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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VINHO e PAIXÃO / Brenda Jackson
VINHO e PAIXÃO / Brenda Jackson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

— Temos um problema, Spence.

Spencer Westmoreland fechou os olhos um momento para tentar apagar duas coisas de sua mente: a expressão de sua mãe, que se encontrava do outro lado da habitação, e o ilustre som da voz de seu advogado, com o qual estava falando por telefone.

Voltou-os a abrir e comprovou que sua mãe seguia olhando-o com cara de: «Pergunto-me quem será o seguinte». Estava no Bozeman, Montana, aonde tinha ido assistir às bodas de sua prima Casey com seu amigo de infância, McKinnon Quinn. O casal ainda se encontrava dentro de casa, fazendo as fotos. E o resto das pessoas estava no enorme celeiro que tinha sido convertido em uma espaçosa sala de baile para a recepção.

Todo mundo parecia estar passando bem, sorria, parecia feliz. Todo mundo, salvo ele, que acabava de receber uma chamada de seu advogado. Stuart Fulmer era um dos homens mais competentes ao qual conhecia um homem que levava todos os assuntos com precisão e rapidez, o que significava se ele pensava que havia uma crise, havia.

— Está bem, Stuart, qual é o problema?

— O vinhedo Russell.

Spencer arqueou uma sobrancelha e decidiu ir a um rincão da sala para ter mais privacidade, e para se distanciar do olhar inquisitivo de sua mãe.

Fazia alguns meses que se inteirou de que aquele vinhedo, uma propriedade de cento e vinte e um hectares, situada no vale da Napa, estava à venda. Tinha ido ao vale para ver o terreno e se apaixonou pela zona imediatamente. Segundo suas averiguações, os Russell estavam tendo problemas econômicos e lutavam por conservar o terreno. Spencer tinha enviado a seu advogado para lhes fazer uma oferta mais que generosa. Quando a propriedade fosse dele, tinha planejado deixar o negócio do vinho e converter o lugar em um paraíso de férias, construir um hotel de luxo e caminhos para andar, montar em bicicleta e fazer excursões. Seria um lugar perfeito ao que escapar.

A última coisa que tinha sabido do tema era que as negociações estavam avançando pouco a pouco e que só demorariam alguns dias mais em fechar a compra. O que tinha podido falhar?

— De que tipo de problemas estamos falando?

— De uma jovem chamada Chardonnay Russell.

— A neta da senhora?

— Isso. Não sei como, mas conseguiu que o velho mudasse de opinião.

Spencer franziu o cenho, não gostava nada daquilo.

— Isso é inadmissível. Eu pensava que já tínhamos o trato virtualmente fechado.

–E o tínhamos.

— E como podem se permitir o luxo de não vender? — perguntou.

Um par de pessoas que não estavam longe se voltaram para olhá-lo, tinha levantado a voz.

— Não podem. Mas eu creio que a garota está fazendo o possível por encontrar o financiamento necessário para não ter que vender. Ao fim e ao cabo, o terreno foi deles há mais de cinquenta anos. Suponho que não quer que a família atire a toalha agora.

— Isso é admirável por sua parte, mas quero essa propriedade. Faz o que tenha que fazer.

— Vai ser difícil, Spencer.

Spencer esfregou seu rosto, frustrado. Era a primeira vez nos quinze anos que conhecia Stuart que o ouvia zangado. E tudo por culpa de uma mulher? Como de complicada podia chegar a ser uma mulher solteira? Decidiu que o averiguaria por si mesmo.

— Olhe Stuart, deixa que eu me ocupe de tudo, voarei a Napa amanhã pela manhã e me reunirei com os Russell. Por favor, lhes comunique que vou.

Ouviu Russell suspirar aliviado.

— Advirto-lhe isso, Spencer, será melhor que vá preparado. Talvez a garota tenha nome de vinho, mas é como o veneno.

Spencer não pôde evitar sorrir ao ouvir aquelas palavras dos lábios de um dos homens mais educados e corretos que conhecia. Chardonnay Russell devia ser uma arma a se tomar.

— Obrigado pela advertência. A terei em conta.

 

 

 

 

                                     Capítulo Um

— Já chegou esse homem, Donnay.

Chardonnay Russell levantou a cabeça e olhou a sua mãe, que parecia preocupada. Deixou a um lado o lápis e o caderno que tinha na mão e se levantou. Odiava ver como agonizava sua família com os problemas econômicos que tinha nesses momentos. O vinhedo sempre havia dado muitos benefícios, mas tinham tido que gastar os recursos extras na fatura do hospital de seu avô, que havia estado hospitalizado durante o último ano, e nos remédios.

Estavam em tão má situação, que nenhum banco havia querido lhes dar um empréstimo. Sua última esperança era um banco ao que tinha ido um par de dias antes, em São Francisco. O senhor Gordon, seu diretor, se mostrou otimista.

— Donnay?

Sua mãe, nervosa, interrompeu seus pensamentos. Chardonnay sorriu e atravessou a habitação enquanto pensava que sua mãe era uma mulher muito bonita. Não tinha conhecido a seu pai. De fato, o único que sabia dele era que sua mãe o havia conhecido e se apaixonou por ele com dezoito anos. Chad Timberlain era um soldado que havia ido ao vinhedo para trabalhar um verão, durante um período de licença, e logo tinha voltado para seu posto antes de averiguar que tinha deixado grávida a sua mãe.

— Que espere mamãe. Com certeza não será a primeira vez.

“Ou talvez sim”, disse a si mesma. Acessou a Internet um momento antes para procurar informação a respeito de Spencer Westmoreland. Tinha trinta e seis anos e havia ganhado seu primeiro milhão de dólares antes dos trinta. De acordo com o que tinha lido, aquele magnata se retirou no ano anterior com mais dinheiro de que poderia gastar. Era evidente que estava aborrecido e queria um brinquedo novo: o vinhedo de sua família.

— Onde estão o avô e a avó? — perguntou Donnay. Sabia que seus avós estavam ainda mais preocupados com sua reunião com o senhor Westmoreland que sua mãe.

— Na cozinha. Janice acompanhou a nosso convidado ao estúdio, onde está esperando.

Ela assentiu.

— Está bem. Chegou o momento de nos reunimos com o senhor Westmoreland, e recordem os três, que aceitaram deixar que eu fizesse tudo a minha maneira.

 

Spencer passeou pela habitação e observou os prêmios emoldurados que penduravam das paredes. Sorriu com ironia. Estavam fazendo ele esperar de propósito. Não havia se convertido em um próspero homem de negócios se não soubesse como era o jogo. Sabia perfeitamente que a melhor maneira de pôr tenso a um adversário era o fazendo esperar. Entretê-lo para ganhar tempo. Pôr a prova sua paciência e sua resistência.

Sacudiu a cabeça e sorriu ainda mais. Aquela tática era uma perda de tempo com ele, mas Chardonnay Russell não sabia. Tinha seus motivos para pensar que era ela quem mandava ali, e se surpreenderia ao ver que não era assim.

— Sinto tê-lo feito esperar, senhor Westmoreland.

«Sim, com certeza que sim», pensou ele enquanto girava ao ouvir aquela voz suave e feminina. Não pôde pensar nada mais ao se voltar e encontrar os olhos mais maravilhosos que já havia visto. Eram de cor cinza prata e Spencer se perguntou se seriam lentes de contato de cores, embora logo se deu conta de que não o eram quando olhou às outras três pessoas que acabavam de entrar na habitação. Todos tinham os olhos da mesma cor.

Spencer recuperou a compostura e disse:

— Não passa nada.

Embora o certo fosse que sim passava. Chardonnay Russell era uma mulher impressionante. Tinha visto muitas mulheres bonitas em sua vida, mas havia diante de si uma beleza muito pouco comum.

Era alta. Esbelta e com curvas. Estava usando uma blusa branca de manga curta e uma saia rosa tipo cigana. E os traços de seu rosto eram deliciosos. Levava o cabelo moreno e brilhante solto sobre os ombros. Tinha as pestanas longas, a pele cor café, um nariz perfeito e lábios que davam vontade de beijar. Os brincos de aro que penduravam de suas orelhas a faziam parecer ainda mais sexy. E faziam que ele se sentisse ainda mais excitado.

Era a primeira vez que Spencer sentia um nó na garganta ao ver uma mulher. Havia algo flagrantemente erótico nela e enquanto a olhava aos olhos, só podia pensar em entrelaçar seu corpo com o dela entre uns lençóis de cetim.

— Creio que deveríamos nos apresentar — começou ela, interrompendo o detalhado exame que Spencer fazia.

Ele observou como se moviam aqueles tentadores lábios, mas não a escutou. Estava completamente concentrado naquele sedutor pacote e em como gostaria de abri-lo e desfrutar dele.

— Você está em desvantagem — continuou dizendo Chardonnay. — Nós sabemos quem é você, mas você não nos conhece, já que, até agora, estivemos tratando com seu advogado, o senhor Fulmer.

Spencer observou como atravessava a habitação e se fixou em que tinha as pernas longas e a cintura estreita. E para piorar ainda mais as coisas, cheirou seu perfume. Tinha uma habilidade inata para os negócios, mas controlar semelhante desejo era outro tema.

— Eu sou Chardonnay Russell — disse lhe estendendo a mão. Esta é minha mãe, Ruth Russell, e estes meus avós, Daniel e Catherine Russell.

Spencer tomou a mão de Chardonnay e, ao tocá-la, uma corrente elétrica lhe percorreu todo o corpo. A sensação lhe irritou e lhe fez apertar a mandíbula. Aquele não era o melhor momento para recordar que não havia estado com uma mulher há mais de sete meses. Desgraçadamente, o rápido palpitar de seu coração não lhe permitia esquecê-lo, e isso impedia de pensar com claridade.

— Senhorita Russell — disse lhe soltando a mão rapidamente. Logo se aproximou para saudar sua mãe e avós. Observou que o avô não havia bom aspecto e recordou ter lido em um dos informes que os problemas econômicos da família se deviam às faturas de hospital do homem.

— Agora que já nos apresentamos nos sentemos.

A voz de Chardonnay lhe fez recordar para que estava ali.

— Sim — respondeu ele.

— Como já disse ao senhor Fulmer, o vinhedo já não está à venda. E quero lhe advertir senhor Westmoreland, que se der por feito que vá poder nos fazer mudar de opinião a respeito, está muito equivocado — anunciou Chardonnay ao se sentar.

Spencer gostava de sua guelra. Era evidente que aquilo não ia ser pão comido.

— Justamente o contrário, senhorita Russell, nos negócios, um nunca deve dar nada por feito, sobre tudo, se pretende conseguir o que quer.

Viu como ela franzia o cenho.

— E você pensa que vai conseguir o que senhor Westmoreland, apesar de que acabo de lhe dizer já não queremos vender?

— Sim, penso que sim — replicou ele com arrogância. — Sobre tudo, porque ainda não ouviram minha nova oferta.

Não pôde evitar lhe sorrir com sacanagem, algo que estava seguro de que lhe incomodaria. Mas, nesses momentos, lhe dava igual. Tinha outro tipo de adrenalina correndo por suas veias. A adrenalina que sentia sempre que havia pela frente um duro adversário.

— Sugiro-lhes que me permitam que os apresente minha nova proposta — acrescentou.

Donnay levantou a cabeça do relatório que estava lendo.

— O que tem planejado fazer com nossas terras é inaceitável.

Viu que Spencer a olhava impassível, e que respondia sem piscar:

— Não deveria lhe preocupar o que vá fazer com a propriedade quando a adquirir. O único que deveria importar é o preço que estou oferecendo por ela.

Donnay franziu o cenho. Ele estava sentado no sofá, em frente a ela, bebendo tranquilamente o vinho que seu avô lhe tinha servido antes que começassem a falar de negócios. Um dos melhores de seu vinhedo.

— Não, não nos preocupa, por isso decidimos não vender. E depois de ler sua proposta, estou segura de que minha família e eu tomamos a decisão acertada.

— Se equivoca senhorita Russell. Olhe bem a proposta — respondeu ele em tom irritado, inclinando-se para frente. — Estou disposto a lhes pagar meio milhão a mais do que lhes havia oferecido meu advogado. Parece-me uma oferta mais que generosa. De verdade podem rechaçá-la?

Donnay mordeu o lábio com nervosismo. O certo era que não podiam. Não queria nem pensar no que aconteceria se o banco não lhe desse o empréstimo que tinha pedido. Olhou a sua mãe e a seus avós. Dependiam dela para que tomasse a decisão mais acertada para a família, em especial para seu avô, que tinha problemas de coração e diabetes. Não obstante, Donnay se negava a que alguém como Spencer Westmoreland se aproveitasse de sua situação.

Mas deveria ter imaginado que se colocou em um apuro ao entrar na sala e vê-lo ali, impecavelmente vestido com um traje do Armani e cara de estar disposto a comprar ou vender o que lhe agradasse. Além disso, era bonito e sexy. Era muito alto, tinha a pele cor café e o cabelo muito curto e moreno, uma boca generosa e os olhos mais escuros que já havia visto. De fato, tinha um olhar tão intenso que cada vez que a olhava nos olhos fazia com que um calafrio lhe percorresse a coluna vertebral.

— Lhe fiz uma pergunta, senhorita Russell.

Ela o olhou, não gostou de seu tom de voz. Suspirou e se voltou para sua família. Seu avô assentiu e sorriu levemente, lhe dando a valentia necessária para poder responder a Spencer Westmoreland. Tinha que confiar em que ia ocorrer um milagre e que o amável diretor do banco de São Francisco ia ajudá-los a resolver seus problemas econômicos.

Talvez fosse uma loucura se arriscar, mas Chardonnay suspirou, olhou a Spencer Westmoreland nos olhos e disse:

— Sim, podemos rechaçá-la, e isso é o que estamos fazendo.

Logo, ficou em pé.

— Já conversamos o suficiente, senhor Westmoreland, e nós também temos muito trabalho a fazer. Minha família aprecia o interesse que mostrou pelo vinhedo Russell, mas, como lhe disse antes, já não está à venda.

Spencer se levantou e fechou a maleta. Guardou em silêncio alguns segundos e logo disse:

— Se acreditar que ouviu minha última palavra, se equivoca — logo sorriu e acrescentou: — Você é uma digna adversária, senhorita Russell.

Ela ficou muito reta.

— Não se incomode conosco, senhor Westmoreland. Procure outro vinhedo. E se tentar nos criar problemas, lamentará.

Ele sorriu ainda mais e a olhou de um modo que fez com que Chardonnay sentisse um calafrio.

— Prometo que não serei eu quem lhe causará problemas, mas asseguro que, ao rechaçar minha oferta, foi você mesma que procurou os problemas para si. Que tenham um bom dia.

Quando Spencer estava a mais de um quilômetro do vinhedo Russell jogou o carro de aluguel a um lado da estrada e se deteve para chamar por telefone. Não podia deixar de pensar no quanto Chardonnay era bonita e no atraído que se sentia por ela. Era a primeira vez em sua vida que uma mulher o excitava tanto.

E sabia que, apesar de que não tinham estado sozinhos na habitação, ela também se sentiu atraída por ele.

— Stuart? Sou Spencer. Quero que averigúe a que banco os Russell pediram o crédito e que me comunique isso o antes possível.

Desligou o telefone e ficou ali sentado um momento, desfrutando da paisagem. Fazia um dia estupendo para princípios de dezembro, e as terras que o rodeavam eram preciosas. Queria comprar aquela propriedade. E não era só isso o que queria.

Também queria Chardonnay Russell.

Franziu o cenho e refletiu. Todos os Westmoreland solteiros estavam caindo como moscas, a julgar pelo olhar de sua mãe nas bodas de McKinnon e Casey, esperava que ele fosse a seguinte vítima. Por que ia decepcioná-la?

Depois da traição de Lynette Enjoe, a idéia de se casar por amor lhe parecia impossível. Tinha chorado a perda de sua prometida, que havia morrido em um acidente de moto aquática quatro anos antes nas Bermudas. E depois da autópsia, se inteirou de que estava grávida de seis semanas. Isso significava que tinha ficado grávida durante os dois meses que tinha estado trabalhando nas ilhas, e que ele não era o pai do menino.

Agarrou com força o volante. Não havia nenhuma possibilidade de que se casasse por amor, mas sim podia se casar por desejo. Além disso, com trinta e seis anos, tinha trabalhado muito duro para conseguir a fortuna da que dispunha, tinha chegado o momento de que pensasse em seu futuro e de que fizesse algumas mudanças importantes.

Embora não esperava encontrar o amor, como tinha ocorrido a seus três irmãos, Jared, Durango e Ian, sim era hora de que se estabelecesse, casasse e assegurasse seu futuro com um filho que algum dia pudesse herdar tudo o que tinha.

Não pôde evitar sorrir ao pensar em todos os bebês que tinham nascido aquele ano na família Westmoreland. Sua prima Delaney e seu marido, o xeque Jamal Ari Yasir, tinham tido seu segundo filho, uma menina chamada Ariella. Seu primo Darei e sua mulher Shelly também tinham tido uma filha em agosto. Durango e Savannah tinham tido outra menina em setembro; e seus primos Thorn e Stone e suas esposas estavam esperando aumentar também a família. O menino de Thorn e Tara nasceria no fim de mês e o de Stone e Madison, em fevereiro.

Spencer arrancou o carro. Enquanto seguia conduzindo até o Chablis, onde estava hospedado, soube que a próxima vez que seu caminho se cruzasse com o de Chardonnay lhe faria uma oferta. Uma oferta que, nessa ocasião, não poderia rechaçar. Assegurar-se-ia disso. Ele sempre perseguia o que desejava e não parava até consegui-lo. E o que desejava era uma fusão íntima com Chardonnay.

 

                                               Capítulo Dois

— Ligação para você, Donnay. Ela, que estava ocupada fazendo um inventário, voltou o olhar para sua mãe. — É o banco?

— Não, me parece que se trata do senhor Westmoreland — disse estendendo o telefone a sua filha.

— Muito obrigado, mamãe — disse em tom irônico, tomando o telefone. — por que não disse que eu não estava? — sussurrou tampando o fone.

— Porque talvez seja uma chamada importante.

Ela pôs os olhos em branco e soprou.

— Duvido. Esse homem só quer seguir me pressionando.

Quando sua mãe partiu da habitação, colocou o telefone na orelha.

A última pessoa com quem gostaria de falar era com o homem cuja imagem seguia tendo tão clara em sua mente. Não tinha podido evitar pensar nele desde que partiu dali no dia anterior, e o que era ainda pior, tinha pensado nele aquela noite. Tinha cometido um engano fixando-se no homem em vez de se concentrar no que era um indivíduo poderoso e com caráter. Não cometeria duas vezes o mesmo engano.

— Sou a senhorita Russell.

— Senhorita Russell, sou Spencer Westmoreland. Chamo-a para perguntar se gostaria de jantar comigo esta noite.

Donnay sentiu que uma onda de sensações lhe percorria o corpo ao ouvir aquela sedutora voz. Apertou os lábios, tentando decidir se desligava o telefone ou seguir com a conversação.

— Por que ia querer jantar com você?

— Para salvar o vinhedo de sua família.

Donnay arqueou as sobrancelhas.

— Sinto defraudá-lo, mas o vinhedo Russell não necessita que ninguém o salve.

— Está completamente segura disso?

Donnay apoiou as costas em um porta-garrafas. Não, não estava completamente segura; sobre tudo, porque não tinha tido notícias do banco. O senhor Gordon lhe tinha dito que daria uma resposta por volta do meio-dia. Embora esperasse que lhes desse o empréstimo, também sentia que devia averiguar que carta Spencer Westmoreland tinha escondida na manga.

— Estou disposta a escutá-lo, mas isso não significa que vamos jantar.

— Para mim, sim significa. Assim é como estou acostumado a proceder com todas minhas negociações.

— E se eu preferisse não jantar com você?

— Nesse caso, não ouviria o que tenho que lhe oferecer.

Donnay jogou a cabeça para trás. Aquele homem já havia oferecido muito dinheiro pelo vinhedo no dia anterior, mais dinheiro do que ela e sua família tinham esperado.

— Não recorda que ontem disse que não estamos interessados em nenhuma oferta?

Ele riu suavemente, e Donnay gostou do som.

— Claro que sim, mas espero conseguir fazê-la mudar de opinião.

— Isso não será possível, senhor Westmoreland. Como disse ontem, o vinhedo já não está à venda.

— E vai dar as costas a minha oferta só com a esperança de que algum banco saia em sua ajuda?

Donnay se sentiu incômoda.

— O que sabe você de minhas conversações com os bancos? — lhe fez um nó no estômago e teve uma suspeita.

— Só o dei por feito, tendo em conta que faz um par de semanas sua família estava desesperada por vender o vinhedo e, de repente, deixou de está-lo. Além disso, é meu trabalho conhecer a situação financeira de meus possíveis sócios.

Donnay não gostou de como soava aquilo.

— Não somos sócios.

— Acredite no que queira. Mas, falando do jantar. Iremos ao Sedricks. Passarei para pegar você por volta das seis. Parece-lhe bem?

Ela desejou poder lhe dizer que não, mas olhou pela janela e viu o vinhedo ao longe, e disse a si mesma que fazer isso não seria inteligente. Não tinha a intenção de se desprender daquelas terras, por muito seguro de si mesmo que parecesse estar Spencer Westmoreland, mas estava com a sensação de que ele estava tramando algo, e a única maneira de averiguar o que seria, era indo jantar com ele.

— Sim, as seis está bem.

— Estupendo. Até mais tarde então.

Após desligar, Donnay ligou para Wayne Gordon no banco. Sentiu-se mais tranquila ao lhe ouvir dizer que tinha boas notícias para ela. O empréstimo que havia pedido tinha sido aprovado. Donnay se sentiu feliz. Spencer Westmoreland não os tinha vencido. O comentário que tinha feito um pouco antes a respeito de seus trâmites com o banco tinha sido só para desestabilizá-la.

Sorriu. Se divertiria muito ao fazer saber ao senhor Westmoreland que esperava que saísse de suas vidas para sempre.

Spencer sorriu enquanto ficava cômodo na limusine que havia alugado para aquela noite.

A chamada que tinha recebido um momento antes de Stuart o tinha colocado de bom humor. As coisas estavam saindo tal e como ele havia planejado. Pensou na oferta que ia fazer a Chardonnay e sentiu uma onda de calor lhe percorrer. A idéia de fazer amor com o fim de que lhe desse um filho fez que suas vísceras ardessem. Embora soubesse que ela não quereria aceitar sua proposta.

Voltou a sorrir. Não havia a menor dúvida de que o rechaçaria, de que lutaria contra ele com todas as suas forças, e, por isso mesmo, Spence estava decidido a não lhe dar opção. Não se ela queria conservar o vinhedo de sua família.

Olhou pela janela escura da limusine e desfrutou da beleza da paisagem do vale da Napa. Apaixonou-se pela Califórnia desde a primeira vez que tinha estado ali, com uma beca para estudar na Universidade do Sul da Califórnia. Apesar de adorar Atlanta, Califórnia tinha se convertido em seu lugar de residência permanente. Depois de licenciar-se em ciências econômicas e realizar um MBA, havia começado sua carreira nos bancos com uma das instituições financeiras mais prestigiosas de São Francisco.

Adorava voltar para Atlanta quando havia reuniões familiares, mas sempre estava desejando retornar ao Sausalito, a pequena cidade costeira situada do outro lado do Golden Gate. A cidade estava acostumada a se comparar com as da Costa Azul devido a seu estilo mediterrâneo e a suas impressionantes vistas.

A casa de Spence era uma estrutura elegante de dois andares com um terreno de um hectare e meio e vista à baía de São Francisco. Não obstante, tinha que admitir que o vale da Napa era tranquilo e tinha encanto. Estava afastado da agitação e o bulício do tráfico e era um lugar idílico. O lugar perfeito para se instalar e formar uma família.

Chardonnay se olhou no enorme espelho, se perguntando por que estava se esforçando tanto em estar bonita aquela noite, além de porque iriam ao Sedricks, um restaurante muito elegante.

Girou levemente e sorriu. O vestido negro sem alças e decote nas costas colava em seu corpo, marcando umas curvas que tinha tendência a esquecer quando não se vestia assim. Não recordava a última vez que havia tido um encontro de verdade com um homem. Depois do desastre de Robert Joseph, que havia sido seu professor da universidade e com o qual tinha saído um par de anos antes, se acostumou a tomar cuidado com os homens, em especial com aqueles que esperavam que as mulheres satisfizessem todas suas necessidades.

Tinha vinte e quatro anos e estava no último ano de carreira na Universidade de Los Angeles, estudando horticultura, quando tinha conhecido ao Robert, que estava divorciado era quinze anos mais velho. Robert a tinha deslumbrado e tinham estado juntos durante quase um ano. Um mês antes que ela se graduasse, ele apareceu com a notícia de que havia arrumado as coisas com sua ex-mulher e ia voltar com ela. Donnay tinha percebido então de que não havia sido para ele nada mais que um divertido passatempo. A dor lhe tinha ensinado uma valiosa e dura lição a respeito dos homens.

Inclinou a cabeça e o cabelo, que chegava aos ombros. Riu ao se sentir sedutora. O som vibrou na habitação e lhe fez dar-se conta de que há semanas não ria. Tinha ficado muito afetada ao ver em perigo o único lar que tinha tido, mas voltava a ter motivos para estar contente.

— Está muito bonita.

Voltou-se ao ouvir a voz de sua mãe e sorriu.

— Obrigado, mamãe. Sinto-me bonita esta noite. E estou desejando dizer ao Spencer Westmoreland que não temos nenhum motivo para vender o vinhedo, por mais dinheiro que nos ofereça por ele.

Sua mãe trocou o gesto, preocupada.

— Tome cuidado, Donnay. Dá-me a impressão de que o senhor Westmoreland não gosta de perder.

— Também me dá à mesma impressão, mas não me preocupa. Como receberá a má notícia não é meu problema.

— Sei, mas mesmo assim, Donnay, é...

— Mamãe — a interrompeu, lhe agarrando a mão. — Não se preocupe. Saberei dirigir ao senhor Westmoreland — sorriu e voltou a se olhar no espelho, pensando em quão arrogante era o homem com o que tinha ficado. — A questão é se ele saberá dirigir a mim.

Spencer desceu da limusine quando o condutor lhe abriu a porta. Agradeceu com um movimento de cabeça antes de caminhar a bom passo para a enorme casa.

Apesar de que o sol já se pôs e havia muito pouca luz, podia recordar perfeitamente a casa dos Russell. No dia anterior havia percorrido aquele mesmo caminho para chegar até ela, um caminho de pedras rodeado por numerosas plantas com flores que pareciam lhe dar as boas-vindas.

Começou a sentir que a ânsia se apoderava dele conforme ia avançando e ao chegar à porta e apertar a campainha o coração lhe pulsava a toda velocidade. Tentou ignorar o nervosismo, e não pensar que nenhuma outra mulher tinha lhe causado aquele efeito, mas teve que admitir que sempre tivesse uma primeira vez para tudo. Enquanto não afetasse a seu sentido comum, poderia suportar um pouco de loucura em uma fria noite do mês de dezembro.

A porta se abriu e apareceu Chardonnay, tão bela que Spence virtualmente ficou sem fala.

Apertou os lábios com força até notar que seu sentido comum o abandonava, e lutou contra essa sensação. Gostava de ter sempre o controle de todas as situações, mas nesse momento lhe dava a sensação de que o estava perdendo.

Ela retrocedeu para deixá-lo entrar.

— Demorarei só um minuto em procurar um xale — disse se afastando.

Spence viu suas costas nuas. Aquele vestido era perfeito para seu corpo e ressaltava suas esbeltas curvas e a graça daquelas pernas longas, maravilhosas. Ele sentiu o efeito na entre as pernas, e agradeceu ter vestido um casaco comprido.

Observou como Chardonnay pegava um xale de cima de uma mesa, o colocou ao redor dos ombros e deu a volta. Seus olhares se encontraram nesse preciso momento e passou algo entre eles. Ele sentiu, e estava seguro de que ela também tinha sentido já que ficou quieta, sem apartar o olhar.

Então ouviram uma porta que se fechava no andar de cima, rompendo o encanto do momento. Chardonnay inclinou a cabeça e franziu o cenho. Ele sorriu.

— Está preparada? — perguntou Spence. Quanto antes a levasse daquela casa, daquelas terras e a metesse em sua limusine, melhor.

Ela assentiu e sorriu também. Atravessou a habitação com a graça de um cisne e se deteve diante dele.

— Estou preparada.

Enquanto Donnay se instalava nas cômodas poltronas de couro da limusine aspirou ao familiar aroma de uvas amadurecidas que notava no ar. Aquela era uma zona de vinhos. As colinas, os vales, os campos e prados assim o proclamavam. Tinha nascido ali e havia muitos membros de sua família enterrados também ali. Aquele era seu legado. Mas, sobre tudo, era seu lar.

Através do guichê escuro, apesar da escuridão, observou as terras pelas que foram passando. Estava contente por sua família já não tivesse que se preocupar em perder ou ter que vender a alguém que não apreciava o vale tal e como era. A alguém que queria destruir essas terras em vez de cultivá-las. A alguém que queria converter o que sempre tinham sido vinhas em uma área recreativa para ricos e famosos. Um lugar de férias.

E essa pessoa estava sentada ao seu lado, embora a uma distância decente, e não tinha aberto a boca desde que a limusine tinha arrancado. Donnay tinha ficado surpreendida ao sair de casa e ver a limusine estacionada fora. Embora devesse ter imaginado. Spencer Westmoreland era um homem ao que, evidentemente, gostava de desfrutar de sua riqueza.

Dado que o interior do carro estava às escuras, Donnay observou sua silhueta, banhada pela luz da lua. Ele não a estava olhando. De fato, parecia ter a vista fixa no exterior, embora ela duvidasse que estivesse vendo algo. E isso significava que, ou estava sumido em seus pensamentos, ou a estava ignorado.

A ideia de que estivesse fazendo o último não havia por que lhe incomodar, mas lhe incomodou. No fim das contas, foi ele que a convidou para jantar. Donnay se perguntou se ele já teria imaginado que ia ter que se despedir daquele trato. Embora isso fosse pouco provável. Certamente estava pensando em como convencê-la para conseguir o que queria.

Ela tinha a esperança de que, depois daquela noite, ficasse claro que sua família não tinha nenhuma intenção de vender o vinhedo. Sorriu ao pensar em que sua mãe e seus avós por fim poderiam dormir tranquilos aquela noite. O que não sabia era como ia dormir ela. Sobre tudo, tendo em conta que o homem que tinha ao lado despertava em seu interior todo tipo de turbulentas emoções.

Donnay estudou seu rosto. Tinha as feições duras e afiadas, tão afiadas como sua língua, apesar de que essa noite estava se contendo, felizmente. Era bonito. Isso era evidente. Todos os detalhes de suas feições: o queixo arredondado, o cabelo curto e escuro, os lábios generosos, contribuíam para um rosto que qualquer mulher se deteria para observar. E logo estava o modo como ia vestido. No dia anterior já se deu conta de que cuidava muito de sua imagem. Seguro que debaixo daquele casaco de pele levava um traje de marca.

— Esteve no Sedricks antes?

Ela piscou ao se dar conta de que o senhor Westmoreland acabava de lhe falar. Havia mudado de postura no assento e a estava olhando. Quando havia feito isso? Enquanto ela admirava sua roupa? Se assim era, com certeza se deu conta de que ela o observava.

— Sim, várias vezes. E você? — respondeu por fim.

— Em uma ocasião. Fiquei impressionado com o serviço e a comida.

— A comida é excelente — comentou-a enquanto se perguntava, de repente, se necessitava que houvesse mais espaço entre ambos. Por algum motivo, dava-lhe a sensação de que a distância entre eles havia diminuído.

— Isso nos dará a oportunidade de falar.

— Do que? — perguntou ela levantando uma sobrancelha.

— De muitas coisas.

Com um movimento que foi tão preciso que a pegou despreparada, aproximou-se. O coração de Chardonnay começou a pulsar muito depressa, olhou-o à cara e tentou controlar o pânico que estava se apropriando dela. Não havia querido escutar a advertência de sua mãe, e nesses momentos se dava conta de que Spencer emanava sensualidade. Robert tinha sido mais velho que ela, bonito e a tinha impressionado com sua inteligência. Mas lhe tinha faltado estilo, e sofisticação, algo normal em um professor de universidade.

Spencer Westmoreland era completamente diferente. Era um homem de negócios, meloso, elegante e desenvolvido, bonito... arrogante. Inclusive nesses momentos, sua presença dominava o interior do carro. Chardonnay não cabia a menor dúvida de que, em seu mundo, sempre era ele quem dizia a última palavra. Duvidou que houvesse muitas pessoas capazes de lhe levar a contrária. E aqueles que o fizessem provavelmente pagassem o preço. A gente não chegava aonde tinha chegado ele na vida, sendo tão jovem, se não era um tanto desumano. Tremeu ao pensar nisso. Esse homem queria o vinhedo de sua família. Perguntou-se como tomaria quando se inteirasse que já não estava a seu alcance.

Suspirou profundamente quando ele estirou os braços por cima do assento.

— Não estava seguro de que aceitasse sair comigo esta noite — comentou com voz rouca.

— Sou uma mulher cheia de surpresas, senhor Westmoreland, e há uma que pretendo compartilhar com você esta noite.

Donnay viu como a estudava com o olhar antes de dizer:

— Tem olhos muito bonitos.

— Obrigado — respondeu, poderia ter devolvido o galanteio, mas preferiu não fazê-lo.

— De nada. Também é uma mulher preciosa.

Ela o olhou com frieza. E esteve a ponto de lhe dizer que era o suficientemente sensata para não se deixar enrolar com suas palavras. Perguntou-se por que estaria ele perdendo o tempo assim e o que esperava obter a adulando e semelhante maneira. Talvez aquilo funcionasse com outras mulheres, mas não com ela.

— Obrigado de novo, senhor Westmoreland.

— Dispensemos as formalidades, me chame Spencer.

Ela assentiu.

— De acordo, eu sou Donnay.

— Eu gosto mais Chardonnay.

Ela tentou não se fixar no modo tão sensual com o qual havia dito seu nome. E notou que o aroma de uva havia sido substituído por um aroma de homem. Não sabia que colônia utilizava, mas era muito masculina e sexy. Conforme tinha ouvido dizer a outras mulheres, era o tipo de homem que também era perfeito como amante, já que gostava de fazê-lo tudo bem.

Levantou o olhar e se deu conta de que tinha os olhos postos exclusivamente nela. Perguntou-se o que era que ele olhava com tanta intensidade. Então se deu conta de que eram seus lábios o que tinham chamado sua atenção. Suspirou fundo e sentiu um comichão no estômago que, pouco a pouco, foi estendendo-se ao resto de seu corpo.

Chardonnay entreabriu os lábios para tomar ar e em um atrevido movimento, ele se aproximou mais e tirou a língua para umedecer-lhe antes de beijá-la apaixonadamente. O contato havia sido tão inesperado, tão repentino, que em vez de se afastar, sentiu como todas as células de seu corpo vibravam com aquela combinação de hormônios superexcitados e desejo contido.

Era muito tarde para mudar de ideia. Muito tarde para pensar em resistir. Quando a língua de Spencer tocou a sua soube que estava perdida e teve a sensação de que ele sabia. Por que se não teria aprofundado ainda mais o beijo e a teria apertado contra seu corpo, fazendo-a gemer de um modo completamente desconhecido para ela?

Nenhum outro homem a tinha beijado assim até então. O beijo a excitou, a estimulou. E respondeu a seus atos deixando-se levar pelo instinto, não pela experiência. Sua língua nunca tinha participado de um beijo como estava fazendo nesses momentos, emanando um desejo que nem ela mesma alcançava a compreender. Embora ele sim parecesse entendê-lo, porque quanto mais lhe pedia, mais ele lhe dava.

De repente, Spencer se apartou e ela se sentiu decepcionada, como se lhe tivessem jogado um jarro de água fria sobre a pele quente. Deu-se conta de que estava quase em cima dele, que a olhava intensamente. Chardonnay soube nesse momento, enquanto tentava recuperar a compostura e se apartar dele, que aquilo era muito complicado para ela. E ela que tinha pensado que poderia dirigi-lo.

— Nunca esquecerei seu sabor, Chardonnay. E espero poder desfrutar dele muitas outras vezes.

Falou com segurança, como se não estivesse disposto a aceitar nenhuma resistência. Do mesmo modo, ela respondeu imediata e instintivamente.

— Não estou de acordo.

Spencer sacudiu a cabeça e lhe sorriu.

— Está em todo seu direito, mas tal e como eu vejo as coisas, sua lealdade será sua perdição e, ao mesmo tempo, é o que te diferencia das demais. É o que mais admiro em você.

Ela franziu o cenho, não entendia o que ele estava dizendo, nem qual era sua intenção. Antes que tivesse tempo de perguntar, ele olhou pelo guichê, para o exterior, e disse:

— Já chegamos a nosso destino e preferiria terminar com esta discussão enquanto jantamos.

 

                                                 Capítulo Três

Spencer soube que havia escolhido o restaurante apropriado ao entrar nele com Chardonnay. Só o ambiente o fazia merecedor de cinco estrelas.

Estava situado em uma colina coberta de erva no coração do vale de Napa e o edifício era uma enorme estrutura de estilo europeu elaborado com pedra e tijolo. No interior, a decoração era festiva. E apesar de ser terça-feira à noite, estava cheio. Não pôde evitar perceber que vários homens os olhavam com inveja. Mais por instinto que por outro motivo, entrelaçou seu braço com o de Chardonnay. Quando lhe lançou um olhar inquisitivo, Spencer sorriu e comentou:

— Reservei uma mesa para que não tenhamos que esperar muito.

Acabava de dizer aquilo quando apareceu o maitre e os acompanhou até um reservado que havia na parte de trás do restaurante. As paredes de tijolo, com vigas de madeira escura, e os abajures de aranha lhe davam um toque romântico.

Depois de se sentar à única mesa que havia no reservado, deram-lhes a carta. Logo lhes disseram que o garçom não demoraria em ir tomar nota do pedido.

 

Alguns segundos mais tarde estava às voltas com Chardonnay. Spencer levantou a vista e a olhou à cara, tentando decifrar sua expressão e adivinhar seus pensamentos. Sabia que a tinha surpreendido com a atitude possessiva de agarrá-la pelo braço. Até ele mesmo se surpreendeu. Nunca sentiu ciúme porque outro homem se fixasse na mulher que estava com ele. Não era desses.

Deu-se alguns segundos para clarear as idéias e logo observou o reservado. Era íntimo e agradável, estava virtualmente rodeado de cristais escuros e dava para um caramanchão exterior ao redor do qual havia arbustos, flores e videiras.

— Este lugar é precioso.

O comentário de Chardonnay chamou sua atenção e a olhou aos olhos. Esteve a ponto de lhe dizer que aquilo não era nada comparado com ela.

— Sim, é verdade — admitiu em seu lugar.

Ainda tinha seu sabor nos lábios e duvidou que nem a bebida mais forte fosse capaz de apagá-lo. Tinha gostado de beijá-la, rodeá-la com seus braços e apertá-la contra seu corpo enquanto unia seus lábios aos dela. E quando ela também o havia abraçado e a havia ouvido gemer suavemente, fez o que lhe tinha saído de um modo natural, aprofundar o beijo ainda mais.

Embora não se queixava, o beijo havia durado mais do que ele tinha pretendido. De repente, tinha perdido o sentido do tempo e do espaço e se viu consumido pelo desejo.

Deixou de divagar quando o garçom lhes levou uns copos de água e lhes perguntou o que iam tomar.

Os dois pediram vitela e uma garrafa de Russell Chianti.

— Já tinha provado nosso vinho? — perguntou Chardonnay quando o garçom partiu e voltaram a estar sozinhos.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não, mas tenho entendido que é delicioso.

Ela franziu o cenho.

— É mais que delicioso. É esplêndido. O melhor do país.

Spencer riu.

— Comprovarei por mim mesmo dentro de um minuto — disse apoiando as costas na cadeira. — A que você se dedica exatamente no vinhedo?

— Faço de tudo um pouco — respondeu ela, dando de ombros, — dependendo da estação. Faço as relações públicas durante os meses de inverno, e na primavera e verão trabalho no vinhedo, podando, plantando e inclusive sei utilizar a maquinaria para esmagar e fermentar as uvas. E no outono me ocupo de provar o vinho.

Chardonnay deu um gole na água antes de lhe perguntar:

— Por que me convidou para jantar?

— E se supõe que isso significa algo? — perguntou.

Ele lhe devolveu o sorriso e se sentiu cômodo fazendo-o.

— Em Atlanta, sim. É onde estão as raízes de minha família, igual às da sua estão aqui. Meu primo Darei é o xerife do College Park, um bairro de Atlanta. E meu primo Thore Westmoreland é...

— Fabrica motos e corre com elas — ela o interrompeu. — Não havia me dado conta até agora de que tinham o mesmo sobrenome. Tinha seu pôster em meu quarto aos dezesseis anos. Era impressionante.

Spencer riu.

— Creio que há mulheres que seguem pensando que ainda é. Agora está felizmente casado e ele e sua esposa, Tara, vão ter seu primeiro filho no final deste mês. Vai ser um menino.

— Isso é maravilhoso. E tem irmãos?

— Sim, tenho um irmão mais velho, Jared, e quatro mais jovens: Durango, Ian, Quade e Reggie.

— E todos vivem em Atlanta?

— Jared e Reggie, sim. Ian vive no lago Tahoe e Quade trabalha para o governo em Washington.

— De verdade? E a que se dedica exatamente?

— Trabalha na segurança da Casa Branca. Embora não estamos seguros do que faz realmente, e ele nunca dá detalhes — e para que não lhe fizesse mais pergunta a respeito de Quade, fez outra a ela: — E você? São só sua mãe, seus avós e você?

— Sim, e estamos muito unidos.

— E seu pai?

Ela deu de ombros.

— Não nos conhecemos. Final da história.

Nesse momento voltou o garçom com o vinho. Encheu as taças e partiu. Chardonnay, sorridente, levantou a sua para fazer um brinde.

— Pelo vinhedo Russell, para que funcione sempre, e com o empréstimo que nos deu hoje o banco, estamos em caminho de consegui-lo.

Olhou-o por cima da taça e deu um gole, sorrindo. E Spencer soube que estava realmente feliz, pensando que tinha ganho a partida.

Chardonnay levantou uma sobrancelha e deixou a taça; era evidente que estava decepcionada por não ter conseguido irritar Spence.

— E?

— E o que? — perguntou ele levantando também uma sobrancelha.

— Não tem nada a dizer?

Ele sorriu antes de responder.

— Sim, tenho muitas coisas a dizer, mas prefiro fazê-lo depois que tenhamos desfrutado da comida. Eu não gostaria que nada do que vamos dizer arruinasse o jantar.

Pensando que tinha conseguido incomodá-lo de todo modo, Chardonnay apoiou as costas na cadeira e disse:

— Superará isso.

— E se não o faço?

Spencer viu como ela continha a respiração e torcia o gesto. Logo, voltou a se inclinar para diante.

— Seria uma perda de tempo, porque não há nada que possa fazer a respeito.

O garçom entrou com a comida. Spencer sorriu para Chardonnay e lhe disse:

— Já está aqui o jantar, Chardonnay. Por favor, se contenha um pouco até que tenhamos terminado de comer. Logo te direi por que está equivocada.

Donnay não quis sobremesa, e pensou que se estava cansando de brincar de gato e rato com Spencer. No caminho do restaurante, tinha se sentido eufórica, confiada, contente por ir lhe causar uma decepção, algo que parecia lhe ocorrer com muito pouca freqüência. Spencer teria uma grande desilusão, se sentiria frustrado e provavelmente algo mais que irritado ao saber que o vinhedo Russell estava fora de seu alcance. Mas o certo era que não parecia que a notícia o tivesse afetado absolutamente, e ela se perguntou se acaso saberia algo que ela ignorava.

E logo estava o beijo, no que não podia deixar de pensar. Ainda estava aturdida. Tinha que admitir que houvesse uma forte química entre ambos, nunca antes tinha sentido algo assim. Seu sabor lhe tinha feito perder o sentido e estava tendo que fazer um esforço sobre-humano para se recuperar.

Incapaz de seguir suportando aquela tensão e prisioneira da curiosidade, levantou a cabeça e o olhou diretamente à cara.

— Me diga por que acredita que estou equivocada, Spencer.

Viu como ele punha a um lado sua taça de vinho. Logo, tirou a carteira do bolso da jaqueta e procurou um cartão de visita nela. O estendeu.

Donnay aceitou, e estudou a informação que havia nele antes de olhá-lo inquisitivamente.

— O que se supõe que quer que veja?

— Minha profissão.

Ela voltou a ler o cartão antes de levantar a cabeça para olhá-lo aos olhos.

— Diretor de investimentos financeiro?

— Sim, como você, eu gosto de fazer muitas coisas distintas — disse voltando a guardar a carteira.

Donnay se ergueu em sua cadeira. Seus olhares se uniram durante uns segundos antes que ela perguntasse:

— O que quer dizer?

Spencer não apartou o olhar do dela. Estava seguro de que ela não gostaria do que ia dizer. E ainda ia gostar menos da proposta que tinha que lhe fazer. Por um momento, pensou em atirar a toalha e deixar que sua família e ela ficassem com a terra, sem mais. Mas sabia que, embora pudesse esquecer da propriedade, não poderia esquecer-se dela. Depois de ter passado mais tempo com ela aquela noite, ainda a desejava mais. Nunca tinha desejado a ninguém antes com tanta paixão.

— Há um momento me disse que sua família conseguiu um empréstimo.

— Sim, já está aprovado.

— Sei.

— E como é que sabe?

Ele não respondeu imediatamente, e Chardonnay repetiu sua pergunta.

— Por que sabe Spencer?

— Às vezes os bancos oferecem empréstimos a indivíduos quando estes estão avalizados por outros.

Guardou em silêncio alguns segundos e viu um brilho nos olhos de Chardonnay, como se estivesse começando a entender tudo.

— Está dizendo foi você o que nos avalizou?

Ele decidiu lhe responder muito devagar e com claridade, para assegurar-se de que o entendia bem.

— Sim. O banco não pôde encontrar a nenhum outro investidor que quisesse fazê-lo. Assim, basicamente, quando firmes o empréstimo, serei eu o que terei a hipoteca do vinhedo.

Suas palavras tiveram exatamente o efeito que ele tinha imaginado. O olhar de Chardonnay se endureceu.

— Deseja tanto assim nossas terras?

Ele decidiu ser franco.

— Sim, mas há algo mais que quero Chardonnay, algo que é ainda mais importante que o vinhedo.

— E o que é?

— A ti.

Chardonnay demorou uns segundos em recuperar a compostura. Não pôde evitar respirar profundamente várias vezes antes de lhe fazer uma pergunta relativamente tola.

— E com que fim?

Ele levou alguns segundos antes de responder.

— Quero me casar contigo e que me dê um filho. Ou talvez vários.

Ela deu um grito afogado, de surpresa.

— De verdade pensava que ia estar de acordo com semelhante loucura?

— Sim. Terá que fazê-lo se quer conservar o vinhedo de sua família — respondeu ele olhando-a aos olhos. — É evidente que não é consciente do apuro no que se encontram Chardonnay. Sem o aval de uma terceira parte, nenhum banco dará a vocês o empréstimo que necessitam. Reduzistes muitos dos ativos do negócio, por não mencionar que seguem sendo uma empresa familiar que esteve em números vermelhos a maior parte do ano. Não obstante — continuou, — eu estou disposto a lhes garantir um empréstimo pela quantidade que necessitem. E, para lhe demonstrar quão generoso sou, vou te dar duas opções. Pode aceitar o empréstimo, mas terão que devolvê-lo em seis meses.

— Seis meses!

— Sim, se não o fizerem, tudo será meu. Se não, pode considerar uma segunda opção. Aceitar se casar comigo e me dar filhos e eu permitirei que continuem trabalhando no vinhedo como querem. De fato, poderia pôr dinheiro para ampliar o negócio e internacionalizá-lo.

Chardonnay se sentiu furiosa. Não podia aceitar nenhuma das duas opções.

— Esquece as duas.

Ele deu de ombros.

— Se isso for realmente o que quer… Mas, de um modo ou outro, Chardonnay, algum dia sua terra será minha e farei com ela o que queira. Assim que sugiro que aceite a segunda opção. É menos arriscada. E se o faz, esquecerei meu sonho de construir um complexo turístico. Em seu lugar, dedicarei todo meu tempo e atenção, quando não estiver tentando te deixar grávida, a lhe dar um prestígio e uma reputação ao vinhedo Russell.

— Não penso ser sua égua de cria! — gritou Donnay ficando em pé, surpreendida pela ira que podia sentir contra um só indivíduo. — Tem que ser o pior homem da Terra para me propor algo assim. A última coisa que quereria seria me casar contigo. E não posso me imaginar compartilhando uma cama contigo para ter um filho.

— Quer dizer que vais rechaçar tudo o que eu estou oferecendo apesar de saber qual será o resultado? — perguntou ele com toda tranquilidade.

— Sim, estou rechaçando. Toma nota, Spencer Westmoreland, porque isso é o que estou fazendo. Entre outras coisas, não é meu tipo. E não se incomode em me levar de volta a casa. Chamarei um táxi.

E com a cabeça bem alta, saiu do reservado. Sem olhar para trás.

— Que tal o jantar com o senhor Westmoreland?

Donnay levantou a cabeça e olhou para as escadas ao ouvir a doce voz de sua mãe. Não podia contar a ela, nem a seus avós, o que havia passado realmente aquela noite com o Spencer. O último que queria era que se preocupassem.

— Bem — respondeu enquanto via como sua mãe baixava as escadas.

Ao chegar abaixo, Ruth lhe sorriu e perguntou:

— Como recebeu a notícia de que nos deram um empréstimo?

— Melhor do que eu pensei, e me deu a sensação de que não está disposto a jogar a toalha.

— Bom, e que mais dá isso? O empréstimo faz que não tenha nenhuma possibilidade, já que não necessitamos seu dinheiro.

— Isso espero — respondeu Chardonnay se sentindo culpada ao ouvir as palavras de sua mãe.

Desejava poder ser honesta com ela e contar que Spencer e o empréstimo eram um. A primeira coisa que faria no dia seguinte seria ir ver Glenn Forbes, seu advogado. Estava segura de que Spencer tinha tido que fazer algo ilegal no referente ao empréstimo. Se tinha que lutar contra ele pela via legal, faria.

Como precisava trocar o tema da conversação, fixou-se na roupa que sua mãe estava vestida. Não era necessário ser adivinho para perceber que sua mãe, que não estava acostumada a sair muito, tinha ido a algum lugar aquela noite.

— Onde você esteve? — perguntou com curiosidade.

Alguns anos antes, tinha querido animar a sua mãe a sair mais, a conhecer algum homem agradável e se divertir, apesar do que ela dizia que nunca haveria nenhum homem em sua vida além do pai de Donnay.

— Fui ao McClintock Café — respondeu Ruth. — depois de que você saiu uma amiga a qual fazia séculos que não via, e que está de passagem chamou e fomos tomar um café e nos pôr em dia.

Donnay assentiu, gostava que sua mãe se interessasse por algo mais que o vinhedo.

— Bom, me alegro. Está bonita.

Sua mãe bocejou.

— Obrigado. E agora, deveríamos ir as duas à cama. Nas próximas semanas vamos estar muito ocupadas.

Os meses de inverno estavam acostumados a ser menos ocupados. À exceção da poda de inverno, havia pouco mais que fazer, além de se assegurar de que o mau tempo não danificasse a colheita. Também era o momento para discutir como aumentar a produtividade mantendo a qualidade.

Mas em um par de semanas, a cidade de Napa celebraria a Prova de Napa, que, para os amantes do vinho, era o acontecimento mais importante do mundo. O vinhedo Russell também teria seu lugar nela.

— Sim, e estou desejando que chegue — disse Donnay dando um abraço na sua mãe. — Boa noite, mamãe.

— Boa noite, Donnay.

Donnay tinha começado a subir as escadas quando sua mãe a chamou.

— Sim?

Sua mãe a observou um momento antes de sacudir a cabeça e sorrir.

— Nada, carinho. Ao menos, nada do que não possamos falar em outro momento.

— Está segura?

— Sim, estou segura. Vá à cama e descansa.

Donnay sorriu.

— Você também.

 

                                         Capítulo Quatro

«Não é meu tipo...».

Spencer franziu o cenho, irritado, enquanto dava um gole no café. Não podia imaginar que nenhuma mulher dissesse isso a um Westmoreland. E se Chardonnay pensava que suas palavras impediriam que ele fizesse o que mais desejava, estava muito errada. Não obstante, o que ela disse tinha lhe incomodado muito, embora não compreendesse por que tinha dito.

Deu outro gole no café. Não lhe importava o que ela dissesse, sobre tudo, porque seus lábios haviam dito algo completamente distinto. Talvez não fosse seu tipo, mas tinha gostado que a beijasse. Disso estava seguro. E não pôde evitar se perguntar se ela também haveria passado à noite acordada recordando, como ele havia passado. Além de sua beleza, havia algo tão cativante nela que não havia podido tirá-la de sua mente, nem sequer adormecido.

E isso não era bom.

Suspirou com frustração e se levantou. Como era possível que estivesse tão fascinado por uma mulher? E tão rapidamente. Ainda seguia recordando seu aroma. Era uma fragrância tão excitante, que não podia esquecê-la. Tinha deixado as bodas de sua prima com a intenção de reverter a um negócio, e havia se encontrado com uma mulher que o tinha afetado tremendamente. Queria se casar com ela. Queria ter filhos com ela. Queria tudo, e não lhe serviria nenhuma outra. Por outro lado, não esperava que aquilo fosse um matrimônio por amor. Era só questão de negócios.

Não obstante, Chardonnay havia deixado bastante claro, não estava interessada nele. Teria que pressioná-la um pouco mais, porque pretendia conseguir o que se propunha. E não era dos que perdiam o tempo quando tomavam uma decisão. Olhou o relógio. Era quase meio-dia, o momento de voltar a falar com Chardonnay.

Menos de uma hora mais tarde voltava a percorrer o caminho que conduzia à porta principal da casa dos Russell. Não queria pensar que, depois de como se despediram na noite anterior, Chardonnay se negaria a recebê-lo. Custasse o que custasse, conseguiria falar com ela a sós.

Estava chegando à porta quando essa se abriu e apareceu a mãe de Chardonnay, chorando, desesperada.

— Senhor Westmoreland, por favor, venha rapidamente! Ajude-nos. É meu pai. Caiu e está inconsciente.

— Quer dizer que não há nada a fazer, Glenn?

Glenn Forbes havia sido o advogado dos Russell há anos e Donnay estava fazendo todo o possível por lhe ocultar sua frustração.

— Desgraçadamente, assim é — respondeu ele. — Como é o dinheiro do senhor Westmoreland o que avaliza o empréstimo, pode pôr as condições que queira. E me parece que as condições vão ser muito duras, porque o certo é que quer suas terras.

— Como de duras?

— Pedirá que devolvam o empréstimo em um período de tempo muito curto, ou subirá tanto os interesses que não poderiam pagá-los. Por outro lado, se não aceitarem o empréstimo, ele é o único interessado em comprar a propriedade e se mantiver a oferta que lhes fez faz um par de dias, poderiam conseguir muito dinheiro.

— Mas perderíamos nossa casa — Donnay suspirou. Estava entre a cruz e a espada. — Obrigado pela informação, Glenn.

— De nada. Que tal está seu avô?

Donnay sorriu.

— Bem. A medicação é cara, mas está funcionando bem no momento. Está um pouco decepcionado, porque teremos que pospor nossos planos de expansão um pouco mais. Agora mesmo, o mais importante é sobreviver.

Durante anos, seu avô, que era o mestre vinicultor da família, havia trabalhado muito duro para melhorar a qualidade de seus vinhos. Apesar de que os vinhos Russell tinham muito prestígio nos Estados Unidos, queria começar a vendê-los também no estrangeiro. Isso implicava contratar a mais pessoas, algumas especializadas em vinicultura. Esse era um dos motivos pelos que a oferta de Spencer de transformar a empresa familiar em uma empresa internacional tinha mérito. Era o mesmo que tinha planejado seu avô durante anos. Mas o preço que pedia Spencer era muito alto. Ficou em pé.

— Bom, tenho que partir Glenn. Já o incomodei o bastante.

— Que tolice — disse o advogado ficando também de pé. — Tome cuidado com esses urbanistas, como Westmoreland. Se aproveitará de qualquer engano que cometas. Se quiser as terras, fará tudo o que seja possível para consegui-las.

Donnay não necessitava que o advertissem. Já sabia até onde Spencer estava disposto a chegar. Sorriu ao Glenn e ia lhe responder quando soou o telefone.

— Me perdoe Glenn — disse tirando-o de sua bolsa e comprovando quem a chamava. — É mamãe — o abriu. — Sim, mamãe?

Alguns segundos mais tarde, segurava-se com força ao lado da mesa do Glenn para evitar cair.

— O que! Como vai?

Logo assentiu com ansiedade.

— Vou para lá.

— Ocorre algo, Donnay?

Ela levantou o olhar e viu o Glenn com expressão preocupada.

— Sim — disse dirigindo-se para a porta. — É meu avô. O levaram ao hospital.

Donnay entrou correndo na Emergência e olhou a seu redor em busca de sua mãe e sua avó. Sentiu-se aliviada ao as ver as duas, mas ficou tensa ao ver quem estava com elas.

O que Spencer Westmoreland estava fazendo ali? Ele era o responsável pelo que havia ocorrido a seu avô? Haveria lhe dito algo que o tivesse aborrecido? Seu avô se encontrava bem à hora do café da manhã, e nesse momento estava no hospital.

Respirou profundamente e tentou conter a ira que sentia. Foi para onde estavam os três. Spencer foi o primeiro a vê-la e se levantou depois de ter dito algo a sua mãe e a sua avó. Elas elevaram a vista e correram para Donnay.

— Como está o avô? — foi à primeira coisa que perguntou.

— Não sabemos — respondeu sua mãe. — O médico ainda não saiu para falar conosco. Tudo foi tão rápido... Estávamos todos na cozinha. Estava bem e, de repente, caiu e perdeu os sentidos.

— Talvez tenha sido um enfarte — sugeriu Spencer ao chegar a seu lado.

Donnay o olhou aos olhos, a ira a consumia.

— E você o que sabe de tudo isto?

Sua mãe respondeu por ele:

— Ele estava ali para...

— Ele estava ali! — exclamou Donnay zangada. — O que disse a meu avô? Não tinha direito a desgostá-lo. Se lhe ocorrer algo, nunca lhe perdoarei isso.

— Donnay, está equivocada. O senhor Westmoreland...

— Sinto que pense tão mal de mim, Chardonnay — disse Spencer interrompendo a sua mãe. — E dado que minha presença aqui a incomoda tanto, irei — se voltou e foi para a saída.

Ruth agarrou a sua filha pelo braço.

— O que passa Donnay? Por que lhe falou assim ao senhor Westmoreland?

— Porque não o suporto. Já sabe, mamãe.

— Sim, mas felizmente apareceu justo no momento adequado; se não, talvez seu avô não estivesse vivo.

Donnay estava muito surpreendida para falar.

— O que quer dizer? — pôde perguntar por fim.

— Depois de que seu avô caísse, eu saí de casa desesperada, em busca de algum empregado. Então vi o senhor Westmoreland chegando à porta. Ele entrou correndo e ficou fazendo uma massagem cardiopulmonar a seu avô até que chegou a ambulância. Não foi responsável pelo que ocorreu. E o que tinha que ter feito é lhe agradecer.

Donnay se sentiu envergonhada e sentiu vontade de que a terra a tragasse.

— Mamãe, não sabia. De verdade acreditava que havia sido culpa dele.

— Não sei por que pensa isso, mas, em qualquer caso, deve a ele uma desculpa.

Antes que lhe desse tempo de responder, o médico entrou na sala de espera. Donnay correu para ele.

— Como vai, doutor Miller?

O homem, que tinha sido o médico de seu avô desde que tinham descoberto seus problemas de coração no começo do ano, sorriu fracamente.

— Está descansando. E, sim, teve um enfarte. Poderia ter morrido se não lhe tivessem feito a massagem cardiopulmonar imediatamente. Assim que esteja estável lhe faremos mais testes. A operação da qual falamos faz alguns meses lhe viria muito bem, embora às companhias de seguros não a cobrem já que ainda está em fase experimental.

— Podemos vê-lo? — perguntou a avó.

— Sim, mas um em um e durante cinco minutos como muito. É importante que siga descansando.

Donnay entrou para ver seu avô depois de sua avó e de sua mãe. Já o tinha visto assim antes, conectado a várias máquinas e monitores, mas nessa ocasião lhe afetou mais que nunca. A seus olhos, sempre tinha sido um homem mais forte e robusto que a própria vida. Nesses momentos lhe parecia cansado e débil.

Atravessou a habitação sem fazer ruído e ficou ao lado da cama. Olhou-o e recordou todos os anos durante os quais tinha representado para ela sua única figura paterna. Não podia perdê-lo, como não podia deixar que se perdesse a única coisa que significava tudo para ele, além de sua avó, o vinhedo.

Quando a família não havia sido capaz de enfrentar a sua situação econômica, ele tinha estado disposto a vendê-lo, apesar de saber que isso o faria morrer por dentro. Nesse momento, Donnay tinha sabido teria que ser ela a que impedisse que isso ocorresse. E seguia levando aquele peso sobre os ombros.

— Donnay — murmurou seu avô.

Ela tentou conter as lágrimas ao vê-lo abrir os olhos.

— Sim, avô, estou aqui.

— Bonita.

Donnay sorriu. Seu avô sempre lhe tinha dito que era bonita. Viu como olhava a seu redor e soube por que.

— A avó e mamãe vieram antes. Só nos deixam te ver de uma em uma.

Ele assentiu, lhe dando a entender que compreendia.

— Não lhes dou nada mais que problemas.

— Não, isso não é verdade, nem ocorra pensá-lo. Tudo vai bem.

— O vinhedo?

Ela sentiu que se fazia um nó na garganta ao assentir.

— Vamos conservar o vinhedo. Deram-nos um empréstimo, recorda?

Ele assentiu de novo e logo sorriu fracamente.

— Vamos conservá-lo.

— Sim — assentiu Donnay lutando por conter as lágrimas.

— Para seus filhos.

Ela sorriu. Apesar de seu estado, lançava-lhe indiretas a respeito de sua vida pessoal.

— Sim, algum dia será para meus filhos.

— Meus bisnetos.

— Sim, avô, seus bisnetos.

Donnay observou como voltava a fechar os olhos. Parecia muito cansado depois de ter falado com ela.

— Senhorita, sinto interrompê-la, mas já passaram os cinco minutos — disse uma enfermeira aparecendo à cabeça pela porta.

— Obrigado, já vou — se agachou e deu um beijo na bochecha de seu avô. Logo agarrou a sua bolsa e saiu da habitação.

Spencer observou o vermelho intenso do vinho antes de fazê-lo girar na taça. Era o melhor do vinhedo Russell. Na noite anterior Chardonnay havia dito que era esplêndido e ele tinha que admitir que estivesse de acordo. Não havia esperado que tivesse um sabor tão profundo e suave. Era incrivelmente agradável ao paladar.

Em vez de bebê-lo, levou-se a taça aos lábios e pensou: «Que demônios!». O tinha pedido. O serviço de quarto o tinha levado. E nesses momentos, necessitava-o. Deu um bom gole e logo lambeu os lábios enquanto o líquido descia por seu corpo e o fazia sentir uma prazerosa sensação por debaixo da cintura.

Era muito sensual. Definitivamente, erótico.

Foi então, e só então, quando se tomou o tempo de recordar detalhadamente a cena que tinha tido lugar no hospital com Chardonnay. Apertou a mandíbula. Ela o tinha acusado de ter sido a causa do enfarte de seu avô e ele, em vez de se defender, partiu dali. A noite anterior tinha descoberto que quando Chardonnay se incomodava com algo, enfrentava a isso com dureza, embora estivesse equivocada.

Mas ao contrário do que fazia seu advogado, Stuart, ele não tinha a intenção de permitir que Chardonnay provasse sua resistência. No fim das contas, gostasse-a ou não, seguia pretendendo convertê-la em sua esposa. E como ela não estava pondo nada fácil, ele teria que ficar o difícil.

Atravessou o quarto para olhar pela janela, decidido a acalmar sua frustrada mente. A quantidade de terra que viam seus olhos era incrível, surpreendente, simplesmente bela. O sol acariciava com seus raios dourados o vale, lhe dando uma incrível sensação de paz.

Para acabar com aquela paz, sua mente voltou para Chardonnay. Spencer custava pensar que tivesse podido acreditar que tinha sido ele quem tinha feito mal a seu avô. Se soubesse o muito que tinha querido a seu próprio avô, teria entendido quão equivocada estava. Scott Westmoreland tinha sido muito importante para todos seus netos, tinha-lhes feito acreditar que podiam fazer realidade todos seus sonhos, fossem quais fossem. Como o avô de Chardonnay, tinha sido um mestre, não do vinho, mas sim da comida. Sua fama como cozinheiro e seu restaurante eram legendários. E Spencer o tinha querido tanto como Chardonnay queria a seu avô.

Separou-se da janela quando ouviu soar seu celular. Caso fosse Stuart, ou um de seus irmãos, respondeu:

— Sim?

— Te devo uma desculpa.

Spencer sentiu um comichão no estômago ao ouvir a voz de Chardonnay. Era tão sexy… Não obstante, o efeito que tinha nele era muito intenso para seu estado de ânimo, e surgiu o ressentimento. Por um momento, não soube o que dizer, dado que não tinha esperado aquela desculpa.

— Sim? — respondeu por fim.

— Sim.

— Estou seguro de que é algo que não faz frequentemente. De verdade sabe como se faz?

Ela hesitou um momento antes de responder um tanto irritada.

— Olhe, não necessito isto.

Tinha conseguido zangá-la. Bem.

— Nem eu tampouco, Chardonnay. Eu não gosto que me acusem de ter feito algo que não tenho feito.

— Já disse que sinto muito. Que mais quer?

— Decidiu me dar alguma das coisas que quero? — replicou ele friamente, esperando uma resposta, e caso que seria tão dura como a sua.

— É o homem mais...

— Tome cuidado com o que diz Chardonnay, ou talvez tenha que se desculpar pela segunda vez.

Spencer a estava provocando, e ela sabia. Havia despertado nele coisas que nenhuma outra mulher tinha despertado antes, e não gostava disso.

— Creio que será melhor que terminemos com esta conversação — decidiu bruscamente Chardonnay.

— Não estou de acordo. Se fui a sua casa faz um par de horas foi porque queria que falássemos. E sigo querendo-o.

— Talvez em outro momento.

— Não. Esta noite.

Por um momento, não disse nada, e logo respondeu:

— E se me nego?

— Então, já pode se despedir do vinhedo.

Spencer havia dito aquilo tranquilamente, mas estava seguro de que ela sabia que falava a sério.

— Algum dia arrependerá-se do que está fazendo.

Provavelmente tivesse razão, mas sempre e quando esse dia não fosse aquele, dava-lhe igual.

— Jantaremos as sete, aqui, no complexo. Alojo-me no Chablis — Spencer também sabia que suas palavras tinham saído como uma ordem.

Sorriu ao ouvir um ruído do outro lado do telefone. A ligação não havia caído. Chardonnay havia desligado.

Várias horas mais tarde, Donnay murmurava entre dentes coisas não muito agradáveis a respeito de Spencer enquanto baixava as escadas. Não gostava nada de passar mais tempo com ele. Quanto menos visse aquele homem exasperante, melhor. Não obstante, tinha que admitir que tivessem que falar. Embora não gostasse de fazê-lo aquela noite.

A mesma limusine do dia anterior estava estacionada no exterior. Por que a havia mandado? Spencer tinha dito que jantariam no Chablis, um luxuoso complexo turístico com vistas às montanhas Mayacamas e ao vale de Napa.

Pegou sua bolsa de cima da mesa e saiu pela porta. Foi até onde estava o condutor e lhe disse:

— Olá, sou Chardonnay Russell, e não necessitarei seus serviços, já que irei em meu próprio carro.

O rosto do homem não mudou de expressão.

— O senhor Westmoreland me pediu que desse isto se você se negasse a aceitar meus serviços, senhora — e lhe estendeu um envelope.

Ela franziu o cenho, pegou e o abriu. Havia uma nota dentro que dizia:

Prefiro que faça as coisas a minha maneira, Chardonnay. Por sua segurança, comodidade e conveniência lhe enviei o carro e espero que o utilize. Se não o fizer, significará que interrompemos nossas conversações. E que deixarei de avalizar o empréstimo.

Spencer

Uma parte dela preferia acabar com tudo, mas sabia que não podia fazê-lo, sobre tudo, depois de ter assegurado a seu avô esse mesmo dia que iriam conservar o vinhedo.

Contendo sua irritação, olhou ao condutor e lhe sorriu levemente.

— Parece que, depois de tudo, sim vou ter que utilizar seus serviços esta noite.

 

                                       Capítulo Cinco

Sua convidada havia chegado.

Spencer esboçou algo parecido a um sorriso enquanto pegava a jaqueta do respaldo do sofá e a punha. Imaginou que Chardonnay se negaria a aceitar a limusine, assim tinha feito o necessário para que não tivesse outra opção. Não queria que voltasse para casa conduzindo sozinha aquela noite.

Quando a limusine se deteve, ele saiu à porta da casa de dois andares em que se alojava. Da porta, observou como o condutor dava a volta ao impressionante veículo negro para abrir a porta de trás. As janelas eram escuras, assim Spencer não podia ver Chardonnay, embora imaginasse que não devia estar muito contente nesses momentos. Era uma mulher que não gostava que lhe dissessem o que deveria fazer, sobre tudo quando era ele quem o dizia.

Continuou observando como o condutor lhe oferecia a mão para que saísse do carro. Essa noite levava o cabelo preso, embora várias mechas frisadas lhe caíam ao redor do rosto. Spencer teve uma desilusão ao ver que vestia calças, o que significava que não poderia desfrutar de suas pernas. Uma pena, porque eram incríveis, muito bonitas para permanecer escondidas.

Manteve todos os sentidos fixos em cada um de seus movimentos e quando ela o olhou, o fez franzindo o cenho. Spencer se sentiu tentado a ir até ela e tirar aquela expressão do rosto dela com um beijo. Mas ficou onde estava, tentando parecer indiferente, apesar de sentir tudo menos indiferença.

Vê-la estava voltando a causar estragos nele, e sentiu que custava manter o controle. O desejo já era um instinto mortal. E misturado com a obsessão, em especial quando essa não permitia pensar com claridade, significava que estava metido em um apuro. O certo era que a desejava. E que queria consegui-la fosse qual fosse o preço. Não obstante, não queria que ela soubesse.

— Me alegro de ver que vem no carro que enviei Chardonnay - comentou quando ela começou a avançar para onde ele estava.

Tentou decifrar seu estado de ânimo, e chegou à conclusão de que não estava contente.

— Acaso havia outra opção? — perguntou ela secamente detendo-se diante dele e olhando-o aos olhos.

— Não — se limitou a responder ele, antes de se afastar para deixá-la entrar.

Teve que fazer um esforço para não tomá-la entre seus braços.

— Pensei que íamos jantar.

Chardonnay estava de pé no meio do salão, olhando a seu redor. Era evidente que tinha esperado encontrar uma mesa posta para dois, mas não a via por nenhuma parte. Ele se aproximou dela, devagar, contendo-se para não a olhar dos pés à cabeça. Estava muito bonita com calças negras e essa camiseta azul turquesa. Aquele tom a favorecia. Dado que pelas noites podia chegar a fazer frio no vale, havia levado também uma jaqueta de tweed, que estava sobre os ombros.

— E vamos jantar — disse ele, — mas não queria que o jantar esfriasse antes que você chegasse. O serviço de quarto não demorará em preparar tudo, e espero que você goste da entrada que pedi para os dois.

— E se eu não gosto?

Chardonnay procurava briga, e ele não tinha intenção de defraudá-la. Estava começando a se acostumar a seu caráter. Além disso, não demoraria em acalmar aquela tormenta interna que parecia estar consumindo-a por dentro. Não obstante, deu de ombros e respondeu:

— Nesse caso, sugiro que não coma isso.

Ela apertou os lábios e franziu o cenho ainda mais.

— Sempre a acerta para conseguir tudo o que quer?

— Justamente o contrário — respondeu ele pensando que nesses momentos o que queria era tê-la em sua cama. — Há coisas das que posso prescindir — acrescentou.

Logo se meteu as mãos nos bolsos para evitar tomá-la entre seus braços, beijá-la nos lábios e acariciar todo seu corpo. Só de pensar em fazer tudo aquilo lhe acelerou o pulso.

Para rebater o efeito, assinalou com um movimento de cabeça a janela e comentou:

— O que lhe parecem à vista?

Ela seguiu seu olhar e um inesperado sorriso tocou seus lábios, fazendo que o estômago de Spencer encolhesse.

— São preciosas — respondeu em um tom cativante. — Mas para mim é minha casa, e sempre me pareceu que o vale era o melhor lugar do mundo para viver.

— Eu também estou começando a pensá-lo, apesar de que eu adoro minha casa no Sausalito.

Chardonnay se voltou e o olhou com uma sobrancelha arqueada.

— Vive no Sausalito?

— Sim. Parece surpreendida.

— E o estou. Pensei que preferiria o ritmo trepidante de São Francisco, em vez da paz de uma cidade pequena.

Ele riu.

— Cresci em uma grande cidade: Atlanta. E sempre quis viver em algum lugar tranquilo.

— Surpreende-me que não se aborreça.

— Estou seguro de que há muitas coisas de mim que lhe surpreenderiam Chardonnay.

A expressão dela era de indiferença, e uma parte de Spencer estava decidido a trocá-la.

— Fique a vontade enquanto peço o jantar.

Ela foi para o sofá e se sentou. E ele notou como ficava a suar enquanto observava o suave movimento de seus quadris e as esbeltas curvas de seu corpo.

Decidiu que tinha que fazer algo com as mãos, assim pegou o telefone.

— Sou Spencer Westmoreland. Já podem nos trazer o jantar.

— Quando vamos conversar Spencer?

Chardonnay lhe fez a pergunta após ele desligar o telefone. Ele a olhou aos olhos e se deu conta de que voltava a estar preparada para entrar em combate. A parte mais masculina de seu ser teve que se controlar para não pôr em prática seu plano de sedução antes do tempo.

— Falaremos depois do jantar — respondeu.

Ela assentiu a contra gosto e Spencer soube que necessitaria toda a força que tivesse, porque com Chardonnay Russell, só o mais forte sobrevivia.

Donnay respirou profundamente enquanto tentava apartar o olhar de Spencer. Era difícil. Tinham-no chamado por telefone e ela havia agradecido à pausa. Nesses momentos tinha tempo para estudá-lo sem que ele se desse conta. Era rico, poderoso e surrupiado, e ia vestido com um par de calças e uma camisa branca de marca, e um blazer de diante. Tinha todo o aspecto de um milionário.

Além de tudo isso, havia uma compleição magnífica. Era alto, forte e masculino. Era o macho perfeito. Só sua presença a fazia sentir coisas que ela teria preferido não sentir. Aquele homem era um depredador. Era desumano e letal, mas naqueles momentos lhe parecia o homem mais atrativo que havia visto em toda sua vida. Só estalando com os dedos podia destruir os meios de vida de sua família. E ela não podia permitir que isso ocorresse. O que queria e precisava saber era por que queria se casar e ter filhos com ela. Era um homem tão rico como bonito, assim não devia lhe ser difícil encontrar a uma mulher que satisfizesse suas necessidades. Por que tinha que ser ela?

— Acabam de me dar boas notícias — disse ele depois de pendurar o telefone, interrompendo os pensamentos de Chardonnay.

— E quais são essas boas notícias?

— O filho de Thorn e Tara chegou três semanas antes do tempo.

— E está bem?

Spencer riu.

— O bebê e Tara estão bem. Não obstante, não sei que tal estará Thorn. Acabo de falar com ele e creio que continua um tanto aturdido. Esteve presente no parto e diz que é uma experiência incrível.

— Estou segura que sim.

Ele guardou silêncio um momento, mas sua expressão era pensativa. E logo, como se acabasse de tomar uma decisão, atravessou a habitação e ficou justo diante de onde ela estava.

— Isso é o que eu quero Chardonnay.

Donnay o olhou aos olhos. Aquele homem queria muitas coisas e era difícil segui-lo.

— O que é exatamente o que quer?

Ele a olhou fixamente um momento antes de responder:

— Quero estar aí quando minha mulher der a luz a nosso filho.

Para surpresa de Donnay, sua voz era doce. Era evidente que falava com sinceridade. E a olhava com intensidade. Com muita intensidade. De fato, estava-a fazendo arder por dentro. Aquilo era algo que ela não havia esperado. Levantou a cabeça e franziu o cenho.

— Nesse caso sugiro que o faça saber à mulher com a que queira se casar.

— Isso estou fazendo.

— Não se equivoca — disse ela tentando manter a calma. — Eu não sou a mulher com a qual vai se casar.

— Pode se permitir não sê-lo? — perguntou ele tranquila e friamente.

Chardonnay se negou a deixar-se encurralar. Ficou muito reta.

— Seria capaz de utilizar a terra de minha família para me obrigar a me casar com você?

— Sim, e o faria sem duvidar nem um momento.

— E se casaria comigo apesar de saber que eu o desprezaria por isso?

Ele assentiu.

— Sim, porque me esforçaria dia a dia para me assegurar de que o superasse.

Ela abriu a boca para replicar quando bateram na porta. Tinha chegado o jantar.

O aroma de Chardonnay estava começando a afetar Spencer, e lhe estava fazendo pensar em tudo menos no file que havia no prato. A comida era deliciosa, mas também era a mulher que estava sentada em sua frente. Desejava-a com uma paixão que não havia sentido nunca antes.

Durante toda sua vida nunca se deixou levar pela paixão, os caprichos nem as obsessões. Não o tinha feito com o Lynette Enjoe, apesar de que havia gostado muito dela. Ou isso tinha pensado naquela época. Conheceram-se e tinham saído juntos na universidade, e ao terminar seus estudos, tinham seguido caminhos distintos. Os dois tinham querido dedicar todo seu tempo a suas carreiras.

Ela tinha estudado jornalismo e logo havia conseguido um posto na CNN. Tinham retomado sua relação dez anos depois, ao se encontrarem em uma viagem de negócios a Nova Iorque. Logo tinham começado uma relação à distância, que lhes tinha convencionado a ambos e havia durado um par de anos. Quando ao Spencer tinha parecido o momento adequado, tinha lhe pedido que se casasse com ele, e Lynette Enjoe tinha aceitado.

Alguns meses depois de ter anunciado seu compromisso, ela havia ido as Bermuda por três meses. Desgraçadamente, e devido a sua apertada agenda, Spencer não tinha podido ir vê-la enquanto estava ali. Uma manhã, enquanto se barbeava, chamaram seus pais para lhe dizer que sua prometida tinha sofrido um acidente mortal.

Segundo a autópsia, estava grávida de seis semanas quando morreu. Spencer tinha sabido que o filho não era dele porque levavam quatro meses sem fazer amor. Aquela traição lhe tinha feito jurar que não voltaria a compartilhar nunca mais seus sentimentos com uma mulher. E assim o tinha feito... até então.

Franziu o cenho por dentro, levantou a vista e olhou para Chardonnay, que estava sentada do outro lado da mesa. Além de falar brevemente da saúde de seu avô e de outras coisas sem importância, não haviam dito muito durante o jantar; não obstante, ela parecia estar desfrutando-a.

Spencer decidiu que era o momento de lhe contar por que a tinha feito ir ali.

— Vamos falar Chardonnay. Mas tenha em mente que devemos nos ater às coisas realmente importantes, e que quero que me dê uma resposta em quarenta e oito horas.

Ela franziu o cenho.

— Não pode esperar que tome uma decisão tão logo.

— Sim, claro que sim. E não trocarei de opinião. Nego-me a te dar mais tempo para que possa procurar alternativas que não vá gostar. O único que faria seria esbanjar seu tempo e o meu. Já te dei minhas duas opções ontem à noite. Tem alguma pergunta a me fazer a respeito?

— Sim — respondeu ela, deixando sua taça de vinho na mesa. — Se chegarmos a um acordo sobre o empréstimo, que limite e restrição colocaria? E o que ocorreria se deixássemos de cumprir um pagamento?

Ele apoiou as costas na cadeira.

— Os interesses seriam mais altos que os que há atualmente no mercado e se deixassem de cumprir um pagamento, iniciaria os trâmites de embargo antes que lhes desse tempo a pestanejar.

Tinha sido brutalmente sincero e, Chardonnay não havia gostado nada de sua resposta. Spencer queria que aquela opção fosse o menos atrativa possível.

Viu-a hesitar um momento, brincar com o garfo no prato antes de levantar a cabeça.

— O que esperaria de mim com esse matrimônio de conveniência? — perguntou em tom cortante.

Ele sorriu.

— Esperaria o que qualquer homem esperaria de sua esposa. Quero dormir com você todas as noites, fazer amor, te deixar grávida, várias vezes, e criar um lar para nossa família.

Ela hesitou outra vez antes de continuar:

— E quando eu deixar de ter interesse para você?

Ele refletiu surpreso pela pergunta.

— Por que acha que chegaria um momento no que deixaria de me interessar?

Pela expressão de Chardonnay, era evidente que aquela pergunta lhe confundia, assim decidiu lhe fazer outra:

— Quanto tempo acreditava que quer que dure?

Ela deu de ombros.

— Até que tivesse dado os filhos que queria.

Spencer jogou a cabeça para trás e riu.

— E o que pensava que ia fazer com você depois?

— Se divorciar de mim.

Era evidente que o dizia a sério.

— Desde que eu nasci não houve nenhum Westmoreland que se divorciou. Para nós, o matrimônio é sagrado.

Donnay franziu o cenho.

— Quer dizer que espera que estejamos juntos para sempre? — perguntou com incredulidade.

— Sim, até que a morte nos separe. Por que não?

Era evidente que a tinha pego despreparada.

— Porque a maior parte dos matrimônios de conveniência dura um tempo, normalmente, pouco.

— Pois esse não seria nosso caso, mas preciso estar seguro de que entende que não haveria lugar para o amor em nosso matrimônio. Eu não o necessito, pessoalmente, nem tampouco o quero.

Fez uma pausa para se assegurar de que ela entendia o que estava lhe dizendo. Quando continuou falando, o fez em voz baixa, e escolhendo suas palavras cuidadosamente.

— Se aceitar se casar comigo, estaria aceitando um matrimônio sem amor. Seria, basicamente, um negócio. Eu a trataria com respeito e te ofereceria tudo o que oferece a uma esposa.

— Salvo amor — comentou-a.

— Sim, tudo menos amor.

— E se me caso com você, o que me garantirá que não acabará convertendo o vinhedo em um complexo turístico?

— A única garantia seria minha palavra. E lhe dou isso agora mesmo. Se aceitar se casar comigo, Chardonnay, você e sua família não voltarão a ter preocupações econômicas. E eu me centraria em três coisas: casar-me, te deixar grávida e conseguir que o vinhedo suba a uma escala internacional. Estou de acordo com você em que o vinho Russell é excelente e porei dinheiro para me assegurar de que se saiba em todo mundo. Ajudarei a converter o vinhedo em algo que algum dia possamos deixar a nossos filhos.

— Por quê? Por que, de repente, te parece tão importante se casar e ter filhos?

— Por que acreditas que é algo repentino?

— Porque já o teria se de verdade o quisesse.

Spencer não podia admitir diante dela que sempre tinha querido ter filhos. De fato, esse era o principal motivo pelo qual havia pedido a Lynette Enjoe que se casasse com ele. Mas depois de sua morte tinha apagado a família de sua agenda... até o momento em que tinha visto Chardonnay. Inclusive nesse instante, a ideia de estar com ela na cama, tentando deixá-la grávida, excitava-lhe.

— Farei trinta e sete anos dentro de menos de seis meses e durante os últimos anos consegui acumular uma grande riqueza. Desejo poder deixá-la a meus filhos e necessito uma esposa para isso.

— Não, não faz falta. Os homens deixam grávidas às mulheres sem se casar com elas frequentemente.

Spencer se perguntou se não estaria referindo-se a seu próprio pai, já que não sabia nada dele.

— Essa é outra norma dos Westmoreland — disse convencido. — Somos responsáveis por nossos atos, sejam quais sejam. Só pretendo ter filhos com a mulher que seja minha esposa.

O coração começou a lhe pulsar a toda velocidade ao ver que Chardonnay apartava seu prato, como querendo dizer que terminou oficialmente o jantar. Ele se levantou e chamou o serviço de quarto para que retirassem os pratos e lhes levassem outra garrafa de vinho. Depois, olhou-a fixamente e lhe disse:

— Agora sou eu o que quer te fazer uma pergunta. Sei que esteve saindo com um professor da universidade faz alguns anos. Esta saindo com alguém agora?

Ela se ruborizou, tampouco havia esperado aquilo.

— Que não te incomode a pergunta, Chardonnay. Como te disse antes, sempre averiguo todo o possível a respeito de meus sócios, e nisso nos converteríamos se nos casamos. Em sócios. Não haveria segredos entre nós.

— Que mais dá isso? De todos os modos, parece que eu já não tenho segredos para você.

— Não, é provável que não os tenha — o admitiu, — mas não respondeste a minha pergunta esta saindo com alguém agora mesmo.

Ela o olhou fixamente.

— Parece saber tudo de mim. Você, que acredita?

Ele foi para o outro lado da mesa e se colocou em frente dela.

— O que eu acho não importa Chardonnay. O que importa é quero saber o que você me diga, o que quero ouvir de seus lábios. E se alguma vez me inteiro de que me enganaste, serei o primeiro Westmoreland que se divorciou nos últimos cinquenta anos.

Bateram na porta, era de novo o serviço de quarto. Spencer foi abrir. Alguns minutos mais tarde, quando os empregados do hotel tinham tirado a mesa e partiram, voltaram a ficar sozinhos e ele esperou até que Chardonnay respondesse à pergunta que ele tinha feito.

— Não, não saio com ninguém.

Ele deu um passo atrás, satisfeito. Sorriu.

— Me alegro, sobre tudo, tendo em conta o que vou fazer — disse tirando a jaqueta.

— E o que é que vai fazer? — quis saber ela.

— Te demonstrar que está equivocada e que sim sou seu tipo

 

                                       Capítulo Seis

Donnay ficou de pé imediatamente.

— Não vai fazer tal coisa!

Olhou ao Spencer, se perguntando se estava louco... e, ao mesmo tempo, se perguntando se ela também havia ficado louca, já que não podia evitar arder de desejo por ele. Apertou os dentes, se negou a se deixar levar pelo que estava sentindo e tentou que seu sentido comum retomasse o controle.

— Por que não iria me dar à oportunidade de te demonstrar que sou seu tipo? — Perguntou ele tirando o blazer. — Não obstante, se prefere admitir diretamente que está equivocada...

— Não estou equivocada!

— Então, me demonstre isso a desafiou. — Ou deixe que eu te demonstre o contrário.

Ela não cedeu terreno, embora tivesse começado a tremer. De medo... ou de desejo?

— Não pretendo permitir que me demonstre nada, Spencer.

— Isso significa que, ou não está segura do que pensa, ou se preocupa que eu seja capaz de te fazer mudar de opinião.

O último era certo e, ao reconhecer para si mesma, Donnay sentiu que um calafrio percorria sua coluna vertebral. O beijo da noite anterior a havia feito sentir coisas que não tinha esperado. E outro beijo poderia ter ainda piores consequências que o anterior, e ela não tinha a intenção de brincar com fogo. Só de vê-lo ali de pé, olhando-a com aqueles intensos olhos escuros, ardia por dentro. De repente, pareceu que fazia muito calor na habitação e se perguntou se não teria febre.

— Quer saber o que penso? O que opino realmente? — perguntou ele com voz rouca e profunda, fazendo-a estremecer.

Ela o olhou aos olhos. Estava de pé no meio da habitação, com as pernas separadas de um modo muito sexy e as mãos metidas nos bolsos das calças, olhando-a com uma intensidade que a fazia se sentir débil.

— Não, não me importa à mínima, o que pensa nem o que opina, mas estou segura de que, mesmo assim, vai me dizer - respondeu ela em tom cortante, tão zangada consigo mesma como com ele.

Por que tinha que ser ele o homem que a fizesse sentir semelhantes coisas?

— Penso que é uma mulher muito apaixonada.

Apaixonada? Ela? Devia estar de brincadeira. Se sua opinião se apoiava no que havia ocorrido à noite anterior, estava equivocado. Apesar de que Robert nunca se queixou, a verdade era que nunca tinha sido uma aficionada ao sexo. Gostava, mas não era algo sem o que não pudesse viver. Em sua opinião, era um processo dirigido a fazer suar os corpos e a que trabalhassem os músculos. Nada mais e nada menos. Mas o que não podia explicar era o que estava lhe ocorrendo nesses momentos. Não acreditava que o que estava sentindo tivesse nada a ver com a paixão. Era isso sim, desejo.

— Creio que está me confundindo com outra — decidiu dizer. — Ou isso, ou bebeste muito vinho e está aturdido.

Ele não respondeu, e se limitou a se agachar para tirar os sapatos e as meias três - quartos.

— Posso saber o que está fazendo? — inquiriu Donnay.

— Já disse, vou demonstrar a você que sou seu tipo.

Ela cruzou os braços.

— É evidente que não me escutou quando disse não o é, e não creio que seja desses que obrigam a uma garota a fazer nada contra sua vontade.

— Não o sou, mas se uma mulher me roga isso...

— Te rogar? O único que te rogo é que me deixe tranquila. Acaso parece que sou das que vão por aí rogando aos homens?

— Ainda não.

Spencer começou a avançar muito devagar para ela, como um caçador que espreitasse a sua prisioneira. Mas ela se negou a retroceder. Ele queria demonstrar que estava equivocada e ela pretendia fazer ver que não. Era um fanfarrão, um homem desumano, dominante... tinha tudo aquilo que nunca tinha gostado em um homem. Assim não era seu tipo. Os homens como ele a repugnavam.

Habitualmente.

Por que não lhe repugnava Spencer? Por que se sentia acalorada, úmida e surpreendentemente carregada? E por que estava recordando o beijo que tinham compartilhado no dia anterior? Um beijo que a tinha feito desejar estar mais perto dele, sentir todo seu corpo contra o dela. Um beijo que a tinha levado a se colocar em cima dele, em seu regaço, enquanto ele a beijava de um modo em que nenhum outro homem a tinha beijado antes.

Spencer se deteve diante dela e ficou ali, quase corpo a corpo, cara a cara.

— Está se lembrando de ontem à noite, verdade? — perguntou respirando quase contra sua boca.

— Não, não estou me recordando de ontem à noite.

— E se me deixa então que refresque sua memória?

E após perguntar aquilo lhe acariciou cuidadosamente à bochecha.

Ela tentou tragar o nó que havia feito na garganta e a causa do qual quase lhe tinha escapado um gemido. Estava começando a se esquecer de tudo, em especial do pouco que gostava de Spencer. Em seu lugar, olhava-o aos olhos, fascinada, e sentia algo muito intenso no estômago.

— Sabe que não me importaria estar todo o dia te provando?

Chardonnay umedeceu os lábios com nervosismo enquanto pensava que Robert nunca tinha dito nada parecido a ela. E quando Spencer desceu a mão para acariciá-la debaixo da orelha direita, deixou de pensar. Tragou saliva e se obrigou a falar, embora a voz que saiu não parecia a sua.

— Podemos falar de outra coisa?

Ele riu.

— Carinho, se for sincero, preferiria que não falássemos de nada absolutamente.

Donnay soube o que ocorreria depois e tentou tomar ar para preparar-se, mas nada poderia ter preparado a nenhuma mulher para receber os lábios de Spencer, que capturaram os seu ao mesmo tempo em que sua doce e deliciosa língua dançava entre eles.

Em vez de resistir, ela se deixou levar. Pensou que tinha sabor de hortelã, mas que cheirava a homem. Uma parte dela sentiu a necessidade de saborear ambas as coisas. Sua mente não estava preparada para aquilo, embora, ao que parece, seu corpo sim estava. Quando Spencer a abraçou e apertou seu corpo contra o dele, Chardonnay se deu conta de que tinha o abdômen duro e musculoso, igual à outra parte que se encontrava mais abaixo de seu corpo, e isso lhe fez sentir ainda mais calor.

Alguma parte de seu cérebro registrou que as mãos dele já não estavam em sua cintura, e que tinham começado a explorar todas as partes de seu corpo que estavam a seu alcance. Mas ela estava muito preocupada para pensar no que estavam fazendo as mãos de Spencer. Muito ocupada se inundando no quente aroma de sua colônia, no modo em que suas línguas se entrelaçavam.

De repente, voltou a ser consciente de suas mãos ao dar-se conta de que lhe havia baixado o zíper das calças e tinha metido a mão pela cintura para acariciar sua pele nua. Essa pele crepitou sob suas mãos; toda ela se estremeceu. Eram mãos feitas para dar prazer a uma mulher. Eram masculinas, mas suaves ao tato.

Uma parte dela não podia acreditar que aquilo estivesse ocorrendo, nem que estivesse permitindo que ocorresse. Era como se tivesse perdido toda força de vontade e tivesse dado a Spencer a liberdade de fazer-se com sua boca, de acariciá-la sem sentido, de tocá-la de um modo que fazia que tivesse calor por todo o corpo. Nunca lhe tinham dado um beijo tão íntimo, tão prazenteiro, que lhe tivesse feito sentir aquele comichão dos pés à cabeça. Estava sem fôlego, os joelhos tremiam. Estava consumida pelo desejo.

Então se deu conta de que Spencer havia baixado suas calças até os joelhos e acariciava a parte de seu traseiro que a tanga que tinha colocado não cobria.

Sentiu que caía, mas logo compreendeu que era ele quem a estava fazendo deitar no sofá. E como se tivesse sua própria mente, seu corpo se voltou flexível, receptivo e dócil sob suas mãos. Quando sentiu as suaves almofadas nas costas, Donnay abriu os olhos e olhou-nos dele ao mesmo tempo em que Spencer apartava seus lábios para lhe colocar uma mão debaixo da cabeça, colocar os corpos de ambos em uma posição mais cômoda e ficar virtualmente em cima dela.

O coração de Donnay começou a pulsar a toda velocidade e sentiu um desejo em seu interior que não podia controlar. Seus rostos estavam muitos perto e seus olhares unidos. Notou como ele trocava o ritmo da respiração ao mesmo tempo em que a ela.

Muito devagar, Spencer se inclinou para frente, sussurrou seu nome antes de voltar a beijar seus lábios, mordiscá-los, lamber-lhe e torturá-la sensualmente com a língua e os dentes. Aquilo despertou em Donnay uma violenta reação e voltou a fechar os olhos por medo de perder a prudência.

Logo, voltou a beijá-la, ainda com mais intensidade, fazendo que escapasse um gemido dos lábios. Donnay lhe devolveu o beijo, como havia feito antes, precisava saboreá-lo, estar ainda mais perto dele. Era provável que se arrependesse daquilo depois, mas nesses momentos sabia o que queria e o que necessitava.

Aturdida pelo desejo, devolveu-lhe o beijo com uma paixão e uma ânsia que não tinha conhecido até então. Em seus braços se voltou descarada, libertina. Spencer tinha sido o único homem capaz de roubar seu sentido comum e substituí-lo por algo tão aditivo que não a deixava pensar com claridade.

Sentiu que o ar frio lhe dava na pele e se deu conta de que ele tinha tirado sua camisa, e antes que pudesse se queixar, estava desabotoando o sutiã com os dentes. Quando seus peitos ficaram em liberdade, Spencer estava ali para recebê-los com a boca, para lhes agradar com a língua de um modo muito erótico.

Então sentiu como lhe colocava a mão debaixo da tanga e a acariciava, fazendo que se umedecesse ainda mais. Donnay gemeu seu nome, embora tivesse tentado não fazê-lo.

As carícias de suas mãos e sua boca a fizeram sentir como se estivesse flutuando. Com o Robert nunca tinha compartilhado tanta paixão. Aqueles jogos prévios eram os melhores tinha tido e a estavam deixando sem sentido. Fechou os olhos, disse a si mesma que tinha se equivocado. Spencer era seu tipo, e em mais de um aspecto. Estava compartilhando com ela uma paixão que nem sequer ela mesma sabia que possuía. Uma paixão proibida, escondida, E lhe estava demonstrando não só que existia, mas também ele estava ali para recebê-la.

Spencer passou ao outro peito enquanto seguia acariciando-a entre as pernas. Ela abriu os olhos, desejando recuperar o controle, mas se sentiu como se estivesse se afogando em umas ondas deliciosas que a enrolavam, possuíam-na, obrigavam-na a reconhecer o poder que aquele homem tinha sobre ela.

Ele deixou por fim seu peito para voltar a beijá-la nos lábios.

De repente, se afastou e apoiou sua testa contra a dela, respirando profundamente. Donnay tinha a sensação de que, igual a ela, ele também estava tentando tranquilizar seu pulso, o que não era fácil. Uns momentos depois, olhou-a, e ela sentiu que se afundava ainda mais na intensidade de seu olhar.

— Me diga — sussurrou ele. — Me diga que estava equivocada e que sim sou seu tipo, sua metade da laranja em todos os aspectos.

Depois de como a tinha feito se sentir, Donnay teria dito tudo o que ele queria ouvir, mas, por outra parte, sabia se o fazia ele sempre pensaria que podia fazer com ela o que quisesse. Com a força de vontade que a tinha abandonado um momento antes, negou-se a ceder, sacudiu a cabeça obstinadamente e disse com voz firme:

— O que acabou de sentir não significa nada. Ainda sigo pensando que não é meu tipo, e que está muito longe de ser minha metade da laranja.

— Como não significa nada? — ele a olhou com o cenho franzido, mas alguns segundos mais tarde, voltou a sorrir. — Então terei que me esforçar por te fazer mudar de opinião, Chardonnay. Espero que esteja preparada, porque eu adoro as provocações.

— Tente.

— É obvio que vou tentar.

Spencer abriu a porta traseira da limusine e antes que o carro arrancasse, dirigiu-se a Donnay:

— Não se esqueça de que tem quarenta e oito horas para me dar uma resposta, Chardonnay.

Aquelas palavras a fizeram girar para ele. E desejou não ter feito. Estavam separados do condutor por um grosso cristal escuro. Podiam vê-lo, mas ele não podia ver a eles. Spencer estava comodamente sentado e lhe pareceu que a postura era muito sexy e, para piorar ainda mais as coisas, olhava-a fixamente.

Sentiu tensão e desejo e teve que respirar profundamente para controlá-los. Nesse momento, Donnay soube que não devia ter nada com ele e, muito menos, casar-se. Encontraria outro modo para tirar sua família da confusão na qual estava colocada. O último que queria era estar sob o controle de Spencer, porque, admitisse-o ou não, lhe havia demonstrado essa noite que era muito mais que seu tipo. Tinha-lhe demonstrado quão fácil era perder o controle e ceder em um momento de debilidade.

— Necessito mais de quarenta e oito horas.

— Sinto muito, mas é todo o tempo que vou te dar. Tem que admitir que os planos que tenho para melhorar e ampliar o vinhedo são bastante bons.

— Isso não é o único que me preocupa — disse ela deixando de olhá-lo e voltando a cabeça para o guichê.

— Pois deveria sê-lo. Queira admiti-lo ou não, já te demonstrei que somos compatíveis.

Ela se voltou para olhá-lo.

— Não me demonstraste nada. Não foi mais que um beijo e umas carícias que saíram de controle.

Ele abriu a boca para voltar a falar, deteve-se e riu antes de dizer:

— Pensa o que queira. Estou seguro de que as decisões ao qual tem que tomar são bastante difíceis para você, e é evidente para sua família depende de que faça o mais adequado. Mas pensa uma coisa, Chardonnay, estaria pior comigo... ou sem mim?

A conversação entre ambos havia terminado alguns minutos antes e Spencer supôs que Chardonnay se zangou pelo que ele tinha dito. Não obstante, deveria ter sabido que as mulheres duras e cabeçudas, como ela, não se zangavam. Chardonnay tinha adormecido.

Spencer podia tomar-se aquilo de duas maneiras. Ou tinha se aborrecido dele, ou tinha se cansado muito um momento antes. E pretendia lhe fazer acreditar que o que havia passado entre ambos havia sido só um beijo e umas carícias.

Inclinou-se para trás enquanto continuava observando-a, pensando que era toda uma bela adormecida. Fez-lhe um nó no estômago ao recordar o que havia passado entre eles essa noite. Sentiu-se invadido por uma série de emoções que não lhe eram familiares. Queria passar mais momentos como aquele com ela, e queria ter a oportunidade de ir mais à frente. Queria tê-la em sua cama.

Sentiu um calafrio. Nunca tinha gostado tanto uma mulher. Todo aquilo era novo para ele. Novo e inquietante.

Suspirou e continuou olhando-a, tentando recordar a última vez que tinha feito algo assim. Não acreditava tê-lo feito com Lynette Enjoe. E se o tinha feito, não tinha sido com tanta intensidade e concentração como naqueles momentos. Nem com tanto desejo. Chardonnay despertava nele um desejo e uma necessidade tão forte que Spencer sentiu a tentação de tomá-la entre seus braços e despertá-la com carícias. Por que não fazê-lo?

Aproximou-se mais a ela e lhe acariciou a cara com cuidado.

— Chardonnay, já chegamos a sua casa.

Viu como ela abria os olhos muito devagar e o olhava, estavam muito perto.

— Deixa que te dê um beijo de boa noite antes que saia do carro — lhe pediu com voz rouca.

Ela seguiu olhando-o e, por um momento, Spencer achou que ia responder que metesse o beijo onde lhe coubesse. Mas, em seu lugar, deu-se conta de que lhe acelerava a respiração e lhe dilatavam as pupilas.

E quando aproximou seus lábios aos dele, Spencer sentiu a carícia de seu fôlego. Ele decidiu nesse momento que seria um beijo lento e natural, mas que teria um ardor que não estava acostumado a compartilhar. Decidiu que precisava abraçá-la, assim que há levantou um pouco e a colocou em seu regaço ao mesmo tempo em que lhe passava um dedo pelo cabelo.

Quando suas bocas se tocaram, conectaram, Spencer sentiu uma quebra de onda de calor por todo o corpo. Apertou-a mais contra ele. Chardonnay tinha um sabor único, rico, embriagador, que o fazia agonizar. Tentou recuperar seu sentido comum, mas perdeu toda esperança quando sua língua se entrelaçou com a dele.

Levantou-lhe os quadris para lhe acariciar o traseiro e gemeu de prazer. A próxima vez que estivesse com ela, queria que levasse um vestido. Resultaria-lhe mais singelo despi-la, já que pretendia despi-la e acariciar todo seu corpo. Queria lhe fazer o amor em todas as partes de seu corpo.

Era só naqueles momentos, quando compartilhavam uma satisfação mútua, quando estavam de acordo com os desejos e necessidades do outro. Aceitando ou não, Chardonnay estava se entregando a ele, como já o tinha feito um momento antes. Seus atos falavam mais alto que algo que pudesse lhe dizer, assim que talvez aceitasse se converter em sua esposa. Em qualquer caso, Spencer não aceitaria um «não» por resposta. Queria voltar a ver esse fogo em seus olhos, ouvir sua respiração entrecortada, que significava que ardia de desejo tanto como ele. Queria fazer que se umedecesse com suas carícias e compartilhar com ela todo tipo de intimidades. Queria fazê-la chegar ao clímax enquanto ele estava em seu interior.

Estava tão absorto no beijo que não se deu conta de que o carro se deteve até que o condutor deu um golpe no capô. Spencer rompeu o beijo à contra gosto e se inclinou para trás para olhá-la. Chardonnay não podia lhe dizer nada. Não podia rechaçá-lo, nem acusá-lo, nem lhe dizer que tinha jogado sujo. Essa vez, não.

Ela tinha desejado aquele beijo e o tinha desfrutado tanto como ele, e ambos sabiam. Além disso, durante as seguintes quarenta e oito horas, os dois teriam muitas coisas nas quais pensar. Spencer precisava entender por que tinha sentido coisas até então desconhecidas para ele.

— Quarenta e oito horas — lhe sussurrou docemente contra os lábios.

Em vez de replicar, tal e como ele teria esperado, Chardonnay assentiu se separou dele e estirou a roupa. Suspirou profundamente antes de olhá-lo de novo.

— Está seguro de que quer que seja sua esposa? Creio que não sabe o que está me pedindo.

Ele pensou em todas as satisfações que tinham compartilhado no complexo e na limusine e pensou em todas as satisfações que poderia lhe dar em um futuro.

— Sim, quero que seja minha esposa, e sei perfeitamente o que te estou pedindo.

 

                                           Capítulo Sete

Quarenta e oito horas.

Para Donnay agora só ficavam dez e ainda não tinha tomado uma decisão.

Suspirou enquanto saía da ducha e agarrava uma toalha para secar o corpo. Voltou a pensar no apuro em que se encontrava sua família e, apesar de não querer admiti-lo, disse a si mesma que casar com Spencer era a única solução, sobre tudo, depois de ter falado com o médico de seu avô no dia anterior. Estava melhor, mas antes ou depois necessitaria uma operação que não cobria o seguro médico. Isso significava que embora se decidisse pelo empréstimo, correriam o risco de não poder assumir os pagamentos.

Então pensou, enquanto terminava de vestir-se, nas vantagens e inconvenientes de casar-se com Spencer. Teria que suportar um matrimônio sem amor, que era o único que lhe incomodava. Teria que passar o resto de sua vida com um homem que não a queria e que nunca o faria. Dada à atitude que Spencer tinha no referente ao amor, se perguntou quem teria rompido seu coração.

Por outro lado, se aceitasse casar com ele acabaria com os problemas econômicos de sua família. E conseguiria melhorar a situação do vinhedo. Se quiser situá-lo no mercado internacional, teriam que fazer mudanças, e essas mudanças só seriam possíveis com o dinheiro de Spencer.

Suspirou profundamente. Sentia-se como um bode expiatório. Se contar a sua mãe e avós a proposta de Spencer, escandalizariam-se. Mas se lhes contava alegremente que se apaixonou por ele e iriam se casar, suspeitariam dela, já que lhes tinha deixado claro que o detestava.

Felizmente, não tinha voltado a ter suas notícias desde a noite que a tinha acompanhado até em casa na limusine. O último que precisava era que a confundisse ainda mais. Tinha estado a ponto de ter seu primeiro orgasmo de verdade entre suas mãos e só de pensar nisso voltava a sentir toda uma quebra de onda de sensações. O que não faltaria a seu matrimônio seria paixão. Spencer tinha mais em sua boca e mãos que muitos homens em todo o corpo. Queria ter filhos e certamente a deixaria grávida no primeiro ano que estivessem juntos. Mas ela também sempre tinha querido ter filhos, e um marido que a quisesse. Ter ao menos uma das duas coisas não seria tão mau, no fim das contas.

Voltou a pensar na paixão. Spencer lhe tinha feito sentir coisas que nenhum outro homem tinha despertado nela até então. Não entendia o que lhe acontecia quando estava com ele. Por que era tão fácil para ele conseguir que fizesse coisas que, na realidade, não queria fazer? E por que lhe excitava a ideia de estar casada com ele?

O que sim sabia era que estava ganhando o carinho de sua família pouco a pouco. Segundo sua avó e sua mãe, tinha ido ao hospital para ver seu avô no dia anterior, e aos três parecia que tinha sido um gesto muito amável por sua parte.

Donnay se voltou ao ouvir que batiam na porta.

— Sim?

— Chegou algo para você, senhorita Russell.

Sentiu-se aliviada o ouvir a voz de Janice, a governanta, e não a de sua mãe ou avó, que, sem dúvida, teriam perguntas a fazer sobre o empréstimo. Fazia três dias que lhes tinha dito que o tinham aprovado, e não tinha feito nada a respeito. Para elas, o empréstimo era o único modo de salvar o vinhedo.

— Entra Janice.

A governanta entrou com um vaso de rosas vermelhas quase tão grande como ela, que era bem pequena. Levava anos, junto a sua família, trabalhando para eles.

— O que...! — exclamou Donnay indo para a porta para ajudar Janice.

A mulher sorriu.

— Acabam de chegar. Não lhe parecem preciosas?

Donnay sorriu. Sim, eram, e não lhe custava adivinhar quem as tinha enviado.

— Sim, são bonitas — disse pegando o cartão e buscando um lugar para o vaso na mesa que havia em frente à janela.

— Bom, tenho que baixar a preparar os cafés da manhã da senhora Ruth e da senhora Catherine.

Assim que a porta se fechou atrás de Janice, Donnay leu o cartão, que só dizia:

Penso em você. Spencer

Donnay pôs os olhos em branco. Em realidade, queria lhe recordar com aquilo que estava esperando que lhe desse uma resposta. Mas enquanto olhava as rosas, disse-se que era uma maneira muito bonita de lhe recordar.

Pensou nas palavras que Spencer tinha dito duas noites antes e teve que admitir que tivesse razão. Tinha que decidir se estaria melhor com ele ou sem ele.

Spencer tirou a BlackBerry da jaqueta para comprovar os resultados da Bolsa depois de se dar conta de que Daniel Russell tinha dormido. Ainda recordava ter estado sentado no hospital, ao lado da cama de seu avô, uns anos antes.

Scott Westmoreland tinha morrido de um câncer de pulmão. Sua perda tinha sido muito dura porque tinha sido o pilar da família. Todos seus netos, e a que naquele tempo era sua única neta, Delaney tinham aprendido dele algo que os ajudaria a enfrentar a todas as provações e dificuldades da vida.

Voltou a guardar o aparelho na jaqueta e olhou de novo ao avô de Chardonnay. No dia anterior tinha falado com ele e Daniel lhe tinha perguntado se podia voltar no dia seguinte para barbeá-lo. E isso tinha feito. Também no dia anterior, o ancião tinha estado muito mais falador. Tinha compartilhado com ele todos seus sonhos e esperanças sobre o vinhedo e lhe havia dito que sentia não ter vendido, mas que o terreno tinha que seguir na família Russell. De acordo com suas palavras, Chardonnay ainda não tinha contado sua proposta a sua família. Não sabia se aquilo era bom ou mau sinal, mas uma parte dele confiava em que tudo acabaria saindo bem e se casaria com ele.

De repente, se deu conta de que havia alguém o observando. Levantou a vista e lhe fez um nó no estômago ao descobrir que era Chardonnay. Deu-lhe a sensação de que não podia respirar. Ela estava na porta, olhando-o. Não o estava fulminando com o olhar. Só o observava. Spencer estava seguro de que estava se perguntando o que fazia ali, e antes de dar tempo de perguntar ficou de pé e lhe fez um gesto para que o seguisse ao corredor para falarem em privado, sem incomodar a seu avô.

— Passei esta manhã para barbeá-lo — disse Spencer assim que saíram ao corredor.

Ela assentiu.

— Sei. Minha mãe me contou que o avô tinha lhe pedido isso ontem. Podíamos tê-lo feito qualquer de nós, mas supondo que é uma coisa de homens — logo sorriu timidamente. — Ou, talvez, que a última vez que o barbeamos lhe fizemos uns quantos cortes.

— Que dano.

Sua resposta a fez rir e Spencer relaxou... e se fixou em como ia vestida. Levava uns jeans e um pulôver fino de cor azul clara. As dois coisas lhe sentavam bem e o pulôver ressaltava a cor de seus olhos.

— Obrigado pelas flores. São preciosas — comentou Chardonnay.

— De nada.

Logo houve um momento de silêncio.

— Temos que conversar Spencer — a anunciou por fim - tomei minha decisão, mas não quero falar disso aqui.

— De acordo. Jantemos juntos esta noite — propôs ele.

— Está bem, mas prefiro que não o façamos em sua casa.

Ele ia lhe dizer que não estava em posição de exigir nada, mas pensou melhor. No jantar daquela noite falariam a respeito das decisões de Chardonnay, e ele queria fazê-lo, fosse onde fosse.

— Prefiro que nos vejamos em algum lugar, mas não se incomode em me mandar um carro, porque não o aceitarei.

— De acordo, não te enviarei o carro. Passarei para pegá-la eu mesmo. Às cinco.

Ela tinha apertado a mandíbula ao ouvir aquilo. Olhou para o chão, provavelmente tentando controlar sua ira. Não gostava que lhe desse ordens.

— Parece-te bem as cinco, Chardonnay? — insistiu ele, para se assegurar de que estavam de acordo.

Ela levantou o olhar, que era de pedra.

— Acaso tenho escolha?

— Não.

— Tenho que te pedir algo — disse Chardonnay.

Pela maneira em que o olhava, Spencer soube que não ia gostar.

— O que?

— Que me prometa que manterá suas mãos e seus lábios a raia esta noite.

Ele não pôde evitar sorrir.

— Significa isso que não poderei te beijar... nem te acariciar?

— Sim, isso é exatamente o que significa.

Spencer deu de ombros.

— Nesse caso, não posso te prometer nada, porque tenho planejado te beijar, Chardonnay. Eu gosto de te beijar, e sempre e quando você me devolva os beijos e me demonstre que você gosta tanto como eu, não vejo por que ia ter que deixar de fazê-lo. E tenho que te recordar que foi você a que começou o último beijo de ontem. Talvez minha boca estivesse no lugar oportuno, no momento oportuno, mas foi você quem deu o primeiro passo.

Odiava lhe recordar aquilo, mas tinha que fazê-lo. Chardonnay tinha que saber que ele era consciente de que gostava de seus beijos.

— Mas não voltarei a te acariciar como o outro dia se você não me der motivos para pensar que quer que o faça, já consegui com isso o que queria.

— O que? — perguntou ela franzindo o cenho.

— Reivindicar o que é meu — antes que lhe desse tempo a fazer nenhum comentário a respeito, acrescentou: - Diga a seu avô que voltarei amanhã.

— Por quê? — perguntou-lhe Chardonnay quando já se deu a volta para partir.

— Sobre tudo, porque me cai bem. Recorda-me muito a meu avô, ao que estava muito unido. Todos seus netos estavam. Deixou um grande vazio em nossas vidas quando morreu. Era um bom homem, e seu avô também o é.

Sem dizer nada mais, foi para os elevadores.

 

— Despertou seu avô e perguntou por mim?

Donnay, que estava olhando pelo guichê, voltou-se para Spencer, que tinha detido o carro em um semáforo. Tinha ido pegá-la exatamente às cinco. E ela tinha estado preparada.

— Sim, e pareceu lhe alegrar ouvir que voltaria amanhã — respondeu, embora não gostasse, tinha que ser sincera com ele. Era evidente que seu avô gostava de Spencer. E a sua mãe e a sua avó também. — Não disse aonde vamos.

— A São Francisco. Há um restaurante muito agradável ao que quero te levar. Creio que você gostará.

Disso estava segura, Spencer Westmoreland nunca fazia nada pela metade.

— Me fale dessa operação que querem fazer em seu avô — disse ele pouco depois.

— Como sabe?

— Sua mãe e sua avó me contaram. Pareciam preocupadas porque o seguro não a cobre.

Chardonnay desejou que não tivessem contado aquilo ao Spencer. Mas o tinham feito sem saber que poderia utilizá-lo para seu proveito.

— O mais provável é que não esteja coberta, já que é uma operação que ainda está em fase experimental.

— E se não estiver coberta, o que fará?

Ela suspirou profundamente.

— Se a companhia de seguros se negar a pagá-la, teremos que pagar de nosso bolso. De todos os modos, se o avô necessitar a operação, a terá.

Soube que Spencer estaria gravando tudo aquilo em sua mente e imaginando que só tinha uma saída. A saída que ele queria que tomasse. Devia ter ficado muito contente ao saber que sua família estava entre a cruz e a espada.

— Tem razão — comentou-o. — Se a necessitar, têm que fazer-lhe. Eu assumirei os gastos, seja qual for sua decisão.

Donnay girou a cabeça, pensando que não tinha podido ouvir bem. Tinham chegado a outro semáforo e ele a estava olhando.

— E por que iria fazer algo assim? — perguntou surpreendida.

— Acreditaria se dissesse que é porque sou um bom tipo?

— Não. Creio que pode chegar a sê-lo, mas que normalmente não o é.

Spencer riu.

— Minha família não estaria de acordo contigo. Sou um bom homem em minha vida pessoal, outra coisa são os negócios.

— Não creio que pense que os Russell são uma obra de caridade para você, Spencer.

— Agradeço que me diga isso, Chardonnay, mas o certo é que, em qualquer caso, sua família necessita minha ajuda econômica e eu estou disposto a dar-lhe. Acaso isso te causa algum problema?

Chardonnay não podia lhe dizer que sim. Uma coisa era o orgulho e outra o sentido comum.

— Não, não tenho nenhum problema em que nos ajude. Obrigado por se oferecer.

— De nada. E agora, creio que chegamos a nosso destino.

Spencer franziu o cenho enquanto observava como Chardonnay terminava a sobremesa. O que havia dito no carro era verdade, passasse o que passasse, mas lhe dava a sensação de que também estava levando bem com ela em suas relações profissionais. Não tinha lhe pedido nada mais ao se sentar para jantar que lhe desse sua resposta. Nem lhe tinha falado do tema durante o jantar. Em seu lugar, tinha falado de outras coisas, de coisas que normalmente não lhe importavam.

Nesses momentos, não podia seguir esperando, nem queria fazê-lo.

— Então, o que você decidiu Chardonnay?

Ela levantou a cabeça e o olhou com seus olhos cinza. Deixou o garfo, pegou o guardanapo e limpou os lábios. De repente, a habitação pareceu ficar em silêncio e Spencer se concentrou em uma só coisa. Em sua decisão.

Ela seguiu olhando-o fixamente. Era evidente que, tivesse tomado à decisão que tivesse tomado, não tinha sido fácil fazê-lo. Mas lhe tinha colocado as coisas difíceis de propósito. Não obstante, se sua resposta era a que desejava escutar, já não voltaria a ter dificuldades nunca mais. Ele garantiria... Ou quase. Ficava pendente a questão da lealdade. Para Spencer era importante e queria estar seguro de tê-la.

— Decidi me casar contigo.

Aquilo fez com que o coração de Spencer encolhesse e o pulso batesse com mais velocidade. Chardonnay desceu a cabeça e seguiu comendo. Ele franziu o cenho. Ela havia dito de verdade? Apertou a mandíbula ao pensar que podia estar se enganando.

— Chardonnay?

— Sim?

Ela levantou a cabeça de novo e ele a olhou aos olhos. De repente, o desejo de tê-la superou tudo. Ela havia dito a sério. Casaria com ele. Para o bem ou para o mau. Aceitava um matrimônio sem amor. Ele se repreendeu mentalmente, não tinha que se sentir culpado. Ela tinha tomado à decisão.

— Temos que fazer planos. Quero que as bodas sejam no vale, antes do Natal.

Chardonnay abriu os olhos de par em par.

— Isso é impossível. Faltam menos de três semanas.

— Já sei. O ano passado se casou meu primo Chase no dia de Natal. Todo mundo teve que mudar de planos para ir ao casamento. Avisando com tão pouca antecipação, haverá muitas pessoas que já tenham outros planos. E eu prefiro que nos casemos em privado antes do Natal, que venham só nossas famílias.

— Por que tem tanta pressa?

— Surpreende-me que me pergunte isso, Chardonnay.

Ela entendeu a indireta e se ruborizou.

— Suponho que não quer que nos conheçamos melhor antes de dar o passo — comentou em voz baixa.

— Não, claro que não — disse ele rapidamente, queria deixar clara sua postura. — Quero ter você, Chardonnay. Nunca lhe ocultei isso. E quero ter filhos. Casando-me contigo terei tudo o que quero e você também se beneficiará do matrimônio.

— E o que dirá a sua família a respeito de nós? O que se supõe que devo dizer eu à minha? — perguntou franzindo o cenho.

— Diremos que foi amor à primeira vista. Será mentira, é obvio, mas tendo em conta...

— E se supõe que vão acreditar em nos? — interrompeu-o. — Assim, sem mais?

— Sim, assim, sem mais. A minha mãe não custará muito acreditar, é toda uma romântica.

Logo, Spencer se ergueu em sua cadeira e disse:

— Tenho que ir a Los Angeles um par de dias para assistir a várias reuniões de negócios. Quando voltar, tenho planejado ir viver na sua casa, assim vá arrumando o lugar.

— O que?

— Agora que me disse qual é sua decisão, começaremos a trabalhar no vinhedo assim que volte e, para isso, preciso estar ali. Se não houver lugar para mim na casa principal, me instalarei em uma das casas de hóspedes. E ficarei ali até que nos casemos.

A julgar pela expressão de Chardonnay, estava claro que pensava que as coisas estavam indo muito depressa, mas Spencer não tinha intenção de jogar o freio.

Donnay estava diante da porta do quarto de sua mãe, tentando controlar seus nervos. Quase não tinha falado com Spencer no caminho de volta para casa. Ambos tinham preferido guardar silêncio.

Nesses momentos tinha que convencer a sua família de que, milagrosamente, apaixonou-se por ele. Talvez seus avós acreditassem na história, mas sua mãe se daria concha de que algo não encaixava. Tomou ar e bateu na porta.

— Adiante.

Donnay abriu a porta, entrou na habitação e ficou quieta. Sua mãe estava vestida para sair e estava impressionante. Não se lembrava da última vez que a tinha visto com outra coisa que não fosse umas calças e uma camisa. Essa noite tinha posto um vestido cor tabaco que lhe sentava como uma luva.

— Vai sair mamãe? — perguntou Donnay, apesar de que a resposta era óbvia.

Sua mãe sorriu.

— Sim. Que tal estou?

— Preciosa.

— Me alegro. Marquei um jantar com essa amiga que lhe disse que estava de passagem.

— Nesse caso, está muito bonita para um encontro com uma velha amiga. Deveria ter ficado com um homem.

— Não tivemos antes esta conversação? — riu Ruth.

— Sim, várias vezes — admitiu-a, apoiando-se contra a porta.

Sua mãe sempre lhe havia dito que não poderia amar a outro homem como tinha amado a seu pai, e que estava contente de não necessitar a nenhum outro homem em sua vida, sobre tudo, a outro homem ao que não poderia amar. Donnay se perguntou se teria ocorrido o mesmo ao Spencer. Amava a outra mulher e por isso não podia se apaixonar por ninguém mais?

— Algo a preocupa, Donnay - lhe disse sua mãe a tirando de seus pensamentos. — Vêem, vamos nos sentar e falar.

Ruth se sentou na cama.

Donnay suspirou e atravessou a habitação para colocar-se a seu lado.

— Está bem, me diga o que é que a preocupa.

Donnay não estava segura do que ia dizer. Mas decidiu lançar-se.

— Mamãe, trata-se de Spencer Westmoreland.

— O que tem o senhor Westmoreland? Sabe que hoje também foi ver seu avô?

— Sim, sei.

— Creio que seu avô gosta dele.

— Isso parece.

— E o que é que a preocupa?

Donnay sentiu que se fazia um nó no estômago.

— Pediu-me que me case com ele. Mamãe, e quer que façamos uma cerimônia privada aqui no vale antes do Natal.

Ruth parecia surpreendida.

— Está de brincadeira, não é, carinho?

— Não, mamãe. Não estou de brincadeira. E é a única opção.

— A única opção?

Donnay passou os seguintes vinte minutos contando tudo a sua mãe, incluindo os detalhes do empréstimo e a proposta de Spencer.

Sua mãe não disse nada durante uns segundos, e logo comentou com toda tranquilidade:

— Deve ter interpretado mal ao senhor Westmoreland.

Donnay pôs os olhos em branco. Spencer tinha convencido a sua mãe e a seus avós de que era um santo.

— Não, mamãe, entendi ao Spencer perfeitamente.

Ruth sacudiu a cabeça.

— Se o que diz é verdade, Donnay, como pode pensar que seus avós e eu quereríamos que você embarcasse em semelhante matrimônio? Para nós é mais importante que o vinhedo.

Instintivamente, Donnay tomou uma das mãos de sua mãe entre as suas.

— Sei mamãe, mas tenho que fazê-lo.

— E não será que, em parte, também quer fazê-lo?

Donnay não podia acreditar que sua mãe lhe tivesse perguntado isso.

— Claro que não. Sabe melhor que ninguém o que penso desse homem.

— Não te contei alguma vez que eu tampouco gostava de seu pai no princípio?

Donnay olhou a sua mãe surpreendida.

— Não, não me havia contado. Tinha dado por feito que fosse amor à primeira vista.

Ruth riu.

— Nem muito menos. Via-o como uma ameaça.

— Uma ameaça? Para que?

— Uma ameaça para minha relação com meu pai. O avô o tinha contratado e logo tinham começado a se dar muito bem os dois. Eu via o Chad como ao filho que seu avô nunca tinha tido.

Donnay pensou no que acabava de lhe contar sua mãe.

— E sábia meu pai o que pensava?

— Sim. Não lhe pus as coisas nada fáceis. Ou, ao menos, isso tentei. Mas ele conseguiu ver mais à frente. E entender tudo.

Sua mãe guardou silêncio e Donnay soube que estava lembrando-se daquela época. Tinha que ser muito duro para ela. Donnay desejou poder convencê-la de deixar o vale e ir em busca do homem que amava e ao que tinha permitido sair de sua vida. Tinha havido vezes, enquanto estava na universidade, que havia pensado em tentar localizar Chad Timberlain e conhecer um pai que nem sequer sabia que ela existia. Mas nunca o tinha feito.

O único ao qual sabia, era o que suspeitava sua mãe, era que devia estar casado e ter filhos. Filhos que eram seus meio-irmãos. Ela nunca havia tido a coragem de buscá-lo porque não queria ser quem descobrisse que sua mãe tinha razão e que o homem que amava a tinha deixado para ter outra vida com outra mulher e outros filhos.

— Mamãe, agradeço que tenha me contado isso, mas a situação entre Spencer e eu é completamente diferente. Agradeço muito o que fez pelo vovô, mas não é o homem que a vovó e você pensam que é.

Sua mãe lhe tocou o braço.

— Para mim parece que tampouco é o homem que você acredita que é, Donnay.

 

                                           Capítulo Oito

Spencer sentiu um vivo desejo enquanto rodeava a esquina do edifício no que lhe haviam dito que encontraria Chardonnay fazendo uma prova de vinho. Fazia quase uma semana que não a tinha visto e lhe surpreendia o quanto havia sentido falta dela, tanto que, assim que seu avião aterrisou em São Francisco, havia ido direito ao vinhedo.

Seguiu o som de umas vozes e entrou em uma sala cheia de gente. Chardonnay tinha que provar o primeiro vinho da temporada que ia ser engarrafado. Se o vinho passava sua inspeção, logo se deixaria envelhecer.

Sentiu desejo ao vê-la. Estava acima em uma plataforma, em frente das demais pessoas: uma Russell ia ditar seu veredicto a respeito de um de seus vinhos. Tinha diante uma mesa com quatro taças de vinho. O sol entrava pelas enormes janelas e fazia que lhe brilhasse o cabelo. Spencer se emocionou ao vê-la. Era a mulher mais bonita que já havia conhecido a mulher que ia se converter em sua esposa e na mãe de seus filhos. Não tinha deixado de pensar nela desde que partiu do vale, mas nenhuma lembrança podia se comparar com a mulher de carne e osso.

Observou como fazia girar uma taça várias vezes na mesa. De acordo com o que ele sabia a respeito da prova, fazia aquilo para mesclar o vinho com o ar. O movimento faria que o composto aromático que havia no vinho se evaporasse e lhe desse um aroma único.

Momentos depois, pegou a taça e cheirou seu conteúdo. Aquilo pareceu muito erótico para Spencer, e despertou sua imaginação. Enquanto Chardonnay estava concentrada no aroma do vinho, ele estava recordando o dela.

Spencer tentou controlar-se e observou como ela fechava os olhos antes de dar um sorvo. Recordou outra ocasião em que a havia visto fazer isso. A noite que tinha estado em sua casa. A mesma noite que ele tinha decidido que, custasse o que custasse, Chardonnay Russell seria dele.

Abriu os olhos e sorriu de um modo incrível. Spencer soube que o vinho tinha superado a prova. Evidentemente, teriam que prová-lo outras pessoas, mas todo mundo sabia que a opinião de Chardonnay era a que mais contava. Ela assentiu e passou a seguinte monopoliza.

Spencer se apoiou na parede. Dali a via bem, mas duvidava que ela se desse conta de sua presença. De todos os modos, não demoraria para notá-lo em todos os aspectos de sua vida.

Sua viagem a Los Angeles tinha sido muito produtiva. Reuniu-se com Steve Carr, o homem cuja empresa construtora seria a responsável por levar a cabo a ampliação do vinhedo. As obras começariam logo e Spencer estava muito contente, também estava desejando compartilhar a notícia com Chardonnay.

Quando ouviu aplausos a seu redor, voltou a se concentrar em Chardonnay. Tinha provado as quatro taças e tinha dado seu visto bom a todas. Ao olhar às pessoas que havia diante, viu a ele. Seus olhares se encontraram só um segundo, mas Spencer viu que o dela se escurecia. Ele, por sua parte, sentiu uma quebra de onda de desejo.

Estava enfeitiçado, completamente cativado. E voltava a se perguntar como uma mulher podia lhe provocar semelhantes sensações.

— Tem voltado — disse Chardonnay em um tom de voz que não indicava se estava contente ou decepcionada.

— Falei ontem com seu avô. Pareceu-me que estava bem.

Ela sorriu.

— Sim, estamos muito contentes com seus avanços. Se seguir assim poderá voltar para casa no final desta semana. O médico quer que fique forte antes de começar a seguinte fase do tratamento.

— A operação?

— Sim. Quer planejá-la para depois das férias, se sua saúde continua melhorando. Vou vê-lo logo no hospital. Quer vir comigo?

Spencer se surpreendeu com o convite, e não tinha a intenção de rechaçá-la.

— Sim, eu adorarei, mas antes tenho que organizar tudo para que tragam minhas coisas do Chablis.

— Segue querendo viver aqui? — perguntou ela, tensa.

— Sim, nada mudou. Sigo tendo os mesmos planos. Tanto para o vinhedo, como para nós. Por certo, sua mãe me disse que você irá me mostrar o lugar no qual vou me alojar.

— Sim, supondo que sim — respondeu ela, voltando-se e dando-se conta de que todo mundo havia começado a partir.

— É obvio que sim, carinho — disse Spencer carinhosamente.

Donnay se voltou para Spencer, tentando que seu rouco tom de voz não a privasse de seu sentido comum e lhe fizesse esquecer que tinha colocado sua vida de pernas para o ar. Mas, além disso, do tom de voz, tinha-a chamado «carinho». Tinha soado bem, embora fosse uma palavra que, em sua situação, não tivesse nenhum significado.

Ouviu que fechavam à porta e se deu conta de que ficaram sozinhos. E isso não era bom. Em especial, quando o mero feito de estar perto dele a fazia ter todo tipo de idéias quentes.

— Se estiver preparado, te acompanharei a casa de hóspedes onde você vai ficar. Não está longe daqui — disse dando um passo atrás, se afastando dele.

Spencer se moveu rapidamente para ela e a segurou pelo braço, sem lhe dar tempo de reagir.

— Sabe quantas noites passei acordado pensando em você? — sussurrou Spencer lhe aproximando os lábios à bochecha.

Donnay sentiu o calor de seu fôlego debaixo da orelha.

— Muitas noites — acrescentou ele, sem esperar sua resposta.

E apanhou seus lábios de um modo certeiro, apagando todos os pensamentos sensatos de sua mente. Ela se concentrou em uma só coisa, na língua dele, que a fazia sentir calafrios, que punha os cabelos de ponta e voltava a conseguir lhe impregnar fundo. Aquele homem a comovia de um modo que nenhum outro poderia fazê-lo. E uma parte dela sabia que devia frear aquilo, mas não podia, nem queria fazê-lo. Estava-a beijando de um modo tão profundo, sensual e íntimo que era muito difícil não responder. Assim que o fez.

Pôs os braços ao redor de seu pescoço e sentiu como ele enredava os dedos em seu cabelo. Também sentiu como seu corpo se apertava contra o dela. Donnay estava sentindo um desejo físico que lhe tinha sido desconhecido até que não tinha estado com ele.

Seus lábios se separaram finalmente. Spencer a abraçou e ficou assim, em silêncio, uns segundos.

Sabendo que não podia se permitir nenhum tipo de debilidade, Donnay se separou dele.

— Creio que deveríamos pôr certas normas — disse com voz tremula.

— Pois eu creio que não — respondeu enquanto lhe apartava uma mecha de cabelo da cara. — Cada vez que te beijo assim, me dá vontade de te despir.

— Eu quase preferiria seguir vestida, parece mais seguro.

— Mais seguro, mas menos satisfatório. Creio que deveria deixar de lutar contra mim, Chardonnay, e se entregar a seus próprios desejos.

— Não posso fazer isso.

— Claro que pode, e acabará fazendo. Fomos feitos um para o outro.

Ela inspirou profundamente enquanto refletia a respeito daquilo. Ela não estava de acordo. Negava-se a se apaixonar por outro homem, a deixar que controlasse sua mente e suas ideias. Além disso, Spencer era dos que sabiam como chegar ao coração das mulheres. Devia tomar cuidado. Se não, se apaixonaria por ele apesar de saber que seu amor nunca seria correspondido.

— Não estou de acordo contigo — disse convencida. — E agora, sugiro que vamos ver sua nova casa.

E esperou ser capaz de começar do zero. Por muito que respondesse a seus beijos e carícias, tinha que lhe demonstrar que nada havia mudado. Seguia pensando que Spencer era uma ameaça para sua felicidade.

Enquanto avançavam pelo caminho, Donnay se surpreendeu do quanto se sentia relaxada apesar da presença de Spencer. Era como se o tórrido beijo que tinham compartilhado uns minutos antes tivesse sido o que necessitava para liberar a tensão.

— Quantas casas de hóspedes têm? — perguntou Spencer rompendo o silêncio que os rodeava.

— Quatro. E uma casa para o jardineiro que está no limite do vinhedo — respondeu ela, recordando o dia que tinha plantado sua primeira videira perto dela. Seu avô a tinha dado para que cuidasse de suas uvas e não tocasse as que utilizavam para fazer vinho.

— A casa em que vai ficar é a que eu ia viver quando voltei da universidade. Ao final não me mudei ali porque preferi ficar na casa principal com minha mãe e meus avós. Teria me sentido muito só ali.

— Mas deverá viverá ali comigo, quando estivermos casados.

Ela o olhou. Não lhe tinha feito uma pergunta, fazia uma afirmação. Donnay sentiu vontade de se rebelar, mas sabia que não lhe serviria de nada. No final, Spencer acabaria tendo o que queria.

— Sim, irei viver ali contigo.

Ele sorriu aparentemente satisfeito.

— Vai me ajudar a me instalar hoje? — perguntou-lhe.

Dado que pareciam atrair-se como dois ímãs quando estavam a sós, Donnay pensou que não seria boa ideia.

— Tenho coisas a fazer antes de ir ver o avô no hospital.

Ele assentiu.

— Entendo-o, e me parece bem. Mas espero que possa me ajudar mais tarde, seguro que ainda ficam coisas por desempacotar quando voltarmos do hospital.

Ela sabia que Spencer lhe estava fazendo saber que não deixaria que se afastasse dele. Gostasse ou não, iriam passar tempo juntos essa noite.

— Pusemos o telefone e a eletricidade para funcionar faz uns dias — comentou-a.

— De acordo.

Logo ambos guardaram silêncio durante uns segundos. Um silêncio que Spencer não demorou em romper.

— Assim já decidiste uma data?

— Sim, dentro de dois sábados. O que te parece?

Ele riu.

— Parece-me que vai sendo hora de que chame a minha família e lhes fale de ti. Quererão vir à cerimônia, é obvio. Mamãe não o perderia por nada do mundo — logo olhou para Chardonnay. — Vi que você já disse aos teus, porque sua mãe e sua avó me deram os parabéns e as boas-vindas à família quando cheguei hoje.

Ela deu de ombros.

— Não havia motivos para não fazê-lo. A minha mãe contei a verdade, mas a minha avó disse que tinha me apaixonado.

— E o seu avô?

— Ainda não lhe disse nada — comentou deixando de andar e levantando a vista para olhá-lo. — E mamãe e a avó me prometeram que tampouco o fariam. Pareceu-me que seria melhor esperar até que estivesse em casa, para poder dizer-lhe juntos.

Spencer assentiu.

— E como acreditas que receberá a notícia?

Donnay não pôde evitar sorrir.

— Oh, ficará contente, já que têm os mesmos planos com respeito ao vinhedo. E leva muito tempo tentando me convencer de que encontre um homem e lhe dê bisnetos. Assim vai lhe dar algo que deseja de verdade.

— E que eu também desejo — disse ele sorrindo. — E estou mais que contente por consegui-lo.

Seguiram andando e Donnay se alegrou de chegar por fim ao caminho privado que levava a casa de hóspedes em que Spencer ia se alojar. Assim que o deixasse ali, iria direto tomar uma ducha de água fria. Cada vez lhe custava mais trabalho resistir a ele.

— Este é o caminho que leva a casa — anunciou. — Está rodeada de uma cerca de ferro forjado e está o suficientemente isolada para te assegurar privacidade. É como um pequeno mundo dentro de um universo maior.

Ele sorriu.

— Recorda a um castelo francês, eu gosto de muito — comentou ao chegar à porta e ver a casa de dois andares.

A julgar por sua expressão, não tinha esperado algo assim.

— Para quem se construiu este lugar? — perguntou quando Donnay abriu a porta.

— Para ninguém em particular. As outras casas de convidados são relativamente menores em comparação com esta e o avô quis construir uma mais ampla. Como já te disse antes, creio que se fez para mim, embora o avô nunca admitisse que tivesse tentado fazer todo o possível por me convencer de que ficasse aqui se eu tivesse decidido ir embora. Sentiu-se bastante mal depois do que aconteceu minha mãe e meu pai.

— O que aconteceu?

— Se conheceram enquanto meu pai trabalhava aqui um verão, era militar, e estava esperando que lhe dessem um novo destino. Apaixonaram-se. Ele tentou convencer a minha mãe de que se casassem e viajassem juntos por todo mundo. Apesar de que minha mãe o queria, não aceitou sua proposta porque não queria deixar meus avós sozinhos. Sentia que seu lugar estava aqui, com eles, no vinhedo. E não se deu conta de que estava grávida de mim até que meu pai partiu.

— Assim que ele não sabe de sua existência?

— Não. Minha mãe tentou lhe escrever, mas lhe devolveram as cartas.

— E você alguma vez tentou encontrá-lo?

Donnay sacudiu a cabeça.

— Não. E não é que não tenha querido conhecer o Chad Timberlain, mas sim sei que se o fizesse estaria recordando a minha mãe constantemente que deixou partir ao amor de sua vida. E isso lhe faria mal, sobre tudo, se ele se casou com outra pessoa. Meus avôs sempre se sentiram culpados, sem querer, responsáveis por minha mãe lhe tivesse dado as costas ao amor, embora tentassem convencê-la de que estariam bem sozinhos, e de que ela devia fazer o que lhe ditasse seu coração.

Donnay terminou de abrir a porta e deu um passo atrás.

— Não é necessário que te mostre a casa, assim que te deixo sozinho.

— A que hora quer que vamos ao hospital?

— Depois das cinco. A avó vai passar a noite ali. Mamãe e eu preferiríamos que não o fizesse, mas ela está empenhada. Depois de cinquenta anos de matrimônio, creio que sente falta dele.

— É compreensível. Embora meus pais não estejam tanto tempo casados, também estão muito unidos.

— Sim?

— Sim. Como já disse os matrimônios na família Westmoreland duram muitos anos e estão muito unidos.

Sim, já o havia dito antes.

— Bom, logo nos vemos — disse ela retrocedendo. — Se quiser, pode comer. A avó está acostumada a pôr a comida em torno de uma hora. Para voltar para a casa principal só tem que seguir o caminho. Não tem erro.

— De acordo. E obrigado pelo convite. Talvez me passe.

— De nada — respondeu ela forçando um sorriso e partindo rapidamente.

 

— Te agradeço que tenha me ajudado — disse Spencer mais tarde essa mesma noite, enquanto abria a porta da casa em que se estava se alojando.

Sabia que Chardonnay estava pensando que não se ofereceu. Em realidade, não lhe tinha dado outra alternativa.

Ela hesitou antes de entrar, mas ele a empurrou e fechou a porta atrás deles.

Chardonnay olhou a seu redor e logo se voltou para ele, divertida.

— Esperava ver caixas por toda parte.

— Mesmo?

— Sim. Disse-me que necessitava que te ajudasse a organizar as coisas.

— E é certo, mas não chegou tudo hoje, assim tenho tempo.

— Nesse caso, o que faço aqui? — perguntou ficando com os braços cruzados. — por que me fez acreditar que me necessitava esta noite?

Para Spencer pareceu mentira que ela perguntasse.

— Porque te necessito esta noite.

Donnay inspirou profundamente. O tom de voz de Spencer e a intenção de suas palavras eram como uma carícia para sua pele. Seus olhares se encontraram e Donnay viu o desejo refletido na dele. Passou um instante, e logo outro e sentiu que ficava sem fôlego diante da atração que exerciam um sobre o outro. Embora quisesse negá-lo, não podia.

Abriu a boca para lhe dizer que o que necessitasse essa noite não era problema dele, mas a fechou ao sentir que um calafrio lhe percorria as costas. E isso que ainda não a havia tocado, nem sequer tinha se movido da frente da porta.

Sentiu que lhe endureciam os mamilos e recordou sua boca, sua língua e seus dentes sobre eles. Também recordou como a tinha acariciado entre as pernas. Sacudiu a cabeça tentando esquecer-se de tudo aquilo, mas não o conseguiu. Então chegou à conclusão de que o problema de Spencer era também o seu.

Observou como se aproximava dela e quis retroceder, mas não pôde. Todo seu corpo se sentia atraído para ele, excitado por ele. Não podia nem queria seguir resistindo.

— Te desejo e te necessito, Chardonnay — sussurrou Spencer com voz rouca detendo-se diante dela.

Donnay jogou a cabeça para trás e o olhou, sentiu o calor que desprendia de seu olhar. Pôs as mãos ao redor da cintura para atraí-la contra seu corpo duro e ela tomou ar ao sentir sua ereção apesar de levar posta uma saia jeans.

Manteve-a contra seu corpo uns segundos, como se necessitasse aquele contato tanto como ela, Donnay entendeu nesse momento que sua vida e seu futuro estavam unidos a ele. Spencer lhe havia dito que queria um matrimônio para toda a vida e um montão de filhos, e ela acreditava. Por que não aceitava seu destino e seguia adiante? Por que continuar brigando contra algo que não podia trocar? Seus avós estavam contentes com a notícia de seu matrimônio, embora sua mãe parecesse mais preocupada que outra coisa.

— Chardonnay?

Ela levantou o olhar para olhá-lo à cara.

— Sim?

Era um homem surpreendentemente bonito. A ideia de ter filhos que se parecessem lhe tocou a fibra sensível.

— Já disse o que desejo e necessito. Agora toca a ti. Diga-me o que posso fazer por ti esta noite. Se me disser que não há nada que queira nem necessite, aceitarei e te acompanharei de volta a casa, mas se tiver algum desejo, o satisfarei.

Donnay engoliu em seco. Aquilo era precisamente o que lhe preocupava. Spencer tinha desembaraçado suas emoções como Robert nunca o tinha feito. O que deveria fazer era lhe dar boa noite e partir. Mas, em seu lugar, não pôde evitar lhe perguntar:

— O que o faz pensar que pode fazê-lo?

— O que?

— Me satisfazer.

Ele sorriu com confiança.

— E por que ia pensar que não ia poder?

Dado que logo estariam casados e compartilhariam a cama, Donnay decidiu ser sincera com ele.

— Porque Robert nunca o conseguiu.

— O professor de universidade?

— Sim, o único homem com o qual me deitei.

— Não posso imaginar que um homem não tenha sido capaz de te fazer sentir uma explosão de prazer, como se todo seu corpo voasse além das estrelas.

Donnay não podia imaginar que ninguém fosse capaz de fazê-la sentir assim.

— E você será capaz?

Pela maneira em que a estava olhando, Spencer parecia surpreso que lhe perguntasse aquilo. Não obstante, lhe respondeu.

— Primeiro, a despirei e beijarei todo seu corpo, me entretendo mais em uns lugares que em outros. Depois a levarei ao dormitório e a estimularei de tal maneira que acabará me suplicando que te dê mais.

Ela sacudiu a cabeça. Quase o tinha conseguido a noite que tinha estado com ele no Chablis.

— Isso é o que pensa que me fará te suplicar?

— Não é que o penso, carinho, é o que sei. Além dos matrimônios duradouros, os Westmoreland também são conhecidos por outra razão.

— Qual?

— Porque sabem satisfazer a seus casais. Somos seres extremamente físicos, para os que nós adoramos fazer amor. Nossas necessidades sexuais são às vezes inesgotáveis.

— Obrigado pela advertência.

— Parece-me o mais honesto, já que decidi ter você bastante tempo metida em nossa cama quando nos casarmos.

Donnay se perguntou se estaria brincando, embora, por seu olhar, parecia falar a sério.

— E tenho eu algo que opinar a respeito?

— Suponho que sempre poderia me dizer que esta com dor de cabeça, mas duvido que seja isso ao qual deseje.

Ela também o duvidava, embora não ia admitir isso para ele. Já estava bastante seguro de si mesmo.

— Sabe o que? — perguntou Spencer interrompendo seus pensamentos.

— O que?

— Que já estou cansado de falar.

Um nó se formou na garganta de Donnay.

— E se quer partir, será melhor que o faça já, porque já sabe o que vai passar se fica — acrescentou.

Ela não se moveu. Não disse nada. Ficou ali, olhando-o, e quanto mais o olhava, mais calor sentia, mais perto estava de perder o controle.

Então, ele disse com voz muito sexy algo que a fez se decidir.

— Chardonnay Russell, logo te converterá em Chardonnay Westmoreland, bem-vinda a meu mundo de paixão proibida.

E lhe estendeu uma mão sem deixar de olhá-la aos olhos. Ela pensou em tudo o que lhe havia dito e em que, se ficava e lhe dava a mão, seria dele. Mas, por algum estranho motivo, aquilo tinha deixado de lhe incomodar.

Respirou profundamente e lhe deu a mão. Ele a segurou e a levou aos lábios para lhe beijar os dedos. E logo, tomou entre seus braços muito devagar e a beijou com uma intensidade que a teria feito cair ao chão se ele não a estivesse segurando pela cintura.

Donnay sentiu um calafrio quando sua língua tocou a dela de um modo diferente das outras ocasiões. Com cuidado e controle. Era como se estivesse se apropriando de toda sua boca, fazendo-se com todos seus gemidos. E o efeito era fascinante.

Notou como lhe baixava o zíper da saia e uns momentos depois se inclinava para trás sem deixar de beijá-la. A saia caiu ao chão e Donnay ficou com a blusa, uma anágua e uma tanga. E se disse que Spencer tinha uns dedos surpreendentes e sabia muito bem como utilizá-los. Sentiu como colocava a mão debaixo da anágua para lhe acariciar o traseiro.

Gemeu ao sentir sua mão e, instintivamente, seu corpo se fundiu com o dele, sentiu sua ereção. Spencer estava tirando dela mais do que estava preparada para lhe dar, estava preparando-a muito bem para o que viria depois. E Donnay fez a única coisa que podia fazer. Deixar-se levar.

De repente, Spencer se inclinou para trás e a pegou nos braços. Subiu as escadas de dois em dois, entrou no dormitório e a deixou na enorme cama. O coração começou a lhe pulsar desenfreadamente quando viu que ele começava a desabotoar a camisa.

Ficou sem fôlego ao ver seu peito e, ao mesmo tempo, sentiu-se orgulhosa. Aquele peito tocaria o seu cada vez que fizessem amor; acariciaria-lhe o rosto sempre que ela quisesse cheirá-lo. E seus ombros, largos e fortes, seriam aos que se agarraria quando sentisse a explosão em seu interior. Porque, por algum motivo que não chegava a compreender, estava segura de que a sentiria.

Notou outro calafrio ao ver como Spencer tirava as calças e lhe fez um nó na garganta. Por fim conseguiu respirar enquanto o observava mais concentrada que nunca. Debaixo da cueca de seda negra parecia haver um homem muito bem dotado, e que parecia saber perfeitamente como fazer uso de seus atributos.

Concentrou-se naquela parte dele que logo faria que seus corpos, suas mentes e seus seres se unissem por completo. No pouco tempo que o conhecia, deu-se conta de que não era um homem que fizesse as coisas à ligeira. Era um homem intenso, exigente, difícil de controlar. Mas, por outro lado, também era um homem entregue. Não a decepcionaria como tinha feito Robert.

— No que está pensando?

As palavras de Spencer romperam o silêncio e ela o olhou à cara. Decidiu lhe dizer a verdade só pela metade.

— Perguntava-me como ia te dirigir. A dirigi-la.

— Parece-te uma provocação? — perguntou ele com um sorriso nos lábios.

— Sim.

— Pois não se preocupe.

Spencer decidiu nesse momento que ainda não ia tirar a cueca. Voltou para a cama e a fez levantar e ficar de joelhos. Logo a beijou. Tirou-lhe a blusa e voltou a tombá-la na suave colcha. Depois, sentou-se escarranchado sobre seu corpo.

Levantou os quadris rapidamente para lhe tirar a anágua, e fez o mesmo com a tanga e o sutiã. Antes que desse tempo a Donnay respirar, os lábios de Spencer já estavam percorrendo seu corpo e foram de caminho para seus peitos. Começou a beijá-los, a devorá-los, a brincar com a língua, os lábios e os dentes até fazê-la gemer. Donnay ardeu em chamas de desejo ao notar que sua boca começava a baixar depois para o umbigo. Spencer descobriu que levava um piercing.

Levantou a cabeça e sorriu de orelha a orelha. Ela não pôde evitar lhe devolver o sorriso e, nesse momento, passou algo importante entre ambos. Aceitaram os gostos e valores do outro.

Spencer agachou à cabeça e lhe desenhou um círculo com a língua ao redor do umbigo. Logo, seguiu baixando. Donnay ficou tensa ao sentir que lhe beijava o interior das coxas e lhe acariciava a panturrilha.

O ouviu murmurar umas palavras justo antes que, com a outra mão, lhe fizesse abrir as pernas. E então sentiu sua língua ali, acariciando-a intimamente de um modo que lhe fez levantar os quadris. Ele se aproveitou do movimento para agarrar-lhe e aproximar seu corpo ainda mais da sua boca. Logo lhe puseram as pernas sobre seus ombros para poder aprofundar mais a carícia.

Aquilo fez que todo o de Donnay corpo tremesse. Cada vez que ele movia a língua, ela sentia um puxão em seu interior, como se estivesse acabando assim com sua resistência, com qualquer intenção de rebelar-se. Era um sentimento insuportável, intenso, incrivelmente erótico. Agarrou-o pelos ombros. E então o sentiu. Era uma incrível sensação que nunca tinha experimentado antes. Uma sensação que lhe fez gritar seu nome.

— Spencer!

Ele não parou. Sua língua continuou acariciando-a com força e Donnay arqueou as costas ao sentir a explosão em seu interior. Todos os músculos de seu corpo se contraíram enquanto ela se movia contra sua boca, incapaz de seguir quieta.

Sentiu-se perdida quando ele se apartou e observou com olhos brilhantes como tirava a cueca. Com um movimento suave, penetrou-a. A reação de seu corpo diante aquela invasão foi espontânea. Spencer se moveu e ela se moveu com ele. Cada empurrão foi tão potente, profundo e estremecedor como o anterior. Pele contra pele, deslizou-se dentro dela sem parar. Nesse momento se romperam todas as barreiras que Donnay tinha tentado pôr.

E então, voltou a ocorrer, outra explosão a rasgou por dentro. Gritou seu nome pela segunda vez, ao mesmo tempo em que ele gritava o dela. E Donnay sentiu como seu corpo subia além das estrelas. Antes de poder se recuperar, Spencer a beijou devagar, lhe impedindo de pensar.

E voltou a sentir-se imersa, de novo, na paixão proibida de Spencer.

 

Donnay despertou ao sentir o roce de uma mão masculina sobre sua coxa, foi uma carícia lenta e carinhosa. Abriu os olhos muito devagar. Se por acaso lhe tinha esquecido com quem estava, a dureza daquele corpo nu o recordou.

Ficou quieta, sabendo que a mão de Spencer tinha o objetivo de excitá-la, como tinha descoberto a noite anterior. Ele já tinha lhe advertido que era incombustível na hora de fazer amor e, durante as três últimas horas, tinha-lhe demonstrado que era verdade. Era um homem tão viril que Donnay se perguntou se seria capaz de agüentar. Mas, no momento, tinha agüentado. Em cada ocasião que ele a tinha procurado, ela tinha respondido gostosamente, sabendo o prazer que a esperava. E não a tinha decepcionado nenhuma só vez. Cada vez que tinham feito o amor tinha se sentido completamente satisfeita

Sentiu que lhe colocava a mão entre as pernas e punha em funcionamento seus eficazes dedos. Donnay gemeu seu nome suavemente.

— Vejo que está acordada — sussurrou Spencer apoiando-se em um cotovelo para olhá-la.

Ela observou seu peito nu, moreno e musculoso, coberto de uma fina capa de cabelo escuro. Recordou ter afundado a cara nesse peito, e havê-lo acariciado com a língua enquanto faziam amor em uma estranha posição. Spencer não só tinha muita energia, também tinha muita imaginação.

— De verdade esperava que estivesse dormida? — perguntou olhando-o rosto e quase se inundando na profundidade de seus olhos.

Ele sorriu de um modo muito sexy.

— Não quero que tenha problemas.

— Problemas?

— Sim, é bastante tarde. E embora eu adoraria que ficasse aqui toda a noite, não quero que sua mãe e sua avó se zanguem se não voltar para casa numa hora decente.

Ela olhou o relógio que havia na mesinha de noite. Já eram duas da madrugada. Não pôde evitar rir.

— O que é uma hora decente para você?

— Qualquer hora antes que amanheça — respondeu ele também divertido.

Donnay se estremeceu ao sentir que voltava a acariciar seu sexo, que voltava a umedecer-se.

— Não tem do que preocupar-se. A avó está no hospital e mamãe foi ver uma amiga em São Francisco e vai passar a noite ali.

— Quer dizer que pode ficar toda a noite?

Ela o olhou aos olhos e viu sua intensidade e seu desejo. Gostou de saber que depois de lhe ter feito amor várias vezes aquela noite seguia sem saciar-se dela. Robert sempre tinha tido pressa para tirá-la de seu apartamento depois de terminar. Embora Donnay acabasse inteirando-se de por que. Assentiu.

— Sim, isso é exatamente o que quis dizer.

A expressão de Spencer refletiu sua satisfação, e que não ia deixar que partisse de sua cama nesses momentos... e ela estava de acordo.

Quando desceu o rosto para ela, Donnay separou os lábios para recebê-lo.

E em seu interior se deu conta, de repente, de algo horrível. Se não tomava cuidado com seu coração, não demoraria em se apaixonar por Spencer Westmoreland.

 

                                         Capítulo Nove

Na manhã seguinte, Donnay despertou ao ouvir o ruído de alguma maquinaria pesada. Levantou-se da cama, segurou a camisa de Spencer e a pôs enquanto ia para a janela. O sol já estava no horizonte e Donnay viu alguns enormes caminhões avançando pelo caminho que levava ao vinhedo.

— Vejo que os homens do Steve chegaram na hora, como sempre.

Voltou-se e viu o Spencer saindo do banho. Era evidente que tinha tomado uma ducha. Levava uma toalha ao redor da cintura e ainda tinha gotas de água nos ombros e no peito. Donnay fechou os olhos e tentou não recordar o papel que tinham jogado esses ombros e esse peito enquanto faziam o amor durante a noite. Tinha coisas mais importantes com as que se preocupar nesses momentos.

— O que estão fazendo aqui esses caminhões?

Ele foi para o armário e tirou um pouco de roupa antes de deixar cair à toalha.

— Me parece que é evidente o que estão fazendo aqui, Chardonnay.

Ela inspirou profundamente quando a toalha chegou ao chão. Spencer estava diante dela nu, tentou não olhá-lo enquanto colocava a cueca. Tinha visto seu corpo nu durante toda a noite, mas vê-lo a luz do dia era outra coisa. As lembranças do que aquele corpo lhe tinha feito, pelo que tinha compartilhado com ela, faziam que se derretesse por dentro. Sacudiu a cabeça e tentou clarear a mente e voltar para a conversação.

— Pois para mim não é evidente, assim me diga isso.

— Esses caminhões pertencem à empresa que contratei para ampliar o vinhedo.

— Como se atreveu!

— Como me atrevi a que?

— A tomar o comando. O que acredita que te dá direito a fazer semelhante coisa sem se consultar antes com nenhum membro de minha família? Ainda não estamos casados e já...

— Consultei-o com seu avô.

Donnay fechou a boca, mas só um momento.

— Com meu avô?

— Sim.

— Está-me dizendo que meu avô sabe sobre nós?

— É obvio que não. Quando ia visitá-lo, ele falava e eu o escutava, e compartilhou comigo seus sonhos sobre o vinhedo. Tomei nota de tudo o que me dizia. Ele me contou seus sonhos e esperanças. Com eles, eu falei com o melhor arquiteto que conheço e tentei fazer com que os desejos de seu avô fossem viáveis. Ontem à noite, depois de que lhe disséssemos que íamos nos casar, eu disse a ele que faria seus sonhos realidade.

Donnay o olhou fixamente e logo franziu o cenho. Não recordava que Spencer tivesse dito nada a seu avô.

— Quando o disse?

— Quando você saiu do quarto para pedir uma manta às enfermeiras.

— E o que ele respondeu a você?

— Me agradeceu.

Donnay sentiu vontade de chorar. Sabia melhor que ninguém o muito que havia sonhado seu avô em ampliar o vinhedo, e como tinha ficado deprimido na primeira vez quando ficou doente e havia visto seus sonhos se desvanecerem ao ter que gastar o dinheiro em outra coisa. Não era de se estranhar que ninguém lhe dissesse que Spencer estava devolvendo a vida a seu avô, estava lhe dando um motivo para ficar melhor, uma razão para aceitar a operação.

Olhou-o aos olhos.

— Parece que te devo uma desculpa.

— Outra?

Ali estava ele, vestido só com um par de cuecas negras, em uma postura muito sexy. A julgar por sua expressão, tinha lhe incomodado que Donnay tirasse uma conclusão precipitada.

— Bom o que queria que pensasse? — disse ela para se defender.

— Poderia te dizer o que não esperava que pensasse. Não esperava que pensasse mal de mim.

Era certo, talvez não devesse ter pensado mal dele, mas o tinha feito. Mas o que Spencer esperava, tendo em conta o motivo pelo qual tinha entrado em suas vidas? Seu matrimônio não ia ser nada mais que um contrato.

Como se lhe estivesse lendo a mente, disse-lhe:

— Sou um homem de palavra, Chardonnay.

Ela atravessou a habitação muito devagar, em direção onde estava ele.

— E eu sou uma mulher que não tem nenhum problema em admitir que esteja equivocada.

— E o está admitindo?

— Sim, em certos aspectos a respeito de ti, sim — disse olhando-o fixamente.

— E em outros?

— Ainda estão por julgar-se, mas é inocente até que não se demonstre o contrário.

Spencer a agarrou pelo pulso e a levou aos lábios para beijá-la.

— Tem sorte de que seja um homem pormenorizado.

— É-o? — perguntou Chardonnay em voz baixa, sentindo uma quebra de onda de calor quando seus lábios lhe tocaram a pele.

— Sim, em alguns aspectos.

— E em outros?

— Ainda estão por julgar-se, mas não terei nenhum problema em subornar ao jurado para que dite o veredicto que eu queira — Chardonnay respondeu enquanto tirava sua camisa.

Ela ficou nua diante ele, mas não fez nenhuma ameaça de se cobrir. E a julgar pela forma em que ele a olhava, estava gostando do que via.

E queria voltar a ter isso que via. Imediatamente.

— Está muito suave — disse ela dando um passo para ele e rodeando-o com seus braços pelo pescoço. — E é insaciável.

— Não me diga que não lhe adverti — respondeu Spencer pegando-a nos braços e levando-a de novo até a cama.

— Não o direi — murmurou ela.

Horas depois, após ter passado a manhã fazendo amor, Donnay e Spencer se vestiram e foram à casa principal. Tanto sua mãe como sua avó estavam ali, mas nenhuma lhes perguntou onde tinham estado.

Spencer foi logo falar com Ray Stokes, o chefe de obra do Carr Construction Company. Fred Akron, o arquiteto que tinha contratado, lhes apresentaria seus planos de ampliação do vinhedo no fim de semana. Enquanto isso, Ray e seus homens limpariam a terra para estender os limites do vinhedo para que na primavera se pudessem plantar mais videiras.

Era mais de meio-dia quando Spencer voltou para sua casa. Ao abrir a porta cheirou o perfume de Chardonnay e o assaltaram lembranças da noite anterior. Tinha bebido Chardonnay em numerosas ocasiões, mas nunca tinha gostado tanto como na noite anterior. Supunha-se que o bom vinho deixava um gosto na boca, absorvia-se na língua, nas papilas gustativas. Lambeu os lábios, ainda tinha seu sabor nos lábios. Era delicioso.

Ouviu seu telefone móvel e o tirou do bolso. Olhou o número. Era seu irmão Ian, o gêmeo de Quade, e tinha se casado em junho. Spencer estava acostumado a se referir carinhosamente a seu irmão como «o jogador», já que tinha muita sorte com os jogos de azar. Era proprietário de um cassino no lago Tahoe, embora sua mais apreciada posse fosse, sem dúvida, sua esposa Brooke.

— A que devo a honra? — brincou Spencer.

Desde que tinha se casado, seu irmão quase não chamava, já que dizia que tinha coisas melhores a fazer com seu tempo. Spencer podia imaginar quais eram essas coisas.

— Só queria ver se seguia vivo. Stuart esteve aqui na semana passada e me comentou que tinha te mandado para enfrentar a uma víbora.

Spencer riu e se perguntou como Stuart receberia a notícia de que ia se casar com Chardonnay.

— Não é tão chata — respondeu, decidindo que Ian seria o primeiro da família em inteirar-se da notícia. — De fato, é bastante boa. Chama-se Chardonnay e vou me casar com ela.

— É uma brincadeira, não é?

— Não.

— Vai se casar com uma mulher que se chama Chardonnay? Quem poria na sua filha o nome de um vinho?

— A proprietária de um vinhedo, imagino.

— O do matrimônio também vai a sério?

— Sim. Chamarei o resto da família hoje mesmo. Você é o primeiro em inteirar-se.

— Quando a conheceu?

— Faz umas semanas.

— Foi amor à primeira vista?

— Não — respondeu ele com total sinceridade. — Já me conhece.

— Sim, mas também sei que o amor pode nos levar a fazer loucuras.

— É possível, mas eu não estou apaixonado.

— Então, por que se casa? Não é possível que já esteja grávida.

Aquilo recordou ao Spencer que não tinham utilizado amparo a noite anterior. A ideia não lhe incomodou, já que queria filhos, e muitos.

— Vou me casar porque quero me casar. Não vou deixar que se divirtam só Jared, Durango e você. Além disso, assim farei sorrir de novo a mamãe.

— Sim, mas depois seguirá perseguindo ao Reggie e ao Quade — comentou Ian.

— Bom, mas já são uns homens. Terão que se ocuparem sozinhos de Sarah Westmoreland.

Spencer olhou o relógio e viu que eram quase duas da tarde. Queria ir ao hospital a ver o avô de Chardonnay e informá-lo das atividades do dia.

— Escuta Ian, tenho que ir a um lugar daqui à uma hora. Não conte nada disto a ninguém. Quero ser eu quem lhes dê a notícia

— De acordo, meus lábios estarão selados... até que vá dar um beijo a minha preciosa esposa.

Spencer pôs os olhos em branco.

— Como quer.

E pendurou.

— Vão se casar dentro de duas semanas? Por que têm tanta pressa?

Donnay olhou para Spencer, que estava sentado ao seu lado na mesa da sala de jantar, se perguntando como responder à pergunta de sua mãe. Foi ele quem olhou a Ruth aos olhos e respondeu:

— Porque não quero esperar.

Tanto a mãe de Donnay como sua avó assentiram com a cabeça, como se, no fundo, o entendessem.

Donnay pôs os olhos em branco, ela era a que não o entendia. Não era que não pudessem esperar mais para deitar-se juntos, porque já o tinham feito. Assim que o único que lhe ocorria era que Spencer queria deixá-la grávida quanto antes.

— Me parece muito romântico.

Donnay apertou os lábios com força e ignorou o comentário de sua avó. Ou de verdade o pensava, ou estava de muito bom humor porque iam dar alta a seu marido no fim de semana. Notou que Spencer a olhava e se voltou para ele. Sentiu que lhe ardia o sangue nas veias com aquele olhar. Supunha que ele devia estar se perguntando por que quase não a tinha visto durante os últimos dias. Tinha estado o evitando para não cair sob seu feitiço. O que havia mais patético que se apaixonar por um homem que não tinha a intenção de se apaixonar por ela?

— Daniel vai ficar muito contente quando vir o trabalho que estão fazendo esses homens no vinhedo — comentou a avó.

Spencer se voltou para olhar a Catherine Russell.

— Isso espero. Tentei seguir suas indicações.

Donnay tinha que admitir que o tivesse feito. Sabia que Spencer ia vê-lo todos os dias e o mantinha a par das obras. Um dia tinha ido ver seu avô e o tinha encontrado sentado na cama com um montão de planos no regaço enquanto Spencer lhe explicava algo.

Ambos estavam tão absortos nos papéis que não se deram conta de sua presença. Por um momento, Donnay tinha notado o quanto os dois estavam unidos, e tinha entendido como tinha se sentido sua mãe com seu pai. Era como se Spencer se convertesse no neto que Daniel nunca tinha tido. Ela não tinha sabido como absorver aquilo e dado que também tinha começado a sentir algo por Spencer, tinha decidido que o melhor seria passar o máximo de tempo possível afastada dele.

Depois do jantar, enquanto recolhiam a mesa, Spencer se aproximou dela. Sua mãe e sua avó tinham saído a dar um passeio.

— O que te passa Chardonnay? — perguntou preocupado.

Ela não respondeu imediatamente. O que ia lhe dizer? Que estava se apaixonando por ele e que não queria fazê-lo? Encolheu os ombros.

— O que o faz pensar que passa algo?

— Esteve me evitando.

Donnay decidiu fazer como se não soubesse do que falava.

— Te evitando, em que sentido?

— Não voltou para a casa.

Acaso tinha esperado que fosse se meter em sua cama na menor oportunidade? Fez-lhe um nó no estômago ao recordar o feroz apetite sexual que tinha Spencer. Sim, provavelmente tinha esperado que fizesse algo assim.

— Estive ocupada — respondeu ela, zangada e frustrada.

Estava a sós um par de minutos e já podia sentir a atração entre ambos.

— Venha me ver a meia noite — sussurrou ele com voz rouca, carregada de sensualidade.

Aproximou-se dela e a atraiu contra si.

Ela não se apartou e, apesar de que por dentro estava tremendo, conseguiu responder:

— Não.

— Sim — replicou ele.

E sua boca a apanhou antes que lhe desse tempo de protestar. Quando lhe colocou a língua na boca, Donnay recordou e se rendeu.

Finalmente se separou dele e Spencer teve que agarrá-la para que não caísse.

— Não irei dormir até que não venha — lhe sussurrou contra os lábios.

Ela o olhou e se disse que quando ela fosse tampouco iria dormir. Era evidente que pretendia mantê-la acordada e muito entretida.

Spencer voltou a beijá-la, e ela deixou de pensar.

Donnay não podia dormir.

Levava várias horas dando voltas na cama. Tinha o corpo quente. Muito sensível. Deu um chute nos lençóis e saiu da cama. Andou pela habitação. Spencer Westmoreland lhe tinha impregnado fundo e estava dividida entre o que queria fazer e o que sabia que devia fazer. Tinha menosprezado ao Spencer.

Estava resultando ser o homem oposto ao que ela acreditava que era. Era evidente que era desenvolvido, mas também carinhoso. A prova estava em seu avô. Não só passava tempo com ele, mas também compartilhava com ele os planos de ampliação do vinhedo, apesar de não estar obrigado a fazê-lo. Donnay tinha começado a ver outra cara de Spencer e tinha começado a respeitá-lo.

Além disso, sentia algo mais, algo que já não podia negar. Amor. Amava-o. Suspirou. Se casaria com ele, lhe daria filhos e seria uma boa esposa. E viveria com a esperança de que, algum dia, ele também aprendesse a querê-la.

Olhou o relógio que havia em sua mesinha de noite e viu que era quase meia-noite. Perguntou-se o que estaria fazendo Spencer. Estaria na cama pensando nela? Esperando-a? Desejando-a?

Sentiu um calafrio só de pensá-lo. Foi ao armário e colocou uma saia e uma camisa, não se incomodou em procurar roupa de baixo. Era um conjunto singelo, fácil de tirar e inclusive um pouco sexy. Uns momentos depois calçava umas sandálias, abria a porta de sua habitação e saía em silêncio.

Spencer se negava a dormir.

Estava inquieto e sentia uma necessidade que só Chardonnay podia satisfazer. Olhou o relógio que havia na parede. Eram quase doze. E se não ia? Respirou profundamente, negava-se a considerar essa possibilidade.

Tinha falado com sua mãe um momento antes e lhe tinha dado a notícia. Tal e como ele tinha esperado, tinha-lhe feito perguntas, mas também se mostrou encantada. Outro de seus filhos ia se casar. Sabia que no dia seguinte toda a família se inteiraria. O chamariam provavelmente lhe fariam mais perguntas, em especial seus irmãos e primos que o conheciam melhor, mas isso não lhe importava. Como lhe havia dito sua mãe, Chardonnay era a mulher que queria e a mulher com a que ia se casar duas semanas mais tarde.

Sentiu-se completo ao pensar que tinha conseguido as coisas que eram mais importantes para ele. E nesses momentos, a principal era Chardonnay. Pensava nela frequentemente, inclusive quando não queria fazê-lo. O que havia dito a Ruth Russell durante o jantar era verdade. O motivo pelo que queria que se casassem tão logo era que não queria esperar... a fazê-la sua.

Decidiu que se Chardonnay decidia ir vê-lo, preferia que não o fizesse sozinha, assim saiu da cama e colocou uns jeans e uma camisa. Tinha a pele quente, e se perguntou se aquele calor que o estava consumindo também estaria consumindo a ela. Havia sentido sua resposta quando a tinha beijado essa noite, tinha provado seu desejo, inalado seu calor.

Queria-o.

Necessitava-o.

Estava ficando obcecado por ela, seu corpo estava ficando viciado nela. Faziam amor uma noite, muitas vezes, e depois daquilo não podia evitar excitar-se quando a tinha perto. Saiu do dormitório e começou a baixar as escadas pensando só em uma coisa. Em fazer amor com Chardonnay.

Momentos depois estava saindo pela porta e tomava o caminho que levava a casa principal.

Estava escuro e a única luz que o iluminava era a da lua. O ar era fresco e pensou que devia ter colocado uma jaqueta. Tinha estado chovendo depois de que voltou para casa. Não tinha chovido muito, mas o suficiente para umedecer a terra e que cheirasse a erva molhada, a mato florescendo, a videiras e a terra.

Meteu as mãos nos bolsos dos jeans. Aguçou a vista ao ouvir um ruído. Pensou que era Chardonnay, e ia chamar quando viu que era sua mãe. Logo apareceu outra figura, era um homem alto e musculoso, que tinha saído das sombras e se pôs diante dela.

Spencer ficou em alerta, mas então viu que o homem a abraçava e a beijava, e que lhe devolvia o beijo.

Spencer desceu a cabeça, não queria se meter em um momento tão íntimo. Quando a levantou, viu que partiam para a casa do jardineiro, que estava vazia.

Embora não fosse assunto dele, se perguntou se Chardonnay saberia que sua mãe tinha uma aventura. Se não sabia, ele tampouco o diria. Era um homem discreto, que sabia guardar segredos. Não obstante, não pôde evitar se perguntar pela identidade do homem. Seria um dos trabalhadores do vinhedo?

Seguiu andando, seguro de que o casal já não o veria. Havia muito silêncio, assim não lhe custou ouvir novos passos. Se deteve e voltou a aguçar o olhar. Então, viu-a.

Chardonnay ainda não o tinha visto, assim que se apoiou em uma árvore para observá-la à luz da lua. Era preciosa. Lhe acelerou o pulso ao pensar que, embora provavelmente ela não quisesse ir vê-lo, o desejo a tinha empurrado a fazê-lo.

Algo o delatou, possivelmente, que lhe entrecortou a respiração ao ver como ia vestida. Chardonnay se deteve e o olhou, e ele se separou da árvore e foi para ela.

Spencer havia passado às três últimas horas perguntando-se se iria, e nesses momentos lhe ardia o sangue só de pensar como iriam passar o tempo que estivessem juntos. Não estava acostumado que uma mulher controlasse assim seus pensamentos.

— Veio — foi o único que pôde dizer.

— Sim, vim — sussurrou ela.

Um nó se formou no estômago de Spencer ao ouvir sua voz. Conteve-se para não tomá-la ali mesmo.

— Faz frio.

Viu como ela esfregava os braços e se deu conta de que tampouco levava jaqueta. Sorriu.

— Vamos a minha casa, ali te darei calor. Embora não é no único que tenho pensado te dar esta noite, Chardonnay.

— E que mais tem pensado me dar? — perguntou ela com voz sexy.

Tinha direito a perguntá-lo. E ele respondeu.

— Vou provar cada centímetro de seu corpo. Te acariciar. Vou deixar que meu corpo te faça o amor de vários modos e em distintas posições. Você deixará que o faça?

— Sim.

Beijou-a e logo decidiu que tinha que levá-la a sua casa. Não queria que sua mãe os surpreendesse ali.

Embora não esperava encontrar o amor, como tinha ocorrido a seus três irmãos, Jared, Durango e Ian, sim era hora de que se estabelecesse se casasse e assegurasse seu futuro com um filho que algum dia pudesse herdar tudo o que tinha.

— Quando partir de minha cama esta noite, quero que esteja completamente convencida de que sou o único homem ao que desejará e necessitará em toda sua vida — pegou nos braços e começou a andar para sua casa.

Estavam na metade do caminho e Spencer não podia mais. Tê-la entre seus braços, notar seus peitos apoiados contra o dele, cheirar seu perfume, o modo no que ela tinha metido as mãos debaixo de sua camisa para esquentar-se, excitava-o cada vez mais. Se dava um passo mais, explodiria.

Inspirou profundamente e a deixou no chão. Ela o olhou um momento e, como se entendesse o que lhe passava, o pegou pela mão e lhe disse:

— Vêem comigo, vou te ensinar algo.

Levou-o através de uns matagais e apartou várias videiras que lhes bloqueavam o passo para guiá-lo por um caminho de erva. Ao final desse caminho havia uma estufa situada entre videiras, samambaias, carvalhos e palmeiras. Chardonnay levantou o olhar e ele não pôde evitar sorrir.

— Meu avô o fez construir faz muitos anos para minha avó, para que tivesse um lugar onde estar sozinha, costurar, ler e descansar. Quase não o utilizou durante os últimos anos. Mas a temperatura é sempre a mesma e deveria fazer calor dentro.

Entraram e fecharam à porta atrás deles. Fazia calor e ali tinham privacidade.

Chardonnay acendeu um abajur. Ele percorreu o lugar com o olhar durante um segundo; logo, viu que ela franzia o cenho e lhe perguntou:

— O que acontece?

— Isto... Suponho que nada. Só que eu sou a única que vem aqui de vez em quando para ler e fazer uma sesta, mas juraria que mudaram a colcha do sofá-cama da última vez ao qual estive aqui.

Spencer imaginou quem o teria feito, mas não o disse.

— Acaso importa?

Ela o olhou aos olhos e sacudiu a cabeça.

— Não, nestes momentos, nada importa. Só você.

Um nó se formou em seu estômago. Não pôde evitá-lo. Apesar de que não o compreendia. Abriu-lhe os braços para recebê-la e ela avançou em sua direção e levantou a cabeça para beijá-lo no mesmo momento em que ele baixava a sua.

Spencer sentiu que um violento desejo se apropriava dele e sussurrou algo sobre seus lábios, sem saber o que, mas não lhe importava. O único que lhe importava era aquele desejo que percorria seu corpo.

Como se não fosse capaz de se controlar, Spencer deu um passo atrás e tirou a blusa de Chardonnay pela cabeça. Quando a viu sem sutiã, acariciou-lhe os peitos. Logo se agachou para lhe beijar satisfazendo a fome que tinha dela.

Mas logo descobriu que não era suficiente.

Ficou de joelhos diante dela e lhe desceu a saia. Quase cai de costas ao ver que não tinha colocado nada mais.

Se inclinou para frente para provar seu sexo, cheirou-a antes de lhe colocar a língua e agarrá-la pelo traseiro para apertá-la mais contra ele. Se perdeu naquela felicidade enquanto a ouvia gemer, enquanto sentia como lhe cravava as unhas nos ombros, mas se negava a soltá-la.

Era sua Chardonnay e pretendia desfrutar dela tudo o que pudesse. Inclusive quando sentiu que seu corpo explorava sobre sua boca, seguiu ali.

Quando por fim notou que deixava de tremer, separou-se dela. Levantou a vista para olhá-la aos olhos e sorriu enquanto se lambia.

— Foi o melhor Chardonnay que tive o prazer de provar — sussurrou antes de ficar de pé e pegá-la nos braços.

Levou-a até o sofá-cama, deixou-a ali e começou a despir-se rapidamente. Tinha começado a chover de novo e se ouvia o ruído das gotas golpeando os cristais. O ar parecia cheirar a flores, uvas e a sexo. Inspirou. Lambeu-se e sentiu o sabor ainda em seus lábios. Precisava fazer amor com ela. Não podia esperar mais. Desejava-a.

Voltou para seu lado. Ela, em vez de abraçá-lo pelo pescoço, como ele tinha esperado, tomou sua ereção e a acariciou com cuidado. Aquilo era a última coisa que Spencer necessitava, mas era exatamente o que queria. Gemeu e sentiu que perdia as forças, que se entregava às necessidades de seu corpo.

Aquelas carícias lhe impregnaram até os ossos, fizeram que se excitasse ainda mais. E quando Chardonnay o fez deitar na cama e tomou com a boca, Spencer teve que agarrar-se à colcha e apertar a mandíbula para evitar gritar. Sentiu-se invadido por uma quebra de onda de sensações, e se entregou a elas.

Deus santo! O que estava lhe fazendo? Tinha que pará-la antes que acabasse com ele. Lhe escapou um profundo gemido dos lábios quando mudou de postura, empurrou-a para tombá-la de costas e logo se sentou escarranchado sobre ela. Penetrou-a antes que tivesse tempo de protestar e os dois gemeram de prazer ao mesmo tempo, só uns segundos antes de começar a perder o controle.

Spencer lhe levantou os quadris enquanto entrava e saía dela e Donnay arqueou as costas com cada tranco para unir-se a ele, criando uma sensual mescla de perfeita harmonia.

— Incrível — murmurou Spencer segundos antes de devorar seus lábios. Então sentiu como ela apertava seus músculos mais íntimos ao redor dele com o fim de espremê-lo, de tirar tudo dele, e o conseguiu.

— Chardonnay!

Spencer sentiu como se seu corpo tivesse estalado em mil pedaços e suas sementes se derramaram dentro dela. Era a primeira vez que se dava tanto a uma mulher, e sem arrependimentos nem limitações. Preferiu não pensar muito nisso. Só queria pensar em como se sentia estando dentro dela e em como seu corpo seguia desfrutando dos efeitos do orgasmo mais intenso que tinha tido em toda sua vida.

Se olharam aos olhos e Spencer sentiu como se estivesse afundando em areias movediças. Se aferrou a ela, preocupado se por acaso a soltava e se acabava aquilo... o seu.

Abraçou-a e notou que Chardonnay seguia tremendo, e se deu conta de que já não podia se imaginar viver sem aquela mulher entre seus braços.

Donnay despertou e descobriu que Spencer a estava olhando. Piscou, perguntando-se durante quanto tempo teria dormido. A última coisa que recordava era ter se desfeito entre seus braços, com ele em seu interior.

— Tenho algo para você — lhe sussurrou Spencer.

— O que?

— Isto.

E lhe pôs algo no dedo. Chardonnay soube imediatamente o que era. Seu anel de compromisso. O enorme diamante brilhou sob a luz da lua e Donnay ficou sem palavras. Era uma jóia deliciosa, o anel mais bonito que já tinha.

Não soube o que dizer, assim afundou a cabeça em seu peito, e ele a abraçou. Donnay sabia que amar ao Spencer sem que o sentimento fosse recíproco não seria sempre fácil. Era um homem duro, um homem ao que lhe tinham feito mal no amor. Ela teria que reparar seu coração, sobre tudo porque sabia que era um coração que valia a pena.

— É precioso, Spencer - disse por fim. — Muito obrigado.

— De nada. Deixou de chover. Está preparada para se vestir e que vamos a minha casa?

Ela o olhou. Embora não a amasse, era evidente que a desejava.

— Sim. Estou preparada.

 

                                    Capítulo Dez

Spencer olhou pela janela de sua habitação. Fazia quatro dias que tinha dado a notícia de suas bodas a sua mãe e seguia lhe soando o telefone. Até sua prima Delaney o tinha chamado desde sua casa no Oriente Médio para felicitá-lo.

Apoiou-se contra o marco e disse a si mesmo que os últimos dias tinham sido uma bênção. Chardonnay parecia ter aceitado por fim as coisas tal e como iriam ser entre ambos, e já não seguia resistindo a pensar que iriam se casar em menos de duas semanas.

E sua relação tinha melhorado muito. Nesses momentos eram um casal comprometido e atuavam como tal. Tinham começado a tomar o café da manhã e jantar juntos todos os dias, a dar passeios juntos pela tarde enquanto lhe contava como tinham avançado as obras durante o dia, e compartilhavam a cama pelas noites. Já não tinha que seduzi-la para que fosse vê-lo. Chardonnay ia até ele cada noite, como se soubesse que ali estava seu lugar.

Spencer baixou a cabeça, sentiu algo muito intenso em seu interior, algo que levava vários dias tentando ignorar. Sempre que estava com Chardonnay já fosse dentro ou fora da cama, sentia-se diferente, feliz. Sentia que estava começando a viver pela primeira vez, a apreciar as coisas boas da vida. Estava apaixonado.

Deixou de respirar. Ele nunca tinha pretendido se apaixonar, mas tinha lhe ocorrido. Esfregou sua cara e aceitou o que seu coração tinha estado tentando lhe dizer ultimamente.

Se alguém lhe houvesse dito uns meses antes que ia entregar seu coração a uma mulher, ele teria rido, haveria dito que era impossível.

Voltou a olhar pela janela ao ouvir as máquinas removendo a terra para plantar mais videiras na primavera. Esperava que houvesse uma boa colheita no ano seguinte, e também esperava se converter em pai. Mas, sobre tudo, esperava ser um bom marido para Chardonnay e tinha a esperança de que, com o tempo, ela aceitasse as circunstâncias de seu matrimônio e o fato de que estavam juntos.

O avô de Chardonnay tinha saído do hospital uns dias antes e Spencer também havia passado bastante tempo com ele. A saúde de Daniel tinha melhorado muito e tinha se sentido muito feliz ao voltar para casa e ver seus sonhos fazendo-se realidade.

Spencer se voltou ao ouvir soar seu telefone. Foi responder.

— Alô?

— Aconteceu algo interessante que creio que deveria saber.

Spencer arqueou uma sobrancelha ao ver que seu advogado parecia muito sério.

— E o que é Stuart?

— Alguém ingressou mais de um milhão de dólares na conta bancária de seus vinhedos Russell esta manhã.

Spencer ficou tenso e sentiu que as perguntas lhe amontoavam na mente.

— Quem tem feito o ingresso?

— Foi uma transferência de um banco coreano. É uma conta internacional em nome do BOSS.

— Averigua de quem é a conta e por que tem feito semelhante transferência a conta dos Russell.

— De acordo. Não acha que Chardonnay Russell tenha conseguido o dinheiro em outra parte, apesar de saber que você tinha aceitado financiar a ampliação do vinhedo?

Aquela era uma possibilidade que Spencer não queria considerar. Durante as últimas semanas havia baixado a guarda e tinha feito algo que tinha jurado não voltar a fazer depois da traição de Lynette Enjoe: tinha acreditado em outra mulher. E tinha se apaixonado por ela.

Tinha que admitir que ultimamente só tivesse pensado em fazer amor com ela. Teria ela utilizado esse momento de debilidade para conseguir o dinheiro de outro modo?

— Spencer?

A voz de seu advogado lhe recordou que não havia respondido a sua pergunta.

— Não estou seguro do que está passando, Stuart, mas quero que o averigúe.

— Farei, mas, enquanto isso tome cuidado.

Spencer sabia ao que se referia Stuart. Desligou o telefone e disse a si mesma que talvez o conselho de seu advogado chegasse muito tarde.

Um par de horas depois, Spencer fechava sua mala e se separava da cama. Stuart não tinha voltado a chamá-lo. Isso significava que a informação que precisavam era difícil de obter. Por que iria alguém ingressar semelhante soma de dinheiro na conta dos Russell? E dado que era Chardonnay a qual estava à frente do negócio, havia que ter sido ela que o tivesse obtido.

A dúvida e as suspeitas que não queria sentir o estavam consumindo por dentro e não pôde evitar pensar no momento que tinha recebido o relatório forense de Lynette Enjoe. Estava começando a se sentir do mesmo modo.

Foi para a janela e observou as colinas e os vales. Sentiu-se um tolo a ira. Apesar de que as circunstâncias eram diferentes, o resultado era o mesmo. Tinha permitido que outra mulher o traísse. E nessa ocasião lhe doía mais, porque a amava.

Lhe tinha sugerido desde o começo que se acabaria arrependendo de obrigá-la a se casar. Tinha-o debilitado cada vez que fazia amor com ele. Tinha ido fazendo o que queria com ele até o ponto ao qual, durante a última semana, Spencer só havia pensado em se casar com ela, em lhe dar prazer, em fazê-la feliz e em lhe demonstrar que a vida a seu lado não seria tão horrível.

Se separou da janela ao ouvir que abriam à porta no andar de baixo. Tinha que ser Chardonnay. Antes de deixar sua cama aquela manhã lhe tinha prometido que voltaria antes do meio-dia para lhe mostrar a parte do vinhedo que ainda não conhecia, e para lhe apresentar a todos os empregados.

Ouviu-a subir as escadas. Sentiu uma ira impossível de conter.

Quando a viu aparecer atrás da porta, sentiu que lhe rompia o coração.

— Você disse que voltaria — comentou ela sorrindo. Entrou na habitação e fechou a porta.

Ele não disse nada, limitou-se a olhá-la. E Chardonnay viu que tinha a mala em cima da cama. Deixou de sorrir.

— Tem uma viagem de negócios?

Ele respirou profundamente.

— Sim, parto-me, mas não por negócios. Parto-me para não voltar nunca mais.

Ela sacudiu a cabeça, como se não o tivesse ouvido bem.

— E as bodas?

— Não haverá bodas.

Ela ficou pálida, colocou a mão no coração e o olhou com incredulidade.

— Por quê? Não o entendo. O que aconteceu?

— Deixemos de tolices, Chardonnay. Quanto tempo acreditava que demoraria em averiguá-lo?

— Averiguar o que? — perguntou ela confundida.

Spencer sacudiu a cabeça e riu. Não podia acreditar que lhe estivesse perguntando aquilo. Estava diante dele com cara de não entender nada, mas sabia muito bem do que ele estava falando.

— Tenho que reconhecer que é uma estupenda atriz. De onde tiraste o dinheiro, Chardonnay? Está deitando com ele como se deita comigo?

— Não sei do que está falando — disse ela enquanto sacudia a cabeça.

— Não? Quer me fazer acreditar que não sabe quem tem feito uma transferência de um milhão de dólares na conta do vinhedo esta manhã?

— O que? Um milhão de dólares? Está equivocado. Deve haver um engano.

— OH, sim, o engano foi me fixar em você.

— Não, Spencer, me escute. Tem que haver um engano.

Chardonnay estirou a mão para lhe rogar e ele a agarrou com firmeza pelo pulso e a levou ao peito.

— Me tiraste o sarro, Chardonnay. Nunca teve a intenção de se casar comigo. Tinha outro plano, não é?

— Não, isso não é verdade. Como pode pensar que sou tão fria e calculadora? Como pode...?

— Já basta! Não quero te ouvir mais.

Spencer soltou sua mão e foi pegar a mala que havia em cima da cama. dirigiu-se para a porta, deteve-se ali e se voltou a olhá-la de novo.

— Diga a seu avô que continuarei pagando a esses homens para que limpem o terreno, tal e como lhe prometi. Também assumirei os gastos de sua operação, porque não creio que esteja a par de seus jogos, nem que saiba quão embusteira é. E se já a deixei grávida, tenha por seguro que voltará a ter minhas notícias. Se não, espero não voltar a te ver em toda minha vida.

Deu a volta e partiu sem olhar atrás.

— Donnay! O que acontece? — Ruth ficou de pé de um salto ao ver entrar sua filha.

Donnay havia tido a esperança de que sua mãe não estivesse em casa. Limpou as lágrimas dos olhos e foi para as escadas. Nada do que Spencer lhe havia dito tinha sentido. Como podia pensar que o havia enganado? Não obstante, tinha chamado ao banco e lhe tinham confirmado o do dinheiro.

— Donnay?

— Estou bem, mamãe — respondeu ela com voz trêmula.

— Então, por que chora?

— Spencer cancelou o casamento. Acredita que o enganei.

— Que o enganou? Por que ia pensar algo assim?

Donnay tentou evitar que lhe tremessem as mãos enquanto voltava a limpar os olhos. Estava zangada e decepcionada.

— Pensa que nunca tive a intenção de me casar com ele porque ia conseguir o dinheiro necessário para salvar o vinhedo de outra parte. Inclusive sugeriu que estive me deitando com outra pessoa para consegui-lo.

— Como pode haver dito algo tão depreciável?

— Porque alguém ingressou um milhão de dólares em nossa conta e eu...

Donnay viu como sua mãe inspirava profundamente e ficava branca. Algo não ia bem.

— Mamãe, sabe de onde saiu o dinheiro?

Ruth assentiu muito devagar.

— Sim, sei de onde saiu. Disse-me que ia fazê-lo, embora eu lhe pedisse que não o fizesse, porque pensava que tudo acabaria saindo bem entre Spencer e você.

Donnay não acabava de entender o que sua mãe lhe estava dizendo.

— A quem se refere mamãe?

Ruth suspirou.

— Ao seu pai.

Surpreendida, Donnay só pôde olhar a sua mãe enquanto sua mente tentava negar o que acabava de ouvir. Não era possível. Mas algo a empurrou a pedir uma elucidação.

— Meu pai?

— Sim, contei-lhe a descabelada proposta que Spencer havia feito e Chad disse que...

— Uau. Espera um momento, mamãe. Está me custando te seguir. Está me dizendo que viu ao meu pai? E que falaste com ele?

Ruth voltou a assentir.

— Sim, chamou-me faz um par de semanas e me disse que estava pela zona e que queria me ver.

— Pela zona?

— Sim. Estava em São Francisco a negócios e decidiu alugar um carro e vir ao vale. Não sabia se eu seguiria vivendo aqui, ou se teria me casado e teria ido viver em outra parte.

Donnay tomou ar.

— Suponho que lhe falou de mim.

— Sim. No princípio não gostou de saber que tinha uma filha ao qual não conhecia, mas logo expliquei que tinham me devolvido as cartas que havia escrito. Como ainda as tenho, as mostrei.

— E o que esteve fazendo durante todos estes anos? Está casado? Tem outros filhos?

— É viúvo. Esteve casado quinze anos, mas sua mulher morreu faz cinco, e não tiveram filhos. Retirou-se do exército e ficou a trabalhar por conta própria; tem uma empresa internacional de eletrônica com a que lhe foi bem. E quer te conhecer, Chardonnay.

Ruth sorriu.

— Deveria tê-lo visto a primeira noite que falei de você — continuou. — Queria vir te ver imediatamente, mas eu o convenci para que esperasse. Além disso, precisava falar com ele, saber o que havia feito durante todos estes anos. Quando lhe contei os problemas que tinha o vinhedo e que você estava disposta a se sacrificar, insistiu em que ele nos daria o dinheiro. Eu lhe pedi que não o fizesse, mas é muito cabeçudo, assim que o fez. Sinto que isso tenha provocado uma discussão entre o Spencer e você.

Donnay sacudiu a cabeça depois de ouvir a explicação de sua mãe.

— Não importa. Nosso matrimônio teria estado condenado desde o começo, mamãe. Isto demonstrou o pouco que confia em mim. Eu poderia ter sobrevivido sem amor, mas um matrimônio sem confiança não é um matrimônio.

Donnay se voltou para subir as escadas, mas Ruth a deteve.

— Te quer, sabe?

— Quem, mamãe?

— Spencer.

Donnay voltou a lutar por conter as lágrimas.

— Não, nunca me quis, mamãe. Nosso matrimônio não ia ser mais que um contrato, já disse.

— Sim, mas eu tenho olhos na cara, Donnay. A noite que veio jantar não apartava o olhar de você. Talvez você não tenha se dado conta, mas sua avó e eu sim. Spencer Westmoreland te quer.

Donnay olhou para sua mão esquerda. Tirou o anel de compromisso e o levava no punho. Logo olhou a sua mãe.

— Não, mamãe, não me quer, mas sabe o que é o mais triste? Que eu sim estou apaixonada por ele e estava desejando me casar e ser a mãe de seus filhos.

Sabendo que não poderia conter as lágrimas muito mais, acrescentou:

— Creio que irei à cidade. Necessito um pouco de ar.

E logo subiu correndo as escadas.

Spencer ficou tenso ao ouvir soar o telefone. Tinha que ser Stuart. Deixou a taça de vinho na mesa e foi responder.

Tinha se sentido aliviado ao chegar a sua casa no Sausalito. Havia passado as duas últimas horas abrindo janelas e venezianas para desfrutar das vistas da baía. E para se manter entretido, pôs-se a trabalhar imediatamente em um negócio no que também participariam seus primos e irmãos. Seu primo Clint tinha deixado sua colocação como polícia do Texas e estava utilizando o rancho que tinha herdado de sua tia para pôr em marcha um negócio parecido ao do Durango e McKinnon.

— Alô?

— Tenho a informação que queria Spencer.

— Está bem, quem tem feito à transferência?

— Um homem chamado Chad Timberlain.

Spencer tentou recordar onde havia ouvido esse nome antes. E o recordou justo no momento que alguém chamava a sua porta. Sentiu que se fazia um nó no estômago ao se dar conta de que talvez estivesse equivocado ao acusar Chardonnay.

— Escuta Stuart, logo te chamo. Creio que já sei o que está passando, mas tenho que comprová-lo.

Desligou o telefone e foi para a porta, se perguntando quem poderia ser, já que ninguém sabia que havia voltado para o Sausalito. Abriu a porta e se encontrou com um homem de cinquenta e poucos anos, alto e de compleição forte.

Spencer inspirou profundamente ao reconhecer o perfil do homem. Era o mesmo que tinha visto aquela noite no caminho do vinhedo, beijando a Ruth Russell.

— Chad Timberlain? — perguntou Spencer, pegando o homem de surpresa.

— Sim — respondeu ele franzindo o cenho.

Spencer se tornou a um lado.

— Entre. Não esperava vê-lo aqui, embora acabo de me dar conta do que se passou. Suponho que veio porque quer que falemos.

O homem o olhou como se quisesse algo mais que falar com ele. E Spencer o entendeu. Lhe teria passado o mesmo em seu lugar.

— E temos que chegar a um acordo — acrescentou Spencer.

Chad pareceu relaxar-se um pouco e entrou na casa. Spencer fechou a porta atrás dele.

— Assim, como pode ver — disse Spencer a Chad Timberlain um momento depois, os dois sentados em seu salão, compartilhando uma garrafa de vinho Russell, — dava por feito que Chardonnay soubesse de onde tinha saído o dinheiro.

— Inclusive quando lhe disse que não sabia?

— Sim, inclusive quando ela me negou isso.

Chad o olhou com dureza.

— Senti-me obrigado a fazer essa transferência porque não podia consentir que obrigasse a minha filha a casar-se com você.

— Entendo-o, senhor.

— E o que vai fazer para arrumá-lo? Ruth acredita que você quer ao Chardonnay e que o que ocorreu foi um grave engano por sua parte.

Spencer tragou saliva. O engano havia sido mais que grave. Tinha pedido a Chardonnay que acreditasse e confiasse nele, mas não tinha feito o mesmo com ela. Olhou a seu pai nos olhos.

— É verdade, amo a sua filha e serei o primeiro a admitir que me equivoquei. Isso, se ela quer voltar a falar comigo. Embora, como a amo, vou lutar por ela, e espero que queira me dar outra oportunidade.

Chad Timberlain sorriu.

— Eu ainda tenho que conhecer minha filha oficialmente; de fato, tinha pensado fazê-lo esta noite. Ruth me contou que é bastante obstinada, assim não o porá fácil.

Spencer já sabia quão teimosa podia chegar a ser Chardonnay.

— Sei, mas farei todo o possível.

Donnay se olhou no espelho enquanto tentava ignorar o comichão que sentia no estômago. Ia conhecer seu pai aquela noite. Ainda não o havia visto, mas já o queria. Ele tinha ido em sua ajuda lhe dando o dinheiro necessário para salvar o vinhedo, lhe demonstrando que seria um pai que sempre estaria aí para sua filha.

Tinha acreditado que conhecer seu pai lhe faria esquecer-se temporariamente de Spencer. No dia seguinte teria que cancelar todos os preparativos das bodas. Se perguntou se ele já teria chamado a sua família para lhes comunicar e o que lhes teria contado. Seguro que havia dito que não era uma mulher digna de sua confiança.

Olhou o relógio que tinha pendurado na parede. Eram quase seis. Essa noite sua família daria uma pequena festa para celebrar a melhoria de seu avô, e a volta a suas vidas de seu pai. Sua mãe lhe havia dito que tinham uma relação séria, e Donnay se sentia muito contente por ela.

Bateram na porta, e pensando que seriam sua mãe ou sua avó, Donnay respondeu:

— Entre.

Voltou-se ao ver que se abria a porta e ficou de pedra ao descobrir que se tratava de Spencer.

— O que está fazendo aqui? O que quer? — perguntou-lhe zangada.

Ele ficou diante dela e lhe disse com voz rouca e carinhosa:

— Vim te pedir perdão por tudo o que lhe disse. E o que quero... é você, Chardonnay. A você.

Spencer se deu conta de que a desculpa não havia suavizado em nada a Chardonnay. Seguia zangada. E não tinha colocado o anel de compromisso.

— Acusou-me de coisas horríveis. Não confiou em mim. Não...

Ele tentou lhe tocar a mão, mas ela a retirou zangada.

— Não! Inclusive me acusou de ter enganado com outro homem. Como pôde pensar isso de mim?

Spencer viu lágrimas em seus olhos e lhe fez um nó na garganta. Tinha-lhe feito mal.

— Amo-te, Chardonnay — disse em voz baixa, de todo coração. — Nunca quis me apaixonar por você, mas ocorreu. Não era a primeira vez que me traíam. Faz alguns anos morreu a mulher com a que ia me casar, e descobri que estava grávida de outro homem. Então, prometi a mim mesmo que nunca voltaria a amar a outra mulher. Mas você me demonstrou que estava equivocado, porque conseguiu, sem querer, que me apaixonasse por você. E quando descobri o da conta do vinhedo, senti-me utilizado e traído porque me dava conta de que já não tinha nada que ganhar com nosso matrimônio e que já não me necessitava... mas eu sim necessitava de você.

Donnay inspirou profundamente. As palavras que Spencer lhe havia dito essa manhã tinham sido cruéis e injustificadas, mas nesses momentos entendia que a tivesse julgado mal.

Viu dor em seu rosto. Tinha admitido que a amava algo que não se esperou. E acreditava, porque não devia lhe ser nada fácil confessar seu amor a uma mulher. E ela também o amava. Amava-o com todo seu coração.

— Se eu aceitar suas desculpas, e acredito em você quando me diz que me ama, o que espera você de mim?

Ele meteu as mãos nos bolsos das calças e a olhou fixamente.

— Espero... Que me dê outra oportunidade para que demonstre o errado que estava e para fazer as coisas bem. Eu gostaria que nos casássemos, mas quando você queira. Se prefere esperar, não me importa.

Suspirou antes de continuar:

— E eu gostaria que me desse à oportunidade de te amar como eu gostaria que você me amasse — sorriu. — Lhe porei isso muito difícil. E se não estiver grávida já, deixarei que você diga quando quer ter filhos. Quero passar tempo com você e te agradar como você merece.

Donnay guardou silêncio alguns segundos, logo inclinou a cabeça e o estudou. As feições de seu rosto estavam tensas, tinha os lábios apertados, mas foram seus olhos o que chamaram sua atenção. Estavam cheios de amor... por ela.

— E se te dissesse que eu também estou apaixonada por você?

— Então, te pediria que me desse uma oportunidade de demonstrar que nunca se arrependerá de me dar outra oportunidade. Nunca se arrependerá de ser minha esposa e a mãe de meus filhos. Me dará essa oportunidade?

Ela assentiu muito devagar.

— Sim.

Spencer mudou de expressão, tirou as mãos dos bolsos e abriu os braços para recebê-la. Ela não o rechaçou, e ele a abraçou com força, como se não fosse deixá-la partir, e logo a beijou.

Quando sua língua tocou a dela, Spencer sentiu uma quebra de onda de sensações, o prazer impregnou em seus ossos e o desejo encheu todo seu corpo. Se não houvesse um jantar na casa de Chardonnay aquela noite teria se sentido tentado a trancar-se com ela em seu quarto para sempre. Mas seu pai não o permitiria. Chad Timberlain lhe havia dito que se não descesse em vinte minutos, subiria para resgatar sua filha.

— Quero fazer amor com você — sussurrou ao Chardonnay nos lábios.

— E eu quero que me faça isso.

— Ficamos logo? Na casa de hóspedes?

— Sim.

Momentos depois, Spencer seguia Chardonnay escada abaixo. Justo no momento adequado, porque seu pai já estava ao pé das escadas, esperando-os. Spencer a segurou pela mão, em que voltava a brilhar o anel de compromisso.

Ao chegar à metade das escadas, deteve-se e a olhou:

— É seu momento, vá com seu pai.

Ela sorriu quando Spencer soltou sua mão e continuou baixando sozinha as escadas. Chad Timberlain sorria de orelha a orelha, de felicidade, e abriu os braços para receber sua filha. Ela o abraçou.

— Papai — sussurrou Chardonnay.

Do outro lado da habitação estavam sua mãe e seus avós com lágrimas nos olhos. Aquela noite era muito especial. Acabava de conhecer seu pai e o homem ao qual estava apaixonada também a queria.

Sentia-se completamente feliz.

Mais tarde nessa mesma noite, Donnay abraçou ao Spencer. Depois de ter feito amor com intensidade, tinham estado falando. Dado que ele não havia chamado a sua família para cancelar o casamento e que ela tampouco havia anulado, decidiram seguir com os planos de casarem uma semana antes do Natal. Além disso, cada vez que faziam o amor corriam o risco de começar a formar uma família, algo que ambos seguiam querendo fazer.

Donnay sorriu, pensando no que Spencer havia contado.

— Não posso acreditar que meu pai fosse te ver.

— Bom, queria me fazer saber que não permitiria que me aproveitasse de sua filha.

— É muito especial. Teve o detalhe de nos dar o dinheiro para nos ajudar.

Seu pai lhe tinha contado que depois de deixar o exército havia montado uma empresa de eletrônica chamada BOSS com outros três sócios, e que estava funcionando muito bem.

Chad estava virtualmente retirado e, no princípio do ano pretendia deixar sua colocação como diretor geral da empresa e deixar o trabalho diário a seus três sócios, que eram quase como seus filhos. Donnay os conheceria no casamento.

— Quando acredita que se casarão seus pais? — perguntou-lhe Spencer.

— Antes do dia dos namorados. Não creio que possam esperar mais. E seguro que minha mãe se decida por fim a viajar com ele, depois da operação de meu avô, é obvio. Está muito satisfeita, agora que nós lhe dissemos que vamos morar aqui e que poderemos estar a par de meus avós. Mamãe merece estar por fim com o homem ao qual ama, e ser feliz.

— Você também merece ser feliz. Amo você.

— Eu também amo você.

— Está preparada de novo?

Ela riu. Não podia se queixar de que Spencer não lhe tivesse advertido que era inesgotável na cama. Pôs-lhe os braços ao redor do pescoço e lhe disse:

— Para você, Spencer Westmoreland, sempre estarei preparada.

 

                                           Epílogo

Spencer estava de pé ao lado de Reggie, o mais jovem de seus irmãos, que seguia solteiro e era sua testemunha, observando como avançava sua preciosa noiva pelo corredor, no braço de seu pai. Estava muito bonita de branco.

Sentiu um amor que nunca teria pensado que seria capaz de sentir e desejou que chegasse a noite de núpcias. No dia seguinte, voariam a Paris, onde iriam passar duas semanas.

— Está seguro de que quer fazê-lo? — perguntou-lhe Reggie.

Spencer sorriu sem apartar o olhar de Chardonnay.

— Claro que sim.

Seu irmão Jared, que estava perto, deu-lhe uma cotovelada nas costelas para que se calasse. Spencer não se incomodou. Era o dia do seu casamento e nada podia lhe incomodar.

Quando Chardonnay chegou a seu lado e lhe deu a mão, ele segurou e deu um beijo nela, mas logo pensou melhor, abraçou-a e lhe deu um beijo nos lábios. Lhe devolveu o beijo até que um par de convidados pigarrearam para recordar ao casal onde estavam.

Spencer se ergueu e olhou ao pastor, que estava com o cenho franzido.

— Supõe-se que devem esperar até que os declare marido e mulher — os repreendeu.

— Sim senhor — respondeu Spencer. — E sinto, deixei-me levar.

Então começou a cerimônia.

Quando terminou, o pastor os declarou por fim marido e mulher, e Spencer voltou a beijar apaixonadamente à noiva.  

 

                                                                  Brenda Jackson

 

 

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