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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Visões / Dean R. Koontz
Visões / Dean R. Koontz

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Visões

 

Este livro narra a fantástica história de uma jovem mulher dotada de talentos paranormais, de um assassino psicopata que a persegue e o terror que a acompanha pelos corredores do tempo.

Aos seis anos de idade, Mary Bergen foi torturada e quase morta. Ao sair do hospital, descobriu que seu encontro com a morte lhe deixou um estranho presente — a clarividência. E desde então, durante vinte e quatro anos, usou seus talentos psíquicos para ajudar a polícia na solução de centenas de crimes de morte.

Agora, mais de duas décadas depois, Mary é novamente o alvo de um maníaco homicida. E terá que empregar toda a sua coragem, ânimo e poderes paranormais para encontrá-lo... antes que ele a encontre. No decorrer do caso, ela começa a suspeitar que o homem procurado está, de alguma forma, ligado aos acontecimentos de quando tinha seis anos.

E, a fim de salvar-se, Mary precisa lembrar-se de cada detalhe do horror a que foi submetida em sua infância. Gradualmente, entende que está sendo Vítima de algo mais que tentativa de homicídio. Algo pior. Algo muito mais estranho. E para que possa ter um futuro, deverá enfrentar a terrível verdade de seu passado.

VISÕES é uma obra de muitas facetas. Uma estória de suspense e horror. Uma estória de amor. A odisséia de uma frágil mulher que se torna forte. Uma estória sobre a natureza do Mal.

 

—  Luvas de sangue.

A mulher levantou e olhou para as próprias mãos, através delas.

A voz, embora suave, estava tensa. — Sangue nas mãos. Mas as suas estavam pálidas e limpas.

Seu marido debruçou-se no banco traseiro do carro-patrulha.

—  Mary?

Ela não respondeu.

—  Mary, pode me ouvir? - Sim.

— De quem é o sangue que está vendo?

— Não tenho certeza.

— É o sangue da vítima?

—  Não. Na verdade... o sangue é dele.

—  Do assassino? - Sim.

— Está sujo com o sangue dele mesmo nas mãos?

Sim — ela respondeu, - Ele se machucou? -    Mas não é grave. - Como se machucou? -  Não sei.

Tente entrar dentro de sua mente. – Já estou dentro.

—  Mais  fundo.

—  Não sou telepata.

—  Eu sei, querida, mas é quase isso.

A transpiração no rosto de Mary Bergen assemelhava-se ao brilho da cerâmica nas feições de gesso de um santo de altar. Sua pele macia brilhava à luz verde do painel de instrumentos. Os olhos também cintilavam, mas faltava-lhes expressão.

De repente, ela se curvou e estremeceu.

Ao volante do carro, o Chefe de Polícia Harley Barnes agitava-se inquieto. Flexionou as mãos enormes na direção do carro.

—  Ele está sugando o ferimento — disse ela. — Sugando o próprio sangue.

Após trinta anos de serviço na polícia, Barnes não esperava sentir-se surpreso ou amedrontado. E agora, numa única noite, tinha tido mais de uma surpresa e sentiu seu coração bater mais forte por causa do medo.

As ruas densamente arborizadas lhe eram tão familiares quanto os traços de seu próprio rosto. Contudo, nesta noite, as árvores pareciam ameaçadoras sob o manto do temporal. Os pneus silvavam no asfalto molhado. Os limpadores de pára-brisa iam e vinham, como um metrônomo sinistro.

A mulher sentada ao lado de Barnes estava angustiada, mas sua aparência era menos perturbadora do que as alterações que gerou no interior do veículo. O ar úmido tornou-se mais claro quando ela entrou em transe. Barnes sabia que não estava imaginando coisas. Os sons habituais da chuva e do carro pareciam sobrecarregados por ondas de freqüência fantasmas. Sentia uma força indescritível irradiando-se da mulher. Era um homem prático, de modo algum supersticioso. No entanto, como negar o que sentia de maneira tão vivida?

Ela curvou-se na direção do painel tanto quanto lhe permitia o cinto de segurança. Apertou-se, gemendo como se estivesse em trabalho de parto.

Max Bergen, no banco traseiro, estendeu a mão e tocou a mulher.

Ela murmurou e relaxou um pouco.

A mão do marido parecia imensa sobre o ombro frágil. Era um homem alto, anguloso, músculos fortes, feições talhadas, quarenta anos de idade, dez a mais do que a esposa. Os olhos eram seu traço fisionômico mais impressionante — cinzentos, frios, sem humor.

O Chefe Barnes jamais o viu sorrir. Era óbvio que Bergen nutria profundos e complexos sentimentos em relação à esposa, embora não revelasse outra coisa que não o desprezo pelo resto do mundo.

—  Vire na próxima esquina — a mulher disse. Barnes freou devagarinho. — À direita ou à esquerda?

—  À direita — ela respondeu.

Casas e bangalôs de estuque bem conservados, construídos há uns trinta anos, quase todos em estilo hispano-americano, alinhavam-se nos dois lados da rua. Luzes amarelas luziam vagamente por trás das cortinas cerradas que protegiam o interior das casas da úmida noite chuvosa de dezembro. Essa rua era muito mais escura do que a que tinham deixado. Havia postes com lâmpadas a vapor, mas apenas a cada esquina, e sombras quase negras como as poças d'água projetavam-se nos longos quarteirões entre duas luzes.

Após fazer a curva, Barnes guiou a menos de vinte quilômetros por hora. A julgar pela atitude da mulher, a caçada terminaria nas redondezas, dentro em pouco.

Mary sentou-se ereta. Sua voz era agora mais alta e mais distinta do que quando começou a usar seus estranhos talentos de clarividência.

—  Estou recebendo impressões... de... de uma cerca. Sim, sim... estou vendo agora... ele cortou a mão... numa cerca.

Max alisou-lhe os cabelos. — E não é um ferimento grave?

—  Não... só um corte... no polegar. . . fundo... mas nada de grave. — Levantou a mão delicada, esqueceu-se do que pretendia fazer com ela, deixando-a cair novamente no colo.

—  Mas se a ferida dele está sangrando, será que não vai desistir por esta noite? — Max perguntou.

—  Não.

—  Tem certeza?

—  Ele vai continuar.

—  Esse filho da mãe já matou cinco mulheres até agora Hurnes comentou. — Algumas lutaram desesperadamente, arranharam e feriram o homem, arrancaram até cabelos dele. Mas ele  não desiste assim tão fácil.

Ignorando o policial, Max tranqüilizava a esposa, acariciando-lhe o rosto com a mão. Induziu-a com mais uma pergunta.

— Que espécie de cerca está vendo?

—  Uma cerca de arame. Cortada no topo e cheia de farpas.

—  É alta?

—  Um metro e meio.

—  Cercando o quê?

—  Uma área.

—  De armazém?

—  Não. Os fundos de uma casa.

—  Você pode ver a casa?

—  Sim.

—  Como  é ela?

.— É um sobrado.

—  De estuque?

—  Sim.

—  E o telhado?

— De telhas espanholas.

—  Alguma característica especial?

—  Não vejo bem. . — Uma varanda? — Não.

—  Quem sabe, um pátio?

—  Não.   Mas  estou  vendo. . .   um  caminho   de  tijolos, cheio de curvas.

—  Na frente ou nos fundos da casa?

—  Na frente.

—  Árvores?

—  Pés de magnólia formando par... de cada lado do caminho.

—  Mais alguma coisa?

—  Algumas palmeiras. . . mais para trás.

Harley Barnes franziu os olhos, tentando enxergar melhor pelo pára-brisas salpicado de chuva. Procurava um par de magnólias.

A princípio mostrou-se cético. De fato, tinha certeza de que os Bergens não passavam de charlatães. Desempenhou seu papel na pantomima porque o prefeito acreditava. Foi o próprio prefeito quem convidou o casal à cidade e quem insistiu na cooperação da polícia.

Barnes já havia lido sobre detetives paranormais, é claro, e mais particularmente sobre o famoso clarividente holandês, Peter Hurkos.  Contudo...   usar P. E. S.[1]  para capturar um assassino psicopata, pegá-lo em flagrante? Não acreditava muito nisso.

Ou... será que sim?, perguntou-se. Esta mulher era tão atraente, tão encantadora, tão grave, tão convincente, que talvez o tivesse transformado também num crente. Se assim não fosse, por que estaria ele procurando magnólias?

Ela emitiu um som como o de um animal preso há muito tempo numa armadilha dentada. Não era um grito, antes um lamento quase inaudível.

Quando um animal fazia aquele ruído, significava "ainda estou vivo, mas agora estou resignado".

Há muitos anos, garoto ainda, em Minnesota, Barnes havia caçado e preparado armadilhas. E era este mesmo gemido sufocado, lastimoso, da presa ferida, que o fazia desistir do esporte.

Até esta noite, jamais tinha ouvido brotar esse estranho som de uma garganta humana. Aparentemente, ao usar seus talentos para localizá-lo com precisão, ela sofria ao contato com a mente insana do assassino.

Barnes   arrepiou-se.

—  Mary — disse o marido. — O que está acontecendo?

—  Eu o vejo... na porta dos fundos da casa. A mão na porta... e sangue... o sangue dele no batente branco. Ele está falando sozinho.

—  O que ele está dizendo?

—  Eu não...

—  Mary?

—  Está dizendo coisas sórdidas a respeito da mulher.

—  A mulher que está na casa — a que ele está perseguindo hoje?

—  É.

—  Ele a conhece?

—  Não. É uma desconhecida. . . escolhida ao acaso. Mas ele a vem observando. . . durante vários dias. . . conhece seus hábitos e rotinas.

Com estas últimas palavras, projetou-se contra a porta do carro. Respirou profundamente, diversas vezes. Era obrigada a relaxar periodicamente, a fim de refazer suas energias, se quisesse manter as forças psíquicas. Alguns clarividentes, Barnes sabia, tinham suas visões sem despender energia, virtualmente sem esforço algum, mas o caso desta mulher, aparentemente, era singular.

Vozes fantasmagóricas sussurravam e chiavam, chegavam e se afastavam em staccato pelo rádio do carro.

O vento soprava finas cortinas de chuva através das ruas.

A pior estação de chuva dos últimos anos, Barnes pensou. Há vinte anos, teria sido comum, mas a Califórnia havia gradualmente se transformado num estado seco. Tanta chuva assim já era anormal... como tudo o mais que vinha acontecendo nesta noite, pensou.

À espera das próximas palavras de Mary, diminuiu a velocidade para menos de dez quilômetros por hora.

Magnólias iguais ladeando um caminho de tijolos.

Achava cansativo tentar enxergar o que aparecia à frente dos faróis do carro, e extremamente difícil distinguir o cenário de cada lado da rua. Talvez já tivessem passado pelas tais magnólias.

Embora muito breve, a hesitação de Mary Bergen fez com que Dan Goldman pronunciasse suas primeiras palavras em mais de uma hora,

—  Não dispomos de muito tempo, Sra. Bergen.

Goldman era um jovem policial digno de crédito, o subordinado em quem o Chefe mais confiava. Estava sentado atrás de Barnes, ao lado de Max Bergen, olhos fixos na mulher.

Goldman acreditava em poderes paranormais. Era impressionável. E, pelo que Barnes podia ver pelo espelho retrovisor, os acontecimentos da noite haviam deixado uma expressão de assombro em seu rosto largo e comum.

—  Não dispomos de muito tempo — Goldman repetiu — e, se esse tarado já está na porta da cozinha da mulher. . .

Bruscamente, Mary voltou-se para ele. Sua voz estava carregada de aflição. — Não saia do carro esta noite — até que apanhem o homem.

—  O que está querendo dizer? — Goldman perguntou.

—  Se tentar ajudar na captura, vai ferir-se.

—  Ele vai me matar?

Ela estremeceu convulsivamente. Gotas de suor porejavam em suas têmporas.

Barnes também sentia a transpiração escorrer-lhe pelo rosto.

—  Ele vai esfaqueá-lo... — disse ela a Goldman — ... com a mesma faca que usou em todas as mulheres... vai feri-lo muito...  mas não vai matá-lo. -— Fechando os olhos, falando entre dentes cerrados, preveniu: — Fique no carro.

—  Harvey? — Goldman perguntou, apreensivo.

—  Vai dar tudo certo — Barnes tranqüilizou-o.

—  É melhor ouvir o que ela diz — Max aconselhou a Goldman. — Não saia do carro.

—  Se eu precisar de você — foi a vez de Barnes dirigir-se a Goldman — você vem comigo. Ninguém vai se ferir. — Temia que a mulher minasse a sua autoridade. Olhou-a de soslaio. — Precisamos de um número para a casa que a senhora descreveu... um endereço.

—  Não a pressione — o marido disse bruscamente. Com todos, à exceção de Mary, sua voz soava como duas barras de aço bruto friccionadas uma contra a outra. — Não vai fazer bem algum pressioná-la. Só serve para atrapalhar.

—  Está tudo bem, Max — ela disse.

—  Mas eu já havia dito a eles — Max respondeu. Ela tornou a virar-se para a frente.

—  Eu vejo... a porta dos fundos da casa... está aberta.

—  Onde está o homem, o assassino? — Max perguntou.

—  Ele está num quartinho escuro... pequeno... a lavanderia... sim, é isso... a lavanderia atrás da cozinha.

—  O que ele está fazendo?

—  Está abrindo outra porta... para a cozinha... não tem ninguém lá... uma luz fraca sobre o fogão... alguns pratos sujos na mesa... ele está parado... parado e atento... a mão esquerda fechada para evitar que o polegar sangre... ouvindo música... de Benny Goodman, que vem do estéreo da sala... — Tocando no braço de Barnes com um inusitado tom de urgência na voz, ela continuou. — A duas quadras daqui... à direita. A segunda... não, a terceira casa depois da esquina.

—  Tem certeza?

—  Pelo amor de Deus, corra!

Será que vou fazer papel de bobo?, Barnes se perguntou. Se eu levar esta mulher a sério e ela estiver errada, vou ser o alvo de piadinhas de mau gosto pelo resto da minha carreira.

Mesmo assim, ligou a sirene e apertou o acelerador até o fim. Os pneus resvalaram no asfalto molhado. Com um ranger tio borracha, o carro arrancou para a frente.

Sem fôlego, ela disse: — Eu ainda estou vendo... ele está atravessando a cozinha... move-se devagar...

E se ela está fingindo tudo isto, Barnes pensou, ela é a melhor atriz do mundo.

O Ford corria pela rua mal iluminada. A chuva chicoteava os vidros. Passaram por um cruzamento de mão dupla, depois por outro.

—  Ouvindo. . . ouvindo a cada passo. . . cauteloso.. . nervoso. .. tirando o facão do bolso do sobretudo.. . sorrindo para a arma afiada.. .  um facão tão grande.. .

Na quadra descrita por ela, o automóvel deu uma rabeada e parou junto ao meio-fio, em frente à terceira casa à direita: um par de magnólias, perfeitamente iguais, um passeio de tijolos, um sobrado de estuque, com luzes acesas no térreo.

—  Meu Deus! — Goldman disse, e a expressão era mais de reverência do que qualquer outro sentimento. — É perfeitamente idêntica à descrição que ela fez!

 

Barnes desceu do carro, enquanto a sirene diminuía para um gemido, até silenciar completamente.

As luzes vermelhas do sinal de emergência do carro lançavam sombras frenéticas sobre a rua molhada. Outro veículo preto e branco estacionou logo atrás, juntando seus raios à cascata cor de sangue.

Vários homens já haviam saído do segundo carro. Dois guardas uniformizados, Malone e Gonzales, correram na direção de Barnes. O Prefeito Henderson, redondo e luzidio em sua capa de vinil preto, parecia uma bola de gás rolando pela calçada. Nos seus calcanhares vinha o pequeno e magricela Harry Oberlander, o mais atuante crítico de Henderson na Câmara Municipal.

O último homem a aparecer era Alan Tanner, o irmão de Mary Tanner Bergen. Normalmente, deveria estar ao lado da irmã, no primeiro carro, mas ele e Max haviam se desentendido e tentavam manter-se longe um do outro.

—  Malone, Gonzales ... separem-se — Barnes ordenou. — Cerquem a casa. Dêem a volta e se encontrem na porta tios fundos. Eu vou pela frente. Mexam-se!

—  E eu? — Goldman perguntou. Barnes suspirou. — É melhor ficar aqui. Goldman sentiu-se aliviado.

Tirando a Magnum .357 do coldre, Barnes correu pelo caminho de tijolos. O nome "Harrington" estava gravado na caixa de correspondência. Ao tocar a campainha,  a chuva amainou de repente. A chuva torrencial transformou-se em garoa.

Alertada pelas sirenes, ela havia observado pela janela a aproximação da polícia. Atendeu à porta imediatamente.

—  Sra. Harrington?

—  Srta. Harrington. Depois do divórcio, escolhi meu nome de solteira.

Era uma loura pequenina, com pouco mais de quarenta anos. O corpo era voluptuoso, conquanto não carregasse excesso de peso.

Pelas aparências, sua principal ocupação era cuidar de si mesma. Trajava calças jeans e camiseta de malha, não parecendo preparada para sair. Seus cabelos, entretanto, estavam penteados como se tivesse acabado de voltar do cabeleireiro; os cílios postiços e a maquilagem tinham sido aplicados com perfeição; e suas unhas estavam esmaltadas em cor vivamente alaranjada.

—  Está sozinha? — Barnes indagou.

—  Por que pergunta? — o tom era lascivo.

—  Assunto policial, Srta. Harrington.

—  Que pena... — Trazia um drinque na mão, e ele sabia que não era o primeiro daquela noite.

—  Está sozinha? — repetiu.

—  Eu moro sozinha.

—  Está tudo bem?

—  Não. Detesto morar sozinha.

— Não foi isto o que eu quis dizer. A senhora está bem? Nenhuma perturbação por aqui?

Ela baixou os olhos para o revólver que Barnes segurava ao lado do corpo.

—  Devia haver?

Exasperado com ela e por ter que falar mais alto do que o som atordoante da música que vibrava vindo de dentro, ele respondeu: — Talvez. Há motivos para crer que sua vida corre perigo.

Ela riu.

—  Eu sei que parece melodramático, mas. . .

—  Quem está atrás de mim?

—  Os jornais o chamam de "O Retalhador".

Ela franziu o rosto, e abandonou imediatamente a expressão, como se tivesse lembrado que causava rugas.

—  Está brincando!

—  Temos razões para crer que a senhora é a vitimaescolhida para esta noite.

—  Que razões?

—  Uma clarividente.

—  Uma. . .  o quê?

Malone penetrou na sala, vindo por trás dela e desligouo estéreo.

Virou-se, surpresa.

—  Encontramos algo, Chefe — Malone informou. Barnes entrou na casa, sem esperar convite. — É?

—  A porta dos fundos estava aberta.

—  A senhora deixou-a aberta? — Barnes perguntou à mulher.

—- Numa noite como esta?

—  Estava trancada?

—  Não sei.

—  Havia sangue no batente da porta — Malone disse. Emais sangue na porta entre a cozinha e a lavanderia.

—  Mas ele fugiu?

—  Deve ter corrido quando  escutou as sirenes.

Transpirando, sentindo as batidas rápidas demais do coração, conjecturando sobre como ajustar clarividência e outros fenômenos paranormais ao seu, até então, simples conceito de vida, Barnes acompanhou o jovem policial pela cozinha elavanderia. A mulher o acompanhava de perto, fazendo perguntas que ele não se dignou a responder.

Hector Gonzales esperava na porta dos fundos.

—  Há um beco atrás daquela cerca de arame — Barnes disse para ele. — Volte para lá e procure o nosso homem, duas quadras em cada direção.

—  Estou perplexa — a mulher disse. Eu também, pensou Barnes.

Para Malone, disse: — Dê uma batida nos arbustos ao redor da casa. E verifique a linha da sebe perto da cerca.

—  Certo.

—  E vocês dois — fiquem de arma na mão.

 

Ao lado das viaturas do esquadrão volante da polícia, defronte à casa, Harry Oberlander espicaçava o prefeito. Sacudia a cabeça como se a simples presença de Henderson lhe causasse assombro.

—  Que prefeito que você é — disse ele, com sarcasmo grosseiro. — Contratando uma bruxa para fazer o serviço depolícia.

Henderson respondeu como se fosse um gigante cansado, tendo que enfrentar mais um pigmeu desafiante com mania de grandeza.

—  Ela não é uma bruxa.

—  Você não sabe que bruxas não existem?

—  Como eu disse, Sr. Vereador, ela não é uma bruxa.

—  Ela é uma farsante.

—  Uma clarividente.

—  Clarividente, escurividente. . .

—  Que linguagem tão  inteligente!

—  É a mesma coisa que dizer que ela é uma bruxa.

Dan Goldman observava Oberlander e sentia-se tão enfastiado com a discussão quanto o prefeito. Não pode haver piores inimigos, pensou o policial, do que dois homens que foram os melhores amigos. Seria obrigado a separá-los, caso Harry não se contentasse com palavras e. começasse a dar socos, rápidos mas pouco eficientes, na bem nutrida barriga do prefeito. Isso já havia acontecido antes.

—  Sabe por que lhe vendi a minha parte no negócio dos móveis? — Oberlander perguntou a Henderson.

—  Você vendeu porque não tem visão comercial alguma — respondeu Henderson sonsamente.

—  Visão, divisão, eu vendi porque sabia que um tolo supersticioso como você ia acabar encalhando mais cedo ou mais tarde.

—  A loja agora está dando lucro como nunca deu antes — Henderson disse.

—  Sorte! A sorte é cega!

Felizmente, antes que o primeiro soco fosse desferido, Harley Barnes apareceu na porta da frente da casa.

—  Está tudo bem. Podem vir — gritou.

—  Agora é que nós vamos ver quem é o tolo — Henderson disse. — Devem ter apanhado o homem. — Atravessou a calçada correndo e o gramado escorregadio com aquela leveza inesperada, atributo de determinados homens muito gordos.

Oberlander correu em seu encalço, um ratinho zangado nos calcanhares de um mamute.

Sufocando uma gargalhada, Goldman seguiu-os.

 

Alan Tanner sentou-se ao volante, para ficar no banco da frente com a irmã. Quando viu Harley Barnes na porta da casa, perguntou: — Pegaram o assassino, Mary?

—  Não sei — ela respondeu. A voz estava fraca, ela parecia exausta.

—  Não devia ter havido um tiro?

—  Não sei.

—  Devia ter havido alguma agitação.

—  Acho  que  sim.

—  Mary, Goldman está em segurança? — Max perguntou aflito, sentado no banco de trás.

Ela suspirou e balançou a cabeça, comprimindo as pontas dos dedos sobre as pálpebras. — Não sei dizer, realmente. Perdi o fio. Já não estou vendo mais nada.

Max desceu o vidro da janela. O ar úmido levou sua voz com clareza. — Ei, Goldman!

O policial estava no meio do gramado. Parou e olhou para trás.

—  Talvez seja melhor você ficar aqui — Max disse.

—  Harley me chamou — Goldman explicou.

—  Lembre-se do que disse minha mulher.

—  Está tudo bem — Goldman respondeu. — Não vai acontecer nada. Já o apanharam.

—  Tem  certeza? — Max perguntou. Mas Goldman já havia se voltado e continuava seu caminho para a casa.

—  Mary? — Alan disse.

—  Hmmmmm?

—  Está se sentindo bem?

—  Bastante bem.

—  Não parece.

—  Só estou cansada.

—  Ele pressiona demais — Alan lhe disse, solicitamente. Nem sequer olhou para Max. Falava como se ele e a irmã estivessem a sós no carro. — Não entende como você é frágil.

—  Eu estou bem — ela insistiu.

Alan não desistia facilmente. — Ele não sabe como estimular seus poderes, como ajudá-la a definir as visões. Ele não tem finesse. Ele sempre pressiona demais.

Seu bastardinho nojento, Max pensou, olhando fixo para o cunhado.

Mas, por causa de Mary, nada disse. Ela afligia-se muito sempre que os dois homens de sua vida discutiam. Preferia fazer de conta que os dois se adoravam e, muito embora jamais ficasse inteiramente do lado de Alan, sempre culpava Max quando a discussão se tomava particularmente acirrada.

A fim de esquecer-se de Alan, Max ficou estudando a casa. Um feixe de luz jorrava pela porta aberta, recortando a silhueta dos densos grupos de folhagens.

—  Talvez fosse bom trancarmos as portas do carro — ele disse.

Virando-se de lado no assento, Mary fitou-o.

—  Trancar as portas?

—  Por proteção.

—  Não estou entendendo.

—  Proteção  contra  o  quê? — Alan  quis  saber.

—  A polícia está toda dentro daquela casa e nenhum de nós tem uma arma.

—  Acha que podemos precisar de uma?

—  É uma possibilidade.

—  Agora você também tem poderes paranormais? — Alan perguntou.

Max forçou um sorriso.

—  Não tem nada a ver com poderes psíquicos. É uma questão de bom senso. — Travou sua porta e a de Mary, e quando notou que Alan não parecia disposto a cooperar, travou as duas portas do outro lado.

—  Sente-se seguro agora? — Alan perguntou. Max vigiava a casa.

 

Barnes, Henderson e Oberlander apinhavam-se na minúscula lavanderia, examinando as nódoas de sangue deixadas pelo assassino.

A Srta. Harrington espremeu-se ao lado do Chefe, determinada a não perder nenhum detalhe de todo o tumulto. Parecia radiante por ter sido a escolhida do tarado.

Dan Goldman preferiu permanecer na cozinha. Sabia que, enquanto Barnes explicava que aquelas poucas peças de prova concreta se coadunavam com as visões da clarividente, o prefeito exultaria malignamente, e Harry Oberlander ficaria sem graça, a princípio, e depois zangado. A altercação mesquinha logo se transformaria em discussão vulgar e barulhenta. Goldman já estava farto disso.

Ademais, a cozinha espaçosa merecia ser inspecionada com carinho. Havia sido planejada e decorada por alguém que gostava de cozinhar, e podia dar-se ao luxo de ter o que havia de melhor.

A Srta. Harrington?, Goldman perguntou-se. Não, não parecia ser o tipo de mulher que aplaudiria a oportunidade de passar várias horas diante de um fogão. Sem dúvida, os dotes culinários pertenciam ao ex-marido.

Uma boa quantia havia sido gasta a fim de se criar uma cozinha profissional em atmosfera de casa de campo. O chão era forrado de azulejos mexicanos com cimento escuro. Havia armários de carvalho com tampos de cerâmica branca, que guardavam baterias de porcelana; dois fornos comuns, um de microondas, dois freezers, duas pias duplas, um fogão moderníssimo, um conjunto de eletrodomésticos embutido e uma infinidade de utensílios, aparelhos, miudezas.

Goldman gostava de cozinhar, embora tivesse que se contentar com um fogão a gás já bem surrado, as mais baratas caçarolas e panelas, e utensílios comprados em supermercado.

Sua invejosa inspeção da cozinha foi interrompida quando, pelo canto do olho, viu uma porta se abrir e sentiu uma presença às suas costas, a menos de um metro de distância. Havia notado a porta entreaberta ao entrar, mas não lhe deu maior atenção. Voltou-se e deparou com um homem vestido com uma capa de chuva, saindo de uma despensa repleta de alimentos enlatados. A mão esquerda do estranho estava coberta de sangue, o polegar preso no punho fechado.

Ela estava certa, Goldman pensou. Jesus Cristo!

Na mão direita levantada, o assassino segurava um facão pelo cabo de madeira.

O tempo cessou para Goldman. Cada segundo desdobrou-se multiplicado por cem. Cada momento expandiu-se como bolha de sabão, envolvendo-o, separando-o do resto do mundo, onde os relógios mantinham o ritmo normal.

À distância, ouvia Henderson e Oberlander discutindo novamente.   Não  lhe  parecia  possível   que  estivessem  num cômodo ao lado. As vozes soavam estranhíssimas, como setivessem sido gravadas em rotação rápida e tocadas agora em long-play.

O desconhecido deu um passo à frente. A luz se refletia ao longo do fio cortante da lâmina.

Como se lutasse contra uma força irresistível, Goldman procurou o revólver junto ao quadril.

O facão enterrou-se no seu peito. Ao alto e para aesquerda. Profundo demais para poder ser visto.

Que estranho, não sentia dor, mas a frente da camisa, de repente, embebeu-se de sangue.

Mary Bergen, ele pensou. Como você podia saber? O que é você?

Soltou a presilha do coldre.

Muito devagar. Devagar demais!

Mesmo não se tendo dado conta de que o facão havia sido arrancado de seu corpo, viu horrorizado quando a arma desceu novamente. O desconhecido puxou o facão e Goldman caiu contra a parede, emoldurado por um jato de seu próprio sangue.

Ainda não sentia dor, mas suas forças drenavam-se de seu corpo,  como se tivessem um escoadouro no calcanhar.

Não posso cair, dizia a si mesmo. Não me atrevo a cair. Não me restaria uma chance.

Mas o assassino deu-se por satisfeito. Virou-se e correu para a sala de jantar.

Comprimindo os ferimentos com a mão esquerda, cada vez mais fraco, Goldman cambaleou atrás do homem. Quando chegou ao arco, recostando-se nele para recuperar o fôlego, o assassino já se aproximava da sala de estar. Goldman conseguiu sacar a arma, mas sentia-a pesada demais; não tinha forças para erguê-la. A fim de chamar a atenção de Harley, deu um tiro para o chão. Com a explosão, o tempo pareceu retomar seu ritmo normal, e a dor finalmente esmagou-lhe o peito. Subitamente, sua respiração se tornou difícil, os joelhos dobraram-se e Goldman desfaleceu.

 

Alan interrompeu-se no meio de uma frase.

—  O que foi isso?

—  Um tiro — Max disse.

—  Aconteceu alguma coisa a Goldman. Sei disso tão bem quanto sei que estou sentada aqui.

Um vulto saiu correndo da casa. A capa de chuva ondulou, enfunando-se como um manto.

—  É ele — Mary disse.

Ao ver os carros da polícia, o homem parou. Confuso, olhou à direita e à esquerda, pareceu desconfiar de ambas as direções e virou-se para voltar à casa.

Harley Barnes apareceu no limiar da porta. Mesmo de onde se encontrava, mesmo através do vidro embaçado e das sombras da chuva que caía fina, Max distinguiu o revólver imenso na mão do policial. O clarão que saiu do cano da arma era uma obscenidade.

O psicopata descreveu uma pirueta como num bale desajeitado, e depois caiu, rolando pelo caminho de tijolos. Surpreendentemente, conseguiu pôr-se de pé, com dificuldade, e correu para a rua. Não foi atingido. Se tivesse recebido o projétil de uma Magnum .357 teria ficado estendido no chão.

Disso Max tinha certeza. Seus conhecimentos sobre armas de fogo eram profundos. Possuía uma extensa coleção delas.

Barnes atirou novamente.

—  Droga! — Max disse, furioso. — Polícia de cidade pequena! Muita arma e pouco treino. Se aquele imbecil errar o alvo, vai acertar um de nós!

O terceiro tiro atingiu o assassino pelas costas, quando este chegava na calçada.

Max tinha condições de dar dois detalhes sobre o projétil. Já que não havia atravessado o corpo do criminoso para ir alojar-se na porta do carro, era porque havia sido insuficientemente carregado de pólvora. Havia sido projetado para uso em ruas movimentadas — tinha peso apenas suficiente para parar um criminoso, sem causar danos a outros. E, em segundo lugar, considerando o modo como havia levantado o homem do chão, a ponta da bala certamente estava vazia.

Após um instante de vôo desgracioso, o assassino chocou-se contra o veículo. Por um momento, segurou-se à porta do lado de Mary. Foi escorregando até poder fitá-la.

—  Mary Bergen... — a voz era rouca. Agarrou-se à janela. — Mary Bergen. — O sangue jorrou de sua boca, espalhando-se pelo vidro.

Mary gritou.

O cadáver tombou sobre a calçada.

 

A ambulância que levava Dan Goldman dobrou a esquina tão velozmente quanto lhe era possível sem perigo de derrapar para o lado.

Max esperava que a vida do jovem patrulheiro não se estivesse esvaindo tão rapidamente quanto o som da sirene que se ia perdendo na distância.

Na calçada, em'decúbito dorsal, estava o corpo do assassino. De olhos abertos para o céu, esperava pacientemente a chegada do médico legista.

—  Ela ficou nervosa porque o assassino sabia o nome dela — Alan disse.

—  Ele viu a fotografia no jornal — Max explicou. — Deve ter ouvido falar que ela vinha à cidade para encontrá-lo.

—  Mas só o prefeito e a Câmara sabiam. E a polícia.

—  De algum modo, ele ficou sabendo. Sabia que ela estava na cidade e reconheceu-a. Nada de sobrenatural no fato. É isso que ela está imaginando?

—  Eu sei que existe uma explicação simples, e você também sabe. No íntimo, ela também sabe. Mas, levando-se em consideração tudo o que ela já viu nesta vida, não há como evitar que se martirize. Olhe, falei com Barnes. Ele pode dispor de um homem e um carro para nós. Devíamos levar Mary de volta ao hotel para que ela possa descansar.

—  É o que faremos — Max respondeu — assim que eu acertar tudo com o prefeito.

—  Pode levar horas.

—  Meia hora, no máximo — Max disse. — Agora, se isto é tudo que tinha a me dizer.

—  Ela está morta de cansaço.

—  Não estamos todos? Ela está bem.

—  O marido amoroso...

—  Vá pro inferno.

Estavam os dois de pé, atrás do primeiro carro-patrulha. Mary ainda estava sentada dentro dele, de olhos fechados e mãos cruzadas no colo.

A chuva já havia parado. O ar estava úmido e perfumado.

Olhando nervoso as pessoas que haviam saído de suas casas para se agruparem ao redor da cena patética, Alan disse:

—  Os repórteres vão chegar a qualquer momento. Não creio que ela deva enfrentar um batalhão da imprensa esta noite.

Max sabia o que o cunhado pretendia. Amanhã, Alan sairia em férias de duas semanas. Antes de partir, esperava ter uma conversa final com a irmã, uma conversa a dois, uma última hora não interrompida durante a qual tentaria convencê-la de que havia se casado com um homem terrivelmente errado para ela.

Os punhos eram a única arma de que Max dispunha para evitar esta revolução doméstica. Tinha seis polegadas e vinte quilos a mais do que Alan. Ombros e bíceps dignos de um estivador, e as mãos descomunais de um jogador de basquete. Sabia, contudo, que lábios partidos, dentes quebrados e queixo deslocado calariam Alan apenas temporariamente. A não ser que o matasse, não havia meio de terminar com sua intromissão.

E, seja como for, Max já não tentava resolver seus problemas usando os punhos. Havia prometido a Mary e a si próprio que seus dias de violência estavam terminados para sempre.

Exceto pela força bruta de Max e sua vontade de usá-la, Alan possuía todas as outras armas nessa guerra intensamente pessoal. Sua aparência física não era a menos poderosa dessas armas. Tinha cabelos negros e olhos azuis, como a irmã. Era um belo homem, enquanto Max, com suas feições talhadas, escapava de ser feio por um triz. Os traços vigorosamente sensuais de Alan, realçados por um ar de juvenil inocência, poderiam cativar até mesmo uma irmã.

Principalmente uma irmã.

 

A voz de Alan era suave e persuasiva como a de um ator. Com sua voz, era capaz de criar atmosferas e germinar dramas. E fazia uso dela sutilmente, com o fito de ganhar as simpatias de Mary e fazê-la ver o marido de pouco tempo com um leve, inconsciente, mas insidioso desprazer.

Max sabia que sua inteligência ultrapassava a média, como também reconhecia que Alan lhe era intelectualmente superior. Não era apenas a voz que ganhava as discussões. Havia sagacidade sob os tons melífluos.

E charme?

Sempre que necessário, Alan transpirava charme por todos os poros.

Gostaria de enrolá-lo bem apertado, como se faz com um tubo vazio de pasta de dentes, pensou Max. Espremer todo o seu charme e ver se existia alguma verdade no fundo de tudo.

O mais importante era que Alan e Mary haviam partilhado trinta anos de vida; ele estava com trinta e três anos e, como irmão mais velho, achava-se ligado a ela por laços de sangue, de experiências mútuas, por mais de uma tragédia, e três décadas de dia-a-dia.

Enquanto a aglomeração aumentava ao seu redor, Max notou mais um carro de polícia se aproximando.

—  Tem razão. Ela não devia ficar aqui mais do que o tempo necessário — disse ele.

—  Claro que não — foi a resposta de Alan.

—  Vou levá-la para o hotel agora mesmo.

—  Você? — Alan perguntou surpreso. — Você tem que ficar aqui.

—  Por quê?

—  Você sabe por quê.

—  Diga-me.

—  Você é melhor do que eu para essas coisas — Alan respondeu com relutância.

—  Que coisas? — Max perguntou.

—  Sabe por que você precisa que eu diga? Porque é tudo que tem a seu favor. E a única coisa que pode usar para prendê-la.

—  Que coisa?

—  Tão inseguro...

—  Que coisa?

—  Você é melhor do que eu para pegar o dinheiro. Está satisfeito?

Mary ganhava bem escrevendo uma coluna sobre fenômenos paranormais para um jornal sindicalizado. Também havia recebido muito dinheiro com três best-sellers sobre sua carreira, e poderia viver muito bem apenas com os proventos das palestras que fazia, se assim o desejasse.

Mesmo viajando constantemente, auxiliando as autoridades em investigações de homicídios violentos, sempre que lhe pediam, não tirava lucro algum desta atividade. Não punha um preço sobre suas visões. Certa vez, ajudou uma atriz famosa a recuperar um colar de diamantes no valor de cem mil dólares, e não aceitou pagamento. Jamais exigia mais do que o reembolso das despesas — passagens aéreas, aluguel de carro particular, refeições e alojamento — daqueles a quem assistia, e recusava até esse pouco, caso achasse que sua participação havia sido de pouco ou nenhum valor.

Quando Max surgiu em sua vida, o recebimento do dinheiro das despesas ainda era tarefa do irmão. A Alan, no entanto, faltavam o talento e o gosto para pechinchar com prefeitos, vereadores e burocratas. Diversas vezes, depois de Mary realizar seu trabalho e o criminoso ser encontrado, os políticos locais que a haviam chamado tentavam livrar-se dela sem pagar o que lhe era devido. Alan raramente discutia. Conseqüentemente, dezenas de milhares de dólares gastos em despesas perdiam-se a cada ano e, embora ganhando somas consideráveis, Mary caminhava vagarosamente para a falência.

Dois meses após o casamento, Max pôs os assuntos financeiros de Mary em perfeita ordem. Renegociou o contrato da esposa com o departamento de conferências, e dobrou seus honorários. Quando chegou a hora de renovar o contrato com o jornal, fez um acordo muito mais vantajoso do que ela achou possível. E jamais deixou de receber um cheque pelas despesas.

—  E então? — Alan perguntou.

—  Está certo. Você a leva para o hotel. Mas, lembre-se do que você mesmo disse. Eu sou melhor para pegar o dinheiro. E sempre vou ser.

- Claro. Você tem faro para ele — Alan comentou. O sorriso era frio. — Farejou o dinheiro de Mary bem depressa, não foi?

—  Vá   embora  —  Max   disse.

-— Verdade demais no que eu disse?

—  Saia daqui antes que se veja olhando para a sua própria bunda pelo resto da vida.

Alan piscou.

Max não.

Alan aproximou-se de Harley Barnes.

Gradualmente, Max deu-se conta de que várias pessoas da multidão olhavam para ele. Fitou-as, uma de cada vez. E cada uma sentiu-se intimidada e desviou a vista, embora voltassem todos a fitá-lo, assim que seu olhar se transferiu para outrem.

Ninguém se achava suficientemente próximo para ter ouvido a discussão. Max entendeu que as pessoas o fitavam porque seu rosto se achava desfigurado de cólera, os ombros levantados como os de uma pantera prestes, a dar o bote, porque suas mãos enormes estavam de punhos cerrados. Tentou relaxar, soltar a musculatura dos ombros. E colocou as mãos nos bolsos da capa para que não pudessem ver que estava enfurecido a ponto de não poder abri-las.

 

O quarto do hotel tinha quatro abajures com cúpulas de padrão espalhafatoso, mas apenas uma das lâmpadas estava acesa.

Sentado numa poltrona giratória de vinil preto, Alan apertou os dedos ao redor do copo de uísque que não estava bebendo. A luz incidia sobre ele, talhando seu rosto em sombras marcantes.

Mary estava na cama, sentada sobre as cobertas, bem longe da claridade. Desejava a volta de Max para que pudessem sair para cear e tomar algum estimulante. Estava cansada, com fome e emocionalmente exausta.

—  Ainda está com dor de cabeça? — Alan perguntou.

—  A aspirina ajudou.

—  Você está abatida... tão pálida.

—  Nada que oito horas de sono não curem completamente.

—  Eu me preocupo com você.

Ela sorriu com carinho. — Você sempre se preocupou comigo, meu querido. Mesmo quando éramos crianças.

—  F,u te quero muito bem.

—  Eu sei disso.

— Você é minha irmã. Eu amo você. — Eu sei, mas.. .

—  Ele pressiona você demais.

—  Não vamos começar de novo, Alan.

—  Mas é verdade.

—  Eu queria que você e Max se dessem bem.

—  Eu também. Mas nunca vai ser possível.

—  Mas. . . por quê?

—  Porque eu sei o que ele é.

—  E o que é que ele é?

—  Para início de conversa, é tão diferente de você — Alan disse. — Ele não é sensível como você. Não é tão bondoso. — Parecia implorar. — Você é gentil, e ele é. . .

—  Ele também pode ser muito gentil.

—  Pode  mesmo?

—  Comigo, pode. Ele é meigo.

—  Você tem direito à sua própria opinião.

—  Ora, ora, muitíssimo obrigada — ela respondeu ironicamente. Sentiu um rápido impulso de raiva, que logo se extinguiu. Não conseguia ficar zangada com Alan por mais de um minuto. E, mesmo um minuto já era exagero.

—  Mary, eu não quero discutir com você.

—  Então não discuta.

—  Durante trinta anos nunca tivemos uma briga... até que ele apareceu em cena.

—- Não agüento isto, esta noite.

—  Você não agüenta nada, porque ele fica pressionando demais e muito depressa quando está guiando você através das visões.

—  Ele se desincumbe bem.

—  Não tão bem quanto eu.

—  Logo no início, ele era insistente demais — ela admitiu. — Ansioso demais. Mas agora não.

Alan deixou o uísque de lado, e levantou-se, dando as costas à irmã. Foi até a janela. Um silêncio melancólico envolveu-o.

Ela fechou os olhos, desejando a volta de Max.

Depois de um minuto, Alan afastou-se da janela. Parou ao pé da cama, o olhar baixado para ela. — Tenho medo de sair de férias.

Sem abrir os olhos, ela perguntou: — Medo de quê?

—  Não me agrada deixá-la sozinha.

— Não vou ficar sozinha. Estou com Max.

—  Pois é isso mesmo o que quero dizer — sozinha com Max.

—  Alan, pelo  amor de Deus!

—  Estou sendo franco.

Ela abriu os olhos e endireitou-se na cama.


—  Você está sendo tolo. Ridículo. Não quero mais ouvir nada disso.

—  Se eu não me incomodasse com o que pode acontecer a você, eu iria embora agora mesmo. Quer você queira ou não ouvir a verdade, vou dizer o que penso ser a verdade sobre ele.

Mary suspirou.

—  Ele é um oportunista — Alan começou.

—  E daí?

—  Ele gosta de dinheiro.

—  Eu também. E você também.

—  Ele gosta demais.

Ela sorriu com indulgência. — Não acredito que se possa gostar demais de dinheiro.

—  Você não entende?

—  Quer me esclarecer, por favor?

Alan hesitou. Havia tristeza na expressão de seus olhos lindos.

—  Max gosta demais do dinheiro dos outros. Surpresa, ela o encarou. — Olhe... se está dizendo que

ele se casou comigo pelo meu dinheiro. . .

—  É exatamente o que estou dizendo.

—  Nesse caso, quem me pressiona demais é você. — Havia aço em sua voz, agora.

Alan mudou de tom com ela, falando com brandura.

—  Tudo que estou tentando é fazer com que você enfrente os fatos. Eu não...

Mary sentou-se ereta, afastando-se da cabeceira da cama.

—  Será que sou tão feia que ninguém iria me querer se eu fosse pobre?

—  Você é linda. Sabe disso muito bem.

Ela não se deu por satisfeita. — Será, então, que eu sou uniu idiota sem cabeça, que mata os homens de tédio?

- Não grite — Alan disse. — Acalme-se, por favor. — parecia sinceramente triste por tê-la magoado. Contudo, não mudou de assunto. — Uma porção de homens dariam tudo o que tem pura se casar com você. E por todas as razões certas. Por que você teria que escolher justo o Max...

Ele  foi o primeiro pretendente decente,  o primeiro homem com H maiúsculo, que me pediu em casamento.

Não é  verdade.  Sei  de  quatro  outros  que pediram você em casamento.

—  Os dois primeiros primavam pela falta de fibra — disse ela. — O terceiro era tão gentil e delicado na cama como um touro dentro de uma arena. O outro era virtualmente impotente. Max não é nada disso. Foi diferente, interessante, excitante.

—  Você não se casou com ele porque ele era excitante, ou porque era inteligente, ou misterioso, ou romântico. Você se casou com ele porque era grande, forte e vigoroso. A perfeita imagem paterna.

—  E desde quando você virou psiquiatra?

Sabia que Alan não pretendia irritá-la. Continuava a discussão apenas por achar que ela precisava ouvir. Cumpria seu papel de irmão mais velho consciencioso. Ainda que tivesse tomado o caminho errado, suas intenções eram admiráveis. Se Mary não tivesse plena certeza disso, ter-lhe-ia pedido que fosse embora.

—  Não preciso ser psiquiatra para saber que você necessita apoiar-se em alguém. Sempre foi assim. Desde o dia em que compreendeu o que era a sua clarividência, o que significava, você tem tido medo dela, é incapaz de controlá-la sozinha. Durante algum tempo apoiou-se em mim. Só que eu não era bastante alto, nem meus ombros eram bastante largos para sustentar o papel durante muito tempo.

—  Alan, pela primeira vez em minha vida, sinto vontade de dar uma bofetada na sua cara.

Ele deu a volta e veio sentar-se na beira da cama. Tomou a mão esquerda da irmã entre as suas.

—  Mary, ele era um jornalista burro-de-carga, um repórter fajuto que não havia feito uma única cobertura importante em dez anos. Você o conheceu apenas seis semanas antes de se casar com ele.

—  Foi o tempo que precisei para conhecê-lo. — Descontraiu-se e apertou a mão do irmão. — O casamento está dando certo, querido. Você devia sentir-se feliz por mim.

—  Você só está casada há quatro meses.

—  Tempo suficiente para gostar ainda mais dele do que quando me propôs casamento.

—  Ele é perigoso. Você conhece seu passado.

—  Algumas brigas de bar. .. e ele já não freqüenta espeluncas.

—  Não é coisa assim tão inocente. Ele chegou quase a matar algumas pessoas nessas arruaças.

—  Quando alguns homens bebem demais e se sentem mal, procuram justo o homem mais forte que esteja presente. Max era um alvo natural. Não foi ele quem começou nenhuma daquelas brigas.

—  Isso é o que ele diz.

—  Ninguém apresentou queixa.

—  Talvez tenham ficado  com medo.

—  Ele está mudado. Precisava de alguém que o amasse, alguém por quem ele se sentisse responsável. Precisava de mim.

Desconsolado, Alan meneou a cabeça. — Quer um drinque?

—  Vou esperar por Max.

Alan terminou seu uísque em três goles.

—  Tem certeza absoluta quanto a ele?

—  Quanto a Max? Absoluta.

Ele voltou para a janela, contemplando o céu noturno por um momento.

—  Não creio que eu volte a trabalhar com você, quando minhas férias terminarem.

Levantando-se, Mary foi até ele e fê-lo virar-se, fazendo pressão sobre o seu ombro.

—  Quer repetir?

—  Agora, eu já não passo de um pneu sobressalente.

—  Que bobagem! Você toma conta de tantos detalhes dos meus negócios.

—  Nada que uma secretária não possa fazer — Alan disse. — Antes de Max, eu era essencial. Era o seu guia através das visões. Já não há mais nada importante para eu fazer. E não preciso deste constante atrito com Max.

—  Mas o que pretende fazer?

—  Não sei ainda. Acho que vou começar tirando dois meses de férias, em vez de duas semanas. Tenho meios de subsistência. Você tem sido muito generosa e. . .

—  Generosa, não. Você fez por merecer, Alan. . .

—  Tenho dinheiro guardado o suficiente para me manter durante anos. Talvez eu volte para a universidade. . . para tirar aquele diploma em Ciências Políticas.

—  Vai sair da nossa casa em Bel-Air?

—  Seria melhor. Posso achar um apartamento.

—  Vai viver com Jennifer?

—  Ela  me abandonou — respondeu.

—  O que disse?

—  Por outro homem.

—  Eu não sabia.

—  Não tive vontade de tocar no assunto.

—  Sinto muito.

—  Não precisa. Ela não era o meu tipo.

—  Vocês dois pareciam felizes.

—  E fomos...  no princípio.

—  O que deu errado?

—  Tudo.

—  Você não vai se mudar para longe, vai?

—  Provavelmente para Westwood.

— Ah, então vamos ser praticamente vizinhos.

—  Pois é.

—  Podemos almoçar juntos uma vez por semana.

—  Está bem.

—  E jantar, de vez em quando.

—  Sem o Max? — ele quis saber. .   — Só nós dois.

—  Parece esplêndido.

Uma lágrima infantil rolou pelo rosto de Mary.

—  Para que chorar? — ele perguntou, enxugando a lágrima.

—  Vou sentir saudades.

—  Um irmão e uma irmã não podem viver juntos, na mesma casa, para sempre. É contra a natureza.

O ruído de uma chave girando na fechadura fez com que ambos se voltassem para a porta.

Max entrou e tirou a capa.

Mary foi até ele, beijando-o no rosto.

Enlaçando-a com o braço e ignorando a presença de Alan, Max perguntou:  — Está se sentindo melhor?

—  Só cansada — ela respondeu.

—  Tudo correu bem, apesar de Oberlander — Max informou. — Recebi o cheque pelas despesas.

—  Você nunca falha — disse ela orgulhosamente. Durante o diálogo, Alan foi para a porta. — Já estou

indo — disse ele.

Há apenas alguns minutos, Mary desejou que ele se retirasse antes da chegada de Max, a fim de evitar mais uma daquelas cansativas altercações. Agora, era como se Alan estivesse saindo mansamente de sua vida, e ela não queria libertá-lo assim tão cedo nem com tamanha facilidade.

—  Não pode ficar para mais um drinque?

Alan olhou para Max e sacudiu a cabeça negativamente.

—  Acho que não é aconselhável.

Max não disse nada. Não se mexeu, não sorriu, nem sequer piscou. Seu braço na cintura de Mary era como um corrimão de pedra no qual ela se apoiava.

—  Ainda não falamos sobre o que aconteceu esta noite. Há tanto a ser discutido.

—  Mais tarde — disse Alan.

—  Você ainda vai passar suas férias só subindo a Costa, de carro?

—  Vou. Primeiro, vou passar uns dias em São Francisco. Conheço uma garota lá que me convidou para o Natal. Depois disso, vou até Seattle.

—  Você me telefona?

—  Claro.

—  Quando?

—  Daqui a uma semana, mais ou menos.

—  No Dia de Natal?

—  Combinado.

—  Vou sentir muitas saudades, Alan.

—  Cuide-se bem.

-— Eu cuido dela — Max interveio. Alan ignorou-o. A Mary, ele disse: — Tenha cuidado, sim? E lembre-se do que eu disse.

Saiu, fechando a porta, e deixando Mary a sós com Max.

 

A pequena taberna no centro da cidade estava parcamente iluminada, muito movimentada ao aproximar-se da meia-noite, mas aconchegante, apesar da aglomeração. Mary p Max sentaram-se num reservado de canto, e o bartender preparou-lhes dois vodca-martínis perfeitos. Depois, comeram sanduiche de rosbife e dividiram uma garrafa de vinho tinto.

Após dar conta de metade do enorme sanduíche, afastando o que sobrou, Mary serviu-se de seu terceiro copo de vinho o começou a falar.

—  Será que as contas de hospital de Dan Goldman têm cobertura?

—  A municipalidade tem um programa de seguros muito amplo para a polícia — Max disse. — Goldman foi ferido no cumprimento do dever, de forma que não vai desembolsar um níquel para o tratamento.

—  Como pode ter tanta certeza?

—  Eu sabia que você ia querer que eu tivesse certeza.

—  Não estou entendendo...

—  Eu sabia que você iria se preocupar com as contas de hospital de Goldman, portanto perguntei ao prefeito.

—  Mesmo que cubram as despesas do hospital — Mary argumentou — acho que vai perder o pagamento pelos dias que não trabalhar.

—  Não — Max respondeu. — Também me informei sobre isso.

Ela mostrou-se surpresa. — O que você é? Lê os pensamentos dos outros?

—  É que eu conheço você muito bem. É o coração mais mole que já existiu.

—  Não sou. Só que acho que devíamos fazer alguma coisa boa para ele.

Max largou o sanduíche. — Podemos comprar um novo range elétrico para ele, ou um forno a microondas. Ela piscou. — O quê?

—  Perguntei a alguns colegas de Goldman o que é que ele está precisando. Parece que é um chef amador muito compenetrado, mas sua cozinha deixa muito a desejar.

Ela sorriu. Vamos dar-lhe o range, e o forno, e a melhor bateria de panelas e caçarolas...

—  Calma, calma — Max interrompeu. — Ele tem uma pequena cozinha de apartamento, não um restaurante. Além disso, por que acha que deve alguma coisa a ele?

De olhos fixos no vinho, ela respondeu: — Se eu não tivesse vindo a esta cidade, ele não teria se ferido.

—  Mary Bergen, versão moderna de Atlas, carregando o mundo sobre os ombros. — Estendeu o braço sobre a mesa e tomou-lhe a mão.

—  Lembra-se da nossa primeira conversa?

—  Como poderia esquecer? Achei você um homem muito misterioso.

Na noite em que se conheceram, Max se mostrou atipicamente tímido. Eram convidados da mesma festa. Ele parecia à vontade e seguro com todos, menos com Mary. Aproximou-se tão acanhado e desajeitado que a moça ficou penalizada. Ele deu início à conversa com uma brincadeira de salão do tipo de auto-analise.

Ela sorriu ao recordar-se. — Você me perguntou que máquina eu escolheria se pudesse ser qualquer máquina do mundo. Muito estranho!

—  A última mulher que respondeu a pergunta disse que gostaria de ser um Rolls-Royce para poder freqüentar os lugares mais sofisticados. Mas você disse que gostaria de ser um instrumento médico que salvasse vidas.

—  Foi uma boa resposta?

—  Na ocasião — Max respondeu — pareceu falsa. Mas agora que sei como você é, entendo como estava falando a sério.

—  E como eu sou?

—  O tipo de pessoa que sempre pergunta por quem os sinos dobram. . . e sempre chora horrores mesmo nos filmes só um pouquinho tristes.

Ela tomou um pouco do vinho. — E eu fiz a brincadeira com você naquela noite, e perguntei que máquina você seria. Lembra-se?

Max meneou a cabeça. Deixando o resto do sanduíche inacabado de lado, pegou o copo de vinho.

—  Eu disse que seria um serviço de programação de computadores só para programar você para mim.

Ela riu como uma menina.

—  Eu gostei da resposta na ocasião, e gosto dela ainda hoje. Foi uma surpresa descobrir o romântico atrás desse exterior de homem grande e durão.

Max debruçou-se sobre a mesa, falando docemente. — Sabe o que eu seria esta noite? — Apontou para a vitrola automática, colorida, no fundo do bar. — Eu seria aquela máquina. E qualquer botão que as pessoas apertassem, eu só tocaria canções de amor para você.

—  Oh, Max, isso é positivamente piegas.

—  Mas você gostou.

—  Amei! Afinal, eu sou aquela que chora horrores mesmo quando o filme é só um pouquinho triste.

 

O pesadelo despertou-a. O sonho, porém, continuou. Por instantes, depois de sentar-se aterrorizada na cama, levantando a cabeça dos travesseiros, fragmentos coloridos do pesadelo bailavam suspensos no ar, à sua frente. Fotografias etéreas. Sangue. Corpos destroçados. Crânios esfacelados. Figuras mais vividas do que qualquer visão que já havia tido.

As sombras do quarto do hotel voltaram a fechar-se sobre ela. Quando se acostumou à escuridão, o suficiente para distinguir os contornos da mobília, levantou-se.

O quarto era um carrossel. Estendeu o braço, procurando um mastro de bronze que não existia, algo em que se apoiar

Ao recobrar o equilíbrio, foi para o banheiro. Não fechou a porta, preocupada em não despertar Max e, pela mesma razão, não acendeu a luz do teto. Ao invés, ligou a mais fraca lâmpada alaranjada do aquecimento.

À luz fantasmagórica, sua imagem no espelho deixou-a perturbada: círculos escuros ao redor dos olhos, a pele flácida e úmida. Havia se acostumado a ver a figura que causava inveja à maioria das mulheres: negros cabelos sedosos, olhos azuis, feições finamente cinzeladas, pele sem um único defeito. Agora, a pessoa refletida no espelho parecia-lhe desconhecida, estranha.

Sentiu-se pessoalmente ameaçada pelo que estava vendo. Os corpos sem vida do pesadelo eram os primeiros liames de uma corrente da qual ela era o elo final.

Bebeu um copo de água fria, depois outro. O vidro batia contra seus dentes. Teve que usar as duas mãos para segurá-lo.

Sempre que fechava os olhos, tornava a ver resquícios do pesadelo. Uma jovem de cabelos escuros, com um olho azul voltado cegamente para o teto. O outro olho estava inchado, num piscar macabro. O rosto rasgado, machucado, disforme.

Pior ainda, Mary sabia que se o sangue daquele rosto fosse lavado, se suas feições deformadas fossem restauradas, ela o reconheceria imediatamente.

Pousou o copo, recostando-se na pia.

Quem? pensou. Quem era aquela moça?

O rosto deformado não revelaria seu segredo.

Como se o horror do sonho não a satisfizesse, lembrou-se do psicopata que morreu nesta mesma noite: a fisionomia retorcida, os dente de marfim, as mãos comprimindo as janelas do carro-patrulha, a voz sussurrante, fria como o ar de um celeiro — pronunciando seu nome...

Ele foi um presságio; um alerta para ela.

Mas... presságio de quê?

Talvez não houvesse mistério algum no fato do assassino saber seu nome. Poderia ter ouvido falar que Mary Bergen se encontrava na cidade, ainda que a informação se limitasse a um pequeno grupo. Poderia tê-la reconhecido pela fotografia que acompanhava sua coluna, mesmo não sendo um bom retrato, tirado há seis anos. Esta foi a explicação de Alan.

Ainda que lhe faltasse uma boa razão para discordar de Alan, sabia que a justificativa era falha.

Talvez o louco a tivesse reconhecido em virtude de sua primeira (e necessariamente última) experiência telepática, no instante em que a morte reclamava sua alma.

Ou, talvez, o incidente tivesse um significado impossível de ser definido em termos racionais. Quando recordou a expressão satânica do criminoso, ocorreu-lhe um pensamento. Ele é o Mensageiro do Inferno, o Mensageiro do Inferno.. . Mary não sabia o que isto poderia significar. No entanto, não desprezou o pensamento apenas por ter um cunho sobrenatural.

Em suas longas viagens, em suas muitas conversas com clarividentes, como Peter Hurkos e Gerard Croiset, em seus diálogos e correspondência com outras pessoas psiquicamente dotadas, passou a acreditar que tudo era possível. Esteve em casas onde poltergeists[2] entravam em atividade e, nessas ocasiões, pratos e quadros, quinquilharias e peças de mobília cortavam o ar, indo chocar-se contra as paredes, sem que ninguém tivesse tocado ou sequer se aproximado desses objetos. Ainda não havia chegado a uma conclusão: se, acaso, se tratava do trabalho de espíritos, ou se, ao contrário, era tudo resultado dos poderes telecinéticos subconscientes de alguém presente. Mas sabia, com certeza, que alguma coisa havia. Testemunhou Ted Sérios produzir suas famosas fotografias psíquicas, que o Time e a Popular Photography, bem como muitas outras publicações nacionais, tentaram, sem sucesso, desmoralizar. Sérios projetava seus pensamentos sobre filmes virgens e fazia-o sob o escrutínio intenso de cientistas céticos. Também viu um místico hindu — um faquir — realizar o impossível. Ele plantou uma semente num vaso cheio de terra, cobrindo-o com um leve pano de musselina verde, e entrou em transe profundo. Mary ficou observando, e antes que se passassem cinco horas, a semente germinou, a planta cresceu e deu frutos — diversas mangas minúsculas. Devido a duas décadas de convivência com fatos prodigiosos da vida, Mary aprendeu a não zombar do que quer que fosse. Até que alguém conseguisse provar, sem sombra de dúvida, que todos os fenômenos paranormais e sobrenaturais não passavam de fraude (o que ninguém jamais poderia provar), depositaria tanta fé no sobrenatural, no supranatural e no supra-racional quanto depositava nos mais dogmáticos que insistiam ser este um só, verdadeiro, natural e único mundo.

. . . Mensageiro do Inferno.

Meio convencida, embora, de que existia, vida além da morte, não acreditava que os mitos judaico-cristãos descrevessem essa outra vida acuradamente. Não aceitava a realidade de Céu e Inferno. Era uma explicação simplista. No entanto, já que não acreditava, por que esta certeza irredutível de que o psicopata representava um pressagio satânico? Por que dar à premonição um sentido religioso?

Estremeceu. Sentia-se gelada até a medula.

Voltou ao quarto, deixando acesa a luz do banheiro. Sentia-se aflita nas trevas. Vestiu o robe.

Max ressonava serenamente. Mary acariciou-lhe a face com a ponta dos dedos.

 

Ele despertou no mesmo instante. — O que aconteceu?

—  Estou com medo. Preciso falar. Não suporto me sentir sozinha.

Max fechou os dedos ao redor do pulso de Mary. — Eu estou aqui.

—  Vi uma coisa horrível. . . terrível. — Estremeceu novamente.

Max sentou-se na cama, acendeu a luz do abajur, olhando à volta do quarto.

—  Visões — ela explicou.

Ainda segurando o pulso da esposa, puxou-a para a cama.

—  Começaram enquanto eu dormia — disse ela. — E continuaram depois que acordei.

—  Começaram quando você estava dormindo? Isto nunca aconteceu antes, não é?

— Nunca.

Neste caso, pode ter sido só um sonho.

—  Eu conheço a diferença.

Max soltou-lhe o pulso, afastando os cabelos que lhe caíam sobre a testa. — Que espécie de visão?

—  Gente morta.

—  Acidente?

—  Assassinatos. Pessoas surradas e esfaqueadas.

—  Onde?

—  Bem longe daqui.

—  Nome da cidade?

—  Ao sul de onde estamos.

—  É tudo o que sabe?

—  Acho que é em Orange County, Santa Anna, talvez. Ou Newport Beach. Laguna Beach. Anaheim. Algum lugar assim.

—  Quantos mortos?

—  Uma porção. Quatro ou cinco mulheres. Todas no mesmo lugar. E...

—  E o quê?

—  São as primeiras de muitas outras.

—  É um pressentimento?

—  Sim.

—  Pressente isto fisicamente?

—  Sim.

—  As primeiras de quantas?

—  Não sei.

—  Viu o assassino?

—  Não.

—  Alguma característica dele?

—  Não.

—  Nem mesmo a cor do cabelo? — Nada, Max.

—  Essa matança... já começou?

—  Acho que não. Mas não posso ter certeza. Fiquei tão surpresa com as visões que nem tentei me concentrar nelas. Não me entreguei a elas como devia ter feito.

Ele se levantou e vestiu seu roupão. Ela se pôs de pé, mexendo-se contra o corpo do marido.

—  Você está tremendo — ele disse.

Mary queria sentir-se amada e protegida. — Foi horrível!

—  Sempre é.

—  Foi muito pior do que antes.

—  Bem, mas já acabou.

—  Não. Para aquelas mulheres, sim, talvez já tenha acabado ou logo vai acabar. Mas não para nós. Vamos nos envolver nesse caso. Oh, Deus, tantos corpos, tanto sangue! E eu acho que conhecia uma das moças mortas.

—  Quem era ela? — Max perguntou, abraçando-a ainda com mais força.

—  O rosto; que eu vi estava tão desfigurado. Não sei dizer quem era, mas parecia familiar.

—  Tem que ter sido apenas um sonho — disse ele, acalmando-a. — As suas visões não costumam ocorrer assim, sem mais nem menos. Você sempre tem que se concentrar, fixar sua atenção a fim de recebê-las. Como quando começa a seguir a pista de um assassino e tem que segurar algum objeto que tenha pertencido à vítima antes que possa receber imagens do criminoso.

Ele repetia o que Mary já sabia, tranqüilizando-a como um pai que explica à filhinha ainda assustada que os fantasmas vislumbrados no quarto escuro não passavam, afinal, do movimento das cortinas batidas pela brisa que agora, com as luzes acesas, ela podia ver.

Na verdade, pouco importava o que ele dizia. Só de ouvir o som de sua voz e senti-lo junto a si, já a acalmava.

—  Mesmo quando você está procurando um anel, ou um colar, ou um broche perdido — Max prosseguiu — você tem que ver a caixa ou a gaveta onde a jóia ficava guardada. Portanto, o que viu hoje à noite tem que ter sido um sonho, pois você não tentou ter a visão.

—  Já estou me sentindo melhor.

—  Ótimo.

—  Mas não é porque acredito que foi tudo um sonho. Sei que foi uma visão. Aquelas mulheres eram reais. Ou já estão mortas agora, ou estarão em breve. — Pensou nos rostos brutalmente seviciados e continuou. — Deus as ajude!

—  Mary. . .

—  Foi real — ela insistiu, soltando a mão de Max e sentando-se no colchão. — E vai nos envolver.

—  Está dizendo que a polícia vai pedir nossa ajuda?

—  Mais do que isso. Vai nos afetar... intimamente. É o princípio de algo que vai mudar nossas vidas.

—  Como pode saber?

—  Do mesmo modo que sei tudo o mais a respeito. Ê um pressentimento psíquico.

—  Quer vá ou não mudar nossas vidas — ele disse — será que podemos ajudar essas mulheres de algum modo?

—  Sabemos tão pouco. Se chamarmos a polícia, não teremos nada de concreto para contar.

—  E já que você não sabe em que cidade vai acontecer, não sabemos nem que delegacia de polícia devemos avisar. Será que você pode tentar a visão novamente?

—  Nem adianta tentar. Desapareceu.

—  Talvez volte espontaneamente, da mesma maneira que veio pela primeira vez.

—  Talvez. — E a possibilidade deixou-a gelada. — Espero que não. Acontece que as visões horríveis que tive na vida já foram demais. Não quero que elas comecem a aparecer quando não estou preparada, quando não as pedi. Se isto virar coisa de rotina, vou acabar no hospício.

—  Se não há nada que possamos fazer quanto ao que você viu — Max decidiu — o melhor é esquecermos tudo por enquanto. Você está precisando beber alguma coisa.

—  Eu bebi um pouco d'água.

—  Quem falou em água? Você precisa de um estimulante. Ela sorriu. — A esta hora da madrugada?

—  Ainda não é madrugada. Fomos cedo para a cama, lembra-se? E só dormimos uma meia hora ou pouco mais.

Ela olhou para o relógio de cabeceira. Onze e dez.

—  Eu pensei que tinha me apagado durante horas e horas.

—  Nada mais que minutos — ele disse. — Vodca e tônica?

—  Uísque, se é o que você vai beber.

Ele foi até a mesinha de café perto da janela. As garrafas de bebidas, os copos e o gelo se encontravam sobre ela. Apesar do tamanho, Max não era canhestro. Movia-se como um animal selvagem —- com movimentos fluidos e silenciosos. Mesmo o simples ato de preparar as bebidas era uma demonstração de elegância quando executado por ele.

Se todos fossem assim, Mary pensou, o adjetivo "desajeitado" não existiria.

Ele veio sentar-se ao seu lado na beira da cama.

—  Será que vai poder pegar no sono novamente? — Duvido.

—  Beba.

Ela tomou um gole do uísque. Queimou-lhe a garganta.

—  O que é que a preocupa? — ele perguntou.

—  Nada.

—  Está preocupada com a visão.

—  De maneira alguma.

—  Olhe, preocupar-se não resolve nada — disse ele. — E o que quer que tenha vontade de fazer, não pense numa girafa azul em cima de uma torta gigante.

Ela fitou o marido — atônita.

—  No que está pensando agora? — ele perguntou sorrindo.

—  No que poderia ser? Numa girafa azul em cima de uma torta.

—  Está vendo? Fiz você parar de preocupar-se com a visão.

Ela riu. A expressão de Max era sempre tão severa, tão fechada, que seus rasgos de humor vinham sempre como uma surpresa.

—  Falando de azul — ele comentou — você fica uma perfeição nesse negligé.

—  Eu já o usei antes.

—  E sempre que o usa, fica linda de morrer. Perfeita. Beijaram-se. Com a ponta da língua, Mary explorou os

lábios do marido. De repente, provocantemente, parou.

—  Você fica linda nesse robe, e ainda mais linda sem ele. — Colocou o copo ao lado do dela sobre a mesinha de cabeceira. Desfez o nó do cinto preso na cintura e abriu o longo negligé azul.

Um estremecimento de prazer percorreu o corpo de Mary. O ar fresco acariciava-lhe a pele nua. Sentia-se lassa e indefesa. Precisava dele.                                                                   

Com suas mãos pesadas, agora leves como plumas, Max ia traçando círculos sobre os seios de Mary, apertando-os, massageando-os suavemente. Ajoelhou-se diante dela, encostando o rosto no rego dos seios e beijando os mamilos.

Mary tomou a cabeça do marido entre as mãos, correndo os dedos pelos cabelos lustrosos e abundantes.

Allan estava errado.

—  Meu Max adorável — ela murmurou.

Os lábios de Max desceram pelo ventre firme de Mary, quando ela deixou-se cair na cama. Max beijou-lhe o interior das coxas, lambendo delicadamente o cálido sexo. Passando as mãos sob as nádegas de Mary, levantou-as levemente.

Depois de muitos minutos, durante os quais os sussurros da esposa elevavam-se e acalmavam-se, elevavam-se e acalmavam-se como o enigmático murmúrio das marés, ele levantou a cabeça.

—  Eu te amo.

—  Então venha me amar.

Ele tirou o roupão e juntou-se a ela na cama.

 

Exaustos e felizes, seus corpos se separaram à meia-noite, mas o enlevo não se rompeu. Ainda em estado de encantamento, olhos fechados, ela flutuava. De maneiras diversas, sentia seu corpo mais intensamente do que sentiu enquanto fazia amor.

Dentro de minutos, no entanto, lembranças da visão voltaram-lhe à mente: rostos ensangüentados e retorcidos. De olhos cerrados, o interior de suas pálpebras eram duas telas idênticas onde nada via, exceto cenas de massacre.

Abriu os olhos e o quarto pareceu pulular de estranhas formas. Mesmo não desejando acordar o marido, não podia evitar virar-se e agitar-se.

Ele acabou por acender a luz.

Você precisa de um sedativo. — Botou as pernas para fora da cama.

Eu mesma pego — ela disse.

— Fique aí quietinha.

Um minuto depois, voltava do banheiro com um copo d'água e uma das cápsulas que ela freqüentemente precisava tomar.

— Acho quê não devia tomá-la depois de beber álcool — ela disse.

—  Você só bebeu metade do seu uísque.

—  Mas eu já tinha tomado vodca antes.

—  A esta hora, seu organismo já eliminou a vodca.

Ela tomou o sedativo. Ficou preso na garganta. Ela o empurrou com mais um gole de água.

Novamente na cama, ele segurou-lhe a mão, e continuou segurando até que o sono quimicamente induzido começasse, enfim, a invadi-la.

Enquanto a consciência se afastava, como uma bola de brinquedo rolando ladeira abaixo, ela pensou em Alan, em quão errado estava a respeito de Max, quão terrível e absolutamente errado.

 

Terça-Feira, 22 de Dezembro


—  Delegacia de Polícia de Anaheim.

—  A senhorita pertence à força policial?

—  Sou a recepcionista.

—  Eu poderia falar com um policial, por favor?

—  Qual a natureza da queixa?

— Oh, não se trata de queixa. Acho que vocês fazem um trabalho esplêndido.

—  Não, não, eu perguntei se a senhora está denunciando um crime.

—  Não sei bem. Uma coisa muito estranha aconteceu aqui.

—  Seu nome, por favor?

—  Alice. Alice Barnable.

—  Endereço?

—  Peregrine Apartments,  na Euclid Avenue.  Moro  no apartamento B.

—  Vou ligá-la com o encarregado.

—  Sargento Erdman falando.

—  É um sargento de verdade?

—  Quem está falando?

—  Sou a Sra. Alice Barnable.

—  Em que posso servi-la?

—  O senhor é um sargento de verdade? Tem uma voz tão juvenil.

—  Sou policial há vinte anos. Se a senhora. ..

—  Tenho setenta e oito anos, mas não estou gagá.

—  Não foi isso o que eu disse.

—  Tanta gente nos trata, a nós, cidadãos idosos, como se fôssemos crianças.

—  Eu não, Sra. Barnable. Minha mãe tem setenta e cinco anos e é mais viva do que eu.

—  Neste caso, é melhor acreditar no que vou contar.

—  E de que se trata?

—  O apartamento em cima do meu é dividido por quatro enfermeiras, e eu sei que elas estão passando por alguma espécie de apuro muito sério. Tentei telefonar, mas ninguém atende.

—  Como sabe que se trata de encrenca?

—  Há uma poça de sangue no meu banheiro extra.

—  Sangue de quem? Temo não estar entendendo o que pretende me contar.

—  O encanamento de água que serve o apartamento acima do meu não é embutido, e sobe por um canto do meu banheiro extra. Pois bem, não quero que o senhor pense que moro num lugar barato. O encanamento é todo pintado de branco, mal se nota que ele existe. O edifício é antigo, mas de boa qualidade, a seu próprio modo. Não é um lugar vulgar. Tem finura. O meu Charlie me deixou o suficiente para eu viver com muito conforto.

—  Tenho certeza que sim, Sra. Barnable. E quanto ao sangue?

—  Esses canos atravessam um buraco no teto, e esse buraco é uma coisinha de nada maior do que o necessário. Meio centímetro de folga ao redor do cano. Durante a noite, pingou sangue por esse buraco. O encanamento está todo manchado e tem uma poça pegajosa no chão do meu banheiro.

—  A senhora tem certeza de que é sangue? Não poderia ser água com ferrugem ou.. .

—  Agora o senhor está me tratando como se eu fosse uma criança, Sargento Erdman.

—  Desculpe.

—  Eu sei o que é sangue quando o vejo. E estive pensando — estive pensando se o seu pessoal não devia dar uma olhada lá em cima.

 

Os patruheiros Stambaugh e Pollini descobriram que a porta estava encostada, e com impressões digitais gravadas em sangue seco.

—  Acha que ele ainda está lá dentro? — Stambaugh perguntou.

—  Nunca se sabe. Proteja-me.

Pollini entrou, de arma na mão, e Stambaugh seguiu-o.

A sala de estar era modesta, mas agradavelmente mobiliada com móveis de vime e palhinha. Nas paredes brancas, gravuras coloridas de palmeiras, aldeias nativas e moças muito morenas, de seios nus e sarongues de listras.

Acharam o primeiro cadáver na cozinha. Uma jovem, num pijama verde e preto. Caída ao chão. De costas. Os longos cabelos loiros, entremeados de placas vermelhas coaguladas, abriam-se como um leque. Havia sido esfaqueada — e o rosto recebeu mais de um pontapé.

—  Meu Jesus! — Stambaugh disse. — Que coisa, hein?

—  Você não se sente mal?

Pollini indicou as coisas sobre o tampo da pia — um prato de papel, duas fatias de pão, um pote de mostarda, um tomate, um pedaço de queijo.

—  Isso é importante? — Stambaugh perguntou.

—  Significa que ela acordou durante a noite. Talvez sofresse de insônia. Estava preparando um lanche quando ele entrou. Não parece que tenha oposto violência. Ou ele a surpreendeu, ou ela o conhecia e confiava nele.

—  Será que devíamos ficar comentando?

—  Por que não?

Stambaugh apontou para os cômodos que ainda não haviam sido revistados.

—  O assassino? Já foi embora há muito tempo. Stambaugh nutria grande admiração pelo companheiro. Era oito anos mais moço que Pollini. Estava na polícia há apenas seis meses, enquanto que o patrulheiro mais idoso já se encontrava na força policial há sete anos. Na opinião de Stambaugh, Pollini possuía todos os requisitos de um legítimo defensor da lei — inteligência, coragem e conhecimento das ruas.

Acima de tudo, Pollini era capaz de executar seu trabalho sem se deixar envolver por ele. Não recuou à vista dos corpos esfacelados, nem mesmo quando encontrou a mais patética de todas as vítimas — o corpinho todo quebrado de uma criança. Pollini era uma rocha!

Mesmo tentando imitar seu mentor, Stambaugh usualmente sentia náuseas ao ver sangue derramado.

—  Venha — disse Pollini.

Levou Stambaugh de volta pelo corredor, até chegarem ao banheiro extra. A luz crua se refletia na porcelana suja de sangue e no tampo do toucador sinistramente avermelhado.

—  Desta vez houve luta — foi o comentário de Pollini.

—  Mas não muito renhida. Acabou-se em questão de minutos.

Encontraram outra moça, só de calcinhas, encolhida em posição fetal a um canto do banheiro. Retalhada vezes e vezes nos seios e no ventre, nas costas e nádegas. Havia sido esfaqueada de cinqüenta a cem vezes.

O sangue coagulou numa poça ao redor do cano que subia do apartamento térreo da Sra. Barnable.

—  Engraçado... — disse Pollini.

— Engraçado! — Stambaugh jamais tinha visto tamanha carnificina. Não conseguia apreender a mente violenta que originou todo aquele horror.

—  Engraçado que ele não tenha estuprado nenhuma delas.

—  É o que deveria ter feito?

—  É, em geral, o que esse tipo de criminoso faz, noventa por cento das vezes.

No quarto principal encontraram uma ruiva, nua, na cama mais próxima à porta. Com a garganta cortada.

—  Nenhum luta — Pollini comentou. — Pegou-a enquanto dormia. Também não parece que tenha violentado esta aqui.

Stambaugh sacudia a cabeça. Havia perdido a fala.

Parece que as duas jovens encontradas no quarto principal eram católicas, se não beatas, pelo menos fiéis ao seu credo. Vários objetos religiosos estavam espalhados pelo chão.

Na mesa de cabeceira ao lado da cama onde se achava a moça ruiva, havia um crucifixo partido. A cruz de madeira tinha sido quebrada em quatro pedaços. A imagem de Cristo, em alumínio, foi dobrada à altura da cintura, de modo que a coroa de espinhos tocava os pés nus — e a cabeça da imagem estava torcida, com a face voltada para trás. 

—  Isto aqui não se quebrou acidentalmente durante a luta — Pollini disse, curvando-se sobre os restos do crucifixo. — O assassino arrancou a cruz da parede e gastou um bocado de tempo destruindo a peça.

Duas estatuetas religiosas estavam sobre a penteadeira. Também despedaçadas, e alguns cacos haviam sido esmigalhados até se transformarem num pó esbranquiçado. Havia pegadas brancas no tapete.

—  Ele tem mesmo alguma coisa contra os católicos — Pollini disse. — Ou contra a religião em geral.

Relutando, Stambaugh acompanhou-o até o próximo leito.

A quarta mulher morta foi esfaqueada repetidamente e depois estrangulada com um rosário.

Em vida, devia ter sido linda. Mesmo agora, nua e fria, o cabelo pegajoso de sangue, o nariz quebrado, um dos olhos inchado e fechado, o rosto dilacerado, ainda guardava traços de beleza. Em vida, seus olhos azuis deviam ter sido límpidos como lagos de montanha. Lavado e penteado, o cabelo devia ter sido espesso e brilhante. Tinha longas pernas bem torneadas, cintura delicada, ventre reto e seios adoráveis.

Já vi mulheres como ela, Stambaugh pensou com tristeza. Teria andado com firmeza, os ombros jogados para trás, com evidente orgulho de si mesma, irradiando alegria a cada passo.

—  Era enfermeira — Pollini informou.

Stambaugh viu o uniforme e a touca sobre uma cadeira perto da cama. Suas pernas ficaram bambas.

—  O que é que há? — Pollini perguntou. Stambaugh hesitou, pigarreou.

—  Bem, é que a minha irmã também é enfermeira.

—  Esta aqui não é sua irmã, é?

—  Não. Mas são mais ou menos da mesma idade.

—  Você conhece esta mulher? Ela trabalhava com sua irmã?

—  Nunca a vi antes — Stambaugh respondeu.

—  Então, o que é que há?

—  Essa moça poderia ter sido minha irmã.

—  Tá ficando maluco?

— Estou bem. Estou ótimo. . .

—  Você acaba se acostumando com este negócio. Stambaugh guardou silêncio.

—  Esta foi violentada — Pollini informou. Stambaugh engoliu em seco. Estava ficando tonto.

—  Vê aquilo? — Pollini indagou.

—  O quê?

—  Nos pêlos púbicos. É esperma.

—  Ahn...

—  Será que a violentou antes ou depois?

—  Antes ou depois do quê?

— Antes ou depois de matá-la.

Stambaugh correu para o banheiro e, ajoelhando-se na frente do vaso sanitário, vomitou.

Quando os espasmos cederam, deu-se conta de que nos dez minutos anteriores havia aprendido algo de muito importante a seu próprio respeito. Apesar do que havia pensado de manhã, jamais queria ser como Ted Pollini.

 

Max voltou para o quarto às onze e meia, justo quando ela acabava de vestir-se. Beijou-a na boca, levemente. Max cheirava a sabonete, loção de barba, e o fumo de cachimbo com odor de cereja que era o seu preferido.

—  Foi dar um passeio? — Mary perguntou.

—  A que horas você acordou?

—  Há uma hora atrás.

—  Eu me levantei às oito e meia.

—  Dormi dez horas. Quando, afinal, consegui me arrancar da cama, estava me sentindo dopada. Não devia ter tomado aquele sedativo depois de ter bebido.

—  Você estava precisando.

—  Mas não precisava me sentir assim como estou me sentindo hoje.

—  Você parece ótima agora.

—  Por onde andou?

—  No salão de chá, no térreo. Pedi torradas e suco de laranja. Aproveitei para ler os jornais.

—  Alguma notícia relacionada com o que eu vi ontem à noite?

—  O jornal local fez uma boa reportagem. Você e Barnes agarrando "O Retalhador". Disseram que Goldman já está fora de perigo.

—  Não era sobre isso que eu queria saber. As mulheres mortas da minha visão. Saiu alguma coisa sobre elas?

—  Nada nos jornais.

—  Vai sair hoje à tarde.

Uma expressão de preocupação passou pelo rosto de Max. Pousou a mão sobre o ombro de Mary.

—  Você precisa relaxar de vez em quando. Deve deixar a cabeça descansar vez por outra. Não corra atrás das coisas, Mary. Esqueça a visão. Por favor. Por mim?

—  Não posso — disse ela desconsolada, e desejando desesperadamente que pudesse esquecer.

 

Antes de deixarem a cidade, pararam numa loja de eletrodomésticos, escolheram e compraram um range elétrico e um forno a microondas para Dan Goldman.

Mais tarde, sairam da rodovia principal em Ventura, e foram almoçar num restaurante que já conheciam. Pediram salada, filés e uma garrafa de Cabernet Sauvignon de Robert Mondavi.

Da mesa onde estavam, podiam contemplar o mar. As águas cinzentas como ardósia pareciam um espelho refletindo o céu turbulento. A maré estava alta e rápida. Algumas gaivotas voavam na linha d'água.

—  Vai ser bom voltar para casa — disse Max. — Devemos estar em Bel-Air antes das duas da tarde.

—  Do jeito que você guia, vamos chegar muito antes.

—  Podíamos dar um pulo em Beverly Hills, fazer algumas compras de Natal.

—  Já que vamos chegar cedo em casa, eu prefiro ir ver meu analista. Tenho hora marcada para as quatro e meia. Tenho faltado muito ultimamente. Faço minhas compras amanhã. Além disso, ainda nem pensei nos presentes de Natal. Não faço a mínima idéia do que vou comprar para você.

—  Entendo o seu problema — disse ele — Eu sou o homem que tem tudo.

—  Ah, é?

—  Lógico. Eu tenho você.

—  Max!, que fora de moda!

—  Mas é verdade.

—  Você me faz corar.

—  Isso nunca foi difícil.

Ela pousou a mão direita na face. — Posso até sentir o rubor. Quem dera que eu pudesse me controlar.

—  Ainda bem que não pode — Max disse. — É lindo. É sinal de sua inocência.

—  Eu? Inocente?

—  Como um bebê.

—  Lembra-se de ontem à noite na cama? — E eu podia esquecer?

—  Aquilo era inocência?

—  Foi o sétimo céu.

—  Pois então!

—  Mas você continua ruborizada.

—  Ora, beba seu vinho e cale a boca.

— Ainda continua ruborizada — ele disse.

—  Eu estou vermelha por causa do vinho.

—  Continua ruborizada.

—  Vá pro inferno — disse ela com carinho.

—  Ainda continua ruborizada. Ela riu.

Além da janela, nuvens espessas e ameaçadoras continuavam a rolar vindas do mar alto.

Enquanto tomavam spumoni e café, Mary perguntou: — O que acha de adoção?

Max balançou a cabeça em fingido desespero.

—  Já somos velhos demais para arranjarmos novos pais. Quem ia querer crianças crescidas como nós dois?

—  Falando sério — ela pediu.

Ele a fitou por um longo momento, descansando a colher sem tomar o spumoni.

—  Você realmente está falando de nós, você e eu. . . adotarmos uma criança?

Mary sentiu-se encorajada pela surpresa na voz do marido.

—  Já conversamos sobre formarmos uma família — argumentou. — E já que nunca vou poder ter meu próprio bebê. . .

—  Quem sabe, terá?

—  Não, não — respondeu. — O médico deixou tudo muito claro.

—  Até os médicos cometem erros, às vezes.

—  Desta vez, não — disse ela, tão baixinho que mal podia ser ouvida.

—  Está tudo errado demais.. . dentro de mim — continuou. — Nunca vou poder ter um filho, Max. Nunca.

—  Adoção... — Max ponderou enquanto tomava o café. Gradualmente o sorriso foi surgindo. — Puxa! Seria formidável. Uma menininha bem bonita.

—  Eu estava pensando num menino.

—  Bem, este é um assunto que não se pode marcar coluna do meio.                                                                                  

—  Mas podemos marcar um duplo — ela respondeu de-   pressa. — Podemos adotar um menino e uma menina.         

—  Você pensou em tudo, não foi?

—  Ora, Max, você sabe que gostou da idéia. Eu sei. Podíamos falar com uma agência de adoção de crianças durante a semana. E se...

—  Calma... — disse ele, o sorriso desaparecendo. — Só estamos casados há quatro meses. Devíamos ir devagar, nos conhecermos melhor mutuamente. Só então, estaremos preparados para as crianças.

Ela não escondeu o desapontamento. — Quanto tempo vai levar isso?

—  O tempo que levar. Seis meses... um ano.

—  Olhe, eu conheço você. Você me conhece. Nós nos amamos e gostamos um do outro. Temos inteligência, bom senso   e carradas de dinheiro. Que mais precisamos para sermos bons pais?

—  Precisamos estar em paz intimamente — ele explicou.

—  Você já não entra mais em brigas. Você está em paz consigo mesmo.

—  Tenho meio caminho andado — ele respondeu. — E você também tem certas coisas a enfrentar.

— Como o que, por exemplo? — ela perguntou, desafiadoramente, embora já soubesse a resposta.

—  Você tem que enfrentar o que aconteceu há vinte e quatro anos, lembrar-se do que vem recusando-se a recordar. . . cada detalhe da tortura que sofreu... tudo o que aquele homem fez com você, quando tinha apenas seis anos. Enquanto não aceitar o que aconteceu, vai continuar tendo os pesadelos. Jamais terá verdadeira paz de espírito até enfrentar e exorcizar todas essas lembranças.

Ela sacudiu a cabeça, jogando os longos cabelos por sobre os ombros.

—  Não preciso enfrentar o que aconteceu naquela época para ser uma boa mãe agora.

—  Acho que precisa — disse ele mansamente.

—  Mas, Max, existem tantas crianças sem um lar, sem esperanças para o futuro. Neste instante, poderíamos dar a duas delas...

Ele apertou-lhe a mão. — Está sendo Atlas novamente. Mary, eu entendo. Há mais amor em você do que em qualquer outro ser humano que eu conheça. Você precisa distribuir esse amor, é assim que você é feita. E eu prometi que teria sua oportunidade. Mas adoção é um passo muito sério, que só duremos quando estivermos preparados.

Ela não conseguiu ficar zangada. Sorriu.

— Vou acabar vencendo você pelo cansaço. Prometo.

Ele suspirou. — E, provavelmente, vai conseguir.

 

Mary não gostava de dirigir depressa. Seu pai havia morrido num desastre quando ela contava apenas nove anos. E estavano carro quando o acidente aconteceu. Para ela, o automóvel representava uma engrenagem traiçoeira.

Como passageira, só tolerava alta velocidade quando era Max quem dirigia. Com ele ao volante, ela era capaz de relaxar e até sentir um grande contentamento vendo a paisagem ir se sucedendo. Max era seu guardião. Zelava por ela e a protegia. Era inconcebível que algum mal pudesse alcançá-la quando estava na sua companhia.

Max derivava um prazer imenso em dirigir o Mercedes a velocidades tais que testavam tanto seus talentos de piloto quanto mui habilidade em driblar os guardas de trânsito. Divertia-se tantocom o carro quanto com sua coleção de armas de fogo, enquanto guiava, entregava-se tão completamente como quando fazia amor. Numa reta longa e sem movimento, a atenção toda concentrada no veículo e no asfalto que ia vencendo, raramente tinha paciência para manter uma conversa. Parecia um pássaro predatório,   olhos  faiscantes,  silencioso,   debruçado   sobre   a direção.

Quando guiava assim, Mary pressentia a; temeridade, o gosto pela  excitação e a violência que o havia envolvido em dezenas de brigas. Estranhamente, esta faceta do caráter domarido a assustava — ao contrário, era quando o achava mais atraente.

Corriam para Los Angeles, a noventa milhas por hora.

 

A mansão em Bel-Air, com dezoito cômodos, construída em estilo Tudor, oferecia uma sensação de frescor e elegância, à sombra das árvores de dez metros de altura. A propriedade de dois acres de terra custou-lhe virtualmente cada centavo ganho com a venda de seus dois primeiros best-sellers, e ela jamais se arrependeu do que havia gasto.

Quando estacionaram no pátio circular, Emmet Churchill saiu para recebê-los. Tinha cabelos grisalhos e bigode curto. Aos sessenta anos, seu rosto ainda não apresentava rugas. A vida toda em serviço doméstico tinha sido notavelmente agradável para Emmet e sua esposa.

—  Boa viagem, Sr. Bergen?

—  Excelente — Max respondeu. — Cheguei a cento e vinte em algumas retas e Mary não gritou nem uma única vez.

—  Eu teria gritado — Emmet comentou.

Mary tinha esperanças de ver um outro Mercedes estacionado no pátio. — O Sr. Alan não está em casa?

—  Ele passou para apanhar roupas limpas — Emmet informou. — Mas estava aflito para sair de férias.

Ficou desapontada. Contava com mais uma oportunidade de convencê-lo de que ele e Max poderiam se dar bem se tentassem.

—  Como vai Anna? — perguntou a Emmet.

—  Não podia estar melhor. Quando a senhora telefonou avisando que estariam de volta hoje, ela começou logo a planejar o jantar. Está na cozinha agora.

—  Assim que Max descansar um pouco, ele irá a Beverly Hills fazer umas compras — Mary disse a Emmet. — É melhor você retirar nossas malas do carro antes que ele vá.

—  Imediatamente.

Ela caminhou para a porta da frente. — E pode tirar o meu carro da garagem? Tenho uma consulta com o Dr. Cauvel às quatro e meia. Quero. ..

O homem avançando para ela, impiedoso, vigor no punho, o facão enterrando-se em seu ventre, a lâmina girando dentro de suas entranhas, a carne rasgando-se, sangue jorrando, dor explodindo, e as trevas — flutuando, flutuando...

 

Recobrou a consciência quando Max deitou-a na cama da suíte principal, no segundo andar. Ela agarrou-se a ele. Não conseguia controlar os temores.

—  Você está bem?

—  Me abraça bem forte.

Ele obedeceu. — Calma. Calma, agora.

Ela podia sentir a batida firme e sem pressa do coração de Max. Passou-se algum tempo. — Estou com sede — ela disse.

—  Só isso? Não está machucada? Quer que eu chame o médico?

—  Só um pouco d'água.

—  Você desmaiou.

—  Mas estou bem agora.

Ao voltar do banheiro trazendo a água, ajudou-a a sentar-se na cama. Segurou o copo, virando-o devagar enquanto ela bebia, tratando dela como se fosse uma menina doente. Quando Mary terminou de beber, Max perguntou: — O que aconteceu?

—  Outra visão que eu não esperava. — Reclinou-se na cabeceira da cama. — Só que. . . foi diferente de tudo que eu vi antes.

Ela deve ter empalidecido, pois ele disse: — Acalme-se agora. Já acabou.

Max era tão bom. Maravilhoso. Tão grande e lhe dava tanta segurança.

Serenou um pouco, simplesmente porque ele lhe pediu.

—  Não foi só porque eu vi aquela coisa medonha, Max. Eu senti. Um facão. Eu senti a lâmina entrando em mim, me cortando em pedaços...

Pôs a mão sobre o ventre. Não havia ferimentos. Nem sequer uma mancha roxa. A carne nem doía.

—  Deixe-me entender direito — Max pediu. — Você não viu sendo morta a facadas?

—  Não.

—  Então, o que foi que viu?

Ela se levantou, dispensando seu auxílio quando ele se moveu para ampará-la. Foi até a janela, e contemplou a piscina de quinze metros, atrás da mansão, os jardins exuberantes e a casinha dos Churchills, nos limites da propriedade. Geralmente, deveria sentir-se mais calma com a evidência de sua prosperidade, que agora não surtia sobre ela efeito algum.

—  Era outra mulher. Não eu. Mas senti a dor dela como se fosse minha.

— Isso é inédito.

—  Pois desta vez aconteceu.

—  Já ouviu falar de algum outro clarividente ter tido a mesma experiência? Hurkos? Croiset? Dykshoorn?

—  Não. — Afastou-se da janela. — Que será que significa?  O   que  vai  acontecer   comigo?

—  Nada vai acontecer com você. — Convencido de que Mary não estava doente, Max começou o interrogatório gentil com que a orientava quer durante a progressão das visões, quer através da lembrança de uma visão passada.

—  Isso que acabou de ver, já aconteceu?

—  Não.

—  A mulher que vai ser esfaqueada... era uma daquelas que você viu no pesadelo de ontem à noite?

—  Não. É outra mulher.

—  Chegou a ver seu rosto distintamente?

—  Cheguei. Mas foi uma visão muito breve.

Mary sentou-se na poltrona bergère perto da janela. Contra o pano de veludo castanho do estofamento, suas mãos jaziam pálidas, quase translúcidas. Sentia-se mais leve que o ar, como se sua existência fosse um tênue fio, como se estivesse se desvanecendo.

—  Como era essa mulher? — Max perguntou.

— Bonita.

Ele andava diante dela, de um lado para outro.

—  Cor dos cabelos?

—  Escuros.

—  Olhos?

—  Verdes ou azuis.

—  Jovem?

—  Sim. Mais ou menos da minha idade.

—  Pressentiu seu nome?

—  Não. Mas seu rosto não me é estranho.

—  Você pensou a mesma coisa de uma das mulheres do pesadelo de ontem à noite.

Ela confirmou.

—  O que dá a você a impressão de que a conhece?

—  Não sei explicar. É só uma impressão.

—  A cena do crime é a mesma da visão de ontem?

—  Não. Esta mulher vai ser assassinada...  num salão de beleza.

—  Num cabeleireiro?

—  É. O esteticista é um homem.

—  O que vai acontecer com ele?

—  Também vai ser assassinado.

—  Outras vítimas?

—  Mais uma. Outra mulher.

Pressentiu muitas coisas durante os poucos segundos em que as imagens psíquicas haviam reluzido através de sua mente. Contudo, a cada detalhe, revivia a brutal recordação do facão que ela, Mary, havia compartilhado misticamente com a mulher agonizante.

—  Qual é o nome do salão de beleza? — Max perguntou. — Não sei.

—  Onde está localizado?

—  Não muito longe daqui.

—  Em Orange County de novo?

—  Sim.

—  Qual a cidade?

—  Não sei.

Max suspirou e foi sentar-se na outra poltrona, defronte a ela.  — O assassino é o mesmo que viu ontem à noite?

—  Sem dúvida alguma.

—  Então, ele é reincidente, psicopata, comete assassinatos em massa. Vai matar quatro ou cinco pessoas num lugar, e tres em outro lugar qualquer.

—  Isto pode ser apenas o princípio — ela disse baixinho.

—  Qual a aparência dele?

—  Ainda não sei.

—  É, um homem do tipo grandalhão ou miúdo?

—  Não sei.

—  O nome dele?

—  Tomara que eu soubesse.

—  É jovem ou idoso?

—  Não sei nem mesmo isso.

O quarto estava abafado. O ar cheirava a mofo, quase ranço. Ela se levantou e foi abrir a janela.

—  Se você não consegue visualizar a imagem dele — Max argumentou — como pode saber que é o mesmo assassino nas suas visões?

—  Só sei que posso, é tudo.

Sentou-se, o rosto voltado para a janela. Sentia-se vazia, leve. Podia imaginar-se sendo levada pela brisa, ainda que esta soprasse  suavemente.  As  visões  espontâneas  sugavam-lhe  as energias. Não poderia suportar muitas delas. Certamente, não suportaria uma vida inteira cheia delas.

Daqui a pouco, pensou, não vou precisar de um vendaval, como Dorothy, para ser carregada. Qualquer rajada de vento vai ser suficiente para carregar a mim para o país de Oz.

—  O que podemos fazer para impedi-lo de matar? — Max indagou.

—  Nada.

—  Então, vamos tentar não pensar nele por enquanto. O rosto de Mary ficou carrancudo. — Sabe quando é que eu me sinto pior? Sabe quando é que eu me sinto tão mal que nem tenho vontade de viver?

Ele aguardou.

As mãos dela no colo, os dedos como que batalhando uns contra os outros.

—  É quando eu sei que algo de horrível vai acontecer

— e não sei o bastante para impedir que aconteça. Se eu tenho esse poder, por que não me foi concedido sem limitações? Por que não consigo ligá-lo e desligá-lo, como a gente faz com um aparelho de televisão? Por que é que, às vezes, fica tudo nublado para mim, quando eu mais preciso dele? Será que é porque devo ser atormentada? Será que não passa de uma brincadeira de mau gosto? Uma porção de gente vai morrer porque eu não consigo ver claramente. Droga, droga, droga!

—  Levantou-se de um salto, andou até a televisão. Ligava e desligava, ligava e desligava, ligava e desligava, quase quebrando o botão, tal a força que fazia.

—  Você não deve sentir-se responsável pelo que vê nas visões — Max disse.

—  Mas me sinto.

—  Você tem que mudar de atitude.

—  Não quero. Não posso.

Ele se pôs de pé, foi até ela, tomando sua mão dos controles da televisão.

—  Por que não descansa um pouco? Vamos fazer compras.

—  Eu não — Mary respondeu. — Tenho hora marcada com o Dr. Cauvel.

—  Só daqui a duas horas e meia.

—  Não estou com vontade de fazer compras — ela respondeu. — Vá você. Amanhã eu dou uma saída.

—  Não vou deixá-la sozinha aqui.

—  Não estou sozinha. Anna e Emmet estão comigo.

—  Você não devia dirigir.

—  Por que não?

—  Porque pode sofrer outro colapso enquanto estiver guiando o carro.

—  Ah...   O Emmet pode me levar.

—  O que vai fazer até chegar a hora de ir para o analista?

—  Escrever minha coluna.

—  Nós mandamos uma pilha delas para o sindicato na icmana passada. Temos vinte colunas entregues para publicação.

Embora não se sentindo bem, Mary conseguiu falar em tom leve.

—  Temos vinte colunas prontas porque você escreveu quinze. Já é hora de eu dar a minha contribuição. Ter vinte e uma prontas não vai fazer mal a ninguém.

—  Na minha mesa você vai encontrar material sobre Aquela mulher na Carolina do Norte, que pode prever o sexo de crianças que ainda não nasceram, simplesmente tocando a mãe. A Duke University está pesquisando o caso.

—  Então é sobre isto que vou escrever.

—  Bem, se você tem certeza. . .                                   

—  Tenho. Agora, mande-se para Gucci, Giorgio's, The French Corner,  Juel Park,  Courrèges,  Van Cleef & Arpeis e compre-me uma porção de coisas lindas para o Natal. Tentando em vão não sorrir, ele disse: — Mas eu já fiz minha escolha na Woolworth's.

—  Ah, é? — Mary disse, entrando na brincadeira. — então, vai ficar contente de saber que vai ganhar uma porção de vales para os hamburgers da MacDonald.

Ele fingiu estar desapontado.

—  Bem. . . pode ser que eu passe pelo Guicci e Edward Cowell e compre umas quinquilharias que combinem com o presente da Woolworth's.

Ela riu. — Interesseiro. Nesse caso, pode ser que eu deixe você dormir aqui esta noite, em vez de mandá-lo para o sofá. Ele deu uma gargalhada e beijou-a.

—  Hummm. . . Mais um.

Sabia-se amada, e isto compensava em parte os horrores dos últimos dias.

 

O centro de atração do consultório do Dr. Cauvel era a coleção de centenas de cãezinhos de vidro, arranjados em prateleiras de cromo e de vidro a um lado de sua mesa. Nenhuma peça da coleção era maior do que a mão fechada de Mary, e quase todas eram muito menores. Havia cãezinhos brancos, negros, cães alaranjados e amarelos e verdes e escarlates, transparentes e opacos, listrados e de manchas, de vidro soprado e de vidro moldado. Alguns em posição sentada, outros de pé ou deitados, correndo, ou farejando. Havia toda sorte de raças: bassês, galgos, airdales, pastores alemães, pequineses, terriers, são-bernardos, e uma infinidade de outras raças. Uma cadela com sua ninhada de frágeis filhotes de vidro ficava ao lado de um cômico grupo de cães tocando minúsculos instrumentos, flautas e tambores e cometas. Algumas peças estranhas brilhavam sinistramente no canil silencioso: cães satânicos rosnando, demônios com caras de cachorro e línguas bipartidas.

Vidro era igualmente o foco de atenção do próprio médico. Usava óculos de grossas lentes, que tornavam seus olhos anormalmente maiores. Era baixo, corpo atlético, e compulsivamente meticuloso com a aparência. As lentes de seus óculos jamais se embaçavam — limpava-as constantemente.

Mary e o analista sentaram-se defronte um do outro, tendo a separá-los uma mesa desmontável, no centro da sala.

O médico embaralhou as cartas de um baralho. Colocou dez cartas em fileira única, de faces voltadas para baixo.

Mary apanhou um círculo de arame de seis polegadas providenciado pelo médico — uma vara divinatória — e suspendeu-o sobre as cartas. Movia a vara para frente e para trás. Por duas vezes, o objeto inclinou-se para a mesa como se dedos invisíveis tentassem tirá-lo da mão de Mary. Em menos de um minuto de procura, ela pôs o arame de lado e indicou duas cartas.

—  São os dois maiores valores deste grupo.

—  Que cartas são?

—  Uma delas deve ser um ás.

—  De que naipe?

—  Não sei.

Ele mostrou as cartas. Ás de Paus. Rainha de Copas.

Ela relaxou.

O médico revelou as outras cartas. A maior era um valete.

—  Inacreditável — o médico exclamou. — Este é um dos testes mais difíceis que já tentamos. E, de dez tentativas, você acerta noventa por cento. Já pensou em tentar a sorte em Las Vegas?

—  Para quebrar a banca nas mesas de vinte-e-um?

—  Por que não?

—  Eu só teria uma chance se eles espalhassem o baralho o me deixassem usar a vara antes de distribuir as cartas.

Como todos os seus movimentos e expressões, o sorriso do médico também era parcimonioso. — Não acredito.

Durante os últimos dois anos, as consultas de Mary, às terças e sextas, começavam às quatro e meia e terminavam às seis horas. Nesses dias, ela era a última paciente do Dr. Cauvel. Nos três primeiros quartos de hora ela participava de experiências em Percepção Extra-Sensorial para uma série de artigos que o analista pretendia publicar num jornal profissional. Os quarenta e cinco minutos restantes, ele os dedicava, na qualidade de psiquiatra, ao tratamento de Mary.

Em retribuição pela cooperação da cliente para as experiências de P. E. S., ele não cobrava honorários pela análise.

Não faltavam a Mary meios para pagar o tratamento. Permitia o acordo porque as experiências interessavam-na.

—  Conhaque? — ele perguntou.

—  Sim, obrigada.

O analista serviu Remy-Martini para ambos. Deixaram a mesa e foram sentar-se em duas poltronas, colocadas frente a frente, com uma mesinha baixa no meio.

Cauvel não empregava uma técnica padrão com seus pacientes. Seu estilo era muito pessoal. E Mary gostava de suas maneiras tranqüilas e amigas.

—  Por onde gostaria de começar? — ele perguntou.

—  Não sei.

—  Não tenha pressa.

—  É porque eu não quero começar de ponto algum.

—  Você sempre diz a mesma coisa, e sempre começa.

—  Hoje não. Gostaria só de ficar aqui sentada. Ele concordou e começou a tomar o conhaque.

—  Por que sou sempre tão difícil com o senhor? — Mary perguntou.

—  Não sei a resposta. Você sabe.

—  Por que eu não quero falar com o senhor?

—  Ora, veja bem, você quer falar. De outro modo, não estaria aqui.

  Franzindo o rosto, ela disse: — Ajude-me a começar.

—  Em que estava pensando enquanto vinha para cá?

—  Isso não é um ponto de partida.

—  Tente.

—  Bem. . . estava pensando no que eu sou.

—  E o que você é?

—  Uma clarividente.

—  O que tem isso?

—  Por que eu? Por que não outra pessoa qualquer?

—  Os melhores pesquisadores desse campo acreditam que todos nós temos os mesmos poderes paranormais.

—  Talvez — Mary respondeu. — Mas a maioria das pessoas não os têm tão desenvolvidos quanto eu tenho.

—  Simplesmente deixamos de reconhecer nossas potencialidades — ele explicou. — Só umas poucas pessoas acharam um modo de usar sua P. E. S.

—  Então, por que eu achei um modo?

—  Todos os maiores clarividentes não sofreram choques na cabeça antes que seus poderes psíquicos se manifestassem?

—  Foi o que aconteceu com Peter Hurkos — ela disse. — E outros mais. Mas não todos nós.

—  E você?

—  Um golpe na cabeça? Não.

—  Sofreu, sim.

Ela provou o conhaque. — Que gosto maravilhoso.

—  Aos seis anos de idade, sua cabeça foi golpeada. Você já mencionou o fato algumas vezes, porém nunca quis se aprofundar no assunto.

—- E continuo não querendo, agora,

—  Pois devia — Cauvel disse. — Sua relutância em discuti-lo é prova de que. . .

—  O senhor está falando demais hoje. — A voz se endureceu, estava estridente. — Eu lhe pago para me ouvir.

—  Você não me paga nada. — Como sempre, falou delicadamente.

—  Eu poderia sair daqui neste instante.

Ele tirou os óculos e pôs-se a limpar as lentes com o lenço.

—  Sem mim — Mary continuou rudemente, irritada com a calma estudada do médico — o senhor não teria os dados para escrever aqueles artigos que o tornam tão famoso entre os outros psiquiatras.

— Os artigos não são assim tão importantes. Se quer tanto sair daqui, por que não sai? Podemos cancelar o nosso acordo.

Mary largou-se na poltrona. — Desculpe-me. — Raramente levantava a voz. Não era do seu feitio gritar com ele. Ruborizou-se.

—  Não precisa se desculpar — disse ele. — Mas, não entende que essa experiência de vinte e quatro anos pode ser a raiz dos seus problemas? A causa básica de sua insônia, das Nuas depressões periódicas, das suas crises de ansiedade?

Sentia-se enfraquecida. Fechou os olhos. — O senhor quer que eu fale sobre o assunto?

—  Seria uma boa idéia.

—  Ajude-me a começar.

—  Você estava' com seis anos.

—  Seis. . .

—  Seu pai era rico.

—  Muito rico.

—  Viviam numa bela propriedade.

-— Vinte acres de terra — ela disse. — Todo o terreno tratado. Havia um. .. havia um. ..

—  Jardineiro — repetiu. Já não estava ruborizada. As faces frias. As mãos geladas.

- Como era o nome dele?

—  Não me lembro.

—  Claro que se lembra.

—  Berton Mitchell.

—  Gostava dele?

—  A princípio, sim.

—  Certa vez, você me contou que ele a aborrecia.

—  De brincadeira. E tinha um apelido especial para mim.

—  Que apelido era esse?

—  "Do Contra". Como se fosse o meu nome de verdade. — Você era do contra?

—  Nem um pouco. Ele estava brincando. Tirou da canção infantil.

—  Quando deixou de gostar de Berton Mitchell? Mary teve vontade de estar em casa com Max. Podia quase sentir o braço do marido amparando-a.

—  Quando  deixou de gostar dele, Mary?

—  Naquele dia, em agosto.

—  O que aconteceu?

—  O senhor sabe.

—  Sim, eu sei.

—  Pois então!

—  Mas me parece que nunca conseguiremos nos aprofundar neste assunto, se não começarmos bem do princípio, cada sessão.

—  Eu não quero me aprofundar nele.

O médico, no entanto, mostrou-se implacável. — O que aconteceu naquele dia de agosto, quando tinha seis anos?

—  O senhor ganhou mais algum cachorrinho de vidro ultimamente?

—  O que foi que Berton Mitchell fez naquele dia de agosto?

—  Ele tentou me violentar.

 

Seis horas da tarde. Cair da noite de inverno. O ar estava frio e revigorante.

Deixou o carro no estacionamento da lanchonete e caminhou para o norte, pela rua, na direção oposta ao trânsito.

Num bolso levava um facão, no outro um revólver. As mãos tocavam cada arma.

O cascalho rangia sob seus sapatos.

O ar deslocado pelos carros que passavam atingia-no, embaraçando seus cabelos, colando a capa às pernas.

O salão, de beleza, Hair Today, ocupava um pequeno prédio independente, na Rua Principal, justo ao norte dos limites urbanos de Santa Anna. Um telhado de imitação de sapê, as janelas de grade, as paredes externas de madeira à vista e cimento, o local assemelhava-se a um chalé rural inglês — exceto pelo brilho das luzes na frente da casa e pela placa pintada em verde e rosa.

O quarteirão era estritamente comercial. Postos de gasolina, lanchonetes de balcão, escritórios imobiliários, dezenas de lojas de pequeno comércio estavam aninhados entre placas iluminadas de neon, palmeiras e folhagens desabrochando como flores monstruosas ao ar de Orange County, que cheirava a dinheiro. Ao sul do salão de beleza localizava-se o pátio de vendas de uma importadora de automóveis. Fileira após fileira de automóveis de linhas esguias amontoavam-se na noite. Apenas os pára-brisas e as cromagens faiscavam malignos sob as luzes a vapor de mercúrio. Para o norte, além do salão, ficava o cinema com tela tridimensional, vindo, a seguir, um centro comercial.

Um sujo Cadillac branco e um Triumph reluzente estavam estacionados defronte ao Hair Today.

Atravessando o pátio da importadora, o homem fez caminho por entre os carros, abriu a porta do chalé e entrou.

A saleta estreita, logo à entrada da casa, era a sala de espera, onde as mulheres matavam o tempo até chegar a sua vez. O tapete era vermelho e macio, as cadeiras em amarelo vistoso, as cortinas brancas. Havia mesinhas espalhadas, cinzeiros e pilhas de revistas; no entanto, àquela hora tardia já não havia mais freguesas esperando.

Ao fundo da saleta havia um balcão vermelho e branco. Sobre ele uma caixa registradora, e perto da caixa uma mulher com cabelo louro oxigenado sentava-se numa banqueta alta.

Às costas da mulher, um arco fechado por cortinas levava ao salão propriamente dito. O ruído de um secador manual penetrava através da cortina, como um enxame de abelhas encolerizadas.

—  Já fechamos — informou a loura oxigenada. Ele foi até o balcão.

—  Está procurando alguém? — ela perguntou.

Ele tirou o revólver do bolso. Dava-lhe uma sensação Agradável segurá-lo.  Sensação  de justiça.

Ela olhou primeiro para a arma, depois fundo em seus olhos. Umedeceu os lábios.

—  O que deseja? Ele não falou.

—  Espere um pouco!

Ele puxou o gatilho. O som do disparo foi um pouco abafado pelo som do secador barulhento.

A mulher caiu do banco e não se levantou.

Desligaram o secador. Da sala dos fundos alguém disse:

—  Tina?

Dando a volta pelo corpo da mulher, o homem abriu as cortinas e passou por elas.

Das quatro cadeiras do salão, três estavam vazias. A última cliente do dia ocupava a quarta cadeira. Era jovem e bonita, com uma pele indescritivelmente perfeita. Os cabelos estavam lisos e molhados.

O esteticista era corpulento, calvo, com um bigode preto espetado. Usava um jaleco vermelho com seu prenome "Kyle" bordado em amarelo no bolso do peito.

A jovem respirou fundo, mas não teve coragem de gritar.

—  Quem é você? — Kyle perguntou. Kyle recebeu dois tiros.

— Meu pai não estava em casa naquele dia — Mary disse.

—  E sua mãe?

—  Estava em casa, no andar de cima. Bêbada, como sempre.

— E seu irmão?

—  No quarto dele, trabalhando nos aeromodelos.

—  O jardineiro, Berton Mitchell?

—  A esposa e o filho estavam passando a semana fora. Mitchell..  me fez entrar na casa dele, me atraiu para ela.

—  Onde ficava a casa?

—  Na divisa da propriedade, um chalezinho com telhado de zinco verde. Ele sempre me dizia que duendes conviviam com sua família.

Sentia uma força aterradora fechando-se sobre ela por todos os lados. Era como se estivesse envolvida por asas de couro, asas musculosas, drenando-lhe o calor, sugando-lhe a vida.

—  Continue — Cauvel disse.

Inflexível, o calor esvaía-se de seu corpo, baixando como o mercúrio de um termômetro. Tornou-se um tubo oco de vidro, friável, quebradiço. — Mais conhaque?

—  Quando acabar de me contar — Cauvel respondeu.

—  Preciso de sua ajuda com isto.

—  Estou aqui para ajudá-la, Mary.

—  Se eu contar, ele me bate.

—  Quem? Mitchell? Você não acredita mesmo nisso. Você sabe que ele está morto. Foi declarado culpado por agressão física a menor, com tentativa de homicídio. Enforcou-se em sua cela. Estou sozinho aqui com você e não vou deixar ninguém machucá-la.

—  Eu estava sozinha com ele.

—  Está falando tão baixo que não consigo ouvi-la.

—  Eu estava sozinha com ele — Mary repetiu. — Ele. . . me tocou. . .  e mostrou. . .  seu sexo.

—  Você estava assustada?

—  Sim.

A pressão ia-se tornando intensa, insuportável e cada vez mais violenta.

Cauvel manteve silêncio e ela continuou. — Eu estava assustada porque  ele queria  que  eu. . .   fizesse  coisas.

— Que coisas?

O ar estava fétido. Embora estivessem apenas ela e o médico na sala, sentia como se alguma criatura tivesse colado os lábios aos seus, forçando o ar rançoso para dentro de seus pulmões.

—  Preciso de conhaque — ela disse.

-— O que você precisa é contar-me tudo, lembrar-se até do menor detalhe, tirar tudo de sua mente de uma vez por todas. Que coisas ele queria você fizesse?

—  Ajude-me. O senhor tem que orientar-me.

—  Ele queria ter relações sexuais, não queria?

—  Não tenho certeza.

Suas mãos estavam inertes. Podia sentir as cordas cortando a carne. Cordas que não existiam...

—  Relação oral? — Cauvel sugeriu.

—  Mas não era só isso.

Os tornozelos doíam. Podia sentir as cordas que não existiam. Tentou mover os pés. Eram feitos de chumbo.

—  O que mais ele queria que você fizesse? — Cauvelperguntou.

—  Não me recordo.

—  Mas pode recordar-se, se quiser.

—  Não. Honestamente, não posso. Não posso.

—  O que mais ele queria que você fizesse?

O abraço das asas imaginárias era tão apertado que ela mal conseguia respirar. Podia ouvi-las batendo no ar — ui-i-i-c — ui-i-i-c — ui-i-i-c!

Mary levantou-se, afastando-se da poltrona.

As asas prendiam-na.

—  O que mais ele queria que você fizesse? — Cauvel insistiu.

—  Uma coisa horrível, inenarrável.

—  Algum tipo de relação sexual?

 Ui-i-i-c — ui-i-i-ic — ui-i-i-ic!

—  Não era só sexo. Mais que isso. — O que era?

—  Uma coisa suja. Imunda.

—  Como?

—  Olhos me espiando.

—  Os olhos de Mitchell?

—  Não os dele.

—  De quem, então?

—  Não posso lembrar-me.

—  Pode, sim.

— Ui-i-i-ic — ui-i-i-c — ui-i-i-c. . .

—  Asas — ela disse.

—  Asas? Você está falando muito baixo de novo. —- Asas — ela repetiu. — Asas.

—  O que está querendo dizer?

Ela tremia, vibrava. Tinha medo de que as pernas cedessem. Voltou para a poltrona.

—  Asas. Posso ouvi-las. . . batendo. Posso senti-las.

—  Está querendo dizer que Mitchell tinha um passarinho dentro de casa?

—  Não sei.

—  Um papagaio, talvez?

—  Não sei dizer.

—  Faça um esforço para lembrar-se, Mary. Não abandone o pensamento. Nunca havia mencionado asas antes de hoje. É importante.

  Elas estavam por todos os lados.

—  As asas?

—  Asas pequenas...  me cobrindo.

—  Pense. O que ele fez com você?

Ela quedou-se em silêncio por um longo tempo. A pressão começou a abrandar-se um pouco. O ruflar de asas tornou-se longínquo.

—  Mary?

—  Isto é tudo. Não consigo lembrar-me de mais nada — disse ela, afinal.

—  Há um meio de libertar essas lembranças — disse o médico.

—  Hipnose — Mary respondeu.

—  Funciona.

—  Tenho medo de me lembrar.

—  Devia ter medo de não se lembrar.

—  Se eu me lembrar, eu morro.

—  O que acabou de dizer é ridículo, e você sabe.

Mary puxou para trás o cabelo que lhe cobria o rosto,para tranqüilizar o médico, forçou um sorriso.

—  Já não ouço as asas. Já não as sinto. Não precisamos mais falar de asas.

—  Claro que precisamos.

—  Não quero falar sobre as asas, droga! — Sacudia a cabeça violentamente. Surpreendeu-se com a própria veemência. — Pelo menos, hoje não.

—  Está bem — Cauvel concordou. — Aceito. O que não é a mesma coisa que dizer que você não precisa falar delas. — Mais uma vez, começou a polir as lentes. — Vamos voltar aos fatos dos quais se lembra. Foi surrada por Berton Milchell.

—  Suponho que sim.

—  Você foi encontrada na casa dele?

—  Na sala da casa.

—  E estava muito machucada?

—  Muito.

—  E depois, você disse aos outros que ele a havia surrado.

—  Só que não me lembro do que aconteceu. Lembro-me da dor, dor terrível. Mas só por um instante.

—  Você podia ter ficado inconsciente depois do primeiro golpe.

—  Foi o que todo mundo disse. Ele deve ter continuado a me bater depois que desmaiei. Eu não podia ter resistido a ele durante muito tempo. Eu não passava de uma menininha.

—  Ele também usou uma faca?

—  Eu fiquei toda cortada.

—  Quanto tempo ficou no hospital? — Mais de duas semanas.

—  Quantos pontos levou nos ferimentos?

—  Mais de cem, ao todo.

 

O salão de beleza cheirava a xampu, creme rinse e colônia.   O homem também sentia os odores da mulher.

O chão estava coberto de fiapos de cabelo, que dançaram ao redor deles quando se moveu sobre ela, para dentro dela.

Ela recusou-se a reagir. Não o acolheu, não o rejeitou. Ficou imóvel. Seus olhos já eram como os olhos de um cadáver.

O homem não a odiou por isto. Enfim, jamais deu importância à paixão em suas mulheres. Durante os primeiros meses, a agressividade e o prazer de uma nova amante no ato sexual eram toleráveis. Podia atá mostrar-se carinhoso por um curto período de tempo. Mas sempre, passados alguns meses, precisava ver o medo estampado no rosto de suas mulheres — só isso o levava ao orgasmo. Quanto mais o temessem, mais as apreciava.

Deitado sobre o corpo dela, podia sentir o coração da mulher batendo descompassado, acelerado pelo terror. Ficou excitado, e seus movimentos dentro dela tornaram-se mais rápidos.

 

—  Vários dos golpes de Mitchell atingiram-na na cabeça — Cauvel comentou.

—  Meu  rosto  ficou  todo   preto   e   azulado.   Papai   me chamou de sua bonequinha de trapos.

— Sofreu concussão cerebral?

—  Já sei aonde leva tudo isto — ela disse. — Mas, não. Nada de concussão. Absolutamente.

—  Quando começou a ter visões?

—  No mesmo ano, algum tempo depois.

—  Há poucos minutos, você me perguntou por que teria sido escolhida para ser clarividente. Pois bem, não há realmente nada de misterioso no fato. Como no caso de Peter Hurkos, seus poderes paranormais manifestaram-se após uma grave injúria cerebral.

—  Não tão grave assim.

Cauvel parou de limpar os óculos e colocou-os novamente, estudando o rosto de Mary por trás de olhos imensos, ampliados.

—  é possível que um severo choque psicológico pudesse liberar capacidades psíquicas, do mesmo modo que o fazem certas injúrias cerebrais?

Ela deu de ombros.

—  Se você não adquiriu seus poderes em conseqüência de um trauma físico, então, talvez os tenha adquirido por causa de um trauma psicológico. Acha possível?

— Pode ser — ela disse.

—  De um modo ou de outro — ele prosseguiu, agitando o dedo ossudo para ela, como se batesse repetidamente numa vidraça entre ambos — de um modo ou de outro, sua clarividência provavelmente remonta a Berton Mitchell, ao que ele fez com você e que você não consegue lembrar-se.

—  Talvez.

—  E sua insônia remonta a Berton Mitchell. Suas depressões periódicas remontam a ele. O que ele lhe fez é a causa fundamental das suas crises de ansiedade. Eu lhe digo, Mary, quanto mais cedo enfrentar este fato, melhor. Se deixar que, um dia, pela hipnose, eu faça você regredir, orientando-a através de suas lembranças, então, você nunca mais vai precisar do meu auxílio.

—  Sempre vou precisar do seu auxílio.

Ele ficou carrancudo. Seu rosto fortemente bronzeado era vincado por linhas semelhantes a cortes de sabre. Um retratista ambicioso teria desejado vê-lo com aquela expressão, que o tornava agressivo, e ao mesmo tempo, justo e digno de confiança. Havia sido esta expressão que atraíra Mary para ele, há três anos, durante uma festa, e suas maneiras distantes mas paternais fizeram com que ela procurasse sua assistência quando a dependência a pílulas soporíferas tornou-se absoluta em sua vida.

—  Se vai sempre precisar de meu auxílio — disse ele — então, não a estou ajudando em nada. Como psiquiatra, minha obrigação é fazê-la encontrar dentro de si mesma todas as forças de que precisa.

Ela foi até o bar apanhar a garrafa de cristal que continha o conhaque. — O senhor mesmo disse que eu podia tomar mais um se continuasse falando mais um pouco.

—  Nunca quebro uma promessa. — Foi juntar-se a ela no bar. — O dia já está quase acabado. Também vou tomar mais um.

—  O senhor está errado quanto a Mitchell — ela disse, enquanto servia as bebidas.

—  Em que sentido?

—  Não acredito que todos os meus problemas remontem a ele. Alguns começaram no dia em que papai morreu.

—  Já ouvi você expor esta teoria antes.

—  Eu estava no carro com ele, quando morreu. Estava no banco de trás e ele estava dirigindo. Eu o vi morrer. Seu sangue esguichou em cima de mim. Eu tinha só nove anos. E os anos depois da morte dele não foram fáceis. Em três anos, mamãe perdeu todo o dinheiro que ele havia nos deixado. Passamos de ricos a pobres entre o meu aniversário de nove anos e o de doze. Acho que uma experiência assim deixaria cicatrizes, não acha?

—  E deixou — ele concordou. Segurou o cálice de conhaque. — Mas não é a responsável pelas piores cicatrizes.

— Como sabe?

—  Porque fala sobre ela com naturalidade.

—  E daí?

—  Mas não consegue falar do que aconteceu com Berton Mitchell.

 

Quando terminou com a mulher, pôs-se de pé, levantou as calças e correu o fecho da braguilha. Nem sequer tirou a capa.

Afastou-se, olhos cravados nela.

Dada a oportunidade, ela não fez esforço algum para cobrir sua nudez. A saia estava enrolada ao redor dos quadris. A blusa desabotoada deixava à mostra um seio roliço. Punhos fechados. As unhas haviam se enterrado nas palmas das mãos e filetes de sangue corriam por entre os dedos. Aterrorizada, reduzida a pouco mais do que um animalzinho assustado, ela representava para ele a mulher ideal.

Tirou o facão  do bolso.

Esperava que ela gritasse e tentasse escapulir arrastando-se, mas ao aproximar-se para os golpes finais, ela deixou-se ficar como se já estivesse morta. Encontrava-se agora para além do medo, além de qualquer sentimento.

Ajoelhando-se ao lado da mulher pousou a ponta do facão em sua garganta. A pele ficou arrepiada; ela nem sequer piscou.

O homem levantou o facão bem alto, mantendo-o no raio de visão da mulher, acima de seus seios.

Nenhuma reação.

Sentiu-se roubado. Quando tempo e circunstâncias permitiam, preferia matar aos poucos. A fim de sentir algum prazer no jogo, precisava de uma mulher bem ativa como vítima.

Encolerizado com ela por haver estragado seu momento, enterrou o facão com força brutal.

 

Mary Bergen ofegou.

O gume do facão rasgando-lhe a carne, retalhando músculos, atingindo o reservatório de sangue, abrindo o local obscuro onde reside a dor.

Apoiou-se no canto formado pela parede e pelo lado do bar de carvalho velho. Mal notou que derrubou uma garrafa do uísque ainda fechada.

—  O que foi? — Cauvel perguntou.

—  Dói.

Ele tocou-lhe o ombro. — Sente-se doente? Posso ajudar?

—  Doente não. A visão. Estou sentindo.. . De novo o facão, enterrado fundo. . .

Comprimiu  o   estômago   com   as  duas   mãos,   tentando deter a erupção de dor.

—  Não vou desmaiar desta vez. Não vou.

—  Que visão?

—  O salão de beleza. O mesmo que vi algumas horas atrás. Só que está acontecendo agora. A carnificina. . . Deus Todo-Poderoso!... acontecendo em algum lugar, acontecendo neste minuto! — Levou as mãos ao rosto, mas as imagens não desapareciam.

—  Oh, Deus! Meu bom Deus! Ajude-me.

—  O que está vendo?

—  Um homem morto no chão.

—  No chão do salão de beleza?

—  Ele é careca. . . bigode.. . camisa vermelha.

—  O que você está sentindo? O facão...

Suava. Chorava.

—  Mary? Mary?                                                                        

—  Eu sinto...  a mulher...  sendo esfaqueada.            

—  Que mulher? Há uma mulher?                                     

—  Não posso desmaiar.

Começou a cair, e ele a segurou pelos dois ombros.

Viu o facão retalhando carne novamente, só que desta vez não sentiu dor. A mulher da visão estava morta — portanto, já não sentia dor que pudesse ser compartilhada.

—  Tenho que ver o rosto, descobrir seu nome — ela disse.

O assassino levantando-se diante do cadáver, de pé, envolto num manto.. .  não, um sobretudo, uma capa.

—  Não posso perder o fio. Não devo deixar a visão escapar. Tenho que retê-la, descobrir onde ele se encontra, quem é ele, o que é ele, evitar que continue fazendo essas coisas terríveis.

O assassino de pé. . . de pé, segurando o facão de açougueiro na mão, de pé nas sombras, seu rosto nas sombras virando-se agora, virando-se agora, lentamente, deliberadamen-te. . . virando-se para que ela possa contemplar seu rosto, virando-se como que à procura dela. . .

—  Ele sabe que estou com ele — ela exclamou.

—  Quem?

—  Ele sabe que estou vendo!

Não conseguia entender como podia ser verdade. No entanto, o assassino sabia da existência dela. Mary tinha certeza, e estava apavorada.

Subitamente, meia dúzia dos cãezinhos de vidro deslocaram-se das prateleiras, cortando o espaço, indo chocar-se violentamente contra a parede ao lado de Mary, estilhaçando-se.

Ela gritou.

Cauvel virou-se para verificar quem os teria arremessado.

—  Que diabos?!

Como se tivessem criado vida e possuíssem asas, uma dúzia dos bibelôs soltaram-se das prateleiras. Giraram, cintilando como fragmentos de um prisma despedaçado, para o centro da sala, ao alto. Balançavam-se junto ao teto, chocando-se levemente com o som musical dos sininhos chineses tocados pelo vento.

Depois arrojaram-se na direção de Mary.

Ela levantou os braços, tentando proteger o rosto.

As miniaturas atingiram-na com maior violência do que seria de esperar. A dor era como a de picadas de abelhas.

—  Faça com que parem! — Mary gritou, sem saber ao certo com quem falava.

Um cérbero diminuto de chifres pontiagudos atingiu a testa do médico, entre os olhos, tirando sangue.

Cauvel deu as costas às prateleiras, aproximando-se de Mary, tentando servir-lhe de escudo com o próprio corpo.

Outros dez ou quinze cãezinhos atravessaram a sala como petardos. Dois deles foram quebrar-se contra o painel de vidro escuro do bar. Outros foram estilhaçar-se contra a parede perto de Mary, cobrindo seus cabelos com caquinhos e lascas de vidro colorido.

—  Está tentando me matar! — Lutava, sem sucesso, contra a histeria que se apoderava dela.

Cauvel apertou-a contra o canto da parede.

Mais miniaturas voaram pela sala, passando sobre a mesa do médico, espalhando uma pilha de papel fino. Os bibelôs batiam contra a veneziana, sem se quebrarem, zigue-zagueando loucamente de um lado para outro do aposento, indo bater nas costas e ombros de Cauvel, despejando uma chuva de partículas multicores sobre a cabeça curvada de Mary.

Mais um batalhão de cães alçou vôo. Dançavam no ar, flutuavam sinistramente, aproximavam-se dela, afastavam-se, voltavam — com maior determinação, golpeando-a com força incrível, ferindo, causando dor, juntando-se como gafanhotos sobre sua cabeça.

Tão subitamente como começou, o ataque macabro terminou.

Restava ainda, nas estantes, quase uma centena das miniaturas de vidro que não haviam se movimentado.

Mary e Cauvel continuaram abraçados, sem confiar nabonança, à espera de novo ataque.

Prevaleceu o silêncio.

Eventualmente, o médico soltou-a e deu um passo atrás.

Mary não se encontrava em condições de controlar os tremores que se quebravam como ondas dentro dela.

—  Você está bem? — Cauvel perguntou, sem se dar conta do sangue que corria de seu próprio rosto.

—  Não era para eu ver... — ela disse. Cauvel  estava  tonto.  Fitou-a,   sem  compreender.

—  O rosto dele — ela explicou. — Não era para eu ver.

—  Do  que  é  que você  está falando?

—  Quando tentei ver o assassino na visão — explicou. — Fui detida. O que me deteve?

Cauvel contemplou os cacos espalhados pela sala toda, à volta. Pôs-se a retirar lascas de vidro da lapela e das mangas do paletó.

—  Foi você quem fez isto? Você fez os cães Voarem?

—  Eu?

—  Quem mais?

—  Oh, não. Como eu poderia?

—  Alguém fez.

—  Algo fez. Fixou os olhos nela.

—  Foi um... espírito — ela disse.

—  Não creio na vida depois da morte.

—  Eu mesma não tinha certeza até este momento.

—  Estamos sendo perseguidos por espíritos?

—  O que mais?

—  Muitas alternativas. — Parecia preocupado com Mary.

—  Não estou louca — ela defendeu-se.

—  Por acaso eu disse que estava?

—  Já vimos um poltergeist em ação.

—  Também não creio neles.

—  Eu creio. Já os vi em atividade antes. Nunca tive certeza se eram espíritos ou não. Mas agora tenho.

—  Mary...

—  Foi o trabalho de um poltergeist. Veio para evitar que eu visse o rosto do criminoso.

Atrás deles, as estantes ruíram, atingindo o chão com um estrondo ensurdecedor.

 

Max estava ausente.

Sem ele, a casa tinha a aparência de um mausoléu. Os passos de Mary no soalho de tábuas corridas soaram mais altos do que de costume, como ecos plenos de sinistras vozes.

—  Ele telefonou. —- Anna Churchill disse, enquanto enxugava as mãos no avental. — Pediu para atrasarmos o jantar por meia hora.

—  Explicou por quê?

—  Pediu para dizer à senhora que não estaria de volta antes das oito porque a Woolworth's ficará aberta até mais tarde para a temporada de Natal.

Mary sabia que a intenção de Max foi diverti-la com o recado, mas não conseguiu sequer sorrir. A única coisa que lhe levantaria o ânimo seria vê-lo. Não tinha vontade de ficar sozinha.

Ao atravessar o saguão, a caminho da escadaria de mogno, a pesada mobília em colonial americano fê-la sentir-se como um pigmeu. Com a lembrança da ação dos poltergeists ainda viva em sua memória, ficou na expectativa de que cada móvel criasse vida, e não sabia como sobreviver caso as cadeiras, sofás e gabinetes se lançassem em sua direção com intenções criminosas.

O mobiliário não se moveu.

Já no banheiro, no andar superior, pegou um vidro de valium do armário de remédios. Conseguiu disfarçar seu nervosismo enquanto conversava com Emmet e Anna; agora, todavia, suas mãos tremiam tanto que gastou quase um minuto tentando tirar a tampa do vidro. Encheu um copo d'água e tomou uma das cápsulas. Uma só não lhe parecia o suficiente . . . Sentia que o efeito de duas seria melhor. . . Ou três. "Deus, não!", pensou, e rapidamente recolocou a tampa antes que a tentação vencesse o bom senso.

Ao sair do banheiro, o copo vazio caiu e quebrou-se. Virou-se assustada. Tinha certeza de que não o havia deixado na beira da pia. O copo não havia simplesmente caído — tinha sido jogado ao chão.

— Max, volte logo, por favor — disse ela baixinho.

 

Ficou à espera do marido na sala íntima do segundo andar, o cômodo preferido de Max, uma sala repleta de armas e livros. Rifles antigos, restaurados por especialistas e montados em escaninhos embuchados na parede. Coleções encadernadas das obras de Hemingway, Stevenson, Poe, Shaw, Fitz-gerald, Dickens. Um par de Colt Derringers 3, de 1872, dentro de uma caixa portátil, forrada de seda, com fecho e dobradiças em bronze. Livros de John D. MacDonald, Clavell, Bellow, Woolrich, Levin, Vidal; volumes de não-ficção escritos por Gay Talese, Colin Wilson, Hellman, Toland, Shirer. Espingardas, rifles, revólveres, pistolas automáticas. Raymond Chandler, Dashiell Hammett, Ross MacDonald, Mary McCarthy, James M. Cain, Jessamyn West.

Que estranha combinação, pensou Mary — livros e armas. Contudo, depois dela própria, eram as duas coisas preferidas de Max.

Tentou ler um best-seller atual que há semanas vinha pensando em começar, mas sua mente teimava em divagar. Pôs o livro de lado, foi até a escrivaninha de Max e sentou-se. Da gaveta central tirou um bloco e uma caneta.

Durante algum tempo, ficou apenas contemplando a folha em branco. Enfim, escreveu:

Página 1:

Perguntas:

Por que estou começando a ter essas visões espontaneamente?

Por que, de repente, e pela primeira vez, sou capaz de sentir a dor que as vítimas, na visão, estão sentindo?   

Por que nenhum outro clarividente teve tais sensações durante suas visões?

Como poderia o assassino no salão de beleza saber que eu o estava observando?

Por que um poltergeist tentaria evitar que eu visse a facedo assassino?

O que significa tudo isto?

 

Desde criança, das grandes crises às menos importantes, notava que o hábito de anotar seus problemas ajudava-a. Quando os tinha à sua frente, sintetizados em poucas palavras, de certo mais concretos à tinta do que na realidade, via de regra deixavam de parecer insolúveis.

Quando acabou de compor a lista, leu cuidadosamente cada questão, primeiro em silêncio e, em seguida, em voz alta.

Na página seguinte do bloco escreveu: Respostas.

Ponderou. Depois:  Não há resposta.

— Droga! — exclamou.

Jogou a caneta longe.

—  Harley Barnes falando.

—  Chefe Barnes, aqui é Mary Bergen.

—  Ora, alô. Ainda está na cidade?

—  Não. Estou telefonando de Bel Air. — Em que posso servi-la?

—  Estou escrevendo uma coluna sobre os acontecimentos de ontem à noite e tinha algumas perguntas. O homem que foi apanhado ontem. . . qual é o nome dele?

—  A sua clarividência não lhe disse?

—  Não. Não vejo tudo o que desejaria ver.

—  O nome é Richard Lingard.

—  Residente da cidade, ou estava de passagem?

—  Nascido e criado aqui. Conheci o pai e a mãe dele. Ele era dono de uma farmácia.

—  A idade?

—  Trinta e poucos, por aí...

—  Ele é...  era casado?

—  Divorciado há muitos anos. Sem filhos, graças a Deus.

—  Tem certeza. ..

—  De que não tinha filhos? Oh, sim. Certeza absoluta.

—  Não. Isto é. .. ele está... ele está morto mesmo?

—  Morto? Claro que está morto. Não chegou a vê-lo?

—  Pensei que. .. Descobriu alguma coisa invulgar a respeito dele?

—  Invulgar? Em que sentido?

—  O vizinhos achavam que ele era esquisito?

— Gostavam dele. Todo mundo gostava dele.

—  Descobriram qualquer coisa estranha na casa dele?

—  Nada. Vivia como todo mundo. É assustador pensar em quão comum ele era. Se Dick Lingard pôde se transformar num assassino psicopata, então, em quem se pode confiar?

—  Em ninguém.

—  Sra. Bergen... — Barnes hesitou. — A senhora ficou com o facão?

—  Que facão?

—  O de Lingard.

—  O facão não foi encontrado?

—  Sumiu da cena.

—  Sumiu? E isto acontece com freqüência?

—  Comigo nunca aconteceu antes.

—  O facão não está comigo.

—  Quem sabe seu irmão o apanhou?

—  Alan não faria uma coisa dessas.

—  Ou seu marido?

—  Chefe Barnes, já trabalhamos muitas vezes com a polícia. Sabemos o bastante para não transformarmos provas em souvenirs.

—  Demos uma busca completa na casa da Sra. Harrington. O facão não estava lá.

—  Quem sabe Lingard o deixou cair no jardim?

—  Passamos um pente-fino por lá também.

—  Ele podia tê-lo deixado cair na sarjeta quando desfaleceu junto à radiopatrulha.

—  Ou até na calçada. A verdade é que não procuramos a arma imediatamente, como deveríamos ter feito, e havia uma multidão de curiosos. Talvez alguém o tenha apanhado. Vamos investigar. Imagino que vamos encontrá-lo. Pelo menos, não vamos precisar dele para julgamento. A morte resolveu esse nosso problema. Nem o advogado mais esperto do mundo encontraria meios de deixar Richard Lingard solto pelas ruas.

Às sete e meia, o noticiário de rádio de Los Angeles divulgou a história de quatro jovens enfermeiras encontradas torturadas e mortas por esfaqueamento, em seu apartamento de Anaheim.

Beverly Pulchaski.

Susan Haven.

Linda Proctor.

Marie Sanzini.

Perplexa, Mary reclinou-se na poltrona. Relembrou a face disforme da visão da noite anterior: a mulher de cabelos negros e olhos azuis.

Tinha certeza de que conhecia aquele rosto.

Oito horas da noite.

Foi receber Max à entrada da porta. Quando ele entrou, fechando a porta atrás de si, tomou-a em seus braços. As roupas estavam frias, endurecidas pelo ar noturno, mas o calor do corpo passava por elas.

—  Seis horas de compras — ela comentou — e nenhum pacote?

—  Ficaram na loja para serem embrulhados para presente. Vou apanhá-los amanhã.

Sorrindo, ela disse: — Eu não sabia que a Woolworth's fazia embrulhos especiais para presentes.

Ele beijou-lhe o rosto. — Senti saudades.

Ela descansou em seus braços. — Ei, onde está seu sobretudo? Vai apanhar gripe.

—  Ficou todo sujo de lama — explicou Max. — Deixei-o na lavanderia.

—  Como ficou enlameado?

—  Tive que trocar um pneu.

—  Num Mercedes? Nunca.

—  No nosso Mercedes, sim. O lugar onde tive que trocar o pneu estava um lamaçal. Passou um carro e me jogou lama.

—  Viu o número da placa? Se viu, eu. . .

—  Infelizmente, não vi — Max disse. — Quando aconteceu, eu pensei, "se eu tivesse visto a placa desse bastardo, Mary descobriria quem é e faria ele se arrepender do dia em que nasceu".

—  Ninguém vai abusar do meu Max e sair ileso. . .

— Também cortei meu dedo enquanto trocava o pneu— disse ele, levantando a mão direita. O punho da camisa estava embebido de sangue, e um dos dedos envolto num lenço ensangüentado. — O macaco está com uma ponta de metal muito afiada.

Mary pegou o pulso do marido. — Tanto sangue! Vamos ver este corte.

—  Não é nada. — Retirou a mão antes que ela pudesse remover o lenço. — Já parou de sangrar.

—  Talvez precise levar alguns pontos.

—  Um pouco de pressão, mais nada. O corte é fundo, mas o local é muito pequeno para levar pontos. E ver a ferida vai arruinar o seu jantar.

—  Deixe-me ver. Eu já estou bem crescidinha. Além disso, precisamos desinfetar e colocar um curativo no corte.

—  Eu me encarrego disso — Max disse. — Vá indo para a mesa. Em poucos minutos, estarei lá com você.

—  Você não pode se tratar sozinho.

—  Claro que posso. Nem sempre fui um homem casado, você sabe. Morei sozinho durante anos. — Beijou a testa de Mary. — Não vamos afligir a Sra. Churchill. Se não formos logo para a mesa ela vai cair na choradeira.

Com a mão que não estava ferida, empurrou Mary gentilmente para a sala de jantar.

—  Se você sangrar até morrer — ela disse indignada — nunca vou perdoá-lo.

Dando risada, ele correu para a escada, subindo os degraus dois a dois para o segundo andar.

O jantar estava bem ao gosto de Mary, farto mas leve. Tomaram uma sopa de cebola, seguida de salada, chateau-brand com sauce bearnais e abobrinha verde picada, marinada em azeite e alho, levemente cozida.

O café foi servido na biblioteca, e Mary, flutuando num mar de serenidade formado pela segunda cápsula de valium tomada pouco antes de Max sentar-se à mesa, contou-lhe como passou o dia: Cauvel, as dores sentidas durante a visão, a ação do poltergeist que a impediu de se aprofundar na visão em busca do rosto e do nome do assassino. Discutiram a notícia dada pelo rádio sobre a morte das enfermeiras em Anaheim, que Max também ouviu, e, afinal, o diálogo entre Mary e Harley Barnes.

— Você está dando muita importância ao facão desaparecido — Max comentou. — A explicação de Barnes não é suficientemente convincente? Um daqueles curiosos poderia tê-lo apanhado.

—  Poderia.. .  mas não o fez.

—  Então, quem foi?

Estavam sentados lado a lado no sofá. Mary tirou os sapatos com a ajuda dos pés, dobrou uma perna sob o corpo, demorando-se até encontrar as palavras adequadas. A situação era delicada. Se Max não acreditasse no que tinha a dizer-lhe, pensaria que ela estava pelo menos ligeiramente maluca.

—  Estas visões são completamente diferentes das que eu conhecia — disse, finalmente. — O que significa que o assassino, fonte de emanações psíquicas, é diferente de todos os outros que busquei antes. Não se trata de um homem comum. Venho tentando encontrar uma teoria que se encaixe no que vem me acontecendo desde a noite de ontem, e quando conversei com Barnes achei a chave. O facão desaparecido é a chave. Não entende? Richard Lingard ainda o tem.

—  Lingard?! Ele está morto. Barnes deu-lhe um tiro, Lingard não poderia levar o facão senão para uma gaveta do necrotério.

—  Ele poderia levá-lo para onde bem entendesse. Barnes matou o corpo de Lingard — o espírito dele está com o facão.

Max ficou atônito. — Não acredito em fantasmas. E mesmo que existam realmente, não têm substância, pelo menos aquilo que entendemos por substância. Portanto, como poderia o espírito de Lingard, abstrato, carregar um objeto tão concreto quanto um facão?

—  Um espírito não tem substância, mas tem energia — ela explicou, enfaticamente. — Há dois meses, quando você me   ajudou  na  cobertura  daquela  história  em  Connecticut, você viu um poltergeist em ação.

—  E daí?

—  Pois bem, um poltergeist não tem substância aparente, no entanto arremessa objetos sólidos, não é?

Relutantemente, ele concordou. — É verdade. Mas não creio que poltergeists sejam espíritos de pessoas mortas.

—  O que mais poderiam ser? — Antes que Max pudesse responder, ela prosseguiu: — O espírito de Lingard carregou aquele facão de açougueiro. Eu sei.

Max tomou todo o seu café em três longos goles.

—  Suponha que seja verdade. Onde está o espírito agora?

—  Na possessão de alguém vivo.

—  O quê?

—  Assim que o corpo de Lingard morreu, seu espírito saiu para apossar-se de outro corpo.

Max levantou-se. Foi até as estantes. Fitou Mary com olhos que analisavam, pesavam, julgavam, ponderavam.

—  A cada sessão com Cauvel você chega mais perto de lembrar-se do que Berton Mitchell fez com você.

—  Assim, você acha que porque estou no limiar desse conhecimento, eu posso estar procurando uma fuga da verdade, uma fuga na loucura?

—  Você pode enfrentar o que ele fez?

—  Tenho vivido com isso durante anos, mesmo tendo suprimido as lembranças.

—  Viver e aceitar são duas coisas diferentes.

—  Se você acha que eu sou candidata a uma solitária acolchoada num manicômio, você não me conhece — ela respondeu, irritada, a despeito do valium.

—  Não é isso o que penso. Mas. . . possessão demoníaca?

—  Demoníaca, não. Estou falando de algo bem menos grandioso. Estou falando da possessão de uma pessoa viva pelo espírito de um morto.

O rosto quadrado, quase feio, de Max estava sulcado de profundas rugas de preocupação. Estendeu os braços, palmas voltadas para cima, a atitude de. . . um urso suplicante.

—  É quem é essa pessoa viva?

—  O homem que matou aquelas enfermeiras em Anaheim. Está possuído pelo espírito de Lingard, e é por isso que as emanações psíquicas que envia são tão diferentes.

Max voltou ao sofá. — Não posso aceitar.

—  O que não quer dizer que eu estou errada.

—  O fenômeno do poltergeist no consultório de Cauvel... você, então, acha. . .

—  Que foi Lingard — Mary completou.

—  Há uma falha nessa teoria — ele disse. Ela arqueou as sobrancelhas.

—  Como poderia o espírito de Lingard estar em dois lugares simultaneamente? — ele perguntou. — Como poderia Lingard estar possuindo o corpo de um homem forçando-o a cometer homicídio em massa e, ao mesmo tempo, estar atirando cãezinhos de vidro pelo consultório de Cauvel?

—  Não sei. Mas quem é que sabe o que um fantasma é capaz de fazer?

Às dez horas, Max entrou no quarto. Havia ido até a biblioteca, no térreo, buscar um livro e voltou trazendo um pesado volume — que não era a novela que esteve procurando.

—  Acabei de falar com o Dr. Cauvel — disse.

Mary estava sentada na cama. Usou a orelha da sobre-capa para marcar a página do livro que estava lendo.

—  E o que é que o bom doutor tem a dizer?

—  Ele julga que o poltergeist é você.

—  Eu?

—  Diz que você estava sob pressão. . .

—  Não  estamos  todos?

—  Você principalmente.

—  E eu estava?

—  Porque se lembrou sobre Berton Mitchell.

—  Já tive outras lembranças antes.

—  Desta vez, lembrou-se de mais coisas do que antes. Cauvel diz que lá no consultório você estava sob extrema pressão,  e  que  você fez  com  que  os  cachorrinhos  saíssem voando.

Ela sorriu. — Um homem do seu tamanho fica tão engraçadinho de pijama.

—  Mary. . .

—  Pijama amarelo principalmente. Você devia usar só o robe.

—  Você está evitando a conversa. — Max veio até o pé da cama. — E os cachorrinhos?

—  Cauvel só quer que eu pague o prejuízo — ela respondeu em tom inconseqüente.

—  Ele nem sequer mencionou dinheiro.

—  É o que está planejando.

—  Ele não faz esse gênero — Max defendeu-o.

—  Eu pago metade do valor daqueles cãezinhos. Exasperado, Max exclamou: — Não é necessário, Mary.

—  Eu sei — ela respondeu, no mesmo tom frívolo. — Não fui eu quem os quebrou.

— Eu quis dizer que Cauvel não está pedindo coisa alguma.  Você  está fugindo  do  assunto.

—  Está bem, está bem. Ora, como foi que fiz os cães voarem?

—  Inconscientemente. Cauvel diz. . .

—  Os psiquiatras sempre culpam o inconsciente.

—  E quem prova que eles estão errados?

—  São uns burros!

—  Mary. . .

—  E você também é um burro por acreditar em Cauvel.

Mary não queria discutir, porém não conseguia se controlar. Sentia-se assustada com o rumo que a conversa tomava, embora sem entender por que sentia-se assim. Estava horrorizada com certo fato que intimamente conhecia, embora não pudesse compreender que fato poderia ser esse.

—  Quer me ouvir? — Max perguntou, de pé, parecendo um pregador religioso, segurando o volume como se fosse a Bíblia.

Ela sacudiu a cabeça, dando a entender que o achava irritante demais e não conseguia agüentá-lo.

—  Se sou eu a responsável pelas miniaturas quebradas, será que também sou culpada pelo mau tempo no Leste, pelas guerras na África, pela inflação, pela pobreza, pelas más colheitas recentes?

—  Sarcasmo.

—  Você o encoraja.

Os tranqüilizantes não estavam fazendo efeito algum. Estava tensa. Fremia. Como águas rasas, como anêmona emplumada flutuando à superfície das correntes sutis que precedem a tormenta, sentia-se nervosamente consciente de forças invisíveis trabalhando para destruí-la.

Sentia-se subitamente ameaçada por Max.

Isto não faz sentido, pensou. Max não representa perigo em minha vida. Está tentando me mostrar o caminho da verdade, nada mais.

Confusa, atordoada, no limiar de uma crise, reclinou-se nos travesseiros.

Max abriu o livro e leu, em voz alta, calma, mas intensa.

—  "Telecinese é a capacidade de mover objetos ou provocar alterações em sua estrutura, empregando-se apenas o poder mental. Tal fenômeno tem sido relatado, com maior freqüência, e em situações mais dignas de crédito quando o autor da telecinese se encontra em grave condição de stress ou durante uma crise. Por exemplo, carros que foram levantados por levitação sobre pessoas feridas, entulho resultante de incêndios e edifícios que ruíram e que foram removidos sobre pessoas agonizantes."

—  Eu sei o que é telecinese — Mary disse. Max ignorou-a e continuou lendo.

—  "Freqüentemente confunde-se a telecinese com a ação de poltergeists — que são espíritos brincalhões, às vezes malévolos. A existência de poltergeists como seres astrais é discutível o certamente não comprovada. É de se notar que, na maioria das casas onde ocorreram manifestações de poltergeists, havia um adolescente com sérios problemas de identidade, ou qualquer outra pessoa sob severa pressão nervosa. Do fato se origina o argumento de que os fenômenos comumente atribuídos aos poltergeists são, quase sempre, o resultado de telecinese inconsciente."

—  Isso é ridículo — Mary exclamou. — Por que motivoiria eu lançar todos aqueles cães pela sala justamente quando estava prestes a ver a cara do assassino na minha visão?

—  Porque, na realidade, você não queria ver a cara dele, portanto o seu subconsciente lançou as miniaturas a fim de distrair sua atenção da visão.

—  É um absurdo! Eu queria ver. Quero deter esse homem antes que mate outras pessoas.

Os duros olhos metálicos de Max eram como bisturis dissecando a mente da esposa.

—  Tem certeza de que quer detê-lo? - Que raio de pergunta é essa?

Ele suspirou. — Sabe o que eu acho? Acho que, pela clarividência, você pressentiu que esse psicopata vai matá-la se continuar no encalço dele. Vislumbrou um possível futuro, está desesperadamente tentando evitá-lo.

Surpresa, ela negou: — Não é nada disso!

—  A dor que sentiu...

—  Era a dor das vítimas. Não era a premonição da minha própria morte.

—  Talvez não tenha previsto o perigo conscientemente — Max argumentou. — Mas, no subconsciente, talvez, já se tenha visto como vítima, se continuar no caso. Isto explicaria por que está tentando se enganar com poltergeists e as conversas sobre possessão.

—  Eu não vou morrer — ela disse rispidamente. — Não estou fugindo de nada disso.

—  Neste caso, por que tem medo até de falar no assunto?

—  Eu não estou com medo.

—  Acho que está.

—  Não sou covarde. E não sou mentirosa.

—  Mary, estou só tentando ajudar.

—  Então, acredite em mim!

O modo como a fitou era estranho. — Não precisa gritar.

—  Você nunca me ouve senão quando eu grito.

—  Mary, por que está procurando briga? Não estou, ela pensou. Detenha-me. Abrace-me.

—  Foi você quem começou.

—  Eu só pedi que você considerasse uma alternativa a esse negócio de possessão. Sua reação foi despropositada.

Eu sei, Mary pensou. Sei que foi. E não sei explicar por quê. Não quero magoar você. Preciso de você.

No entanto, tudo o que disse, foi: — Ouvindo você falar, chego a pensar que nunca estou certa a respeito de coisa alguma. Estou sempre sendo despropositada, ou desorientada, ou confusa. Você me trata como se eu fosse uma criança.

—  Você está usando de autocondescendência.

—  Como se eu fosse uma menininha boba. Abrace-me, beije-me,  pensava  ela.  Por favor,  faça-me parar. Não quero discutir com você. Estou com medo. Max foi para a porta do quarto.

—  Não é hora de falar. Você não está com disposição para aceitar crítica construtiva.

—  Porque  estou me  comportando  como  uma criança?

—   É.                                                                                                     

—  Às vezes você fode a porra da minha paciência.    Max parou. Virou-se para ela.                                    

— Igualzinha a uma criança — comentou calmamente. — Uma criança tentando escandalizar um adulto, usando uma série de palavrões.

Ela abriu o livro na página que havia marcado, e, recusando-se a tomar conhecimento da presença do marido, fingiu que lia.

 

Preferia ficar inválida a ficar de mal com Max, mesmo temporariamente. Quando brigavam, o que era raro, sentia-se desgraçada. As duas ou três horas que invariavelmente se seguiam a uma discussão, e que comumente acontecia por sua culpa, tornavam-se insuportáveis.

Passou o resto da noite na cama lendo The Occult, de Colin Wilson. A cada página que começava, já não conseguia lembrar-se do que havia lido na página anterior.

Max permaneceu no seu lado da cama, lendo o seu livro o fumando cachimbo. Era como se estivesse a mil milhas de distância.

O noticiário das onze horas pela televisão, que ela ligou pelo controle remoto, relatou a macabra ocorrência de uma carnificina num salão de beleza em Santa Anna. Passaram o filme do salão, todo manchado de sangue, e entrevistas com policiais que nada tinham a dizer.

— Está vendo? — Mary disse. — Eu tinha razão quanto (In enfermeiras. Tinha razão quanto ao salão de beleza. E, por Deus, também tenho razão quanto a Richard Lingard.

Ainda estava falando e já se arrependia das palavras e, principalmente do seu Tom de voz.

Ele a fitou, guardando silêncio.

Mary desviou os olhos, baixando-os para o livro. Não pretendeureavivar a discussão. Muito pelo contrário. Queria que ele voltasse a falar com ela. Queria ouvir o som de sua voz.

Conquanto fosse ela quem, freqüentemente, começava as discussões, jamais iniciava as negociações de paz. Era psicologicamente incapaz de dar o primeiro passo. Deixava isto a cargo dos homens. Mesmo sabendo que não era justo, não conseguia mudar.

Supunha que tal incapacidade datava da morte violenta do pai.  Sua  ausência havia  sido  tão  súbita  que,  às  vezes, Mary sentia-se abandonada. Toda a sua vida adulta, passou-a angustiada com o pensamento de que poderia ser abandonada pelos homens, antes que estivesse pronta para terminar a relação.

E, é claro, jamais estaria preparada para romper seu casamento — que era para sempre. Portanto, sempre que ela e Max brigavam, sempre que surgia a preocupação de se ver abandonada por ele, forçava-o a oferecer o raminho de oliveira. Era um teste pelo qual Max passaria apenas se fosse capaz de sufocar seu amor-próprio mais do que Mary era capaz de fazê-lo. E, depois de ter passado pelo teste, teria também provado que a amava e que jamais a deixaria, como o pai fez.

A morte do pai era para ela mais importante do que qualquer mal que Berton Mitchell lhe tivesse feito.

Por que o Dr. Cauvel não entendia?

No quarto em sombras, depois de se tornar evidente que nenhum dos dois conseguia dormir, Max a tocou. Mary reagia às mãos do marido como o cristal fino à vibração rápida de um diapasão. Tremia, indefesa e descontrolada. Jogou-se para ele e começou a chorar.

Max não falou. As palavras já não importavam.

Abraçou-a durante algum tempo e depois começou a acariciá-la. Deslizou uma das mãos pelo pijama de seda, descendo para os quadris e para as nádegas. Movimentos lentos, quentes. Depois abriu dois botões da blusa de Mary e, introduzindo a mão, sentiu o seio cálido, demorando os dedos ao redor do mamilo. Entreabrindo os lábios, Mary pousou a boca no pescoço de Max, sentindo a musculatura vigorosa. Pelos lábios delicados sentia a pulsação forte sendo transmitida a ela. Max despiu-a, tirando depois as próprias roupas. O curativo do dedo roçou a coxa nua de Mary.

—  Seu dedo — ela murmurou.

—  Está tudo bem.

— O corte pode reabrir. Pode começar a sangrar de novo.

—  Ssshhhhhh — ele disse.

Não estava disposto a mostrar-se paciente, e embora Mary nada tivesse dito, sentia-a tão ansiosa quanto ele próprio. Colocou o corpo sobre o dela como se fosse alçar vôo e, em seguida a penetrou. Ainda que pouco esperasse além do deleite especial da proximidade de Max, ela chegou ao orgasmo em menos de um minuto. Não intensamente. . . uma onda suave de satisfação. Entretanto, ao sentir o segundo orgasmo, pouco antes de Max atingir o clímax fundo dentro de seu corpo, deixou escapar um grito de gozo.

Ficou deitada ao lado dele, apertando sua mão.

Enfim, disse: — Nunca me deixe. Fique comigo enquanto eu viver.

— Enquanto você viver — Max prometeu.

Às cinco e trinta da madrugada de quarta-feira, no meio de uma visão de pesadelo, em que via o próximo crime do mesmo assassino, Mary foi violentamente despertada do sono pelo som de um disparo. Um único tiro ensurdecedor, muito próximo. As paredes do quarto ainda vibravam com a explosão quando Mary sentou-se na cama, lançando longe as cobertas e jogando as pernas para fora da cama.

—  Max, o que foi isso? Max!

Ao seu lado, Max acendeu a luz e saltou do leito. Ficou parado, piscando, tonto.

A luz repentina cegou-a momentaneamente. Pelo olhos semicerrados viu que não havia intruso algum no quarto.

Max procurou pela arma carregada que sempre guardava na mesinha de cabeceira. Havia desaparecido.

—  Onde está a pistola? — perguntou.

—  Não peguei — ela respondeu.

Foi então que, ao adaptar a vista à claridade, viu a arma. Flutuava no ar, junto ao pé da cama, pairando a um metro e meio do chão, como que suspensa por fios invisíveis, exceto que não havia fio algum: o cano da arma estava apontado para ela.

O poltergeist!

—  Jesus! — Max exclamou.

Ainda que não se visse mão que apertasse o gatilho, o segundo tiro explodiu. O projétil foi alojar-se na cabeceira da cama a poucos centímetros do rosto de Mary.

Entrou em pânico. Sufocada, choramingando, correu às tontas pelo quarto, curvada como uma aleijada. A arma voltou-se para a esquerda, na sua direção. Mary chegou ao canto e parou. Encurralada! Compreendeu que devia ter corrido para o outro lado, onde poderia ter-se trancado no banheiro.

O terceiro tiro atingiu o soalho, ao lado de seus pés. Fiapos do tapete e lascas de madeira espalharam-se.

— Max!

Ele tentou agarrar a pistola, que libertou-se de suas mãos, subindo e descendo, balançando de um lado para outro, flutuando e ondeando, obrigando-o a dançar um bale desajeitado.

Mary procurava um esconderijo. Nada.

O quarto tiro passou pouco acima de sua cabeça, perfurando uma aquarela emoldurada do porto de Newport Beach.

Max conseguiu segurar a pistola, agarrar-se a ela. O cano contorcia-se em suas mãos até apontar para seu peito. Suando, praguejando, Max lutava para arrancar a pistola de mãos que não podia enxergar. Surpreendentemente, depois de alguns segundos, o adversário invisível rendeu-se e Max cambaleou para trás, levando nas mãos o troféu da vitória.

Mary continuou de costas coladas à parede, as mãos cobrindo o rosto. Não conseguia despregar os olhos do cano da pistola.

—  Está sob controle agora — Max disse. — Acabou-se. Começou a caminhar em sua direção.

—  Pelo amor de Deus, descarregue isso! — ela gritou apontando para a arma em sua mão.

Ele parou, fitou a pistola, tirando em seguida o pente de balas.

—  E todas as balas devem ser retiradas do pente — ela pediu.

—  Duvido que seja necessário se eu. . .

—  Faça o que eu digo!

As mãos enormes estavam trêmulas enquanto Max removia as balas. Depositou todas as peças sobre a cama: pistola, pente vazio, munição. Ficou estudando cada item, Mary fazendo o mesmo, como se esperassem que um dos objetos se levantasse do cobertor.

Nada se moveu.

—  O que foi aquilo? — Max perguntou.

—  Um poltergeist.

—  O que quer que fosse — ainda está aqui?

Mary cerrou os olhos, tentando relaxar, tentando sentir.

—  Não. Já foi embora — disse ela, depois de uma pausa.

 

Percy Osterman, xerife de Orange County, abriu a porta para que Mary e Max entrassem, fazendo um gesto para que seguissem à sua frente.

A sala era cinzenta. A pintura era cinzenta, os azulejos do chão eram cinzentos, os peitoris das janelas cinzentos de poeira. Um conjunto de estantes metálicas embuchadas em uma das paredes, e, na parede oposta, os arquivos de gavetas com frente de aço polido alinhavam-se lado a lado. As poucas peças de mobília eram feitas de aço tubular com estofamento de vinil cinza. As telas das lâmpadas do teto eram cinzentas, e a difusa iluminação fluorescente emprestava à sala um tom de gravura cm chiaroscuro.

Os únicos pontos luminosos na sala eram as limpíssimas pias de porcelana e a mesa inclinada para autópsias, que era imaculadamente branca com reluzentes peças em aço inoxidável.

O xerife constituía um todo de linhas marcadas e ângulos agudos. Era quase da altura de Max, uns vinte quilos mais magro e muito menos musculoso. No entanto, não tinha aparência fraca ou desgastada. As mãos eram grandes, ossudas, quase descarnadas, os dedos como garras. Os ombros curvavam-se para a frente. O pescoço era fino com um pomo-de-adão saliente. No rosto franzido, curtido de sol, os olhos eram ágeis, nervosos, de uma estranha tonalidade âmbar.

A carranca de Osterman era assustadora, mas seu sorriso era fácil e bondoso. Não sorria, porém, quando abriu um dos seis gavetões e levantou a mortalha, que cobria o rosto do cadáver.                                                                               

Mary afastou-se de Max, chegando mais perto do morto.

—  Kyle Nolan — Osterman informou. — Era o dono do salão de beleza. Trabalhava como cabeleireiro.

Nolan era baixo, ombros largos, peito redondo. Careca. Bigodes abundantes. Raspando-se o bigode, Mary pensou, teria ficado parecido com aquele ator, Edward Asner.

Pousou a mão na gaveta e ficou à espera da maré de impressões psíquicas. Mesmo não entendendo como nem por que, sabia que durante um período de tempo após a morte, os cadáveres mantinham uma aura de energia, uma cápsula invisível que.continha lembranças, cenas vividas do passado e dos momentos finais da vida. Em geral, o contato com a vítima de um crime, ou com objetos que a ela tivessem pertencido, gerava uma torrente de imagens, por vezes nítidas como a realidade, outras inutilmente vagas e sem sentido, a maioria relacionada com o momento da morte e a identidade do criminoso.

Neste caso, e pela primeira vez em sua experiência, não sentiu absolutamente nada. Nem mesmo o agitar indistinto de cores ou movimentos.

Tocou o rosto do morto. Nada ainda.

Osterman fechou a gaveta, abrindo a seguinte. Enquanto dobrava o lençol, disse: — Tina Nolan. Esposa de Kyle.

Tina foi uma mulher atraente, a despeito dos traços duros, do cabelo oxigenado que, profissionalmente, o marido deveria ter achado bastante embaraçoso. Conquanto o legista tivesse fechado os olhos do cadáver hora antes, estavam abertos agora. E encaravam Mary como se tentassem transmitir uma informação terrivelmente importante. Ao cabo, porém, nada ofereceram a mais do que Kyle o fez.

A mulher na terceira gaveta tinha menos de trinta anos. Foi bela, certa vez.

—  Rochelle Drake — Percy Osterman informou. — A última cliente de Nolan naquele dia.

—  Rochelle Drake? — Max perguntou. Aproximou-se, espiando para dentro do gavetão. — Será que não conheço esse nome?

—  Reconhece esta mulher? — o xerife Osterman perguntou.

Max sacudiu a cabeça. — Não, mas... Mary? O nome não lhe diz alguma coisa?

—  Não — Mary respondeu secamente.


—  Quando você teve a visão destes assassinatos, disse queachava que conhecia uma das vítimas.

—  Eu estava enganada — ela disse. — Estas pessoas me são estranhas.

—  Que esquisito — Max insistiu. — Eu juraria... bem, não sei o que juraria... exceto que o nome desta mulher... Rochelle Drake... não me é estranho.

Mary já não prestava atenção a ele, pois percebia uma certa eletricidade no ar, um frêmito de forças psíquicas. Esta mulher, Rochelle Drake, dar-lhe-ia o que os outros corpos se haviam recusado a oferecer-lhe. Mary abriu a mente às emanações psíquicas, tornando-se o mais receptiva possível, e pousou a mão sobre a testa da mulher morta.

Ui-i-i-c! Ui-i-i-i-c! XJi-i-i-i-c!

Asas!

Alarmada, retraiu sua mão do corpo morto, como se tivesse sido mordida.

Sentia as asas, asas de couro, vibrando como membranas, como um tambor.

Não é possível, pensou freneticamente. As asas dizem respeito a Berton Mitchell. Não têm relação alguma com esta mulher. Nem com o homem que a matou. As asas pertenciam ao passado, não ao presente. Berton Mitchell não podia estar envolvido com o que se passava agora. Havia se enforcado numa cela de prisão há quase vinte e quatro anos.

E agora sentia o cheiro das asas, podia senti-lo fisicamente, o cheiro das asas e da criatura que se escondia por trás de tudo aquilo — o odor úmido, rançoso, almiscarado, que lhe dava náuseas.

E se o homem que havia assassinado Rochelle Drake e todos os outros não estivesse possuído pelo espírito de Richard Lingard? E se, ao invés, estivesse possuído pela alma daquele outro psicopata — de Berton Mitchell? Não seria concebível que o próprio Lingard tivesse sido possuído pelo espírito de Berton Mitchell? E quando Barnes deu cabo da vida de Lingard, não poderia o espírito de Berton Michell ter ido buscar abrigo em outro corpo vivo? Talvez, sem saber, Mary estivesse enfrentando uma nêmesis muito antiga. Talvez passasse o resto da vida no encalço de Berton Mitchell. Talvez fosse obrigada a segui-lo numa procissão de corpos que o abrigavam até que, finalmente, fosse dada a Mitchell a oportunidade de matá-la.

Não. Era loucura. Só um lunático pensaria assim.

—  O que está errado? — Max perguntou.

Asas. Asas roçavam-lhe o rosto, a nuca, ombros, colo, ventre; batiam em seus tornozelos; subiam-lhe pelas pernas, depois pela parte interna de suas coxas.

Estava decidida a não sucumbir ao medo. E estava também convencida de que se não parasse de pensar nas asas, estas a levariam para um local de trevas eternas. Idéia ridícula! Mas, afastou-se da gaveta.

—  Está recebendo alguma impressão? — Max perguntou.

—  Agora não — mentiu.

—  Mas recebeu?

—  Só por um instante.

—  O que foi que viu? — ele perguntou.

—  Nada de importante. Só movimentos sem sentido.

—  Acha que pode retomar o fio? — Não.

E não devia, pois, se o fizesse, veria o que se escondia por trás daquelas asas. E jamais devia ver o que se escondia por trás das asas.

Osterman fechou a gaveta.

Mary deixou escapar um suspiro de alívio.

 

O xerife Osterman acompanhou-os até o fundo do estacionamento municipal, onde haviam deixado o carro.

O céu de dezembro assemelhava-se ao necrotério — todo em tons de cinza. As nuvens rápidas refletiam-se na capo da polida do Mercedes.

Arrepiada, Mary pôs as mãos nos bolsos do casaco e encolheu os ombros contra o frio.

—  Ouvi falar muito a seu respeito — Osterman disse a Mary, com seu jeito parcimonioso de falar. — Pensei muitas vezes em trabalhar com a senhora. Agradecida quando telefonou esta manhã. Esperava que me desse uma pista.

—  Era o que eu também esperava — Mary respondeu.

—  Previu o crime, não foi?

—  Sim — respondeu.

—  Aquelas enfermeiras em Anaheim também. —- É verdade.

— O mesmo homem, a senhora acha?

—  Sim.

Osterman concordou. — E o que também achamos. Temos algumas provas.

—  Que espécie de provas?

—  Quando ele dizimou as enfermeiras — Osterman relatou, cada palavra saindo distinta e rápida — quebrou uns objetos . . . coisas religiosas. Dois crucifixos. Estatueta da Virgem. Estrangulou uma das moças com um rosário. Encontramos algo parecido neste caso do salão de beleza.

—  O que foi? — Mary perguntou.

—  Negócio feio. Talvez não goste de ouvir.

—  Estou acostumada a ouvir e ver coisas feias — foi a resposta.

Ele a fitou por um momento, os olhos de âmbar sem expressão.

— Tem razão, eu acho. — Encostou-se no Mercedes. — Essa mulher no salão de beleza. Rochelle Drake. Usava um cordão. Uma cruz de ouro. Ele a violentou antes de matá-la. Arrancou a cruz. Enfiou...  dentro dela.

Mary sentiu-se mal. Encolheu-se.

—  Nesse caso, é um psicopata com algum trauma religioso — Max deduziu.

—  Parece que sim — Osterman respondeu. Olhou para Mary.

—  Aonde vão, saindo daqui?

—  Vamos descer até a praia.

—  King's Point — Max acrescentou.

—  Por que lá?

Ela hesitou; lançou um rápido olhar a Max. — É onde vão ocorrer os próximos assassinatos.

Osterman não se mostrou surpreendido. — Outra visão, não é?

—  Hoje de manhã cedo — Mary informou.

—  Quando vai acontecer?

—  Amanhã à noite.

—  Véspera de Natal?

—  Sim.

—  Em que parte de King's Point?

—  Na área do porto — ela disse.

—  É um porto bem grande.

—  Vai acontecer perto das lojas e restaurantes.

—  Quantos ele vai matar? — Osterman indagou.

—  Não tenho certeza.

Sentia tanto frio, meu Deus, mais do que o dia de inverno e o vento da Califórnia poderiam proporcionar, frio na boca do estômago, frio no coração. Vestia um casaco de pele de bezerro, muito elegante mas de forro fino, da loja North Beach Leather. Deveria ter trazido um agasalho de peles mais pesado.

—  Talvez eu consiga detê-lo antes que mate mais alguém — ela disse.

—  Acha que é sua responsabilidade fazê-lo parar? — Osterman perguntou.

—  Não vou saber o que é paz de espírito até que o consiga.

—  Não era eu que queria ter esses seus poderes...

—  Nunca pedi para ter esses poderes.

Um caminhão passou roncando alto pela rua. Osterman esperou até que o ruído acabasse.

—  King's Point fazia parte da minha jurisdição — disse ele. — Há dois anos elegeram sua própria força policial. Agora, não posso meter meu nariz a menos que eles peçam. Ou a menos que um caso comece aqui e vá parar na soleira deles.

—  Quem me dera poder trabalhar com o senhor — Mary disse.

—  Vai trabalhar com uma besta — Osterman comentou.

—  Perdão?

—  O Chefe de Polícia de King's Point. Patmore. John Patmore. Uma besta. Se ele amolar a senhora, peça-Ihe para me telefonar. Ele me respeita, mas é uma besta assim mesmo.

—  Usaremos seu nome se for preciso — Mary disse. — Mas também temos nossos contatos lá. Conhecemos o proprietário do King's Point Press.

Osterman sorriu. — Lou Pasternak? — Conhece-o?

—  Excelente jornalista.

—  É. Ele é mesmo.

—  E é um tipo, também.

—  Sim, um pouquinho.

O xerife ofereceu a mão primeiro a Mary e, em seguida, a Max.

—  Espero que façam o meu serviço por mim, desta vez.

—  Obrigado pela sua ajuda — Max agradeceu.

— Não hesitem em me chamar, se for necessário. O prazer foi todo meu.

Quando Mary entrou no Mercedes, uma rajada de vento   sibilou nos cabos de energia, acima de sua cabeça.

 

Chegaram a King's Point às duas e meia da tarde. A primeira vista que tiveram da cidade, ao atingirem o topo de uma lombada da estrada, foi do porto, lá embaixo.

O céu estava baixo. Espessas nuvens cinzentas deslizavam para a terra. A uma milha da costa, o oceano envolvia-se em neblina, e mais perto da praia ondas imensas encrespavam-se debaixo de meia dúzia de surfistas, e vinham desmanchar-se cm espuma sobre a areia, e explodiam em jatos contra o quebramar de pedra, de cada lado da entrada do porto.

A cidade ficava à beira da Pacific Coast Highway, poucas milhas ao sul de Laguna Beach, reduto perpetuamente pleno de sol e de dinheiro. O sol havia se escondido, mas a prosperidade era evidente à toda volta. Casas nas vertentes verdejantes valiam de setenta e cinco a quinhentos mil dólares, quase todas muito bem tratadas, jardins decorativos e vista do oceano. Casas a beira-mar, com docas particular, não eram tão caras como em Newport Beach, mas os corretores imobiliários não perdiam tempo com clientes que se assustavam com a cifra de um quarto de milhão de dólares. Na baixada, entre o porto e as montanhas, as casas eram mais baratas — e também havia prédios de apartamentos — e mesmo estes eram caros pela maioria dos padrões convencionais de preço.

As brochuras de turismo proclamavam que King's Point era "um encanto", "uma jóia", "pitoresca" e, por esta vez ao menos, não mentiam. Os gramados eram verdes e viçosos; os vários pequenos parques exibiam uma quantidade enorme de toda sorte de palmeiras, oleandros, magnólias, dracenas, costelas-de-adão, oliveiras, plantas e flores tropicais. As mansões eram bem cuidadas, pintadas a cada ano ou dois, como medida de proteção contra a maresia corrosiva. Os comerciantes eram obrigados a renunciar às placas iluminadas, e proibidos, por lei, a pintar suas lojas em cores que não fossem de suaves tons naturais.

Os habitantes de King's Point pareciam pensar que com seus regulamentos locais podiam afastar todos os males que faziam do resto do mundo um lugar pouco aprazível. E, de fato, conseguiam manter à distância muito do que era de mau gosto, vulgar ou espalhafatoso.

Mas não podem evitar tudo que não desejam, Mary pensou. Um assassino, vindo de fora, encontrava-se em seu meio. Está circulando entre eles agora. E não podem usar seus regulamentos locais para evitar a morte.

Nos meses de primavera até princípios de outono, a população de King's Point era sessenta por cento maior do que no inverno.

Durante a temporada de férias, os motéis ficavam com todas as reservas tomadas com antecedência, os restaurantes elevavam seus preços, exceto para os moradores permanentes que eram reconhecidos, as lojas contratavam mão-de-obra extra, e as praias brancas ficavam repletas. Agora, a dois dias do Natal, a cidade apresentava-se tranqüila. Quando Max deixou a rodovia, entrando na Rua Principal, depararam com trânsito muito escasso.

A Chefatura de Polícia de King's Point localizava-se num prédio baixo, de tijolos, absolutamente sem qualquer indicação de estilo, período, charme, integridade ou responsabilidade. Assemelhava-se a um galpão descomunal, de telhado plano, com algumas janelas. Mesmo a três quadras do porto, nas terras planas ao sopé dos morros, aninhadas num limbo entre as duas zonas de maior valor imobiliário — beira-mar e vista panorâmica — não constituía crédito para a vizinhança.

Entrando-se, a sala de espera geral era deprimentemente institucional: chão de ladrilhos marrons, paredes de um verde embaçado, teto verde-pálido, mobília estritamente funcional. O dinheiro dos impostos havia sido empregado na compra de três escrivaninhas, seis arquivos de gavetas, máquinas IBM, uma copiadora, uma pequena geladeira, uma bandeira dos Estados Unidos da América, um gabinete com portas de vidro, cheio de armas e pistolas, um conjunto de despacho com rádio — e uma secretária civil (cujo nome era Sra. Vidette Yancy, conforme a placa sobre a mesa), mulher cinqüentona, de cabelos grisalhos encaracolados, pele pálida, batom vermelho vibrante e busto imenso.

— Gostaria de falar com o Chefe Patmore — Mary disse.

A Sra. Yancy levou um minuto corrigindo um erro de datilografia que acabara de cometer.

—  Ele? — respondeu finalmente. — Está fora.

—  Quando vai estar de volta?

—  O Chefe? Só amanhã de manhã.

—  Pode nos dar seu endereço particular? — Max perguntou, recostando-se no balcão de fórmica, que separava o saguão da área de trabalho.

—  O endereço particular? — A Sra. Yancy repetiu. — Decerto. Posso dar. Mas ele não está em casa.

—  Onde está ele? — Mary perguntou com impaciência.

—  Onde está? Ué, em Santa Bárbara. Só vai voltar às dez horas de amanhã.

Mary virou-se para Max. — Acho que devíamos falar com o assistente dele.

—  Assistente? — disse a Sra. Yancy. — Temos cinco oficiais sob as ordens do chefe. Claro, só dois deles estão de serviço no momento.

—  Se esse cara faz jus a tudo que ouvimos — Max disse — não vai adiantar nada falar com seus subordinados. Ele vai querer tomar conta do caso pessoalmente.

—  O tempo está correndo — Mary disse.

—  Não temos até as sete horas da noite de amanhã?

—  Se a visão está correta, temos.

—  Neste caso, se falarmos com Patmore amanhã cedo, leremos tempo de sobra.

—  Os oficiais de serviço saíram numa batida — a Sra. Yancy informou. — Queriam dar queixa de algum crime?

—  Não exatamente — Mary respondeu.

—  Não exatamente? Bem, tenho os formulários bem aqui, sabem. — Abriu uma gaveta, começando a remexer dentro dela. — Posso anotar as informações e pedir a um dos policiais que entre em contato com vocês.

—  Não se incomode. Voltaremos amanhã às dez horas — Max disse.

 

No fim do porto, na baía, valiosas terras de marinha eram ocupadas por empresas comerciais — clubes de iatismo, escritórios de venda de iates, estaleiros, restaurantes e lojas. Cada negócio apresentava-se limpo, atraente e bem tratado, assim como as muitas vivendas que se alinhavam ao longo dos dois lados do canal do porto.

O Laughing Dolphin era um restaurante com salão de coquetéis, cuja entrada dava para o porto. No segundo pavimento, um estreito convés ao ar livre suspendia-se sobre as águas. Nos dias de tempo bom, os freqüentadores podiam tomar seus pileques alegremente, enquanto o sol bronzeava seus rostos. Nesta tarde, estava deserto. Max e Mary tinham-no só para si.

Segurando uma caneca de café aromatizado com conhaque, Mary apoiou-se no parapeito de madeira.

Para alguém que se resguardasse da brisa marinha, o dia pareceria apenas fresco, mas o vento que soprava do oceano era gelado. Beliscava o rosto de Mary, trazendo um saudável rosado às suas faces.

Olhando à direita e para cima, podia ver o Spanish Court, o hotel onde ela e Max haviam feito reserva. Elevava-se no morro ao norte, bem acima do porto. Era um prédio majestoso, todo em branco com madeiras naturais e telhas vermelhas.

Mais próximos, oito barcos da categoria dinghy velejavam em formação, serpeando para frente e para trás ao sabor das suaves ondas cinzentas. Em contraste com os veleiros e iates de sessenta, oitenta e cem pés, as diminutas embarcações ofereciam uma vista adorável e divertida. Mesmo hoje, sem a luz do sol incidindo, suas velas eram estonteantemente alvas. No percurso gracioso eram uma definição de serenidade.

—  Estude bem os barcos, as casas, todo o porto — Max sugeriu. — Talvez veja alguma coisa que desperte sua visão.

—  Não creio — ela respondeu. — Dissipou-se para sempre quando acordei e vi que estavam atirando em mim.

—  Você tem que tentar.

—  Tenho?

—  Não foi por essa razão que quis vir?

—  Se eu não sair à cata desse assassino — ela disse — ele acabará por vir à minha procura.

O vento soprou súbito, fazendo o casaco de couro bater contra suas pernas, fazendo vibrar as grandes vidraças das janelas que fechavam o salão de coquetéis atrás deles.

—  Talvez ajude, se você me repetir como vai acontecer — Max disse. Não obtendo resposta, tentou orientá-la.

—  Amanhã, às sete da noite. Não muito longe do ponto em que estamos.

—  A umas duas quadras daqui — Mary respondeu.

—  Você me contou que ele traria um facão.

—  O facão de Lingard.

—  Seja como for — um facão.

—  O de Lingard — ela insistiu.

—  Você disse que ele esfaquearia duas pessoas.

—  Sim, duas.

—  Até matá-las?

—  Uma delas, talvez.

—  Mas não a outra.

—  Uma, pelo menos, sobreviverá. Talvez as duas.

—  Quem são essas pessoas que ele vai atacar?

—  Não sei os nomes.

—  Como são elas?

—  Não pude ver os rostos.

—  Moças, como no caso em Anaheim?

—  Realmente, não sei.

—  E o rifle?

—  Estava na visão.

—  Ele está com o facão e com o rifle?

—  Depois de esfaquear aquelas duas pessoas — ela contou — ele vai levar o rifle para uma torre. Pretende atirar em todo mundo.

—  Todo mundo?

—  Uma porção de gente. Quantas puder.

Da extremidade do porto, um grupo de gaivotas se aproximava, vindas de alto-mar, planando muito alto no vento, as penas alvas em dramática silhueta contra o céu de tormenta.

—  Quantas pessoas ele vai matar?

—  A visão terminou antes que eu pudesse ver.

—  Em que torre vai se refugiar?

—  Não sei.

—  Olhe ao seu redor — Max sugeriu. — Olhe firme para cada uma delas. Tente ter a sensação de qual vai ser.

À direita de Mary, a uns cem metros de distância, fazendo a volta da curva da baía, e a quase duzentos metros do Laughing Dolphin, a Igreja Católica da Santíssima Trindade ficava a uma quadra das docas. Era uma estrutura em estilo gótico, melancólico — uma fortaleza majestosa de granito desgastado e vitrais belíssimos. A torre do sino, de trinta metros de altura, com uma área aberta de parapeito baixo, diretamente abaixo do telhado pontudo, era o ponto mais alto nessas duas quadras do porto.

O ruído das gaivotas distraiu sua atenção por um momento. Acima da formação dos barcos que brincavam de "faremos tudo que seu mestre mandar", as gaivotas, ainda seguindo seu rumo para a terra firme começaram a soltar gritos excitados. As vozes estridentes pareciam unhas arranhando um quadro-negro.

Mary tentou não ouvir os pássaros, concentrada na Igreja da Santíssima Trindade. Não recebeu impressões. Nem imagens. Nem vibrações psíquicas. Nem a mais vaga premonição de que o assassino atacaria King's Point do campanário da Igreja.

A Igreja Luterana de São Lucas interpunha-se entre Mary e a igreja católica. Ficava a setenta metros ao norte, a meia quadra do porto. Era um edifício em estilo espanhol com maciças portas de carvalho talhado, e um campanário de pouco mais da metade da altura da torre da Santíssima Trindade.

Nenhuma emanação da igreja luterana tampouco. Apenas o vento soprando lúgubre e os gritos assustados das gaivotas.

A terceira torre ficava à sua esquerda, a uns duzentos metros, à beira da água. Tinha apenas quatro andares de altura, e fazia parte do KimbalFs Games & Snacks, um pavilhão feito de tábuas, com teto de cedro que abrigava um recinto de jogos e passatempos. Durante o verão, turistas armados com suas máquinas fotográficas subiam àquela torre para tirar instantâneos do porto. O lugar, agora, estava fechado, quieto, deserto.

—  Vai ser a torre do Kimball's? — Max perguntou.

—  Não sei — Mary respondeu. — Pode ser qualquer uma delas.

—  Você precisa se esforçar mais — ele disse. Mary fechou os olhos e concentrou-se.

Guinchando nervosamente, uma das gaivotas descreveu um vôo razante e passou junto aos seus rostos, a oito ou dez polegadas apenas.

Mary, assustada, saltou para trás, deixando cair a xícara de café.

—  Você está bem? — Max perguntou.

—  Espantada, só isso.

—  Chegou a tocar em você?

—  Não.

—  Elas não costumam mergulhar assim tão perto, a menos que seus ninhos estejam sendo invadidos. Mas não há lugar por aqui onde possam botar ovos. Além do mais, não está na época de chocar.

O grupo de gaivotas que havia entrado no porto há poucos minutos circulava acima de suas cabeças. Não aproveitavam as correntes de ar, como é costume das gaivotas; seu vôo nada tinha de grácil ou ocioso. Ao contrário, torciam-se e fremiam, elevavam-se e mergulhavam, em delírio, cortando o ar numa esfera de espaço bem definida. Pareciam estar sob tortura. Era de surpreender que não colidissem umas contra as outras. Em pleno ar, como se estivessem a xingar-se mutuamente, tomavam parte numa estranha e frenética dança.

—  O que as terá assustado? — Max conjecturou.

—  Eu — Mary respondeu.

—  Você? Mas, o que fez?

Ela tremia. — Tentei usar minha clarividência para ver qual a torre que o assassino vai usar.

—  E daí...?

—  Daí, que as gaivotas vieram para impedir-me de ver. Atônito, ele exclamou:  — Mary,  isto não faz sentido.

Gaivotas treinadas? — perguntou.

—  Treinadas, não. Controladas.

—  Controladas por quem? Quem as enviou? Ela quedou-se fitando os pássaros.

—  Quem? — Max tornou a perguntar. — O fantasma de Lingard?

—  Talvez.

Ele tocou-lhe o ombro. — Mary...

—  Você viu o poltergeist que me perseguia, droga!

Num tom de voz que significava "vamos nos acalmar e serrazoáveis", e que a deixava louca, Max disse:

—  Qualquer que seja a força que causa os fenômenos dos poltergeists pode levantar e animar objetos inanimados, mas uflo seres vivos.

—  Olhe — foi a resposta de Mary — você não é o dono da verdade. Você não sabe... — Desviando o olhar, levantou-o pura o céu.

—  O que foi? — Max perguntou.

—  Os pássaros!

As gaivotas ainda voavam insanamente, mas estavam silen-tiosns. Totalmente em silêncio.

—  Que estranho — Max comentou.

—  Eu vou entrar.

Quase conseguiu chegar à porta corrediça que ligava a áreaaberta ao salão de coquetéis do segundo andar, quando uma das gaivotas a atacou pelas costas, entre os ombros, como um martelo. Mary cambaleou e instintivamente levou uma das mãos ao rosto. Ás asas batiam em sua nuca; golpeavam sua cabeça; trovejavam em seus ouvidos. Estas não eram as asas que associava mentalmente a Berton Mitchell, grossas, membranosas. Estas eram asas emplumadas. O que não tornava a experiência menos assustadora. Pensou no bico curvo e malignamente afiado, pensou naquele bico perfurando seus olhos. .. e gritou.

Max bradou algo que não pôde ouvir.

Tentou apanhar a ave — deu-se conta de que a gaivota poderia rasgar-lhe os dedos — retirou a mão nervosamente.

Max golpeou a ave, libertando Mary. A gaivota caiu temporariamente entontecida.

Abrindo a porta, Max empurrou Mary para dentro, entrou logo em seguida e fechou a porta.

O garçom do bar presenciou o ataque, e corria para o fim do balcão, dando a volta e limpando as mãos numa toalha.

Um homem ruivo e atarracado girou na banqueta para ver o que estava ocorrendo.

Num dos reservados de vinil preto, ao lado das janelas, um jovem casal — uma loura bonita num vestido verde, e um homem moreno de olhar intenso — deixaram de ficar mirando seus drinques.

Antes que o garçom pudesse dar três passos, uma gaivota jogou-se contra a porta envidraçada atrás de Max. Duas pequenas vidraças se partiram. O vidro tilintou musicalmente no chão.

A garçonete deixou cair a bandeja e precipitou-se para a escada que levava ao restaurante.

Com estampido semelhante ao disparo de uma espingarda, outra gaivota projetou-se contra uma das janelas que davam para a vista do porto. O vidro rachou sem estilhaçar-se. O pássaro machucado desfaleceu no terraço, deixando uma nódoa de sangue escuro indicando a colisão.

—  Elas vão me matar!

—  Não — Max disse.

—  É isso que querem!

Max envolveu-a num abraço protetor, mas, pela primeira vez desde que o conhecia, pareceu a Mary que os braços do marido não eram suficientemente fortes, nem seu peito suficientemente largo, nem seu corpo suficientemente vigoroso para dar-lhe segurança.

Uma gaivota descreveu uma pirueta perto da janela onde o jovem casal se sentava. O vidro partiu-se num desenho recortado como o de um relâmpago. A moça loura gritou e arrastou-se para fora do reservado.

Um instante depois de seu companheiro prudentemente acompanhá-la, outra gaivota arremessou-se contra a mesma janela, rompendo o vidro. Grandes lascas depositaram-se sobre a madeira escura da mesa, levantando-se em cacos menores e espalhando-se pelo banco de vinil onde, poucos minutos antes, o casal estava sentado.

A gaivota, decapitada, tombou no centro da mesa, e a cabeça ensangüentada foi mergulhar na taça de martíni da moça.

Mais duas gaivotas passaram pela abertura da vidraça quebrada.

— Não as deixe! — Mary gritou histericamente. — Não me deixe, não, não, não, não, por favor, não!

O casal jovem se pôs de joelhos, escondendo-se atrás e debaixo de uma mesa.

Max empurrou Mary para o canto mais próximo. Escudou-a com seu próprio corpo o melhor que podia. Um dos pássaros voou diretamente para ele. Max levantou o braço em atitude de defesa. A criatura guinchou colérica e afastou-se, circulando pela sala.

A outra gaivota tentou aterrissar sobre uma das mesas redondas no centro da sala. Suas asas derrubaram a peça de centro da mesa — uma lanterna de vidro e cobre, com uma vela acesa — e a toalha incendiou-se.

O garçom usou o pano úmido para extinguir o princípio de chamas.

A gaivota alçou vôo da mesa indo para as prateleiras atrás do bar, onde ficavam as garrafas. Duas, três, quatro, meia dúzia, oito garrafas espatifaram-se. Em sua banqueta, o homem ruivo estava perplexo demais para se sentir amedrontado. Contemplava, fascinado, enquanto a ave batia as asas, agitava os pés e jogava mais garrafas ao chão. A fragrância do uísque desabrochou pela sala.

A primeira das gaivotas investiu novamente contra Max. Veio voando alto, adejou selvagemente no canto e, depois com maligna inteligência, desceu pelas costas de Max, atingindo a cabeça de Mary.

Seus pés emaranharam-se nos cabelos dela. — Deus, não! não!

Agarrou a gaivota, sem se importar com o bico agudo, sem se importar que ferisse seus dedos. Era um animal sujo. Soltou-o. Max também tentou agarrá-lo. Depois, a ave afastou-se de ambos, subindo, voando em círculos pela sala. Em um segundo, no entanto, projetou-se de volta indo bater na parede ao lado da cabeça de Mary. Foi lançada ao chão e ficou aos pés dela, contorcendo-se espasmodicamente.

Ofegante, com as mãos e dedos espalmados cobrindo o rosto, Mary afastou-se da ave.

— Ela está aterrorizada — Max disse.             ,

—  Mate-a! — Mal conseguia reconhecer a própria voz; estava completamente alterada pelo medo e pelo ódio.

Max hesitou. — Não creio que ainda represente perigo.

—  Mate-a antes que possa tornar a voar!

Ele chutou a gaivota para um canto, levantou o pé e, com visível relutância, pisou-lhe a cabeça.

Mary virou-se, acometida de náuseas.

A outra gaivota afastou-se do bar e deixou a sala pela janela quebrada.

Tudo ficou quieto, imóvel.

Finalmente, o homem moreno de olhar intenso levantou-se, e ajudou a companheira a pôr-se de pé.

O ruivo atarracado sentado ao balcão, virou sua bebida de um só gole.

—  Jesus! Que bagunça! — o garçom exclamou. — O que teria acontecido? Onde já se viu gaivotas se comportando desse jeito antes?

Max acariciou levemente o rosto de Mary.

—  Você está bem?

Descansando contra o corpo do marido, Mary chorou.


 

18h30min.

Na noite, luzes salpicavam os morros de King's Point como milhares de olhos faiscantes. Para as bandas do oeste, céu e oceano fundiam-se numa única mortalha negra.

Max parou o carro junto ao meio-fio e desligou os faróis. Inclinou-se e deu um beijo em Mary. — Você está linda hoje.

Ela sorriu. A despeito dos terríveis acontecimentos do dia, sentia-se bonita, feminina, radiante.

—  Essa é a sexta vez que você me diz a mesma coisa.

—  O número de sorte é sete. Você está linda hoje. — Tornou a beijá-la. — Sente-se melhor? Está relaxada?

—  O homem que inventou o valium devia virar santo.

—  Você devia virar santa — disse ele. — Não se mova agora. Estou me sentindo incrivelmente cavalheiresco. Vou dar a volta e abrir a porta para você.

O vento do mar não estava mais forte do que havia estado durante o dia, embora com a chegada da noite soprasse mais frio, parecendo também mais barulhento. Agitava vidraças mal colocadas até causar estrépito; sacudia portas de garagens, fazendo-as ranger e gemer; fazia galhos de árvores arranharem paredes e derrubava latas de lixo vazias. Ajuntava as copas abundantes das palmeiras num coro de silvos de serpentes, e empurrava uma ou outra lata vazia de refrigerante pelas ruas.

Abrigada do rigor do vento por densas folhagens, pinheiros e tamareiras, a casinha térrea do no. 440 da Ocean Hill Lane parecia cálida e aconchegante. Luz suave filtrava-se pelas janelas gradeadas. Uma lanterna antiga de carruagem luzia ao lado da porta da frente.

Lou Pastemak — proprietário e editor do King's Point Press, publicado duas vezes por semana — atendeu a porta e trouxe-os depressa para dentro. Enquanto comentavam mutuamente a ótima aparência de cada um, e que contentamento tornarem a se encontrar, Pasternak beijou Mary no rosto, trocou um aperto de mão com Max e pendurou seus agasalhos no armário.

Estar na presença de Lou, pensou Mary, era tão relaxante quanto tomar um tranqüilizante. À exceção de Max e do irmão, Mary gostava mais de Lou do que de qualquer outro homem que tivesse conhecido. Ele era inteligente bom, muito generoso. Era igualmente o homem mais cético que já havia conhecido, mas o ceticismo sempre vinha temperado pela humildade e por um maravilhoso senso de humor.

Preocupava-se por ele beber em excesso. Contudo, ele próprio reconhecia que bebia demais e podia falar sobre o problema sem se alterar. Argumentava que se alguém compreendia quão desvairado andava o mundo, e quão próximo do paraíso poderia estar, e se esse mesmo alguém compreendia que o que poderia ser jamais seria, porque quase todos eram tão imbecis — ora, era necessário ter-se uma bengala para passar pela vida com sua sanidade mental intacta. Para alguns a bengala era o dinheiro, ou as drogas, ou um milhão de outras coisas. Sua bengala era a bebida. Uísque. Ou bourbon da melhor qualidade.

—  Minha mãe — Mary lhe dizia às vezes — levou uma vida miserável como alcoólatra.

—  Sua mãe — Lou sempre respondia — parece ter sido uma alcoólatra que não agüentava beber. Não há nada pior do que um bêbado relaxado — a não ser por autocomiseração.

Seu vício não parecia influir na vida cheia que levava. Havia fundado e ainda dirigia um negócio extremamente bem sucedido. Seus editoriais e reportagens haviam ganho vários prêmios nacionais. Aos quarenta e cinco anos, embora nunca tivesse se casado, tinha mais amigas do que qualquer outro homem que Mary conhecesse. Vivia sozinho atualmente, mas a situação não perduraria por muito tempo.

Mary já o tinha visto tomar quantidades hercúleas de bebida, no entanto, jamais o vira bêbado. Jamais perdia o equilíbrio, ou ficava com voz pastosa, ou se tornava inconveniente, espalhafatoso ou irritante. Não apenas agüentava firme a bebida, ao contrário, parecia desabrochar sob seu efeito.

—  Eu não bebo para fugir às minhas responsabilidades — disse-lhe, certa vez. — Bebo para fugir às conseqüências da incapacidade alheia de enfrentar suas próprias responsabilidades.

—  O álcool matou minha mãe — ela o preveniu. — Não quero que você morra.

—  Todos nós morremos um dia, minha querida. Tanto faz a gente se acabar por causa de um fígado podre, como por causa de um câncer ou de um enfarte. Na verdade, acho até que é uma morte melhor.

Ela o amava tanto quanto amava Max, ainda que de modo diferente.

Lou era atarracado, uns trinta centímetros mais baixo do que Max e mesmo um tiquinho mais baixo do que Mary. Estrutura sólida. Pescoço, ombros, braços e peito volumosos de músculos, poderosos. Vestia uma camisa branca, mangas enroladas; os antebraços cobertos de pêlos.

Seu rosto era um contraste extremo com o corpo. Possuía as feições finas do aristocrata nato. Penteava os cabelos para trás, deixando o rosto à mostra. Testa alta, brilhantes olhos castanhos fundos e expressivos; nariz estreito de narinas delicadas; e sua boca era quase severa. Usava óculos de aros de metal que o tornavam parecido com um professor universitário.

—  Bourbon com gelo — informou, pegando um copo alto que havia deixado na mesa com tampo de ardósia no hall, de entrada. — O terceiro, desde que voltei do trabalho para casa. Caso o vento derrube os cabos de energia mais tarde, pretendo estar tão aceso que vou poder ler meu livro na cama usando minha própria luz.

Posto que houvesse poltronas e um confortável sofá, a sala de estar era primordialmente suprida de livros, revistas, álbuns de discos e quadros. Estantes se erguiam atrás e dos lados do sofá; livros empilhavam-se na prateleira baixa da mesa de centro; números recentes de revistas transbordavam da estante feita para guardar uma centena delas. A única parede virgem de livros e discos estava toda tomada por quadros a óleo, pastéis e aquarelas de pintores locais. Dezenas de obras de todos  os estilos e escolas imagináveis amontoavam-se de tal jeito que sua beleza individual perdia-se; intrometiam-se mutuamente, mas o gosto artístico de Lou era a tal ponto refinado que mesmo em tais circunstâncias a atenção se voltava e se prendia em algum detalhe durante o passar de uma longa noite. Uma das poltronas estava mais gasta e esgarçada do que a outra. Era aquela onde Lou se sentava, lendo meia dúzia de livros por semana, bebendo desabridamente, e ouvindo ópera, Benny Goodman, ou Bach.

Era a sala mais amiga que Mary já tinha visto.

Lou trouxe as bebidas. Colocou um disco de Bach no estéreo, em volume baixo, com orquestra regida por Eugene Ormandy.

—  E agora vamos ouvir a história toda. Desde que me telefonaram, hoje de manhã, estou morrendo de curiosidade para saber do que se trata. Você parecia tão misteriosa.

Volta e meia interrompida pelas perguntas de Lou, divagando em discussões sobre poltergeists, Mary acabou por contar-lhe tudo. A começar da perseguição a Richard Lingard, terminando com o feroz ataque das gaivotas no Laughing Dolphin.

Quando Mary terminou, a casa estava anormalmente silenciosa. Na sala de jantar, um velho relógio de parede batia seu tique-taque solene.

Refletindo no que acabara de ouvir, Lou serviu-se de mais bebida. Voltando à poltrona, comentou:

—  Então, amanhã à noite, às sete horas, esse homem vai esfaquear duas pessoas, matando talvez uma delas. Depois, vai subir a uma torre e desandar a dar tiros para todos os lados.

—  Você acredita em mim? — Mary perguntou.

—  Lógico. Há anos que venho acompanhando o seu trabalho, não é?

—  Acredita no argumento do espírito de Lingard?

—  Se você me diz que devo, por que não acreditaria? Mary lançou um olhar a Max.

—  E esse homem vai ter em quem atirar amanhã à noite? — Max indagou. — Não vão estar todos em casa com suas famílias, na véspera de Natal?

—  Ah — Lou respondeu — ele vai ter alvos à beca pelo porto. Vai haver festas de Natal em dezenas de barcos. Gente nos tombadilhos. Gente nas docas. Gente por todo lado.

—  Creio que não podemos impedir que os esfaqueamentos ocorram — Mary disse —- mas talvez possamos impedi-lo de atirar em alguém. Podem postar guardas armados nas três torres.

—  Tem um problema — Lou preveniu.

—  Qual é?

—  John Patmore.

—  O Chefe de Polícia.

— Infelizmente. Não vai ser fácil convencê-lo de que deve dar atenção às suas visões.

—  Se ele achar que existe uma chance ainda que mínima do que estou certa — Mary argumentou — por que não nos daria sua colaboração? Afinal de contas, o trabalho dele é proteger o povo de King's Poínt.

Lou deu um sorriso oblíquo. — Querida, você já devia saber que muitos policiais não encaram o seu trabalho do mesmo ponto de vista do contribuinte. Alguns acham que tudo que se pede deles é que usem vistosos uniformes fascistas, que se movimentem em carrões com a sirene ligada, que recebem envelopes com dinheiro de suborno, e que se aposentem do serviço público após vinte ou trinta anos de trabalho.

—  Você é desiludido demais — ela disse.

—  Percy Osterman já nos tinha avisado que Patmore é um sujeito difícil — Max acrescentou.

—  Difícil? Ele é um imbecil — Lou disse. — Um ignorante inqualificável. A única razão pela qual não se pode dizer que ele tem miolo mole é que ele não tem miolo algum. Aposto o que quiserem como nunca ouviu a palavra "clarividente". e quando conseguirmos, enfim, fazê-lo entender o que significa ele não vai acreditar. É incapaz de aceitar qualquer coisa que não se encaixe em suas experiências pessoais. Não tenho dúvidas de que negaria a realidade da Europa simplesmente porque nunca esteve lá.

—  Ele pode telefonar para chefes de polícia com quem já trabalhei — Mary sugeriu. — Eles o convenceriam de que sou genuína.

—  Se ele não conhecer esses chefes pessoalmente, não vou acreditar numa única palavra que disserem. Estou lhe dizendo, Mary, se a ignorância é uma bênção, ele é o homem mais feliz do mundo.

—  O xerife Osterman disse que podíamos pedir a Patmore que lhe telefonasse pedindo confirmação — disse Max.

Lou concordou. — Isso talvez ajude. Patmore respeita Osterman. E, se quiserem, posso acompanhá-los na visita a ele. Só que devo prevenir que a minha presença não vai ajudar muito a nossa causa. Patmore me detesta.

— Não posso imaginar por que — Max comentou — a não ser que você fale com ele cara a cara do jeito que está filiando agora, o que é bem provável.

Sorrindo abertamente, Lou explicou-se.

—  Nunca fui capaz de esconder meus verdadeiros sentimentos, essa é a verdade. Já conheceram a Sra. Yancy, a serva dele?

—  Era a única pessoa na Delegacia, hoje à tarde — Max disse.

—  Ela não é uma jóia?

—  Ela é?

—  Faz milagres — Lou explicou. — É um milagre quando ela trabalha.

—  Ela não me pareceu muito eficiente — Mary admitiu.

—  Trabalha firme. . . se ficar mais firme vai virar cimento.

Mary riu, tomando o sherry.

—  Bom, voltando  agora àquelas gaivotas. Será que... — Chega das gaivotas — Mary disse. — Chega de tudo

isto. Amanhã teremos tempo. Hoje eu quero esquecer a clari-vidência e falar de outra coisa. Qualquer coisa.

 

O jantar foi filé mignon, salada, batatas assadas e aspargos. Quando Max abria a garrafa de vinho tinto que haviam trazido de presente, Lou notou o curativo.

—  Max, o que aconteceu com o seu dedo?

—  Ah. . .  eu me cortei trocando um pneu vazio.

—  Levou pontos?

—  Não foi assim tão grave.

—  Ele devia ter ido ao médico — Mary disse. — Nem sequer deixou que eu visse. Havia tanto sangue — sangue pela camisa toda.

—  Pensei que você tivesse se metido em outra briga — Lou  disse.

—  Já não freqüento mais os bares — Max disse — e brigas são coisas do passado.

Lou olhou para Mary, levantando uma sobrancelha.

—  Ê verdade — ela confirmou.

—  Você trabalhou durante dois anos para mim — Lou disse. — E durante todo aquele tempo não se passava um mês ou mês e meio sem que se metesse numa briga feia. Você ia aos piores bares de toda a Costa — antros e coisas piores, a todos os lugares onde o mais provável era que se metesse cm alguma encrenca. Às vezes, eu chegava a pensar que você bebia mais pelo prazer de brigar do que pela própria bebida.

— E talvez fosse isso mesmo — Max disse, franzindo o cenho. — Eu tinha meus problemas. O que eu precisava era de alguém que precisasse de mim. Agora que tenho Mary, já mio preciso brigar.

Conquanto tivesse prometido não tocar mais em clarividência durante a noite, Lou viu-se incapaz de abandonar o assunto durante o jantar.

—  Você acha que o assassino sabe que você está aqui?

—  Não sei dizer — Mary respondeu.

—  Se ele está possuído por um espírito, e se esse mesmo espírito se apossou das gaivotas, neste caso, ele certamente sabe.

—  Acho que sim.

—  Será que não vai ficar na moita até você ir embora?

—  Quem sabe. .. mas eu duvido.

—  Ele quer ser apanhado? —... ou quer me apanhar.

—  O que é que está tentando dizer com isso?

—  Nem eu mesma sei.

—  Se...

—  Vamos mudar de assunto?

Terminando seu jantar, Mary pediu licença para retirar-se du mesa e foi até o banheiro, nos fundos da casa.

A sós com Max, Lou perguntou: — O que você acha dessa idéia dela?

—  De que Lingard retornou do mundo dos mortos?

—  Acredita nisso?

—  Quem estuda ciências ocultas é você — Max respondeu. — Você é que tem centenas de livros sobre a matéria. Mais ainda, você conhece Mary há mais tempo do que eu. Foi você quem nos apresentou. O que é que você acha?

—  Eu tenho uma mentalidade muito receptiva — Lou explicou. — Suponho que você não.

—  O analista diz que ela lançou aqueles cachorros.

—  Telecinese inconsciente?

—  É isso aí.

—  Ela já havia manifestado poderes telecinéticos antes? — Não.

—  E o revólver?

—  Acho que também era ela quem estava controlando a arma.

—  Contra ela própria?

—  É — Max confirmou.

—  E também guiava as gaivotas?

—  Sim.

—  Controle de seres vivos.. . não se adapta à telecinese.

—  Deve ser alguma espécie de telepatia. Lou serviu-se de mais vinho. — Isso é raro.

—  Tem que ser telepatia. Não posso crer que aquelas gaivotas estivessem sendo guiadas pelo espírito de um morto.

— Por que razão Mary quer se matar?

—  Ela não quer — Max disse.

—  Ora, vamos, se ela é o poltergeist causador dos fenômenos, se ela levitou aquela arma, então, me parece que estava tentando acabar com a própria vida.

— Se ela fosse do tipo suicida — Max contra-argumentou — não teria errado o alvo. No entanto, errou com os cães, com a pistola e com as gaivotas.

—  Mas, neste caso, o que está pretendendo? — Lou perguntou. — Por que está representando o papel de um poltergeist?

A expressão de Max ficou carregada.

—  Tenho uma teoria. Acho que há algo de especial neste caso, algo de muito estranho. Ela previu alguma coisa que se recusa a enfrentar. Algo aterrorizante. Algo que a deixaria fora de si se ficasse pensando muito tempo. Claro, ela só pode expulsar seus pensamentos da mente consciente. O subconsciente jamais esquece. Pois bem, cada vez que ela tenta aprofundar-se numa visão relacionada com o caso, seu subconsciente lança mão do poltergeist para desviar sua atenção.

—   ... já que o subconsciente sabe que lhe será daninho perseguir esse homem — concluiu Lou.

-— Exatamente.

Um frêmito gelado percorreu o corpo de Lou Pasternak.

—  O que teria ela visto?

—  Talvez que esse psicopata irá matá-la — Max sugeriu.

O pensamento de Mary assassinada atingiu Lou com surpreendente impacto. Conhecia-a de longos dez anos, gostou dela à primeira vista, e à medida que os anos corriam ficava gostando mais e mais. Gostava dela? Só isso. Não. Amava-a também. De modo paternal. Ela era tão doce, delicada. Tão vulnerável. Contudo, até este momento, não havia se apercebido de quanto a amava. Mary, morta e ausente? Sentiu-se mal, febril.

Max o observava com seus firmes olhos cinzentos, que nada revelavam de suas próprias emoções. Parecia impassível, impermeável ante a perspectiva da mo''.e da esposa.

Ele teve mais tempo do que eu para pensar no assunto, Lou pensou. Teve tempo para acostumar-se à idéia da morte de Mary. Sente tanto quanto eu, mas suas emoções mergulharam da superfície para regiões mais profundas e mais sombrias.

—  Ou talvez que o psicopata me mate — Max disse.

—  Vocês dois deviam desistir desse homem — Lou aconselhou. — Voltem já para casa. Fiquem fora disso.

—  Mas se ela previu algo dessa espécie — Max disse — será que não vai acontecer a despeito do que façamos para impedir que aconteça?

—  Não acredito em predestinação.

—  Nem eu. No entanto. . . tudo que ela prevê sempre acaba acontecendo. Assim sendo, mesmo que a gente não vá atrás do assassino, será que ele não virá atrás de nós?

—  Droga! — Lou exclamou. — Você me deixou sóbrio como uma rocha. — Tomou o vinho do copo e serviu-se de mais.

—  Há mais uma coisa — Max continuou. — Quando ela tinha seis anos, consta que foi sexualmente atacada por um homem.

—  Berton Mitchell — Lou disse.

—  O que ela lhe contou sobre o caso?

—  Não muito. Linhas gerais. Pelo que depreendi, ela não consegue lembrar-se da maior parte do que aconteceu.

—  Ela contou o que aconteceu a Mitchell?

—  Ele foi condenado pelo tribunal — Lou disse. — Enforcou-se em sua cela, não foi?

—  Sabe se isto é mesmo fato?

—  Ela me disse.

—  Mas você sabe se é fato?

Lou mostrou-se intrigado. — Por que ela mentiria?

—  Não estou dizendo que ela mentiu. Mas... e se ninguém nunca lhe contou a verdade?

—  Não estou entendendo.

—  Suponha — prosseguiu Max — que Berton Mitchell nunca tenha sido condenado à prisão. Suponha que tenha tido um bom advogado que tenha conseguido sua total absolvição, mesmo sendo culpado. Essas coisas acontecem. Se você fosse o pai de uma menininha de seis anos atacada e horrivelmente traumatizada, você gostaria de dizer a ela que seu agressor escapou impune? Você não iria ficar preocupado de que ela pudesse vir a sofrer um dano psicológico ainda mais grave se ficasse sabendo que o monstro, que a atacou, estava andando livre por aí, livre para tentar atacá-la de novo? Se Berton Mitchell foi absolvido, o pai de Mary pode ter decidido que a melhor coisa a fazer seria fazê-la crer que Mitchel estava morto.

—  Decerto ela descobriria a verdade quando fosse mais velha — Lou argumentou.

—  Não necessariamente. Não se não quisesse descobrir a verdade.

—  Alan lhe teria contado.

—  Quem sabe, Alan também não ficou sabendo da verdade — disse Max. — Tinha apenas nove anos naquela época. O pai teria mentido a ambos. E se...

Lou levantou a mão pedindo silêncio.

—  Digamos que você tem razão.! Digamos que Berton Mitchell foi absolvido. O que tem isso a ver com o caso?

Max apanhou seu garfo, espetando-o nas cascas amassadas da batata assada em seu prato. — Eu já lhe disse que Mary previu alguma coisa que a deixou horrorizada.

—  Que vai ser morta. Ou que você vai ser.

—  Talvez seja isto. Mas também é possível que tenha visto que o assassino que estamos seguindo é. .. Berton Mitchell.

—  Ele estaria com sessenta anos se estivesse vivo!

—  E existe alguma lei que diga que todos os psicopatas devem ser jovens? — Max perguntou.

 

No banheiro, Mary lavou as mãos, pegou a toalha, mirou-se no espelho em cima da pia — e o rosto que viu não era o seu. Ao contrário, viu o rosto de uma criatura totalmente desconhecida — uma mulher jovem, de pálidos cabelos louros e pele ainda mais pálida, olhos azuis arregalados, o semblante contorcido de terror.

O espelho transformou-se numa janela, em uma dimensão desconhecida, nada refletindo do que havia no banheiro. O rosto da mulher loura era incorpóreo, flutuando em sombras nebulosas. Acima e à direita da cabeça, o único outro objeto naquele vácuo para além do espelho era um crucifixo de ouro.

Mary deixou cair a toalha, e foi-se afastando da pia até que suas costas colidiram com i parede.

No espelho, a mão de um homem, também sem corpo, apareceu em primeiro plano naquela colagem surrealista de imagens psíquicas. O punho se fechava no cabo de um facão.

Mary jamais havia recebido uma manifestação de clarividência em tais termos. Por um momento, ficou sem saber o que esperar. Não tinha noção de como agir — tinha medo de ficar parada e tinha medo de mexer-se.

A mão sem corpo ergueu o facão. O rosto da jovem recuou como um balão levado pelo vento, girando, rolando, caindo no espaço sem fim. A mão e o facão também se afastaram, em perseguição à vítima.

Concentre-se, Mary disse a si mesma. Pelo amor de Deus, não permita que a visão fuja de você. Agarre-se a ela, custe o que custar. Agarre-se a ela e faça com que se desenvolva. Aprofunde-se nela até que lhe seja revelado o nome do homem que empunha o facão. O crucifixo foi aumentando de tamanho até tomar conta de toda a superfície do espelho. Depois, em silêncio total, o símbolo religioso explodiu em dezenas de pedaços e desapareceu.

Concentre-se...

O rosto da mulher reapareceu. E o facão começou a surgir cada vez maior no espelho. O gume da arma lançava seus próprios reflexos, como se fosse feito de uma lâmpada de neon.

—  Quem é você? — Mary perguntou. — Você com esse facão. Quem, das profundezas do inferno, é você?

E subitamente a mão adquiriu um corpo. O rosto da mulher dissipou-se, e ombros e nuca masculinos entraram em cena, num manto de sombras. O homem começou a virar-se lentamente, lentamente, através de uma renda de luzes fracas e sombras que dançavam; virou-se de modo a poder encarar Mary do espelho, como se soubesse que ela lá estava, atrás dele, virou-se — silenciosamente, vagarosamente, virou-se como que em resposta ao pedido de Mary para saber seu nome.. .

Com medo de perder a visão um instante antes de obter a resposta desejada, como aconteceu no consultório do Dr. Cauvel, Mary disse:

—  Quem? Quem é você? Exijo saber!

À sua direita, a dois metros dela, o trinco da janela dobanheiro abriu-se com um clique seco!

Alarmada, Mary desviou a vista da imagem no espelho.

A janela levantou-se sozinha.

O vento agitou a fina cortina em preto e castanho, e invadiu o banheiro, trazendo ruídos de mau agouro.

A noite, para além da janela, era de trevas, as mais negras que já tinha visto.

E acima dos gemidos do vento, outro som.

Ui-i-i-c! Uii-i-i-ic! Uii-i-icl

Asas. Asas. Do lado de fora da janela.

Ui-i-i-ic! Ui-i-i-c! Ui-i-i-ic!

Talvez não passasse de coincidência. O trilho da cortina vibrando em seus encaixes? Um galho ou um ramo roçando ritmicamente contra a parede externa?

Qual fosse a causa, Mary sabia que não estava meramente imaginando aquele som, desta vez; nem recebendo o ruído como parte de suas impressões psíquicas. Uma criatura qualquer, muito próxima a ela, estava além da janela, uma criatura alada, incrivelmente bizarra.

Não. Insanidade.

Pois então, vá verificar, disse a si mesma. Vá ver que estranha criatura tem essas asas. Veja se existe mesmo alguma coisa. Acabe com isto para sempre.

Estava paralisada.

Uii-i-ic! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c!

Max, ajude-me, disse ela. Mas as palavras não tinham som.

À esquerda, ao lado da pia, a porta do armário de remédios escancarou-se, aberta por mãos invisíveis. Fechou-se com força. Escancarou-se. Fechou-se com força. E quando voltou a escancarar-se, permaneceu aberta. Tudo o que estava guardado dentro do armário — vidros de Anacin, aspirinas, drágeas contra resfriados, iodo, xarope, laxativos; tubos de pasta de dentes, creme para a pele, xampu; caixas com pastilhas para a garganta, band-aids, pacotes de gaze — tudo saltou das prateleiras para o chão.

A cortina do box foi afastada pela mesma mão invisível, e o cano do chuveiro curvou-se, como se alguém bastante pesado se pendurasse nele. O cano desprendeu-se da parede e caiu dentro da banheira.

A tampa do vaso balançava, subindo e descendo, mais rápido e mais rápido, com um barulho incrível.

Mary deu um passo em direção à porta. Esta abriu-se sozinha, como que a convidando a retirar-se - e um segundo depois fechou-se com o estrondo de um trovão. Abria-se e fechava-se repetidamente, quase acompanhando o ritmo da tampa.

Mary encostou-se novamente na parede, com medo de se mexer.

—  Mary!

Max e Lou estavam do lado de fora da porta, bem à vista quando esta se abriu. Observavam, perplexos.

A porta bateu com mais força ainda, abrindo-se e fechan-do-se, abrindo-se e fechando-se.

Max tentou forçar a entrada, quando a porta abriu-se novamente — fechou-se em sua cara. Da vez seguinte, Max agarrou a maçaneta e conseguiu parar a porta, que parou de mover-se.

O vento que entrava pela janela transformou-se numa leve brisa.

O ruflar de asas desapareceu.

Serenidade.

Silêncio.

O olhar de Mary foi para o espelho sobre a pia e ela notou que, embora as imagens nele refletidas estivessem modificadas, ainda não era um espelho comum, reproduzindo os objetos à sua frente. A moça pálida, o crucifixo, o homem com o facão haviam desaparecido. O espelho estava negro — exceto em seu centro, onde parecia que sangue gotejava pelo cristal, escorrendo para a moldura de onde deslizava pelo banheiro, como se o mundo do outro lado nada mais fosse que um lago de sangue coagulado, cuja superfície se localizava pouco acima da linha inferior. O sangue espirrava sobre as torneiras diretamente abaixo do espelho, enodoando o branco da porcelana.

Confuso, Max perguntou: — Mas que diabo é isto? O que está acontecendo aqui? — Olhou do espelho para Mary. — Você se feriu? Cortou-se?

—  Não — ela respondeu. E só então deu-se conta de que ele também via o sangue.

Max tocou de leve a borda do espelho. Impossível — inacreditavelmente seus dedos ficaram manchados de vermelho.

Lou apertou-se para dentro do banheiro, para poder ver melhor.

Gradualmente, o sangue — no espelho, nas torneiras, na porcelana e nos dedos de Max — foi-se tornando menos vivido, menos vermelho, menos concreto, desvanecendo-se até desaparecer completamente, como se nunca tivesse existido.

 

Mary sentou-se no sofá da sala de estar e aceitou o conhaque oferecido por Lou. Ao puxar os cabelos para trás, sentiu a testa fria e pegajosa. A cor havia desertado de seu rosto. As mãos estavam úmidas. A bebida queimou-lhe a garganta, mas proporcionou-lhe um calor reconfortante.

De pé, à sua frente, Max perguntou: — O que você viu naquele espelho antes de nós entrarmos para buscá-la. . . significa que alguém vai morrer esta noite?

—  Sim. A moça que eu vi. Ela vai morrer. Será esfaqueada antes do amanhecer.

—  Qual é o nome dela?

—  Não cheguei a perceber.

—  Onde mora?

—  Aqui em King's Point. Mas não senti um endereço para ela.

—  A casa dela fica no morro, na baixada, ou perto do porto?

—  Pode ser qualquer lugar — Mary respondeu.

—  Qual a sua aparência?

—  Cabelos de um louro muito claro, quase branco. Cabelo crespo, comprido. Pele pálida. Olhos azuis, grandes. É jovem, vinte e poucos anos, muito graciosa. Delicada. Não, melhor ainda. . . etérea.

Lou estava terminando mais uma dose dupla de Wild Turkey, quando Max voltou-se para ele. Do modo como engoliu a bebida, tanto podia ser leite como cianureto.

—  Esta é a sua cidade, Lou. Conhece alguém que corresponda à descrição?

—  Temos uma população permanente de dez mil habitantes — Lou explicou. — Não os conheço a todos. Não faço questão alguma de conhecê-los. Noventa por cento deles são bestas intragáveis, obtusos e cansativos. Além disso, uma porção de louras bonitas são atraídas para a vida praiana da Califórnia do Sul. Sol, areia, mar, sessões pornográficas, sexo e sífilis. Deve haver, nesta cidade, pelo menos duzentas louras, tenras e impressionantemente etéreas como a que Mary viu.

Inconscientemente, Max apanhou um número de The Nation, enrolando-o como se fosse um bastão. Bateu com ele na palma da mão esquerda.

—  Se não localizarmos a moça, ela será assassinada ainda hoje.

O terror de Mary sofreu uma metamorfose, passando para uma depressão que tomou a forma de uma planície infinita de cinzas; mas, sob as cinzas, aqui e ali, brasas de ódio iam se aquecendo. Não estava zangada com Max, ou com Lou ou com ela própria, mas com o destino. Mesmo enquanto sentia a ira se avolumando dentro dela, sabia que era inútil, sem efeito ou significado — pois a única arma contra o destino é a resignação.

—  Você está se esquecendo o que significa quando tenho uma visão — disse ela a Max. —- Não adianta encontrarmos a moça e preveni-la. Nada adianta. Ela morrerá, seja como for. Eu vi! Não posso ver os nomes dos cavalos que vão vencer os páreos de amanhã. Não posso ver quais as ações que vão ter alta na Bolsa de Valores e as que vão cair na semana seguinte. Tudo o que vejo é gente morrendo. — Levantou-se. — Meu Jesus, estou cansada desta vida. Estou farta de ver gente morrendo, sem ter meios de evitar que morram. Estou farta de ver gente inocente correndo perigo, sem poder ajudar. Estou farta desta vida repleta de cadáveres, e de mulheres violentadas, e de criancinhas estraçalhadas — do sangue, dos facões e dos revólveres.

—  Eu sei — disse Max baixinho. — Eu sei...

Mary foi até o bar e arrancou a rolha da garrafa de conhaque.

—  Não quero ser um funil da dor humana! Quero ser um mecanismo de exterminação dessa dor, de diminuição dessa dor, de prevenção dessa dor. — Serviu-se da bebida. — Se vou ter sempre a visão onipresente de um deus, então, droga, também quero ter poderes divinos. Devia ser capaz de usar esse poder neste instante e encontrar o homem que estamos procurando. Devia ser capaz de apertar aquele coração até fazê-lo explodir. Mas não sou um deus. Nem sequer sou um mecanismo completo. Sou como a metade de um rádio. Um receptor sem transmissor. Posso receber efeitos e sou incapaz de enviar efeitos. — Bebeu o conhaque rápida e elegantemente, como se fosse o próprio Lou. — Odeio tudo isto. Odeio. Por que eu tenho que ter este poder? Por que eu?

 

Mais tarde, ao se despedirem, Lou disse: — Gostaria que passassem a noite aqui.

—  Já conhecemos o seu quarto de hóspedes — Max respondeu. — Revistas, livros e nenhuma mobília. Admiramos profundamente o seu intelecto e a sua biblioteca, mas é duro passar a noite sobre uma pilha de jornais velhos.

—  Eu podia dormir no sofá — Lou sugeriu. — Vocês dois podiam ficar com o meu quarto.

Mary deu-lhe um beijo carinhoso.

—  Você é um amor. Mas estamos bem. De verdade. Pelo menos até amanhã à noite.


 

Quarta-Feira, 23 de Dezembro


A uma hora da madrugada, a chuva, chegando do mar, fustigava a terra. Tornava o terreno escorregadio, aplainava a grama ressequida, e o asfalto da estrada apresentava ressaltos. O homem estacionou o Mercedes no fim da faixa pavimentada, e desligou o motor. A escuridão envolveu o carro. A luz era tão parca que mal podia ver as próprias mãos segurando o volante. O único som era o incessante bater da chuva na lataria e na capota do carro.

Decidiu esperar que o temporal amainasse. Era a época das chuvas na Baixa Califórnia — entretanto, aguaceiros repentinos como este raramente duravam muito tempo.

O facão de açougueiro descansava no assento ao seu lado. Tateou à procura da arma; segurou-a. Mal podia enxergá-la na claridade quase inexistente. Palpitou com a sensação de empunhá-lo e ver-lhe a lâmina afiada. Premiu o dedo contra o gume, mas não com força suficiente para tirar seu próprio sangue, suficiente, no entanto, para sentir o poder da morte, inerte mas pronta, no âmago do aço temperado.

À uma e dez, a chuva transformou-se em garoa. Cinco minutos depois, cessou completamente. Abriu a porta do carro e saiu.

O ar estava limpo e frio. O vento havia passado.

A um quilômetro, à sua esquerda, no fim da descida, a noite no porto faiscava de luzes, qual decoração de Natal.

A única luz próxima provinha de um dos três chalés localizados a uns duzentos metros a oeste. As três casas alinhavam-se ao longo do precipício, de frente para o mar, dando fundos para o terminal da estrada asfaltada. O chalé mais ao norte, que pertencia a Erika Larsson, ficava a uns setenta metros do vizinho, e era rodeado de árvores. A claridade filtrava-se porvárias janelas.

Como havia previsto, Erika estava acordada. Trabalhando, provavelmente. Pintando uma de suas sombrias aquarelas — ou um dos inquietantes quadros a óleo, cheio de rostos melancólicos retratados em azuis e verdes profundos. Ela preferia criar suas obras nas horas calmas da madrugada, indo dormir ao amanhecer.

Dando a volta por trás do Mercedes, ele abriu o porta-malas abarrotado de armas — uma espingarda italiana, dois rifles, sete armas manuais — e caixas de munição. Selecionou um Auto Colt 45, peça de colecionador feita por encomenda, o conjunto em metal todo lavrado com figuras de animais selvagens correndo do tambor para a coronha. Já estava carregada. Todas as armas estavam carregadas. Colocou o Colt no bolso da jaqueta e fechou o porta-malas.

Segurando a faca ao longo do corpo, desceu o caminho do despejo de lixo até a casa iluminada. As trevas da noite eram tão impenetráveis, que ele ocasionalmente tropeçava nos sulcos do caminho. Seus sapatos rangiam na lama.

 

Dormindo, Mary murmurava.

No sonho, estava com o pai. Ele, com a aparência que tinha quando Mary estava com nove anos, e Mary voltou a ser criança. Encontravam-se ambos sentados num verde gramado aveludado. Sol a pino, incidindo diretamente sobre eles. Não lançavam sombras.

 

—  Se eu ajudar os outros com a minha P. E. S. pode ser que eles me amem. Eu quero que os outros me amem, papai.

—  Ora, Doçura, eu amo você.

—  Mas você vai me abandonar.

—  Abandonar a minha pequenina? Que bobagem.

—  Você vai morrer dentro do carro. Vai morrer e me abandonar.

—  Você não deve ficar dizendo essas coisas.

—  Mas...

—  Se eu morrer, você ainda tem sua mãe.

—  Ela já me abandonou, pela bebida.

—  Não, não. Sua mãe também ama você.

—  Ela ama o uísque. Ela se esquece até do meu nome.

—  Seu irmão ama você.

—  Não, ele não me ama.

—  Mary, que coisa horrível dizer isso!

—  Alan não tem culpa de não me amar. Todos os bichinhos de estimação dele morrem por minha causa.

—  Mas não é sua culpa.

—  Eu sei que é. E mesmo que Alan me ame, algum dia vai me abandonar também. E, então, eu vou ficar sozinha.

—  Algum dia, você vai encontrar um homem que se casará com você e que a amará muito.

—  Talvez ele me ame durante algum tempo. Mas, depois, vai me abandonar, não vai? Como todo mundo me abandona. Eu preciso de proteção para não ficar sozinha. Tenho medo de ficar sozinha. Preciso que uma porção de gente me ame. Se uma porção de gente me amar, não podem todos me abandonar ao mesmo tempo.

—  Olhe as horas! Preciso ir embora.

—  Papai, não me abandone.

—  Não tenho escolha.

—  Encontrei Elmo hoje de manhã.

—  O gato de Alan?

—  Encontrei o bichinho todo ensangüentado.

—  Onde o encontrou?

—  Na sala de jogos.

—  Não seria um outro bicho morto qualquer?

—  Alguém o cortou em pedaços

—  Alan já sabe?

—  Ainda não. Papai, ele vai chorar.

—  Meu Jesus, pobre menino.

—  Ele vai ficar furioso comigo.

—  Mary.. .   você não.. .

—  Não! Papai, eu não faria uma coisa dessas.

—  Depois do que aconteceu na semana passada. . .

—  Não fui eu! Não fui eu!

—  Está certo. Neste caso, deve ter sido o filho de Mitchell de novo.

—  Seria bom se a Sra. Mitchell fosse embora daqui.

—  O filho de Berton Mitchell esquartejou o Elmo. Alan não vai ficar zangado com você.

—  Mas é porque mandaram o pai dele embora por minha causa, que ele vem aqui e mata todos os bichinhos de estimação do Alan.

—  Alan vai entender. Não vai culpar você.

—  Alan está furioso comigo porque eu joguei as tartarugas dele no riacho.

—  Você ainda não explicou por que fez aquilo.

—  Alguma coisa me forçou.

—  Você mereceu o castigo, sabe disso. As tartarugas eram do Alan, não eram suas.

—  Alguma coisa me forçou.

—  Quem foi?

—  Alguma coisa. . . alguma coisa.

—  Mary, às vezes, você é uma menina tão estranha!

—  Fique comigo; eu prometo ser boazinha.

—  Tenho que ir.

—  Eu vou ficar sozinha, se você for embora.

—  Eu tenho que ir.

—  Eu vou ficar sozinha com as asas.

—  Até logo.

—  Papai, as asas!

Choramingando sem acordar, sob o efeito do sedativo que tomou, Mary virou-se sem perceber que estava sozinha na cama.

O homem levantou a vidraça destravada da janela do quarto e esgueirou-se para dentro, sem um ruído.

Da frente da casa, chegava o som do estéreo tocando um dos discos mais inspirados de Joan Baez.

Atravessou o quarto e desceu o corredor estreito, que levava à sala de estar. Erika Larsson estava sentada na banqueta alta, de costas para ele. No cavalete à sua frente, trabalhava num quadro a óleo.

A gata preta, Samantha, enrodilhada numa das poltronas levantou a cabeça com seus olhos amarelos e fitou o homem quando ele surgiu no corredor.

O ambiente estava impregnado de um odor agradável, Erika havia feito pipocas há pouco tempo.

Ele estava a apenas três metros  dela,  quando a moça pressentiu sua presença e virou-se. — Você — ela disse.

Continuava tão bela quanto ele se lembrava. Cabelo crespo, louro, espesso. Cútis pálida, quase translúcida. Imensos olhos azuis. Vestia jeans e uma camiseta de malha, e os mamilos escuros sobressaíam no fino tecido branco.

Levantou-se da banqueta. — O que está fazendo aqui? Ele não respondeu.

A gata negra sentia que algo de terrível estava por acontecer. Pulou da poltrona, correndo para a cozinha.

Ele deu mais um passo na direção de Erika, que deu a volta no cavalete.

—  Saia daqui!

Ele derrubou o cavalete.

—  O que você quer? — ela perguntou. Ele ergueu o facão.

—  Não! Oh, não!

Recuou para perto das janelas que descortinavam a vista do Oceano Pacífico. Estendeu as mãos à sua frente, como que para empurrá-lo quando tentasse vencer a curta distância que os separava.

—  Mary vai saber — Erika disse. Ele continuou calado.

—  Mary vai saber o que você fez — ela disse.

Ele a agarrou.

—  Ela vai entregá-lo à polícia. Mary vai saber!

 

Quase madrugada.

A gata preta, cujo nome era Samantha, saiu do armário da cozinha, onde buscou refúgio e adormeceu. Bocejou e espreguiçou-se. Depois, ficou rígida por um minuto, a cabeça levantada, prestando atenção.

A casa estava quieta. O vento cantava suavemente no telhado.

Finalmente, Samantha trotou para a sala de estar. A árvore de Natal estava caída de lado, os enfeites espalhados pelo chão; muitos deles reduzidos a cacos e pó. Samantha farejou um anjinho de porcelana quebrado, e com a patinha empurrou a cabeça partida. Deu uma lambidinha no pirulito colorido e investigou um crucifixo destruído, que antes havia estado pendurado na sala, acima da porta do corredor. Inspecionou as calças jeans e uma camiseta branca muito amarrotadas.

Finalmente, muito alerta, Samantha andou ao redor do corpo de Erika Larsson e, como fez com o pirulito colorido, provou o gosto do sangue.      

 

Como espantalhos agitando-se ao vento num campo coberto de neve, os pesadelos salpicavam seu sono. A maioria deles referia-se aos piores momentos de sua infância. Naquela manhã, os farrapos imundos dos sonhos dançavam à sua volta, fazendo-a sentir-se nervosa e aflita.

Via de regra, depois do chuveiro matinal e antes de vestir-se, Mary enxugava os cabelos numa toalha, escovando-os depois vigorosamente, as tradicionais cem escovadas. Agora, estranhamente perturbada com a própria nudez, contou vinte e oito vezes, sabendo que não poderia continuar por mais setenta e duas antes de se vestir.

Mary comumente gostava de executar este e outros rituais matutinos completamente nua. Admitia ser exibicionista. (Vejam, vejam que seios lindos eu tenho, minhas pernas e nádegas, sem um defeito, vejam como sou bonita e gostem de mim, me amem... me amem!) Suas motivações, contudo, colocavam-se além do mero exibicionismo. Sentia que, começando o dia liberta de roupas, adquiria uma sensação de leveza e liberdade, que permaneciam no decorrer da tarde. Dizia o Dr. Cauvel que talvez, por começar seu dia nua, estaria tentando provar que seus sonhos não haviam deixado sinais em seu corpo, que Berton Mitchell não a havia deixado marcada. Mary, no entanto,  não  alcançava a lógica  dessa explicação  do  analista.

Às vezes, Max sentava-se em completo silêncio e ficava apreciando, enquanto Mary penteava os cabelos e se exercitava nua. Conseguia fazê-la enrubescer, referindo-se ao seu voyeu-rismo como "a leitura de uma bela poesia".

No momento, entretanto, Max estava tomando seu banho de chuveiro. Não havia viv'alma no quarto de hotel, que lhe recitasse uma bela poesia. Todavia, era como se olhos a estivessem observando.

Estremecendo, vestiu as calcinhas e o sutiã.

Ao abrir o armário para escolher uma blusa e calças compridas, notou os sapatos sujos de Max e a jaqueta salpicada de lama e de sangue. Enquanto examinava as nódoas vermelho-escuras da jaqueta, Max saiu do banheiro. Secava os cabelos com uma toalha e trazia outra ao redor da cintura.

—- Você se machucou? — ela perguntou.

—  Tudo o que fiz foi tomar um chuveiro.

Ela não sorriu. Apresentou-lhe a jaqueta manchada.

—  Ah... — ele explicou. — O corte do meu dedo tornou a sangrar.

—  Como  aconteceu?

—  O curativo se soltou quando eu tropecei e caí.

—  Caiu? Quando foi isso?

—  Ontem à noite — disse ele. — Depois de tomar o sedativo, você caiu no sono na mesma hora, mas eu não conseguia fechar os olhos. Saí andando por aí. Estava a três quadras do hotel, quando começou a chover. Foi aquele toro. Fiquei desorientado e saí correndo. Peguei um atalho pelo terreno baldio ao lado do hotel, tropecei numa pedra e caí. Burrice minha. O curativo se descolou do dedo e o corte abriu de novo.

Mary franziu o rosto. Examinando a jaqueta em suas mãos, comentou: — Você sangrou um bocado.

—  Como um porco degolado. — Max levantou a mão. O dedo ferido estava envolto em gase limpa e esparadrapo. — Ainda está doendo.

Jogou longe a toalha com que secou o cabelo, e tomando a jaqueta das mãos de Mary, inspecionou-a.

—  Acho que nenhuma lavanderia vai ser capaz de fazer com que pareça nova. —- Descartou-se da peça de roupa, jogando-a na cesta de papéis.

—  Você devia ter me acordado, quando voltou ontem à noite — Mary disse.

—  Você estava dormindo profundamente.

— Mesmo  assim,  devia ter tentado.              

—  Para quê? Não era nada grave. Fiquei fazendo pressão durante uns quinze minutos até o sangue parar completamente. Daí, fiz um novo curativo. Não havia motivo para preocupação.

—  Você devia ir ao médico.

Ele sacudiu a cabeça. — Não é preciso.

—  Ora, aparentemente o corte não está cicatrizando.

—  Dê tempo ao tempo. Já estava começando a fechar, quando caí e voltou a abrir-se. Vou ter mais cuidado.

—  Da próxima vez que trocar o curativo, quero ver a ferida. Se não estiver cicatrizando, você vai a um médico, nem que eu tenha que arrastá-lo.

Ele se aproximou, pousando as mãos sobre os frágeis ombros da esposa.

— Sim, mamãe. — Tinha um sorriso encantador, que reservava exclusivamente para ela.

Mary suspirou, descansando em seu peito, onde podia ouvir a batida firme e vagarosa do coração de Max.

— Eu me preocupo com você.

—  Eu sei — ele respondeu.

—  Porque o amo.

—  Eu sei.

— Porque eu morreria se perdesse você. Max tirou-lhe o sutiã.

—  Mas nós não temos tempo — ela protestou.

—  Ficamos sem tomar café.

Deslizou as mãos pelo corpo dele. Sólido, poderoso. O impacto que seu tamanho e força produziam nela era tremendo. Sentia-se ao mesmo tempo excitada e lânguida. Seus olhos tornaram-se pesados, as pernas frouxas; no entanto, nos seios e no ventre sentia calor e tensão extraordinários. A textura da pele de Max, a rigidez de seus músculos, tendões e ossos deixavam-na mesmerizada.

Ele a despiu e, em seguida, desfez-se da toalha presa à cintura. Beijou-lhe o colo. Mary sentia-se como se não tivesse peso. As mãos de Max deslizaram-lhe pelas costas, indo apertar-lhe as nádegas.

—  Você podia me abraçar tão forte — ele sussurrou — me apertar com tanta força, que tiraria minha respiração. Poderia quebrar meu pescoço com a força que tem.

—  Eu não quero quebrar seu pescoço — ele murmurou.

—  Mas poderia. Com tanta facilidade.

Max prendeu-lhe o lóbulo da orelha entre os lábios.

— Se você. . . quebrasse meu pescoço. . . acho que eu... não me importaria. . .

Uma das mãos de Max escorregou entre os dois corpos, acariciando a umidade cálida entre as pernas de Mary.

— Você seria tão delicado — disse ela em tom sonhador.

—  Mesmo que me quebrasse, seria com delicadeza. Não haveria dor. Você não me deixaria sentir dor.

Ele levou-a para a cama.

Quando a penetrou, quando o membro do amor lubrificou-se com os sucos límpidos de seu corpo, Mary pensou em morrer esmagada em seus braços, e pensou em quão estranho considerar esse acontecimento, e mais estranho ainda estar a considerá-lo, não apenas destemidamente, mas, ao contrário, com certo desejo, com certa ânsia melancólica, com uma curiosamente agradável antecipação, não como um desejo de morrer, mas como doce resignação, mesmo sabendo que o Dr. Cauvel diria que não passava de um sintoma de sua moléstia, que estava agora pronta a renunciar à sua responsabilidade final

—  a responsabilidade fundamental de sua própria vida, decidindo se era ou não digna de viver — como diria também que ela precisava depender mais de si mesma e menos de Max; mas isso pouco lhe importava, não lhe importava a mínima. Sentia apenas a força, a força de Max, e, começando a murmurar seu nome, enterrou os dedos na carne firme e entregou-se, de corpo e alma.

 

—  Robert Fullet falando.

—  O nome é quase apropriado pra você. Fullet, você é um fulheiro.

—  Lou? É você? Lou Pasternak?

—  Telefonei, perguntando por Robert Fullet, o repórter, e me disseram na mesma hora que agora é Robert Fullet, o editor.

—  Isso foi há um mês.

—  O Los Angeles Times está degenerando rapidamente.

—  Finalmente, eles tiraram o chapéu à inteligência.

—  É mesmo? Quer dizer que logo depois da sua promoção vão dar seu cargo para outro?

—  Muito engraçado...                                      '

—  Obrigado.

—  Por outro lado, você é um cara engraçado. Até que a cirurgia plástica ajudaria.

—  Cuidado, Fullet. Você não é páreo para mim.

—  Desculpe. Perdi a cabeça.

—  Não seria a primeira vez.

—  Ei, Lou, a sala que me deram com o novo cargo é quase tão grande quanto toda a sua redação.

—  Eles te deram uma sala para poder trancafiá-lo e você não ficar no caminho dos outros.

—  Eu convivo com a prata da casa.

—  É para ficarem de olho em você e não deixarem que leve a prata para casa.

—  Nossa Senhora! É bom ouvir sua voz.

—  Como vão Peggy e as crianças?

—  Muito bem. Todos ótimos. Todo mundo com saúde.

—  Diga a eles que estou mandando todo meu carinho e meus votos de Feliz Natal.

—  Digo sim. Você tem que vir passar um fim de semana conosco, logo que puder. Sabe que já fazem seis meses que não nos vemos? E moramos tão perto, menos de uma hora, de distância. Lou, por que não nos vemos com mais freqüência?

—  Talvez, subconscientemente, nós nos odiemos.

—  Não é possível que alguém me odeie. Eu não passo de um urso amável. É o que a minha filha diz.

—  Muito bem, Sr. Urso Amável, será que podia me fazer um favor?

—  O que quiser, Lou.

—  Gostaria que você desse uma olhada na seção de crimes do arquivo morto do Times e conseguisse todo o material disponível sobre um crime que está me interessando.

—  Que espécie de crime?

—  Ataque sexual a uma menina, com tortura.

—  Troço horrível!

—  Agressão e tentativa de homicídio, também.

—  Onde aconteceu?

—  Perto de Los Angeles, a oeste. Boa vizinhança. A menina vivia numa propriedade de vinte acres, que deve ter sido  desmembrada desde então.

—  Quando  foi isso?

—  De vinte e quatro a vinte e cinco anos atrás.

—  Quem foi a vítima?

—  Isso é um assunto muito delicado.

—  Como assim?                                                  

—  Roger, ela é uma amiga muito querida.

—  Entendo.

—  Também é uma celebridade, de certo modo, muito exposta ao público.

— Estou ficando curioso.

—  Não pretendo escrever a respeito. E não quero que mais ninguém escreva sobre esse assunto.

—  Se já fazem vinte e cinco anos, é notícia fria para os jornais.

—  Sei disso. Mas alguém poderia usar para um artigo de revista. Se o assunto fosse desenterrado, ela ficaria horrivelmente chocada.

—  Se você não pretende escrever sobre o caso, por que está querendo saber?

—  Porque ela está em dificuldades. Dificuldades imensas. Quero ajudá-la.

—  E por que ela própria não lhe dá os detalhes da história toda?

—  Porque tinha apenas seis anos quando tudo aconteceu.

—  Meu Deus!

—  Não é possível para ela lembrar-se de tudo — ou lembrar-se corretamente.

—  E o que aconteceu naquela época se relaciona com as dificuldades que ela está enfrentando atualmente?

—  Acho que sim.

—  Certo. Não vou mandar ninguém fazer esse trabalho por mim. Poderia transpirar.. . Vou eu mesmo até o arquivo morto procurar os detalhes pessoalmente.

—  Muito obrigado, Roger.

—  E não é o repórter que vai fazer isto, é o amigo.

—  Para mim, está bem.

—  Qual é o nome da vítima?

—  Mary Bergen. Não, espere. . . naquela época era Mary Tanner.

—  A clarividente?

—  Ela mesma.

—  A coluna dela é publicada pelo nosso jornal.

—  Pelo meu também.

—  Quem foi o agressor?

—  Berton   Mitchell.    B-E-R-T-O-N   M-I-T-C-H-E-L-L.

Era o capataz da propriedade dos Tanner.

—  Vou obter os antecedentes completos. Algum detalho especial, que seja do seu interesse?

—  Quero saber se Mitchell foi levado a julgamento. Caso positivo, quero saber se foi condenado ou julgado inocente e libertado.

—  Você disse que ele foi o agressor.

—  O que não é a mesma coisa que dizer que foi condenado. Você sabe o que um bom advogado é capa?: de conseguir.

—  Mais alguma coisa?

—  Acima de tudo, caso Mitchell tenha sido condenado, quero saber se cometeu suicídio.

—  Foi isto o que lhe contaram?

—  Foi. Mas não sei se é verdade.

—  Lou, se ele ainda está vivo, e se não está na cadeia, duvido que possamos descobrir onde se encontra, pelos nossos arquivos.

—  Não estou pedindo que o encontre. Se Mitchell está vivo, então eu acho que sei onde está.

—  Volto a falar com você hoje à tarde.

—  Vou estar na redação.

Concluída a conversa com Roger Fullet, Lou fez uma ligação interurbana para a residência do Dr. Oliver Railsbeck, um velho amigo que trabalhava na Universidade de Stanford. Falaram durante quinze minutos.

Às nove e meia, depois de ficar sabendo por Ollie Railsbeck tudo o que era possível, Lou atravessou o corredor até o banheiro de hóspedes. Havia limpado a confusão da noite anterior; o espelho quebrado e o xarope para tosse haviam desaparecido. Ficou parado no meio do banheiro, estudando o espelho em cima da pia. Viu apenas sua própria imagem refletida.

Tocou o cristal e a moldura, a pia de porcelana, as torneiras. Ontem à noite, todos os objetos se achavam manchados do sangue que Mary havia, com seus poderes psíquicos, conjurado e mantido por alguns minutos. Sangue espesso, úmido, real. . . e, no entanto, irreal. Sangue que possuía substância, cor, textura (ainda que por poucos segundos) e que, contudo, não pertencia a este mundo.

Conjecturou de quem teria sido a dor e o sofrimento quehavia consubstanciado. Poderia ser o sangue simbólico da moça etérea, cuja morte Mary havia previsto. Ou podia ser o sangue da própria Mary, que se desvaneceu nos dedos de Max.

Um presságio de sua morte?

— Deus a ajude! — disse Lou em voz alta.

 

Mary sentou-se numa incômoda cadeira metálica, segurando a bolsa no colo. Max sentou-se em outra cadeira à sua esquerda. Ele sabia que Mary não apreciava longas conversas com policiais, e que a atmosfera sombria, fria e totalitária das delegacias de polícia deixavam-na enervada. Diversas vezes, no último quarto de hora, havia estendido a mão para ela. Não em gestos óbvios, mas em pequenas demonstrações de carinho e conforto. Como sempre, a presença de Max animava-a.

À direita de Mary, Lou virou outra cadeira, de forma a sentar-se a cavalo, com os braços apoiados no encosto.

A sala cheirava a cigarros apagados de véspera. As luzes do teto eram por demais fortes. As únicas decorações nas paredes eram fotografias do falecido J. Edgar Hoover, ídolo do Chefe Patmore, e um calendário militar que exibia, para cada mês, uma cena diferente de batalha.

John Patmore, o oficial mais graduado da força policial de King's Point, debruçado sobre a mesa apinhada de coisas, falava atentamente ao telefone com Percy Osterman. Aparentemente, o xerife brindava-o com uma cascata de lisonjas, a fim de persuadi-lo a cooperar com Mary Bergen. Um sorriso, que era quase um ríctus, surgia nos cantos da boca fraca de Patmore.

Era um homem de aparência surpreendentemente suave. Quarenta e tantos anos. Rosto redondo. Quase calvo. Olhos castanhos. Traços comuns. Altura e peso medianos.

A preocupação de Mary era a de que não houvessem apresentado uma boa argumentação em favor de seu pedido a Patmore. Lou advertiu-a a não discutir com ele os aspectos mais bizarros de sua história. E ela nada disse a respeito dos cãezinhos de vidro que se projetaram pelo espaço, nem de gaivotas com instintos assassinos, nem de espelhos de banheiro que verteram sangue. Tudo isto, Lou insistiu, só serviria para confundir Patmore. Depois que Lou explicou a natureza dos poderes psíquicos de Mary, ela apenas contou ao policial que os assassinatos em massa dos últimos dias eram o trabalho de um único homem, que havia assassinado uma jovem em King's Point, na noite anterior (ainda que o corpo não tivesse sido encontrado), e que às sete horas desta mesma noite esse mesmo homem abriria fogo com rifle de alto calibre, do alto de uma das três torres que circundavam o porto.

Enfim, Patmore despediu-se de Percy Osterman e colocou o fone no gancho. Reclinou-se na poltrona. Por mais de um minuto, quedou-se fitando o espaço. Sorria.

—  Não se deixem afligir pelo Chefe. Ele não tem intenção de ser grosseiro — disse Lou a Mary e a Max. — De vez em quando, ele pára de pensar e se esquece de recomeçar.

Ignorando o jornalista, Patmore voltou-se para Mary.

—  Não estou gostando. Um homicida lunático na minha cidade.

—  Se nós. . . — ela começou.

Tirando um charuto da gaveta do meio da escrivaninha, Patmore continuou: — Não estou gostando nem um pouco. Como Chefe de Polícia, eu trago esta cidadezinha com rédeas curtas.

—  Nós podemos.. .

—  Em cada uma daquelas torres — disse Patmore — já que Percy Osterman rne dá garantia de sua honestidade, embora eu ainda tenha minhas dúvidas sobre esse negócio de psiquismo, às seis horas da tarde, uma hora antes da hora marcada, estarei com os homens a postos.

Um tanto incerta de haver interpretado corretamente a confusa peroração, Mary perguntou: — Então, o senhor vai pôr seus homens nas torres, esta noite?

Patmore piscou. Havia começado a umedecer a ponta do charuto. Retirou-o da boca.

—  Ora, não foi exatamente isso o que eu disse?

—  Vocês têm que desculpar o Chefe — Lou interrompeu. — Ele pensa que "sintaxe" é o dinheiro que a Igreja recolhe dos pecadores.

Para grande alívio de Mary, o policial afetadamente ignorou as palavras de Lou.

—  Vamos repassar os detalhes novamente: sua visão, do princípio ao fim.

Ela suspirou e relaxou um pouquinho.

Pensou: este horror particular está chegando ao fim.

E, em seguida: será que está mesmo? Ou estará apenas começando?

—  Está se sentindo bem? — Max perguntou.

—  Estou — mentiu.

 

Na calçada, defronte à delegacia, Max virou-se para Lou.

—  Bem, foi muito mais fácil do que você disse que seria. Lou encolheu os ombros. — Fiquei surpreso. Geralmente, é necessária uma intervenção cirúrgica para colocar uma idéia nova dentro da cabeça daquele homem.

—  Evidentemente — Mary comentou — ele ficou ainda mais impressionado com Percy Osterman do que você havia calculado.

—  Isso — Lou concluiu — é decididamente parte do caso. Mas creio que também se trata de autopreservação. Ele sabe que se tachasse você de charlatã e a jogasse no olho da rua, e o assassino realmente atacasse do alto de uma daquelas torres, no dia seguinte eu pediria sua demissão do cargo na primeira página do meu jornal, e continuaria fazendo a mesma coisa duas vezes por semana até que ele perdesse o emprego.

Max sugeriu que deixassem os carros onde estavam estacionados, e andassem as duas quadras até o porto.

— Podemos tomar coquetéis e almoçar no Sea Locker, enquanto apreciamos os barcos.

Mary caminhava entrei Max e Lou, e aos poucos seu estado de ânimo foi melhorando. A brisa levava para longe dela o odor da fumaça do charuto de Patmore, e também dissipava um pouco de sua tensão e ansiedade.

O tempo tendia a melhorar. Ainda que o céu continuasse encoberto e a previsão fosse de chuva para o dia seguinte, o dia era típico da propaganda de inverno para a Califórnia do Sul. A temperatura elevou-se para 21 °C. O ar estava tão leve e puro, que mal podia ser sentido. Era o tipo de dia que justificava a alegria dos que tinham vindo do Leste, transplantados para a Califórnia.

A um quarteirão do porto, passaram por uma loja de animais domésticos, onde dois filhotes cocker spaniel espiavam pela grade da vitrina.

—  Ah, que amores! — Mary exclamou. Saiu de seu lugar entre os dois homens e foi até a vitrina.

Os filhotes apoiaram as patinhas na vidraça, tentando cheirar a mão estendida para eles. As caudas agitavam-se frenéticamente de um lado para outro.

—  Nunca liguei muito para cachorros — Lou comentou. — São dependentes demais.

—  São umas gracinhas — disse Mary.

—  Também não gosto de gatos.

—  Por que não? — Max perguntou.

—  São independentes demais.

—  Lou, você está exagerando — Max comentou. Sorrindo,   o  jornalista  respondeu:   — Bem,   alguns  me

consideram um Dom Casmurro. Tenho que fazer jus à minha reputação, não é?

Mary falava com os filhotes através da vitrina, e estes ganiam e latiam em êxtase.

—  Eu sei o quanto você ama os animais — Max disse a ela. — Pensei em dar um cão para você de presente de Natal. Era o que eu devia ter feito.

—  Oh, não — ela respondeu, ainda brincando com os animais. — Ele teria morrido.

Lou fitou-a com expressão curiosa. — Que coisa mais esquisita para se dizer.. .

Lembranças de gatos e cães, coelhos e outros pequeninos corpos mutilados passaram, em cores sombrias, por seus olhos. Ela afastou-se dos cocker spaniels.

—  Alan tinha uma quantidade enorme de bichinhos de estimação quando era menino. Eu também tinha alguns. Mas todos eles foram torturados e mortos.

—  Torturados e mortos? — Lou perguntou. — Em nome de Deus, do que está falando?

—  Era o filho de Berton Mitchell — Mary contou. — Ele achava que eu havia acusado seu pai falsamente. Por isso, entrava em nossa propriedade e matava nossos bichinhos. Um a um. Ano após ano. Até que desistimos de criar animais.

Com tanta meiguice que a deixou comovida, Max disse: — Então, os pesadelos não terminaram quando Mitchell se enforcou naquela cela. Seus olhos cinzentos, com tanta freqüência frios e sem expressão, transbordavam de ternura e amor.

—  Eu não sabia que Berton Mitchell tinha deixado família — Lou disse.

Mary confirmou. — Mulher e um filho. Claro, saíram da nossa propriedade depois.. . depois do que aconteceu. Mas não se mudaram de cidade. Estavam sempre por perto.

Lançou um olhar aos filhotes de cocker spaniels, mas já não a atraíam mais. Olhando agora para eles, só conseguia ver os cães de Alan: mortos, as patas quebradas e dezenas de facadas, cães estripados, cães decapitados, cães com os olhos arrancados. . .

—  Esse filho de Mitchell — Lou começou.

—  Não fale mais sobre isso — disse ela, trêmula. — Vamos para o Sea Locker. Preciso de um drinque.

 

O toalete dos homens, no restaurante, rescendia a desinfetante com odor de pinho.

Enquanto lavavam as mãos em pias vizinhas (Max tomando cuidado para não molhar o curativo), Loa perguntou:

—  Já mencionei um amigo meu, Ollie Railsbeck?

—  Não me recordo do nome — Max respondeu.

—  Ele dirige uma equipe de pesquisa relativamente nova na Universidade de Stanford. Investigam todos os tipos de fenômenos paranormais: clarividência, premonição, psicometria, telepatia, telecinese, projeção astral, tudo.

—  Acho que me lembro do nome — Max disse. Fechou a torneira e arrancou uma toalha de papel do recipiente. — Acho que pediram a colaboração de Mary para algumas experiências, mas até agora ela ainda não arranjou tempo.

Puxando outra toalha de papel na caixa da parede, Lou explicou:

—  Desde que ficamos sabendo que os russos estão gastando um bilhão de dólares por ano em pesquisas com fenômenos psíquicos para aplicação militar, o Pentágono vem-se mostrando disposto a abrir mão de alguns dólares para fundos de estudos gerais nessa área. O Departamento de Ollie e aquele fundado há alguns anos, na Duke University, pelo Dr. Rhine têm os melhores programas do país nesse campo.

—  Mary já participou de alguns trabalhos na Duke.

—  Hoje de manhã telefonei a Ollie Railsbeck e pedi a opinião dele sobre o que aconteceu lá em casa ontem à noite, aquele sangue jorrando do espelho.

—  O que foi que ele disse?

—  Que é um fenômeno chamado "ectoplasma".

—  A palavra é conhecida — Max comentou. Descartou-se da toalha de papel e voltou-se para a porta de saída.

—  Espere — disse Lou. — Eu não quis trazer este assunto à baila na frente de Mary.

Max encostou-se na parede. — Continue.

—  Conforme diz Ollie, esse tipo de experiência não é tão inusitado quanto eu esperava. Ele diz que fatos semelhantes ocorrem durante as sessões espíritas.

Max arqueou as sobrancelhas. — Esse seu amigo está gastando o dinheiro dos nossos impostos para pesquisar sessões espíritas? Essas sessões dirigidas por pessoas vestidas de ciganas, naquelas salas escuras, só com luz de velas, onde quem quer falar com parentes mortos fica de bolsos limpos?

—  Existem médiuns altamente respeitados, que levam seu trabalho a sério, que não buscam riquezas ou notoriedade e que conduzem as sessões mais horripilantes e assustadoras.

—  E falam com fantasmas?

— Quem sabe? Eles pensam que sim. Eles falam com algo que parece responder-lhes. Seja como for, Ollie diz que, de vez em quando, paira a forma de um espírito ou de um objeto sobre a mesa da sessão ou sobre a cabeça da médium, enquanto ela está em transe.

—  E esse efeito não é produzido por projetores de slides numa tela de plástico ou qualquer coisa parecida?

—  Essas aparições foram vistas e analisadas por pesquisadores num laboratório todo controlado — Lou explicou. — Às vezes, sangue goteja do ar. Ou lágrimas. Seja qual for a natureza da manifestação, tem substância, exatamente como se fosse real.

—  Mas só por pouco tempo. Ontem à noite, aquele sangue que saiu do espelho desapareceu bem depressa.

—  Certo. Usualmente, dura apenas poucos segundos. Às vezes um minuto cravado. OUie sabe de um caso em que o rosto de uma criança ficou flutuando acima da médium durante vinte minutos, mas o caso é raro. Acredita-se que aparições temporariamente concretas são compostas pelo ectoplasma, matéria sobrenatural que, segundo os médiuns, é capaz de atravessar as dimensões da vida e da morte.

—  E esse seu amigo acredita em fantasmas? — Max perguntou.

— Não. Ele diz que os médiuns genuinamente talentosos têm poderes paranormais altamente desenvolvidos. Conseguem bons resultados nos testes de telepatia com o uso de cartas. A maioria deles tem provas bem documentadas de predições exatas. Ollie julga que, de algum modo, fazendo uso de certa capacidade psíquica que ignoramos, eles criam o ectoplasma inconscientemente.

—  Ele não crê que se trate de matéria do outro mundo?

—  Não. Especialmente não em uma existência depois desta vida.

Max ponderou durante alguns momentos.

—  Então, do ponto de vista de Ollie, o ectoplasma é uma espécie de matéria concretizada pelos pensamentos subconscientes de uma pessoa paranormal.

—  Exatamente — disse Lou.

—  Nesse caso, Railsbeck apóia o que venho dizendo.

— Foi por isto que eu quis contar a você só quando estivéssemos sozinhos — Lou explicou. — Não queria afligir Mary.

—  Não há nenhuma força demoníaca, sobrenatural, operando aqui.

Lou suspirou sacudindo a cabeça.

—  Não estou completamente convencido. Você provavelmente tem razão. Mas quero manter a mente aberta. Entretanto, você está convencido, e tem Ollie do seu lado, por isso vou ficar de bico calado.

Max fechou o punho, batendo na palma da outra mão. Foi um som seco — sobressaltou Lou, ecoando pelas paredes ladrilhadas.

—  Mary criou o sangue que escorria daquele espelho, do mesmo modo que foi a causadora do poltergeist, mas não se dá conta e recusa-se a acreditar. Ela viu algo de terrível, Lou. Para não ter que enfrentar o que viu, está usando poderes psíquicos que jamais soube que possuía, a fim de levantar uma fachada de acontecimentos "sobrenaturais" com a intenção de se enganar. Ela viu algo que quer expulsar de sua mente, algo que enterrou bem fundo no subconsciente. Está manipulando poltergeists e outros fenômenos sobrenaturais para distrair sua atenção daquilo  que ela mais teme. Tenso e deprimido, Lou concluiu:

—  Não podemos ajudá-la, porque não sabemos o que ela está escondendo de si própria.

Max estava sombrio.

—  Saberemos hoje, às sete horas da noite. — Consultou o relógio. — Um pouco mais de sete horas de espera.

 

As águas cor de chumbo pareciam frias e oleosas. Rolavam para as docas, e as proas dos barcos afundavam-se nelas como facas cortando gelatina escura.

No Sea Locker, sentaram-se a uma mesa junto à janela. De início, enquanto Lou e Max discutiam política, Mary manteve silêncio, perscrutando o céu à procura de gaivotas. Hoje, no entanto, os pássaros estavam ausentes, e, aos poucos, sua atenção voltou-se para o movimento no porto e para o diálogo entre os dois homens.

Mesmo não havendo gaivotas para assustá-la, não conseguia relaxar. Alimentou-se muito pouco e bebeu demais; fizeram piadas sobre ela tentar quebrar o recorde de ingestão de bebida de Lou, mas o uísque não bastou para deixar suas mãos firmes.

Às duas horas, depois que Lou foi para a redação de seu jornal e o casal regressou ao hotel, ela esticou-se na cama, deitando-se de lado, a fim de fazer uma sesta. Era necessário que se sentisse descansada e alerta para a caçada humana daquela noite.

Fechou os olhos, tentando limpar a mente. O vinho que tomou no almoço ajudou um pouco. Sentiu-se como que flutuando em círculos preguiçosos, deitada numa esteira de plástico na superfície de uma piscina imensa. Começou uma meditação superficial, repetindo a palavra "um" mentalmente, até invadir toda a sua mente, expulsando todos os outros pensamentos.

No limiar do sono, ouviu o ruído de asas se aproximando.

Ui-i-i-c! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c!

Escancarou os olhos.

Nada.

Pura imaginação.

Max estava sentado numa poltrona, atrás dela, lendo o King's Point Press, e teria comentado se tivesse ouvido qualquer som incomum.

Tornou a cerrar os olhos, pensando novamente na palavra "um".

Ui-i-ic! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c!

Abriu os olhos rapidamente. Nada ainda.

Mary sabia que as asas tinham a ver com Berton Mitchell. E participavam também do caso no qual trabalhava atualmente. O assassino, cuja pista estava seguindo, de alguma forma relacionava-se a Berton Mitchell.

Impossível. Inconcebível. No entanto.. .

Que tormento! Tudo o que desejava era um pouco de paz. Tudo o que desejava era ser deixada sozinha. Tudo o que desejava era terminar logo com este caso!

Apertou os olhos bem fechados, tentando represar as lágrimas, mas estas teimaram em rolar-lhe pelas faces.

Estava aterrorizada. Queria Max. Queria que ele se levantasse e viesse para junto dela. Virou-se para ele, e o chamava, quando pensou: Não, por Deus! Ao menos uma vez, seja forte!

Cedo ou tarde, teria que aprender a resolver alguns de seus próprios problemas. Cada vez mais tornava-se consciente da fragilidade da vida. Podia sentir sua mortalidade — e não só a sua própria, mas a de Max, a de Lou, a de Alan — senti-la tão solidamente quanto pedras de gelo se desfazendo em água entre seus dedos. Algum dia, Max iria embora e como poderia ela sobreviver se não aprendesse a batalhar, ela só, contra a adversidade?

Enfrentar o que lhe havia acontecido há vinte e quatro anos. Pensar, forçar-se a regredir no tempo, descobrir o significado das asas. Não seria capaz de descerrar o elo entre Berton Mitchell e o assassino, a menos que se lembrasse de tudo sobre as asas e de tudo que ocorreu na casa do capataz.

Esperou as lágrimas secarem, e levantou-se.

—  O que há de errado? — Max perguntou.

—  Não consigo dormir.                        

—  Quer conversar?

— Continue lendo seu jornal. Quero só pensar.

Pegou o caderno de notas e a caneta, que ficavam na mesinha de cabeceira. Foi para a escrivaninha e sentou-se.

Faria o que sempre fazia, quando lhe era apresentado um problema que ninguém podia resolver por ela — escreveria. Escreveria dezenas de perguntas, a cada seis ou sete linhas, reservando os espaços intercalados para as respostas. O processo sempre a descontraía. Claro, buscava algo mais que tranqüilidade. Buscava respostas. Por vezes, as conseguia.

Contudo, depois de tantos anos, já não se iludia. Saber a solução e ser capaz de agir baseada nessa solução, eram duas coisas totalmente diversas. Possuía o conhecimento, mas faltava-lhe a força. Deste ritual de anotações e respostas, repetido centenas de vezes, jamais obteve o que mais esperava: chegar a uma solução importante sem qualquer auxílio exterior. Ainda estava por chegar o dia em que enfrentaria um problema sério, dependendo inteiramente de si mesma.

Desta vez seria diferente. Teria que ser diferente. Pressentia que, se não fosse capaz de encontrar um novo manancial de força em seu íntimo, não sobreviveria por muito tempo.

Abrindo o caderno que havia comprado na véspera, e que ainda não havia sido usado, deparou escrito na primeira página:

Mary! Salve Sua Vida!

As palavras pareciam ter sido escritas às pressas, com caneta esferográfica. E mesmo sendo, sem sombra de dúvida, sua própria caligrafia, Mary não se recordava de tê-las rabiscado.

 

Roger Fullet telefonou às quatro horas e deu a Lou uma sinopse detalhada da história de Berton Mitchell, tal como foi relatada pelo Los Angeles Times.

—  "... e após vinte minutos apenas de deliberação, o júri considerou o réu culpado de todas as acusações. Imediatamente, o advogado de defesa apelou da sentença, com base em detalhes técnicos, mas Mitchell deve ter compreendido que não lhe seria concedido novo julgamento. As sentenças relativas a cada condenação deveriam ser cumpridas consecutiva-mente, totalizando um mínimo de vinte e cinco anos".

—  E ele se enforcou? — Lou perguntou.

—  Exatamente como lhe contaram. Suicidou-se no dia seguinte à condenação, antes que fosse transferido da delegacia para o presídio.

—  Você mencionou a família dele.

—  Esposa e um filho.

—  Qual era o nome do filho?

—  Barry. Barry Mitchell.

—  Qual era a idade dele quando tudo aconteceu?

—  Não cheguei a tomar nota, mas me parece que tinha dezesseis anos.

—  Havia mais alguma coisa sobre ele nos arquivos? — Lou perguntou.

—  Foi visitar o pai na cadeia, diariamente. Estava convencido de que o pai era inocente como dizia ser.

—  O que mais?

—  Nos dias de hoje, a imprensa iria esfolar vivos a esposa e o filho. Nestas últimas décadas, a América foi se tornando mais mórbida. A cada dia, os leitores dos jornais demonstram interesse cada vez maior em esmiuçar as tragédias pessoais do que antigamente. Mas, há vinte e quatro anos, os americanos ainda respeitavam a privacidade e a intimidade dos outros. A esposa e o filho foram deixados em paz. Não temos mais nada em nossos arquivos.

Lou tamborilava na mesa com um lápis.

—  O que teria acontecido ao filho?

—  Não sei como ajudá-lo.

—  Você fez mais do que eu esperava. Obrigado, Roger. E depois de trocarem votos de boas festas, Lou desligou. Ao pendurar o fone, sua secretária entrou para desejar-lhe Feliz Natal, antes de ir para casa. Depois disso, reinou silêncio na redação.

Lou não havia acendido luzes ao regressar do almoço. Agora, com o crepúsculo descendo lentamente, sentou-se solitário, nas trevas que se alongavam, pensativo, absorto.

Qual seria o temor recôndito de Mary?

O que tornava este caso tão especial?

Sua teoria preferida resultou nula pelas revelações de Roger Fullet. O psicopata às soltas em King's Point não era Berton Mitchell.

O filho? Barry Mitchell? Estaria agora com quarenta anos, a idade de Lou. Não muito mais velho do que o pai, quando este atacou Mary. A loucura pode ser um traço hereditário, às vezes, não é fato? Tal pai, tal filho. O homem que galgaria os degraus de uma daquelas torres, às sete horas da noite, talvez fosse Barry Mitchell.

Quando a luz pardacenta da noite substituiu o dia, o escritório tornou-se frio. Finalmente, buscando calor, Lou levantou-se e serviu-se de uma dose dupla de bourbon.

 

Decidida a não correr para Max com aquele aviso de quatro palavras diante de seus olhos, na primeira página do caderno, Mary anotou cinqüenta e quatro perguntas e metade de respostas, procurando compreensão e soluções do único modo que sabia. Até o momento, nada lhe havia ocorrido de novo sobre as torturas e injúrias sofridas naquela casa, há vinte e quatro anos, nem a mais tênue pista quanto à significação das asas, mas não pretendia desistir.

Ainda que interrompesse o curso de seus pensamentos e a tornasse cada vez mais nervosa, volta e meia virava para aquela primeira página do caderno e relia as poucas palavras: Mary! Salve Sua Vida!

Tentava convencer-se de que aquilo era trabalho de outra pessoa, que alguém estranho havia se esgueirado para dentro do quarto com o intuito de escrever aquele alerta, enquanto ela e Max achavam-se ausentes. O próprio assassino, talvez. Mas sabia que não era verdade. Não fazia sentido. Além disso, reconhecia sua própria letra. Deve ter-se levantado no meio da noite, sem perturbar Max, e em estado de sono profundo, ter escrito aquela mensagem urgente a ela mesma. Adormecida, pressentiu imenso perigo. Mas. . . qual seria o conhecimento que, dormindo, estava ciente, e que agora, lúcida, lhe fugia?

Levantando-se da poltrona, atrás dela, Max perguntou: — Não quer se refrescar um pouco?

Ela voltou-se. — O que disse?

—  São cinco e meia. Ficamos de nos encontrar com Lou às seis. Pensei que talvez quisesse se refrescar.

—  Ah, sim. — Fechou o caderno. Ficou de pé.

—  Você está bem? — Max perguntou.

—  Estou.

Ele a fitou, preocupado.

—  Não — Mary confessou. — Não estou bem. Max aproximou-se; beijou-lhe o rosto.

—  Estou morta de medo.

—  Eu também — ele disse.

—  O que vai acontecer comigo?

—  Nada de mal vai acontecer a você — ele a confortou.

—  Não sei, não.

—  Eu sei — ele disse. — Fique perto de mim hoje à

noite, até que agarrem aquele bastardo.

—  E se não conseguirem agarrá-lo?

—  Você  disse  que o  apanhariam.

—  Não. Eu só disse que ele estaria em uma daquelas

torres.

—  Se estiverem à espera dele, ele será agarrado — Max

disse em tom tranqüilizador.

—  Talvez...

 

18h.

O policial Lyle Winterman estacionou a radiopatrulha escondida num beco, e caminhou as duas quadras que o separavam da Igreja Luterana de São Lucas. Mesmo com um poste iluminado a cada trinta metros, a Harbor Avenue parecia escura.

Winterman conservava a mão próxima ao coldre do revólver em seu quadril. O coldre estava aberto. A palma da mão na coronha. Como se esperasse que alguém pulasse à sua frente. Depois da preleção de Patmore, na Delegacia, o patrulheiro estava nervoso que só ele.

O Reverendo Richard Erdman estava à espera na nave do templo. Apertaram-se as mãos e foram para a porta que se abria para a escada que levava à torre do sino.

—  O que significa tudo isto? — Erdman quis saber.

—  Foi uma dica que recebemos — Winterman explicou.

—  Que espécie de dica?

—  O Chefe Patmore nos recomendou que não fizéssemos comentários.

—  Vai haver violência?

—  Pode ser.

—  Não quero saber de violências dentro da minha Igreja.

—  Nem eu tampouco, Reverendo.

—  Esta é a casa do Senhor. Deve permanecer um recinto de paz.

—  Espero que sim. Mas, mesmo assim, é melhor o senhor voltar à sacristia e trancar as portas.

—  Ainda tenho preparativos para a cerimônia de Natal.

—  Isso só começa mais tarde, não é?

—  Às onze horas — Erdman informou. — Mas começo a me preparar às dez.

—  Vou embora muito antes dessa hora — Winterman assegurou.

O policial desprendeu e acendeu a lanterna que trazia presa ao cinto. Dirigiu o foco de luz para os degraus da torre, hesitou e começou a escalada.

Erdman fechou a porta atrás dele.

 

18h05min.

O policial Rudy Holtzman não devia estar de serviço na véspera de Natal. Era sua noite de folga. Enquanto ascendia a escada da torre ia xingando John Patmore.

Poderes psíquicos, premonições, adivinhações do futuro, percepção extra-sensorial — tudo não passava de um amontoado de asneiras. O Chefe estava fazendo1 papel de bobo. Grande novidade! Mas, uma clarividente? Isto, também, já era demais!

Holtzman chegou ao topo da torre do Kimball's Games & Snacks. Lá embaixo, o edifício deserto estava quieto.

Apagou a lanterna e ficou contemplando o porto por um momento. Numa meia dúzia de barcos, as comemorações de Natal transcorriam animadas.

— Droga! — Holtzman exclamou.

Sentou-se, recostando-se no parapeito que rodeava o mirante. Colocou o revólver no chão, ao seu lado.

Expressou um quase desejo de que algum bastardo tentasse de verdade subir aquela escada. Talvez se sentisse melhor se pudesse atirar em alguém.

 

18hl0min.

Um iate de oitenta pés de comprimento, todo iluminado, cruzava o fundo da baía, rumo ao canal do norte na entrada da barra. As ondas que formava iam lançar-se ritmicamente contra o quebra-mar.

O vento do oceano trazia um vago odor de decomposição.

John Patmore e seu assistente — um jovem e pesado oficial, cujo nome era Rollins — usaram um canto da área de estacionamento do Laughing Dolphin como posto de comando para a operação. Daquele ponto, tinham vista completa das três torres.

O Mercedes estava parado ao lado da radiopatrulha. Mary apoiava-se no pára-choque. Tinha Max à sua esquerda e Lou à direita.

Contava ter outra visão. Ainda lhe restava tempo para prever qual das torres o assassino tentaria usar, tempo para ajudar a polícia a consolidar seus esforços, tempo talvez mesmo para evitar até que as mortes em massa se tornassem realidade. Até o momento, entretanto, não havia recebido novas imagens.

Tremia incontrolavelmente, mas não em conseqüência do frio ar noturno.

Às seis e quinze, o Patrulheiro Teagarten, destacado para a Igreja Católica da Santíssima Trindade, chamou Patmore pelo walkie-talkie a fim de informar que os ofícios religiosos estavam sendo realizados e que, além do mais, os Cavaleiros de Columbus estavam dando uma recepção no subsolo da igreja, recepção essa que se prolongaria até que começassem as confissões que antecediam a Missa do Galo. Na opinião de Teagarten, nenhum assassino, nem mesmo um psicopata, se atreveria a usar o campanário da Santíssima Trindade, já que teria que passar pelo meio de tantas testemunhas para chegar à torre. Teagarten queria ir para casa.

—  Você — disse Patmore pelo walkie-talkie — fica aí, queira ou não, até que eu dê ordem em contrário.

O Policial Rollins dividiu sua atenção entre as três torres, estudando-as com a ajuda de binóculos.

Patmore ignorava a presença de Mary. Não se deu ao trabalho sequer de dirigir-lhe um "alô" quando ela chegou, e continuava recusando-se a olhar em sua direção.

—  Se não der certo — Lou comentou — o Chefe vai jurar que jamais viu você.

 

18h30min.

As festas a bordo de uns doze iates continuavam ao longo do porto. Dentro de uma hora, o número de comemorações estaria duplicado. Gargalhadas, os gritinhos das moças e a música de vários estéreos pairavam sobre as águas.

Quase todas as embarcações, dos menores barcos a vela aos maiores iates a motor, estavam decoradas para a ocasião. Fios de luzes multicores faiscavam nos tombadilhos e circulavam cada pontão. Alguns dos barcos de maior porte, com a capacidade de seus geradores próprios e conjuntos de baterias, banhavam-se em camadas de luz, como que sucumbindo ao peso de incontáveis leis[3] incandescentes. Havia barcos com luzes verdes, arranjadas de modo a formar árvores de Natal em seus mastros; barcos que usavam luzes douradas, transformando os mastros em gigantescas cruzes; barcos exibindo estátuas de Papai Noel em tamanho natural; barcos com renas de papelão e espuma de náilon sobre o teto das cabinas; barcos recobertos de crisântemos em papel, enfeites de sempre-vivas, azevinho e flores frescas. As embarcações cintilavam contra o negrume da noite.

A seu próprio modo, Lou orgulhava-se de King's Point. Poderia monologar por mais de uma hora, dissecando os defeitos da cidade, jamais deixando, porém, de salientar que era, se mais não fosse, pelo menos a mais bela cidade praiana de toda a Califórnia.

Bonito como se apresentava, no entanto, o porto não lhe prendeu a atenção por mais do que poucos minutos. Voltando-se, finalmente para Mary, perguntou: — Podemos conversar sobre Barry Mitchell?

Ela sobressaltou-se, como se tivesse recebido um beliscão.

—  Mary? — ele perguntou.

—  Você me deu um susto.

—  Desculpe.

—  O que é que há com Barry Mitchell? — ela perguntou.

—  Ele era, o que... uns dez anos mais velho do que você?

—  Mais ou menos isso, eu acho.

—  Lembra-se de como ele era?

—  Era alto, um rapaz já crescido.

—  De que cor eram seus cabelos?

—  Escuros — ela respondeu. — Castanhos, eu creio.

—  Os olhos?

—  Não me lembro.

—  Você disse que ele matava os bichinhos de Alan.

—  E os poucos que eu tinha, também.

—  Foi pegado em flagrante?

—  Alan chegou a vê-lo matando um esquilo que era nosso.

—  Foi agarrado no ato?

—  Não. Ele era muito maior do que Alan.

—  Apresentaram queixa?

—  Não tínhamos prova — ela disse.

—  Tinham o testemunho de Alan.

—  A palavra de um menino contra a de outro menino.

—  E, por isso, desistiram de ter animaizinhos de estimação — Lou concluiu.

—  É.

Max passou o braço pelos ombros de Mary.

—  E não tomaram providência alguma quanto a Barry Mitchell? — Lou perguntou.

—  O advogado do papai teve uma conversa com a mãe dele.

—  Qual foi o resultado?

—  Nenhum. Barry Mitchell negou ter matado os bichos.

—  Por que todas estas perguntas, Lou? — Max perguntou. Lou hesitou, decidindo, em seguida, não haver razão para manter suas suspeitas em segredo.

—  Você me disse que havia algo de muito incomum com o assassino que estamos caçando hoje. Max me disse a mesma coisa. Vocês dois discordam quanto ao que é incomum. Suponhamos, no entanto. .. que o homem que estamos encurralando seja o filho de Berton Mitchell?

Mary negou com a cabeça. — Não.

—  Por que não? — Lou quis saber.

—  Ele está morto.

Lou fitou-a com surpresa.

—  Está mesmo dizendo que Barry Mitchell está morto? — Max perguntou.

—  E a mãe dele também — Mary acrescentou.

—  O que disse?

—  Morreram ambos. Na mesma noite.

—  Quando aconteceu? — Foi a pergunta de Lou.

— Eu estava com onze anos na ocasião. — Há dezenove anos.

—  Certo.

—  Como aconteceu?

—  Foram assassinados por alguém que invadiu a casa.

—  Um ladrão? — Lou interrogou.

—  Acho que sim. Não me lembro.

—  Você não sabe o nome do criminoso?

—  É importante?

—  Chegaram a suspeitar de alguém?

—  Não sei.

—  Como ficou sabendo disto tudo? — Lou continuava o interrogatório.

—  Alan me contou.

— Tem certeza de que ele sabia do que estava falando?

—  Oh, sim — Mary disse. — Tenho a impressão de que ele me mostrou um recorte de jornal sobre o caso.

Lou encostou-se no Mercedes, sentindo-se desapontado mais uma vez por ver outra de suas teorias destruídas.

Mas, se a esposa e o filho haviam sido assassinados apenas cinco anos após o suicídio de Berton Mitchell, por que Roger Fullet não encontrou informações sobre o ocorrido nos arquivos mortos do Los Angeles Times?

Algo de excessivamente estranho estava acontecendo. Lou não era do tipo teatral, dado a explosões melodramáticas. Não obstante, jurava que podia sentir o Mal na atmosfera da noite.

Por sobre as águas encrespadas, flutuou até eles o som do riso de uma mulher, alto e estridente.

 

19h.

Mary apertou a mão de Max e ficou tensa, alerta. A qualquer minuto o walkie-talkie transmitiria informações de um dos patrulheiros. A qualquer segundo chegaria a notícia de que um homem estaria subindo os degraus de uma das torres, e quando isto acontecesse, a caçada humana teria seu início.

19h03min.

Mary olhava repetidas vezes para o relógio, à luz dos faróis dos carros da polícia. Nervosamente, descansava ora num pé, ora no outro.

Pela primeira vez, em mais de uma hora, o Chefe Patmore fitou Mary, e seus olhares se cruzaram. Ele não parecia satisfeito.

19h06min.

Mary começou a sentir que havia sido vencida nas manobras, na tática. Pela primeira vez em sua carreira, encontrava um adversário à sua altura. Estava na pista de um homem contra o qual todos os seus poderes psíquicos não constituíam vantagem.

19h09min.

Estava paralisada de medo.

—  Está tudo errado — exclamou.

—  O quê?

—  O assassino não vai aparecer.

—  Mas você o viu agindo — Lou argumentou.

—  E o que você vê sempre acontece — Max acrescentou.

—  Desta vez é diferente — ela explicou. — Ele é diferente. Ele sabe que estou em seu rastro. Ele sabe que a polícia está vigiando as torres.

Lou falou. — Se os homens de Patmore se comportaram de modo muito ostensivo. . .

—  Não — ela interrompeu. — O que acontece é que o assassino tem poder de antecipar-se a mim. Ele não vem mais.

—  Não diga nada a Patmore. Vamos esperar mais um pouco. Ainda é cedo para desistir.

 

Quando, às sete e meia, o assassino não deu sinal de vida em nenhuma das três torres, John Patmore desandou a andar de um lado para outro diante de seu carro, de cara fechada. Os minutos se escoavam e ele andava cada vez mais depressa.

Às sete e quarenta e cinco, pegou o walkie-talkie, que havia deixado sobre a capota do carro, e durante quinze minutos falou sem cessar com Winterman, Holtzman e Teagarten. Por duas vezes descontrolou-se e berrou com seus subordinados. Desligou, afinal, o aparelho e aproximou-se de Mary.

—  O homem não vai aparecer — ela disse.

—  E ele era esperado de fato? — Patmore perguntou.

—  Sim, é claro. — Sentia-se desconsolada. Arrependia-se de ter magoado Lou, usando a influência do amigo, para em seguida não conseguir realizar o que havia prometido.

—  O que o fez mudar de idéia? — Patmore perguntou.

—  Ele sabe que estamos à espera dele — Max disse.

—  Ah, é? Quem contou a ele?

—  Ninguém — Mary disse. — Ele pressente. ..

—  Pressente? Como assim?

—  Ele deve. .. Provavelmente...

—  Ah, é?

Ela suspirou. — Não sei.

—  Hoje de manhã — Patmore estava exasperado — lá no meu escritório, a senhora sabia uma porção de coisas. Sabia tudo. Agora, não sabe de nada, de repente, sem mais nem menos. Obviamente, também, não sabe que eu posso, se quiser, me tornar bastante desagradável com alguém que chega na minha delegacia, com uma falsa acusação de crime, com uma coisa ridícula dessas, desperdiçando o meu tempo e o tempo dos meus homens, só para ter com o que divertir-se, tudo por causa de uma piada de mau gosto!

—  Cuidado com o enfarte! — Lou interveio. — E não tente fazer com que Mary tenha um enfarte.

Patmore afastou-se dela para encarar Lou. — E parte da culpa caberia a você, se eu continuasse com este jogo.

—  Você não tem que continuar com coisa alguma — Lou disse pacientemente. — Você sabe perfeitamente bem que não apresentamos queixa oficial. .. quanto mais uma queixa falsa. Simplesmente, fomos até a sua delegacia contar-lhe que tínhamos boas razões para crer que um crime seria cometido.

Patmore fitou-o exaltado. — Você me instigou.

—  John, isso é ridículo.

—  E Percy Osterman ajudou-os. Por quê? Que inferno, não! Não precisam me contar. Estou entendendo por que ele fez isso. Quando o povo daqui votou, e Percy era contra, desde o princípio, a favor de uma força policial local, ele ficou irritado. Ele não gosta muito de mim, não é? Nunca demonstrou, mas está na cara que não gosta de mim.

—  Você está completamente enganado — Lou apaziguou-o. — Seja razoável, John. Isto não é uma conspiração contra você. Mary é sincera. Percy foi sincero. Todos nós somos. Nós...

—  Vocês todos queriam é que eu fizesse papel de bobo. — Patmore sacudia o dedo junto ao rosto de Lou. — Vai ser muito melhor para você se não publicar uma única palavra em seu jornal sobre tudo isto, sobre eu ter caído no conto dessa conversa fiada de psiquismo, porque, se o fizer, Lou, eu o processarei por calúnia! E pedirei todos os seus bens como indenização por perdas e danos! — Em seus inexpressivos olhos castanhos ardia uma centelha muito pouco típica.

Mary agarrou o braço de Lou. — Estou desesperada, Lou. Não quero encrencas nem para você, nem para mim.

—  É — disse Max. — Vamos desistir. É melhor irmos embora.

Enfurecido com o policial, Lou disse:

—- John, não vou escrever sobre você. Não tenho a mínima intenção de retratá-lo como um idiota no Press. Mas você tem que entender que um assassino psicopata está andando às soltas nesta cidade e...

Ainda fervendo de raiva, Patmore interrompeu. — Você já escreveu sobre mim, antes.

Lou começava a perder a calma. — Sempre me limitei a escrever artigos calmos de "oposição leal", quando discordava de suas ações. Jamais fui injusto com você. De fato, acho até que tenho sido tolerante demais. Não gosto de golpes baixos. Deus sabe que se eu quisesse fazê-lo passar por um imbecil, não teria dificuldade alguma.

Mary apertou o braço de Lou, dando-lhe puxões.

Patmore continuou. — Você é um repórter de meia-tigela com um jornaleco pasquim, e, ainda por cima, um alcoólatra.

Por um momento, Mary pensou que Lou iria agredi-lo. Contudo, limitou-se a encará-lo firme. — Um bêbado pode se abster e curar uma bebedeira. Mas um burro com Q.I. abaixo de zero vai ter que ser assim até o fim da vida.

—  Merda! — Patmore exclamou. Voltando para o carro, agarrou o walkie-talkie e deu ordens a Winterman, Holtzman e Teagarten para abandonarem seus postos.

—  Sinto muito — Mary dirigiu-se a Lou. — Sinto tanto!


— Você não tem culpa de ele ser um idiota. Max abriu a porta do carro. — Venham. Vamos embora daqui.

Quando se acomodaram, mais uma vez, na sala de estar repleta de livros de Lou Pasternak, Max perguntou:

—  E agora?

—  Agora, só nos resta esperar — Mary respondeu.

—  Esperar o quê? — Lou perguntou.

Exausta, ela respondeu. — Esperar que ele comece a matar as pessoas novamente.

 

 Sexta-Feira, 25 de Dezembro

      O quarto do hotel estava escuro.

Ela estava deitada de lado. Virou-se de costas.

Sentia claustrofobia, como se o teto começasse a baixar lentamente sobre ela.

—  Não consegue libertar-se dos pensamentos? — Max perguntou.

—  Pensei que você estivesse dormindo.

—  Estava esperando que você adormecesse primeiro.

—  Você estava tão quietinho — ela comentou.

—  Estava tentando não perturbar você.

—  Que horas são?

—  Três horas.

—  Vá dormir, querido. Eu estou bem.

—  Não consigo dormir sabendo que você está aflita.

—  Estou sempre com a impressão de que alguém está tentando forçar a porta.

—  Não há ninguém. Eu teria ouvido.

—  E também fico achando que tem alguém na janela.

—  Também não. São seus nervos.

—  Um nervosismo incrível — ela disse.

—  Quem sabe você devia tomar mais um sedativo.

—  Tomei uma pílula para dormir há duas horas.

—  Neste caso, tome mais uma.

—  O que é ele, Max?

—  Quem?

—  O assassino.

—  Um homem.

—  Não.

— Sim, Mary,  sim. Apenas um homem. As trevas pulsavam à sua volta.

—  Ele é mais do que isso.

—  Tome mais uma pílula — Max aconselhou.

— É, acho que devo. Mas eu estava começando a diminuir. A quebrar o hábito.

—  Quando este caso acabar, você vai poder passar sem elas. Mas, no momento, as pílulas não são um paliativo. Você tem todas as razões para precisar delas.

—  Você pega uma para mim?

Max foi buscar um copo d'água e o sedativo, esperou enquanto ela tomava o remédio, e apagando a luz voltou para a cama.

—  Chegue bem pertinho de mim — ela pediu. Encostou as costas no peito do marido, as nádegas contra

o baixo ventre dele. Como duas colheres numa gaveta. Minutos se passaram em cálido silêncio. Enfim, ela disse: — Estou ficando com sono.

—  Ótimo. — Acariciou seus cabelos. Mais tarde: — Max?

—  Hmmmmm?

—  Talvez ele não possa evitar ser louco e praticar coisas horríveis. Quem sabe ele já nasceu louco. Talvez o mal não seja sempre adquirido. Talvez os pais e o ambiente não sejam sempre responsáveis pela maldade de uma criança. Às vezes, pode ser um gene defeituoso.

—  Por que não se acalma?

—  Max, será que eu vou morrer?

—  É o que aconteceu com todo mundo.

—  Mas, será que vai ser logo? Será que vou morrer cedo?

—  Não. Não vai ser logo. Eu estou aqui.

—  Abrace-me.

—  Estou abraçando.

—  Eu quero ser forte.

—  Você é forte.

—  Sou mesmo?

— É. Só que ainda não se deu conta. Em dez minutos, ela estava dormindo.

Ele continuou a acariciá-la. Ouvia sua respiração. Não queria que ela morresse. Esperava que ela não precissasse morrer. Do fundo do coração e da mente, desejava que ela desistisse do caso. Os assassinatos que continuassem. Ela não devia sentir-se responsável. O morticínio que prosseguisse. A sociedade sentia-se responsável? Não. A polícia sentia-se responsável? Às vezes, cumpria seu dever, vez por outra esforçava-se para apanhar um assassino, mas sentia a mesma indiferença tanto pelo criminoso como pela vítima, e ninguém perdia o sono por causa disto. Pois bem, os homicídios que continuassem. Esqueça tudo, Mary. Talvez ela se considerasse um caso à parte. Seria isto? Inconscientemente, talvez pensasse que devido aos seus poderes paranormais não conheceria a morte, não poderia morrer. Mas poderia, sim. Como todas as outras jovens, ternas e doces, que pensavam que também viveriam para sempre. E a lâmina do facão encontraria no corpo de Mary uma carne tão macia e vulnerável quanto a das outras vítimas. Portanto, era hora de parar. Fugir disto tudo. Se forçasse os acontecimentos, se prosseguisse com o caso, talvez seu fim fosse a morte. Mary estava frente a frente com um juggernaut[4]. Postava-se no caminho de uma força que não compreendia, uma força que se alimentava do passado, de um evento ocorrido há vinte e quatro anos.

No quarto às escuras,  abraçando-a em seu sono, Max chorou, pensando no que seria de sua vida caso a perdesse.

 

Embora pouco faltasse para o amanhecer, a luz de sua lanterna era a única exceção no negrume total. Seus passos eram o único som na arcada deserta. O homem atravessou o espaçoso salão principal. Durante o verão aquela sala sempre se achava repleta de brinquedos mecânicos e jogos eletrônicos. Agora o chão estava nu, o salão vazio. Penetrou na entrada da escada acima, da qual erguia-se uma grande placa, indicando: — PARA O MIRANTE.

O poço fechado onde se achava a escadaria que levava à torre do Kimballs Games & Snacks era estreito, frio e sujo.

Ainda não havia sido pintado para a próxima temporada. A lanterna iluminava paredes branco-amareladas, que exibiam mil manchas de mãos infantis, de respingos de bebidas derramadas, nomes e mensagens rabiscados a lápis e canetas hidrográficas.

Os degraus de madeira rangiam.

Chegando à plataforma de observação, protegida à volta por um parapeito, no topo da escadaria circular, o homem apagou a lanterna. Duvidava que houvesse alguém vigiando àquela hora; contudo, não podia arriscar que sua presença chamasse atenção.

A aurora não passava de uma luminosa linha avermelhada e tênue no horizonte oriental, como se uma fina lâmina houvesse riscado de leve a pele da noite.

Observou o porto.

Ficou à espera.

Passados alguns minutos, pelo canto do olho, percebeu um certo movimento no ar. Ouviu o ruflar de asas.

Algo pousou nas vigas do teto pontiagudo, agitou-se por um momento, e depois silêncio.

Olhou para as figuras encolhidas e tremeu de emoção.

Esta noite, ele pensou. Esta noite, o sangue novamente.

 

Podia sentir a morte em tudo ao seu redor, uma corrente densa e tangível no ar.

Para as bandas do leste, a chaga no céu escuro alastrava-se e aprofundava-se. A manhã fluía sobre o mundo.

Bocejando, passou as costas da mão pela boca. Teria que voltar logo para o hotel, descansar um pouco. Nos últimos dias, pouco tempo teve para dormir.

Por três vezes, nos dez minutos seguintes, o som de asas se fez ouvir novamente. E, em cada ocasião, houve uma agitação temporária no vigamento do teto e, de cada vez, o silêncio voltou rapidamente.

Aos poucos, a luz anêmica foi-se filtrando através das congeladas nuvens de tormenta, gradualmente derramando cor sobre o porto, as montanhas, as casas de King's Point.

Sentiu-se invadido por um profundo sentimento de perda. A luz trazia-lhe depressão. Trabalhava melhor nas horas mais negras. Sempre foi assim. E, recentemente, a sensação tornava-se cada vez mais real. Pertencia ao mundo das trevas.

No alto do campanário, as vigas mais altas permaneciam envolvidas em sombras. A parte interna do teto — um funil oco, invertido — tinha cinco metros de altura, e mesmo com o sol alto, a escuridão predominava nos recessos mais altos.

Turva, embora, a manhã chegou. E agora, a lanterna já não seria notada por ninguém lá embaixo. O homem acendeu-a, dirigindo seu foco para o alto do teto.

Viu o que queria — morcegos. Uma dúzia ou mais deles. Apegados à madeira das vigas. Asas fechadas ao redor do corpo. Alguns, de olhos fechados. Outros, cujos olhos abertos cintilavam iridescentes no facho de luz.

A visão deixou-o delirante.

Esta noite, o sangue novamente.

 

Às nove horas da manhã, Lou telefonou a Roger Fullet.

—  Sinto muito incomodá-lo no dia de Natal.

—  Você nunca me incomoda. Além disso, acaba de me salvar de um trabalhinho chato. O trenzinho elétrico saiu dos trilhos e todos os carros se desacoplaram. Se eu ficar conversando um pouco com você, só vou voltar para lá quando o Júnior tiver consertado tudo.

—  Fiquei sabendo de uma coisa muito interessante sobre o caso Berton Michell.

—  O que foi?

— Aparentemente, a esposa e o filho de Mitchell foram assassinados.

—  Meu Deus, quando?

—  Cinco anos depois do que ele fez a Mary.

—  Você deve estar enganado.

— Você verificou se, no arquivo morto, existiam arquivos separados para a esposa e o filho?

—  Não, mas mesmo que houvesse, qualquer detalhe importante teria cópia no próprio arquivo de Mitchell.

—  O Times nunca comete erros?

—  Detestamos admitir, mas de vez em quando, as coisas hão são feitas como deviam. Quem matou os Mitchell?

—  Mary não sabe.

—  Há dezenove anos?

—  E o que ela diz.

—  Aconteceu aqui em Los Angeles?

—  Ao que parece, sim. Você me faz um favor?

—  Lou, hoje é minha folga.

—  Mas, mesmo nos feriados, o Times não fica completamente fechado. Tem gente trabalhando lá. Você não pode telefonar e pedir a alguém que verifique isto para mim?

—  E assim tão importante?

—  É uma questão de vida ou morte.

—  Diga-me tudo que deseja saber.

—  Tudo sobre os assassinatos...  se ocorreram.

—  Depois eu telefono para você.

—  Quanto tempo vai levar?

—  Umas duas horas.

Roger telefonou hora e meia depois.

—  Havia um arquivo separado para a esposa e o filho. Não tiraram cópia da reportagem como deveria ser feito.

—  É bom saber que mesmo vocês, figurões da cidade grande, cometem enganos.

—  Foi uma coisa realmente bárbara, Lou.

—  Conte.

—  Depois que Berton Mitchell suicidou-se na prisão, Virgínia Mitchell e seu filho, Barry Mitchell, alugaram uma casinha na zona oeste de Los Angeles. A julgar pelo endereço, eu diria que não podia ficar a mais de uma milha da propriedade dos Tanner. Há dezenove anos, no dia de Halloween, 31 de outubro, às duas horas da madrugada, alguém usou gasolina para começar um incêndio que quase destruiu toda a casa, com a esposa e o filho de Mitchell lá dentro.

—  Fogo. É o tipo de morte que mais me apavora.

—  O que fiquei sabendo arruinou o meu apetite para a ceia de Natal.

—  Desculpe, Roger. Eu precisava saber.

—  Só que esta não é a pior parte. Mesmo com os corpos quase carbonizados, o médico legista teve meios de concluir que mãe e filho haviam sido mortos a facadas enquanto dormiam, antes do fogo começar.

—  Esfaqueados. ..

— Virgínia recebeu tantas facadas na garganta que estava praticamente decapitada.

—  Minha Nossa Senhora!

— O filho, Barry.. . foi esfaqueado na garganta e no peito. Depois. . .

—  Depois. . . ?

—  Seus órgãos genitais foram amputados.

—  Lá se vai a minha ceia também.

— Antes que o fogo destruísse tudo, aquela casa devia estar parecendo um matadouro. Lou, que escória de homem poderia fazer uma coisa destas? Que espécie de louco maníaco poderia ser tão pavorosamente meticuloso?

—  Conseguiram solucionar o caso?

—  Nunca prenderam ninguém.

—  Mas havia suspeitos, pelo menos?       

— Três.

—  Sabe os nomes?

—  Não anotei os nomes. Cada um tinha seu álibi, e cada álibi foi comprovado.

—  Neste caso, o assassino ainda pode estar vivo e solto. A polícia tinha certeza quanto aos corpos?

—  Certeza em que sentido?

—  Quanto à identificação?

—  Acho que os corpos não estavam calcinados a ponto de não poderem ser reconhecidos. E, além disso, apenas Virgínia e o filho moravam naquela casa.

—  O corpo da mulher provavelmente era o de Virgínia. Mas não é possível que o homem encontrado morto fosse um amante e não o filho?

—  Eles foram mortos em quartos diferentes. Se fossem amantes os corpos estariam juntos. E se Barry estivesse vivo, teria se apresentado.

—  Não se fosse ele o assassino.

—  O que disse?

—  Não é impossível.

—  Nada é impossível, mas. . .

— Barry estaria com vinte e um anos quando a casa foi queimada, naquela noite. Talvez vinte e dois. Roger, você não acha que ele já estava crescido demais para continuar morando com a mãe?

—  Que diabos, não. Lou, nem todos os homens se lançam no mundo aos dezesseis anos para agarrar sua fatia do bolo, como você fez. Eu morei com meus pais até os vinte e três anos. Por que essa ansiedade toda para que Barry ainda esteja vivo?

—  Tornaria tudo o que está acontecendo aqui mais fácil de entender.

—  Você é um jornalista bom demais para tentar readaptar fatos só para se encaixarem numa teoria preconcebida.

—  Pois é. Tem razão. Fui dar em outro beco sem saída.

—  Qual é o negócio com essa tal de Mary Bergen? Em que é que você foi se meter?

—  Tenho medo que seja algo de muito sórdido. Ainda não está na hora de discutir o assunto.

—  E talvez eu não queira ficar sabendo de nada.

—  Ora, vá brincar com seu trenzinho.

—  Não sei por que, mas já não tenho vontade de brincar. Cuide-se bem, Lou. Tenha cuidado. Muito cuidado... e... Feliz Natal!

 

 Estavam sentados na sala de Lou, ouvindo música — e esperando o que estivesse para acontecer. Mary não podia imaginar um Natal mais melancólico. Ela e Max nem sequer tinham tido ânimo de trocar presentes. O que havia comprado nas lojas, Max deixou nas lojas para serem embalados, e como Mary se preocupava cada vez mais com o caso, faltou-lhe oportunidade de sair às compras para o marido.

Sentiu-se mais animada quando Alan telefonou às três horas, dizendo que se encontrava em São Francisco, na casa de um amigo. Ligou primeiro para a mansão de Bel-Air, mas a governanta informou que devia tentar telefonar para a casa de Lou. Alan mostrava-se preocupado. Mary, no entanto, diminuiu a gravidade da situação e tentou acalmá-lo. Não havia razão para arruinar o Natal dele também. Quando Alan finalmente desligou, seu ânimo abateu-se novamente. Sentia tantas saudades do irmão.

Já que nenhum deles havia tomado o café da manhã, ou almoçado, Lou serviu um ajantarado às cinco horas. Frango à Kiev com arroz. Bolinhos com recheio de creme de espinafre. Tomates recheados com queijo quente, farinha de rosca e pimenta-do-reino. Maçãs assadas de sobremesa.

Ninguém tinha apetite. Beliscavam a comida. Mary nem sequer tocou no vinho. Às seis horas, a refeição estava terminada.

Enquanto tomavam café, Mary perguntou:

— Lou, você tem um tabuleiro de Ouija?

Lou descansou a xícara. — Tenho, mas há anos que não ouso.

—  Sabe onde está?

—  No armário do quarto de hóspedes, eu acho.

—  Pode ir buscá-lo, enquanto Max e eu tiramos a mesa?

—  Claro. Mas o que vamos fazer com o tabuleiro?

—  Estou cansada de esperar que o assassino dê o próximo passo — Mary explicou. — Vamos tentar forçar a situação.

— Sou completamente a favor da idéia. Mas como vamos fazer?

Max explicou.

— Às vezes, quando Mary não consegue recordar os menores detalhes de uma visão, ela instiga a memória usando o Ouija. Não que receba respostas do Além, veja bem. O que ela deseja saber são coisas que esqueceu, mas que estão enterradas em seu subconsciente. Nem sempre acontece, mas quando tudo o mais falha, ela freqüentemente usa o Ouija para fornecer-lhe um conduto até o subconsciente.

Lou concordou, em sinal de compreensão.

—  As respostas dadas pelo tabuleiro de Ouija vêm realmente da própria Mary.

—  Certo — Max confirmou.

—  Mas não guio a régua conscientemente — Mary disse. — Deixo-a ir para onde quiser.

—  Para onde o seu subconsciente quer que ela vá — Max corrigiu. — Você, na verdade, influência a régua com seus dedos, embora, de certo modo, não se dê conta.

—  Pode ser.

Lou despejou mais algumas gotas de creme no café e comentou.

—  Então, o Ouija funciona como uma lente.

—  Exatamente — Mary concordou. — Concentro minha atenção, minha memória e minha capacidade extra-sensorial.

Lou tomou seu café em três longos goles e levantou-se.

—  Parece muito interessante. E qualquer coisa é melhor do que ficarmos sentados por aqui, esperando o golpe fatal. Volto num instante. — Saiu às pressas da sala de jantar, e foi pelo corredor em direção ao quarto de hóspedes.

Max e Mary empilharam pratos e talheres na pia da cozinha. Ela acabava de limpar a lustrosa mesa de jantar, exatamente no momento em que Lou voltou.

—  Um tabuleiro Ouija, como foi solicitado — disse ele.


Mary foi até a sala de estar para apanhar o caderno de notas que havia deixado no sofá, ao lado da bolsa.

—  Tenho que dar uma faxina naquele armário, qualquer dia destes. O tabuleiro estava literalmente enterrado num monte de lixo.

—  Literalmente? — Max perguntou, divertido.

—  Pois é, estava embaixo de pelo menos cem números do The New York Review of Books.

—  Puxa! — Max exclamou. — Desta vez você me pegou direitinho.

Lou apanhou bloco e lápis na gaveta da cozinha e sentou-se à mesa. Estava preparado para anotar cada letra indicada pelo Ouija.

Mary abriu o tabuleiro numa das extremidades da mesa. Sobre ele, colocou a régua tripla com pesinhos de feltro.

Max sentou-se, e enlaçando as mãos estalou todos os dedos.

Mary abriu o caderno numa página toda escrita por ela.

—  O que é isso? — Lou perguntou.

—  Perguntas que quero fazer — Mary explicou. Mary puxou sua cadeira, sentando em ângulo reto em relação a Max. Colocou as pontas dos dedos sobre um dos lados da régua de matéria plástica. Max fez o mesmo sobre um dos lados restantes. Suas mãos eram quase grandes demais para a experiência.

—  Comece aos poucos — foi o conselho de Max.

Ela estava tensa — isso não era bom. A régua tripla não se mexeria um centímetro se a pressão do toque fosse muito forte. Mary respirou fundo várias vezes. Tentou deixar os braços relaxados. Queria que seus dedos se tornassem independentes dela — livres, macios, como farrapos.

Max não se mostrava tão nervoso quanto ela. Parecia não precisar de qualquer preparação.

Enfim, quando alcançou um estado relativamente descontraído de corpo e espírito, fitou o tabuleiro à sua frente e perguntou:

—  Está pronto a nos dar respostas? A régua indicadora não se moveu.

—  Está pronto a nos dar respostas? Nada.

—  Está pronto a nos dar respostas?

Sob os dedos do casal, como se repentinamente criasse uma energia de vida própria, a régua deslizou para o ponto onde estava marcada a palavra SIM.

—  Ótimo — disse Mary. — Estamos no encalço de um homem que já matou pelo menos oito pessoas nestes últimos dias. Ele ainda está em King’s Point?

A régua correu pelo tabuleiro voltando ao SIM.

—  King's Point é a cidade natal desse homem?

NÃO.

—  De onde ele vem? TODOS OS NOSSOS ONTENS.

—  Faz sentido para a alguém? — Lou indagou. Reformulando a pergunta em termos mais exatos, tentando ser mais específica.

—  Onde mora o assassino? — Mary perguntou.

Letra por letra: BONITO.

—  Bonito? — Lou perguntou. —- Isso responde sua pergunta, Mary?

—  Uma cidade chamada Bonito?

A régua não se moveu.

—  Onde mora o assassino?

A régua tripla indicou dez letras.

Lou anotou-as, uma a uma, enquanto eram dadas, e quando a régua parou ele disse:

— É o seguinte: O AR É BONITO. O que será que significa?

O ar às costas de Mary tornou-se subitamente frio, como se um sopro gelado tivesse sido expelido sobre sua nuca. As respostas dadas pelo Ouija eram menos diretas e mais desconcertantes do que as de costume. Supostamente, as respostas vinham da própria Mary, do âmago de seu subconsciente. Era no que, usualmente, acreditava. Mas agora não. Nesta noite, sentia outra presença, uma presença invisível pairando sobre ela.

—  Estamos num impasse — Max comentou com impaciência. Olhou para a régua tripla. — Onde, em King's Point, o assassino se aloja?

O indicador deslizou de um lado para outro, movendo-se depois rapidamente e parando de letra em letra.

Lou copiou as letras, mas era uma palavra tão simples que Mary nem perguntou o que soletrava: HOTEL.

—  Qual hotel?

A régua permaneceu imóvel.

Mais uma vez soletrou — HOTEL.

—  Tente outra coisa — Lou sugeriu.

—  O homem que estamos procurando matou aquelas mulheres com um facão. Onde arranjou aquele facão?

—  Isso não vem ao caso — Max disse. A régua moveu-se — LINGARD.

—  Você forçou essa resposta — Max acusou.

—  Não creio que tenha sido eu.

—  Então, por que essa pergunta? Nós não temos necessidade de saber de onde surgiu o facão.

—  Eu queria ver o que o Ouija ia responder. Max estudou-a com penetrantes olhos cinzentos. Desviando o olhar, Mary consultou seu caderno de notas e ainda uma vez mais, falou com o tabuleiro.

—  Eu cheguei a conhecer uma moça chamada Beverly Pulchaski?

      ELA ESTÁ MORTA.

—  Mas eu a conhecia?      

ELA ESTÁ MORTA.

—  Conheci uma moça chamada Susan Haven?

ELA ESTÁ MORTA.

Sentiu outro sopro gelado na nuca. Estremeceu.

—  Conheci Linda Proctor?

ELA ESTÁ MORTA.

—  Conheci Marie Sanzini?

ELA ESTÁ MORTA.

Mary suspirou. A musculatura dos braços e ombros flexionava-se repetidamente, involuntariamente. Era uma luta manter-se suficientemente relaxada, a fim de permitir que o Ouija funcionasse. Já começava a sentir-se cansada.

Lou interrompeu. — Quem eram essas mulheres?

—  As enfermeiras assassinadas em Anaheim — Mary disse. — Quando previ a morte delas pela primeira vez, tive a impressão de que conhecia, ou que pelo menos já tinha visto, uma delas. Mas, se era fato, não consigo lembrar-me nem de onde nem quando foi.

—  Provavelmente porque não deseja lembrar-se — disse Max.

—  E por que não?

—  Porque se se lembrasse, saberíamos quem é o assassino. E talvez seja isto o que você não deseja saber.

—  Não seja absurdo, Max. Eu quero muito saber.

—  Mesmo que, de algum modo, o assassino esteja ligado a Berton Mitchell e às asas? Mesmo que, ao encontrar o assassino, você se veja forçada a recordar tudo aquilo que durante toda a sua vida você vem esquecendo?

Ela cravou os olhos no marido, umedecendo os lábios.

—  Estou sentindo, neste momento, algo que nunca pensei que pudesse sentir.

—  E o que é?

— Estou com medo de você, Max.

Pairava um silêncio irreal na casa. Os três pareciam parados no tempo.

Max falou com brandura, e, no entanto, sua voz encheu a sala.

—  Você está com medo de mim porque está pensando que vou forçá-la a enfrentar o que aconteceu há vinte e quatro anos.

—  é só isso?

—  O que mais poderia ser?

—  Eu não sei — ela respondeu.

Max fez mais uma pergunta ao tabuleiro de Ouija, sem tirar seus olhos frios de Mary.

—  Mary conhecia Rochelle Drake?

ELA ESTÁ MORTA.

—  Eu sei que ela está morta — disse ele irritado, ainda observando Mary, deixando-a sufocada com sua atenção, imobilizando-a com o olhar.

—  Mas Mary a conheceu?

MORTA.

—  Quem é Rochelle Drake? — Lou quis saber.

Mary aproveitou a oportunidade para libertar-se do olhar do marido. Sentia a boca seca. O coração batia descompassado.

—  Rochelle Drake foi a moça assassinada naquele salão de beleza em Santa Anna, há poucos dias — Max explicou a Lou. — Eu poderia jurar que o nome não me é estranho. E você?

—  Eu não — Lou respondeu.

—  Pois bem, tenho certeza de que já tinha ouvido esse nome antes que Percy Osterman o mencionasse no necrotério. Não creio que eu a tenha conhecido, mas o nome é familiar. Não consigo imaginar de onde.

—  Ora, eu não me lembro dela. Se já a tivesse visto, acho que teria reconhecido seu corpo lá no necrotério — Mary disse.

Subitamente, sob suas mãos, a régua começou a agitar-se, em círculos amplos e desorientados.

—  Mas que diabos! — Max exclamou.

—  Ninguém perguntou nada. ..- Lou disse.

Mary deixou que suas mãos flutuassem levemente sobre a régua, que se movia agora menos desatinamente, mas com intenção mais definida. Seus pensamentos estavam embaralha dos, no momento, e ela se achava por demais aterrorizada para ter presença de espírito suficiente para decifrar as letras que se sucediam. Afinal, a régua parou. Mary retirou as mãos imediatamente; doíam com a tensão do relaxamento forçado.

—  É um nome — Lou informou. Levantou o bloco para que os outros dois pudessem ver.

P-A-T-R-I-C-I-A-S-P-O-O-N-E-R.

Patrícia Spooner! Mary pensou. Fitou o nome, incrédula.

Sentia como se uma serpente de gelo estivesse se enrascando em suas entranhas, cuja língua cristalina mexia-se rapidamente, o corpo sinuoso irradiando frio como serpentinas de um congelador.

—  Quem é Patrícia Spooner? — Max perguntou.

—  O nome não me diz nada — Lou comentou.

—  Eu... a conhecia — Mary parecia hirta.

—  Quando? — A pergunta partiu de Max.

—  Onze. . . doze anos atrás.

—  Nunca mencionou o nome dela.

—  Foi uma boa amiga nos tempos da UCLA.

—  Colega?

—  Sim. Um amor de garota.

—  Por que o nome dela está aparecendo agora?

—  Não faço a mínima idéia.

—  Veio do seu subconsciente.

—  Não. Eu não estava controlando a régua.

—  Que bobagem — disse Max.

—  Tem alguém. ..  algo. . .  aqui conosco.

—  Talvez o Ouija tenha nos dado apenas o nome da próxima vítima — Lou sugeriu, com o intuito de evitar uma discussão. — Você manteve contato com essa Patrícia Spooner? Quem sabe, devíamos telefonar a ela e perguntar se está tudo bem?

—  Devemos chamar Patrícia Spooner? Mary?

—  Ela está morta.

—  Oh, Deus meu! Quer dizer que o homem que estamos procurando já a matou?

Mary mal conseguia articular as palavras.

—  Patty... Patty... está... morta... morta... há quase... onze anos.

A sala não estava quente, mas Lou transpirava. Limpou o rosto aristocrático com a mão larga, de dedos grossos e nódulos salientes. Estava lívido, tal qual Mary.

—  Como aconteceu? Como foi que Patrícia Spooner morreu?

Mary tremeu, fechou os olhos para abrí-los em seguida, pois a lembrança era horrenda demais, bárbara demais.

—  Ela foi... assassinada.

Os mortos, Mary pensou, não permanecem mortos. Não eternamente. Nem sequer por muito tempo. Levantam-se de seus túmulos. A terra não os aprisiona. O remorso não os prende. Nem o pesar, ou a resignação, nem o medo ou o esquecimento os detêm. Nada consegue refreá-los. Eles voltam. Berton Mitchell. Barry Mitchell. Virgínia Mitchell. Mamãe. Papai. E agora, Patty Spooner. Oh, Senhor, não permita que eles voltem. Quase toda a minha vida tenho sido assombrada pelos meus mortos. Senhor, Senhor, basta!

—  Assassinada — Lou murmurou, quase em choque. Mary contou.

—  Havia uma igreja. Às vezes, Patty e eu íamos juntas à missa. Naquele tempo eu era católica praticante. A igreja era linda. Tinha um altar enorme, em madeira talhada à mão, feito na Polônia e exportado para cá no princípio do século. A igreja ficava sempre aberta, dia e noite. Patty gostava de sentar-se no primeiro banco, quando não havia mais ninguém. Tarde da noite. A mãe dela tinha morrido do coração há alguns anos. Sempre acendia velas por intenção da alma da mãe. Patty era muito devota. Ela... ela morreu lá dentro.

—  Na igreja? — Lou perguntou.

Max observava-a atentamente. Pousou a mão em seu ombro; vibrações, mais emocionais do que físicas, nem boas nem más, poderosas contudo, explodiam no ponto de contato.

—  Quem a matou?

—  Nunca o encontraram.

Lou debruçou-se sobre a mesa. As sobrancelhas franzidas, expressão aflita.

— Ela era sua amiga — uma boa amiga. Não usou sua capacidade psíquica para ver o rosto do assassino, ou seu nome?

—  Tentei — Mary explicou debilmente. — Consegui pouca coisa. Fragmentos de imagens vagas. Mas foi um daqueles casos em que os meus poderes não me ajudaram muito. Ela foi estrangulada com a estola de seda que os padres usam.

Recebi emanações terríveis dela. Vibrações maléficas, satânicas. Nenhuma figura clara. Só imagens amorfas. A igreja estava repleta das vibrações... como... nuvens invisíveis do mal. O assassino profanou o altar. . . urinou nele.

Lou pôs-se de pé tão abruptamente, que derrubou a cadeira, sem sequer dar pelo fato. Ficou parado, uma das mãos na cabeça como que tentando soterrar uma idéia perturbadora.

—  E uma loucura! O que estamos enfrentando? Será possível que o homem que estamos procurando aqui em King's Point seja o mesmo que matou sua amiga?

—  O estilo é o mesmo, não é? — Max perguntou.

—  É de uma brutalidade pavorosa — Lou disse. — E tem ainda o ângulo religioso. As raízes destas mortes recentes podem ter-se originado há pelo menos onze anos. Quem sabe até muito antes.

Mary entendeu o que ele tentava dizer, ainda que, estranhamente, jamais tivesse visto qualquer relação entre a morte de Patty e a de todas as outras mulheres.

Pressentindo o efeito que a revelação de Lou teria sobre a sensibilidade de Mary, Max apertou-lhe o ombro a fim de serená-la. Parecia, às vezes, não conhecer sua própria força; o aperto de sua mão era levemente doloroso.

Agitado, como Mary jamais o tinha visto, com movimentos rápidos e bruscos, Lou foi até a cozinha de onde trouxe um copo que tirou do armário ao lado da geladeira. Pegando a garrafa de Wild Turkey, Lou serviu-se de uma dose dupla. De copo na mão, voltou-se e ficou parado no arco de entrada da sala de jantar.

—  Está ficando cada vez mais complicado. Quantas outras pessoas esse homem terá matado, das quais nem ouvimos falar? Durante todos estes anos, por quantos outros crimes sem solução não será ele o responsável? —- Engoliu a bebida. — Tal criatura, seja quem ou o que for — e penso nele cada vez mais como sendo uma coisa — anda solta por aí, violentando, matando, completamente ignorado, sem escrúpulos durante pelo menos onze anos. Isto tudo me deixa morto de pavor.

O rugir de um trovão pontuou suas últimas palavras e re-verberou nas vidraças. O aguaceiro previsto para a noite de Natal aproximava-se.

Max lançou um olhar à régua tripla.

—  Vamos perguntar quantas vítimas já houve.

Mary quase protestou. Meus braços estão doloridos, quase chegou a dizer. Cansada demais para continuar. Exausta. Exaurida.

Sabendo, no entanto, que sua verdadeira razão para não recomeçar o interrogatório com o tabuleiro de Ouija era o medo. Medo do que lhes podia ser revelado.

Se sucumbisse ao medo com tanta facilidade, jamais seria capaz de adquirir autoconfiança. E ainda que achasse esta possibilidade bastante inquietante, tinha a sensação cada vez mais profunda de que, dentro de pouco tempo, ver-se-ia, ela própria, em perigo muito maior, contra o qual Max não ofereceria ou não poderia oferecer proteção.

Mary pousou os dedos na régua e Max fez o mesmo.

Lou endireitou a cadeira caída. Sentou-se e pegou o lápis.

Ela dirigiu-se ao Ouija. — Está preparado para nos dar mais respostas?

SIM.

Os trovões explodiam sobre King's Point. As lâmpadas do lustre sobre a mesa piscaram, quase se apagaram, voltando a brilhar.

—  O homem que matou Rochelle Drake também matou outras pessoas. Quantas pessoas foram mortas por ele?

35.

—  Meu Deus! É um novo Jack, o Estripador.

—  Jack, o Estripador, não chegou a matar tantas assim — Max informou. — O Ouija deve estar enganado. Tem que estar. Faça a pergunta novamente, Mary.

Sua voz tremia ao repetir a pergunta.

35.

O lustre suspenso piscou e apagou-se.

—  Falta de energia — Lou disse.

—  Não quero ficar sentada no escuro — Mary reclamou.

—  Se continuar por mais de um minuto — Lou disse — vou apanhar velas no armário do hall.

Uma carga inacreditável de relâmpagos pulsava do lado de fora das janelas. As explosões inesperadas de luz azul e branca criavam uma série de imagens fracionadas e alternadamente iluminadas: Lou, movimentando-se numa meia dúzia de gestos aparentemente desconexos, procurando seu copo de bourbon, e Max virando a cabeça em sua direção, como se fosse o personagem de um filme ora resvalando ora emperrando no projetor.

Os relâmpagos cessaram de repente. A escuridão tornou-se total. Os trovões recuaram, gemendo a distância. A chuva deveria cair, seguindo-se a toda essa encenação — o que não aconteceu. Os céus barravam o dilúvio.

Menos de um minuto depois de se apagarem, as lâmpadas tremeluziram, voltando a acender-se com força total.

Mary suspirou de alívio.

Max mostrava-se ansioso para prosseguir com as perguntas.

—  Pergunte quando o homem vai atacar de novo. Mary repetiu a indagação.

ESTA NOITE.

—  A que horas da noite?

SETE E MEIA.

—  Pouco mais de uma hora a contar de agora.

—  Onde ele vai atacar? — Mary perguntou ao Ouija.

NO DESFILE DO PORTO.

—  Você sabe o que é — Lou dirigia-se a Max. Estava sério. — Durante trinta anos — contou Mary — realiza-se um desfile de barcos iluminados pelo porto, na noite de Natal. Nunca ouviu falar?

—  Agora que você mencionou, sim.

—  Todos aqueles barcos decorados, que você viu ontem à noite, farão parte da parada. E mais alguns outros que não costumam ancorar aqui. Um total de cento e cinqüenta barcos ou mais.

—  Fazem desfiles assim, em Long Beach e em New Port, na semana que precede o Natal — Max disse a Mary. — Mas a comemoração aqui é muito mais espetacular do que as outras.

—  Distribuem muitos bons prêmios em dinheiro para os barcos melhor decorados, graças a um fundo criado por um dos nossos iatistas mais ricos, que amava o desfile. É um espetáculo e tanto. Servem uma ceia para um número limitado de pessoas, mas os bilhetes se esgotam com uma ou duas semanas de antecedência.

Mary fitou o tabuleiro e perguntou:

—  O assassino escolheu uma vítima em especial no desfile dos barcos?

SIM.

—  Quem?

ELE TEM UM RIFLE.

—  Em quem vai atirar?

ELE QUER MATAR A RAINHA.

—  A rainha? — Mary parecia surpresa.

—  A rainha do desfile — Lou explicou. — Será um alvo muito fácil. Ela fica de pé no convés de popa do maior barco do desfile, em geral no meio da procissão. Bem no centro das luzes. Literalmente.

—  E — Max completou — descreve dois circuitos ao longo do porto, junto com os outros barcos. Deste modo, se o assassino não tiver um bom alvo na primeira passagem, poderá esperar a volta para pegar um ângulo melhor.

Mesmo não lhe tendo sido feita outra pergunta, a régua tripla moveu-se sob os dedos de Mary, deslizando por uma série de outras letras.

KIMBALL'S GAMES & SNACKS.

—  É a torre que ele vai usar?

SIM. A TORRE DO KIMBALUS.

—  Temos uma hora para detê-lo — Max disse. Lou levantou-se. — Vou chamar a polícia.

—  Patmore? — Mary perguntou em tom dúbio. — Ele representa a autoridade.

—  Mas será que vai dar-lhe crédito depois do alarme falso de ontem à noite?

—  Ele vai ter que me ouvir! Trovões. E vento.

Mary retirou as mãos da régua e se abraçou. Ainda sentia frio.

—  Mas... e se Patmore concordar em mandar um destacamento para a torre?

—  E o que queremos, não é?

-— Mas você não entende? — disse ela. -— Deste jeito, teremos uma reprise do que aconteceu ontem. Na noite de ontem, o assassino sabia que estávamos à espera dele. Por que não saberia hoje também?

Lou hesitou, perplexo com a pergunta, preocupado, indeciso. Acabou por pegar o copo e beber o resto da bebida.

—  Talvez ele se antecipe a nós. Talvez não tenhamos uma chance contra ele. Se o Ouija estiver certo, se ele realmente já exterminou trinta e cinco pessoas, sem nunca ter sido apanhado, então ele é muito esperto — esperto demais, provavelmente, para nós. No entanto, temos que tentar, não é? Não podemos ficar postados aqui, falando do tempo e dos livros recentes, e da nova moda de Paris enquanto ele continua matando!

—  Tem razão — Max concordou.

Lou descansou o copo vazio o foi telefonar no hall de entrada.

Mary movimentava as mãos, onde estava sentindo cãimbras. Fechava-as em punho, tornava a abri-las, fechava-as no vamente.

—  Você parece exausta — Max disse.

—  Eu estou exausta.

—  Hoje vamos cedo para a cama.

—  Se conseguirmos ir dormir.

—  Vamos sim. Nada vai nos acontecer.

—  Estou com pressentimentos horríveis — ela disse.

—  Teve uma visão?

—  Não. Só pressentimentos.

—  Então, esqueça.

—  Vai ser uma noite de sangue.

—  Não se preocupe — ele a acalmou. Mary pensou em Patty Spooner.

Em Rochelle Drake, na gaveta do necrotério. Aquela mesma sensação:   algo às suas costas,  o sopro frio na nuca.

—  Eu não quero morrer — ela disse.

—  E não vai — Max respondeu. — Não hoje.

—  Você parece tão seguro.

—  E estou. Não deixarei que você morra.

—  Será que você é tão forte, Max, a ponto de poder impedir o que vai acontecer? Você é mais forte do que o Destino?

Os relâmpagos retalharam o céu: o reflexo de luzes de suas lâminas cintilaram através das janelas e, por um instante, transformaram os olhos de Max em dois lagos gelados.

 

—  Delegacia Policial de King's Point.

—  Departamento de Pessoas Desaparecidas, por favor.

—  Eu mesma posso ajudá-lo, senhor.

—  Não. Quero falar com alguém do Departamento de Pessoas Desaparecidas. Será que não me ouviu?

—  Não  temos  um  departamento  especial para pessoas desaparecidas.

—  Não?

— Nossa força policial é pequena. Em que posso ajudá-lo?

—  Qual é o seu nome?

—  Newhart. Sra. Newhart.

—  Sou Ralph Larsson. Quero falar com um policial.

—  Temos apenas dois de plantão hoje.

—  Um deles é suficiente.

—  Estão ambos fora no momento.

—  Droga!  Minha filha desapareceu!

—  Qual a idade de sua filha, senhor?

—  Vinte e seis anos. Ela. . .

—  Há quanto tempo está desaparecida?

—  Olhe, Sra. Newhart, estou em São Francisco. Moro em São Francisco, e minha filha mora aí em King's Point. Falei com ela na semana passada. Ela estava muito bem. Mas agora que acho que ela talvez já não esteja bem, não vou simplesmente pular no meu carro e percorrer centenas de quilômetros só para dar uma olhada nela. Pode ser um caso de emergência. Estava combinado que ela me telefonaria na véspera de Natal, e ela não telefonou.

—  Quem sabe ela foi a uma festa ou coisa assim.

—  Pensei que ela me telefonaria hoje, sem falta, a qualquer hora, mas não o fez. Tentei telefonar para ela, mas ninguém atende. Pois bem, droga, não é do feitio dela fazer uma coisa destas! Não é do feitio dela ignorar a família no dia de Natal.

—  Tentou falar com os amigos dela? Talvez saibam de alguma coisa.

—  Não conheço os amigos de Erika.

—  Quem sabe, os vizinhos...

—  Ela não tem vizinhos. Ela. . .

—  Ora, todo mundo tem vizinhos.

—  Ela mora num daqueles três bangalôs em South Bluff, no final da estrada pavimentada. Ela é a única residente permanente.

—  Sabe de uma coisa? Aposto que, neste mesmo instante, sua filha está tentando telefonar para o senhor. Por que não desliga e espera um pouco? Se ela não telefonar hoje à noite, comunique-se conosco amanhã.

—  A senhora está falando sério?

—  Bem, de qualquer modo, não podemos fazer nada.

—  O que quer dizer com isso?

—  É o regulamento desta delegacia, e da maioria das delegacias de polícia, não iniciar a busca de pessoa desaparecida, caso a informação do desaparecimento refira se à pessoa adulta, desaparecida menos de quarenta e oito horas.

—  Ela tem que estar desaparecida por mais de dois dias antes que vocês se interessem pelo caso?

—  É o nosso regulamento.

—  Ora, e como é que sabemos que ela não está desaparecida desde o dia seguinte ao de seu último telefonema, seis dias atrás?

—  O senhor disse que ela deveria ter telefonado ontem.        — E não telefonou!

—  Oficialmente, neste caso, ela só está desaparecida desde a noite de ontem.

—  Meu Jesus!

— Sinto muito. É o regulamento.

—  Se minha filha tivesse dez anos, em vez de vinte e seis. . .

—  Aí seria diferente. Com crianças, o caso muda de figura. — Mas sua filha já é adulta.

—  E a polícia daí não vai se interessar pelo caso até amanhã à noite?

—  Correto. Mas, meu senhor, tenho certeza que sua filha vai lhe telefonar muito antes disso.

—  Sra. Newhart, meu nome é Ralph Larsson. Já o havia mencionado, mas quero que se lembre bem do meu nome. Ralph Larsson. Sou advogado. E advogado muito bem sucedido. Também fui companheiro de quarto, na faculdade de direito, do atual governador. Pois bem, Sra. Newhart, se os seus policiais não forem até a casa de minha filha ainda hoje, para ver se está tudo bem, imediatamente, nesta próxima meia hora, e se depois descobrirmos que algo aconteceu a ela, entre este momento e amanhã à noite, irei pessoalmente a King's Point para encontrar um advogado assistente de boa reputação. E vou dedicar os próximos anos da minha vida a arrasar com a senhora e seus superiores imbecis. Processarei essa merda de delegacia policial, e processarei seu chefe por seus regulamentos arbitrários e idiotas. E, por Deus eu juro, Sra. Newhart, processarei a senhora até o seu último centavo, o que tem agora e o que venha a ganhar pelo resto da vida. E mesmo que eu não ganhe a causa, Sra. Newhart, a senhora ficará na miséria para poder pagar os honorários do seu próprio advogado. Estamos bem entendidos?

Lou Pasternak estava zangado. Furioso. O Chefe de Polícia havia desligado o telefone na sua cara duas vezes! Da terceira vez, foi a esposa quem atendeu, dizendo que ele não estava em casa.

—  A cabeça de Patmore é tão atrofiada que um cálice lhe assentaria como um chapéu mexicano.

—  Donde se conclui — disse Max — que ele se recusou a enviar um destacamento para a torre.

Lou agarrou o copo vazio com um gesto brusco e foi para a cozinha, onde pegou a garrafa de Wild Turkey.

—  Se aquela besta tivesse um pouquinho mais de inteligência, chegaria ao nível dos retardados mentais.

— Será que não devíamos telefonar ao xerife? — Mary perguntou, da sala de jantar.

—  Lembre-se, Percy Osterman não pode interferir na polícia de King's Point, a não ser a pedido de Patmore.

—  Mas quando as mortes se estendem pelo condado todo, não é uma exceção? Algo assim como "ação conjunta"?

—  Se um cara assalta um banco de certa jurisdição, trepa num carro e se manda para outra cidade que tenha sua própria força policial, os homens do xerife podem persegui-lo e prendê-lo. Isto é ação conjunta. O que temos aqui não é.

—  Pode ser que Osterman convença Patmore a cooperar de novo — Max disse.

—  Duvido muito. Não depois de ontem à noite. — Lou voltou à mesa com outro copo cheio de bourbon.

—  E agora?

—  Temos que detê-lo, nós mesmos — Mary disse. — Temos que ir até aquela torre.

Lou encarou-a com assombro. — Está falando sério?

—  Absolutamente fora de cogitação — Max decidiu.

—  O que preferem fazer? — Mary perguntou. — Não podemos ficar aqui sentados falando do tempo, dos livros mais recentes e da última moda em Paris, enquanto ele está por aí matando gente.

Lou reconheceu suas próprias palavras contra as quais não havia argumento convincente.

—  Se ficarmos sentados aqui — Mary continuou - ele vai matar a rainha do desfile. E, provavelmente, uma porção de outras pessoas.

—  Talvez a chuva force a rainha e seu séquito a saírem do convés — Max disse. — Neste caso, ela não seria um alvo fácil.

—  Não está chovendo — Mary salientou.

—  Mas vai chover logo.

—  Querem apostar suas vidas como não vai chover? — disse ela. — Lou, temos que deter aquele homem. Não temos outra escolha.

—  Não quero que ele continue matando — Max disse — mas a responsabilidade não é nossa.

—  Já que não é nossa, de quem é? — ela perguntou. Lou notava uma rara expressão de determinação no lindo rosto de Mary. Uma resolução inabalável naqueles enormes olhos azuis. Duvidava que ele ou Max conseguissem demovê-la da idéia. Era como discutir com uma porta, sabia bem. Mas sentia medo por ela. E na qualidade de seu amigo, julgou ser seu dever fazer com que reconsiderasse.

—  Mary, não somos páreo para esse monstro.

—  Por que não? — Foi a resposta. — Não somos três contra um?

—  Mas ele é um assassino — Max contraveio.

—  E nós não somos — ela concluiu.

—  Exatamente.

—  Sabendo o que ele já fez — ela argumentou — e o que faria dada a oportunidade, você não puxaria o gatilho se ele avançasse contra você com uma arma?

—  Claro, em autodefesa — Max começou.

—  É exatamente o caso — ela disse. — Autodefesa.

—  Mas esse tarado tem um rifle — Lou disse. — E, com toda certeza, um facão. Que armas usaríamos? Nossas mãos?

—  No porta-luvas do Mercedes tem uma pistola — Mary informou — Max tem licença para porte de armas.

Lou fitou Max, levantando as sobrancelhas.

—  Deram permissão para você portar armas? Levantando-se da poltrona para ir até a cozinha, Max

respondeu:

—  É isso aí.

—  Como conseguiu a licença? Via de regra, só são concedidas a pessoas cujo trabalho envolva riscos, tais como carregar diamantes ou grandes quantias de dinheiro de um lado para o outro.

Na cozinha, Max serviu-se de uma dose generosa de Wild Turkey.

—  Trabalhamos em alguns casos com o xerife da polícia de Los Angeles. O xerife achou que Mary poderia encontrar-se em situações de perigo. Ele também sabia que sou colecionador de armas de fogo. E sabia que a minha pontaria é muito boa e, calculando que não sou do tipo que fica nervoso por qualquer coisa e acidentalmente arrebenta alguém... — Max bebeu o bourbon com pose e depressa: uma sede nervosa, que desnudou brevemente a tensão escondida por trás de sua calma estudada. — ... assim sendo, o xerife me deu a licença. — Lavou o copo na pia da cozinha e, voltando para a sala de jantar, postou-se atrás de Mary. — Mas não vou pôr carga naquela pistola e sair caçando alguém em quem possa atirar.

— Mas não seria sair caçando qualquer um — disse Mary. — Estaria caçando um homem que. . .

—  Esqueça, Mary — Max disse. — Não o farei.

—  Vamos discutir o assunto — ela pediu.

—  Não adianta. Está decidido.

Lou notou um faiscar de ódio nos olhos de Mary. A resistência de Max não teria outro efeito senão fortificar a decisão da mulher.

—  Está certo, Max — disse ela. — Fique aqui. Vou pegar a arma e vou eu mesma sozinha.

—  Mary, pelo amor de Deus, você nem sabe como se segura uma pistola!

Ela o fitou sem pestanejar e respondeu:

—  Puxa-se a parte traseira e a bala entra no cano, daí você faz pontaria e aperta o gatilho — e o filho da mãe cai no chão.

Lou sabia quão teimoso Max podia mostrar-se, às vezes. Vendo a firmeza do queixo do homem, o modo como jogou os ombros para trás, teve ímpeto de alertá-lo. Max havia se acostumado ao papel de pai/amante de Mary, a decidir o que seria e o que não seria feito. Mas, nesta noite, Mary não era a mulher submissa que ambos conheciam. Neste mesmo instante, transformações ocorriam nela. Emoções conflitantes afloravam-lhe ao rosto, mas a expressão básica era a de inabalável determinação. Ela tomaria  sua própria decisão, e não daria ouvidos aos conselhos de ninguém. .Jamais tinha visto em Mary tamanha a força, tamanho propósito.  Era excitante, fascinante! Sentou-se mudo, querendo dissuadir Max de se mostrar autoritário, mas sentiu-se incapaz de interferir.

—  É um absurdo — Max dizia. — Mary, não vou permitir que ponha a mão naquela pistola.

—  Nesse caso, vou sem ela.

O olhar de Max soltava fagulhas. — Você não vai a lugar algum.

Ela se levantou. Encarou-o. Procurou sustentar o olhar do marido, como a provar, com a firmeza de seu próprio olhar, a importância de sua decisão. Falou com tal intensidade serena e com tal expressão de presságio, que Lou sentiu-se gelar até a medula.

—  Estou enfrentando algo tão imenso e tão maligno que posso apenas adivinhar suas dimensões, como uma criança cega tocando a pata de um elefante. Estes últimos dias têm sido para mim o último círculo do inferno, Max.

—  Eu sei. E. ..

—  Você não pode saber. Ninguém pode. — Se você. ..

—  Não me interrompa -— ela pediu. — Quero que você entenda. Portanto, apenas ouça. Max, tenho medo de ir dormir, tenho medo de acordar amanhã. Tenho medo de abrir cada porta à minha frente, tenho medo de me virar. Tenho medo do que possa me acontecer, e do que possa não acontecer. Céus! Tenho medo até de ir sozinha ao banheiro! Não posso continuar vivendo assim. Eu me recuso a viver assim. Algo existe neste caso, diferente de todos os demais, algo trabalhando em minhas entranhas, me devorando viva. Este caso penetrou em minha vida, como nenhum outro em que trabalhei; só que não sei por quê. Max, eu sinto, pressinto, sei que se não sair no encalço desse homem com cada grama de energia que possuo e usando todos os meios que conheço, então... ele virá atrás de mim.

A régua tripla do Ouija moveu-se; e Lou foi o único que percebeu. Como a confirmar a predição de Mary, deslizou para o ponto marcado SIM.

—  Se eu não tomar a iniciativa — Mary continuou — vou perder a pequena vantagem que tenho sobre ele agora. Não posso desistir. Se eu tentar fugir, não irei muito longe. Voumorrer.

—  E se sair atrás desse homem, se insistir em ir até aquela torre, hoje, provavelmente morrerá mais cedo — Max disse.

—  Pode ser — ela respondeu. — Mas, se eu morrer hoje, pelo menos terei assumido a responsabilidade da minha própria vida ou morte. Toda a minha vida, tenho sentido medo e tenho deixado os outros enfrentarem os meus fantasmas. Chega! Porque, desta vez, ninguém mais pode me ajudar. A resposta está dentro de mim, e se eu não encontrá-la logo, será o meu fim. Já é hora de parar de me esconder atrás de homens fortes. Tenho que enfrentar meus próprios riscos. Se eu arriscar e falhar, terei que sofrer as conseqüências, como acontece com todo mundo. Se eu for sempre mimada, protegida, escudada contra os choques do mundo, qualquer sucesso que tenha perderá o significado. Decidi que ninguém — nem o Alan, nem você, Max, e especialmente, nem aquela parte de mim que continua indefesa, com seis anos de idade — ninguém vai me impedir de viver uma vida plena.

O silêncio prolongou-se.

O relógio antigo de parede bateu o quarto de hora.

—  Quarenta e cinco minutos até que ele dê um tiro na rainha do desfile de barcos.

—  E então, Max? — Mary perguntou.

Ele aquiesceu. Enfim. — É melhor irmos andando.

 

Sangue! Sangue entremeado em seus cabelos, como fitas. Sangue chamando a atenção para os seios perfurados. Sangue nas mãos, no ventre, nas coxas. Sangue no sofá e nas poltronas. Sangue nas cortinas, nas paredes. Pequenas pegadas de gato, feitas de sangue, pelo tapete todo.

Tentando resistir às náuseas, o patrulheiro Rudy Holtzman deu cautelosamente a volta ao redor do corpo mutilado de Erika Larsson, indo para a cozinha escura, onde acendeu as luzes. Usou o telefone de parede para chamar a delegacia.

Quando a recepcionista da noite, Wendy Newhart, atendeu, Holtzman disse:

— Estou aqui, na casa de Erika Larsson. — A voz soou tensa  e rouca.  As  palavras  saíam  truncadas.  Pigarreou.  As luzes  estavam  acesas  quando  cheguei.   Ninguém atendeu à campainha, mas a porta estava aberta.  Ela está morta.

—  Deus meu! Eu é que não vou contar ao pai dela. Nem quero pensar nisso. Quem quiser que conte.

—  É melhor mandar Charlie para cá com a outra radio-patrulha — disse Holtzman. — Chame o legista  imediatamente. E Patmore, é lógico. Diga a Charlie para vir depressa  - é muito chato ficar aqui sozinho.

—  Quando ela morreu? — Wendy Newhart perguntou.

—  Como é que eu vou saber? Isso é com o legista.

—  O que estou perguntando é: tinha acabado de acontecer quando você chegou aí? Nesta última meia hora.

—  Qual é a diferença? — Holtzman perguntou.

—  Rudy, responda. Acabou de acontecer?

—  O sangue já está quase todo seco e coagulado. Não posso dizer a hora exata, mas deve ter acontecido há muitas horas.

—  Graças a Deus, os milagres ainda acontecem — ela disse.

—  Como é?

Ela já havia desligado.

Holtzman colocou o fone no gancho e virou-se, dando de cara com uma gata preta, parada na soleira da porta entre a cozinha e a sala da frente, a menos de dois metros de distância. O focinho branco estava vermelho-escuro, tingido de sangue. Holtzman deu um passo à frente, chutou a gata, e errou o alvo.

O animal guinchou e fugiu.

 

Chegaram ao porto cinco minutos depois das sete.

Max estacionou o Mercedes num canto da área que, durante a temporada de veraneio, servia de estacionamento tanto para o restaurante Italian Villa como para o Kimballs. Nesta noite, o espaço reservado ao restaurante estava quase lotado, enquanto o outro lado apresentava-se praticamente vazio.

Saíram os três do carro.

Lou encolheu os ombros num gesto de proteção contra o frio. O ar de tempestade havia chegado do oceano, trazendo uma queda de temperatura que, de uma máxima de 21°C a uma hora da tarde, desceu para uma mínima de 9°C naquele momento. O vento forte, soprando do porto, fustigando King's Point, fazia com que a noite parecesse ainda mais fria do que realmente estava.

— Continuo achando que eu devia ir com Max e que você devia ficar aqui, em lugar seguro —- disse Lou.

—- Nenhum lugar é seguro para mim — Mary respondeu.

—  Se, pelo menos, você ficasse dentro do carro.. .

Ela agitou as mãos com impaciência, interrompendo o amigo.

— Temos duas armas que podemos usar contra ele: uma, a habilidade de Max com um revólver; a outra, a minha capacidade psíquica. Não devemos separar as duas.

O vento do mar agitava seus longos cabelos, que tremulavam como uma bandeira dourada.

Max pousou a mão no ombro de Lou.

—  Tanto quanto você, não queria vê-la no centro da ação. Mas talvez, ela tenha razão. Provavelmente, o perigo é tão grande aqui quanto lá dentro. E, além disso, nenhum de nós conseguiria fazê-la mudar de idéia.

—- Estou me sentindo tão inútil — Lou disse.

—  Precisamos de alguém que fique no carro — Max disse. — Você é o nosso sistema de alarme.

—  Estamos perdendo tempo — Mary disse.

Lou concordou. Sombrio. Beijou o rosto de Mary, recomendando a Max que cuidasse bem dela.

Correram os dois, enfrentando o vento, atravessando o estacionamento, na direção do prédio deserto que parecia um celeiro e que abrigava o conjunto de lojas de souvenirs, balcões de miudezas, diversões e lanchonetes, conhecidos coletivamente como Kimballs Games & Snacks.

Lou sentou-se ao volante do Mercedes e fechou a porta. Mal distinguia os vultos de Max e Mary pelo pára-brisa, enquanto ambos se afastavam e se fundiam com as sombras que circundavam o pavilhão de madeira compensada e tábuas de cedro.

Uma rajada violenta de vento balançou o carro. Relâmpagos, como garfos, fincavam-se no céu, e ainda assim, a chuva não chegava.

Lou acomodou-se, resignado ao seu papel de sentinela. Se o assassino não conseguisse, nesta noite, antever os movimentos de Mary, como o fez na noite anterior, provavelmente entraria no Kimballs aberta e destemidamente. Caso Lou notasse um homem se aproximando do prédio, deveria ligar a ignição do Mercedes e alertar Max com dois toques rápidos da buzina. Pavilhão e torre ficavam a apenas sessenta metros pela passagem de madeira e interligavam vários negócios nesta zona do porto. O som da buzina viajaria tal distância sem obstáculos, e era pouco provável que o assassino desconfiasse ser um sinal de alarme. Mesmo que Mary fosse capaz de prever a hora exata e a linha de aproximação do homem,, a buzina funcionaria como uma confirmação bem-vinda da visão.

Claro, o psicopata poderia ter-se antecipado a eles novamente, e já estar a salvo dentro do pavilhão.

Lou mexeu-se inquieto ao volante do carro.

Pensou em Patty Spooner, estrangulada com a estola de seda de um padre. Pensou em Barry Mitchell, hediondamente mutilado.

Olhou à direita e à esquerda, espiou pelo espelho retrovisor. Ninguém. Apertou os olhos, tentando penetrar nas profundas trevas que se alongavam pelo pavilhão. Tudo quieto.

A gata preta empoleirou-se no topo de um jogo de estantes de mais de dois metros de altura, não mais que oito ou dez polegadas do teto, na sala da frente do bangalô. Suas patas dianteiras pendiam da beirada da prateleira; a gata estava imóvel, fitando Rudy Holtzman com suspeita e desprezo.

Coisinha mais imunda. Detestava gatos. Sempre detestara. E lhe dava arrepios só em pensar que esta aqui havia saltitado e se saciado com o sangue da moça.

A gata soltou um som rouco e profundo, como a desafiá-lo a aproximar-se.

Ele não queria ficar esperando, na companhia de uma gata e de um cadáver, nem mesmo durante os poucos minutos que Charlie levaria para chegar com o outro carro. Desceu o corredor curto, a fim de inspecionar a parte da casa que ainda não havia investigado.

Encontrou uma janela aberta no quarto de dormir, na qual o vento se divertia com um par de cortinas muito leves, e uma persiana descida até a metade. As chuvas recentes haviam encharcado e manchado bastante o tapete.

De repente, Holtzman sentiu-se excitado. Estudou o quarto, recriando mentalmente aqueles primeiros poucos segundos, quando a inviolabilidade do lar havia sido violada. Sabia que não tinha sido apenas a chuva que havia atravessado aquela janela. Estava certo de haver encontrado a via de acesso do criminoso. E quando seu olhar percorreu o chão, mal conseguiu acreditar no que estava vendo. Um daqueles bafejos da sorte, que só acontecem raramente na vida de um policial. Aparentemente, a pistola caiu despercebida pelo assassino, quando este entrou pela janela.

Holtzman ajoelhou-se no tapete molhado para examinar a arma mais de perto. Evitou cautelosamente danificar impressões digitais acaso existentes. Se o assassino fosse o mesmo homem que havia retalhado aquelas enfermeiras e o pessoal do salão de beleza — e o estilo certamente parecia a Holtzman ser o mesmo — então, a polícia de Anaheim e de Santa Anna já tinham impressões digitais mais do que suficientes. Até o momento, tais impressões digitais nada haviam ajudado na solução do caso já que, evidentemente, o homem jamais havia sido fichado em qualquer organização policial do país. Mesmo assim, já que se orgulhava de se mostrar mais profissional do que qualquer outro policial com quem havia trabalhado, Holtzman não tocou na pistola a fim de não destruir a prova. Pegando uma esferográfica do bolso da camisa, deslizou-a pela alça do gatilho, levantando a arma do chão e segurando-a diante dos olhos.

Era uma peça fora do comum — uma .45 Auto Colt. Nada que pudesse ser adquirido em lojas. Algo de muito especial. Uma peça de colecionador. O metal lavrado em folhas e desenhos delicados. Havia também vários animais — lebres, cervos, faisões, raposas — em posição de fuga, desenhos que começavam no lado exterior do tambor, todos inacreditavelmente detalhados, e belissimamente trabalhados, todos correndo até a borda da coronha.

Notou o que parecia ser uma gravação no aço, onde este se juntava à coronha. A luz do quarto era fraca. As letras eram minúsculas, com poucos milímetros de altura, inscritas em caligrafia floreada. Holtzman não conseguia ler.

Levantou-se, ainda carregando o Colt pela caneta, e foi até o abajur mais próximo.

Fabricação de W. Thorben

      Seattle — 1975

Uma peça de coleção como esta geralmente passa de um a outro proprietário, que a compra e revende em mostras de armas, sem preocupar-se em registrá-la com a autoridade competente. Contudo, tendo o nome do fabricante (e caso a arma não tivesse sido roubada de uma coleção), poderiam encontrar o homem que a havia encomendado a Thorben. A partir daí, teriam chance de seguir uma pista até chegarem ao homem que a havia deixado cair ao saltar por aquela janela.

Ainda manipulando a arma com o auxílio da caneta, Holtzman examinou o outro lado. Outra vez, no ponto onde o aço se juntava à coronha, havia uma inscrição. Palavras diferentes. Franziu os olhos. Leu. Tornou a ler.

— Ora, que diabos!

O som de uma sirene soou a distância e foi aumentando rapidamente.

Holtzman atravessou o corredor que levava ao lado da casa que dava para o final da estrada pavimentada. Parou na soleira da porta que encontrou entreaberta.

Outra radiopatrulha, faróis de emergência girando, rosnava na subida íngreme, que levava ao topo do morro. A camioneta de Patmore vinha logo atrás.

À luz do hall, Holtzman levantou o Colt e leu a inscrição novamente.

Por encomenda de

    Max Bergen

 

As trevas ao redor do pavilhão eram entumescidas, aveludadas, profundas. Ofereciam dezenas de esconderijos.

Mary carregava a lanterna, sombreando-a com uma das mãos. A cada movimento inesperado que fazia, reagindo a ruídos imaginários, as sombras dançavam.

Permaneceu bem perto de Max enquanto circulavam o prédio, procurando um lugar por onde o assassino pudesse ter entrado. Na véspera, a polícia havia utilizado uma chave oferecida pelo proprietário. Tal facilidade lhes era negada hoje, tanto ao casal Bergen quanto ao homem que buscavam. O assassino teria que arrebentar alguma coisa para entrar e chegar à torre. Teria que deixar sua trilha.

Mary estava impaciente. Por duas vezes instou para que Max se apressasse.

O desfile de barcos iluminados já havia começado o primeiro circuito pelo porto, à vista na entrada da barra, ainda ao longe, no canal, mas aproximava-se com rapidez. Pelas sete e meia, a rainha do desfile poderia muito bem estar passando pela primeira vez em frente à torre.

Do lado oeste do pavilhão, de frente para o mar e protegido por uma grande passagem de tábuas, encontraram uma vidraça quebrada na janela que pertencia à lanchonete agora deserta e escura.

— Foi o assassino quem fez isto? — Max perguntou.

Mary dirigiu o facho de luz para o chão, e na luz tênue estudou a janela danificada. Deslizou as pontas dos dedos da mão esquerda pela moldura da janela onde faltava o vidro. A noite já estava fria, mas o ar, subitamente, tornou-se mais frio quando ela se concentrou nas impressões psíquicas que a janela havia guardado para ela.

Ui-i-i-c! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c!

Mary estremeceu, apertando a lanterna com toda a força que possuía, trincou os dentes, recusando-se a entrar em pânico.

—  Alguma coisa? — Max perguntou.      — Sim. Foi ele.

—  Ele está aí dentro?

—  Não. Esteve aqui. . . tarde da noite, ontem. . . depois que a polícia foi embora... Posso ver... muitas horas depois da saída da polícia.. . hoje. . . de madrugada... lá na torre. — Retirou a mão da janela e o elo invisível rompeu-se. — Ainda não voltou, hoje.

—  Tem certeza?

—  Absoluta.

      — Então, ele pode chegar a qualquer momento.

—  É. Portanto, vamos depressa!

Ui-i-i-c! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c!

Ignore, disse a si mesma. Não é real. Max não está ouvindo nada, está? É só você quem ouve. Impressões psíquicas. Nada existe realmente. Nem asas. Nem perigo. Nenhuma asa.

—  Vamos tentar ser o mais discreto possível — Max aconselhou. — Podem-nos ver de algum daqueles restaurantes perto do porto. É melhor você apagar a lanterna.

Ela obedeceu.

A noite fechou-se ao seu redor.

Max passou a mão pela moldura, procurando o trinco que soltava a folha.

—  Você sabe que o que estamos fazendo é invasão de domicílio?

—  Acho que é.

—  E não liga?

—  Max, quer, por favor, apressar-se?

Max abriu as duas folhas da veneziana, sem fazer estardalhaço.

Mary pulou para o peitoril a menos de um metro da calçada, entrando na lanchonete. Olhou à volta do recinto, mas nada enxergava.

Depois de lançar um olhar para cada lado da passagem de madeira, Max acompanhou-a e trancou a janela.

—  Está ainda mais escuro aqui dentro do que lá fora — ela comentou. — Se não usarmos a lanterna, vamos sair tropeçando em tudo à nossa frente.

—  Apenas tenha cuidado para não iluminar uma das janelas. Mantenha a lanterna protegida.

Foi o que ela fez, protegendo a luz com a mão esquerda.

A lanchonete continha aproximadamente trinta mesas, todas pregadas ao chão. Aparentemente, porque as cadeiras não podiam ficar igualmente imobilizadas, todas haviam sido removidas e guardadas, até que o Kimballs reabrisse na primavera.

A única entrada pública para a lanchonete — um par de portas envidraçadas, que combinavam com as janelas — ficava no interior do pavilhão, do qual o restaurante não era senão uma pequena parte. O assassino havia arrebentado o cadeado. Quando Max abriu as duas folhas da porta, estas gemeram e se moveram com dificuldade em seus gonzos sem lubrificação.

Max ficou imóvel, alerta aos sons do prédio.

—  Você tem certeza mesmo de que ele ainda não está aqui? — perguntou finalmente.

—  Absoluta.

Mesmo quando suas impressões psíquicas não eram completas, jamais haviam sido totalmente errôneas. Mary esperava que, desta vez, suas impressões fossem corretas, pois, caso contrário, se o assassino se encontrasse lá dentro à sua espera, era o mesmo que já estar morta.

Da lanchonete foram para um corredor, que acabava em duas curvas, uma para cada lado. Lojinhas alinhavam-se ao longo do corredor: Silly T-Shirts, The Ceramic Factory, The House of Glass Miniatures e dezenas de outras, todas desertas e escuras.

Max e Mary dobraram à esquerda e logo descobriram que o longo corredor era, na verdade, um semicírculo que levava, de ambos os lados, à entrada cavernosa do salão principal. O imenso recinto encontrava-se vazio agora, mas durante a temporada estaria repleto de jogos e máquinas, pistas de boliche, galerias de tiro ao alvo, passatempos eletrônicos, e pequenos reservados onde se podia ler a sorte, ou onde um rapaz poderia gastar dez dólares em moedas de um quarto de dólar, a fim de ganhar um brinde no valor de três dólares para ofertar à namorada.

Caminharam até o centro do salão. O som de seus passos ecoava ocamente pelas paredes e pelas curvas do teto alto em abóbada.

Mary parou, dirigindo a lanterna para onde Lou lhe havia indicado que olhasse. Viu um arco ao fundo do salão, e degraus que começavam depois do arco. Sobre este a tabuleta: PARA O MIRANTE.

Gritos, o som de asas, um corpo rolando pela escada e passando pelo arco, asas, um corpo contorcendo-se no chão de madeira da arcada, asas, gritos estrangulados pedindo socorro. ..

Sob o impacto das imagens psíquicas perdeu o equilíbrio.

—  O que foi? — Max perguntou.

—  Eu vejo... — Tentou agarrar-se à visão e esta dissipou-se rapidamente, e não pôde ser atraída de volta. — Hoje à noite, alguém vai morrer ao pé daquela escada.

—  Um de nós dois?

—  Não sei.                                                                         .

—  O assassino?

—  Espero que sim.

— Tem que ser ele — Max disse. — Não nós. Nós viveremos. Temos que viver. Eu sei.

Não sentindo a mesma certeza, relutando em pensar — por medo que a coragem a abandonasse, ela perguntou:

—  Onde vamos esperar por ele?

—  Eu fico esperando aqui no pé da escada. Você vai para o topo da torre.

—  O topo da... oh, não!

— Oh, sim.

—  Vou ficar perto de você — ela afirmou.

—  Olhe, se Lou usar a buzina do carro para nos alertar, não poderemos ouvir aqui embaixo. Ao passo que você, comcerteza, ouviria se estivesse lá em cima da torre...

—  Esqueça.

—   ... no mirante aberto.

—  Max, vou ficar aqui.

—  Não vai, droga!

Ela afastou-se um passo.

O rosto de Max estava ensombreado de raiva.

—  Eu sei lidar com armas. Se a coisa chegar a um tiroteio, você só iria me atrapalhar. Se eu tiver que me mexer depressa, não quero precisar parar para ver se você está na linha de fogo.

—  Eu não sou uma idiota completa — ela teimou. — Posso muito bem ficar fora do caminho.

Ele a fuzilou com o olhar e manteve silêncio.

Mary continuou. — E se eu tiver uma visão enquanto estou lá na torre, uma visão importante? Como é que vou fazer para avisar você do que vai acontecer?

— Vou ficar aqui, no pé da escada — a menos de vinte metros de onde você vai estar. Pode chegar aqui bem depressa, se for necessário.

—  Não sei. . .

—  Vou falar bem claro — Max disse. — Ou você faz o que estou dizendo e sobe para o mirante, oh, por Deus, vou dar um soco em você, bem de leve, mas o bastante para te apagar. Depois carregarei você para o Mercedes e darei o assunto por encerrado.

—  Você não faria isso!

—  Não?

Ela percebeu que as ameaças não eram vãs.

—  Faria, porque amo você — ele explicou. — Não quero que você morra.

—  E eu não quero que você morra — ela redargüiu.

— Ótimo. Então, ouça. Nós dois teremos mais chance de sobreviver a este pesadelo se você não estiver aqui, distraindo minha atenção, quando o tiroteio começar.

Mary sentiu-se tomada de emoções conflitantes.

—  Você vai matá-lo?

—  Só se me vir forçado a isso.

—  Não hesite — ela aconselhou. — Não dê uma chance a ele. Ele é esperto demais. Atire no instante em que o vir.

—  A polícia pode não gostar da história.

—  Para o inferno com a polícia.

—  Mary, você vai subir? Não temos muito tempo. Ficamos aqui ou carrego você para fora? A decisão é inteiramente sua, mas tem que se decidir depressa.

Em parte porque reconhecia uma centelha de lógica nos argumentos de Max, mas principalmente porque não lhe restava outra escolha, ela disse:

—  Está bem.

Caminharam apressadamente para a arcada. Chegando ao pé da escadaria, Max pousou as mãos nos ombros de Mary e ela levantou o rosto para ele. Beijaram-se.

—  Chegando lá em cima — ele preveniu — não fique zanzando, contemplando a vista. Mesmo à noite, alguém poderia vê-la. Se o assassino localizá-la, ele poderá desistir. Você diz que mais cedo ou mais tarde vai ter que travar a batalha final com ele. Portanto, o melhor é fazermos tudo que pudermos para acabar com isto hoje mesmo.

—  Quem fica com a lanterna? — ela perguntou.

—  Você fica com ela.

Sentiu-se aliviada, mas comentou: — Você vai ficar aqui no escuro. . . com ele.

—  Se eu acendesse a lanterna quando o ouvisse chegar — Max explicou —, me transformaria num alvo facílimo. Além disso, se ele não souber que estou de tocaia não vai entrar num prédio negro como breu e tentar se orientar no escuro, sem uma luz. Vou ser capaz de vê-lo à sua própria luz.

Mary beijou-o mais uma vez, virou-se e, sozinha, subiu os oito lances de escada que levavam ao mirante.

Ao alcançar o topo, desligou a lanterna e, por um momento, ficou exposta ao vento, apreciando o desfile dos barcos iluminados. Lembrou-se da advertência de Max e sentou-se, de costas contra o parapeito baixo que circundava o mirante.

Trevas. Uma luz. Fraca.

Sozinha agora. Completamente sozinha.

Não. Sozinha não. De onde lhe viera esse pensamento? Max estava perto dela.

O vento bramia pela torre, gemendo com voz quase humana.

Aconchegou-se no casaco de couro, desejando ter vestido uma suéter.

A chuva não tardaria. O cheiro de chuva próxima pairava no ar.

Apertou o botão do relógio digital que trazia no pulso e os números brilharam, vermelho-vivo, na escuridão.

Os olhos!

E, de repente, lembrou-se. Olhos luminosos, avermelhados, que tinha visto na casinha de Berton Mitchell. E o rosto do qual aqueles olhos faziam parte? Não conseguia recordar. Os olhos apenas. . . e o som de asas. .. e a sensação de asas sobre seu corpo. . . e ainda os olhos, selvagens, inumanos.

E lembrou-se de mais. Sobressaltada, lembrou-se. Um fio de voz, do âmago da sua mente, sussurrante, mas intensa: "Sou um demônio e um vampiro. Gosto do sabor do sangue."

Alguém pronunciou estas exatas palavras, para ela, na casa de Mitchell, há vinte e quatro anos.

Quem? O próprio Berton Mitchell? Quem mais poderia ter sido?

Ainda que tentasse usar seus talentos paranormais para transformar a vivida lembrança em visão clarividente, foi incapaz de iluminar as imagens vagas e nebulosas que flutuavam e pulsavam malignamente. A face misteriosa da criatura que lhe falou permanecia um enigma.

Mas a voz interior tornava-se mais forte. Avolumava-se, trovejava, atordoava, e, no entanto, continuava um murmúrio. As palavras ferozes chegavam-lhe mais depressa, e sentiu-se perturbada.

"Sou um demônio e um vampiro. 'Gosto do sabor do sangue. Sou um demônio e um vampiro, gosto do sabor do sangue. .."

—  Pare com isso! — ela gritou.

Tampou os ouvidos com as mãos, e desejou mentalmente expulsar a voz. Esta desvaneceu-se gradualmente. Quando cessou, Mary debruçou-se, sentindo-se tonta.

—  Vou ficar bem — murmurou intensamente. — Vou ficar bem. Ninguém vai morrer. Tudo vai ficar bem. Esta noite é o fim. Tudo estará bem, depois desta noite.

Aos poucos, as realidades da noite alcançaram os sentidos de Mary: o vento, o frio a escuridão.

Distraída com a lembrança daqueles olhos luminosos, não chegou a ver as horas ao apertar o relógio digital. Repetiu o gesto.

19h24min.

Faltavam seis minutos.

 

Pesadas nuvens de ébano, vagamente fosforecentes com suas fímbrias esfiapadas, vogavam silenciosas para o leste. Durante longos minutos, o céu permaneceu calado, uma tenda macia cobrindo a terra e, depois, os relâmpagos e os trovões.

O vento levantou um pedaço de papel, fazendo-o girar e ir colar-se ao pára-brisa do Mercedes, levando-o embora depois de alguns segundos.

Lou agitou-se nervoso, debruçado sobre o volante e, franzindo   as  pálpebras,   espiou   as   sombras negro-avermelhadas que rodeavam o pavilhão. Quanto mais fixava os olhos, mais o negror da noite parecia cintilar como uma coisa viva. Pensava notar movimentos onde tudo permanecia imóvel; seus olhos pareciam brincar com sua imaginação. Não possuía o temperamento adequado para uma sentinela. Não era paciente.

Olhou o relógio.

19h29min.

Alguém bateu três vezes, com força, no vidro da janela da esquerda, a pouca distância de sua cabeça.

Virou-se sobressaltado.

Um rosto familiar o espiava, sorridente.

Confuso, e bastante embaraçado pelo terror que devia ter-se estampado em sua fisionomia, Lou disse:

—  Ei! Você me assustou.

Procurou o fecho da porta, abriu o carro e saiu.

—  O que está fazendo aqui? Tarde demais, viu o facão.

 

As luzes estavam acesas em quase todos os cômodos do andar térreo da casa no. 440 da Ocean Hill Lane mas quando Holtzman tocou a campainha, ninguém atendeu.

Patmore forçou a porta e descobriu que não estava trancada. Empurrou-a. O vento invadiu a casa, espalhando a pilha de correspondência ainda por abrir, que se achava sobre o console da entrada.

Patmore não via ninguém, quer no hall de entrada, quer na sala de estar, mais adiante. Debruçou-se na soleira da porta e gritou:

—  Pasternak! Você está aí? Nenhuma resposta.

—  Talvez ele esteja morto — Holtzman sugeriu.

Por estar usando roupas civis, Patmore tirou do bolso o distintivo de prata, colocando-o na lapela do sobretudo. Sacou o revólver do outro bolso e, segurando a arma apontada para o alto, entrou na casa.

Atrás dele, Holtzman pigarreou e disse: — Não temos um mandado.

Patmore parou, virou-se para fitá-lo e exclamou: — Rudy, seu idiota, traga um, imediatamente.

 

Escuridão espessa como mel. Um odor de cobre. Arame farpado sendo torcido em suas entranhas.

A língua estava dolorida. Ele a havia mordido. Um gosto de cobre.

Deitado sobre o ventre. No pavimento frio da área de estacionamento. Ao lado do Mercedes. Os braços abertos em atitude de súplica. Cabeça virada para o lado. O ouvido colado ao chão, como à espera da aproximação de um inimigo.

Abriu os olhos, um pouco. Um par de sapatos bem à frente do seu rosto. A poucos centímetros. Sapatos exclusivos de Gucci. Que se viraram e se afastaram. Na direção do pavilhão. Desapareceram em poucos segundos. Ainda podia ouvir o som das passadas.

Tentou levantar a cabeça. Impossível.

Tentou lembrar-se quantas vezes havia sido esfaqueado no estômago. Três, talvez quatro vezes. Poderia ter sido pior. Mas, certamente, já era bem ruim. Estava morrendo. Não tinha forças — e agora, até sua fraqueza parecia esvair-se.

Que idiota eu sou pensou com amargura. Como poderia ter sido tão descuidado? Um idiota chapado. O maior fulgor da minha inteligência não passa da luz de uma velinha de bolo de aniversário.

Eu devia ter sabido quem era o assassino. Devia ter desconfiado no momento em que o Ouija disse que o alvo seria a rainha do desfile. Uma das antigas namoradas do assassino. Parecia que não conservava suas garotas por muito tempo. E agora ia matar uma das ex-namoradas. Provavelmente, já havia matado outras. Por quê? Que importa agora? Devia ter sabido...

Era como se um enxame de insetos se arrastassem dentro dele. Picando e mordendo suas vísceras.

Fechou os olhos e pensou — não quero morrer. Não vou morrer.

E depois: seu idiota. Você acha que tem escolha?Odor de cobre. Escuridão densa. Não parecia tão mal assim. Na verdade, era até uma boa sensação. Flutuou para as trevas acolhedoras. Mergulhou mais e mais fundo, para longe da dor, para longe de tudo.

 

Curioso, John Patmore folheou o caderno aberto ao lado do tabuleiro de Ouija, sobre a mesa da sala de jantar. As páginas pautadas estavam repletas de uma caligrafia feminina e caprichosa, que ele julgou pertencer a Mary Bergen.

Ela havia registrado principalmente perguntas e respostas, que pareciam relacionar-se com o caso que dizia estar investigando. No meio do caderno, entretanto, havia uma folha contendo apenas quatro palavras rabiscadas às pressas: Mary! Salve Sua Vida!

A mesma mensagem repetia-se no meio da página seguinte. E na terceira.

Abaixo do terceiro aviso, mais perguntas e respostas:

Quando escrevi estes avisos?

Não sei.

O que significam?

Não sei.

De quem tenho medo?

Não sei, não sei, não sei!

Será que estou ficando louca?

Talvez.

Onde posso me refugiar?

Em nenhum lugar.

 

Que estranho. Deixava-o nervoso.

Encontrou um bloco de apontamentos do outro lado do Ouija. Patmore começou a folheá-lo.

 

T-O-D-O-S-O-S-N-O-S-S-O-S-O-N-T-E-N-S.

Todos os nosso ontens.

B-O-N-I-T-0.

Bonito. O-A-R-É-B-O-N-I-T-O.

O ar é bonito.

Lançou um olhar ao Ouija, à régua tripla, e baixou os olhos para o bloco novamente. Lembrava-se de haver brincado, quando menino, com um tabuleiro desses, com sua mãe. Começou a ler, palavra por palavra anotada.

Quando terminou a leitura pensou em Erika Larsson e compreendeu que ela correspondia à descrição da moça cuja morte foi prevista por Mary Bergen. Relutantemente teve que admitir para si próprio que talvez a clarividente não fosse, afinal de contas, uma charlatã.

—  Holtzman!

Rudy Holtzman voltou dos fundos da casa.

—  Não tem ninguém por aqui.

—  Max Bergen pretende matar a rainha do desfile de barcos.

Piscando de surpresa, Holtzman exclamou: — O quê! Jenny Canning?

— Aparentemente, Mary Bergen não sabe que o homem que procura é o seu próprio marido. — Patmore consultou o relógio. Podemos chegar tarde demais.

Atravessou correndo a sala desarrumada e saiu para a noite.

 

Marie Sanzini.

Espontaneamente, o nome ocorreu a Mary.

Marie Sanzini.

Marie Sanzini era uma das enfermeiras assassinadas em Anaheim... e, de repente, o nome lhe pareceu familiar. Mary o conhecia, sem saber onde ou quando o havia escutado. Marie. Marie Sanzini. Era um desafio.

Cerrou os olhos, tentou visualizar a moça, cujo rosto lhe escapava.

Apertou o botão do relógio digital. 19h33min.

Nenhum sinal de Lou.

Seria esta noite mais uma inútil caça às bruxas?

 

Parado nas trevas absolutas, Max sentia-se como que aprisionado num caixão. Foi quando ouviu as portas da lanchonete rangerem barulhentas em suas dobradiças enferrujadas, e sua claustrofobia cedeu lugar a um temor ainda mais elementar. Silenciosamente, saiu da arcada, arma em punho na mão direita.

A trinta e cinco metros, um homem com uma lanterna dobrou o corredor curvo, pelo qual se chegava à lanchonete e às lojinhas. Mantinha o foco de luz apontado para o chão à sua frente, e, atrás da luz, o próprio homem permanecia no escuro.

Ele não atravessou o estacionamento, Max pensou, ou Louteria dado o alarme com a buzina. Deve ter-se esgueirado entre dois edifícios, vindo do lado norte do porto e depois pela passagem de tábuas.

Max tencionava esperar até que estivessem a quinze metros de distância um do outro antes de dizer a ele que parasse. Quinze metros dava-lhe segurança e espaço para mover-se. E, se ele estiver a vinte metros da curva do corredor, Max deduziu, terei tempo de dar uns bons tiros nesse bastardo antes que ele tente se esconder.

Vinte e três metros agora.

Vinte.

Quinze.

O assassino falou primeiro, sussurrando roucamente:

—  Max?

Atônito ao se ouvir sendo chamado pelo nome, Max deu um passo no escuro e perguntou:

—  Quem está aí?

O homem continuou andando, escondido pela luz da lanterna.

Doze metros.

—  Quem está aí? — Max repetiu a pergunta. De novo, o sussurro forçado:

—  Sou eu, Lou.

Dez metros.                      

Max abaixou a arma.

—  Lou? Pelo amor de Deus, só passa um pouco das sete e meia. Ainda não podemos desistir.

Ainda um murmúrio. — Encrencas.

 Sete metros.

—  Que encrencas? — Max perguntou. — O que quer dizer?

Três metros.

Subitamente, Max soube que o homem não era Lou Pasternak.

O assassino levantou a lanterna num gesto brusco, na direção da voz de Max, cegando-o temporariamente.

Mesmo sem poder enxergar por um instante, Max levantou o revólver e puxou o gatilho. Uma vez. Duas. Os disparos explodiram como granadas no salão imenso.

Simultaneamente com o ruído da explosão, talvez mesmo com uma fração de segundo de antecedência, o facho de luz rodopiou para o alto, para o alto, à direita.

Eu o atingi! Max pensou.

Antes mesmo que tivesse tempo de completar o pensamento, o facão enterrou-se nele, saído das trevas para dentro dele e era como a lâmina de uma foice, imensa, devastadora, a tal ponto devastadora que Max deixou a arma cair, sentindo dor qual nunca havia sentido antes, compreendendo, tarde demais, que havia sido enganado, que o assassino jogou a lanterna para distrair sua atenção, que o homem não foi atingido, e o facão foi arrancado do corpo de Max e enterrado novamente, com força, fundo em seu estômago, e ele pensou em Mary, em seu amor por Mary, em como a deixava desamparada; agarrou a cabeça do assassino, cabelos curtos, mas o curativo saiu-lhe do dedo e o corte abriu-se novamente, e Max sentia essa dor independente, separada das outras, e praguejou contra a ponta do macaco do carro, e a lanterna foi cair a três metros de distância, rolou pelo chão lançando sombras lunáticas, e o facão foi novamente arrancado de seu corpo, e ele tentou agarrar a mão que o empunhava, mas falhou, e o gume penetrou seu corpo pela terceira vez, dor explodindo dentro dele, e ele cambaleou para trás, o homem todo sobre ele, a lâmina entrando de novo, desta vez mais alto, no peito, e Max entendeu que o único meio de sobreviver seria fingir-se de morto, por isso caiu, pesadamente, e o homem tropeçou nele, e Max ouviu a respiração rápida do assassino, e ficou muito imóvel, e o homem foi apanhar a lanterna e voltou e baixou o olhar para Max, o homem de pé ali ao lado dele, e deu-lhe um pontapé nas costelas, e Max quis gritar de dor mas não gritou, não se mexeu, não respirou, mesmo gritando por dentro, pedindo ar, e o homem virou-se e andou para o arco, e seus passos ecoaram nos degraus da torre e, ouvindo-os, Max sentiu-se tão inútil, vencido pelo inimigo, sabendo que não poderia recuperar a arma e galgar aqueles degraus para salvar Mary, porque coisas assim só acontecem em filmes, e a dor o pulverizava, e seu sangue escorria pelo chão todo, gotejando, jorrando como de uma fruta madura sendo espremida, e Max disse a si mesmo que devia tentar ajudá-la e que ele não ia morrer, não ia morrer, não ia morrer, ainda que fosse isto exatamente o que estava acontecendo.

 

Ela levantou-se ao ouvir o som dos disparos. Foi até o topo da escada e em menos de um minuto ouviu os passos.

—  Max? Nenhuma resposta.

—  Max?

Apenas o som dos passos subindo.

Foi recuando do topo da escada até bater de costas no parapeito de proteção.

Ui-i-i-c! Ui-i-ic! Uui-i-ic!

Marie Sanzini.

Viu o rosto de Marie Sanzini; reconheceu-o.

Rochelle Drake. Conhecia Rochelle também.

Erika Larsson. Este era o nome da moça de louros cabelos crespos — a mulher delicada, quase etérea presente na visão no espelho do banheiro da casa de Lou.

Mary sempre as conheceu, e sufocou o conhecimento em seu subconsciente. Se se desse ao trabalho de decifrar todos aqueles rostos neste momento, a resposta estaria lá, agora, à sua espera. E ela ainda não queria enfrentar a verdade. Ainda não podia enfrentá-la.

Lembrou-se da sua decisão de buscar suas próprias forças, suas próprias soluções aos problemas da vida. Já derrotada? Não se envergonhava; neste instante,  aceitaria  sua perpétua fraqueza e dependência, e contínua ignorância do passado, poruma única chance de fugir de onde se encontrava. Da escadaria: os passos subindo lentamente.

—  Não! — a palavra era de desespero. Colou-se ao parapeito baixo, olhos fixos na entrada do mirante.

—  Eu não quero saber! A voz saiu estridente, trêmula. — Oh, Deus! Não. Por favor!

Relâmpagos fustigaram o céu, fulgurantes e agudos. Os trovões explodiram. Finalmente, a tempestade chegou: pingos de chuva aqui e ali, provando a terra. De repente, o aguaceiro. Lençóis de água inclinados, vindos do oceano, batendo e mordendo a terra.

O vento levando a chuva por baixo do campanário. Pingos grossos atingindo seu casaco de couro, encharcando os cabelos negros e compridos. Pouco lhe importava ficar molhada. Uma única coisa importava agora — o passado, aproximando-se dela, envolvendo-a contra sua vontade.

 

A sala do chalé de Berton Mitchell. Janelas recobertas de papel, fechadas até o peitoril. Cortinas rendadas. Uma única luz, baça, filtrando-se da tarde que caía. Cantos sombrios. Paredes amarelo-claro. Um sofá marrom e poltronas estofadas, formando o grupo. Soalho de pinho, tapetes de retalhos trançados.

Uma menina de seis anos deitada no chão da sala. Longos e escuros cabelos presos em maria-chiquinha com laços cor de laranja. Vestido bege com casa-de-abelha e botões verdes. Eu. Aquela menininha... sou eu. Deitada de costas. Atordoada. Confusa. O lado do meu rosto dói muito. E atrás da cabeça. O que foi que ele fez comigo? Minhas pernas estão muito abertas. Não consigo movê-las. Cada tornozelo está amarrado fortemente a cada pé de uma poltrona muito pesada. Meus braços estão esticados para trás. Os pulsos estão presos aos pés de outra poltrona. Não posso me mexer. Tento levantar a cabeça, ver o que está acontecendo. Não posso.

Quem sabe a Sra. Mitchell vai chegar e me soltar. Não. Ela viajou. Com Barry, foram visitar parentes. O Sr. Mitchell anda longe, aparando as plantas.

Assustada. Tão assustada!

Passos. .. Ah, é só ele. Não tenho medo. Só ele. Mas, o que será que ele quer? O que está fazendo?

Ajoelha-se a meu lado. Traz uma almofada nas mãos. .. uma almofada enorme, de penas. . . ele a comprime... sobre o meu rosto... faz força... Não estou gostando muito deste jogo. .. nem um pouco. .. Está tudo errado. .. mete medo. Nenhuma luz. . . ar. . . eu grito... mas a almofada abafa minha voz. Tento respirar... nada entra no meu nariz, só o linho da almofada. Tento me soltar. Papai, papai, me ajuda! E, então, ele tira a almofada. Ele ri. Respiro fundo e começo a chorar. Ele empurra a almofada novamente na minha cara. Viro a cabeça, não consigo sair. Mordo e mastigo o pano. Tudo rodando. Tonta. Sem peso. Morrendo. Gritando por papai dentro da minha cabeça, pensando tão mal dele, sabendo que ele não pode me ouvir. E, de repente, a almofada é retirada: ar fresco, delicioso correndo pelo meu rosto, para dentro dos pulmões. E a almofada enterrada novamente sobre o meu rosto. E, no momento final, antes que eu desmaie, ela é retirada. Repetidamente, sempre que estou quase sufocando, chego ao fio delicado que separa a lucidez da loucura. E ele ri, enquanto me tortura. Até que se cansa da brincadeira e joga a almofada longe.

Mas os jogos piores ainda não começaram.

Ele toma minha cabeça em suas duas mãos. . . seus dedos parecem garras de ferro. A dor na base do crânio está se tornando infinitamente pior. . . insuportável. Ele força minha cabeça para um lado. Desce sobre mim. .. sinto sua respiração em meu rosto.. . silvando como uma cobra. .. arespiração no meu pescoço... agora os lábios. . . toma minha pele entre os dentes, morde com força, arranca a pele, suga. Dou um grito por causa da dor aguda. .. luto. . . as cordas me prendem. Aplica a boca na ferida minúscula no meu pescoço... suga... puxa o sangue. E quando, enfim, levanta acabeça e se afasta... e eu me viro. .. vejo que está rindo, aboca manchada de sangue, o sangue que escorre entre seus dentes.

Ele só tem nove anos, três anos mais velho que eu, mas tem o rosto forjado com um ódio muito maduro.

Chorando, sufocando, eu pergunto: — O que está fazendo?

E ele se chega mais perto, o rosto muito próximo do meu. Seu hálito fétido, corrompido, com meu próprio sangue.

— Sou um demônio e um vampiro — Alan diz. Há um tom infantil de faz-de-conta no que diz. Contudo, também fala muito a sério. — Gosto do sabor do sangue.

 

Mary diz — Aaaahhh — como se depois de um esforço sobre-humano abrisse uma imensa e pesada porta.

E a luz da lanterna brilha de um lado para outro no topo da  escada.

E Alan penetra no mirante.

E dirige o facho de luz para ela, não diretamente nos olhos.

E os dois se encaram.

E, finalmente, ele sorri e diz: — Alô, maninha.

 

Eu continuo presa ao chão, toda esticada.

Alan volta. . . usa luvas. .. e carrega uma caixa de madeira com fecho de arame. Põe a mão dentro da caixa, pela portinhola. . . agarra não sei o quê. . . tira da caixa. . . uma criaturinha escura, cuja cabeça se profeta acima dos dedos de Alan... olhos luminosos... um morcego... um morcego escuro. . . daqueles que a gente vê no sótão lá de casa. O morcego não parece ter medo dele. . . parece quase dócil, nem um pouco feroz.

Não deixam que ele tenha morcegos como bichinhos de estimação. São animais sujos. Papai recomendou que ele se livrasse deles.

Ele muda a maneira de segurar o animal, que se agita, mas continua dócil. . . Segura-o com as duas mãos... mas liberta as asas... Ui-i-ic! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c! Segura o morcego acima da minha cabeça... Quinze a vinte centímetros... depois. . . lentamente. . . vai abaixando o bicho até que está a poucos centímetros, com seus olhos luminosos olhando diretamente dentro dos meus. . . até que eu imploro que me solte. .. imploro que leve o morcego embora... imploro que o ponha de volta na caixa. . . até que as asas membranosas roçam contra o meu rosto.. . até que as asas atinjam o meu rosto cada vez com mais força, com o som do couro sendo agitado: Ui-i-i-c! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c!

 

Quando os trovões rolaram pelo porto, Mary sentiu como se fossem ondas de uma substância tangível passando por ela, pois, em seu íntimo, sentiu-se confortavelmente abalada com cada trovejar.

O passado e o presente eram dois precipícios sem fundo de terror, entre os quais e acima deles ela se equilibrava num frágil fio de autocontrole. Precisava de toda a sua atenção e força de vontade para manter a lucidez, enquanto as lembranças a engolfavam. Não conseguia sequer falar com Alan— não achava forças para formar palavras.

Sem desligá-la, Alan colocou a lanterna no chão, apoiado contra a parede, onde a chuva não havia molhado as tábuas. Um rifle pendia de seu ombro. Puxou a alça e também colocou o rifle no chão.

Ainda segurava o facão.

Apanhando a lanterna, apontou para o teto, para o cone oco e alto do campanário.

—  Olhe, Mary. Olhe lá para cima. Vamos. Você deve ver. Olhe!

E ela olhou — e tentou libertar-se do que viu. Já estava encurralada contra o parapeito; não tinha para onde fugir.

—  Eles ainda não estão todos lá — Alan explicou. — Alguns ainda estão caçando, é claro. Mas quase todos ficaram aqui esta noite. Pressentiram a chuva. Você os vê, Mary? Você vê os morcegos?

 

Eu tenho só seis anos, e estou amarrada, presa ao chão, pernas separadas. Alan segura o morcego com ambas as mãos. Coloca-o entre minhas pernas, debaixo do vestido. O morcego guincha. Estou soluçando, ofegante, implorando. Alan levanta meu vestidinho, sem qualquer pudor. Está suando. Seu rosto está lívido. Os lábios tremem. Não parece um menino de nove anos — é verdadeiramente um demônio.

As pontas das asas do morcego titilam minhas coxas.

Titilam. . . depois arranham dolorosamente.

Embora eu seja pequena demais para compreender as junções mais misteriosas do meu corpo, jovem demais para calcular a dor e o prazer que um dia me trarão, um medo primevo se apossa de mim, subjugada pelo terror de pensar que um morcego está sendo empurrado vivo para dentro do meu corpo, naquele centro exposto da minha carne. Acho mais terrível resistir a isto do que sentir o animal sobre o meu rosto, e me contorço e grito e tento inutilmente dar pontapés em Alan, e as asas batem no espaço exíguo entre minhas pernas abertas, e então eu sinto aquilo que mais me apavora — Alan está forçando o morcego contra mim, e o animal se mexe e morde e arranha e guincha estridente contra a minha carne, e Alan está tentando enfiá-lo dentro de mim, e eu dou urros pensando nisso, cuspo, grito, choro, e o morcego também berra, e Alan está encontrando dificuldades em apenas segurar firme aquela coisa, mas continua forçando e forçando com todo o vigor que possui, e, de repente. . . a dor — uma dor monstruosa explode dentro de mim...

 

As memórias eram uma agonia física e mental. Por vinte e quatro anos Mary recusou-se a enfrentá-las, e durante todo esse tempo elas haviam adquirido um poder inconcebível. Atingiam-na como punhos fortes. Estava dolorida. Resistiu ao ímpeto de vomitar. As pernas dobravam-se. Sentia-se fraca.

Alan tornou a colocar a lanterna no chão e mudou o facão da mão esquerda para a direita.

O facão que pertenceu a Richard Lingard.

Max tinha razão — a arma não foi levada por um fantasma. Recusou-se a um confronto com a verdade por ser incapaz de vê-la cara a cara; portanto, convenceu-se de que o desaparecimento do facão só podia ser explicado como resultado do trabalho de forças sobrenaturais.

—  Matei Max — Alan disse.

Ela sabia que devia ser verdade, mas não estava disposta a considerar o caso. As lágrimas, a tristeza infinita teriam que ficar para depois — se vivesse o tempo suficiente para chorar.

O mirante tinha cinco metros de largura. Menos de um metro do soalho de pinho, molhado pela chuva, a separavam de Alan.

Ele falou tranqüilamente, não muito mais alto do que o som monótono da chuva caindo.

—  Que bom que você veio. Já é hora de terminar o que comecei há vinte e quatro anos.

Quando lhe foi perguntado de onde vinha o criminoso, o Ouija respondeu O AR É BONITO. Não era uma tradução literal de Bel-Air, mas era bem apropriada.

Por que não percebeu? Porque não quis ver.

Aos pés de ambos, a luz da lanterna era difusa e, reverberando na tinta brilhante da parede, salientava o queixo, as faces e o nariz de Alan. A luminosidade vertical criava estranhas sombras em seu rosto, tornando-o agora muito pouco atraente — ao contrário, assemelhava-se a uma daquelas máscaras que os pajés usavam em seus rituais primitivos. Segurava a faca à sua frente, mas não tentou aproximar-se.

—  Eu sabia que você viria hoje. Somos tão unidos, Mary. Tão unidos quanto duas pessoas possam ser. Compartilhamos o mesmo sangue,  mas,  ainda mais importante,  compartilhamos a dor. Eu inflinjo a dor, e você a suporta. É a dor que nos une. E a dor é um elo muito mais forte do que o amor. O amor não passa de um conceito humano abstrato, sem significado ou existência. Mas a dor é real. Eu sabia que éramos tão unidos que podia me comunicar com você à distância, sem palavras. Eu sabia que podia forçá-la a vir à minha procura. Todos os dias, desde a noite de segunda-feira, venho fazendo meditação, entrando em transe superficial. Quando minha mente se esvaziava, quando me sentia relaxado, tentava enviar pensamentos a você, imagens dos assassinatos que pretendia cometer. Minha intenção era deflagrar sua clarividência. E deu certo, não deu?

Alan estava completamente louco — e, no entanto, portava-se com tanta serenidade, falava em tons tão comedidos.

—  Não deu certo, Mary?

—  Sim.

Ele se mostrou satisfeito. — Fiquei vigiando a casa de Lou, e quando você apareceu, eu sabia que a caçada havia começado.

Uma rajada de vento, insolitamente violenta, bateu contra ela, causando ensurdecedoras explosões de chuva torrencial no telhado do campanário.

Ele deu um passo para ela.

—  Pare aí mesmo! — ela exclamou em pânico.

Ele obedeceu. Não que tivesse decidido, à última hora, mostrar misericórdia. E, certamente, não porque estivesse amedrontado. Parou porque queria, porque ansiava vê-la acovardando-se perante ele e porque pretendia matá-la muito lentamente.

Se pudesse fazer o jogo de Alan, Mary pensou, talvez ganhasse alguns momentos a mais de vida, talvez até achasse um meio de escapar.

—  Se queria me matar, poderia tê-lo feito na segunda-feira, no hotel, antes da volta de Max.

—  Não teria tido graça. Fazendo você vir atrás de mim ficou mais divertido.

—  Divertido? Matar é diversão?

—  Não há nada melhor.

—  Você está louco!

—  Não — respondeu serenamente. — Sou um caçador. E o resto do mundo é a minha caça. Nasci para matar. É o meu propósito. Quanto a isto não tenho dúvidas. Passei toda a minha vida matando. Começando pelos insetos.

Ela lembrou-se: tinha quatro anos e Alan sete. Havia um louva-a-deus no vidro tampado e Alan tirou a tampa, espalhou fluido de isqueiro sobre o bichinho e jogou um fósforo aceso dentro do vidro. Durante anos colecionou insetos com o único intuito de torturá-los até a morte, usando substâncias químicas, giletes, alfinetes e fogo.

—  Era você quem matava nossos gatos e cachorros — ela disse.

—  E todos os outros bichos.

— Barry Mitchell não teve nada a ver com aquilo. Ele deu de ombros. — Eu me cansei de todos eles. Deu mais um passo em sua direção.

—  Pare! — ela gritou. Ele parou, sorrindo.

Naquela mesma manhã, conversando com Max, Mary havia sugerido que nem sempre o mal é adquirido, nem sempre aprendido com o exemplo. A maioria das pessoas esclarecidas estava convencida de que, sem exceção, as motivações de atos hostis por parte de pessoas violentas tinham suas raízes na miséria, nos lares desfeitos, nos traumas de infância, na negligência ou inépcia dos pais. Os sociólogos insistiam em que os criminosos se formavam primordialmente devido aos desníveis sociais, cujo sistema se fundamentava na injustiça. A maioria dos psicólogos parecia firme em sua convicção de que qualquer neurose ou psicose poderia ser explicada em termos de teoria freudiana ou jungiana. Mas, não seria possível que alguns já nascessem com o germe da podridão, irrecuperavelmente corruptos, antes mesmo que o ambiente tivesse oportunidade de influenciar suas ações? Seria esta uma idéia reacionária, medieval? Havia estudado amplamente o homem XYY, tipo determinado geneticamente criminoso, que havia inspirado um tal número de pesquisas científicas nos anos recentes. Alguns poderiam nascer mais primitivos do que outros — por motivos químicos ou genéticos ainda não inteiramente compreendidos.

A teoria era perigosa. Dava margem a ser mal interpretada. Cada grupo racista apontaria as minorias odiadas como evidência de inferioridade genética. Em verdade, se houvesse pessoas nascidas para o Mal, estariam eqüitativamente distribuídas entre todas as raças, religiões, sexos e nacionalidades.

Nascido para o Mal.. .

A semente maligna...

Fitou Alan, e descobriu o que ele era: uma criatura muito estranha, simultaneamente mais que humana e menos que humana.

Um morcego entrou, fugindo da chuva, e subiu para o alto do telhado, com o ruído peculiar das asas membranosas que a fez perder a respiração e encolher-se.

Ui-i-i-c! Ui-i-i-c! Ui-i-i-c!

— Queria encontrá-la aqui no Kimball's — Alan dizia — porque nenhuma das outras torres tinha morcegos. Pensei que ajudariam você a lembrar-se do que aconteceu há vinte e quatro anos.

 

. .. e Alan tira o morcego de dentro do meu corpo, e o animal está morto, o pescoço quebrado, encharcado do meu sangue e do seu próprio sangue, e ela sente tanta dor, e Alan joga o morcego morto dentro da caixa de madeira, de onde o havia tirado, e volta-se de novo para ela, e ela já não pode mais gritar, incapaz de resistir, exaurida de forças e de ânimo, e ele começa a surrá-la, com os punhos fechados, atingindo seu estômago, o peito, o pescoço e o rosto, uma saraivada de punhos infantis empurrando-a para a escuridão. . . e quando volta a si, pouco depois, ele está de pé, acima dela, e traz na mão uma faca que encontrou na cozinha dos Mitchell, e a faca desce, enterra-se em seu braço, depois, no lado, a faca, oh, meu Deus, a faca!

 

Golpes certeiros. Entrando e saindo. Golpes certeiros e rápidos. Sem dilacerar. Sem retalhar. Sem deixar longos e feios rasgões.

Com as mãos, Max explorou as dimensões dos ferimentos que sangravam, chegando à conclusão de que seus intestinos não se soltariam pelo talho enorme em seu ventre.

Supunha que devia dar graças por isto.

Perdia muito sangue. Suas roupas tornavam-se pegajosas, as mãos viscosas, o chão transformado numa poça morna que se alastrava. Mas, no escuro, talvez estivesse perdendo menos sangue do que julgava. Pareciam litros!

Depois de descansar alguns poucos minutos, e antes que o som dos passos subindo a escadaria desaparecesse, pôs-se de quatro, apoiando-se nas mãos e nos joelhos.

As quatro perfurações em seu peito e barriga pulsavam desordenada e incessantemente. Sufocava de dor. Era como se de cada ferimento ainda se projetasse o cabo de um facão.

Não sentiu agonia ao tentar respirar. Seus pulmões estavam intactos.

Mais uma pequena bênção.

Arrastou-se primeiro para a esquerda, depois para a direita, o sangue deixando uma trilha pelo chão, tateando nas trevas absolutas à procura da arma que deixou cair. Levou menos tempo do que esperava para encontrá-la.

Localizou a parede mais próxima, apoiando-se nela com a mão, a fim de firmar-se, e ficou de pé, a despeito da dor que o avassalava como uma série infinda de choques elétricos.

Não lhe seria possível galgar os degraus da torre. Mal  conseguia mover-se em terreno horizontal — os degraus íngremes o matariam. E se, por milagre, alcançasse o mirante, faria tanto barulho durante a subida, que certamente o assassino ficaria alerta — seria vencido no momento em que atingisse o último degrau.

Só lhe restava buscar auxílio. Voltar para o estacionamento. Para o Mercedes. Tão depressa quanto lhe fosse possível. Deixar Lou a par dos acontecimentos.

Sabendo que cada segundo perdido podia custar a vida de Mary, afastou-se com esforço da parede. Cambaleou pelo salão vasto e deserto. Estonteado e levemente desorientado, pensava saber a direção certa que o levaria ao corredor que servia a lanchonete, mas, em todo o caso, nada podia fazer além de seguir seu instinto. Cada passo trazia nova onda de dor em suas entranhas. Era como se estivesse caminhando milhas e milhas, e teve medo de estar andando em círculos.

Quando o desespero ameaçava apossar-se dele, tropeçou na curva do corredor, menos escura do que o hall principal da arcada. Uma luz cinzenta, quase inexistente, brilhava ao fundo; as luzes do desfile dos barcos, luz que se coava pelas janelas exteriores da lanchonete, balouçante, e em seguida filtrando-se pelas grades.

Percorreu o corredor, comprimindo o estômago com a mão direita, como se tentasse fechar os ferimentos. Passou pelas portas da lanchonete, por entre as mesas, e caiu de joelhos diante da janela que dava para a passagem de tábuas e para o porto. Estava fechada e Max não julgava ter forças para abri-la.

Amor é força, convenceu-se. Encontre forças em seu amor por Mary. O que seria de você, o que lhe restaria, sem ela? Nada.

Lá fora, os relâmpagos cortavam o céu. O reflexo da luz daquele manancial elétrico cintilava através da janela e, por um momento, a chuva que escorria pela vidraça pareceu transformar-se em gelo.

 

Na chuva fria, o Chefe Patmore debruçou-se ao lado de Lou Pasternak e virou-o de costas, usando a lanterna para ver seu rosto e suas roupas ensopadas de sangue.

—  Bergen o pegou. Foi esfaqueado.

—  Será que está morto?

O Chefe tentou achar a pulsação de Lou nos pulsos frios e frouxos.

— Acho que está. Mas é melhor você chamar logo uma ambulância. Pode haver outras vítimas.

Holtzman voltou correndo para a radiopatrulha.

 

Pouco mais de dois metros de tábuas molhadas de chuva separavam-na de Alan.

Mary tinha que fazê-lo continuar falando. No momento em que perdesse o interesse na conversa, usaria o facão. À parte isto, mesmo que seu momento de morrer tivesse chegado, ainda havia detalhes que queria saber.

—  Nesse caso, Berton Mitchell jamais me tocou — disse ela.

—  Nem uma única vez.

—  E eu mandei um inocente para a prisão.

Alan assentiu, sorrindo, como se ela acabasse de dizer que ele estava usando uma linda camisa.

—  Eu fiz com que ele cometesse suicídio. Gostaria de tê-lo visto pendurado balançando no ar.

—  Desgracei  a família dele. Alan gargalhou.

—  O que me teria levado a fazer uma coisa dessas? Por que eu teria dito que foi ele quem me atacou quando, na realidade, foi você?

Alan explicou. — Você ficou no centro de tratamento intensivo do hospital durante quatro dias. Quando a crise foi vencida, e os instrumentos de apoio tornaram-se desnecessários, você foi transferida para um quarto particular.

—  Eu me lembro.

—  Papai e eu praticamente vivemos lá durante duas semanas. Até a mamãe deixou sua garrafa de lado e foi visitá-la uma ou duas vezes. Eu desempenhei muito bem o meu papel de irmão mais velho muito preocupado, tão atencioso para um menino de nove anos. . .

—  As enfermeiras acharam você um amor — ela disse.

—  Tive mil oportunidades de ficar sozinho com você naquele quarto de hospital. Às vezes, só uns minutinhos, às vezes, por mais de uma hora.

Outro morcego entrou fugindo da chuva, indo aninhar-se nas vigas altas.

Alan prosseguiu — Seus lábios e gengivas estavam tão inchados e tão cheios de pontos, que durante oito dias você não conseguia falar..  mas podia ouvir. Estava consciente quase o tempo todo. E quando nós dois ficávamos sozinhos, eu repetia e repetia o que faria com você, caso se atrevesse a me acusar. Ameacei trazer uma porção de morcegos de novo. . . e deixar que eles a devorassem. — Fitou-a com rancor. — Disse que forçaria você a comer os morcegos vivos, que faria você cortar suas cabeças com os dentes e engoli-las, se contasse o que eu tinha feito. Preveni que era melhor você pôr a culpa em Berton Mitcheil, senão...

Mary tremia. Tinha que reaver o autocontrole, tinha que estar preparada para mover-se depressa, caso surgisse a oportunidade de escapar. Entretanto, os tremores não cediam, apesar de todo o seu esforço para fazê-los cessar.

—  Então, aconteceu uma coisa engraçada — Alan continuou. — Você disse a eles que o culpado era Mitchell — mas porque realmente acreditava ser verdade. Eu tinha ido mais longe do que havia planejado, Eu havia penetrado no seu íntimo, lá no fundo, onde realmente importa, e consegui algo de mágico. Você veio realmente a crer que havia sido Berton Mitchell. Você não podia aceitar a verdade, não podia tolerar o pensamento de conviver comigo na mesma casa depois do que eu havia feito, por isso convenceu-se de que eu não havia feito coisa alguma, que eu era seu amigo, e que o bicho-papão era outra pessoa.

—  Por quê? — Mary perguntou num fio de voz. — Por que me machucou tanto?

—  Eu queria matá-la. Pensei que estava morta quando saí do chalé.

—  Por que queria me matar?

—  Seria divertido.

—  Só isso? Só porque "seria divertido"?

—  Eu a odiava — Alan confessou.

—  O que é que eu tinha feito?

—  Nada.

—  Então, por que me odiava?

—  Eu odeio todos. Relâmpagos.

Um sopro forte de vento.

—  Você matou a família de Mitchell.

—  Pareceu uma boa idéia — destruir uma família inteira.

—  Por quê? Também porque "era divertido"?

—  Você devia ter visto a casa pegando fogo.

—  Deus Todo-Poderoso! Você só tinha quatorze anos naquela época.

—  Idade suficiente para matar — ele respondeu. — Não se esqueça, cinco anos antes eu já havia tentado matar você. E quando pensei que você já estava morta... quando arranquei aquela faca de seu corpo... ah, Mary, você não pode imaginar o que senti! Tão bem! Como se não tivesse sido a primeira vez. Como se antes eu já tivesse esfaqueado pessoas até a morte, milhares de vezes. E eu só tinha nove anos!

Aproximou-se mais um passo.

Os sapatos chiaram no chão molhado.

Desesperada, Mary continuou a conversa.

—  Você também matou Patty Spooner. Não foi, Alan?

—  Ela não passava de uma cadela.

—  Não. Ela era um amor.

—  Uma cadela imunda.

—  Por que profanou o altar?     

A pergunta evidentemente intrigou-o.

—  Matar Patty naquela igreja... foi tão diferente. . . tão especial. Naquela noite fiquei sabendo, sem sombra de dúvida que eu era um demônio e um vampiro. Entendi que minha missão era destruir tudo que fosse sagrado, tudo que fosse bom.

—  Você matou Marie Sanzini.

—  E suas três companheiras.

—  Certo tempo, você amou Marie.

—  Não. Simplesmente saía com ela.

—  Por que iria querer matá-la?

—  Por que não?                                                        

—  E assassinou Rochelle Drake.

—- E não venha me dizer que também a amei.

—  Uma vez você me disse que sim.                             

—  Estava mentindo. Não amo ninguém.                          

—Por que matou o esteticista e sua mulher?                             

 — Estavam me atrapalhando.

O apito de um navio soou sobre as águas.

—  Você assassinou Erika Larsson.. . e agora quer matar a rainha do desfile de barcos.

Alan olhou para os barcos iluminados, navegando lentamente pela chuva de inverno.

—  A tempestade deve tê-la forçado a sair do convés. . . Vai ter que ficar para outro dia.

—  O que ela significa para você?

—- Você não sabe quem é a rainha? Jenny Canning.

—  Ah, ela não. Ela é boa. Tão meiga. Ela não pode morrer.

—  Ela é a mais recente das minhas cadelas. É caça, como todas as outras.

Ele começava a dar mostras de tédio — fitou a lâmina em sua mão e umedeceu os lábios.

—  Suas mulheres sempre abandonam você — Mary comentou.

—- Ou eu as abandono.      

— Por que não se prende a uma delas?

—  Sexo — explicou ele. — Ternura é uma chatice. Todas elas querem que eu demonstre ternura. Só consigo fingir por algumas semanas ou meses.

—  O que está querendo dizer?

—  Que gosto de sexo violento — disse ele, quase rosnando. — Quanto mais violento,  melhor. Depois  de algum tempo, quando a novidade de um novo corpo...  uma nova garota. . .  se acaba, então, eu só consigo me excitar quando as machuco. E elas se desligam. . . isso e há outra coisa.

— Que outra coisa? — Mary perguntou.

—  Elas não me deixam beber seu sangue. Mary fitou o irmão, horrorizada.

—  De vez em quando — ele disse — gosto de sexo ... e de beber sangue.

—  Você as corta?

—  Não, não. Sangue menstrual.

Apavorada, Mary fechou os olhos. Ouviu o movimento de Alan.

Abriu os olhos!

Alan deu dois passos rápidos, e agora a distância entre os dois era menor do que o comprimento do gume do facão.

 

Max rolou o corpo por cima do peitoril, indo tombar na passagem de madeira, e a pequena queda lhe pareceu ser de vinte milhas. Pelo menos, em sua cabeça, parecia que caía e caía. Por um longo momento, depois do tombo, flutuando num mar de dor, sentiu-se atraído pelo vazio confortável e cativante que se avolumava dentro dele. Logo depois pensou em Mary, e transformou o amor em força física. Sem saber como, venceu a dor e a muito custo levantou-se.

A pistola continuava em sua mão esquerda. Parecia insuportavelmente pesada. Tentou soltá-la; não conseguiu. Seus dedos paralisados apertavam a coronha da arma sem poderem se mover.

Cambaleou, vendo a fila dos barcos enfeitados deslizando pela chuva e pensando em como eram bonitos — até que, de repente, se deu conta de que não se encontrava ali para apreciar o desfile. Censurando-se em silêncio, saiu aos tropeções pelas tábuas. Cada passo hesitante era uma aventura maior do que o passo anterior, e cada metro vencido um triunfo ímpar.

À toda volta, a noite se expandia e se contraía, como os músculos de um coração.

Dobrou a esquina do pavilhão e viu que a menos de trinta metros dois homens se aproximavam por trás da luz de lanternas.

Lou, e quem mais?

Tentou gritar.

Tinha perdido a voz.

 

Os olhos de Alan pareciam iluminados por uma luz interior. Olhos azuis como os da irmã, mas de um azul penetrante e estranho. Olhos como a lâmina do facão que trazia na mão —  cortantes, frios, mortais.

—  Quantas pessoas já matou?

Não respondeu. Levantou a mão esquerda. Pôs a ponta gelada dos dedos na têmpora de Mary, sentindo a pulsação débil. Deixou os dedos deslizarem pela face, traçando a linha delicada do queixo, e levando os dedos até tocarem os lábios da irmã.

—  Já matou mais de trinta e cinco, não é mesmo? — ela perguntou, trêmula.

—  Como sabe?

—  Se matou tanta gente assim, durante todos estes anos

— ela prosseguiu — por que não saí antes em seu encalço?

—  Você foi chamada a cooperar em alguns dos crimes que cometi — Alan explicou. — Mas recusou. Aconselhei-a a não acompanhar aqueles casos e você me atendeu. Acho que suspeitava da verdade, mas a escondia de si mesma.

—  Você tentou me matar quando eu tinha seis anos. Nesse caso, por que esperou vinte e quatro anos para tentar novamente?

—  Ah, a princípio eu pretendia pegar você alguns meses depois que saiu do hospital. Calculei que seria o tempo necessário para não despertar suspeitas. Naquele tempo eu ia acabar com você num acidente bem planejado.

Os dedos gelados acariciavam-lhe as sobrancelhas.

—  Pensei em empurrá-la do topo de uma escada bem alta, para dizer depois que você havia tropeçado e caído. Mas, afinal, me decidi por afogá-la na piscina.

—  Por que não o fez?

—  Porque quando chegou a hora de poder acabar com você, sem perigo para mim, você começou a manifestar poderes psíquicos. Você me fascinou. E eu queria ver o que aconteceria a você em seguida.

—  Se Max está morto — Mary disse vou precisar da sua ajuda novamente. Vou precisar que você me guie através das visões.

Ele gargalhou. — Querida, eu não sou assim tão ingênuo.

—Você pensa que eu o entregaria à polícia? Não contei nada a ninguém durante vinte e quatro anos. Por que o faria agora?

—  Antes você não sabia — Alan disse. — Mas agora, você já sabe.

Sua mão foi pousar no seio dela. Ela recuou.

—  Minha irmãzinha adorável — Alan disse.

—  Não faça isso!

 

Segurando a lanterna na mão esquerda e o revólver na direita, ombros levantados numa tentativa inútil de evitar a chuva que caía em seu pescoço, Rudy Holtzman acompanhava o Chefe Patmore, que caminhava ao longo do pavilhão.

Patmore parou de súbito.

—  O que foi? — Holtzman perguntou, cheio de nervosismo.

— Tem um homem ali adiante.

Holtzman levantou a luz.

Um homem se aproximava, a menos de vinte metros.

—  É Bergen — Patmore disse.

Os passos de Max eram imprecisos, como os de um bêbado.

—  Ele está armado! — Patmore gritou. Lembrando-se  do  corpo  cruelmente mutilado  de Erika

Larsson, lembrando-se do sangue espalhado pela casa toda, lembrando-se do corpo de Lou Pasternak esparramado no asfalto do estacionamento, Holtzman levantou o revólver e disparou.

Max Bergen foi jogado para trás com o impacto do projétil.

 

Alan apertou o corpo contra o dela, colocando a mão esquerda ao redor da garganta de Mary.

Ela dizia a si mesma — "resista. . . lute". Convencia-se de que era forte, não fraca. Um fraco ter-se-ia refugiado na loucura. Há vinte e quatro anos. Ela era forte. Havia-se agarrado à sua sanidade, e desenvolvido suas habilidades psíquicas, a fim de manter-se viva. Era capaz, neste momento, de encontrar as forças necessárias para travar seu último combate contra ele.

Ele segurava o facão perto de seu rosto como se fosse marcá-la a ferro, a ponta logo abaixo da vista direita.

— Fico imaginando — disse ele — se você fosse cega, se ainda poderia ter suas visões de clarividência.

Algo rompeu-se dentro dela.

Abruptamente, violentamente, o medo que sentia desapareceu numa explosão de cólera e ódio mais intensos do que qualquer emoção que já tivesse sentido. Vinte e quatro anos de ódio represado, gangrenado estouraram em seu subconsciente como uma bomba. Ela o desprezava. Sentia nojo. Ele não merecia viver. Jamais mereceu. Jamais mereceria. Tudo o que Mary desejava agora era feri-lo tanto quanto havia sido ferida por ele. Já não importava a ela viver ou morrer. Queria apenas jogá-lo ao chão, manietá-lo, torturá-lo, machucá-lo, cortá-lo; surrá-lo, ouvi-lo gritar, berrar, urrar. E, acima de tudo, queria colocar os morcegos sobre o corpo dele, esfregá-los no rosto dele, fazê-los arranhar e morder a carne dele, forçá-los para dentro de sua boca, enquanto estivessem vivos e se agitando.

Acima de suas cabeças, duas dúzias de morcegos começaram a gritar no escuro: um coro estridente de estranhas vozes.

Estarrecido, Alan olhou para o alto.

Um morcego solitário desceu voando, e prendeu suas garras à lapela do sobretudo de Alan. As asas batiam desordenadas em seu pescoço.

Mary não podia crer no que havia alcançado.

Alan libertou-a, jogando a mão para trás, para agarrar o animal. Com algum esforço livrou-se do morcego, finalmente, lançando-o para longe de si.

Sua mão sangrava.

Durante os últimos dias, cada vez que tinha uma visão na qual o rosto de Alan começava a revelar-se como sendo o do assassino, Mary havia afugentado a verdade, buscando refúgio na explicação dos poltergeists. Fora ela própria a responsável pela manifestação telecinética no consultório do Dr. Cauvel; pela pistola flutuando no ar; pelo ataque das gaivotas no Laughing Dolphin; pelos objetos inanimados projetando-se de um lado para outro no banheiro da casa de Lou. Max tinha razão.

Pois agora exerceria seu poder sobre os morcegos.

Outro deles desceu, pousando firme sobre o rosto de   Alan.

Alan gritou. Livrou-se do animal. Deixou cair o facão.

O sangue escorria de sua testa para dentro de seus olhos.

Guinchando, batendo no ar furiosamente com suas asas, mais três  morcegos atacaram. Um deles se emaranhou em seus cabelos. Os outros dois fixaram-se em sua garganta. - Matem-no! — Mary ordenou.

Debatendo-se, Alan deu as costas a ela. Correu pela plataforma, na direção das escadas.

Todos os morcegos abrigados no campanário perseguiam-no. Rasgavam-lhe a cabeça, o rosto, o pescoço, arranhavam suas mãos, mordiam seus dedos, agarravam-se a ele e Alan não conseguia libertar-se. Quando gritou, um dos morcegos invadiu sua  boca.

Alan tropeçava descendo as escadas, jogando-se de uma parede para outra.

Mary apanhou a lanterna e seguiu o irmão.

Os morcegos continuavam cobrindo Allan. Seus guinchos eram cada vez mais estridentes, mais plenos de ódio.

Cinco degraus abaixo, Alan caiu, rolando até o primeiro patamar. Levantou-se, continuou descendo, arrancou um morcego do nariz, tentou proteger os olhos com o braço, caiu novamente, não conseguiu evitar outro grito e mais um morcego, saindo de seu queixo penetrou em sua boca, e ele teve que cuspir parte do animal, engasgando-se, sufocando, tropeçando, até saltar o último lance de degraus, indo tombar na arcada escura, onde desfaleceu.

Mary desceu a escada e postou-se ao lado do irmão.

Alan estava completamente imóvel.

Um a um, os morcegos foram abandonando o corpo morto, e voando em círculos voltaram para as trevas do campanário.

 

Depois...

Naquele dia de dezembro, o sol caía a pino sobre o cemitério, sem deixar virtualmente qualquer sombra. Havia um frio no ar que não provinha da brisa marítima, mas irradiava-se das pedras tumulares e das pessoas silenciosamente presentes e, acima de tudo, da urna funerária escura e simples suspensa sobre a cova aberta.

Quando o mecanismo de fazer baixar o caixão se pôs em movimento, Mary virou-se. Caminhou, por entre os granitos simples e os suntuosos mausoléus de mármore, para o portão de ferro batido, solitária, desacompanhada, sozinha, pois era isto o que desejava.

Sentou-se imóvel, por um pouco, ao volante do Mercedes e contemplou os morros até que seu olhar chegou ao mar. Estava esperando que suas mãos parassem de tremer.

Ontem, havia enterrado Alan, e, apesar de tudo o que o irmão havia sido e tudo o que havia feito, sofreu com sua morte. Mas a cerimônia de hoje foi muito mais triste do que a da véspera. Sentia como se lhe houvessem tirado um pedaço da própria carne.

Precisava chorar para lavar um pouco da dor que lhe ia na alma, mas sufocava os soluços antes que se libertassem, e prendia as lágrimas antes que rolassem. Tinha ainda um dever a cumprir antes de poder entregar-se ao próprio sofrimento.

Deu partida no Mercedes e afastou-se do cemitério.

 

O sol filtrava-se pelas venezianas, dando ao quarto particular do hospital um misto de luz e sombra.

Max estava sentado na cama, com um dos ombros enfaixados e o braço numa tipóia. Abatido, pálido, olhos fundos, mas o sorriso era de ternura, quando Mary passou pela porta.

Ela deu-lhe um beijo, indo sentar-se na cadeira ao lado da cama. Ficaram de mãos dadas, em silêncio, durante talvez um minuto. Então ela contou-lhe sobre o funeral de Lou. Quando mais nada lhe restava dizer, chegou-se para a beira da cadeira, e debruçou-se descansando a fronte na beirada do colchão.

E, enfim, chorou.

Max murmurava ternamente, acariciando-lhe levemente a nuca, alisando seus cabelos. Mary perdeu completamente o controle. Chorava alto por Lou, tanto quanto por si mesma. A morte do amigo deixava um vazio em sua vida. Mas o desespero não poderia durar para sempre. Aos poucos, muito gradualmente, seus soluços foram cessando.

Ficaram os dois, ouvindo música clássica pelo rádio, incapazes de romper o silêncio.

Mais tarde, na hora de jantar do hospital, seus olhos foram ficando pesados e os bocejos se sucediam.

—  Desculpe, Max. Tenho dormido tão pouco.

—  Pesadelos?

—  Não. Na verdade, tenho tido sonhos lindos — os primeiros sonhos bons de toda a minha vida. Acordei às quatro e meia da madrugada, radiante, cheia de energia. Até saí para um passeio bem comprido.

—  Você? Um passeio? Sozinha, à noite?

Ela sorriu. — Ficar sozinha já não me assusta tanto quanto antes — ela disse. — E já não tenho mais medo do escuro.



 

[1]Percepção Extra-Sensorial.  (N. da T.)

[2] Poltergeist — Palavra de origem alemã que significa espírito barulhento, brincalhão.  Muito  discutida  atualmente em  parapsicologia; acredita-se tratar de uma energia que desloca objetos etc, comandada geralmente por um adolescente na fase da puberdade. Há vários casos registrados no Brasil (Prof. Kaanda-Ananda). (N. da T.)
[3]Colares havaianos. (N. da T.)
[4] Palavra derivada do sânscrito que significa Senhor do Mundo. Este deus é adorado na índia e, em sua homenagem, são realizadas duas comemorações anuais: uma precisão e o banho de sua estátua. Houve época em que seus devotos se jogavam sob as rodas dos carros para alcançar a salvação (Prof. Kaanda — Amanda).  (N. da R.)

 

                                                                                            Dean R. Koontz

 

 

                      

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