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A Lôba da França / Maurice Druon
A Lôba da França / Maurice Druon

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Lôba da França

 

 

1323-1328

...E os castigos anunciados, as maldições lançadas do alto de sua fogueira pelo grão-mestre dos Templários, continuaram a tombar sobre a França. O destino derrubava os reis como se fossem peças de xadrez.

Depois de Filipe, o Belo, fulminado, depois de seu primogênito, Luís X, assassinado ao fim de dezoito meses de reinado, o segundo filho, Filipe V, parecia destinado a um longo governo. Seis anos se haviam passado, e Filipe V morrera, por sua vez, antes de alcançar os trinta anos de idade.

Detenhamo-nos por um momento nesse reinado, que parece um período de trégua à fatalidade quando comparado aos dramas e derrocadas que a ele se seguiram. Para quem folheia distraidamente a história, tal reinado parece pálido, sem dúvida porque o leitor não retira da página a mão tinta de sangue. Entretanto... Vejamos de que são feitos os dias de um grande rei quando a sorte lhe é adversa.

Porque Filipe V, o Longo, fora um grande rei. Pela força e pela astúcia, pela justiça e pelo crime, apossara-se ele, ainda jovem, da coroa posta no leilão das ambições. Um conclave aprisionado, um palácio real tomado de assalto, uma lei sucessória, inventada, uma revolta provinciana desbaratada ao fim de sete dias, um grande senhor atirado ao calabouço, uma criança real assassinada no berço — era nisso, pelo menos, que se acreditava —, tinham sido as rápidas etapas de sua corrida para o trono.

Naquela manhã de janeiro de 1317, quando, ao som de todos os sinos a ecoar no céu, saíra da Catedral de Reims, o segundo filho do Rei de Ferro poderia acreditar-se vitorioso. E livre para recomeçar a grande política que admirara em seu pai. Toda a sua família, por obrigação, se havia dobrado. Os barões haviam sido dominados, o Parlamento sofria a sua ascendência, e a burguesia aclamava-o, em seu entusiasmo per ter encontrado de novo um príncipe forte. Sua esposa estava redimida das nódoas da Torre de Nesle. Sua descendência parecia assegurada pelo filho que acabava de nascer, e a sagração, enfim, revestira-se de intangível majestade. Para gozar da felicidade relativa dos reis, nada faltava a Filipe V, nem sequer a sensatez de desejar a paz e de conhecer-lhe o preço.

Três semanas mais tarde seu filho morria. Era seu único filho varão, e a rainha Joana, dali por diante marcada pela esterilidade, não lhe daria outros.

Ao iniciar-se o outono, a fome devastava o país, juncando as cidades de cadáveres.

A seguir, um vento de demência soprou sobre toda a França.

Que ímpeto cego, que sonhos elementares de santidade e aventura, que excesso de miséria, que furor de aniquilamento, levaram, subitamente, moças e moços dos campos, guardadores de carneiros, de bois e de porcos, pequenos artesãos, pequenas fiandeiras, quase todos entre os quinze e os vinte anos, a deixarem bruscamente suas famílias, suas aldeias, para se tornarem bandos errantes, de pés descalços, sem dinheiro nem provisões?

A loucura nascera, verdadeiramente, nas ruínas do Templo. Numerosos eram os antigos Templários que se haviam tornado meio loucos diante das prisões, dos processos, das torturas, das abjurações arrancadas sob o ferro em brasa, do espetáculo de seus irmãos entregues às chamas. A sede de vingança, a nostalgia de seu poder perdido e a posse de algumas receitas de magia aprendidas no Oriente criaram fanáticos, tanto mais perigosos por se esconderem sob o hábito humilde do clérigo ou sob o gabão do empreiteiro. Eles se haviam reorganizado em sociedade clandestina e obedeciam às ordens, misteriosamente transmitidas, do grão-mestre secreto que substituíra seu grão-mestre queimado.

Esses foram os homens que, certo inverno, transformando-se subitamente em pregadores de aldeia, arrastaram atrás de seus passos, tal como os tocadores de flautas das lendas do Reno, a juventude da França. Pata a Terra Santa, diziam eles. Mas sua verdadeira intenção era a perda do reinado e a ruína do papado.

E tanto o papa como o rei viam-se impotentes diante daquelas hordas de iluminados que percorriam os caminhos, diante daqueles rios humanos que engrossavam a cada encruzilhada, como se a terra da Flandres, da Normandia, da Bretanha, do Poitou, tivesse sido enfeitiçada.

Dez mil, vinte mil, cem mil: os "pastorzinhos" caminhavam em direção a misteriosos pontos de encontro. Padres privados de suas funções, monges apóstatas, desordeiros, ladrões, mendigos e prostitutas juntavam-se àqueles bandos. Uma cruz era levada à vanguarda de tais cortejos, onde moças e rapazes entregavam-se às piores licenciosidades, aos piores excessos. Cem mil caminhantes andrajosos que entram numa cidade para pedir esmola depressa fazem-lhe a pilhagem. E o crime, que, aliás, não passa de acessório do roubo, logo se transforma na satisfação de um vício.

Os pastorzinhos devastaram a França durante um ano inteiro, usando certo método em sua desordem, não poupando as igrejas nem os mosteiros. Paris, em pânico, viu aquele exército de saqueadores invadir suas ruas, e o rei Filipe V, de uma janela de seu palácio, dirigir-lhes palavras de apaziguamento. Eles exigiam que o rei se colocasse à sua frente. Tomaram de assalto o Châtelet, mataram a pancadas o preboste, pilharam a Abadia de Saint-Germain-des-Prés. Depois, uma nova ordem, tão misteriosa como a que os reunira, lançou-os para os caminhos do sul. Os parisienses ainda tremiam, e já os pastorzinhos inundavam Orléans. A Terra Santa estava distante, e foram Bourges, Limoges, Saintes, e Périgord e o Bordelais, a Gasconha e o Agenais, que lhe sofreram o furor.

O papa João XXII, inquieto ao ver a onda aproximar-se de Avignon, ameaçou os falsos cruzados com a excomunhão. Eles tinham necessidade de vítimas, e encontraram-nas nos judeus. As populações urbanas, desde então, aplaudiram as chacinas, fraternizaram com os pastorzinhos. Guetos de Lectoure, de Auvillar, de Castelsarrasin, de Albi, de Auch, de Toulouse; aqui cento e quinze cadáveres, ali cento e cinqüenta e dois... Não houve uma cidade do Languedoc que não tivesse direito à sua matança punitiva. Os judeus de Verdun-sur-Garonne serviram-se de seus próprios filhos como projéteis, depois enforcaram-se uns aos outros, para não cair nas mãos dos loucos.

Então, o papa deu ordem a seus bispos, e o rei a seus senescais, para que protegessem os judeus, cujo comércio lhes era necessário. Foi preciso que o conde de Foix, indo em socorro do senescal de Carcassonne, travasse uma batalha campal, onde os pastorzinhos, repelidos para os pantanais de Aigues-Mortes, morreram aos milhares, por pancadas, transpassados, sugados pela areia movediça, afogados. A terra da França bebia seu próprio sangue, engolia sua própria juventude. Clero e oficiais reais uniram-se a fim de perseguir os que tinham conseguido escapar. As portas das cidades lhes foram fechadas, víveres e alojamento, recusados. Encurralaram-nos nas passagens das Cévennes, e todos os capturados foram enforcados aos cachos de vinte e trinta, em galhos de árvores. Houve bandos que ainda erraram durante mais de dois anos, e que se foram perder quase perto da Itália.

A França, o corpo da França, estava doente. Mal pacificara-se a febre dos pastorzinhos, apareceu a dos leprosos.

Seriam todos responsáveis, aqueles infelizes de carnes roídas, de rostos moribundos, de mãos transformadas em cotos, aqueles párias encerrados em seus leprosários, aldeias de infecção e pestilência, onde procriavam entre si, e das quais não podiam sair senão de castanholas em punho, seriam absolutamente responsáveis pela poluição das águas? Porque no verão de 1321, as nascentes, os regatos, os poços e as fontes foram, em muitos pontos, envenenados. E o povo da França, naquele ano, arquejou, sedento, diante de seus rios generosos, onde ninguém mais se dessedentava sem pavor, esperando a agonia a cada gole bebido. O Templo teria posto a mão, igualmente, no veneno estranho — feito de sangue humano, de urina, de ervas mágicas, de cabeças de cobras, de patas de sapo esmagadas, de hóstias furadas e de pêlos de prostitutas — o veneno que se garantia ter sido espalhado nas águas? Teria ele levado à revolta o povo maldito, inspirando-lhe, como certos leprosos confessaram, sob tortura, a vontade de ver mortos todos os cristãos ou transformados em leprosos, como eles próprios?

O caso começou no Poitou, onde o rei Filipe V passava uma temporada. E depressa alastrou-se por todo o país. O povo das cidades e dos campos atirou-se contra os leprosários, a fim de exterminar os doentes, que se haviam tornado, de repente, inimigos públicos. Só as mulheres grávidas eram poupadas, mas apenas até o desmame de seu filho. Depois disso, entregavam-nas ao fogo. Os juizes reais cobriam as hecatombes com suas sentenças, e a nobreza emprestava a elas seus homens de armas. Depois, tornaram a voltar-se contra os judeus, acusados de cumplicidade em imensa e imprecisa conjuração, inspirada, assegurava-se, pelos reis mouros de Granada e de Tunis. Dir-se-ia que a França, com gigantescos sacrifícios humanos, procurava acalmar suas angústias, seus terrores.

O vento da Aquitânia vinha impregnado do cheiro atroz das fogueiras. Em Chinon, todos os judeus do bailio foram atirados numa grande fossa de fogo. Em Paris, foram queimados naquela ilha que levava tristemente o nome deles, a que ficava diante do castelo real, e de onde Tiago de Molay pronunciara sua profecia fatal.

E o rei morreu. Morreu da febre e do dilacerante mal de entranhas que contraíra no Poitou, em sua terra de apanágio; morreu por ter bebido água de seu reino, envenenado por homens de seu povo.

Levou cinco meses a extinguir-se, dentro dos piores sofrimentos, consumido, esquelético.

Todas as manhãs mandava abrir as portas do seu quarto, na Abadia de Longchamps, para onde se fizera transportar, deixando que os passantes viessem até junto de seu leito, a fim de lhes poder dizer: "Vede aqui o rei de França, vosso soberano senhor, o homem mais pobre de todo o seu reino, pois nenhum de vós quereria trocar comigo a sua sorte. Meus filhos, mirai-vos em vosso príncipe temporal, e voltai vossos corações para Deus, vendo como a Ele apraz manejar suas criaturas do mundo".

Foi reunir-se aos ossos de seus antepassados, em Saint-Denis, no dia seguinte ao da Epifania de 1322, sem que ninguém, a não ser sua esposa, o chorasse.

Entretanto, fora um rei muito sensato, preocupado com o bem público. Declarara toda a parte do domínio real, isto é, a França propriamente dita, inalienável; unificara as moedas, os pesos e as medidas, reorganizara a justiça para que ela fosse distribuída com mais eqüidade, proibira o acúmulo de funções públicas, interditara aos prelados o assento no Parlamento, dotara as finanças de uma administração particular. Ainda se lhe devia um impulso à libertação dos servos. O rei desejara que a servidão desaparecesse totalmente de seus Estados, pois queria reinar sobre um povo de homens que gozassem da "verdadeira liberdade", livres tal como a natureza os havia feito.

Evitara as tentações da guerra, suprimira as numerosas guarnições internas para reforçar as das fronteiras e preferira sempre as negociações aos estúpidos empreendimentos militares. Era, sem dúvida, cedo demais para que o povo compreendesse que a justiça e a paz custavam tão caro, ou para que chegasse mesmo a compreender a razão pela qual o rei procurava, com tanto empenho, o seu apoio. "Onde foram ter" — era a pergunta que se fazia — "as rendas, os dízimos, as anatas, as subvenções dos lombardos e dos judeus, já que se distribuíram menos esmolas, não se realizaram cavalhadas nem se construíram edifícios? Onde foi derreter-se todo esse dinheiro?"

Os grandes barões, provisoriamente submissos, e que, às vezes, diante da efervescência dos campos, se haviam aglomerado por medo em torno do soberano, tinham esperado pacientemente sua hora de vingança e contemplado com olhar calmo a agonia daquele jovem rei que não lhes despertara amor.

Filipe V, o Longo, homem só, demasiado avançado para o seu tempo, sofrerá a incompreensão geral.

Não deixara senão filhas: a lei de sucessão que ele promulgara para seu próprio uso as excluía do trono. A coroa viera caber a seu irmão mais moço, Carlos da Marca, tão medíocre de inteligência quanto belo de rosto. O poderoso conde de Valois, o conde Roberto d'Artois, toda a parentela capetiana e a reação baronial estavam de novo triunfantes. Enfim, seria possível falar de novo em cruzada, mesclar-se às intrigas do império, traficar com a circulação do ouro, e assistir, delas zombando, às dificuldades do reino da Inglaterra.

Ali, um rei leviano, falaz, incompetente, submetido à paixão amorosa que devota ao seu favorito, bate-se contra seus barões, contra seus bispos, e encharca a terra de seu reino com o sangue de seus súditos.

Ali uma princesa da França vive como mulher humilhada, rainha escarnecida, e teme por sua vida, conspira para defendê-la, sonha com a vingança.

Era como se Isabel, filha do Rei de Ferro e irmã de Carlos IV de França, tivesse transportado para o outro lado da Mancha a maldição dos Templários...

 

Não se foge da Torre de Londres.

Um corvo imenso, negro, luzidio, monstruoso, quase tão grande quanto um ganso, saltitava diante do respiradouro. Ás vezes, detinha-se, com a asa baixada, a pálpebra falsamente fechada sobre o olhinho redondo, como se fosse dormir. Depois, de repente, estendendo o bico, procurava ferir os olhos humanos que brilhavam por trás das grades do respiradouro. Aqueles olhos cinzentos, de um tom de sílex, pareciam atrair a ave. O prisioneiro, entretanto, estava atento e já havia recuado o rosto. Assim, o corvo retomava seu passeio com saltos lerdos e curtos.

O homem, então, passava a mão para fora do respiradouro, bela mão, grande e comprida, mão nervosa que ia avançando imperceptivelmente, parecendo inerte, qual um galho sobre a poeira do chão, esperando o momento de agarrar o corvo pelo pescoço.

Também a ave era lépida, apesar de seu tamanho: afastava-se num salto, com um crocitar rouco.

— Cuidado, Eduardo, cuidado! — disse o homem que estava atrás da grade do respiradouro. — Um dia acabarei por estrangular-te.

Porque o prisioneiro dera àquele corvo sorrateiro o nome de seu inimigo, o rei da Inglaterra.

Havia dezoito meses que a manobra durava, havia dezoito meses que o corvo visava as pupilas do prisioneiro, dezoito meses que o prisioneiro desejava esganar o corvo preto, dezoito meses que Rogério Mortimer, oitavo barão de Wigmore, grande senhor das Marcas gaulesas e ex-lugar-tenente do rei da Irlanda, estava encerrado, em companhia de seu tio, Rogério Mortimer de Chirk, antigo grande juiz do País de Gales, num calabouço da Torre de Londres. O costume indicava que a prisioneiros de tal categoria, pertencentes à mais antiga nobreza do reino, fosse dado alojamento decente. Mas o rei Eduardo II, quando se apoderara dos dois Mortimer, depois da Batalha de Shrewsbury, onde derrotara os barões rebelados, destinara ao tio e ao sobrinho aquela masmorra estreita e baixa, que recebia luz ao rés-do-chão, nos novos edifícios que acabavam de ser construídos, à direita da Torre do Sino. Obrigado, pela pressão da corte, dos bispos e do próprio povo, a comutar para prisão perpétua a pena de morte que de início decretara contra os Mortimer, o rei esperava que aquela célula malsã, aquela caverna onde a cabeça tocava no forro, desempenhasse, por firri, o papel do carrasco.

Com efeito, se os trinta e cinco anos de Rogério Mortimer de Wigmore tinham podido resistir a semelhante prisão, em compensação, dezoito meses de névoa insinuando-se pelo respiradouro, ou de chuva ressudando ao longo das paredes, ou de vapor espesso estagnando-se ao fundo daquele buraco na estação quente, pareciam ter vencido o velho lorde de Chirk. Perdendo os cabelos e os dentes, com as pernas inchadas, as mãos torcidas de reumatismo, o primogênito dos Mortimer não mais deixava a tábua de carvalho que lhe servia de leito, enquanto seu sobrinho se mantinha junto ao respiradouro, com os olhos voltados para a luz.

Era, aquele, o segundo ano que passavam em tal reduto.

Já havia duas horas que o dia se levantara sobre a mais célebre fortaleza da Inglaterra, coração do reino e símbolo do poderio de seus príncipes, sobre a Torre Branca, o imenso torreão quadrado, leve, apesar das proporções gigantescas, que Guilherme, o Conquistador, construíra, tendo como alicerce os vestígios do antigo castrum romano, sobre as torres do cinto de muralhas e as paredes guarnecidas de ameias de Ricardo Coração de Leão, sobre o Alojamento do Rei, sobre a Capela São Pedro, sobre a Porta dos Traidores. O dia seria quente, opressivo mesmo, como fora na véspera: adivinhava-se isso pelo sol que tornava rosadas as pedras, bem como pelo cheiro de lodo, um tanto nauseante, que subia das valas de escoamento do Tâmisa, bem próximas, e que banhava o aterro dos fossos * ¹.

* Os números, no texto, remetem às notas históricas no fim do volume. (N. do E.)

 

O corvo Eduardo já se reunira aos outros corvos gigantes sobre o gramado tristemente famoso, o Green, onde se instalava o cepo do patíbulo nos dias de execução capital: as aves ali bicavam uma erva nutrida com o sangue dos patriotas escoceses, dos criminosos do Estado, dos favoritos caídos em desgraça.

Passava-se o ancinho no Green, varriam-se os caminhos pavimentados que o rodeavam sem que os corvos se assustassem, pois ninguém ousaria tocar naquelas aves, que ali viviam desde tempos imemoriais e estavam envolvidas numa atmosfera de superstição.

Os soldados da guarda, saindo de seu alojamento, acabavam precipitadamente de afivelar seus cinturões ou seus borzeguins, cobriam-se com seus capacetes de ferro e reuniam-se para a parada cotidiana, que, naquela manhã, tomava particular imponência, pois era 1.° de agosto, dia das Cadeias de São Pedro — a que a capela era dedicada —, e festa anual da Torre.

Os ferrolhos rangeram na porta baixa que fechava a cela de Mortimer. O carcereiro-chaveiro abriu-a, lançou um olhar ao interior e deixou entrar o barbeiro. Aquele homem de olhos pequenos, nariz comprido, boca redonda, vinha uma vez por semana barbear Rogério Mortimer, o Jovem. Durante os meses de inverno, aquela operação representava um suplício para o prisioneiro, pois o condestável Estêvão Seagrave. governador da Torre 2, declarara:

— Se lorde Mortimer quer continuar a ser barbeado, eu lhe enviarei o barbeiro, mas não tenho obrigação de fornecer-lhe água quente.

Lorde Mortimer insistira em se barbear, de início para desafiar o condestável, em seguida porque seu execrado inimigo, o rei Eduardo, usava uma bonita barba loura, e, enfim e sobretudo, por si próprio. Sabia que, se viesse a ceder naquele ponto, acabaria abandonando-se gradualmente à decadência física que espreita os prisioneiros. Tinha sob os olhos o exemplo de seu tio, que já não cuidava de forma alguma de sua pessoa: com o queixo recoberto de pêlos emaranhados, mechas de cabelos esparsas em torno do crânio, o lorde de Chirk assumira a aparência de um velho anacoreta, e gemia sem cessar devido aos múltiplos males que o afligiam.

— As dores do meu pobre corpo — dizia ele, às vezes — são as únicas coisas que me fazem sentir que ainda estou vivo.

Portanto, semana após semana, Rogério Mortimer, o Jovem, recebera o barbeiro Ogle, mesmo quando lhe era necessário quebrar o gelo na bacia e quando a navalha lhe deixava as faces sangrando. Fora recompensado, pois, ao cabo de alguns meses percebera que aquele Ogle podia lhe servir de ligação com o exterior. O homem tinha uma alma estranha; era ávido, e também capaz de devotamento. Sofria com sua situação subalterna, que julgava inferior aos seus méritos, e a intriga oferecia-lhe ocasião de uma vingança secreta e de adquirir, partilhando segredos de grandes personagens, importância a seus próprios olhos. O barão de Wigmore era certamente o homem mais nobre, tanto pelo nascimento como pela natureza, de que jamais se aproximara. E depois, um prisioneiro que se obstina em ser barbeado, mesmo em tempo de gelo, despertava admiração!

Graças ao barbeiro, Mortimer estabelecera, então, um vínculo tênue, mas regular, com seus partidários, e particularmente com Adão Orleton, bispo de Hereford. Ainda pelo barbeiro, soubera que o tenente da Torre, Geraldo de Alspaye, podia ser ganho para a sua causa, e, sempre pelo barbeiro, organizara a lenta maquinação para uma fuga. O bispo mandara-lhe assegurar que no verão estaria livre. E o verão ali estava...

Através do ralo aberto na porta, o carcereiro lançava de vez em quando um olhar, sem desconfiança definida, por simples hábito profissional.

Com uma escudela de madeira sob o queixo — algum dia tornaria a encontrar a vasilha de fina prata martelada de que se servia outrora? — Rogério Mortimer ouvia as palavras de despistamento que o barbeiro lhe dirigia em voz muito alta, para enganar a vigilância. O sol, o verão, o calor... Sempre se podia contar com um dia bonito, era interessante observar, no dia da festa de São Pedro...

Debruçando-se mais sobre sua navalha, Ogle murmurou ao ouvido do prisioneiro:

— Be ready for tonight, my lord*.

* "Preparai-vos para esta noite, meu senhor."  Em inglês no original.(N. da T.)

 

Rogério Mortimer nem sequer estremeceu. Seus olhos cor de sílex, sob as sobrancelhas bem fartas, apenas se voltaram para os pequenos olhos pretos do barbeiro, que confirmou com um bater de pálpebras.

— Alspaye?... — murmurou Mortimer.

— He'll go with us ** — respondeu o barbeiro, passando ao outro lado do rosto.

** "Ele irá conosco." Em inglês no original. (N. da T.)

 

— The bishop?... *** — perguntou ainda o prisioneiro.

*** "O bispo?" Em inglês no original. (N. da T.)

 

— He'll wait for you outside, after dark**** — disse, o barbeiro, que imediatamente começou a falar bem alto sobre o sol, sobre a parada que se preparava, sobre os jogos que se realizariam à tarde...

**** "Ele esperará por vós, lã fora, quando anoitecer." Em inglês no original. (N. da T.)

 

Feita a barba, Rogério Mortimer lavou o rosto e enxugou-o com uma toalha sem sequer sentir-lhe o contato.

E, quando o barbeiro Ogle partiu em companhia do chaveiro, o prisioneiro apertou o peito com as duas mãos e tomou um grande hausto de ar. Continha-se para não desatar aos gritos. "Preparai-vos para esta noite." Aquelas palavras ressoavam em sua cabeça. Seria possível que fosse aquela noite, enfim?

Aproximou-se do tabique onde cochilava seu companheiro de masmorra.

— Meu tio — disse ele —, é para esta noite.

O velho lorde de Chirk voltou-se, gemendo, levantando para seu sobrinho suas pupilas descoloridas, que brilhavam em luminosidade glauca na sombra da cela, e respondeu, com lassidão:

— Não se foge da Torre de Londres, meu rapaz. Ninguém... Nem nesta noite, nem nunca.

Mortimer, o Jovem, teve um movimento de irritação. Por que tal obstinação negativa, tal recusa em se arriscar, da parte de um homem que, fosse como fosse, tinha tão pouco de vida a perder? Evitou responder, para não se alterar. Embora falassem francês entre si, como toda a corte e a nobreza de origem normanda, enquanto os servos, os soldados e o povo comum falavam inglês, temiam sempre ser ouvidos.

Rogério voltou ao respiradouro e olhou, de alto a baixo, a parada, com a exultante sensação de talvez estar assistindo a ela pela última vez.

Ao nível de seus olhos, passavam e repassavam os borzeguins da tropa, grossos sapatos de couro que batiam contra o pavimento. E Rogério Mortimer não podia deixar de admirar as evoluções precisas dos arqueiros, aqueles notáveis arqueiros ingleses, os melhores da Europa, que podiam atirar até doze flechas por minuto.

No centro do Green, Alspaye, o tenente, rígido como uma estaca, gritava ordens a plenos pulmões e apresentava a guarda ao condestável. Não era fácil compreender que aquele rapagão louro e rosado, tão atento ao seu serviço, tão visivelmente animado pelo desejo de realizá-lo bem, tivesse aceitado trair. Com certeza estava sendo levado a tanto por outros motivos que não apenas a sedução do dinheiro. Geraldo de Alspaye, tenente da Torre de Londres, desejava, como acontecia com muitos oficiais, funcionários de administração, bispos e senhores, ver a Inglaterra livre dos maus ministros que rodeavam o rei: sua juventude sonhava representar um grande papel, e, além disso, ele detestava seu chefe, o condestável Seagrave.

Este, um caolho de bochechas flácidas, beberrão e displicente, devia seu alto cargo precisamente à proteção dos maus ministros. Praticando abertamente os costumes dos quais o rei Eduardo fazia exibição diante da corte, o condestável servia-se prazerosamente de sua guarnição como de um harém. Suas preferências iam para os jovens altos e louros, e, sendo assim, a existência do tenente Alspaye, muito devoto e afastado do vício, se havia tornado um inferno. Por ter repelido as crises de ternura do condestável, Alspaye suportava, agora, contínuas perseguições. Não havia enredos e vexames que Seagrave, por vingança, não o fizesse suportar. Em sua ociosidade, o caolho tinha lazeres para ser cruel. Naquele mesmo momento, fazendo a inspeção dos homens, cobria seu assistente de grosseiras zombarias por bagatelas, por um defeito no alinhamento, uma mancha de ferrugem numa faca ou um minúsculo rasgão no couro de um carcás. Seu único olho procurava apenas os defeitos.

Embora se tratasse de um feriado, dia em que habitualmente os castigos eram suspensos, o condestável ordenou que três soldados fossem chicoteados ali mesmo, por causa do mau estado de seu equipamento. Eram, exatamente, três dos melhores arqueiros. Um sargento foi buscar as varas. Os homens punidos deviam baixar as calças diante de todos os companheiros de fileira. O condestável parecia divertir-se muito com o espetáculo.

— Se a guarda não se apresentar melhor na próxima ocasião, Alspaye, será a tua vez — disse ele.

Depois, toda a guarnição, com exceção das sentinelas das portas e dos caminhos de ronda, foi para a capela, a fim de ouvir a missa e cantar os cânticos.

As vozes rudes e desafinadas chegavam até o prisioneiro, que continuava à espreita atrás de seu respiradouro. "Preparai-vos para esta noite, meu senhor..." O antigo delegado do rei na Irlanda não cessava de pensar que, naquela noite, talvez estivesse livre. Tinha um dia inteiro para esperar, para aguardar, para temer também... Temer que Ogle cometesse alguma tolice na execução do plano, que Alspaye, no último momento, fosse tomado pelo sentimento do dever... Um dia para prever obstáculos fortuitos, todos os elementos do acaso que podem fazer malograr uma evasão.

"É melhor não pensar nisso", disse ele consigo mesmo, "e acreditar que tudo correrá bem. Porque é sempre o que não se imagina que acontece. Mas também é a vontade mais forte que triunfa."

Entretanto, seu espírito retornava irresistivelmente às mesmas preocupações:

"Ainda assim, haverá sentinelas nas muralhas..."

Deu um salto brusco para trás. O corvo avançara à sorrelfa, ao longo da parede, e por bem pouco, daquela vez, não conseguiu atingir o olho do prisioneiro.

— Ah! Eduardo, Eduardo! Agora é demais — disse Mortimer entre dentes. — E, se devo estrangular-te, será hoje.

A guarnição acabava de sair da capela e entrava no refeitório para a comezaina tradicional.

O chaveiro apareceu à porta da cela, acompanhado de um guarda encarregado da refeição dos prisioneiros. Excepcionalmente, a sopa de favas vinha acompanhada de um pouco de carne de carneiro.

— Tentai levantar-vos, meu tio — disse Mortimer.

— E privam-nos até mesmo da missa, como se fôssemos excomungados — respondeu o velho lorde.

Obstinou-se em comer sobre sua tábua, mal tocando, aliás, na sua porção.

— Come a minha parte, precisas mais dela do que eu — disse ele ao sobrinho.

O chaveiro se retirara, e os prisioneiros não teriam visitas até a noite.

— Então, meu tio, estais realmente resolvido a não me acompanhar? — perguntou Mortimer.

— Acompanhar-te para onde, meu rapaz? Não se foge da Torre. Ninguém jamais conseguiu tal coisa. Também não adianta rebelar-se contra seu rei. Eduardo não é o melhor soberano que a Inglaterra já teve, certamente, e seus dois Despenser bem mereciam estar no nosso lugar. Mas não escolhemos nosso rei, servimo-lo. Eu não deveria ter-vos ouvido, a Tomás de Lancastre e a ti, quando tomastes armas. Porque Tomás foi decapitado, e nós, onde estamos...

Era a hora em que o tio, depois de comer alguns bocados, consentia em falar, com voz monótona e gemebunda, repassando, aliás, os mesmos assuntos que o sobrinho vinha ouvindo havia dezoito meses. Nada restava, aos sessenta e sete anos, naquele Mortimer, o Velho, do belo homem nem do grande senhor que tinha sido famoso pelos fabulosos torneios realizados no Castelo de Kenilworth e dos quais três gerações ainda falavam. Seu sobrinho em vão se esforçava por acender algumas brasas no coração daquele ancião exausto, cujas mechas brancas pendiam na penumbra.

— Aliás, minhas pernas não me sustentariam — acrescentou ele.

— Por que não as exercitais um pouco? Saí dessa cama. Além disso, eu vos carregarei, já vos disse.

— Isso! Vais carregar-me por cima das muralhas, e depois para a água, eu, que não sei nadar. Vais levar-me a cabeça ao cepo, eis tudo, e a tua também. Deus talvez esteja trabalhando na nossa libertação, e tu vais arruinar tudo com essa loucura em que te obstinas. É sempre assim: a revolta está no sangue dos Mortimer. Lembra-te do primeiro Rogério, filho do bispo e da filha do rei Herfast da Dinamarca. Batera todo o exército do rei da França sob as muralhas de seu castelo de Mortimer-en-Bray 3. Entretanto, de tal maneira ofendeu o Conquistador, nosso primo, que todas as suas terras e bens lhe foram confiscados...

Sentado no escabelo, Rogério, o Jovem, cruzou os braços, fechou os olhos e recostou-se um pouco para apoiar as costas à parede. Era preciso deixar que a invocação diária dos antepassados acabasse, era preciso ouvir pela centésima vez como Ralph, o Barbudo, filho do primeiro Rogério, havia desembarcado na Inglaterra, ao lado do duque Guilherme, e como recebera Wigmore em feudo, e por que, desde então, os Mortimer eram poderosos em quatro condados.

Do refeitório vinham as canções báquicas que os soldados vociferavam ao fim da refeição.

— Por favor, meu tio — disse Mortimer —, deixai um pouco os nossos avós. Não tenho, como vos acontece, tanta pressa assim de ir ter com eles. Sim, sei que descendemos do sangue de um rei. Mas numa prisão o sangue dos reis pouco vale. O gládio de Herfast por acaso nos irá libertar agora? Onde estão as nossas terras? Entregam-nos nossas rendas aqui neste calabouço? E quando tiver acabado de ouvir de vossos lábios os nomes de nossas avós: Hadewige, Melisanda, Matilde, a Sovina, Walcheline de Ferrers, Gladousa de Braose, serão elas as únicas mulheres com quem poderei sonhar até meu último suspiro?

O ancião ficou um momento perplexo, contemplando distraidamente sua mão inchada, de unhas desmesurada-mente longas e rachadas.

— Cada qual povoa sua prisão como pode — disse. — Os velhos com seu passado perdido, os jovens com o amanhã que não chegarão a ver. Tu imaginas ser amado por toda a Inglaterra, acreditas que toda a Inglaterra trabalha por ti, que o bispo de Orleton é teu amigo fiel, que a própria rainha movimenta-se pela tua salvação, que logo partirás para a França, para a Aquitânia, para a Provença... que sei eu! E que ao longo do teu caminho os sinos irão tocar, em repique de boas-vindas. Entretanto, verás que esta noite ninguém aparecerá aqui.

Passou os dedos sobre as pálpebras com um gesto cansado, depois virou-se para a parede.

Mortimer, o Jovem, voltou ao respiradouro, insinuou a mão entre as grades e deixou-a cair, como se estivesse morta, sobre a poeira.

"O tio agora vai dormir até a noite", pensava ele. "Depois, no derradeiro momento, resolverá. Realmente, com ele não será fácil. E não irá fazer com que tudo malogre?... Ah! aí está Eduardo."

A ave se detivera a pequena distância da mão inerte e limpava o grande bico negro contra a pata.

"Se eu te estrangular, minha fuga terá êxito. Se falhar, não conseguirei evadir-me."

Não era mais um brinquedo, era uma aposta com o destino. Para ocupar seu tempo de espera, para enganar sua ansiedade, o prisioneiro sentia necessidade de fabricar presságios e vigiava, com olho de caçador, o enorme corvo. Este, porém, como se tivesse percebido a ameaça, afastou-se.

Os homens saíam do refeitório, com a fisionomia toda iluminada. Dividiam-se em pequenos grupos, através do pátio, para os jogos, as corridas e as lutas que eram tradição de festa. Durante duas horas, com o busto nu, suavam ao sol, rivalizando em força para se imobilizarem mutuamente contra o chão, ou em habilidade para atirar clavas contra uma estaca de madeira.

Ouvia-se o condestável gritar:

— O prêmio do rei! Quem ganhará? Um xelim!4 Depois, quando o sol começava a baixar, os soldados foram lavar-se nas cisternas, e, mais ruidosos do que pela manhã, comentando suas façanhas ou suas derrotas, voltaram ao refeitório para de novo comer e beber. Quem não estivesse bêbado na noite das Cadeias de São Pedro mereceria o desprezo de seus companheiros! O prisioneiro ouvia-os atirarem-se ao vinho. A escuridão descia sobre o pátio, a sombra azulada das noites de verão. E o cheiro de lodo, vindo das valas do rio, fazia-se de novo sensível.

Subitamente, um crocitar furioso, rouco, prolongado, um desses gritos de animal que causam inquietação aos homens, rasgou o ar diante do respiradouro.

— Que é isso? — perguntou o velho lorde de Chirk do fundo da cela.

— Falhei — disse o sobrinho. — Agarrei-o pela asa, em lugar de agarrá-lo pelo pescoço.

Conservava nos dedos algumas penas pretas que contemplava tristemente à incerta luz do crepúsculo. O corvo desaparecera, e, dessa vez, não mais voltaria.

"É tolice infantil dar importância a tal coisa", dizia consigo mesmo Rogério, o Jovem. "Vamos, aproxima-se a hora." Sentia-se, entretanto, obcecado por um mau pressentimento.

Distraiu-o o estranho silêncio que há alguns instantes se estabelecera na Torre. Ruído algum se elevava do refeitório: as vozes dos bebedores se haviam extinguido em suas gargantas, e cessara o entrechocar-se de pratos e picheis. Nada mais se ouvia, a não ser um latido, algures, nos jardins, e o grito distante de um barqueiro no Tâmisa. A conspiração de Alspaye teria sido revelada, e aquele silêncio da fortaleza se deveria ao estupor que se segue à descoberta das grandes traições?

Com a testa colada às grades do respiradouro, o prisioneiro, retendo o fôlego, vigiava a sombra e os mínimos ruídos. Um arqueiro atravessou o pátio, cambaleando, foi vomitar contra uma parede, depois caiu ao chão e não mais se moveu. Mortimer distinguia o vulto imóvel sobre a relva. As primeiras estrelas já apareciam no céu. A noite seria clara.

Mais dois soldados saíram do refeitório, amparando o ventre com as mãos, e vieram desabar junto de uma árvore. Não podia ser uma bebedeira comum aquela que derrubava homens como a golpes de bastão.

Rogério Mortimer voltou ao fundo da cela, apanhou suas botas num canto, onde sabia encontrá-las, e calçou-as: deslizaram com facilidade, já que suas pernas tinham emagrecido.

— Que fazes, Rogério? — perguntou Mortimer, o Velho.

— Preparo-me, meu tio: o momento aproxima-se. Nosso amigo Alspaye parece ter feito as coisas muito bem. Dir-se-ia, mesmo, que a Torre está morta.

— É verdade que não nos trouxeram nossa segunda refeição — comentou o velho lorde em tom inquieto.

Rogério Mortimer metia as abas da camisa para dentro dos calções, afivelava o cinto em terno de sua cota de guerra. Suas vestes estavam desgastadas, amarrotadas, pois havia dezoito meses que se recusavam a fornecer-lhe outras, e ele vivia com seu traje de batalha, tal como o haviam aprisionado, quando lhe retiraram sua armadura amolgada, ferindo-lhe o lábio inferior pelo choque contra a babeira.

— Se tiveres êxito, vou ficar sozinho, e todas as vinganças cairão sobre mim — disse ainda o tio.

Havia grande parte de egoísmo na vã obstinação que o ancião pusera em jogo para levar o sobrinho a desistir do projeto de fuga.

— Ouvi, meu tio, estão vindo — disse Mortimer, o Jovem, com voz mais clara, mais autoritária. — Desta vez, levantai-vos.

Passos ressoavam sobre as lajes de pedra, aproximando-se da porta. Uma voz chamou:

— My lord!

— És tu, Alspaye? — perguntou Mortimer, o Jovem.

— Sim, my lord, mas não tenho a chave. Vosso carcereiro, em sua embriaguez, perdeu o molho, e agora, no estado em que está, nada pode informar. Procurei-o por toda parte.

Do tabique onde o tio repousava saiu um risinho sarcástico.

Mortimer, o Jovem, soltou uma blasfêmia de despeito. Alspaye estaria mentindo? Teria medo no último momento? Mas, em tal caso, por que teria vindo? Ou seria o acaso absurdo, aquele acaso que o prisioneiro tentara imaginar o dia inteiro, e que se apresentava sob aquela forma?

— Tudo está pronto, my lord, eu vos asseguro — continuava Alspaye. — O pó do bispo, que foi misturado ao vinho, deu maravilhoso resultado. Eles já estavam bem embriagados, e de nada se aperceberam. No momento, estão todos entorpecidos, como que mortos. As cordas já estão preparadas, o barco vos espera. Mas eu não tenho a chave.

— De quanto tempo dispomos?

— Só dentro de uma boa meia hora as sentinelas irão inquietar-se. Também elas festejaram, antes de assumir a guarda.

— Quem te acompanha?

— Ogle.

— Manda-o buscar uma clava, uma cunha, uma alavanca, e fazei saltar a pedra.

— Vou com ele, e volto já.

Os dois homens afastaram-se. Rogério Mortimer media o tempo pelas pancadas de seu coração. Por uma chave extraviada!... E agora bastaria que uma sentinela, sob um pretexto qualquer, abandonasse sua vigilância, para que tudo malograsse... O próprio velho lorde calava-se, e ouvia-se sua respiração ofegante no fundo da masmorra.

Logo um raio de luz filtrou-se por baixo da porta. Alspaye voltava com o barbeiro, que trazia uma vela e ferramentas. Ambos atiraram-se à pedra da parede, na qual a lingüeta da fechadura entrava em duas polegadas. Esforçavam-se para tornar surdas as pancadas, mas, ainda assim, tinham a impressão de que o eco devia repercutir em toda a Torre. Estilhaços de pedra caíam ao chão. Enfim, o bloco desmoronou e a porta abriu-se.

— Depressa, my lord — disse Alspaye.

Seu rosto rosado, que a vela iluminava, estava coberto de suor, e suas mãos tremiam.

Rogério Mortimer aproximou-se do tio e debruçou-se sobre ele.

— Não! Vai sozinho, meu rapaz — disse o ancião. — É preciso que fujas. Que Deus te proteja! E não me queiras mal por ser velho.

O Mortimer mais velho puxou seu sobrinho pela manga e lhe traçou sobre a fronte, com o polegar, o sinal-da-cruz.

— Vinga-nos, Rogério — disse ainda. Rogério Mortimer, curvando-se, saiu da cela.

— Por onde passaremos? — indagou.

— Pelas cozinhas — respondeu Alspaye.

O tenente, o barbeiro e o prisioneiro subiram alguns degraus, seguiram um corredor, atravessaram vários compartimentos escuros.

— Estás armado, Alspaye? — sussurrou de súbito Mortimer.

— Tenho a minha misericórdia *.

* Punhal com que os cavaleiros matavam o adversário vencido, se ele não pedisse mercê. (N. da T.)

 

— Há um homem ali!

Um vulto encostava-se à parede, e Mortimer fora o primeiro a distingui-lo. O barbeiro escondeu com a palma da mão a luz fraca da vela. O tenente empunhou sua adaga, e os três avançaram mais lentamente.

O homem não se mexia. Com as espáduas e os braços colados à parede, as pernas afastadas, parecia ter dificuldade em manter-se de pé.

— É Seagrave — disse o tenente.

O condestável caolho, compreendendo que o haviam narcotizado junto com seus homens, conseguira caminhar até ali e lutava contra um torpor invencível. Via seu prisioneiro evadir-se, via seu tenente que o traíra, mas som algum podia sair de sua boca, seus membros se recusavam ao movimento, e em seu único olho, sob uma pálpebra que se tornava pesada, podia ler-se a angústia da morte. O tenente deu-lhe um soco em pleno rosto; a cabeça do condestável bateu rudemente contra a pedra e seu corpo desabou para o chão.

Os três homens passaram diante da porta do grande refeitório, onde as tochas fumegavam; toda a guarnição ali estava, adormecida. Tombados sobre as mesas, derrubados sobre os bancos, estendidos no chão, roncando, com as bocas escancaradas, em posturas grotescas, parecia que um mágico havia atirado sobre os arqueiros um sono de cem anos. O mesmo espetáculo se observava nas cozinhas, iluminadas apenas pelas brasas avermelhadas sob enormes caldeirões e onde havia, suspenso no ar, um odor pesado de gordura queimada. Os vivandeiros também tinham provado o vinho da Aquitânia ao qual o barbeiro Ogle misturara a droga; e jaziam, uns sobre o balcão do açougue, outros junto da arca do pão, alguns entre as vasilhas, de barriga para o ar, braços abertos. Somente um gato se movia ali, abarrotado de carne crua, caminhando com passos prudentes entre as mesas.

— Por aqui, my lord — disse o tenente, guiando o prisioneiro para um reduto que servia ao mesmo tempo de latrina e de escoadouro de águas gordurosas.

Uma trapeira fora aberta naquele reduto, abertura única, daquele lado das paredes, que poderia dar passagem a um homem 5.

Ogle trouxe uma escada de corda que escondera numa arca e aproximou um banquinho da parede. A escada foi presa ao peitoril da trapeira. O tenente passou primeiro, depois Rogério Mortimer, depois o barbeiro. Depressa estavam os três agarrados à escada, deslizando ao longo da muralha, a trinta pés acima da água espelhada dos fossos. A lua ainda não se erguera.

— "Realmente, meu tio jamais poderia fugir desta maneira", pensou Mortimer.

Uma massa negra moveu-se junto dele com um farfalhar de penas. Era um grande corvo, que, aninhado numa seteira, tivera seu sono interrompido. Mortimer, instintivamente, estendeu a mão, tocou uma plumagem quente, encontrou o pescoço da ave, que deu um grande grito doloroso, quase humano. O fugitivo apertou a mão com todas as suas forças, torcendo o punho até sentir que os ossos estalavam sob seus dedos.

O corpo do animal caiu na água com um estalo.

— Who goes there? * — gritou imediatamente uma sentinela.

* "Quem vem lá?" Em inglês no original. (N. da T.)

 

E um capacete debruçou-se de uma das ameias, no alto da Torre do Sino.

Os três fugitivos, agarrados à escada de corda, amontoavam-se contra a muralha.

"Por que fiz aquilo?", pensava Mortimer. "Que tola tentação me incitou? Havia riscos bastantes, para que inventar novos? Nem mesmo sei se era Eduardo..."

A sentinela, porém, tranqüilizada pelo silêncio, recomeçou sua ronda, e ouviu-se o ruído de seus passos diminuir dentro da noite.

A descida continuou. A água, naquela estação, era pouco profunda nos fossos. Os três homens para ali se deixaram escorregar, desaparecendo até os ombros, e acompanharam os alicerces da fortaleza, apoiando a mão nas pedras da muralha romana. Contornaram a Torre do Sino, e depois atravessaram o fosso, amortecendo tanto quanto possível os ruídos produzidos pelos seus gestos. O talude mostrava-se lodoso e escorregadio. Os fugitivos subiram-no, rastejando sobre o ventre, ajudando-se uns aos outros, depois correram, curvados, até a margem do rio. Lá, um barco os esperava, escondido entre as ervas. Dois barqueiros estavam nos remos, e um homem, envolvido numa grande e escura capa de asperges, com a cabeça coberta por um barrete com tapa-orelhas, sentava-se à ré. Esse homem assobiou levemente três vezes. Os fugitivos saltaram para o barco.

— My lord Mortimer — disse o homem da capa de asperges, estendendo as mãos.

— My lord bishop * — respondeu o fugitivo, fazendo o mesmo gesto.

8"Senhor bispo." Em inglês no original. (N. da T.)

Seus dedos encontraram a pedra de um anel, sobre a qual ele inclinou os lábios.

— Go ahead, quickly** — ordenou o prelado aos barqueiros.

** "Continuem, depressa." Em inglês no original. (N. da T.)

E os remos mergulharam na água.

Adão Orleton, lorde-bispo de Hereford, nomeado para aquela jurisdição pelo papa, contra a vontade do rei, e chefe da oposição do clero, auxiliara a evasão do mais importante senhor do reino. Orleton tudo organizara, tudo preparara, seduzira Alspaye, convencendo-o de que ele ganharia ao mesmo tempo a fortuna e o paraíso, fornecera o narcótico que mergulhara em estupor a Torre de Londres.

— Tudo correu bem, Alspaye? — perguntou ele.

— Tão bem quanto possível, my lord — respondeu o tenente. — Quanto tempo eles vão dormir?

— Dois bons dias, sem dúvida... Aqui tenho o que prometi a cada um de vós — disse o bispo, descobrindo uma bolsa pesada, que estava sob sua capa. — E tenho para vós, my lord, o necessário para vossas despesas, pelo menos durante algumas semanas.

Nesse momento ouviu-se uma sentinela gritar:

— Sound the alarm! ***

***"Façam soar o alarma!" Em inglês no original. (N. da T.)

Mas o barco já ia distante, no rio, e todos os gritos das sentinelas não conseguiriam acordar a Torre.

— Devo-vos tudo, e, antes de mais nada, a vida — disse Mortimer ao bispo.

— Esperai estar na França — respondeu este —, e somente então podereis agradecer-me. Há cavalos à nossa espera na outra margem, em Bermondsey. Foi fretado um navio, perto de Dover, pronto a navegar.

— Partis comigo?

— Não, my lord, não tenho motivo algum para fugir. Depois que vos tiver embarcado, voltarei à minha diocese.

— Não temeis por vós mesmo, depois do que acabais de fazer?

— Sou homem da Igreja — respondeu o bispo com uma ponta de ironia. — O rei me odeia, mas não ousará tocar-me.

Aquele prelado de voz tranqüila, que tagarelava no meio do Tâmisa com a mesma calma com que teria conversado em seu palácio episcopal, era dono de singular coragem, e Mortimer admirou-o sinceramente.

Os barqueiros estavam no centro do barco: Alspaye e o barbeiro se haviam instalado na proa.

— E a rainha? — perguntou Mortimer. — Estivestes recentemente com ela? Continua sendo atormentada da mesma maneira?

— A rainha no momento está em Yorkshire, para onde viajou o rei, o que, aliás, facilitou bastante o nosso empreendimento. Vossa esposa — o bispo acentuou ligeiramente essa última palavra — mandou-me notícias um dia destes.

Mortimer sentiu-se enrubescer e deu graças à sombra que escondia seu constrangimento. Inquietara-se pela rainha antes mesmo de ter indagado dos seus e de sua própria esposa. E por que baixara ainda mais a voz para fazer aquela pergunta? Durante seus dezoito meses de prisão, tinha ele pensado em outra coisa que não fosse a rainha Isabel?

— A rainha vos quer muito bem — recomeçou o bispo. — Foi ela quem forneceu de seu bolsinho particular, dos delgados recursos que nossos bons amigos Despenser consentem em deixar-lhe, o que vos entregarei para que possais viver na França. Para tudo o mais, para Alspaye, para o barbeiro, os cavalos, o navio que vos espera, minha diocese fez as despesas.

Pousara a mão no braço do evadido.

— Mas estais encharcado! — exclamou.

— Bah! — disse Mortimer. — O ar da liberdade depressa me secará.

Levantou-se, despiu sua cota e sua camisa e ficou de pé, com o torso nu, no meio do barco. Tinha um belo e sólido corpo, ombros poderosos, dorso comprido e musculoso: o cativeiro o emagrecera, sem diminuir, entretanto, a impressão de força que sua pessoa transmitia. A lua, que acabava de surgir, iluminava-o com luz dourada e desenhava os relevos de seu peito.

— Propícia aos amorosos, funesta para os fugitivos — disse o bispo, mostrando a lua. — Era aquela a hora exata.

Rogério Mortimer sentia correr o ar da noite, carregado do odor das ervas e da água, sobre sua pele e seus cabelos molhados. O Tâmisa, liso e negro, fugia aos lados do barco, e os remos levantavam palhetas de ouro. A margem oposta aproximava-se. O grande barão das Marcas voltou-se para olhar a Torre pela última vez, alta, imensa, amparada pelas suas fortificações, suas muralhas, seus parapeitos. "Não se foge da Torre... " Era ele o primeiro prisioneiro a se evadir dali: media a importância de seu ato e o desafio que lançava ao poderio dos reis.

Atrás deles, a cidade adormecida perfilava-se na noite. Sobre as duas margens, e até a grande ponte mercante, guardada pelas suas altas torres, oscilavam lentamente, aglomerados, os numerosos mastros dos navios da Hansa de Londres, da Hansa Teutônica, da Hansa Parisiense dos Mercadores de Água, da Europa inteira, que traziam os tecidos de Bruges, o cobre, o breu, o pez, as facas, os vinhos da Saintonge e da Aquitânia, o peixe seco, e carregavam para a Flandres, para Rouen, para Bordéus, para Lisboa, o trigo, o couro, o estanho, os queijos e sobretudo a lã, a melhor lã do mundo, dos carneiros ingleses. Reconhecia-se pelo formato e pelos dourados as grandes galeras venezianas.

Rogério Mortimer de Wigmore, porém, já pensava na França. Iria, de início, pedir asilo no Artois, a seu primo João de Fiennes, filho do irmão de sua mãe... Estendeu os braços, largamente, num gesto de homem livre.

E o bispo de Orleton, que lamentava não ter nascido belo nem grande senhor, contemplava com uma espécie de inveja aquele grande corpo seguro, pronto a saltar para a sela, aquele alto torso esculpido, aquele queixo altivo, aqueles ásperos cabelos encaracolados que levariam para o exílio o destino da Inglaterra.

 

A rainha ofendida

O coxim de veludo vermelho, no qual a rainha Isabel pousava os pés esbeltos, estava esgarçado até a trama, e os pingentes dourados, nas quatro pontas, mostravam-se embaçados. As flores-de-lis da França e os leões da Inglaterra, bordados no tecido, esfiapavam-se. Para que, entretanto, mudar o coxim, encomendar outro, se o novo, mal aparecesse, iria acabar sob os sapatos bordados de pérolas de Hugo Despenser, o amante do rei? A rainha contemplava aquela velha almofada que se arrastara sobre o piso de todos os castelos do reino, uma temporada em Dorset, outra em Norfolk, o inverno no Warwick e aquele verão em Yorkshire, sem que jamais parasse mais de três dias no mesmo lugar. Menos de uma semana antes, no dia 1.° de agosto, a corte estava em Cowick; ontem, havia parado em Eserick; hoje, acampava, mais do que se instalava, no priorado de Kirkham; depois de amanhã, tornaria a partir para Lockton, para Pickering. As poucas tapeçarias empoeiradas, a baixela amolgada, os trajes sovados que constituíam o equipamento de viagem da rainha Isabel, seriam novamente empilhados nas arcas fortes. O leito de dossel seria desmontado e armado algures, aquele leito tão gasto de tanto ser transportado, que já ameaçava desabar, e onde a rainha, às vezes, fazia dormir em sua companhia sua dama de cerimônia, lady Joana Mortimer, e, às vezes, seu filho mais velho, o príncipe Eduardo, temerosa de que a assassinassem, se ficasse só. Os Despenser não ousariam, afinal, apunhalá-la sob os olhos do príncipe herdeiro... E o passeio através do reino recomeçava, com seus campos verdes e seus castelos tristes.

Eduardo II queria que seus mais humildes súditos o conhecessem: imaginava honrá-los indo ter com eles, e conquistar assim, com algumas palavras amistosas, sua fidelidade contra os escoceses ou contra o partido galés. Na verdade, mais ganharia não se mostrando tanto. Desordem frouxa acompanhava-lhe os passos. Sua leviandade ao falar dos assuntos governamentais, e que ele pensava ser atitude de soberano desapego, muito melindrava os fidalgos, abades e notáveis que lhe vinham expor os problemas locais. A intimidade que exibia com seu todo-poderoso camareiro, cuja mão acariciava em pleno conselho ou durante a missa, seus risos agudos, as liberalidades com que subitamente beneficiava um funcionário subalterno ou um jovem palafreneiro estupefato, confirmavam as narrativas escandalosas que circulavam até os confins das províncias, onde os maridos traíam suas esposas, como em toda parte, mas com mulheres. E o que se murmurava antes de sua vinda dizia-se em voz alta depois que ele passava. Bastava que aquele homem de barba loura, belo, mas de alma débil, aparecesse com a coroa na cabeça, para que todo o prestígio da majestade real desmoronasse. E os ávidos cortesãos que o rodeavam contribuíam para torná-lo odiado.

Inútil, impotente, a rainha assistia àquela decadência ambulante. Sentimentos contrários a dividiam: por um lado, sua natureza verdadeiramente regia, herdada do forte atavismo capetiano, irritava-se, indignava-se, sofria com a contínua degradação da autoridade soberana. Mas, ao mesmo tempo, a esposa lesada, ofendida, ameaçada, regozijava-se intimamente com cada novo inimigo que o rei criava. Não compreendia como outrora chegara a amar, ou esforçara-se por amar, um ser a tal ponto desprezível, e que a tratava de forma tão odiosa! Por que a obrigavam a tomar parte naquelas viagens? Por que a mostravam, rainha escarnecida, a todo o reino? O rei e seu favorito acreditavam conseguir enganar alguém, e dar à sua ligação um aspecto inocente, pelo fato de ela estar ali presente? Ou queriam conservá-la sob vigilância? Como teria preferido ficar em Londres ou em Windsor, ou mesmo num daqueles castelos, que, teoricamente, lhe haviam dado, para ali esperar uma volta da sorte, ou, simplesmente, a velhice! E como lamentava, principalmente, que Tomás de Lancastre e Rogério Mortimer, aqueles grandes barões, homens de fato, não tivessem, no ano anterior, tido êxito em sua revolta...

Levantando para o sire de Bouville, enviado da corte da França, seus admiráveis olhos azuis, a rainha disse, em voz bastante baixa:

— Há um mês presenciais minha vida, messire Hugo. Não vos peço, sequer, que conteis a meu irmão ou a meu tio de Valois as misérias de que ela se reveste. Já quatro reis se sucederam no trono da França: meu pai, o rei Filipe, que me casou pelo interesse da coroa...

— Que Deus guarde sua alma, senhora, que Deus a guarde! — disse, com convicção, mas sem elevar a voz, o gordo Bouville. — Não há homem no mundo a quem eu tenha querido mais, a quem eu tenha servido com maior alegria...

—...depois meu irmão Luís, que ficou poucos meses no trono, a seguir meu irmão Filipe, com o qual não tive senão pequena convivência, mas que não carecia de sensatez...

O rosto de Bouville enfarruscou-se, como a cada vez que diante dele se falava do rei Filipe, o Longo.

—...enfim, meu irmão Carlos, que reina atualmente — prosseguiu a rainha. — Todos foram advertidos do que comigo se passava, e não puderam ou não quiseram fazer coisa alguma. A Inglaterra só interessa aos reis da França quando se trata da Aquitânia e da homenagem que se lhes deve por aquele feudo. Uma princesa da França no trono inglês, por se tornar ao mesmo tempo duquesa da Aquitânia, é para eles um penhor de paz. E se a Guyenne está calma, pouco lhes importa que sua filha ou sua irmã, do outro lado do mar, morra de vergonha e de abandono. Dizer-lhes isso, ou nada dizer-lhes, vem a dar no mesmo. Mas os dias que passastes junto a mim foram-me doces, pois pude falar diante de um amigo. E vistes quão poucos amigos tenho. Sem minha querida lady Joana, que compartilha com grande constância da minha infelicidade, eu não teria sequer um amigo.

A fim de pronunciar essas últimas palavras, a rainha se havia voltado para sua dama de cerimônia, que estava sentada a seu lado. Joana Mortimer, sobrinha-neta do famoso senescal de Joinville, era uma mulher grande, de trinta e sete anos, dona de traços regulares, rosto aberto, mãos bem-feitas.

— Senhora — respondeu lady Joana —, fazeis mais para manter a minha coragem do que eu para aumentar a vossa. E arriscastes muitíssimo a conservar-me ao vosso lado desde que meu esposo foi para o cárcere.

Os três interlocutores continuaram a conversar a meia voz, pois o sussurro, a conversa em apartes, se haviam tornado hábito necessário naquela corte, onde nunca se podia estar a sós e onde a rainha vivia rodeada de malevolência.

Naquele momento, três camareiras, a um canto do aposento, bordavam uma colcha destinada a lady Leonor Despenser, a esposa do favorito, que, junto de uma janela aberta, jogava xadrez com o príncipe herdeiro. Um pouco mais distante, o segundo filho da rainha, que havia três semanas completara sete anos, fazia um arco com um ramo de ave-leira, e as duas meninazinhas, Isabel e Leonor, de cinco e de dois anos, sentadas no chão, divertiam-se com suas bonecas de trapo.

Manejando as peças de xadrez sobre o tabuleiro de marfim, a Despenser não cessava de observar disfarçada-mente a rainha e esforçava-se por apanhar-lhe as palavras. Dona de uma testa lisa, mas espantosamente estreita, olhos ardentes e próximos, lábio irônico, aquela mulher, sem ser propriamente desgraciosa, estava marcada pela fealdade que vem de uma alma perversa. Descendente da família de Clare, tivera carreira bastante estranha, pois que, cunhada do antigo amante do rei — o cavaleiro de Gaveston, a quem os barões dirigidos por Tomás de Lancastre haviam executado onze anos antes —, era a esposa do amante atual. Encontrava prazer mórbido em servir àqueles amores masculinos para satisfazer seus apetites de dinheiro, assim como suas ambições de poder. Além disso, era tola: perdia sua partida de xadrez apenas para exclamar, em tom de provocação:

— Xeque à rainha... xeque à rainha!

O príncipe herdeiro, Eduardo, menino de onze anos, de rosto fino e comprido e temperamento mais sigiloso do que tímido, o que o fazia conservar quase sempre os olhos abaixados, aproveitava-se das menores faltas de sua adversária e aplicava-se em conseguir a vitória.

A brisa de agosto enviava pela janela estreita, de moldura arredondada, baforadas de poeira quente, mas, assim que o sol desaparecesse, uma friagem úmida instalar-se-ia de novo entre as paredes espessas e sombrias do velho priorado de Kirkham.

Ruídos de numerosas vozes vinham da grande sala onde o rei realizava seu conselho ambulante.

— Senhora — continuava o conde de Bouville —, eu vos consagraria prazerosamente todos os dias que me restam viver, se eles, de alguma forma, vos pudessem ser úteis. Teria satisfação nisso, asseguro-vos. Que me resta a fazer neste mundo vil, depois que enviuvei e que meus filhos têm suas posições asseguradas, senão empregar minhas últimas forças a serviço dos descendentes do rei que foi meu benfeitor? E é junto de vós, senhora, que me encontro mais junto dele. Tendes toda a sua força de alma e sua maneira de falar, quando ele a isso se dispunha. E toda a sua beleza, inacessível ao tempo. Quando a morte o feriu, aos quarenta e seis anos, mal parecia ter mais de trinta. Vós assim sereis. Quem diria que tivestes esses quatro filhos...

Um sorriso iluminou os traços da rainha. Era-lhe doce, envolvida em tantos ódios, ver um devotamento se lhe oferecer assim. Era-lhe doce, humilhada como se sentia em seus sentimentos de mulher, ouvir louvores à sua beleza, embora tal cumprimento viesse de um homem gordo, de cabelos inteiramente brancos e olhos de velho cão fiel.

— Já tenho trinta e um anos — respondeu ela —, dos quais quinze se passaram da forma que vedes. Talvez isso não fique registrado no rosto, mas é a alma que leva as rugas... Também eu, Bouville, prazerosamente vos conservaria ao meu lado, se fosse possível.

— Ai de mim, senhora! Vejo que minha missão chega ao fim sem grande êxito. O rei Eduardo já por duas vezes me deu a compreender isso, mostrando-se surpreso, já que tinha entregue o lombardo ao Parlamento do rei da França, de que eu ainda aqui estivesse.

Pois o pretexto oficial para a embaixada de Bouville fora o pedido de extradição de certo Tomás Henry, membro da importante companhia dos Scali, de Florença. Esse banqueiro, tendo arrendado certas terras da coroa da França, recebera delas rendas consideráveis sem pagar ao Tesouro o que devia. Finalmente, refugiara-se na Inglaterra. O caso era sério, evidentemente, mas podia ter sido muito bem resolvido através de cartas, ou pelo envio de um referendário, sem exigir a viagem de um antigo grande camareiro que tinha assento no Conselho Restrito. Na verdade, Bouville fora encarregado de reatar outra negociação, mais difícil.

Monseigneur Carlos de Valois, tio do rei da França e da rainha Isabel, resolvera, no ano precedente, casar sua quinta filha, Maria, com o príncipe Eduardo, herdeiro da Inglaterra. Monseigneur de Valois — quem, pois, o podia ignorar, na Europa? — tinha sete filhas, cujo casamento sempre havia sido objeto de graves preocupações para aquele príncipe turbulento, ambicioso e pródigo, que utilizava sua progenitura a serviço de vastas intrigas. Suas sete filhas vinham de três casamentos diferentes, pois monseigneur Carlos, no curso de sua agitada existência, tivera o infortúnio de ficar viúvo duas vezes.

Seria necessário ter cérebro muito lúcido para não se perder na confusão daquela descendência, e saber, por exemplo, quando se falava da senhora Joana de Valois, se a referência era à condessa de Hainaut ou à condessa de Beaumont, quer dizer, à mulher de Roberto d'Artois. Porque as duas filhas, para ajudar mais a confusão, tinham o mesmo nome. Quanto a Catarina, herdeira do trono fantasma de Constantinopla, e que era do segundo leito, casara-se com um irmão mais velho da primeira esposa de seu pai, na pessoa de Filipe de Tarento, príncipe de Acaia. Um verdadeiro quebra-cabeça!

No momento, era a primogênita de seu terceiro casamento que monseigneur Carlos propunha ao sobrinho-neto da Inglaterra.

No início do ano, monseigneur de Valois enviara uma missão composta do conde Henrique de Sully, Raul Sevain de Jouy e Roberto Bertrand, chamado "o Cavaleiro do Leão Verde". Esses embaixadores, para tornarem favorável o rei Eduardo II, acompanharam-no em expedição contra os escoceses: eis, porém, que na Batalha de Blackmore os ingleses foram obrigados a fugir, deixando os embaixadores franceses nas mãos do inimigo. Fora preciso negociar a liberdade deles, pagar seu resgate. Quando, finalmente, depois de tantas e tão desagradáveis aventuras, viram-se em liberdade, Eduardo lhes respondeu, de maneira dilatória, evasiva, que o casamento de seu filho não podia ser resolvido assim tão depressa, que a questão era demasiado importante para que ele a decidisse sem a assistência de seu Parlamento. Aliás, o Parlamento reunir-se-ia em julho para discutir o fato. Queria ligar aquele caso à homenagem que devia prestar ao rei da França pelo ducado de Aquitânia... Depois, o Parlamento, convocado, nem mesmo se ocupara da questão 6.

Por isso, monseigneur de Valois, impaciente, enviara, com o primeiro pretexto que encontrara, o conde de Bouville, cujo devotamento à família capetiana de forma alguma podia ser posto em dúvida, e que, à falta de gênio, tinha boa experiência de missões daquele tipo. Outrora, em Nápoles, Bouville negociara, e já sob as instruções de Valois, o segundo casamento de Luís X com Clemência da Hungria. Fora curador do ventre daquela rainha depois da morte do Turbulento, mas não gostava de falar nesse período. Realizara, igualmente, várias negociações em Avignon, junto à Santa Sé. E sua memória era infalível quanto a tudo o que dissesse respeito aos liames familiares, aos entrelaçamentos infinitamente complicados que formavam a rede de alianças das casas reais. O bom Bouville sentia-se bastante indignado por voltar, dessa vez, de mãos vazias.

— Monseigneur de Valois — disse ele — ficará grandemente enfurecido, pois já pedira dispensa ao Santo Padre para esse casamento.

— Fiz o que pude, Bouville — respondeu a rainha —, e podeis avaliar por isso a importância que me dão... Mas isso eu lamento menos do que vós: não desejo que nenhuma outra princesa da minha família passe o que aqui vim passar.

— Senhora — respondeu Bouville, baixando mais a voz —, desconfiais que vosso filho... ? Ele parece ter mais de vós do que de seu pai, graças ao céu!... Eu vos revejo, nessa idade, no jardim do Palácio da Cite, ou em Fontainebleau...

O homem foi interrompido. A porta se abrira para dar passagem ao rei da Inglaterra, que entrou apressadamente, com a cabeça atirada para trás, acariciando sua barba loura com gesto nervoso, o que nele era sinal de irritação. Seus conselheiros habituais seguiam-no, isto é, os dois Despenser, pai e filho, o chanceler Baldock, o conde d'Arundel e o bispo de Exeter. Os dois meios irmãos do rei, condes de Kent e Norfolk, jovens que tinham sangue da casa de França, pois sua mãe era a própria irmã de Filipe, o Belo, faziam parte daquele séquito, mas como que a contragosto. O mesmo se dava com Henrique de Leicester, espadaúdo, de grandes olhos claros à flor do rosto, apelidado o Pescoço-Torto por causa de uma deformidade da nuca e dos ombros que o obrigava a trazer o rosto inteiramente inclinado e causava aos armeiros todas as dificuldades na confecção de suas couraças. Viam-se ainda, aglomerando-se à entrada, alguns eclesiásticos e dignitários locais.

— Sabeis da novidade, senhora? — exclamou o rei Eduardo, dirigindo-se à rainha. — Com certeza ela vai alegrar-vos. Vosso Mortimer evadiu-se da Torre.

Lady Despenser sobressaltou-se diante do tabuleiro e soltou uma exclamação indignada, como se a fuga do barão de Wigmore fosse para ela um insulto de ordem pessoal.

A rainha Isabel não se movera, não mudara nem de atitude nem de expressão: suas pálpebras apenas bateram um pouco mais rapidamente diante de seus lindos olhos azuis, e sua mão procurou, furtivamente, ao longo dos pregueados do vestido, a mão de lady Joana Mortimer, como para, exortá-la a ter calma e força. O gordo Bouville se levantara e mantinha-se afastado, sentindo-se demais num caso que se referia unicamente à coroa inglesa.

— Não se trata de meu Mortimer, sire — respondeu a rainha. — Lorde Mortimer é mais vosso súdito, eu o creio, do que meu, e eu não me responsabilizo pelos atos de vossos barões. Vós o tínheis prendido, e ele procurou evadir-se: é a lei comum.

— Ah! Demonstrais cabalmente quanto o aprovais. Mas deixai que vossa alegria se manifeste, senhora! No tempo em que Mortimer se dignava comparecer à minha corte, não tínheis olhos senão para ele, não cessáveis de gabar-lhe os méritos. E todas as suas felonias em relação a mim eram levadas por vós à conta de sua nobreza de alma.

— Mas não fostes vós mesmo, sire meu esposo, que me ensinastes a amá-lo, quando ele conquistava, com perigo de sua vida, e em vosso lugar, o reino da Irlanda... que, aliás, muito vos custa manter sem ele? Isso era felonia? 7

Embaraçado um instante por aquele ataque, Eduardo lançou à mulher um olhar maldoso e não soube senão responder:

— Pois bem, no momento ele corre, o vosso amigo, para o vosso país, sem dúvida alguma!

Enquanto falava, o rei caminhava através do aposento, para dar vazão à inútil agitação. As jóias presas às suas vestes estremeciam a cada um de seus passos, e os presentes viravam a cabeça para a direita e para a esquerda, como num jogo de pela, para acompanhar-lhe os movimentos. Era um belo homem, certamente, aquele rei Eduardo: musculoso, circunspecto, flexível, e cujo corpo, mantido pelos exercícios e jogos, resistia à adiposidade dos quarenta anos já próximos; uma constituição de atleta. Mas, observando-o com a maior atenção, impressionava notar a falta de rugas na testa, como se as preocupações do poder ali não se tivessem podido registrar, as bolsas que começavam a formar-se sob seus olhos, o desenho desmanchado das narinas, a forma alongada do queixo sob a barba leve e frisada, não um queixo enérgico, autoritário, nem mesmo verdadeiramente sensual, apenas um queixo grande demais, excessivamente caído. Havia vinte vezes mais vontade no queixinho da rainha do que naquela mandíbula ovóide, cuja fraqueza a barba sedosa não chegava a disfarçar. A mão que ele deslizava sobre o rosto era mole, agitava-se no ar sem razão, voltava a puxar uma pérola cosida entre os bordados da cota que usava. A voz, que queria ser, que acreditava ser imperiosa, não dava senão a impressão de controle. As costas — largas, entretanto — tinham ondulações desagradáveis, que iam da nuca aos rins, como se a espinha dorsal não oferecesse consistência. Eduardo não perdoava à sua esposa o fato de lhe ter um dia aconselhado a não se oferecer de costas aos olhares, se quisesse inspirar respeito aos seus barões. O joelho era bem-feito, a perna, bonita: era mesmo o que possuía de melhor aquele homem tão pouco feito para seu cargo e sobre o qual uma coroa tombara por verdadeiro descuido da sorte.

— Já não tenho bastantes aflições, bastantes tormentos? — continuava ele. — Os escoceses ameaçam incessantemente minhas fronteiras, invadem meu reino, e, quando eu os enfrento em batalhas, meus exércitos fogem. E como poderia vencê-los, quando meus bispos entendem-se com eles, sem meu consentimento, quando tenho tantos traidores entre meus vassalos, e quando meus barões das Marcas erguem suas tropas contra mim, apoiando-se sempre no princípio de que devem suas terras apenas a suas espadas, quando há muito tempo, há vinte e cinco anos, é disso que esquecem, o caso foi julgado e regulamentado de outra forma pelo rei Eduardo, meu pai! Mas em Shrewsbury, em Boroughbridge, viram bem quanto custava rebelar-se contra mim, não foi mesmo, Leicester?

Henrique Leicester sacudiu a cabeçorra doente: aquela era uma forma pouco cortês de recordar-lhe a morte de seu irmão Tomás de Lancastre, decapitado havia dezesseis meses, ao mesmo tempo em que vinte fidalgos eram enforcados e outros tantos aprisionados.

— Viu-se, com efeito, sire meu esposo, que as únicas batalhas que podeis ganhar são as que travais contra vossos próprios barões — disse Isabel.

De novo Eduardo lançou-lhe um olhar de ódio. "Que coragem!", pensava Bouville. "Que coragem a desta nobre rainha!"

— E não é inteiramente justo dizer que eles se opuseram a vós pelo direito de sua espada. Foi, antes, pelos direitos do condado de Gloucester, que quisestes entregar a messire Hugo!

Os dois Despenser aproximaram-se um do outro, como para formar uma frente. Lady Despenser, a jovem, ergueu-se diante do tabuleiro de xadrez: ela era filha do falecido conde de Gloucester. Eduardo II bateu com o pé no piso de lajedo. A rainha estava irritante demais, afinal; abria a boca apenas para lhe apontar seus erros e as faltas de seu governo! 8

— Entrego os grandes feudos a quem quero entregar, senhora, entrego-os a quem me ama e a quem me serve — exclamou Eduardo, pousando a mão no ombro de Hugo, o Jovem. — Sobre quem mais me poderia apoiar? Onde estão os meus aliados? Vosso irmão da França, senhora, que deveria comportar-se como um dos meus aliados, pois que, afinal, foi com essa esperança que me levaram a tomar-vos como esposa, que socorro me traz? Ele requisita de mim a homenagem pela Aquitânia, eis todo o seu apoio. E onde me envia ele sua notificação? Para Guyenne? Nada disso! É para cá, para o meu reino, que a manda trazer, como se tivesse desprezo por todos os costumes feudais ou quisesse ofender-me. Não é de acreditar que ele se toma também por suserano da Inglaterra? De início, prestei-lhe a homenagem, e até demais. Uma primeira vez a vosso pai, quando quase fiquei assado no incêndio de Maubuisson, e depois a vosso irmão Filipe, há três anos atrás, quando fui a Amiens. Com a freqüência, senhora, com que morrem os reis de vossa família, seria preciso, bem depressa, que eu me instalasse no continente!

Os fidalgos, bispos e notáveis de Yorkshire, ao fundo do aposento, entreolhavam-se, nada assustados, mas consternados com aquela cólera sem força que se extraviava para tão longe de seu objeto e descobria para eles, ao mesmo tempo, as dificuldades do reino e o caráter do rei. Era então aquele o soberano que lhes pedia subsídios para seu Tesouro, ao qual deviam obediência em todas as coisas, mesmo para aventurar sua vida quando ele os chamava aos seus combates? Lorde Mortimer devia ter tido boas razões para rebelar-se...

Os próprios conselheiros íntimos pareciam constrangidos, embora conhecessem aquele hábito do rei, que aparecia mesmo na sua correspondência, de refazer a conta de todos os contratempos de seu reinado a cada vez que novo aborrecimento surgia.

O chanceler Baldock esfregava o pomo-de-adão, maquinalmente, no ponto em que se detinha seu traje de arcediago. O bispo de Exeter, lorde-tesoureiro, roía a unha do polegar com pequenas dentadas e observava seus vizinhos com olhar sorrateiro. Apenas Hugo Despenser, o Jovem, demasiado enfeitado, demasiado perfumado, com o cabelo excessivamente frisado para um homem de trinta e três anos, exibia satisfação. A mão do rei, pousada em seu ombro, mostrava bem a todos sua importância e seu poderio.

Com o nariz curto e arqueado, os lábios de recorte pronunciado, baixando e levantando o queixo como um cavalo impaciente, aprovava cada declaração de Eduardo com um pequeno pigarro, e seu rosto parecia dizer: "Desta vez, a taça está transbordando e vamos tomar severas medidas!" Era magro, de alta estatura, busto bastante estreito, e tinha pele ruim, sujeita a inflamações.

— Messire de Bouville — disse de repente o rei Eduardo, voltando-se para o embaixador —, respondereis a monseigneur de Valois que o casamento que nos propôs, e cuja honra apreciamos, decididamente não se fará. Temos outras intenções para o nosso primogênito. Assim, terminaremos com o deplorável costume que deseja ver os reis da Inglaterra tomarem esposas na França, sem que disso jamais decorra para eles benefício algum.

O gordo Bouville empalideceu sob a afronta e inclinou-se. Dirigindo à rainha um olhar desolado, retirou-se.

Primeira conseqüência, e bem imprevista, da evasão de Rogério Mortimer: o rei da Inglaterra rompia com as alianças tradicionais. Quisera, com aquela saída, ofender sua esposa, mas tinha, ao mesmo tempo, ofendido seus meios irmãos Norfolk e Kent, cuja mãe era francesa. Os dois jovens voltaram-se para o primo Pescoço-Torto, que ergueu um bocadinho seu ombro enorme, num movimento de resignada indiferença. O rei acabava, sem reflexão, de afastar para sempre o poderoso conde de Valois, que todos sabiam estar governando a França em nome de seu sobrinho Carlos, o Belo. Os reis, às vezes, perdem o trono e a vida por terem cedido a essa espécie de estouvamento...

O jovem príncipe Eduardo, sempre perto da janela, imóvel e silencioso, observava sua mãe, julgava seu pai. Era de seu casamento, afinal, que se tratava, e em tal coisa ele não devia intervir. Mas, se lhe tivessem pedido que demonstrasse suas preferências entre seu sangue inglês e francês, ele se teria inclinado para o último.

As três crianças menores tinham deixado de brincar: a rainha fez sinal às camareiras para que as levassem dali.

Depois, muito calmamente, com os olhos nos olhos do rei, disse:

— Quando um esposo odeia sua esposa, é natural que a julgue responsável por tudo.

Eduardo não era homem de responder de frente.

— Toda a minha guarda da Torre embriagada de morte — exclamou ele —, o tenente fugido com aquele traidor, e meu condestável gravemente doente por causa da droga que lhe deram a beber! A menos que não esteja fingindo de doente, o traidor, para evitar o castigo que merece! Porque a ele competia vigiar para que meu prisioneiro não se evadisse, entendeis, Winchester?

Hugo Despenser, o pai, que era o responsável pela nomeação do condestável Seagrave, curvou-se, deixando passar o temporal. Tinha o espinhaço estreito e magro, com uma curva em parte natural, em parte adquirida numa longa carreira de cortesão. Seus inimigos lhe haviam dado o apelido de "doninha". A cupidez, a inveja, a covardia, o egoísmo, a velhacaria, e além disso todos os deleites que os vícios outorgam a quem os possui, pareciam haver-se alojado nas rugas de seu rosto e sob suas pálpebras avermelhadas. Entretanto, não lhe faltava coragem. Só tinha sentimento humano, porém, no que se referia a seu filho e a alguns raros amigos, um dos quais era, precisamente, Seagrave. Compreendia-se melhor a natureza do filho quando se observava, por um momento, o pai.

— My lord — disse ele, com voz calma —, estou certo de que Seagrave não tem culpa alguma...

— É culpado de negligência e preguiça. É culpado de se ter deixado iludir. É culpado de não ter adivinhado a conspiração que se tramava sob seu nariz. É culpado de má sorte, talvez... Não perdôo a má sorte. Embora Seagrave esteja entre vossos protegidos, Winchester, ele será castigado: não se dirá que eu não igualo os pratos da balança e que meus favores dirigem-se apenas às vossas criaturas. Seagrave ficará no lugar de Mortimer, na prisão. Assim, seus sucessores tratarão de guardá-lo melhor. Eis, meu filho, como se governa — acrescentou o rei, detendo-se diante do herdeiro do trono.

O menino levantou os olhos para ele e baixou-os imediatamente.

Hugo, o Jovem, que sabia como desviar as cóleras de Eduardo, atirou a cabeça para trás e disse, olhando as traves do forro:

— Quem de vós muito zomba, caro sire, é o outro traidor, aquele bispo de Orleton, que tudo arranjou com suas próprias mãos e parece temer-vos tão pouco que nem mesmo se deu ao trabalho de fugir ou esconder-se.

Eduardo olhou para Hugo, o Jovem, com reconhecimento e admiração. Como seria possível deixar de se sentir comovido com aquele perfil, com as belas posturas que Hugo assumia ao falar, com aquela voz alta, bem modulada, e, depois, com aquela maneira a um tempo terna e respeitosa de dizer "Caro sire", à francesa, como outrora o gentil Gaveston, que os barões e bispos haviam matado... Agora, porém, Eduardo era homem maduro, alerta para a perversidade dos outros homens, sabendo que nada se ganha com transigência. Não o separariam de Hugo, e todos quantos se lhe quisessem opor seriam atingidos, por sua vez, impiedosamente.

— Eu vos declaro, meus lordes, que o bispo de Orleton será citado perante meu Parlamento para ali ser julgado e condenado.

Eduardo cruzou os braços e levantou a fronte, a fim de constatar o efeito de suas palavras. O arcediago-chanceler e o bispo-tesoureiro, embora fossem os piores inimigos de Orleton, tinham tido um sobressalto, por solidariedade de gente da Igreja.

Henrique Pescoço-Torto, homem sensato e ponderado por natureza, não podendo fugir ao desejo de colocar o rei no caminho da razão, observou, calmamente, que um bispo não devia ser citado senão diante de jurisdição eclesiástica constituída de pares seus.

— Para todas as coisas, é preciso um começo, Leicester. A conspiração contra os reis não é, que eu saiba, ensinada pelos Santos Evangelhos. Já que Orleton esquece o que é preciso dar a César, é necessário que César o recorde disso. Eis outra das mercês que devo à vossa família, senhora — continuou o rei, dirigindo-se a Isabel —, pois que foi vosso irmão Filipe quem fez nomear pelo seu papa francês, e contra a minha vontade, esse Adão Orleton como bispo de Hereford. Seja! Será ele o primeiro prelado que a justiça real condenará, e seu castigo deve ser um exemplo.

— Orleton não vos era hostil outrora, meu primo — insistiu Pescoço-Torto —, e não teria razão alguma para tornar-se hostil se não tivésseis feito oposição, ou se vosso conselho não se tivesse oposto a que o Santo Padre lhe desse a mitra. É homem de grande saber e alma forte. Talvez pudésseis hoje, justamente por ser ele culpado, ligá-lo a vós mais facilmente por um ato de mansuetude do que por uma ação de justiça, que vai, entre os vossos embaraços, trazer como acréscimo uma grande irritação do clero.

— Mansuetude, clemência! Cada vez que zombam de mim, cada vez que me provocam, cada vez que me traem, não tendes senão essas palavras na boca, Leicester! Suplicaram-me, e eu cometi o erro de atender a essas opiniões, que fizesse graça ao barão de Wigmore! Confessai que, se eu o tivesse tratado como tratei vosso irmão, esse rebelde não estaria hoje correndo pelos caminhos.

Pescoço-Torto levantou seu ombro enorme, fechou os olhos e fez um muxoxo cansado. Quanto era irritante, em Eduardo, aquele hábito, que ele acreditava régio, de chamar seus principais conselheiros pelos nomes de seus condados, e de se dirigir a seu primo irmão chamando-o "Leicester" em lugar de dizer, simplesmente, "meu primo", como todo mundo, como a própria rainha fazia! E aquele mau gosto de recordar, a cada ocasião, a morte de Tomás, como se disso tirasse glória! Ah! O estranho homem e mau rei imaginava ser possível decapitar seus parentes próximos sem que os demais guardassem ressentimento, acreditava ser suficiente uma embaixada para apagar um luto, exigia devotamento daqueles a quem tinha lesado, e queria encontrar em cada um fidelidade, quando ele próprio não era senão cruel inconseqüência!

— Tendes razão, sem dúvida, my lord — disse Pescoço-Torto —, e, já que reinais há dezesseis anos, deveis saber acomodar vossos atos. Citai, pois, vosso bispo diante de vosso Parlamento. Eu não obstarei a tanto.

E acrescentou entre dentes, para ser ouvido apenas pelo jovem conde de Norfolk:

— Minha cabeça é torta, sim, mas faço questão de conservá-la onde se acha.

— Porque é zombar de mim, convireis — continuava Eduardo, chicoteando o ar com a mão —, isso de evadir-se furando as paredes de uma torre que eu mesmo mandei construir para que dali ninguém se evadisse.

— Talvez, sire meu esposo — disse a rainha —, estivésseis mais ocupado, quando a construístes, com a gentileza dos pedreiros do que com a solidez da pedra.

O silêncio tombou de chofre sobre os presentes. O ultraje era de vulto, e muito imprevisto. Cada qual retinha o fôlego e contemplava, uns com deferência, outros com ódio, aquela mulher de formas bastante frágeis, ereta em sua cadeira, sozinha, e que o enfrentava daquela maneira.

Com os lábios um pouco afastados, a boca entreaberta, ela descobria seus dentes finos, apertados uns contra os outros, pequenos dentes de animal carnívoro, bem afiados. Isabel estava visivelmente satisfeita, fossem quais fossem as conseqüências, com o golpe que acabava de assestar.

Hugo, o Jovem, ficara rubro, e Hugo, o pai, fingia nada ter ouvido.

Eduardo vingar-se-ia, certamente: mas de que maneira? A resposta estava demorando a vir. A rainha observava as gotículas de suor que surgiam nas têmporas de seu marido. Nada repugna mais uma mulher do que o suor de um homem que ela deixou de amar.

— Kent — exclamou o rei — , eu vos fiz guardião das Cinco-Portas e governador de Dover. Que estais guardando neste momento? Por que não vos encontrais na costa que tendes de comandar e nas quais nosso traidor deve estar tentando conseguir embarque?

— Sire meu irmão — disse o jovem conde de Kent, inteiramente estupefato —, vós me destes ordem para acompanhar-vos na vossa viagem...

— Pois bem, agora vos dou outra ordem, que é a de irdes para o vosso condado, mandar bater os burgos e os campos à procura do fugitivo, e zelar em pessoa para que visitem todas as embarcações que estejam nos portos.

— Que se coloquem espiões a bordo de todos os navios e que seja preso o dito Mortimer, vivo ou morto, se vier a subir para algum deles — disse Hugo, o Jovem.

— Muito bem aconselhado, Gloucester — aprovou Eduardo. — Quanto a vós, Stapledon...

O bispo de Exeter tirou o polegar dos dentes e murmurou:

— My lord.

— Voltareis imediatamente para Londres. Ireis à Torre com o pretexto de ali verificar o Tesouro, que é coisa de vosso encargo, e munido de uma licença timbrada com meu sinete, tomareis a Torre sob vosso comando e vigilância até que novo condestável seja nomeado. Baldock estabelecerá agora mesmo, para um e para outro, as comissões que vos farão obedecido.

Henrique Pescoço-Torto, com os olhos voltados para a janela e a orelha contra o ombro, parecia sonhar. Calculava... Calculava que seis dias se haviam passado depois da evasão de Mortimer9, que seriam necessários oito, pelo menos, para que as ordens começassem a entrar em execução, e que, a não ser que fosse um idiota, o que, naturalmente, não era o caso de Mortimer, o fugitivo já teria, com toda a certeza, deixado o reino. Felicitava-se, também, por ter-se solidarizado com a maioria dos bispos e dos fidalgos que, após Boroughbridge, tinham tido a vida salva pelo barão de Wigmore. Porque, agora que aquele se evadira, a oposição aos Despenser talvez tivesse de novo o chefe que lhe faltava desde a morte de Tomás de Lancastre, um chefe mais eficiente, mais hábil, mais forte do que tinha sido Tomás...

O dorso real ondulou; Eduardo girou sobre os calcanhares para encarar a esposa.

— Pois bem, é isso mesmo, senhora! Eu vos tenho justamente como responsável. E, além disso, largai essa mão que não cessais de segurar desde que entrei aqui! Deixai a mão de lady Joana! — gritou Eduardo, batendo o pé no chão. — Colocar tamanha obstinação em conservar junto de si a esposa de um traidor é fornecer-lhe fiança. Os que ajudaram Mortimer em sua fuga pensaram bem que teriam a aprovação da rainha... E depois, ninguém foge sem dinheiro; as traições são pagas, as paredes furam-se com ouro. Da rainha à sua dama de cerimônia, da dama de cerimônia ao bispo, do bispo ao rebelde, o caminho é fácil. Será preciso que eu verifique mais de perto vossa caixa particular.

— Sire meu esposo, acredito que minha caixa particular é bastante bem controlada — disse Isabel, designando lady Despenser.

Hugo, o Jovem, pareceu, de repente, desinteressar-se do debate. Enfim, a cólera do rei voltava-se, como de costume, contra a rainha. Eduardo tinha, certamente, encontrado sua vingança, e Hugo sentia-se um pouco mais triunfante. Tomou um livro que ali estava e que lady Mortimer lia para a rainha quando da entrada do conde de Bouville. Era uma coletânea de estâncias de Maria de França, e o marcador de seda assinalava esta passagem:

"Nem na Lorena nem na Borgonha Nem em Anjou nem na Gasconha Naquele tempo se podia encontrar Tão bom e tão grande cavaleiro. Sob o céu não havia dama ou donzela, Por muito nobre e por muito bela, Que não quisesse ter seu amor..." 10

"A França, sempre a França... Elas só lêem o que se refere àquele país", dizia Hugo consigo mesmo. "E, em seus pensamentos, qual é o cavaleiro com que sonham? Mortimer, sem dúvida... "

— My lord, eu não vigio as esmolas — disse Leonor Despenser.

O favorito levantou os olhos e sorriu. Felicitaria a esposa por aquela saída.

— Vejo, então, que terei de renunciar às esmolas também — disse Isabel. — Brevemente, nada mais me restará de uma rainha, nem mesmo a caridade.

— E será preciso também, senhora, pelo amor que me tendes, de que todos são testemunhas — continuou Eduardo —, que vos separeis de lady Mortimer, pois ninguém mais neste reino compreenderá que ela possa continuar ao vosso lado daqui por diante.

Dessa vez, a rainha empalideceu e se abateu um tanto sobre sua cadeira. As grandes e bem-feitas mãos de lady Joana começaram a tremer.

— Uma esposa, Eduardo, não pode ser chamada a compartilhar de todos os atos de seu marido. Eu sou bem um exemplo disso. Acreditai que lady Joana está tão pouco associada às culpas de seu marido quanto eu própria o estou aos vossos pecados, se vos acontece cometê-los!

Mas dessa vez o ataque não deu resultado.

— Lady Joana irá para o Castelo de Wigmore, que ficará daqui por diante sob a vigilância de meu irmão Kent, e isso até que eu resolva o uso que farei dos bens de um homem cujo nome não mais será pronunciado diante de mim, a não ser para a sua sentença de morte. Penso, lady Joana, que dareis preferência a seguir para a vossa residência espontaneamente, sem que seja preciso empregar a força.

— Bem — disse Isabel —, vejo que me quereis deixar inteiramente só.

— Como falais de solidão, senhora! — disse Hugo, o Jovem, com sua bela voz modulada. — Não somos todos vossos amigos devotados, já que o somos do rei? E lady Leonor, minha devotada esposa, não vos é fiel companhia? Eis um bonito livro que aqui possuis — acrescentou ele, mostrando o volume —, e lindamente iluminado. Faríeis o favor de emprestar-mo?

— Mas com certeza, com certeza, a rainha vo-lo empresta! — disse o rei. — Não é verdade, senhora, que será um prazer para vós emprestar esse livro ao nosso amigo Gloucester?

— Com satisfação, sire meu esposo, com satisfação. E sei, quando se trata de vosso amigo lorde Despenser, o que quer dizer emprestar. Há dez anos que eu lhe emprestei também as minhas pérolas, e bem podeis ver que ele ainda as traz no pescoço!

Ela não se desarmava, mas seu coração batia fortemente de encontro ao peito. Ia ficar sozinha, dali por diante, para suportar diariamente as ofensas. Se um dia chegasse a vingar-se, nada esqueceria.

Hugo, o Jovem, pousou o livro sobre uma arca e fez sinal de cumplicidade à sua esposa. As estâncias de Maria de França iriam reunir-se à fivela de ouro com leões de pedrarias, às três coroas de ouro, às quatro coroas enriquecidas com rubis e esmeraldas, às cento e vinte colheres de prata, aos trinta pratos grandes, aos dez cálices de ouro, à guarnição de quarto em tecido de ouro com losangos, ao carro para seis cavalos, à roupa de casa, às vasilhas de prata, aos arreios, aos ornamentos da capela, a todas as coisas maravilhosas com que seu pai e seus parentes próximos haviam formado seu enxoval de núpcias, do qual o bom Bouville redigira o inventário antes que ela partisse para a Inglaterra. Tudo aquilo passara para as mãos dos amantes de Eduardo, primeiro Gaveston, depois Despenser. Até a grande capa de tecido de lã da Turquia, toda bordada, e que ela usara no dia de seu casamento, lhe tinha sido arrebatada!

— Vamos, meus lordes — disse o rei, batendo as mãos —, que todos se apressem a assumir as funções que lhes dei e que cada um cumpra o seu dever.

Era a expressão habitual, uma fórmula que ele acreditava regia, e com a qual marcava o fim de seus conselhos. Saiu, e todos o seguiram, deixando vazio o aposento.

A sombra começava a descer sobre o claustro do priorado de Kirkham, e, com a sombra, um pouco de frescura entrava pela janela. A rainha Isabel e lady Mortimer não ousavam pronunciar uma palavra, receosas de se porem a chorar. Viam-se pela última vez antes de sua separação. Chegariam a reunir-se novamente algum dia? E que sorte estaria à espera de cada uma delas?

O jovem príncipe Eduardo, de olhos baixos, veio colocar-se silenciosamente atrás de sua mãe, como se quisesse substituir a amizade que arrebatavam à rainha.

Lady Despenser aproximou-se para apanhar o livro que agradara a seu marido, belo livro, cuja encadernação de veludo era realçada por pedrarias. Havia muito tempo que aquela obra excitava-lhe a cobiça, tanto mais quanto sabia a quantia que ela custara. Quando ia apanhá-lo, o jovem príncipe Eduardo deixou cair a mão sobre ele.

— Ah! Não! Mulher má, não tereis tudo!

A rainha afastou a mão do príncipe, apanhou o livro e entregou-o à sua inimiga. Depois, voltou-se para o filho com um sorriso furtivo, que descobriu novamente seus dentes de pequeno animal carnívoro. Uma criança de onze anos não lhe podia servir muito, por enquanto: mas era importante, ainda assim, quando se tratava do príncipe herdeiro

 

Novo cliente para messer Tolomei

O velho Spinello Tolomei, em seu gabinete de trabalho, no primeiro andar, afastou a ponta da tapeçaria, e, empurrando um pequeno postigo de madeira, descobriu uma abertura secreta, através da qual podia vigiar seus funcionários na grande galeria do rés-do-chão. Por aquele "espião" de invenção florentina, dissimulado entre as vigas, messer Tolomei conseguia ver tudo quanto se passava e ouvir tudo quanto se dizia lá embaixo.

Naquele momento, seu estabelecimento bancário e de negócios oferecia-lhe um espetáculo de grande confusão. As chamas das lâmpadas de três bicos vacilavam sobre os balcões, e os empregados haviam cessado de empurrar os tentos de cobre sobre os tabuleiros de que se serviam para calcular. Uma alna de medir tecidos caiu com estrépito no chão, e as balanças oscilaram nas mesas dos cambistas, sem que ninguém as tivesse tocado. Os fregueses se haviam voltado para a porta, e os caixeiros-chefes, de mão ao peito, já se curvavam para uma reverência.

Messer Tolomei sorriu, adivinhando, diante de toda aquela comoção, que o conde d'Artois acabava de entrar em sua casa. Aliás, ao cabo de um momento viu, através do "espião", aparecer um imenso barrete, ornado por uma crista de veludo vermelho, luvas vermelhas, botas vermelhas, cujas esporas ressoavam, e uma capa escarlate que se abria sobre ombros de gigante. Somente monseigneur Roberto d'Artois tinha aquela maneira ruidosa de assinalar sua entrada, de deixar trêmulo o pessoal assim que aparecia, aquele jeito de beliscar os seios das burguesas ao passar, sem que os maridos sequer ousassem mover-se, de sacudir as paredes, dir-se-ia, apenas pelo fato de respirar.

O velho banqueiro pouco se impressionava com aquilo tudo. De há muito conhecia o conde d’Artois, e muitas vezes o tinha observado. Considerando-o do alto, distinguia tudo quanto havia de exagerado, de forçado, de ostensivo, nos gestos daquele fidalgo. Pelo fato de lhe ter dado a natureza proporções físicas excepcionais, monseigneur d'Artois fingia-se de ogro. Na realidade, era um astucioso, um espertalhão. Além disso Tolomei tinha em mãos as contas de Roberto...

O banqueiro sentiu-se mais interessado pela pessoa que acompanhava D'Artois, um fidalgo inteiramente vestido de preto, andar seguro, com ar reservado, distante, bastante soberbo. Ao primeiro olhar Tolomei o considerou como uma personagem verdadeiramente poderosa.

Os dois visitantes se haviam detido diante do balcão de armas e arreios, e monseigneur d'Artois passeava sua enorme luva vermelha entre os punhais, as misericórdias, os modelos de punhos de espadas, remexia os tapetes de sela, os estribos, os freios curvos, as rédeas entalhadas, recortadas, bordadas. O caixeiro teria de trabalhar uma boa hora para recolocar em seus lugares a mercadoria exposta. Roberto escolheu um par de esporas de Toledo, de pontas compridas, cujo contraforte era alto e recurvado para fora, a fim de proteger o tendão de Aquiles quando o pé exercesse pressão violenta contra o flanco do cavalo: invenção criteriosa e seguramente bastante útil num torneio. As hastes da espora eram decoradas com flores e fitas e levavam a divisa "Vencer", gravada em letras redondas no aço dourado.

— Faço-vos presente destas esporas, meu lorde — disse o gigante ao fidalgo de preto. — Falta-vos apenas a dama que vo-las prenderá aos pés. Isso não tardará muito, pois que as damas da França depressa se inflamam pelos que vêm de longe. Podeis encontrar aqui tudo quanto desejais — continuou ele, mostrando a galeria. — Meu amigo Tolomei, mestre usurário e raposa em negócios, tudo vos fornecerá. Seja o que for que se lhe peça, jamais o encontrei desprevenido. Quereis fazer presente de uma casula ao vosso capelão? Ele terá trinta casulas para a vossa escolha... Um anel para a vossa bem-amada? Ele tem cofres repletos de pedras preciosas... Agrada-vos perfumar as jovens antes de levá-las aos prazeres amorosos? Ele vos dará um almíscar que vem diretamente dos mercados do Oriente... Procurais uma relíquia? Ele possui três armários delas... Além disso, vende ouro para que possais comprar tudo aquilo! Tem moedas gravadas com todos os cunhos da Europa, cujos câmbios ali podereis ver, marcados naquelas lousas.

Vende cifras; eis, principalmente, o que ele vende: contas de arrendamentos, juros de empréstimos, rendas de feudos.. • Atrás de todas essas portinhas há funcionários somando, deduzindo. Que faríamos sem esse homem que se enriquece com a nossa pouca habilidade no cálculo? Subamos até ele.

Logo estavam nos degraus da escada de caracol, que gemia sob o peso do conde d'Artois. Messer Tolomei tornou a empurrar o postigo do "espião" e deixou cair a tapeçaria.

O aposento onde os dois fidalgos entraram era sombrio, suntuosamente decorado com móveis pesados, grandes objetos de prata, e forrado com tapetes que abafavam os ruídos. Cheirava a vela, a incenso, a especiarias de mesa e a ervas medicinais. Entre as riquezas que o abarrotavam, haviam-se acumulado todos os perfumes de uma vida.

O banqueiro adiantou-se. Havia muitas semanas que Roberto d'Artois não o visitava — cerca de três meses durante os quais tivera de acompanhar seu primo, o rei da França, primeiro à Normandia em fins de agosto, depois a Anjou, no decorrer de todo o outono. Achou que o sienense envelhecera. Seus cabelos brancos mostravam-se mais escassos, mais leves, sobre a gola de seu traje: o tempo metera-lhe as garras no rosto; seus malares estavam marcados como que pelas patas de um pássaro; as bochechas haviam murchado e pendiam sob o queixo; o peito emagrecera e o ventre tornara-se mais volumoso. As unhas, cortadas rente, gretavam-se. Somente seu olho esquerdo, o famoso olho esquerdo de messer Tolomei, sempre fechado em três quartos, conservava no rosto uma expressão de vivacidade e malícia. Mas o outro olho, o olho aberto, tinha o olhar um tanto distraído, ausente, fatigado, de homem gasto e menos preocupado com o mundo exterior do que atento aos transtornos e às lassitudes que habitam um corpo velho, próximo de seu fim.

— Amigo Tolomei — exclamou Roberto d'Artois, tirando as luvas, que atirou, poça sangrenta, sobre uma mesa —, amigo Tolomei, trago-vos nova fortuna.

O banqueiro indicou cadeiras aos seus visitantes.

— E quanto me custará ela, monseigneur? — respondeu ele.

— Vamos, vamos, banqueiro — disse Roberto d'Artois —, por acaso já vos levei a fazer maus investimentos?

— Nunca, monseigneur, nunca, reconheço. Os vencimentos ficaram às vezes um tanto atrasados, mas enfim, tendo Deus me concedido vida bastante longa, pude colher os frutos da confiança com que me honrastes. Imaginai, porém, que eu tivesse morrido, monseigneur, como tantos outros, aos cinqüenta anos? Pois bem: graças a vós, eu teria morrido arruinado!

Aquela saída divertiu Roberto d'Artois, cujo sorriso, num rosto largo, descobriu dentes sólidos, mas sujos.

— Algum dia perdestes comigo? — retrucou. — Lembrai-vos como outrora vos fiz jogar monseigneur de Valois contra Enguerrand de Marigny! E vede onde está hoje Carlos de Valois, e como Marigny terminou seus maus dias. O que me adiantastes para a minha guerra do Artois não vos foi integralmente devolvido? Eu vos sou grato, banqueiro, sim, eu vos sou grato por me terdes apoiado sempre, e na maior das minhas misérias. Porque houve um momento — continuou ele, voltando-se para o fidalgo de preto — em que estive de pés e mãos amarrados pelas dívidas. Não tinha mais terras, a não ser o condado de Beaumont-les-Roger, mas o Tesouro não me pagava as rendas dele, e meu amável primo, Filipe, o Longo, que Deus lhe guarde a alma num inferno qualquer!, me havia encerrado no Châtelet. Pois bem! Este banqueiro que aqui vedes, meu lorde, este usurário, este grande velhaco entre os maiores velhacos que a Lombardia jamais produziu, este homem que tomaria como penhor uma criança retirada do seio materno, jamais me abandonou! Por isso é que, enquanto ele viver, e ele viverá muito tempo...

Messer Tolomei fez figa com os dedos da mão direita e tocou a madeira da mesa.

— Sim, sim, mestre usurário, vivereis muito tempo ainda, eu vos digo... Pois bem! Eis por que este homem será sempre seu amigo, à fé de Roberto d'Artois. E ele teve razão, pois eis que hoje me vê genro de monseigneur de Valois, com assento no conselho do rei, e provido das rendas de meu condado. Messer Tolomei, o grande senhor que tendes diante de vós é lorde Mortimer, barão de Wigmore.

— Evadido da Torre de Londres desde o dia 1.º de agosto — disse o banqueiro, inclinando a cabeça. — Grande honra, my lord, grande honra.

— Ora! — exclamou Roberto d'Artois. — Sabíeis, então?

— Monseigneur — disse Tolomei —, o barão de Wigmore é personagem demasiado importante para que não estejamos informados a seu respeito. Sei mesmo, my lord, que, quando o rei Eduardo deu a seus oficiais da costa a ordem de vos procurar e deter, já tínheis embarcado e estáveis fora do alcance da justiça inglesa. Sei que, quando ele mandou revistar todos os navios que partiam para a Irlanda, e agarrar todos os correios provenientes da França, vossos amigos de Londres e de toda a Inglaterra já estavam informados de vossa chegada a salvo em casa de vosso primo irmão, messire João de Fiennes, na Picardia. Sei, enfim, que, quando o rei Eduardo ordenou a messire de Fiennes que vos entregasse, ameaçando confiscar as terras que ele possui além da Mancha, aquele fidalgo, que é grande partidário e sustentáculo de monseigneur Roberto, encaminhou-vos logo para este. Não posso dizer que vos esperava, my lord, mas tinha esperança de que viésseis. Porque monseigneur d'Artois me é fiel, como vos disse, e jamais deixa de pensar em mim quando um amigo está sofrendo transtornos.

Rogério Mortimer ouvira o banqueiro com grande atenção.

— Vejo, messer — respondeu ele —, que os lombardos têm bons espiões na corte da Inglaterra.

— Para vos servir, my lord... Não ignorais que o rei Eduardo tem uma dívida muito grande com as nossas companhias. Quando se tem uma dívida, deve-se vigiá-la. E vosso rei há muito tempo deixou de honrar seu selo, pelo menos no que se refere a nós. Mandou-nos dizer por monseigneur, o bispo de Exeter, seu tesoureiro, que as más receitas das talhas, os pesados compromissos de suas guerras e os conluios de seus barões o impediram de fazer melhor. Entretanto, o imposto que ele cobra sobre nossas mercadorias, só no porto de Londres, deveria ser suficiente para que saldasse sua dívida.

Um criado acabava de trazer o hipocraz e os confeitos que sempre eram oferecidos aos visitantes de importância. Tolomei serviu nas taças o licor aromatizado, mas para si próprio deitou apenas um dedo de bebida, na qual somente molharia os lábios.

— No momento, o Tesouro da França parece gozar de melhor saúde do que o Tesouro da Inglaterra — continuou ele. — Já se sabe mais ou menos, monseigneur Roberto, qual será o saldo para o próximo ano?

— Se não sobrevierem, durante o mês corrente, algumas calamidades súbitas, como peste, fome, casamento ou funeral de um dos nossos reais parentes, as receitas ultrapassarão as despesas em doze mil libras, isso segundo os algarismos que messire Mille de Noyers, mestre da Câmara de Contas, adiantou esta manhã ao conselho. Doze mil libras de receita! Não foi no tempo dos Filipes (o IV e o V, queira Deus que a lista esteja terminada!) que tivemos um Tesouro em tão boas condições.

— Como conseguistes, monseigneur, ter um Tesouro com excedente de receitas? — perguntou Mortimer. — Será devido à ausência de guerras?

— À ausência de guerras, de uma parte, e ao mesmo tempo à guerra, à guerra que se prepara e não se faz. Ou, dizendo melhor, à cruzada. Devo dizer que Carlos de Valois utiliza a cruzada como nenhum outro! Não penseis, por isso, que eu o tenha como um mau cristão! É verdade que deseja de todo o coração livrar a Armênia dos turcos, como também deseja restabelecer o império de Constantinopla, do qual outrora usou a coroa sem poder ocupar o trono. Mas, enfim, uma cruzada é coisa que não se prepara num dia! É preciso armar navios, forjar armas. É preciso, sobretudo, encontrar cruzados, negociar na Espanha, negociar na Alemanha... E o primeiro passo para tudo isso é obter do papa um dízimo sobre o clero. Meu caro sogro obteve o dízimo, e, atualmente, é o papa quem paga nossos apuros no Tesouro.

— Pois bem, monseigneur, vós me interessais muitíssimo! — disse Tolomei. — É que sou eu o banqueiro do papa... numa quarta parte, com os Bardi, mas, enfim, essa parte já é bem grande, e se o papa empobrecesse demais...

D'Artois, que tomava um bom gole de hipocraz, estourou de riso em sua taça de prata, fazendo sinal de que se engasgava.

— Empobrecer, o Santo Padre? — exclamou, depois de ter engolido. — Mas ele é rico, tem centenas de milhares de florins. Ah! é um homem que vos poderia dar lições, Spinello. Que grande banqueiro teria sido, se não tivesse entrado para o clero! Porque encontrou o tesouro papalino mais vazio do que o meu bolso, há seis anos...

— Eu sei, eu sei... — murmurou Tolomei.

— É que os padres, como sabeis, são os melhores coletores de impostos que Deus jamais colocou sobre a terra, e foi isso que monseigneur Valois compreendeu. Em lugar de forçar as talhas, cujos recebedores são detestados, manda-se que os padres façam o peditório e recolhe-se o dízimo. Nós nos encontraremos, nós nos encontraremos... um dia!

Enquanto se espera por isso, é o papa quem paga, da tosquia das suas ovelhas.

Tolomei esfregava devagar a perna direita. Havia algum tempo sentia uma sensação de frio naquela perna, e algumas dores, também, quando caminhava.

— Dizíeis, então, monseigneur, que houve conselho esta manhã. E foram tomadas disposições de grande interesse? — perguntou ele.

— Oh! Como de costume. Debateu-se o preço das velas e proibiu-se misturar sebo com cera, como também misturar os doces velhos com os novos. Para todas as mercadorias vendidas em invólucros, o peso dos sacos deverá ser deduzido e descontado do preço: tudo para agradar o povo comum e mostrar-lhe que nos ocupamos dele.

Tolomei, enquanto ouvia, observava seus dois visitantes. Pareciam-lhe ambos muito jovens: quantos anos teria Roberto d'Artois? Trinta e cinco, trinta e seis... e o inglês não mostrava ter muito mais. Todos os homens que ainda não tinham sessenta anos pareciam-lhe espantosamente jovens! Quantas coisas ainda tinham a fazer, quantas emoções a sentir, combates a ferir, esperanças a realizar, e quantas manhãs conheceriam, que ele já não iria conhecer! Quantas vezes aqueles dois homens acordariam, respirariam o ar de um dia novo, quando ele próprio já estivesse sob a terra?

E que espécie de personagem seria lorde Mortimer? O rosto bem-desenhado, de espessas sobrancelhas, as pálpebras cortadas nitidamente sobre olhos cor de pedra, e depois, as roupas sombrias, a maneira de cruzar os braços, a segurança altiva, silenciosa, de um homem que esteve no auge do poder e faz questão de conservar no exílio sua dignidade, o próprio gesto maquinai, que Mortimer tinha, de passar o dedo sobre a curta cicatriz branca que lhe marcava o lábio, tudo agradava ao velho sienense. E Tolomei desejou que aquele fidalgo tornasse a ser feliz! Havia algum tempo que surgira em Tolomei o gosto de pensar nos outros.

— O decreto sobre a saída de moedas — perguntou ele — deve ser promulgado logo, monseigneur?

Roberto d'Artois hesitou antes de responder.

— A menos, talvez, que não estejais a par... — acrescentou Tolomei.

— Mas estou, estou a par, sim. Sabeis bem que nada se faz sem que o rei, e principalmente monseigneur Valois, peça minha opinião. O decreto será selado dentro de dois dias: ninguém poderá levar para fora do reino moeda de ouro ou prata marcada com o cunho da França. Só os peregrinos poderão munir-se de alguns pequenos torneses.

O banqueiro fingiu não dar maior importância a essa notícia do que dera à que se referia ao preço das velas e à mistura dos doces. Mas já tinha pensado: "Então as moedas estrangeiras serão as únicas que poderão sair do reino: assim, vão aumentar de valor... Como nos ajudam os tagarelas em nosso ofício, e como os gabolas nos oferecem por pouco o que nos poderiam vender muito caro!"

— Então, my lord — perguntou, voltando-se para Mortimer —, contais estabelecer-vos na França? Que esperais de mim?

Foi Roberto quem respondeu:

— Tudo quanto é necessário a um grande senhor para manter sua categoria. Tendes grande prática desse assunto, Tolomei!

O banqueiro sacudiu uma sineta. Ao criado que entrou pediu seu livro grande, e acrescentou:

— Se messer Boccaccio ainda não partiu, que faça o favor de me esperar.

Trouxeram-lhe o livro, um grande cartapácio encadernado com couro preto, patinado pelo manejo, e cujas folhas de velino eram unidas por meio de grampos móveis. Assim era possível acrescentar-lhes folhas à vontade. Aquele processo permitia a messer Tolomei reunir as contas de seus grandes clientes por ordem alfabética, em vez de ter de procurar peças espalhadas. O banqueiro pousou o cartapácio sobre os joelhos e abriu-o com certa solenidade.

— Ireis encontrar-vos em boa companhia, my lord — disse ele. — Vede: honra se faça aos grandes... meu livro começa pelo conde d'Artois... Tendes bastantes folhas, monseigneur — acrescentou ele, com um risinho dirigido a Roberto. — Depois aqui temos o conde de Bouville, para suas missões junto ao papa, para suas missões em Nápoles... A rainha Clemência...

O banqueiro teve um nuto de respeito.

— Ah! Ela nos deu bastante preocupação depois da morte do rei Luís: dir-se-ia que o luto a atirara numa avidez irresistível de despesas. O Santo Padre, em pessoa, exortou-a, através de uma carta especial, à moderação, e ela teve que empenhar suas jóias comigo para pagar as dívidas. Atualmente, mora no Palácio do Templo, que lhe deram em troca de seu torreão de Vincennes. Recebe sua renda de viúva e parece ter tornado a encontrar a paz.

Continuava a virar as páginas, que farfalhavam sob sua mão.

"Agora sou eu que estou me gabando", pensava ele. "Mas é preciso valorizar um pouco os serviços que se prestam e mostrar que não se fica deslumbrado diante de novo solicitador de empréstimos."

Tinha uma forma bastante hábil de deixar que aparecessem os nomes, sempre escondendo os algarismos sob o braço. Era indiscreto apenas pela metade. Depois, era preciso que confessasse a si próprio, sua vida inteira estava dentro daquele livro, e não perdia ocasião de folheá-lo. Cada nome, cada soma, representava tantas lembranças, tantas intrigas, tantos segredos confiados, tantas súplicas que lhe tinham sido dirigidas e pelas quais pudera medir o seu poder! Cada soma era a recordação precisa de uma visita, de uma carta, de um negócio hábil, de um movimento de simpatia, de uma dureza em relação a devedor negligente... Há quase cinqüenta anos Spinello Tolomei, tendo começado, quando da sua chegada de Siena, a fazer as feiras da Champagne, viera instalar-se na Rue des Lombards, para ali instalar seu bando! "

Mais uma página e outra, que se agarrou às unhas rachadas. Um traço preto barrava o nome.

— Vede, aqui está messire Dante Alighieri, o poeta... uma soma pequena, quando veio a Paris visitar a rainha Clemência, depois do luto dela. Era grande amigo do rei Carlos da Hungria, pai da senhora Clemência. Lembro-me dele, exatamente nessa poltrona onde estais, my lord. Homem sem bondade. Era filho de cambista, e falou comigo durante uma hora, com grande desprezo pelo ofício do dinheiro. Mas sabia ser mau e ir embriagar-se com as meretrizes em lugares bastante sórdidos, enquanto falava de seu puro amor pela senhora Beatriz! Fez com que nossa língua cantasse, como ninguém antes dele o conseguira. E como pintou os infernos, my lord! Não o lestes...? Ah! Fazei com que vo-lo traduzam! Dá arrepios pensar que pode ser assim, talvez. Sabeis que em Ravena, onde messer Dante viveu seus últimos anos, as pessoas afastavam-se com medo de seu caminho, porque pensavam que ele tivesse realmente descido aos abismos? E mesmo atualmente muitas pessoas não querem acreditar que esteja morto há dois anos, e garantem que se tratava de um mágico e não podia morrer!... Não gostava do banco, não, nem de monseigneur Valois, que o exilara de Florença.

Durante todo o tempo que falara de Dante, Tolomei havia de novo feito figas e apertado os dedos contra a madeira da poltrona.

— Aí temos: ficareis aqui, my lord — continuou ele, fazendo um sinal no grande livro. — Depois de monseigneur de Marigny. Não o enforcado, tranqüilizai-vos, não daquele de quem monseigneur d'Artois falava ainda há pouco. Não! Trata-se de seu irmão, o bispo de Beauvais. De hoje em diante tendes uma conta aberta em minha casa, no valor de dez mil libras. Podeis retirá-las como vos convier, e considerar vossa minha modesta casa. Tecidos, armas, jóias, todas as mobílias que vos forem necessárias, podereis encontrar nos meus balcões, e mandá-las anotar nesse crédito.

Realizava seu ofício por hábito: emprestava às pessoas o dinheiro necessário para que comprassem o que ele vendia.

— E vosso processo contra vossa tia, monseigneur? Não pretendeis recomeçá-lo, agora que sois tão poderoso? — perguntou a Roberto d'Artois.

— Isso se fará, isso se fará, mas no momento propício — respondeu o gigante, levantando-se. — Não há pressa, e eu percebi que a precipitação é prejudicial. Deixo minha querida tia envelhecer, deixo-a desgastar-se em processos pequenos contra seus vassalos, inventar cada dia novos inimigos pelas suas chicanas, e reformar seus castelos, que eu maltratei um tantinho na última visita que fiz às suas terras, que são minhas. Ela começa a perceber quanto lhe custa conservar o que me pertence! Teve que emprestar a monseigneur de Valois cinqüenta mil libras que jamais tornará a ver, porque elas compõem o dote de minha esposa, com o qual vos paguei. Vede bem que não é tão nociva, como dizem, a boa rameira. Apenas evito vê-la muitas vezes, pois seu amor por mim é tal que ela bem poderia me oferecer algum prato açucarado, que já produziu não poucas mortes entre os que a rodeiam... Mas terei meu condado, banqueiro, terei, podeis estar certo disso, e nesse dia, vos prometi, sereis meu tesoureiro!

Acompanhando seus visitantes, que partiam, messer Tolomei desceu a escada atrás deles, com cuidado, e conduziu-os até a porta, na Rue des Lombards. Rogério Mor-timer perguntou-lhe qual seria o juro do dinheiro que lhe emprestava, e o banqueiro afastou a pergunta com um gesto de mão.

— Fazei-me apenas o favor de subir para me ver, quando tiverdes qualquer negócio com o meu banco. Pode-reis, sem dúvida, instruir-me sobre muitas coisas, my lord.

Um sorriso acompanhava aquelas palavras, e a pálpebra esquerda se erguera um pouco, para uma breve olhadela que deixava subentendido: "Falaremos a sós, não diante de tagarelas".

O ar frio de novembro que vinha da rua fez estremecer um pouco o ancião. Depois, mal fechou a porta, Tolomei passou atrás de seus balcões e entrou numa pequena sala de espera, onde se encontrava Boccaccio, representante itinerante da Companhia Bardi.

— Amigo Boccaccio — disse-lhe o banqueiro —, compra de hoje para amanhã todas as moedas da Inglaterra, da Holanda e da Espanha, florins da Itália, dobrões, ducados, tudo quanto se puder encontrar em moedas de países estrangeiros. Oferece um dinheiro *, mesmo dois dinheiros por peça. Dentro de três dias elas terão subido um quarto. Todos os viajantes terão de se munir delas conosco, pois que o ouro da França não poderá sair. Nesse negócio dividiremos os lucros 12.

* Antiga moeda francesa, décima parte do soldo. (N. da T.)

 

Sabendo mais ou menos o que podia arrecadar de ouro estrangeiro no lugar, reunido ao que tinha em cofres, Tolomei já havia calculado que a operação lhe daria um lucro de quinze a vinte mil libras. Acabava de emprestar dez mil: ganhava o dobro, e com aquele lucro poderia fornecer novos empréstimos. Questão de rotina!

Como Boccaccio o felicitasse pela sua habilidade, e devolvendo o cumprimento entre seus lábios muito delgados de burguês florentino, lhe dissesse que não fora em vão que as companhias lombardas de Paris tinham escolhido messer Spinello Tolomei como seu capitão-geral, este lhe respondeu:

— Oh! Depois de cinqüenta e tantos anos no ofício, não tenho mais mérito nisso: a coisa anda sozinha. E, se eu fosse realmente hábil, que teria feito? Compraria tuas reservas de florins e teria guardado para mim todo o lucro. Mas de que me serviria isso, verdadeiramente? Verás, Boccaccio... Tu és ainda muito jovem.

Entretanto, o outro tinha fios brancos nas têmporas.

—...chega-se a uma idade em que, quando não se trabalha mais senão para si mesmo, vem a sensação de se trabalhar por nada. Meu sobrinho me faz falta. Entretanto, os negócios dele agora estão arranjados, e estou certo de que não arriscaria nada voltando. Mas ele recusa, esse demônio do Guccio. Obstina-se; por orgulho, creio. Então, à noite, esta grande casa, quando os empregados vão embora e os criados se deitam, parece-me bem vazia. E há dias em que me acontece ter saudades de Siena.

— Teu sobrinho, Spinello — disse Boccaccio —, deveria ter feito o que eu próprio fiz, ao encontrar-me em situação idêntica com uma senhora de Paris. Raptei meu filho e levei-o para a Itália.

Messer Tolomei sacudia a cabeça e pensava na tristeza de um lar sem crianças. O filho de Guccio devia fazer, por aquela ocasião, sete anos, e jamais Tolomei o vira. A mãe opunha-se a isso...

O banqueiro esfregou a perna direita, que sentia pesada e sem calor, como se houvesse formigas, ali. A morte puxa as pessoas pelos pés, aos pouquinhos, durante anos... Logo mais, antes de se deitar, mandaria trazer uma bacia de água quente para banhar a perna.

 

A falsa cruzada

— Monseigneur de Mortimer, terei grande necessidade de cavaleiros valentes e esforçados, tais como sois, para a minha cruzada — declarou Carlos de Valois. — Pensareis que sou muito orgulhoso por dizer minha cruzada, quando, na verdade, é a cruzada de Deus Nosso Senhor, mas devo confessar, e toda a gente reconhece isso em mim, que se esse grande empreendimento, o mais vasto e glorioso que poderiam desejar as nações cristãs, for realizado, será porque eu o terei organizado, com minhas mãos. Assim, monseigneur de Mortimer, proponho-vos diretamente, com a minha maneira franca que aprendereis a conhecer: quereis ser dos meus?

Rogério Mortimer endireitou-se em sua cadeira. Seu rosto fechou-se um tanto, e suas pálpebras baixaram-se a meio sobre os olhos cor de pedra. Era uma companhia* de vinte couraças, cujo comando lhe ofereciam, como a um pequeno castelão da província, ou a um soldado aventureiro que ali tivesse tombado per um infortúnio da sorte? Essa proposta era uma esmola!

* Os senhores feudais reuniam seus vassalos sob seu estandarte, em companhias de guerra. Essas companhias, reunidas, formavam a chamada hoste. (N. da T.)

 

Era aquela a primeira vez que Mortimer se via recebido pelo conde de Valois, até o presente momento sempre ocupado com suas tarefas no conselho, retido por recepções a embaixadores estrangeiros, ou viajando através do reino. Mortimer via, enfim, o homem que governava a França, que naquele mesmo dia havia entronizado um de seus protegidos, João de Cherchemont, como novo chancelerl3, e do qual sua sorte dependia. Mortimer estava na situação, sem dúvida invejável para um antigo prisioneiro, condenado ao cárcere perpétuo, penosa, porém, para um grande senhor, de exilado que vem pedir, que nada tem a oferecer e espera tudo.

A entrevista efetuava-se no palácio do rei da Sicília, que Carlos de Valois recebera de seu primeiro sogro, Carlos de Nápoles, o Coxo, como presente de núpcias. Na grande sala reservada às audiências, uma dúzia de pessoas, escudeiros, cortesãos, secretários, conversavam em voz baixa, em grupos pequenos, voltando freqüentemente os olhos ao mestre, que recebia, como verdadeiro soberano, sentado numa espécie de trono, encimado por um dossel. Monseigneur de Valois estava vestido com um traje de casa, de veludo azul, bordado com a letra V e com as flores-de-lis, aberto na frente, deixando ver o forro de peles. Suas mãos estavam carregadas de anéis. E trazia seu selo particular, gravado numa pedra preciosa, pendurado à cintura por meio de uma correntinha de ouro. Na cabeça, usava uma espécie de barrete de veludo, mantido por um círculo de ouro cinzelado, coroa de interior. Tinha ao lado seu filho mais velho, Filipe de Valois, um rapagão de nariz grande, bem-talhado, que se apoiava ao espaldar do trono, e seu genro Roberto d'Artois, instalado num tamborete, com as grandes botas de couro vermelho esticadas para a frente. Um tronco de árvore ardia na lareira próxima.

— Monseigneur — disse Mortimer, lentamente —, se o auxílio de um homem que é o primeiro entre os barões das Marcas galesas, que governou o reino da Irlanda e comandou várias batalhas, pode vos ser de algum auxílio, eu o darei de boa vontade, para a defesa da cristandade. Desde já meu sangue vos pertence.

Valois compreendeu o quanto era orgulhosa aquela personagem, pois falava de seus feudos das Marcas como se ainda os possuísse. Seria necessário saber manejá-lo, se quisesse aproveitá-lo.

— Tenho a honra, sire barão — respondeu —, de ver arregimentar-se sob a bandeira do rei da França, quer dizer, sob a minha, pois que está entendido desde este momento que meu sobrinho continuará a governar o reino enquanto eu comandarei a cruzada, de ver, dizia eu, reunirem-se os primeiros príncipes soberanos da Europa: meu parente João de Luxemburgo, rei da Boêmia, meu cunhado Roberto de Nápoles e da Sicília, meu primo Afonso de Espanha, ao mesmo tempo que as Repúblicas de Gênova e Veneza, a pedido do Santo Padre, nos trarão o apoio de suas galeras.

Não ficareis em má companhia, sire barão, e eu zelarei para que todos respeitem e honrem o alto senhor que sois. A França, de onde saíram vossos antepassados, e que deu nascimento à vossa mãe, saberá reconhecer vossos méritos melhor do que parece acontecer na Inglaterra.

Mortimer inclinou a cabeça em silêncio. Aquela garantia valia o que valia: ele trataria de vigiar para que ela não se resumisse apenas em palavras.

— Pois eis que há mais de cinqüenta anos — recomeçou monseigneur de Valois — nada se faz na Europa para o serviço de Deus. Exatamente, desde meu avô, São Luís, exatamente, que, se assim ganhou o céu, assim perdeu a vida! Os infiéis, encorajados pela nossa ausência, levantaram de novo a cabeça e acreditam-se senhores em toda parte. Devastam as costas, pilham os navios, entravam o comércio, e, pela sua simples presença, profanam os lugares santos. Nós, que fizemos? Recuamos de ano para ano, de todas as nossas possessões, de todos os nossos estabelecimentos. Abandonamos fortalezas que tínhamos construído, negligenciamos defender os direitos sagrados que tínhamos adquirido. Tudo isso aconteceu juntamente com a decadência dos Templários, e da qual meu irmão mais velho, paz à sua alma, mas eu jamais o aprovei naquilo!, se fez o instrumento. Ora, esses tempos terminaram. No princípio do ano os deputados da Pequena Armênia vieram pedir-nos socorro contra os turcos. Dou graças a meu sobrinho, o rei Carlos IV, por ter compreendido todo o interesse daquele pedido e por ter apoiado o conselho que lhe dei, e a tal ponto que hoje se diz o primeiro a ter tido a idéia! Mas, enfim, é bom que ele acredite nisso. Assim, não demorará muito e nossas forças reunidas poderão partir, e, em suas terras longínquas, atacar os bárbaros.

Roberto d'Artois, que ouvia aquela falação pela centésima vez, opinava com movimentos compenetrados de cabeça, enquanto se divertia secretamente com o ardor que seu sogro mostrava ao expor as belas causas. Porque Roberto conhecia o avesso do jogo. Sabia que de fato existia o projeto de perseguir os turcos, mas sacudindo também os cristãos na passagem, pois o imperador Andronico Paleólogo, que reinava em Bizâncio, não era, que se soubesse, paladino de Maomé? Sem dúvida, sua Igreja não era muito boa, e ali se fazia o sinal-da-cruz um pouco às avessas, mas, fosse como fosse, era o sinal-da-cruz! Ora, monseigneur de Valois mantinha sempre a idéia de reconstituir em seu proveito o famoso império de Constantinopla, estendido não somente aos territórios bizantinos, mas a Chipre, a Rodes, à Armênia e a todos os antigos reinos Courtenac e Lusignan. E quando ali chegasse, o conde Carlos, com todas as suas companhias, Andronico Paleólogo, tanto quanto se podia imaginar, não representaria grande peso. Monseigneur de Valois fazia girar em sua cabeça sonhos de César... É de notar, aliás, que ele usava bastante bem certa manobra que consistia em pedir sempre o máximo para obter um pouco. Assim, tentara trocar seu comando da cruzada e suas pretensões ao trono de Constantinopla pelo pequeno reino de Aries, junto do Ródano, com a condição de que a ele anexassem o Viennois. Isso fora negociado no início do ano com João de Luxemburgo, mas a transação falhara por causa da oposição do conde de Savóia e do rei de Nápoles, que, tendo terras na Provença, não fazia questão nenhuma de ver seu turbulento parente constituir um reino independente na fronteira de seus Estados. Então, monseigneur de Valois dedicara-se, com maior entusiasmo, à santa expedição. Estava escrito que aquela coroa soberana que lhe escapara na Espanha, na Alemanha, mesmo em Aries, devia ser procurada na outra extremidade da terra! Todas essas coisas, de que Roberto tinha conhecimento, não eram coisas que se proclamassem...

— É evidente que nem todos os obstáculos já foram vencidos — prosseguiu monseigneur de Valois. — Estamos ainda argumentando com o Santo Padre sobre o número de cavaleiros e sobre o soldo a dar-lhes. Queremos oito mil cavaleiros e trinta mil homens a pé, e que cada barão receba vinte soldos por dia, os cavaleiros, dez, e cada escudeiro, sete soldos e seis dinheiros. Para os homens a pé, dois soldos. O papa João quer que eu reduza meu exército para quatro mil cavaleiros e quinze mil homens de infantaria. Promete-me, todavia, doze galeras armadas. Autorizou-me a cobrar o dízimo, porém reluta quanto ao milhão e duzentas mil libras por ano que lhe pedimos, para os cinco anos que durar a cruzada, e, sobretudo, às quatrocentas mil libras necessárias ao rei da França para as despesas acessórias.

"Das quais trezentas mil já estão previstas para o bom Carlos de Valois em pessoa", pensava Roberto d'Artois. "A esse preço pode-se muito bem comandar uma cruzada! Eu seria bem tolo se fizesse chicana, pois no caso terei meu quinhão!"14

— Ah! Se eu tivesse estado em Lyon, no lugar de meu falecido sobrinho Filipe, quando do último conclave — exclamou Valois —, teria sem desmerecer o Santo Padre, escolhido um cardeal que compreendesse mais claramente o interesse da cristandade e não nos obrigasse a tanta insistência!

— Sobretudo depois que enforcamos seu sobrinho em Montfaucon, no último mês de maio — observou Roberto d'Artois.

Mortimer voltou-se em sua cadeira, olhou para Roberto d'Artois, surpreso, e perguntou:

— Um sobrinho do papa? Que sobrinho?

— Como, meu primo, pois não o sabeis? — disse Roberto d'Artois, aproveitando-se da ocasião para se levantar, pois não podia ficar muito tempo imóvel. Foi empurrar com a ponta da bota as achas que ardiam na lareira.

Mortimer já deixara de ser para ele "meu lorde" e se tornara "meu primo", por causa de um parentesco longínquo que haviam descoberto, por intermédio dos Fiennes. Não demoraria para que fosse "Rogério", sem mais histórias.

— Como — repetiu ele —, não soubestes da maravilhosa aventura que sucedeu ao nobre senhor Jordão de 1'Isle, tão poderoso que o Santo Padre lhe dera sua sobrinha em casamento? Bem, como poderíeis, realmente, ter sabido? Estáveis no cárcere, graças ao vosso bom amigo Eduardo! Oh! É um caso sem importância, que não teria produzido rumor tão grande se não fossem as alianças do espertalhão. O tal Jordão, fidalgo gascão, cometera algumas pequenas maldades, a saber: roubo, homicídios, violação de senhoras, estupro de donzelas, e ainda por cima um tantinho de pederastia com os rapazinhos. O rei, a pedido do papa João, consentiu em agraciá-lo, e devolveu-lhe mesmo suas vantagens, sob a promessa de que o homem se emendasse. Emendar-se? Nosso Jordão volta ao seu feudo, e depressa viemos a saber que havia recomeçado, ainda em piores condições, mantendo junto a si ladrões, assassinos, e outras pessoas de má extração, que despojavam, por sua conta, clérigos e leigos. Um aguazil do rei foi enviado a ele, e apresentou-se, com seu bastão de flores-de-lis em punho, o que significa citação. Sabeis como Jordão recebeu o aguazil? Mandou que o agarrassem, que lhe batessem com o bastão real, e, para completar, ordenou que o empalassem com ele... do que veio o homem a morrer.

Roberto não pôde reter uma gargalhada, que fez estremecer as vidraças das janelas em seus encaixes de chumbo. Como ria bem monseigneur d'Artois, e como, no fundo de seu coração, aprovava, invejava quase, a não ser pelo seu triste fim, messire Jordão de l'Isle! Teria feito dele, prazerosamente, um amigo.

— Não se sabia, para falar a verdade, qual seria o crime maior — continuou ele: — se ter matado um oficial do rei ou ter sujado as flores-de-lis com os excrementos de um aguazil! O sire Jordão foi julgado, por seus méritos, digno de ser pendurado na forca de Montfaucon, para onde o conduziram com grande equipagem, arrastado à cauda de um cavalo, para ser enforcado com as roupas que seu tio, o papa, lhe dera de presente, e que podereis ainda ver, se por acaso passardes por lá! Os trajes tornaram-se um tanto largos para ele.

E Roberto recomeçou a rir, com a cabeça jogada para trás, os polegares na cintura, e sua alegria era tão sincera que Rogério Mortimer, contagiado, também se pôs a rir. E Valois também ria, e seu filho Filipe... Os cortesãos, no fundo da sala, olhavam-nos com curiosidade.

Uma das bondades do destino é deixar-nos ignorar nosso fim. Tinham bastante razão, aqueles quatro grandes barões, de aproveitar a ocasião para se divertirem: um deles morreria dentro de dois anos, outro esperaria apenas sete, quase dia por dia, para terminar, também arrastado à cauda de um cavalo, pelas ruas da cidade!

O riso em comum fizera deles melhores amigos. Mortimer sentiu-se, de súbito, admitido no grupo do poderoso Valois e distendeu-se um pouco. Olhava com simpatia o rosto de monseigneur Carlos, rosto largo, com as cores fortes de homem que come demais e que o poder impele de fazer exercício suficiente. Mortimer não via Valois desde longínquos encontros na Inglaterra; primeiro, quando das festividades nupciais da rainha Isabel; depois, uma segunda vez, em 1313, acompanhando os soberanos ingleses a Paris, para a primeira homenagem. E tudo isso, que parecia ter acontecido na véspera, já ia bem distante. Monseigneur de Valois, ainda jovem naquela ocasião, tornara-se maciço, imponente; e o próprio Mortimer, por mais que pudesse esperar viver, já tinha vivido a metade de seus anos, se Deus não o quisesse derrubar numa batalha, fazê-lo naufragar no mar ou atirá-lo sob o cutelo do carrasco de Eduardo. Fora já muita sorte chegar aos trinta e sete anos, sobretudo quando se vivia rodeado de tanta inveja, de tantos inimigos, quando se havia arriscado a existência em torneios ou na guerra, e passado dezoito meses nas masmorras da Torre. Ora! Ele não devia perder seu tempo nem negligenciar as ocasiões que lhe proporcionassem aventuras. A cruzada começava, finalmente, a parecer agradável aos olhos de Rogério Mortimer.

— E quando vossos navios levantarão âncora, monseigneur? — perguntou ele.

— Dentro de dezoito meses, penso — respondeu Valois. — Vou mandar de novo uma embaixada, que será a terceira, a Avignon, para determinar definitivamente o fornecimento de subsídios, as bulas de indulgência, a ordem de combate.

— E será uma bela cavalgada, monseigneur de Mortimer, na qual os que vemos nas cortes, sempre valentes e apaixonados pelas armas, terão algo mais a mostrar do que o que exibem nas justas — disse Filipe de Valois, que até então não tinha falado, e cujo rosto enrubesceu um tanto.

O filho primogênito de Carlos de Valois já estava imaginando as velas pandas das galeras, o desembarque em costas longínquas, as companhias, as couraças, os choques dos pesados cavalos da França atirando-se sobre os infiéis, o crescente pisado sob a ferradura das montarias, as mulheres mouriscas capturadas no fundo dos palácios, as belas escravas nuas chegando, acorrentadas... E nada impediria Filipe de Valois de saciar seus desejos naquelas ancas robustas. Suas grandes narinas já se dilatavam. Porque Joana, a Coxa, ficaria na França, esposa que amava, sem dúvida, mas diante da qual não podia evitar as tremuras, e cujo ciúme estalava em cenas furiosas assim que ele olhava para o seio de outra mulher. Ah! Não tinha um gênio fácil, a irmã de Margarida de Borgonha! Ora, é possível amar nossa esposa ao mesmo tempo em que uma força da natureza nos obriga a desejar outras mulheres. Seria necessário pelo menos uma cruzada para que o grande Filipe ousasse trair a Coxa.

Mortimer endireitou-se um pouco e puxou sua cota preta. Queria voltar ao assunto que lhe importava, e que não era a cruzada.

— Monseigneur — disse ele a Carlos de Valois —, podeis contar comigo em vossas fileiras. Mas também eu vinha vos pedir...

A palavra estava dita. O antigo grande juiz da Irlanda tinha pronunciado a palavra sem a qual solicitante algum obtém algo, sem a qual poderoso algum concede seu apoio. Pedir, solicitar, suplicar... Não havia necessidade, aliás, de dizer mais nada...

— Eu sei, eu sei — respondeu Carlos de Valois. — Meu genro Roberto pôs-me a par do fato. Desejais que eu interceda por vós junto ao rei Eduardo. Ora, pois, meu amigo muito leal...

Num só golpe, e porque havia "pedido", ele se tornara um amigo.

—...ora, pois, eu não o farei, porque isso de nada serviria... senão para que me fosse infligido novo ultraje! Sabeis qual foi a resposta que vosso rei Eduardo me enviou pelo conde de Bouville? Sim, vós a sabeis, com certeza... quando a dispensa para o casamento já fora solicitada ao Santo Padre! Em que situação ele me coloca? Irei pedir-lhe, agora, que vos devolva vossas terras, que vos devolva vossos títulos, e que expulse, pois uma coisa implica a outra, seus vergonhosos Despenser?

— E que, com esse gesto, devolva à rainha Isabel...

— Minha pobre sobrinha! — exclamou Valois. — Eu sei, amigo leal, eu sei tudo! Acreditais que eu possa, ou que o rei da França possa fazer o rei Eduardo mudar ao mesmo tempo seus costumes e seus ministros? Mas não deveis ignorar, entretanto, que ele enviou a nós o bispo de Rochester, para reclamar a vossa entrega. E nós nos recusamos mesmo a receber, ao menos, o seu bispo! Primeira afronta que envio a Eduardo, em troca da sua! Estamos ligados um ao outro, monseigneur de Mortimer, pelos ultrajes que nos infligiram. E se tivermos ocasião, um ou outro, de nos vingarmos, eu vos garanto, caro sire, que nos vingaremos juntos.

Mortimer, sem nada demonstrar, sentiu que o desespero o invadia. A conversa, da qual Roberto d'Artois lhe prometera o milagre... "Meu sogro Carlos tudo pode, e se vos tomar amizade, e isso acontecerá, podeis estar certo do triunfo. Ele colocará o papa em vosso caso, se for preciso..." E a conversa parecia terminada. Que resultará dela? Vento. A promessa de um vago comando, dentro de dezoito meses, na terra dos turcos. Rogério Mortimer já pensava em deixar Paris, em ir ter com o papa, e, se daquele lado nada obtivesse, iria, então, ao encontro do imperador da Alemanha... Ah! As decepções do exílio eram amargas. O tio de Chirk as havia profetizado...

Foi então que Roberto d'Artois, no silêncio constrangedor que se fizera, disse:

— Essa ocasião de vingança de que falais, Carlos, por que não a propiciamos?

Era ele o único, na corte, que chamava o conde de Valois pelo seu nome de batismo, não tendo mudado de hábito desde o tempo em que eram apenas primos. E depois, seu tamanho, sua força, sua truculência davam-lhe direitos que eram apenas dele.

— Roberto tem razão — disse Filipe de Valois. — Podíamos, por exemplo, convidar o rei Eduardo para a cruzada, e ali...

Um gesto vago acabou seu pensamento. Era imaginativo, decididamente, o grande Filipe! Via a passagem de um vau, ou, melhor ainda, uma cavalgada em pleno deserto: encontrava-se uma tropa de infiéis, deixava-se Eduardo atirar-se à carga, depois abandonava-se friamente o homem nas mãos dos turcos... eis uma bela vingança!

— Jamais! — gritou Carlos de Valois. — Jamais Eduardo reunirá suas companhias às minhas. Antes de tudo, pode falar-se dele como de um príncipe cristão? Os mouros é que têm costumes como os dele!

Apesar daquela indignação, Mortimer ficou inquieto. Sabia demasiado bem o que valem as palavras dos príncipes, que inimigos da véspera podem reconciliar-se no dia seguinte, mesmo falsamente, se isso lhes trouxer vantagens. Se a monseigneur Valois ocorresse a idéia de convidar Eduardo para avolumar sua cruzada, e se Eduardo fingisse aceitar...

— Mesmo que o fizésseis, monseigneur — disse Mortimer —, há poucas probabilidades de que o rei Eduardo atenda a vosso convite. Ele gosta dos jogos físicos, mas detesta as armas, e não foi ele, posso assegurar-vos, quem me venceu em Shrewsbury, mas apenas as más disposições de Tomás de Lancastre. Eduardo pretextará, e com justa razão, os perigos que os escoceses representam para ele.

— Mas quero escoceses em minha cruzada, sim! — disse Valois.

Roberto d'Artois batia seus punhos enormes um contra o outro, em pequenos golpes. A cruzada lhe era totalmente indiferente, e, para dizer a verdade, não tinha vontade alguma de se incorporar a ela. Enjoava no mar. Em terra, tudo quanto quisessem, mas não na água. Ali, uma criança de peito seria mais forte do que ele! Depois, acima de tudo, pensava em retomar seu condado do Artois, e não seria cor rendo durante cinco anos ao fim do mundo que iria ajudar seu negócio. O trono de Constantinopla não era herança sua, e em nada lhe agradava a idéia de ver-se um dia comandando alguma ilha desnuda, em águas perdidas. Também não tinha interesse no comércio de especiarias, nem necessidade de raptar mulheres de turcos: Paris transbordava de huris a cinqüenta soldos, e de burguesas que ainda custavam menos. E a senhora de Beaumont, sua esposa, filha de monseigneur de Valois, ali presente, fechava os olhos a todas as suas escapadas. Portanto, naquela cruzada, o que importava a Roberto era retardar seu início o mais possível, e para isso trabalhava, enquanto fingia encorajá-la. Tinha uma idéia na cabeça, e não fora inutilmente que levara Rogério Mortimer a seu sogro.

— Pergunto a mim mesmo, Carlos — disse ele —, se haverá sensatez em deixar o reino da França por tanto tempo desprovido de homens, privado de sua nobreza e de vosso comando, à mercê do rei da Inglaterra, que mostra não nos querer bem.

— Os castelos serão providos, Roberto, e deixaremos guarnições suficientes — respondeu Valois.

— Mas sem a nobreza, sem a maior parte dos cavaleiros, e sem vós, repito-o, que sois o nosso grande homem de guerra. Quem defenderá o reino em nossa ausência? O condestável, em véspera dos setenta e cinco anos, para quem o fato de se manter sobre uma sela já é um milagre? Nosso rei Carlos? Se Eduardo, como nos disse lorde Mortimer, não gosta de batalhas, nosso pobre primo ainda se entende menos com elas. Aliás, de que entende ele, a não ser de mostrar-se viçoso e sorridente diante de seu povo? Seria loucura oferecer o terreno às perversidades de Eduardo, sem o ter, antes, enfraquecido com uma derrota.

— Então, ajudemos os escoceses — propôs Filipe de Valois. — Desembarquemos no seu litoral e apoiemos a luta daqueles homens. De minha parte, estou pronto a fazer isso.

Roberto d'Artois baixou o nariz para não revelar o que pensava. Veriam coisas excelentes, se o bravo Filipe assumisse o comando de uma escapada à Escócia! O herdeiro dos Valois já mostrava o que sabia fazer na Itália, quando o tinham mandado apoiar o legado do papa contra os Visconti, de Milão. Filipe chegara orgulhosamente, com suas companhias, e depois se havia deixado manobrar tão bem por Galeazzo Visconti que cedera em tudo, acreditando tudo ganhar, e voltando sem sequer travar uma batalha. Era preciso, sobretudo, desconfiar dos empreendimentos daquele rapaz! O que não impedia fosse Filipe de Valois o melhor, o mais íntimo amigo de Roberto, além de seu cunhado. Mas é possível pensar dos amigos o que bem entendermos, contanto que não lhos digamos.

Rogério Mortimer empalidecera ao ouvir a proposta de Filipe de Valois. Porque, embora fosse adversário e inimigo do rei Eduardo, afinal a Inglaterra era a sua pátria!

— No momento — disse ele —, os escoceses estão mais ou menos em paz e parecem respeitar o tratado que impuseram a Eduardo, no ano passado.

— E depois, a Escócia, a Escócia... — reforçou Roberto. — É preciso atravessar o mar para alcançá-la! Reservemos nossos navios para a cruzada. Talvez tenhamos terreno melhor onde desafiar aquele libertino do Eduardo. Ele não nos rendeu homenagem pela Aquitânia. Se o forçássemos a vir defender seus direitos na França, no seu ducado, e se, a propósito disso, fôssemos esmagá-lo, estaríamos todos vingados, para começar, e, além disso, ele se manteria calmo durante a nossa ausência.

Valois girava seus anéis e refletia. Mais uma vez Roberto mostrava-se bom conselheiro. A idéia que acabara de expor era ainda vaga, mas Valois já percebia quais os desdobramentos que ela lhe poderia trazer. De início, a Aquitânia não era, para ele, terra "desconhecida": ali fizera campanha, sua primeira grande campanha, e vitoriosa, em 1294.

— Isso seria, evidentemente — disse ele —, um bom exercício para a nossa cavalaria, que há bastante tempo não conhece uma guerra de verdade, e também uma razão para experimentar aquela artilharia com pólvora que os italianos começam a usar, e cujo fornecimento nosso velho amigo Tolomei nos oferece. Realmente, o rei da França pode lançar mão do ducado da Aquitânia, por falta de homenagem...

Ficou pensativo por um instante, depois concluiu:

— Mas isso não quer dizer que daí decorra, forçosamente, combate armado. As negociações serão feitas como de costume, e se tornarão assunto para os Parlamentos e embaixadas. Depois, a contragosto, a homenagem será prestada. Não é uma boa causa.

Roberto d'Artois tornou a sentar-se, com os cotovelos sobre os joelhos e os punhos sob o queixo.

— Podemos descobrir pretexto mais eficaz — disse ele — do que a falta de homenagem. Não será a vós, primo Mortimer, que precisarei dizer todas as dificuldades, chicanas e batalhas que nasceram da Aquitânia, desde que a duquesa Leonor, tendo decorado com galhos muito fortes a testa de seu primeiro esposo, nosso rei Luís VII, e depois de desfeito o casamento deles, foi levar seu corpo folgazão, assim como o seu ducado, a vosso rei Henrique II da Inglaterra. Também não precisarei dizer-vos nada sobre o tratado com que o bom rei São Luís, que metera na cabeça arranjar tudo com eqüidade, quis pôr termo a cem anos de guerra 15. Mas a eqüidade nada vale para os regulamentos entre os reinos. O tratado que no ano da graça de 1259 monseigneur São Luís concluiu com Henrique III Plantageneta não passava de grande enovelado de confusões. Uma gata não teria encontrado ali a sua ninhada. O próprio senescal de Joinville, tio-avô de vossa esposa, primo Mortimer, que era devotado ao santo rei, desaconselhou-lhe tal acordo. Não, reconheçamos com toda a franqueza, o tratado era uma tolice!

Roberto desejava acrescentar: "Como, aliás, tudo quanto São Luís fez, pois foi o rei mais funesto que já tivemos. Suas cruzadas ruinosas, seus tratados atamancados, seus costumes, onde numa linha aparece preto o que em outra aparece branco... Ah! Como teria sido bom para a França ter sido poupada daquele governo! Entretanto, depois que São Luís morreu, todo mundo o lamenta, por falta de memória, recordando-se apenas daquela justiça que ele distribuía sob um carvalho, e na qual perdia, para ouvir as chicanas dos labregos, o tempo que deveria consagrar ao reino!"

E recomeçou a falar:

— Desde a morte de São Luís só há disputas, discussões, tratados concluídos, tratados renegados, homenagens prestadas, mas com reservas, audiências dos Parlamentos, querelantes denegados, querelantes condenados, revoltas no território e novas audiências da justiça. Mas quando vós mesmo, Carlos — perguntou Roberto, voltando-se para Valois —, fostes enviado por vosso irmão Filipe, o Belo, para a Aquitânia, onde restabelecestes a ordem de tão bela forma, qual foi o motivo invocado para a vossa partida?

— Grande levante em Bayonne, onde marinheiros da França e da Inglaterra se desavieram, e onde correu sangue.

— Pois bem — exclamou Roberto. — Precisamos inventar oportunidade para novo levante em Bayonne. É preciso agir em algum lugar para que os súditos dos dois reis se encontrem com bastante força e matem-se um bocadinho entre si. E penso que encontrei o lugar apropriado para isso.

Apontou seu indicador enorme para os interlocutores, e continuou:

— No Tratado de Paris, confirmado pela paz do ano de 1303, revisto pelos juristas de Périgueux no ano de 1311, conservou-se sempre reservado o caso de certos senhorios, que chamam privilegiados, e que, ficando em terras da Aquitânia, mantêm-se, entretanto, obedientes ao rei da França. Ora, esses senhorios, por sua vez, têm dependências, terras vassalas, que ficam na Aquitânia. Nunca, porém, se cuidou de saber se as dependências também se subordinam ao rei da França, diretamente, ou ao duque da Aquitânia. Estais vendo?

— Vejo — disse monseigneur de Valois.

Seu filho Filipe não via. Abria seus grandes olhos azuis, e sua incompreensão era tão visível que seu pai explicou :

— Sim, meu filho. Imagina que eu te entregue, como se fosse um feudo, todo este palácio. Mas reservo para mim o uso franco e a disposição desta sala onde estamos. Ora, esta sala depende do gabinete de passagem, que é controlada por aquela porta. Qual de nós tem gozo do gabinete de passagem e deve prover o mobiliário e a limpeza dele? Tudo — acrescentou Valois, voltando-se para Roberto — está em encontrar ação de peso para que Eduardo seja obrigado a responder a ela.

— Tendes — respondeu o gigante — uma dependência bem escolhida, a terra de Saint-Sardos, que cabe ao priorado de Sarlat, na diocese de Périgueux. A situação já foi debatida, quando Filipe, o Belo, celebrou com o prior de Sarlat um tratado de pariato que fazia o rei da França co-senhor desse senhorio. Eduardo I apelou, então, para o Parlamento de Paris, mas nada foi providenciado16. Se, na dependência de Saint-Sardos, o rei da França, co-senhor de Sarlat, mandar construir uma fortaleza para ali colocar forte guarnição que apresente uma certa ameaça às redondezas, que pode fazer o rei da Inglaterra, duque da Aquitânia? Ordenará ao senescal que se oponha a tal coisa, e vai querer colocar também uma guarnição ali. No primeiro encontro entre os soldados, ao primeiro oficial do rei que seja maltratado ou apenas insultado...

Roberto abriu as grandes mãos, como se a conclusão fosse óbvia. E monseigneur de Valois, envolto em veludos azuis bordados a ouro, levantou-se de seu trono. Via-se já a cavalo, à frente de suas companhias: tornava a partir para a Guyenne, onde, trinta anos antes, já tinha ganho a vitória para o rei da França!

— Meu irmão, admiro-me realmente — exclamou Filipe de Valois — que um cavaleiro grande como sois tenha conhecimento de questões jurídicas tanto quanto um oficial de justiça.

— Ora, meu irmão, não tenho grande mérito nisso, como sabeis. Não foi por prazer que me instruí tão bem sobre todos os costumes da França e todas as sentenças do Parlamento: foi por causa do meu processo do Artois. E já que até hoje isso não me serviu, que pelo menos sirva aos meus amigos — concluiu Roberto d'Artois, inclinando-se um pouco diante de Rogério Mortimer, como se toda aquela importante questão tivesse de ser montada exclusivamente por causa dele.

— Vossa vinda significa grande auxílio, sire barão — reforçou Carlos de Valois —, pois nossas causas estão ligadas, e não deixaremos amiúde de pedir vossos conselhos nessa empresa... que Deus queira proteger!

Mortimer sentia-se derrotado, ultrapassado. Nada fizera, nada dissera nem sugerira. Sua simples presença fora suficiente para que outros pudessem concretizar suas secretas ambições. E agora, pediam-lhe que participasse de uma guerra contra seu próprio país, sem que lhe restasse outra alternativa.

Assim, e se Deus o quisesse, os franceses fariam a guerra, na França, aos vassalos franceses do rei da Inglaterra, com o apoio de um grande barão inglês e dinheiro que o papa lhes entregara para libertar a Armênia dos turcos.

 

A espera

O fim do outono escoou-se, e o inverno, e a primavera, e o início do verão. Lorde Mortimer viu as quatro estações passarem sobre Paris, a lama amontoar-se nas mas estreitas, a neve cobrir os grandes telhados das abadias e os prados de Saint-Germain, depois os renovos se abrirem nas árvores das margens do Sena, e o sol brilhar sobre a torre quadrada do Louvre, sobre a torre redonda de Nesle, sobre a aguda flecha da Sainte-Chapelle.

Um emigrado espera. É o seu papel (acredita-se), e quase a sua função. Espera que a má sorte passe, espera que as pessoas, no país onde se refugiou, terminem de tratar de seus próprios assuntos para, finalmente, inquietarem-se com os dele. Passados os primeiros momentos da chegada, quando seus reveses suscitam curiosidade, quando cada qual quer apoderar-se dele como de um animal que se exibe, sua presença depressa torna-se cansativa, constrangedora mesmo. Parece trazer sempre consigo uma censura muda. Mas não seria possível que se ocupassem dele em todos os momentos: é o suplicante; afinal, pode bem ter paciência!

Portanto, Rogério Mortimer esperava, como esperara dois meses na Picardia, em casa de seu primo João de Fiennes, que a corte da França voltasse a Paris, como esperara que monseigneur de Valois encontrasse, entre todas as suas tarefas, a hora de recebê-lo... Esperava agora uma guerra da Guyenne, pela qual parecia que seu destino devia passar, obrigatoriamente.

Oh! monseigneur de Valois não havia hesitado em dar suas ordens. Os oficiais do rei da França, tal como aconselhara Roberto, já tinham começado a mandar traçar em Saint-Sardos, nas dependências litigiosas do senhorio de Sarlat, os alicerces de uma fortaleza. Mas uma fortaleza não se levanta num dia, nem mesmo em três meses, e os vassalos do rei da Inglaterra não pareciam, pelo menos de início, se preocupar demais. Estava-se na obrigação de esperar o incidente.

Rogério Mortimer aproveitava seus lazeres para percorrer a capital que apenas entrevira no curso de breve viagem, dez anos antes, para descobrir o grande povo da França que ele conhecia mal. Que nação poderosa, numerosa, e como era diferente da Inglaterra! Em ambos os lados da Mancha, as pessoas acreditavam-se semelhantes, porque nos dois países a nobreza originara-se da mesma fonte. Mas que disparidades, considerando as coisas mais de perto! Toda a população do reino da Inglaterra, com seus dois milhões de almas, não atingia a décima parte do total dos vassalos do rei da França. Os franceses tinham de ser avaliados à altura de vinte e dois milhões. Paris, por si só, contava trezentas mil almas, enquanto Londres tinha apenas quarenta mil17. E que bulício nas ruas, que atividade de negócios e de indústria, que despesas! Seria suficiente, para se convencer, passear no Pont-au-Change, ou ao longo do Quai des Orfèvres, e ouvir soar, no fundo das lojas, todos os marte-linhos de bater ouro; atravessar, apertando um pouco o nariz, o bairro do Grande Matadouro, atrás do Châtelet, onde trabalhavam tripeiros e esfoladores; seguir a Rue Saint-Denis, onde ficavam os merceeiros; ir apalpar os tecidos no grande Mercado dos Negociantes de Panos... Na Rue des Lombards, mais silenciosa, e que agora lorde Mortimer conhecia melhor, tratavam-se dos grandes negócios.

Perto de trezentas e cinqüenta corporações e mestrias regulamentavam e dominavam a vida de todos esses ofícios: cada um deles tinha suas leis, costumes e festas, e não havia praticamente dia do ano em que, depois da missa e da discussão no parlatório, um grande banquete não reunisse mestres e companheiros; ora capeleiros, ora fabricantes de círios, ora curtidores... Na montanha Sainte-Geneviève, todo um povo de clérigos, de doutores de capelo, discutiam em latim, e o eco das controvérsias sobre apologética, ou sobre os princípios de Aristóteles, difundiria outros debates na cristandade inteira.

Os grandes barões, os grandes prelados e muitos reis estrangeiros tinham na cidade uma residência, onde mantinham uma espécie de corte. A nobreza freqüentava as ruas da Cite, a Galeria Capelista do Palácio Real, as vizinhanças dos palácios de Valois, de Navarra, do Artois, da Borgonha, de Savóia. Cada um desses palácios era como que uma representação permanente dos grandes feudos: os interesses de cada província ali se concentravam. E a cidade crescia, crescia sem cessar, estendendo seus arrabaldes aos jardins e aos campos, fora das muralhas de Filipe Augusto, que começavam a desaparecer, afogadas nas construções novas.

Quando se saía um pouco para fora de Paris, via-se que os campos eram prósperos. Simples porqueiros, vaqueiros, possuíam, freqüentemente, uma vinha ou um campo próprio. As mulheres empregadas nos trabalhos da terra, ou em outros serviços, jamais trabalhavam nas tardes de sábado, que, entretanto, lhes eram pagas. Aliás, quase em toda parte, no sábado, abandonava-se o trabalho às três badaladas das vésperas. As festas religiosas, numerosas, eram consideradas feriados, como as festas das corporações. Entretanto, aquela gente se queixava. Quais eram, porém, os principais motivos de tais queixas? As talhas, os impostos, seguramente, como em todos os tempos e em todos os países, e também o fato de terem sempre acima deles alguém de quem dependiam. Tinham a sensação de que trabalhavam apenas para proveito alheio, e de jamais poderem verdadeiramente dispor de si próprios e dos frutos de seus esforços. Existia ainda na França, apesar dos decretos de Filipe V, mal seguidos, muito maior número de servos do que na Inglaterra, onde a maior parte dos camponeses eram homens livres, obrigados, aliás, a se equiparem para o exército, e que tinham uma espécie de representação nas assembléias reais. Aquilo ajudava a compreender melhor por que o povo da Inglaterra havia exigido cartas constitucionais de seus soberanos.

Em compensação, a nobreza da França não estava dividida como a da Inglaterra: havia muitos inimigos ferrenhos por causa de interesses pessoais, como o conde d'Artois e sua tia, Mafalda; formavam clãs, corrilhos, mas toda aquela nobreza tornava-se coesa quando se tratava de interesses gerais ou da defesa do reino. A idéia de nação era ali mais precisa e mais forte.

A verdadeira semelhança que existia entre os dois países, naquele tempo, vinha da própria pessoa de seus reis. Em Londres, como em Paris, as coroas tinham caído em cabeças de homens fracos, ignorantes daquela verdadeira preocupação da coisa pública, sem a qual um príncipe não é príncipe senão de nome.

Mortimer fora apresentado ao rei da França e tornara a vê-lo muitas outras vezes. Não conseguira formar opinião favorável sobre aquele homem de vinte e nove anos, que os fidalgos costumavam chamar Carlos, o Belo, e o povo, Carlos, o biau *, porque na altura e no rosto parecia-se bastante com o pai, mas, sob aquela nobre aparência, não tinha um grama de cérebro.

* Forma popular e antiga da palavra "beau", que também significa “belo”. (N. da T.)

 

— Encontrastes alojamento conveniente, messire de Mortimer? Vossa esposa está convosco? Ah! Como vos deveis sentir só! Quantos filhos ela vos deu?

Tinham sido essas, mais ou menos, todas as palavras que o rei dirigira ao exilado, e de cada vez, tornara a indagar: "Vossa esposa está convosco? Quantos filhos tendes?", esquecendo-se, entre duas entrevistas, da resposta anterior. Suas preocupações pareciam ser somente de ordem doméstica e conjugai. Seu triste casamento com Branca de Borgonha, do qual guardara a ferida, fora dissolvido por uma anulação, na qual ele próprio não aparecera sob seu melhor aspecto. Monseigneur de Valois tornara a casá-lo imediatamente com Maria de Luxemburgo, jovem irmã do rei da Boêmia, com o qual Valois, justamente naquela ocasião, queria entender-se a propósito do reino de Aries. E eis que agora Maria de Luxemburgo estava grávida, e Carlos, o Belo, rodeava-a de atenções um tanto tolas.

A incompetência do rei não impedia que a França se ocupasse dos negócios do mundo inteiro. O conselho governava em nome do rei, e monseigneur de Valois, em nome do conselho. Nada, ao que parecia, podia ser feito sem que a França o decidisse. Davam-se conselhos constantes ao papado, e o grande cavaleiro Robin Cuisse-Maria, que recebia oito libras e alguns dinheiros — verdadeiro patrimônio — para percorrer a estrada de Avignon, levava mensagens incessantemente e requisitava seus cavalos nos mosteiros. Assim, em todas as cortes, em Nápoles, em Aragão, na Alemanha. Porque se cuidava muito dos negócios da Alemanha, onde Carlos de Valois e seu camarada João de Luxemburgo muito haviam trabalhado a fim de que o imperador Luís da Baviera fosse excomungado pelo papa, de forma que a coroa do Santo Império pudesse ser oferecida... a quem, entretanto? Mas ao próprio monseigneur de Valois! Era um velho sonho, no qual ele se obstinava. De cada vez que a sede do Santo Império ficava vaga ou fora tornada vaga, monseigneur de Valois se apresentara como candidato. Ao mesmo tempo, continuava a fazer os preparativos para a cruzada, e era preciso reconhecer que, se aquela cruzada pudesse ser comandada justamente pelo imperador, aquilo teria impressionado fortemente os infiéis, e mesmo os cristãos.

Mas havia também os transtornos da Flandres, essa Flandres que causava constantes preocupações à coroa, fosse na ocasião em que suas populações se revoltavam contra seu conde, quando este último se mostrava fiel ao rei da França, fosse quando o próprio conde se opunha ao rei para satisfazer suas populações. Depois, enfim, ocupavam-se da Inglaterra, e agora Rogério Mortimer era chamado à casa de Valois, a cada vez que surgia uma questão nesse terreno.

Mortimer alugara moradia perto do palácio de Roberto d'Artois, na Rue Saint-Germain-des-Prés, e diante do Palácio de Navarra. Geraldo de Alspaye, que o seguia desde sua evasão da Torre, dirigia sua casa, onde o barbeiro Ogle exercia as funções de criado de quarto. A população da casa aumentara com alguns refugiados, obrigados ao exílio, também eles, pelo ódio dos Despenser. Tinha chegado, particularmente, João Maltravers, fidalgo inglês do partido de Mortimer, descendente, como ele, de um companheiro do Conquistador, e que fora declarado inimigo do rei. Esse Maltravers tinha o rosto comprido e sombrio, os cabelos escorridos, os dentes imensos; parecia-se com seu cavalo. Não era companheiro muito agradável, e causava sobressaltos às pessoas com suas risadas sincopadas, como relinchos, e para as quais se buscava em vão um motivo. Mas no exílio não se podem escolher os amigos: o infortúnio comum no-los impõe. Por Maltravers soube Mortimer que sua esposa fora transferida para o Castelo de Skipton, no condado de York, tendo, como séquito, uma dama, um escudeiro, uma lavadeira, um criado e um pajem, e que recebia treze xelins e quatro dinheiros por semana, para sua manutenção e de sua gente: era quase a prisão...

Quanto à rainha Isabel, sua sorte tornava-se cada dia mais penosa. Os Despenser roubavam-na, despojavam-na, humilhavam-na com um paciente aperfeiçoamento da crueldade. "Nada me resta que me pertença senão a vida", mandara ela dizer a Mortimer, "e receio bastante que se preparem para tomar-ma. Apressai meu irmão para que venha em minha defesa."

Mas o rei da França... "Vossa esposa está convosco? Tendes filhos?... não tinha senão a opinião de monseigneur de Valois, que tudo condicionava ao resultado de suas atividades na Aquitânia. E se até lá os Despenser assassinassem a rainha?

— Eles não ousarão — respondia Valois.

Mortimer ia respigar outras notícias na casa do banqueiro Tolomei, que seu correio de além Mancha lhe transmitia. Os lombardos tinham melhor rede de correio do que a corte, e seus viajantes mostravam-se mais hábeis em dissimular as mensagens. Assim, a correspondência entre Mortimer e o bispo Orleton era mais ou menos regular.

O bispo de Hereford pagara caro a organização da fuga de Mortimer, mas era corajoso e fazia frente ao rei. Primeiro prelado da Inglaterra a ser citado diante da justiça, recusara responder aos seus acusadores, apoiado, aliás, por todos os arcebispos do reino, que viam seus privilégios ameaçados. Eduardo prosseguira o processo, condenara Orleton, e ordenara o confisco de seus bens. Escrevera também ao papa, pedindo-lhe a deposição do bispo, como rebelde: era importante que monseigneur de Valois agisse junto de João XXII para impedir tal medida, cujo resultado seria levar Orleton ao patíbulo.

Para Henrique Pescoço-Torto, a situação era confusa. Eduardo o fizera, em março, conde de Lancastre, devolvendo-lhe os títulos e bens de seu irmão decapitado, inclusive o grande Castelo de Kenilworth. Depois, quase imediatamente, por ter tido conhecimento de uma carta de encorajamento e amizade dirigida a Orleton, Eduardo acusara Henrique Pescoço-Torto de alta traição.

— E vosso rei se obstina ainda a não nos pagar. Já que vedes freqüentemente messeigneurs de Valois e d'Artois, e já que sois amigo deles — dizia Tolomei —, fazei-os lembrar, my lord, aquelas bocas de pólvora que foram experimentadas na Itália, e que servirão muito no cerco das cidades. Meu sobrinho que está em Siena, e os Bardi, de Florença, podem ocupar-se do fornecimento delas: trata-se de peças de artilharia mais fáceis de levar ao local do que as grandes catapultas de balanceiros, e produzem efeito mais destruidor. Monseigneur de Valois deveria munir-se delas para a sua cruzada... se a empreender!

As mulheres, de início, sentiram-se muito interessadas por Mortimer, por aquele homem de olhos estranhos, vestido de preto, austero, misterioso, que mordiscava a cicatriz branca do lábio inferior. Tinham-no feito contar vinte vezes a sua evasão, e, enquanto ele falava, seus belos seios erguiam-se sob as transparentes gargantilhas de linho branco. Sua voz, que era grave, quase rouca, com sotaque inesperado em certas palavras, tocava os corações devolutos. Roberto d'Artois quisera, por diversas vezes, empurrar o barão inglês para aqueles braços que não desejavam senão abrir-se. Oferecera também a Mortimer, se seus gostos o levassem a preferir a canalha, arranjar-lhe algumas doidivanas — duas ou três — a fim de distraí-lo de suas preocupações. Mortimer, porém, não cedera a nenhuma tentação, a ponto de se perguntarem os demais, já que ele não parecia particularmente carola, de onde lhe vinha tal virtude, e se não partilharia dos costumes de seu rei.

Não podiam imaginar a verdade, isto é, que aquele homem, o mesmo que apostara sua salvação na morte de um corvo, tinha colocado sua volta à fortuna em penhor contra sua castidade. Fizera a si próprio a promessa de não tocar mulher antes de ter voltado à terra da Inglaterra, e recuperado seus títulos e seu poderio. Era um voto de cavaleiro, como poderia fazer um Lancelot, um Amadis, um companheiro do rei Artur. Mas Rogério Mortimer precisou confessar, com o tempo, a si mesmo, que escolhera um tanto precipitadamente seu voto, e isso só contribuía para aumentar-lhe a irritação.

Enfim, chegaram boas notícias da Aquitânia. O senescal do rei da Inglaterra na Guyenne, messire Basset, tanto mais suscetível a respeito de sua autoridade por se prestar seu nome ao riso, começou a inquietar-se com a fortaleza que se levantava em Saint-Sardos. Viu naquilo uma usurpação dos direitos de seu senhor, o rei da Inglaterra, e um insulto à sua própria pessoa. Tendo reunido algumas tropas, entrou de improviso em Saint-Sardos, pôs o pequeno burgo sob pilhagem, prendeu os oficiais encarregados de fiscalizar os trabalhos e enforcou-os em postes que assinalavam, pelos seus escudos de armas com as flores-de-lis, a suserania do rei da França sobre aquela dependência. Messire Ralph Basset não estava só naquela expedição: muitos fidalgos da região o haviam auxiliado.

No dia em que foi informado do que se passava, Roberto d'Artois foi imediatamente procurar Mortimer e arrastou-o para a casa de Carlos de Valois. Transbordava de alegria e orgulho, ria mais alto do que de costume e dava tapas amistosos em seus familiares, tapas que os mandavam de encontro às paredes. Enfim, ali estava a ocasião, nascida de seu cérebro inventivo!

O assunto foi imediatamente avocado ao Conselho Restrito: fizeram-se as representações habituais, e os culpados do saque de Saint-Sardos viram-se chamados a apresentar-se ao Parlamento de Toulouse. Iriam apresentar-se, reconhecer seus erros, prestar submissão? Temia-se isso.

Por felicidade, um entre eles, um só, Raimundo Bernardo de Montpezat, recusou-se a comparecer. Não seria preciso mais. O rebelde foi condenado por ausência, seus bens confiscados por decreto, e João de Roye, que sucedera a Pedro Heitor de Galard como grão-mestre dos besteiros, foi enviado para a Guyenne com uma pequena escolta, a fim de apoderar-se do sire de Montpezat e de seus bens e demolir seu castelo. Ora, foi sire de Montpezat quem se pôs em vantagem, aprisionando o oficial real e exigindo resgate por sua soltura. O rei Eduardo nada tinha a ver com o acontecimento, mas seu caso agravava-se pela força dos acontecimentos, e Roberto d'Artois exultava. Porque um grão-mestre de besteiros não é homem que se faça desaparecer sem que daí surjam graves conseqüências!

Novas representações foram feitas, dessa vez diretamente ao rei da Inglaterra, combinadas com a ameaça de confisco do ducado. No início de abril, Paris viu chegar o conde de Kent, meio irmão do rei Eduardo, secundado pelo arcebispo de Dublin, que vinha propor a Carlos IV, a fim de conciliar suas dissensões, que renunciasse, pura e simplesmente, à homenagem de Eduardo. Mortimer, que viu Kent naquela ocasião (suas relações conservaram-se corteses, embora a situação de ambos fosse difícil), fez-lhe ver a inutilidade total de tal proposta. O jovem conde de Kent, que disso, aliás, também estava persuadido, desincumbia-se de sua missão sem prazer. Partiu, levando a recusa do rei da França, transmitida de maneira desdenhosa por Carlos de Valois. Isso valia dizer que a guerra inventada por Roberto d'Artois estava a ponto de estourar.

Mas eis que, ao mesmo tempo, a nova rainha, Maria de Luxemburgo, morria subitamente em Issoudun, dando à luz prematuramente um filho que não era viável.

Não se faz guerra durante um luto, tanto mais que o rei Carlos se mostrava muito abatido, e quase incapaz de presidir seus conselhos. A sorte o perseguia, decididamente, em seu destino de esposo. Traído de início, em seguida viúvo... Era necessário que monseigneur de Valois, pondo de parte qualquer outra preocupação, se dedicasse a conseguir uma terceira esposa para o rei, que se inquietava, mostrava-se azedo e censurava a toda gente a falta de herdeiro em que se via o reino. Seu pai decidira o seu primeiro casamento; seu tio, o segundo: ora, nem um nem outro pareciam ter feito grande coisa.

Não era muito fácil encontrar princesas que quisessem entrar para essa família da França, sobre a qual, já se dizia, a desgraça pairava.

Carlos de Valois teria prazerosamente dado a seu sobrinho uma de suas filhas ainda solteiras, se as idades pudessem combinar: Infelizmente, mesmo a mais velha, a que outrora fora proposta ao príncipe herdeiro da Inglaterra, não tinha mais de doze anos. E Carlos, o Belo, não estava disposto a munir-se de paciência, nem para encontrar novamente a paz de suas noites, nem para assegurar sua sucessão.

E lorde Mortimer esperava que se encontrasse uma esposa para o rei...

Restava a Carlos IV outra prima irmã, filha de monseigneur Luís d'Evreux, então falecido, e irmã de Filipe d'Evreux, que tinha se casado com Joana de Navarra, a suposta bastarda de Margarida de Borgonha. Essa Joana d'Evreux não parecia muito vistosa, mas era bem-feita, e, sobretudo, tinha a idade necessária para ser mãe. Monseigneur de Valois, querendo livrar-se de azáfamas, encorajou toda a corte a empurrar Carlos para essa união. Três meses depois da morte de Maria de Luxemburgo, nova dispensa era pedida ao papa. E Roberto d'Artois, genro de Carlos de Valois, que era tio do rei, tornou-se também tio por aliança do soberano seu primo, pois que Joana d'Evreux era filha de sua falecida irmã, Margarida d'Artois.

O casamento foi realizado no dia 5 de junho. Quatro dias antes, Carlos decidira confiscar a Aquitânia e o Ponthieu, por revolta e falta de homenagem. O papa João XXII, tal como considerava de seu dever cada vez que eclodia um conflito entre dois soberanos, escreveu ao rei Eduardo, pedindo-lhe que viesse prestar homenagem, para que ao menos um dos pontos do litígio fosse eliminado. Mas o exército da França já estava em pé de guerra e reunia-se em Orléans, enquanto uma frota se equipava nos portos para atacar as costas inglesas.

Paralelamente, o rei da Inglaterra ordenara alguns recrutamentos de homens na Aquitânia e messire Ralph Basset reunia suas companhias. O conde de Kent voltava da França, mas dessa vez pelo oceano, e para exercer no ducado a tenência que seu meio irmão lhe confiara.

Iam partir? Não, era ainda preciso que monseigneur de Valois corresse a Bar-sur-Aube, a fim de ali encontrar-se com Leopoldo de Habsburgo, para tratarem da eleição no Santo Império, e celebrar um tratado pelo qual Habsburgo se comprometia a não ser candidato, mediante somas de dinheiro, pensões e rendas, desde o momento fixadas para o caso de ser Valois eleito imperador. Rogério Mortimer continuava esperando...

Enfim, no dia 1.º de agosto, sob o esmagador calor que cozinhava os cavaleiros em suas couraças, como em panelas, Carlos de Valois, soberbo, pesado, levando cimeira em seu capacete e cota de ouro sob a armadura, fez-se colocar sobre a sela. Tinha a seu lado seu segundo filho, o conde d'Alençon, seu sobrinho Filipe d'Evreux, o novo cunhado do rei, o condestável Gaucher de Châtillon, lorde Mortimer de Wigmore, e, enfim, Roberto d'Artois, que, montado num cavalo apropriado para o seu tamanho, podia vigiar todo o exército.

Partindo para essa campanha, sua segunda campanha da Guyenne, que desejara, decidira, quase fabricara, monseigneur de Valois estaria jubiloso, feliz, ou simplesmente satisfeito? Nada disso. Mostrava-se deprimido, porque Carlos IV recusara assinar sua comissão de lugar-tenente do rei na Aquitânia. Se alguém tinha verdadeiramente direito a tal título, não era Carlos de Valois? E que papel fazia ele, quando o conde de Kent, aquele moçoilo, aquela criança de peito... e além do mais seu sobrinho, tinha recebido, ele, a tenência do rei Eduardo!

Perguntava-se o que poderia ter passado pela cabeça de Carlos, o Belo, e qual a razão de sua repentina obstinação em recusar o que se lhe pedia de mais evidentemente necessário, ele, que nada era capaz de decidir! Na verdade, e Carlos não hesitava em se abrir nesse sentido com seus vizinhos, aquele pateta coroado, aquele papalvo, merecia que alguém se desse a tantos trabalhos para governar por ele o seu reino? Seria necessário, um dia, fornecer-lhe também um herdeiro?

O velho condestável Gaucher de Châtillon, que comandava teoricamente o exército, pois que Valois não tinha comissão oficial, franzia suas pálpebras de tartaruga sob o elmo de forma antiquada. Era um pouco surdo, mas com setenta e quatro anos ainda fazia boa figura sobre a sela.

Lorde Mortimer havia comprado suas armas na casa de Tolomei. Sob a viseira levantada, viam-se brilhar seus olhos de reflexos duros, da mesma cor do aço novo. Já que marchava, por culpa de seu rei, contra seu país, levava uma cota de guerra de veludo preto, em sinal de luto. A data daquela partida, jamais a esqueceria: era o dia 1.° de agosto de 1324, festa das Cadeias de São Pedro, e havia um ano, dia por dia, que ele se tinha evadido da Torre de Londres.

 

As bocas de fogo

O alarma surpreendeu o jovem conde Edmundo de Kent, que estava deitado no lajedo de um aposento do castelo, onde em vão procurava um pouco de frescor. Seminu como se pusera, ali se estendia, de calções de algodão e torso despido, com os braços afastados, derribado pelo verão bordelês. Seu galgo predileto arquejava ao lado.

O cão foi o primeiro a ouvir o sino de rebate. Ergueu-se sobre as patas da frente, com o focinho espetado, orelhas levantadas e frementes. O jovem conde de Kent saiu de sua sonolência, espreguiçou-se, e, de súbito, compreendeu que aquele grande estrépito provinha dos sinos de La Réole, que tocavam todos ao mesmo tempo. Num instante estava de pé, agarrava a camisa de cambraia, que atirara sobre uma cadeira, e vestia-a precipitadamente.

Já se ouviam passos apressados em direção à porta. Messire Ralph Basset, o senescal, entrou, seguido de alguns senhores locais, o sire de Bergerac, os barões de Budos e de Mauvezin, e o sire de Montpezat, em torno do qual — pelo menos ele acreditava, para disso gloriar-se — nascera toda aquela guerra.

O senescal Basset era, realmente, muito pequeno, e o jovem conde de Kent surpreendia-se com isso cada vez que o via. Ademais, era redondo como um tonel, pois tinha prodigioso apetite, e estava sempre à beira de uma cólera que lhe intumescia o pescoço e exorbitava os olhos.

O galgo não gostava do senescal, e rosnava assim que lhe punha os olhos em cima.

— Incêndio ou os franceses, messire senescal? — perguntou o conde de Kent.

— Os franceses, os franceses, monseigneur! — exclamou o senescal, quase ofendido com a pergunta. — Vinde vê-los: já estão à vista.

O conde de Kent debruçou-se sobre um espelho de estanho, a fim de pôr em ordem os caracóis louros que lhe tombavam sobre as orelhas, e seguir o senescal. De camisa branca, aberta ao peito e cruzada em torno da cintura, sem esporas e sem botas, com a cabeça descoberta, entre os barões vestidos de malhas de ferro e inteiramente armados, ele dava estranha impressão de intrepidez, de graça e de falta de seriedade.

O estrondejar violento dos sinos surpreendeu-o à saída do torreão, e o ardente sol de agosto deslumbrou-o. O galgo pôs-se a uivar.

Subiram até o alto da Thomasse, a grande torre redonda construída por Ricardo Coração de Leão. Quantas coisas construíra aquele antepassado. O círculo de muralhas da Torre de Londres, o Château-Gaillard, a Fortaleza de La Réole...

O Garonne, largo e faiscante, corria aos pés da colina, quase a prumo, e seu curso desenhava meandros através da planície grande e fértil, onde o olhar se perdia até a linha azul e longínqua dos montes do Agenois.

— Nada vejo — disse o conde de Kent, que se esforçava por divisar a guarda avançada dos franceses nas proximidades da cidade.

— Mas estão ali, monseigneur — responderam-lhe aos gritos, a fim de dominar o ruído dos sinos a rebate. — Ao longo do rio, água acima, na direção de Sainte-Bazeille!

Apertando as pálpebras e pondo a mão em viseira, o conde de Kent terminou por enxergar uma fita cintilante paralela à do rio. Disseram-lhe que era o reflexo do sol sobre as couraças dos homens e os jaezes dos cavalos de guerra.

E sempre o retumbar dos sinos a despedaçar a atmosfera! Os sineiros deviam estar com os braços partidos. Via-se nas ruas da cidade, em torno do palácio comunal, principalmente, a população agitar-se, fervilhante. Como os homens pareciam pequenos observados das ameias de uma fortaleza! Insetos! De todos os caminhos que vinham dar à cidade, chegavam camponeses apavorados, uns puxando suas vacas, outros as cabras, outros aguilhoando seus bois de tiro. Abandonavam precipitadamente os campos. Não demorariam a chegar os habitantes das aldeias vizinhas, com seus trens às costas, ou amontoados em carroças. Todos se instalariam como pudessem numa cidade já superpovoada pela tropa e pelos cavaleiros da Guyenne...

— Só poderemos contar verdadeiramente os franceses dentro de duas horas, e só lá pela noite alcançarão as muralhas — afirmou o senescal.

— Ah! Esta é uma péssima temporada para guerrear — disse, mal-humorado, o sire de Bergerac, que tivera necessidade de fugir de Sainte-Foy-la-Grande, alguns dias antes, diante do avanço francês.

— Por que não é boa temporada? — perguntou o conde de Kent, mostrando o céu puro e o belo campo que se estendia diante deles.

Fazia um pouco de calor, na verdade, mas não era melhor isso do que chuva e lama? Se eles tivessem conhecido as guerras da Escócia, aqueles homens da Aquitânia, tratariam de não se queixar!

— Porque estamos a um mês das vindimas, monseigneur — disse o sire de Montpezat —, porque os vilões irão gemer ao verem suas plantações pisadas, e só poderemos contar com a má vontade deles. O conde de Valois sabe bem o que faz. Em 1294 já agiu dessa maneira, devastando tudo, para cansar mais depressa a região...

O conde de Kent ergueu os ombros. A região bordelesa contribuía apenas com algumas barricas, e, com guerra ou sem guerra, eles continuariam a beber o clarete. No alto da Thomasse circulava uma ligeira brisa inesperada, que entrava na camisa aberta do jovem príncipe e corria-lhe agradavelmente sobre a pele. Como o simples fato de viver podia causar, às vezes, uma sensação maravilhosa!

O conde de Kent apoiara os cotovelos nas pedras aquecidas da ameia e pusera-se a devanear. Era, aos vinte e três anos, lugar-tenente do rei para todo um ducado, isto é, estava investido de todos os poderes reais, justiça, guerra, finanças. Era, em sua pessoa, o próprio rei. Era ele quem dizia: "Eu quero!", e a ele obedeciam. Podia ordenar: "Enforcai!" Não pensava em fazer tal coisa, aliás, mas podia fazê-la. Depois, além de tudo, estava longe da Inglaterra, longe da corte, longe de seu meio irmão e de seus extravagantes caprichos, longe dos Despenser, com os quais fingia entender-se, por necessidade, sem, entretanto, apreciá-los. Ali, estava entregue a si próprio, era seu único senhor e senhor de quanto o rodeava. Um exército vinha ao seu encontro, e ele iria atacá-lo e vencê-lo, disso não havia a menor dúvida. Um astrólogo lhe anunciara que entre o seu vigésimo quarto e vigésimo sexto ano de idade realizaria suas mais altas ações, as que lhe dariam grande relevo... Subitamente, seus sonhos de infância tornavam-se reais. Uma grande planície, couraças, poder soberano... Não, verdadeiramente, desde que nascera, jamais sentira tamanha felicidade de viver. Sentia a cabeça girar um pouco, numa ebriedade que lhe vinha apenas de si próprio, e daquela brisa que passava a roçar-lhe o peito, e daquele vasto horizonte...

— Vossas ordens, monseigneur? — perguntou messire Basset, que começava a impacientar-se.

O conde de Kent voltou-se e contemplou o pequeno senescal, pondo nesse olhar certo matiz de altaneira surpresa.

— Minhas ordens? Mas mandai soar as buzinas, messire senescal, e colocai vossa gente a cavalo. Vamos adiantar-nos e atacar.

— Mas com quê, monseigneur?

— Com os diabos, será com as nossas tropas, Basset!

— Monseigneur, temos aqui, no máximo, duzentas armaduras, e vêm mais de mil e quinhentos homens ao nosso encontro, segundo as cifras que temos. Não é verdade, messire de Bergerac?

Sire Reginaldo de Pons de Bergerac aprovou com um gesto de cabeça. O atarracado senescal tinha o pescoço rubro e mais intumescido do que de costume. Estava inquieto, verdadeiramente, e a ponto de estourar diante de tão inconseqüente leviandade.

— E dos reforços, não há notícia alguma? — perguntou o conde de Kent.

— Não, monseigneur! Continuamos sem notícias! O rei vosso irmão, perdoai minhas palavras, nos deixa afundar demais.

Havia quatro semanas que esperavam aqueles famosos reforços que deviam vir da Inglaterra! E o condestável de Bordéus, que tinha tropas, usava esse pretexto para não se mexer, pois recebera ordens do rei Eduardo para se pôr a caminho quando os reforços chegassem. O jovem conde de Kent não era assim tão soberano quanto lhe parecera...

"Por causa daquela espera e daquela carência de homens — seria caso de perguntar se os reforços anunciados teriam ao menos iniciado sua viagem! —, tinham sido obrigados a deixar monseigneur de Valois passear através da região, de Agen a Marmande, de Bergerac a Duras, como num parque de diversões. E agora o Valois estava ali, ao alcance de seus olhos, com sua grande fita de aço, enquanto eles continuavam sem possibilidades de fazer fosse o que fosse!

— É também essa a vossa opinião, Montpezat? — perguntou o conde de Kent.

— Lamento, monseigneur, lamento muito! — respondeu o barão de Montpezat, mordendo os bigodes pretos.

Porque ele tinha uma vingança a tomar, e isso o tornava impaciente: Valois, como represália à sua desobediência, ordenara a demolição de seu castelo.

— E vós, Bergerac? — indagou, ainda, Kent.

— Estou em lágrimas de cólera — disse Pons de Bergerac, com aquele sotaque forte, muito cantante, que tinham todos os fidalgos da região.

Edmundo de Kent desistiu de interrogar os barões de Budos e de Fargues de Mauvezin: aqueles não falavam francês nem inglês, apenas o gascão, e Kent nada entendia de suas palavras. Seus rostos, aliás, forneciam resposta suficiente.

— Então, mandai fechar as portas, messire senescal, e instalemo-nos para sermos sitiados. Depois, quando os reforços chegarem, tomarão os franceses pela retaguarda, e isso talvez seja melhor — disse o conde de Kent para se consolar.

Cocou com a ponta dos dedos a cabeça de seu galgo, depois tornou a pousar os cotovelos nas pedras aquecidas, a fim de observar o vale. Um velho adágio dizia: "Quem tem La Réole tem a Guyenne". Resistiriam pelo tempo que fosse necessário.

Um avanço demasiado fácil é quase tão cansativo para uma tropa como uma retirada. Não encontrando diante de si resistência que lhe permitisse deter-se, fosse por um dia, para recuperar o fôlego, o exército da França marchava, marchava, sem cessar, havia três longas semanas, pois iniciara essa marcha exatamente vinte e cinco dias antes. A grande expedição militar, companhias, armaduras, criados do exército, arqueiros, carretas, forjas, cozinhas e depois os mercadores e os bordeleses que os seguiam, estendia-se por mais de uma légua. Os cavalos estavam feridos na cernelha, e não se passava um quarto de hora sem que um se desferrasse. Muitos dos cavaleiros tinham sido obrigados a renunciar ao uso de sua couraça, que, com o auxílio do calor, provocava feridas ou furúnculos nas juntas. A infantaria arrastava os pesados sapatos cravejados. Ademais, as belas ameixas pretas de Agen, que pareciam maduras nas árvores, haviam purgado com violência os soldados sedentos e que andavam à pilhagem. A todo momento viam-se homens deixar a coluna e ir baixar os calções ao longo do caminho.

O condestável Gaucher de Châtillon dormitava o mais que podia, a cavalo. Cerca de cinqüenta anos de ofício de armas e oito guerras ou campanhas lhe haviam fornecido o treinamento.

— Vou dormir um pouco — participava ele a seus dois escudeiros.

Esses últimos, regulando o passo de seus cavalos, vinham colocar-se cada qual de um lado do condestável, de forma a sustentá-lo bem, dado o caso de que ele escorregasse de banda; e o velho chefe, com as rédeas bem apoiadas na contraborraina, roncava sob seu elmo.

Roberto d'Artois suava sem emagrecer e espalhava a vinte passos um cheiro de caça brava. Fizera amizade com um dos ingleses que seguiam Mortimer, aquele comprido barão de Maltravers, que se parecia com um cavalo e lhe propusera, mesmo, que se reunisse à sua companhia, porque o outro era bom jogador e estava sempre disposto, nas paradas, a manejar o copo dos dados.

Carlos de Valois não cessava de se encolerizar. Rodeado por seu filho D'Alençon, seu sobrinho D'Evreux, os dois marechais Mathieu de Trye e João de Barres, e de seu primo Afonso de Espanha, reclamava contra tudo, contra o clima intolerável, contra o ar abafado das noites e a fornalha dos dias, contra as moscas, contra a comida demasiado gordurosa. O vinho que lhe serviam não passava de zurrapa de labrego. Não estavam, entretanto, numa região famosa pela produção de vinho? Onde aquela gente escondia suas boas pipas? Os ovos tinham gosto ruim, e o leite era azedo. Monseigneur de Valois acordava às vezes com náuseas, certos dias sentia no ombro esquerdo uma dor sorrateira que o inquietava. Além disso, a infantaria não caminhava. Ah! Se fosse possível fazer a guerra somente com a cavalaria:... E ainda seria necessário descobrir se tivera razão ao ouvir Tolomei, apoiado por Roberto d'Artois, que o convencera a arrastar desde Castelsarrasin aquelas grandes bocas de pólvora sobre seus suportes rolantes de madeira, em lugar das catapultas e pedreiros habituais, morosos para serem instalados, talvez, mas que apresentavam a vantagem de poder ser transportados desmontados.

— Parece que estou condenado ao sol — dizia ele. — Minha primeira campanha, quando tinha quinze anos, tambem a fiz assim, sob calor ardente, no vosso Aragão despido, meu primo Afonso, e do qual fui rei por um momento, contra vosso avô.

Dirigia-se a Afonso de Espanha, herdeiro do trono de Aragão, lembrando-lhe, sem delicadeza, as lutas que tinham dividido suas famílias. Mas podia permitir-se tal coisa, pois Afonso era bastante bonachão, pronto a tudo aceitar para a todos contentar, pronto a partir para a cruzada, pois que lho haviam pedido, e a combater os ingleses a fim de exercitar-se para tanto.

— Ah! A tomada de Gerona! — continuou Valois. — Dela hei de lembrar-me sempre. Que caldeira! O cardeal de Cholet, não tendo coroa à mão para a minha sagração, colocou-me na cabeça o seu chapéu. Eu abafava, sob aquele grande feltro vermelho. Sim, tinha quinze anos, então... Se meu nobre pai, o rei Filipe, o Audaz, não tivesse morrido, na volta, das febres que lá contraiu...

Ele se tornara sombrio ao falar do pai. Pensava que seu pai morrera aos quarenta anos, seu irmão Filipe, o Belo, aos quarenta e seis, e seu meio irmão Luís d'Evreux aos quarenta e três. Ele próprio tinha agora cinqüenta e quatro anos, completados em março; provara ser o mais robusto da família. Mas por quanto tempo ainda a Providência o pouparia?

— E a Campânia, a Romanha e a Toscana são regiões onde faz calor! — continuou ele. — Atravessar a Itália toda, desde Nápoles, em plena temporada de sol, até Siena e Florença, para dar caça aos gibelinos, como eu o fiz, há... deixai-me contar... 1301... há vinte e três anos! E aqui mesmo, na Guyenne, no ano de 94, também esse verão! Sempre o verão. Mas quando é preciso bater-se na Flandres, chega, então, o inverno, e a gente se enterra na lama até as coxas.

— Dizei-me, Carlos, o calor será ainda pior na cruzada? — atirou, ironicamente, Roberto d'Artois. — Estais imaginando o que vai ser cavalgar contra o Sudão do Egito? E, ao que parece, a cultura da vinha ali é pequena. Vamos lamber areia.

— Oh! A cruzada, a cruzada... — respondeu Valois, com um grande cansaço, irritado. — Sabe-se ao menos se ela será feita, a cruzada, com todos os obstáculos que me colocam pela frente? É muito bonito votar a vida ao serviço dos reinos e da Igreja, mas termina-se por se sentir fatigado de usar sempre as forças pelos ingratos.

Os ingratos eram o papa João XXII, que continuava a resmungar para conceder os subsídios, como se realmente quisesse desencorajar a expedição; o rei Carlos IV, sobretudo, que não somente tinha sido pouco regular na remessa da comissão do lugar-tenente para Carlos de Valois, a ponto de fazer daquilo uma ofensa, mas ainda acabara de se aproveitar da ausência de seu tio para fazer-se pessoalmente candidato ao império. E o papa, naturalmente, dera apoio oficial à candidatura do rei. Assim, toda a bela maquinação, montada por Valois com Leopoldo de Habsburgo, desmoronava. Tinham o rei Carlos por tolo, e de fato ele o era. Mas, às vezes, saía-se bem, em golpes recíprocos. Valois recebera tal notícia naquele mesmo dia, 25 de agosto. Um mau dia de São Luís, na verdade!

O tio do rei estava de tão detestável humor, e tão ocupado em afugentar as moscas que lhe pousavam no rosto, que não se lembrava de contemplar a paisagem. Não viu La Réole senão quando estava diante dela, a quatro ou cinco tiros de besta.

La Réole tinha sido construída sobre uma saliência rochosa que se lançava acima do Garonne, que, por sua vez, era dominado por um círculo de verdes colinas. Recortada contra o céu, que empalidecia, apertada contra as muralhas de boa pedra ocre que se dourava ao sol poente, mostrando os campanários, as torres do castelo, a alta estrutura do edifício da administração pública, com seus ornamentos de remate em forma de torres com aberturas, e todos os telhados de telhas vermelhas, encostados uns aos outros, parecia uma daquelas miniaturas que representavam Jerusalém nos livros de horas. Cidade bonita, realmente. Ademais, sua posição elevada fazia dela uma praça de guerra ideal: o conde de Kent não fora tolo ao escolhê-la para ali encerrar-se. Não seria fácil tomar aquela fortaleza.

O exército detivera-se, esperando ordens. Monseigneur de Valois, entretanto, não as dava. Estava amuado. Que o condestável, que os marechais tomassem as decisões que entendessem. Ele, não sendo lugar-tenente do rei, não estando investido de qualquer poder, não assumiria mais responsabilidade alguma.

— Vinde, Afonso, vamos nos refrescar — disse ele ao primo da Espanha.

O condestável acordara, voltara a cabeça em seu elmo e apurara um ouvido para ouvir o que diziam os chefes das companhias. Enviou o conde de Bolonha em reconhecimento. Bolonha retornou ao cabo de uma hora, tendo feito a volta da cidade, ao lado das colinas. Todas as portas estavam fechadas, e a guarnição não dava sinal algum de surtida. Decidiram, então, acampar ali, e as companhias instalaram-se um tanto como quiseram. As vinhas que lançavam seus sarmentos entre as árvores e as altas estacas constituíam abrigos agradáveis, em forma de caramanchão. O exército sentia-se estafado e adormeceu sob o crepúsculo claro, com a aparição das primeiras estrelas.

O jovem conde de Kent não resistira à tentação. Depois de uma noite insone, cuja passagem disfarçara jogando o tremerei19 com seus escudeiros, mandou vir o senescal Basset, ordenou-lhe que mandasse armar sua cavalaria e, antes do amanhecer, sem toque de clarins, saiu da cidade por uma poterna baixa.

Os franceses, roncando entre as vinhas, só acordaram quando o galope dos cavalos gascões estavam sobre eles. Espantados, ergueram as cabeças para baixá-las imediatamente e ver as ferraduras da carga passar-lhes junto à fronte. Edmundo de Kent e seus companheiros davam-se àquilo com prazer entre os grupos adormecidos, cortando com suas espadas, batendo com suas maças de armas, descendo os pesados flagelos de combate, que o chumbo ainda tornava mais pesados, sobre pernas nuas, sobre costelas que as malhas e couraças não protegiam. Ouviam-se ossos estalar, e uma fileira de urros abria-se no acampamento francês. As tendas de alguns grandes fidalgos desabaram. Mas logo uma voz rude dominou a confusão, gritando: "A mim, Châtillon!" E o estandarte do condestável, de goelas com três palas de veiro, chefe de ouro, um dragão sobre o timbre, preso a dois leões de ouro, flutuou no ar, ao sol nascente. Era o velho Gaucher, que, prudente, fizera seus cavaleiros vassalos acampar um pouco retirados e agora vinha em socorro dos demais, aos gritos: "Artois para a frente!" "A mim, Valois!", responderam da direita e da esquerda. Equipados a meio, alguns a cavalo, outros a pé, os cavaleiros atiravam-se contra os adversários.

O campo era vasto demais, e os cavaleiros franceses muito numerosos para que o conde de Kent pudesse continuar por muito tempo sua devastação. Já os gascões viam formar-se diante deles um movimento em tenazes. Kent apenas teve tempo de voltar as rédeas em retirada e ganhar novamente, a galope, as portas de La Réole, por onde se meteu. Depois, tendo cumprimentado a todos, e retirado a própria armadura, foi dormir, com a honra salva.

Reinava a consternação no acampamento francês, onde se ouviam gemer os feridos. Entre os mortos, cujo número se elevava quase a sessenta, encontravam-se João de Barres, um dos marechais, e o conde da Bolonha, o que na véspera fizera o reconhecimento. Deploravam todos que aqueles dois fidalgos, valentes homens de guerra, tivessem encontrado fim tão súbito e absurdo. Mortos a pancadas, ao acordar!

Mas a proeza do conde de Kent inspirou respeito. O próprio Carlos de Valois, que, ainda na véspera, declarava que o jovem seria engolido por ele de um só bocado, se o encontrasse em campo fechado, mudara de opinião e tomava um ar quase glorioso para dizer:

— Afinal, messeigneurs, ele é meu sobrinho, não vos esqueçais disso.

Esquecendo-se, ele próprio, das feridas do amor-próprio, de suas indisposições físicas e do peso do verão, pôs-se, depois de suntuosas honras fúnebres prestadas ao marechal de Barres, a preparar o cerco da cidade. Nisso mostrou tanta atividade como competência, porque, vaidoso que era, nem por isso deixava de ser também notável guerreiro.

Todas as estradas de acesso a La Réole foram cortadas, e a região, vigiada através de postos cavados na terra. Fossos, aterros e outras obras de terra foram empreendidos a pequena distância das muralhas, para que os arqueiros ficassem abrigados. Iniciou-se a construção de plataformas nos lugares mais propícios, a fim de que nelas fossem instaladas as bocas de pólvora. Ao mesmo tempo, construíam-se estrados destinados aos besteiros. Monseigneur de Valois estava em toda parte, trabalhando, inspecionando, ordenando, estimulando ao trabalho. Em local mais afastado, os cavaleiros tinham feito erguer as tendas redondas, seus pavilhões, na ponta dos quais flutuavam seus estandartes. A tenda de Carlos de Valois, situada numa posição que dominava o campo e a cidade sitiada, era um verdadeiro castelo de tecido bordado. Tudo aquilo estava disposto em amplo anfiteatro, flanqueado pelas colinas.

No dia 30 de agosto Valois recebeu finalmente sua comissão de lugar-tenente do rei. No mesmo momento, sua disposição modificou-se, e ele pareceu não duvidar de que a guerra já estivesse ganha.

Dois dias mais tarde, Mathieu de Trye, o marechal sobrevivente, Pedro de Cugnières e Afonso de Espanha, precedidos de buzinas ressoantes e do estandarte branco dos parlamentares, adiantaram-se até junto das muralhas de La Réole, a fim de citar o conde de Kent, por ordem do alto e poderoso senhor Carlos, conde de Valois, lugar-tenente do rei da França na Gasconha e na Aquitânia, para que se rendesse e entregasse em suas mãos todo o ducado, por falta de fidelidade e por homenagem não prestada.

A isso, o senescal Basset, pondo-se nas pontas dos pés para aparecer nas ameias, respondeu, por ordem do conde Edmundo de Kent, lugar-tenente do rei da Inglaterra na Aquitânia e na Gasconha, que a citação era inaceitável e que o conde nem deixaria a cidade nem entregaria o ducado, salvo se fosse dali desalojado pela força.

Tendo sido cumprida com todas as regras a declaração de cerco, cada qual voltou às suas tarefas.

Monseigneur de Valois pôs a trabalhar os trinta mineiros que lhe tinham sido emprestados pelo bispo de Metz. Aqueles mineiros deviam cavar galerias subterrâneas até os muros, depois ali colocar barris de pólvora, aos quais seria posto fogo. O ingeniator Hugo, que pertencia ao duque de Lorena, prometia milagres através de tal operação. A muralha abrir-se-ia como flor na primavera.

Mas os sitiados, que tinham sido prevenidos pelos golpes surdos, dispuseram recipientes cheios d'água nos caminhos da ronda. E assim puderam ver, pelas rugas formadas na superfície da água, que naquele ponto os franceses estavam cavando uma sapa. Fizeram o mesmo de seu lado, mas durante a noite, enquanto os mineiros de Lorena trabalhavam de dia. Certa manhã, as duas galerias se reuniram, e houve sob a terra, à luz dos morrões, atroz carnificina, cujos sobreviventes surgiram, cobertos de suor, de terra e de sangue, com o olhar desvairado, como se subissem dos infernos.

Então, prontas as plataformas de tiro, monseigneur de Valois resolveu utilizar as bocas de fogo.

Eram grandes tubos de espesso bronze, com aros de ferro, que repousavam sobre carretas de madeira sem rodas. Dez cavalos se faziam necessários para arrastar cada um daqueles monstros, e vinte homens para apontá-los, calçá-los c carregá-los. Construía-se em torno deles uma espécie de caixa, feita de grossos pranchões e destinada a proteger os servos, se o engenho explodisse. Aquelas peças, vindas de Pisa, tinham sido entregues, inicialmente, ao senescal do Languedoc, que as havia dirigido sobre Castelsarrasin e Agen. Os servos italianos chamavam-nas "bombardas" por causa do ruído que faziam.

Todos os grandes senhores, todos os chefes de companhias, estavam reunidos para ver funcionar as bombardas. O condestável Gaucher sacudia os ombros e declarava, com ar resmungão, que não acreditava nas virtudes destruidoras daquelas máquinas. Por que confiar sempre em "novidadezinhas", quando podiam servir-se de balestras, balestrões e pedreiros, que, havia séculos, tinham se provado eficientes? Para submeter as cidades que tomara, ele, Châtillon, tinha por acaso necessitado dos fundidores da Lombardia? As guerras ganhavam-se pela intrepidez das almas e pela força dos braços, e não através de recursos fornecidos pelos pós dos alquimistas, que cheiravam um tanto ao enxofre de Satanás.

Os servos tinham acendido junto de cada máquina um braseiro, onde avermelhava um espeto de ferro. Depois, tendo introduzido a pólvora com o auxílio de grandes colheres de ferro batido, carregaram cada bombarda, de início com uma bucha de estopa, depois com uma grande bala de pedra de cerca de cem libras, tudo isso metido pela boca. Um pouco de pólvora foi colocado numa gola cavada abaixo das culatras, que se comunicava, por fino orifício, com a carga interna.

Todos os presentes foram convidados a se retirar uns cinqüenta passos. Os servos das peças deitaram-se ao chão, com as mãos sobre as orelhas: só um deles ficou de pé, junto de cada bombarda, para pôr fogo à pólvora com o auxílio dos compridos espetos aquecidos ao rubro. E, imediatamente depois de terem feito isso, eles se atiraram ao chão e abateram-se contra as caixas dos suportes.

Espocaram chamas vermelhas, e a terra tremeu. O ruído rolou pelo vale do Garonne e se estendeu de Marmande a Langon.

O ar ficara negro em torno das peças, cuja retranca se enterrara no solo brando por efeito do recuo. O condestável tossia, escarrava e blasfemava. Quando a poeira se dissipou um pouco, viu-se que uma das balas tinha caído entre os franceses, e causava surpresa o fato de não ter matado ninguém. Parecia, entretanto, que um telhado, na cidade, estava despedaçado.

— Muito barulho para pouco estrago — dizia o condestável. — Com velhas balistas de peso e fundas, todas as balas teriam chegado ao alvo, sem que para isso tivéssemos de ficar sufocados.

Ora, no interior de La Réole, ninguém de início compreendera por que, do teto de mestre Delpuch, notário, uma grande cascata de telhas se havia subitamente despencado para a rua. Também não se compreendia de onde viera aquele trovão, saído de um céu sem nuvens, que os ouvidos tinham sentido um momento depois. A seguir, mestre Delpuch saiu aos berros de sua casa, porque havia na sua cozinha uma grande bala de pedra.

Então, a população correu para as muralhas, a fim de constatar que não existia no campo francês nenhuma daquelas grandes máquinas que habitualmente formavam o equipamento dos cercos. À segunda salva, menos ajustada, e cujas balas vieram estrelar os muros, foram forçados a admitir que o ruído e os projéteis saíam daqueles longos tubos deitados na colina, acima dos quais se elevava um penacho de fumaça. Cada qual sentiu-se transido de pavor, e as mulheres refluíram para as igrejas, a fim de rezar contra aquela invenção do Demônio.

O primeiro tiro de canhão das guerras do Ocidente acabava de ser dado20.

No dia 22 de setembro pela manhã, o conde de Kent foi solicitado a receber messires Ramon de Labison, João de Mirai, Imbert Esclau, os irmãos Doat e Barsan de Pins, o notário Hélie de Malenat, todos os seis jurados de La Réole, assim como a muitos burgueses que os acompanhavam. Os jurados apresentaram ao lugar-tenente do rei da Inglaterra longas queixas, cujo tom estava longe de ser o da submissão e do respeito. A cidade estava sem víveres, sem água e sem tetos. Via-se o fundo das cisternas, varria-se o chão dos celeiros, e a população já não agüentava aquela chuva de balas, de quarto em quarto de hora, havia mais de três semanas. Houvera gente morta em seus leitos, crianças esmagadas nas ruas. O hospital regurgitava de doentes e feridos. Os mortos amontoavam-se nas criptas das igrejas. O campanário da Igreja de São Pedro tinha sido furado, e os sinos haviam desabado com um estrépito de fim de mundo, o que provava não estar Deus protegendo a causa inglesa. Ademais, chegara o tempo das vindimas, pelo menos nos vinhedos que os franceses não tinham devastado, e não se podia deixar apodrecer a colheita nas cepas. A população, encorajada pelos proprietários e negociantes, estava pronta a sublevar-se e a bater-se com os soldados do senescal, se fosse preciso, para obter a rendição.

Enquanto os jurados falavam, uma bala silvou no ar e ouviu-se desabar uma estrutura. O galgo do conde de Kent pôs-se a uivar. Seu senhor fê-lo calar-se, com um gesto de impaciente lassidão.

Havia já muitos dias que Edmundo de Kent sabia que teria de render-se. Obstinava-se na resistência, sem qualquer motivo razoável, e suas escassas tropas, deprimidas pelo cerco, não se encontravam em condições de sustentar um assalto. Tentar nova surtida contra o adversário, agora solidamente entrincheirado, seria uma loucura. E eis que os habitantes de La Réole ameaçavam revoltar-se.

Kent voltou-se para o senescal de Basset.

— Os reforços de Bordéus, messire Ralph, ainda acreditais neles? — perguntou.

Não fora o senescal, fora o próprio Kent quem acreditara, contra toda a evidência, na chegada dos famosos reforços prometidos e que deviam atacar pela retaguarda o exército de Carlos de Valois.

Ralph Basset já se sentia sem forças, e não hesitava em acusar o rei Eduardo e seus Despenser de terem deixado os defensores de La Réole num abandono que parecia uma traição.

Os sires de Bergerac, de Budos e de Montpezat não mostravam fisionomias mais prazenteiras. Ninguém fazia questão de morrer por um rei que manifestava tão pouca preocupação com seus melhores servidores. A fidelidade era demasiadamente mal paga.

— Tendes um estandarte branco, messire senescal? — disse o condestável de Kent. — Então, fazei-o içar no alto do castelo.

Alguns minutos depois as bombardas calavam-se, e sobre o acampamento francês tombava aquele grande silêncio de surpresa que acolhe os acontecimentos há muito aguardados. Parlamentares saíram de La Réole e foram conduzidos à tenda do marechal de Trye, que lhes transmitiu as condições gerais da rendição. A cidade seria entregue, naturalmente, mas o conde de Kent deveria, ainda, assinar e proclamar a entrega de todo o ducado nas mãos do lugar-tenente do rei da França. Não haveria pilhagem, nem prisioneiros, mas somente reféns, e uma indenização de guerra a fixar. Além disso, o conde de Valois convidava o conde de Kent para jantar.

Um grande banquete foi preparado no pavilhão de pano bordado com as flores-de-lis da França, onde monseigneur se instalara havia quase um mês. O conde de Kent chegou com suas armas mais belas, pálido, entretanto, e esforçando-se por conter, sob a máscara de dignidade, sua humilhação e seu desespero. Vinha escoltado pelo senescal Basset e vários fidalgos gascões.

Os dois lugares-tenentes reais, o vencedor e o vencido, falaram-se com certa frieza, chamando-se, entretanto, de "monseigneur meu sobrinho" e "monseigneur meu tio", como pessoas para as quais a guerra não rompe os vínculos de família.

À mesa, o conde de Valois colocou o conde de Kent diante de si. Os cavaleiros gascões começaram a embriagar-se como se há muitas semanas não tivessem tido oportunidade de fazê-lo.

Todos se esforçavam por mostrar-se corteses e cumprimentar o adversário a propósito de sua coragem, como se se tratasse apenas de um torneio. O conde de Kent foi felicitado pela sua fogosa surtida, que custara um marechal aos franceses. Kent respondeu mostrando a seu tio muita consideração pelos seus dispositivos de cerco e o emprego da artilharia de fogo.

— Estais ouvindo, messire condestável, e vós todos, monseigneurs — exclamou Valois —, o que declara meu nobre sobrinho... que sem nossas bombardas de balas a cidade poderia resistir quatro meses? Que ninguém se esqueça disso!

Por sobre os pratos, as taças e os canjirões, Kent e Mortimer observavam-se.

Mal terminara o banquete, os chefes principais fecharam-se para a redação da ata de trégua, cujos artigos eram numerosos. Kent, na verdade, estava disposto a ceder em tudo, a não ser em certas fórmulas que poderiam pôr em dúvida a legitimidade do poder do rei da Inglaterra e na inscrição do senescal de Basset e do sire de Montpezat à frente da lista de reféns. Porque esses últimos, tendo seqüestrado e enforcado oficiais do rei da França, tinham sorte mais do que certa. Ora, Valois exigia que lhe entregassem o senescal e o responsável pela revolta de Saint-Sardos.

Lorde Mortimer participava das negociações. Sugeriu uma conversa particular com o conde de Kent, e o condestável declarou-se contra tal conversa. Não se deixava um trânsfuga do campo adversário discutir numa trégua! Mas Roberto d'Artois e Carlos de Valois confiavam em Mortimer. Os dois ingleses isolaram-se, pois, a um canto do pavilhão.

— Tendes assim tão grande disposição, my lord — perguntou Mortimer —, de voltar depressa para a Inglaterra?

Kent não respondeu.

—...de afrontar o rei Eduardo, vosso irmão, do qual conheceis as cóleras e as injustiças — continuou Mortimer —, e que vos vai censurar uma derrota da qual os Despenser são a única razão? Porque fostes traído, my lord, não podeis ignorá-lo. Sabemos que vos haviam prometido reforços, que vos juraram estar já a caminho, quando ninguém pensou sequer em embarcá-los. E a ordem do senescal de Bordéus, dizendo que não vos viessem auxiliar antes da chegada desses reforços que não existiam, não foi uma traição? Não vos surpreendais por me verdes tão bem informado: sou devedor apenas dos banqueiros lombardos... Mas por acaso indagastes de vós mesmo qual a causa de tão negligente felonia para convosco? Não vedes qual é o seu objetivo?

Kent continuava calado, com a cabeça um pouco inclinada, e contemplava seus dedos.

— Vencedor aqui, vós vos tornaríeis perigoso para os Despenser, my lord — recomeçou Mortimer —, e assumi-ríeis excessiva importância no reino. Eles prefeririam vos fazer suportar o descrédito de uma derrota, mesmo ao preço da Aquitânia, o que pouca importância tem para homens que não se preocupam senão em roubar, uma por uma, as baronias das Marcas. Compreendeis agora por que foi preciso que eu me rebelasse, há três anos, pela Inglaterra, contra seu rei, ou pelo rei contra ele próprio? Quem vos assegura que, de volta à Inglaterra, não sereis acusado de violação da fidelidade e atirado a uma masmorra? Sois jovem ainda, my lord, e não sabeis do que aquela gente perversa é capaz.

Kent empurrou para trás da orelha seus cachos louros e respondeu, finalmente:

— Começo, my lord, a sabê-lo à minha custa.

— Seria repulsiva para vós a idéia de vos oferecerdes como primeiro refém, sob garantia, bem entendido, de que teríeis tratamento de príncipe? Agora que a Aquitânia está perdida, e para sempre, receio, precisamos salvar o próprio reino, e daqui poderemos fazer isso melhor.

O jovem levantou para Mortimer um olhar surpreso, mas já um tanto aquiescente.

— Há duas horas atrás — disse ele — eu era ainda o lugar-tenente do rei meu irmão, e agora já me convidais a entrar em revolta?

— Sem que tal pareça, my lord, sem que tal pareça!... As grandes ações são resolvidas em poucos instantes.

— Quanto tempo me dais para isso?

— Não há necessidade, my lord, pois que já vos decidistes.

Não foi pequeno o êxito de Rogério Mortimer, quando o jovem conde de Kent, voltando a sentar-se na mesa da trégua, declarou que se oferecia como primeiro refém.

Mortimer, debruçando-se junto do ombro dele, falou:

— Agora devemos trabalhar para salvar vossa cunhada e prima, a rainha. Ela merece nosso amor, e pode nos ser um grande apoio.

 

A mesa do papa João

A Igreja Saint-Agricol acabava de ser inteiramente reconstruída. A Catedral de Doms, a Igreja dos Frades Menores, as dos Frades Pregadores e a dos Agostinianos tinham sido aumentadas e reformadas. Os hospitaleiros de São João de Jerusalém tinham construído para seu uso uma esplêndida comendadoria. Além da Place du Change, levantava-se uma nova capela de Santo Antônio, e cavavam-se os alicerces da futura Igreja de Saint-Didier.

Havia uma semana que o conde de Bouville percorria Avignon sem reconhecê-la, sem nada mais encontrar das antigas lembranças que ali deixara. Cada passeio, cada trajeto, causava-lhe surpresa e maravilhava-o. Como poderia uma cidade ter mudado totalmente de aspecto em oito anos?

Pois não eram apenas os santuários que haviam saído da terra, ou tinham tomado fachadas modernas, mostrando por toda parte suas flechas, suas ogivas, suas rosáceas, seus bordados de pedra branca um tanto dourada pelo sol de inverno, e onde cantava o vento do Ródano.

Por toda parte erguiam-se palácios principescos, habitações de prelados, edifícios comunais, moradias de burgueses enriquecidos, casas de companhias lombardas, entrepostos, lojas. Por toda parte ouvia-se o rumor paciente, incessante e semelhante à chuva, do martelo dos canteiros, esses milhões de pequenos choques levados pelo metal à rocha branda e com os quais se edificam as capitais. Por toda parte via-se a numerosa multidão, incessantemente atravessada por lanternas em pleno dia, precedendo os cardeais, a multidão ativa, viva, ocupada, caminhando sobre o cascalho, sobre a serradura, sobre a poeira de cal. Ver os sapatos bordados do poder macularem-se com os detritos das construções é o sinal das épocas ricas.

Não, Hugo de Bouville já nada reconhecia. O mistral atirava-lhe aos olhos, junto com a poeira dos trabalhos, um deslumbramento constante. Os negócios, todos honrados por serem fornecedores do muito Santo Padre, o papa, ou das eminências de seu Sacro Colégio, regurgitavam das mais suntuosas mercadorias da terra, veludos dos mais espessos, sedas, tecidos de ouro e passamanaria das mais pesadas. Jóias sacerdotais, cruzes peitorais, báculos, anéis, cibórios, ostensórios, pátenas, e também pratos para a mesa, colheres, taças, cálices gravados com armas papalinas ou cardinalícias, amontoavam-se nas prateleiras do sienense Tauro, do mercador Corboli e do mestre Cachette, prateadores.

Eram necessários pintores para decorar todas essas naves, abóbadas, claustros, salas de audiência. Os três Pedros: Pedro du Puy, Pedro de Carmelère e Pedro Gaudrac, ajudados pelos seus numerosos alunos, estendiam o ouro, o azul, o carmim, e semeavam os signos do zodíaco em torno de cenas dos dois Testamentos. Eram necessários escultores: mestre Macciolo de Spoleto talhava no roble e na nogueira a efície dos santos, que depois pintava ou recobria de ouro. E nas ruas todos saudavam reverentemente um homem que lanterna alguma precedia, mas que era sempre escoltado por imponente séquito que levava toesas e grandes plantas feitas em velino enrolado. Esse homem era messire Guilherme de Coucouron, chefe de todos os arquitetos pontificais, que, desde o ano de 1317, reconstruía Avignon pela fabulosa quantia de cinco mil florins de ouro.

As mulheres, nessa metrópole religiosa, vestiam-se mais requintadamente do que em qualquer outro lugar do mundo. Vê-las sair dos ofícios, atravessar as ruas, correr as lojas, reunindo-se em plena rua, friorentas e risonhas em suas capas forradas, entre fidalgos solícitos e clérigos bastante desinibidos, era um encantamento para os olhos. Algumas dessas damas caminhavam muito naturalmente pelo braço de um cônego ou de um bispo, e os dois trajes longos avançavam, varrendo a poeira branca com um passo bem ritmado.

O tesouro da Igreja fazia prosperar todas as atividades humanas. Fora necessário construir novos bordéis e aumentar o bairro das meretrizes, porque todos os monges, fradecos, clérigos, diáconos e subdiáconos que freqüentavam Avignon, não eram forçosamente santos. Os cônsules tinham mandado afixar em postes decretos severos: "É proibido às mulheres públicas e às alcoviteiras morar nas mesmas ruas, vestir-se ou usar os mesmos enfeites que as mulheres honestas, usar véu em público e tocar com a mão o pão e as frutas nas lojas, sob pena de serem obrigadas a comprar a mercadoria que tiverem tocado. As cortesãs casadas serão expulsas da cidade e entregues aos juizes, se tentarem a ela voltar". Apesar dos decretos, porém, as cortesãs vestiam-se com os mais belos tecidos, compravam as mais belas frutas, caminhavam pelas ruas nobres e se casavam sem dificuldade, de tal maneira eram prósperas e procuradas. Contemplavam com superioridade as mulheres chamadas honestas, mas que nem por isso se comportavam melhor do que elas, pois a única diferença era que, para essas últimas, a sorte fornecera amantes de mais alta categoria.

E não era apenas Avignon, mas toda a região circundante, que se modificava. Do outro lado da Ponte Saint-Bénézet, à margem de Villeneuve, o cardeal Arnaldo de Via, um sobrinho do papa, mandara construir enorme colegiada. E já chamavam à torre de Filipe, o Belo, "a torre velha", porque já contava trinta anos! Mas sem Filipe, o Belo, que outrora impusera ao papado a instalação em Avignon, tudo aquilo teria existido? 21 Em Brédarrides, em Châteauneuf, em Noves, os construtores pontificais faziam sair da terra igrejas e palácios.

Bouville não deixava de sentir certo orgulho pessoal. Porque a ele se devia, em parte, a designação do papa atual. Fora ele, Bouville, quem havia, oito ou mesmo nove anos atrás, depois de fatigante corrida atrás dos cardeais espalhados entre Carpentras e Orange, descoberto o cardeal Duèze. Dera-lhe, então, os fundos para fazer sua campanha e indicara-lhe o nome em Paris como o do melhor candidato para a França. Com efeito, Duèze, que já era então candidato do rei de Nápoles, pusera muita diligência em se deixar descobrir. Mas é hábito dos embaixadores se acreditarem os únicos inventores de suas missões, quando elas têm êxito. E Bouville, dirigindo-se ao banquete que o papa João XXII oferecia em sua honra, estufava o ventre, pensando dilatar o busto, sacudia os cabelos brancos sobre a gola de seu agasalho de pele e falava bastante alto com seus escudeiros, pelas ruas de Avignon.

Uma coisa, em todo caso, parecia bem assegurada: a Santa Sé não voltaria para a Itália. Havia-se posto fim às ilusões que Clemente V, durante o seu pontificado, tinha, por prudência, deixado manter. Os patrícios romanos podiam bem agitar-se contra João XXII e ameaçá-lo, se não voltasse à Cidade Eterna, de criar um cisma, elegendo outro papa que ocuparia verdadeiramente o trono de São Pedro22. O antigo burguês de Cahors soubera responder aos príncipes de Roma, não lhes concedendo senão um chapéu, entre os dezesseis cardeais que fizera depois de sua elevação. Todos os outros chapéus vermelhos tinham sido dados a franceses.

— Podeis ver, messire conde — tinha dito o papa João a Bouville, alguns dias antes, quando da primeira audiência que lhe concedera, e expressando-se com aquele fio de voz com que comandava a cristandade —, podeis ver, messire conde, é preciso governar, com os amigos, contra os inimigos. Os príncipes que despendem seus dias e suas forças a subornar seus adversários descontentam os verdadeiros sustentáculos com que contam, e só adquirem falsos amigos, sempre prontos a traí-los.

Para que alguém se convencesse da vontade que tinha o papa de se conservar na França, nada mais era necessário do que ver o castelo que ele mandara construir, servindo-se do antigo bispado, e que dominava a cidade com suas ameias, torres e balestreiros. Em seu interior havia claustros espaçosos, salas de recepção e apartamentos esplendidamente decorados sob forros azuis semeados de estrelas, como o céu23. Havia dois porteiros na primeira porta, dois na segunda, cinco na terceira, e catorze porteiros mais, para as outras portas. O marechal do palácio comandava quarenta mensageiros e sessenta sargentos de armas. Tudo aquilo representava apenas uma instalação provisória.

E para saber quem o papa João escolhera para governar bastou a Bouville reconhecer, na sala de banquetes coberta de tapeçarias de seda, os dignitários que vinham tomar lugar na comprida mesa, deslumbrante com sua baixela de ouro e prata.

O cardeal-arcebispo de Avignon chamava-se Arnaldo de Via, e era filho de uma irmã do papa. O cardeal-chance-ler da Igreja Romana, isto é, o primeiro-ministro do mundo cristão, homem bastante grande e robusto, bem assentado em sua púrpura, era Gaucelin Duèze, filho de Pedro Duèze, o irmão do papa que o rei Filipe V fizera nobre. Sobrinho, ainda, do papa, era o cardeal de La Mote Fressange; primo do papa, o cardeal Raimundo Le Roux! Um outro sobrinho, Pedro de Vicy, geria a casa pontifícia, dava as ordens de pagamento de despesas, dirigindo os dois saquiteiros, os quatro despenseiros, os mestres da cavalariça e da ferraria, os seis procuradores-das-rendas, os trinta capelães, os dezesseis confessores para os peregrinos de passagem, os sineiros, os varredores, os aguadeiros, as lavadeiras, os arquíatras, boticários e barbeiros.

A personagem menos importante sentada à mesa pontificai não era, sem dúvida, o cardeal Beltrão du Pouget, legado itinerante para a Itália, e do qual se murmurava... mas o que não se murmurava ali?... ser o filho natural que Tiago Duèze tivera em outros tempos, quando estava muito longe de pensar em chegar a papa, não sendo, então, sequer prelado, ou chanceler do rei de Nápoles, ou ao menos doutor ou clérigo, pois nem deixara, quarenta anos antes, sua cidade natal de Cahors!

Todos os parentes do papa João, até os primos em segundo grau, estavam alojados no palácio e compartilhavam de suas refeições. Dois dentre eles moravam, mesmo, no porão secreto, sob a sala de jantar. Todos tinham empregos, alguns entre os cem cavaleiros nobres, outros como esmoleres, ainda um terceiro como mestre da câmara apostólica que administrava todos os benefícios eclesiásticos, anatas, dízimos, subsídios, direitos de despojos e taxas da Sacra Penitenciaria. Mais de quatrocentas pessoas formavam aquela corte, cuja despesa anual ultrapassava quatro mil florins.

Quando, oito anos antes, o conclave de Lyon elevara ao trono de São Pedro um ancião esgotado, diáfano, do qual se aguardava, esperava-se mesmo, que entregasse a alma na semana seguinte, nada restava do tesouro papal. Em oito anos, aquele mesmo ancião, que caminhava como pluma impelida pelo vento, administrara tão bem as finanças da Igreja, taxara tão bem os adúlteros, os sodomitas, os incestuosos, os ladrões, os criminosos, os maus sacerdotes e os bispos culpados de violência, vendera tão caro as abadias, controlara tão rigorosamente os recursos de todos os bens eclesiásticos, que pudera construir uma cidade e assegurar para si as maiores rendas do mundo. Podia nutrir fartamente sua família e reinar por ela. Não regateava benefícios aos pobres e presentes aos ricos, oferecendo a seus visitantes jóias e medalhas sagradas, de ouro, das quais seu fornecedor habitual, o judeu Boncoeur, mantinha-o abastecido.

Mergulhado, mais do que sentado, numa poltrona de encosto imenso, com os pés pousados sobre duas almofadas grossas de seda bordada em ouro, o papa João presidia aquela longa mesa que tinha, ao mesmo tempo, o aspecto de consistório e de mesa de família. Bouville, colocado à sua direita, olhava para o papa fascinado! Como se transformara, o Santo Padre, depois de sua eleição! Não na aparência física: o tempo já nada podia contra aquele rosto fino, pontudo, enrugado, móvel, de crânio metido num gorro guarnecido de peles, com pequenos olhos de rato, sem cílios nem sobrancelhas, boca extremamente delgada, cujo lábio superior entrava um pouco sobre as gengivas desguarnecidas de dentes. João XXII carregava seus oitenta anos mais facilmente do que outros carregavam seus cinqüenta: suas mãos eram prova disso, lisas, apenas apergaminhadas, de articulações que funcionavam com bastante liberdade. Mas era em toda a sua atitude, no tom da voz, nas conversas, que a transformação se operara. Aquele homem, que de início devera seu chapéu cardinalício a uma falsificação da escrita real, depois sua tiara a dois anos de surdas intrigas, de corrupção eleitoral, rematadas por um mês de simulação de doença incurável, parecia ter recebido alma nova pela graça do supremo vicariato. Vindo de muito pouco e chegado aos píncaros das ambições humanas, não tendo nada mais a desejar ou obter para si mesmo, todas as suas forças, toda a temível mecânica cerebral que o tinham levado àquela altura, podiam empregar-se, de maneira absolutamente desinteressada, apenas para o bem da Igreja, tal como ele o concebia. E que atividade dispensava àquela tarefa!

Entre os que o tinham eleito, acreditando que depressa desapareceria ou deixaria a cúria governar em seu nome, quantos agora se arrependiam! João XXII tornava-lhes a vida dura. Um grande soberano da Igreja, na verdade, aquele homem pequenino!

Ocupava-se de tudo, tudo providenciava. Não hesitara em excomungar, no precedente mês de março, o imperador da Alemanha, Luís da Baviera, destituindo-o, ao mesmo tempo, e abrindo aquela sucessão ao Santo Império pela qual o rei da França e o conde de Valois tanto se agitavam. Intervinha em todas as dissensões entre os príncipes cristãos, lembrando-lhes, como era de sua missão de pastor universal, seus deveres de paz. No momento, acabava de se dedicar ao conflito da Aquitânia e já determinara, nas audiências dadas a Bouville, as modalidades de sua ação.

Os soberanos da França e da Inglaterra seriam solicitados a prolongar a trégua assinada pelo conde de Kent em La Réole, e que devia expirar naquele mês de dezembro. Monseigneur de Valois não se utilizaria dos quatrocentos homens de armas e dos mil besteiros novos que o rei Carlos IV lhe enviara naqueles últimos dias para Bergerac. Mas o rei Eduardo seria imperiosamente convidado a vir prestar homenagem ao rei da França dentro do mais breve prazo. Os dois soberanos deviam dar liberdade aos fidalgos gascões que respectivamente detinham, sem usar para com eles de rigor algum por terem tomado o partido do adversário. Enfim, o papa escreveria à rainha Isabel a fim de conjurá-la a empregar suas forças no restabelecimento da concórdia entre seu esposo e seus irmãos. O papa João não nutria ilusão alguma, tal como Bouville, a propósito da influência de que dispunha a infeliz rainha. Mas o fato de o Santo Padre dirigir-se a ela, pessoalmente, não deixaria de lhe dar certa importância, levando seus inimigos a hesitarem na continuação dos maus-tratos que lhe infligiam. A seguir, João XXII aconselharia que ela viesse a Paris, sempre em missão conciliadora, a fim de presidir à redação do tratado que só deixaria à Inglaterra uma delgada faixa costeira do ducado da Aquitânia, com Saintes, Bordeaux, Dax e Bayonne. Assim, os desejos políticos do conde de Valois, as maquinações de Roberto d'Artois, os votos secretos de lorde Mortimer, receberiam, do Santo Padre, auxílio importante para a sua realização.

Bouville, tendo assim cumprido com êxito a primeira parte de sua missão, pôde comer com bom apetite o guisado de enguias, delicioso, perfumado, untuoso, com o qual lhe encheram a escudela de prata.

— As enguias nos vêm do tanque dos Mortimer — informou a Bouville o papa João. — Gostais delas?

O gordo Bouville, com a boca cheia, só pôde responder com um olhar encantado.

A cozinha pontificai era suntuosa, e mesmo os cardápios das sextas-feiras constituíam, ali, rara delícia. Atuns frescos, bacalhaus da Noruega, lampreias e esturjões, preparados de vinte maneiras e envolvidos em vinte molhos, seguiam-se em procissões sobre pratos rutilantes. O vinho d'Arbois corria como ouro nos copos de metal. Os produtos vinícolas da Borgonha, do Lot e do Reno acompanhavam os queijos.

O Santo Padre, por seu lado, contentava-se em roer, com a ponta das gengivas, uma colher de pâté de solha e bebericar uma taça de leite. Metera na cabeça que um papa só deveria comer alimentos brancos.

Bouville tinha um segundo problema a tratar, e o mais delicado, do qual o conde de Valois igualmente o encarregara: o negócio da cruzada, que parecia ir sendo enterrado aos poucos em areia movediça, pois o papa João XXII nada lhe dissera a esse respeito durante suas entrevistas. Era necessário, entretanto, que ele se decidisse. Um embaixador, é a regra, deve abordar discretamente as questões espinhosas. Assim, Bouville pensou estar falando com finura quando disse:

— Muito santo padre, a corte da França seguiu com muita atenção o Concilio de Valladolid, que há dois anos foi realizado pelo vosso legado, e no qual ele ordenava que os clérigos deveriam deixar suas concubinas...

—...sob pena, se o não fizessem — encadeou o papa João com sua vozinha rápida e abafada —, de serem privados por dois meses da terça parte dos frutos de seus benefícios, e dois meses depois de um outro terço, e ainda, depois de dois meses, de serem privados de tudo. Na verdade, messire conde, o homem é pecador, mesmo sendo padre, e sabemos bem que não chegaremos a suprimir todo o pecado. Ao menos, porém, os que no pecado se obstinarem em ficar, ajudarão a encher nossos cofres, que servem para fazer o bem. E muitos evitarão tornar públicos os seus escândalos.

— E assim os bispos cessarão de assistir em pessoa ao batismo e ao casamento de seus filhos ilegítimos, como costumam fazer agora.

Tendo dito isso, Bouville corou subitamente. Era assim tão hábil falar de filhos ilegítimos justamente diante do cardeal du Pouget? Um erro, ele acabava de cometer um erro. Mas ninguém parecia ter prestado atenção em tal coisa, e Bouville apressou-se a continuar:

— Mas como se explica, muito santo padre, que uma punição mais forte tenha sido decretada contra os padres cujas concubinas não são cristãs?

— A razão disso é bem simples, sire conde — respondeu o papa João. — O decreto visa justamente a Espanha, onde existem muitos mouros... onde nossos clérigos recrutam facilmente companheiras que não se constrangem de fornicar com a tonsura.

Voltou-se ligeiramente em sua grande poltrona, e um sorriso muito rápido passou por seus lábios delgados. Já compreendera aonde o outro queria chegar, levando a conversação para os mouros. E agora esperava, ao mesmo tempo desafiante e divertido, que messire de Bouville tomasse um gole, a fim de se encorajar, e assumisse ar simuladamente natural, para dizer:

— É certo, muito santo padre, ter aquele concilio lançado editos sábios que nos servirão grandemente quando da cruzada. Porque teremos muitos clérigos e esmoleres para acompanhar nossos exércitos, ao avançarem em região moura. Não seria bom que eles dessem exemplo de mau comportamento.

Depois disso, Bouville respirou melhor, pois a palavra "cruzada" fora pronunciada.

O papa João franziu as pálpebras, juntou os dedos e respondeu pausadamente:

— Seria igualmente mau que a mesma licença começasse a proliferar nas nações cristãs, enquanto seus exércitos estivessem ocupados no ultramar. Porque é um fato, sempre verificado, messire conde, que quando os exércitos de guerra estão a bater-se longe, sendo seus melhores elementos os que foram retirados das populações, toda sorte de vícios floresce nos reinos, como se, estando afastada a força, o respeito que se deve às leis de Deus tivesse com elas partido. As guerras são grandes ocasiões para o pecado... Monseigneur de Valois está sempre firme na idéia dessa cruzada, com a qual quer honrar nosso pontificado?

— Ah, bem! Muito santo padre, os deputados da Pequena Armênia...

— Eu sei, eu sei — disse o papa João, afastando e juntando os seus dedinhos. — Eu mesmo enviei esses deputados a monseigneur de Valois.

— De toda parte nos dizem que os mouros, nas costas...

— Eu sei. Os relatórios chegam-me ao mesmo tempo que a monseigneur de Valois.

As conversações particulares em torno da mesa haviam cessado. O bispo Pedro de Montemart, que acompanhava Bouville em sua missão, e do qual se dizia que seria feito cardeal na primeira promoção, aguçava o ouvido, e todos os sobrinhos e primos, prelados ou dignitários, faziam outro tanto. As colheres raspavam o fundo dos pratos como por sobre veludo. O sopro singularmente firme, mas sem timbre, que saía da boca do Santo Padre era difícil de captar, e seria preciso estar muito habituado para apreendê-lo de longe.

— Monseigneur de Valois, a quem amo com amor bastante paternal, nos levou a consentir no dízimo, mas até o Presente esse dízimo só lhe serviu para confiscar a Aquitânia e sustentar sua candidatura ao Santo Império. São empreendimentos muito nobres, mas que não se chamam cruzadas. Não estou nada certo de continuar a consentir na cobrança desse dízimo, para o próximo ano, e menos certo ainda, messire conde, de consentir nos subsídios suplementares que me pedem para a expedição.

Bouville recebeu duramente o golpe. Se aquilo fosse tudo quanto ele teria de relatar em Paris, Carlos de Valois sofreria uma bela crise de furor!

— Muito santo padre — respondeu, esforçando-se por mostrar-se calmo —, parecera ao conde de Valois, como ao rei Carlos, que éreis sensível à honra que a cristandade poderia retirar...

— A honra da cristandade, meu caro filho, é viver em paz — cortou o papa, batendo levemente na mão de Bouville.

Eis no que o Santo Padre mudara: outrora, deixava sempre o interlocutor ir até o fim de seu assunto, mesmo quando tivesse percebido tudo quanto com ele se relacionasse, desde as primeiras palavras. Agora, interrompia-o. Tinha demasiado que fazer para que lhe explicassem o que já sabia. Bouville, entretanto, tendo preparado seu plano de exposição, continuou:

— Não é de nosso dever conduzir os infiéis à verdadeira fé e combater a heresia?

— A heresia? A heresia, Bouville? — respondeu o papa João num murmúrio indignado. — Trataremos, antes, de extirpar a que floresce em nossas nações, e não nos ocupemos tanto de espremer abscessos no rosto de nosso vizinho, quando a lepra corrói o nosso! A heresia é incumbência minha, e penso que nesse assunto sei muito bem como me conduzir. Meus tribunais funcionam, e tenho grande necessidade de ajuda por parte de todos os meus clérigos, tanto como de todos os príncipes cristãos, a fim de encurralá-la. Se a cavalaria da Europa tomar o caminho do Oriente, o Diabo terá campo livre na França, na Espanha, na Itália! Desde quando cátaros, albigenses e espirituais estão em paz? Por que fragmentei a grande diocese de Toulouse, que era seu refúgio, e criei dezesseis novos bispados no Languedoc? E vossos "pastorzinhos", cujos bandos, como onda rebentada, vieram ter aqui, há bem poucos anos? Não eram conduzidos pela heresia? Durante o espaço de uma geração não se consegue extirpar um mal dessa natureza. Devemos esperar os filhos e os netos, para chegarmos ao término do trabalho.

Todos os prelados presentes poderiam testemunhar o rigor com que João XXII combatia a heresia. Se havia ordem para que fossem indulgentes, mediante numerário, no referente aos pequenos pecados da natureza humana, as fogueiras, em compensação, ardiam bem alto contra os erros do espírito. Circulava, mesmo, através da cristandade, uma expressão do monge Bernardo Délicieux, franciscano que desejara lutar contra a Inquisição dominicana, e levara a audácia ao ponto de vir pregar ali mesmo em Avignon, ganhando com isso a prisão perpétua: "Os próprios São Pedro e São Paulo", dissera ele, "não poderiam defender-se da heresia, se voltassem a este mundo e fossem perseguidos pelos acusadores".

Mas, ao mesmo tempo, o Santo Padre não podia evitar difundir certas idéias estranhas, nascidas de sua viva inteligência, e que, emitidas do alto da cadeira pontificai, não deixavam de provocar certo alvoroço entre os doutores das faculdades de teologia. Assim, ele se tinha pronunciado contra a Imaculada Conceição da Virgem Maria, que não constituía dogma, realmente, mas cujo princípio era geralmente admitido. O máximo que admitia era ter o Senhor purificado a Virgem, antes de seu nascimento, mas num momento, declarara o papa, difícil de se precisar. Em compensação, não punha em dúvida a sua Assunção. João XXII, por outro lado, não acreditava em visão beatífica, antes do Juízo Final, pelo menos. Negando, assim, que houvesse ainda qualquer alma no purgatório, e, portanto, no inferno.

Para muitos teólogos, de tais expressões emanava certo odor de enxofre. Assim, mesmo naquela mesa, encontrava-se um grande cisterciense, chamado Tiago Fournier, filho de um padeiro de Foix, em Ariège, antigo abade de Frontfroide e bispo de Pamiers, a quem se dava o nome de "Cardeal Branco", por causa de sua roupagem, e que, distinguido pelo papa, do qual se havia tornado um dos mais íntimos confidentes, empregava todos os recursos de sua ciência apologética em sustentar e defender as teses ousadas do Santo Padre24.

Este último continuava:

— Tende, pois, messire conde, a bondade de não vos agitardes em demasia por causa dos mouros heréticos. Façamos guardar nossas costas contra seus navios, mas deixemo-los ao julgamento do Senhor Todo-Poderoso, do qual, afinal, eles são criaturas, e que, sem dúvida, deve ter alguma intenção a respeito deles. Qual de nós pode afirmar o que acontece às almas que ainda não foram tocadas pela graça da revelação?

— Vão para o inferno, penso — disse, ingenuamente, Bouville.

— O inferno! O inferno! — sussurrou o frágil papa, levantando os ombros. — Não faleis do que ignorais. E não conteis, somos demasiado velhos amigos para isso!, que é para cuidar da salvação dos infiéis que monseigneur de Valois pede ao meu Tesouro um milhão e duzentas mil libras de subsídios, dos quais nada menos de trezentas mil para ele próprio! Aliás, o conde de Valois, eu o sei, já não se interessa tanto pela sua cruzada.

— Para dizer a verdade, muito santo padre — respondeu Bouville, um tanto hesitante —, sem estar informado como estais, parece-me, todavia...

"Oh! Que mau embaixador!", pensou o papa João. "Se eu estivesse no lugar dele faria crer a mim próprio que Valois já tinha reunido suas companhias e não me consideraria satisfeito com menos de trezentas mil libras." E deixou que Bouville se embaraçasse suficientemente.

— Diríeis a monseigneur de Valois — declarou ele, finalmente — que o Santo Padre renuncia à cruzada. E como sei que monseigneur é filho muito obediente e excelente cristão, obedecerá, para o próprio bem de nossa Santa Igreja.

Bouville sentia-se muitíssimo infeliz. Sem dúvida, todo mundo era de opinião que se renunciasse à cruzada, mas não assim em duas frases, e sem discussão.

— Eu não duvido, muito santo padre — afirmou Bouville —, que monseigneur de Valois vos obedeça: mas ele já se comprometeu, com a simples autoridade de sua pessoa, a grandes despesas.

— Quanto seria necessário a monseigneur de Valois para não sofrer demais por ter comprometido a autoridade de sua pessoa?

— Muito santo padre, eu não sei — retorquiu Bouville, corando. — Monseigneur de Valois não me encarregou de responder a tal pergunta.

— Como não! Como não! Conheço-o demais para saber que deve ter previsto isso. Quanto?

— Ele já adiantou bastante aos cavaleiros de seus próprios feudos, a fim de equiparem suas companhias...

— Quanto?

— Está preocupado com essa nova anilharia com pólvora...

— Quanto, Bouville?

— Mandou fazer grandes encomendas de armas de todas as espécies...

— Não sou homem de guerra, messire, e não vos peço a conta das bestas. Peço-vos, somente, que me deis o total do que monseigneur de Valois deseja para se ressarcir.

Ao mesmo tempo, sorria, ao ver seu interlocutor sobre brasas. E o próprio Bouville não pôde deixar de sorrir vendo todas aquelas grandes astúcias furadas como uma espumadeira. Ora, era necessário dizer a quantia! Tornou sua voz tão sussurrante como a do papa para dizer:

— Cem mil libras...

João XXII sacudiu a cabeça e disse:

— É a exigência habitual do conde Carlos. Parece-me mesmo que os florentinos, outrora, para se livrarem do auxílio que ele lhes levara, tiveram de dar-lhe mais do que isso. Aos sienenses, para que lhes deixasse a cidade, custou-lhes um pouco mais. O rei de Anjou, em outra ocasião, precisou sangrar-se mais ou menos da mesma soma, para agradecer-lhe um socorro que não tinha pedido! É uma forma de negócio como outra qualquer... Vosso Valois, sabei, Bouville, é um grande ladrão! Vamos, levai-lhe a boa notícia... Nós lhe daremos as cem mil libras, e nossa bênção apostólica!

Estava bem satisfeito, em suma, por livrar-se por esse preço. E o próprio Bouville estava todo feliz por ver sua missão subitamente cumprida. Discutir com o soberano pontífice, como com qualquer negociante lombardo, ter-lhe-ia sido muitíssimo penoso! Mas o Santo Padre tinha desses movimentos que não eram talvez, exatamente, generosidade, mas simples estimativa do preço que tinha de pagar pelo seu poder.

— Lembrai-vos, sire conde — continuou o papa —, do tempo em que me trouxestes, aqui mesmo, cinco mil libras, em nome do conde de Valois, para assegurar a eleição de um cardeal francês ao conclave? Na verdade aquele foi um dinheiro colocado a bons juros!

Bouville sempre se enternecia diante de tais recordações. Revia aquele prado brumoso, na zona do campo, ao norte de Avignon, aquele prado do Pontet, e a curiosa conversa que tiveram, ambos sentados sobre um pequeno muro.

— Sim, eu me lembro, muito santo padre — confirmou ele. — Sabei que quando vos vi aproximar, jamais vos tendo encontrado, pensei estar confundido, e que não éreis um cardeal, e sim algum pequeno clérigo que um prelado tivesse disfarçado para mandar ao meu encontro.

O cumprimento fez sorrir o papa João. Também ele se recordava.

— E aquele jovem italiano — perguntou —, aquele pequeno sienense que trabalhava no banco, que vos acompanhava então, e que me enviastes mais tarde a Lyon, onde me serviu tão bem durante o conclave, aquele jovem Guccio Baglioni, que fim levou? Pensei que tornaria a aparecer. Foi o único, realmente, que outrora me prestou serviço e que não me veio solicitar uma graça ou um emprego!

— Não sei, muito santo padre, não sei. Voltou para a sua Itália natal. Também eu não tive mais notícias dele.

Mas Bouville transtornara-se para responder, e o papa reparara na sua confusão.

— Ele tivera, se bem me recordo, um caso desagradável de casamento, ou falso casamento, com uma jovem da nobreza, a quem tornou mãe. Os irmãos da moça perseguiram-no. Não foi isso?

Sim, o Santo Padre lembrava-se bem. Ah! Que memória tinha!

— Surpreende-me, verdadeiramente — continuava o papa João —, que, protegido por vós, protegido por mim, e exercendo negócio de dinheiro, não tivesse aproveitado melhor a situação, fazendo sua fortuna. O filho que ele devia ter nasceu? Está vivo?

— Sim, sim, nasceu — disse, precipitadamente, Bouville. — Mora por aí, no campo, com sua mãe.

Mostrava cada vez maior constrangimento.

— Disseram-me... quem foi mesmo que me disse...? — continuou o papa —, que aquela mesma senhorita fora a ama do reizinho póstumo, nascido da senhora Clemência da Hungria durante a regência do conde de Poitiers. Foi mesmo assim?

— Sim, sim, muito santo padre, penso que foi ela. Um frêmito passou pelas mil rugazinhas que recortavam o rosto do papa.

— Como dizeis que pensais? Não éreis curador do ventre da senhora Clemência? E não estáveis junto dela quando a desgraça de perder seu filho lhe aconteceu? Devíeis saber muito bem quem era a ama.

Bouville ficou rubro. Deveria ter desconfiado mais e dizer consigo mesmo, quando o Santo Padre mencionara o nome de Guccio Baglioni, que havia alguma intenção secreta naquela lembrança, e um tanto mais hábil do que quando ele próprio falara no Concilio de Valladolid e nos mouros da Espanha, para chegar à cruzada! Aliás, o Santo Padre devia, com toda a certeza, ter notícias de Guccio, pois que os Tolomei de Siena eram, de certa forma, seus banqueiros!

Os olhinhos cinzentos do papa não deixavam os olhos de Bouville, e as perguntas continuavam:

— A senhora Mafalda d'Artois sofreu um grande processo, no qual tivestes de ser testemunha? Que há de verdade, caro sire conde, nesse caso?

— Oh! Muito santo padre, nada, a não ser o que a justiça esclareceu. Malevolências, falatórios, de cuja culpa a senhora Mafalda quis se isentar.

A refeição chegara ao fim, e os escudeiros nobres, passando as jarras e as bacias, derramavam água sobre os dedos dos convivas. Dois cavaleiros nobres aproximavam-se para recuar a cadeira do Santo Padre.

— Sire conde — disse este último —, fiquei muito contente por tornar a ver-vos. Não sei, já que estou tão velho, se essa alegria me será concedida outra vez...

Bouville, que se tinha levantado, respirou melhor. O instante dos adeuses parecia chegar, pondo termo ao interrogatório.

—...assim, antes de vossa partida — continuou o papa —, quero fazer-vos a maior graça que me é possível conceder a um cristão. Vou ouvir-vos eu próprio em confissão. Acompanhai-me ao meu quarto.

 

A penitência é para o Santo Padre

— Pecados da carne? Certamente, pois que sois homem... Pecados de gula? Basta olhar para vós, pois sois gordo... Pecados do orgulho, sois grande fidalgo... Mas vosso próprio estado vos obriga a ser atento a vossas devoções: portanto, acusai-vos de todos os pecados, que são o fundo comum da natureza humana, e sois absolvido regularmente, antes de vos aproximardes, de cada vez, da mesa da santa comunhão.

Estranha confissão, onde o primeiro vigário da Igreja Romana formulava, ao mesmo tempo, as perguntas e as respostas. Sua voz abafada era coberta, às vezes, pelos gritos dos pássaros, pois o papa mantinha em seu quarto um papagaio encadeado, e, voando num grande viveiro, periquitos, canários, e aqueles pequenos pássaros vermelhos das ilhas a que chamam cardeais.

O piso do aposento era feito de quadrados, pintados, sobre os quais havia tapetes da Espanha. As paredes e as cadeiras revestiam-se de verde. As cortinas do leito e os reposteiros das janelas eram também verdes, de linho. E sobre essa cor de folhagem, de floresta, os pássaros formavam manchas coloridas, como flores25. Num canto estava instalada uma sala de banhos, com banheira de mármore. Seguia-se, ao quarto de dormir, o quarto de vestir, onde capas brancas, murças grenás e ornamentos, lotavam os vastos guarda-roupas. Depois vinha o gabinete de trabalho.

O gordo Bouville, entrando, fizera um movimento para ajoelhar-se, mas o Santo Padre levara-o a sentar-se a seu lado, numa das poltronas verdes. Não se podia, na verdade, tratar um penitente com maiores atenções. O antigo camareiro de Filipe, o Belo, estava todo aturdido com aquilo, e ao mesmo tempo tranqüilizado, pois tinha receado confessar, ele, grande dignitário, ao soberano pontífice, todas as escórias de uma vida, todas as pequenas escórias, os maus desejos, as más ações, toda a borra que se acumula no fundo da alma com o correr dos dias e dos anos. Ora, esses pequenos pecados, o Santo Padre parecia tomá-los como bagatelas, ou, ao menos, como sendo de competência dos mais humildes padres. Bouville não reparara, ao sair da mesa, no olhar trocado entre o cardeal Gaucelin Duèze, o cardeal de Pouget, e Tiago Fournier, o Cardeal Branco. Esses conheciam bem a astúcia habitual do papa João: a confissão pós-prandial, da qual ele se servia para conversar verdadeiramente a sós com um interlocutor importante, e que lhe permitia tomar conhecimento de vários segredos de Estado. Quem podia resistir a esse oferecimento súbito, tão lisonjeiro e terrífico? Tudo se conjugava para abrandar as consciências, a surpresa, o medo religioso, e uma digestão que se iniciava.

— O essencial para um homem — continuou o papa —, é ter cumprido bem os deveres do estado particular em que Deus o colocou neste mundo, e nesse ponto é que as faltas lhe são contadas mais severamente. Fostes, meu filho, camareiro de um rei, e vos encarregastes, sob três outros soberanos, das mais altas missões. Pudestes ser sempre bem exato no cumprimento de vossos deveres e cargos?

— Penso, meu pai, quero dizer, muito santo padre, ter cumprido minhas tarefas com zelo, ter sido, tanto quanto possível, leal servidor de meus suseranos...

Interrompeu-se subitamente, dando-se conta de que não estava ali para fazer seu próprio elogio. Recomeçou, mudando de tom:

— Devo acusar-me de ter sido mal sucedido em certas missões que poderiam obter êxito... Eis, muito santo padre, que nem sempre tive o espírito livre, e só muito tarde me apercebi de erros que cometera.

— Não é pecado isso de ter o cérebro um tanto lento: trata-se de coisa que pode acontecer a todos, e que é exatamente o contrário do espírito de malícia. Mas cometestes em vossas missões, ou por causa delas, faltas graves tais como falso testemunho... homicídio...

Bouville sacudiu a cabeça da direita para a esquerda, num movimento de negação.

Mas os olhinhos cinzentos, sem cílios nem sobrancelhas, brilhantes e luminosos no rosto enrugado, continuavam atentamente nele fixados.

— Tendes certeza? Eis a ocasião, meu caro filho, de purificar perfeitamente a vossa alma! Falso testemunho... nunca?

Bouville sentiu-se novamente constrangido. Que significava essa insistência? O papagaio soltou um grito rouco, no seu poleiro, e Bouville teve um sobressalto.

— Uma coisa, para dizer a verdade, pesa-me na alma, muito santo padre, mas não sei se é verdadeiramente um pecado, nem que nome de pecado dar-lhe. Não cometi homicídio, eu próprio, posso jurar-vos, mas não soube impedi-lo. E, em seguida, tive de dar dois falsos testemunhos. Mas não podia agir de outra forma.

— Contai-me isso, Bouville — disse o papa. Foi, então, sua vez de corrigir-se:

— Confessai-me esse segredo que vos pesa, caro filho!

— Sem dúvida, pesa-me — disse Bouville —, e mais ainda depois da morte de minha boa esposa Margarida, com a qual eu o compartilhava. E muitas vezes repito a mim mesmo que, se chego a morrer sem ter feito alguém depositário dele...

As lágrimas tinham vindo, subitamente.

— Como não pensei mais cedo, muito santo padre, em vos confiar esse segredo?... É como vos disse: tenho o cérebro lento, às vezes... Foi depois da morte do rei Luís X, o filho mais velho de meu senhor Filipe, o Belo.

Bouville olhou para o papa e sentiu-se como que já aliviado. Enfim, ia poder descarregar a alma daquele fardo que ela trazia nos últimos oito anos. O pior momento de sua vida, certamente, e cujo remorso sem trégua o sacudia. Mas era ao papa, sem dúvida, que precisava confessar tudo aquilo!

Agora Bouville falava com facilidade. Contava como, tendo sido nomeado curador do ventre da rainha Clemência, depois do falecimento de seu esposo Luís, o Turbulento, tinha receado, ele, Bouville, que a condessa Mafalda d'Artois tentasse algo de criminoso contra a rainha e contra a criança que ela então trazia no seio. Era ao tempo em que monseigneur Filipe de Poitiers, irmão do rei morto, reclamava a regência contra o conde de Valois e contra o duque da Borgonha.

A essa lembrança, João XXII levantou os olhos, um instante, para as traves pintadas do forro, e uma expressão meditativa passou-lhe pelo rosto. Porque fora ele próprio que anunciara a Filipe de Poitiers a morte de seu irmão, tendo sabido do fato justamente através daquele pequeno lombardo, Baglioni. Ah! O conde de Poitiers tinha levado o caso muito bem, tanto para o conclave como para a regência! Tudo se decidira, naquela manhã de junho de 1316, em Lyon, na casa do cônsul Varay...

Então Bouville temia um crime por parte da condessa d'Artois, um novo crime, pois comentava-se muito ter ela expedido Luís, o Turbulento, através de ervas. Tinha, aliás, todas as razões para odiá-lo, pois ele confiscara seu condado. Mas tinha também todas as boas razões, quando ele deixara de viver, para desejar o triunfo do conde de Poitiers, do qual era a sogra. Se ele se tornasse rei, a condessa Mafalda teria certeza de conservar suas possessões. O único obstáculo para tal coisa era aquela criança que a rainha trazia no seio, e que nasceu varão.

— Infeliz rainha Clemência... — comentou o papa.

Mafalda d'Artois conseguira se fazer designar como madrinha. Devia, a tal título, levar o novo reizinho aos barões, quando da cerimônia da apresentação. Bouville estava certo, e a senhora de Bouville tanto quanto ele, de que, se a terrível Mafalda quisesse cometer uma perversidade, não hesitaria em fazê-lo durante a cerimônia, única oportunidade que se lhe apresentaria de ter a criança no colo. Bouville e a mulher resolveram, então, esconder a criança real durante esses momentos, colocando, em lugar dela, nos braços de Mafalda, o filho da ama, que só tinha alguns dias mais do que o outro. Sob as roupas de aparato, ninguém perceberia a substituição, pois que ninguém ainda vira o filho da rainha Clemência, nem mesmo a mãe, que, tomada de grande febre, estava quase à morte.

— Efetivamente — disse Bouville —, a condessa Mafalda babujou de veneno a boca e o nariz da criança que eu lhe tinha dado, e que morreu em convulsões diante de todos os barões. Foi essa criaturinha inocente que eu entreguei à morte. E o crime se realizou tão suavemente e tão depressa, e eu estava tão perturbado, que não pensei em gritar imediatamente: "Esse não é o verdadeiro!" Depois, era tarde demais. Como explicar...

O papa, um pouco inclinado para a frente, com as mãos juntas sobre seu manto, não perdia uma palavra da narrativa:

— Então, a outra criança, o reizinho, que fim levou ele, Bouville? Que fizestes dele?

— Ele existe, muito santo padre. Ele vive. Minha mulher e eu o confiamos à ama. Oh! Com muito trabalho. Porque a infeliz nos odiava, como bem podeis imaginar, e gemia Je dor. À força de súplicas, e também de ameaças, fizemos com que ela jurasse sobre os Evangelhos conservar o reizinho como se fosse seu filho, e jamais revelar o caso fosse a quem fosse, nem mesmo em confissão.

— Oh! Oh! — murmurou o Santo Padre...

— Assim, o pequeno rei João, o verdadeiro rei da França, em suma, está sendo criado, presentemente, numa casa rural da íle-de-France, sem saber quem é, sem que ninguém o saiba, a não ser a mulher que passa por sua mãe... e eu próprio.

— E a mulher?

— É Maria de Cressay, a dama do jovem lombardo Guccio Baglioni.

Agora, tudo se esclarecia para o Santo Padre.

— E Baglioni, tudo ignora?

— Tudo, tenho certeza. Pois a dama de Cressay, para conservar seu juramento, recusou tornar a vê-lo tal como lhe havíamos ordenado. Além disso, tudo foi feito muito depressa, e o moço tornou a partir imediatamente para a Itália. Pensa que seu filho vive. Inquieta-se, às vezes, a propósito dele, através de seu tio, o banqueiro Tolomei...

— Mas por que, Bouville, por que, pois que tínheis a prova do crime, e tão fácil de exibir, não denunciastes a condessa Mafalda?... Quando penso — acrescentou o papa João — que ao mesmo tempo ela me enviava seu chanceler a fim de que sustentasse sua causa contra seu sobrinho Roberto...

O papa pensou de súbito que Roberto d'Artois, o gigante barulhento, o semeador de alvoroços, talvez assassino ele também — pois parecia bem ter tido sua parte no assassínio de Margarida de Borgonha em Château-Gaillard —, o grande barão da França, péssimo rapaz, talvez valesse mais, no final das contas, do que sua cruel tia, e que, lutando contra ela, nem todas as malfeitorias estariam do lado dele. Um mundo de grandes lobos, o das cortes soberanas! E em cada reino acontecia o mesmo. Fora para governar, pacificar, conduzir esse rebanho, que Deus lhe havia inspirado, a ele, medíocre pequeno burguês de Cahors, a grande ambição da tiara que agora trazia sobre a fronte, e que, em certo momento, lhe pesava um tanto?...

— Eu me calei, muito santo padre — continuou Bouville —, principalmente por assim me haver aconselhado minha defunta esposa. Como deixara passar o momento exato para denunciar a assassina, minha falecida mulher me fez notar, com muita razão, que, se revelássemos a verdade, Mafalda iria encarniçar-se contra o reizinho, e também contra nós. Se, pois, quiséssemos salvá-lo, e salvar-nos, seria preciso deixá-la acreditar que seu crime obtivera êxito. Levei à Abadia de Saint-Denis, então, o filho da ama, para que ali fosse inumado entre os reis. O papa refletia.

— Assim, naquele processo que foi movido contra a senhora Mafalda, no ano seguinte, as acusações eram fundadas? — perguntou.

— Sem dúvida, Santo Padre, sem dúvida o eram! Monseigneur Roberto pusera a mão, graças a seu primo, messire João de Fiennes, sobre uma envenenadora, uma necromante, chamada Isabel de Fériennes, que entregara a uma dama de cerimônia da condessa Mafalda o veneno com que ela tinha matado primeiro o rei Luís e depois a criança apresentada aos barões. Essa Isabel de Fériennes, assim como seu filho João, foram levados a Paris, para ali fazer sua acusação contra Mafalda. Podeis imaginar como isso era interessante para monseigneur Roberto! O depoimento deles foi recolhido, e ali apareceu claramente serem os depoentes os fornecedores da condessa, pois que antes já lhe tinham arranjado o filtro através do qual ela se gabava de ter reconciliado sua filha Joana com seu genro, o conde de Poitiers...

— Magia, feitiçaria! Podíeis bem fazer grelhar a condessa! — sussurrou o papa.

— Não mais naquele momento, muito santo padre, não mais naquele momento. Porque o conde de Poitiers se havia tornado rei e protegia muito a senhora Mafalda, tanto, mesmo, que eu estou certo, no fundo de minha alma, estava de combinação com ela, pelo menos no segundo crime.

O rosto miúdo do papa enrugou-se ainda mais sob o gorro de peles. Aquelas últimas palavras lhe tinham sido penosas ao ouvido. Porque ele apreciara muito o rei Filipe V, ao qual devia a sua tiara, e com o qual sempre se entendera perfeitamente em todas as questões de governo.

— Sobre um e sobre a outra tombou o castigo de Deus — recomeçou Bouville —, pois que cada um deles perdeu, no ano passado, seu único herdeiro varão. A condessa viu morrer seu único filho, que tinha dezessete anos. E o jovem rei Filipe foi privado do seu, que nascera apenas alguns meses antes, e jamais teve outro... Mas, quanto à acusação levantada contra ela, a condessa Mafalda soube defender-se. Invocou a irregularidade do processo iniciado diante do Parlamento, a indignidade de seus acusadores, apresentou sua categoria de par de França, que só podia depender, em matéria de justiça, da Câmara dos Barões. Entretanto, e a fim, dizia ela, de fazer triunfar sua inocência, suplicou a seu genro... e foi uma bela cena de falsidade pública!... que mandasse continuar o inquérito, dando-lhe meios de confundir seus inimigos. A necromante de Fériennes e seu filho foram novamente ouvidos, mas depois de terem passado pela tortura. O estado deles era lamentável, e o sangue lhes corria de todo o corpo. Retrataram-se completamente, declararam que suas primeiras acusações eram mentirosas, e disseram ter chegado a elas. através de carícias, súplicas, promessas, e também violências da parte de pessoas cujos nomes, segundo a ata dos escrivães, convinha calar pelo momento: o que vinha designar monseigneur Roberto d'Artois. Depois, o próprio rei Filipe, o Longo, sentou-se no trono do Parlamento e fez comparecer os de sua família ou seus próximos, e todos os familiares de seu falecido irmão: o conde de Valois, o conde d'Evreux, monseigneur de Bourbon, monseigneur Gaucher, o condestável, monseigneur de Beaumont, o mordomo do palácio, e a própria rainha Clemência, perguntando-lhes, sob fé de juramento, se sabiam ou acreditavam que o rei Luís e seu filho João tivessem tido outra morte que não fosse a natural. Como prova alguma podia ser exibida, e como a reunião realizava-se diante de todos, e a condessa Mafalda estava sentada ao lado do rei, cada qual declarou, embora muitos o fizessem contra a própria convicção, que aquelas mortes tinham sido obra da natureza.

— E vós, ti vestes de comparecer? O gordo Bouville baixou a cabeça:

— Dei falso testemunho, muito santo padre — disse ele. — Mas que podia eu fazer, quando toda a corte, os pares, os tios do rei, os servidores mais próximos, a própria rainha viúva, davam seu juramento pela inocência da senhora Mafalda? Seria a mim que teriam acusado, então, de mentira e fantasia, e me mandariam enforcar em Montfaucon.

Parecia tão infeliz, tão abatido, tão triste, que se podia imaginar, de repente, sobre aquele grande rosto carnudo, os traços do meninozinho que ele fora meio século antes. O papa teve um movimento de piedade.

— Consolai-vos, Bouville — disse, inclinando-se, e pondo-lhe a mão sobre um ombro. — E não vos acuseis de ter agido mal. Deus vos colocou diante de um problema um tanto pesado para vós. Vosso segredo, eu o tomo sobre mim. O futuro dirá se fizestes bem! Quisestes salvar uma vida que vos fora confiada pelo dever de vosso estado, e conseguistes salvá-la. Quantas outras vidas teríeis exposto, se tivésseis falado!

— Ah! Muito santo padre, sim, estou consolado! — disse o antigo camareiro. — Mas, o pequeno rei escondido, que vai ser dele? Que devemos fazer?

— Esperai, sem nada fazer. Eu pensarei nisso, e vos farei saber. Ide em paz, Bouville... Quanto a monseigneur de Valois, suas cem mil libras lhe serão dadas, nem mais um florim, entretanto. Que ele me deixe tranqüilo com a sua cruzada, e que se entenda com a Inglaterra.

Bouville pôs um joelho em terra, levou com efusão a mão do Santo Padre aos lábios, levantou-se e ganhou a porta aos recuos, pois que a audiência parecia terminada.

Com um gesto, o papa tornou a chamá-lo.

— Bouville, e vossa absolvição? Não a quereis?

Um momento mais tarde, o papa João, que tinha ficado a sós, percorria seu gabinete de trabalho em pequenos passos deslizantes. O vento do Ródano passava sob as portas e gemia através do belo palácio novo. Os periquitos gorjeavam no seu viveiro. Os tições do braseiro disposto num canto do aposento se haviam extinguido. João XXII estava diante de um dos mais difíceis problemas que enfrentara, desde a sua eleição. O verdadeiro rei da França era uma criança ignorada, escondida no pátio de uma casa rural. Duas pessoas no mundo, ou antes, três pessoas, agora, o sabiam. O medo impedia as duas primeiras de falar. Ele próprio, agora que fora advertido do que se passava, que devia fazer, quando dois reis já se haviam sucedido no trono da França, dois reis devidamente sagrados, ungidos com o santo crisma, e que na verdade nada mais eram do que usurpadores? Ah! Sim! Aquilo era grave, quase tanto como a excomunhão do imperador da Alemanha. Que partido tomar? Revelar o caso? Seria atirar a França, e, em seguida uma parte da Europa, na mais terrível das desordens dinásticas. Mais uma vez, semente da guerra!

Um outro sentimento também o incitava a guardar silêncio, e aquele sentimento relacionava-se com a memória do rei Filipe, o Longo. Sim, João XXII gostara muito daquele jovem, e ajudara-o tanto quanto lhe fora possível. Tratava-se, mesmo, do único soberano que admirara e ao qual se conservava reconhecido. Manchar sua lembrança era, para João XXII, manchar-se ao mesmo tempo. Porque, sem Filipe, o Longo, teria ele chegado a ser papa? E se se revelasse ter sido o caro Filipe um criminoso, pelo menos o cúmplice de uma criminosa? Mas seria ao papa João, seria a Tiago Duèze que cabia atirar a primeira pedra, ele, que devera a astúcias tão grandes sua púrpura e sua tiara? E se lhe tivesse sido necessário, para assegurar sua eleição, deixar que se cometesse um assassínio...

"Senhor, Senhor, obrigado por me terdes poupado essa tentação... Mas seria bem eu quem deveria ser encarregado do cuidado de vossas criaturas?... E se a ama falar um dia, que acontecerá? É possível confiar em língua de mulher? Seria bom, Senhor, que me orientásseis, de vez em quando! Absolvi Bouville, mas a penitência ficou para mim."

Deixara-se tombar sobre a almofada verde de seu genuflexório, e ali ficou, por muito tempo, com a fronte escondida entre as mãos.

 

O caminho de Paris

Como ressoava com clareza, sob as ferraduras dos cavalos, o chão das estradas francesas! Que música feliz pro-' dúzia o ranger do cascalho! E o ar que se respirava, o ar leve da manhã saturada de sol, que maravilhoso perfume, que maravilhoso sabor ele possuía! Os renovos começavam a abrir-se, e as pequenas folhas verdes, frágeis e enrugadas, vinham até o meio do caminho procurar a fronte dos viajantes para uma carícia. A relva dos taludes e dos prados da Ile-de-France era menos rica, menos espessa, sem dúvida, do que a relva da Inglaterra, mas, para a rainha Isabel, era a relva da liberdade, enfim, e da esperança!

A crina da égua branca ondulava ao ritmo da marcha. Uma liteira seguia, a algumas toesas, levada por duas mulas. Mas a rainha sentia-se feliz demais, impaciente demais, para suportar o encerramento naquele veículo balouçante. Preferira montar a sua hacanéia, cujo passo ela excitava. Tinha desejos de saltar as cercas vivas, de galopar nas pastagens!

Bolonha, onde, quinze anos antes, ela se casara, na Igreja de Nossa Senhora, Montreuil, e Abbeville, e Beauvais, tinham sido as escalas de sua viagem. Passara a noite precedente em Maubuisson, perto de Pontoise, no solar real, onde, pela última vez, vira seu pai, Filipe, o Belo. Seu caminho fora como que uma peregrinação através do passado. Parecia-lhe remontar a etapas de sua vida para retomar um ponto de partida, sobre quinze anos abolidos.

— Vosso irmão Carlos teria sem dúvida tornado a ficar com ela — dizia Roberto d'Artois, que caminhava ao lado de Isabel — e no-la haveria imposto como rainha, de tal modo tinha saudades dela e não pouca decisão mostrava na escolha de outra esposa.

De quem falava Roberto? Ah! Sim! De Branca de Borgonha. A lembrança lhe viera por causa de Maubuisson, onde, ainda há pouco, uma cavalgada composta de Henrique de Sully, de João de Roye, do conde de Kent, de lorde Mor-timer e do próprio Roberto d'Artois, e toda uma tropa de fidalgos, tinha vindo receber a viajante. Isabel sentira-se muito satisfeita ao se ver tratada novamente como rainha.

— Penso que Carlos, verdadeiramente, tinha algum prazer secreto em acariciar os chifres que ela lhe havia plantado — continuava Roberto. — Por infelicidade, ou talvez antes por felicidade, a doce Branca, no ano anterior à subida de Carlos ao trono, fez-se engravidar em sua prisão pelo carcereiro! Vós sabeis que fogo têm nas coxas as filhas de Mafalda. Ali se acenderia uma estopa a cinco passos de distância!

O gigante cavalgava à esquerda, do lado do sol, e, montado sobre um imenso tordilho percherão, fazia sombra à rainha. Esta esforçava-se por manter-se na luz, e para tanto incitava sua hacanéia. Roberto falava, falava sem cessar, no entusiasmo do reencontro, e dava livre curso à sua natural vulgaridade, procurando ao mesmo tempo, desde as primeiras léguas, renovar os vínculos do parentesco e de uma velha amizade. Havia onze anos que Isabel não se encontrava com ele, e achou-o menos modificado do que esperava. A voz era a mesma, e, na animação da marcha, seu corpo exalava aquele mesmo odor de grande comedor de carne de caça, que a brisa levava em derredor, em baforadas. Tinha a mão avermelhada e peluda até as unhas, o olhar mau, mesmo quando acreditava fazê-lo amável, o ventre dilatado por cima da cintura, como se tivesse engolido um sino. Mas a segurança de suas palavras e de seus gestos era agora menos fingida, e pertencia, definitivamente, à sua natureza. A ruga que enquadrava sua boca estava profundamente marcada na gordura.

— E Mafalda, minha boa meretriz de tia, teve de resignar-se à anulação do casamento de sua filha. Oh! Não o fez sem debater e sem dar falso testemunho diante dos bispos! Mas foi, finalmente, confundida. O primo Carlos, por sua vez, ficou obstinado. Por causa do assunto do carcereiro e da gravidez. E quando ele se obstina de repente sobre um assunto, esse homem fraco, ninguém o faz desistir! No processo de anulação foram feitas nada menos de trinta e uma perguntas. Tiraram da poeira a dispensa que Clemente V dera a Carlos, e que lhe permitia desposar uma de suas parentes, mas sem que o nome em si fosse especificado. Mas quem, em nossa família, se casa, a não ser com uma prima ou uma sobrinha? Então, monseigneur João de Marigny, muito habilmente, encontrou um parentesco espiritual. Mafalda era madrinha de Carlos? Ela garantia que não, naturalmente, e que só estivera no batismo como assistente26. Então, todos os que haviam comparecido ao batismo, barões, camareiros, criados, clérigos, chantres, burgueses de Creuil, responderam que ela tivera a criança ao colo, para a dar em seguida, a Carlos de Valois, e que não seria possível haver engano, sendo a condessa a mulher mais alta que se encontrava na capela, uma cabeça mais alta do que todos os presentes. Vede que bela mentirosa!

Isabel esforçava-se por ouvir, mas na verdade só estava atenta a si própria e ao contato insólito que pouco antes a havia emocionado. Como parecia surpreendente sentir, de súbito, sob os dedos, os cabelos de um homem!

A rainha levantou os olhos para Rogério Mortimer, que viera colocar-se à sua direita, com um movimento a um tempo natural e autoritário, como se fosse seu protetor e guardião. Contemplava os cachos espessos que saíam do chapéu preto do jovem e pensava que ninguém diria serem aqueles cabelos tão sedosos ao toque!

Aquilo acontecera por acaso, no primeiro momento em que se encontraram. Isabel ficara surpresa ao ver Mortimer junto do conde de Kent. Assim, pois, na França, o rebelde, o evadido, o despojado — porque Eduardo, naturalmente, o havia destituído de todos os seus" títulos e de todos os seus bens — caminhava lado a lado com o irmão do rei da Inglaterra e parecia quase passar diante dele. O mesmo espanto se revelara nos olhares trocados entre os membros da escolta inglesa.

E Mortimer, saltando para o chão, atirara-se para a rainha, a fim de beijar-lhe a fímbria da veste. Mas a hacanéia mexera-se, e os lábios de Mortimer tinham aflorado o joelho de Isabel. Ela própria, maquinalmente, pousara a mão sobre a cabeça descoberta do amigo que tornava a encontrar. E agora que cavalgavam pelo caminho estriado de sombra, o contato sedoso de seus cabelos se prolongava, como ainda perceptível e fechado sob o veludo da luva.

— O motivo mais sério, entretanto, para conseguir a anulação do vínculo, além do fato de não terem os contraentes idade canônica para copular, nem mesmo a possibilidade natural de o fazer, foi terem descoberto que vosso Irmão Carlos não possuía, quando o casaram, discernimento para procurar esposa segundo as exigências de sua categoria. Nem vontade para expressar sua escolha, visto ser incapaz, simples e débil. Portanto, o contrato não tinha valor. Inhabilis, simplex et imbecillus!... E todos, desde vosso tio Valois até a última camareira, estiveram acordes em dizer que, de fato, ele era assim, e a melhor prova disso era que a falecida rainha sua mãe, ela própria, o considerava tão idiota que lhe dera o apelido de pateta! Perdoai, minha prima, que vos fale assim de vosso irmão, mas, enfim, é o rei que temos. Companheiro gentil, no mais, de belo rosto, pouco animado, contudo. Compreendei por que é necessário que alguém governe em lugar dele. E que não deveis esperar demasiado.

À esquerda de Isabel, rolava a voz inexaurível de Roberto d'Artois, e flutuava seu cheiro de animal selvagem. À sua direita, Isabel sentia o olhar de Rogério Mortimer pousado sobre ela com perturbadora insistência. De vez em quando levantava os olhos para aquelas pupilas cor de sílex, para o rosto bem-talhado, onde um risco profundo partia do queixo para o peito longo e amplo. Ia muito direito sobre a sela. Surpreendera-a o fato de não se recordar da cicatriz branca que orlava o lábio inferior do jovem.

— Continua sempre casta, minha bela prima? — perguntou, de súbito, Roberto d'Artois.

A rainha Isabel corou e levantou furtivamente os olhos para Rogério Mortimer, como se a pergunta já a colocasse um tanto como culpada, e, de forma inexplicável, em relação a ele.

— Sou forçada a isso — respondeu ela.

— Lembrai-vos, prima, do nosso encontro em Londres?

Ela corou ainda mais. Que estava ele querendo recordar? O que iria pensar Mortimer? Um momento de abandono no instante do adeus. Nem sequer um beijo, somente uma fronte que se apóia num peito de homem e que busca um refúgio... Roberto ainda pensava nisso, onze anos depois? Isso a lisonjeava, mas não a enternecia, de forma alguma. Teria ele tomado como confissão de um desejo o que fora apenas um momento de desamparo? Talvez, com efeito, naquele dia, mas somente naquele dia, se ela não fosse rainha, se ele não estivesse tão apressado para partir e denunciar as filhas de Borgonha...

— Enfim, se tiverdes a idéia de mudar de costumes... — insistia Roberto, com seu tom impudico. — Tenho sempre, quando penso em vós, a sensação de uma dívida não paga...

Parou de súbito, tendo cruzado o olhar com o de Mor-timer, um olhar de homem quase pronto a arrancar a espada se ouvisse mais alguma coisa. A rainha percebeu aquela troca de olhares, e, para disfarçar, acariciou a crina branca de sua égua. Caro Mortimer! Quanta nobreza e cavalheirismo existiam naquele homem! E como era bom respirar o ar da França, e como o caminho era belo, com suas manchas de luz e sombra!

Roberto d'Artois tinha um meio sorriso irônico metido na gordura de suas faces. Em sua dívida, segundo a expressão que usara, considerando-a delicada, não devia mais pensar. Era certo que lorde Mortimer amava a rainha Isabel e que Isabel amava Mortimer.

São os outros, geralmente, que percebem os nossos amores, antes que nós próprios estejamos conscientes deles.

"Pois bem!", pensou Roberto, "ela vai se divertir, a boa prima, com esse templário!"

 

O rei Carlos

Fora-lhe necessário quase um quarto de hora para atravessar a cidade, desde as portas até o Palácio da Cite. As lágrimas vieram aos olhos da rainha Isabel quando pôs o pé em terra, no pátio daquela residência que ela vira seu pai edificar, e que já recebera a leve patina do tempo. O rasto negro sobre a pedra, no lugar onde as calhas desaguavam, não existia quando Isabel partira para se tornar rainha.

As portas abriram-se no alto da grande escadaria, e Isabel não se pôde impedir de esperar o rosto imponente, glacial, soberano, do rei Filipe, o Belo. Quantas vezes contemplara ela seu pai, no alto dos degraus, preparando-se para descer em direção à sua cidade?

O jovem que apareceu, de cota curta, pernas grossas em calções brancos, e seguido de seus camareiros, parecia-se bastante, pela altura e pelos traços, com o grande monarca desaparecido, mas nenhuma força, majestade alguma emanava de sua pessoa. Não era senão pálida cópia, molde de gesso tirado de uma estátua. E, apesar disso, porque a sombra do Rei de Ferro se conservava presente por trás daquela personagem sem alma, porque a realeza da França encarnava-se nele ao mesmo tempo em que o morgadio da família, Isabel quis, por três ou quatro vezes, ajoelhar-se, e de cada vez o irmão a retinha pela mão, dizendo:

— Sê bem-vinda, minha doce irmã, sé bem-vinda!

Tendo obrigado a irmã a levantar-se, e sempre segurando-lhe a mão, ele a conduziu pelos corredores até o enorme gabinete onde ficava habitualmente, informando-se sobre a viagem da rainha: tinha sido bem recebida em Bolonha Pelo capitão da cidade?

Quis saber se os camareiros estavam cuidando das bagagens, recomendou que não deixassem tombar os cofres.

— Porque os tecidos amassam-se — explicava ele —-, e bem vi, na minha última viagem ao Languedoc, como as minhas roupas ficaram maltratadas.

Era para esconder uma emoção, um constrangimento, que dava sua atenção a essa espécie de preocupações? Quando se sentaram, Carlos, o Belo, disse:

— Então, como vais, minha irmã?

— Muito mesquinhamente, meu irmão — respondeu ela.

— Qual é o objetivo da tua viagem?

Isabel teve uma expressão de penosa surpresa. Seu irmão não estava ao corrente, então? Roberto d'Artois, que entrara no palácio com os chefes da escolta e fazia soar suas esporas sobre o lajedo, como se estivesse em sua casa, dirigiu a Isabel um olhar que significava: "Que vos tinha eu dito?"

— Meu irmão, venho para combinar contigo o tratado que nossos dois reinos devem fazer, se querem deixar de se prejudicar mutuamente.

Carlos, o Belo, ficou pensativo por um instante, como se estivesse refletindo: na verdade, nada de preciso lhe ocupava a mente. Tal como acontecera com Mortimer, nas audiências que lhe concedera, tal como acontecia com todos, fazia perguntas e não prestava atenção às respostas.

— O tratado... — acabou por dizer. — Sim, estou pronto a receber a homenagem de teu esposo Eduardo. Conversarás com nosso tio Carlos, a quem dei mandado para isso. O mar não te perturbou? Sabes que nunca viajei por mar? Eis uma água que me parece bem impressionante.

Foi preciso esperar que ele dissesse ainda algumas trivialidades semelhantes para que lhe pudessem apresentar o bispo de Norwich, que devia conduzir as negociações, e lorde, Cromwell, que comandava a escolta inglesa. Saudou cada qual com cortesia, mas, visivelmente, não se recordaria de ninguém.

Carlos IV não era muito mais tolo, sem dúvida, do que milhares de homens da mesma idade, que, em seu reino, aravam seus campos ao contrário, quebravam as navetas de seus instrumentos de tecelões ou vendiam pez e sebo, enganando-se nas contas da loja: a infelicidade estava no fato de ser ele rei, tendo tão poucas faculdades para exercer tal cargo.

— Venho também, meu irmão — continuou Isabel —, pedir tua ajuda e pôr minha pessoa sob a tua proteção, pois todos os meus bens me foram retirados, e em último lugar 0 condado de Cornualha, que me tinha sido assegurado pela Inglaterra pelo tratado de núpcias.

— Dirás tuas queixas ao tio Carlos: ele é de bom conselho, e eu aprovarei, minha irmã, tudo quanto ele decidir para teu bem. Vou conduzir-te a teus aposentos.

Carlos IV deixou a assembléia para mostrar à sua irmã os apartamentos que lhe mandara reservar: uma série de cinco aposentos, com uma escada independente.

— Para as pequenas entradas de teu serviço — acreditou ele dever explicar.

Fez notar, também, que o mobiliário fora reformado, e que mandara colocar, para ela, objetos que vinham de seus pais, um relicário que sua mãe, a rainha Joana de Navarra, tinha o costume de conservar junto de seu leito e que continha um dente de São Luís numa espécie de pequena catedral de prata dourada... Os tapetes bordados, que forravam as paredes, eram novos, e ele fez com que a irmã lhes apreciasse o tecido. Tinha cuidados de boa dona-de-casa, tocava o pano de uma colcha, pedia a sua irmã que não hesitasse em pedir quantas brasas precisasse para o aquecedor de seu leito. Não se poderia ser mais atencioso nem mais afável.

— Para o alojamento de teu séquito, messire de Mortimer se arranjará com os meus camareiros. Desejo que todos sejam bem tratados.

Pronunciara o nome de Mortimer sem intenção particular, simplesmente porque, quando se tratava de assuntos ingleses, esse nome lhe surgia à mente. Parecia-lhe, pois, normal que lorde Mortimer se ocupasse da casa da rainha da Inglaterra. Tinha, certamente, esquecido que Eduardo desejava a cabeça de Rogério Mortimer.

O rei continuava a andar pelo apartamento, arranjando a prega de uma cortina, verificando o fecho dos postigos internos. Depois, subitamente, detendo-se, com as mãos atrás das costas, a cabeça um tanto baixa, disse:

— Não fomos felizes nos nossos casamentos, minha irmã. Pensei ter sido melhor servido por Deus na pessoa de minha querida Maria de Luxemburgo do que o fui com Branca...

Teve um olhar rápido para Isabel, onde a rainha leu que ele lhe guardava um ressentimento vago por ter tornado pública a conduta de sua primeira esposa.

—...e depois a morte levou-me Maria, e ao mesmo tempo o herdeiro que ela daria ao trono. E agora, fizeramme esposar nossa prima d'Evreux, que vais rever logo mais: é uma companhia amável, que gosta bastante de mim, penso. Mas nós nos unimos em julho último: estamos em março, e ela não dá sinal algum de estar grávida. Preciso conversar contigo sobre coisas de que só posso falar a uma irmã... Com esse mau esposo, que não ama o teu sexo, tiveste, apesar disso, quatro filhos. E eu com minhas três esposas... e, entretanto, asseguro-te, cumpro meus deveres conjugais freqüentemente, e tenho prazer nisso. Então, minha irmã? Essa maldição que o povo diz pesar sobre nossa raça e nossa casa, acreditas nela?

Isabel contemplava-o com tristeza. Mostrava-se ele bastante comovente, de repente, com essas dúvidas que lhe assaltavam a alma e que deviam ser sua preocupação constante. Porém, o mais humilde jardineiro não teria expressado de outra maneira seus infortúnios ao falar na esterilidade de sua esposa. O que desejava aquele pobre rei? Um herdeiro para o trono ou um filho no lar?

E o que havia de régio, realmente, naquela Joana d'Evreux que veio cumprimentar Isabel alguns momentos mais tarde? Dona de um rosto um tanto mole, e uma expressão dócil, mantinha com humildade sua condição de terceira esposa, que se havia conseguido entre as mais próximas da família, porque se fazia necessária uma rainha para a França e porque as cortes da Europa estavam cansadas de fornecê-las. Era triste. Observava sem cessar no rosto do marido a obsessão que conhecia bem, e que devia ser o assunto único em suas conversações noturnas.

O verdadeiro rei, Isabel foi encontrar em Carlos de Valois.

Acorrendo ao palácio, assim que soube da chegada da sobrinha, ele apertou-a nos braços e beijou-a nas faces. Isabel imediatamente percebeu que o poder estava naquele braço, e em nenhum outro lugar.

A ceia foi rápida, reunindo, em torno dos soberanos, os condes de Valois, d'Artois, e suas esposas, o conde de Kent, o bispo de Norwich, lorde Mortimer. O rei Carlos, o Belo, gostava de se deitar cedo.

Todos os ingleses reuniram-se, em seguida, no apartamento da rainha Isabel, para ali conferenciarem. Quando se retiraram, Mortimer ficou em último lugar no limiar da porta. Isabel reteve-o, por um instante. Segundo disse, tinha uma mensagem para ele.

 

A cruz de sangue

Eles não tinham consciência do tempo que passara. O licor perfumado de alecrim, de rosa e de romã, estava quase esgotado em sua bilha de cristal, e as brasas desmoronavam-se na lareira.

Nem mesmo tinham eles ouvido os gritos da sentinela, que se elevavam, longínquos, de hora em hora, dentro da noite. Não podiam parar de falar, a rainha sobretudo, pois, pela primeira vez depois de tantos anos, não precisava temer que algum espião estivesse escondido atrás de uma tapeçaria para relatar suas menores palavras. Não saberia dizer se alguma vez lhe acontecera confiar-se assim tão livremente: perdera até mesmo a memória da liberdade. E não se recordava de ter nunca se manifestado diante de um homem que a ouvisse com maior interesse, que lhe respondesse com maior justeza, e cuja atenção fosse carregada de tanta generosidade! Tinham diante deles dias e dias durante os quais não lhes faltariam lazeres para conversar, e, entretanto, não conseguiam decidir-se a se interromper, a se deixarem até o dia seguinte. Havia entre eles como que uma orgia de confidencias. Tinham tudo a se dizer, sobre o estado dos reinos, sobre o tratado de paz, sobre as cartas do papa, sobre seus inimigos comuns, e Mortimer tinha sua prisão a contar, sua evasão, seu exílio, e a rainha tinha seus tormentos a confessar, e os novos ultrajes que os Despenser lhe haviam infligido.

Isabel trouxera a firme intenção de permanecer na França até que o próprio Eduardo ali viesse ter, para a homenagem: era esse, aliás, o conselho que lhe dera Orleton, com o qual tivera uma entrevista secreta em Londres e Dover.

— Não podeis, senhora, regressar à Inglaterra antes que os Despenser sejam expulsos — afirmou Mortimer. — Não o podeis e não o deveis.

— O objetivo deles ficou claro, nestes últimos meses em que me atormentaram tão cruelmente. Queriam me levar a qualquer louco empreendimento de revolta, a fim de poderem acusar-me de alta traição e fechar-me num convento qualquer ou em algum castelo longínquo, como fizeram com vossa esposa.

— Pobre amiga Joana — disse Mortimer. — Tem sofrido bastante por minha causa.

E foi pôr uma acha de lenha na lareira.

— Ela me ajudou tanto! — recomeçou Isabel. — E foi quem me fez saber que homem éreis. Eu fazia com que dormisse a meu lado, de tal forma temia que me assassinassem. E ela me falava de vós, sempre de vós... Conheço-vos melhor do que pensais, lorde Mortimer.

Houve um momento como que de espera, de ambas as partes, e também um pouco de constrangimento. Mortimer conservava-se debruçado para o fogo, cujas chamas iluminavam seu queixo profundamente marcado, suas sobrancelhas espessas.

— Sem a guerra da Aquitânia — continuou a rainha —, sem as cartas do papa, sem essa missão junto de meu irmão, estou certa de que uma grande desgraça me aconteceria.

— Eu sabia, senhora, que esse seria o único meio. Não foi por prazer, podeis acreditar, que tomei parte nessa guerra organizada contra o reino. Se aceitei compartilhá-la, e fazer ali figura de traidor... Porque revelar-se para defender seu direito é uma coisa, mas passar para o exército adversário é outra...

A campanha da Aquitânia pesava-lhe na consciência, queria justificar-se.

—... foi porque sabia não haver outra forma de vos libertar, senhora, sem enfraquecer o rei Eduardo. E vossa viagem para a França, fui eu quem a concebeu e quem trabalhou sem descanso a fim de que ela fosse obtida, e para aqui viésseis.

A voz de Mortimer se animara de uma vibração grave. As pálpebras de Isabel fecharam-se a meio. Sua mão arranjou maquinalmente uma das trancas louras que lhe enquadravam o rosto como asas de uma ânfora.

— Que ferimento é esse em vossos lábios, que eu jamais havia notado? — perguntou ela.

— Um presente de vosso esposo, senhora, marca que me deixou, para que jamais esqueça, quando as pessoas de seu partido me derrubaram com a armadura posta, em Shrewsbury, onde fui infeliz. E infeliz, senhora, menos por ter perdido essa batalha, menos pela morte que arrisquei e pela prisão que suportei, do que por ver falhado o sonho que me animava de me apresentar a vós, à noite, levando-vos a cabeça dos Despenser, como homenagem do combate a que me entregara por vós.

Essa não era toda a verdade: a salvaguarda dos seus domínios e de suas prerrogativas tinha pesado tanto i nas decisões militares do barão das Marcas quanto o servir à rainha. Mas naquele momento ele estava sinceramente persuadido de ter agido apenas por ela. E Isabel também acreditava nisso: desejara tanto poder acreditar! Tinha esperado tanto que um dia um campeão se levantasse por sua causa! E eis que o campeão ali estava, diante dela, exibindo a grande mão magra que tinha empunhado a espada, e nó rosto, a marca superficial, mas indelével, de um ferimento recebido por amor a ela. Ele lhe parecia saído diretamente, com suas vestes negras, de um romance da cavalaria.

— Recordai-vos, amigo Mortimer...

Deixara de lado o lorde, e Mortimer sentiu maior alegria por isso do que se tivesse sido o vencedor em Shrewsbury.

—... lembrai-vos da estância do cavaleiro de Graelent?

Ele franziu as sobrancelhas espessas. Graelent?... um nome que já ouvira, mas do qual não recordava a história.

— Está num livro de Maria de França, que me roubaram, como tudo o mais — continuou Isabel. — Esse Graelent era um cavaleiro tão forte, tão lindamente leal, e seu renome era tão grande, que a rainha daquele tempo por ele se apaixonou sem conhecê-lo, e, tendo mandado que o chamassem, disse, como primeiras palavras, logo que ele apareceu diante de seus olhos: "Amigo Graelent, jamais amei meu esposo, mas vos amo tanto quanto se pode amar, e vos Pertenço".

Ela estava espantada com sua própria audácia, e por lhe ter a memória fornecido tão a propósito palavras que traduziam exatamente os seus sentimentos. Durante vários segundos, o som de sua voz pareceu prolongar-se contra seus Próprios tímpanos. Esperava, ansiosa e perturbada, confusa e ardente, a resposta daquele novo Graelent.

"Posso agora revelar-lhe que eu a amo?", perguntava Rogério Mortimer a si próprio, como se não fosse isso a única coisa que devia dizer. Mas há campos fechados onde os homens mais valentes nas batalhas se mostram singularmente inábeis.

— Jamais amastes o rei Eduardo? — perguntou ele. E sentiram-se ambos igualmente decepcionados, como que tendo perdido uma ocasião que não mais encontrariam. Era necessário, acaso, falar de Eduardo em tal momento? A rainha endireitou-se um tanto em sua cadeira.

— Pensei amá-lo — respondeu ela. — Esforcei-me com que homem me haviam casado! Agora o odeio, e com sentimentos que lhe foram ensinados. Depois, depressa vi com que homem me haviam casado! Agora odeio-o, e com tão forte ódio que só se extinguira comigo... ou com ele. Sabeis que durante longos anos pensei que meu corpo não podia inspirar senão repulsa, e que o asco que Eduardo demonstrava por mim correspondia a alguma falta de minha natureza? E sabeis que ainda agora acontece-me pensar assim? Sabeis, amigo Mortimer, se é preciso que tudo vos confesse e, aliás, vossa esposa bem o sabe, que em quinze anos Eduardo só esteve no meu leito umas vinte vezes, e nos dias que mandava designar ao mesmo tempo pelo seu astrólogo e pelo meu médico? Nas últimas vezes em que tivemos relações, quando minha última filha foi concebida, ele impôs que Hugo, o Jovem, viesse acompanhá-lo até o meu leito, e se afagavam e se acariciavam, para que ele pudesse cumprir seu ato de esposo, dizendo-me que eu devia amar a Hugo como a ele próprio, pois que ambos se sentiam tão unidos que formavam uma só pessoa. Foi então que ameacei escrever ao papa...

O furor tornara roxo o rosto de Mortimer. A honra e o amor nele tinham sido igualmente atingidos. Eduardo era verdadeiramente indigno de ser rei. Quando se poderia gritar a todos os seus vassalos: "Sabei quem é vosso suserano e vede diante de quem vos ajoelhastes e prestastes homenagem! Retomai vossos juramentos!" Seria preciso, quando no mundo existiam tantas mulheres infiéis, que aquele homem tivesse uma esposa de tão alta virtude, que, apesar de tudo, o respeitara? Não merecia que ela se entregasse a quantos passassem, apenas para infamá-lo? Mas teria sido ela absolutamente fiel? Algum amor secreto não teria atravessado tão desesperadora solidão?

— E jamais vos abandonastes a outros braços? — perguntou ele, com voz sombria de ciúme, aquela voz que agrada tanto, que enternece tanto, no início de um sentimento, que se torna tão cansativa no fim de uma ligação.

— Jamais — respondeu ela.

— Nem mesmo a vosso primo, o conde d'Artois, que parecia esta manhã mostrar-vos claramente que se sentia apaixonado por vós?

Ela ergueu os ombros.

— Conheceis meu primo Roberto: toda caça lhe serve. Rainha ou tunante, para ele é a mesma coisa. Num dia longínquo, em Westmoustiers, quando eu lhe confiava meu isolamento, ele ofereceu-se, no vão de uma janela, para me consolar. Eis tudo. Aliás, não o ouvistes: "Continuais a ser sempre casta, minha prima?..." Não, gentil Mortimer, meu coração está dolorosamente vazio... e muito cansado de assim estar.

— Ah! Por que não ousei, senhora, dizer-vos que há muito sois a única dama dos meus pensamentos! — exclamou Mortimer.

— É verdade, doce amigo? Há tanto tempo assim?

— Creio, senhora, que isso data da primeira vez em que vos vi. Mas só tive clara noção disso um dia, em Windsor, quando as lágrimas vos vieram aos olhos por uma vergonha qualquer que o rei Eduardo vos havia feito passar. Mas estáveis longínqua: não tanto pela vossa coroa, mas proibida por aquela frieza de atitude que sempre demonstrastes. Depois, lady Joana estava junto de vós, falando-me ao mesmo tempo de vós, sem cessar, e sendo um obstáculo a que eu me aproximasse demais. Direi que na prisão onde estive encerrado não houve manhã ou tarde em que não pensasse em vós, e que a primeira pergunta que fiz, fugindo da Torre...

— Sei, amigo Rogério, sei. O bispo Orleton me contou. E fiquei então contente por ter dado minha bolsa particular pela vossa liberdade! Não pelo ouro, que nada era, mas pelo risco, que foi bem grande. Vossa evasão fez recrudescerem os meus tormentos...

Ele inclinou-se muito, ajoelhou-se, quase, para marcar seu reconhecimento.

— Sabeis, senhora — disse, em tom ainda mais grave "7", que desde que coloquei os pés sobre a terra da França fiz voto de me vestir de preto enquanto não tivesse voltado à Inglaterra... e de não tocar em mulher antes de vos ter libertado e tornado a ver?

Ele flexionava um tanto os termos iniciais de seu voto, e confundia, a serviço de seu amor, a rainha e o reino. Cada vez mais, porém, aos olhos de Isabel, Mortimer se aparentava com Graelent, com Percival, com Lancelot...

— E mantivestes esse voto? — perguntou ela.

— Duvidais?

A rainha agradeceu-lhe com um sorriso, com uma baforada de rubor que subiu até seus olhos azuis, e com uma das mãos estendidas, mão frágil que se foi alojar, como um pássaro, na mão do grande barão. Depois, seus dedos abriram-se, enlaçaram-se, cruzaram-se...

— Apertai-a — murmurou Isabel. — Apertai-a com força, meu amigo... Também eu, há muito tempo...

Calou-se por um instante, depois continuou:

— Acreditais que tenhamos o direito? Prometi fidelidade a meu esposo, por muito mau que ele seja. E vós, por vossa parte, tendes uma esposa irrepreensível. São vínculos que contraímos diante de Deus. E eu fui tão severa para com os pecados de outras...

Procurava defender-se contra si mesma ou pretendia que ele tomasse sobre si o pecado?

Ele estava sentado. Levantou-se, então.

— Nem vós nem eu, minha rainha, nos casamos pela nossa vontade. Pronunciamos juramentos, mas para escolhas que não tínhamos feito. Obedecemos às decisões de nossas famílias, e não à vontade de nosso coração. Às almas como as nossas, feitas uma para outra como são...

Teve uma hesitação. O amor que teme se dar nome leva às situações mais estranhas: o desejo toma os rodeios mais altos para pedir seus direitos. Mortimer estava de pé diante de Isabel, e suas mãos não se haviam desunido.

— Quereis, minha rainha — continuou ele —, que nos irmanemos? Quereis aceitar a permuta de nosso sangue para que eu seja para sempre vosso sustentáculo e para sempre sejais minha dama?

Sua voz tremia com aquela inspiração súbita e desmesurada que tivera. E o frêmito comunicava-se aos ombros da rainha. Porque havia feitiçaria, paixão e fé ao mesmo tempo, todas as coisas divinas e diabólicas mescladas, cavalheirescas e carnais, naquilo que ele acabava de propor. Era o vínculo de sangue dos irmãos de armas e dos amantes lendários, o vínculo dos Templários trazido do Oriente através das cruzadas, o vínculo de amor, também, que unia a esposa malcasada ao amante de sua escolha, e algumas vezes diante mesmo do marido, com a condição de que aquele amor se conservasse casto... ou que se acreditasse assim se conservar. Era o juramento dos corpos, mais poderoso do que o das palavras, e que não se podia romper, retomar nem anular. As duas criaturas humanas que o tinham pronunciado tornavam-se mais unidas do que gêmeos no mesmo ventre, o que cada qual possuía era possessão do outro, deviam em tudo proteger-se, e não podiam aceitar sobreviver um ao outro. "Devem ser irmanados..." Sussurrava-se isso de certos casais, com um pequeno tremor a um tempo de receio e de inveja 2?.

— Posso pedir-vos tudo? — disse Isabel, muito baixo. Ele respondeu baixando as pálpebras sobre seus olhos

cor de sílex.

— Eu me entrego a vós — disse ele. — Podeis exigir de mim o que vos parecer. Podeis dar-vos a mim, se desejardes. Meu amor será o que quiserdes que ele seja. Posso estender-me despido ao pé de vós despida, e não vos tocar, se mo proibirdes.

Não era aquela a verdade de seu desejo, mas um rito de honra que eles se deviam, conforme as tradições ouvidas. O amante obrigava-se a mostrar a força de sua alma e o poder de seu respeito. Oferecia-se para a prova cortês, mas cuja duração era entregue à decisão de sua amante. Dependia dela que durasse para sempre ou que fosse imediatamente abolida. O cavaleiro que ia armar ficava também uma noite inteira em orações, as armas depostas, e jurava defender a viúva e os órfãos. E, imediatamente depois de ter suas esporas colocadas, partia para a guerra, onde pilhava, violava e fabricava, com sua espada, viúvas e órfãos às centenas, diante das casas em fogo!

— Consentis, minha rainha? — disse ele.

Por sua vez, ela respondeu com as pálpebras. Nem um nem outro jamais tinham sido irmanados, nem tinham visto tal cerimônia. Deviam inventar uma para seu uso.

— No dedo? Na fronte? No coração? — perguntou Mortimer.

Podiam fazer uma picada no dedo, deixar o sangue correr num vidro, misturá-lo e bebê-lo um de cada vez. Podiam fazer uma incisão na fronte, na raiz dos cabelos, e, encostando cabeça contra cabeça, permutar seus pensamentos.

— No coração — respondeu Isabel. Era a resposta que ele desejava.

Um galo cantou nas redondezas, e o canto atravessou a noite silenciosa. Isabel pensou que o dia depressa iria levantar-se, e seria o primeiro dia da primavera.

Rogério Mortimer abriu sua cota, deixou-a cair no chão, arrancou sua camisa. Seu peito nu, amplo, surgiu diante dos olhos de Isabel.

A rainha desenlaçou seu corpinho. Com um movimento flexível de ombros, retirou os braços finos e brancos das mangas e descobriu os seios, marcados com seu fruto róseo, e que quatro maternidades não tinham magoado. Pusera naquele gesto uma altivez decidida, quase um desafio.

Mortimer tirou a adaga da cintura. Isabel retirou das trancas um grampo longo, rematado com uma pérola, e as asas de ânfora tombaram, caindo docemente. Sem deixar com os olhos os olhos da rainha, Mortimer, com mão firme, fez um talho na pele: o sangue correu como um pequeno regato vermelho através do leve pêlo castanho. Isabel teve gesto igual em si mesma, com o grampo, na raiz do seio esquerdo, e o sangue gotejou, como o suco de um fruto. O receio da dor, mais do que a própria dor, crispou por um instante os cantos da boca da rainha. Depois cruzaram, num passo de um para o outro, o espaço que os separava. Ela pousou os seios sobre aquele amplo peito de homem, erguendo-se na ponta dos pés a fim de que as duas feridas viessem a se confundir. Cada qual sentiu o contato daquela carne que tocava pela primeira vez e daquele sangue tépido que pertencia a ambos.

— Amigo — disse ela —, eu vos entrego meu coração e tomo o vosso, que me faz viver.

— Amiga — respondeu ele —, eu o retenho com a promessa de guardá-lo em lugar do meu.

Não se afastavam um do outro, prolongando indefinidamente aquele estranho beijo dos lábios que tinham aberto voluntariamente em seus peitos. Os corações de ambos batiam no mesmo ritmo, rápido e violento, repercutindo de um para o outro. Três anos de castidade, naquele moço, e quinze anos de espera pelo amor, da parte dela, faziam com que o aposento vacilasse em torno deles.

— Apertai-me com força, amigo — murmurou ela ainda.

Sua boca levantou-se para a cicatriz branca que orlava o lábio de Mortimer, e seus dentes de pequeno animal carnívoro entreabriram-se, para morder.

O rebelde da Inglaterra, o evadido da Torre de Londres, o grande senhor das Marcas galesas, o antigo grande juiz da Irlanda, lorde Mortimer de Wigmore, há duas horas amante da rainha Isabel, acabava de partir, glorioso, realizado, com a cabeça repleta de sonhos, pela escada particular.

A rainha não tinha sono. Mais tarde, talvez, a lassidão a dominasse. No momento, conservava-se deslumbrada, estupefata, como se um cometa continuasse a girar em torno dela. Contemplava, com imensa gratidão, o grande leito devastado. Saboreava a surpresa de uma felicidade até então ignorada. Jamais imaginara que chegasse a ser necessário esmagar a boca contra um ombro para abafar um grito. Estava de pé, junto da janela, cujos postigos pintados havia afastado. A aurora despontava, brumosa e feérica, sobre Paris. Fora realmente na véspera, à noite, que Isabel chegara? Tinha ela existido até aquela noite? Era aquela a cidade que conhecera em sua infância? O mundo subitamente nascia.

O Sena fluía, cinzento, aos pés do palácio, e acolá, ria outra margem, levantava-se a velha Torre de Nesle. Isabel, de repente, recordou-se de sua cunhada, Margarida de Borgonha. Um grande temor apoderou-se dela: "Que fiz, então?", pensou ela. "Que fiz?... Se eu soubesse!"

Todas as mulheres amorosas deste mundo, desde o início das idades, pareciam-lhe irmãs, criaturas eleitas. Margarida, a morta, que lhe havia gritado, depois do julgamento, em Maubuisson: "Eu tive o prazer, que vale todas as coroas deste mundo, e não me arrependo de nada!..." Quantas vezes Isabel repetira para si mesma aquele grito sem compreendê-lo! E naquela manhã em que se iniciava uma nova primavera, a força de um homem, a alegria de possuir e ser possuída, eis que ela compreendia, enfim! "Hoje, com toda a certeza, eu não a denunciaria!" Aquele ato de justiça real que acreditara estar cumprindo outrora causava-lhe, de súbito, vergonha e remorsos, como se fosse o único pecado que ela tivesse cometido.

 

O belo ano de 1325

A primavera de 1325 foi para a rainha Isabel um encantamento. Maravilhava-se com as manhãs ensolaradas, nas quais os telhados da cidade cintilavam. Aves, aos milhares, gorjeavam nos jardins. Os sinos de todas as igrejas, de todos os conventos, de todos os mosteiros, e até o sino grande de Notre-Dame, pareciam tocar as horas de felicidade. As noites cheiravam a lilás, sob um céu estrelado.

Cada dia trazia consigo sua braçada de prazer: justas, festas, torneios, caçadas e excursões aos campos. Uma atmosfera de prosperidade circulava pela capital, e havia grande apetite de diversões. Gastava-se à grande para o regozijo público, embora o orçamento do Tesouro tivesse mostrado, no ano anterior, uma perda de treze mil e seiscentas libras, cuja causa, todos concordavam em reconhecer, estava na guerra da Aquitânia. Para conseguir recursos, entretanto, haviam-se multado os bispos de Rouen, de Langres e de Lisieux, com taxas que atingiam, respectivamente, doze, quinze e cinqüenta mil libras, por violências exercidas contra seus capítulos ou oficiais do rei. Assim, aos prelados demasiadamente autoritários coube a cobertura dos déficits militares. Além disso, os lombardos havia n sido citados, mais uma vez, para que de novo comprasse)a seu direito de burguesia.

Assim se alimentava o luxo da corte; e cada qual punha alvoroço nas diversões, desfrutando prazer maior que consiste em se dar como espetáculo aos demais. E como a nobreza agia, assim agia a burguesia e mesmo o povo miúdo, cada qual gastando além de suas possibilidades em coisas que não se relacionavam senão com a satisfação de viver. Há anos assim, em que o destino parece sorrir: um repouso, uma pausa na desgraça da época... Vende-se e compra-se o que se chama supérfluo, como se fosse supérfluo enfeitar-se, seduzir, conquistar, dar-se direitos ao amor, provar as coisas raras que são frutos da engenhosidade humana, aproveitar tudo o que a Providência ou a natureza deram ao homem para que se deleitasse com sua condição excepcional no universo!

Sem dúvida, havia quem se queixasse, não verdadeiramente de ser miserável, mas de não poder saciar todos os seus desejos. Queixavam-se de ser menos ricos do que os mais ricos, de não terem tanto quanto aqueles que tudo tinham. A estação mostrava-se excepcionalmente amena; os negócios, miraculosamente prósperos. Haviam renunciado à cruzada, já não se falava em levantar hoste nem em diminuir a circulação da libra de agnel *. No Conselho Restrito ocupavam-se de evitar o despovoamento dos rios, e os pescadores de linha, instalados em fila nas duas margens do Sena, aqueciam-se ao doce calor do sol de maio.

* Moeda francesa, assim chamada por trazer gravada numa das faces a figura de um cordeiro. (TV. da T.)

 

Havia amor no ar naquela primavera. Efetuaram-se mais casamentos, e nasceram mais bastardos do que nos últimos tempos. As moças mostravam-se risonhas e eram cortejadas, os rapazes faziam-se audaciosos e fanfarrões. Os viajantes não tinham olhos que chegassem para descobrir todas as maravilhas da cidade, nem gargantas suficientemente largas para saborear o vinho dos albergues, nem noites suficientemente longas para esgotar tantos prazeres que se lhes ofereciam.

Ah! Como aquela primavera seria recordada! Sem dúvida, havia doenças, lutos, mães que levavam seu filho de peito ao cemitério, paralíticos, maridos enganados que deitavam a culpa disso à reinante leviandade de costumes, comerciantes roubados que acusavam a patrulha de não vigiar, ruínas que tombavam sobre os mitos ávidos ou muito descuidados, incêndios que deixavam famílias sem lar, alguns crimes. Mas tudo isso era o sofrimento comum da vida, e nada acontecia por culpa do rei ou de seu conselho.

Na verdade, era um privilégio, cujo mérito vinha apenas de uma feliz e fugaz disposição do tempo, o fato de estar vivo em 1325, de ser jovem nessa época, ou pelo menos de se achar em plena existência ativa, de possuir, então, saúde de corpo. E fora tolice grave não apreciar bastante tal coisa, não agradecer a Deus, que a concedia. Como o povo de Paris teria saboreado melhor sua primavera de 1325 se soubesse adivinhar de que forma o ano envelheceria!

Um verdadeiro conto de fadas, no qual as crianças concebidas durante aquele mês adorável, entre lençóis perfumados de lavanda, iriam ter dificuldades de acreditar. 1325! A bela época! E como seria preciso pouco tempo para que aquele ano passasse a ser chamado "a boa época"!

E a rainha Isabel? A rainha da Inglaterra parecia resumir em sua pessoa todos os prestígios e todas as alegrias. Os demais voltavam-se à sua passagem, não somente porque ela era a rainha da Inglaterra, não somente porque ela era a filha do grande rei cujos editos financeiros, fogueiras e processos terríveis estavam agora esquecidos, para que fossem lembrados apenas os decretos que tinham dado paz e força ao reino — mas também por ser ela tão linda, e parecer tão realizada!

Entre o povo, dizia-se que ela teria carregado a coroa melhor do que seu irmão Carlos, o Belo, príncipe bastante gentil, mas bastante apagado, e perguntavam se fora boa a lei feita por Filipe, o Longo, afastando as mulheres do trono. Os ingleses eram bem tolos, já que causavam preocupações a tão gentil rainha!

Com trinta e três anos, Isabel exibia um brilho com o qual jovem alguma, por muito viçosa que fosse, poderia rivalizar. As belezas mais famosas da França pareciam retrair-se para a sombra quando a rainha Isabel surgia. E todas as senhoritas, sonhando parecer-se com ela, tomavam-na como modelo, copiavam-lhe as roupas, os gestos, as trancas levantadas, sua maneira de olhar e sorrir.

Uma mulher apaixonada distingue-se pelo seu andar e mesmo pelas costas; as espáduas, os quadris, o passo de Isabel expressavam felicidade. Estava quase sempre acompanhada por lorde Mortimer, que, depois da chegada da rainha, havia feito, de repente, a conquista da cidade. As pessoas que no ano anterior o haviam considerado sombrio, orgulhoso, um tanto altivo demais para um exilado, que achavam ter a sua virtude um ar de censura, essas mesmas pessoas, de súbito, haviam descoberto em Mortimer um caráter íntegro, uma grande sedução, e julgavam-no digno de admiração. Haviam cessado de considerar lúgubre seu traje preto, apenas realçado por alguns colchetes de prata; via-se nisso, agora, apenas a elegante ostentação de um homem que veste luto por sua pátria perdida.

Se não estava encarregado de funções oficiais junto da rainha, o que constituiria provocação demasiadamente clara em relação ao rei Eduardo, Mortimer dirigia, de fato, as negociações. O bispo de Norwich sofria a sua ascendência, John de Cromwell não deixava de declarar que se fizera injustiça ao barão de Wigmore e que fora loucura, por parte do soberano, alienar um fidalgo de tantos méritos. O conde de Kent se tomara definitivamente de amizade por Mortimer, e nada decidia sem seu conselho. E da própria Inglaterra chegavam a Mortimer numerosos testemunhos, que provavam ser ele considerado o verdadeiro chefe da oposição ao partido dos Despenser.

Era sabido e admitido que lorde Mortimer se conservava junto da rainha depois da ceia, pois, segundo ela dizia, precisava de seus conselhos. Todas as noites, saindo do apartamento de Isabel, Rogério sacudia os ombros de Ogle, o antigo barbeiro da Torre de Londres, promovido às funções de criado de quarto, e que esperava seu senhor dormitando sobre um cofre. Passavam por cima dos servidores adormecidos ao longo dos corredores, deitados sobre o lajedo, e que nem mesmo erguiam a cabeça de entre as dobras de suas capas, de tal maneira estavam habituados àqueles passos familiares.

Mortimer voltava para seu alojamento de Saint-Germain-des-Prés, onde era acolhido pelo louro, rosado e atencioso Alspaye, que ele acreditava ser — ingênuos amantes! — o único confidente de sua regia ligação. Com pulmão de conquistador, aspirava o ar fresco da madrugada.

A rainha, isso agora estava fora de dúvida, não retornaria à Inglaterra senão quando lorde Mortimer para ali pudesse voltar. O vínculo jurado entre eles, dia a dia, noite a noite, fazia-se mais apertado, mais sólido. E o pequeno traço branco sobre o seio de Isabel, onde ele pousava os lábios, com que ritualmente, antes de a deixar, conservava-se o ponto visível da permuta de suas vontades.

Uma mulher pode ser rainha: seu amante será sempre seu senhor. Isabel da Inglaterra, capaz de fazer frente, sozinha, às discórdias conjugais, às traições de um rei, ao ódio de uma corte, estremecia longamente quando Mortimer pousava a mão sobre seu ombro, sentia seu coração fundir-se quando ele saía de seu quarto, e levava círios às igrejas para agradecer a Deus lhe ter dado um pecado tão maravilhoso! Mortimer ausente, por uma hora que fosse, ela o instalava em pensamento, diante de si, sobre a melhor cadeira, e falava-lhe baixinho. Todas as manhãs, ao acordar, antes de chamar suas criadas, deslizava, no leito, para o lugar que seu amante deixara. Uma das matronas ensinara-lhe alguns segredos bem úteis às senhoras que buscam prazeres fora do casamento. E sussurrava-se, nos círculos da corte, mas sem nisso ver ofensa, pois que a todos tal coisa parecia uma reparação da sorte, que a rainha Isabel estava amando, como se poderia dizer que estava no campo, ou, melhor ainda, com os anjos!

As preliminares do tratado, que se tinham alongado, foram praticamente assinadas no dia 31 de maio, entre Isabel e seu irmão, com a reticente aprovação de Eduardo, que recuperava seu domínio aquitânio, amputado, porém, cio Agenais e do Bazadais, isto é, das regiões que o exército francês ocupara nos anos precedentes, e mediante, além disso, um pagamento de sessenta mil libras... Valois, nesse ponto, mostrava-se inflexível. Fora necessário nada menos do que a intervenção do papa a fim de que se chegasse a um acordo, sempre submetido à condição expressa de que Eduardo viesse render a homenagem, o que visivelmente lhe repugnava fazer, não mais apenas por motivos de prestígio, mas devido a razões de segurança. Concordaram, então, num subterfúgio que a todos contentaria. Marcariam a data para a famosa homenagem: depois, no último momento, Eduardo fingiria estar doente, o que nem chegaria a ser mesmo mentira — pois que agora, quando se tratava de pôr os pés na França, ele se sentia tomado de indisposição ansiosa, empalidecia, sufocava, sentia fugir o ritmo do coração e precisava deitar-se, ofegante, por uma hora. Daria, então, a seu filho primogênito, o jovem Eduardo, os títulos e as possessões de duque de Aquitânia, e mandaria que ele fosse, em seu lugar, prestar o juramento.

Cada qual acreditava estar ganhando com essa combinação. Eduardo escapava à obrigação de uma viagem temida. Os Despenser evitavam o risco de perder o domínio sobre o rei. A rainha veria de novo seu filho predileto, cuja separação, por muito absorvida que estivesse pelos seus amores, causava-lhe sofrimento. Mortimer via quanto reforço traria para seus desígnios futuros a presença do príncipe herdeiro no partido da rainha.

Esse partido não cessava de crescer, e na própria França. Eduardo admirava-se ao ver que muitos barões, naquele fim de primavera, mostravam ter necessidade de visitar suas Possessões francesas, e ficou mais inquieto ao observar que nenhum deles regressara à pátria. De outro lado, os Despenser não deixavam de manter em Paris alguns espiões, que esclareciam Eduardo quanto à atitude do conde de Kent, quanto à presença de Maltravers junto a Mortimer, quanto a toda a oposição que gravitava na corte da França, em torno da rainha. Oficialmente, a correspondência entre os dois esposos continuava cortês, e Isabel, nas longas mensagens com que explicava a lentidão das negociações, chamava Eduardo de "doce coração". Eduardo, porém, dera ordem aos comandantes e oficiais de administração para que interceptassem todos os mensageiros, fossem eles quem fossem, portadores de cartas enviadas a quem quer que fosse, pela rainha, pelo bispo de Norwich, ou por qualquer outra pessoa de seu círculo. Os mensageiros deviam ser enviados ao rei, com escolta segura. Seria possível, porém, prender todos os lombardos que circulavam com letras de câmbio?

Em Paris, num dia em que caminhava a pé no bairro do Templo, acompanhado apenas de Alspaye e Ogle, Rogério Mortimer viu-se roçado por um bloco de pedra caído de um edifício em construção. Não foi esmagado por causa do ruído que a pedra produziu ao cair sobre uma tábua do andaime. Viu naquilo apenas um trivial acidente de rua, mas, três dias depois, saindo da casa de Roberto d'Artois, uma escada tombou diante de seu cavalo. Mortimer foi conversar com Tolomei, que conhecia a Paris secreta melhor do que ninguém. O sienense chamou um dos chefes dos companheiros maçons do Templo, que tinham conservado sua lealdade, apesar da dispersão dos cavaleiros da Ordem. E os atentados contra Mortimer cessaram. Do alto dos andaimes, dirigiam, mesmo, grandes cumprimentos, saudando, com seus gorros, o fidalgo inglês vestido de preto assim que-o viam. Todavia, Mortimer habituou-se a se fazer escoltar mais fortemente, mandando provar seu vinho com um corno de narval, precaução contra o veneno. Os truões que viviam agarrados à bolsa de Roberto d'Artois, foram solicitados a abrir olhos e ouvidos. As ameaças que rodeavam Mortimer só fizeram com que se manifestasse mais intensamente o amor que a rainha Isabel lhe devotava.

Depois, no início do mês de agosto, pouco antes do dia previsto para a homenagem inglesa, monseigneur de Valois, tão fortemente instalado no poder que era comumente chamado "o segundo rei", abateu-se inesperadamente, aos cinqüenta e cinco anos.

Havia muitas semanas que ele se vinha mostrando muitíssimo colérico, irritando-se a propósito de tudo: tivera um acesso' de fúria, que assustara os que o rodeavam, ao receber do rei Eduardo a proposta inesperada de casar seus filhos mais novos, Luís de Valois e Joana da Inglaterra, que se aproximavam dos sete anos. Eduardo compreendera, tarde demais, o equívoco que cometera, dois anos antes, ao recusar-se a casar seu filho mais velho, e pensava, assim, trazer Valois novamente para o seu jogo, afastando-o do partido da rainha. Monseigneur Carlos, por uma reação incompreensível, tomara esse oferecimento como um segundo insulto, e de tal maneira se encolerizara que tinha quebrado todos os objetos de sua mesa, gesto inteiramente fora dos seus hábitos. Ao mesmo tempo, revelava atividade febril em seus trabalhos do governo, impacientava-se com a lentidão do Parlamento na promulgação das sentenças, discutia com Miles de Noyers os cálculos fornecidos pela Câmara de Contas, e depois queixava-se da fadiga que aquelas tarefas lhe causavam.

Certa manhã em que estava no conselho e ia rubricar uma ata, deixou cair a pena de ganso que lhe entregavam, e que manchou de tinta a cota azul que ele vestia. Inclinou-se como que para apanhar a pena no chão, e não pôde levantar-se. Sua mão pendia ao longo da perna, seus dedos se haviam tornado de mármore. Ficou surpreso com o silêncio que se fizera em torno dele, e não percebeu que tombava de sua cadeira.

Levantaram-no, com olhos virados para a esquerda, no alto das órbitas, a boca torcida para o mesmo lado e inconsciente. Tinha o rosto muito vermelho, quase roxo, e apressaram-se a chamar um médico a fim de sangrá-lo. Tal como acontecera a seu irmão Filipe, o Belo, onze anos antes, fora atingido no cérebro, no mecanismo misterioso da vontade. Pensaram que ele estava morrendo, levaram-no para seu palácio, onde toda a numerosa gente da casa ficou no aflito alvoroço do luto.

Entretanto, ao fim de alguns dias, durante os quais ele parecia estar vivo mais pela respiração do que pelo pensamento, Carlos de Valois retomou, parcialmente, a aparência de vida. Recuperava a palavra, hesitante, mal articulada, entretanto, insistindo em certos vocábulos, sem que mais nada existisse daquela redundância e daquela energia que outrora o caracterizava. A perna direita não lhe obedecia, e ° mesmo acontecia à mão que deixara cair a pena de ganso.

Imóvel numa cadeira, sufocado pelo calor sob as cobertas com que acreditavam de bom aviso cobri-lo, o ex-rei de Aragão, o ex-imperador de Constantinopla, o conde da Romanha, o par da França, o candidato perpétuo ao Santo Império, o dominador de Florença, o vencedor da Aquitânia, o organizador de cruzadas, percebia, de súbito, que todas as honras que um homem pode reunir nada valem quando se instala a desonra do corpo. Ele, que só tivera, desde a infância, a ansiedade de conquistar os bens da terra, descobriu em si, de repente, outras angústias. Exigiu que o levassem para seu castelo de Perray, perto de Rambouillet, para onde quase nunca ia, e que se lhe tornou inesperadamente querido, por uma dessas caprichosas atrações que têm os doentes pelos lugares onde imaginam poder recuperar a saúde.

A identidade de seu mal com o que tinha ferido seu irmão mais velho obcecava o espírito cuja energia diminuíra, mas que se conservava lúcido. Procurava, em seus atos passados, a causa desse castigo que o Todo-Poderoso lhe infligia. Enfraquecido, tornava-se piedoso. Pensava no Juízo Final. Mas os orgulhosos criam para si próprios, com facilidade, uma consciência pura. Valois quase nada encontrava de que se pudesse censurar. Em todas as campanhas, em todas as pilhagens e chacinas que ordenara, em todas as extorsões que aplicara às províncias conquistadas e libertadas por ele, supunha ter sempre feito bom uso de seus poderes de chefe e de príncipe. Uma única lembrança lhe causava remorso, uma única ação lhe parecia a origem daquela sua atual expiação, um único nome imobilizava-se em seus lábios quando fazia o exame de sua carreira: Marigny. Porque, na verdade, jamais odiara ninguém, a não ser Marigny. Com todos os outros que maltratara, castigara, atormentara, condenara à morte, agira sempre convencido de estar servindo ao bem geral, que confundia com suas próprias ambições. Mas, no caso de Marigny, verdadeiramente, tratara-se de um ódio particular. Mentira conscientemente ao acusar Marigny, dera contra ele falso testemunho, e suscitara falsos depoimentos: não recuara diante de baixeza alguma para enviar o antigo primeiro-ministro, coadjutor e reitor do reino, mais moço, então, do que ele era agora, a balançar-se na forca de Montfaucon. Naquilo só o guiara uma necessidade de vingança, o rancor de ter visto, dia após dia, um outro dispor na França de poder maior do que o seu.

E eis que agora, sentado no pátio do solar do Perray, observando as aves em sua passagem, olhando para os escudeiros, que faziam sair das cavalariças os belos animais que ele nunca mais montaria, Valois começara... a palavra o surpreendia, mas não tinha outra!... começara a amar Marigny, a amar sua memória. Gostaria que seu inimigo vivesse ainda, a fim de poder reconciliar-se com ele e falar-lhe de todas as coisas que tinham conhecido, vivido juntos, e sobre as que os tinham colocado em campos opostos. Seu irmão mais velho, Filipe, o Belo, seu irmão Luís d'Evreux, mesmo suas duas primeiras esposas, todos esses desaparecidos lhe faziam menos falta do que seu antigo rival. E nos momentos em que acreditava não estar sendo observado, era surpreendido a murmurar algumas frases de conversação mantida com um morto.

Todos os dias enviava um de seus camareiros, munido de um saco de moedas pequenas, a fim de que distribuísse esmolas aos pobres de um dos bairros de Paris, paróquia por paróquia. E os camareiros estavam encarregados de dizer, ao depor as moedas nas mãos imundas: "Orai, boa gente, orai a Deus por monseigneur Enguerrand de Marigny e por monseigneur Carlos de Valois". Acreditava atrair a clemência do céu, ter seu nome pronunciado depois do de sua vítima, nas mesmas orações. E o povo de Paris surpreendia-se bastante ao ver o poderoso e magnífico senhor de Valois fazer-se nomear depois daquele que ele outrora havia apontado como responsável por todas as desgraças do reino, e que fizera enforcar nas correntes do cadafalso.

No conselho, o poder passara a Roberto d'Artois, que, pela doença de seu sogro, via-se, de repente, promovido ao primeiro posto. O gigante percorria freqüentemente, em estribos bem firmes, a estrada para Perray, em companhia de Filipe de Valois, para pedir conselhos ao enfermo. Pois todos percebiam, e D'Artois antes de todos, o vácuo que se abrira inesperadamente na direção dos negócios da França. Sem dúvida, monseigneur de Valois passava geralmente por bastante trapalhão, intrometendo-se em todos os assuntos, muitas vezes sem ter refletido bastante, e governado mais segundo suas disposições do que segundo a sensatez. Mas, tendo rolado de corte em corte, de Paris à Espanha e da Espanha a Nápoles, tendo sustentado os interesses do Santo Padre na Toscana, tendo participado de todas as campanhas da Flandres, tendo intrigado pelo império, e tendo tido assento durante trinta anos no conselho de quatro reis da França, adquirira o hábito de colocar todas as preocupações do reino dentro do conjunto dos negócios da Europa. Aquilo se operava quase espontaneamente em seu espírito.

Roberto d'Artois, conhecedor das leis, e grande demandista, não tinha vistas assim tão largas. Por isso, dizia-se do conde de Valois que ele era "o último", sem saber exatamente o que desejavam expressar com aquilo, a não ser que era ele o último representante de uma grande forma de administrar o mundo, forma que sem dúvida iria desaparecer com ele.

O rei Carlos, o Belo, indiferente, passeava de Orléans para Saint-Maixent e Châteauneuf-sur-Loire, esperando sempre que sua terceira esposa lhe desse a boa notícia de estar grávida.

A rainha Isabel havia se tornado, por assim dizer, a senhora do Palácio de Paris, e ali se reunia uma espécie de segunda corte inglesa.

A data da homenagem fora fixada para o dia 30 de agosto. Eduardo esperava, pois, a última semana do mês para se pôr em viagem, e depois fingir que adoecia, na Abadia de Sandown, perto de Dover. O bispo de Winchester fora enviado a Paris, a fim de certificar-se, sob juramento, se fosse preciso, mas que não lho pediram, da validade da desculpa, e propor a substituição do pai pelo filho, ficando bem entendido que o príncipe Eduardo, feito duque da Aquitânia e conde de Ponthieu, traria as sessenta mil libras prometidas.

No dia 16 de setembro, o jovem príncipe chegou, mas acompanhado pelo bispo de Oxford e sobretudo por Walter Stapledon, bispo de Exeter e lorde-tesoureiro. Ao escolher Stapledon, um dos mais ativos e encarniçados membros do partido dos Despenser, também o mais hábil e astuto de seu círculo, e um dos mais detestados, o rei Eduardo deixava bem clara sua vontade de não mudar de política, ao mesmo tempo em que revelara sua desconfiança sobre o que se tramava em Paris. O bispo de Exeter não estava encarregado apenas de uma missão de escolta.

No próprio dia da chegada, e quase no momento em que a rainha Isabel apertava nos braços o filho que tornava a encontrar, soube-se que monseigneur tivera uma recaída de seu mal e que se devia esperar que Deus lhe recebesse a alma de uma hora para outra. Imediatamente, a família inteira, os grandes dignitários, os barões que se encontravam em Paris, os enviados ingleses, todos, precipitaram-se para Perray, exceto o indiferente Carlos, o Belo, que vigiava em Vincennes algumas reformas internas que encomendara ao seu arquiteto Painfetiz.

E o povo da França continuava a viver seu belo ano de 1325.

 

Cada príncipe que morre...

Para os que não o tinham visto durante as últimas semanas, como estava mudado monseigneur de Valois! Antes de mais nada, estavam habituados a verem-no sempre de cabeça coberta, com uma grande coroa cintilante de pedrarias, nos dias de solenidade, ou com um barrete de veludo bordado, cuja imensa crista recortada em dentes lhe retombava sobre os ombros, ou, ainda, com um desses gorros de cercadura de ouro que usava em casa. Pela primeira vez ele aparecia de cabeça descoberta. Seus cabelos louros, mesclados de cabelos brancos, aos quais a idade dera uma cor desbotada, e cujos caracóis a moléstia desfrisara, pendiam, sem vida, ao longo de suas faces e espalhavam-se sobre os travesseiros. O emagrecimento, naquele homem outrora gordo e sangüíneo, era impressionante, menos impressionante, todavia, do que a contraída imobilidade da metade do rosto, do que a leve torção da boca, da qual um servidor limpava de vez em quando a saliva, do que a fixidez do olhar. Os lençóis bordados a ouro, as cortinas azuis consteladas de flores-de-lis, que, drapeadas como dossel, suspendiam-se sobre o leito, só contribuíam para acentuar ainda mais a decadência física do moribundo.

E ele mesmo, antes de receber toda aquela gente que se aglomerava em seu quarto, tinha pedido um espelho, e por um momento estudara o rosto que dois meses antes dera ordens a povos e a reis. Que lhe importavam, agora, o prestígio, o poder que se ligavam ao seu nome? Onde estavam, pois, as ambições que por tanto tempo perseguira? Que significava a satisfação de caminhar sempre de fronte erguida entre frontes inclinadas, depois que, na antevéspera, na sua fronte se produzira a grande explosão negra e o terrível desmoronamento de tudo quanto o rodeava? E a mão, sobre a qual servidores, escudeiros e vassalos se precipitavam para beijar-lhe o dorso e a palma, que era, agora, essa mão, morta ao longo de seu próprio corpo? E a outra mão, que ainda podia usar, da qual se serviria pela última vez para assinar o testamento que ia ditar... se a mão esquerda fosse capaz ainda de traçar a sua assinatura! Pertencer-lhe-ia essa mão mais do que o sinete gravado com o qual selava as suas ordens e que retirariam de seu dedo logo que morresse? Acaso alguma coisa lhe pertencera?

A perna direita, totalmente inerte, já lhe parecia ter sido amputada. No peito, em alguns momentos, produzia-se uma espécie de vácuo de abismo.

O homem é uma unidade pensante que age sobre os outros homens e transforma o mundo. Depois, inesperadamente, a unidade se desagrega, desliga-se, e então, que é o mundo, que são os outros homens? O importante naquela hora, para monseigneur de Valois, não eram mais os títulos, as possessões, as coroas, os reinos, as decisões do poder, a hegemonia de uma pessoa entre os vivos. Os emblemas de sua linhagem, as aquisições de sua fortuna, mesmo os descendentes de seu sangue, que ali via, reunidos em torno dele, tudo isso nada mais era diante de seus olhos apagados. O importante era o ar de setembro, as folhagens ainda verdes, trazendo já algumas nódoas de ferrugem, que via através das janelas abertas, o ar que aspirava com dificuldade e que desaparecia no abismo que trazia no fundo de seu peito. Enquanto sentisse o ar penetrar em sua garganta, o mundo continuaria a existir, e ele seria o seu centro, mas um centro frágil, semelhante ao fim da chama de um círio. Em seguida, tudo cessaria de ser, ou, antes, tudo continuaria, mas na sombra total e no pavoroso silêncio, como uma catedral quando o último círio se extingue.

Valois recordava-se dos grandes momentos de morte em sua família. Ouvia novamente as palavras de Filipe, o Belo: "Vede o que vale o mundo! Eis o rei da França!" Lembrava-se das palavras de seu sobrinho, Filipe, o Longo: "Vede vosso soberano e senhor: não há nenhum entre vós, pobre que seja, com o qual eu não quisesse permutar minha sorte!" Ouvira essas frases sem compreendê-las: eis, pois, o que tinham sentido aqueles príncipes de sua família no momento de passar à sepultura! Não existiam outras palavras para dizer tal coisa, e os que ainda tinham tempo para viver não poderiam compreendê-las. Cada homem que morre é o homem mais pobre do universo.

E quando tudo estivesse terminado, dissolvido, desligado, quando a catedral se enchesse de sombra, que descobriria do outro lado esse paupérrimo homem? Encontraria 0 que lhe tinham revelado os ensinamentos de sua religião? Mas o que eram esses ensinamentos, senão imensas, angustiosas incertezas? Seria citado diante de um tribunal? Como seria a fisionomia do juiz? E todos os gestos da vida, em que balança seriam colocados? Que penalidade poderia ser infligida a quem não mais existe? O castigo... Que castigo? O castigo talvez consistisse em conservar a consciência clara no momento de atravessar a muralha de sombra!

Também Enguerrand de Marigny tivera a lucidez — nisso Carlos de Valois não podia deixar de pensar —, a consciência ainda mais clara de um homem em plena saúde, em plena força, e que iria morrer não pela ruptura de algum mecanismo secreto do ser, mas pelo desejo de outrem. Para ele não se tratara da última chama de um círio, mas de todas as chamas apagadas num único sopro.

Os marechais, os dignitários, os altos oficiais que tinham acompanhado Marigny até o patíbulo, eram os mesmos que ali estavam, em torno de seu leito, enchendo todo o quarto, transbordando para o aposento vizinho, para além da porta, e com os mesmos olhares de homens que conduzem um dos seus à derradeira pulsação de seu coração, alheios à morte que observam, todos voltados para um futuro de onde o condenado foi expulso.

Ah! Como daria todas as coroas de Bizâncio, todos os tronos da Alemanha, todos os cetros e todo o ouro dos resgates, por um olhar, um só, de onde não se sentisse eliminado! Desgosto, compaixão, pesar, receio, as emoções da lembrança: tudo isso se encontraria no círculo de olhos de todas as cores que rodeavam o leito do príncipe agonizante. Mas cada um desses sentimentos não passava de uma prova da eliminação.

Valois observava seu filho mais velho, Filipe, aquele rapagão narigudo, de pé junto dele, sob o dossel, e que seria, que iria ser, amanhã, num dia bem próximo, ou dentro de um minuto, talvez o único, o verdadeiro conde de Valois, o Valois vivo. Estava triste como convinha estar 0 grande Filipe, e apertava a mão de sua mulher Joana de Borgonha, a Coxa. Cuidadoso, entretanto, de sua atitude, por causa daquele futuro que tinha pela frente. E parecia dizer aos presentes: "Vede, é meu pai que morre". Daquele olhar, do qual era ele a fonte, o genitor, Valois estava riscado.

E os outros filhos... Carlos d'Alençon, que evitava cruzar seu olhar com o do moribundo, voltando-se lentamente quando o encontrava. E o pequeno Luís, que tinha medo, que parecia doente de medo, porque era, aquela, a primeira agonia que presenciava... E as filhas... Muitas dentre elas achavam-se presentes: a condessa de Hainaut, que fazia sinal, de vez em quando, ao servidor encarregado de limpar a boca do enfermo, a irmã mais moça, a condessa de Blois. Um pouco mais distante estava a condessa de Beaumont, junto de seu gigantesco esposo, Roberto d'Artois, ambos formando grupo com a rainha Isabel da Inglaterra e o pequeno duque da Aquitânia, aquele rapazinho de cílios compridos, bem comportado como se estivesse numa igreja, e que não guardaria de seu tio-avô Valois senão aquela lembrança.

Parecia a Valois que daquele lado existia uma conspiração, que se preparava um futuro do qual também ele estava eliminado...

Se inclinasse a cabeça para a beirada do leito, encontraria, direita, competente, assim como uma mulher que viu muita gente morrer, e já viúva, Mafalda de Châtillon-Saint-Pol, sua terceira esposa. Gaucher de Châtillon, o velho condestável, com sua cabeça de tartaruga e seus setenta e sete anos, estava alcançando mais uma vitória: via um homem vinte anos mais moço perecer antes dele.

Estêvão de Mornay e João de Cherchemont, ambos antigos chanceleres de Carlos de Valois, antes de se terem tornado, cada um por sua vez, chanceleres da França, Miles de Noyers, legista e advogado da Câmara de Contas, Roberto Bertrand, o cavaleiro do Leão Verde, o novo marechal, seu irmão Tomás de Bourges, confessor, João de Torpo, médico, estavam todos ali para ajudá-lo, cada qual segundo o título de sua função. Mas quem ajuda um homem a morrer? Hugo de Bouville limpava uma lágrima. Mas por que chorava ele, o gordo Bouville, senão por sua juventude desaparecida, sua velhice próxima, e sua própria vida que se escoava?

Sem dúvida, um príncipe que morre é o mais pobre dos homens, mais pobre do que o mais pobre servo de seu reino. Porque o pobre servo não tem que morrer em público: sua esposa e seus filhos podem enganá-lo sobre a iminência da partida. Não é rodeado de um aparato que significa a sua desaparição. Não se exige dele que verifique, in extremis, seu próprio fim. Ora, era exatamente aquilo que eles esperavam, todas aquelas altas personagens reunidas. Um testamento, o que vem a ser senão uma confissão que se faz pessoalmente de que se vai morrer? Uma peça destinada ao futuro dos outros... O secretário esperava, com o tinteiro preso à ponta da prancha de escrever, o velino e a pena a postos. Vamos! Era preciso começar... ou antes, acabar. Não era tanto o esforço do espírito que parecia grande, mas o esforço da renúncia... Um testamento era coisa que começava como uma oração...

— Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo... Carlos de Valois tinha falado. Pensaram que estivesse rezando.

— Escrevei, pois, amigo — disse ele ao secretário. — Estais percebendo que vou ditando!... Eu, Carlos...

Deteve-se, porque era uma sensação muito dolorosa, muito aterradora, ouvir sua própria voz pronunciar seu próprio nome pela última vez... O nome não é o verdadeiro símbolo da existência do ser e de sua unidade? Valois teve vontade de terminar ali, porque nada mais lhe interessava. Havia, porém, todos aqueles olhares. Uma última vez, era preciso agir, e pelos outros, dos quais já se sentia profundamente separado.

— Eu, Carlos, filho do rei da França, conde de Valois, d'Alençon, de Chartres e d'Anjou, faço saber a todos que, são de espírito, embora enfermo de corpo...

Se a elocução estava parcialmente constrangida, se a língua emperrava em certas palavras, às vezes as mais simples, a mecânica cerebral, habituada desde sempre a formular o desejo pela palavra, continuava, aparentemente, a funcionar de maneira normal. Mas aquilo se passava para o moribundo como se ele fosse seu próprio auditório. Estava em meio a um rio: sua voz dirigia-se à margem da qual se desprendia e tremia pelo que iria acontecer, quando chegasse à outra margem.

—...e pedindo misericórdia a Deus, temendo que Ele me surpreenda com pavor quanto ao julgamento da alma, dou ordem aqui de mim e de meus bens, e faço meu testamento, expondo minha última vontade da maneira que vai escrita. Primeiramente, entrego minha alma a Nosso Senhor Jesus Cristo, à sua misericordiosa mãe e a todos os santos

Obedecendo a um sinal da condessa de Hainaut, o servidor limpou a saliva que lhe corria pelo canto da boca. Todas as conversas particulares se detiveram, evitava-se até mesmo o farfalhar dos tecidos. Os presentes pareciam estupefatos ao ver que naquele corpo imobilizado, reduzido, deformado pela doença, o pensamento guardara tamanha precisão e até mesmo refinamento em sua formulação.

Gaucher de Châtillon murmurou para seus vizinhos:

— Ele não morrerá hoje.

João de Torpo, um dos médicos, negou com uma careta. Para ele, monseigneur Carlos não chegaria à nova aurora. Mas Gaucher continuou:

— Já vi outros, já vi outros... Digo-vos que ainda há vida nesse corpo...

A condessa de Hainaut, levando um dedo à boca, fez calar o condestável. Gaucher era surdo e não avaliava a força de seus sussurros.

Valois continuava seu ditado:

— Quero que meu corpo seja sepultado na Igreja dos Frades Menores de Paris, entre as sepulturas de minhas duas primeiras esposas...

Seu olhar procurou o rosto de sua terceira esposa, a viva, a próxima viúva Mafalda de Châtillon. Três mulheres, e toda uma vida passada... E era Catarina, a segunda, a que ele tinha amado mais... talvez por causa da mágica coroa de Constantinopla. Uma beleza, Catarina, bem digna de usar seu título lendário! Valois espantava-se de que em seu infeliz corpo, meio inerte e prestes ao aniquila-mento, se conservasse, vaga e difusamente, como que um frêmito dos antigos desejos que transmitem a vida. Ele repousaria, pois, ao lado dela, ao lado da imperatriz, e do outro lado estaria sua primeira esposa, a filha do rei de Nápoles, ambas reduzidas a pó havia muito tempo. Como é estranho que a lembrança de um desejo permaneça quando o corpo de que ele foi objeto já não existe! E a ressurreição... Mas havia a terceira esposa, que também tinha sido boa companheira. Era preciso deixar-lhe algo.

— Item, quero meu coração na cidade e no lugar que minha companheira Mafalda de Saint-Pol escolher para sua sepultura; e minhas entranhas na Abadia de Chaâlis, tendo-me sido outorgado o direito de partilhar minha carne por bula de nosso mui santo padre, o papa...

Hesitou, procurando a data que lhe escapava, e acrescentou:

—...precedentemente28.

Ele se orgulhara bastante de tal autorização, dada somente aos reis, de poder distribuir seu cadáver, como se divide em relíquias os santos! Exigira ser tratado como rei até em sua sepultura. Mas agora pensava na grande ressurreição, única esperança deixada aos que estão à beira do último degrau. Se os ensinamentos da religião eram verdadeiros, como se passaria para ele aquela ressurreição? As entranhas em Chaâlis, o coração onde Mafalda de Saint-Pol quisesse, e o corpo na igreja de Paris... Seria com o peito vazio, com o ventre recheado de palha e recosido com cânhamo que ele se levantaria diante de Catarina e diante de Margarida? Devia ser outra coisa, que o espírito humano não era capaz de conceber. Haveria aquela multidão de corpos e de olhares, como a que existia naquele momento em torno de seu leito? Que grande confusão se criaria se, juntos, se levantassem todos os antepassados, e todos os descendentes, e os assassinos diante de suas vítimas, e todas as amantes, e todas as traições... Marigny se levantaria diante dele?

— Item, deixo à Abadia de Chaâlis sessenta libras tornesas para celebrar meu aniversário...

O linho tornou a enxugar-lhe o queixo. Durante um quarto de hora, ele enumerou todas as igrejas, abadias, fundações pias situadas em seus feudos, e às quais deixava, aqui cem libras, ali cinqüenta, acolá cento e vinte, ali uma flor-de-lis para embelezar um porta-relíquia. A enumeração era monótona, a não ser para ele próprio, diante de cujos olhos cada nome representava um campanário, uma cidade, um burgo, dos quais ainda por algumas horas era o senhor, uma lembrança que ali teria deixado. Os pensamentos dos presentes divagavam, como na missa, quando o serviço é comprido demais. Só Joana, a Coxa, que sofria por ficar tanto tempo de pé sobre uma perna mais curta, prestava-lhe toda a atenção. Somava, calculava. A cada quantia mencionada levantava para o marido, Filipe de Valois, um rosto nada desgracioso, mas enfeado pelos pensamentos maldosos de avarenta. Era da herança deles que tudo aquilo tinha de ser deduzido! O próprio Filipe ia se fazendo sombrio.

No grupo inglês, junto das janelas, haviam recomeçado a conspirar. A rainha Isabel estava inquieta, e sua expressão podia parecer inspirada pela circunstância. Na verdade, sentia-se constrangida. Antes de mais nada por não estar Mortimer presente: ora, ela não mais se considerava realmente segura, verdadeiramente viva, quando ele estava longe. Além disso, sentia-se constantemente observada, espiada, por Stapledon, o bispo de Exeter, que se impusera em Perray, tendo recebido a missão de escoltar por toda parte o jovem duque da Aquitânia. Esse homem, alma danada de Eduardo, não podia senão trazer consigo a desgraça ou pelo menos graves aborrecimentos: Isabel puxou Roberto d'Artois pela manga, a fim de que ele inclinasse o ouvido até junto dela.

— Desconfiai de Exeter — soprou-lhe ela —, aquele bispo magro, ali, que rói a unha do polegar... Receio neste momento, meu primo. A última carta que me veio de Orleton foi aberta e o selo colado de novo.

Ouvia-se a voz de Carlos de Valois, pronunciando:

— Item, lego à minha companheira, a condessa, o rubi que minha filha, a condessa de Blois, me deu. Item, deixo-lhe a toalha bordada que foi da rainha Maria, minha mãe...

Se cada qual se ausentara em espírito quanto aos legados pios, todos os olhos começaram a brilhar, agora que se tratava de jóias. A condessa de Blois arqueara as sobrancelhas mostrando certo desapontamento. Seu pai bem podia ter-lhe devolvido o rubi que ela lhe oferecera, em lugar de legá-lo à sua esposa.

— Item, o relicário que tenho de Santo Eduardo... Ouvindo o nome de Santo Eduardo, o jovem príncipe Eduardo da Inglaterra levantou seus cílios longos e procurou o olhar de sua mãe. Mas não, o relicário também ia para Mafalda de Châtillon. E Isabel pensou que o tio Carlos bem podia ter tido aquela atenção para com seu sobrinho-neto que ali estava.

— Item, deixo a meu filho mais velho, Filipe, um rubi e todas as minhas armas e arneses, a não ser uma loriga de armadura que é trabalho de Acre, e a espada com a qual o senhor d'Harcourt combateu, e que deixo a Carlos, meu segundo filho. Item, a minha filha Joana de Borgonha, mulher de Filipe, meu filho, a mais bela de todas as minhas esmeraldas.

As faces da Coxa coloriram-se um tanto, e ela agradeceu com uma inclinação de cabeça que pareceu uma indecência. Podiam todos estar certos de que ela mandaria examinar bem, por um joalheiro competente, aquelas esmeraldas, a fim de reconhecer qual a mais bela!

— Item, a meu segundo filho, Carlos, todos os meus cavalos e palafréns, meu cálice de ouro, uma bacia de prata e um missal.

Carlos de Alençon começou a chorar, tolamente, como se tivesse tido consciência da agonia de seu pai e da pena que lhe causava, apenas no momento em que o moribundo lhe citara o nome.

— Item, deixo a Luís, meu terceiro filho, toda a minha baixela de prata...

A criança estava agarrada às saias de Mafalda de Châtillon, que lhe acariciou a cabeça, num gesto de ternura.

— Item, quero e ordeno que tudo quanto ficar na minha capela seja vendido para que se digam orações por minha alma... Item, que todas as peças de meu guarda-roupa sejam distribuídas aos criados de quarto...

Um movimento discreto fez-se sentir perto das janelas abertas, e as cabeças inclinaram-se. Três liteiras acabavam de entrar no pátio da casa de campo, rodando no chão coberto de palha, ali colocada para abafar o ruído das patas dos cavalos. De uma grande liteira ornada com esculturas douradas e cortinas bordadas com os castelos do Artois, a condessa Mafalda, pesada e monumental, mostrando os cabelos grisalhos ;;ob o véu, tinha descido, assim como sua. filha, a rainha viúva Joana de Borgonha, que fora a esposa de Filipe, o Longo. A condessa estava ainda acompanhada pelo seu chanceler, o cônego Thierry d'Hirson, e por sua dama de cerimônia, Beatriz, sobrinha deste último. Mafalda chegava de seu castelo de Conflans, perto de Vincennes, de onde quase não saía mais, nesse período que lhe era hostil.

A segunda liteira, toda branca, era a da rainha viúva Clemência da Hungria, que fora esposa de Luís, o Turbulento.

Da terceira liteira, modesta, com simples cortinas de couro preto, saíra com certa dificuldade, i; ajudado apenas por dois criados, messer Spinello Tolomei, capitão-geral das companhias lombardas de Paris.

Assim, caminhavam pelos corredores do solar duas antigas rainhas da França, duas jovens da mesma idade, trinta e dois anos, que se tinham sucedido no trono, ambas vestidas inteiramente de branco, segundo o uso para as rainhas viúvas, ambas louras e belas, sobretudo a rainha Clemência, e parecendo um pouco duas irmãs gêmeas. Atrás delas, dominando-as dos ombros para cima, a temível condessa Mafalda, que, como todos sabiam, mas sem ter tido a coragem de testemunhá-lo, matara o marido de uma para que o da outra reinasse. Depois, enfim, arrastando a perna, empurrando o ventre, com os cabelos brancos espalhados sobre a gola e as garras do tempo plantadas nas faces, o velho Tolomei, que fora, de perto ou de longe, parte de todas as intrigas. Porque a idade tudo enobrece, e porque o dinheiro é o verdadeiro poder do mundo, porque monseigneur de Valois não teria podido outrora, sem Tolomei, desposar a imperatriz de Constantinopla, porque sem Tolomei a corte de França não teria podido mandar Bouville procurar a rainha Clemência em Nápoles, nem Roberto d'Artois teria conseguido manter seus processos e desposar a filha do conde de Valois, porque sem Tolomei a rainha da Inglaterra não poderia encontrar-se ali com seu filho, concediam-se ao velho lombardo, que tanto tinha visto, tanto emprestado, e tanto calado, as atenções que só são dadas aos príncipes.

As pessoas apertavam-se contra as paredes, retiravam-se para desobstruir as portas. Bouville pôs-se a tremer quando as saias de Mafalda roçaram-lhe o ventre.

Isabel e Roberto d'Artois trocaram uma interrogação muda. O fato de Tolomei entrar com Mafalda significaria que a velha raposa toscana trabalhava também por conta do adversário? Mas Tolomei, com um sorriso discreto, tranqüilizou os clientes. Era preciso que vissem, na chegada em comum, simples acaso de caminho.

A entrada de Mafalda produzira constrangimento na assistência. As traves do forro pareciam se haver aproximado das cabeças. Valois parou de ditar ao ver aproximar-se sua velha e gigantesca adversária, que empurrava diante dela as duas viúvas brancas, como duas ovelhinhas que se levam a pastar. Depois Valois viu Tolomei, e sua mão sã, onde brilhava o rubi que iria passar ao dedo de seu filho mais velho, agitou-se diante de seu rosto:

— Marigny, Marigny...

Pensaram que ele estava perdendo o tino, mas não era isso. A presença de Tolomei levara-o a recordar seu inimigo comum. Sem o auxílio dos lombardos, jamais Valois teria conseguido vencer o coadjutor.

Ouviu-se, então, a grande Mafalda d'Artois dizer:

— Deus vos perdoará, Carlos, pois vosso arrependimento é sincero.

— A meretriz — disse Roberto d'Artois, alto bastante para ser ouvido por seus vizinhos. — Ela ousa falar de remorsos!

Carlos de Valois, sem se importar com a condessa d’Artois, fazia sinal ao lombardo para que se aproximasse. O velho sienense chegou à beira do leito, levantou a mão paralisada e beijou-a. Valois não sentiu o beijo.

— Rezamos pela vossa cura, monseigneur — disse Tolomei.

Cura! A única palavra de conforto que Valois ouvira entre aquela gente toda, para quem a morte parecia ser apenas uma formalidade! Cura! O banqueiro dizia-lhe aquilo por complacência ou realmente o pensaria? Olharam-se, e, no único olho aberto de Tolomei, olho sombrio e astucioso, o moribundo viu como que uma expressão de cumplicidade. Um olho, enfim, do qual ele não estava eliminado!

— Item, item — recomeçou Valois, apontando o indicador para o secretário —, quero e ordeno que todas as minhas dívidas sejam pagas por meus filhos.

Ah! Era um belo legado que ele fazia a Tolomei, com essas palavras, e mais pesado do que todos os rubis e todos os relicários! E Filipe de Valois, e Carlos d'Alençon, e Joana, a Coxa, e a condessa de Blois, ficaram todos com a mesma fisionomia desapontada. Tinha mesmo necessidade de vir, o lombardo!

— Item, a Alberto de Villepion, meu camareiro, uma soma de duzentas libras tornesas; a João de Cherchemont, que foi meu chanceler antes de ser o chanceler da França, outro tanto; a Pedro de Montguillon, meu escudeiro...

Eis que monseigneur de Valois recuperava o grande espírito de largueza que tanto lhe custara ao longo de sua vida e recompensava os que o tinham servido, mostrando-se até o último dia, como um príncipe, diante deles. Duzentas, trezentas libras: não eram legados enormes, mas quando existiam quarenta, cinqüenta, e a essa fila juntavam-se os dons piedosos... Mas todo o ouro do papa, já bem desfalcado, não chegaria para tanto! Nem mesmo um ano de rendas de todo o apanágio Valois! Seria, pois, um pródigo, Carlos, mesmo depois de sua morte?

Mafalda se aproximara do grupo inglês. Cumprimentara Isabel com um olhar onde brilhava um velho ódio, sorrira ao príncipe Eduardo como se o quisesse morder, e, enfim, olhara para Roberto.

— Meu bom sobrinho, eis que passas por um desgosto. Ele era um verdadeiro pai para ti... — disse ela em voz baixa.

— E para vós, minha boa tia, é um golpe — respondeu ele, no mesmo tom. — Ele tem mais ou menos a vossa idade. Como vedes, não vos resta muito mais...

No fundo da sala, entrava-se, saía-se, e Isabel percebeu, de súbito, que o bispo de Exeter desaparecera, ou, mais exatamente, que se preparava para desaparecer, pois viu que cruzava o limiar da porta, com aquele movimento untuoso, deslizante e seguro que têm os eclesiásticos para atravessar as aglomerações. Estava em companhia do cônego d'Hirson, o chanceler de Mafalda. Também a gigante seguira com o olhar a saída, e as duas mulheres surpreenderam-se em sua comum observação.

Isabel fazia a si mesma perguntas inquietadoras. Que teriam a dizer-se Stapledon, o enviado dos seus inimigos, e o chanceler da condessa? E como se conheciam, se Stapledon chegara na véspera? Os espiões da Inglaterra tinham trabalhado do lado de Mafalda, isso era evidente. E comei poderia ter sido diferente? "Ela tem todas as razões para querer vingar-se e prejudicar-me", pensava Isabel. "Outrora denunciei-lhe as filhas... Ah! Como eu queria que Rogério aqui estivesse! Por que não insisti para que viesse também?"

Os dois eclesiásticos não tiveram dificuldade para se reunir. O cônego d'Hirson havia pedido que lhe mostrassem o enviado de Eduardo.

— Reverendissimus sanetissumusque Exeteris episco pus? — tinha ele perguntado ao outro. — Ego canonicus et comotissae Artesiensis cancellarius sum *.

* "Reverendíssimo e santo bispo de Exeter? Eu sou o cônego e chanceler da condessa d'Artois." (N. da T.)

 

Tinha o encargo de conferenciarem na primeira ocasião. E essa ocasião acabava de se apresentar. Agora, sentados lado a lado no vão de uma janela, ao abrigo de um corredor, de terço na mão, conversavam em latim, como se estivessem dando um ao outro as respostas das preces pelos agonizantes.

O cônego d'Hirson possuía uma cópia da carta muito interessante de um certo bispo inglês, assinada "O", dirigida à rainha Isabel, carta que fora roubada a um comerciante italiano durante seu sono, num albergue do Artois. Esse bispo "O" aconselhava a destinatária a não voltar logo, mas sim a fazer na França o maior número de partidários possível, reunir mil cavaleiros, e desembarcar com eles, para expulsar os Despenser e o mau bispo Stapledon. Thierry d'Hirson trazia consigo essa cópia. Monseigneur Stapledon gostaria de possuí-la? Um papel passou da murça do cônego para as mãos do bispo, que lhe lançou os olhos e reconheceu o estilo hábil, preciso, de Adão Orleton. Se lorde Mortimer — acrescentava ele —, assumisse o comando daquela eXpedição, toda a nobreza da Inglaterra reunir-se-ia em poucos dias.

O bispo Stapledon roía o canto do polegar.

— Ille baro de Mortuo Mari concubinus Isabellae reginae aperte esí * — informou Thierry d'Hirson.

* "O barão Mortimer vive aqui em concubinagem aberta com a rainha Isabel." (N. da T.)

 

O bispo queria provas? Hirson lhas forneceria quando ele as quisesse. Seria suficiente interrogar os servidores, mandar vigiar as entradas e saídas do Palácio da Cite, perguntar simplesmente a opinião dos familiares da corte.

Stapledon meteu a cópia da carta em suas vestes, sob a cruz peitoral.

Os presentes começaram a sair do quarto. Monseigneur de Valois nomeara seus testamenteiros. Seu grande selo, pontilhado de flores-de-lis circundadas pela inscrição: "Caroli regis Franciae filii, comitis Valesi et Andegaviae"** estava impresso na cera derretida sobre os cadar-ços de seda que pendiam da base do documento.

** "De Carlos, filho do rei da França, conde de Valois e d'Anjou." (N. da T.)

 

— Monseigneur, posso apresentar a vossa alta e santa pessoa minha sobrinha Beatriz, dama de cerimônia da condessa? — disse Thierry d'Hirson a Stapledon, designando a bela moça morena, de olhar resvalador e ancas ondulantes, que se aproximava deles.

Beatriz d'Hirson beijou o anel do bispo, depois seu tio disse-lhe algumas palavras em voz baixa. Ela voltou para junto da condessa Mafalda e murmurou-lhe:

— A coisa foi feita, senhora.

E Mafalda, que se encontrava ainda perto de Isabel, adiantou sua manzorra para acariciar a cabeça do jovem príncipe Eduardo.

Depois, cada qual tornou a partir em direção a Paris. Roberto d'Artois e o chanceler porque tinham de tratar de assuntos do governo; Tolomei, porque seus negócios chamavam-no; Mafalda, porque, depois de encaminhar sua vingança, nada mais tinha a fazer ali; Isabel, porque desejava encontrar-se novamente com Mortimer; as rainhas viúvas por falta de alojamento. Mesmo Filipe de Valois precisou voltar para Paris, a fim de tratar da administração daquele grande condado, do qual já era, de fato, o detentor.

Junto do moribundo ficou apenas sua terceira esposa, sua filha mais velha, a condessa de Hainaut, seus filhos mais jovens e seus servidores próximos. Não mais gente do que teria em torno de si um pequeno cavaleiro da província. Entretanto, seu nome e seus atos haviam agitado o mundo, desde as margens do oceano até as fronteiras de Constantinopla.

No dia seguinte, monseigneur de Valois continuava respirando, e o mesmo aconteceu no dia que se seguiu àquele. O condestável Gaucher tinha visto bem, a vida continuava a debater-se no corpo atingido pelo raio.

Toda a corte, durante esses dias, transportou-se para Vincennes, por causa da homenagem que v jovem príncipe Eduardo, duque da Aquitânia, prestaria. seu tio Carlos, o Belo.

Depois, em Paris, um tijolo, caindo de um andaime, passou bem perto da cabeça do bispo Stapledon, e uma ponte estreita rompeu-se sob as ferraduras da mula de um clérigo que o acompanhava. Certa manhã em que saía de seu alojamento à hora da primeira missa, encontrou-se ele frente a frente, numa rua estreita, com Geraldo de Alspaye, o antigo tenente da Torre de Londres, e com o barbeiro Ogle. Os dois homens pareciam passear, despreocupados. Mas alguém sai de casa àquela hora, simplesmente para ouvir cantar os pássaros? Num recanto encontrava-se também um grupo de homens silenciosos, entre os quais Stapledon acreditou reconhecer o rosto eqüino do barão Maltravers. Um grupo de carroças de hortelãos, atravancando a rua, permitiu que o bispo voltasse precipitadamente, alcançando sua porta. Nessa mesma noite, sem ter feito qualquer despedida, ele tomou o caminho de Bolonha, para embarcar secretamente.

Levava, aliás, além da cópia da carta de Orleton, provas suficientes contra a rainha Isabel, contra Mortimer, contra o conde de Kent, contra todos os fidalgos que os rodeavam.

Numa casa de campo da Ile-de-France, a uma légua de Rambouillet, Carlos de Valois, abandonado por quase todos e aprisionado em seu corpo como se já estivesse num túmulo, continuava a existir. Aquele que fora chamado o segundo rei da França só prestava atenção ao ar que entrava em seus pulmões, num ritmo irregular, com angustiosas pausas intermitentes. E continuaria a respirar aquele ar, do qual todas as criaturas se nutrem, durante longas semanas ainda, até dezembro.

 

Os esposos inimigos

Havia oito meses que a rainha Isabel estava na França, onde conhecera a liberdade e encontrara o amor. E esquecera seu esposo, o rei Eduardo. Ele não mais existia em seus pensamentos, senão de forma abstrata, como herança má de uma antiga Isabel que tivesse deixado de existir; fora atirado para as zonas mortas da lembrança. Ela nem sequer se lembrava mais, quando queria forçar-se a isso, para reavivar seus ressentimentos, do odor do corpo de seu marido, nem da cor exata de seus olhos. Não encontrava senão a imagem vaga e confusa de um queixo muito comprido sob.uma barba loura e o ondulante, desagradável, movimento do dorso. Se a memória fugia, o ódio, em compensação, conservava-se tenaz.

A volta precipitada do bispo Stapledon a Londres justificou todos os receios de Eduardo e mostrou-lhe a urgência que havia na volta de sua mulher. Entretanto, era preciso agir com habilidade, e, como dizia Hugo, o Velho, adormecer a loba, se quisessem que ela voltasse à toca. Assim, as cartas de Eduardo durante algumas semanas foram as de um esposo amoroso que se aflige com a ausência da companheira. Os próprios Despenser participavam da mentira, dirigindo à rainha seus protestos de devotamento e reunindo-se às súplicas do rei para que ela lhes concedesse a alegria de seu pronto regresso. Eduardo havia, igualmente, encarregado o bispo de Winchester de usar sua influência junto da rainha.

Mas, no dia 1.° de dezembro, tudo mudou. Eduardo, naquele dia, foi tomado de uma de suas cóleras súbitas e. ^mentes, uma das raivas pouco reais, mas que lhe davam a ilusão da autoridade. O bispo de Winchester lhe havia transmitido a resposta da rainha: repugnava-lhe voltar para a Inglaterra, pelo medo que lhe fazia Hugo, o Jovem, medo de que, aliás, dera conhecimento a seu irmão, o rei da França. Não foi preciso mais nada. A correspondência que Eduardo ditou em Westminster, durante cinco horas a fio, iria mergulhar as cortes da Europa na estupefação.

Para começar, ele escreveu à rainha. Não se tratava mais, no caso presente, de "doce coração".

"Senhora" — escrevia Eduardo —, "muitas vezes ordenamos, tanto antes como depois de ter sido prestada a homenagem, pelo grande desejo que tínhamos de que estivésseis ao nosso lado e pelo grande constrangimento provocado pela vossa ausência, que voltásseis para nós com toda a brevidade, cessadas todas as escusas.

Antes da homenagem tínheis a desculpa no desenvolvimento do assunto, mas, depois, mandastes dizer pelo bispo de Winchester que não viríeis, por temerdes e duvidardes de Hugo Despenser, o que muito nos surpreendeu, pois que vós em relação a ele, e ele em relação a vós, sempre dissestes louvores em minha presença, notadamente quando partistes, por promessas especiais e outras provas de confiante amizade, e ainda pelas cartas particulares que lhe escrevestes e que ele nos mostrou.

Sabemos, de verdade, e também vós o sabeis, senhora, que o dito Hugo sempre nos prestou todas as honras que pode, e sabeis, também, que nunca vos fez qualquer vilania desde que sois minha companheira, a não ser por acaso, e uma só vez, por culpa vossa, como podeis recordar.

Muito nos desagradaria, agora que a homenagem foi prestada a nosso muito caro irmão, o rei da França, e quando estamos em tão bom caminho de amizade com ele, que fósseis vós, enviada por nós para a pacificação, a causa de algum distanciamento entre nós, e por motivos inexatos.

Eis por que mandamos, encarregamos e ordenamos, que, cessadas todas as escusas e os pretextos fingidos, volteis para nós com toda a diligência.

Assim queremos e mandamos que façais nosso muito caro filho Eduardo vir para nós o mais depressa possível, pois temos grande desejo de vê-lo e de falar com ele.

O digno pai em Deus, Wautier, bispo de Exeter29, nos comunicou que alguns de nossos inimigos e banidos, quando estavam convosco, o espionaram para prejudicar-lhe o corpo, o que teriam feito se tivessem tido tempo, e que para escapar a tais perigos ele se apressou a voltar para nós, pela fé e lealdade que nos devia. Nós vos mandamos esta carta para que fiqueis sabendo que o dito bispo, quando partiu de junto de vós tão inesperadamente, não o fez por outras razões.

Dada em Westminster, no dia 1." de dezembro de 1325

Eduardo."

 

Se o furor explodia no princípio da missiva, e a mentira em seguida, o veneno estava sabiamente colocado no fim.

Uma outra carta, essa mais curta, era endereçada ao jovem duque da Aquitânia.

"Muito caro filho, por jovem e de curta idade que sejais, lembrai-vos bem do que vos encarregamos e o que vos recomendamos quando vos despedistes de nós, em Dover, e do que então nos respondestes, e que muito nos satisfez, e que não ultrapasseis nem transgridais em ponto algum aquilo de que então vos encarregamos.

E, já que é assim, e dado que vossa homenagem foi recebida, apresentai-vos a nosso muito caro irmão, o rei da França, vosso tio, despedi-vos dele, e vinde para nós em companhia de nossa muito cara companheira, a rainha vossa mãe, se ela vier dentro em breve.

E, se ela não vier, vinde vós rapidamente, sem mais demora, pois temos grande desejo de vos ver e de falar convosco... E não deixeis de o fazer, de maneira alguma, nem por vossa mãe e nem por outra pessoa. Nossa bênção."

 

As redundâncias, bem como uma certa desordem irritada das frases, mostravam bem que a redação não fora confiada ao chanceler nem a qualquer secretário, mas era obra do próprio rei. Seria quase possível ouvir a voz de Eduardo ditando as mensagens. Carlos IV, o Belo, não fora esquecido. A carta que Eduardo lhe dirigiu retomava quase que ponto por ponto todos os termos da carta à rainha.

"Ouvistes dizer, por pessoas dignas de fé, que nossa companheira, a rainha da Inglaterra, não ousa vir para nós por temer por sua vida e duvidar de Hugo Despenser. Sem dúvida, muito amado irmão, não é conveniente que ela duvide dele ou je qualquer outro homem de nosso reino, porque, por Deus, nem Hugo nem qualquer outro ser vivo de nosso território lhe quer mal, e se porventura sentíssemos isso, castigaríamos essa pessoa de forma que as demais teriam ali um exemplo, para o que temos suficiente poder, graças a Deus.

Eis por que, muito caro e muito amado irmão, vos pedimos ainda, especialmente, para honra vossa e nossa, e de nossa dita companheira, que providencieis a fim de que ela venha para nós o mais depressa que lhe for possível... Porque estamos muito desgostosos com a ausência dela, e não nos teríamos privado de sua companhia de forma alguma, a não ser pela grande certeza e confiança que temos em vós e em nossa boa fé, de que ela voltará segundo nossa vontade."

Eduardo exigia, igualmente, a volta de seu filho e denunciava as tentativas de assassínio imputáveis aos "inimigos e banidos que aí estão" e dirigidas à pessoa do bispo de Exeter.

Sem dúvida, a cólera daquele 1." de dezembro devia ter sido forte, e as abóbadas de Westminster lhe teriam repercutido por muito tempo os ecos agudos. Porque, pelo mesmo motivo e no mesmo tom, Eduardo escrevera ainda aos arcebispos de Reims e de Rouen, a João de Marigny, bispo de Beauvais, aos bispos de Langres e de Laon, todos pares eclesiásticos, aos duques da Borgonha e da Bretanha, assim como aos condes de Clermont-Bourbon, grande camareiro, a Roberto d'Artois, a Miles de Noyers, presidente da Câmara de Contas, ao condestável Gaucher de Châtillon.

O fato de ter sido Mafalda o único par de França excetuado daquela correspondência provava suas relações com Eduardo e dava a certeza de estar ela suficientemente instruída sobre o assunto, o que o dispensava de adverti-la de maneira oficial30.

Ao abrir a carta que lhe era destinada, Roberto muito se alegrou, e, rindo às gargalhadas, dando grandes palmadas nas próprias coxas, foi ter aos aposentos de sua prima da Inglaterra. Que bela história, tão a propósito para que ele a saboreasse! Assim, aquele pobre Eduardo enviava mensageiros a cavalo pelos quatro cantos do reino a fim de informar cada qual sobre seus dissabores conjugais, defender seu queridinho e mostrar que não era capaz de obrigar sua esposa a voltar para casa. Infortunados fidalgos da Inglaterra, que pobre rei possuíam, e em que mãos de estopa tinha ido parar o cetro de Guilherme, o Conquistador! Depois das desavenças de Luís, o Piedoso, com Leonor de Aquitânia, nada de melhor se tinha ouvido!

— Tratai de fazê-lo um bom cornudo, minha prima — exclamava Roberto, e sem grande cerimônia. — Que o vosso Eduardo se veja forçado a dobrar-se ao meio para passar sob as portas de seus castelos. Não é verdade, primo Rogério, que ele não merece outra coisa?

E dava pancadas maliciosas no ombro de Mortimer.

Eduardo, em sua zanga, tinha também tomado medidas de retorsão, confiscando os bens de seu meio irmão, o conde de Kent, e os de lorde Cromwell, chefe da escolta de Isabel. Tinha feito pior, porém; apusera seu selo num ato pelo qual se instituía "governador e administrador" dos feudos de seu filho, o duque da Aquitânia, e reclamava, em nome dele, as possessões perdidas. O que tornava nulos tanto o tratado negociado por sua esposa como a homenagem prestada por seu filho.

— Ele que o faça, ele que o faça — disse Roberto d'Artois. — Iremos tomar-lhe pela segunda vez o ducado, ou, pelo menos, o que dele resta, pois agora pode-se dizer que a metade só aparece com a maré baixa. E já que duas campanhas não foram suficientes para que aquele pobre homem compreenda onde está o seu dever, vamos fazer-lhe uma terceira. As bestas das cruzadas começam a enferrujar!

Não havia necessidade alguma, para aquele fim, de levantar hoste ou enviar o condestável, cujas articulações a idade endurecia. Os dois marechais, à frente de suas tropas permanentes, seriam o bastante para abalar, na região bordelesa, os fidalgos gascões que tinham a fraqueza, a idiotice, de se conservar fiéis ao rei da Inglaterra. Aquilo estava se tornando um hábito. E de cada vez encontravam menos gente pela frente.

A carta de Eduardo foi uma das últimas que Carlos de Valois leu, um dos derradeiros ecos que lhe chegaram dos grandes acontecimentos do mundo.

Monseigneur de Valois morreu em meados do mês de dezembro; seus funerais foram pomposos, como fora toda a sua vida. Toda a casa de Valois, de cuja importância se teve melhor conhecimento ao vê-la assim, em cortejo, toda a família da França, todos os dignitários, a maior parte dos pares, as rainhas viúvas, o Parlamento, a Câmara de Contas, o condestável, os doutores da universidade, as corporações de Paris, os vassalos dos feudos de apanágio, os Perigos das igrejas e abadias beneficiadas pelo testamento, levaram até a igreja dos franciscanos, para que ali ficasse deitado entre suas duas primeiras esposas, o corpo, que a moléstia e o embalsamamento tinham feito bem leve, do homem mais turbulento de seu tempo.

Por apenas três anos o destino o impedia de chegar a rei da França, pois que Carlos IV, seu sobrinho sem herdeiro, que naquele momento lhe seguia os despojos, viveria apenas por aquele espaço de tempo!

As entranhas do grande Carlos de Valois foram transportadas para a Abadia de Chaâlis, e seu coração, encerrado numa urna, foi entregue à sua terceira esposa, a fim de esperar o momento em que ela própria tivesse uma sepultura.

Depois, um grande frio tombou sobre o reino, como se os ossos daquele príncipe, por terem sido nela depostos, tivessem feito gelar, subitamente, a terra da França. Para a gente daquela época tornou-se fácil recordar o ano em que ele morrera. Bastava que dissessem: "Foi na ocasião do grande inverno".

O Sena ficou inteiramente tomado pelos blocos de gelo, e seus pequenos afluentes eram atravessados a pé, tal como acontecia com o regato da Grande Batelière. Os poços gelaram, e já não se usavam baldes nas cisternas, e sim machados. A casca das árvores estalava nos jardins, e foram encontrados olmos feridos até o cerne. As portas de Paris sofreram grandes estragos, tendo até mesmo as pedras estalado com o frio. Aves de todas as espécies, que jamais se vêem nas cidades, gaios, gralhas, procuravam alimento no pavimento das ruas. A turfa de aquecimento era vendida pelo dobro do preço, e não se encontravam mais peles nas lojas, nem pele de marmota, nem ventre de esquilo, nem mesmo um simples tosão de carneiro. Nas moradias pobres morreram muitos velhos e muitas crianças. Os pés dos viajantes gelavam em suas botas, os cavaleiros entregavam seu correio com dedos azulados. Todo o trânsito fluvial cessara. Os soldados enviados para a Guyenne, se cometiam a imprudência de tirar as luvas, deixavam a pele das mãos colada ao ferro das armas. Os moleques divertiam-se em persuadir os idiotas da aldeia a colocar a língua sobre o ferro do machado. Mas o que devia conservar-se na memória de todos, sobretudo, era uma grande impressão de silêncio, porque a vida parecia estar imobilizada.

Na corte, o ano-novo foi comemorado de forma bastante discreta, tanto por motivo de luto como pelo gelo31, entretanto, ofereceram-se mutuamente o visco, e trocaram oS presentes rituais. O Tesouro ia apresentar, pelas contas do ar>° transcorrido, um excedente de receita de setenta e três mil libras — das quais sessenta mil provinham do Tratado da Aquitânia — sobre as quais Roberto d'Artois conseguiu do rei, para si, um crédito de oito mil. Era justo, pois havia seis meses que Roberto governava o reino por conta de seu primo. Ativou a expedição da Guyenne, de onde as armas francesas trouxeram uma vitória tanto mais rápida quanto não encontraram pela frente, praticamente, as armas inglesas. Os fidalgos locais, que tiveram de suportar mais uma vez a cólera do suserano de Paris contra seu vassalo de Londres, começaram a lamentar terem nascido gascões. Deus os teria servido melhor se lhes tivesse dado terras em outros ducados.

Eduardo, arruinado, endividado, sem mais crédito, não pudera enviar tropas a fim de defender seu feudo, mas enviou navios para que levassem sua esposa de volta. Esta última escrevera ao bispo de Winchester, a fim de que ele desse parte de suas palavras ao clero inglês:

"Nem vós, nem outros de bom entendimento, deveis crer que deixamos a companhia de nosso senhor sem causa muito grave e razoável, tal como a do perigo que nosso corpo corria por causa do citado Hugo, que governa nosso dito senhor e todo o nosso reino, e que desejaria desonrar-nos, do que estamos bem certas por o termos experimentado. Enquanto Hugo for o que é, tendo nosso esposo sob seu governo, não poderemos voltar ao reino da Inglaterra sem expor nossa vida, e a de nosso mui caro filho, ao perigo de morrer".

E aquela carta cruzou com as novas ordens que, no início de fevereiro, Eduardo dirigia aos oficiais administrativos das regiões costeiras. Informava-lhes que a rainha e seu filho, o duque da Aquitânia, enviados para a França por um desejo de paz, tinham, sob a influência do traidor e rebelde Mortimer, feito aliança com os inimigos do rei e do reino, e que, portanto, no caso de desembarcarem a rainha e o duque da Aquitânia dos navios que o rei lhes enviara para a França, e somente se voltassem com boas intenções, sua vontade era que eles fossem recebidos cortesmente. Mas, se desembarcassem de navios estrangeiros, mostrando vontades contrárias às suas, a ordem era de não poupar a rainha e o príncipe Eduardo, e sim tratá-los como rebeldes, tal como tratariam a todos os que saíssem desses navios.

Isabel, para ganhar tempo, mandou dizer ao rei, por seu filho, que estava doente e sem possibilidade de embarcar, dado o seu estado.

No mês de março, entretanto, o rei Eduardo, tendo sabido que sua esposa passeava alegremente em Paris, teve novo acesso de furor epistolar. Aquilo parecia ser, nele, uma afecção cíclica, que o assaltava a cada três meses.

Ao jovem duque da Aquitânia, Eduardo assim escreveu :

"Sob falsos pretextos, nossa companheira e vossa mãe retira-se de nós, por causa de nosso caro e leal Hugo Despenser, que sempre nos serviu tão bem e tão lealmente. Mas vedes, e todos podem ver, que, abertamente, notoriamente, indo contra seu dever e contra o estado de nossa coroa, ela chamou a si o traidor Mortimer, nosso inimigo mortal, provado, atingido e em pleno Parlamento julgado, e com ele faz companhia no palácio e fora do palácio, apesar de nós e de nossa coroa e da retidão de nosso reino... E faz ainda pior, se é possível, guardando-vos em companhia de nosso dito inimigo, diante de todo o mundo, com grande desonra e vilania, e com prejuízo das leis e usos do reino da Inglaterra, o qual tendes o dever de soberanamente salvar e manter".

Escrevia, também, ao rei Carlos IV:

"Se vossa irmã nos amasse e desejasse estar em nossa companhia, como vos disse mentirosamente, salvo a reverência que se vos deve, não teria nos deixado sob o pretexto de alimentar a paz e a amizade entre nós e vós, tudo coisas em que de boa fé acreditei, enviando-a a vós. Verdadeiramente, entretanto, muito caro irmão, compreendemos muito bem que ela não nos ama nem um pouco, e que a causa que ela aponta, falando de nosso caro parente Hugo Despenser, é fingida... Consideramos que se trata de vontade desordenada quando, tão aberta e notoriamente, ela conserva em seu conselho o traidor Mortimer, nosso inimigo mortal, e se faz acompanhar por aquele perverso no palácio e fora dele. Assim devíeis fazer sentir vossa vontade, muito caro irmão, de que ela se contenha e se comporte como deve, para honra de todos os que a ela estão ligados... Fazei-nos conhecer, pedimos, vossa vontade e o que nos parecerá melhor fazer, segundo Deus, a razão e a boa fé, sem considerar os impulsos caprichosos de uma mulher, ou outro desejo".

Mensagens do mesmo teor foram novamente enviadas para todos os quadrantes, aos pares, aos dignitários, aos prelados e ao próprio papa. Os soberanos da Inglaterra denunciavam cada qual o amante do outro, publicamente, e aquele caso de duplo casal de dois pares, no qual havia três homens e uma só mulher, causava a alegria das cortes européias.

Os amantes de Paris não tinham mais precauções a tomar. Em lugar de tentar fingir, Isabel e Mortimer enfrentaram a situação e mostraram-se juntos em todas as ocasiões. O fato de o conde de Kent e sua esposa se conservarem junto do par ilícito dava-lhe uma espécie de garantia. Por que mostrar-se alguém mais preocupado pela honra do rei da Inglaterra do que o parecia ser seu próprio meio irmão? As cartas de Eduardo só tinham servido, em suma, para estabelecer a evidência de uma ligação que toda gente aceitou como fato consumado e imutável. E todas as esposas infiéis, diante daquilo, pensavam que havia uma graça particular para as rainhas, e que Isabel tinha bastante sorte pelo fato de seu marido ser um sodomita!

Mas o dinheiro faltava. Nunca mais tinham chegado recursos aos emigrados, cujos bens haviam sido seqüestrados. E a pequena corte inglesa de Paris vivia inteiramente dos empréstimos dos lombardos.

No fim de março foi preciso apelar, mais uma vez, para o velho Tolomei. Ele chegou aos aposentos da rainha Isabel acompanhado pelo senhor Boccaccio, que também trazia as contas dos Bardi. A rainha e Mortimer, com grande afabilidade, expressaram-lhe sua necessidade de novas quantias de dinheiro. Com idêntica afabilidade, e todos os sinais de desgosto, messer Spinello Tolomei recusou. Tinha, para tanto, bons argumentos. Abriu seu grande livro preto, e mostrou as somas. Messire de Alspaye, lorde Cromwell, a rainha Isabel... naquela página Tolomei fez uma profunda inclinação de cabeça... o conde de Kent e a condessa... nova reverência... lorde Maltravers, lorde Mortimer... De pois, em quatro folhas, as dívidas do próprio rei Eduardo...

Rogério Mortimer protestou: as dívidas do rei Eduardo não lhe diziam respeito!

— Mas, my lord — disse Tolomei —, para nós essas dívidas são sempre, em conjunto, as dívidas da Inglaterra! Lamento recusar, lamento muitíssimo, e ainda mais decepcionar uma bela dama como a rainha. Mas é demais pedir-me o que já não tenho e que vós tendes. Porque essa fortuna que nos atribuem não é feita senão de créditos! Minha fortuna, my lord, são as vossas dívidas. Vede, senhora — continuou ele, voltando-se para a rainha —, vede, senhora, o que somos nós, pobres lombardos, sempre ameaçados, que devemos, a cada rei novo, pagar um benefício de feliz advento... e quantos temos pago, ai de nós!, nestes últimos doze anos!... Nós, a quem, a cada rei que sobe ao trono, retiram os direitos da burguesia, para que os recuperemos a uma boa taxa, e mesmo duas vezes no mesmo reinado, se ele se prolonga. Vede, entretanto, o que fazemos pelos reinos! A Inglaterra custa às nossas companhias cento e setenta mil libras, o preço de suas sagrações, de suas guerras, de suas discórdias, senhora! Vede como estou velho... Há muito estaria repousando, se não fosse obrigado a correr sem cessar a fim de recuperar os créditos que nos servem para socorrer outras necessidades. Chamam-nos avarentos, ávidos do que nos é devido, e não se pensa nos riscos que corremos para emprestar a todos e permitir aos príncipes deste mundo que continuem a tratar de seus negócios! Os padres ocupam-se da gente miúda, de dar esmola aos mendigos, de abrir hospitais para os desventurados. Nós nos ocupamos das misérias dos grandes.

Sua idade permitia-lhe expressar-se daquela maneira, e a suavidade de seu tom era tal que aquelas palavras não chegavam a ofender. Falando, ele espiava, com seu olho entreaberto, uma jóia que brilhava no colo da rainha e que estava inscrita, a crédito, em seu livro, na conta de Mortimer.

— Como começou nosso negócio? Por que existimos? É coisa de que quase não se recorda — continuou ele. — Nossos bancos italianos foram criados quando das cruzadas, porque aos nossos fidalgos e viajantes repugnava levar ouro pelas estradas pouco seguras, onde eram assaltados a todo momento, ou mesmo pelos campos, onde só existiam pessoas honestas. Além disso, havia os resgates a pagar. Então, para que encaminhássemos o ouro por conta deles, e sob nossa responsabilidade, os fidalgos, e os da Inglaterra particularmente, deram-nos como penhor as rendas de seus feudos. Mas quando nos apresentamos naqueles feudos, pensando que os selos dos grandes barões deviam ser prova suficiente de nossos créditos, não fomos pagos. Então, apelamos para os reis, os quais, para garantir os créditos de seus vassalos, exigiram, em troca, que lhes emprestássemos também a eles. Eis como nossos recursos se aplicam nos reinos. Não, senhora, com grande constrangimento e desprazer, dessa vez não posso.

O conde de Kent, que assistia à entrevista, disse:

— Está bem, messer Tolomei. Teremos que nos dirigir a uma outra companhia que não a vossa.

Tolomei sorriu. Que estava pensando aquele jovem louro, ali sentado, de pernas cruzadas, acariciando negligentemente a cabeça de seu galgo? Em levar a clientela a outro lugar? Aquela frase Tolomei a ouvira milhares de vezes, em sua longa carreira. Bela ameaça!

— My lord, quando se trata de clientes tão importantes como vossas reais pessoas, deveis saber bem que todas as nossas companhias estão informadas do que se passa, e que o crédito, que lamento recusar-vos, nenhuma outra companhia vos dará. Messer Boccaccio, que aqui vedes, está comigo representando os Bardi. Perguntai-lhe!... Porque, senhora... — era sempre para a rainha que Tolomei se voltava —, esse conjunto de dívidas tornou-se para nós bastante deplorável, pela razão de que nada o garante. No ponto em que chegaram vossos negócios com o rei da Inglaterra, ele não irá garantir vossas dívidas! Nem vós as dele, penso eu. A menos que tenhais a intenção de tomá-las à vossa conta. Ah! Se assim fosse, talvez pudéssemos ainda vos prestar algum auxílio.

E, fechando completamente seu olho esquerdo, cruzou as mãos sobre o ventre e esperou.

Isabel pouco entendia dessas questões de finanças. Levantou os olhos para Rogério Mortimer. Como iria ele tomar as últimas palavras do banqueiro? Que significavam, aliás, aquelas palavras, aquela súbita possibilidade que ele apresentava?

— Esclarecei melhor o que dissestes, messer Tolomei •— pediu ela.

— Senhora, vossa causa é bela, e a de vosso esposo, muito feia. A cristandade sabe dos tratamentos perversos que ele vos infligiu, dos hábitos que mancham sua vida e do mau governo que impõe a seus vassalos por causa de seus detestáveis conselheiros. Em compensação, senhora, sois amada porque sois amável, e eu aposto que não faltará na França bons cavaleiros que estariam prontos a organizar suas companhias para vós e restituir-vos vosso lugar no reino da Inglaterra... mesmo que fosse pela queda do vosso esposo, o rei Eduardo.

— Messer Tolomei — exclamou o conde de Kent — não levais em conta que meu irmão, por detestável que seja, foi coroado?

— My lord, my lord — respondeu Tolomei —, os reis só o são pelo consentimento de seus vassalos. E tendes um outro rei para oferecer desde já ao povo da Inglaterra, esse jovem duque da Aquitânia, que parece mostrar bastante sensatez para a sua idade. Vi demais as paixões humanas, e sei reconhecer bastante bem as que não se desfazem e arrastam os mais poderosos príncipes à sua perda. O rei Eduardo não se desligará de Despenser, mas, em compensação, a Inglaterra está disposta a aclamar um soberano que lhe ofereçam para substituir o seu e os perversos que o rodeiam... Sem dúvida, direis, senhora, que os cavaleiros que se oferecem para combater pela vossa causa custarão caro, que será preciso fornecer-lhes arneses, manutenção e prazeres. Mas nós, os lombardos, que não mais podemos sustentar-vos em vosso exílio, poderíamos ainda enfrentar o sustento de vosso exército, se lorde Mortimer, cujo valor ninguém desconhece, consentisse em. se colocar à frente dele... e se, naturalmente, nos désseis a garantia de tomar à vossa conta as dívidas de messer Eduardo, para saldá-las no dia do vosso êxito.

A proposta não podia ser feita mais claramente. As companhias lombardas ofereciam-se para atirar a mulher contra o marido, o filho contra o pai, o amante contra o esposo legítimo. Mortimer não estava tão surpreso como se poderia esperar, e nem mesmo fingiu estar, quando respondeu:

— A dificuldade, messer Tolomei, está em reunir essas companhias. Isso não se faz numa adega. Onde poderíamos agrupar milhares de cavaleiros que tomaríamos a nosso soldo? Em que país? Convocá-los aqui na França é coisa que não podemos pedir ao rei Carlos, por mais bem-disposto que ele se sinta em relação a sua irmã, a rainha.

Havia conivência entre o antigo prisioneiro de Eduardo e o velho sienense.

— O jovem duque da Aquitânia — disse Tolomei — não recebeu como seu o condado do Ponthieu, que vem da senhora, a rainha, e o Ponthieu não fica bem diante da Inglaterra, e limítrofe com o condado do Artois, onde monseigneur Roberto, embora não seja o detentor dele, conta com muitos simpatizantes, como bem o sabeis, my lord, pois que ali vos abrigastes, quando de vossa evasão?

— O Ponthieu... — repetiu a rainha, pensativa. — Qual é vosso conselho, nobre Mortimer?

O caso, apesar de ter sido discutido apenas em palavras, não deixara de ser fechado. Tolomei estava disposto a fornecer certo crédito à rainha e a seu amante, a fim de que eles pudessem fazer face ao imediato e partir, sem demora, para o Ponthieu, onde organizariam sua expedição. Depois, em maio, ele lhes forneceria o grosso dos fundos. Por que maio? Não podia ser antes dessa data?

Tolomei calculava. Calculava que tinha, de acordo com os Bardi, um crédito a recuperar do papa, e que pediria a Guccio, que se encontrava em Siena, que fosse a Avignon, já que o papa lhe tinha feito saber, incidentalmente, por um viajante de Bardi, que gostaria de rever o jovem. Era preciso aproveitar as boas disposições do Santo Padre. Tolomei teria também ocasião, a última, talvez, de rever o sobrinho, de quem sentia muita falta.

Além disso, havia um pequeno divertimento na mente do banqueiro. Como Valois para a cruzada, como Roberto d'Artois para a Aquitânia, o lombardo dizia, no caso da Inglaterra: "Será o papa quem pagará". Então, era preciso calcular o tempo de Boccaccio, que devia partir para a Itália, passar por Siena, o tempo de Guccio ir de Siena a Avignon e ali tratar do assunto, depois voltar a Paris...

— Em maio, senhora, em maio... Que Deus abençoe vossos trabalhos.

Assim, preparar-se-ia a guerra dos amores incompatíveis, na qual oscilaria o destino dos Estados.

 

Volta a Neauphle

Era, então, tão pequena a casa bancária de Neauphle, e tão baixa a igreja que ficava do outro lado do minúsculo campo de feira, e tão estreito o caminho em subida que se curvava em direção de Cressay, Thoiry, Septeuil? Ou fora Guccio que crescera, não em altura, naturalmente, pois o corpo depois dos vinte anos não cresce mais, porém na alma, e em importância, como se seus olhos se tivessem acostumado a espaços mais vastos, e como se o sentimento do lugar que ocupava na terra houvesse aumentado?

Nove anos passados! Aquela fachada, aquelas árvores, aquele campanário, remoçavam-no, subitamente, em nove anos! Ou antes, não; ao contrário, envelheciam-no em todo o tempo passado.

Guccio repetira instintivamente seu gesto de outrora, inclinando-se para passar pela porta baixa que separava as duas peças do estabelecimento, no rés-do-chão da agência Tolomei. Sua mão procurara espontaneamente a corda de apoio, ao longo do pranchão de madeira que servia de eixo à escada em curva, e ele entrara em seu antigo quarto. Fora ali que ele amara tanto, como nunca amara antes, como jamais amara depois!

A peça exígua, agarrada às traves do forro, cheirava a campo e a passado. Como um aposento tão pequeno pudera conter tão grande amor? Pela janela, que mal era uma janela, antes uma trapeira, ele observava a paisagem inalterada. As árvores estavam floridas naquele início de maio, como na época em que ele dali partira, nove anos antes. Por que as árvores em flor produzem sempre emoção tão forte, e por que a neve que tomba das cerejeiras ou que se espalha, um tanto rosada, sob as macieiras, parece cair-nos no coração? Entre os galhos, arredondados como braços, aparecia o telhado da cavalariça, da qual Guccio fugira diante da chegada dos irmãos Cressay. Ah! Que medo terrível tivera naquela noite!

Voltou-se para o espelho de estanho, sempre colocado no mesmo lugar, sobre o cofre de carvalho. Cada homem ao recordar suas fraquezas, tranqüiliza-se contemplando-se, esquecendo-se de que os sinais de energia que vê no próprio rosto só a ele impressionam, e que diante dos outros é que ele foi fraco! O metal polido, com reflexos acinzentados. devolvia a Guccio o retrato de um moço de trinta anos, moreno, com uma ruga profunda cavada entre as sobrancelhas, olhos sombrios, dos quais ele não se sentia descontente, pois aqueles olhos já tinham visto muitas paisagens, a neve das montanhas, as vagas de dois mares, e despertado o desejo no coração das mulheres, e enfrentado o olhar de príncipes e reis.

...Guccio Baglioni, meu amigo, por que não continuas-te uma carreira tão lindamente iniciada? Foste de Siena para Paris, de Paris para Londres, de Londres para Nápoles, para Lyon, para Avignon. Levaste mensagens para a rainha Isabel, tesouros para os cardeais, um pedido de casamento para a rainha Clemência! Durante dois grandes anos circulaste assim, entre as maiores personagens da terra, encarregado de seus interesses ou de seus segredos. E mal tinhas vinte anos! E tudo era êxito para ti! Basta ver as atenções com que agora te cercam, para julgar as lembranças que deixaste e as amizades que inspiraste a todos. A começar pelo próprio Santo Padre. Mal te viu para um assunto de crédito, ele, o soberano pontífice, do alto do trono de São Pedro, e sobrecarregado por tantas tarefas, interessou-se por tua sorte, por tua fortuna, lembrou-se de que outrora tiveste um filho, inquietou-se ao saber-te privado desse filho, consagrou a aconselhar-te alguns de seus preciosos minutos.

"...Um filho deve ser criado por seu pai", disse-te ele, e deu-te salvo-conduto de mensageiro papalino, o melhor que existe. E Bouville! Bouville, que foste procurar, portador da bênção do papa João, e que te trata como amigo de há muito esperado, e que te contempla com olhos transbordantes de lágrimas, e que te dá um de seus próprios sargentos de armas para te acompanhar em tua empresa, e te entrega uma carta selada com seu selo, dirigida aos irmãos Cressay, a fim de que te deixem ver teu filho!...

Assim, as mais altas personagens ocupavam-se de Guccio, e, verdadeiramente, pensava ele, sem qualquer razão interessada, simplesmente pela amizade que sua pessoa inspirava, pela agilidade de seu espírito, e sem dúvida por uma certa forma de se conduzir junto dos grandes deste mundo, que era, nele, um dom natural.

Ah! Por que não perseverara! Teria podido tornar-se um daqueles grandes lombardos, poderosos nos Estados como os príncipes, como Macei dei Macei, atual guardião do Tesouro Real da França, ou como Frescobaldi da Inglaterra, que entrava sem se fazer anunciar nos aposentos do chanceler do Tesouro.

Seria tarde demais, afinal? Bem no fundo de si próprio, Guccio sentia-se superior a seu tio, e capaz de êxito mais brilhante. Porque o bom tio Spinello, julgando friamente, fazia um negócio muito comum. Chegara a capitão-geral dos lombardos de Paris por antigüidade e porque seus companheiros sabiam que poderiam confiar nele. Tinha bom senso, sem dúvida, e astúcia, mas nada de vastas ambições, nem de grande talento para justificá-las. Guccio considerava tudo aquilo de uma forma imparcial, agora que tinha passado a idade das ilusões, e sentia-se um homem de julgamento ponderado. Sim, ele tinha feito mal. E aquele deplorável caso da criança que Maria de Cressay tivera fora a causa de tudo. Depois, o medo que sentira, era necessário que o confessasse, de ser espancado até a morte pelos irmãos de Maria!

Durante longos meses a fio, seu pensamento estivera ocupado só com esse infeliz acontecimento. Ressentimentos de amor malogrado, abatimento, vergonha de rever os amigos e protetores depois de um resultado tão pouco glorioso, senhor de vingança... Seu tempo gastara-se nisso, enquanto se instalava numa vida nova, em Siena, onde ninguém sabia nada da triste aventura da França, a não ser o que ele próprio queria dizer. Ah! Aquela Maria ingrata não sabia de que grande destino interrompera o curso, ao recusar-se outrora a fugir com ele! Quantas vezes, na Itália, pensara nisso, amargamente. Agora, entretanto, vingar-se-ia...

E se Maria, de súbito, lhe declarasse que continuava a amá-lo, que o esperara sem fraquezas, e que um horrível mal-entendido fora a causa única de sua separação? Sim, se acontecesse isso? Então, Guccio sabia que não resistiria, que esqueceria suas mágoas mal as expressasse, e que levaria Maria de Cressay para Siena, para o palácio da família, lugar dos Tolomei, para mostrar sua bela esposa a seus concidadãos. E para mostrar a Maria aquela cidade nova, menor que Paris ou Londres, sem dúvida, mas que podia largamente rivalizar em beleza com elas, com seu município acabado havia pouco, e do qual o grande Simone Martini terminava atualmente os afrescos internos, com sua catedral preta e branca, que seria a mais bela da Toscana, uma vez terminada a fachada. Ah! O prazer de partilhar o que se ama com a mulher amada! E que fazia ele, a sonhar diante de um espelho de -estanho, em lugar de correr a Cressay e aproveitar a emoção da surpresa?

Depois, refletiu. As amarguras remoídas durante nove anos não podiam ser esquecidas num momento, como não o podia ser o medo que o havia expulsado daquele mesmo jardim. Antes de mais nada, era seu filho que ele queria. Mais valia mandar o sargento de armas com a carta do conde de Bouville: o empreendimento teria, assim, mais peso. Depois... passados nove anos, Maria seria tão bela quanto outrora? Teria ele o mesmo orgulho de levá-la pelo braço?

Guccio pensava ter alcançado a maturidade, a idade em que nos conduzimos pela razão. Ora, se uma ruga se mostrava cavada entre as,suas sobrancelhas, ele era o mesmo homem, a mesma combinação de astúcia e ingenuidade, de orgulho e sonhos. A verdade é que os anos pouco modificam a nossa natureza, e que não há idade que nos livre de errar. Os cabelos embranqueciam mais depressa do que as fraquezas.

 

Sonha-se com um acontecimento durante nove anos, espera-se por ele, ou dele se tem receio, pede-se a Deus cada dia que ele se realize, e suplica-se à Virgem que nos evite tal realização. Preparamo-nos, noite após noite, manhã após manhã, para o que diremos se ele se cumprir, murmuramos todas as respostas que poderíamos dar às perguntas todas que inventamos. Imaginamos as cem, as mil formas pelas quais o acontecimento pode vir a dar-se... Ele vem. E encontra-nos desamparados.

Assim se encontrava Maria de Cressay naquela manhã, porque sua criada, outrora confidente de sua felicidade e de seu drama, viera, momentos antes, sussurrar-lhe ao ouvido que Guccio Baglioni estava de volta. Que o tinham visto chegar à aldeia de Neauphle. Que parecia ter o gênero de vida de um fidalgo. Que muitos sargentos reais lhe serviam de escolta. Que devia ser mensageiro do papa... Fabulação popular que se ligou, como acontece muitas vezes, à verdade, porque um pormenor despertou curiosidades, porque os moleques que estavam na praça olharam, boquiabertos, para os arneses de couro amarelo bordados com as chaves Je São Pedro, presente do papa ao sobrinho de seus banqueiros, e porque todos os cérebros da aldeia, por causa desses arneses, puseram-se a trabalhar.

E a criada ali está, afogueada, com os olhos brilhantes Je emoção sobre as faces vermelhas, e Maria de Cressay não sabe o que deve nem o que vai fazer.

Diz:

— Meu vestido!

Essa frase veio-lhe espontaneamente, e a criada compreendeu. Antes de mais nada porque Maria tinha poucos vestidos, depois porque o vestido que ela lhe pede só pode ser aquele que outrora foi feito com o belo tecido de seda que Guccio lhe trouxera de presente, e que é tirado do cofre todas as semanas, escovado com cuidado, desamarrotado, arejado, diante do qual, às vezes, ela chora, mas que nunca veste.

Guccio pode aparecer de um momento para outro. A criada o viu? Não. Ela só está repetindo os comentários que correm de porta em porta... Talvez ele já esteja a caminho! Se ao menos Maria tivesse um dia inteiro a fim de preparar-se para tal chegada! Ela tivera apenas nove anos, que acabaram por reduzir-se a um só momento!

Que importa a frieza da água com a qual esborrifa o colo, o ventre, os braços, diante da criada que se volta para o outro lado, surpreendida pelo impudor súbito de sua senhora, e que depois lança uma olhadela para o belo corpo do qual se pode dizer com justiça ser uma lástima que esteja há tanto tempo sem homem, e que ela começa a invejar um tanto, vendo como se conservou rijo e denso, parecido a uma bela planta sob o sol. Entretanto, os seios estão mais pesados do que outrora, e tombam-lhe ligeiramente sobre o peito; as coxas não parecem tão lisas; algumas pequenas estrias, traçadas pela maternidade, marcam-lhe o ventre. Va-•nos! O corpo das moças nobres também envelhece, menos que o corpo das criadas, sem dúvida, mas estraga-se, ainda assim, e é a justiça de Deus que faz todas as criaturas iguais.

Maria tem dificuldades para entrar em seu vestido. O tecido encolheu por ter ficado tanto tempo sem uso, ou foi Maria que engordou? Dir-se-ia, antes, que a forma de seu corpo se modificou, como se os contornos, as curvas, £ estivessem mais nos mesmos lugares. Ela mudou. Sabe  que o buço louro tornou-se mais espesso, que as sardas, por causa do ar dos campos, estenderam-se mais amplamente em seu rosto. Seus cabelos, a enorme quantidade de cabelos dourados, cujas trancas teriam que ser refeitas apressadamente, não têm mais a suavidade luminosa de outrora

E eis que Maria se encontra metida em seu vestido de gala, que a incomoda um pouco nas cavas. E suas mãos avermelhadas pelos trabalhos domésticos saem de mangas de seda verde, mãos vazias, vazias de nove anos subitamente eliminados.

Que fez ela de todos aqueles anos que agora lhe parecem apenas um suspiro do tempo?

Viveu através de lembranças. Nutriu-se cotidianamente da lembrança de alguns meses de amor e felicidade, como de uma provisão enceleirada demasiadamente às pressas. Triturou, no moinho da memória, cada instante do passado. Reviu mil vezes o jovem lombardo chegando para reclamar seu crédito e expulsando o perverso preboste. Mil vezes recebeu seu primeiro olhar, refez seu primeiro passeio. Mil vezes repetiu seu juramento no silêncio e na sombra noturna da capela, diante do monge desconhecido. Mil vezes descobriu sua gravidez. Mil vezes foi arrancada, pela violência, do convento das moças em Saint-Marcel e levada em liteira fechada, mantendo seu filho recém-nascido apertado contra o peito, para Vincennes, para o castelo dos reis. Mil vezes, diante dela, vestiram seu filho com os trajes régios, e trouxeram-no morto. Ela ainda sente a punhalada no coração. E continua a odiar a condessa de Bouville, embora ela tenha morrido, desejando que ela seja presa dos tormentos infernais. Mil vezes teve de jurar sobre os Evangelhos guardar o pequeno rei da França e nada revelar dos atrozes segredos da corte, mesmo em confissão, e jamais rever Guccio. E mil vezes perguntou a si própria: "Por que foi comigo que tudo isso aconteceu?"

Perguntou tal coisa ao mudo céu azul dos dias de agosto, às noites de inverno que passou sozinha, a tiritar entre lençóis rígidos, às auroras sem esperança, aos crepúsculos de dias que nada lhe trouxeram. Por quê?

Perguntou tal coisa também à roupa contada para a casa de barrela, aos molhos revolvidos sobre o fogo da cozinha, às carnes postas a salgar, ao arroio que corria ao pédo solar e à margem do qual se colhem os juncos e os íris, nas manhãs de procissão.

Por alguns instantes, odiou Guccio, detestou-o por ter existido, por ter passado através de sua vida como vento de temporal que entra pelas portas abertas de uma casa. E, imediatamente depois, censurou-se por aquele pensamento, como por uma blasfêmia.

Considerou-se, ora uma grandessíssima pecadora, à qual o Todo-Poderoso impusera perpétua expiação, ora uma mártir, uma espécie de santa, designada expressamente pela vontade divina para salvar a coroa da França, a descendência de São Luís, todo o reino, na pessoa da criancinha que lhe fora confiada... É assim que aos poucos uma pessoa pode enlouquecer, sem que se apercebam disso os que a rodeiam.

Notícias do único homem que amara, notícias do esposo ao qual ninguém reconhecia tal título, só as teve de tempos em tempos, por algumas palavras dos empregados do banco à criada. Guccio estava vivo. Era tudo o que sabia. Como sofrerá por imaginá-lo, ou antes, por não poder imaginá-lo em país distante, numa cidade estrangeira, e por pensar que talvez se tivesse casado novamente... Os lombardos não levam assim tão a sério um juramento! E eis que Guccio estava a um quarto de légua dali! Mas era realmente por causa dela que ele voltava? Ou simplesmente para tratar de algum negócio do banco? Não seria horrível que ele estivesse tão perto e não fosse por causa dela? E mesmo isso poderia ela censurar-lhe, pois que se recusara a vê-lo, nove anos antes, e lhe tinha feito sentir com tamanha dureza que não devia aproximar-se mais, sem poder revelar-lhe a razão dessa crueldade? Subitamente, gritou:

— A criança!

Certamente Guccio desejaria conhecer o menino que considerava seu! Não teria sido por isso que reaparecera?

Jeannot lá está, no prado que se vê pela janela, ao longo do Mauldre, o regato margeado de íris amarelos e muito pouco profundo para que alguém ali se afogue, brincando com o último filho do palafreneiro, os dois filhos do carpinteiro de carros e a filha do moleiro, redonda como uma bola. O menino tem lama nos joelhos, no rosto e até no remoinho de cabelos louros que se retorce sobre sua testa, grita alto. Tem panturrilhas firmes e rosadas, aquele que todos imaginam ser um pequeno bastardo, um filho do pecado, e que tratam como tal.

Mas como não percebem todos, os irmãos de Maria, os camponeses de seu domínio, as pessoas de Neauphle, que Jeannot nada tem do louro dourado, quase ruivo, da mãe, e menos ainda do trigueiro profundo, da cor das especiarias, de Guccio? Como não vêem que ele é um verdadeiro pequeno Capeto, que tem o rosto largo, os olhos de um azul pálido, um pouco afastados demais, o queixo que se fará forte, o louro da palha? O rei Filipe, o Belo, era seu avô Era um milagre que aquela gente tivesse os olhos tão mal abertos e só visse nos seres e nas coisas a idéia que faziadeles.

Quando Maria pedira aos irmãos que mandassem Jeannot para o convento dos monges agostinianos, a fim de que aprendesse a escrever, eles tinham erguido os ombros:

— Sabemos ler um tantinho, e isso pouco nos adianta: nada sabemos escrever, e isso de nada nos adiantaria — tinha respondido o mais velho. — Por que achas que Jeannot deve saber mais do que nós? Para os clérigos é bom estudar, e tu não podes fazer nem mesmo um clérigo de um bastardo!

No prado dos íris, o menino, resmungando, segue a criada que o fora buscar. Brincava de cavaleiro, com a chibata na mão, e estava prestes a derrubar as defesas do alpendrado onde os perversos retinham prisioneira a filha do moleiro.

Mas eis que justamente os irmãos de Maria, os tios de Jeannot, que não sabem que são falsos tios, voltam da inspeção a seus campos. Estão empoeirados, cheiram a suor de cavalo e têm as unhas negras. Pedro, o mais velho, já se parece com o pai: tem o estômago saliente por cima da cinta, a barba emaranhada, e entre seus dentes estragados faltam os dois caninos. Espera uma guerra para revelar-se, e de cada vez que diante dele falam da Inglaterra ou do império, grita que ao rei basta levantar uma hoste, e todos verão o que vale a cavalaria. Aliás, não é cavaleiro, mas poderia tornar-se, à sombra de uma campanha. De exército só conheceu a hoste enlameada de Luís, o Turbulento, e não o chamaram para a expedição à Aquitânia. Alimentou alguns momentos de esperança, quando se falara na cruzada que se atribuía a monseigneur Carlos de Valois, e depois monseigneur Carlos morria. Ah! Um barão daqueles é que Deus nos devia ter dado como rei!

João de Cressay, o mais moço, conservou-se mais delgado e mais pálido, porém não cuida melhor de seu aspecto. Sua vida é mescla de indiferença e rotina. Nem um nem outro se casou. Sua irmã cuida-lhes da casa, desde a morte de sua mãe, Eliabel. Têm assim alguém que lhes garante a comida, que trata de suas roupas rústicas e contra quem podem enfurecer-se de vez em quando, com mais facilidade do que jamais ousariam fazer em relação a uma esposa. Se seus calções se rasgam, é sempre possível tornar Maria responsável pelo fato de não terem encontrado esposa que lhes conviesse, por causa da desonra que ela atirara sobre a família.

Vivem mais ou menos em bem-estar limitado graças à pensão que o conde de Bouville envia regularmente à jovem senhora, sob o pretexto de que ela foi ama real, e graças, também, aos presentes em dinheiro que o banqueiro Tolomei continua a enviar àquele que imagina ser seu sobrinho-neto. O pecado de Maria, portanto, trouxe alguma vantagem para seus dois irmãos.

João conhece em Montfort-1'Amaury uma burguesa viúva, que vai visitar de vez em quando, e, nesses dias, trata de seus trajes e de sua pessoa com ar culpado. Pedro prefere fazer sua caça em suas próprias lavras, e sente-se fidalgo sem grandes gastos, porque alguns garotos, nos lugarejos vizinhos, já se parecem com ele. Mas o que é honra para um rapaz da nobreza é desonra para uma jovem fidalga; isso é coisa sabida, sobre a qual não adianta insistir.

Eis que ficam ambos bem surpresos. Pedro e João, ao encontrarem a irmã enfeitada com seu vestido de seda e Jeannot sapateando, por estar sendo lavado. Será dia de festa, de que eles não se tenham lembrado?

— Guccio está em Neauphle — diz Maria.

E recua, porque Pedro seria bem capaz de dar-lhe uma bofetada.

Mas Pedro cala-se e olha para Maria. João faz o mesmo. Ficam os dois de braços pendentes, como pessoas cujo cérebro não é feito para imprevistos. Guccio está de volta. A novidade é importante, e precisam de alguns minutos para a absorverem. Que problemas novos lhes virá trazer?... Gostavam de Guccio, são forçados a convir, quando ele era seu companheiro de caçadas, quando lhes trazia falcões de Milão, e não viam que o velhaco andava de amores com sua irmã, quase sob o nariz deles. Depois quiseram matá-lo, quando a mãe Eliabel descobrira o pecado no ventre de sua nina. A seguir, lamentaram sua violência, quando visitaram 0 banqueiro Tolomei em seu palácio de Paris, e compreenderam, tarde demais, porém, que ter deixado sua irmã casar-se com um lombardo rico teria sido menos desonroso do que mantê-la mãe de uma criança sem pai.

Não têm muito tempo para fazer perguntas, pois o sargento com a libré do conde de Bouville, cavalgando um grande cabalo baio, e trazendo a cota de pano de lã azul denteada em torno das nádegas, entra no pátio do solar, queimediatamente se povoa de rostos estupefatos. Os camponeses tiram o gorro da cabeça, cabeças de crianças surgem das portas entreabertas, as mulheres limpam as mãos em seu avental.

O sargento entrega duas mensagens ao sire Pedro, uma de Guccio e outra do próprio conde de Bouville. Pedro de Cressay assume a fisionomia importante e desdenhosa de homem que recebe uma carta: franze as sobrancelhas, estica os beiços através da barba e ordena com voz forte que dêem de beber e comer ao mensageiro, como se este acabasse de percorrer umas quinze léguas. Depois, retira-se para junto de seu irmão, a fim de ler. Dois não são demais e precisam, mesmo, chamar Maria, que sabe decifrar melhor os sinais da escrita.

E Maria põe-se a tremer, a tremer, a tremer.

 

— Não compreendemos nada disso, messire. Nossa irmã começou a tremer de repente, como se Satã em pessoa tivesse surgido diante dela, e recusou positivamente sequer ver-vos. Em seguida foi sacudida por grandes soluços.

Estavam muito embaraçados, os irmãos Cressay. Tinham mandado escovar suas botas, e João vestira a cota que só usava para as visitas à viúva de Montfort. No segundo aposento da agência de Neauphle, diante de um Guccio que lhes mostrava rosto sombrio e nem mesmo os convidara a sentar-se, estavam antes enleados, com o espírito dividido por sentimentos contraditórios.

Tendo recebido as cartas, duas horas antes, haviam pensado em negociar, como bom acontecimento, a partida de sua irmã e o reconhecimento de seu matrimônio. Mil libras de contado, eis o que pediriam. Um lombardo podia bem desembolsar isso. Mas Maria pusera a perder as suas esperanças com a estranha postura que assumira, e com sua obstinação de não rever Guccio.

— Tentamos fazê-la raciocinar, e bem contra o nosso interesse, pois se Maria nos deixasse nos faria muitíssima falta, pois é ela quem toma conta da casa para nós. Mas, enfim, compreendemos bem que, se depois de tanto tempo passado, voltastes para buscá-la, é que ela é vossa esposa verdadeira, mesmo que o casamento se tenha feito em segredo. E depois, o tempo passou...

Era o barbudo que falava, e sua frase embrulhava-se um pouco. O mais novo contentava-se em aprovar com a cabeça.

— Dizemos com toda a franqueza — continuou Pedro de Cressay —, erramos recusando-vos nossa irmã. Mas isso foi Por causa de nossa mãe, apenas, que Deus a tenha em sua guarda! Ela se opôs fortemente. Um cavaleiro deve reconhecer suas faltas, e se Maria, nossa irmã, foi além do nosso consentimento, temos parte da culpa. Tudo isso devia estar apagado. O tempo é senhor de nós todos. Ora, agora é ela que vos recusa. Entretanto, diante de Deus, juro que não tem outro homem na cabeça, isso não! Assim, não compreendo mais nada. Tem um cérebro que funciona de um jeito estranho, a nossa irmã, não é mesmo, João?

João de Cressay aprovou com um aceno de cabeça.

Para Guccio, era uma bela vingança ter assim sob seus olhos, arrependidos e de língua embaraçada, aqueles dois rapazes que outrora tinham vindo, em plena noite, de chuço na mão, para matá-lo, e o haviam obrigado a fugir da França. Atualmente, nada desejavam mais do que dar-lhe sua irmã: um pouco mais, e pediriam que ele forçasse um pouco as coisas e fosse a Cressay impor sua vontade e fazer valer seus direitos de esposo.

Mas isso era conhecer mal Guccio e seu sombrio orgulho. Dos dois idiotas fazia pouco-caso, pois apenas Maria tinha importância para ele. E Maria repelia-o, quando ele ali estava, tão próximo dela, e vindo tão disposto a esquecer todas as injúrias passadas. Aquelas pessoas teriam nascido apenas para infligir-lhe humilhações a cada encontro?

— Monseigneur de Bouville devia ter pensado que ela iria agir assim — disse o barbudo —, pois que diz em sua carta: "Se dona Maria, como é de crer, recusar-se a ver o senhor Guccio"... Sabeis que razão tinha ele para escrever isso?

— Não, realmente não sei — respondeu Guccio —, •nas é de supor que ela lhe tivesse dito muitas e boas a meu respeito, para que messire de Bouville pudesse ver tão claro!

— Entretanto, ela não pensava em outro homem — repetiu o barbudo.

A cólera começava a invadir Guccio. Suas sobrancelhas pretas uniam-se sobre a ruga vertical que lhe marcava a fronte. Dessa vez, verdadeiramente, tudo lhe dava o direito de agir sem escrúpulos em relação a Maria. Ela receberia, em troca de sua crueldade, crueldade maior.

— E meu filho? — indagou.

— Está aqui. Nós o trouxemos.

Na sala vizinha, a criança inscrita na lista dos reis, e que a França inteira acreditava morta havia nove anos, olhava os empregados fazerem contas e divertia-se em acariciar as barbas de uma pena de ganso. João de Cressay abriu a porta.

— Jeannot, vem cá — disse ele.

Guccio estava atento ao que se passava nele, e forçava-se um pouco à emoção. ''Meu filho, vou ver meu filho", dizia consigo mesmo. Na verdade, nada sentia. Entretanto, quantas vezes esperara por aquele instante. Mas não previra aquele passo pesado de camponês que ouvia agora, aproximando-se.

O menino entrou. Trazia calções curtos e uma espécie de gabão de pano; seu remoinho rebelde torcia-se sobre a fronte clara. Um verdadeiro camponesinho!

Houve um momento constrangedor para os três homens, constrangimento que o menino percebeu muito bem. Pedro empurrou-o para Guccio.

— Jeannot, eis...

Era preciso dizer qualquer coisa, falar a Jeannot sobre Guccio. E só se poderia dizer a verdade.

—...eis aqui teu pai.

Guccio, tolamente, esperava um ímpeto, braços abertos, lágrimas. O pequeno Jeannot levantou para ele uns espantados olhos azuis:

— Mas não me disseram que ele havia morrido? — perguntou.

Guccio teve um abalo. Grande e perverso furor levantou-se nele.

— Não, não — apressou-se a interromper João de Cressay. — Ele estava viajando e não podia mandar notícias. Não é verdade, amigo Guccio?

"Com quantas mentiras não o saturaram!", pensava Guccio. "Paciência, paciência... Dizer-lhe que seu pai tinha morrido... Ah! gente perversa!" E, como era preciso que falasse, disse:

— Como ele é louro!

— Parece-se com tio Pedro, o irmão de nosso pai, do qual eu tenho o nome — respondeu o barbudo.

— Jeannot, vem ter comigo, vem — pediu Guccio.

O menino obedeceu, mas sua mãozinha rugosa conservou-se estranha na mão de Guccio, e ele limpou o rosto, depois de ter sido beijado.

— Eu gostaria de conservá-lo alguns dias comigo — disse Guccio —, a fim de poder levá-lo a meu tio Tolomei, que deseja conhecê-lo.

Dizendo isso, Guccio havia, maquinalmente, como Tolomei, fechado o olho esquerdo.

Jeannot, com a boca entreaberta, olhava para ele. Quantos tios! Em volta dele só ouvia falar nisso.

— Eu tenho um tio em Paris que me manda presentes —disse ele, em voz clara.

— É a esse, justamente, que iremos fazer uma visita... Se teus tios não se opuserem. Não tendes objeções? — indagou Guccio.

— Evidentemente, não — respondeu Pedro de Cressay. —- Monseigneur de Bouville, em sua carta, nos disse que atendêssemos a esse pedido.

Decididamente, os Cressay não moviam um dedo sem a aprovação de Bouville!

O barbudo já pensava nos presentes que o banqueiro certamente faria a seu sobrinho-neto. Devia esperar uma bolsa de ouro, que seria particularmente bem-vinda, pois justamente, naquele ano, o gado fora atingido por doença. E, quem sabe? O banqueiro era velho e talvez tivesse vontade de citar a criança no seu testamento...

Guccio já saboreava a sua vingança. Mas a vingança chegou alguma vez a consolar alguém de um amor perdido?

 

Fora o cavalo de Guccio, bem como os arneses papalinos, o que seduzira de início o menino. Jamais vira tão bela montaria. Observava, também, com mistura de curiosidade e admiração, a roupa daquele pai que lhe acabava de cair do céu. Olhava para os calções colantes, que não faziam nem uma prega sobre os joelhos, para as botas flexíveis de couro escuro e para aquela estranha vestimenta de viagem, curta, cortada num tecido marmorizado, cor de folhas de outono, fechado até em cima, na frente, por uma série de minúsculos botões mantidos por presilhas, e com um pequeno capuz que tombava sobre a nuca.

O sargento do conde de Bouville tinha um traje bem vistoso, bem mais ornamental pela sua cor de um azul e, que brilhava ao sol, seus recortes caseados nas mangas e nas ancas, e suas armas senhoriais bordadas sobre o peito. Mas a criança percebera imediatamente que Guccio dava ordens ao sargento, e passou a ter grande consideração por aquele pai que falava como senhor a uma personagem tão brilhantemente vestida.

Já tinham percorrido perto de quatro léguas. No albergue de Saint-Nom-la-Bretêche, onde pararam, Guccio, com voz naturalmente autoritária, ordenou uma omelette aux herbes, um capão assado no espeto, queijo coalhado. E vinho. A solicitude dos empregados fez crescer o respeito de Jeannot.

— Por que falais diferente de nós, messire? — perguntou ele. — Não dizeis as palavras como dizemos.

Guccio sentiu-se ferido por aquele comentário feito ao seu sotaque da Toscana, e por seu próprio filho.

— Porque sou de Siena, na Itália, que é a minha pátria — respondeu ele, com orgulho. — E tu também vais tornar-te sienense, cidadão livre daquela cidade onde somos poderosos. Depois, não me chames de messire, e sim padre.

 — Padre — repetiu documente o menino.

Sentaram-se à mesa, Guccio, o sargento e a criança. E enquanto esperavam a omelete, Guccio começou a ensinar a Jeannot as palavras de sua própria língua para designar os objetos da vida.

— Tavola — dizia, segurando a borda da mesa —, bottiglia — dizia, levantando a garrafa —, vino...

Sentia-se embaraçado diante daquela criança, faltava-lhe naturalidade. O receio de não se fazer querer paralisava-o, e também o receio de não chegar a amá-lo. Porque, por mais que repetisse: "É meu filho", nunca sentia nada, a não ser profunda hostilidade em relação às pessoas que o tinham educado.

Jeannot jamais tinha bebido vinho. Em Cressay, contentavam-se com sidra, ou mesmo com frênette, como os camponeses. Tomou alguns goles. Estava habituado à omelete e à coalhada, mas o capão assado tinha um ar de festa. Depois, aquela refeição, tomada à beira da estrada, em meio da tarde, agradava-lhe bastante. Não tinha medo, e a parte agradável da aventura levava-o a esquecer sua mãe. Tinham-lhe dito que tornaria a vê-la dentro de alguns dias... Paris, Siena, todos aqueles nomes pouco significavam para ele, e não evocavam qualquer idéia precisa de distância. No sábado próximo voltaria para a margem do Mauldre, e poderia declarar à filha do moleiro, aos garotos do carpinteiro de carros: "Eu sou sienense", sem ter necessidade de explicar coisa alguma, pois que ainda sabiam menos do que ele próprio.

Engolido o último bocado, as adagas limpas num peda-•o de miolo de pão, e colocadas novamente na cinta, montaram de novo a cavalo. Guccio ergueu a criança e colocou-a diante de si, atravessada na sela32.

A refeição farta e sobretudo o vinho, que tomava pela primeira vez, tinham cansado o menino. Antes que se tivesse percorrido meia légua, ele adormeceu, indiferente às sacudidelas do trote.

Nada é mais comovente do que o sono de uma criança, sobretudo em pleno dia, à hora em que os adultos estão acordados e em ação. Guccio mantinha o equilíbrio daquela pequena vida que já pesava, sacudindo-se, oscilando, abandonada. Instintivamente, acariciou com o queixo os cabelos louros que se abrigavam contra seu peito e fechou mais estreitamente os braços, como para obrigar aquela pequenina cabeça redonda e aquele sono pesado a se colarem mais ao seu corpo. Um perfume de infância subia do corpinho adormecido. Subitamente, Guccio sentiu-se pai, e todo orgulhoso de sê-lo. Lágrimas enevoaram-lhe os olhos.

— Jeannot, meu Jeannot, meu Giannino — murmurou ele, pousando os lábios nos cabelos sedosos e tépidos.

Pusera sua montaria a passo e fizera sinal ao sargento para retardar também a marcha da sua, a fim de não acordar a criança e para prolongar sua própria felicidade. Que importava a hora em que chegariam! No dia seguinte Giannino acordaria na residência da Rue des Lombards, que lhe pareceria um palácio. Criados o rodeariam, o lavariam, o vestiriam, como um fidalgozinho, e uma vida de contos de fadas iria começar para ele.

 

Maria de Cressay tornou a dobrar seu vestido inútil diante da criada muda e despeitada. A criada também sonhara com outra existência, onde seguiria sua senhora, e havia na sua maneira uma certa censura.

Mas Maria cessara de tremer, e seus olhos estavam secos: tomara uma decisão. Teria apenas alguns dias a esperar, uma semana, no máximo. Porque, naquela manhã, percebera o que se passava: tinham sido aqueles nove anos a moer sempre os mesmos pensamentos que lhe tinham dado tal terror nervoso, levando-a a uma resposta absurda, a uma recusa demente!

Tudo porque pensara apenas no juramento feito outrora, o que a senhora de Bouville — aquela perversa mulher — a tinha forçado a pronunciar. ,. Depois, pensara nas ameaças: "Se tornardes a ver aquele jovem lombardo, isso vos poderá custar a vida..."

Tantos meses se haviam passado! Dois reis se tinham sucedido, e ninguém jamais falara! A senhora de Bouville morrera. Aliás, seria mesmo conforme com a lei de Deus, aquele horrível juramento? Não seria um pecado impedir que uma criatura humana dissesse a um confessor as tribulações de sua alma? As próprias religiosas podiam ser isentadas de seus votos. Depois, ninguém tinha o direito de separar esposo e esposa! Isso também não era cristão. E o conde de Bouville não era bispo, e, aliás, de forma alguma parecia tão temível quanto sua mulher.

Tudo isso Maria devia ter pensado durante a manhã. Soubera reconhecer, também, que sem Guccio não podia viver, que seu lugar era junto dele, que Guccio, vindo buscá-la, nada no mundo, nem antigos juramentos, nem segredos da coroa, nem o temor dos homens, nem o castigo de Deus, se viesse, deveria impedi-la de ir com ele.

Não mentiria a Guccio. Um homem que ao fim de nove anos ainda a amava, que não tornara a casar-se, que voltava para buscá-la, era íntegro, leal, semelhante ao cavaleiro que passa por todas as provas. Tal homem poderia partilhar um segredo e tornar-se o guardião dele. E não se tinha o direito de mentir-lhe, de lhe deixar crer que seu filho vivia, que o estava apertando em seus braços, quando tal coisa não era verdadeira.

Maria saberia explicar a Guccio que seu filho, seu primogênito... porque já aquela criança morta não é em seu pensamento senão seu primogênito... fora, por um encadeamento fatal de circunstâncias, dado, trocado, para salvar a vida do verdadeiro rei da França. E ela pediria a Guccio que compartilhasse de seu juramento, e eles educariam juntos o pequeno João Póstumo, que reinara durante os cinco primeiros dias de sua vida, até o momento em que os barões tinham vindo buscá-lo para entregar-lhe sua coroa! E os outros filhos que eles teriam, viriam a ser, um dia, como que verdadeiros irmãos do rei da França. Já que tudo podia acontecer no mal, pelo menos imagináveis manobras do destino, por que não poderia acontecê-lo no bem?

Eis o que Maria explicaria a Guccio, dentro de poucos dias, na próxima semana, quando ele viesse trazer de volta Jeannot, tal como havia combinado com seus irmãos.

Então, a felicidade, por tanto tempo adiada, poderia começar, e se todas as coisas felizes da terra devessem ser pagas com um peso igual de sofrimento, então um e outro teriam pago com antecedência por suas alegrias futuras! Guccio queria instalar-se em Cressay? Com certeza não. Em Paris? O lugar seria perigoso demais para o pequeno João, e não conviria ir desafiar assim de perto o conde de Bouville! Iriam para a Itália. Guccio levaria Maria para aquele país do qual ela só conhecia os belos tecidos e o hábil trabalho dos ourives. Como ela a amava, àquela Itália, pois de lá viera o homem que Deus lhe destinara! Maria já se via em viagem, ao lado do esposo reencontrado. Dentro de uma semana... ela teria uma semana a esperar...

Ai dela! Em amor não é suficiente ter os mesmos desejos. Ainda é preciso expressá-los simultaneamente!

 

A rainha do Templo

Para uma criança de nove anos, cujo horizonte único, desde que se podia recordar, tinha sido limitado por um regato, fossas de estrume e telhados de casas camponesas, a descoberta de Paris não podia deixar de ser um encantamento. Que dizer, porém, quando tal descoberta se fazia sob a direção de um pai tão orgulhoso, tão glorioso de seu filho, que o mandava vestir, frisar, banhar, ungir, que o levava às mais belas lojas, o empanturrava de gulodices, lhe comprava uma bolsa para levar à cintura, com verdadeiros soldos lá dentro, e sapatos bordados! Jeannot, ou Giannino, vivia dias de deslumbramento.

E todas aquelas belas casas onde seu pai o fazia entrar! Porque Guccio, sob pretextos diversos, às vezes mesmo sem pretexto algum, fazia a ronda dos velhos conhecimentos, apenas para poder pronunciar orgulhosamente: "Meu filho!", e mostrar aquele milagre, aquele esplendor único no mundo: um meninozinho que lhe dizia: "Padre mio", com um bom sotaque da Ile-de-France.

Quando as pessoas espantavam-se com os louros cabelos de Giannino, Guccio fazia alusão à mãe dele, pessoa da nobreza. Tomava, então, aquele ar falsamente discreto que anunciava indiscrição, e aquele jeito um tanto fanfarrão no mistério, próprio dos italianos quando querem fingir que se calam a respeito de suas conquistas. Assim, todos os lombardos de Paris, os Peruzzi, os Boccanegra, os Macei, os Albizzi, os Frescobaldi, os Scamozzi, e o próprio signor Boccaccio estavam a par do caso.

O tio Tolomei, com um olho aberto, um olho fechado, o ventre pesadão e a perna lenta, não participava pouco daquela ostentação. Ah! Se Guccio tivesse podido instalar-se novamente em Paris, sob seu teto, com o pequeno Giannino, como se sentiria feliz aquele velho lombardo pelos dias qUe lhe restavam a viver!

Mas era um sonho impossível, já que seria preciso devolver o menino à sua outra família, como fora prometido e contentar-se em vê-lo de quando em quando. Por que não quereria ela a regularização do casamento, por que não queria ela aceitar a vida em comum com seu esposo, aquela tola, aquela obstinada Maria de Cressay, já que agora todo mundo estava de acordo? Tolomei, por muito que lhe custasse a idéia da menor viagem, oferecia-se para ir a Neauphle fazer uma derradeira tentativa.

— Mas sou eu quem não quer mais saber dela, meu tio — declarara Guccio. — Não deixarei que escarneçam de minha honra. Depois, que satisfação poderia eu ter, vivendo junto de uma mulher que não mais me ama?

— Tens certeza disso?

Havia um ponto, um só, que dava possibilidade a Guccio de fazer pergunta semelhante. Encontrara no pescoço de Giannino o pequeno relicário que outrora a rainha Clemência lhe dera, no hospital de Marselha, e que ele, por sua vez, dera a Maria, por ocasião da doença grave da moça.

— Minha mãe tirou-a de seu pescoço e passou-a para o meu quando meus tios me levaram para junto de vós, naquela manhã — explicara o menino.

Mas que se poderia afirmar diante de tão frágil indício, talvez simples gesto de religiosidade?

Além disso, o conde de Bouville fora categórico.

— Se queres conservar essa criança, deves partir com ela para Siena, e quanto mais cedo, melhor — recomendara ele a Guccio.

A entrevista efetuara-se no palácio do antigo camareiro, atrás do Pré-aux-Clercs. Bouville passeava em seu jardim de muros fechados. E as lágrimas lhe tinham vindo aos olhos, ao fitar Giannino. Beijara a mão do meninozinho, antes de beijar-lhe as faces, e, contemplando-o, examinando-o da cabeça aos pés, murmurara:

— Um verdadeiro príncipe, um verdadeiro principezinho!

Ao mesmo tempo, enxugava os olhos. Guccio espantara-se diante de tão grande comoção num homem cujas funções sempre tinham sido altas, e isso o emocionou como homenagem amistosa que a ele próprio tivesse sido prestada.

— Um verdadeiro principezinho, tal como dizeis, messire — respondera Guccio, todo feliz. — E é bem surpreendente isso, quando se pensa não ter ele conhecido mais do que a vida dos campos, sendo sua mãe, afinal, apenas uma camponesa!

Bouville sacudia a cabeça. Sim, sim, tudo isso era surpreendente...

— Leva-o, nada podes fazer de melhor. Aliás, não tens a augusta aprovação do muito santo padre? Dessa vez dar-te-ei dois sargentos para que te acompanhem até as fronteiras do reino, a fim de que mal algum te sobrevenha, nem a... esse menino.

Não lhe parecia fácil pronunciar: "teu filho".

— Adeus, meu principezinho — disse ele, beijando outra vez Giannino. — Tornarei a ver-te, algum dia?

Depois afastou-se, muito depressa, porque as lágrimas recomeçaram a juntar-se em seus grandes olhos. Na verdade, a criança assemelhava-se de maneira demasiado dolorosa ao grande rei Filipe, o Belo.

 

— Voltamos para Cressay? — perguntou Giannino, na manhã de 11 de maio, diante das malas de cargueiro que preparavam e do grande movimento na casa, a indicar viagem.

Não parecia tomado de grande impaciência para regressar ao solar.

— Não, meu filho. Primeiro vamos a Siena.

— Minha mãe vai conosco?

— Não, agora não. Mais tarde nos encontrará lá.

A criança pareceu tranqüilizar-se. Guccio pensou que, depois de ter ouvido durante nove anos uma série de mentiras sobre seu pai, Giannino ia, agora, entrar em novos anos de mentiras a propósito de sua mãe. Como agir de outra maneira? Talvez um dia fosse necessário levar o menino a acreditar que a mãe morrera...

Antes de se pôr a caminho havia uma visita ainda a fazer, a mais prestigiosa, se não a mais importante, a fim de saudar a rainha Clemência da Hungria.

— Onde fica a Hungria? — perguntara o menino.

— Muito longe, do lado do Levante. Leva-se muitas semanas para chegar lá. Poucas pessoas têm ido para aquele lado.

— Por que está em Paris, essa dama Clemência, se é a rainha da Hungria?

— Ela nunca foi rainha da Hungria, Giannino. Seu pai é que foi rei desse país. A senhora Clemência foi rainha da França.

— Então, é a esposa do rei Carlos, o Belo?

Não, a esposa do rei era a senhora d'Evreux, que, naquele dia, exatamente, seria coroada. Aliás, iriam logo mais ao palácio real, a fim de dar uma olhadela à cerimônia, na Sainte-Chapelle, para que Giannino partisse levando unia recordação mais bela do que todas as outras. Guccio, o impaciente Guccio, não sentia enfado nem cansaço ao explicar àquele pequeno cérebro as coisas que parecem evidentes e não o são, de forma alguma, se não as conhecemos desde sempre. Assim é que se faz a aprendizagem do mundo.

Mas a rainha Clemência que veriam, quem era ela, então? E como Guccio a conhecera?

Da Rue des Lombards ao Templo, pela Rue de la Verrerie, a distância era pequena. Enquanto caminhavam, Guccio contava ao menino como tinha ido a Nápoles, com o conde de Bouville... "aquele senhor gordo, tu sabes, que visitamos no outro dia e beijou-te..." a fim de pedir em casamento aquela princesa para o rei Luís X, agora morto. E como ele próprio, Guccio, se encontrara ao lado da senhora Clemência no navio que a trazia para a França, e como quase morrera numa grande tempestade, antes de atingir Marselha.

— E esse relicário que trazes ao pescoço me foi dado por ela, como agradecimento por eu lhe ter poupado o afogamento.

E em seguida, quando a rainha Clemência tivera um filho, a mãe de Giannino fora escolhida para sua ama.

— Minha mãe nunca me disse nada disso — exclamou o menino, surpreso. — Então, também ela conhece a senhora Clemência?

Tudo aquilo era muito complicado. Giannino teria gostado de saber se Nápoles era na Hungria. Depois, havia passantes que os empurravam, e uma frase começada ficava em suspenso: um aguadeiro interrompia a resposta. Era muito difícil, para o menino, pôr em ordem aquela narrativa. E dentro de vinte ou trinta anos, diria: "Meu pai contou-me essas coisas, um dia, em Paris, quando subíamos a Rue du Temple, mas eu era muito pequeno: garantiu-me que eu era irmão de leite do rei João, o Póstumo..."

Irmão de leite. Isso Giannino compreendia bem o que queria dizer. Ouvia falar disso em Cressay todo o tempo: irmãos de leite, em pleno campo. Mas irmãos de leite de um rei? Era assunto para meditação. Porque um rei é um homem grande e forte, com uma coroa na cabeça... Jamais pensara que os reis pudessem ter irmãos de leite, nem mesmo que pudessem ser criancinhas que morrem aos cinco dias de vida.

— Minha mãe nunca me disse nada disso — repetiu ele.

E começou a enfadar-se com aquela mãe que lhe escondera tantas coisas espantosas.

— E por que se chama Templo esse lugar aonde vamos?

— Por causa dos Templários.

— Ah! Sim! Eu sei. Eles cuspiam na cruz, adoravam uma cabeça de gato e envenenavam os poços para ficarem com todo o dinheiro do reino.

Soubera essas coisas através do filho do carpinteiro de carros, que repetia palavras do pai, que por sua vez conhecia coisas sabe Deus como. Não era fácil para Guccio, no meio daquela multidão e em pouco tempo, explicar a seu filho que a verdade era um pouco mais sutil. E o menino não compreendia por que a rainha que iam visitar morava na casa de gente tão perversa.

— Eles não moram mais aqui, figlio mio. Não existem mais: trata-se da antiga moradia do grão-mestre.

— Mestre Tiago de Molay?

— Faze figa com os dedos, meu pequeno, quando pronunciares esse nome!... Pois os Templários foram aniquilados, queimados ou expulsos, e o rei tomou conta do Templo, que era o castelo deles...

— Que rei?

Já não tomava pé, o pobre Giannino, entre tantos soberanos!

— Filipe, o Belo.

— Tu o viste, o rei, o Belo?

O menino ouvira falar daquele rei terrificante e agora tão altamente respeitado. Mas isso fazia parte de todas as sombras que haviam existido antes de seu nascimento. E Guccio ficou enternecido.

"É verdade", pensava Guccio. "Ele ainda não tinha nascido: para ele, Filipe, o Belo, está tão longe quanto São Luís!"

E como a pressão do povo retardava-lhes os passos, continuou:

— Sim, eu o vi. Quase cheguei, mesmo, a derrubá-lo no chão, em uma destas ruas, por causa de dois galgos que eu levava a passear numa trela, no dia da minha chegada a Paris, há doze anos.

E o tempo tombou-lhe sobre os ombros, como uma grande e súbita onda que nos submerge e depois se espalha. Uma espuma de dias desfez-se em torno dele. Já era um homem que contava suas recordações!

— Portanto — continuou —, a casa dos Templários tornou-se propriedade do rei Filipe, o Belo, e depois do rei Luís, e depois do rei Filipe, o Longo, que precedeu o rei atual. E o rei Filipe, o Longo, deu o Templo à rainha Clemência, em troca do Castelo de Vincennes, que ela recebera em testamento de seu esposo, o rei Luís 33.

— Padre mio, eu queria um canudo.

Tinha sentido o bom cheiro de favos de mel que escapava de um açafate, e aquilo fazia desaparecer de uma vez todo o seu interesse por aqueles reis que se sucediam depressa demais e trocavam seus castelos. Sabia, aliás, que começar uma frase com "padre mio" era uma maneira segura de obter o que desejava. Mas, dessa vez, a receita foi inútil.

— Não! Comerás na volta, porque agora te sujarias. Lembra-te bem do que te ensinei. Não fales com a rainha a não ser que ela própria te dirija a palavra. Depois, ajoelha-te para beijar-lhe a mão.

— Como na igreja?

— Não. Como na igreja, não. Vem, vou mostrar-te; enfim, vou fazer com que compreendas, pois eu próprio não posso fazê-lo, por causa da minha perna quebrada.

Causavam curiosidade, sem dúvida, aos passantes, aquele estrangeiro de pequena altura, de tez trigueira, e aquele menino louro, que, no vão de uma porta, exercitavam-se na genuflexão.

—...e depois tu deves levantar-te rapidamente. Mas não esbarres na rainha!

 

O palácio do Templo fora muito modificado desde os tempos de messire de Molay. Antes de mais nada, fora dividido. A residência da rainha Clemência só compreendia a grande torre quadrada, com suas quatro guaritas no cimo, e algumas habitações secundárias, construções, cavalariças, em torno do vasto pátio pavimentado, e o jardim atrás. O resto da comendadoria, as habitações dos cavaleiros, as oficinas de armeiros, os telheiros dos companheiros, isolados por paredes altas, tinham sido entregues a outros usos. E o pátio gigantesco, construído para reunir centenas de homens, parecia, presentemente, deserto, como que morto. A liteira de cerimônia, com cortinas brancas, que esperava para conduzir a rainha Clemência à coroação, assemelhava-se a um barco chegado por extravio ou perigo extremo a um porto ao qual não se destinava. E embora alguns escudeiros e criados se postassem em torno da liteira, todo o palácio mostrava um tom de silêncio e abandono.

Guccio e Giannino entraram na torre do Templo pela mesma porta por onde Tiago de Molay, retirado de sua masmorra, saíra doze anos antes, a fim de ser conduzido ao lugar de seu suplício54. As salas tinham sido reformadas, mas, apesar das tapeçarias, dos belos objetos de marfim, de prata e de ouro, aquela residência guerreira de pesadas abóbadas, janelas estreitas, paredes que abafavam os ruídos, não parecia ser residência de mulher, de uma mulher de trinta e dois anos. Tudo ali parecia feito para os homens rudes, com o gládio sob as vestes, que, por um momento, haviam assegurado à cristandade a supremacia total nos limites do antigo Império Romano. Para uma jovem viúva, o Templo parecia uma prisão.

A senhora Clemência não fez esperar muito os seus visitantes. Apareceu, já vestida para a cerimônia a que se dirigia, de vestes brancas, gargantilha de tule sobre a raiz do peito, manto real sobre as espáduas, a coroa de ouro na cabeça. Realmente uma rainha, tal como se vêem pintadas nos vitrais das igrejas. Giannino pensou que as rainhas assim se vestissem todos os dias de sua vida. Bela, loura, magnífica, distante, com o olhar um tanto ausente, Clemência da Hungria oferecia um sorriso apenas de encomenda, o sorriso que uma rainha sem poder, sem reino, tem a obrigação de deixar tombar sobre as pessoas que dela se aproximam.

Morta sem sepultura, enchia seus dias demasiado longos com ocupações inúteis, colecionava peças de ourivesaria, e nisso se resumia todo o interesse que lhe restava, ou que ela fingia lhe restar, pelo mundo.

A entrevista foi de certa forma decepcionante para Guccio, que dela esperava mais emoção, mas não para a criança, que via, à sua frente, uma santa do céu com manto de estrelas.

A senhora de Hungria fazia as mesmas perguntas convencionais que alimentam a conversação dos soberanos quando eles nada têm a dizer. Por mais que Guccio tentasse orientar a palestra para recordações que tinham em comum para Nápoles, para a tempestade, a rainha desviava o assunto. Qualquer lembrança, na realidade, fazia-se penosa para ela: repelia as recordações. E quando Guccio, tentando valorizar Giannino, precisou bem quem ele era: "O irmão de leite de vosso filho, senhora", uma expressão quase dura passou pelo belo rosto de Clemência. Uma rainha não chora em público. Mas era crueldade demasiadamente inconsciente lhe mostrar viva, loura e viçosa, uma criança da idade que poderia ter agora a sua, e que mamara o mesmo leite.

A voz do sangue não falou, apenas a voz da infelicidade. Depois, talvez o dia tivesse sido mal escolhido, quando Clemência ia assistir à coroação da terceira rainha da França depois dela. Por cortesia, ela forçou-se a perguntar:

— Que fará quando crescer esse belo menino?

— Será banqueiro, senhora, pelo menos o espero, como seu pai, como todos os seus antepassados.

Como todos os seus antepassados! A rainha Clemência tinha seu filho diante dela e não o sabia, e não o saberia nunca.

Acreditava que Guccio tivesse vindo reclamar-lhe uma dívida ou pagamento de alguma taça de ouro, de alguma jóia que ela tivesse comprado ao tio dele. Estava tão habituada às reclamações dos fornecedores! Ficou surpresa quando compreendeu que o jovem se havia dado àquele trabalho apenas para vê-la. Existiam ainda, então, pessoas que a vinham saudar sem nada pedir, nem pagamento nem serviço?

Guccio disse ao menino que mostrasse à senhora, a rainha, o relicário que trazia ao pescoço. A rainha não mais se recordava daquilo, e Guccio teve de lembrar-lhe o hospital de Marselha, onde ela lhe levara aquele presente. A rainha pensou: "Este jovem me amou!"

Consolação ilusória das mulheres cujo destino amoroso cessou muito cedo e que só prestam atenção aos sinais de sentimentos que puderam inspirar outrora, mesmo que esses sentimentos tivessem sido de tal forma reprimidos, que nem mesmo aqueles que os experimentavam se houvessem dado conta deles!

Inclinou-se para beijar o menino. Giannino, porém, tornou a ajoelhar-se, e beijou-lhe a mão.

A rainha procurou em torno de si, num movimento quase maquinal, um presente para ele, e viu uma caixa de prata dourada. Apanhou-a e deu-a ao menino, dizendo:

— Gostas de confeitos com certeza. Toma esta caixa, e que Deus te guarde!

Era tempo de se dirigir para a cerimônia. Subiu para a liteira, mandou fechar as cortinas brancas, e então sentiu uma indisposição que lhe vinha de todo o corpo, do peito, das pernas, do ventre, de toda aquela beleza inútil: por fim, podia chorar.

Na Rue du Temple, a multidão numerosa seguia na mesma direção, para o Sena, para a Cite, a fim de apanhar alguns pormenores da coroação, sem que talvez chegasse a conseguir mais do que ver a si própria.

Guccio, tomando Giannino pela mão, pôs-se a seguir a liteira branca, como se fizesse parte da escolta da rainha. Assim, puderam atravessar o Pont-au-Change, penetrar no pátio do palácio, onde pararam para ver passar os grandes fidalgos que entravam na Sainte-Chapelle, em trajes de gala. A maioria deles ia sendo reconhecida por Guccio, que podia designá-los ao menino: a condessa Mafalda d'Artois, mais alta por causa de sua coroa, o conde Roberto, seu sobrinho, ainda mais alto do que ela, monseigneur Filipe de Valois, agora par da França, levando a seu lado a esposa, que claudicava, e depois a senhora Joana de Borgonha, a outra rainha viúva. Mas quem era o outro casal tão jovem, dezoito e quinze anos, talvez, que vinha a seguir? Guccio interrogou seus vizinhos. Responderam-lhe que se tratava da senhora Joana de Navarra e de seu marido Filipe d'Evreux. Sim! É preciso que as pessoas se habituem a esse golpe que a vida lhes dá. A filha de Margarida de Borgonha tinha agora quinze anos, e se casara, depois de todos os dramas dinásticos que se haviam desenrolado em torno de sua suposta bastardia.

A aglomeração era tal que Guccio se viu forçado a erguer Giannino sobre seus ombros, e pesava bastante, o diabinho!

Ah! Eis que se adiantava a rainha Isabel da Inglaterra, que para tanto voltara de Ponthieu. Guccio achou-a espantosamente pouco modificada, depois daquela ocasião em que a vira em Westminster, onde lhe entregou uma mensagem do conde Roberto. Parecia-lhe, entretanto, em suas recordações, que ela era mais alta... Naquela mesma fileira vinha seu filho, o jovem Eduardo de Aquitânia. E todas as cabeças se esticaram, porque a cauda do manto real do jovenzinho era levada por lorde Mortimer, como se se tratasse do grande camareiro ou do tutor do príncipe. A audácia era grande: só mesmo a senhora Isabel lançaria tais desafios diante dos pares, dos bispos, diante dos que tinham recebido as cartas de seu marido enganado. Lorde Mortimer apresentava um rosto vitorioso, menos, todavia, do que o rei Carlos o Belo, que ninguém jamais vira de fisionomia mais resplandecente, porque a rainha da França, segundo se cochichava, estava, enfim, grávida de dois meses! E soa coroação oficial constituía um agradecimento.

Giannino, de repente, curvou-se para o ouvido de Guccio:

— Padre, padre mio — disse ele —, olha aquele fidalgo gordo que me beijou no outro dia, que visitamos em seu jardim. Ele está lá, e olha para mim!

Pobre Bouville! Comprimido pela aglomeração dos dignitários, que pensamentos perturbadores e confusos lhe rolavam pela mente, vendo o verdadeiro rei da França, que toda gente acreditava estar num jazigo de Saint-Denis, empoleirado no ombro de um negociante lombardo, enquanto era coroada a esposa de seu segundo sucessor!

Nessa mesma tarde, pela estrada de Dijon, a mais agradável e segura para se ir à Itália, dois sargentos de armas do referido conde de Bouville escoltavam o viajante sienense acompanhado do menino louro. Guccio Baglioni pensava raptar seu filho; raptava, realmente, o dono real e legítimo do trono. E esse segredo só era conhecido de um velho augusto, num aposento de Avignon, cheio de gritos de pássaros, um antigo camareiro em seu jardim do Pré-aux-Clercs, e uma jovem, para sempre desesperada, num prado da Ile-de-France. A rainha viúva que morava no Templo continuaria a mandar rezar missas por uma criança morta.

 

O Conselho de Chaâlis

O temporal limpou o céu de fim de junho. Nos apartamentos reais da Abadia de Chaâlis, o estabelecimento cisterciense que é uma fundação capetiana e onde as entranhas de Carlos de Valois tinham sido depositadas meses antes35, os círios consomem-se, lançando fumaça, e mesclam seu odor de cera ao do ar carregado de perfumes da terra depois da chuva e ao cheiro de incenso que flutua em todas as moradias religiosas. Os insetos que escaparam ao temporal entraram pelas ogivas das janelas e dançam em torno das chamas.

É uma noite triste. Os rostos mostram-se pensativos, melancólicos, entediados, naquela sala abobadada, cujas paredes de pedra nua estão cobertas com tapeçarias já antigas, recamadas de flores-de-lis, no modelo executado em série para as residências reais. Uma dezena de pessoas estão ali reunidas em torno do rei Carlos IV: o conde Roberto d'Artois, o conde Filipe de Valois, o bispo de Beauvais, João de Marigny, par do reino, o chanceler João de Cherchemont, o conde Luís de Bourbon, o Coxo, grande camareiro, o condestável Gaucher de Châtillon. Este último perdeu seu filho primogênito no ano anterior, e isso, conforme se comentou, envelheceu-o subitamente. Parece, verdadeiramente, ter setenta e seis anos: está cada vez mais surdo, e culpa as bocas de pólvora disparadas junto de seus ouvidos no cerco de La Réole.

Algumas mulheres foram admitidas, porque, na realidade, é de um assunto de família que se deve tratar naquela noite. Lá estão as três Joanas, que são as primeiras do reino: a senhora Joana d'Evreux, a rainha, a senhora Joana de Valois, esposa de Roberto — que chamam de condessa Beautoont, segundo o título oficial de seu marido, enquanto aquele pela força do hábito, continua a ser chamado monseigneur d'Artois —, e ainda outra Joana, a de Borgonha, a má, avara neta de São Luís, a que é coxa como o primo Bourbon e esposa de Filipe de Valois.

Depois Mafalda, Mafalda de cabelos grisalhos e de traje preto e violeta, com seus largos ombros, amplas ancas, grande busto e braços colossais! A idade costuma reduzir o tamanho das pessoas, mas isso não acontecera com Mafalda. Naqueles últimos meses ela se tornara uma velha gigantesca, o que é ainda mais impressionante do que uma giganta jovem. Era a primeira vez, desde muito tempo, que a condessa d'Artois aparecia na corte sem usar a coroa na cabeça numa cerimônia a que a obrigava sua categoria de par do reino, e a primeira vez, depois da morte de seu genro Filipe, o Longo, que a viam de novo num conselho.

Ela chegara a Chaâlis vestida de luto, parecendo uma essa em marcha, envolvida em panos como uma igreja na Semana Santa. Sua filha Branca morrera dias antes na Abadia de Maubuisson, onde fora enfim admitida, depois de a terem primeiro transferido para o Château-Gaillard, numa residência menos cruel, junto de Coutances, que Mafalda obtivera para ela em troca da anulação. Mas Branca pouco aproveitara daquele melhoramento em sua sorte. Morrera alguns meses depois de ter entrado para o convento, esgotada pelos longos anos de prisão, pelas terríveis noites de inverno na fortaleza dos Andelys, morrera de magreza, de tosse, de infelicidade, e quase demente, sob um véu de religiosa, aos trinta anos de idade. Tudo isso por um ano de amor, se ao menos se pudesse chamar amor à sua aventura com Gautier d'Aunay; tudo isso por se ter deixado levar à imitação dos prazeres de sua cunhada Margarida de Borgonha, aos dezoito anos de idade, uma idade em que não se sabe o que se faz!

Aquela que poderia ser agora a rainha da França, a única mulher que Carlos, o Belo, verdadeiramente amara, extinguira-se quando alcançava relativa paz. E o rei Carlos, o Belo, em quem aquela morte erguera pesadas vagas de lembranças, mostra-se triste diante de sua terceira esposa, que sabe muito bem em que está ele pensando, mas finge não perceber.

Mafalda não perdeu a ocasião que lhe oferecia aquele luto. Veio espontaneamente, sem se fazer anunciar, como trazida apenas por um impulso do coração, oferecer, ela, a mãe tão provada, as condolências ao antigo e infeliz marido. Caíram nos braços um do outro. Mafalda, com seu lábio coberto de espesso buço, beijou as faces de seu ex-genro. Carlos, num movimento infantil, deixou tombar a cabeça sobre o ombro monumental e derramou algumas lágrimas entre os planejamentos do carro funerário com que a giganta se vestia. Assim se modificam as relações entre os seres humanos quando a morte passa através deles e suprime as razões do ressentimento.

Ela sabe bem o que faz, a senhora Mafalda, ao precipitar-se para Chaâlis. E seu sobrinho Roberto morde o freio. Ele lhe sorri, ambos se sorriem, chamam-se "minha boa tia", "meu belo sobrinho", e dão testemunho de bom amor de parentes, tal como se haviam comprometido pelo tratado de 1318. Odeiam-se. Matar-se-iam se se encontrassem a sós num mesmo aposento. Mafalda na verdade viera... ela não o diz, mas Roberto bem o adivinha!... por causa de uma carta que recebera. Todas as pessoas presentes, aliás, tinham recebido a mesma carta, com pequenas variantes: Filipe de Valois, João de Marigny, o condestável, e o rei, sobretudo o rei.

Vêem-se através da janela as estrelas que ponteiam a noite clara. São dez, onze personagens das mais importantes, sentadas em círculo sob as abóbadas, entre as colunas de capitéis esculpidos, e são muito poucas. Não dão nem a si próprias uma verdadeira impressão de força.

O rei, de caráter fraco e inteligência limitada, está, além disso, sem família direta, sem servidores pessoais. Quem são os príncipes e dignitários que em torno dele se reúnem essa noite? Primos, ou então conselheiros herdados de seu pai e de seu tio. Nenhum que lhe pertença verdadeiramente, que tenha sido criado por ele, ligado a ele. Seu pai tivera três filhos e dois irmãos, em seu conselho, e mesmo nos dias de desentendimentos, mesmo nos dias em que o falecido monseigneur de Valois brincava de furacão, era um furacão familiar. Luís, o Turbulento, tivera no conselho dois irmãos e dois tios; Filipe, o Longo, os mesmos tios, que o apoiavam de maneira diferente, e ainda um irmão, o próprio Carlos. Mas esse quase nada possuía. Seu conselho faz pensar, irresistivelmente, em fim de dinastia: a única esperança da continuação da linhagem, numa evolução direta, dorme no ventre daquela mulher silenciosa, nem bonita nem feia, que está, de mãos cruzadas, junto de Carlos, e que sabe que é apenas uma rainha sobressalente.

A carta, a famosa carta de que se ocupam, está datada de Westminster, 19 de junho: o chanceler a tem na mão, e a cera verde do sinete, quebrada, espalha-se pelo pergaminho.

— O que produziu tão grande cólera no coração do rei Eduardo parece ter sido o fato de monseigneur Mortimer ter carregado a cauda do manto do duque da Aquitânia, quando da coroação da rainha. Nosso sire Eduardo não pode encarar senão como ofensa pessoal o fato de seu inimigo pessoal ter sido colocado junto de seu filho, com encargo de tamanha dignidade.

É monseigneur João de Marigny quem acaba de falar, com voz suave, bem timbrada, melodiosa, acompanhando, às vezes, as palavras com um gesto de seus belos dedos, onde brilha a ametista episcopal. Suas três vestes superpostas são de tecido leve, tal como pedia a estação, e a de cima, mais curta, tomba em pregas harmoniosas. O tecido está impregnado do perfume com que monseigneur de Marigny gosta de ungir-se ao sair do banho e da estufa: é raro que um bispo cheire tão bem. O rosto parece sem fraqueza, barrado pelas sobrancelhas horizontais de um lado e de outro do nariz reto. Se o escultor respeitasse seus traços, monseigneur de Marigny teria uma bela estátua jacente para seu túmulo... mas isso não seria para já, pois ele ainda é jovem. Soubera aproveitar bem a fortuna de seu irmão, quando este era coadjutor do Rei de Ferro, e soubera trair esse mesmo irmão no momento oportuno. E sempre atravessara facilmente as vicissitudes que haviam surgido com as modificações do reinado, indo de uma catedral para outra, chegando aos quarenta anos como par eclesiástico, no conselho do rei.

— Cherchemont — diz o rei Carlos a seu chanceler —, torna a fazer-me a leitura daquele trecho em que nosso irmão Eduardo se queixa de monseigneur de Mortimer.

João de Cherchemont desdobra o pergaminho, aproxima-o de uma vela, murmura um pouco antes de encontrar as linhas em causa, e lê:

— "... A ligação de nossa esposa e de nosso filho com nossos traidores e inimigos mortais é notoriamente conhecida, pois que o dito traidor, Mortimer, levou em Paris o manto de nosso filho, publicamente, na solenidade da coroação de nossa mui cara irmã, vossa companheira, a rainha da França, no Pentecostes último passado, com grande vergonha e indignação para nós".

O bispo Marigny debruça-se por sobre o condestável Gaucher e murmura-lhe:

— Eis uma carta bem mal escrita. E o latim dele ainda é pior!

O condestável não entende e contenta-se em resmungar:

— Um anormal, um sodomita!

— Cherchemont — continua o rei —, que direito temos de nos opor à solicitação de nosso irmão da Inglaterra, quando ele nos ordena suprimir a estada de sua esposa entre nós?

Essa maneira, da parte de Carlos, o Belo, de se dirigir a seu chanceler, e não se voltar, como faz habitualmente, para Roberto d'Artois, ao mesmo tempo seu primeiro conselheiro e seu tio por aliança, prova bem que pela primeira vez o rei revela vontade própria.

Antes de responder, pois que não tem absolutamente certeza das intenções do rei, e teme, de outro lado, ferir monseigneur d'Artois, tão poderoso, João de Cherchemont se refugia no fim da carta, como se, antes de dar uma opinião, tivesse de meditar um pouco mais sobre as últimas linhas.

— "... Eis por que, mui caro irmão" — lê o chanceler —, nós vos pedimos, mais uma vez, tão cordial e afetuosamente quanto podemos, que esta coisa que desejamos soberanamente seja atendida, e benigna e rapidamente levada a efeito, para proveito e honra entre nós, e para que não sejamos desonrados..."

João de Marigny sacode a cabeça e suspira. Sofre por ouvir linguagem tão rugosa, tão canhestra! Mas, afinal, apesar de mal escrita, aquela carta diz claramente as coisas.

A condessa Mafalda d'Artois cala-se: evita mostrar-se triunfante cedo demais, e seus olhos cinzentos brilham à luz das velas. Sua delação do último outono e suas maquinações com o bispo de Exeter mostram agora, no início do verão, os frutos maduros, bons para serem colhidos.

— É certo, sire — decide-se, finalmente, a dizer o chanceler, já que ninguém lhe viera em socorro tirando-lhe a oportunidade de falar —, é certo, sire, que segundo as leis das Igrejas e dos reinos, é preciso de qualquer forma pacificar o rei Eduardo. Ele reclama sua esposa...

É um eclesiástico, João de Cherchemont, tal como exige a sua função, e volta-se para o bispo Marigny, procurando com os olhos o seu apoio.

— Nosso Santo Padre, o papa, nos enviou, ele próprio, pelo bispo Thibaud de Châtillon, uma mensagem nesse sentido — diz Carlos, o Belo.

Porque Eduardo chegara até a dirigir-se ao papa João XXII, enviando-lhe cópias de toda a correspondência onde exibia seu infortúnio conjugai. Que podia fazer o papa João senão responder que uma esposa deve viver junto de seu esposo?

— É preciso, então, que a senhora minha irmã volte para o país que é seu pelo casamento — ajunta Carlos o Belo.

Diz isso sem olhar para ninguém, com os olhos baixados para os sapatos bordados que usava. Um candelabro que domina sua cadeira ilumina-lhe a fronte, onde se percebe, de súbito, algo da expressão obstinada de seu irmão, o Turbulento.

— Sire Carlos — declara Roberto d'Artois —, obrigar a senhora Isabel a voltar para a Inglaterra é o mesmo que entregá-la de punhos amarrados aos Despenser! Não veio ela procurar refúgio junto de vós, porque temia ser assassinada? Agora, o que acontecerá?

— Sem dúvida, sire meu primo, não podeis... — diz o grande Filipe de Valois, sempre pronto a adotar o ponto de vista de Roberto.

Mas sua esposa, Joana de Borgonha, puxa-o pela manga, e ele se cala instantaneamente. Se não fosse noite, poderia ver-se bem que ele havia enrubescido.

Roberto d'Artois vê o gesto, o brusco mutismo de Filipe e o olhar que trocam Mafalda e a jovem condessa de Valois. Se lhe fosse possível, torceria o pescoço daquela coxa!

— Minha irmã talvez tenha exagerado o perigo — diz o rei. — Esses Despenser não parecem gente assim tão perversa como no retrato que deles faz a senhora Isabel. Recebi deles muitas cartas bastante amáveis, e que mostram quanto desejam a minha amizade...

—...e também presentes, pelos trabalhos de ourivesaria — exclama Roberto, levantando-se e fazendo vacilar todas as chamas de velas e as sombras dividirem-se sobre os rostos. — Sire Carlos, meu primo amado, mudastes de opinião a respeito dessas pessoas que vos guerrearam e são unha e carne com vosso cunhado por três molheiras de prata dourada que faltavam em vosso aparador? Todos nós recebemos presentes deles. Não é verdade, monseigneur de Beauvais? E vós, Cherchemont, e tu, Filipe? Um corretor de câmbio, e posso dar-vos o nome, chama-se mestre Arnoldo, recebeu no outro mês cinco tonéis de prata, no montante de cinco mil marcos esterlinos, com a instrução de empregá-los em fazer amigos para o conde de Gloucester no conselho do rei da França. Esses presentes nada custam aos Despenser, pois são facilmente pagos com as rendas do condado da Cornualha, que tomaram de vossa irmã. Eis, sire, o que deveis saber e recordar. E que lealdade podeis conceder a homens que se disfarçam de mulheres para servir aos vícios de seu senhor? Não esqueçais quem são eles, e onde está o assento de seu poder.

Roberto não pode resistir à tentação da malícia, e insiste:

—...Assento: eis exatamente a palavra apropriada! Mas seu riso não tem eco, senão na pessoa do condestável. O condestável, outrora, não gostava de Roberto d’Artois, e disso dera muitas provas, ajudando Filipe, o Longo, no tempo em que aquele era regente, a se desfazer do gigante, metendo-o na prisão. Mas, desde um certo tempo atrás, o velho Gaucher encontrava qualidades em Roberto, por causa da sua voz, a única que ele compreende sem esforço...

São poucos os partidários da rainha Isabel essa noite! 0 chanceler é indiferente, ou antes, está preocupado em conservar seu posto, que depende do favor: sua opinião engrossará a corrente mais forte. Indiferente também está a rainha Joana, que pouco pensa: deseja, sobretudo, não sofrer emoções que possam prejudicar sua gravidez. É sobrinha de Roberto d'Artois e não deixa de ser sensível à autoridade dele, à sua altura, ao seu aprumo. Preocupa-se, porém, em mostrar que é boa esposa, e pronta a condenar, por princípio, as esposas que são objeto de escândalo.

O condestável seria antes favorável a Isabel. De início porque detesta Eduardo da Inglaterra pelos seus costumes, pela má administração de seu reino, pelas suas recusas a prestar a homenagem. De forma geral, não gosta do que é inglês, mas deve reconhecer que Rogério Mortimer prestou-lhes bons serviços. Seria covardia abandoná-lo agora. Não faz cerimônia para dizer tal coisa, o velho Gaucher, e para declarar, igualmente, que Isabel tem muitas desculpas!

— Ela é mulher, que diabo, e seu marido não é homem! Ele é o primeiro culpado!

Monseigneur de Marigny, levantando um pouco a voz, responde-lhe que o procedimento da rainha Isabel é perdoável e que ele próprio estaria disposto a dar-lhe a absolvição, mas o erro, o grande erro da senhora Isabel fora ter tornado público o seu pecado. Uma rainha não se deve oferecer como exemplo de adultério.

— Ah! É verdade, é justo — diz Gaucher. — Elesnão tinham necessidade de andar de mãos dadas em todas as cerimônias, e de dormir na mesma cama, como se diz que fazem.

Naquele ponto ele dava razão ao bispo. O condestável e o prelado são, portanto, do partido da rainha Isabel, mas têm restrições muito fortes a seu comportamento. E aí cessam as preocupações do condestável sobre aquele assunto. Pensa no colégio de língua romana que fundou junto de seu castelo de Châtillon-sur-Seine, e onde estaria no momento se não o tivessem retido para aquele caso. Irá consolar-se disso logo mais, ouvindo os monges cantarem o ofício da noite, prazer que pode parecer estranho para um homem que está ficando surdo. Mas eis que Gaucher ouve melhor entre o ruído. Depois, aquele militar tem gosto pelas artes: acontecem dessas coisas.

A condessa de Beaumont, uma bela jovem que sorri sempre com a boca e jamais com os olhos, diverte-se infinitamente. Como irá sair-se daquele caso, no ponto em que está, o gigante que lhe deram como marido e que lhe fornece um espetáculo perpétuo? Ganhar, sabe que ele ganhará, pois Roberto ganha sempre. E ela o ajudará a ganhar, se puder, mas não através de palavras públicas.

Filipe de Valois, seu meio irmão, é inteiramente favorável à senhora da Inglaterra, mas vai traí-la, porque sua mulher, que odeia Isabel, deu-lhe a lição antes do conselho, e naquela noite se recusará a ele, depois de gritos e tempestades, se ele não fizer o que ela lhe recomendou. E o rapagão narigudo perturba-se, hesita, tartamudeia.

Luís de Bourbon está sem coragem. Não o mandam mais às batalhas, porque ele foge. Não tem qualquer vínculo afetivo com a rainha Isabel.

O rei é fraco, mas capaz de obstinação, como daquela vez, de que todos se recordam, em que recusou durante um mês a Carlos de Valois sua comissão de lugar-tenente real na Aquitânia. Está predisposto em relação à sua irmã porque as ridículas cartas de Eduardo, à força de se repetirem, acabaram por influenciá-lo. Depois, sobretudo, porque Branca morreu, e ele torna a pensar na Isabel de doze anos atrás, implacável. Se não fosse ela, Carlos jamais teria sabido de alguma coisa, e, mesmo que tivesse sabido, teria perdoado Branca para conservá-la. De que haviam valido tanto horror, tanta infâmia revolvida, tantos dias de sofrimento, se tudo devia terminar naquela morte? As traições de amor são suportadas pelos homens fracos por tanto tempo quanto os demais não sejam informados delas.

O clã dos inimigos de Isabel só compreende duas pessoas: Joana, a Coxa, e Mafalda d'Artois, entretanto solidamente ligadas por um ódio comum.

Tanto que, apesar de ser o homem mais poderoso depois do rei, e mesmo, sob vários aspectos, mais importante do que o soberano, Roberto d'Artois, cuja opinião prevalece sempre, que decide todas as coisas da administração, que dita ordens aos governadores, bailios e senescais, Roberto está subitamente sozinho, para sustentar a causa de sua prima.

Assim acontece com a influência nas cortes; é uma estranha e flutuante soma de estados de alma, onde as situações se transformam insensivelmente com a marcha dos acontecimentos e os interesses em jogo. E os favores trazem em si próprios o germe dos desvalimentos. Não que qualquer desvalimento ameace Roberto: mas Isabel está verdadeiramente ameaçada. Ela, que alguns meses antes era lamentada, protegida, admirada, ela, a quem davam razão em tudo, e cujo amor era aplaudido como bela vingança, eis que não tem mais, no conselho do rei, um só partidário de sua resistência em Paris. Ora, impor-lhe que volte para a Inglaterra significa colocar-lhe o pescoço sobre o cepo da Torre de Londres, e isso todos o sabem muito bem. Subitamente porém, deixam de gostar dela, que triunfou demais. Ninguém mais se acha disposto a comprometer-se pela rainha da Inglaterra, a não ser Roberto, porque, para ele, esta é uma forma de lutar contra Mafalda.

Ora, eis que esta abre também as asas e lança o ataque de há muito premeditado.

— Sire, meu caro filho, sei o amor que tendes por vossa irmã, amor que vos honra — diz ela. — Mas é preciso olhar bem de frente o fato de que Isabel é uma mulher má, e nos faz sofrer a todos. Vede o exemplo que ela dá a vossa corte, desde que aqui está, e pensai que foi essa mesma mulher que fez outrora tombar mentiras sobre minhas filhas e sobre a irmã de Joana, aqui presente. Quando eu dizia então, a vosso pai, Deus lhe guarde a alma!, que ele se deixava iludir por sua filha, não tinha razão! Ela nos manchou a todos por prazer, pelos maus pensamentos que via no coração dos outros, e que só existiam no dela, coisa de que temos agora prova suficiente! Branca, que era pura, e que vos amou até seus últimos dias, como o sabeis, Branca acaba de morrer esta semana! Era inocente, minhas filhas eram inocentes!

O grande dedo de Mafalda, um indicador duro como um bastão, toma o céu como testemunha. E, para satisfazer sua aliada do momento, acrescenta, voltando-se para Joana, a Coxa:

— Tua irmã era com certeza inocente, minha pobre Joana, e todos sofremos a desgraça por causa das calúnias de Isabel, e meu peito materno sangrou.

Se ela continuasse daquela maneira, acabaria por fazer chorar os presentes. Mas Roberto atira-lhe:

— Inocente, a vossa Branca? Quero acreditar nisso, minha tia, mas não foi o Espírito Santo, com certeza, que a engravidou na prisão!

Carlos, o Belo, fez uma careta nervosa. O primo Roberto, realmente, não tinha necessidade de recordar tal coisa.

— Mas foi o desespero que incitou minha filhinha!

— exclama Mafalda, arrebatada. — Que tinha ela a perder, aquela pomba maculada pela calúnia, metida numa fortaleza e meio louca? Com semelhante tratamento, gostaria de saber quem poderia resistir.

— Estive na prisão, também, na ocasião em que, para vos ser agradável, vosso genro Filipe ali me colocou. Não engravidei, por causa disso, as filhas do carcereiro, nem, por desespero, me servi do chaveiro como esposa, pois que parece que tal coisa se pode fazer na nossa família!

Ah! O condestável começa a interessar-se pelo debate.

— E quem, aliás, vos diz, meu sobrinho, a vós que tomais tamanho prazer na desmoralização da memória de uma morta, quem vos diz que ela não foi forçada, a minha Branca? Estrangularam sua prima na mesma prisão — responde ela, olhando para Roberto dentro dos olhos —, podem bem ter violado a outra! Não, sire meu filho — continua ela, voltando-se para o rei —, pois que me chamastes para o vosso conselho...

— Ninguém vos chamou — interrompe-a Roberto.

— Viestes espontaneamente.

Mas ninguém corta assim a palavra da velha giganta.

—...então é esse o conselho que vos dou, e com o coração da mãe que nunca deixei de ser para vós, apesar de tudo o que poderia ter me afastado. Eu vos digo, sire Carlos: expulsai vossa irmã da França, pois a cada vez que ela para cá vem a coroa sofre alguma desgraça! No ano em que fostes armado cavaleiro, com vossos irmãos e meu sobrinho Roberto, o fogo apanhou Maubuisson e quase nos torrou a todos! No ano seguinte, foi para nos trazer aquele escândalo que nos cobriu a todos de infâmia, e que uma boa filha de rei, uma boa irmã de seus irmãos, mesmo se houvesse a menor sombra de verdade nele, deveria calar, em lugar de gritá-lo aos quatro cantos, com a ajuda de quem eu sei! E ainda no tempo de vosso irmão Filipe, quando ela veio a Amiens para que Eduardo prestasse a homenagem, que aconteceu? Os pastorzinhos devastaram o reino. E agora, tremo desde que ela voltou! Porque vós esperais um filho, que se deseja varão, já que deveis dar um rei à França. Pois bem, eu vos digo, sire meu filho: afastai a portadora do mal de junto do ventre de vossa esposa!

Ah! Ela tinha ajustado bem o quadro de sua palestra. Mas Roberto já retrucava:

— E quando nosso primo, o Turbulento, morreu, mui boa tia, onde estava, pois, Isabel? Não na França, que eu saiba. E quando o filho dele, o pequeno João Póstumo, extinguiu-se inesperadamente em vossos braços, que o carregavam, onde estava Isabel, mui boa tia? Teria estado no quarto de Luís? Estava entre os barões reunidos? Ah! Minha memória falha, eu não a revejo ali. A menos que essas duas mortes de reis não devam, no vosso pensamento, ser contadas entre as desgraças do reino.

A tratante digladia-se com um tratante maior. Se duas palavras ainda viessem a ser trocadas, eles se acusariam claramente de assassínio!

O condestável conhece a família há uns bons sessenta anos. Aperta os olhos de tartaruga e diz:

— Não nos extraviemos, e voltemos, messeigneurs, ao assunto que exige nossa decisão.

E alguma coisa passa pela sua voz, e faz lembrar, não se sabe por quê, o tom dos conselhos do Rei de Ferro. Carlos, o Belo, afaga a própria testa lisa e diz:

— Se, para satisfazer Eduardo, ordenássemos a messire Mortimer que saísse do reino?

Joana, a Coxa, toma a palavra. Tem a voz clara, não muito alta, mas, depois dos grandes mugidos que soltaram os dois touros d'Artois, ouvem-na:

— Seria trabalho e tempo perdidos — declara ela. — Pensais que vossa prima se separaria do homem que é agora seu senhor? Ela lhe é excessivamente devotada de corpo e alma, e só respira através dele. Ou recusará que ele parta, ou partirá com ele.

Pois Joana, a Coxa, detesta a rainha da Inglaterra não somente pela lembrança de Margarida, sua irmã, mas ainda por aquele amor demasiado belo que Isabel mostra à França. Entretanto, Joana de Borgonha não tem de que se queixar: seu grande Filipe ama-a de verdade, e de todas as maneiras, embora ela não tenha as duas pernas do mesmo comprimento. Mas a neta de São Luís gostaria de sentir-se a única, no universo, a ser amada. Odeia os amores dos outros.

— É necessário tomar uma decisão — repete o condestável.

Diz isso porque a hora vai avançada, e porque nessa reunião as mulheres falam demais, na verdade.

O rei Carlos aprova com um movimento de cabeça e declara:

— Amanhã pela manhã minha irmã será levada ao porto de Bolonha, onde deve embarcar, e assim ser restituída sob escolta a seu legítimo esposo. Quero-o desta maneira.

Ele dissera "quero", e os presentes entreolharam-se, pois essa palavra bem raramente saía da boca de Carlos, o fraco.

— Cherchemont — acrescenta ele —, preparai a comissão de escolta que selarei com meu pequeno sinete.

Nada pode ser acrescentado. Carlos, o Belo, está obstinado, é o rei, e às vezes recorda-se disso. Justamente, coisa curiosa, quando se recorda também de sua primeira esposa, que o tratou tão mal, e que ele tanto amou.

Somente a condessa Mafalda permite-se dizer:

— Foi sensatamente resolvido, sire meu filho. Depois, formulando grandes desejos de boa noite e com o sentimento de terem participado de ato perverso, todos se separam. Afastando as cadeiras, cada qual se levanta para cumprimentar o rei e a rainha, que se retiram em primeiro lugar.

A condessa de Beaumont está decepcionada. Acreditara que Roberto, seu esposo, levaria a melhor. Olha para o homem, e ele lhe faz sinal para se dirigir ao quarto em que se alojam. Ainda tem uma palavra a dizer a monseigneur de Marigny.

O condestável, com passo pesado, Joana de Borgonha coxeando, e o mesmo fazendo Luís de Clermont... como caminha de banda, a descendência de São Luís!... deixam a sala. O grande Filipe segue sua mulher com o ar de um cão que tivesse malogrado na captura da caça.

Roberto d'Artois fala por um instante ao ouvido de Beauvais, que esfrega suavemente uma das suas belas mãos contra a outra. Um momento mais tarde, pelo claustro da hospedaria, Roberto vai ter aos aposentos que ocupa. Uma sombra está sentada entre duas colunas, uma mulher que contempla a noite.

— Bons sonhos para vós, monseigneur d'Artois.

Aquela voz, a um tempo irônica e arrastada, pertence à dama de cerimônia da condessa Mafalda, Beatriz d'Hirson, que ali está, aparentemente meditativa, esperando... o quê? A passagem de Roberto, e ele sabe disso muito bem. A moça levanta-se, espreguiça-se, recorta sua silhueta na ogiva, dá um passo, dois passos, com um movimento de balanço, e seu vestido roça as pedras.

— Que fazeis aí, bela loureira? — responde Roberto. Ela nada lhe diz diretamente, mas aponta com o perfil as estrelas e diz:

— Numa noite bela como esta é uma pena a gente ir deitar-se sozinha. O sono demora a chegar, nesta linda estação...

Roberto d'Artois aproxima-se até encostar-se na mulher, interroga do alto seus olhos rasgados, que o desafiam e brilham na penumbra, pousa a mão gigantesca na anca da senhorita... depois retira-a num ímpeto, sacudindo os dedos, como se se tivesse queimado.

— Olá, bela Beatriz! — exclama ele, rindo — ide depressa refrescar as nádegas no tanque, senão pegareis fogo!

Tal brutalidade de gesto, tal grosseria de palavras, causam frêmitos na senhorita Beatriz. Há muito que ela espera a ocasião de conquistar o gigante: nesse dia, monseigneur Roberto ficará à mercê da condessa Mafalda, e ela, Beatriz, conhecerá um desejo enfim satisfeito. Mas ainda não seria naquela noite.

Roberto tem algo mais importante a fazer. Chega ao seu apartamento, entra no quarto da condessa, sua mulher. Ela está sentada na cama. Está nua: dorme assim durante todo o verão. Roberto, com a mesma mão que acaba de pousar nas ancas de Beatriz, acaricia maquinalmente um seio que lhe pertence pelo casamento, num cumprimento de boa-noite apenas. A condessa de Beaumont nada sente com aquela carícia, mas diverte-se: diverte-se sempre que vê aparecer seu gigantesco marido, imaginando o que ele pode ter em mente. Roberto d'Artois deixou-se cair numa cadeira, estendeu as pernas imensas, levantando-as de vez em quando, e deixando-as retombar, com os calcanhares juntos.

— Não vos deitais, Roberto?

— Não, minha amiga, não. Vou mesmo deixar-vos para correr até Paris agora mesmo, quando os monges tiverem acabado de cantar na sua igreja.

A condessa sorri.

— Meu amigo, não achais que minha irmã de Hainaut poderia receber Isabel por algum tempo, permitindo-lhe reunir suas forças?

— Eu estava pensando nisso, minha bela condessa, eu estava pensando justamente nisso.

Vamos! A senhora de Beaumont tranqüilizou-se: seu marido ganhará.

 

Não foi tanto o desejo de prestar serviço a Isabel, quanto o ódio a Mafalda, o que pôs Roberto d'Artois a cavalo nessa noite. A velhaca desejava opor-se a ele, prejudicar os que ele protegia e recuperar sua influência sobre o rei? Haviam de ver quem diria a última palavra.

Foi sacudir seu criado Lormet.

— Manda selar três cavalos. E chama meu escudeiro, um sargento...

— E eu? — perguntou Lormet.

— Não, tu, não. Podes voltar a dormir.

Era gentileza da parte de Roberto. Os anos já pesavam sobre o velho companheiro de suas patifarias, a um tempo guarda-costas, estrangulador e ama-seca. Lormet começava a sentir-se cansado, e não suportava bem a neblina da manhã. Resmungou. Pois se iam passar sem ele, para que o tinham acordado? Teria resmungado mais ainda, entretanto, se tivesse sido obrigado a seguir o patrão.

Os cavalos foram selados rapidamente: o escudeiro bocejava e o sargento acabava de se aparelhar.

— Para a sela — comandou Roberto. — Isto vai ser um passeio.

Bem sentado ao amparo da contraborraina da sela, Roberto manteve o animal a passo para sair da abadia pela granja e pelas oficinas. Depois, mal alcançou o mar de areia que se estendia, claro, insólito e nacarado dentro da noite, entre as bétulas brancas, verdadeira paisagem para uma concentração de fadas, começou a galopar. Dammartin, Mitry, Aulnay, Saint-Ouen: um passeio de quatro horas, com alguns momentos de caminhada mais lenta, para respirar, e apenas uma parada num albergue, aberto durante a noite, e que servia bebidas aos hortelãos de passagem em suas carroças.

O dia ainda não despontava quando chegaram ao Palácio da Cite. A guarda deu passagem ao primeiro conselheiro do rei. Roberto subiu diretamente para os apartamentos da rainha, saltando os servidores adormecidos pelos corredores, atravessou o quarto das mulheres, que cacarejaram assustadas, exclamando: "Senhora! Senhora!" Mas o gigante já tinha passado.

Rogério Mortimer estava na cama com a rainha. Um í velador ardia a um canto do aposento.

"Então, foi para isso, para que eles possam dormir nos braços um do outro, que galopei toda a noite a ponto de rebentar as nádegas!", pensou Roberto.

Passado o primeiro momento de surpresa, acesas as velas, todo o constrangimento foi esquecido em conseqüência da urgência.

Rapidamente, Roberto pôs os dois amantes ao corrente do que se decidira em Chaâlis, do que se tramava contra eles. Ouvindo e indagando, Mortimer vestia-se diante de Roberto d'Artois, muito naturalmente, como se faz entre gente habituada à guerra. A presença de sua amante não parecia embaraçá-lo; estavam, decididamente, instalados como casal.

— Deveis partir imediatamente, meus bons amigos, eis o meu conselho — disse Roberto —, e dirigir-vos para as terras do império, para ali vos refugiardes. Ambos, com o jovem Eduardo, e talvez Cromwell, Alspaye, Maltravers,« mas pouca gente, a fim de não serdes retardados, deveis dirigir-vos a Hainaut, para onde vou mandar um cavaleiro que vos precederá. O bom conde Guilherme e seu irmão João são dois grandes fidalgos leais, temidos pelos seus inimigos, amados pelos seus amigos, dotados de muito senso e de honra perfeita. A condessa minha esposa vos apoiará, por seu lado, junto de sua irmã. É o melhor refúgio que podeis ter neste momento. Nosso amigo de Kent, que eu vou prevenir, irá ter convosco, passando por Ponthieu, para reunir os cavaleiros que tendes ali. Depois, que Deus resolva!... Zelarei a fim de que Tolomei continue a vos fazer chegar os fundos. Aliás, ele não pode fazer outra coisa. Aumentai vossas tropas, fazei o possível, batei-vos. Ah! Se o reino da França não fosse tão grande e eu não receasse deixar campo livre às perversidades de minha tia, iria convosco, de boa vontade.

— Por favor, virai-vos de costas, meu primo, para que eu possa me vestir — disse Isabel.

— O que é isso, minha prima? Não tenho uma recompensa? Esse velhaco do Rogério quer tudo só para ele? — disse Roberto, obedecendo. — O velhaco não se entedia!

Dessa vez, suas intenções maliciosas não pareceram demasiado chocantes. Havia mesmo algo de tranqüilizador naquela disposição para gracejar em pleno drama. Aquele homem que passava por tão perverso era capaz de bons gestos, e seu impudor de palavras, às vezes, não era senão a máscara com que escondia certo pudor de sentimentos.

— Eu vos devo minha vida, Roberto — disse Isabel.

— Pagareis na mesma moeda, pagareis na mesma moeda, minha prima! Nunca se pode saber — exclamou ele, por sobre o ombro.

Viu, sobre uma mesa, uma vasilha com frutas, preparada para a noite dos amantes. Apanhou um pêssego, deu-lhe uma grande dentada, e o suco dourado correu-lhe pelo queixo.

Alvoroço nos corredores, escudeiros correndo às cavalariças, mensageiros enviados aos fidalgos ingleses que se alojavam na cidade, mulheres que se apressavam a fechar os pequenos cofres, depois de ali ter amontoado o essencial: todo um grande movimento agitava aquela parte do palácio.

— Não sigais por Senlis — aconselhou Roberto, mastigando o décimo segundo pêssego; — nosso bom sire Carlos não está longe e poderia sair no vosso encalço. Passai por Beauvais e Amiens.

Os adeuses foram breves; a aurora começava apenas a iluminar a flecha da Sainte-Chapelle, e já no pátio a escolta estava pronta. Isabel aproximou-se da janela; grande emoção a reteve um instante diante daquele jardim, daquele rio, e ao lado do leito desfeito onde conhecera o tempo mais feliz de sua vida. Quinze meses se haviam passado desde a primeira manhã em que respirara, naquele mesmo lugar, o perfume maravilhoso que a primavera espalha quando se ama. A mão de Rogério Mortimer pousou em seu ombro, e os lábios da rainha deslizaram para aquela mão...

Logo depois, as ferraduras dos cavalos soaram pelas ruas da Cite, depois sobre o Pont-au-Change, em direção ao norte.

Monseigneur Roberto d'Artois foi ter ao seu palácio. Quando o rei fosse advertido da fuga de sua irmã, de há muito aquela estaria fora de seu alcance, e Mafalda teria que se fazer sangrar e purgar para que o fluxo de sangue não a sufocasse... "Ah! Minha bela velhaca!"... Roberto podia dormir como uma pedra até que os sinos soassem meio-dia.


Harwich

As gaivotas, fazendo com seu vôo estrepitoso o círculo da mastreação dos navios, espreitavam os detritos que eram jogados ao mar. No local onde desembocam, ao mesmo tempo, o Orwell e o Stour, a frota via aproximar-se o porto de Harwich, seu molhe de madeira e sua linha de casas baixas.

Duas embarcações leves já tinham abordado, desembarcando uma companhia de arqueiros encarregados de assegurar a tranqüilidade naquelas costas; a margem não parecia guardada. Houvera um ponto de confusão no cais, onde a população, de início atraída por todas as velas que vinham do mar alto, fugira ao ver desembarcar soldados. Depressa tranqüilizada, porém, tornava a agrupar-se.

O navio da rainha, levando na sua carangueja a longa flâmula bordada com o lis da França e os leões da Inglaterra, adiantava-se pela força da propulsão que já cessara. Dezoito navios da Holanda seguiam-no. As tripulações, sob o comando dos mestres marinheiros, baixavam o velame; os longos remos acabavam de sair do flanco das naves, como penas de asas subitamente abertas, para ajudar na manobra.

Em pé sobre o castelo de popa, a rainha da Inglaterra, rodeada por seu filho, o príncipe Eduardo, o conde de Kent, lorde Mortimer, messire João de Hainaut, e vários outros fidalgos ingleses e holandeses, assistia às manobras e via aumentar a costa de seu reino.

Pela primeira vez depois de sua evasão, Rogério Mortimer não estava vestido de preto. Não trazia a grande couraça, de elmo fechado, mas simplesmente o equipamento de pequena batalha, o capacete sem viseira a que se ligava o carnal de aço, e a loriga de malhas por sobre a qual flutuava sua cota de armas de brocado vermelho e azul, ornamentada com seus emblemas.

A rainha vestia-se da mesma maneira. Seu rosto finoe louro estava emoldurado pelo tecido de aço, e a saia descia até o chão. Mas sob ela, tal como os homens, Isabel trazia grevas de malhas.

Também o jovem príncipe Eduardo estava em traje de guerra. Crescera muito, naqueles últimos meses, e tornara o aspecto de um homem. Olhava para as gaivotas, as mesmas, parecia-lhe, que, com os mesmos gritos roucos, os mesmos bicos ávidos, tinham acompanhado a partida da frota na embocadura do Mosa.

Aquelas aves lembravam-lhe a Holanda. Tudo, aliás, aquele mar cinzento, o céu cinzento tocado de vagos rastros cor-de-rosa, o cais com suas casas pequenas de tijolos, que logo iriam abordar, a paisagem verde, ondulante, lagunosa, que se estendia para trás de Harwich, tudo se combinava para recordar-lhe a paisagem holandesa e dava-lhe ocasião de pensar novamente nela. Mas, ainda que tivesse chegado a um deserto de pedras e areia, sob sol ardente, teria pensado, pelo contraste, nas terras de Brabante, de Ostrevant, de Hainaut, que acabava de deixar. E que monseigneur Eduardo, duque da Aquitânia e herdeiro da Inglaterra, apesar de ainda não ter quinze anos, apaixonara-se na Holanda.

E eis como acontecera aquilo, e que notáveis acontecimentos estavam inscritos na memória do jovem príncipe Eduardo.

Quando haviam fugido de Paris, às pressas, naquela madrugada em que monseigneur d'Artois, com seu vozeirão, tirara toda a gente da cama, haviam-se esforçado, prolongado os dias, para chegar o mais depressa possível às terras do império. Assim, tinham alcançado, certa noite, o castelo de sire Eustáquio d'Aubercicourt, o qual, ajudado por sua mulher, dera acolhimento solícito e jubiloso à pequena corte inglesa. E depois de instalar da melhor maneira possível aquela cavalgada inesperada, messire d'Aubercicourt saltara para a sela e fora prevenir o bom conde Guilherme, cuja mulher era prima germana da rainha Isabel, em sua cidade capital de Valenciennes. No dia seguinte, tinham visto chegar o irmão mais novo do conde, messire João de Hainaut.

Curioso homem, aquele: não de aparência, pois era bastante bem-feito. Tinha um rosto redondo sobre um corpo sólido, os olhos redondos, o nariz curto e redondo, sobre pequeno bigode louro. Mas era singular em sua maneira de agir. Porque, chegando diante da rainha, e sem mais detença, pôs um joelho sobre o lajedo e exclamou, com a mão pousada ao peito:

— Senhora, aqui está vosso cavaleiro, pronto a morrer por vós, mesmo quando todo mundo vos abandone. Usarei de todo o meu poder, com o auxílio de nossos amigos, para vos reconduzir, a vós e a monseigneur vosso filho, através do mar, para vosso Estado da Inglaterra. E todos aqueles a quem eu puder pedir isto colocarão sua vida a vosso uso, e teremos bastante gente armada, se Deus quiser.

A rainha, a fim de agradecer-lhe tão súbito auxílio, esboçou o gesto de ajoelhar-se diante dele, mas messire João de Hainaut impedira aquilo, abraçando-a com os dois braços, respirando contra o rosto dela, e dizendo:

— Que Deus não permita jamais à rainha da Inglaterra dobrar-se diante de quem quer que seja. Consolai-vos, senhora, e vosso nobre filho também, pois cumprirei a minha promessa.

Lorde Mortimer começava a fazer cara feia, achando que messire João de Hainaut mostrava solicitude um tanto viva demais quando punha sua espada a serviço das damas. Verdadeiramente, aquele homem tomava-se por um Lance -lot, pois declarara, inesperadamente, que não suportaria dormir aquela noite sob o mesmo teto que cobria a rainha, a fim de não comprometê-la, e como se não percebesse que, em torno dela, havia pelo menos seis grandes fidalgos! Ia retirar-se, piedosamente, para uma abadia vizinha, de onde voltaria no dia seguinte, bem cedo, depois da missa e da bebida, a fim de buscar a rainha e conduzi-la, com toda a sua gente, para Valenciennes.

Ah! Que pessoas excelentes eram o conde Guilherme, o Bom, sua esposa e suas quatro filhas, que habitavam um castelo branco! O conde e a condessa formavam um casal feliz, isso se via em seus rostos e ouvia-se em todas as suas palavras. O jovem príncipe Eduardo, que havia sofrido, desde a infância, o espetáculo de desentendimento dado por seus pais, olhava com admiração para aquele casal unido, e, em todas as coisas, benevolente. Como eram felizes as quatro jovens princesas de Hainaut por terem nascido em semelhante família!

O bom conde Guilherme oferecera-se para o serviço da rainha Isabel de modo menos eloqüente do que seu irmão, talvez, e tomando alguns conselhos a fim de não atrair os raios da cólera do rei da França, nem os do papa.

Messire João de Hainaut, esse, se consumia. Escrevia a todos os cavaleiros de seu conhecimento, pedindo-lhes, pela honra e pela amizade, que viessem unir-se ao seu empreendimento, pelo voto que fizera. Fez tanto barulho em Hainaut, Brabante, na Zelândia e na Holanda, que o bom conde Guilherme inquietou-se: era toda a hoste de seus Estados, toda a sua cavalaria, que messire João estava tratando de levantar. Pediu-lhe, pois, que se moderasse um pouco, mas o outro nada queria ouvir.

— Messire meu irmão — dizia ele —, não poderei sofrer senão uma só morte, que está na vontade de Nosso Senhor, e prometi a essa nobre senhora conduzi-la até seu reino. Assim farei, mesmo que me seja necessário morrer, porque todo cavaleiro deve ajudar com seu poder leal a todas as damas e donzelas quando são expulsas e afligidas, no momento em que lhe pedem tal coisa!

Guilherme, o Bom, temia também pelo seu tesouro, porque todos aqueles fidalgos de companhia que estavam sendo convidados a polir suas couraças tinham de ser pagos. Mas a esse respeito foi tranqüilizado por lorde Mortimer, que parecia receber dos bancos lombardos o dinheiro suficiente para manter mil lanças.

Ficaram, pois, cerca de três meses em Valenciennes, levando vida de corte, enquanto João de Hainaut cada dia anunciava algum novo recrutamento importante, ora o do sire Miguel de Ligne ou do sire de Sare, ora do cavaleiro Oulfart de Ghistelles, ou de Parsifal de Semeries, ou de Sance de Boussoy.

Foram, como em família, fazer uma peregrinação à Igreja de Sebourg, pelas relíquias de São Druão, muito veneradas desde que o avô do conde Guilherme, João d'Avesnes, que sofria de penosos cálculos renais, ali fora pedir a cura. Em presença de toda a sua corte, e do povo do pequeno burgo, o conde João d'Avesnes e de Hainaut se ajoelhara sobre o túmulo e recitara, em voz alta, uma oração cheia de humildade e confiança. Mal acabara sua oração e expelia de seu corpo três pedras do tamanho de uma noz. Imediatamente, todo o sofrimento desaparecera, para nunca mais voltar...

Das quatro filhas do conde Guilherme, a segunda, Filipa, tinha agradado imediatamente ao jovem príncipe Eduardo. Era ruiva, gorduchinha, crivada de sardas, dona de um rosto largo e um ventre já convexo: uma boa pequena Valois, com forte tinta de Brabante. Acontecia que os dois jovens emparelhavam-se muito bem pela idade. E os demais tiveram a surpresa de ver o príncipe Eduardo, que nunca falava, ficar tanto quanto era possível na companhia da gorda Filipa, e com ela falar, falar, falar, durante horas inteiras... Essa atração não escapou a ninguém: os silenciosos não sabem fingir desde que abandonem o silêncio.

Assim, a rainha Isabel e o conde de Hainaut depressa concordaram em fazer noivos aqueles seus filhos que mostravam tanta atração um pelo outro, Era a forma de a rainha Isabel cimentar uma aliança, a única que lhe permitiria recuperar o trono da Inglaterra. E o conde de Hainaut, dado que sua filha estaria destinada a ser um dia rainha daquele outro país, só podia ver com bons olhos o empréstimo que fazia de seus cavaleiros.

Apesar das ordens formais do rei Eduardo II, que proibira a seu filho contratar casamento ou deixar que por ele o contratassem, sem seu consentimento36, as dispensas já tinham sido solicitadas ao Santo Padre. Parecia verdadeiramente inscrito nos destinos que o príncipe Eduardo desposaria uma Valois! Seu pai, três anos antes, recusara para ele uma das últimas filhas de monseigneur Carlos, bem-aventurada recusa, pois que agora o jovem poderia unir-se à sobrinha-neta daquele mesmo monseigneur Carlos, noiva que lhe agradava.

A expedição imediatamente tomou para o príncipe Eduardo um sentido novo. Se o desembarque tivesse êxito, se o tio de Kent e lorde Mortimer, com o auxílio do primo de Hainaut, conseguissem expulsar os perversos Despenser e governar em lugar deles junto do rei, este último seria forçado a concordar com o casamento.

Ninguém fazia cerimônia, aliás, em falar, diante do jovem, nos costumes de seu pai: ele ficara horrorizado, enojado. Como podia um homem, um cavaleiro, um rei, conduzir-se de tal maneira com um fidalgo de sua corte? O príncipe estava resolvido, quando chegasse sua vez de reinar, a não tolerar jamais semelhantes torpezas entre seus barões, e mostraria a todos, junto de sua Filipa, um amor leal, belo, verdadeiro, um amor de homem por sua mulher, de rainha e de rei. Aquela pessoa redonda, ruiva e gorda, já muitíssimo feminina, e que lhe parecia a mais bela senhorita da terra, exercia sobre o duque da Aquitânia um poder tranqüilizador.

Era, portanto, seu direito ao amor que o jovem ia ganhar, e aquilo apagava, para ele, o caráter, se não odioso, pelo menos penoso, de que se revestia a intenção de marchar em guerra contra seu próprio pai.

Três meses, pois, se passaram dessa maneira feliz, os mais belos, sem dúvida, que o príncipe Eduardo até então conhecera.

A reunião dos Hennuyers, pois assim se chamavam os cavaleiros de Hainaut, fez-se em Dordrecht, às margens de Mosa, linda cidade estranhamente cortada de canais, de tanques, onde cada rua de terra passava por sobre uma rua de água, onde os navios de todos os mares, que subiam os rios, vinham fundear até diante das igrejas. Uma cidade cheia de comércio e de riquezas, onde os fidalgos caminhavam no cais entre fardos de lã e caixas de especiarias, onde o cheiro do peixe, fresco e salgado, flutuava em torno dos mercados, onde os marinheiros e carregadores comiam na rua belos linguados louros, saídos muito quentes da fritura, e que eram comprados nas cestas, onde o povo, saindo depois da missa da grande catedral de tijolos, postava-se boquiaberto, diante daquele grande trem de guerra, jamais visto até então, e que se mantinha junto das moradias! A mastreação dos navios balançava-se mais alta do que os telhados.

Quantas horas, e esforços, e gritos não tinham sido necessários para carregar os navios, redondos como os tamancos que calçavam a Holanda, com todo o equipamento da cavalaria! Caixas de armamentos, cofres de couraças, víveres, fogões, fornos, e uma oficina de ferreiro para cem homens, com as bigornas, os foles, os martelos! Em seguida, viram embarcar os grandes cavalos da Flandres, aqueles pesados alazões de pêlo quase vermelho ao sol, com crinas mais pálidas, desbotadas e flutuantes, patas fortes, todas recobertas de pêlo, e enorme garupa carnuda, sedosa, verdadeiramente montarias de cavaleiros, nas quais era possível colocar, sem que se fatigassem, as selas de alto arção, prender o caparazão de ferro, e instalar o homem em sua armadura. Perto de quatrocentas libras para levar a galope.

Havia mais de mil desses cavalos, pois messire João de Hainaut, mantendo sua palavra, reunira mil cavaleiros, acompanhados de seus escudeiros, de seus criados, de seus serviçais, ou seja, um total de dois mil setecentos e cinqüenta e sete homens a soldo, segundo o registro mantido por Geraldo de Alspaye.

O castelo de popa de cada navio fora arranjado como apartamento para os maiores fidalgos da expedição.

Tinham erguido as velas na manhã de 22 de setembro, a fim de aproveitar as correntes de equinócio, e haviam navegado diante dos diques da Holanda. As gaivotas gritadoras circulavam em torno dos navios. Depois, no dia seguinte, tinham singrado para o alto-mar. O tempo parecia bom, mas eis que ao fim do dia o vento se levantara de través, e contra ele os navios mal podiam lutar. O mar agitara-se, e toda a expedição fora tomada de grande indisposição e grande medo. Os cavaleiros vomitavam por sobre a amurada, quando tinham força para dela se aproximar. Os próprios tripulantes estavam indispostos, e os cavalos, batendo-se de encontro uns aos outros nas cavalariças do tombadilho, espalhavam odores terríveis. Uma tempestade é ainda mais pavorosa à noite do que de dia. Os esmoleres se haviam posto a rezar.

Messire João de Hainaut fizera maravilhas de conforto e encorajamento junto da rainha Isabel, um tanto demasiados, mesmo, pois há ocasiões em que a solicitude dos homens pode tornar-se importuna para as mulheres. A rainha tinha sentido como que um alívio quando messire João por sua vez adoecera.

Somente lorde Mortimer parecia resistir ao mau tempo: os homens ciumentos não sofrem de enjôo de mar, pelo menos é o que se diz. Em compensação, João Maltravers dava pena, ao romper da aurora. Com o rosto mais amarelo e mais comprido do que nunca, os cabelos pendendo sobre as orelhas, a cota de armas maculada, estava sentado, com as pernas afastadas, contra um rolo de cabos, como se esperasse a morte a cada vagalhão.

Enfim, pela graça do senhor São Jorge, o mar se acalmara, e cada qual pudera dedicar-se um pouco aos cuidados pessoais. Depois, os homens de vigia haviam reconhecido a terra da Inglaterra, somente algumas milhas mais para o sul do ponto aonde queriam chegar. E os marinheiros tinham dirigido os navios para o porto de Harwich, que agora abordavam e do qual a nave da rainha, de remos levantados, já roçava o molhe de madeira.

O jovem príncipe Eduardo contemplava sonhadoramente, através de seus compridos cílios louros, as coisas que o rodeavam, pois tudo quanto seu olhar fixava, e que fosse redondo, ruivo ou rosado, as nuvens sopradas pela brisa de setembro, as velas baixas e pandas dos últimos navios, as ancas dos alazões da Flandres, as faces de messire de Hainaut, tudo lhe recordava, irresistivelmente, a Holanda e seu amor.

 

Pisando o cais de Harwich, Rogério Mortimer sentira-se exatamente como o seu antepassado que, duzentos e sessenta anos antes, desembarcara em solo inglês, ao lado do Conquistador. E isso ficou bem claro pelo ar, pelo tom e pela maneira com que tomou tudo a seu cargo.

A direção da expedição era dividida, em igualdade de comando, entre ele e João de Hainaut, divisão bastante normal, pois que Mortimer só tinha a sua boa causa, alguns fidalgos ingleses e o dinheiro dos lombardos, enquanto o outro conduzia os dois mil setecentos e cinqüenta e sete homens que deviam combater. Todavia, Mortimer considerava que João de Hainaut não devia consagrar-se senão à vigilância de suas tropas, enquanto ele próprio pretendia guardar a inteira responsabilidade das operações. O conde de Kent, por sua parte, parecia pouco desejoso de seguir na vanguarda, porque se, apesar das informações que tinham recebido, uma parte da nobreza se conservava fiel ao rei Eduardo, as tropas desse último seriam comandadas pelo conde de Norfolk, marechal da Inglaterra, quer dizer, o próprio irmão do conde de Kent. Ora, revoltar-se contra um meio irmão que é mau rei e vinte anos mais velho é uma coisa, mas desembainhar a espada contra um irmão muito querido, apenas um ano mais velho, outra.

Procurando antes de mais nada as informações, Mortimer mandou chamar o lorde-prefeito de Harwich. Sabia ele onde se encontravam as tropas reais? Qual era o castelo mais próximo que pudesse oferecer abrigo à rainha enquanto os homens desembarcassem e os navios fossem descarregados?

— Estamos aqui — declarou Mortimer ao lorde-prefeito — para ajudar o rei Eduardo a se desfazer de seus maus conselheiros, que lhe arruínam o reinado, e para recolocar a rainha em seu devido lugar. Não temos outras intenções a não ser essas, que nos são inspiradas pela vontade dos barões e de todo o povo da Inglaterra.

Eis o breve e claro relato que Rogério Mortimer repetiria em cada parada, a fim de explicar, às pessoas que se mostravam surpresas, a chegada daquele exército estrangeiro.

O lorde-prefeito, ancião cujos cabelos brancos adejavam dos dois lados do crânio, e que tiritava sob seu manto, não de frio, mas de medo das responsabilidades, não parecia ter informações. O rei, o rei?... Dizia-se que estava em Londres, a menos que estivesse em Portsmouth... Em todo caso, em Portsmouth havia uma grande frota reunida, pois que uma ordem do mês anterior dispusera que todos os navios para ali se dirigissem, a fim de prevenir uma invasão francesa. Isso explicava que houvesse tão pequeno número de navios no porto.

Lorde Mortimer não esqueceu de mostrar nesse momento um certo orgulho, sobretudo voltando-se para messire de Hainaut. Porque tinha feito espalhar, habilmente, por emissários, sua intenção de desembarcar na costa sul; sua astúcia alcançara pleno êxito. Mas João de Hainaut podia, por sua vez, mostrar-se orgulhoso de seus marinheiros holandeses, que tinham mantido seu rumo, apesar do temporal.

A região não estava guardada; o lorde-prefeito não tinha conhecimento de movimento de tropas por aquelas paragens, nem recebera outro aviso senão o que se referia à vigilância habitual. Um lugar onde pudessem se entrincheirar? O lorde-prefeito sugeria a Abadia de Walton, aproximadamente três léguas para o sul, contornando as águas. No fundo, desejava bastante transferir para os monges o cuidado de abrigar o exército.

Seria preciso constituir uma escolta de proteção para a rainha.

— Eu a comandarei! — gritou João de Hainaut.

— E do desembarque de vossos Hennuyers, messire, quem vai cuidar? E quanto tempo isso irá tomar? — perguntou Mortimer.

— Três dias inteiros, para que possam ser postos em condições de marcha. Deixarei Filipe de Chasteaux, meu escudeiro, encarregado de prover o que for necessário.

A maior preocupação de Mortimer referia-se às mensagens secretas que enviara da Holanda para o bispo de Orleton e o conde de Lancastre. Esses últimos teriam sido postos em contato, prevenidos em tempo hábil? E onde estariam agora? Sem dúvida poderia obter essas informações da parte dos monges, e mandar os cavaleiros, que, de mosteiro em mosteiro, chegariam aos chefes da resistência inteira.

Autoritário, aparentemente calmo, Mortimer andava de cá para lá na rua principal de Harwich, margeada de casas baixas. Voltava-se, impaciente por ver formar a escolta, tornava a descer para apressar o desembarque dos cavalos, voltava ao Albergue das Três Taças, onde a rainha e o príncipe Eduardo esperavam suas montarias. Naquela mesma rua que ele pisava passaria, dali por diante e durante muitos séculos, a história da Inglaterra 37.

Enfim, a escolta ficou pronta: os cavaleiros chegaram, alinhando-se de quatro em quatro e ocupando assim toda a largura da High Street. Os servos corriam ao lado dos cavalos para fixar uma derradeira fivela do caparazão, as lanças oscilavam diante das janelas estreitas, as espadas cintilavam contra as joelheiras.

Ajudaram a rainha a subir ao seu palafrém, e logo a cavalgada começou através do campo cavado em vales, com árvores espalhadas de longe em longe, com terras invadidas pelas marés e com algumas casas cobertas de telhados de colmo. Atrás das baixas cercas vivas, carneiros de lã espessa pastavam em torno de poças de água salobra. Era uma região bastante triste, em suma, com seus pontos longínquos de bruma do mar, que flutuava, além, em direção à outra margem do estuário. Mas Kent, Cromwell, Alspaye, o punhado de ingleses, e o próprio Maltravers, apesar de ainda doente, olhavam a paisagem, entreolhavam-se, e as lágrimas brilhavam-lhes nos olhos. Aquela terra era a Inglaterra!

Subitamente, por causa de um cavalo de granja que esticava a cabeça por cima da meia-porta de uma cavalariça, e que se pôs a relinchar à passagem da cavalgada, Rogério Mortimer sentiu tombar sobre ele a emoção do país reencontrado. Aquela alegria havia tanto esperada, e que ele ainda não sentira, tão graves eram os pensamentos que lhe ocupavam a cabeça, e tão sérias eram as decisões a tomar, eis que acabava de encontrá-la, no meio do campo, porque um cavalo inglês nitria para os cavalos da Flandres.

Três anos de afastamento, três anos de exílio, de espera, de esperança! Mortimer reviu-se tal como estava na noite de sua evasão da Torre, completamente encharcado, deslizando numa barca pelo centro do Tâmisa, para alcançar um cavalo na outra margem. E eis que voltava, com suas armas bordadas sobre o peito e mil lanças para sustentar sua luta. Voltava amante daquela rainha com a qual tanto sonhara na prisão. A vida torna-se, às vezes, semelhante ao sonho que se teve, e só então é que uma pessoa pode dizer-se feliz.

Voltou os olhos, num movimento de gratidão e participação, para a rainha Isabel, para o belo perfil, enquadrado no tecido de aço, e onde os olhos brilhavam como safiras. Mas Mortimer viu que messire João de Hainaut, que marchava do outro lado da rainha, também olhava para ela, e sua grande alegria extinguiu-se subitamente. Sofreu a impressão de já ter conhecido aquele instante, de revivê-lo, e ficou perturbado, pois poucas sensações são, de fato, tão inquietantes como a que, às vezes, nos assalta, ao reconhecermos um caminho que jamais havíamos percorrido antes. Depois, recordou-se da estrada de Paris, no dia em que fora receber Isabel, quando de sua chegada, e de Roberto d'Artois marchando ao lado da rainha, como João de Hainaut naquele momento. Era uma idêntica reação da alma o que provocava em Mortimer essa sensação de falso reconhecimento.

E ele ouviu a rainha dizer:

— Messire João, devo-vos tudo, e antes de mais nada estar aqui.

Também Isabel sentia uma grande emoção ao caminhar sobre a terra de seu reino. Mortimer, porém, fechou o rosto, mostrou-se sombrio, áspero, remoto, durante todo o resto do percurso, e assim permaneceu quando chegaram à morada dos monges de Walton, e cada qual instalou-se, uns na residência abacial, outros na hospedaria, e a maior parte dos homens de armas, nos celeiros. Essa atitude chegou a tal ponto, que naquela noite, encontrando-se a sós com seu amante, a rainha Isabel perguntou-lhe:

— Mas que tendes? Por que ficastes assim durante todo o dia, nobre Mortimer?

— Tenho, senhora, que julgava ter servido bem minha rainha e minha amiga.

— E quem vos disse, belo sire, que não o fizestes?

— Eu supunha, senhora, ser a mim que devêsseis vossa volta ao reino.

— Mas quem disse não ser a vós que eu a devo?

— Vós mesma, senhora, vós mesma, que declarastes isso na minha presença, a messire de Hainaut, agradecendo-lhe tudo.

— Oh! Mortimer, meu doce amigo — exclamou a rainha —, como levais a mal qualquer palavra! Que mal há em agradecer a quem nos faz obséquios?

— Levo a mal não só as palavras, como também certos olhares que esperava, lealmente, só a mim dirigísseis. Sois galanteadora, senhora, o que eu não esperava que fósseis. Galanteais! — replicou Mortimer.

A rainha estava cansada. Os três dias de mar grosso, a inquietação do desembarque acidentado, e, para terminar, aquela cavalgada de quatro léguas, tinham-na fatigado. Seriam muitas as mulheres capazes de passar pelas mesmas coisas sem jamais se queixarem e sem causarem preocupação a ninguém? Ela esperava um elogio à sua coragem, e não as censuras de um ciumento.

— Qual é o meu galanteio, meu amigo, eu vos pergunto? — disse ela, impaciente. — A casta amizade que messire de Hainaut me votou pode fazer rir, mas vem de um bom coração. E não esqueçais, além disso, que ele nos arranjou as tropas que aqui temos. Suportai, pois, que, sem o encorajar, eu lhe corresponda um pouco, pois contai os nossos ingleses e depois os seus Hennuyers. É por vós, também, que eu sorrio a esse homem que vos aborrece tanto.

— Quando se age mal, encontram-se sempre boas razões para explicar o que se faz. Messire de Hainaut vos serve por grande amor, estou de acordo, mas não a ponto de recusar o ouro que lhe pagamos por esses serviços. Não há, portanto, necessidade alguma de oferecer-lhe tão ternos sorrisos. Sinto-me humilhado por vós, ao vos ver tombar da altura de pureza em que eu vos colocava.

— Essa altura de pureza, amigo Mortimer, não vos pareceu grande demais para que dela eu tombasse, quando foi para os vossos braços.

Era a primeira rusga. Seria preciso que surgisse exatamente naquele dia que tanto haviam esperado, e para a chegada do qual tinham, durante tantos meses, reunido seus esforços.

— Amigo — acrescentou, mais docemente, a rainha —, essa grande cólera que toma conta de vós não virá na verdade do fato de que eu, agora, ficarei menos distante de meu esposo, sendo que o amor nos será menos fácil?

Mortimer baixou a fronte, que suas sobrancelhas ásperas barravam.

— Penso, realmente, senhora, que agora, estando no solo da pátria, precisareis ter um leito só.

— Era exatamente isso o que eu vos ia pedir, doce amigo — respondeu Isabel.

Ele transpôs a porta do quarto. Não veria sua amante chorar. Onde estavam as felizes noites da França?

No corredor do alojamento abacial, Mortimer deparou com o jovem príncipe Eduardo levando uma vela que lhe iluminava o rosto delgado e branco. Estaria ali para espiar?

— Não estais dormindo, então, my lord? — perguntou-lhe Mortimer.

— Não, e vos procurava, my lord, para vos pedir que me mandásseis vosso secretário... Eu queria esta noite, a primeira de minha volta ao reino, mandar uma carta à senhora Filipa...

 

A hora luminosa

"Ao mui bom e poderoso senhor Guilherme, conde de Hainaut, Holanda e Zelândia.

"Meu mui caro e amado irmão, na guarda de Deus, saudações.

"Estávamos nós reunindo nossas companhias em torno do porto marítimo de Harwich, e a rainha acampada na Abadia de Walton, quando nos chegou a boa notícia de que monseigneur Henrique de Lancastre, primo do rei Eduardo e a quem chamam habitualmente aqui lorde Pescoço-Torto, porque tem a cabeça colocada de banda, estava em marcha para vir ter conosco, trazendo todo um exército de barões, cavaleiros e homens recrutados em suas terras, também os lordes-bispos de Hereford, Norwich e Lincoln, a fim de se porem ao serviço da rainha, minha senhora Isabel. E monseigneur de Norfolk, marechal da Inglaterra, anunciou-se, de sua parte, no mesmo sentido, com suas valorosas tropas.

"Nossas companhias e a desses lordes de Lancastre e de Norfolk se reuniram num lugar chamado Bury Saint Edmonds, onde justamente naquele dia havia mercado, instalado nas próprias ruas.

"O encontro se fez com um regozijo que não vos posso descrever. Os cavaleiros, saltando de seus cavalos, reconheciam-se, beijando-se e abraçando-se, monseigneur de Kent e monseigneur de Norfolk, peito contra peito, ambos em lágrimas, como verdadeiros irmãos de há muito separados, e messire Mortimer fazendo outro tanto com o senhor bispo de Hereford, e monseigneur Pescoço-Torto beijando as faces do príncipe Eduardo, e todos correndo para o cavalo da rainha a fim de festejá-la e pousar os lábios na fímbria de sua veste. Se eu tivesse vindo ao reino da Inglaterra apenas para ver isso, tanto amor e tanta alegria de tal forma solícita em torno de minha senhora Isabel, já me sentiria bastante pago pelos meus trabalhos. Tanto mais que o povo de Saint Edmonds, abandonando suas aves e legumes, que traziam em cestas, se reuniu à sua alegria geral, enquanto chegavam sem cessar outros grupos, do campo circundante.

"A rainha me apresentou, com muitos elogios e gentilezas, aos fidalgos ingleses, e depois eu tinha, para lhe identificar, nossas mil lanças da Holanda atrás de mim, e estou orgulhoso, meu mui amado irmão, da nobre figura que fizeram nossos cavaleiros diante daqueles fidalgos de ultramar.

"A rainha não deixou de declarar a todos os de seu parentesco e de seu partido que fora graças a lorde Mortimer que ela estava assim de volta, e tão fortemente apoiada. Deu alta importância aos serviços que lhe tinham sido prestados por lorde Mortimer e ordenou que em tudo se conformassem com os seus conselhos. Aliás, minha senhora Isabel nada decreta ela própria sem o ter previamente consultado. Ela o ama e demonstra isso, mas só podem ser amores castos, por muito que as más-línguas se mostrem prontas a comentar, pois a rainha teria mais cuidado em dissimular, se o caso fosse outro, e sei bem, pelos olhos que ela me faz, que não lhe seria possível olhar-me assim, se sua fé não estivesse livre. Tive receio, em Walton, que a amizade entre eles, por motivo que não sei qual seja, tivesse arrefecido, mas tudo demonstra que nada disso se passou, e que se conservam bem unidos, o que me causa alegria, pois é natural que se ame minha senhora Isabel por todas as belas e boas qualidades que ela tem, e eu queria que todos lhe votassem o mesmo amor que lhe dedico.

"Os senhores bispos trouxeram fundos com eles, e bastantes, prometendo, ainda, que receberiam outras coletas em suas dioceses, e isso assaz me tranqüilizou quanto ao soldo dos nossos Hennuyers, a respeito dos quais eu temia fossem depressa esgotadas as reservas lombardas de messire de Mortimer. O que estou contando passou-se no dia 28 de setembro.

"A partir de lá, pusemo-nos novamente em marcha, e foi um avanço, em grande triunfo, através da cidade de Neuf-Market, muitíssimo bem servida de albergues e alojamentos, e da nobre cidade de Cambridge, onde todo mundo fala latim que é uma maravilha, e onde há maior número de clérigos, num só colégio, do que poderíeis reunir em todo o vosso Hainaut. Por toda parte o acolhimento do povo, assim como o dos nobres, prova bem que o rei não é amado, que seus maus conselheiros o tornaram odiado e desprezado. Assim, nossas companhias são saudadas com o grito de 'libertação'!

"Nossos Hennuyers não se entediam*, segundo disse messire Pescoço-Torto, que sabe usar com muita gentileza a língua francesa, como vedes, e cuja expressão, aos meus ouvidos, me fez rir alegremente por um grande quarto de hora, e agora ainda chego a rir outro tanto, só ao pensar nisso. As moças da Inglaterra acolhem bem nossos cavaleiros, o que é bom para manter o moral guerreiro. Por mim, se me divertisse assim, daria mau exemplo e perderia o poder que um chefe precisa conservar para chamar suas tropas à ordem, quando há necessidade. Ademais, o voto que fiz à minha senhora Isabel me proíbe tal coisa, e se eu deixasse de cumpri-lo, a sorte da nossa expedição poderia mudar. Assim é que as noites me agitam um pouco, mas como as cavalgadas são longas, o sono não me foge. Penso que ao regressar desta aventura casar-me-ei.

* Trata-se de um trocadilho a que se presta a palavra "Hennuyer '. homófona de "ennuyer", que significa "entediar". (N. da T.)

 

"A propósito de casamento, devo informar-vos, meu caro irmão, assim como à minha cara irmã, a condessa, vossa esposa, que monseigneur, o jovem príncipe Eduardo, continua com a mesma comovedora intenção no que se refere à vossa filha Filipa, e que não passam muitos dias sem que ele me peça notícias dela. Todos os pensamentos e todo o seu coração parecem estar voltados para ela, e, assim, o noivado foi bom e proveitoso, e dele virá para sempre a felicidade de vossa filha, eu o espero. Liguei-me amistosamente ao príncipe Eduardo, que parece admirar-me muito, embora fale pouco. Conserva-se muitas vezes silencioso, tal como me dissestes que acontecia com o rei Filipe, o Belo, do qual ele é neto. Pode bem ser que um dia ele se torne um grande soberano, como o foi o Belo, e talvez antes do tempo em que teria de esperar de Deus a sua coroa, a acreditar no que se diz no conselho dos barões ingleses.

"Porque o rei Eduardo faz triste figura diante de tudo o que lhe aconteceu. Ele estava em Westmoustiers quando desembarcamos, e imediatamente refugiou-se na sua Torre de Londres para pôr-se a salvo. E fez proclamar por todos os seus oficiais administrativos, que são governadores de condados de seu reino e em todos os lugares públicos, praças, feiras e mercados, o edital de que aqui segue a transcrição:

'Visto que Rogério Mortimer e outros traidores e inimigos do rei e de seu reino desembarcaram pela violência à frente de tropas estrangeiras que querem derrubar o poder real, o rei ordena a todos os seus vassalos que a tal se oponham por todos os meios, e que os destruam. Só devem ser poupados a rainha, seu filho e o conde de Kent. Todos os que tomarem armas contra o invasor receberão grande soldo, e quem quer que leve ao rei o cadáver de Mortimer, ou apenas a sua cabeça, tem prometida uma recompensa de mil libras esterlinas'.

"As ordens do rei Eduardo não foram obedecidas por ninguém, antes serviram muito para aumentar a autoridade de messire de Mortimer, mostrando a que preço se estimava a sua vida e designando-o como nosso chefe, ainda acima do que realmente era. A rainha respondeu prometendo duas mil libras esterlinas a quem lhe trouxesse a cabeça de Hugo Despenser, o Jovem, estimados nessa quantia os prejuízos que o dito fidalgo lhe causara quanto ao amor de seu esposo.

"Os londrinos ficaram indiferentes à segurança de seu rei, por ter ele se obstinado até o fim em seus erros. A sensatez seria expulsar o seu Despenser, que leva tão bem o nome que usa *, mas o rei Eduardo obstinou-se em guardá-lo, dizendo estar bastante instruído pela experiência passada, que tais coisas haviam acontecido outrora com o cavaleiro de Gaveston, que ele consentira em afastar de si. Isso não impediu que matassem o referido cavaleiro, e lhe impusessem a ele, rei, uma carta e um conselho de ordena-dores, dos quais bastante trabalho tivera para se livrar. Despenser encorajava aquela opinião, e ambos, ao que contam, choraram muitas lágrimas no peito um do outro. E Despenser teria gritado que preferia morrer sobre o peito de seu rei a viver em segurança longe dele. Bastante razão tem ele para dizer tal coisa, pois esse peito é sua única defesa.

*Também um trocadilho com a palavra "dispenser", que significa "o que distribui, o que partilha". (N. da T.)

 

"Assim, ficaram eles, cada qual entregue a seus perversos amores, rodeados apenas pelo Despenser, Velho, pelo conde d'Arundel, que é parente do Despenser, pelo conde de Warenne, que é cunhado de D'Arundel, e, enfim, pelo chanceler Baldock, que tem de se conservar fiel ao rei, pois é tão unanimemente odiado que aonde quer que fosse teria sido feito em pedaços.

"O rei deixou de fruir a segurança da Torre, e fugiu com esse pequeno grupo para levantar um exército no País de Gales, depois de ter mandado proclamar, no dia 30 de setembro, as bulas de excomunhão que nosso Santo Padre, o papa, lhe havia entregue contra seus inimigos. Não vos in-' quieteis com essa publicação, meu mui amado irmão, se a notícia vos vier, pois as bulas não nos concernem. Elas foram solicitadas pelo rei Eduardo contra os escoceses. Ninguém se deixou enganar pelo falso uso que delas foi feito, e todos nos dão comunhão como antes, os bispos antes dos demais.

"Fugindo tão lastimosamente de Londres, o rei deixou o governo ao arcebispo Reynolds, ao bispo João de Stratford e ao bispo Stapledon, titular da diocese de Exeter e tesoureiro da coroa. Mas, diante da rapidez do nosso avanço, o bispo de Stratford veio prestar sua submissão à rainha Isabel, enquanto o arcebispo Reynolds, de Kent, onde se refugiara, mandava solicitar seu perdão. Só o bispo Stapledon ficara em Londres, pensando que, através de seus roubos, conseguiria obter defensores em número suficiente. Mas a cólera da cidade estourou contra ele, e, quando ele resolveu fugir, a multidão, lançada em sua perseguição, alcançou-o no arrabalde de Cheapside, onde seu corpo foi pisoteado até se tornar irreconhecível.

"Isso aconteceu no dia 15 de outubro, quando a rainha estava em Wellingford, uma cidade rodeada de muralhas de terra, onde libertamos messire Tomás de Berkeley, que é genro de messire Mortimer. Quando a rainha soube do fim de Stapledon, disse que não se devia chorar a morte de um homem tão perverso e que tanto a havia prejudicado, e messire de Mortimer declarou que o mesmo aconteceria a todos os que tinham querido a ruína de ambos.

"Na antevéspera, na cidade de Oxford, que possui ainda mais eruditos do que a cidade de Cambridge, messire Orleton, bispo de Hereford, subiu ao púlpito diante de minha senhora Isabel, do duque da Aquitânia, do conde de Kent e de todos os fidalgos, para proferir um grande sermão sobre o assunto 'caput meum doleo', que é trecho tirado das Escrituras, no santo Livro dos Reis, querendo dizer que a doença se localizava na cabeça do corpo do reino da Inglaterra, e que nela deveria aplicar-se o remédio.

"Esse sermão causou profunda impressão em toda a assembléia, que o ouviu descrever e enumerar as chagas e os penosos sofrimentos do reino. E apesar de messire Orleton não ter pronunciado uma única vez o nome do rei, durante sua oração de uma hora, todos o tinham em pensamento como causa de tais males, e o bispo, enfim, exclamou que o fogo dos céus e o gládio dos homens deveria abater-se sobre os orgulhosos perturbadores da paz e sobre os corruptores dos reis. O referido monseigneur de Hereford é homem de muito espírito, e tenho a honra de falar freqüentemente com ele, apesar de mostrar-se sempre apressado quando conversa comigo. Mas sempre recolho de seus lábios alguma boa sentença. Assim, disse-me, no outro dia: 'Cada um de nós tem sua hora luminosa nos acontecimentos de seu século. Uma vez é monseigneur de Kent, outra é monseigneur de Lancastre, um outro antes, outro depois, aos quais o acontecimento ilumina pela parte decisiva que nele tomam. Assim se faz a história do mundo. O momento em que vivemos, messire de Hainaut, talvez seja a vossa hora de luz'.

"Dois dias depois da predica, e resumindo a forte emoção que ela trouxera a todos, a rainha lançou de Wellingford uma proclamação contra os Despenser, acusando-os de terem despojado a Igreja e a coroa, de terem mandado matar injustamente grande número de vassalos leais, e de terem deserdado, envenenado e banido os maiores fidalgos do reino, de terem oprimido viúvas e órfãos, de terem esmagado o povo, sob taxas e cobranças indevidas de impostos.

"Soube-se, ao mesmo tempo, que o rei, de início, correra a refugiar-se na cidade de Gloucester, que pertence a Despenser, o Jovem, transferira-se para Westbury, e lá sua escolta dividira-se. Despenser, o Velho, entrincheirara-se em sua cidade e em seu castelo de Bristol, para ali deter nosso avanço, enquanto os condes d'Arundel e Warenne refugiaram-se em seus domínios de Shropshire, para manter assim as Marcas galesas ao norte e ao sul, enquanto o rei, com Despenser, o Jovem, e seu chanceler Baldock, partira a recrutar um exército no País de Gales. Para dizer a verdade, não se sabe que fim levou ele. Correm rumores de que teria embarcado para a Irlanda.

"Enquanto várias companhias inglesas sob o comando do conde de Charlton puseram-se a correr para Shropshirt a fim de desafiar o conde d'Arundel, ontem, dia 24 de outubro, um mês exatamente desde que deixamos Dordrecht, entramos com facilidade, e grandemente aclamados, na cidade de Gloucester. Hoje avançamos sobre Bristol, onde Despenser, o Velho, está encerrado. Tomei o encargo de assaltar essa fortaleza, e terei, enfim, a ocasião, que ainda não me foi dada, tão poucos são os inimigos que encontramos à nossa aproximação, de combater por minha senhora Isabel e mostrar a seus olhos o meu valor. Beijarei a flâmula de Hainaut, que flutua em minha lança, antes de atirar-me ao combate.

"Confiei-vos, meu mui caro e mui amado irmão, antes de partir, minhas vontades testamentárias, e nada vejo que deseje corrigir ou acrescentar a elas. Se tiver de sofrer a morte, sabereis que a sofri sem desprazer nem pena, como deve um cavaleiro, na nobre defesa das damas e dos infelizes oprimidos, e pela vossa honra e de minha senhora e minha cara irmã, vossa esposa, e de minhas sobrinhas, vossas filhas amadas, que todas guarde Deus.

"Publicado em Gloucester, no dia 25 de outubro de 1325.

João."

 

Messire João de Hainaut não teve necessidade de mostrar seu valor, no dia seguinte, e vã foi sua bela disposição de espírito.

Quando surgiu pela manhã, com todos os estandartes das diversas companhias flutuando, e os elmos calados, diante de Bristol, a cidade já resolvera entregar-se, e poderiam tomá-la com um bastão. Os notáveis apressaram-se a enviar parlamentares, que só quiseram saber onde os cavaleiros desejavam alojar-se, protestando sua fidelidade à rainha e oferecendo-se para entregar imediatamente seu senhor, Hugo Despenser, o Velho, único culpado de não terem eles demonstrado antes suas boas intenções.

Mal as portas da cidade foram abertas, os cavaleiros instalaram-se nos belos palácios de Bristol. Despenser, o Velho, foi aprisionado em seu castelo e posto sob a guarda de quatro cavaleiros, enquanto a rainha, o príncipe herdeiro e os barões principais instalavam-se nos seus aposentos. A rainha lá encontrou seus três outros filhos, que Eduardo, ao fugir, deixara sob a guarda de Despenser. Maravilhou-se de que tivessem crescido tanto em vinte meses, e não se cansava de contemplá-los e beijá-los. Subitamente, olhou para Mortimer, como se esse excesso de alegria a pusesse em falta para com ele, e murmurou:

— Eu gostaria, amigo, que Deus me tivesse feito a graça de serdes vós o pai.

Por instigação do conde de Lancastre, formou-se imediatamente, junto da rainha, um conselho, agrupando os bispos de Hereford, Norwich, Lincoln, Ely e Winchester, o arcebispo de Dublin, os condes de Norfolk e de Kent, Rogério Mortimer de Wigmore, sir Tomás Walke, sir Guilherme La Zouche d'Ashley, Roberto de Montalt, Roberto de Merle, Roberto de Watteville e o sire Henrique de Beaumont38.

Esse conselho, apoiando-se juridicamente no fato de estar o rei Eduardo fora das fronteiras — no País de Gales ou na Irlanda, isso não fazia diferença —, resolveu proclamar o jovem príncipe Eduardo guardião e mantenedor do reino, na ausência do soberano. As principais funções administrativas foram imediatamente redistribuídas, e Adão Orleton, que era a cabeça pensante da revolta, tomou para si a maior parte delas, a começar pelo cargo de lorde-tesoureiro.

Já era tempo, realmente, de tratar da reorganização do poder central. Era mesmo espantoso que durante todo um mês, com a fuga do rei, com seus ministros dispersos e a Inglaterra entregue à invasão da rainha e dos barões, as aduanas tivessem continuado a funcionar normalmente, os coletores de impostos continuassem recebendo as taxas, de um modo ou de outro, as rondas insistissem em vigiar as cidades, a vida pública tivesse seguido seu curso costumeiro, por uma espécie de hábito do corpo social.

Portanto, o guardião do reino, o depositário provisório da soberania, tinha quinze anos menos um mês. Os decretos que promulgaria seriam selados com seu selo particular, pois que os selos do Estado tinham sido levados pelo rei e pelo chanceler Baldock. O primeiro ato de governo do jovem príncipe foi presidir, naquele mesmo dia, o processo de Hugo Despenser, o Velho.

A acusação foi feita por sir Tomás Wake, rude cavaleiro, já idoso, que era marechal de hoste39 e que apresentou Despenser, conde de Winchester, como responsável pela execução de Tomás de Lancastre, responsável pelo falecimento, na Torre de Londres, de Rogério Mortimer, o Velho (pois o velho lorde de Chirk não pudera ver o regresso triunfal de seu sobrinho, tendo morrido, em sua masmorra, algumas semanas antes), responsável, pela prisão, banimento e morte de numerosos outros fidalgos, pela espoliação dos bens da rainha e do conde de Kent, pela má gestão dos negócios do Estado, pela derrota diante dos escoceses e de seus funestos conselhos. As mesmas acusações eram dirigidas contra todos os conselheiros do rei Eduardo.

Enrugado, encurvado, voz fraca, Hugo, o Velho, que fingira durante tantos anos medroso retraimento diante dos desejos do rei, mostrou a energia de que era capaz. Nada mais tinha a perder, e defendeu-se ponto por ponto.

As guerras perdidas? Tinham-no sido pela covardia dos barões40. As execuções capitais, as prisões? Tinham sido decretadas contra traidores e rebeldes a autoridade real, sem a qual os reinos se esfacelam. Os seqüestras de feudos e de rendas só haviam sido decididos a fim de impedir que os inimigos da coroa conseguissem homens e recursos. E se lhe vinham censurar algumas pilhagens e espoliações, lembrava então os vinte e três solares que eram de sua propriedade ou de seu filho, e que Mortimer, Lancastre, Maltravers, Berkeley, todos ali presentes, haviam mandado pilhar e incendiar no ano de 1312, antes de serem derrotados, uns em Shrewsbury, outros em Boroughbridge. Ele apenas se ressarcira dos prejuízos sofridos, e que avaliava em quarenta mil libras, sem poder calcular as violências e sevícias de toda espécie cometidas contra a sua gente.

Terminou por estas palavras, dirigidas à rainha:

— Ah! Senhora! Deus nos deve um bom julgamento, e se não o pudermos tê-lo neste mundo, Ele no-lo dará no outro!

O jovem príncipe Eduardo havia erguido seus cílios longos e ouvia com atenção. Hugo Despenser, o Velho, foi condenado a ser arrastado, decapitado e exposto, o que o levou a dizer, com certo desprezo:

— Vejo bem, meus lordes, que decapitar e expor são para vós duas coisas diferentes, mas para mim isso não passa de uma só morte!

Sua atitude, bastante surpreendente para quem o conhecera em outras circunstâncias, explicava, inesperadamente, a grande influência que exercera. O obsequioso cortesão não era um covarde, o detestável ministro não era um tolo.

O príncipe Eduardo deu sua aprovação à sentença, mas refletia, e começava a formar, silenciosamente, uma opinião sobre a conduta dos homens promovidos aos altos cargos. Escutar antes de falar, informar-se antes de julgar, compreender antes de decidir, e ter sempre presente que em cada homem se encontram reunidos os recursos das melhores e das piores ações. São esses, para um soberano, os requisitos fundamentais da sabedoria.

É raro que, antes de completar quinze anos, tenha alguém de condenar à morte um de seus semelhantes. Eduardo de Aquitânia, em seu primeiro dia de poder, recebia um bom treinamento.

O velho Despenser foi amarrado pelos pés aos arreios de um cavalo e arrastado pelas ruas de Bristol. Depois, com os tendões despedaçados, os ossos rachados, foi levado para a praça fronteira ao castelo e colocado de joelhos diante do cepo. Seus cabelos brancos foram levantados para a frente, a fim de descobrir a nuca, e uma grande espada, levantada por um carrasco de cógula vermelha, decepou-lhe a cabeça. Seu corpo, completamente inundado pelo sangue que escapava das grandes artérias, foi pendurado, pelas axilas, num patíbulo. A cabeça enrugada, maculada, ficou plantada ao lado, na ponta de um pique.

E cada um daqueles cavaleiros que haviam jurado pelo senhor São Jorge defender damas, donzelas, oprimidos e órfãos, rejubilou-se, com grandes risos e alegres comentários, diante do espetáculo que a si próprios ofereciam na pessoa de um ancião.

 

Hereford

No dia de Todos os Santos a nova corte instalou-se em Hereford.

Se, como dizia Adão Orleton, bispo daquela cidade, cada qual tem na história sua hora luminosa, essa hora chegara para ele próprio. Ao cabo de tantas vicissitudes, depois de ter contribuído para a evasão de um dos maiores fidalgos do reino, depois de ter sido citado perante o Parlamento e salvo pela união de seus pares, depois de ter pregado e estimulado a rebelião, voltava, triunfante, para o bispado cuja direção lhe fora confiada em 1317, contra a vontade do rei Eduardo, e onde se comportara como um grande prelado.

Com que alegria esse homem pequeno, sem atrativos físicos, mas corajoso de corpo e de alma, percorreu, revestido de suas insígnias sacerdotais, de mitra na cabeça, báculo na mão, as ruas daquela cidade pela qual tanto fizera!

Desde que a escolta real tomara posse do castelo situado no centro da cidade, sobre uma curva do rio Wye, Orleton não cessara de mostrar à soberana as obras de sua iniciativa: antes de mais nada, a grande torre quadrada, de dois andares, pontilhada de imensas ogivas, terminando cada ângulo em três campanários ornamentais, dois pequenos, com aresta, e um grande que os dominava, doze flechas ao todo, subindo para o céu, e que ele fizera levantar no centro da catedral, sobre o coração da cruz. A luz de novembro brincava sobre os tijolos cor-de-rosa, cuja umidade mantinha viçosa a cor. Em torno do monumento estendia-se vasto gramado sombrio e bem aparado.

— Não é esta, senhora, a torre mais bela de vosso reino? — dizia Adão Orleton, com o ingênuo orgulho de autor, diante da grande construção cinzelada, não muito carregada, pura de linhas, e diante da qual não cessava de maravilhar-se. — Mesmo que fosse apenas para edificar isto, eu estaria contente por ter vivido.

Orleton devia sua nobreza, como se dizia, a Oxford e não ao brasão. Estava consciente disso, e queria justificar os altos cargos aos quais a ambição, tanto quanto a inteligência, e o saber ainda mais do que a intriga, o haviam conduzido. Sabia-se superior a todos os homens que o rodeavam.

Reorganizara a biblioteca da catedral, uma livraria onde os grandes volumes, arranjados com as bordas para a frente, eram presos às tábuas por correntes de longas malhas forjadas, a fim de que não os pudessem roubar. Cerca de mil manuscritos iluminados, decorados, maravilhosos, reunindo cinco séculos de pensamento, de fé e de invenção, desde a primeira tradução dos Evangelhos para o saxão, mostrando as primeiras páginas ainda decoradas com caracteres rúnicos, até os dicionários latinos mais recentes, passando pela Hierarquia celeste, pelos trabalhos de São Jerônimo, pelas obras de São Crisóstomo, pelos doze profetas menores...

A rainha teve ainda de admirar os trabalhos da sala do capítulo, que estava em construção, e a famosa carta do mundo pintada por Ricardo de Bello, que só podia ser de inspiração divina, pois começava a fazer milagres41.

Hereford foi assim, perto de um mês, a capital improvisada da Inglaterra. Mortimer ali não foi menos feliz do que Orleton, pois que acabava de retomar seu castelo de Wigmore, distante da cidade algumas milhas, e, por assim dizer, encontrava-se de novo em suas terras.

Continuava-se, durante esse tempo, a procurar o rei.

Um certo Rhys ap Owell, cavaleiro do País de Gales, veio um dia informar que Eduardo II se encontrava escondido numa abadia, nas costas do condado de Glamorgan, para onde o navio, no qual ele esperava ir para a Irlanda, fora atirado por ventos contrários.

Imediatamente, João de Hainaut, com um joelho em terra, ofereceu-se para ir forçar, em seu refúgio do País de Gales, o desleal esposo da senhora Isabel. Não foi fácil explicar-lhe que seria difícil confiar a captura do rei a um estrangeiro, que um membro da família real seria mais indicado para cumprir essa penosa tarefa. Foi Henrique Pescoço-Torto quem teve de se pôr a cavalo, sem grande prazer, para ir, acompanhado pelo conde de La Zouche, e por Rhys ap Owell, bater a costa do oeste.

Mais ou menos ao mesmo tempo, o conde de Charlton chegava de Shropshire, onde havia aprisionado o conde d'Arundel, que trazia sob ferros. Para Rogério Mortimer isso constituiu uma estrondosa vingança, pois Edmundo Fitzalan, conde d’Arundel, recebera do rei uma grande parte dos bens que lhe tinham sido arrebatados e conseguira o título de grande juiz do País de Gales, que pertencera ao velho Mortimer de Chirk.

Rogério Mortimer contentou-se em deixar seu inimigo de pé diante dele durante todo um quarto de hora, sem lhe dirigir a palavra, olhando-o apenas da cabeça aos pés, e dando-se à satisfação de contemplar com calma um inimigo vivo, que depressa seria um inimigo morto.

O julgamento de D'Arundel, como inimigo do reino, e sob as mesmas acusações que tinham servido para Despenser, o Velho, foi rapidamente feito, e sua decapitação dada em regozijo à cidade de Hereford e às tropas que ali estacionavam.

Reparou-se que durante o suplício a rainha e Mortimer estavam de mãos dadas.

O jovem príncipe Eduardo fizera quinze anos três dias antes.

Enfim, no dia 20 de novembro, uma grande notícia chegou. O rei Eduardo fora feito prisioneiro pelo conde de Lancastre, na abadia cisterciense de Neath, no vale baixo do Towe.

O rei, seu favorito e o chanceler ali viviam escondidos havia muitas semanas, sob o hábito de monges. Eduardo ocupava suas horas de espera por uma sorte melhor trabalhando na forja da abadia, passatempo que evitava excessos de pensamentos.

Ali estava, de torso nu, o hábito descido nos quadris, o peito e a barba iluminados pelo fogo vermelho da forja, as mãos rodeadas de faíscas, enquanto o chanceler manejava o fole e Hugo, o Jovem, com aspecto lamentável, passava-lhe a ferramenta, no momento em que Henrique Pescoço-Torto emoldurou-se na porta, com o elmo quase a tocar-lhe a espádua, e disse:

— Sire, meu primo, eis que chegou o tempo de pagardes pelos vossos erros.

O rei deixou cair o martelo que tinha na mão. A peça de metal que ele forjava permaneceu, rubra, sobre a bigorna. E o soberano da Inglaterra, com o grande torso pálido todo trêmulo, perguntou:

— Primo, primo, que vão fazer de mim?

— O que os grandes de vosso reino decidirem — respondeu Pescoço-Torto.

Agora Eduardo esperava, sempre com seu favorito, sempre com seu chanceler, encerrado no pequeno solar fortificado de Monmouth, a algumas léguas de Hereford, para onde Lancastre o tinha conduzido.

Adão Orleton, acompanhado pelo seu arcebispo Tomás Chandos e pelo grande camareiro Guilherme Blount, foi imediatamente a Monmouth, a fim de reclamar os selos do reino que Baldock continuava a transportar.

Quando Orleton lhe explicou o motivo de sua visita, Eduardo arrancou da cintura de Baldock o saco de couro que continha os selos, envolveu os cordões dele no punho, como se quisesse transformá-lo numa arma, e exclamou:

— Messire traidor, mau bispo, se quiserdes meu selo, vinde tomar-mo pela força e mostrar que um homem da Igreja ergueu a mão contra o seu rei.

O destino havia, decididamente, designado monseigneur Adão Orleton para funções muito altas. Não é coisa comum tirar das mãos de um rei os símbolos de seu poder. Diante daquele atleta furioso, Orleton, com os ombros caídos, as mãos fracas, e não tendo outra arma a não ser seu frágil báculo de marfim, respondeu:

— A entrega deve ser feita espontaneamente por vós, e que as testemunhas o possam comprovar. Sire Eduardo, ides obrigar vosso filho, que já é presentemente o mantenedor do reino, a mandar fazer seu próprio selo de rei mais cedo do que ele pensava fazê-lo? À força, entretanto, posso mandar prender o lorde-chanceler e lorde Despenser, que tenho ordem de conduzir à rainha.

A essas palavras, Eduardo cessou de se preocupar com os selos para não pensar senão em seu bem-amado favorito. Tirou do punho o saco de couro, atirou-a ao camareiro Guilherme Blount, como se aquilo, de súbito, se tivesse tornado um objeto indiferente, e, abrindo os braços a Hugo, exclamou:

— Ah! Não! Não mo arrancareis!

Hugo, o Jovem, emagrecido, tiritante, atirara-se contra o peito do rei. Castanholava os dentes, parecia prestes a desfalecer e gemia:

— É tua esposa, vês, que quer isto! É ela, aquela loba francesa, a causa de tudo! Ah! Eduardo, Eduardo, por que casaste com ela?

Henrique Pescoço-Torto, o arcediago Chandos e Guilherme Blount olhavam para aqueles dois homens abraçados, e, por muito incompreensível que fosse para eles o espetáculo de tal paixão, não podiam deixar de reconhecer nela alguma horrível grandiosidade.

Por fim, foi Henrique Pescoço-Torto quem se aproximou, e tomou Despenser pelo braço, dizendo:

— Vamos, precisais separar-vos. E arrastou-o.

— Adeus, Hugo, adeus — exclamava Eduardo. — Não mais te verei, minha vida querida, minha bela alma! Então, tudo me arrebatam!

Lágrimas rolavam pela sua barba loura.

Hugo Despenser foi confiado aos cavaleiros da escolta, que começaram por colocar-lhe à cabeça um capuz de camponês, feito de rústico burel, no qual pintaram, por escárnio, as armas e os emblemas dos condados que ele se tinha feito presentear pelo rei. Depois içaram-no, com as mãos atadas nas costas, sobre o cavalo menor e mais mesquinho que conseguiram encontrar, um garrano anão, magro e sovado, como se encontra no campo. Hugo tinha as pernas muito compridas, e foi forçado a dobrá-las para não deixar que seus pés se arrastassem pela lama. Assim o conduziram da cidade para o burgo, através de todo o Monmouthshire e de todo o Herefordshire, deixando-o estacionado nas praças a fim de que o povo pudesse divertir-se à vontade. As cometas tocavam diante do prisioneiro, e um arauto gritava:

— Vede, boa gente, vede o conde de Gloucester, o lorde-camareiro, vede o mau homem que tanto tempo prejudicou o reino!

O chanceler Roberto de Baldock foi comboiado mais discretamente, pela dignidade da Igreja, para o bispado de Londres, onde ficou encerrado, pois sua categoria de arcediago vedava a aplicação da pena de morte contra ele.

Todo o ódio concentrou-se, portanto, sobre Hugo Despenser, que continuava a ser chamado o Jovem, embora ele agora se aproximasse dos trinta e seis anos e seu pai não mais existisse. Seu julgamento foi depressa instruído, em Hereford, e sua condenação, pronunciada sem deixar dúvidas. Mas como o apontavam como o primeiro responsável por todos os erros e todas as infelicidades por que tinha passado a Inglaterra, seu suplício foi objeto de refinamentos especiais.

No dia 24 de novembro, tribunas foram levantadas na esplanada que ficava diante do castelo, e a plataforma do cadafalso armada bem alta, a fim de que um povo bastante numeroso não perdesse um só dos pormenores de execução. A rainha Isabel ficou na primeira fila da tribuna maior, entre Rogério Mortimer e o príncipe Eduardo. Chuviscava.

As trompas e as buzinas soaram. Hugo, o Jovem, foi trazido pelos ajudantes do carrasco e despido de suas vestes. Quando seu corpo comprido, de ancas salientes, busto um tanto cavado, apareceu, branco e totalmente nu, entre os carrascos vestidos de vermelho e acima dos piques dos arqueiros que rodeavam o cadafalso, riso imenso levantou-se da multidão.

A rainha Isabel inclinou-se para Mortimer e murmurou-lhe:

— Lamento que Eduardo não esteja aqui para ver isto.

Com olhos brilhantes, seus pequenos dentes de animal carnívoro entreabertos, e as unhas plantadas na palma da mão de seu amante, ela estava bem atenta, nada querendo perder de sua vingança.

O príncipe Eduardo pensava: "Então esse é o homem que tanto agradou a meu pai?" Já havia assistido a dois suplícios, e sabia que agüentaria até o fim, sem vomitar.

As buzinas tornaram a soar. Hugo foi estendido e amarrado pelos membros a uma cruz horizontal de Santo André. O carrasco afiou lentamente, numa pedra de amolar, uma lâmina aguda, semelhante a uma faca de açougueiro, e experimentou o corte no polegar. A multidão retinha o fôlego. Depois, o ajudante aproximou-se, trazendo uma tenaz com a qual agarrou o sexo do condenado. Vaga histeria sacudiu a assistência: os pés que sapateavam faziam tremer as tribunas. E apesar daquele ruído, ouviu-se o urro lançado por Hugo, um só grito despedaçador, que se deteve de súbito, enquanto um jorro de sangue saltava diante dele. A mesma operação repetiu-se para os testículos, mas num corpo já inconsciente. Os tristes refugos foram atirados a um forno cheio de brasas ardentes, que um ajudante abanava, desprendendo um cheiro horroroso de carne queimada. Um arauto, colocado diante dos tocadores de buzina, anunciou que assim se fizera "porque Despenser fora sodomita, tinha induzido o rei à sodomia, e para tanto expulsara a rainha de seu leito".

Depois, o carrasco, escolhendo uma lâmina mais espessa e mais larga, fendeu o peito e o ventre no sentido da largura, como teria feito com um porco. As tenazes foram procurar o coração, que ainda palpitava, e arrancaram-no para atirá-lo ao braseiro. As buzinas ressoaram para dar a palavra ao arauto, o qual declarou que "Despenser fora falso de coração e traidor, e, com seus traiçoeiros conselhos, havia difamado o reino".

Em seguida as entranhas foram arrancadas do ventre, desenroladas e sacudidas, espelhantes, nacaradas, e apresentadas ao público, porque "Despenser tinha se alimentado com o bem dos grandes e com o bem do povo pobre". E as entranhas, por sua vez, transformaram-se naquela fumarada acre que se mesclava ao chuvisqueiro de novembro.

Depois, a cabeça foi decapitada, não com um golpe de espada — pois ela tombara para trás entre os braços da cruz —, mas cortada com faca, porque "Despenser mandara degolar os maiores barões da Inglaterra, e de sua cabeça tinham saído todos os maus conselhos". A cabeça de Hugo Despenser não foi queimada. Os carrascos colocaram-na de lado, a fim de enviá-la para Londres, onde seria plantada à entrada da ponte.

Enfim, o que restara daquele corpo comprido e pálido foi cortado em quatro pedaços: um braço com o ombro, outro braço com o ombro e o pescoço, as duas pernas, cada uma com a metade do ventre, a fim de serem expedidos para as quatro melhores cidades do reino, depois de Londres.

A turba desceu das tribunas, cansada, esgotada, liberta. Pensava-se ter alcançado o cúmulo da crueldade.

Depois de cada execução por aquela estrada sangrenta, Mortimer encontrara a rainha Isabel mais ardente no prazer. Mas naquela noite que se seguira à morte de Hugo Despenser, as exigências que ela teve, a gratidão desvairada que lhe expressou, não deixaram de inquietar Mortimer. Para ter odiado tanto o homem que lhe tomara Eduardo, era preciso que outrora Isabel tivesse amado o rei. E na alma desconfiada de Mortimer formou-se um projeto que levaria a termo, fosse qual fosse o tempo que tal coisa exigisse.

No dia seguinte, Henrique Pescoço-Torto, designado como guardião do rei, foi encarregado de conduzi-lo ao Castelo de Kenilworth e ali mantê-lo encerrado, sem que a rainha o tivesse visto.

 

'Vox populi'

— Quem quereis para rei?

Esta horrível apóstrofe, da qual dependeria o futuro de uma nação, monseigneur Adão Orleton lançara, no dia 12 de janeiro de 1327, através do grande salão de Westminster, e as palavras repercutiram no alto, contra as nervuras das abóbadas.

— Quem quereis para rei?

Há seis dias que o Parlamento da Inglaterra se reúne, dissolve-se, torna a reunir-se, e Adão Orleton, no papel de chanceler, dirige os debates.

Em sua primeira sessão, na semana anterior, o Parlamento citaria o rei para que comparecesse diante dele. Adão Orleton e João de Stratford, bispo de Winchester, tinham ido a Kenilworth apresentar a Eduardo II a citação. E o rei Eduardo recusara-se a comparecer.

Recusara-se a prestar contas de seus atos aos lordes, aos bispos, aos deputados das cidades e dos condados. Orleton comunicara à assembléia a resposta, a qual ninguém soube se fora inspirada pelo medo ou pelo desprezo. Mas Orleton estava profundamente convencido e expressara sua opinião ao Parlamento, dizendo que, se a rainha fosse obrigada a reconciliar-se com seu esposo, estaria votada à morte certa.

Dessa maneira, a grande questão estava colocada. Monseigneur Orleton concluíra seu discurso aconselhando o Parlamento a suspender até o dia seguinte sua reunião, a fim de que.cada qual pesasse sua escolha em consciência, e no silêncio da noite. No dia seguinte, a assembléia diria se desejava que Eduardo II, o Plantageneta, conservasse sua coroa ou se ela deveria ser entregue a seu filho primogênito, Eduardo, duque da Aquitânia.

Belo silêncio de consciência foi o rumor que prevaleceu em Londres naquela noite! As residências dos fidalgos as abadias, as moradias dos grandes comerciantes, os albergues, ressoariam até a madrugada com as mais apaixonadas discussões. Todos os barões, bispos, cavaleiros, morgados e representantes do burgo, escolhidos pelos funcionários administrativos, não eram, de direito, membros do Parlamento, a não ser por designação do rei, e seu papel, em princípio, deveria ser consultivo. Mas o soberano está decadente, incapaz: um fugitivo capturado fora de seu reino. E não fora o rei quem convocara o Parlamento, mas o Parlamento que convocara o rei, sem que este último se dignasse a atender a seu chamado. O poder supremo se encontrava, assim, dividido por um momento, por uma noite, entre todos aqueles homens oriundos de regiões diversas, de origem dispare, de fortuna desigual.

"Quem quereis para rei?"

Todos fazem a si próprios, realmente, essa pergunta, mesmo os que desejaram com mais força o rápido fim de Eduardo II, os que gritaram a cada escândalo, a cada imposto novo, ou a cada guerra perdida: "Que ele rebente, e que Deus nos livre dele!"

E Deus não precisa mais intervir. Tudo depende deles próprios, e eles tomam, de súbito, consciência da importância de sua vontade. Seus desejos e maldições se realizaram apenas porque se reuniram. Teria podido a rainha, mesmo apoiada por seus Hennuyers, apoderar-se de todo o reino, como fizera, se os barões e o povo houvessem respondido ao recrutamento ordenado por Eduardo?

Mas a deposição de um rei, a destituição definitiva de sua autoridade nominal, é ato de responsabilidade. Muitos dos membros do Parlamento estão receosos por causa do caráter divino que se liga à sagração e à majestade real. Além disso, o príncipe que lhes propõem é muito jovem! Que se sabe dele, a não ser que está inteiramente nas mãos de sua mãe, a qual, por sua vez, está inteiramente nas mãos de Mortimer? Ora, se respeitam, se admiram o barão de Wigmore, o antigo grande juiz e o vencedor da Irlanda, se sua evasão, seu exílio, sua volta, mesmo seus amores, fizeram dele um herói lendário, se em grande parte é ele o libertador, temem seu caráter, sua dureza, sua inclemência. Já se poderia censurar-lhe o rigor no punir, que aquelas últimas semanas provaram, quando só tinha cumprido os desejos do povo. Os que o conhecem bem temem, sobretudo, sua ambição. Não deseja ele, secretamente, tornar-se rei? Amante da rainha, está bem próximo do trono. Hesitam em dar-lhe o grande poder de que disporá, se Eduardo for deposto; e há debates em torno das lâmpadas de azeite e das velas, entre os potes de estanho que enchem de cerveja. E vão todos deitar-se, esmagados pela fadiga, sem nada terem resolvido.

O povo inglês, naquela noite, é soberano, mas, um tanto embaraçado com aquela situação, não sabe a quem outorgar o exercício dessa soberania.

A história dera um passo inesperado. Discutem-se assuntos cuja própria discussão significa que novos princípios são admitidos. Um povo não esquece tal precedente, nem uma assembléia, o poder que lhe é dado. Uma nação não esquece que foi, por um dia, em seu Parlamento, senhora de seu destino.

Assim, no dia seguinte, quando monseigneur Orleton, tomando o jovem príncipe Eduardo pela mão, o apresenta aos deputados, de novo reunidos em Westminster, imensa ovação levanta-se e rola entre aquelas paredes, por cima das cabeças.

— Nós o queremos! Nós o queremos!

Quatro bispos, entre os quais os de Londres e de York, protestam e vêm argumentar sobre a situação jurídica dos juramentos de homenagem e o caráter irrevogável da sagração. Mas o arcebispo Reynolds, ao qual, antes de fugir, Eduardo II havia confiado o governo, e que deseja provar a sinceridade de sua adesão à rainha, exclama:

— Vox populi, vox Dei!

Prega sobre o tema como se estivesse no púlpito, durante um grande quarto de hora.

João de Stratford, bispo de Winchester, redige então, e lê diante da assembléia, os seis artigos que consagram a destituição de Eduardo II, Plantageneta.

Primo, o rei é incapaz de governar. Durante todo o seu reinado foi orientado por detestáveis conselheiros.

Secundo, consagrou todo o seu tempo a trabalhos e ocupações indignos de si e negligenciou os negócios do reino.

Tertio, perdeu a Escócia, a Irlanda e a metade da Guyenne.

Quarto, prejudicou a Igreja, aprisionando os seus ministros.

Quinto, aprisionou, exilou, deserdou, condenou à morte vergonhosa muitos de seus grandes vassalos.

Sexto, arruinou o reino, é incorrigível, incapaz de se emendar.

Durante esse tempo, os burgueses de Londres, inquietos e divididos — seu bispo não se havia declarado contra a deposição? — reuniram-se no Guild Hall. São menos fáceis de manobrar do que os representantes dos condados. Vão provocar, talvez, a derrota do Parlamento? Rogério Mortimer, que formalmente nada representa, mas que, de fato, é todo-poderoso, corre ao Guild Hall, agradece aos londrinos sua atitude leal e garante-lhes a manutenção das habituais liberdades de que a cidade goza. Em nome de quem, em nome de quê, dá ele tal garantia? Em nome de um adolescente que nem ao menos ainda é rei, que mal acaba de ser designado por aclamação. O prestígio de Mortimer, a autoridade de sua pessoa, influenciam os burgueses londrinos. Chamam-no, já, lorde protetor. De quem é ele o protetor? Do príncipe, da rainha, do reino? É o lorde protetor, aí está tudo, o homem promovido pela história, e em cujas mãos cada qual renuncia à sua parte de poder e julgamento.

Depois, o inesperado sobrevém. O jovem príncipe, que desde alguns instantes todos já consideravam rei, o pálido jovem de longos cílios, que seguira em silêncio aqueles acontecimentos, e que parecia pensar apenas na senhora Filipa de Hainaut, Eduardo de Aquitânia, declarara à sua mãe, ao lorde protetor, a monseigneur Orleton, aos lordes-bispos, a todos os que o rodeavam, que jamais receberia a coroa sem o consentimento de seu pai, e sem que aquele tivesse escrito e proclamado oficialmente que dela se desfazia.

O estupor gela os rostos, as mãos tombam ao longo do corpo. Quê! Tantos esforços despendidos inutilmente? Algumas suspeitas voltam-se para a rainha. Não seria ela quem teria agido secretamente junto ao filho, por um desses imprevisíveis retornos da afeição que as mulheres costumam ter? Teria havido alguma desavença entre ela e o lorde protetor, naquela noite em que cada qual deveria consultar sua consciência?

Não. Fora mesmo aquele menino de quinze anos quem, sozinho, refletira na importância da legitimidade do poder. Não quer aparecer como usurpador, nem deter o cetro pela vontade de uma assembléia que poderia retirar-lho, assim como lho teria dado. Exige o consentimento de seu predecessor. Não que alimente qualquer sentimento de ternura pelo pai; julga-o, apenas. Julga todos, porém.

Há muitos anos que demasiadas coisas más se têm passado diante dele, forçando-o, desde cedo, a julgar. Sabe que o crime não está inteiramente de um lado, e a inocência de outro. Sem dúvida, seu pai causou muito sofrimento a ^ sua mãe, feriu-lhe a dignidade, despojou-a. Mas que exemplo dá presentemente aquela mãe, com lorde Mortimer? Se um dia, por alguma falha que lhe acontecesse cometer, a senhora Filipa agisse da mesma forma? E esses barões e bispos, todos hoje encarniçados contra o rei Eduardo, não governaram com ele? Norfolk, Kent, os jovens tios, receberam e aceitaram cargos. Os bispos de Winchester e de Lincoln tinham negociado em nome do rei Eduardo. Os Despenser não podiam estar em toda parte. E mesmo que dessem as ordens, não iam pessoalmente executá-las! Quem se arriscaria a recusar obediência? O primo Lancastre do Pescoço-Torto, sim, aquele tinha coragem. E também lorde Mortimer, que pagara sua rebeldia com longa prisão. Mas para contrabalançar esses dois, que ali estavam, quantos servidores tinham aderido rapidamente ao partido da rainha, e agarravam agora, furiosamente, a ocasião de se desabonar de seus erros!

Qualquer outro príncipe da terra poderia sentir-se embriagado ao ver, em sua idade, caber-lhe uma das maiores coroas do mundo, e entregue por tantas mãos. Ele levanta os cílios longos, olha fixamente, enrubesce um pouco pela sua audácia, e obstina-se em sua decisão. Então, monseigneur Orleton chama a si os bispos de Winchester e de Lincoln, assim como o grande camareiro Guilherme Blount, ordena que retirem do tesouro da Torre a coroa e o cetro que ali estão guardados, coloca-os num cofre sobre a albarda de uma mula, e ele próprio, levando suas vestes de cerimônia, retoma o caminho de Kenilworth, a fim de obter a abdicação do rei.

 

Kenilworth

Os muros externos que seguiam a base de uma grande colina circundavam jardins fechados, prados, cavalariças e estábulos, uma forja, granjas, e a casa de fornos do pão, o moinho, as cisternas, as moradias dos servidores e as casernas dos soldados, toda uma aldeia, quase maior do que a das redondezas, e da qual se via o aglomerado de casas pequenas, com cobertura de telhas. Não pareciam ser a mesma raça de homens, os que moravam fora dos muros, nos pardieiros, e os que viviam no interior da formidável fortaleza que atirava seus muros vermelhos contra o céu do inverno.

Porque Kenilworth fora construído com uma pedra cor de sangue seco. Era um dos fabulosos castelos do século que se seguira à conquista, e onde um punhado de normandos, os companheiros de Guilherme, tiveram que manter subjugado todo um povo, através daqueles imensos castelos fortes semeados sobre as colinas.

O keep42 de Kenilworth — o torreão, como diziam os franceses, na falta de melhor palavra, pois aquela espécie de construção não existia na França, ou não mais existia — era quadrado e de uma altura vertiginosa, que fazia lembrar aos viajantes do Oriente os pilones dos templos do Egito.

As proporções daquela obra titânica eram tais, que aposentos muito grandes ficavam contidos, reservados, na própria espessura das paredes. Mas não se podia entrar naquela torre a não ser por uma escada estreita, onde duas pessoas mal podiam caminhar de frente, e cujos degraus vermelhos conduziam a uma porta protegida, gradeada, no primeiro andar. No interior encontrava-se um jardim, ante um pátio gramado, de sessenta pés de lado, a céu aberto, e completamente encerrado no keep.

Não havia edifício militar mais bem concebido do que esse para suportar um cerco. Se o invasor conseguisse transpor o primeiro muro de proteção, os defensores poderiam refugiar-se no próprio castelo, ao abrigo do fosso. E se a segunda defesa fosse atingida, então, abandonando ao inimigo os alojamentos habituais da moradia, o grande salão, as cozinhas, os quartos senhoriais, a capela, seus ocupantes iriam entrincheirar-se na torre de canto, em torno do poço de seu pátio verde, e nos flancos de suas profundas muralhas.

O rei ali vivia, prisioneiro. Conhecia bem Kenilworth, que pertencera a Tomás de Lancastre e servira outrora de ponto de reunião para os barões rebeldes. Depois que Tomás fora decapitado, Eduardo seqüestrara o castelo e ali morara, durante o inverno de 1323, antes de entregá-lo, no ano seguinte, a Henrique Pescoço-Torto, ao mesmo tempo em que lhe devolvia os bens de Lancastre.

Henrique II, avô de Eduardo, outrora tivera necessidade de cercar Kenilworth durante seis meses para retomá-lo ao filho de seu cunhado, Simão de Montfort. E não foram os exércitos que venceram, mas a fome, a peste e a excomunhão.

No início do reinado de Eduardo, Rogério Mortimer de Chirk, o que acabava de morrer na masmorra, se fizera guardião daquele castelo, em nome do primeiro conde de Lancastre, e ali realizara seus famosos torneios. Uma das torres do muro externo, para exasperação de Eduardo, tinha o nome de Torre Mortimer! Ali estava, plantada diante de seu horizonte cotidiano, como um escárnio e um desafio.

A região oferecia ao rei Eduardo II outras lembranças. A quatro milhas para o sul, no Castelo de Warwick, cujo keep branco podia ser visto do alto do keep vermelho de Kenilworth, Gaveston, seu primeiro amante, fora morto pelos barões. Essa proximidade teria modificado o curso dos pensamentos do rei? Eduardo parecia ter esquecido completamente Hugo Despenser, mas estava obsedado, em compensação, pela memória de Pedro de Gaveston, e dele falava incessantemente a Henrique de Lancastre, seu guardião.

Jamais Eduardo e seu primo Pescoço-Torto tinham vivido tanto tempo lado a lado, e em tal solidão, jamais Eduardo se confiara tanto ao membro mais velho de sua família. Tinha momentos de grande lucidez, que, de súbito, confundiam Lancastre e o emocionavam bastante. Lancastre começava a compreender certas coisas que pareciam incompreensíveis para o povo inglês.

Fora Gaveston, reconhecia Eduardo, o primeiro responsável, ou, pelo menos, a causa de seus primeiros erros e do mau caminho que posteriormente trilhara.

— Ele gostava muito de mim — dizia o rei prisioneiro —, e depois, jovem como eu era, estava pronto a acreditar nas palavras dele e a me entregar inteiramente a um amor tão belo.

Ainda agora não podia evitar enternecer-se, quando recordava o encanto do pequeno cavaleiro gascão, saído do nada, "um cogumelo nascido na noite", como diziam os barões, e do qual ele fizera conde da Cornualha, menosprezando todos os grandes fidalgos do reino.

— Ele me queria tanto! — explicava Eduardo.

E que maravilhosa insolência, a de Pedro, uma insolência que arrebatava Eduardo! Um rei não podia permitir-se tratar seus mais altos barões como os tratava seu favorito.

— Lembras-te, Pescoço-Torto, como ele chamava de bastardo o conde de Gloucester? E como gritava ao conde de Warwick: "Vai deitar-te, cão negro!"

— E como insultava também meu irmão, chamando-o cornudo, o que Tomás jamais lhe perdoou, porque era verdade.

De nada tinha medo aquele Pedro. Pilhava as jóias da rainha, atirava ofensas em torno de si como outros distribuem esmolas, porque estava seguro do amor de seu rei! Um atrevido, verdadeiramente, como jamais existira outro. Além disso, tinha imaginação para os divertimentos. Mandava despir seus pajens, com os braços carregados de contas, a boca pintada, um galho folhudo sobre o ventre, organizando assim caçadas galantes pelos bosques. Depois, as escapadas para os lugares sórdidos do porto de Londres, onde se batia com os carregadores, porque além de tudo era forte, o velhaco! Ah! Que linda juventude ele proporcionara ao rei!

— Pensei tornar a encontrar tudo isso em Hugo, mas nisso havia mais imaginação do que verdade. Vês, Pescoço-Torto, o que fazia Hugo diferente de Pedro, era que o primeiro pertencia a uma grande família de grandes barões, e não podia esquecer-se disso. Mas se eu não tivesse conhecido Pedro, estou certo de que teria sido outro rei.

No decorrer das intermináveis noitadas de inverno, entre duas partidas de xadrez, Henrique Pescoço-Torto, com os cabelos cobrindo o ombro direito, ouvia, assim, as confissões do rei, que os reveses, a ruína e o cativeiro tinham envelhecido subitamente, cujo corpo de atleta enlanguescia, cujo rosto intumescia, sobretudo nas pálpebras. Eduardo conservava ainda certa sedução. Tinha necessidade de ser amado, e essa fora a desgraça de sua vida! Era lastimável que tivesse cultivado tão maus amores e procurado conforto e confiança em tão perversos corações.

Pescoço-Torto aconselhara Eduardo a apresentar-se diante de seu Parlamento, mas em vão. Esse rei fraco só mostrava força na recusa.

— Sei bem que perdi meu trono, Henrique — respondia ele —, mas não abdicarei.

 

Levados sobre um coxim, a coroa e o cetro da Inglaterra subiam lentamente, degrau por degrau, a escada estreita do keep de Kenilworth. Atrás, as mitras oscilavam e as pedrarias dos báculos cintilavam na penumbra. Os bispos, erguendo à altura dos tornozelos suas três vestes bordadas, subiam para a torre.

O rei — sentado numa cadeira que, por ser a única, lembrava um trono — esperava, ao fundo da grande sala, com a fronte na mão, o corpo abatido, entre as colunas que sustentavam os grandes arcos em ogiva, semelhantes aos das catedrais. Tudo, ali, tinha proporções inumanas. A luz pálida de janeiro, que entrava pelas janelas altas e muito estreitas, parecia-se a um crepúsculo.

O conde de Lancastre, com a cabeça inclinada, estava de pé ao lado de seu primo, em companhia de três servidores que nem sequer eram os do soberano. E as paredes vermelhas, as colunas vermelhas, os arcos vermelhos, compunham um trágico cenário para o fim de um reinado.

Quando viu surgir, pela porta cujos dois batentes estavam abertos, depois adiantarem-se para ele, através da imensa sala, a coroa e o cetro que lhe tinham sido trazidos da mesma maneira, vinte anos antes, sob as abóbadas de Westminster, Eduardo endireitou-se na sua cadeira, e seu queixo pôs-se a tremer um pouco. Voltou os olhos para seu primo de Lancastre, como em busca de apoio, e Pescoço-Torto desviou o olhar, de tal modo essa súplica silenciosa era insuportável.

Depois, Orleton achou-se diante do soberano, o mesmo cujo aparecimento havia algumas semanas significara para Eduardo o confisco de uma parte de seu poder. O rei olhou para os outros bispos e para o grande camareiro e fez um esforço de dignidade para perguntar:

— Que tendes a dizer-me, my lord!

Porém, mal se ouvia sua voz nos pálidos lábios, entre a barba loura.

O bispo de Winchester leu a mensagem, pela qual o Parlamento intimava seu soberano a assinar sua renúncia ao trono, assim como à homenagem de seus vassalos, a concordar com a designação de seu filho, e entregar aos enviados as insígnias rituais da realeza.

Quando o bispo de Winchester calou-se, Eduardo ficou silencioso um longo momento. Toda a sua atenção parecia estar concentrada na coroa. Sofria, e sua dor era tão visivelmente física, tão profundamente se marcava em suas feições, que não se podia duvidar que ele estivesse pensando. Entretanto, disse:

— Tendes a coroa nas mãos, my lord, e me tendes à vossa mercê. Fazei o que vos parecer melhor, mas não com o meu consentimento.

Então, Adão Orleton deu um passo à frente e declarou:

— Sire Eduardo, o povo da Inglaterra não vos quer mais para rei, e seu Parlamento nos envia para declarar-vos isso. Mas o Parlamento aceita para rei vosso filho primogênito, o duque da Aquitânia, que eu lhe apresentei: e vosso filho não quer aceitar a coroa senão por vossa vontade. Se vos obstinardes na recusa, o povo terá a liberdade de escolher e poderá bem eleger para príncipe soberano aquele, entre os grandes do reino, que o contente mais, e esse rei poderá não ser da vossa linhagem. Causastes demasiados transtornos aos vossos Estados. Depois de tantos atos que os prejudicaram, este é o único que podeis realizar agora, para restituir-lhes a paz.

De novo os olhos de Eduardo voltaram-se para Lancastre. Apesar da indisposição que o invadia, o rei compreendera bem a advertência contida nas palavras do bispo. Se a abdicação não fosse espontânea, o Parlamento, necessitando encontrar um rei, não deixaria de escolher o chefe da rebelião, Rogério Mortimer, que já era dono do coração da rainha. O rosto do rei tomara uma tonalidade de cera, inquietante. O queixo continuava a tremer, e as narinas contraíam-se.

— Monseigneur Orleton falou sensatamente — disse Pescoço-Torto —, e deveis renunciar, meu primo, a fim de restituir a paz à Inglaterra e para que os Plantagenetas continuem a reinar.

Viu-se então Eduardo, incapaz de falar, fazer sinal para que aproximassem a coroa, e inclinar a cabeça como se desejasse que nela a depusessem pela derradeira vez.

Os bispos consultaram-se com os olhos, não sabendo como agir, nem que gesto fazer, naquela cerimônia imprevista que não tinha precedente na liturgia real. Mas a.cabeça do rei continuava baixa, tombada sobre os joelhos.

— Ele está morrendo! — exclamou de súbito o arcediago Chandos, que levava a almofada com os emblemas.

Pescoço-Torto e Orleton precipitaram-se para segurar Eduardo, desacordado, no momento em que sua cabeça ia bater contra o lajedo.

Colocaram-no de novo em sua cadeira, bateram-lhe nas faces, correram a buscar vinagre. Enfim, ele respirou longamente, tornou a abrir os olhos, olhou em torno de si. Depois, de repente, estalou em soluços. A misteriosa força que a unção e as magias da sagração infundem nos reis, para não servir, às vezes, senão a disposições funestas, acabava de abandoná-lo. Eduardo estava como que exorcizado da realeza.

Através de suas lágrimas, ouviram-no falar:

— Eu sei, my lords, eu sei que foi por minha própria culpa que tombei em tamanha miséria e que devo me resignar a sofrer. Mas não posso deixar de sentir pesado desgosto por causa de toda essa hostilidade de meu povo, que eu não odiava. Eu vos ofendi, não agi bem para convosco. Sois bons, my lords, muito bons por conservardes vosso devotamento em relação a meu filho primogênito, por não terdes deixado de amá-lo e de desejá-lo para rei. Portanto vou satisfazer-vos. Renuncio diante de vós a todos os meus direitos sobre o reino, desobrigo todos os meus vassalos da homenagem que me prestavam e peço-lhes perdão. Aproximai-vos...

E de novo fez o gesto de chamar os emblemas. Agarrou o cetro, e seu braço dobrou-se, como se ele tivesse esquecido qual o peso daquele objeto. Entregou-o de novo ao bispo de Winchester, dizendo:

— Perdoai, my lord, perdoai as ofensas que vos fiz.

Estendeu suas compridas e brancas mãos para a almofada, levantou a coroa, nela apoiou os lábios, como se beija a pátena. Depois, entregando-a a Adão Orleton:

— Tomai-a, my lord, para cingir meu filho. E dai-me vosso perdão pelos males e injustiças que vos causei. Na miséria em que me encontro, que meu povo me perdoe. Orai por mim, my lords, que nada mais sou.

Todos ficaram impressionados com a nobreza das palavras ditas. Eduardo só se revelava rei no instante em que não mais o era.

Então, sir Guilherme Blount, o grande camareiro, saiu da sombra das colunas, colocou-se entre Eduardo II e os bispos, e quebrou sobre o joelho seu bastão esculpido, insígnia de sua função, como teria feito, para indicar que um reinado terminara, diante do cadáver de um rei em sua descida para o sepulcro.

 

A guerra das panelas

"Visto que sir Eduardo, outrora rei da Inglaterra, abdicou ao governo do reino, por sua própria vontade e pelo conselho comum e assentimento dos prelados, condes, barões e outros nobres, e de toda a comunidade do reino, e consentiu e quis que o governo do referido reino passasse a sir Eduardo, seu filho primogênito e herdeiro, e que este último governe e seja coroado rei, todos os grandes prestaram homenagem, proclamamos e publicamos a paz de nosso dito senhor sir Eduardo, o filho, e ordenamos, de sua parte, a todos, que ninguém deve infringir a paz de nosso dito senhor, o rei, porque ele está e estará disposto a fazer justiça aos do dito reino, a favor e contra todos, tanto aos homens de pouca fortuna como aos grandes. E que quem quer que reclame de outro seja o que for, faça-o pelos meios legais, sem usar de força nem de outras violências."

Essa proclamação foi lida no dia 24 de janeiro de 1327, diante do Parlamento da Inglaterra, e um conselho de regência constituiu-se imediatamente. A rainha presidia esse conselho de doze membros, entre os quais estavam os condes de Kent, de Norfolk e de Lancastre, o marechal sir Tomás Wake, e — o mais importante de todos — Rogério Mortimer, barão de Wigmore.

No domingo, 1.° de fevereiro, a coroação de Eduardo III foi realizada em Westminster. Na véspera, Henrique Pescoço-Torto armara cavaleiro o jovem rei, e a mesma coisa fizera, na ocasião, com os três filhos mais velhos de Rogério Mortimer.

Lady Joana Mortimer, que recuperara sua liberdade e seus bens, mas perdera o amor do esposo, estava presente. Não ousava olhar para a rainha, e a rainha não ousava olhar para ela. Lady Joana sofria sem consolo aquela traição dos dois seres que ela mais amara e melhor servira neste mundo.

Quinze anos junto da rainha Isabel, quinze anos de devotamento, de intimidade, de riscos compartilhados, deviam receber tal pagamento? Vinte e três anos de união com Mor-timer, a quem dera onze filhos, deviam acabar-se assim? Naquele grande transtorno que revolvia os destinos do reino e dava os mais altos poderes a seu marido, lady Joana, sempre tão leal, encontrava-se entre os vencidos. Entretanto, perdoava, apagava-se com dignidade, justamente por se tratar dos dois seres que ela mais admirava. E compreendia que aqueles dois seres se tivessem amado com amor inevitável desde o instante em que a sorte os aproximara um do outro.

À saída da sagração, a multidão foi autorizada a entrar no bispado de Londres para ali espancar até a morte o antigo chanceler Roberto de Baldock. E messire João de Hainaut recebera naquela semana uma renda de mil marcos esterlinos, a retirar do produto dos impostos sobre lãs e couros, no porto de Londres.

Messire João de Hainaut teria muito bem ficado mais algum tempo na Inglaterra. Mas prometera ir ao grande torneio, em Condé-sur-l’Escault, onde muitos príncipes haviam marcado encontro, inclusive o rei da Boêmia. Haveria justa, paradas, e iam encontrar belas damas que tinham atravessado a Europa para ver enfrentarem-se os mais belos cavaleiros. Iam seduzir, dançar, divertir-se em festas e assistir a representações teatrais. Messire João de Hainaut não podia faltar ao torneio, onde iria brilhar, com as plumas sobre o elmo, no meio das liças cobertas de areia. Aceitou levar uns quinze cavaleiros ingleses que queriam participar do torneio.

Em março foi, enfim, assinado com a França o tratado que regulamentava a questão da Aquitânia, com grande detrimento da Inglaterra. Mas Mortimer poderia levar Eduardo III a recusar as cláusulas que ele próprio negociara a fim de que fossem impostas a Eduardo II? Era a herança do mau reinado que se necessitava saldar. Além disso, pouco se interessava Mortimer pela Guyenne, onde não tinha possessões, e toda a sua atenção, no momento, voltava-se, como antes de sua prisão, para o País de Gales e para as Marcas galesas.

Os enviados que foram a Paris ratificar o tratado encontraram o rei Carlos IV muito triste e contrafeito, porque a criança que nascera de Joana d'Evreux, no precedente mês de novembro, uma menina, quando ele tanto esperava um menino, vivera apenas dois meses.

O reino inglês começava a ser posto novamente em ordem quando o velho rei da Escócia, Roberto Bruce, o que já tantos aborrecimentos causara a Eduardo II, embora estivesse bem avançado em anos e além disso atacado de lepra, mandou desafiar o jovem Eduardo, advertindo-o de que ia invadir seu país, isso no dia l.° de abril, doze dias antes da Páscoa.

A primeira reação de Rogério Mortimer foi mandar o ex-rei Eduardo mudar de residência. Era medida prudente, aquela. Com efeito, precisavam de Henrique de Lancastre no exército, com suas companhias, e depois, Lancastre, segundo os relatórios que vinham de Kenilworth, parecia tratar com excessiva indulgência o seu prisioneiro, afrouxando a vigilância e permitindo ao antigo rei alguns entendimentos com o exterior. Ora, nem todos os partidários dos Despenser tinham sido executados, afinal, a começar pelo conde de Warenne, que, mais feliz do que seu cunhado, o conde d'Arundel, pudera escapar. Alguns estavam metidos em seus solares, ou então em casas amigas, esperando que o temporal passasse: outros haviam fugido do reino. Podia, mesmo, perguntar-se se o desafio do velho rei da Escócia não seria inspirado por eles.

De outro lado, o grande entusiasmo popular que acompanhara a libertação começava a decrescer seriamente. Governando havia seis meses, Rogério Mortimer já era menos amado, menos adulado, pois os impostos continuavam a existir, e havia gente que ia para as prisões por não pagá-los. Nos círculos do poder, começava-se a censurar Mortimer por exercer autoridade decisiva, que se acentuava de dia para dia, e pelas grandes ambições que ele agora desmascarava. Recuperara todos os seus bens, os que tinham sido tomados pelo conde d'Arundel, e a eles acrescentara o condado de Glamorgan, assim como a maior parte das possessões de Hugo, o Jovem. Seus três genros — pois Mortimer já tinha três filhas casadas — lorde de Berkeley, o conde de Charlton e o conde de Warwick, ampliavam seu poderio territorial. Tomando o cargo de grande juiz do País de Gales, título que pertencera a seu tio de Chirk, pensava chegar a conde das Marcas, o que teria constituído para ele, na realidade, a oeste do reino, um fabuloso principado quase independente.

Além disso, encontrara meios de se desentender com Adão Orleton, porque aquele bispo, tendo sido mandado para Avignon, a fim de apressar as dispensas necessárias ao casamento do jovem rei, e o bispado de Worcester vindo a ficar vago, solicitara ao papa aquela alta diocese. Mortimer, ofendido por não ter Orleton pedido antes o seu consentimento, fez oposição. Eduardo II não se comportara da mesma maneira com aquele mesmo Orleton, por causa da sede de Hereford?

A rainha sofria, forçosamente, o mesmo recuo de popularidade. E eis que a guerra recomeçava, a guerra da Escócia, mais uma vez. Nada, pois, mudara. Todos tinham esperado muito, para não se sentirem decepcionados. Seria suficiente um revés dos exércitos, uma conspiração que levasse Eduardo II a evadir-se, e os escoceses, aliados pelas circunstâncias ao antigo partido dos Despenser, encontrariam um rei pronto para ser reconduzido ao seu trono, e que lhes entregaria, de boa vontade, suas províncias do norte em troca da liberdade e do poder recuperados43.

Na noite de 3 para 4 de abril, o antigo rei foi tirado de seu sono e solicitado a vestir-se rapidamente. Encontrou-se diante de um grande cavaleiro desengonçado, ossudo, de compridos dentes amarelos, cabelos escuros e ásperos que lhe tombavam sobre as orelhas, e que se parecia demais com o seu cavalo.

— Aonde me levais, Maltravers? — perguntou Eduardo, espantado, ao reconhecer o barão que outrora espoliara e banira, e cuja cabeça, agora, sugeria assassínio.

— Levo-te, Plantageneta, a um lugar onde estarás mais seguro do que aqui. E para que essa segurança seja completa, não saberás para onde vais, a fim de que tua cabeça não se arrisque a confiá-lo à tua boca.

Maltravers tinha instruções para contornar as cidades e não se demorar pelas estradas. No dia 5 de abril, depois de uma cavalgada feita a grande trote, ou a galope, e somente interrompida por uma parada numa abadia próxima de Gloucester, o antigo rei entrou no Castelo de Berkeley, onde foi entregue à guarda de um dos genros de Mortimer.

 

A hoste inglesa, de início convocada para Newcastle, e para a época da Ascensão, reuniu-se no Pentecostes, na cidade de York. O governo do reino havia sido transferido para lá, e o Parlamento ali realizou uma sessão, como no tempo do rei destituído, quando a Escócia atacava.

Rapidamente chegaram João de Hainaut e seus Hennuyers, chamados a auxiliar. Reviram, então, montados em seus grandes cavalos vermelhuscos e ainda febris dos importantes torneios de Condé-sur-1'Escault, os sires de Ligne, d'Enghien, de Mons, de Sarre, e Guilherme de Bailleul! Parsifal de Sémeries, Sance de Boussoy, e Oulfart de Ghistelles, que tinham dado a vitória, nas justas, às cores de Hainaut. E messire Thierry de Wallecourt, Rasses de Grez, João Pilastre, e os três irmãos de Harlebeke, sob os estandartes de Brabante. E ainda os fidalgos da Flandres, do Cambrésis, do Artois, e, com eles, o filho do marquês de Juliers.

João de Hainaut só precisara reuni-los em Conde. Passava-se da guerra para o torneio, do torneio para a guerra. Meu Deus! Como era divertido!

Grandes regozijos dados em sua honra marcaram a chegada dos Hennuyers a York. Os melhores alojamentos lhes foram reservados, ofereceram-lhes festas e banquetes, com abundância de carnes e aves. Os vinhos de Gasconha e do Reno corriam a jorro dos barris.

Esse tratamento oferecido a estrangeiros irritou os arqueiros ingleses, que eram em número de seis mil, e entre os quais havia grande quantidade de antigos soldados do conde d'Arundel, o decapitado.

Certa noite, estalou uma rixa, como acontece habitualmente entre tropas estacionadas, por causa de uma partida de dados. De um lado, alguns arqueiros ingleses e, de outro, os criados de armas de um cavaleiro de Brabante. Os ingleses, que só esperavam por aquela ocasião, chamaram seus camaradas para ajudá-los: todos os arqueiros se sublevaram para colocar em má situação os servos do continente. Os Hennuyers correram aos seus alojamentos e ali se entrincheiraram. Os cavaleiros, que estavam festejando, saíram para as ruas, atraídos pelo ruído, e foram imediatamente assaltados pelos arqueiros da Inglaterra. Tentaram refugiar-se em seu alojamento, mas não puderam ali penetrar, já que seus próprios homens tinham feito do local sua barricada. Eis que se encontra sem armas nem defesa, aquela flor da nobreza da Flandres! Entretanto, são bem sólidos os rapagões que a representam. Messire Parsifal de Sémeries, Fastres de Rues e Sance de Boussoy, apanhando pesadas alavancas de carvalho que encontraram na oficina de um carpinteiro de carros, encostam-se ao muro e matam a pancadas, os três, uns bons sessenta arqueiros que pertenciam ao bispo de Lincoln!

A pequena rixa entre aliados custou um pouco mais de trezentos mortos.

Os seis mil arqueiros, esquecendo completamente a guerra da Escócia, pensavam apenas em exterminar os Hennuyers. Messire João de Hainaut, ultrajado, furioso, queria voltar para sua terra, com a condição, ainda, de que se levantasse o cerco em torno de seu acampamento! Enfim, depois de alguns enforcamentos, as coisas se apaziguaram. As damas da Inglaterra, que haviam acompanhado seus maridos na hoste, fizeram mil sorrisos aos cavaleiros de Hainaut, mil pedidos para que eles ficassem, e seus olhos se umedeceram. Acompanharam os Hennuyers a meia légua do resto do exército, e um mês passou-se assim, uma facção olhando para a outra como cães para gatos.

Enfim, resolveram começar a campanha. O jovem rei Eduardo III, em sua primeira guerra, avançava à frente de oito mil armaduras de ferro e de trinta mil homens a pé.

Infelizmente, os escoceses não apareciam. Aqueles homens rudes guerreavam sem furgões e sem comboio. Suas tropas leves só levavam como bagagem uma pedra chata presa à sela e um saquinho de farinha; sabiam viver com isso durante muitos dias, molhando a farinha na água dos regatos e cozinhando-a como biscoitos sobre pedra aquecida ao fogo. Divertiam-se ao ver o enorme exército inglês, tomavam contato, escaramuçavam, imediatamente recuavam, atraíam o adversário para os pântanos, para as florestas espessas, para os desfiladeiros escarpados. Errava-se, ao acaso, entre o Tyne e os montes Cheviot.

Um dia, grande rumor faz-se num bosque por onde avançavam os ingleses. É dado o alarma. Todos atiram-se, com as viseiras caladas, o escudo ao pescoço, a lança em punho, sem esperar pai, irmão, nem companheiro, e isso para encontrar, envergonhados, um bando de cervos que fugia aflito diante do ruído das armaduras.

A renovação dos víveres tornava-se difícil; nada se encontrava na região, a não ser o que penosamente traziam alguns comerciantes, que vendiam a mercadoria cobrando por ela dez vezes o seu valor. As montarias careciam de aveia e forragem. Além disso, começou a chover, sem parar, durante uma longa semana: os forros das selas apodreciam sob as coxas dos cavaleiros, os cavalos deixavam suas ferraduras na lama e todo o exército enferrujava. À noite, os cavaleiros precisavam cortar galhos, a fio de espadas, a fim de construírem abrigos. E os escoceses continuavam inacessíveis!

O marechal da hoste, sir Tomás Wake, estava desesperado. O conde de Kent sentia-se quase saudoso de La Réole: pelo menos tinham tido bom tempo ali. Henrique Pescoço-Torto sofria de reumatismo na nuca. Mortimer irritava-se e cansava-se de manter a comunicação entre o exército e o Yorkshire, onde se encontravam a rainha e os serviços de governo. O desespero que engendra as querelas começava a instalar-se entre as tropas: falava-se de traição.

Um dia, enquanto os chefes das companhias discutiam em voz muito alta sobre o que não se fizera, e o que se deveria ter feito, o jovem rei Eduardo III reuniu alguns escudeiros mais ou menos de sua idade e prometeu a cavalaria, bem como terras de cem libras de renda, a quem descobrisse o exército escocês. Uns vinte rapazes entre catorze e dezoito anos começaram a bater o campo. O primeiro a voltar chamava-se Tomás de Rokesby; todo ofegante e esgotado, ele exclamou:

— Sire Eduardo, os escoceses estão a quatro léguas de nós, numa montanha onde se instalaram há uma semana, sem saber onde estais, como não sabíeis onde estavam eles!

Imediatamente o jovem Eduardo mandou tocar as trompas, reunir o exército numa terra que chamavam "terra branca" e ordenou a corrida aos escoceses. Os grandes fidalgos de torneios estavam todos estupefatos. Mas o ruído que fazia aquela quantidade de ferro avançando pela montanha chegou de longe aos homens de Roberto Bruce. Os cavaleiros da Inglaterra e de Hainaut, chegando a uma crista de colina e preparando-se para descer a outra vertente, viram, de repente, todo o exército escocês, a pé, e colocado em ordem de batalha, com as flechas já presas aos arcos. Olharam-se de longe sem ousarem afrontar-se, pois o lugar era muito ruim para a utilização da cavalaria. F durante vinte e dois dias ficaram a se contemplar!

Como os escoceses não pareciam dispostos a deixar uma posição que lhes era tão favorável, como os cavaleiros não queriam combater em terreno onde não podiam espalhar-se, ficaram, pois, de um lado e de outro da crista, cada adversário esperando que o inimigo resolvesse mexer-se. Contentavam-se com escaramuças, geralmente à noite, deixando esses pequenos encontros para a infantaria.

O mais alto feito daquela estranha guerra, que se armava entre um octogenário leproso e um rei de quinze anos, foi realizado pelo escocês Tiago de Douglas, que, com duzentos cavaleiros de seu clã, tombou certa noite enluarada sobre o acampamento dos ingleses, derrubou o que foi encontrado na passagem, aos gritos de "Douglas! Douglas!", cortou três cordas da tenda do rei, e voltou. Desde aquela noite os cavaleiros ingleses dormiram metidos em suas armaduras.

Depois, certa manhã, antes da aurora, capturaram dois "embusteiros" do exército escocês, dois espiões que verdadeiramente pareciam desejar o enforcamento e que, levados diante do rei da Inglaterra, disseram:

— Sire, que procurais aqui? Nossos escoceses voltaram para as montanhas, e sire Roberto, nosso rei, nos disse que vos fizéssemos saber disso, e também que não mais vos combaterá durante este ano, a menos que desejeis prosseguir.

Os ingleses avançaram, prudentes, temendo uma cilada, e encontraram-se diante de quatrocentas panelas para cozer carnes, penduradas em linha, e que os escoceses haviam deixado para não se sobrecarregarem nem fazerem ruído em sua retirada. Descobriram-se igualmente, formando uma enorme pilha, cinco mil sapatos velhos de couro, com o pêlo para dentro: os escoceses tinham mudado de calçado antes de partir. De criaturas vivas, no acampamento, restavam apenas cinco prisioneiros completamente nus, amarrados em estacas, e cujas pernas tinham sido quebradas a pancadas.

Perseguir os escoceses em suas montanhas, através daquela região abrupta onde a população era hostil aos ingleses, e onde o exército, muito fatigado, teria que sustentar uma guerra de emboscada para a qual não tinha treinamento, seria rematada loucura. A campanha foi dada por terminada. Voltaram para York, e a hoste dissolveu-se.

Messire João de Hainaut teve que fazer a conta de seus cavalos mortos ou fora de uso, e apresentou uma relação no valor de catorze mil libras. O jovem rei Eduardo não tinha tanto dinheiro disponível em seu Tesouro, sobretudo porque precisava ainda pagar os soldos de suas próprias tropas. Então, messire João de Hainaut, num de seus costumeiros gestos espetaculares, deu-se como fiador, junto de seus cavaleiros, de todas as somas que lhe eram devidas pelo seu futuro sobrinho.

Durante o verão, Rogério Mortimer, que não tinha interesse algum no norte do reino, concluiu apressadamente um tratado de paz. Eduardo III renunciaria a qualquer suserania sobre a Escócia e reconhecia Roberto Bruce como rei daquele país, o que Eduardo II jamais aceitara. Além disso, David Bruce, filho de Roberto, desposava Joana da Inglaterra, segunda filha da rainha Isabel.

Valia a pena, para um resultado desses, ter destituído de seus poderes o antigo rei, que vivia recluso em Berkeley?

 

A coroa de feno

Uma aurora quase vermelha incendiava o horizonte atrás das colinas de Costwold.

— O sol vai surgir logo, sir João — disse Tomás Gournay, um dos dois cavaleiros que marchavam à frente da escolta.

— Sim, o sol vai surgir, meu companheiro, e nós ainda não chegamos à nossa etapa — respondeu João Maltravers, que caminhava ao lado dele, bota contra bota.

— Durante o dia as pessoas poderiam reconhecer quem estamos conduzindo — recomeçou o primeiro.

— Pode ser, com efeito, meu companheiro, e é exata mente isso que devemos evitar.

Essas palavras foram trocadas em voz alta propositada mente, para serem ouvidas pelo prisioneiro que os acompanhava.

Na véspera, sir Tomás Gournay chegara a Berkeley, tendo atravessado a metade da Inglaterra, para levar a João Maltravers, vindo de York, as novas ordens de Rogério Mortimer em relação à guarda do rei destituído.

Gournay era homem de físico pouco agradável: tinha nariz curto e esborrachado, os caninos inferiores mais compridos do que os outros dentes, a pele avermelhada, manchada, picada de pêlos ruivos, tal como o couro de uma porca. Seus cabelos, demasiadamente abundantes, torciam-se, como lascas de cobre, sob as abas de seu chapéu de ferro.

Para secundar Tomás Gournay e também para vigiá-lo um pouco, Mortimer lhe dera como companhia Ogle, o antigo barbeiro da Torre de Londres.

Ao cair da noite, à hora em que os camponeses já tinham tomado sua sopa e começavam a dormir, a pequena tropa deixara Berkeley e dirigira-se para o sul, através de um campo silencioso e de aldeias apagadas. Maltravers e Gournay marchavam à frente. O rei estava enquadrado por uma dezena de soldados comandados por um oficial subalterno, chamado Towurlee, colosso de testa curta, e tão limitado de inteligência quanto forte de musculatura. Mostrava-se obediente, porém, aquele Towurlee, e bem útil para as tarefas que não permitiam demasiadas perguntas da parte de quem as realizava. Ogle fechava a marcha, em companhia do monge Guilherme, que não fora escolhido entre os melhores de seu convento. Mas podiam precisar dele para uma extrema-unção.

Durante toda a noite, o antigo rei tentara, em vão, adivinhar para onde o conduziam. Agora, o dia surgia.

— Que fazer para que não seja possível reconhecer um homem? — dizia, sentenciosamente, Maltravers.

— Mudar-lhe o rosto, sir João, só vejo isso — respondeu Gournay.

— Seria preciso lambuzá-lo de alcatrão, ou então de fuligem.

— Assim os camponeses pensariam que é um mouro a pessoa que acompanhamos.

— E, infelizmente, não temos alcatrão.

— Então, podíamos raspar-lhe o rosto — sugeriu Tomás Gournay, apoiando sua proposta com uma forte piscadela.

— Ah! Eis uma boa idéia, companheiro! Ainda mais por termos um barbeiro em nosso grupo. O céu nos ajuda. Ogle, Ogle, aproxima-te!... Trouxeste tua bacia, tuas navalhas?

— Trouxe-as, sir João, para vos servir — respondeu Ogle, aproximando-se dos dois cavaleiros.

Tudo isso estava combinado desde a véspera. A pequena coluna se deteve. Gournay e Ogle desmontaram. Gournay tinha ombros largos, as pernas muito curtas e arqueadas. Ogle estendeu uma toalha sobre a relva do talude, ali dispôs seus utensílios, e começou a afiar a navalha, lentamente, olhando para o antigo rei.

— Que quereis de mim? Que me ides fazer? — perguntou Eduardo, com voz angustiada.

— Queremos que desças de teu cavalo, nobre sire, a fim de que te arranjemos um rosto novo. Eis, exatamente, um bom trono para ti — disse Tomás Gournay, designando uma casa de toupeira, que fez desmoronar com o tacão de sua bota. — Vamos! Senta-te.

Eduardo obedeceu. Como hesitasse um pouco, Gournay atirou-o de costas, e os soldados da escolta desataram a rir às gargalhadas.

— Em torno, todos vós — comandou Gournay. Eles se dispuseram em círculo, e o colosso Towurlee colocou-se atrás do rei, a fim de forçar-lhe os ombros, se fosse necessário.

A água que Ogle fora buscar ao regato estava gelada.

— Molha-lhe bem o rosto — disse Gournay!

O barbeiro lançou todo o conteúdo da bacia, de uma só vez, sobre o rosto do rei. Depois, começou a passar a navalha sobre as faces dele, sem qualquer precaução. Os tufos de pêlos louros tombavam na relva.

Maltravers se conservara a cavalo. Com as mãos apoiadas sobre o pomo do arção da sela, os cabelos tombando-lhe sobre as orelhas, seguia o trabalho com evidente prazer.

Entre dois movimentos de navalha, Eduardo exclamou:

— Estais me machucando demais! Não poderíeis ao menos molhar-me com água quente?

— Água quente? — exclamou Gournay. — Vede o delicado!

E Ogle, aproximando seu rosto redondo e esbranquiçado do rosto do rei, soprou-lhe de bem perto:

— E my lord Mortimer, quando estava na Torre de Londres, por acaso aqueciam a água de sua bacia?

Depois, recomeçou seu trabalho, com grandes movimentos da lâmina. O sangue porejava da pele. De dor, Eduardo começou a chorar.

— Ah! Vede que homem hábil! — exclamou Maltravers. — Fosse como fosse, arranjou uma forma de ter água quente em suas faces.

— Raspo a cabeça também, sir Tomás? — perguntou Ogle.

— Sem dúvida, sem dúvida, os cabelos também — respondeu Gournay.

A navalha fez cair as mechas, desde a fronte até a nuca.

Ao cabo de uns dez minutos, Ogle entregou ao seu paciente um espelho de estanho, e o antigo soberano da Inglaterra ali descobriu, com estupefação, sua face verdadeira, infantil e envelhecida sob o crânio nu, estreito e comprido. O queixo longo não mais escondia a sua fraqueza. Eduardo sentia-se despojado, ridículo, como um cão tosquiado.

— Não me reconheço — disse ele.

Os homens que o rodeavam puseram-se a rir.

— Ah! Como ficou bem! — comentou Maltravers, do alto de seu cavalo. — Se tu mesmo não te reconheces, os que estiverem por acaso à tua procura ainda menos te reconhecerão. Eis o que se ganha quando se tenta fugir.

Porque essa era a razão da mudança que faziam. Alguns fidalgos galeses, conduzidos por um certo Rhys ap Gruffyd, tinham organizado, para libertar o rei destituído, uma conspiração da qual Mortimer fora prevenido. Ao mesmo tempo, Eduardo, aproveitando-se de uma negligência de Tomás de Berkeley, fugira um dia de sua prisão. Maltravers imediatamente saíra em sua perseguição e agarrara-o no meio de uma floresta, correndo para a água como cervo perseguido. O antigo rei tentava alcançar a embocadura do Severn, na esperança de ali encontrar uma embarcação. Agora, Maltravers vingava-se: mas, naquele instante, sentira-se em brasas.

— De pé, sire rei. É tempo de tornar à sela — disse ele.

— Onde nos deteremos? — perguntou Eduardo.

— Onde estivermos seguros de que não poderás encontrar amigos. E teu sono não será perturbado. Podes confiar em nós para a tua vigilância.

 

A viagem durou assim quase uma semana. Caminhavam durante a noite, repousavam durante o dia, fosse num solar de que se estava seguro, fosse mesmo em qualquer abrigo dos campos, alguma granja afastada. Na quinta aurora, Eduardo viu perfilar-se imensa fortaleza cinzenta, erguida sobre uma colina. O ar do mar, mais fresco, mais úmido, um pouco salgado, chegava às baforadas.

— Mas é Corfe! — disse Eduardo. — É para lá que me levais.

— Sem dúvida, é Corfe — disse Tomás de Gournay. — Conheces bem os castelos de teu reino, ao que parece.

Um grito estridente de terror escapou dos lábios de Eduardo. Seu astrólogo, outrora, o aconselhara a jamais se deter em Corfe, porque uma temporada nesse lugar lhe seria fatal. Assim, nas viagens que fazia a Dorset e ao Devonshire, Eduardo II se aproximara várias vezes de Corfe, mas recusara-se obstinadamente a penetrar ali.

O Castelo de Corfe era mais antigo, maior, mais sinistro do que o de Kenilworth. Seu torreão gigantesco dominava toda a região circunvizinha, toda a península de Purbeck. Algumas de suas fortificações datavam de antes da conquista normanda. Fora muitas vezes utilizado como prisão, principalmente por João sem Terra, que, cento e vinte anos antes, tinha ordenado que deixassem morrer ali, de fome, vinte e dois cavaleiros franceses. Corfe parecia uma construção votada ao crime. A superstição trágica que o rodeava procedia do assassínio de um jovem de quinze anos, o rei Eduardo, chamado o Mártir, outro Eduardo II, o da dinastia saxônica, antes do ano 1000.

A lenda desse assassínio permanecia viva na região. Eduardo de Saxe, filho do rei Edgar, ao qual sucederia, era odiado por sua madrasta, a rainha Elfrida, segunda esposa de seu pai. Um dia em que voltava a cavalo da caça, e, tendo muito calor, quando levava aos lábios um chifre de vinho, a rainha Elfrida lhe enterrara um punhal nas costas. Urrando de dor e esporeando seu cavalo, o jovem rei fugira para a floresta. Esgotado, perdendo sangue, depressa tombara da sela. Seu pé, entretanto, ficara preso ao estribo, e a montaria, assustada, o arrastara ainda por uma grande distância, batendo-lhe com a cabeça contra as árvores. Camponeses tinham encontrado o corpo por causa dos rastros de sangue deixados na floresta, depois o haviam enterrado às escondidas. O túmulo começara a fazer milagres, e o rei Eduardo foi canonizado mais tarde.

O mesmo nome, o mesmo número, numa outra dinastia. Era natural que aquela aproximação, tornada mais assustadora pela predição do astrólogo, causasse tremores ao rei prisioneiro. Corfe iria ver a morte do segundo Eduardo II?

— Para fazer tua entrada nesta bela cidade, precisas de uma coroa, meu nobre sire — disse Maltravers. — Towurlee, vai buscar um pouco de feno naquele campo!

Da braçada de erva seca trazida pelo colosso, Maltravers fez uma coroa e meteu-a na cabeça raspada do rei. As pontas do feno enterraram-lhe na pele.

— Adianta-te, agora, perdoa-nos não termos clarins! Fosso profundo, muro de proteção, ponte levadiça entre duas grandes torres redondas, colina verde a subir, outro fosso, outra porta, outra grade de ferro guarnecida com pontas, e, para além dela, novos declives relvosos: voltando-se, era possível ver as pequenas casas da aldeia, seus telhados feitos com pedras rasas e cinzentas colocadas como telhas. Como podiam casas tão pequenas suportar telhados assim pesados?

— Anda, vamos! — gritou Maltravers, dando um soco nas costas de Eduardo.

A coroa de feno vacilou. Os cavalos dirigiam-se agora por corredores estreitos, tortuosos, pavimentados com calhaus redondos, entre muralhas enormes, alucinantes, ao alto das quais os corvos empoleirados lado a lado, como um friso negro margeando a pedra cinzenta, olhavam, de cinqüenta pés de altura sobre ela, a coluna que passava.

O rei Eduardo II estava certo de que o matariam. Mas há muitas maneiras de levar um homem à morte.

Tomás Gournay e João Maltravers não tinham ordem expressa para assassiná-lo, porém para aniquilá-lo. Escolheram, pois, a forma lenta. Duas vezes por dia, horríveis papas de centeio eram servidas ao antigo soberano, enquanto seus guardas abarrotavam-se, diante dele, de toda espécie de bons alimentos. Entretanto, ao alimento infecto, bem como às zombarias e pancadas com que o afligiam, o prisioneiro resistia. Era singularmente robusto de corpo, e mesmo de espírito. Outros, em seu lugar, teriam facilmente perdido a razão: ele contentava-se em gemer. Mas seus próprios gemidos testemunhavam o bom funcionamento de seus sentidos.

— Meus pecados são assim tão pesados que não merecem piedade nem assistência? Perdestes toda a caridade cristã, toda a bondade — dizia ele a seus carcereiros. — Se não sou mais um soberano, continuo a ser pai e esposo. Como posso ainda fazer medo à minha mulher e a meus filhos? Não estão suficientemente satisfeitos, tendo tirado tudo quanto me pertencia?

— E por que te queixas, sire rei, de tua esposa? A senhora, a rainha, não te enviou belas vestes, e doces cartas que lemos para ti?

— Patifes, patifes, mostrastes-me as vestes, mas não mas destes e deixais-me apodrecer nestes andrajos. E as cartas, por que imaginais que aquela mulher perversa mas enviou, senão para que elas fornecessem prova de que me testemunhou sua compaixão? É ela, é ela com aquele perverso Mortimer, quem vos dá ordem para me atormentar! Sem ela e sem aquele traidor, tenho certeza de que meus filhos correriam a beijar-me!

— A rainha tua esposa e teus filhos — respondeu Maltravers — têm demasiado medo de tua natureza cruel. Sofreram demais por teus erros e pelo teu furor, para que desejem aproximar-se de ti.

— Falai, falai, perversos — dizia o rei. — Virá um tempo em que os tormentos que me infligis serão vingados.

E punha-se a chorar, com o queixo raspado metido nos braços. Chorava, mas não morria.

Gournay e Maltravers entediavam-se em Corfe, porque todos os prazeres se esgotam, mesmo os que se gozam torturando um rei. Além disso, Maltravers havia deixado sua esposa, Eva, em Berkeley, junto de seu cunhado, e, por cima, começavam a saber, na região de Corfe, que o rei destronado estava detido ali. Então, depois de trocar mensagens com Mortimer, decidiram levar de novo Eduardo para Berkeley.

Quando tornou a passar, sempre com a mesma escolta, apenas um pouco mais magro e um pouco mais curvado, as grandes grades pontiagudas, as pontes levadiças, os dois muros circundantes — o rei Eduardo II, apesar de toda a sua infelicidade, sentiu imenso alívio, e uma espécie de libertação. Seu astrólogo mentira.

 

“Bonum est”

A rainha Isabel já estava no leito, e as duas trancas douradas caíam-lhe sobre o peito. Rogério Mortimer entrou, sem se fazer anunciar, que tal era o seu privilégio. Pela expressão de seu rosto, a rainha percebeu de que assunto lhe vinha ele falar, ou antes, tornar a falar.

— Recebi notícias de Berkeley — disse ele, num tom que pretendia calmo e despreocupado.

Isabel não respondeu.

A janela estava entreaberta para a noite de setembro. Mortimer foi abri-la de todo e ficou um momento contemplando a cidade de Lincoln, vasta e montoada, ainda pontilhada por algumas luzes, e que se estendia abaixo do castelo. Lincoln era, em importância, a quarta cidade do reino, depois de Londres, Winchester e York. Um dos pedaços do corpo de Hugo Despenser, o Jovem, tinha sido expedido para ali, dez meses antes. A corte, chegando do Yorkshire, acabava de se instalar na cidade havia uma semana.

Isabel contemplava os ombros altos de Mortimer, e seus cabelos, que se recortavam como uma sombra contra o céu noturno, na moldura da janela. Naquele momento preciso, ela não o amava.

— Vosso esposo parece obstinado em viver — disse Mortimer, voltando-se —, e a vida dele põe em perigo a paz do reino. Continua-se a conspirar para libertá-lo nos solares do País de Gales. Os dominicanos têm o topete de pregar em favor dele até mesmo em Londres, onde as agitações que, sabeis, tiveram lugar em julho bem poderiam renovar-se. Eduardo não é perigoso por si mesmo, estou de acordo, mas é pretexto para as agitações de nossos inimigos. Solicito-vos que deis, enfim, a ordem que vos aconselhei a dar, e sem a qual não haverá segurança nem para vós nem para vossos filhos.

Isabel teve um suspiro de desesperada lassidão. Por que não dava ele mesmo aquela ordem? Por que não tomava a decisão à sua conta, ele que era a chuva e o sol no reino?

— Nobre Mortimer — disse ela, calmamente —, eu já vos disse que não se obterá de mim tal ordem.

Rogério Mortimer fechou a janela: temia alterar-se.

— Mas por que, afinal — quis ele saber —, ter passado por tantas provações e corrido tão grandes riscos, para tornar-vos, agora, inimiga de vossa própria segurança?

Ela sacudiu a cabeça e respondeu:

— Não posso. Prefiro correr os riscos do que obter assim a segurança. Peço-te, Rogério, não manchemos as mãos com esse sangue.

Mortimer teve uma risada seca e breve.

— De onde te vem — replicou ele —, esse súbito respeito pelo sangue de teus inimigos? O sangue do conde d'Arundel, o sangue dos Despenser, o sangue de Baldock, todo esse sangue corria nas praças das cidades e tu não desviaste os olhos. Acreditei, mesmo, em certas noites, que o sangue muito te agradava. Ele, o caro sire, não tem as mãos mais vermelhas do que as nossas jamais poderão ficar? Não teria ele derramado de boa vontade teu sangue e o meu, se lhe tivéssemos dado tempo para isso? Não se deve ser rei, Isabel, se se tem medo de sangue, e não se deve ser rainha. Nesse caso, é melhor se retirar para algum convento, sob um véu de freira, e não ter amor nem poder.

Por um momento os olhos de ambos enfrentaram-se. As pupilas cor de sílex brilhavam demasiado sob as sobrancelhas espessas, à luz das velas; a cicatriz branca orlava um lábio de traços cruéis. Isabel foi a primeira a baixar os olhos.

— Lembra-te, Mortimer, de que ele te agraciou outrora — disse ela. — Deve estar pensando, agora, que se não tivesse cedido às solicitações dos barões, dos bispos, às minhas próprias súplicas, teria mandado que te decapitassem, como o ordenou a Tomás de Lancastre...

— Absolutamente, absolutamente! Eu me recordo, e justamente por isso é que não quero vir um dia a sentir arrependimentos semelhantes aos seus. Acho que essa compaixão que lhe dedicas é bem estranha e bem obstinada.

Passou um momento calado, depois disse:

— Tu o amas ainda? Não vejo outra razão... Ela ergueu os ombros.

— É então por isso — disse Isabel —, para que mais uma prova te seja dada! Esse furor ciumento jamais se extinguira em ti? Já não te provei suficientemente, diante de todo o reino da França, e de todo o reino da Inglaterra, e diante, mesmo, de meu filho, que não tenho no coração outro amor que não o teu? Mas que é preciso fazer, então?

— O que te peço, e nada mais. Vejo, porém, que não queres decidir-te. Vejo que a cruz que fizeste no coração, diante de mim, e que devia aliar-nos em tudo, e dar-nos uma única vontade, não era para ti senão um simulacro. Vejo bem que meu destino levou-me a dar minha fé a uma criatura fraca!

Sim, um ciumento, eis o que ele era! Regente todo-poderoso, governando o jovem rei, vivendo conjugalmente com a rainha, e isso aos olhos de todos os barões, Mortimer continuava um ciumento!... "Mas estará ele inteiramente errado em sê-lo?", pensou de súbito Isabel. Pois o perigo de todo ciúme é forçar aquele que é objeto dele a procurar em si mesmo uma justificativa para as censuras. Assim se esclarecem certos sentimentos fugazes nos quais não se tinha reparado... Como era estranho! Isabel estava certa de odiar Eduardo, tanto quanto uma mulher pode odiar: só pensava nele com desprezo, com asco e rancor. Entretanto... Entretanto, a lembrança daqueles anéis trocados, da coroação, das maternidades, as lembranças que ela guardava, não dele, mas dela própria, a lembrança, simplesmente, de ter acreditado que o amava, tudo aquilo agora a detinha. Não podia decidir-se a ordenar a morte do pai dos filhos que ela pusera no mundo... "E eles me chamam a Loba de França!" O santo nunca é tão santo, nem o cruel é jamais tão completamente cruel como se acredita. E ninguém está, em todos os momentos, na consciência de outrem.

Depois, Eduardo, mesmo destituído, era um rei. Que o tivessem desapossado, despojado, aprisionado, isso não impedia que ele fosse pessoa real. E Isabel era também rainha, e educada para tanto. Toda a sua infância tinha tido o exemplo da verdadeira majestade real, encarnada num homem que, pelo sangue e pela sagração, se sabia acima de todos os outros homens, e se fazia conhecer como tal. Atentar contra a vida de um vassalo, fosse ele o maior fidalgo do reino, nada mais era do que um crime, sempre. Mas o ato de suprimir uma vida real comportava um sacrilégio, e como que a negação do caráter de intangibilidade do qual são investidos os soberanos.

— E isso, Mortimer, tu não o podes compreender, pois não és rei, e não nasceste de um rei.

Tarde demais percebeu ela que acabava de pensar em voz alta!

O barão das Marcas, o descendente dos companheiros de Guilherme, o Conquistador, o grande juiz do País de Gales recebeu rudemente o golpe. Recuou dois passos e inclinou-se.

— Não penso que seja um rei, senhora, quem vos tenha devolvido o trono, mas parece que será perder tempo esperar que concordeis com isso. Não sendo rei, nem filho de rei, meus esforços por vós valeram pouco mérito. Deixai, pois, que vossos inimigos libertem vosso real esposo, ou antes, ide vós mesma dar-lhe a liberdade com vossas próprias mãos! Vosso poderoso irmão da França não deixará, então, de vos proteger, como tão bem o fez quando tivestes de fugir, sustentada por mim em vossa sela, para Hainaut. Não sendo rei, e não estando assim sua vida protegida contra um infortúnio do destino, Mortimer vai, senhora, procurar refúgio em outro lugar, antes que seja tarde demais, fora de um reino cuja rainha o ama tão pouco que ele percebe nada mais lhe restar fazer ali!

Isso dizendo, ganhou a porta. Tinha controlado sua cólera, e não bateu as meias portas de carvalho, antes fechou-as lentamente. E o ruído de seus passos foi decrescendo.

Isabel conhecia bastante o orgulhoso Mortimer para saber que ele não voltaria. Saltou para fora do leito, correu de camisola pelos corredores do castelo, agarrou Mortimer pelas roupas, pendurou-se ao braço dele.

— Fica, fica, nobre Mortimer, suplico-te! — exclamou ela, sem se importar que a ouvissem. — Não passo de uma mulher, preciso de teu conselho e de teu apoio! Fica! Fica, por favor, e faze o que desejas.

Estava em lágrimas, e apoiava-se, aconchegava-se contra aquele busto, contra aquele coração sem os quais não poderia viver.

— Quero o que queres! — disse ela ainda.

Os servidores, atraídos pelo ruído, tinham aparecido e imediatamente recuado, escondendo-se, constrangidos por serem testemunhas de uma querela de amantes.

— Queres realmente o que eu quero?... — perguntou ele, tomando o rosto da rainha entre as mãos. — Então! Guardas! — exclamou ele. — Vão imediatamente buscar monseigneur Orleton!

Havia alguns meses que Mortimer e Adão Orleton estavam frios um com o outro, por uma razão absurda, por causa daquele bispado de Worcester que o prelado se fizera atribuir pelo papa, enquanto Mortimer prometia a aprovação do rei a outro candidato. Se Mortimer tivesse sabido que seu amigo desejava aquele bispado, tudo teria sido mais simples! Orleton, porém, agira às escondidas, e Mortimer, agora, tendo empenhado a sua palavra, não queria voltar atrás. Levara a questão diante do Parlamento, quando esse órgão estava reunido em York, e mandara confiscar as rendas do bispado de Worcester. Orleton, que então não era mais bispo de Hereford e também não o era de Worcester, julgou aquilo demasiada ingratidão por parte de um homem que ele fizera evadir da Torre de Londres. O caso permanecia em debate, e Orleton continuava a seguir a corte em suas viagens.

"Mortimer acabará por ter necessidade de mim um dia", dizia ele consigo mesmo, "e encontrarei, então, a diocese da minha escolha!"

Aquele dia, ou antes, aquela noite, chegara. Orleton compreendeu-o assim que entrou no quarto da rainha, onde esta havia voltado para a cama, e onde Mortimer caminhava a grandes passadas. A rainha trazia no rosto sinais de lágrimas. Se tão pouco constrangimento mostravam diante do prelado era porque precisavam dele!

— A senhora rainha — declarou-lhe Mortimer — considera, com razão, por causa dos distúrbios que conheceis, que a vida de seu esposo põe em perigo a paz do reino, e inquieta-se ao ver que Deus tarda tanto em chamá-lo a si.

Adão Orleton olhou para Isabel, Isabel olhou para Mortimer, depois voltou os olhos para o bispo e lhe fez um sinal de assentimento. Orleton teve um sorriso rápido, não de crueldade, nem mesmo, verdadeiramente, de ironia, antes uma expressão de pudica certeza.

— A senhora rainha encontra-se frente a um grande problema, o que sempre se coloca diante dos que têm o encargo dos Estados — respondeu ele. — Será preciso, para não destruir uma vida, arriscar-se a que muitas outras pereçam?

Mortimer voltou-se para Isabel e disse:

— Estais ouvindo?

Ficara muitíssimo satisfeito com o apoio que o bispo lhe trazia, e lamentava, apenas, não ter ele próprio encontrado aquele argumento.

— Trata-se da salvaguarda dos povos — continuou Orleton —, e é a nós, bispos, que se dirigem os que desejam esclarecer-se sobre as vontades divinas. Sem dúvida, os Evangelhos nos impedem de apressar qualquer fim. Mas a lei dos Evangelhos não se aplica aos reis quando condenam à morte os seus vassalos... Eu pensava, entretanto, my lord, que os guardas que colocastes junto do rei destituído vos poupariam a necessidade de considerar tais questões.

— Os guardas parecem ter esgotado seus recursos — respondeu Mortimer. — E não agirão mais sem terem recebido instruções escritas.

Orleton sacudiu a cabeça, mas não respondeu.

— Ora, uma ordem escrita — continuou Mortimer — pode tombar em mãos outras que não aquelas a que está destinada. Pode, mesmo, servir aos que a cumpriram contra os que lha deram. Compreendeis-me?

Orleton tornou a sorrir. Tomavam-no por um néscio?

— Em outras palavras, my lord — disse ele —, quereis enviar e não enviar a ordem.

— Eu quereria, antes, enviar uma ordem que fosse clara para os que a devem ouvir, e que se conservasse obscura para os que a devem ignorar. Nesse ponto é que desejo consultar-vos, como sois, homem de recursos, se consentirdes em prestar-me vosso concurso.

— E pedis isso, my lord, a um pobre bispo, que nem mesmo possui sede, nem diocese onde plantar seu báculo!

Foi a vez de Mortimer sorrir:

— Vamos, vamos, my lord Orleton, não falemos mais dessas coisas. Vós me fizestes zangar muito, e sabeis disso. Se ao menos me tivésseis dito o que desejáveis! Mas, já que tanta questão fazeis, não mais me oponho. Tendes Worcester, é palavra dada... E sereis sempre meu amigo, também disso sabeis.

O bispo sacudiu a cabeça. Sim, ele sabia: e ele próprio também se conservava amigo de Mortimer. Seu desentendimento recente nada modificara, e era suficiente que se encontrassem para que tivessem consciência disso. Estavam ligados por demasiadas lembranças, por demasiada cumplicidade e por uma espécie de admiração mútua. Naquela mesma noite, na dificuldade em que Mortimer se encontrava, depois de ter arrancado à rainha um consentimento há tanto aguardado, quem chamara ele? O bispo de ombros caídos, de passo igual ao de um pato, de vista fatigada por ter trabalhado demais sobre os manuscritos de Oxford. Eram mesmo tão grandes amigos que tinham esquecido a rainha. Ela olhava para ambos, com seus grandes olhos azuis, e sentia-se mal.

— Foi vosso belo sermão "Doleo caput meum", ninguém o esqueceu, que permitiu destituir o mau rei—disse

Mortimer. — E ainda fostes vós quem obtivestes a abdicação.

Eis que a gratidão voltava! Orleton inclinou-se sob aqueles elogios.

— Quereis, então, que eu vá até o fim da tarefa — disse ele.

Havia no aposento uma mesa, penas e papel, Orleton pediu uma faca, pois só podia escrever com pena talhada por ele próprio. Aquilo o ajudava a refletir, e Mortimer respeitou-lhe a meditação.

— A ordem não precisa ser longa — disse Orleton, ao fim de um momento.

Olhava para a frente com ar divertido. Tinha, visivelmente, esquecido que se tratava da morte de um homem: tomava-se de um sentimento de orgulho, satisfação de letrado que acaba de resolver um difícil problema de linguagem. Os olhos presos à mesa, traçou apenas uma frase, com sua letra bem-formada, e espalhou sobre ela o pó secante. Estendeu, então, a folha a Mortimer, dizendo:

— Estou mesmo disposto a apor a esta carta meu próprio selo, se vós, ou a senhora rainha, considerardes que não deveis apor os vossos.

Parecia verdadeiramente satisfeito consigo mesmo. Mortimer tomou uma vela. A carta fora escrita em latim. Leu, com bastante lentidão: "Eduardum occidere nolite timere bonum est". Depois olhando para o bispo, disse:

— Eduardum occidere, isso eu compreendo bem; nolite: não o façais... timere: temer... bonum est: é bom...

Orleton sorria.

— Devemos entender: "Não mateis Eduardo, é bom temer" — perguntou Mortimer —, ou "Não temais matar Eduardo, é coisa boa"? Onde fica a vírgula?

— Não há vírgula — respondeu Orleton. — A vontade de Deus se manifestará pela compreensão daquele que receber esta carta. Mas a carta propriamente dita, quem poderia culpá-la de alguma coisa?

Mortimer conservava-se perplexo.

— É que ignoro — disse ele — se Maltravers e Gournay entendem latim.

— O irmão Guilherme, que me pedistes para colocar junto deles, entende-o bastante. Depois, o mensageiro poderá transmitir oralmente, apenas oralmente, que qualquer ação decorrente desta ordem deve ser realizada sem deixar vestígios.

— E estais verdadeiramente pronto a apor aqui o vosso selo? — indagou Mortimer.

— Estou — disse Orleton.

Era, de fato, um bom companheiro. Mortimer acompanhou-o até o fundo da escada, e tornou a subir para o quarto da rainha.

— Nobre Mortimer — disse Isabel —, não me deixeis dormir sozinha esta noite.

A noite de setembro não estava assim tão fria para que ela tiritasse daquela maneira.

 

O ferro em brasa

Berkeley é um castelo pequeno, se o compararmos às fortalezas desmesuradas de Kenilwortb e de Corfe. Suas pedras têm uma tonalidade rósea, suas dimensões tornam-no habitável. Comunica-se diretamente com o cemitério que rodeia a igreja, onde o lajedo, em alguns anos, cobre-se de musgo verde, fino como tecido de seda44.

Tomás de Berkeley era um jovem bastante corajoso, sem intenções perversas em relação aos seus semelhantes. Não tinha, todavia, razões para se mostrar demasiado benevolente para com o antigo rei Eduardo II, pois esse o mantivera quatro anos prisioneiro em Wallingford, em companhia de seu pai, Maurício de Berkeley, que morrera durante a detenção. Em compensação, só podia mostrar-se devotado ao seu poderoso sogro, Rogério Mortimer, cuja filha mais velha desposara em 1320. Seguira-o em sua revolta, e por ele fora libertado no ano precedente. Tomás recebia a soma considerável de cem xelins diários para guardar e hospedar o rei destituído. Nem sua mulher, Margarida Mortimer, nem sua irmã Eva, esposa de Maltravers, eram más pessoas.

Eduardo II teria encontrado ali residência aceitável, se tivesse de se entender apenas com a família Berkeley. Por infelicidade, havia os três torturadores, Maltravers, Gournay e seu barbeiro Ogle. Esses não davam descanso ao antigo rei: tinham espírito fértil em crueldade, e entre eles se havia estabelecido uma espécie de competição, a fim de saber quem inventaria maior requinte no suplício.

Maltravers imaginara instalar Eduardo no interior do keep, num reduto circular de alguns pés de diâmetro, cujo centro era ocupado por um poço cheio, masmorra onde qualquer movimento falso do prisioneiro poderia atirá-lo para dentro daquele buraco profundo. Assim, Eduardo precisava estar sempre atento, e aquele homem de quarenta e quatro anos que agora, entretanto, parecia ter mais de sessenta, ali ficava, deitado sobre uma braçada de palha, com o corpo colado contra a parede. E quando adormecia, acordava em suores, temendo se haver aproximado da fossa.

Àquele suplício do medo, Gournay acrescentava um outro, o cheiro. Mandava trazer do campo as carniças de animais fétidos, texugos apanhados nas tocas, raposas, fuetas, e também aves mortas, apodrecidas, que atirava na masmorra a fim de que a pestilência que aquelas carnes exalavam infestasse o pouco ar de que dispunha o prisioneiro.

— Eis boa caça para o cretino! — diziam os três verdugos, todas as manhãs, quando traziam a carga de animais mortos.

Eles próprios não tinham o nariz muito delicado, pois ficavam juntos, ou um de cada vez, num pequeno aposento no alto da escadaria do keep, e que comandava o reduto onde se anemizava o rei. Baforadas repulsivas vinham às vezes até eles, mas, então, era o momento das grandes pilhérias:

— Como fede o velho demente! — exclamavam eles, virando sobre a mesa seu canudo de dados e emborcando seus copos de cerveja.

No dia em que chegou a carta de Adão Orleton, eles conversaram longamente. O irmão Guilherme lhes traduzira a missiva sem ter dúvida alguma quanto ao seu verdadeiro sentido, mas fazendo com que apreciassem a hábil ambigüidade da redação. Os três perversos haviam dado palmadas nas próprias coxas durante um quarto de hora, repetindo: "Bonum est... bonum est!" e torcendo-se de rir.

O cavaleiro, um tanto obtuso, que lhes havia trazido a missiva, entregara fielmente sua mensagem oral: "Sem vestígios".

Era a esse respeito, precisamente, que eles conversavam.

— Têm, realmente, exigências estranhas, essa gente da corte, bispos e outros lordes! — disse Maltravers. — Mandam-nos matar, e que isso não se veja.

Como proceder? O veneno deixava os corpos negros: depois, seria preciso procurá-lo entre pessoas que poderiam dar com a língua nos dentes. Estrangulamento? A marca do nó corrediço fica em torno do pescoço, e o rosto se conserva todo azul.

Foi Ogle, o antigo barbeiro da Torre de Londres, quem teve o traço de genialidade. Tomás de Gournay concorreu com alguns melhoramentos para o plano, e o comprido Maltravers riu-se muito, mostrando as gengivas ao mesmo tempo que exibia seus imensos cientes.

— Será castigado por onde pecou! — exclamou ele. A idéia parecia-lhe verdadeiramente astuciosa.

— Mas será preciso que tenhamos quatro pessoas para isso — disse Gournay. — Teu cunhado Tomás deveria dar-nos uma mão.

— Ah! Tu sabes como é Tomás — respondeu Maltravers. — Recebe suas cinco libras por dia, mas tem o coração sensível. Poderia bem nos deixar a meio do trabalho, com os olhos revirados.

— Penso que o grande Towurlee, se lhe prometermos uma boa bolsa, nos ajudará de boa vontade — disse Ogle.

— Depois, é tão idiota, que mesmo vindo a falar ninguém acreditará nele.

Esperaram pela noite. Gournay mandou preparar nas cozinhas uma boa refeição para o prisioneiro, com um pâté macio, aves assadas no espeto, uma rabada com molho. Eduardo não tinha ceado daquela maneira desde as noites de Kenilworth, na casa de seu primo Pescoço-Torto. Ficou espantado, um tanto inquieto, depois reconfortado por aquela boa comida fora do comum. Em vez de lhe trazerem uma escudela para sua cama de palha, tinham-no instalado em pequeno quarto vizinho, num escabelo, o que lhe parecia conforto miraculoso. E ele comia aqueles pratos de que quase havia esquecido o sabor. Também o vinho não lhe regatearam, um bom vinho clarete que Tomás de Berkeley mandara vir da Aquitânia. Os três carcereiros assistiam àquele bródio e piscavam os olhos uns para os outros.

— Ele não terá nem sequer tempo para digerir isso

— cochichou Maltravers a Gournay.

O colossal Towurlee estava junto da porta, que obstruía completamente.

— Muito bem, agora já nos sentimos melhor, não é verdade, my lord? — disse Gournay quando o antigo soberano acabou de fazer sua refeição. — Agora vamos conduzir-te a um bom quarto, onde encontrarás uma cama de plumas.

O prisioneiro, de crânio raspado, de comprido queixo trêmulo, olhou para seus guardas com surpresa.

— Recebestes novas ordens? — perguntou. Seu tom era cheio de temerosa humildade.

— Ah! Sim, está claro que recebemos ordens e vamos tratar-te bem, my lord! — respondeu Maltravers. — Mandaram mesmo que te déssemos fogo, lá onde vais dormir, porque as noites começam a esfriar, não é mesmo, Gournay? É a estação que o exige: já estamos no fim de setembro.

Fizeram o rei descer uma escada estreita, depois atravessar o pátio relvoso do keep, em seguida subir do outro lado, junto à muralha. Seus carcereiros tinham dito a verdade: ali havia um quarto, não um quarto de palácio, mas um bom aposento, limpo e caiado, com um leito de grande colchão de penas, e uma espécie de braseiro, cheio de brasas.ardentes. Aquele aposento estava quase aquecido demais.

O espírito do rei agitava-se em pensamentos confusos, e o vinho subia-lhe um pouco à cabeça. Era, pois, suficiente uma boa refeição para que se recuperasse o gosto de viver? Quais seriam as novas ordens? O que acontecera para que lhe testemunhassem tantas atenções súbitas? Talvez uma revolta no reino: Mortimer caído em desagrado... Ah! Se fosse possível tal coisa! Ou, simplesmente, talvez o jovem rei tivesse se inquietado, enfim, sobre a sorte de seu pai, e ordenado que o tratassem de maneira mais humana... Mas ainda que tivesse havido revolta e todo o povo se houvesse erguido em seu favor, jamais Eduardo aceitaria retomar o trono, jamais, disso ele fazia a Deus um juramento. Porque, rei de novo, recomeçaria a cometer erros: não fora feito para reinar. Um convento calmo, eis tudo quanto desejava, e poder passear por um belo jardim, ser servido das iguarias de que gostava... rezar, também. E depois, deixar crescer a barba e o cabelo, a menos que conservasse a tonsura, ainda que aquela lâmina, passando-lhe pelo crânio todas as semanas, lhe despertasse horríveis lembranças. Que negligência da alma, e que ingratidão aquela de não agradecer ao Criador essas coisas simples que são o bastante para tornar uma vida agradável: nutrição saborosa, aposento quente!... Havia um atiçador no fogareiro em brasa...

— Deita-te, então, my lord! A cama é boa, tu verás — disse Gournay.

E, realmente, o colchão era macio. Encontrar de novo um verdadeiro leito, que bom! Mas por que os outros três conservavam-se ali? Maltravers sentara-se num escabelo, com os cabelos caindo nas orelhas, as mãos entre os joelhos, e olhava para o rei. Gournay atiçava o fogo. O barbeiro Ogle tinha na mão um chifre de boi e uma serra pequena.

— Dorme, sire Eduardo, não te preocupes conosco, nós temos um trabalho a fazer — insistiu Gournay.

— Que estás fazendo, Ogle? — perguntou o rei. — Talhas um chifre para fazer um copo?

— Não, my lord, talho um chifre, apenas, não para fazer um copo.

Depois, voltando-se para Gournay e marcando um lugar no chifre com a unha do polegar, o barbeiro disse:

— Penso que deste tamanho está bem, não achas?

O ruivo de pele de porco olhou por cima do ombro e respondeu:

— Sim, creio que está bem. Bonum est. Depois, recomeçou a atiçar o fogo.

A serra rangia sobre o chifre do boi. Quando ele se partiu, o barbeiro estendeu a parte afilada para Gournay, que a segurou, examinou, e nela meteu o atiçador ao rubro. Um cheiro acre espalhou-se, empestando no mesmo instante o aposento. O atiçador saiu pela ponta queimada do chifre. Gournay tornou a colocá-lo no fogo. Como queriam que o rei dormisse com toda aquela azáfama em torno dele? Só o teriam afastado daquela masmorra onde havia carniças para enfumaçá-lo com chifre queimado? Subitamente, Maltravers, sempre sentado e sempre olhando para Eduardo, perguntou-lhe:

— Teu Despenser, que tu amavas, tinha os enfeites sólidos?

Os dois outros soltaram uma gargalhada. Por causa daquele nome assim pronunciado, Eduardo sentiu como que um despedaçamento em seu espírito, e compreendeu que aquelas criaturas iam executá-lo ali mesmo. Preparavam-se para infligir-lhe o mesmo suplício atroz que sofrerá Hugo, o Jovem?

— Não ides fazer isso! Não ides matar-me — exclamou ele, sentando-se subitamente em sua cama.

— Nós? Matar-te, sire Eduardo? — disse Gournay, sem mesmo se voltar. — Quem poderia fazer-te acreditar numa coisa dessas? Temos ordens. Bonum est, bonum est...

— Vamos, torna a deitar-te — disse Maltravers.

Mas Eduardo não se deitava. Seu olhar, no rosto raspado e magro, ia, como o de um animal encurralado, da nuca ruiva de Tomás Gournay para o comprido rosto amarelo de Maltravers, e dali para as bochechas de boneca do barbeiro. Gournay tinha retirado o atiçador do fogo e examinava a extremidade incandescente.

— Towurlee! — chamou ele. — A mesa!

O colosso, que esperava no aposento vizinho, entrou, trazendo pesada mesa. Maltravers foi fechar de novo a porta, dando volta à chave. Por que aquela mesa, aquela espessa tábua de carvalho que se colocava geralmente sobre cavaletes? Ora, não havia cavaletes naquele quarto. E entre tantas coisas estranhas que se passavam em torno do rei, aquela mesa, trazida nos braços por um gigante, tornava-se o objeto mais insólito, mais assustador. Como se poderia matar com uma mesa? Esse foi o derradeiro pensamento claro do rei.

— Vamos! — disse Gournay, fazendo sinal a Ogle. Aproximaram-se, cada qual de um lado do leito, atiraram-se sobre Eduardo, viraram-no de barriga para baixo.

— Oh! Os patifes! Os patifes! — gritava ele. — Não, não haveis de matar-me.

Agitava-se, debatia-se, e Maltravers tinha vindo ajudá-los, e os três não foram demais. E o gigante Towurlee preparava-se para lhes trazer auxílio.

— Não, Towurlee, a mesa! — exclamou Gournay. Towurlee recordou-se do que lhe tinham recomendado.

Ergueu a enorme prancha e deixou-a cair em toda a largura sobre os ombros do rei. Gournay levantou a roupa do prisioneiro, baixou-lhe os calções, cujo tecido usado se rasgou. Era grotesco, miserável, um fundilho assim exposto, mas agora os assassinos não tinham mais disposição para rir.

O rei, meio morto pela pancada e sufocando sob a tábua que o enterrava no colchão, debatia-se, esperneava. Quanta energia lhe restava ainda!

— Towurlee, agarra-lhe os tornozelos! Não, assim não, separa-os! — ordenou Gournay.

O rei tinha conseguido desembaraçar a nuca despida de sob a mesa, e virava o rosto de lado, para tomar um pouco de ar. Maltravers pesou-lhe com as duas mãos sobre a cabeça. Gournay apoderou-se do atiçador e disse:

— Ogle! Enterra o chifre, agora!

O rei Eduardo teve um sobressalto de força desesperada quando o ferro em brasa penetrou-lhe nas entranhas: o urro que soltou, atravessando as muralhas, atravessando o keep, passando por cima das lajes do cemitério, foi acordar as pessoas até mesmo nas casas do burgo. E os que ouviram aquele longo, lúgubre, pavoroso grito, tiveram, no mesmo instante, a certeza de que acabavam de assassinar o rei.

Na manhã seguinte, os habitantes de Berkeley subiram ao castelo, a fim de se informarem. Responderam-lhes que o antigo rei morrera durante a noite, subitamente, soltando um grande grito.

— Vinde ver, mas, sim, aproximai-vos — diziam Maltravers e Gournay aos notáveis e ao clero. — Estamos fazendo neste momento os arranjos mortuários. Entrai, todos podem entrar.

E as pessoas do burgo verificaram que não havia qualquer marca, nenhuma ferida, nenhuma chaga naquele corpo que estavam lavando, e que tinham o cuidado de virar e revirar diante deles. Apenas um ríctus horrível torcia o rosto do cadáver.

Tomás Gournay e João Maltravers olhavam-se: fora uma brilhante idéia aquela do chifre de boi para meter o atiçador às avessas. Verdadeiramente, uma morte sem vestígios, e, naquele tempo tão inventivo em matéria de assassínios, eles tinham descoberto um método perfeito.

Inquietava-os apenas o fato de ter Tomás Berkeley partido antes do alvorecer, para um castelo vizinho, segundo fizera constar. E Towurlee, aquele colosso de crânio pequeno, se havia acamado, e havia muitas horas que não cessava de chorar.

Durante o dia, Gournay partiu a cavalo para Nottingham, onde se encontrava a rainha, a fim de lhe anunciar o falecimento de seu esposo.

Tomás de Berkeley conservou-se ausente uma boa semana, e afirmava não estar em seu castelo no momento da morte. Teve, ao voltar, a desagradável surpresa de saber que o cadáver conservava-se em sua casa. Nenhum dos mosteiros da redondeza havia querido encarregar-se dele. Berkeley precisou guardar o prisioneiro em seu esquife, durante todo um mês, no decorrer do qual continuou a receber seus cem xelins diários.

Todo o reino, agora, tinha tido conhecimento da morte do antigo soberano: narrativas estranhas, mas que não estavam muito longe da verdade, circulavam a esse respeito, e sussurrava-se que aquele assassínio não traria felicidade nem aos que o tinham cometido nem aos que o haviam ordenado, por muito altamente colocados que estivessem.

Enfim, um abade veio buscar o corpo, em nome do bispo de Gloucester, que aceitava recebê-lo em sua catedral. Os despojos de Eduardo II foram colocados numa carreta coberta de pano preto. Tomás Berkeley e sua família o acompanharam, e a gente da vizinhança seguiu-os em cortejo. A cada parada que fazia o préstito fúnebre, de milha em milha, os camponeses plantavam um pequeno carvalho.

Seiscentos anos passados, alguns daqueles carvalhos ainda estão de pé, e projetam recortes de sombra negra na estrada que vai de Berkeley a Gloucester.

 

Notas históricas

1 A Torre de Londres formava ainda no século XIV o limite oriental da cidade, e estava, mesmo, separada da City propriamente dita pelos jardins dos mosteiros. A Tower Bridge, naturalmente, não existia: o Tâmisa só era atravessado pela London Bridge, para cima, em relação à Torre.

Se o edifício central, a White Tower, iniciada em 1078, por ordem de Guilherme, o Conquistador, pelo seu arquiteto, o monge Gandulf, se nos apresenta, ao cabo de novecentos anos, sensivelmente semelhante à sua aparência primitiva — a restauração de Wren, apesar do alargamento das janelas, pouco a modificou —, em compensação o aspecto geral do conjunto fortificado era, na época de Eduardo II, bastante diferente.

As obras do atual círculo de muralhas não estavam ainda construídas, com exceção da St. Thomas Tower e da Middle Tower, devidas, respectivamente, a Henrique III e a Eduardo I. As muralhas externas eram as que hoje formam o segundo círculo, conjunto pentagonal de doze torres construídas por Ricardo Coração de Leão, e constantemente reformadas pelos seus sucessores.

Pode-se verificar a espantosa evolução do estilo medieval no correr de um século, comparando a White Tower (fim do século XI), que, apesar da enormidade de sua massa, conserva na forma e nas proporções a lembrança das antigas cidades galo-romanas, e o aparelho fortificado de Ricardo Coração de Leão (fim do século XII), do qual ela é rodeada. Essa segunda obra já tem as características do clássico castelo-forte, do tipo do Château-Gaillard, da França, e edificado, aliás, pelo mesmo Ricardo I — ou, ulteriormente, as construções angevinas de Nápoles.

A White Tower é o único vestígio propriamente intato que nos foi conservado do estilo de construção do ano 1000, e que teve constantemente, através dos séculos, uma utilização efetiva.

2 O termo "condestável" designa hoje um oficial da polícia, e era, então, o título oficial do comandante da Torre. O condestável era assistido por um tenente, segundo em comando. Essas duas funções, aliás, continuam a existir, porém tornaram-se puramente honoríficas e dadas a militares ilustres no fim de sua carreira. O comando efetivo da Torre é, em nossos dias, exercido pelo major, que vem a ser um general. Como se vê, essas dignidades têm uma hierarquia inversa em relação à graduação do exército.

O major reside na Torre, no Alojamento do Rei — ou da Rainha —, construção da época Tudor, encostado à Bell Tower. O primeiro Alojamento do Rei, que datava do tempo de Henrique I, foi demolido no período de Cromwell. Também na época da nossa narrativa — 1323 — a Capela São Pedro era constituída apenas pela parte romana do edifício atual.

3 Em 1054, contra o rei Henrique I da França. Rogério Mortimer I era sobrinho de Ricardo I Sem Medo, terceiro duque da Normandia, e avô do Conquistador Bastardo.

4 O shilling (xelim) era, naquela época, uma unidade de valor, mas não constituía moeda propriamente dita. O mesmo acontecia com a libra e o marco. O penny (dinheiro) era a moeda de mais alto valor, em circulação. Só no reinado de Eduardo III é que apareceram as moedas de ouro, com o florim e o nobre. O shilling de prata só começou a ser cunhado no século XVI.

5 Muito possivelmente, na Torre de Beauchamp — mas que ainda não trazia tal nome, utilizado somente a partir de 1397, por causa de Tomás de Beauchamp, conde de Warwick, que ali esteve encarcerado, e que era, curiosa coincidência, neto de Rogério Mortimer. O edifício era uma construção de Eduardo II, bastante recente, portanto, na época de Mortimer.

As trapeiras das latrinas eram, muitas vezes, o ponto fraco dos edifícios fortificados. Foi por uma abertura semelhante que os soldados de Filipe Augusto puderam, depois de um cerco que ameaçava continuar inútil, introduzir-se, uma noite, no Château-Gaillard, a grande fortaleza francesa de Ricardo Coração de Leão.

6 O termo "Parlamento", que significava, exatamente, assembléia, aplica-se, na França e na Inglaterra, a instituições de origem comum, isto é, de início uma extensão da curta regis, mas que tomaram, rapidamente, formas e atribuições completamente diferentes.

O Parlamento francês, a princípio ambulante, depois radicado em Paris antes que Parlamentos secundários fossem instituídos a seguir nas províncias, era uma assembléia judiciária, que exercia o poder de justiça à ordem e em nome do soberano. Os membros dele eram, de início, designados pelo rei no decorrer de uma sessão judiciária. A partir do fim do século XIII e do início do século XIV, isto é, no reinado de Filipe, o Belo, os membros do Parlamento foram designados em caráter vitalício.

O Parlamento francês conheceria grandes conflitos de interesses individuais, como processos em que particulares se opunham à coroa, processos criminais relacionados com a vida do Estado, contestações levantadas a propósito de interpretação de costumes, e tudo quanto se referia, em suma, à legislação geral do reino, inclusive a lei de sucessão ao trono, como se viu no início do reinado de Filipe V. Mas, ainda uma vez, o papel do Parlamento e suas atribuições eram unicamente judiciários ou jurídicos.

O único poder político do Parlamento francês originou-se do fato de nenhum ato real, decreto, edito, mercê, etc, ter valor se não fosse registrado e homologado pelo dito Parlamento, que na verdade só começou a usar verdadeiramente esse poder de recusa lá para o fim do século XIV e começo do século XV, quando a monarquia enfraqueceu.

O Parlamento inglês era uma assembléia judiciária, pois que os grandes processos do Estado ali eram evocados, e ao mesmo tempo já se constituía em assembléia política. Ninguém tinha assento nele por direito: era sempre uma espécie de grande conselho em ponto maior, para onde o rei chamava quem queria, isto é, os membros de seu Conselho Restrito, os grandes fidalgos do reino, tanto leigos como eclesiásticos, e os representantes dos condados e das cidades, geralmente escolhidos pelos funcionários administrativos.

O papel político do Parlamento inglês deveria, em sua origem, limitar-se à dupla missão de informação: o rei informaria os representantes de seu povo, por ele escolhidos, sobre as disposições gerais que pretendia tomar, e os representantes informariam o soberano, por via de petição ou exposição oral, dos desideratos das classes ou das regiões administrativas a que pertenciam.

Teoricamente, o rei da Inglaterra era o único senhor de seu Parlamento, que se conservava, em suma, como auditório privilegiado ao qual ele nada mais pedia do que uma espécie de adesão simbólica e passiva aos atos de sua política. Mas, desde que os reis da Inglaterra se viram em grandes dificuldades, ou quando lhes aconteceu mostrarem-se governantes fracos ou maus, os Parlamentos que eles haviam designado revelaram-se mais exigentes, adotaram atitudes francamente deliberativas e impuseram suas vontades ao soberano; pelo menos, o soberano teve de levá-las em consideração.

O precedente da Grande Carta de 1215, imposta a João Sem Terra pelos seus barões, e que levava em essência o regulamento das liberdades inglesas, conservou-se sempre presente no espírito dos Parlamentos. O que se reuniu em 1311 constrangeu Eduardo II a aceitar uma carta, instituindo em torno do rei um conselho de ordenadores, composto de grandes barões eleitos pelo Parlamento, e que exerciam realmente o poder em nome do soberano.

Eduardo II lutou toda a sua vida contra essas disposições, tendo-as de início recusado para depois a elas se submeter em conseqüência de sua derrota em 1314 diante dos escoceses. Só se livrou delas, realmente, e para desgraça sua, em 1322, quando as lutas pela influência tinham dividido os ordenadores e ele pôde esmagar, nas batalhas de Shrewsbury e de Boroughbridge, o partido Lancastre-Mortimer, que tomara armas contra o rei.

Lembremos, enfim, que o Parlamento inglês não tinha sede fixa, mas que um Parlamento podia ser convocado pelo soberano, ou reclamar dele a sua convocação, em qualquer cidade do reino onde se encontrasse o rei.

7 Em 1318, cinco anos antes, portanto, Rogério Mortimer de Wigmore, nomeado grande juiz e lugar-tenente do rei da Inglaterra na Irlanda, derrotara, à frente de um exército de barões das Marcas. Eduardo Bruce, rei da Irlanda e irmão do rei Roberto Bruce da Escócia. A prisão e a execução de Eduardo Bruce marcaram o fim do reinado irlandês. Mas por muito tempo ainda, a autoridade real inglesa, sofreu ali reveses.

8 O caso do condado de Gloucester, muitíssimo confuso e sombrio, nasceu das fabulosas pretensões que a respeito desse condado teve Hugo Despenser, o Jovem, pretensões que não teria tido a menor possibilidade de ver vitoriosas se não fosse o favorito do rei.

Hugo, o Jovem, não satisfeito com ter recebido todo o Glamorgan como parte da herança de sua esposa, exigia ainda, contra todos os seus cunhados, e em particular contra Maurício de Berkeley, todas as possessões do falecido conde, seu sogro. Toda a nobreza do sul e do oeste da Inglaterra ficara alarmada, e Tomás de Lancastre encabeçara a oposição com tanto mais ardor quanto no clã adversário encontrava-se seu mais acirrado inimigo, o conde de Warenne, que lhe roubara a esposa, a bela Alice.

Os Despenser, exilados durante um período por decreto do Parlamento, baixado sob a pressão dos lancastrenses em armas, depressa tinham sido de novo chamados, não suportando Eduardo viver sem seu amante, nem sob a tutela de seu primo Tomás.

A volta dos Despenser ao poder dera ocasião a novo surto de rebeldia, mas Tomás de Lancastre, tão infeliz no combate como o fora no casamento, dirigira muito mal a coalizão. Não levando socorros a tempo aos barões das Marcas galesas, deixara que aqueles fossem derrotados, em janeiro de 1322, no oeste, em Shrewsbury, onde os dois Mortimer tinham sido feitos prisioneiros, enquanto ele próprio, esperando inutilmente no Yorkshire, por alguns reforços escoceses, foi derrotado dois meses depois em Boroughbridge, e imediatamente condenado à morte.

9 A comissão do bispo de Exeter, segundo o Calendar of dose rolls, é de 6 de agosto de 1323. Outras ordens foram expedidas, concernentes ao caso Mortimer, notadamente no dia 10 de agosto, aos oficiais administrativos do condado de Kent, e no dia 26 ao próprio conde de Kent. Não parece que Eduardo tenha tido conhecimento do destino do fugitivo antes do dia 1° de outubro.

10 Maria de França, a mais antiga das poetisas francesas, viveu na segunda metade do século XII, na corte de Henrique III Plantageneta, para onde fora levada, ou chamada, por Leonor de Aquitânia, princesa infiel, ao menos em relação ao seu primeiro esposo, o rei da França, mas certamente adorável, e que criara em torno dela, na Inglaterra, um verdadeiro centro de arte e de poesia. Leonor era neta do duque Guilherme IX, também poeta.

As obras de Maria de França foram muitíssimo apreciadas, não apenas durante a vida da autora, mas ainda durante todo o século XIII e o começo do século XIV.

11 A companhia dos Tolomei, um dos mais importantes banqueiros sienenses, ao lado da dos Buonsignori, foi muito poderosa e célebre desde o início do século XIII. Tinha o papado como cliente principal. Seu fundador, Tolomeo Tolomei, participara de uma embaixada junto ao papa Alexandre III. Os Tolomei foram, no período de Alexandre IV, banqueiros exclusivos da Santa Sé. Urbano IV os excetuou nominalmente da excomunhão geral decretada contra Siena, entre 1260 e 1273. Foi nessa época (fim do reinado de São Luís, início do reinado de Filipe III) que os Tolomei começaram a aparecer nas grandes feiras da Champagne, e que Spinello fundou o ramo francês da companhia.

Existem ainda em Siena uma praça e um palácio Tolomei.

12 0 decreto de Carlos IV sobre a interdição da saída de moedas francesas foi certamente oportunidade para negociações, pois que outro decreto, publicado quatro meses mais tarde, proibia a compra de ouro e prata a preço mais alto do que o das moedas do reino. Um ano depois, o direito de burguesia foi retirado aos comerciantes italianos, o que não significava terem eles de deixar a França, porém, simplesmente, que precisariam comprar, uma vez mais, autorização para manter comércio ali.

13 19 de novembro de 1323. João de Cherchemont, senhor de Nemours, no Poitou, cônego de Notre-Dame de Paris, tesoureiro da Catedral de Laon, fora já chanceler no fim do reinado de Filipe V. Carlos IV, quando de seu advento, substituíra-o por Pedro Rodier. Carlos de Valois, cujo favor ele soubera conquistar, reintegrou-se em suas funções, entretanto, naquela data.

O chanceler, depositário do selo real, preparava a redação das atas e diplomas; acumulava as funções de ministro da Justiça, dos Negócios Estrangeiros e dos Negócios Eclesiásticos. Tinha assento na Assembléia de Paris, e presidia, de direito, todas as comissões judiciárias. Devia, ao receber seu cargo, responder ao seguinte juramento:

"Vós jurais ao rei nosso sire que o servireis e aconselhareis bem e lealmente com honra e proveito para ele e para seu reino, em relação a todos e contra todos. Que lhe guardareis o patrimônio e a coisa pública de seu dito reino em vosso poder, que não servireis outro mestre e senhor que não ele, que disto não retirareis nenhum estado, pensão, proveito, lucros, nem presentes de qualquer fidalgo ou dama, a não ser com consentimento e licença dados pelo dito senhor rei, e que não impetrareis nem fareis por outro impetrar sem licença dele para tal efeito. E que se alguns fidalgos e damas no passado vos deram, ou ainda tendes, estado, pensão, ou outros dons semelhantes e benefícios, deveis renunciar a tudo. E igualmente não recebereis seja de quem for nenhum dom corruptível, e assim o jurais diante dos Santos Evangelhos de Deus, que, para esse efeito, tocais neste momento".

14 O regulamento-proposto ao papa, depois de um conselho real realizado em Gisors em julho de 1323, previa que o rei se inscreveria para trezentas mil libras das quatrocentas mil de despesas acessórias. Mas ficava igualmente especificado — e, nesse particular, percebemos o dedo de Valois —, que, se o rei da França, por qualquer razão, deixasse de tomar a direção da expedição, essa função viria a pertencer, de direito, a Carlos de Valois, que se beneficiaria, então, a título pessoal, dos subsídios fornecidos pelo papa.

15 Esquece-se, geralmente, que houve entre a França e a Inglaterra duas guerras de cem anos.

A primeira, que vai de 1152 a 1259, deu-se por terminada pelo Tratado de Paris, concluído por São Luís, e à qual aqui nos referimos. Realmente, entre 1259 e 1338, os dois países entraram em conflito armado duas vezes ainda, sempre por causa da Aquitânia: em 1294 e, como se verá, em 1324. A segunda Guerra dos Cem Anos. que começou em 1328, não teve verdadeiramente por objeto o caso da Aquitânia, mas a sucessão ao trono da França.

16 Quisemos dar aqui um exemplo do estado de extrema confusão a que chegara o sistema feudal, sistema que ordin