para Dom Genaro, que fez um gesto de concordância.

 

Falei que o motivo por que não obedecera às instruções dele era que eu me achava um pouco estúpido, falando com as plantas.

 

— Você não consegue entender que um feiticeiro não brinca — disse ele, com severidade. — Quando um feiticeiro tenta ver, ele está tentando conseguir poder.

 

Dom Genaro estava-me olhando fixamente. Eu fazia anotações e aquilo o intrigava. Sorriu para mim, sacudiu a cabeça e disse alguma coisa para Dom Juan. Este deu de ombros. Ver-me escrevendo devia ser bem estranho para Dom Genaro. Suponho que Dora Juan já estivesse habituado a me ver tomar notas, e o fato de eu escrever enquanto ele falava não lhe parecia mais estranho; ele podia continuar a falar sem parecer reparar nos meus atos. Mas Dom Genaro ficou rindo e eu tive de parar de escrever para não atrapalhar o espírito da conversa.

 

Dom Juan tornou a afirmar que os atos de um feiticeiro não deviam ser considerados uma brincadeira, porque o feiticeiro brincava com a morte a cada hora. Depois, passou a contar a Dom Genaro como uma noite eu tinha olhado para as luzes da morte me acompanhando em uma de nossas viagens. A história pareceu ser divertidíssima; Dom Genaro rolou no chão de tanto rir.

 

Dom Juan desculpou-se e disse que o amigo dele era dado a acessos de riso. Olhei para Dom Genaro, que, para mim, continuava a rolar no chão, e vi que ele estava praticando um ato muito singular. Estava de pernas para o art repousando na cabeça, sem o auxílio dos braços nem das mãos, e suas pernas estavam cruzadas, como se ele estivesse sentado. Aquilo era tão estranho que me fez dar um salto. Quando percebi que ele estava fazendo uma coisa quase impossível, do ponto de vista da mecânica do corpo, ele já voltara a uma posição normal, sentado. Dom Juan, porém, parecia estar ciente do que se passava e comemorou o desempenho de Dom Genaro com uma gargalhada sonora.

 

Dom Genaro parece ter notado minha perturbação; bateu palmas umas vezes e tornou a rolar no chão; aparentemente, queria que eu o observasse. O que a princípio parecia ser rolar no chão era na verdade uma inclinação na posição sentado, tocando com a cabeça no chão. Parecia conseguir sua posição ilógica tomando impulso e inclinando-se várias vezes, de modo que, afinal, a inércia levava seu corpo a uma posição vertical, e por um instante ele se "sentava na cabeça".

 

Quando eles pararam de rir, Dom Juan continuou a falar; seu tom era muito severo. Mudei a posição de meu corpo para ficar à vontade e dar-lhe toda a minha atenção. Não riu de todo, como faz geralmente, especialmente quando procuro prestar bem atenção ao que ele está dizendo. Dom Genaro ficou olhando para mim, como que esperando que eu recomeçasse a tomar notas, mas não escrevi mais nada. As palavras de Dom Juan eram uma repreensão por eu não ter falado com as plantas que colhera, como ele sempre me dissera para fazer. Disse que as plantas que eu matara também podiam ter-me matado; falou que tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, elas me fariam ficar doente. Acrescentou que, se eu adoecesse por ter ferido as plantas, eu me restabeleceria, e acho que só tive uma gripe à-toa.

 

Os dois tiveram mais um momento de risadas e depois Dom Juan ficou sério outra vez e disse que, se eu não pensasse em minha morte, toda a minha vida seria um caos pessoal. Parecia muito severo.

 

— O que mais pode um homem ter, a não ser sua vida e sua morte? — disse-me ele.

 

Naquele momento, achei que era indispensável tomar aponta­mentos e recomecei a escrever. Dom Genaro olhou para mim e sorriu. Depois, inclinou a cabeça um pouco para trás e dilatou as narinas. Parece que tinha um controle extraordinário sobre os músculos que controlavam suas narinas, pois elas se dilataram até talvez duas vezes seu tamanho normal.

 

O que era mais cômico nas palhaçadas dele não era tanto a sua gesticulação, como sua reação a ela. Depois que dilatou as narinas, caiu no chão, rindo, e tomou novamente aquela posição estranha de pernas para o ar, sentado na cabeça.

Dom Juan riu até as lágrimas lhe rolarem pelas faces. Fiquei um pouco encabulado e ri nervosamente.

 

— Genaro não gosta de escrever — disse Dom Juan, como explicação.

 

Guardei meus apontamentos, mas Dom Genaro me garantiu que não fazia mal eu escrever, pois ele realmente não se importava. Tornei a pegar minhas anotações e comecei a escrever. Repetiu os movimentos hilariantes e os dois tiveram as mesmas reações.

 

Dom Juan olhou para mim, ainda rindo, e disse que o amigo estava-me imitando; que minha tendência era dilatar as narinas quando escrevia e que Dom Genaro achava que tentar tornar-se um feiticeiro tomando notas era tão absurdo quanto sentar-se na cabeça, e assim tinha inventado a posição ridícula de apoiar o peso de seu corpo sentado na cabeça.

 

— Talvez você não ache isso engraçado — disse Dom Juan — mas é só Genaro que pode conseguir sentar-se na cabeça, e só você pode pensar em aprender a ser feiticeiro escrevendo.

 

Ambos tiveram outro acesso de riso e Dom Genaro repetiu a sua atuação incrível. Gostei dele. Havia muita graça e franqueza nos seus atos.

 

— Minhas desculpas, Dom Genaro — falei, apontando para o bloco.

— Não tem importância — disse ele, rindo de novo.

 

Não consegui mais escrever. Eles continuaram a conversar por muito tempo, sobre como as plantas podiam realmente matar e como os feiticeiros as usavam para isso. Ambos ficaram-me fitando enquanto falavam, como se esperassem que eu fosse escrever.

 

— Carlos parece um cavalo que não gosta de ser arreado — disse Dom Juan. — É preciso ir muito devagar com ele. Você o assustou e agora ele não quer escrever.

 

Dom Genaro dilatou as narinas e disse, num apelo fingido, franzindo a cara e a boca:

 

— Vamos, Carlitos, escreva!  Escreva até seus dedos caírem!

 

Dom Juan levantou-se, esticando os braços e arqueando as costas. A despeito de sua idade avançada, seu corpo mostrava-se vigoroso e ágil. Foi até ao mato ao lado da casa e fiquei sozinho com Dom Genaro. Este olhou para mim e eu desviei o olhar porque ele me deixava constrangido.

 

— Não me diga que não vai nem olhar para mim? — falou, com uma entonação muito hilariante.

 

Dilatou as narinas c as fez tremerem; depois, levantou-se e repetiu os movimentos de Dom Juan, arqueando as costas e esticando os braços, mas com o corpo contorcido numa pose muito engraçada; era realmente um gesto indescritível, que combinava um raro senso de pantomima e de ridículo. Era uma caricatura magistral de Dom Juan.

 

Este voltou naquele momento e viu o gesto e, obviamente, o significado também.  Sentou-se, dando risada.

 

— Em que direção está o vento? — perguntou Dom Genaro, displicentemente.

 

Dom Juan apontou para o oeste com um movimento da cabeça.

 

— É melhor eu ir para onde está o vento — falou Dom Genaro, com uma expressão séria.  Depois, virou-se e me sacudiu o dedo. — E não dê atenção se ouvir ruídos estranhos. Quando Genaro caga, as montanhas tremem.

Ele saltou para o mato e um minuto depois ouvi um ruído muito estranho, um ronco profundo. Eu não sabia o que pensar. Olhei para Dom Juan, indagando, mas ele estava-se contorcendo de tanto rir.

 

17 de outubro de 1968

Não me lembro o que foi que levou Dom Genaro a me contar a respeito da organização do "outro mundo", como ele dizia. Falou que um feiticeiro mestre era uma águia, ou melhor, que podia trans­formar-se em águia. Por outro lado, um feiticeiro mau era um tecolote (coruja). Dom Genaro disse que um feiticeiro mau era filho da noite e que, para um homem desses, os animais mais úteis eram a onça ou outros gatos selvagens, ou os pássaros noturnos, especial­mente a coruja. Falou que os "brujos líricos" (feiticeiros líricos), significando os feiticeiros diletantes, preferiam outros animais. .. um corvo, por exemplo. Dom Juan riu e continuou ouvindo caiado. Dom Genaro virou-se para de e disse:

 

— É verdade, você sabe disso, Juan.

 

Depois, afirmou que um feiticeiro mestre podia levar seu discí­pulo com ele e chegar a atravessar as dez camadas do outro mundo. O mestre, desde que fosse uma águia, podia começar da camada mais inferior e depois passar por cada mundo sucessivo até chegar ao topo. Os feiticeiros maus e os diletantes podiam, no máximo, disse ele, atravessar apenas três camadas.

 

Dom Genaro descreveu o que eram aqueles passos dizendo:

 

— Você começa bem embaixo e depois seu mestre leva você com ele em seu vôo e logo, bum! Você passa pela primeira camada. Pouco depois, bum!  Passa pela segunda; e bum!  Passa pela terceira . ..

 

Dom Genaro levou-me por dez buns até à última camada do mundo. Quando ele acabou de falar, Dom Juan olhou para mim e sorriu com um ar sabido.

 

— Falar não é a predileção de Genaro — disse ele. — Mas se você quiser tomar uma lição, ele lhe ensinará a respeito do equi­líbrio das coisas.

 

Dom Genaro concordou com a cabeça; franziu a boca e semi-cerrou os olhos. Achei o gesto dele encantador. Dom Genaro levantou-se e Dom Juan também.

 

— Está bem — disse Genaro. — Então vamos. Podíamos ir espetar Nestor e Pablito. Eles já terminaram. Nas quintas-feiras, acabam cedo.

 

Os dois entraram no meu carro: Dom Juan sentou-se na frente. Não perguntei nada, apenas liguei o carro. Dom Juan mostrou-me o caminho para um lugar que ele disse ser a casa de Nestor; Dom Genaro entrou na casa e pouco depois saiu com Nestor e Pablito, dois rapazes que eram aprendizes dele. Todos entraram no meu carro e Dom Juan me disse para tomar a estrada que ia para as montanhas ocidentais,

 

Deixamos o carro à margem da estrada de terra e caminha­mos pela beira de um rio, que devia ter de quatro a seis metros de largura, até chegar a uma cascata, que era visível de onde eu tinha deixado o carro. Era de tardinha. A paisagem era muito impressionante. Bem acima de nós havia uma nuvem enorme, escura, azulada, que parecia um teto flutuante; tinha uma borda bem definida e a forma de um imenso meio círculo. Para oeste, nas altas montanhas da cordilheira Central, a chuva parecia estar caindo nas encostas. Era como uma cortina esbranquiçada caindo sobre os picos verdejantes. Para leste ficava, o vale, comprido e profundo; sobre o vale só havia nuvens esparsas e o Sol brilha ali. O contraste entre as duas zonas era magnífico. Paramos ao pé da cascata; tinha talvez uns 45 metros de altura; o ruído era muito forte.

 

Dora Genaro prendeu um cinto na cintura. Tinha pelo menos sete coisas dependuradas. Pareciam cabacinhas. Tirou o chapéu e o deixou dependurado por um cordão amarrado no pescoço. Pôs na cabeça uma faixa, que tirou de uma bolsa feita de uma lã grossa. A faixa também era feita de uma lã de várias cores; a predominante era um amarelo vivo. Enfiou três penas na faixa da cabeça. Pareciam ser penas de águia. Reparei que os lugares onde ele as enfiou não eram simétricos. Uma das penas ficou sobre a curva posterior de sua orelha direita, a outra alguns centímetros para a frente, e a terceira sobre sua têmpora esquerda. Depois, tirou as sandálias, prendeu-as à cintura das calças e fechou o cinto sobre o poncho. O cinto parecia ser feito de tiras de couro trançadas. Não consegui ver se ele o amarrou ou afivelou. Dom Genaro dirigiu-se para a cascata.

 

Dom Juan colocou uma pedra redonda numa posição estável e sentou-se nela. Os outros dois rapazes fizeram o mesmo com umas pedras e sentaram-se à esquerda dele. Dom Juan apontou para um lugar junto dele, à direita, e me disse que pegasse uma pedra e me sentasse ali.

 

— Temos de fazer uma fila aqui — disse ele, mostrando que os três estavam sentados em fila.

 

A essa altura, Dom Genaro tinha chegado até ao pé da cascata e começara a subir por uma trilha ao lado direito dela. De onde estávamos, a trilha parecia bem íngreme. Havia muitos arbustos, que ele usava como corrimão. Em certo momento, pareceu escorregar e quase deslizou, como se a terra estivesse escorregadia. Um momento depois aconteceu a mesma coisa e tive a impressão de que talvez Dom Genaro estivesse muito velho para estar escalando aquele local. Eu o vi escorregando e tropeçando várias vezes antes de chegar ao ponto em que a trilha acabava.

 

Senti como que uma apreensão quando ele começou a subir pelas pedras. Não podia imaginar o que ele ia fazer.

 

— O que ele está fazendo? — perguntei a Dom Juan, num cochicho.

— Obviamente, está escalando —respondeu, sem olhar para mim.

 

Dom Juan estava olhando fixamente para Dom Genaro. Suas pálpebras estavam semicerrados. Ele estava sentado muito reto, com as mãos repousando entre as pernas, na beirada da pedra.

 

Inclinei-me um pouco para ver os dois rapazes. Dom Juan fez um gesto imperioso com a mão para eu voltar para a fila. Recuei imediatamente. Só lançara um rápido olhar para os rapazes. Pareciam tão atentos quanta Dom Juan. Este fez outro gesto com a mão e apontou na direção da cascata.

 

Tornei a olhar. Dom Genaro já tinha subido bastante no pare­dão de rocha. No momento em que olhei, ele estava empoleirado numa prateleira, movendo-se devagar para dar a volta a uma rocha grande. Os braços estavam esticados, como se ele estivesse abraçando a rocha. Moveu-se devagar para a direita e, de repente, seu pé escapuliu. Soltei uma exclamação involuntária. Por um momento, todo seu corpo ficou dependurado no ar. Eu tinha certeza de que ele ia cair, mas não caiu. Sua mão direita tinha agarrado alguma coisa e, com muita agilidade, seus pés voltaram para a prateleira. Mas antes de ele prosseguir, virou-se e olhou para nós. Foi um olhar rápido. Mas havia uma tal estilização no movimento de virar a cabeça que fiquei cismando. Lembrei-me então de que ele tinha feito a mesma coisa, virando-se para olhar para nós, cada vez que escorregava, Eu havia pensado que Dom Genaro devia estar encabulado com sua falta de jeito e se virava para ver se estávamos olhando.

 

Subiu mais um pouco, escorregou outra vez e ficou perigosa­mente dependurado da rocha saliente. Dessa vez, ele se sustentou com sua mão esquerda. Quando recuperou o equilíbrio, virou-se e novamente olhou para nós. Escorregou mais duas vezes, antes de chegar lá em cima. De onde estávamos sentados, o topo da cascata parecia ter de uns seis a sete metros de largura.

Dom Genaro ficou imóvel por um momento. Eu queria perguntar a Dom Juan o que Dom Genaro estava fazendo lá em cima, mas ele parecia estar tão absorto contemplando que não ousei per­turbá-lo.

 

De repente, Dom Genaro saltou dentro d'água. Foi um ato tão inteiramente inesperado que senti um frio no estômago. Foi um salto magnífico e estranho. Por um segundo tive a sensação exata de ter visto uma série de imagens superpostas fazendo um vôo elíptico para o meio do riacho.

 

Quando passou a minha surpresa, reparei que ele tinha caído numa rocha na beira da cascata, uma pedra que quase não era visível de onde estávamos sentados.

 

Ficou ali empoleirado por muito tempo. Parecia estar lutando contra a força da água. Por duas vezes, debruçou-se sobre o precipício e eu não sabia onde ele estava agarrado. Recuperou o equi­líbrio e agachou-se na rocha. Depois, tomou a saltar, como um tigre. Eu mal podia ver a outra pedra, onde ele caiu; era como um conezinho na beirada da cascata.

 

Ficou ali quase dez minutos. Estava imóvel. Sua imobilidade era tão impressionante para mim que eu estava tremendo. Eu que­ria levantar-me e andar, Dom Juan notou meu nervosismo e ma disse imperiosamente para ficar calmo.

 

A imobilidade de Dom Genaro lançou-me num terror extraordinário e misterioso. Achei que, se ele ficasse ali empoleirado mais tempo, eu não poderia controlar-me.

 

De repente, tornou a saltar, dessa vez até a outra margem da cascata. Caiu nos pés e nas mãos, como um felino. Ficou nessa posição agachada por um momento; em seguida, levantou-se e olhou para o outro lado da cascata e depois para baixo, para nós. Ficou ali imóvel olhando para nós. Suas mãos estavam cerradas dos lados do corpo, como se ele estivesse segurando um corrimão invisível.

 

Havia algo de realmente único na pose dele; seu corpo parecia muito ágil e frágil. Achei que Dom Genaro, com sua faixa na cabeça e suas penas, seu poncho escuro e pés descalços, era o ser humano mais belo que eu já vira.

 

Levantou os braços de repente, ergueu a cabeça e moveu o corpo depressa numa espécie de cambalhota lateral para a esquerda. A rocha onde ele estava era redonda, e quando saltou desapareceu por trás dela.

 

Naquele momento, começaram a cair grossas gotas de chuva. Dom Juan levantou-se e os dois rapazes também. O movimento deles foi tão abrupto que me confundiu. A façanha magistral de Dom Genaro me deixara num estado de profunda excitação emocional. Achei que ele era um artista consumado e queria vê-lo naquele minuto, para aplaudi-lo.

 

Esforcei-me para olhar para o lado esquerdo da cascata para ver se ele estava descendo, mas não estava. Insisti em saber o que lhe acontecera. Dom Juan não respondeu.

 

— Acho melhor sairmos logo daqui — disse ele. — Está uma chuvarada mesmo. Temos de levar Nestor e Pablito para a casa deles e depois faremos nossa viagem de volta.

— Nem me despedi de Dom Genaro — reclamei.

Ele já se despediu de você — respondeu Dom Juan, asperamente.

Olhou bem para mim por um momento; depois amoleceu e sorriu. — Também lhe desejou boa sorte — disse ele. — Sentiu-se feliz com você.

— Mas não vamos esperar por ele?

— Não! — falou Dom Juan, bruscamente.  — Deixei-o em paz, onde quer que esteja. Talvez ele seja uma águia voando para o outro mundo, ou talvez tenha morrido lá em cima. Agora não importa.

 

23 de outubro de 1968

 

Dom Juan mencionou displicentemente que ia fazer outra viagem ao Centro do México em futuro próximo.

 

— Vai visitar Dom Genaro? — perguntei.

— Talvez — respondeu, sem olhar para mim.

— Ele está bem, não está, Dom Juan? Quero dizer, não lhe aconteceu nada de mau lá em cima da cascata, não é?

— Nada lhe aconteceu; ele está forte.

 

Conversamos um pouco a respeito da projetada viagem, e de­pois eu disse que tinha gostado da companhia e das brincadeiras de Dom Genaro, Ele riu e disse que, na verdade, Dom Genaro parecia uma criança. Fez-se uma longa pausa; lutei para encontrar uma deixa para indagar da lição dele. Dom Juan olhou para mim e disse, num tom malicioso:

 

— Está doido para me perguntar sobre a lição de Genaro, não está?

 

Ri, encabulado. Estava obcecado com tudo o que sucedera na cascata. Tinha passado e repassado todos os detalhes de que conseguia lembrar-me e minhas conclusões eram que eu tinha presenciado uma notável façanha de proeza física. Achava que Dom Genaro era, sem dúvida, um mestre incomparável de equilíbrio; cada movi­mento que ele executara era altamente ritualizado e, não é preciso dizer, devia ter algum significado insondável e simbólico.

 

— Sim — falei. — Confesso que estou doido para saber qual foi a lição dele.

 

— Deixe dizer-lhe uma coisa — comentou Dom Juan. — Foi uma perda de tempo, para você. A lição dele foi para alguém que sabe ver. Pablito e Nestor entenderam a essência, embora não vejam muito bem. Mas você foi lá para olhar. Eu disse a Genaro que você é um tolo muito estranho e entupido, e que talvez se desentupisse com essa lição dele, mas isso não aconteceu. Porém, não faz mal. Ver é muito difícil.

 

— Não quis que você falasse com Genaro depois, de modo que tivemos de vir embora, Uma pena. Mas teria sido pior se ficássemos. Genaro arriscou-se muito para lhe mostrar uma coisa magnífica. Uma pena que você não possa ver.

— Talvez, Dom Juan, se me dissesse qual era a lição, eu pudesse descobrir o que foi que eu realmente vi.

 

Dom Juan riu às gargalhadas.

 

— Seu forte é fazer perguntas — replicou.

 

Parecia que ele ia largar o assunto de novo. Estávamos senta­dos, como de costume, na área defronte da casa dele; de repente, ele se levantou e entrou na casa. Acompanhei-o e insisti em lhe descrever o que tinha visto. Segui fielmente a seqüência dos fatos, conforme me lembrava. Dom Juan ficou sorrindo, enquanto eu falava. Quando terminei, ele sacudiu a cabeça.

 

— Ver é muito difícil — disse ele. Pedi que ele explicasse suas palavras.

— Ver não é questão de falar.

 

Evidentemente, não me ia contar mais nada, de modo que ma levantei e saí de casa para fazer umas coisas para ele.

 

Quando voltei, já estava quase escuro; comemos alguma coisa e depois fomos para a ramada; tínhamos apenas acabado de nos sentar quando Dom Juan começou a falar sobre a lição de Dom Genaro. Não me deu tempo para eu me preparar para aquilo. Não tinha ali meus apontamentos; contudo estava muito escuro para escrever e eu não queria alterar o rumo da sua conversa entrando na casa para pegar o lampião de querosene.

 

Ele disse que Dom Genaro, sendo um mestre do equilíbrio, era capaz de executar movimentos muito complexos e difíceis. Sentar-se na cabeça era um desses movimentos e com aquilo ele tentara mostrar-me que era impossível "ver" enquanto eu tomava notas. O ato de sentar na cabeça sem o auxílio das mãos era, no máximo, uma proeza que só durava um momento, Na opinião de Dom Genaro, escrever a respeito de "ver" era a mesma coisa; isto é, uma manobra precária, tão esquisita e desnecessária quanto sentar na cabeça.

 

Dom Juan olhou para mim no escuro e, num tom muito dramático, disse que, enquanto Dom Genaro estava brincando, sentado na própria cabeça, eu estava quase "vendo". Dom Genaro reparou naquilo e repetiu suas manobras, sem adiantar nada, pois eu linha perdido o fio logo.

 

Dom Juan disse que, depois, Dom Genaro, levado por sua simpatia pessoal por mim, tentou, de maneira muito teatral, levar-me de volta ao limiar de "ver". Depois de muito pensar, resolveu mostrar-me um feito de equilíbrio atravessando a queda d'água. Achava que a cascata era como a beirada em que eu estava e acreditava que também eu conseguiria atravessar.

 

Depois, Dom Juan explicou a façanha de Dom Genaro. Disse que já me tinha explicado que os seres humanos eram, para aqueles que "viam", seres luminosos compostos de uma coisa como fibras de luz, que giravam da frente para trás e conservavam a aparência de um ovo. Disse que também me contara que a parte mais surpreendente nas criaturas em forma de ovo era uma série de fibras longas que saíam, da região próxima do umbigo; Dom Juan disse que essas fibras eram da maior importância na vida do homem. Elas eram o segredo do equilíbrio de Dom Genaro e que a lição dele não tinha nada a ver com saltos acrobáticos sobre a cascata. Seu feito de equilíbrio consistia na maneira de ele usar aquelas fibras "semelhantes a tentáculos".

 

Dom Juan mudou de assunto tão repentinamente como o abordara e começou a falar de outra coisa, completamente diferente.

 

24 de outubro de 1968

Encurralei Dom Juan e disse-lhe que intuitivamente eu achava que nunca mais teria outra lição de equilíbrio e que ele teria de me explicar todos os detalhes a respeito, pois, de outro modo, eu nunca os descobriria sozinho. Dom Juan disse que eu tinha razão, pois Dom Genaro nunca mais me daria outra lição.

 

— O que mais quer saber? — perguntou ele.

— O que são essas fibras como tentáculos, Dom Juan?

— São os tentáculos que saem do corpo do homem, e que são aparentes a qualquer feiticeiro que vê. Os feiticeiros agem em relação às pessoas de acordo com o modo como vêem seus tentáculos. Pessoas fracas têm fibras muito curtas, quase invisíveis; pessoas fortes têm tentáculos longos e brilhantes. Os de Genaro, por exemplo, são tão brilhantes que parecem espessos. Pelas fibras a gente vê se a pessoa é sadia ou doente, se é malvada, boa ou traiçoeira. Também se pode saber pelas fibras se a pessoa sabe ver.  Esse é um problema difícil. Quando Genaro o viu, ele soube, assim como meu amigo Vicente, que você sabia ver; quando eu o vejo, vejo que você pode ver, e no entanto eu mesmo sei que não pode. Que coisa desconcertante!  Genaro não podia conformar-se com isso.  Disse-lhe que você era um tolo estranho. Acho que ele quis ver isso por si e levou-o à cascata.

— Por que acha que eu dou a impressão de que posso ver? — Dom Juan não me respondeu. Ficou calado por muito tempo. Eu não quis perguntar mais nada. Por fim, falou comigo e disse que sabia por que, mas não sabia explicá-lo.

— Você acha que tudo no mundo é fácil de entender — disse ele — porque tudo o que você faz é uma rotina que é fácil de entender. Na cascata, quando olhou para Genaro se movendo sobre a água, acreditou que ele era um mestre em acrobacias, porque só pensava em acrobacias. É você vai sempre achar que foi só isso que ele fez. E no entanto, Genaro nunca saltou sobre aquela água. Se tivesse saltado, teria morrido. Genaro equilibrou-se em suas fibras magníficas e brilhantes.  Estendeu-as tanto, tanto, que conseguiu, digamos, rolar por elas sobre a cascata. Demonstrou a maneira certa de tornar aqueles tentáculos compridos, e como movê-los com precisão. Pablito viu quase todos os movimentos de Genaro. Nestor, por outro lado, só viu as manobras mais evidentes. Perdeu os detalhes mais delicados, Mas você, você não viu nada.

— Talvez se me tivesse avisado antes, Dom Juan, o que esperar.

 

Interrompeu-me, dizendo que, se me desse instruções, só atrapalharia Dom Genaro. Se eu soubesse o que se ia passar, minhas fibras ficariam agitadas e interfeririam com as de Dom Genaro.

 

— Se você pudesse ver — disse ele — teria sido óbvio para você que, desde o primeiro passo que ele deu, não estava escorregando, ao escalar a margem da cascata. Estava soltando seus tentáculos. Por duas vezes, passou-os pelas rochas, agarrando-se à pe­dra nua como uma mosca.  Quando ele chegou ao topo e estava pronto para atravessar a água, focalizou-os numa pedrinha no meio do riacho e, quando estavam presos lá, deixou que as fibras o puxassem. Genaro não saltou, e por isso conseguiu pousar na superfície escorregadia das pedras pequenas na beira da água. Suas fibras estavam sempre bem enroladas em toda pedra que usava.

 

Não ficou muito tempo na primeira pedra, porque tinha o resto das fibras presas a outra, ainda menor, no lugar onde a correnteza das águas era maior. Seus tentáculos tornaram a puxá-lo e ele pousou nela. Foi esse o feito mais notável que ele praticou. A superfície era pequena demais para um homem se agarrar ali; e a correnteza das águas teria lançado seu corpo sobre o precipício, se ele não estivesse com algumas de suas fibras ainda presas na primeira pedra.

 

Ficou naquela segunda posição por muito tempo, pois teve de tornar a soltar seus tentáculos para mandá-los para o outro lado da cascata. Quando os prendeu, teve de soltar as fibras presas na primeira rocha. Isso era muito difícil. Talvez só Genaro conseguisse fazer aquilo. Quase perdeu o equilíbrio; ou talvez só nos estivesse tapeando, nunca o saberemos ao certo. Pessoalmente, acho mesmo que quase se soltou. Sei disso, porque ele se tornou rígido e mandou um dardo magnífico, como um raio de luz, por cima da água. Penso que só aquele raio o teria feito atravessar. Quando chegou ao outro lado, levantou-se e deixou as fibras brilharem como um feixe de luzes. Isso foi uma coisa que ele fez só para você. Se você soubesse ver, teria visto aquilo.

 

"Genaro ficou ali olhando para você, e então soube que você não tinha visto".

 

O Trabalho de "Ver"

 

Dom Juan não estava em casa quando cheguei lá ao meio-dia do dia 8 de novembro de 1968. Não sabia onde procurá-lo, de modo que sentei-me e fiquei esperando. Por algum motivo, eu sabia que ele logo voltaria para casa. Pouco depois, Dom Juan chegou. Cumprimentou-me com a cabeça. Trocamos saudações. Parecia estar cansado e deitou-se na esteira. Bocejou umas duas vezes.

 

A idéia de ver se tomara uma obsessão para mim e eu tinha resolvido tornar a usar a mistura alucinógena de fumo dele outra vez. Tinha sido uma decisão muito difícil, de modo que eu ainda queria discutir um pouco mais o assunto.

 

— Quero aprender a ver, Dom Juan — disse eu, abruptamente. — Mas não tenho vontade de tomar nada; não quero fumar a sua mistura. Acha que há possibilidade de aprender a ver sem isso?

 

Ele se sentou, olhou para mim e deitou-se de novo.

 

— Não! — disse ele. — Terá de usar a mistura.

— Mas você disse que eu estava a ponto de ver com Dom Genaro.

— Quis dizer que alguma coisa em você estava brilhando, como se realmente estivesse consciente dos atos de Genaro, mas só estava olhando. Obviamente, há alguma coisa em você que parece com ver, mas não é; está entupido e só o fumo pode ajudá-lo.

— Por que a gente tem de fumar? Por que não se pode só aprender a ver por si? Tenho um desejo muito forte. Isso não basta7

— Não basta, não. Ver não é tão simples e só o fumo pode dar-lhe a velocidade de que precisa para ter uma visão rápida daquele mundo veloz. Senão você só vai olhar.

— O que quer dizer com mundo veloz?

— O mundo, quando você o vê, não é o que pensa que é agora. É antes um mundo veloz, que se move e modifica. Pode-se, talvez, aprender a perceber aquele mundo rápido sozinho, mas de nada adiantará, pois o corpo definha com o esforço. Com o fumo, por outro lado, a gente nunca sofre de exaustão. O fumo dá a velocidade necessária para perceber os movimentos velozes do mundo e, ao mesmo tempo, conserva o corpo e sua força intactos.

— Está bem! — falei, teatralmente. — Não quero mais rodeios. Vou fumar.

— Deixe disso — falou ele, rindo de minha farsa. — Você sempre se agarra à coisa errada. Agora pensa que, só por resolver deixar o fumo guiá-lo, vai ver. É muito mais do que isso. Ê sempre muito mais do que alguma coisa. — Ficou sério por algum tempo.

 

"Tive muito cuidado com você, e meus atos foram estudados — falou — porque é a vontade de Mescalito que você entenda meu conhecimento. Mas sei que não terei tempo para lhe ensinar tudo o que desejo. Só terei tempo de pô-lo no caminho e esperar que você procure da mesma maneira que eu. Tenho de admitir que você é mais indolente e mais teimoso do que eu. Mas tem outras idéias, e o rumo que a sua vida tomará é coisa que não posso prever."

 

Seu tom de voz pausado, alguma coisa na atitude dele provocaram em mim um sentimento antigo, uma mistura de solidão, medo e expectativa.

 

— Logo saberemos como é que você está — disse ele, misteriosamente.

Não disse mais nada. Pouco depois, saiu da casa. Acompanhei-o e fiquei defronte dele, sem saber se me sentava ou pegava uns embrulhos que tinha levado para ele.

— Será perigoso? — perguntei, só para dizer alguma coisa.

— Tudo é perigoso — respondeu.

 

Dom Juan não parecia estar disposto a me dizer mais nada; pegou uns embrulhinhos que estavam empilhados num canto e co­locou-os numa sacola. Não me ofereci para ajudar porque sabia que, se ele quisesse meu auxílio, teria pedido. Depois, deitou-se em sua esteira. Disse-me que descansasse e ficasse à vontade. Deitei-me na minha esteira e tentei dormir, mas não estava cansado; na véspera, eu parará num motel e dormira até ao meio-dia, sabendo que só tinha uma viagem de três horas até à casa de Dom Juan. Ele também não estava dormindo. Embora seus olhos estivessem fechados, reparei que ele fazia um movimento quase imperceptível e ritmado com a cabeça. Ocorreu-me a idéia de que ele talvez estivesse cantando baixinho.

 

— Vamos comer alguma coisa — falou Dom Juan de repente, e sua vez me sobressaltou. — Vai precisar de muita energia. Deve estar em boa forma.

 

Fez sopa, mas eu estava sem fome.

 

No dia seguinte, 9 de novembro, Dom Juan só me deixou comer um pinguinho e me disse para repousar. Fiquei deitado a manhã toda, mas não consegui relaxar. Não tinha idéia do que Dom Juan pretendia fazer e, o que era pior, não tinha idéia do que eu mesmo pretendia fazer.

 

Estávamos sentados na ramada dele por volta das três da tarde. Eu estava com muita fome. Sugerira várias vezes comermos alguma coisa, mas ele recusou.

 

— Há três anos que não prepara sua mistura — disse ele, de repente. — Vai ter de fumar a minha mistura, de modo que vamos dizer que a colhi para você. Só vai precisar de pouco. Vou encher o fornilho do cachimbo uma vez. Você fuma tudo e depois descansa. Então, o guarda do outro mundo virá. Você não fará nada a não ser observar. Repare como ele se move. Veja tudo o que ele faz. Sua vida pode depender de como o observar.

 

Dom Juan dera suas instruções tão abruptamente que eu não sabia o que dizer, nem o que pensar. Murmurei qualquer coisa incoerente por um momento. Não conseguia arrumar as idéias. Por fim, perguntei a primeira coisa clara que me veio a cabeça:

 

— Quem é esse guarda?

 

Dom Juan recusou-se terminantemente a conversar, mas eu estava muito nervoso para parar de falar e insisti desesperadamente para ele me contar a respeito desse guarda.

 

— Você o verá — disse ele, com naturalidade. — Ele guarda o outro mundo.

— Que mundo? O mundo dos mortos?

— Não é o mundo dos mortos, nem o mundo de nada. É apenas outro mundo, Não adianta falar-lhe a respeito. Veja por si.

 

E com isso Dom Juan entrou na casa. Acompanhei-o até o quarto dele.

 

— Espere, espere. Dom Juan. O que vai fazer?

 

Não respondeu. Pegou o cachimbo de um embrulho e sentou-se numa esteira no meio do quarto, olhando para mim, curioso. Parecia estar esperando meu consentimento.

 

— Você é um tolo — disse ele, baixinho. — Não está com medo. Só diz que está com medo.

 

Sacudiu a cabeça para um lado e para outro. Depois, pegou o saquinho com a mistura do fumo e encheu o fornilho.

 

— Estou com medo, Dom Juan, Estou mesmo com medo.

— Não, não é medo.

Desesperadamente, tentei ganhar tempo e comecei uma longa discussão a respeito da natureza de meus sentimentos. Asseverava sinceramente que estava com medo, mas ele observou que eu não estava ofegante, nem meu coração batendo mais depressa do que o normal.

 

Pensei um pouco no que Dom Juan havia dito. Ele não tinha razão; de fato, eu tinha muitas das alterações físicas normalmente ligadas ao medo e estava desesperado. Um senso de destino iminente permeava tudo em volta de mim, Eu estava enjoado e tinha certeza de que estava pálido; minhas mãos suavam profusamente; e, no entanto, eu achava mesmo que não estava com medo. Não tinha a sensação de medo que conhecera a vida toda. O medo que sempre foi meu, peculiarmente, não estava presente. Estava falando, enquanto andava para um lado e outro defronte de Dom Juan, que continuava sentado em sua esteira, segurando o cachimbo e olhando para mim com olhar indagador; e depois de pensar no assunto, cheguei à conclusão de que o que eu estava sentindo, em vez de meu medo normal, era uma profunda sensação de desagrado, um desconforto diante da simples idéia da confusão criada pelo consumo das plantas alucinógenas.

 

Dom Juan olhou para mim fixamente por um momento e de­pois para além de mim, piscando como se estivesse lutando para ver alguma coisa a distância.

 

Fiquei andando para um lado e outro diante dele até que me disse imperiosamente para sentar-me e relaxar. Ficamos sentados calados um pouco.

 

— Você não quer perder a sua clareza, quer? — perguntou, abruptamente.

— Isso mesmo, Dom Juan — respondi. Ele riu, com um prazer aparente.

— A clareza, o segundo inimigo de um homem de conheci­mento, apoderou-se de você. Não está com medo — disse ele, tranqüilizando-me mas sabe que detesta perder sua clareza e, como é um tolo, chama isso de medo. — Deu uma risada. — Pegue uns carvões — ordenou.

 

Seu tom era bondoso e tranqüilizador. Levantei-me automaticamente e fui até aos fundos da casa e peguei uns carvões em brasa do fogo; coloquei-os numa pedra e voltei para o quarto.

 

— Venha cá para a varanda — chamou Dom Juan em voz alta, lá de fora.

 

Ele havia colocado uma esteira no lugar em que costumo sentar-me. Pus os carvões junto dele e ele soprou nos mesmos para avivar o fogo. Já ia sentar-me, porém ele me impediu e disse que me sentasse na borda direita da esteira. Depois, colocou um pedaço de carvão no cachimbo e passou-o a mim. Peguei-o. Estava abismado diante da força quieta com que Dom Juan me guiara. Não consegui pensar em nada para dizer. Não tinha mais argumentos. Convencera-me de que não estava com medo, mas apenas sem vontade de perder minha clareza.

 

— Fume, fume — ordenou, delicadamente. — Dessa vez é uma só.

 

Chupei o cachimbo e ouvi o ruído da mistura pegando fogo. Senti instantaneamente uma camada de gelo dentro de minha boca e meu nariz. Fumei de novo e a camada estendeu-se a meu peito. Depois da última tragada, senti que todo o interior de meu corpo estava coberto com uma sensação peculiar de ardor frio.

 

Dom Juan pegou o cachimbo de minha mão e bateu o fornilho na sua palma para soltar os resíduos. Depois, como faz sempre, molhou o dedo com saliva e esfregou-o dentro do fornilho.

 

Meu corpo estava dormente, mas eu conseguia mover-me. Mudei de posição para poder sentar mais comodamente.

— O que vai acontecer? — perguntei. Tinha certa dificuldade em pronunciar as palavras alto.

 

Com muito cuidado, Dom Juan colocou o cachimbo dentro de sua capa e enrolou-o num pedaço comprido de pano. Depois, sentou-se reto, de frente para mim. Eu estava tonto; meus olhos se fechavam involuntariamente. Dom Juan me sacudiu vigorosamente e mandou que eu ficasse acordado. Disse que eu sabia perfeitamente que, se adormecesse, morria. Isso me deu um sobressalto. Ocorreu-me que Dom Juan provavelmente só estava dizendo aquilo para me manter acordado, mas, por outro lado, também me ocorreu que ele podia ter razão. Abri os olhos o máximo que pude e isso fez Dom Juan rir. Falou que eu tinha de esperar um pouco e ficar de olhos abertos o tempo todo e que, em dado momento, eu veria o guarda do outro mundo.

 

Eu sentia um calor muito incômodo em todo o corpo; procurei mudar de posição, mas não conseguia mais me mover. Queria falar com Dom Juan; as palavras pareciam estar tão fundas dentro de mim que eu não conseguia pronunciá-las. Depois, cai do lado esquerdo e vi que estava olhando para Dom Juan do chão.

 

Debruçou-se e me disse, cochichando, para não olhar para ele, e sim para um ponto de minha esteira que estava diretamente diante de meus olhos. Falou que eu tinha de olhar com um dos olhos, o olho esquerdo, e que mais cedo ou mais tarde eu veria o guarda.

 

Fixei a vista no lugar que ele tinha mostrado, mas não vi nada. Em certo momento, porém, reparei que havia um mosquito voando em frente de meus olhos. Pousou na esteira. Acompanhei os movi­mentos dele. Chegou muito perto de mim, tão perto que rainha percepção visual turvou-se. E depois, de repente, senti como se me tivesse levantado. Era uma sensação muito estranha, que merecia reflexão, mas não havia tempo para isso. Tinha a sensação total de estar olhando bem para a frente, de meu nível normal de olhar, e o que vi fez estremecer todas as fibras de meu ser. Não há outra maneira para descrever o abalo emocional que experimentei, Ali mesmo diante de mim, pertinho, estava um animal gigantesco e monstruoso. Uma coisa realmente horripilante! Nunca, nas mais loucas fantasias da ficção, tinha eu encontrado alguma coisa assim. Olhei para aquilo na mais completa perplexidade.

 

O que notei primeiro foi o seu tamanho. Pensei, por algum motivo, que devia ter quase uns 30 metros de altura.

 

Parecia estar de pé, embora eu não conseguisse ver como es­tava de pé. Depois, observei que tinha asas, duas asas curtas e largas. Nesse ponto, percebi que insistia em examinar o animal como se fosse um espetáculo comum; isto é, olhava para ele. No entanto, não podia realmente olhá-lo da maneira como estava habituado a olhar. Entendi que, antes, eu estava percebendo coisas a respeito dele, como se o quadro estivesse ficando mais claro à medida que outras partes eram acrescentadas. O corpo dele estava coberto de tufos de pêlo preto. Tinha um focinho comprido e estava babando. Seus olhos eram proeminentes e pareciam duas bolas brancas e enormes.

 

Então, começou a bater as asas. Não era o adejar das asas de um pássaro, e sim uma espécie de tremor vibrante. Aumentou de velocidade e ele começou a circulai defronte de mim; não estava voando, mas, antes, deslizando com uma velocidade e agilidade surpreendentes, a apenas alguns centímetros acima do chão. Por um momento, fiquei absorto, olhando-o mexer-se. Achei seus movimentos feios e, no entanto, sua velocidade e agilidade eram magníficas.

 

Circulou duas vezes diante de mim, vibrando as asas, e o que estava saindo de baba de sua boca voou para todo lado. Depois, virou-se e foi embora derrapando, numa velocidade incrível, até desaparecer na distância. Fiquei olhando fixamente na direção por onde ele tinha ido, porque não havia mais nada a fazer. Tinha uma sensação muito estranha de peso, uma sensação de não poder concatenar meus pensamentos com coerência, Não conseguia mexer-me. Era como se eu estivesse colado ao chão.

 

Então, vi uma coisa que parecia uma nuvem, bem distante; um momento depois, o animal gigantesco circulava de novo a toda velocidade diante de mim. Suas asas passavam cada vez mais perto de meus olhos, até me tocarem. Senti que suas asas tinham realmente batido em mim, na parte de mim que estivesse ali. Gritei com toda a força, no meio de uma das dores mais lancinantes que já tinha tido na vida.

 

Quando dei por mim estava sentado na esteira e Dom Juan estava esfregando minha testa. Esfregou meus braços e pernas com folhas, em seguida levou-me para a vala de irrigação que havia atrás da casa dele, tirou minhas roupas e me mergulhou totalmente. Depois, puxou-me para fora e tornou a mergulhar-me várias vezes.

 

Enquanto eu ficava deitado no fundo raso da vala de irrigação, Dom Juan de vez em quando levantava meu pé esquerdo e batia de leve na sola. Pouco depois, senti cócegas. Ele notou e disse que eu estava bem. Vesti-me e voltamos para a casa dele. Tomei a sentar-me na esteira e tentei falar, mas não conseguia concentrar-me no que queria dizer, embora minhas idéias estivessem muito claras. Estava abismado ao ver quanta concentração era necessária para falar. Reparei também que, para dizer alguma coisa, eu tinha de parar de olhar para as coisas. Tinha a impressão de que eu estava envolvido muito profundamente, e quando queria falar tinha de subir à superfície, como um mergulhador. Tinha de subir como se fosse puxado por minhas palavras. Por duas vezes, cheguei a pigarrear, de modo inteiramente natural. Então, poderia ter dito o que quisesse, mas não disse. Preferi permanecer no estranho nível de silêncio, em que eu podia apenas olhar. Tinha a sensação de que estava no limiar do que Dom Juan chamava "ver", e isso me fazia muito feliz.

 

Depois, Dom Juan deu-me um pouco de sopa e tortillas e mandou que eu comesse. Consegui comer sem dificuldade e sem perder o que eu achava que era o meu "poder de ver". Focalizei meu olhar em tudo o que me rodeava. Estava convencido de que podia "ver" tudo, e no entanto o mundo parecia o mesmo, ao que eu podia observar. Lutei para "ver" até ficar bem escuro. Por fim, fiquei cansado, deitei-me e fui dormir.

 

Acordei quando Dom Juan me cobriu com um cobertor. Es­tava com dor de cabeça e enjoado. Depois, melhorei e dormi pro­fundamente até o dia seguinte.

 

De manhã eu estava normal. Perguntei ansiosamente a Dom Juan:

 

— O que me aconteceu? Dom Juan riu, com ar sabido.

— Você foi procurar o guarda, e claro que o encontrou — disse ele.

— Mas o que era, Dom Juan?

— O guardião, o guarda, a sentinela do outro mundo — respondeu ele, objetivamente.

 

Pretendia contar-lhe os detalhes daquele animal portentoso e horroroso, mas ele não deu atenção, dizendo que a minha experiência não era nada de especial, que qualquer um podia fazer aquilo.

 

Falei que o guarda tinha sido um choque tão grande para mim que ainda não tinha podido pensar a respeito.

 

Dom Juan riu e caçoou do que ele chamava de uma tendência super teatral de minha natureza.

 

— Aquela coisa, fosse o que fosse, me machucou — disse eu.

— Era tão real quanto você ou eu.

— Claro que era real. Machucou-o, não foi?

 

Ao recordar minha experiência, fiquei mais agitado. Dom Juan mandou que eu me acalmasse. Depois, perguntou-me se eu tinha realmente tido medo; frisou a palavra "realmente".

 

— Fiquei petrificado — disse eu. — Nunca, em minha vida, tive um susto tão tremendo.

— Ora, vamos — disse ele, rindo. — Você não teve medo.

— Eu juro — falei, com um ardor sincero — que, se me pudesse mexer, teria fugido histericamente.

 

Achou aquilo muito engraçado e deu uma gargalhada.

 

— Qual a finalidade de me fazer ver aquele monstro, Dom Juan?

— Aquele era o guarda — respondeu sério, olhando para mim.

— Se você quer ver tem de dominar o guarda.

— Mas como posso dominá-lo, Dom Juan? Ele deve ter uns 30 metros de altura.

 

Dom Juan riu tanto que as lágrimas rolaram por suas faces.

 

— Por que não me deixa contar-lhe o que vi, para não haver mal-entendidos? — perguntei.

— Se isso o faz feliz, pode contar.

 

Narrei tudo de que me lembrei, mas isso não pareceu mudar seu estado de espírito.

 

— Mas isso não é novidade alguma — disse ele, sorrindo.

— Como é que você espera que eu domine uma coisa dessas? Com quê?

 

Ficou calado um pouco. Depois, virou-se para mim e disse:

 

— Você não teve medo, não de verdade. Machucou-se, mas não teve medo.

 

Recostou-se sobre uns embrulhos e pôs os braços atrás da cabeça. Pensei que tinha desistido do assunto.

 

— Sabe, — disse ele, de repente, olhando para o teto da ramada — qualquer homem pode ver o guarda. E este, às vezes, é para alguns de nós uma fera terrível, alto como o céu. Você tem sorte; para você, ele só tem 30 metros. E, no entanto, seu segredo é muito simples.

 

Parou por um momento e entoou uma cantiga mexicana.

 

— O guarda do outro mundo é um mosquito — disse ele, de­vagar, como se estivesse ponderando o efeito de suas palavras.

— Perdão?

— O guarda do outro mundo é um mosquito — repetiu. — Aquilo que você encontrou ontem foi um mosquito; e aquele mosquitinho o manterá afastado até você dominá-lo.

 

Por um instante, não quis acreditar no que Dom Juan estava dizendo; mas, ao me lembrar da seqüência de minha visão, tive de confessar que, em certo momento, eu estava olhando para um mos­quito, e um momento depois uma espécie de miragem se realizara e eu estava olhando para uma fera.

 

— Mas como é que um mosquito podia machucar-me, Dom Juan? — perguntei, realmente perplexo.

— Não era um mosquito quando o machucou — disse ele — era o guardião do outro mundo. Talvez um dia você terá a coragem de dominá-lo. Mas não agora; neste momento, ele é um monstro de 30 metros, babando. Mas não adianta falar nisso. Não é vantagem ficar diante dele, de modo que, se quiser saber mais a respeito, procure o guarda de novo.

 

Dois dias depois, a 11 de novembro, tornei a fumar a mistura de Dom Juan.

 

Tinha pedido a e]e que me deixasse fumar mais uma vez para encontrar o guarda. Não lhe pedira num impulso, mas sim depois de muito pensar. Minha curiosidade a respeito do guarda era desproporcionadamente maior do que meu medo, ou o incômodo de perder minha clareza.

 

O processo foi o mesmo. Dom Juan encheu o fornilho do cachimbo de novo e, quando terminei, ele limpou-o e guardou-o.

 

O efeito foi positivamente mais lento: quando comecei a me sentir meio tonto, Dom Juan aproximou-se de mim e, segurando minha cabeça em suas mãos, ajudou-me a deitar-me do lado esquerdo. Disse-me que esticasse as pernas e relaxasse, e depois ajudou-me a pôr o braço direito defronte do corpo, no nível de meu peito. Virou minha mão para a palma estar contra a esteira e meu peso repousar nela. Não fiz nada nem para ajudá-lo nem atrapalhado, pois não sabia o que ele estava fazendo.

 

Sentou-se defronte de mim e disse que não me preocupasse com coisa alguma. Falou que o guarda viria, e que eu estava numa poltrona de frente para vê-lo. Disse ainda, em tom displicente, que o guarda podia provocar muita dor, mas que havia um meio de evitá-lo. Disse que, dois dias antes, ele fizera com que eu sentasse, quando achou que já bastava. Apontou para meu braço direito e disse que ele o colocara propositadamente naquela posição para eu poder usá-lo como alavanca para me levantar quando quisesse.

 

Quando acabou de me dizer aquilo tudo, meu corpo estava completamente dormente. Eu queria chamar a atenção dele para o fato de que seria impossível para mim me levantar, porque perdera o controle sobre meus músculos. Tentei vocalizar as palavras, mas não consegui. Porém, ele parecia ter-se antecipado a mim, e explicou que o truque era a vontade. Pediu que me lembrasse da ocasião, anos antes, em que eu tinha fumado os cogumelos pela primeira vez. Naquela oportunidade, eu tinha caído ao chão e me pus de pé de novo por um ato do que ele chamou naquele momento, de minha "vontade"; tinha "pensado para levantar-me". Disse que, de fato, era o único meio de me levantar.

 

O que ele dizia era inútil para mim, pois eu não me lembrava do que tinha realmente feito anos antes. Tinha uma sensação opressiva de desespero e fechei os olhos.

 

Dom Juan agarrou-me pelos cabelos, sacudiu minha cabeça com força e ordenou-me imperiosamente que não fechasse os olhos. Não apenas os abri, como fiz uma coisa que me surpreendeu. Cheguei a dizer:

— Não sei como me levantei daquela vez.

 

Fiquei espantado. Havia algo de muito monótono no ritmo de minha voz, mas era claramente a minha voz, e no entanto eu sinceramente acredito que não poderia ter dito aquilo, pois um minuto antes eu estava incapaz de falar. Olhei para Dom Juan. Este virou o rosto para o lado e riu.

 

— Eu não disse isso — falei.

 

E tornei a me espantar com minha voz. Sentia-me exaltado. Falar, naquelas circunstâncias, tornou-se um processo estimulante. Eu queria pedir a Dom Juan que explicasse a minha capacidade de falar, mas verifiquei que estava novamente incapaz de pronunciar uma única palavra. Lutei violentamente para exprimir meus pensa­mentos, mas foi inútil. Desisti e, naquele momento, quase involuntariamente, disse:

 

— Quem está falando, quem está falando?

 

Essa pergunta fez Dom Juan rir tanto que ele chegou a cair de lado. Parece que eu podia dizer coisas simples, desde que eu soubesse exatamente o que queria dizer.

 

— Estou falando? Estou falando? — perguntei.

Dom Juan me disse que, se eu não parasse de fazer brincadeiras, ele ia sair e deitar-se sob a ramada, deixando-me só com minhas palhaçadas.

 

— Não é palhaçada — repliquei.

 

Eu estava muito sério. Minhas idéias estavam muito claras; meu corpo, porém, estava amortecido; eu não o sentia. Não estava sufocado, como já tinha estado, em circunstâncias semelhantes; es­tava confortável, pois não sentia nada; não tinha controle algum sobre meu sistema de vontade e, no entanto, conseguia falar. Ocorreu-me a idéia de que, se eu podia falar, provavelmente poderia levantar-me, como Dom Juan dissera.

 

— Para cima — disse eu, em inglês, e num piscar de olho levantei-me.

 

Dom Juan sacudiu a cabeça, sem acreditar, e saiu da casa.

 

— Dom Juan! — chamei, três vezes. Ele voltou.

— Deite-me — pedi.

— Deite-se você mesmo — disse ele. — Parece estar-se saindo muito bem.

 

Eu disse "Para baixo" e, de repente, perdi o quarto de vista. Não conseguia enxergar nada. Depois de um momento, o quarto e Dom Juan voltaram para meu campo visual. Achei que eu devia ter-me deitado de cara para baixo e ele me agarrou pelos cabelos e levantou minha cabeça,

 

— Obrigado —- falei, num tom uniforme, muito lento.

— Não há de quê — respondeu, imitando meu tom de voz, e teve outro acesso de riso.

 

Depois, pegou umas folhas e começou a esfregar meus braços e pés com elas.

 

— O que está fazendo? — perguntei.

— Estou esfregando você — disse ele, imitando meu tom tristemente uniforme.

 

O corpo dele tremia de tanto rir. Seus olhos estavam brilhantes e muito agradáveis. Eu gostava dele. Achei que Dom Juan era compreensivo, justo e engraçado. Eu não podia rir com ele, mas gostaria de poder fazê-lo. Senti outra onda de exultação e ri; foi um som tão horrível que Dom Juan se agastou, por um momento.

 

— Acho melhor levá-lo para a vala — disse ele — senão você vai matar-se de tanto fazer palhaçada.

 

Pôs-me de pé e me fez andar pelo quarto. Pouco a pouco, comecei a sentir meus pés, minhas pernas e, por fim, o corpo todo. Meus ouvidos estouravam, com uma pressão estranha. Era como a sensação de uma perna ou um braço que ficaram dormentes. Senti um peso tremendo na nuca e debaixo do couro cabeludo em cima da cabeça.

 

Dom Juan levou-me depressa para a vala de irrigação existente por detrás da casa dele; atirou-me ali todo vestido. A água fria reduziu a pressão e a dor, aos poucos, até passar de todo.

 

Troquei de roupa na casa, sentei-me e tornei a sentir o mesmo tipo de retraimento, o mesmo desejo de ficar quieto. Mas dessa vez reparei que não era clareza de espírito, nem a faculdade de focalizar; era mais uma espécie de melancolia e uma fadiga física. Por fim, adormeci.

 

12 de novembro de 1968

Hoje de manhã Dom Juan e eu fomos aos morros vizinhos para colher plantas. Andamos uns dez quilômetros em terreno extremamente acidentado. Fiquei muito cansado. Sentamo-nos para descansar, a meu pedido, e ele começou uma conversa, dizendo que estava satisfeito com meus progressos.

 

— Agora sei que fui eu quem falei — disse eu —- mas, naquele momento, podia ter jurado que era outra pessoa.

— Claro que era você.

— Como é que eu não me reconheci?

— É isso que o fuminho faz. A gente pode falar e nem notar; ou a gente pode percorrer milhares de quilômetros, e nem sentir isso, tampouco. É assim também que a gente pode atravessar as coisas. O fuminho retira o corpo e a gente fica livre, como o vento; melhor do que o vento, pois este pode ser detido por uma pedra, um muro ou uma montanha. O fuminho torna a gente livre como o ar; talvez até mais livre, pois o ar pode ser trancado num túmulo e ficar mofado, mas com o auxílio do fuminho a gente não pode ser detida nem trancada.

 

As palavras de Dom Juan liberaram um misto de euforia e de dúvidas. Senti uma inquietude avassaladora, uma sensação indefinida de culpa.

 

— Então a gente realmente pode fazer essas coisas, Dom Juan?

— O que é que você acha? Prefere pensar que está maluco, não é? — falou, em voz mordaz.

— Bem, é fácil para você aceitar todas essas coisas. Para mim, é impossível.

— Não é fácil para mim. Não tenho mais privilégios do que você. Essas coisas são igualmente difíceis para você, ou para mim, ou para qualquer outro aceitar.

— Mas você está habituado com tudo isso, Dom Juan.

— Sim, mas isso me custou um bocado. Tive de lutar, talvez mais do que você jamais lutará. Tem um jeito incrível de fazer com que tudo trabalhe para você. Não tem idéia do quanto tive de me esforçar para fazer o que você fez ontem. Você tem alguma coisa que o ajuda em tudo o que faz. Não há outra explicação possível para a maneira com que aprende a respeito dos poderes. Já o fez com Mescalito e agora o está fazendo com o fuminho. Devia concentrar-se no fato de que tem um grande dom, e deixar todas as outras considerações de lado.

— Você o faz parecer tão fácil, mas não é, Estou despedaçado por dentro.

— Estará inteiro muito breve. Para começar, não tem cuidado de seu corpo. Está muito gordo. Não lhe quis dizer nada antes. A gente sempre tem de deixar os outros fazerem o que têm de fazer. Você esteve ausente durante anos. Disse-lhe que voltaria, e você voltou. O mesmo aconteceu comigo. Desisti, por cinco anos e meio.

— Por que se afastou, Dom Juan?

— Pelo mesmo motivo que você. Não gostava.

— Por que voltou?

— Pelo mesmo motivo que você também voltou, porque não há outro meio de se viver.

 

Aquelas palavras tiveram grande impacto sobre mim, pois eu andava pensando que talvez não houvesse outro meio de viver. Nunca dissera isso a ninguém e, no entanto, Dom Juan o interpretara corretamente.

 

Depois de um silêncio prolongado, perguntei-lhe:

 

— O que foi que eu fiz ontem, Dom Juan?

— Levantou-se quando quis.

— Mas não sei como o fiz.

— Leva tempo para aperfeiçoar essa técnica. O importante, porém, é saber fazê-lo,

— Mas não sei. Isso é o problema, não sei mesmo.

— Claro que sabe.

— Dom Juan, asseguro-lhe, eu juro...

 

Não me deixou terminar; levantou-se e foi embora.

 

Mais tarde, tornamos a conversar sobre o guarda do outro mundo.

 

— Se eu acreditar que o que experimentei é mesmo real —-falei — então o guarda é uma criatura gigantesca, que pode causar uma dor física incrível; e se eu acreditar que a gente pode mesmo viajar distâncias imensas por um ato da vontade, então é lógico concluir que posso fazer o monstro desaparecer por um ato de vontade. Está certo?

— Não exatamente — disse ele. — Você não pode fazer o guarda desaparecer por um ato de vontade. Mas a sua vontade pode impedir que ele lhe faça mal. Naturalmente, se algum dia conseguir isso, o caminho estará aberto para você. Poderá passar pelo guarda e não há nada que ele possa fazer, nem mesmo rodo­piar como louco.

— E como posso realizar isso?

— Você já sabe como. Só precisa praticar.

 

Disse-lhe que estávamos tendo um mal-entendido, que provinha de nossas diferentes percepções do mundo. Falei que, para mim, saber alguma coisa significava que eu tinha de estar plenamente cons­ciente do que estava fazendo e que eu podia repetir o que conhecia à vontade, mas que, naquele caso, nem eu estava consciente do que tinha feito quando sob a influência do fumo, nem poderia repeti-lo, nem para salvar a vida.

 

Dom Juan olhou para mim com uma expressão indagadora. Parecia estar-se divertindo com o que eu dizia. Tirou o chapéu e coçou as têmporas, como faz quando quer fingir que está perplexo.

 

— Sabe mesmo falar sem dizer nada, não é? — perguntou, rindo. — Já lhe disse, é preciso ter um propósito inflexível para tornar-se um homem de conhecimento. Mas você parece ter um propósito inflexível de se confundir com charadas. Insiste em explicar tudo como se o mundo inteiro fosse composto de coisas que podem ser explicadas. Agora, defronta-se com o guarda c o problema de se mover por um ato de vontade. Já lhe ocorreu que há poucas coisas neste mundo que podem ser explicadas do seu jeito? Quando digo que o guarda está realmente bloqueando sua passagem e podia realmente fazer-lhe um mal danado, sei o que estou dizendo. Quando falo que a gente pode mexer-se usando a vontade, também sei o que estou dizendo. Queria ensinar-lhe, pouco a pouco, como mo­ver-se, mas então vi que você sabe fazê-lo, apesar de dizer que não.

— Mas não sei, mesmo — protestei.

— Sabe sim, seu bobo — falou, severamente, e depois sorriu. — Isso me faz lembrar daquela vez em que alguém colocou o garoto Júlio numa ceifadeira; ele sabia manobrá-la, apesar de nunca o ter feito.

— Sei o que quer dizer, Dom Juan; no entanto, contínuo a achar que não poderia fazê-lo de novo, pois não tenho certeza do que fiz.

— Um feiticeiro impostor procura justificar tudo no mundo com explicações de que não tem certeza — falou — e assim tudo é feitiçaria. Mas você não é melhor do que isso. Também quer justificar tudo à sua maneira, mas também não tem certeza de suas explicações.

 

Dom Juan perguntou-me, de repente, se eu pretendia ir para casa no fim-de-semana. Respondi que pretendia partir na segunda-feira de manhã. Estávamos sentados sob a ramada dele, por volta do meio-dia no sábado, dia 18 de janeiro de 1969, descansando depois de um longo passeio nos morros vizinhos. Dom Juan levantou-se e entrou na casa. Pouco depois, chamou-me. Ele estava sentado no meio do quarto e tinha colocado minha esteira na frente da dele. Fez um gesto para eu me sentar e, sem dizer uma palavra, desembrulhou o cachimbo dele, tirou-o de sua capa, encheu o fornilho com sua mistura de fumo e acendeu-o. Tinha até levado para o quarto uma bandeja de barro cheia de carvõezinhos.

Não me perguntou se eu estava disposto a fumar. Apenas me passou o cachimbo e me disse para fumar. Não hesitei. Dom Juan aparentemente tinha julgado certo meu estado de espírito; minha curiosidade imensa sobre o guarda devia ser evidente para ele. Eu não precisava que insistisse comigo e avidamente fumei o fornilho todo.

 

As reações que tive foram idênticas às que já tinha experimentado. Dom Juan também agiu mais ou menos da mesma maneira, Desta vez, porém, em vez de me ajudar a fazê-lo, apenas me disse que apoiasse o braço na esteira e me deitasse sobre o lado esquerdo. Sugeriu que cerrasse o punho, se isso me desse mais força.

 

Realmente cerrei o punho direito, pois achava isso mais fácil do que encostar a palma da mão no chão ao deitar com o peso sobre ela. Não estava com sono; tive muito calor, a princípio, e depois não senti mais nada.

 

Dom Juan deitou-se de lado, de frente para mim; seu braço direito estava apoiado no cotovelo, sustentando a cabeça como um travesseiro. Tudo estava perfeitamente plácido, até meu corpo, que a essa altura não tinha sensações táteis. Eu estava muito satisfeito.

 

— Está bom — falei.

 

Dom Juan levantou-se depressa.

 

— Não ouse começar com essa besteira — disse ele, com veemência. — Não fale. Vai desperdiçar toda a sua energia falando, e estão o guarda o esmagará, como você esmagaria um mosquito.

 

Deve ter achado sua imagem engraçada, porque começou a rir, mas parou de repente.

 

— Não fale, por favor não fale — repetiu, com uma expressão séria.

— Eu não ia dizer nada — falei, e realmente não quis dizer aquilo.

 

Dom Juan levantou-se. Eu o vi afastando-se para os fundos da casa. Um momento depois, reparei que um mosquito tinha pousado em minha esteira e isso me encheu de um tipo de angústia que eu nunca sentira. Era um misto de animação, angústia e medo. Eu tinha plena consciência de que alguma coisa transcendental ia-se desenrolar diante de mim; um mosquito que guardava o outro mundo. Era uma idéia cômica; tive vontade de rir alto, mas então percebi que minha animação me estava distraindo e eu ia perder um período de transição que queria esclarecer. Em minha tentativa anterior de ver o guardião, tinha olhado primeiro para o mosquito com meu olho esquerdo, e depois senti que me tinha levantado e olhado para ele com os dois olhos, porém não tinha noção de como se passara essa transição.

 

Vi o mosquito rodopiando na esteira diante de meu rosto e percebi que estava olhando para ele com os dois olhos. Chegou muito perto; em dado momento, não conseguia mais vê-lo com os dois olhos e passei a olhar com o olho esquerdo, que estava no nível do solo. No momento em que mudei de foco também senti que tinha esticado meu corpo, assumindo a posição totalmente vertical, e estava olhando para um animal incrivelmente grande. Ele era de um negro brilhante. Sua frente era coberta de pêlos longos e negros, que pareciam espetos saindo das fendas de escamas lustrosas e gosmentas. Os pêlos eram dispostos em tufos. O corpo era maciço, grosso e redondo. As asas eram largas e curtas, comparadas com o comprimento de seu corpo. Tinha dois olhos brancos e espocados e um focinho comprido. Dessa vez, assemelhava-se mais a um jacaré. Parecia ter orelhas compridas ou talvez chifres, e estava babando.

 

Obriguei-me a fixar meu olhar sobre ele e depois fiquei plenamente consciente de que não podia olhá-lo da mesma maneira que olho normalmente para as coisas. Tive uma idéia estranha; olhando para o corpo do guardião, senti que todas as partes dele estavam vivas, assim como os olhos do homem têm vida. Entendi então, pela primeira vez na vida, que os olhos eram a única parte do homem que me podiam mostrar se ele estava vivo ou não. O guarda, ao contrário, tinha um "milhão de olhos".

 

Achei que essa era uma descoberta notável. Antes dessa experiência eu tinha pensado nas imagens que podiam descrever as "distorções" que tornavam um mosquito uma fera gigantesca; e pensara que uma boa imagem era "como se se olhasse para um inseto pela lente de aumento de um microscópio". Mas não era assim. Aparentemente, ver o guarda era muito mais complexo do que olhar para um inseto aumentado.

 

O guarda começou a rodopiar em minha frente. Em certo mo­mento, parou e eu senti que ele me estava olhando. Então, reparei que ele não emitia som algum. A dança do guarda era silenciosa. O pavor residia cm sua aparência: seus olhos espocados; sua boca horrenda; sua baba; seus pêlos gosmentos; e acima de tudo, seu tamanho incrível. Observei bem de perto seu modo de mover as asas, como ele as fazia vibrar sem um som. Vi como deslizava sobre o solo como um monumental patinador do gelo.

 

Olhando para aquela criatura de pesadelo diante de mim, cheguei a sentir-me exultante. Realmente, acreditei ter descoberto o segredo de dominá-lo. Pensei que o guarda não era mais que uma foto em movimento numa tela silenciosa; não podia molestar-me; só tinha uma aparência aterradora.

 

O guarda estava parado, de frente para mim; de repente, mexeu as asas e virou-se. Suas costas pareciam uma armadura de cores brilhantes; seu brilho era ofuscante, mas o tom, enjoativo; era minha cor desfavorável. O guarda ficou um pouco de costas para mim e, depois, adejando as asas, tomou a sumir de meu campo de visão.

 

Eu estava num dilema muito estranho. Sinceramente acreditava tê-lo dominado, percebendo que apresentava apenas uma imagem de fúria. Talvez minha crença se devesse à insistência de Dom Juan, de que eu sabia mais do que estava disposto a confessar. De qual­quer forma, achei que tinha dominado o guarda, e que o caminho estava livre. E, no entanto, não sabia como proceder. Dom Juan não me dissera o que fazer, num caso desses. Tentei virar-me e olhar para trás, mas não consegui mover-me. No entanto, eu podia ver muito bem na maior parte de um ângulo de 180a na frente de meus olhos. É o que vi foi um horizonte esfumaçado, amarelo-pálido; parecia nebuloso. Uma espécie de uniformidade de tom de limão cobria tudo o que eu via. Parecia que eu estava num planalto cheio de vapores de enxofre.

 

De repente, o guarda tornou a aparecer num ponto do horizonte. Descreveu um grande círculo, antes de parar diante de mim; sua boca estava escancarada, como uma imensa caverna; não tinha dentes. Vibrou suas 3sas por um minuto e, depois, investiu contra mim. Atacou mesmo como um touro e, com suas asas gigantescas, bateu em meus olhos. Gritei de dor e depois voei para cima, ou antes, senti que me tinha forçado para cima e fui pairando sobre o guarda, além do planalto amarelado, para outro mundo, o inundo dos homens, e encontrei-me de pé no meio do quarto de Dom Juan.

 

19 de janeiro de 1961

— Pensei mesmo que tinha dominado o guarda — disse a Dom Juan.

— Você está brincando — falou ele.

 

Dom Juan não tinha dado uma palavra desde a véspera, e eu não me importava. Estava mergulhado numa espécie de devaneio e novamente sentia que, se olhasse bem, eu seria capaz de "ver". Mas não vi nada de diferente. Mas o fato de não falar me fizera descansar muito.

 

Dom Juan me pediu para contar a seqüência de minha experiência, e o que lhe interessou especialmente foi a tonalidade que eu vira nas costas do guarda. Dom Juan suspirou e pareceu real­mente preocupado,

— Teve sorte de a cor estar nas costas do guarda — disse ele, muito sério. — Se fosse na frente do corpo ou, pior ainda, na cabeça, você estaria morto a essa hora. Nunca mais deve tentar ver o guarda. Não está no seu temperamento atravessar aquela planície; e, no entanto, eu estava crente de que você podia passar por ela. Mas não se fala mais nisso. Esse era apenas um de muitos caminhos.

 

Percebi um peso desusado nas palavras de Dom Juan.

 

— O que me acontecerá se eu tentar ver o guarda outra vez?

— O guarda o levará embora — respondeu. — Ele o pegará com sua boca e o levará para aquela planície e o deixará lá para sempre. É óbvio que o guarda sabia que não é seu temperamento e lhe avisou para se afastar.

— Como é que você acha que o guarda sabia disso?

 

Dom Juan olhou para mim bem firme e por muito tempo. Tentou dizer alguma coisa, mas desistiu, como se não encontrasse as palavras adequadas.

 

— Sempre caio nas suas perguntas — disse ele, sorrindo. — Você não estava pensando quando me perguntou isso, estava?

 

Protestei e reafirmei que estava intrigado como é que o guarda conhecia meu temperamento. Dom Juan tinha um estranho brilho nos olhos quando disse:

 

— E você nem mencionou nada sobre seu temperamento para o guarda, não é?

 

O tom dele era tão comicamente sério que nós dois rimos. Mas depois ele disse que o guarda, sendo o zelador, o vigia do mundo, sabia de muitos segredos de que um brujo podia partilhar.

 

— É esse um dos modos como um brujo chega a ver — comentou. — Mas esse não será o seu terreno, de modo que não adi­anta falar a respeito.

— Fumar é o único meio de ver o guarda? — perguntei.

— Não. Você também o poderia ver sem isso. Há muita gente que o consegue. Prefiro o fumo porque é menos perigoso para a gente e mais eficaz. Se você tentar ver o guarda sem o auxilio do fumo, é provável que custe a sair do caminho dele. No seu caso, por exemplo, é óbvio que o guarda o estava alertando quando lhe deu as costas, para você ver sua cor inimiga. Depois, foi embora; mas quando voltou você continuava a!i, de modo que ele investiu contra sua pessoa.  Mas você estava preparado e pulou.  O fuminho lhe deu a proteção de que precisava; se tivesse ingressado naquele mundo sem o auxílio dele, não teria conseguido livrar-se das garras do guarda.

— Por que não?

— Seus movimentos teriam sido lentos demais. Para sobreviver naquele mundo, tem de ser rápido como o relâmpago. Foi um erro eu ter saído do quarto, mas não queria que você falasse mais. Você é um tagarela, de modo que fala até contra seus próprios desejos. Se eu estivesse lã com você, teria puxado sua cabeça para cima. Mas pulou para cima sozinho, o que é melhor ainda; mas prefiro não correr um risco desses; o guarda não é coisa de brincadeira.

 

Durante três meses, Dom Juan sistematicamente evitou falar sobre o guarda. Visitei-o quatro vezes nesse tempo; em todas as ocasiões, mandava-me fazer coisas para ele, e depois que eu tinha concluído as tarefas, simplesmente dizia-me para ir para casa. No dia 24 de abril de 1969, na quarta vez que fui à casa dele, afinal confrontei-o, depois de termos jantado, quando estávamos sentados junto de seu fogão. Disse-lhe que me estava fazendo uma coisa in­congruente; eu estava pronto para aprender e, no entanto, ele nem queria que eu ficasse por perto, Tinha tido de lutar muito para vencer minha aversão pelos cogumelos alucinógenos dele e sentia, como ele mesmo tinha dito, que não havia tempo a perder. Dom Juan ouviu minhas reclamações com paciência.

 

— Você é muito fraco — falou. — Apressa-se quando devia esperar, mas espera quando devia apressar-se. Pensa demais. Agora está imaginando que não há tempo a perder. Há pouco, achava que não queria mais fumar. Sua vida é muito frouxa; não é suficiente­mente ajustado para conhecer o fuminho. Sou responsável por você e não quero que morra como um idiota.

 

Senti-me encabulado.

 

— O que posso fazer, Dom Juan? Sou muito impaciente.

— Viva como um guerreiro!   Já lhe disse, um guerreiro se responsabiliza por todos seus atos; pelo mais trivial de seus atos, Você age seus pensamentos, e isso é errado. Fracassou com o guarda por causa de seus pensamentos.

— Como foi que eu fracassei, Dom Juan?

— Pensa sobre tudo. Pensou no guarda e assim não conseguiu dominá-lo. Primeiro; tem de viver como guerreiro. Acho que você entende isso muito bem.

 

Eu queria dizer alguma coisa em minha defesa, mas ele fez um gesto para eu ficar calado.

 

— Sua vida é bem segura — continuou ele. — De fato, sua vida é mais segura do que a de Pablito ou de Nestor, os aprendizes de Genaro, e no entanto eles vêem e você não vê. Sua vida é mais segura do que a de Eligio e ele provavelmente verá antes de você. Isso me deixa perplexo. Nem mesmo Genaro pode entender isso. Você executou fielmente tudo o que lhe disse para fazer. Tudo o que meu benfeitor me ensinou, no primeiro estágio da aprendizagem, eu lhe transmiti. A regra está certa, os passos não podem, mudar. Fez tudo o que se tem de fazer e no entanto não vê; mas para aqueles que vêem, como Genaro, você aparece como vendo. Confio nisso e sou ludibriado. Sempre se vira e comporta-se como um idiota que não sabe ver, o que, é claro, está certo para você.

 

As palavras de Dom Juan. me desgostaram profundamente. Não sei por que, mas eu estava quase chorando. Comecei a falar sobre minha infância e uma onda de autocomiseração me dominou. Dom Juan olhou para mim por um instante e depois desviou o olhar. Foi um olhar penetrante. Senti que ele me tinha agarrado com os olhos. Tive a sensação de dois dedos me segurando delicadamente e reconheci uma agitação estranha, um formigamento, uma angústia agradável na região de meu plexo solar. Tomei conhecimento de minha região abdominal. Senti seu calor. Não consegui mais falar coerentemente e balbuciei, depois parei de falar de todo.

 

— Talvez seja a promessa — disse Dom Juan, depois de uma pausa prolongada.

— Perdão?

— Uma promessa que você fez há muito tempo.

— Que promessa?

— Talvez saiba dizer-me. Você se lembra, não é?

— Não.

— Prometeu uma coisa muito importante, uma vez. Pensei que, talvez, sua promessa lhe estivesse impedindo de ver,

— Não sei de que está falando.

— Estou falando de uma promessa que você fez! Deve lembrar-se.

— Se sabe qual é a promessa, por que não me diz, Dom Juan?

— Não. Não vai adiantar nada dizer-lhe.

— Foi uma promessa que fiz a mim mesmo?

 

Por um momento, pensei que ele se estivesse referindo à minha resolução de desistir do aprendizado.

 

— Não. Foi uma coisa que aconteceu há muito tempo — disse ele.

 

Eu ri, porque estava certo de que Dom Juan estava fazendo uma brincadeira comigo. Sentia-me malicioso. Tinha uma sensação de exultação diante da idéia de poder lograr Dom Juan que, segundo me parecia, sabia tanto quanto eu sobre a dita promessa. Tinha consciência de que ele estava pescando e tentando improvisar. A idéia de brincar com ele me agradava.

 

— Foi alguma coisa que prometi a meu avô?

— Não — respondeu, e seus olhos brilharam — Tampouco, foi alguma coisa que você prometeu à vovozinha.

 

A entonação cômica que ele deu à palavra "vovozinha" me fez rir. Pensei que Dom Juan estava-me armando alguma cilada, mas estava disposto a seguir a brincadeira até o fim. Comecei a enumerar todos os indivíduos possíveis a quem eu poderia ter prometido alguma coisa muito importante. Falou não a todos eles. Depois, conduziu a conversa para minha infância.

 

— Por que sua infância foi triste? — perguntou ele, com uma expressão séria.

 

Respondi que minha infância não fora triste, e sim um pouco difícil.

 

— Todo mundo sente isso — disse ele, olhando para mim de novo. — Também fui muito infeliz e medroso quando criança. Ser uma criança índia é duro, muito duro. Mas a recordação daquela época não significa mais nada para mim, além do fato de ter sido dura. Eu tinha deixado de pensar na dureza de minha vida, antes de começar a ver.

— Eu também não penso em minha infância — falei.

— Então, por que ela o entristece? Por que você quer chorar?

— Não sei. Talvez quando penso em mim quando criança, tenho pena de mim e de todos os meus semelhantes. Sinto-me desamparado e triste.

 

Olhou fixamente para mim e novamente minha região abdominal teve a sensação estranha de dois dedos delicados apertando-a. Desviei a vista e depois tornei a olhar para ele. Dom Juan estava olhando para longe, para além de mim; seus olhos estavam nublados, fora de foco.

 

— Foi uma promessa feita em sua infância — disse ele, depois de um momento de silêncio.

— O que foi que eu prometi?

 

Não respondeu. Estava com os olhos fechados. Sorri sem que­rer; sabia que ele estava tateando no escuro; mas tinha perdido parte de meu impulso de fazer-lhe a vontade.

 

— Fui uma criança magrinha — continuou ele — e estava sempre com medo.

— E eu também — falei.

— O que eu me lembro mais é o terror e a tristeza que me acometeram quando os soldados mexicanos mataram minha mãe — disse ele baixinho, como se a recordação ainda fosse dolorosa. — Era uma índia pobre e humilde. Talvez fosse melhor que sua vida terminasse então.  Eu queria que me matassem com ela, porque era criança. Mas os soldados me pegaram e me bateram. Quando me agarrei ao corpo de minha mãe, eles deram nos meus dedos com um chicote e os quebraram. Não senti dor, mas, então não pude mais me agarrar e eles me arrastaram dali.

 

Parou de falar. Ainda estava de olhos fechados e eu percebi um ligeiro tremor em seus lábios. Uma tristeza profunda começou a me envolver. Imagens de minha própria infância começaram a invadir minha cabeça.

 

— Que idade você tinha, Dom Juan? — perguntei, só para combater a tristeza em mim.

— Uns sete anos, talvez. Foi a época das grandes guerras dos yaquis. Os soldados mexicanos apareceram inesperadamente, quando minha mãe estava cozinhando. Era uma mulher indefesa. Ma­taram-na por nada. Não importa que ela tenha morrido assim, real­mente, mas, para mim, importa. Não posso dizer por quê, mas importa. Pensei que também tivesse matado meu pai, mas não. Ele estava ferido. Mais tarde, puseram-nos num trem, como gado, e fecharam a porta. mantinham-nos vivos com bocados de comida atirados no vagão de vez em quando.

 

"Meu pai morreu dos ferimentos, naquele vagão. Começou a delirar, com a dor e a febre, e só dizia que eu tinha de sobreviver. Ficou dizendo aquilo até o último momento de sua vida".

 

"As pessoas tomaram conta de mim; deram-me comida; uma velha curandeira arrumou os dedos quebrados de minhas mãos. E, como você pode ver, sobrevivi. A vida não tem sido nem boa nem má para mim; tem sido dura. A vida é dura e para uma criança, às vezes, é um puro horror."

 

Ficamos sem falar por muito tempo. Talvez uma hora se tenha passado, no mais completo silêncio, Eu sentia coisas muito confusas. Estava um pouco deprimido e, no entanto, não sabia dizer por quê. Tinha um sentimento de remorso. Havia pouco, eu estava disposto a fazer a vontade de Dom Juan. mas, de repente, ele mudara a situação, com seu relato direto. Tinha sido simples e conciso, e provo­cara em mim um sentimento estranho. A idéia de uma criança suportar a dor sempre fora para mim um assunto delicado. Num momento, meus sentimentos de empatia para com Dom Juan cederam lugar a uma sensação de nojo para comigo mesmo. Chegara a tomar apontamentos, como se a vida de Dom Juan. fosse apenas um caso clínico. Eu estava a ponto de rasgai as notas, quando Dom Juan cutucou minha perna com o dedo do pé dele para me chamar a atenção. Disse que estava "vendo" uma luz de violência em volta de mim e estava pensando se eu ia começar a dar nele. Seu riso foi uma interrupção agradável. Falou que eu era dado a rompantes de comportamento violento, mas que não era mau de verdade e que, na maior parte das vezes, a violência era dirigida contra mim mesmo.

 

— Tem razão, Dom Juan — disse eu.

— Claro — concordou ele, rindo.

 

Pediu-me para falar de minha infância. Comecei a contar-lhe a respeito de meus anos de medo e solidão, e passei a descrever-lhe o que eu considerava minha luta titânica para sobreviver e conservar o ânimo.  Ele riu diante da expressão "conservar o ânimo".

 

Falei por muito tempo. Ficou escutando, sério. Depois, em certo momento, seus olhos tornaram a "agarrar-me" e eu parei de falar. Depois de uma pausa, ele disse que nunca ninguém me humilhara, e que era por isso que eu não era realmente malvado.

 

— Ainda não foi vencido — falou.

 

Repetiu a expressão quatro ou cinco vezes, de modo que me senti obrigado a lhe perguntar o que ele queria dizer com aquilo. Explicou que, ser vencido, era uma condição na vida que era inevitável. Os homens eram ou vitoriosos ou vencidos e, dependendo disso, tornavam-se perseguidores ou vítimas. Essas duas condições prevaleciam, enquanto a pessoa não "visse"; "ver" desfazia a ilusão da vitória, ou da derrota ou do sofrimento. Acrescentou que eu devia aprender a "ver", enquanto eu era vitorioso, para evitar a recordação de ter sido humilhado.

 

Protestei que eu não era nem nunca tinha sido vitorioso em nada; e que a minha vida era, antes, uma derrota.

 

Ele riu e atirou o chapéu no chão.

 

— Se a sua vida é uma derrota assim, pise no meu chapéu — desafiou ele, de brincadeira.

 

Argumentei sobre o assunto cora seriedade. Dom Juan ficou circunspecto. Seus olhos se apertaram até virar duas linhas. Falou que eu achava que a minha vida era uma derrota por motivos outros que não a derrota em si. Depois, de maneira muito rápida e inesperada, pegou minha cabeça, colocando as palmas contra minhas têmporas. Seus olhos ficaram ferozes ao olharem dentro dos meus. De medo, respirei sem querer, fundo pela boca. Largou minha cabeça e encostou-se na parede, ainda olhando para mim. Tinha executado seus movimentos com tal velocidade que, quando ele relaxou e se encostou confortavelmente contra a parede, eu ainda estava no meio de minha respiração profunda. Eu estava tonto e constrangido.

 

— Estou vendo um menininho chorando — disse Dom Juan, depois de uma pausa.

 

Repetiu aquilo várias vezes, como se eu não entendesse. Tinha a impressão de que ele estava falando de mim como de um menininho chorando, de modo que não prestei muita atenção.

 

— Ei! — disse ele, exigindo toda minha concentração. — Estou vendo um menininho chorando.

 

Perguntei se o menininho era eu. Falou que não. Depois, perguntei-lhe se era uma visão de minha vida, ou apenas uma recordação de sua própria existência. Não respondeu.

 

— Estou vendo um menininho — continuou dizendo. — E ele está chorando sem parar.

— É um menininho que eu conheço? — perguntei.

— Sim.

— É meu menininho?

— Não.

— Ele está chorando agora?

— Está chorando agora — disse ele, com convicção.

 

Achei que Dom Juan estava tendo uma visão de alguém que eu conhecia, que era um menininho e que estava chorando naquele momento. Disse o nome de todas as crianças que eu conhecia, mas ele respondeu que aquelas crianças não tinham nada a ver com minha promessa e que a criança que estava chorando era muito importante para ela.

 

As declarações de Dom Juan pareciam incongruentes. Falara que eu tinha prometido alguma coisa a alguém em minha infância, e que a criança que estava chorando naquele momento era importante para a minha promessa. Disse-lhe que não estava fazendo sentido. Repetiu calmamente que ele estava "vendo" um menininho chorando naquele momento e que o menininho estava ferido.

 

Tentei seriamente conciliar as declarações dele num padrão ordenado, mas não consegui relacioná-las com coisa alguma que eu soubesse.

 

— Desisto — falei — pois não me lembro de ter feito uma promessa importante a ninguém, muito menos a uma criança.

 

Tornou a apertar os olhos e disse que essa determinada criança que estava, chorando naquele momento era uma criança de minha infância.

 

— Era uma criança na minha infância e continua a chorar agora? — perguntei.

— É uma criança que está chorando agora — insistiu.

— Sabe o que está dizendo, Dom Juan?

— Sei

— Não faz sentido. Como é que ela pode ser criança agora, se era criança quando eu mesmo era criança?

— E uma criança e está chorando agora — disse ele, teimando.

— Expliquei-me, Dom Juan.

— Não. Você é quem tem de explicá-lo a mim.

 

Nem por sonhos eu podia imaginar a que ele se estava referindo.

 

— Está chorando! Está chorando! — repetia Dom Juan, num tom hipnótico.  — E o está abraçando agora.  Está machucado! Está machucado! E está olhando para você. Não sente os olhos dele? Está ajoelhado e abraçando-o. É mais moço do que você. Foi correndo para junto de você. Mas o braço dele está quebrado. Está sentindo o braço dele? Esse menininho tem um nariz que parece um botão. Sim! Um nariz de botão.

 

Meus ouvidos começaram a zumbir e perdi a sensação de estar em casa de Dom Juan. As palavras "nariz de botão" lançaram-me logo a cenas de minha infância. Eu conhecia um menino de nariz de botão! Dom Juan conseguira penetrar em um dos setores mais recônditos de minha vida. Então, descobri qual a promessa de que ele falava. Tive uma sensação de exultação, de desespero, de assombro por Dom Juan e sua esplêndida manobra. Como é que ele ia saber a respeito do menino de nariz de botão da minha infância? Fiquei tão agitado pela recordação que Dom Juan provocara que meu poder de recordar me levou a uma época em que eu tinha oito anos de idade. Minha mãe tinha partido dois anos antes e eu tinha passado os anos mais infernizados de minha vida, circulando entre as irmãs de minha mãe, que serviam de compenetradas substitutas de mãe e tomavam conta de mim uns dois meses cada uma. Todas elas tinham família grande, e por mais cuidadosas e protetoras que as tias fossem para comigo, eu tinha 22 primos para enfrentar. Às vezes, a crueldade deles era realmente bizarra. Então, eu sentia que estava rodeado de inimigos e nos anos dolorosos que se seguiram lutei uma guerra desesperada e sórdida.  Por fim, por meios que desconheço até o dia de hoje, consegui dominar todos meus primos. Fui vitorioso, de verdade. Não tinha mais concorrentes de monta. Mas eu não sabia disso, nem sabia como parar minha guerra, que logicamente era transportada para o terreno da escola.

 

As classes da escola rural que eu freqüentava eram mistas e a primeira c terceira séries só eram separadas por um espaço entre as carteiras. Foi ali que conheci um menininho de nariz achatado, que tinha o apelido implicante de "Nariz de botão". Ele era da primeira série. Costumava implicar com ele ao acaso, sem levar a coisa a sério, Mas o menino parecia gostar de mim, a despeito de tudo o que lhe fazia. Ficava-me acompanhando e chegou a guardar segredo de que era eu o responsável por algumas das travessuras que deixavam o diretor perplexo. E, no entanto, eu continuava a implicar com ele. Um dia, derrubei de propósito um quadro-negro pesado; o quadro caiu sobre ele; a carteira onde estava sentado absorveu parte do impacto, mas ainda assim o baque lhe quebrou a clavícula. Ele caiu. Ajudei-o a levantar-se e vi a dor e o susto nos seus olhos, enquanto ele me olhava e se agarrava a mim. O choque de vê-lo com dor, com um braço estropiado, foi demais para mim. Durante anos, lutara ferrenhamente contra meus primos, e vencera; derrotara meus inimigos; tinha-me sentido bem e poderoso, até o momento em que a visão do menininho de nariz de botão chorando demolira minhas vitórias. Naquele momento, desisti da luta. Â minha maneira, tomei a resolução de nunca mais vencer. Pensei que o braço dele teria de ser amputado e prometi que se o menininho se curasse, eu nunca mais seria vitorioso. Renunciei a minhas vi­tórias por ele. Foi assim que eu o entendi na ocasião.

 

Dom Juan tinha aberto uma ferida infectada de minha vida. Eu estava tonto, acabrunhado. Um poço de tristeza consumada me engolfava e eu sucumbi. Senti o peso de meus atos. A recordação do menininho de nariz de botão, que se chamava Joaquín provocou em mim tal angústia que eu chorei. Contei a Dom Juan minha tristeza por aquele menininho que nunca teve nada, aquele Joaquinzinho que não tinha dinheiro para ir ao médico e cujo braço nunca sarou direito. E só o que eu tinha para dar a ele eram as minhas vitórias infantis.  Tive muita vergonha.

 

— Fique em paz, seu cara engraçado — disse Dom Juan, imperiosamente. — Você deu bastante. — Suas vitórias eram fortes e suas. Deu bastante. Agora, tem de trocar a sua promessa.

— Como é que eu a troco? Basta dizê-lo?

— Uma promessa dessas não pode ser trocada só por dizer. Talvez muito em breve saberá o que fazer para trocá-la. Então, talvez você consiga ver.

— Pode dar-me alguma sugestão, Dom Juan?

— Tem de esperar com paciência, sabendo que está esperando e sabendo pelo que está esperando. É assim que faz o guerreiro. E se for o caso de cumprir sua promessa, então você tem de saber que a está cumprindo. Então, chegará o momento em que sua espera vai acabar c você não terá mais de cumprir sua promessa. Não há nada que você possa fazer pela vida daquele menininho. Só ele pode cancelar aquele ato,

— Mas de que maneira?

— Aprendendo a reduzir suas necessidades a zero.  Enquanto ele pensar que foi uma vítima, sua vida será um inferno. E enquanto você pensar o mesmo, a sua promessa será válida. O que nos torna infelizes é desejar. E, no entanto, se aprendermos a reduzir nossos desejos a zero, a menor coisa que recebermos será um presente verdadeiro. Esteja em paz, deu um bom presente a Joaquín. Ser pobre ou necessitado é apenas uma idéia.; assim também é o ódio, ou a fome, ou a dor.

— Não posso crer nisso realmente, Dom Juan. Como é que a fome e a dor podem ser apenas idéias?

— Para mim agora são apenas idéias. Ê só isso que eu sei. Já consegui essa proeza. O poder de fazer isso é só o que temos, preste bem atenção, para opor às forças de nossas vidas; sem esse poder somos lixo, poeira no vento.

— Não duvido de que o tenha conseguido, Dom Juan, mas como é que um homem simples como eu, ou o pequeno Joaquín, podem conseguir isso?

— Cabe a nós, como indivíduos isolados, opor-nos às forças de nossas vidas. Já lhe disse isso inúmeras vezes: só um guerreiro pode sobreviver. Um guerreiro sabe que está esperando e o que está esperando; e, enquanto espera, não precisa de nada, e assim qual­quer cozinha que ele receba é mais do que pode tomar. Se ele precisar comer, dá um jeito, pois não tem fome; se alguma coisa lhe machuca o corpo, ele dá um jeito de parar aquilo, pois não sente dor. Ter fome ou sentir dor significam que o homem se largou e não é mais um guerreiro; e as forças de sua fome e de sua der o destruirão.

 

Quis continuar a argumentar, mas parei porque, discutindo, estava construindo uma barreira para me proteger contra a força devastadora da façanha magnífica de Dom Juan, que me emocionara tanto e com tal poder. Como é que ele sabia? Pensei que talvez eu lhe tivesse contado a história do menininho de nariz de botão durante um de meus estados profundos de realidade não comum. Não me lembrava de tê-lo feito, mas isso, nas circunstâncias, era compreensível.

 

— Como é que sabia a respeito de minha promessa, Dom Juan?

— Eu a vi.

— Você a viu quando eu tomei Mescalito, ou quando fumei sua mistura?

— Eu a vi agora. Hoje.

— Viu a coisa toda?

— Lá vem você outra vez. Já lhe disse, não adianta falar sobre como é ver. Não é nada.

 

Não insisti. Emocionalmente, eu estava convencido.

 

— Também fiz uma promessa uma vez — disse Dom Juan de repente. O som da sua voz me sobressaltou. — Prometi a meu pai que havia de viver para destruir os assassinos dele. Vivi anos com essa promessa. Agora, a promessa é outra. Não estou mais interessado em destruir ninguém. Não odeio os mexicanos. Não odeio ninguém. Aprendi que os inúmeros caminhos que a gente atravessa na vida são todos iguais. Os opressores e oprimidos se encontram, no fim, e a única coisa que prevalece é que a vida foi muito curta para ambos. Hoje, sinto tristeza não porque minha mãe e meu pai tenham morrido da maneira como morreram; sinto tristeza porque eram índios. Viveram como índios e morreram como índios, e nunca souberam que, antes de tudo, eram homens.

 

Voltei para visitar Dom Juan no dia 30 de maio de 1969 e fui logo dizendo que queria tentar "ver" outra vez. Ele sacudiu a cabeça, em recusa, e riu, e eu tive vontade de protestar. Disse-me que tinha de ter paciência e que a ocasião não era oportuna, mas eu insisti obstinadamente, afirmando que estava pronto.

 

Não pareceu aborrecer-se com meus pedidos insistentes. Não obstante, procurou mudar de assunto. Não desisti e pedi que ele me aconselhasse sobre o que devia fazer para vencer minha impaciência.

 

— Tem de agir como um guerreiro — disse ele.

— Como?

— A gente aprende a agir como um guerreiro agindo, não falando.

— Você disse que um guerreiro pensa em sua morte. Faço isso a toda hora; obviamente, não é o suficiente.

 

Pareceu ter um acesso de impaciência e estalou os lábios. Falei que não queria aborrecê-lo e que, se ele não precisava de mim ali na casa dele, estava pronto para voltar para Los Angeles. Dom Juan me deu um tapinha nas costas e disse que nunca se zangava comigo; disse que, apenas, tinha suposto que eu sabia o que era ser um guerreiro.

 

— O que posso fazer para viver como um guerreiro? — perguntei.

 

Ele tirou o chapéu e coçou as têmporas. Olhou fixamente para mim e sorriu.

 

— Gosta de tudo arrumadinho, não é?

— É assim que a minha cabeça trabalha.

— Mas não precisa.

— Não sei como mudar. É por isso que lhe peço para me dizer exatamente o que fazer para viver como um guerreiro; se eu soubesse isso, poderia encontrar um meio de me adaptar.

 

Ele deve ter achado que minhas palavras eram divertidas; bateu em minhas costas e riu.

 

Tinha a impressão de que ele ia pedir-me para ir embora a qualquer momento, de modo que sentei-me depressa em minha esteira, defronte dele, e comecei a fazer mais perguntas. Eu queria saber por que tinha de esperar.

 

Explicou que, se eu fosse tentar "ver" de uma maneira ataba­lhoada, antes de ter "sarado as feridas" que eu recebi lutando contra o guarda, o provável era que eu tornaria a encontrar o guarda, mesmo que não estivesse procurando por ele. Dom Juan garantiu-me que ninguém, naquela situação, teria possibilidade de sobreviver a um encontro desses.

 

— Tem de esquecer-se completamente do guarda, antes de poder empreender a aventura de ver — disse ele.

— Como pode alguém esquecer o guarda?

— Um guerreiro tem de usar a vontade e a paciência para es­quecer. Na verdade, um guerreiro só tem a sua vontade e sua pa­ciência, e com elas ele constrói o que quiser.

— Mas não sou um guerreiro.

— Começou aprendendo os métodos dos feiticeiros. Não tem mais tempo para retiradas ou remorsos. Só tem tempo para viver como um guerreiro e trabalhar para ter paciência e vontade, quer queira, quer não.

— E como é que o guerreiro trabalha para isso?

 

Dom Juan pensou por muito tempo antes de responder.

 

— Acho que não há meio de se falar sobre isso — disse ele, por fim. — Especialmente sobre a vontade. Esta é uma coisa muito especial. Acontece misteriosamente. Não há um meio certo de se dizer como é que se a usa, a não ser que os resultados de se usar a vontade são extraordinários. Talvez a primeira coisa que se deve fazer é saber que a gente a pode desenvolver. O guerreiro sabe disso e passa a esperar isso. O seu engano é não saber que está esperando a sua vontade.

 

"Meu benfeitor me disse que o guerreiro sabe que está esperando e sabe o que está esperando. Em seu caso, você sabe que está esperando. Há anos que está aqui comigo e, no entanto, não sabe o que está esperando. Ê muito difícil, se não impossível, para o homem comum saber o que é que está esperando. Um guerreiro, porém, não tem problemas; sabe que está esperando a sua vontade.

 

— O que exatamente é a vontade?  É a determinação, como a determinação de seu neto Lúcio de ter uma motocicleta?

— Não — respondeu ele, baixinho, dando uma risada. — Isso não é vontade.  Lúcio só tem caprichos. A vontade é outra coisa, uma coisa muito clara e poderosa, que pode dirigir os nossos atos. A vontade é uma coisa que o homem usa, por exemplo, para vencer uma batalha que ele, por todos os cálculos, devia perder.

— Então a vontade deve ser o que chamamos coragem — disse eu.

— Não.  A coragem é outra coisa.  Os homens de coragem são homens de confiança, nobres, constantemente rodeados por pessoas que ficam em volta deles e os admiram; no entanto, muito poucos homens de coragem têm vontade.  Geralmente são homens destemidos, que são dados a praticar atos audaciosos de bom senso; a maioria das vezes, um homem corajoso é também atemorizador e temido, A vontade, por outro lado, trata de façanhas surpreendentes, que desafiam nosso bom senso.

— A vontade é o controle que podemos ter sobre nós mesmos? — perguntei.

— Pode-se dizer que é um tipo de controle.

— Acha que posso exercer minha vontade, por exemplo, negando-me certas coisas?

— Assim como fazer perguntas? — interrompeu ele,

 

Falou aquilo num tom tão malandro que tive de parar de escrever para olhar para ele. Nós dois rimos.

 

— Não — disse ele, — Negar-se é uma indulgência, e não recomendo nada disso.   É por esse motivo que deixo você fazer iodas as perguntas que quiser. Se lhe mandasse parar de fazer perguntas, você poderia estropiar sua vontade, tentando fazer isso.  A indulgência de negar é de longe a pior; obriga-nos a crer que esta­mos fazendo grande coisa, quando, na verdade, só estamos fixados dentro de nós mesmos. Parar de fazer perguntas não é o tipo de vontade de que estou falando. A vontade é um poder. E como é um poder, tem de ser controlada e afinada, e isso leva tempo. Sei disso e tenho paciência com você,  Quando eu era da sua idade, era tão impulsivo quanto você,  E, no entanto, eu mudei.  Nossa vontade opera apesar de nossa indulgência. Por exemplo, sua vontade já está abrindo sua brecha, pouco a pouco.

— De que brecha está falando?

— Há uma brecha em nós; como a moleira de uma criança, que se fecha com a idade, essa brecha se abre à medida que a pessoa desenvolve a vontade.

— Onde fica essa brecha?

— No lugar das fibras luminosas — respondeu, apontando para sua região abdominal.

— Como é que é? Para que serve?

— É uma abertura. Dá um espaço para a vontade disparar, como uma flecha.

— A vontade é um objeto? Ou parecida com um objeto?

— Não. Só disse isso para fazê-lo compreender. O que o feiticeiro chama de vontade é um poder dentro da gente. Não é uma idéia, nem um objeto, nem um desejo. Parar de fazer perguntas não é vontade porque precisa de pensar e desejar. A vontade é o que pode fazê-lo vencer quando seus pensamentos lhe dizem que você está vencido. A vontade é o que o torna invulnerável. A vontade é o que faz o feiticeiro atravessar uma parede; o espaço; ir até à Lua, se ele quiser.

 

Não havia mais nada que eu quisesse perguntar. Eu estava cansado e um pouco tenso. Estava com medo de que Dom Juan fosse pedir para eu ir embora e aquilo me aborrecia.

 

— Vamos para os morros — falou abruptamente, e levantou-se.

 

No caminho, recomeçou a falar da vontade e riu do meu desapontamento por não poder tomar notas. Descreveu a vontade como uma força que era o verdadeiro elo entre os homens e o mundo. Teve muito cuidado para esclarecer que o mundo era tudo o que nós percebemos, de qualquer maneira que desejemos perceber. Dom Juan afirmava que "perceber o mundo" acarreta um processo de apreender tudo o que se apresenta a nós. Essa "percepção" especial é efetuada com nossos sentidos e nossa vontade.

 

Perguntei-lhe se a vontade era um sexto sentido. Ele disse que era, antes, uma relação entre nós e o mundo percebido.

 

Sugeri que parássemos para eu poder tomar notas. Ele riu e continuou a andar.

 

Não me mandou partir naquela noite e, no dia seguinte, depois do café, ele mesmo abordou o assunto da vontade.

 

— O que você chama de vontade é caráter e uma disposição forte — disse ele. — O que um feiticeiro denomina de vontade é uma força que vem de dentro e se agarra ao mundo exterior. Sai pela barriga, bem aqui, onde estão as fibras luminosas. — Esfregou o umbigo para mostrar a região. — Digo que sai por aqui, porque a gente a sente saindo.

— Por que você a chama de vontade?

— Não a chamo de nada. Meu benfeitor a chamava de vontade, e outros homens de conhecimento a chamam de vontade.

Ontem, você disse que a gente pode perceber o mundo com os sentidos, bem como com a vontade. Como é possível?

— Um homem comum só pode "agarrar" as coisas do mundo com as mãos, ou os olhos, ou os ouvidos, mas um feiticeiro pode agarrá-las também com o nariz, ou a língua ou a vontade, especial­mente a vontade. Não posso propriamente descrever como isso é feito, mas nem você me pode descrever, por exemplo, como é que ouve. Acontece que eu também sou capaz de ouvir, de modo que podemos falar sobre o que ouvimos, mas não sobre como ouvimos. Um feiticeiro usa sua vontade para perceber o mundo. Essa percepção, contudo, não é como ouvir. Quando olhamos para o mundo, ou quando o ouvimos, temos a impressão de que está lá e que é real. Quando percebemos o mundo com nossa vontade, sabemos que não está tão ali, ou que não ê tão real quanto pensamos.

— A vontade é o mesmo que ver?

— Não. A vontade é uma força, um poder. Ver não é uma forço, e sim uma maneira de se penetrar nas coisas. Um feiticeiro pode ter uma vontade muito forte e, no entanto, pode não ver; o que significa que somente um homem de conhecimento percebe o mundo com seus sentidos e com sua vontade, e também vendo.

 

Falei que estava mais confuso do que nunca sobre como usar minha vontade para esquecei o guarda. Essas palavras e o meu estado de perplexidade pareceram diverti-lo.

 

— Já lhe disse que, quando fala, você só faz é confundir-se — disse ele, rindo. — Mas pelo menos agora sabe que está esperando sua vontade. Ainda não sabe o que é, nem como lhe pode acontecer. Por isso, tenha cuidado com tudo o que faz. Aquilo que o poderia ajudar a desenvolver sua vontade está no meio de todas as pequeninas coisas que você faz.

 

Dom Juan passou a manhã toda fora de casa; voltou no princípio da tarde com um embrulho de plantas secas. Fez-me um sinal com a cabeça para ajudá-lo, e trabalhamos em silêncio total durante horas, escolhendo as plantas. Quando terminamos, Sentamo-nos para descansar e ele sorriu para mim, com benevolência.

 

Disse-lhe muito sério, que tinha andado lendo meus aponta­mentos e que ainda não entendia o que acarretava ser um guerreiro, nem o que significava a idéia da vontade.

 

— A vontade não é uma idéia — replicou. Era a primeira vez que ele me falava, naquele dia. Depois de uma longa pausa, ele continuou: — Nós somos diferentes, você e eu. Nossos temperamentos não são iguais. Sua natureza é mais violenta do que a minha. Quando eu tinha sua idade, não era violento, mas era malvado; você é o oposto. Meu benfeitor era assim; estaria perfeita­mente adequado para ser seu mestre, Era um grande feiticeiro, mas não via; não da maneira que eu vejo ou que Genaro vê. Compreendo o mundo e vivo guiado pela minha visão. Meu benfeitor, ao contrário, tinha de viver como um guerreiro. Se um homem vê, não tem de viver como um guerreiro, nem como coisa alguma, pois pode ver as coisas como elas são realmente e dirigir sua vida de acordo. Mas, considerando seu temperamento, posso dizer que talvez você nunca aprenda a ver, e nesse caso terá de viver toda sua vida como um guerreiro.

 

"Meu benfeitor dizia que, quando um homem toma os caminhos da feitiçaria, torna-se consciente, aos poucos, de que a vida comum ficou para trás para sempre, que o conhecimento é na verdade uma coisa assustadora; que os meios do inundo comum não são mais um escudo para ele; e que tem de adotar um novo modo de vida, para poder sobreviver, A primeira coisa que ele deve fa2er, nesse ponto, é desejar tornar-se um guerreiro, um passo e decisão muito importantes. A natureza assustadora do conhecimento não nos deixa nenhuma alternativa senão tomar-nos um guerreiro".

 

"Quando o conhecimento se torna uma coisa assustadora, o homem também compreende que a morte é o companheiro insubstituível, que se senta ao lado dele na esteira. Cada pouquinho de conhecimento que se torna poder tem a morte como sua força central. A morte dá o último toque, e o que for tocado pela morte torna-se realmente poder".

 

"Um homem que segue os caminhos da feitiçaria se defronta com uma aniquilação iminente a cada passo do caminho, e é inevitável que tome fortemente consciência de sua morte. Sem a consciência da morte, ele seria apenas um homem comum, praticando atos comuns. Não teria a necessária potência, a necessária concentração que transforma o tempo comum da pessoa na terra num poder mágico".

 

"Assim, para ser um guerreiro o homem tem de estar, antes de tudo, e propriamente, muito consciente de sua própria morte. Mas a preocupação com a morte levaria qualquer de nós a focalizar a atenção em si e isso seria debilitante. Portanto, a segunda coisa que se precisa para ser um guerreiro é o desprendimento. A idéia da morte iminente, em vez de se tornar uma obsessão, torna-se uma indiferença."

 

Dom Juan parou de falar e olhou para mim. Parecia estar esperando um comentário.

 

— Está entendendo? — perguntou.

 

Eu entendia o que ele tinha dito, mas pessoalmente não podia ver como é que qualquer pessoa podia chegar a um senso de desprendimento. Disse que, do ponto de vista de meu aprendizado, eu já tinha experimentado o momento em que o conhecimento se toma uma coisa muito assustadora. Podia também dizer, com verdade, que não encontrava mais apoio nas premissas comuns de minha vida quotidiana. E eu queria, ou talvez ainda mais, precisava, viver como um guerreiro.

 

— Agora você precisa desprender-se — disse ele.

— Do quê?

— Desprender-se de tudo.

— Isso é impossível. Não quero virar ermitão.

— Ser um ermitão é uma indulgência e eu não quis dizer isso. Um ermitão não é desprendido, pois se entrega propositadamente a ser um ermitão.

— Somente a idéia da morte torna o homem suficientemente desprendido para ser capaz de se entregar a qualquer coisa. Um homem assim, porém, não tem anseios, pois adquiriu um amor ca­lado pela vida e por todas as coisas da vida. Sabe que a morte o acompanha e não lhe dará tempo de se agarrar a nada, de modo que ele experimenta, sem ansiar, tudo de todas as coisas.

 

"Um homem desprendido, que sabe que não tem possibilidade de evitar sua morte, só tem uma coisa em que se apoiar: o poder de suas decisões. Ele tem de ser, por assim dizer, o senhor de suas opções. Deve compreender plenamente que sua opção é sua responsabilidade e, uma vez feita, não há mais tempo para remorsos ou recriminações. Suas decisões são finais, simplesmente porque sua morte não lhe permite tempo para se agarrar a nada".

 

"E assim, com a consciência de sua morte, com seu desprendi­mento, e com o poder de suas decisões, um guerreiro organiza sua vida de maneira estratégica. O conhecimento de sua morte o orienta e o torna desprendido e secretamente sensual; o poder de suas de­cisões finais o torna capaz de escolher sem remorsos, e o que ele escolhe é sempre estrategicamente o melhor; e assim ele executa tudo o que precisa com vontade e uma eficiência sensual".

 

"Quando um homem procede dessa maneira, pode-se dizer com segurança que ele é um guerreiro e adquiriu a paciência!"

 

Dom Juan perguntou-me se tinha alguma coisa a dizer e eu observei que a tarefa que ele descrevera levaria uma vida inteira. Falou que eu protestava demais diante dele e que ele sabia que me comportava, ou pelo menos procurava comportar-me, em termos de guerreiro, em minha vida quotidiana.

 

— Você tem boas garras — falou, rindo. — Mostre-as para mim de vez em quando. É um bom treino.

Fiz um gesto de garras, e grunhi, e ele riu. Depois, pigarreou e continuou a falar.

 

— Quando um guerreiro consegue a paciência, está a caminho da vontade. Sabe esperar. Sua morte senta com ele em sua esteira, eles são amigos. Sua morte o aconselha, de maneiras misteriosas, a optar, a viver estrategicamente. E o guerreiro espera! Eu diria que o guerreiro aprende sem pressa alguma porque ele sabe que está esperando sua vontade; e um dia consegue realizar alguma coisa que normalmente seria impossível. Pode nem notar seu feito extraordinário. Mas, à medida que continuar a realizar coisas impossíveis, ou coisas impossíveis lhe forem acontecendo, ele percebe que uma espécie de poder está surgindo. Um poder que emana de seu corpo enquanto ele progride no caminho do conhecimento. A princípio, parece uma comichão na barriga, ou um ponto quente que não consegue ser aliviado; depois, torna-se uma dor, um incômodo muito grande. Às vezes, a dor e o incômodo são tão fortes que o guerreiro passa meses tendo convulsões, e quanto mais graves são elas, melhor para ele. Um bom poder sempre é prenunciado por muita dor.

 

"Quando as convulsões cessam, o guerreiro repara que tem sensações estranhas com relação às coisas. Nota que pode tocar qual­quer coisa que queira com uma sensação que sai de seu corpo de um lugar baixo ou bem acima de seu umbigo. Essa sensação é a vontade, e quando ele consegue pegar as coisas com ela, pode-se dizer que o guerreiro é um feiticeiro e que adquiriu uma vontade."

 

Dom Juan parou de falar e parecia estar esperando meus comentários ou perguntas. Eu não tinha nada a dizer. Estava profundamente preocupado com a idéia de que um feiticeiro tinha de sofrer dor e convulsões, mas sentia-me encabulado de perguntar-lhe se eu também teria de passar por isso. Por fim, depois de um longo silêncio, perguntei-lhe e ele deu uma risada, como se estivesse esperando essa pergunta. Falou que a dor não era absolutamente necessária; ele, por exemplo, nunca a sentira, e a vontade lhe acontecera simplesmente.

 

— Um dia, quando eu estava nas montanhas — disse ele — topei com uma onça; ela era grande e estava faminta. Corri e ela correu atrás de mim. Trepei numa pedra e ela ficou a pouca distância, pronta para saltar. Atirei pedras nela. A fera rosnou e começou a me atacar. Foi então que minha vontade se manifestou plenamente e eu a detive, antes de ela saltar sobre mim. Afaguei-a com minha vontade. Cheguei a esfregar suas tetas com ela. A onça olhou para mim com olhos sonolentos e deitou-se, e eu fugi como um filho da mãe antes que ela despertasse.

 

Dom Juan fez um gesto muito engraçado de um homem cor­rendo para salvar a vida, segurando o chapéu. Falei que não gostava da idéia de só ter onças ou convulsões pela frente, se quisesse ter vontade.

 

— Meu benfeitor era um feiticeiro de grande poder — continuou ele. — Era um guerreiro perfeito. Sua vontade era realmente sua realização mais magnífica, Mas o homem pode ir mais longe do que isso; o homem pode aprender a ver.  Quando se aprende a ver, não é mais preciso viver como guerreiro, nem ser feiticeiro. Ao aprender a ver, o homem torna-se tudo, tornando-se nada. Por assim dizer, desaparece, e no entanto continua ali. Eu diria que essa é a ocasião em que o homem pode ser ou conseguir tudo o que deseja. Mas não deseja nada, e em vez de brincar com seus semelhantes como se fossem brinquedos, ele os encontra no meio da loucura deles. A única diferença entre eles é que o homem que vê controla sua loucura, enquanto que seus semelhantes não o conseguem. Um homem que vê não tem mais um interesse ativo por seus semelhantes.  Ver já o desprendeu de tudo o que conhecia antes.

— A simples idéia de estar desprendido de tudo o que conheço me dá arrepios — falei.

— Você deve estar brincando! O que lhe devia dar arrepios é não ter nada pela frente, a não ser uma vida inteira de fazer aquilo que sempre fez. Pense no homem que planta milho ano após ano, até estar velho e cansado demais para se levantar, de modo que fica deitado, como um cachorro velho.  Seus pensamentos e senti­mentos, o que há de melhor nele, vagueiam sem rumo para as únicas coisas que ele já fez, que é plantar milho. Para mim, isso é o maior desperdício que há.  Somos homens e nosso destino é aprender e sermos lançados em novos mundos inconcebíveis.

— Existem mesmo novos mundos para nós? — perguntei, jocosamente,

— Ainda não esgotamos nada, seu tolo — disse ele, imperiosa­mente. — Ver é para os homens impecáveis. Tempere seu espírito agora, tome-se um guerreiro, aprenda a ver, e depois saberá que não há um limite para os novos mundos, para a nossa visão.

 

Dom Juan não me mandou embora depois de eu cumprir seus mandados, como andava fazendo ultimamente. Falou que eu podia ficar e, no dia seguinte, 28 de junho de 1969, pouco antes do meio-dia, comunicou-me que eu ia fumar de novo.

 

— Vou tentar ver o guarda outra vez?

 

— Não, isso está acabado.  É outra coisa.

 

Dom Juan calmamente encheu seu cachimbo com a mistura do fumo, acendeu-o e entregou-o a mim. Não tive nenhuma apreensão. Uma sonolência agradável envolveu-me logo. Depois que fumei todo o fornilho, Dom Juan guardou o cachimbo e me ajudou a levantar-me. Estávamos sentados um diante do outro em duas esteiras que ele colocara no centro do quarto dele. Falou que íamos dar um passeio curto e me encorajou a andar, empurrando-me delicadamente. Dei um passo e minhas pernas bambearam. Mão senti dor alguma quando meus joelhos bateram no chão. Dom Juan segurou meu braço e me fez levantar de novo.

 

— Você tem de andar — disse ele — da mesma maneira que se levantou da outra vez. Tem de usar sua vontade.

 

Eu parecia estar pregado ao chão. Tentei dar um passo com meu pé direito e quase perdi o equilíbrio. Dom Juan segurou meu braço direito pela axila e, devagar, empurrou-me para a frente, mas minhas pernas não me agüentaram e eu teria caído de cara se Dom Juan não tivesse segurado meu braço, impedindo a queda, Segurou-me pela axila direita e me fez apoiar nele. Eu não sentia nada, mas tinha certeza de que minha cabeça estava apoiada no ombro dele; estava vendo o quarto de uma perspectiva oblíqua. Naquela posição, arrastou-me pela varanda. Demos a volta duas vezes, com muita dificuldade; por fim, imagino que meu peso se tenha tornado tão grande que ele teve de me deixar cair no chão. Eu sabia que ele não conseguia mover-me. De certo modo, era como se parte de mim quisesse propositadamente tornar-se pesada como chumbo. Dom Juan não fez nenhum esforço para me levantar. Olhou para mim um momento; eu estava deitado de costas, olhando para ele. Tentei dar-lhe um sorriso e ele começou a rir; depois, debruçou-se e bateu em minha barriga. Tive uma sensação muito especial, Não era dolorosa nem agradável nem nada do que eu pudesse pensar. Era, antes, um solavanco. Dom Juan começou logo a me rolar. Eu não sentia nada; supus que ele me estivesse rolando, porque minha imagem da varanda mudava de acordo com o movimento circular. Quando Dom Juan me pôs na posição que queria, recuou um passo.

 

— Levante-se! — ordenou ele, imperiosamente. — Levante-se como fez o outro dia. Não remanche. Você sabe como se levantar. Ande, levante-se!

 

Tentei intensamente lembrar-me de meus atos naquela ocasião, mas não conseguia pensar claramente; era como se meus pensa­mentos tivessem uma vontade própria, por mais que eu tentasse controlá-los. Por fim, ocorreu-me a idéia de que, se dissesse "para cima", como eu tinha feito antes, certamente me levantaria. Falei "para cima" alto e claro, mas nada aconteceu.

 

Dom Juan olhou para mim, evidentemente contrariado, e de­pois andou em volta de mim e foi até à porta. Eu estava deitado sobre meu lado esquerdo e tinha uma vista plena da área defronte da casa dele; eu estava de costas para a porta, de modo que, quando andou em volta de mim, logo supus que tivesse entrado em casa.

 

— Dom Juan! — chamei em voz alta, mas ele não respondeu.

 

Senti uma sensação avassaladora de importância e desespero. Queria levantar-me, e disse: "Para cima outra vez, como se fosse essa a palavra mágica que me fizesse mover. Nada aconteceu. Tive um acesso de frustração e quase um ataque de fúria. Queria bater a cabeça no chão e chorar. Passei momentos lancinantes, em que queria mover-me ou falar, e não podia fazer nada. Estava realmente imóvel, paralisado".

 

— Dom Juan, ajude-me! — consegui berrar, afinal.

 

Dom Juan voltou e sentou-se defronte de mim, rindo. Disse que eu estava ficando histérico e que o que quer que eu estivesse sentindo não tinha importância. Levantou minha cabeça e, olhando bem para mim, falou que eu estava tendo um acesso de falso medo. Disse-me que não ficasse aflito.

 

— Sua vida está-se complicando — disse ele. — Livre-se do que quer que seja que está fazendo você se enraivecer.  Fique aí quieto e componha-se.

 

Colocou minha cabeça no chão. Passou por cima de mim e eu só ouvi o barulho de suas sandálias quando ele se afastava.

 

Meu primeiro impulso foi afligir-me de novo, mas eu não conseguia ter energia para ficar com raiva. Ao contrário, vi que estava passando para um raro estado de serenidade; uma grande sensação de tranqüilidade envolveu-me. Eu sabia qual era a complexidade de minha vida. Era meu filhinho. Eu queria ser pai dele mais do que nada no mundo, Gostava da idéia de moldar seu caráter e levá-lo para passear e ensinar-lhe "a viver'; e, no entanto, abomi­nava a idéia de coagi-lo para meu modo de vida, mas era precisa­mente isso que eu teria de fazer, constrangê-lo à força ou por aquele conjunto astucioso de argumentos e recompensas que chamamos compreensão".

 

— Tenho de deixá-lo ir-se — pensei. — Não me posso agarrar a ele. Tenho de libertá-lo.

 

Meus pensamentos provocaram um sentimento aterrador de melancolia. Comecei a chorar. Meus olhos se encheram de lágrimas e minha visão da varanda toldou-se. De repente, senti uma grande necessidade de levantar-me e procurar Dom Juan para lhe explicar a respeito de meu filhinho; e quando vi, estava olhando para a varanda de uma posição de pé. Virei-me para olhar para a casa e encontrei Dom Juan de pé diante de mim. Parece que ele tinha ficado ali atrás de mim o tempo todo.

 

Embora eu não conseguisse sentir meus passos, devo ter andado em direção a ele, pois me movi. Dom Juan veio para mim, sorrindo, e segurou-me pelas axilas. O rosto dele estava muito perto do meu.

 

— Bem, muito bem — disse ele, tranqüilizando-me.

 

Naquele instante, tive a noção de que alguma coisa extraordinária estava ocorrendo ali. A princípio, tive a impressão de só me estar lembrando de um acontecimento que tinha ocorrido anos ames. Numa ocasião, no passado, tinha visto o rosto de Dom Juan bem de perto; eu havia fumado a mistura dele e tinha tido a impressão de que a cara de Dom Juan estava mergulhada num tanque de água. Era enorme, luminosa e se movia. A imagem tinha sido tão rápida que não tive tempo de realmente prestar atenção nela. Desta vez, porém,. Dom Juan estava-me segurando e a cara dele não estava a mais de uns 30 centímetros da minha e tive tempo de examiná-la. Quando me levantei e me virei, positivamente vi Dom Juan; "o Dom Juan que eu conheço" positivamente caminhou para mim e me segurou. Mas quando focalizei os olhos no rosto dele, não vi Dom Juan como estou acostumado a vê-lo; em vez disso, vi um objeto grande diante de meus olhos. Eu sabia que era o rosto de Dom Juan e, no entanto, essa idéia não era guiada por minha percepção; era mais uma conclusão lógica de minha parte; afinal, minha memória confirmava que, um momento antes, o "Dom Juan que eu conheço" estava-me segurando pelas axilas. Portanto, o objeto estranho e luminoso diante de mim tinha de ser o rosto de Dom Juan; ele era conhecido; e, no entanto, não tinha semelhança com o que eu chamaria de rosto "real" de Dom Juan. Eu estava olhando para um objeto redondo, que tinha uma luminosidade própria. Todas as partes nele se moviam. Percebi um fluxo contido, ondulante e ritmado; era como se o fluxo estivesse contido dentro de si mesmo, nunca passando de seus limites e, no entanto, o objeto diante de meus olhos estava destilando movimentos em qualquer lugar de sua superfície. Ocorreu-me a idéia de que estava destilando vida. De fato, era tão vivo que fiquei absorto olhando para seu movimento. Era uma palpitação hipnótica. Tornou-se cada vez mais absorvente, até eu não poder mais dizer o que era o fenômeno diante de meus olhos.

 

Senti um solavanco repentino; o objeto luminoso ficou turvo, como se alguma coisa o estivesse sacudindo e depois perdeu seu brilho, tornando-se sólido e carnudo. Então, eu estava olhando para o rosto conhecido e moreno de Dom Juan. Estava sorrindo placidamente. A vista do rosto "verdadeiro" dele durou um instante e de­pois o rosto tornou a adquirir um brilho, uma iridescência. Não era a luz como estou acostumado a percebê-la nem mesmo um brilho; era antes um movimento, um tremor incrivelmente rápido de alguma coisa. O objeto luminoso começou a pular para cima e para baixo outra vez e isso rompeu sua continuidade ondulante. Seu brilho diminuiu, enquanto ele vibrava, até se tornar de novo o rosto "sólido" de Dom Juan, como o vejo na vida diária. Naquele momento, percebi vagamente que Dom Juan estava-me sacudindo. Também estava-me falando. Não entendi o que ele estava dizendo; mas, enquanto continuava a me sacudir, afinal eu o ouvi.

 

— Não fique olhando para mim. Não fique olhando para mim — dizia ele. — Interrompa seu olhar. Interrompa seu olhar. Desvie os olhos.

 

A sacudidela em meu corpo pareceu deslocar meu olhar fixo. Parece que, quando eu não olhava intensamente para o rosto de Dom Juan, não via o objeto luminoso. Quando eu desviava os olhos do rosto dele e olhava para ele com o canto dos olhos, por assim dizer, eu percebia a sua solidez; isto é, eu percebia uma pessoa em três dimensões; sem olhar bem para ele, de fato, eu percebia todo seu corpo, mas, quando eu focalizava meu olhar, o rosto tornava-se logo o objeto luminoso.

 

— Não olhe para mim de todo — disse Dom Juan, sério. Desviei o olhar e olhei para o chão.

— Não fixe o olhar em nada — falou ele, imperiosamente; e afastou-se para me ajudar a andar.

 

Não sentia meus passos e não sabia como praticava o ato de andar e, no entanto, com Dom Juan me segurando pela axila, conseguimos chegar até os fundos da casa dele. Paramos junto da vala de irrigação.

 

— Agora, olhe fixamente para a água — ordenou Dom Juan. Olhei para a água, mas não consegui fixar o olhar.  Não sei por quê, o movimento da corrente me distraía. Dom Juan ficou insistindo, em tom de brincadeira, pata eu exercer meus "poderes de olhar fixamente", mas não conseguia concentrar-me. Tornei a olhar para o rosto de Dom Juan, mas o brilho não apareceu mais.

 

Comecei a sentir uma comichão estranha no corpo, a sensação de um membro dormente; os músculos de minhas pernas começa­ram a se contorcer. Dom Juan empurrou-me para a água e eu cai até ao fundo. Parece que havia segurado minha mão direita ao me empurrar, e quando atingi o leito raso, ele tornou a me puxar para cima.

 

Levei muito tempo para recuperar o controle sobre mim. Quando voltamos para a casa dele, pedi-lhe que me explicasse minha experiência. Ao me vestir, descrevi para ele, agitado, aquilo que eu tinha percebido, mas ele não deu importância a nada do que eu disse.

 

— Grande coisa! — disse ele, imitando-me. — Você viu um brilho, grande coisa.

 

Insisti pedindo uma explicação e ele se levantou, dizendo que tinha de sair.  Eram quase cinco horas da tarde.

 

No dia seguinte, tornei a insistir para falar da minha estranha experiência.

 

— Era ver, Dom Juan? — perguntei.

 

Ficou quieto, sorrindo misteriosamente, enquanto eu o pressionava para me responder.

 

— Digamos que ver é parecido com aquilo — respondeu, por fim. — Estava fitando meu rosto e o viu brilhar, mas continuava a ser o meu rosto.  Acontece que o fuminho faz a gente ver assim. Nada demais.

— Mas de que maneira ver seria diferente?

— Quando você vê não há mais feições conhecidas no mundo. Tudo é novo. Tudo nunca aconteceu antes. O mundo é incrível!

— Por que diz incrível, Dom Juan?  O que o torna incrível?

— Nada mais é conhecido. Tudo para o que se olha toma-se nada!  Ontem, você não viu. Olhou para meu rosto fixamente e, como você gosta de mim, reparou no meu brilho. Eu não era monstruoso, como o guarda, mas belo e interessante. Mas você não me viu. Não virei nada diante de você. No entanto, saiu-se bem. Deu o primeiro passo verdadeiro no caminho de ver.  O único senão foi que você focalizou em mim e, nesse caso, não sou melhor do que o guarda para você. Em ambos os casos, sucumbiu e não viu.

— As coisas desaparecem? Como é que elas viram nada?

— As coisas não desaparecem. Não somem, se é isso que você quer dizer; simplesmente tornam-se nada e, no entanto, continuam ali.

— Como pode isso ser possível, Dom Juan?

— Você é insistente como o diabo para falar! — exclamou ele, muito sério. — Acho que não entendemos bem sua promessa. Talvez o que você realmente prometeu foi nunca mais parar de falar.

 

O tom de Dom Juan era severo. Sua expressão era preocupa­da. Eu queria rir, mas não ousava. Acreditava que Dom Juan estivesse falando sério, mas não estava. Começou a rir. Disse-lhe que, se eu não falasse, ficava muito nervoso.

 

— Então, vamos dar uma volta a pé — falou.

 

Levou-me até à saída de uma garganta no sopé dos morros. Andamos mais ou menos por uma hora. Descansamos um pouco e depois ele me guiou pelo mato cerrado até um olho d'água; isto é, um lugar que ele disse ser um olho d'água, Era tão seco quanto qualquer outro sítio em volta.

 

— Sente-se no meio do olho d'água — determinou.   Obedeci e sentei-me.

— Também vai sentar-se aqui? — perguntei.

 

Reparei que ele estava arrumando um lugar para sentar-se a uns 20 metros do centro do olho d'água, encostado nas pedras do lado da montanha.

 

Falou que me ia vigiar dali. Eu estava sentado com os joelhos dobrados, encostados no peito. Corrigiu minha posição, dizendo que me sentasse com a perna esquerda dobrada por debaixo de mim e a direita dobrada, com o joelho para cima, Meu braço direito tinha de ficar ao lado, com o punho apoiado no solo, enquanto meu braço esquerdo ficava cruzado sobre o peito. Disse-me que virasse para ele e ficasse ali, descansado, mas não "largado". Depois, tirou uma espécie de cordão esbranquiçado da sacola. Parecia um laço grande. Passou-o pelo pescoço e esticou-o com a mão esquerda até ficar

tenso. Tocou na corda com a mão direita. Ela soltou um som vibrante, oco.

 

Afrouxou a mão e olhou para mim, dizendo que eu tinha de gritar uma determinada palavra se começasse a sentir que alguma coisa me atingia, enquanto ele tocava a corda.

 

Perguntei o que é que me ia atingir e ele disse que eu calasse a boca. Fez sinal com a mão de que ia começar. Mas não começou; em vez disso, fez mais uma advertência. Disse que, se alguma coisa se aproximasse de mim de maneira muito ameaçadora, eu devia adotar uma posição de luta que ele me ensinara anos atrás, que consistia em dançar, batendo no chão com a ponta do pé esquerdo, enquanto batia com a mão vigorosamente na coxa direita. A posição de luta fazia parte de uma técnica de defesa usada em casos de desespero e perigo extremos.

 

Tive um momento de apreensão verdadeira. Queria indagar por que motivo estávamos ali, mas ele não me deu tempo e começou a tanger a corda. Tê-lo várias vezes, em intervalos regulares de talvez uns 20 segundos. Reparei que, à medida que ele ia tangendo a corda, aumentava a tensão. Via claramente que seus braços e pescoço tremiam com o esforço. O som tornou-se mais claro e então eu percebi que ele acrescentava um grito especial cada vez que tangia a corda. O som combinado da corda tensa e da voz humana produziam uma reverberação fantástica, sobrenatural.

 

Não senti nada me assaltando, mas o espetáculo de Dom Juan se esforçando e o som estranho que ele produzia me deixaram quase em transe.

 

Dom Juan afrouxou a mão e olhou para mim. Enquanto ele tocava, estava de costas para mim, virado para sudeste, como eu; quando relaxou, virou-se para mim.

 

— Não olhe para mim quando estou tocando — disse ele, — Mas não feche os olhos. Por nada no mundo. Olhe para o chão diante de você e escute.

 

Puxou a corda de novo e começou a tocar. Olhei para o chão e concentrei-me no som que ele estava obtendo. Nunca tinha ouvido aquele som na vida.

 

Fiquei muito assustado. A reverberação estranha enchia a garganta estreita e começou a fazer eco. De fato, o som que Dom Juan produzia estava-me voltando como eco de tudo em volta, das paredes da garganta. Dom Juan também deve ter percebido isso e aumentou a tensão de sua corda. Embora ele tivesse mudado de tom, o eco pareceu morrer e, depois, concentrar-se num ponto, para sudeste.

 

Dom Juan reduziu a tensão da corda aos poucos, até eu ouvir um som final, abafado. Guardou a corda na sacola e se aproximou de mim. Ajudou-me a me levantar. Reparei então que os músculos de meus braços e pernas estavam duros, como pedras; eu estava banhado em suor. Não tinha idéia de estar suando tanto. As gotas de transpiração caíam nos meus olhos, fazendo-os arder.

 

Dom Juan quase me arrastou dali. Tentei dizer alguma coisa, mas ele pôs a mão sobre minha boca.

 

Em vez de sair pela garganta por onde tínhamos entrado, Dom Juanfez uma volta. Subimos a encosta da montanha e terminamos nos morros, muito longe da saída da garganta.

 

Voltamos para a casa dele no maior silêncio. Já estava escuro quando chegamos. Tentei falar com Dom Juan, mas ele tornou a pôr a mão em minha boca.

 

Não comemos e nem acendemos o lampião de querosene. Dom Juan colocou minha esteira no quarto dele e apontou-a com o queixo. Entendi aquilo como uma ordem de que eu devia deitar ali e dormir.

 

— Tenho a coisa exata para você fazer — disse-me Dom Juan assim que acordei no dia seguinte. — Começa hoje. Não temos mui­to tempo, sabe.

 

Depois de uma pausa longa e incômoda, fui obrigado a perguntar-lhe:

 

— O que você me fez executar na garganta ontem? Dom Juan ria feito uma criança.

— Só experimentei o espírito do olho d'água — respondeu. — Esse tipo de espírito deve ser experimentado quando o olho d'água está seco, quando o espírito retirou-se para as montanhas. Ontem, digamos, eu o despertei de seu sono. Mas ele não se importou e apontou para sua direção feliz. A voz dele veio daquela direção. — E Dom Juan apontou para sudeste.

— O que era a corda que você tocou, Dom Juan? — Um pegador de espíritos.

— Posso vê-la?

— Não. Mas, vou fazer-lhe uma. Ou, melhor ainda, você fará umapara si algum dia, quando aprender a ver.

— De que é feita, Dom Juan?

— A minha é de javali. Quando você tiver uma, vai compreender que está viva e pode ensinar-lhe os sons diversos de que gosta. * Com a prática conhecerá seu pegador de espírito tão bem que, jun­tos farão sons cheios de poder.

— Por que me levou para procurar o espírito do olho d'água, Dom Juan?

— Logo o saberá.

 

Por volta das onze e meia da manhã, Sentamo-nos sob sua ramada, onde ele preparou seu cachimbo para eu fumar. Disse-me que me levantasse quando meu corpo estivesse bem dormente; eu o fiz com muita facilidade. Ajudou-me a andar por ali. Fiquei surpreendido com meu controle; cheguei a andar duas vezes em volta da ramada sozinho. Dom Juan ficou a meu lado, mas não me guiou nem me sustentou. Depois, pegou-me pelo braço e levou-me à vala de irrigação. Fez-me sentar na beirada e mandou imperiosamente que eu contemplasse a água e não pensasse em mais nada.

 

Tentei focalizar meu olhar na água, mas o movimento dela me distraía. Minha mente e meus olhos começaram a vagar para outras coisas da vizinhança imediata. Dom Juan balançou minha cabeça para cima e para baixo, e mandou novamente que eu só olhasse para a água e não pensasse de todo. Disse que era difícil olhar para a água em movimento e que a gente tinha de ficar tentando. Experimentei três vezes e, em cada oportunidade, distraía-me com alguma coisa. Dom Juan, com muita paciência, sacudiu minha cabeça, todas as vezes. Por fim, reparei que minha mente e meus olhos estavam focalizando a água. A despeito de seus movimentos, eu es­tava mergulhando na visão de sua liquidez. A água tornou-se ligeiramente diferente. Parecia estar mais pesada e uniformemente cinza-esverdeada. Reparei nas ondulações que fazia quando se movia. Essas ondulações eram extremamente marcadas, E depois, de re­pente, tive a sensação de não estar olhando para uma massa de água em movimento, e sim para uma imagem da água: o que eu tinha diante dos olhos era um segmento gelado da água corrente As ondulações estavam imóveis. Podia olhar para todas elas. Então, começaram a adquirir uma fosforescência esverdeada e uma espécie de neblina verde começou a transudar delas. A neblina espalhou-se em ondulações e, à medida que se movia, seu verde tornava-se mais brilhante, até ficar um fulgor ofuscante que cobria tudo.

 

Não sei quanto tempo fiquei junto da vala de irrigação. Dom Juan não me interrompeu, Eu estava imerso no fulgor verde da neblina. Sentia-o em volta de mim, Aquilo me acalmava. Não tinha pensamentos nem sentimentos. Só tinha uma sensação tranqüila, a sensação de um verde brilhante e calmante.

 

A próxima coisa que senti foi estar extremamente frio e molhado. Aos poucos, compreendi que estava mergulhado na vala de irrigação. Num momento, a água entrou em meu nariz e eu a engoli e tossi. Tinha uma coceira incômoda dentro do nariz e espirrei várias vezes. Levantei-me e espirrei com tanta força e tão alto que também peidei. Dom Juan bateu palmas e riu.

 

— Se um corpo peida, é que está vivo — disse ele. Fez-me sinal para acompanhá-lo e fomos para a casa dele. Pensei em ficar quieto. De certo modo, eu esperava estar num estado de espírito desprendido ou tristonho, mas, na verdade, não me sentia cansado nem melancólico. Sentia-me, antes, animado, e troquei de roupa muito depressa. Comecei a assobiar. Dom Juan olhou para mim com curiosidade e fingiu estar espantado; abriu a boca e os olhos. O gesto dele foi muito engraçado e eu ri bem mais do que seria o normal.

— Está ficando maluco — disse ele, rindo muito. Expliquei-lhe que eu não queria adquirir o hábito de ficar taciturno depois de usar sua mistura de fumo. Disse-lhe que depois que ele me tirara da vala de irrigação, em minhas tentativas de conhecer o guarda, convencera-me de que podia "ver", se eu olhasse para as coisas em volta de mim bastante tempo.

— Ver não é questão de olhar e ficar quieto — disse ele. — Ver é uma técnica que a gente tem de aprender. Ou talvez seja uma técnica que alguns de nós já conhecemos. — Olhou para mim, como que para insinuar que eu era um desses que já conhecem a técnica. — Tem força para andar? — perguntou.

 

Respondi que me sentia ótimo, e era verdade. Não estava com fome, embora não tivesse comido o dia todo. Dom Juan colocou um pouco de pão e uns pedaços de carne-seca numa mochila, entregou-a a mim c fez um sinal com a cabeça para que o acompanhasse.

 

— Para onde vamos? — perguntei.

 

Apontou para os morros com um ligeiro movimenta da cabeça. Dirigimo-nos para a mesma garganta em que ficava o olho d'água, mas não entramos lá. Dom Juan subiu para as pedras à nossa direita, na própria saída da garganta. Subimos o morro. O Sol estava quase no horizonte. Era um dia ameno, mas eu me sentia quente e sufocado. Mal podia respirar.

 

Dom Juan seguia muito na minha frente e teve de parar para eu poder alcançá-lo. Falou que eu estava em péssima forma física e que talvez fosse mais sensato não prosseguir. Deixou-me descansar por cerca de uma hora. Escolheu uma pedra lisa, quase redonda, e disse-me que deitasse ali. Arrumou meu corpo na pedra. Recomendou que eu esticasse meus braços e pernas e os deixasse soltos, dependurados. Minhas costas estavam ligeiramente arqueadas e meu pescoço relaxado, de modo que minha cabeça também estava frouxa. Fez-me naquela posição durante talvez uns quinze minutos. De­pois, disse-me que descobrisse minha região abdominal, Escolheu com cuidado uns galhos e folhas e empilhou-os por cima de minha barriga nua. Senti um calor instantâneo em todo meu corpo. Dom Juan, então, pegou-me pelos pés e virou-me, até minha cabeça estar voltada para sudeste.

 

— Agora, vamos chamar aquele espírito do olho d'água — disse ele.

 

Tentei virar minha cabeça para olhar para ele. Segurou-me com força pelos cabelos e disse que eu estava numa posição muito vulnerável e num estado físico muito fraco e que tinha de ficar quieto, sem me mexer. Tinha posto todos aqueles galhos especiais na minha barriga para proteger-me e ia ficar junto de mim para o caso de eu não poder cuidar-me.

 

Ele estava de pé, junto da parte de cima de minha cabeça, e se eu rolasse os olhos podia vê-lo. Pegou sua corda e esticou-a, e depois percebeu que eu estava olhando para ele, rolando meus olhos quase até à testa. Deu-me um tapa forte na cabeça, com os nós dos dedos, e mandou que eu olhasse para o céu, que não fechasse os olhos e me concentrasse no som. Acrescentou que eu não devia hesitar em berrar a palavra que ele me ensinara, se sentisse que alguma coisa me estava assaltando.

 

Dom Juan e seu "pegador de espírito" começaram com um tangido de baixa tensão. Aos poucos, aumentou a intensidade, e comecei a ouvir primeiro uma espécie de reverberação e depois um eco positivo, que vinha sempre de uma direção sudeste. A tensão aumentou. Dom Juan e seu "pegador de espírito" estavam perfeitamente ajustados, A corda produziu uma nota baixa e Dom Juan a ampliou, aumentando a sua intensidade até ela se tornar um grito penetrante, um clamor uivante. O auge foi um grito fantástico, in­concebível do ponto de vista de minha própria experiência.

 

O som reverberou nas montanhas e seu eco voltou a nós. Imaginei que estivesse voltando diretamente para mim. Achei que tinha algo a ver com a temperatura *de meu corpo. Antes de Dom Juan começar seus gritos eu estava muito quente e confortável, mas durante o ponto mais alto do clamor fiquei frio; meus dentes batiam incontrolavelmente e eu tinha realmente a sensação de que alguma coisa estava-me assaltando. Em certo ponto, notei que o céu ficara muito escuro. Não tinha notado o céu, embora estivesse olhando para ele. Tive um momento de pânico intenso e berrei a palavra que Dom Juan me ensinara. Dom Juan começou a diminuir a tensão de seus gritos estranhos, mas isso não me deu alívio algum.

 

— Tampe os ouvidos — falou Dom Juan, em tom imperioso.

 

Vedei-os com minhas mãos, Passados alguns minutos, Dom Juan parou completamente e veio para meu lado. Depois de ter tirado os galhos e folhas de minha barriga, ajudou a levantar-me e os colocou cuidadosamente na pedra onde eu tinha deitado. Fez uma fogueira com eles e, enquanto o fogo ardia, esfregou minha barriga com outras folhas de sua sacola.

 

Pôs a mão em minha boca quando lhe ia dizer que estava com uma dor de cabeça horrível. Ficamos ali até as folhas e galhos es­tarem todos queimados. Então, já estava bem escuro. Descemos o morro e eu enjoei.

 

Quando estávamos andando pela vala de irrigação, Dom Juan disse que eu já tinha feito muita coisa e que não devia ficar por ali. Pedi-lhe que explicasse o que era o espírito do olho d'água, mas ele fez sinal para eu me calar. Disse que falaríamos disso em outra ocasião e depois, propositadamente, mudou de assunto e deu-me uma longa explicação a respeito de "ver". Falei que era uma pena eu não poder escrever no escuro. Pareceu muito satisfeito e disse que, muitas vezes, eu não prestava atenção ao que ele dizia porque estava tão determinado a escrever tudo.

 

Falou de "ver" como sendo um processo independente dos aliados e da técnica da feitiçaria. Um feiticeiro era uma pessoa que podia comandar um aliado e, assim, podia manipular o poder de um aliado para seu proveito, mas o fato de ele comandar um aliado não significava que ele pudesse "ver". Lembrei-lhe de que ele me havia dito antes que era impossível "ver" a não ser que a pessoa tivesse um aliado. Dom Juan muito calmamente respondeu que tinha chegado à conclusão de que era possível "ver" sem comandar um aliado. Disse que não havia motivo para não acontecer isso, pois que "ver" não tinha qualquer relação com as técnicas de manipulação da feitiçaria, que só serviam para atuar sobre nossos semelhantes. As técnicas de "ver", por outro lado, não tinham efeito sobre os homens.

 

As minhas idéias estavam muito claras. Não sentia fadiga nem sonolência, nem tinha mais aquela sensação estranha no estômago, ao caminhar com Dom Juan. Estava com muita fome, e quando chegamos à casa dele eu me enchi de comida.

 

Depois, pedi-lhe que me contasse mais sobre as técnicas de "ver". Deu-me um vasto sorriso e disse que eu estava de novo no meu normal.

 

— Como é — perguntei — que as técnicas de "ver" não têm efeito sobre nossos semelhantes?

 

— Já lhe disse — respondeu. — Ver não é feitiçaria. E, contudo, é fácil confundir as duas coisas, pois um homem que vê pode aprender, rapidamente, a manipular um aliado e pode-se tornar um feiticeiro. Por outro lado, o homem pode aprender certas técnicas a fim de comandar um aliado e, dessa maneira, tornar-se um feiticeiro, e no entanto pode nunca aprender a ver. Além disso, ver é oposto à feitiçaria. Ver faz a gente entender como tudo é sem importância.

 

— O que é sem importância, Dom Juan?

— Tudo.

 

Não dissemos mais nada. Sentia-me muito relaxado e não que­ria mais falar nada. Estava deitado de costas numa esteira. Tinha feito um travesseiro com meu casaco. Estava confortável e feliz, e fiquei tomando apontamentos durante horas, à luz do lampião de querosene.

 

De repente, Dom Juan tornou a falar.

 

— Hoje, você foi muito bem — disse ele. — Foi muito bem na água. O espírito do olho d'água gosta de você e ajudou-o sempre.

 

Então, dei-me conta de que tinha esquecido de relatar minha experiência. Comecei a descrever a maneira como tinha visto a água. Não me deixou continuar. Disse que sabia que eu tinha percebido uma neblina verde. Fui levado a perguntar:

 

— E como é que sabia disso, Dom Juan?

— Eu o vi.

— O que foi que eu fiz?

— Nada. Ficou ali sentado olhando para a água e, por fim, percebeu a neblina verde.

— Isso foi ver?

— Não. Mas estava muito próximo. Você está chegando perto.

 

Fiquei muito entusiasmado. Quis saber mais a respeito. Ele riu e caçoou de minha ansiedade. Disse que qualquer pessoa podia perceber a neblina verde porque era como o guarda, uma coisa que estava lá, inevitavelmente, de modo que não era grande feito percebê-la.

 

— Quando falei que você se saiu bem, queria dizer que não ficou aflito — disse ele — como na ocasião do guarda. Se você tivesse ficado agitado, eu teria tido de sacudir sua cabeça, para trazê-lo de volta. Sempre que um homem penetra na neblina verde, seu benfeitor tem de ficar com ele, para o caso de ela começar a prendê-lo. Você pode saltar para fora das garras do guarda sozinho, mas não consegue escapar do poder da neblina verde sem ajuda. Pelo menos, não no princípio. Mais tarde, aprende-se um jeito de fazê-lo. Agora, vamos tentar descobrir outra coisa.

 

— O que Vamos tentar descobrir?

— Se você pode ver a água.

— Como é que vou saber se eu a vi, ou que a estou vendo?

— Você saberá. Só fica confuso quando fala.

 

Revendo meus apontamentos, eu encontrara várias perguntas.

 

— A neblina verde, como o guarda, é coisa que a gente tem de vencer para poder ver? — perguntei a Dom Juan, assim que nos sentamos sob a ramada dele, no dia 8 de agosto de 1969.

 

— Sim. A gente tem de vencer tudo — respondeu.

— Como posso vencer a neblina verde?

— Da mesma maneira que você devia ter vencido o guarda, deixando que ele virasse nada.

— O que devo fazer?

— Nada. Para você, a neblina verde é coisa muito mais fácil do que o guarda. O espírito do olho d'água gosta de você, enquanto que, certamente, não estava no seu temperamento lidar com o guarda. Você nunca viu o guarda, realmente.

— Talvez fosse porque eu não gostasse dele. E se eu encontrasse um guarda de quem eu gostasse? Deve haver gente que ache o guarda que eu vi lindo. Eles o venceriam por gostar dele?

— Não! Ainda não entendeu. Não importa que você goste ou não do guarda. Enquanto você sentir alguma coisa para com ele, o guarda ficará o mesmo, monstruoso, lindo, o que for. Se você não tiver nenhum sentimento para com ele, contrariamente o guarda se tornará nada e ainda estará lá diante de você.

 

A idéia de que uma coisa tão colossal como o guarda poderia tornar-se nada e continuar em frente de meus olhos não fazia sentido, em absoluto. Achei que era uma das premissas sem lógica do conhecimento de Dom Juan. No entanto, também senti que ele, se quisesse, podia explicá-lo. Insisti em perguntar o que ele queria dizer com aquilo.

 

— Pensava que o guarda fosse alguma coisa que você conhecia, é isso que eu quero dizer.

— Mas não pensei que fosse uma coisa que eu conhecia.

— Achou que era feio. O tamanho dele era aterrador. Era um monstro. Você sabe o que são todas essas coisas. Portanto, o guarda era sempre alguma coisa que você conhecia e, enquanto fosse assim, não o via. Já lhe disse, o guarda tinha de virar nada e, no entanto, linha de ficar diante de você. Tinha de estar ali e, ao mesmo tempo, tinha de ser nada.

— Como poderia isso acontecer, Dom Juan? O que você está dizendo é absurdo.

— É mesmo. Mas isso é ver. Não há realmente meio de falar sobre isso. Ver, como eu já disse antes, aprende-se vendo. Parece que você não tem problemas com a água. Quase a vim o outro dia. A água é seu "eixo". Agora só lhe falta aperfeiçoar sua técnica de ver Você tem um poderoso auxiliar no espírito do olho d'água.

— Essa é outra pergunta importante, Dom Juan.

— Pode ter todas as perguntas importantes que quiser, mas não podemos falar a respeito do espírito do olho d'água nesse lugar. Na verdade, é melhor não pensar nisso de todo. Senão o espírito o prenderá e, se isso acontecer, não há nada que um vivente possa fazer para ajudá-lo. Por isso, cale a boca e pense em outra coisa.

 

Lá pelas dez horas da manhã seguinte, Dom Juan pegou o cachimbo da capa, encheu-o com a mistura do fumo, entregou-o a mim e disse que o levasse até à margem do riacho. Segurando o cachimbo com as duas mãos, consegui desabotoar minha camisa e pôr o cachimbo dentro dela, segurando-o bem. Dom Juan levou duas esteiras e uma bandejinha com carvões. Estava um dia quente. Sentamo-nos nas esteiras à sombra de umas árvores de brea à beira d'água. Dom Juan colocou um carvão dentro do fornilho do cachimbo e me disse para fumar. Não sentia qualquer apreensão, nem nenhum sentimento de exultação. Lembrei-me de que na minha segunda tentativa de "ver" o guarda, depois que Dom Juan explicara a natureza dele, eu tinha tido uma sensação rara de assombro e veneração. Dessa vez, porém, embora Dom Juan me alertasse sobre a possibilidade de chegar a "ver" a água, eu não estava envolvido emocionalmente. Estava apenas curioso.

 

Dom Juan me fez fumar o dobro do que eu tinha fumado nas tentativas anteriores. Num dado momento, inclinou-se e cochichou em meu ouvido direito que me ia ensinar a usar a água para me mover. Senti seu tosto muito perto do meu, como se ele tivesse posto a boca junto de meu ouvido. Disse-me pata não fitar a água, e sim para focalizar os olhos na superfície e conservá-los fixos até a água viraruma neblina verde. Repetiu várias vezes que eu tinha de concentrar minha atenção na neblina, até não poder ver mais nada.

 

— Olhe para a água diante de você — ouvi-o dizer — mas não deixe que o som dela o transporte para lugar algum. Se deixar o som da água transportá-lo, posso nunca mais encontrá-lo para trazê-lo de volta, Agora, entre na neblina verde e escute minha voz.

 

Ouvia-o e compreendia com uma clareza extraordinária. Comecei a olhar fixamente para a água e tive uma sensação muito especial de prazer físico; um formigamento; uma felicidade indefinida. Fiquei olhando muito tempo, mas não vi a neblina verde. Senti que meus olhos estavam saindo de foco e tive de me esforçar para continuar a olhar para a água; por fim, não consegui mais controlar meus olhos, e devo tê-los fechado, ou piscado, ou talvez apenas perdi minha capacidade de focalizar; de qualquer forma, naquele momento a água ficou fixa; parou de se mover. Parecia uma pintura. As ondulações eram imóveis. Depois, a água começou a ferver; era como se as partículas carbonadas tivessem explodido de uma vez. Por um momento, vi o fervilhamento como uma lenta expansão de uma substância verde. Era uma explosão silenciosa; a água explodiu numa neblina verde brilhante, que se expandiu até me envolver.

 

Fiquei suspenso nela até que um ruído muito agudo e continuado abalou tudo; a neblina pareceu congelar-se na aparência normal da superfície da água. O ruído agudo era Dom Juan berrando "Eiiii!" junto de meu ouvido. Disse-me para prestar atenção à voz dele e voltar à neblina e esperar ali até ele me chamar. Respondi "OK" em inglês e ouvi a risada dele,

 

— Não fale, por favor. Não me venha mais com seus OK. Ouvia-o perfeitamente. O som de sua voz era melodioso e acima de tudo simpático. Eu sabia disso sem pensar; era uma convicção que me veio e passou.

 

A voz de Dom Juan mandou que eu focalizasse toda minha atenção na neblina, mas que não me entregasse a ela. Disse várias vezes que um guerreiro não se entregava a nada, nem mesmo a sua morte. O fenômeno da neblina era composto de bolhazinhas, coisinhas redondas que entravam em meu campo de "visão" e dele saíam como que flutuando. Observei o movimento delas por um momento e, de­pois, um ruído forte e distante desviou minha atenção; perdi minha capacidade de focalizar e não percebi mais as bolhazinhas. Então, eu só tinha conhecimento de um brilho verde, amorfo e nebuloso. Tornei a ouvir o ruído forte e o choque que levei dissipou a névoa imediatamente e vi que estava olhando para a água da vala de irrigação. Então, ouvi o barulho, muito mais próximo; era a voz de Dom Juan! Falava-me que prestasse atenção, pois sua voz era meu único guia. Mandou que eu olhasse para a margem do riacho e para a vegetação bem na minha frente. Vi uns caniços e um espaço em que não havia caniços. Era uma grutinha na margem, um lugar por onde Dom Juan atravessa para mergulhar o balde e enchê-lo de água. Depois de alguns momentos, Dom Juan mandou que eu voltasse à neblina e tornou a pedir que eu prestasse atenção a voz dele, pois ia me orientar para eu aprender a me mover; disse que, quando eu visse as bolhas, devia embarcar em uma delas e deixar que me transportasse.

 

Obedeci e fui novamente envolto pela névoa verde e então vi as bolhazinhas. Tomei a ouvir a voz de Dom Juan, como um ronco muito estranho e assustador. Assim que a ouvi, comecei a perder minha capacidade de ver as bolhas.

 

— Monte em uma das bolhas — eu o ouvi dizer.

 

Lutei para conservar minha percepção das bolhas verdes e ainda ouvir a voz dele. Não sei quanto tempo lutei para fazer isso, quando, de repente, verifiquei que conseguia ouvi-lo e ainda conservar as bolhas em foco; elas passavam flutuando lentamente pata fora de meu campo de percepção. A voz de Dom Juan continuava a mandar que eu seguisse uma delas e a montasse.

 

Não sabia como devia fazer aquilo e, automaticamente, pronunciei a palavra "Como". Senti que a palavra estava muito funda dentro de mim e, quando saiu, carregou-me para a superfície. O mundo era como uma bóia que emergia de minhas profundezas. Ouvi minha voz dizendo "Como" e eu parecia um cachorro uivando. Dom Juan uivou de volta, também como um cachorro, e depois fez uns ruídos de coiote, rindo em seguida. Achei aquilo muito engraçado e cheguei a rir. Dom Juan me disse muito calmamente que me afixasse a uma bolha, acompanhando-a.

 

— Volte de novo — falou, — Volte para a neblina! Para a neblina!

 

Voltei e reparei que o movimento das bolhas tinha diminuído e que elas se haviam tornado grandes como bolas de basquete. Na verdade, eram tão grandes e lentas que eu podia examinar qualquer delas detalhadamente. Não eram realmente bolhas, não como uma bolha de sabão, nem um balão, nem qualquer recipiente esférico, Não eram recipientes; e, no entanto, eram envoltas. Nem eram redondas, embora quando as percebi pela primeira vez poderia ter jurado que eram redondas e que a imagem que me veio à mente foi de "bolhas". Olhei para elas como se estivesse olhando por uma janela; isto é, o caixilho da janela me impedia de acompanhá-las, só permitindo que eu as visse entrando e saindo de meu campo de percepção.

 

Quando parei de olhar para elas como bolhas, porém, consegui acompanhá-las; no ato de acompanhá-las, afixei-me a uma delas e flutuei com a mesma. Senti realmente que me estava movendo. Na verdade, eu era a própria bolha ou aquela coisa que parecia uma bolha.

 

Então, ouvi o som estridente da voz de Dom Juan. Ela me abalou e perdi minha sensação de ser "ela". O som era extremamente assustador; era uma voz remota, muito metálica, como se ele estivesse falando por um alto-falante. Distingui algumas palavras.

 

— Olhe para as margens — disse ele.

 

Vi uma quantidade grande de água. Ela estava correndo. Eu ouvia o barulho que ela fazia.

— Olhe para as margens — mandou Dom Juan de novo.

 

Vi uma parede de concreto. O som da água tornou-se terrivelmente forte; o som engolfou-me. Depois cessou, instantaneamente, como se tivesse sido desligado. Tive a sensação de negrume, de sono.

 

Percebi que eu estava mergulhado na vala de irrigação. Dom Juan estava atirando água em meu rosto, enquanto cantarolava. De­pois, mergulhou-me na vala. Puxou minha cabeça para cima da superfície e deixou que eu a apoiasse na margem, enquanto me segurava pelas costas de meu colarinho. Tive uma sensação muito agradável nos braços e pernas. Estiquei-os. Meus olhos estavam cansados e comichavam; levantei minha mão direita para esfregá-los. Era um movimento difícil. Meu braço parecia estar pesado. Eu mal podia levantá-lo da água, mas, quando o consegui, meu braço saiu coberto por uma surpreendente massa de névoa verde. Levei o braço para a frente de meus olhos. Via seu contorno como uma massa verde mais escura, rodeada por um fulgor esverdeado muito intenso. Levantei-me depressa e fiquei no meio do riacho, olhando para meu corpo; meu peito, meus braços e minhas pernas estavam verdes, de um verde profundo. O tom era tão intenso que me deu a sensação de uma substância viscosa. Eu parecia um boneco que Dom Juan me fizera anos antes, da raiz da datara. Dom Juan me disse para sair. Reparei que sua voz tinha um tom urgente.

 

— Estou verde — falei.

— Pare com isso — disse ele, imperiosamente. — Você não tem tempo. Saia daí. A água vai prendê-lo. Saia daí! Saia! Saia! Entrei em pânico e saltei para fora.

— Dessa vez você tem de me contar tudo o que aconteceu — começou, em tom natural, assim que estávamos sentados um defronte do outro dentro do quarto dele.

 

Ele não estava interessado na seqüência de minha experiência; só queria saber o que eu tinha encontrado quando me mandou olhar para a margem. Estava interessado nos detalhes. Descrevi a parede que tinha visto.

 

— A parede estava à sua esquerda ou à sua direita? — perguntou ele.

 

Respondi que a parede estava realmente na minha frente. Mas ele insistiu que tinha de ser à direita ou à esquerda.

 

— Quando a viu primeiro, onde estava? Feche os olhos e não os abra até lembrar-se.

 

Ele se levantou e virou meu corpo, enquanto eu estava de olhos fechados, até eu estar virado para o leste, a mesma direção em que eu estava quando sentei defronte do riacho. Perguntou-me em que direção eu me tinha mexido.

 

Respondi que me mexera para a frente. Insistiu para eu me lembrar e me concentrar no momento em que ainda estava olhando para a água como bolhas.

 

— Em que direção elas flutuavam? -— perguntou ele.

 

Dom Juan insistiu para eu me lembrar e por fim tive de confessar que as bolhas pareciam estar movendo para minha direita. E, no entanto, não estava tão absolutamente certo quanto ele queria que eu estivesse. Sob a orientação dele, comecei a compreender que não era capaz de classificar minha percepção. As bolhas se haviam movido para minha direita, da primeira vez que as vi, mas, quando ficavam maiores, corriam para toda parte. Algumas pareciam estar vindo diretamente para cima de mim, outras pareciam ir em todas as direções possíveis. Havia bolhas movendo-se acima e abaixo de mim. Na verdade, elas estavam por toda parte em volta de mim. Lembrei-me de ter ouvido que elas fervilhavam; assim, devo tê-las percebido com meus ouvidos, bem como com meus olhos.

 

Quando as bolhas se tornaram tão grandes que consegui "montar" numa delas, eu as "vi" tocando-se, como balões.

 

Minha agitação aumentava à medida que eu me lembrava dos detalhes de minha percepção. Dom Juan, porém, estava inteiramente desinteressado. Contei a ele a respeito das bolhas efervescentes. Não era um efeito puramente auditivo ou puramente visual, mas uma coisa não diferenciada e, no entanto, de uma clareza cristalina; as bolhas se raspavam. Eu não via nem ouvia o movimento delas, sentia-o; eu era parte do som e do movimento.

 

Ao contai minha experiência, fiquei muito comovido. Segurei o braço dele e sacudi-o, num acesso de grande agitação. Eu tinha compreendido que as bolhas não tinham limite externo; não obstante, eram contidas e suas bordas mudavam de forma e eram irregulares e dentadas. As bolhas se fundiam e separavam com grande velocidade e, no entanto, o movimento delas não era ofuscante. Seu movimento era rápido e, ao mesmo tempo, lento.

 

Outra coisa de que eu me lembrava, ao narrar minha experiência, era a qualidade da cor que as bolhas pareciam possuir. Eram transparentes e muito brilhantes e pareciam quase verdes, embora não fosse propriamente uma tonalidade, como estou acostumado a perceber as tonalidades.

 

— Está se esquivando — disse Dom Juan. — Essas coisas não são importantes. Está se detendo nas coisas erradas. A direção é a única coisa importante.

 

Só consegui lembrar-me de que me tinha movido sem qualquer ponto de referência, mas Dom Juan concluiu que, como as bolhas tinham corrido sempre para a minha direita, o sul, no princípio era o sul a direção em que tínhamos de pensar. Tornou a me pedir com urgência para me lembrar se a parede estava a minha direita ou à minha esquerda. Fiz um esforço para lembrar-me.

 

Quando Dom Juan "me chamou" e eu vim à superfície, por assim dizer, creio que a parede estava à minha esquerda. Eu estava muito perto dela e conseguia distinguir cavidades e protuberâncias da armação ou molde de madeira em que fora vertido o concreto. Tinham usado tiras de madeira muito finas e o desenho criado por elas era compacto, A parede era muito alta. Uma de suas extremidades era visível para mim e reparei que não tinha um canto, e sim uma curva.

 

Ficou calado por um momento, como se estivesse pensando em como decifrar o significado de minha experiência; por fim, disse que eu não realizara grande coisa, que eu não estivera a altura das expectativas dele.

 

— O que é que eu tinha de fazer?

 

Ele não respondeu, só fez um gesto franzindo os lábios.

 

— Você se saiu bem — disse ele, era seguida, Hoje, aprendeu que um brujo usa a água para se mover.

— Mas eu vi?

 

Olhou para mim com uma expressão estranha. Revirou os olhos e disse que eu ainda teria de entrar na neblina verde muitas vezes antes de poder responder àquela pergunta, eu mesmo. Mudou o rumo de nossa conversa de maneira sutil, dizendo que eu não tinha realmente aprendido a me mover usando a água, mas que tinha aprendido que um brujo sabia fazer isso, e ele propositadamente me mandara olhar para a margem do riacho para poder verificar meu movimento.

 

— Você se movia muito depressa — disse ele — tão depressa quanto um homem que saiba executar essa técnica. Foi difícil para mim acompanhá-lo.

Implorei a ele para me explicar o que me acontecera desde o começo. Riu, sacudindo a cabeça devagar, como se não estivesse acreditando.

 

— Você sempre insiste em saber das coisas desde o começo — disse ele, — Mas não há começo; o começo está só no seu pensamento.

— Acho que o começo foi quando me sentei na margem e fumei.

— Mas antes de você fumar, tive de pensar o que ia fazer com você — falou. — Eu teria de lhe dizer o que fiz e não posso fazer isso, porque tal fato me levaria para outro ponto mais. Assim, talvez as coisas ficassem mais claras para você, se não pensasse nos começos.

— Então, conte-me o que aconteceu depois que eu sentei na margem e fumei.

— Acho que você já me contou isso — disse ele, rindo.

— Alguma coisa que eu fiz foi importante, Dom Juan?

—  Seguiu minhas instruções muito bem e não teve problema em entrar e sair da neblina — falou, dando de ombros. — Depois, escutou minha voz e voltou à superfície cada vez que o chamei. Era esse o exercício. O rosto foi muito fácil. Apenas deixou que a neblina o levasse. Comportou-se como se soubesse o que fazer. Quando estava muito longe, tornei a chamá-lo e o fiz olhar para a margem, para você saber a distância a que tinha ido. Em seguida, puxei-o de volta.

— Quer dizer, Dom Juan, que eu realmente viajei pela água?

— Sim. E foi muito longe.

— Até onde?

— Você não acreditaria.

 

Tentei convencê-lo a me contar, mas ele mudou de assunto e disse que tinha de sair um pouco. Insisti que, ao menos, me desse uma sugestão.

 

— Não gosto de ficar no escuro — falei.

— É você quem se mantém no escuro. Pense na parede que você viu. Sente-se aqui na sua esteira e pense em todos os detalhes dela. Então, talvez você mesmo descubra até onde foi. Só o que sei agora é que você viajou muito longe. Sei disso porque tive uma dificuldade enorme em puxá-lo de volta. Se eu não estivesse por perto, poderia ter ido embora e nunca mais voltado, e nesse caso só restaria de você agora seu cadáver aqui ao lado do riacho. Ou talvez teria voltado sozinho. Com você, não tenho certeza. Assim, a julgar pelo esforço que foi preciso para fazê-lo voltar, eu diria que você estava claramente em... — Fez uma longa pausa; ficou olhando para mim, com simpatia. — Eu iria até às montanhas do México Central — disse ele. — Não sei até onde você iria, talvez até Los Angeles, ou talvez até mesmo ao Brasil.

 

Dom Juan voltou no dia seguinte, de tardinha. Enquanto isso, eu tinha escrito tudo o que podia recordar a respeito de minha percepção. Enquanto eu escrevia, ocorreu-me acompanhar as margens subindo e descendo o riacho, em ambas as direções, a fim de corroborar se eu tinha realmente visto alguma coisa em algum dos lados que pudesse provocar em mim a imagem de uma parede. Pensei que Dom Juan poderia ter-me feito andar, num estado de letargia, e depois poderia ter focalizado minha atenção em alguma parede no caminho. Durante as horas que se passaram entre o momento em que percebi a neblina e o momento em que saí da vala e voltei à casa dele, calculei que, se ele me tivesse feito caminhar, teríamos andado, no máximo, uns três quilômetros. Assim, acompanhei as margens do riacho por uns três quilômetros em cada direção, observando com cuidado tudo o que pudesse ter relação com minha visão da parede. O riacho, ao que eu podia ver, era um simples canal usa­do para irrigação. Tinha de l,20m a l,50m em toda sua extensão, e eu não encontrei nele nada de visível que me lembrasse ou provo­casse a imagem de uma parede de concreto.

 

Quando Dom Juan chegou em casa de tardinha, abordei-o e insisti em ler meu relato para ele. Recusou-se a escutar e me fez sentar. Acomodou-se diante de mim. Não estava sorrindo. Parecia estar meditando, a julgar por seu olhar penetrante, fixo acima do horizonte.

 

— Acho que você já deve saber, a essa altura — disse ele. num tom de repente muito severo — que tudo é mortalmente perigoso. A água é tão mortífera quanto o guarda. Se você não tomar cuidado, a água o prenderá. Ela quase o conseguiu ontem, Mas para ser preso, o homem tem de estar disposto. Neste ponto, é que está seu problema. Você está disposto a se entregar.

 

Não sabia do que ele estava falando. Seu ataque fora tão repentino que eu estava desorientado. Debilmente, pedi que se explicasse, Com relutância, falou que tinha ido à garganta da água e tinha "visto" o espírito do olho d'água e tinha a convicção profunda de que eu tinha estragado minhas possibilidades de "ver" a água.

 

— Como? — perguntei, realmente perplexo.

— O espírito é uma força — disse ele — e como tal, só reage à força. Você não pode ter caprichos na presença dele.

— E quando é que tive caprichos?

— Ontem, quando ficou verde na água.

— Não foi um capricho. Achei que era um momento muito importante e eu lhe disse o que me estava acontecendo.

—- Quem é você para saber ou resolver o que é importante? Não sabe nada a respeito das forças que está experimentando. O espírito do olho d'água existe lá e podia ter-lhe ajudado; na verdade, estava-lhe ajudando até você fracassar. Agora, não sei qual será o resultado de seus atos. Você sucumbiu à força do espírito do olho d'água e, agora, ele pode levá-lo a qualquer momento.

— Foi errado olhar para mim quando estava ficando verde?

— Você se entregou. Teve vontade de se entregar. Isso foi errado. Já lhe disse uma vez e vou repetir. Só pode sobreviver no mundo de um brujo, se for um guerreiro. Este trata tudo com respeito e não espezinha nada, a não ser que seja obrigado. Ontem, você não tratou a água com respeito. Em geral, porta-se muito bem. No entanto, ontem, entregou-se à sua morte, como um raio de um tolo. Um guerreiro não se entrega a nada, nem mesmo à sua morte. Um guerreiro não é um parceiro dócil; um guerreiro não está disponível, e se ele se envolve com alguma coisa, pode ter certeza de que sabe o que está fazendo.

 

Eu não sabia o que dizer. Dom Juan estava quase zangado. Aquilo me perturbava. Era raro Dom Juan proceder assim comigo. Falei que realmente não tinha idéia de estar fazendo alguma coisa errada. Depois de alguns minutos de um silêncio tenso, tirou o chapéu e sorriu e me disse que eu tinha de ir embora e não voltar à casa dele até achar que tinha conseguido controlar meu tempera­mento caprichoso. Frisou que eu tinha de fugir da água e não deixar que ela tocasse a superfície de meu corpo por uns três ou quatro meses.

 

— Não creio que eu possa passar sem tomar banho de chuveiro — disse eu.

 

Dom Juan riu até às lágrimas.

 

— Você não pode passar sem tomar banho de chuveiro! Às vezes, é tão fraco que chego a pensar que está mexendo comigo. Mas isso não é brincadeira. Às vezes, não tem controle e as forças de sua vida o dominam livremente.

 

Apresentei o argumento de que era humanamente impossível ser controlado em todas as ocasiões. Afirmou que, para um guerreiro, não havia nada fora de controle. Mencionei os acidentes e disse que o que me aconteceu no canal de irrigação certamente poderia ser considerado como um acidente, pois nem o fiz propositadamente nem tive consciência de meu comportamento impróprio. Falei de várias pessoas que tinham infelicidades que podiam ser classificadas como acidentes; falei especialmente sobre Lucas, um excelente velho yaqui que tinha sido gravemente ferido quando o caminhão que ele dirigia tombou

 

— Parece-me impossível evitar os acidentes — disse eu. — Homem algum pode controlar tudo o que o cerca.

— É verdade — disse Dom Juan, de modo cortante. — Mas nem tudo é um acidente inevitável. Lucas não vive como um guerreiro. Se vivesse, saberia que está esperando e o que está esperando; e não teria dirigido aquele caminhão bêbado. Bateu numa pedra do lado da estrada porque estava bêbado e se estropiou desnecessariamente.

 

"A vida para um guerreiro é um exercício de estratégia — continuou. — Mas você quer descobrir o significado da vida. Um guerreiro não se importa com significados. Se Lucas vivesse como um guerreiro... e ele teve oportunidade para isso, como todos nós temos... teria organizado sua vida de maneira estratégica. Assim, se ele não pudesse evitar um acidente que lhe arrebentou as costelas, teria encontrado meios de contrabalançar isso, ou evitar suas conseqüências, ou lutar contra elas. Se Lucas fosse um guerreiro, não estaria sentado na sua casinha humilde, morrendo de fome. Estaria lutando até o fim".

 

Apresentei a Dom Juan uma alternativa, usando-o como exemplo, e perguntei-lhe o que aconteceria se ele mesmo fosse envolvido num acidente que lhe amputasse as pernas.

 

— Se eu não puder evitá-lo, e perder minhas pernas — disse ele — não poderei mais ser um homem, de modo que irei juntar-me ao que está me esperando por lá. — Fez um gesto amplo com a mão, apontando para tudo em volta de si.

 

Argumentei que ele não me tinha entendido. Eu queria dizer que era impossível para um único indivíduo prever todas as variações envolvidas em seus atos quotidianos.

 

— Só o que lhe posso dizer — falou Dom Juan — é que um guerreiro nunca está disponível; nunca fica esperando na estrada, aguardando para ser massacrado. Assim, ele reduz ao mínimo suas probabilidades de imprevisto. O que você chama de acidentes são, na maioria das vezes, muito fáceis de se evitar, a não ser no caso de tolos que vivem de qualquer maneira,

 

— Não é possível viver estrategicamente o tempo todo — respondi. — Imagine que alguém o esteja esperando, com uma carabina possante, de mira telescópica; ele poderia avistá-lo com precisão a cem metros de distância. O que você faria?

 

Dom Juan olhou para mim com um ar de descrença e depois deu uma gargalhada.

 

— O que você faria? — insisti.

— Se alguém me estiver esperando com uma carabina de mira telescópica? — disse ele, evidentemente zombando de mim.

— Se alguém estiver escondido, à sua espreita, Você não terá uma chance. Não pode deter uma bala.

— Não. Não posso. Mas ainda não entendi o que você quer provar.

— Quero provar que toda a sua estratégia não o pode ajudar, numa situação dessas.

— Mas pode, sim. Se alguém estiver à minha espreita com uma carabina possante de mira telescópica, eu simplesmente não vou aparecer.

 

Minha tentativa seguinte para "ver" ocorreu no dia 3 de setembro de 1969. Dom Juan me fez fumar dois cachimbos da mistura. Os efeitos imediatos foram idênticos aos que eu já experimentara nas tentativas anteriores. Lembro-me de que, quando meu corpo ficou completamente dormente, Dom Juan segurou-me pelo braço direito e me fez caminhar para o denso chaparral do deserto que existe por quilômetros em volta da casa dele. Não me lembro do que foi que eu ou Dom Juan fizemos depois de entrarmos no mato, nem me lembro de quanto tempo caminhamos; num dado momento descobri que estava sentado no topo de um morrinho. Dom Juan estava sentado a meu lado esquerdo, encostado a mim. Eu não o sentia, mas podia vê-lo com o canto do olho. Tinha a impressão de que me estava falando, embora não conseguisse recordar-me das palavras. No entanto, eu sentia que sabia exatamente o que ele tinha dito, a despeito do fato de não me poder lembrar com uma memória clara. Tinha a impressão de que as palavras dele eram como os vagões de um trem que se afastava e suas últimas palavras eram como um vagão quadrado. Sabia o que era aquela última palavra, mas não conseguia pronunciá-la nem pensar claramente a respeito. Era um estado semidesperto, com uma imagem de sonho de um trem de palavras.

 

Então, muito vagamente, ouvi a voz de Dom Juan falando comigo.

— Agora, você tem de olhar para mim — falou, virando minha cabeça para ele. Repetiu a mesma coisa umas três ou quatro vezes,

 

Olhei e vi logo o mesmo efeito luminoso que já tinha percebido duas vezes ao olhar para o rosto dele; era um movimento hipnótico, uma mudança de luz ondulante dentro de áreas fechadas. Não havia limites precisos para essas áreas e, no entanto, a luz vacilante nunca extravasava, mas se movia dentro de limites invisíveis.

 

Examinei o objeto brilhante diante de mim e, imediatamente, ele começou a perder sua luminosidade e surgiram as feições conhecidas no rosto de Dom Juan, ou melhor, elas se superpuseram sobre o brilho evanescente. Eu devia estar focalizando meu olhar de novo; as feições de Dom Juan sumiram e o brilho se intensificou. Eu tinha centralizado minha atenção numa área que devia ser o olho esquerdo dele. Reparei que ali o movimento da luminosidade não era contido. Percebi uma coisa que talvez se assemelhasse a explosões de fagulhas. As explosões eram ritmadas e chegavam a emitir uma coisa como partículas de luz que voavam com uma força aparente para mim e depois recuavam como se fossem fibras de borracha.

 

Dom Juan deve ter virado minha cabeça. De repente, eu esta­va olhando para um campo arado.

— Agora, olhe para a frente — ouvi Dom Juan dizer. Defronte de mim, talvez a uns 200 metros, havia um mono grande e comprido; toda sua encosta tinha sido arada. Sulcos horizontais corriam paralelamente desde a base até o cume do morro. Reparei que no campo arado havia uma quantidade de pedrinhas e três pedras grandes que interrompiam as linhas dos sulcos. Havia uns arbustos bem defronte de mim, que me impediam de observar os detalhes de uma garganta ou curso d'água no sopé do morro. De onde eu estava, a garganta aparecia como um corte profundo, com vegetação verde bem diferente do morro árido.

 

O verde parecia ser de árvores que cresciam no fundo da garganta. Eu sentia a brisa soprando em meus olhos. Tinha uma sensação de paz e tranqüilidade profundas. Não havia sons de pássaros nem de insetos.

 

Dom Juan tornou a falar comigo. Levei um minuto para entender o que ele dizia.

 

— Está vendo um homem naquele campo? — perguntava ele. Queria dizer-lhe que não havia homem algum no campo, mas não conseguia articular as palavras. Dom Juan pegou minha cabeça nas mãos dele, por trás — eu via os dedos dele sobre minhas sobrancelhas e minhas faces — e me fez percorrer o campo com os olhos, movendo minha cabeça devagar da direita para a esquerda e depois na direção oposta,

 

— Examine todos os detalhes. Sua vida pode depender disso — eu o ouvi dizer, repetidamente.

 

Fez-me girar a cabeça quatro vezes pelo horizonte visual de 180 graus diante de mim. Num certo momento, quando ele tinha movido minha cabeça para olhar para a extrema esquerda, achei que tinha percebido alguma coisa se movendo no campo. Tive uma breve percepção de movimento com o canto do olho direito. Comecei a voltar a cabeça para minha direita e consegui focalizar o olhar no campo arado. Vi um homem caminhando ao lado dos sulcos. Era um homem simples, vestido como um camponês mexicano; estava de sandálias, calça cinza-claro, uma camisa bege de mangas compridas, chapéu de palha e tinha uma sacola marrom-claro com uma alça por cima do ombro direito.

 

Dom Juan deve ter notado que eu tinha visto o homem. Perguntou várias vezes se o homem estava olhando para mim ou se se estava dirigindo para mim. Queria dizer-lhe que o homem se estava afastando e que permanecia de costas para mim, mas só consegui dizer "Não". Dom Juan disse que, se o homem se virasse e viesse em minha direção, eu tinha de gritar e ele viraria minha cabeça para proteger-me.

 

Eu não tinha nenhuma sensação de medo ou apreensão nem de envolvimento. Assistia à cena friamente. O homem parou de andar no meio do campo. Ficou com o pé direito apoiado sobre uma grande pedra redonda, como se estivesse amarrando a sandália. Depois, endireitou-se, puxou um cordão da sacola e enrolou-o em volta da mão esquerda. Virou as costas para mim, ficando de frente para o topo do morro e começou a examinar a área diante dele. Achei que estava observando por causa da maneira como movia a cabeça, deslocando-a devagar para a direita; eu o vi de perfil e então ele começou a virar o corpo todo em minha direção, até estar olhando para mim. Chegou a sacudir a cabeça, ou moveu-a, de maneira que eu sabia sem dúvida alguma que ele me vira. Estendeu o braço esquerdo para a frente, apontando para o chão e, com o braço nessa posição, começou a caminhar em minha direção.

 

— Ele está vindo! — gritei, sem qualquer dificuldade.

 

Dom Juan deve ter virado minha cabeça, pois em seguida eu estava olhando para o chaparral. Disse-me para não lixar os olhos, mas só olhar "de leve" para as coisas. Falou que ia ficar um pouco na minha frente e depois caminhar para mim, e que eu tinha de olhá-lo fixamente, até ver seu fulgor.

 

Vi Dom Juan se dirigindo para um ponto a talvez uns 20 metros de distância. Andava com tanta rapidez e agilidade que eu mal podia acreditar que fosse ele. Virou-se e mandou que olhasse fixa­mente para ele.

 

O rosto dele estava brilhando; parecia uma mancha de luz. Esta parecia derramar-se pelo peito dele quase até o meio do corpo. Era como se eu estivesse olhando para uma luz, através de minhas pálpebras semicerradas. O brilho parecia expandir-se e retrair-se. Deve ter começado a caminhar para junto de mim, porque a luz ficou mais intensa e distinguível.

 

Disse-me alguma coisa. Esforcei-me para compreender e perdi de vista o brilho e então, vi Dom Juan como o vejo na vida diária; estava a menos de um metro. Sentou-se virado para mira.

 

Quando focalizei minha atenção no rosto dele, comecei a perceber um vago brilho. Então, era como se seu rosto estivesse cruza­do por finos raios de luz. O rosto de Dom Juan parecia que estava sendo atingido pelo reflexo de espelhinhos; à medida que a luz ficava mais intensa, o semblante perdeu seus contornos e passou nova­mente a ser um objeto brilhante e amorfo. Tornei a perceber o efeito de explosões palpitantes de luz emanando de uma área que devia ser seu olho esquerdo. Não focalizei minha atenção ali, mas propositadamente olhei para uma área adjacente, que supus ser o olho direito. Percebi logo um poço de luz claro e transparente. Era uma luz líquida.

 

Vi que perceber era mais do que avistar; era sentir. O poço de luz escura e líquida tinha uma profundidade extraordinária. Era "simpática", "bondosa". A luz que emanava dele não explodia, mas girava lentamente para dentro, criando reflexos maravilhosos. O brilho tinha uma maneira muito delicada e linda de me tocar, acalmando-me, o que me dava uma sensação singular.

 

Vi um anel simétrico de pontos de luz brilhante que se expandia ritmadamente no plano vertical da área luminosa. O anel se expandia para cobrir quase toda a superfície luminosa e depois contraía-se para formar um ponto de luz no meio do poço brilhante. Vi o anel se expandindo e contraindo várias vezes. Depois, propositadamente recuei, sem desviar os olhos, e consegui ver os dois olhos. Distingui o ritmo dos dois tipos de explosões de luz. O olho esquerdo emitia dardos de luz que chegavam a saltar do plano vertical, enquanto o olho direito emitia dardos que se irradiavam sem ressaltar. O ritmo dos dois olhos era alternado, a luz do olho esquerdo explodindo para fora enquanto os raios de luz irradiante do olho direito se contraíam e giravam para dentro. Depois, a luz do olho direito estendeu-se para cobrir toda a superfície brilhante, enquanto a luz que explodia do olho esquerdo recuava.

 

Dom Juan deve ter-me virado outra vez, pois eu estava nova­mente olhando para o campo arado. Ouvi-o dizer para eu vigiar o homem.

 

Este estava de pé junto da pedra, olhando para mim. Eu não podia distinguir as feições dele; seu chapéu cobria a maior parte do rosto. Depois de um momento, meteu a sacola debaixo do braço direito e começou a se afastar para minha direita. Andou quase até o fim da área arada, mudou de direção e deu um passo para a garganta. Então, perdi o controle de minha focalização e ele desapareceu, bem como toda a paisagem. A imagem dos arbustos do deserto se superpôs a ela.

 

Não me lembro como foi que voltei à casa de Dom Juan, nem me recordo do que foi que ele fez para me "fazer voltar". Quando acordei, estava deitado na minha esteira no quarto de Dom Juan. Veio para meu lado e me ajudou a levantar. Eu estava tonto e enjoado. Dom Juan, de maneira muito rápida e eficiente, arrastou-me para o mato ao lado da casa dele. Eu vomitei e ele riu.

 

Depois, senti-me melhor. Olhei para o relógio: eram onze horas da noite. Tornei a dormir e, a uma hora da tarde do dia seguinte, achei que estava no meu normal.

 

Dom Juan ficou perguntando como eu me estava sentindo. Tinha a impressão de estar distraído. Não me conseguia concentrar. Dei umas voltas ao redor da casa, vigiado de perto por Dom Juan. Ficou seguindo-me. Achei que não havia nada para fazer e voltei a dormir. Acordei de tardinha, sentindo-me muito melhor. Encontrei muitas folhas amassadas em volta de mim. De fato, quando acordei, estava deitado de bruços em cima de um monte de folhas O cheiro delas era muito forte. Lembro-me de ter sentido o cheiro antes de despertar completamente.

 

Fui até aos fundos da casa e encontrei Dom Juan sentado jun­to da vala de irrigação. Quando me viu chegando, fez um gesto desesperado para eu parar e voltar para a casa.

 

— Corra para dentro! — gritou ele.

 

Corri para a casa e, pouco depois, ele entrou.

 

— Nunca venha atrás de mim — disse ele. — Se quiser me ver, espere por mim aqui.

 

Desculpei-me. Ele falou que não perdesse tempo em desculpas tolas que não tinham o poder de cancelar meus atos. Disse que tinha tido muita dificuldade em me fazer voltar e que estava inter­cedendo por mim junto da água.

 

— Agora, temos de nos arriscar, e lavá-lo na água — disse ele.

 

Garanti-lhe que me estava sentindo bem. Ele olhou nos meus olhos por muito tempo.  — Venha comigo — falou. — Vou pô-lo na água.

 

— Estou bem — respondi. — Olhe, já estou tomando notas. Levantou-me da esteira com muita força.

— Não tenha caprichos! — disse ele. — Não vai tardar para você adormecer de novo. Talvez dessa vez eu não consiga acordá-lo.

 

Corremos para os fundos da casa. Antes de chegarmos à água, disse-me, num tom muito teatral, para fechar bem os olhos e não os abrir até ele ordenar. Explicou que, se eu olhasse para a água, mesmo por um instante, poderia morrer. Pegou-me pela mão e mergulhou-me na vala de irrigação, de cabeça para baixo.

 

Fiquei de olhos fechados, enquanto ele me mergulhava e me puxava para fora, por horas a fio. A transformação que senti foi notável. O que quer que estivesse errado comigo antes de entrar na água era tão sutil que não cheguei a notar, até compará-lo com a sensação de bem-estar e alerta que tive, enquanto Dom Juan me metia ao canal de irrigação.

 

A água entrou em meu nariz e comecei a espirrar. Dom Juan me puxou para fora e me levou, ainda de olhos fechados, para dentro de casa. Fez-me trocar de roupa e depois me levou para o quarto dele; mandou que eu sentasse em minha esteira, arrumou a direção de meu corpo e depois me disse para abrir os olhos. Eu os abri e o que vi me fez recuar e agarrar a perna dele. Tive um mo­mento de uma tremenda confusão. Dom Juan bateu com os nós dos dedos em cima de minha cabeça. Foi um golpe rápido, nem forte nem doloroso, mas, de alguma maneira, chocante.

 

— O que é que há com você? O que foi que viu? — perguntou. Quando eu abri os olhos, deparei com a mesma cena que tinha visto antes. Tinha visto o mesmo homem. Dessa vez, porém, ele estava quase me tocando. Vi seu rosto. Havia nele um ar conhecido. Eu quase sabia quem ele era. A cena desapareceu quando Dom Juan me bateu na cabeça.

 

Olhei para Dom Juan. Ele estava com a mão pronta para me bater de novo. Riu e perguntou se eu queria apanhar de novo. Larguei a perna dele e descansei na esteira. Mandou que eu olhasse bem para a frente não me virasse, de maneira alguma, na direção da água nos fundos da casa.

 

Então, reparei pela primeira vez que estava escuro como breu dentro do quarto. Por um momento, eu não tinha certeza se estava de olhos abertos. Foquei-os com as mãos, para me certificar. Chamei Dom Juan em voz alta e disse-lhe que havia alguma coisa errada com meus olhos; não o conseguia ver de todo, enquanto que um momento antes eu o vira pronto para me bater. Ouvi o riso dele por cima de minha cabeça, à minha direita, e então ele acendeu o lampião de querosene. Meus olhos se adaptaram à luz numa questão de segundos. Tudo estava como sempre: as paredes de taipa do quarto e as raízes medicinais secas, estranhamente contorcidas, de­penduradas delas; os maços de ervas; o teto de sapê; o lampião de querosene, dependurado da viga. Já tinha visto aquele quarto centenas de vezes e, no entanto, daquela vez, achei que havia alguma coisa singular nele e em mim. Era a primeira vez que eu não acreditava na "realidade" final de minha percepção. Eu estava caminhando para aquela impressão, e talvez a tivesse intelectualizado várias vezes, mas nunca estivera perto de uma dúvida séria. Dessa vez, porém, eu não acreditava que o quarto fosse "real" e, por um momento, tive a estranha sensação de que era uma cena que desapareceria se Dom Juan batesse em cima de minha cabeça com os nós dos dedos.

 

Comecei a tremer, sem sentir frio. Espasmos nervosos corriam por minha espinha. Minha cabeça estava pesada, especialmente na área bem acima de meu pescoço.

 

Queixei-me de que não me estava sentindo bem e contei a ele o que tinha visto. Riu de mim, dizendo que sucumbir ao medo era um capricho miserável.

 

— Você está assustado sem estar com medo — falou. — Viu o aliado olhando para você, grande coisa. Espere até estar cara a cara com ele, antes de se cagar todo.

 

Disse-me para levantar e ir para meu carro sem me virar na direção da água e para esperá-lo, enquanto ele pegava uma pá e uma corda. Mandou que eu dirigisse para um lugar onde tínhamos encontrado o toco de uma árvore. Começamos a cavar para arrancá-lo, no escuro. Trabalhei duramente por várias horas, Não conseguimos arrancar o toco, mas eu me senti muito melhor. Voltamos para a casa dele, comemos um pouco e as coisas voltaram a ficar perfeitamente "reais" e comuns.

 

— O que me aconteceu? — perguntei. — O que foi que eu fiz ontem?

— Você me fumou e depois fumou um aliado — disse ele. —  Perdão?

 

Dom Juan riu e disse que agora eu ia pedir-lhe para me contar tudo desde o princípio.

 

— Você me fumou — repetiu ele. — Ficou olhando fixo para meu tosto, dentro de meus olhos. Viu as luzes que marcam o rosto do homem. Sou um feiticeiro, você viu isso em meus olhos. Você não sabia disso, porém, pois é a primeira vez que o faz. Os olhos dos. homens não são todos iguais. Breve, vai descobrir isso. Depois, fumou um aliado.

— Quer dizer o homem no campo?

— Não era um homem, era um aliado chamando.

— Para onde ele foi? Onde estávamos quando eu vi o homem; quero dizer, aquele aliado?

 

Dom Juan fez um gesto com o queixo, apontando para uma área em frente da casa dele e disse que me tinha levado para o topo de um morrinho. Falei que a paisagem que eu tinha visto não tinha nada a ver com o chaparral de deserto em volta da casa dele e ele respondeu que o aliado que me tinha "chamado" não era das vizinhanças.

 

— De onde ele é?

— Levá-lo-ei lá muito breve.

— Qual o significado de minha visão?

— Você estava aprendendo a ver, só isso; mas agora está a ponto de perder a calça porque está se mimando; entregou-se a seu susto. Talvez deva descrever tudo o que viu.

 

Quando comecei a descrever a maneira como me apareceu o rosto dele, fez-me parar e disse que aquilo não tinha importância alguma. Disse-lhe que quase o vira como um "ovo luminoso". Ele disse que "quase" não bastava e que para ver eu ia ter muito trabalho e gastar muito tempo.

 

Estava interessado na cena no campo arado e em todos os de­talhes de que eu pudesse lembrar-me sobre o homem.

 

— Aquele aliado estava-lhe chamando. Fiz você mexer a cabeça quando ele se aproximou, não porque o estivesse pondo em perigo, mas porque é melhor esperar.  Você não está com pressa. Um guerreiro nunca fica à-toa e nunca tem pressa.  Encontrar um aliado sem estar preparado é como atacar um leão com seus peidos.

 

Gostei da metáfora. Tivemos um bom momento de riso.

 

— O que teria acontecido se você não tivesse mexido minha cabeça?

— Você teria tido de mexê-la sozinho.

— E se não o fizesse?

— O aliado teria chegado perto de você e o assustado deveras. Se você estivesse sozinho, poderia tê-lo matado. Não é aconselhável para você ficar sozinho nas montanhas ou no deserto até poder de­fender-se. Um aliado poderia encontrá-lo sozinho ali e fazer picadinho de você.

— Qual o significado dos atos que ele praticou?

— Olhar para você significava que lhe estava dando as boas-vindas. Mostrou-lhe que você precisa de um pegador de espíritos e uma sacola, mas não dessa área; a sacola dele era de outra região do país.  Você tem três obstáculos em seu caminho que o fazem parar; eram as pedras. E positivamente terá seus melhores poderes nas gargantas e ravinas; o aliado lhe apontou a ravina. O resto da cena destinava-se a ajudá-lo a localizar o lugar exato onde encontrar o aliado. Agora, sei onde fica esse lugar. Vou levá-lo lá muito breve.

— Quer dizer que a paisagem que eu vi existe mesmo?

— Claro.

— Onde?

— Não lhe posso dizer isso.

— Como é que eu podia encontrar esse lugar?

— Também não lhe posso dizer isso, e não porque eu não queira, mas simplesmente porque não sei como lhe contar.

 

Eu queria saber o significado de ver a mesma paisagem quando estava no quarto dele. Dom Juan riu e me imitou, agarrando a perna dele.

 

— Aquilo foi uma reafirmação de que o aliado quer você — continuou. — Certificou-se de que você e eu sabíamos que ele o recebia bem.

— E a cara que eu vi?

— É uma cara conhecida para você porque você o conhece. Já o viu antes. Talvez seja a cara de sua morte. Você se assustou, mas isso foi descuido seu. Ele o estava esperando e, quando apareceu, você sucumbiu ao susto. Felizmente, eu estava ali para bater era você, senão ele se teria voltado contra você, o que não seria mais que natural. Para encontrar um aliado, o homem tem de ser um guerreiro imaculado, senão o aliado pode voltar-se contra ele e destruí-lo.

 

Dom Juan me convenceu a não voltar a Los Angeles no dia seguinte. Parece que ele achava que ainda não me tinha recuperado completamente. Insistiu para eu ficar sentado dentro do quarto dele, virado para sudeste, a fim de conservar minha força, Ficou sentado ' à minha esquerda, entregou-me meu bloco e disse que, dessa vez, eu o tinha pilhado; ele não só tinha de ficar comigo, como tinha ainda de falar-me.

— Tenho de levá-lo à água de novo no crepúsculo — disse ele. — Você ainda não está bem sólido e não deve ficar sozinho hoje. Vou acompanhá-lo a manhã toda; de tarde estará melhor.

 

Os cuidados dele me deixaram apreensivo.

 

— O que é que há comigo?

— Tocou num aliado.

— O que quer dizer com isso?

— Não devemos falar de aliados hoje. Vamos falar de outra coisa.

 

Eu não queria realmente falar de todo. Estava começando a me sentir angustiado e agitado. Dom Juan parece que achava a situação completamente cômica; riu muito.

 

— Não me venha dizer que, num momento em que você devia falar, vai ficar sem assunto — disse ele, os olhos brilhando cora malícia.

 

O estado de espírito dele me era muito calmante. No momento, só havia um assunto que me interessava: o aliado. O rosto dele era muito conhecido; não era como se eu o conhecesse, ou o tivesse visto antes. Era outra coisa. Cada vez que eu começava a pensar em seu rosto, minha mente sofria um bombardeio de outros pensa­mentos, como se uma parte de mim soubesse do segredo, mas não permitisse que o resto de mim se aproximasse. A sensação do rosto do aliado ser conhecido era tão estranha que me forçara a um estado de melancolia mórbida. Dom Juan dissera que podia ter sido a cara de minha morte.. Acho que essas palavras é que me intrigavam. Eu queria desesperadamente perguntar a respeito e tinha a impressão exata de que Dom Juan estava fugindo a isso. Respirei fundo umas duas vezes e fiz uma pergunta abruptamente.

 

— O que é a morte, Dom Juan?

— Não sei — respondeu sorrindo.

— Quero dizer, como é que você poderia descrever a morte? Preciso de sua opinião. Creio que todo mundo tem opiniões definidas sobre a morte.

— Não sei de que está falando.

 

Eu estava com o Tibetan Book of the Dead (Livro dos Mortos do Tibete) na mala do carro. Ocorreu-me usá-lo como tema de conversa, desde que tratava da morte. Falei que ia lê-lo para ele e comecei a levantar-me. Fez-me sentar e saiu para buscar o livro.

 

— A manhã é uma hora ruim para os feiticeiros — disse ele, como explicação para eu ter de ficar quieto.  — Você está fraco demais, para sair do quarto. Aqui dentro está protegido. Se fosse andar por aí agora, o provável é que teria um desastre horrível. Um aliado poderia matá-lo na estrada ou no mato, e mais tarde, quando encontrassem seu corpo, diriam que você tinha morrido misteriosa­mente, ou sofrido um acidente. Não estava em situação nem em estado de espírito de argumentar com as decisões dele, de modo que fiquei quieto a manhã quase toda, lendo e explicando partes do livro para ele. Ouviu com atenção e não me interrompeu de todo. Duas vezes tive de parar por algum tempo, enquanto me trazia água e alimentos, mas, assim que ele ficava desocupado de novo, insistia para eu continuar a ler. Parecia estar muito interessado. Quando terminei, olhou para mim.

— Não entendo por que essa gente fala da morte como se ela fosse igual à vida — comentou, baixinho.

— Talvez seja assim que eles a entendam. Você acha que os tibetanos vêem?

— Duvido. Quando o homem aprende a ver, não prevalece nenhuma única coisa que ele conheça. Nenhuma única. Se os tibetanos soubessem ver, eles saberiam logo que nenhuma única coisa continuaria a mesma. Uma vez que vemos, nada é conhecido; nada continua, como quando não víamos.

— Talvez, Dom Juan, ver não seja o mesmo para todos.

— É verdade. Não é o mesmo. Não obstante, isso não quer dizer que os significados da vida prevalecem. Quando a gente aprende a ver, nenhuma única coisa é a mesma.

— Obviamente os tibetanos acreditam que a morte é como a vida. O que você acha que é a morte? — perguntei.

— Não acho que a morte seja como nada e acho que os tibetanos devem estar-se referindo a outra coisa. De qualquer forma, não estão falando da morte.

— De que você acha que eles estão falando?

— Talvez me possa dizer isso. É você quem lê. Tentei falar alguma outra coisa, mas ele riu.

— Talvez os tibetanos lealmente vejam — continuou Dom Juan — e nesse caso eles devem ter compreendido que o que vêem não faz sentido algum e eles escreveram um monte de asneiras porque não lhes importa; e, nesse caso, o que escreveram não é asneira alguma.

— Não me importa realmente o que os tibetanos têm a dizer —  falei, Mas certamente me importa o que você tem a dizer. Gostaria de saber o que você pensa da morte.

 

Olhou para mim por um instante e riu. Abriu os olhos e ergueu as sobrancelhas num gesto cômico de surpresa.

 

— A morte é um turbilhão — disse ele. — A morte é o rosto de um aliado; a morte é uma nuvem brilhante no horizonte; a morte é o sussurro de Mescalito em seus ouvidos; a morte é a boca desdentada do guarda; a morte é Genaro sentado na cabeça; a morte sou eu falando; a morte é você e seu bloco de notas; a morte é nada. Nada! Está aqui e, no entanto, não está nada aqui.

 

Dom Juan tornou a rir, muito alegre. O riso dele era como uma canção, tinha uma espécie de ritmo dançante.

 

— Não faço sentido, hem? — continuou Dom Juan. — Não lhe posso dizer o que é que é a morte. Mas talvez pudesse falar-lhe sobre sua própria morte. Não há meio de saber como será, ao certo; mas posso dizer-lhe como poderá ser.

Fiquei assustado, nesse ponto, e disse que eu só queria saber como é que a morte parecia ser, para ele; frisei que estava interessa­do nas opiniões dele a respeito da morte num sentido geral, mas que não queria saber dos detalhes da morte de qualquer pessoa, em especial da minha.

 

— Só posso falar da morte em termos pessoais — disse ele. — Queria que eu lhe contasse da morte.  Muito bem!  Então não tenha medo de ouvir a respeito de sua própria morte.

 

Confessei que eu estava muito nervoso para falar sobre isso. Disse que queria falar da morte em geral, como ele mesmo já falara quando me contou que, no momento da morte do filho dele, Eulalio, a vida e a morte se misturaram numa névoa de cristais.

 

— Disse-lhe que a vida de meu filho se expandiu na ocasião de sua morte pessoal — falou Dom Juan. — Eu não estava falando da morte em geral, e sim da morte de meu filho. A morte; seja o que for, fez a vida dele expandir-se.

 

Eu queria positivamente desviar a conversa do reino dos detalhes, e mencionei que tinha andado lendo relatos de pessoas que haviam morrido por vários minutos e tinham revivido por meio de técnicas médicas. Em todos os casos que lera, as pessoas em questão tinham declarado, ao reviverem, que não conseguiam lembrar-se de nada; que a morte era apenas uma sensação de desmaiar.

 

— Isso é perfeitamente compreensível — disse ele — A morte tem dois estágios. O primeiro é o desmaio. É um estágio sem significado, muito semelhante ao primeiro efeito de Mescalito, em que a gente experimenta uma leveza que nos faz sentir felizes, completos e que tudo no mundo está bem. Mas esse é apenas um estado superficial; logo desaparece e a gente entra num novo reino, um reino de dureza e poder.  Esse segundo estágio é o verdadeiro encontro com Mescalito. A morte é muito como isso.  O primeiro estágio é um desmaio superficial. O segundo, porém, é o verdadeiro, onde a pessoa encontra a morte; é um breve momento, depois do primeiro desmaio, em que descobrimos que, de algum modo, somos nós mesmos, de novo. É então que a morte se choca contra nós numa fúria muda, até dissolver nossas vidas no nada.

— Como você pode ter certeza de estar falando sobre a morte? — Tenho o meu aliado. O fuminho me mostrou minha morte inconfundível com grande clareza. É por isso que só posso falar sobre a morte pessoal.

 

As palavras de Dom Juan me causaram uma profunda apreensão e uma ambivalência dramática. Tinha a impressão de que ele ia descrever os detalhes comuns de minha morte e dizer-me como ou quando eu ia morrer. A simples idéia de saber disso me desesperava e, ao mesmo tempo, provocava minha curiosidade. Naturalmente, eu poderia ter pedido que ele descrevesse sua própria mor­te, mas senti que um pedido desses seria um tanto grosseiro e eliminei-o automaticamente.

 

Dom Juan parecia estar-se divertindo com meu conflito. O corpo dele estremecia de tanto rir.

 

— Quer saber como pode ser sua morte? — indagou ele, com um prazer infantil no rosto.

 

Achei o prazer malicioso dele em implicar comigo um tanto confortador. Quase diminuía minha apreensão.

 

— OK, diga-me — respondi, e minha voz falseou.

 

Teve uma explosão de riso formidável, Segurou a barriga e rolou para o lado, repetindo, zombando, "OK, diga-me", com a voz de falsete. Depois, endireitou-se, sentou-se, fingindo dureza, e, com voz trêmula, falou:

 

— O segundo estágio de sua morte pode bem ser do seguinte modo.

Seus olhos me examinaram com uma curiosidade aparentemente sincera. Eu ri. Percebi claramente que a caçoada dele era o único artifício que poderia amortecer a impressão da idéia da morte da própria pessoa.

 

— Você dirige muito — continuou ele — de modo que pode encontrar-se, num dado momento, novamente dirigindo um carro. Será uma sensação muito rápida, que não lhe dará tempo de pensar, De repente, digamos, você estaria dirigindo, como já fez milhares de vezes. Mas antes de poder pensar em si, notaria uma formação estranha diante de seu pára-brisa. Se olhasse mais de perto, veria que é uma nuvem que parece uma espiral brilhante. Seria parecida, digamos, com um rosto, bem no meio do céu na sua frente. Enquanto você olhasse, veria que ela recuava até ser apenas um pontinho brilhante na distância, e então repararia que ela começava a se mo­ver na sua direção outra vez; ganharia velocidade e, num piscar de olhos, chocar-se-ia contra o pára-brisa de seu carro. Você é forte; estou certo de que a morte precisaria de alguns assaltos para pegá-lo.

 

"A essa altura, já saberia onde estava e o que lhe estava acontecendo; o rosto recuaria de novo para uma posição no horizonte, ganharia velocidade e se chocaria contra você. O rosto entraria dentro de você e então saberia... teria sempre sido o rosto do aliado, ou eu falando, ou você tomando notas. O tempo todo, a morte não era nada. Nada. Era um pontinho nas folhas de seu caderno. E, no entanto, entraria dentro de você com uma força incontrolável e faria você expandir-se; achatá-lo-ia e o estenderia sobre o céu e a terra e além. E você seria como uma névoa de cristaizinhos se mo­vendo, movendo e sumindo".

 

Fiquei muito impressionado com a descrição de minha morte. Esperava ouvir coisa muito diferente. Durante algum tempo, não consegui dizer nada.

 

— A morte entra pela barriga — continuou ele, — Bem pela brecha da vontade. Aquela zona é a parte mais importante e sensível do homem. É a zona da vontade e também a área pela qual nós todos morremos. Sei disso porque meu aliado me guiou àquele estágio. Um feiticeiro sintoniza sua vontade deixando que sua morte o alcance, e quando ele está chato e começa a se expandir, sua vontade impecável toma conta e reúne a neblina numa pessoa de novo.

 

Dom Juan fez um gesto estranho. Abriu as mãos como dois leques, levantou-as ao nível de seus cotovelos, virou-as até os dedos tocarem seus lados e depois juntou-as de novo devagar no centro de seu corpo, sobre o umbigo. Conservou-as ali um momento. Seus braços tremiam com o esforço. Depois, levantou-as até as pontas de seus dedos médios tocarem sua testa e depois puxou-as para baixo na mesma posição no meio do corpo. Era um gesto formidável. Dom Juan o executara com tanta força e beleza que fiquei assombrado.

 

— É a vontade que junta um feiticeiro — disse ele — mas como a velhice o enfraquece, sua vontade murcha e chega inevitavelmente um momento em que ele não é mais capaz de dominar sua vontade. Então, ele não tem nada com que se opor à força muda de sua morte, e sua vida se torna igual à de todos os seus semelhantes, uma névoa se expandindo além de seus limites.

 

Dom Juan olhou para mim e levantou-se, Eu estava tremendo.

 

— Já pode ir ao mato — disse ele. — Já é de tarde.

 

Eu precisava ir, mas não ousava. Talvez me sentisse mais nervoso do que com medo. Porém não estava mais apreensivo pelo aliado.

 

Dom Juan disse que não importava o que eu sentisse, contanto que eu estivesse "sólido". Assegurou-me de que eu estava numa forma perfeita e que podia ir em segurança ao mato, contanto que não me aproximasse da água.

 

—  Isso é outro assunto — disse ele. — Tenho de lavá-lo mais uma vez, de modo que não se aproxime da água.

 

Depois, quis que eu o levasse de carro à cidade vizinha. Falei que dirigir seria uma mudança salutar para mim, pois ainda estava abalado; a idéia de que um feiticeiro chegava a brincar com sua morte me era muito revoltante.

 

— Ser um feiticeiro é um fardo tremendo — comentou, num tom tranqüilizante. — Já lhe disse que é muito melhor aprender a ver. Um homem que vê é tudo; em comparação, o feiticeiro é uma criatura triste.

— O que é a feitiçaria, Dom Juan?

 

Olhou para mim muito tempo e sacudia a cabeça, quase imperceptivelmente.

 

— A feitiçaria é aplicar a vontade a uma chave-mestra — explicou. — A feitiçaria é a interferência. Um feiticeiro procura e encontra a chave-mestra de tudo o que ele quer afetar e depois aplica sua vontade a isso. Um feiticeiro não tem de ver para ser feiticeiro, só precisa saber usar sua vontade.

 

Pedi-lhe para explicar o que queria dizer por chave-mestra. Ele pensou um pouco e depois disse que sabia o que era meu carro. — Obviamente é uma máquina — disse eu.

 

— Quero dizer, seu carro são as velas. Essa é a chave-mestra para mim. Fosso aplicar minha vontade nelas, e seu carro não funcionará.

 

Dom Juan entrou em meu carro e sentou-se. Mandou que eu fizesse o mesmo.

 

— Repare no que faço — disse ele. — Sou um corvo. Por isso, primeiro afrouxo minhas penas.

 

Estremeceu o corpo todo. Seus movimentos me lembravam um pardal molhando as penas numa pocinha. Ele baixou a cabeça, como um pássaro mergulhando o bico na água.

 

— Isso está bom mesmo — falou e começou a rir.

 

Seu riso era estranho. Tinha um efeito hipnótico muito especial sobre mim. Lembrei-me de já o ter ouvido rir assim muitas vezes antes. Talvez o motivo por que eu nunca reparara bem naquilo é que ele nunca ria assim muito tempo, na minha presença.

 

— Um corvo em seguida afrouxa o pescoço — disse ele, e começou a torcer o pescoço e esfregar a cara nos ombros. — Depois, olha para o mundo com um dos olhos, e depois com o outro.

 

A cabeça dele tremeu, enquanto ele supostamente mudava sua visão do mundo de um olho para o outro. O tom de seu riso ficou mais agudo, Tinha a impressão absurda de que ele ia virar corvo diante de meus olhos. Queria rir daquilo, mas estava quase paralisado. Cheguei a sentir uma força envolvente em meu derredor, Não estava com medo, nem tonto, nem com sono. Minhas faculdades estavam normais, ao que eu soubesse.

 

— Agora, ligue seu carro — disse Dom Juan.

 

Liguei o carro e automaticamente pisei no acelerador. O motor de arranque começou a girar sem ligar a máquina. O riso de Dom Juan era um cacarejar baixinho e ritmado. Tentei de novo, e depois outra vez. Passei talvez dez minutos virando o arranque de meu carro. Dom Juan cacarejava o tempo todo. Então, desisti e fiquei ali sentado, com a cabeça pesada.

 

Ele parou de rir e me examinou, e então eu "soube" que seu riso me pusera numa espécie de transe hipnótico. Embora eu tivesse plena consciência do que se estava passando, sentia que não era eu mesmo. Durante o tempo em que não consegui fazer o carro pegar, estava muito dócil, quase dormente. Era como se Dom Juan estivesse não só fazendo alguma coisa ao carro, como a mim também. Quando parou de cacarejar, convenci-me de que o feitiço tinha acabado e impetuosamente, tomei a ligar o carro. Tinha a certeza de que Dom Juan só me tinha hipnotizado com seu riso e me fizera crer que eu não conseguia fazer pegar o carro. Com o canto do olho, vi que ele estava olhando para mim, curioso, enquanto eu girava o motor de arranque e acelerava furiosamente.

 

Dom Juan bateu de leve em mim e disse que a fúria me deixa­ria "sólido", e que talvez eu não teria de ser novamente lavado na água. Quanto mais furioso eu ficasse, mais depressa me recuperaria de meu encontro com o aliado.

 

— Não fique constrangido — ouvi Dom Juan dizendo. — Chute no carro. Deu sua gargalhada comum de todo dia, e eu me senti ridículo e encabulado.

 

Depois de algum tempo, Dom Juan disse que tinha liberado o carro. Ele pegou!

 

18 de setembro de 1969

Havia alguma coisa de soturna na casa de Dom Juan. Por um momento, pensei que ele estivesse escondido em algum lugar, para me assustar. Chamei-o e depois tomei coragem para entrar. Dom Juan não estava. Coloquei os dois sacos de gêneros que tinha levado num monte de lenha e sentei-me para esperar por ele, como já tinha feito dezenas de vezes antes. Mas, pela primeira vez em todos os meus anos de ligação com Dom Juan, — tive medo de ficar sozinho em sua casa. Senti uma presença, como se uma pessoa invisível es­tivesse ali comigo. Lembrei-me então de que anos antes eu tinha tido a mesma impressão vaga de que alguma coisa desconhecida estava-me rondando quando eu me encontrava sozinho. Levantei-me de um salto e saí da casa correndo.

 

Tinha ido ver Dom Juan para dizer-lhe os efeitos acumula­dos do trabalho de "ver" estavam-me custando caro. Eu tinha começado a ficar inquieto; vagamente apreensivo sem qualquer motivo aparente; cansado sem estar fatigado. Depois, minha reação por estar só em casa de Dom Juan me trouxe de volta a recordação total de como meu medo se formara no passado.

 

O medo datava de anos antes, quando Dom Juan tinha forçado a muito estranha confrontação entre uma feiticeira, uma mulher chamada "La Catalina", e eu. Começou no dia 23 de novembro de 1961, quando o encontrei na casa dele com um tornozelo deslocado.

 

Explicou que tinha um inimigo, uma feiticeira que sabia transformar-se num melro e que tentara matá-lo.

 

— Assim que eu puder andar, vou-lhe mostrar quem é a mulher — disse Dom Juan. — Você tem de saber quem ela é.

— Por que ela quer matá-lo?

 

Deu de ombros, impaciente, e recusou-se a dizer mais qualquer coisa.

 

Voltei para visitá-lo dez dias depois e encontrei-o perfeitamente bem. Girou o tornozelo para me mostrar que estava bem e atribuiu seu pronto restabelecimento ao aparelho que ele mesmo havia feito.

 

— É bom você estar aqui — falou. — Hoje vou levá-lo numa viagenzinha.

 

Ele então mandou que eu dirigisse o carro para um lugar deserto. Ali, nós paramos; Dom Juan esticou as pernas e abancou-se comodamente no assento, como se fosse tirar uma soneca. Disse-me que descansasse e ficasse muito quieto; explicou que tínhamos de passar o mais despercebidos possível até o anoitecer, porque a tardinha era uma hora muito perigosa para o negócio em que estávamos empenhados.

 

— Que tipo de coisa estamos fazendo? — perguntei.

— Estamos aqui para armar uma emboscada para La Catalina. Quando já estava bem escuro, saltamos do carro e nos dirigi­mos, muito devagar e em silêncio, para o chaparral do deserto.

 

Do lugar onde paramos, eu via as silhuetas negras dos morros de ambos os lados. Estávamos numa garganta plana e bastante larga. Dom Juan me deu instruções detalhadas para ficar fundido no chaparral e ensinou-me um meio de sentar "em vigília", como ele dizia. Falou para eu pôr a perna direita debaixo da coxa esquerda e a perna esquerdo agachada. Explicou que a perna dobrada era usada como uma mola para eu me levantar com muita rapidez, se necessário. Depois, disse-me que me sentasse virado para o oeste, pois essa era a direção da casa da mulher. Sentou-se a meu lado, a minha direita, falou, num cochicho, para eu ficar com os olhos fixos no chão, procurando, ou melhor, esperando uma espécie de onda de vento que faria uma agitação nos arbustos. Sempre que a agitação tocasse os arbustos em que eu focalizara meu olhar, eu devia erguer os olhos e ver a feiticeira em todo "o seu magnífico esplendor do mal". Dom Juan usou essas mesmas palavras. Quando lhe pedi que explicasse o que queria dizer, ele disse que, se eu sentisse uma agitação, bastava erguer os olhos e veria por mim, pois "uma feiticeira voando" era um espetáculo único e que dispensava explicações.

 

Havia um vento bem constante e eu pensei ver uma agitação nos arbustos muitas vezes. Em cada oportunidade, eu levantava os olhos, preparado para ter uma experiência transcendental, mas não via nada. Cada vez que o vento soprava nos arbustos, Dom Juan batia o pé com força no chão, girando e movendo os braços como se fossem açoites. A foiça dos movimentos dele era extraordinária.

 

Depois de alguns fracassos de ver a feiticeira "voando", eu es­tava certo de que não ia presenciar nenhum acontecimento transcendental e, no entanto, a exibição de "poder" de Dom Juan era tão interessante que não me importei de passar a noite ali.

 

Ao raiar do dia, Dom Juan sentou-se junto de mim. Parecia estar totalmente exausto. Mal podia mover-se. Deitou-se de costas e murmurou que não conseguira "furar a mulher". Fiquei muito intrigado com aquelas palavras; ele as repetiu várias vezes, e em cada ocasião seu tom era mais desanimado e desesperado. Comecei a sentir uma ansiedade fora do comum. Achei muito fácil projetar meus sentimentos no estado de espírito de Dom Juan.

 

Ele não falou nada sobre o incidente nem sobre a mulher, durante vários meses. Achei que tinha ou esquecido ou resolvido todo o caso. Mas um dia encontrei-o num estado de espírito muito agitado; e de um modo inteiramente estranho a sua calma natural, contou-me que o "melro" estivera defronte dele na véspera de noite, quase tocando-o, e ele nem tinha acordado. A astúcia da mulher era tão grande que ele nem sentira a presença dela. Disse que sua sorte foi acordar na hora exata para travar uma luta horrenda pela vida. O tom de voz de Dom Juan era comovedor, quase patético. Senti uma onda de compaixão e cuidado.

 

Num tom soturno e dramático, reafirmou que não tinha meios de detê-la e que da próxima vez que ela chegasse perto dele, aquele seria seu último dia na terra. Fiquei triste e já estava quase chorando. Dom Juan pareceu observar minha preocupação profunda e riu, ao que achei, com coragem. Bateu nas minhas costas e disse que eu não me devia preocupar, que ele não estava inteiramente perdido porque ainda tinha um último trunfo.

 

— Um guerreiro vive estrategicamente — disse ele, sorrindo. — Um guerreiro nunca carrega fardos que não suporta.

 

O sorriso de Dom Juan tinha o poder de dissolver as sombrias nuvens do destino. De repente, fiquei animado e nós dois rimos. Afagou-me a cabeça.

 

— Sabe, de todas as coisas neste mundo, você é meu último trunfo — falou abruptamente, olhando bem nos meus olhos.

— O quê?

— Você é o meu trunfo na luta com aquela feiticeira.

 

Não entendi o que queria dizer com aquilo, e ele explicou que a mulher não me conhecia e que, se agisse conforme ele me instruiria, eu teria uma melhor possibilidade de "furá-la",

 

— O que quer dizer "furá-la"?

— Você não pode matá-la, mas tem de furá-la como um balão. Se fizer isso, ela me deixará em paz. Mas agora não pense nisso. Eu lhe direi o que fazer quando chegar o momento.

 

Passaram-se meses. Eu tinha esquecido do incidente e fui pilhado de surpresa quando cheguei à casa dele um dia; Dom Juan saiu correndo e não me deixou saltar do carro.

 

— Você tem de sair já — cochichou ele, com uma urgência horrível. — Escute bem. Compre uma espingarda, ou arranje uma onde puder; não me traga a sua própria, entende? Arranje qualquer espingarda, mas não a sua, e traga-a já aqui.

— Por que quer uma espingarda?

— Vá!

 

Voltei com uma espingarda. Não tinha dinheiro suficiente para comprar uma, mas um amigo meu me deu a espingarda velha dele. Dom Juan não olhou para a arma; explicou que tinha sido rude comigo porque o melro estava no telhado da casa e não queria que o pássaro me visse.

 

— Deparar com o melro no telhado me deu a idéia de que você poderia trazer uma espingarda e furá-lo com ela — disse Dom Juan, com ênfase, — Não quero que nada lhe aconteça, de modo que sugeri que você comprasse uma arma, ou arranjasse uma de qualquer outro jeito. Sabe, você tem de destruir a arma depois de executar a tarefa.

— De que tipo de tarefa está falando?

— Tem de tentar furar a mulher com sua espingarda.

 

Fez-me limpar a arma, esfregando-a com folhas frescas e hastes de uma planta com um cheiro especial. Ele mesmo esfregou duas balas e colocou-as nos canos. Depois, disse que eu tinha de ficar escondido na frente da casa dele e esperar até que o melro pousasse no telhado e, em seguida, fazendo pontaria com cuidado, tinha de atirar com os dois canos. O efeito da surpresa, mais do que as balas, ia furar a mulher, e se eu fosse poderoso e resoluto, poderia forçá-la a deixá-lo em paz. Assim, minha pontaria teria de ser impecável, bem como minha determinação de furá-la.

 

— Você tem de gritar no momento em que atirar — disse ele. — Tem de ser um grito poderoso e penetrante.

 

Depois, empilhou uma porção de bambus e lenha a uns três metros da ramada da casa dele. Fez-me reclinar contra as pilhas. A posição era bastante cômoda. Encontrava-me meio sentado; minhas costas estavam bem apoiadas e eu tinha uma boa vista do telhado.

 

Falou que ainda era muito cedo para a feiticeira sair, e que tínhamos até o escurecer para fazer todos os preparativos; ele então ia fingir que se estava trancando dentro de casa, a fim de atraí-la e provocar outro ataque sobre a pessoa dele. Disse-me para ficar re­laxado e arranjar uma posição cômoda, da qual eu pudesse atirar sem me mover. Fez-me fazer pontaria sobre o telhado umas duas vezes e chegou à conclusão de que meu ato de levantar a espingarda ao ombro e fazer pontaria era muito lento e desajeitado. Depois, providenciou um apoio para a arma. Fez dois buracos fundos com uma barra de ferro pontuda, colocou neles dois paus em forquilha e prendeu uma vara comprida entre as forquilhas, A estrutura me dava apoio para o tiro e permitia que eu mantivesse a espingarda apontada para o telhado.

 

Dom Juan olhou para o céu e disse que estava na hora de ele ir para dentro. Levantou-se calmamente e entrou, com a advertência final de que minha tentativa não era brincadeira e que eu tinha de acertar no pássaro com o primeiro tiro.

 

Depois que Dom Juan foi embora, tive mais alguns minutos de lusco-fusco e depois ficou bem escuro, Era como se a escuridão es­tivesse esperando até eu ficar sozinho para, de repente, descer sobre mim. Tentei focalizar meus olhos no telhado, que se destacava contra o céu; por algum tempo, havia suficiente luz no horizonte, para a linha do telhado ser visível; mas, então, o céu ficou negro e eu mal via a casa. Fiquei com os olhos grudados no telhado por horas, sem reparar em nada. Vi umas corujas voando para o norte; a largura de suas asas era bem grande e não se podia confundi-las com melros. Num dado momento, porém, reparei distintamente a forma preta de um passarinho pousando no telhado. Era positivamente um pássaro! Meu coração começou a bater com força; senti um zumbido nos ouvidos. Fiz pontaria no escuro e puxei os dois gatilhos. Houve uma explosão bastante forte. Senti um forte coice da coroada da espingarda no meu ombro e, ao mesmo tempo, ouvi um grito muito penetrante e horrendamente humano. Tive um momento de confusão total. Então, lembrei-me de que Dom Juan me mandara gritar quando atirasse e eu me esquecera de fazê-lo. Estava pensando em recarregar a espingarda quando Dom Juan abriu a porta e saiu correndo. Trazia na mão o lampião de querosene. Parecia estar bem nervoso.

 

— Acho que você a pegou — disse ele. — Agora temos de encontrar o pássaro morto.

 

Pegou uma escada e me fez subir e olhar na. ramada, mas eu não consegui encontrar nada ali. Ele subiu e procurou também um pouco, com resultados igualmente negativos.

 

— Talvez você tenha despedaçado o pássaro — falou Dom Juan — mas nesse caso temos de encontrar pelo menos uma pena.

 

Começamos a procurar junto da ramada primeiro e, em seguida, em volta da casa. Procuramos, à luz da lanterna, até de manhã. Depois, começamos de novo a buscar por todos os lugares que já tínhamos examinado durante a noite. Por volta das 11 da manhã, Dom Juan desistiu. Sentou-se desanimado, sorriu para mim meio encabulado, e disse que eu não tinha conseguido deter o inimigo dele e que agora, mais do que nunca, sua vida não valia um tostão furado, porque a mulher com certeza estava irritada, doida para se vingar.

 

— Mas você está seguro — disse Dom Juan, tranqüilizando-me. — A mulher não o conhece.

 

Quando eu estava indo para o carro para voltar para casa, perguntei-lhe se tinha de destruir a espingarda. Respondeu que a arma não tinha feito nada e que eu devia devolvê-la a seu dono. Vi uma expressão de profundo desespero nos olhos de Dom Juan. Fiquei tão comovido com aquilo que senti vontade de chorar.

 

— O que posso fazer para ajudar? — perguntei.

— Não há nada que você possa fazer.

 

Ficamos calados por um momento. Eu queria sair logo. Sentia uma angústia opressiva. Estava indisposto.

— Quer mesmo ajudar-me? — perguntou ele, num tom infantil.

 

Tomei a dizer-lhe que toda a minha pessoa estava às ordens dele, que meu afeto por ele era tão profundo que eu faria qualquer coisa para ajudá-lo.

 

Dom Juan sorriu e perguntou de novo se isso era mesmo verdade e eu reafirmei com veemência meu desejo de ajudá-lo.

 

— Se é verdadeiro mesmo — disse ele — pode ser que eu tenha ainda uma oportunidade.

 

Ele parecia estar encantado. Deu um largo sorriso e bateu palmas várias vezes, como sempre faz quando quer exprimir prazer. Essa mudança de estado de espírito foi tão notável que me contagiou. De repente, senti que meu ânimo deprimido e a angústia tinham sido vencidos, e a vida era de novo inexplicavelmente emocionante. Dom

 

Juan sentou-se e eu também. Ficou olhando para mim por algum tempo e depois começou a me dizer, de maneira muito calma e co­medida, que eu era, de fato, a única pessoa que podia ajudá-lo naquele momento, e que, assim, ia me pedir para fazer uma coisa muito perigosa e especial.

 

Parou um instante, como se quisesse uma reafirmação de minha parte, e eu reiterei o firme desejo de fazer qualquer coisa por ele.

 

— Vou-lhe dar uma arma para furá-la — falou.

 

Pegou um objeto comprido de sua sacola e entregou-o a mim. Eu o segurei e depois o examinei. Quase o deixei cair.

 

— É um javali — continuou ele. — Você tem de furá-la com ele.

 

O objeto que eu estava segurando era a perna dianteira seca de um javali. A pele era feia e as cerdas eram revoltantes ao tato. O casco estava perfeito e suas duas metades espalhadas, como se a perna estivesse esticada. Era uma coisa horripilante. Quase me fez vomitar. Ele o pegou depressa.

 

— Você tem de meter o javali bem no umbigo dela — disse Dom Juan.

— O quê? — perguntei, numa voz fraquinha.

— Tem de segurar o javali com sua mão esquerda e dar nela com ele. Ela é feiticeira e o javali vai entrar na barriga dela e ninguém nesse mundo, a não ser outro feiticeiro, o verá enfiado ali. Isso não é uma luta comum, e sim um assunto de feiticeiros. O perigo que você correrá é que, se não conseguir furá-la, a mulher poderá matá-lo ali mesmo, ou então seus companheiros ou parentes podem matá-lo a tiros ou a facadas. Por outro lado você pode sair ileso. Se for bem sucedido, ela passará mal como o diabo com o javali dentro do corpo e me deixará em paz.

 

Uma angústia opressiva tornou a dominar-me. Eu tinha um profundo afeto por Dom Juan. Admirava-o. No momento desse pedido espantoso, eu já tinha começado a considerar o modo de vida dele e seu conhecimento como uma realização capital. Como é que alguém podia deixar morrer um homem daqueles? E no entanto, como se poderia deliberadamente correr um risco de vida? Fiquei tão absorto em meus pensamentos que não reparei que Dom Juan se levantara e estava de pé a meu lado, até ele bater em meu ombro. Olhei para cima; ele estava sorrindo com benevolência.

 

— Se um dia achar que realmente quer ajudar-me — disse ele — volte, Mas não antes. Se você voltar, sei o que teremos de fazer. Vá! Se não quiser voltar, também compreenderei isso.

 

Levantei-me automaticamente, entrei no carro e fui embora. Dom Juan tinha-me tirado do embaraço. Eu podia partir e nunca mais voltar; mas, por algum motivo, a idéia de estar livre para partir não me acalmou. Dirigi mais um pouco e depois, impulsivamente, fiz a volta e retomei para a casa de Dom Juan.

 

Ele continuava sentado debaixo de sua ramada e não pareceu surpreender-se ao me ver.

 

— Sente-se — falou. — As nuvens no oeste estão lindas. Daqui a pouco estará escuro. Fique quieto e deixe que o crepúsculo o encha. Faça o que quiser agora, mas, quando eu lhe disser, olhe diretamente para aquelas nuvens brilhantes e peça ao crepúsculo que lhe dê poder e calma.

 

Fiquei sentado de frente para as nuvens no oeste por umas duas horas. Dom Juan entrou na casa e ficou lá dentro. Quando já estava ficando escuro, ele voltou.

 

— O crepúsculo chegou — disse ele. — Levante-se! Não feche os olhos, mas olhe diretamente para as nuvens; levante seus braços com suas mãos abertas e os dedos esticados e corra no mesmo lugar.

 

Segui suas instruções; levantei os braços para cima da cabeça e comecei a correr no mesmo lugar. Dom Juan veio para meu lado e corrigiu meus movimentos. Colocou a perna do javali na palma de minha mão esquerda e me fez segurá-la com o polegar. Depois, puxou meus braços para baixo até eles apontarem para as nuvens cinza-escuras e laranja no horizonte, no oeste. Estendeu meus dedos como leques e me disse para não curvá-los nas palmas das mãos. Era muito importante eu manter os dedos separados, porque, se eu os fechasse, não estaria pedindo ao crepúsculo poder e calma, e sim o estaria ameaçando. Também, corrigiu minha corrida. Disse que devia ser pacata e uniforme, como se eu estivesse realmente cor­rendo para o crepúsculo com os braços estendidos.

 

Naquela noite, não consegui dormir, Era como se o crepúsculo, em vez de me acalmar, me tivesse agitado num frenesi.

 

— Ainda tenho tantas coisas pendentes em minha vida — falei.

— Tantas coisas por resolver. Dom Juan riu baixinho.

— Não há nada pendente no mundo — disse ele. — Nada está acabado, e no entanto nada está sem solução. Vá dormir.

 

As palavras de Dom Juan eram estranhamente calmantes.

 

Por volta das dez horas da manhã seguinte, Dom Juan deu-me alguma coisa para comer e nós partimos. Cochichou que nos íamos aproximar da mulher por volta do meio-dia, ou pouco antes, se possível. Disse que o momento ideal seriam as primeiras horas do dia, pois uma feiticeira está sempre menos poderosa ou menos alerta de manhã, mas ela nunca deixaria a proteção de sua casa nessas horas. Não perguntei nada. Conduziu-me para a estrada e, em certo ponto, disse-me para parar o carro no acostamento. Falou que tínhamos de esperar ali.

 

Olhei para o relógio; eram cinco para as onze. Bocejei várias vezes. Estava com sono mesmo; minha cabeça divagava a esmo. De repente, Dom Juan endireitou-se e cutucou-me. Saltei no assento.

 

— Lá está ela! — exclamou.

 

Vi uma mulher se encaminhando para a estrada na borda de um campo cultivado. Levava uma cesta passada pelo braço direito. Foi só nesse momento que notei que estávamos parados perto de uma encruzilhada. Havia dois caminhos estreitos que corriam paralelamente aos dois lados da estrada e outro caminho mais largo, mais usado, que a atravessava; obviamente as pessoas que usavam o caminho tinham de atravessar a estrada pavimentada.

 

Quando a mulher ainda estava no caminho de terra, Dom Juan me disse para saltar do carro.

 

— Faça-o agora — disse ele, com firmeza.

 

Obedeci. A mulher já estava quase na estrada. Corri e alcancei-a. Estava tão perto dela, que senti suas roupas na minha cara. Peguei o casco de javali de debaixo da camisa e empurrei-o em sua direção. Não senti nenhuma resistência ao objeto rombudo que tinha na mão. Notei uma sombra passando na minha frente, como uma cortina; minha cabeça virou para a direita e vi a mulher de pé, a uns 15 metros de distância, do outro lado da estrada. Era bem moça, morena, com um corpo robusto. Estava sorrindo para mim. Seus dentes eram brancos e grandes, e seu sorriso, plácido. Tinha fechado um pouco os olhos, como que para protegê-los do vento. Continuava segurando a cesta, passada sobre o braço direito.

 

Neste momento, tive um instante de uma confusão singular. Virei-me para olhar para Dom Juan. Ele estava fazendo gestos violentos, chamando-me de volta. Corri para ele. Havia três ou quatro homens se apressando em minha direção. Entrei no carro e disparei na direção oposta.

 

Tentei perguntar a Dom Juan o que acontecera, mas não consegui falar; meus ouvidos estavam estourando com uma pressão tremenda. Sentia-me sufocar. Ele parecia estar satisfeito e começou a rir. Era como se meu fracasso não lhe dissesse respeito. Eu estava com as mãos tão apertadas na direção que não conseguia movê-las: estavam congeladas; meus braços e pernas estavam rígidos. Na verdade, eu não conseguia nem tirar o pé do acelerador.

 

Dom Juan bateu nas minhas costas e me disse para relaxar. Pouco a pouco, a pressão em meus ouvidos diminuiu.

 

— O que aconteceu? — perguntei, afinal.

 

Ele riu como uma criança, sem responder. Depois, perguntou-me se eu tinha reparado como a mulher saiu do caminho. Elogiou a rapidez dela. A conversa de Dom Juan parecia tão sem nexo que eu não conseguia acompanhá-la. Ele elogiando a mulher! Falou que seu poder era impecável e que ele era uma inimiga implacável.

 

Perguntei-lhe se ele não se importava com meu fracasso. Eu estava realmente aborrecido e surpreendido com a mudança que se operara nele. Parecia até contente.

 

Mandou-me parar. Estacionei ao lado da estrada. Pôs a mão em meu ombro e olhou de modo penetrante dentro de meus olhos.

 

— O que eu fiz com você hoje foi um truque — disse ele, francamente. — O regulamento diz que o homem de conhecimento tem de armar uma cilada para o aprendiz. Hoje, armei-lhe uma cilada e o levei ao conhecimento.

 

Fiquei abismado. Não conseguia concatenar meus pensamentos. Dom Juan explicou que todo o caso com a mulher era uma cilada; que ela nunca fora ameaça para ele; e que a tarefa dele era pôr-me em contato com ela, nas condições específicas de entrega e poder que eu experimentara quando tentei penetrá-la. Elogiou minha resolução e chamou-a um ato de poder que demonstrou à mulher que eu era capaz de muito esforço. Dom Juan disse que, embora eu não o soubesse, só o que fiz foi mostrar-me diante dela.

 

— Você nunca poderia tocá-la — disse ele — mas mostrou-lhe suas garras. Agora, ela sabe que você não tem medo. Desafiou-a. Eu a usei para lhe armar a cilada porque ela é poderosa e implacável e nunca se esquece. Os homens em geral são ocupados demais para serem inimigos inexoráveis.

 

Tive uma raiva tremenda. Disse-lhe que a gente não deve brincar com os sentimentos mais íntimos e as lealdades dos outros.

 

Dom Juan riu até às lágrimas e eu o odiei. Tive um desejo imenso de dar-lhe um soco e largá-lo; mas havia um ritmo tão estranho no riso dele que eu estava quase paralisado.

 

— Não fique tão zangado — disse Dom Juan, acalmando-me. Então, falou que seus atos nunca tinham sido uma farsa, que também ele tinha jogado fora sua vida muito tempo antes, quando seu próprio benfeitor o lograra, assim como ele o fizera. Dom Juan disse que seu benfeitor era um homem cruel, que não pensava nele da maneira como ele, Dom Juan, pensava em mim. Acrescentou muito severamente que a mulher tinha experimentado sua força contra ele e que realmente tentara matá-lo.

 

— Agora, ela sabe que eu estava brincando — continuou, rindo — e vai detestar você por isso. Não me pode fazer nada a mim, mas vai desforrar-se em cima de você. Ainda não sabe quanto poder você tem, de modo que virá experimentá-lo, pouco a pouco. Agora, você não tem outra escolha senão aprender, a fim de se defender, do contrário vai cair presa daquela mulher. Ela não é brincadeira.

 

Dom Juan lembrou-me de como ela tinha voado para longe.

 

— Não se zangue — falou. — Não foi um truque banal. Foi o regulamento.

 

Havia alguma coisa no jeito de a mulher se afastar de mim que era realmente de enlouquecer. Eu mesmo o vira; tinha saltado toda a largura da estrada num piscar de olhos. Eu não tinha meio de fugir àquela certeza. Daquele momento em diante, focalizei toda minha atenção naquele incidente e, pouco a pouco, acumulei "provas" de que ela estava realmente me seguindo. O resultado final foi que tive de me retirar do aprendizado, sob a pressão de meu medo irracional.

 

Voltei à casa de Dom Juan horas depois, à tardinha. Ele parecia estar à minha espera. Aproximou-se de mim quando saltei do carro e examinou-me com curiosidade, dando a volta ao redor de mim algumas vezes.

 

— Por que está tão nervoso? — perguntou, antes de eu ter tempo de dizer qualquer coisa.

 

Expliquei que alguma coisa me assustara naquele dia e que eu tinha começado a sentir alguma coisa me rondando, como antes. Dom Juan sentou-se e pareceu absorto em seus pensamentos. Esta­va com uma expressão mais séria do que o seu normal. Parecia cansado. Sentei-me ao lado dele e organizei meus apontamentos. Depois de uma pausa muito demorada, ele se animou e sorriu.

 

— O que você sentiu hoje foi o espírito do olho d'água — falou. — Já lhe disse que devemos estar preparados para encontros inesperados com essas forças. Pensei que você tivesse entendido.

— Entendi.

— Então por que o medo? Não consegui responder.

— Aquele espírito está no seu rastro — disse ele. — Já o tocou na água. Garanto-lhe de que vai tocá-lo de novo e provavelmente você não estará preparado, e esse encontro será seu fim.

 

As palavras de Dom Juan me preocuparam realmente. Meus sentimentos eram estranhos, porém; eu estava preocupado, mas não tinha medo. O que me estivesse acontecendo não tinha conseguido provocar meus antigos sentimentos de um medo cego.

 

— O que devo fazer? — perguntei

— Você se esquece muito depressa — disse ele. — O caminho do conhecimento é um caminho forçado. A fim de aprender, temos de ser empurrados. No caminho do conhecimento, estamos sempre lutando contra alguma coisa, evitando alguma coisa, preparados para alguma coisa; e essa coisa é sempre inexplicável, maior, mais poderosa do que nós. As forças inexplicáveis lhe chegarão. Hoje é o espírito do olho d'água, depois será seu próprio aliado, de modo que não há nada que você possa fazer agora senão se preparar para a luta. Há anos atrás, La Catalina o provocou, mas ela não passava de uma feiticeira, e foi um truque de principiante.

 

O mundo está realmente cheio de coisas assustadoras e nós somos criaturas indefesas, rodeadas por forças que são inexplicáveis e inflexíveis. O homem comum, por ignorância, acredita que essas forças podem ser explicadas ou modificadas; não sabe como real­mente fazer isso, mas espera que os atos da humanidade as expliquem ou modifiquem mais cedo ou mais tarde. O feiticeiro, ao contrário, não pensa em explicá-las ou modificá-las; ele aprende a utilizar essas forças, se redirigindo e adaptando ao curso delas. É esse o truque deles. Há muito pouco mistério na feitiçaria, uma vez que você descubra o truque. Um feiticeiro está só um pouco melhor do que o homem comum. A feitiçaria não o ajuda a viver uma vida melhor; de fato, eu diria que a feitiçaria o atrapalha; torna a vida dele complicada e precária. Abrindo-se para o conhecimento, o feiticeiro torna-se mais vulnerável do que o homem comum. Por um lado, seus semelhantes o detestam e temem e procurarão extinguir sua vida; por outro, as forças inexplicáveis e inflexíveis que cercam a cada um de nós são, para um feiticeiro, uma fonte de perigo maior ainda. Ser furado por um semelhante é realmente doloroso, mas nada que se compare a ser tocado por um aliado. Um feiticeiro, expondo-se ao conhecimento, fica à mercê dessas forças e só tem um meio de se equilibrar, a sua vontade; assim, tem de sentir e agir como um guerreiro. Repito mais uma vez: só como guerreiro é que a pessoa pode sobreviver no caminho do conhecimento. O que ajuda um feiticeiro a viver uma vida melhor é a força de ser um guerreiro.

 

"Tenho um compromisso de lhe ensinar a ver. Não porque eu pessoalmente queira fazê-lo, mas porque você foi escolhido; você me foi apontado por Mescalito. Contudo, sou levado, por meu desejo pessoal, a ensinar-lhe a sentir a agir como um guerreiro. Pessoalmente, acredito que ser um guerreiro é mais próprio do que qualquer outra coisa. Por isso, procurei mostrar-lhe essas forças como um feiticeiro as percebe, pois somente sob seu impacto aterrador é que a pessoa pode tornar-se um guerreiro. Ver sem ser primeiro um guerreiro o tornaria fraco; isso lhe daria uma falsa humildade, um desejo de recuar; seu corpo degeneraria porque você se tornaria indiferente. É meu compromisso pessoal torná-lo um guerreiro, para você não se desmoronar.

 

"Já o ouvi dizer várias vezes que está preparado para morrer. Não considero esse sentimento necessário. Creio que é um capricho inútil. Um guerreiro só deve estar preparado para combater. Também já o ouvi dizer que seus pais feriram seu espírito. Penso que o espírito do homem é coisa que pode ser muito facilmente ferido, embora não pelos mesmos atos que você considera injuriosos. Acre­dito que seus pais realmente o lesaram, tornando-o mole, caprichosa e dado a cismar.

 

"O espírito do guerreiro não é dado a caprichos nem reclamações, nem a vencer ou perder. O espírito do guerreiro só é dado à luta, e cada embate é a última batalha de um guerreiro sobre a face da terra. Assim, o resultado lhe importa muito pouco. Em sua última batalha na terra, o guerreiro deixa seu espírito correr, livre e claro. E enquanto trava sua batalha, sabendo que sua vontade é impecável, o guerreiro ri-se à grande."

 

Terminei de escrever e levantei os olhos. Dom Juan estava olhando para mim fixamente. Sacudiu a cabeça de um lado para outro.

 

— Você escreve tudo mesmo? — perguntou, num tom incrédulo. — Genaro diz que nunca pode falai sério com você em sua presença, porque você está sempre escrevendo. Ele tem razão; como é que alguém pode ser sério com você, se está sempre escrevendo?

 

Ele riu e eu tentei defender meu ponto de vista.

 

— Não importa — falou. — Se você vai aprender a ver, suponho que tenha de fazê-lo do seu jeito esquisito.

 

Levantou-se e olhou para o céu. Era por volta do meio-dia. Falou que ainda havia tempo de irmos em uma caçada nas montanhas.

 

— O que vamos caçar? — perguntei.

— Um animal especial, ou um veado ou um javali ou mesmo uma onça. — Permaneceu em silêncio por algum tempo, e depois disse: — Até mesmo uma águia.

 

Levantei-me e acompanhei-o até o carro. Falou que dessa vez só íamos observar e descobrir qual o animal que tínhamos de caçar. Já ia entrando no carro, quando pareceu lembrar-se de alguma coisa. Sorriu e disse que a viagem teria de ser adiada até eu aprender uma coisa, sem a qual nossa caçada seria impossível.

 

Nós voltamos e tornamos a sentar-nos sob a ramada da casa. Havia tanta coisa que eu queria perguntar, mas ele não me deu tempo de dizer nada antes de falar de novo.

 

— Isso me leva ao último ponto que você tem de saber a respeito de guerreiros. Um guerreiro escolhe as coisas que fazem seu mundo.

— Outro dia, quando você viu o aliado e tive de lavá-lo duas vezes, sabe o que havia de errado com você?

— Não.

— Tinha perdido seus escudos.

— Eu disse que o guerreiro escolhe as coisas que fazem seu mundo. Escolhe propositadamente, pois cada coisa que prefere é um escudo que o protege dos assaltos das forças que ele está procurando utilizar. Um guerreiro usaria seus escudos para se proteger contra seu aliado, por exemplo. Um homem comum, que é igualmente cercado daquelas forças inexplicáveis, se esquece delas, porque tem outros tipos de escudos especiais para se proteger.

 

Ele parou e olhou para mim com uma pergunta nos olhos. Eu não tinha entendido c que ele dissera.

 

— O que são esses escudos? — insisti.

— Aquilo que as pessoas fazem.

— O que é que fazem?

— Bem, olhe em volta. As pessoas estão ocupadas fazendo o que sempre fazem, São esses seus escudos. Sempre que um feiticeiro tem um encontro com alguma dessas forças inexplicáveis e inflexíveis de que falamos, sua brecha se abre, deixando-o mais suscetível à sua morte do que ele normalmente é; já lhe disse que morremos por aquela brecha; portanto, se ela estiver aberta, a gente deve estar com a vontade preparada para tapá-la; isto é, se a pessoa for um guerreiro. Em caso contrário, como você, então não se tem outro recurso senão utilizar as atividades da vida diária para desviar o espírito do susto do encontro e assim permitir que a brecha se feche. Você ficou zangado comigo naquele dia, em que encontrou o aliado. Enfureci-o quando fiz enguiçar seu carro e o esfriei quando o mergulhei dentro d'água. O fato de você estar com roupa ainda o esfriou mais. Ficar zangado e frio fez fechar sua brecha, e você ficou protegido, Mas nesse momento de sua vida, não pode mais usar esses escudos com tanta eficácia quanto um homem comum. Você já conhece demais a respeito das forças e agora está finalmente no limiar de sentir e agir como um guerreiro. Seus escudos não são mais seguros.

— O que devo fazer?

— Agir como um guerreiro e escolher as coisas de seu mundo. Você não pode mais se cercar de todo tipo de coisas. Digo-lhe isso muito seriamente. Agora, pela primeira vez, você não está mais seguro em seu antigo modo de vida.

— O que quer dizer, com escolher as coisas de meu mundo?

— Um guerreiro encontra aquelas, forças inexplicáveis e in­flexíveis porque ele as está procurando propositadamente, e assim está sempre preparado para o encontro. Você, por outro lado, nunca está preparado. De fato, se essas forças o alcançarem, elas o pegarão de surpresa; o susto abrirá sua brecha e sua vida escapará irresistivelmente por ela. Portanto, a primeira coisa que você tem a fazer é estar preparado. Pense que o aliado vai aparecer diante de seus olhos a qualquer momento e que você deve estar pronto para ele. Encontrar um aliado não é brincadeira, e um guerreiro tem a responsabilidade de proteger sua vida. Então, se alguma dessas forças o tocar e abrir sua brecha, deve tentar propositadamente fechá-la você mesmo. Para isso, precisa ter um certo número de coisas escolhidas que lhe dêem muita paz e prazer, coisas que você possa usar propositadamente para desviar seus pensamentos de seu medo e fechar sua brecha e torná-lo sólido.

— Que tipo de coisas?

— Há anos eu lhe disse que, em sua vida diária, o guerreiro escolhe seguir o caminho com coração. É a escolha constante do caminho com coração que torna o guerreiro diferente dos homens comuns. Ele sabe que um caminho tem coração quando é um com ele, quando sente muita paz e prazer percorrendo sua extensão. As coisas que o guerreiro escolhe para fazer seus escudos são os itens do caminho com coração.

— Mas você disse que não sou um guerreiro, então como posso escolher um caminho com coração?

— Esta é a sua encruzilhada. Digamos que, antes, você não precisava realmente viver como guerreiro. Agora é diferente, você tem de se cercar das coisas de um caminho com coração e deve recusar o resto, senão morrerá no próximo encontro. Posso acrescentar que você não precisa mais pedir um encontro. Agora, um aliado pode vir a você durante seu sono; enquanto está conversando com amigos; enquanto está escrevendo.

— Há anos que venho realmente tentando viver de acordo com seus ensinamentos — disse eu. — Obviamente, não me saí bem. Como posso melhorar agora?

— Você pensa e fala demais. Deve parar de falar sozinho.

— O que quer dizer?

— Você fala sozinho demais. Não é só você que faz isso. Nós todos o fazemos. Temos conversas internas. Pense nisso. Sempre que está só, o que você faz?

— Converso comigo mesmo.

— Sobre o que conversa consigo?

— Não sei; sobre qualquer coisa, imagino.

— Vou-lhe dizer a respeito de que conversamos conosco. Conversamos sobre nosso mundo. Na verdade, conservamos nosso mundo com nossas conversas internas.

— Como o fazemos?

— Sempre que terminamos de falar conosco, o mundo está sempre como devia ser. Nós o renovamos, o animamos com vida, o mantemos com nossa conversa interna. Não só isso, mas nós também escolhemos nossos caminhos, ao conversarmos conosco. Assim, repetimos as mesmas escolhas várias vezes até o dia de nossa morte, pois ficamos repetindo a mesma conversa interna toda vida, até morrermos. Um guerreiro sabe disso e procura parar de falar. Esse é o último item que você tem de aprender, se quiser viver como guerreiro.

— Como posso deixar de conversar comigo mesmo?

— Antes de tudo, tem de usar os ouvidos para aliviarem um pouco a carga de seus olhos. Usamos os olhos para julgar o inundo desde o dia em que nascemos. Falamos com os outros e conosco, sobretudo sobre o que vemos. Um guerreiro sabe disso e escuta o mundo; escuta os sons do mundo.

 

Guardei minhas notas. Dom Juan riu e disse que não queria que eu fizesse uma coisa forçada, que escutar os sons do inundo tinha de ser feito harmoniosamente e com muita paciência.

 

— Um guerreiro sabe o que o inundo se modificará assim que ele pára de conversar consigo — disse ele — e deve estar preparado para esse abalo monumental.

— O que quer dizer, Dom Juan?

— O mundo é assim e assado, e tal e tal, só porque nos dize­mos que é dessa maneira. Se pararmos de nos dizer que o mundo é tal e tal, o mundo deixará de ser tal e tal. Neste momento, não creio que você esteja pronto para esse golpe monumental, e, por­tanto, deve começar lentamente a desfazer o mundo.

— Não o compreendo mesmo!

— Seu problema é que confunde o mundo com o que as pessoas fazem. Ainda nisso, não é o único. Todos nós fazemos isso. As coisas que as pessoas fazem são os escudos contra as forças que nos cercam; o que fazem como pessoas nos dá conforto e nos faz sentir seguros; o que as pessoas fazem é muito importante em si, mas apenas como escudo. Nunca aprendemos que as coisas que fazemos como pessoas são apenas escudos e deixamos que elas dominem e transtornem nossas vidas. Na verdade, eu diria que, para a humanidade, aquilo que as pessoas fazem é maior e mais importante do que o próprio mundo.

— O que é que você chama de mundo?

— O mundo é tudo o que está encerrado aqui — disse ele, pisando com força no chão. — A vida, a morte, pessoas, aliados, e tudo o mais que nos cerca. O mundo é incompreensível. Nunca o compreenderemos; nunca desvendaremos seus segredos. Assim temos de tratá-lo como ele é, um simples mistério!

 

"Mas o homem comum não faz isso. O mundo nunca é mistério para ele e, quando ele chega à velhice, está convencido de que não tem mais nada por que viver. Um velho não esgotou o mundo. Só esgotou o que as pessoas fazem. Mas, era sua estúpida confusão, acredita que o mundo não tem mais mistérios para ele. Que preço triste para pagar por nossos escudos!".

 

"Um guerreiro sabe dessa confusão e aprende a tratar as coisas direito. As coisas que as pessoas fazem não podem, de jeito nenhum, ser mais importantes do que o mundo. É assim o guerreiro trata o mundo como um mistério infindável e o que as pessoas fazem como uma imensa loucura."

 

 

Comecei a treinar para ouvir os "sons do mundo" e fiquei nesse aprendizado dois meses, como Dom Juan determinara. A princípio era alucinante ouvir e não olhar, mas ainda mais enervante era não conversar comigo mesmo. No Em de dois meses, eu era capaz de interromper meu diálogo interno por período breves de cada vez, e também era capaz de prestar atenção aos sons.

 

Cheguei à casa de Dom Juan às nove da manhã do dia 10 de novembro de 1969.

 

— Devemos iniciar aquela viagem agora mesmo — falou. Descansei por uma hora e depois tomamos o carro e fomos para as encostas baixas das montanhas do oeste. Deixamos o automóvel com um dos amigos dele que morava na região e caminhamos para as montanhas. Dom Juan tinha posto umas bolachas e pãezinhos numa mochila para mim. Tínhamos provisões para um ou dois dias. Eu perguntara a Dom Juan se precisávamos de mais. Ele sacudira a cabeça, negativamente.

 

Andamos a manhã toda. Estava um dia meio quente. Eu tinha um cantil de água, e eu é que havia bebido a maior parte. Dom Juan só tomou dois goles, Quando acabou a água, garantiu-me de que poderíamos beber dos córregos que encontraríamos pelo caminho. Riu de minha relutância. Depois de certo tempo, a sede me fez vencer meus receios.

 

No princípio da tarde, paramos num valezinho ao sopé de uns morros verdejantes. Por detrás dos morros, para leste, as montanhas altas se destacavam contra um céu nublado.

 

— Pode pensar, pode escrever sobre o que falamos ou o que você percebe, mas nada sobre onde estamos — disse ele.

 

Descansamos um pouco e depois ele tirou um embrulho de dentro da camisa. Abriu-o e me mostrou seu cachimbo. Encheu o fornilho com a mistura, acendeu um fósforo e com ele um galhinho seco, colocou o galhinho em fogo dentro do fornilho e me disse para fumar. Sem um pedaço de carvão dentro do fornilho era difícil acender o cachimbo; tivemos de ficar acendendo raminhos até a mistura pegar fogo.

 

Quando acabei de fumar, ele disse que estávamos ali para eu descobrir que tipo de animal devia caçar. Repetiu cuidadosamente três ou quatro vezes que o aspecto mais importante de minha tentativa era encontrar uns buracos. Frisou a palavra "buracos" e disse que dentro deles um feiticeiro podia encontrar todo tipo de mensagens e instruções.

 

Eu queria perguntar que tipo de buracos eram; Dom Juan pareceu adivinhar a minha pergunta e disse que eram impossíveis de se descrever e estavam no reino de "ver". Repetiu várias vezes que eu devia focalizar toda minha atenção em ouvir sons e fazer o possível para encontrar os buracos entre os sons. Disse que ia tocar seu pegador de espírito quatro vezes. Eu devia usar aqueles ruídos estranhos como um guia para o aliado que me tinha recebido bem; aquele aliado me daria a mensagem que eu buscava. Dom Juan me disse que eu devia ficar completamente alerta, pois não tinha idéia da maneira como o aliado se manifestaria a mim.

 

Escutei atentamente. Eu estava sentado encostado na encosta pedregosa do morro. Sentia uma dormência suave. Dom Juan me avisou para não fechar os olhos. Comecei a escutar e distinguia o silvar dos pássaros, o vento sussurrando nas folhas, o zumbido dos insetos. Quando concentrei minha atenção toda nesses sons, cheguei a distinguir quatro cantos diferentes de pássaros. Notava as velocidades do vento, rápidas ou lentas; também ouvia o farfalhar diferente de três tipos de folhas. Os zumbidos dos insetos eram entontecedores. Havia tantos que eu não conseguia contá-los nem distingui-los corretamente.

 

Eu estava mergulhado num estranho mundo de som, como nunca estivera na vida. Comecei a escorregar para a minha direita. Dom Juan fez um gesto para me segurar, mas eu me equilibrei antes. Endireitei-me e tornei a sentar ereto. Dom Juan mexeu meu corpo até eu estar apoiada numa reentrância na rocha. Tirou as pedrinhas de debaixo de minhas pernas e colocou as costas de minha cabeça contra a rocha.

 

Disse-me imperiosamente que olhasse para as montanhas a sudeste. Fixei os olhos na distância, mas ele me corrigiu, dizendo que eu não devia fixar e sim olhar, de relance, para os morros em minha frente e a vegetação neles. Repetiu várias vezes que eu devia concentrar toda a minha atenção na audição.

 

Os sons voltaram a se fazer notar. Não era tanto que eu quisesse ouvi-los; antes, parece que eles me forçavam a concentrar-me neles. O vento fazia as folhas farfalharem. O vento vinha alto por sobre as árvores e depois caía no vale onde estávamos. Ao cair, tocava primeiro as folhas das árvores altas; elas faziam um som especial, que me parecia ser um som cheio, luxuriante e dissonante. Então, o vento atingia os arbustos e suas folhas pareciam um mundo de coisinhas pequenas; era quase um som melodioso, muito envolvente e exigente; parecia capaz de afogar tudo o mais. Eu o achava desagradável. Fiquei encabulado porque me ocorreu que eu era como o farfalhar dos arbustos, reclamão e exigente. O som era tão semelhante a mim que eu o detestei. Depois, ouvi o vento rolando pelo chão. Não era mais um farfalhar, porém assemelhava-se a um assobio, quase um "bipe" ou um zumbido chão. Ouvindo os sons que o vento fazia, percebi que todos três ocorriam ao mesmo tempo. Estava pensando como é que eu conseguira isolar cada um, quando tornei a notar o chilrear dos pássaros e o zumbido dos insetos. Num dado momento, só havia os sons do vento e no momento seguinte um gigantesco fluxo de outros sons surgiam de uma vez em meu campo de consciência. Logicamente, todos os sons existentes eram emitidos continuamente, durante o tempo em que eu só ouvia o vento,

 

Eu não conseguia contar todos os cantos dos pássaros ou os zumbidos dos insetos e, no entanto, estava convencido de estar ou­vindo cada som de per si, à medida que era produzido. Juntos, criavam uma ordem muito extraordinária. Não posso chamar aquilo de nada a não ser "ordem". Era uma ordem de sons que tinha uma disposição; isto é, cada som ocorria numa seqüência.

 

Então, ouvi um uivo prolongado e único. Aquilo me fez estremecer. Todos os outros ruídos cessaram por um instante, e o vale ficou mortalmente calado, enquanto a reverberação do uivo atingia os limites externos do vale; depois, os ruídos recomeçaram. Percebi imediatamente a disposição deles. Após escutar atentamente, pareceu-me compreender a recomendação de Dom Juan para buscar os buracos entre os sons. A disposição dos ruídos tinha espaços entre os sons! Por exemplo, certos assobios de pássaros eram ritmados e tinham pausas entre si, bem como todos os outros sons que eu percebia. O farfalhar das falhas era como uma cola que as unia num zumbido homogêneo. O fato é que o compasso de cada som era uma unidade na disposição geral dos sons. Assim, os espaços ou pausas entre os sons eram, se prestasse atenção neles, buracos na estrutura.

 

Tornei a ouvir o uivo penetrante do pegador de espírito de Dom Juan. Aquilo não me abalou, mas os sons tornaram a cessar por um instante e percebi essa cessação como um buraco, um buraco muito grande. Naquele exato momento passei a minha atenção de ouvir para olhar. Eu estava olhando para um grupo de morrinhos baixos com uma vegetação luxuriante. A silhueta dos morros estava disposta de tal modo que, do lugar de onde eu olhava, parecia haver um buraco na encosta de um dos morros. Era um espaço entre dois morros e por ali eu via a tonalidade profunda, cinza-escura das montanhas a distância. Por um momento, fiquei sem saber de que se tratava. Era como se o buraco para onde eu estava olhando fosse o "buraco" no som. Então, os barulhos recomeçaram mais a imagem visual do grande buraco permaneceu. Pouco depois, fiquei ainda mais consciente do padrão de sons, sua ordem e o arranjo de suas pausas. Minha mente conseguia distinguir e discriminar um número enorme de sons característicos. Podia mesmo acompanhar todos os sons, de modo que cada pausa entre os sons era um buraco definido. Num dado momento, as pausas se cristalizaram em minha mente e formaram uma espécie de rede sólida, de estrutura. Eu não a ouvia nem via. Eu a sentia com alguma parte desconhecida de mim.

 

Dom Juan tocou sua corda mais uma vez; os sons cessaram como antes, criando um grande buraco na estrutura do som. Dessa vez, porém, aquela grande pausa fundiu-se com o buraco nos morros para onde eu estava olhando; ficaram superpostos um no outro. O efeito de perceber os dois buracos demorou tanto que consegui ver-ouvir seus contornos se justapondo. Então, os outros sons re­começaram e sua estrutura de pausas tornou-se uma percepção extra­ordinária, quase visual. Comecei a ver os sons ao criarem padrões e então todos esses padrões se superpunham no ambiente, da mesma maneira que eu percebera os dois grandes buracos justapostos. Eu não olhava nem ouvia como estava acostumado a fazer. Exercitava uma coisa que era inteiramente diferente, mas que combinava características de ambos. For algum motivo, minha atenção estava focalizada no grande buraco entre os morros. Eu sentia que o estava ouvindo e, ao mesmo tempo, olhando para ele. Havia como que uma fascinação nele. Dominava meu campo de percepção, e cada padrão de som isolado, que coincidia com uma característica do ambiente, ligava-se àquele buraco.

 

Tomei a ouvir o uivo estranho do pegador de espírito de Dom Juan; todos os outros sons pararam; os dois buracos grandes pareceram iluminar-se e então eu estava olhando de novo para o campo arado; o aliado estava ali de pé, como eu o havia visto antes. A luz da cena toda tornou-se muito alva. Eu o via claramente, como se ele estivesse a 50 metros de distância. Não via o rosto dele; o chapéu o cobria. Então, começou a se aproximar de mim, levantando a cabeça devagar enquanto andava; eu quase podia ver seu rosto, e aquilo me apavorou. Eu sabia que tinha de fazê-lo parar sem demora. Tinha um estranho volume no meu corpo; senti um fluxo de "poder". Queria mexer a cabeça para o lado para parar a visão, mas não consegui fazê-lo. Naquele instante crucial, uma idéia me veio à cabeça. Eu sabia o que Dom Juan queria dizer quando ele falava das coisas do "caminho com coração" serem escudos. Havia uma coisa que eu queria fazer em minha vida, uma coisa muito envolvente e interessante, uma coisa que me enchia de muita paz e alegria. Eu sabia que o aliado não me podia dominar. Movi a cabeça para o lado sem esforço algum antes de poder ver todo seu rosto.

 

Comecei a ouvir todos os outros sons; de repente, eles se tornaram muito altos e estridentes, como se estivessem realmente zangados comigo. Perderam seu padrão e transformaram-se num conglomerado amorfo de gritos agudos e dolorosos. Meus ouvidos começaram a zumbir sob sua pressão. Sentia que minha cabeça ia explodir. Levantei-me e levei as palmas das mãos aos ouvidos.

 

Dom Juan ajudou-me a andar até um corregozinho; fez com que eu me despisse e me rolou na água. Mandou que eu deitasse no leito quase seco do córrego e depois pegou água no chapéu e me borrifou.

 

A pressão em meus ouvidos cedeu rapidamente e só foram necessários alguns minutos para "lavar-me". Dom Juan olhou para mim, meneou a cabeça, aprovando, e disse que eu tinha ficado "só­lido" num instante.

 

Vesti-me e ele me levou de volta para o lugar em que eu es­tava sentado antes. Sentia-me extremamente vigoroso, com vida e de espírito lúcido.

 

Ele quis saber de todos os detalhes de minha visão. Disse que os "buracos" nos sons eram usados pelos feiticeiros para descobrir certas coisas determinadas, Um aliado de um feiticeiro revelaria negócios complicados, por meio dos buracos nos sons. Ele se recusou a ser mais explícito a respeito dos "buracos" e desviou minhas perguntas, dizendo que, como eu não tinha um aliado, essas informações só me poderiam ser prejudiciais.

 

— Tudo tem significado para um feiticeiro — disse ele. — Os sons têm buracos neles assim como tudo que o cerca. Geralmente o homem não tem a velocidade para pegar os buracos, e assim vai pela vida sem proteção. Os vermes, os pássaros, as árvores poderiam todos nos contar coisas inimagináveis, se ao menos tivéssemos a velocidade de captar a mensagem deles. O fumo pode-nos dar essa velocidade de apreensão. Mas devemos estar em bons termos com todas as coisas vivas deste mundo. É por este motivo que de­vemos falar com as plantas que vamos matar e pedir desculpas por feri-las; o mesmo se deve fazer com os animais que caçamos. Só devemos pegar o suficiente para as nossas necessidades, senão as plantas e os animais e os vermes que matamos se viram contra nós e nos causam doenças e desgraças, Um guerreiro sabe disso e pro­cura apaziguá-los, de modo que, quando ele espia pelos buracos, as árvores e pássaros e vermes lhe dão mensagens verdadeiras.

 

"Mas nada disso tem grande valor agora. O que é importante é que você viu o aliado, é essa sua caça! Eu lhe disse que íamos caçar alguma coisa. Pensei que ia ser um animal. Imaginei que você ia ver o animal que teríamos, de caçar. Eu, por mim, vi um javali; meu pegador de espírito é um javali."

 

— Quer dizer que seu pegador de espírito é feito de um javali?

— Não! Nada na vida de um feiticeiro é feito de outra coisa. Se alguma coisa for alguma coisa, é a própria coisa. Se você conhecesse os javalis, compreenderia que meu pegador de espíritos é um javali.

— Por que viemos caçar aqui?

— O aliado lhe mostrou um pegador de espírito que ele tirou da sacola. Você vai precisar de um, se vai chamá-lo,

— O que é um pegador de espírito?

— É uma fibra. Com ele eu posso chamar os aliados, ou o meu próprio aliado, ou posso chamar os espíritos dos olhos d'água, os espíritos dos rios, os espíritos das montanhas. O meu é um javali e grita como um javali. Usei-o duas vezes junto de você para chamar o espírito do olho d'água a fim de ajudá-lo. O espírito veio para você como o aliado veio hoje. Mas não o podia ver, pois não tinha a velocidade; mas naquele dia em que o levei à garganta e o pus na rocha, sabia que o espírito estava quase em cima de você, sem o ver propriamente. Esses espíritos são auxiliares. São difíceis de se lidar e meio perigosos. É preciso uma vontade impecável para mantê-los a distância.

— Como é que eles são?

— São diferentes para cada homem, assim como o são os alia­dos. Para você, um aliado devia, aparentemente, parecer um homem que você tenha conhecido, ou um homem que você iria conhecer; é a sua natureza. Você é dado a mistérios e segredos, Não sou igual a você, de modo que para mim um aliado é uma coisa muito precisa.

 

"Os espíritos dos olhos d'água são próprios de lugares específicos. O que chamei para ajudá-lo é um que eu mesmo já conheci. Já me ajudou muitas vezes. A morada dele é a garganta. No mo­mento em que o chamei para ajudá-lo, você não estava forte e o espírito foi duro com você. Não foi intenção dele... não tem nenhuma. . . mas você estava ali deitado muito fraco, mais fraco do que eu imaginava. Depois, o espírito quase o atraiu para sua morte; na água no canal de irrigação, você estava fosforescente. O espírito colheu-o de surpresa e você quase sucumbiu. Uma vez que um espírito faz isso, sempre volta para a sua presa. Estou certo de que voltará. Infelizmente, você precisa da água para tornar-se sólido Outra vez, quando usa o fuminho; isso o deixa numa desvantagem horrível. Se não usar a água, provavelmente morrerá, mas se a usar, o espírito o levará."

 

—- Não posso usar a água noutro lugar?

— Não faz diferença. O espírito do olho d'água perto de minha casa o acompanhará por toda parte, a não ser que você tenha um pegador de espírito. É por isso que o aliado lhe mostrou um. Ele lhe disse que você precisava de um. Enrolou-o em sua mão esquerda e se dirigiu para você, depois de apontar para a garganta. Hoje, quis outra vez lhe mostrar o pegador de espírito, como fez na outra oportunidade que você o viu. Foi ajuizado de sua parte parar; o aliado ia muito depressa para sua força e um choque direto com ele lhe seria muito prejudicial.

— De que modo posso conseguir um pegador de espírito agora?

— Parece que o aliado vai-lhe dar um ele mesmo.

— Como?

— Não sei. Você terá de ir até ele. Já lhe disse onde pro­curá-lo.

— Onde?

— Lá em cima, naqueles morros onde você viu o olho d'água. — Eu estaria procurando o próprio aliado?

— Não. Mas ele já lhe está dando as boas-vindas. O fuminho abriu seu caminho para ele. Depois, mais tarde, o encontrará cara a cara, mas isso só acontecerá depois que você o conhecer muito bem.

 

Chegamos no mesmo vale na tarde do dia 15 de dezembro de 1969. Dom Juan disse repetidamente, enquanto caminhávamos pelos arbustos, que as direções ou pontos de orientação eram da máxima importância no esforço que eu ia fazer.

 

— Você deve determinar a direção certa imediatamente ao chegar ao topo do morro — disse Dom Juan. — Assim que você estiver era cima, vire-se para aquela direção. — Apontou para sudeste. — Essa é a sua boa direção e você deve sempre virar para ela, especialmente quando estiver em dificuldades. Lembre-se disso.

 

Paramos no sopé dos morros, onde eu tinha percebido o buraco. Apontou para um lugar específico onde eu tinha de me sentar; sentou-se a meu lado e, numa voz muito quieta, deu-me instruções detalhadas. Disse que assim que eu chegasse ao topo do morro, tinha de estender para a frente meu braço direito, com a palma da mão para baixo e os dedos esticados em leque, a não ser o polegar, que tinha de estar encostado na palma. Em seguida, tinha de virar a cabeça para o norte e dobrar o braço sobre o peito, apontando minha mão também para o norte; depois, tinha de dançar, pondo o pé esquerdo atrás do direito, batendo no chão com a ponta de meus dedos esquerdos. Explicou que, quando eu sentisse um calor me subindo pela perna esquerda, tinha de começar a passar o braço lentamente do norte para o sul e depois para o norte outra vez.

 

— O ponto sobre o qual a palma de sua mão ficar quente, ao mexer o braço, é o lugar onde você deve sentar-se, e é ainda a direção para onde deve olhar — disse ele. — Se o ponto for para leste, ou se ficar naquela direção — tornou a apontar para sudeste — os resultados, serão excelentes. Se o ponto em que sua mão ficar quente for para o norte, levará uma surra, mas poderá mudar a maré a seu favor. Se o ponto ficar para o sul, você terá uma luta dura pela frente,

 

"Terá de levantar o braço umas quatro vezes, a princípio, mas, à medida que se for familiarizando com o movimento, só precisará de uma tentativa para saber se sua mão vai ficar quente ou não".

 

"Depois que você estabelecer o ponto em que sua mão fica quente, sente-se ali; é esse seu primeiro ponto. Se estiver virado para o sul ou o norte, tem de decidir se se sente suficientemente forte para ficar. Se tiver dúvidas, levante-se e saia dali. Não há necessidade de ficar, se você não estiver confiante. Se resolver ficar, limpe uma clareira suficientemente grande para fazer uma fogueira a mais ou menos um metro e meio de seu primeiro ponto. A fogueira deve ficar em linha reta da direção para onde você está olhando. O lugar onde você fizer a fogueira é seu segundo ponto. De­pois, junte todos os galhinhos que puder entre aqueles dois pontos e faça a fogueira. Sente-se no seu primeiro ponto e olhe para o fogo. Mais cedo ou mais tarde o espírito chegará e você o verá".

 

"Se sua mão não ficar quente de todo depois de quatro movi­mentos do braço, passe o braço devagar do norte para o sul e de­pois vire-se e passe-o para o oeste. Se sua mão ficar quente em qualquer lugar para o oeste, largue tudo e corra. Corra morro abaixo para a área plana, e não importa o que você ouvir ou sentir atrás de si, não se vire. Assim que chegar ao plano, por mais assustado que esteja, não continue a correr; atire-se ao chão, tire seu casaco, em­bole-o sobre seu umbigo e enrole-se como uma bola, empurrando os joelhos de encontro ao estômago. Também deve cobrir os olhos com as mãos e seus braços têm de ficar apertados de encontro a suas coxas. Você deve ficar nessa posição até de manhã. Se seguir esses passos simples, nenhum mal lhe acontecerá.

 

"Se não conseguir chegar a tempo no plano, caia no chão onde estiver. Então, passará um mau pedaço. Será atormentado, mas se mantiver a calma e não se mexer nem olhar, você se sairá sem um arranhão".

 

"Agora, se sua mão não ficar quente de todo enquanto você a move para o oeste, vire-se de novo para leste e corra nesta direção até ficar sem fôlego. Então, pare e repita as mesmas manobras. Tem de continuar correndo para leste, repetindo esses movimentos, até sua mão ficar quente."

 

Após me dar essas instruções, fez-me repeti-las até eu as de­corar. Depois, ficamos sentados calados por muito tempo. Tentei reatar a conversa umas duas vezes; em cada oportunidade, ele me forçou a calar-me, com um gesto imperioso.

 

Já estava ficando escuro quando Dom Juan se levantou e, sem dizer uma palavra, começou a subir o morro. Acompanhei-o. No topo, fiz todos os movimentos que ele mandara. Dom Juan ficou ali, a alguma distância, vigiando-me atentamente. Tive muito cu­dado e fiz tudo bem devagar. Tentei perceber alguma mudança de temperatura, mas não sabia dizer se a palma de minha mão ficava quente ou não. A essa altura já estava bem escuro, mas eu ainda fui capaz de correr na direção de leste sem tropeçar nos arbustos. Parei de correr quando fiquei sem fôlego, não muito longe de meu ponto de partida. Eu estava extremamente cansado e tenso. Meus antebraços e pernas doíam.

 

Ali, repeti todos os movimentos necessários e tornei a ter os mesmos resultados negativos. Corri no escuro mais duas vezes e então, quando estava movendo o braço pela terceira vez, minha mão ficou quente num ponto para leste. Foi uma mudança de temperatura tão marcante que me assustou. Sentei-me e esperei por Dom Juan. Disse-lhe que tinha percebida uma mudança de temperatura em minha mão. Mandou-me prosseguir e eu apanhei todos os galhos secos que encontrei e fiz uma fogueira. Ele se sentou à minha esquerda, a pouca distância.

 

O fogo fazia silhuetas dançantes e estranhas. Às vezes, as chamas ficavam iridescentes; tomavam-se azuladas, e depois de um branco brilhante. Expliquei para mim mesmo aquele jogo de cores invulgar, como se fosse produzido por alguma propriedade química dos galhos e ramos secos especiais que eu tinha apanhado. Outra característica muito incomum do fogo eram as fagulhas. Os novos galhas que eu juntava soltavam fagulhas muito grandes. Pareciam bolas de tênis que explodissem em pleno ar.

 

Fiquei olhando fixamente para o fogo, da forma como me parecia que Dom Juan havia recomendado e fiquei tonto. Deu-me sua cabaça de água e me fez sinal para beber. A água me relaxou e me deu uma deliciosa sensação de frescura.

 

Dom Juan aproximou-se de mim e cochichou em meu ouvido que eu não tinha de olhar para as chamas, que bastava olhar na direção do fogo. Fiquei muito frio e úmido, depois de olhar por quase uma hora. Num certo momento, quando me ia inclinando para pegar um raminho, uma coisa como uma mariposa ou uma mancha em minha retina passou da direita para a esquerda entre mim e o fogo. Recuei imediatamente. Olhei para Dom Juan e ele me fez sinal com um movimento do queixo para tornar a olhar para as chamas. Um momento depois, a mesma sombra passou na direção oposta.

 

Dom Juan levantou-se depressa e começou a amontoar terra solta sobre os ramos ardentes, até extinguir as chamas completa­mente. Executou a manobra de apagar o fogo numa velocidade enorme. Quando me mexi para ajudá-lo, estava tudo feito. Pisoteou a terra em cima dos ramos ardentes e depois quase me arrastou morro abaixo e para fora do vale. Estava andando muito depressa, sem virar a cabeça, e não permitiu que eu falasse.

 

Quando chegamos a meu carro, horas depois, perguntei a ele o que era a coisa que eu tinha visto. Sacudiu a cabeça imperiosa­mente e nós seguimos num silêncio total. Fomos diretamente para dentro de casa quando chegamos, de manhãzinha, e tornou a me fazer calar quando eu quis falar.

 

Dom Juan estava sentado do lado de fora, atrás da casa dele. Parecia que estava esperando que eu acordasse, pois começou a falar assim que eu saí da casa. Disse que a sombra que eu vira na véspera era um espírito, uma força que pertencia ao lugar determinado em que eu a vira. Falou daquele ser específico como sendo inútil.

 

— Ele apenas existe naquele lugar — disse ele. — Não tem segredos de poder, de modo que não adiantava Ficar ali. Você só teria visto uma sombra rápida e passageira esvoaçando para lá e para cá a noite toda. Há outros tipos de seres, porém, que lhe podem confiar segredos do poder, se você tiver a sorte de encontrá-los.

 

Tomamos café e permanecemos calados por algum tempo. De­pois que comemos, sentamos na frente da casa dele.

 

— Existem três tipos de seres — falou ele, de repente — aqueles que não podem dar nada porque não têm nada para dar, aqueles que só podem causar medo e aqueles que têm dons. Aquele que você via ontem foi um dos silenciosos; não tem nada para dar; é apenas uma sombra. A maior parte do tempo, porém, há outro tipo de ser associado com o silencioso, um espírito malvado, cuja única qualidade é assustar e que sempre paira junto da morada do silencioso. Foi por isso que resolvi sair dali rapidamente. Aquele tipo malvado segue as pessoas até dentro de casa e torna a vida insuportável para elas. Conheço pessoas que tiveram de se mudar por causa deles. Há sempre gente que pensa que pode conseguir muita coisa daquele tipo de ser, mas o simples fato de um espírito estar na casa não quer dizer nada. As pessoas podem tentar seduzi-lo, ou podem acompanhá-lo pela casa, sob a impressão de que lhes pode revelar seus segredos. Mas a única coisa que as pessoas conseguiriam seria uma experiência terrível. Conheço gente que se revezava para vigiar um desses setes malvados que os seguiu para dentro de casa. Vigiaram o espírito durante meses; por fim, outra pessoa teve de intervir e arrastar as pessoas para fora de suas casas; elas estavam fracas e definhando. Por isso, a única coisa sensata a fazer com aquele tipo malvado é esquecê-lo e deixá-lo de lado.

 

Perguntei-lhe como é que as pessoas seduziam um espírito. Respondeu que primeiro as pessoas tinham o trabalho de verificar onde o espírito provavelmente apareceria, e depois punham armas no caminho dele, na esperança de que tocasse as armas, pois é sabido que os espíritos gostam da parafernália da guerra. Dom Juan disse que qualquer equipamento, ou qualquer objeto que fosse tocado por um espírito tornava-se um objeto de poder. No entanto, era sabido que o tipo malvado de ser nunca tocava em nada, apenas produzia a ilusão auditiva de barulho.

 

Depois, perguntei a Dom Juan a respeito do modo corno esses espíritos provocam o medo. Ele disse que sua maneira mais comum de assustar as pessoas era de aparecer como uma sombra escura, em forma de homem, que vagava pela casa, fazendo uma barulhada danada ou produzindo o som de vozes; ou como uma sombra escura que de repente surgisse de um canto escuro.

 

Dom Juan disse que o terceiro tipo de espírito era um verdadeiro aliado, um doador de segredos; aquele tipo especial existia em lugares desertos e abandonados, quase inacessíveis. Falou que o homem que quisesse encontrar um desses seres tinha de viajar para longe e ir sozinho. Num lugar distante e solitário, o homem tinha de tomar todas as providências sozinho, Tinha de sentar-se junto de sua fogueira e, se visse a sombra, tinha de partir imediatamente. Mas teria de permanecer, se encontrasse outras condições, assim como um vento forte que apagasse o fogo e o impedisse de tornar a acendê-lo de novo em quatro tentativas; ou se um galho de uma árvore próxima se quebrasse. O galho teria de se quebrar mesmo e o homem teria de verificar que não fosse apenas o barulho do galho se quebrando.

 

Outras condições de que ele devia ter consciência eram pedras rolando, ou pedrinhas atiradas dentro da sua fogueira, ou qualquer ruído constante, e depois ele tinha de caminhar na direção em que ocorria qualquer desses fenômenos, até o espírito se revelar.

 

Havia muitas maneiras de um ser desses pôr um guerreiro à prova. Poderia de repente saltar diante dele, com a aparência mais horrenda, ou poderia agarrar o homem por trás e não soltá-lo, conservando-o preso por horas. Também poderia derrubar uma árvore sobre ele. Dom Juan disse que aquelas forças eram realmente perigosas e, embora não conseguissem matar um homem diretamente, poderiam causar a morte dele pelo susto, ou deixando objetos caírem sobre ele, ou aparecendo de repente e fazendo-o tropeçar e cair num precipício.

 

Disse-me que, se um dia eu encontrasse um desses seres em circunstâncias não propícias, nunca deveria tentar lutar com ele, pois me mataria, roubando minha alma. Assim, eu deveria atirar-me ao chão e suportar aquilo até de manhã.

 

— Quando um homem está diante de um aliado, o doador de segredos, tem de juntar toda sua coragem e agarrá-lo antes que ele o agarre, ou persegui-lo antes que ele o persiga. A perseguição deve ser implacável e, a seguir, vem a luta. O homem deve lutar com o espírito até derrubá-lo e mantê-lo no chão até ele lhe dar o poder.

 

Perguntei-lhe se essas forças tinham substância, se a gente podia tocá-las. Disse-lhe que a simples idéia de "espírito" me significava alguma coisa etérea.

 

— Não os chame de espíritos — disse ele. — Chame-os de aliados; chame-os de forças inexplicáveis.

 

Ele se calou um pouco e depois deitou-se de costas e apoiou a cabeça nos braços dobrados. Insisti em saber se aqueles seres tinham substância.

— Claro que têm substância -— disse ele, depois de outro mo­mento de silêncio. — Quando a pessoa luta com eles, são sólidos, mas essa sensação só dura um minuto. Esses seres confiam no medo do homem; portanto, se o homem que estiver lutando com um deles for um guerreiro, o ser perde sua tensão muito depressa, enquanto o homem se torna mais vigoroso. Pode-se até absorver a tensão do espírito.

— Que tipo de tensão é essa? — perguntei.

— O poder. Quando a gente os toca, eles vibram como se es­tivessem prestes a estraçalhar-nos. Mas isso é só fita. A tensão acaba quando o homem agüenta firme.

— O que acontece quando eles perdem a tensão? Tornam-se como o ar?

— Não, tornam-se apenas flácidos. Mas continuam com substância. Mas não é como nada que se tenha tocado antes.

 

Mais tarde, de noite, falei a ele que talvez o que eu vira na véspera pudesse ser apenas uma mariposa. Ele riu e, com muita paciência, explicou que as mariposas voam para um lado e outro somente em volta das lâmpadas, pois uma lâmpada não lhe pode queimar as asas. O fogo, ao contrário, as queimaria logo que se aproximassem dele. Disse também que a sombra cobria todo o fogo. Quando disse isso, lembrei-me de que era realmente uma sombra extremamente grande e que chegou a tapar a visão do fogo por um momento. Mas tudo acontecera tão depressa que eu não dera importância, em minha recordação anterior.

 

Depois, observou que as fagulhas eram muito grandes e que voavam para a minha esquerda. Eu já notara isso. Falei que o vento provavelmente estaria soprando naquela direção. Dom Juan respondeu que não havia vento algum. Era verdade. Ao recordar minha experiência, lembrei-me de que a noite estava calma.

 

Outra coisa que me passara inteiramente despercebida era um brilho esverdeado nas chamas, que percebi quando Dom Juan me fez sinal para continuar a olhar para o fogo, depois que a sombra atravessou meu campo de visão pela primeira vez. Dom Juan me fez lembrar esse fato. Também se opôs a chamar aquilo de sombra. Disse que era redondo e parecia mais uma bolha.

 

Dois dias depois, a 17 de dezembro de 1969, Dom Juan disse, muito naturalmente, que eu já conhecia todos os detalhes e técnicas necessários para ir sozinho aos morros e obter um objeto de poder, o pegador de espírito. Falou para eu prosseguir sozinho e afirmou que a companhia dele só me poderia atrapalhar.

 

Eu já estava pronto para sair quando ele mudou de idéia.

 

— Você ainda não está suficientemente forte. Vou com você até ao sopé dos morros.

 

Quando estávamos no valezinho onde eu tinha visto o aliado, ele examinou, a distância, a formação do terreno que eu chamara de buraco nos morros e disse que ainda tínhamos de ir mais para o sul, em direção das montanhas distantes. A morada do aliado ficava no ponto mais distante que podíamos ver pelo buraco.

 

Olhei para a formação e só distingui a massa azulada das montanhas distantes. Mas ele me guiou numa direção sudeste e, depois de caminharmos várias horas, alcançamos um ponto que ele disse estar "suficientemente fundo" na morada do aliado.

 

Já era de tardinha quando paramos. Sentamo-nos numas pe­dras. Eu estava cansado e com fome; o dia todo só comera umas tortillas e bebera água. De repente, Dom Juan levantou-se, olhou para o céu e me disse, num tom imperioso, para partir na direção que era a melhor para mim e para ter certeza de me lembrar do lugar onde estávamos naquele momento, para poder voltar para ali Logo que acabasse. Ele disse, num tom tranqüilizador, que estaria esperando por mim, nem que eu levasse a vida toda.

Perguntei, apreensivo, se ele achava que o negócio de arranjar um pegador de espírito ia demorar muito.

 

— Quem sabe? — respondeu, sorrindo misteriosamente. Encaminhei-me para sudeste, virando de vez em quando para olhar para Dom Juan. Ele estava andando muito devagar na direção oposta. Subi até ao topo de um morro grande e tornei a olhar para Dom Juan; ele estava bem a uns 200 metros de distância. Não se virou para olhar para mim. Corri para baixo, até uma depressâozinha entre os morros e comecei a pensar no que estaria fazendo ali. Sentia-me ridículo, procurando um pegador de espírito. Corri de vol­ta ao topo do morro para ver Dom Juan melhor, mas não o vi em lugar algum. Desci o morro correndo na direção em que o vira da última vez. Queria desistir de tudo aquilo e ir para casa. Estava-me sentindo estúpido e cansado.

 

— Dom Juan! — gritei, repetidamente.

 

Ele não estava em lugar algum. Tornei a correr para o topo de outro morro íngreme; também não consegui avistá-lo de lá. Corri um bom pedaço, procurando-o, mas ele tinha desaparecido. Voltei por onde viera, até ao lugar onde ele me deixara. Tinha a certeza absurda de que ia encontrá-lo sentado ali, rindo-se de minhas tolices.

 

— Em que diabo fui me meter? — disse eu, em voz alta. Então, vi que não havia meio de parar o que quer que fosse que eu estivesse fazendo ali. Eu não sabia sequer voltar a meu carro. Dom Juan tinha mudado de direção várias vezes e a orientação geral dos quatro pontos cardiais não bastava. Eu estava com medo de me perder nas montanhas. Sentei-me e, pela primeira vez na vida, tive a sensação estranha de que nunca havia realmente um meio de voltar a um ponto de partida original. Dom Juan dissera que eu sempre insistia num ponto de partida que eu chamava de começo, quando, na verdade, o começo não existia. E ali, no meio daquelas montanhas, achei que estava entendendo o que ele queria dizer. Era como se o ponto de partida fora sempre eu mesmo; era como se Dom Juan nunca tivesse estado realmente ali; e quando eu o procurei ele virou o que era realmente uma imagem passageira que desaparecia atrás de um morro.

 

Ouvi o suave farfalhar das folhas e uma fragrância estranha me envolveu. Senti o vento como uma pressão nos ouvidos, como um zumbido tímido. O Sol ia alcançando umas nuvens compactas sobre o horizonte, que parecia uma faixa solidamente tingida de la­ranja, quando desapareceu por detrás de um espesso véu de nuvens mais baixas; tornou a aparecer um momento depois, como uma bola vermelha flutuando na névoa. Pareceu lutar um pouco para atingir um pedaço de céu azul, mas era como se as nuvens não quisessem dar tempo ao Sol, e então a faixa laranja e a silhueta escura das montanhas pareceram engoli-lo.

 

Deitei-me de costas. O mundo em volta de mim estava tão quieto, tão sereno e ao mesmo tempo tão estranho que me senti oprimido. Não queria chorar, mas as lágrimas rolavam livremente.

 

Fiquei horas naquela posição. Quase não conseguia levantar-me. As pedras embaixo de mim eram duras, e bem onde eu me deitara quase não havia vegetação alguma, em contraste com os luxuriantes arbustos verdes que havia em volta. De onde eu estava, via uma franja de árvores altas nos morros de leste.

 

Por fim, escureceu bastante. Senti-me melhor; na verdade, es­tava quase feliz. Para mim, a semi-escuridão era muito mais criativa e protetora do que a luz forte do dia.

 

Levantei-me, subi ao topo de um morrinho e comecei a repetir os movimentos que Dom Juan me ensinara. Corri para leste sete vezes, e então notei uma mudança de temperatura em minha mão. Fiz uma fogueira e vigiei atentamente, como Dom Juan me recomendara, observando todos os detalhes. Passaram-se horas e eu comecei a ficar muito cansado e com frio. Tinha juntado um montão de galhinhos secos; alimentei a fogueira e me aproximei dela, A vigília era tão fatigante e intensa que eu estava exausto; comecei a cabecear. Adormeci duas vezes e só acordei quando minha cabeça caiu para o lado. Eu estava com tanto sono que não conseguia mais vigiar a fogueira. Bebi um gole d'água e cheguei a borrifar um pouco no rosto, para ficar acordado. Só conseguia vencer meu sono por alguns momentos. Por algum motivo, eu estava desanimado e irritado; sentia-me completamente estúpido por estar ali e isso me dava uma sensação de frustração e depressão irracionais. Estava cansado, com sono e absurdamente aborrecido comigo mesmo. Por fim. abandonei a luta de me manter acordado. Juntei uma porção de galhos secos à fogueira e deitei-me para dormir. A busca de um aliado e um pegador de espírito era, naquele momento, uma tentativa muito cômica e estranha. Estava com tanto sono que não conseguia nem pensar nem falar comigo mesmo. Adormeci.

 

Fui despertado de repente por um estalido alto. Parecia que o barulho, fosse o que fosse, tinha vindo de um ponto logo acima de meu ouvido esquerdo, pois eu estava deitado sobre o lado direito.

 

Sentei-me, completamente desperto. Meu ouvido esquerdo zunia e estava surdo com a proximidade e intensidade do som.

 

Devo ter dormido muito pouco tempo, a julgar pela quantidade de galhos secos que ainda estavam ardendo na fogueira. Não ouvi outros barulhos, mas fiquei alerta e continuei a alimentar a fogueira.

 

Tive a idéia de que talvez o que me tivesse acordado fosse um tiro de espingarda; talvez houvesse alguém por ali, observando-me e atirando em mim. Essa idéia tornou-se muito angustiante e provocou uma avalancha de receios racionais. Eu tinha certeza de que alguém era dono daquela terra e, se isso fosse verdade, poderiam achar que eu era um ladrão e matar-me, ou poderiam matar-me para me roubar, sem saber que eu não tinha nada comigo. Tive um momento de muito receio por minha segurança. Senti uma tensão no pescoço e nos ombros. Mexi a cabeça para cima e para baixo; os ossos de meu pescoço estalaram. Continuei a olhar para o fogo, mas não vi nele nada fora do comum, nem ouvi mais barulho algum.

 

Depois de algum tempo, relaxei um pouco e ocorreu-me que talvez Dom Juan fosse responsável por aquilo. Logo me convenci de que era isso. A idéia me fez rir. Tive outra avalancha de conclusões racionais, dessa vez mais alegres. Achei que Dom Juan devia ter suspeitado de que eu ia mudar de idéia a respeito de ficar nas montanhas, ou devia ter-me visto correndo atrás dele e se teria escondido numa caverna ou atrás de um arbusto. Depois, ele me seguira e, vendo que eu tinha adormecido, acordou-me estalando um galho em meu ouvido. Juntei mais galhinhos à fogueira e comecei a olhar em volta de maneira displicente e disfarçada, para ver se o descobria, embora soubesse que, se ele estivesse escondido ali, eu nunca o descobriria.

 

Tudo estava calmo: os grilos, o vento nas árvores das encostas dos morros em volta, o estalar baixinho dos galhos pegando fogo. Fagulhas esvoaçavam perto de mim, mas eram fagulhas normais.

 

De repente, ouvi o ruído forte de um galho se quebrando. O ruído vinha da minha esquerda. Prendi a respiração, escutando com a maior concentração. Um momento depois, ouvi outro galho se quebrando à minha direita.

 

Então, escutei o som vaga e distante de galhos se quebrando. Era como se alguém estivesse pisando neles e fazendo-os estalar. Os sons eram fortes e cheios, e tinham uma espécie de vigor. Também pareciam aproximar-se de onde eu estava. Tive uma reação muito lenta e não sabia se devia escutar ou me levantar. Estava resolvendo o que fazer, quando, de repente, estava totalmente cercado pelo som de ramos estalando. Fui envolvido por eles tão depressa que mal tive tempo de me levantar de um salto e pisotear o fogo.

 

Comecei a correr morro abaixo no escuro. Atravessou-me a cabeça a idéia de que não havia terra plana, quando me movia pelos arbustos. Continuei a correr, procurando proteger meus olhos dos arbustos. Já estava a meio caminho da encosta quando senti alguma coisa atrás de mim, quase me tocando. Não era um galho; mas uma coisa que, intuitivamente, eu senti que me estava alcançando. Essa idéia me fez gelar. Tirei meu casaco, embolei-o na barriga, dobrei-me sobre as pernas e cobri os olhos com as mãos, como Dom Juan havia recomendado. Fiquei naquela posição por algum tempo e depois percebi que tudo em volta de mim estava numa quietude mortal. Não havia sons de espécie alguma. Fiquei extra­ordinariamente alarmado. Os músculos de meu estômago se contraíam e estremeciam espasmodicamente. Depois, ouvi outro estalo. Pare­cia ter ocorrido muito longe, mas era extremamente claro e distinto. Aconteceu novamente, mais perto de mim. Houve um período de silêncio e então alguma coisa explodiu, logo acima de minha cabeça. O barulho foi tão repentino que eu saltei sem querer e quase rolei para o lado. Era positivamente o barulho de um galho se quebrando em dois pedaços. O ruído ocorrera tão perto que eu ouvi o farfalhar das folhas do galho quando ele se quebrou.

 

Depois, seguiu-se uma chuva de explosões estaladas; galhos se partiam com muita força em volta de mim. O incongruente, naquele ponto, foi minha reação ao fenômeno; em vez de estar aterrorizado, eu estava rindo. Achava sinceramente que tinha descoberto a causa de tudo o que estava acontecendo. Convencera-me de que Dom Juan estava novamente me armando uma cilada. Uma série de conclusões lógicas cimentavam minha confiança; sentia-me exultante. Eu estava certo de que poderia pegar aquele astucioso Dom Juan em outro de seus truques. Ele estava ali em volta de mim estalando galhos, e sabendo que eu não ousaria olhar para cima, estava seguro para fazer o que bem entendesse. Imaginei que ele devia estar sozinho nas montanhas, pois eu tinha estado com ele constantemente havia dias. Ele não tinha tido tempo nem oportunidade de convocar nenhum colaborador. Se ele estivesse escondido, como eu achava, estaria desacompanhado, e logicamente só poderia produzir um número limitado de ruídos. Como ele estava sozinho, os ruídos tinham de ocorrer numa seqüência linear temporal; isto é, um de cada vez, no máximo dois ou três de cada vez. Além disso, a variedade dos ruídos também Tinha de se limitar à mecânica de um único indivíduo, Eu estava completamente certo, enquanto permanecia agachado e quieto, de que toda a experiência era uma brincadeira e que o único meio de tomar as rédeas da situação era desprender-me emocionalmente dela. Estava positivamente me divertindo com ela. Pilhei-me dando risada diante da idéia de que podia prever a próxima jogada de meu adversário. Tentei imaginar o que eu faria em seguida, se fosse Dom Juan.

 

O som de alguma coisa bebendo água ruidosamente me sacudiu do meu exercício mental. Escutei atentamente; ouvi o som outra vez. Não conseguia saber o que era. Parecia um animal bebendo água. Tornou a acontecer, muito perto. Era um som irritante, que fazia lembrar o barulho estalado de um adolescente de maxilares fortes mascando chiclete. Eu estava imaginando como é que Dom Juan podia fazer aquele barulho quando tornei a ouvi-lo, vindo da direi­ta. Primeiro foi um ruído só e depois ouvi uma série de sons chafurdantes, como se alguém estivesse pisando na lama. Era um barulho quase sensual e irritante de pés andando numa lama funda. Os ruí­dos pararam um pouco e depois recomeçaram para meu lado esquerdo, muito perto, a talvez uns três metros de distância. Agora, pareciam como se uma pessoa pesada estivesse trotando com galochas na lama. Fiquei abismado com a plenitude do som. Não consegui imaginar nenhum engenho primitivo que eu mesmo pudesse usar para produzi-lo. Ouvi outra série de sons de correria, e chafurdação atrás de mim, e então eles ocorreram todos de uma vez, de todos os lados. Alguém parecia estar andando, correndo e trotando na lama em volta de mim.

 

Uma duvida lógica ocorreu-me. Se Dom Juan estivesse fazendo tudo isso, tinha de estar correndo em círculos, numa velocidade in­crível. A rapidez dos sons tornava essa alternativa impossível. Então, pensei que, afinal, Dom Juan devia ter colaboradores. Quis começar a pensar que pessoas poderiam ser suas cúmplices, mas a intensidade dos ruídos exigia toda a minha concentração. Eu não podia mesmo pensar com lucidez c, no entanto, não estava com medo, talvez estivesse apenas assombrado com a estranha natureza dos sons. Os ruídos chafurdantes chegavam a vibrar. Na verdade, suas vibrações especiais pareciam estar dirigidas à minha barriga, ou tal­vez eu percebesse suas vibrações com a parte inferior de meu abdômen.

 

Essa idéia provocou uma perda instantânea de minha sensação de objetividade e desprendimento. Os sons estavam atacando minha barriga! Ocorreu-me a pergunta: "E se não for Dom Juan?" Entrei em pânico. Retesei meus músculos abdominais e espremi minhas coxas de encontro ao montinho de meu paletó.

 

Os ruídos aumentaram em número e velocidade, como se soubessem que eu tinha perdido a confiança, e suas vibrações eram tão intensas que eu senti vontade de vomitar. Lutei contra a náusea.

 

Respirei fundo e comecei a cantar minhas canções de peiote. Vomitei, e os ruídos de chafurdar cessaram imediatamente; os sons dos grilos e do vento e os uivos distantes e destacado dos coiotes se superpuseram. Aquela parada brusca me deu um alivio e eu me pude exa­minar. Pouquinho antes eu estava com a melhor disposição de espírito, confiante e desprendido; obviamente, fracassara miseravelmente ao julgar a situação. Mesmo que Dom Juan tivesse cúmplices, seria mecanicamente impossível para eles produzirem sons que afetassem meu estômago. Para produzirem ruídos dessa intensidade, precisariam de dispositivos além de seus meios ou concepção. Aparentemente, o fenômeno que eu experimentava não era uma brincadeira, e a teoria de "mais um truque de Dom Juan" era apenas minha explicação irracional.

 

Eu estava com cãibras e sentia uma vontade irresistível de rolar e esticar as pernas. Resolvi mover-me para a direita, para tirar o rosto do lugar onde tinha vomitado. No minuto em que comecei a me arrastar, ouvi um rangido baixinho bem acima de meu ouvido esquerdo. Gelei no mesmo lugar. O rangido repetiu-se do outro lado de minha cabeça. Era um som isolado. Achei que parecia o rangido de uma porta. Esperei mas não ouvi mais nada, de modo que re­solvi mexer-me de novo. Mal eu começara a mover minha cabeça para a direita, quase fui forçado a saltar para cima. Um dilúvio de rangidos me engoliu. Às vezes, pareciam rangidos de portas; em. outras oportunidades eram como os guinchos de ratos ou cobaias. Não eram fortes nem intensos, mas muito baixos e pérfidos, e me provocavam agonizantes espasmos de náusea. Pararam como tinham começado, diminuindo aos poucos até eu só poder ouvir um ou dois deles de cada vez.

 

Então, ouvi uma coisa como as asas de um grande pássaro varrendo os topos dos arbustos. Parecia estar voando em círculos por cima de minha cabeça. Os rangidos baixinhos começaram a aumentar de novo, assim como o bater das asas. Por cima de minha cabeça parecia haver uma coisa como um bando de pássaros gigantescos, batendo suas asas macias. Os dois ruídos se fundiram, criando uma onda envolvente em torno de mim. Senti que estava flutuando, suspenso numa onda enorme. Os rangidos e o bater de asas eram tão suaves que eu os sentia em todo o corpo. As asas de um bando de pássaros pareciam estar me puxando de cima, enquanto os guinchos de um exército de ratos pareciam estar me prendendo de debaixo e em volta de meu corpo.

 

Não havia dúvida em meu espírito de que, por minha estupidez estabanada, eu tinha desencadeado alguma coisa terrível sobre mim. Trinquei os dentes, respirei fundo e cantei minhas cantigas de peiote.

 

Os ruídos duraram muito tempo e eu me opus a eles com toda minha força. Quando se acalmaram, houve novamente um "silêncio" interrompido, como estou acostumado a perceber o silêncio; isto é, eu só conseguia notar os sons naturais dos insetos e do vento. O momento de silêncio foi para mim, mais prejudicial do que o período de barulhos. Comecei a pensar e a avaliar a situação, e minha conclusão me deixou em pânico. Eu sabia que estava perdido; não tinha o conhecimento nem a fibra para repelir o que quer que me estivesse assaltando. Estava completamente indefeso, agachado sobre meu próprio vômito. Achei que chegara o fim de minha vida e comecei a chorar. Queria pensar em minha existência, mas não sabia por onde começar. Nada do que eu havia feito valia realmente aquele último destaque, de modo que não tinha nada em que pensar. Era uma compreensão única. Eu mudara desde a última vez em que sentira um medo igual. Dessa vez, estava mais vazio. Tinha menos sentimentos pessoais para carregar.

 

Perguntei-me o que faria um guerreiro naquela situação e cheguei a várias conclusões. Havia alguma coisa em minha região umbilical que era supinamente importante; havia alguma coisa sobre­natural nos sons; eles visavam minha barriga; e a idéia de que Dom Juan me estivesse pregando uma peça era completamente inaceitável.

 

Os músculos de minha barriga estavam muito apertados, embora eu não sentisse mais cãibras. Continuei a cantar e a respirar pro­fundamente! sentindo um calor calmante invadindo todo meu corpo. Estava claro para mim que, se eu quisesse sobreviver, teria de pro­ceder nos termos dos ensinamentos de Dom Juan. Repeti mental­mente as instruções dele. Lembrei-me do ponto exato em que o Sol desaparecera na montanha em relação ao morro onde eu estava e o lugar onde eu me agachara. Tornei a orientar-me e, quando me convenci de que minha avaliação dos pontos cardeais estava certa, comecei a mudar minha posição, para ficar com a cabeça virada para uma direção nova e "melhor" (sudeste). Comecei lentamente a mover meus pés para a esquerda, de centímetro a centímetro, até estarem torcidos sob a barriga da perna. Então, passei a alinhar o corpo com meus pés; mas, assim que comecei a me arrastar lateral­mente, senti um tapa esquisito; tinha a sensação física de alguma coisa tocando a zona descoberta de minha nuca. Aconteceu tão de­pressa que eu gritei sem querer, tornando a gelar. Apertei meus músculos abdominais, comecei a respirar profundamente e a cantar minhas canções de peiote. Um segundo depois tornei a sentir o mesmo tapinha no pescoço. Encolhi-me, Meu pescoço estava descoberto e não havia nada que eu pudesse fazer para me proteger. Senti o tapa de novo. Era um objeto muito macio, quase sedoso que me tocava o pescoço, como a pata peluda de um coelho gigantesco. Tocou-me várias vezes e depois começou a atravessar meu pescoço, de um lado para outro, até eu estar aos prantos. Era como se uma manada de cangurus silenciosos, lisos, sem peso, estivesse pisando em meu pescoço. Eu ouvia o baque surdo de suas patas ao pisarem suavemente por cima de mim. Não se tratava em absoluto de uma sensação dolorosa, e no entanto era de enlouquecer. Eu sabia que, se não me absorvesse em fazer alguma coisa, ficaria maluco, levantar-me-ia e sairia correndo. Assim, comecei lentamente a manobrar meu corpo outra vez para uma nova posição. Minha tentativa de me mexer pareceu aumentar os tapas em minha nuca. Por fim, tornou-se um tal frenesi que sacudi meu corpo e alinhei-o na nova direção. Não tinha a menor idéia sobre o resultado de meu ato. Estava apenas fazendo alguma coisa para não ficar completamente maluco.

 

Assim que mudei de direção, os tapas em minha nuca cessaram. Depois de uma pausa longa e angustiada, ouvi um estalar de galhos a distância. Os ruídos não estavam mais próximos. Era como se se tivessem retirado para outra posição, longe de mim. O som dos galhos estalando depois de um momento se fundiu com o barulho de folhas farfalhando, como se um vento forte estivesse soprando em todo o morro. Todos os arbustos em volta de mim pareciam estremecer e, no entanto, não havia vento. O farfalhar e o estalar de galhos me davam a impressão de que todo o morro estivesse em chamas. Meu corpo estava apertado como uma pedra. Eu trans­pirava copiosamente. Sentia cada vez mais calor. Por um momento, fiquei inteiramente convencido de que o morro estava pegando fogo. Só não me levantei e saí correndo porque estava tão dormente que chegava a estar paralisado; na verdade, não conseguia nem abrir os olhos. O que me importava naquele momento era levantar-me e fugir do fogo. Tinha cãibras terríveis na barriga que começavam a me cortar a respiração. Fiquei muito ocupado, procurando respirar. Depois de muita luta, consegui respirar fundo outra vez e também pude reparar que o farfalhar tinha passado; só havia um estalo ocasional. O som dos galhos se quebrando foi-se tornando cada vez mais distante e esporádico, até cessar de todo.

 

Consegui abrir os olhos. Olhei por pálpebras semicerradas para o solo embaixo de mim. Já era dia claro. Esperei mais um pouco sem me mexer e depois comecei a esticar o corpo. Rolei de costas. O Sol estava acima dos morros, a leste.

 

Levei horas para conseguir esticar as pernas e me arrastar pelo morro abaixo. Comecei a caminhar para o lugar onde Dom Juan me deixara, que ficava, talvez, a um quilômetro e meio de distância; no meio da tarde eu estava na borda do bosque, ainda a uns 500 metros de distância.

 

Não conseguia mais andar, por nada no mundo. Pensei em onças c tentei trepai numa árvore, mas meus braços não suportavam meu peso. Encostei-me numa pedra e resignei-me a morrer ali. Estava convencido de que seria alimento para as onças c outros predadores. Não tinha força nem para atirar uma pedra. Não estava com fome nem com sede. Por volta do meio-dia, tinha encontrado um córrego e havia bebida muita água, mas isso não ajudou a recuperar minhas forças. Sentado ali, inteiramente desamparado, sentia-me mais desanimado do que com medo. Estava tão cansado que meu destino não me importava. Adormeci.

 

Acordei com alguma coisa me sacudindo. Dom Juan estava debruçado sobre mim. Ajudou-me a sentar-me e me deu água e uma papa. Riu e disse que eu estava com uma cara horrível. Tentei contar-lhe o que tinha acontecido, mas ele me fez calar e disse que eu tinha errado o ponto, e que o lugar onde eu devia ter encontrado com ele ficava a uns cem metros dali. Depois, praticamente me carregou na descida do morro. Falou que me estava levando para um riacho grande e que me ia lavar lá. No caminho, tapou-me os ouvido» com umas folhas que tinha ria sacola e depois cerrou meus olhos, colocando uma folha em cada olho e prendendo-as com um pedaço de pano. Fez-me tirar as roupas e disse-me que pusesse as mãos sobre os olhos e ouvidos, para não poder ver nem ouvir nada.

 

Dom Juan esfregou meu corpo todo com folhas e depois me mergulhou num rio. Senti que o mesmo era grande e profundo. De pé, eu não conseguia tocar o fundo. Dom Juan me segurava pelo cotovelo direito. A princípio, não senti o frio da água, mas, aos poucos, fui ficando gelado e depois a temperatura tornou-se intolerável. Dom Juan me puxou para fora e enxugou-me com umas folhas que tinham um cheiro especial. Vesti-me e ele me levou dali; andamos um bom pedaço antes de ele tirar as folhas de meus ouvidos e olhos. Dom Juan me perguntou se eu tinha forças para poder andar até o carro. O estranho é que eu me sentia muito forte. Cheguei a correr subindo a encosta de um morro íngreme para prová-lo.

 

A caminho de meu carro, mantive-me bem perto de Dom Juan. Tropecei muitas vezes e ele riu. Reparei que o riso dele era especialmente revigorante e tornou-se o ponto base de meu restabelecimento; quanto mais ele ria, melhor eu me sentia.

 

No dia seguinte, contei a Dom Juan a seqüência dos acontecimentos, desde o momento em que ele me deixou. Riu durante toda a minha narrativa, especialmente quando lhe disse que eu pensava que era um dos truques dele.

 

— Você sempre pensa que está sendo logrado — falou. — Confia demais em si. Age como se soubesse de tudo. Não sabe de nada, meu amiguinho, nada.

 

Era a primeira vez que Dom Juan me chamava de "meu amiguinho". Aquilo me chocou. Ele o notou e sorriu. Havia muito carinho na voz dele e aquilo me emocionava. Disse-lhe que tinha sido descuidado e incompetente, porque era essa a tendência inerente de minha personalidade; e que eu nunca havia de compreender o mundo dele. Eu estava muito comovido. Foi muito encorajador e garantiu que eu me tinha saído bem.

 

Perguntei-lhe o significado de minha experiência.

 

— Não tem significado — respondeu. — A mesma coisa poderia acontecer a qualquer um, especialmente a uma pessoa corno você, que já tem a brecha aberta. Ê muito comum. Qualquer guerreiro que já saiu era busca de aliados pode contar-lhe seus feitos. O que eles lhe fizeram foi pouco. No entanto, sua brecha está aberta e é por isso que você está nervoso. Ninguém pode virar guerreiro da noite para o dia. Agora, tem de ir para casa e só voltar quando sua brecha fechar.

 

Passei meses sem voltar ao México; aproveitei o tempo para trabalhar em minhas anotações de campo e pela primeira vez em dez anos, desde que eu começara o aprendizado, os ensinamentos de Dom Juan começaram a ter realmente um sentido. Senti que os longos períodos que tive de passar longe do aprendizado tinham sido um efeito muito calmante e benéfico sobre mim; tinham-me dado a oportunidade de rever as minhas descobertas e de dispô-las numa ordem intelectual adequada a meu treinamento e interesse. Os fatos que ocorreram em minha última visita ao campo, porém, evidenciaram uma falha em meu otimismo quanto ao entendimento do conheci­mento de Dom Juan.

 

Fiz a última anotação em meus apontamentos de campo no dia 16 de outubro de 1970. Os fatos que ocorreram naquela ocasião marcaram uma transição. Não só eles fecharam um ciclo de instrução, como também abriram um novo, que era tão diferente do que eu fizera até então que sinto ser este o ponto em que devo finalizar minha reportagem.

 

Ao me aproximar da casa de Dom Juan, eu o vi sentado em seu lugar de sempre sob a ramada diante da porta da frente. Parei o carro na sombra de uma árvore, peguei minha pasta e uma sacola de mantimentos do carro e fui para junto dele, cumprimentando-o em voz alta. Então, reparei que ele não estava sozinho. Havia outro homem sentado por trás de uma pilha de lenha. Ambos estavam olhando para mim. Dom Juan acenou e o outro também. A julgar pelos trajes dele, não era índio, e sim um mexicano do sudoeste.

 

Estava de calças americanas, uma camisa bege, chapéu de vaqueiro texaco e botas.

 

Falei com Dom Juan e depois voltei-me para o homem; ele estava sorrindo para mim. Fiquei olhando fixamente pata ele por um momento.

 

— Aqui está o Carlinhos — disse o homem para Dom Juan — e ele não fala mais comigo. Não me diga que está zangado comigo!

 

Antes que eu pudesse dizer alguma coisa os dois deram uma gargalhada e foi só então que vi que o estranho era Dom Genaro.

 

— Você não me reconheceu, não foi? — perguntou ele, ainda rindo.

 

Tive de confessar que a indumentária dele me confundira.

 

— O que está fazendo por aqui, Dom Genaro? — perguntei.

— Ele veio gozar do vento quente — disse Dom Juan. — Não é verdade?

— Sim — respondeu Dom Genaro. — Você nem sabe o que o vento quente pode fazer por um corpo velho como o meu.

— O que é que faz a seu corpo? — indaguei, sentando-me entre os dois.

— O vento quente conta coisas extraordinárias a meu corpo — disse ele. Era seguida, virou-se para Dom Juan, com os olhos acesos. — Não é verdade?

 

Dom Juan meneou a cabeça, confirmando.

 

Disse-lhes que a época dos ventos quentes de Santa Ana era a pior parte do ano para mim, e que era certamente estranho que Dom Genaro viesse procurar o vento quente enquanto eu fugia dele.

 

— Carlos não suporta o calor — explicou Dom Juan. — Quando está muito quente ele fica como uma criança e sufoca.

— Su o quê?

— Su...foca.

— Meu Deus! — exclamou Dom Genaro, fingindo-se preocupado, e fazendo um gesto de desespero, incrivelmente engraçado.

 

Depois, Dom Juan explicou-lhe que eu tinha passado meses fora por causa de um incidente infeliz com os aliados.

 

— Então você finalmente encontrou um aliado! — falou Dom Genaro.

— Creio que sim — respondi, com cuidado.

 

Eles riram muito. Dom Genaro bateu em minhas costas umas duas ou três vezes. Era uma batidinha muito leve, que interpretei como um gesto amigo, de cuidado. Apoiou o braço em meu ombro para olhar para mim e eu tive uma sensação de contentamento plácido, que só durou um instante, pois, em seguida, Dom Genaro me fez uma coisa inexplicável. De repente, senti que ele tinha posto o peso de uma rocha nas minhas costas. Tive a impressão de que ele havia aumentado o peso de sua mão, que estava apoiada em meu ombro direito, até me fazer cair, batendo com a cabeça no chão.

 

— Temos de ajudar o Carlinhos — disse Dom Genaro, lançando um olhar de conspirador para Dom Juan.

 

Sentei-me direito e virei-me para Dom Juan, mas ele desviou o olhar. Tive um momento de vacilação e a idéia aborrecida de que Dom Juan estava agindo como se estivesse distante, longe de mim. Dom Genaro estava rindo; parecia estar esperando minha reação.

 

Pedi-lhe que tornasse a pôr a mão em meu ombro, mas ele não quis fazê-la. Insisti para que, pelo menos, me dissesse o que me tinha feito. Ele riu. Virei-me de novo para Dom Juan e disse-lhe que o peso da mão de Dom Genaro quase me havia esmagado.

 

— Não sei de nada disso — falou Dom Juan, num tom de voz comicamente natural. — Não foi no meu ombro que ele pôs a mão.

 

Com isso, os dois deram gargalhadas.

 

— O que foi que me fez, Dom Genaro? — perguntei.

— Só pus a mão em seu ombro — respondeu, inocentemente.

— Faça-o outra vez — pedi.

 

Ele se recusou. Nesse ponto, Dom Juan intercedeu e me pediu que descrevesse para Dom Genaro o que eu tinha percebido em minha última experiência. Achei que ele queria que eu desse uma descrição sincera do que me acontecera, mas, quanto mais séria fi­cava minha descrição, mais eles riam. Parei umas duas ou três vezes, mas me mandavam continuar.

 

— O aliado virá ter com você, não importa o que sinta — disse Dom Juan, quando terminei meu relato. — Quero dizer, você não precisa fazer nada para atraí-lo. Pode estar sentado, remexendo os dedos, ou pensando nas mulheres e, de repente, um tapa ao ombro, você se vira e o aliado está ali a seu lado.

— O que posso fazer se acontecer uma coisa dessas? — perguntei.

— Ei! Ei! Espere um pouco! — interrompeu Dom Genaro. — Essa pergunta não serve. Não deve perguntar o que pode fazer; obviamente você não pode fazer nada. Devia perguntar: o que pode um guerreiro fazer?

 

Virou-se para mim, piscando. Estava com a cabeça ligeiramente inclinada para a direita e a boca franzida.

 

Olhei para Dom Juan para verificar se a situação era uma brincadeira, mas ele estava de cara séria.

 

— Está bem! — disse eu. — O que pode um guerreiro fazer? Dom Genaro piscou e estalou os lábios, como se estivesse pro­curando a palavra certa. Ficou-me fitando e segurando o queixo.

— Um guerreiro molha as calças — disse ele, com uma solenidade de índio.