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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A FÓRMULA DE DEUS / José Rodrigues dos Santos
A FÓRMULA DE DEUS / José Rodrigues dos Santos

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

O homem dos óculos escuros riscou o fósforo e colou a chama violácea à ponta do cigarro. Aspirou forte e uma nuvem acinzentada ergueu-se do rosto, devagar, fantasmagórica. O homem percorreu a rua com o olhar azul e apreciou a placidez daquele recanto aprazível.

Fazia sol, os arbustos coloriam de verde os jardins mimosos, graciosas casas de madeira espreitavam a rua, as folhas tremelicavam sob a brisa leve da manhã; o ar ameno encheu-se de aroma e melodia, perfumado pela fragrância fresca das glicínias, embalado pelo estridular laborioso das cigarras na relva rasteira e pelo arrulhar meigo de um beija-flor. Uma gargalhada despreocupada juntou-se ao harmonioso concerto da natureza, era uma criança loira que guinchava de alegria e saltitava pelo passeio, puxando um colorido papagaio por uma corda.

 

 

 

 

Primavera em Princeton.

Um zumbido longínquo atraiu a atenção do homem dos óculos escuros. Esticou a cabeça e fixou os olhos no fundo da rua. Três motos da polícia emergiram do lado direito, encabeçando uma fila de carros que se aproximava a grande velocidade; o zumbido cresceu e transformou-se num ronco estrepitoso. O homem tirou o cigarro da boca e esmagou-o no cinzeiro sobre o parapeito da janela.

"Estão chegando", disse, voltando a cabeça para trás.

"Começo a gravar?", perguntou o outro, o dedo pousado sobre o botão de uma máquina com uma fita magnética.

"Sim, é melhor."

A fila de automóveis imobilizou-se com espalhafato diante da casa do outro lado da rua, uma moradia branca de dois pisos, com um alpendre dianteiro, desenhada em estilo revivalista grego; polícias fardados e outros à paisana assumiram o controlo do perímetro e um homem corpulento, evidentemente um guarda-costas, foi abrir a porta do Cadillac negro que estacionou diante da entrada da casa. Um homem de idade, de cabelos brancos sobre as orelhas e calvo no topo da cabeça, saiu do Cadillac e ajeitou o seu terno escuro.

"Já vejo o Ben Gurion", disse, da janela da casa oposta, o homem dos óculos escuros.

"E o nosso amigo? Já apareceu?", perguntou o homem do gravador, frustrado por não poder ir à janela observar a cena.

O dos óculos escuros desviou os olhos do Cadillac para a casa. A imagem familiar do homem de idade, ligeiramente curvado e os cabelos alvos penteados para trás, um farfalhudo bigode grisalho sob o nariz, emergiu da soleira da porta e desceu as escadas com um sorriso.

"Sim, ele já está ali."

As vozes dos dois homens a encontrarem-se nas escadas do jardim ressoou pelos altos-falantes dos gravadores.

"Shalom, senhor primeiro-ministro."

"Shalom, professor."

"Seja bem-vindo à minha humilde casinha. É um prazer ter aqui o famoso David Ben Gurion."

O governante riu-se.

"O senhor deve estar a brincar. O prazer é todo meu, sabe? Não é todos os dias que se vai a casa do grande Albert Einstein, não é verdade?"  

 

O homem dos óculos olhou para o companheiro.

"Estás a gravar?”

O outro verificou as agulhas a oscilarem nos mostradores das máquinas.

"Sim. Não te preocupes.”

 

Lá à frente, Einstein e Ben Gurion posavam para os repórteres, que os iluminavam de flashes diante do tapete verde e lilás da glicínia que trepava pela varanda da casa. Como estava um magnífico dia primaveril, o cientista fez sinal de que era melhor permanecerem cá fora e apontou na direcção de umas cadeiras de madeira colocadas sobre a relva úmida; sentaram-se ambos aí, os fotógrafos e operadores de câmara sempre a registarem o momento. Ao fim de alguns minutos, um guarda-costas abriu os braços e afastou a imprensa, deixando os dois homens a sós, entregues à conversa na doçura solarenga no jardim.

 

No gravador da casa em frente, as vozes continuavam a ser captadas e registadas.

 

"Está a correr bem a viagem, senhor primeiro-ministro?"

"Sim, tenho conseguido algum apoio e muitos donativos, graças a Deus. Agora a seguir vou a Filadélfia, onde espero obter mais dinheiro. Mas nunca é o suficiente, não é? A nossa jovem nação está rodeada de inimigos e precisa de toda a ajuda que puder obter." "Israel tem apenas três anos, senhor primeiro-ministro. É natural que haja dificuldades."

"Mas é preciso dinheiro para as superar, professor. Não basta a boa vontade."

Três homens de terno escuro irromperam pela porta da casa em frente, as pistolas agarradas pelas duas mãos e apontadas para os dois suspeitos que observavam a cena.

"Freeze!", berraram os homens armados. "FBI! Não se mexam! Levantem as mãos e não façam gestos bruscos!"

O homem dos óculos escuros e o do gravador ergueram os braços, mas sem aparentarem alarme. Os do FBI aproximaram-se, as pistolas sempre em riste, tensas e ameaçadoras.

"Deitem-se no chão!”

"Isso não é preciso", devolveu tranquilamente o dos óculos escuros.

"Deitem-se no chão, já disse", gritou o do FBI. "Não volto a repetir." "Tenham calma, rapazes", insistiu o dos óculos escuros. "Somos CIA." O do FBI franziu o sobrolho.

"Pode provar isso?"

"Posso. Se me deixar tirar a identificação do bolso."

"Tire-a. Mas devagar. Nada de gestos bruscos."

O homem dos óculos escuros baixou lentamente o braço direito, mergulhou-o no bolso do casaco e retirou um cartão, que exibiu ao do FBI. O cartão, com o selo circular da Central Intelligence Agency, identificava o homem dos óculos escuros como sendo Frank Bellamy, operacional de primeira classe. O agente do FBI fez sinal aos companheiros para baixarem as armas e olhou em redor, estudando a sala.

"O que está a OSS aqui a fazer?"

"Já não somos OSS, you prick. Somos CIA agora."

"Okay. O que está a CIA aqui a fazer?"

"Vocês não têm nada a ver com isso."

O do FBI cravou os olhos nos gravadores.

"A gravar a conversa do nosso gênio, é?"

"Vocês não têm nada a ver com isso."

"Vocês estão, por lei, proibidos de espiar cidadãos americanos. Sabem disso, não sabem?"

"O primeiro-ministro de Israel não é cidadão americano."

O homem do FBI ponderou a resposta. De fato, concluiu, o agente da agência rival tinha um bom álibi.

"Há anos que andamos a tentar fazer escutas ali ao nosso amigo", disse, olhando pela janela para a figura de Einstein. "Temos informações de que ele e a secretária, aquela cabra da Dukas, andam a passar segredos para os soviéticos. Mas o Hoover não nos deixa pôr os microfones, tem medo do que acontecerá se o geniozinho descobrir." Coçou a cabeça. "Pelos vistos, vocês tornearam esse problema."

Bellamy torceu os lábios finos, esboçando o que parecia ser o vestígio de um sorriso.

"Azar o vosso, serem do FBI." Apontou para a porta com a cabeça. "Agora desapareçam, vá. Deixem os big boys trabalhar."

O do FBI ergueu o canto do lábio, num gesto de desprezo.

"Sempre os mesmos merdas, hem?", grunhiu, antes de se voltar para a porta. "Fucking Nazis." Fez sinal aos seus dois companheiros. "Let's NO, guys."

Logo que os homens do FBI abandonaram a casa, Bellamy colou o nariz à janela e voltou a observar os dois judeus sentados à conversa no jardim da casa em frente.

"Ainda está a gravar, Bob?"

"Sim", disse o outro. "A conversa entrou agora numa fase crucial. Vou pôr mais alto."

Bob girou o botão do volume e as duas vozes encheram de novo a sala.

 

"... defesa de Israel", disse Ben Gurion, obviamente a concluir uma frase.

"Não sei se posso fazer isso", retorquiu Einstein.

"Não pode ou não quer, professor?"

Fez-se um curto silêncio.

"Eu sou pacifista, como sabe", recomeçou Einstein. "Acho que já existem demasiadas desgraças no mundo e que andamos a brincar com o fogo. Este é um poder que temos de respeitar e não sei se possuímos maturidade suficiente para lidar com ele."

"E, no entanto, foi o senhor quem convenceu Roosevelt a desenvolver a bomba."

"Foi diferente."

"Em quê?"

"A bomba era para combater Hitler. Mas, sabe, já me arrependi de ter convencido o presidente a fabricá-Ia."

“Ah, sim? E se os nazis a tivessem desenvolvido primeiro? O que aconteceria então?"

"Pois", concordou Einstein, hesitante. "Teria sido catastrófico, não é? Se calhar, e por muito que me custe, a construção da bomba foi mesmo um mal necessário."

"Então está-me a dar razão."

"Estou?"

"Está, pois. O que lhe peço pode voltar a ser um mal necessário para garantir a sobrevivência da nossa jovem nação. O que eu quero dizer é que o senhor já suspendeu o seu pacifismo quando da Segunda Guerra Mundial e fê-Io novamente para ajudar Israel a nascer. Preciso de saber se o pode voltar a fazer."

"Não sei."

Ben Gurion suspirou.

"Professor, a nossa jovem nação encontra-se em perigo de morte. O senhor sabe tão bem quanto eu que Israel está rodeada de inimigos e que precisa de um dissuasor eficaz, algo que faça os nossos inimigos recuarem. Caso contrário, o país será engolido ainda na infância. É por isso que eu lhe peço, que eu lhe rogo, que eu lhe imploro encarecidamente. Por favor, suspenda mais uma vez o seu pacifismo e ajude-nos nesta hora difícil."

"O problema não é só esse, senhor primeiro-ministro."

"Então?"

"O problema é que eu ando muito ocupado. Estou a tentar conceber uma teoria unificada dos campos, que englobe a gravidade e o eletromagnetismo. É um trabalho muito importante, talvez mesmo o mais..."

"Vá lá, professor", atalhou Ben Gurion. "Tenho a certeza de que o senhor percebe a prioridade do que lhe estou a dizer."

"Sem dúvida", admitiu o cientista. "Mas falta saber se o que o senhor me pede pode ser feito."

"E pode?"

Einstein hesitou.

"Talvez", disse por fim. "Não sei, terei de estudar ocaso."

"Faça isso, professor. Faça isso por nós, faça isso por Israel.“

 

Frank Bellamy escreveu apressadamente as suas notas e, quando terminou, deitou um novo olhar para as agulhas. Os ponteiros vermelhos tremelicavam no mostrador ao ritmo do som, o que significava que as palavras estavam todas a ser gravadas.

Bob permanecia atento ao que era dito, mas acabou por balançar a cabeça.

"Acho que temos o essencial", observou. "Paro a gravação?'“

"Não", disse Bellamy. "Continua a gravar."

"Mas eles já mudaram de tema."

"Não faz mal. Podem regressar à mesma questão daqui a um bocado.

Continua a gravar.”

 

"... várias vezes, eu não tenho uma imagem convencional de Deus, mas custa-me a acreditar que nada exista para além da matéria", disse Ben Gurion. "Não sei se me faço entender."

"Muito bem."

"Repare", insistiu o político. "O cérebro é feito de matéria, tal como uma mesa. Mas a mesa não pensa. O cérebro é parte de um organismo vivo, tal como as minhas unhas, mas as minhas unhas não pensam. E o meu cérebro, se for separado do corpo, também não pensa. É o conjunto do corpo com a cabeça que permite pensar. O que me leva a levantar a possibilidade de o universo ser, todo ele, um corpo pensante. Não acha isso?"

"É possível."

"Sempre ouvi dizer que o senhor era ateu, professor, mas não acha..."

"Não, não sou ateu."

"Não é? O senhor é religioso?"

"Sim, sou. Pode dizer isso."

"Mas eu li algures que o senhor acha que a Bíblia está errada..."

Einstein riu-se.

"Pois acho."

"Então significa que não acredita em Deus."

"Significa que eu não acredito no Deus da Bíblia."

"Qual é a diferença?"

Ouviu-se um suspiro.

"Sabe, na minha infância eu era um menino muito religioso. Mas, aos doze anos, comecei a ler livros científicos, daqueles popularuchos, não sei se conhece... “

"Sim...“

"... e cheguei à conclusão de que a maior parte das histórias da Bíblia não passavam de narrativas míticas. Deixei de ser um crente quase de um dia para o outro. Pus-me a pensar bem no assunto e apercebi-me de que a idéia de um Deus pessoal é um bocado ingênua, infantil até."

"Por quê?"

"Porque se trata de um conceito antropomórfico, uma fantasia criada pelo homem para tentar influenciar o seu destino e buscar consolo nas horas difíceis. Como nós não podemos interferir com a natureza, criamos esta idéia de que ela é gerida por um Deus benevolente e paternalista que nos ouve e que nos guia. É uma idéia muito reconfortante, não lhe parece? Criamos a ilusão de que, se rezarmos muito, conseguiremos que Ele controle a natureza e satisfaça os nossos desejos, assim por artes mágicas. Quando as coisas correm mal, e como não compreendemos que um Deus tão benevolente o tenha permitido, dizemos que isso deve obedecer a um qualquer desígnio misterioso e ficamos assim mais confortados. Ora, isso não faz sentido, não lhe parece?"

"Não acredita que Deus se preocupe conosco?"

"Repare, senhor primeiro-ministro, nós somos uma de entre milhões de espécies que ocupam o terceiro planeta de uma estrela periférica de uma galáxia mediana com milhares de milhões de estrelas, e essa galáxia é, ela própria, uma de entre milhares de milhões de galáxias que existem no universo. Como quer que eu acredite num Deus que se dá ao trabalho de, nesta imensidão de proporções inimagináveis, se preocupar com cada um de nós?"

"Bem, a Bíblia diz que Ele é bom e é onipotente. Se é onipotente, pode fazer tudo, incluindo preocupar-se com o universo e com cada um de nós, não é?"

Einstein bateu com a palma da mão no joelho.

"Ele é bom e onipotente, é? Ora aí está uma idéia absurda! Se Ele é de fato bom e onipotente, como pretende a Bíblia, por que razão permite a existência do mal? Por que razão deixou que ocorresse o Holocausto, por exemplo? Se for a ver bem, os dois conceitos são contraditórios, não são? Se Deus é bom, não pode ser onipotente, uma vez que não consegue acabar com o mal. Se Ele é onipotente, não pode ser bom, uma vez que permite a existência do mal. Um conceito exclui o outro. Qual é o que prefere?"

"Uh... talvez o conceito de que Deus é bom, acho.“

“Mas esse conceito tem muitos problemas, já reparou? Se ler a Bíblia com atenção, irá reparar que ela não transmite a imagem de um Deus benévolo, mas antes de um Deus ciumento, um Deus que exige fidelidade cega, um Deus que causa temor, um Deus que pune e sacrifica, um Deus capaz de dizer a Abraão para matar o filho só para ter a certeza de que o patriarca Lhe era fiel. Pois se Ele é onisciente, não sabia já que Abraão Lhe era fiel? Para que, sendo Ele bom, esse teste tão cruel? Portanto, não pode ser bom."

Ben Gurion soltou uma gargalhada.

"Já me apanhou, professor", exclamou. "Está bem, Deus não é necessariamente bom. Mas, sendo Ele o criador do universo, é pelo menos onipotente, não?"

"Será? Se assim é, por que razão pune Ele as suas criaturas se tudo é Sua criação? Não estará a puni-Ias por coisas de que é Ele, afinal de contas, o exclusivo responsável? Ao julgar as suas criaturas, não estará Ele a julgar-se a si próprio? Na minha opinião, e para ser franco, só a Sua inexistência O poderá desculpar." Fez uma pausa. "Aliás, se formos a ver bem, nem sequer a onipotência é possível, trata-se de um conceito, também ele, cheio de irresolúveis contradições lógicas."

"Como assim?"

"Há um paradoxo que explica a impossibilidade da onipotência e que pode ser formulado da seguinte maneira: se Deus é onipotente, pode criar uma pedra que seja tão pesada que nem Ele próprio a consegue levantar." Einstein arqueou as sobrancelhas. "Está a ver? É justamente aqui que radica a contradição. Se Deus não conseguir levantar a pedra, Ele não é onipotente. Se conseguir, Ele também não é onipotente porque não foi capaz de criar uma pedra que não conseguisse levantar." Sorriu. "Conclusão, não existe um Deus onipotente, isso é uma fantasia do homem em busca de conforto e também de uma explicação para o que não entende."

"Então não acredita em Deus."

"Não acredito no Deus pessoal da Bíblia, não."

"Acha que não há nada para além da matéria, é?"

"Não, claro que há. Tem de haver algo por detrás da energia e da matéria."

"Afinal, professor, acredita ou não acredita?"

"Não acredito no Deus da Bíblia, já lhe disse."

"Então acredita em quê?"

"Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe. Admiro a beleza e a lógica simples do universo, creio num Deus que se revela no universo, num Deus que...“

 

Frank Bellamy rolou os olhos, enfadado, e abanou a cabeça.

"Jesus Christ!", resmungou. "Não acredito no que estou a ouvir."

Bob remexeu-se na sua cadeira, junto aos gravadores.

"Olha para o lado positivo da coisa", disse. "Já reparaste, Frank, que estamos a escutar o maior gênio da história da humanidade a revelar o que pensa sobre Deus? Quantas pessoas não pagariam para ouvir isto?"

"Isto não é show business, Bob. Estamos a falar da segurança nacional e precisamos de ouvir mais do que já ouvimos sobre o pedido que Ben Gurion lhe fez. Se Israel tiver a bomba atômica, Bob, quanto tempo achas que teremos de esperar até que toda a gente a tenha também? Uh?"

"Tens razão. Desculpa."

"É imperativo que obtenhamos mais pormenores."

"Tens razão. É melhor ouvirmos a conversa. “

 

"... de Espinosa."

Fez-se um longo silêncio.

Foi Ben Gurion o primeiro a rompê-Io.

"Professor, acha que será possível provar a existência de Deus?"

"Não, não acho, senhor primeiro-ministro. Não é possível provar a existência de Deus, da mesma maneira que não é possível provar a sua não-existência. Nós apenas temos a capacidade de sentir o misterioso, de experimentar a sensação de deslumbramento pelo maravilhoso esquema que se exprime no universo."

Fez-se uma nova pausa.

"E por que não tenta o senhor provar a existência ou inexistência de Deus?"

"Não me parece que isso seja possível, já lhe disse."

"Se fosse possível, qual seria o caminho?"

Silêncio.  

Foi agora a vez de Einstein levar algum tempo a falar. O velho cientista girou o cabeça e contemplou toda a verdura que bordejava Mercer Street; contemplou-a com olhos de sábio, com olhos de garoto, com olhos de quem tem todo o tempo do mundo e não perdeu o dom de se maravilhar com a exuberância da natureza no seu encontro com a Primavera.

Respirou fundo.

“Raffiniert ist der Herrgott, aber boshaft ist er nicht", disse por fim.

Ben Gurion fez um ar intrigado.

"Was wollen Sie damit sagen?"

"Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.“

 

Frank Bellamy desferiu um murro no parapeito da janela.

"Damn!", exclamou. "Agora puseram-se a falar em alemão!"

“O que estão eles a dizer?", perguntou Bob.

"Sei lá! Achas-me com cara de kraut?"

Bob parecia desconcertado.

"O que faço? Continuo a gravar?"

"Claro. Depois levamos a fita para a agência e algum fucking gênio irá traduzir isso." Esboçou um esgar de desprezo. "Com todos os nazis que lá temos agora, também não será assim tão difícil, não é?"

O agente encostou o nariz à janela e ali ficou, o vapor da respiração a abrir bafos úmidos no vidro, os olhos perdidos nos dois velhos sentados à conversa no outro lado da rua, pareciam dois irmãos, lado a lado, nas cadeiras do jardim do número 112 de Mercer Street.

 

O caos na rua revelava-se indescritivelmente desagradável. Automóveis de chapa amolgada, caminhões ruidosos e autocarros fumarentos apinhavam-se pelo alcatrão sujo e oleoso, estrebuchando com buzinares impacientes e roncos roucos e mal dispostos; o cheiro ácido do gasóleo queimado enchia o ar quente do final da manhã, uma gordurosa neblina de poluição pairava sobre os prédios degradados, havia algo de decadente naquele espetáculo de uma cidade antiga a tentar agarrar o futuro com o pior da modernidade.

Indeciso quanto ao rumo a tomar, o homem de cabelo castanho e olhos verdes cristalinos parou na escadaria do museu e estudou as suas opções. Diante de si estendia-se a grande rotunda da Midan Tahrir, para além da qual se multiplicavam os cafés. O problema é que a praça constituía o epicentro daquele caos rodoviário, o palco maior da sucata ambulante que se amontoava diante de si. Nem pensar em ir por ali. Olhou para a esquerda. A alternativa era meter pela Qasr EI-Nil e ir ao Groopi's comer uns doces e tomar um chá; mas tinha demasiada fome para isso, o apetite não seria aplacado por uns meros pastéis. A outra possibilidade era virar para a direita e seguir pela Corniche EI-Nil, onde se erguia o seu esplêndido hotel, com ótimos restaurantes e uma magnífica vista para o rio e para as pirâmides.

"É a sua primeira vez no Cairo?”

O homem de olhos verdes girou a cabeça para trás, procurando a voz feminina que o interpelara.

"Perdão?"

"É a sua primeira vez no Cairo?"

Uma mulher alta e de longos cabelos negros aproximou-se do homem;

vinha do interior do museu e ostentava um sorriso cativante. Tinha os olhos de um intrigante castanho-amarelado, os lábios grossos e sensuais pintados de escarlate, uns discretos brincos de rubis e um tailleur cinzento colado ao corpo, saltos altos negros realçavam-lhe as curvas perfeitas e as pernas longas de modelo.

Uma beleza exótica.

"Uh... não", gaguejou o homem. "Já aqui vim muitas vezes."

A mulher estendeu a mão.

"Muito prazer", sorriu. "O meu nome é Ariana. Ariana Pakravan."

"Como está?" Apertaram as mãos e Ariana riu-se baixinho.

"Não me vai dizer o seu nome?"

"Ah, desculpe. Chamo-me Tomás. Tomás Noronha."

"Como está, Thomas?"

"Tomás", corrigiu ele. "O acento é no a. Tomáaas."

"Tomás", repetiu ela, esforçando-se por imitar o sotaque.

"Isso. As árabes têm sempre uma certa dificuldade em pronunciar bem o meu nome."

"Hmm... e quem lhe disse que eu sou árabe?"

"Não é?"

"Por acaso, não. Sou iraniana."

"Ah", riu-se. "Não sabia que as iranianas eram assim tão bonitas."

O rosto de Ariana abriu-se num sorriso maravilhoso.

"Já vi que é um galanteador."

Tomás corou.

"Desculpe, saiu-me."

"Ah, não se incomode. Já Marco Polo dizia que as mulheres mais bonitas do mundo eram as iranianas." Pestanejou, sedutora. "Além disso, não há mulher que não goste de ouvir um bom galanteio, não é?”

O historiador analisou-lhe o tailleur pregado ao corpo.

“Mais você é toda moderna. Sendo do Iran, a terra dos ayatollahs, isso é surpreendente."

"Eu... uh... sou um caso especial." Ariana contemplou a desordem na Midan Tahrir. "Ouça, não tem fome?"

"Se não tenho fome? Puxa, era capaz de comer um boi!"

"Então venha daí, vou levá-Io a provar umas especialidades locais.”

 

O táxi dirigiu-se para o Cairo islâmico, no Leste da cidade. À medida que o carro deambulava pela capital egípcia, as avenidas largas da Baixa foram sendo substituídas por um labirinto de ruelas estreitas, atafulhadas de movimento e formigando de vida; viam-se carroças e burros, transeuntes vestidos de galabiyya, vendedores ambulantes, bicicletas, homens a acenar com papiros, bancas de taamiyya, lojas de latões e cobres e couros e tapetes e tecidos e antiguidades acabadas de fazer, esplanadas com clientes a fumar sheeshas, no ar um aroma forte de comida frita e açafrão e curcuma e pimentão-de-cheiro.

O táxi largou-os à porta de um restaurante da Midan Hussein, uma praceta ajardinada à sombra de um esguio minarete.

"Aquela é a mais importante mesquita da cidade, o lugar mais sagrado do Cairo", indicou a iraniana, apontando para o edifício do outro lado da rua. "É a mesquita de Sayyidna al-Hussein."

Tomás apreciou o santuário.

"Ah, sim? O que tem ela assim de tão importante?"

"Dizem que está ali uma das mais sagradas relíquias do Islã, a cabeça de al-Hussein."

"E quem é esse?"

"Al-Hussein?", admirou-se Ariana. "Não sabe quem é al-Hussein? Meu Deus, é... é o neto do profeta Maomé. AI-Hussein é o homem que está na base da grande cisão do mundo islâmico. Sabe, o Islã está dividido entre os sunitas e os seguidores de al-Hussein, os xiitas, e aquela relíquia é muito importante para os xiitas."

"E você? O que é?"

"Eu sou iraniana."

"Mas é xiita ou é sunita?"

"Meu caro, no Irã somos quase todos xiitas."

"Portanto, esta é uma mesquita muito importante para si."

"Sim. Quando estou no Cairo, venho aqui rezar às sextas-feiras. Eu e milhares de outros fiéis, claro."

Tomás analisou a fachada.

"Gostava de a visitar."

"Não pode."

"Não? Por quê?"

"Esta mesquita é tão sagrada que apenas os muçulmanos estão autorizados a entrar lá dentro. Os infiéis ficam à porta."

"Ah, bom", exclamou Tomás, decepcionado. "E quem lhe disse que eu sou infiel?"

Ariana olhou-o de soslaio, incerta quanto ao sentido da sua pergunta.

"Não é?"

Tomás soltou uma gargalhada.

"Sou, sou", confirmou, ainda a rir. "Muito infiel." Fez um gesto na direção da porta do restaurante. "Por isso, é melhor irmos comer, não?”

 

O Abu Hussein ostentava um aspecto mais ocidentalizado do que a maioria dos restaurantes egípcios. Todas as mesas apresentavam toalhas imaculadamente lavadas e, pormenor importante naquela cidade, o ar condicionado funcionava a toda a força, enchendo o restaurante de uma frescura prazenteira.

Sentaram-se junto à janela, a mesquita claramente visível do outro lado, e Ariana fez um sinal ao empregado.

"Ya nadil!", chamou.

O homem, fardado de branco, aproximou-se.

"Nam?"

"Qa imatu taqam, min fadlik?"

"Nam."

O homem afastou-se e Tomás inclinou-se na mesa.

"Fala árabe, é?"

"Claro.“

“É parecido com iraniano?"

"O parsi e o árabe são línguas totalmente diferentes, embora utilizem o mesmo alfabeto escrito e partilhem algumas palavras."

Tomás pareceu ficar desconcertado.

"Ah'" exclamou. "E o que lhe disse?"

"Nada de especial. Pedi-lhe para trazer o menu, só isso."

O homem reapareceu instantes depois com duas ementas na mão, que entregou a cada um dos clientes. Tomás olhou para a lista e abanou a cabeça.

"Não percebo nada disto."

Ariana espreitou por cima do seu menu.

''O que quer comer?"

"Escolha você. Estou nas suas mãos."

"Tem certeza?"

"Absoluta."

A iraniana analisou as ofertas e voltou a chamar o empregado, a quem fez o pedido. Apenas hesitou nas bebidas e viu-se forçada a consultar Tomás.

"Para beber, tem alguma preferência?"

"Sei lá. O que houver."

"Quer uma bebida alcoólica ou prefere outra coisa?"

"Pode-se beber álcool aqui?"

"No Egito? Claro que pode. Não sabia?"

"Sabia, pois. Estou-me a referir a este lugar, aqui em pleno Cairo islâmico, ao lado da mais sagrada mesquita da cidade. É permitido álcool nesta zona?"

"Não tem problema."

"Ah, bom. E quais são as opções?"

Ariana interrogou o empregado e traduziu a resposta.

"Têm cerveja e vinho egípcio."

"Vinho egípcio? Puxa, não sabia que eles faziam vinho. Olhe, vou experimentar."

A iraniana completou o pedido e o empregado afastou-se.

Uma voz pungente, emitida numa tonalidade melancólica, rasgou o ar;

era o muezzin que, do alto do grande minarete, lançava o adhan, chamando os fiéis à oração. O entoar melódico e ondulado de "Allah u akbar" prolongou-se sobre a cidade e Ariana observou pela janela a multidão que convergia para a mesquita.

"Quer ir rezar?", perguntou-lhe ele.

"Não, agora não." Tomás pegou num picle de legumes que servia de aperitivo sobre a mesa.

"Espero que a comida não me faça mal", disse ele, mirando o picle com ar desconfiado.

"Como assim?"

"Quando cá cheguei, anteontem, fui comer ao restaurante do hotel e apanhei logo uma diarréia."

''Ah, sim, isso às vezes acontece aos vossos frágeis intestinos europeus. É uma questão de você ter cuidado com o que come."

"Ter cuidado, como?"

"Olhe, evite as saladas e a fruta por descascar, por exemplo." Indicou o picle espetado no palito que Tomás tinha entre os dedos. "Os picles não lhe fazem mal nenhum, pode comer à vontade. Mas beba só água mineral, há garrafas à venda por toda a parte. E não vá a restaurantes baratuchos, daqueles que têm baratas a passear pela mesa. Se for a um desses, arrisca-se."

Tomás trincou o picle.

"Mas eu apanhei a diarréia a comer no restaurante do hotel, o que pensa você?"

"Mesmo os restaurantes mais caros podem ter problemas, nunca se sabe."

O empregado apareceu com uma enorme travessa cheia de pratos coloridos; depositou-os sobre a mesa e retirou-se, dizendo que ia buscar as bebidas. Tomás contemplou a variedade de opções e esfregou o queixo.

"O que é isto?"

Ariana apontou para um prato com comida vermelha e amarela.

"Isto é koshari, um prato típico do Egito. É feito de massa, arroz, lentilhas e molho de tomate, tudo coberto com cebola frita. Se quiser, pode pôr picante."

"E os outros?"

A iraniana indicou cada prato à vez.

“Estes pastéis são taamiyya." Procurou a palavra. "Feitos com favas." Pegou num pão achatado. "Este é o baladi. Pode barrá-lo com hummus em azeite, babaghanoush e fuul."

"O que é isso?"

“Hummus é... é molho de grão-de-bico. O fuul é um puré de favas com ervas e azeite e o outro é um molho de beringelas e tahini. Prove, é bom."

Tomás experimentou e, após um instante a ponderar o gosto, fez sinal de aprovação.

“É bom, é."

“Eu disse-lhe."

O empregado reapareceu com as bebidas. Depositou um copo de karkade frio diante de Ariana e encheu o copo de Tomás com o néctar vermelho-escuro de uma garrafa de tinto árabe. O cliente saboreou um trago e assentiu com a cabeça.

"É engraçado", comentou ele, logo que o empregado se afastou. "Já sei tanta coisa sobre si, mas você não sabe nada sobre mim, já viu? Só conhece o meu nome."

Ela ergueu as sobrancelhas e adotou uma expressão maliciosa.

"Está enganado."

"Estou?", admirou-se Tomás. "Mas eu ainda não lhe contei nada." "Nem precisa. Eu já me informei."

"Ah, sim?"

"Claro."

"Não acredito.”

"Quer que eu lhe prove? Olhe, sei que você é português e é reputado como sendo um dos maiores peritos mundiais de criptanálise e línguas antigas. Dá aulas numa universidade de Lisboa e trabalha agora também como consultor da Fundação Gulbenkian, onde está a rever a tradução das inscrições em hieróglifos da arte egípcia e em escrita cuneiforme do baixo-relevo assírio existentes no museu da fundação." Falava como se estivesse a responder num exame. "Veio ao Cairo participar numa conferência sobre o templo de Karnak e aproveitou para estudar a possibilidade de adquirir para o Museu Calouste Gulbenkian uma estela do rei Narmer que se encontra guardada na cave do Museu Egípcio."

"Ena, você sabe muito. Estou impressionado..."

"Sei também que teve há seis anos uma tragédia pessoal e que se divorciou recentemente."

Tomás carregou as sobrancelhas, tentando avaliar a situação. Aquelas já eram informações da sua esfera da intimidade e sentiu algum desconforto por alguém lhe ter andado a vasculhar a vida.

"Como diabo sabe você isso tudo?”

"Meu caro professor, o senhor acha que eu sou uma das suas conquistas fáceis?" Ariana sorriu sem humor e abanou a cabeça. "Não. Eu estou aqui em trabalho e este nosso almoço é um almoço de negócios, percebeu?"

O português fez um ar desconcertado.

"Não, não estou a perceber."

"Pense um pouco, professor. Eu sou uma mulher muçulmana e, mais do que isso, como o senhor notou ainda há pouco, venho do país dos ayatollahs, onde a moral é, como sabe, muito estrita. Quantas mulheres iranianas acha o senhor que interpelam um europeu na rua e o convidam para almoçar, assim sem mais nem menos?"

"Bem... uh... realmente, não... não faço idéia."

"Nenhuma mulher faz isso no Irã, caro professor. Nenhuma. Se estamos os dois aqui sentados é porque temos um assunto para discutir."

"Temos?"

Ariana pousou os cotovelos na mesa e encarou Tomás nos olhos.

"Professor, como eu lhe disse, sei que está aqui no Cairo para a conferência e também com a idéia de adquirir uma antiguidade egípcia destinada ao Museu Gulbenkian. Mas eu trouxe-o a este sítio com a ideia de lhe propor um outro negócio." Inclinou o corpo e apanhou a carteira no chão, depositando-a sobre a mesa. "Aqui na minha carteira está a cópia de um manuscrito que se pode tornar a descoberta mais importante do século." Acariciou a carteira de leve. "Eu estou aqui por ordens do meu governo para lhe perguntar se quer trabalhar conosco na tradução deste documento."

Tomás manteve-se um instante a fitar a iraniana.

"Está a dizer que me quer contratar? É isso?"

"Sim, é isso."

"Vocês não têm tradutores próprios?”

Ariana sorriu.

"Digamos que esta é a sua área de especialidade."

"Línguas antigas?"

"Não exatamente."

“Então? Criptanálise?"

"Sim.”

Tomás esfregou o queixo.

“Hmm", murmurou. "Que manuscrito é esse?"

A iraniana endireitou-se, assumindo uma pose séria, quase protocolar.

“Antes de avançar na conversa, tenho uma condição prévia a colocar."

"Diga lá."

“Tudo o que vamos falar agora é confidencial. Você não pode revelar nada do conteúdo da nossa conversa a ninguém. Entendeu? A ninguém. Se não chegarmos a acordo, você também manterá o silêncio sobre tudo o que lhe vou dizer." Fitou-o nos olhos. "Fui clara?"

"Sim "

"Tem certeza?"

“Sim, fique descansada."

Ariana abriu a carteira e tirou um cartão e uma folha, que exibiu ao seu interlocutor.

"Este é o meu cartão de funcionária do Ministério da Ciência."

Tomás pegou no cartão. Estava escrito unicamente em parsi e ostentava uma fotografia de Ariana em trajes islâmicos.

"Sempre bonita, hem?"

A iraniana sorriu.

"E você? Sempre galanteador, não é?"

O historiador voltou a mirar o cartão.

"Não percebo nada do que está aqui escrito." Devolveu o documento com um gesto de indiferença. "No que me diz respeito, isto pode ser uma falsificação feita aí numa qualquer tipografia da esquina."

Ariana sorriu.

"A seu tempo verá que é tudo genuíno." Exibiu a folha. "Este é o documento do Ministério da Ciência a certificar a autenticidade do manuscrito em torno do qual queremos que você trabalhe."

O português analisou o documento e leu-o de ponta a ponta. A folha oficial, encabeçada pelo selo iraniano, apresentava-se datilografada em inglês. O documento estabelecia que Ariana Pakravan era a chefe do grupo de trabalho nomeado pelo Ministério da Ciência, Pesquisa e Tecnologia da República Islâmica do Irã para a decifração e autenticação do manuscrito designado Die Gottesformel. No fim, um rabisco azulado revelava uma assinatura ilegível, identificada por baixo como sendo de Bozorgmehr Shafaq, ministro da Ciência, Pesquisa e Tecnologia.

Tomás apontou para a designação do manuscrito.

"Die Gottesquê?"

"Die Gottesformel. É alemão."

"Que é alemão já eu percebi", riu-se ele. "Mas o que é isto?"

Ariana tirou mais uma folha da carteira, dobrada em quatro; a iraniana desdobrou-a e voltou-a para Tomás. Redigida em maiúsculas com uma letra de máquina de escrever estava a mesma expressão, DIE GOTTESFORMEL, um poema datilografado em baixo e uma assinatura sobre papel quadriculado.

"Esta é a fotocópia da primeira página do manuscrito em questão", explicou Ariana. "Como vê, trata-se do mesmo título mencionado pelo ministro Shafaq no documento que lhe apresentei." .

"Sim, Die Gottesformel", repetiu Tomás. "Mas o que é isto?"

"É um manuscrito elaborado por um dos maiores vultos da humanidade."

"Quem?", riu-se Tomás. "Jesus Cristo?"

"Já vi que é um brincalhão."

"Mas diga lá. Quem?"

Ariana arrancou um pedaço de pão, barrou-o com hummus e trincou-o, sempre com gestos deliberadamente lentos, como se quisesse acentuar o dramatismo da revelação.

"Albert Einstein."

Tomás analisou de novo a fotocópia, a curiosidade a crescer.

"Einstein, é? Hmm... interessante." Mirou Ariana. "Esta assinatura é mesmo a de Einstein?"

"Sim."

"É a letra dele?”

"Claro. Já efetuamos testes de caligrafia e confirmamos isso."

"E quando é que este texto foi publicado?"

"Nunca foi publicado."

"Como?"

“Nunca foi publicado."

"Nunca?"

“Não”.

“Está-me a dizer que isto é inédito?”

"Sim”.

O historiador emitiu um murmúrio apreciativo; a curiosidade ardia-lhe agora como fogo. Estudou mais uma vez a fotocópia, as letras do título, o poema e a assinatura de Einstein embaixo. Da folha, os olhos saltaram-lhe para a carteira de Ariana, ainda pousada sobre a mesa.

“Onde estão as restantes folhas?"

“Em Teerã."

"Pode-me arranjar cópias para as estudar?"

A iraniana sorriu.

"Não. Este é um documento altamente confidencial. Terá de ir a Teerã estudar o manuscrito." Inclinou a cabeça. "Que tal seguir diretamente para lá?"

Tomás soltou uma gargalhada e abriu a palma da mão para a frente, como um polícia a parar o trânsito.

"Calma, mais devagar. Primeiro, não tenho a certeza de poder fazer este trabalho. Afinal de contas, estou aqui em serviço pela Fundação Gulbenkian. Além disso, tenho outras obrigações em Lisboa, não é? Há as aulas na..."

"Cem mil euros", cortou Ariana, sem pestanejar. "Estamos preparados para lhe pagar cem mil euros."

O historiador hesitou.

"Cem mil euros?"

"Sim. E todas as despesas pagas."

"Por quanto tempo de trabalho?"

"O tempo que for necessário."

"Isso é quanto? Uma semana?"

"Um ou dois meses."

"Um ou dois meses?" Fez um ar pensativo. "Hmm... não sei se posso."

"Por quê? Pagam-lhe mais na Gulbenkian e na universidade, é?"

"Não, não é isso. O problema é que tenho compromissos... uh... enfim, não os posso desrespeitar assim sem mais nem menos, como deve compreender?"

Ariana inclinou-se na mesa e cravou-lhe os olhos cor de mel.

"Professor, cem mil euros é muito dinheiro. E nós pagamos-lhe cem mil euros por mês, mais despesas."

"Por mês, é?"

"Por mês", confirmou. "Se forem dois meses, serão duzentos mil, e assim sucessivamente."

Tomás considerou a oferta. Cem mil euros por mês dava mais de três mil por dia. Ou seja, ganharia num dia mais do que num mês na faculdade. Qual era a dúvida? O historiador sorriu e estendeu o braço sobre a mesa.

"Combinado."

Apertaram as mãos, selando o negócio.

"E seguimos já para Teerã", acrescentou ela.

"Bem... isso não pode ser", disse o historiador. "Tenho de ir ainda a Lisboa tratar de umas coisas."

"Temos urgência nos seus serviços, professor. Quem recebe um valor como o senhor vai receber, não pode andar a preocupar-se com outros assuntos marginais."

"Ouça, eu preciso de ir apresentar um relatório à Gulbenkian sobre a minha reunião no Museu Egípcio e, além disso, tenho de despachar umas questões pendentes na faculdade. Faltam-me quatro aulas para terminar o semestre e preciso de arranjar um assistente que as dê. Só depois estarei disponível para ir a Teerã."

A iraniana suspirou de impaciência.

"Então daqui a quanto tempo é que poderá ir?"

"Daqui a uma semana."

Ariana balançou a cabeça, considerando a situação.

"Hmm... está bem. Suponho que conseguiremos sobreviver até lá."

Tomás voltou a pegar na fotocópia, analisando de novo o título.

"Como é que este manuscrito veio parar às vossas mãos?”

"Isso não lhe posso revelar. É um assunto que não lhe diz respeito."

"Ah, bom. Mas presumo que me possa dizer qual o assunto versado por Einstein neste inédito, não é?"

Ariana suspirou e abanou a cabeça.

"Infelizmente, também não o posso esclarecer a esse respeito."

"Não me diga que isso é confidencial."

"Claro que é confidencial. Tudo sobre este projeto é confidencial, entendeu? Neste caso, no entanto, não lhe posso responder pela simples razão de que, por incrível que pareça, nem nós conseguimos perceber o que está lá Iá escrito".

"Como assim?" Tomás esboçou uma expressão de surpresa. "Qual é a dificuldade? Não têm ninguém que leia alemão?"

"O problema é que parte do documento não está redigida em alemão."

"Ah, não?"

“Não."

"Então?"

"Ouça, o que eu lhe estou a dizer requer total confidencialidade, entendeu?"

"Sim, já vimos isso, esteja descansada."

Ariana respirou fundo.

"Quase todo o documento encontra-se manuscrito em alemão pela mão do próprio Einstein. Mas um pequeno trecho, e por motivos que ainda não são inteiramente claros, apresenta-se cifrado. Os nossos criptanalistas andaram a volta deste excerto cifrado e concluíram que não conseguem quebrar a cifra porque esse excerto está escrito numa língua que não é o alemão nem o Inglês."

"Poderá ser o hebraico?"

A iraniana abanou a cabeça.

"Não, Einstein falava mal o hebraico. Aprendeu os rudimentos, mas estava longe de dominar a língua. Foi até por isso que evitou a instrução para o Bar-Mitzwa."

"Então que língua poderá ser essa?"

"Temos fortes razões para suspeitar de uma em particular."

"Qual?"

"O português."

Tomás abriu a boca, o rosto contraindo-se numa careta de absoluta incredulidade e perplexidade.

"Português?"

"Sim."

"Mas... mas Einstein falava português?"

"Claro que não", sorriu Ariana. "Temos motivos para crer que foi um colaborador seu, que falava português, quem redigiu e cifrou esse pequeno excerto."

"Mas por quê? Qual o objetivo?"

"Os motivos não são ainda muito claros. É possível que tenha a ver com a importância do texto."

Tomás esfregou os olhos como se tentasse parar um instante, ganhar tempo para estruturar os pensamentos e retirar algum sentido do que lhe era dito.

"Espere aí, espere aí", pediu. "Há uma coisa que eu não estou a compreender. Isto é ou não é um inédito de Einstein?"

"Claro que é."

"Está ou não redigido por Einstein?"

"Está quase todo rabiscado pela mão de Einstein, sim. Mas, por algum motivo que não é ainda totalmente claro, a parte essencial do texto foi escrita noutra língua e só então cifrada." Ariana falava devagar, como se procurasse assim ser melhor entendida. "Depois de analisar o excerto cifrado e considerar a história do manuscrito, os nossos criptanalistas concluíram que a língua original desse excerto é, com toda a probabilidade, o português."

Tomás balançou afirmativamente a cabeça, os olhos perdidos num ponto infinito.

"Ah", murmurou. "Daí que você tenha vindo falar comigo..."

"Sim."

Ariana abriu os braços, como quem expõe uma evidência. "Se o texto cifrado se encontra originalmente redigido em português, é óbvio que precisamos de um criptanalista português, não é?"

O historiador voltou a pegar na fotocópia da primeira página do manuscrito e examinou-a com atenção. Percorreu o título em maiúsculas, DIE GOTTESFORMEL, e analisou o poema datilografado por baixo. Pôs o dedo sobre os versos e olhou para Ariana.

“O que é isto?"

"É um poema qualquer." A iraniana ergueu uma sobrancelha. "Trata-se da única coisa escrita em inglês, para além de uma estranha referência antes da linha cifrada. Todo o resto está em alemão. O senhor não sabe alemão, pois não?"

Tomás riu-se.

“Minha cara, sei português, espanhol, inglês, francês, latim, grego e copta. Estou já avançado na aprendizagem do hebraico e do aramaico, mas, infelizmente, não domino ainda o alemão de forma adequada. Tenho umas luzes, apenas isso."

"Pois", disse ela. "Foi o que eu li quando o andei a investigar."

"Investigou-me muito, é?"

"Digamos que me informei sobre a pessoa que precisava de contratar."

O português passou uma derradeira vez os olhos pela fotocópia, a atenção regressando ao título.

"Die Gottesformel", leu. "O que é isto?"

"É o nome do manuscrito."

Tomás riu-se.

"Obrigado", exclamou, com uma expressão sarcástica nos olhos. "Até aí já eu cheguei. Mas não conheço esta expressão em alemão. O que quer isto dizer?"

"Die Gottesformel?"

"Sim."

Ariana pegou no copo, saboreou um trago de karkade e sentiu o gosto das folhas de hibisco adoçarem-lhe a língua. Pousou a infusão escura na mesa e fitou Tomás.

"A fórmula de Deus.“

 

O toque polifônico proveniente do bolso das calças anunciou a Tomás que alguém lhe ligava para o telemóvel. Meteu a mão no bolso e retirou o pequeno aparelho prateado; o ecrã registava a chamada de pais.

"Está lá?"

Uma voz familiar respondeu do outro lado, como se estivesse a um mero metro de distância.

"Está? Tomás?"

"Olá, mãe."

"Onde estás, filho? Já chegaste?"

"Sim, cheguei esta tarde."

"Correu tudo bem?"

"Sim."

"Ah, graças a Deus! Sempre que viajas fico em sobressalto."

"Oh, mãe, que disparate! Voar de avião é, hoje em dia, uma coisa perfeitamente normal. Olhe, é como ir de autocarro ou de comboio, só que mais rápido e mais cômodo."

"Mesmo assim, fico sempre em cuidados. Além do mais, foste para um país árabe, não é? Aquilo são todos uns malucos, passam a vida a fazer explodir coisas e a matar gente, é horrível. Tu não vês as notícias?"

"Ena, onde é que isso já vai!", riu-se o filho. "Aquilo não é assim tão mau, que diabo! Eles são até muito simpáticos e educados."

"Pois. Até rebentarem a próxima bomba."

Tomás suspirou, impaciente.

"Está bem, está bem", disse, nada interessado em alimentar aquela conversa. "O que é fato é que correu tudo bem e já estou de volta."

"Ainda bem."

"O pai, como vai?"

A mãe hesitou do outro lado da linha.

"O teu pai... uh... vai andando."

"Muito bem", devolveu Tomás, sem notar a hesitação. "E a mãe? Ainda anda a passear pela Internet?"

"Mais ou menos."

"Não me diga que anda a ver sites pornográficos", gracejou o filho.

"Oh, lá estás tu com as tuas palermices", protestou a mãe. Pigarreou. "Olha, Tomás, eu e o pai vamos amanhã a Lisboa."

"Vêm cá amanhã?"

"Sim."

"Então temos de ir almoçar."

"Pois temos. Nós vamos logo pela manhãzinha, "assim devagar, pelo que devemos chegar aí lá pelas onze, meio-dia."

"Então venham ter comigo à Gulbenkian. À uma da tarde."

"Uma da tarde na Gulbenkian? Combinado."

“E o que vêm cá fazer?"

A mãe voltou a hesitar do outro lado da linha.

"Depois falamos, filho", disse, por fim. "Depois falamos.“

 

O edifício geométrico de betão, desenhado com linhas abstratas espraiadas na horizontal, assemelhava-se a uma estrutura intemporal, emergindo da verdura como uma construção megalítica, uma enorme anta de traços retos assente no topo de uma elevação relvada. Calcorreando a rampa empedrada, Tomás mirou o edifício com a mesma sensação de encantamento de sempre, parecia-lhe uma acrópole dos tempos modernos, um monumento geométrico, uma composição metafísica, uma gigantesca rocha integrada num bosque como se dele sempre tivesse feito parte.

A Fundação Gulbenkian.

Entrou no átrio com a pasta na mão e escalou as amplas escadarias. Grandes vidros rasgavam as paredes sólidas, fundindo o edifício com o jardim, a estrutura artificial com a paisagem natural, o betão com as plantas. Passou pelo foyer do grande auditório e, após um delicado toque na porta, acedeu ao gabinete.

"Olá, Albertina, tudo bem?"

A secretária arquivava uns documentos no armário. Voltou a cabeça e sorriu.

"Bom dia, professor. Já chegou?"

"Como vê, já."

"Correu tudo bem?"

"Maravilha. O engenheiro Vital está?"

"O senhor engenheiro está numa reunião com o pessoal do museu. Só volta à tarde."

Tomás ficou indeciso.

"Bem... tenho aqui o relatório da viagem ao Cairo. Não sei o que faça.

Se calhar é melhor voltar à tarde, não é?"

Albertina sentou-se na secretária.

"Deixe-o cá", sugeriu. "Quando o senhor engenheiro vier, eu entrego-Ihe. Se ele tiver algumas dúvidas entra depois em contato consigo, está bem?"

O historiador abriu a pasta e retirou umas folhas unidas por um agrafo no canto.

"Está certo", disse, entregando as folhas à secretária. "Aqui fica o relatório. Ele que me ligue, caso precise."

Tomás voltou-se para sair, mas Albertina travou-o.

"Ah, professor."

"Sim?”

"Ligou o Greg Sullivan, da embaixada americana. Pediu para lhe telefonar logo que possa."

O historiador regressou pelo mesmo caminho e foi para o seu gabinete, uma salinha no rés-do-chão habitualmente ocupada pelos consultores da fundação. Sentou-se na sua secretária e começou a trabalhar, preparando o esquema das aulas que lhe restavam no semestre.

A janela do gabinete abria-se para o jardim, onde as folhas e a relva ondulavam ao ritmo do vento, como num prado, as gotas da rega a resplandecer como jóias ao sol da manhã. Telefonou a um assistente e acertou os pormenores das aulas, comprometendo-se a deixar na faculdade os esquemas que agora ultimava. Depois, procurou na memória do telemóvel o número do adido cultural da embaixada americana e ligou-lhe.

"Sullivan here."

"Olá, Greg. Fala Tomás Noronha, da Gulbenkian."

"Hi, Tomás. Como está?"

O adido cultural americano falava português com um forte sotaque americano, muito nasalado.

"Tudo bem. E você?"

"Great. Então como foi o Cairo?"

"Normal. Acho que vamos fechar negócio para comprar a estela que fui inspecionar. A decisão cabe agora à administração, claro, mas o meu parecer é positivo e as condições parecem-me boas."

"Não sei o que vocês vêem de especial nessas velharias egípcias", riu-se o americano. "Parece-me que há coisas mais interessantes onde gastar o dinheiro."

"Você diz isso porque não é historiador."

"Talvez." Mudou de tom. "Tomás, eu pedi para você me ligar porque precisava que desse aqui um salto à embaixada."

"Ah, sim? O que se passa?"

"É um assunto que... enfim... não pode ser discutido ao telefone."

"Não me diga que já tem novidades daquela proposta que fizemos ao Getty Center. Será que eles, lá em Los Angeles, aprovaram..."

"Não, não é isso", atalhou Sullivan. "É uma coisa... diferente."

"Hmm", murmurou Tomás, esforçando-se por imaginar que assunto seria esse. Talvez uma qualquer novidade do Museu Hebraico, considerou. Desde que começara a aprender hebraico e aramaico que o adido cultural americano o desafiava frequentemente a ir a Nova Iorque para ver o museu. "Está bem. Quando é que precisa que eu vá aí?"

"Esta tarde.”

"Esta tarde? Eh pá, não sei se posso. Os meus pais vêm cá daqui a bocado e eu ainda tenho de passar pela faculdade."

"Tomás, tem de ser esta tarde."

"Mas por quê?"

"Chegou há pouco uma pessoa vinda da América. Voou para cá exclusivamente para falar consigo."

"Para falar comigo? Quem é?"

"Não lhe posso dizer ao telefone."

"Ah, vá lá."

"Não posso."

"É a Angelina Jolie?"

Sullivan riu-se.

"Gosh, você tem uma fixação na Angelina Jolie, não tem? É a segunda vez que me fala nela."

"É uma moça com uns atributos... uh... apreciáveis", comentou Tomás com um sorriso. "Mas se não é a Angelina Jolie, quem é?"

"Você vai ver."

"Ó Greg, eu tenho mais que fazer do que estar a aturar chatos, ouviu?

Diga lá quem é ou eu não ponho aí os pés."

O adido cultural hesitou do outro lado da linha.

"Okay, só lhe vou dar uma pista. Mas você tem de prometer vir cá às três da tarde."

"Quatro da tarde."

"Muito bem, quatro da tarde aqui na embaixada. Vem mesmo, não vem?"

"Fique descansado, Greg."

"Então está bem. Até logo."

"Espere", quase gritou Tomás. "Ainda não me deu a pista, caracas."

Sullivan soltou uma gargalhada.

"Damn! Estava com esperança de que você se esquecesse."

"Muito esperto, sim senhor. Então? Essa pista?"

"É confidencial, entendeu?"

"Sim, sim, está bem. Desembuche."

"Okay", assentiu o americano. Respirou fundo. "Então aqui vai a pista."

"Diga lá."

"Tomás, você já alguma vez ouviu falar da CIA?"

O historiador pensou ter ouvido mal.

"O quê?"

"Falamos às quatro. See you."

E desligou.

 

O relógio na parede assinalava o meio-dia e cinquenta quando alguém bateu à porta do gabinete. A maçaneta rodou e Tomás viu espreitar pela entrada um rosto familiar, era uma mulher de cabelos loiros encaracolados e grandes óculos sobre os olhos verdes cristalinos, os mesmos olhos que ele herdara.

"Posso?"

"Mãe", exclamou o historiador, erguendo-se. "Tudo bem?"

"Meu querido filhinho", disse ela, abraçando-o e beijando-o com fervor. "Como estás tu?"

Uma tosse cavada atrás dela revelou uma segunda figura.

"Olá, pai", cumprimentou Tomás, estendendo a mão com cerimônia.

"Então, rapaz? Como vai isso?"

Apertaram as mãos, algo desajeitados um diante do outro, como sempre acontecia quando se encontravam.

"Está tudo bem", disse Tomás.

"Quando é que arranjas uma mulher que trate de ti?", perguntou a mãe. "Já tens quarenta e dois anos e precisas de reconstituir a tua vida, filho."

"Ah, estou a pensar nisso."

"Tens de nos dar netinhos."

"Está bem, está bem."

"Não há hipóteses de tu e a Constança... enfim... vocês..."

"Não, não há", cortou Tomás. Olhou para o relógio, esforçando-se por mudar de conversa. "Vamos comer?"

A mãe hesitou.

"Uh... está bem, mas... mas é melhor, primeiro, conversarmos um pouco."

"Conversamos no restaurante." Esboçou um sinal com a cabeça. "Vamos. Eu já marquei a mesa e...”

"Temos de conversar aqui", interrompeu ela.

"Aqui?", estranhou o filho. "Mas por quê?"

“Porque precisamos de falar a sós, filho. Sem estranhos à volta."

Tomás fez uma expressão intrigada e fechou devagar a porta do gabinete. Puxou duas cadeiras, onde os pais se sentaram, e voltou para o seu lugar, por detrás da secretária.

"Então?", perguntou, olhando-os interrogativamente. "O que se passa?"

Os pais pareciam atrapalhados. A mãe olhou para o marido, indecisa, como se lhe pedisse para falar. Mas ele nada disse, o que a levou a tomar a iniciativa de o forçar.

"O teu pai tem uma coisa para te contar. "Voltou a olhar para o marido.

“Não é, Manel?"

O pai endireitou-se na cadeira e tossiu.

"Estou preocupado porque desapareceu um colega meu", disse, visivelmente pouco à vontade. "O Augusto..."

"Manel", cortou a mulher. "Não comeces a divagar."

"Não estou a divagar. O desaparecimento do Augusto deixou-me preocupado, o que queres?"

"Não viemos aqui para falar do Augusto."

Tomás olhou para um e para o outro.

"Quem é o Augusto?"

A mãe rolou os olhos, contrariada.

"É o professor Augusto Siza, um colega do teu pai lá na faculdade. Leciona física e desapareceu há duas semanas."

"Ah, sim?"

"Ó filho, esta história não interessa para nada. Nós viemos aqui por outro motivo." Mirou o marido. "Não é, Manel?"

Manuel Noronha baixou a cabeça e inspeccionou as unhas, já amareladas por tantos anos a dedilhar o tabaco. Sentado por detrás da sua secretária, Tomás analisou o pai. Mostrava-se quase careca, apenas resistiam à calvície uns cabelos brancos colados às orelhas e na nuca; as sobrancelhas, espessas e rebeldes, tornaram-se grisalhas e o rosto era chupado, talvez de mais, com os malares muito salientes, quase escondendo os pequenos olhos castanho-claros; e múltiplas rugas cortavam-lhe a face como cicatrizes. Vendo bem, o pai estava a ficar velho; velho e magro, com um corpo franzino e seco, quase lhe restavam só pele e ossos. TInha setenta anos e a idade começava a pesar-lhe, era incrível que ainda desse aulas de matemática na Universidade de Coimbra. Só a sua lucidez e brilhantismo o permitiam, mas teve ainda de obter uma autorização especial do reitor; caso contrário, há muito que estaria em casa a definhar.

"Manel", insistiu a mulher. ''Anda, vá lá. Olha que, se não contas tu, conto eu."

"Mas contar o quê?", perguntou Tomás, intrigado com todo aquele mistério.

"Eu conto", disse o pai.

O professor de matemática não era uma pessoa faladora. O filho habituou-se a vê-Io, ao longo dos anos, como uma figura distante, um homem silencioso, sempre de cigarro na mão, fechado no escritório do sótão, agarrado a um lápis ou a um giz, escondido da vida, uma espécie de eremita da abstração; o seu mundo eram as teorias de Cantor, a geometria de Euclides, os teoremas de Fermat e Gödel, os fractais de Mandelbrot, os sistemas de Lorenz, o império dos números. Vivia por entre uma nuvem de fumo de equações e tabaco, mergulhado num universo irreal, longe dos homens, em reclusão ascética, quase ignorando a família; era um escravo da nicotina e dos algarismos e das fórmulas e das funções e das teorias de conjunto e das probabilidades e da simetria e do pi e do fi e de tudo o que dizia respeito a tudo. A tudo.

Exceto à vida.

"Fui ao médico", anunciou Manuel Noronha, como se aquilo fosse tudo o que tinha a dizer.

Fez-se silêncio.

"Sim?", encorajou o filho.

O velho professor, percebendo que dele se esperava que continuasse a falar, remexeu-se na cadeira.

"Comecei a tossir há já algum tempo, faz dois ou três anos." Tossiu duas vezes, como que a exemplificar. "Primeiro achei que era constipação, depois alergia. O problema é que a tosse se agravou e eu fui perdendo o apetite. Emagreci e passei a sentir-me fraco. O Augusto tinha-me, nessa altura, pedido para confirmar umas equações e eu atribuí esse cansaço e esse emagrecimento ao excesso de trabalho." Pôs a mão no peito. "Depois comecei a assobiar enquanto respirava." Respirou fundo, deixando ouvir-se um sibilo que Ihe crescia do tórax. "A tua mãe mandou-me ir ao médico ver o que era, mas não liguei. Vieram-me então umas dores de cabeça muito fortes e umas dores nos ossos. Achei que era do trabalho, mas a tua mãe fartou-se de me zurzir os ouvidos e lá marcou consulta no doutor Gouveia."

"O teu pai parece um bicho-do-mato, sabes como ele é", observou a mãe. "Quase que tive de o arrastar até à clínica."

Tomás permaneceu calado. Não estava a gostar do rumo que a conversa tomava, antecipou-lhe a conclusão lógica e percebeu que o pai devia ter um problema de saúde.

"O doutor Gouveia mandou-me fazer uns exames", disse Manuel Noronha. "Tirei sangue e fiz umas radiografias. O médico viu os resultados e mandou-me efetuar também um TAC. Depois chamou-nos ao gabinete, a mim e à tua mãe, e revelou ter detectado umas manchas nos pulmões e um aumento dos gânglios linfáticos. Disse que era preciso fazer-me ainda uma biópsia, para examinar uma amostra ao microscópio e ver o que aquilo era. Marcaram-me uma broncoscopia, destinada a extrair-me um fragmento do tecido pulmonar."

"Puf!", desabafou a mãe, com o seu característico rolar de olhos. "A broncoscopia foi uma tourada."

"Então não havia de ser?", perguntou o pai, lançando-lhe um olhar ressentido. "Queria-te ver no meu lugar, hã? Havia de ser bonito." Mirou o filho, como se procurasse um aliado. "Eles meteram-me um tubinho pelo nariz e o tubinho desceu pela garganta até aos pulmões." Indicou com o dedo todo o trajeto da sonda. "Tive imensa dificuldade em respirar durante este exame, foi uma coisa horrível." .

"E o que revelou o exame?", quis saber Tomás, impaciente por chegar à conclusão da história.

"Bem, eles lá foram examinar a amostra extraída da mancha do meu pulmão e dos gânglios linfátlcos. Dias mais tarde, o doutor Gouveia voltou a chamar-nos para uma nova reunião. Depois de uma grande conversa, lá disse que eu tinha... uh..." Olhou para a mulher. "Ó Graça, tu é que decoras essas coisas. Como é que ele disse?"

"Nunca mais me esqueci", observou Graça Noronha. "Chamou-lhe uma proliferação descontrolada de células do revestimento epitelial da mucosa dos brônquios e alvéolos dos pulmões."

Tomás manteve os olhos cravados na mãe, depois voltou-os para o pai e de novo para a mãe.

"O que diabo quer isso dizer?"

Manuel Noronha suspirou, o sibilo ouvindo-se nitidamente a emergir-lhe do peito.

"Tenho um cancro, Tomás."

O filho ouviu-o e tentou processar a informação na sua mente, mas sentiu-se anestesiado, sem reação.

"Um cancro? Como assim, um cancro?"

"Tenho um cancro do pulmão." Voltou a respirar fundo. "Primeiro, não acreditei. Achei que alguém tinha trocado os exames, pondo o meu nome no exame de outra pessoa. Saí do consultório e fui procurar outro médico, o doutor Assis, que me fez novos testes e depois veio com uma grande conversa de que eu tinha um problema chato e precisava de ser tratado, mas não disse o que era." A mulher inclinou-se na cadeira.

"O doutor Assis telefonou-me depois e pediu para falar comigo", disse Graça. "Quando lá cheguei ele revelou-me o que o doutor Gouveia já me tinha dito. Disse que o teu pai tinha o... enfim, esta doença, mas não sabia se lhe havia de dizer."

O matemático fez um gesto de resignação.

"De modo que lá me convenci e voltei para o doutor Gouveia. Ele explicou-me que o meu problema se chama... uh, tem um nome esquisito, carcinoma-qualquer-coisa. Chamam-lhe cancro do pulmão sem pequenas células."

"A culpa é do tabaco", resmungou a mulher. "O doutor Gouveia disse que quase noventa por cento dos cancros do pulmão são causados pelos cigarros. Ora, o teu pai fumava que nem uma chaminé!" Ergueu o dedo, à laia de sermão. "Eu bem lhe disse várias vezes, ó Manel, tu vê lá se..."

"Mãe, espere um bocado", interrompeu Tomás, abalado com a notícia.

Olhou para o pai. "Isso tem tratamento, não tem?”

Quase em resposta, Manuel Noronha tossiu.

"O doutor Gouveia disse que há várias coisas que se fazem para combater esse problema. Há a cirurgia, para remover o carcinoma, e há ainda a quimioterapia e a radioterapia."

"E qual é que vai fazer?"

Fez-se um curto silêncio.

"No meu caso", disse o pai enfim, "há duas complicações que, segundo o doutor Gouveia, são muito comuns neste tipo de cancro."

"Que complicações?"

“O meu cancro foi detectado um pouco tarde. Parece que, no cancro do pulmão, isso acontece em setenta e cinco por cento dos casos. Diagnóstico tardio." Tossiu novamente. "A segunda complicação deriva da primeira. Como a doença demorou a ser identificada e está agora bastante avançada, ela espalhou-se por outras partes do corpo. São metástases. Apareceram-me metástases nos ossos e no cérebro, e o doutor Gouveia diz que é natural que venham a aparecer também no fígado."

Tomás sentiu-se paralisado, os olhos cravados no pai.

"Meu Deus", exclamou. "E qual o tratamento?"

"A cirurgia está fora de questão. Os tumores já alastraram, pelo que o meu caso é inoperável. A quimioterapia também não é opção, uma vez que ela só é eficaz no caso do cancro de células pequenas. Eu tenho o das células que não são pequenas, o qual, ao que parece, é até o tipo de cancro de pulmão mais frequente."

"Se não pode operar nem fazer quimioterapia, o que vai fazer?"

"Radioterapia."

"E isso vai curá-Io?"

"O doutor Gouveia diz que tenho boas hipóteses, que nesta idade a evolução da doença não é muito rápida e que eu tenho de lidar com isto como se fosse uma doença crônica."

"Ah."

"Mas eu estive a ler muita coisa e não sei se ele foi totalmente sincero comigo."

A mulher agitou-se no seu lugar, incomodada com esta observação.

"Que disparate!", protestou. "Claro que foi sincero!”

O matemático olhou para a mulher.

"Ó Graça, não vamos discutir outra vez, pois não?"

Graça olhou para o filho, como se buscasse um aliado.

"Já viste isto? Agora anda com a mania que vai morrer!"

"Não é isso", argumentou o marido. "Eu estive a ler umas coisas e percebi que o objetivo da radioterapia não é a cura, mas o mero retardar da evolução da doença."

"Retardar?", perguntou o filho. "Como assim, retardar?"

"Retardar. Tornar a evolução mais lenta."

"Quanto tempo?"

"Sei lá! No meu caso pode ser um mês, pode ser um ano, não faço ideia." Vidrou o olhar. "Espero que sejam vinte", disse. "Mas pode ser só um mês, não sei."

Tomás sentiu o mundo fugir-lhe por baixo dos pés.

"Um mês?"

"Ai Jesus, que mania!", protestou Graça. "Lá está o teu pai a dramatizar tudo..."

O velho professor de matemática teve um ataque de tosse. Recompôs-se com dificuldade, respirou fundo e fixou os úmidos olhos castanhos no verde vítreo do filho.

"Tomás, eu estou a morrer.”

 

A segurança à entrada do perímetro da embaixada dos Estados Unidos, um edifício encaixado num recanto verde de Sete Rios, parecia assumir proporções ridículas. Tomás Noronha passou por dois cordões de guardas e foi revistado duas vezes, tendo atravessado um complicadíssimo sistema de detecção de metais e metido o olho numa pequena máquina de tecnologia biométrica concebida para identificar suspeitos pelo reconhecimento da íris; até um espelho os seguranças colocaram por baixo do seu Volkswagen azul, na tentativa de localizarem qualquer eventual explosivo plantado no automóvel. Desde o 11 de Setembro que as medidas de proteção à entrada da embaixada tinham sofrido uma escalada, mas nada o preparara para isto; havia muito tempo que não visitava o local e jamais imaginara que o acesso ao perímetro diplomático se tivesse transformado em tal prova de múltiplos obstáculos.

O sorriso luminoso de Greg Sullivan acolheu-o à porta da embaixada. O adido cultural era um homem de trinta anos, alto, loiro e de olhos azuis, muito arranjadinho e aprumado, de gestos tranquilos e com um certo ar de mórmon. O americano conduziu-o pelos corredores da embaixada e introduziu-o numa sala luminosa, a larga janela aberta para um jardim solarengo. Um rapaz de camisa branca e gravata vermelha encontrava-se sentado na longa mesa da sala, a atenção mergulhada num lap-top aberto sobre o mogno, e ergueu-se quando Sullivan entrou com o seu convidado.

"Don", anunciou. "This is professor Tomás Noronha."

"Howdy!"

Cumprimentaram-se os dois.

"Este é Don Snyder", disse, sempre em inglês, apresentando o rapaz, cuja face muito pálida contrastava com o seu cabelo preto e liso.

Sentaram-se os três, com o adido cultural ainda a conduzir as operações como se fosse um rotinado mestre-de-cerimônias. Sullivan falava alto, mas tinha o olhar preso em Tomás, tornando evidente que as suas palavras se destinavam exclusivamente ao português.

 

"Esta conversa não está a ocorrer. Tudo o que aqui for dito é informação reservada e permanecerá entre nós." Inclinou a cabeça na direção do convidado. "Compreendido?"

"Sim."

Sullivan esfregou as mãos.

"Muito bem", exclamou. Virou-se para o rapaz engravatado de cabelo preto. "Don, se calhar é melhor começar."

"Okay", assentiu Don, puxando as mangas da camisa para cima. "Mister Norona, tal como..."

"Noronha", corrigiu Tomás.

"Norona?"

"Esqueça", riu-se o historiador, apercebendo-se de que o americano jamais conseguiria pronunciar corretamente o seu apelido. "Chame-me Tom."

"Ah, Tom!", repetiu o rapaz do cabelo preto, satisfeito por encontrar um nome mais familiar.

"Muito bem, Tom. Tal como o Greg disse, o meu nome é Don Snyder. O que ele não lhe revelou é que eu trabalho para a CIA em Langley, onde sou analista de contraterrorismo, integrado num gabinete pertencente ao Directorate of Operations, uma das quatro direções da agência."

"Operações, é? Assim como o... James Bond?"

Snyder e Sullivan riram-se.

"Sim, é no Directorate of Operations que trabalham os 007 americanos", assentiu Don. "Embora eu não seja propriamente um deles. O meu trabalho, receio bem, não tem tanta graça quanto as aventuras do meu parceiro fictício do MI6. Raramente tenho raparigas bonitas à minha volta e, na maior parte das vezes, as minhas tarefas não passam de coisas de rotina, sem graça nenhuma. O Directorate of Operations é uma direção cuja responsabilidade principal radica na recolha clandestina de informação, muitas vezes com recurso a HUMINT, ou seja, human intelligence, fontes humanas que utilizam técnicas encobertas."

"Espiões, quer você dizer."

"Essa palavra é um pouco... como hei-de dizer?... um pouco amadora. Preferimos chamar-lhes human intelligence, ou fontes humanas de recolha clandestina de informação." Pôs a mão no peito. "De qualquer modo, eu não sou uma dessas fontes. O meu trabalho resume-se à análise de informação sobre atividades terroristas." Ergueu uma sobrancelha. "E foi isso que me trouxe a Lisboa."

Tomás sorriu.

"Terrorismo? Em Lisboa? Ora aí estão duas palavras que não combinam. Não há terrorismo em Lisboa."

Sullivan interveio.

"Ó Tomás, não é bem assim", riu-se. "Você já conduziu nas ruas desta cidade?"

"Ah, pois", concordou o português. "Há por aí malta que, ao volante, é mais perigosa do que o Bin Laden, lá isso é verdade."

Desconcertado com as gargalhadas dos dois, Don Snyder esboçou um sorriso cortês.

"Deixe-me só concluir a minha apresentação", pediu.

"Desculpe", retorquiu Tomás. "Faça o favor."

O americano digitou teclas do seu lap-top.

"Fui chamado na semana passada a Lisboa por causa de um acontecimento aparentemente inconsequente." Voltou o ecrã do computador para Tomás, exibindo o rosto sorridente de um septuagenário de bigode e pêra grisalha, uns óculos muito graduados nos olhos escuros. "Conhece este homem?"

Tomás analisou o rosto e abanou a cabeça.

"Não."

"Chama-se Augusto Siza e é um famoso professor catedrático português, o maior físico do país."

Tomás abriu a boca, reconhecendo o nome.

"Ah", exclamou. "É o colega do meu pai."

"Colega do seu pai?", admirou-se Don.

"Sim. Não foi esse que desapareceu?"

 

"Foi. Há três semanas."

"Pois, o meu pai ainda hoje me falou nisso."

"O seu pai conhece-o?"

"Sim, são colegas na Universidade de Coimbra. O meu pai leciona matemática e o professor Siza tem uma cátedra de física na mesma faculdade."

"I see."

"Mas o que se passou com ele?"

"Bem, o professor Siza desapareceu sem deixar rasto. Um dia estavam os alunos na faculdade à espera que ele viesse para lhes dar uma aula e o professor não pôs lá os pés. No dia seguinte era aguardado numa reunião da Comissão Científica e voltou a não aparecer. Ligaram-lhe várias vezes para o telemóvel e nunca ninguém atendeu. Apesar de ser um homem de idade, é considerado uma pessoa enérgica e muito lúcida, o que lhe permitiu continuar a lecionar para lá da idade limite. Como é viúvo e vive sozinho, porque a filha já está casada, os seus colegas pensaram que ele se teria ausentado por algum motivo. Acabou por ser o colaborador do professor que, dirigindo-se a casa dele para uma reunião há muito aprazada, entrou na habitação e verificou que não estava lá ninguém. Mas encontrou o escritório dele muito desarrumado, com papéis espalhados pelo chão e pastas abertas por toda a parte, de modo que achou tudo muito estranho e chamou a polícia. Foi lá a vossa polícia de investigação, a... uh... Ju... Jucidária, e..."

"Judiciária."

"Esses tipos", exclamou Don, reconhecendo o nome. "Essa polícia recolheu algumas amostras, incluindo de cabelos, e levou-as para análise laboratorial. Quando vieram os resultados, os inspetores da polícia colocaram os dados no computador de cadastro, que tem ligações à Interpol." Digitou mais umas teclas do lap-top. "O resultado foi surpreendente." Um novo rosto apareceu no ecrã, era um homem moreno, de rosto cheio e barba rala negra. "Reconhece este indivíduo?"

Tomás estudou-lhe as linhas da cara, tinha um certo ar de árabe.

"Não."

"Chama-se Aziz al-Mutaqi e trabalha para uma unidade intitulada Al-Muqawama al-Islamiyya.

Já ouviu falar nela?"

"Uh... não."

"É a seção militar do Partido de Deus. Conhece o Partido de Deus?"

"Também não", confessou Tomás, sentindo-se um completo ignorante.

"Em árabe, Partido de Deus diz-se Hibz Allah. Soa-lhe familiar?"

O português encolheu-se na cadeira e abanou mais uma vez a cabeça, quase triste por não saber nada de nada.

"Não."

"Hibz Allah. Os libaneses, claro, têm um sotaque muito próprio, não é? Em vez de dizerem Hibz Allah, dizem Hezb'llah. A CNN diz Hezbollah."

"Ah! Hezbollahl", exclamou Tomás, aliviado. "Já ouvi, claro!"

"Nas notícias, presumo."

"Sim, nas notícias."

"E sabe o que é o Hezbollah?"

"Não são os tipos do Líbano que estiveram em guerra com Israel?

Don Snyder sorriu.

"Muito resumidamente, é isso, sim", concordou. "O Hezbollah é uma organização islâmica xiita que nasceu no Líbano em 1982, aglomerando vários grupos formados para resistir à ocupação israelita do Sul do país. Tem laços com o Hamas e a Jihad Islâmica, e houve até sugestões de ligações à Al-Qaeda." Abanou a cabeça e baixou o tom da voz, como se fizesse um aparte. "Confesso que não acredito nisso, sabe? A Al-Qaeda é uma organização sunita cuja ideologia vaabita exclui ostensivamente os xiitas. Os tipos do Bin Laden chegam ao ponto de considerar os xiitas infiéis, veja lá. Ora, isso inviabiliza qualquer aliança entre os dois, não lhe parece?" Dedilhou mais teclas do computador portátil, fazendo aparecer imagens de destruição no ecrã. "De qualquer modo, o Hezbollah esteve por detrás de vários sequestros de ocidentais e atentados no Ocidente, atos mais do que suficientes para levarem os Estados Unidos e a União Européia a declará-lo uma organização terrorista. O próprio Conselho de Segurança das Nações Unidas emitiu uma resolução, a resolução 1.559, a exigir a dissolução do braço armado do Hezbollah."

Tomás afagou o queixo.

"E o que tem o Hezbollah a ver com o professor Siza?"

O americano balançou afirmativamente a cabeça.

"Ora aí está a pergunta que os inspetores da Ju... uh... da vossa polícia fizeram", disse Don. "O que estavam os cabelos de um homem procurado pela Interpol por ligações ao Hezbollah a fazer no escritório do professor Siza, em Coimbra?"

A pergunta ficou a pairar na sala.

"Qual é a resposta?"

O americano encolheu os ombros.

"Não sei. O que sei é que a vossa polícia entrou imediatamente em contato com o serviço português de informações, o SIS, e estes falaram com o Greg, que fez um telefonema para Langley."

Tomás olhou para Greg Sullivan e, como se tivesse acabado de ser iluminado, apercebeu-se da verdade. O seu amigo Greg, o americano tranquilo que tantas vezes lhe telefonava para falar do Museu Hebraico e ajudar nas negociações com o Getty Center ou o Lincoln Center, estava tão interessado em cultura quanto ele, Tomás, se interessava por baseball ou pelos filmes de Arnold Schwarznegger. Ou seja, nada. Greg não era um homem de cultura; era um agente da CIA que operava em Lisboa sob a capa de adido cultural. Esta súbita tomada de consciência fê-lo olhar para o americano com outros olhos, mas fê-lo sobretudo perceber quão traiçoeiras são as aparências, quão fácil é enganar um ingênuo bem-intencionado como ele próprio.

Apercebendo-se de que fitava o "adido cultural" com ar embasbacado, o português estremeceu, como se acabasse de despertar, e voltou-se de novo para Don.

"O Greg falou consigo, é?"

"Não", negou Don. "O Greg falou com o meu subdiretor do Directorate of Operations. O meu subdiretor falou com o meu chefe, o responsável pelo gabinete de análise de contraterrorismo, e o meu chefe mandou-me vir aqui a Lisboa."

Tomás esboçou uma careta, intrigado.

"Muito bem", disse, balançando a cabeça como um professor a aprovar o trabalho de um aluno aplicado. "E agora diga-me uma coisa, Don. O que estou eu aqui a fazer?"

O americano de cabelos pretos sorriu.

"Não faço a mínima ideia. Fui instruído para lhe explicar os parâmetros da minha missão e foi isso o que acabei de fazer."

O português voltou-se para o "adido cultural".

"Greg, o que tenho eu a ver com isto?"

Sullivan consultou o relógio.

"Acho que não me cabe a mim responder", disse.

"Então cabe a quem?"

"Uh...", hesitou. "Ele deve estar a chegar."

"Ele, quem?"

"Já o vai conhecer."

 

O vulto emergiu de uma porta lateral, na sombra, e aproximou-se devagar da mesa de mogno. Tomás e os dois americanos quase se assustaram quando o viram aparecer do nada, como se fosse um espectro, uma figura fantasmagórica que inesperadamente se materializara na sala.

Era um homem alto e bem constituído, de olhar azul glacial, luminoso, tinha o cabelo grisalho cortado à militar e vestia um terno cinzento-escuro; aparentava uns setenta anos, mas permanecia corpulento, um rochedo tão vivido quanto aquelas rugas que lhe saíam dos cantos dos olhos, traços que lhe riscavam de idade o rosto duro e impenetrável. O desconhecido demorou-se na penumbra, sempre imóvel, sinistro até, os olhos azuis contraídos, como se analisasse a situação, como se estudasse Tomás. Deteve-se um instante mais, até puxar enfim a cadeira, inclinar-se para a frente e assumir o seu lugar na mesa de mogno, os olhos frios cintilantes cravados no português.

"Good afternoon, mister Bellamy", cumprimentou Sullivan com um tom de respeito que não passou despercebido a Tomás.

"Hello Greg", disse o homem, a voz baixa e rouca, sem desviar os olhos de Tomás. Todo o seu corpo transmitia poder. Poder e ameaça e agressão latente. "Não me vais apresentar o teu amigo?"

Sullivan obedeceu de pronto.

"Tomás, este é mister Bellamy."

"Como está?"

"Hello Tomás", cumprimentou o recém-chegado, pronunciando o nome de Tomás com um sotaque surpreendentemente correto. "Obrigado por ter vindo."

Sullivan inclinou-se sobre o ouvido do português.

"Foi mister Bellamy que chegou esta manhã a Lisboa", apressou-se a acrescentar, num sussurro respeitoso. "Ele veio de propósito de Langley para..."

"Obrigado, Greg", atalhou Bellamy. "O show é agora meu."

"Yes, mister Bellamy."

O americano do olhar sinistro permaneceu um longo momento com a cadeira puxada para trás, na penumbra da sala, sempre com a atenção presa em Tomás. Tinha uma respiração profunda, quase arfante naquele silêncio pesado; impunha uma presença que suscitava desconforto, temor até. O historiador sentiu gotas de suor brotarem-lhe do topo da testa e tentou sorrir, mas o recém-chegado manteve o rosto fechado, de uma frieza polar, cruel, os olhos contraídos a estudarem o português, a tirarem-lhe as medidas, a avaliarem o homem que tinha diante de si.

Ao fim de alguns minutos, que pareceram uma infinidade a todos os que se encontravam na sala, o desconhecido dos olhos azuis gelados puxou a cadeira para a frente, saindo da penumbra e submetendo-se à luz, apoiou os cotovelos sobre a mesa e revolveu os lábios finos.

"O meu nome é Frank Bellamy e sou o responsável por uma das quatro direções da CIA. Ali o Don é analista do Directorate of Operations. Eu sou o chefe do Directorate of Science and Technology. O nosso trabalho no DS&T é pesquisar, conceber e instalar tecnologias inovadoras de apoio às missões de recolha de informação. Temos satélites que são capazes de ver uma matrícula no Afeganistão como se estivéssemos a meio metro de distância. Temos sistemas de intercepção de mensagens que nos permitem, por exemplo, ler os e-mails que o senhor enviou esta manhã para o Museu Egípcio no Cairo ou verificar os sites pornográficos que ali o Don consultou ontem à noite no seu quarto de hotel." O rosto pálido de Don Snyder enrubesceu de vergonha, ao ponto de o jovem analista americano se ver forçado a baixar a cabeça. "Em suma, não há uma rã neste planeta que seja capaz de dar um peido sem que nós saibamos, se assim o quisermos." Deixou os seus olhos hipnóticos penetrarem em Tomás. "Percebeu o nosso poder?"

O português balançou afirmativamente a cabeça, impressionado com aquela apresentação.

"Sim."

Frank Bellamy recostou-se na sua cadeira.

"Good." Olhou pela janela para a relva fresca que resplandecia no jardim. "Quando a Segunda Guerra Mundial começou, eu era um jovem e promissor estudante de física na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. Quando ela terminou, eu estava a trabalhar em Los Alamos, uma terríola perdida no topo de uma colina árida do Novo México." Bellamy falava devagar, pronunciando muito bem as palavras e respeitando pausas compridas. "O nome Projecto Manhattan diz-lhe alguma coisa?"

"Não foi aí que fizeram a primeira bomba atômica?"

Os lábios finos do americano reviraram-se no que de mais parecido com um sorriso ele era capaz de esboçar.

"Você é um fucking gênio", exclamou, com uma ponta de sarcasmo. Ergueu três dedos.

"Fizemos três bombas em 1945. A primeira foi um engenho experimental que explodiu em Alamogordo. Seguiram-se Little Boy, lançada sobre Hiroxima, e Fat Man, atirada sobre Nagasáqui." Abriu as mãos. "Bang, a guerra acabou." Congelou um instante, como que a reviver acontecimentos passados. "Um ano depois, o Projeto Manhattan foi dissolvido. Muitos cientistas continuaram a trabalhar em projetos secretos, mas eu não. Vi-me, de repente, sem emprego. Até que um cientista meu amigo me chamou a atenção para o National Security Act, assinado em 1947 pelo presidente Truman a criar uma agência de informações. A anterior agência, a OSS, tinha sido extinta no final da guerra, mas os receios da expansão do comunismo e as atividades do KGB levaram a América a tomar consciência de que não podia permanecer de braços cruzados. A nova agência chamava-se CIA e eu fui recrutado para a área científica." Voltou a curvar os lábios finos, no que parecia ser uma tentativa de sorriso. "O senhor tem diante de si, portanto, um dos fundadores da agência." O rosto readquiriu o semblante frio anterior. "Poderá agora parecer que a área da ciência seria das menores preocupações da CIA naquela época, mas era exatamente o contrário. A América vivia com o pavor de que a União Soviética desenvolvesse armas atômicas e a CIA empenhou-se nessa questão de três formas." De novo os três dedos. "Em primeiro lugar, vigiando os soviéticos. Em segundo lugar, recrutando cérebros estrangeiros, incluindo nazis. E, em terceiro lugar, vigiando os nossos próprios cientistas. Apesar dos nossos esforços, porém, a União Soviética fez explodir a sua primeira bomba atômica em 1949, criando um clima de paranóia entre nós. Começou a caça às bruxas, devido à suspeita de que tinham sido os nossos cientistas a passar o segredo para Moscovo." Pela primeira vez, Bellamy desviou os olhos de Tomás e voltou-se para Sullivan. "Greg, arranja-me um café?"

O "adido cultural" ergueu-se de um salto, parecia um soldado que acabara de escutar a ordem do general.

"Right away, mister Bellamy", disse, saindo da sala.

O olhar azul de Frank Bellamy regressou a Tomás.

"Na Primavera de 1951, o então primeiro-ministro de Israel, David Ben Gurion, veio à América recolher fundos para a sua jovem nação, nascida apenas três anos antes. Como sempre acontece nestes casos, estudamos o programa da visita e houve uma coisa que despertou a nossa atenção. Ben Gurion tinha marcado um encontro com Albert Einstein em Princeton. O meu chefe achou que deveríamos vigiar esse encontro e mandou-me, a mim e a um operacional encarregado de sistemas de gravação áudio, montar a escuta da conversa entre os dois." Consultou um pequeno bloco de notas depositado diante de si. "O encontro ocorreu no dia 15 de Maio de 1951, na casa de Einstein, em 112 Mercer Street, Princeton. Tal como o meu chefe previra, Ben Gurion pediu-lhe de facto que concebesse uma bomba atómica para Israel. Ele queria uma bomba de fabrico fácil, tão fácil que um país com escassos recursos fosse capaz de a desenvolver rapidamente e às escondidas."

"E Einstein?", perguntou Tomás, atrevendo-se pela primeira vez a interromper o seu intimidante interlocutor. "Aceitou essa encomenda?"

"O nosso geniozinho resistiu pouco." Voltou a consultar as notas. "Sabemos que começou a trabalhar no pedido de Ben Gurion logo no mês seguinte e ainda o fazia em 1954, um ano antes de morrer." Levantou os olhos do bloco. "Professor Noronha, sabe qual é a energia libertada por uma bomba atômica?"

"A energia nuclear?"

"Sim. Sabe que energia é essa?"

"Suponho que tenha a ver com os átomos, não é?"

"Tudo no universo tem a ver com os átomos, caro professor", declarou Bellamy de modo seco. “Eu pergunto-lhe se tem a noção do que é esta energia?"

Tomás quase se riu.

"Não faço a mínima idéia."

Greg Sullivan regressou à sala com uma bandeja e depositou quatro pequenas chávenas fumegantes na mesa, juntamente com um pratinho repleto de sacos de açúcar. O homem da CIA pegou na sua chávena e, sem adoçar o café, bebeu um trago.

"O universo é constituído por partículas fundamentais", disse, após pousar a chávena. "Pensava-se inicialmente que essas partículas eram os átomos, de tal modo que lhes chamaram átomos. Átomo é a palavra grega que significa indivisível. Só que, com o tempo, os físicos foram-se apercebendo de que era possível dividir o indivisível." Aproximou o polegar do indicador, expressando algo minúsculo. "Descobriu-se que havia partículas ainda mais pequenas, designadamente o protão e o neutrão, que se juntam no núcleo do átomo, e o electrão, que o orbita como se fosse um planeta, só que incrivelmente veloz." Imitou com o indicador o gesto do electrão a circular em torno da chávena pousada na mesa. "Imagine que éramos capazes de encolher Lisboa até às dimensões de um átomo. Se o fizéssemos, um núcleo ficaria do tamanho de, por exemplo, uma das vossas bolas de futebol, colocada no centro da cidade. Nesse caso, um electrão seria um berlinde espalhado por um raio de trinta quilómetros em torno desse centro, capaz de dar quarenta mil voltas em torno da bola de futebol em apenas um segundo."

"Puxa."

"Isto é só para que tenha a noção de quão vazio e pequeno é um átomo."

Tomás deu três toques na mesa.

"Então se os átomos são assim tão vazios", disse o português, "por que razão, quando eu toco nesta mesa, a minha mão bate nela e não a atravessa?"

"Bem, isso deve-se às forças elétricas de repulsão entre os electrões e a uma coisa que chamamos o Princípio de Exclusão de Pauli, que prevê que dois átomos não podem ocupar o mesmo estado."

"Ah."

"O que nos leva à questão das forças existentes no universo." Bellamy voltou a erguer os dedos, mas desta vez foram quatro. "Todas as partículas interagem entre si através de quatro forças. Quatro. A força da gravidade, a força eletromagnética, a força forte e a força fraca. A força da gravidade, por exemplo, é a mais fraca de todas, mas o seu raio de ação é infinito." Repetiu o gesto da circulação orbital à volta da chávena. "Aqui na Terra sentimos a atracção da força de gravidade do Sol e até do centro da galáxia, em torno da qual giramos. Depois há a força eletromagnética, que é a junção da força elétrica com a força magnética. O que se passa é que a força elétrica faz com que cargas opostas se atraiam e cargas semelhantes se afastem." Bateu com o dedo na mesa. "E é aqui que está o problema. Os físicos aperceberam-se de que os protões têm carga positiva. Mas a força elétrica determina que cargas semelhantes se repelem, não é? Ora, se os protões têm cargas semelhantes, pois são todos positivos, obrigatoriamente têm de se repelir. Foram feitas as contas e descobriu-se que, se se ampliassem os protões para o tamanho de uma bola de futebol, mesmo que se cobrissem os protões com a mais forte liga metálica que se conhece, a força elétrica repulsiva entre eles era tão forte que essa liga metálica seria destruída como se fosse papel higiênico." Ergueu o sobrolho. "E para que veja quão forte é a força elétrica que repele os protões uns dos outros." Fechou o punho. "E, no entanto, apesar de toda esta força repulsiva, os protões mantêm-se unidos no núcleo. Porquê? Que força existe que é ainda mais forte do que a poderosa força elétrica?" Fez uma pausa dramática. "Os físicos puseram-se a estudar o problema e descobriram que existia uma força desconhecida. Chamaram-lhe força nuclear forte. É uma força tão grande, tão grande, que é capaz de manter os protões unidos no núcleo." Cerrou o punho com força, como se a mão fosse a energia que mantinha o núcleo coeso. "Na verdade, a força forte é cerca de cem vezes mais forte do que a força eletromagnética. Se os protões fossem dois comboios a afastarem-se um do outro a alta velocidade, a força forte seria suficientemente forte para os manter juntos, para os impedir de se afastarem. É isso a força forte." Ergueu um dedo, como quem faz um aviso. "Mas, apesar de toda a sua tremenda força, a força forte tem um raio de ação muito curto, menos que o tamanho de um núcleo atômico. Se um protão conseguir sair do núcleo, então deixa de estar sob a influência da força forte e submete-se apenas à influência das restantes forças. Entendeu isto?"

"Sim."

"Good boy." Bellamy considerou por momentos o modo como explicaria o passo seguinte. Voltou a cabeça para a janela e observou o Sol prestes a esconder-se para lá dos edifícios recortados no horizonte. "Repare no Sol. Por que razão ele brilha e irradia calor?"

"São explosões nucleares, não é?"

"Parecem, claro. Na verdade não são explosões, mas movimentos de um plasma cuja origem última se encontra em reações nucleares que ocorrem no núcleo. Sabe o que quer dizer reações nucleares?"

Tomás encolheu os ombros.

"Uh... sinceramente, não sei."

"Os físicos estudaram o problema e descobriram que, sob determinadas condições, era possível libertar a energia da força forte que se encontra no núcleo dos átomos. Consegue-se isso através de dois processos, a cisão e a fusão do núcleo. Ao partir-se um núcleo ou ao fundirem-se dois núcleos, a tremenda energia da força forte que une o núcleo é libertada. Devido à ação dos neutrões, os outros núcleos próximos vão também sendo quebrados, soltando ainda mais energia da força forte e provocando assim uma reação em cadeia. Ora, você já viu quão brutalmente forte é esta força forte, não viu? Agora imagine o que acontece quando a sua energia é libertada em grande quantidade."

"Há uma explosão?"

"Há uma libertação da energia dos núcleos dos átomos, onde está a força forte. Chamamos-lhe, por isso, uma reacção nuclear."

Tomás abriu a boca.

"Ah!", exclamou. "Já entendi."

O americano voltou a contemplar a esfera alaranjada que se deitava sobre os telhados cor de tijolo de Lisboa.

"É isso o que se passa no Sol. A fusão nuclear. Os núcleos dos átomos vão sendo fundidos, libertando-se assim a energia da força forte." Os olhos azuis regressaram aos verdes de Tomás. "Sempre se pensou que isto era algo só produzível pela natureza. Mas em 1934 houve um cientista italiano com quem trabalhei em Los Alamos, chamado Enrico Fermi, que bombardeou urânio com neutrões. A análise dessa experiência permitiu descobrir que o bombardeamento produziu elementos mais leves do que o urânio. Mas como era isso possível? A conclusão foi a de que o bombardeamento quebrara o núcleo do urânio, ou, por outras palavras, provocara a sua cisão, permitindo assim a formação de outros elementos. Percebeu-se deste modo que era possível libertar artificialmente a energia da força forte, não através da fusão dos núcleos, como acontece no Sol, mas através da sua cisão."

"E é isso a bomba atômica."

"Nem mais. No fundo, a bomba atômica consiste na libertação em cadeia da energia da força forte através da cisão do núcleo dos átomos. Em Hiroxima foi usado o urânio para obter esse efeito, em Nagasáqui recorremos ao plutônio. Só mais tarde a bomba de hidrogênio pôs fim ao recurso à cisão dos núcleos, passando antes a usar a fusão dos núcleos, como acontece no interior do Sol."

Frank Bellamy calou-se, recostou-se de novo na cadeira e engoliu todo o café que lhe restava na

chávena. Depois cruzou os dedos das mãos e descontraiu. Parecia ter terminado a sua exposição, o que deixou Tomás algo confuso. O silêncio prolongou-se por uns trinta segundos, tornando-se primeiro desconfortável, depois verdadeiramente insustentável.

"Foi para me contar isso que veio a Lisboa falar comigo?", perguntou o historiador por fim, desconcertado.

"Sim", assentiu o americano glacial, a voz rouca sempre pausada. "Mas isto é apenas uma introdução. Como chefe do Directorate of Science and Technology da CIA, uma das minhas preocupações é vigiar a não-proliferação de tecnologia nuclear. Há vários países do Terceiro Mundo que estão a desenvolver esta tecnologia e, em alguns casos, isso deixa-nos francamente preocupados. O Iraque de Saddam Hussein, por exemplo, tentou fazê-lo, mas os israelitas arrasaram as suas instalações. Neste momento, no entanto, a nossa atenção está voltada para outro país." Retirou um pequeno mapa do bloco de notas e assinalou um ponto. "Este aqui."

Tomás inclinou-se sobre a mesa e observou o ponto assinalado.

"O Irã?"

O homem da CIA assentiu com a cabeça.

"O projeto nuclear iraniano começou no tempo do Xá, quando Teerã tentou instalar um reator nuclear em Bushehr, com a assistência de cientistas alemães. A Revolução Islâmica, em 1979, levou os alemães a suspenderem o projecto, e os ayatollahs, depois de um período em que se opuseram a toda e qualquer modernização do país, decidiram recorrer à ajuda russa para terminar a construção do reator. Só que, entretanto, a Rússia aproximou-se dos Estados Unidos e foi possível convencer os russos a suspenderem o fornecimento de lasers que poderiam ser usados para enriquecer o urânio do seu estado natural para o estado de uso militar. Também a China foi persuadida a suspender a cooperação neste domínio e as coisas pareciam controladas. Mas, no final de 2002, esta ilusão desfez-se. Verificou-se nessa altura que, bem pelo contrário, a situação estava, na realidade, descontrolada." Analisou de novo o mapa. "Descobrimos duas coisas muito perturbadoras." Pôs o dedo num ponto do mapa a sul de Teerã. "A primeira foi que os iranianos construíram aqui em Natanz, em segredo, instalações destinadas a enriquecer urânio com recurso a centrifugadoras de alta velocidade. Se forem ampliadas, estas instalações poderão produzir urânio enriquecido em quantidades suficientes para fabricar uma bomba atómica do estilo de Hiroxima." O dedo deslizou para outro ponto do mapa, mais a oeste. "A segunda descoberta foi a da construção de instalações aqui em Arak para a produção de água pesada, uma água com deutério usada nos reatores concebidos para criarem plutônio, o material da bomba de Nagasáqui. Ora, a água pesada não é necessária nas instalações nucleares que os russos estão a construir para os iranianos em Bushehr. Se não é necessária para aí, é necessária para quê? Estas instalações de Arak sugerem que existem outras instalações não declaradas, o que consideramos muito inquietante."

"Mas não poderão vocês estar a fazer uma tempestade num copo de água?", perguntou Tomás. "Neste caso, seria um copo de água pesada, claro." Sorriu com o trocadilho. "Afinal de contas, pode ser tudo para uso pacífico da energia nuclear..."

Frank Bellamy olhou-o com desagrado, olhou-o como alguém olha para um idiota.

"Uso pacífico?" Os olhos azuis quase cintilaram, pareciam lâminas frias. "O uso pacífico da energia atômica, caro professor, resume-se à construção de centrais para produção de eletricidade. Ora, o Irã é o maior produtor mundial de gás natural e o quarto maior produtor mundial de petróleo. Por que motivo precisam os iranianos de produzir eletricidade por meios nucleares se o podem fazer de modo muito mais barato e rápido com recurso às suas enormes reservas de gás natural ou de combustíveis fósseis? E, já agora, por que razão andam os iranianos a construir centrais nucleares às escondidas? Para que precisam eles de produzir água pesada, uma substância só necessária para a criação de plutônio?" Fez uma pausa, deixando as perguntas pairarem no ar. "Meu caro professor, não sejamos ingênuos. O programa nuclear pacífico do Irã não passa de uma fachada, uma capa que esconde a construção de instalações destinadas a apoiar o verdadeiro objetivo de todo este exercício: o programa iraniano de armamento nuclear." Manteve os olhos presos em Tomás. "Percebeu?"

Tomás parecia um aluno bem-comportado, quase aterrorizado diante de um professor maldisposto.

"Sim, sim, percebi."

"A questão é descobrir onde foi o Irã buscar a tecnologia que lhe permitiu chegar já tão longe?" Ergueu dois dedos. "Há duas hipóteses. A primeira é a Coréia do Norte, que obteve do Paquistão informações sobre como enriquecer urânio através de centrifugadoras. Sabemos que a Coréia do Norte vendeu mísseis No-Dong ao Irã e é possível que, no mesmo pacote, tenha vendido a tecnologia nuclear de origem paquistanesa. A segunda hipótese é a do Paquistão ter feito diretamente essa venda. Apesar de se tratar de um país supostamente pró-americano, muitos governantes e militares paquistaneses partilham com os iranianos uma visão islâmica fundamentalista do mundo e não é difícil imaginar que lhes tenham dado uma ajudinha às escondidas."

Tomás consultou discretamente o relógio. Eram seis e dez. Já ali se encontrava havia mais de duas horas e começava a sentir-se cansado.

"Desculpe, mas já se vai fazendo tarde", disse, meio a medo. "Pode-me explicar o motivo pelo qual precisa de mim?"

O homem da CIA tamborilou os dedos no mogno polido da mesa.

"Claro que posso", disse, muito baixinho. Olhou para Don Snyder. Durante toda a exposição, o analista permaneceu sempre muito calado, quase invisível. "Don, já falaste aqui ao nosso amigo sobre o Aziz al-Mutaqi?"

"Yes, mister Bellamy."

Sempre o mesmo tom deferente.

"Já lhe explicaste que o Aziz é um operacional da Al-Muqawama al-Islamiyya?"

“Yes, mister Bellamy."

"E explicaste-lhe que a Al-Muqawama al-Islamiyya é o braço armado do Hezbollah?"

"Yes, mister Bellamy."

"E explicaste-lhe quem é o principal financiador do Hezbollah?"

"No, mister Bellamy."

Um leve cintilar perpassou-lhe no olhar azul.

"Ah!", exclamou. "Não lhe explicaste isso."

"No, mister Bellamy."

O homem da expressão glacial voltou a sua atenção para Tomás.

"O senhor não sabe ainda quem financia o Hezbollah?"

"Eu?", perguntou o português. "Não."

"Diz-lhe, Don."

"É o Irã, mister Bellamy."

Tomás considerou, por momentos, esta nova informação e as respectivas repercussões.

"O Irã, é?", repetiu o português. "E isso significa o quê?"

Bellamy voltou a dirigir-se a Snyder, mas sempre sem tirar os olhos do historiador.

"Don, falaste-lhe no professor Siza?"

"Yes, mister Bellamy."

"Disseste-lhe onde esteve o professor Siza a estudar quando era novo?"

"No, mister Bellamy."

"Então diz-lhe."

"Esteve a estagiar no Institute for Advanced Study, mister Bellamy."

Bellamy dirigiu-se agora a Tomás.

"Percebeu?"

"Uh... não."

"Don, onde se localizava o instituto onde o professor Siza estagiou?"

"Princeton, mister Bellamy."

"E qual o maior cientista que lá trabalhava?"

"Albert Einstein, mister Bellamy."

O homem da CIA ergueu o sobrolho na direção de Tomás.

"Percebeu agora?"

O português passou a mão pelo queixo, avaliando as implicações de todos estes novos dados.

"Estou a ver", disse. "Mas o que significa isso tudo?"

Frank Bellamy respirou pesadamente.

"Significa que há aqui um conjunto de fucking boas perguntas para fazer." Ergueu o polegar esquerdo. "Primeira pergunta, o que estão os cabelos do Aziz al-Mutaqi a fazer no escritório da casa do maior físico existente em Portugal?" Levantou o indicador. "Segunda pergunta, onde está o professor Siza, que estagiou em Princeton no mesmo instituto onde trabalhava Einstein?" Agora o dedo do meio. "Terceira pergunta, por que motivo uma organização como o Hezbollah precisa de raptar este físico em particular?" O dedo seguinte. "Quarta pergunta, o que sabe o professor Siza sobre a encomenda feita por Ben Gurion a Einstein para conceber uma arma nuclear de fabrico simples e barato?" O dedo mindinho. "Quinta pergunta, será que o Irã está a usar o Hezbollah para encontrar uma nova forma de desenvolver armas nucleares?"

Tomás remexeu-se no seu assento.

"Suspeito que o senhor já tem respostas para todas essas perguntas."

"Você é um fucking gênio", devolveu Bellamy, sem mexer um músculo do rosto.

O português ficou a aguardar o ato seguinte, mas nada aconteceu. Frank Bellamy permaneceu de olhos espetados em si, sem emitir qualquer palavra, apenas deixando ouvir a respiração arfada. Greg Sullivan tinha a atenção colada à madeira da mesa, fingindo-se absorvido com algo de importante que ali decorria; e Don Snyder aguardava ordens, o lap-top ainda aberto.

"Bem... se já tem as respostas", gaguejou Tomás, "uh... quaisquer que elas sejam, o que... uh... o que espera de mim?"

O homem do olhar gelado demorou a responder.

"Mostra-lhe a miúda, Don", acabou por murmurar.

Snyder dedilhou apressadamente o teclado do computador.

"Está aqui, mister Bellamy", disse, voltando o ecrã para o outro lado da mesa.

"Reconhece esta senhora?", perguntou Bellamy a Tomás.

O historiador espreitou o ecrã e viu a bela mulher dos cabelos negros e olhos castanho-amarelados.

"Ariana", exclamou. Mirou Bellamy. "Não me diga que ela está metida nisto..."

O homem do olhar azul virou-se para o rapaz do lap-top.

"Don, explica aqui ao nosso amigo quem é essa senhora."

Snyder consultou a ficha colocada ao lado da imagem no ecrã.

"Ariana Pakravan, nascida em 1966 em Isfahan, Irã, filha de Sanjar Pakravan, um dos cientistas iranianos originalmente envolvidos no projeto de Bushehr. Ariana estava em Paris a estudar num colégio quando eclodiu a Revolução Islâmica. Doutorou-se em física nuclear na Sorbonne e casou com o químico francês, Jean-Marc Ducasse, de quem se divorciou em 1992. Não tem filhos. Regressou ao seu país em 1995 e foi colocada no Ministério da Ciência diretamente sob as ordens do ministro Bozorgmehr Shafaq."

"Exatamente o que ela me disse", apressou-se Tomás a adiantar, feliz por não ter sido enganado.

Frank Bellamy pestanejou.

"Ela contou-lhe tudo isso?"

O historiador riu-se.

"Não, claro que não. Mas o pouco que me contou bate certo com esse... enfim... com esse currículo."

"Ela contou-lhe que trabalha no Ministério da Ciência?"

"Sim, contou."

"E contou-lhe que é uma deusa na cama?"

Foi a vez de Tomás pestanejar.

"Perdão?"

"Ela contou-lhe que é uma deusa na cama?"

"Uh... receio que a conversa não tenha chegado a esse ponto", gaguejou, atrapalhado. Hesitou. "E é?"

Bellamy manteve o rosto imóvel durante alguns segundos, mas um ligeiro movimento no canto dos lábios traiu o que parecia ser o princípio de um sorriso.

"O ex-marido disse-nos que sim."

Tomás riu-se.

"Afinal, ela não me contou tudo."

O homem da CIA não devolveu a gargalhada. Comprimiu os lábios e estreitou os olhos frios.

"O que lhe queria ela?"

"Oh, nada de especial. Contratou-me para a ajudar a decifrar um documento antigo."

"Um documento antigo? Que documento antigo?"

"Um inédito de... uh... Einstein."

Logo no instante em que pronunciou o nome do célebre cientista, Tomás arregalou os olhos. Que coincidência, pensou. Um documento de Einstein. Mas, cogitou de imediato, seria mesmo coincidência? Que ligação teria isso com o resto?

"E você aceitou?"

"Hã?"

"E você aceitou?"

"Aceitei o quê?"

Bellamy fez um estalido impaciente com a língua.

"Aceitou decifrar o documento?"

"Uh... sim, sim. Eles pagam bem."

"Pagam quanto?"

"Cem mil euros por mês."

"Isso é uma merda."

"É mais do que eu ganho num ano a trabalhar na faculdade."

"Nós damos-lhe esse dinheiro e você trabalha para nós."

Tomás olhou-o, confuso.

"Trabalho para quem?"

"Para nós. A CIA."

"Para fazer o quê?"

"Para ir a Teerã ver esse documento."

"Só isso?"

"E mais umas coisinhas que depois lhe explicaremos."

"Que coisinhas?"

"Depois lhe explicaremos."

O português sorriu e abanou a cabeça.

"Não, isso não funciona assim", disse. "Eu não sou o James Bond, sou um historiador perito em criptanálise e línguas antigas. Não vou fazer coisas para a CIA."

"Vai, sim."

"Não, não vou."

Frank Bellamy debruçou-se sobre a mesa, os olhos cruéis cravados em Tomás como adagas, os lábios contorcendo-se de fúria congelada, a voz rouca carregada de entoações ameaçadoras, de insinuações sinistras.

"Meu caro professor Tomás Noronha, deixe-me pôr as coisas deste modo", rosnou baixinho. "Se não aceitar a proposta que lhe estou a fazer, o senhor vai ter a vida muito dificultada." Ergueu uma sobrancelha. "Aliás, arrisca-se mesmo a não ter vida, se é que me faço entender." Os cantos da boca dobraram-se no seu habitual esboço de sorriso. "Mas, se aceitar, irão acontecer quatro coisas. A primeira é que vai ganhar os seus míseros duzentos mil euros por mês, cem mil pagos por nós e os outros cem mil pelos iranianos. A segunda é que talvez ajude a encontrar o pobre desgraçado do professor Siza, coitado, cuja filha anda muito chorosa porque não sabe por onde pára o paizinho querido. A terceira é que talvez consiga salvar o mundo do pesadelo das armas nucleares nas mãos dos terroristas. E a quarta, possivelmente a mais importante para si, é que, sim, haverá um futuro na sua vida." Voltou a recostar-se na cadeira. "Entendeu?"

O historiador devolveu-lhe o olhar. Sentia-se furioso por ter sido assim ameaçado e mais furioso ainda porque não tinha escapatória, aquele homem diante de si dispunha de imenso poder e vontade suficiente para o usar como lhe conviesse.

"Entendeu?", perguntou Bellamy novamente.

Tomás acenou devagar com a cabeça.

"Sim."

"Você é um fucking gênio."

"Fuck you", devolveu o português de imediato.

O americano riu-se pela primeira vez. O corpo contraiu-se-lhe com as gargalhadas, parecia soluçar, e só se acalmou um minuto depois, quando o riso se transformou numa tosse persistente. Controlou a tosse e, após uma pausa para retomar a respiração normal, já com o rosto regressado ao seu semblante habitual, embora a face se mantivesse congestionada, mirou Tomás.

"Você tem big balls, professor. Gosto disso." Fez um gesto com a mão na direção de Sullivan e Snyder, que tudo observavam num silêncio sepulcral. "Não há muita gente que se vire para mim e me diga fuck you. Nem o presidente." Apontou o dedo a Tomás e rugiu, subitamente ameaçador. "Não se atreva a voltar a fazê-lo, ouviu?"

"Hmm."

"Ouviu?"

"Sim, já percebi."

O americano coçou a testa.

"Muito bem", suspirou, sempre muito controlado. "Há pouco não acabei de lhe contar a história da encomenda feita por Ben Gurion a Einstein. Quer ouvir o resto?"

"Se faz questão nisso..."

"Einstein começou a conceber a nova bomba atômica no mês seguinte ao encontro com Ben Gurion. Mantenha presente que a idéia era desenhar uma bomba que Israel pudesse depois fabricar rapidamente, com meios escassos e às escondidas. Sabemos hoje que Einstein trabalhou neste projeto durante pelo menos três anos, até 1954, e é possível que ainda trabalhasse no documento em 1955, quando morreu. Sabe-se pouco sobre o que o nosso geniozinho fez. Um cientista que com ele trabalhou, e que nos dava informações regulares, revelou que Einstein lhe dissera ter em mãos a fórmula da maior explosão jamais vista, uma coisa tão grande que, segundo o nosso informador, Einstein se mostrava... uh... siderado com o que tinha descoberto." Adotou o ar de quem faz um esforço de memória, como se tivesse sido assaltado por uma dúvida. "Sim, é isso", disse enfim. "Siderado. Essa foi a expressão que o nosso informador usou. Siderado."

"E não sabem onde pára esse documento?"

"O documento desapareceu e Einstein levou o segredo para a cova. Mas é possível que ele o tenha confiado a alguém. Diz-se que Einstein se tornou amigo de um jovem físico que foi estagiar para o Institute for Advanced Study e que foi com esse jovem físico que..."

"O professor Siza!"

"Você é um fucking gênio, não há dúvida", confirmou Bellamy. "O professor Siza, nem mais. O mesmo que desapareceu há três semanas. O mesmo que tem um apartamento onde foram encontrados cabelos de Aziz al-Mutaqi, o perigoso operacional do Hezbollah. O mesmo Hezbollah que é o movimento terrorista financiado pelo Irã. O mesmo Irã que está a tentar por todos os meios desenvolver armas nucleares às escondidas."

"Meu Deus."

"Está a entender agora por que motivo queríamos tanto conversar consigo?"

"Sim."

 

"Falta dizer-lhe uma coisa que nos foi revelada pelo nosso informador,"

"Qual informador?"

"O amigo de Einstein, o homem a quem o nosso geniozinho falou sobre o projeto que Ben Gurion lhe encomendou."

"Ah, sim."

"O nosso informador disse-nos que Einstein tinha até um nome de código para o seu projeto."

Tomás sentiu o coração disparar.

"Que nome?"

Frank Bellamy respirou fundo.

"Die Gottesformel. A fórmula de Deus."

 

O casario pitoresco, de paredes brancas e telhados cor de tijolo, amontoava-se do outro lado do Mondego, erguendo-se por entre as copas dos plátanos, abraçado por uma muralha velha. Os largos e altivos edifícios da universidade coroavam a cidade, a bela torre sineira elevando-se acima de tudo, parecia um farol cravado no topo de um promontório, o ponto de referência para onde todos se voltavam.

O sol mimava Coimbra.

O carro passou pelo Parque do Choupalinho, o plácido lençol do rio a refletir o velho burgo na margem esquerda como um espelho. Agarrado ao volante, Tomás contemplou a urbe na outra banda e não pôde deixar de pensar que, se havia sítio onde se sentia bem, era ali, em Coimbra. Misturava-se naquelas ruas o velho com o novo, a tradição com a inovação, o fado com o rock, o romantismo com o cubismo, a fé com o conhecimento. Nas artérias arejadas e por entre casas cheias de luz circulava uma importante comunidade estudantil, rapazes e raparigas de livros debaixo dos braços e a ilusão do futuro a bailar-lhes nos olhos, eternos clientes da principal indústria da cidade, a universidade.

Tomás cruzou o Mondego pela Ponte de Santa Clara e entrou no Largo da Portagem, que contornou até meter pela esquerda. Estacionou num espaço parqueado da marginal, junto à estação, e palmilhou o emaranhado labiríntico da Baixinha até chegar à Rua Ferreira Borges, a grande artéria animada por inúmeras lojas, cafés, pastelarias e boutiques, acabando por desembocar na pitoresca Praça do Comércio.

Meteu por um estreito arruamento lateral e entrou num edifício de três andares, servido por um velho elevador com porta gradeada e cheiro a bafio. Carregou no botão e, após uma curta viagem aos solavancos, saiu no segundo andar.

"Tomás", disse a mãe à porta, abrindo-lhe os braços. "Ainda bem que chegaste. Credo, já estava em cuidados."

Abraçaram-se.

"Ah, sim? Porquê?"

"Ora, porquê! Por causa da estrada, por que haveria de ser?"

"O que tem a estrada?"

"São esses malucos todos, filho. Tu não ouves as notícias? Ainda ontem ocorreu um acidente horrível na auto-estrada, ali perto de Santarém. Veio um maluco desembestado a toda a velocidade e bateu num carro que seguia tranquilamente na sua vida. Ia lá dentro uma família e morreu-lhes o bebê, coitadinho."

"Oh, mãe, se eu tivesse medo de tudo nem sequer saía de casa."

"Ah, mas mesmo estar em casa é perigoso, sabias?"

Tomás riu-se.

"Estar em casa é perigoso? Desde quando?"

"Foi o que eu vi nas notícias. Dizem as estatísticas que é em casa que ocorre a maior parte dos acidentes, fica sabendo."

"Pudera! É em casa que as pessoas passam a maior parte do tempo..."

"Ai, só te digo, filhinho", bufou a mãe, juntando as mãos como numa prece. "Viver está pela hora da morte. Pela hora da morte!"

Tomás tirou o casaco e pendurou-o no bengaleiro.

"Pois, está bem", disse, querendo arrumar ali a conversa. "O pai?"

"Está a descansar, coitadinho. Acordou com dores de cabeça e tomou uma coisa muito forte, de maneira que só daqui a uma ou duas horas é que vai acordar." Fez um gesto em direção à cozinha. "Entra, entra. Estou a preparar o almoço."

Tomás sentou-se na copa, cansado da viagem.

"Como é que ele tem passado?"

"O teu pai?" Abanou a cabeça. "Nada bem, o pobrezito. Tem dores, sente-se fraco, anda deprimido..."

"Mas a radioterapia vai resultar, não vai?"

Graça fixou os olhos no filho.

"Apesar da depressão, ele tem esperança nisso, não é?" Suspirou. "Mas o doutor Gouveia disse-me que a radioterapia está apenas a atrasar o processo, mais nada."

Tomás baixou os olhos.

"Acha que ele vai mesmo morrer?"

A mãe susteve a respiração, ponderando o que deveria ou conseguiria responder.

"Vai", acabou ela por dizer num sussurro. "Eu vou-lhe dizendo que não, que é preciso lutar, que há sempre solução. Mas o doutor Gouveia já me disse para não ter ilusões e aproveitar bem o tempo que resta."

"E ele sabe disso?"

"Quer dizer, o teu pai não é parvo, pois não? Sabe que tem uma doença muito grave e esse fato não lhe foi escondido. Mas procuramos sempre manter viva a esperança."

"Como é que ele está a reagir?"

"Tem dias. Primeiro, achou que era tudo um grande engano, que tinham trocado as análises, que..."

"Sim, ele contou."

"Bem, depois lá aceitou. Mas as suas reações variam de dia para dia, às vezes quase de hora para hora até. Numas alturas fica muito deprimido, diz que vai morrer e que não quer morrer. É quando o consolo mais. Mas depois tem momentos em que fala como se tivesse apenas uma gripe, quase contradizendo tudo o que disse uma hora antes. É capaz de fazer projetos sobre viagens... uh... sei lá, fala em ir ao Brasil, ou planeja um safari em Moçambique, coisas assim. O doutor Gouveia diz que se deve deixá-lo sonhar acordado, isso faz-lhe bem, ajuda-o a sair da depressão. E eu, para falar com franqueza, também acho."

Tomás fez um estalido contrariado com a língua.

"Que chatice, isto."

Graça suspirou de novo.

"Ah, é horrível." Abanou a cabeça, como que a sacudir maus pensamentos. "Mas chega de tristezas." Decidiu mudar de assunto. Girou a cabeça, procurando a mala do filho, e não encontrou nada. "Olha lá, tu não dormes cá?"

"Não, mãe. Preciso de voltar esta noite para Lisboa."

"Já? Mas porquê?"

"Tenho um vôo amanhã de manhã."

A senhora pôs as mãos na cara.

"Ai, minha nossa! Um vôo! Vais andar de avião outra vez?"

"Vou, pois. É o meu trabalho."

"Ai, Virgem Santíssima! Já estou arreliada. Sempre que viajas fico toda nervosa, pareço uma galinha diante do cutelo."

"Não fique, não é caso para isso."

"E onde vais tu, Tomás?"

"Vou apanhar um vôo para Frankfurt e fazer a ligação até Teerã."

"Teerã? Mas isso não é na Arábia?"

"É no Irã."

"No Irã? Mas o que vais tu fazer naquela terra de malucos, Santo Deus? Não sabes que eles são uns fanáticos e odeiam estrangeiros?"

"Que exagero!"

"A sério! Ainda noutro dia vi nas notícias. Esses árabes passam a vida a queimar bandeiras americanas e a..."

"Não são árabes, são iranianos."

"Ora! São árabes, como os iraquianos e os argelinos."

"Não, não são. São muçulmanos, mas não são árabes. Os árabes são semitas, os iranianos são arianos."

"Mais razão me estás a dar! Se são arianos, são nazis!"

Tomás esboçou uma careta desesperada.

"Que confusão!", exclamou. "Não é nada disso! Diz-se arianos quando nos referimos aos povos indo-europeus, como os indianos, os turcos, os iranianos e os europeus. Já os árabes são semitas, tal como os judeus."

"Não interessa. Árabes ou nazis, aquilo é tudo a mesma gente, passam o dia de joelhos virados para Meca ou a fazer explodir bombas por toda a parte."

"Que exagero!"

"Que exagero, não. Eu sei do que estou a falar."

"Mas já lá foi alguma vez, para dizer isso assim com tanta autoridade?"

"Não preciso. Eu sei muito bem o que vai por aquelas terras."

"Ah, sim? E como sabe isso?"

A mãe parou diante da cozinha, fitou-o nos olhos e pôs as mãos na cintura.

"Ora, vi nas notícias."

 

O arroz-doce já ia no fim quando Tomás ouviu o pai a tossir. Instantes mais tarde, a porta do quarto abriu-se e Manuel Noronha, de roupão e aspecto desgrenhado, espreitou para a copa.

"Olá, Tomás. Estás bom?"

O filho levantou-se.

"Olá, pai. Como vai isso?"

O velho professor de matemática fez uma careta indecisa.

"Mais ou menos."

Sentou-se na mesa da copa e a mulher, que arrumava a louça, olhou-o afetuosamente.

"Queres comer alguma coisa, Manel?"

"Só uma sopinha."

Graça encheu um prato de sopa quente e colocou-o diante do marido.

"Ora aqui está. Mais alguma coisa?"

"Não, isto chega", disse Manuel, abrindo a gaveta dos talheres para tirar uma colher. "Não tenho muita fome."

"Bem, se quiseres, há um bifinho no frigorífico. É só fritar." Saiu da cozinha e vestiu um casaco. "Vou aproveitar para dar ali um saltinho à Igreja de São Bartolomeu. Portem-se bem, hã?"

"Até já, mãe."

Graça Noronha saiu do apartamento, deixando pai e filho a sós. Tomás não tinha a certeza de gostar da idéia, afinal de contas sempre foi mais próximo da mãe, mulher faladora e carinhosa, do que do pai, um homem calado, circunspecto, que vivia fechado no seu escritório, entregue ao mundo dos números e das equações, alheio à família e a tudo o resto.

Silêncio.

Um mutismo desconfortável assentou no apartamento, apenas rompido pelo tilintar da colher no prato de sopa e pelo ocasional schlurp que Manuel Noronha emitia ao engolir a comida. Tomás fez-lhe algumas perguntas sobre o seu colega desaparecido, Augusto Siza, mas o pai somente conhecia o que já era do domínio público. Apenas revelou que o assunto estava a deixar toda a gente perturbada na faculdade, ao ponto de o colaborador do professor ter durante uns tempos evitado sair de casa, a não ser para pedir um ou outro favor, como solicitar que lhe fossem buscar comida à mercearia ou guardar uma coisa em qualquer sítio.

A conversa sobre o professor Siza depressa se esgotou e o problema é que Tomás não sabia sobre o que deveriam agora falar; na verdade não se lembrava de alguma vez ter tido uma conversa de jeito com o pai. Mas precisava de preencher o silêncio e começou a contar-lhe a visita ao Cairo e os pormenores da estela que foi inspecionar no Museu Egípcio. O pai ouviu-o sem nada dizer, por vezes murmurando apenas o seu assentimento aqui ou ali, mas tornava-se evidente que não seguia as palavras com atenção, a mente divagava algures, talvez no destino que a doença lhe traçava, talvez no horizonte de abstração por onde frequentemente se perdia.

Voltou o silêncio.

Tomás já não sabia sobre o que tagarelar. Ficou a observar o pai, a sua tez pálida e enrugada, o rosto chupado, o corpo frágil e envelhecido. O pai caminhava a passos largos para a morte e a triste verdade é que, mesmo assim, Tomás não conseguia manter uma conversa com ele.

"Como se sente o pai?"

Manuel Noronha suspendeu a colher no ar e olhou para o filho.

"Tenho medo", disse simplesmente.

Tomás abriu a boca, prestes a perguntar-lhe de que é que tinha medo, mas calou-se a tempo, tão evidente era a resposta. Foi porém nesse instante, no preciso momento em que calou a pergunta que lhe assomara à boca, que percebeu que algo de diferente tinha acontecido com aquela resposta; o pai de algum modo abrira uma janela dentro de si, pela primeira vez dissera-lhe o que sentia sobre alguma coisa. Foi como se, naquele exato segundo, se tivesse processado uma qualquer transformação, como se uma racha se tivesse aberto na muralha que os dividia, como se uma ponte se tivesse erguido sobre um rio intransponível, como se a barreira entre pai e filho se tivesse tornado infinitamente mais pequena. O grande homem, o gênio da matemática que vivia cercado de equações e logaritmos e fórmulas e teoremas, descera à terra e tocara no filho.

"Eu compreendo", limitou-se Tomás a dizer.

O pai abanou a cabeça.

"Não, filho. Não compreendes." Meteu finalmente a colher à boca. "Vivemos a vida como se ela fosse eterna, como se a morte fosse algo que só acontece aos outros e apenas nos está reservada ao fim de muito tempo, tanto tempo que nem merece a pena pensarmos nisso. Para nós, a morte não passa de uma abstração. No entretanto, eu preocupo-me com as minhas aulas e as minhas pesquisas, a tua mãe preocupa-se com a igreja e com as pessoas que vê a sofrerem no noticiário ou na novela, tu preocupas-te com o teu salário e com a mulher que já não tens e com papiros e estelas e outras relíquias cheias de irrelevâncias." Olhou, pela janela da cozinha, para os clientes de uma esplanada, lá em baixo, na Praça do Comércio. "Sabes, as pessoas passam pela vida como sonâmbulas, preocupam-se com o que não é importante, querem ter dinheiro e notoriedade, invejam os outros e esmifram-se por coisas que não valem a pena. Levam vidas sem sentido. Limitam-se a dormir, a comer e a inventar problemas que as mantenham ocupadas. Privilegiam o acessório e esquecem o essencial." Abanou a cabeça. "Mas o problema é que a morte não é uma abstração. Em boa verdade, ela está já aqui ao virar da esquina. Um dia, estamos nós muito bem a deambular pela rua da vida como sonâmbulos, vem um médico e diz-nos: você pode morrer. E é nesse instante, quando de repente o pesadelo se torna insuportável, que finalmente despertamos."

"O pai despertou?"

Manuel levantou-se da mesa, colocou o prato vazio no lavatório e abriu a torneira, passando o prato pela água.

"Sim, despertei", disse. Fechou a torneira e voltou a sentar-se na mesa da copa. "Despertei para, se calhar, viver os meus derradeiros instantes." Olhou para o lavatório. "Despertei para ver a vida escoar-se como a água que desaparece por aquele ralo." Tossiu. "Às vezes sinto uma raiva muito grande com o que me está a acontecer. Ponho-me a perguntar a mim mesmo: porquê eu? Com tanta gente que há por aí, tanta gente que não anda cá a fazer nada, por que razão me havia de acontecer isto a mim?" Passou a mão pela cara. "Olha, noutro dia ia a caminho do hospital e cruzei-me com o Chico da Pinga. Lembras-te dele?"

"Quem?"

"O Chico da Pinga."

"Uh... não, acho que não conheço..."

"Conheces, pois. É aquele velho que passa o dia nos copos e que às vezes vemos por aí aos ziguezagues, todo borracho, com umas roupas muito porcas e andrajosas."

"Ah, sim! Já sei quem é, lembro-me de o ver quando era miúdo. Ele ainda é vivo?"

"Vivo? O homem está são que nem um pêro! Anda sempre bêbado como um cacho, não faz nem nunca fez nada na vida, cheira mal, escarra no chão e bate na mulher... enfim, um vadio, um... um inútil! Pois, olha, cruzei-me com ele e pensei: mas por que raio não foi ele a ficar doente? Mas que Deus é este que me dá uma doença tão grave a mim e deixa um mandrião desta categoria à solta, com saúde para dar e vender?" Arregalou os olhos. "Quando penso nisso, até me irrito!"

"O pai não pode ver as coisas assim..."

"Mas é uma injustiça! Eu sei que não posso encarar as coisas deste modo, que chega a ser imoral desejar que o nosso mal se transfira para os outros, mas, enfim, quando me vejo assim neste estado e olho para a saúde que respira um tipo como o Chico da Pinga, desculpa lá mas não consigo deixar de me sentir zangado!"

"Eu percebo."

"Por outro lado, tenho consciência de que não devo permitir que este sentimento de revolta tome conta de mim." Tossiu. "Sinto que o meu tempo é agora precioso, percebes? Tenho de o aproveitar para me redirecionar, para rever as minhas prioridades, para dar importância ao que realmente tem importância, para esquecer o que é irrelevante e fazer as pazes comigo e com o mundo." Fez um gesto vago. "Passei demasiado tempo fechado em mim mesmo, ignorando a tua mãe, ignorando-te a ti, ignorando a tua mulher e a tua filha, de costas voltadas para tudo, exceto para a matemática que me apaixona. Agora que sei que posso morrer, sinto que passei pela vida como se estivesse anestesiado, como se dormisse, como se, na realidade, não a tivesse vivido. E isso também me revolta. Como pude ser assim tão estúpido?" Diminuiu o tom de voz, quase sussurrando. "É por isso que quero usar o pouco tempo que talvez me resta para fazer o que não fiz em tanto tempo. Quero viver a vida, abraçar o que é realmente importante, reconciliar-me com o mundo." Baixou a cabeça e olhou para o peito. "Mas não sei se isto que tenho dentro de mim me vai deixar."

Tomás não sabia o que dizer. Nunca ouvira o pai refletir sobre a vida e sobre a forma como a vivera, sobre os erros que cometera, sobre as pessoas que devia ter amado e das quais se escondera. No fundo, o pai falava-lhe da sua relação consigo, falava-lhe das brincadeiras que nunca tiveram, das histórias que não lhe lera na cama, dos pontapés na bola que não trocaram, de tudo o que não partilharam. Era também a sua relação com o filho que o pai agora indiretamente questionava. Ficou, por isso, sem saber como lhe responder; sentiu apenas um enorme e pungente desejo de ter uma segunda oportunidade, de na próxima vida ser filho daquele pai e de aquele pai ser um verdadeiro pai para o filho. Sim, como seria bom ter uma segunda oportunidade.

"Talvez tenha mais tempo do que pensa", ouviu-se a dizer. "Talvez o nosso corpo morra, mas a alma sobreviva e o pai possa, numa reencarnação, corrigir os erros desta vida. O pai acredita nisso?"

"Em quê? Na reencarnação?"

"Sim. Acredita nisso?"

Manuel Noronha fez um sorriso triste.

"Gostaria de acreditar, claro. Quem é que, estando na minha posição, não gostaria de acreditar em tal coisa? A sobrevivência da alma. A possibilidade de ela reencarnar mais tarde em alguém e eu poder voltar a viver. Que idéia tão bonita." Abanou a cabeça. "Mas eu sou um homem de ciência e tenho o dever de não me deixar iludir."

"O que quer dizer com isso? Acha que não é possível a alma sobreviver?"

"Mas o que é isso da alma?"

"E... sei lá... é uma força vital, é um espírito que nos anima."

O velho matemático ficou a mirar o filho por um momento.

"Escuta, Tomás", disse. "Olha para mim. O que vês?"

"Uh... vejo o pai."

"Vês um corpo."

"Sim."

"É o meu corpo. Refiro-me a ele como se dissesse: é a minha televisão, é o meu carro, é a minha caneta. Neste caso, é o meu corpo. E algo que é meu, é uma propriedade minha." Encostou a palma da mão ao peito. "Mas se eu digo, o corpo é meu, o que eu estou a dizer é que eu não sou o corpo. O corpo é meu, não sou eu. Então, o que sou eu?" Colou o dedo à testa. "Eu sou os meus pensamentos, a minha experiência, os meus sentimentos. Isso sou eu. Eu sou uma consciência. Mas agora repara. Será que a minha consciência, este eu que sou eu, é a alma?"

"Uh... sim, suponho que sim."

"O problema é que este eu que sou eu é produto de substâncias químicas que me circulam pelo corpo, de transmissões elétricas entre neurônios, de heranças genéticas codificadas no meu ADN, de um sem-número de condicionalismos exteriores e intrínsecos que moldam este eu que sou eu. O meu cérebro é uma complexa máquina eletroquímica que funciona como um computador e a minha consciência, esta noção que eu tenho da minha existência, é uma espécie de programa. Percebes? De uma certa forma, e literalmente, os miolos são o hardware, a consciência o software. O que levanta naturalmente questões interessantes. Será que um computador tem alma? Se o ser humano é um computador muito complexo, será que ele próprio tem alma? Se todo o circuito morrer, a alma sobrevive? Sobrevive onde? Em que sítio?"

"Bem... uh... ergue-se do corpo e vai... uh... vai..."

"Vai para o céu?"

"Não, vai... sei lá, vai para uma outra dimensão."

"Mas de que é feita essa alma que se ergue do corpo? De átomos?"

"Não, acho que não. Deve ser uma substância incorpórea."

"Não tem átomos?"

"Julgo que não. É um... uh... um espírito."

"Bem, isso leva-me a formular uma outra pergunta", observou o matemático. "Será que, um dia, no futuro, a minha alma se lembra desta minha existência?"

"Sim, dizem que sim."

"Mas isso não faz sentido, pois não?"

"Por que não?"

"Repara, Tomás. Como é que nós organizamos a nossa consciência? Como é que eu sei que sou eu, que sou um professor de Matemática, que sou teu pai e marido da tua mãe? Que nasci em Castelo Branco e que já estou quase careca? Como é que eu sei tudo sobre mim?"

"O pai conhece-se por causa do que viveu, do que fez e do que disse, do que ouviu e viu e aprendeu."

"Exato. Eu sei que sou eu porque tenho memória de mim mesmo, de tudo o que me aconteceu, mesmo o que aconteceu há apenas um segundo. Eu sou a memória de mim mesmo. E onde se localiza essa memória?"

"No cérebro, claro."

"Nem mais. A minha memória encontra-se localizada no cérebro, armazenada em células. Essas células fazem parte do meu corpo. E é aqui que está a questão. Quando o meu corpo morre, as células da memória deixam de ser alimentadas por oxigênio e morrem também. Apaga-se assim toda a minha memória, a lembrança do que eu sou. Se assim é, como raio pode a alma lembrar-se da minha vida? Se a alma não tem átomos, não pode ter células da memória, não é? Por outro lado, as células onde a memória da minha vida se encontrava gravada já morreram. Nessas condições, como é que a alma se lembra do que quer que seja? Não achas tudo isso um pouco sem sentido?"

"Mas o pai fala como se nós fôssemos todos umas máquinas, uns computadores." Abriu as mãos, como quem expõe uma evidência. "Eu tenho uma novidade para lhe dar. Nós não somos computadores, somos gente, somos seres vivos."

"Ah, sim? E qual é a diferença entre os dois?"

"Bem, nós pensamos, sentimos, vivemos. Os computadores não."

"E tens a certeza de que somos mesmo diferentes?"

"Então não somos, pai? Os seres vivos são biológicos, os computadores não passam de circuitos."

Manuel Noronha ergueu o rosto para cima, como se estivesse a falar para Alguém.

"E tirou este rapaz um doutoramento numa universidade..."

Tomás hesitou.

"Por que diz isso? Eu disse algum disparate?"

"O que disseste, filho, é o que qualquer biólogo diria, fica descansado. Mas, se perguntares a um biólogo o que é a vida, ele vai-te responder mais ou menos assim: a vida é um conjunto de processos complexos baseados no átomo de carbono." Ergueu o indicador. "Atenção. Mesmo o mais lírico dos biólogos reconhece, no entanto, que a expressão-chave desta definição não é átomo de carbono, mas processos complexos. É verdade que todos os seres vivos que conhecemos são constituídos por átomos de carbono, mas não é isso verdadeiramente o que é estruturante para a definição da vida. Há bioquímicos que admitem que as primeiras formas de vida na Terra não foram baseadas nos átomos de carbono, mas nos cristais. Os átomos são apenas a matéria que torna a vida possível. Não interessa se é o átomo A ou o átomo B. Imagina que eu tenho o átomo A na cabeça e que, por algum motivo, ele é substituído pelo átomo B. Será que eu deixo de ser eu só por esse motivo?" Abanou a cabeça. "Não me parece. O que faz com que eu seja eu é um padrão, uma estrutura de informação. Ou seja, não são os átomos, é a forma como os átomos se organizam." Tossiu. "Sabes de onde é que vem a vida?"

"Vem de onde?"

"Vem da matéria."

"Ora, grande novidade!"

"Não estás a perceber onde é que eu quero chegar." Bateu com o dedo na mesa. "Os átomos que estão no meu corpo são exatamente iguais aos átomos que estão nesta mesa ou numa qualquer galáxia distante. Eles são todos iguais. A diferença está na forma como eles se organizam. O que é que achas que organiza os átomos de modo a formarem células vivas?"

"Uh... não sei."

"Será uma força vital? Será um espírito? Será Deus?"

"Se calhar..."

"Não, filho", disse, abanando a cabeça. "O que organiza os átomos de modo a formarem células vivas são as leis da física. É essa a questão central. Repara, como pode um conjunto de átomos inanimados formar um sistema vivo? A resposta está na existência de leis de complexidade. Todos os estudos mostram que os sistemas se organizam espontaneamente, de modo a criarem sempre estruturas cada vez mais complexas, em obediência a leis da física e exprimindo-se por equações matemáticas. Houve até um físico que ganhou o Prêmio Nobel por demonstrar que as equações matemáticas por detrás das reações químicas inorgânicas são semelhantes às equações que regem os padrões de comportamento simples de sistemas biológicos avançados. Ou seja, os organismos vivos são, na verdade, o produto de uma incrível complexificação dos sistemas inorgânicos. E essa complexificação não resulta da atividade de uma qualquer força vital, mas da organização espontânea da matéria. Uma molécula, por exemplo, pode ser constituída por um milhão de átomos

ligados de uma forma muito específica e complicada, e a sua atividade é controlada por estruturas químicas tão complexas que se assemelham a uma cidade. Entendes onde eu quero chegar?"

"Hmm... sim."

"O segredo da vida não está nos átomos que constituem a molécula, está na sua estrutura, na sua organização complexa. Essa estrutura existe porque obedece a leis de organização espontânea da matéria. E, da mesma maneira que a vida é o produto da complexificação da matéria inerte, a consciência é o produto da complexificação da vida. A complexidade da organização é que é a questão-chave, não é a matéria." Abriu uma gaveta e pegou num livro de receitas, que abriu, exibindo o interior. "Estás a ver estas letras? Estão impressas com que cor de tinta?"

"Preta."

"Imagina que, em vez de tinta preta, o tipógrafo utilizava tinta roxa." Fechou o livro e acenou com ele. "Será que a mensagem deste livro deixaria de ser a mesma?"

"Claro que não."

"É evidente que não. O que faz a identidade deste livro não é a cor da tinta das letras, é uma estrutura de informação. Não importa que a tinta seja preta ou roxa, importa é o conteúdo informativo do livro, a sua estrutura. Posso ler um Guerra e Paz impresso com fonte Times New Roman e outro Guerra e Paz de uma editora diferente impresso com fonte Arial, mas o livro será sempre o mesmo. É, em qualquer circunstância, o Guerra e Paz de Leo Tolstoi. Pelo contrário, se tiver um Guerra e Paz e um Anna Karenina impressos com a mesma fonte, por exemplo Times New Roman, isso não fará com que os dois livros se tornem a mesma coisa, pois não? O que é estruturante, pois, não é a fonte nem a cor da tinta das letras, é a estrutura do texto, a sua semântica, a sua organização. O mesmo se passa com a vida. Não importa se a vida é baseada no átomo de carbono ou em cristais ou em qualquer outra coisa. O que faz a vida é uma estrutura de informação, é uma semântica, é uma organização complexa. Eu chamo-me Manuel e sou professor de Matemática. Podem-me tirar o átomo A e meter o átomo B no corpo, mas, desde que esta informação seja preservada, desde que esta estrutura se mantenha intacta, eu continuo a ser eu. Podem-me mudar todos os átomos e substituí-los por outros, que eu continuo a ser eu. Aliás, já está provado que, ao longo da vida, vamos mesmo mudando quase todos os átomos. E, no entanto, eu continuo a ser eu. Peguem no Benfica e mudem-lhe todos os jogadores. Mas o Benfica permanece, continua a ser o Benfica, independentemente de jogar este ou aquele jogador. O que faz o Benfica não são os jogadores A ou B, é um conceito, é uma semântica, é uma estrutura de informação. O mesmo se passa com a vida. Não interessa qual o átomo que, num dado momento, preenche a estrutura. O que interessa é a estrutura em si. Desde que os átomos viabilizem a estrutura de informação que define a minha identidade e as funções dos meus órgãos, a vida é possível. Entendeste?"

"Sim."

"A vida é uma muito complexa estrutura de informação e todas as suas atividades envolvem processamento de informação." Tossiu. "Esta definição, no entanto, tem uma profunda consequência. É que, se o que constitui a vida é um padrão, uma semântica, uma estrutura de informação que se desenvolve e interage com o mundo em redor, nós, feitas as contas, somos uma espécie de programa. A matéria é o hardware, a nossa consciência é o software." Encostou o dedo à testa. "Nós somos um muito complexo e avançado programa de computador."

"E qual é o programa desse... uh... computador?"

"A sobrevivência dos genes. Há biólogos que definiram o ser humano como uma máquina de sobrevivência, uma espécie de robô programado cegamente para preservar os genes. Eu sei que, assim postas as coisas, parece chocante, mas é isso que nós somos. Computadores programados para preservar genes."

"Por essa definição, um computador é um ser vivo."

"Sem dúvida. É um ser vivo que não é construído por átomos de carbono."

"Mas isso não é possível!"

"Por que não?"

"Porque um computador limita-se a reagir a um programa pré-definido."

"Que é o que fazem todos os seres vivos baseados nos átomos de carbono", devolveu o pai. "O teu problema é que um computador é uma máquina que funciona na base do estímulo-resposta programada, não é?"

"Uh... sim."

"E o cão de Pavlov? Não funciona na base do estímulo-resposta programada? E uma formiga? E uma planta? E um gafanhoto?"

"Bem... sim, mas é... diferente."

"Não é nada diferente. Se conhecermos o programa do gafanhoto, se soubermos o que o atrai e o repele, o que o motiva e o que o assusta, poderemos prever todo o seu comportamento. Os gafanhotos têm programas relativamente simples. Se acontecer X, eles reagem de maneira A. Se acontecer Y, eles reagem de maneira B. Exatamente como uma máquina concebida por nós."

"Mas os gafanhotos são máquinas naturais. Os computadores são máquinas artificiais."

Manuel olhou em redor da cozinha, à procura de uma idéia. A sua atenção fixou-se na janela, numa árvore erguida no passeio em frente, para onde um pardal esvoaçou.

"Olha ali para as aves. Os ninhos que eles constroem nas árvores são naturais ou artificiais?"

"São naturais, claro."

"Então tudo o que o homem faz também é natural. Nós, que temos um conceito antropocêntrico da natureza, é que dividimos tudo entre coisas naturais e coisas artificiais, sendo que definimos que as artificiais são as feitas pelos homens e as naturais feitas pela natureza, pelas plantas e pelos animais. Mas isso é uma convenção humana. A verdade é que, se o homem é um animal, tal como as aves, então é uma criatura natural, certo?"

"Sim."

"Sendo uma criatura natural, tudo o que ele faz é natural. Logo, as suas criações são naturais, da mesma maneira que o ninho feito pelas aves é uma coisa natural." Tossiu. "O que eu quero dizer é que tudo na natureza é natural. Se o homem é um produto da natureza, então tudo o que ele faz também é natural. Apenas por uma convenção de linguagem se estabeleceu que os objetos que ele cria são artificiais, quando, na verdade, são tão naturais quanto os objetos que as aves criam. Logo, sendo criações de um animal natural, os computadores, tais como os ninhos, são naturais."

"Mas não têm inteligência."

"Nem as aves ou os gafanhotos têm." Fez uma careta. "Ou melhor, as aves, os gafanhotos e os computadores têm inteligência. O que eles não têm é a nossa inteligência. Mas, por exemplo, no caso dos computadores, nada garante que, daqui a cem anos, eles não venham a ter uma inteligência igual ou superior à nossa. E, se atingirem o nosso grau de inteligência, podes estar certo de que desenvolverão emoções e sentimentos e tornar-se-ão conscientes."

"Isso não acredito."

"Que possam ter emoções e tornarem-se conscientes?"

"Sim. Não acredito nisso."

Manuel Noronha foi assaltado por um súbito ataque de tosse, uma tosse tão cavada que parecia quase expulsar os pulmões pela boca. O filho ajudou-o a recompor-se, oferecendo-lhe água e procurando acalmá-lo. Quando o ataque morreu, Tomás olhou para o pai com ar apreensivo.

"O pai está bem?"

"Sim."

"Quer ir deitar-se um pouco? Se calhar é..."

"Eu estou bem, deixa estar", atalhou o velho matemático.

"Veja lá."

"Eu estou bem, eu estou bem", insistiu, recuperando o fôlego. "Onde é que íamos?"

"Oh, não interessa."

"Não, não. Eu quero explicar-te isto, é importante."

Tomás hesitou e fez um esforço de memória.

"Uh... dizia-lhe eu que não acredito que os computadores possam ter emoções e consciência."

"Ah, sim", exclamou Manuel, recuperando o fio do raciocínio. "Achas que os computadores não podem ter emoções, não é?"

"É. Nem emoções nem consciência."

"Pois estás muito enganado." Inspirou fundo, normalizando a respiração. "Sabes, as emoções e a consciência resultam de se atingir um determinado grau de inteligência. Ora, o que é a inteligência? Hã?"

"A inteligência é a capacidade de fazer raciocínios complexos, acho eu."

"Exato. Ou seja, a inteligência é uma forma de elevada complexidade. E não é preciso atingir-se o grau da inteligência humana para se criar a consciência. Por exemplo, os cães são muito menos inteligentes do que os homens, mas, se perguntares ao dono de um cão se o seu cão tem emoções e consciência das coisas, ele dir-te-á, sem hesitar, que sim. O cão tem emoções e consciência. Logo, as emoções e a consciência são mecanismos que emergem a partir de um determinado grau de complexidade de inteligência."

"Portanto, o pai acha que os computadores, se atingirem esse grau de complexidade, tornar-se-ão emotivos e conscientes?"

"Sem dúvida."

"Custa-me a acreditar nisso."

"Custa-te a ti e custa à maior parte das pessoas que não está dentro do problema. A idéia de máquinas possuírem consciência parece chocante ao comum dos mortais. E, no entanto, a maior parte dos cientistas que lida com este problema acredita ser possível tornar consciente uma mente simulada."

"Mas o pai acha que é mesmo possível tornar um computador inteligente? Acha que é possível que ele pense por si só?"

"Claro que é. Aliás, os computadores já são inteligentes. São mais inteligentes do que uma minhoca, por exemplo." Ergueu o dedo. "Não são é tão inteligentes como os seres humanos, mas são mais inteligentes do que uma minhoca. Ora, o que é que separa a inteligência do ser humano da inteligência da minhoca? A complexidade. O nosso cérebro é muito mais complexo do que o da minhoca. Obedece aos mesmos princípios, ambos têm sinapses e ligações, só que o cérebro humano é incomensuravelmente mais complexo do que o da minhoca." Bateu na parte lateral da cabeça. "Tu sabes o que é um cérebro?"

"É o que temos cá dentro do crânio."

"Um cérebro é uma massa orgânica que funciona exatamente como um circuito eléctrico. Em vez de ter fios, tem neurônios, em vez de ter chips, tem miolos, mas é precisamente a mesma coisa. O seu funcionamento é determinista. As células nervosas disparam um impulso elétrico em direcção ao braço com uma determinada ordem, segundo um padrão de correntes elétricas pré-definidas. Um diferente padrão produziria a emissão de um diferente impulso. Exatamente como um computador. O que eu quero dizer é que, se nós conseguirmos tornar o cérebro do computador muito mais complexo do que é atualmente, poderemos pô-lo a funcionar ao nosso nível."

"E é possível torná-los tão inteligentes quanto os seres humanos?"

"Em teoria, nada o impede. Repara, os computadores já batem os seres humanos na velocidade de cálculo. Onde eles apresentam enormes deficiências é na criatividade. Um dos pais dos computadores, um inglês chamado Alan Turing, estabeleceu que, no dia em que conseguirmos manter com um computador uma conversa exatamente igual à que teríamos com qualquer outro ser humano, então é porque o computador pensa, é porque o computador tem uma inteligência ao nosso nível."

Tomás adptou uma expressão cética.

"Mas isso é mesmo possível?"

"Bem... uh... é verdade que, durante muito tempo, os cientistas acharam que não, devido a um complicado problema matemático." Tossiu. "Sabes, nós, os matemáticos, sempre acreditamos que Deus é um matemático e que o universo está estruturado segundo equações matemáticas. Essas equações, por mais complexas que pareçam, são todas elas resolúveis. Se não se consegue resolver uma equação, isso não se deve ao fato de ela ser irresolúvel, mas às limitações do intelecto humano em resolvê-la."

"Não estou a ver onde quer chegar..."

"Já vais perceber", prometeu o pai. "A questão dos computadores poderem ou não adquirir consciência está ligada a um dos problemas da matemática, a questão dos paradoxos autoreferenciais. Por exemplo, repara no que eu vou dizer. Eu só digo mentiras. Notas aqui alguma anomalia?"

"Em quê?"

"Nesta frase que eu acabei de formular. Eu só digo mentiras."

Tomás soltou uma gargalhada.

"É uma grande verdade."

O pai olhou-o com ar condescendente.

"Ora aí está. Se é verdade que eu só digo mentiras, então, tendo dito uma verdade, eu não digo só mentiras. Se a frase é verdadeira, ela própria contém uma contradição dentro de si." Agitou as sobrancelhas, satisfeito consigo próprio. "Durante muito tempo, pensou-se que este era um mero problema semântico, resultante das limitações da língua humana. Mas, quando este enunciado foi transposto para uma formulação matemática, a contradição manteve-se. Os matemáticos passaram muito tempo a tentar resolver o problema, sempre na convicção de que ele era resolúvel. Essa ilusão foi desfeita em 1931 por um matemático chamado Kurt Gódel, que formulou dois teoremas,

chamados da Incompletude. Os teoremas da Incompletude são considerados um dos maiores feitos intelectuais do século XX e deixaram os matemáticos em estado de choque." Hesitou. "É um pouco complicado explicar em que consistem estes teoremas, mas é importante que fiques com..."

"Tente."

"Tento o quê? Explicar os teoremas da Incompletude?"

"Sim."

"Não é fácil", disse, abanando a cabeça. Encheu o peito de ar, como se procurasse ganhar coragem. "A questão essencial é que Gódel provou que não existe nenhum procedimento geral que demonstre a coerência da matemática. Há afirmações que são verdadeiras, mas não são demonstráveis dentro do sistema. Esta descoberta teve profundas consequências, ao revelar as limitações da matemática, expondo assim uma sutileza desconhecida na arquitetura do universo."

"Mas o que tem isso a ver com os computadores?"

"É muito simples. Os teoremas de Gódel sugerem que, por mais sofisticados que sejam, os computadores vão sempre enfrentar limitações. Apesar de não conseguir mostrar a coerência de um sistema matemático, o ser humano consegue perceber que muitas afirmações dentro do sistema são verdadeiras. Mas o computador, colocado perante tal contradição irresolúvel, bloqueará. Logo, os computadores jamais serão capazes de igualar os seres humanos."

"Ah, já percebi", exclamou Tomás. Fez um ar satisfeito. "Então o pai está-me a dar razão..."

"Não necessariamente", disse o velho matemático. "A grande questão é que nós podemos apresentar ao computador uma fórmula que sabemos ser verdadeira, mas que o computador não pode provar que é verdadeira. É verdade. Mas também é verdade que o computador nos pode fazer o mesmo. A fórmula só não é demonstrável para quem está a trabalhar dentro do sistema, entendes? Quem estiver fora do sistema consegue provar a fórmula. Isso é válido para um computador como para um ser humano. Conclusão: é possível um computador ser tão ou mais inteligente quanto as pessoas."

Tomás suspirou.

"Tudo isso para provar o quê?"

"Tudo isso para te provar que não passamos de computadores muito sofisticados. Achas que os computadores podem vir a ter alma?"

"Que eu saiba, não."

"Então, se nós somos computadores muito sofisticados, também não podemos ter. A nossa consciência, as nossas emoções, tudo o que sentimos é resultado da sofisticação da nossa estrutura. Quando morrermos, os chips da nossa memória e da nossa inteligência irão desaparecer e nós apagamo-nos." Respirou fundo e encostou-se na cadeira. "A alma, meu querido filho, não passa de uma invenção, de uma maravilhosa ilusão criada pelo nosso ardente desejo de escaparmos à inevitabilidade da morte."

 

Os olhos quentes de Ariana Pakravan esperavam por Tomás junto à saída dos passageiros, no terminal do velho Aeroporto Internacional Mehrabad. Por momentos, porém, o recém-chegado sentiu-se desorientado, procurando por entre a multidão de chador negros ou coloridos o rosto familiar que teimava em não lhe aparecer; e foi só quando Ariana se chegou ao pé de si e lhe tocou no braço que o historiador se deu por encontrado. Mas Tomás teve dificuldades em reconhecer a sua anfitriã nos trajos islâmicos que envergava e não pôde deixar de se sentir chocado com a diferença entre aquela mulher de véu verde e a sofisticada iraniana com quem almoçara no Cairo apenas uma semana antes.

"Salam, professor", saudou a voz sensual, dando-lhe as boas-vindas. "Kbosk amadin!"

"Olá, Ariana. Como está?"

O português ficou na expectativa, não sabia se devia inclinar-se para a beijar nas duas faces ou se haveria uma outra qualquer forma de saudação mais adequada naquela terra de tão radicais costumes. A iraniana resolveu-lhe o problema, estendendo-lhe a mão.

"Teve um bom vôo?"

"Ótimo", disse Tomás. Rolou os olhos. "Ia desmaiando sempre que vinha a turbulência, claro. Mas, tirando isso, correu tudo bem."

Ariana riu-se.

"Tem medo de voar, é?"

"Medo não, só tenho... uh... receio." Fez uma careta. "Passo a vida a gozar com a minha mãe por ela ter medo de viagens, mas a verdade é que sou como ela, não é? Herdei-lhe o gene."

A iraniana inspecionou-o, espreitando para o saco que ele trazia ao ombro e verificando se não vinha atrás nenhum carregador com mais malas.

"Não traz mais bagagem?"

"Não. Eu viajo sempre leve."

"Então está bem. Vamos andando."

A mulher conduziu-o para uma fila à saída do aeroporto, na berma do passeio. O recém-chegado olhou para a frente e viu automóveis cor de laranja a recolherem passageiros.

"Vamos de táxi?" bim.

"Não tem carro?"

"Professor, estamos no Irã", disse, sempre num tom jovial. "As mulheres a conduzir não são aqui lá muito bem-vistas."

"Puxa."

Acomodaram-se no assento traseiro do táxi, um Paykan a cair de velho, e Ariana inclinou-se para o motorista.

"Lotfan, man o bebarin be botei Simorgh."

"Bale."

Tomás só percebeu a palavra hotel.

"Que hotel é?"

"É o Simorgh", explicou Ariana. "O melhor de todos."

O taxista voltou a cabeça para trás.

"Darbast mikhayin?"

"Bale", retorquiu a mulher.

Tomás mostrou-se curioso.

"O que quer ele?"

"Estava a perguntar se queríamos o táxi só para nós."

"O táxi só para nós? Não entendo..."

"É um costume iraniano. Os táxis, apesar de já estarem ocupados com passageiros, param pelo caminho para recolherem ainda mais passageiros. Se quisermos ficar com o táxi só para nós teremos de pagar a diferença entre o valor que pagaremos e o que pagariam outros passageiros que o motorista terá agora de perder."

"Ah. O que lhe respondeu?"

"Disse-lhe que sim", afirmou a iraniana. "Queremos o táxi só para nós."

Ariana tirou o véu e, como um farol que tudo encandeia, a perfeição das suas linhas de rosto iluminou os olhos do português. Tomás já não se lembrava de quão bela era aquela mulher, com os seus lábios sensuais, os olhos cor de caramelo, a tez láctea, a expressão exótica. O professor forçou-se a virar a cara para lá da janela, preocupado em não permanecer especado a admirar-lhe a face bonita.

Teerã girava em torno de si, as ruas apinhadas de automóveis, as casas espraiando-se para lá do horizonte; a cidade era uma floresta de cimento, feia, desordenada, cinzenta, coberta por uma neblina suja e gordurosa que pairava no ar como um espectro pardacento. Um vulto alvo e resplandecente, como um firme floco de nuvens iluminado pelo sol, planava sobre a neblina sebácea, atraindo o olhar interrogativo do recém-chegado.

"É a estrela Polar de Teerã", explicou Ariana.

"Estrela Polar?"

A iraniana sorriu, divertida.

"Sim, é como chamamos às montanhas Alborz." Mirou a cordilheira distante. "Elas estendem-se por todo o norte da cidade, sempre cobertas de neve, mesmo no Verão. Quando nos sentimos desorientados, procuramo-las por cima das casas e, ao ver aqueles picos nevados, sabemos que ali é o norte."

"Mas vêem-se tão mal..."

"É por causa do smog. A poluição nesta cidade é terrível, sabe? Pior do que o Cairo. Às vezes temos dificuldade em vê-las, apesar de as montanhas serem tão altas e se encontrarem ali tão perto."

"Lá altas parecem elas, sem dúvida."

"O pico mais elevado é o do monte Damavand, aquele à direita." Apontou. "Tem mais de cinco mil metros de altitude e, sempre que..."

"Cuidado!"

Um automóvel branco proveniente da direita apareceu disparado contra o táxi. Quando parecia que o choque seria inevitável, o táxi guinou para a esquerda, quase abalroando uma camioneta, que travou e buzinou desenfreadamente, e endireitou-se, escapando por uma fração de segundo à colisão.

"O que foi?", quis saber Ariana.

O português suspirou de alívio.

"Ufa! Escapamos por pouco."

A iraniana riu-se.

"Oh, não se preocupe. Isto é normal."

"Normal?"

"Sim. Mas é verdade que todos os estrangeiros, mesmo as pessoas habituadas ao tráfego caótico das cidades do Médio Oriente, ficam em pânico quando aqui chegam. Conduz-se um pouco rápido, é um fato, e os visitantes apanham todos os dias dois ou três sustos de morte. Mas nunca acontece nada, no último instante tudo se compõe, vai ver."

Tomás observou o trânsito compacto e célere, uma expressão apreensiva desenhada nos olhos.

"Você acha?", perguntou, a voz carregada de ceticismo.

"Não, não acho. Sei." Fez um sinal com as mãos. "Relaxe, vá."

Mas era impossível descontrair e o português, intranquilo, passou o resto da viagem mais atento àquele trânsito infernal. Em vinte minutos apercebeu-se de que ninguém fazia sinais para a esquerda nem para a direita quando virava, poucos eram os condutores que pareciam consultar o espelho retrovisor antes de mudarem de direção, mais raros os que usavam cintos de segurança; guiava-se a uma velocidade impossível e as buzinadelas e o chiar dos travões eram sons naturais e permanentes, um verdadeiro concerto sobre o alcatrão. O cúmulo ocorreu em plena auto-estrada, na Fazl ol-Lahnuri, quando viu um automóvel virar bruscamente em sentido proibido na faixa contrária e avançar algumas centenas de metros contra o trânsito, acabando por sair por um caminho de cabras.

Tal como Ariana previra, porém, chegaram sãos e salvos ao hotel. O Simorgh era um hotel luxuoso, de cinco estrelas e uma recepção requintada. A iraniana ajudou-o a fazer o check-in e despediu-se à porta do elevador.

"Descanse um pouco", recomendou. "Venho buscá-lo às seis da tarde para o levar a jantar."

 

O quarto apresentava-se finamente decorado. Depois de atirar o saco para o chão, Tomás foi à janela e contemplou Teerão; a cidade era dominada por prédios urbanos de mau gosto e elegantes minaretes que se elevavam acima do casario incolor. Ao fundo, como um gigante adormecido, estendia-se a presença protectora das montanhas Alborz, a neve a cintilar nos cumes como jóias de um colar exposto numa monumental vitrina.

Sentou-se na cama e consultou o folheto plastificado do Simorgh, enumerando os serviços de luxo para os clientes; os principais eram a banheira de hidromassagens, o ginásio e uma piscina, com horários rotativos para homens e mulheres. Inclinou-se e abriu a porta do minibar. Viam-se garrafas de água mineral e refrigerantes, incluindo Coca-Cola; mas o que verdadeiramente o alegrou foi a imagem de uma lata de cerveja da marca Delster, coberta por gotas de água gelada. Sem esperar mais, encetou a lata e engoliu a cerveja.

"Porra."

Quase vomitou o líquido; não sabia a cerveja, tinha antes o néctar da sidra. E, previsivelmente, não continha álcool.

O telefone tocou.

"Hello"', atendeu Tomás.

 

"Hello?", devolveu uma voz masculina do outro lado. "Professor Tomás Noronha?"

"Yes?"

"É um prazer estar no Irã?"

"Como?"

"É um prazer estar no Irã?"

"Ah", compreendeu Tomás. "Uh... venho fazer muitas compras."

"Very well", devolveu a voz, satisfeita por escutar aquela frase. "Vemo-nos amanhã?"

"Se eu puder, sim."

"Tenho bons tapetes para si."

"Sim, sim."

"A bom preço."

"Está bem."

"Estarei à sua espera."

Click.

Tomás ficou um longo momento com o telefone pendurado na mão, mirando o bocal, reconstituindo a conversa, relembrando cada palavra, interpretando a entoação das frases. O homem do outro lado da linha falara inglês com um forte sotaque local, não havia dúvidas de que se tratava de um iraniano. Faz sentido, reflectiu o historiador, balouçando levemente a cabeça. Faz sentido. É lógico que o homem da CIA em Teerã teria de ser um iraniano.

 

Quando a porta do elevador se abriu e Tomás saiu para o lobby do hotel, já Ariana o aguardava, sentada num sofá, junto a um grande vaso, uma chávena de chay de ervas sobre a mesa. A iraniana vestia um hejab diferente, com umas calças largas a flutuarem-lhe nas pernas altas, uma maqna'e colorida sobre a cabeça e um manto de seda a cobrir-lhe o corpo curvilíneo.

"Vamos?"

Desta vez circularam por Teerã num carro com motorista, um homem calado, de cabelo curto e boné na cabeça. Ariana explicou que a avenida onde se situava o hotel, a Valiasr, se prolongava por vinte quilômetros, desde o sul pobre até ao início das Alborz, atravessando o abastado norte da cidade; a Valiasr constituía o eixo em torno do qual se erguera a moderna Teerão, o lugar dos cafés da moda, dos restaurantes de luxo e dos edifícios diplomáticos.

Levaram tempo a cruzar a urbe e a atingir o sopé das montanhas. O automóvel escalou a encosta rochosa e entrou num jardim paisagístico, protegido por árvores altas. Por detrás erguia-se a parede escarpada das Alborz, lá em baixo estendia-se o formigueiro barrento do casario de Teerão, à direita o sol adquiria o tom alaranjado do crepúsculo.

Estacionaram no jardim e Ariana levou Tomás a um edifício com enormes janelas e rodeado de varandas; era um restaurante turco. O estabelecimento tinha sido erguido num local privilegiado, dispondo de uma magnífica vista da cidade, que apreciaram por momentos; com o lusco-fusco a abater-se sobre o vale, porém, a brisa começou a soprar fria e não se detiveram mais tempo por ali.

Uma vez dentro do restaurante, sentaram-se à janela, Teerão a seus pés. A iraniana pediu uma mirza gbasemi vegetariana para si e recomendou ao seu convidado um broke, sugestão prontamente aceite, Tomás queria conhecer aquele prato de carne picada com batatas e vegetais.

"Não lhe faz confusão esse lenço na cabeça?", perguntou o português, enquanto esperavam pela comida.

"O hejab?”

"Sim. Não lhe faz confusão isso?"

"Não, é uma questão de hábito."

"Mas para quem estudou em Paris e se habituou aos costumes ocidentais, não deve ser fácil..."

Ariana esboçou uma expressão interrogativa.

"Como sabe você que eu estudei em Paris?"

Tomás arregalou os olhos, horrorizado. Tinha cometido um terrível erro. Lembrou-se que essa informação lhe foi dada por Don Snyder, algo que, como era evidente, não podia confessar.

"Uh... não sei", gaguejou. "Acho... uh... acho que me disseram isso na embaixada... uh... na vossa embaixada em Lisboa."

"Ah é?", admirou-se a iraniana. "Andam muito faladores, os nossos diplomatas."

O português forçou-se um sorriso.

"São... são simpáticos. Falei sobre si, sabe? E eles contaram-me isso."

A anfitriã suspirou.

"Pois, estudei em Paris."

"E por que veio para cá?"

"Porque as coisas não deram certo lá. Tive um casamento que não funcionou e, quando me divorciei, senti-me muito só. Por outro lado, tinha a minha família toda cá. Foi uma decisão difícil, nem calcula quanto. Eu estava totalmente europeizada, mas a aversão à solidão e as saudades da família acabaram por ser mais fortes e optei por voltar. Foi na altura em que os reformadores começaram a crescer, o país liberalizava-se e as coisas pareciam melhores para as mulheres. Fomos nós, as mulheres, mais os jovens, que colocamos o Khatami na presidência, sabia?" Fez um esforço de memória. "Isso foi, deixe cá ver, foi em... em 1997, dois anos depois de eu ter voltado. A coisa, a princípio, correu bem. Ouviram-se as primeiras vozes em defesa dos direitos das mulheres e houve algumas que até entraram no Majlis.'"

"O Majquê?"

"O Majlis, o nosso parlamento."

"Ah. As mulheres entraram no Parlamento, foi?"

"Sim, e não foi só isso, sabe? Graças aos reformistas, as solteiras conquistaram o direito de irem estudar para o estrangeiro e a idade legal do casamento para raparigas subiu dos nove para os treze anos. De modo que foi nessa altura que eu fui trabalhar para Isfahan, a minha terra natal." Esboçou uma careta. "O problema é que os conservadores retomaram o controlo do Majlis nas eleições de 2004 e... não sei, estamos agora a ver o que isto vai dar. Para já, fui transferida de Isfahan aqui para o Ministério da Ciência, em Teerã."

"O que estava a fazer em Isfahan?"

"Trabalhava numa central."

"Que tipo de central?"

"É uma coisa experimental. Não interessa."

"E foi agora transferida para Teerã?"

"No ano passado."

"Porquê?"

Ariana riu-se.

"Acho que alguns homens são muito tradicionalistas e ficam nervosos por terem uma mulher a trabalhar com eles."

"O seu marido deve ter ficado aborrecido com a transferência, não?"

"Não voltei a casar."

"Então ficou o seu namorado."

"Também não tenho namorado." Ergueu a sobrancelha. "Mas o que é isto? Está-me a testar, é?

Quer ver se eu estou disponível?"

O português soltou uma gargalhada.

"Não, claro que não." Hesitou. "Quer dizer... uh... sim."

"Sim, o quê?"

"Sim, estou a testá-la. Sim, quero saber se está disponível." Inclinou-se para a frente, os olhos a reluzir. "Está?"

Ariana corou.

"Professor, estamos no Irã. Há certos comportamentos que... que..."

"Não me chame professor, faz-me velho. Chame-me Tomás."

"Não posso. Tenho de cuidar das aparências."

"Como assim?"

"Não posso mostrar intimidade consigo. Na verdade, eu devia chamar-lhe agha professor."

"O que é isso?"

"Senhor professor."

"Então chame-me Tomás quando estivermos a sós e agha professor quando estiver alguém por perto. Combinado?"

Ariana abanou a cabeça.

"Não pode ser. Tenho de me dar ao respeito."

O historiador abriu as mãos, num gesto de desistência.

"Como queira", disse. "Mas, diga-me uma coisa. Como é que os iranianos vêem uma mulher como você, assim bela, ocidentalizada, divorciada, a viver sozinha?"

"Bem, eu só vivo sozinha aqui em Teerã. Em Isfahan estava em casa da minha família. Sabe

que, aqui, há o costume de a família viver toda junta. Irmãos, avós, netos, tudo debaixo do mesmo

tecto. Mesmo os filhos, quando casam, ainda ficam algum tempo a viver com os pais."

"Hmm-hmm", murmurou Tomás. "Mas não respondeu à minha pergunta. Como é que os seus compatriotas encaram o seu modo de vida?"

A iraniana respirou fundo.

"Não muito bem, como seria de esperar." Fez um ar pensativo. "Sabe, as mulheres aqui não têm muitos direitos. Quando veio a Revolução Islâmica, em 1979, as coisas mudaram muito. O hejab tornou-se obrigatório, a idade de casamento para raparigas foi fixada nos nove anos e as mulheres foram proibidas de aparecer em público com um homem que não fosse da sua família ou a viajar sem consentimento do marido ou do pai. O adultério pela mulher passou a ser punido com

apedrejamento até à morte, mesmo nos casos em que ela era violada, e até o uso incorreto do hejab passou a dar direito a vergastadas."

"Caramba", exclamou Tomás. "As mulheres começaram a ter vida difícil, hem?"

"Pode crer. Eu, na altura, estava em Paris, pelo que não passei por essas vergonhas todas. Mas ia acompanhando isto tudo à distância, não é? As minhas irmãs e as minhas primas foram-me pondo ao corrente dos novos tempos. E acredite que eu não teria vindo em 1995 se achasse que as coisas iriam ficar na mesma. Na altura estavam a emergir os reformadores, havia sinais de abertura e eu... enfim, resolvi arriscar."

"Você é muçulmana?"

"Claro."

"Não lhe choca o modo como o Islã trata as mulheres?"

Ariana fez um ar atrapalhado.

"O profeta Maomé disse que os homens e as mulheres têm diferentes direitos e responsabilidades." Ergueu o dedo. "Repare, ele não disse que uns têm mais direitos do que os outros, disse apenas que são diferentes. É a forma como esta frase do profeta foi interpretada que está por detrás de todos estes problemas."

"Acha que Deus está realmente preocupado em saber se as mulheres usam véu ou não usam véu, se podem casar com nove, treze ou dezoito anos, se têm relações extraconjugais? Acha que Deus se incomoda com essas coisas?"

"É claro que não. Mas o que eu acho é irrelevante, não é? Esta sociedade funciona como funciona e não há nada que eu possa fazer para alterar as coisas."

"Mas é a sociedade que funciona assim ou é o Islão que funciona assim?"

"Não sei, acho que é a sociedade e a forma como ela interpreta o Islã", observou Ariana, pensativa. "O Islã é sinônimo de hospitalidade, de generosidade, de respeito pelos mais velhos, de sentido de família e de comunidade. A mulher realiza-se aqui como esposa e como mãe, tem o seu papel definido e tudo é claro." Encolheu os ombros. "Mas quem quiser algo mais... enfim, talvez saia frustrada, não é?"

Fez-se silêncio.

"Está arrependida?"

"De quê?"

"De ter voltado. Está arrependida?"

Ariana encolheu os ombros.

"Gosto da minha terra. É aqui que está a minha família. As pessoas são fantásticas, já reparou? Lá fora têm a idéia de que isto é tudo um bando de fanáticos, de gente que passa o dia a queimar bandeiras americanas, a gritar contra o Ocidente e a disparar kalashnikov para o ar, quando, na realidade, não é bem assim." Sorriu. "Até bebemos Coca-Cola."

"Já reparei. Mas voltou a não responder à minha pergunta."

"Qual pergunta?"

"Você sabe muito bem. Está arrependida de ter voltado ao Irã?"

A iraniana respirou fundo, algo intranquila com a questão.

"Não sei", disse por fim. "Procuro algo."

"Procura o quê?"

"Não sei. Quando encontrar, saberei."

"Procura alguém?"

"Talvez." Voltou a encolher os ombros. "Não sei, não sei. Acho que... procuro um sentido."

"Um sentido?"

"Sim, um sentido. Um sentido para a minha vida. Sinto-me um pouco perdida, meio caminho entre Paris e Isfahan, algures numa terra de ninguém, numa pátria desconhecida que não é francesa nem iraniana, que não é europeia nem asiática, mas, ao mesmo tempo, é tudo isso. A verdade é que ainda não encontrei o meu lugar."

O empregado turco, de pele morena e um ligeiro toque mongol, apareceu com a travessa do jantar. Colocou o mirza gbasemi diante de Ariana e o broke à frente de Tomás, mais dois copos de ab portugal, o sumo de laranja que ambos encomendaram em homenagem ao país do visitante, afinal de contas não é qualquer nação que tem um nome que se confunde com uma fruta em parsi. Para lá da janela, um mar de luzes tremeluzia pela escuridão, era Teerã a brilhar à noite, a cidade resplandecia até à linha do horizonte e para lá dela cintilava como uma imensa árvore de Natal.

"Tomás", murmurou Ariana, bebericando o sumo. "Gosto de falar consigo."

O português sorriu.

"Obrigado, Ariana. Obrigado por me chamar Tomás."

 

O edifício era um bloco compacto de cimento, um monstro escondido por um muro alto, no topo do qual assentava uma coroa de arame farpado, e decorado por acácias frondosas, numa ruela oculta de Teerã. O motorista baixou o vidro da janela do carro e falou em parsi com o guarda; o homem armado espreitou para o banco de trás da viatura, os olhos dançando por momentos entre Ariana e Tomás, e regressou ao casinhoto. A cancela foi levantada e o automóvel estacionou junto a uns arbustos.

"É aqui que você trabalha?", perguntou Tomás, avaliando o edifício cinzento.

"Sim", disse a iraniana. "É o Ministério da Ciência, Pesquisa e Tecnologia."

A primeira preocupação foi a de registar o visitante, atribuindo-lhe um cartão que lhe permitia frequentar o ministério durante um mês. O processo revelou-se moroso na secretaria, onde o pessoal, sempre sorrindo e manifestando uma simpatia e cerimônia que chegava a roçar o absurdo, o obrigou a preencher sucessivos formulários.

Já com o cartão na mão, Tomás foi levado ao segundo andar e apresentado ao director do departamento de projetos especiais, um homem baixo e magro, de pequenos olhos escuros e barba grisalha pontiaguda.

"Este é agha Mozaffar Jalili", disse Ariana. "Está a trabalhar comigo neste... uh... projeto."

"Sob bekbeir", cumprimentou o iraniano, sorridente.

"Bom dia", devolveu Tomás. "É o senhor que está encarregado do projeto?"

O homem fez um gesto vago com a mão.

"Formalmente, sim." Olhou de relance para Ariana. "Mas, na prática, é a khanom Pakravan quem está a conduzir os trabalhos. Ela tem... uh... qualificações especiais e eu limito-me a prestar-lhe toda a assistência logística. O senhor ministro considera este projeto de grande valor científico, sabe? De modo que determinou que os trabalhos devem prosseguir sem demora, sob a direção da khanom Pakravan."

O português olhou para os dois.

"Muito bem. Então vamos a isso, não é?"

"Quer começar já?", perguntou Ariana. "Não prefere tomar um chay primeiro?"

 

"Não, não", devolveu ele, esfregando as mãos. "Já comi no hotel. Agora é hora de trabalhar. Mal posso esperar para pôr os olhos no documento."

"Muito bem", disse a iraniana. "Vamos a isso."

Subiram os três ao terceiro andar e entraram numa sala espaçosa, com uma mesa longa no centro e seis cadeiras. As paredes apresentavam-se cobertas de armários com dossiers e dois vasos de

plantas emprestavam cor ao local. Tomás e Jalili sentaram-se à mesa, o iraniano envolvido numa conversa de circunstância, enquanto Ariana se ausentou. Pelo canto do olho, o português apercebeu-se de que ela entrou no gabinete seguinte, onde permaneceu alguns minutos. Reapareceu com uma caixa na mão e depositou-a sobre a mesa.

"Aqui está", anunciou.

Tomás estudou a caixa. Era de cartão reforçado, com aspecto gasto e usado, um lacinho roxo a selar a entrada.

"Posso ver?"

"Com certeza", disse ela, desfazendo o lacinho. Abriu a caixa e tirou do interior um manuscrito amarelecido, de poucas páginas, que colocou diante de Tomás. "Aqui está."

O historiador sentiu o cheiro adocicado do papel velho. A primeira página, uma folha quadriculada cuja fotocópia já tinha visto no Cairo, apresentava o título datilografado em letra de máquina antiga e um poema.

 

                   DIE GOTTESFORMEL

 

                                     Terra if fin

                                      De terrors tigbt

                                     Sabbath fore

                                     Christ nite

  1. Einstein

 

Por baixo, o rabisco com o nome gatafunhado de Albert Einstein.

"Hmm", murmurou o historiador. "Que poema é este?"

Ariana encolheu os ombros.

"Não sei."

"Não foi saber?"

"Fui. Consultamos a Faculdade de Letras da Universidade de Teerã e conversamos com vários professores de literatura inglesa, incluindo peritos em poesia, mas ninguém reconheceu o poema."

"Estranho." Voltou as páginas e analisou os rabiscos escrevinhados a tinta permanente negra, por vezes intercalados por equações. Página atrás de página, sempre os mesmos gatafunhos e mais equações. Eram vinte e duas páginas, todas numeradas no canto superior direito. Depois de as folhear com vagar e em silêncio, Tomás realinhou-as em bloco e mirou Ariana. "É isto tudo?"

"Sim."

"E onde está a parte que precisa de ser decifrada?"

"É a última folha."

O português tirou a folha que se encontrava no final do manuscrito e estudou-a com curiosidade. Tinha os mesmos rabiscos em alemão, mas terminava com umas palavras enigmáticas.

 

                                 See sign

                                 !ya ovqo

 

"Não percebo esta caligrafia", queixou-se Tomás. "O que está aqui escrito?"

"Bem, pela nossa análise caligráfica parece ser !ya e ovqo."

"Hmm", murmurou. "Sim, parece isso..."

"E, em cima, a expressão see sign."

"Mas isso é inglês."

"Sem dúvida."

O historiador fez um ar admirado.

"O que vos leva então a pensar que se trata de uma cifra em português?"

"A caligrafia."

"O que tem ela?"

"Não é de Einstein. Ora repare."

Ariana indicou com o dedo as linhas em alemão e as linhas em inglês, comparando-as.

"De fato", concordou Tomás. "Parecem redigidas por mão diferente. Mas não vejo nada aqui a sugerir mão portuguesa."

"É mão portuguesa."

"Como sabe?"

"Einstein trabalhou neste documento com um físico português que estava a estagiar no Institute for Advanced Study. Já comparamos essas palavras com a caligrafia do estagiário e a conclusão foi positiva. Quem redigiu essa frase enigmática foi, sem dúvida, o português."

Tomás mirou a iraniana. Era evidente que o português se tratava do professor Augusto Siza, mas até que ponto estaria ela disposta a falar do cientista desaparecido?

"Por que não entram em contato com esse português?", perguntou o historiador, fingindo desconhecer o assunto. "Se ele era jovem nessa altura, provavelmente ainda estará vivo."

Um rubor de atrapalhação encheu o rosto de Ariana.

"Esse português está... uh... indisponível."

Ah, pensou Tomás. Estás a esconder algo.

"Como assim, indisponível?"

Jalili interveio em socorro de Ariana. O pequeno iraniano agitou a mão, num gesto impaciente.

"Não interessa, professor. O fato é que não temos acesso a esse seu compatriota e precisamos de perceber o que quer isto dizer." Olhou de relance para a folha. "O senhor acha que consegue decifrar essa trapalhada?"

Tomás voltou a passar os olhos pela charada, pensativo.

"Preciso que me arranje uma tradução completa do texto em alemão", pediu o historiador.

"A tradução completa do manuscrito?"

"Sim, tudo."

"Não pode ser", disse Jalili.

"Perdão?"

"Não lhe posso arranjar a tradução do texto em alemão. Está absolutamente fora de questão."

"Porquê?"

"Porque tudo isto é confidencial", exclamou o iraniano, pegando no manuscrito e arrumando-o na caixa. "Apenas lhe foi mostrado para que o senhor sentisse algum contacto com o trabalho original. Vou-lhe escrever num papel a charada e terá que fazer todo o seu trabalho com base nesse papel."

"Mas porquê?"

"Porque este documento é confidencial, já lhe disse."

"Mas como posso eu decifrar a charada se não conhecer o texto anterior? Pode muito bem acontecer que o texto em alemão encerre o segredo da charada, não é?"

"Lamento, mas são as nossas ordens", insistiu Jalili. Olhou para a última página e copiou a charada de letras para uma folha A4 lisa. "Esta folha vai ser doravante o seu material de trabalho."

"Não sei se, nestas condições, consigo fazer o meu trabalho."

"Conseguirá." Soergueu o sobrolho. "Aliás, nem tem outro remédio. Por ordens do senhor ministro, o senhor só será autorizado a sair do Irã quando completar a decifração."

"O quê?"

"Lamento, mas são as nossas ordens. A República Islâmica está-lhe a pagar bem para decifrar este trecho e deu-lhe acesso a um documento confidencial muito valioso. Compreenderá naturalmente que a confidencialidade tem um preço. Se o senhor sair do Irã sem completar o trabalho, cria-se um problema de segurança nacional, uma vez que o trecho em questão poderá ser decifrado lá fora e nós, que temos o documento original, permaneceremos sem compreender esta peça-chave." O rosto crispado distendeu-se um pouco e Jalili sorriu, esforçando-se por ser amável e dissipar a tensão súbita. "De qualquer modo, não vejo razões para que não conclua com sucesso a

sua missão. Nós ficaremos com a tradução completa e o senhor irá para casa um pouco mais rico."

O português trocou de olhar com Ariana. A mulher fez um gesto de impotência, nada daquilo dependia dela. Percebendo que não dispunha de alternativas, Tomás virou-se para Jalili e suspirou, resignado.

"Muito bem", disse. "Mas já que vou fazer isto, é melhor fazer o trabalho completo, não é?"

O iraniano hesitou, sem perceber esta observação.

"Onde quer chegar?"

Tomás apontou para o manuscrito, já arrumado dentro da caixa de cartão.

"Quero chegar a essa primeira página. Será que também me pode copiar, se faz favor?"

"Copiar a primeira página?"

"Sim. Ela não esconde nenhum segredo terrível, pois não?"

"Não, tem apenas o título do manuscrito, o poema e a assinatura de Einstein."

"Então copie-me isso."

"Mas porquê?"

"Por causa desse poema, claro."

"O que tem o poema?"

"Ora! Não é evidente?"

"Não. O que tem ele?"

"O poema, meu caro, é outra charada."

 

O resto da manhã foi passado a tentar decifrar as duas charadas, mas sem sucesso. Tomás partiu sempre do princípio de que a segunda ocultava uma mensagem em português e imaginava que a referência see sign, a anteceder a algaraviada, era uma qualquer pista, mas não conseguia perceber qual. Já o poema lhe parecia remeter para uma mensagem em inglês, embora igualmente aqui os seus esforços esbarrassem numa opaca barreira de incompreensibilidade.

 

À hora do almoço, Tomás e Ariana foram a um restaurante ali perto comer um makhsus kebab, confeccionado com carne de carneiro picada.

"Peço desculpa pela forma como o agba Jalili falou consigo", disse ela, depois do empregado ter trazido a comida. "Os iranianos são habitualmente muito educados, mas este problema é de extrema sensibilidade. O manuscrito de Einstein tem prioridade e confidencialidade máxima, pelo que não podemos correr riscos. A sua estada no Irã enquanto decorre o trabalho de decifração constitui uma questão de segurança nacional."

"Eu não me importo de aqui ficar algum tempo", respondeu Tomás, enquanto mastigava um pedaço de kebab. "Desde que você esteja sempre por perto, claro."

Ariana baixou os olhos e sorriu levemente.

"Espero que isso queira dizer que apenas precisa da minha assistência científica."

"Ah, sim", exclamou o português com ar peremptório. "É apenas isso que espero de si." Fez uma expressão inocente. "Apenas assistência científica, nada mais."

A iraniana inclinou a cabeça.

"Por que será que não acredito em si?"

"Não faço a mínima ideia", riu-se ele.

"Vai-se portar bem, não vai?"

"Vou, vou."

"Por favor, Tomás", implorou ela. "Não se esqueça de que isto não é o Ocidente, está bem? Este é um país especial, onde as pessoas não se podem dar a certas liberdades. Não me vai embaraçar, pois não?"

O português fez uma expressão conformada.

"Pronto, já percebi", disse. "Nada farei que a atrapalhe, fique descansada."

"Ainda bem."

Tomás mirou o que restava do kebab na mão. O sentido da conversa dera-lhe o pretexto que precisava para fazer o que tinha a fazer.

 

"Depois do almoço, vou passear", anunciou.

"Ah, sim? Onde quer que o leve?"

"Não, você não vem. Se andar sempre comigo, isso poderá gerar alguns comentários desagradáveis para si. Afinal de contas, e como você diz, este é um país especial, não é?"

"Sim, tem razão", admitiu Ariana. "Vou ver se lhe arranjo um guia."

"Não preciso de guia."

"Claro que precisa. Como é que se vai orientar por..."

"Não preciso de guia", repetiu Tomás, mais enfático.

"Bem... uh... há o problema da segurança, percebe? A sua segurança é da nossa responsabilidade, precisamos que alguém o acompanhe para zelar por si."

"Que disparate! Eu sei muito bem cuidar de mim."

Ariana olhou-o, desconcertada.

"Ouça, eu vou-lhe arranjar um guia na mesma."

"Não quero, já disse."

Ela ficou um instante calada, como se estivesse a pensar. Baixou então a cabeça e inclinou-se para o seu convidado.

"Não o posso deixar assim sozinho, não entende?", sussurrou muito rapidamente. "Se você sair sem eu dizer nada a ninguém, posso ser punida." A voz adotou um tom de imploração sedutora. "Deixe-me arranjar-lhe um guia, por favor. Se você depois o despistar, problema do guia, já não tenho nada a ver com isso, não é?" Arregalou muito os olhos melados, em busca de assentimento. "Está de acordo?"

Tomás fitou-a por um momento e acabou por balançar afirmativamente a cabeça.

"Está bem", aceitou. "Chame lá o gorila."

 

O gorila era um homem baixo e largo, com barba rala forte e sobrancelhas negras carregadas, todo vestido de escuro e com ar de agente de segurança.

"Saiam", saudou o guia que Ariana lhe apresentou. "Haletun chetor e?"

"Ele pergunta se está tudo bem."

"Está, diga-lhe que está tudo bem."

"Khubam", disse ela ao guia.

O homem bateu com o dedo no peito.

"Esmam Rabim e", anunciou, sempre de olhos cravados no historiador. "Rahim."

Tomás percebeu.

"Rahim?" Foi a vez de ser o português a bater no peito. "Eu sou Tomás. Tomás."

"Ah, Tomás", sorriu ele. "Az ashnayitun kbosbbakhtam."

O historiador fez um sorriso amarelo e mirou a iraniana pelo canto do olho.

"Isto promete", disse entre dentes. "Sinto-me como o Tarzan a conversar com a Jane." Fez uma careta. "Me Tomás, you Rahim."

Ariana riu-se.

"Vão-se entender lindamente, vai ver."

“Só se você aceitar ser a minha Jane..."

A iraniana olhou em redor, para se certificar de que ninguém o tinha escutado.

"Vá, não comece", pediu, atrapalhada. "Onde quer que ele o leve?"

"Ao bazar. Apetece-me passear e fazer umas compras."

Rahim recebeu as indicações e entraram ambos num Toyota negro, um carro do ministério colocado à disposição do português para as suas voltinhas nessa tarde. O automóvel mergulhou no caótico trânsito de Teerão e convergiu em direcção ao sul da cidade; à medida que progrediam, a construção ia-se tornando pior, tudo parecia ainda mais congestionado, desordenado e degradado do que no resto da vasta urbe de catorze milhões de habitantes.

O motorista foi sempre tagarelando em parsi, enquanto Tomás assentia distraidamente, nada compreendendo e nada querendo compreender, os olhos perdidos no confuso e poluído emaranhado de ruas e casas, a mente a congeminar como se iria livrar do seu palrador guia-motorista-protetor-vigilante. A determinado ponto, seguiam por uma alameda, Rahim apontou para uns comerciantes e disse mais qualquer coisa em parsi, a expressão bazaris algures lá no meio. Alertado por essa palavra, como se uma sineta de alarme lhe tivesse soado aos ouvidos, Tomás procurou freneticamente indicações e apercebeu-se de uma tabuleta a referir que aquela era a Avenida Khordad. Conhecia-a do mapa que estudara atentamente na noite anterior, pelo que nem hesitou. Num gesto brusco abriu a porta do carro e saltou para o meio da avenida, desencadeando um tropel de travagens e buzinadelas.

"Bye-bye!", disse, acenando de fugida ao estupefato Rahim, que permanecia agarrado ao volante, de boca aberta, a ver o português volatilizar-se diante de si.

O motorista despertou da breve letargia provocada pela surpresa e parou o carro em plena Khordad, atirando-se também cá para fora, sempre a gritar em parsi; mas, por essa altura, já o seu cliente se embrenhara na multidão e tinha desaparecido na teia de ruelas que marcava o princípio do grande bazar de Teerã.

 

Um labirinto de ruas estreitas, becos e lojas de todas as espécies assinalava o coração comercial da capital do Irã. O bazar revelou-se uma cidade dentro de uma cidade, as ruelas a abrirem-se por vezes em praças e pracetas, as pequenas lojas intercaladas por mesquitas, bancos, pensões e até um quartel de bombeiros. Um teto semitransparente cobria o emaranhado de artérias, lançando uma protetora sombra sobre o velho mercado. Uma densa corrente humana apinhava-se por aquela rede labiríntica, mas, apesar de se aglomerarem ali tantas pessoas, todas caminhando ao passo lento de

quem sabe que o dia é para ser fruído, uma frescura aprazível enchia os corredores, cada canto perfumado por um odor característico.

Numa ruela dominada por lojinhas de especiarias, onde os aromáticos produtos coloridos se encontravam expostos ao ar livre, Tomás pôs a mão no bolso e retirou o papel que escrevinhara com a indicação do nome que procurava.

 

"Salam", disse a um comerciante. "Zamyad Shirazi?"

"Shirazi?"

"Bale."

Uma algaraviada em parsi jorrou da boca do homem e o português procurou concentrar-se nos gestos da mão, que lhe indicavam para seguir em frente e, algures sobre o mar de cabeças lá ao fundo, virar à esquerda. Agradeceu as indicações e avançou pela rua das especiarias até apanhar a perpendicular à esquerda. Meteu pela rua dos cobres e voltou a pedir informações, tendo a sua rota sido corrigida.

Chegou por fim à rua dos tapetes. Quando voltou a perguntar por Zamyad Shirazi, um comerciante indicou-lhe, com profusos gestos e muito parsi, a loja que se encontrava dez metros à frente. Avançou uns passos e parou diante do seu destino. Tal como as restantes lojas da rua, aquele estabelecimento tinha a porta coberta por tapetes persas e rolos de tapetes amontoados junto à entrada. Depois de se certificar de que ninguém por entre aquele aglomerado de gente o seguira, Tomás deu um passo em frente e penetrou na sombra.

 

O interior era escuro, iluminado por lâmpadas amareladas, e no ar flutuavam películas de pó e pairava um cheiro seco e penetrante, parecia naftalina. Sentiu uma comichão no nariz e espirrou ruidosamente. Os tapetes persas enchiam todo o espaço, incluindo as paredes e o tecto; via-se tapeçaria de diversas cores e de todos os géneros, incluindo os clássicos mian farsb, kellegi e kenareb, com os mais variados motivos, mas os dominantes revelavam-se os geométricos, os de arabescos e uns, mais trabalhados, mostrando cenas de jardins e arranjos de flores, sobretudo crisântemos, rosas e lótus.

"Khosh amadinl Kbosh amadin!", saudou um homem anafado, que se aproximava a passos largos e de braços abertos, um sorriso acolhedor aberto nos lábios. "Bem-vindo à minha humilde loja. Aceita um chay?"

"Não, obrigado."

"Oh, por favor! Temos um maravilhoso chay, vai ver."

"Agradeço-lhe, mas não quero. Almocei há pouco."

"Oh! Se acabou de almoçar, ainda melhor! Um chay é perfeito para a digestão. Perfeito." Fez um gesto largo com os braços, abarcando toda a loja. "Enquanto o bebe, pode ir apreciando os meus magníficos tapetes." Assentou a mão gorda nos que estavam mais próximos. "Ora veja, tenho aqui lindíssimos tapetes gul-i-bulbul, de Qom, com belos desenhos de pássaros e flores. Excelentes! Excelentes!" Apontou para a direita. "Tenho ali também sajadeh curdos, provenientes expressamente de Bijar para a minha loja. Um enorme exclusivo." Inclinou-se para o cliente, adotando o ar de quem guardava lá ao fundo da loja um valioso tesouro. "E se gosta do grande poema Sbahnamab, então vai ficar embasbacado com..."

"Zamyad Shirazi?", interrompeu Tomás. "O senhor é Zamyad Shirazi?"

O homem curvou-se numa leve vênia.

"Para o servir, excelência". Arregalou os olhos. "Se procura um tapete parsi, venha à loja do Shirazi!" Sorriu, muito satisfeito com a ingênua rima que inventara para promover a loja. "Em que o posso ajudar?"

Tomás observou-o com atenção, procurando avaliar o efeito das suas palavras no comerciante.

"É um prazer estar no Irã", disse.

O sorriso desfez-se e o homem fitou-o com algum alarme.

"Como?"

"É um prazer estar no Irã."

"O senhor vem fazer muitas compras?"

Tomás sorriu. Era a contra-senha.

"Chamo-me Tomás", apresentou-se, estendendo a mão. "Disseram-me para vir aqui."

De olhar aflito, Zamyad Shirazi cumprimentou-o apressadamente e foi espreitar à entrada, para se certificar de que não havia movimentos suspeitos na rua. Mais tranquilizado, fechou a porta da loja e, com gestos furtivos, fez sinal ao visitante para o seguir. Penetraram no estabelecimento escuro e foram desembocar num estreito armazém, atafulhado de tapetes. Subiram umas escadas em caracol e o comerciante mandou-o entrar numa pequena salinha.

"Espere aqui, por favor", disse-lhe.

Tomás acomodou-se num sofá e aguardou. Ouviu Shirazi afastar-se e, após um curto silêncio, apercebeu-se do som de um antiquado aparelho de telefone a ser discado. Escutou de imediato a voz distante do anfitrião a falar com alguém em parsi, respeitando pequenas pausas para ouvir o que lhe diziam do outro lado. A conversa durou apenas uns breves momentos. Depois de uma rápida troca de palavras, o comerciante desligou e Tomás apercebeu-se dos passos a aproximarem-se, até que viu o rosto bolachudo de Shirazi a espreitar pela porta da salinha.

"Já aí vêm", disse o comerciante.

O homem gordo afastou-se, voltando pelo mesmo caminho por onde ambos vieram. Tomás manteve-se sentado no sofá, de perna cruzada, à espera de novidades.

 

O iraniano parecia um lutador de boxe. Era um indivíduo alto, corpulento, de grandes arcadas supraciliares e bigode preto farfalhudo, abundantes pêlos negros a emergirem-lhe do colarinho desapertado e das orelhas pequenas. Entrou na salinha a destilar energia, todo ele despachado, com ar de quem não tinha tempo a perder.

"Professor Noronha?", perguntou, estendendo o braço peludo e musculado.

"Sim, sou eu."

Apertaram as mãos.

"Muito prazer. O meu nome é Golbahar Bagheri. Sou o seu contacto aqui em Teerã."

"Como está?"

"Certificou-se de que não foi seguido?"

"Sim, julgo ter despistado o meu guia ainda fora do bazar."

"Excelente, excelente", disse o homenzarrão, esfregando as mãos. "Langley pediu-me para lhes enviar um relatório ainda hoje. Quais são as novidades? Viu o documento?"

"Sim, vi. Foi esta manhã."

"É genuíno?"

Tomás encolheu os ombros.

"Isso não sei. A verdade é que tinha um ar envelhecido, as páginas já se apresentavam amareladas e encontrava-se dactilografado na capa e manuscrito no resto. Um rabisco na primeira página parecia ser a assinatura de Einstein. Presumivelmente, todas as linhas do documento foram igualmente escritas pela mão dele, com excepção de uma mensagem cifrada no fim. Os iranianos acham que esta mensagem cifrada foi redigida pelo punho do professor Siza."

Bagheri sacou um bloco de notas do bolso e pôs-se a escrevinhar com frenesim.

"Tudo manuscrito, uh?"

"Sim. Com exceção da primeira página, claro."

"Hmm-hmm..." Gatafunhou mais um pouco no bloco. "Tinha a assinatura de Einstein?"

"Assim parecia. E os iranianos disseram ter confirmado isso com testes de caligrafia."

"Eles revelaram onde esteve guardado o manuscrito todo este tempo?"

"Não."

Mais notas.

"E o conteúdo?"

"Quase tudo em alemão. Na primeira página vem o título, Die Gottesformel, depois um poema, cuja origem e sentido os iranianos não conseguiram determinar, e, por baixo, o que parece ser a assinatura de Einstein."

Ainda mais notas.

"Hmm-hmm", voltou Bagheri a murmurar enquanto escrevinhava, a língua rosada espreitando pelos lábios. "E o resto?"

"O resto eram vinte e tal páginas redigidas em alemão a tinta permanente negra. Tinha um texto corrido e muitas equações estranhas, daquelas que se vêem numa aula de matemática na universidade, sabe?"

"O que dizia o texto?"

"Não sei. Embora eu perceba os rudimentos de alemão, os meus conhecimentos não me permitem entender o que se encontrava ali escrito. Além disso, aquilo está redigido à mão, é de difícil leitura. Por outro lado, a verdade é que eles não me deixaram lê-lo, nem sequer aceitaram dizer qual o tema do manuscrito. Alegaram segurança nacional."

Bagheri parou de garatujar e fitou-o por momentos.

"Segurança nacional, uh?"

"Sim, foi o que eles disseram."

O iraniano voltou a escrevinhar no bloco de notas, sempre frenético.

"Não deu para perceber quaisquer pormenores do tipo de engenho nuclear descrito?"

"Não."

"Nem se envolvia urânio ou plutônio?”

"Nem isso."

"Quando voltar lá, pode ao menos verificar essa informação?"

"Ouça, eles não me vão deixar ver novamente o manuscrito. Mostraram-me apenas uma vez para eu ter uma idéia geral do que se tratava, mas disseram-me que, por motivos de segurança nacional, já não o poderei consultar de novo."

Bagheri voltou a imobilizar-se para mirar o seu interlocutor.

"Nem mais uma vez?"

"Nem mais uma única vez."

"Então como é que eles querem que você faça o seu trabalho?"

"Copiaram-me a parte cifrada para um papel. Terei de trabalhar a partir daí."

"Copiaram-lhe a parte cifrada, é?"

"Sim. É um trecho manuscrito na última página. E tenho também o poema da primeira. Quer ver?"

"Sim, sim. Mostre lá."

Tomás tirou do bolso uma folha dobrada em quatro. Abriu-a e revelou as linhas que Jalili copiara a caneta preta a partir do original de Einstein.

 

                                         "Está aqui."

 

                                                 Terra if fin

                                                 De terrors tight

                                                 Sabbath fore

                                                 Christ nite

 

                                                 See sign

                                                 !ya ovqo

 

"O que é isto?"

"O poema é a primeira parte, a mensagem cifrada é a segunda."

O iraniano pegou na folha e copiou o texto para o bloco de notas.

"Mais nada?"

"Mais nada."

"E o professor Siza? Falaram nele?"

"Nada. Apenas deram a entender que ele não estava acessível."

"O que quer isso dizer?"

"Não faço idéia. Eles mostraram-se muito desconfortáveis nessa parte e recusaram-se a elaborar.

Quer que lhes pergunte novamente?"

Bagheri abanou a cabeça enquanto escrevia.

"Não, é melhor não. Isso iria levantar suspeitas desnecessárias. Se eles não querem falar do assunto, não vão falar, não é?"

"Também acho."

O enorme iraniano terminou os seus apontamentos, guardou o bloco e cravou os olhos no visitante.

"Bem, eu agora vou transmitir tudo isto a Langley." Consultou o relógio. "A esta hora é madrugada lá. Eles só vão ver o relatório de manhã, noite nossa, e ainda vão ter de o analisar. Presumo que só pelo final da nossa manhã eu terei uma resposta com instruções." Suspirou. "Vamos fazer assim. Amanhã, pelas três da tarde, dirija-se ao bell boy do hotel e diga-lhe que está à espera do táxi do Babak. Entendeu? O táxi do Babak."

Foi a vez de Tomás anotar.

"Babak, é? Às três da tarde?"

"Sim." Ergueu-se, dando a reunião por concluída. "E tenha cuidado."

"Com quê?"

"Com a polícia secreta. Se for apanhado, está tramado."

Tomás fez um sorriso amarelo.

"É, posso ficar muito tempo a ver o sol aos quadradinhos."

Bagheri soltou uma gargalhada.

"Qual sol aos quadradinhos?" Abanou a cabeça. "Se o apanharem, vão torturá-lo até confessar tudo, o que pensa você? Vai cantar que nem um canário! E sabe o que lhe acontecerá depois disso, não sabe?"

"Não."

O iraniano da CIA colou o indicador à testa.

"Bang! Levará um tiro na cabeça."

 

O vulto alto e esguio de Ariana Pakravan emergiu no restaurante do Hotel Simorgh no momento em que Tomás trincava uma tosta quente. A bela iraniana esticou o pescoço e girou a cabeça, passeando pelo restaurante com os olhos como uma graciosa gazela, até a atenção ficar presa no aceno que o historiador lhe fez do fundo do salão. Ariana aproximou-se da mesa e sorriu.

"Bom dia, Tomás."

"Olá, Ariana." Fez um gesto para o centro do restaurante, mostrando a grande mesa com o pequeno-almoço. "Quer tomar alguma coisa?"

"Não, obrigada. Já comi." Indicou a porta com a cabeça. "Vamos?"

"Vamos, onde?"

"Bem... uh... ao ministério."

"Fazer o quê?"

A iraniana pareceu desconcertada.

"Trabalhar, suponho."

"Mas vocês não me deixam aceder ao manuscrito", argumentou Tomás. "Se é para estudar o papel que vocês me deram com as charadas, não precisamos de ir lá, pois não?"

"De fato, você tem razão", reconheceu ela, puxando a cadeira e sentando-se diante do seu interlocutor. "Para decifrar aquilo, realmente não é preciso ir ao ministério."

"Além do mais, se fosse ao ministério arriscava-me a dar de caras com o seu gorila."

"Ah, sim, o Rahim." Inclinou-se na mesa, curiosa. "O que diabo lhe fez você?"

Tomás largou uma ruidosa gargalhada.

"Nada", exclamou. "Despedi-me dele no meio da rua, apenas isso."

"Olhe que ele não ficou nada contente. A bem dizer, estava furioso consigo e o chefe furioso com ele."

"Imagino."

"Por que lhe fugiu?"

"Apeteceu-me passear sozinho pelo bazar. Não me vai dizer que é proibido, pois não?"

"Que eu saiba, não."

"Ainda bem", concluiu ele. "Seja como for, o melhor é ficarmos pelo hotel. Se formos a ver, aqui estamos muito mais confortáveis, não acha?"

Ariana ergueu a sobrancelha esquerda, fazendo um ar desconfiado.

"Depende do ponto de vista", devolveu, cautelosa. "Afinal de contas, onde quer você trabalhar nas charadas?"

"Ora! Aqui no hotel, claro. Onde haveria de ser?"

"Pois, mas fique bem claro que não vamos para o seu quarto, ouviu?"

"E por que não?"

A mulher desenhou um sorriso forçado nos lábios.

"Engraçadinho", exclamou. "Muito espirituoso, sim senhor." Endireitou-se, rodando a cabeça pelo restaurante. "Agora a sério, onde vamos trabalhar?"

"Por que não ali nos sofás junto ao bar?", perguntou ele, apontando vagamente para o local.

"Parecem confortáveis."

"Está bem." A mulher levantou-se da mesa. "Enquanto termina o seu pequeno-almoço, aproveito e vou telefonar para o ministério para dizer que você prefere ficar a trabalhar aqui no hotel." Inclinou a cabeça. "Vai precisar de mim, não vai?"

Tomás abriu-se num grande sorriso.

"Então não vou? Preciso de uma musa que me inspire."

Ariana rolou os olhos e abanou a cabeça.

"Vá, diga lá. Precisa de mim ou não?"

"Você fala alemão, não fala?"

"Sim."

"Então vou precisar, como é evidente. O meu alemão é ainda algo fraquito e preciso de uma ajudinha."

"Mas acha que precisa mesmo de alemão para decifrar as charadas?"

Tomás encolheu os ombros.

"Para falar com toda a franqueza, não sei. O fato é que quase todo o manuscrito está redigido em alemão, pelo que temos de admitir a possibilidade de as mensagens cifradas se encontrarem na mesma língua, não é?"

"Está bem", disse ela, virando-se para se afastar. "Então eu vou avisar que também ficarei aqui a trabalhar consigo."

"Linda menina."

 

O bar não tinha ambiente de bar. A ausência de álcool nas prateleiras e a luz matinal conferiam ao local um toque de coffee shop, ainda para mais porque ambos pediram ao empregado dois chays de ervas. Sentaram-se num sofá largo, lado a lado, e Tomás colocou folhas A4 brancas sobre a mesinha, preparado para testar as diversas hipóteses. Tirou a folha dobrada do bolso e contemplou as charadas.

"Ora bem", começou Tomás, esforçando-se por ganhar balanço para o duro trabalho intelectual que o esperava. "Há uma coisa aqui que me parece evidente." Virou a folha para Ariana. "Veja lá se a consegue detectar."

A iraniana estudou as charadas.

"Não faço a mínima idéia", disse enfim.

"É o seguinte", retomou o historiador. "Vamos começar pela segunda charada. Olhando para ela, não há dúvida de que se trata de uma mensagem cifrada." Apontou para os conjuntos de letras. "Ora repare nisto. Está a ver? Isto não é um código. É uma cifra."

"Qual a diferença?"

"O código implica a substituição de palavras ou frases. A cifra remete para a substituição de letras. Por exemplo, se ficar acordado entre nós que você passa a ser designada por Raposa, isso é um código. Substituí o nome Ariana pelo nome de código Raposa, percebe?"

"Sim."

"Mas se ficar acordado entre nós que vou trocar os a pelos i, então, se eu escrever Iraini, na verdade estou a dizer o nome Ariana. Apenas troquei as letras. Isso é uma cifra."

"Entendi."

"Olhando para estas charadas, a segunda é evidentemente uma mensagem cifrada." Balançou a cabeça. "Vai ser difícil decifrá-la. É melhor deixá-la para depois." "Prefere então concentrar-se na primeira charada?"

"Sim. O poema poderá ser mais fácil."

"Acha que é um código?"

"Acho." Esfregou o queixo. "Para já, repare no tom geral do poema. Já viu? Qual é o sentimento que transmite?"

Ariana concentrou-se nos quatro versos.

"«Terra if fin, de terrors tight, Sabbath fore, Christ nite»", leu em voz alta. "Não sei. Parece... sombrio, tenebroso, terrível."

"Catastrofista?"

"Sim, um pouco."

"Claro que é catastrofista. Já viu bem o primeiro verso?"

"Não o entendo. O que quer dizer Terra?"

 

"É uma palavra latina, também usada pela língua portuguesa. Significa Terra, o nosso planeta. E fin é francês para fim. O primeiro verso parece colocar a hipótese do Apocalipse, o fim dos dias, a destruição da Terra." Mirou a iraniana. "Qual é o tema do manuscrito de Einstein?"

"Não lhe posso dizer."

"Ouça, o tema pode ser relevante para a interpretação deste poema. Há alguma coisa no texto manuscrito que possibilite uma grande catástrofe, uma grave ameaça à vida na Terra?"

"Já disse que não lhe posso dizer. Isto é matéria confidencial."

"Mas não vê que preciso de saber isso para poder interpretar o poema?"

"Eu entendo, mas nada vai arrancar de mim. O mais que posso fazer é remeter o assunto aos meus superiores hierárquicos, designadamente o ministro. Se ele ficar convencido da necessidade de o informar sobre o conteúdo do manuscrito, tanto melhor."

Tomás suspirou, resignado.

"Muito bem, fale então com ele e explique-lhe o problema." Concentrou-se de novo no poema.

"Veja agora este segundo verso. «De terrors tight». Um terror apertado. Mais uma vez, o tom catastrofista, alarmante, sombrio. Tal como no primeiro verso, a interpretação deste segundo verso poderá estar também diretamente relacionada com o tema do manuscrito de Einstein."

"Sem dúvida. É tudo um pouco... arrepiante."

"O que quer que esteja nesse manuscrito, pode crer que era algo que deixou Einstein absolutamente impressionado. Tão impressionado que até o vemos a voltar-se para a religião nos terceiro e quarto versos. Está a ver? «Sabbath fore, Christ nite»." Torceu os lábios, pensativo. "O Sabbath é o dia que Deus abençoou, após os seis dias da Criação. É, por isso, o dia de descanso obrigatório dos judeus. Einstein era judeu e voltou-se aqui para o Sabbath, como se olhasse para Deus em busca de salvação. Os fogos do inferno serão arrefecidos no Sabbath e, se todos os judeus forem capazes de respeitar completamente este dia, o Messias virá." Deslizou os olhos para a derradeira linha. "O quarto verso reforça esse apelo ao misticismo como solução para o terror apertado, para os fogos do inferno que ameaçam pôr fim à Terra. Mie é uma forma corrupta de dizer night. «Christ nite». A noite de Cristo." Mirou Ariana. "Outra referência tenebrosa."

"Acha que este tom sombrio constitui a mensagem?"

Tomás pegou na sua chávena fumegante de chay e bebericou um pouco.

"Pode não constituir toda a mensagem, mas constitui sem dúvida parte da mensagem." Pousou a chávena. "Einstein estava evidentemente assustado com o que descobriu ou inventou e achou por bem colocar este aviso como epígrafe do manuscrito. O que quer que seja A Fórmula de Deus, minha cara, é decerto algo que mexe com poderes fundamentais da natureza, com forças que nos ultrapassam. É por isso que eu digo ser importante que me mostrem o conteúdo do documento. Sem o conhecer, a minha capacidade de descodificar este poema está seriamente limitada."

"Já lhe disse que vou colocar a questão ao ministro", repetiu a iraniana. Pousou os olhos de novo no poema. "Mas acha que o poema poderá ocultar mais mensagens?"

Tomás oscilou a cabeça para cima e para baixo, assentindo.

"Acho. A minha impressão é que há aqui mais alguma coisa."

"Por que diz isso?"

"Não sei, é um... sei lá, é uma... uh... impressão, um feeling que eu tenho."

"Um feeling?"

"Sim. Sabe, quando ontem li o poema com atenção, lá no ministério, saltou-me aos olhos esta estranha estrutura dos versos. Já reparou?" Pousou o indicador no poema rabiscado na folha. "Este é um inglês um pouco esquisito, não acha? Se formos a ler literalmente, há algo que não bate certo. O sentido geral está lá, mas o sentido específico escapa-nos. Ora veja, vamos tentar perceber o significado literal dos versos. «Se a Terra chegar ao fim, o terror aperta, destaca-se o Sabbath, noite de Cristo». Mas o que raio quer isto dizer?"

"Bem, ele procura, em primeiro lugar, obter uma rima."

"Isso é verdade", concordou Tomás. "Tight rima com nite. Mas também rima com night, não rima? Então, se rima, por que razão preferiu ele colocar nite em vez de night?"

"Para ficar mais sofisticado?"

O historiador fez uma careta, avaliando essa possibilidade.

"Talvez", concedeu. "Pode ser. Pode ser que tudo não passe de um mero efeito estilístico. Mas, cá para mim, continua a ser tudo muito estranho." Analisou o primeiro verso. "E por que razão ele diz Terra e não Earth? Porquê a palavra latina? E porquê fin e não end? Podia ter escrito Earth if end. Mas não. Teve de escrever «Terra if fin». Porquê?"

"Não seria para conferir um carácter misterioso ao poema?"

"Talvez. Mas, quanto mais olho para isto, mais se torna evidente uma coisa. Não sei explicar porquê. É um sentimento que me vem cá de dentro, uma espécie de sexto sentido. É, se quiser, a minha experiência de criptanalista a falar. Mas dessa coisa não tenho dúvidas."

"O quê?"

Tomás respirou fundo.

"Há aqui uma mensagem dentro de outra mensagem."

 

Passaram toda a manhã às voltas com o poema, procurando perceber qual o código que permitiria desatar o nó que o selava. Tomás depressa se apercebeu de que, tratando-se de uma mensagem codificada, a solução do problema era de uma complexidade extrema, uma vez que precisava de ter acesso ao livro de código, uma espécie de dicionário que lhe possibilitasse perceber o sentido de cada palavra do poema. Naturalmente que esse livro não se encontrava ali disponível, pelo que o criptanalista se pôs a conjecturar sobre o local onde um homem como Einstein o ocultaria. Seria em casa? Seria no instituto de Princeton onde fazia investigação? Tê-lo-ia entregue a alguém? A verdade é que, se a mensagem foi codificada, tal aconteceu para que a generalidade das pessoas não a entendesse, mas também para que existissem pessoas específicas que a entendessem. Caso contrário, em vez de codificar a mensagem, Einstein simplesmente não a teria escrito. Se a escreveu é porque havia certamente um destinatário, alguém que possuía o livro de código que lhe permitiria descodificar o poema. Mas quem?

Quem?

O professor Siza era, nestas circunstâncias, um óbvio suspeito. Teria ele o livro do código? Seria ele o destinatário da mensagem? Tomás sentiu momentaneamente uma quase irreprimível vontade de perguntar a Ariana o que acontecera com o físico; a pergunta chegou até a assomar-lhe à boca, como um vômito que irrompe pela garganta sem controle, mas conseguiu travá-la a tempo, empurrá-la de volta às entranhas de onde emergira. A revelação implícita de que se encontrava a par da ligação entre o professor, o Hezbollah e o Irã, considerou Tomás, seria catastrófica; os iranianos logo perceberiam que tinha sido informado por alguém do meio e as suspeitas sobre as suas reais intenções emergiriam automaticamente. Isso era algo que ele não podia, de modo algum, permitir.

Havia, claro, um segundo suspeito. O próprio David Ben Gurion. Afinal de contas, foi o antigo primeiro-ministro de Israel quem encomendou a Einstein a fórmula de uma bomba atômica fácil de preparar. Se Einstein codificou a mensagem num poema, sem dúvida que o fez sabendo que Ben Gurion possuía o livro de código que lhe permitiria descodificá-la. A ser assim, a Mossad israelita certamente que teria acesso a esse dicionário. Esta era, talvez, a hipótese mais interessante, dado que colocava o livro de código nas mãos do Ocidente. Uma vez que, na véspera, Tomás passara o poema ao homem da CIA em Teerão, presumiu que este já o tivesse remetido a Langley. Se isso fora feito, podia até dar-se o caso de, a essa hora, já a CIA ter descodificado a mensagem inserida no poema.

A análise da charada levou-os à mesa do restaurante do hotel. O almoço foi constituído por pratos inteiramente iranianos, com Tomás a experimentar um zereshk polo ba morq, ou galinha com arroz, e Ariana às voltas com um ghorme sabzi, uma carne picada em feijão. Discutiram sucessivas possibilidades de descodificação do poema por entre as garfadas, a conversa prolongando-se quando chegou o paludeh, o gelado de farinha de arroz e fruta encomendado pelo português, e a melancia da iraniana.

"Acho que vou dormir uma sesta", anunciou Tomás depois do qhaveh, o café negro iraniano.

"Não quer trabalhar mais?"

"Ah, não", disse ele, elevando as mãos, como se anunciasse a sua rendição. "Já estou muito cansado."

Ariana fez um gesto na direcção da chávena de qhaveh.

"Não sei como vai conseguir dormir", riu-se a iraniana. "O nosso café é muito forte."

"Minha cara amiga, a sesta é uma velha tradição ibérica. Não há café que a vença."

 

Faltavam cinco minutos para as três da tarde quando Tomás saiu do elevador e calcorreou o lobby do hotel. Olhou em redor com o ar mais natural de que era capaz, tentando certificar-se de que ninguém o observava. Não havia sinais de Ariana, de quem se despedira meia hora antes, alegando que ia dormir a sesta; nem ninguém parecia prestar-lhe particular atenção. Aproximou-se do concierge, consultou discretamente o nome que rabiscara no papel e chamou o bell boy.

"Deve estar um táxi à minha espera", disse-lhe.

"Um táxi, senhor?"

"Sim. É o táxi do Babak."

O rapaz saiu à rua e fez sinal a um carro cor de laranja, que se encontrava estacionado à direita. O automóvel arrancou e veio posicionar-se na rampa, diante da entrada do hotel.

"Faz favor, senhor", disse o bell boy, abrindo-lhe a porta traseira.

Tomás parou junto à porta e, antes de entrar, olhou para o motorista, um rapaz tão magro que parecia um esqueleto.

"Você é o Babak?"

"Uh?"

"Babak?"

O homem fez que sim com a cabeça.

"Bale."

Tomás colocou uma moeda de cem riais na mão do bell boy e acomodou-se no assento de trás. O táxi arrancou e internou-se na corrente louca do trânsito de Teerão, virando e revirando pelo emaranhado de ruas e avenidas e travessas. O passageiro tentou meter conversa e perguntou para onde iam, mas Babak limitou-se a abanar a cabeça.

"Man ingilisi balad nistam", disse.

Era evidente que não falava inglês. Percebendo que dali nada sairia, o português encostou-se ao assento e deixou-se guiar; sabia que alguma coisa iria acontecer, afinal de contas o homem da CIA não o mandara apanhar aquele táxi para o passear inutilmente pela cidade. Era uma questão de ter paciência e esperar.

O táxi deambulou durante vinte minutos pelas ruas de Teerão, com Babak sempre atento ao espelho retrovisor. Por vezes virava repentinamente para uma transversal e era nessas alturas que mais consultava o retrovisor; fez isso em ocasiões sucessivas, sempre utilizando a mesma técnica, até se dar por satisfeito e entrar na Avenida Taleqani. Parou nas imediações da Universidade Amirkabeir e um homem corpulento entrou no carro, sentando-se ao lado de Tomás.

"Como está, professor?"

Era o agente da CIA que conhecera na véspera.

"Olá." O português hesitou. "Desculpe, não me lembro é do seu nome."

O homem sorriu, revelando dentes estragados.

"Ainda bem", exclamou. "Chamo-me Golbahar Bagheri, mas, se calhar, é mesmo melhor nem memorizar o meu nome."

"Então que nome lhe posso chamar?"

"Olhe, chame-me Mossa."

"Mossa? De Mossad?"

Bagheri riu-se.

"Não, não. Mossa, de Mossadegh. Sabe quem foi Mossadegh?"

"Não faço ideia."

"Eu mostro-lhe." Disparou umas frases em parsi dirigidas a Babak. O automóvel arrancou e prosseguiu ao longo da mesma avenida. "Mohammed Mossadegh era um advogado que foi eleito democraticamente e nomeado primeiro-ministro do Irã. Na altura, os poços de petróleo existentes no país eram um exclusivo da Anglo-Iranian Oil Company e Mossadegh tentou melhorar as condições do negócio. Os britânicos recusaram e ele resolveu nacionalizar a companhia. Foi um ato com enormes repercussões, ao ponto de a revista Time o ter escolhido para figura do ano em 1951, por ter desse modo encorajado os países subdesenvolvidos a libertarem-se dos colonizadores.

Mas os britânicos nunca aceitaram a situação e Churchill conseguiu convencer Eisenhower a derrubar Mossadegh." Apontou para a esquerda. "Está a ver aquele edifício?"

Tomás olhou para o local. Era uma vasta construção, quase escondida atrás de muros decorados por palavras de ordem, a maior das quais era "Down with the USA".

"Sim, estou a ver."

"Esta é a antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerã. Foi de um bunker da embaixada que a CIA engendrou o plano para derrubar Mossadegh. Chamou-se Operação Ajax. A custa de muitos subornos e a disseminação de contra-informação, a CIA conseguiu o apoio do Xá e de muitas figuras-chave do país, incluindo líderes religiosos, chefes militares e diretores de jornais, e derrubou Mossadegh em 1953." Bagheri olhou para o edifício, onde se encontravam alguns milicianos armados. "Foi por causa desse episódio que, quando ocorreu a Revolução Islâmica, em 1979, os estudantes invadiram a embaixada americana e mantiveram uns cinquenta diplomatas como reféns durante mais de um ano. Os estudantes receavam que a embaixada conspirasse contra o ayatollah Khomeini como conspirara contra Mossadegh."

"Ah", exclamou Tomás. "E o que achava você de Mossadegh?"

"Era um grande homem."

"Mas foi derrubado pela CIA."

"Sim."

"Então... desculpe, mas não estou a perceber. Você trabalha para a CIA."

"Trabalho para a CIA agora, mas não trabalhava em 1953. Aliás, nem sequer era nascido nessa altura."

"Mas como pode você trabalhar para a CIA se a agência derrubou esse grande homem?"

Bagheri fez um gesto resignado.

"As coisas mudaram. Quem está agora no poder não é um homem esclarecido, como Mossadegh, mas um bando de fanáticos religiosos que está a empurrar o meu país de volta à Idade Média." Apontou para os milicianos armados que deambulavam frente à antiga embaixada. "São eles o meu inimigo. E eles são também o inimigo da CIA, não é?" Sorriu. "Não sei se já ouviu este provérbio árabe, mas o inimigo do meu inimigo meu amigo é. Portanto, a CIA é agora minha amiga."

O táxi dobrou a esquina, apanhando a Avenida Moffateh em direcção a sul. O carro parecia avançar sem sentido pelas ruas e avenidas de Teerã, algo que se tornou muito claro quando viraram na Enqelab e contornaram a Praça Ferdosi, voltando para a Enqelab, só que no sentido contrário. Era um percurso sem destino, em que apenas a viagem interessava, ou se calhar nem ela, o passeio não passava afinal de um mero pretexto para se reunirem longe dos olhares indiscretos.

Depois de abandonado o setor da embaixada, o colosso iraniano permaneceu algum tempo calado, de olhos fixos na alcatéia de carros que enchia as ruas, verdadeiros predadores nas mãos nervosas dos impacientes automobilistas da cidade.

"Recebi instruções de Langley", disse Bagheri por fim, sem deixar de observar o trânsito.

"Ah, sim? E o que dizem eles?"

"Ficaram aborrecidos por você não poder voltar a aproximar-se do manuscrito. Querem saber se não há mesmo qualquer possibilidade de o fazer."

"Pelo que percebi, não há. O tipo do ministério parecia muito cioso dele, sempre a alegar segurança nacional. Se eu insistir, receio que isso apenas vá levantar suspeitas."

Bagheri tirou os olhos do trânsito e fitou Tomás, as sobrancelhas carregadas.

"Nesse caso, vamos ter uma grande chatice nas mãos."

"Uma grande chatice? Porquê?"

"Porque é inaceitável para a América que o manuscrito permaneça nas mãos iranianas."

"Mas o que podem os Estados Unidos fazer?"

"Há duas hipóteses numa situação que envolve a segurança nacional americana. A primeira é bombardear o edifício onde o manuscrito está guardado."

"Como? Bombardear Teerã por causa... por causa disto?"

"Isto, caro professor, não é uma coisa qualquer. Isto são os planos para uma bomba atômica barata e fácil de produzir. Isto é uma ameaça à segurança internacional. Se um regime como o iraniano, que tem ligações a grupos terroristas, conseguir desenvolver armas nucleares de construção fácil, pode ter a certeza de que malucos como o Osama bin Laden e outros não vão voltar a atacar Nova Iorque com uns aviõezinhos. Eles vão ter ao seu dispor coisas bem mais... uh... explosivas, se é que entende o que quero dizer."

"Hmm, entendo."

"Nestas circunstâncias, bombardear um edifício em Teerã é o menor dos males, acredite."

"Acredito, acredito."

O iraniano voltou, por momentos, a mirar a paisagem para lá da janela do táxi.

"O fato de você ter visto ontem o manuscrito no Ministério da Ciência dá-nos a confirmação que precisávamos quanto ao seu paradeiro. Mas esta opção tem dois pontos contra. Um é que uma ação militar desta natureza tem repercussões políticas desagradáveis, em particular no mundo islâmico. O regime iraniano seria vitimizado. Este é, porém, um obstáculo que se ultrapassaria, se não se desse o caso de haver um segundo obstáculo intransponível. É que, com toda a probabilidade, o bombardeamento não atingirá o seu objetivo estratégico último, que é apagar o documento de Einstein e a fórmula das armas atómicas baratas e fáceis de produzir. O manuscrito seria destruído, claro, mas é mais do que provável que existam cópias noutros cofres iranianos e nada impediria o regime de fabricar a bomba a partir da fórmula que se encontra no texto. O que eu quero dizer é que o bombardeamento destruiria o manuscrito original, mas não a fórmula já copiada."

"É bem visto."

"Foi por isso que Langley me deu instruções para, em caso de não ser possível você voltar a aproximar-se do manuscrito, activar imediatamente a segunda opção."

O iraniano calou-se, parecia preocupado.

"E o que é a segunda opção?", perguntou Tomás.

Bagheri respirou fundo.

"Roubar o manuscrito."

"Como?"

"Ir ao Ministério da Ciência e roubar o manuscrito. Tão simples quanto isso."

O historiador, passada a surpresa inicial, soltou uma gargalhada.

"Caramba, vocês não fazem a coisa por menos!", exclamou. "Roubar o manuscrito? Mas como é que vão conseguir isso?"

"É simples. Arranjamos maneira de anular o guarda, entramos lá dentro, localizamos o documento e tiramo-lo."

"Já agora, por que não microfilmá-lo? Se estão ali com ele à frente, não era melhor serem mais discretos? Afinal de contas, o fato de o roubarem não resolverá o problema, uma vez que, tal como você disse, os tipos têm certamente cópias guardadas noutros sítios."

"Não, isso não pode ser assim. Os Estados Unidos querem levar o documento ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas, para o fazerem, precisam primeiro de o autenticar. Só o poderão autenticar se tiverem o manuscrito original nas suas mãos. É por isso que temos de o ir lá buscar."

Tomás considerou as consequências dessa ação.

"Ouça lá, isso não é perigoso?"

"Tudo na vida é perigoso. Sair à rua é perigoso."

"Não desconverse, já parece eu a falar com a minha mãe. O que me preocupa é saber o que me acontecerá quando os iranianos derem pela falta do documento. Eles não são parvos e sabem relacionar as coisas, não é? Num dia mostram-me o manuscrito e, dias depois... puf!, ele desaparece. Isso é... como hei-de eu dizer? É... suspeito."

"Sim, você não vai ficar em segurança."

"Então, diga-me lá. Como é que vamos resolver isso?"

"Você terá de sair do país."

"Mas como? Eles dizem que só me deixam sair depois de decifrar as charadas inseridas no documento."

"Teremos de o tirar do Irão logo na noite em que formos roubar o manuscrito."

"E quando será isso?"

"Ainda não sei. Gostaria que fosse o mais depressa possível, mas não consigo dizer ainda quando será, há demasiados detalhes para tratar. Conto sabê-lo já amanhã, no entanto. Logo que tenha a informação, darei um salto ao hotel para lhe passar os pormenores." Ergueu o dedo. "Não saia do hotel, ouviu? Faça tudo o que faria normalmente, continue a trabalhar na decifração da charada e espere que eu o contacte."

"Hmm, está bem", assentiu Tomás. "Portanto, deixe-me recapitular. A sua idéia é assaltar o ministério, roubar o documento e vir buscar-me logo a seguir para me tirar do Irã. É isso?"

 

Bagheri inspirou e conteve o ar dentro de si.

"Bem, é mais ou menos isso, sim", disse, uma expressão reticente no rosto. "Mas... uh... há um pequeno pormenor que é... diferente."

"Ah, sim?"

"Sim."

O iraniano calou-se, o que espicaçou a curiosidade do historiador.

"E qual é esse pormenor?"

"Você vem conosco."

"Oh, isso já me disse. Vão-me tirar do Irã."

"Não, não é isso o que eu queria dizer. Você também vem connosco ao ministério."

"Como?"

"Você faz parte da equipe de assalto."

 

A grande arena tinha as bancadas repletas de gente, sobretudo mulheres cobertas com chador negros, mas todos se comportavam como se fosse dia de espectáculo. Alguém empurrou Tomás e obrigou-o a ajoelhar-se no centro, a cabeça pendendo para a frente, expondo a nuca e o pescoço. Pelo canto dos olhos, o historiador conseguiu aperceber-se da presença de homens vestidos com longas túnicas brancas islâmicas; eles aproximaram-se e fecharam um círculo em torno de si, como se o cercassem, cortando-lhe a derradeira esperança de escapar daquele lugar de morte. De entre eles emergiu Ariana, o olhar triste, sem se atrever sequer a aproximar do condenado, soprando-lhe um tímido beijo de despedida. Logo a bela iraniana desapareceu e, no seu lugar, surgiu Rahim, os olhos ressentidos faiscando em fúria, uma enorme espada curvada cintilando no cinto. Rahim tirou a espada do cinto num movimento brusco, segurou-a com as duas mãos, pôs-se em posição e ergueu-a para os céus, suspendendo-a por um instante, um medonho segundo, apenas um breve e longo momento antes da lâmina rasgar o ar com toda a força e decapitar Tomás.

Acordou.

Sentiu o suor frio banhar-lhe o topo da testa, a transpiração colando-lhe o pijama ao peito e às costas. Arfava. Tentou perceber se aquilo era a morte, mas não; com alívio, com terror, compreendeu enfim que vivia, o quarto escuro respondia-lhe com silêncio, o sossego revelava-lhe que tudo não passara afinal de um pesadelo, mas que o outro pesadelo, aquele em que o iraniano do bazar o havia envolvido na véspera, era bem real, palpável, iminente.

Empurrou os lençóis, sentou-se na cama e esfregou os olhos.

"Mas onde é que eu me fui meter?", murmurou.

Cambaleou para o quarto de banho e foi-se lavar. No espelho viu um homem com profundas olheiras, o previsível resultado de uma angustiada insónia que só acabou madrugada dentro. Sentia-se atirado a toda a velocidade pelos trilhos ondulantes de uma montanha-russa de emoções, ora deprimido pela perspectiva de cometer um ato terrível num país de horríveis castigos, ora esperançado por um súbito volte-face, uma mudança repentina, um qualquer acontecimento providencial que, quase por magia, resolvesse o problema e o libertasse daquele fardo pavoroso que lhe tinham inesperadamente colocado sobre os ombros.

Nesses momentos de esperança agarrava-se com todas as forças à conversa da véspera com Ariana. Com certeza que o ministro da Ciência perceberia a razoabilidade do seu pedido, considerou diante do espelho, numa pausa entre o acto de espalhar a espuma e o de passar a lâmina pelo rosto. O argumento de que a chave da mensagem cifrada se encontrava algures escondida no texto do manuscrito fazia perfeito sentido e era uma evidência tal que o ministro certamente não deixaria de a reconhecer. Sim, pensou, enquanto lavava agora os dentes. É inevitável que o autorizem a consultar o texto. E quando o consultasse podia ser que encontrasse todas as respostas de que a CIA precisava, podia ser que descobrisse coisas que tornassem desnecessário o furto do manuscrito, livrando-o assim de uma trapalhada para a qual não se sentia talhado.

 

Cerrou os olhos e murmurou uma promessa.

"Se me safar desta, prometo rezar todos os dias deste ano." Abriu um olho, avaliando a dureza da promessa. "Bem, todos os dias do ano também é de mais. Rezarei todos os dias do próximo mês.

Respirando uma inesperada confiança, insuflada pela promessa, abriu o chuveiro, sentiu a temperatura da água e, quando se deu por satisfeito, pôs o pé e meteu-se lá dentro.

O vulto gracioso de Ariana apareceu no lobby um pouco depois da hora combinada, já Tomás tinha comido o pequeno-almoço e a aguardava impacientemente no sofá do bar. Cumprimentaram-se e a iraniana acomodou-se no lugar que ocupara na véspera, encomendando um sumo de laranja ao empregado. Mal conseguindo conter a ansiedade, o historiador foi direito ao assunto.

"Então? O ministro?"

"O que tem o ministro?"

"Ele autorizou?"

Ariana fez cara de quem só agora percebera a pergunta.

"Ah, sim", exclamou. "A autorização."

"Autorizou?"

"Bem... uh... não."

Tomás ficou especado a olhá-la, ouvindo e não acreditando que a ouvira.

"Não?", balbuciou.

"Não, não autorizou", disse Ariana. "Eu expliquei-lhe que você acha que o poema é uma mensagem codificada e que a chave do código se encontra no texto. Ele disse-me que lamenta muito mas que, por razões de segurança nacional, você não pode ter acesso ao conteúdo do documento e que, se isso implicar um atraso na descodificação do poema, paciência."

"Mas... mas isso pode implicar até que não se decifre o poema de todo", insistiu o português.

"Você explicou-lhe isso?"

"Expliquei, claro que expliquei. Mas ele não quer saber disso. Diz que a segurança nacional está acima de tudo e que, quanto ao problema da descodificação, esse não é só um problema do Irã." Apontou para o seu interlocutor. "É também um problema seu."

"Meu?"

"Sim, seu. Não se lembra do agba Jalili dizer que você não será autorizado a sair do Irã enquanto não decifrar as charadas? O ministro confirmou-me que é mesmo assim. Aliás, parece que o caso foi até ao presidente." Ariana fez um gesto de resignação. "De modo que, Tomás, lamento muito mas você está condenado a deslindar aquelas mensagens ocultas."

O historiador respirou fundo e deixou cair os olhos para o mármore polido que brilhava no chão; sentia-se desanimado e encurralado.

"Estou tramado", comentou em tom de desabafo.

Ariana tocou-lhe no braço.

"Calma, não fique assim. Eu já vi que você é um excelente criptanalista. Vai conseguir deslindar estes enigmas, estou certa."

O português parecia quebrado de desalento, uma expressão tristonha desenhada no rosto. Na verdade, não tinha dúvidas de que seria capaz de descobrir as mensagens ocultas nas charadas; o pedido para consultar o texto do manuscrito devia-se, afinal, mais à vontade de conhecer melhor o documento do que à convicção de que ele ocultava a chave do código. O verdadeiro problema é que a revelação de que o ministro não autorizava a consulta significava o desmoronar das suas derradeiras esperanças de resolver o problema sem o assalto que o homem do bazar lhe anunciara na véspera.

"Estou tramado", repetiu, o olhar sombrio.

"Ouça", disse Ariana, sempre tentando consolá-lo. "Não é caso para desanimar, você vai solucionar o problema. Além do mais, esta é até uma oportunidade para trabalharmos juntos durante algum tempo. Isso... isso não lhe agrada?"

Tomás pareceu despertar de um torpor.

"Hã?"

"Não lhe agrada trabalhar comigo durante todo este tempo?"

O historiador contemplou o rosto perfeito da iraniana.

"Isso é mesmo a única coisa que me impede de cometer suicídio agora mesmo", disse ele, quase mecanicamente.

Ariana riu-se.

"Você é engraçado, não há dúvida." Inclinou a cabeça. "Então do que está à espera? Vamos a isto!"

"A isto, o quê?"

"Vamos trabalhar."

Tomás pegou na folha com as mensagens, desdobrou-a e pousou-a sobre a mesinha.

"É isso, tem razão", exclamou, tirando a caneta do bolso. "Vamos trabalhar."

Passaram três horas a analisar os múltiplos significados simbólicos das diversas palavras-chave do poema, em particular Terra, terrors, Sabbath e Christ, mas nada encontraram para além do que já haviam concluído na véspera. Foi um trabalho frustrante, com todas as hipóteses rabiscadas num rascunho e logo riscadas, por se revelarem absurdas e inconsistentes.

Já perto da hora do almoço, Tomás pediu licença e dirigiu-se ao quarto de banho. Ao contrário da maior parte dos quartos de banho iranianos, onde o local onde se fazem as necessidades é constituído por um imundo buraco aberto no chão, este dispunha de retrete, urinóis e até um cheirinho perfumado a flutuar no ar, ou não se tratasse aquele de um dos melhores hotéis do país.

Quando se encontrava diante do urinol, concentrado na tarefa imediata, o historiador sentiu uma mão pousar-lhe no ombro e estremeceu de susto.

"Então professor?"

Era Bagheri.

"Mossa!" Bufou. "Que susto que você me pregou!"

"O senhor anda nervoso."

"E não tenho razões para isso? Já viu em que embrulhada você me quer meter?"

"Termine lá o que está a fazer", disse Bagheri, afastando-se e encostando-se ao lavatório.

Tomás ainda permaneceu mais um instante voltado para o urinol; quando concluiu, fechou a braguilha e veio lavar as mãos ao lavatório.

"Oiça", disse, olhando Bagheri pelo espelho. "Eu não fui talhado para estas coisas. Estive a pensar e... e decidi não ir."

"São ordens de Langley."

"Quero lá saber! Eles nunca me falaram em meter-me em operações de assalto."

"As circunstâncias mudaram. O fato de o senhor não ter conseguido ler o manuscrito obrigou-nos a alterar os planos. Além do mais, há decisões novas que ultrapassam Langley."

"Decisões novas?"

"Sim. Decisões tomadas em Washington. Repare, professor, esta é uma matéria que envolve a segurança do Ocidente. Se um país como o Irã tem acesso à fórmula de fabrico simples de uma arma nuclear, pode ter a certeza de que isso assusta toda a gente, em particular num mundo pós-11 de Setembro." Esboçou um gesto conformado. "Portanto, perante o que está em jogo, pode crer que a derradeira das preocupações de Washington é saber se o senhor ou eu gostamos ou não da missão para que fomos recrutados."

"Mas eu não sou nenhum comando, percebe? Nem sequer fiz a tropa. Eu vou ser um empecilho."

"Professor, já lhe disse ontem que o seu envolvimento é crucial para o sucesso da operação."

Bagheri ergueu o polegar. "Só o senhor é que viu o manuscrito." Agora o indicador. "E só o senhor é que viu em que sala ele é guardado." Apontou para Tomás. "Como é lógico, precisamos de si para nos guiar na localização e identificação do documento. Sem a sua ajuda, como é que faremos as coisas? Olhe, andaríamos a passear pelo ministério como baratas tontas, a vasculhar tudo sem encontrar nada." Abanou a cabeça. "Não pode ser."

"Mas, ouça, qualquer pessoa pode perfeitamente..."

"Chega", cortou Bagheri, elevando um tudo-nada o tom de voz. "A decisão está tomada e não há nada que o senhor ou eu possamos fazer. Estão em jogo coisas demasiado importantes para que o senhor esteja agora com dúvidas." Olhou de relance para a porta. "Além do mais, diga-me uma coisa."

"Sim?"

"O senhor acredita mesmo que esta gente o vai deixar regressar ao seu país depois de o trabalho estar concluído?"

"Foi o que eles disseram."

"E o senhor acredita nisso? Repare bem. O senhor viu o manuscrito de Einstein e o senhor em princípio irá descodificar os segredos que Einstein colocou na sua fórmula nuclear. Não acha estranho que, tendo a intenção de manter tudo secreto, o regime o deixe voltar tranquilamente para a sua terra, sabendo o senhor o que sabe? Não acha que isso constitui um grave risco para a confidencialidade do projecto nuclear iraniano? Não acha que, depois de concluído o trabalho, e estando o senhor na posse de parte do segredo, o regime o vai considerar uma grave ameaça para a segurança do Irã?"

Tomás arregalou os olhos, digerindo as implicações das perguntas disparadas pelo iraniano.

"Uh... pois, realmente... uh...", gaguejou. "Acha... acha mesmo que eles me vão manter aqui para... para sempre?"

"Farão uma de duas coisas. Ou o matam quando já não precisarem de si, ou mantêm-no preso numa jaula dourada." Bagheri olhou de relance mais uma vez para a porta, certificando-se de que continuavam sós. "Admito como mais provável que o retenham para sempre aqui no Irã. O regime é constituído por fanáticos fundamentalistas, o que tem, apesar de tudo, o seu lado positivo. Embora sejam implacáveis na aplicação da sharia, a lei islâmica, eles partilham uma profunda crença no comportamento moral e é provável que, não dispondo de um motivo moralmente razoável para o matar, o mantenham retido. Mas, por outro lado, é preciso não esquecer que estão em causa segredos fundamentais para o regime, não é? E os motivos morais também se inventam.

Assim sendo, não é de negligenciar a possibilidade de eles escolherem um método mais radical e seguro para o calar." Passou o dedo pelo pescoço. "Entendeu?"

O historiador fechou os olhos, massajou as têmperas e suspirou.

"Estou mesmo tramado."

Bagheri voltou a espreitar a porta do quarto de banho.

"Ouça, não temos muito tempo", disse. "Vim aqui apenas para lhe dizer que está tudo pronto."

"O que é que está pronto?"

"Os preparativos para a missão encontram-se praticamente concluídos. Depois do assalto, vamos levá-lo para uma terriola no mar Cáspio, chamada Bandar-e Torkaman, localizada perto dos restos do muro de Alexandre, o Grande."

"Bandar e quê?"

"Bandar-e Torkaman. É uma pequena povoação portuária turca, não muito longe da fronteira com o Turcomenistão. No porto de Bandar-e Torkaman estará um barco de pesca com o nome da capital do Azerbaijão, Baku. É um barco alugado por nós e que o levará justamente para Baku. Percebeu?"

"Uh... mais ou menos." Fez um ar intrigado. "Você virá comigo?"

Bagheri abanou a cabeça.

"Não, eu vou ter de permanecer aqui em Teerã para baralhar as pistas. Mas o Babak leva-o até lá, fique descansado. É importante, no entanto, que decore uma coisa."

Tomás tirou um papel e uma caneta do bolso.

"Diga."

"Não, não pode escrever isso em parte alguma. Tem de decorar, percebeu?"

O historiador fez uma expressão contrariada.

"Decorar?"

"Sim, tem de ser. Por motivos de segurança."

"Então diga lá."

"Quando chegar ao Baku, que se encontra atracado no porto de Bandar-e Torkaman, mande chamar pelo Mohammed." Ergueu o dedo. "Lembre-se, Mohammed."

"Como o profeta."

 

"Isso. Pergunte-lhe se este ano ele tenciona ir a Meca. Ele responderá inch'Allah. São essas a senha e contra-senha."

"Tenciona ir este ano a Meca?", perguntou Tomás, memorizando a pergunta. "É isto, não é?"

"Sim, isso mesmo."

"Se ele disser inch'Allab, é porque está tudo bem."

"Exato."

"Parece fácil."

"Claro que é fácil." Bagheri consultou o relógio. "Bem, tenho de ir. Venho buscá-lo à meia-noite."

"À meia-noite? Para ir onde?"

O iraniano mirou-o, surpreendido.

"Ainda não lhe disse?"

"Disse o quê?"

"A operação, professor."

"O que tem a operação?"

"É esta noite."

 

Quando voltou para junto de Ariana, Tomás sentia-se de tal modo perturbado que teve dificuldade em voltar a concentrar-se. Quanto mais se fixava no poema, mais divagava para a aventura louca em que iria embarcar nessa noite. Tinha os olhos perdidos nas letras rabiscadas no papel e a cabeça concentrada nas implicações de tudo o que se passava, fixando-se nos pormenores, desde os preparativos para sair do hotel até ao que aconteceria no momento do encontro no barco com o tal Mohammed. Deveria levar a bagagem? Mas isso não iria levantar suspeitas, se o vissem a sair do hotel com uma grande mala? Não, tinha de deixar a bagagem para trás, só podia levar um saco com o essencial. E como sairia do hotel sem ser visto? Os empregados não estranhariam vê-lo sair assim à meia-noite? Dariam o alerta? E, uma vez dentro do ministério, como seria? Será que...

 

"Tomás? Tomás?"

O português sacudiu a cabeça, regressando ao presente.

"Hã?"

"Você está bem?"

Ariana olhava-o com ar intrigado, como se tentasse vislumbrar sinais de febre na tez pálida do historiador.

"O quê? Eu?", balbuciou ele. Endireitou-se. "Sim, sim. Estou bem, não se preocupe."

"Olhe que não parece, sabe? Dá a impressão de não estar a prestar a mínima atenção ao que lhe estou a dizer." Inclinou a cabeça, num gesto muito seu. "Sente-se cansado?"

"Uh... sim, um pouco."

"Quer descansar, é?"

"Não, não. Vamos terminar isto agora e depois eu vou descansar à tarde. Pode ser?"

"Sim, tudo bem. Como queira."

Tomás suspirou e voltou a pousar os olhos no poema.

"Se quer que lhe diga, não sei como irei descodificar isto sem ter sequer uma idéia do tema do manuscrito de Einstein", comentou, agarrando-se a uma derradeira esperança de conseguir convencer a iraniana a fazer-lhe uma revelação que tornasse desnecessário o raide dessa noite. Fitou-a nos olhos com uma expressão de súplica. "Oiça, não me pode revelar nem que seja um pouquinho? Só uma coisa pequenina."

Ariana olhou em redor, atrapalhada.

"Tomás, eu não posso..."

"Só uma idéia."

"Não, não pode ser. É também para o seu bem."

"Vá lá..."

"Não."

"Ouça, se não me disser nada, nós não vamos conseguir avançar. Eu preciso que me dê uma direção."

A iraniana observou-o com intensidade, indecisa sobre o que fazer. Poderia revelar alguma coisa? Se revelasse, o que revelaria? Quais as consequências de o fazer? Ponderou a questão durante alguns segundos e tomou por fim uma decisão.

"Eu não lhe vou revelar o conteúdo do manuscrito porque isso não só poria em causa a segurança nacional do Irão como o colocaria a si, e também a mim, em perigo", disse, baixando a voz. "A única coisa que lhe posso dizer é que nós próprios estamos intrigados com o documento e acreditamos que só a decifração das charadas nos permitirá perceber tudo."

"Vocês estão intrigados, é?"

"Sim."

"Porquê?"

Ariana esboçou um gesto impaciente.

"Não lhe posso dizer. Se calhar até já falei demais."

"Mas o que tem ele assim de tão intrigante?"

"Não lhe posso dizer, já disse. A única coisa que posso fazer é enquadrar a produção desse manuscrito na vida de Einstein. Interessa-lhe saber isso?"

Tomás hesitou.

"Bem... sim, por que não? Acha que é relevante?"

"Não sei. Se calhar não é."

"Ou se calhar é, quem sabe?" O historiador resolveu-se enfim. "Está bem, conte lá."

Ariana ajeitou-se no sofá, procurando coordenar as idéias.

"Diga-me uma coisa, Tomás. O que sabe você de física?"

O português riu-se.

"Pouco", disse. "Como sabe, eu sou historiador e criptanalista, a minha área de interesses não é propriamente a física, não é? O meu pai é que é lá das matemáticas e tem interesse por essas áreas, afinal de contas passou a vida à volta de equações e de teoremas. Mas eu não, prefiro muito mais os hieróglifos e as escritas hebraica e aramaica, gosto é do cheiro a pó das bibliotecas e do bafo abolor exalado pelos velhos manuscritos e pelos papiros. É esse o meu mundo."

 

"Eu sei disso. Mas o que eu preciso de perceber é se você entende qual é a pesquisa fundamental da física neste momento."

"Não faço a mínima idéia."

"Nunca ouviu falar na Teoria de Tudo?"

"Não."

A iraniana passou as mãos pelos seus belos cabelos negros, ponderando o melhor modo de lhe explicar as coisas.

"Vamos lá a ver, sabe ao menos o que é a Teoria da Relatividade..."

"Claro. Isso é elementar."

"Digamos que a busca da Teoria de Tudo começou com a Teoria da Relatividade. Até Einstein, a física assentava no trabalho de Newton, que dava perfeita conta do recado na explicação do funcionamento do universo tal como ele é percepcionado pelos seres humanos. Mas havia dois problemas relacionados com a luz que não se conseguia resolver. Um era saber por que razão um objeto aquecido emitia luz e o outro era perceber o valor constante da velocidade da luz."

"Devo então supor que foi Einstein quem fez luz sobre o problema da luz", gracejou Tomás.

"Nem mais. Einstein concluiu em 1905 a sua Teoria da Relatividade Restrita, onde estabeleceu uma ligação entre o espaço e o tempo, dizendo que ambos são relativos. Por exemplo, o tempo muda porque há movimento no espaço. A única coisa que não é relativa, mas absoluta, é a velocidade da luz. Ele previu que, a velocidades próximas da luz, o tempo abranda e as distâncias contraem-se."

"Isso já eu sei."

"Ainda bem, porque assim não perco muito tempo com isto. A questão é que, se tudo é relativo, com excepção da velocidade da luz, então até a massa e a energia são relativas. Mais do que relativas, massa e energia são as duas faces de uma mesma moeda."

"Essa não é aquela famosa equação?"

Ariana rabiscou a equação numa folha de rascunho.

 

                                         E = mc2

 

"Sim. Energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz."

"Se bem me lembro, essa é a equação que está por detrás das bombas atômicas."

"Exato. Como você sabe, a velocidade da luz é enorme. O quadrado da velocidade da luz é um número tão grande que isto implica que uma minúscula porção de massa contém uma brutal quantidade de energia. Por exemplo, você pesa para aí uns oitenta quilos, não pesa?"

"Mais ou menos."

"Isso significa que você contém no seu corpo matéria com energia suficiente para abastecer de eletricidade uma pequena cidade durante uma semana inteira. A única dificuldade é transformar essa matéria em energia."

"Isso não tem a ver com a força forte que mantém unido o núcleo dos átomos?"

Ariana inclinou a cabeça e ergueu o sobrolho.

"Afinal você sempre sabe umas coisinhas de física..."

"Uh... devo ter lido isso algures."

"Pois. Bem, fique então com a idéia de que energia e massa são as duas faces da mesma moeda. Isto significa que se pode transformar uma coisa na outra, ou seja, energia transformar-se em matéria ou matéria em energia."

"Está a dizer que é possível fazer uma pedra a partir da energia?"

"Sim, teoricamente isso é possível, embora a transformação de energia em massa seja algo que nós normalmente não observamos. Mas acontece. Por exemplo, se um objecto se aproximar da velocidade da luz, o tempo contrai-se e a sua massa aumenta. Nessa situação, a energia do movimento dá lugar à massa."

"Isso já alguma vez foi observado?"

"Sim. No Acelerador de Partículas do CERN, na Suíça. Os electrões foram acelerados a tal velocidade que aumentaram quarenta mil vezes de massa. Há mesmo fotografias do rasto de protões depois de choques, veja lá."

"Caramba."

"É, aliás, por isso que nenhum objeto pode atingir a velocidade da luz. Se o fizesse, a sua massa tornar-se-ia infinitamente grande, o que requereria uma energia infinita para movimentar esse objeto. Ora, isso não pode ser, não é? Daí que se diga que a velocidade da luz é a velocidade limite no universo. Nada a pode igualar, porque, se um corpo a igualasse, a sua massa tornar-se-ia infinitamente grande."

"Mas a luz é formada por quê?"

"Por partículas chamadas fotões."

"E essas partículas não aumentam de massa quando andam à velocidade da luz?"

"Aí é que está. Os fotões são partículas sem massa, encontram-se em estado de energia pura e nem sequer experimentam a passagem do tempo. Como andam à velocidade da luz, para eles o universo é intemporal. Do ponto de vista dos fotões, o universo nasce, cresce e morre no mesmo instante."

"Incrível."

Ariana bebeu um golo de sumo de laranja.

"O que, se calhar, você não sabe é que não há uma Teoria da Relatividade, mas duas."

"Duas?"

"Sim. Einstein concluiu a Teoria da Relatividade Restrita em 1905, na qual explica uma série de fenômenos físicos, mas não a gravidade. O problema é que a Relatividade Restrita entrou em conflito com a descrição clássica da gravidade e era preciso resolver isso. Newton acreditava que uma alteração repentina de massa implicava uma alteração instantânea da força de gravidade. Mas isso não pode ser, uma vez que tal requer que exista algo mais veloz do que a luz. Suponhamos que o Sol explodia neste preciso momento. A Relatividade Restrita prevê que tal acontecimento só oito minutos depois será sentido na Terra, uma vez que esse é o tempo que a luz leva a fazer a viagem entre o Sol e a Terra. Mas Newton julgava que o efeito seria sentido instantaneamente. No exato momento em que o Sol explodisse, a Terra sentiria o efeito desse acontecimento. Ora, isso não é possível, dado que nada anda mais depressa do que a luz, não é? Para solucionar este e outros problemas, Einstein concluiu em 1915 a Teoria da Relatividade Geral, que resolveu as questões da gravidade e estabeleceu que o espaço é curvado. Quanto mais massa tem um objeto, mais curvado é o espaço em torno dele e, consequentemente, maior é a força de gravidade que exerce. Por exemplo, o Sol exerce mais força de gravidade sobre um objeto do que a Terra porque dispõe de muito mais massa, entendeu?"

"Hmm... não muito bem. O espaço curva-se? O que quer dizer com isso?"

Ariana abriu os braços.

"Faça de conta, Tomás, que o espaço é um lençol esticado no ar entre nós dois. Imagine que pomos uma bola de futebol no meio. O que acontece? O lençol curva-se em torno da bola, não é? Se eu atirar um berlinde para o lençol, ele vai ser atraído para a bola de futebol, não vai? No universo passa-se a mesma coisa. O Sol é tão grande que curva o espaço em torno de si. Se um objeto exterior se aproximar devagar, vai embater no Sol. Se um objeto se aproximar a uma certa velocidade, como a Terra, começará a andar à volta do Sol, sem cair nele nem fugir dele. E se um objeto andar a muita velocidade, como um fotão de luz, ao aproximar-se do Sol vai curvar um bocadinho a sua trajetória mas conseguirá fugir e prosseguir a sua viagem. No fundo, é isto o que diz a Relatividade Geral. Todos os objetos distorcem o espaço e, quanto mais massa tiver um objeto, mais distorcerá o espaço em torno de si. Como o espaço e o tempo são duas faces da mesma moeda, um pouco como a energia e a matéria, isto significa que os objetos também distorcem o tempo. Quanto mais massa tiver um objeto, mais lento será o tempo perto de si."

"É tudo muito estranho", observou Tomás. "Mas o que tem isso a ver com o manuscrito de Einstein?"

"Tudo ou nada, não sei. Mas é importante que você perceba que o manuscrito foi concebido quando Einstein estava a tentar estabelecer a Teoria de Tudo."

 

"Ah, sim. Essa é mais uma teoria de Einstein?"

"Sim."

"As duas da Relatividade não chegaram, é?"

"Einstein pensou inicialmente que sim, mas, de repente, deu com o nariz na Teoria Quântica."

Ariana inclinou a cabeça no seu jeito característico. "Sabe o que é a Teoria Quântica?"

"Bem... uh... já ouvi falar, sim, mas os pormenores... enfim."

A iraniana riu-se.

"Não fique complexado", exclamou. "Mesmo alguns cientistas que desenvolveram a Teoria Quântica nunca chegaram a entendê-la muito bem."

"Ah, bom. Então estou mais descansado."

"A questão é esta. A física de Newton é adequada para explicar o nosso mundo quotidiano. Quando constroem uma ponte ou põem um satélite a circular à volta da Terra, os engenheiros recorrem à física de Newton e de Maxwell. Os problemas desta física clássica só emergem quando estamos a lidar com aspectos que não fazem parte da nossa experiência diária, como por exemplo velocidades extremas ou o mundo das partículas. Para tratar os problemas das grandes massas e da grande velocidade, apareceram as duas teorias de Einstein, chamadas da Relatividade. E, para lidar com o mundo das partículas, surgiu a Teoria Quântica."

"Portanto, a Relatividade é para os grandes objetos e a Quântica é para os pequenos objetos."

"Isso." Fez uma careta. "Embora importe realçar que o mundo das micropartículas tem manifestações macroscópicas, como é evidente."

"Claro. Mas quem é que desenvolveu a Quântica?"

"A Teoria Quântica nasceu em 1900, na sequência de um trabalho de Max Planck sobre a luz emitida por corpos quentes. Foi depois desenvolvida por Niels Bohr, que concebeu o mais conhecido modelo teórico dos átomos, aquele que tem os electrões a orbitar o núcleo da mesma maneira que os planetas orbitam o Sol."

 

"Tudo isso é conhecido."

"Pois é. Mas o que é menos conhecido são os comportamentos bizarros das partículas. Por exemplo, alguns físicos concluíram que as partículas subatómicas podem ir do estado de energia A ao estado de energia B sem passarem pela transição entre esses dois estados."

"Sem passarem pela transição entre os dois estados? Como assim?"

"É muito estranho e polêmico. Chama-se a isso um salto quântico. É como uma pessoa a subir os degraus de uma escada. Nós passamos de um degrau para o outro sem percorrermos o degrau intermédio, não é? Não há meio degrau. Saltamos de um para o outro. Há quem defenda que, no mundo quântico, as coisas também se passam assim ao nível da energia. Vai-se de um estado para o outro sem passar pelo estado intermédio."

"Mas isso é bizarro."

"Muito. Nós sabemos que as micropartículas dão saltos. Isso é consensual. O que se passa é que há quem ache que, quando estamos a falar do mundo subatómico, o espaço deixa de ser contínuo e torna-se granuloso. Dão-se saltos sem se passar pelo estado intermédio." Nova careta. "Devo dizer que não acredito nisso e nunca encontrei qualquer prova ou indício de que assim seja."

"Realmente, essa idéia é... é estranha."

Ariana ergueu o indicador.

"Mas há mais. Descobriu-se que a matéria se manifesta ao mesmo tempo por partículas e ondas. Tal como espaço e tempo ou energia e massa são duas faces da mesma moeda, ondas e partículas são as duas faces da matéria. O problema emergiu quando se teve de transformar isto numa mecânica."

"Mecânica?"

"Sim, a física tem uma mecânica, que serve para prever os comportamentos da matéria. Nos casos da física clássica e da Relatividade, a mecânica é determinista. Se, por exemplo, nós soubermos onde está a Lua, em que direcção ela circula e a que velocidade, nós seremos capazes de prever a sua evolução futura e passada. Se a Lua circula para a esquerda a mil quilômetros por hora,

daqui a uma hora estará mil quilómetros à esquerda. É isto a mecânica. Consegue-se prever a evolução dos objetos, desde que se saiba a respectiva velocidade e posição. Tudo muito simples. Mas, no mundo quântico, descobriu-se que as coisas funcionam de uma maneira diferente. Quando sabemos bem a posição de uma partícula, não conseguimos perceber qual a sua velocidade exata. E quando conhecemos bem a velocidade, não podemos determinar a posição exata. Chama-se a isso o Princípio da Incerteza, uma idéia que foi formulada em 1927 por Werner Heisenberg. O Princípio da Incerteza estabelece que podemos saber com rigor a velocidade ou a posição de uma partícula, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo."

"Então como se sabe a evolução de uma partícula?"

"É esse o problema. Não se sabe. Eu posso saber qual a posição e velocidade da Lua, e assim sou capaz de prever todos os seus movimentos passados e futuros. Mas não tenho maneira de determinar com exatidão a posição e a velocidade de um electrão, pelo que não consigo prever os seus movimentos passados e futuros. É essa a incerteza. Para resolver isso, a mecânica quântica recorreu ao cálculo de probabilidades. Se um electrão tiver de escolher entre dois buracos por onde passar, há cinquenta por cento de probabilidades de o electrão passar pelo buraco da esquerda e outros cinquenta por cento pelo da direita."

"Parece uma boa maneira de resolver esse problema."

"Pois é. Mas Niels Bohr complicou a coisa e disse que o electrão passa pelos dois buracos ao mesmo tempo. Passa pelo da esquerda e pelo da direita."

"Como?"

"É como eu lhe estou a dizer. Ao escolher entre duas rotas, o electrão passa pelas duas em simultâneo, pelo buraco da esquerda e pelo da direita. Ou seja, está nos dois sítios ao mesmo tempo!"

"Mas isso não é possível."

"E, no entanto, é o que a Teoria Quântica prevê. Por exemplo, se pusermos um electrão numa caixa dividida em dois lados, o electrão estará nos dois lados ao mesmo tempo em forma de onda. Quando espreitamos a caixa, a onda desfaz-se imediatamente e o electrão transforma-se em partícula num dos lados. Se não olharmos, o electrão permanecerá nos dois lados ao mesmo tempo sob a forma de onda. Mesmo que os dois lados sejam separados e colocados a milhares de anos-luz de distância um do outro, o electrão continuará nos dois lados ao mesmo tempo. Só quando espreitarmos para um dos lados é que o electrão decidirá qual o lado onde vai ficar."

"Só quando nós espreitamos é que ele se decide?", perguntou Tomás com ar incrédulo. "Que conversa é essa?"

"O papel do observador foi estabelecido inicialmente pelo Princípio da Incerteza. Heisenberg concluiu que nunca poderemos saber com precisão e em simultâneo qual a posição e velocidade de uma partícula devido à presença do observador. A teoria evoluiu até ao ponto de ter havido quem considerasse que o electrão só decide em que lugar está quando existe um observador."

"Isso não faz sentido nenhum..."

"Foi o que também disseram os outros cientistas, incluindo Einstein. Como o cálculo passou a ser probabilístico, Einstein declarou que Deus não jogava aos dados, isto é, a posição de uma partícula não podia estar dependente da presença de observadores e, sobretudo, de cálculos de probabilidade. A partícula ou está num sítio ou está no outro, não pode estar nos dois ao mesmo tempo. A incredulidade foi tal que houve até um outro físico, chamado Schrödinger, que concebeu uma situação paradoxal para pôr a nu este absurdo. Ele imaginou que era colocado um gato numa caixa com um frasco fechado de cianeto. Um processo quântico poderia levar um martelo, com uma probabilidade de cinquenta por cento, a quebrar o frasco ou não. De acordo com a teoria quântica, os dois acontecimentos igualmente prováveis ocorreriam em simultâneo enquanto a caixa permanecesse encerrada, fazendo com que o gato estivesse simultaneamente vivo e morto, da mesma maneira que um electrão está simultaneamente nos dois lados da caixa enquanto não é observado. Ora, isso é um absurdo, não é?"

 

"Claro que é. Isso não faz sentido nenhum. Como é possível que essa teoria seja ainda

defendida?"

"É justamente isso o que Einstein pensava. O problema é que esta teoria, por muito bizarra que pareça, bate certo com todos os dados experimentais. Qualquer cientista sabe que, sempre que a matemática contradiz a intuição, a matemática tende a ganhar. Isso aconteceu, por exemplo, quando Copérnico disse que era a Terra que andava à volta do Sol e não o contrário. A intuição dizia que a Terra é que era o centro, uma vez que tudo parecia girar em torno da Terra. Perante o ceticismo de toda a gente, Copérnico apenas encontrou aliados entre os matemáticos, os quais, com as suas equações, constataram que só a possibilidade de a Terra andar à volta do Sol concordava com a matemática. Sabemos hoje que a matemática estava certa. Com as Teorias da Relatividade foi a mesma coisa. Há muitos elementos dessa teoria que são contra-intuitivos, como idéias de que o tempo dilata e outras bizarrias do gênero, mas a verdade é que esses conceitos são aceites pelos cientistas porque condizem com a matemática e com as observações da realidade. É o que acontece aqui. Não faz sentido dizer que um electrão está em dois sítios ao mesmo tempo enquanto não é observado, isso é contra-intuitivo. E, no entanto, bate certo com a matemática e com todas as experiências efectuadas."

"Ah, bom."

"Mas Einstein não se conformou com esta idéia, por uma razão muito simples. É que a Teoria Quântica começou por não condizer com a Teoria da Relatividade. Isto é, uma é boa para compreender o universo dos grandes objetos e a outra é eficiente na explicação do universo dos átomos. Mas Einstein achava que o universo não pode ser gerido por leis diferentes, umas deterministas para os grandes objectos e outras probabilísticas para os pequenos objectos. Tem de

haver um único conjunto de regras. Começou assim a busca de uma teoria unificadora que apresentasse as forças fundamentais da natureza como manifestações de uma força única. As suas Teorias da Relatividade reduziam a uma única fórmula todas as leis que regem o espaço, o tempo e a gravidade. Com a nova teoria ele procurava reduzir a uma única fórmula os fenômenos da gravidade e do electromagnetismo. Ele acreditava que a força que faz mover o electrão à volta do núcleo é do mesmo tipo da que faz mover a Terra à volta do Sol."

"Uma nova teoria, é?"

"Sim. Ele chamou-lhe a Teoria dos Campos Unificados. Era a sua versão da Teoria de Tudo."

"Ah."

"E era isso o que Einstein estava a desenvolver quando elaborou este manuscrito."

"Acha que A Fórmula de Deus tem ligação com essa busca, é?"

"Não sei", disse Ariana. "Talvez sim, talvez não."

"Mas, se é isso, que sentido faz manter tudo secreto?"

"Ouça, eu não sei se é isso. Eu já li o documento e ele é estranho, sabe? E a verdade é que foi o próprio Einstein quem decidiu mantê-lo em segredo. Se o fez é porque tinha bons motivos, não acha?"

Tomás cravou os olhos na iraniana, atento à sua reacção quando ouvisse a pergunta que tinha para lhe fazer.

"Se A Fórmula de Deus não tem ligação com a busca da Teoria de Tudo, tem ligação com quê?", perguntou. Fez uma expressão interrogativa. "Com armas nucleares?"

Ariana devolveu-lhe o olhar com intensidade.

"Vou fingir que não ouvi essa pergunta", disse ela, pronunciando cada sílaba muito devagar, com enorme intensidade. "E não volte a falar sobre isso, entendeu?" Colou o indicador à testa. "A sua segurança depende da sua inteligência."

O historiador estremeceu.

"A minha segurança?"

"Por favor, Tomás", disse ela, quase implorando. "Não fale sobre isso a ninguém. Não pronuncie essas palavras perante ninguém. Faça apenas o seu trabalho, ouviu? Apenas o seu trabalho."

 

Tomás calou-se por um instante, pensativo e intimidado. Girou a cabeça e viu um grupo de paquistaneses a entrar no restaurante do hotel. Era o pretexto ideal para pôr fim àquela conversa perigosa.

"Não tem fome?", perguntou.

 

O almoço foi um cheio kebab, possivelmente o décimo kebab que Tomás comia desde que chegara ao Irã. Sentia-se já farto daquela dieta e, de certo modo, era um alívio saber que nessa noite seria retirado clandestinamente do país. Claro que havia o problema do raide ao ministério, mas, já que nada dependia agora de si, arrumou essa preocupação num canto da mente, confortando-se com o pensamento de que os homens da CIA saberiam certamente o que estavam a fazer.

Apercebeu-se de que este era talvez o seu último almoço com Ariana e contemplou-a quase melancolicamente. Era de facto uma mulher bela e interessante, os hipnóticos olhos de mel irradiando ternura e inteligência. Sentiu-se quase tentado a contar-lhe tudo, a pedir-lhe que viesse também consigo, mas percebeu que isso não passava de uma fantasia, eram pessoas de mundos diferentes e com missões antagônicas.

"Acha que conseguirá descodificar a charada?", perguntou ela, evitando-lhe o enigmático olhar perscrutador.

"Preciso da chave do código", disse Tomás, o garfo repleto de arroz. "Para falar com toda a franqueza, parece-me que, sem essa chave, estamos perante uma missão impossível."

"Se fosse uma cifra, seria mais fácil?"

"Sim, claro. Mas isto não é uma cifra."

"Tem a certeza disso?"

"Claro que tenho." Desdobrou a folha num canto da mesa. "Repare, este poema envolve palavras e frases. Ora, uma cifra só tem a ver com letras, não é? Se isto fosse uma cifra, teria formações absurdas, do tipo hwxz e coisas do gênero, um pouco como a segunda charada." Apontou para as palavras gatafunhadas no papel. "Está a ver a diferença?"

"Sim, este !ya e ovqo são evidentemente cifras", constatou a iraniana. Voltou os olhos para o poema. "Mas não há cifras que se possam assemelhar a palavras?"

"Claro que não", disse ele. Hesitou um instante. "A não ser que... que sejam cifras de transposição."

"O que é isso?"

"Sabe, há três tipos de cifra. O primeiro tipo é a cifra de ocultação, em que se esconde a mensagem secreta através de um qualquer sistema simples. O exemplo mais antigo que se conhece é o da mensagem escrita na cabeça de um escravo careca. Esperava se que o cabelo crescesse e depois enviava-se o escravo para entregar a mensagem. O texto estava assim oculto no couro cabeludo, tapado pelos cabelos."

"Engenhoso."

"Depois há a cifra de substituição, em que se substituem as letras por outras, segundo uma chave preestabelecida. É este tipo de cifras, usado habitualmente nos modernos sistemas cifrados, que provoca sequências do estilo deste !ya e ovqo."

"São as mais comuns?"

"Sim, hoje em dia são. Mas há também as cifras de transposição, em que as letras de uma mensagem secreta são retiradas da sua ordem original e realinhadas num outro padrão."

"Não estou a perceber..."

"Olhe, uma cifra de transposição é um anagrama, por exemplo. Sabe o que é um anagrama?"

"Já ouvi falar, mas, sinceramente..."

"Um anagrama é uma palavra escrita com as letras de uma outra palavra. Por exemplo, Elvis é um anagrama de lives. Se for a ver com atenção, as duas palavras são escritas com as mesmas letras. Ou elegant man é um anagrama de a gentleman."

"Ah, entendi."

 

"Portanto, tudo isto para explicar que o único tipo de cifra que pode criar palavras é justamente a cifra de transposição."

Ariana contemplou o poema.

"E acha possível que estes versos escondam uma cifra dessas?"

O historiador manteve os olhos cravados no texto e fez com a boca um trejeito pensativo.

"Um anagrama, é?" Considerou a hipótese. "Hmm... talvez. Por que não?"

"E como é que podemos testar essa possibilidade?"

"Só há uma maneira", disse Tomás, pegando na caneta. "Podemos tentar escrever palavras diferentes com as mesmas letras que aqui estão. Já o fizemos com palavras portuguesas e não deu em nada, não é? Talvez com palavras inglesas funcione. Ora vamos lá a isto." Inclinou-se sobre a folha. "Vejamos o primeiro verso." Terra if fin.

"Que outras palavras poderemos escrever com estas letras?", perguntou Ariana.

"Vamos ver", disse Tomás. "Juntemos o t e o a. Ponhamos os dois f, juntos. O que fica?"

"Tajff?"

"Isso não é nada. E se metermos um i no fim?"

"Taffi?"

"Experimentemos o i atrás dos f."

"Taiff? Isso é o nome de uma terriola qualquer na Arábia Saudita. Mas, que eu saiba, só tem um f.

"Ora vê? Já arranjamos alguma coisa. E se metermos um r entre o a e o i, ficamos com... com tariff. Mais uma palavra, está a ver? Resta-nos saber o que vamos fazer com as letras que sobraram.

Deixe cá ver, sobraram um e, um r, um i e um n."

"Erin?"

"Hmm... erin? Ou então nire. Ou rine. E... e por que não rien? Cá está."

Escreveu: Tariff rien.

"Tariff rien? O que quer isso dizer?"

 

Tomás encolheu os ombros.

"Nada. Era apenas uma tentativa. Vamos ver de outras maneiras."

Durante a hora seguinte ensaiaram várias opções. Com as mesmas letras do primeiro verso conseguiram escrever ainda a finer rift, retrain fit e faint frier, mas nenhum destes anagramas revelava o que quer que fosse. Do segundo verso, De terrors tight, apenas lograram extrair um anagrama, retorted rigbts, sempre sem obterem um sentido coerente.

Tomás tinha já os cabelos castanhos num desalinho, de tanto esfregar a cabeça, quando lhe ocorreu uma nova idéia.

"Em inglês também não vamos lá", comentou. "Será possível que Einstein tenha escrito a mensagem em alemão?"

"Em alemão?"

"Sim. Faz sentido, não faz? Se ele redigiu todo o texto em alemão, nada impede que tenha escondido a mensagem também em alemão. Já viu?" Passou os olhos pelo papel. "Uma mensagem em alemão oculta por entre um poema em inglês. Brilhante, não?"

"Você acha?"

"Vale a pena tentar." Esfregou a cara. "Ora deixe cá ver... e se ele pôs o título do documento na mensagem?"

"Qual título? A fórmula de Deus?"

"Sim, mas em alemão. Die Gottesformel. Há aqui algum verso que tenha um g, um o e dois t?"

"Gott?"

"Sim, a palavra Deus em alemão."

Ariana analisou as várias linhas.

"O segundo verso tem", exclamou. "Vou sublinhar."

De terrors tight

"Pois tem. Togt. Rearranjadas estas letras, ficamos com Gott."

"Falta o formel."

O historiador estudou as letras que sobravam.

"Pois, isso não tem."

Ariana hesitou.

"Mas... olhe, que engraçado", observou ela. "Tem Gott, Deus, e tem também Senhor, Herr. Está a ver? Até se podem juntar. Fica Herrgott."

“Herrgott? O que significa isso?"

"Senhor. É um dos nomes de Deus."

"Ah", exclamou o historiador. "Herrgott. E das letras que ficaram de fora, consegue-se dizer alguma coisa em alemão?"

A iraniana pegou na caneta e escreveu as letras que sobraram.

De terrors tight

Herrgott Dersit

"Hmm", murmurou ela. "Herrgott dersit."

"Isso significa alguma coisa?"

"Dersit? Não. Mas podemos separar isto. Fica Der sit. E sit pode ser... uh... ist. Aí sim, ficamos com um significado."

"Como é? Herrgott der ist?"

"Não. Ao contrário." Ariana reescreveu a linha. Ist Der Herrgott

"Ist der Herrgott."

"O que diabo quer isso dizer?"

"É o Senhor."

O historiador voltou a analisar o poema, um brilho fascinado a relampejar-lhe nos olhos. Acabara de abrir a primeira racha na parede da charada.

"Caramba", exclamou. "Isto é mesmo um anagrama." Mirou a iraniana. "Você acha que consegue obter outras palavras alemãs a partir das restantes linhas?"

Ariana pegou na folha e estudou os três versos que sobravam.

"Não sei, nunca fiz isto."

"Quais são as palavras alemãs mais comuns?"

"Uh?"

"Quais são as palavras alemãs mais comuns?"

"Sei lá... uh... und, por exemplo, ou ist."

"Já temos aqui um ist. Poderá haver algum und?"

A iraniana analisou todas as letras do poema.

"Não, não pode haver und. Não há nenhum u no poema."

 

"Porra!", praguejou Tomás, algo desencorajado. "E ist? Haverá mais algum?"

Ariana apontou para o quarto e último verso.

"Está aqui", exclamou.

Pegou no lápis e sublinhou as três letras. Christ nite

"Boa", disse Tomás. "Vamos agora ver as duas primeiras letras de cada palavra. Chni. Significa alguma coisa?"

"Não", devolveu ela. "Mas... uh... deixe ver, se invertermos as sílabas fica nich. A questão é saber se temos mais algum t. Já usamos um no ist."

"Está aqui outro t."

"Pois está. Dá nicht."

"Ora aqui está", exclamou o historiador. "Temos então ist e nicht neste verso. Sobra o quê?"

"Sobra um r e um e."

"Re?"

"Não, espere", exclamou Ariana, muito excitada. "Er. Dá er."

"Er? O que significa isso?"

"Ist er nicht. Não vê?"

"Vejo, vejo. Mas o que significa?"

"Quer dizer ele não é."

Tomás pegou no rascunho e anotou as duas frases por baixo do segundo e quarto versos.

"E agora o resto?", perguntou ele. "Vamos ver o primeiro e o terceiro versos."

Os dois versos sobreviventes mostraram-se incrivelmente difíceis de decifrar. Tentaram sucessivas combinações e Ariana teve de pedir um dicionário de alemão na recepção do hotel, de modo a testar novas possibilidades, sempre com Tomás a guiá-la. Abandonaram o restaurante e voltaram para o bar, ambos a ensaiarem palavras, a trocarem sílabas, a mudarem letras, a testarem diferentes significados.

Ao cabo de duas esgotantes horas, porém, a cifra deixou escapar o seu segredo. O fim da resistência começou com a descoberta da palavra aber, no terceiro verso, o que lhes permitiu chegar enfim à formulação final. Com um sorriso triunfal, a iraniana escrevinhou no rascunho as quatro linhas ocultas no poema cifrado.

 

                   Raffiniert

                   Ist Der Herrgott

                   Aber boschaft

                   Ist Er nicht

 

"O que é isto?", perguntou Tomás, para quem o alemão encerrava ainda muitos mistérios.

"Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht."

"Sim, já percebi", disse ele, impaciente. "Mas o que significa isso?"

Ariana recostou-se no sofá, esgotada e revigorada, consumida pelo esforço e excitada pela descoberta, sentindo aquele enorme êxtase de quem escalou a montanha, atingiu o cume e, repousando no pico mais alto, contempla o mundo com serena admiração. Passou a língua pelos lábios sensuais e quase sorriu, saboreando a maravilhosa frase que Einstein encerrara naquele poema misterioso.

"Sutil é o Senhor", traduziu ela, num sussurro fascinado. "Mas malicioso Ele não é."

 

O automóvel negro percorreu com prudente vagar as ruas desertas da cidade, abandonadas ao vento frio que descia das montanhas e ao manto opaco da noite silenciosa. Os candeeiros projetavam sobre os passeios uma luz amarelada, fantasmagórica, e o clarão luminoso do mar de estrelas disperso pelo céu límpido, como pó de diamante cintilando na escuridão, irradiava uma leve claridade sobre o vulto adormecido das Alborz; era uma luminosidade muito suave, infinitamente tênue, mas suficiente para deixar perceber a mancha ebúrnea de neve que cobria as montanhas distantes como um véu de seda branca.

 

Meia-noite em Teerã.

Sentado no banco traseiro do carro, o casaco abotoado para se proteger do frio, Tomás contemplava as lojas e prédios e casas e mesquitas que se sucediam para lá da janela, os olhos presos nas fachadas nuas e passeios desertos, a mente a vaguear pelos contornos daquela aventura louca para a qual era arrastado sem apelo. Encolhido no seu canto, não via como travar o curso dos acontecimentos, sentia-se absolutamente impotente, um insignificante náufrago entregue às águas revoltas do mar bravo, puxado por uma poderosa corrente que não sabia nem podia combater.

Devo estar louco.

O pensamento martelava-o sem parar, obsessivo, quase mórbido, repetindo-se à medida que o automóvel palmilhava as avenidas e ruas e bairros da capital iraniana, avançando sempre, aproximando-se inexoravelmente do seu destino, chegando-se mais e mais ao instante temido, ao momento para lá do qual já não se podia voltar para trás. O ponto sem retorno.

Devo estar totalmente louco.

Babak seguia silencioso ao volante, os olhos irrequietos saltitando entre os cantos sombrios das ruas e o reflexo reluzente do retrovisor, sempre atento a qualquer movimento suspeito que obrigasse a abortar a operação. O vulto maciço de Bagheri plantava-se ao lado de Tomás, os olhos mergulhados na larga planta do Ministério da Ciência, estudando pela enésima vez o plano que gizara nos últimos dias, passando em revista os derradeiros pormenores. O homem da CIA viera vestido de preto e entregara a Tomás, ainda no hotel, um turbante negro iraniano, dizendo que o devia usar para se destacar menos. Além disso, obrigara-o a envergar as roupas mais escuras de que dispunha, alegando que só um louco fazia um assalto com trajos claros no corpo. Mas louco já Tomás se sentia, não havia louco mais louco do que aquele que, sem experiência nem treino, aceitava assaltar um edifício governamental com dois desconhecidos, num país de drásticas punições, para furtar um documento secreto que encerrava graves implicações militares.

"Nervoso?", perguntou Bagheri, rompendo o silêncio.

Tomás assentiu com a cabeça.

"Sim."

"É natural", sorriu o iraniano. "Mas fique descansado, vai correr tudo bem."

"Como pode você ter assim tanta certeza disso?"

Bagheri puxou a carteira do bolso e retirou uma nota verde de cem dólares, que exibiu ao historiador.

"Isto tem muita força."

O automóvel virou à esquerda, completou mais duas curvas e abrandou. Babak espreitou de novo pelo retrovisor, encostou ao passeio e estacionou entre duas camionetas. O motor calou-se e os faróis apagaram-se.

Chegamos?"

"Sim."

Tomás olhou em redor, tentando reconhecer o local.

"Mas o ministério não é aqui."

"É, sim", disse Bagheri, apontando para a esquina em frente. "Temos de ir a pé, é já ali à direita."

Apearam-se e sentiram a brisa gelada da rua penetrar-lhes na roupa. Tomás ajeitou melhor o casaco, enterrou o turbante negro na cabeça e caminharam os três pelo passeio até à esquina. Uma vez ali chegados, o historiador reconheceu enfim a rua e o edifício do outro lado, era de fato o Ministério da Ciência. Bagheri fez sinal para que ficassem ambos quietos e apenas Babak avançou, atravessando tranquilamente a rua e dirigindo-se ao ministério. O motorista mergulhou na sombra, junto ao posto da sentinela, e permaneceu invisível durante uns três minutos. O seu vulto magro e esguio reemergiu por fim da penumbra e fez um gesto para os dois avançarem.

"Vamos", ordenou Bagheri em voz baixa. "Esteja sempre calado, ouviu? Eles não podem perceber que você é estrangeiro."

Cruzaram a rua e aproximaram-se do portão gradeado da entrada. Tomás sentia as pernas fracas e o estômago apertado, o coração pulava-lhe no peito, as mãos tremiam-lhe e um suor frio nasceu-lhe no topo da testa; mas repetiu de si para si que os homens que o acompanhavam eram profissionais e sabiam o que faziam, e foi nesse pensamento que se refugiou para encontrar algum conforto.

O portão continuava fechado, mas Bagheri meteu por uma porta lateral, mesmo ao lado do posto

da sentinela, e entrou no perímetro do ministério. O historiador seguiu-lhe os passos. Babak esperava-os ao lado de um soldado iraniano, presumivelmente a sentinela, que fez continência a Bagheri. O homem da CIA devolveu a continência, trocou umas palavras baixinho com Babak e o motorista voltou para a rua.

Tomás e Bagheri ficaram entregues ao soldado, que os conduziu para uma porta escondida, possivelmente uma entrada de serviço. O soldado abriu a porta, voltou a fazer continência, deixou os dois estranhos entrarem no edifício e fechou a porta. Foi nesse instante que Tomás tomou consciência de que tinha acabado de cruzar a temível fronteira invisível.

O ponto sem retorno.

"E agora?", sussurrou ele tremulamente, a voz soprada ressoando na escuridão.

"Agora vamos para o terceiro andar", disse Bagheri. "Não é lá que guardam o manuscrito?"

"Sim, foi o que eu vi."

"Então vamos."

O iraniano acendeu uma lanterna, mas o historiador hesitou.

"E o motorista?"

"O Babak ficou na rua a fazer vigilância."

"Ah é? E o que acontece se aparecer alguém?"

"Se houver algum movimento suspeito, ele carrega no botão de um emissor especial. Eu tenho aqui um receptor que faz logo um zumbido." Virou a lanterna para a cintura e mostrou um aparelhinho metálico metido no cinto. "Está a ver?"

"Ah. É o alarme, é?"

"Sim."

"E se ele o acionar?"

Bagheri sorriu.

"Teremos de fugir, claro."

 

Os dois exploraram o local com cautelosa lentidão, Bagheri sempre com a lanterna voltada para a frente, lançando um clarão circular na profunda treva do edifício, a luz projectando sombras assustadoras nas paredes e no chão de mármore polido. Meteram por um corredor e foram dar ao hall central, dominado por uma imponente escadaria. Havia elevadores ao lado, mas Bagheri preferiu escalar os degraus, não queria provocar barulhos nem acender luzes que não pudesse controlar.

Chegaram ao terceiro andar e o iraniano espreitou para o corredor da direita.

"É por ali, não é?", perguntou.

"Sim."

Bagheri fez sinal a Tomás para passar à frente e o historiador assumiu o comando. As coisas às escuras eram bem diferentes das vistas à luz do dia, mas, apesar das estranhas circunstâncias, o português conseguiu reconhecer o local. A esquerda estava a porta para a sala de reuniões, onde lhe tinha sido mostrado o manuscrito. Abriu a porta e confirmou que assim era, ali se encontravam a mesa longa, as cadeiras, os vasos e os armários de parede, os locatários silenciosos daquele cubículo quieto e sombrio. Olhou então para a direita, para o local onde se situava o compartimento de onde vira Ariana sair com a velha caixa do documento nas mãos.

"É ali", disse, apontando para a porta dessa sala.

Bagheri aproximou-se da porta e tocou-a com a ponta dos dedos da mão espalmada.

"Aqui?"

"Sim."

O iraniano puxou a maçaneta, mas a porta não abriu. Como era previsível, encontrava-se trancada. Além do mais, a porta não era de madeira, como as outras, mas metálica, o que indiciava conter um dispositivo especial de segurança.

"E agora?", perguntou Tomás.

Bagheri não respondeu de imediato. Inclinou-se e analisou a fechadura com cuidado, a luz incidindo de perto no ferrolho metálico. Depois acocorou-se e abriu o saco escuro onde guardava as ferramentas.

"Não há problema", limitou-se a dizer.

Tirou um instrumento metálico e pontiagudo e inseriu-o devagar no ferrolho. Colocou uma espécie de estetoscópio nos ouvidos, o fio conduzindo a um auscultador muito sensível, encostou o auscultador à fechadura e ficou a escutar os diques do instrumento dentro do ferrolho, a língua presa no canto dos lábios e os olhos vidrados numa expressão de grande concentração. O exercício prolongou-se por minutos sem fim. Ao cabo de algum tempo, Bagheri tirou o instrumento do ferrolho e procurou outro no saco. Tirou de lá o que parecia ser um fio metálico, muito flexível, e meteu-o pelo buraquinho da fechadura, repetindo o movimento anterior.

"Então?", soprou Tomás, ansioso por sair dali. "Não consegue?"

"Um momento."

O iraniano voltou a encostar o auscultador à fechadura, seguindo com infinita atenção o percurso do fio metálico. Ouviram-se mais uns cliques, talvez três, e um claque final.

A porta metálica abriu-se.

"Abre-te Sésamo", gracejou o historiador.

Bagheri piscou-lhe o olho.

"E eu sou Ali Babá."

Entraram no compartimento e o iraniano projectou o foco da lanterna em redor. Era um gabinete pequeno, ricamente decorado com madeiras exóticas forradas nas paredes e no tecto. Encravado na parede do fundo, sobre uns vasos com plantas, encontrava-se um cofre cinzento, a fechadura protegida por um sistema circular de código.

 

"O manuscrito deve estar ali", observou Tomás. "Acha que vai conseguir abrir o cofre?"

Bagheri aproximou-se do cofre e analisou a fechadura com atenção.

"Não há problema", limitou-se a dizer.

Voltou a colocar o estetoscópio nos ouvidos e a auscultar o ferrolho do cofre, mas desta vez utilizou instrumentos diferentes, pareciam ser maquinetas muito complexas, de alta tecnologia; uma delas incorporava um computador, outra exibia mostradores num pequeno ecrã de plasma onde brilhavam algarismos âmbares.

Bagheri colou a broca de uma perfuradora elétrica ao segredo do cofre, activou a perfuradora e abriu um buraco minúsculo; ligou uns fios da máquina do ecrã ao buraquinho no segredo do cofre e estabeleceu outras ligações com o computador. Digitou letras e algarismos num teclado minúsculo e tentou soluções diferentes, até que, ao fim de alguns minutos, uma luz encarnada apagou-se no ecrã

de plasma, substituída por outra verde. O segredo do cofre girou como se tivesse ganho vida, emitindo o som dentado de uma rotação metálica. Seguiu-se um estalido seco.

A porta do cofre soltou-se.

Sem pronunciar palavra, Bagheri escancarou a porta solta e apontou a lanterna para o cofre, iluminando o interior. Tomás espreitou por cima do ombro do iraniano e reconheceu a caixa de aspecto gasto, envelhecida pelo tempo, que se encontrava pousada no centro do abrigo fortificado.

"É aquilo", disse.

"A caixa?"

"Sim."

Bagheri esticou os braços para dentro do cofre e retirou a caixa do interior. Pegou nela como se contivesse uma relíquia divina, um tesouro que se poderia desfazer ao mínimo gesto brusco, e pousou-a suavemente no chão.

"E agora?", perguntou o iraniano, hesitante, as mãos a repousar nas ancas.

"Vamos verificar", disse Tomás, inclinando-se para a caixa.

Tirou a tampa com cuidado e fez sinal a Bagheri para aproximar a lanterna. O foco de luz inundou o interior da caixa, incidindo sobre as folhas amarelecidas do velho manuscrito. Tomás inclinou-se, focou os olhos e confirmou o título e o poema ostentados na primeira folha de papel quadriculado. As palavras emergiram tênues, estranhamente familiares, mas também singularmente misteriosas; estas, sabia-o com mal contida emoção, eram as folhas originais, as páginas datilografadas pelo próprio Einstein, o testemunho perdido de uma outra era. Mergulhados num fino véu de pó, os papéis gastos e carcomidos pelos anos exalavam um antigo perfume, o aroma arcano de um tempo há muito consumido.

 

                                         DIE GOTTESFORMEl

 

                                   Terra if fin

                                   De terrors tight

                                   Sabbath fore

                                    Christ nite

  1. Einstein

 

"É isto?", perguntou Bagheri.

"Sim, é isso."

"Tem a certeza?"

"Absoluta", devolveu Tomás. "Foi exatamente este o..."

Zzzzzzzzzzzzzz

Congelaram os dois, a respiração suspensa, os olhos muito abertos, a atenção alerta. A primeira reação foi de surpresa, tentaram freneticamente perceber o que era aquilo, que barulho era aquele, que significado tinha esse som inesperado, e voltaram ambos a cabeça na direção da fonte do ruído.

Era o cinto.

O zumbido vinha do cinto de Bagheri. Pior ainda, vinha do receptor guardado no cinto de Bagheri. O receptor. O mesmo receptor que estava sintonizado com o sinal do emissor de Babak. O mesmo receptor que lhes trazia notícias do mundo exterior. O mesmo receptor que só zumbiria em caso de algo muito grave.

Arregalaram ainda mais os olhos, mas desta vez não foi de surpresa. Foi de algo muito mais assustador, muito mais pavoroso, infinitamente aterrador. Foi de compreensão.

Foi de horror.

"O alarme!"

 

Uma inacreditável parafernália de luzes enchia o pátio do ministério, parecia estar ali montada uma animada feira; eram os focos brancos dos faróis dos automóveis e dos projectores, mais as intermitências rotativas laranjas dos carros da polícia. Via-se gente a correr por toda a parte, gritavam-se ordens, era evidente que aqueles homens acabavam de chegar à pressa e tomavam posições, uns de pistola, outros de espingarda, alguns com armas automáticas. Dois caminhões de lonas verdes acercaram-se da rua nesse instante e da carga começaram a jorrar soldados de camuflado, ainda os veículos não se tinham imobilizado por completo.

Paralisados na janela da sala de reuniões, para onde tinham corrido depois de ouvirem o alarme dado por Babak, Tomás e Bagheri observavam a cena com estupefacção, primeiro incrédulos, quase hipnotizados, depois apavorados, desenrolava-se diante de si o pior de todos os cenários, o maior de todos os pesadelos.

A sua presença tinha sido detectada.

"E agora?", murmurou Tomás, sentindo o pânico crescer-lhe nas entranhas.

"Temos de fugir", disse Bagheri.

Sem perder mais tempo, o enorme iraniano deu meia-volta e abandonou a sala, arrastando o historiador atrás. Avançaram às escuras, não se atrevendo a ligar a lanterna, tacteando as paredes, tropeçando em obstáculos, esbarrando em móveis, trôpegos e desajeitados. Tomás corria com a caixa do manuscrito segura nas mãos, Bagheri ia com o saco das ferramentas a tiracolo.

"Mossa", chamou o português. "Vamos fugir para onde?"

"Existe uma porta nas traseiras do rés-do-chão com acesso à rua. Vamos para lá."

"Como é que sabe?"

"Vi na planta."

Chegaram à escadaria central e começaram a descer em corrida, quase num tropel, não havia tempo a perder, era preciso atingir essa porta de emergência, chegar lá quanto antes, chegar lá enquanto não se completava o cerco ao edifício. No lanço que conduzia ao primeiro andar, porém, ouviram barulho e pararam. Os sons vinham do rés-do-chão.

Eram vozes.

Os iranianos já tinham entrado no edifício e procediam agora às buscas. O grave significado desta inesperada evolução foi instantaneamente compreendido pelos dois, enchendo-os de um terror

indescritível. A presença de polícias e soldados no rés-do-chão queria dizer que o caminho de fuga estava cortado.

Cortado.

Não havia escapatória. O cerco fechava-se mais depressa do que pensaram ser possível, os iranianos aproximavam-se rápido e tornava-se crescentemente claro que os dois intrusos iriam ser capturados a todo o momento.

Luz.

A iluminação foi nesse instante ligada por todo o edifício e o terror transformou-se em pânico absoluto. Ainda tolhidos na escadaria, olharam freneticamente em redor, desorientados, procurando caminhos alternativos, buscando uma nova saída, uma porta, um buraco, qualquer coisa. Qualquer coisa. Escutaram barulhos e vozes a serem trocadas lá em baixo, eram os iranianos que apertavam o cerco, começavam a escalar os degraus e faziam-no em passo apressado.

 

Determinado em não se deixar apanhar, Bagheri agarrou Tomás pelo braço e recuou para o segundo andar, agora perfeitamente iluminado. Meteram por um corredor, tentando desesperadamente encontrar as escadas de emergência, era o seu derradeiro recurso.

"Ist!"

O grito com a ordem para pararem trovejou lá atrás, algures do fundo do corredor, emitido por uma voz rouca, gutural, mas suficientemente clara para perceberem ali, nesse mesmo instante, que acabara de acontecer o inevitável.

Tinham sido localizados.

"Iiiiiiist!"

Correram pelo corredor e abriram uma porta metálica ao fundo. Era de facto a escada de emergência, uma construção de alumínio em caracol. Bagheri agarrou-se ao corrimão e desceu veloz os primeiros degraus, Tomás no encalço com as pernas fracas de medo, mas pararam ao ouvir ruídos martelados em baixo e novas vozes gritadas, eram homens que subiam apressadamente por aquelas mesmas escadas.

Também esta saída estava cortada.

Deram meia-volta e subiram de novo ao segundo andar, mas não regressaram ao mesmo corredor, presumindo que ele estava agora ocupado pelos homens que já os tinham visto. Em vez disso, optaram antes por continuarem a escalar até ao terceiro andar. Meteram pelo mesmo corredor do compartimento onde tinha sido guardado o manuscrito e viram guardas a emergirem lá ao fundo, em corrida.

"Ist!", gritaram os homens armados, mandando-os mais uma vez parar.

Bagheri alcançou a porta da sala de reuniões e forçou a entrada, sempre seguido por Tomás. O historiador, ofegante do esforço, atirou a caixa com o manuscrito para cima da mesa longa e deixou-se cair numa cadeira, prostrado pelo cansaço e pelo desespero.

"Não adianta", exclamou entre duas golfadas de ar. "Vamos ser apanhados."

 

"Isso é o que ainda iremos ver", respondeu Bagheri.

O enorme iraniano abriu apressadamente o saco das ferramentas e retirou de lá o que de início parecia ser um novo instrumento. Com as luzes acesas por toda a parte, Tomás reconheceu, aterrado, o objeto que Bagheri tinha na mão.

Uma pistola.

"Você está doido?"

Bagheri espreitou pela entrada, pôs o braço de fora da porta, apontou para o fundo do corredor, à direita, e abriu fogo.

Crack.

Crack.

Dois tiros estalaram da pistola.

"Um já levou", comentou o iraniano com um sorriso de desdém, após verificar o efeito dos disparos.

Tomás nem queria acreditar no que estava a acontecer.

"Mossa!", gritou. "Você enlouqueceu!"

Bagheri sentiu movimento à esquerda e rodopiou depressa, apontando para o outro lado do corredor, na direcção das escadas de emergência de onde ambos tinham vindo com iranianos em perseguição.

Crack.

Crack.

Crack.

Um gemido e o som espalhafatoso de uma queda confirmou a Tomás que os três novos tiros desferidos pelo companheiro haviam abatido pelo menos mais um iraniano.

"Mais dois despachados", rosnou Bagheri, após verificar o resultado dos últimos disparos. Afinal tinham sido dois. "Já vão três."

"Mossa, ouça", implorou Tomás. "Eles agora vão-nos acusar também de homicídio. Você está a piorar tudo!"

Bagheri olhou-o de relance.

"Você não conhece este país", comentou com secura. "O que nós fomos apanhados a fazer é a coisa mais grave que há. Matar uns tipos não é nada ao pé disso."

"Não importa", devolveu o historiador. "Matar uns quantos é que não vai ajudar nada."

O iraniano espreitou novamente o corredor e, sentindo que os perseguidores tinham recuado ao depararem com resistência, procurou o saco das ferramentas no chão e puxou-o para si. Com a mão direita empunhava a pistola, enquanto com a esquerda apalpava o interior do saco.

"Não nos vão apanhar", insistiu, rangendo os dentes.

A mão imobilizou-se dentro do saco, tendo presumivelmente encontrado o que procurava. Após uma curta pausa nos movimentos, recolheu o braço e a mão reapareceu com dois objetos brancos.

Tomás inclinou-se para tentar perceber se aquilo era mesmo o que lhe parecia ser.

Seringas.

"O que é isso?", perguntou, uma expressão desconfiada nos olhos.

"Potassium chloride."

"O quê?"

"É uma solução de potássio."

"E é para quê?"

"Para você se injetar."

Tomás fez um ar admirado e pousou a mão no peito.

"Para eu me injetar? Para quê?"

"Para não sermos apanhados vivos."

"Você está louco."

"Loucura é deixarmo-nos apanhar vivos."

"Você está louco."

"Eles vão torturar-nos até à morte", explicou Bagheri. "Vão torturar-nos até nós confessarmos tudo e depois matam-nos na mesma. Mais vale despacharmos já as coisas."

"Se calhar não matam."

"Não tenho dúvidas de que matam, mas isso não interessa", retorquiu o iraniano. Acenou com as seringas. "São ordens de Langley."

"Como?"

"Langley deu-me instruções para, em caso de sermos detectados, não deixarmos que nos apanhem vivos. As implicações para a segurança seriam incalculáveis."

"Quero lá saber."

"O que você quer ou não saber não me interessa para nada. Um bom agente tem de perceber que, por vezes, precisa de se sacrificar em prol de um bem comum."

"Eu não sou agente de ninguém. Eu sou..."

"Você é, neste momento, agente da CIA", cortou Bagheri, esforçando-se por não elevar a voz.

"Quer queira, quer não, está envolvido numa missão de grande importância e tem conhecimentos que, se forem partilhados com o Irão, irão criar um grave embaraço aos Estados Unidos e aumentar a insegurança internacional. Não podemos permitir que isso aconteça, pois não?" Fez um gesto na direção do corredor. "Eles não nos podem apanhar vivos."

O historiador cravou os olhos nas seringas e abanou a cabeça.

"Eu não me vou injetar com isso."

Bagheri virou a pistola e, sempre com o outro braço esticado a estender as seringas, fez um gesto na direcção de Tomás.

"Vai, vai. E depressa."

"Não vou. Não sou capaz."

O iraniano apontou a pistola para a cabeça de Tomás.

"Ouça-me bem", disse. "Temos duas maneiras de fazer isto." Voltou a acenar com as seringas.

"Uma é você injetar-se com este líquido. Prometo-lhe uma morte serena. O potassium chloride, quando entra na circulação sanguínea, faz parar imediatamente o músculo do coração. É esta solução que os médicos usam para pôr fim à vida de doentes terminais e a que alguns estados americanos recorrem para executar condenados à morte. Como vê, não irá sofrer." Abanou agora a pistola. "A outra é levar dois tiros. Também não sofrerá muito, mas é um método mais brutal. Além disso, eu queria poupar as duas balas para acabar com mais um dos cabrões que nos estão a cercar." Fez uma pausa. "Entendeu?"

Os olhos de Tomás saltitaram entre as duas opções. As seringas e a pistola. As seringas e a pistola. As seringas e a pistola.

"Eu... uh... deixe cá ver..."

Começou a tentar ganhar tempo, nenhuma das soluções lhe interessava. Aliás, nem achava que fossem soluções. Ele era um professor de História, não um agente da CIA; tinha a esperança, quase a certeza, de que, bem conversados, os iranianos iriam perceber essa evidência.

"Então?"

"Uh... não... não sei..."

Bagheri esticou mais o braço com a pistola, o cano firmemente apontado para os olhos do historiador.

"Já vi que tenho de ser eu a resolver isto."

"Não, não, espere", implorou Tomás. "Dê-me a seringa."

Bagheri atirou uma seringa para junto de Tomás e guardou a outra no bolso, reservando-a para si.

"Injecte lá isso", disse. "Vai ver que não custa nada."

Com os dedos a tremerem de nervos, quase numa convulsão de horror, Tomás agarrou no plástico que selava a seringa e puxou-o tenuamente, sem o rasgar.

"Isto... isto é difícil."

"Despache-se."

As mãos tremelicantes voltaram a tentar rasgar o plástico, mas sempre sem convicção nem vontade, pelo que o elástico se manteve mais uma vez incólume.

"Não consigo."

Bagheri fez um gesto impaciente com a mão esquerda.

"Dê cá isso."

Tomás devolveu-lhe a seringa. Bagheri arrancou o plástico com os dentes, tirou a seringa do interior, cuspiu o plástico para o chão, colocou a agulha, ergueu a seringa e expeliu um pequeno jato para o ar.

"Já está", disse. "Prefere que seja eu a injetar, é?"

"Não, não. Eu... eu faço isso."

Bagheri atirou a seringa de volta.

"Vá, despache-se."

Sempre muito devagar, com as mãos a agitarem-se numa louca convulsão nervosa, Tomás pegou na seringa, pousou-a ao lado de si, puxou a manga do casaco de modo a expor o braço, voltou a tapá-lo, repetiu o gesto no outro braço e abanou a cabeça.

"Não sei fazer isto", disse.

Bagheri aproximou-se.

"Eu faço."

"Não, não. Eu faço, deixe estar."

O enorme iraniano pegou na seringa pousada no chão.

"Já vi que não vai fazer nada", rosnou. "Eu é que..."

Um súbito ruído no corredor fê-lo voltar-se para a porta, a pistola em riste. Dois vultos apareceram nesse instante na entrada, seguidos de outros, e caíram em cima de Bagheri, que já tinha a arma preparada.

Crack.

Crack.

Crack.

Os iranianos amontoavam-se uns em cima dos outros, todos sobre Bagheri, aos urros, enquanto Tomás se arrastava pelo chão para o fundo da sala, tentando escapar àquela tremenda confusão. Mais homens irromperam pela sala, todos armados com AK 47, e, berrando ordens, apontaram as armas automáticas para o historiador.

Devagar, cheio de hesitações, o olhar trespassado pelo horror e pelo alívio, Tomás ergueu os braços.

"Rendo-me."

 

A venda nos olhos impedia Tomás de ver o que quer que fosse, a não ser uma nesga de luz que lhe vinha de baixo, mas sentiu calor e ouviu novas vozes em ambiente fechado e percebeu que o arrastavam para dentro de um edifício. Braços poderosos puxaram-no por portas, escadas e corredores, as mãos sempre algemadas nas costas; por fim, após muito tropeçar na escuridão, mero joguete nas mãos de desconhecidos, foi empurrado para um compartimento e atirado para um assento de madeira. Homens invisíveis falavam num parsi agitado, até que uma voz lhe perguntou em inglês.

"Passport?"

Sem possibilidade de mexer as mãos, Tomás baixou a cabeça e tocou com o queixo no lado esquerdo do peito.

"Está aqui."

Uma mão infiltrou-se-lhe no bolso interior do casaco e retirou os documentos. A algazarra prosseguia em redor, mas um característico som metálico metralhado, que não escutava havia já muito tempo, indicou-lhe que alguém preenchia um formulário com uma velha máquina de datilografar.

"Em que hotel está você alojado?", perguntou a mesma voz.

Fez-se silêncio na sala, todos pareciam de repente ter curiosidade em saber algo mais sobre o homem que acabara de ser detido.

Tomás estranhou a pergunta. Se lhe perguntavam em que hotel ele se encontrava é porque não o tinham ainda identificado nem percebido o que ele e Bagheri tentavam realmente fazer no ministério. Talvez houvesse uma hipótese de os convencer de que tudo aquilo não passava de um enorme equívoco.

"Estou no Simorgh."

A máquina de datilografar tiquetaqueou algo, presumivelmente esta resposta.

"E o que está a fazer no Irã?"

"Estou a trabalhar num projeto."

"Que projeto?"

"Um projeto secreto."

"Que projeto secreto?"

"Um projeto com o governo iraniano."

A voz fez uma pausa, avaliando esta resposta.

"Com o governo iraniano, é? Quem no governo iraniano?"

"O Ministério da Ciência."

Novo metralhar da máquina de datilografar.

"O que estava a fazer na Sala K?"

"A trabalhar."

"A trabalhar? A uma da manhã? E a entrar na Sala K sem autorização?"

"Precisei de ir ver algumas coisas."

"Por que não abriu a porta com a chave própria? Se tinha autorização, por que não desativou o alarme?"

"Havia alarme, é?"

"Claro que havia. A porta da Sala K está protegida por um sistema de alarme que comunica com as forças de segurança. Como pensa você que nós soubemos que havia ali intrusos? Se tivesse usado a chave própria, o sistema teria sido automaticamente desativado."

"Tinha urgência em verificar umas coisas, o que quer? Não dispunha da chave ali à mão."

"Se assim era, por que razão abriram fogo contra nós?"

"Não fui eu quem disparou. Foi o outro. Achou que vocês eram assaltantes."

"Bem, já iremos ver isso", disse a voz.

Ouviram-se umas ordens em parsi, alguém arrancou Tomás da cadeira e levou-o para uma outra sala. Tiraram-lhe a venda e as algemas e o historiador constatou que se encontrava no que parecia ser um estúdio muito iluminado. Havia uma máquina fotográfica montada diante de si e dois focos de luz ligados em cima. Um homem atrás da câmara fez-lhe sinal para olhar para a lente e disparou uma fotografia. O exercício foi depois repetido de perfil, para a esquerda e para a direita. Quando o fotógrafo deu o seu trabalho por terminado, Tomás foi empurrado para um balcão onde o forçaram a deixar as suas impressões digitais registadas a tinta num formulário.

De seguida levaram-no para um balneário contíguo ao estúdio.

"Tire as roupas", ordenou um homem.

Tomás despiu-se até ficar nu, a tiritar de frio, os pêlos eriçados, os braços envolvendo o próprio corpo num esforço para se aquecer. O iraniano apanhou as roupas, colocou-as num cacifo e pegou no que parecia ser um pijama muito gasto, às riscas, feito com tecido áspero, de má qualidade.

"Vista isto", ordenou o mesmo homem.

Ansioso por algo que o protegesse do gelo, o português logo obedeceu. Uma vez vestido com toda a roupa de prisioneiro, despojado da sua individualidade, olhou para si e, vencendo os sentimento de humilhação e desespero que o colocavam à beira das lágrimas, não resistiu a pensar que parecia um irmão Metralha.

 

As primeiras vinte e quatro horas foram passadas numa cela imunda, úmida e com um penico coletivo, onde se acotovelavam mais quatro presos, todos iranianos. Três deles só falavam parsi, mas o quarto, um homem idoso de óculos redondos e aspecto franzino, revelou-se fluente em inglês. Deixou Tomás chorar sozinho na primeira hora em que permaneceu na cela, mas depois, quando o historiador acalmou os nervos, aproximou-se e colocou-lhe a mão no ombro.

"A primeira vez é sempre a mais difícil", disse, a voz suave transmitindo conforto. "É a sua primeira vez?"

Tomás passou a mão pela cara e balançou afirmativamente a cabeça.

"Sim."

"Ah, é terrível", insistiu o velho. "Da minha primeira vez chorei durante dois dias. Senti uma vergonha muito grande, parecia que não passava de um vulgar ladrão. Eu, um professor de Literatura na Universidade de Teerã."

O historiador olhou-o com surpresa.

"Você é professor universitário?"

"Sim. Chamo-me Parsa Khani, leciono literatura inglesa."

"O que está aqui a fazer?"

"Oh, o costume. Sou acusado de me ter envolvido com jornais pró-reformistas, de falar mal do idiota do Khamenei e de apoiar o antigo presidente Khatami."

"Isso é crime?"

O velho encolheu os ombros.

"Os fanáticos acham que sim." Ajeitou os óculos. "Da primeira vez não vim para aqui, sabe?"

"Aqui, onde?"

"Esta cadeia. A minha primeira vez não foi em Evin."

"Erin?"

"Evin", corrigiu Parsa. "Esta é a cadeia de Evin, não sabia?"

"Não. Esta localidade chama-se Evin?"

O iraniano riu-se.

"Não, não. Esta é a cadeia de Evin, no Norte de Teerã. É uma cadeia muito temida. Foi construída nos anos setenta pelo Xá e era controlada pela sua polícia secreta, a SAVAK. Quando veio a Revolução Islâmica, em 1979, a prisão passou formalmente para as mãos do Gabinete Nacional de Prisões. Mas só formalmente. Isto aqui está agora transformado numa espécie de ONU dos vários poderes no Irão. A autoridade judicial controla a Secção 240 da cadeia, a Guarda Revolucionária controla a Secção 325 e o Ministério das Informações e Segurança manda na Secção 209. Ainda por cima andam todos a competir entre si e às vezes até interrogam prisioneiros uns dos outros, é uma confusão que ninguém se entende."

"Nós estamos em que ala?"

"Estamos numa ala mista. Eu fui detido pelos imbecis da Guarda Revolucionária e são eles que me mantêm aqui. Você foi detido por quem?"

"Não sei."

"Qual o motivo pelo qual o prenderam?"

"Fui apanhado dentro do Ministério da Ciência à noite. É tudo um grande equívoco, espero que me libertem em breve."

"Dentro do ministério? Não era espionagem, pois não?"

"Claro que não."

Parsa fez um trejeito com a boca.

"Hmm, isso cheira-me então a delito comum", considerou. "Se assim for, eu acho que você está aqui sob a tutela da autoridade judicial."

Tomás apertou melhor a camisa da farda de presidiário, buscando mais calor.

"Acha que eles me deixam contactar uma embaixada da União Européia?"

O velho voltou a rir-se, mas sem humor.

"Se estiver com sorte, sim", exclamou. "Mas só depois de o espremerem bem."

"Como assim, espremerem-me bem?"

O iraniano suspirou, o olhar cansado.

"Ouça, senhor... uh..."

"Tomás."

"Ouça, senhor Tomás. O senhor veio para a cadeia de Evin, um dos sítios mais desagradáveis do Irã. O senhor tem alguma idéia do que aqui se passa?"

"Bem... não."

"Para lhe dar uma idéia, posso dizer-lhe que a minha primeira passagem aqui por Evin foi inaugurada por uma sessão de bofetadas. Depressa aprendi que se tratava apenas de um ligeiro tratamento introdutório, porque logo a seguir serviram-me uma refeição de chicken kebab. O senhor sabe o que é chicken kebab?"

"Não."

"Nunca comeu kebab num restaurante iraniano, senhor Tomás?"

"Ah, sim", reconheceu o historiador. "Kebab. E aquela espécie de sanduíche. Puxa, já estou farto disso..."

"Eles aqui também servem chicken kebab."

"Ah, sim?"

"Sim. Só que, aqui em Evin, chicken kebab não é uma delícia gastronômica. É o nome que dão a um método de interrogatório."

"Ah."

"Primeiro prendem-nos os tornozelos e amarram-nos as mãos, depois põem os pulsos sobre os tornozelos e passam uma enorme barra de metal entre os ombros e a parte de trás dos joelhos, de modo a ficarmos quase na posição fetal. Levantam a barra, prendem-na a um ponto alto e nós ficamos assim pendurados, todos contorcidos, como uma galinha no espeto. E a seguir batem-nos."

Tomás esboçou um esgar horrorizado.

"Fizeram-lhe isso a si?"

"Sim, fizeram."

"Por criticar o presidente?"

"Não, não. Por defender o presidente."

"Por defender o presidente?"

"Sim. Khatami era naquela altura o presidente e pretendia fazer avançar reformas que pusessem fim aos exageros desses fanáticos religiosos, esses malucos que nos infernizam a vida todos os dias e fazem a glorificação da ignorância."

"E o presidente não o pode libertar?"

Parsa abanou a cabeça.

"O presidente já não é o mesmo, agora está lá um radical. Mas nada disso interessa. A grande verdade é que, quando ocupava a presidência, Khatami não tinha qualquer poder sobre estes imbecis. Eu sei que parece uma loucura, mas é assim que as coisas funcionam neste país. Isto não é como o Iraque, sabe, onde mandava o Saddam e todos se encolhiam. Aqui é diferente. Olhe, em 2003, por exemplo, o presidente Khatami ordenou uma inspeção a esta cadeia. Os seus homens de confiança vieram cá e tentaram visitar a Seção 209. Sabe o que aconteceu? Sabe?"

"Não."

"Os tipos do Ministério das Informações e Segurança não os deixaram entrar."

"Não deixaram?"

"Não."

"E o que fizeram os homens do presidente?"

"Ora! Meteram o rabo entre as pernas e foram-se embora, pois claro." Fez um gesto resignado. "É para que você veja quem manda neste país."

"Incrível."

"Passam-se aqui em Evin as coisas mais inacreditáveis e ninguém pode fazer nada."

"Como essa tortura a que o submeteram."

"Sim, o chicken kebab. Mas há mais. Uma vez puseram-me no carrossel. Sabe o que é o carrossel?"

"Não."

"Amarraram-me com a barriga para cima a uma cama em forma de Y. Depois puseram-na a girar a grande velocidade e, enquanto cantavam, batiam-me em toda a parte." Respirou fundo. "Vomitei todo o jantar."

"Puxa."

O velho apontou para um dos companheiros de cela, um rapaz ossudo, com grandes olheiras.

"Ali o Faramarz passou por uma situação bem chata", disse. "Penduraram-no pelos pés no teto de uma sala, puseram-lhe um peso nos testículos e deixaram-no ali suspenso durante três horas, sempre com a cabeça para baixo."

Tomás estudou, horrorizado, o ar doentio de Faramarz.

"Acha... acha que me podem fazer o mesmo?"

Parsa acomodou-se no chão.

"Depende do que acharem que você andava a fazer no Ministério da Ciência", indicou, passando a língua pelos lábios finos. "Se acharem que estava a roubar, se calhar partem-lhe as mãos à pancada e depois condenam-no a uns anos de prisão. Se acharem que estava a fazer espionagem... bem, nem quero imaginar."

O historiador sentiu um terrível calafrio percorrer-lhe o corpo e começou a interrogar-se se, feitas as contas, não teria sido melhor ter utilizado a seringa que Bagheri lhe estendeu.

"Mesmo sendo estrangeiro, isso não..."

"Sobretudo sendo estrangeiro", atalhou Parsa. "E de uma coisa estou certo." Apontou para o seu interlocutor. "Você não vai escapar à pior das torturas."

Tomás sentiu um baque no coração.

"Acha?"

"Todos passam por ela. É a mais eficiente."

"E qual... qual é?"

"O caixão."

"Como?"

"Uns chamam-lhe o caixão, outros a tortura branca. Seja quem for o homem, vai acabar por ceder. Todos cedem. Uns resistem três dias, outros aguentam três meses, mas todos acabam por confessar tudo. E se não confessam aqui em Evin, mandam-nos para a Prisão 59, que é muito pior. No fim, tudo os presos acabam por confessar. Confessam o que fizeram, confessam o que gostariam de ter feito e confessam o que não fizeram. Confessam o que eles quiserem."

"E... e... o que nos fazem eles?"

"Onde?"

"Nesse caixão."

"No caixão? Nada."

"Hã?"

"Nada."

"Não nos fazem nada? Não entendo."

"O caixão é uma cela solitária. Parece um caixão. Imagine o que é viver dias e dias num compartimento muito pequeno, quase do tamanho de um caixão, sem falar com ninguém nem ouvir ruído nenhum. Assim descrito não parece nada de especial, pois não? Sobretudo quando comparado com o carrossel ou o chicken kebab. Mas viver isso..." Abanou a mão. "Uf!"

"É assim tão mau?"

"É de loucos. Os caixões funcionam nas Seções, mas, como lhe disse, os piores nem são aqui os de Evin. Os piores são os dos centros de detenção."

"Centros de detenção?"

"Os jornais chamam-lhes nabadeh movazi, ou instituições paralelas. São tão clandestinas que nem sequer estão previstas na lei, embora sejam mencionadas na imprensa e até no parlamento. Pertencem às milícias basiji ou ao Ansar-e Hizbollah ou aos vários serviços secretos. Não estão assinaladas como prisões, não registam os nomes dos prisioneiros nem as autoridades governamentais têm acesso a informação sobre os seus orçamentos e organização. Os deputados e o presidente Khatami tentaram acabar com as nahadeb mozavi, mas não conseguiram."

"Como é isso possível?"

Parsa ergueu os olhos para cima, como se dirigisse a pergunta a uma entidade divina.

"Só no Irã, meu caro amigo", desabafou. "Só no Irã."

"Você já esteve num desses sítios?"

"Claro que sim. Para dizer a verdade, da primeira vez que fui detido nem vim aqui para Evin, sabe? Segui direitinho para a Prisão 59."

"Ah, sempre é uma prisão."

"Chamamos-lhe Prisão 59 ou eshraat abad, mas não está registada como prisão. É a mais famosa das nahadeb mozavi."

"É aqui em Teerã?"

"Sim, a Prisão 59 encontra-se num complexo situado na Avenida Valiasr e é controlada pela Sepah, os serviços de informações da Guarda Revolucionária. Os caixões deste centro de detenção são os piores de todos. Ao pé deles, aqui os de Evin não passam de moradias luxuosas. Você nem imagina como aquilo é. Enlouquece-se numa única noite."

Quase sem querer, Tomás procurava-se situar nestas informações, imaginava-se a cada instante em cada uma das situações que lhe eram descritas.

"Eles... eles costumam meter estrangeiros nesse sítio?", perguntou, a medo.

"Eles metem lá quem quiserem. Quem entrar na Prisão 59 é como se deixasse de existir. Aqui em Evin ainda há um registo dos prisioneiros. Lá não existe registo nenhum. Uma pessoa entra e depois pode reaparecer ou desaparecer para sempre, ninguém ali presta contas."

"Estou a ver."

"De modo que só tenho um conselho para lhe dar."

Fez-se uma pausa.

"Qual é?"

 

"Se tiver alguma coisa para confessar, confesse logo de início", disse o velho, a voz fatigada. "Ouviu?"

"Sim."

"Poupará a si próprio muito sofrimento."

 

Encafuado naquela cela imunda, o ar impregnado de uma mistura nojenta de odores a mofo, urina e fezes, Tomás passou toda a noite e manhã seguinte a decidir-se sobre o que iria ou não dizer quando fosse interrogado. Parecia-lhe evidente que jamais poderia confessar estar a trabalhar para a CIA, tal revelação seria equivalente à assinatura da sua sentença de morte.

Não podendo, portanto, expor a verdade, ficava nas mãos com o grande problema de explicar o inexplicável, isto é, justificar o arrombamento do cofre e a presença de Bagheri ao seu lado. Quando foi capturado, o historiador ficara com a impressão de que o seu companheiro iraniano tinha sido morto, mas não pudera confirmar isso e corria sempre o risco de Bagheri estar vivo e apresentar uma versão que o comprometeria. Além disso, mesmo que Bagheri estivesse morto, a sua ligação seria sempre um embaraço, jamais conseguiria dar uma explicação convincente para o facto de ter sido apanhado dentro do ministério com ele. Por outro lado, ainda que o homem da CIA se encontrasse morto, seria sempre possível à polícia identificá-lo e investigar as suas ligações. Os iranianos poderiam interrogar os seus familiares e amigos e revistar a sua casa. Não havia modo de saber o que descobririam, mas as hipóteses de virem a ligar Bagheri à agência secreta americana eram elevadas. E, se o fizessem, a pergunta seguinte era óbvia. O que estava Tomás a fazer com um agente da CIA, a meio da noite, no Ministério da Ciência, depois de terem arrombado um cofre onde era guardado um documento altamente secreto? Como explicar o inexplicável? E, como se tudo isto não bastasse, era preciso ainda não esquecer Babak. Teria sido o motorista apanhado? Se foi, o que revelaria ele? Se não foi, será que o podia ainda vir a ser?

 

"O que o preocupa?", perguntou Parsa.

"Tudo", exclamou Tomás.

"Mas você parece estar a conversar para si mesmo..."

"É o interrogatório. Estou a concentrar-me no que vou dizer."

"Conte a verdade", aconselhou o velho mais uma vez. "Poupará muito sofrimento inútil."

"Claro."

Não podia dizer àquele desconhecido que não tinha modo de contar a verdade. Parsa pareceu entender, porque logo virou a cara e fitou a luz do dia que jorrava pela janela gradeada.

"Mas se não puder contar a verdade", logo acrescentou, "dou-lhe um conselho."

"Qual é?"

"Não acredite em nada do que eles lhe disserem. Ouviu? Não acredite em nada." Fitou Tomás, os olhos a brilharem. "Na minha primeira vez, quando fui para a Prisão 59, anunciaram-me que o presidente Khatami tinha fugido do país e que tinham prendido as minhas filhas e elas estavam a revelar coisas muito graves sobre mim. Disseram tudo aquilo com o ar mais credível do mundo e pediram-me para assinar uma confissão, afirmando que era o melhor para mim, a única maneira de conseguir um perdão. Quando mais tarde fui libertado, apercebi-me de que nada do que me tinham dito era verdade. O presidente continuava em funções, as minhas filhas nunca foram presas."

Tomás passou horas às voltas com o problema do interrogatório, atormentado com as pontas soltas, as inconsistências, os absurdos da sua versão ficcionada. Ruminou o assunto durante o almoço, enquanto engolia distraidamente um aguado caldo de galinha que um guarda lhe despejou numa tigela de alumínio, e foi ainda com a cabeça imersa no problema que, vencido pelo cansaço, adormeceu ao princípio da tarde, deitado sobre uma esteira estendida no chão frio e úmido da cela da ala comum da prisão de Evin.

 

Uma sacudidela violenta despertou Tomás do sono inquieto em que mergulhara durante várias horas. Abriu os olhos e viu um homem de feições brutas diante de si, a barba negra rala e o cabelo a faltar-lhe no topo da testa, as mãos grossas agarradas aos seus ombros, abanando-o com brusquidão. Olhou em redor, ainda meio atordoado, e notou que fazia escuro, a noite já caíra e a cela era iluminada pela mesma luz amarela bruxuleante da véspera.

"Acorrrde", disse o homem num inglês hesitante e com um sotaque iraniano muito forte.

"Uh?"

"O corrronel esperrra você. Deprrressa."

O homem puxou-o para cima, obrigando-o a pôr-se de pé; tirou um lenço do bolso e apertou-o em torno da cabeça e sobre os olhos do prisioneiro. Com Tomás devidamente vendado, o homem prendeu-lhe as mãos por detrás dos braços com algemas e arrastou-o para fora da cela. Voltaram a percorrer corredores e a subir e descer escadas, até que o recluso, sempre às escuras por causa da venda, entrou num compartimento aquecido e foi forçado a sentar-se num banco de madeira, as algemas ainda prendendo-lhe os braços atrás das costas.

Silêncio.

Tomás pressentiu uma presença no local. Ouviu um respirar leve e o som quebrado de estalidos de articulações, era evidente que havia alguém ali, mas a verdade é que ninguém pronunciou palavra e o historiador permaneceu calado. Passaram-se cinco minutos em silêncio, apenas se ouviam as respirações e os pequenos estalidos. O recluso remexeu-se no banco e sentiu algo à direita. Percebeu que era uma mesinha colada à braçadeira da cadeira, como os bancos das escolas. Instantes depois sentiu o vulto sentar-se naquela mesinha e encolheu-se, intimidado.

Dez minutos de silêncio.

"Professor Noronha", disse finalmente a voz, num tom contido, como um leão que oculta o rugido feroz por baixo de um ronronar manso. "Bem-vindo ao nosso humilde palacete. Está bem instalado?"

"Quero falar com um diplomata da União Européia."

O desconhecido deixou passar mais uns segundos.

"O meu nome é Salman Kazemi e sou coronel do VEVAK, o Ministério das Informações e Segurança", disse, ignorando ostensivamente o pedido. "Tenho algumas perguntas para lhe fazer, se não se importa."

"Quero falar com um diplomata da União Européia."

"A primeira pergunta é óbvia. O que estava o senhor a fazer nas instalações do Ministério da Ciência e Tecnologia à uma da manhã?"

"Só falo depois de conversar com um diplomata da União Européia."

"Por que razão o senhor arrombou o cofre da Sala K e tirou do seu interior um documento da maior importância para a defesa e segurança da República Islâmica?"

"Quero falar com um diplomata da União Européia."

"O que tencionava o senhor fazer com o documento que retirou do cofre?"

"Eu tenho o direito de falar com..."

"Silêncio!", gritou o coronel sobre o seu ouvido direito, de repente fora de si. "O senhor neste momento não existe! O senhor neste momento não tem direitos! O senhor abusou gravemente da nossa hospitalidade e envolveu-se em atividades que podem ter posto em perigo a segurança da República Islâmica. O senhor esteve metido numa ação da qual resultou o ferimento de quatro homens das forças de segurança iranianas e um deles encontra-se neste momento internado no hospital em estado grave. Se vier a morrer, isso fará de si um homicida. Entendeu?"

Tomás permaneceu calado.

"Entendeu?", gritou ainda mais alto, a boca colada ao ouvido de Tomás.

"Sim", retorquiu o recluso, a voz muito baixa.

 

"Ainda bem", exclamou o coronel Kazemi. "Então faça o favor de responder agora às minhas perguntas." Fez uma pausa para recuperar a compostura e retomou o interrogatório num tom mais calmo. "O que estava o senhor a fazer dentro do Ministério da Ciência e Tecnologia à uma da manhã?"

"Só respondo depois de falar com um..."

Uma violenta pancada na nuca quase atirou Tomás ao chão.

"Resposta errada", berrou o oficial da VEVAK. "Vou repetir a pergunta. O que estava o senhor a fazer no Ministério da Ciência e Tecnologia à uma da manhã?"

O recluso manteve-se calado.

"Responda!"

Silêncio.

Nova pancada, agora um murro desferido no lado direito da cabeça com tal violência que Tomás se desequilibrou do banco e tombou para o lado esquerdo com um gemido atordoado, estendendo-se espalhafatosamente no chão, os braços ainda algemados nas costas.

"Eu... vocês... vocês", titubeou, atarantado, sentindo uma face da cara a latejar com o impacto, a outra a colar-se à pedra fria.

"Vocês não têm o direito de me fazer isto. Eu vou protestar. Vou queixar-me, ouviu?"

O coronel soltou uma gargalhada.

"Vai queixar-se?", perguntou, visivelmente divertido. "Vai queixar-se a quem? Uh? À sua mãezinha?"

"Vocês não podem fazer isso. Eu tenho o direito de contactar um diplomata europeu."

Mãos fortes pegaram em Tomás e atiraram-no de novo para o banco de escola.

"Você não tem direitos nenhuns, já lhe disse", vociferou o coronel. "O seu único direito aqui é o de dizer a verdade, percebeu? A verdade! A verdade libertá-lo-á! A salvação através da verdade. É esse o nosso lema, é esse o lema da VEVAK. A salvação através da verdade. Conte-nos a verdade e isso será levado em linha de conta na hora da decisão. Ajude-nos a encontrar os inimigos da República Islâmica e será premiado. Mais do que isso, será salvo. A salvação através da verdade. Mas, se persistir em manter-se calado, vai arrepender-se amargamente." Baixou o tom de voz, de modo a torná-la quase doce, sedutora. "Ouça o que eu lhe digo. O senhor cometeu um erro, é certo. Mas ainda vai a tempo de o emendar. Garanto-lhe isso. Afinal de contas, todos nós cometemos erros, não é verdade? O que é grave é se persistirmos no erro. Isso é que é grave, percebe?" Adoçou ainda mais a voz, tornou-se quase íntimo. "Ouça, fazemos já aqui uma combinação entre nós os dois. O senhor conta-me tudo e eu faço um relatório muito positivo sobre si. Repare, nós não temos nada contra si, não é? Por que razão lhe iríamos fazer mal? Apenas queremos que nos ajude a detectar os nossos inimigos. Está a ver como é simples? O senhor ajuda-nos, nós ajudamo-lo. Uh? O que me diz?"

"Terei muito gosto em ajudá-lo", disse Tomás, preparando-se para uma nova pancada a qualquer momento. "Mas entenda que eu primeiro tenho de falar com um diplomata da União Européia. Preciso de saber quais são os meus direitos, quero conhecer qual a acusação formada contra mim e gostaria de passar uma mensagem à minha família. Além disso, preciso de arranjar um advogado. Como vê, não estou a pedir nada de mais."

O coronel fez uma pausa, como se estivesse a ponderar o pedido.

"Deixe-me ver se percebo", disse o oficial da VEVAK. "Se nós lhe facilitarmos acesso a um diplomata europeu, você conta-nos tudo, é?"

Tomás hesitou.

"Uh... sim, claro... conto-vos tudo em função... uh... dos conselhos do diplomata e do que disser o meu advogado, claro."

O coronel Kazemi manteve-se calado. O recluso ouviu o som de um fósforo a ser aceso e sentiu, instantes depois, o cheiro acre de um cigarro ateado.

"Você deve pensar que somos parvos", comentou Kazemi por entre dois bafos de fumo. "Por que motivo iríamos nós alertar a União Européia para a sua situação sem ter a garantia de que receberíamos algo em troca? Ninguém no mundo sabe onde você se encontra e não temos interesse nenhum em alterar essa situação. A menos que você nos dê um motivo válido, claro."

"Que motivo?"

"Por exemplo, contando-nos tudo. Olhe, podemos começar com uma dúvida que eu tenho, relativamente ao indivíduo que estava consigo. Quem era ele exatamente?"

Esta pergunta levou Tomás a concluir nesse instante que Bagheri provavelmente tinha morrido. Por um lado, se o coronel não sabia qual a identidade de Bagheri era porque o homem da CIA se calara, talvez para sempre; e, por outro, o oficial usara o pretérito para se referir a Bagheri, o que lhe parecia revelador.

O historiador resolveu testar o interrogador.

"Por que não lhe perguntam diretamente?"

Kazemi pareceu momentaneamente desconcertado com a pergunta, o que, em si, constituiu uma forma de resposta.

"Uh... porque...", gaguejou, antes de se recompor. "Ouça, aqui quem faz as perguntas sou eu, ouviu?"

Silêncio.

"Ouviu?"

"Sim."

O coronel aspirou mais uma lufada do cigarro.

"Você é da CIA."

Tomás percebeu que o oficial tinha mudado de tática, para o surpreender, e que não poderia hesitar neste ponto crucial.

"Está a perguntar ou está a afirmar?"

"Estou a afirmar. Você é da CIA."

"Disparate."

"Temos provas."

"Ah, sim? Como é que se pode ter provas de uma fantasia?"

"O seu amigo falou."

"Falou, é? E disse que era da CIA?"

"Sim. Contou-nos tudo sobre si."

Tomás forçou-se a fazer um sorriso.

 

"Se contou tudo sobre mim, então estou mais descansado. Eu não tenho nada a ver com política, sou apenas um acadêmico e vocês sabem-no."

"Você é um espião. Você é um espião que veio ao Irã para nos roubar o segredo da bomba atômica."

Kazemi estendeu aqui uma nova armadilha, mas não foi muito hábil e Tomás pressentiu-o.

"O segredo da bomba atômica?", perguntou, com o ar mais admirado que foi capaz de encenar. "Ena, onde é que isso já vai! Nunca ninguém me falou de bomba atômica alguma, ouviu? Deve haver aqui um engano qualquer. Eu não vim cá para roubar coisa nenhuma. Eu fui convidado, percebe? Eu vim cá para ajudar o Irã a decifrar um documento científico, mais nada. Que história é essa da bomba atômica?"

"Não se faça desentendido", retorquiu o coronel. "Você sabe muito bem do que eu estou a falar."

"Não sei, não. Nunca ouvi falar em tal coisa. O meu trabalho limita-se à decifração de um documento científico, mais nada. Foi para isso que fui contratado. Nunca ninguém me falou em bombas atômicas ou tretas do gênero. E, se tivessem falado, eu nem aceitaria estar aqui, percebeu? Portanto, não se ponha para aí a inventar coisas que não existem."

"Veio cá decifrar um documento científico, é? Então por que razão foi às escondidas ao ministério tirar aquele documento do cofre, uh? Por que razão?"

"Aquele não é um documento militar, já lhe disse. É um documento científico. Pergunte ao ministro da Ciência, se quiser. O senhor é que está a fantasiar e a ver conspirações onde elas não existem."

"O ministro já nos disse que, dada a natureza do documento em questão, você só podia estar a espiar."

"Eu? A espiar? Que coisa mais ridícula! Admito que tinha curiosidade em ver aquele documento científico, isso é verdade. Mas era curiosidade científica, apenas isso. Eu sou um cientista e é muito natural que queira ver uma relíquia científica, não acha?"

"O ministro não lhe chamou relíquia."

"Então chamou-lhe o quê?"

"Chamou-lhe um documento da mais alta importância para a segurança do Irã." Aproximou-se do recluso e segredou-lhe ao ouvido. "Chamou-lhe um segredo de Estado."

"Isso é ridículo", protestou Tomás. "Aquilo é um documento científico. Pelo menos foi isso o que ele sempre me disse e nunca tive razões para duvidar de tal." Alterou o tom de voz, tentando parecer muito razoável. "Ouça, se fosse mesmo um segredo de Estado, acha que me contratavam a mim para o decifrar? Hã? Acha? Então não arranjavam aqui gente capaz de o fazer? Por que razão iriam buscar um ocidental para decifrar um documento tão sensível?"

"Tiveram as suas razões."

"Claro que tiveram", exclamou o recluso. "Razões de ciência."

"Razões de Estado."

"Desculpe, mas o que o senhor está a dizer não faz sentido nenhum. Repare, não é o Irã que diz todos os dias que deseja a energia nuclear para fins pacíficos? Não é o Irã que afirma que não quer desenvolver armas atômicas? Então como é que eu iria roubar ao Irã o que o país não tem nem tenciona ter?"

"Você é muito esperto..."

"Não é uma questão de esperteza, é uma questão de bom senso. Lembre-se que não fui eu que me fiz convidado para vir ao Irã. Foram vocês que me convidaram. Eu estava muito bem no meu cantinho, a fazer as minhas coisas, quando vocês me contactaram e me pediram para vir cá. Eu nunca..."

"Basta", cortou o coronel Kazemi. "Você é nosso convidado e não se portou como tal. Foi apanhado a meio da noite no Ministério da Ciência a arrombar um cofre onde era guardado um segredo de Estado. Quando aparecemos no local, você abriu fogo e feriu..."

"Não fui eu, foi o outro."

"Foi você."

"Não, já lhe disse que quem abriu fogo foi o outro."

"Quem era o outro?"

Tomás hesitou. Tinha ido para a sala determinado a nada dizer e apercebeu-se de que se tinha deixado envolver numa tal teia de conversa que quase contava já a história da sua vida.

"Exijo primeiro falar com um diplomata da União Européia."

"Como?"

"Exijo primeiro falar..."

Uma dor brutal, como um beliscão feroz, incendiou-lhe um ponto no pescoço e até viu estrelas estalarem-lhe nos olhos. Urrou de dor e levou um instante a perceber o que tinha acontecido.

O coronel apagara o cigarro no seu pescoço.

"Se isto não vai a bem, irá a mal", disse o oficial com uma voz neutra.

Kazemi emitiu umas ordens em parsi e Tomás sentiu de imediato movimento em redor. Preparou-se para o pior e quase se encolheu no banco, à espera das pancadas. Várias mãos pegaram-lhe pelos braços e pela roupa de presidiário e obrigaram-no a pôr-se de pé.

"O que... o que me vão fazer?", perguntou, angustiado por a venda não o deixar perceber o que se passava em redor. "Vamos pô-lo a falar", foi a resposta seca de Kazemi.

"Vão-me torturar?"

"Não. Vamos fazer pior."

"Vão fazer o quê?"

"Vamos mandá-lo para a Seção 209."

 

Um caixão.

Quando Tomás, já desalgemado, foi atirado para o pequeno cubículo e pôde finalmente retirar a venda que lhe cobria os olhos e observar o local onde se encontrava, essa foi a primeira impressão com que ficou.

Puseram-me num caixão.

A cela revelou-se incrivelmente pequena. Era tão estreita que não conseguia sequer esticar os braços, tinha somente um metro de largura. De comprimento eram dois metros, apenas o suficiente para dar três pequenos passos, mas, na verdade, era apenas um passo e meio porque o resto estava ocupado por uma retrete e um lavatório. Virou a cabeça para cima e mediu a altura. Quatro metros, mais ou menos. Uma pequena lâmpada iluminava a cela a partir do topo, Tomás calculou que teria uns quarenta watts, não mais. O chão parecia feito de cal e as paredes eram brancas, estreitas, opressoras, davam a impressão de esmagá-lo de todos os lados.

Um verdadeiro caixão.

Nunca na vida Tomás tinha estado assim apertado por paredes, tão apertado que foi assaltado pela distinta impressão de se encontrar enterrado vivo. Começou a sentir dificuldades em respirar e teve de fechar os olhos e erguer as narinas para cima para controlar o acesso de pânico que gradualmente tomava conta de si. Não se quis sentar naquele chão de cal e permaneceu de pé. Tentou dar um passo, mas um passo era mesmo a única coisa que conseguia dar, tão estreita era a cela, tão comprimido era o espaço.

Passou uma hora.

Os ataques de falta de ar e de quase pânico sucediam-se, a par de crescentes tonturas. Sentiu a claustrofobia de quem tinha sido encerrado num túmulo, atirado para uma sepultura de paredes brancas e superfície de cal e iluminada por uma pequena lâmpada de quarenta watts. Fatigado, encostou-se à parede.

Duas horas.

O silêncio era absoluto, asfixiante, sepulcral. Parecia-lhe incrível como era possível haver assim um silêncio de tal modo profundo, tão profundo que escutava a sua respiração como se fosse uma tempestade e ouvia o leve zunido da lâmpada como se se tratasse de uma enorme varejeira a zoar-lhe aos ouvidos. Sentiu as pernas fracas e sentou-se na cal.

Horas.

Perdeu a noção do tempo. Os segundos, os minutos, as horas sucediam-se sem que se conseguisse aperceber da sua passagem; era como se estivesse suspenso no tempo, perdido numa dimensão oculta, flutuando no esquecimento. Apenas via as paredes, a lâmpada, a sanita, o lavatório, o corpo, a porta e o chão. Ouvia o silêncio, a respiração e o zumbido da lâmpada. Lembrou-se que o velho da cela comum lhe dissera que havia solitárias piores, que na tal Prisão 59 se enlouquecia numa só noite, mas não conseguiu imaginar nada pior do que aquele sítio onde se encontrava. Tentou cantar, mas não conhecia a letra da maior parte das canções e contentou-se em trautear algumas baladas infantis. Murmurou ainda diversas melodias, umas atrás das outras, determinado a ser o gira-discos de si próprio. Começou a falar sozinho, mais para ouvir uma voz humana do que para dizer alguma coisa, mas, ao fim de algum tempo, calou-se, achou que estava já a fazer figura de doido.

"Allaaaaaaaaaaaaah u akbaaaaaaaaaaaaaaaar!”

A voz estridente e elétrica de um iraniano a berrar encheu de repente a cela. Tomás deu um pulo e olhou em redor, atarantado. Era o som de um altifalante que reverberava no ar com uma chamada à oração. A chamada durou três ou quatro minutos, sempre com o volume no máximo, quase ensurdecedora, e depois parou.

Voltou o silêncio.

Era um silêncio sinistro, um silêncio tão profundo que até a vibração do ar lhe parecia zumbir aos ouvidos. Fechado naquele espaço apertado, incapaz de esticar os braços para os lados ou de dar dois passos na mesma direcção, a mente de Tomás começou a divagar em torno das suas circunstâncias, do desespero da sua situação, da futilidade da resistência. Para quê resistir se o fim já estava traçado? Não valeria mais antecipar o desfecho inevitável? Por que razão haveria de temer a morte se morto já se encontrava ele ali? Sim, já estava morto sem estar morto, a verdade é que tinha sido enterrado num caixão e não passava agora de uma espécie de morto-vivo.

As refeições eram-lhe dadas em silêncio. O carcereiro abria uma pequena cancela rasgada na porta, entregava-lhe um prato metálico com comida, uma colher de plástico e um copo de água e meia hora depois vinha recolher os utensílios. Estes interlúdios para as refeições e a berraria nos altifalantes para a chamada às orações constituíam os únicos momentos em que o mundo exterior interferia com o caixão. Tudo o resto era indefinido.

Uma espécie de mancha no tempo.

Tomás comia quando a cancela se abria e o prato aparecia, fazia as necessidades na sanita e deitava-se no chão quando tinha sono, encolhendo-se na posição fetal porque não dispunha de mais espaço e também porque era a única maneira de gerar calor para se aquecer. A luz da lâmpada encontrava-se permanentemente acesa e, encerrado naquele caixão de tijolo e cimento, o recluso não tinha maneira de saber que horas eram, quanto tempo passara, se era dia ou se era noite, se sairia dali em breve ou se o enterraram naquele caixão até ao esquecimento.

Limitava-se a existir.

 

O tilintar aparatoso de uma chave a rodar na fechadura despertou Tomás do longo torpor em que se encontrava mergulhado. O ferrolho emitiu diques sucessivos até a porta se abrir e um homem baixo de barba pontiaguda emergir do outro lado e espreitar o recluso.

"Vista isto", disse o iraniano, atirando um saco de plástico azul para o chão da minúscula cela.

O historiador acocorou-se e abriu o saco. Lá dentro encontravam-se as suas roupas, todas amarrotadas e amontoadas umas nas outras. Com a porta entreaberta, viu pela primeira vez em muito tempo a luz do dia espreitar num canto e teve vontade de desatar a correr e abraçar o sol, encher os pulmões de ar e viver aquele dia em toda a plenitude.

"Depressa", resmungou o homem, que se apercebera da forma sonhadora como Tomás contemplava a luz natural que entrava no corredor. "Despache-se."

"Sim, sim, já vou."

 

O historiador vestiu-se e calçou-se em dois minutos, ansioso por agarrar aquela oportunidade que inesperadamente lhe concediam de sair do caixão e respirar ar fresco. Mesmo que fosse para um duro interrogatório, mesmo que o submetessem ao chicken kebab de que lhe falara o velho preso que conhecera quando entrou na cadeia de Evin, tudo era melhor do que permanecer mais uma hora naquele sítio terrível, qualquer tortura era preferível a continuar enterrado vivo.

Quando terminou de se vestir e se pôs de pé, quase saltando de excitação por estar na iminência de abandonar a cela, o iraniano tirou um lenço do bolso e fez um gesto rotativo rápido com a mão.

"Vire-se."

"Hã?"

"Vire-se."

Tomás voltou-se de costas para a porta e o iraniano colocou-lhe a venda nos olhos. De seguida puxou-lhe os braços para trás e algemou-o pelas costas.

"Vamos", disse então, puxando-o pelo braço.

O recluso tropeçou e ia caindo, mas embateu numa parede e conseguiu equilibrar-se, deixando-se puxar pelo carcereiro.

"Onde me leva?"

"Silêncio."

O carcereiro conduziu-o por um longo corredor, ao fim do qual começaram a subir umas escadas. A caminho da cela solitária, Tomás tinha ficado com a impressão de que a sua ala na Seção 209 se encontrava num subterrâneo, impressão que se adensou agora que dali saía. Atravessaram mais corredores e entraram no que parecia ser uma sala, onde o obrigaram a sentar-se num banco. Tomás remexeu-se no banco e sentiu a mesinha pegada à braçadeira, era um banco de escola igual ao do primeiro interrogatório, possivelmente seria até o mesmo banco e a mesma sala.

"Então?", perguntou uma voz familiar. "Divertiu-se muito no enferadi?"

Era o coronel Salman Kazemi outra vez.

"Onde?"

"No enferadi. A solitária."

"Exijo que me deixem falar com um diplomata da União Européia."

O oficial riu-se.

"Outra vez?", exclamou. "Ainda não parou com essa conversa?"

"Tenho direito a falar com um diplomata."

"Você tem é o direito de confessar tudo. Ao fim de três dias trancado no enferadi, já está disposto a falar?"

"Três dias? Passaram-se três dias?"

"Sim. Alguns acham que estar encerrado no caixão durante três dias chega. Será que já chegou para si?"

"Eu quero falar com um diplomata europeu."

Fez-se silêncio e o coronel suspirou com enfado, todo ele paciência a atingir o limite.

"Já vi que não chegou", disse, com um tom normalmente reservado às crianças que se portam mal. "Sabe, acho que nós aqui em Evin somos muito bonzinhos. Demasiado bonzinhos até. É o nosso mal, sermos assim tão sentimentais e respeitadores dos direitos de patifes como você, escumalha que só merece que se lhe cuspa em cima." Voltou a suspirar. "Enfim." Ouviu-se o som de algo a ser escrito. "Acabei agora de assinar a sua ordem de saída", anunciou o coronel.

"Ponha-se a andar daqui para fora."

Tomás nem queria acreditar no que acabara de ouvir.

"O senhor vai... vai libertar-me?"

Kazemi soltou uma gargalhada sonora.

"Claro que vou. Aliás, já o fiz."

"Posso sair, é?"

"Pode e deve. A partir deste momento, já não pertence a Evin. Ponha-se na rua."

O historiador colocou-se de pé, incrédulo mas esperançado.

"Então quando é que me tiram isto dos olhos?"

"Ah, isso não tiramos."

"Não tiram? Porquê?"

"É simples. Acabei de assinar a sua ordem de saída. A partir deste momento, você já não está sob a tutela da cadeia de Evin. Você vai abandonar este estabelecimento e, a partir daquela porta, o que lhe vier a acontecer já não é da nossa responsabilidade."

"O que quer o senhor dizer com isso?"

Umas mãos puxaram brutalmente Tomás, arrastando-o para fora da sala, ainda com a venda nos olhos e os braços algemados atrás das costas. Carregado com violência pelo corredor, o historiador ainda ouviu Kazemi responder com sarcasmo à sua derradeira pergunta.

"Divirta-se na Prisão 59."

Uma mão empurrou a cabeça vendada de Tomás para baixo e o historiador foi atirado para o interior de um automóvel, as algemas ainda a prenderem-lhe os braços atrás das costas. Pela organização do espaço nos sofás presumiu que se encontrava no banco de trás, mas logo os desconhecidos pegaram nele e atiraram-no para os pés dos assentos, acomodando-se eles nos lugares e colocando os sapatos por cima de Tomás numa postura humilhante, pareciam caçadores a pisar a sua presa ou agricultores a calcar um mero saco de batatas.

O carro arrancou e embrenhou-se nas ruas de Teerão. Tomás sentiu o calor do sol embater-lhe na nuca e ouviu a orquestra de buzinadelas e motores do caótico trânsito da cidade. O automóvel virava para a esquerda e para a direita, sacudindo-o na sua desconfortável e vexatória posição, e o historiador teve de travar um soluço de choro que lhe assomou à boca, não via como escapar daquele inferno. A presença viva dos sons urbanos enchia-o de nostalgia pela liberdade perdida e tornava ainda mais dolorosa a sua situação.

Que estúpido fora, considerou, enquanto o corpo algemado era sacudido pelas guinadas do automóvel. Devia estar louco quando foi na conversa do americano da embaixada e aceitou meter-se naquela tremenda confusão. Se fosse hoje, pensou de si para si, se fosse hoje teria dito que não ao americano e teria logo a seguir dito que não aos iranianos; os americanos que arranjassem outro idiota para ir salvar o mundo e os iranianos que contratassem outro imbecil para decifrar as charadas deixadas por Einstein. Mas era demasiado tarde para lamentações, sabia-o Tomás. Além do mais, quando tomamos uma decisão nunca é com os dados que um dia viremos a ter, mas com aqueles que temos no instante em que decidimos e é com isso que temos de viver. Por outro lado, raciocinou, talvez o mais importante fosse...

liiiiiiiiiii.

Uma travagem brusca interrompeu-lhe o raciocínio.

O carro imobilizou-se e uma gritaria irrompeu do interior, era o motorista a vociferar insultos em parsi e os homens que espezinhavam Tomás no assento de trás a vomitar ordens em catadupa, num grande alvoroço. Deitado aos pés do assento, o historiador ouviu o guinchar de mais travagens e o som surdo de portas a bater lá fora. De repente a porta traseira do seu próprio automóvel foi aberta e ouviu uma voz a gritar em parsi para o interior. Os carcereiros responderam em voz baixa, pelo tom de voz pareciam a Tomás intimidados, o que o surpreendeu, e mais surpreendido ficou quando, de imediato, uma mão arrancou a venda dos seus olhos, deixando a luz do dia invadir-lhe os sentidos.

"Depressa", ordenou uma voz iraniana em inglês. "Não temos muito tempo."

"Hã? O que... o que é?"

Alguém começou também a mexer nas algemas de Tomás. Pareceu-lhe primeiro que brincavam com as grilhetas, mas percebeu logo a seguir que lhe estavam a colocar umas chaves no ferrolho das algemas, o que se veio a confirmar instantes depois, quando sentiu as mãos soltarem-se.

"Venha", ordenou a mesma voz. "Rápido, rápido."

Tomás ergueu a cabeça e viu um homem encapuçado com uma meia e dois buracos rasgados no lugar dos olhos a puxá-lo para fora do carro. O indivíduo tinha uma pistola numa mão e atirou-o para um automóvel branco muito pequeno que se encontrava estacionado ao lado. O trânsito estava totalmente parado, ouviam-se buzinadelas por todo o lado e a rua vivia uma cena irreal, com outros homens armados e encapuçados a guardarem um perímetro de segurança em torno da viatura de onde o recluso foi arrancado. Uma vez Tomás instalado no banco de trás, a porta fechou-se com estrondo e o segundo carro arrancou, desaparecendo de imediato por uma ruela lateral.

Toda a operação não tinha durado mais de uma centena de segundos.

 

O motorista era um homem de malares muito salientes e um largo bigode negro, as mãos peludas firmemente agarradas ao volante. Logo que sentiu o coração acalmar-se e as coisas a regressarem gradualmente à normalidade, Tomás inclinou-se para a frente e tocou-lhe no ombro.

"Para onde vamos?", quis saber.

O homem olhou-o de relance, parecia quase surpreendido por o passageiro se lhe dirigir.

"Uh?"

"Para onde vamos?"

O iraniano abanou a cabeça.

"Ingilisi balad nistam."

"Não fala inglês? Ingilisi? Na ingilisi?"

"Na", confirmou o homem, quase satisfeito por se fazer entender. "Ingilisi balad nistam."

"Porra."

O homem bateu com força no peito.

"Esman Sabbar e."

"Hã?"

Bateu novamente em si.

"Sabbar", repetiu. "Sabbar. Esman Sabbar e."

"Ah. Tu chamas-te Sabbar? Sabbar?"

O motorista abriu-se num sorriso desdentado.

"Bale. Sabbar."

O carro meteu por ruas sucessivas, virando para um lado e para o outro. Sabbar parecia sempre atento a tudo o que se passava em redor, os olhos saltitando a todo o instante entre o retrovisor e o percurso, o passeio e a rua, as esquinas e os cruzamentos, certificando-se de que não eram seguidos nem ninguém os observava.

 

Aproximaram-se do que parecia ser uma oficina cheia de carros e sem mecânicos e o motorista guinou o automóvel, metendo-o lá dentro. Sabbar saltou cá para fora e fechou o portão, cortando o contato com o exterior e assegurando a privacidade. Fez sinal a Tomás para sair também e levou-o para junto de um velho Mercedes preto estacionado ao lado. Abriu a porta de trás do grande automóvel e tirou um enorme tecido negro do interior, que estendeu na direcção do historiador, como se lhe oferecesse uma prenda.

"É para mim?"

"Bale", retorquiu Sabbar, fazendo-lhe sinal com a mão para que vestisse aquela peça.

Tomás esticou o tecido e sorriu quando se apercebeu do que se tratava. Era um chador. A peça apresentava-se toda negra, parecia-lhe um dos mais conservadores e inestéticos chador que havia no mercado, com um rendilhado no lugar da cara para deixar ver e respirar.

"Espertos", comentou. "Querem-me fazer passar por mulher, é?"

"Bale", insistiu o motorista.

Tomás colocou o chador, deixando-o cobri-lo até aos pés, e voltou-se para Sabbar, as mãos nas ancas por baixo do manto.

"Então? Estou bem?"

O iraniano analisou-o de uma ponta à outra e riu-se.

"Khandedar e."

O historiador não percebeu, mas presumiu, pelo ar divertido do motorista, que estava tudo bem. Encolheu o corpo e instalou-se no banco de trás do Mercedes preto. Sabbar colocou um boné de motorista na cabeça, reabriu o portão, entrou no automóvel, tirou-o da garagem, voltou a fechar o portão e arrancou com o Mercedes pelas ruas de Teerão, parecia agora o chauffeur de uma qualquer abastada e conservadora matrona iraniana.

Com o carro em movimento, Tomás baixou o vidro traseiro e deixou o ar poluído pelos escapes penetrar no interior. Apesar do grosso manto que lhe cobria o corpo e que apenas lhe deixava vislumbrar o mundo através do apertado rendilhado que lhe tapava o rosto, respirou fundo e sentiu, quase extasiado, o aroma da liberdade. Aquele rendilhado obscurantista atrapalhá-lo-ia em qualquer outra circunstância, roubar-lhe-ia o ar, fá-lo-ia asfixiar; mas não ali, não naquele momento, não depois de ter passado três dias encerrado num caixão de cimento e a última hora de olhos vendados, não sabendo se alguma vez voltaria a ver a luz do dia, o profundo céu azul, as nuvens alvas e esponjosas, o palpitar excitado de uma cidade atarefada e transbordante de vida.

Como era boa a liberdade.

Sentiu um peso descarregar-se dos ombros, uma opressão a desfazer-se no peito, e gozou, inebriado e exaltado, o delicioso travo daquele sublime momento de libertação. Estava livre. Livre. Parecia-lhe agora que acabara de despertar de um pesadelo, sentiu até alguma dificuldade em acreditar que lhe tinha mesmo acontecido o que acontecera, chegou a interrogar-se se tudo não teria afinal passado de um sonho mau, tão incrível e irreal foi a aventura que viveu. Mas se era pesadelo, já tinha despertado; se era realidade, estava agora livre dela. A verdade é que o ar da rua lhe enchia as narinas com o odor enjoativo do gasóleo queimado e nunca como agora tão repugnante cheiro lhe soube a tão perfumado bálsamo.

 

O Mercedes cirandou pelas ruas de Teerã durante mais de vinte minutos. Passou pela zona do bazar e bordejou o magnífico complexo do Palácio Golestan, com as suas fachadas suntuosas, dominadas por soberbas torres e cúpulas, as estruturas trabalhadas erguendo-se por entre a verdura de um jardim cuidadosamente tratado.

Com o Palácio Golestan para trás, o automóvel foi contornar a grande Praça Imam Khomeini e meteu por uma longa avenida, paralela a um enorme parque ajardinado. Quando chegou ao fundo do parque, virou à direita e estacionou devagar junto a um prédio novo. Compenetrado no seu papel de chauffeur de luxo, Sabbar saiu do carro e veio cá atrás abrir a porta, fazendo uma vênia no momento em que o vulto escuro da "matrona" iraniana se apeou.

O motorista conduziu depois a figura de chador até à porta do prédio e carregou num botão do quadro metálico de intercomunicação. Uma voz elétrica soou do altifalante, interpelando os recém-chegados, e Sabbar identificou-se. Um zumbido fez estalar a fechadura da porta, que se soltou com um clique seco. O iraniano olhou para Tomás e esboçou um gesto com a cabeça, como que a pedir que o historiador o seguisse. Entraram no lobby do prédio e carregaram num botão para

chamar um elevador. Apanharam o ascensor e subiram ao segundo andar.

Uma iraniana gorducha, vestida com uma leve e dourada shalwar kameez, esperava-os à porta do elevador.

"Bem-vindo professor", saudou. "Fico contente de o ver livre."

"Não mais do que eu, de certeza."

A mulher sorriu.

"Calculo."

Entraram num apartamento e Sabbar desapareceu no corredor. A iraniana rechonchuda fez sinal a Tomás para entrar na sala e acomodar-se no sofá.

"Pode tirar o chador, se quiser", disse.

"Com certeza que quero", exclamou Tomás.

Inclinou o corpo e puxou o longo tecido negro, até ficar com a cabeça cá fora, os cabelos castanhos num torvelinho revolto, mas livre daquele aperto.

"Sente-se melhor?"

"Muito", suspirou o historiador. Deixou-se cair no sofá e tentou descontrair. "Onde estamos?"

"No centro de Teerã. Junto ao Parque Shahr."

Olhou pela janela. As árvores alinhavam-se a poucas centenas de metros de distância, o aprazível verde das copas a contrastar com o desagradável cinzento sujo da urbe.

"Pode-me explicar o que se passa? Quem são vocês?"

A iraniana sorriu com bonomia.

"O meu nome é Hamideh, mas receio que não tenha liberdade para lhe explicar o que quer que seja. Já aí virá alguém que lhe fornecerá todas as respostas."

 

"Quem?"

"Tenha paciência", disse, baixando os olhos. "Deseja tomar alguma coisa?"

"Está a brincar comigo? Claro que sim, estou esfaimado", exclamou. "O que tem aí?"

"Ora... deixe cá ver", hesitou, pensativa. "Temos bandemjun e também gborme sabzi."

"Isso é comida?"

"Sim, claro."

"Então traga tudo. Tudo."

Hamideh levantou-se e desapareceu pelo corredor, deixando Tomás sozinho na sala. O historiador sentia-se extenuado e fechou os olhos, tentando descansar um pouco.

Ziiiiiitn.

Um som inesperado fê-lo despertar de imediato. Alguém tocara à campainha.

Ziiiiiitn.

Era o segundo toque.

Ouviu passos pesados a aproximarem-se pelo corredor e viu a vasta figura colorida de Hamideh rolar pelo hall do apartamento, mesmo em frente à sala de estar. A iraniana pegou no telefone de intercomunicação e trocou umas palavras em parsi. Pousou depois o telefone e virou a cabeça para mirar Tomás.

"Já aí vem quem lhe poderá explicar tudo."

Hamideh tirou a corrente de segurança, abriu a porta de entrada e afastou-se, mergulhando de regresso ao corredor em direção da cozinha para ir preparar os pratos solicitados pelo hóspede.

Tomás ficou sentado no sofá, expectante, os olhos presos naquela porta entreaberta, a atenção fixa no que se passava para lá dela. Ouviu o barulho do elevador a descer, a parar e a subir. Viu o clarão do ascensor emergir gradualmente no segundo andar, a caixa dar um solavanco e parar, a porta abrir-se com um estalido. A figura que tudo explicaria era primeiro um vulto, uma sombra, mas logo adquiriu contornos e transformou-se numa pessoa.

Olharam-se.

Quando ela saiu do elevador, o que mais surpreendeu Tomás não foi ser quem era; foi não ter sentido qualquer surpresa por ser quem era. É como se sempre tivesse sabido que assim seria, como se tivesse desejado que a resposta fosse aquela, como se a esperança se tivesse tornado realidade, como se o pesadelo se tivesse transformado num sonho, como se aquele não passasse afinal do desfecho natural de tudo o que vivera e pensara e sentira naquela última e intensa semana.

Com os olhos verdes a embaciarem-se de lágrimas, Tomás viu a figura alta e esguia estacar na porta da entrada, hesitante. Ficaram parados a fitar-se, ela com os grossos lábios levemente separados, farrapos soltos de cabelo negro descaindo-lhe sobre a testa ebúrnea, os belos olhos cor de mel cravados em si numa expressão de desassossego, de ansiedade, de alívio.

De saudade.

"Ariana."

 

Enquanto devorava a carne picada, o feijão e as verduras do suculento gborme sabzi servido por Hamideh, Tomás relatou a Ariana tudo o que lhe sucedera nos últimos quatro dias. A iraniana escutou-o em silêncio, sobretudo atenta aos pormenores decorridos na cadeia de Evin, abanando a cabeça com tristeza ao ouvir o tratamento que lhe foi dispensado no interrogatório ou os detalhes da vida na cela solitária.

"Infelizmente há muita gente que passa por isso", comentou ela. "E Evin nem é dos piores sítios."

"Sim, parece que há a tal Prisão 59, para onde me estavam a transferir."

"Oh, existem muitas. A Prisão 59, na Valiasr, é talvez a mais famosa, mas há outras ainda. Por exemplo, a Prisão 60, o Edareh Amaken, a Towhid. Por vezes, quando sobe a contestação a estes centros ilegais de detenção, eles fecham umas instalações e abrem outras novas logo a seguir." Abanou a cabeça. "Ninguém tem mão nisto."

"E como é que você soube onde eu estava?"

"Tenho contatos com gente ligada ao Gabinete Nacional de Prisões, pessoas que me devem favores. O Gabinete tem a tutela da cadeia de Evin, embora isso seja mais uma formalidade do que outra coisa, não é? A verdade é que aquilo está entregue a outras organizações. Mas, de qualquer modo, o Gabinete sempre vai sabendo o que se passa lá dentro. Quando me disseram que você tinha sido detido, fiquei mortalmente preocupada e mexi os meus cordelinhos. Eu sabia que o esperava um mau bocado em Evin, mas, ao menos, havia a consolação de que estava numa prisão legalizada e não lhe podiam fazer nada que não ficasse registado. A minha maior preocupação era se o mandavam para um centro ilegal de detenção. Aí eu perder-lhe-ia o rasto e, pior do que tudo, não havia qualquer garantia de que você pudesse alguma vez reaparecer. Falei, por isso, com uns amigos ligados aos movimentos reformistas e pedi-lhes ajuda."

"Quiseram ir buscar-me a Evin, foi?"

"Não, não. Enquanto você estivesse em Evin, nada poderíamos fazer. Evin é uma prisão legal, seríamos todos fuzilados se fôssemos apanhados a tentar libertá-lo. A transferência para os centros de detenção é que era o ponto crucial e por dois motivos. Por um lado, porque era o momento em que você saía à rua, o que tornava mais fácil chegar ao pé de si. Por outro, havia a questão legalista. Como os centros de detenção são ilegais, quando saísse de Evin você tecnicamente já não se encontrava detido. Se nós fôssemos apanhados, éramos acusados de quê? De fazer parar o trânsito? De evitar uma detenção ilegal? Você era, nesse instante e para efeitos formais, uma pessoa livre e esse seria sempre o nosso ponto de defesa."

"Estou a entender."

"A questão essencial era obter a informação da sua transferência, o que, considerando os meus contatos dentro do Gabinete Nacional de Prisões, não constituía uma tarefa particularmente difícil. Tanto assim era que fui informada ontem da sua transferência esta tarde para a Prisão 59 caso continuasse a recusar-se a colaborar, de modo que tivemos quase vinte e quatro horas para montar a operação."

Tomás colocou o prato de lado e estendeu o braço, tocando suavemente na mão de Ariana.

"Você foi extraordinária", disse ele. "Devo-lhe a vida e nem sei como lhe agradecer."

A iraniana estremeceu, fitando-o com os olhos arregalados, devolvendo o toque com outro toque, mas um ruído proveniente do corredor fê-la olhar de relance para a porta da sala, uma expressão ligeiramente apreensiva desenhada no rosto.

"Uh... eu...", balbuciou. "Não... não fiz mais do que o meu dever. Não podia deixar que o matassem, não é?"

"Claro que fez muito mais do que o seu dever", disse Tomás, acariciando-lhe a mão. "Muito mais."

Ariana voltou a olhar de relance para a entrada da sala e retirou a mão, ansiosa.

"Desculpe", disse. "Tenho de ter cuidado, sabe? A minha reputação..."

O historiador sorriu sem vontade.

"Sim, compreendo. Não a quero embaraçar."

"É que estamos no Irão, percebe? E sabe como isto é..."

"Então não sei?"

A bela mulher olhou para o tapete persa estendido no chão, constrangida, era evidente que vivia um conflito. Fez-se um silêncio atrapalhado, aquele toque carinhoso entre os dois atuou como um feitiço inesperado. Quebrou a fluidez da conversa, é certo, mas também ateou alguma coisa; ou talvez não tenha ateado, talvez tenha apenas tornado visível o que já existia, aquela espécie de incêndio lento que ardia cá dentro, em lume brando, mas que ardia sem parar, e era a consciência desse incessante fogo oculto que mais a atrapalhava.

"Tomás", disse ela por fim. "Tenho uma pergunta delicada para lhe fazer."

"Tudo."

Ariana hesitou, percebia-se que procurava as palavras certas para formular a pergunta.

"O que estava você a fazer no Ministério da Ciência à uma da manhã?"

Tomás fitou-a com intensidade, mas também com embaraço. Queria responder-lhe a tudo, a tudo mesmo, exceto àquela pergunta. Aquela era a única pergunta que não estava preparado para responder e experimentou nesse instante um terrível dilema. Até que ponto poderia contar a verdade à mulher que todos os riscos correu para o salvar?

"Quis ir ver o manuscrito."

"Isso eu entendo", disse ela. "Mas, à uma da manhã? E arrombando a porta da Sala K e do cofre?"

Eram excelentes perguntas. Tomás sentiu uma enorme vontade de abrir o coração e revelar tudo, mas teve consciência de que não podia; a verdade era demasiado grave, demasiado terrível, significava que, de algum modo, também a tinha traído, também abusara da sua confiança e da sua amizade. Além disso, a cabeça de Tomás encontrava-se programada para negar a todo o transe a ligação à CIA e para contar uma história fantasiada que congeminara na cela solitária, e não era naquele instante que seria capaz de a desprogramar.

"Eu... uh... senti uma curiosidade incontrolável de ver o manuscrito. Precisava de o ver para poder ter a certeza de que... de que não estava envolvido num projeto militar."

"Um projecto militar?"

"Sim. A vossa recusa em deixar-me ler o manuscrito ou em explicar-me o seu conteúdo pareceu-me suspeita. Com toda esta polémica internacional em torno do projeto nuclear iraniano, mais a ONU metida ao barulho e as sucessivas ameaças americanas, e considerando ainda algumas coisas que você me tinha deixado entender, confesso que fiquei muito preocupado."

"Estou a ver."

"Comecei a questionar-me, sabe? Comecei a interrogar-me sobre que confusão era esta em que eu me havia metido. Precisava de me certificar do que se estava a passar."

"E o homem que se encontrava consigo? Quem era?"

O fato de Tomás já se ter esquecido do seu verdadeiro nome, Bagheri, tornou a sua resposta mais convincente.

"O Mossa? Foi um tipo que encontrei no bazar."

"Mossa, é? Como Mossadegh?"

"Sim", confirmou Tomás. "Sabe o que lhe aconteceu?"

"Sei. Ficou ferido naquela noite e morreu horas depois, já no hospital."

"Coitado."

"Você encontrou-o no bazar, foi?"

"Foi. Disse-me que era perito em arrombamentos. Quando vi tanta reticência da vossa parte em mostrar-me o manuscrito ou em descrever-me o seu conteúdo e quando ouvi as notícias sobre as suspeitas americanas em torno do programa nuclear iraniano, fiquei preocupado com o projeto em que estava metido. Só um idiota é que não ficaria, não acha? De modo que decidi contratá-lo." Fez um gesto vago. "O resto já você sabe."

"Hmm", murmurou Ariana. "O mínimo que se pode dizer é que você foi imprudente, Tomás."

"Tem razão", concordou ele. Inclinou-se no sofá, como se lhe tivesse acabado de ocorrer uma idéia. "Deixe-me agora ser eu a fazer-lhe uma pergunta delicada."

"Diga."

"O que diz exatamente o manuscrito de Einstein?"

"Desculpe, mas não lhe posso revelar. Uma coisa é salvá-lo, outra é trair o meu país."

"Tem razão. Esqueça." Fez um gesto rápido com a mão, como quem quer afastar o assunto.

"Mas talvez haja uma coisa que me possa responder", adiantou.

"O quê?"

"O que aconteceu ao professor Siza?"

 

A iraniana soergueu um sobrolho.

"Como sabe que o professor Siza tem algo a ver conosco?"

"Posso ser distraído, mas não sou estúpido, não é?"

Ariana esboçou uma expressão constrangida.

"Também não posso falar sobre isso, lamento."

"Porquê? Isso não envolve traição ao seu país, suponho."

"Não é isso", argumentou ela. "A questão é que, se os meus chefes se aperceberem de que você sabe muita coisa que não é suposto, as suspeitas vão inevitavelmente recair sobre mim."

"Tem razão, tem razão. Esqueça."

"Mas há uma coisa que lhe posso revelar."

"O quê?"

"Hotel Orchard."

"Como?"

"Existe uma ligação entre o professor e o Hotel Orchard."

"Hotel Orchard? E onde é isso?"

"Não faço a mínima idéia", retorquiu Ariana. "Mas o nome desse hotel está escrito a lápis, com a letra do professor Siza, nas costas de uma folha do manuscrito de Einstein."

"Ah, sim?", admirou-se Tomás. "Curioso..."

Ariana virou o rosto para a janela e suspirou. O sol punha-se por detrás da linha recortada de prédios, pintando o azul do céu com veios púrpura e violeta e desenhando curiosas sombras nos farrapos de nuvens que flutuavam perto do horizonte urbano.

"Temos de o tirar daqui", disse ela, sempre a fitar a janela, um traço de angústia a embargar-lhe a voz.

"Deste apartamento?"

"Do Irã." Encarou Tomás. "A sua presença constitui agora um grande perigo para si, para mim e para todos os meus amigos que ajudaram a libertá-lo."

"Compreendo."

"O problema é que não vai ser fácil colocá-lo fora do país."

O historiador franziu a testa.

 

"Eu sei de uma maneira."

"Uh?"

"Eu sei de uma maneira."

"Qual?"

"O Mossa tinha preparado as coisas e explicou-me os pormenores essenciais. Há um barco de pesca à minha espera numa cidade portuária iraniana."

"Ah, sim? Onde?"

"Uh... esqueci-me do nome."

"É no golfo Pérsico?"

"Não, não. Lá para cima."

"No mar Cáspio?"

"Sim. Mas não me lembro do nome da terra." Fez um esforço de memória. "Porra, devia ter tomado nota em qualquer sítio."

"Seria Nur?"

"Não, isso não. Lembro-me que era um nome grande."

"Mahmud Abad?"

"Uh... não sei... talvez, não tenho a certeza..." Voltou a puxar pela memória. "Lembro-me que tinha qualquer coisa a ver com umas ruínas de Carlos Magno ou Alexandre, o Grande..."

"A Muralha de Alexandre?"

"Sim, pode ser isso. Soa-lhe familiar?"

"Claro. A Muralha de Alexandre marca os limites da civilização e situa-se perto da fronteira com o Turcomenistão. Liga a zona das montanhas Golestan ao Cáspio."

"Foi construída por Alexandre, o Grande, é?"

"É o que diz a lenda, mas não é verdade. A muralha foi erguida algures no século VI, não sei bem por quem."

"E há alguma cidade portuária ali perto?"

Ariana levantou-se do sofá e foi ao armário. Tirou um atlas de uma prateleira e voltou ao seu lugar, abrindo no regaço o enorme volume na página do Irão. Analisou a linha de costa do mar Cáspio e fixou-se no porto mais próximo da muralha.

 

"Bandar-e Torkaman?"

"Uh... sim, acho que é isso." Tomás foi sentar-se ao lado dela e inclinou-se sobre o mapa. "Mostre lá."

A iraniana pousou o dedo sobre o ponto no mapa a assinalar a povoação.

"Está aqui."

"É isso", repetiu Tomás, agora mais convicto. "Bandar-e Torkaman."

"E o que se passa em Bandar-e Torkaman?"

"Está lá um barco à minha espera... acho."

"Que barco?"

"Julgo que é um pesqueiro, mas não tenho a certeza."

"Há muitos pesqueiros no Cáspio. Se o vir, conseguirá identificá-lo?"

Novo esgar pensativo.

"É um nome pequenino, igual ao da capital do... do Azerbaijão ou de um outro ão qualquer da zona."

"Baku?"

"Isso. Baku. É esse o nome do barco."

Ariana voltou a analisar o mapa.

"Não há tempo a perder", disse ela. "Temos que o pôr o mais depressa possível em Bandar-e Torkaman."

"Acha que dá para partir amanhã?"

Ariana abriu muito os olhos e observou-o com intensidade.

"Amanhã?"

"Sim."

"Não, Tomás, não pode ser amanhã."

"Hmm... então quando? Ainda esta semana?"

A iraniana abanou a cabeça, uma súbita expressão melancólica a dançar-lhe nos olhos, um pouco triste, quase já de saudade.

"Daqui a dez minutos."

Despediram-se com um abraço terno, estreitando-se um tudo-nada longamente, observados pelos olhos perscrutadores e vigilantes de Hamideh e Sabbar. Tomás daria tudo por um momento de privacidade, um instante apenas; queria fechar-se num canto com Ariana e poder dizer adeus sem inibições. Mas o historiador sabia que aquilo era o Irã e tais desejos, naquelas circunstâncias, não passavam de perigosas fantasias. E a verdade é que, tudo considerado, a última coisa que desejava era embaraçar Ariana.

Colou-lhe dois beijos suaves ao rosto e fez um esforço para se apartar.

"Vai-me escrever?", perguntou ela muito baixo, mordendo o lábio inferior.

"Sim."

"Jura?"

"Juro."

"Jura por Allah”

"Juro por si."

"Por mim?"

"Sim. Você é mais do que Allah. Muito mais."

Esforçou-se por nem olhar para trás quando voltou as costas para sair. Seguiu Sabbar para o átrio do elevador e sentiu a porta do apartamento fechar-se atrás de si, o claque da fechadura soou-lhe ao claque de uma tesoura que para sempre corta uma ligação.

Permaneceu em silêncio, meditativo, quase deprimido, e foi calado que entrou no ascensor; dobrado nas mãos trazia distraidamente o tecido ríspido de um chador negro que Hamideh lhe entregara, momentos antes, para a viagem.

"Ariana ghashang", disse o iraniano quando o elevador deu um solavanco e começou a descer.

"Hã?"

"Ariana ghashang", repetiu. Deu um beijo no ar. "Ghashang."

"Sim", sorriu ele com melancolia. "Ela é bonita, é."

Sabbar apontou para o chador que o português trazia dobrado nas mãos e fez-lhe sinal de que o deveria vestir agora. Ainda com o ascensor em movimento, Tomás mergulhou a cabeça no tecido e retomou o seu disfarce anterior.

 

O Mercedes cruzou a cidade com enervante vagar, retido pela lenta e densa corrente do trânsito caótico de Teerã. Mergulharam no emaranhado tricotado de ruidosas artérias e atravessaram de novo a grande Praça Imam Khomeini, perdendo-se depois para além dela rumo ao labirinto de ruas que se estendia para leste. Tomás tudo perscrutava com nervosa ansiedade, os olhos saltitando para aqui e para ali, a atenção focando-se nos detalhes mais improváveis; em cada rosto e em cada carro pressentia uma ameaça, em cada voz e em cada buzinadela escutava um alarme, a cada paragem e a cada movimento adivinhava um assalto.

Parecia-lhe que o perigo espreitava de todos os cantos e várias vezes teve de repetir a si próprio que estava tudo bem, que era a sua imaginação que o fazia ver o que não existia. A verdade é que haviam traçado um plano e tudo corria como previsto. Antes de partirem tinham concluído que fazer a viagem de automóvel até Bandar-e Torkaman era bastante arriscado, uma vez que existia a possibilidade de as autoridades erguerem barreiras na estrada para localizar o fugitivo, pelo que optaram pelos transportes públicos. Tomás assumiu o papel de uma beata de chador que fizera voto de silêncio e ficou combinado que todos os contactos com terceiros seriam conduzidos através de Sabbar, o seu guia.

Em consonância com o plano previamente delineado, estacionaram o carro meia hora mais tarde, depois de terem vencido o confuso trânsito do fim do dia e atingido o seu destino imediato.

"Terminal e-shargh", anunciou Sabbar.

Era a estação de autocarros de leste. Tomás contemplou-a do outro lado da rua e não pôde deixar de a achar pequena, demasiado pequena para um terminal que, afinal de contas, servia toda a província de Khorasan e a região do mar Cáspio.

Atravessaram a rua, entraram no perímetro da estação e, cruzando um espaço apinhado de gente com malas e autocarros a roncar e gasóleo queimado e conversas animadas, dirigiram-se à bilheteira. O iraniano comprou dois bilhetes e fez a Tomás sinal para se despachar, o seu autocarro estava prestes a sair. Quando chegaram ao local da partida depararam com um veículo velho e sujo, pejado de camponeses, pescadores de pele morena e mulheres de chador.

Entraram no autocarro e o europeu teve dificuldade em reprimir um esgar enojado, embora o pudesse fazer à vontade, afinal de contas ninguém lhe podia ver o rosto. Havia pedaços de comida nos bancos e encontravam-se algumas jaulas de aves por entre os passageiros, aqui umas galinhas, ali uns patos, acolá uns pintos. No ar flutuava o aroma quente dos excrementos e alimentos de pássaros, ao qual se misturava um certo cheiro ácido de urina e transpiração humana e o odor nauseabundo a gasóleo queimado que pairava em toda a estação.

O autocarro partiu cinco minutos depois, eram seis da tarde em ponto. A camioneta meteu pela estrada aos solavancos, o tubo de escape a libertar uma grossa nuvem de fuligem negra, o motor roncando em fúria. O trânsito de Teerão permanecia o mesmo inferno de sempre, com manobras loucas, buzinadelas constantes e travagens bruscas. O autocarro levou quase duas horas a atravessar o que restava da cidade, mas, por fim, depois de muito parar e arrancar, a zona urbana ficou para trás e o fumarento veículo desfilou pelo tranquilo sopé das montanhas.

Foi uma viagem sem história, feita de noite em zona montanhosa, o percurso cheio de curvas e subidas e descidas, os faróis a iluminarem fugazmente o manto de neve acumulado nas bermas da estrada. Para vencer o enjoo das curvas e do aroma a gasóleo e a opressão claustrofóbica imposta pelo chador, Tomás abriu a janela e passou grande parte da viagem a respirar o ar frio e rarefeito das Alborz, o que deixou contrariados alguns companheiros de viagem, mais adeptos dos odores quentes e fortes do que das correntes geladas e puras.

 

Chegaram a Sari pelas onze da noite e foram alojar-se num pequeno hotel do centro, chamado Mosaferkhuneh. Sabbar pediu para que lhes fosse servida uma refeição nos quartos e recolheram-se ambos para passarem a noite. Sentado na cama a digerir um kebab, já sem chador, Tomás ficou a apreciar pela janela a povoação adormecida e, em particular, a curiosa torre branca com um relógio erguida no meio da Praça Sahat, mesmo ali em frente.

Apanharam pela manhã um autocarro rumo a Gorgan e, pela primeira vez, Tomás pôde apreciar a paisagem daquela região costeira à luz matinal do sol. Era totalmente diferente do que conhecera na zona de Teerão. Onde na capital se rasgavam montanhas escarpadas, se erguiam picos nevados e se prolongava a terra árida, aqui espalhava-se uma floresta luxuriante, densa, quase tropical, era uma verdadeira selva comprimida entre as montanhas pujantes e o lençol sereno do mar.

Atingiram Gorgan três horas depois e permaneceram na estação de autocarros local mais algum tempo, à espera da nova ligação. Tomás sentia o corpo moído de cansaço e tinha a paciência esticada até ao limite por aquele incomodativo chador. Para além do mais, o facto de Sabbar não falar inglês revelava-se um problema, havia uma barreira de comunicação entre os dois e o historiador não teve outro remédio senão passar todo o tempo em silêncio; não é que isso fosse em si um inconveniente, bem vistas as coisas era até uma vantagem, considerando que o mutismo fazia parte integrante do disfarce, mas o fato é que a inexistência de conversa lhe retirava um necessário escape para a tensão que ia acumulando.

Fazia calor na Praça Enqelab, onde se situava o terminal de Gorgan. O dia revelou-se quente e o

uso do abafado cbador agravava consideravelmente as coisas. Sem perceber como era possível viver dentro daqueles pesados trajos, Tomás teve de recorrer a todas as suas forças para se controlar; sentia por vezes uma vontade quase irresistível de despir o tecido infernal, de se livrar da vestimenta obscurantista que só o prendia e atrapalhava, de libertar o corpo e deixar-se inebriar por um banho de ar fresco e límpido. Mas resistiu aos sucessivos impulsos que o assaltaram e manteve o disfarce.

Apanharam transporte para o destino final ao princípio da tarde, o velho autocarro saltitando pelos buracos dos caminhos de terra abertos por entre a abundante vegetação da costa. Deambularam por trilhos e atalhos, o veículo sacudido por intermináveis solavancos, até que, ao fim de mais duas longas horas, vislumbraram os primeiros edifícios no termo daquele percurso, eram pequenas casas recortadas pelo azul profundo do mar Cáspio.

Bandar-e Torkaman.

 

A povoação era formada por casas baixas, quase monótonas, uma coisa sem graça de tão sensaborona; a insipidez da urbe seria, porém, compensada pelo aspecto pitoresco da população turcomana. Logo que desceram da camioneta, os dois forasteiros admiraram os homens e mulheres que por ali deambulavam em trajos típicos otomanos e ar enfadonhamente ocioso. O mercado estava aberto, mas os produtos eram pobres; o comércio limitava-se a algum peixe, umas roupas turcas e colecções de botas com aspecto tosco.

Sabbar questionou uma mulher que tricotava ao sol, sentada no degrau da entrada de casa. A

mulher ajeitou o lenço na cabeça e apontou o dedo rude e sujo para um ponto algures à esquerda.

"Eskele."

Caminharam ao longo de uma velha linha de caminhos-de-ferro, a madeira já apodrecida entre os carris, em direcção a uns depósitos de combustível. Sabbar seguia à frente, Tomás arrastava-se atrás, ofegante dentro do cada vez mais insuportável cbador. Passaram pelos depósitos, que exalavam o aroma forte de óleo e gasolina, e imobilizaram-se quando viram umas rudimentares estacas de madeira pregadas junto ao mar.

O porto de Bandar-e Torkaman.

Três barcos de pesca balouçavam suavemente nas águas tranquilas do Cáspio, o golfo de Gorgan estendendo-se atrás de si como uma imensa pintura impressionista. Pairava junto à praia um intenso odor a sal e maresia e pela superfície mansa do mar ecoava o grasnar melancólico das gaivotas. Era aquele perfume e aquele som que faziam daquele sítio um lugar familiar, Tomás nunca ali estivera mas era como se sempre ali tivesse estado, onde o mar cheirasse assim e onde as gaivotas cantassem desse modo era onde encontraria sempre a sua casa.

O historiador aproximou-se da água, amarrado ao pesado cbador, e, por entre o asfixiante rendilhado que lhe tapava a cara, tentou perceber o que cada embarcação tinha escrito no casco. O primeiro barco apresentava uns caracteres em árabe que o desesperaram; seria o nome que procurava, mas redigido em alfabeto árabe? Sabbar juntou-se a ele e leu o nome cravado na madeira.

"Anahita."

Não era este.

Tomás deu mais uma centena de passos e aproximou-se do segundo barco de pesca, um pequeno navio vermelho e branco, ancorado muito perto, com redes estendidas ao sol e gaivotas a pairar por cima. Procurou-lhe a escrita em caracteres árabes, mas desta vez não precisou da ajuda de Sabbar, pois no casco encontravam-se antes registados os familiares caracteres romanos.

Baku.

Era este.

Sem poder suportar mais o chador, Tomás despiu-o com impaciência, livrou-se daquele incômodo fardo e atirou-o para o chão. Sentiu a brisa marítima acariciar-lhe o rosto transpirado e despentear-lhe o cabelo revolto; cerrou os olhos e voltou a face para o céu, como se esperasse que a aragem lhe trouxesse um beijo. Aliviado, as narinas inalando o aroma salgado da redenção, os pulmões enchendo-se com a maresia fresca que flutuava no ar, os pés enlaçados na baba branca

depositada pela espuma da água, encarou aquele sopro do vento como se fosse o hálito puro de Deus, o murmúrio suave da natureza a acolhê-lo, um gesto mimado de doce ternura de mãe, sabia que era a liberdade que por fim o abraçava.

 

Passado aquele instante de êxtase, abriu os olhos, fixou o pesqueiro, formou uma concha com as palmas das mãos e colocou-as à frente da boca, como se fossem altifalantes.

"Ahooooy!", chamou.

A sua voz ecoou sobre o espelho plácido das águas e espantou as gaivotas. Muitas ergueram-se em sincronia, como uma nuvem escura e baixa, e desenharam um vigoroso saracoteado pelo céu, numa elegante coreografia; esvoaçavam num frenesim e responderam à voz humana com um grasnar nervoso, quase histérico, uma ponta de melancolia a colorir-lhes o timbre.

"Ahooooy!", insistiu.

Uma cabeça emergiu do convés do Baku.

"Chikar mikorim?.", perguntou o pescador lá ao longe.

Encorajado, Tomás encheu os pulmões de ar.

"Mohammed?"

O pescador hesitou.

"Ye lahze shabr konin", disse por fim, fazendo sinal a Tomás para que esperasse.

A cabeça do homem do barco desapareceu do convés. Tomás ficou ali especado a observar o barco de pesca, em silêncio, expectante, quase rezando para que as coisas corressem como previsto. O pesqueiro ondulava ao ritmo suave do mar, como um balanço, uma frágil casca embalada numa dança ronceira, um lento bailado pautado pelo grasnar melodioso e nostálgico das gaivotas e pelo marulhar tranquilo das águas que lambiam a areia no seu vaivém incansável.

O pescador reapareceu meio minuto depois, acompanhado de uma segunda cabeça. Desta vez foi o segundo homem que falou e fê-lo em inglês.

"Eu sou o Mohammed. Posso ajudá-lo?"

Tomás quase deu um pulo de alegria.

"Sim, pode", exclamou, a rir de alívio. "O senhor planeja ir a Meca?"

Mesmo à distância, o historiador viu Mohammed sorrir.

"Inch'Allah!”

 

A figura minúscula de Sabbar foi-se perdendo à distância, agora um mero ponto a afastar-se na praia, desaparecendo à medida que o barco de pesca cortava as águas escuras do Cáspio e rumava para o mar alto. As gaivotas adejavam baixo, escoltando a embarcação na vã esperança de lhes ser atirado mais algum peixe, mas os marinheiros não se compadeceram com as súplicas implícitas nos insistentes grasnares e permaneceram concentrados na navegação, as horas de ócio na brincadeira com as aves tinham definitivamente terminado.

Um vulto acercou-se de Tomás. O português pressentiu aquela presença e virou a cabeça para acolher o recém-chegado. Era Mohammed. O capitão do pesqueiro permaneceu um instante calado, também ele a contemplar a sombra distante de Sabbar a esfumar-se no areal. Mohammed era um azeri de barba grisalha, embora o seu aspecto bem tratado, com pele sedosa e unhas brancas impecavelmente aparadas, traísse o fato de que aquele não era nenhum pescador, mas antes um vivido homem da cidade.

"Foi por pouco", comentou Mohammed. "Mais um dia e íamo-nos embora, hem? Teve sorte em ainda nos encontrar por cá."

"Eu sei."

Fez um gesto na direção da praia enfim deserta, já abandonada por Sabbar.

"Aquele também é dos nossos?"

"Sabbar?"

"Sim. É também um homem nosso?"

Tomás abanou a cabeça.

"Não."

"Então quem é?"

"É um motorista."

"Um motorista?" Soergueu o sobronho. "Como assim? A sua identidade foi controlada?"

Tomás suspirou, fatigado.

 

"É uma longa história", disse. "Mas o Sabbar é uma de várias pessoas que me salvou a vida. Se não fosse ele, eu não estaria aqui."

Mohammed não teceu mais comentários sobre o assunto, embora fosse visível que não apreciava improvisações com desconhecidos; tratava-se de trabalho pouco profissional. Mas nada mais acrescentou, a verdade é que, profissional ou não, o seu passageiro lograra ali chegar em condições muito adversas e isso era algo que tinha de respeitar.

Permaneceram ambos plantados na ré, enchendo os pulmões e admirando a costa iraniana à luz baixa do ocaso. O cheiro a mar era aqui intenso. Uma brisa forte rumorejava baixinho, quase abafando o insistente grasnido das gaivotas e o incansável ruminar do motor. O céu adquiria tonalidades quentes sobre o azul-petróleo, mas era uma luz glacial que banhava a linha de costa, com a longa cadeia das Alborz a recortar o horizonte à direita, a neve relampejando no topo, e lá ao fundo o sol corria para beijar o Cáspio.

Caía a noite.

Sentindo o frio apertar na brisa que soprava de norte, o capitão do pesqueiro esfregou os braços com intensidade, num esforço inútil de gerar calor, até que se deu por vencido e fez meia-volta.

"Vou para dentro", anunciou. "De qualquer modo, está na hora de ligar o telefone e contactar a base."

"Vai falar para Baku, é?"

"Não, não."

"Então?"

"Langley."

 

A noite abatera-se sobre o Cáspio como um manto opressor, cercando o barco ronronante de um negro opaco, quase tenebroso, de uma escuridão tão profunda que se confundia com um abismo. Apenas uns ondulantes pontinhos luminosos emergiam da treva, no fio do horizonte, assinalando pesqueiros na faina ou navios a transportar carga e passageiros de uma margem para a outra.

 

Indiferente ao frio, Tomás demorou-se na proa; vivera três dias fechado num caixão de cimento e não era uma qualquer aragem gelada ou uma simples noite escura que o privariam agora de gozar a liberdade recuperada, de mergulhar a alma na imensidão do céu e encher os pulmões com o ar fresco que o vento lhe soprava à cara.

A porta da ponte abriu-se e um dos marinheiros que falava inglês acenou.

"Mister, venha cá", disse. "O capitão está a chamá-lo."

A ponte encontrava-se aquecida e bem iluminada, embora a nuvem de tabaco e o cheiro a cigarros fosse aqui insuportável. O marinheiro apontou para umas escadas apertadas e Tomás desceu para o piso inferior, desembocando numa salinha atarracada onde se encontrava Mohammed. O capitão tinha uns auscultadores nos ouvidos e um microfone diante de boca e comunicava através de um aparelho eletrônico instalado num buraco oculto na parede.

"Chamou-me?"

Mohammed viu-o e fez-lhe um gesto com a mão, convidando-o a sentar-se ao seu lado.

"Tenho Langley em linha."

O historiador acomodou-se no lugar enquanto o capitão terminava a sua comunicação, toda ela cheia de algarismos, mais fox trots e papa kilos. Quando concluiu, Mohammed tirou os auscultadores e estendeu-os a Tomás.

"Eles querem agora falar consigo", disse.

"Eles, quem?"

"Langley."

"Mas quem?"

"Bertie Sismondini."

"Quem é esse?"

"É o coordenador do Directorate of Operations encarregado do Irã."

Tomás colocou os auscultadores nos ouvidos e ajeitou o microfone diante de si. Afinou a voz, um pouco hesitante, e inclinou-se para a frente, como se assim o microfone o pudesse captar melhor.

 

"Hello?"

"Professor Norona?"

Era uma voz anasalada, muito americana, pronunciando mal o seu nome, como já era hábito entre os anglo-saxônicos.

"Sim, sou eu."

"Aqui Bertie Sismondini, sou o responsável pelas operações de intelligence gathering no Irã. Okay, antes de começarmos, deixe-me garantir-lhe que estamos a falar numa linha segura."

"Muito bem", disse Tomás, indiferente ao problema da segurança da linha que tanto parecia obcecar todo aquele pessoal da CIA. "Como está você?"

"Não muito okay, professor. Não muito okay."

"Então?"

"Professor, há alguns dias que o nosso principal agente em Teerã anda desaparecido. Ele era suposto efectuar uma operação muito delicada consigo e extraí-lo depois do país pelos meios que, de resto, o senhor está agora a utilizar. O que é fato é que o nosso homem deixou de dar notícias. Perdemos ainda o contato com um outro agente e, como se isso não bastasse, também o senhor andou desaparecido este tempo todo. Tenho aqui muita gente em pânico, inúmeras perguntas que me são feitas e nenhuma resposta para todas elas. Será que o senhor poderia ter a amabilidade de me explicar o que diabo aconteceu?"

"Quais são os dois agentes de que fala?"

"Receio que, por motivos de segurança, não lhe possa dizer os nomes."

"São Mossa e Babak?"

"Babak, okay. Mossa, não conheço."

"Ah, pois", lembrou-se Tomás. "Mossa era o nome que ele me deu, mas não era o nome verdadeiro." Refletiu. "Ouça lá, estamos a falar de um tipo grande, cheio de força, todo despachado?"

"Condiz."

"Não voltou a ter notícias deles?"

"Nada."

"Olhe, lamento dizer-lhe isto mas parece que o matulão morreu."

Fez-se um breve silêncio do outro lado da linha.

"Bagh... uh... ele morreu? Tem a certeza?"

"Não, não tenho a certeza. Vi-o aos tiros dentro do ministério e vi-o também ser acossado pelos iranianos no meio de vários disparos. Fui depois informado de que ele ficou ferido e faleceu mais tarde, já no hospital. Quanto ao Babak, olhe, não sei de nada."

"Mas o que aconteceu exatamente?"

Tomás deu uma explicação pormenorizada, relatando o sucedido dentro do ministério e tudo o que se passou depois na cadeia de Evin. Falou do seu resgate e contou tudo o que Ariana lhe revelara, mais o que a iraniana fizera para o ajudar a sair do país.

"Essa é uma rapariga e peras", comentou Sismondini no final. "Acha que ela aceitaria ser a nossa agente em Teerã?"

"O quê?", cortou Tomás, erguendo a voz. A idéia era alarmante. "Nem pense nisso!"

"Okay, okay", devolveu o americano do outro lado da linha, admirado com a reação peremptória. "Era só uma idéia, relax."

"Péssima idéia", insistiu o historiador, o tom um tudo-nada exaltado. "Deixem-na em paz, ouviram?"

"Okay, não se preocupe", voltou a assegurar.

O português sentiu-se subitamente muito irritado com a forma como os responsáveis da agência americana dispunham da vida dos outros em função dos seus interesses, não olhando a meios para obterem o que pretendiam. Já que ia embalado, Tomás aproveitou para tocar num assunto que trazia atravessado na garganta havia vários dias.

"Olhe", disse. "Eu tenho uma pergunta para vos fazer."

"Sim?"

"Vocês deram ordens ao... ao matulão para me matar em caso de sermos apanhados?"

"Como?"

"Quando estávamos prestes a ser capturados dentro do ministério, o Mossa quis que eu me injetasse com um veneno qualquer. Foram vocês que deram essa ordem?"

"Uh... bem, nós... nós temos procedimentos de segurança, não é?"

"Mas deram essa ordem?"

"Ouça, essa ordem existe para todas as operações de grande delicadeza política, de modo que..."

"Já vi que deram", concluiu Tomás. "O que eu queria agora saber é por que razão não fui avisado de que havia essa possibilidade em caso de captura?"

"Pela simples razão de que, se você conhecesse esse procedimento de segurança, jamais iria concordar em participar na operação."

"Pode ter a certeza."

"Mas, lamento dizer-lhe, isso tinha de ser feito em caso extremo. A vossa vida é, quer queira quer não, menos importante do que a segurança nacional dos Estados Unidos."

"Olhe que, para mim, não é."

"Tudo depende do ponto de vista", disse Sismondini. "Mas, se for a ver bem, o nosso homem em Teerã cumpriu à risca os procedimentos de segurança, não se deixando apanhar vivo."

"Bem, ele estava vivo quando foi capturado. O que aconteceu é que ele morreu depois."

"Para os efeitos em causa, é a mesma coisa. Se ele fosse interrogado vivo era uma catástrofe. Os iranianos arranjariam maneira de lhe extrair toda a informação e a nossa operação em Teerã ficaria gravemente comprometida. Daí a nossa ansiedade em saber o que aconteceu. E olhe que iriam fazer o mesmo consigo."

"Mas não fizeram."

"Por causa da sua amiga, graças a Deus", concluiu o americano. "Desculpe, espere um segundo." Mudou de tom, parecendo hesitante, como se alguém lhe estivesse a sussurrar alguma coisa ao ouvido. "Oiça, obrigado pelas suas informações, foi muito útil... uh... agora tenho... tenho aqui mais uma pessoa para falar consigo, okay?"

"Está bem."

"Só um momento."

Ouviram-se uns sons estranhos na linha, depois veio música, era evidente que a ligação estava a ser transferida; instantes mais tarde apareceu de novo alguém.

"Hello, Tomás."

O português reconheceu aquela voz rouca e arrastada, usada num tom traiçoeiramente calmo, carregado de ameaças e de uma mal dissimulada agressão.

“Mister Bellamy?"

"You're a fucking genius."

Era evidentemente Frank Bellamy, o responsável do Directorate of Science and Technology.

"Como está, mister Bellamy?"

"Nada contente. Nada contente mesmo."

"Então?"

"Você falhou."

"Eh, alto lá! Não é bem assim..."

"Você tem o manuscrito consigo?"

“Não."

"Você leu o manuscrito?"

"Uh... não, mas..."

"Então você falhou", atalhou Bellamy, a voz carregando o mesmo gelo tenso de sempre. "Os parâmetros da sua missão não foram cumpridos. Você falhou."

"Não é bem assim."

"Então como é?"

"Em primeiro lugar, a responsabilidade pela operação de furto do manuscrito não era minha. Não sei se sabe, eu não sou um operacional da sua maldita agência nem fui treinado para andar armado em assaltante. Se a operação falhou é porque o vosso homem não foi suficientemente competente para a levar a cabo com sucesso."

"Fair enough", aceitou o responsável da CIA. "O meu colega do Directorate of Operations vai ouvir das boas."

"Em segundo lugar, tenho uma pista sobre o paradeiro do professor Siza."

"Is that so?”

"Sim. É o nome de um hotel."

"Qual hotel?"

"Hotel Orchard."

Bellamy fez uma pausa, como se estivesse a tomar nota.

"Or... chard", disse lentamente. "E isso é onde?"

"Não sei. Apenas tenho esse nome."

"Muito bem, vou mandar verificar."

"Faça isso", assentiu Tomás. "Em terceiro lugar, e embora eu não tenha sido autorizado a ler o manuscrito de Einstein, sei que os iranianos estão perplexos com ele e não sabem como interpretá-lo."

"Tem a certeza?"

"Sim, foi o que eles me disseram."

"Quem?"

"Como?"

"Quem foi o iraniano que lhe disse que estavam todos perplexos com o manuscrito?"

"Ariana Pakravan."

"Ah, a beldade de Isfahan." Fez uma pausa. "Ela é mesmo uma deusa na cama?"

"Perdão?"

"Você ouviu-me."

"Nem me vou dignar a responder a essa pergunta tonta."

Bellamy soltou uma gargalhada.

"Hmm... sensível, uh? Já vi que está apaixonado..."

Tomás fez um estalido impaciente com a língua.

"Ouça lá", protestou. "Você quer ouvir o que eu tenho para lhe dizer ou não?"

O americano mudou de tom.

"Go on."

"Uh... onde ia eu?"

 

"Dizia você que os iranianos estavam perplexos com o documento."

"Ah, sim", exclamou Tomás, retomando o fio à meada. "Pois, eles ficaram perplexos com o que leram e, pelos vistos, não sabem o que pensar do texto. Pelo que percebi, os iranianos acreditam que a chave para a interpretação do manuscrito se encontra encerrada em duas mensagens cifradas deixadas por Einstein."

"Sim..."

"E acontece que eu tive acesso às duas mensagens. Tenho-as aqui comigo."

"Hmm-hmm."

"E já decifrei uma."

Fez-se um curto silêncio.

"O que é que eu tenho dito?", exclamou Bellamy. "You're a fucking genius!"

Tomás riu-se.

"Eu sei."

"E o que revela essa mensagem já decifrada?"

"Uh... para falar com toda a franqueza, não percebi bem."

"O que quer dizer com isso? Ou decifrou ou não decifrou."

"Sim, decifrei", confirmou.

Na verdade, não tinha sido apenas Tomás a decifrar o poema, uma vez que Ariana também esteve envolvida no trabalho, mas o criptanalista achou melhor omitir esse pormenor; algo lhe dizia que Bellamy perderia as estribeiras se soubesse que a responsável iraniana pelo projecto Die Gottesformel se encontrava ao corrente de tudo.

"Então?", quis saber o americano. "Em que ficamos?"

"O que eu quero dizer é que me dá a impressão de que a mensagem constitui, ela também, uma charada", explicou o criptanalista. "É como uma holografia, entende? Dentro de uma mensagem enigmática esconde-se uma outra mensagem enigmática. Por mais que decifremos as mensagens, aparece sempre uma outra por baixo."

"O que quer? O rabo lavado com água-de-colônia?"

"Perdão?"

"Estou a perguntar o que quer você? Ter a papinha toda feita, é? Não se esqueça de que o autor desse documento é o homem mais inteligente que já viveu no nosso planeta. Como é evidente, as suas charadas terão de ser de grande complexidade, não acha?"

"Pois, se calhar tem razão."

"Claro que tenho razão." Impacientou-se. "Mas diga-me lá o que diz essa fucking mensagem que você já decifrou."

"Espere um momento."

Tomás apalpou o bolso do casaco, subitamente apreensivo, mas, para seu grande alívio, sentiu a folha dobrada justamente no sítio onde a tinha deixado. Os guardas prisionais de Evin podiam ser uns grandes sádicos, mas pelo menos respeitaram ciosamente as suas posses. Ou talvez não esperassem que ele se escapasse antes de passarem tudo a pente fino, quem sabe? Fosse como fosse, a verdade é que a folha com as charadas tinha sobrevivido ao cativeiro.

"Não me vai fazer esperar, pois não?", perguntou Bellamy, crescentemente impaciente no outro lado da linha.

"Não, não, já aqui está", disse Tomás, desdobrando a folha. "Tenho aqui a charada."

"Leia-me lá isso, homem."

O historiador passou os olhos pelas linhas rabiscadas.

"Bem, a charada que decifrei era um poema que se encontrava na primeira página do manuscrito, mesmo por baixo do título."

"Uma espécie de epígrafe?"

"Sim, isso. Uma epígrafe."

"E o que dizia o poema?"

"Era uma coisa um pouco tenebrosa", observou Tomás. "Vou ler." Afinou a voz. "Terra if fin, de terrors tight, Sabbath fore, Christ nite."

"Jesus Christ!”, exclamou Bellamy. "Sabe que eu já li isso? O nosso homem em Teerã mandou-nos esse poema há uma ou duas semanas."

"Pois, fui eu quem lhe deu o texto."

"São uns versos sombrios, não acha? Parece o anúncio do Apocalipse..."

"Parece, não parece?"

"O que quer que Einstein tenha inventado, deve dar uma explosão dos diabos!", adiantou. "Damn it! Vamos ter mesmo de intervir militarmente."

"Bem, mas eu já decifrei a mensagem escondida nestes versos."

"Conte-me."

Tomás passou os olhos pelas linhas em baixo, com o texto transcrito para alemão.

"Descobri que se tratava de um anagrama. Por dentro do poema em inglês encontra-se uma mensagem em alemão."

"Ah, sim? Isso é muito interessante."

"A mensagem diz o seguinte." Parou um instante, para se ajustar ao sotaque alemão. "Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht."

Fez-se uma nova pausa do outro lado da linha.

"Pode repetir?", pediu Bellamy, a voz alterada.

"Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht", voltou Tomás a ler. "Isto quer dizer o seguinte." Procurou a linha com a tradução. "Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é."

"Isso é incrível!", exclamou Bellamy.

Tomás estranhou o entusiasmo do seu interlocutor.

"Bem, é de facto surpreendente..."

"Surpreendente? Isso... isso é uma coisa muito estranha! Ainda me custa a acreditar."

"Pois, é uma frase um pouco misteriosa, é. Sabe, talvez nós..."

"Você não está a entender", cortou o homem da CIA. "Eu já ouvi essa frase da boca do próprio Einstein."

"Como?"

"Em 1951, durante o encontro em Princeton com o então primeiro-ministro de Israel, Einstein proferiu exatamente essa frase. Eu estava lá e ouvi tudo." Uma pausa. "Uh... deixe cá ver... devo... devo ter isso por aqui." Ouviram-se uns ruídos na linha e, instantes depois, a voz rouca de Bellamy voltou. "Ora aqui está."

"O quê?"

 

"Tenho aqui a transcrição da conversa de Einstein e Ben Gurion. A determinada altura, a conversa entre os dois virou para alemão. Deixe cá ver..." Sons de páginas a serem reviradas. "Deixe cá ver..." Mais páginas. "Ora aqui está. Quer ouvir?"

"Sim, sim."

"Disse Einstein." Bellamy afinou a voz. "Raffiniert ist der Herrgott, aber boshaft ist er nicht." Mudou o tom. "Ao ouvir isto, Ben Gurion perguntou." Mais uma pausa. "Was wollen Sie damit sagen?” Nova mudança de tom. "E Einstein respondeu." Outra pausa. "Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.”

"O que diabo quer isso dizer?"

"Tenho aqui a tradução. Einstein disse." Mudou mais uma vez o tom de voz, como se imitasse o cientista. "Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é."

"Isso já eu sei."

"Calma. Ao ouvir essa frase, Ben Gurion perguntou-lhe." Voltou a mudar o tom de voz, agora a imitar o antigo primeiro-ministro de Israel. "O que quer o senhor dizer com isso?" Nova pausa. "Einstein respondeu." Mudança de sotaque. "Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.'''

Tomás sentiu-se explodir de ansiedade.

"Sim, já percebi. Mas o que quer isso dizer?"

Frank Bellamy sorriu, divertido por fazer esperar o português e por acicatar a sua curiosidade. Pousou de novo os olhos na tradução e leu enfim a frase final proferida cinquenta e cinco anos antes por Albert Einstein.

"A Natureza esconde o seu segredo devido à sua essência majestosa, nunca por ardil."

 

Ao ver Coimbra emergir à esquerda da auto-estrada, como um castelo erguido sobre uma montanha de cal, Tomás Noronha sentiu-se à beira de gritar de alívio. A velha cidade resplandecia ao lado do Mondego, cortejada por um sol alegre e pela aragem amena que deslizava pelo rio; as fachadas brancas e os telhados cor de tijolo do casario emprestavam-lhe um certo toque familiar, acolhedor, quase como se o burgo fosse a sua casa. Na verdade, percebeu, em nenhum sítio se sentia tão bem como ali, era aquele o seu lar, era como se aquela terra e aquelas casas lhe abrissem os braços para o acolherem num aconchego protector de mãe.

O recém-chegado tinha passado os últimos dias em viagem. Primeiro atravessou o mar Cáspio em direção a norte, até aportar em Baku. Na capital do Azerbaijão, Mohammed tratou de lhe arranjar um lugar no primeiro Tupolev que voava com destino a Moscovo, para onde seguiu de imediato. Pernoitou num belo hotel do centro da cidade, junto ao Kremlin, e abandonou a capital russa na manhã seguinte. Atravessou toda a Europa até aterrar em Lisboa, ao princípio da tarde desse dia. Em circunstâncias normais teria ido direito para casa, já tinha tido a sua conta, vinha exausto e com os nervos no limite, mas havia o problema do estado de saúde do pai e estava fora de questão não o ir ver imediatamente.

Ainda no aeroporto de Lisboa comprou um postal e remeteu-o a Ariana com uma mensagem simples. Anunciou-lhe que tinha chegado em segurança, mandou-lhe saudades e assinou Samot, o seu nome ao contrário, um pequeno truque de criptanalista para o caso de aquele correio vir a ser interceptado pela VEVAK ou por qualquer outro dos vários poderes vigentes no Irã.

Em bom rigor, sabia que teria em breve de se dedicar ao problema de Ariana. A iraniana permanecia presente no seu espírito, sobretudo depois daquilo que fizera para o libertar, um ato que, percebeu Tomás, só podia ter um significado. Era uma prova de amor. Desde que a deixara para trás que as suas feições perfeitas lhe enchiam os sonhos, a memória assaltada por aqueles magnéticos olhos cor de caramelo, os lábios sensuais entreabrindo-se melancolicamente como

pétalas carmesim iluminadas pelo sol; a ternura brotada do seu rosto fino invadia-lhe os sentidos, as formas esguias do corpo alto e esbelto enchiam-no de voluptuoso desejo, mas do que mais sentia falta era das conversas embaladas ao ritmo melódico da sua voz tranquila. A verdade, constatou sem surpresa, a verdade é que tinha saudades de Ariana, habituara-se à sua doce companhia, cultivara o gosto de lhe cheirar o perfume e sentir a presença serena, aquela era uma mulher com a qual seria capaz de falar até perder a noção do tempo, até os minutos se fazerem horas, até as palavras se tornarem beijos.

Mas ainda era cedo para decidir o que fazer com os seus sentimentos por Ariana. A prioridade, para já, era ver o pai. Depois teria ainda de resolver um outro problema, o da CIA. Tomás sabia que precisava de arranjar maneira de cortar com a sua indesejada ligação à agência americana, encontrava-se farto de joguinhos e de se ver reduzido a um mero instrumento nas mãos de gente sem escrúpulos.

Era hora de se tornar de novo senhor de si mesmo.

 

Graça Noronha soltou um guincho quando abriu a porta e viu o filho sorrir-lhe.

"Tomás!", gritou, abrindo os braços. "Já voltaste!"

Abraçaram-se.

"Está tudo bem, mãe?"

"Vai-se andando", disse ela. "Entra, filho, entra."

Tomás invadiu a sala.

"O pai?"

"O teu pai foi ao hospital para o tratamento. Daqui a bocado devem estar a trazê-lo."

Acomodaram-se ambos no sofá.

"Como é que ele anda?"

"Menos revoltado, coitadinho. Houve uma altura em que andava impossível. Isolava-se um pouco e, quando abria a boca, era para protestar contra tudo e contra todos. Dizia que o doutor Gouveia não prestava para nada, que os enfermeiros eram uns brutos, que o Chico da Pinga é que devia ter apanhado a doença... enfim, um martírio!"

"Já não está assim?"

"Não, felizmente não. Mostra-se mais conformado, dá-me a impressão de que ele começou a aceitar melhor as coisas."

"E o tratamento? Está a resultar?"

Graça encolheu os ombros.

"Oh, sei lá!", exclamou. "Já nem digo nada."

"Então?"

"O filho, o que queres que eu te diga? A radioterapia é uma coisa chata, percebes? E o pior é que não o vai curar."

"E ele sabe disso?"

"Sabe."

"E como está a reagir?"

"Tem esperança. Tem a esperança que qualquer paciente e qualquer familiar de um paciente tem nestas circunstâncias, não é?"

"A esperança de quê? De se curar?"

"Sim, a esperança de que apareça uma coisa nova que resolva o problema. A história da medicina está cheia de casos desses, não está?"

"É", assentiu Tomás, sentindo-se igualmente impotente. "Vamos esperar que aconteça alguma coisa."

A mãe pegou-lhe nas mãos.

"E tu? Estás bem?"

"Sim, estou."

"Não mandaste notícias nenhumas! Nós aqui todos ralados e o menino sem dizer nada, nem água vai, nem água vem."

"Ora, sabe como é, o trabalho..."

Dona Graça afastou-se um passo e analisou Tomás da cabeça aos pés.

"Além disso, estás muito magro, filho. Que porcarias andaste tu a comer no deserto?"

"No Irã, mãe."

 

"Ora, é a mesma coisa! Isso não é lá no deserto, onde andam os camelos?"

"Não, não é", explicou ele, enchendo-se de paciência para lidar com as confusões geográficas da mãe. "O Irã é para aqueles lados, de facto, mas não é no deserto."

"Não interessa", disse ela. "A verdade é que vens escanzelado que nem um carapau, valha-me Deus! Os beduínos não te deram nada de jeito para comer?"

"Uh... sim, comi bem."

A mãe mirou-o com ar incrédulo.

"Então como é que vens assim tão magro, hã? Credo, parece que vieste do Biafra!"

"Quer dizer, houve dias em que comi muito mal..."

Graça ergueu a mão direita.

"Ah! Bem me queria parecer! Bem me queria parecer! Tens a mania de te meter nas bibliotecas e nos museus dias a fio, esqueces-te de almoçar... e depois... depois... " Fez um gesto na direção de Tomás, como se exibisse uma prova em tribunal. "Depois é isto!"

"Pois, se calhar foi isso, foi." Deu-lhe vontade de rir. "Esqueci-me de almoçar."

A senhora levantou-se, decidida.

"Espera aí! Vou-te pôr mais gordinho que um leitão da Bairrada em dia de matança, ou eu não me chame Maria da Graça Rosendo Noronha!", exclamou, virando-se para sair da sala. "Tenho ali um ensopado de borrego que está um mimo, ouviste? Um mimo! É de chorar por mais, vais ver." Fez-lhe sinal para a seguir. "Ora anda daí, vem aqui à cozinha, vem."

 

O borrego ia a meio, regado por um frutado tinto do Douro, quando o telemóvel tocou.

"Mister Norona?"

Tomás rolou os olhos. O sotaque era inconfundivelmente americano, o que só podia significar que a CIA não o largava.

 

"Sim, sou eu."

"Daqui fala do gabinete do Directorate of Science and Technology da Central Intelligence Agency, em Langley, USA. Um momento, por favor. Esta é uma linha segura e o senhor diretor quer falar consigo."

"Está bem."

Uma música encheu o telemóvel enquanto a chamada era transferida.

"Hello Tomás. Daqui Frank Bellamy."

Com a sua característica voz rouca e arrastada, a apresentação era redundante, Bellamy não precisava de se anunciar para ser logo identificado.

"Hi, mister Bellamy."

"Os rapazes da agência trataram bem de si?"

"Só a partir do mar Cáspio, mister Bellamy. Só a partir do mar Cáspio."

"Ah, é? Tem alguma queixa antes do mar Cáspio?"

"Nada de especial", ironizou o português. "Apenas o fato do vosso gorila em Teerã ter tentado injetar-me com veneno."

Bellamy riu-se.

"Considerando o que se passou a seguir, ainda bem que você não o deixou", disse. "Já viu? Se ele o tivesse neutralizado, jamais poderíamos saber as coisas que você nos contou. A nossa busca teria entrado num beco sem saída."

"Obrigado por se preocupar com o meu bem-estar", devolveu Tomás com acidez. "Fico tocado, sim senhor."

"É, eu sou um sentimental. Só penso na sua saúde."

"Já tinha reparado."

O americano pigarreou.

"Ouça, Tomás, a razão pela qual lhe estou a ligar tem a ver com aquela pista que você me passou."

"Qual pista?"

"A do Hotel Orchard."

"Ah, sim."

"Bem, estivemos a fazer uma pesquisa e descobrimos que existem centenas de hotéis com o nome Orchard em todo o mundo. Eles estão em Singapura, em São Francisco, em Londres... uh, em toda a parte, na verdade. Isto assim é como procurar uma agulha no palheiro."

"Estou a entender."

"Não tem nenhum dado adicional que nos possa ajudar?"

"Não", disse Tomás. "Tudo o que sei é que existe uma ligação entre o Hotel Orchard e o professor Siza. Não sei mais nada."

"Bem... isso assim é muito vago", considerou o americano. "Vamos continuar a procurar, claro. O problema é que, deste modo, iremos levar anos, não é?"

"Compreendo, mas não posso fazer nada."

"Quem é que lhe deu essa informação?"

"Ariana Pakravan."

"Hmm", murmurou Bellamy, considerando o caso. "E podemos confiar nela?"

"Em que sentido?"

"No sentido de que falou a verdade."

"Bem, foi ela que me salvou, não é? Se não fosse ela, eu não estava aqui a falar consigo. Presumo que tenha dito a verdade..."

"I see. E acha que dá para nós a contactarmos?"

"A quem? À Ariana?"

"Sim."

"Nem pense nisso!"

"Porquê? Se o ajudou a si é porque não está necessariamente do lado deles."

"Ela ajudou-me porque me quis ajudar. Não foi um ato político. Foi um ato... uh... pessoal."

Bellamy calou-se uma fração de segundo.

"Já vi que você foi mesmo para a cama com ela."

"Não me venha outra vez com essa conversa."

O americano riu-se.

"Ela é assim tão boa como dizem?"

Tomás rolou os olhos, impaciente.

"Ouça, foi para me dizer isso que me ligou?"

 

"Liguei-lhe porque preciso de mais do que você me deu."

"Não tenho mais."

"Mas ela tem."

"Ela é iraniana e está do lado do seu país. Se vocês forem ter com ela, ela vai relatar tudo aos seus superiores."

"Você acha?"

"Tenho a certeza."

"O que o leva a dizer isso?"

"O fato de ela se ter recusado a revelar-me pormenores sobre o programa nuclear iraniano. Ela nem sequer me disse qual o conteúdo do manuscrito de Einstein..."

Bellamy hesitou e Tomás quase suspendeu a respiração, à espera da decisão no outro lado da linha. O historiador acreditava agora que este era o único argumento que poderia travar os americanos. Ou os convencia de que Ariana permanecia leal ao regime de Teerã, ou então a CIA iria incomodá-la, colocando-a em perigo.

"Hmm... está bem", aceitou Bellamy. "Parece-me que só nos resta então vasculhar os hotéis, uh?"

"Sim, é melhor."

"E você? Já fez progressos com a segunda cifra?"

"Uh... justamente, eu... eu quero ver se me desligo deste caso. Sabe, já tive a minha dose e não quero..."

"Isso é que era bom!"

"Perdão?"

"Ninguém sai deste caso até ele estar resolvido, entendeu?", vociferou Bellamy, num tom que não admitia discussão. "Você vai cumprir tudo até ao fim."

"Mas, ouça, eu já não..."

"Aqui não há mas nem meio mas! Você está envolvido numa missão de elevada importância e irá levá-la a bom termo, custe o que custar, doa a quem doer. Estou a ser claro?"

"Desculpe, mas eu..."

"Estou a ser claro?"

"Sim... uh... só que eu..."

"Você ouça-me e ouça-me bem", rugiu o americano, muito agreste, quase soletrando as palavras. "Você vai desempenhar o seu papel até à perfeição. Nem lhe vou explicar o que lhe irá acontecer se hesitar mais um momento que seja. Mas que fique bem claro que o quero a trabalhar neste caso a cem por cento, ouviu?"

"Bem... uh...."

"Ouviu?"

Tomás sentiu-se derrotado, o tom agressivo do homem da CIA não lhe deixava qualquer margem de manobra.

"Sim."

"E outra coisa", acrescentou, sempre feroz. "Nós estamos numa corrida contra-relógio. Precisamos de saber exatamente o que diz o manuscrito, para podermos atuar. Se você demorar muito tempo a deslindar a chave do documento, não teremos outra alternativa que não seja avançar e contactar a sua amiga. O fato é que ela sabe coisas que nós precisamos de saber. A segurança nacional do meu país está em causa e não olharei a meios para a salvaguardar, entendeu? Utilizaremos todos os métodos que forem necessários para lhe extrair a informação de que necessitamos. E quando eu digo todos os métodos, quero mesmo dizer todos, incluindo aqueles que você está a pensar." Fez uma pausa, como quem não tem mais nada para dizer. "Portanto, eu aconselhá-lo-ia a despachar-se."

Desligou sem mais.

Tomás ficou um longo instante a olhar para o telemóvel mudo nas mãos, reconstituindo a conversa, avaliando as suas opções. Depressa concluiu que não as tinha e só lhe ecoava na mente uma única expressão para caracterizar Frank Bellamy.

"Filho da puta."

 

Um enfermeiro trouxe Manuel Noronha a casa. O pai de Tomás veio cansado, após mais uma sessão de radioterapia, e foi deitar-se. A mulher levou-lhe uma sopa ao quarto e, enquanto comia, viu o filho abeirar-se da cama.

 

Para preencher o silêncio, apenas interrompido pelo som do pai a comer a sopa, Tomás relatou-lhe parte do que vira em Teerão, omitindo, como era natural, a sua verdadeira missão na capital iraniana e os acontecimentos dos últimos dias. Quando acabou, a conversa divagou inevitavelmente para a doença. O matemático terminou a sopa e, na altura em que a mulher saiu do quarto, pediu ao

filho para se aproximar e fez-lhe uma confissão.

"Fiz um pacto", murmurou, quase conspirativo.

"Um pacto? Que pacto?"

Manuel espreitou a porta e pôs o indicador diante dos lábios.

"Chiu", soprou. "A tua mãe não sabe de nada. Nem ela, nem ninguém."

"Está bem, eu não digo nada."

"Fiz um pacto com Deus."

"Com Deus? Mas o pai nunca acreditou em Deus..."

"E não acredito", confirmou o matemático. "Mas fiz na mesma um pacto com Ele, não se vá dar o caso de Ele existir mesmo, não é?"

Tomás sorriu.

"Bem pensado."

"Então é assim. Prometi fazer tudo o que os médicos me mandarem fazer. Tudo. Em troca, só lhe peço que me deixe viver até eu ter um novo neto."

"Oh, pai."

"Ouviste? Portanto, toca a pôr os pés ao caminho, arranjar uma miúda jeitosa e, pimba, fazeres-lhe um filho. Não quero morrer sem ver o meu neto."

Tomás controlou a careta aborrecida que lhe apeteceu fazer nesse momento. O facto é que o pai estava doente e não o podia contrariar por causa de uma coisa daquelas.

"Pronto, está bem, eu vou ver se trato do assunto."

"Prometes?"

"Prometo."

Manuel respirou fundo e deixou cair a cabeça para trás, como se o tivessem libertado de um fardo.

"Ainda bem."

Fez-se silêncio.

"O pai como está?"

"Como é que haveria de estar?", murmurou o paciente, a cabeça enterrada na almofada. "Tenho uma doença a consumir-me as entranhas e não sei se vou viver uma semana, um mês, um ano ou dez anos. Isto é horrível!"

"Tem razão, é horrível."

"Às vezes acordo com a esperança de que tudo isto não tenha passado de um pesadelo, de que, ao acordar, descubra que afinal está tudo bem. Mas, ao fim de alguns segundos, percebo que não foi

nenhum pesadelo, é a realidade." Abanou a cabeça. "Não sabes como isso custa, acordar com esperança e perdê-la logo a seguir, como se alguém estivesse a brincar connosco, dando-nos o futuro num momento e tirando-o logo a seguir, como se a vida fosse um brinquedo e eu uma criança. Há manhãs que dou comigo a chorar..."

"Não fique triste..."

"Como, não fico triste? Então estou no processo de perder tudo, de perder toda a gente de quem gosto, e não posso ficar triste?"

"Mas o pai está sempre a pensar nisso, é?"

"Não, só às vezes. Há algumas manhãs em que penso na morte, mas esses instantes são mais excepcionais. A verdade é que, na maior parte do tempo, procuro sobretudo concentrar-me na vida. Enquanto viver, tenho sempre a esperança de viver, percebes?"

"Há que pensar positivo, não é?"

"É isso. Da mesma maneira que não conseguimos estar sempre a olhar para o sol, também não conseguimos estar sempre a pensar na morte."

"Além do mais, pode ser que se arranje uma solução."

O pai olhou-o com um brilho singular.

"É isso, pode ser que aconteça alguma coisa", exclamou. "Nos momentos de maior desespero, agarro-me sempre a esse pensamento." Fez uma pausa. "Sabes qual é o meu sonho?"

"Hmm."

"Eu estou nos Hospitais da Universidade de Coimbra e o doutor Gouveia senta-se ao meu lado e diz: professor Noronha, tenho aqui um novo medicamento que acabou de chegar da América e que parece estar a dar um resultadão por lá. Quer experimentar?" Calou-se, os olhos vidrados no infinito, como se vivesse esse sonho nesse mesmo instante. "Ele dá-me o medicamento e, dias depois, vamos fazer um TAC e ele aparece à minha frente aos gritos: desapareceu! A doençadesapareceu! As metástases sumiram-se!" Sorriu. "É esse o meu sonho."

"Pode acontecer."

"Pois pode. Pode acontecer. Aliás, o doutor Gouveia contou-me que há muitas histórias assim, relativas a doenças que antes não tinham cura. Pessoas à beira do fim experimentaram um medicamento novo e, tumba, ficaram boas enquanto o diabo esfrega um olho." Bocejou. "Já aconteceu."

Fez-se silêncio.

"O pai há pouco falou em Deus."

"Sim."

"Mas o pai é um homem de ciência, um matemático, e nunca acreditou que Deus existisse.

Agora, no entanto, já faz pactos com Ele..."

"Bem... uh... em bom rigor, é preciso dizer que eu não posso assegurar que Deus existe ou que não existe. Digamos que sou agnóstico, não tenho certezas sobre a Sua existência ou inexistência."

"Porquê?"

"Porque não conheço provas da existência de Deus, mas, sabendo o que sei sobre o universo, também não tenho a certeza de que Ele não exista." Tossiu. "Sabes, há uma parte de mim que é atéia. Sempre me pareceu que Deus não passa de uma criação humana, de uma maravilhosa invenção que nos conforta e que preenche convenientemente lacunas do nosso conhecimento. Por exemplo, uma pessoa vai a passar numa ponte e a ponte cai. Como ninguém sabe por que razão a ponte caiu, todos atribuem esse fato à vontade divina." Encolheu os ombros, imitando um ar resignado. "Foi Deus que fez isso." Tossiu. "Mas hoje, com os nossos conhecimentos científicos, já sabemos que a ponte caiu, não devido a um acto de Deus, mas porque houve erosão nos materiais, ou erosão no solo, ou peso a mais para aquela estrutura, enfim, há uma explicação verdadeira que não tem origem divina. Percebes? É isto o que se chama o Deus-das-lacunas. Quando ignoramos algo, invocamos Deus e a coisa fica explicada, quando, na verdade, existem outras explicações mais verdadeiras, embora possamos não as conhecer."

"Acha que não é possível uma intervenção do sobrenatural?"

"O sobrenatural é aquilo que nós invocamos quando desconhecemos uma coisa natural. Antigamente, uma pessoa adoecia e dizia-se: está possuído pelos maus espíritos. Hoje, a pessoa adoece e nós dizemos: está possuído por bactérias ou por vírus ou por outra coisa qualquer. A doença é a mesma, o nosso conhecimento sobre as suas causas é que mudou, percebes? Quando desconhecíamos as causas, invocávamos o sobrenatural. Agora que as conhecemos, invocamos o natural. O sobrenatural não é mais do que uma fantasia alimentada em torno do nosso desconhecimento sobre o natural."

"Então não há sobrenatural."

"Não, há apenas o natural que nós desconhecemos. O ateu que há em mim aceita que não foi Deus que criou o homem, mas o homem que criou Deus." Fez um gesto que abarcou todo o quarto. "Tudo o que nos rodeia tem uma explicação. Acredito que as coisas se regem por leis universais, absolutas e eternas, onipotentes, onipresentes e oniscientes."

"Um pouco como Deus..."

O pai riu-se baixinho.

"Sim, se quiseres. É verdade que as leis do universo têm os atributos que nós geralmente relacionamos com Deus, mas isso acontece por razões naturais, não por razões sobrenaturais."

"Como assim?"

"As leis do universo têm esses atributos porque é essa a sua natureza. Por exemplo, elas são absolutas porque não dependem de nada, afectam os estados físicos mas não são afetadas por eles. São eternas porque não mudam com o tempo, eram as mesmas no passado e continuarão certamente a ser as mesmas no futuro. São omnipotentes porque nada lhes escapa, exercem a sua força em tudo o que existe. São onipresentes porque se encontram em qualquer parte do universo, não há umas leis que se aplicam aqui e outras diferentes que se aplicam ali. E são oniscientes porque exercem automaticamente a sua força, não precisam que os sistemas as informem da sua existência."

"E de onde é que vêm essas leis?"

O matemático esboçou um sorriso de garoto.

"Agora é que me apanhaste."

"Então?"

"A origem das leis do universo constitui um grande mistério. É verdade que essas leis têm todos os atributos que normalmente nós conferimos a Deus." Tossiu. "Mas, atenção, o fato de não conhecermos a sua origem não implica necessariamente que elas provenham do sobrenatural." Ergueu um dedo. "Lembra-te que usamos o sobrenatural para explicar o que ainda não sabemos, mas que tem uma explicação natural. Se usarmos o sobrenatural de cada vez que não sabemos algo, estamos a recorrer ao Deus-das-lacunas. Daqui a algum tempo descobrir-se-á a verdadeira causa e nós fazemos figura de parvos. A Igreja, por exemplo, fartou-se de usar o Deus-das-lacunas para explicar coisas que antigamente não tinham explicação, e depois sofreu o enorme embaraço de ter de se desdizer quando foram feitas descobertas que desmentiam a explicação divina. Copérnico, Galileu, Newton e Darwin são os casos mais conhecidos." Tossiu. "De qualquer modo, Tomás, a questão da origem das leis do universo constitui algo que não conseguimos explicar. Aliás, existe um determinado número de propriedades do universo que me impedem de afirmar liminarmente que Deus não existe. A questão da origem das leis fundamentais é uma delas. A sua existência serve para nos lembrar que se esconde um grande mistério por detrás do universo."

 

Tomás passou os dedos pelo queixo, pensativo. Depois fez um gesto na direção do bolso do casaco.

"Olhe, pai", disse, dando uma palmadinha no bolso. "Eu tenho aqui duas frases enigmáticas que gostaria que me explicasse, se pudesse."

"Diz lá."

Tomás meteu a mão dentro do bolso e retirou uma folha, que desdobrou. Passou os olhos pelo texto e voltou-se para o pai.

"Posso?"

"Força."

"Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é", leu. "A Natureza esconde o seu segredo devido a sua essência majestosa, nunca por ardil."

Manuel Noronha, a cabeça enterrada na vasta almofada, sorriu.

"Quem disse isso?"

"Einstein."

O matemático balançou afirmativamente a cabeça.

"É bem-visto."

"Mas o que significa isto?"

O pai bocejou mais uma vez.

"Estou cansado", disse simplesmente. "Amanhã eu explico-te."

 

Quando Tomás acordou, ouviu ressoar pela casa o tilintar metálico de talheres a tocarem em louça e de pratos a embaterem noutros pratos. Levantou-se da cama, foi ao quarto de banho, despachou-se em cinco minutos e convergiu de roupão para a cozinha; deparou com a mãe sentada na mesinha da copa, com um copo de leite quente na mão e duas torradas num prato.

"Bom dia, Tomás", cumprimentou a mãe, acenando com uma torrada. "És servido?"

"Uh... sim. Tem sumo de laranja?"

A senhora levantou-se do seu lugar e espreitou o frigorífico. Pegou num invólucro cor de laranja e analisou a data impressa junto à abertura.

"Olha, filho, acho que está fora do prazo. Tenho de ir comprar mais."

"E fruta? Não tem fruta?"

Graça apontou para o cesto colorido assente no balcão, ao lado do frigorífico.

"Tens bananas, maçãs e tangerinas." Voltou a espreitar o frigorífico. "E temos aqui lícheas em calda. O que preferes?"

Tomás colocou duas fatias de pão de forma na torradeira e pegou numa tangerina, que logo começou a descascar.

"Eu fico com a tangerina."

"Fazes muito bem. São docinhas, vêm do Algarve."

Com a tangerina já despida, Tomás sentou-se numa cadeira da copa e trincou um bago sumarento.

"O pai?"

"Ainda está a dormir. Tomou ontem uns comprimidos para não ser afetado pela tosse durante a noite, mas o problema é que acaba sempre por dormir mais do que devia."

"Pois, ele adormeceu cedo, não foi? A esta hora já devia estar em pé..."

"Ah, não te preocupes, ele já se levanta." A mãe tirou o avental e olhou em redor, como se estivesse a tentar organizar-se. "Olha, vamos fazer assim. Eu vou deixar tudo preparado para o pequeno-almoço dele, está bem? Tenho agora de ir ao supermercado buscar as coisas para o almoço, mas como tu ficas por aqui não há problema, não é verdade?"

"Sim, claro."

"Ele vai estar com uma fome de lobo. Ontem só comeu uma sopinha pelo jantar e, se bem o conheço, vai querer agora compensar."

"Faz ele bem."

"Portanto, quando o teu pai acordar, não te esqueças, é só aquecer-lhe o leite."

"Ele bebe o leite com quê?"

Graça pegou numa caixa dourada, com uma enorme ave pintada na cobertura.

 

"Flocos de aveia. Aqueces-lhe o leite e depois juntas o leite aos flocos de aveia num prato de sopa, está bem?"

Tomás pegou na caixa e pousou-a sobre a mesa.

"Vá lá descansada."

 

O pai levou uma boa meia hora a aparecer na cozinha. Tal como a mulher previra, vinha cheio de fome e, conforme previamente combinado, Tomás preparou-lhe os flocos de aveia em leite quente. Quando o prato ficou pronto, sentaram-se os dois na mesa da copa a saborear o pequeno-almoço.

"Então mostra lá outra vez aquelas duas frases do Einstein", pediu Manuel, enquanto levava uma colher à boca.

Tomás foi ao quarto buscar a folha com a frase rabiscada e voltou para a cozinha.

"É isto", disse, sentando-se no seu lugar com a folha aberta na mão. "Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é", leu de novo. "A Natureza esconde o seu segredo devido a sua essência majestosa, nunca por ardil." Olhou para o pai. "Na boca de um cientista, na sua opinião o que quer esta frase dizer?"

O matemático engoliu os flocos que se encontravam na colher.

"Einstein estava a referir-se a uma característica inerente ao universo, que é a forma como os mistérios mais profundos se mantêm habilidosamente ocultos. Por mais que tentemos chegar ao âmago de um enigma, descobrimos que existe sempre uma sutil barreira que nos impede de o desvendar completamente."

"Não estou a perceber..."

O pai girou a colher no ar.

"Olha, vou-te dar um exemplo", disse. "A questão do determinismo e da livre vontade. Este é um problema que tem atormentado a filosofia durante muito tempo, e que foi retomado pela física e pela matemática."

"Está a referir-se à questão de saber se nós tomamos decisões livres ou não?"

 

"Sim", assentiu. "O que te parece?"

"Bem, eu diria que somos livres, não é?" Tomás fez um gesto para a janela. "Por exemplo, eu vim aqui a Coimbra porque assim o decidi livremente." Apontou para o prato em cima da mesa. "O pai está a comer essa papa porque assim o quis."

"Achas que sim? Achas que estas decisões foram mesmo livres?"

"Quer dizer... uh... acho que sim, claro."

"Não terás vindo a Coimbra por estares condicionado psicologicamente pelo fato de eu estar doente? Não estarei eu a comer esta papa por estar condicionado fisiologicamente a ela ou por me encontrar influenciado por um qualquer anúncio televisivo sem que disso tenha consciência? Hã?" Balançou as sobrancelhas para cima e para baixo, a enfatizar o que acabara de dizer. "Até que ponto somos mesmo livres? Não se estará a dar o caso de tomarmos decisões que parecem ser livres mas que, se formos a analisar a sua origem profunda, são condicionadas por um número sem fim de fatores, de cuja existência muitas vezes nem nos apercebemos? Será que a livre vontade não passa afinal de uma ilusão? Será que está tudo determinado, apesar de não termos consciência disso?"

Tomás remexeu-se na cadeira.

"Já percebi que essas perguntas trazem água no bico", observou, desconfiado. "Qual é a resposta

da ciência? Somos livres ou não?"

"Essa é a grande dúvida", sorriu o pai, com malícia. "Se não me engano, o primeiro grande defensor do determinismo foi um grego chamado Leucipo. Ele afirmou que nada acontece por acaso e tudo tem uma causa. Platão e Aristóteles, no entanto, pensavam de outra maneira e deixaram espaço aberto à livre vontade, um ponto de vista que a Igreja adoptou. Convinha-lhe, não é? Se o homem tinha livre vontade, Deus ficava desresponsabilizado de todo o mal que ocorria no mundo. Durante séculos prevaleceu assim a ideia de que os seres humanos dispõem de livre vontade. Só com Newton e o avanço da ciência é que o determinismo foi recuperado, ao ponto de um dos mais importantes físicos do século XVIII, o marquês Pierre de Laplace, ter feito uma importante constatação. Ele observou que o universo obedece a leis fundamentais e previu que, se conhecermos essas leis e se soubermos a posição, a velocidade e a direção de cada objeto e de cada partícula existente no universo, seremos capazes de conhecer todo o passado e todo o futuro, uma vez que tudo já se encontra determinado. Chama-se a isso o Demônio de Laplace. Tudo está determinado."

"Hmm", murmurou Tomás. "E o que diz a ciência moderna?"

"Einstein concordava com este ponto de vista e as teorias da Relatividade foram construídas segundo o princípio de que o universo é determinista. Mas a coisa complicou-se quando apareceu a Teoria Quântica, que veio trazer uma visão indeterminista ao mundo dos átomos. A formulação do indeterminismo quântico deve-se a Heisenberg, que, em 1927, constatou que não é possível determinar ao mesmo tempo, e de forma rigorosa, a velocidade e a posição de uma micropartícula. Nasceu assim o Princípio da Incerteza, que veio..."

"Já ouvi falar nisso", cortou Tomás, recordando a explicação que Ariana lhe tinha dado em Teerã. "O comportamento dos grandes objectos é determinista, o comportamento dos pequenos é indeterminista."

Manuel ficou um instante a mirar o filho.

"Caramba", exclamou. "Nunca imaginei que estivesses dentro do assunto."

"Sim, explicaram-me isso há pouco tempo. Não é esse o problema que lançou a busca de uma Teoria de Tudo, capaz de conciliar essas contradições?"

"Exato", confirmou o matemático. "É esse, hoje em dia, o grande sonho da física. Os cientistas estão à procura de uma grande teoria que, entre outras questões, una a Relatividade e a Teoria Quântica e resolva o problema do determinismo ou indeterminismo do universo." Tossiu. "Mas é fundamental notar uma coisa. O Princípio da Incerteza diz que não é possível determinar com exatidão o comportamento de uma partícula devido à presença do observador. Ao longo dos anos, este problema alimentou conversas entre mim e o professor Siza... aquele que desapareceu, sabes?"

"Sim."

"O que se passou foi que o Princípio da Incerteza, que é verdadeiro, provocou o que nós sempre achamos ser um chorrilho de disparates, com alguns físicos a dizerem que uma partícula só decide em que sítio se encontra quando aparece um observador."

"Também já ouvi falar nisso", disse Tomás. "É aquela história de que, se se puser um electrão numa caixa e se separarmos essa caixa em duas partes, o electrão está nas duas ao mesmo tempo e só quando alguém abrir uma das partes é que o electrão decide onde vai ficar..."

"Nem mais", confirmou o pai, impressionado com os conhecimentos que Tomás dispunha sobre física quântica. "Isso foi gozado por Einstein e por outros físicos, claro. Eles recorreram a diversos exemplos para expor o absurdo dessa ideia, o mais famoso dos quais é o do gato de Schrödinger." Tossiu. "Ora bem, Schrõdinger demonstrou que, a ser verdadeira a ideia de que uma partícula está

em dois sítios ao mesmo tempo, também um gato estaria vivo e morto ao mesmo tempo, o que é um absurdo."

"Sim,", concordou Tomás. "Mas, ó pai, não é essa mecânica quântica que, apesar de ser estranha e contra-intuitiva, bate certo com a matemática e a realidade?"

"Claro que bate certo", exclamou Manuel. "Mas a questão não é saber se bate certo, porque está visto que bate certo. A questão é saber se a interpretaç&atil