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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VENTOS DO TEMPO / Sá Flores
VENTOS DO TEMPO / Sá Flores

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

Não era costume barulho no quarto àquela hora. A menina Cristina, deitava-se e acordava sempre tarde, não consentindo nos seus aposentos tanto como o zumbido duma mosca.

A preocupação da dona Emília, a governanta era tal que não parava: ora espreitando pelo buraco da fechadura, ora escutando junto das paredes ou pelos cantos contíguos. Por vezes até especava, tal a ânsia para conseguir colher o porquê do que, de estranho naquela manhã por ali se passava.

Até lhe ocorreu bater à porta, porém, com o feitio da menina, não ia nem sequer arriscar, tal o receio de alguma resposta incompatível com a sua sensibilidade de “mãe galinha”. Embaraçada, acabou por descer as escadas, ir até à cozinha e desabafar com a colega:

- Então Dona Emília, como vão as coisas?

- Não queiras saber o que vai naquele quarto!

- Naquele quarto, o quê?! Alguém acordou a menina?

- Olha, eu não...

- Então não percebo. A menina nunca acorda antes das onze horas…

- Pois… E também sabes que nunca vai para a casa de banho sem eu lhe preparar a água, assim como não se veste sem me pedir opinião.

- Então, se assim é, porquê essa aflição?

- Olha pelo demónio...

Cristina era filha única, tinha olhos verdes, corpo bem torneado, cabelos louros, tão compridos e ondulados que caídos pelo dorso aparentavam uma cascata, embelezando de tal modo uma estatura média cuja elegância enchia o olhar que nela pousasse. Era filha dum dos maiores industriais do Concelho, duma das pessoas mais conceituadas e ricas da região:

Para o pai não havia tesouro maior, via a sua filhinha como uma nobre pérola, como o diamante mais valioso do mundo. Tudo fazia para que, na sua maneira de ver nada lhe faltasse.

As relações e convivência entre eles eram tais que praticamente não se podiam ver um sem o outro…

- Não te canses com os estudos, minha filha, não te canses. Goza o ar puro da Quinta,

Saboreia as águas das nossas piscinas e diverte-te a montar os nossos cavalos.

- Pai, mas eu quero formar-me, tirar um curso, ser como tu.

- Tirares um curso, para quê!? Não podes fazer uso dele, os lugares importantes nas nossas empresas estão todos preenchidos!

- Posso ser por exemplo médica, veterinária, cientista, eu sei lá.

- Para quê filha, para quê!? Nós não nos podemos separar... Tu representas toda a minha família. O que temos chega para viveres como uma princesa até aos cento e vinte anos!

Apesar de querer ir mais longe, derivado às ideias do pai Cristina, apenas fizera o liceu e aperfeiçoar a língua inglesa.

O preenchimento do seu dia-a-dia, ainda por influência   do pai, era enfiada na biblioteca; a dar passeios pela Quinta, a cavalgar no picadeiro sobre instruções do professor de equitação; a ver e ouvir a grande variedade de aves e pássaros que por ali havia; a brincar e a fazer festinhas aos muitos cães e gatos que protegia num pequeno canil; ainda a dar alguns passeios com o motorista e a conviver fundamentalmente com amigas, uma vez que o pai também pensava que todos os homens eram indignos dela, temendo fundamentalmente que algum deles a influenciasse de forma a vir a roubar-lhe os afagos e carinhos, sem os quais não podia ver-se.

 

 

 

 

                                           Capítulo II

- Estou nervosíssima Laurinda. Não sei que faça! Achas que vá abrir a porta do quarto?

- Não, não tia Emília. Por mim, a esta hora, não faria isso. Sabe bem como ela fica mal disposta quando tal acontece.

- Mas há mais de duas horas que ela não pára: levanta-se, deita-se, desvia cortinados, abre e fecha janelas, anda pelo quarto, enfim, nunca vi a minha menina assim! Oh, meu Deus, mas o que se passará com a minha menina?!

A governanta choramingava, tirava o engelhado lenço da algibeira da bata, esfregava-o ao nariz e aos olhos enquanto esperava inevitável ajuda da colega:

- Olhe, sabe o que lhe digo: ela não chora, não grita, pelos vistos mexe-se bem, por isso o mal não será muito.

- Não sejas assim, não fales dessa maneira da minha menina! Se a visses nascer como eu, não dizias isso. E se eu…

- E se eu, o quê mulher?

- Se eu… dissesse ao senhor doutor?

- Isso é consigo. Gostar como ele gosta da filha, corria logo para o quarto, lá isso corria.

- Pois, e ao vê-la assim podia ficar muito aborrecido!

- Claro, claro, sabe bem como é...

- Não sei não. Olha, se queres que te diga eu já não sei nada. Eu vou mas é de novo até lá cima.

A dona Emília tinha aquela menina no coração. Vira-a crescer centímetro a centímetro, tratara dela enquanto bebé e depois da mãe morrer. Só não a acompanhava quando saía, isto porque ela não o consentia, quando não, nem aí deixaria a sua menina!

Depois de lentamente ter subido as escadas e, quando passava diante da porta do escritório do senhor doutor, como lhe chamava, sabendo que ele estava lá dentro, arrepiou caminho, dissidiu ir falar com ele. Como não era uma pessoa fácil, para tentar ganhar coragem, pensar como se lhe dirigir, entreteve-se por ali, a limpar o que já estava muito mais que limpo.

Bom dia Emília.

Surpreendera-a totalmente. Esperava tudo, menos que ele aparecesse assim tão repentinamente. Mas havia que ser prespicás, saber desfarçar.

- Bom dia senhor doutor.

E, quando se preparava para o abordar, dando ainda um passo nesse sentido, ele desceu as escadas com tal rapidez que lhe tirou todas as possibilidades. Mesmo assim, dera para ela ver que não tinha a barba feita, que apresentava aspecto horrível...

- Oh, tia Emília, valha-a a Deus, mas que faz você aí especada no meio da casa? Raio se não me parecia mesmo uma estátua!

- Estava aqui para falar com ele mas...

- Sim, eu vi-o, parecia um avião a jacto! Olhe lá, você já foi ver da menina?

- Não, ainda não…

- e, se em vez de estar aí a apanhar moscas, como já passa das onze e meia, porque é que não experimenta ir bater à porta do quarto? Que diabo, ainda que lhe pareça mal, concerteza que ela não vai comer ninguém.

- Já me lembrou disso...

- Pois vá, quanto mais não seja para ver se muda esse ar, está aí que mais parece a Senhora do Pranto!

Assim era de facto. A governanta estava a passar momentos de grande inquietação. Quanto desejava que a sua menina ainda tivesse somente meses, dois ou três aninhos, para, entre outras coisas entrar como e quando quisesse no quarto dela.

- “Mimi, por favor não entres sem bater , sem eu autorizar”.

Lembrava-se bem desse dia; chorara tanto e com tal sentimento que nunca mais deixou de sentir esse pranto a rasgar-lhe o rosto. Era o fim das suas funções como “bábá”, médica e enfermeira...

- Então, bate você ou bato eu?

Laurinda ainda deu um passo ...

- Não, espera, eu bato, eu bato.  

Dona Emília deixou o centro da sala e, com passos tímidos e lentos encaminhou-se para o quarto da Cristina. Escutou, voltou a escutar, pegou na maçaneta, voltou a pegar e, por fim, com as mãos trémulas, brancas como a cal, rodou-a e abriu levemente a porta:

Cristina encontrava-se na cama, deitada por de cima da colcha de seda. Ao sentir o abrir da porta, como impulsionada por uma mola, ergueu-se, deu um salto e de olhos arregalados ficou de pé, do outro lado da cama sobre o tapete de arraiolos.

A governanta, quase não a reconheceu: estava pálida, cabelos desgrenhados, vestida com as calças azul bebé e a blusa branca que lhe vira na véspera. Era notório que dormira assim, tão engelhado, sem rumo e sem jeito que estava o fato:

- Menina! - exclamou a governanta de mãos erguidas..

Cristina contrariamente ao que a governanta temia, não gesticulou nem pronunciou palavra. Sentou-se vagarosamente na cama, deixando-se de seguida cair enrolada sobre a almofada.

As lágrimas e os soluços iam cada vez mais invadindo as faces da governanta:

- Menina, minha rica menina! - voltou a exclamar, desta vez ajoelhada diante dela, junto da cama...

- Deixa lá Mimi, isto passa.

- Meu Deus, mas o que foi menina, o que foi?! Tanto que eu...

- Não foi nada, já disse. Mimi, isto passa.

O pranto era um ribeiro, o corpo pequenas hastes num ventoso dia de Outono. Tal como a sua menina a governanta estava triste e desfigurada:

- Oh, meu Deus do céu! Menina, pelas cinco chagas de cristo, diga-me... diga-me ao menos se está doente. O pai não está cá mas, eu vou telefonar-lhe para que chame imediatamente o médico!

Oh, quanto Cristina queria desabafar, esvaziar a alma e o coração das duras e dolorosas mágoas que o oprimiam, oh, sim quanto desejava ter alguém a quem pudesse contar tudo aquilo que roía horrivelmente dentro de si. Mas, estava só. A mãe, a sua única confidente tinha morrido. Por agora, sabe-se lá até quando, tinha de guardar o triste, o doloroso (levante) que tanto a decepcionara; a ferida que lhe dilacerava o corpo e a mente, não tanto pela dor que lhe causava, mas, pelas consequências da revolta, do sofrimento permanente que lhe corroía a alma.

- Não Mimi, não estou doente.

Levantando-se, desamarrando a cabeça da almofada, pousou as mãos sobre os ombros da governanta e continuou:

- Ouviste Mimi, não estou doente, não preciso de médico nenhum. Não vais dizer nada ao senhor doutor, está bem? Não vais, olha que quando não eu...

- Po, po, pois sim menina, pois sim. Mas por favor, eu nunca a vi assim!

- Mimi, eu já disse que isto passa, há-de passar, não te preocupes!

A Conversa era apenas para tranquilizar a governanta, porque passar, nunca iria passar. Dentro de si, uma fogueira vulcânica esaurava o mais agro e fastidioso veneno jamais produzido ou inventado. O surpreendente, o horroroso é que fora vomitado pela flor que ela contemplava quotidianamente, por ser bela, por lhe parecer original, a única incapaz de mudar o odor, destruir os botões gerados da sua própria seiva.

- Então, tia Emília... desculpe, eu...

Laurinda chegara disfarçadamente para verificar o que se passava. Nunca esperando, não imaginando sequer que ia deparar com o triste quadro formado pelo espetro das imagens da colega e da Cristina.

- Ah, sim Laurinda, vens a[i! Olha trás o pequeno almoço para a menina. Vejam lá esta minha cabeça, amarrei-me aqui e nunca mais me lembrei de nada!

Cristina ia para dizer que não tinha fome, que não queria comer. Porém, com a sensibilidade e tristeza com que a governanta se encontrava, podia levar a mal. E, não a queria magoar. Apesar de tudo, era a única pessoa que a acariciava verdadeiramente.

 

                                 Capítulo III

O doutor voltara quase de seguida, e, fizera-o com tanta surpresa, que Por pouco não deparava com o desconfortante e surpreendente (espectáculo)existente no quarto da menina. Vinha acompanhado do motorista particular, que ficou a aguardar na sala de estar, enquanto ele se dirigiu para o escritório de onde chamou a governanta:

- Diga senhor doutor.

- A menina, ainda se encontra a descansar?

- SSSSim senhor doutor, aaaa-inda.

- Muito bem, deixa-a estar. Vou ausentar-me durante uns dias, podes dar as malas ao motorista.

O coração da governanta quase lhe caiu aos pés! Não era por ele nem sequer ter notado toda a melancolia que a invadia. Era pela menina. Ia-se embora, sabe-se lá até quando, sem se preocupar minimamente com o seu estado!

- Não podia dizer nada, tinha prometido; mas, tudo aquilo a atormentava, mexia muito consigo, sobretudo porque nunca acontecera.

- Emília, disse para ires dar as malas ao motorista.

Ela, esquecera-se de tudo. Ficara de pé, boquiaberta no meio do escritório, um tanto ou quanto perdida com aquela situação.

- Desculpe, desculpe senhor doutor. Este malvado reumatismo, hoje está a dar cabo de mim...

Não era costume ela usar aquelas lamúrias.O doutor levantou a cabeça e corou. O aspecto, o som e as palavras da governanta assemelharam-se a um trovão que rebentasse dentro de si; tal foi o estrondo repentino que sentiu e os suores frios que lhe invadiram todo o corpo. O peso de consciência era coisa que não o atormentava. Isto aparentemente. Como era seu hábito o importante era desfarçar, era dar a entender que estava totalmente alheio ao estado da filha, isto é do crime que cometera.

No entanto desta vez o desfarce era mais aparente do que nunca, uma vez que estava a entrar mesmo em conflito consigo próprio, ao ponto de desconfiar da forma como a governanta se lhe dirigira..

Seria que... era o que tinha de ir ver.

Auscultou o ambiente, foi até à biblioteca e, como tudo lhe parecesse propício dirigiu-se de seguida para o quarto da filha:

- Não entre, desapareça, não tente sequer pôr um só pé dentro deste quarto!

A voz era terrivelmente áspera, quase rancorosa. Por momentos deu-lhe mesmo a ideia de estar a ouvir a mulher quando discutiam:

- Minha filha...

- Não. Não sou mais sua filha!

- O quê!?

Ficara indignado. Contudo, como que não ligando, Fechou lentamente a porta, olhou-a e, tentou dar uns passos ao seu encontro:

- Então, que é lá isso, Afinal...

- Não. Nem um passo. Já disse, nem um passo.

Cristina, não parava quieta, toda ela tremia. Os olhos pequenos e verdes, pareciam alteradas ondas sujas e negras a galgar o molhe, tão arregalados que estavam.

O pai, mostrando-se insensível, totalmente distante quer à aparência, quer ao fulgor dos   dizeres dela, tentou ir ao seu encontro com gestos e palavras bonitas.

Num ápice, ela, como leoa assanhada, contornou a cama, abriu a porta e correu para a casa de banho onde se fechou. Deixando-o desvairado, capaz de rebentar contudo o que se encontrava à sua volta, inclusive com a porta da casa de banho onde Cristina se refugiara. Mas era preciso ter calma para não dar nas vistas. Nesse sentido, aproximou-se da porta do quarto, olhou com alguma descontracção em seu redor e, como não avistasse por ali nenhuma empregada encaminhou-se para o escritório, onde fez um curto telefonema, seguindo depois ao encontro do motorista que o esperava com a porta do carro aberta.

As empregadas, sobretudo a governanta, não paravam ora a caminho da janela, ora da porta para ver quando o carro se afastava. Tinha dado por tudo, estava tolhida por suores, nervos e agora também soluços. Nunca tal vira naquela casa. No tempo da senhora, haviam discussões, muitas discussões. Mas, com a menina, sobretudo depois da sua mãe morrer, tudo era carinhos, prendas valiosíssimas, boas maneiras, enfim, nunca ouvira uma palavra mais alta, nem o mínimo gesto de desobediência.

- Já foram tia Emília, já foram! Então, não se mexe? Tanta pressa, tanta preocupação e agora fica aí parada?!

Laurinda era mais nova e estava há poucos anos na casa, daí a forma mais activa e desprendida com que encarava as coisas.

O pranto, para além das faces, envolvia também o pescoço e a bata da governanta que soluçava e tremia tanto que se atirou para o sofá para não cair.

- A minha menina! Que se passará com a minha menina! Anjo da guarda vela por ela, guarda—a bem de todo o mal!

- Você também só sabe chorar e dizer “a minha menina” para trás e para a frente. Você sabe o que é que se passou, de quem é a culpa?

- Pois não, pois não, mas lá que houve coisa, houve.

Ó, para ver isso, não é preciso saber ler nem escrever. Oh, tia Emília será que...

Será que o quê, rapariga?

Será que ela apanhou o pai com alguma?

Mas, porque é que tu dizes isso?

Oh, porque eles andavam sempre agarrados um ao outro, ora a sorrir, ora a brincar e, agora é o que se vê!

- Infelizmente, infelizmente!

O pranto e os soluços não cessavam, antes pelo contrário, brotavam cada vez mais dos olhos da governanta que agora também não emitia palavra!

- Bem, você continua na mesma, não é verdade? Olhe, quem não fica aqui parada sou eu. Aconteça o que acontecer, tenho de ir ver o que se passa lá por cima.

Sem olhar para a colega, Laurinda subiu as escadas, disposta a ir bater à porta da casa de banho. Só que esta encontrava-se escancarada, avistando ainda a menina a entrar para o quarto.

- Parece uma casa de gente doida! balbuciou para si, enquanto olhava em seu redor e descia de novo ao encontro da dona Emília.

- Então, falaste-lhe, como está ela?

- Ó, só a vi a entrar para o quarto.

- E como ia ela, como ia ela?!

- Olhe, com o mesmo fato que tinha de manhã.

- Eu tenho de lá ir. Aquela alminha ainda hoje não comeu praticamente nada!

- Mas, não vá para lá assim. Faça favor de ir lavar essa cara, mudar essa bata e arranjar esses cabelos, quando não, ainda assusta mais a menina.

 

                                         Capítulo IV

Cristina, ao regressar ao quarto, e depois de mirar tudo em pormenor e verificar que o pai não se encontrava por ali, deixou-se cair num dos sofás. Cruzou as pernas, apoiou os braços nas almofadas e ficou em êxtase. O seu cérebro era um corrupio de imagens sucessivas de brinquedos, palhaços, fadas, flores, casinhas, nuvens e céus azuis, vermelhos de muitas cores; retrato da sua vida, imagens do que vivera até ali, onde tudo, por mais bonito e valioso que fosse lhe aparecia nas mãos de forma mágica, sem nenhum esforço, sem nenhuma preocupação.

Incapaz de parar o fio dessas imagens, que no momento presente, nada lhe diziam, levantou-se, abriu uma janela, olhou o jardim, a relva fresca e verde e as montanhas que ao longe se expunham na sua frente. O seu olhar pousava ora nas pedras, ora nas árvores, ora nas límpidas águas do pequeno ribeiro que ziguezagueando ia abrindo curso por entre os agrestes e irregulares terrenos, descansando por fim num lago onde javalis e andorinhas entre outros animais e aves,   se banhavam alegremente.

Sem fechar a janela, para não perder o último ritmo foi sentar-se noutro sofá.

Novamente se sentiu perdida, como nau em mar levantado, sem terra à vista. Já em esforço, na tentativa de fixação do pensamento para a realidade, as imagens do mundo actual, começaram a soletrar-se, acabando conjugadas num quadro negro, que de princípio a atemorizaram, mas que não a desmobilizaram, em virtude de tê-las classificado de forma a que representassem a transição ora imposta.

Não estava habituada a pensar em grandes resoluções. O pai não o permitia. Desde os negócios à casa tudo passava por ele, ou antes pelos empregados. Mas, na vida, há sempre uma primeira vez... E, se até ali nunca nada resolvera nem decidira, a partir de agora tudo ia ser diferente.

Tinha quase dezoito anos Não podia ficar parada, nem tão pouco ali em casa.

É certo que era ali que sempre tinha vivido; que em cada canto haviam recordações... e, se até há pouco tempo não se via, não se podia ver fora daquelas paredes, agora, queria fugir delas o mais depressa possível.

Não tinha família nem amigos que a recebessem. Todavia, mesmo que os tivesse, em virtude da situação, do seu estado de espírito, não lhes recorreria. Por agora, só havia um caminho, eram os apartamentos das empresas. Os quais, em virtude da morte da mãe, também lhe pertenciam. Como o que sabia acerca disso eram as pequenas recordações de quando, em pequena os frequentava em férias, tinha de ir informar-se onde existiam e quais estavam vagos.

- A menina não quer nada? Meu Deus, são quatro horas da tarde, ainda hoje não esprimentou comida de garfo!

Sim, ela tinha razão. Não era que a comida neste momento fosse importante mas, nã podia discorá-la, todas as inergias eram poucas para poder ir em frente. Além disso também havia que fazer a vontade à sua Mimi, uma vez que contava muito com ela para a concretização do seu plano:

- Sim Mimi. Tráz-me um copo com leite e umas bolachas de água e sal.

- Menina, isso não é comida de gente!

- Mimi, agora não me apetece mais nada.

- Bem a menina não me quer dizer, mas, eu sinto que algo de muito mal entrou nesta casa. Eu só quero, menina, eu só quero...

O pranto e os soluços travaram-lhe as palavras na garganta:

- Então, Mimi...

- Desculpe menina, desculpe. O seu paia ausentou-se, mas, eu estou cá. Se for preciso um médico ou qualquer outra coisa, a menina já sabe...

- Mimi, esqueceste-te que nós falámos que já não sou nenhuma criança!

- Pois menina, é verdade. Espero bem que não seja! Porque infelizmente este mundo dá voltas que nos deixam embasbacados de um momento para o outro.

Conforme a governanta com os seus pedidos e rezas se ia afastando, assim Cristina ia ligando para o escritório a pedir um motorista que a conduzisse à empresa para se informar sobre os apartamentos.

Entretanto o pensamento ligou-se à angústia que estava a viver. E, um dos efeitos onde isso se tornava visível, era no nome do pai. Antes, quando o pronunciava ou o pronunciavam, chegava-lhe ao peito com uma certa doçura envolvida numa musicalidade cujos acordes lhe enchiam o coração. Agora esse mesmo pronúncio não conseguia nem sequer entrar nos seus ouvidos, tal era o mau odor de que entretanto se impregnara.

 

                                   Capítulo V

- Meu querido, mas isto é um sonho!

O doutor não era uma figura elegante, nem tão pouco gozava de uma presença por aí além. Tinha aproximadamente um metro e sessenta de altura, ombros grossos e estreitos, cabelos pretos, olhos castanhos. Usava óculos com lentes demasiado grossas e pesava cerca de oitenta quilos.

Logicamente, e, segundo opiniões femininas, não era pelo físico que as meninas lhe “caíam no prato”... Era sim, pela posição que tinha, pelo atrevimento e pelo dinheiro, sobretudo por isso.

Fosse assim ou não, a verdade é que não lhe faltavam meninas para todos os gostos e circunstâncias …

Desta vez, tratava-se da manicura do cabeleireiro onde ele habitualmente ia arranjar o cabelo, a barba e as unhas. Chamava-se Donzília, era alta, esbelta, tinha trinta e dois anos, rosto saturado pelas pinturas e o corpo algo flácido tantos os homens que já o haviam conhecido e massajado.

- Sim, minha borboletazinha Um sonho de loucura, um verdadeiro sonho de paixão! Anda, morde-me o peito, arrepia-me os cabelos, beija-me, lambe-me...

- Sim, meu querido, eu faço-te tudo, ninguém te ama mais do que eu.

Encontravam-se nus, na cama duma luxuosa suite num dos melhores hotéis de Paris, para onde tinham viajado depois do motorista os ter deixado no aeroporto.

Costumava viver a vida amorosa em casa das suas amantes, nos seus apartamentos, em hotéis e residenciais em Portugal. Porém, desta vez, em virtude do comportamento da filha, decidiu ir para mais longe, para lugares por ele menos frequentados. Queria viver tranquilamente a vida; e, para isso nada mais indicado do que um país estrangeiro, do que um bom hotel. Sim, porque o resto, a boneca articulada que se movia ao primeiro toque, som, e gesto de prazer por si emitido, tinha-a consigo, ao seu dispor.

- Que bom amor, que bom! Ah, ah! Não pares, meu sonho, meu mundo de túlipas e organdins!

Por nada trocava o sexo. Por um minuto de prazer à sua maneira, era capaz de se vender, de se trocar, de dar a volta ao mundo, de passar sobre tojos e cardos, pisar fornalhas em brasa, mentir inclusive, à sua própria mãe.

- Ó, flor, pluma de girassol, leva-me ás estrelas, à lua, aos céus, a todos os céus onde hajam deusas como tu! Não pares, não largues mete-me todo dentro de ti.

Fora exclusivamente por fingimento e interesse que desde o casamento até ao dia em que tomou conta da gerência das empresas, que sexualmente se sentira um escravo. Fazia amor somente com a sua mulher, pessoa que classificava frívola, pouco motivada para o seu género de relações sexuais. Com ela e, por sua exigência só havia amor vaginal, beijos rápidos, cuja iniciativa, ainda por cima tinha de ser sempre dele.

Suportou essas atitudes da mulher, enquanto as empresas não passaram para a sua mão, enquanto não se tornou importante, famoso. Depois, logo que conseguiu esse seu principal objectivo foi o rebentar da onda, o dar largas à sua imaginação para encontrar a presa. As primeiras foram as suas próprias trabalhadoras. Elas ganhavam mal e, muitas vezes só para não perderem o emprego lá iam com ele para a cama, o que para algumas delas, por funcionar quase como imposição pouco mais lhes fazia sentir do que um aconchegar de corpos e, para algumas nem isso. Enquanto que para outras, por serem mais matreiras, por se fazerem mais caras na concretização das pretensões dele, sobretudo na prática do sexo oral, essas, não só exigiam a subida de categoria, como levavam peças de vestuário, jóias de ouro e prata e até, se eram novas, elegantes e se portavam “bem”; um carro.

O facto de derivado ao dinheiro não ter dificuldade em concretizar as suas pretensões sexuais levou-o a pensar que as mulheres eram todas iguais, inclusive a sua, aquela com quem casara.

- Filha, filhinha do meu coração a boca e o ânus também servem para fazermos amor.

-O quê! Comigo, para mim isso!

Fora para ela momento terrivelmente orrendo:

Ela era filha de família nobre, herdando dos seus descendentes para além de uma educação esmerada, uma riqueza fabulosa. De muito cedo, praticamente desde o berço que vivia e convivia em ambiente distinto. Era de estatura média, tinha olhos e cabelos castanhos, cintura estreita e ancas proporcionais, enfim portadora duma elegância e apresentação invejáveis. Estudara em colégios e universidades particulares, concluindo o curso de bióloga com vinte e dois anos.

Nunca mais se ia esquecer do encerramento do curso, muito especialmente do baile de finalistas. Não era propriamente uma dançarina, embora tivesse tido aulas de ballet. Mas, o vestido bordado à mão, as duas camélias rochas espetadas no cabelo, as gargalhadas, os brados, as   brincadeiras, as praxes, o andar de braço para braço dos colegas que a faziam rodopiar ao som das valsas, viras e passo dobles, eram imagens únicas, inapagáveis da sua recordação.

Bonitos homens a fazerem-lhe a corte, não lhe faltavam, porém, o seu pai só via o Afonso, o seu actual marido, que no tempo era trabalhador na secção de contabilidade no escritório central das empresas, pessoa muito da sua confiança.

Quando lhe foi apresentado, não colheu a sua simpatia, longe disso, quase o ignorou:

- Minha filha, tens que pensar no futuro. A simpatia também se conquista.

- Sim pai, é verdade. E o resto, conquista-se com plásticas?

É natural que penses assim. Que queiras um homem alto, magro, musculado... enfim, um boneco. Mas, será esse boneco capaz de gerir as nossas empresas, todo o nosso património? Este, eu já sei quem é. Sei que está por dentro, que conhece o movimento, que está à altura não só de salvaguardar, como de aumentar o que já temos.

Nesse tempo, de maneira muito especial no seu meio, os pais comandavam inclusive, a vida dos filhos. Mais incisivamente das filhas. Ligado a tudo isso, para trancar ainda mais o “abre-te cesámo”, ela era filha única e gostava perdidamente do seu pai.

Primeiramente pela sua mão e, depois por iniciativa própria, o Afonso começou a aparecer lá por casa, frequentando a biblioteca e o escritório, para onde o pai a chamava para ouvir as explicações que ele lhe fazia acerca do movimento das empresas. Depois, os três começaram a percorrer a quinta, acabando a pouco e pouco, sempre com a administração do pai a serem somente os dois a fazê-lo.

Seguindo-se as idas ao cinema, teatro, as visitas aos museus, as idas a casas de modas, a exposições, a tudo de que ela falava e gostava. Bastava abrir a boca, e, muitas vezes nem isso, para que a companhia dele se disponibilizasse, inclusive para desempenhar eficazmente as funções de chofer.

 

                                       Capítulo VI

Com todo aquele procedimento e o agrado que o pai tinha por ele, era normal que ela fosse mudando de atitude… Longe estava porém de ser surpreendida durante um jantar em sua casa, onde foi pedida em casamento e lhe foi oferecido um bonito e valioso anel de noivado em ambiente absolutamente romantico: O Afonso com as luzes do tecto apagadas para darem lugar aos castiçais usados em momentos cerimoniais, fez uma vénia para pedir ao pai licença para se levantar e dizer duas palavras. Depois da licença concedida, num pequeno discurso muito bem elaborado manifestou-lhe o seu amor pela filha, pedindo-a em casamento.

A surpresa levou a mãe a corar, e através de uma troca de olhar questionou a filha acerca da atitude e do amor anunciado. Porém, o pai, única pessoa, para além do Afonso conhecedora do acontecimento, antecipando-se, não dando tempo para qualquer leitura, disse ser para ele uma honra ver a filha noiva de tão inteligente homem, esperando ainda poder acompanhá-los à igreja, vê-los felizes.

Durante o percurso do namoro e do casamento, o Afonso revelou-se duma gentileza impar: tratava-a por minha querida, meu amor, e por outros adjectivos idênticos, oferecia-lhe flores e prendas do seu agrado. Abria e fechava-lhe a porta do carro, era pontual e nunca prescindia da companhia dela.

Se não era plenamente feliz, andava, pelo menos, de mão dada com a felicidade.

Mas, esse balão estava envolto em interesse, em alguma fantasia. Acabando, como tudo o que é irreal, por começar a perder fulgor, esvaziando-se completamente com o falecimento do seu pai.

- Não gosto de álcool, nem sou de acreditar em bruxas. Porém, cheguei a pensar que andei embriagada, ou fui vítima das tais forças estranhas, para não conseguir ver a horrenda máscara que me ocultou um mundo repleto de imundas e negras casas, oficinas, fábricas de sexo, traiçoeiros castelos cheios de ilusão onde não brilha uma estrela. - Pensava ela conforme, com grande decepção, ia vendo o seu matrimónio desmoronar-se.

Mal se apanhou senhor dos bens, o Afonso alterou de imediato o seu comportamento. As flores acabaram, as prendas, quando as havia, eram para atingir objectivos, encobrir cinismos. Começou não só a abandoná-la, como a maltratá-la: passava dias e noites fora de casa, queria forçá-la a ter relações sexuais incompatíveis com o seu querer e maneira de ser; quase não consentia que saísse de casa, enfim, obrigava-a a uma vida de martírio que a pouco e pouco a ia conduzindo à loucura.

Por mais que lhe lembrasse o pai, e lhe dissesse que preferia que a abandonasse, ria-se e sarcasticamente dizia-lhe que lhe ia reservar um bom lugar no Júlio de Matos.

No dia em que ela decidiu dizer basta arranjando um advogado para tratar do divórcio, armou tal reboliço que nada escapou, chegando ao extremo de a privar, inclusive, de ver a filha, sabendo que isso para ela era horrendo que, a desfalecia psicologicamente.

 

                                             Capítulo VII

- O senhor doutor hoje pareceu-me bastante abatido. Será que está doente?

A observação era feita pelo chofer à Cristina quando a conduzia ao escritório da empresa e, deixara-a deveras embaraçada, não pelo que o “senhor doutor” lhe parecia, porque, se naquele momento dissesse o que lhe ia na alma, era que morresse, que fosse para o inferno, que o levasse o diabo. Mas, por ter sido apanhada de surpresa por uma questão que não lhe apetecia nada abordar, nem responder. Todavia, para não ser mal interpretada, julgada de pouca educação, disse em disfarce:

- Sim, ele ultimamente tem trabalhado muito...

- Ah, sim, sim. Com a aversão que tem aos médicos, se viesse por aí uma doença arranjava um grande problema.

Por não lhe apetecer continuar com a conversa, Cristina ficou em silêncio, fazendo porém, um esforço para mostrar um certo ar pesaroso que envolveu com um profundo suspiro. Suspiro esse que era na verdade sentido, não pelo pai, mas, pela ferida que lhe dilacerava o peito.

- Esta semanita de férias vai fazer-lhe bem.

Cristina quase deu um salto. Férias? Ele tinha ido uma semana de férias?! Era uma revelação importantíssima, uma vez que lhe ia possibilitar resolver as coisas com mais calma e tempo. Como desconhecia a situação, uma vez que apenas o tinha ouvido descer as escadas e o carro a sair da garagem, fez papel de hipócrita mais uma vez, o que sinceramente não lhe agradava nada:

- Não devia ser só uma semana, no entanto em virtude das contingências, espero bem que as aproveite.

Aproveitar, ah não que não ia! - pensou somente para si o chofer, com aquele “espadalhão” de mulher que o acompanhava, não tinha quaisquer dúvidas disso.

- Bem menina, estamos a chegar, onde deseja ficar?

A pergunta tão normal como adequada, deixara-a boquiaberta!

Poucas vezes tinha ido àquele escritório, não sabia muito bem onde ficava a secção do património. Se revelasse isso ao chofer, não teria dúvidas que ele não só lhe indicaria, como a levaria lá, na certeza de que o senhor doutor saberia de todos os passos que por ali dera, logo que entrasse no carro, senão ainda antes de regressar. Tal situação era contra producente, ia mesmo em total desfavor dos seus planos. Concerteza que o pai iria saber do que estava e iria fazer, todavia, queria que tal acontecesse o mais tarde possível.

- Pode deixar-me junto da entrada principal.

- Não quer que a conduza onde se vai dirigir? Veja lá, a menina sabe bem que conheço todos os cantos da casa!

- Sim, sim. Mas, desta vez sei onde me dirigir, obrigada.

Se a primeira pergunta do chofer a tinha deixado boquiaberta, o entrar nas instalações ainda a deixara muito mais. Sentia-se como que uma anormalzinha a olhar para a toponímica das salas e corredores à procura do que desejava.

Trabalhadores, fornecedores, clientes, etc., passavam por ela, mas nem uma palavra. Também, por sua vez, um pouco pelo seu orgulho próprio, e falta de concentração nada perguntava. Sabia que a secção existia e que era nela que se tratavam dos apartamentos, por isso havia de encontrá-la.

- Menina! Como está, passou bem?

Mais uma vez a perplexidade a apoderar-se dela ao ser reconhecida. Ao olhar para a pessoa viu que não a conhecia, que não fazia mesmo ideia nenhuma de quem se tratava, o que aumentou ainda mais a sua curiosidade.

- Chamo-me Teresa e trabalho na tesouraria, Posso ajudá-la?

Descansou por fim. O mistério estava desvendado. Devia tê-la visto em alguma das vezes que por lá andara em pequena.

- Obrigada, vou aqui para a secção do património.

- Sim, sim, fica no primeiro andar, se desejar, eu passo lá.

- Sendo assim aproveito, obrigada.

Era situação diferente da do chofer. Primeiro porque não lidava permanentemente com o pai; segundo, porque certamente ele não iria fazer um inquérito a todos os trabalhadores para saber quem andara, falara e acompanhara a filha! Além disso, também era uma questão de honra, de se sentir bem consigo própria. Sabia que o acto de superioridade e a arrogância por si já são defeitos, e, que quando excessivos não conduzem praticamente a nada.

- É aqui menina, disse Teresa abrindo-lhe a porta.

- Faça o favor de se sentar, em que posso ser-lhe útil?

Estava numa pequena sala com pouco movimento, onde um empregado com cerca de trinta anos, vestido de fato e gravata se lhe dirigia.

Olhou-o, pela expressão viu que não a conhecia e enquanto se sentava na cadeira almofadada que lhe oferecera, pensou como actuar: se como patroa, se como cliente.

Como patroa, e, uma vez que não era conhecida, podiam dizer-lhe que muito bem, que tinham muita pena, mas que só com a autorização do pai. Como cliente, embora ficasse a saber se tinham ou não apartamentos disponíveis, iam perguntar-lhe: como se chamava, onde morava, onde trabalhava, quanto auferia, etc., enfim, uma série de questões que certamente muito a iam embaraçar.

Porque a verdade era o seu caminho, foi por ela que seguiu:

- Chamo-me Cristina, fez uma pausa, olhou-o, esboçou um sorriso e continuou, Sou filha do patrão...

- Ah, do senhor doutor Afonso, dddesculpe, diga, faça o favor de dizer!

Sentiu o ar embaraçado do empregado e jogando isso a seu favor, continuou:

- Tenho umas coisas urgentes a tratar em Lisboa, preciso dum apartamento para alguns dias.

- Apartamento da casa, não é verdade?

- Sim, Sim.

- Um momento, eu volto já.

Enquanto o empregado se levantava e desaparecia para lá de um guarda-vento, ela pensou:

- Será que iria telefonar para o pai?

Não lhe convinha nada, mesmo nada que o fizesse, porque para além de ficar a saber da sua ausência, ia, tinha a certeza indisponibilizar o apartamento.

Nesse campo conhecia-o bem, sabia das suas fúrias, muito especialmente, como era o caso, nas situações em que se julgava ultrapassado. De qualquer modo, fosse qual fosse a decisão que dali levasse, a sua determinação não se alteraria. Podia alterar-se a forma de a pôr em prática, apenas isso. Mas, havia que aguardar. Apesar dos pequenos calafrios que a envolviam, manteve-se calma, fazendo todos os possíveis para demonstrar uma tranquilidade que na verdade, naquele momento não existia.

O estar ali, o que lhe acontecera, a forma como procedia, eram motivos geradores de intranquilidade. Isto sem falar da razão principal que ali a levara. Sim, porque essa, causava-lhe tão grande constrangimento e dor que tarde ou nunca iriam abandoná-la.  

- Queira desculpar a demora, disse o empregado enquanto se voltava a sentar e pousava em cima da mesa de trabalho um dossier.

Cristina nada acrescentara. Estava de pernas cruzadas, com as mãos entrelaçadas sobre a pequena mala que tinha no colo, e, assim continuou.

- Em Lisboa, temos um apartamento na avenida de Roma e depois só em Cascais...

- Que estão disponíveis, não é verdade?

Sentiu que se tinha antecipado, sintoma de nervosismo, de atrapalhação, o que perante um júri daria uma desclassificação. Para disfarçar, dar ideia de movimento, ritmo e segurança à sua maneira de ser, demonstrando, agora sim, ainda que sem razão sentida, o quanto lhe tinha custado a espera aquando da ausência dele, continuou:

- Sendo assim, quero o da avenida de Roma.

        - Concerteza. Vamos telefonar para o porteiro...

- Veja bem! Eu estou lá amanhã, de manhã, cedo!

Novamente a mesma estratégia, a dar ideia de responsabilidade, de não ter tempo a perder. Só que desta vez ele quase se antecipou, respondendo praticamente ao mesmo tempo:

        - Pode ir hoje mesmo, se o desejar. Como disse, da minha parte, e, porque assim está estabelecido, é só avisar o porteiro do prédio.

- Não, vou só amanhã.

- Diz-nos já quando deixa o apartamento, ou informa depois?

- Informo depois.

- Concerteza, estamos ao seu inteiro dispor.

Depois do empregado lhe ter dado um cartão com a morada do apartamento, e ter tomado algumas notas no dossier, e, quando levantava a cabeça e a olhava em confirmação de que da parte dele estava tudo, ela levantou-se e ia a estender-lhe a mão para se despedir:

- Por favor, um momento, eu acompanho-a até à porta.

Este comportamento, este ritual, por não fazerem parte dos hábitos de Cristina, mexeram um pouco com a sua personalidade. Fizeram-na sentir maior... uma personagem dum outro mundo.

 

                                       Capítulo VIII

- Mimi! Então que se passa?

A governanta, mais uma vez parecia a Senhora das Dores, tanto era o pranto, os soluços e as rezas.

- Oh, a menina nem queira saber, tem estado para aí num vale de lágrimas!

- Então mas porquê?

- Ora, estava preocupada. Diz que a menina se foi embora sem dizer nada.

- Mimi, não tens que estar assim. Eu já te disse que...

- Mas, nunca aconteceu, menina!

- Pois, aconteceu hoje, e vai acontecer mais vezes.

Aproximou-se da governanta, concertou-lhe os cabelos, totalmente desgrenhados e caídos pela fronte, fez-lhe uma carícia na face e continuou:

- Mimi, eu já te disse que a criança desta casa acabou. Convence-te disso Mimi, convence-te disso!

Quer a governanta, quer Laurinda, olharam-na com uma expressão que mais continha medo do que preocupação.

Viram-na sempre parecendo uma maria-rapaz. Não parava um só momento: ora correndo, andando de bicicleta e a cavalo, ora brincando, andando às cavalitas do pai e até subindo às árvores. Numa palavra, parecia uma autêntica criança. Ah, e exibia um sorriso que contagiava toda a gente. E, agora, dum momento para o outro, sem se saber porquê, transformara-se totalmente: Mostrava-se cizuda, falava sério, com muita convicção, exprimia-se de forma adulta, enfim, como dizia a governanta, estava igualzinha à Mãe.

 

                                           Capítulo IX

Depois de passar pelo quarto, onde mudou de roupa para ficar mais fresca, Cristina dirigiu-se para a biblioteca. Apetecia-lhe pegar num livro, concentrar-se, pensar, fazer o balanço, amadurecer, definir as ideias que como sucessão de figuras evoluíam em autêntico corrupio pelo seu cérebro, causando-lhe um cansaço algo febril.

Ainda se chegou a sentar numa cadeira, mas ao deparar com a fotografia do pai, a decepção foi tão grande que baixou a cabeça e mudou rapidamente de lugar.

Todavia, apesar da sua nova posição, para onde quer que olhasse, parecia vê-lo, como naquele dia...

Arrepiada, com as tripas quase a chegarem-lhe à boca e com vómitos, levantou-se e foi para a janela.

O sol tinha desaparecido há uma boa hora e meia, pelo que a penumbra da noite invadia o espaço e dava vida a milhões de estrelas, astros, planetas e vias lácteas, fixou o seu olhar e pensamento na bonita e linda lua cheia, mais intensamente no seu interior, para tentar decifrar se as pequenas e movimentadas manchas negras que via eram a de um homem com uma forquilha com silvas às costas, que como sua avó dizia, ali fora colocado de castigo, por ter sido apanhado por Deus a trabalhar ao Domingo.

Sabia que era uma história como tantas outras, mas o pensar, o fixar-se no abstracto, actuava como aspirador, uma vez que a ia libertando das imagens que a atordiam, e as ia substituindo com lufadas de ar fresco que lhe arrefeciam a fronte, purificavam o sangue e traziam ao cérebro a disponibilidade pretendida para a planificação e execução das suas ideias.

- Menina, pode constipar-se! O relento da noite é frio, faz mal!

- Ainda bem que apareces, Mimi. Vem cá, senta-te aqui.

A agilidade e dinamismo com que se mexera, causaram espanto à governanta que, conforme seguia ao seu encontro ia dizendo:

-Eu, venho só chamar a menina para vir jantar, a comida está pronta.

- Está bem, temos tempo, temos muito tempo. Senta-te, senta-te. Ora muito bem, vens penteadinha, com os olhos secos, com ar de pessoa responsável,   é assim mesmo que te gosto de ver.

- Mas, menina, ando muito preocupada...

- Sim, é sobre isso que vamos falar. Mimi, como já disse a minha vida alterou-se profundamente...

- Mas porquê menina?! É por causa do seu paizinho não é, mas o que é que ele lhe fez?

- Mimi, eu um dia conto-te.

- Foi por causa daquele rapaz, daquele seu amigo, não foi? Ele não gosta dele pois não?

Cristina tinha agarrado numa esferográfica que ia rodando entre os dedos e assim continuou sem mudar o semblante nem o ritmo, apenas baixou o olhar no sentido das mãos:

- Mimi, eu vou sair desta casa, vou-me embora.

- Menina! Não me diga isso, tem aqui tudo, não encontra em mais lado nenhum uma Quinta como esta!

- Pois não Mimi, mas, por agora   não é isso que me preocupa. O que quero saber, o que quero que me digas, é se posso contar contigo, se te posso levar comigo.

- Oh, meu Deus, então eu ia lá largar a menina! Pode sim, claro que pode. Enquanto eu tiver forças e a menina quiser, estarei sempre, sempre ao seu lado.

Uma lágrima começou a deslizar-lhe pelo rosto. Lembrou-se da mãe dela, das palavras que muitas vezes lhe repetia:

- “Emília, olha pela minha Tininha. Nunca a deixes, olha por ela Emília, nunca a deixes”.

- Não quero choro, Mimi. Neste momento ele tira-me a força. E preciso muito dela para sair daqui, para formar outra casa, para fazer muita coisa, mesmo muita coisa...

Como é normal, Cristina pensava que o pranto da governanta, era de pieguice, da protecção algo exagerada que frequentemente lhe manifestava. Não fazendo ideia que era resultante do respeito e desejo de cumprir o pedido que lhe fizera a sua mãezinha.

O engraçado da situação, é que, sem saberem uma da outra, ambas tinham um segredo que, apesar da confiança e do respeito mútuo que sentiam, não revelavam, antes guardavam religiosamente dentro de si.

- Mimi, eu amanhã de manhã cedo vou a Lisboa ver do apartamento...

- Que apartamento menina, que apartamento?

- Um da empresa.

- Ah!

- Entretanto queria que visses de roupa para as camas e toalhas para as casas de banho e tudo o mais que entendas ser-nos preciso.

- Mas para quanto tempo menina?

- Para sempre, para sempre Mimi.

- Mas, também é preciso levar talheres, louças, toalhas de mesa, guardanapos, naprons..

- Mimi, achas que sim, que é preciso tudo isso?

- Menina, claro que é preciso. Não sei é se a menina quer levar tudo daqui, ou ir comprando conforme formos precisando.

- Sim, sim é melhor irmos comprando, não achas?

- Acho sim menina. Eu só quero o seu bem. Que tenha sorte, que tenha toda a sorte do mundo.

- Eu sei Mimi. Eu sei que posso contar contigo.

Eram palavras verdadeiras e sentidas as que Cristina pronunciava. Embora não soubesse, não lhe passasse sequer pela cabeça o pedido que a mãe fizera à governanta. Gostava muito dela, ao ponto de saber que nesta altura era a única pessoa que a acarinhava, que se preocupava sinceramente com ela. Porém, se tudo isto era verdade, não era menos verdade que o facto de a levar consigo não era devido apenas a essa ligação, mas, também com o facto dela, dentro duma casa não saber fazer nada, absolutamente nada.

- Ser-lhe-ia fácil criticar quem quer que fosse por essa situação. Todavia, antes de o fazer a alguém, tinha de o fazer a si própria, por, independentemente de onde, ou de quem quer que fosse a procedência, se ter deixado levar por conceitos, promessas, palavras bonitas.

Nunca o adágio: “Não há bem que sempre dure, nem mal que se não ature”, se tinha adaptado tão bem a uma vivência.

 

                                     Capítulo X

O pai de Cristina é que não estava para meias medidas. Enquanto a filha mergulhava afincada e decididamente na execução dos planos da sua nova vida, não se poupando a esforços para conseguir pôr em prática as suas pretensões, ele, sem fazer ideia, nem se importar sequer dessa situação, uma vez que nem telefonava para casa nem para o escritório da empresa, vivia, em Paris, mais propriamente no hotel Ritz momentos de prazer e satisfação como jamais havia vivido:

- Querido, queridinho, ai o meu rabinho! Ele dói, ele dói, tira, tira só um bocadinho, eu não aguento!

Nunca encontrara mulher tão bonita e tão versátil. Desde que chegaram à suite do hotel que não mais pisaram a alcatifa do lado de fora da porta. Nus ,em pêlo, ali comiam, bebiam, faziam amor, sobretudo ele, que não parava de se encher de sexo, tal o prazer que lhe dava essa vivência, cuja loucura o embriagava, fazia vibrar e viver realizações que lhe estavam no sangue.

Donzília fora a primeira a acordar.

A vivência durante a noite tinha sido grande, no entanto, como vibrava e sentia menos entusiasmo, logicamente que o cansaço também era menor.

Depois de se ter levantado de forma a não acordar o doutor, abriu as cortinas da janela para à luz do dia ver um pouco daquela cidade que desde há muito ansiava conhecer. Porém a decepção foi grande, quando através da embaciada vidraça deparou com um tempo chuvoso, muito cinzento que não lhe dava visibilidade para além de uma escassa meia dúzia de metros onde apenas via o terraço e alguns candeeiros de luzes meio moribundas, o que era praticamente nada para quem queria conhecer Paris.

Perante isso, optou por ir para a casa de banho afim de iniciar a sua rotina matinal. O duche semi-frio para enrijar o corpo e o espírito soubera-lhe maravilhosamente, o que não estava a acontecer com a sua imagem transmitida pelo espelho: a touca branca apertada na cabeça para segurar os ganchos e o cabelo, os olhos pequenos afundados e circundados por uma aureola escura, os traços das sobrancelhas desaparecidos, toda a pele do rosto áspera e amarelecida pelo sol das praias do Algarve e os lábios rubros e inchados davam-lhe ideia de mais parecer um buda do que uma mulher, o que a levou a estremecer, a semi-tapar o rosto com as mãos abertas, enquanto procurava a bolsa de toallete para fazer uso dos cremes e tintas para recuperar a imagem habitual.

Já adequadamente arranjada para a saída prometida, e, como o doutor continuava a dormir quase a sono profundo e uma vez que o empregado do hotel já tinha trazido o pequeno almoço, decidiu-se por ir tomá-lo e preparar o dele:

- Senhor doutor! Vamos a acordar se faz favor, está aqui o seu pequeno almoço!

- O tabuleiro coberto com um pano de linho, levava leite, café, sumo de laranja, pão, brioches, queijo, fiambre, doce de amora, uma maçã descascada, água e guardanapos de papel.

- Já?! Ainda não me apetece.

- Apetece, apetece, sim! Temos de ir às compras.

O doutor desviou o lençol Deixando a descoberto o corpo totalmente nu...

- Mas antes vamos... vamos fazer coisinhas... meu torrãozinho de alicante!

Estendeu os braços, ia para agarrá-la...

- Nem pense doutor, nem pense.

- À sim? Então não há compras.

Encontrava-se já vestida, pronta para sair, e, foi sentar-se num sofá de pele vermelha de costas altas e concavas, invadida por grande tristeza e algum choro.

Estava ali ia para dois dias e duas noites e o que fizera fora comer, dormir e sexo, afinal, aquilo que já tinha feito inúmeras vezes sem ter que se deslocar a Paris.

Os prometidos passeios para conhecer toda aquela bonita cidade e a visita a altas casas de costura e aos grandes monumentos parisienses, estavam ali entre aquelas quatro paredes onde a fartura se chamava beijos, palavras bonitas, apalpar pontos sensíveis de dois corpos impregnados de orgasmos e esperma, que pela parte que lhe dizia respeito, muitas vezes lhe sabia mais a agonia do que a prazer.

- Podes levar o tabuleiro.

Como se encontrava meio de costas, ouvindo-o apenas a mastigar e a mexer nos copos, chávenas e talheres, não deu por ele ter terminado:

- Estava bom o pequeno almoço?

- Muito mais amargoso do que o costume.

Ele levantou-se, aproximou-se lentamente e sentou-se nas pernas dela. Acariciou-lhe a face, os lábios, beijou-a nos olhos e começou-lhe a desabotoar o vestido grená.

- Doutor, mas, então... não vamos passear!

- Vamos, claro que vamos, é só para recordar, para fazer uma festinha, minha amêndoazinha.

- Bem, bem, veja lá!

Simultaneamente, com ela praticamente paralizada, meteu a mão pelo sutien, afastou-o e beijou-lhe os mamilos. Mas quando se pôs de pé, se encostou a ela e lhe puxou a cabeça, ela deu-lhe um pequeno empurrão e fugiu-lhe, ao mesmo tempo que com ar zangado ia dizendo:

- Quer sujar-me toda, e depois? Não vê que é o vestido que mais gosto!

- Vais ter muitos vestidos, fatos, muitos colares, tudo o que tu quiseres e gostes mais.

Já junto dela, usando das mesmas falas e meiguices, ia para continuar, o que ela voltou a não consentir ao pôr-se de pé, e ir para junto da janela de onde ia dizendo:

- Não, já disse.

Tinha consciência que se acedesse, ia continuar no mínimo reclusa...

É certo que não tinha vindo para Paris forçada, nem era a primeira, nem tão pouco a quarta ou quinta vez que estava com ele. Porém, se sempre tinha cedido, se sempre lhe tinha feito as vontadinhas, naquele momento, porque já sabia o resultado, não o ia fazer. E, se o fizesse, antes havia de o moer, demonstrar-lhe que não era uma manteiguinha a desfazer-se ao mínimo gesto da sua faca.

 

                                               Capítulo XI

Cristina fizera a viajem de táxi. Contribuiu para isso o facto de não estar muito familiarizada com Lisboa e, querer chegar ao apartamento o mais depressa possível.

- Bom dia.

O porteiro encontrava-se vestido com calças cinzentas escuras, camisa creme, gravata e camisola grená, sentado a uma secretária situada a um canto do hall de entrada do edifício.

- Bom dia. Faça favor de dizer?

- O meu nome é Cristina...

O porteiro deu um salto, como impulsionado por uma mola, levantou-se, ficou de pé, e como obediente soldado, quase em posição de sentido, disse:

- Ah, e vem pelo apartamento, não é verdade? Faça favor aqui tem a chave, fica no quinto andar direito.

- Muito obrigada.

O porteiro deslocou-se até ao elevador onde Cristina entrou voltando a agradecer.

Ia curiosa de saber que espécie de instalações a esperavam. Abriu a porta com alguma ansiedade e, logo da entrada viu que o apartamento estava mobilado devido aos sofás que ali mesmo aos seus pés lhe davam as boas-vindas. Depois de verificar que circundavam uma mezinha de centro feita de vidro entalhado em madeira preta, deslocou-se para o interior afim de tomar conhecimento da estrutura: dois quartos, uma sala, cozinha e casa de banho, para além do hall que pela a apresentação funcionava como sala de estar. Era razoável, tendo em conta que também se encontrava mobilado. Precisava de algum arranjo na sua nudez, sobretudo na decoração, assim como nos candeeiros; coisas para a Mimi se encarregar, uma vez que, tal como dizia: adorava tratar dessas coisitas.

Não se importou nem com a disposição, nem com a qualidade do mobiliário. O moinho de ideias e preocupações que girava no seu cérebro, era mais preocupante do que o mogno, nogueira, carvalho, que o castanho, arroxeado ou semi-amarelo que compusessem a qualidade e cor dos móveis. Naquele momento, tudo o que queria era um refúgio que lhe permitisse pensar e agir com tranquilidade e paz, o que não conseguia dentro da Quinta, apesar do ouro e prata que praticamente forravam as suas paredes.

Em virtude das atitudes do pai, estava numa fase em que os bens materiais pouco ou nada lhe diziam. Também não chegava ao exagero duma cabana, dormir no chão, comer azedas, vestir-se de cascas de árvores, etc. Enveredaria por esse caminho, em situações extremas; por agora se o fizesse era como dar razão ao pai, deixá-lo usufruir de todo um património de toda uma riqueza que também já lhe pertencia em virtude da morte da mãe. Mas isso eram rosários para outras alturas, para mais tarde, onde tudo se desenrolaria de acordo com o mexer dos ventos e dos tempos.    

Na sua mão, no respeitante ao campo financeiro pouco mais tinha do que quando nascera. O que a movia e influenciava irremediavelmente nas posições que estava a tomar era a raiva que arduamente mordia dentro de si, originada pelo amor falso, pela imensidão de atitudes irracionais hipocritamente escondidas nos seres humanos.

Mimi, na Quinta, não parava. Por todo o lado da casa eram malas, caixas, caixotes, sacos e coisas avulso. Andava, parava, abria e fechava gavetas, portas de móveis e arcas, sempre tolhida pelo receio de que faltasse alguma coisa que a menina quisesse.

- Oh, dona Emilia, para que raio é esta coisa toda? Até parece que vai mudar de casa, mulher!

- Não são contas do teu rosário, pois não? Então cala-te.

- Eu só queria ver o senhor doutor entrar agora por aqui a dentro!

- Figas, cruzes, longe vaia o agoiro! Vai-te embora ave agoirenta, desaparece daqui, vai para a cozinha.

-Vou para a cozinha, não é? Pois fique sabendo que quando vier a menina e, já que você não me diz nada, eu quero saber tudo. E se pensa que vou ficar aqui, está redondamente enganada.

- Cala-te, cala-te rapariga, tu não sabes o que dizes.

- Ah, não?! Pois isso é o que vamos ver.

- Oh, Mimi, mas, o que é isto?

Embrenhadas que estavam na discussão, não deram pelo barulho do taxi, nem sequer pela entrada da Cristina.

- Foi o que a menina me mandou arranjar.

Ficara espantada com a agilidade e timbre de voz da governanta. Pensava vê-la triste, saudosa... no entanto, encontrava-a irrequieta, com uma dinâmica e ousadia que há muito não lhe vira.

- Isto tudo?! Eu disse que era só o indispensável Mimi.

- E o que é que pensa que está aqui? Nem para duas mudas de roupa dá!

- O problema, vai ser para levarmos estas malas, estes caixotes, isto tudo…

- Conversando tudo se arranja.

- A menina dá-me licença, eu queria muito falar consigo.

Com este pedido de Laurinda, Cristina pensou que tivesse existido discussão. Até porque não era normal não darem pela sua chegada, e, sobretudo a Laurinda estar tão desarranjada.

- Por acaso, não se zangaram, pois não?

- Não, não. Ela só me perguntou para que era isto e, eu disse-lhe que não sabia, mais nada, não houve mais nada menina.

- Laurinda, então venha cá.

Cristina desceu as escadas e dirigiu-se para a sala de estar do rés-do-chão, para onde foi seguida pela empregada mais nova da casa.

- Sente-se Laurinda e, faça o favor de dizer.

- Menina eu peço muita desculpa, mas gostava que me dissesse se alguém se vai ausentar desta casa.

-Sim, vou eu e a dona Emília.

-Menina, por aquilo que vejo, vão por muito tempo, não é verdade?

-Ainda não sei bem, mas, em princípio será por muito tempo, sim. Mas, porque pergunta isso?

- Apenas para informar que não fico sozinha aqui nesta casa.

- Não, a Laurinda não fica sozinha, ficam os caseiros, os criados, o pessoal da fazenda...

- Não é a esses que me refiro...

- Ah, esqueci-me, também cá fica o senhor doutor.

-Pois, se não ficar nem a Menina, nem a dona Emília, eu tão bem não fico. E é escusado pedir, quando não serei a primeira a sair.

-Já agora pode saber-se porquê?

- Não tenho mais nada a dizer, senão que me avisem quando saírem, para ir convosco.

A última questão da Cristina, tinha como objectivo tentar saber as razões, e, se por ventura existia alguma especial. A resposta não fora muito esclarecedora, porém, não ia continuar. Não tinha tempo, nem via necessidade disso. Sabia sim, que o pai quando regressasse ia encontrar a casa fechada. E a pena dela era tanta que não ia deixar nenhuma justificação, nenhuma palavra nem recado a anunciar o que quer que fosse.

Estava a vê-lo abismado, de olhos esbugalhados e dentes cerrados quando deparasse com a porta fechada e as luzes apagadas e totalmente esbaforido a dar murros na parede quando tocasse a campainha e ninguém lhe aparecesse. Perante essa situação se alguma pena tinha, era de não presenciar a cena à distância e sublinhá-la com gargalhadas de escarno.

 

                                         Capítulo XII

Cristina queria levar alguns livros. Não era propriamente uma grande leitora, mas gostava de ler, havendo determinados momentos, sobretudo nos últimos três, quatro anos que se sentia bem com o olhar a esvoaçar sobre as palavras, independentemente de ser na poesia ou na prosa. O importante para si era o que lhe transmitiam, uma vez que era através delas que enriquecia os seus conhecimentos, fundamentalmente a ortografia e o vocabulário sem esquecer a imaginação, vendo-se muitas vezes no desempenho do papel das personagens e a viajar de acordo com as descrições apresentadas.

Os seus autores preferidos estavam entre os escritores portugueses, havendo dois ou três anglo-saxónicos que ia lendo, fundamentalmente para não esquecer a língua inglesa.

Conforme, por entre os milhares de livros que haviam por ali na biblioteca, ia escolhendo os do seu agrado, colocava-os em cima da mesa rectangular feita de pau rosa muito trabalhada, onde já se encontravam umas boas dezenas deles.

- Menina, quase não a via!

Cristina estava de cócoras à procura do Auto da Barca do Inferno, da autoria de Gil Vicente que se encontrava precisamente nas últimas filas da estante.

- Estou aqui deste lado, Mimi.

- Ah, anda a escolher livros! Olhe nisso é que eu não a posso ajudar. Primeiro porque me perdia no meio de tanto volume, segundo porque a minha vista já não atinge bem sem óculos.

- Não é preciso, tu já trabalhaste muito.

- Mas menina, estes que estão em cima desta mesa são os que vai levar?

- Sim, são esses, mais um ou outro que ainda vou escolher.

- Ó, menina mas tem aqui livros tão bonitos com capas de cabedal, com letras douradas, e está a levar estes, alguns deles já tão velhos!

- Não tem nada a ver, uma coisa com a outra, Mimi. Esses livros primorosamente encadernados, não são os que mais gosto...

- Ai, não diga isso menina! O seu avozinho não ia gostar nada de ouvir. Olhe que andou aqui um senhor dias e dias a fazê-los, dizendo ele que eram para os seus netos lerem.

-E tu sabes que já os li. Agora quero levar outros, mais adequados, que me sinta melhor a lê-los, percebes?

-Pois, ‘tá bem menina, pois ‘tá bem. Mas, o que eu vinha dizer à menina era se podia pedir ao caseiro para começar a levar aqueles volumes lá para baixo, para desocuparmos o espaço e ficarem mais à mão de carregar.

- Ó, Mimi, isso nem parece teu! Chama, faz o que tu entenderes, tu percebes mais disso do que eu. Também podes ir pensando como vamos levar isto para Lisboa.

- Então menina, manda-se vir uma camioneta da casa, e, pronto.

-Não Mimi. Não quero carro nenhum da casa a fazer isso.

A governanta ia para dizer que achava isso um disparate, no entanto receosa que derivado à sensibilidade que Cristina ultimamente demonstrava a interpretasse mal, pensou mais um pouco, acabando por dizer:

- Só se formos ao lugar falar com o senhor Artur, ele costuma fazer mudanças de mobílias.

- Exactamente, muito bem. Trata disso.

- Sim. Mas a Menina tem de se habituar a estas coisas. Num amanhã, que se Deus quiser não virá muito longe, quando estiver à frente disto tudo, tem de saber mandar!

Cristina ergueu-se, olhou para a governanta e ficou pensativa. Que quereria ela dizer, onde quereria chegar com aquilo?!

O olhar das duas encontrou-se, vendo Cristina nos olhos meios lívidos da governanta um clarão muito prateado que a fez estremecer, parecendo mesmo sentir uma mão a acariciar-lhe suavemente o coração.

Os olhares, como colados, foram-se afastando em perfeita simbiose sentindo-se Cristina como que hipnotizada ao ser levada pelo olhar da governanta até ao retrato da mãe, que como os dos seus descendentes, se encontrava muito bem emoldurado e fixo na parede central da biblioteca.

- Ah, menina, não nos podemos esquecer de levar a fotografia da sua mãezinha!

- Porquê, só o da minha mãe?

Pelo rosto da governanta deslizaram umas lagriminhas. E, enquanto ia tirando a moldura, disse:

- Eu depois digo, menina; Eu depois digo.

 

                                   Capítulo XIII

Junto da janela, Donzília tentava incidir a sua atenção no sol que via lá fora a começar a raiar, a meter-se por entre a bruma que formava consideráveis gotas de humidade que se despenhavam desvairadamente pelo solo.

Conforme o seu ansioso olhar ia conseguindo alcançar mais longe, pousando em prédios de pedra tosca e trabalhada; montras e placares repletos de luzes multicores; travessas, ruas, avenidas; pessoas, automóveis e ambulâncias; enfim, em todo um caminho, todo um mundo permanentemente em mutação na sua imaginação, maior era a sua predisposição de não cedência e o desejo de se separar, ainda que temporariamente daquele espaço, onde os sofás, cadeiras, mesas, camas, cortinados, etc., eram muito bonitos, mas, para ontem, logo ou   amanhã.

Não se ia embora, nem tão pouco estava zangada. Também não era o ir ou não com ele para a cama, afinal já tinha fingido tantos gemidos e orgasmos que seriam mais uns; assim como também não eram as compras; ele enchia-lhe a casa, pagava-lhe inclusive a renda; era sim um vazio que desde há algum tempo sentia e que, mais uma vez tinha sido muito avivado quando há cerca de uma hora se vira ao espelho: tinha praticamente trinta e dois anos; levava a mesma vida que iniciara aos dezassete; em casa ficaram os dois filhos de pais diferentes; ali ao lado tinha um homem que lhe dava praticamente tudo... e, com tudo isto, sentia-se sem nada! E o que era gravoso, começava a deixar de gostar de si!

Não tinha ainda perfeita consciência do que queria, do rumo que dar à vida. Ficava até algo surpreendida quando estes pensamentos e imagens a assaltavam, parecendo-lhe por isso, serem mais resultantes duma saturação física do que duma recusa do próprio pensamento.

É certo que a profissão de manicure era muito preenchida e lhe dava até momentos de fantasia quando usava as tintas para arranjar não só as unhas e os cabelos dos cavalheiros e das senhoras, mas também a púbis e outras partes intimas destas. Aí, pelas coxas, nádegas e virilhas em vez de arranjar os pelos e eliminar verrugas, apetecia-lhe fazer pinturas, tatuar meninas e meninos, bandeiras, corações, ou não tivesse ela também o curso de tatuagem.  

Todavia, existia uma imagem, um julgamento dessas actividades que sabia não ser muito bem defendido por si, por algum do seu comportamento. Enfim, tanta preocupação, tanta dúvida, tanto mistério! Daí, talvez a única coisa que parecia saber, era que levava uma vida em que algumas vivências pareciam chocar-se com o seu verdadeiro sentimento.

Entregue que estava a todo um murmurinho de ideias e preocupações nem deu pelo doutor se aproximar.

Quando se apercebeu já estava envolvida por trás, agarrada pelos ombros e a ser beijada na nuca e na boca como ele nunca o tinha feito:

- Então não vens, não tens pena de mim?

- Não se trata de ter pena ou não ter pena. Trata-se de cumprir o que prometeu esta noite.

- Amor, eu vou cumprir; mas, antes quero ter-te todinha.

- Depois, depois senhor doutor.

- És assim tão orgulhosa?!

-Não sei se sou orgulhosa. Sei que sou sensível e que não gosto que me mintam. Não peço nada a ninguém. Sou capaz de dar tudo. Mas quando sinto que me estão a usar, a querer brincar comigo, há algo em mim que se revolta, fundamentalmente quando isso aparece de pessoas que penso que estão fartas de saber que gosto delas, que as amo...

Uma lágrima, algo falsa, que ela se apressou a matar com uma almofada de pó de arroz, ia a deslizar-lhe pela face.

- Pronto, pronto, vamos embora, respondeu ele enquanto a largava e corria para a casa de banho, tomava duche e lhe pedia para ir tirando a camisa branca e o fato azul claro do guarda-fato.

Quando saíram do hotel, o “trenó” branco alugado com chofer esperava-os.

Era o primeiro contacto de Donzília com o ar diurno e com o chão de Paris.

Afonso entrara imediatamente no carro, enquanto ela, através dos seus óculos acastanhados mirava quase metro a metro a calçada, os prédios, os postes, as montras, o tudo existente no seu ângulo de visão naquela vislumbrante Place Vandôme onde se encontravam.

- Para as Galerias Lafayette, por favor.

O chofer deu meia volta ao carro e encaminhou-se para a avenida da L’Opera afim de atingir o local solicitado.

Afonso e Donzília seguiam no banco de trás. Ele olhava, mas, por princípio ou talvez pelo percurso não ser novidade, não se manifestava. Enquanto ela não se calava, tal a curiosidade no tudo que ia vendo pelo caminho:

- Olha aquelas luzes, aquela estátua, olha aqueles bonecos a saltarem nas montras que parecem macacos...

- Chiu, fala baixo.

Não se calava. O deslumbre e agora o sentido de liberdade eram tais que mereciam toda a sua exaltação e entrega para deles retirar eternas fotos.

- Aquela árvore tem uma copa que faz lembrar um tartulho! As pessoas parecem formigas encarreiradas! E os carros, ui nossa senhora, andam a mais de cem à hora!

- Cala-te, fala para dentro.

Porém, a explusão não o permitia. Parecia que tinha saído dum presídio, que já não via sol há anos.

-Ai, o que é aquilo além tão esquelético e tão alto?

-É a torre Eiffel. Se te calares, depois vamos lá.

- Olha e também vamos ver o Sena, a Notre Dame, o bateaux mouche, o museu do Louvre...

- Sim, vamos, desde que te cales.

- Desculpem, não sei se é deste lado que desejam ficar?

- Pode ser sim, respondeu ele em francês, tal como o chofer o havia usado.

Assim que deixaram o carro, depararam-se com um luxuoso edíficio de estrutura muito antiga, sem pinturas, estilo rocóco, deixando visíveis as pedras castanhas que o constituíam.

O vislumbre da Donzília atingiu o itane quando chegou ao seu interior, tal a beleza estonteante que se opunha à sua frente: vários pisos em circulo, cada um com sua especialidade, colmatando num tecto com uma cúpula de vidro minuciosamente trabalhado e ornamentado a ouro.

No meio de ”tremendo tesouro”, Donzília quase se esquecia do objectivo que ali os levara, as compras.

O seu olhar saltitava, ora pousando nas pinturas, nas vidraças, nos permanentes efeitos de ornamentação; ora nas   secções de ourivesaria, alta costura de cavalheiro , senhora e criança, inspirando os maravilhosos cheiros que provinham do andar específico dos luxuosos restaurantes.

- Por onde queres começar, perguntou ele fitando-a nos olhos?

- Não sei. Sinceramente não sei.

- Então, não querias vir às compras?!

Se a expressão envolvia algum veneno, alguma malícia ou crítica, ela não a atingira, embasbacada que estava com a estrutura, fundamentalmente com a beleza do tecto do edifício.

Por incrível que pareça, enquanto ela ia vivendo a sua embriaguez, não saindo de junto da ornamentação central do edifício, ora olhando para o fundo, ora para o cimo; era ele quem ia escolhendo as peças :

- Este talleir é muito bonito, não é?

- Sim, não desgosto da cor nem do feitio.

Mal acabava de experimentar as roupas corria para continuar a admirar toda aquela estrutura que para si era uma obra-prima.

- Para que é isto? Murmurou ela com algum espanto quando ele lhe entregou uma pequena mala com roupa e lhe colocou no braço uma espessa pulseira de ouro repleta de brilhantes.

- É para não julgares mal e seres mais doce.

 

                                         Capítulo XIV

Os caixotes, malas e outros volumes pareciam alcatruzes de nora em movimento, tal era a forma como iam sendo descarregados e a fila que formavam pelo chão conforme iam deixando a pequena camioneta.

A governanta assistia de perto ao descarregamento, não tirando o olhar de cima dos homens para que o efectuassem com cuidado, afim de que nada se destruísse.

- Hei lá, para onde é que isso vem!? Devem vir enganados concerteza.

Cristina encontrava-se no outro lado da camioneta a olhar atentamente para a maneira como um dos homens desprendia a corda que amarrava o caixote dos seus livros.

- Menina, menina venha cá, está aqui um senhor a dizer que vimos enganados!

O corpo da governanta tremia como vara verde, tal era a sua intranquilidade. A todo o momento lhe passava pela cabeça que alguém a mandado do senhor doutor pudesse impedir tudo aquilo. Fora assim desde o momento em que começara a encaixotar as coisas; a vê-las dentro da camioneta, fora da Quinta, continuando ali, não acabando nem quando tudo já estivesse arrumado no apartamento.

A aflição não tinha a ver bem com ela, mas com a sua menina. Não sabia o que podia suceder-lhe se tal acontecesse! Ela estava a fugir do pai por um caminho espinhoso, cheio de cardos, não sabendo bem se ela conseguiria vencê-los. A mãe também começara assim. No entanto, com o andar do tempo, conforme os acontecimentos se iam desenrolando, os escolhos voltaram-se contra ela própria, acabando no caixão. Como iria ser com a sua menina!?

-Não te aflijas Mimi, não te aflijas. Senhor porteiro, qual é o problema?

-É... esta coisa... estes volumes!

-Esta coisa, estes volumes, são meus. São para levar para o quinto andar.

-Mas já lá esteve muita gente e nunca ninguém trouxe tanta coisa!

-Pois, acontece desta vez, simplesmente porque eu venho para ficar uns dias.

-Ah, sim! Só que um dos elevadores encontra-se avariado...

-Não faz mal. A pressa não é muita.

A governanta estava boquiaberta com a espontaneidade e poder de decisão da sua menina. Não a conhecia... que diferença tinha! Quando a via a saltar à corda, a andar nos cavalos, às cavalitas e abraçada ao pai, a acariciar os seus animaizinhos, metida por entre as flores, nunca pensou vê-la senhora de tanta energia, capaz de decidir pronta e convictamente como o estava e vinha fazendo. Como ela se sentia orgulhosa da sua menina! Oxalá... a vida não a traísse!

Não era pessoa de ir permanentemente à igreja. A sua religiosidade, desde que começara a conhecer e a lidar com pessoas que passavam o tempo a bater com a mão no peito, mas, que mal saíam da igreja, senão quando ainda dentro dela, tinham comportamentos de desrespeito, injustiça e agressividade pelo seu semelhante; era exercida mais fundamentalmente através da fé. E por aí, por essa ser a expressão do seu sentir, do bater da sua alma e do seu coração, ninguém lhe tirava da cabeça que aquela posição, maneira de estar e comportamento tinha a influência da mãe. Como seria?! Avisá-la-ia dos perigos, pegar-lhe-ia pela mão para a desviar, para lhe dizer que tinha de ter muita precaução. Que o abismo era grande, repleto de desamor, amor fingido e interesseiro. Que as palavras tinham dois gumes feitos de audácia e veneno onde nem a balança de S. Miguel tinha perícia para os definir, pesar, impedir de atingir inocentes, meter neles a justiça que os pudesse dissolver antes de causarem malefícios!. Na cabeça da governanta tudo se movia, até as recordações, os segredos que guardava...!

     -Como é, podemos começar a carregar?...

-Sim, sim, venha atrás de mim.

Conforme os dois homens carregavam às costas volumes para seguirem com Cristina, assim a governanta, que ficara ali para que nada desaparecesse, lhes ia dizendo para terem cuidado, para não sujarem nem partirem nada.

- Ouviu, a menina disse para ir ter com ela lá em cima...

- Ai meu Deus. E quem é que fica aqui a guardar as coisas!

- Então, o porteiro. Ele está ali como um policia. Não tira os olhos de cima de nós.

- Mimi, devias ter vindo comigo, eu não sei onde se arruma isto!

Na verdade, arrumações não eram o seu forte. Não sabia dobrar um guardanapo, limpar um talher, nem fazer uma cama. Precisamente porque desde que nascera teve sempre quem o fizesse, tal como acontecera com sua mãe e avós.

- Ora essa, nem eu queria que a menina se metesse nisso!

Num repente, a mando da governanta tudo foi acomodado dentro do apartamento, de forma a poder fechar-se a porta. Sim, porque pôr as coisas no lugar ia demorar o seu tempo, tal era a exigência e o desejo da governanta de servir a sua menina.

 

                                         Capítulo XV

A semana em Paris tinha terminado. Donzília e Afonso sentiam-se plenamente felizes: Ele porque nunca tinha encontrado mulher que tanto o satisfizesse sexualmente, ela porque nunca se vira tão cheia de prendas e repleta de sensações agradáveis causadas pelos passeios e visitas que tinham efectuado: para além do Museu do Louvre, da Torre Eiffel, da Notre Damme, etc., o Arco do Triunfo e a viagem do bateaux Mouche foram, para ela igualmente encantadores. Sobretudo este último. À medida que o barco avançava lentamente sobre as calmas águas do Cena e os altifalantes iam anunciando os sítios históricos por onde passavam, os olhos dela pareciam janelas a abrirem e a fecharem tal a sua ansiedade de saber, de apreciar, de fixar.

Quando ouvia clientes seus falarem de Paris e de muitos dos seus marcos históricos, sonhara muitas vezes com eles, nunca os vendo porém, como na verdade eram:       

- Que bonita que é a estátua da Liberdade!

- Sim não é feia.

-E aquela Ilha da Cidade…Que maravilha, que beleza, não me importava nada de lá viver.

Não parava de dizer nomes, fixava-os com uma facilidade admirável incluindo pequenos pormenores, cuja identificação deixava o próprio Afonso espantado:

-Que linda a estátua ao soldado desconhecido e todas aquelas luzes acerca do Armistício!

- Mas, onde é que raio tu viste essa coisa?! Eu já por aqui passei não sei quantas vezes e não vejo nada disso!

No cérebro dele as imagens eram outras, tal o delírio com que tinha vivido todos aqueles dias.

A vivência do acto sexual movia-se no seu pensamento como um moinho que queria alcançar todo o vento, para moer mais depressa, para chegar mais longe, muito especialmente para poder ser mais apreciado, Ter mais clientela...

A prática e as cedências, sobretudo estas, levavam a que quase não pudesse ver uma mulher que não começasse a idealizar-se por ela dentro. Recebendo algumas vezes como troca más respostas e até gestos nada dignos da sua vida social, o que ultrapassava com relativa facilidade sobretudo, quando estava em locais e junto de pessoas desconhecidas.

Porém, com esta estava tudo bem. Tinha cedido a algumas vontades, todavia, em contrapartida tinha-se inundado de sexo. Conhecia muitas mulheres, mas como ela nunca vira! Se ele queria, ela já estava à espera, nunca se cansando, estando sempre disposta para continuar não só no que ele pretendia, como até em gestos e novas maneiras que ela já conhecia ou inventava. Daí o desejo, sobretudo nos primeiros dias de não querer sair do hotel, tão grande a satisfação de se sentir beijado, lambido e chupado dos pés à cabeça.

Não tinha esposa, mas caso assim não fosse, tinha de estar alguns quinze dias sem se despir na sua frente tantas eram as manchas negras, bem visíveis por todo o corpo dele.

No meio de tudo isto ele não era homem para apreciar o encanto, a beleza do corpo da mulher. Trabalhava-o como um ferreiro, à forja e à bigorna. Enquanto dela exigia que tratasse o seu com mãos de cego... para sentir vibrantemente todas as partes sensíveis e cair ofegante, louco de prazer.

Chegava a assustar o estado em que ficava depois do orgasmo. Para além do gemido, quase ronco que emitia, torcia-se, agarrava a mulher com grande gana e, no fim, sem fala, com a respiração no máximo, ficava inerte, de olhos fechados, como que à espera que o mundo acabasse ali.

 

                                      Capítulo XVI

Como o avião chegara de madrugada, o Doutor e a sua “boneca” deslocaram-se de táxi. Ele costumava, em tais circunstâncias proceder assim, para segundo dizia, não massar o chofer àquela hora.

Deixara Donzília em casa, sendo ele próprio a levar as suas malas até ao hall de entrada, onde se despediram silenciosamente para não acordar as crianças.

Quando chegou à quinta o portão encontrava-se fechado, o que não o surpreendeu por aí além, o mesmo não acontecendo com a falta de luz junto da porta de entrada. Aí a perplexidade mexeu consigo, no entanto como não se encontrava só, não lhe deu grande atenção, limitando-se, um pouco disfarçadamente, a escolher a claridade dum candeeiro da rua para pagar ao taxista.

Quando meteu a chave, abriu a porta e viu tudo às escuras, aí sim, não só a perplexidade como a preocupação começaram a agitá-lo. O estrondo das malas ao serem atiradas desamparadamente pelo chão era suficiente para acordar quem quer que fosse, por mais pegado no sono que estivesse. Ao sentir que o silêncio continuava acendeu a luz, olhou em redor e tremeu fortemente ao ver a sombra dum gato preto que se deslocava da cozinha para a dispensa.

- Emília!!! Gritou descontroladamente.

- Laurinda!!! Gritou ainda com mais força.

Como ninguém falou nem apareceu, deu um pontapé na mala pequena que encontrou no caminho e deslocou-se apreçada e descontroladamente até à porta do quarto delas onde bateu e voltou a chamar. Perante o silêncio, abriu a porta e ao deparar com tudo às escuras, subiu as escadas num salto e foi para o quarto da filha onde bateu e abriu simultaneamente a porta.

O desmaio e a paranóia quase se apoderam dele, tendo mesmo que se apoiar numa das ombreiras para não cair. Até ali, embora tudo lhe parecesse estranho chegou a admitir, ainda que levemente que as empregadas estivessem de folga, porém agora, ao deparar com o silêncio, com o escuro e a cama da filha apenas com os colchões nus, não vendo fotografias nem objectos de toailete, nem as bonecas, nem os peluches que por ali abundavam, o coração quase cria saltar-lhe do peito tão grande era a raiva que o movia e que despejou com um forte murro na parede:

- Mas, que é isto, que aconteceu nesta casa?! Gritava interiormente, de forma desesperada   com as mãos cerradas encostadas à ombreira da porta do quarto.

Não era pessoa para se arrepender dos seus actos, nem dar a mão mesmo quando reconhecia que não tinha razão. Viera do nada, subira pela sua inteligência e capacidade revelada no trabalho que exercia, mas faltava-lhe a cultura, a formação e a humildade, dados importantes, senão fundamentais para quem como ele lidava com pessoas, dependendo delas toda a sua vida económica e financeira. Isto para não falar na familiar, porque por aí, pelos vistos, a desvinculação era total.

-Senhor doutor, dá-me licença?

Desamarrou as mãos, desencostou-se da ombreira, limpou o catarro da garganta com duas pequenas tossidelas e perguntou:

- Quem é?

- O caseiro, senhor doutor.

Meditou um pouco, talvez para encontrar forma de se desculpabilizar de o não ter reconhecido, o que em outras circunstâncias nunca sucederia:

- Sim, António, diz lá.

- Como ouvi barulho, lembrei-me de vir ver se o senhor Doutor precisava de alguma coisa.

Ainda com pequenas tossidelas a limpar o efeito dos nervos acumulados na garganta, desceu as escadas lentamente e aproximou-se do caseiro e da mulher que se encontravam no rés-do-chão à entrada da porta.

- Olha lá António, sabes-me dizer para onde foi este pessoal?

-Bem, senhor doutor, para onde foram não sei.

-Mas, não deste por nada, nin... niinguém falou contigo?

-Dei, senhor doutor. Dei por vir aí uma camioneta carregar coisas...

-Como, como?

-Sim...

-Mas que coisas, António, mas que coisas!?

-Caixotes, vários volumes.. Foi… foi isso que eu vi senhor doutor.

-Mas dados por quem, quem é que os levou?

-Como disse, quem os levou foi uma camioneta. Quem os deu foi a D. Emília e a Menina. A menina, senhor doutor, que se foi despedir de nós a chorar.

As palavras do caseiro terminaram embrenhadas em alguma comoção, enquanto a mulher chorava mesmo, limpando até o pranto com o lenço que tirou do bolso do casacão que tinha vestido por decima da camisa de dormir.

-E não disseram nada, para onde iam, ou...

- Nada senhor doutor, não disseram nada.

- E quando foi isso?

- Foi no principio da semana, senhor doutor.

-E... de então para cá não soubeste de nada?

-De nada, senhor doutor. Não soube de nada.

Os caseiros fixaram os olhos no chão. Estavam profundamente comovidos. Não pelo interrogatório, mas pela frieza como estava a ser feito. Falaram na menina, nas suas lágrimas, sem que isso tivesse contribuído para alterar a altivez e a frieza das palavras do doutor. Não queriam questionar o facto de ele nada saber acerca do que se passara naquela casa durante a sua ausência, o que não lhes passava despercebido era a culpabilidade dele transmitida na expressão do rosto, no regalar dos olhos, na desmedida e inabitual agitação que demonstrava.

- Não consigo compreender isto!

Os caseiros nada responderam, mas interiormente apareceram-lhes várias dúvidas e interrogações, que só pela sua situação de dependência, calaram dentro de si.

- Pronto, uma vez que nada sabem, podem ir-se embora.

 

                                   Capítulo VII

Com que então... uma camioneta... que levou coisas! Conforme, tomado pela raiva, Afonso   ia pronunciando para si estas e outras expressões, resultantes do descontrole em que se encontrava, ia olhando à sua volta: cozinha, sala de estar, quarto das empregadas, hall de entrada, paredes:

- Não. Por aqui parece não faltar nada.

Sempre em observação, subiu as escadas, foi ao quarto de hóspedes, sala de jantar, biblioteca, escritório, paredes, candeeiros, e, igualmente não deu por falta de nada.

- Bem, pelos vistos foram só os peluches...

A explosão de raiva atingiu o auge quando chegou ao seu quarto e viu a cama por fazer, tal qual como a deixara quando saíra:

-Cambada de cadelas!! Gritou desesperadamente ao mesmo tempo que caía algo desamparado num dos cadeirões.

A casa estava totalmente iluminada. Do rés-do-chão ao telhado tudo eram luzes acesas, no entanto, de olhos abertos ele via-se num profundo escuro, tão tenebroso que o tolheu de medo.

Nunca se vira tão desamparado! Porém, reconhecê-lo era cair no abismo, no choro, na lamentação, num mundo que repudiava, que expulsava permanentemente da sua vida. Reconhece-lo, era penitenciar-se dos graves erros e atitudes que, sobretudo a nível familiar vinha cometendo. Lembrá-los era pôr uma coleira ao pescoço e, como domável cachorro correr desalmadamente em busca do “dono”, de alguém querido que o amparasse.

Mas, onde estava essa pessoa querida?

Na rua sim, tinha algumas. Porém, essas não eram aquelas que lhe podiam valer, uma vez que o amor era de oportunidade, de interesses. Nunca capaz de lhe abrir os braços, recebê-lo como a mulher e a filha.

Precisamente aquelas que ele não queria lembrar, para não chorar, redimir-se de tantas e tantas atitudes horrorosas, suficientes para levar qualquer pessoa humilde encetar uma correria em pedido de perdão.

Num salto, como mordido por um escorpião, afastou-se e começou a andar de lado para lado à procura, ora das chaves do carro que estavam na garagem, ora do casaco que tinha vestido, da gravata que continuava no seu pescoço, enfim, à procura de tudo e de nada, tal era a aflição, o desespero.

A certa altura pareceu começar a ver sombras ao seu redor, aí o medo passou também a fazer parte do já complicado estado em que se encontrava. Nessa altura, correu para a porta de entrada a verificar se estava fechada, e depois de dar umas quantas voltas pelo espaço da casa, deu consigo a abrir um dos bares onde agarrou numa garrafa de brandy ainda do tempo do sogro, a tirar-lhe a rolha, a pô-la à boca e beber desalmadamente. Depois pousou a garrafa, voltou a olhar à sua volta e a ficar pensativo, a lembrar:

- Uma camioneta, coisas, volumes...

Pôs de novo a garrafa à boca para mais uma boa golada, deixando-se cair num sofá que estava perto:

- Pensaram-na bem, as putas. Mas que grandes cadelas! Não há dúvida que as putas...

Novo golo até despejar a garrafa que desfez em mais de mil pedaços contra a parede: A cabeça começou a pender-lhe sobre o peito, ao mesmo tempo que ia dizendo:

- Putas, cadelas, eu vou ensinar-vos… sim, vou ensinar-vos a conhecer o dono.

 

                               Capítulo XVIII

O apartamento estava finalmente arrumado. Dona Emília conseguira meter “o Rossio na rua da betesga”, isto é, arranjar espaço para tudo:

-Bravo Mimi, afinal tinhas razão; há sempre lugar para mais uma coisa.

-É a experiência menina, é a experiência! São muitos anos a ver, a observar, a arranjar consensos, espaço para muitas coisas...

-Sim, sempre tenho ouvido dizer que “o diabo sabe muito porque é velho!”

- Menina!

- Desculpa Mimi. Foi uma brincadeira. Na verdade tu mereces tudo. Confesso que não tinha metido aqui nem metade. E só quem não viu a resma que estava ali à entrada é que não se admira, porque quem viu afirmaria que existe por aí algum armazém escondido.

Olhe menina, na casa de meus pais dormíamos quatro na mesma cama, dois com a cabeça para um lado, dois com a cabeça para o outro e os pés para o centro; às vezes, sobretudo quando vinha o Inverno , a roupa era tanta ou tão pouca que a rasgávamos, de tanto puxar por ela, e muitas vezes até dormíamos vestidos. E o quarto, não era nada como aqui, só cabia a cama, não havia guarda-fatos nem cadeiras. Isto menina, só quem passou por elas. Para mim, foi-me sempre mais difícil arranjar as coisas do que o lugar para as acomodar.

E, na verdade a prova estava ali, tal era a arrumação e o esmero. Desde o chão ao tecto, tudo estava dignamente apresentável. O que era lixo fora para a rua e o que ficara estava esmeradamente condicionado.

- Mas, menina, ainda falta arrumar uma coisa.

- Que coisa Mimi?

- Este quadro menina, este quadro.

-Ah, o retrato...

- Sim menina, o retrato da sua mãezinha. Já ensaiei vários lados mas não gostei de o ver em nenhum.

-Que dizes aqui por cima deste móvel?

-Acho que fica muito escondido.

-Então... e se ficasse aqui no hall de entrada?

-Fica muito sozinho. Praticamente só estão por aqui os sofás, o cinzeiro de pé alto e a cantoneira de meia lua.

- E, se for aqui nesta parede por cima desta porta?

- Não gosto, menina, não gosto. Fica de costas para quem está à mesa da sala de jantar.

- Então, só se for num dos nossos quartos.

- No seu, menina, no seu.

- SSSSim, mas porquê no meu!?

- A sua mãezinha vai ficar muito feliz. Ela...

- Achas que sim?

- Tenho a certeza menina, tenho a certeza.

-Porquê essa certeza, Mimi?

Emília aproximou-se do retrato, cortou o fio, tirou o pano e   o papel de celofane que o resguardava e colocou-o em cima duma mesa encostada à parede, defronte dum duplo maple:

-Parece mesmo uma santa!... Sente-se aqui menina, sente-se aqui. A sua mãe menina, gostava muito de si. Eu sou fiel testemunha disso. Vi-a muitas vezes chorar, agarrada a si...

A comoção ia para tolhê-la, porém, ela não o permitiu, tinha de continuar e uma interrupção desse género podia estragar tudo.

- Ela, teve uma vida muito difícil...

Cristina concertou-se no maple e fixou o olhar no sério, quase sisudo, semblante da Mimi:

-Ela era a menina bonita dos seus avós. Eles não viam outra coisa. Tinham tanto orgulho nela... quando ela se formou fizeram uma festa onde não faltaram colegas nem professores. Matou-se um vitelo, dois carneiros dos maiores e veio uma cozinheira de fora fazer a comida. Não faltou nada menina, não faltou nada. Depois, veio o casamento, e os problemas menina, e os problemas...

- Que problemas, Mimi, arranjados por quem?

- Ora, pelo seu pai...

- Então, ele não gostava da minha mãe?

-O casamento foi arranjado pelo seu avô. E, depois dele morrer a desunião na casa nunca mais parou.

-Mas por causa de quem?

-Ora, menina, de quem? De quem é que acha que poderia ser?

-Do... do meu pai?

-Do seu pai, menina, exactamente do seu pai. Ele era empregado da casa e, quando subiu a patrão o diabo, Deus me perdoe, tomou conta dele. Eu assisti a coisas naquela casa, que só Deus, menina que só Deus sabe...

- Sim! Então?

- Quando um dia, às escondidas, a fui encontrar, praticamente despida amarrada a cama...

- Amarrada à cama?

-Sim, menina. E, se fosse só isso! Quando eu a fui encontrar... Desta vez a comoção apoderou-se mesmo dela, o pranto jorrava-lhe pelas faces como água em cascata, e o corpo tremia, tremia tanto que assustou Cristina:

- Mimi, Mimi, não chores, não tremas, continua, continua eu quero saber tudo, Mimi, eu quero saber tudo!

- Tem de ficar para outra altura, menina, tem de ficar para outra altura.

Cristina afagou-lhe o rosto, depois, agarrou no quadro e levou-o para o seu quarto, fixando-o na parede ao fundo da cama.

- Mimi, anda cá, depressa, anda cá.

Não se sentia muito bem, no entanto não podia deixar de corresponder ao pedido:

-Diga menina, diga lá.

-Que achas Mimi, que achas?

Estava à entrada da porta do quarto. Ao olhar para o quadro e conforme se ia deslocando para o ver mais de frente, parecia sentir acenderem-se centenas de velas à sua volta, tal o brilho que vinha não só do vidro da moldura, como dos próprios olhos.

- Penso que está muito bem, não menina?

- Mimi, quando o estava a fixar e agora que o olho bem de frente, é engano, ou eu tenho parecenças com a minha mãe?

-Parecenças não. A menina é exactamente a cara dela. Mimi soluçou e continuou baixinho: Talvez por isso é que aquele malandrão...

-O que dizes Mimi, o que dizes?

-Nada menina, não ligue, é cá para os meus botões.

 

                                           Capítulo XIX

Afonso quase não se reconhecia, nem sabia onde estava. Tinha o casaco, a camisa e o sofá vomitados; o chão repleto de vidros e de malas espalhadas; toda a casa iluminada pelas luzes e pelo sol que através duma janela lhe beijava os pés.

Fez um enorme esforço para se levantar. Porém, o corpo estava tão tolhido que mal conseguiu mexer levemente o dorso. Tentou lembrar-se, todavia o cérebro era um enxame em movimento, sirenes a apitar, grilos, cigarras, ralos a cantar, enfim, um turbilhão de sons e apitos que o confundiam e atormentavam.    

Não estava habituado a beber tanto e isso causara-lhe uma dor de cabeça, e um tal mau estar, que lhe tirava a memória e fazia rodar tudo em sua volta.

Suspirava fundo, esfregava o rosto e a fronte, fechava e abria os olhos, tentava levantar-se, mas nada. Nem um passo. A cabeça pesava arrobas, o estômago ardia como fel, a boca exarava um odor de causar agonias.

Depois de várias tentativas, conseguiu por fim pôr-se de pé e meio cambaleante chegar à casa de banho que se encontrava a dois passos.

Desapertou e desceu as calças, sentou-se na sanita e com os cotovelos sobre os joelhos apoiou a cabeça nas mãos e começou a fazer esforço para lembrar-se de como tinha vindo para ali, como tudo acontecera.

Durante alguns momentos e apesar do esforço, o que lhe vinha à cabeça eram dores e náuseas, tal o estado em que o deixara a embriaguez. Depois, perante a insistência, algumas ideias começaram-lhe a aflorar na memória, sem contudo ser capaz de as definir nem conjugar.

O primeiro sintoma viera-lhe através das malas totalmente desarrumadas ali na sua frente: Paris, Hotel Ritz, mulher, sexo, o maravilhoso mundo de sonho que o envolvera durante uma semana.

O pensamento queria seguir no mesmo ritmo, continuar a percorrer a estrada onde tudo estava presente. Porém, ele temendo o porquê das imagens expostas, em si, pelo chão e por toda a casa, tentou fixar-se, ficar por ali, preso ao prazer dessas recordações.

- Foda-se, deixem-me em paz! Gritava interiormente conforme a imagem da filha, dos vidros pelo chão, do vomitado, da cama por fazer o queriam assaltar:

- Desapareçam, porra, deixem-me em paz!

Tinha medo, muito medo dessas recordações, não só pela vergonha que lhe causavam, mas porque as via capazes e suficientes para ferirem a sua reputação... rebaixar a sua posição social e poderem levar ao escândalo, situação nada benéfica para o mundo empresarial onde estava inserido.

Era interessante a luta travada entre o seu consciente e a sua vontade. O primeiro queria que ele recordasse tudo, enquanto a Segunda apenas o transportava ás imagens até ao momento em que deixou as malas, se despediu da Donzília.

Era uma luta interessante, mas para outra altura. Estava exausto, diminuído física e moralmente, incapaz de lutar fosse contra quem fosse.

Porém, o pensamento queria continuar. Por sua vez ele queria parar, mudar de assunto, ir para outros caminhos que lhe dessem outras imagens. Só que o esforço e todo o desejo pretendido não eram suficientes para pôr termo à peleja entre aqueles dois estados de alma, faltando-lhe armas, sobretudo para apagar os despojos que se lhe deparavam ali mesmo na sua frente.

A luta era grande, todavia as armas foram insuficientes para vencer a verdade, a dura verdade que ele queria esconder de si próprio.

Num grito de revolta, de enxameada expulsão, deu um murro na parede e disse:

- Grandes cabras, grandes putas, podem-se mijar todas que não me vão escapar!!!

Porque o espectáculo que se lhe apresentava era demasiado ridículo, Afonso tentou por ele próprio resolvê-lo: limpou o sofá, os vidros, arrumou as malas, enfim, apagou as pistas, a seu ver, mais propícias de denunciar a tal reputação que com tanto brio defendia.

- Senhor doutor?

Quase caiu por terra. Acabava de arrumar o balde e o pano com que tinha limpo o chão quando bateram à porta.

Não sabia o que fazer nem onde se meter, tal o estado ridículo em que se encontrava. Pelo sim pelo não aproximou-se lentamente da porta e, ao ver que era a caseira decidiu abri-la. Era bom que ela o visse, que tomasse conta do que andava a fazer para ter pena dele, lamentar o comportamento da filha e das empregadas.

- Sim, sim diga!

- O senhor doutor precisa de alguma coisa?

- Não, não Celestina, obrigado.

-Veja lá, não estamos aqui para outra coisa.

-Não se preocupem, eu já vou falar convosco.

Apeteceu perguntar-lhe a que horas tinha a filha saído, para onde tinha ido a Laurinda e a quem pertencia a camioneta que tinha levado as coisas. Porém, o estado não era o melhor, parecia um empregado de limpezas... por isso essas questões ficariam para mais tarde, para quando estivesse mais calmo e devidamente apresentável.

 

                                         Capítulo XX

O sol prateava toda a cidade incidindo esplendorosamente nas paredes do apartamento viradas para nascente.

Cristina, fora do que era habitual, levantara-se mais cedo e não resistira aos soalheiros raios que lhe invadiam o quarto, pelo que foi sentar-se na cadeira de balanço situada na varanda onde eles mais incidiam:

- Bom dia menina, já se levantou?!

- Sim Mimi. Está aqui muito bom. Anda cá quero-te contar uma coisa…

A dona Emília acabava de abrir uma das janelas da sala onde andava em limpeza, e como não podia deixar de ser, correspondeu de imediato à solicitação:

- Diga lá menina, parece-me bem disposta!

- Mimi, sabes que tive um sonho muito giro esta noite?

- Não menina, não sei...

- Claro que não sabes, mas eu vou contar-te. Sonhei que já vivi aqui neste apartamento. Era pequenina, gatinhava por toda a casa e, vinha para aqui apanhar sol com a minha mãe.

- Pois, é bem verdade...

- Queres dizer-me que o sonho é verdadeiro!

- Sim, claro que é verdadeiro. Em pequenina a menina passou mais tempo neste apartamento do que na Quinta. A sua mãe trazia-me com ela e passámos aqui muitos dias as três.

- E o meu pai?

Dona Emília ia para revelar mais coisas, atitudes que levavam a mãe a abandonar o marido para vir em busca do sossego e da paz, porém, inibiu-se de o fazer, talvez por não querer alterar a boa disposição que via na sua menina.

- Passava por aí de vez em quando com o chofer.

- Ah!

- Pois menina, era assim.

- E, então eu andava por aqui...

- A menina era tão traquina que saltava do berço e arrojava o rabinho e as pernocas pelo chão, e como a sua mãe vinha muito para esta varanda a menina vinha até aqui sozinha, passando horas ao seu colo e a falar com ela...

- A falar com ela?!

- Bem, é uma maneira de dizer, palrava, palrava tanto que a sua mãe fazia consigo um diálogo como se tratasse duma adulta, o que me deixava espantada. Descrevia-lhe todas as janelas e portas, a cor dos prédios, as árvores, os jardins, enfim tudo que existe por aqui à volta.

- Mas se eu era pequenina...

- Olhe menina, claro que era pequenina. Agora que olhava para o que a sua mãe dizia e saltava-lhe no colo de contentamento, era uma verdade. Uma verdade tão grande que a sua mãe me chamava para presenciar essas atitudes da menina que eram mesmo de admirar e de bradar aos céus!

- E eu, quais eram as minhas reacções?

- Encostava a cara e a cabeça ao rosto de sua mãe parecendo pedir-lhe para agarrar na sua língua e meter na sua cabeça palavras e pensamentos de pessoas crescidas. Isto para não falar da expressão do rosto e do olhar, porque esses sim, faziam tantas perguntas, simulavam tantas coisas que nos deixavam muitas vezes desejosos de sabermos o que nos queriam dizer.

- E depois, se não me compreendiam?

- Compreendíamos, compreendíamos, bastava dar-lhe um beijinho, sorrir, ou dizer-lhe coisinhas bonitas para que a menina caísse num sorriso e numa lamuria de nos deixar estarrecidas de contentamento.

- Como é engraçado ouvir-te dizer essas coisas!

- É mesmo verdade que a menina gosta?

- Gosto, claro que gosto. É como transportar-me a outros tempos, onde nada me incomodava, onde era bom ser criança, Ter carinhos, estar distante deste mundo onde todos se atropelam e atraiçoam em busca muitas vezes do vazio, do que não presta.

- É bem verdade menina, é bem verdade. Isto é como se costuma dizer: anda meio mundo para enganar o outro meio.

O desejo da dona Emília não era travar as questões, mas sim desenvolvê-las com as vivências   desastrosas passadas entre os pais. Dentro dela havia uma força que a incentivava a dizer-lhe tudo aquilo a que assistiu e que era mais possível de passar-se em casa de pessoas “anormais”, do que em casa de senhores industriais onde a riqueza era a capa que tudo encobria. Porém, era melhor assim. A menina estava bem disposta, as recordações da infância estavam a fazê-la reviver imagens que, a seu ver a bem dispunham, por isso   havia que alimentá-la para manter esse mundo. Porque o outro, o real, não iriam faltar oportunidades para lho revelar.

- Menina, desculpe lá, mas tenho que ir à rua, quando não, não temos almoço.

- Sim Mimi. Eu também me vou arranjar para ir à faculdade ver das hipóteses de continuar os estudos.

 

                                         Capítulo XX

Quando Cristina se preparava para sair de casa, sentiu meterem a chave à porta, pensando naturalmente que era a Mimi, ficando a aguardar que ela a chamasse, lhe dirigisse as boas-vindas, as palavras mimosiadas como sempre.

Mas, heis senão quando, muito surpreendentemente a voz e gestos do pai irrompem, desta vez, com alguma calma pelo meio do silêncio:

- Bom dia... Com que então aproveitou a minha ausência e veio passear para Lisboa?!

- Cristina não queria pensa,r quanto mais acreditar no que via e ouvia. O pavor paralisou-a de tal modo que deixara cair a carteira, o pequeno casaco de malha que segurava nas mãos e só não deixou cair os braços porque estavam bem agarrados ao corpo. Desta vez até ficou incapaz de se virar, de se mexer...

- Mas...

- Ia para perguntar-lhe como se atrevia, como a tinha descoberto. Todavia ele interditando-lhe o pensamento continuou:

- Fizeste bem vir descansar. O tempo está bom e o apartamento precisa de uso.

As palavras transmitiam uma calma incrível. Dir-se-ia que envolviam um polimento capaz de seduzir o demónio, por mais exaltado que estivesse. Ela própria se sentia espantada com tal arte, com tal hipocrisia. Estava sozinha, fora surpreendentemente surpreendida o que, para além de lhe tirar tranquilidade, fê-la até sentir arrepios de algum medo. Depois, e, conforme ia ouvindo os passos dele na sua direcção, impelida pelo estado e por reflexos de experiências anteriores, virou-se, quase num salto e com voz agressiva disse:

-Engana-se, não vim descansar, vim para ficar.

-Claro, para ficares uns dias, para mudares de ares, para te distraíres durante algum tempo. Penso que sim, aliás não vejo qualquer mal nisso, afinal são coisas de que todos nós necessitamos.

Mudar de ares, distrair... como se atrevia a dizer tal coisa se praticamente não conhecia ninguém em Lisboa!

Aquelas palavras, a doçura com que eram pronunciadas só podiam ter uma intenção, adormecê-la, iludi-la, quebrar-lhe o ímpeto, tentar levar tudo a bem para a fazer esquecer... Só que ela estava consciente de tudo. Bastou ouvi-lo para que, como potentoso torpedo a raiva   explodisse dentro de si:

-Mudar de ares, distrair-me, como se atreve a dizer isso quando sabe, muito bem que não tenho por aqui nem família nem amigos??

-Mas, há os teatros, os cinemas...

- Espantoso, puramente espantoso, aquele que nunca me deixou pôr o pé fora de casa, que via mal em tudo e em todos, desfolha agora, na minha cara as idas ao cinema e aos teatros. Na verdade, isto só se for para rir!

- Não. Eu disse que vim para ficar; para ficar aqui para sempre...

- Pois, mas sabes bem que isso não é possível. O apartamento está continuamente a ser preciso para vinda dos engenheiros da empresa, além disso temos a nossa casa lá na Quinta.

-Para a Quinta, nem morta! Pelo menos enquanto você lá estiver.

-Então filha, que é lá isso?!

- Por favor, não me volte com essa. Eu já disse que não sou mais sua filha, que você é indigno de ser meu pai.

-Isso já passou, já lá vai...

-Já lá vai, já passou, como se atreve?! Vê-se mesmo que não tem escrúpulos, que é capaz...

-Então, filhinha...

-Ai, que rico, chamar-me agora filhinha!

-Agora não. Foi sempre assim...

-Eu sei, não me esqueci. É por isso que o odeio, que o odeio ainda mais.

-Chega...

-É por me recordar que interiorizava essas palavras como verdadeiras, e me agarrava a si com a expressão de carinho com que as recebia, que agora me envergonho, me envergonho de si ao saber que elas tinham sentido diferente, que estavam envolvidas em segundas intenções, atitudes de podridão.

-Basta. Nunca mais digas isso na minha frente. Tu vais para a Quinta e vais mesmo.

Cristina esburacava-lhe na ferida, dizia-lhe o que não queria ouvir e, isso estava a perturbá-lo terrivelmente, não consentindo, aliás como era habitual que ela discutisse, que lhe dissesse as verdades.

-Para a Quinta! Quer apanhar-me lá para novamente me violar, não é?

-Então, então, isso...

-Você é um porco, um porco sujo. Merecia ser morto. Todo o pai que viola uma filha devia ser cortado aos bocados, vivo.

-Então filha, não passou de uma brincadeira...

-De uma brincadeira, a forma como você me beijou...

-Não podes afirmar isso, ninguém viu...

-Mais uma vez você a demonstrar que não tem consciência, que os seus sentimentos são piores que os de qualquer ser irracional. Mas esteja descansado, vi eu, ouvi eu, senti eu e chega. Contrariamente a si, tenho sentimentos que acusam o bem e o mal que me fazem. E este mal que você me fez não tem esquecimento possível, vai comigo até à cova.

-Vás ver que não é assim. Nós vamos ter uma longa conversa.

- Conversas consigo, nem pelo telefone. Você é indigno. Por umas gramas de sexo é capaz de tudo, inclusive de cometer as maiores atrocidades mesmo com aqueles que lhe são mais queridos...

-Vamos a acabar com isso. Se voltas a falar assim comigo, não sei, olha que não sei...

- Quando você saía comigo, me levava a passear, ensinava-me a cavalgar e quando, muito disfarçadamente me punha as mãos nos seios, e depois quando eu regressava me ajudava, com muita elegância a descer do cavalo me beijava, querendo algumas vezes fazê-lo nos lábios, nunca pensei que esses seus gestos estivessem envolvidos em malícia, em segundas intenções...

- E não estavam...

- Não estavam?! E então porque naquele dia, sabendo-me sozinha em casa me invadiu o quarto, me abraçou, depois me levantou a camisola me acariciou e beijou os seios e me meteu a mão por debaixo do vestido, e quando eu me apercebi da sua intenção e reagi, você não me largou, querendo chegar cada vez mais longe, acabando, perante o esforço para me libertar por ficar com um pedaço das minhas cuecas na mão! Hipócrita. Um grande hipócrita é aquilo que você é...

- Cala-te, anda já comigo para a Quinta...

- Isso queria você, mas não vai ter esse prazer.

Como autêntico leão enraivecido, atirou um salto agarrou-a por um braço, arremessou-a abruptamente contra a parede e, com voz exaltada, aspecto terrivelmente rude e semblante avermelhado disse:

- Vais e é já, senão ainda te espatifo.

Dona Emília que estava sentada num sofá no hall de entrada deu um salto, quase morreu de medo. Tinha ouvido tudo. Abrira a porta e chegara sem que dessem por isso. Durante a discussão teve momentos que saltava, que simultaneamente se levantava e sentava tremendo por todo o corpo, fazendo enorme esforço para se manter com alguma calma e não chorar ao ouvir o que diziam, sobretudo ele. Era incrível como podia deslizar tão baixo. Algumas vezes chegou mesmo a dar passos, a aproximar-se da porta da sala para intervir, para se e fazer com que ele tivesse algum respeito, se inibisse dos gestos, e mudasse principalmente de atitude e de linguagem. Porém, temia a reacção dele. Enfurecido como estava não se inibiria de fazer o que quer que fosse, inclusive de a pôr fora dali. Mas no momento em que ele agarrou Cristina e a ameaçou, não pode conter-se. Sabia que ia correr riscos, que ia meter-se na boca do lobo... porém, não podia consentir que ele fizesse mais mal à sua menina.

Em bicos de pés aproximou-se da porta de entrada, abriu-a, fechou-a batendo-a com mais força do que o habitual, e, como se estivesse a entrar em casa, dirigiu-se para a sala e ao deparar com ele agarrado a Cristina que gritava e fazia um enorme esforço para se libertar disse, tentando disfarçar o mais possível:

- Então ssse se senhor doutor... o sssse se senhor está por cá!

- Vens aí, onde é que estavas?

Todo ele tremia de perplexidade ...

- Venho a chegar, estava na rua.

O receio de que tivesse ouvido a conversa era tal que tremia como vara verde:

- Mas vens mesmo a chegar?

- Sssim, foi só abrir a porta.

- Esta menina desafiou-te para vires com ela, não foi?

- Não sssenhor, ninguém me desafiou. Vim por minha alta recreação.

-Mas podias ao menos evitar que ela viesse. Ela estava muito bem na Quinta. Tu és testemunha de que nada lhe tem faltado.

- Se lhe tem faltado ou não, isso não sei. O que sei é que a menina há algum tempo que não parece a mesma. Anda triste, não come e chora como pessoa que passou por grande desgosto...

-Isso é da idade, não ligues.

- Ora essa, senhor doutor! Tenho de ligar. Não se esqueça que a vi nascer e que ao morrer a mãe me pediu para olhar por ela.

- Bem bem, chega de conversa. Arranja as coisas para irem comigo para a Quinta.

- Eu não vou, já disse.

- Não comeces. Não te esqueças que és menor, que não me podes desobedecer, que eu sou o teu pai e o teu tutor. 

- Ah, você é o meu tutor!...

- Sim, sim, sou eu que mando em ti.

- Ah, é você que manda em mim, por isso me quis violar, não foi?

Dissera-o propositadamente para que Mimi ouvisse.

- Céus, Senhores! Exclamou Mimi verdadeiramente estonteada...

- Se voltas a repetir isso, mando internar-te no Júlio de Matos.

Emilia estava ali ao lado, não falava, não podia dizer nada, apenas tremia de raiva e serrava as mãos no sentido de dar força e coragem à sua menina.

- Isso é o que vamos ver...

- O quê, o que é que queres dizer?

- Apenas isto. Vamos ver...

- Vamos ver o quê...

- Que O facto de eu ser menor não diz tudo.

- Não diz? Então vamos ver se diz ou não diz. Como um furacão, voltou a aproximar-se, a agarrá-la por um braço e a arrastá-la pelo chão para a porta de entrada da sala:

Emilia lembrou-se das vezes que o vira fazer aquilo à mulher, e, não conseguindo conter-se tentou impedi-lo de continuar a arrastar Cristina:

- Senhor doutor, não faça isso. A menina não fez nada para merecer esse sofrimento.

- Foge da minha frente ...

- Senhor doutor, lembre-se ao menos da mãe dela...

- A mãe já morreu. Quem manda nela sou eu. Ouviste, quem manda nela sou eu!

- Está bem, mas por favor...

-Foge. Nem mais uma palavra. Se continuas a abrir a boca, a defendê-la, em vez de ires para a Quinta vais para a rua, ouves, vais para a rua.

Não podia haver pior ameaça. E, pelo menos para continuar junto da sua menina, Emilia calou-se, sentindo o coração cair-se-lhe aos pés ao vê-la tudo fazer, a esforçar-se em vão para não sair dali, nada mais podendo fazer senão segui-la de perto até vê-la ser arrastada para o elevador, para depois, já sem o seu ângulo de visão ser atrozmente amarrada no banco detrás do carro que conjuntamente com o chofer a esperava à porta do edifício.

 

                               Capítulo XXI

- Vamos, podes arrancar...

- Mimi, onde está Mimi, que é feito dela?! Eu não quero sair daqui, muito menos sem ela, gritava e gesticulava Cristina praticamente imobilizada dentro do carro, que se punha em marcha a grande velocidade.

- Não te preocupes com a Emilia, ela ficou a acomodar as coisas que vocês trouxeram e, só depois virá...

- Eu quero ficar com ela...

Se o teu comportamento fosse outro, essa hipótese poderia ser viável, Porém, depois de tudo, o remédio esgorou-se. O que está feito está feito. Tu vens agora, ela virá depois.

- Mas...

- Nem mas, nem meio mas. Aqui no carro quer-se calma, se possível silêncio para maior concentração do senhor chofer. O que tenhas para dizer e tratar far-se-á em casa.

- Em casa! Pois você quer é apanhar-me lá para...

- Já viu chofer a resposta pelo bem que fazemos. Apanham-nos fora de casa, enrolam-se com más companhias, e o resultado aí está.

- Com más companhias, como se atreve...

- Cala-te. Nem mais uma palavra. Se continuas eu não sei do que sou capaz.

Tremia como haste exposta a pleno vendaval. Interrompi-a, ameaçava-a para manter ali perante o chofer o respeito como pai, para se armar em vítima e impedir que ela continuasse, pois nada lhe dizia que não voltasse a falar no assunto violação, o que para além de denegrir a sua imagem de senhor intocável, podia transformar-se em escândalo.

A voz era altiva, ameaçadora. Todavia, não foi essa a razão do silêncio de Cristina. De facto ali nada adiantava, por isso era melhor guardar as palavras e a acção para altura mais eficaz e oportuna.

 

                                           Capítulo XXII

Dona Emília nunca se sentira assim: andava de lado para lado como uma dobadoira, não encontrava o que queria, as peças de roupa escorregavam-lhe das mãos como enguias vivas, a pressa com que queria acomodar as coisas para se ir juntar à sua menina davam em vagar, não tinha o desembaraço pretendido.

A todo o momento, o que contribuía para maior atrapalhação, esperava ver o senhor doutor entrar apressadamente por ali dentro e com voz altiva perguntar-lhe se estava tudo pronto, quando é que seguiam viagem.

Todavia, com maior ou menor esforço as coisas iam ficando prontas, sem que apesar de tudo, infelizmente para ela, se verificasse esse tal acontecimento da presença do senhor doutor.

De vez em quando, e não obstante à pressa, punha-se à escuta a ver se ouvia algo relacionado com Cristina, ou com sintomas de tal presença, porém nada lhe chegava, o que a tornava ainda mais eléctrica.

Os caixotes, caixas, malas, embrulhos, etc, desta vez pareciam-lhe em maior número, o que atribuía ao nervosismo, que a embaraçava a ponto de não ser capaz de dar a devida acomodação às coisas.

Não tinha bem a noção do tempo. Porém, ao ver-se cercada por todos aqueles volumes, começava a admirar-se do silêncio, com a falta do senhor doutor ou de quem quer que fosse que levasse tudo aquilo dali para fora e a deixasse ir juntar-se à sua menina. Nessa esperança ia olhando para a porta, dando voltas pelas gavetas, por todos os sítios onde pensava poder existir algo que tivessem trazido da Quinta, mas nada. Continuava sózinha sem sintoma de presença de quem quer que fosse.

- Não pode ser, daqui a pouco é noite, já tinham tempo de dar a volta ao mundo e voltar.

Como as janelas não davam acesso à vista da entrada principal do prédio, decidiu correr o risco de fechar a porta, meter-se no elevador e ir ver o que se passava.

E que decepção apanhou ao não deparar, nem sequer com vestígios da sua menina nem das restantes pessoas de casa. Quem estava por ali era pura e simplesmente o porteiro que contrariamente ao habitual não se encontrava sentado nem junto da sua mesa de trabalho, andava de lado para lado com ar de alguma preocupação:

- Ah, agora é que a senhora aí vem?

- Porquê, eles já foram embora?

- Há muito mais duma hora.

- Sim, não me diga?

- Digo, digo. E, se quer saber, ainda lhe digo mais...

- Então!

- Oh, isso parecia para aí o diabo. A menina a não querer ir e o doutor e o chofer a levarem-na quase de arrojo até ao carro, onde ou eu me engano ou eles a amarraram ao banco detrás..

- Meu deus, meu deus, coitadinha da minha menina!...

- Oh, nem queira saber. Eu ainda tive para dizer qualquer coisa, mas, sabe como é...

- Oh, se sei! Mas então já foram embora Há mais de uma hora, não é verdade?

- Sim, sim, talvez há mais de duas e por cima de toda a folha.

- Pois é... disse dona Emilia em sufoco da mágua que a invadia a ponto de a deixar perplexa, praticamente sem saber o que fazer:

- Bem, vou indo lá para cima,..

- Já agora, desculpe, eles não a avisaram ou esqueceram-se de si?

Dona Emilia percebeu muito bem... estava tomada de constrangimento mas não ao ponto de não atingir a intenção do porteiro. Porém, por ali ia muito mal servido, uma vez que ela, apesar de tudo, estava consciente para não caír em desabafos reveladores duma realidade que de modo algum tinha de ser do conhecimento de mais personagens, especialmente daquelas que não faziam parte da peça, e cuja intenção seria conhecer o seu conteúdo para depois fazerem dele, quem sabe cópias, adulterações, enfim, usá-lo para fins não só desaconselháveis como prejudiciais.

- Não, nada disso. Eu estou por dentro de tudo. Vim cá abaixo apenas para me certificar do andamento das coisas, nada mais.

- Pois está bem. Mas como a vejo assim preocupada...

- Isto passa, isto passa, o problema é lá com eles... bem até logo e obrigada por tudo.

- De nada, de nada. Fique descansada. Se acontecer por aqui alguma coisa eu aviso-a.

- Mais uma vez obrigada.

Dona Emilia demonstrava apesar de tudo uma tranquilidade em si inesistente. O sistema nervoso reflectia-se de tal modo nos seus movimentos que quase não sabia onde punha os pés nem o que fazer.

- Que patife! Pensava conforme o tempo ia passando e se ia movendo por entre os caixotes espalhados por tudo quanto era sítio, em busca de um lugar propício ao ressurgimento de ideias que viabilizassem o caminho para a sua intervenção. Sim, porque desta vez não ia ficar por ali envolvida em pranto e em lamentações na esperança de que tudo se resolvesse por si ou pelo senhor doutor. Ia interferir e a sério.

Tratava-se da sua menina, duma jovem praticamente sem ninguém que a defendesse.

O lugar de melhor inspiração era a varanda. Naquele momento não havia sol. E a vida da brisa, da qual muitas vezes fugia com receio da sua asma, pareceu-lhe naquele momento adequado para a sua concentração, para limpar as negras e indesejadas imagens transmitidas por praticamente todos os cantos do interior da casa.

Telefonar para a Quinta; ir lá pessoalmente; abandonar definitivamente o apartamento, foram algumas das muitas ideias que lhe ocorreram, mas que tendo em conta o comportamento e astúcia do senhor doutor não lhe pareceram indicadas à execução dos seus objectivos, precisamente pela movedez do terreno. O que ainda assim lhe pareceu menos volúvel das garras desses horizontes foi a ideia de telefonar para a Celestina. A relação com ela era boa e sempre cumprira sobre assuntos abordados entre ambas por mais melindrosos que fossem.

Depois de encontrar o número na agenda guardada na gaveta do pequeno móvel rústico onde se encontrava o telefone, foi fazer a ligação e iniciou a conversa. E que longa que foi, mesmo assim insuficiente para por em dia todas as novidades, ficando porém a saber o fundamental, ou seja que a menina estava retida em casa, tendo o pai mandado trancar todas as janelas com cadeados e ter posto um guarda à porta que não lhe dava um palmo de liberdade fora do prédio da Quinta.

- Foi ainda muito mais longe do que eu esperava, murmurava dona Emília depois de ter desligado o telefone.

- Malvado, um grande malvado é o que ele é. Mas desta vez não me vou ficar. Coitadinha da minha menina!...

O pranto ainda lhe aflorou aos olhos, no entanto a sua suspenção foi imediata tendo em conta a sua não oportunidade.

Perante a gravidade da situação, as dificuldades encontradas e o pantanoso terreno onde se desenrrolavam, o melhor era ir aconselhar-se, pensando de imediato no tribunal de menores, uma vez que já tinha ouvido falar dele conhecendo até um caso que ali fora resolvido. Não sabia onde ficava mas, havia de lá chegar.

- Mas o que nos conta é extramamente gravoso, disse o advogado que a recebera.

- Pois, senhor advogado, e isso ainda não é nem da missa a metade...

- O que quer dizer que temos de agir imediatamente...

- E como?...

- A senhora própria pode fazer a denúncia e este tribunal fará o resto.

- Mas senhor, eu não sou da família...

- Tem conhecimento da situação e isso basta para avançarmos com o processo...

- Pois, mas note que ele é um senhor muito rico...

- Quer a senhora dizer que tem muito dinheiro, não é verdade?

- Pois tem, senhor advogado, pois tem! E eu não tenho praticamente nada, senão o pedido da mãe para cuidar da sua menina.

- Para nós dona Emília o que interessa é a justiça, o resto é com as autoridades. A senhora quer apresentar oficialmente a denúncia?

- E o que é preciso, o que é que tenho de fazer senhor advogado?

- Responsabilizar-se pelas afirmações que fez e assiná-las.

- E se a minha menina...

- Se quer que lhe diga, perante o que me disse a sua menina vai pegar-lhe ao colo quando souber da atitude da senhora. Embora seja muito importante a predisposição da senhora na denúncia das infrações cometidas para com a menina Cristina.

- Mas, senhor advogado, o pai dela...

- Olhe, quanto a esse, o mínimo que lhe pode acontecer é ir bater com os costados na prisão.

- Ai, isso é que era bom, senhor advogado, Deus me perdoe, mas, isso é que era mesmo bom!

 

                               Capítulo XXIII

Depois de ter deixado o tribunal, dona Emília sentia-se como peixe na água... havia em si um tal alívio e satisfação que parecia ouvir alguém cantar e bailar alegremente dentro de si. Nesta altura não pensava nas consequências que sobre ela pudessem vir a recaír. Sentia-se leve como a brisa ligeira, solta como uma andorinha em plena Primavera, havendo em si apenas a preocupação de como chegar junto de Cristina, como comunicar-lhe a decisão de ter feito a denúncia, de ter entregue o caso ao tribunal.

Eram de tal significado os reflexos desses sentimentos que a vivência ia fazendo com que deixasse passar a paragem da Praça de Londres onde pensava sair do autocarro. Foi pura e simplesmente pela boa vontade do motorista que tal não aconteceu, uma vez que já tinha fechado as portas quanndo ela gritou a pedir-lhe só mais um bocadinho.

O sol resplandecia pelos canteiros e pelas flores do jardim contigo à Praça, pelo que dona Emilia aproveitou para descontraír da atrapalhação provocada pela saída do autocarro sentando-se num banco próximo de algumas crianças que brincavam por ali, cuja leveza dos gestos e sorrisos se conjugavam belissimamente com os sentimentos que interiorizava e como papoilas se movimentavam alegremente dentro de si:

- Vou lá, vou lá à quinta. Decidiu num repente idêntico ao que a levou a levantar-se e a seguir para o apartamento.

A distância era pequena e desta vez nem encontrou o porteiro pelo que foi praticamente num salto que chegou a casa.

-De onde vens, onde é que ela está, onde é que tu a deixaste?

Dona Emilia quase ia caindo desamparada ... mal acabara de rodar a chave na porta quando a voz rude e agressiva do senhor doutor a banqueteara com uma recepção, que para além de impensável era pura e simplesmente indegesta e incontrolável:

- Vá, não te armes em parva. Onde é que ela está, onde é que tu a deixaste? Vá diz lá, quero saber rapidamente, ouviste, quero saber rapidamente, senão...

Dona Emilia não sabia o que dizer nem o que fazer. Tinha sido terrivelmente surpreendida, tremia por todo o corpo e o que era pior, não estava a perceber nada do interrogatório e da amedontração que o doutor lhe estava a fazer.

- Então, dizes ou não dizes?

- Mas, senhor doutor...

- Não comeces, já conheço bem os teus rodeios, ou dizes onde é que ela está ou...

- Mas ela quem, a quem é que o senhor se está a referir?

- Mas tu ainda tens coragem?... Mais uma vez queres fazer de mim parvo, não é verdade, é isso que tu queres, não é verdade?

Dona Emilia continuava entre a porta, precisamente onde ficou quando ele a surpreendeu atrozmente com todas aquelas interrogações e ameaças. Ao ver que o doutor não alterava o seu discurso, deu uns passos e foi sentar-se num dos sofás do hall:

- O senhor doutor está a referir-se à menina...

- Coitadinha... então a quem é que tu achas que é? À senhora da... praça dos.... ovos... é?

- Olhe senhor doutor, se quer que lhe diga...

- Não finjjas, não negues... não digas que não sabes onde é que ela está...

- Pois não sei, senhor doutor.

- Mau...

- O senhor doutor pense o que quiser, mas não tem o direito de me estar aqui a acusar de coisas que eu não sei, que eu desconheço. E por favor não me ponha mais louca. O senhor foi-se embora, deixou por aqui isto tudo, assim abandonado... o senhor entende que é assim que se tratam as pessoas? Sim, porque eu embora sendo uma empregada sou uma pessoa...

- Não divagues, não mudes de assunto. Ou dizes agora ou... vais dizê-lo a outro lado.

- Eu não posso dizer o que não sei nem aqui nem lado nenhum...

- Ah não sabes, então é isso que vamos ver.

- Como um furacão saíu porta fora, para voltar passados poucos minutos acompanhado de dois polícias.

- É esta senhora que está aqui que não quer dizer onde se encontra a minha filha.

- É verdade, o que este senhor está a dizer?

- Não, não é. Eu não sei de nada disso...

A voz era de pranto. Dona Emilia finalmente era absorvida pelo desgosto e começava a chorar. Era a primeira vez que se via perante polícias, o que independentemente da matéria, era motivo bastante para a tolher de nervos e de pena.

- Vá, minha senhora. Nós não lhe queremos fazer nenhum mal. Estamos apenas para que nos diga do paradeiro da filha deste senhor...

- Mas eu não sei dela, eu juro que não sei dela... Eu juro que não sei de nada... gritava arrazada em lágrimas entre os dois polícias.

- Ora então vamos lá a saber de uma vez por todas. A senhora conhece a menina Cristina?

- Sim, conheço-a desde que ela nasceu.

- Como é que ela chegou aqui ao apartamento, o que é que ela lhe disse...

- Eu não sei, eu não a vi.

- O que é que ela lhe disse a respeito do pai?. A dona Emilia sabe que só queremos que nos diga onde é que ela está.

- Pois, mas já disse que não sei...

- Mas dona Emilia, foi ela que lhe pediu para você não dizer ou...

- Senhores, mas eu já disse que não a vi, que desde que o pai a levou eu nunca mais soube nada dela.

- Sabes sim senhor, eu sei que sabes.  

Os polícias entreolham-se, pedem um momento, e saíram. Passados alguns minutos chamaram o doutor e disseram-lhe:

- Doutor, não sei se está a observar mas a senhora está a ficar mal...

- É fingimento, é tudo fingimento. Continuem que ela vai revelar tudo. Eu conheço-a muito bem e sei que ela vai revelar tudo, é apenas uma questão de persistência. Experimentem ameaça-la com a esquadra ou com a prisão e vão ver...

- Bem, dona Emilia visto este impasse, a senhora tem de nos acompanhar até à esquadra.

Estava absolutamente perturbada. Com os seus sessenta e sete anos nunca tinha sido ameaçada com uma entrada na esquadra, nem tribunal. E a primeira vez que lhe acontecia era como inocente.

- Isso é que não. Eu peço que os senhores acreditem, eu não sei de nada, eu juro que não sei de nada.

- Pois, mas, a senhora tem de nos acompanhar...

- Será senhor doutor, será que depois de tantos anos a servi-lo deixe que me levem para a prisão...

- Não, a senhora não vai para a prisão, vai para a esquadra.

- Mas vou para a esquadra porquê, sim digam-me porquê? Em toda a minha vida, como o senhor doutor muito bem sabe, vivi rodeada de dinheiro, ouro e joias e nunca roubei, nem matei...

Os soluços e o pranto dispararam com tal abundância dos seus olhos boca e nariz que a face parecia jorrar gotas de chuva grossa que inundavam a blusa branca e a saia azul a ponto da dona Emilia ir escorregando lentamente pelo cadeirão até se estatelar no chão gemendo e tremendo como coruja em Dezembro.

- Então dona Emilia, nós não lhe fazemos mal, só queremos que nos diga...

Ao ouvirem o fim dos gemidos e verem o corpo da dona Emília ficar praticamente estático, sem se mexer, os polícias ficaram de tal forma embasbacados que olharam para o doutor, como que a perguntar-lhe e agora, o que fazemos? Situação que igualmente ocorreu ao doutor, cuja falta de resposta levou um dos polícias a aproximar-se da dona Emília, a verificar-lhe as pulsações e a fazer cara de alarme para o doutor!

- Deixem-na ela já acorda...

- Desculpe senhor doutor, mas tem de chamar um médico.

- Acham que é mesmo preciso?

- E o mais rapidamente possível, quando não, podemos ficar sem provas!

- Provas, quais provas?

- As tais provas que o senhor quer da sua filha!!

- À, sim, pois... eu vou já tratar disso.

- Veja lá se quer que chamemos uma ambulância...

- Não não, não é preciso. Já não é a primeira vez. Podem ir descansados que entretanto eu vou já telefonar para um médico amigo.

- Veja lá, olhe que não nos custa nada.

- Não, obrigado.

- Entretanto nós vamos dar conta desta ocorrência, e...

- Não, não é necessário, deixemo-la passar esta fase.

- Então, não esqueça, chame o médico.

- Sim, sim é já a seguir.

Mas não chamou coisa nenhuma. O que fez foi mirar-se ao espelho, abeirar-se da porta e antes de a fechar dizer rancorosamente:

- Fica para aí, morre se quiseres, por mim já estou por tudo...

 

                                       Capítulo XXIV

Dona Emília foi acordando lentamente do desmaio. Primeiramente nem sabia onde estava e sentia o corpo totalmente dormente e gelado. A pouco e pouco foi recuperando os sentidos, sem que a memória lhe desse elementos do que por ali se tinha passado.

Com a genica que lhe era habitual fez um esforço para se levantar, o que não conseguiu em virtude da falta de resposta dos membros inferior e superior esquerdo.

O frágil gemido que deu tinha por fim desabafar e chamar alguém. Só que o mesmo morreu entre as quatro paredes, ou seja entre as suas companhias no momento. Perante tanto silêncio começou a mover os olhos, a tentar olhar à sua volta reconhecendo a pouco e pouco o local onde se encontrava, continuando porém, sem se lembrar dos factos antecedentes.

Por ver que ninguém se aproximava e que aparentemente não era capaz de se mexer, caiu num choro contínuo, por entre o qual ia balbuciando rezas e pedidos a Deus para que lhe desse forças, que a ajudasse a sair do melindroso estado em que se encontrava.

Era praticamente meio da tarde e o sol, que tinha sido abundante durante o dia, deixava reflexos da sua vida por toda a casa, o que fazia com que dona Emília não gelasse, uma vez que se encontrava apenas vestida com roupa primaveril nada aconselhável para o seu estado.

Conforme ia recuperando consciência, ia reconhecendo a casa, particularmente o local onde se encontrava. Os esforços que fez para se levantar foram vários, porém, a falta de força, principalmente dos membros esquerdos não lhe permitiam nem sequer erguer o dorso. A certa altura conseguiu, muito a custo e a emitir permanentes gemidos de dor, virar-se para o lado direito, e quando tentava pelo menos pôr-se de cócoras para alcançar o sofá, voltou a cair escancarada, o que aumentou o seu já duro, quase insuportável sofrimento.

Foi nessa altura que meteram a chave, abriram a porta:

- Mimi, meu Deus! O que é isto, o que te aconteceu?

Ao ver que ela não respondia, Cristina ajoelhou-se junto dela, beijou-a, olhou o seu lívido e desfigurado rosto e começou a chorar:

- Mimi, por favor, diz-me lá o que te aconteceu, o que te fizeram?

Perante a falta de resposta e, o que era mais grave, de reflexos, Cristina levantou-se, foi dar uma volta rápida pela casa. Sabia que o pai não se encontrava por ali, vira-o sair e afastar-se no carro, mas queria certificar-se do ambiente e se alguém por ali se ocultava, ao cabo e ao resto parecia não querer acreditar que o pai tivesse abandonado assim a Mimi.

Ao ver que tudo estava em silêncio e vazio de pessoas, voltou para junto de Mimi onde mais calma e atenciosamente verificou o seu estado, acabando por se deslocar em plena correria até ao elevador e depois até junto do carro onde o Carlos, o sobrinho da caseira que a acompanhara, se encontrava:

- Vem, por favor depressa!

Para além de muito bem disfarçada com o fato da caseira com que conseguira fugir da Quinta, Cristina tinha escolhido a hora em que o porteiro se ausentara para jantar e deixara o prédio com a segurança dos inquilinos.

Ao chegarem junto de D. Emília, Cristina e Carlos depressa se aperceberam da gravidade do estado dela, não reparando na urina no chão nem no cheiro da roupa, apressando-se sim a pegá-la em cadeirinha, a levá-la até ao carro e de seguida para as urgências do hospital de Santa Maria, onde tiveram conhecimento que sofrera uma trombose e cujo estado aconselhava a que ficasse internada para exames e tratamento.

 

                                           Capítulo XXV

Para o doutor Afonso a grande preocupação era divertir-se. A ausência da filha e o estado de saúde da dona Emília causavam-lhe na verdade algum embaraço, no entanto a seu tempo tudo se resolveria, no caso da filha era uma questão de vigilância e a dona Emilia se fosse capaz de reagir favoravelmente, ia continuar a ser apertada até que revelasse a verdade ou desistisse, caso morresse, a perda também não era grande tendo em conta as dificuldades e as traições, que a seu ver, lhe estava a provocar.

Porque assim pensava, porque o seu estado de perturbação lhe exigia a necessidade de arranjar tranquilidade que de algum modo atenuasse as consequências dos acontecimentos, foi, e porque nada havia que melhor se conjugasse ao sentir e às circunstâncias, ao encontro duma das casas da especialidade afim de contratar para aquela noite a menina que mais adequadamente se adaptasse ao preenchimento dos seus desejos sexuais, passando por uma boa refeição, por um passeio à beira mar, enfim, por atributos indispensáveis à tão necessária necessidade de se restabelecer e recuperar forças.

E tudo lhe aconteceu de acordo com as suas pretensões, prolongando-se a vivência até ao romper do dia.

Quando às seis da manhã abriu a porta do apartamento e não viu Dona Emília, ficou um pouco aturdido de estupefacção. Pensava encontra-la morta, ou prestes a isso, todavia, deparou apenas com o odor a urina transmitida pela mancha ainda húmida e bem visível na carpete. Os efeitos da embriaguez da vivência nocturna tinham sido de tal modo esgotantes que não lhe davam para reacções espavoridas, muito menos descontroladas:

- Alguém a levou para o hospital, pensou.

Àquela hora não era adequado para ir bater à porta do porteiro para recolher informações, porém, visto não estar a ser assaltado pelo sono, decidiu sentar-se junto do telefone e contactar os hospitais da Capital para saber da entrada em algum deles da Dona Emília:

- Aqui não deu entrada ninguém com esse nome, responderam do hospital de S. José.

- Com o nome que indica não temos conhecimento de nenhum doente entrado esta noite, responderam igualmente do Hospital de S. Francisco Xavier, recolheu respostas idênticas de vários outros hospitais que contactou, com a excepção do Hospital de Santa Maria onde confirmaram esse internamento e que a doente encontrava-se em observação.

- Por acaso não me podem informar de quem a acompanhava na altura?

- Sim, acompanhava-a uma rapariga.

- Mais ou menos com que idade, não será possível dizer-me?

- Aproximadamente dezoito anos.

Só podia ser a filha, mais ninguém, pensou ao mesmo tempo que se despedia. Fora a primeira vez que a raiva ultrapassara e fizera esquecer o prazer adquirido durante as horas que usufruiu da agradabilíssima companhia da mademoisele com quem estivera naquela noite. O vazio e a decepção provocaram-lhe tal rancor que urrava e rangia os dentes como um autentico louco:

- Podia tê-la caçado! Ah, mas não vai perder pela demora...

O espaço do hall e da sala era insuficiente para despejar o desafronto que lhe corroía as entranhas e fazia ferver o sangue, ao ponto de dar murros na parede e cair em horrendo choro que só terminou com os efeitos do álcool, quando tombou em forçada sonolência sobre o sofá.

Mas, não durou muito esse sono. Aliás, se é que sono houve, uma vez que o corpo nunca deixou de saltar ao som dos sopros e dos gestos descontrolados dos braços e das pernas.

Foi ainda sobre esse efeito que foi ter com o porteiro:

- A que horas é que a minha filha levou daqui a criada?

- Era já madrugada…

O porteiro tinha pelo senhor doutor muita consideração, por isso ficou algo estupefacto quer com a forma como se lhe dirigiu, quer com o horrendo odor extremamente alcoolizado que apresentava.

- Não ouviu, eu perguntei-lhe a que horas?...

- Sim, sim, senhor doutor, ouvi...

- E porque é que não responde?

- Ora senhor doutor, não respondo, porque lamentavelmente não sei.

- Não sabe, porque é que não sabe?

- Ora, porque é que não sei, porque não vi. Como o senhor sabe a partir das dezoito horas a segurança não é da minha responsabilidade.

- Mas já o tenho encontrado aqui depois dessa hora…

- Quando calha, quando se proporciona, não porque seja obrigado.

- Claro, claro. Mas o senhor não se apercebeu de nada, isto é, não viu a minha filha nem nada de estranho vindo do meu apartamento?

- Não senhor, absolutamente nada.

- Espertos, foram espertos...

- Como diz?

- Nada, nada. Estava apenas a pensar alto.

-Ah!

O doutor deu alguns passos, foi até junto da porta de entrada, olhou a rua e algo pensativo voltou para junto do porteiro:

- Claro que o senhor não tem qualquer culpa...

- Ó senhor doutor, mas afinal o que é que aconteceu, já agora...

- Nada, nada. Deixemos isso. Não viu pronto, acabou-se. Agora é preciso pensar no futuro, e é aqui que eu quero contar consigo, pode ser?

- Estou aqui para o servir, senhor doutor.

- Muito bem. Então vamos fazer um pequeno contrato.

- Que contrato senhor doutor?

- É muito simples, mesmo muito simples. Vou dar-lhe uma boa quantia para que vigie a entrada da minha filha aqui no prédio, e me telefone de imediato quando isso acontecer.

- Mas senhor doutor, como disse, eu não estou sempre aqui!

- Estou certo que vai cumprir muito bem essa missão, disse ao mesmo tempo que tirou um maço de notas da algibeira e o meteu na mão do porteiro.

- Estamos combinados?

- Combinadíssimos, senhor doutor. Fique descansado. Nem que seja preciso estar aqui até de manhã.

Resolvida aquela situação o doutor, agora mais senhor das suas faculdades, voltou para casa de onde telefonou para o hospital para saber o nome do serviço, o número da sala e da cama onde se encontrava a dona Emília, e depois para uma agência de vigilância e perseguição afim de contratar os seus serviços.

 

                                         Capítulo XXVI

Carlos, o sobrinho da caseira que acompanhara Cristina na noite em que encontrara dona Emília no apartamento, era estagiário de direito e simultaneamente, um pouco para enfrentar as dificuldades financeiras pessoais e familiares, trabalhava em part-time precisamente na agência contratada pelo pai de Cristina.

Quando lhe foi entregue a missão e os dados não se apercebeu praticamente de nada. A Avenida de Roma fez-lhe chegar qualquer coisa à memória, todavia tratava-se de uma Avenida tão longa que não deu para fazer qualquer ligação. A grande surpresa deu-se quando se viu defronte do prédio e analisou o andar e o número do apartamento. O corpo quis estremecer-lhe, no entanto ele não só não permitiu como não deu lugar a qualquer vacilação. Tinha alguma frieza, o que alheado à experiência da profissão lhe dava ânimo para prosseguir.

A abordagem do porteiro foi coisa absolutamente normal, assim como apanhar o elevador e até tocar à porta do apartamento. Quando o pai de Cristina apareceu, o cumprimentou e o convidou a entrar para o hall de onde tinha ajudado a retirar a dona Emília, a leveza já foi um pouco afectada, sem porém demonstrar qualquer sintoma de comprometimento com a situação. Aliás, nem podia ser de outra forma. Estava preparado para exercer funções nem que fosse contra a própria mãe.

A maior dificuldade apareceu-lhe quando o senhor doutor lhe deu a fotografia da Cristina e lhe disse:

- Não tenha quaisquer contemplações. Foi uma boa filha até algum tempo atrás. Presentemente parece que anda o diabo com ela: maltrata-me, acusa-me de mau pai, está ligada a uma criada que lhe tem metido na cabeça tudo quanto de mau existe e a levou inclusive a fugir de casa, deixando-me só e a sofrer com quanta dor um pai pode ter por uma filha, enfim todo um comportamento que eu quero reparar custe o que custar. Ela é a minha única filha e como tal estou disposto a ir até onde for preciso para a trazer de volta, para a educar na minha companhia.

Apesar dos cursos, da experiência, de tudo o que demais possa pensar-se, aquelas palavras, aquelas fingidas palavras e intenções eram qualquer coisa que podiam ultrapassar tudo menos o ser humano, o seu sentimento. Por isso, esse momento foi o que mais custou a suportar ao Carlos. Estava por dentro da verdade, da outra parte que o doutor ocultava. Não sabia de tudo, uma vez que Cristina ainda não lhe tinha falado da intenção do pai a violar, mesmo assim o que sabia era suficiente para que as pernas lhe tremessem e o sangue fervesse conforme ia ouvindo as deturpações da boca do doutor. A sua maior dificuldade não era ouvi-lo, era sim manter-se firme, isento, alheio e disponível para tudo fazer em satisfação das preocupações do doutor:

- Fique vossa excelência descansado. Estou certo que dentro em pouco não só saberá da sua filha, como a terá de volta.

- Assim espero, e o mais rapidamente possível.

- Pode vossa excelência ficar descansado. A nossa agência...

- Sim, sim, eu sei, tem provas dadas. Já agora como pretendem efectuar o serviço?

- Nós temos pessoas da nossa confiança no próprio hospital que vão ser fundamentais no nosso trabalho; além disso vamos ter vigilantes na hora da visita e iremos tentar por outros meios ao nosso alcance descobrir onde se poderá encontrar a menina Cristina.

- Pois, os senhores lá sabem...

- Pode vossa excelência ficar descansado, tudo iremos fazer para cumprir com êxito o nosso trabalho.

Carlos disse tudo sem vacilar e com tanta convicção que nem um inspector policial daria pela artimanha.

- Já agora, e para melhor conjugação do vosso trabalho vou apresentá-lo ao porteiro aqui do prédio. Trata-se de pessoa da minha confiança e como está em lugar por onde a minha filha terá obrigatoriamente de passar para vir aqui ao apartamento, será importante que se relacionem e que combinem o que têm a combinar.

- Sim, será um contacto importante, fundamentalmente como estratégia.

Depois da apresentação ao porteiro e das despedidas, o Carlos, como é normal, dirigiu-se para a agência afim de dar conhecimento do contrato efectuado e do serviço a prestar.

Enquanto esteve a fornecer os elementos, poder-se-á dizer que tudo esteve normal. A diferença começou a existir quando a sua função lhe foi atribuída. Nesse momento começou a travar-se-lhe uma grande luta entre uma amizade e a responsabilidade do desempenho da missão. As duas eram para si muito importantes, daí a grande dificuldade de decisão, agravada ainda pela responsabilidade do segredo profissional. Um grande novelo com duas pontas sem saber qual a melhor para mais facilmente o desenrolar. Não podia revelar que conhecia e sabia onde estava Cristina, por outro lado não podia recusar a missão não só por questões profissionais como pelo facto da mesma ser atribuída a um colega que pela eficácia e estratagema montado pela agência facilmente iria resolver a situação em total desfavor de Cristina. Enfim, tinha de pensar e saber fundamentalmente como agir. De qualquer modo uma coisa era certa, não iria prescindir do desempenho da missão.

 

                                     Capítulo XXVII

- Carlos, vais comigo ver a dona Emília?

- Não, não posso.

- Ah, tens compromissos! Não faz mal, irei sozinha.

- Cristina, desculpa mas não podes...

- O quê, lá que sejas o meu guarda-costas está bem, mas como não podes? A menina vai, a menina tem de ir.

Assistia-se a duas maneiras de proceder. A parte brincalhona de Cristina, e a parte séria do Carlos, com a diferença que ele dominava o processo enquanto ela o desconhecia.

- Cristina, nem penses, tu não podes ir ver a dona Emília.

A voz era forte e o semblante algo carrancudo.

- O quê, que me dizes?! Sinceramente não te estou a conhecer, só podes mesmo estar a brincar.

- Não Cristina, não estou a brincar. Sabes bem que serias a última pessoa com quem o faria.

- Sim, então, já agora diz-me porque não posso ir?

Estava encontrado o campo de divisão, precisamente aquele que ele tanto temia. Todavia tinha de sair dele. Cristina começava a ficar extremamente triste e nervosa, situação que de modo algum podia aceitar, muito menos quando provocada por ele.

- Eu vou contar-te tudo...

- Mas, contar-me o quê? Não me digas que...

Carlos sabia, tinha provas evidentes que Cristina confiava nele, contudo naquele momento pelas palavras, semblante e atitude estava a vê-la   em fase de arrependimento por assim ter procedido. O que ele não queria nem pensar que tal sucedesse. O seu desejo era ser seu amigo, merecer a sua confiança, nunca, jamais aumentar o seu já grande sofrimento.

Os corpos estavam distantes, mais precisamente frente a frente, cada qual em seu extremo da mesa da sala de jantar onde se encontravam. Carlos então aproximou-se, sentou-se na cadeira mais próxima, pôs os braços em cima da mesa, olhou-a de frente e disse-lhe com voz mais comovida:

- Cristina, o que te estou a dizer é para teu bem. Espero que o interpretes como tal, pois sabes bem quanto te estimo e quão duro e difícil era para mim perder a tua confiança...

- Carlos, por favor diz-me se essa tua atitude é por eu correr perigo?

- Sim, é isso.

- Mas que perigo?

- Vais sabê-lo, Cristina, muito brevemente vais sabê-lo. Por agora é preciso que faças o que te digo...

- Mas então a Mimi fica sozinha, sem visitas? Sabes bem que ela não tem cá ninguém, que só nós conhecemos a situação!

- Claro, claro. Mas não, ela não vai ficar sem visitas...

- Como assim?

- Está tudo combinado, vai lá a minha mãe.

- Carlos, mas isso não me vai ser fácil, sabes bem quanto gosto da Mimi e...

- Sim sei bem. Porém, neste momento, para não dizer sempre, o importante és tu, é salvaguardar que não sofras mais, que não caias na boca do lobo, que nãos sejas obrigada a ir para onde não queres. Percebes?

- Não. Ou antes, percebo e não percebo.

- Sim Cristina, sei que tens razão para assim pensar. Compreendo-te plenamente e só te tenho a pedir desculpa por de algum modo estar a ser evasivo...  

- Estás e de que maneira, há momentos que até tens receio de olhar para mim!

- Continuas a ter razão. Só o que não compreendo é essa tua persistência. Achas por acaso que se eu pudesse ser mais claro que já não o tinha sido?

- Olha, se queres que te diga, acho que sim e acho que não.

Cristina estava reticente, mas a pouco e pouco ia-se rendendo aos argumentos devidamente ponderados de Carlos. Ele compreendia muito bem a sua persistência para saber mais acerca daquele pequeno mistério, mas também sabia que não podia ir mais longe. Mesmo que ele virasse a cara e a deixasse ir ver dona Emília, o hospital estava repleto de pessoas ligadas à agência que a apanhariam facilmente e a entregariam ao pai, o que para ela seria o pior. Além disso denegririam, para não dizer que acabariam de imediato, com a sua profissão. Sim, porque ninguém aceitaria que ele encobrisse precisamente a pessoa que se tinha comprometido encontrar!

Por isso, para bem dela não podia ser de outra forma.

- Bem, meus meninos, vou então ver a dona Emília.

Cristina começou a corar, tornando-se visível uma lágrima que lhe assaltava o rosto.

- Menina não fique assim. Sabe que queremos muito o seu bem, por isso nem o Carlos nem eu iríamos fazer nada em contrário. Apesar de eu estar esperançada que vai ser pouco tempo, eu ponha-a ao corrente de tudo...

- Pouco tempo, porque diz isso?

- Porque logo que dona Emília recupere, e espero que seja bem breve, ela virá cá para casa.

- O quê, ela vem para cá?

- Logo que os médicos lhe dêem alta, menina.

Cristina pousou o olhar em cima da mesa, ficou por momentos pensativa. Estava numa casa simples... mas no meio de pessoas que eram as mais ricas do mundo. Precisamente porque conheciam os valores humanos e sabiam preservar o lindo tesouro chamado amizade desinteressada.

- Vocês são na realidade grandes amigos...

- Pronto, pronto menina, não fique assim. Vamos todos confiar que tudo vai correr bem...

O pranto quis de novo aflorar-lhe aos olhos, porém o Carlos mais uma vez não permitiu:

- Cristina, esta batalha, como tu muito bem disseste, não é para vencer com lágrimas, nem com armas, é para vencer com inteligência.

 

                                     Capítulo XXVIII

O estado de dona Emília era por enquanto estacionário, sendo o seu sofrimento mais psíquico e sentimental do que físico.

É certo que se encontrava paralisada do lado esquerdo, o que a impedia de se levantar, vestir, comer pela sua mão; de ser auto-suficiente. Porém, o que mais a atormentava era o facto de não falar, de não articular palavras

Uma vez que isso impedia que pudesse revelar dois casos que guardava dentro de si. Quando neles pensava a sua angústia aumentava terrivelmente ao sentir-se impossibilitada de revelá-los, especialmente o segredo, para si tão profundamente sentimental e que consistia no cofre que a mãe de Cristina tinha depositado no banco com todas as suas jóias, e cuja chave se encontrava em seu poder para dar a Cristina quando ela completasse 18 anos, uma vez que o outro, o revelar a Cristina o processo que se encontrava a decorrer no tribunal de menores, esse, embora gostasse de ser ela a revelar-lho não era tão essencial, pois mais dia menos dia ela o viria a saber ao ser convocada para se apresentar no tribunal, ou ao saber que o pai o fora. É certo que o que quer que acontecesse sobre este assunto jamais iria ser recebido por Cristina como se o ouvisse da sua própria boca. Podendo até levar a mal a atitude que tomara em virtude de não lhe serem reveladas as verdadeiras razões que a isso conduziram. Todavia, e uma vez que a sua intenção fora boa, a sua grande preocupação ia, sem dúvida alguma, para a chave do cofre que tinha bem escondida e da qual ninguém mais sabia, o que podia originar que as jóias nunca fossem recebidas por Cristina, o que iria contra o desejo da sua mãe.

Eram estas preocupações que não davam a dona Emília um minuto de descanso nem de sossego, levando os dias e noites banhada em pranto.

- Então dona Emília, está melhor?

Ela não conhecia a dona Angelina, a mãe do Carlos, o que a fez ficar ainda mais perplexa.

Dona Angelina tinha indicações rigorosas do filho para não revelar o seu nome, para não dizer quem era. Porém ao ver o estado de degradação emocional da dona Emília, e por não estar por ali ninguém para além dos doentes e ainda por pensar que isso ia contribuir para que se sentissem mais á vontade, não resistiu em dizer-lhe que era irmã da caseira, da dona Celestina.

- Ã, ã, nã, nã...

- Não se preocupe, não se canse, brevemente se Deus quiser já vai poder falar. Por agora tem que aguardar com paciência- disse dona Angelina, baixinho, muito próxima do rosto da dona Emília que ao ouvi-la caiu em nova crise de lamentação e choro que quase não havia lenço que lhe secasse as lágrimas, nem parasse o tremular dos lábios e da sua mão e braço são.

Enquanto tudo isto se passava junto de dona Emília e não aparecendo mais ninguém para a visitar, cá fora o Carlos desempenhava a sua missão, meio disfarçado, a tal ponto que nem o pai de Cristina o reconheceu ao passar a pouco mais de um metro dele.

Em primeiro Carlos hesitou em falar-lhe, ou mencionar apenas no relatório o dia, a hora e o local onde o havia visto. Por fim, e por entender ser mais favorável assim, dirigiu-se-lhe:

- Então senhor doutor, por cá?

- Ah, nem o conhecia. Como está, já há novidades?

- Por enquanto ainda não.

- Não veio ninguém visitá-la?

O Carlos interiormente ficou um pouco embaraçado, mas num repente pensando que alguém ligado à agência teria por certo visto a mãe, e até a podia seguir, uma vez que muitas vezes estavam várias pessoas metidas no processo sem saberem uns dos outros, disse a verdade:

- Sim, veio a minha mãe...

- A sua mãe?!

- Sim, Eu pedi-lhe que o fizesse precisamente por estratégia. O senhor compreende, não é verdade?

- Sim, claro. Quanto ao assunto principal, já têm algumas pistas?

- Estamos em campo, tudo iremos fazer para atingirmos os objectivos da nossa missão.

- Oxalá consigam...

- Fique v. excelência descansado.

- Não sabe como lhe agradeço. Para além do contrato, é um favor que me fazem. Eu nem tenho andado em mim.

O doutor deixou transparecer alguma comoção, puxando mesmo pelo lenço para secar alguma humidade invisível, possivelmente só por ele sentida, no nariz e nos olhos.

Carlos, pelo que sabia da história, e mesmo pelo contraste sentimental que via nas palavras e gestos do doutor, tinha noção da falta de verdade que tudo aquilo envolvia, no entanto e por exigências do próprio ambiente não quis deixar de ser simpático, de desempenhar a sua função:

- Compreende-se senhor doutor, compreende-se, trata-se da sua única filha.

- É verdade, e, de quem nunca me separei. Isto foi mesmo o diabo.

- Nestas coisas nunca se podem fazer previsões, mas tenho cá uma fé que dentro em breve vai ter boas notícias.

- Deus o ouça, Deus o ouça, porque se isto dura muito tempo, não vai haver saúde que aguente.

Era de espantar esta simulação do Carlos. Ele já tinha caído em si, feito interrogações acerca deste procedimento. Sim, porque ele podia, ao tomar conhecimento do caso, recusá-lo, deixar que fosse um colega a resolvê-lo. Mas não. Desde o início, desde o momento em que dele tomara conhecimento, que a sua atitude fora precisamente a que estava a seguir. Não porque tivesse ponderado, porque tivesse pensado profundamente e se decidisse nesse sentido. Nada disso. Fora tudo tão instantâneo, tão natural, que ele próprio se admirava do caminho que o assunto estava a tomar e, fundamentalmente de como acontecera. Só agora, passados alguns dias e, mediante as atitudes a tomar é que pensava mais profundamente no caso.

Claro que não estava arrependido, nem tão pouco pensava actuar de outro modo, era apenas pelas circunstâncias, pelas evidências que muitas vezes nos comandam ao ponto de nos surpreender os passos que damos e os escolhos ou plumas que encontramos nos caminhos que na vida se nos deparam.

Agora, conforme as horas iam passando e os acontecimentos se iam verificando, melhor sentia o peso das responsabilidades, os trilhos que tinha de percorrer e as decisões que perante tudo isso tinha de tomar. Tinha consciência que sobre os ombros se alvoravam algumas nuvens negras, porém, habituado que estava a resoluções difíceis ia actuar de modo a não perder... de modo a que a teia não partisse e moscas venenosas lhe assaltassem a vida, de modo a que o seu sistema não desse em buraco e encontrassem Cristina e a devolvessem ao pai.

Sabia, aliás tinha perfeita consciência, que caminhava sobre esponjas, que de um momento para o outro tudo podia vir à tona, porém, para que tal acontecesse muita água tinha de correr por debaixo da ponte...  

Nas análises que fazia, não conseguia facilmente definir quem estaria mais submetido ao êxito do processo em causa, se ele se Cristina, uma vez que ambos demonstravam ele o mesmo interesse: Ela porque não queria de modo algum voltar para o domínio do pai, ele porque não queria sequer pensar que isso pudesse vir a acontecer.

Era essa vontade que o embrenhava de pés e mãos no êxito da causa, na qual desde já reconhecia ter de fazer uma alteração, que tinha a ver precisamente com a presença da mãe junto de dona Emília. Quando tal decidira não vira nenhum perigo, porém, agora com o evoluir da situação verificava que não tinha sido a melhor estratégia. Estavam ele, a Mãe e Cristina a viverem na mesma casa, debaixo do mesmo tecto, o que representava isco fácil para uma boa pesca que ele de modo algum queria que tivesse lugar. Por isso e, para que não desse esse privilégio ao pescador tinha de actuar rapidamente.

Claro que nada podia fazer sem a colaboração de Cristina, que a seu ver, como interessada não podia deixar de colaborar.

- Mas Carlos, porque não posso eu sair de casa, achas isso minimamente razoável? Respondeu Cristina quando ele lhe fez tal proposta.

- Cristina, não se trata de ser razoável ou não. Trata-se de uma salvaguarda...

- Mas salvaguarda de quê!?

- De não correres perigo, de não teres que voltar para o teu pai.

- Desculpa lá Carlos, mas isso só acontecerá se tu ou a tua mãe me denunciarem…

Era a frase mais cruel e inesperada que ele lhe ouvira, a ponto de o deixar em estado de grande perplexidade. Em outras circunstâncias, no caso de personagens e cenários diferentes a atitude dele seria por certo de actuação imediata, até porque estava em questão a honra da própria mãe. Porém, deu uns passos, ponderou e perguntou-lhe:

- Como?... Cristina, não te importas de repetir?

- Repetir para quê, Carlos?. Tu já te puseste no meu lugar?

- Talvez mais vezes do que imaginas. Achas que é por acaso que estás aqui...

- Carlos, desculpa. Eu sei, mas... sinto-me amarrada nas minhas próprias ideias, sei que algo se anda a passar comigo, algo que desconheço e que não posso deitar a mão. Compreendo que isso não é motivo para acusar as únicas pessoas minhas amigas, mas não sei Carlos, é tudo tão nubloso, tudo tão confuso, que nem eu sei o que diga, o que faça!

Carlos podia dizer-lhe para não se preocupar, para se deixar estar tranquila. Porém, para além de ficar fora do contexto e de nada adiantar, tendo em conta o aspecto angustiado que apresentava; perante as circunstâncias, o estado e a forma como dissera as coisas, e, ainda para que tudo não se precipitasse, havia que lhe dizer a verdade. E para isso nada como os factos concretos. Então foi buscar a pasta, tirou os três jornais do dia anterior, abriu-os na página adequada, ou seja onde estava a fotografia de Cristina e os respectivos dizeres inerentes à sua captura:

- Mas o que é isto Carlos? O que é isto?

O semblante dela estava bastante desfigurado, contudo ao ver a sua fotografia e os dizeres dos jornais, ficou sem pinga de sangue, ao ponto de cair por cima da mesa com os olhos alagados de pranto.

- Cristina, implicitamente era isso que tu querias. Por isso não vi necessidade de te esconder por mais tempo.

- Mas Carlos, quem fez isto?

- O teu pai....

- O quê, Carlos, o meu pai fez isto?!

- Cristina, ele não fez, contratou uma agência para o fazer.

- Ele, teve a coragem de contratar uma agência para mandar alguém à minha procura!

- Tal como te disse Cristina.

- Malvado, é pior que os cães...

- Cristina, não estou bem de acordo que reajas assim. Até parece que não o conheces, que não sabes do que é capaz…

- Sim, és capaz de ter razão. Mas sabes que às vezes há coisas em que nós, apesar de tudo, quase não queremos acreditar...

- Depois de tudo o que me contaste, isso nem parece teu. No entanto para o caso pouco importa...

- Desculpa Carlos, mas há momentos em que eu perco o controlo, que fico fora de mim...

- O que em tais circunstâncias é normal, senão normalíssimo.

- Bondade da tua parte, Carlos.

- Obrigado Cristina. Porém neste momento não é altura para troca de galhardetes. Mas sim, de actuação...

- Não posso sair de casa, não é verdade Carlos?

- Sim. Embora exista ainda outra hipótese.

- Qual é, diz lá qual é?

- Ires fazer uma viagem.

- Uma viajem! Como, onde, se não conheço ninguém em lado nenhum!?

- Tu também não me conhecias, e no entanto...

- Não é a mesma coisa, não há comparação possível, Carlos.

- Isso é que há, tudo passa por ti.

- À, sim? Então diz lá, viajar como e para onde?

- Por exemplo para a Suíça...

- Tu és mesmo louco. Sem dinheiro, sem conhecer ninguém, aí vai a menina à descoberta do mundo.

- E, então, não eras a primeira… No entanto não se trata disso. O dinheiro arranja-se, e quanto ao local ias para casa da minha tia.

- Assim, sem mais nem menos. Ò Carlos, pelo amor de Deus!

- Nada disso, trata-se de te salvaguardar, dar tempo que faças anos, que atinjas a maior idade. Percebes? Apenas isso, Cristina.

- Pois Carlos, para ti é tudo muito fácil, o pior é que quem sofre as consequências sou eu.

Foi uma expressão algo infeliz que ele desta vez não deixou passar, aproveitando   para marcar uma determinada posição sobre o assunto, e dizer-lhe algo que a fizesse reflectir acerca da forma como algumas vezes lhe respondia, parecendo querer enrolar as questões, não ver a responsabilidade dele, não só na condução, como no desempenho de todo aquele processo:

- Ah sim? É assim que interpretas as minhas atitudes? Já agora quero dizer-te que às vezes me pareces inocente demais, e o caso não é para isso, mas sim de muita responsabilidade...

Alterara ligeiramente o tom de voz e pusera no semblante e na expressão do olhar certo ar de maior respeitabilidade que ela sentira de imediato:

- Carlos, desculpa, não é nada disso. Eu sei quanto te devo, sei quanto tenho a agradecer-te teres entrado no meu caminho. Eu faço tudo Carlos, eu vou viajar, eu fico aqui, tu é que sabes, tu é que destinas.

- Bem, também não é preciso exagerar...

- Não Carlos, trata-se de um acto de justiça. Destina por favor, eu cumpro, eu já disse que cumpro.

- Então, sendo assim e, uma vez que o ires viajar nos levaria a ter que arranjar um certo número de coisas para conseguirmos uma autorização, é melhor ficares aqui em casa, mas com a condição de não saíres, de fazeres tudo para que ninguém dê pela tua presença.

- Combinado Carlos, tudo farei nesse sentido.

Por agora o assunto ficava por ali. Carlos não tinha bem a faca e o queijo na mão, de qualquer modo estava em situação de poder controlar o processo e de agir conforme o seu desenrolar.

Nunca na sua vida de detective lhe tinha acontecido tal, esconder a pessoa que ele próprio procurava.... claro que não era situação inédita, contudo era preciso sangue frio, muita coragem, alguma artimanha e usar sobretudo a cabeça de forma a não cometer loucuras que deitassem tudo a perder. Era isso que o Carlos estava a tentar fazer, não sem algum receio, uma vez que era jovem e nunca se tinha metido noutra, mas com a convicção de que tudo iria correr de acordo com a sua pretensão, na constatação de que para tudo tem que haver sempre uma primeira vez.

 

                                           Capítulo XXIX

O doutor Afonso não parava, passava o tempo entre o escritório da empresa, o apartamento e o hospital.

Apesar do contrato com a agência e de todos os compromissos assumidos, continuava a querer fazer tudo sobre a sua vontade, ser ele a encontrar Cristina ali à porta do hospital. Por isso, e pensando que essa era a melhor forma de tal acontecer, mal chegava a hora da visita lá estava ele a marcar presença, a observar tudo e todos para conseguir o seu objectivo.

O facto de nos últimos dias não ter dado por ali pela presença do Carlos preocupava-o, trazia-o mesmo inquieto:

- Afinal como querem eles descobrir o caso se não estão por aqui?

- Isto é sempre a mesma coisa, passa-se o mesmo por todo o lado, querem apanhar o nosso dinheiro e o resto se não se resolver hoje resolve-se amanhã. Ah, mas eu vou surpreendê-los, olá se vou. Até se vão mijar todos quando souberem que afinal fui eu quem apanhei Cristina.

Não parava um instante, de esquina para esquina, de carro para carro, o olhar parecia uma dobadoura, fixado disfarçadamente em todas as pessoas que durante aquele período ocorriam ao hospital.

Há medida que o tempo ia passando e a presa não aparecia, novas ideias lhe surgiam no sentido da concretização das suas intenções. Desta vez, e perante a não presença de Carlos, com quem queria falar de outros assuntos, resolveu ir ele próprio ver dona Emília, e como não conhecia o hospital decidiu dirigir-se ao empregado que de vassoura na mão ia por ali varrendo o lixo e metendo-o num carro próprio que ia manobrando conforme ia limpando o chão:

- O senhor podia dar-me uma informação...

O coração quase lhe caiu aos pés. O homem do lixo era nem mais nem menos do que o Carlos. Ele já tinha visto o doutor, aliás via-o todos os dias, mas, não se lhe dirigiu propositadamente:

- Mas...

- Diga lá senhor doutor.

- O senhor, assim, disfarçado dessa maneira!?

- Desempenho as minhas funções, apenas isso.

- O raio ma parta se eu alguma vez descobria, vocês lembram-se de cada coisa!

- Apenas actos da profissão, doutor. Como deve saber, não é com vinagre que se apanham moscas!

- Claro, claro.

Carlos ia para ir mais longe, dizer-lhe se era assim tão claro porque é que ele vinha para ali estragar a caça toda; actuar com o máximo das à vontades; aparecer sem qualquer disfarce, sendo assim uma presa fácil para aqueles que por ventura estivessem do outro lado, como era o caso de Cristina. Porém não o fez, continuou na sua estratégia de o surpreender não deixando de meter buchas para o fazer pensar.

- Mas diga lá o que é que pretendia do homem do lixo?

- Pronto, agora já não quero nada...

- Não, não, faça favor, em todas as circunstâncias estou aqui para o servir.

Como não via por aqui nenhum jeito da vossa presença, resolvi ir lá acima ver a governanta, e vinha precisamente procurar qual era o caminho para o serviço.

- E o que é que pretendia da dona Emília, às vezes pode ser que eu saiba.

- Nada de especial, apenas a curiosidade de saber se alguém a teria vindo visitar.

- Quem nós queríamos não veio de certeza, quanto a outras pessoas, vamos já saber.

O Carlos meteu a vassoura e a pá dentro do carro e encaminhou-se para um recanto bastante escondido do hospital, para onde foi seguido de perto pelo doutor. Desabotoou dois botões da farda e tirou da algibeira da camisa um rádio transmissor através do qual se pôs a chamar:

- Lua, lua, daqui fala sol, diga se ouve. Escuto.

O doutor não tirava o olhar dos gestos do Carlos, ficando deveras surpreendido quando passados alguns momentos ouviu do outro lado:

- Sim sol, diga. Escuto.

- Lua, diga-me se houve nuvens junto do objectivo. Escuto.

- Não houve, não houve, tudo em branco, tudo em branco. Escuto...

- Um momento, só um momento.

Carlos desviou ligeiramente o aparelho e consultou o doutor:

- Não veio ninguém visitá-la, deseja saber mais alguma coisa?

- Já agora pergunte se ela está melhor!

- Lua, lua, por favor informe qual a situação do tempo, se se mantém ou se há melhoras.

- Ligeiramente melhoras, sol, ligeiramente melhoras. Desculpe mar levantado, tenho de terminar.

- Ok, lua, terminado.

Enquanto o Carlos guardava calmamente o aparelho, o doutor de olhos totalmente esbugalhados perguntou-lhe:

- Quem era, com quem é que o senhor falava?...

- Com pessoas ligadas à organização...

- Que estão aqui dentro do hospital?

- Que trabalham mesmo lá no serviço.

- Os senhores são formidáveis, têm mesmo o sistema bem montado.

- Tem de ser doutor, tem de ser. As coisas podem não acontecer como nós queremos, mas não é por falta de organização.

- Sim, sim, estou a ver. Estou a ver e muito surpreendido!

E era na verdade assim. O doutor, sem querer dar o braço a torcer, vomitava línguas de fogo perante a sua ignorância. Os pensamentos negativos que permanentemente tinha acerca do trabalho da agência eram agora picaretos, pedaços de ferro em brasa que mordiam nas suas entranhas, tal era a demonstração de eficácia com que fora surpreendido.

- Carlos, desculpe lá, eu tenho vindo aqui não só por causa da situação doooo, do do nosso caso, mas também para falar consigo.

- Diga, diga, doutor, estou ao dispor.

Eu tenho uma empresa onde trabalham algumas dezenas de empregados e onde muitas vezes existem problemas que nos dão cabo da cabeça...

- Mas doutor, a nossa agência actua em todo o país...

- Eu sei, eu sei. Mas agora não se trata de empresa, trata-se de si...

- De mim?!

- Sim, sim, exactamente de si. O seu trabalho não pára de me surpreender, e queria contratá-lo para meu empregado, para exercer funções idênticas lá na empresa, pode ser?

- Funções idênticas...

- Sim, mais ou menos, depois se veria.

- Sabe doutor, assim de momento não posso decidir nada. Eu, para além deste trabalho estou a acabar o meu estágio de advogado e quero exercer essa função...

- De advogado?! Excelente, melhor ainda, quando é que tratamos disso?

- Não sei doutor, tenho de pensar.

- Se é por causa da deslocação, não tem de se preocupar, terá horário flexível e um carro novo para esse fim.

- Não é só isso. Há funções na agência que gostava de realizar, e toda uma série de planos ...

- Planos?! Vai ver que não são superiores, nem de modo nenhum iguais, ao que lhe estou a propor. Pense nisso e vai ver que não se arrepende. Para a semana venho pela resposta.

A proposta deixou Carlos embaraçado. Por mais que quisesse não conseguia pensar noutra coisa... ela era belíssima, vinha no momento oportuno, uma vez que o trabalho que desenvolvia era apenas temporário, e o campo de emprego do curso estava preenchidíssimo, a ponto de haverem mais de vinte mil advogados a terem que andar a fazer outras coisas para sobreviverem. Porém, assim à primeira vista, ela podia complicar tudo, tendo em conta as águas em que navegava, ou seja, a situação provocada por ter Cristina escondida e ter que fingir que andava à procura dela.  

O engenho não se lhe acabava com aquela ou outra qualquer proposta que lhe fosse feita pelo doutor, antes pelo contrário, via nelas uma forma, um gozo de o aterrar mais, de se vingar do tudo quanto ele de mal fazia à filha. Todavia tinha que pensar muito bem, não fosse o diabo tecê-las.

O passo seguinte, foi relatar a Cristina o acontecimento:

- O quê, ele fez-te essa proposta?

- Assim mesmo como te disse.

- E tu, que lhe disseste?

- Por enquanto nada.

- Essa proposta Carlos, não sei porquê cheira-me a esturro...

- Sim, porquê?

- Ora porque o conheço muito bem. Porque sei que o que ele quer é ter as pessoas na mão para as manobrar à sua vontade.

- Cristina, tu esqueces-te que estou por dentro de tudo e que também tenho as minhas armas.

- Está bem, eu sei, só que as armas dele são rancorosas, usadas para destruição de pessoas inocentes.

E as minhas são usadas para te defender.

Cristina estremeceu, teve mesmo de baixar o olhar para disfarçar, tal era o fogo que a expressão do Carlos provocava...

- Está bem, está bem. Mas Carlos, eu tenho medo, tenho mesmo muito medo.

- Cristina que informações tens tu das empresas do teu pai?

- A que propósito é que isso vem?

- Olha, supõe tu que vou lá para dentro, o que é que achas que eu posso fazer?

- Bem, pensando bem...

- Pensando bem o quê?

- Acho que devias aceitar.

- Sim, pensas assim?!

- Agora penso.

- E porquê, pode saber-se?

- Claro.

Cristina deu uns passos, concentrou-se em género de meditação e continuou:

- Vê o seguinte Carlos. Eu não sei nada da empresa. Não sei se ela vai bem se vai mal, se aumentou ou diminuiu capital depois da morte da minha mãe. Contigo lá dentro, e com possibilidades de como advogado vasculhares tudo, é uma grande hipótese de eu estar ao corrente da verdadeira situação da empresa.

- Tens assim tanta confiança em mim?

- Carlos, estou a falar a sério...

- Também eu Cristina...

- Então, porquê essa pergunta? Sabes que acredito em ti. O facto de às vezes ser um pouco rebelde para contigo, não quer de modo algum dizer que não tenho confiança em ti. Aliás, se quaisquer dúvidas houvessem bastava esta tua prova de abertura e sinceridade para as deitar por terra.

O olhar de Cristina fixava-se profundamente nos olhos do Carlos, a ponto de o levar a rodar a cabeça para fugir ao encandeamento que eles forçavam. Noutras circunstâncias a atitude seria sem dúvida alguma outra, mas queria-lhe tanto que de maneira nenhuma podia estragar as delicadas pétalas que nela via.

- Fico muito contente com isso, disse um tanto ou quanto disfarçadamente.

- E então, vais aceitar a proposta dele?

- Tenho de pensar Cristina, tenho de pensar.

- Sim, de acordo. Mas supõe que ele amanhã te aparecia e voltava à carga, o que é que lhe dizias?

- Que ainda não tinha resolvido.

- Sim, é uma ideia. Mas tu conhece-lo bem e, sabes que tudo faria para não ficar por aí!

- Sim, é verdade que já o conheço alguma coisa, por isso mesmo é que te estou a falar assim. Sabes, o que disseste acerca do teu desconhecimento do exercício financeiro da empresa tem toda a razão de ser. Porém a situação de te ter aqui em casa e andar à tua procura para te prender leva-nos a uma indefinição sobre o que possa vir a acontecer no minuto seguinte. Por isso, temos de agir com alguma precaução para não voltar os santos contra a igreja.

- Queres dizer que temos que aguardar, não é verdade?

- Exactamente Cristina. Não podemos passar as armas para as mãos do inimigo.

- Mas, será que as oportunidades não se perdem?

- Enquanto actuarmos ponderadamente e tu cumprires as minhas indicações, garanto-te que vamos ter sempre o passarinho na mão.

- Ò, Carlos tu és um santo que me apareceu.

 

                                         Capítulo XXX

Enquanto o doutor Afonso com toda a sua astúcia e artimanha se mantinha em liberdade

e fazia tudo para controlar as operações, dona Emília desfazia-se em lágrimas no leito do hospital, tão grande o desgosto de pensar que podia morrer sem revelar os segredos a Cristina.

Apesar de ajudada pelo andarilho já dar uns passos, e derivado aos efeitos da terapia da fala já articular algumas palavras soltas, a insegurança continuava, tão debilitada que ainda se sentia.

- Queee ro muuu i to faaa lar a Criii ssstiina.

As palavras eram ditas para a mãe do Carlos.

- E há-de falar pois então, se Deus quiser já não vai faltar muito.

- Queee ro faaa lar aaa goooo ra.

- Está bem, um dia destes ela vem cá.

A mãe do Carlos falava baixinho e olhava para o lado não estivesse alguém a ouvir a conversa. Mesmo assim, o receio e a responsabilidade eram tão grandes que se apressou a despedir-se de dona Emília para ir contar ao filho.

- Nada é impossível...

- O quê, achas que a Cristina pode ir ao hospital?

- Vou pensar no assunto.

- Oh, meu filho, pensa bem, não vás deitar tudo a perder!

- Achas que eu ia fazer isso, mãe?

- Penso que não meu filho, mas, às vezes...

- Como disse nada é impossível, basta apenas pensar e fazer as coisas com senso.

- Então dona Angelina, a Mimi está melhor?

- Sim, hoje encontrei-a um bocadinho melhor.

- Olha Cristina, ainda bem que chegaste. A dona Emília hoje disse à minha mãe que queria muito ver-te...

- O quê, mas ela já fala?

- Falar, falar ainda não. Digamos que soletra devagarinho.

- Pois, era bom, mas, como vai ser... vês... alguma hipótese, Carlos?

- Diz lá o que achas?

Cristina saltou de contente. Pensava que o Carlos ia dizer-lhe terminantemente que não era possível, que não pensasse nisso.

- Acho que sim.

- E como é que o vais fazer?

- Ora deixa-me cá ver. Olha, podia por exemplo disfarçar-me com a roupa da caseira, como fiz quando fugi da Quinta.

- Não sei, só vendo.

- Então está bem, é só um bocadinho, eu volto já.

- Cristina, espera um pouco. Não é preciso ires vestir-te agora. Eu já te vi disfarçada e não há dúvida que o fazes muito bem.

- Então...

- Então, que temos de planear muito bem a estratégia. Temos de ter a certeza que o teu pai não se encontra por lá, e ainda outras coisas que eu tenho de preparar.

- Claro, claro Carlos, eu fico à espera. Acredita que farei tudo como tu disseres.

Entre essas outras coisas que Carlos disse ter que pensar estava a pessoa que dentro do hospital, mais propriamente no serviço em que se encontrava dona Emília, estava ligada há empresa. Havia que saber o dia da sua folga para assim actuar com mais segurança.

- Então Carlos, quando é que posso ir ver a Mimi, não te esqueceste disso, pois não?

Tinham-se passado alguns dias, não tantos quanto a ansiedade de Cristina contava, mesmo assim os suficientes para que Carlos tivesse arranjado as devidas condições para que a ida se pudesse realizar em segurança:

- Vinha precisamente para te dar essa notícia, mas tu quase nem me deste tempo para despir a gabardina....

- Desculpa Carlos, de facto tenho andado um pouco ansiosa por esse momento...

- Está certo Cristina, é absolutamente compreensiva essa atitude, e foi tendo isso em conta que tentei apressar as coisas, só que elas nem sempre se desenrolam de acordo com a nossa vontade, daí só hoje ter conseguido uma resposta fundamental para que possas concretizar essa visita...

- E então quando é?

- Amanhã...

Ela não o deixou continuar, correndo a abraçá-lo, dizendo-lhe:

- Tu és um amor Carlos, o amor mais importante desta vida.

- Apenas porque te arranjo estas coisas, não é verdade?

Ela não pronunciou qualquer palavra, apenas o devorou com um olhar profundamente brilhante.

Carlos também não insistiu, a não ser para lhe dizer qual o itinerário para chegar a dona Emília, frisando bem que tinha que pugnar no disfarce e que não podia perguntar nada a ninguém.

- Mas Carlos, a tua mãe não pode ir comigo?

- Bem, não seria assim muito plausível.

- Porquê, sabes que eu não conheço o caminho, o que pode levar a que ande por lá à deriva!

- Claro, claro e... não é nada conveniente que tal aconteça para não dares nas vistas.

Apesar do disfarce levar Cristina a aparentar mais do dobro da sua idade, de ter de arrojar os sapatões e caminhar com as pernas tortas e abertas, ela apresentava muita descontracção, tal era o grande desejo de chegar junto da sua Mimi.

Carlos disfarçado de bombeiro andava de lado para lado no hall de entrada do hospital para controlar a situação.

De vez em quando vinha até ao exterior para ver se avistava Cristina.

Numa dessas vezes e, quando se colocava em posição para melhor vislumbrar o caminho por onde a mãe e Cristina teriam forçosamente que passar, o corpo estremeceu-lhe ao encontrar nesse horizonte o doutor Afonso que vinha precisamente um pouco à frente das duas visitas.

Embora um pouco embaraçado, desta vez não hesitou um momento em se lhe dirigir e desviá-lo para longe da porta de entrada do hospital para evitar a possibilidade de se dar qualquer infortúnio dele reconhecer a filha.

- Então doutor, como vai?

- Bem, desta vez também não o reconhecia.

Carlos ia andando para levar o doutor a fazer o mesmo, só que ele, parecendo adivinhar as intenções, parava permanentemente complicando toda a estratégia.

- Amigo Carlos, para onde é que me está a levar?

Carlos voltou a estremecer. A mãe e Cristina aproximavam-se e podia acontecer que Cristina reconhecesse o pai e esboçasse algum grito, paragem ou qualquer outro sinal que o alertasse para a sua presença.

- Vamos sair daqui, sabe que estamos na hora da visita e é muito importante evitar a exposição.

- Lá disso sabe você, mas eu hoje não tenho muito tempo.

A expressão agradava a Carlos, quanto mais depressa ele se fosse embora, menos eram as possibilidades de se encontrar com a filha.

Todavia, pelo sim pelo não, Carlos não muito convencido dessa pressa continuava a andar à frente na tentativa do puxar para um sitio escondido, longe do local onde elas iam passar. Só que o doutor, ora parando, ora colocando-se na sua frente e agarrando-o pelo braço obrigava-o a parar tentando encetar conversa.

E tal tempo levou que a certa altura o corpo dele estremeceu profundamente e a fronte encheu-se-lhe de suores frios quando Cristina se aproximava, passando mesmo por detrás dele, tão pertinho que Carlos nada mais pode fazer senão posicionar-se de forma a que o doutor continuasse voltado para ele afim de não ver quem passava por detrás das suas costas.

- Não sei porquê mas o Carlos hoje parece-me um pouco nervoso…

- Talvez...

- E porquê, pode saber-se?

- Talvez por ficar um pouco surpreendido com a sua presença.

- Mas nunca ficou assim!

Carlos sentiu que estava a ficar um pouco embaraçado com aquelas questões do doutor, pelo que havia que rapidamente dar a volta ao texto.

- Sabe doutor, é que eu só não adivinho a sorte grande...

- Não estou a perceber.

- É fácil. O senhor certamente que vem por aí em busca duma resposta que eu ainda não tenho para lhe dar.

- É verdade sim senhor, disse o doutor ao mesmo tempo que lhe agarrava pelo braço e, de forma pensativa continuava.

- Já tenho mesmo aqui um assunto para o senhor resolver.

- À sim? E que assunto?

- Um assunto de advogado.

- Pois, mas eu ainda estou ligado à empresa...

- Mas pode desligar-se em qualquer altura, não é verdade?

- Mais ou menos...

- Penso que está a recibos verdes, não é verdade?

- Sim, é. Porém, as pessoas merecem consideração suficiente para não lhes voltar as costas sem mais nem menos.

- Claro, claro, mas três ou quatro dias chegam para resolver esse assunto, não acha?

Carlos esboçou um sorriso, olhou-o de soslaio na fronte e derivado ao seu estado de maior acalmia, verificou que o doutor se encontrava com ar bacilento acompanhado de considerável baixa de peso.

Por momentos ainda lhe passou pela cabeça fazer referência a esse facto, porém para não tirar o ritmo à conversa, e por via disso poder ser mal interpretado, disse-lhe em continuação:

- Talvez...

- Então, vamos a isso. Tem aqui a minha proposta por escrito, veja se lhe convém, e dê-me a resposta o mais depressa possível, está bem?

- Irei tentar, senhor doutor, irei tentar.

- Fico à espera da sua contra proposta, sim, porque o que está aí não é assunto arrumado é, para ouvir a sua opinião.

- Concerteza...

- Então telefone-me, tem aí o meu contacto.

 

                                       Capítulo XXXI

Paralelamente à conversação que o Carlos e o doutor Afonso desenrolavam no exterior do hospital, Cristina e a mãe do Carlos alheias a essa situação e, cumprindo o seu objectivo, chegavam à enfermaria:

- Então dona Emília como está?

- Um booocadiiiinho meeelhor.

- Sim, na fala já se nota, e com a perna e com o braço, já consegue andar e comer?

- Aaaaa iiiinda naaaaão.

Dona Emília embora falasse para a mãe do Carlos, o seu olhar fixava-se profundamente em Cristina:

- Queeeeem ééés tu? Perguntou-lhe:

Cristina ficou terrivelmente embaraçada e comovida. Fixou o olhar na mãe do Carlos como que a pedir-lhe que fosse ela a revelar. Porém, vendo que ela não o fazia, aproximou-se do rosto de dona Emília e disse-lhe com voz normal:

- Tu já estás quase boa Mimi...

- Meeeniiina, miiinha queeeriiida meeeniiina!

- Simultaneamente dona Emília chorava e suspirava profundamente.

Cristina igualmente emocionada, comovida por ela a ter reconhecido agarrou-lhe e beijou-lhe a mão ao mesmo tempo que com o seu lenço branco lhe limpava o pranto e dizia:

- Mimi não chores, eu estou aqui ao pé de ti.

Todavia o pranto era em jorro, um jorro de momentos e momentos de profunda solidão e sofrimento que dona Emília acumulava dentro de si com imensa saudade! Quanto ela esperou, quantas noites passou em claro, quantas orações em silêncio rezou   ansiando voltar a ver Cristina!

-Poooorque vens aaaassim veeestiiiida?

Mais uma vez o embaraço a tomar conta de Cristina:

- É porque...

- Coooon tiii nuas a aaan dar fuuu giiiida?

Cristina demorou a responder tal o agrado de verificar que ela se lembrava.

- êêêêl coooon tiiii nuuua a queque que rer preeeen deeer t?

O silêncio de Cristina agora era também de absoluta surpresa! Ela recordava-se, a doença não a afectara a ponto de se ter esquecido da situação que o pai lhe provocava. E isso deixava-a ainda mais sem palavras, sem saber o que dizer-lhe.

Foi então que a mãe do Carlos ao ver as dificuldades de Cristina disse:

- Ele é um malvado, não muda nunca.

- Eu fuuuui faaaa zer queeeeiii xa dêêêle ao tiiii buuu nal.

- Como Mimi, o que me dizes Mimi?

- Ssssim fuuui. Êêêle naaaão briiiin ca.

- Mimi, mas onde foi isso?

- Nooos Meeenoooores...

- No tribunal de menores, foi?

- Siii. Êêêle quiiiz maaaaa ttaaar-me.

- Matar-te, Mimi!

- Siiiim, com a poooliiiciia...

- Mimi, que me dizes?!

- Fooooi. Mas proooon to, êêeele vaaaai paaa gaar.

As mãos e os braços de dona Emília tremiam, tremiam muito ao mesmo tempo que esbugalhava os olhos em sinal de rancor.

- Olá se vai, eu não lhe vou perdoar nunca, Mimi.

- A tuuuua maaaãe...

O pranto e os soluços que por momentos tinham estado ausentes dos olhos e da face de dona Emília voltaram a invadi-la com grande intensidade, levando Cristina de novo a secá-los ao mesmo tempo que com voz trémula perguntava:

- Minha mãe o quê, diz lá?

- Sooofreu muuuiito...

- Ele batia-lhe, não era?

- Siiim, baaatiiia...

- Eu sei Mimi, eu sei. É também por isso que eu não gosto dele.

- Ele caaas tiii gaaava-a muuuiito.

- Há sim Mimi, como!

- Feeechaaava-a no quaaar to, naaaão lhe daaava cooomeeer, muuuiii tas coooiiisas.

- Malvado, grande malvado.

- Tuuua maaaã deeeiiii xou diiiin nheiiiiro e joooiiias paaaara tiii.

- E onde estão Mimi?

- Escooonndiiidas nooo baaaanco...

- Qual banco Mimi, tu lembras-te?

- O paaapeeeel e a chaaave do cooofre eeesss ttaaaão guuuaaardaaaados na gaaaveeeta do mooooveeel da saaaala do aaapaaartaaa meeeento eeeembruuuulhaaado nuuuma reeenda deeen tro dooos leeenççççooois.

- Minhas senhoras, terminou a hora da visita, façam favor de sair.

Aquela voz obrigava a interrupção daquela conversa tão esclarecedora e interessante para Cristina. Porém dona Emília não se calou, pelo que teve de ser Cristina, um pouco contrariada por força   das circunstâncias, e derivado à proximidade da mulher, a pousar a sua mão em cima da de dona Emília como que a pedir-lhe que se calasse, o que não conseguiu:

- Vaaai llllá, oooouuu viiisste, vaaai lllá buuusscááálo.

- Pronto Mimi temos de ir embora. Mas eu vou lá, podes ficar descansada.

Depois de Cristina e a mãe do Carlos se terem despedido, o alívio em dona Emília era grande. Pareciam mesmo que lhe tinham tirado um peso de alguns milhares de quilos de dentro do peito. Dir-se-ia que agora estava descansada, que já podia morrer, embora de modo algum o pretendesse. O seu desejo era, agora mais do que nunca, curar-se, sair do hospital em condições de poder vingar-se, revelar ao tribunal tudo o que sabia em defesa da sua menina e ver o doutor Afonso terrivelmente desesperado entre as grades.

 

                                            Capítulo XXXII

Já no interior do carro e, depois de ter analisado a proposta de trabalho do doutor, que considerava à altura das suas pretensões, uma vez que para além de lhe possibilitar o desempenho de funções na área da sua predilecção, contemplava ainda um belíssimo ordenado, apartamento e carro privativos, Carlos decidiu passar pela sede da organização para fazer o ponto da situação da incumbência que tinha à sua responsabilidade e falar com o responsável para lhe anunciar a sua demissão.

- É pena ir-se embora, nós estávamos precisamente a pensar passá-lo a efectivo.

- Pois, agradeço-vos imenso mas tenho uma óptima proposta de trabalho como advogado...

- Há sim...

- Sim, sim...

- Então deve aproveitar, sempre é um campo mais seguro e estável.

- Assim o espero.

Depois de se ter despedido Carlos dirigiu-se apressadamente para casa, tão grande era a ansiedade de contar as peripécias daquele dia.

- Até que em fim meu filho!

- Até que enfim o quê, mãe?

- Estávamos a ver que nunca mais chegavas.

- Porquê, há muitas novidades?

- Nem tu queiras saber Carlos, nem tu queiras saber, adiantou Cristina.

- Quero quero, porque nem vos passa pela cabeça o ...

- Mau, afinal quem é que tem novidades, somos nós, ou és tu!?

- Pelos vistos somos todos. e, antes que rebente deixem-me dizer-vos a terrível sensação que sofri ao ver-vos passar mesmo encostadinhas ao doutor Afonso...

- Ao meu pai?!

- Exactamente, ao teu pai.

- Então ele estava lá ?

- Chegou de surpresa.

- Como sempre... e tu? Também não te vi!

Era eu a desviá-lo, a puxá-lo para o meio das árvores para evitar qualquer possibilidade de encontro e ele a parar, a barrar-me o caminho precisamente no sentido contrário...

- E então?

- Então, quando vos vi aproximar sem nada poder fazer para o afastar, acho que fechei os olhos e virei as costas pedindo a todos os santinhos para que nada de mal acontecesse.

- Meu Deus, e nós sem darmos por nada!

- Bem já passou, mas que não ganhei para o cagaço, foi uma verdade. E, então as vossas novidades quais são?

- Olha a primeira é que tens de arranjar forma de eu ir ao apartamento...

- Ao apartamento?!

- Sim, sim Carlos, ao apartamento.

- Fazer o quê, pode saber-se?

- Buscar a chave e um papel para ir ao banco onde está guardado o cofre que tem dentro dinheiro e jóias que a minha mãezinha me deixou.

- Mas isso é extremamente perigoso, Cristina!

- Pois, mas como o perigo é a nossa profissão...

- Bem bem, não brinques. E a segunda novidade qual é?

É que a Mimi meteu o senhor em tribunal...

- Qual senhor, o teu pai?

- Sim, ele.

- E para quê?

- Para tratar do meu caso...

- Como sabes disso?

- Para ser no tribunal de menores, tem de ser comigo, não achas?

Carlos ficou pensativo e começou a dar uns passos em descontracção.

- Então, não dizes nada?

- Estou a pensar...

- A pensar, então porquê?

- A pensar numa possível coincidência.

- Vá conta, diz qual é!

- É que o senhor doutor Afonso entregou-me hoje uma excelente proposta de trabalho, pedindo-me para me desvincular rapidamente da agência porque tinha um assunto de “advogado” para eu tratar.

Cristina bocejou, deixou cair os braços ao longo do corpo, transformando o seu semblante em ar de autêntica defunta.

- Cristina, que se passa contigo!? Acorreu o Carlos cheio de preocupação, pondo-se na sua frente e amparando-a delicadamente com a mão nas costas.

- Não é nada Carlos, deixa.

- Desculpa Cristina, mas não te deixo. Sinto que não estás bem. Que algo ocorreu em ti quando da minha explicação. Será que não querias que saísse da agência?

- Mas, já saíste mesmo? Perguntou sem praticamente esboçar o mínimo movimento de olhos ou do corpo.

- Sim, nós já tínhamos visto isso!

- Pois…

Carlos estremeceu. Aquele estado e vazio de palavras preocupavam-no, davam-lhe a entender que alguma mágoa singrava no peito de Cristina. Por não se sentir bem, aproximou-se novamente dela, agarrou-a pelos braços, fitou-a nos olhos e disse-lhe:

- Cristina, esse pois não é nada, ou antes é de tal maneira confuso, pode dizer tanta coisa, que eu próprio te peço para explanares melhor as tuas ideias para saber o que verdadeiramente te vai na alma.

- Nada de especial, Carlos.

Ele viu soltarem-se dos olhos dela duas pequenas lágrimas que foram duas autênticas e afiadas lâminas a rasgarem-lhe o peito.

- Cristina, por Deus revela-me o que sentes, diz-me o porquê desse teu estado melancólico e o que fiz eu para o provocar.

Ela mais uma vez não se mexeu. Então Carlos tocou-lhe suavemente no maxilar inferior de maneira a ergueu-lhe levemente a cabeça para poder fixá-la nos olhos e dizer-lhe:

- Cristina, por favor, por favor, diz se te magoei, diz-me o porquê desse teu silêncio. Eu não estou a aguentar Cristina, Eu não estou a aguentar!

Ela deixou cair desamparadamente a cabeça no ombro dele, e disse-lhe a soluçar:

- Eu não tenho ninguém Carlos, eu não tenho ninguém!

- A que propósito Cristina?- perguntou-lhe meio estupefacto:

- Tu sais da agência, vais para advogado do meu pai, e depois, que vai ser de mim? Sim, o que vai ser de mim?! Eu não tenho ninguém Carlos, eu não tenho ninguém!

O Carlos não esperava, não lhe passava sequer pela mente que o melancólico estado dela tivesse a ver com aquelas preocupações. Mas, pensando bem, elas eram razão suficiente para acalentar verdadeiramente o terrível sofrimento que transparecia nas palavras e no semblante dela. Por momentos e, em virtude do choque provocado, também ele ficou sem palavras, sem saber o que fazer para pôr fim àquela situação. Porém, entendendo que o seu silêncio nada resolveria, antes agravaria, e fazendo apelo às suas energias para um aparente afastamento da sua agonia, afim de que alguma inspiração lhe alterasse aquele ambiente terrivelmente frívolo, disse-lhe com uma expressão de humor totalmente fora do verdadeiro sentimento que naquele momento lhe singrava no peito:

- Com que então, é isso que pensas de mim?!

- Não Carlos, não é isso que penso de ti, seria cruel se o fizesse. Trata-se de um pensamento que me tolheu no momento em que me revelaste que tinhas saído da agência...

A frieza e prontidão da resposta quase lhe imobilizaram as palavras. Ela não tinha alterado o semblante nem o tom de voz, mantinha-se precisamente na mesma posição e estado o que significava que a sua expressão de humor não tinha resultado, pelo que, e por falta de alternativas, havia que insistir, não para que ela se desfizesse de um momento para o outro em sorrisos, mas pelo menos ver se ela despia um pouco, somente um pouco, daquele ar terrivelmente melancólico que tanto o entristecia.

- Fique tranquila minha menina que eu estarei sempre ao seu lado.

- Eu posso estar a pensar mal, Carlos, mas vê: contigo fora desse serviço, como vai ser?

- Calma Cristina, calma...

- Como Carlos, como queres tu que esteja calma. Por acaso conheces a pessoa que te vem substituir na minha perseguição?

- Não, não faço ideia.

- E então? Não te quero de modo algum atribuir culpas nem precipitações, mas quando abordámos essa situação, sempre pensei que só sairias da agência quando eu atingisse a maior idade, ou então, e esta é uma situação que a meu ver nunca vai existir, se o meu pai desfizesse o contrato com a agência.

O nevoeiro finalmente decipava-se um pouco para deixar brilhar uma réstia vinda dos olhos dela. Era somente uma réstia, uma migalha para um espaço tão faminto...todavia, havia que aproveitá-la, abrir-lhe cautelosamente todos os braços para que fosse ganhando vida.

- Cristina, tu podes ter toda a razão do mundo, e perante isso eu serei a primeira pessoa a render-te a minha vénia. Porém vê o seguinte: estando em tribunal uma queixa contra o teu pai é importante fazer tudo para que ele a perca...

- Sim Carlos, era por isso que eu te queria a defender-me.

Ele ia para dizer-lhe que isso seria um prazer mas, que por ser demasiado claro, lhe poderia trazer graves consequências profissionais considerando as relações que mantinha com o pai. No entanto, tendo em conta que isso iria agravar de novo o ambiente, podendo até gerar algumas confusões para Cristina, optou por outra estratégia:

- Obrigado Cristina, eternamente agradecido pela confiança, mas continuando, estando do teu lado um advogado da nossa total confiança e eu como advogado do teu pai...

Finalmente a aurora brilhou, o sol reluzente como um marfim invadia o ambiente e a alma... Cristina deu um salto que quase ficava dependurada nos braços dele:

- Oh Carlos desculpa, tu és verdadeiramente excepcional.

- À pouco era precipitado, agora sou excepcional, afinal em que é que ficamos, senhora dona Cristina?

- Carlos, Carlinhos, desculpa-me...

- Nada disso, tu tens razão, tu não adivinhas! É certo que talvez enveredasses por alguns pensamentos que te impediram de analisares as coisas duma outra forma, todavia, não vejo lugar para qualquer pedido de desculpas...

- Gentileza da tua parte, Carlos. Mas para eu ficar totalmente calma e esclarecida diz-me como vai ser com a pessoa que te vai substituir na agência?

- Bem para já vais continuar escondidinha aqui em casa, enquanto eu vou falar e acertar as coisas com o teu pai. Depois e, se de facto o processo já estiver a correr há que apressá-lo para que o julgamento seja o mais depressa possível.

- E se eles me descobrem Carlos, como vai ser?

- Nada é absoluto, Cristina. Todavia, um enxame devidamente condicionado dificilmente leva à fuga de abelhas...

- Sinceramente Carlos, deixas-me sempre sem palavras...

Ele ia para responder, dizer-lhe que não tinha culpa que o dicionário dela fosse tão pequeno, porém, na certeza que derivado à sua sensibilidade isso a levaria de novo, quem sabe ás lágrimas, decidiu não o fazer, antes pedir-lhe licença, sentar-se à mesa, abrir a pasta e tomar alguns apontamentos acerca da conversa ali ocorrida, uma vez que dava pano para mangas:

Não fora de modo algum com falta de convicção que argumentara com Cristina sobre as questões que ela levantara. Todavia, pensando bem, elas eram de demasiada responsabilidade para não merecerem segunda reflexão, Uma vez que   ir ao apartamento, esconder Cristina do novo agente, ir para funcionário do doutor Afonso e ser interveniente no possível processo que dona Emília pusera em tribunal, não era coisa tão simples como beber um copo de água. Eram sim argumentos de um determinado imbróglio onde os figurantes tinham de saber representar e estar no palco para que a principal interessada não saísse flagelada.

A mãe do Carlos, meia especada a um canto da sala, assistia a tudo com uma atenção tão grande que nenhum pormenor se lhe escapava. Os altos e baixos da conversa entre o filho e Cristina não lhe mereceram reparos de maior, agora os gestos e a forma de estar de ambos essa, de modo algum lhe passou despercebida. É certo que se desenrolaram num ambiente onde por vezes a luminosidade aparente não parecia a melhor, no entanto, para ela, o sol que deles brotava tinha tal calor e brilho que jamais iria deixar de iluminar um caminho que ela via muito florido na vida dos dois.

Apesar de tudo, não conhecia bem Cristina. Todavia, via-a uma flor digna e merecedora do jasmim que ela própria semeara, vigiara e criara.

 

                                 Capítulo XXXIII

Quando Carlos chegou ao escritório central do doutor Afonso não sabia qual o gabinete ou secção onde o encontrar, mas defensor de que quem tem boca vai a Roma, depois de dar uma vista de olhos pelos corredores e exterior de vários departamentos que se deparavam no seu horizonte visual, dirigiu-se a um guichet e perguntou:

- Por favor, pretendia falar com o senhor Afonso.

- Com o senhor doutor Afonso, não é verdade?

- Exactamente com ele.

- Quem devo anunciar?

- Carlos Lourenço.

A menina loura com cerca de 28 anos, cabelos compridos bem arranjados, corpo esbelto e olhos castanhos, que conscientemente ou não, nas primeiras palavras que havia pronunciado dera uma ideia muito concreta da disciplina a ter com o tratamento com os superiores, deu uma reviravolta balbuciando as cochas conforme se afastava e se agarrava ao telefone.

Carlos enquanto aguardava por uma resposta, pousou a pasta de couro resguardada por um fecho eclair e cantos cromados de amarelo em cima de uma pequena pala ao lado do guichet e ficou em posição inerte com as mãos caídas ao longo do corpo.

- Faça o favor de me acompanhar, o senhor doutor espera-o.

A loura com os seus sapatos de salto alto deu alguns passos, abriu um guarda-vento, andou por um pequeno corredor parando em frente de uma porta de madeira onde bateu:

- Está aqui o senhor Carlos, disse para uma menina um pouco mais nova que trajava de mini saia vermelha e blusa branca de mangas curtas e considerável decote que deixava visíveis os reboludos e atraentes seios.

- Àh, sim, sim, faça favor senhor advogado.

Carlos totalmente alheio ao facto de já ser conhecido, penetrou no gabinete do doutor, este encontrava-se sentado numa das três secretárias, que entre outros pequenos móveis e estantes de madeira carregadas de dossiers, apetrechavam aquele espaço.

- Faça o favor de se sentar, disse-lhe ao mesmo tempo que lhe estendia a mão para o cumprimentar, praticamente sem tirar os olhos dos documentos que ia assinando.

A menina de mini saia, a acessora do doutor Afonso, no momento em que oferecia a cadeira ao Carlos quase tocou propositadamente com a mão na dele, ao mesmo tempo que o devorava com o olhar e se gingava em seu redor. Os seus gestos e movimentos das ancas eram de tal modo eróticos que ao debruçar-se sobre uma prateleira situada por detrás do doutor mostrou descaradamente as cuequinhas azuis bem visíveis por entre a carne esbranquiçada do interior das redondas e bem trabalhadas cochas.

Carlos não se deu tempo a preocupar se aquela exibição teria algo de provocação. Encarou como normal, estando naquele momento mais voltado para o comportamento do doutor. Nem uma palavra de satisfação, nem um sorriso. Recebera-o senão com frieza, com absoluto alheamento, totalmente diferente da forma com que o fazia quando se deslocava ao hospital ou se encontrava com ele. Estratégia? Imposição de respeito perante a acessora? Carlos não sabia, talvez o futuro viesse a trazer-lhe a resposta. Por agora restava-lhe aguardar...

- Pronto menina, está tudo assinado, pode levar ao gerente.

A menina de mini saia vermelha agarrou nas pastas e afastou-se, desta vez com ar e movimentos mais selectos, não deixando mesmo assim de parar entre a porta e dirigir para o Carlos um sorriso e um arrastar de olhos bem provocadores.

- Então Carlos fez boa viagem? Conseguiu chegar aqui sem dificuldade?

- Sim, com as referências que me forneceu foi tudo fácil.

Desta vez o doutor fixava-o, deixando transparecer um certo aspecto macilento e uns olhos encovados aureolados por um circulo escuro que lhe davam um ar extremamente debilitado.

Carlos não sabia bem se era o seu estado habitual, nunca o tinha encarado com tanta atenção nem em tal ambiente, a verdade é que à primeira vista lhe parecia preocupante. Claro que não lhe ia dizer nada sobre isso, até porque a distância entre ambos continuava bem presente, mas ficava a observação...

- Ainda bem. Hoje não temos muito tempo para visitarmos estas instalações, mas irei pelo menos mostrar-lhe o seu gabinete e apresentá-lo ao gerente e chefes dos serviços, está bem?

- Concerteza doutor.

- A menina ouviu? Perguntou ele para a acessora que entretanto havia chegado.

- Ouvi sim, senhor doutor.

- Então convoque rapidamente todos esses senhores para estarem na sala de reuniões daqui a um quarto de hora.

- Desculpe senhor doutor mas convoco somente os chefes daqui do escritório ou também os das fábricas?

- Só os do escritório menina, só os do escritório.

- Sim, senhor doutor, fa-lo-ei de imediato.

O doutor acompanhado de Carlos deixou o gabinete da gerência e dirigiu-se para o primeiro andar onde se localizava o gabinete dos advogados.

- Este é o espaço que está reservado ao vosso trabalho.

Durante o percurso, até ali, nem uma palavra nem um gesto. O doutor continuava fechado que nem uma concha.

Carlos deu dois passos para além da porta, olhou em redor, viu de relance os armários de mogno e as prateleiras de vidro repletas de dossiers, duas secretárias e uma pequena estante com alguns livros.

- Então gosta?

- Já agora, qual vai ser a secretária que vou usar?

- Carlos queria saber se iria trabalhar sozinho ou acompanhado.

- Qualquer delas. O advogado da casa atingiu o limite de idade, foi para a reforma.

Carlos olhou para o doutor, esfregou o maxilar inferior e voltou a perguntar-lhe:

- Mas volta cá, não é verdade?

- Sim, sempre que seja necessário. No entanto não se preocupe que não existem muitos casos pendentes. O que temos aí são praticamente coisas novas. Mas, logo ou amanhã falaremos disso, está bem?

Concerteza doutor, disse o Carlos, continuando a olhar à sua volta essencialmente para a estante dos livros onde conseguiu visualizar o código civil e alguns manuais de matéria de trabalho e de Direito.

- Bem, disse o doutor como que a querer apressar a saída. Como estão à nossa espera, podemos ir andando para a sala de reuniões.

As pessoas presentes posicionaram-se de pé ao verem o doutor entrar e tomar, conjuntamente com Carlos, lugar na mesa da presidência.

- Façam o favor de se sentarem, iniciou o doutor. Chamei-vos aqui para rapidamente vos informar que o gabinete de advogados da empresa já tem inquilino...

As palavras davam indícios de algum humor, o que levou Carlos a olhá-lo para verificar se seria desta vez que lhe via um sorriso no rosto, mas nada, estava sisudo e assim continuou:

- Está aqui ao meu lado, chama-se Carlos, tem vinte e oito anos e já uma boa experiência de pesquisa no seu ramo de trabalho. Foi contratado por mim pessoalmente e estou convicto, digo, mais que convicto que não só irá resolver os problemas da sua especialidade, como irá contribuir para a defesa e progresso desta casa.

Carlos desta vez estava tão sisudo como o doutor Afonso. De facto era pessoa responsável, mas estremeceu com o discurso. As palavras eram lisongeadoras, dir-se-ia mesmo que estavam muito para além da sua prática profissional no momento. Todavia não o inibiam, eram antes apelo e incentivo para funcionar de forma a não decepcionar ninguém. Contrariamente às afirmações do doutor, não estava ainda muito calejado no trabalho de direito, no entanto as audiências a que já tinha assistido e os julgamentos que resolvera como estagiário davam-lhe algum à vontade para conseguir a desejada experiência.

Após as palavras do doutor fez-se algum silêncio, que ele próprio interrompeu ao virar-se para o Carlos e pedir-lhe uma palavra de apresentação.

Pedido que deixou Carlos um pouco embasbacado com a surpresa mas que, apesar do ambiente monologante e frio, se levantou e depois de cumprimentar os presentes disse:

- Estou feliz por vir trabalhar para esta digníssima empresa. Conheci o senhor doutor Afonso há algum tempo, espero estar à altura das minhas funções, contando para tal com a colaboração e apoio de V. excelências, uma vez, que não me vejo nunca a trabalhar sozinho. Teremos oportunidade de no nosso dia-a-dia nos conhecermos melhor, na certeza porém que estarei sempre ao vosso dispor. Muito obrigado.

Novamente algum silêncio, mexida dos corpos nas cadeiras estofadas e troca de olhares, interrompidos pelo doutor para dar por terminada a sessão, seguindo-se, pelos chefes e gerentes, a apresentação de votos de bons êxitos no futuro ao Carlos, após o que ele e o doutor foram para o gabinete da gerência, onde o doutor, mais uma vez o convidou a sentar-se e aguardar um pouco enquanto ele resolvia alguns assuntos.

Não era atitude que Carlos aceitasse de bom gosto. Não pensava ser recebido nas palminhas das mãos, que é como quem diz sem grandes formalidades, mas também longe de si tal frieza e distância. Dir-se-ia que montanhas se haviam levantado entre o procedimento do doutor. Todavia havia que ir aprendendo a conviver com as várias facetas das pessoas.

- Então, hoje fica por cá, não é verdade?

- Não estava a fazer essa conta doutor. Vim apenas para trocarmos as primeiras impressões e acertarmos concretamente o futuro.

- Pois, a verdade é que acabámos por não acertar praticamente nada, pelo que lhe pedia que ficasse por cá, para já fora do fulgor da empresa podermos conversar um pouco mais à vontade.

Carlos não tinha quaisquer compromissos, mas ainda que os tivesse suspendê-los-ia prontamente tão grande a necessidade de anular ou certificar a monótona imagem que recolhera do doutor, naqueles primeiros momentos na empresa.

- Está bem, ficarei, disse, ainda assim com ar exclamativo.

Abandonaram as instalações e depois de passarem pela Quinta, onde o doutor deu algumas ordens aos empregados, dirigiram-se para um belíssimo restaurante situado a alguns quilómetros de distância.

Durante o percurso o comportamento do doutor fora totalmente diferente: falava pelos cotovelos, sorria e até ia dicertando com algumas graças, situação que se tornou mesmo hilariante no restaurante, onde foram servidos como príncipes.

Terminado o jantar e quando Carlos pensava irem tratar de coisas da empresa, eis que enquanto se encaminhavam para o carro, o doutor lhe pergunta se não ia mais uma bebida:

Não era de modo algum o seu forte, mas, tendo em conta que o momento era, senão de estudo mutuo, pelo menos de grande observação pela sua parte, disse:

- Eu peço desculpa de não ser grande bebedor...

- Também não é preciso beber muito, basta saber saborear a bebida. E o Carlos pelo menos isso sabe-o muito bem.

- Nunca me dei conta disso, mas, se o doutor o diz...

A expressão foi emoldurada com uma gargalhada mútua.

O ambiente estava totalmente diferente. O doutor finalmente começava a mostrar-se como o Carlos o conhecia e idealizava. Do seu rosto tinha desaparecido o ar carrancudo e macilento, para dar lugar a uma expressão alegre, bem salpicada de humor.

Para onde o levaria agora, interrogava-se Carlos com alguma curiosidade e mais desejoso de uma boa soneca de que qualquer outra coisa.

O local onde estacionaram era sossegado e estava repleto de carros de luxo, marcas excelentes, nada ao alcance de um mero trabalhador.

- Espero que goste do ambiente, disse o doutor enquanto premia a campainha e aguardava que lhe abrissem a porta.

- Olá doutor, seja bem-vindo!

A gorjeta estava na mão e passou rapidamente para a algibeira dum empregado quase vestido a rigor, com uma casaca cor creme bordada a vermelho e calças de fantasia, que os acompanhou até uma sala bem decorada com tons de azul nas paredes e muitas e variadas luzes pelo tecto e onde lhes ofereceu uma mesa e puxou as respectivas cadeiras.

Não estava muita gente. Falava-se baixo, quase em sussurro deixando ouvir-se bem a boa música de fundo.

- Viva doutor!

Desta vez era uma menina de voz fina e corpo bem torneado que beijou o doutor e se sentou na cadeira próxima.

- Olá pétalazinha, como vês hoje venho acompanhado, preciso duma tua colega mas, de muita confiança, estás a perceber, de total confiança.

- Oh, doutor, por quem é.

- Pronto, como inteligente que é, já viu o ambiente, não é verdade Carlos?

- Sim sim, doutor, esteja à vontade.

Carlos não era frequentador daquelas casas. Sabia que existiam mas nunca por lá se tinha perdido. No entanto, havia que fazer-se passar não só por conhecedor como frequentador, uma vez que era a melhor forma de conhecer melhor o senhor doutor Afonso.

A pétalazinha voltou acompanhada de uma jovenzinha, que se não era menor, devia de ter deixado de o ser há muito pouco tempo.

- Gosta, disse a pétalazinha enquanto a colega se sentava muito perto do Carlos.

- Se gosta, claro que gosta!!!- atalhou o doutor com os olhos esbugalhados e uma gargalhada que furou todo o ambiente.

Dali em diante nada faltou: champanhe, caviar, isto para não falar nas carícias; pelo menos pela parte do doutor Afonso que não parava de tocar e beijar a pétalazinha a ponto de ficarem enroscados desde os lábios às mãos. A cegueira dele era tal que parecia estar a tocar pela primeira vez numa mulher. Havia momentos que o Carlos tinha mesmo de desviar o olhar por não aceitar de forma alguma os afectos existentes ente o doutor e a sua pétalazinha. Gostava de mulheres, claro que gostava. Todavia não se via preso a ponto de a estar a beijar e apalpar permanentemente, pelo menos em público, e a ser explorado como era o caso.

- Então caríssimo advogado, como vai isso por aí?

- Bem doutor, disse o Carlos mais desejoso de sair dali do que de qualquer outra coisa.

- Veja lá, acha que está mesmo tudo bem?

- Sim, concerteza...

- Ele é um pouco frio, acrescentou a menina do Carlos.

- Achas que sim?

- Ah pois, ele ainda não me deu um beijo!

- Já vamos ver isso no meu apartamento. Aí estou em querer que se não berrares pela tua mãe, pouco há-de faltar. Não é verdade caríssimo advogado?

- Claro doutor. Na certeza que o fogo só se propaga se houver faísca.

A passagem pelo apartamento, assim como tudo o que lá ocorreu nada disse a Carlos. Isto no que diz respeito às donzelas, porque a Carlos disse muito. Disse que Cristina tinha razão. Que o seu pai não prestava mesmo para nada. E que a partir daquele momento iria, mais do que nunca,   ter a sua total oposição, não parando e tudo prometendo fazer para que o tribunal o julgasse com justiça.

 

                                   Capítulo XXXIV

Inesperadamente Dona Angelina recebeu um telefonema do hospital que a deixou apavorada... tinha a ver com a situação de dona Emília, mais propriamente com a sua alta, querendo saber se a podiam receber.

- Deus, mas o que vou eu fazer?!

O alarido chegou a Cristina que logo acorreu para saber a razão do mesmo:

- Então que se passa dona Angelina ?

- Veja a menina que me telefonaram do hospital a informar que dona Emília teve alta e se a podíamos receber!

- Ah sim, e então?

- E então Cristina, o que vamos fazer?! Sim porque nesta altura de modo algum   a podemos trazer para aqui!

Se a mãe do Carlos se sentia embaraçada, Cristina não o ficou menos:

- Pois, na verdade estamos um pouco de pés e mãos atadas.

- Pois menina. E logo isto tinha de acontecer quando o Carlos cá não está!

- Na verdade assim é. Mas, dona Angelina não podemos ficar para aqui eternamente indecisas, temos de arranjar uma solução.

- Qual menina, qual?

- Talvez, ora deixe-me cá ver... arranjarmos um lar...

- Oh, menina, mas isso para além do mais, custa muito dinheiro!

- Pois... e, eu ainda não fui ao banco... É isso, é mesmo isso.

Cristina mudou imediatamente de expressão enquanto, pensativa, andava de um lado para o outro.

- É isso, o quê menina?

- Eu tenho de ir ao apartamento.

- Não pense nisso, menina, não pense nisso!

- Porquê, porque é que não hei-de pensar?

- Porque não... por causa da sua, da sua situação.

- Ora, se quer que lhe diga isso também já me está aborrecer.

- Mas não pode, menina, não pode...

- Ora não posso, posso sim senhora.

- Mas então só quando o Carlos vier! Só quando ele cá estiver!

- Ora bem. Nós não sabemos quando é que o Carlos vem...

- Pois não, menina.... ainda se ele ao menos telefonasse!

- Bem, eu vou resolver o assunto.

- Menina, o que vai fazer! Pelo amor de Deus veja lá o que vai fazer!

Dona Angelina aproximou-se de Cristina, agarrou-a pelos braços e voltou a repetir:

- Por amor de deus, menina, veja lá o que vai fazer!

- Vamos lá a ver. Se o Carlos não existisse, nós não podíamos ficar aqui eternamente a lamentarmos, tínhamos de actuar, não é verdade?

- Eu não sei, menina, eu não sei!

- Pois eu também não sei, mas vou arriscar.

- Cristina dirigiu-se para o quarto e passados alguns momentos apareceu disfarçada com o fato da caseira.

- Menina, mas onde vai a menina! Não, não, espere lá, eu vou consigo.

- Não. A senhora vai ficar aqui, o Carlos pode telefonar.

Estava-se no fim da manhã. Cristina, um pouco envolvida pelo sol quente, caminhou até encontrar um táxi.

Depois de ter dado as instruções do percurso ao motorista, tentou acalmar-se um pouco. A   agitação não era nada benéfica. Por isso havia que encontrar a aconselhada calma para que tudo corresse bem.

- Quer ficar por aqui, ou...?

Sim... sim, pode ser.

Cristina pagou ao taxista e pôs-se a andar ao longo do passeio.

A certa altura atrasou o passo e olhou à sua volta: havia pouca gente e soprava uma pequena brisa. Ziguezagueou por entre os carros estacionados até chegar perto do prédio do apartamento. Havia muito sol o que lhe dificultava a visibilidade para o seu interior. Convicta, muito convicta e enérgica da sua atitude, avançou, subiu as escadas, abriu a porta, passou ao lado do porteiro que se entretinha a ler o jornal, apanhou o elevador e dirigiu-se para o apartamento. Quando abriu a porta e se viu no seu interior o suspiro de alívio foi tão grande que lhe tirou umas boas arrobas de cima.

Quase sem respirar nem olhar à sua volta dirigiu-se para o móvel da sala e abrindo gaveta por gaveta chegou aos lençóis bordados que no seu interior teriam o papel do banco e a chave do cofre onde se encontrariam as jóias. Não foi fácil chegar-lhe mas depois de muito procurar lá as encontrou. Na mesma, sem perder tempo, correu para a porta, fechou-a muito lentamente, apanhou o elevador e saiu do edifício.  

Tomou um taxi que a levou até ao banco e onde, depois de ter sido atendida nas informações, chegou junto do tão desejado cofre. Com a mão trémula abriu-o ficando perdida de espanto: pulseiras, brincos, broches, anéis de ouro branco e amarelo com brilhantes, muitos brilhantes luminosos como o sol em Agosto, dois relógios também de ouro, enfim, tantas jóias cujo valor ela não fazia a mais pequena ideia. Todavia, a sua maior atenção foi para uma caderneta bancária que de imediato guardou afim de seguidamente ir actualizar.

Quem é a titular desta conta?

Cristina estremeceu. Todo o seu à vontade e satisfação se esvaíram, para darem lugar a uma enorme preocupação que lhe tolheu o corpo:

Fui apanhada, murmurou interiormente perante as palavras e o olhar interrogativo do funcionário depois de calmamente ter folheado a caderneta.

Havia que disfarçar, fingir, mentir, apelar às unhas, aos cabelos, a todos os órgãos uma desculpa, qualquer argumento que a levassem a sair daquele momento terrivelmente difícil.

- É uma pessoa da minha família, respondeu com a tranquilidade possível.

- Vai pedir-me o bilhete de identidade! Estou perdida, Mas porque é que não ouvi a Mãe do Carlos! Que irá ele dizer de mim quando souber do que me aconteceu.

O silêncio, o olhar e o semblante do funcionário eram não só estranhos como inquisidores.

- Qual é a transação que pretende efectuar?

- Actualizar.

A voz era abafada e o receio era de tal força que lhe paralisava os membros...

- Somente isso?

- Sim...

- Queira aguardar um momento, se faz favor.

O afastamento do funcionário e o vazio e a dúvida por ele deixados em Cristina puseram-na de tal modo intranquila e preocupada que não sabia o que fazer para conseguir alguma descontracção, demonstrar tudo o que fosse possível menos o horror e o medo que lhe corria nas veias.

Cristina compunha os óculos sombreados e o lenço que lhe cobria a cabeça e o pescoço e olhava para o relógio; fazia tudo que lhe vinha à lembrança para compor o disfarce, afugentar todos os receios que lhe iam na alma, e eis que viu um polícia vir na sua direcção.

- Deus!...

Não haviam mais energias a que apelar, nem pedidos a fazer fosse a quem fosse. De olhos fechados, sentiu-se amarrada de pés e mãos, a ser levada para a esquadra, a ser entregue ao seu pai.

Tolhida por toda aquela sensação de horror, ainda deu um passo atrás no sentido da fuga, ficando ainda mais transtornada com a impossibilidade.

- Desculpe a espera mas como se tratava de uma caderneta muita antiga tive que a substituir por uma actual.

Era o rufar dos tambores, o despertar duma aurora que pôs fim ao pesadelo.

- Não tem importância, respondeu Cristina ao mesmo tempo que nas suas entranhas se rasgava um profundo suspiro de alívio. Guardou a caderneta e passou pelo polícia que ao seu lado era atendido por um outro funcionário.

Só à saída do banco e quando a calma voltou é que foi verificar o saldo da conta.

E se as jóias a haviam deixado deslumbrada, os mais de dois mil contos que tinha na sua conta deixaram-na finalmente estarrecida de contentamento. Tratava-se, no altura, de uma pequena fortuna, suficiente para enfrentar as dificuldades do momento, a começar pelo pagamento do lar para a Mimi.

- Consegui, consegui! Gritava louca de contentamento quando, já esquecida do pesadelo entrava em casa.

- Conseguiu o quê menina? perguntou dona Angelina conforme se ia aproximando de Cristina.

- Ir ao apartamento buscar a chave do cofre e ir ao banco. Está aqui. Nesta caderneta temos dinheiro suficiente para internar a Mimi e superar todas as despesas que a dona tem tido comigo.

- Não menina, comigo não há despesas, disse a dona conforme chorando ia abraçando Cristina. Comigo menina só há o sofrimento da felicidade de a ter conhecido e trazido para esta casa. Mas minha filha, por favor não volte a fazer outra. Para além do Carlos não gostar, o meu coração acaba por não aguentar.

 

                                         Capítulo XXXV

O Carlos e o doutor Afonso chegaram à Quinta por volta das cinco horas da manhã. A disposição do doutor era melhor do que nunca: cantava, assobiava, punha tal energia nos gestos, nos movimentos e na maneira de estar que irradiava alegria e satisfação por tudo quanto era corpo:

- Então caríssimo advogado, que me diz a esta noitada?

- Foi boa.

- Ou eu me engano, ou você não gostou?

- Gostei doutor, claro que gostei.

O que pretenderia dizer, o que verdadeiramente lhe ia na alma não era aquilo, mas perante a situação e os objectivos era importante fingir, mostrar-se dentro do possível simpático.

- Agora, para comemorarmos, vamos beber uma bebida genial, uma bebida que tem mais idade do que o meu caríssimo advogado.

- Desculpe doutor, mas mais bebida não...

- Chiu…

Acabavam de entrar na casa da Quinta e o Carlos viu naquela expressão do doutor duas intenções: a de ditatorial e a chamada de atenção de que a partir daquela porta a linguagem era outra.

- Só uma, meu caro, só uma.

E aproximando a cabeça de Carlos, como que a segredar-lhe algo de muito importante, continuou em tom baixo e voz soletrada:

- A vida também precisa destas coisas, é importante variarmos para termos um dia-a-dia diferente. O Carlos não queira saber o que é estar vinte e quatro horas dentro das paredes daquela empresa. São anos de vida, anos de vida que por lá vou deixando, e se quer que lhe diga, não sei bem para quê nem para quem!

Carlos, tinha pensado em não beber mais, pedir desculpa e ir deitar-se, porém, ao ouvir falar na empresa e na esperança que a conversa finalmente enveredasse por aí, mudou de ideias e seguiu o doutor indo sentar-se num dos sofás da sala de estar do rés-do-chão.

- O senhor doutor deseja alguma coisa?

Carlos ficou meio estupefacto. Pensava ir ter uma conversa a dois, daí a surpresa de ver chegar uma das empregadas pronta para os servir.

- Sim Laurinda, tráz aí dois copos enquanto eu procuro uma bebida.

O nome da empregada nada disse ao Carlos, mas se ele soubesse que se tratava duma das do tempo de Cristina, certamente que ficaria contente, uma vez que poderia ser uma fonte para adquirir notícias dos últimos acontecimentos por ali. De qualquer maneira nunca se poderia saber o que iria acontecer no futuro...

O doutor abriu a porta do bar e depois de procurar colocou em cima da pequena mesa uma garrafa de conhaque Napoleão:

- Faça favor, veja essa especialidade, caríssimo advogado.

Carlos agarrou no copo de cristal, levou-o ao nariz e de seguida à boca dando um pequeno gole e uma tossidela. Ao mesmo tempo que as gotas de liquido lhe iam percorrendo a garganta sentia um tal ardor que mais parecia estar a engolir tintura...

- Então que tal, uma boa pomada, hã?

- Sim, sim, uma boa pomada. - Aquiesceu com voz moribunda, quase sem respiração.

- Aqui nesta casa não falta nada...

Fez uma pequena paragem para voltar a encher o seu copo e continuou:

- Ou antes, falta talvez o principal. O Carlos não pode calcular o meu sofrimento, o quanto eu dava para ter aqui a minha filha. A minha filha, por onde andará a minha querida filha!!

Depois de pronunciar estas palavras todo o aspecto do doutor se modificou. É certo que bebera praticamente dum só gole o copo de conhaque, o que não era de forma nenhuma para fazer efeito tão rápido fazendo-o ficar de novo com ar demasiado melancólico e carrancudo.

Carlos não deixava de o analisar um momento que fosse. E a certa altura deu com ele, conforme ia falando a olhar para a empregada. Era um olhar normal, todavia um pouco comprometedor, que deixou em Carlos não a ideia de pesar pelas suas palavras, mas o pensar de que ele se estava a armar em vítima. Era isso, o doutor diante dos seus empregados mudava rapidamente de aspecto para que pensassem dele um grande trabalhador, um solitário, uma vítima do comportamento da filha.

- A mim não me enganas tu, pensava enquanto o ia observando.

- Deseja mais alguma coisa senhor doutor? perguntou Laurinda enquanto olhava de soslaio para o Carlos, não lhe sendo difícil aperceber-se do seu aspecto, decerto modo exausto.

- Não, por agora não, podes retirar-te.

- Eu, que nunca fiz mal a ninguém, antes pelo contrário, só ajudo… Logo havia de sofrer este grande desgosto! Na verdade a vida é muito injusta.

O doutor fez uma paragem, bebeu mais um pouco e olhou para Carlos como que a pedir-lhe para dizer alguma coisa em seu apoio, pedido que não concretizou, primeiro porque não tinha assunto, segundo porque, para preencher os seus objectivos, era melhor ouvi-lo.

- O Carlos que esteve na agência, diga-me lá, acha que eles a vão apanhar?

- Estão a fazer por isso, doutor...

- Acha que sim, acha mesmo que sim?

Carlos por não estar, de todo a contar com a pergunta, sorveu um pouco do conhaque do seu copo para dar tempo e encontrar uma resposta:

- Não tenho dúvidas, aliás o doutor está muito por dentro de tudo...

- Enquanto você lá estava... porque agora...

- É a mesma coisa doutor. Ali as orientações vem sempre de cima e independentemente de quem esteja por baixo, não lhe resta outra coisa senão po-las em prática.

- Sinceramente, Carlos... já me tem passado pela cabeça se ela não terá ido para o estrangeiro.

A questão era do foro do curso do Carlos que aproveitou, agora sim, para se pronunciar como conhecedor do assunto:

- Todas as hipóteses são de considerar, mas se quer que lhe diga essa, não a vejo muito viável...

- Diga, diga, doutor, diga.

- A sua filha é menor e legalmente não podia viajar sem uma autorização do pai ou do tutor.

- Que por acaso sou eu...

- Ah, o doutor, também é o tutor dela?

- Sim, é isso que está consignado.

- Pois, assim o senhor tem uma dupla responsabilidade...

O Carlos ia para falar no respeitante aos bens, mais propriamente sobre a empresa, tentando assim abrir uma porta para mudar de assunto, entrar em coisas mais palpáveis, só que o doutor, como que compreendendo a sua intenção, atalhou:

- Dupla, tripla, todas. Tenho todas as responsabilidades. Daí esta mágoa, esta grande e dolorosa mágoa de não poder compartilhar com a minha querida filhinha toda uma vida que me vai na alma.

A conversa voltava ao mesmo. E o Carlos sentia-se mesmo a ficar saturado. Não tinha sono, estava habituado a fazer directas, mas ter que engolir toda a hipocrisia embuída nas palavras do doutor estava a entediá-lo.

Também estava ali a fingir, o que o levava a um determinado esforço, por isso e por verificar que com o adiantado da hora o doutor estava a despejar a garrafa, o que iria por certo agravar as lamurias, resolveu tentar ficar por ali, na esperança que daí a algumas horas, já no seu gabinete na empresa pudesse colher elementos mais interessantes, como por exemplo o assunto no tribunal de menores:

-O doutor vai-me desculpar, mas...

- Ah, sim, sim, quer ir descansar, não é verdade? Laurinda, Laurinda?

- Pronto, senhor doutor.

- Indica o quarto de hóspedes ao senhor advogado.

- Concerteza, senhor doutor.

- Já agora doutor, acrescentou Carlos enquanto lhe apertava a mão, desculpe-me, mas a que horas é que pensa ir para a empresa?

- Daqui a pouco, daqui a pouco. Quando acordar procure-me lá em cima. Laurinda, indica também ao senhor advogado onde fica o meu escritório.

- Concerteza doutor.

Subiram as escadas e, depois de Laurinda ter dado cumprimento aos pedidos do senhor Afonso indicou o quarto ao Carlos.

A cama aberta estava ali na sua frente, porém, depois de a olhar e não sentir desejo, por enquanto, de a saborear dirigiu-se para a janela. Ao cabo e ao resto sentia-se tenso e uma lufa de ar fresco seria o ideal. Percorreu as duas janelas do quarto, a sacada e a metida na parede, só que ambas se encontravam trancadas.

O corpo estremeceu-lhe. A segregação a Cristina continuava.

- Bandido, balbuciou por entre o desejo de meter as mãos e rebentar os ferros.

Mas que moral, sim, depois do que assistira naquela noite que moral tinha o senhor doutor Afonso para segregar, prender ou mandar perseguir fosse quem fosse, muito especialmente, como era o caso, inocentes vindos do seu próprio sangue.

Cristina por enquanto pouco ou nada podia fazer, mas ele sim, podia e iria continuar a fazê-lo. Tinha de ter muito cuidado, a sua deontologia tinha regras, mas seria que haveriam regras para defender um pai que quis violar uma filha e se andava a divertir hipocritamente com os bens que também a ela pertenciam? Concerteza que não. Independentemente dos obstáculos e do moralismo, iria em frente, até onde pudesse pugnar pela justiça.

 

                           Capítulo XXXVI

- Don... dona Emilia!

Laurinda quase tombava quando abriu a porta e deparou com a governanta.

- O quê, estás aqui?

- Sim, ele deu-me mais dinheiro, não me deixou ir embora.

- Muito me contas, sim senhora, muito me contas.

Ia para lhe chamar fingida, hipócrita, traidora, enfim todos os nomes que em seu entender merece uma pessoa que tinha voltado com a palavra atrás, como era o caso dela. Todavia, não o fez, antes se mostrou simpática, alheia a tudo para poder, caso fosse necessário, ter o seu apoio.

- E você, e a menina Cristina onde é que está?

- Porquê, ela não está cá?

- Não não, eu nunca mais a vi desde aquele dia em que ela e você se foram embora.

- Pensei que o doutor Afonso a tivesse trazido para casa.

- Não, para aqui não. Ele nem sabe dela!

-Coitadinha da minha menina, por onde andará?!

-Mas que vem a ser isto aqui?

Dona Emília ia para tirar o lenço e limpar o pranto, porém a presença do doutor e a forma como falara inibiram-na.

- Está a ouvir, que faz você aqui na minha casa?

A voz era extremamente brusca e intimidora, todavia dona Emília ficou como nada de mal se passasse, indo calmamente sentar-se numa cadeira que estava próxima.

- Não ouve, estou a falar consigo, senhora dona Emília.

- Ouço sim senhor doutor.

- Então vá, diga-me o que está aqui a fazer?

- Venho-me apresentar...

- Apresentar, mas que é lá isso, a que propósito?  

Agora à brusquidão da voz o doutor juntava um certo sorriso de escarno. Porém a governanta não se intimidava. Estava frágil, extremamente debilitada, mas fazia um enorme esforço para não o demonstrar.

- Sim, venho apresentar-me na casa onde trabalhei toda a minha vida.

- Porquê, zangou-se com a sua patroazinha, ela deu-lhe com os pés foi?

- Dona Emília estremeceu, a comoção quis invadi-la, porém não era altura para tal. Tinha de ser forte, não se deixar vencer pela hipocrisia e desdém que o doutor parecia vomitar nas palavras e pelos olhos.

- Ninguém me deu com os pés...

- Então, se ninguém lhe deu com os pés, vem aqui espiar, para depois ir contar à sua menina, não é verdade!?

-Não...

- Deixe-se de cantigas, ou me diz onde ela está, ou vai já para a rua.

Dona Emília respirou fundo, fixou o olhar no chão, fez algum silêncio e depois já com algum fôlego disse:

- Desculpe, mas quem deve saber onde ela está é o senhor doutor...

- Eu, então porquê?

- Então, porque foi o senhor que lá foi buscá-la ao apartamento...

- E de então para cá, nunca mais a viste, não?

- Não, nunca mais a vi...

- Nem, nem sabes onde ela está?

- Não, não sei.

- Já te disse para não mentires, ouviste?

- Dona Emília desta vez decidiu ficar calada, apesar do doutor estar especado na sua frente.

- Bem, fez uma pausa, deu uns passos e depois continuou, já estou aqui a perder muito tempo. Pela última vez, ou dizes onde ela está ou vais imediatamente para a rua.

A voz agora era também ameaçadora, então dona Emília decidiu pôr as cartas na mesa, actuar de acordo com os conselhos da assistente social do hospital:

- O senhor doutor sabe muito bem que estive internada no hospital...

- Essa agora! Eu, mas em que hospital?

- Hipócrita, mil vezes hipócrita, murmurou dona Emília somente para si, mastigando o desejo de dar alto som ao pensamento.

- No de Santa Maria, pensei que o senhor doutor soubesse, disse na continuação da sua estratégia.

- Como é que tu querias que soubesse, sim como?

Continuava a mandar sabão para ver se ela escorregava. Só que desta vez os sapatos estavam bem protegidos, não havendo nenhum género de espuma que os fizessem deslizar.

- Supunha, senhor doutor...

- Mas, supunhas, porquê?

-Porque no estado em que o senhor doutor e os polícias me deixaram...

- Eu, tu deves estar maluca, não?

Desta vez a raiva invadiu-lhe todo o corpo. Arremelava os olhos e tremia como tomado por autêntico furacão.

- Não vale a pena aborrecer-se, senhor doutor, respondeu dona Emília ao mesmo tempo que tirava da pequena mala a justificação do seu internamento, passada por escrito pelo hospital e lha entregava.

- Que é isto?

- É a justificação do hospital.

- Mas para que quero eu isto?

- É o meu dever como empregada...

- Tu já não és empregada desta casa, põe-te na rua.

- Espere senhor doutor, o senhor tem consciência do que está a fazer? Lembre-se que foram muitos anos!

- O que é que queres dizer com isso? Só me faltava mais essa de não poder mandar em minha casa. Tu vais para a rua e é já.

- Espere lá um pouco, porque sendo assim, para já tenho de levar as minhas coisas, as que estão aqui e no apartamento, e também há contas para fazer retorquiu ela, perante o empurrão que ele lhe dava para junto da porta de saída.

- Contas, eu já te dou as contas. Laurinda trás aí os farrapos desta mulher, gritava, ao mesmo tempo que empurrava dona Emília para a rua.

- Sabe senhor doutor, não se esqueça que os tribunais e as cadeias não se fizeram para os cães, disse já do lado de fora da porta.

- Já viu isto, caro advogado, já viu o comportamento da mulher que fugiu com a minha filha?

Carlos tinha assistido a tudo. De princípio não sabia de quem se tratava, mas a partir do momento que se apercebeu que era a dona Emília o sangue começou a ferver-lhe nas veias, cerrando as mãos, conforme ela ia falando como que a dar-lhe coragem e força para os seus argumentos.

- Sabe o que ela me disse ali à saída? perguntou-lhe o doutor depois de se ter sentado na sua cadeira.

- Não faço ideia.

- Que os tribunais e as cadeias não se fizeram para os cães.

- Mas isso pode ser visto como uma ameaça.

- Já viu, ainda por cima é o que a gente leva. Ah, mas deixa que não caíu em saco roto.

Carlos ia para pôr algum humor no assunto, perguntar-lhe se ele já lhe estava a arranjar trabalho. Porém, não o fez, dedidiu contnuar calado acorrentando bem no seu interior os nervos causados por tudo o que ouvira e pelo desejo de se aproximar de dona Emília para lhe dar força e oferecer-se para a levar a casa.

- Trabalhou aqui durante mais de quarenta anos, ouviu?

- Quem, aquela senhora?

- Sim, era aqui a governanta. Sabe Deus quanto me terá roubado.

- Mas não era pessoa de confiança?

- Confiança, eu sei lá. Se quer que lhe diga já não sei nada. Estava aí porque era protegida da minha filha, ao ponto de fugir com ela.

Era ascorosa e repleta de segunda intenções a maneira como falava. Carlos teve de se levantar e ir à casa de banho tal a ferida que tudo aquilo lhe estava a abrir. Por momentos, quando já se encontrava a sós lembrou-se de quando, juntamente com Cristina fora ao apartamento buscar dona Emília e a levaram para o hospital. Também o ter mandado a mãe ir visitá-la e o trabalho que como agente fizera no sentido de a vigiar permanentemente. Coitada, não bastava a dor que a retinha amarrada ao leito senão tudo o mais que a envolvia. Claro que eram coisas que lhe passavam ao lado mas para quem as conhecia, para quem dominava o processo como era o seu caso e não só, começava a existir uma grande revolta por todo aquele mundo de hipocrisia provocado pelo senhor doutor Afonso.

Também, e ainda quando estava na casa de banho, ocorrera-lhe   se dona Emília teria vindo ali mandada por Cristina. Certamente que sim, e quando teria ela saído do hospital? De qualquer modo, para quem esteve tanto tempo internada e sofreu o que sofreu parecia trazer a lição muito bem estudada.

 

                                         Capítulo XXXVII

Em cada dia que passava e independentemente das situações relatadas directamente por Cristina, Carlos vinha acumulando dados sobre a personalidade do doutor Afonso. Desta vez tratava-se do seu total fracasso empresarial.

Não era situação de que não disconfiasse. Porém através dos Processos, alguns já sentenciados e outros em julgamento, que lhe estavam a passar pelas mãos confirmava essa triste realidade. Milhares de contos reclamados por credores para os quais, em virtude da má administração, não via solução à vista.

- Temos de fazer algo sobre essas coisas que estão por aí pendentes.

- Quais delas doutor?

- As... dividazitas, ee...essas contas que estão aí por actualizar.

- Dividasitas? Bem, se milhares de contos por pagar são isso, ele, Carlos, não sabia a que chamar verdadeiros calotes... mas fosse como fosse, era a altura de separar as águas, demonstrar o seu profissionalismo e dizer ao doutor qual o campo em que pensava mover-se na empresa:

- Mas doutor eu não sou o director financeiro, tracto, quando muito, de elaboração de processos e de julgamentos em tribunais.

- Sim, pois... essa situação já poderia ter sido resolvida, só o não foi pelo embaraço, sobretudo do advogado que aqui prestava serviço. Certamente que com a sua astúcia verificou que se tratava de pessoa sem ideias... digamos que já sem a lucidez necessária para vencer determinados combates.

Atacar o colega não, isso não, não ia de maneira alguma consenti-lo. Era um jovem, tinha necessidade de um emprego, lutava por uma independência social e financeira que lhe permitisse organizar a sua vida com alguma estabilidade futura para si e para aqueles que desnudadamente se tinham sacrificado para que estudasse, tirasse o seu curso. Todavia, deforma alguma ia sujeitar-se a que atacassem um colega de profissão, constatando ele que nenhumas culpas lhe poderiam ser imputadas sobre a real situação da empresa.

- Concerteza que o aconselhamento também se insere nas minhas funções, e nesse âmbito o que vejo aqui é a falta de compromissos da empresa para com alguns dos seus fornecedores...

- Mas foi injusto, eles não tinham razão.

- Desculpe doutor, mas uma pessoa é inocente até ser julgada, depois disso, e se for essa a decisão do tribunal, é que é culpado.

- Mas podemos recorrer.

- Foi o que fez o meu colega e pelo que constacto mais do que uma vez.

- Pois, mas... os argumentos, os argumentos meu cCaro advogado, são fundamentais e, o homem já não tinha aquela força, percebe?

Agora já era homem, mas que grande vigário. Estava-se a ver na mesma pele... só que a concordância aparente, o dizer a tudo que sim, tinha acabado. Em defesa dos bons princípios e para que amanhã não viesse a ser considerado responsável de causas que não julgou, havia que ser inérgico, actuar desprendido de todas e quaisquer pressões, tendo perante os factos, agora sim, a honra como exercício.

- Sabe doutor, muitas vezes para além do advogado estão os factos, e quando esses são irreversíveis não há argumentos que os destronem.

- Há sempre um argumento, meu caro advogado.

Referia-se por certo ao dinheiro, à compra de pessoas. Sim, ele sabia que isso existia mas por agora não podia alimentar esse jogo, e perante os factos o melhor era ignorá-lo.

- Já agora pode dizer qual? Eu também tenho necessidade de aprender...

O doutor impertigou-se na cadeira, ao mesmo tempo que lhe chegava às faces um certo rosado, sintoma de quem tinha ganho o combate.

- Isso são jogos para disputarmos com os nossos adversários no futuro.- Disse ao mesmo tempo que se levantava e preparava para deixar o gabinete.

- Doutor, como deve perceber eu não vi prevenido para passar muitos dias fora de casa...

- E então?- perguntou ele já entre a porta.

- Então, é que tenho que ir a Lisboa.

- Pois vá e traga a mala bem recheada, porque como já viu, instalações e trabalho não vão faltar por cá.

Não era bem a roupa nem coisa que se parecesse que estavam na preocupação do Carlos. Era sim Cristina. Os poucos dias em que já não a via pareciam-lhe anos... além disso tinha bastantes preocupações para pôr em dia. Não ia para já falar-lhe da situação financeira da empresa. Tinha a certeza que isso a iria magoar muito. Ia sim saber se não tinha saído de casa, quando e como tinha falado com a dona Emília, se já haviam novidades sobre o processo no tribunal de menores e, fundamentalmente, falar-lhe do que vira e assistira na casa da Quinta.  

 

                                   Capítulo XXXVIII

- Você? Meu Deus! Mas dona Emília como chegou até aqui à minha casa?

- Na minha terra diz-se que quem tem boca vai a Roma.

- Certo, certo dona Emília, mas eu tinha prometido que a ia buscar ao hospital...

- Bem, para agora isso já não interessa, já está ultrapassado.

- Oh, mas tenho tanta pena!

- Cristina, onde está Cristina?

Dona Angelina olhou para todos os lados como que a certificar-se de que ninguém as observava e depois disse-lhe:

- Entre, entre, ela está ali.

Cristina e dona Emília caíram nos braços uma da outra com tal alegria e emoção que pareciam vir de uma ausência de anos.

- Mimi, Mimi querida! Como estás, quando tiveste alta?

- Minha filha, minha querida filha! Pensei...pensei...

O pranto inundava-lhe os olhos e escorria-lhe pelas faces até à blusa branca.

- Deixa lá isso agora Mimi, diz-me quando é que tiveste alta e como é que chegaste aqui?

- Vim de taxi...

- E alta, quando é que tiveste alta do hospital?

- Há uns dias...

- Não me digas, Mimi! E onde é que tens estado?

- Estou num quarto que a assistente social do hospital me arranjou.

- Mas agora vai ficar aqui, disse dona Angelina com certa convicção.

- Não, agradeço muito mas não posso...

- Sim, sim, Mimi, agora vais ficar aqui. Tu estiveste muito mal, não podes estar sozinha.

- Ó não que não posso...

- Mimi desculpa, eu quero que estejas ao pé de mim.

Dona Emília olhou em redor, procurou uma cadeira e sentou-se.

- Pois menina, é isso que venho aqui tratar. Durante estes dias eu já fiz uma série de coisas...

- Pois, por isso estás tão cansada...

- É verdade dona Emília, não se pode esquecer da doença que teve!

- Pois, mas agora deixem-me falar. Como eu ia a dizer já tratei de uma série de coisas. Mal saí do hospital fui logo ao tribunal saber o ponto da situação...

- É verdade, e então?

- O processo estava arquivado...

- Foi ele, o...

- Não menina, desta vez foi o próprio tribunal. Convocaram-me e como não apareci, arquivaram aquilo.

- Oh, e agora como ficou tudo?

- Voltei a abrir o processo.

- Muito bem Mimi, muito bem. E mais, que fizeste mais?

- Fui a outro tribunal e fiz nova queixa contra, contra o senhor doutor Afonso.

- Por causa do desmaio, do que ele te fez mais a polícia, não é verdade?

- Sim menina, por isso e não só...

- Vá diz, diz lá!

Dona Emília abriu a mala, tirou o lenço com que limpou o nariz, recostou-se no sofá e contou o que se passara na Quinta.

- O quê Mimi, aquele malvado fez-te isso?

- Não pode ser, esse homem vai ter muito para pagar!

- Ai vai, vai, ó eu não me chame Emília.

- Então, que vem a ser isto por aqui?

Carlos pousou a pasta de couro em cima da mesa da sala e ficou de pé agarrado à mãe.

- Ó meu filho, sê bem vindo, estava mesmo a desejar que viesses.

Dona Emília ao ver Carlos e ouvir a sua mãe levantou-se repentinamente:

- Seu filho, mas este senhor é seu filho?

- Sim, sim Mimi, é o Carlos.

- Mas não pode ser, ele é amigo do pai da menina, ele estava lá na Quinta, assistiu a tudo!

- Dona Emília irritadíssima, ia para se afastar, sair.

- Não Mimi, espera, eu vou explicar-te...

- Não tem nada para explicar, eu vou-me embora, por favor não lhe contem nada do que eu disse, ele é perigoso, vai meter-lhe tudo no ...

- Não dona Emília, o meu filho não é desses.

- Não é desses, então que estava ele a fazer lá na Quinta? Ele até lá dormiu, a Laurinda disse-me tudo. Menina vamos embora, não fique aqui, venha comigo para o meu quarto.

- Tem calma Mimi, senta-te que eu vou explicar-te. O Carlos é um irmão, eu estou aqui em casa dele desde princípio...

- A fazer o quê, o que é que a menina está aqui a fazer?

Dona Emília gesticulava, andava de um lado para o outro, transpirava e estava vermelha como pimentão.

- Mimi escuta, por favor ouve-me.

Dona Emília acalmou-se um pouco perante a insistência de Cristina, que continuou:

- O Carlos e a dona Angelina não só me têm aqui, como foi ele que naquela noite foi comigo ao apartamento buscar-te para o hospital.

- O quê, o ... o senhor fez isso?!

- Fiz sim dona Emília e ainda hei-de fazer muito mais. Hei-de meter o doutor Afonso na cadeia.

- Ah, o senhor vai fazer isso?!

- Vou sim dona Emília, aqui estamos todos do mesmo lado.

- E... porque é que o senhor... foi para lá para a Quinta?

- Para ir apanhando o doutor...

- Ele é advogado Mimi...

- Então se é advogado, tem de estar aqui para nos defender, não é lá... Ou será...

- Dona Emília, aqui do nosso lado vai estar um advogado da máxima confiança e eu estou do outro lado para fazer perder o doutor Afonso, ou lá o que ele é.

- Entendeste Mimi, estás agora a perceber?

Dona Emília olhou para o Carlos como que a medi-lo da cabeça aos pés, e depois disse com voz um pouco mais calma:

- Se é assim...

- Pode crer dona Emília, ele vai pagar bem caro o que lhe disse lá na Quinta e pelo modo como a pôs na rua.

 

                                     Capítulo XXXIX

A vida do doutor Afonso, em seu entender, corria sobre esferas. Para ele bastavam-lhe as suas meninas para encontrar solução para todos os problemas. Era na sua vivência sexual que bebia, comia, desabafava, que encontrava enfim, o bem-estar, o prazer, o bálsamo para as suas feridas e males. Logo que se sentia triste ou aborrecido com qualquer situação familiar ou empresarial lá estava ele, a dirigir-se para um dos muitos lados em Portugal ou no estrangeiro onde tinha assegurada a companhia ideal para despejar todas as preocupações.

Claro que para alimentar toda essa vida era necessário dinheiro, precisamente o que lhe ia faltando devido às muitas das dificuldades que a empresa ia sofrendo.

O embevecimento e a loucura por aí eram tais que para ele estava tudo bem: deixou de valorizar a ausência da filha; o facto da empregada Laurinda, depois da conversa que teve com dona Emília se ter ido embora; os trabalhadores estarem já com salários em atraso; a empresa em cada dia que passava cair em situação de iminente falência; enfim a desmoronação de todo um mundo que só a sua hipocrisia e arrogância viam intacto.

- Doutor, os fornecedores estão a apresentar-nos recibos a que não podemos corresponder.

- Doutor, está-se a aproximar o fim do mês e não existem fundos para pagar os salários aos trabalhadores.

- Doutor, está ali um senhor duma agência para receber...

- Que esperem, que esperem, afinal quem se julgam eles??

- Doutor, terminaram os prazos dados por estas empresas para liquidação das nossas dívidas.

- Doutor, temos estas contribuições para pagarmos...

- Pois que esperem, afinal quem se julgam eles??

Mas ao fim e ao cabo estas atropeladas decisões iam causando moça. O doutor Afonso estava mais magro, tinha ar bacilento e tremia muito, não conseguindo estar quieto na cadeira dois minutos que fossem. Oscilava com o corpo, dançava com a cabeça, enfim, apresentava-se uma amostra do que fora.

Carlos ia vivendo e tendo consciência de todas estas situações e, não fosse o diabo tecê-las ia-se valendo do facto de ser possuidor duma procuração com poderes ilimitados para ir pondo alguns bens em nome de Cristina. O que tinha acontecido já com a Quinta e com o apartamento da avenida de Roma em Lisboa, que sabia estarem profundamente no íntimo dela, fazendo-o igualmente com o edifício do escritório, com alguns terrenos e fábricas.

Um dia após ter regressado do tribunal e ter anunciado ao doutor mais a perda de uma causa sobre fornecedores, aproveitou para lhe dar conhecimento da convocatória do tribunal para o julgamento da queixa de dona Emília sobre o seu despedimento.

- O quê, ela fez isso?...

- Fez e o processo, já por mim consultado, não nos é nada favorável.

- Desgraçada, comeu uma vida toda e agora vem partir o prato!

- Se calhar o melhor seria falarmos com ela, podia ser que...

- Nunca. Rebaixar-me a uma subordinada, nunca.

A irritação e o nervosismo do doutor eram bem visíveis na sua maneira de estar. Andava de um lado para o outro, sentava-se e levantava-se simultaneamente, batia com a mão fechada na secretária enfim, quase explodia, tal era o arregalado dos olhos, o vermelho e o enrrugado das faces.

- Doutor, temos ainda aqui outro assunto...

- Do tribunal? Perguntou ele extremamente excitado.

- Sim... do tribunal.

- Quer dizer, agora mudaram-se para aqui, não?

- Pelos vistos.

- Se é de fornecedores, vemos isso amanhã.

- Não é não doutor, é da sua filha.

- Como? De quem?

O doutor Afonso parou de repente e colocou as mãos fechadas sobre a secretária do Carlos.

- Sim, é da Cristina sua filha.

- E que quer ela, que quer ela, quer vir para casa?

- Não, segundo informação do tribunal...

- Do tribunal, mas do tribunal, o quê?

- Bem desculpe doutor, mas como sabe aos médicos e advogados nada se deve esconder...

- Sim,   e depois?

A secretária quase abanava tal era o impulso provocado pelo tremular do corpo do doutor.

- Trata-se duma queixa sobre tentativa de violação.

- Como?! Mas isso é... é um escandalo!

O escarlate das faces do doutor tornou-se num branco muito pálido ao mesmo tempo que esbugalhava os olhos, deslizava pela secretária e se estatelava desamparadamente no chão.

- Doutor, doutor!!- exclamou o Carlos correndo para junto do corpo e tentando levantá-lo, o que não conseguiu, correndo depois para o telefone onde extramamente nervoso e preocupado pediu à secretária um médico com urgência.

O corpo do doutor ia desfalecendo ao mesmo tempo que a respiração se ia apagando e o rosto branco escurecendo terrivelmente.

-Que se passa doutor, que se passa? - Perguntavam os trabalhadores do escritório conforme se iam aproximando.

- Foi... foi , o doutor que desmaiou.

- Que desmaiou não, que teve um enfarte.- Acrescentou o médico da empresa que acorrera de imediato, enquanto que com a ajuda do Carlos levantava o corpo do doutor, o metia no carro e o transportava ao hospital onde já chegou morto.

 

                                       Capítulo XXXX

Nos dias que se seguiram a agitação dentro e fora da empresa fora grande.

O facto do falecimento do doutor Afonso ter sido noticiado em todos os jornais, rádios e televisão levou fornecedores, sobretudo aqueles que tinham contencioso com a empresa a fazerem bicha nos guichets para saberem como ia ser a sua situação; trabalhadores a interrogarem-se sobre o seu futuro por ali, enfim, muitas preocupações a caírem permanentemente em cima da mesa nas reuniões da gerência, que se encontrava de mãos atadas, em virtude da única herdeira não dar notícias, uma vez que Cristina, a mando do Carlos, não comparecera no funeral, nem dera qualquer sinal da sua existência.  

- Caro advogado e se ela não aparecer, como vai ser?

- Pois, se a menina Cristina não aparecer será que os fornecedores podem tomar conta disto?

- Meus senhores a única herdeira desta empresa é a dona Cristina, e a maioria dos bens estão em seu nome...

- E se ela não aparecer? Sim, se ela não aparecer?

- Aí, poderá haver intervenção do estado. Mas meus senhores há que manter a calma e não cair em ideias precepitadas. Está tudo muito fresco, são normais as dúvidas mas há que esperar, somente esperar.

Carlos era o centro das atenções. Toda a gente se lhe dirigia a colocar questões e a querer soluções. Todavia, mantinha-se   absolutamente calmo a ouvir e a esclarecer. Ele apesar de jovem, era a única pessoa que conhecia e comandava todo o processo.

 

                             Capítulo XXXXI

No quinto dia após o funeral do doutor Afonso chegou ao gabinete da gerência um telegrama de Cristina a informar que no dia seguinte estaria na empresa.

Chegou acompanhada de dona Emília e do Carlos. E foi no meio deles que disse, em reunião de gerência, que a empresa iria continuar a laborar, que o doutor Carlos a partir daquele momento era o administrador geral, que estava ciente das dificuldades e que confiava em todos para ajudar a superá-las.

No final da reunião e quando Carlos e Cristina se encontravam a sós no gabinete da gerência ele disse-lhe:

- Tenho muito orgulho de ti, Cristina.

- Carlos, que seria de mim sem ti!

- Bondade da tua parte, Cristina.

- Bondade não, reconhecimento. Pensas que posso esquecer que arriscaste empregos, a tua dignidade e até a tua vida?! Que me isolaste para me defender e, que se não fosses tu, agora estaria sem nada, quem sabe, talvez na miséria!

- Cristina, se alguma coisa fiz foi...em primeiro por justiça, depois... foi... foi porque te amo muito.

- Também eu te amo muito, Carlos.

O semblante e a voz dela eram de tristeza. Carlos puxou-a para si e ia para beijá-la.

- Carlos... desculpa, eu amo-te como irmão e é assim que quero amar-te sempre.

- E o nosso casamento?

- O meu casamento vai ser com esta empresa onde te quero ter sempre como padrinho.

- Cristina, mas...

- Carlos, um homem feriu de tal modo o meu amor que nunca mais vou ter coração para amar nenhum.

- Mas Cristina, esse não era um homem, era um assassino.

- Foi por isso que o meu amor foi morto.

   

                                                                                Sá Flores 

 

 

                      

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