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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VINGANÇA EM PARIS / Steve Berry
VINGANÇA EM PARIS / Steve Berry

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

VINGANÇA EM PARIS

 

                   Planície de Gizé, Egito

                   Agosto de 1799

O general napoleão bonaparte desmontou do cavalo e ergueu o olhar até a pirâmide. Outras duas jaziam próximas, em sucessão, mas aquela era a mais grandiosa das três.

Que grande prêmio pela sua conquista!

No dia anterior, a viagem do Cairo em direção ao sul, passando por campos margeados por canais de irrigação lamacentos e enfrentando uma breve trilha de areia soprada pelo vento, fora tranqüila. Duzentos homens armados lhe fizeram companhia, pois era uma atitude impru­dente aventurar-se sozinho nos confins do Egito. Cerca de 1 quilômetro antes, havia se separado do seu contingente e montado acampamento para passar a noite. O dia novamente tinha sido árido e escaldante, por isso esperara pelo anoitecer para a sua visita.

Desembarcara em terra firme havia cinco meses, próximo a Alexandria, com 34 mil homens, mil armas de fogo, setecentos cavalos e 100 mil cartuchos de munição. Avançara rapidamente para o sul, conquistando o Cairo, já que seu objetivo era abalar quaisquer resistências pela rapidez e surpresa. Depois, não muito distante dali, lutara contra os mamelucos num glorioso conflito que havia chamado de a Batalha das Pirâmides. Esses antigos escravos turcos haviam gover­nado o Egito por quinhentos anos e proporcionavam uma tremenda visão: milhares de guerreiros, em vestimentas coloridas, montados em garanhões exuberantes. Ainda era capaz de sentir o cheiro da cordite e o estrondo dos canhões, de ouvir o estalido dos mosquetes e os gritos de morte dos homens. Os integrantes das suas tropas, muitos deles veteranos da campanha italiana, lutaram bravamente. E, com apenas duzentas baixas no lado francês, capturara, virtualmente, o exército inimigo inteiro, ganhando controle total do baixo Egito. Um repór­ter havia escrito que "um punhado de franceses havia subjugado um quarto do globo".

Não era bem verdade, mas soava maravilhoso.

Os egípcios tinham lhe dado a alcunha de "Sultão El Kebir" — um título de respeito, disseram. Durante os 14 meses em que vinha governando a nação como comandante-chefe, descobrira que, como os homens que amavam o mar, ele amava o deserto. Amava, também, o estilo de vida egípcio, no qual o caráter contava muito mais do que as posses.

Acreditavam, também, na providência.

Assim como ele.

— Bem-vindo, général. Que noite magnífica para uma visita! — bradou Gaspard Monge no seu costumeiro tom animado.

Napoleão tinha apreço pelo belicoso geômetra francês, filho de um mascate, abençoado com um rosto largo de olhos profundos e um nariz carnudo. Apesar de instruído, Monge sempre carregava rifle e cantil e parecia ansiar tanto pela revolução quanto pela batalha. Era um entre os 160 estudiosos, cientistas e artistas — savants, como a imprensa os havia rotulado — que tinham viajado com ele desde a França, já que viera em busca não só da conquista como também do aprendizado. Seu modelo espiritual, Alexandre, o Grande, fizera o mesmo ao invadir a Pérsia. Monge já havia viajado com Napoleão pela Itália, ajudando a supervisionar a pilhagem do país; logo, confiava nele.

Até certo ponto.

Você sabe, Gaspard, que quando eu era criança, queria estudar ciências. Durante a revolução em Paris assisti a várias palestras de quí­mica. Mas, infelizmente, as circunstâncias fizeram-me um oficial do Exército.

Um dos trabalhadores egípcios levou o cavalo para longe dali, mas só depois de Napoleão pegar uma bolsa de couro. Ele e Monge estavam sozinhos agora, com a poeira luminosa dançando ao redor da grande pirâmide.

Há alguns dias — disse — fiz uns cálculos e concluí que essas três pirâmides possuem pedras suficientes para construir uma mura­lha de 1 metro de espessura e 3 de altura ao redor de Paris.

Monge pareceu ponderar a declaração.

É possível que isso seja verdade, général.

Sorriu diante da evasiva.

Falou como um matemático desconfiado.

De modo algum. Apenas acho interessante a maneira como vê essas construções. Não em relação aos faraós ou às tumbas neles conti­dos, ou mesmo à assombrosa engenharia utilizada na sua construção. Não. Vê-as em termos associados à França.

É difícil, para mim, evitá-lo. É no que mais penso.

Desde sua partida, a França encontrava-se num estado de desor­dem inacreditável. A antes grande esquadra nacional fora destruída pelos britânicos, isolando-o no Egito. O diretório governante demons­trava a intenção de guerrear com todas as nações monarquistas, tor­nando-se inimigo da Espanha, Prússia, Áustria e Holanda. Para eles, o conflito parecia ser uma forma de prolongar o poder e recuperar um tesouro nacional cada vez mais escasso.

Ridículo.

A República era um verdadeiro fracasso.

Um dos pouco jornais europeus que chegavam do outro lado do Mediterrâneo previra que era uma mera questão de tempo até que outro Luís se sentasse no trono francês.

Ele tinha de voltar para casa.

Tudo que estimava parecia estar se desintegrando.

A França precisa do général! — disse Monge.

—Agora você está falando como um revolucionário.

Seu amigo riu.

Que é o que sou.

Sete anos antes, Napoleão presenciara outros revolucionários tomarem de assalto o Palácio das Tulherias e destronarem Luís XVI. Ele se tornara, então, um fiel servidor da nova República e lutara em Toulon, sendo promovido, sucessivamente, a brigadeiro-general, general do Exército do Leste e comandante na Itália. Dali, marchara para o nor­te e dominara a Áustria, retornando a Paris como herói nacional. Ago­ra, com 30 anos recém-completos, conquistara o Egito como general do Exército do Oriente.

Mas seu destino era governar a França.

Que superfluidade de coisas maravilhosas! — exclamou ao ad­mirar novamente as grandes pirâmides.

Ao cavalgar do acampamento, vislumbrara trabalhadores atarefados que limpavam a areia de uma esfinge semi-enterrada. Ele mesmo havia ordenado a escavação daquela guardiã austera e estava contente com os progressos.

Esta é a pirâmide mais próxima do Cairo, a chamamos, portan­to, de Primeira — disse Monge. Apontou para outra. — A Segunda. A mais distante é a Terceira. Se pudéssemos ler os hieróglifos, sabería­mos, talvez, quais eram seus verdadeiros nomes.

Concordava com ele. Ninguém era capaz de compreender os estranhos sinais presentes em quase todos os monumentos antigos. Ha­via ordenado que fossem copiados; os desenhos eram tantos que seus artistas tinham gasto todos os lápis trazidos da França. Monge inven­tara um modo engenhoso de manufaturá-los: derretendo projéteis de chumbo nos juncos do Nilo.

É possível que ainda haja esperança — disse ele.

E viu Monge assentir, como se soubesse disso.

Ambos sabiam que uma pedra escura e feiosa encontrada em Roseta, com três tipos diferentes de inscrições — hieróglifos (a língua do Antigo Egito), demótico (a atual) e grego —, poderia conter a resposta. No mês anterior, comparecera a uma sessão do Instituto Egito, cria­do por ele para estimular seus savants, onde a descoberta havia sido anunciada.

Mas eram necessários muitos outros estudos.

Estamos fazendo as primeiras vistorias sistemáticas desses lo­cais — afirmou Monge. — Todos os que nos antecederam eram meros saqueadores. Devemos celebrar nossos achados.

"Outra idéia revolucionária", pensou Napoleão. Típica de Monge.

Leve-me para dentro — ordenou.

Na face norte, com o amigo a conduzi-lo, subiram por uma escada até uma plataforma a 20 metros de altura. Meses antes, havia chegado até aquele ponto com alguns dos seus comandantes, quando fizeram a pri­meira inspeção nas pirâmides. Mas recusara-se a entrar no edifício, pois para isso teria de engatinhar diante dos seus subordinados. Desta vez, curvou-se para a frente e foi serpeando por um corredor de não mais de 1 metro de altura e da mesma largura, inclinando-se sutilmente para baixo, pelo centro da pirâmide. A bolsa de couro pendia de seu pesco­ço, balançando no ar. Chegaram a outro corredor, escavado na direção superior, onde Monge entrou. A rampa agora inclinava-se para cima, apontando para um quadrado iluminado na extremidade mais distante.

Emergiram e puderam ficar de pé, a magnitude do lugar preenchendo-o com reverência. A luz bruxuleante das lamparinas a óleo, viu um teto que se erguia a uma altura de quase 10 metros. O chão era de um aclive íngreme, ao longo de mais alvenaria de granito. Paredes projetavam-se para fora numa série de cantiléveres, construídos uns sobre os outros para formarem uma abóbada estreita.

É magnífico — suspirou.

Começamos a chamá-la de Grande Galeria.

Um rótulo apropriado.

Ao pé de cada parede lateral, uma rampa plana, de meio metro de largura, estendia o comprimento da galeria. Entre as rampas, uma passagem de 1 metro. Nenhum degrau, apenas uma inclinação íngreme.

Ele está lá em cima? — perguntou a Monge.

Oui, génêral. Chegou há uma hora e levei-o até a Câmara do Rei.

Ainda agarrava-se à bolsa.

Aguarde lá embaixo, do lado de fora.

Monge virou-se para sair e então deteve-se.

Tem certeza de que quer fazer isso sozinho?

Manteve os olhos adiante, na Grande Galeria. Tinha ouvido as histórias egípcias. Supostamente, os illuminati da antigüidade haviam passado pelas místicas galerias dessa pirâmide, indivíduos que nela entraram como homens e emergiram como deuses. Era um lugar de "segundos nascimentos", um "ventre misterioso", diziam. A sabedo­ria ali habitava, assim como Deus habitava o coração dos homens. Os savants tentavam imaginar qual teria sido a necessidade fundamental que havia inspirado tal obra hercúlea de engenharia, mas para ele só poderia existir uma única explicação (e era perfeitamente capaz de en­tender essa obsessão): o desejo da troca das limitações da mortalidade humana pela amplitude da iluminação. Seus cientistas gostavam de admitir a possibilidade de aquele ser o edifício mais perfeito do mun­do, a Arca de Noé original, talvez o ponto de origem dos alfabetos, das línguas, dos pesos e das medidas.

Não para ele.

Este era o portão para o eterno.

— Somente eu posso fazê-lo — murmurou por fim.

Monge saiu.

Napoleão sacudiu areia do uniforme e prosseguiu, subindo a ín­greme escadaria. Estimava que tivesse 120 metros de comprimento e já estava sem fôlego quando chegou ao topo. Um degrau alto levava a uma galeria de teto rebaixado, que fluía em direção a uma antecâmara de três paredes de granito.

Para além, abria-se a Câmara do Rei, de paredes de pedra vermelha polida, com imensos blocos tão próximos uns dos outros que somente um fio de cabelo poderia passar entre eles. A câmara era retangular e sua largura se igualava a mais ou menos metade do seu comprimento. Estava situada numa concavidade no coração da pirâmide. Monge tinha lhe dito que era possível que houvesse uma relação entre as medi­das da câmara e algumas constantes matemáticas consagradas.

Não duvidava dessa observação.

Placas de granito planas formavam o teto, 10 metros acima. A luz se infiltrava suavemente através de duas colunas que perfuravam a pirâmide ao norte e ao sul. O aposento estava vazio, a não ser por um homem e um sarcófago de granito inacabado, em estado bruto, sem tampa. Monge observara como ainda era possível ver as perfurações tubulares e as marcas de serra feitas pelos operários. E estava certo. Ha­via também relatado que sua largura era um pouco maior, em menos de 1 centímetro, do que a do corredor ascendente, o que significava que havia sido colocado ali antes da construção do restante da pirâmide.

O homem de frente para o fundo do aposento virou-se.

O corpo disforme estava envolto numa espécie de túnica solta, e ele tinha um turbante de lã na cabeça e uma peça de calicó cruzada sobre um dos ombros. Era evidente que descendia dos egípcios, mas vestígios de outras culturas revelavam-se na testa plana, nas maçãs do rosto altas e no nariz largo.

Napoleão fixou o olhar no rosto de linhas profundas.

Trouxe o oráculo? — indagou o homem.

Fez um movimento em direção à bolsa.

Está aqui comigo.

Napoleão emergiu da pirâmide. Quase uma hora havia se passado e a escuridão agora engolia a planície de Gizé. Antes de partir, dissera ao egípcio para aguardar do lado de dentro.

Retirou mais poeira do seu uniforme e endireitou a bolsa de couro sobre o ombro. Encontrou a escada e lutou para controlar as emoções, mas a hora anterior tinha sido horrível.

Monge o esperava no térreo, sozinho, com as mãos agarradas às rédeas do cavalo de Napoleão.

A visita foi satisfatória, mon général?

Encarou o savant.

Escute o que tenho a dizer, Gaspard. Nunca mais mencione esta noite. Compreende? Ninguém pode saber que estive aqui.

O amigo parecia surpreso pelo seu tom de voz.

Não quis ofender...

Ergueu uma das mãos.

Nunca mais a mencione. Compreendeu?

O matemático assentiu, mas Napoleão percebeu que o olhar de Monge fixava-se para além dele, acima, no alto da escada, no egípcio à espera da sua partida.

Atire nele — suspirou para Monge.

Percebeu o choque no rosto do amigo e, portanto, pressionou os lábios perto do ouvido do acadêmico.

Você adora carregar a sua arma. E quer ser um soldado. Então, este é o momento. Soldados obedecem a seus comandantes. Não que­ro que ele deixe este lugar. Se não tem coragem, peça a alguém para fazê-lo. Mas saiba de uma coisa: se esse homem estiver vivo amanhã, nossa gloriosa missão em nome da nobre República sofrerá a trágica perda de um matemático.

Viu o medo nos olhos de Monge.

—Você e eu já fizemos muito juntos — frisou Napoleão. — Somos amigos de verdade. Irmãos da assim chamada República. Mas você não vai querer me desobedecer. Nunca.

Soltou-o e montou no cavalo.

— Estou voltando para casa, Gaspard. Para a França. Para o meu destino. Que você possa encontrar o seu também, aqui, neste lugar abandonado por Deus.

 

                   Copenhague

                   Domingo, 23 de dezembro

                   Presente 0H40

A bala entrou rasgando o ombro esquerdo de Cotton Malone.

Ele lutou para ignorar a dor e concentrou-se na praça. Pessoas corriam em todas as direções. Os carros buzinavam. Pneus guinchavam. Os fuzileiros navais de guarda na embaixada americana, perto dali, reagiram ao caos, mas estavam longe demais para ajudar. Havia corpos espalhados por todos os cantos. Quan­tos? Oito? Dez? Não. Mais. Perto dali, uma mulher e um homem, ambos jovens, jaziam em ângulos contorcidos num trecho de asfalto oleoso; ele, com os olhos estáticos e abertos, iluminados pelo choque; ela, com o rosto no chão, o sangue jorrando. Malone tinha visto dois atiradores e, imediatamente, disparara contra eles, mas passara batido pelo terceiro, que o derrubou rapidamente com um único disparo e agora tentava fugir, usando os curiosos em pânico como escudo.

Maldição! O ferimento doía. O medo tomou conta do rosto como uma onda de fogo. Ao esforçar-se para levantar o braço esquerdo, sentiu as pernas bambe- arem. A Beretta parecia pesar toneladas, não gramas.

Seus sentidos estavam abalados pela dor. Sugou golfadas profundas do ar envolto em enxofre e, finalmente, forçou o dedo sobre o gatilho, que apenas rangeu, sem disparar.

Estranho.

Mais rangidos foram ouvidos em sua tentativa de atirar novamente.

E, então, o mundo se dissolveu em escuridão.

 

Malone despertou, afastou o sonho — várias vezes recorrente nos últimos dois anos — da mente e olhou para o relógio sobre o criado-mudo.

         0h43.

 

Estava deitado na cama, no seu apartamento, a luminária ainda acesa sobre a mesa de cabeceira, como quando ele havia desabado, duas horas antes.

Algum barulho o havia acordado. Parte do sonho sobre a Cidade do México, mas ao mesmo tempo não.

Ouviu-o de novo.

Três chiados em rápida sucessão.

Era um edifício do século XVII, completamente remodelado havia poucos meses. Do segundo ao terceiro andar, os novos espelhos de ma­deira da escada fizeram-se ouvir numa ordem precisa, como teclas de um piano.

O que significava que havia alguém ali.

Esticou o braço por baixo da cama, encontrando a mochila que mantinha de prontidão nos seus dias de Magellan Billet. Dentro dela, a mão direita agarrou a Beretta, a mesma da Cidade do México, já carregada.

Outro hábito do qual, felizmente, não havia se livrado.

Saiu do quarto lentamente.

O apartamento, no quarto andar, tinha menos de 100 metros quadrados. Além do quarto, havia uma cozinha, um escritório, um banheiro e vários armários. As luzes estavam acesas no escritório, onde o vão da entrada abria-se em direção à escada. A livraria ocupava todo o andar térreo e o segundo e o terceiro andares eram destinados aos escritórios e ao estoque.

Encontrou o vão da porta e abraçou o batente interno

Avançara silenciosamente, a passos leves, os sapatos movendo-se sobre as passadeiras. Vestia as mesmas roupas do dia anterior. Na noite passada, trabalhara até tarde, após um sábado movimentado antes do Natal. Era bom ser livreiro novamente. Supostamente, sua atual profis­são. Então, por que estava de arma em punho no meio da noite, com todos os sentidos a lhe dizerem que o perigo estava próximo?

Arriscou um olhar através da entrada. As escadas levavam a uma plataforma e, em seguida, inclinavam-se num ângulo descendente. Apagara as luzes antes de subir, e não havia interruptores paralelos. Amaldiçoava-se por não os ter colocado durante a reforma. Uma coisa que havia sido acrescentada, porém, era um corrimão de metal que con­tornava a extremidade externa das escadas.

Deixou o apartamento e escorregou pelo corrimão, aterrissando na plataforma seguinte. Não seria prudente descer pelos degraus de madeira e, com os rangidos, anunciar sua aproximação.

Com cautela, olhou para o vazio abaixo dele.

Escuro e silencioso.

Deslizou até a base seguinte e encontrou uma posição de onde po­deria espionar o terceiro andar. As luzes cor de âmbar da Hojbro Plads vazavam através das janelas frontais do edifício, formando um halo alaranjado que iluminava o espaço além do vão de entrada. Era ali que mantinha o estoque — caixas de livros trazidas por pessoas que as arrastavam para dentro. "Compre por cêntimos, venda por euros." Era as­sim o negócio de livros usados. Aja assim e fará dinheiro. Melhor ainda — às vezes, era possível encontrar verdadeiros tesouros dentro daque­las caixas. Esses eram guardados no segundo andar, numa sala fechada. Portanto, a não ser que alguém tivesse forçado aquela porta, quem quer que estivesse ali fugira para o terceiro andar, que estava aberto.

Escorregou pelo último corrimão e posicionou-se do lado externo do vão da entrada do terceiro andar. O aposento adiante, de cerca de 12 por 6 metros, estava abarrotado de pilhas de caixas de vários metros de altura.

O que você quer? — perguntou, com as costas pressionadas contra a parede externa.

Perguntava-se se tinha sido apenas o sonho que o pusera em aler­ta. Doze anos como agente do Departamento de Justiça dos Estados Unidos com certeza haviam deixado marcas paranóicas em sua personalidade, e as duas últimas semanas lhe pesaram — um peso pelo qual não esperava, mas que tinha aceitado como o preço pela verdade.

Vamos fazer o seguinte — disse —: vou voltar lá para cima. Seja você quem for, se deseja algo, suba também. Senão, faça o favor de sair da minha loja!

Silêncio.

Caminhou em direção às escadas.

Vim ver você — disse uma voz masculina, de dentro da sala do estoque,

Deteve-se e reparou nas nuances daquela voz. Jovem. Vinte e tan­tos anos, ou 30 e poucos. Americana, com traços de um sotaque. E cal­ma. Prática.

E por isso invadiu a minha loja?

Tive que fazer isso,

A voz estava próxima agora, ali, no outro lado da entrada. Afas­tou-se da parede e apontou a arma, esperando que seu interlocutor se revelasse,

Uma figura sombria surgiu no vão da entrada.

Altura mediana, magro, vestindo um casaco que ia até a cintura. Cabelos curtos. Mãos ao longo do corpo, vazias. O rosto oculto pela noite.

Manteve a arma apontada e disse:

Nome?

Sam Collins.

O que você quer?

Henrik Thorvaldsen está metido numa encrenca.

Outra novidade?

Há gente a caminho para matá-lo.

Quem?

Temos que ir até ele.

Continuou com a arma em punho, dedo no gatilho. Derrubaria Collins se ele se movesse 1 milímetro. Mas tinha um pressentimento, do tipo que agentes adquirem à custa de duras experiências, que lhe dizia que o rapaz não estava mentindo.

Quem?

Precisamos ir até ele.

De baixo, veio o barulho de vidro se quebrando.

Mais uma coisa — disse Collins. — Essas pessoas. Estão atrás de mim, também.

 

                   Bastia, Córsega

                   1H05

GRAHAM ASHBY ESTAVA NO ALTO DA PLACE DU DUJON, ADMIRANDO o porto tranqüilo. Ao redor, casas com fachadas gastas em tons pastel amontoavam-se como caixotes entre igrejas, as estruturas antigas ofus­cadas pela torre de pedras lisas onde ele havia se instalado. Seu iate, Archimedes, estava ancorado a 500 metros, no antigo porto. Admirou a silhueta esbelta e iluminada, em contraste com as águas prateadas. A segunda noite do inverno havia trazido do norte um vento frio e seco que varria toda a extensão de Bastia. O peso da quietude típica dos feriados tomava conta do ar — o Natal seria dali a dois dias, mas isso pouco o interessava.

O Terra Nova, anteriormente centro das atividades militares e administrativas de Bastia, tornara-se um quarteirão afluente, com apartamentos grandiosos e lojas modernas se alinhando num la­birinto de ruas de pedra. Alguns anos antes, quase investira nesse crescimento súbito, mas fora contra a idéia. Bens imóveis, principalmente ao longo da costa mediterrânea, já não tinham tanto retorno como antigamente.

Pousou o olhar sobre o Jetée du Dragon, um cais artificial que exis­tia havia poucas décadas. Para construí-lo, os engenheiros tinham destruído um rochedo gigante, em forma de leão, chamado Il Leone, que bloqueava o porto e havia figurado proeminentemente em várias gra­vuras pré-século XX. Duas horas antes, enquanto o Archimedes adentra­va a área de águas protegidas, avistara a torre de menagem do castelo — construída pelos governantes genoveses do século XIV — sobre a qual estava agora, às escuras, e perguntara-se se aquela noite seria "a noite".

Esperava que sim.

Córsega não estava entre os seus lugares prediletos. Não era nada além de uma montanha que brotava do mar. Com 185 quilômetros de comprimento, 83 de largura, 14.244 quilômetros quadrados e 965 quilômetros de costa. A geografia variava de picos alpinos a desfiladeiros profundos, florestas de eucalipto, lagos glaciais, pastos, vales férteis e até algum deserto. Em épocas distintas, gregos, cartagineses, romanos, aragoneses, italianos, britânicos e franceses a haviam conquistado, mas sem jamais conseguir subjugar o espírito rebelde da ilha.

Outro motivo pelo qual desistira de investimentos: havia incons­tância demais nesse département francês rebelde.

Os industriosos genoveses fundaram Bastia em 1380 e construíram fortalezas para protegê-la, a torre onde ele se encontrava era uma das únicas restantes. A cidade fora capital da ilha até 1791, quando Napoleão decidiu que seu local de nascimento, Ajaccio, ao sul, seria a me­lhor opção. Ele sabia que os habitantes ainda não tinham perdoado o pequeno imperador por essa transgressão.

Abotoou o sobretudo Armani e colocou-se próximo a um parapeito medieval. A camisa sob medida, as calças e o suéter colavam-se ao corpo de 58 anos, dando-lhe um sentimento tranquilizador de confian­ça. Comprara o conjunto na Kingston & Knight, à moda do seu pai e do avô. No dia anterior, em Londres, o barbeiro havia passado meia hora aparando sua juba grisalha, eliminando as ondas descoradas que o faziam parecer mais velho. linha orgulho do modo como mantinha a aparência e o vigor de alguém mais jovem e, enquanto continuava a olhar para o Mar Tirreno no horizonte, para além de uma Bastia en­volta em escuridão, saboreou a satisfação de ser um homem que tinha chegado a algum lugar.

Olhou para o relógio de pulso.

Viera desvendar um mistério que havia torturado caçadores de tesouros por mais de sessenta anos e detestava atrasos.

Ouviu passos vindos de uma escadaria próxima, que se erguia a 20 metros de altura. Durante o dia, turistas tolos subiam para admirar o cenário e tirar fotos. Àquela hora, não havia visitantes.

Um homem surgiu em meio à luz tênue.

Era pequeno e tinha uma cabeleira vasta e volumosa. Duas linhas profundas marcavam-lhe o rosto, como cortes que iam das narinas até a boca. A pele era morena, num tom semelhante ao de uma casca de noz, a pigmentação escura acentuada por um bigode branco.

E estava vestido de padre.

Ao se aproximar, os saiotes negros farfalharam.

Lorde Ashby. Minhas desculpas pelo atraso, mas foi inevitável.

Um padre? — perguntou, apontando para a batina.

—Achei que seria o melhor disfarce para esta noite. Não instiga muitas perguntas. — O homem inspirou algumas vezes, ainda sem fôlego devido à subida.

Ashby escolhera o horário cuidadosamente e cronometrara a sua chegada com precisão britânica. Mas a programação agora estava atrasada em cerca de meia hora.

Detesto aborrecimentos — disse — mas, às vezes, uma discus­são franca, cara a cara, faz-se necessária. — Apontando-lhe um dedo, continuou: — O senhor é um mentiroso!

Sou sim. Admito-o sem ressalvas.

E custa-me tempo e dinheiro, duas despesas dispensáveis.

Infelizmente, lorde Ashby, encontro-me em escassez de ambos - fez uma pausa. — E sabia que o senhor precisava da minha ajuda.

Da última vez, deixara que o homem soubesse demais.

Um erro.

Algo havia acontecido em Córsega em 15 de setembro de 1943. Seis caixotes foram trazidos do oeste, da Itália, de barco. Alguns diziam que haviam sido jogados ao mar, próximo a Bastia; outros acreditavam que foram levados até a praia. Os relatos eram unânimes quanto à partici­pação de cinco alemães. Quatro deles submetidos à corte marcial por deixarem o tesouro num local que viria a cair nas mãos dos aliados - e, por isso, executados. O quinto fora exonerado. Infelizmente, não estava a par do esconderijo final, portanto procurara-o em vão pelo resto da vida.

Como diversos outros.

Mentiras são as únicas armas de que disponho — esclareceu o corso. — São o que mantém homens poderosos como o senhor em xeque.

Senhor...

—Atrevo-me a dizer que não sou muito mais velho do que o se­nhor. Embora não tenha uma fama tão ruim. Sua reputação é notável, lorde Ashby.

Ele assentiu, concordando com a observação. Compreendia o que a imagem era capaz de fazer para — e por — uma pessoa. Por três séculos, sua família possuíra o controle da maioria das ações de uma das instituições de empréstimos mais antigas da Inglaterra. Era, agora, o único dono daquele legado. A imprensa britânica certa vez descrevera seus luminosos olhos cinzentos, seu nariz romano e seu sorriso conti­do como o "semblante de um aristocrata". Um repórter, poucos anos antes, classificara-o como "imponente", enquanto outro o descrevera como "moreno e saturnino". A referência ao seu tom de pele — a ele

conferido pela descendência turca da sua mãe — não chegava a incomodá-lo, mas o mesmo não poderia ser dito quanto a ser considerado taciturno e sombrio.

Garanto, meu senhor — disse — que não sou um homem a ser temido.

O corso riu.

Espero que assim seja. A violência não o levaria a lugar algum. Afinal, o senhor procura pelo ouro de Rommel. Um belo tesouro. E é possível que eu saiba onde ele se encontra.

O homem era tão importuno quanto observador. Mas era também um mentiroso confesso.

Você me deixou num beco sem saída.

A silhueta escura deu uma risada.

O senhor estava pressionando demais. Não posso me dar ao luxo de atrair qualquer tipo de atenção. Alguém poderia tomar conhecimento. Essa ilha é pequena e, se encontrarmos o tesouro, quero poder garantir a minha parte.

O homem trabalhava para a Assemblée de Corse, fora de Ajaccio. Era funcionário público inferior do governo regional da Córsega, que tinha acesso a uma grande quantidade de informações.

E quem tiraria nosso achado de nós? — indagou.

Gente daqui, de Bastia, que continua com as suas buscas. Ou­tros que residem na França e na Itália. Há homens morrendo por esse tesouro.

O tolo aparentemente preferia conversar sem pressa, fazendo alu­sões e sugestões, progredindo a passos lentos até o ponto de chegada.

Mas Ashby não tinha tempo.

Fez um sinal e um terceiro homem emergiu da escadaria. Usava um sobretudo cinza-chumbo, que combinava perfeitamente com os cabelos rígidos e grisalhos. Os olhos eram penetrantes, o rosto estreito afilava-se num queixo pontudo. Caminhou diretamente até o corso e parou.

Este é o Sr. Guildhall — disse Ashby. — Talvez você se lembre dele, da nossa última visita?

O corso estendeu-lhe uma das mãos, mas Guildhall manteve as dele nos bolsos do casaco.

Sim — respondeu o corso. — Ele nunca sorri?

Ashby balançou a cabeça.

Uma coisa terrível. Há alguns anos, o Sr. Guildhall envolveu-se numa contenda horrorosa, que resultou em cortes no rosto e no pesco­ço. Como pode ver, recuperou-se, mas, como seqüela, um nervo ficou danificado, o que comprometeu os movimentos dos músculos faciais. Por isso, nada de sorrisos.

E quanto à pessoa que fez os cortes?

—Ah, excelente pergunta. Cem por cento morto. Pescoço quebrado.

Percebeu que deixara tudo bem claro e então virou-se para Guildhall e indagou:

O que você descobriu?

O empregado retirou um pequeno volume do bolso e o entregou a ele. À luz fraca, notou o título desbotado, em francês. Napoleão, das Tulherias a Santa Helena. Uma das inúmeras memórias que haviam sido impressas após a morte de Napoleão em 1821.

Como... como conseguiu isso? — indagou o corso.

Sorrindo, ele respondeu:

Enquanto o senhor me deixou esperando aqui, no alto da torre, o Sr. Guildhall fez uma busca na sua casa. Não sou completamente burro.

O corso deu de ombros.

É apenas ruma memória enfadonha. Leio muito sobre Napoleão.

Foi o que disse o seu parceiro.

Viu que agora tinha a total atenção do seu interlocutor.

Eu e ele, mais o Sr. Guildhall, tivemos uma excelente conversa.

Como soube da existência de Gustave?

Ele deu de ombros.

Não foi difícil descobrir. Vocês dois têm procurado pelo ouro de Rommel há muito tempo. São, talvez, as pessoas que mais sabem sobre o assunto.

Vocês o machucaram?

Percebeu o tom alarmado da questão.

Por Deus, meu bom homem, não! Pensa que sou um vilão? Per­tenço a uma família aristocrática. Sou dono de um império. Um finan­cista de respeito. Não um gângster. Claro que o seu Gustave também mentiu para mim.

Ele fez um movimento rápido com a mão, e Guildhall segurou o homem por um ombro e uma das pernas das calças, que sobressaía da batina. O minúsculo corso ficou arqueado para cima entre os parapeitos, e Guildhall o empurrou para fora, encontrando a melhor posição para segurá-lo pelos tornozelos, o corpo agora de cabeça para baixo na parede externa, 20 metros acima do pavimento de pedra.

A batina esvoaçou à brisa noturna.

Ashby esticou a cabeça para fora de outro parapeito.

É uma pena, mas o Sr. Guildhall e eu não temos a mesma opi­nião quanto ao uso da violência. Saiba que se emitir um único sinal de alarme ele o soltará. Compreende?

Viu uma cabeça balançando para cima e para baixo.

— Agora chegou o momento de termos uma conversa séria.

 

                   Copenhague

Enquanto mais vidros eram quebrados no andar de baixo, Malone encarava a silhueta disforme de Sam Collins.

Acho que eles querem me matar.

Caso não tenha notado, tenho uma arma apontada para você também.

Sr. Malone, foi Henrik quem me mandou vir aqui.

Tinha de fazer uma escolha. Entre o perigo diante dele e aquele dois andares abaixo.

Malone abaixou a arma.

Foi você quem atraiu essas pessoas até aqui?

Precisava da sua ajuda. Henrik me disse para vir.

Ouviu três estalos. Tiros com silenciador. E então a porta da frente foi escancarada. Passos golpeavam o assoalho de tábuas de madeira.

Ele fez um movimento com a arma.

Para dentro.

Retiraram-se para a sala de estoque, no terceiro andar, procurando refúgio atrás de uma pilha de caixas. Concluiu que os intrusos iriam diretamente ao andar superior, atraídos pelas luzes. Depois, uma vez que percebessem que não havia ninguém ali, iniciariam sua busca. O problema era que não sabia quantos haviam vindo visitá-lo.

Arriscou uma espiadela e viu um homem transitando do terceiro para o quarto andar. Moveu-se em silêncio, a fim de segui-lo. Correu rapidamente até a entrada e usou o corrimão de metal para escorre­gar até a base seguinte. Collins fez exatamente o mesmo. Repetiram o processo até o último lance de escadas que levava à livraria no térreo.

Collins ia em direção ao último corrimão, mas Malone segurou-lhe o braço e balançou a cabeça. A estupidez que o rapaz estava prestes a cometer demonstrava ou ignorância ou uma inteligência disfarçada. Não sabia o que, mas não podiam permanecer ali por muito tempo, visto que havia um homem armado logo acima deles.

Fez um gesto para que Collins tirasse o casaco.

O rosto escuro pareceu hesitar, incerto quanto à solicitação. Então abrandou-se e ele tirou o casaco sem fazer o menor barulho. Malone pegou o volume grosso de lã, sentou-se no corrimão e foi serpeando lentamente até metade do percurso. Com tuna das mãos segurando firmemente a arma, jogou o casaco para o lado.

Houve uma explosão de disparos e a vestimenta foi salpicada pe­las balas.

Desceu pelo restante do caminho, abandonou o corrimão e abai­xou-se detrás do balcão, ao mesmo tempo que mais disparos batiam com um som surdo na madeira ao seu redor.

Encontrou o local exato.

O atirador estava à sua direita, próximo às janelas frontais, onde ficavam as estantes dos livros de "história" e "música".

Ficou de joelhos e atirou naquela direção.

—Agora! — gritou para Collins, que pareceu pressentir o que ti­nha de fazer e saltou do corrimão para trás do balcão.

Malone sabia que em breve teriam mais companhia e rastejou para a esquerda. Felizmente, não estavam confinados. Durante a recente refor­ma, insistira para que o balcão fosse aberto em ambas as extremidades. O barulho do tiro que dera em resposta não havia sido silenciado e ele se perguntou se alguém do lado de fora o havia escutado. Infelizmente, a Hojbro Plads permanecia quase deserta da meia-noite ao amanhecer.

Moveu-se rapidamente até a beirada, com Collins ao seu lado. Manteve o olhar sobre as escadas, enquanto aguardava o inevitável. Vislumbrou uma forma escura, que crescia à medida que, do canto, o agressor do andar de cima lentamente apontava a sua arma.

Malone disparou, acertando o antebraço do homem.

Ouviu um grunhido e a arma desapareceu.

O primeiro atirador disparou vezes o suficiente para permitir que o homem na escada fugisse na sua direção.

Malone avaliou a situação. Estava armado. Assim como os inva­sores. Mas era provável que tivessem mais munição do que ele, que não trouxera um carregador extra para a Beretta. Para sorte dele, não sabiam disso.

Precisamos provocá-los — suspirou Collins.

E eles são quantos?

Parece que são dois.

Não sabemos. — Sua mente divagou de volta ao sonho, quando uma vez cometera o erro de não contar o terceiro.

Não podemos esperar sentados!

Poderia entregá-lo e voltar para a cama.

Poderia. Mas não vai.

Não tenha tanta certeza.

Ainda lembrava-se do que Collins dissera: "Henrik Thorvaldsen está metido numa encrenca."

Collins moveu-se cuidadosamente, alcançando o extintor de in­cêndio atrás do balcão. Malone observou o rapaz arrancar o pino de segurança e, antes que houvesse alguma objeção, despejou um nevoeiro químico pela livraria, usando uma estante como cobertura e apon­tando o jato para os atiradores.

Nada mau, exceto que...

Quatro estampidos vieram em resposta.

Balas brotaram do nevoeiro, afundando-se na madeira, sibilando ao atingirem as paredes de pedra.

Malone devolveu-lhes a saraivada de tiros.

Ouviu o barulho tilintante e crescente de vidro sendo quebrado e, depois, passos corridos.

Indo embora.

O ar frio o atingiu. Percebeu que tinham escapado pela janela da frente.

Collins abaixou o extintor.

Eles se foram.

Precisava ter certeza. Por isso, permaneceu abaixado, afastan­do-se devagar do balcão. Usando outras estantes como cobertura, moveu-se apressadamente em meio ao nevoeiro que se dissipava. Encontrou a última fileira e arriscou uma olhadela. O ar enfumaçado se retirava em direção à noite gélida, através de uma janela de vidro espelhada em cacos.

Balançou a cabeça. Mais sujeira.

Collins surgiu por trás dele.

Eram profissionais.

Como você sabe?

Sei quem os enviou. — Collins colocou o extintor de pé sobre o chão.

Quem?

Collins balançou a cabeça.

Henrik disse que lhe contaria.

Foi para trás do balcão, pegou o telefone e discou para Christiangade. A propriedade ancestral de Thorvaldsen, a 14 quilômetros ao norte de Copenhague. O telefone tocou diversas vezes. Normalmente, Jesper, o mordomo de Thorvaldsen, atenderia, independentemente da hora.

Continuou tocando.

Mau sinal.

Desligou, e decidiu se preparar.

Vá lá em cima — ordenou a Collins. — Há uma mochila na mi­nha cama. Pegue-a.

Collins subiu correndo os degraus de madeira.

Aproveitou o momento para telefonar novamente para Christiangade e ficou na escuta enquanto o aparelho continuava a tocar.

Collins desceu a escada rapidamente.

O carro de Malone estava estacionado alguns quarteirões adiante, nas cercanias do centro antigo, próximo ao Christianburg Slot. Pegou o celular debaixo do balcão.

Vamos.

 

Eliza Larocque sentiu que o sucesso estava próximo, embora seu companheiro de vôo não estivesse facilitando as coisas. Tinha sin­ceras esperanças de que essa viagem ao exterior, organizada às pressas, não seria uma perda de tempo.

Chama-se Clube de Paris — disse, em francês.

Escolhera um ponto a 15 mil metros de altura sobre o Atlântico Norte para, de dentro da cabine suntuosa do novo Gulfstream G650, fazer uma última inclinação longitudinal. Estava orgulhosa do seu mais novo brinquedo de última geração, um dos primeiros a saírem da linha de montagem. A espaçosa cabine era capaz de acomodar 18 passageiros em assentos forrados de couro. Tinha uma cozinha, um lavatório amplo, móveis de mogno e módulos de vídeo com internet de alta velocidade, conectados ao mundo via satélite. O jato era veloz, confiável e capaz de cobrir grandes alturas e distâncias. Valia cada um dos 37 milhões de euros que havia custado.

Estou familiarizado com a organização — afirmou Robert Mastroianni, na língua nativa de Eliza.—Um grupo informal de financistas dos governos dos países mais ricos do mundo. Reestruturação de dívi­das, perdão de dívidas, cancelamento de dívidas. Flutuam o crédito e ajudam nações em dificuldade a quitar suas dívidas. Quando estava no Fundo Monetário Internacional, trabalhamos com eles diversas vezes.

Um fato de que ela estava a par.

O clube — disse Eliza — surgiu a partir das negociações de crise entre uma Argentina falida e seus credores em Paris, em 1956. Continua a se reunir a cada seis semanas no Ministério de Economia, Finanças e Indústria francês, em sessões presididas por um funcionário sênior do Tesouro. Mas não é dessa organização que estou falando.

Mais um dos seus mistérios? — perguntou ele, em tom crítico.

Por que você tem que dificultar as coisas?

Talvez porque saiba que isso a irrita.

Tinha se encontrado com Mastroianni no dia anterior, em Nova York. Ele não demonstrara prazer em vê-la, mas foram jantar juntos. Aceitou quando ela lhe ofereceu uma carona de volta para o outro lado do Atlântico.

O que a surpreendeu.

Esta seria ou a última conversa deles ou a primeira de muitas outras.

Continue, Eliza. Estou escutando. Claro, não há nada mais para eu fazer além de escutar. O que, desconfio, era o seu plano.

Se é assim que se sente, por que decidiu voltar comigo então?

Se recusasse, você daria um jeito de me encontrar de novo. As­sim, podemos resolver nossos negócios, com o desfecho que for, e, em troca do meu tempo, ganho um vôo confortável de volta para casa. Então, por favor, prossiga. Faça o seu discurso.

Dominando a raiva, ela declarou:

Há um truísmo com origens na história: "Um governo que não é capaz de encarar o desafio da guerra chega ao fim." A santidade da lei, a prosperidade dos cidadãos e a solvência não passam de princípios prontos a serem sacrificados diante do desafio da sobrevivência.

Seu interlocutor bebericava de uma taça de champanhe.

Outra realidade — disse. —As guerras são sempre financiadas por dívidas. Quanto maior a ameaça, maior a dívida.

Ele a interrompeu com um gesto de repúdio.

Já sei o que vem agora, Eliza. É necessário um inimigo de con­fiança para que tuna nação entre em guerra.

Certamente. E se ele já existe, magnífico!

O uso da língua nativa dele o fez sorrir, a primeira quebra num comportamento austero.

Se existem inimigos, mas não há poder militar, o dinheiro é ca­paz de criar esse poder. Mas se eles não existem — sorriu — podem sempre ser criados.

Mastroianni deu uma risada.

Você é tão diabólica!

E você não?

Ele olhou para ela.

Não, Eliza, não sou.

Era, talvez, cinco anos mais velho e tão rico quanto ela e, embora gostasse de provocar, podia ser bastante encantador. Tinham acabado de jantar bifes suculentos de filé-mignon, batatas Yukon Gold e vagens frescas. Sabia que ele gostava de comidas simples. Nada de temperos, alho ou pimenta. Um paladar ímpar para um italiano, mas muitas coi­sas a respeito desse bilionário eram singulares. Quem era Eliza para julgar? Ela própria nutria uma série de idiossincrasias.

Há outro Clube de Paris — disse—muito mais antigo. Datando dos tempos de Napoleão.

Você nunca mencionou isso antes.

Você nunca tinha demonstrado interesse até agora.

Posso ser sincero?

Por favor.

Não gosto de você. Ou, mais precisamente, não gosto da sua linha de negócios ou dos seus associados. Eles têm uma conduta impla­cável e o que dizem não significa nada. Algumas das suas políticas de investimento são no mínimo questionáveis, para não dizer criminosas. Você me perseguiu por quase um ano, vindo com histórias de lucros não declarados, mas oferecendo pouquíssimas informações que justificassem suas reivindicações. Talvez tenha a ver com o seu lado corso que você não consegue controlar.

A mãe dela era corsa, o pai, francês. Casaram-se jovens e permaneceram juntos por mais de cinqüenta anos. Ambos tinham morrido, e ela era a única herdeira. O preconceito quanto às suas origens não era novidade — deparara-se com ele diversas vezes —, mas isso não signi­ficava que o aceitava de bom grado.

Levantou-se do assento e recolheu os pratos do jantar.

Mastroianni segurou-a pelo braço.

Você não precisa me servir.

Sentiu-se ressentida tanto pelo tom quanto pelo gesto, mas não pôde resistir. Sorriu, portanto, e passou a falar em italiano, dizendo:

Você é meu convidado. É como as coisas são.

Ele a soltou.

O jato tinha uma equipe de apenas dois pilotos, que agora estavam à frente da cabine fechada, e por isso ela pôde providenciar a refeição. Colocou a louça suja na cozinha e pegou a sobremesa numa pequena geladeira. Duas deliciosas tortas de chocolate. A favorita de Mastroian­ni, haviam lhe dito, trazidas do restaurante em que haviam jantado em Manhattan na noite anterior.

O semblante dele mudou ao ver o regalo colocado à sua frente.

Ela se sentou diante dele.

O fato de você gostar ou não de mim ou das minhas empresas, Robert, é irrelevante para nossa discussão. Esta é uma proposta de ne­gócios a qual pensei que estaria interessado em examinar. Fui bastante

cuidadosa na minha seleção. Cinco pessoas já foram escolhidas. Sou a sexta. Você seria o sétimo.

Ele apontou para a torta.

Fiquei imaginando o que você e o garçom estariam discutindo antes de partirmos, na noite passada.

Ignorava-a, fazendo seu próprio jogo.

Vi o quanto você tinha gostado da sobremesa.

Ele segurava um garfo de prata. Aparentemente, o desafeto pes­soal que nutria por ela não se estendia à sua comida, ou ao jato, ou àquela possibilidade de fazer dinheiro.

Posso contar uma história? — perguntou ela. — É sobre o Egito. Quando o então general Napoleão Bonaparte o invadiu em 1798.

Ele assentiu enquanto degustava o denso sabor do chocolate.

Duvido que você aceite um "não" como resposta. Portanto, certamente.

 

O próprio Napoleão liderou a coluna de soldados franceses no segundo dia da marcha em direção ao sul. Estavam próximos a El Beydah, a apenas algumas horas do vilarejo seguinte. O dia estava ensolarado e quente, como todos os outros anteriores. Um dia antes, os árabes haviam atacado ferozmente a guarda avançada. O général Desaix quase fora capturado, mas um dos capitães tinha sido morto, e outro général auxiliar, levado como prisioneiro. Os árabes exigi­ram um resgate, mas questionaram o valor pago e acabaram matando o cativo com um tiro na cabeça. O Egito demonstrava ser uma terra traiçoeira — de fácil conquista, mas difícil contenção — e a resistência parecia estar crescendo.

Adiante, à margem da estrada poeirenta, viu uma mulher com o rosto ensangüentado. Num dos braços, aninhava um bebê, mas o outro estendia-se como se quisesse se defender, testando o ar diante de si. O que ela estava fazendo ali, no deserto escaldante?

Aproximou-se e, por meio de um intérprete, soube que o marido havia lhe furado os olhos. Ele ficou mortificado. Por quê? Ela não ousava se queixar e o único apelo que fazia era para que alguém cuidasse da criança, que parecia à beira da morte. Napoleão ordenou que pão e água fossem dados a ela e ao bebê.

Isso feito, um homem surgiu de repente, por trás de uma duna próxima, enraivecido e cheio de ódio.

Os soldados puseram-se em alerta.

O homem correu até eles e tirou o pão e a água da mulher.

Parem! —gritou. — Ela perdeu o direito à sua honra e manchou a minha. Essa criança é a minha desgraça. É a cria da sua culpa.

Napoleão desmontou do cavalo e disse:

O senhor é louco. Insano.

Sou o marido dela efaço o que bem entender.

Antes que Napoleão pudesse responder, uma adaga surgiu por trás do manto do homem, infligindo uma ferida mortal na mulher.

A confusão instaurou-se quando ele se apoderou do bebê, ergueu-o no ar e o arremessou com força ao chão.

Veio o estrondo de um tiro e o peito do homem explodiu, o corpo dele caindo sobre o solo seco. O capitão Le Mireur, que cavalgava logo atrás de Napoleão, havia encerrado o espetáculo.

Todos os soldados pareciam chocados com o que tinham visto.

Mesmo Napoleão tinha dificuldade de disfarçar seu espanto. Após um momento de tensão, ordenou que a coluna prosseguisse, mas, antes de montar novamente no cavalo, notou que algo caíra de baixo do manto do homem morto.

Um rolo de papiro amarrado firmemente por um cordão.

Removeu-o da areia.

Napoleão ordenou que pernoitassem na casa de recreação de um de seus adversários mais resolutos, um egípcio que fugira para o deserto com um exército mameluco meses antes, deixando todas as suas posses para trás e ao bel-prazer dos franceses. Esticado em meio a almofadas espalhadas sobre tapetes felpudos, o général ainda estava perturbado pela exibição de desumanidade que havia testemunhado na estrada deserta.

Disseram-lhe mais tarde que o homem havia errado ao esfaquear a espo­sa, mas que se Deus quisesse fazer alguma concessão quanto à infidelidade, que alguém já teria sido caridoso, recebendo-a e a hospedando em sua casa. Como isso não havia ocorrido, a lei árabe não puniria o marido pelos dois assassinatos.

—Agimos bem, portanto.

A noite seguia tranqüila e monótona e, por isso, decidiu examinar o pa­piro que encontrara junto ao corpo. Os savants tinham lhe dito que os saques em sítios sagrados realizados pelos nativos, que roubavam o que podiam para vender ou reutilizar, eram rotineiros. Que desperdício. A sua vinda visava ao descobrimento do passado do país, não à sua destruição.

Arrebentou o cordão e desenrolou o embrulho, encontrando quatro folhas escritas no que aparentava ser grego. Ele era fluente em corso e finalmente aprendera a ler e falar num francês passável, mas, para além disso, línguas estrangeiras eram um mistério para ele.

Ordenou, então, a presença de um de seus tradutores.

Está em copta — disse o homem.

Consegue lê-lo?

É claro, général.

 

Que coisa horrível—exclamou Mastroianni. — Matar a criança.

Ela assentiu.

Era essa a realidade da campanha egípcia. Uma conquista árdua e sangrenta. Mas garanto que o que aconteceu lá é a razão de estarmos tendo esta conversa.

 

Sam Collins sentou-se no banco do passageiro e observou Malone deixar Copenhague para trás em alta velocidade, seguindo para o norte na rodovia da costa dinamarquesa.

Cotton Malone era exatamente como ele esperava. Durão, corajoso, decidido, alguém que aceitava as situações a ele apresentadas, fazendo o que tinha de ser feito. Ele até mesmo se encaixava na descrição física dada a Collins. Alto, cabelos louros e brilhantes, um sorriso que quase nunca traía as emoções. Estava a par da sua experiência de 12 anos no Departamento de Justiça, da educação jurídica em Georgetown, da sua memória eidética e do amor pelos livros. Mas acabara de presenciar, em primeira mão, a coragem do homem.

Quem é você? — perguntou Malone.

Percebeu que não podia se mostrar reservado. Pressentira as sus­peitas de Malone e não o culpava por isso. Um estranho invade a sua loja no meio da noite, seguido de homens armados?

Sou do Serviço Secreto dos Estados Unidos. Ou, pelo menos, era até há poucos dias. Acho que fui demitido.

Por quê?

Porque ninguém ali quis escutar o que tinha a dizer. Tentei con­tar, mas ninguém quis ouvir.

E por que Henrik quis?

Como você... — conteve-se.

Há quem recolha animais abandonados. Henrik resgata pes­soas. Por que você precisaria da ajuda dele?

Quem disse que precisei?

Não tem problema, está bem? Já fui um dos animais.

Na verdade, diria que foi Henrik quem precisou de ajuda. Ele entrou em contato comigo.

Malone engatou a quinta marcha do Mazda e desceu, velozmente, a estrada escura a cerca de 100 metros das águas sombrias do estreito de Oresund.

Havia algo que Collins precisava esclarecer.

No Serviço Secreto, eu não pertencia ao rol da Casa Branca. Eu trabalhava no Departamento de Fraudes Financeiras e Monetárias.

Sempre rira dos estereótipos hollywoodianos de agentes em ternos sóbrios, óculos escuros e com fones de ouvido cor de pele, rodeando o presidente. A maioria dos funcionários do Serviço Secreto, como ele, agia na sombra, protegendo o sistema financeiro norte-americano. Essa era, na verdade, sua missão original, que brotara da necessidade de prevenir falsificações nos estados confederados do sul durante a guer­ra civil. Somente após o assassinato de William McKinley, 35 anos mais tarde, é que assumira a responsabilidade pela proteção presidencial.

Por que você veio até a minha livraria? — indagou Malone.

Estava hospedado na cidade. Henrik me mandou para um hotel ontem, percebi que havia algo errado. Ele me queria longe dos seus domínios.

Há quanto tempo está na Dinamarca?

Uma semana. Você estava fora. Voltou há apenas alguns dias.

Sabe bastante a meu respeito.

Na verdade, não. Sei que é Cotton Malone. Antigo oficial da Marinha. Trabalhou com o Magellan Billen e atualmente está aposentado.

Malone lançou-lhe um olhar indicando que as evasivas à questão original estavam esgotando rapidamente a sua paciência.

Tenho um site paralelo na internet — disse Collins. — Não te­mos permissão para fazer coisas assim, mas fiz. "O colapso financeiro mundial — Uma conspiração capitalista." É como o chamei. Está em moneywash.net.

Consigo ver o porquê de os seus superiores não gostarem do seu hobby.

Eu não. Vivo nos Estados Unidos. Tenho o direito de me expressar.

Mas não tem o direito de ao mesmo tempo carregar um distin­tivo federal.

Isso é o que eles dizem também. — Ele não conseguia esconder o tom derrotado na voz.

O que você disse nessa sua página? — perguntou-lhe Malone.

A verdade. Sobre financistas como Mayer Amschel Rothschild.

Expressando os seus direitos de acordo com a Primeira Emenda constitucional?

E o que importa? O homem nem sequer era americano. Apenas um líder com dinheiro. Os cinco filhos eram ainda melhores. Aprenderam a converter dívida em fortuna. Emprestavam às monarquias européias. Pense num lugar e estavam ali, com uma mão a oferecer dinheiro e a outra a exigir ainda mais em troca.

Não é esse o "jeitinho" americano?

Eles não eram banqueiros. Bancos operam a partir de fundos depositados por clientes ou criados pelo governo. Cediam empréstimos de verdadeiras fortunas a juros obscenos.

De novo, o que há de errado nisso?

Remexeu-se no assento.

Foi essa atitude que permitiu que se safassem. As pessoas di­zem: "E daí? É um direito deles fazer dinheiro." Não, não é. — Sentiu o estômago arder. — Os Rothschild fizeram uma fortuna ao financiarem a guerra. Sabia disso?

Malone não respondeu.

Ambos os lados, quase sempre. E não davam a mínima quanto ao dinheiro. O que queriam em troca eram privilégios que podiam ser convertidos em lucro. Tais como concessões para mineração, monopó­lios e isenção em importações. Às vezes recebiam o direito a certos im­postos como garantia.

Isso foi há centenas de anos. Mas que diabos, e daí?

Está acontecendo de novo.

Malone desacelerou ao fazer uma curva precisa.

Como você sabe disso?

Nem todos que conseguem ficar ricos são benevolentes como Bill Gates.

Tem nomes? Provas?

Collins calou-se.

Malone parecia sentir o dilema de Collins.

Não, não tem. Apenas o monte de porcarias conspiratórias que publicou na internet e causaram a sua demissão.

Que não são tão improváveis — replicou Collins em seguida. — Aqueles homens vieram me matar.

Você parece quase feliz com a vinda deles.

Prova que estou certo.

Isso pode ser exagero. Me conte o que aconteceu.

Estava enfurnado no quarto do hotel e resolvi sair para dar uma volta. Dois caras começaram a me seguir. Apertei o passo, e eles conti­nuaram. Foi quando encontrei o seu prédio. Henrik tinha me dito para esperar no hotel até receber notícias, e depois eu entraria com conta­to com você. Mas quando vi aqueles dois, liguei para Christiangade. Jesper me disse para ir ao seu encontro imediatamente, e eu então fui para a loja.

Como você entrou?

Arrombei a porta dos fundos. É muito fácil. Você precisa de um alarme.

Penso que se alguém quer roubar livros velhos, que pode levá-los.

E quanto aos caras que querem matá-lo?

Na verdade, queriam matar você. E a propósito: arrombar o meu prédio não foi sensato. Eu poderia ter atirado em você.

Sabia que não faria isso.

Fico contente que soubesse disso, pois eu não sabia.

Prosseguiram em silêncio por alguns quilômetros, aproximando-se cada vez mais de Christiangade. Collins fizera esse percurso diversas vezes no ano anterior.

Henrik está metido em problemas — disse, por fim. — Mas o homem de quem está atrás agiu primeiro.

Henrik não é bobo.

Talvez não. Mas todo homem encontra outro à sua altura.

Quantos anos você tem?

Ficou intrigado com a mudança súbita de assunto.

Trinta e dois.

Há quanto tempo trabalha para o serviço?

Quatro anos.

Ele entendeu o que Malone queria dizer. Por que Henrik precisara se ligar a um agente do Serviço Secreto jovem e inexperiente, no comando de um site excêntrico?

É uma longa história.

Estou com tempo — disse Malone.

Não está, na verdade. Thorvaldsen tem agravado uma situação que está no limite do insuportável. Ele precisa de ajuda.

Quem está falando? O conspirador ou o agente?

Malone injetou o motor do Mazda e acelerou ao longo da pista reta. À direita deles, mais uma faixa de oceano negro e as luzes de uma distante Suécia no horizonte.

O amigo.

Obviamente — retrucou Malone —, você não sabe nada a res­peito de Henrik. Ele não tem medo de nada.

Todo mundo tem medo de alguma coisa.

De que você tem medo?

Ele ponderou a questão, na que havia se perguntado diversas ve­zes nos meses anteriores, e então respondeu com sinceridade:

Do homem de quem Thorvaldsen está realmente atrás.

E você vai me dizer um nome?

Lorde Graham Ashby.

 

                   Córsega

Ashby retornou ao Archimedes e saltou do escaler à plataforma da popa. Levara o corso com ele, após ter conseguido sua total aten­ção no alto da torre. Livraram-se da batina ridícula, e o homem não havia criado problemas durante a viagem.

Leve-o até o salão principal — disse Ashby, e Guildhall condu­ziu o convidado até lá. — Faça com que ele fique à vontade.

Escalou três degraus de teca até a piscina iluminada. Ainda levava :onsigo o livro que resgatara da casa do corso.

O capitão do navio apareceu.

Siga para o norte, ao longo da costa, à velocidade máxima — ordenou Ashby.

O capitão assentiu, desaparecendo em seguida.

O casco negro e lustroso do Archimedes se estendia por 70 metros. Os duplos motores a diesel lhe davam uma potência de 25 nós e era capaz de cruzar distâncias transatlânticas a respeitáveis 22 nós. Os seis convés comportavam três suítes, o apartamento do dono, um escritório, uma cozinha gourmet, sauna, academia e todas as demais amenidades previsíveis numa embarcação de luxo.

Na parte de baixo, a velocidade dos motores aumentou.

Pensou novamente naquela noite de setembro de 1943.

Todos os relatos descreviam um mar calmo e um céu límpido. A frota pesqueira de Bastia estava seguramente ancorada dentro do por­to. Apenas uma lancha a motor cortava as águas, próximo da praia. Alguns diziam que o barco ia em direção ao Cabo Sul e o rio Golo, na base meridional do Cabo Corso, o promontório na extremidade nor­te da ilha — uma projeção de montanhas parecidas com dedos, que apontavam do norte para a Itália. Outros divergiam quanto ao rumo ao longo da costa setentrional. Quatro soldados alemães estariam abordo da lancha quando dois caças P-39 americanos bombardearam o convés com disparos de artilharia. Erraram o alvo ao lançar uma bomba e, felizmente, os aviões encerraram o ataque sem destruir a embarcação. Por fim, seis caixotes de madeira foram escondidos em algum lugar de Córsega, ou perto dali, e um quinto alemão, em terra firme, auxiliara na fuga dos outros quatro.

O Archimedes movia-se devagar.

A previsão era que chegassem em menos de trinta minutos.

Subiu em direção a outro convés, até o salão onde a mobília de couro branco e aço inoxidável e o carpete Berber garantiam o conforto dos convidados. A casa inglesa de Ashby, do século XVI, estava repleta de antigüidades. Ali, ele preferia a modernidade.

O corso estava sentado, com a bebida em punho, num dos sofás.

Um pouco do meu rum? — indagou Ashby.

O homem mais velho assentiu, obviamente ainda muito abalado.

É o meu favorito. Destilado a partir de caldos de primeira prensagem.

O barco prosseguiu ao balanço das ondas e ganhou velocidade, cortando as águas com rapidez.

Jogou o livro de Napoleão no sofá ao lado de seu convidado.

—Andei ocupado desde a nossa última conversa. Não vou entediá-lo com os pormenores. Mas sei que quatro homens trouxeram o ouro de Rommel da Itália. Um quinto estava aqui, à espera. Os quatro esconde­ram o tesouro e não revelaram seu paradeiro antes de serem executados pela Gestapo por falta de cumprimento dos seus deveres. Infelizmente, o quinto não conhecia o esconderijo. Desde então, corsos como você o têm procurado e espalhado informações falsas sobre os acontecimentos. Há uma meia dúzia ou mais de versões dos eventos que têm causado nada além de confusão. E é por isso que da última vez você mentiu para mim — fez uma pausa. — É o motivo pelo qual Gustave fez o mesmo.

Serviu-se de uma dose de rum e sentou-se no sofá de frente para o corso. Entre eles, uma mesa de vidro e madeira. Pegou novamente o livro e colocou-o sobre ela.

—- Por favor, preciso que solucione o enigma.

Se pudesse, já o teria feito há muito tempo.

Ele sorriu.

Li recentemente que, ao tornar-se imperador, Napoleão tirou todos os corsos da administração da ilha. Segundo ele, uma gente de pouca confiança.

Napoleão também era corso.

É bem verdade, mas você, senhor, é um mentiroso. Você sabe a resposta. Então, por favor, diga-me.

O corso engoliu o resto do seu rum.

Eu nunca deveria ter negociado com o senhor.

Ele sacudiu os ombros.

Mas gosta do meu dinheiro. Eu, por outro lado, jamais deveria ter negociado com você.

O senhor tentou me matar na torre.

Ele deu uma risada.

Tudo o que queria era sua atenção exclusiva.

O corso não parecia impressionado.

O senhor veio até mim porque sabia que eu poderia ter as respostas.

E chegou a hora de fazê-lo.

Passara os dois últimos anos examinando cada pista, entrevistan­do as poucas testemunhas secundárias que continuavam vivas — to­dos os principais participantes da história estavam mortos havia muito tempo —, e descobrira que ninguém sabia ao certo se o ouro de Rommel realmente existia. Nenhuma das histórias sobre a sua origem e a viagem da África à Alemanha soavam consistentes. O relato mais con­fiável afirmava que o tesouro era originário de Gabes, na Tunísia, a cerca de 160 quilômetros da fronteira líbia. Após dominar a cidade à força, estabelecendo-a como seu centro de operações, os Afrika Korps da Alemanha disseram aos mil judeus locais que por "duas toneladas e setecentos quilos de ouro" suas vidas seriam poupadas. Receberam um prazo de 48 horas para a entrega do resgate, após o qual foi empacotado em seis caixotes de madeira levados à costa e despachados para a Itália, ao norte. Lá, a Gestapo assumiu o controle e, consequentemente, incumbiu quatro soldados do transporte dos caixotes para o oeste, para a Córsega. O conteúdo dos recipientes permaneceu desconhecido, mas os judeus de Gabes, assim como os demais da região, eram abastados, e a sinagoga local era um famoso destino de peregrinação — recebedora, ao longo dos séculos, de vários tipos de jóias.

Mas seria o tesouro composto de ouro?

Difícil dizer.

Mesmo assim, havia sido chamado de "ouro de Rommel", estima­do como um dos últimos grandes tesouros da Segunda Guerra Mun­dial escondidos.

O homem estendeu o copo vazio, e Ashby se levantou para reabastecê-lo. Não faria mal agradar o homem, por isso retornou com um copo quase cheio de rum.

O corso saboreou um longo gole.

Sei sobre o criptograma — disse Ashby. — É realmente bastan­te engenhoso. Uma maneira inteligente de esconder uma mensagem. Acredito que se chama O Nó do Mouro.

Pasquale Paoli, um combatente corso que lutava pela liberdade, do século XVIII, hoje herói nacional, tinha criado a alcunha. Paoli necessi­tava de um modo eficiente de comunicação com seus aliados que ga­rantisse total privacidade e, portanto, adaptou um método que apren­dera com os mouros que, por séculos, realizaram ataques de pirataria ao litoral.

Você adquire dois livros idênticos — explicou Ashby — e fica com um deles. Dá o outro para a pessoa a quem quer enviar a mensa­gem. Dentro do livro, encontra as palavras certas para a mensagem e então transmite os números da página, da linha e das palavras ao re­ceptor, por meio de séries numéricas. Os números sozinhos não servem para nada, a menos que se tenha o livro correto.

Pousou o rum na mesa e tirou do bolso uma folha de papel dobra­da, que alisou sobre a superfície de vidro.

Isto foi o que lhe forneci na última vez que nos falamos.

O cativo examinou o papel.

 

     XCV      CCXXXVI      CXXVIII      CXCIV      XXXII

      IV            XXXI            XXVI          XVIII          IX

     VII              VI                 X                    II              XI

 

— Não significam nada para mim — disse o corso.

Ashby balançou a cabeça, descrente.

Você vai ter que parar com isso. Sabe que indica a localização do ouro de Rommel.

Lorde Ashby. Esta noite o senhor me tratou com uma total falta de respeito. Pendurando-me naquela torre. Chamando-me de mentiro­so. Dizendo que Gustave mentiu para o senhor. Sim, eu tinha o livro.

Mas esses números não significam nada em relação a ele. Estamos ago­ra navegando por águas que o senhor nem sequer teve a cortesia de identificar. O rum é delicioso, o barco, magnífico, mas insisto em que o senhor se explique.

Durante toda a sua vida adulta Ashby caçara por tesouros. Embo­ra pertencesse a uma família de financistas de longa data, apreciava a busca por coisas perdidas mais do que o desafio de simplesmente ganhar dinheiro. Às vezes tinha de trabalhar duro para descobrir as respostas que procurava. Noutras, informantes lhe cobravam um preço pelo que precisava saber. E, de vez em quando, como agora, simples­mente tropeçava na solução.

— Ficarei mais do que feliz em explicar.

 

                   Dinamarca, 1H50

Thorvaldsen verificou o pente de balas e certificou-se de que a arma estava pronta. Satisfeito, pousou o rifle suavemente sobre a mesa de banquete. Sentou-se no grande saguão do solar, sob um teto de vigas de carvalho, rodeado por armaduras e pinturas que davam a aparência e a atmosfera de uma casa de nobreza. Ao longo de qua­se quatrocentos anos, todos os seus antepassados tinham se sentado àquela mesma mesa.

O Natal seria em menos de três dias.

Havia o quê? Quase trinta anos que Cai havia subido na mesa?

Você tem que descer! — ordenou a esposa. — Imediatamente, Cai.

O menino galopava sobre a longa extensão, apoiando as palmas das mãos em ambos os lados dos altos encostos das cadeiras. Thorvaldsen observou o filho se desviar de uma peça dourada no centro e correr adiante, saltando para dentro dos seus braços estendidos.

Vocês dois são impossíveis! — disse a esposa. — Totalmente impossíveis!

Lisette, é Natal. Deixe o menino brincar — segurava-o no colo, junto a si. — Ele tem apenas 7 anos. E a mesa está aqui há muito tempo.

Papai, este ano o Nisse vem?

Cai amava o elfo brincalhão que, segundo a lenda, vestia roupas de lã cinzentas, um gorro amarrado sob o queixo, um collant vermelho e sapatos brancos com solas de madeira. Habitava os sótãos de antigas casas de fazenda e gostava de pregar peças nas pessoas.

Vamos precisar de mingau — disse o menino — para nos proteger.

Thorvaldsen sorriu. Sua mãe havia lhe contado a mesma história de como uma tigela de mingau, deixada ao relento na véspera de Natal, limitava as travessuras de Nisse. Isso, claro, foi antes de os nazistas terem exterminado quase todos os Thorvaldsen, incluindo seu pai.

Vamos ter mingau — afirmou Lisette — e também ganso assado, repo­lho roxo, batatas coradas e arroz doce com canela.

E com a amêndoa mágica? — perguntou Cai, num tom intrigado.

A mulher afagou os cabelos castanhos e finos do menino.

Sim, meu tesouro. Com a amêndoa mágica. E se você a encontrar, re­ceberá um prêmio.

Tanto ele como Lisette se certificavam de que Cai encontrasse a amêndoa. A festividade passara a fazer parte de sua vida, pois, embora fosse judeu, a mulher e seu pai eram cristãos. Todos os anos ele e Lisette decoravam um pinheiro aromático com bugigangas de palha e madeira feitas em casa e, tradicionalmente, só deixavam que Cai visse suas cria­ções após a ceia, quando se reuniam para entoar cantos natalinos.

Meu Deus, como ele adorava o Natal.

Até a morte de Lisette.

Depois disso, desde o assassinato de Cai dois anos antes, a festivi­dade perdera todo o significado. Os três últimos anos, incluindo o atual, tinham sido uma tortura. Em todos eles ficava ali, sentado à extremida­de da mesa, perguntando-se o porquê de a vida ter sido tão cruel.

Este ano, porém, era diferente.

Alcançou a arma e acariciou o metal negro. Rifles eram ilegais na Dinamarca, mas as leis não lhe interessavam.

Justiça.

Era o que queria.

Permaneceu sentado em silêncio. Nenhuma luz brilhava em quaisquer dos 41 aposentos de Christiangade. Na verdade, gostava da idéia de um mundo desprovido de iluminação. Nele, sua coluna deformada passaria despercebida. O rosto rígido, jamais visto. A farta cabeleira grisalha e as sobrancelhas revoltas nunca precisariam ser aparadas. No escuro, os sentidos de uma pessoa eram tudo o que importava.

E os dele estavam afiados.

Seus olhos vaguearam pelo saguão às escuras, enquanto as lem­branças lhe vinham à mente.

Via Cai em todos os lugares. E Lisette também. Era um homem de riqueza, poder e influência imensuráveis. Poucos chefes de Estado ou poucas coroas imperiais recusavam seus pedidos. Suas porcelanas e sua reputação permaneciam entre as mais apreciadas no mundo. Nunca praticara o judaísmo a sério, mas era amigo devoto de Israel. No ano anterior, arriscara tudo a fim de deter um fanático decidido a destruir aquele Estado abençoado. Com os milhões de euros da família, privati­vamente, apoiava causas beneficentes ao redor do mundo.

Mas era o último Thorvaldsen.

Restavam apenas os parentes mais distantes, e muito poucos. A família, que havia resistido aos séculos, estava prestes a acabar.

Mas não antes de a justiça ser feita.

Ouviu uma porta se abrir e, em seguida, passos ecoaram pelo sa­guão escuro.

Em algum lugar, o relógio anunciava que eram 2 horas.

Os passos se detiveram a poucos metros e ouviu-se uma voz di­zendo:

— Os sensores falharam.

Jesper o acompanhava havia muito tempo, testemunhando toda a alegria e tristeza que, como Thorvaldsen sabia, o amigo também sentira.

Onde? — perguntou.

No quadrante sudeste, próximo à praia. Dois invasores vindo nesta direção.

Você não precisa fazer isso.

Precisamos nos preparar.

Sorriu, contente pelo velho amigo não poder vê-lo. Nos dois últi­mos anos, lutara contra as quase sempre constantes ondas de emoções conflitantes, envolvendo-se em buscas e causas que, apenas temporariamente, permitiam-lhe esquecer a dor, a angústia e a tristeza que se tornaram suas companheiras.

E quanto ao Sam?

Nenhuma palavra sequer desde o último telefonema. Mas Malone ligou duas vezes. Deixei o aparelho tocar, conforme suas ins­truções.

O que significava que Malone tinha feito o que Thorvaldsen preci­sava que ele fizesse.

Montara a armadilha com grande cuidado. Agora, tinha a intenção de acioná-la com a mesma precisão.

Alcançou o rifle.

Hora de darmos as boas-vindas aos nossos convidados.

 

Eliza se moveu para a frente no assento. Precisava de toda a atenção de Mastroianni.

—Entre 1689 e 1815, a Inglaterra esteve em guerra por 63 anos. Um ano de combates em cada dois, os anos de folga passados na preparação para outros mais. Consegue imaginar os custos? E não era atípico. De fato, era comum as nações europeias permanecerem em guerra naquela época.

Guerras que, segundo você, geraram lucros para muita gente.

Certamente. E não era importante vencê-las, já que cada vez que uma guerra era declarada, os governos faziam mais dívidas e os financistas acumulavam mais privilégios. É como a indústria farmacêutica hoje em dia que ganha com o tratamento dos sintomas das doenças, sem nunca as curar.

Mastroianni comeu o último pedaço de torta.

Tenho ações em três empresas desse setor.

Então você sabe que o que acabei de dizer é verdade. — Ela lançou-lhe um olhar duro a fim de intimidá-lo. Ele correspondeu, mas parecia decidido a não revidar o ataque.

—A torta estava maravilhosa — disse, por fim. — Confesso que tenho um fraco por doces.

—Trouxe mais uma.

—Agora você está me subornando.

Quero que você faça parte do que está para acontecer.

Por quê?

Homens do seu tipo são artigo raro. Você é rico, poderoso e influente. É inteligente. E, como todos nós, está cansado de compartilhar seus lucros com governos gananciosos e incompetentes.

Pois bem, Eliza, o que está para acontecer? Explique o mistério.

Ela não podia ir tão longe, não ainda.

Deixe-me responder explicando mais a respeito de Napoleão. Você sabe alguma coisa sobre ele?

Camarada baixinho. Usava um chapéu engraçado. Estava sem­pre com uma mão enfiada dentro do casaco.

Sabia que mais livros foram escritos sobre ele do que a respeito de qualquer outra figura histórica, exceto, talvez, Jesus Cristo?

Nunca pensei que você fosse historiadora.

Nunca pensei que você fosse tão obstinado.

Conhecia Mastroianni havia alguns anos não como amigo, e sim como parceiro ocasional de negócios. Era o dono absoluto da maior usina de alumínio do mundo. Tinha uma participação de peso na manufaturação de automóveis, no conserto de aeronaves e, como havia mencionado, no setor da saúde.

Estou cansado de ser perseguido — disse. — Especialmente por uma mulher que deseja alguma coisa, mas não é capaz de dizer o quê e por quê.

Ela decidiu ignorá-lo também.

Gosto do que Flaubert certa vez escreveu. "História é profecia olhando para trás."

Ele riu discretamente.

O que ilustra perfeitamente seu peculiar ponto de vista francês. Sempre achei irritante a maneira como os franceses resolvem todos os conflitos nos campos de batalha de ontem. Como se um passado glorioso pudesse fornecer a solução precisa.

Isso também irrita às vezes a minha metade corsa. Mas, em certas ocasiões, algum desses campos de batalha antigos pode ser instrutivo.

Então, Eliza, me fale sobre Napoleão.

O confiante italiano era uma aquisição perfeita para o clube, e somente por isso ela prosseguiu. Não podia permitir, e não permitiria, que o orgulho interferisse no seu cuidadoso planejamento.

Ele construiu um império jamais visto desde os dias de Roma. Setenta milhões de pessoas estavam sob o seu governo. Ficava à vontade tanto com o fedor da pólvora como com o cheiro do pergaminho. Na verdade, proclamou-se ele próprio imperador. Consegue ima­ginar isso? Com apenas 35 anos, esnoba o papa e deposita a coroa imperial sobre a cabeça. — Permitiu que suas palavras assentassem. — Mas, com todo esse ego, Napoleão construiu apenas dois memo­riais especialmente para si mesmo, ambos pequenos teatros que não existem mais.

E quanto a todos os edifícios e monumentos erguidos por ele?

Nenhum foi criado em sua honra ou tem o seu nome. A maioria não estava sequer completa muito tempo após a sua morte. Chegou mesmo a vetar a mudança de nome da Praça da Concórdia para Praça Napoleão.

Viu que Mastroianni estava aprendendo alguma coisa. Bom. Já era tempo.

Em Roma, ordenou que retirassem os entulhos do Fórum e do Monte Palatino e que o Panteão fosse restaurado, sem nunca colocar uma única placa dizendo que era o autor de tais feitos. Em inúmeras ci­dades européias, ordenou melhoria após melhoria e, ainda assim, nada foi registrado em seu nome. Não é estranho?

Ela observou Mastroianni tirar o gosto de chocolate da boca com um gole de água.

Há mais uma coisa — disse —: Napoleão se recusava a contrair dívidas. Desprezava financistas e os culpava por vários dos déficits da República Francesa. Não se importava em confiscar dinheiro, extorqui-lo ou mesmo depositá-lo em bancos, mas se recusava a pedir em­préstimos. Nesse aspecto, foi diferente de todos os que o antecederam ou que vieram depois dele.

Uma política razoável — murmurou. — Banqueiros são todos sanguessugas.

Gostaria de se livrar deles?

Notou que a perspectiva lhe parecia agradável, mas seu convidado permaneceu calado.

Napoleão concordava com você — afirmou. — Rejeitou plena­mente a oferta norte-americana para a compra de Nova Orleans e, em vez disso, vendeu-lhes todo o território de Louisiana, usando os mi­lhões arrecadados com a transação para montar seu exército. Qualquer outro monarca teria mantido o território e pedido dinheiro emprestado aos sanguessugas para a guerra.

Napoleão morreu há muito tempo — disse Mastroianni. — E o mundo mudou. A economia atual se baseia no crédito.

Isso não é verdade. Veja, Robert, o que Napoleão descobriu no papiro que mencionei ainda é relevante.

Ao aproximar-se da conclusão do seu argumento, ficou claro que tinha despertado o interesse dele.

Mas claro — disse ele — que não posso saber o que é, a não ser que aceite sua proposta.

Ela sentiu o controle da situação passar às suas mãos.

Posso compartilhar uma coisa ou outra. Talvez ajude na sua decisão.

Como posso dizer "não" a uma mulher de quem não gosto, mas que me ofereceu um voo de volta confortável, alimentou-me com a mais fina carne, serviu-me o melhor champanhe e, claro, uma maravi­lhosa torta de chocolate?

Vou perguntar de novo, Robert, se não gosta de mim, por que está aqui?

Ele apertou os olhos, focalizando nos dela.

Porque estou intrigado. Você sabe que estou. Sim, gostaria de me livrar dos bancos e dos governos.

Ela se levantou, deu um passo para trás, em direção a um dos sofás de couro, abriu a bolsa Louis Vuitton que usava durante o dia e tirou de lá um pequeno volume encadernado em couro, publicado pela primeira vez em 1822. O Livro do destino, anteriormente na posse e para o uso de Napoleão.

Ganhei-o da minha avó corsa, que, por sua vez, o recebeu da avó — pousou o volume fino sobre a mesa. — Você acredita em oráculos?

Não muito.

Este é bastante peculiar. Aparentemente, foi encontrado num rimulo real no Vale dos Reis, próximo a Luxor, por um dos savants de Napoleão. Foi dado a ele e está escrito em hieróglifos. Ele consultou um sacerdote cóptico, que o traduziu oralmente para um de seus secretá­rios, que depois o converteu para o alemão, para mantê-lo em segredo, e então o devolveu a Napoleão. — Fez uma pausa. — Tudo mentira, claro.

Mastroianni deu uma risadinha.

Por que será que isso não me surpreende?

O manuscrito original foi realmente encontrado no Egito. Mas, ao contrário do papiro a que me referi antes...

... a respeito do qual você não me contou nada — disse ele.

Isso requer um compromisso.

Sorriu.

Seu Clube de Paris é cheio de mistérios.

Tenho que ser cuidadosa. — Ela apontou para o oráculo sobre a mesa. — O texto original, provavelmente parte da biblioteca perdida de Alexandria, foi escrito em grego. Centenas de milhares de rolos de pergaminho estavam guardados ali, todos desaparecidos por volta do século V depois de Cristo. Napoleão tinha mesmo uma cópia transcrita, mas não em alemão. Não sabia falar essa língua. Na verdade, suas habilidades lingüísticas eram sofríveis. Ele pediu a conversão para o corso. Tinha o oráculo sempre com ele, num estojo de madeira. O estojo teve que ser jogado fora após a desastrosa Batalha de Leipzig, em 1815, quando o império começou a se desmantelar. Dizem que arriscou a vida para reavê-lo. Um oficial prussiano acabou por encontrá-lo e o vendeu a um general francês cativo, que o reconheceu como sendo do seu imperador. O general tinha planos de devolvê-lo, mas morreu antes. Por fim, o estojo chegou até a segunda mulher de Napoleão, a imperatriz Maria Luísa, que não se juntou ao marido no exílio forçado em Santa Helena. Após a morte dele, em 1821, um homem chamado Kirchenhoffer alegou ter recebido o manuscrito da imperatriz para que fosse publicado.

Ela abriu o livro e folheou as primeiras páginas com cuidado.

- Preste atenção à dedicatória: "sua majestade imperial, a ex-imperatriz da frança."

Mastroianni pareceu não dar atenção.

Gostaria de tentar?

O que vai acontecer?

Prever o seu futuro.

 

As estimativas iniciais de malone quanto a Sam Collins estavam corretas.

Trinta e poucos anos, um rosto ansioso que transmitia um misto de inocência e determinação. Magro, de cabelos louros avermelhados cur­tos, que pareciam um emaranhado de penas sobre a cabeça. Falava com o mesmo vestígio de sotaque que Malone primeiro detectara — aus­traliano ou, quem sabe, neozelandês —, mas a dicção e a sintaxe eram completamente americanas. Era impaciente e arrogante, como outros da sua idade (e Malone já fora um deles), que queriam ser tratados como se tivessem 50 anos.

Com um único problema.

Nenhum deles (novamente, Malone estava incluído) possuía os adicionais 20 anos de erros.

Sam Collins aparentava ter jogado fora a carreira no Serviço Se­creto, e Malone sabia que se você fracassasse num departamento de segurança, raramente outro lhe estenderia a mão.

O Mazda contornou mais uma curva estreita, e a estrada litorânea se afastou do mar em direção a uma extensão sombria de floresta. Todo o terreno nos poucos quilômetros adiante pertencia a Henrik Thorvaldsen. Malone era o dono de 1,6 desses hectares — um presente inespera­do dado pelo amigo dinamarquês alguns meses antes.

Você não vai me dizer o porquê de estar aqui na Dinamarca, vai? — perguntou Collins.

Não podemos deixar isso para Henrik? Tenho certeza de que ele responderá a todas as suas perguntas.

Mais instruções de Henrik?

Após uma hesitação:

—É o que era para ser dito a você, caso perguntasse.

Não gostava de ser manipulado, mas sabia que esse era o jeito de Thorvaldsen. Teria de fazer o jogo dele se quisesse aprender alguma coisa.

Ao chegar a um portão aberto, diminuiu a velocidade, trafegando entre os dois chalés brancos que serviam de entrada a Christiangade. A propriedade tinha quatro séculos e fora construída por um antepassa­do de Thorvaldsen, que, perspicaz, convertera toneladas de turfa inútil em matéria-prima para a produção de porcelanas finas. No século XIX, a Aldegate Glasvaerker já havia sido declarada a fornecedora de vidro da realeza na Dinamarca. O título ainda lhe pertencia, seus artigos de vidro reinavam supremos por toda a Europa.

Seguiu por um percurso de grama, ao longo do qual árvores des­pidas pelo inverno se alinhavam. A mansão era um exemplar perfeito do barroco dinamarquês — três andares de arenito revestido de tijolos, cobertos por um telhado de cobre encurvado. Uma das alas era de fren­te para o mar, a outra, para a direção oposta. Nenhuma luz acesa nas janelas. Normal para o meio da noite.

Mas a porta da frente estava semi-aberta.

Isso era atípico.

Estacionou, saiu do carro e caminhou até a entrada com a arma em punho.

Collins o seguiu.

Lá dentro, o ar cálido emanava o cheiro de tomates cozidos e a fumaça vagueante de um charuto. Aromas familiares numa casa que visitara com freqüência durante os dois últimos anos.

Henrik! — chamou Collins.

Ele olhou para o homem mais jovem e sussurrou:

Você é completamente idiota?

Eles precisam saber que estamos aqui.

Quem são eles?

—Aporta estava aberta.

Justamente o que quero dizer. Cale-se e fique atrás de mim.

Caminhou lentamente sobre a pedra polida até o assoalho de ma­deira do corredor seguinte e andou por um amplo saguão, passando pelas salas de música e de sinuca, até um escritório no andar térreo — a única iluminação era cortesia de uma lua invernal, capturada ao passar pelas janelas.

Precisava verificar algo.

Seguiu caminho desviando-se da mobília até chegar a uma elabo­rada sala de armas, decorada com a mesma rica madeira de bordo que revestia o restante do salão. Sabia que pelo menos uma dúzia de espin­gardas de caça, mais diversos revólveres e pistolas, um arco medieval e três rifles, estavam sempre à vista.

A porta oblíqua de vidro estava aberta.

Uma das automáticas sumira, assim como duas espingardas. Alcan­çou uma das pistolas. Um revólver Welby de acabamento azulado, com um cano de cerca de 15 centímetros. Sabia da admiração de Thorvaldsen pela arma. Nenhuma outra havia sido fabricada desde 1945. Um odor pungente de óleo preencheu as suas narinas. Checou o cilindro. Seis dis­paros. Totalmente carregada. Thorvaldsen nunca exibia armas vazias.

Entregou-a a Collins e pronunciou um "você sabe usá-la?".

O rapaz assentiu.

Alcançaram a porta mais próxima e deixaram o aposento.

Acostumado à geografia da casa, seguiu por outro corredor até che­gar a uma interseção. Portas de molduras elaboradas enfileiravam-se em ambos os lados do saguão com tanto espaço entre elas, que revelava a amplitude dos aposentos.

Na extremidade mais distante formava-se o vulto de um frontão triangular. O dormitório principal.

Thorvaldsen detestava subir escadas, portanto havia muito tempo ocupava o andar térreo.

Malone deu um passo em direção à porta, movendo lentamente o trinco, e empurrou a placa de madeira entalhada, abrindo-a sem fazer barulho.

Olhou para dentro, onde as cortinas abertas revelavam a noite prateada, inspecionando as silhuetas da mobília alta e pesada. Um tapete preenchia o centro, com a borda a uns bons cinco passos da entrada. Espiou os edredons sobre a cama e notou um amontoado que sinaliza­va o lugar onde alguém podia estar dormindo.

Mas havia algo errado.

Um movimento à direita chamou a atenção dele.

Uma forma apareceu na entrada.

A luz inundou o quarto.

Ergueu a mão para se proteger dos raios ofuscantes quando viu Thorvaldsen apontando a boca do rifle diretamente para ele.

Jesper surgiu do closet, arma em punho.

Então viu os corpos.

Dois homens jaziam no chão, no lado mais distante da cama.

— Pensaram que eu era estúpido — disse Thorvaldsen.

Ser pego numa armadilha não era particularmente algo que o agradava. O rato nunca se divertia muito.

Há uma razão para eu estar aqui?

Thorvaldsen abaixou a arma.

Você esteve fora.

Negócios particulares.

Falei com Stephanie. Ela me contou. Sinto muito, Cotton. Deve ter sido um inferno.

Apreciava a preocupação do amigo.

É assunto encerrado.

O dinamarquês acomodou-se sobre a cama e afastou as cobertas; debaixo delas, apenas travesseiros.

Infelizmente, esse tipo de assunto nunca se encerra.

Malone gesticulou na direção dos corpos.

São os mesmos que invadiram a livraria?

Thorvaldsen balançou a cabeça e Malone percebeu a dor em seus olhos.

—Levei dois anos, Cotton. Mas finalmente encontrei os assassinos do meu filho.

 

- Napoleão tinha uma forte crença em oráculos e profecias - disse Eliza ao seu companheiro de voo. Era sua faceta corsa. Seu pai uma vez lhe dissera que a sorte e o destino "estavam escritos no céu". E ele estava certo.

Mastroianni não parecia impressionado.

Mas nada a intimidaria.

Josefina, a primeira mulher de Napoleão, era uma descenden­te de franceses nascida na Martinica, um lugar onde florescia a prá­tica do vodu e das artes mágicas. Antes de partir da ilha e embarcar rumo à França, foi ler sua sorte. Garantiram-lhe que se casaria jovem e seria infeliz, ficaria viúva e que, mais tarde, se tornaria mais do que rainha da França. — Ela fez uma pausa. — Casou-se aos 15 anos, foi extremamente infeliz, enviuvou e, mais tarde, foi proclamada imperatriz da França.

Ele deu de ombros.

De novo, a mania francesa de olhar para trás em busca de res­postas.

Talvez. Mas minha mãe viveu a vida baseada nesse oráculo. Eu era como você, uma descrente. Mas agora tenho outra opinião.

Abriu o livro fino.

Você pode escolher entre 32 perguntas. Algumas são básicas. "Terei uma vida longa? O paciente se recuperará da doença? Tenho ini­migos, ou vários deles? Herdarei propriedades?" Mas outras são mais específicas. Você tem um tempo para formular a pergunta e pode até mesmo substituir uma ou duas palavras.

Ela deslizou o livro para a frente dele.

Escolha uma. Algo que talvez já saiba. Teste o poder do livro.

Um dar de ombros e uma piscadela revelaram o quanto ele achava aquilo divertido.

É só o que tem que fazer — afirmou ela.

Mastroianni se rendeu, examinando a lista de perguntas, e por fim indicou uma delas.

Esta. "Terei um filho ou uma filha?"

Eliza sabia que ele tinha se casado novamente no ano passado. Es­posa número três. Vinte anos mais nova, talvez. Marroquina, se não lhe falhava a memória.

Não tinha a menor idéia. Ela está grávida?

Vamos ver o que diz o oráculo.

Percebeu um sinal de desconfiança ao vê-lo contrair uma das sobrancelhas num movimento rápido.

Entregou-lhe um bloco de anotações.

Com o lápis, marque uma fileira de, pelo menos, 12 linhas verti­cais ao longo da página. Depois da 12a, pare quando quiser.

Ele olhou para ela de um jeito estranho.

É como funciona.

Ele seguiu as instruções.

 

         ||||||||||||

 

Agora, marque mais quatro fileiras, uma em cada linha, embai­xo da primeira. Não pense muito, apenas faça os riscos.

No mínimo 12?

Balançou a cabeça.

Não, quantos quiser.

Observou-o enquanto fazia os riscos.

 

               ||||||||||||||

               |||||||||

               ||||||||||||

               ||||||||||||||||||

 

Agora, conte os riscos de cada uma das cinco fileiras. Se o nú­mero for par, coloque dois pontos ao lado; se for ímpar, apenas um.

Ponderou por um momento e fez o cálculo, terminando com uma coluna de cinco fileiras de pontos.

 

 

Ela checou os resultados.

Dois ímpares, três pares. Aleatório o bastante para você?

Ela assentiu.

Abriu o livro na página de uma tabela.

Você escolheu a pergunta número 32 — apontou para uma filei­ra marcada "32" no fundo da página. — Aqui, no alto, estão as opções dos pontos. Na coluna da combinação que escolheu, dois ímpares, três pares. Para a pergunta número 32 a resposta é "R".

Deu uma folheada no livro e deteve-se na página com um "R" maiúsculo no topo.

Na página da resposta temos as mesmas combinações de pon­tos. A resposta do oráculo para "dois ímpares, três pares" é a terceira de cima para baixo.

Ele pegou o livro e leu. Uma expressão de assombro iluminou o rosto dele.

É realmente extraordinário.

Ela se permitiu sorrir.

"Nascerá um filho que, se não receber correções a tempo, provar-se-á uma fonte de problemas para si." Vou mesmo ter um meni­no. Na verdade, só ficamos sabendo há poucos dias. Alguns exames pré-natais revelaram um problema no desenvolvimento do feto, que os médicos querem corrigir ainda no útero. É arriscado tanto para a mãe como para o bebê. Não contamos a ninguém sobre isso e ainda estamos decidindo sobre o tratamento.

Seu desânimo inicial desapareceu.

Como é possível?

Sorte e destino.

Posso tentar de novo?

Ela balançou a cabeça.

O oráculo aconselha a não fazer duas perguntas no mesmo dia ou ainda sobre o mesmo assunto no mesmo mês lunar. Além do mais, as respostas às perguntas feitas sob a luz da lua tendem a ser mais precisas. Vamos no sentido leste em direção ao sol. Que horas são, meia-noite?

Há, portanto, um novo dia a caminho.

Ela sorriu.

Devo dizer, Eliza, que é impressionante. Existem 32 possíveis respostas à minha pergunta. E mesmo assim, aleatoriamente, escolhi a exata, que satisfez a minha curiosidade.

Puxou o bloco para perto dela e folheou até uma página em branco.

Ainda não consultei o oráculo hoje. Deixe-me tentar.

Indicou a pergunta número 28.

"Terei sucesso no meu atual empreendimento?"

Isso é referente a mim? — O tom dele estava, com certeza, mais suave.

Ela assentiu.

—Vim a Nova York especificamente para vê-lo — dirigiu-lhe o olhar. — Você será uma excelente aquisição para a nossa equipe. Faço as minhas escolhas a dedo e eu o escolhi.

Você é uma mulher implacável. Mais do que isso: uma mulher implacável com um plano.

Ela deu de ombros.

O mundo é um lugar complicado. O preço do petróleo sobe e desce sem motivo ou aviso. Ou é a inflação ou é a recessão alastran­do-se pelo globo. Os governos são impotentes. Eles ou imprimem mais dinheiro, o que causa mais inflação, ou lidam com a situação transformando-a noutra recessão. Estabilidade parece ser coisa do passado. Encontrei uma maneira de lidar com todos esses problemas.

Vai funcionar?

—Acredito que sim.

Havia uma força ferrenha no rosto bronzeado de Mastroianni, e os olhos ávidos finalmente transmitiam determinação. O empresário, afetado pelos mesmos dilemas encarados por ela e pelos outros, compreendia. O mundo estava mesmo mudando. Algo tinha de ser feito. E era possível que ela tivesse a solução.

Há um preço para a admissão — disse ela. — Vinte milhões de euros.

Ele deu de ombros.

Sem problemas. Mas, com certeza, você tem outras fontes de rendimento.

Ela assentiu.

Bilhões. Intactos e irrastreáveis. Ele apontou para o oráculo.

Vá em frente, faça as suas marcas e vamos ver qual é a resposta. Ela segurou o lápis e desenhou cinco linhas verticais, contando-as depois. Todos números pares. Consultou a tabela e viu que a resposta era "Q". Foi até a respectiva página, encontrando a mensa­gem correspondente.

Percebeu que havia despertado completamente o seu entusiasmo e quis sorrir, mas resistiu ao impulso.

Quer que eu leia para você?

Ele assentiu.

"Faça um exame rigoroso das inclinações do seu parceiro e se estiverem de acordo com as suas, não tema e a felicidade servirá a ambos."

Parece-me que o oráculo sabe o que vou fazer.

Ela permaneceu sentada, em silêncio, permitindo que o ronco dos motores do jato varresse a cabine. O cético italiano acabara de aprender o que ela soubera durante toda a sua vida adulta, o que a mãe e a avó corsas haviam lhe ensinado: que a transmissão direta das origens era a rorma de conhecimento mais poderosa.

Mastroianni estendeu-lhe uma das mãos.

Trocaram um aperto — o dele, suave e úmido de suor.

Pode contar comigo, seja o que for que tenha em mente.

Mas ela queria saber:

Você ainda não gosta de mim?

Decidiremos sobre isso mais tarde.

 

Malone decidiu que uma volta na praça o ajudaria a clarear os pensamentos. A audiência começara cedo e só entrara em recesso bem depois do meio-dia. Não tinha fome, mas sentia sede. Avistou um café do outro lado. A tarefa era fácil. Diferente. Observar e garantir que a condenação de um traficante, que se tornara assassino, ocorresse sem percalços. A vítima, um supervisor do Departamento de Controle de Drogas no Arizona, tinha sido executada na região norte do México. O agente era amigo íntimo de Danny Daniels, presidente dos Estados Unidos, portanto Washington observava tudo de perto. Era o quarto dia de julgamento e, provavelmente, tudo termi­naria no dia seguinte. Até então, a acusação tinha feito um bom trabalho. As provas eram esmagadoras. Tinham lhe passado informações, em particular, sobre uma guerra pelo controle do tráfico entre o acusado e vários de seus concorrentes mexicanos — o julgamento, aparentemente, apresentando-se como uma excelente oportunidade para que os tubarões costeiros eliminassem um predador de águas profundas.

De um campanário próximo, veio o clamor diabólico dos sinos, pratica­mente indiscernível em meio à monotonia dos barulhos diários da Cidade do México. Por todo o gramado da praça havia gente sentada sob a sombra de ár­vores frondosas, cujas cores vibrantes temperavam a severidade dos edifícios próximos, cobertos de fuligem. Uma fonte azul de mármore atirava colunas delgadas de água espumante para o alto para o ar morno.

Ouviu um estampido. E então, outro.

Uma freira de saia preta, a cerca de 50 metros, caiu.

Mais dois estampidos.

Outra pessoa, uma mulher, estatelou-se no chão.

Gritos cortaram o ar.

As pessoas fugiam em todas direções, como se circulasse um aviso de ataque aéreo.

Avistou menininhas em uniformes cinzentos e sóbrios. Mais freiras, mulheres em saias de cores vibrantes. Homens em ternos escuros.

Todos fugindo.

Seu olhar abrangia a totalidade do caos, enquanto mais corpos iam ao chão. Finalmente, a um pouco mais de 50 metros, viu dois homens armados — um ajoelhado, e outro, de pé, ambos atirando.

Mais três pessoas foram atingidas.

Colocou uma das mãos sob o paletó, à procura da Beretta. Os mexicanos haviam deixado que a mantivesse durante sua estada. Apontou a arma e fez dois disparos, derrubando os dois atiradores.

Viu mais dois corpos. Ninguém ajudava ninguém.

Todos simplesmente corriam.

Abaixou a arma.

Ouviu o ruído alto de outro estampido e sentiu algo perfurar-lhe o ombro. A princípio não sentiu nada e então uma corrente elétrica percorreu seu corpo até o cérebro, onde explodiu numa agonia dolorosa que já havia sentido antes.

Haviam atirado nele.

Um homem emergiu de uma fileira de cercas vivas. Malone notou apenas os cabelos negros e encaracolados sob um chapéu gasto, puxado para baixo.

A dor se intensificou. Sangue jorrava do seu ombro, encharcando a camisa. Era para ter sido uma missão de baixo risco. A raiva se apoderou dele, tornando mais forte sua determinação. O desaforo aumentava nos olhos do agressor, cujos lábios delineavam um sorriso sarcástico, aparentemente dividido entre finalizar o que havia começado e fugir.

O atirador se virou para ir embora.

Os reflexos de Malone eram precários, mas ele reuniu todas as suas forças e disparou.

 

Ainda não conseguia se lembrar de ter puxado o gatilho. Disseram a ele, mais tarde, que atirara três vezes, e que dois dos disparos atingiram o alvo, matando o terceiro assassino.

Os números finais? Sete mortos e nove feridos.

Cai Thorvaldsen, um jovem diplomata integrante da missão dinamarquesa, e Elena Ramirez Rico, mexicana, promotora, eram dois dos mortos. Desfrutavam seu almoço sob uma das árvores.

Dez semanas depois, um homem, corcunda, foi visitá-lo em Atlanta. Sentaram-se no gabinete de Malone, que não se deu ao trabalho de perguntar como Henrik Thorvaldsen o havia encontrado.

Vim conhecer o homem que atirou no assassino do meu filho — disse Thorvaldsen.

Por quê?

—Para agradecer.

Poderia ter telefonado.

Sei que você quase morreu.

Ele deu de ombros.

E você está deixando seu cargo no governo. Demitindo-se e se aposen­tando do serviço militar.

Você está a par de muitas coisas.

O conhecimento é o maior dos luxos.

Ele não se mostrou impressionado.

Obrigado pelo tapinha nas costas. Tenho um buraco latejante num dos meus ombros. Já que disse tudo o que tinha a dizer, pode ir embora, por favor?

Thorvaldsen não chegou a se mexer do sofá, simplesmente passou os olhos pelo escritório e pelos aposentos ao redor, visíveis através de uma arca­da. Todas as paredes estavam cobertas de livros. A casa parecia ser apenas um pano de fundo para as estantes.

—Amo-os também — disse o visitante. — Coleciono livros desde sempre.

O que você quer?

—Já pensou sobre o seu futuro?

Fez um gesto que abrangia toda a sala.

Pensei que tinha aberto um sebo. Há bastante a ser vendido.

Uma excelente idéia. Tenho um à venda, se for de seu interesse.

Decidiu entrar no jogo. Mas havia algo nos estreitos pontos de luz dos

olhos do homem mais velho que dizia que ele não estava para brincadeiras. As mãos rígidas fizeram uma busca num dos bolsos do casaco e Thorvaldsen colocou um cartão de visitas sobre o sofá.

—Meu número particular. Se quiser, telefone.

Isso tinha sido havia dois anos. Estava agora diante de Henrik Thorvaldsen, os dois em papéis trocados. Dessa vez, era o amigo quem estava em dificuldades.

Thorvaldsen permanecia sentado na beira da cama com o rifle so­bre o colo e tinha no rosto uma expressão de completa derrota.

Mais cedo, tive um sonho com a Cidade do México — disse Ma­lone. — É sempre a mesma coisa, todas as vezes. Nunca consigo atirar no terceiro cara.

Mas você atirou.

Por algum motivo, no sonho, não consigo.

Tudo bem com você? — perguntou Thorvaldsen a Sam Collins.

Fui diretamente até o Sr. Malone...

Não comece — disse. — É Cotton!

Certo. Cotton se encarregou deles.

E minha loja está destruída. De novo.

Tem seguro — ressaltou Thorvaldsen.

Malone encarou o amigo.

Por que aqueles homens foram atrás do Sam?

Não esperava que isso acontecesse. A idéia era que viessem atrás de mim. Foi por isso que o tinha mandado para a cidade. Aparentemente, estavam um passo à minha frente.

O que você vai fazer, Henrik?

Passei os dois últimos anos procurando. Sabia que havia algo por trás daquele dia na Cidade do México. O massacre não foi terroris­mo. Foi um assassinato.

Esperou que dissesse mais.

Thorvaldsen apontou para Collins.

Este rapaz é muito inteligente. Os superiores dele não têm idéia da sua esperteza.

Malone notou o luzir de lágrimas nas pálpebras inferiores do ami­go. Algo que jamais tinha visto.

Sinto falta dele, Cotton — murmurou Thorvaldsen, ainda com os olhos fixos em Collins.

Tocou um dos ombros do homem mais velho.

—Por que ele tinha que morrer?—perguntou Thorvaldsen baixinho.

É você quem tem que me dizer — disse Malone. — Por que Cai morreu?

 

Como você está hoje, papai?

Thorvaldsen esperava pelos telefonemas semanais de Cai com muita an­siedade e gostava de que ainda o chamasse de "papai", embora tivesse 35 anos e fizesse parte do corpo diplomático dinamarquês.

Sinto-me só nesta mansão, mas Jesper garante o entretenimento. Está aparando o jardim mas nós discordamos sobre o quanto deve ou não cortar. É um teimoso!

—Mas Jesper está sempre certo. Sabemos disso há muito tempo.

Thorvaldsen deu uma risadinha.

Nunca direi isso a ele. Como vão as coisas do outro lado do oceano?

Conforme havia requerido, Cai fora designado para o consulado da Di­namarca na Cidade do México. Desde pequeno, o filho de Thorvaldsen tivera fascinação pelos astecas e estava apreciando o tempo passado junto àquela cultura tão antiga.

O México é um lugar incrível. Agitado, bagunçado e caótico e, ao mesmo tempo, fascinante, desafiador e romântico. Estou feliz por ter vindo.

E quanto à moça que você conheceu?

Elena é maravilhosa.

Elena Ramírez Rico trabalhava no escritório do promotor público federal na Cidade do México, numa unidade especial de investigação. Cai havia lhe contado um pouco a respeito do assunto, mas muito mais sobre ela. Seu filho parecia estar bastante envolvido.

Você tem de trazê-la para uma visita.

—Já conversamos sobre isso. Talvez no Natal.

Seria maravilhoso. Ela iria gostar do modo de comemorar dos dinamarqueses, embora possa achar o nosso clima desconfortável.

Ela tem me levado a tantos sítios arqueológicos... Sabe tanto a respei­to da história do seu país...

Você parece gostar dela.

Gosto, papai. Ela me lembra a mamãe. Na ternura. No sorriso.

Então, deve ser mesmo adorável.

 

Elena Ramírez Rico — disse Thorvaldsen — trabalhava com processos relacionados a crimes culturais. Principalmente roubos de obras de arte e objetos. É um negócio movimentado no México. Estava prestes a indiciar dois homens. Um espanhol, o outro, britânico. Am­bos figuras importantes no comércio de objetos roubados. Foi assassi­nada antes de isso acontecer.

Qual seria a relevância de sua morte? — perguntou Malone. — O processo poderia ter sido entregue a outro promotor.

E foi, mas ele se recusou a continuar no caso. Todas as acusações foram retiradas.

Thorvaldsen estudou Malone. Viu que o amigo entendia perfeitamente.

Quem eram os homens que iria indiciar? — indagou Malone.

O espanhol é Amando Cabral. O britânico, lorde Graham Ashby.

 

                   Córsega

Ashby sentou-se no sofá, bebericando rum, observando o corso enquanto o Archimedes prosseguia no percurso rumo à costa, ao longo do rochoso litoral leste de Cabo Corso.

—Aqueles quatro alemães deixaram algo com o quinto indivíduo — disse Ashby, por fim. — É o boato que corre há muito tempo. Mas descobri que é verdade.

Graças às informações fornecidas por mim há vários meses.

Assentiu.

É verdade. Você tinha os detalhes que faltavam. Por isso vim generosamente oferecer o que eu sabia e, também, uma porcentagem da descoberta. E você concordou em compartilhá-las.

Sim, concordei. Mas não descobrimos nada. Então, qual é a ra­zão desta conversa? Por que sou mantido prisioneiro?

Prisioneiro? Não é bem o caso. Estamos simplesmente num bre­ve cruzeiro a bordo do meu barco. Dois amigos. Uma visita.

Amigos não se atacam.

Muito menos mentem um para o outro.

Aproximara-se do homem havia mais de um ano, após saber da sua conexão com o quinto alemão que ali estivera em setembro de 1943. Dizia a lenda que um dos quatro soldados executados por Hitler tinha codificado a localização do tesouro e que tentara usar a informação como trunfo. Infelizmente, para ele, os nazistas não faziam acordos — pelo menos, nunca baseados na boa-fé. O corso sentado à sua frente, certamente tentando imaginar até onde iria aquela charada, havia tropeçado no que o alemão azarado deixara para trás — um livro, um volume inócuo sobre Napoleão — e que o soldado havia lido durante seu aprisionamento na Itália.

Aquele homem — disse Ashby — sabia a respeito do Nó do Mouro — apontou para a mesa. — E então escreveu aquelas cartas. Elas acabaram sendo descobertas pelo quinto participante depois da guerra, em arquivos alemães confiscados. Infelizmente, ele nunca sou­be qual era o título do livro. Você realizou essa proeza, o que é surpreen­dente. Reencontrei as cartas e, no nosso último encontro, passei-as a você, mostrando a minha boa-fé. Mas não ouvi menção alguma quanto ao verdadeiro nome do livro.

Quem disse que eu sei?

Gustave.

Ele viu a expressão de choque no rosto do homem.

O senhor o feriu? — perguntou novamente o corso.

Paguei-lhe pela informação. Gustave é do tipo que gosta de fa­lar e tem um otimismo contagiante. E agora está bem rico.

Observou o convidado digerir a traição.

O Sr. Guildhall entrou no salão e assentiu com a cabeça. Sabia o que isso significava. Estavam chegando. Os motores amainaram, visto que o barco diminuiu a velocidade. Gesticulou, e o ajudante saiu.

E se eu decifrar o Nó do Mouro?—indagou o corso, que parecia ter conseguido concatenar as idéias, afinal.

Será, então, rico também.

O quão rico?

—Um milhão de euros.

O corso riu.

O tesouro vale cem vezes mais do que isso.

Ashby se levantou do sofá.

Se existir um a ser encontrado. Até você admitiu que tudo pode não passar de uma história.

Seus passos cruzaram o salão, e ele pegou uma bolsa preta. Retor­nou e despejou o conteúdo no sofá.

Maços de euros.

O burocrata arregalou os olhos.

Um milhão. Seus. Fim da caça para você.

O corso se inclinou para a frente de imediato, puxando o livro até ele.

O senhor é dos mais persuasivos, lorde Ashby.

Todo mundo tem um preço.

Os algarismos romanos estão claros. A fileira de cima são os números das páginas. A do meio, os números das linhas. A última mostra o posicionamento das palavras. Dispostas em ângulo, as três fileiras formam colunas.

 

       XCV      CCXXXVI      CXXVIII      CXCIV      XXXII

        IV            XXXI            XXVI          XVIII         IX

     VII              VI                   X                 II            XI

 

Observou o corso folhear o livro antigo, localizando a primeira pá­gina — 95, quarta linha, sétima palavra.

"Torre". O que não faz sentido. Mas ao adicionarmos as duas palavras seguintes, faz. Torre de Santa Maria.

O passo a passo foi repetido quatro vezes mais.

Torre de Santa Maria, convento, cemitério, marcador, Ménéval.

Ashby observou e em seguida disse:

O livro foi uma boa escolha. O texto descreve o exílio de Na­poleão em Santa Helena e os anos da juventude na Córsega. Contém todas as palavras certas. O alemão era esperto.

O corso recostou-se no sofá.

O segredo dele permaneceu escondido por sessenta anos. Ei-lo.

Permitiu-se um sorriso cordial a fim de adoçar a atmosfera.

O corso examinou os euros.

Estou curioso, lorde Ashby. O senhor é um homem evidente­mente rico. Com certeza não precisa desse tesouro.

Por que diz isso?

A diversão é o que motiva sua busca, não é?

Pensou nos seus planos cautelosos, nos riscos calculados.

Coisas perdidas me interessam.

O barco desacelerou até parar.

A minha busca — disse o corso, segurando um maço de euros — é pelo dinheiro. Não tenho um barco deste tamanho.

As preocupações anteriores de Ashby, no caminho desde o sul da França, finalmente diminuíram. Tinha seu objetivo em vista agora. Per­guntava-se se o prêmio valeria todos os problemas. Era essa a questão no caso das coisas perdidas — às vezes, os fins não justificavam os meios.

Eis um bom exemplo.

Ninguém sabia se seis caixotes de madeira estavam à espera de ser encontrados e, se estavam, o que havia dentro deles. Era possível que não fosse nada além de jogos de prata e algumas jóias de ouro. Os nazistas não eram específicos quanto ao que extorquiam.

Mas ele não estava interessado em tralhas. Porque o corso estava errado. Precisava do seu tesouro.

Onde estamos? — perguntou finalmente.

Perto da costa, ao norte de Macinaggio. No Site Naturel de la Capandula.

O Cabo Corso, acima de Bastia, era pontilhado por torres de vigia, conventos vazios e igrejas romanescas. A extremidade mais ao norte consistia em uma reserva natural nacional, poucas ruas e ainda menos gente. Apenas gaivotas e cormorões consideravam-na o seu lar. Ashby estudara a geografia. A Torre de Santa Maria era uma construção de três andares em ruínas, que se erguia do mar a pouquíssimos metros da praia, construído pelos genoveses no século XVI, como posto de vigilância. A apenas uma curta caminhada dali, já em terra firme, esta­va a Capela de Santa Maria, do século XI, um antigo convento, agora atração turística.

Torre de Santa Maria, convento, cemitério, marcador, Ménéval.

Checou o relógio.

Não ainda.

Um pouco mais de tempo.

Fez um gesto em direção ao copo do corso.

— Aproveite seu drinque. Quando terminar, já existe um escaler à espera para o nosso desembarque. Hora de encontrarmos o ouro de Rommel.

 

                   Dinamarca

Sam observava Thorvaldsen com preocupação, lembrando-se do que um dos seus instrutores no Serviço Secreto havia lhe ensinado. "Incite uma pessoa, e ela pensará. Acrescente raiva, e ela se atrapalha toda."

Thorvaldsen estava com raiva.

Você matou dois homens esta noite — frisou Malone.

Nós sabíamos que este momento chegaria — disse Thorvaldsen.

Quem são nós?

—Jesper e eu.

Sam observou a postura obediente e concordante de Jesper.

Estávamos à espera — disse Thorvaldsen. — Tentei contatar você na semana passada, mas estava fora da cidade. Estou feliz que tenha retornado. Preciso que tome conta de Sam.

Como descobriu a respeito de Cabral e Ashby? — perguntou Malone.

Com detetives particulares trabalhando para mim nos últimos dois anos.

Você nunca mencionou isso.

Não era relevante para você ou para mim.

Você é meu amigo. Diria que isso o torna relevante.

Talvez esteja certo, mas escolhi guardar minhas atividades para mim mesmo. Descobri há poucos meses que Ashby tentou subornar Elena Rico. Já que fracassara, contratou homens para atirar nela, em Cai e nos outros para disfarçar o crime.

Um tanto grandioso.

Serviu de aviso ao sucessor de Elena. Deu certo. Ele demons­trou muito mais boa vontade.

Collins escutava, surpreso com o quanto sua vida tinha mudado. Duas semanas antes era um obscuro agente do Serviço Secreto, à caça de transações financeiras duvidosas em meio a um labirinto de regis­tros eletrônicos enfadonhos. Função de bastidores — secundária à dos agentes de campo. Tinha vontade de trabalhar como eles, mas nunca lhe ofereceram a chance. Acreditava estar à altura do desafio —reagira bem durante o episódio na loja de Malone — mas questionava-se diante dos corpos do outro lado do quarto. Thorvaldsen e Jesper tinham matado aqueles homens. O que os levara a agir daquela forma? Conseguiria?

Observou Jesper estender dois sacos sobre o chão. Na verdade, ele nunca tinha visto alguém morto a tiros. Ou sentido o aroma rançoso de sangue. Ou encarado olhos sem vida. Jesper manuseava os corpos com frio desprendimento, empurrando-os para dentro dos sacos sem parecer se importar.

Conseguiria fazê-lo também?

Qual é o problema com Ashby?—perguntou Malone. — Sam fez questão de mencioná-lo para mim. Imagino que devido à sua insistência.

Collins percebeu que Malone estava tanto irritado quanto preocupado.

Posso responder — afirmou Collins. — E um britânico rico. Fortuna muito antiga, cujo valor real se desconhece. Vários bens escondidos. Foi pego em alguma tramóia há alguns anos. Retter der Verlorenen Anitiquitaten. Recuperadores de Antigüidades Perdidas. Um grupo de pessoas que roubava obras de arte roubadas e as negociava entre eles.

Lembro-me disso — disse Malone. — Foi quando descobriram a Sala de Âmbar.

Collins assentiu.

Juntamente com uma tonelada de outros tesouros perdidos, quando invadiram as casas dos participantes. Ashby foi implicado no caso, mas nunca conseguiram provas. Amando Cabral trabalhava para um dos membros. Compradores, eram chamados assim. Os que de fato coletavam as obras. — Ele fez uma pausa. — Ou as roubavam, dependendo da perspectiva.

Malone pareceu entender.

—Então Ashby se meteu numa dessas coletas na Cidade do México?

Thorvaldsen assentiu.

O caso ganhava proporção e Elena Ramírez Rico estava na trilha certa. Consequentemente, fez a ligação entre Cabral e Ashby, portanto Ashby decidiu que deveria ser eliminada.

Tem mais — disse Collins.

Malone o encarou.

—Ashby também está envolvido num outro grupo secreto que está tramando uma conspiração bem maior.

Quem está falando: o agente ou o webmaster? — perguntou Malone.

Collins dispensou o ceticismo.

É real. Pretendem aniquilar os sistemas financeiros mundiais.

Parece que isso está acontecendo independentemente dos esfor­ços deles.

Compreendo que me considere doido, mas a economia pode ser uma arma poderosa. É possível dizer até que se trata da suprema arma de destruição em massa.

Como ficou sabendo sobre esse grupo secreto?

Alguns de nós estão à espreita. Foi um conhecido meu em Paris que o descobriu. Estão apenas começando. Deram uma ou outra mexidinha nos mercados monetários. Nada significativo. Coisas que poucos notariam, a não ser que prestassem muita atenção.

O que, aparentemente, é o que você e seus amigos têm feito. E você provavelmente contou aos seus superiores, que não acreditaram. Imagino que o problema seja a falta de provas.

Ele assentiu.

Estão por aí. Sei disso. E Ashby é um deles.

Cotton — disse Thorvaldsen —, conheci Sam há mais ou menos um ano. Deparei-me com o site e suas teorias pouco convencionais e, em especial, as opiniões em relação a Ashby. Muito do que diz faz sentido. — O homem mais velho sorriu para Collins. — Ele é inteligente e ambicioso. Alguma chance de você reconhecer tais qualidades?

Malone sorriu.

- Está certo. Também já fui jovem. Mas Ashby parece saber que você está atrás dele. É a respeito de Sam.

Thorvaldsen balançou a cabeça.

Quanto a isso, não sei. Os homens de hoje à noite foram man­dados por Cabral. Minha provocação foi direcionada a ele. Não tinha certeza quanto a Sam estar na sua mira. Esperava que o foco da raiva de Cabral caísse sobre mim, mas disse a Sam para que fosse até você, caso precisasse de ajuda.

Jesper arrastou um dos corpos ensacados para fora do quarto.

Eles vieram num barco — declarou Thorvaldsen — que será encontrado amanhã, à deriva, em Oresund, bem longe daqui.

E o que você vai fazer agora? — perguntou Malone.

Thorvaldsen inalou o ar em rápidas inspirações, sucessivamente.

Collins perguntou-se se o amigo estaria bem.

—Ashby gosta de adquirir obras de arte e tesouros que sejam ou desconhecidos, ou roubados ou não reivindicados — disse Thorvaldsen, finalmente.—Nada de advogados, batalhas judiciais ou imprensa com que se preocupar. Pesquisei sobre os Recuperadores de Antigüidades Perdidas. Estiveram em atividade por bastante tempo. É mesmo muita esperteza. Roubar o que já é roubado. O comprador de Ashby era um homem chamado Guildhall, que ainda trabalha para ele. Cabral foi contratado por Ashby para algumas tarefas específicas, após o gru­po ter sido revelado. Cabral foi atrás de alguns itens que não tinham sido recuperados na ocasião da captura, coisas cuja existência era do conhecimento de Ashby. A lista do que foi reavido quando os recupe­radores foram finalmente descobertos é inacreditável. Mas é capaz que agora Ashby esteja interessado em outras coisas, que tenha trocado a caça de tesouros por algo bem maior. — Thorvaldsen encarou Collins. — Suas informações fazem sentido. Até agora, todas as análises que fez a respeito de Ashby provaram-se precisas.

Mas você não vê nenhuma nova conspiração financeira — disse Malone.

O dinamarquês deu de ombros.

Ashby tem vários amigos, o que era de esperar. Afinal, encabeça um dos maiores bancos da Inglaterra. Para ser sincero, restringi minha investigação somente à associação com Cabral...

Não é mais simples matá-lo e dar o assunto por encerrado? Por que tudo isso? — indagou Malone.

As respostas a ambas as questões ocorreram a Collins imedia­tamente:

Porque você acredita em mim. Acha que existe uma conspiração.

O semblante sorridente de Thorvaldsen irradiava certo prazer, o primeiro sinal de jovialidade que Collins vira no rosto do amigo em muito tempo.

Nunca disse que não.

O que você sabe,. Henrik? — perguntou Malone. — Você nunca age no escuro. O que não está nos dizendo?

Sam, você pode ajudar Jesper com o último saco assim que ele voltar? É um longo caminho até o barco. Embora jamais vá dizê-lo, meu amigo está ficando velho. Já não é tão ágil como antigamente.

Collins não gostava de que o dispensassem, mas viu que Thorval­dsen queria conversar a sós com Malone. Percebeu qual era o seu lugar —era um estranho, que não estava em condições de argumentar. O que não era muito diferente de quando era criança, ou estava no Serviço Secreto, onde era peixe miúdo. Fizera o que Thorvaldsen queria, contatando Malone. Mas também ajudara a deter os invasores da livraria de Malone. Provara que era capaz. Pensou em protestar, mas decidiu ficar quieto. No ano anterior, tinha dito o suficiente aos seus superviso­res em Washington, com certeza o bastante para ser demitido. Queria desesperadamente fazer parte do que fosse que Thorvaldsen estivesse planejando.

Estava inclusive a ponto de engolir o orgulho e agir conforme ha­viam lhe mandado.

Então, quando Jesper retornou, agachou-se e disse:

Deixe-me ajudá-lo.

Ao agarrar os pés cobertos por plástico grosso, carregando um ca­dáver pela primeira vez na vida, Malone olhou para ele.

Esse grupo financeiro sobre o qual você vive falando, você sabe muito a respeito deles?

Meu amigo na França sabe mais.

Sabe ao menos o nome?

Assentiu.

Clube de Paris.

 

                   Córsega

Ashby pisou na praia desolada em Cabo Corso. A areia suja misturava-se à grama, as rochas cobertas com arbustos pontiagudos. No horizonte ao leste, do outro lado das águas, viu as luzes de Elba. A 20 metros, a Torre de Santa Maria caindo aos pedaços surgia em meio à espuma das ondas — uma ruína sombria, dilacerada e contorcida, com a aparência de algo completamente sitiado. A temperatura da noite de inverno eram amenos 18 graus, o que era típico do Mediterrâneo, e a razão principal da corrida dos turistas à ilha naquela época do ano.

Iremos ao convento? — perguntou o corso.

Ashby fez um gesto para o escaler, que partiu. Carregava um rádio e contataria o navio mais tarde. O Archimedes estava ancorado numa extensão de águas tranqüilas, a pouca distância da praia.

Com certeza iremos. Verifiquei no mapa. Não fica longe.

Ele e seus companheiros caminharam lentamente ao longo da superfície de granito, seguindo uma trilha ao longo da vegetação. Captou a fragrância distinta dos arbustos — uma mistura de alecrim, lavanda, cisto, sálvia, junípero, lentisco e mirto. Nessa época do ano, não tão forte quanto na primavera e no verão, quando a Córsega desabrochava num esplendor de flores amarelas e cor-de-rosa, mas agradável mes­mo assim. Lembrou-se de que Napoleão, durante seu primeiro exílio em Elba, perto dali, havia comentado que, em certos dias, quando o vento soprava do oeste, podia sentir os aromas da sua terra natal. Ima­ginava-se um dos muitos piratas mouros que atacaram aquele litoral durante séculos, usando os arbustos como abrigo e para mascarar seus rastros. Para se defender dos ataques, os genoveses ergueram torres de vigia. A Torre de Santa Maria era uma entre muitas — todas circulares, com cerca de 20 metros de altura, paredes de mais de 1 metro de espes­sura, uma cisterna na parte de baixo, alojamentos na seção do meio, um observatório e tuna plataforma de batalha no alto.

Uma obra de engenharia.

História tinha algo que mexia com ele.

Gostava de percorrer seus passos.

Numa noite escura, em 1943, cinco homens haviam realizado um feito extraordinário, algo que conseguira compreender apenas nas últimas três semanas. Infelizmente, o baixinho tolo e imprudente adian­te dele interferira no seu sucesso. Essa aventura precisava chegar ao fim. Ali. Naquela noite. Empreendimentos muito mais críticos esta­vam por vir.

Deixaram a praia rochosa e cruzaram uma reentrância até uma floresta de carvalhos, castanheiras e oliveiras. Em completo silêncio. Adiante, erguia-se a Capela de Santa Maria. O convento, um retângulo cinzento cor de pólvora, de pedra vitrificada e teto plano, tinha um campanário e estava de pé desde o século XI.

O corso parou.

—Aonde vamos? Nunca estive aqui.

Nunca visitou esta reserva natural? Parece-me um passeio obrigatório para qualquer residente da ilha.

Moro no sul. Temos nossas próprias maravilhas naturais.

Moveu-se para a esquerda, por entre as árvores.

Disseram-me que há um cemitério atrás do convento.

Ele agora ia à frente, a lua quase cheia iluminando o caminho. Nenhuma luz brilhava em lugar algum. O vilarejo mais próximo estava a quilômetros de distância.

Contornaram o antigo edifício e encontraram uma arcada de ferro que levava a um cemitério. Sua pesquisa havia revelado que os senhores medievais de Cabo Corso haviam recebido uma extensão territorial dos seus mestres genoveses. Ao se posicionar no extremo norte, numa faixa de terra montanhosa e inabitável que abria caminho por entre o mar, os lordes corsos haviam lucrado tanto com os franceses quanto com os ita­lianos. Duas famílias locais costumavam compartilhar o controle terri­torial. Os da Gentile e os da Mare. Alguns da Mare estavam enterrados ali, atrás do convento, em túmulos com séculos de existência.

Três raios de luz surgiram repentinamente da escuridão. Lanternas acenderam-se mediante a aproximação do grupo.

Quem está aí? — gritou o corso.

Uma das luzes revelou um rosto firme. Guildhall.

O corso encarou Asbhy.

O que é isto?

Ashby gesticulou, indicando o caminho à frente.

Vou lhe mostrar.

Caminharam com certa dificuldade em direção às luzes, por uma estrada de marcos de pedra aos pedaços, passaram por cinqüenta deles, ou mais, cobertos por mais arbustos perfumados. Ao aproximarem-se, as luzes revelaram um retângulo escavado, com talvez 1,5 me­tro de profundidade. Dois jovens estavam ao lado de Guildhall, pás em punho. Ashby exibiu a própria lanterna, direcionando o facho de luz à pedra de um túmulo, revelando o nome Ménéval.

Era um dos Mare, do século XVII. Os quatro soldados alemães usaram esta sepultura como esconderijo. Enterraram seis caixotes aqui, exatamente como revelado no livro pelo Nó do Mouro. Torre de Santa Maria, convento, cemitério, marcador, Ménéval.

Ajustou o ângulo da luz, mostrando o interior de uma sepultura recém-escavada.

Vazia.

Nada de caixotes. Nada de Ménéval. Nada. Consegue explicar isso?

O corso não respondeu.

Ashby não esperava resposta. Com a lanterna, exibiu os rostos de mais dois homens e então disse:

Esses cavalheiros trabalham para mim há muito tempo. Assim como o pai deles. Noutros tempos, foram os tios. São absolutamente leais. Sumner! — chamou.

Da escuridão, surgiram mais vultos e um novo facho de luz reve­lou mais dois homens.

Gustave — disse o corso, reconhecendo um dos rostos como o do seu parceiro. — O que está fazendo aqui?

Fui trazido por este homem, Sumner.

Você me entregou por dinheiro, Gustave.

O outro homem deu de ombros.

Você teria feito o mesmo.

O corso riu.

Teria. Mas nós dois ficamos ricos.

Ashby notou que conversavam em corso. Por isso, acrescentou nessa língua:

Minhas desculpas pelo inconveniente. Mas precisávamos de privacidade para liquidar isso. E eu precisava saber se, na verdade, havia algo a ser encontrado.

O corso apontou para o buraco vazio.

Como pode ver, lorde Ashby, não há caixotes. Nenhum tesouro. Exatamente como o senhor temia.

O que é perfeitamente compreensível, já que vocês dois o encontraram recentemente, levando-o daqui.

—Isso é ridículo—disse o corso.—Completa e absolutamente falso.

Hora de acabar com todo o fingimento.

—Estou à procura do ouro de Rommel há três anos. E isso tem me custado muito tempo e dinheiro. Há seis meses finalmente localizei a famí­lia do quinto alemão. Ele teve uma vida longa e morreu na Baviera há uma década. A viúva, mediante pagamento, é claro, permitiu que eu entrasse em sua casa. Entre os pertences dele encontrei os numerais romanos.

Lorde Ashby — disse o corso — nós não traímos o senhor.

Sumner, por favor, informe esses cavalheiros sobre o seu achado.

A forma sombria apontou a lanterna para Gustave.

—- Enterrados no quintal desse filho da puta. Seis caixotes. —A voz fez uma pausa. — Cheios de barras de ouro com o símbolo da suástica.

Ashby saboreou a revelação. Não soubera, até aquele momento, o que tinham descoberto. Enquanto ele mantinha o corso refém, Su­mner Murray e seus filhos haviam localizado Gustave, fora de Bastia, esclarecendo de vez suas suspeitas. E enquanto navegavam em direção ao norte, os Murray subiram a estrada costeira. Então, o Sr. Guildhall tinha ido até a praia e escavado o túmulo.

—Agi com vocês de boa-fé — disse Ashby aos dois mentirosos. — Ofereci uma porcentagem da descoberta e teria honrado o meu compromisso. Vocês optaram por me enganar, então não lhes devo nada. Retiro a oferta de milhão de euros para cada um.

Havia lido sobre as famosas vendettas corsas — rixas sangrentas que explodiam entre famílias e geravam um número maior de mortos do que o normalmente associado a guerras civis. Geralmente iniciadas a partir de questões triviais de honra, as batalhas mortais podiam se arrastar por décadas. Os da Gentile e os da Mare haviam lutado entre si por séculos e algumas das vítimas dessas disputas apodreciam agora no terreno ao redor dele. As vendettas oficialmente não existiam mais, mas os políticos corsos continuavam a ser atingidos pelos seus vestí­gios. Assassinatos e violência eram comuns. A tática política tinha até um nome. Règlement de comte. Acerto de contas.

Hora de acertar as contas.

—Eu normalmente teria enviado meu advogado para lidar com vocês.

—Um advogado? O senhor pretende nos processar?

Por Deus, não.

O corso riu.

Eu me pergunto se poderíamos fazer algum tipo de acordo? Afi­nal, providenciamos parte da resposta. Em troca, podemos ficar com o dinheiro que já tinha nos dado?

Ao fazer isso, teria de perdoar sua traição.

É a minha natureza — disse o corso. — Não consigo evitar. Que tal metade do dinheiro pelos nossos esforços?

Observou Guildhall distanciar-se lentamente dos dois homens. Sumner e os dois Murray mais jovens já tinham recuado, pressentindo o que estava prestes a acontecer.

Metade me parece muito — disse. — Que tal...

Dois estampidos perturbaram a noite.

Ambos os corsos cambalearam ao ter o crânio perfurado pelas ba­las da arma de Guildhall. Os corpos perderam a energia, e então car­ne e ossos desmoronaram, tombando para a frente e para a sepultura aberta.

Problema resolvido.

Cubra tudo e assegure-se de que ninguém perceba. — Sabia que os Murray lidariam com o assunto.

O Sr. Guildhall foi para perto dele e Ashby perguntou:

Quanto tempo levará para recuperarmos o ouro?

—Já está conosco. No caminhão.

- Excelente. Coloque-o no Archimedes. Precisamos partir. Tenho negócios a tratar em outro lugar amanhã.

 

                   Dinamarca

Malone e Thorvaldsen deixaram o quarto e caminharam em direção ao vestíbulo principal de Christiangade. Ao chegarem lá, Thorvaldsen subiu as escadas até o andar seguinte, onde prosseguiu por um corredor amplo, adornado com obras de arte e antigüidades dinamarquesas, parando diante de uma porta fechada. Malone sabia aonde iam.

O quarto de Cai.

O interior era um recinto íntimo, de pé-direito alto e paredes rebocadas em cores suaves, contendo uma cama inglesa de quatro colunas.

— Ele sempre o chamou de "espaço para pensar" — disse Thorvaldsen, ao acender três luzes. — Este quarto foi redecorado várias vezes. De quarto de bebê passou a abrigo de um rapaz e, depois, a refúgio de um homem. Lisette adorava mudá-lo.

Sabia que assuntos relativos à falecida mulher de Thorvaldsen eram tabu. Nos seus dois anos de convivência, falaram sobre ela ape­nas uma vez e, mesmo assim, rapidamente. O retrato dela perma­necia no andar térreo, e outras fotografias estavam espalhadas pela casa. Parecia que somente lembretes visuais daquela memória sagra­da eram permitidos.

Nunca antes fora permitido a ele entrar no quarto de Cai e, ao fa­zê-lo, notou que ali também havia lembretes visuais — estantes empi­lhadas de bugigangas.

Venho aqui com freqüência — disse Thorvaldsen.

Tinha de perguntar:

E isso faz bem?

Provavelmente não. Mas tenho que me agarrar a alguma coisa, e este quarto é tudo o que me resta.

Ele queria saber o que estava acontecendo. Portanto, manteve a boca fechada e os ouvidos abertos, fazendo a vontade do amigo. Thorvaldsen inclinou-se sobre uma penteadeira enfeitada com fotos de fa­mília. Um abismo insondável de dor pareceu engolfá-lo.

Ele foi assassinado, Cotton. Abatido no auge da vida apenas por querer provar um fato.

Que provas você tem?

Cabral contratou quatro pistoleiros. Três foram até aquela praça...

E eu os matei. — Sua veemência perante aquela realidade lhe causou alarme.

Thorvaldsen o encarou.

Acertadamente. Encontrei o quarto. Ele me contou o que aconteceu. Viu o que você fez. Como atirou nos dois. Ele iria dar cobertura ao terceiro, o que o acertou, mas fugiu da praça quando você começou a disparar.

Então, por que não indiciar Cabral?

Desnecessário. Ele está morto.

Então soube.

É um dos caras dentro dos sacos?

Thorvaldsen assentiu.

Veio ele mesmo dar cabo de mim. Compreendeu o que não havia sido dito.

Conte-me o resto.

Não queria falar na frente de Sam. Ele é tão ávido! Talvez até demais. Acredita que está certo e quer justificá-lo, ou melhor, confirmá-lo. Odeio pensar que quase tenha sido ferido.

O olhar de Thorvaldsen retornou à penteadeira. Malone observou as emoções se debatendo no íntimo do velho dinamarquês.

O que você descobriu?

Algo que nunca esperava descobrir.

 

Collins subiu no barco, enquanto Jesper amarrava a outra embarcação à popa. O ar frio do inverno escandinavo queimava seu rosto. Haviam deitado ambos os corpos, sem os sacos, no outro barco, e agora o rebocavam para a amplitude do estreito marítimo. Jesper já tinha lhe dito que as fortes correntes o levariam em direção à Suécia, onde seria encontrado após o nascer do sol.

Que noite exaustiva.

Tantas coisas acontecendo.

Três dias antes, Thorvaldsen tinha previsto que a situação se agravaria, e foi certamente o que aconteceu.

Você faz muito pelo Henrik — disse a Jesper, acima do ronco do motor.

Herre Thorvaldsen já fez muito por mim.

Não diria que matar pessoas vai um pouco além disso?

Não se elas merecerem.

As águas agitavam-se com a brisa congelante vinda do norte. Por sorte, Jesper havia lhe arranjado um casaco grosso de lã, luvas térmicas e um cachecol.

Ele vai matar Cabral e Ashby?

O senhor Cabral morreu.

Ele não entendeu.

Quando foi isso?

Jesper apontou para o barco que estavam rebocando.

Ele subestimou Herre Thorvaldsen.

Fixou o olhar novamente no casco escuro da embarcação que continha os dois corpos. Não gostava de ser dispensado e tentava imagi­nar, principalmente agora, o que Malone e Thorvaldsen estariam dis­cutindo. Jesper ainda não tinha respondido à sua pergunta quanto a matar Ashby e Collins percebeu que não responderia. O homem era absolutamente leal e responder aquela pergunta significaria romper tal compromisso com Thorvaldsen.

Mas o silêncio dele disse tudo.

 

— Ashby está numa caça ao tesouro — disse Thorvaldsen. Um tesouro que tem iludido as pessoas há muito tempo.

E daí?

E daí que isso é relevante. Não tenho certeza de como, não ain­da. Mas é relevante.

Malone aguardou.

O jovem Sam está certo quanto à conspiração. Não lhe disse, mas os meus investigadores confirmaram várias reuniões recentes en­tre cinco pessoas, que se encontram em Paris.

O tal Clube de Paris?

Thorvaldsen deu de ombros.

—As pessoas têm o direito de se reunir.

Percebeu que havia um pouco de suor na testa de Thorvaldsen, embora não estivesse quente no aposento.

Não essas pessoas. Cheguei à conclusão de que estão fazendo experimentos. Na Rússia, no ano passado, abalaram o sistema bancário nacional. Na Argentina, provocaram uma desvalorização artificial das ações, compraram-nas a preços baixos e então revenderam tudo, lucrando imensamente com as vendas. O mesmo na Colômbia e na In­donésia. Pequenas manipulações. Como se estivessem testando a tem­peratura da água, vendo o que pode ser feito.

Que estrago podem fazer? A maioria das nações possui uma proteção adequada aos seus sistemas financeiros.

Na verdade, não, Cotton. Isso é o que os governos dizem, mas eles não têm como bancar. Especialmente se quem ataca o sistema sabe o que está fazendo. E repare nos países que escolheram. Lugares com regimes opressores, democracia nenhuma ou limitada, nações que florescem sob regras centralizadas e poucos direitos civis.

Você acha que isso importa?

Acho. Esses financistas tiveram uma boa educação. Verifiquei. E são bem comandados.

Percebeu um tom de escárnio.

Cabral e Ashby estavam na mira de Elena Rico. Aprendi mui­to a respeito de Graham Ashby. Ele teria lidado com o assassinato de Elena de forma mais discreta. Mas a tarefa pertencia ao seu aliado, que conduziu tudo à própria maneira. Imagino que a matança na praça não tenha sido do agrado de Ashby, mas, também, não tinha muito como reclamar. O trabalho foi feito.

Malone não gostou do vazio que sentia no estômago e que parecia piorar a cada minuto.

Você irá matá-lo? Como fez com Cabral?

Thorvaldsen simplesmente voltou o olhar para as fotografias.

Ashby não está ciente dos ataques de Cabral hoje à noite. A úl­tima coisa que Cabral iria querer é que Ashby soubesse que tinha se exposto. Por isso veio pessoalmente.

Thorvaldsen falava de forma mecânica, como se tudo já tivesse íido decidido. Mas havia algo mais. Malone podia pressenti-lo.

O que realmente está acontecendo aqui, Henrik?

É uma história complicada, Cotton, que começou no dia em que Napoleão Bonaparte morreu.

 

Ashby estava excitado. O ouro de Rommel agora encontrava-se seguramente a bordo do Archimedes. Uma breve estimativa, aplicando os valores correntes, dizia a ele que os caixotes valiam de 60 a 70 milhões de euros pelo menos, talvez até mesmo 100 milhões. A previsão do corso mentiroso se provara correta. Descarregaria as barras na Irlanda, onde poderiam ser guardadas em um de seus bancos, a salvo dos fiscais britânicos. Não havia necessidade de converter o metal em dinheiro. Pelo menos por enquanto. Os preços mundiais continuavam a subir, as previsões prometendo mais aumentos e, além disso, ouro era sempre um bom investimento. Ele agora possuía uma garantia suficiente para assegurar quaisquer financiamentos de que pudesse precisar.

No final das contas, uma noite excelente.

Entrou no grande salão do Archimedes. O rum do corso ainda es­tava sobre a mesa entre os sofás. Ergueu o copo, saiu para o convés e jogou-o no mar. A idéia de beber no copo daquele trapaceiro mentiroso o enojava. O corso tinha todas as intenções de esconder o ouro e receber o milhão de euros. Mesmo diante da revelação irrefutável, o burocrata mentiroso havia persistido com a charada.

Senhor.

Virou-se. Guildhall estava de pé, dentro do salão.

É ela, ao telefone.

Estivera à espera daquela ligação, portanto caminhou até um sa­guão adjacente — um aposento aquecido, decorado com madeira en­cerada, tecidos sedosos e paredes revestidas em marchetaria de palha. Sentou-se numa poltrona e levantou o telefone do gancho.

Bonsoir, Graham — disse Eliza.

Ainda estão nas nuvens? — perguntou em francês.

Estamos. Mas o voo está sendo bom. O signor Mastroianni concordou em assinar o pacto. Irá depositar o dinheiro do sinal imediata­mente, por isso aguarde uma transferência.

Seus instintos demonstraram estar corretos.

Ele será uma aquisição excelente para o grupo. Tivemos uma conversa maravilhosa.

Pelo menos Eliza Larocque era persuasiva. Tinha aparecido na sua propriedade na Inglaterra e passado três dias seduzindo-o com possibilidades. Havia investigado e descoberto que ela descendia de uma longa linhagem de riqueza — seus antepassados tendo sido primeiro rebeldes, para mais tarde tornarem-se aristocratas que, sagazmente, deixaram a França na ocasião da Revolução e souberam retornar no momento certo. As ciências econômicas eram a sua paixão. Ela possuía diplomas de três universidades europeias, comandava os interesses da família com uma abordagem proativa, dominante nos setores de co­municação wireless, petroquímico e imobiliário. A revista Forbes havia estimado a sua fortuna em aproximadamente 20 bilhões de euros. Ele sempre considerou esse um valor alto mas percebeu que Eliza nunca fez menção de corrigi-lo. Morava em Paris e ao sul da cidade, numa propriedade da família no Vale do Loire, e nunca tinha se casado, o que ele também achava estranho. Suas paixões declaradas eram a arte clássica e a música contemporânea. Estranhas, essas contradições.

E o seu defeito?

Precipitada no emprego da violência.

Via-a como o meio para quase todos os fins.

Ele pessoalmente não se opunha ao seu uso — aquela noite demonstrara sua necessidade inerente — mas dosava a aplicação.

Como tem sido o seu fim de semana até agora? — indagou Eliza.

Estou aproveitando um cruzeiro tranqüilo no Mediterrâneo. Amo o meu barco. É um prazer que raramente desfruto.

Devagar demais para o meu gosto, Graham.

Ambos amavam seus brinquedos. Larocque gostava de aviões — ele tinha ouvido falar sobre o novo Gulfstream.

—Você virá à reunião de segunda-feira?

Estamos indo para Marselha agora, onde pegarei um avião.

Então, nos vemos lá.

Pôs o telefone no gancho.

Ele e Eliza haviam se tornado a essência do grupo. Tinha entrado quatro anos antes, pagando a taxa inicial de 20 milhões de euros. Infelizmente, desde então, seu portfólio de aplicações financeiras tinha levado uma surra violenta, que o tinha forçado a mexer bastante nas reservas familiares. O avô o teria punido por ter corrido riscos tão estú­pidos. O pai teria dito: "E daí? Pegue mais." Essa dicotomia explicava, de muitas maneiras, sua precariedade financeira atual. Os dois homens estavam mortos havia muito tempo. Ainda assim, continuava a agra­dar a ambos.

Quando os Recuperadores de Antigüidades Perdidas foram ex­postos, fez todo o possível para manter a Europol em xeque. Por sorte, as provas foram escassas, e as conexões políticas de Ashby, fortes. Seu esconderijo particular de obras de arte não havia sido descoberto e ele ainda o mantinha. Infelizmente, essa reserva preciosa não podia contri­buir para a última linha do seu extrato financeiro.

Graças às circunstâncias, tinha agora um lote de ouro sob o seu controle.

Problema resolvido.

Notou que o livro do corso — Napoleão, das Tulherias a Santa Helena — jazia sobre a cadeira ao seu lado. Um dos garçons do navio o tinha trazido do salão, com a pasta agora novamente cheia de euros.

Ergueu o livro.

Como uma criança comum, filho de corsos modestos, alcançara tamanha grandeza? No seu auge, o império francês englobava 130 Départements, reunia tropas de 600 mil homens, governava 70 milhões de indivíduos e sustentava uma presença militar formidável na Alema­nha, Itália, Espanha, Prússia e Áustria. A partir dessas conquistas, Na­poleão acumulou o maior lote de riquezas da história da humanidade. A quantidade das suas pilhagens, em todas as nações que conquistou, alcançou níveis jamais vistos. Metais preciosos, pinturas, esculturas, jóias, emblemas, tapeçarias, moedas — toda e qualquer coisa de valor confiscada em nome da glória francesa.

Muito havia sido devolvido após Waterloo.

Mas não tudo.

E o restante havia se metamorfoseado em lenda.

Abriu o livro numa seção que tinha lido poucos dias antes. Gusta­ve tinha renunciado de bom grado à sua cópia, mediante um pequeno adiantamento do prometido milhão de euros. O autor do livro, Louis Etienne Saint-Denis, servira como valete de Napoleão de 1806 a 1821. Exilara-se voluntariamente com o general, primeiro em Elba e depois em Santa Helena. Era o responsável pela biblioteca de Napoleão e, devido à terrível caligrafia do imperador, por passar a limpo os seus escritos. Quase todos os relatos de Santa Helena haviam sido redigi­dos por ele. As memórias de Saint-Denis despertaram o interesse de Ashby. Um capítulo em particular lhe chamara a atenção. Encontrou novamente a página.

 

Sua Majestade odiava Santa Helena—um ponto britânico no mapa-múndi a oeste da África, castigado pelo vento e pela chuva e cercado por rochedos íngremes. As impressões de Napoleão, ao ver, em 1815, a ilha que se tornaria o seu presí­dio, permaneceram as mesmas. "Vergonhoso. Um lugar nada atraente. Teria sido melhor continuar no Egito."

Mas, apesar de todas as provações pelas quais teria de passar, a lembrança do poder que tinha era sempre como um sonho agradável. "Depositei toda a minha glória", disse, "em fazer dos franceses as pessoas mais importantes do universo. Meu maior desejo, minha maior ambição eram que superas­sem os persas, os gregos e os romanos, tanto nos exércitos como nas ciências e nas artes. A França já era o país mais bo­nito, o mais fértil. Numa só palavra, era já tão digno de co­mandar o mundo quanto a Roma antiga. Teria realizado meu intento se sabotadores, conspiradores, homens de dinheiro, homens sem moral, não tivessem levantado obstáculo após obstáculo e interrompido a minha marcha. Não foi proeza pe­quena ter sido bem-sucedido no governo da parte principal da Europa e tê-la submetido a uma unidade de leis. Nações conduzidas por um governo justo, sábio e iluminado teriam, com o tempo, atraído outras nações, e todas seriam uma só família. Uma vez que tudo estivesse assentado, deveria ter es­tabelecido um governo cuja autoridade arbitrária não daria ao povo razões para temer. Todos os homens seriam homens e estariam simplesmente sujeitos à lei comum. Nada resultaria de privilégios, e sim de mérito. Mas há aqueles que não gos­tariam que assim fosse. Os barões da dívida que prosperam à custa da ganância e imbecilidade alheias. Meu objetivo sem­pre foi o de livrar a França de suas dívidas. O desejo deles era o de conduzi-la cada vez mais para o fundo do abismo. Em­préstimos jamais seriam aplicados no saneamento de dívidas correntes, fossem elas civis ou militares. É só refletirmos até aonde podem nos levar para termos noção dos seus perigos. Combati-os. As finanças de um governo jamais teriam o poder de envergonhá-lo, já que, se fosse o caso, os banqueiros, e não os líderes governamentais, é que teriam o seu controle. A mão que dá está acima da mão que tira. O dinheiro não possui terra natal, financistas são despidos de patriotismo e decência: seu único objetivo são os ganhos.

 

Ele nunca havia reparado nas convicções ardorosas de Napoleão em relação a empréstimos. Monarcas, antes e depois dele, sucumbiram facilmente à sedução das dívidas, o que havia acelerado sua queda. Napoleão resistiu. O que, ironicamente, pode ter apressado também o seu fim.

Outro item do livro atraiu o olhar dele.

Ele folheou as páginas amareladas e quebradiças e encontrou a referência crítica da introdução, escrita em 1922 por um professor da Sorbonne.

 

Saint-Denis faleceu em 1856. Deixou para a cidade de Sens alguns dos artigos que tinha conservado em memória do seu imperador: dois volumes de Fleury de Chaboulon com notas na letra de Napoleão; dois atlas nos quais Napoleão havia feito algumas anotações a lápis; o volume infólio das campanhas italianas; uma cópia de Os reinos merovíngios de 450 a 751 d.C., relíquias pessoais; um casaco com dragonas; a roseta de um chapéu; um pedaço do caixão de Santa Helena; e um ramo de um dos salgueiros que cresciam sobre o túmulo do imperador. Suas palavras finais foram específicas: "Minhas filhas deverão se lembrar sempre de que o imperador era meu benfeitor e, por conseqüência, o delas também. A porção maior do que eu possuo devo à sua bondade."

 

Ashby sabia da existência de alguns dos itens deixados por Saint-Denis à cidade de Sens. Os dois volumes de Fleury de Chaboulon. Os atlas. O volume in-fólio das campanhas italianas. Mas uma có­pia de Os reinos merovíngios de 450 a 751 d.C.

Isso era novidade.

Conteria a resposta que procurava?

 

                   Dinamarca

Thorvaldsen tinha ido ao quarto de Cai em busca de forças. O momento da resolução havia chegado. Tinha planejado o caminho com cuidado, detalhadamente, antevisto os possíveis movimentos. Acreditava estar pronto. Faltava recrutar a ajuda de Cotton Malone. Chegou a pensar em telefonar para sua amiga Cassiopeia Vitt, mas decidira não fazê-lo. Ela tentaria detê-lo, diria que havia outros meios — já Malone entenderia, principalmente devido aos acontecimentos das semanas mais recentes.

— Napoleão morreu em paz no dia 5 de maio de 1821, logo após as 18 horas — explicou a Malone. — Uma testemunha comentou que ele "se apagou como a luz de uma lamparina". Foi enterrado em Santa Helena, mas o corpo foi exumado em 1840 e levado para Paris, onde agora jaz no Palácio dos Inválidos. Alguns dizem que foi assassinado, envenenado lentamente. Outros mencionam causas naturais. Ninguém sabe. E não importa.

Notou um cordão cheio de nós esticado sobre uma das estantes. Ele e Cai haviam empinado pipa numa tarde de verão, há muito tempo.

Um lampejo de alegria o atravessou — um sentimento raro, tão maravilhoso quanto desconfortável.

Forçou para que a mente se concentrasse e disse:

Napoleão roubou tanto que escapa à compreensão. A caminho do Egito, conquistou Malta e angariou moedas, obras de arte, objetos de prata, jóias e 5 milhões de francos em ouro, dos Cavaleiros de Mal­ta. A história conta que o ouro foi perdido no mar, durante a Batalha da Baía de Abukir. Não é interessante como intitulamos as batalhas, como se fossem grandes épicos dramáticos? Quando os britânicos destruíram a frota francesa em agosto de 1798, 1.700 marinheiros morreram. Ainda assim, damos-lhes um nome, como se fossem um romance.

Fez uma pausa.

O tesouro de Malta estava, supostamente, em um dos navios que afundaram, mas ninguém confirmou essa informação. Há muitas outras histórias assim. Casas, castelos, tesouros nacionais inteiros pilhados. Até mesmo o Vaticano. Napoleão continua a ser a única pessoa a ter conseguido saquear a riqueza da Igreja. Parte do que foi roubado chegou à França na qualidade de carga oficial, mas não o lote todo. Nunca houve um inventário apropriado. Até hoje o Vaticano afirma que alguns itens nunca foram encontrados.

Ao falar, lutava com os fantasmas abrigados naquele quarto sagra­do, cuja presença era como uma corrente de oportunidades perdidas. Desejara tanto que Cai tivesse herdado o patrimônio dos Thorvaldsen, mas o filho quis antes se comprometer com o serviço público. Tolerara-lhe a vontade, pois ele também, durante a juventude, tinha satisfeito sua curiosidade com uma viagem ao redor do mundo. O planeta, en­tão, parecia tão diferente. As pessoas não eram assassinadas enquanto simplesmente desfrutavam o seu almoço.

Quando morreu, Napoleão deixou um testamento detalhado. Longo, com numerosos legados monetários. Algo em torno de 3 milhões de francos. Muitos não foram honrados, já que não havia fundos para pagá-los. Napoleão era um homem no exílio. Tinha sido destro­nado. Possuía pouco além do que levara para Santa Helena. Mas ao ler o testamento, você pensaria que ele era rico. Lembre-se de que nunca houve a intenção de deixá-lo sair vivo de Santa Helena.

Nunca entendi o porquê de os britânicos simplesmente não o terem matado — disse Malone. — Era obviamente perigoso. Caramba, ele fugiu do primeiro exílio, em Elba, e devastou a Europa.

É verdade, e quando finalmente se entregou aos britânicos, surpreendeu muita gente. Ele queria ir para a América, e quase o deixaram partir, mas mudaram de idéia. Você está certo: era mesmo pe­rigoso. E ninguém queria mais guerras. Mas matá-lo revelaria outros problemas. Martírio seria um deles. Napoleão era reverenciado, mes­mo na derrota, por muitos franceses e britânicos. E claro, há também uma outra explicação.

Vislumbrou o próprio rosto no espelho acima da penteadeira; seus olhos, ao menos uma vez, acesos de energia.

Dizia-se que guardava um segredo que os britânicos queriam desvendar. Riqueza não declarada, todo aquele material saqueado e desaparecido, e os ingleses o queriam. As guerras napoleônicas haviam sido caras. Por isso o mantinham vivo.

Para negociarem com ele?

Thorvaldsen deu de ombros.

É mais provável que estivessem à espera de que cometesse um erro, para assim descobrirem a localização do tesouro.

Li a respeito do tempo que passou em Santa Helena — disse Malone. — Havia uma constante disputa de poder entre ele e Hudson Lowe, o comandante britânico. Sobre coisas tais como de que modo de­veria ser chamado. Lowe referia-se a ele como Général. Todo o restante o chamava de "Sua Majestade". Mesmo após sua morte, Lowe não per­mitiu que os franceses colocassem "Napoleão" na lápide. Queria o politicamente neutro "Napoleão Bonaparte". Então enterraram-no numa sepultura sem nome.

Napoleão era com certeza uma figura polarizadora — dis­se Thorvaldsen. — Mas o testamento, redigido três semanas antes de ele morrer, é bastante instrutivo. Há uma cláusula, relativa a Saint-Denis, o seu valete, deixando-lhe 100 mil francos e então in­dicando para que tomasse posse da sua cópia de Os reinos merovíngios de 450 a 751 d.C. e de outros quatrocentos volumes prediletos de sua biblioteca particular e cuidasse dos livros até o filho completar 16 anos. Quando, então, deveria entregá-los a ele. O filho de Napo­leão viveu até os 21 anos, mas morreu prisioneiro virtual na Áustria. Nunca viu os livros.

A raiva foi crescendo em sua voz. Apesar dos defeitos, todos os registros escritos reconheciam o quanto Napoleão amava o filho. Divorciara-se de sua amada Josefina e casara-se com Maria Luísa da Áus­tria simplesmente porque precisava de um herdeiro homem legítimo, o que a primeira mulher não foi capaz de lhe dar. O menino tinha apenas 4 anos quando Napoleão foi exilado em Santa Helena.

Dizem que a chave para a descoberta do tesouro de Napoleão, o percentual das pilhagens que o imperador guardara para si mesmo, encontra-se nesses livros. Supostamente o escondeu num local que só ele conhecia. A quantidade era enorme.

Thorvaldsen fez uma nova pausa.

Napoleão tinha um plano, Cotton. Algo com que contava. Você está certo, houve uma disputa de poder com Lowe em Santa Helena, mas nunca houve um desfecho. Saint-Denis era o seu criado mais leal, e aposto que foi a ele que Napoleão confiou o legado mais importante de todos.

O que isso tem a ver com Ashby?

Ele está atrás do tesouro perdido.

Como você sabe disso?

Basta dizer que sei. Na verdade, Ashby precisa desesperadamente dele. Ou, para ser mais preciso, o Clube de Paris precisa. Sua fundadora é uma mulher chamada Eliza Larocque e ela está de posse de informações que podem levar à sua descoberta.

Desviou o olhar da penteadeira, direcionando-o à cama onde Cai dormira durante toda a sua vida.

Isso tudo é necessário? — perguntou Malone. — Você não con­segue desistir?

Encontrar o seu pai era necessário?

Não o fiz para matar alguém.

Mas você tinha que encontrá-lo.

Faz muito tempo, Henrik. As coisas têm que ter o seu fim.—As palavras carregavam um tom sombrio.

Desde o momento em que enterrei Cai, jurei que descobriria a erdade a respeito do que aconteceu naquele dia.

Vou para o México — Cai lhe disse. — Serei o vice-cônsul do nosso país.

Viu a excitação nos olhos do rapaz, mas tinha que perguntar:

E até quando vai ficar lá? Você precisa assumir os negócios da família.

Como se você realmente me deixasse decidir alguma coisa.

Admirava o filho, cujos ombros largos se estendiam retos como os de um soldado e tinha o corpo ágil como o de um atleta. Os olhos eram idênticos aos dele antigamente, de um azul delicado, juvenis num primeiro vislumbre, desconcertantemente maduros uma vez que o conhecesse melhor. Em vários aspectos, ele era como Lisette. Muitas vezes sentia como se estivesse novamente filando com ela.

—Permitirei que tome decisões — esclareceu. — Estou pronto para me aposentar.

Cai balançou a cabeça.

Papai, você jamais irá se aposentar.

Ensinara ao filho o que o pai havia lhe ensinado. Que é possível decifrar as pessoas ao estabelecermos o que realmente desejam na vida. E seu filho o conhecia bem.

Que tal apenas mais um ano de funcionalismo público — disse —-, e então, casa. Aceitável?

Um sentimento de remorso o preencheu.

Mais um ano.

Ele encarou Malone.

Cotton, Cabral matou meu único filho. Ele está morto agora. Ashby será igualmente responsabilizado.

Mate-o, então, e chega.

Não é o suficiente. Primeiro, quero tirar-lhe tudo que é precio­so. Quero que seja humilhado e desonrado. Quero que sinta a dor que sinto todos os dias. — Ele fez uma pausa. — Mas preciso da sua ajuda.

—Você a tem.

Alcançou o ombro do amigo, apertando-o.

E quanto a Sam e o seu Clube de Paris? — perguntou Malone. —Vamos cuidar disso também. Isso não pode ser ignorado. Temos

que ver do que se trata. Sam obteve muitas das informações de um amigo em Paris. Gostaria que você fizesse uma visita ao homem. Para descobrir o que puder.

E, quando descobrirmos, você irá matá-los também?

Não. Vou juntar-me a eles.

 

                   Paris, França

                   13H23

Malone amava Paris. Considerava-a uma conjunção encantadora entre o velho e o novo, de esquinas vibrantes e voláteis. Visitara a cidade várias vezes quando trabalhava com o Magellan Billet e conhe­cia seus caminhos medievais. Não estava contente, no entanto, com a atual missão.

— Como você conheceu esse cara? — perguntou a Collins.

Tinham pego um voo no meio da manhã, diretamente de Copenhague para o aeroporto Charles de Gaulle, e, depois, um táxi para o centro, em direção ao tumultuado Quartier Latin, assim chamado devido à única língua permitida nos arredores da universidade local. Como com quase todo o resto, Napoleão abolira o uso do latim, mas o nome ficou. Oficialmente conhecido como o quinto arrondissement, o quarteirão permaneceu como um refúgio para artistas e intelectuais. Estudantes da vizinha Sorbonne dominavam as ruas de paralelepípedos, embora os turistas chegassem atraídos pela atmosfera e pelo con­junto inacreditável de lojas, cafés, galerias, quiosques de livros e clubes noturnos.

Nos conhecemos pela internet — disse Collins.

Escutou Collins lhe contar a respeito de Jimmy Foddrell, um expatriado americano que fora estudar economia em Paris e decidira ficar. Foddrell tinha criado um site três anos antes — greedwatch.net — que se tornara popular entre grupos de conspiracionistas e da Nova Era. O Clube de Paris era uma de suas obsessões mais recentes.

"Nunca se sabe", Thorvaldsen dissera antes. "As informações de Foddrell têm uma fonte e alguma coisa pode nos ser útil."

Malone concordara em vir, já que não podia se opor à lógica da­quele argumento.

Foddrell tem mestrado em economia global pela Sorbonne — Collins lhe disse.

E o que fez com ele?

Estavam diante de uma igreja baixa e ampla, chamada St-Julien-Le-Pauvre, supostamente a mais antiga de Paris. Ao longo da Rue Galande, à sua direita, Malone reconheceu a fileira de casas antigas e de torres de igreja como um dos cenários da margem esquerda mais retratados em pinturas. Logo à esquerda, do outro lado de um movimentado bulevar e da tranqüilidade do Sena, estava a Notre-Dame, apinhada de visitantes da época natalina.

Que eu saiba, nada — respondeu Sam. — O trabalho dele pare­ce ser o site, centrado em conspirações econômicas mundiais.

O que torna muito difícil encontrar um emprego de verdade.

Deixaram a igreja e caminharam em direção ao Sena, seguindo por uma alameda bem-conservada, quadriculada pela luz invernal. Uma brisa gélida remexia as folhas ao longo do pavimento seco. Collins tinha enviado um e-mail a Foddrell pedindo para eles se encontrarem, o que levou a outra troca de mensagens, que finalmente os conduziu ao número 37 da Rue de la Búcherie, que Malone viu ser, afinal, uma livraria.

Shakespeare & Company.

Conhecia o lugar. Todos os guias sobre Paris apontavam o sebo como um marco cultural. Com mais de cinqüenta anos, inaugurado por um americano que lhe dera forma e nome em homenagem à famo­sa loja parisiense de Sylvia Beach, do início do século XX. A gentileza de Beach e os empréstimos gratuitos fizeram com que seu recanto acolhesse diversos escritores notáveis — Hemingway, Pound, Fitzgerald, Stein e Joyce incluídos. A encarnação atual tinha pouco desse espírito, mas ainda assim conseguira cavar um nicho boêmio e popular.

Seu amigo gosta de livros? — perguntou Malone.

Ele mencionou este lugar certa vez. Na verdade, morou aqui por um tempo, quando chegou a Paris. O dono permite. Há camas desdobráveis entre as prateleiras lá dentro. Em troca, você tem que traba­lhar na loja e ler um livro por dia. Pareceu-me um tanto tolo.

Ele sorriu.

Tinha lido a respeito desses hóspedes, que se auto-intitulavam tumbleweeds, alguns chegam a permanecer por meses. E visitara a loja anos antes, mas, na verdade, preferia outro comerciante de livros usados, "The Abbey Bookstore", alguns quarteirões adiante, onde havia adqui­rido primeiras edições de excelente qualidade.

Olhou para a eclética fachada de madeira, de cores vivas, que pa­recia instável sobre a base de pedra. Bancos de madeira vazios se ali­nhavam diante da loja, sob frágeis janelas de batente. Seria Natal em 48 horas e isso explicava as calçadas movimentadas e, também, o cons­tante fluxo de pessoas desfilando do lado de dentro e de fora da porta principal da loja.

Ele disse para irmos ao andar de cima — disse Collins — até o "espelho do amor". O que quer que isso signifique.

Eles entraram.

Do interior, de vigas de carvalho retorcidas no teto e um chão de ladrilhos rachados, emanava um cheiro envelhecido. Livros se amontoavam a esmo em prateleiras vergadas, que se estendiam ao longo de todas as paredes. Havia mais livros empilhados no chão. A ilumina­ção vinha de lâmpadas descobertas, enroscadas em lustres de metal de gosto duvidoso. Pessoas agasalhadas em casacos, luvas e cachecóis exploravam as estantes.

Ele e Collins subiram por uma escadaria vermelha até o andar seguinte. No alto, entre os livros infantis, vislumbrou um espelho de parede comprido, coberto de bilhetes escritos à mão e fotografias. A maioria eram agradecimentos daqueles que haviam residido na loja ao longo dos anos. Todos afetuosos e sinceros, refletindo a admiração pela experiência aparentemente única. Um cartão cor-de-rosa vivo colado próximo ao centro atraiu seu olhar.

 

         Sam, lembre-se de nossa conversa no ano passado.

         De quem eu disse estar certo.

         Dê uma olhada no livro dele, na seção de negócios.

 

Só pode ser brincadeira — sussurrou Malone. — O cara está dopado?

Eu sei. Ele é paranoico demais. Sempre foi. Só tratou comigo após ter confirmado que eu trabalhava para o Serviço Secreto. Porém sempre usava uma senha, que mudava o tempo todo.

Malone começou a questionar, seriamente, se tudo aquilo valia a pena. Mas queria confirmar um pressentimento, por isso cruzou a extensão do andar de cima, curvando-se ao passar por uma porta rebai­xada — que continha a curiosa advertência "seja hospitaleiro, pois estranhos podem ser anjos disfarçados" —, chegando até uma ja­nela de batente.

Notara o homem pela primeira vez quando deixaram o terreno da igreja e caminharam em direção à loja. Alto, magérrimo, vestindo calças cáqui e largas e um casaco azul-marinho até a altura da cintura e sapatos pretos. Mantivera uma distância de cerca de 30 metros e, en­quanto aguardavam do lado de fora, o homem parara também, próxi­mo a um dos cafés.

Agora Magrelo estava entrando na loja abaixo. Malone precisava ter certeza, por isso virou-se para dentro e perguntou:

Foddrell sabe como você é fisicamente?

Collins assentiu.

Enviei-lhe uma foto.

Imagino que não tenha sido recíproco...

Nunca lhe pedi.

Pensou novamente no espelho do amor.

Diga-me, então, quem é que Foddrell disse que estava certo?

 

                   Londres

                   13H25

Ashby caminhou para dentro da Abadia de Westminster em meio à multidão que acabara de emergir de vários ônibus de excursão.

Sentia arrepios na espinha toda vez que entrava nesse santuário.

Eis um lugar capaz de contar a história inglesa datando de mais de um milênio. Um antigo mosteiro da Ordem de São Bento, agora sede e coração da Igreja Anglicana. Todos os monarcas ingleses, exceto dois, desde os tempos de Guilherme, o Conquistador, haviam sido coroados ali. A única coisa que o incomodava eram as influências francesas, em­bora fosse compreensível que a arquitetura tivesse sido inspirada pelas grandes catedrais da França em Reims, Amiens e Sainte-Chapelle. Mas sempre concordara com a descrição de Westminster conforme o obser­vado por um britânico.

Uma grande idéia francesa expressa num inglês excelente.

Parou diante do portão e pagou pela entrada, seguindo de­pois para a Esquina dos Poetas, onde os visitantes se reuniam pró­ximos aos monumentos nas paredes e às estátuas de Shakespeare, Wordsworth, Milton e Longfellow. Havia vários outros famosos ao seu redor — Tennyson, Dickens, Kipling, Hardy e Browning entre eles. O olhar dele vasculhou o cenário caótico e, por fim, pousou sobre um homem de terno de lã xadrez e gravata de caxemira, diante do túmulo de Chaucer. As mãos vazias estavam cobertas por um par de luvas cor de caramelo, e elegantes mocassins Gucci protegiam os pés largos.

Ashby se aproximou e, enquanto admirava a construção do túmu­lo de pedra de 500 anos, perguntou:

Você conhece o pintor Godfrey Kneller?

Os olhos do homem, aquosos, num tom de âmbar distinto e perturbador, examinaram-no.

Creio que sim. Um grande artista de corte, do século XVIII. Está enterrado em Twickenham, acredito eu.

A referência a Twickenham sinalizou a resposta correta, o contido sotaque irlandês conferindo-lhe um toque interessante. Ele então disse:

Me disseram que Kneller nutria uma grande aversão a este lugar, embora haja um memorial dedicado a ele próximo à porta do claustro.

O homem assentiu.

Suas palavras exatas foram "Por Deus, não serei enterrado em Westminster. Lá enterram-se tolos".

A citação confirmou que aquele era o homem com quem falara ao telefone. A voz era diferente, mais gutural e menos nasal, sem sotaque.

Muito bom dia para o senhor, lorde Ashby — disse o homem, acompanhado de um sorriso.

E como devo chamá-lo?

Que tal "Godfrey"? Em homenagem ao grande pintor. Estava corretíssimo quanto às almas que descansam dentro destas paredes. Há um grande número de tolos enterrados aqui.

Absorveu os traços rústicos do homem, examinando o nariz de batata, a boca grande e a barba rala e grisalha. Mas foram os olhos de réptil, emoldurados pelas sobrancelhas fartas, que chamaram sua atenção.

Posso lhe garantir, lorde Ashby, que esta não é minha verdadei­ra aparência. Por isso não perca tempo tentando memorizá-la.

Perguntou-se o porquê de alguém que se dera a tamanho trabalho de se disfarçar permitir que seus traços mais marcantes — os olhos — mantivessem a aparência assustadora. Mas tudo o que disse foi:

Gosto de me informar a respeito dos homens com quem negocio.

E eu prefiro não saber nada sobre os meus clientes. Mas o se­nhor, lorde Ashby, é uma exceção. Descobri um bocado a seu respeito.

Não estava nem um pouco interessado em entrar no jogo daquele demônio.

O senhor é o único acionista de uma grande instituição bancária britânica, um homem rico que aproveita a vida. Até mesmo a rainha o considera um conselheiro.

E, certamente, sua vida é tão excitante quanto a minha.

O homem sorriu, revelando uma fenda entre os dentes da frente.

Não tenho nenhum interesse a não ser o de lhe agradar, meu lorde.

Ele não gostou do sarcasmo, mas deixou passar.

Está preparado para levar adiante o que discutimos?

O homem caminhou devagar em direção a uma fileira de monumentos, examinando os memoriais com atenção, como os outros visi­tantes ao seu redor.

Isso depende de o senhor estar preparado para cumprir a sua parte, conforme pedi.

Retirou um molho de chaves de um dos bolsos.

Estas abrem o hangar. O avião está lá, à espera, com o tanque cheio de combustível. O registro é belga, o dono, fictício.

"Godfrey" aceitou as chaves.

E...?

O olhar cor de âmbar o desconcertou de novo. Entregou-lhe vim pedaço de papel.

O número e a senha da conta suíça, como pediu. Metade do pagamento está lá. A outra parte virá depois.

A data solicitada é daqui a dois dias. Será no Natal. Correto?

Ashby assentiu.

"Godfrey" colocou as chaves e o papel no bolso.

As coisas com certeza irão mudar, então.

É essa a idéia.

O homem deu uma risadinha, e eles prosseguiram pela catedral, detendo-se diante de uma placa que indicava uma data de morte de 1669. "Godfrey" apontou para a parede e disse:

Sir Robert Stapylton. O senhor o conhece?

Ele assentiu.

Um poeta dramático, nomeado cavaleiro por Carlos II.

Se não me falha a memória, foi um monge beneditino que se tornou protestante e passou a servir a Coroa. Cavalheiro Guardião do Aposento Privado, acredito eu.

Você conhece a história da Inglaterra.

Era um oportunista. Um homem ambicioso. Alguém que não deixava que princípios interferissem em seus objetivos. Muito parecido com o senhor, lorde Ashby.

E com você.

Mais risos.

Não é bem o caso. Conforme deixei claro, não passo de ajuda contratada.

Uma ajuda cara.

Uma boa ajuda sempre é. Dentro de dois dias. Estarei lá. Não vá se esquecer da sua obrigação final!

Observou o homem chamado Godfrey desaparecer pela arcada da face sul. Tratara com diversas pessoas durante a sua vida, mas o déspota amoral que acabara de partir o deixava de fato muito pou­co à vontade. Não sabia havia quanto tempo estava na Grã-Bretanha. O primeiro telefonema ocorrera uma semana antes, e os pormenores da relação entre os dois haviam sido subseqüentemente finalizados por meio de outras ligações inesperadas. Ashby cumprira sua parte na negociação com facilidade e vinha esperando pacientemente pela confirmação de que "Godfrey" fizera o mesmo.

Agora sabia.

Dois dias.

 

                   Vale do Loire

                   14H45

Thorvaldsen fora levado de carro em direção ao sul, de Paris até um vale abrigado por montes cobertos de vinhas. O château jazia ancorado como um navio entre os meandros do rio Cher, a cerca de 15 quilômetros de onde suas águas lamacentas adentravam o mais majestoso Loire. Atravessada sobre o canal, a fachada de tijolos, pedra, pequenas torres, pináculos e um teto cônico de ardósia beirava o espetacular. Não tinha sido construída para fins defensivos, nem era cin­zenta ou estava em ruínas devido à negligência, e sim emanava uma extravagante atmosfera de grandiosidade medieval.

Sentou-se no salão principal do château, sob vigas de madeira de castanheiro, esplendorosas em seu acabamento de séculos de existência. Dois candelabros elétricos de ferro forjado produziam uma ilu­minação precária. As paredes de painéis de madeira eram pontuadas por magníficos quadros de Le Sueur, uma pintura de Van Dyck e al­guns retratos a óleo de qualidade primorosa, que ele concluiu serem de celebrados antepassados. A dona do château estava sentada diante dele, numa requintada cadeira de couro Henrique II. Tinha uma voz charmosa, modos discretos e traços marcantes. Com base em todas as informações que tinha sobre Eliza Larocque, sabia que era perspicaz e decisiva, mas também teimosa e obsessiva.

Esperava que os dois últimos adjetivos se provassem corretos.

Estou um tanto surpresa com sua visita — disse a ele.

Sorriu com aparente sinceridade, ainda que de forma demasiado automática.

Conheço sua família há muitos anos — disse-lhe.

E eu conheço sua porcelana. Temos uma coleção respeitável na sala de jantar. Dois crculos sobre uma linha: o símbolo da melhor qualidade.

Fez uma mesura com a cabeça, reconhecendo o elogio.

Minha família trabalha há séculos a fim de estabelecer tal reputação.

Os olhos escuros de Eliza exibiam uma mistura peculiar de curiosidade e cautela. Era claro que estava pouco à vontade, o que tentava disfarçar. Os detetives dele tinham lhe informado da chegada do jato. Eles, então, rastrearam-na desde o Aeroporto de Orly, até terem certeza do seu destino. Portanto, ao mesmo tempo que Collins e Malone pes­cavam informações em Paris, seguira rumo ao sul em busca de seus próprios peixes.

Tenho que dizer, Herre Thorvaldsen — continuou a falar em in­glês — que foi a curiosidade que me fez concordar em vê-lo. Voei de Nova York a noite passada, por isso estou um pouco cansada e nada disposta a receber visitas.

Observou o rosto dela, uma composição agradável de curvas harmoniosas, reparando que os cantos da boca inclinavam-se num novo sorriso, o de uma talentosa manipuladora.

Esta é a propriedade rural da sua família? — perguntou, pro­curando desarmá-la, e percebeu um momentâneo reflexo de irritação.

Assentiu.

Construída no século XVI. Moldada a partir de Chenonceau, que não fica longe daqui. Outra maravilha idílica.

Admirou a cornija de carvalho escuro de uma das lareiras. Ao contrário de outras residências francesas que visitara — sem mobília, o que o faziam pensar em túmulos — esta certamente não se parecia com um sepulcro.

Madame Larocque, a senhora tem consciência de que meus recursos financeiros são substancialmente maiores do que os seus. Talvez em 10 bilhões de euros.

Examinou as maçãs do rosto altas, o olhar sério e os lábios firmes de Eliza. Achou que o forte contraste entre as linhas da tez cremosa e o tom de ébano de seus cabelos era intencional. Devido à idade, duvidava que a cor fosse natural. Era, sem dúvida, uma mulher atraente. Segura de si e esperta, também. Acostumada com as coisas do jeito dela — e desacostumada à rudeza.

E por que sua óbvia riqueza me interessaria?

Permitiu que uma pausa calculada quebrasse o fluxo natural entre os dois e então disse:

A senhora me insultou.

A perplexidade surgiu nos olhos dela.

Como é possível? Acabamos de nos conhecer!

Tenho o controle de uma das maiores e mais bem-sucedidas corporações da Europa. Meus negócios subsidiários, que incluem gás e petróleo, telecomunicações e indústrias, estendem-se globalmente. Emprego mais de 80 mil pessoas. Meus rendimentos anuais supe­ram com folga a soma de todos os das suas entidades. Ainda sim, sou insultado.

—Herre Thorvaldsen, explique-se por favor.

Estava desarmada. Mas era essa a beleza dos ataques de surpresa. A vantagem sempre estava do lado de quem atacava. O que se aplicava ao ocorrido na Cidade do México dois anos antes — e, também, a este dia.

Quero fazer parte do que estiver planejando.

E do que se trata?

Embora não estivesse a bordo do seu jato na noite passada, pos­so supor que Robert Mastroianní, a propósito, um amigo meu, recebeu um convite. No entanto, fui excluído.

O rosto dela mantinha-se frio como a pedra de uma lápide

Um convite para quê?

O Clube de Paris.

Decidiu que não lhe concederia o luxo de uma réplica.

— A senhora tem uma descendência fascinante. Direta de Cario Andréa Pozzo di Borgo, nascido perto de Ajaccio, na Córsega, em 8 de março de 1764. Um inimigo implacável de Napoleão Bonaparte. Com maravilhosa destreza, manipulou o cenário político internacional até, por fim, eliminar seu inimigo de uma vida inteira. Uma clássica vendetta corsa. Seu trunfo não foram armas nem bombas, e sim as intrigas da diplomacia; o seu coupe de grâce, o destino de nações.

Fez uma pausa enquanto a mente dela ruminava os fatos apresentados.

Não se assuste — disse. — Não sou um inimigo. Ao contrário. Admiro o que está fazendo e quero participar.

Pressupondo, por um momento, que o que diz seja, talvez, parcialmente verdade, por que eu levaria em conta tal pedido?

A voz dela era afável e preguiçosa e não emitia o menor sinal de alarme. Ele então permitiu que o seu rosto assumisse um idêntico ar de astúcia.

A resposta é bastante simples.

Ela o escutava.

A senhora tem um vazamento de informações.

 

                   Paris

Malone seguiu Collins até o andar de baixo, onde encontraram uma fileira de estantes abarrotadas, intitulada "Negócios".

Foddrell e eu nos correspondemos bastante por e-mail — disse Collins. — Ele é totalmente contra o sistema do Banco da Reserva Fede­ral, o banco central dos Estados Unidos. Considera-o uma conspiração gigante que causará a bancarrota americana. Muito do que diz faz sen­tido, mas grande parte de suas opiniões é exagerada.

Ele sorriu.

Bom ver que você tem limites.

Ao contrário do que pensa, não sou um fanático. Apenas acho que há gente por aí capaz de manipular nossos sistemas financeiros. Não de dominar o planeta ou destruir o mundo. Por pura ganância. Um jeito fácil de se tornar, ou permanecer, rico. O que fazem afeta as economias nacionais de diversas maneiras e de um jeito nada positivo.

Não discordou, mas ainda eram preciso provas. Antes de partirem de Christiangade, examinara atentamente tanto o site de Collins como o de Jimmy Foddrell. Não eram muito diferentes, exceto que, como observado por Collins, o de Foddrell tinha um tom mais radical, prevendo um destino irreversível para o globo.

Agarrou Sam por um dos ombros.

O que estamos procurando exatamente?

O bilhete no andar de cima fala sobre vim livro, escrito por um qualificado estrategista financeiro que se interessa pelo mesmo tipo de coisas sobre as quais eu e Foddrell falamos. Há alguns meses, li um exemplar que encontrei.

Soltou-o e observou Collins esquadrinhar as estantes lotadas.

O olhar treinado de Malone avaliou também os livros. Viu que era uma miscelânea de títulos, muitos dos quais jamais teria compra­do das pessoas que os levavam para a loja em caixotes. Suspeitava de que o fato de estarem à venda em Paris, na margem esquerda, a poucas centenas de metros do Sena e da Notre-Dame, elevava o seu preço.

Aqui está.

Collins retirou da estante um livro enorme, de capa mole, em tons dourados, intitulado A criatura da ilha de Jekyll: o sistema da Re­serva Federal.

—Foddrell deve tê-lo deixado aqui — disse Collins. — Não é pos­sível que houvesse uma cópia! É vim livro bastante desconhecido.

As pessoas continuavam a vasculhar as prateleiras. Mais gente entrava, deixando o frio para trás. Malone procurou discretamente pelo Magrelo, mas não o viu. Tinha quase certeza do que estava acontecen­do, mas decidiu que a paciência seria a tônica do dia.

Pegou o livro de Collins e folheou as páginas, até ver um pedaço de papel pressionado entre elas.

 

         Volte até o espelho.

 

Balançou a cabeça.

Retornaram para cima e viram, escrito no mesmo bilhete cor-de-ro- sa que os levara ao andar de baixo:

 

        Café d'Argent, 34 Rue Dante

         Trinta minutos.

 

Malone deu um passo para trás, caminhando em direção à janela. Abaixo estavam os olmos inertes, de ramos desnudos como cabos de vassoura, cujas sombras delgadas se estendiam ao sol da tarde. Três anos antes, ele e Gary haviam visitado o Museu Internacional de Espionagem, em Washington. Gary queria saber mais sobre o trabalho do pai, e o museu acabou por se revelar fascinante. Divertiram-se com as exposições e ele comprara um livro para o filho, Manual da espionagem prática, uma abordagem leve sobre a arte de espionar. Um dos capítu­los, intitulado "Cuidado com o vento", explicava como se aproximar com segurança de eventuais contatos.

Ele então esperou, sabendo o que estava por vir.

Collins se aproximou.

Ouviu a porta no andar de baixo abrir e fechar em seguida e viu Magrelo ir embora da loja, segurando o que parecia ser, pela cor e pelo formato, o livro que haviam consultado.

É uma manobra antiquada que ninguém mais usa — afirmou. — Um modo de dar uma olhada na pessoa que quer marcar um encon­tro com você. Seu amigo tem assistido a muitos filmes de espionagem.

Ele estava aqui?

Assentiu.

Parecia interessado em nós quando estávamos em frente à loja, depois entrou e, imagino, escondeu-se atrás das estantes, enquanto procurávamos o livro. Como tinha a sua foto, sabia por quem procurar. Veio dar uma olhada em mim e, satisfeito com o que viu, retornou para cima antes de nós, descendo novamente há um minuto.

Você acha que era Foddrell?

Quem mais poderia ser?

 

Eliza se colocou em alerta. Não somente Thorvaldsen estava a par dos seus negócios como aparentava saber de algo que ela não sabia.

Um vazamento de informações?

Um dos indivíduos do seu Clube de Paris não é o que aparenta ser.

Não confirmei a existência de nenhum clube.

Então não temos mais o que conversar.

Thorvaldsen se levantou.

Gostei da visita à sua propriedade. Se vier à Dinamarca, terei o maior prazer em hospedá-la em minha casa, Christiangade. Vou deixá-la agora, para que possa descansar da viagem.

Ela deu uma risada cautelosa.

O senhor é sempre tão dramático?

Ele deu de ombros.

Hoje, dois dias antes do Natal, dei-me ao trabalho de viajar até aqui para conversarmos. Se insiste que não há nada a ser discutido, devo partir, então. A presença do seu problema de segurança se tornará óbvia no devido tempo. Com sorte, o estrago será mínimo.

Tinha agido com tanta cautela, escolhendo cuidadosamente os membros, limitando-os ao número de sete, ela incluída. Todos eles con­firmando sua aceitação por meio de um adiantamento de 20 milhões de euros. Todos tinham, também, jurado manter segredo. As primei­ras manobras na América do Sul e África tinham gerado lucros nunca vistos, assegurando a contínua aliança de todos eles, já que não havia nada melhor do que o sucesso para fortalecer uma conspiração. Ainda assim, aquele dinamarquês de imensa riqueza e influência, um foras­teiro, parecia saber de tudo.

Diga-me, Herre Thorvaldsen, o senhor está seriamente interes­sado em participar?

Os olhos dele cintilaram por um momento. As palavras dela sur­tiram efeito.

Era um homem atarracado, e a coluna e os joelhos envergados o tornavam ainda mais baixo. Vestia um suéter largo, calças amplas de veludo cotelê e tênis escuros — talvez um modo para mascarar suas deformidades. Os cabelos grisalhos eram longos, desgrenhados. As sobrancelhas eram tufos abastados que se abriam como as cerdas de uma escova. As rugas do seu rosto tinham evoluído para fendas profundas. Poderia passar facilmente por vim morador de rua, e talvez fosse essa a idéia.

Podemos parar com o fingimento? — perguntou. — Vim por um motivo específico. Algo que, espero, beneficie nós dois.

Então, sem dúvida, vamos conversar.

A impaciência dele pareceu diminuir ao sentir que Eliza começava a ceder.

Sentou-se.

Descobri a respeito do Clube de Paris após uma cuidadosa investigação.

E o que despertou seu interesse?

Tomei conhecimento de algumas manipulações bastante engenhosas no câmbio de certas moedas estrangeiras. Obviamente, não fo­ram ocorrências normais. É claro, há páginas na internet que alardeiam saber muito mais a seu respeito e sobre suas atividades do que eu.

Li algumas. O senhor sabe, com certeza, que tais textos não fa­zem o menor sentido.

Concordo. — Ele fez uma pausa.—Mas uma em particular cha­mou a minha atenção. Creio que se chama greedwatch. Certamente, parece se aproximar um pouco demais da verdade. Gosto da citação de Sherlock Holmes no alto da página. "Não há nada mais enganador do que um fato óbvio."

Ela conhecia o site e o webmaster, e Thorvaldsen estava certo. Aproximava-se da verdade. O que fizera com que ela, três semanas an­tes, ordenasse que medidas corretivas fossem tomadas. Perguntava-se se o homem sabia disso também. Por qual outra razão mencionaria aquele site em especial?

Thorvaldsen colocou uma das mãos dentro do bolso da calça, de onde retirou uma folha de papel que entregou a Eliza. — Imprimi-a do greedwatch ontem. Ela a desdobrou e leu.

 

           Chegou um anticristo?

 

Se analisarmos a atual conquista sistemática dos países in­dependentes do globo, é fácil descobrir que, por trás de todas as agressões, emerge um padrão de poder único, que inclui economia, poderio militar, mídia e políticos. Tentarei demons­trar que esse poder pertence aos financistas mundiais. Penso que um anticristo lidera esses tiranos. Seu nome é Eliza Larocque. Ela quer governar o mundo de forma invisível, por meio do poder econômico que sua família secretamente construiu ao longo dos séculos.

Não existe negócio mais seguro e lucrativo do que o dos empréstimos internacionais. A união de financistas, recusando-se a competir uns com os outros e manipulando os merca­dos e as moedas em favor deles mesmos, apresenta uma grave ameaça. Eliza e seus associados possuem uma estrutura hie­rarquicamente organizada, que compra ou adquire ações de tudo que seja valioso no mercado global. Podem, por exemplo, estar no controle da Coca-Cola e da PepsiCo e, do alto do seu olimpo, observar a briga dessas duas companhias no mercado. Mas, graças ao sistema capitalista e às suas regulações mer­cantis secretas, ninguém sabe disso, além deles mesmos. Ao controlar os governos dos países ocidentais, controlam todo o mundo ocidental. Ao acompanharmos os programas de ação da política global, veremos claramente que os líderes demo­craticamente eleitos dos países mudam, mas que as diretrizes são estabelecidas de acordo com os interesses dos ricos, per­manecendo, portanto, mais ou menos as mesmas. Um grande número de elementos aponta para o fato de que há uma orga­nização invisível a governar o mundo. Os fatos a respeito de Eliza Larocque por mim coletados me dizem que ela encabeça tal organização. Estou falando aqui de uma conspiração que engloba quase a totalidade do mundo.

Ela sorriu.

Anticristo?

Reconheço que a escolha de palavras é heterodoxa; as conclu­sões são audaciosas, mas ele está na trilha certa.

 

Garanto ao senhor, Herre Thorvaldsen, que a última coisa que quero é governar o mundo. Daria trabalho demais.

Concordo. Quer simplesmente manipulá-lo para o mútuo proveito da senhora e de seus colegas. E daí se essa manipulação tiver algum... efeito político incidental? — Thorvaldsen fez uma pau­sa. — É por isso que estou aqui. Quero ter uma participação nesses lucros.

Não é possível que o senhor precise de dinheiro. —Tampouco a senhora. Mas não é essa a questão, é?

Ela perguntou:

E o que teria a oferecer em troca dessa participação?

Um dos seus membros está com problemas financeiros. Seu portfólio de aplicações chegou ao limite. Está seriamente endividado. Tem um estilo de vida que exige uma quantidade imensa de capital, dinheiro que ele simplesmente não tem. Uma série de investimentos ruins, excessos de concessões e descuido o deixaram à beira do colapso.

Por que esse homem lhe interessa?

Não interessa. Mas a fim de obter sua atenção, sabia que tinha de fornecer algo que não fosse do seu conhecimento. E isso me pareceu ideal para tal propósito.

E por que eu deveria me preocupar com os problemas desse homem?

Porque é por ele que vazam suas informações.

Sentiu um tremor na espinha. Tudo que ela havia previsto poderia estar em risco se um dos escolhidos entregasse os outros.

Ela precisava saber.

Quem é esse homem?

Lorde Graham Ashby.

 

                     Inglaterra

Uma ceia esperava por Ashby no seu retorno a Salen Hall. A sede ancestral de sua família paterna era um clássico solar de muros com parapeitos, empoleirado entre os 24 hectares de floresta que pertenciam aos Ashby desde 1660.

Entrou na sala de jantar principal e sentou-se, como de costume, à cabeceira da extremidade norte da mesa, tendo às costas o retrato de seu bisavó, o sexto duque de Ashby, um confidente próximo da rainha Vitória I. Do lado de fora, flocos brancos faziam espirais no frígido ar de dezembro — um prelúdio, acreditava, da chegada da neve e do Na­tal dali a apenas dois dias.

Fiquei sabendo que tinha voltado — disse uma voz feminina.

Moveu o olhar da mesa para Caroline. Ela vestia uma longa camisola de cetim sedoso e suas pernas desnudas deslizavam para dentro e para fora de uma fenda pronunciada. Um robe semelhante a um quimono aberto cobria os ombros magros, e os tons dourados da camisola combinavam com os dos cabelos compridos e encaracolados.

Vejo que se vestiu como uma boa concubina.

Ela sorriu.

Não é esta a minha função? Agradar ao mestre?

Gostava desse intercâmbio. Os modos pudicos da mulher dele ti­nham se tornado cansativos havia muito tempo. Ela morava em Lon­dres, num apartamento lotado de pirâmides sob as quais se deitava por horas todos os dias, esperando que um poder mágico limpasse a sua alma. Já ele esperava que o apartamento se incendiasse com ela dentro, mas ainda não tivera tal sorte. Era sortudo, porém, uma vez que não tinham filhos e estavam afastados havia anos, o que explica­va as várias amantes, a relação com Caroline sendo a mais recente e duradoura.

Três coisas, no entanto, distinguiam Caroline das demais.

A primeira era a extraordinária beleza — um conjunto dos melho­res atributos físicos que já vira reunidos num só corpo. A segunda, o brilhantismo. Tinha diplomas, um da Universidade de Edimburgo e outro da Universidade de Londres, em literatura medieval e história antiga aplicada. Sua tese de mestrado tinha sido dedicada aos efeitos da era napoleônica sobre o pensamento político moderno, especialmente no que dizia respeito ao impacto sobre a unificação européia. E, finalmente, ele gostava dela de verdade. Ela tinha uma sensualidade que o estimulava de um jeito inimaginável.

Senti sua falta noite passada — disse ela, ao sentar-se à mesa.

Estava no barco.

Negócios ou prazer?

Ela sabia qual era o seu lugar, não lhe tirava esse mérito. Sem ciú­mes. Sem exigências. O que era estranho, porém, é que ele nunca a ha­via traído. E freqüentemente perguntava-se se tal lealdade era mútua. Mas estava ciente de que o caminho da privacidade tinha mão dupla. Eram ambos livres para fazer o que quisessem.

Negócios — respondeu, e então acrescentou —, como sempre.

Um criado surgiu e colocou um prato na mesa diante dele. Deli­ciou-se ao ver o coração de salsão envolto em presunto, coberto pelo molho de queijo que amava.

Pôs o guardanapo sobre o colo e ergueu um garfo.

Não, obrigada — disse Caroline. — Não estou com fome. Não quero nada.

Percebeu o sarcasmo, mas continuou a comer.

Você é uma menina crescida. Pediria para lhe trazerem algo se quisesse.

Ela administrava a propriedade e tinha os empregados ao seu completo dispor. A mulher dele já não vinha mais visitar. Graças a Deus. Ao contrário dela, Caroline tratava os empregados com gentileza. Cuidava de tudo com verdadeira eficiência, o que ele admirava.

Comi há algumas horas — disse.

Ele terminou o salsão e ficou contente com o prato principal ser­vido pelo criado. Perdiz assada com um molho adocicado. Assentiu, demonstrando seu prazer, e fez um sinal para que cortasse mais um naco de manteiga para passar no pão.

Você encontrou o maldito ouro? — perguntou, finalmente.

Não havia dito nada a respeito do sucesso na Córsega de propó­sito, esperando que ela perguntasse. De novo, o tipo de intercâmbio entre eles.

Segurou outro garfo.

Exatamente onde você disse que estaria.

Fora ela quem descobrira a conexão entre o livro corso, o de Gustave e os numerais romanos. Havia descoberto também, a partir de uma pesquisa realizada em Barcelona algumas semanas antes, o Nó do Mouro. Ele estava contente com que ela estivesse do seu lado e sabia o que esperava dele agora.

Reservei algumas barras para você.

Ela assentiu, agradecida.

Providenciarei para que a noite de hoje seja prazerosa.

Relaxar um pouco me faria bem.

Aproximou-se mais da mesa e o cetim da camisola emitiu um bri­lho trêmulo.

Isso resolve os seus problemas financeiros.

Num futuro próximo. Fiz uma estimativa de cerca de 100 mi­lhões de euros em ouro.

E as minhas barras?

Um milhão. Ou talvez mais, dependendo do quão prazerosa for a minha noite.

Ela riu.

Que tal nos fantasiarmos? A aluna mandada para a sala do dire­tor? Essa é sempre divertida.

Sentia-se bem. Após alguns anos desastrosos, as coisas finalmente começavam a se acertar. Os tempos ruins tinham começado quando Cabral se descuidara no México, quase os levando à ruína. Por sorte, Ca­bral resolvera o problema. Depois disso, uma combinação de investimentos precários, mercados debilitados e falta de atenção havia lhe custado milhões. Com um timing quase perfeito, Eliza havia aparecido na sua propriedade e lhe oferecido a salvação. Fez tudo o que pôde para reunir os 20 milhões de euros necessários à sua admissão, mas conseguira.

Agora, finalmente, podia respirar.

Terminou a comida.

Tenho uma surpresa para você — disse Caroline. Aquela mu­lher, meio meretriz, meio acadêmica, era excelente nos dois papéis.

Estou esperando — disse.

—Acho que descobri uma nova ligação.

Percebeu sua expressão divertida e perguntou:

—Acha?

Na verdade, sei que descobri.

 

                   Paris

Collins seguiu Malone ao deixarem a livraria, em direção à tarde de vento forte e fresco. Foddrell tinha se desviado do Sena e imergido ainda mais nas ruas caóticas do Quartier Latin, todas elas lotadas de farristas animados com o feriado.

Nesta multidão é difícil saber se há alguém atrás de você — disse Malone. — Mas ele sabe quem somos, vamos ficar atentos, então.

Ele não parece se importar em ser seguido. Não olhou para trás uma vez sequer.

Pensa que é mais esperto do que todo mundo.

Está indo para o Café d'Argent?

Para onde mais?

Mantiveram uma velocidade normal, submersos na arrebatado­ra maré de estabelecimentos comerciais. Queijos, verduras e legumes, frutas, chocolate e outras iguarias à mostra em caixotes de madeira, transbordando pelas ruas. Collins reparou nos peixes sobre camadas cintilantes de gelo e nos rolos de carne desossadas, refrigerados em caixas térmicas. Mais adiante, uma sorveteria italiana exibia uma variedade tentadora de sabores.

Foddrell permaneceu cerca de trinta metros à frente.

O que você realmente sabe sobre esse cara?

Pouca coisa. Grudou no meu pé há um ano, talvez.

O que, a propósito, é mais uma razão para que o Serviço Secreto não queira que você continue com o que vem fazendo. Muita gente louca, muitos riscos.

Por que estamos aqui, então? — perguntou.

Henrik queria que fizéssemos contato. Me diga, por quê?

Você é sempre tão desconfiado?

É um tipo saudável de angústia. Traz longevidade.

Passaram por mais cafés, galerias de arte, butiques e lojas de suvenires. Collins estava excitado. Finalmente fazia um trabalho de campo, como o dos agentes.

—Vamos nos separar—disse Malone. — Assim é menos provável que ele nos reconheça. Isso se ele se der ao trabalho de olhar para trás.

Collins se desviou para um dos lados da rua. Era formado em ciên­cias contábeis e quase se tornara um contador público. Mas um recrutador do governo, que tinha visitado o campus no último ano do curso, o levara para o Serviço Secreto. Após a formatura, tinha se candidatado e passado nos exames do Tesouro, de vista, nas avaliações físicas, no detector de mentiras e nos testes de drogas.

Mas fora rejeitado.

Cinco anos mais tarde, fez a segunda tentativa, após trabalhar como contador em diversas empresas do país, uma das quais grave­mente envolvida no relatório de um escândalo corporativo. No centro de treinamento do Serviço Secreto fora instruído quanto a armas de fogo, uso da força, procedimentos médicos de emergência, proteção de provas, detecção de crimes e, até mesmo, sobrevivência em alto-mar. Foi, então, designado para o escritório da Filadélfia, onde trabalhou em casos de uso indevido de cartões de crédito, falsificações, roubo de identidade e fraudes bancárias.

Sabia como as coisas funcionavam.

Agentes especiais passavam os primeiros seis ou oito anos num escritório local. Após essa experiência, de acordo com o desempenho de cada um, eram transferidos para um destacamento de proteção, no qual permaneciam por mais três ou cinco anos. Depois, a maioria retornava ao trabalho de campo ou era transferida para o centro de operações ou de treinamento ou para qualquer outra incumbência na capital federal. Ele poderia ter trabalhado no exterior, num dos escritórios internacionais, uma vez que possuía uma fluência razoável em espanhol e francês.

O tédio fora o motivo que o levara à internet. O site lhe proporcionava a exploração de caminhos que gostaria de percorrer como agente. A investigação de fraudes eletrônicas tinha pouco a ver com a defesa dos sistemas financeiros mundiais. Sua página incluía um fórum de discussões, no qual podia se expressar. Mas essas atividades extracur­riculares atraíram algo a que um agente não podia se dar ao luxo. Aten­ção sobre si mesmo. Havia sido repreendido duas vezes. Duas vezes ignorara seus superiores. Na terceira, havia apenas duas semanas, fora interrogado oficialmente, o que tinha feito com que fugisse e pegasse um vôo até Copenhague e Thorvaldsen. E agora estava ali, na região mais vibrante e pitoresca de Paris, num dia frio de dezembro, seguindo um suspeito.

Adiante, Foddrell se aproximou de um dos incontáveis bistrôs do quarteirão, cuja placa característica anunciava Café d'Argent. Collins diminuiu a velocidade e procurou por Malone na multidão, encontrando-o a apenas 15 metros de distância. Foddrell desapareceu através da porta da frente, ressurgindo, do lado de dentro, numa mesa encostada à janela de vidro plano.

Malone caminhou em direção ao café.

Tanta paranóia para acabar enquadrado assim, à vista de todos.

Collins ainda vestia o casaco, as luvas e o cachecol providenciados por Jesper na noite anterior. Os dois mortos também permaneciam em sua mente. Jesper os tinha despachado sem cerimônia, como se matar fosse um ato rotineiro. E talvez o fosse, para Henrik Thorvaldsen. Na verdade, pouco sabia a respeito do dinamarquês, além do aparente interesse que tinha pelas suas opiniões.

O que já era bastante, se comparado ao que sabia sobre outras pessoas.

Vamos! — disse Malone.

Entraram no bistrô intensamente iluminado, decorado com cromo, vinil e néon, ao estilo dos anos 1950. A atmosfera era barulhenta e en­fumaçada. Collins viu que Foddrell os encarava, reconhecendo-os com certeza, gozando seu anonimato.

Malone caminhou diretamente até a mesa onde Foddrell estava sentado e puxou uma das cadeiras de vinil.

Se divertiu o bastante?

Como sabe quem eu sou? — indagou Foddrell.

Malone apontou para o livro que tinha sobre o colo.

Deveria tê-lo escondido. Podemos dispensar o drama e ir direto ao ponto?

 

Thorvaldsen escutou o relógio sobre a cornija da lareira bater 15h30, o que foi confirmado pelas demais badaladas no restante do château. Estava conseguindo o que queria, acuando Eliza de modo a deixá-la sem escolha, a não ser a de cooperar com ele.

Lorde Ashby está falido — esclareceu.

O senhor tem provas disso?

Jamais me pronuncio sem elas.

Me fale mais sobre vazamento de informações.

Como acha que descobri o que sei?

Ela lançou-lhe um olhar interessado, examinador.

—Ashby?

Ele balançou a cabeça.

Não diretamente. Nunca nos encontramos ou nos falamos. Mas há outras pessoas com quem conversou, gente da qual se aproximou para pedir ajuda financeira. Queriam ter certeza de que os emprésti­mos seriam quitados e ele então lhes deu uma garantia especial, que significava explicar aquilo do qual ele fazia parte. Foi bastante franco quanto aos lucros a serem alcançados.

E o senhor não planeja me dizer nenhum nome?

Empertigou-se.

Por que faria tal coisa? Qual seria o meu valor nessa circuns­tância? — Sabia que ela não tinha escolha, a não ser a de aceitar a sua oferta.

O senhor é um belo de um problema, Herre Thorvaldsen.

Ele riu.

É o que sou.

Mas estou começando a gostar do senhor.

Tinha esperanças de que poderíamos chegar a vim consenso. — Apontou para ela. — Conforme mencionei antes, pesquisei detalhadamente sobre a senhora. Especialmente sobre seu antepassado, Pozzo di Borgo. Achei fascinante o fato de que tanto os britânicos quanto os russos aproveitaram-se da sua vendetta contra Napoleão. Adoro o que ele disse em 1811, ao saber do nascimento do herdeiro do imperador. "Napoleão é um gigante que dobra os carvalhos imponentes da flores­ta primitiva. Mas um dia os espíritos dos bosques libertar-se-ão de sua trágica servidão e, então, de repente, os carvalhos irão reagir, atirando o gigante no chão." Bastante profético, já que foi precisamente o que aconteceu.

Sabia que aquela mulher buscava forças em sua descendência. Fa­lava dela com freqüência e orgulho. Eram parecidos nesse aspecto.

—Ao contrário de Napoleão — disse ela —, di Borgo permane­ceu um verdadeiro corso patriota. Amava sua terra natal, colocava os seus interesses sempre em primeiro lugar. Quando, por fim, Napoleão ocupou a Córsega em nome da França, o nome de di Borgo foi especificamente excluído da lista dos que teriam direito à anistia política. Portanto, fugiu. Napoleão o caçou por toda a Europa. Di Borgo, no entanto, conseguiu evitar a captura.

E, ao mesmo tempo, participou das articulações para a queda do imperador. Um feito notável.

Thorvaldsen tinha descoberto a respeito da pressão exercida por Pozzo di Borgo sobre a corte e o gabinete franceses, estimulando as des­confianças dos diversos irmãos e irmãs de Napoleão, transformando-se, no fim, no canal de toda e qualquer oposição nacional. Serviu ao lado dos britânicos em sua embaixada em Viena, tornando-se persona non grata nos círculos políticos austríacos. Sua verdadeira oportunidade surgiu, então, quando integrou o serviço diplomático russo, como delegado do exército prussiano. No devido tempo, passou a braço direito do tsar em todos os negócios ligados à França e convenceu Alexandre a não fazer as pazes com Napoleão. Por 12 anos, manteve, habilmente, a França en­volvida em controvérsias, sabendo que Napoleão não poderia lutar e vencer em todas as frentes. No final, seus esforços tiveram efeito, mas não recebeu em vida o reconhecimento por esse sucesso. A história mal o mencionava. Morreu em 1842, mentalmente desequilibrado, mas incri­velmente rico. Os bens deles foram deixados para os sobrinhos, um dos quais antepassado de Eliza, cujos descendentes aumentaram em cem ve­zes aquela riqueza, estabelecendo uma das maiores fortunas europeias.

Di Borgo levou a vendetta até o final — disse — mas me per­gunto, senhora, se o seu antepassado corso, no ódio que nutria por Napoleão, teria algum propósito ulterior.

O olhar frio de Eliza transmitia um respeito relutante.

Por que o senhor não me diz o que já sabe?

—A senhora está à procura do tesouro perdido de Napoleão. É por isso que lorde Ashby faz parte do seu grupo. Ele é, sejamos educados ao dizê-lo, um "coletor".

Ela sorriu à menção da palavra.

Vejo que cometi um sério erro quando não me aproximei antes do senhor.

Thorvaldsen deu de ombros.

Felizmente, não guardo ressentimentos.

 

                   Paris

A paciência de malone com jlmmy foddrell estava se esgotando.

Essa porcaria de joguinho misterioso não é necessário. Quem, afinal, está atrás de você?

Você não tem idéia do número de pessoas irritadas comigo.

Malone ignorou os receios do rapaz.

Plantão de notícias! Ninguém dá a mínima. Li seu site. Um monte de bobagens! E, a propósito, existem medicamentos para dimi­nuir sua paranóia.

Foddrell encarou Collins.

Você disse que havia alguém interessado em aprender. Que ti­nha a mente aberta. Não é este cara, é?

Me ensine — disse Malone.

Os lábios finos de Foddrell se abriram, revelando a superfície de um dente de ouro.

Neste exato momento, estou com fome.

Foddrell acenou, chamando um garçom. Malone escutou o rapaz pedir rins de vitela fritos com molho de mostarda. Seu estômago revirou só de pensar no prato. Esperava que terminassem a conversa antes que a comida chegasse. Não quis fazer um pedido.

Vou querer o cote de boeuf — disse Collins.

Para quê? — perguntou Malone.

Estou com fome também.

Ele balançou a cabeça.

Depois que o garçom saiu, perguntou mais uma vez a Foddrell:

Por que você está com tanto medo?

Há algumas pessoas poderosas nesta cidade que sabem tudo a meu respeito.

"Deixe o tolo falar", Malone disse a si mesmo. Talvez, em algum lugar, de alguma maneira, eles iriam se deparar com vim fato ou dois.

Eles nos fazem segui-los — afirmou Foddrell. — Mesmo sem o nosso conhecimento Estabelecem diretrizes sobre as quais não sabemos. Criam nossas necessidades e possuem os meios para satisfazê-las sem que saibamos. Trabalhamos para eles e não sabemos. Compramos os seus produtos e...

Quem são "eles"?

Gente como o banco central dos Estados Unidos. Um dos gru­pos mais poderosos do mundo.

Ele sabia que não devia perguntar, mas:

Por que diz isso?

—Achei que tinha dito que o cara era legal — Foddrell dirigiu-se a Collins. — Ele não sabe de nada.

Entenda — replicou Malone —, ultimamente meu negócio tem sido com alienígenas, o caso Área 51... Essa coisa financeira é novidade para mim.

Foddrell, nervoso, apontou um dedo para ele.

Tudo bem, você é engraçado. Acha que tudo isso é uma grande piada.

—Por que você simplesmente não se explica?

O banco central americano faz dinheiro a partir do nada. De­pois, o empresta aos Estados Unidos e os empréstimos são pagos com dinheiro dos contribuintes, com juros. O país deve trilhões ao banco central. Só os juros anuais da dívida, que, a propósito, é controlada em sua maioria por investidores privados, são aproximadamente oito vezes maiores do que o patrimônio do homem mais rico do planeta. Jamais serão quitados. Muita gente está fazendo fortunas em cima des­sa dívida. E é uma enganação. Se você ou eu imprimíssemos dinheiro para emprestá-lo, iríamos para a cadeia.

Malone lembrou-se de algo que lera antes no site de Foddrell. John Kennedy tinha, supostamente, desejado acabar com o banco central, assinando a medida executiva 11.110, que ordenava a retomada das reservas de dinheiro da nação pelo governo americano. Três semanas depois, Kennedy estava morto. Ao tomar posse, Lyndon Johnson imediatamente a rescindiu. Malone nunca tinha ouvido tal acusação antes, portanto resolveu verificar e ler a medida: um decreto inócuo cujos efeitos, caso tivesse sido cumprido, teriam na verdade fortalecido, em vez de enfraquecer, o sistema do banco central. Qualquer relação entre sua assinatura e o assassinato de Kennedy era pura coincidência. E Jo­hnson jamais a invalidou. Em vez disso, fora expurgada com um bando de outros regulamentos obsoletos.

Mais bobagens conspiracionistas.

Decidiu ir direto ao ponto.

O que você sabe sobre o Clube de Paris?

O suficiente para saber que precisamos temê-lo.

 

Eliza encarou Thorvaldsen e perguntou:

—Já pensou no que o dinheiro pode realmente fazer? O convidado dela encolheu os ombros.

Minha família juntou tanto, por um período tão longo, que nun­ca pensei a respeito. Mas, com certeza, proporciona poder, influência e uma vida confortável.

Ela dissimulou.

Pode fazer muito mais. A Iugoslávia é um excelente exemplo.

Ela viu que ele estava curioso.

Nos anos 1980 os iugoslavos tinham, supõe-se, um regime imperialista e fascista, que cometia crimes contra a humanidade. Após 55 eleições diretas em 1990, o povo sérvio escolheu o Partido Socialista enquanto as outras repúblicas iugoslavas optaram por implemen­tar mais governos pró-Ocidente. No fim, os Estados Unidos iniciaram uma guerra contra a Sérvia. Antes disso, porém, observei como as di­retrizes mundiais enfraqueceram gradativamente a Iugoslávia, que na época possuía uma das melhores economias européias. A guerra entre os americanos e os sérvios e o desmantelamento subsequente da Iu­goslávia destruíram quaisquer idéias de que uma economia socialista pudesse ser algo bom.

Estava claro que a Sérvia era um lugar opressor e perigoso — disse Thorvaldsen.

Quem diz isso? A mídia? Era mais opressor do que, vamos di­zer, a Coréia do Norte, a China, o Irã? Ainda assim, ninguém defende uma guerra contra eles. "Acenda um fósforo e ateie fogo à floresta." Foi o que um diplomata me disse na época. Os ataques à Sérvia eram amplamente apoiados pela mídia dominante e, também, por líderes influentes de todo o mundo. O ataque durou mais de dez anos. O que, a propósito, tornou muito mais fácil e barato comprar toda a economia da antiga Iugoslávia.

Foi isso que aconteceu?

Conheço vários investidores que se aproveitaram daquela catástrofe.

Está dizendo que tudo o que aconteceu na Sérvia foi planejado?

De certa maneira. Não ativa, mas taticamente. Tal situação pro­vou ser inteiramente possível tirar vantagem de cenários destrutivos. Discordâncias nacionais e políticas são lucrativas. Uma vez que, é claro, num certo ponto, a discórdia se encerre. Somente assim é possível obter um retorno de qualquer investimento.

Ela estava gostando de discutir teorias. Raramente tinha a oportunidade de fazê-lo. Não estava dizendo nada incriminador, apenas repetindo sobre o que economistas e historiadores tinham percebido havia muito tempo.

Os Rothschild, durante os séculos XVIII e XIX — disse — eram mestres nessa técnica. Conseguiam jogar em todas a frentes, gerando lucros imensos numa época que os europeus brigavam entre si, como crianças num playground. Os Rothschild eram ricos, internacionais e independentes. Três qualidades perigosas. Governos monárquicos não conseguiam controlá-los. Movimentos populares os odiavam porque não prestavam contas ao povo. Os constitucionalistas se ressentiam do fato de que agiam em segredo.

Da mesma forma que você tem tentado?

O sigilo é essencial para o sucesso de qualquer conluio. Tenho certeza, Herre Thorvaldsen, de que compreende como os acontecimen­tos podem ser secretamente moldados a partir da mera concessão ou retenção de fundos; ou ao influenciarmos na seleção de indivíduos- chave; ou, simplesmente, ao mantermos um contato diário com os to­madores de decisão. Estar nos bastidores evita os ímpetos de ataque da ira pública, que se direcionam, como deve ser, às figuras políticas conhecidas.

Que são amplamente controladas.

Como se o senhor não possuísse algumas.

Ela precisava colocar a conversa novamente nos trilhos.

—O senhor pode apresentar provas da traição de lorde Ashby?

No momento oportuno.

—Até que isso aconteça devo, então, acreditar em sua palavra sobre as declarações de lorde Ashby a esses financistas desconhecidos?

Que tal fazermos o seguinte: a senhora permite que eu entre rara o grupo e, juntos, descobrimos se sou ou não um mentiroso. Se a senhora achar que sim, pode ficar com a minha taxa de admissão de 20 milhões de euros.

Mas nosso sigilo ficaria comprometido.

—Já está.

O surgimento repentino de Thorvaldsen era irritante mas, mesmo íssim, poderia ser uma bênção. O que dissera a Mastroianni era verdade: acreditava na sorte.

Talvez Henrik Thorvaldsen fosse parte do seu destino.

—Posso lhe mostrar algo?—perguntou.

 

Malone observou o garçom voltar com uma garrafa de água, vinho e uma cesta de pães. Os bistrôs franceses nunca o impressionavam. Todos os que visitara eram ou caros ou superestimados demais; ou ambos.

Você gosta mesmo de rins fritos? — perguntou a Foddrell

O que há de errado com eles?

Não iria explicar os diversos porquês da ingestão de um órgão que elimina urina fazer mal à saúde. Em vez disso, disse:

Me fale sobre o Clube de Paris.

Você sabe de onde surgiu a idéia?

Percebeu que Foddrell saboreava sua situação de superioridade.

O que colocou no site é um tanto vago.

—Após conquistar a Europa, Napoleão, na verdade, queria re­laxar e desfrutar. Portanto, juntou um grupo de pessoas e formou o Clube de Paris, o que visava tornar mais fácil sua tarefa de governar. Infelizmente, nunca pôde tirar proveito da idéia. Guerras após guerras o mantinham sempre ocupado.

—Achei que tinha dito que ele não queria mais guerrear.

Não queria, mas os outros pensavam de forma diferente. Man­ter Napoleão nos campos de batalha era a melhor maneira de mantê-lo desatento. Algumas pessoas se encarregavam de que sempre houvesse um grupo de inimigos à sua porta. Tentou fazer as pazes com a Rússia, mas o tsar o mandou para "aquele lugar"! Ele, então, invadiu o país em 1812, um ato que quase lhe custou todo o exército. Após isso, foi só decadência. Três anos mais tarde, "tchauzinho!". Deposto.

O que não me diz nada.

O olhar de Foddrell se fixou no lado de fora da janela, como se algo tivesse, de repente, chamado sua atenção.

—Algum problema?

Apenas checando.

Por que sentar-se próximo à janela, à vista de todos?

Você não entende, entende?

A pergunta revelava a crescente irritação com a forma com que o repudiavam tão facilmente, mas Malone pouco se importava.

Estou tentando compreender.

Já que leu o site, sabe que Eliza deu início a um novo Clube de Paris. Mesma idéia. Tempos distintos, pessoas diferentes. Encon­tram-se num edifício na Rue 1'Araignée. Disso tenho certeza. Eu os vi lá. Conheço um cara que trabalha para um dos membros. Entrou em contato comigo pelo site e me contou. Essas pessoas estão armando um plano. Irão fazer o que os Rothschild fizeram há duzentos anos. O que Napoleão queria fazer. É tudo uma conspiração grandiosa. O desabrochar da Nova Ordem Mundial. A arma deles: a economia.

Collins permanecera sentado, em silêncio, durante a conversa. Malone constatou que tinha de ver Foddrell como alguém que vivia a anos-luz de qualquer coisa que se assemelhasse à realidade. Mas não conseguia resistir.

Você sequer perguntou como eu me chamava, o que não condiz com alguém paranóico.

Cotton Malone. Sam me disse no e-mail.

Você não sabe nada sobre mim. E se estiver aqui para matá-lo? Como disse, eles estão por toda parte, observando. Sabem o que lê na internet, que livros pega emprestados na biblioteca, seu tipo sangüíneo, estão a par da sua ficha médica, de quem são seus amigos.

Foddrell pôs-se a vistoriar o ambiente no bistrô, as mesas ocupa­das por fregueses como se estivessem numa gaiola.

Tenho que ir.

E os rins fritos?

Coma-os você.

Foddrell se levantou bruscamente da mesa e saiu em disparada em direção à porta.

Ele mereceu isso! — disse Collins.

Malone observou o tolo deixar o restaurante, examinar a calçada movimentada e, então, partir apressado. Estava de saída também. Queria ir embora antes que a comida chegasse.

E então algo chamou a atenção dele.

Do outro lado da rua restrita a pedestres, numa das barracas que vendiam objetos de arte.

Dois homens em ternos de lã escura.

Puseram-se em alerta assim que Foddrell apareceu. Tinham olhar fixo numa direção e então a seguiram, caminhando depressa com as mãos nos bolsos, indo atrás de Jimmy Foddrell.

Não são turistas — disse Collins.

Acertou em cheio.

 

                   Salen Hall

Ashby conduziu Caroline através do labirinto de corredores do andar térreo até a ala situada no extremo norte da mansão. Lá entraram numa das muitas salas de estar, que fora convertida em escritório para Caroline. No interior, livros e manuscritos jaziam espa­lhados sobre as diversas mesas de carvalho. A maioria dos volumes tinha mais de duzentos anos e fora comprada a preços considerá­veis, tendo os exemplares sido localizados em coleções particulares em lugares tão longínquos quanto a Austrália. Alguns, no entanto, tinham sido roubados pelo Sr. Guildhall. Todos tratavam do mesmo assunto.

Napoleão,

Encontrei a referência ontem—disse Caroline ao procurá-la en­tre as pilhas. — Num dos livros que compramos em Orleans.

Ao contrário dele, Caroline era fluente tanto em francês antigo quanto no moderno.

É um tratado do final do século XIX, escrito por um soldado britânico que serviu em Santa Helena. Fico impressionada com o quanto essas pessoas admiravam Napoleão. Vai além do culto ao herói, é como se ele não pudesse errar. E tem mais: foi escrito por um britânico.

Ela entregou-lhe o livro. Tiras de papel sobressaíam das bordas frágeis, marcando as páginas.

Há tantos relatos como este que fica difícil levá-los a sério. Mas este é mesmo interessante.

Ashby queria que ela soubesse que ele talvez tivesse encontrado algo também.

No livro da Córsega que nos levou ao ouro há uma menção a Sens.

O rosto dela se iluminou.

Mesmo?

Ao contrário do que pensa, também sou capaz de descobrir algo importante.

Ela sorriu.

E como você sabe o que penso?

Não é difícil perceber.

Ele contou-lhe a respeito da introdução do livro e do legado de Saint-Denis à cidade de Sens, especialmente sobre a menção específica a um volume, Os reinos merovíngios de 450 a 751 d.C.

Ele percebeu que havia alguma coisa importante em relação àquele título. Ela caminhou imediatamente até outra mesa e revistou diferen­tes pilhas de livros. Vê-la ali, tão absorvida em pensamentos, mas ves­tida de forma provocante, o deixava excitado.

Aqui está — disse. — Sabia que o livro era importante. Testa­mento de Napoleão. Cláusula IV. "Quatrocentos volumes, selecionados entre os títulos da minha biblioteca mais utilizados por mim, incluindo o meu exemplar de Os reinos merovíngios de 450 a 751 d.C., deverão ficar sob os cuidados de Saint-Denis, que os passará ao meu filho quando esse completar 16 anos."

Começavam a desvendar um enigma que não era para ter sido decifrado assim — de trás para a frente.

Saint-Denis foi leal—afirmou ela.—Sabemos que tomou conta dos quatrocentos livros fielmente. É claro, não teve como entregá-los. Morou na França após a morte de Napoleão, e o filho permaneceu pri­sioneiro dos austríacos até morrer, em 1832.

Saint-Denis faleceu em 1856 — disse ele, lembrando-se do que havia lido. — Guardou os livros por 35 anos. E então os deixou para a cidade de Sens.

Ela lhe deu um sorriso furtivo.

Isso tudo atrai você, não é?

Você me atrai.

Ela apontou para o livro que ele segurava.

—Antes que eu, com todo o prazer, cumpra minhas responsabili­dades de concubina, leia a primeira página que está marcada. Acho que irá diverti-lo ainda mais.

Ele abriu o livro. Lascas de couro ressequido da capa flutuaram até o chão.

 

Abbé Buonavita, o mais velho dos dois padres de Santa Helena, estava incapacitado havia alguns meses, a ponto de não conseguir deixar o quarto. Um dia, Napoleão mandou buscá-lo e explicou que seria melhor e mais prudente retor­nar à Europa em vez de permanecer em Santa Helena, cujo clima poderia ser prejudicial à sua saúde, enquanto na Itália poderia prolongar seus dias. O imperador ordenou que uma carta fosse escrita à família imperial, solicitando o pagamento de uma pensão de 3 mil francos para o padre. Quando o abbé agradeceu o ato de bondade, expressou tristeza em não poder passar seus últimos dias com ele, a quem pretendia devotar a vida. Antes de partir da ilha, Buonavita fez uma última visita ao imperador, que lhe passou várias instruções e cartas a se­rem transmitidas à família e ao papa.

 

Napoleão já estava doente quando Buonavita deixou Santa He­lena — disse Caroline. — E morreu alguns meses depois. Vi as cartas que ele queria que fossem entregues à família. Estão num museu um em Córsega. Os britânicos liam tudo que chegava em Santa Helena e também o que saía de lá. As cartas eram consideradas inofensivas, por isso permitiram que o abbé as levasse.

Por que são tão especiais?

Gostaria de vê-las?

Estão com você?

Em fotografias. Não faz sentido alguém ir até Córsega e não ti­rar fotos. Tirei algumas quando estive lá no ano passado, pesquisando.

Analisou o nariz e o queixo mordazes. As sobrancelhas erguidas. O volume dos seios. Ele a queria.

Mas cada coisa a seu tempo.

—Você me trouxe barras de ouro — disse. — Agora sou eu quem tem algo para você.

Ela pegou a foto de uma carta de uma única página, escrita em francês, e perguntou:

Percebe alguma coisa?

Ele estudou a escrita recortada.

Lembre-se de que a letra de Napoleão era terrível. Saint-Denis reescrevia tudo. Todos sabiam disso em Santa Helena. Mas esta carta é tudo menos nítida. Comparei a escrita com algumas de autoria de Saint-Denis.

Ele percebeu o brilho malicioso nos olhos dela.

Esta foi escrita pelo próprio Napoleão.

E isso é importante?

Sem dúvida. Ele escreveu estas palavras sem a intervenção de Saint-Denis. O que as torna ainda mais importantes, ainda que eu não tivesse percebido o quão importantes até recentemente.

Continuou a olhar para a foto.

O que diz? Meu francês está longe de ser tão bom quanto o seu.

É apenas uma anotação pessoal. Fala do seu amor e da sua de­voção e do quanto sente a falta do filho. Nada que pudesse incitar a desconfiança de qualquer britânico abelhudo.

Ele permitiu-se sorrir e, então, deu uma risadinha.

Por que você não se explica, para podermos passar ao outro assunto?

Tirou a foto das mãos dele e a colocou sobre a mesa. Pegou uma régua, posicionando-a sob uma linha do texto.

 

         desir Profod de Savoir que Vous

 

Consegue ver? — perguntou. — Fica mais claro com a régua por baixo.

E ele viu. Algumas das letras elevavam-se em relação às outras. Era bem sutil, mas estava ali.

Era um código usado por Napoleão — disse. — Os britânicos em Santa Helena nunca notaram. Mas quando encontrei o relato sobre como Napoleão enviou as cartas pelo abbé, as que ele mesmo escreveu, comecei a prestar mais atenção. Apenas esta tinha as letras mais altas.

Que palavras formam?

Psaume frente et un.

Isso ele conseguia traduzir.

Salmo 31. — Embora não entendesse o que significava.

É uma referência específica — afirmou. — Eu a tenho aqui.

Ergueu uma Bíblia da mesa.

"Inclinai para mim vossos ouvidos, apressai-vos em me libertar. Sede para mim uma rocha de refúgio, uma fortaleza bem armada para me salvar. Pois só vós sois minha rocha e fortaleza, haveis de me guiar e dirigir, por amor de vosso nome. Vós me livrareis das ciladas que me armaram" — Olhou para ele por trás do livro.—Isso se encaixa perfei­tamente no exílio de Napoleão. Escute esta parte: "Realmente, minha vida se consome em amargura, e meus anos em gemidos. Minhas for­ças se esgotaram na aflição, mirraram-se os meus ossos. Tornei-me ob­jeto de opróbrio para todos os inimigos, ludibrio dos vizinhos e pavor dos conhecidos. Fogem de mim os que me veem na rua. Fui esquecido dos corações como um morto."

O lamento de um homem derrotado — observou.

Na época em que escreveu a carta, sabia que o fim da guerra estava próximo.

O olhar dele se fixou de imediato na cópia do testamento de Na­poleão sobre a mesa.

Então, ele deixou os livros para Saint-Denis e pediu para que os guardasse até o filho completar 16 anos. Depois, mencionou um livro em particular e enviou uma carta codificada, expressando autopiedade.

O livro sobre os merovíngios — disse — pode ser a chave.

Concordou.

Temos que encontrá-lo.

Ela se aproximou, colocou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou.

Hora de cuidar da sua concubina.

Ele começou a falar, mas foi silenciado por um dedo em seus lábios.

Depois direi onde está o livro.

 

                   Paris

Collins não conseguia acreditar que dois homens estavam mesmo seguindo Jimmy Foddrell. Malone agira corretamente ao atacar aquele idiota pedante no bistrô. Perguntava-se se seus superiores no Serviço Secreto também o viam como alguém confuso. Nunca fora tão radical ou paranoico, embora tivesse desafiado a autoridade e defen­dido crenças semelhantes. Ele e regras eram duas coisas que pareciam não se misturar.

Ele e Malone caminhavam no mesmo ritmo pelo aglomerado de ruas estreitas, lotadas de cabeças enfocadas em casacos pesados e suéteres. Os donos dos restaurantes enfrentavam o frio para anunciar seus cardápios em voz alta, tentando atrair clientes. Saboreava os sons, os cheiros e a movimentação, lutando contra seu efeito hipnótico.

Quem você acha que são esses dois caras? — perguntou fi­nalmente.

Este é o problema com o trabalho de campo, Sam. Nunca sabe­mos. É uma questão de improviso.

É possível que haja outros na área?

Infelizmente, não há como saber no meio deste caos.

Lembrou-se de filmes e séries de televisão nos quais o herói pa­recia sempre pressentir o perigo, independentemente da distância ou do número de pessoas à sua volta. Mas, no rebuliço que os cercava por todos os ângulos, concluiu que não haveria jeito de perceber qualquer ameaça com antecedência.

Foddrell continuou andando.

Adiante, a via reservada a pedestres desembocava numa passa­gem movimentada, identificada como Boulevard St. Germain — uma confusão de táxis, carros e ônibus. Foddrell parou até que um sinal próximo deteve o tráfego denso e então atravessou correndo as quatro pistas, preenchidas por um aglomerado de gente.

Os dois homens seguiram atrás.

Vamos! — disse Malone.

Correram até alcançarem o meio-fio, no momento em que os sinais a direita deles exibiram novamente a luz verde. Ele e Malone continuaram a correr, atravessando o bulevar, chegando ao outro lado ao mes­mo tempo que, atrás deles, os carros passaram acelerando com seus motores ávidos e barulhentos.

Essa foi por pouco! — disse Collins.

Não podemos perdê-los de vista.

Ladeando a calçada onde estavam havia um muro baixo de pe­dra, que servia de base a um cercado de ferro forjado. Pessoas seguiam apressadas em ambas as direções e tinham os rostos iluminados de energia.

O fato de Collins não ter parentes próximos fazia com que a época do Natal fosse sempre solitária. Passara os cinco Natais mais recentes numa praia da Flórida, sozinho. Nunca havia conhecido os pais. Tinha crescido num lugar chamado Cook Institute — um nome mais bonito para "orfanato". Fora para lá criança e partiu uma semana após seu aniversário de 18 anos.

Tenho escolha?

Sim — disse Norstrum.

Desde quando? Não há nada aqui além de regras.

No caso das crianças. Você é um homem agora, livre para viver a sua vida como quiser.

É isso? Posso ir? Tchauzinho. Até logo.

Você não nos deve nada, Sam.

Ficou feliz em ouvir aquilo. Não tinha nada para lhes dar.

Sua escolha — disse Norstrum — é simples. Pode ficar e tornar-se parte ainda maior deste lugar. Ou pode ir embora.

Aquela não era uma opção.

Quero partir.

Achei que seria o caso.

Não que eu seja ingrato É que, simplesmente, quero ir embora. Estou cansado de...

Regras.

Correto. Estou cansado de regras.

Sabia que muitos dos instrutores e funcionários do orfanato haviam cres­cido ali também, como órfãos. Mas outro regulamento proibia que falassem sobre o assunto. Como estava de partida, decidiu perguntar:

Você teve escolha?

A minha foi diferente.

Aquela informação o deixou chocado. Nunca soubera que o homem mais velho tinha sido órfão também.

Você pode me fazer um favor? — perguntou Norstrum.

Estavam na área verde do campus, entre edifícios de duzentos anos. Co­nhecia cada centímetro quadrado de cada um deles, nos mínimos detalhes, já que todos tinham de ajudar na organização do orfanato.

Outra regra que viera a odiar.

Tenha cuidado, Sam. Pense antes de agir. O mundo não é tão hospita­leiro como nós.

É como chama isto aqui? De hospitaleiro?

Nossa preocupação com você é autêntica. — Ele fez uma pausa. — Minha preocupação com você era autêntica.

Nunca, em 18 anos, ouvira o homem expressar tais sentimentos.

Você é uma alma livre, Sam. O que não é necessariamente ruim. Mas cuidadoso.

Viu que Norstrum, que conhecera por toda a sua vida, estava sendo sin­cero.

Talvez ache as regras lá fora mais fáceis de serem seguidas. Deus sabe este lugar foi um desafio para você.

Talvez esteja nos meus genes.

Tentara tornar as coisas mais leves, mas o comentário servira para lembrá-lo de que não tinha pais ou herança. Tudo o que conhecia estava ao seu redor. O único homem que tinha se importado com ele estava de pé ao seu lado. Então, por respeito, estendeu-lhe uma das mãos, que Norstrum, educadamen­te, apertou.

Tinha esperanças de que ficasse—disse baixinho o homem mais velho.

Olhos repletos de tristeza o encaravam.

Tenha cuidado, Sam. Tente sempre agir corretamente.

E ele agira.

Ele formou-se na faculdade com mérito, finalmente chegou ao Serviço Secreto. Às vezes perguntava-se se Norstrum ainda estaria vivo. Quatorze anos tinham se passado desde a última conversa. Nunca ti­nha feito contato simplesmente porque não queria decepcionar ainda mais o homem.

"Tinha esperanças de que ficasse."

Mas não pôde.

Ele e Malone dobraram a esquina de uma travessa do bulevar principal. À frente deles a calçada se inclinava no sentido da próxima inter­seção, e mais um muro com grades de ferro estendia-se à direita. Segui­ram o barulho arrastado dos passos até dobrarem a esquina seguinte.

Um muro mais alto, com um parapeito no topo, substituía o cercado. Junto à pedra áspera estava pendurada uma faixa colorida cujos dizeres anunciavam: musée national du moyen age, thermes de cluny. Museu de História Medieval de Cluny.

O edifício que se erguia além do muro era uma estrutura gótica ameada, sob um telhado de ardósia pontilhado por janelas de sótãos. Foddrell despareceu por uma das entradas e os dois homens o seguiram. Malone os acompanhou.

—O que estamos fazendo?—perguntou Collins. —Improvisando.

 

Malone sabia para onde estavam indo. O Museu de Cluny situava-se no terreno de um palácio romano, que ainda mantinha as ruínas das suas antigas termas. A mansão fora construída no século XV, por um abade beneditino. O terreno se tornara propriedade do Estado somente no século XIX, exibindo uma coleção impressionante de objetos medievais. Continuava a ser parte obrigatória do itinerário parisiense. Visitara-o algumas vezes e ainda se lembrava do interior. Dois andares, um salão contínuo ao de exposições, uma entrada que era também a saída. Espaços apertados. Inapropriados para quem quisesse passar despercebido.

Tomou a dianteira ao entrarem num pátio fechado e avistou os dois perseguidores caminhando através da porta principal. Cerca de trinta visitantes, com câmeras em punho, circulavam pelo pátio.

Hesitou, mas depois dirigiu-se à mesma entrada.

Collins o seguiu.

A câmara adiante era uma antessala de paredes de pedra conver­tida em área de recepção, com uma chapeleira e uma escadaria que levava aos banheiros no andar de baixo. Os dois homens estavam comprando as entradas no caixa e depois viraram-se e subiram os degraus de pedra até o museu. Desapareceram por uma passagem estreita e enião ele e Collins compraram ingressos também. Subiram pelos mes- — os degraus e entraram numa loja de suvenires lotada. Nenhum sinal de Foddrell, mas os dois "guarda-costas" já haviam passado por outra entrada, de teto baixo, à esquerda. Malone pegou um dos panfletos gratuitos, com informações em inglês sobre o museu, que tinha visto e passou os olhos rapidamente por ele.

Collins percebeu.

Henrik diz que você tem memória fotográfica. É verdade?

Memória eidética — corrigiu-o. — Um bom olho para detalhes, só isso.

Você é sempre tão preciso?

Enfiou a brochura num dos bolsos traseiros.

Quase nunca.

Entraram num salão de exposições iluminado tanto pela luz solar refletida através de uma janela gradeada como por lâmpadas incandes­centes estrategicamente posicionadas a fim de realçar as porcelanas, os vidros e alabastros medievais.

Nem Foddrell nem seus perseguidores estavam ali. Caminharam apressados até o espaço seguinte, que continha mais cerâmicas, e vislumbraram os dois homens que saíam pelo outro lado do aposento. Ambas as salas, até então, estavam em plena atividade com as conversas dos visitantes e o clicar das câmeras. Malone sabia, por meio do panfleto, que as termas romanas estavam logo adiante.

À saída, viu os dois homens passarem por um corredor estreito, pintado de azul e com arremate de placas de alabastro, que culminava num imponente saguão de pedra. Logo abaixo de um lance de degraus de pedra estava o frigidarium. Mas uma placa anunciava que estava fe­chado para reformas e uma corrente de plástico bloqueava o acesso. À direita, ao longo de um elaborado arco gótico, estava um salão bastante iluminado, que abrigava o que restava de algumas estátuas. Cadeiras de metal desdobráveis perfilavam-se diante de uma plataforma e um pódio. Uma espécie de espaço para apresentações que anteriormente fora, com certeza, um pátio externo.

Pela esquerda penetrava-se ainda mais no museu.

Os dois homens viraram-se naquela direção.

Ele e Collins se aproximaram e, com cautela, deram uma espiada no aposento seguinte, de dois andares, iluminado naturalmente atra­vés de um teto opaco. Paredes de pedra grosseiramente desbastada elevavam-se a cerca de 12 metros. Provavelmente, outro pátio entre edifícios, hoje fechado, onde objetos de marfim, fragmentos de capiteis e mais estátuas estavam em exibição.

Foddrell não estava em lugar nenhum, mas a dupla "cara de um, fociriho do outro" caminhava na direção do próximo espaço de exposi­ções, logo acima de outros degraus de pedra.

Esses dois estão atrás de mim! — Alguém gritou, perturbando o silêncio que era como o de uma biblioteca.

Malone levantou a cabeça.

De pé, próxima à balaustrada do que seria o andar superior do edifício seguinte, apontando para baixo, para os dois homens que eles seguiam, estava uma mulher. Trinta e poucos anos, talvez, e de cabelos castanhos e curtos. Vestia um avental azul, idêntico aos que Malone notara nos demais empregados do museu.

Estão atrás de mim! — gritou a mulher. — Tentando me matar!

 

                   Vale do Loire

Thorvaldsen seguiu Eliza ao deixarem a sala de visitas, e os dois embrenharam-se ainda mais no château, caminhando na direção do rio Cher, que fluía sob os alicerces da construção. Antes da visita, estudara a história da propriedade e descobrira que havia sido arquitetonicamente concebida no início do século XVI, como parte da civili­zada e galante corte de Francisco I. O projeto havia sido originalmente formulado por uma mulher e a influência feminina permanecia evidente. Nada de declarações de poder por meio de paredes amparadas por pilares ou de dimensões esmagadoras. Em vez disso, tudo o que se via era uma opulência discreta, evocada por uma graciosidade única.

— Minha família é dona desta propriedade há três séculos — dis­se. — Um dos proprietários construiu o château central à margem norte do rio, onde estávamos, e uma ponte que o liga à margem sul. Um outro ergueu um corredor sobre a ponte.

Apontou adiante.

Os olhos dele fixaram-se num saguão retangular com cerca de 60 metros de comprimento, de assoalho quadriculado em preto e branco e cujo teto contava com o suporte de pesadas vigas de carvalho. Torren­tes de luz solar incidiam através de janelas posicionadas simetricamente que se espalhavam por todo o recinto.

Os alemães ocuparam este lugar durante a guerra — disse ela. — Na verdade, a entrada do lado sul, na extremidade mais distante, pertencia à "zona livre". A entrada deste lado era a porção ocupada. O senhor pode imaginar os problemas que surgiram.

Odeio alemães. — Ele deixou bem claro.

Ela lançou um olhar avaliador nele.

Eles destruíram a minha família e o meu país e tentaram acabar com a minha religião. Jamais conseguirei perdoá-los.

Esperou o fato de que era judeu ser assimilado. A pesquisa que fizera sobre ela revelara um preconceito de longa data contra os ju­deus. Nenhuma razão específica que pudesse identificar, apenas uma aversão nata, que não era incomum. Sua investigação também havia trazido à tona outra das várias obsessões de Eliza. Esperou que ela o conduzisse pelo château — e adiante, ao lado da entrada em estilo de frontão que levava a um dos diversos aposentos, iluminado por duas minúsculas lâmpadas de halogênio, estava pendurado o retrato.

Exatamente onde lhe disseram.

Olhou para a imagem. Um nariz comprido e feio, Um par de olhos oblíquos, profundamente encravados, que olhavam de lado e transmitiam astúcia. Um maxilar poderoso. Queixo saliente. Um chapéu côrúco cobrindo a cabeça praticamente desnuda, o que deixava o homem pare­cido com um papa ou cardeal. Mas ele tinha sido muito mais do que isso.

Luís XI — disse, apontando.

Eliza parou.

O senhor é admirador dele?

O que diziam a respeito dele? "Amado pelo povo, odiado pelos grandes, temido pelos inimigos e respeitado por toda a Europa. Era um rei,"

Ninguém sabe se o retrato é autêntico. Mas é de uma qualidade ímgular, o senhor concorda?

Lembrou-se do que haviam lhe dito sobre algo não cheirar bem raquele teatro todo à volta da memória de Luís XI. Governou de 1461 a 1433, conseguindo forjar para si uma lendária e espetacular reputação de grandiosidade. Na verdade, era inescrupuloso, rebelou-se aberta­mente contra o pai, maltratava a mulher, confiava em poucos e jamais demonstrava misericórdia. Sua paixão era o plano de regeneração da França após a desastrosa Guerra dos Cem Anos. Planejou, tramou e subornou incansavelmente, tudo isso com o propósito de reunir sob um único reinado territórios perdidos.

E conseguiu.

O que havia lhe consolidado um lugar sagrado na história da Fran­ça.

Foi um dos primeiros a compreender o poder do dinheiro — disse Thorvaldsen. — Gostava de "comprar" os homens, em vez de enfrentá-los.

O senhor é um estudioso — afirmou, claramente impressiona­da. — Ele captou a importância do comércio como ferramenta política e criou as bases do Estado-nação moderno. Aquele em que a economia seria mais relevante do que qualquer exército.

Ela fez um gesto para que entrassem num outro cômodo, de pare­des aconchegantes revestidas em couro e janelas encobertas por corti­nas da cor do vinho do Porto. O interior de uma impressionante lareira da época renascentista estava apagado. Havia pouca mobília além de algumas cadeiras acolchoadas e poucas mesas de madeira. No centro estava um mostruário de vidro e aço inoxidável, deslocado em meio à antigüidade do aposento.

—A invasão do Egito por Napoleão em 1798 foi um fiasco político e militar — disse ela. — A República Francesa enviou seu maior general para conquistar a região, e foi o que aconteceu. Mas governar o Egito era outra história. E dessa vez Napoleão não foi bem-sucedido. Ainda assim, não é possível negar que a ocupação do país tenha mudado o mundo. Pela primeira vez o esplendor daquela civilização misteriosa e esquecida foi revelado. Foi o nascimento da egiptologia. Os savants de Napoleão literal­mente descobriram, debaixo das areias milenares, o Egito faraônico. Típi­co de Napoleão: um fracasso absoluto mascarado por um sucesso parcial.

Proferido por uma verdadeira descendente de Pozzo di Borgo.

Ela deu de ombros.

Enquanto ele jaz em toda a sua glória no Palácio dos Inválidos, meu antepassado, que, é bem provável, salvou a Europa, continua esquecido.

Ele sabia que esse era um assunto delicado, portanto deixou-o de lado momentaneamente.

No entanto, enquanto estava no Egito, Napoleão conseguiu descobrir algumas coisas imensamente valiosas. — Apontou para o gabinete. — Estes quatro papiros. Encontrados por acaso, um dia após as tropas de Napoleão terem atirado num assassino à beira da estrada. Se não fosse por Pozzo di Borgo, Napoleão poderia tê-los usado para consolidar o seu poder e, com efeito, governar grande parte da Europa. Ainda bem que a chance nunca lhe foi dada.

Os investigadores contratados por ele não haviam mencionado essa irregularidade. No caso de Ashby, não tinha medido despesas e descobrira tudo. Mas com Eliza tinha feito uma investigação mais orientada. Será que cometera um erro?

O que dizem os papiros? — perguntou ele de um jeito casual.

Eles são a razão para o Clube de Paris. Explicam o nosso propó­sito e guiarão a nossa jornada.

Quem os escreveu?

Ela deu de ombros.

Ninguém sabe. Napoleão acreditava que eram da Alexandria e foram perdidos quando a biblioteca desapareceu.

Tinha alguma experiência com aquele objeto, que não estava tão perdido como a maioria das pessoas pensava.

—A senhora deposita uma enorme quantidade de fé num docu­mento de origens desconhecidas, redigido por um escriba desconhecido.

—Acredito, como no caso da Bíblia. Não sabemos nada sobre as suas origens e mesmo assim bilhões moldam suas vidas de acordo com suas palavras.

Muito bem colocado.

Os olhos dela irradiavam a confiança de um coração sincero.

Mostrei a você algo que me é caro. Agora quero ver as provas contra Ashby.

 

                   Paris

Malone observou dois homens vestindo paletós e gravatas azuis e amarrotados, ambos com crachás do museu pendurados no pescoço, correrem para o espaço de exibições. Um dos homens que se­guira Foddrell — um camarada corpulento de cabelos desgrenhados — reagiu, dando um soco no funcionário que comandava o ataque. O outro "guarda-costas", de traços achatados, semelhantes aos de um gnomo, chutou o segundo funcionário, que foi ao chão.

Cara Achatada e Fortão sacaram as armas.

A mulher no andar de cima, o motivo de toda aquela confusão, deixou a balaustrada.

Clientes notaram as armas e começou uma confusão de vozes. Visitantes passaram apressados por Malone e Collins, retornando à en­trada principal.

Outros dois funcionários surgiram no lado oposto.

Tiros foram disparados.

As paredes de pedra, o piso de ladrilho e o teto de vidro pouco serviram para amortecer o barulho e os estrondos martelaram os ouvidos de Malone com a força de uma explosão.

Um dos funcionários de paletó desmoronou.

Mais pessoas passaram apressadas por ele.

Os outros funcionários sumiram de vista.

Cara Achatada e Fortão desapareceram.

A geografia do museu passou rapidamente pela mente de Malone.

Vou dar uma volta completa ao redor do edifício. Há apenas uma saída, onde vou interceptá-los. Você fica aqui.

E faço o quê?

Evite levar um tiro.

Supôs que o departamento de segurança do museu fecharia as saí­das e a polícia chegaria logo. Tudo o que tinha de fazer era manter dois atiradores ocupados até que isso acontecesse.

Correu em direção à entrada principal.

 

Collins tinha pouco tempo para pensar. As coisas estavam acontecendo rapidamente. Não demorou a decidir que não ficaria parado — independentemente das ordens de Malone — e saiu em dispa­rada pelo altaneiro salão de exposições iluminado pela luz solar onde o tiroteio havia ocorrido. Caminhou até o homem de paletó azul que sangrava, jogado de bruços sobre o chão como se fosse um trapo, e se ajoelhou.

Os olhos vidrados, fixos num ponto distante, mal piscavam. Ele nunca tinha visto alguém baleado antes. Morto? Sim. Na noite anterior. Mas esse homem ainda estava vivo.

Percorreu o cenário ao seu redor com o olhar, registrando mais capitéis, esculturas e estátuas. E de mais duas saídas — uma porta, tran­cada com um ferrolho, e uma arcada aberta que levava a uma sala sem janelas. Viu uma tapeçaria pendurada na parede ao fundo da sala e uma escadaria para o piso superior.

Todos os visitantes haviam ido embora, um silêncio inquietante pairava sobre o museu. Perguntava-se onde estariam os seguranças, funcionários ou mesmo a polícia. Certamente alguém telefonara para as autoridades.

Onde estavam todos?

Ouviu passos. Correndo. Na sua direção. Vindos da entrada utili­zada por ele e Malone — para onde Malone seguira.

Não queria que nada o detivesse. Desejava participar do que esta­va acontecendo.

— A ajuda já está a caminho — disse ao homem caído.

Correu, então, até o aposento seguinte, saltando os degraus para o andar de cima.

 

Malone retornou à loja de suvenires e abriu caminho acotovelando a multidão, que, se queixando, tentava abandonar o edifício pela entrada do museu.

Vozes agitadas esbravejavam em várias línguas.

Com os ombros, seguiu abrindo passagem em meio às pessoas e deixou a loja para, em seguida, entrar numa câmara adjacente, que o panfleto do museu identificava como o lugar destinado aos armários de bagagem, e a uma escadaria utilizada pelos visitantes que vinham do an­dar de cima. Uma vez no alto, caminharia na direção oposta à de Fortão e de Cara Achatada, interceptando-os enquanto avançavam pelo museu.

Subiu os degraus da escadaria de madeira de dois em dois e entrou num saguão vazio que exibia armaduras, facas e espadas. Uma tapeçaria, que reproduzia uma cena de caça, adornava uma das paredes. Os mostruários de vidro estavam todos trancados. Precisava de uma arma e por isso esperava que os administradores do museu compreendes­sem o que estava prestes a fazer.

Pegou uma cadeira encostada numa outra parede e arremeteu uma das pernas de metal contra o mostruário.

Cacos de vidro tilintaram ao cair no chão.

Jogou a cadeira para o lado e alcançou uma das pequenas espadas, removendo-a do mostruário. As bordas da lâmina eram afiadas, mais provavelmente para realçá-la quando exposta. Um cartão dentro do estojo informava os visitantes de que se tratava de uma arma do século XVI. Retirou, também, um escudo, cujas origens remontavam ao mes­mo período.

Tanto a espada quanto o escudo estavam em excelentes condições.

Segurou-os, parecendo um gladiador pronto para a arena.

"Melhor do que nada", pensou.

Collins subiu correndo as escadas, deslizando uma das mãos sobre o corrimão de metal liso. Parou para escutar no vão logo acima e depois subiu o último lance até o piso superior do museu.

Nenhum barulho. Nem mesmo no andar de baixo.

Continuou a pisar leve e manteve a mão direita firmemente sobre o corrimão. Perguntava-se o que iria fazer. Estava desarmado, apavorado, mas era provável que Malone precisasse de ajuda como na noite anterior, na livraria.

E agentes de campo se ajudavam.

Foi até o alto.

Uma arcada ampla abria-se numa sala de pé-direito alto e paredes pintadas em vermelho-sangue. Bem à sua frente estava a entrada para uma exibição intitulada La Dame à La Licorne.

"A dama e o unicórnio".

Parou e, com cuidado, espiou o aposento vermelho através da arcada.

Ouviu os estampidos de três tiros.

Balas sibilaram e levantaram poeira ao atingirem a parede de pe­dra a apenas alguns centímetros do seu rosto e ele recuou, cambaleante.

Péssima idéia.

Outro disparo veio em sua direção. As janelas à direita, adjacentes ao vão da escadaria, estilhaçaram-se com o impacto.

Ei... — disse uma voz, praticamente sussurrando.

Ele lançou um olhar para a direita e viu a mesma mulher de an­tes — a dona dos gritos que deram início ao caos — de pé, dentro da entrada recuada que levava à exposição de La Dame à La Licorne. Os cabelos curtos estavam afastados do rosto e os olhos dela brilhavam, alertas. Sobre as palmas das mãos estendidas exibia uma arma.

Jogou a arma para ele, que a pegou.

Com a mão esquerda segurou o cabo, posicionando um dedo no gatilho. Não disparava uma arma desde a última sessão de treinos de tiro no Serviço Secreto. Havia o que, quatro meses? Mas estava conten­te de tê-la em mãos.

O olhar dele encontrou a intensidade do dela e a mulher fez um gesto indicando-lhe que atirasse.

Inspirou profundamente, empunhou a arma ao redor da beira da arcada e puxou o gatilho.

Vidros foram quebrados em algum lugar do salão vermelho.

Disparou novamente.

Você poderia pelo menos tentar acertar um deles! — disse ela, de onde se escondia.

Se é tão boa assim, atire você!

—Jogue a arma de volta e atirarei!

 

                   Vale do Loire

Eliza estava sentada na sala de visitas, preocupada com as complicações inesperadas que surgiram poucas horas antes. Thorvaldsen tinha partido rumo a Paris. Conversariam mais no dia seguinte.

Naquele exato momento, precisava de orientação.

Havia pedido para que acendessem a lareira, e as chamas agora ardiam vigorosamente, iluminando o lema esculpido na cornija por um dos seus antepassados.

S'Il vient à point, me souviendra

Se o castelo encontrar o seu fim, serei lembrado.

Estava sentada numa das cadeiras estofadas. O mostruário de vi­dro que continha os quatro papiros encontrava-se à sua direita. Apenas os estalidos da brasa queimando perturbavam o silêncio. Disseram-lhe que era possível que nevasse durante a noite. Amava o inverno, especialmente ali, no campo, perto de tudo que estimava.

Dois dias.

Ashby estava na Inglaterra, em preparativos. Meses antes, dele­gara a ele várias tarefas, confiando em suas supostas especialidades.

Perguntava-se agora se havia desperdiçado o voto de confiança. Muitas coisas dependiam do que ele estava fazendo.

Na verdade, tudo.

Esquivara-se das perguntas de Thorvaldsen e não permitira que lesse os papiros. Não conquistara o direito de fazê-lo. Assim como ne­nhum dos membros do clube até o momento. O conhecimento ali conti­do era sagrado para a família de Eliza e havia sido obtido pelo próprio Pozzo di Borgo, quando seus comissários roubaram os documentos que estavam entre os pertences de Napoleão que embarcariam com ele para o exílio em Santa Helena. Napoleão notara sua falta e tinha feito um protesto oficial, mas quaisquer inconvenientes eram sempre atribuí­dos aos seus captores britânicos.

Além do que, ninguém se importava.

Àquela altura, Napoleão estava impotente. Tudo o que os líderes europeus queriam era que o antigo imperador poderoso morresse rápi­da e naturalmente. Nada de execuções ou acontecimentos duvidosos. Não podiam permitir que se tornasse um mártir, portanto prendê-lo numa ilha remota do Atlântico Sul parecia ser a melhor maneira de alcançarem o resultado desejado.

E deu certo.

Napoleão havia, de fato, desvanecido.

Morrera dentro de cinco anos.

Ela se levantou, aproximando-se do mostruário de vidro, e obser­vou atentamente os quatro manuscritos, mantidos em segurança no seu envoltório. Havia muito tempo tinham sido traduzidos, e ela memorizara cada uma das palavras. Pozzo di Borgo percebera seu poten­cial de imediato, mas vivia num mundo pós-napoleônico, durante um tempo de constantes revoltas, falta de confiança na monarquia e de incapacidade para a democracia na França.

Portanto, tiveram pouca utilidade.

Ela dissera a verdade a Thorvaldsen ao afirmar que era impossí­vel saber quem os havia escrito. Tudo o que sabia era que as palavras faziam sentido.

Abriu uma gaveta debaixo do mostruário. Dentro dela encontra­vam-se traduções do copta original para o francês. Dali a dois dias compartilharia as palavras com o Clube de Paris. Por enquanto, folheava as páginas datilografadas, familiarizando-se novamente com sua sabedoria, maravilhando-se diante de sua simplicidade.

 

A guerra é uma força progressista, que gera naturalmente o que, de outro modo, não teria acontecido. A liberdade de pensamento e a inovação são dois dos aspectos positivos por ela criados. Guerras são uma força ativa na sociedade, uma ferramenta estabilizadora e fidedigna. Sua iminência forma a base mais forte para a autoridade de qualquer governante, cuja extensão aumenta em relação direta com a crescente ame­aça imposta pelo conflito. Os indivíduos obedecerão de boa vontade, contanto que lhes seja dada, ao menos, a garantia de que serão protegidos contra os inimigos. A ausência da ame­aça da guerra, assim como qualquer brecha nessa promessa de proteção, põe fim a toda e qualquer autoridade. Guerras, muito mais do que qualquer instituição, são capazes de con­solidar a aliança social de um povo. Uma autoridade central simplesmente não existiria sem elas e a extensão da sua capacidade de governar depende daquela de promovê-las. A agressividade coletiva é uma força positiva que tanto controla as discordâncias como consolida alianças sociais. As guerras são o melhor instrumento de condução da agressividade co­letiva. A paz duradoura, assim como guerras constantes, que jamais chegam ao fim, não serve aos interesses da manutenção de uma autoridade central. A mera possibilidade da guerra é o que há de melhor, pois a percepção da ameaça proporciona um sentimento de necessidade exterior, sem o qual não é pos­sível a existência de qualquer autoridade. Uma estabilidade duradoura pode se originar, simplesmente, da organização de uma sociedade que se prepara para a guerra.

 

Incrível uma mente antiga possuir pensamentos tão modernos.

 

O temor de uma ameaça externa é essencial à constância de qualquer autoridade central. Tal ameaça deve ser plausível e de magnitude suficiente para a instilação do medo absolu­to e deve também afetar a sociedade como um todo. Sem tal medo, é bem possível que haja o desmoronamento da autori­dade central. A transição de uma sociedade da guerra à paz fracassará se o governante não preencher o vazio sociológico e político criado pela ausência da primeira. Há de se encontra­rem substitutos para esse condutor da agressividade coletiva; contudo, esses devem ser tão realistas quanto atraentes.

 

Colocou a tradução sobre o alto do mostruário. Na época de Pozzo di Borgo — em meados do século XIX — não havia substitutos adequados, portanto a guerra prevalecia. Primeiro, conflitos regionais, depois, duas conflagrações mundiais. Agora era di­ferente. Havia vários substitutos à disposição. De fato, demais. Fizera a escolha certa? Difícil dizer.

Retornou à cadeira.

Havia algo mais de que ainda precisava saber.

Após a partida de Thorvaldsen, ela retirou mais uma vez o oráculo da bolsa. Abriu o livro com reverência e preparou-se inspirando profundamente algumas vezes. Entre as perguntas da lista selecionou "O amigo que mais considero revelar-se-á fiel ou traiçoeiro?" Substituiu Tanigo" por "Thorvaldsen" e então propôs a questão, em voz alta, ao fogo que ardia.

Fechou os olhos e se concentrou.

Então, pegou uma caneta e fez cinco linhas de riscos verticais, contando-os depois a fim de determinar a fileira correta de pontos:

 

 

Consultou rapidamente a tabela e viu que a resposta à sua pergun­ta estava na página "H". Ali, o oráculo declarava: "O amigo será para ti um escudo contra o perigo."

Fechou os olhos.

Confiara em Ashby, permitira que ele fizesse parte do seu segredo Km saber nada a respeito do homem além do fato de que vinha de uma família tradicionalmente rica e era um caçador de tesouros bem-sucedido. Oferecera-lhe uma oportunidade única e fornecera informações que ninguém mais sabia, pistas transmitidas através da sua família, a começar por Pozzo di Borgo.

Todas capazes de conduzir até o tesouro perdido de Napoleão.

Di Borgo passara as duas últimas décadas de sua vida procurando-o em vão. O fracasso por fim o levou à loucura. Mas deixara anotações, que ela passara a Ashby

Tolice?

Lembrou-se do que o oráculo acabara de prever sobre Thorvaldsen.

"O amigo será para ti um escudo contra o perigo."

Talvez não.

 

                   Paris

Malone ouviu tiros. Cinco? Seis? E então o barulho de vidro quebrando ao se chocar contra algo duro.

Passou pelas três salas que exibiam mil anos de história francesa em obras de arte elaboradas, retábulos coloridos, peças de metal intricadas e tapeçarias. Virou à direita, aproximando-se de outro corredor. De mais ou menos 6 metros de comprimento. Assoalho de madeira re­sistente. Teto em caixotões. Instrumentos para escrita e de latão esta­vam expostos em dois mostruários iluminados construídos na parede à direita, com um vão de entrada entre eles e outra sala com as luzes acesas. Do vão da parede à esquerda viu uma arcada de pedra e a balaustrada de onde a mulher gritara alarmada.

Um homem surgiu no lado oposto do corredor.

Fortão.

Sua atenção não estava concentrada em Malone, mas quando vi­rou e viu alguém carregando escudo e espada, fez um movimento com a arma e atirou.

Malone mergulhou no chão, protegendo-se com o escudo.

A bala sibilou ao atingir o metal, ao mesmo tempo que ele soltou o escudo e desabou. A armadura caiu retumbando pelo chão. Malone rolou até a outra sala e rapidamente pôs-se de pé.

Ouviu passos pesados em sua direção. Estava numa sala que abri­gava mais mostruários iluminados e retábulos.

Não havia escolha.

Não podia voltar por onde viera, portanto fugiu para o aposento à sua frente.

 

Collins observou a mulher agarrar a arma com as mãos pequenas, mas ligeiras, e imediatamente inclinar o corpo para a frente. O vão de entrada em que estava abria-se perpendicularmente à entrada do salão vermelho onde os atiradores haviam se colocado, o que lhe dava cobertura. Ela se posicionou, mirou e atirou duas vezes.

Mais vidro estilhaçado. Mais um mostruário destruído.

Arriscou um olhar e notou que um dos homens saíra em dispara­da para o outro lado. A mulher também o vira escapar e atirou mais uma vez, tentando acertar o alvo que corria apressado para trás de outro mostruário.

A cena passou diante dele em meio a um nevoeiro de incertezas.

Onde estavam os seguranças?

E a polícia?

 

Malone de repente percebeu que tinha cometido um perigoso erro. Lembrou-se do panfleto do museu e sabia que à frente estava a capela superior — um espaço pequeno e compacto de acesso único.

Correu para dentro da capela e avistou o ostentoso estilo gótico, destacado por um pilar central que culminava em arcos ogivais -projetando-se como os ramos de uma palmeira. Tinha, talvez, 9 metros de comprimento e 6 de largura, sem mobília ou possíveis esconderijos.

Ainda segurava a espada, que de nada adiantaria diante de um homem armado.

Pense.

 

Collins se perguntava quais seriam as intenções da mulher. Era óbvio que ela havia iniciado a briga e agora parecia decidida a encerrá-la.

O estrondo de mais dois tiros ecoou pelo museu, mas eles não partiram da arma dela, tampouco destinavam-se a eles.

Com plena consciência das balas que passavam voando, arriscou um olhar cauteloso e viu um dos agressores se retirar para trás de um dos mostruários ainda intactos e disparar em outra direção.

A mulher viu o mesmo.

Alguém estava atirando nos agressores.

Mais três tiros adentraram o salão vermelho, e o atirador, mais atento ao perigo às suas costas do que ao que estava à sua frente, foi pego num fogo cruzado. A mulher parecia aguardar o momento certo. E quando ele chegou, atirou mais uma vez.

O atirador moveu-se adiante em busca de cobertura, mas outro disparo o acertou no peito. Cambaleou de um jeito estranho. Collins ouviu um grito de dor e então viu o corpo do homem estremecer e desabar no chão.

 

Malone preparou-se para o que estava por vir. Sentia o couro cabeludo formigar de medo. Sua única esperança era que seu agressor aproximasse cautelosamente da capela e não estivesse ciente do que havia além da entrada desobstruída. Com um pouco de sorte, a espada lhe serviria para garantir alguns segundos de vantagem, mas aquela empreitada toda estava se transformando num pesadelo — o que era de esperar, já que Thorvaldsen estava envolvido.

Pare! — Ouviu um homem gritar.

Passaram-se breves momentos.

Já disse para parar!

O estampido de um disparo.

Carne e ossos despencaram sobre uma superfície rígida. Será que a polícia, ou os seguranças do museu, estavam agindo afinal? Aguardou, inseguro.

Sr. Malone, pode sair. Ele foi abatido.

Não era tão estúpido. Avançou lentamente até a beira da porta e deu uma espiadela. O Fortão jazia sobre o chão, de bruços, com um dilúvio de sangue fluindo debaixo dele. A poucos metros, um homem com os pés plantados no chão, vestindo um terno escuro, segurava uma Sig Sauer .357 semiautomática, apontada para o cor­po. Malone reparou no cabelo cortado rente à cabeça, na aparência austera e em sua boa forma. Percebeu, também, o inglês claro, com um toque nasalado, sulista.

Mas foi a arma que revelou tudo.

Modelo P229. Edição padrão.

Serviço Secreto.

O homem levantou a arma apontando diretamente para o peito de Malone.

Largue a espada.

 

Collins estava aliviado, uma vez que a ameaça parecia ter sido eliminada. Gritou, na esperança de que tivesse sido ele a atirar no homem. — Cotton!

 

Malone ouviu Collins chamar seu nome. Ainda segurava a espada. Mas a SIG continuava a apontar para ele.

— Fique quieto — ordenou baixinho o homem. — E largue a mal­dita espada.

Collins não ouviu resposta aos seus gritos. Encarou a Mu­lher, e viu que ela agora tinha a arma apontada diretamente para ele. — Hora de irmos embora — disse ela.

 

Sob a mira de uma arma, Malone foi conduzido pelo museu deserto. Todos os visitantes tinham ido embora, e o interior parecia ter sido trancado. O tiroteio havia sido grande, o que o fez se perguntar por que não havia ninguém da polícia lá e onde estavam os seguranças do museu.

O que o Serviço Secreto está fazendo aqui?

Como se fosse preciso perguntar.

Você chegou a ver um dos seus? Cara jovem. Boa aparência. Um pouco ansioso. O nome dele é Sam Collins.

Mas isso só trouxe mais silêncio.

Passaram por uma sala de exposições de paredes vermelho-escuras, por alguns outros retábulos e três mostruários destruídos. Alguém na chefia iria ficar puto da vida.

Viu outro corpo sangrando no chão.

Cara Achatada.

Na outra saída da sala uma escadaria à direita levava ao andar de baixo, e à esquerda uma entrada de porta dupla recortava-se da parede. Uma placa laminada anunciava que adiante estava La Dame à La Licorne.

Malone apontou.

Para dentro?

O homem assentiu e então baixou a arma, retraindo-se nova­mente para a galeria vermelha. Os modos desconfiados do agente o divertiam.

Entrou no espaço sombrio, que exibia seis tapeçarias coloridas, cada uma cuidadosa e indiretamente iluminada. Geralmente ficaria impressionado, pois, de acordo com o que se lembrava, as peças, originais do século XV, constavam entre os itens mais premiados do museu, mas foi a figura solitária, sentada num dos três bancos ao centro da sala, que fez com que as peças do quebra-cabeça se juntassem.

Stephanie Nelle.

Sua antiga chefe.

Você conseguiu destruir mais um tesouro nacional — disse, ao se levantar para encará-lo.

Desta vez não fui eu.

Quem quebrou um mostruário com uma cadeira para pegar uma espada e um escudo?

Vejo que você estava de olho.

Os franceses querem você. — Ela deixou claro.

O que significa que estou te devendo... — deteve-se. — Não. Provavelmente estou devendo ao presidente Daniels. Correto?

Ele interveio pessoalmente ao ouvir meu relato sobre o caos que tinha se instaurado.

E quanto ao guarda do museu que foi atingido...?

—A caminho do hospital. Deve sobreviver.

O cara lá fora. Serviço Secreto?

Assentiu.

Emprestado.

Conhecia Stephanie havia muito tempo, visto que trabalhara para ela por 12 anos no Departamento de Justiça, no Magellan Billet. Tinham passado por muita coisa juntos, principalmente nos dois anos mais recentes, desde sua suposta aposentadoria.

Lamento pelo seu pai — disse ela.

Não pensara nas duas semanas anteriores por algumas horas.

Obrigado pelo que você fez.

Precisava ser feito.

Por que está aqui?

Sam Collins. Fiquei sabendo que se conheceram.

Sentou-se num dos bancos, prestando atenção nas tapeçarias. Cada uma com sua ilhota azul-escura, arredondada, coberta de plan­tas floridas em cores vibrantes, variando do vermelho escuro ao rosa- shocking. Uma dama da nobreza, juntamente com um leão e um unicórnio, figurava em todas as seis, em cenas diferentes. Conhecia a alegoria — representações dos cinco sentidos, encantamento mítico. Mensagens sutis e antigas, das quais tivera mais do que uma quota ultimamente.

Sam está encrencado?

Sim. Desde o momento em que se ligou a Thorvaldsen.

Stephanie contou-lhe sobre uma reunião com Danny Daniels no dia anterior, no Salão Oval, onde o presidente dos Estados Unidos dei­xara claro que algo importante estava acontecendo em Copenhague.

Daniels sabia a respeito de Sam. Tinha sido informado pelo Ser­viço Secreto.

Parece uma questão um tanto trivial para despertar a preocupa­ção do presidente.

Em nenhum momento lhe disseram que Thorvaldsen estava envolvido.

Bem observado.

Cotton, esse tal Clube de Paris é real. Nosso pessoal está de olho nele há mais de um ano. Nada de alarmante, até recentemente. Mas preciso saber quais são os planos de Thorvaldsen.

Então isso tudo tem a ver com Sam ou Henrik?

Com ambos.

Como foi que passamos do Clube de Paris ao Henrik?

Como se eu fosse idiota! Você está sentado aí, com o aspirador ligado, sugando toda e qualquer informação que eu estiver disposta a oferecer. Não é por isso que estou aqui. Preciso saber o que aquele dinamarquês maluco está fazendo.

Sabia que Thorvaldsen e Stephanie desfrutavam de um relacionamento de desconfiança mútua, embora tivessem sido forçados, em mais de uma ocasião ultimamente, a confiar um no outro. Decidiu, já que não tinha um cavalo no páreo, que ao menos uma vez diria a ver­dade, para ajudar o amigo.

Ele está atrás do assassino de Cai.

Stephanie balançou a cabeça.

Sabia que seria algo assim. Ele está prestes a atrapalhar toda uma operação do serviço de inteligência, além de comprometer uma fonte crucial.

Instantaneamente, mais peças se juntaram. O rosto dele contraiu-se em especulação.

Ashby trabalha para o nosso lado?

Ela assentiu.

Ele tem fornecido várias informações vitais.

Uma onda de desconforto abateu-se sobre ele.

Henrik ira matá-lo.

Você tem que detê-lo.

Impossível.

Cotton, há mais coisas acontecendo aqui. O Clube de Paris está planejando algo espetacular. Mas ainda não sabemos o quê. Pelo menos, por enquanto. Uma mulher chamada Eliza Larocque encabeça o grupo. É o cérebro de tudo. Ashby ajuda na administração. Faz o que ela manda, mas tem nos mantido informados. O clube contém sete das ressoas mais ricas do mundo. Claro que não temos certeza de que to­dos os membros sabem dos planos de Eliza.

Por que não lhes contar?

Porque a decisão foi a de derrubá-los simultaneamente. Estão envolvidos em corrupção, suborno e em inúmeros casos de fraudes financeiras e de segurança. Desestabilizaram o sistema de câmbio e po­dem ser os responsáveis pelo enfraquecimento internacional do dólar. Nosso recado será dado quando pegarmos todos de uma vez.

Sabia como as coisas funcionavam.

Eles são derrotados, e Ashby sai ileso.

É o preço a ser pago. Se não fosse ele, não ficaríamos sabendo de nada disso.

Dirigiu novamente o foco de sua atenção para uma das tapeçarias. Uma jovem, rodeada por um leão e um unicórnio, escolhia um doce de um prato, enquanto um periquito segurava outro em suas garras.

Você tem idéia do tamanho dessa confusão? — perguntou ele.

Agora tenho. Nosso pessoal descobriu que Thorvaldsen tem vi­giado Ashby. Chegou até a colocar escutas em sua propriedade. Isso provavelmente só é possível porque Ashby tem se descuidado. Ele pensa que tudo caminha bem conosco e Eliza Larocque. Nem sequer desconfia de que Thorvaldsen o esteja vigiando. Mas o presidente quer que Thorvaldsen saia de cena.

Henrik matou dois homens ontem à noite. Um deles estava envolvido na morte de Cai.

Nesse caso, não posso culpá-lo. Nem pretendo interferir, con­tanto que Ashby não seja prejudicado.

Malone queria saber:

O que o Clube de Paris está tramando?

—Justamente, Ashby não nos disse ainda. Apenas que algo vai acontecer, e logo. Dentro de alguns dias. Presumo que seja uma manei­ra de garantir a continuidade do nosso interesse por ele.

Então, quem são os dois homens mortos lá fora?

Trabalham para Eliza Larocque. Eles se assustaram com a outra mulher, a de avental azul, e exageraram.

Como os franceses são loucos!

Isso não é bom.

A culpa não é minha.

Este museu esteve sob a vigilância do Serviço Secreto por mais de um mês — hesitou. — Sem problemas.

Foi a moça de avental azul quem começou tudo.

Fiquei sabendo, durante o vôo até aqui, que Eliza Larocque tem investigado o site greedwatch. Acho que é por isso que aqueles dois estavam seguindo o seu homem, Foddrell.

Onde está o Sam?

Foi levado. Vi tudo acontecer pelas câmeras de segurança.

Polícia?

Balançou a cabeça.

Pela garota de avental azul.

Você acha que deveria tê-lo ajudado?

Não é um problema.

Conhecia bem Stephanie. Trabalharam juntos por muito tempo. Fora um dos 12 agentes-advogados originalmente no Magellan Billet contratados pessoalmente por ela. Portanto, não teve problemas em fa­zer mais uma pergunta.

Você sabe tudo a respeito dela, não sabe?

Não exatamente. Não tinha a menor noção do que ela iria fazer, mas estou para lá de contente que o tenha feito.

 

Collins fora levado do andar superior do museu, descendo rela mesma escada em que subira, até o térreo. Chegando lá, desceram por mais degraus até o frigidarium fechado, onde Foddrell os aguarda­va. Juntos, os três passaram por tuna arcada de pedra, cujo portão de ferro foi aberto a chave pela mulher.

A arma o estava deixando um tanto inquieto. Nunca tivera uma apontada em sua direção, assim tão próxima, tão diretamente — a ameaça nunca fora tão imediata. Ainda assim, não sentia que estava em perigo. Pelo contrário — era possível que estivesse no caminho certo.

Decidiu segui-lo. Queria ser um agente de campo. "Portanto", dis­se a si mesmo, seja um. "Improvise. É o que Cotton faria."

Foddrell trancou novamente o portão atrás deles.

À sua volta, paredes incrustadas de pedra e tijolos erguiam-se a cerca de 15 metros. A luz escoava através de janelas no alto, próximas ao teto abobadado, e o ambiente era frio, semelhante na aparência e atmosfera a tuna masmorra. Andaimes apoiados contra uma parede inacabada indicavam que o local passava por algum tipo de reforma.

Você pode ir ou ficar — disse-lhe a mulher. — Mas preciso mui­to que fique.

Quem é você?

Meagan Morrison. O site greedwatch é meu.

Não é dele? — perguntou, apontando para Foddrell.

Ele balançou a cabeça.

Todo meu.

O que ele está fazendo aqui?

Ela parecia estar decidindo o que — e quanto — falar.

Queria que visse que não sou louca. Que há gente atrás de mim. Há semanas que estão me observando. Michael trabalha comigo no site. Inventei o nome Foddrell e o usei como isca.

Então você nos atraiu, eu e Malone, até aqui? — perguntou ao homem a quem ela chamara de Michael.

Na verdade, foi muito fácil.

Sim, foi.

Trabalho aqui no museu — disse ela. — Fiquei contente quan­do você me mandou o e-mail e disse que queria marcar um encontro. Os dois caras baleados seguiram Michael por duas semanas. Se tivesse dito isso a você, não acreditaria em mim. Então, resolvi lhe mostrar. Há outros homens que vêm aqui, quase todos os dias, me vigiar, mas acham que não percebo.

Conheço pessoas que podem ajudá-la.

Os olhos dela brilharam de raiva.

Não quero "pessoas". Na verdade, é provável que essas outras pessoas pertençam ao seu lado. FBI. Serviço Secreto. Quem sabe? Quero negociar com você — fez uma pausa. — Você e eu — a raiva havia de­saparecido da voz dela — vemos as coisas de forma parecida.

A gravidade do tom, mais a mágoa estampada no rosto atraente, o paralisou. Mas tinha de dizer:

Pessoas foram baleadas aqui. Um dos guardas ficou seriamente ferido.

Odeio isso, não fui eu quem começou tudo.

Na verdade, foi sim. Ao gritar com aqueles caras.

Era uma mulher pequena, de seios fartos, cintura fina, mal-humorada. Seus ardentes olhos azuis faiscavam com um prazer quase demoníaco: autoritário e confiante. Era ele quem estava tenso, que tinha as palmas das mão úmidas e que tentava desesperadamente esconder a ansiedade. Portanto, assumiu uma postura descontraída e pesou suas opções.

Sam — disse, com a voz mais suave. — Preciso conversar com você. Em particular. Aqueles caras estavam atrás de Michael. Não de mim. Conseguimos evitar os outros, os americanos que me vigiam, ao sairmos de lá.

Foram eles que atiraram nos outros dois?

Ela deu de ombros.

Quem mais?

Quero saber quem enviou aqueles dois que seguimos até aqui. Para quem trabalham?

Retribuiu o olhar dele com uma expressão explícita de coragem. Ee sentiu que estava sendo avaliado. Parte dele sentia repulsa; a outra esperava que ela ao menos estivesse um pouco impressionada.

—Venha comigo e lhe mostrarei.

 

Malone escutou as explicações de Stephanie a respeito do greedwatch.

— A mulher que começou isso tudo é quem está por trás do site. Meagan Morrison. É americana, estudou economia aqui, na Sorbonne. Ela armou para você ao mandar o outro rapaz. Foddrell. É um pseudônimo que Meagan usa para operar o site.

Ele balançou a cabeça.

Enganado por um idiota que come rins no almoço. É a história da minha vida...

Ela deu uma risadinha.

Fico feliz que você tenha caldo. Isso nos ajudou a ligar as informações. Daniels me disse que Sam está em contato com o greedwatch já faz um ano. Disseram-lhe para parar, mas não lhes deu ouvidos. O Serviço Secreto, por meio do escritório de Paris, tem monitorado a pá­gina e a própria Meagan nos últimos meses. É do tipo furtiva. O cara que o trouxe aqui passa por operador oficial do site. De acordo com o Serviço Secreto, nas últimas duas semanas, tem sido vigiado, separa­damente, por Eliza.

O que não explica o porquê de você estar aqui e saber de tudo isso.

—Achamos que o site está a par de informações confidenciais e, aparentemente, Eliza pensa o mesmo.

Você não veio até aqui só para me contar sobre o site. O que está realmente acontecendo?

Peter Lyon.

Ele sabia a respeito do sul-africano. Um dos homens mais procu­rados no mundo. Interessado em armas ilícitas, assassinatos políticos, terrorismo — de acordo com a vontade do freguês. Anunciava a si pró­prio como um "agente do caos". Na época da aposentadoria de Malone, dois anos antes, pelo menos uma dúzia de atentados a bomba e centenas de mortes foram ligadas a Lyon.

Ele ainda está na ativa?

Mais do que nunca. Ashby tem se encontrado com ele. Está envolvido, de algum modo, nos planos de Eliza. Homens como ele não vêm à tona com freqüência. Esta pode ser a nossa melhor chance de capturá-lo.

E o fato de Ashby estar retendo informações sobre essa possível oportunidade não é um problema?

Eu sei. Não estava no comando desta operação. Jamais teria permitido que assumisse o controle.

É óbvio que ele está jogando dos dois lados em benefício pró­prio. Está mais do que claro que não dá mais para vocês permitirem que ele continue escondendo o jogo.

Ele não vai. Não mais. Essa passou a ser uma operação Billet. E, como há 12 anos, estou à frente. Portanto, quero que pressionem o filho da puta.

Antes ou depois de Henrik matá-lo?

De preferência, antes. Ashby se encontrou com Lyon em Westminster há poucas horas. Conseguimos captar a conversa com escutas.

Vejo que alguém foi capaz de pensar. E quanto a Lyon?

Eles o deixaram em paz. Concordamos em não segui-lo. Se ela desconfiar de alguma coisa, vai acabar se escondendo. Neste exato mo­mento, sente-se confortável ao lidar com Ashby.

A petulância de Lyon o fez sorrir.

Bom saber que todo mundo pode se atrapalhar.

Ashby deu algumas explicações a Lyon e eles falaram em dois dias de prazo, mas não mais do que isso. Tenho uma gravação da con­versa — fez uma pausa. — Agora, onde está o dinamarquês jovial? Preciso falar com ele.

Foi visitar Eliza Larocque.

Sabia que a revelação atrairia a atenção dela.

Por favor, diga-me que Thorvaldsen não vai assustá-la também!

Percebeu um vislumbre de raiva nos olhos dela. Stephanie gostava de comandar as operações a seu modo.

Ele vai conseguir se vingar. — Ele deixou claro.

Não enquanto eu estiver aqui. Ashby é tudo o que temos agora para descobrir o que Lyon vai fazer.

Não necessariamente. A esta altura, Henrik já deve estar com um pé no Clube de Paris. Ele pode ser útil.

Permaneceram sentados em silêncio, enquanto Stephanie pensava sobre a situação.

Meagan Morrison — disse — levou Sam sob a mira de uma arma. Assisti pelo circuito interno de TV do museu. Permiti que isso acontecesse por uma razão.

O garoto não opera em campo.

Mas recebeu treinamento do Serviço Secreto. Espero que aja de acordo.

Qual é a história dele?

Ela balançou a cabeça.

Você é tão incorrigível quanto Thorvaldsen. Ele é um rapaz crescido. Sabe se cuidar.

Isso não responde à minha pergunta.

Mais uma história triste e melancólica. Abandonado quando criança, criado num orfanato.

Não foi adotado?

Deu de ombros.

Não sei o porquê.

Onde?

Nova Zelândia, entre tantos lugares. Foi para os Estados Unidos aos 18 anos com um visto de estudante e conseguiu cidadania america­na. Frequentou a Universidade de Columbia, formou-se como um dos três melhores da classe. Trabalhou duro como contador por três anos e então abriu caminho até o Serviço Secreto. No final das contas, um bom menino.

Exceto pelo fato de que ele não dá ouvidos aos seus superiores.

Caramba, nós dois nos encaixamos nessa categoria.

Ele sorriu.

Imagino que Meagan Morrison seja inofensiva.

Mais ou menos. O problema é Thorvaldsen. Collins deixou Washington há cerca de duas semanas, logo após ser interrogado nova­mente a respeito do site. O Serviço Secreto imediatamente o localizou em Copenhague. Decidiram deixá-lo em paz, mas quando descobriram que Thorvaldsen observava Ashby de perto, recorreram ao presidente. Foi quando Daniels me arrastou para isso. Achou que algo substancial estava acontecendo e estava certo. Decidiu, ao levar em consideração minha relação pessoal com Thorvaldsen, que eu era a melhor pessoa para lidar com a situação.

Sorriu diante do sarcasmo dela.

Eliza sabe que Meagan é inofensiva?

A tensão que surgiu do silêncio dela carregou o ambiente.

Finalmente disse:

Não sei.

Ela não enviou aqueles homens para se divertir. É melhor descobrirmos. Pode se tornar um problema para Meagan e Sam, se levar­mos em conta o que acabou de acontecer aqui.

Eu cuido de Sam. Preciso que você se concentre em Ashby.

Como foi que me meti nessa confusão?

Você é que tem que me dizer.

Mas ambos sabiam a resposta, portanto ele simplesmente perguntou:

O que você quer que eu faça?

Permaneceram sentados em silêncio, enquanto Stephanie pensava sobre a situação.

Meagan Morrison — disse — levou Sam sob a mira de uma arma. Assisti pelo circuito interno de TV do museu. Permiti que isso acontecesse por uma razão.

O garoto não opera em campo.

Mas recebeu treinamento do Serviço Secreto. Espero que aja de acordo.

Qual é a história dele?

Ela balançou a cabeça.

Você é tão incorrigível quanto Thorvaldsen. Ele é um rapaz crescido. Sabe se cuidar.

Isso não responde à minha pergunta.

Mais uma história triste e melancólica. Abandonado quando criança, criado num orfanato.

Não foi adotado?

Deu de ombros.

Não sei o porquê.

Onde?

Nova Zelândia, entre tantos lugares. Foi para os Estados Unidos aos 18 anos com um visto de estudante e conseguiu cidadania america­na. Frequentou a Universidade de Columbia, formou-se como um dos três melhores da classe. Trabalhou duro como contador por três anos e então abriu caminho até o Serviço Secreto. No final das contas, um bom menino.

Exceto pelo fato de que ele não dá ouvidos aos seus superiores.

Caramba, nós dois nos encaixamos nessa categoria.

Ele sorriu.

Imagino que Meagan Morrison seja inofensiva.

Mais ou menos. O problema é Thorvaldsen. Collins deixou Washington há cerca de duas semanas, logo após ser interrogado nova­mente a respeito do site. O Serviço Secreto imediatamente o localizou em Copenhague. Decidiram deixá-lo em paz, mas quando descobriram que Thorvaldsen observava Ashby de perto, recorreram ao presidente. Foi quando Daniels me arrastou para isso. Achou que algo substancial estava acontecendo e estava certo. Decidiu, ao levar em consideração minha relação pessoal com Thorvaldsen, que eu era a melhor pessoa para lidar com a situação.

Sorriu diante do sarcasmo dela.

Eliza sabe que Meagan é inofensiva?

A tensão que surgiu do silêncio dela carregou o ambiente.

Finalmente disse:

Não sei.

Ela não enviou aqueles homens para se divertir. É melhor descobrirmos. Pode se tornar um problema para Meagan e Sam, se levar­mos em conta o que acabou de acontecer aqui.

Eu cuido de Sam. Preciso que você se concentre em Ashby.

Como foi que me meti nessa confusão?

Você é que tem que me dizer.

Mas ambos sabiam a resposta, portanto ele simplesmente perguntou:

O que você quer que eu faça?

 

                   17H15

Thorvaldsen foi deixado no hotel Ritz pelo carro particular que o havia levado do norte, do Vale do Loire, até o centro de Paris. No caminho, fizera alguns telefonemas, planejando o próximo passo.

Deixou para trás o frio do final da tarde e entrou no famoso sa­guão do hotel, adornado por antigüidades dignas de um museu. Ti­nha um apreço especial pela história contada por Hemingway sobre a libertação do Ritz, em 1944. Armados com metralhadoras, o escri­tor americano e um grupo de soldados aliados invadiram o hotel, revistando todos os cantos. Após descobrirem que todos os nazistas haviam partido, retiraram-se para o bar e pediram uma rodada de martínis. Para homenageá-lo, a administração do hotel batizou o lugar de Bar Hemingway, no qual Thorvaldsen agora entrava e cujo aconchego das paredes revestidas de madeira e das poltronas de cou­ro juntava-se à atmosfera que exalava os perfumes de outra era. Fotografias tiradas pelo próprio Hemingway, que decoravam os painéis, e a música suave de um piano proporcionavam a medida certa de privacidade.

Viu o homem que procurava numa das mesas, para onde se dirigiu e sentou-se.

Dr. Joseph Murad, um renomado especialista em era napoleônica, lecionava na Sorbonne. Desde que soubera do veemente interesse de Ashby, há um ano, Thorvaldsen vinha pagando pelos serviços de Murad.

—Uísque puro?—perguntou em francês, ao olhar o copo de Murad.

Queria saber qual era o gosto de uma bebida de 22 euros.

Ele sorriu.

Além do mais, você é quem está pagando.

De fato, estou.

Seus investigadores na Grã-Bretanha haviam telefonado enquanto estava no carro e lhe dito o que descobriram por meio das escutas colo­cadas no escritório de Caroline Dodd. Já que o significado das informa­ções não estava claro para ele, Thorvaldsen imediatamente as passara a Murad por telefone. O estudioso tinha retornado a ligação uma hora depois e sugerira um encontro.

O último testamento de Napoleão definitivamente menciona aquele livro — afirmou Murad. — Sempre considerei isso uma referên­cia estranha. Napoleão tinha cerca de 16 mil livros com ele em Santa Helena. Ainda assim, deu-se ao trabalho de deixar quatrocentos deles para Saint-Denis e fazer uma menção específica ao Os reinos merovíngios áe 450 a 751 d.C. O que prova a máxima do "o que está faltando?".

Esperou que o acadêmico explicasse.

Há uma teoria em arqueologia. "O que está faltando aponta para o que é importante." Por exemplo, se três estátuas possuem ba­ses quadradas e uma quarta é redonda, normalmente a quarta é que é a importante. Essa máxima provou ser verdadeira inúmeras vezes, especialmente nos estudos sobre objetos de natureza cerimonial ou re­ligiosa. Essa referência que consta no testamento, a um livro específico, pode ser igualmente significativa.

Escutou Murad elucidá-lo a respeito dos merovíngios.

Seus líderes, a começar por Meroveu — cujo nome deu origem à denominação desse povo —, primeiro unificaram os francos, depois moveram-se impetuosamente em direção ao leste e conquistaram seus primos germânicos. Clóvis, no século V, eliminou os romanos, reivindicou a Aquitânia e conduziu os visigodos até a Espanha. Ele também se converteu ao cristianismo e declarou uma pequena cida­de às margens do Sena, Paris, a sua capital. As regiões no interior e ao redor de Paris, estrategicamente posicionadas, defensáveis e férteis, vieram a se chamar França. Os merovíngios em si eram um povo estranho: tinham costumes peculiares, usavam barbas e cabe­los compridos e enterravam seus mortos juntamente com abelhas douradas. A família governante evoluiu para uma dinastia, mas de­pois entrou em declínio com uma rapidez surpreendente. Por volta do século VII, os verdadeiros detentores do poder no mundo merovíngio eram os administradores da corte, os "prefeitos do palácio" — os carolíngios, que por fim assumiram o controle e erradicaram os merovíngios.

Muita fábula, pouca história — disse Murad. — Essa é a história dos merovíngios. Napoleão, no entanto, era fascinado por eles. É de onde vêm as abelhas douradas do seu manto de coroação. Os mero­víngios também acreditavam fortemente em pilhagens. Roubavam à vontade de terras conquistadas e o rei era o responsável pela distribui­ção da riqueza entre seus seguidores. Como líder, esperava-se dele que se sustentasse completamente com os frutos de suas conquistas. Esse conceito de autossuficiência real durou do século V ao XV. Napoleão o ressuscitou no século XIX.

Se considerarmos o tesouro procurado por Ashby, você acha que o livro merovíngio é uma pista?

Não podemos saber até vê-lo.

Ele ainda existe?

Caroline Dodd não contara a Ashby a respeito do local quando atavam no escritório. Em vez disso, provocara-o com a informação, fa­zendo-o esperar até depois que fizessem amor. Infelizmente, os investi­gadores de Thorvaldsen não tinham sido bem-sucedidos em grampear o quarto de Ashby.

Murad sorriu.

O livro existe. Verifiquei há algum tempo. Está em exposição no Palácio dos Inválidos, onde Napoleão está enterrado. Como parte do que Saint-Denis deixou para a cidade de Sens em 1856. Os livros acabaram sendo doados por Sens ao governo francês. A maior parte dos volumes foi queimada no incêndio do Palácio das Tulherias, em 1871. O restante foi parar o Palácio dos Inválidos após a Segunda Guerra Mundial. Felizmente, esse livro sobreviveu.

Podemos dar uma olhada?

Não sem respondermos a uma quantidade enorme de pergun­tas que, tenho certeza, você não irá querer responder. Os franceses são obsessivos quanto à proteção de seus tesouros nacionais. Perguntei a um colega, que me disse que o livro está exposto no Palácio dos Inváli­dos. Mas aquela ala está fechada para obras.

Entendia que havia obstáculos — câmeras, portões, seguranças. Mas sabia que Ashby queria o livro.

Preciso que você esteja disponível — disse a Murad.

O professou bebericou o uísque.

Isso tudo está caminhando para algo verdadeiramente extraordinário. Napoleão com certeza queria que o filho tomasse posse do seu tesouro particular. Angariou cuidadosamente toda aquela riqueza, à mesma maneira dos reis merovíngios. Mas então, mais ao estilo de um déspota dos tempos modernos do que do modo dos merovíngios, escondeu-o num lugar conhecido apenas por ele.

Thorvaldsen conseguia compreender o porquê de tal tesouro se­duzir as pessoas.

Após Napoleão estar devidamente aprisionado em Santa He­lena, os jornais ingleses alegaram que ele tinha uma vasta fortuna guardada — Murad sorriu. — Napoleão, sendo quem era, retaliou do exílio com uma lista do que chamava de "o verdadeiro tesou­ro" do seu reino. O Louvre, os greniers publics, o Banco da França, o fornecimento de água em Paris, os esgotos citadinos e as múltiplas melhorias proporcionadas por ele. Era audacioso, não posso lhe tirar o mérito.

Audacioso ele era.

Consegue imaginar o que possa estar naquele depósito perdi­do? — indagou Murad. — Há milhares de objetos de arte saqueados por Napoleão nunca mais vistos. Isso sem mencionar a pilhagem de tesouros públicos e fortunas pessoais. A quantidade de ouro e prata pode ser imensa. Ele levou o segredo da localização do tesouro para o túmulo mas confiou quatrocentos livros, incluindo o que recebeu a menção específica, ao seu servo mais leal, Louis Etienne Saint-Denis, embora seja pouco provável que Saint-Denis tivesse qualquer conhecimento da sua significância. Estava fazendo apenas o que seu impe­rador queria. Com a morte do filho de Napoleão, em 1832, os livros perderam o significado.

Não para Pozzo di Borgo — declarou Thorvaldsen.

Murad tinha lhe ensinado tudo sobre o estimado antepassado de Eliza e de sua vendetta contra Napoleão, que durara uma vida inteira.

Mas ele nunca solucionou o enigma — disse Murad.

Não, di Borgo não o solucionara. Mas uma herdeira distante estava se esforçando ao máximo para superar esse fracasso.

E Ashby estava vindo para Paris.

Portanto Thorvaldsen sabia o que tinha de ser feito.

Conseguirei o livro.

 

Collins acompanhou Meagan para fora de uma entrada lateral do Cluny, que se abria num caminho de cascalho ladeado por árvores. O muro, encimado por uma grade de ferro forjado que cir­cundava o museu, era interrompido pela via de acesso para a calçada, por onde ele e Malone haviam se aproximado num primeiro momento. Atravessaram a rua, encontraram uma estação do metrô, e então segui­ram pegando trens até a Praça da República.

Este é o Marais — disse-lhe Meagan, ao saírem novamente para o frio. Ela tirara o avental azul e vestia agora um casaco de sarja forra­do, jeans e botas. — Costumava ser um pântano, mas tornou-se uma área altamente valorizada do século XV ao XVIII, para depois ficar abandonado. Está fazendo um retorno triunfal.

Seguiu-a até uma movimentada vista de elegantes casas alinhadas, de comprimento maior do que sua largura. Tijolos cor-de-rosa, pedra branca, ardósia acinzentada e balaustradas pretas de ferro dominavam. Sutiques modernas, perfumarias, casas de chá e galerias de arte des­lumbrantes pulsavam com a energia do feriado.

Muitas das mansões estão sendo restauradas — informou-lhe. — Este lugar está se tornando novamente "O" lugar onde morar.

Ele estava tentando chegar a uma conclusão sobre aquela mulher. Parte dela estava pronta a correr quaisquer riscos para demonstrar seu ponto de vista, mas tinha mantido a cabeça fria no museu.

Mais do que ele.

O que o incomodava.

O quartel-general dos templários em Paris já foi aqui. O próprio Rousseau considerava algumas dessas casas santuários. Victor Hugo morava nas proximidades. Aqui é onde Luís XVI e Maria Antonieta ficaram presos.

Ele parou.

Por que estamos aqui?

Ela parou também e o alto da sua cabeça batia no pomo-de-adão dele.

—Você é um cara esperto, Sam. Percebi pelo seu site e seus e-mails. Tenho contato com várias pessoas que pensam como nós, e a maioria é doida varrida, mas você não.

E quanto a você?

Ela sorriu.

Isso é você quem decide.

Sabia que a arma ainda estava na parte inferior das costas, debaixo do casaco, onde ela a enfiara antes de deixarem o museu. Perguntava-se o que aconteceria caso decidisse ir embora naquele exato momento. Ela havia atirado nos dois homens no museu com uma habilidade de quem tinha prática.

Vá na frente — disse ele.

Viraram outra esquina e passaram por edifícios de entradas ao ní­vel da calçada. Não havia tantas pessoas como antes e tudo estava mais tranqüilo. O trânsito encontrava-se bem além do aglomerado de ruas apinhadas de edifícios.

Nós diríamos "velhos como as montanhas" — observou. — Os parisienses dizem "velhos como as ruas".

Ele já havia reparado em como os nomes das ruas estavam dispos­tos em placas azuis esmaltadas nas esquinas dos edifícios.

Todos os nomes têm um significado — disse. — Homenageiam alguém ou algo específico; dizem aonde levam as ruas; identificam seu morador mais proeminente; ou o que acontece ali. Tem sempre uma referência.

Pararam diante de uma esquina. Uma placa azul e branca, esmal­tada, dizia Rue L'araingnée.

Rua da Aranha — traduziu ele.

Então você fala francês!

Dá para quebrar o galho.

Um olhar de triunfo estampou o rosto dela.

Tenho certeza de que dá. Mas você está diante de algo sobre o que sabe muito pouco.

Ela apontou para a via estreita.

Veja a quarta casa.

Ele viu. Fachada de tijolos vermelhos com janelas envernizadas de preto, com divisórias de pedra, em diagonal, balaustradas de ferro. Uma ampla arcada, coroada por um frontão esculpido, com um portão de grades douradas.

Construída em 1395 — disse. — Reerguida em 1660. Povoada por um bando de advogados em 1777. Era a fachada para a lavagem de dinheiro francês e espanhol destinado aos revolucionários americanos. Esses mesmos advogados também vendiam armas para o exército con­tinental, para cobrir as despesas com a futura entrega de tabaco e ar­tigos provenientes das colônias. No entanto, os americanos vitoriosos davam o calote na ocasião da entrega. Não somos um povo grandioso?

Não respondeu à pergunta, pressentindo que ela estava prestes a mencionar algo relevante.

Os advogados processaram a nova nação e foram pagos, final­mente, em 1835. Filhos da mãe determinados, não é mesmo?

Permaneceu em silêncio.

No século XIII agiotas lombardos instalaram-se nas redonde­zas. Um bando voraz que fazia empréstimos a juros ultrajantes e que exigia pagamentos altíssimos em retorno.

Apontou para a quarta casa e levantou um dos olhos na direção dele.

—Aqui é onde o Clube de Paris se reúne.

 

                   18h10

Malone bateu de leve na porta apainelada. Deixou o museu, pegou um táxi e cruzou a cidade até o Ritz. Esperava que Thorvaldsen estivesse de volta do Vale do Loire e ficou aliviado quando o amigo atendeu à porta.

Você estava metido no que aconteceu no Cluny? — perguntou-lhe Thorvaldsen quando entrou na suíte. — Passou na televisão.

Sim, era eu. Consegui sair antes que me pegassem.

Onde está o Sam?

Recapitulou tudo o que havia acontecido, incluindo o rapto de Collins, desenrolando os fatos ao mesmo tempo que explicava sobre Jimmy Foddrell ser Meagan Morrison, mas omitindo quaisquer referências à aparição de Stephanie. Decidira manter segredo. Se tinha al­guma chance de deter Thorvaldsen — ou de ao menos retardar seus planos —, não poderia mencionar o envolvimento de Washington.

Interessante como o jogo havia virado. Normalmente era Thorval­dsen quem retinha informações, atraindo Malone cada vez mais.

Sam está bem?

Resolveu mentir.

—Não sei. Mas não há muito que possa fazer a respeito no momento.

Malone escutou o relato da visita de Thorvaldsen a Eliza, cujo desfecho foi:

É uma vaca desprezível. Tive de me sentar ali, educadamente, pensando em Cai o tempo todo.

Ela não o matou.

Não a eximo tão facilmente da responsabilidade. Ashby trabalha com ela. Há uma proximidade, e isso me basta.

Seu amigo estava cansado, a fadiga era evidente em seus olhos esgotados.

Cotton, Ashby está atrás de um livro.

Thorvaldsen contou sobre o testamento de Napoleão e de Os reinos merovíngios de 451 a 751 d.C., um volume que supostamente estava em exposição no Palácio dos Inválidos.

Preciso consegui-lo primeiro — disse Thorvaldsen.

Idéias vagas passaram por sua mente. Stephanie queria deter Thorvaldsen. Para fazê-lo, Malone teria de assumir o controle da situa­rão, mas era uma tarefa difícil, levando em conta quem a conduzia no momento.

Quer que o roube?

Não vai ser fácil. O Palácio dos Inválidos já foi depósito nacional de armas, uma fortaleza.

Isso não responde à minha pergunta.

Quero.

Conseguirei o livro. E depois, o que você vai fazer? Encontrar o tesouro perdido? Humilhar Ashby? Matá-lo? Sentir-se melhor?

Todas as alternativas.

Quando levaram o meu filho no ano passado, você me deu apoio. Precisei da sua ajuda, e você correspondeu. Estou aqui, agora. Mas temos de usar a cabeça. Não se mata um homem assim.

Uma expressão de profunda simpatia surgiu no rosto do homem mais velho.

Matei na noite passada,

E isso não o incomoda?

Nem um pouco. Cabral matou meu filho. Merecia morrer. Ashby é tão responsável quanto Cabral. E, não que seja importante, mas é possível que não tenha que assassiná-lo. Eliza pode fazê-lo por mim.

E isso torna tudo mais fácil?

Stephanie havia lhe contado que Ashby estava a caminho de Paris e que tinha garantido à americana que lidaria com ele e que, no dia seguinte, forneceria todos os detalhes do que estava prestes a acontecer. Malone desprezava o britânico pelo que havia feito com Thorvaldsen, mas compreendia o valor das informações que ele podia oferecer, as­sim como a importância de derrotar alguém como Peter Lyon.

Henrik, você tem que deixar isso comigo. Sou capaz de fazê-lo. Mas tem que ser do meu jeito.

Posso pegar o livro eu mesmo.

Então o que estou fazendo aqui?

Um sorriso teimoso formou-se nos lábios do homem mais velho.

Espero que esteja aqui para ajudar.

Malone manteve o olhar sobre Thorvaldsen.

Do meu jeito.

Quero Ashby, Cotton. Entende isso?

Entendo. Mas antes de matá-lo vamos descobrir o que está acontecendo. Foi o que você disse ontem. Mantemos as coisas assim?

Estou começando a não me importar com isso, Cotton.

Então, por que então estragar os planos de Eliza e do Clube de Paris? Mate Ashby e pronto.

O amigo ficou quieto.

E quanto ao Sam? — perguntou Thorvaldsen finalmente. — Es­tou preocupado.

— Deixe isso comigo também.

Lembrou-se do que Stephanie dissera. "Ele é um rapaz crescido. Sabe se cuidar."

 

Collins entrou num apartamento numa das áreas da cidade, que Meagan havia chamado de Montparnasse, não muito distante do Museu Cluny e do Palácio de Luxemburgo, num edifício que revelava o charme de dias longínquos. A escuridão os havia engolido ao cami­nharem da estação do metrô.

Lênin viveu aqui por um tempo, alguns quarteirões adiante — disse. — Hoje em dia é um museu, embora eu não consiga imaginar quem gostaria de visitá-lo.

Não é fã do comunismo? — perguntou ele.

Muito pouco. Em muitos casos, é pior do que o capitalismo.

O apartamento, que parecia pertencer a um estudante, era um es­túdio espaçoso no sexto andar e tinha uma quitinete e um banheiro. Gravuras sem molduras e pôsteres de viagem alegravam as paredes. Prateleiras improvisadas cediam ao peso de vários livros. Reparou num par de botas masculinas ao lado de uma cadeira e numa calça jeans forrada jogada no chão; grandes demais para serem de Meagan.

A casa não é minha — disse, percebendo o interesse dele. — É de vim amigo.

Ela retirou o casaco, soltou a arma e depositou-a casualmente so­bre uma mesa.

Viu que havia três computadores e um servidor de placa única num dos cantos.

Ela apontou.

Esse é o greedwatch. Opero a página daqui, mas deixo que to­dos pensem que é Jimmy Foddrell.

—Pessoas se feriram no museu — repetiu. — Isso não é um jogo.

Claro que é, Sam. Um jogo enorme e terrível. Mas não é meu. É deles, e não é minha culpa que pessoas tenham sido feridas.

Foi você quem começou ao gritar com os dois homens.

A realidade tinha que ser vista.

Resolveu que, em vez de discutir a respeito do óbvio, faria o que o Serviço Secreto havia lhe ensinado: iria encorajá-la a falar.

Me conte sobre o Clube de Paris.

Está curioso?

Você sabe que estou.

—Achei que estaria. Como disse, pensamos de forma semelhante.

Ele não tinha tanta certeza quanto a isso, mas permaneceu calado.

De acordo com o que sei, o clube é formado por seis pessoas. Todas indecentemente ricas. Filhos da mãe tipicamente gananciosos. Cinco bilhões em bens não são o bastante. Querem seis ou sete. Conhe­ço alguém que trabalha para um dos membros...

Ele apontou para o chão.

O mesmo cara que usa essas botas?

O sorriso dela se alargou.

Não. Outro cara.

Você é uma garota ocupada.

—Temos de ser assim se quisermos sobreviver neste mundo.

Quem é você, afinal?

Sou a garota que irá salvar você, Sam Collins.

Não preciso ser salvo.

—Acho que precisa sim. E o que veio fazer aqui? Você me disse há algum tempo que seus superiores o tinham proibido de continuar com o site e falar comigo. Ainda assim, ele está operante e você, aqui, tentando me encontrar. Esta é uma visita oficial?

Ele não podia dizer a verdade.

Você não me disse nada sobre o Clube de Paris.

Ela se sentou de lado numa das cadeiras de vinil, com as pernas dobradas sobre um dos braços e a coluna pressionada contra o outro.

Sam, Sam, Sam. Você não entende, entende? Essas pessoas têm planos. São peritos em manipulações financeiras e pretendem mes­mo fazer todas as coisas sobre as quais conversamos. Vão bagunçar economias, enganar os mercados, desvalorizar moedas. Você se lembra de como os preços do petróleo foram afetados no ano passado. Especuladores que, de forma artificial, deixaram o mercado lcuco de ganância foram os responsáveis. Essas pessoas não são diferentes.

Isso não me diz nada.

Uma batida na porta assustou ambos — a primeira vez que ele viu lima fissura na atraente aparência glacial dela. O olhar dela se fixou sobre a arma que jazia sobre a mesa.

Por que não atende? — perguntou ele.

Mais uma batida. Leve. Amigável.

Você acha que caras do mal batem na porta? — perguntou, invocando sua própria parcela de frieza. — E este lugar nem é seu, certo?

Ela lançou-lhe um olhar perspicaz.

Você aprende rápido.

Fiz faculdade.

Ela se levantou e caminhou até a porta.

Ao abri-la, uma mulher miúda, num sobretudo bege, apareceu do outro lado. Talvez de um pouco mais de 60 anos, cabelos escuros com ondas de mechas grisalhas e olhos castanhos intensos. Um cachecol Burberry enrolado no pescoço. Uma das mãos exibia um distintivo com uma foto, envolto numa capa protetora de couro.

A outra segurava uma Beretta.

Sra. Morrison — disse a mulher —, sou Stephanie Nelle. Do departamento de Justiça americano.

 

                       Vale do Loire

                     19h

Eliza percorreu a longa galeria em passos ritmados até as janelas do castelo, onde ficou à escuta do vento fustigante. Perturbada com a possibilidade de ter cometido um grande erro, repassou tudo o que tinha dito a Ashby no ano anterior.

A história registrara as pilhagens de Napoleão Bonaparte por toda a Europa, os roubos de quantidades incalculáveis de metais preciosos, jóias, antigüidades, pinturas, livros e esculturas — toda e qualquer coisa de valor. Inventários dos saques existiam, mas ninguém podia atestar sua exatidão. Pozzo di Borgo descobrira que Napoleão havia es­condido parte do espólio num lugar conhecido apenas pelo imperador. Boatos durante a época de Napoleão aludiam a um tesouro espetacu­lar, mas nada levava até ele.

Por vinte anos seu antepassado o procurou.

Deteve-se diante de uma das janelas e olhou para a escuridão lá fora. Abaixo dela, o rio Cher corria ondulante. Ela desfrutava o calor do aposento e seus odores familiares. Vestia um robe sobre as roupas de dormir, buscando conforto em ambos. Encontrar o tesouro perdido seria o seu jeito de vingar Pozzo di Borgo. De validar seu legado. De tornar sua família relevante.

Uma vendetta completa.

O clã Di Borgo tinha um reputação antiga na Córsega. Quando criança, Pozzo fora amigo próximo de Napoleão. Mas o lendário revolucionário Pasquale Paoli colocou-os um contra o outro, favorecendo os di Borgo em vez dos Bonaparte, a quem considerava ambiciosos demais para o seu gosto.

Uma disputa formal começou quando Napoleão, na época um ra­paz, tentou ser eleito como tenente-coronel entre os voluntários corsos, tendo um dos irmãos de Pozzo di Borgo como adversário. Os métodos arbitrários utilizados por Napoleão e seu partido para assegurar um resultado favorável despertaram a inimizade de di Borgo. Eles romperam relações completamente após 1792, quando os di Borgo aliaram-se àqueles que queriam a independência corsa, e os Bonaparte, à França. Pozzo di Borgo acabou nomeado chefe do governo civil da Córsega. Quando a França, sob o comando de Napoleão, ocupou a Córsega, di Borgo fugiu e, pelos 23 anos seguintes, dedicou-se habilmente à des­truição de seu inimigo declarado.

Apesar de todas as tentativas de me restringir, eliminar e silenciar, será difícil apagar-me por completo da memória do povo. Os historiadores franceses terão de aceitar o império e me conceder o que é devido.

A arrogância de Napoleão estava gravada na memória de Eliza. Estava claro que o tirano havia esquecido as centenas de vilarejos que incendiara desde a Rússia até a Polônia, a Prússia e a Itália e através das planícies e montanhas ibéricas. Milhares de prisioneiros executados, centenas de milhares de refugiados sem teto, inúmeras mulheres estupradas pelo seu Grand Armée. Sem contar os cerca de 3 milhões de soldados mortos apodrecendo por toda a Europa. Outros milhões feri­dos ou aleijados para sempre. E as instituições políticas destruídas em algumas centenas de Estados e principados. Economias despedaçadas.

Medo e pavor em todos os lugares — a França incluída. Concordava com o que o grande escritor francês Émile Zola observara no final do século XIX: Que loucura total é aquela de se acreditar que alguém possa im­pedir que a verdade histórica seja, por fim, escrita.

E a verdade sobre Napoleão?

A destruição dos Estados germânicos por Napoleão e sua reunifi­cação com a Prússia, a Baviera e a Saxônia favoreceram o nacionalismo alemão, levando à sua consolidação cem anos depois, o que estimulou a ascensão de Bismarck, Hitler e duas guerras mundiais.

Conceder-me o que é devido.

Ah, sim.

É o que ela faria.

O barulho de saltos de sapatos de couro soou sobre o chão da ga­leria. Ela virou-se e observou o mordomo caminhar em sua direção. Aguardava o telefonema e sabia quem estava do outro lado da linha.

O ajudante lhe passou o telefone e depois se retirou.

Boa-noite, Graham — disse ao aparelho.

Tenho excelentes notícias — afirmou Ashby. — Todas as pesqui­sas e investigações valeram a pena. Acho que encontrei uma conexão que poderá nos conduzir diretamente ao tesouro.

A atenção dela fora desperta.

Porém, precisarei de ajuda — disse.

Ela o escutava, cautelosa e desconfiada, mas também excitada pelo que o entusiasmo dele prometia.

Por fim, disse:

Informações sobre o Palácio dos Inválidos seriam úteis. Você tem como consegui-las?

Sua mente avaliou as possibilidades.

Tenho.

Achei que sim. Chegarei de manhã.

Absorveu mais detalhes e então disse:

Parabéns, Graham.

Pode ser o fim da busca.

E quanto à nossa apresentação de Natal? — perguntou ela.

Dentro do prazo, conforme o solicitado por você. Era exatamente o que ela queria ouvir.

Então nos vemos na segunda-feira.

Certamente. Despediram-se.

Thorvaldsen a tinha provocado com a possibilidade de Ashby ser um traidor. Mas o britânico estava fazendo tudo o que lhe havia sido mandado e fazendo-o muito bem.

Ainda assim, dúvidas embaçavam seus pensamentos. Dois dias.

Teria de lidar com elas, pelo menos até lá.

 

Collins se levantou quando Stephanie entrou no apartamento e Morrison fechou a porta. Gotas de suor frio brotaram em sua testa.

Não estamos nos Estados Unidos — disse Morrison de forma claramente passional. —Está fora da sua jurisdição.

É verdade. Mas, no momento, sou a única que pode impedir sua prisão pela polícia parisiense. Se preferir, vou embora, deixo que a levem, e então conversamos quando você estiver sob custódia.

O que foi que eu fiz?

Porte de arma, disparo de arma de fogo dentro dos limites municipais, incitação de tumulto, destruição de propriedade estatal, se­qüestro, tentativa de agressão. Esqueci alguma coisa?

Meagan balançou a cabeça.

Vocês são todos iguais. Stephanie sorriu.

Considerarei isso um elogio.

Encarou Collins:

Não preciso dizer o quanto você está encrencado. Mas entendo parte do problema. Conheço Thorvaldsen. Imagino que tenha ao menos uma parcela de responsabilidade por sua presença aqui.

Ele não conhecia aquela mulher, portanto não estava prestes a de­latar a única pessoa que o havia tratado com um certo respeito.

O que você quer?

Preciso da cooperação de ambos. Assim a Sra. Morrison não vai para a cadeia. E o Sr. Collins tem uma chance de salvar sua carreira.

Collins não gostou da atitude condescendente.

E se eu não quiser uma carreira?

Ela lançou-lhe um olhar que ele vira antes em seus superiores — pessoas que impunham regras insignificantes e obstáculos baseados na tradição para dificultar o avanço do próximo.

Pensei que quisesse trabalhar em campo. Foi o que o Serviço Secreto me disse. Estou apenas lhe oferecendo a chance.

O que quer que eu faça?

Isso vai depender da Sra. Morrison. — A mulher mais velha di­rigiu o olhar a Meagan. — Acredite ou não, estou aqui para ajudar. Então me diga, além de divulgar teorias mundiais de conspiração no seu site, verdadeiras ou não, a altos brados, que provas tangíveis você possui que possam ser do meu interesse?

Quanta arrogância, não?

Você não tem idéia.

Meagan sorriu.

Você parece a minha mãe. Era durona também.

Isso quer dizer que sou velha. Não está sendo muito gentil comigo.

É você quem ainda está segurando uma arma.

Stephanie caminhou ao redor deles e aproximou-se da mesa da cozinha, sobre a qual estava a arma de Meagan. Ergueu-a.

Dois homens morreram no Cluny. Outro está no hospital.

E o guarda? — indagou Collins. Stephanie assentiu.

Vai sobreviver. Ficou contente ao ouvir aquilo.

E você, Sra. Morrison? Feliz também com a notícia?

O problema não é meu — disse Meagan.

Você o começou.

Não. Eu o expus.

Você tem alguma idéia sobre para quem os homens mortos trabalhavam?

Morrison assentiu.

Para o Clube de Paris.

Não exatamente. Na verdade, Eliza os contratou para seguir a sua isca.

Você está um pouco atrasada.

Pois então me diga algo que não sei.

Certo, dona espertona. Que tal eu sei o que vai acontecer dentro de dois dias?

 

Thorvaldsen estava sentado sozinho em sua suíte no Ritz, coma cabeça apoiada nas costas de uma cadeira. Malone tinha ido embora após lhe garantir que pegaria o livro no Palácio dos Inválidos no dia seguinte. Confiava no amigo, mais até do que em si mesmo, naquele momento.

Bebia um conhaque, tomando pequenos goles de um copo de cris­tal, tentando acalmar os nervos. Felizmente, todos os espíritos brincalhões que tumultuavam seu íntimo haviam se retirado para dormir. Já havia participado de várias disputas, mas essa era diferente — ia além do pessoal, de teor obsessivo—e isso o assustava. O contato com Ashby poderia acontecer já no dia seguinte, e ele sabia que seria um momento difícil. Teria de se mostrar cordial, demonstrando estar à sua inteira dis­posição, e apertar a mão do homem que havia assassinado o seu filho. Absolutamente nada poderia ser revelado até o momento certo.

Tomou mais um gole.

O enterro de Cai lhe veio à mente.

O caixão havia sido lacrado devido ao estrago irreparável causado pelas balas, mas ele vira o que tinha sobrado do rosto do filho. Tinha insistido. Precisava gravar aquela imagem horrível na memória porque sabia que jamais descansaria até que aquela morte fosse totalmente es­clarecida.

Agora, dois anos depois, conhecia a verdade.

E estava a poucas horas da vingança.

Mentira para Malone. Mesmo que conseguisse incitar Eliza a agir contra Ashby, seria ele próprio quem mataria o desgraçado.

Ninguém mais o faria.

Apenas ele.

À mesma maneira da noite anterior, quando se antecipara a Jesper e atirara em Cabral e em seu acompanhante. No que estava se transformando? Num assassino? Não. Num vingador. Mas será que havia alguma diferença?

Segurou o copo contra a luz e admirou a cor densa da bebida alcoólica. Saboreou outro gole, mais prolongado e satisfatório.

Fechou os olhos.

Lembranças dispersas passaram por sua mente, despareceram momentaneamente e então ressurgiram. Cada uma aparecendo serena e silenciosamente, como a mudança de imagens vindas de um projetor.

Os lábios dele estremeceram.

Memórias quase esquecidas — de uma vida que conhecera por muitos anos—passaram diante dele, tornaram-se indistintas e, depois, desapareceram.

Enterrara Cai, trajado num terno cinza e simples, adornado por uma rosa amarela, em sua propriedade, no cemitério da família, ao lado de Lisette, entre outros Thorvaldsen que ali jaziam havia séculos. Cai amava rosas amarelas, assim como Lisette.

Lembrava-se do odor peculiar que vinha de dentro do caixão — um tanto ácido, um tanto desagradável — o odor da morte.

A solidão o atingiu numa nova onda.

Esvaziou o restante do copo.

Um surto de tristeza se abateu sobre ele com uma força insuportável.

Nenhuma dúvida mais o atormentava.

Sim, ele mesmo mataria Ashby.

 

                   Paris

                   Segunda-feira, 24 de dezembro

                 11H

Malone entrou na Igreja do Domo, adjacente à extremidade sul do imponente Palácio dos Inválidos como um anexo isolado. O edifício barroco, sua fachada de colunas dóricas e um único frontão, era coberto por um domo dourado e grandioso — a segunda estrutura mais alta de Paris — coroado por uma claraboia e um pináculo. Originalmente um lo­cal de adoração pertencente à realeza, erguido por Luís XIV a fim de glorificar a monarquia francesa, fora convertido por Napoleão numa tumba de guerreiros. Três dos maiores nomes da história militar da França—Turene, Vaubon e Foch—jaziam ali. Em 1861, o próprio Napoleão foi enter­rado sob o domo e, por fim, seus dois irmãos e seu filho juntaram-se a ele.

A proximidade do Natal não havia diminuído o fluxo da multidão. O interior, embora tivesse sido aberto havia apenas uma hora, estava lotado de gente. O lugar não era mais utilizado para cerimônias religiosas, no entanto uma placa pedia a todos que retirassem os chapéus e falassem em voz baixa.

Passara a noite anterior no Ritz, tentando dormir num quarto reservado por Thorvaldsen, mas, em vez de uma noite de sono tranquila tudo o que conseguiu foram apenas pensamentos perturbadores. Iscava preocupado com Collins, mas acreditava que Stephanie tinha : controle da situação. Sua preocupação maior era com Thorvaldsen. Vendettas podiam custar caro, de diversas maneiras — algo que aprendera com sua experiência pessoal. Não sabia ainda como manter as redeas em Thorvaldsen, mas era algo que tinha de ser feito.

E rápido.

Caminhou devagar até uma balaustrada que lhe batia à cintura e olhou para cima em direção ao domo altaneiro. Imagens dos evangelis­tas, dos reis da França e dos apóstolos o encaravam. Ao olhar para baixo sob o domo, além do corrimão, observou o sarcófago de Napoleão.

Conhecia os detalhes. Sete caixões continham os restos mortais do imperador: um dentro do outro, dois de chumbo, os demais em mogno, cerro, ébano, carvalho e, o que estava visível, pórfiro vermelho, como o dos sepulcros romanos. Tinha cerca de 6 metros de comprimento e 2 de altura, e o formato de uma arca adornada por coroas de louros, apoiando-se sobre uma base de granito esmeralda. Doze figuras colos­sais da vitória e os nomes dos chefes de batalha de Napoleão, gravados no piso, rodeavam a tumba.

Direcionou o olhar para o outro lado da igreja movimentada, para Ashby.

O britânico se encaixava na descrição fornecida por Stephanie e estava na outra extremidade, próximo à balaustrada circular.

Thorvaldsen havia lhe dito, uma hora antes, que seus detetives haviam seguido Ashby até ali e, anteriormente, de Londres a Paris. Ao seu lado estava uma mulher atraente de cabelos ondulados. Lembra­va-lhe outra loura que havia chamado sua atenção fazia duas semanas. Urn desses erros de julgamento que quase tinha lhe custado a vida.

Os quadris da loura estavam encostados na balaustrada e as suas costas arqueavam-se para trás, apontando para cima e para o entablamento que circulava a igreja, aparentemente explicando algo que Ashby considerava interessante. Só podia ser Caroline Dodd. Thorvaldsen lhe passara as informações sobre ela. A amante de Ashby, mas também a detentora de diplomas em história medieval e literatura. A presença dela ali significava que Ashby acreditava que havia algo importante a ser encontrado.

O barulho ao seu redor aumentou, e ele se virou. Um mar de pes­soas transbordava pelas portas principais. Ele observou os visitantes pagando pelos seus ingressos.

Olhou à sua volta, admirando a colagem de mármore que se erguia ao redor e o domo suspenso por colunas coríntias majestosas. Símbolos da monarquia brotavam da decoração de esculturas, lembrando aos visi­tantes que essa fora uma igreja de reis, agora era o lar de um imperador.

— Napoleão morreu em 1821 em Santa Helena — ouviu um dos guias explicar em alemão para um grupo próximo. — Os britânicos o enterraram aqui, sem grandes honras, num buraco silencioso. Mas em seu testamento Napoleão escreveu que desejava que suas cinzas repousassem às margens do Sena, em meio aos franceses que amo com tanto ardor. Portanto, em 1840, o rei Luís Filipe decidiu honrar o desejo do imperador e trazê-lo para casa. Foi um gesto que visava tanto a agra­dar ao povo como reconciliar a França com sua história. A essa altura, Napoleão já tinha se tornado uma lenda. Então, em 15 de dezembro de 1840, numa cerimônia grandiosa, o rei deu as boas-vindas aos restos mortais do imperador que vieram para o Palácio dos Inválidos. Foram necessários vinte anos, no entanto, para fazer as modificações na igreja e cavar a cripta que veem logo abaixo.

Deu um passo para trás, distanciando-se da balaustrada de már­more, e os alemães se espremeram junto a ela, olhando para baixo, para o sarcófago imponente. Mais grupos, em aglomerados compactos de gente, inundavam o piso. Percebeu que outro homem havia se juntado a Ashby. De altura mediana, expressão vaga, cabelos ralos e grisalhos. Um sobretudo lhe cobria o corpo magro.

Guildhall.

Thorvaldsen o havia informado sobre esse homem também. Os três deram as costas para a balaustrada, partindo em seguida.

Improvise.

Dissera a Collins que era o que os agentes faziam.

Balançou a cabeça.

Sim, certo.

 

Ashby deixou a Igreja do Domo e contornou o seu exterior, encontrando uma longa arcada, ladeada por canhões, que levava para dentro do palácio. O enorme complexo incluía duas igrejas, um tribu­nal e um museu militares, jardins e uma elegante esplanada que se estendia da ala norte até o Sena, a cerca de 1 quilômetro de distância. Fundados em 1670 por Luís XIV para abrigar soldados inválidos e cui­dar deles, os edifícios de vários andares, conectados, eram obras-primas do classicismo francês.

Como em Westminster, a história acontecera ali. Imaginou o 14 de julho de 1789, quando uma turba subjugou os sentinelas a postos e invadiu o edifício onde ficavam os rifles, confiscando armas que seriam utilizadas mais tarde, no mesmo dia, para atacar a Bastilha e iniciar a Revolução Francesa. Sete mil militares veteranos já tinham vivido ali, naquele lugar hoje freqüentado por turistas.

Há como entrarmos no museu? — perguntou Caroline.

Tivera mais três conversas com Eliza desde a noite anterior. Felizmente, ela havia conseguido obter uma grande quantidade de informa­ções relevantes.

Não acho que vá ser um problema.

Entraram no Tribunal Militar — uma extensão fechada de piso de paralelepípedos, com edifícios nos quatro lados e duas compridas galerias de dois andares. De, talvez, 100 metros por 70. Uma estátua de bronze de Napoleão guardava o enorme pátio, suspenso acima da en­trada de frontão da Igreja dos Soldados. Sabia que fora ali que De Gaulle havia beijado Churchill em agradecimento após a Segunda Guerra Mundial.

Apontou para a esquerda, para uma das austeras fachadas clássi­cas, muito mais impressionantes do que atraentes.

Antigos refeitórios. Onde os pensionistas faziam suas refeições. É lá que começa o museu do exército.

Gesticulou agora para a direita, para outro refeitório.

E termina ali, o nosso objetivo.

Andaimes cobriam o edifício da esquerda. Eliza havia lhe dito que metade do museu estava sendo modernizado. Principalmente as exposições históricas — dois andares inteiros ficariam fechados até a prima­vera seguinte. A reforma incluía restaurações externas e uma profunda remodelação da entrada principal.

Mas não hoje. Véspera de Natal.

Feriado.

 

Malone caminhou por uma das longas arcadas do Palácio dos Inválidos, passando, a cada 3 metros, por portas de madeira fe­chadas, ladeadas por canhões de pé, em posição de sentido. Fez o tra­jeto da arcada sul a leste, passando pela igreja dos soldados, virando uma esquina e apressando-se em direção a uma entrada provisória no edifício ao leste. Ashby e seus acompanhantes estavam no lado opos­to ao Tribunal Militar, de frente para a parte fechada do museu do lado leste, que abrigava objetos históricos dos séculos XVII e XVIII, juntamente com objetos que datavam das épocas de Luís XIV e de Napoleão.

Um atendente, vestido num casaco acinzentado, que se movia de­vagar e supervisionava o lugar, era o funcionário presente na entrada improvisada que levava a um lance de escadas que, por sua vez, conduzia até o terceiro andar, onde o museu de mapas em relevo perma­necia aberto, assim como uma livraria.

Subiu as escadas, agarrando o largo corrimão de madeira.

No segundo andar, as portas do elevador estavam bloqueadas por duas tábuas pregadas formando um "X". Cavaletes apoiavam peças de andaime desmontadas. Portas brancas de metal, claramente provisórias, estavam fechadas e sobre elas havia uma placa que dizia: interdit au public. acesso proibido. Outro aviso afixado na parede explicava que para além das portas fechadas estavam os salles Napoléon 1er. Os aposentos de Napoleão I.

Aproximou-se e girou a maçaneta das portas de metal.

As portas se abriram.

Não havia necessidade de trancá-las, haviam lhe dito, já que o edi­fício era fechado todas as noites e havia poucas coisas de valor nas galerias adiante.

Entrou no espaço às escuras, desprovido de ruídos, deixando que a porta se fechasse atrás dele, esperando não se arrepender nos minutos seguintes.

 

Napoleão estava deitado na cama, reclinado, com os olhos fixos na lareira. As chamas dos círios resplandeciam, derramando um brilho vermelho sobre o seu rosto, e ele deixava que o calor e o silêncio o embalassem enquanto adormecia.

Velho profeta. Finalmente vens até mim? — perguntou em voz alta, carinhosamente.

Uma expressão de contentamento espalhou-se pelo seu semblante, que imediatamente se contorceu numa demonstração de raiva.

Não—gritou — estás enganado! Minha sorte não se assemelha à mudança das estações. Não cheguei ainda ao outono. O inverno não se apro­xima. O quê? Dizes que sofrerei o abandono e a traição da minha família? Não pode ser. Tratei-os com demasiada gentileza —fez uma pausa, e seu rosto assumiu a expressão de um ouvinte atento. —Ah, mas isso é demais! Não é possível. A Europa inteira não é capaz de me derrubar. Meu nome é mais poderoso do que o destino!

Despertado pelo som da própria voz, Napoleão abriu os olhos e observou o quarto ao seu redor. Levou uma das mãos, trêmula, até a testa úmida de suor.

Que sonho terrível! — disse a si mesmo.

Saint-Denis se aproximou. Bondoso e fiel, sempre ao seu lado, dormindo no chão, ao lado da cama do imperador. Disposto a escutar.

Estou aqui, senhor.

Napoleão segurou uma das mãos de Saint-Denis.

Há muito tempo, no Egito, um feiticeiro conversou comigo na pirâmi­de — disse Napoleão. — Profetizou a minha ruína, preveniu-me quanto aos meus parentes e me alertou sobre a ingratidão dos meus generais.

Absorvido em suas reflexões, numa voz áspera devido ao sono que desva­necia, parecia ter a necessidade de falar.

Disse-me que teria duas esposas. A primeira seria imperatriz, e uma mulher, e não a morte, a expulsaria do trono. A segunda me daria um filho, mas daria também início a todo o meu infortúnio. A prosperidade e o poder me abandonariam. Todas as minhas esperanças resultariam em decepção. Seria expelido a força e arremessado sobre um solo estrangeiro, cercado pelas montanhas e pelo mar.

Napoleão olhou para cima e seu rosto exprimia um medo indisfarçável.

—Mandei que atirassem no feiticeiro — disse. —Pensei que era um tolo, e eu nunca dou ouvidos aos tolos.

 

Thorvaldsen escutou Eliza explicar aquilo que a família dela, há muito tempo, sabia sobre Napoleão.

Pozzo di Borgo fez uma ampla pesquisa sobre tudo o que acon­teceu em Santa Helena — disse. — O que acabei de descrever ocorreu cerca de dois meses antes da morte de Napoleão.

Ele a escutava com uma falsa atenção.

Napoleão era um homem supersticioso — disse. —Acreditava bastante no destino, mas jamais se curvava diante da sua inevitabilida- de. Escutava somente o que queria escutar.

Estavam sentados numa sala privativa de Le Grand Véfour, com vista para os jardins do Palácio Real. Era com orgulho que o cardápio anunciava que o restaurante datava de 1784 e os convidados de então e os de hoje comiam em meio a ornamentações douradas e painéis deli­cadamente pintados à mão. Não era um lugar comumente freqüentado por Thorvaldsen, mas Eliza havia lhe telefonado e sugerido que almo­çassem e acabou escolhendo o local.

No entanto, a realidade é clara — afirmou. — Tudo o que o feiticeiro egípcio previu se concretizou. Josefina se tornou imperatriz, e Napoleão se divorciou dela porque a mulher não pôde lhe dar um herdeiro.

Pensei que fosse por ela ser infiel.

E ela era, mas ele também. Maria Luísa, a arquiduquesa da Áus­tria, de 18 anos, por fim chamou sua atenção e ele a desposou. Deu-lhe o filho que tanto queria.

—Assim era a realeza da época — refletiu.

—Acho que Napoleão ficaria ofendido ao ser comparado à realeza.

Dessa vez, ele riu.

Então ele era bastante burro. Não era nada além do que realeza.

Exatamente como previsto, foi após seu segundo casamento, em 1809, que a sorte de Napoleão mudou. O fracasso em 1812 da campanha russa, na qual seu exército foi dizimado em retirada. A coali­zão de 1813 colocou Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria contra ele. As derrotas na Espanha e em Leipzig e, em seguida, o colapso alemão e a perda da Holanda. A queda de Paris se deu em 1814, e ele abdicou. Enviaram-no a Elba, mas escapou e tentou reaver Paris das mãos de Luís XVIII. Mas veio finalmente Waterloo, em 18 de junho de 1815, e foi o fim. A caminho de Santa Helena para morrer.

A senhora realmente o odeia, não é mesmo?

O que me irrita é o fato de que jamais iremos conhecê-lo. Passou os cinco anos de exílio em Santa Helena polindo sua imagem, escrevendo uma autobiografia que acabou sendo mais fictícia do que factual, distorcendo a história a seu favor. Na verdade, era um marido que amava intensamente a mulher, mas que se divorciou sem hesitar diante da incapacidade dela de lhe conceder um herdeiro. Um general que professava um grande amor pelos seus soldados, mas que os sacrificou às centenas de milhares. Supostamente destemido, abandonou seus homens diversas vezes, quando lhe foi conveniente. Um líder que queria nada além de fortalecer a França, mas que ainda assim manti­nha a nação constantemente envolvida em guerras. Acho que está bem claro o porquê de detestá-lo.

Achou que um pouco de provocação cairia bem.

Sabia que Napoleão e Josefina comiam aqui? Disseram-me que este aposento é exatamente como era no século XIX.

Ela sorriu.

Tinha consciência disso. Interessante, no entanto, que você este­ja a par de tal informação.

Napoleão mandou mesmo que matassem o feiticeiro no Egito?

Ordenou que Monge, um dos seus savants, o fizesse.

—A senhora acredita na teoria de que Napoleão foi envenenado?

Ela sabia que, supostamente, doses de arsênico tinham sido lentamente administradas na comida e na bebida, o suficiente para matá-lo por fim. Exames modernos, feitos a partir de restos mortais que não se deterioraram, com o cabelo, confirmaram altos níveis do veneno.

Ela riu.

Os britânicos não tinham motivo algum para matá-lo. De fato, era o contrário. Eles o queriam vivo.

Os pratos principais chegaram. O dele, salmonete frito com azeite e tomates; o dela, galeto ao molho de vinho, salpicado com queijo. Ambos saborearam uma taça de merlot.

O senhor conhece a história da exumação de Napoleão em 1840, para devolvê-lo à França? — perguntou.

Ele balançou a cabeça negativamente.

Mostra bem por que os britânicos jamais o envenenariam.

 

Malone movimentava-se com dificuldade pela galeria deserta. A luz estava apagada, e a iluminação fornecida pelo sol difundia-se nas folhas de plástico que protegiam as janelas. O ar quente exalava o cheiro de tinta fresca. Muitos dos mostruários e dos artigos em exposi­ção estavam cobertos por capas de tecido áspero. Escadas por todas as paredes. Mais andaimes se erguiam na parede do fundo. Uma parte do chão de madeira havia sido removida e consertos estavam sendo feitos na subsuperfície rochosa.

Percebeu que não havia câmeras nem sensores. Passou por uni­formes, armaduras, espadas, punhais, couraças, pistolas e rifles, todos expostos em mostruários forrados de seda. Uma progressão constante e intencional de tecnologia — cada geração aprendendo a matar a próxima de uma forma mais rápida, Absolutamente nada sugeria os hor­rores das guerras. Em vez disso, apenas a glória parecia ser enfatizada.

Contornou outra fenda no chão e continuou caminhando ao longo da galeria, sem fazer barulho, auxiliado pelas solas de borracha dos seus sapatos.

Detrás dele veio o barulho de alguém testando as portas de metal.

 

Ashby permaneceu na plataforma do segundo andar e obser­vou o Sr. Guildhall forçar as portas que levavam à galeria de Napoleão. Algo as bloqueava.

— Pensei que estavam abertas — sussurrou Caroline. Era exatamente o que Eliza havia relatado. Todas as coisas de va­lor haviam sido removidas semanas antes. O que restava agora eram artefatos históricos menores, mantidos na parte de dentro, já que a armazenagem andava limitada. A empresa contratada para realizar a remodelação concordara em trabalhar tendo em mente os objetos expostos, adquirindo um seguro de responsabilidade civil para garantir sua segurança.

Ainda assim, algo bloqueava as portas.

Não queria atrair a atenção da mulher no andar de baixo ou dos empregados do museu dos mapas em relevo, um piso acima.

— Arrombe-as — disse. — Mas sem fazer barulho.

 

A Fragata Francesa La Belle Poulle chegou a Santa Helena em outubro de 1840, com um contingente liderado pelo príncipe de Joinville—o terceiro filho do rei Luís Filipe. O governante britânico, Middlemore, enviara o filho para dar as boas-vindas ao navio e, da praia, peças de artilharia naval fizeram uma saudação de 21 disparos em sua honra. Em 15 de outubro, 25 anos após o dia da chegada de Napoleão a Santa Helena, iniciou-se a tarefa de exumação do corpo do imperador. Os franceses queriam que a operação fosse administrada pelos seus marinheiros, mas os britânicos insistiram para que fosse realizada por gente de sua confiança. Trabalhadores locais e soldados bri­tânicos trabalharam a noite inteira, sob uma chuva incessante. Dezenove anos haviam se passado desde que o caixão de Napoleão fora baixado à terra, vedado com cimento e tijolos, e o processo de desmanchá-lo demonstrou ser desafia­dor. Soltar as pedras, uma por uma, perfurar camadas de alvenaria reforçadas por ligaduras de metal e soltar as quatro tampas do caixão para, finalmente, confrontarem-se com a visão do imperador morto tinha requerido esforço.

Algumas pessoas que tinham vivido com Napoleão em Santa Helena retornaram para testemunhar a exumação. General Gourgaud. General Bertrand. Pierron, o confeiteiro. Archambault, o cavalariço. Noverraz, o terceiro valete. Marchand e Saint-Denis que nunca haviam saído do seu lado.

Sobre o corpo de Napoleão estavam fragmentos de cetim branco que tinham caído da tampa. As botas pretas de montaria haviam se partido, reve­lando os dedos brancos e pálidos dos pés. As pernas permaneciam cobertas pe­los calções brancos e o chapéu jazia ao seu lado, onde havia sido colocado anos antes. A travessa de prata contendo o coração repousava entre as pernas. As mãos — pálidas, rígidas e perfeitas — exibiam unhas compridas. Três dentes eram visíveis onde o lábio superior tinha começado a desaparecer; o rosto tinha um tom acinzentado devido a uma barba rala; e as pálpebras estavam firmemente fechadas. O corpo estava em condições admiráveis, como se ele estivesse dormindo, e não se decompondo.

Todos os objetos incluídos para lhe fazer companhia ainda estavam lá, apinhados ao redor do leito de cetim. Uma coleção de moedas francesas e ita­lianas cunhadas com seu rosto impassível; uma molheira de prata; um prato, facas, garfos e colheres gravados com o brasão imperial; um cantil contendo água do Vale do Gerânio; um manto; uma espada; um pedaço de pão; e uma garrafa d'água.

Todos tiraram os chapéus e um padre francês salpicou-lhe água benta, reci­tando as palavras do salmo 130: "Dofundo do abismo, clamo a vós, Senhor."

Em nome da ciência, o médico britânico quis examinar o corpo, mas o robusto general Gourgaud, cujo rosto avermelhado exibia uma barba grisa­lha, contestou.

—Não, senhor! Nosso imperador já sofreu suficientes indignidades.

Todo mundo sabia que Londres e Paris haviam concordado com a exumação para assim remediar as diferenças entre as duas nações. Afinal, como o embaixador francês na Inglaterra tinha deixado claro, "desconheço qualquer motivo honroso para uma recusa, pois a Inglaterra não pode dizer ao mundo que deseja manter um cadáver como prisioneiro".

O governante britânico, Middlemore, deu um passo adiante.

Temos o direito de examinar o corpo.

Qual o motivo? — indagou Marchand. — Qual o propósito? Os britânicos estavam presentes quando o caixão foi lacrado, o corpo passou por uma necropsia realizada pelos seus médicos, ainda que o imperador tivesse deixado instruções para que isso não acontecesse.

O próprio Marchand estivera presente no dia e estava claro, pela sua amargura, que não havia se esquecido da violação.

Middlemore ergueu as mãos num gesto de rendição.

—Muito bem. Os senhores se oporiam a uma inspeção externa? Afinal, o corpo está em condições excelentes para quem ficou sepultado por tanto tempo, não concordam? Isso exige alguma investigação.

Gourgaud abrandou o tom e os outros concordaram.

E o médico apalpou as pernas, a barriga, as mãos, uma pálpebra e, depois, o peito.

 

—Napoleão foi então enclausurado dentro dos sete caixões de madeira e metal, o sarcófago fechado a chave e tudo foi arranjado para o seu retorno a Paris — disse Eliza.

O que o médico estava procurando na verdade? — perguntou Thorvaldsen.

Algo que os britânicos tinham tentado, em vão, descobrir en­quanto Napoleão foi seu prisioneiro. A localização do tesouro perdido.

Pensaram que estava no túmulo?

Não sabiam. Vários itens estranhos foram colocados dentro do caixão. Alguém pensou que, talvez, a resposta estivesse ali. Acredita-se que tenha sido uma das razões pelas quais os britânicos concordaram com a exumação: para darem mais uma olhada.

E encontraram alguma coisa?

Tomou um gole de vinho.

Nada.

Ela observou suas palavras se assentarem.

Eles não olharam no lugar certo, olharam? — perguntou ele.

Estava começando a gostar do dinamarquês.

Não chegaram nem perto.

E a senhora, Madame Larocque, descobriu a localização correta?

Essa, Herre Thorvaldsen, é uma pergunta que talvez seja res­pondida antes do final deste dia.

 

Malone encontrou a exposição sobre Napoleão e examinou tanto as relíquias de seus triunfos como as de sua queda. Viu a bala que havia ferido o general em Ratisbon, telescópio, mapas, pistolas, uma bengala, um roupão e até mesmo sua máscara mortuária. Parte da exibição mostrava o quarto onde Napoleão morrera em Santa Helena, incluindo a cama e seu dossel.

O ruído de algo sendo arranhado ecoou pelo saguão.

As portas de metal, 30 metros atrás dele, estavam sendo forçadas.

Tinha apoiado um dos cavaletes de construção nas portas, ciente de que logo teria companhia. Observara Ashby deixar a igreja e caminhar calmamente para dentro do Palácio dos Inválidos. Enquanto Ashby e seus acompanhantes paravam para admirar o Tribunal Militar, correra para dentro. Pressupunha que Ashby estivesse a par do mesmo tipo de informação confidencial que Stephanie havia lhe fornecido. Ele havia lhe telefonado após a conversa com Thorvaldsen e formulado um pla­no conveniente às necessidades dela, e que não comprometia o amigo.

Um ato de malabarismo. Mas não impossível.

O ruído do cavalete que protegia as portas arranhando o chão se tornou mais alto.

Ele virou-se e olhou para a luz que se infiltrava pela penumbra do saguão.

Três sombras bloquearam a iluminação.

Diante dele, dentro de um mostruário de vidro parcialmente aberto, estavam alguns talheres de prata, uma xícara utilizada por Napoleão em Waterloo, uma caixa de chá de Santa Helena e dois livros. Uma pequena placa dizia ao público que os livros eram parte dos 1.600 mantidos na biblioteca particular de Napoleão em Santa Helena. Um era Memórias e correspondências de Josefina, que Napoleão lera, segundo a placa, pouco antes de morrer em 1821. Aparentemen­te, questionara sua veracidade, já que o conteúdo o havia pertur­bado. O outro, um pequeno volume encadernado em couro, aberto próximo ao meio, que outra placa identificava como Os reinos mero­víngios de 450 a 751 d.C., da mesma biblioteca particular, embora esse livro tivesse sido mencionado explicitamente no último testamento do imperador.

O barulho apressado de saltos sobre o chão duro ecoou pelo saguão.

 

Ashby amava caçadas. Divertia-se sempre com os livros e filmes que retratavam os caçadores de tesouros como valentões. Na realidade, grande parte do tempo era gasto estudando atentamente textos antigos, fossem eles livros, testamentos, correspondências, anotações pessoais, diários ou arquivos públicos. Bocados de informações aqui e acolá. Nunca um único fragmento de prova que solucionasse o que­bra-cabeça de uma vez só. As pistas ou eram raras ou indecifráveis, e havia bem mais decepções do que sucessos.

Essa caçada era um exemplo perfeito.

Ainda que fosse possível que estivessem chegando a algum lugar dessa vez.

Difícil dizer com certeza até que examinassem Os reinos merovín­gios de 450 a 751 d.C., que deveria estar à espera deles alguns metros adiante.

Eliza tinha lhe avisado que aquele dia seria uma oportunidade perfeita para entrar sorrateiramente nessa parte do museu. Nenhum pedreiro iria estar trabalhando. Os funcionários do palácio estariam ansiosos para que o dia acabasse e pudessem ir para casa comemorar o Natal. O dia seguinte era um dos poucos em que o museu estaria fechado.

O Sr. Guildhall seguiu na frente pela galeria atravancada.

O ar tépido exalava tinta e aguarrás, o que evidenciava ainda mais as reformas em andamento.

Precisava deixar Paris tão logo essa missão se completasse. Os americanos estariam à sua espera em Londres, ansiosos por um relatório. O qual ele finalmente providenciaria. Não havia mais razões para atrasos. O dia seguinte demonstraria ser dos mais interessantes — um Natal do qual certamente se lembraria.

O Sr. Guildhall parou, e Ashby vislumbrou o que seu subordinado já havia visto.

No mostruário de vidro onde aguardavam variados livros e relí­quias napoleônicas, viu um volume. Mas o segundo livro desapare­cera. Restara penas um pequeno cartão, apoiado sobre o cavalete de madeira.

Um momento de silêncio pareceu uma hora.

Suprimiu o desânimo, aproximou-se e leu o que estava escrito no cartão.

 

Lorde Ashby, se o senhor for um bom menino,

nós lhe daremos o livro

 

O que isso significa?—perguntou Caroline.

—Acredito que é a maneira de Eliza me manter na linha.

Sorriu diante do fervor de esperança contido em sua mentira.

Diz "nós".

Deve querer dizer o clube.

Ela passou todas as informações que tinha a você, incluindo detalhes sobre este lugar. —As palavras soavam mais como um questio­namento do que tuna afirmação.

Ela é cautelosa. Talvez não queira que o tenhamos de forma al­guma. Pelo menos, não agora.

Você não devia ter ligado para ela.

Adivinhou a próxima pergunta nos olhos dela e disse:

Vamos voltar para a Inglaterra.

Retiraram-se da galeria e ele repassou todas as possibilidades em sua mente. Caroline não sabia nada a respeito de sua colaboração secre­ta com Washington, o que explicava o porquê de colocar a culpa sobre o livro desaparecido em Eliza e no Clube de Paris.

Mas a verdade o apavorava mais ainda.

Os americanos sabiam sobre os seus negócios.

 

Do saguão mais distante, malone observou ashby e companhia deixarem a galeria. Sorriu diante do dilema de Ashby e percebeu que ele conseguira enganar Caroline Dodd. Saiu, então, por uma es­cadaria nos fundos, fugindo do Palácio dos Inválidos pela fachada norte. Fez sinal para um táxi, cruzou o Sena e encontrou Le Grand Véfour.

Entrou no restaurante e olhou à volta do que era um salão de ambiente agradável, inteiramente francês, com paredes resplandecentes cobertas por espelhos de molduras douradas. Passou os olhos pelas mesas postas e avistou Thorvaldsen sentado com uma mulher bonita, vestida num conjunto social acinzentado, de costas para ele. Mostrou-lhe o livro sem fazer alarde e sorriu.

 

Thorvaldsen sabia que a balança do poder pendia agora para o outro lado. Estava totalmente no controle e nem Ashby ou Eliza Larocque tinham percebido.

Pelo menos, não ainda.

Ele então moveu um joelho sobre o outro, reclinou-se na cadeira e retornou a atenção à sua anfitriã, confiante em que logo todas as suas dívidas seriam pagas.

 

                   12H15

Collins seguiu atrás de Meagan Morrison e Stephanie Nelle e todos pagaram pelos seus ingressos para a Torre Eiffel. As filas nas outras duas entradas, com acesso aos elevadores para a primeira e a segunda plataformas estavam enormes e era necessário esperar pelo menos duas horas. No entanto, a fila do pilone sul estava bem menor, já que a escalada de 347 degraus era a única maneira de subir e até a primeira plataforma.

Não temos tempo para esperar na fila — disse Stephanie Nelle.

Collins e Morrison haviam passado a noite num hotel da margem esquerda, em quartos separados, com dois agentes do Serviço Secre­to de guarda. Stephanie escutara as informações dadas por Morrison, dando alguns telefonemas depois. Após, aparentemente, obter a confirmação de parte do que lhe havia sido dito, insistira em mantê-los sob custódia para protegê-los.

Os agentes de campo usam as mesmas roupas o tempo todo? — perguntou Collins a Stephanie enquanto subiam as escadas. Havia três dias que não trocava de roupa.

Poucos trajes a rigor ou roupas de marca — disse. — Você se vira com o que estiver à mão e faz o que tem de ser feito.

Passaram por um degrau marcado com o número 134. Quatro imensos pilares de vigas em treliça, com um espaço entre eles maior do que um campo de futebol, apoiavam a primeira plataforma da torre — de 57 metros de altura, conforme informado por uma placa na base da escada. Os pilares afilavam-se verticalmente até a segunda plataforma, a 115 metros, e então continuavam a subir até o mirante, a 275 metros de altura. A estrutura mais alta de Paris: uma altaneira rede de ferro refinado exposto, unida por meio de rebites, pintada num tom cinza-amarronzado, cuja imagem acabara por se tornar uma das mais reconhecíveis do mundo.

Morrison fazia a escalada sem dificuldades, mas as canelas de Collins doíam. Após serem levados para o hotel, na noite anterior, não falara muito. Mas tinha feito a escolha certa ao acompanhá-la desde o museu. Trabalhava, agora, com a chefe do Magellan Billet.

Após mais dez minutos de subida, enfrentaram o último lance de escadas.

A movimentada plataforma do primeiro piso fervilhava de gente na loja de suvenires, no posto dos correios, no saguão de exposições, na lan­chonete e no restaurante. Elevadores na extremidade mais afastada leva­vam ao térreo. Uma escada de cerca de 330 degraus, inclinada para a di­reita, subia até o segundo piso. A primeira plataforma serpeava ao redor de uma área central, ao ar livre, que oferecia a vista da praça logo abaixo.

Stephanie estava recostada na grade de ferro. Ele e Morrison juntaram-se a ela. Juntos, olharam para a frente, para uma parede e portas de vidro. Um letreiro logo acima identificava o lugar como La Salle Gustave Eiffel.

O Clube de Paris se reunirá amanhã nessa sala — disse Meagan para Stephanie.

E como é que você tem certeza disto?

Haviam tido a mesma conversa no dia anterior. Era óbvio que Stephanie estava pondo em prática o velho adágio do "faça a mesma per­gunta várias vezes e veja se obtém a mesma resposta."

Veja bem, Senhora "Departamento de Justiça" — disse Morrison. — Tenho cooperado diante da sua demonstração de autoridade. Tenho tentado, até mesmo, ajudar. Mas se ainda não acredita em mim, o que estamos fazendo aqui, então?

Stephanie não respondeu ao desafio. Em vez disso, continuaram encostados na grade, mantendo os olhares fixos adiante.

Sei que estarão aqui amanhã — disse Meagan, finalmente. — É uma grande ocasião. O clube inteiro se reunindo no Natal.

Época estranha para uma reunião — comentou Collins.

O Natal é uma festividade estranha aqui. Descobri isso há mui­to tempo. Os franceses não são muito dados às celebrações natalinas. A maioria passa o dia fora da cidade e o restante vai aos restaurantes. Todos gostam de um bolo chamado bûche de Noël. É parecido com um pedaço de lenha, tem gosto de madeira e cobertura de manteiga e açú­car. Por isso essa reunião do clube no Natal não me surpreende.

A Torre Eiffel abre? — perguntou Sam.

Meagan assentiu.

Às 13 horas

Me diga novamente o que você sabe.

Meagan parecia irritada, mas colaborou.

Eliza alugou a Sala Gustave Eiffel, que está à nossa frente. A fes­ta começa às 11 da manhã e vai até as 16 horas. Providenciou até para que fosse servido um almoço. Penso que acha que estar a 60 metros acima do chão dá a ela e a seus cúmplices alguma privacidade.

Seguranças?

E como é que vou saber disso? Mas aposto que você sabe.

Stephanie parecia sentir prazer no tom mordaz da declaração de Meagan.

—A torre pertence à cidade, mas a Société Nouvelle d'Exploitation de la Tour Eiffel opera o local. Eles contratam tuna empresa particular para fazer a segurança, juntamente com a polícia de Paris e o exército francês.

Collins tinha notado um posto policial sob a entrada sul da torre e, também, homens de aparência séria, vestidos em uniformes de comba­te, carregando rifles automáticos.

Eu verifiquei — disse Stephanie —, a sala está reservada para um grupo amanhã, nesse horário, e mais seguranças foram contrata­dos. A sala de reuniões em si estará fechada. A torre não abre até as 13 horas. Depois disso, haverá tantos visitantes quanto hoje, o que é um número considerável.

Como eu disse — Meagan deixou claro —, é a primeira vez que o clube se aventura para fora da casa do Marais. A que mostrei a Sam ontem.

E você acha que isso significa alguma coisa?

Tem que significar. Esse clube é sinônimo de problemas.

 

Malone deixou Le Grand Vefour e pegou um táxi do lado de fora do restaurante, para uma curta corrida rumo ao sul, em direção ao Louvre. Pagou o motorista e atravessou por uma arcada grandiosa até o Cour Napoleon, avistando de imediato a inconfundível pirâmide de vidro que servia de clarabóia à entrada do museu, logo abaixo. A fachada clássica do Louvre engolfava o enorme campo de exercícios nos seus três lados, enquanto o Are de Carousel, uma imitação de arco romano de colunas de mármore rosado, guardava a extremidade leste, a céu aberto.

Sete diques triangulares de granito rodeavam a pirâmide. Na bei­ra de um deles estava sentado um homem esguio, de traços finos e cabelos dourados, com toques grisalhos nas têmporas. Vestia um casa­co de lã escuro e luvas pretas. Embora o ar vespertino estivesse mais quente do que o da manhã fria, Malone calculou que a temperatura provavelmente não passava dos 4 graus. Thorvaldsen havia lhe dito que o homem estaria ali à sua espera, assim que Malone conseguisse o livro. Ele então se aproximou, sentando-se na beirada fria.

O senhor deve ser Cotton Malone — disse o professor Murad, em inglês.

Seguindo o exemplo de Jimmy Foddrell, carregara o livro à vista de todos e o entregou ao homem.

Direto do Palácio dos Inválidos.

Foi fácil roubá-lo?

Estava lá à espera, conforme haviam me dito.

Observou Murad folhear as páginas frágeis. Já as tinha examinado durante as duas corridas de táxi e sabia em que ponto a leitura atenta seria interrompida. A primeira pausa seria ao meio, onde o manuscrito se dividia em duas partes. Numa página em branco, que funcionava como divisória, estava escrito:

 

           CXXXV      II      CXLII      LII      LXIII      XVII

               II        VIII     IV      VIII        IX          II

 

Observou a testa do professor se enrugar, e o cenho franzido demonstrava relutância.

Não esperava por isso.

Malone soprou ar quente nas mãos desnudas, enquanto observa­va a atividade frenética das centenas de turistas no pátio, entrando e saindo do Louvre.

O senhor se importa de explicar?

É um Nó de Mouro. Um código sabidamente utilizado por Napoleão. Os algarismos romanos se referem a um texto específico.

Páginas e linhas, já que há apenas dois conjuntos. Precisaríamos sa­ber qual foi o texto que usou para podermos desvendar as palavras específicas que formam a mensagem, Mas não há uma terceira linha de numerais. Aqueles que identificariam a palavra correta na linha certa.

Como foi que adivinhei que não ia ser fácil?

Murad sorriu.

Com Napoleão, nada nunca foi. Ele adorava um drama. Esse museu é o exemplo perfeito. Arrecadou tributos de todos os lugares que conquistou e os trouxe para cá, fazendo dessa, na época, a coleção mais rica do mundo.

Infelizmente, os Aliados pegaram tudo de volta, pelo menos o que podia ser encontrado aqui, em 1815.

O senhor conhece história, Sr. Malone.

Eu tento. E é Cotton. Por favor.

Um nome bastante incomum. Por que lhe deram?

Como no caso de Napoleão, é uma explicação dramática de­mais. E quanto ao Nó do Mouro? Há algum jeito de solucioná-lo?

Não sem saber qual foi o texto utilizado para gerar os números. A idéia era que remetente e destinatário tivessem o mesmo manuscrito para comparação. E o fato de não sabermos qual é o terceiro grupo de algarismos pode ser mesmo um problema.

Thorvaldsen havia lhe contado tudo a respeito do testamento de Napoleão e sobre a relevância do livro que Murad segurava em relação ao último testamento. Ele então aguardou, enquanto o professor finali­zava a avaliação das páginas restantes.

Meu Deus! — disse Murad ao chegar às abas da sobrecapa. O homem mais velho olhou para cima, na direção dele. — Fascinante.

Já tinha examinado a caligrafia curiosamente contorcida, em tinta preta desbotada, a mesma usada para grafar os algarismos romanos.

Você sabe o que vem a ser isso? — perguntou. Murad balançou a cabeça negativamente.

Não tenho a menor idéia.

Collins foi em defesa de Meagan.

Ao que me parece, ela não precisa de muitas provas de nada. Diria que sua presença aqui é mais do que suficiente.

Bem, bem — disse Stephanie. — O Sr. Collins finalmente come­çou a raciocinar como um agente do Serviço Secreto.

Não apreciava a atitude condescendente dela, mas não estava em condição de protestar. Estava certa — tinha de começar a usar a cabeça. Então, disse:

Você vem monitorando o site dela. O meu também. Deus sabe quantos outros mais. Portanto, alguma coisa tem de estar acontecendo aqui. Algo que tem atraído a atenção de todo mundo.

É simples — disse Stephanie. — Queremos os membros desse Clube de Paris na cadeia.

Ele não acreditava nela.

Há algo além disso, e você sabe.

Stephanie não retorquiu a afirmação, o que apenas reforçou sua crença. Mas não podia culpá-la. Ela não tinha de lhes dizer nada além do necessário.

Observava o fluxo de pessoas agasalhadas que chegavam pelas es­cadas, vindas do andar de baixo. Outras mais desfilavam para dentro e para fora dos elevadores que subiam, através das estruturas de ferro vazadas, até a segunda plataforma. Uma multidão barulhenta entrou no restaurante vizinho para almoçar. Uma brisa fria movia-se através do metal cinza-amarronzado, que era como uma profusão de teias à volta deles.

Caso queira ficar a par do que irá acontecer na reunião de ama­nhã — disse Meagan — acho pouco provável que vá conseguir instalar quaisquer equipamentos de escuta. Minha fonte me disse que o clube revista completamente as salas antes, durante e após as reuniões.

Não precisamos de escutas — afirmou Stephanie.

Collins a encarava e ela correspondeu ao seu olhar com um sorriso que não o agradou.

Vocês dois já trabalharam servindo mesas?

 

Era com autêntico prazer que Eliza desfrutava a conversa com Henrik Thorvaldsen durante o almoço. Era um homem inteligente, perspicaz, que não perdia tempo com conversa fiada. Aparentava ser um ávido ouvinte — alguém que absorvia os fatos, catalogava-os na ordem apropriada e, então, chegava rapidamente às suas conclusões.

Exatamente como ela.

— Napoleão percebeu — disse ela — que as guerras faziam bem à sociedade. Mais do que tudo, mobilizavam seus melhores pensa­dores a raciocinarem melhor. Descobriu que os cientistas eram mais criativos diante de uma ameaça real. O setor manufatureiro torna­va-se mais inovador e produtivo. As pessoas, mais obedientes. Des­cobriu que, sob ameaça, os cidadãos permitiam quaisquer infrações por parte do governo, contanto que recebessem proteção. Mas guer­ra em demasia era algo destrutivo. A tolerância das pessoas tinha limite, os inimigos dele cuidaram para que houvesse mais guerras do que pretendia e ele por fim perdeu completamente a capacidade de governar.

—Não consigo ver em quais circunstâncias as guerras possam ser consideradas algo bom—disse Thorvaldsen.—Existem coisas erradas demais relacionadas a elas.

—Morte, destruição, devastação, desperdício. Mas guerras sem­pre existiram. Como algo tão ruim poderia continuar a florescer? A resposta é simples: as guerras dão resultado. Os grandes avanços tecnológicos da humanidade sempre resultaram das guerras. Veja o con­flito mundial mais recente. Aprendemos a dividir o átomo e a voar no espaço, sem mencionar os incontáveis progressos nos campos da eletrônica, ciência, medicina e engenharia. Tudo enquanto matávamos uns aos outros em escalas sem precedentes.

Ele assentiu.

O que diz tem um fundo de verdade.

E é ainda mais dramático, Herre Thorvaldsen. Veja a história americana. O ritmo da sua economia, cadenciado como o de um relógio, ciclos de crescimento, recessão e depressão. Mas eis um fato. Cada uma das depressões cíclicas americanas ocorreu durante períodos de gastos militares inadequados. Épocas de depressão vieram após a guerra de 1812, a Guerra Civil nos idos de 1860 e a Guerra Hispano-Americana na virada do século XX. A Grande Depressão de 1930 ocorreu num período, após a Primeira Guerra Mundial, em que os Estados Unidos assumiram uma postura isolacionista e literalmen­te desmantelaram o exército. Foi preciso outra guerra para que isso viesse à tona.

Parece-me que a senhora estudou o assunto.

Estudei, e a prova é clara. A guerra torna possível um governo estável da sociedade. Provém de uma necessidade externa e clara, que leva a sociedade a aceitar as regras políticas. Acabe com as guerras e a soberania nacional, por fim, acaba também; esse é um conceito que Napoleão compreendia. Talvez tenha sido o primeiro líder moderno a entender o seu significado.

O salão de refeições de Le Grand Véfour estava começando a es­vaziar. O horário de almoço estava chegando ao fim e ela observou os fregueses despedindo-se uns dos outros, partindo aos poucos.

Napoleão planejava fazer a transição do estado de guerra para uma sociedade voltada para a paz — disse —, não apenas na França, mas em todos os territórios conquistados. Mas reconhecia que, para isso, precisaria de substitutos adequados para a guerra. Infelizmente, para ele, não existia nenhum em sua época.

O que poderia possivelmente ocupar o lugar da guerra?

Ela deu de ombros.

Difícil encontrar algo, mas não impossível. A idéia seria criar um inimigo alternativo. Uma ameaça, real ou imaginária, contra a qual a sociedade se agruparia a fim de se defender. Destruição em massa por armas nucleares, por exemplo. Era do que se tratava a Guerra Fria. Nenhum dos lados chegou a fazer muita coisa contra o outro, mas ambos gastaram bilhões em preparativos. A Guerra Fria foi uma época de florescimento para o governo. O sistema federal americano expandiu-se a níveis jamais vistos. A civilização ocidental alcançou novos patamares entre 1950 e 1990. O homem foi à lua graças à Guerra Fria. Eis um exemplo de um substituto digno para a guerra.

Bem pensado.

Há outros exemplos, embora menos convincentes. O aqueci­mento global, a perspectiva de escassez de alimentos, o controle de água potável. Esses têm sido testados nos anos recentes. Mas eles ou ainda não se intensificaram ou não têm sido percebidos como uma ameaça suficiente. Programas monumentais para a expansão dos ser­viços de saúde, da educação, do número de moradias populares e dos meios de transporte podem funcionar. Mas teriam de ser abrangentes, beneficiando a população inteira, despendendo de recursos em níveis astronômicos. A possibilidade de isso ocorrer é duvidosa. Mesmo uma guerra pequena gera despesas enormes. Prontidão e gastos militares geram desperdícios imensuráveis, que não podem ser comparados a despesas com o bem-estar social, embora os vários sistemas de saúde e programas de seguridade social ao redor do mundo joguem fora grandes quantidades de dinheiro. Mas, no final, simplesmente não conse­guem desperdiçar o bastante para tornar a empreitada uma substituta viável da guerra.

Thorvaldsen deu uma risadinha.

—A senhora consegue perceber como é absurdo o que está dizendo?

Perfeitamente. Mas a transição para a paz mundial é um empreendimento difícil. Ignorando o desafio de governar por um momento, há a questão da canalização da agressividade coletiva.

Como faziam os romanos? No Coliseu? Com gladiadores, jogos e sacrifícios?

Os romanos eram espertos. Reconheciam o valor dos conceitos que estou explicando. Numa sociedade que se ampara na paz, é pre­ciso criar alternativas para a guerra, a fim de se evitar a desintegração social. Os jogos ofereciam isso ao povo romano, e sua sociedade prosperou por séculos.

Ela podia ver que ele estava interessado no que estava dizendo.

Herre Thorvaldsen, há muito tempo percebeu-se, até por anti­gos monarcas, que o que não seria tolerado pelos indivíduos em tem­pos de paz seria aceito de bom grado durante a guerra. Esse conceito é particularmente válido hoje em dia, nas democracias modernas. De novo, veja os Estados Unidos. Em 1950, permitiram que a Primeira Emenda fosse ignorada quando a ameaça da invasão do comunismo lhes pareceu real. A liberdade de expressão tornou-se insignificante quando comparada ao que era, imaginava-se, o perigo representado pela União Soviética. Mesmo mais recentemente, após os ataques de 11 de setembro, aprovaram-se leis que, em qualquer outra época, teriam sido consideradas repulsivas pelos americanos. O Decreto Patriota suprimiu liberdades e invadiu a privacidade em níveis jamais vistos. Leis de vigilância restringiram liberdades civis estabelecidas. Surgiram leis de identificação que, antigamente, os americanos achariam repugnantes. Mas essas infrações foram permitidas, para que as­sim ficassem seguros...

Ou pelo menos achassem que estavam.

Ela sorriu.

Precisamente. É exatamente disso que estou falando. Uma ameaça externa verossímil resulta na expansão do poder político, con­tanto que a ameaça permaneça nesses termos.

Ela fez uma pausa.

E dentro dessa fórmula existe o potencial de grandes lucros.

 

MALONE APONTOU PARA O LIVRO QUE O PROFESSOR MURAD SEGURAVA e as linhas de escrita pitoresca.

Henrik não vai gostar do fato de não sabermos do que se trata. Murad continuou examinando a anomalia.

Tenho uma idéia. Vamos entrar no Louvre. Preciso checar uma coisa.

 

Thorvaldsen absorvia tudo o que estava sendo explicado por Eliza Larocque. Era evidente que ela havia pensado meticulosamente no que estava planejando. Decidiu conduzi-la novamente na direção de Ashby.

—A senhora não me perguntou nada a respeito do seu problema de segurança — disse, num tom gentil.

— Concluí que me contaria quando estivesse pronto.

Tomou um gole de vinho e organizou os pensamentos.

—Ashby tem uma dívida de cerca de 30 milhões de euros. Grande parte foi de empréstimos pessoais sem garantias, a altos juros.

Acho que lorde Ashby tem sido bastante dedicado e franco. Tem feito tudo o que lhe pedi.

Lorde Ashby é um ladrão. Como bem sabe, há alguns anos es­teve envolvido com um grupo ilícito de colecionadores de arte. Muitos do grupo acabaram enfrentando a justiça...

Nada foi provado a respeito de lorde Ashby.

De novo, nada disso o isenta. Sei que ele estava envolvido. A senhora sabe ele que estava envolvido. É por isso que ele faz parte do seu clube.

E ele está tendo excelentes resultados em relação aos meus pe­didos. Na verdade, está aqui, neste momento, em Paris, atrás de uma pista promissora. Uma que pode nos levar diretamente ao nosso obje­tivo. E por isso, Herre Thorvaldsen, talvez deseje perdoar tais deslizes.

 

MALONE SEGUIU o PROFESSOR MURAD PARA DENTRO DA PIRÂMIDE de vidro e os dois desceram uma série de escadas rolantes. Um ruído surdo e prolongado vazava da multidão à espera para entrar no mu­seu. Ficou imaginando para onde estariam indo e deu graças a Deus quando o professor ignorou as longas filas e as bilheterias, dirigindo-se à livraria.

A loja de dois andares estava lotada de informações — milhares de livros à venda, todos organizados por país e época. Murad foi até a extensa seção francesa e as mesas empilhadas com volumes grossos relacionados à era napoleônica.

— Venho sempre aqui — disse o acadêmico. — É uma ótima loja. Possuem vários textos obscuros que os lugares normais não teriam em estoque.

Conseguia entender a obsessão. Bibliófilos eram todos parecidos.

Murad passou os olhos apressadamente pelos títulos.

Posso ajudar? — perguntou.

Estou à procura de um volume francês. — Seu olhar continuava procurando avidamente pela mesa. — É sobre Santa Helena. Quase o comprei há algumas semanas mas... — Retirou um dos livros encadernados do fundo de uma das pilhas. — Aqui está! Muito caro. Portanto, resignei-me a admirá-lo de longe.

Malone sorriu. Gostava do homem. Sem afetações.

Murad pousou o livro sobre a mesa e folheou as páginas. Pareceu encontrar o que estava procurando e pediu a Malone para que abris­se o livro do Palácio dos Inválidos na página em que estava a escrita pitoresca.

Exatamente o que pensei — disse Murad, apontando para o li­vro que tinham ido ver. — Esta é uma foto de algumas anotações de Santa Helena, escritas durante o exílio de Napoleão. Sabemos que seu ajudante, Saint-Denis, reescreveu muitos dos rascunhos de Napoleão, já que a letra do imperador era terrível. — Murad apontou: — Veja. As duas amostras que temos aqui são quase idênticas.

Malone comparou os livros e viu que a escrita era realmente pare­cida. O mesmo eme arredondado — M — e os ês formais E — As bases expandidas dos efes — F. Os as de formato estranho — ɖ — que se pareciam com dês oblíquos.

Então foi Saint-Denis quem escreveu no livro merovíngio? — perguntou.

Não, não foi ele.

Malone estava confuso.

Murad apontou para o livro aberto.

Leia a legenda sob a foto.

Ele leu — e percebeu enfim.

É a letra de Napoleão?

Murad assentiu e apontou para o texto merovíngio.

Ele próprio escreveu o que está neste livro e depois o deixou especificamente sob a responsabilidade de Saint-Denis. O que torna estas linhas importantes.

Lembrou-se do que Thorvaldsen havia lhe dito sobre a conversa ente Ashby e Caroline. Uma carta encontrada por ela, também na letra de Napoleão. Dissera a Ashby que era raro ver a letra do imperador.

Mencionou isso a Murad.

Estava pensando a mesma coisa — disse o professor. — Henrik me passou essas informações também. Muitíssimo curioso.

Examinou as 14 linhas de letras esquisitas e outras marcações aleatórias redigidas pelo próprio Napoleão.

Há uma mensagem aqui — disse Malone. — Tem de haver.

Thorvaldsen decidiu cutucar ainda mais Eliza, e perguntou:

E se lorde Ashby não for capaz de cumprir o que pediu a ele?

Ela deu de ombros.

Poucos, além do meu antepassado, procuraram pelo tesouro de Napoleão. Geralmente é considerado um mito. Espero que estejam errados. Caso falhe, não acho que a culpa será de Ashby. Pelo menos está tentando.

Enquanto a engana a respeito das finanças dele.

Passou um dedo pela taça de vinho.

Admito, é um problema. Não estou feliz quanto a isso. — Fez uma pausa. — Mas ainda tenho que ver as provas.

E se Ashby encontrar o tesouro e não disser à senhora?

Como eu saberia?

Não saberá.

Há algum sentido na sua insistência?

Viu que ela percebera a alusão a uma promessa não dita.

— Seja o que for que ele esteja procurando aqui, hoje, em Paris, parece ser importante. A senhora mesma disse que pode ser a chave para tudo. Se meu julgamento estiver correto, ele irá lhe dizer que não conseguiu reaver o que quer que seja, que não estava lá ou vai inven­tar outra desculpa. Fica a seu critério julgar se se trata da verdade ou se é mentira.

 

Malone despediu-se do Dr. Murad no Louvre, após fazer fotocópias das duas páginas do livro merovíngio que continham a escrita de Napoleão, deixando-as com o professor. Precisava ficar com o livro.

Pegou um táxi, cruzou o Sena e dirigiu-se à Torre Eiffel. Debaixo da estrutura de ferro, em meio a uma multidão alvoroçada de visitantes que aguardavam nas filas para subirem de elevador, avistou Stephanie, Collins e outra mulher — Meagan Morrison.

Bom ver que está bem — disse a Collins. — É claro que não es­cutou nada do que eu disse no museu.

Simplesmente não consegui ficar ali de braços cruzados.

Na verdade, podia, e deveria ter ficado.

Malone encarou Meagan. Era exatamente como Stephanie a havia descrito: baixinha, ansiosa, atraente e interessante.

Meagan apontou para Stephanie.

—Ela é sempre tão insistente?

Na verdade, deu uma melhorada no decorrer dos anos.

Será que vocês dois podiam nos dar licença por um minuto? — pediu Stephanie. Ela segurou Malone pelo braço, levando-o para longe dali ao mesmo tempo que perguntava: — O que você encontrou no Palácio dos Inválidos?

Ele retirou o livro que estava sob o paletó, mostrando-o a ela.

Lorde Ashby não ficou feliz quando viu que tinha desaparecido. Observei-o enquanto lia o meu bilhete. Mas também reparei que evitou as perguntas de Caroline, e que colocou a culpa de tudo em Eliza.

O que explica o porquê de Thorvaldsen não saber que Ashby está trabalhando conosco. Ele tem guardado bem o segredo. Nunca pensei que Thorvaldsen pudesse ter o homem sob vigilância durante 24 horas por dia ou ficar a par de toda comunicação.

Malone sabia que qualquer vigilância intensa, independentemente do grau de profissionalismo, acabava por ser notada. Melhor ser sele­tivo e cuidadoso.

Nossos homens não têm sido muito bem-sucedidos na tarefa de supervisionar Ashby — disse ela. — Ele faz o que bem quer, está sempre no controle da situação.

Observou Collins e Meagan Morrison, a 30 metros de distância.

Ele está se saindo bem?

Quer ser um agente de campo, portanto vou lhe dar um chance.

Ele está pronto?

É tudo o que tenho agora, então vai ter que estar.

E ela?

Esquentada. Arrogante. Tem os colhões de um gato de rua.

Consigo ver vocês duas batendo cabeças.

Ela sorriu.

—A inteligência francesa está trabalhando comigo. Sabem a res­peito de Peter Lyon. Querem-no desesperadamente. Está ligado a três ataques a bomba que aconteceram aqui, há dez anos, nos quais quatro policiais morreram.

Ainda estão putos quanto ao Cluny?

Ela deu uma risadinha.

O directeur générale de la sécurité extérieure sabe tudo ao seu respeito. Contou-me sobre a abadia em Belém e a catedral de Aachen. Mas é racional. É por isso que você e Ashby entraram e saíram do palácio sem problemas. Acredite, a segurança deles é melhor do que aquilo.

Preciso de algo mais. — Gesticulou com o livro. — Uma reportagem sobre o roubo. Nada muito grande, apenas o bastante para sair nos jornais de amanhã. Ajudaria.

Em relação a Henrik?

Ele assentiu.

Preciso mantê-lo em xeque. Ele tem um plano para colocar Eliza contra Ashby por causa do roubo. Não vejo nenhum mal nisso. Vamos, então, lhe fazer um agrado.

Onde ele está?

Jogando Eliza cada vez mais contra Ashby. Acho que você per­cebeu que, como ele, estou jogando dos dois lados em benefício pró­prio.

E, do jeito certo, é possível que todos consigamos o que queremos.

Ele estava cansado, começava a sentir o peso das duas últimas semanas. Passou uma das mãos pelo cabelo. Tinha, também, que telefonar para Gary. O Natal era no dia seguinte, um dia em que os pais deveriam falar com os filhos.

E agora? — perguntou.

Nós dois vamos para Londres.

 

Collins colocou as mãos desnudas dentro dos bolsos do casaco e permaneceu entre a multidão, juntamente com Morrison. O sol brilhava intensamente no céu limpo de inverno.

Por que está fazendo isso? — perguntou a ela.

Sua amiga ali me disse que seria presa se não o fizesse.

Não é esse o porquê.

O rosto agradável não demonstrava sinais de apreensão, algo em que ele tinha reparado freqüentemente desde o dia anterior. Nenhuma negatividade também ou, pelo menos, nada que deixasse transparecer.

Estamos fazendo algo finalmente — disse. — Chega de conver­sas. Estamos aqui, Sam, fazendo alguma coisa.

Sentira um pouco desse mesmo excitamento.

Podemos detê-los. Sabia que era real. Você também. Não somos loucos, Sam.

Você tem consciência de que o que Stephanie quer que façamos é perigoso?

Ela deu de ombros.

Será que é tão mim assim? Pior do que no museu, ontem? O que há de errado com ser um pouco impetuoso?

O que a palavra quer dizer? — perguntou ele a Norstrum.

Livre. Sem cerimônias. De certa forma, descuidado.

Deixou que seu cérebro de 15 anos absorvesse a definição. Quebrara uma regra, arriscando uma escalada sem acessórios no paredão de pedra. Norstrum havia lhe dito para usar uma corda, mas ele desobedecera.

Sam, todos nós corremos riscos. É como alcançamos o sucesso. Mas nunca riscos tolos. O sucesso vem de minimizarmos riscos, não de torná-los maiores.

Mas não precisava de uma corda. Deu tudo certo.

E o que poderia ter acontecido se você não conseguisse se segurar? Ou se seu pé escorregasse? Ou tivesse uma câimbra? —As perguntas con­cisas de Norstrum indicavam claramente que, embora não estivesse descon­tente, com certeza não estava feliz com o ocorrido. — Você teria caído. Ficado deformado pelo resto da vida, talvez morrido, e o que teria ganho ao correr tal risco?

Analisou as palavras de Norstrum, deixando que a reprimenda flutuasse pela sua mente enquanto procurava a resposta correta. Não gostava da idéia de chatear Norstrum. Quando era mais jovem, não se importava, mas quanto mais velho ficava, menos queria decepcionar o homem.

Desculpe. Foi tolice minha.

O homem mais velho segurou um dos seus ombros.

Lembre-se, Sam, a insensatez irá matá-lo.

A advertência de Norstrum soou clara em seu cérebro, enquanto pensava nas três perguntas de Morrison. Dezessete anos trás, quando escalou o rochedo sem a corda de segurança, aprendera que Norstrum estava certo.

A insensatez iria matá-lo.

No dia anterior, no museu, esquecera a lição.

Não hoje.

Stephanie o tinha convocado para uma missão. Acarretava riscos? Vários. Mas deveriam ser medidos e calculados.

Sem impetuosidades.

Quero ser cuidadoso, Meagan, Você deveria fazer o mesmo.

 

                   Inglaterra 14h40

Ashby olhou para o relógio e percebeu que o Bentley levara lixa pouco mais de uma hora para fazer o percurso entre o Aeropor­to de Heathrow e Salen Hall. Notou, também, que os empregados da propriedade estavam atarefados com a manutenção do terreno, embora a fonte de cavalos-marinhos, o espelho d'água e a pequena cascata permanecessem silenciosos durante o inverno. Exceto pelo estábulo ampliado, a cozinha e a ala dos empregados, a sede não sofrerá modifi­cações desde o século XVIII. Os trechos de floresta e pastagem também eram os mesmos. A área ao redor, antigamente um pântano, fora recu­perada pelos antepassados de Ashby, que a modificaram com o plantio de grama e a construção de cercas. Sentia orgulho tanto pela sua beleza como pela independência, pois era uma das poucas mansões particula­res britânicas que não dependiam do turismo para se manter.

E nunca dependeria.

O Bentley parou no topo de um beco sem saída, coberto de casca­lho. Tijolos alaranjados e vidraças em forma de losango reluziam ao brilho do sol. Gárgulas ao longo do telhado olhavam de soslaio, com seus machados em riste, como se mandassem um aviso a possíveis invasores.

—Vou pesquisar um pouco — disse Caroline ao entrarem na casa.

Ótimo. Ele precisava pensar. Ele e o Sr. Guildhall foram diretamen­te para o escritório e Ashby sentou-se à sua mesa. O dia havia sido desastroso.

Permanecera quieto durante o curto voo de Paris e adiara o inevitável. Retirou o telefone do gancho e discou o número do celular de Eliza.

Espero que tenha mais notícias boas — disse ela.

Na verdade, não. O livro não estava lá. Será que, talvez, tenha sido mudado de lugar durante a reforma? Encontrei o mostruário e os outros itens, mas não o volume sobre os merovíngios.

—A informação que me passaram foi bastante específica.

O livro não estava lá. Pode checar de novo?

Claro.

É possível termos uma conversa em particular amanhã de ma­nhã, antes da nossa reunião, quando retornar a Paris?

Estarei na torre às 10h30.

—Até lá, então.

 

Desligou o telefone e verificou o relógio.

Dali a quatro horas. O horário marcado para o encontro com seu contato americano. Esperava que fosse a última conversa, pois estava cansado de malabarismos. Queria o tesouro de Napoleão e esperara que o livro no Palácio dos Inválidos fosse a chave. Agora os malditos americanos estavam no controle.

Teria de regatear naquela noite.

No dia seguinte seria tarde demais.

 

Eliza desligou o telefone e voltou a pensar no que Thorvaldsen havia previsto. "Se meu julgamento estiver correto, ele irá lhe dizer que não conseguiu reaver o que quer que seja, que não estava lá ou vai in­ventar outra desculpa." E, novamente, no que havia lhe dito um pouco antes de encerrarem o almoço e ele deixar o restaurante. "Fica a seu critério julgar se se trata da verdade ou se é mentira."

Estava em segurança na sua casa no Marais, próxima ao local onde o Clube de Paris se reunia. Sua família era dona da proprie­dade desde meados do século XIX. Ela crescera entre as paredes elegantes e agora passava a maior parte do tempo ali. Suas fontes dentro do governo francês haviam lhe assegurado que o livro que procurava estava lá, no museu. Uma relíquia menor, de pouco sig­nificado histórico, além daquele de pertencer à biblioteca particular de Napoleão e ser mencionada em seu testamento. As fontes fize­ram poucas perguntas e nem sequer as fariam se descobrissem que o livro tinha desaparecido, já que tinham aprendido, havia muito tem­po, que para desfrutar da generosidade de Eliza era preciso manter a boca fechada.

Ela se perguntava sobre o que fazer a respeito de Thorvaldsen des­de que partira de Le Grand Véfour. O bilionário dinamarquês surgira do nada, com informações que ela simplesmente não podia ignorar. Ele com certeza estava a par dos negócios dela, e o oráculo havia confirmado suas intenções. Agora o próprio Ashby tinha corroborado a previsão de Thorvaldsen. Ela não tinha intenção de ignorar os avisos por mais tempo.

Pegou o número de telefone que Thorvaldsen tinha lhe dado no dia anterior e discou. Quando ele atendeu, falou:

Decidi convidar você para que se junte ao nosso grupo.

Muito generoso da sua parte. Imagino, então, que lorde Ashby a tenha decepcionado?

Digamos que despertou a minha curiosidade. Está livre ama­nhã? O clube se reunirá para uma sessão importante.

Sou judeu. O Natal não é um feriado para mim.

—Nem para mim. Vamos nos reunir de manhã, na Sala Gustave Eiffel, na primeira plataforma da torre, às 11 horas. Há um salão de banquetes adorável e planejamos um almoço para depois da conversa.

Parece maravilhoso.

Nos veremos lá, então.

Desligou o telefone.

Amanhã.

Um dia pelo qual tinha esperado por muito tempo. Planejava ex­plicar aos membros tudo o que os pergaminhos haviam ensinado à sua família. Já havia relatado parte do conteúdo a Thorvaldsen durante o almoço, mas não mencionara, de propósito, uma advertência. Numa sociedade ancorada na paz, sem guerras, estimular o medo nas massas por meio de ameaças políticas, sociológicas, ecológicas, científicas ou culturais provara ser praticamente impossível. Nenhuma tentativa, até então, tivera credibilidade ou magnitude suficientes para funcionar a longo prazo. Por exemplo, a peste negra, cuja ameaça alcançou esca­las globais, chegou perto, mas algo concebido a partir de condições desconhecidas, com pouca ou nenhuma possibilidade de controle, era impraticável.

E qualquer ameaça teria de ser passível de ser contida.

Afinal, era essa a idéia. Assustar as pessoas para que elas obede­cessem, para então lucrar a partir do medo que sentiam. A melhor solu­ção era a mais simples. Inventar a ameaça. Esse plano tinha um grande número de vantagens. Como o botão regulador de um lustre que podia ser ajustado em diferentes graus de intensidade de luz. Felizmente, no mundo de hoje, existia um inimigo verossímil que já havia estimulado os sentimentos do público.

O terrorismo.

Como dissera a Thorvaldsen, uma ameaça precisa que havia sur­tido efeito nos Estados Unidos e, portanto, deveria funcionar em qual­quer lugar.

No dia seguinte veria se os pergaminhos estavam corretos.

O que Napoleão queria fazer, ela faria agora.

Por duzentos anos a família dela havia lucrado a partir dos infor­túnios políticos dos outros. Pozzo di Borgo havia decifrado o conteúdo dos manuscritos para ensinar aos seus filhos, que por sua vez ensi­naram aos deles, que não importava quem fazia as leis — controle o dinheiro e possuirá o poder verdadeiro.

Para isso, precisava controlar os acontecimentos.

O dia seguinte seria um experimento.

E se funcionasse?

Haveria mais a caminho.

 

                   Londres

                   18h40

Ashby procurava por um cachecol verde e dourado da Harrods entre cerca de centena de rostos na escuridão. Era óbvio que a maioria das pessoas que o rodeavam eram turistas, para quem um guia gritava algo sobre a sensação da neblina e das lâmpadas a gás, e agosto de 1888, quando Jack, o Estripador, espalhou o terror entre as prostitutas embriagadas do East End.

Ashby sorriu.

O Estripador parecia interessar apenas aos estrangeiros. Pergun­tava-se se, nos seus próprios países, essas mesmas pessoas pagariam para serem levadas numa excursão pelos lugares freqüentados por um assassino em série.

Estava na região leste da cidade, em Whitechapel, caminhando por uma calçada lotada de gente. À esquerda, do outro lado de uma rua movimentada, erguia-se a Torre de Londres, de pedras cinza-amarronzadas, inundadas pela iluminação de vapor de sódio. O que antes fora um enorme fosso era agora um mar de grama verde-esmeralda. Próxi­mo dali, com a Ponte da Torre iluminada a distância, o Tâmisa soprava uma brisa fria.

Boa-noite, lorde Ashby.

A mulher que surgiu ao lado dele era baixinha, de cabelos curtos, tinha cerca de 60 anos, era definitivamente americana e usava um cachecol verde e dourado. Exatamente como haviam lhe dito.

No entanto.

A senhora é nova — disse a ela.

Sou quem está no comando.

Aquela informação lhe chamou a atenção.

Havia se encontrado com seu contato regular da inteligência americana em várias das caminhadas turísticas em Londres. Haviam feito a "Volta pelo British Museum", a "Londres de Shakespeare", o "Mayfair Antigo" e, agora, "Os lugares freqüentados por Jack, o Estripador".

E quem é você? — perguntou de forma casual.

Stephanie Nelle.

O grupo parou para que o guia contasse algo a respeito de o edifí­cio adiante ser aquele onde a primeira vítima do estripador tinha sido encontrada. Stephanie segurou-o pelo braço e, enquanto os outros focalizavam no guia, eles se desviaram, seguindo na trilha da multidão.

Conveniente o nosso encontro nesta excursão—disse ela.—Jack, o Estripador, aterrorizava as pessoas e também nunca foi capturado.

Ashby não conseguiu sorrir diante da tentativa de ironia.

Se não precisa mais da minha ajuda, posso encerrar meu envolvimento agora e ir embora.

O grupo voltou a caminhar.

Tenho consciência de que o preço que iremos pagar é a sua liberdade. Mas isso não significa que a idéia me agrade.

Ele disse a si mesmo para permanecer calmo. Tinha de agradar à mulher, e a quem ela representava, por mais 24 horas, pelo menos — até obter o livro.

Não me falaram que iríamos trabalhar juntos nessa missão — disse ele.

O senhor prometeu fornecer informações hoje. Vim pessoal­mente ouvir o que tem a nos oferecer.

O grupo parou diante de outro lugar eminente.

Peter Lyon vai explodir a Igreja do Domo, no Palácio dos In­válidos, amanhã — disse em voz baixa. — Dia de Natal. Como um manifesto.

Do quê?

Eliza é uma fanática. Age baseada na sabedoria cultivada há sé­culos pela sua família. Algo bastante complicado e, para mim, no geral, irrelevante, mas há um grupo francês extremista, sempre existe um, que quer se manifestar.

Quem é desta vez?

Tem algo a ver com a discriminação contra os imigrantes sob a legislação francesa. Norte-africanos que se espalharam pela França há anos e foram recebidos como trabalhadores convidados. Agora são dez por cento da população e estão cansados de serem reprimidos. Querem fazer um manifesto. Eliza possui os meios e não quer levar os créditos, portanto Lyon intermediou uma parceria.

Quero compreender o propósito dessa parceria.

Ashby suspirou.

Não é capaz de decifrá-la? A França está no meio de uma mu­dança demográfica. Os imigrantes argelinos e marroquinos estão se tornando um problema. São agora mais franceses do que africanos, mas a direita xenofóbica e a esquerda secularista os odeiam. Se as taxas de nascimento persistirem como são hoje, dentro de vinte anos o núme­ro de imigrantes irá superar o de nativos franceses.

E o que explodir o Palácio dos Inválidos tem a ver com essa inevitabilidade?

É simbólico. Os imigrantes ressentem-se da condição de ci­dadãos de segunda classe. Querem as suas mesquitas. A liberdade. Expressão política. Influência. Poder. O que todo o restante possui.

Mas os franceses nativos não querem que tenham essas coisas. Disseram-me que uma boa quantidade de leis foi aprovada visando a man­ter essas pessoas a distância. — Fez uma pausa. — E o antissemitismo também está aumentando pela França. Os judeus estão ficando nova­mente temerosos.

E é tudo culpa dos imigrantes?

Ele deu de ombros.

Talvez um pouco. Para mim, verdade seja dita, os franceses radicais são mais responsáveis. Mas a direita política e a extrema es­querda têm sido bem-sucedidas em jogar a culpa por todas as mazelas ocorridas no país nesses imigrantes.

—Ainda estou à espera da minha resposta.

A excursão deteve-se diante de outro ponto de interesse, e o guia continuou com a ladainha.

Eliza está fazendo um teste — disse. — Uma maneira de cana­lizar a agressividade nacional francesa para algo que não tenha a ver com guerras. Um ataque realizado por alguém visto como radical, con­tra um monumento francês, o túmulo do seu amado Napoleão, a quem ela, a propósito, despreza, canalizaria, de acordo com o raciocínio dela, essa agressividade coletiva. Pelo menos é assim que ela o explica.

Por que ela odeia Napoleão?

Ele deu de ombros.

Como vou saber? Tradição de família, imagino. Um de seus antepassados articulou uma vendetta corsa contra Napoleão. Nunca en­tendi de verdade.

O Clube de Paris irá se reunir amanhã na Torre Eiffel?

Ele assentiu de maneira elogiosa.

Você andou se informando. Não teria sido mais prudente fazer uma pergunta direta para checar se eu estava mentindo?

Estou com pressa e, de qualquer modo, não acredito necessariamente em nada do que disse.

Ashby balançou a cabeça.

—Impertinente. E arrogante. Por quê? Tenho cooperado com seu pessoal...

Quando quis. O senhor deliberadamente reteve a informação sobre um ataque.

Como você teria feito, se estivesse no meu lugar. Mas a se­nhora sabe agora, com antecedência. Portanto, prepare-se da maneira adequada.

Não sei de nada. Como será feito?

Céus, por que eu estaria a par dessa informação?

O senhor foi a pessoa que negociou com Lyon.

—Acredite em mim, aquele demônio só fala o que lhe interessa. Tudo o que quer saber é "quando" e se o seu dinheiro já foi enviado. Além disso, não explica nada.

É só isso?

O Palácio dos Inválidos fecha no dia de Natal. Pelo menos não haverá gente com quem se preocupar.

Esse fato não pareceu confortá-la.

O senhor não respondeu ainda à minha pergunta sobre o Clube de Paris.

Vamos nos encontrar amanhã de manhã na Torre Eiffel. Eliza alugou o salão de banquetes no primeiro andar e planeja levar todos até o alto por volta do meio-dia. Como disse, Lyon gosta de cronogramas. A explosão será ao meio-dia, e o clube estará no ponto de obser­vação perfeito.

Os integrantes sabem o que vai acontecer?

Céus, não. Apenas eu, ela e nosso sul-africano. Imagino que a maioria deles ficaria amedrontada.

Embora não se incomodem em lucrar alguma coisa com isso.

A excursão penetrou ainda mais nas entranhas no sombrio leste de Londres.

—A moralidade raramente vem ao caso quando se trata da busca por lucros — disse.

Então, me diga o que realmente quero saber. Como, afinal, po­demos nos conectar a Lyon?

Do mesmo modo que eu.

—Isso não é suficiente. Quero que o entreguem a mim.

Ele parou e olhou para ela.

Como propõe que eu o faça? Eu o vi apenas uma vez e ele estava completamente disfarçado. Comunica-se comigo quando quer.

Falavam em voz baixa, caminhando atrás do grupo principal. Mesmo vestindo seu casaco de lã mais grosso e luvas forradas de pele, Ashby sentia frio. Todo o ar exalado se vaporizava diante de seus olhos.

—Tenho certeza de que pode organizar algo — disse. — Considerando que não vamos acusá-lo.

Percebeu a ameaça não verbalizada.

É por isso que tenho a honra da sua presença hoje à noite? Veio me trazer um ultimato? Seu representante não tinha autoridade suficiente?

O jogo acabou, Ashby. Sua utilidade está diminuindo rapida­mente. Sugiro que faça algo a fim de aumentar seu valor.

Na verdade, era o que acabara de fazer, mas não estava prestes a dizer coisa alguma à mulher. Então, perguntou:

Por que o seu pessoal pegou o livro do Palácio dos Inválidos?

Ela deu uma risadinha.

Para mostrar ao senhor que houve uma mudança de gerencia­mento no nosso lado. Novas regras estão em pauta.

Tenho sorte de a senhora ser tão dedicada à sua profissão.

O senhor realmente acredita que existe um tesouro perdido de Napoleão a ser encontrado?

Eliza Larocque certamente acredita.

Stephanie tirou algo de baixo do casaco e o entregou a ele.

Isso demonstra a minha boa-fé.

Segurou o volume com as mãos enluvadas. No brilho da luz am­biente de um lampião de rua enxergou o título. Os reinos merovíngios de 450 a 751 d.C.

O livro do Palácio dos Inválidos.

—Agora — disse — me dê o que desejo.

A excursão se aproximou do pub Ten Bells, e ele escutou o guia explicar que o estabelecimento havia recebido muitas das vítimas de Jack, o Estripador, e talvez o próprio. Um intervalo de 15 minutos foi anunciado e bebidas estavam disponíveis no lado de dentro.

Devia voltar para Salen Hall e Caroline.

Acabamos?

Por hoje sim.

Farei todo o possível para garantir que consiga o que quer.

Espero que sim — disse ela. — Pelo seu bem.

E com essa deixa a mulher chamada Stephanie partiu em direção à noite.

Olhou para baixo, para o livro. As coisas finalmente começavam a se encaixar.

Boa-noite, lorde Ashby.

A voz inesperada soou próximo do seu ouvido direito, baixa e gutural, sob o som ritmado das solas batendo no pavimento ao redor. Virou-se e, sob o brilho de outro lampião de rua, percebeu cabelos num tom avermelhado, espessos, e sobrancelhas finas. Reparou no nariz aquilino, no rosto marcado de cicatrizes e no par de óculos. O homem estava vestido, como os demais ao seu redor, com roupas grossas de inverno, incluindo luvas e cachecol. Uma das mãos segurava a alça de uma sacola de compras da Selfridges.

Então, viu os olhos.

Um tom de âmbar queimado.

Você nunca tem a mesma aparência?—perguntou a Peter Lyon.

Dificilmente.

Deve ser difícil não ter uma identidade.

Não tenho problemas com a minha identidade. Sei exatamente quem e o que sou. — Dessa vez, a voz soou quase americana.

Estava preocupado. Peter Lyon não deveria estar ali.

O senhor e eu precisamos conversar, lorde Ashby.

 

                   Paris, 20h50

Sam desceu uma escada em espiral, que serpeava para dentro do chão, logo atrás de Meagan. Haviam jantado num café do Quartier Latin, após terem sido temporariamente libertados da custódia protetora de Stephanie.

—Aonde estamos indo? — indagou, enquanto continuavam des­cendo em direção à escuridão absoluta.

Para o porão de Paris — disse Meagan.

Seguia na dianteira, quebrando a escuridão abaixo com uma lan­terna. Ao chegarem ao chão, entregou-lhe uma também.

Eles não deixam lanternas aqui em baixo para transgressores como nós.

Transgressores?

Ela apontou para ele com o feixe de luz.

É ilegal estarmos aqui.

O que é "aqui"?

As pedreiras. Cerca de 270 quilômetros de túneis e galerias. Formadas quando extraíram calcário do chão, utilizando-o nos edifícios, para fazerem gesso natural para reboque, argila para os tijolos e as te­lhas. Tudo o que foi necessário para construir Paris. Isto é o que sobrou. O subterrâneo de Paris.

E a razão de estarmos aqui...?

Ela deu de ombros.

Gosto deste lugar. Achei que fosse gostar também.

Meagan tomou a dianteira, seguindo uma passagem levemente úmida, claramente desbastada a partir de rocha sólida e amparada por um vigamento de calcário. O ar estava fresco, mas não frio, e o piso era irregular e imprevisível.

Cuidado com os ratos — disse ela. — Podem transmitir leptospirose.

Ele parou.

Perdão?

Infecção bacteriana. É fatal.

Você é maluca?

Ela parou.

A menos que esteja planejando deixar que um deles o morda, ou tocar a urina deles com os dedos, diria que está seguro.

O que estamos fazendo aqui?

Você é sempre tão impaciente? Tudo o que tem a fazer é me se­guir. Quero lhe mostrar alguma coisa.

Reiniciaram a caminhada ao longo do corredor, a cabeça dele rente ao teto. A luz da lanterna dela revelava cerca de 15 metros de túnel a diante deles,

—Norstrum! —gritou para a escuridão.

Perguntava-se o porquê de ter desobedecido e vindo, mas a promessa de uma aventura tinha sido sedutora demais para ser ignorada. As cavernas não ficavam muito longe da escola e todos sabiam a respeito delas. Engraçado como ninguém quase utilizava a palavra "orfanato". Sempre "a escola". Ou "o instituto". Quem eram os pais dele? Não tinha a menor idéia. Tinha sido abandonado logo após o nascimento, e a polícia nunca foi capaz de determinar como chegara a Christchurch. A escola insistia para que os alunos soubessem o máximo possível sobre si mesmos. Nada de segredos—apreciava de verdade essa regra —-, mas simplesmente não havia nada para ele descobrir.

Sam.

A voz de Norstrum.

Tinham lhe dito que Norstrum havia lhe dado o nome de "Sam Collins", em homenagem a um tio de quem gostava muito, assim que chegou à escola.

Onde está você? — gritou para escuridão.

—Não muito longe.

Apontou a lanterna e continuou caminhando.

Fica bem aqui — disse Meagan, quando chegaram ao final do túnel, que desembocava no que parecia ser uma espaçosa galeria, com múltiplas saídas e pé-direito alto.

Pilares de pedra sustentavam o teto curvado. Meagan direcionou a luz para as paredes rústicas e ele avistou uma miríade de grafites, inscrições, personagens de desenhos, mosaicos, poesia e, até mesmo, letras de música.

É uma colagem de história social — disse ela. — Estes desenhos datam da época da Revolução Francesa, do cerco prússico no final do século XIX e da ocupação alemã nos anos 1940. Os subterrâneos de Paris foram sempre um refúgio da guerra, da morte e da destruição.

Um dos desenhos chamou a atenção dele. O esboço de uma guilhotina.

Do Grande Terreur — disse, por sobre um dos ombros dele. — Duzentos anos. Um vestígio de um tempo em que mortes sangrentas faziam parte do dia a dia deste lugar. Esta foi feita com fumaça ne­gra. Naqueles tempos, os trabalhadores da pedreira carregavam velas e lamparinas a óleo e colocavam a chama próximo da parede, o que fazia com que as pedras ficassem marcadas pelo carbono endurecido. Bastante perspicaz.

Collins apontou com a sua lanterna.

Este é da Revolução Francesa?

Ela assentiu.

Isto aqui é uma cápsula do tempo, Sam. O subterrâneo inteiro é assim. Entende por que gosto daqui?

Collins olhou para as imagens ao redor. A maioria parecia ter sido concebida com sobriedade, mas o humor e a sátira eram evidentes tam­bém, juntamente com as diversas imagens pornográficas, adicionadas.

Este lugar é extraordinário — disse ela à escuridão. — Venho muito aqui. É tranqüilo e silencioso. Como um retorno ao útero. Voltar à superfície, para mim, às vezes é como nascer de novo.

Ficou surpreso com a franqueza dela. Aparentemente, existiam fissuras naquela superfície durona. Então, compreendeu.

Você está com medo, não está?

Ela o encarou e, na luz que emanava de sua lanterna, ele viu sinceridade nos olhos dela.

Você sabe que estou.

Eu também.

Não é errado sentir medo — disse Norstrum, quando finalmente o encontrou na caverna. —Mas não deveria ter vindo aqui sozinho.

Ele sabia disso agora.

O medo pode ser um aliado—afirmou Norstrum. — Carregue-o sem­pre consigo, independentemente da batalha. É o que o mantém atento.

Mas não quero sentir medo. Odeio sentir medo.

Norstrum pôs uma das mãos sobre o ombro dele.

Não há escolha, Sam. O medo é criado pelas circunstâncias. A única coisa que pode ser controlada é a maneira como você responde a ele. Concen­tre-se nisso e será sempre bem-sucedido.

Collins pôs uma das mãos sobre os ombros dela, suavemente. Era a primeira vez que se tocavam e ela não se afastou.

Surpreendendo a si mesmo, estava contente.

Vamos ficar bem — disse a ela.

Acho que os homens de ontem, no museu, iam acabar me machucando.

Foi essa a razão verdadeira de ter forçado as coisas enquanto eu estava lá?

Após um momento de hesitação, ela assentiu.

Reconhecia a honestidade dela. Finalmente.

Parece que ambos mordemos mais do que podíamos mastigar.

Ela sorriu.

Aparentemente, sim.

Ele recolheu a mão e ficou pensando na demonstração de vulnerabilidade. Tinham se comunicado por e-mail diversas vezes durante o último ano. Pensava que estava falando com um homem chamado Jimmy Foddrell. Em vez disso, quem estava do outro lado da internet era uma mulher intrigante. Pensando em retrospecto, na verdade ela tentara se aproximar algumas vezes nas trocas de mensagens. Nunca como agora — mas o suficiente para ele sentir uma ligação.

Ela apontou com a lanterna.

Ao final destes corredores estão as catacumbas. Onde estão empilhados os ossos de 6 milhões de pessoas. Já esteve lá?

Ele balançou a cabeça negativamente.

Não.

Permaneceu quieto.

Estes desenhos — disse ela — foram feitos por gente comum. Mas são um ensaio histórico. As paredes aqui embaixo estão cobertas de imagens. Mostram a vida das pessoas e as épocas, os medos e as superstições. São um registro. — Ela fez uma pausa. — Temos uma chance, Sam, de fazer algo verdadeiro. Algo que pode fazer a diferença.

Eram tão parecidos... Ambos viviam num mundo virtual de para­nóia e especulações. E ambos nutriam boas intenções.

Então, vamos fazê-lo — disse.

Ela deu uma risadinha.

Gostaria que fosse tão fácil assim. Tenho um mau pressentimen­to quanto a isso.

Ela parecia extrair forças daquele espetáculo subterrâneo. Talvez, também, um pouco de sabedoria.

Você se importaria de explicar o porquê?

Ela balançou a cabeça.

Não consigo, mesmo. É somente uma intuição.

Meagan aproximou-se. Estava a poucos centímetros dele.

Você sabia que um beijo é capaz de encurtar a vida em três minutos?

Ponderou sobre a estranha pergunta e balançou a cabeça.

Não um beijinho no rosto. Um beijo de verdade causa vim certo grau de palpitações, e o coração tem de se esforçar mais em quatro segundos do que normalmente teria em três minutos.

É mesmo?

Foi feito um estudo. Caramba, Sam, há um estudo para tudo: 480 beijos, aqueles beijos de verdade, encurtarão a vida de uma pessoa em um dia; 2.300 custarão uma semana; 120 mil? Lá se vai um ano.

Aproximou-se mais.

Ele sorriu.

E o que você quer dizer...?

— Posso abrir mão de três minutos da minha vida, se você também puder.

 

                   Londres

Malone observou Stephanie desaparecer noite adentro e um outro homem se aproximar imediatamente de Graham Ashby, carregando uma sacola de compras da Selfridges. Malone tinha imergido na caminhada turística, seguindo a multidão tagarela. Sua tarefa era dar cobertura a Stephanie e ficar de olho em tudo, mas talvez finalmente estivesse com sorte.

Reparou nos detalhes da aparência do acompanhante de Ashby.

Cabelos avermelhados, nariz fino, estatura mediana, cerca de 75 quilos, vestindo, como os demais, um casaco de lã, cachecol e luvas. Mas algo lhe dizia que não se tratava de um indivíduo qualquer.

Vários integrantes da excursão seguiram para dentro do pub Ten Bells, derramando o alvoroço das conversas simultâneas pela noite. Comerciantes anunciavam camisetas de Jack, o Estripador, e canecas rememorativas. Ashby e Ruivo permaneceram do lado de fora, na calçada, e Malone se aproximou lentamente, posicionando-se a cerca de 9 metros de distância, com um amontoado de gente barulhenta entre eles. Flashes pipocavam na escuridão, pois muitos aproveitavam para tirar fotos diante da fachada colorida do pub.

Resolveu participar da folia e comprou uma camiseta de um dos vendedores.

 

Ashby estava preocupado.

—Achei que seria melhor conversarmos hoje à noite — disse Peter Lyon.

Como sabia que eu estava aqui?

A mulher. É uma conhecida?

Repassou a conversa com Stephanie. Tinham falado baixo e se afastado da multidão. Não havia ninguém próximo a eles. Teria Lyon ouvido alguma coisa?

Tenho várias conhecidas.

Lyon deu uma risadinha.

Tenho certeza de que sim. As mulheres nos proporcionam os melhores prazeres e os piores problemas.

Como me encontrou? — perguntou novamente.

Você pensou, em algum momento, que eu não descobriria o que está fazendo?

As pernas dele começaram a tremer, e não por causa do frio.

Lyon fez um gesto indicando que fossem até o outro lado da rua, para longe do pub, onde havia menos gente e pouca iluminação. Ashby caminhou com medo, mas chegou à conclusão de que Lyon não faria nada diante de tantas testemunhas.

Ou faria?

Estou ciente do seu contato com os americanos desde o início — disse Lyon, com a voz baixa e controlada. — É engraçado como se considera tão esperto.

Não faria sentido mentir.

Não tive escolha.

Lyon deu de ombros.

Todos temos escolhas, mas isso não importa para mim. Quero seu dinheiro e você quer meus serviços. Imagino que ainda queira...

Mais do que nunca.

Lyon lhe apontou um dedo.

Então, custará o triplo do preço original. Os primeiros cem por cento pela sua traição. Os segundos, pela encrenca em que me colocou.

Não estava em condição de discutir. Além disso, de qualquer ma­neira, estava usando o dinheiro do clube.

Isso pode ser providenciado.

Ela lhe deu um livro. O que é?

Isso faz parte do novo acordo? Ficar a par de todos os meus negócios?

O senhor deveria saber, lorde Ashby, que tem sido difícil resistir ao impulso de meter uma bala no meio da sua testa. Detesto homens sem caráter, e o senhor não possui nenhum.

Uma postura interessante para um assassino em massa, mas guar­dou a opinião para si próprio.

Se não fosse o dinheiro... — Lyon fez uma pausa. — Por favor, não abuse da minha paciência.

Ele aceitou o conselho e respondeu à pergunta do homem.

É um projeto em que venho trabalhando. Um tesouro perdido. Os americanos confiscaram uma pista vital a fim de garantir a minha colaboração. Ela o devolveu a mim.

Um tesouro? Fiquei sabendo que o senhor já foi um ávido colecionador, roubando objetos furtados, guardando-os para si. O senhor é bastante esperto, mesmo. Mas a polícia deu um basta nisso tudo.

Temporariamente.

Lyon riu.

Está bem, lorde Ashby, vá atrás do seu tesouro. Transfira o meu dinheiro ao amanhecer, e é só. Vou checar antes do início dos eventos.

Estará lá.

Ouviu o guia reunir a multidão, dizendo-lhes que era hora de prosseguir.

Acho que ficarei até o fim da excursão — disse Lyon. — Muito interessante. Jack, o Estripador.

E quanto a amanhã? Você sabe que os americanos vão estar observando.

Eu sei disso. Será um belo show.

Malone juntou-se à excursão, e o grupo, incluindo ruivo, foi atrás do guia, avançando lentamente escuridão adentro. Manteve Ruivo sob observação, já que decidira que ele era bem mais interessante do que Ashby.

A excursão prosseguiu por mais vinte minutos ao longo de ruas escuras como carvão, culminando numa das estações do metrô. Uma vez dentro, Ruivo utilizou um bilhete para passar pela roleta. Malone correu até uma máquina, na qual rapidamente adquiriu quatro bilhetes, ultrapassando o portão de acesso à escada rolante ao mesmo tempo que a sua presa aterrissava no piso inferior. Não estava à vontade com a iluminação intensa e a multidão dispersa, mas não tinha escolha.

Pisou da escada para a plataforma.

Ruivo estava a cerca de 6 metros, ainda segurando a sacola de compras.

Um painel eletrônico indicava que o próximo trem chegaria em 75 segundos. Examinou um dos mapas do metrô londrino afixado na parede e viu que a estação onde estava fazia parte da District Line, uma linha paralela ao Tâmisa que percorria a cidade inteira de leste a oeste. A plataforma era a dos trens com destino a oeste, e o percurso os levaria até Tower Hill, abaixo de Westminster, através da estação de Victoria e, por fim, para além de Kensington.

Mais pessoas desembocavam na plataforma no momento em que o trem chegou.

Manteve-se distante, posicionando-se, com folga, na retaguarda, e seguiu sua presa até o vagão. Ficou de pé e, assim como Ruivo, ainda cerca de 6 metros adiante, abraçado a uma das barras de aço inoxidável. O vagão estava abarrotado o suficiente para fazer com que rostos passassem praticamente despercebidos.

Enquanto o trem andava, com seu ruído característico, Malone analisava seu alvo, que parecia um homem mais velho, saindo à noite, aproveitando Londres.

Mas ele viu os olhos.

Cor de âmbar.

Sabia que Peter Lyon possuía uma anomalia. Adorava disfarces, mas um defeito ocular genético não apenas tinha proporcionado uma cor esquisita às suas íris, mas também as deixado suscetíveis a infecções, o que não permitia o uso de lentes de contato. Lyon preferia usar óculos para proteger a inconfundível coloração âmbar, mas não naque­la noite.

Observou Lyon engatar uma conversa com uma senhora idosa de pé ao seu lado. Malone reparou num exemplar do Times caído no chão. Perguntou se o jornal era de alguém e diante da negativa de todos, pegou-o e leu a primeira página, permitindo que seu olhar por vezes se desviasse das palavras.

Estava atento, também, às estações.

Quinze passaram por eles antes que Peter Lyon desembarcasse em Earl's Court. Era também a parada de Piccadilly Line e sinaliza­ções em azul e verde direcionavam os passageiros às respectivas rotas.

Lyon seguiu os sinais em azul da Piccadilly Line com destino a oeste e embarcou num vagão à frente ao de Malone.

Uma passada de olhos pelo mapa acima das portas confirmou que se dirigiam diretamente ao Aeroporto de Heathrow.

 

                   Paris

Thorvaldsen examinou os escritos das duas páginas do livro merovíngio. Esperava que Malone o entregasse inteiro a Murad duran­te o encontro mais cedo no Louvre, mas, por algum motivo, não foi o que ocorreu.

Ele fez cópias de duas páginas apenas — disse Murad. — Levou o livro com ele.

Estavam novamente sentados no Ritz, no movimentado Bar Hemingway.

Malone chegou a mencionar para onde estava indo?

Murad balançou a cabeça negativamente.

Não disse nada. Passei o dia no Louvre fazendo comparações entre outras amostras de caligrafia. Estas 14 linhas foram, com certeza, escritas por Napoleão. Só me resta concluir que os algarismos romanos são também da sua autoria.

Checou o relógio na parede atrás do bar. Quase 23h. Não gostava de ficar assim, sem informações. Deus sabe que ele próprio tinha agido desse modo diversas vezes, mas tudo mudava quando era ele nessa condição.

—A carta sobre a qual me contou — disse Murad —, a que foi encontrada por Ashby na Córsega, com as letras em destaque que, decodificadas, levaram ao Salmo 31. Quaisquer cartas escritas por Napo­leão para a família teriam sido um desperdício de tempo. Sua segunda mulher, Maria Luísa, deu à luz uma criança em 1821, filha de outro homem, enquanto ainda estava casada com Napoleão. O imperador certamente nunca soube disso, já que mantinha um retrato dela na sua casa em Santa Helena. Ele a venerava. É claro, ela estava na Áustria com o pai, o rei, que se aliara ao Tsar Alexandre e ajudara a derrotar Napoleão. Não há provas de que a carta escrita pelo imperador tenha chegado às mãos dela ou às do seu filho. De fato, após sua morte, um emissário viajou até Viena levando consigo algumas mensagens finais e ela nem sequer concordou em recebê-lo.

Sorte nossa.

Murad assentiu.

Napoleão era um tolo quando se tratava de mulheres. Descar­tou aquela que poderia tê-lo ajudado de verdade, Josefina. Ela era esté­ril e ele precisava de um herdeiro. Ele então pediu o divórcio e se casou com Maria Luísa.

O professor gesticulou enquanto segurava as duas fotocópias.

Mesmo assim, aqui está, enviando mensagens secretas à segun­da esposa, pensando que ela ainda era sua aliada.

—Alguma idéia do significado da referência ao Salmo 31 na carta encontrada por Ashby? — perguntou.

O estudioso balançou a cabeça.

Você leu o salmo? Parece uma maneira de demonstrar o quanto estava com pena de si mesmo. No entanto, deparei-me com algo interessante num dos textos à venda no Louvre. Após Napoleão ter abdica­do em 1814, o novo governo de Paris enviou emissários a Orleans para confiscar as roupas, a placa imperial, os diamantes, tudo de valor que pertencia a Maria Luísa. Interrogaram-na minuciosamente a respeito da riqueza de Napoleão, mas ela lhes disse que não sabia de nada, o que, provavelmente, era verdade.

Portanto, a caça ao tesouro começou aí então?

Parece que sim.

E continua nos dias de hoje. O que o fez pensar em Ashby.

No dia seguinte finalmente estariam frente à frente, E quanto a Malone. O que estava fazendo?

 

Malone saiu do trem, seguindo Lyon até o terminal dois do Aeroporto de Heathrow. A possibilidade de sua presa estar prestes a deixar Londres o preocupava, mas o homem andou para longe dos bal­cões de venda de passagens e dos pontos de verificação de segurança. Cruzou o terminal, parando diante de um posto de controle e exibindo o que aparentava ser um documento de identificação com uma fotogra­fia. Não havia como Malone continuar seguindo o homem em seguran­ça, pois o corredor estava vazio e tinha uma única porta ao fundo. Por­tanto, entrou numa sala adjacente, retirou o celular de um dos bolsos e discou o número de Stephanie.

Estou no Aeroporto de Heathrow, no posto de controle número 46-B. Preciso passar por ele, e rápido. Há apenas vim guarda munido com um rádio.

Segure as pontas. Tenho as pessoas certas aqui comigo.

Gostava da habilidade que Stephanie possuía de, imediatamente, digerir um problema, sem perguntas ou discussões, e então encontrar uma solução.

Deixou a sala e se aproximou do jovem guarda. Lyon tinha saído pela porta ao final do corredor. Malone se identificou para o guarda, mostrando-lhe o passaporte, e explicou que precisava passar pela porta.

Sem chances — disse o homem. — Seu nome precisa esta? na lista — disse, batendo com um dedo ossudo no caderno sobre a mesa diante dele.

Quem era o homem que acabou de passar por aqui? — arriscou.

Por que eu lhe diria isso? Quem é você, afinal?

O rádio do homem emitiu um ruído agudo, ele desapertou um dos botões do aparelho e respondeu. Malone não conseguia ouvir a conver­sa por causa dos fones de ouvido do homem, mas pelo modo como o guarda o olhava concluiu que o assunto era ele.

O guarda encerrou a conversa.

Eu sou o motivo da ligação — disse Malone. —Agora, quem era o homem que acabou de passar por aqui?

Robert Pryce.

O que ele faz?

Não tenho idéia, mas já esteve aqui antes. Como posso ajudá-lo, Sr. Malone?

Tinha de admirar o respeito dos ingleses pela autoridade.

Para onde Pryce está indo?

As credenciais dele o designam ao hangar 56-R.

Me diga como chegar lá.

O guarda rapidamente esboçou um mapa num pedaço de papel e apontou para a porta na extremidade mais distante do saguão.

Leva ao pátio de manobras.

Com passos rápidos, Malone partiu em direção à noite.

Encontrou rapidamente o hangar 56-R, onde uma luz alaranjada emanava de três das suas janelas. Motores de jatos rugiam a distância, acima de um Heathrow movimentado. Um conjunto de edifícios de tamanhos variados o cercava. A área parecia ser destinada às companhias aéreas particulares e aos jatos empresariais.

Decidiu que uma ligeira olhadela através de uma das janelas seria a medida mais segura. Deu uma volta ao redor do edifício e passou pela porta retrátil. Do outro lado, trepou em uma das janelas e olhou para dentro, avistando um monomotor Cessna Skyhawk. O homem que dizia se chamar Robert Pryce — mas que, certamente, era Peter Lyon — ocupava-se com a inspeção das asas e do motor. A fuselagem era branca, listrada de azul e amarelo, e Malone memorizou os núme­ros de identificação impressos na cauda. Não havia ninguém mais no hangar, e Lyon parecia fazer uma inspeção visual. A sacola da Selfridges jazia sobre o piso de concreto, próximo a tuna das saídas.

Observou Lyon entrar no avião, onde permaneceu por alguns minutos, e então sair, batendo a porta ao fechá-la. Lyon pegou a sacola de compras e apagou as luzes do hangar.

Precisava sair dali o mais rapidamente possível. Havia uma real possibilidade de ser visto.

Malone ouviu uma porta de metal sendo aberta e, então, fechada.

Ficou paralisado, esperando que sua presa caminhasse de volta para o terminal. Se fosse na sua direção, não haveria como escapar.

Rastejou até um dos cantos e arriscou uma olhadela.

Lyon seguia a rota de volta ao terminal, mas antes caminhou até uma caçamba de lixo, entre os hangares às escuras, onde jogou a sacola da Selfridges.

Malone queria a sacola, mas, ao mesmo tempo, não queria perder o alvo.

Portanto, esperou até que Lyon entrasse novamente no terminal e correu até a lixeira. Não havia tempo para se enfiar no lado de dentro, por isso apressou-se em direção à porta e, após um momento de hesita­ção, virou cuidadosamente a maçaneta.

Avistou somente o guarda, que permanecia sentado à sua mesa.

Malone entrou e perguntou:

— Para onde ele foi?

O guarda apontou para o terminal principal.

Há uma sacola da Selfridges numa caçamba lá fora. Coloque-a em algum lugar seguro. Não abra ou mexa em seu conteúdo em hipó­tese alguma. Voltarei. Compreendeu?

Perfeitamente.

Gostava da atitude do rapaz.

Do centro do terminal, não viu Peter Lyon. Correu até a estação do metrô e viu que o próximo trem só chegaria em dez minutos. Regressou e examinou a variedade de balcões de aluguel de carros, lojas e comerciantes de câmbio. Para as 22h de uma véspera de Natal havia um número razoável de pessoas circulando por ali.

Seguiu em direção a vim sanitário masculino e entrou.

Parecia que não havia ninguém nos cerca de 12 mictórios e os azulejos brancos do recinto faiscavam sob as luzes fluorescentes. O ar tépido recendia a água sanitária. Utilizou um dos mictórios, lavou as mãos e ensaboou também o rosto.

Era bom sentir o contato com a água fria.

Enxaguou o rosto e pegou uma toalha de papel, secando a testa e as bochechas com leves tapinhas, retirando o excesso de água e sabão dos olhos. Ao abri-los, viu um homem de pé, logo atrás dele, no espelho.

E quem é você? — perguntou Lyon numa voz gutural, mais americana do que europeia.

—Alguém que gostaria de meter uma bala na sua testa.

O tom âmbar e profundo dos olhos dele chamou sua atenção e o brilho oleoso que deles emanava era capaz de enfeitiçar alguém.

Lyon lentamente retirou uma das mãos do bolso do casaco, reve­lando uma pistola de pequeno calibre.

Uma pena que não seja possível. Gostou da excursão? Jack, o Estripador, é fascinante.

Consigo ver o porquê de considerá-lo como tal.

Lyon deu uma leve risadinha.

Gosto tanto desse tipo de sarcasmo. Agora...

Um menininho entrou no banheiro, contornando o vão de entrada que levava de volta ao terminal, chamando pelo pai. Malone se aproveitou da distração inesperada para acertar a mão armada de Lyon com o cotovelo.

A arma disparou, fazendo um barulho alto em resposta, e a bala foi de encontro ao teto.

Malone deu o bote, projetando-se adiante, e impeliu tanto ele mes­mo como Lyon contra uma divisória de mármore. Com a mão esquer­da, prendeu um dos pulsos de Lyon, forçando a arma para cima.

Ouviu o menino gritar e, depois, outras vozes.

Levou um dos joelhos até o abdome de Lyon, mas o homem pare­ceu pressentir o movimento e girou o corpo, afastando-se.

Lyon aparentemente percebeu que o cerco estava apertando, por isso correu em direção à porta. Malone foi logo atrás dele e colocou um dos braços ao redor do pescoço de Lyon, mantendo uma das mãos no seu rosto, puxando-o para trás, mas a coronha da arma subitamente o atingiu na testa.

O aposento apareceu e desapareceu do seu campo de visão.

Perdeu o equilíbrio e o controle.

Lyon se libertou e sumiu, saindo pela porta.

Malone cambaleou e tentou ir atrás dele, mas uma onda de tontura o levou ao chão. Através de uma névoa, viu um guarda uniformizado correr para dentro. Esfregou as têmporas e tentou recuperar o equilíbrio.

Havia um homem aqui. Ruivo, aparência mais velha, armado.

Percebeu que tinha algo numa das mãos. Algo que sentiu se soltar quando tentou interromper a fuga de Lyon.

Será fácil encontrá-lo.

Segurava um fragmento de silicone, com o formato e a coloração de um nariz humano e estreito. O guarda ficou embasbacado.

Está usando uma máscara. Fiquei com um pedaço.

O guarda correu para fora, e Malone caminhou devagar e titubeante para o terminal. Uma multidão havia se juntado e surgiram vá­rios outros guardas. Um deles era o rapaz de antes.

Malone se dirigiu até ele e perguntou:

Pegou a sacola de compras?

Siga-me.

Dois minutos mais tarde, ele e o guarda estavam numa salinha de entrevistas, próximo à da segurança. A sacola da Selfridges estava sobre uma mesa laminada.

Checou o peso. Leve. Retirou do interior outra sacola de plástico, verde, que aparentava conter diversos objetos de formato estranho.

Emaranhados uns nos outros.

Colocou o amontoado sobre a mesa e o desfez.

A possibilidade de haver explosivos não o preocupava, uma vez que Lyon tinha jogado a sacola fora sem hesitar. Deixou que ele rolasse sobre a mesa e ficou chocado ao ver quatro réplicas de metal da Torre Eiffel — o tipo de suvenir facilmente comprado em qualquer lugar de Paris.

Mas que diabo é isso? — perguntou o rapaz.

Ele pensou exatamente o mesmo.

 

                   Sallen Hall

                   23h40

Ashby observou Caroline examinar o livro tão convenientemente cedido por Stephanie. Mentira para Caroline dizendo que falara com Eliza e que ela finalmente concordara em lhe ceder o exemplar, enviando-o imediatamente por um mensageiro a bordo de um ferry, proveniente do outro lado Canal da Mancha.

É a letra de Napoleão — disse Caroline, o excitamento presente em sua voz. — Sem dúvida.

E isso é importante?

Tem de ser. Possuímos informações que não tínhamos antes. Muito mais do que Pozzo di Borgo chegou a reunir. Analisei todos os escritos fornecidos por Eliza. Nada muito relevante, mesmo. Di Borgo trabalhava mais a partir de boatos e fofocas do que de fatos históricos. Acho que o ódio que sentia por Napoleão prejudicava sua habilidade de analisar o problema de forma eficaz e encontrar respostas.

O ódio bem poderia afetar a capacidade de julgamento. Era por isso que raramente deixava que tal emoção o dominasse.

—Está ficando tarde e tenho de estar em Paris amanhã.

Posso ir junto?

São negócios do clube. E é Natal, portanto as lojas estarão fe­chadas.

Sabia que um dos passatempos preferidos dela era perambular pela Avenida Montaigne e suas várias fileiras de lojas de designers. Numa situação normal, proporcionaria a ela esse prazer, mas não amanhã.           

Ela continuou estudando o livro merovíngio.

Não consigo deixar de pensar que temos todas as peças.

Mas ele continuava preocupado com Peter Lyon. A quantia adicio­nal já havia sido transferida, conforme ele exigira, uma vez que tinha pavor do que poderia acontecer caso ele resolvesse dar para trás. Era incrível que o sul-africano estivesse completamente a par do envolvimento dos americanos.

—Tenho certeza de que será capaz de juntar essas peças.

Isso é só uma tentativa de fazer com que eu tire a roupa.

Ele sorriu.

O pensamento me ocorreu.

Posso acompanhá-lo amanhã?

Percebeu o ar de travessura no olhar dela e soube que não teria escolha.

Está bem. Conquanto que eu... fique completamente satisfeito hoje à noite.

Acho que isso pode ser providenciado.

Mas viu que a mente dela permanecia no livro e na mensagem de Napoleão. Apontou para o texto escrito à mão.

—Está em latim. Da Bíblia. Tem a ver com a história da refeição de Jesus e dos discípulos durante o sabá. Existem três versões dessa história, uma em cada um dos evangelhos de Lucas, Mateus e Marcos. Escrevi as 14 linhas para que pudéssemos lê-las.

 

ET FACTUM EST EUM IN

SABBATO SECUNDO PRIMO A

BIRE PER SCCETES DISCIPULI AUTEM ILLIRIS COE

PERUNT VELLER SPICAS ET FRINCANTES MANIBUS + MANDU

CABANT QUIDAM AUTEM DE FARISAEIS DI

CEBANT EI ECCE QUIA FACIUNT DISCIPULI TUI SAB

BATIS + QUOD NON LICET RESPONDENS AUTEM INS

SE IXIT AD EOS NUMQUAM HOC

LECISTIS QUOD FECIT DAVID QUANDO

ESURUT IPSE ET QUI CUM EO ERAI + INTROIBOT IN DOMUM

DEI EE PANES PROPOSITIONIS

MANDUCA VIT ET DEDIT ET QUI

CUM ERANT UXIIO QUIBOS NO

N LICEBAT MANDUCARE SI NON SOLIS SACERDOTIBUS

 

Há uma quantidade enorme de erros. Discipuli é com "c", não "g", portanto corrigi o texto original do livro. Napoleão também fez uma confusão com os ipse dixit. E as letras uxiio não fazem sentido al­gum. Mas, fora isso, eis o que significa.

"E, no segundo sabá, ele caminhou por um milharal. Mas seus discípulos começaram a colher as espigas e a comê-las, esfregando-as nas mãos. Alguns fariseus haviam lhe dito: 'Fique atento, pois o que seus discípulos estão fazendo no sabá é contra a lei.' Ao responder, disse-lhes: 'Já leram sobre o que fez David quando tinha fome? Ele e os que com ele entraram na casa de Deus e comeram do pão do sacramen­to deram-no àqueles que o acompanhavam, a quem a lei não permitia comer, salvo os sacerdotes.'"

Ergueu o olhar até ele.

Muito estranho, concorda?

No mínimo, muito estranho.

Não corresponde a nenhuma das três versões bíblicas. É mais como uma combinação das três. Mas há algo ainda mais estranho.

Ele aguardou.

Napoleão não sabia nada de latim.

 

Thorvaldsen se despediu do professor Murad e retirou-se para a sua suíte. Era quase meia-noite, mas Paris parecia sempre des­perta. O saguão do Ritz estava em alvoroço com o fluxo de pessoas que entravam e saíam dos salões barulhentos. Ao sair do elevador no seu andar, avistou à espera, sentado num sofá, um homem de rosto sombrio e robusto e cabelos lisos e negros.

Conhecia-o bem, já que havia contratado a empresa dinamarque­sa dele para investigar a morte de Cai. Eles mantinham contato geralmente por telefone e, na verdade, pensava que estivesse na Inglaterra, supervisionando a vigilância sobre Ashby.

Não esperava vê-lo aqui — disse.

Peguei um vôo de Londres mais cedo. Mas tenho monitorado o que está acontecendo lá.

Havia algo errado.

Venha comigo.

Caminharam ao longo do corredor silencioso,

Há algo de que precisa saber.

Parou, encarando o investigador.

Seguimos Ashby desde que ele deixou Paris. Ele ficou em casa por algumas horas, depois saiu, quando escureceu. Participou de uma excursão sobre Jack, o Estripador.

Percebeu o quanto aquilo era estranho para um londrino.

O homem entregou-lhe uma foto.

Encontrou-se com esta mulher. Conseguimos fotografá-los.

Foi necessário apenas um instante para que reconhecesse o rosto. Stephanie Nelle.

Alarmes dispararam no cérebro dele, e ele lutou bravamente para não revelar a preocupação que sentia.

Malone também estava presente, linha ouvido bem?

Malone?

O investigador assentiu e lhe mostrou outra foto.

Na multidão. Partiu ao mesmo tempo que a mulher.

Malone conversou com Ashby?

Não, foi embora seguindo um homem que conversou com Ashby. Decidimos não impedir a partida dos dois, para não causar problemas.

Thorvaldsen não gostou do que viu nos olhos do homem.

E fica pior?

O investigador assentiu.

A mulher da foto deu um livro para Ashby.

 

                   Paris

                   Terça-feira, 25 de dezembro

                   10h30

Malone explorou a Igreja do Domo no Palácio dos Inválidos. As seis capelas, que sobressaíam a partir de um núcleo central, abri­gavam seus respectivos heróis militares e eram dedicadas ou à Vir­gem Maria ou a algum dos fundadores da Igreja Católica Romana. Patrulhou o andar inferior, 6 metros abaixo do piso principal, contor­nando a tumba de Napoleão. Não havia telefonado para Gary ainda e estava louco da vida consigo mesmo por isso, mas a noite anterior tinha sido longa.

Encontrou alguma coisa?—Ouviu Stephanie chamar acima dele. Encarava-o de onde estava, de pé diante da balaustrada de mármore.

Não há esconderijos possíveis neste mausoléu, muito menos para uma bomba.

Cães já haviam farejado todos os cantos. Nada fora encontrado. As buscas agora estavam sendo realizadas por todo o Palácio dos Inválidos. Nada, até então. Mas como Ashby dissera que a igreja era o alvo principal, cada centímetro quadrado estava sendo cuidadosamente varrido.

Estava diante da entrada de uma pequena galeria iluminada poi lamparinas antigas de latão. Dentro, a inscrição sobre o chão de um mo­numento identificava a cripta de Napoleão D, rei de Roma, 1811-1832. Elevada sobre o túmulo do filho estava uma estátua em mármore do pai, enfeitada com mantos de coroação e segurando vim cetro e um globo como se fosse uma cruz.

Stephanie olhou para o relógio.

A hora do encontro se aproxima. O edifício está limpo, Malone. Alguma coisa está errada.

Tinham entrado no hangar em Heathrow na noite anterior, após a fuga de Peter Lyon do terminal, e examinado o avião. O registro do Cessna estava em nome de uma corporação belga indefinida, de propriedade de uma empresa tcheca fictícia. A Europol tentou chegar a um nome, mas todos eles, mais os endereços, não levavam a lugar ne­nhum. O aluguel do próprio hangar fora pago três meses adiantado, pela mesma corporação tcheca.

Lyon me confrontou por um motivo — disse. — Queria que soubéssemos que ele sabia que estávamos aqui. Deixou aquelas pequenas réplicas da Torre Eiffel para nós. Caramba, ele nem sequer se deu ao trabalho de usar óculos para esconder os olhos. A questão é: Ashby sabe que sabemos?

Ela balançou a cabeça negativamente.

Está na Torre Eiffel agora. Chegou há poucos minutos. Se ele soubesse a esta altura, já teríamos alguma notícia. Seus vigilantes me disseram que a timidez não é uma de suas qualidades.

Repassou as possibilidades em sua cabeça. Thorvaldsen tentara ligar, três vezes, mas ele não atendera nem retornara os telefonemas. Malone permanecera em Londres na noite passada, a fim de evitar as muitas perguntas em relação ao livro às quais, simplesmente, não podia responder. Não agora. Conversariam mais tarde. O Clube de Paris se reunira para o encontro. A Torre Eiffel ficaria fechada até as 13h. Apenas os integrantes do clube, a equipe que serviria o almoço e os seguranças estariam na primeira plataforma. Malone sabia que Stepha­nie tinha resolvido não colocar gente demais da inteligência francesa na equipe de segurança. Em vez disso, dera um jeito de colocar dois pares de olhos e ouvidos na sala de reuniões.

Sam e Meagan estão a postos? — perguntou ele.

Stephanie assentiu.

E bem ansiosos, devo acrescentar.

Isso é sempre um problema.

Duvido que estejam em perigo. Eliza fez questão de que todos fossem revistados para que não houvesse armas e instrumentos de escuta.

Ele encarou a tumba monstruosa de Napoleão.

Você sabia que esta coisa não é feita de pórfiro vermelho, e sim de quartzo aventurina da Finlândia?

Não conte aos franceses — disse ela. — Mas acho que é como no caso de George Washington e a cerejeira.

Ouviu um tinido e observou Stephanie atender o celular, escutar por uns instantes e então encerrar a ligação.

Temos um problema — disse.

Ergueu os olhos até ela.

Henrik está na Torre Eiffel, entrando para a reunião do clube.

 

Collins vestia a jaqueta curta e as calças pretas designadas à equipe que serviria o almoço, ambas cortesia de Stephanie Nelle. Meagan estava trajada de forma semelhante. Estavam entre os 11 funcionários que tinham preparado o salão de banquetes com apenas duas mesas redondas, cobertas com linho dourado e adornadas com louças finas. O salão em si tinha, talvez, 22 metros de comprimento por 15 de largura e um palco numa das extremidades. Comportava, facilmente, umas duzentas pessoas, portanto as duas mesas pareciam contrastar com o ambiente.

Estava ocupado, arrumando xícaras de café, condimentos e cui­dando para que o samovar funcionasse corretamente. Não tinha a me­nor idéia dos mecanismos do aparelho, mas ficar ali o deixava próximo da passagem até o local da reunião. À sua direita, graças a uma longa parede de janelas de vidros espelhados, uma vista espetacular do Sena e da margem direita do rio.

Três homens mais velhos e duas senhoras de meia-idade já haviam chegado, tendo sido saudados por uma mulher de aparência imponente, vestindo um conjunto social acinzentado.

Eliza Larocque.

Três horas antes, Stephanie havia lhe mostrado fotografias dos sete membros do clube e ele as relacionou a cada um dos rostos. Três estavam no controle de grandes instituições de empréstimos e um deles fazia parte do Parlamento europeu. Todos tinham pago 20 milhões de euros para fazer parte do que iria acontecer — os quais, de acordo com Stephanie, já tinham lhes rendido muito mais do que 140 milhões em lucros ilícitos.

Ali estava a prova viva de que tudo de que suspeitava realmente existia.

Ele e Meagan estavam ali para ver e escutar. Acima de tudo, con­forme Stephanie tinha lhes advertido, não deveriam correr riscos desnecessários que comprometessem suas identidades.

Ele terminou de mexer na máquina de café e virou-se para ir embora.

Outro convidado chegou.

Vestido de forma semelhante à dos outros homens, num terno cinza-chumbo, camisa branca e gravata amarelo-claro. Henrik Thorvaldsen.

Thorvaldsen entrou na Sala Gustave Eiffel e foi imediatamente cumprimentado por Eliza. Estendeu-lhe uma das mãos, e eles trocaram um leve aperto.

Estou tão contente que esteja aqui — disse ela. — Seu terno é muito elegante.

Raramente os visto. Mas pensei que seria o melhor para esta ocasião.

Assentiu, grata.

Aprecio a consideração. É um dia importante.

Manteve o contato visual com Eliza. Era importante que pensasse que ele estava interessado. Reparou nas conversas ocasionais no res­tante do aposento, onde alguns dos membros circulavam. Os empre­gados estavam preparando os lugares onde seriam servidos o almoço e as bebidas e tira-gostos. Havia muito tempo que aprendera algo útil: quando entramos em qualquer lugar, é possível dizer se estamos entre amigos ou inimigos após dois minutos.

Reconheceu pelo menos metade dos rostos. Homens e mulheres de negócios e da área de finanças. A presença de alguns foi uma autêntica surpresa, já que nunca os tinha imaginado como conspiradores. Todos eram ricos, mas não muito, certamente não tanto quanto ele, portanto fazia sentido que se agarrassem a um esquema capaz, talvez, de gerar lucros fáceis, rápidos e jamais vistos.

Antes que pudesse avaliar completamente os seus arredores, um homem alto, moreno, de barba grisalha e intensos olhos cinzentos aproximou-se.

Eliza sorriu, estendeu-lhe um dos braços, puxando o recém-chegado para perto de si, e disse:

Queria apresentá-lo a uma pessoa. Ela o encarou.

Henrik, este é lorde Graham Ashby.

 

Malone subiu da cripta de Napoleão por uma escada de mármore, flanqueada no alto por duas estátuas funerárias de bronze. Uma sustentava a coroa e a mão de Justiça, e a outra, espada e globo. Stephanie esperava por ele diante do grande altar da igreja, cujo dossel de colunas torsas remetia ao de Bernini, na Basílica de São Pedro.

Parece que Henrik foi bem-sucedido em seus esforços — disse ela. — Conseguiu um convite para o clube.

Ele tem tuna missão. Você tem de compreender.

Sim. Mas também tenho a minha, e você é capaz de compreen­der. Quero Peter Lyon.

Olhou ao redor na igreja deserta.

A coisa toda não cheira bem. Lyon sabe que estamos no seu en­calço. Aquele avião nunca foi de alguma utilidade para ele.

Mas ele sabe, também, que não podemos revelar nossos intentos.

O que explicava o porquê de a Igreja do Domo não estar rodea­da pela polícia. E o hospital e o centro dos pensionistas do Palácio dos Inválidos não terem sido evacuados. Os veteranos tinham tuna unidade cirúrgica ultramoderna a seu dispor, e cerca de uma cente­na deles vivia em regime permanente nos edifícios que flanqueavam a Igreja do Domo. A busca por explosivos começara ali, de maneira discreta, na noite anterior. Nada que fosse capaz de causar alarme quanto a um possível problema. Apenas uma busca tranqüila. Um alerta geral teria acabado com quaisquer chances de pegar Lyon ou o Clube de Paris.

Mas a tarefa provou ser intimidante.

O Palácio dos Inválidos abrangia centenas de milhares de metros quadrados, espalhados sob dúzias de edifícios de vários andares. Lugares demais onde esconder explosivos.

O nome de Stephanie vazou do rádio que carregava, fazendo um estalido, e então uma voz masculina disse:

Encontramos algo.

Onde?

Na cúpula.

Estamos a caminho.

 

Com um sorriso forçado nos lábios, Thorvaldsen trocou um aperto de mão com Ashby e disse:

Prazer em conhecê-lo.

Igualmente. Conheço a sua família há muitos anos. Admiro, também, suas porcelanas.

Ele assentiu diante do elogio.

Percebeu que Eliza observava todos os seus movimentos, avalian­do tanto ele como Ashby, portanto reuniu todo o seu charme e continuou a desempenhar o papel.

Eliza me disse — anunciou Ashby — que o senhor quer entrar para o clube.

— Me parece um empreendimento vantajoso.

—Acho que vai gostar de nós como grupo. Estamos apenas no começo, mas as reuniões são altamente proveitosas.

Passou os olhos pelo salão novamente e contou sete membros, incluindo Ashby e Eliza. Os empregados perambulavam como fantasmas à deriva, concluindo tarefas, saindo um a um por uma porta distante.

A intensa luz do sol inundava o ambiente através de uma parede de janelas, banhando o tapete vermelho e os objetos felpudos ao redor com vim brilho suave.

Eliza pediu a todos que se sentassem.

Ashby saiu em busca de um assento.

Thorvaldsen caminhou até a mesa mais próxima, mas antes avistou um rapaz, um dos garçons, guardando algumas cadeiras sobressalentes atrás do palco à sua direita. Pensou, primeiro, que estava enganado, mas quando o empregado retornou para mais uma leva, teve certeza.

Sam Collins.

Ali.

 

Malone e Stpehanie subiram por uma escada de metal frio que culminava num espaço entre as paredes interiores e exteriores. O domo não era constituído por uma única peça. Em vez disso, apenas um dos dois andares de janelas que eram visíveis no tambor externo podia ser visto do lado de dentro. Uma segunda cúpula, completamen­te embutida na primeira, visível através da abertura no topo da cúpula mais baixa, capturava a luz diurna por meio de uma segunda série de janelas, iluminando o interior. Era um engenhoso projeto de ambientes aninhados, evidente apenas quando visto do ponto mais alto.

Encontraram uma plataforma adjacente à cúpula superior, entre as vigas de madeira e aço — mais recentes — que se cruzavam, formando o esqueleto externo do edifício. Outra escada de metal entre os esteios, apontando para o centro, levava até uma segunda plataforma, onde se ancorava uma última escada, que, por sua vez, conduzia até a clarabóia. Estavam perto do topo da igreja, a cerca de 90 metros de altura. Na segunda plataforma, sob a clarabóia, encontraram vim dos funcionários da segurança francesa, que estava havia várias horas no Palácio dos Inválidos.

Apontava para cima.

— Ali.

 

Eliza estava satisfeita. Os sete membros do clube, juntamente com Thorvaldsen, estavam presentes. Todos procuravam por vim as­sento. Insistira em duas mesas para que ninguém se sentisse espremi­do. Odiava ficar espremida. O que talvez se explicasse pelo fato de ter vivido sozinha durante toda sua vida adulta. Não que, de vez em quando, dispensasse a distração deliciosa proporcionada pelos homens. Mas a idéia de um relacionamento íntimo, de ter alguém com quem compartilhar seus pensamentos e sentimentos e que, por sua vez, quisesse compartilhar os dele, causava-lhe repulsa.

Observou atentamente Ashby ser apresentado a Thorvaldsen. Nenhum dos dois esboçou uma reação. Era claro que se tratava de dois desconhecidos se encontrando pela primeira vez.

Checou o relógio de pulso.

Estava na hora.

Antes que pudesse requisitar a atenção de todos, Thorvaldsen se aproximou, falando em voz baixa:

—A senhora leu o Le Parisien hoje de manhã?

— Deixei a leitura para mais tarde. A manhã foi cheia.

Observou-o tirar vim recorte de jornal de um dos bolsos do paletó.

Pois precisa ver isto. Na página 12A. Coluna superior, à direita.

Passou os olhos rapidamente pela reportagem, que relatava um roubo ocorrido no dia anterior, no Musée de 1'Armée, Palácio dos Invá­lidos. Os ladrões tinham levado um dos itens de Napoleão em exibição em uma das galerias em reforma.

Um livro.

Os reinos merovíngios de 450 a 751 d.C.

Importante somente por ter sido especificamente mencionado no testamento do imperador mas, de outro modo, pouco valioso, o que justificava ter sido deixado na galeria. Os funcionários do museu estavam inventariando os demais objetos, para se certificar de que nada mais havia sido roubado.

Ela encarou Thorvaldsen.

Como é possível o senhor saber que isto talvez seja relevante para mim?

Conforme deixei claro no seu château, estudei a senhora e a ele minuciosamente.

O aviso que Thorvaldsen lhe dera no dia anterior ressoou em seus ouvidos.

Se meu julgamento estiver correto, ele irá lhe dizer que não conseguiu reaver o que quer que seja, que não estava lá ou vai inventar outra desculpa.

E fora exatamente o que Graham Ashby lhe dissera.

 

Malone subiu por uma abertura no chão até a claraboia. O ar frígido e a luz do sol o saudaram do lado de fora, ao meio-dia resplandecente, no alto da igreja. A vista em todas as direções era deslumbrante. Ao norte, o Sena serpeava pela cidade; a nordeste, erguia-se o Louvre; e a Torre Eiffel estava a cerca de 4 quilômetros, a oeste.

Stephanie o seguiu até em cima. O segurança foi o último a subir, mas permaneceu na escada e apenas sua cabeça e seus ombros eram visíveis.

— Decidi examinar eu mesmo a cúpula — disse o homem. — Não havia nada lá, mas queria fumar um cigarro, então subi até aqui e vi aquilo.

O olhar de Malone moveu-se no sentido apontado pelo homem, e ele avistou uma caixa azul, de cerca de 25 centímetros quadrados, afixada no teto da claraboia. Grades decorativas de latão protegiam cada uma das quatro arcadas da cúpula. Com cautela, suspendeu o corpo, agarrando-se a uma das grades e ficando a poucos centíme­tros da caixa. Viu um fio estreito, de aproximadamente trinta centí­metros de comprimento, que saía de um dos lados da caixa, balan­çando à brisa.

Olhou para Stephanie, abaixo dele.

É um receptor. Uma maneira de atrair aquele avião até aqui.

Arrancou e soltou a peça, colada onde estava com material adesivo resistente.

—Ativado remotamente. Tem de ser. Mas colocá-lo aqui em cima exigiu esforço.

Sem problemas para Peter Lyon. Já executou tarefas bem mais difíceis do que essa.

Saltou para baixo, com o receptor ainda nas mãos, e o desligou apertando o botão lateral.

Isso deve complicar as coisas para ele — disse, entregando o aparelho a Stephanie. — Você tem consciência de que está sendo fácil demais?

Ele viu que ela concordava.

Caminhou até outra balaustrada e olhou para baixo, onde as ruas convergiam numa praça vazia diante da fachada sul da igreja. O dia de Natal havia diminuído a grande maioria do tráfego diário. Portanto, para não alarmar ninguém na vizinha Torre Eiffel, que ofe­recia uma vista total do Palácio dos Inválidos, a polícia não havia isolado a área.

Avistou um furgão de cor clara, dirigindo apressado no sentido norte, ao longo do bulevar do Palácio dos Inválidos. Movendo-se rá­pido demais. O furgão virou depressa à esquerda, para a Avenida de Tourville, perpendicular à entrada principal do Domo.

Stephanie percebeu o interesse dele.

O furgão diminuiu a marcha, deu uma guinada para a direita e então deixou a rua para subir, aos supetões, um pequeno lance de de­graus de pedra, na direção do portal principal da igreja.

Stephanie pegou o rádio. A porta do lado do motorista se abriu.

Stephanie ativou o rádio para fazer um alerta, mas antes que pu­desse dizer qualquer coisa, um homem escapou do veículo e correu na direção de um carro que havia surgido na rua. Pulou para dentro e o carro acelerou. Então, o furgão explodiu.

— Permitam-me desejar-lhes um feliz Natal — disse Eliza, de pé diante do grupo. — Estou muito contente de vê-los todos aqui. Achei que este seria um local excelente para a reunião de hoje. Um pouco diferente para nós. Teremos privacidade até as 13 horas, que é quando a torre abre para o público. Fez uma pausa. — E um almoço delicioso será servido.

Estava feliz, em especial, com a presença de Robert Mastroianni, que cumpriu a promessa que fizera no avião.

Temos uma hora para tratarmos de negócios e pensei que se­ria maravilhoso se depois subíssemos até o alto, antes da chegada da multidão. Não é sempre que se tem a oportunidade de estar no ponto mais alto da Torre Eiffel com tão pouca gente. Assegurei-me de que isso estaria incluído no contrato de hoje.

A sugestão dela foi claramente aprovada.

Contamos, também, com o privilégio da presença dos nossos dois últimos membros.

Apresentou Mastroianni e Thorvaldsen.

É maravilhoso ter ambos os senhores em nosso grupo. Somos oito agora e acho que irei parar nesse número. Alguma objeção?

Nenhuma palavra foi pronunciada.

Excelente.

Ela olhou para os rostos ansiosos e atentos ao seu redor. Até mes­mo Ashby parecia exuberante. Teria ele mentido para ela a respeito do livro merovíngio?

Aparentemente, sim.

Eles haviam se encontrado mais cedo, antes da chegada dos ou­tros, e Ashby tinha lhe dito, de novo, que o livro não estava no mostruário. Escutara-o atentamente, observando cada nuance, e concluíra que ele ou estava dizendo a verdade ou era um dos mentirosos mais refinados que já conhecera.

Mas o livro tinha sido roubado. O jornal mais importante de Paris noticiara o roubo. Como Thorvaldsen sabia de tantas coisas? Ashby era mesmo um vazamento de segurança? Não havia tempo para responder àquelas perguntas no momento. Tinha de se concentrar na tarefa diante dela.

— Pensei que seria melhor começar contando-lhes uma história. Minhas desculpas ao signor Mastroianni pela repetição. Contei-lhe a mesma história há alguns dias, mas será instrutivo para o restante dos senhores. É sobre o que aconteceu com Napoleão no Egito.

Malone saiu correndo da Igreja do Domo, passando pela entrada principal estilhaçada. Stephanie foi logo atrás. O furgão conti­nuava em chamas ao pé da escada. Além das portas de vidro da entra­da, poucos estragos haviam sido causados à igreja. Chegou à conclusão de que um furgão carregado de explosivos, àquela distância, deveria ter obstruído toda a fachada sul, sem mencionar os edifícios próximos, que abrigavam o hospital e o centro dos veteranos.

— Não foi uma bomba muito forte — disse. — Muito alarde para pouco resultado.

Sirenes soaram a distância. Os bombeiros e a polícia estava indo para o local. O calor emanado pelo furgão, agora sem chamas, aquecia o ar gélido do meio-dia.

Será que foi algum defeito no carro? — perguntou ela.

Acho que não.

O barulho das sirenes ficou ainda mais alto. O rádio de Stephanie entrou em ação. Ela respondeu à chamada, e Malone ouviu o relato do homem do outro lado da linha.

Há alguém com uma bomba no Tribunal Militar.

Thorvaldsen escutou Eliza terminar de contar a história egípcia, explicar o conceito original do Clube de Paris, criado por Na­poleão, e fazer um resumo geral sobre o conteúdo dos quatro papiros. Percebeu que ela não mencionara que ele tinha lhe passado, também, grande parte das informações. Estava claro que queria manter o conta­to entre eles em particular. Certamente o que lera no recorte de jornal a tinha afetado.

Como poderia ser diferente?

A reação dela lhe disse algo mais. Ashby não tinha comunicado que, graças a Stephanie e Malone, estava agora de posse do livro.

Mas qual era o envolvimento do Magellan Billet nos aconteci­mentos?

Tentara entrar em contato com Malone durante a noite e toda a manhã, mas o amigo não havia atendido o telefone. Deixara mensagens, mas ele não retornara. O quarto de Malone no Ritz não fora usado na noite anterior. E embora seus investigadores não tivessem visto o título do livro que Stephanie dera a Ashby, sabia que era o exemplar que fora roubado do Palácio dos Inválidos.

O que mais poderia ser?

Teria de haver uma boa razão para que Malone tivesse entregado o livro a Stephanie, mas não conseguia concebê-la.

Ashby estava sentado do outro lado da mesa, calmamente ob­servando Eliza com o olhar atento. Thorvaldsen se perguntava se os outros presentes na sala tinham consciência do compromisso que assumiram. Duvidava que o único interesse de Eliza fosse os lucros ilícitos. Pressentia, baseado nos dois encontros que tiveram, que era uma mulher com uma missão — determinada a provar algo, talvez a obter justiça pela herança negada à sua família. Ou, talvez, reescrever a história? O que quer que fosse, ia além de ganhar dinheiro. Conseguira reunir o grupo ali, na Torre Eiffel, no dia de Natal, por um motivo.

Portanto, disse a si mesmo para esquecer Malone naquele momen­to e se concentrar no problema diante dele.

Malone e Stephanie correram para o Tribunal Militar e olharam para a praça elegante. No centro estava uma mulher. De, tal­vez, 30 e poucos anos, cabelos compridos e escuros, vestindo calças de veludo e uma camisa vermelha desbotada sob um casaco preto. Uma das mãos segurava um objeto.

Dois seguranças, com as armas apontadas, estavam posicionados à sombra da arcada oposta, perto dos andaimes por onde Malone tinha entrado no museu no dia anterior. Outro homem armado estava à esquerda, na arcada que levava ao outro lado da fachada norte do Palácio dos Inválidos, cujos portões de ferro estavam trancados.

— Que diabos é isso? — sussurrou Stephanie.

Um homem surgiu detrás deles, entrando na arcada pelas portas de vidro que levavam ao museu. Vestia o colete à prova de balas e o uniforme da polícia francesa.

Ela apareceu agora há pouco — respondeu o homem.

Pensei que tinham revistado os edifícios — disse Stephanie.

Madame, há centenas de milhares de metros quadrados de edifícios aqui. Agimos o mais rápido que podíamos, discretamente, de acordo com suas instruções. Não seria difícil alguém nos passar a perna.

Ele estava certo.

O que ela quer?

Disse aos homens que estava com o detonador da bomba e para que ficassem onde estavam. Entrei em contato com a senhora pelo rádio.

Malone queria saber:

Ela apareceu antes ou depois de o furgão explodir em frente à igreja?

Logo depois.

O que você está pensando? — Stephanie lhe perguntou.

Malone encarou a mulher. Ela se virava para todos os lados, olhando para os diversos homens que continuavam a apontar suas armas. Sabiamente, mantinha a mão sobre o detonador também em movimento.

Gardez vos distances et baissez les armes! — gritou.

Malone traduziu em voz baixa. Mantenham-se distantes e baixem as armas.

Nenhum dos homens obedeceu.

Il se pourrait que la bombe soit à l'hôpital. Ou à l'hospice. Fautil prendre le risque? —- gritou, mostrando o detonador.

A bomba podia estar no hospital. Ou no alojamento dos pensionis­tas. Vão correr o risco?

O policial ao lado deles suspirou:

Fizemos uma busca meticulosa em ambos os edifícios primeiro. Não há nada ali.

Je ne le redirai pas! — exclamou a mulher. Não vou dizer novamente!

Malone percebeu que os franceses estavam à mercê das ordens de Stephanie e ela não era alguém com quem blefar. Ainda assim.

Baixem as armas! — ordenou ela.

 

Eliza caminhou até o palco do outro lado do salão. Ao olhar rapidamente para o relógio, confirmou que eram 11h35.

Restavam 25 minutos.

Logo iremos até o topo. Mas primeiro, gostaria de explicar mi­nha proposta para o futuro próximo.

Ela encarou o grupo.

Na década passada, vimos inúmeras mudanças nos mercados financeiros mundiais. Futuros, que costumavam ser um meio de resguardo da produção, são hoje um jogo de sorte, no qual mercadorias que não existem são negociadas a preços que não condizem com a rea­lidade. Vimos isso há poucos anos, quando o preço do barril de petró­leo ultrapassou os 150 dólares. Esse valor não tinha qualquer relação com as circunstâncias de fornecimento, que, na época, estava no ápice. No fim, o mercado implodi