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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


A Supremacia Bourne / Robert Ludlum
A Supremacia Bourne / Robert Ludlum

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A Supremacia Bourne

                      

Kowloon. A fervilhante extensão final da China que não é parte do norte, exceto em espírito... mas o espírito vai fundo e penetra pelas cavernas das almas dos homens, sem qualquer consideração pelos aspectos práticos, duros e irrelevantes das fronteiras políticas. A terra e a água são a mesma coisa, e é a vontade do espírito que determina como o homem as usará...  outra vez sem qualquer consideração por abstrações como a liberdade inútil ou o confinamento de que se pode escapar. A preocupação é apenas com barrigas vazias, com as barrigas das mulheres, as barrigas das crianças. Sobrevivência. Não há mais nada. Todo o resto é estrume espalhado pelos campos inférteis.

Era o pôr-do-sol, e tanto em Kowloon como no outro lado de Victoria Harbor, na ilha de Hong Kong, um manto invisível baixava gradativamente sobre o caos do dia no território. Os estridentes Aiyas! dos mascates das ruas eram abafados pelas sombras, enquanto negociações discretas nos níveis superiores das estruturas frias e imponentes, de vidro e aço, que marcavam a silhueta da colônia terminavam com acenos de cabeça e dar de ombros, e breves sorrisos de silenciosa aquiescência. A noite estava chegando, anunciada por um ofuscante sol laranja, penetrando por uma imensa, irregular e fragmentada muralha de nuvens a oeste — hastes bem definidas de energia inflexível, prestes a mergulharem além do horizonte, relutantes em permitirem que aquela parte do mundo esquecesse a luz.

Em breve a escuridão se estenderia pelo céu, mas não por baixo. Ali, as luzes feéricas de invenção humana iluminariam o mundo com fulgor — essa parte do mundo em que a terra e a água são avenidas de acesso e conflito. E com o interminável e estridente carnaval noturno, outros jogos começariam, jogos que a raça humana deveria ter abandonado com a primeira luz da Criação. Mas não havia vida humana então... e assim, quem podia registrar? Quem sabia? Quem se importava? A morte não era uma mercadoria.

Uma pequena embarcação, o potente motor contrastando com o exterior em péssimas condições, avançava em alta velocidade pelo Canal Lamma, contornando a costa, em direção ao porto. Para um observador desinteressado, seria apenas mais uma xiao wanju, o legado ao primogênito de um pescador outrora insignificante que obtivera uma pequena fortuna... uma noite de sorte incrível no mahjong, haxixe do Triângulo, jóias contrabandeadas de Macau, quem se importava como? O filho poderia lançar suas redes ou transportar sua mercadoria com mais eficiência, usando um hélice veloz em vez da vela lenta de um junco ou o lento motor de uma sampana. Mesmo os guardas chineses da fronteira e as patrulhas marítimas ao largo das praias de Shenzhen Wan não disparavam contra aqueles transgressores de menor importância; nada significavam, e quem sabia quantas famílias além dos Novos Territórios no continente poderiam se beneficiar? Podia ser até a família de um deles. As doces ervas das colinas ainda podiam encher as barrigas... talvez as deles mesmos. Quem se importava? Que viessem. E que fossem.

A pequena embarcação com a lona Bimini envolvendo os dois lados da cabine de proa diminuiu a velocidade e ziguezagueou cautelosamente pela flotilha dispersa de juncos e sampanas, voltando aos apinhados atracadouros em Aberdeen. Uns após outros, os tripulantes dessas embarcações gritaram insultos irados para a intrusa, seu motor insolente e sua esteira ainda mais insolente. Mas todos se tornavam estranhamente silenciosos quando a agressiva intrusa passava; alguma coisa sob a lona reprimia as súbitas explosões de fúria.

A embarcação disparou pelo corredor do porto, uma trilha de água escura, agora margeado pelas luzes brilhantes da ilha de Hong Kong à direita e de Kowloon à esquerda. Três minutos depois o motor de popa mudou de maneira audível para o registro mais baixo, enquanto o costado passava devagar por duas barcaças imundas atracadas, esgueirando-se para um espaço vazio no lado oeste do Tsim Sha-tsui, o apinhado e valorizado cais de Kowloon. As hordas estridentes de mercadores, preparando suas armadilhas noturnas para os turistas, não prestaram a menor atenção; era apenas mais uma jigi voltando da pescaria. Quem se importava?

Depois, como já acontecera com os tripulantes das embarcações no canal, as pessoas nos estandes mais próximos da insignificante intrusa, começaram a se aquietar. Vozes excitadas silenciaram, em meio a estridentes ordens e contra-ordens, enquanto os olhos eram atraídos para um vulto subindo a escada escura e oleosa para o píer.

Era um homem santo. O corpo estava envolto por um cafetã branco, que acentuava a altura e a magreza... muito alto para um Zhongguo ren, talvez com mais de um metro e oitenta. Mas pouco se podia ver do rosto, pois a túnica era folgada e a brisa soprava o tecido branco pelas feições morenas, ressaltando o branco dos olhos... olhos determinados, olhos fanáticos. Qualquer um podia perceber que não era um sacerdote comum. Era um heshang, um eleito, escolhido pelos anciãos de muita sabedoria, que podiam perceber o conhecimento espiritual interior de um jovem monge destinado a coisas mais elevadas. E não fazia mal que um monge assim fosse alto e esguio, que tivesse olhos de fogo. Tais homens santos atraíam atenção para si mesmos, para a sua presença — para seus olhos —, e a decorrência era contribuições generosas, tanto por medo como por reverência; principalmente por medo. Talvez aquele heshang viesse de uma das seitas místicas que vagueavam pelas colinas e florestas de Guangze ou de uma fraternidade religiosa das montanhas da distante Qing Gaoyuan — descendentes, ao que se dizia, de um povo dos longínquos Himalaias — sempre muito ostentosos e a que geralmente se devia temer, pois poucos compreendiam os seus obscuros ensinamentos. Eram ensinamentos versados em suavidade, mas com insinuações sutis de agonia indescritível, caso suas lições fossem ignoradas. Havia agonia demais na terra e na água... quem precisava de mais? Assim, era melhor dar aos espíritos, aos olhos de fogo. Talvez ficasse registrado. Em algum lugar.

O vulto de branco passou lentamente pelas multidões que se abriam à sua frente no cais, passou pelo congestionado píer da Star Ferry e desapareceu no crescente pandemônio do Tsim Sha-tsui. O momento passara, os estandes retomaram à sua histeria.

O sacerdote encaminhou-se para leste, pela Salisbury Road, até alcançar o Peninsula Hotel, cuja elegância discreta estava perdendo a batalha contra o ambiente ao redor. Virou para o norte pela Nathan Road, seguindo até o começo da Golden Mile, a rua das ruas, exuberante, em que multidões opostas clamavam por atenção. Tanto os nativos quanto os turistas observavam o imponente homem santo em sua passagem pelas lojas apinhadas e vielas abarrotadas de mercadorias, discotecas de três andares e cafés eróticos, onde cartazes enormes e amadorísticos apregoavam os encantos orientais, por cima de estandes que ofereciam as iguarias fumegantes do dim sum. Andou por quase dez minutos pelo carnaval esfuziante, de vez em quando respondendo a olhares com ligeiros acenos de cabeça, duas vezes sacudindo-a com firmeza ao dar ordens para o mesmo Zhongguo ren baixo e musculoso, que alternadamente o seguia e depois o ultrapassava, com passos rápidos, que pareciam de uma dança, virando-se para contemplar os olhos ardentes à procura de um sinal.

O sinal veio — dois bruscos acenos de cabeça —, e o sacerdote virou-se e passou pela entrada de cortina de contas de um cabaré ruidoso. O Zhongguo ren permaneceu do lado de fora, a mão discretamente por baixo da túnica folgada, os olhos correndo pela rua frenética, um lugar que não podia entender. Era uma insanidade! Uma afronta! Mas ele era o tudi; protegeria o homem santo com sua própria vida, por maior que fosse a agressão à sua sensibilidade

No interior do cabaré, as intensas camadas de fumaça eram cortadas por luzes coloridas errantes, a maior turbilhonando em círculos e se concentrando num palco elevado, onde um grupo de rock ululava num frenesi ensurdecedor, uma mistura incrível de punk e Extremo Oriente. Calças pretas lustrosas, bem justas e malfeitas, tremiam vertiginosamente em pernas compridas e esguias, por baixo de blusões pretos de couro, sobre camisas brancas de seda abertas até a cintura, cada cabeça raspada, cada rosto grotesco, pintados, para acentuar seu caráter oriental essencialmente passivo. E como a enfatizar o conflito entre Oriente e Ocidente, a música dissonante parava de vez em quando, de maneira inesperada, e afloravam os acordes melancólicos de uma melodia chinesa simples, enquanto os vultos se enrijeciam sob o bombardeio turbilhonante dos refletores.

O sacerdote permaneceu imóvel por um momento, contemplando a sala vasta e apinhada. Diversos fregueses, em graus variados de embriaguez, fitaram-no das mesas. Vários rolaram moedas em sua direção antes de se virarem para o outro lado, uns poucos se levantaram, largaram dólares de Hong Kong ao lado de seus drinques e se encaminharam para a porta. O heshang estava causando efeito, mas não o desejado pelo homem obeso, de smoking, que se aproximou dele.

— Posso servi-lo em alguma coisa, Homem Santo? — indagou o gerente do cabaré.

O sacerdote inclinou-se para a frente e sussurrou no ouvido do homem, pronunciando um nome. Os olhos do gerente se arregalaram, ele fez uma reverência e depois gesticulou para uma mesa pequena, junto à parede. O sacerdote acenou com a cabeça em agradecimento e acompanhou o gerente até a cadeira, enquanto os fregueses próximos olhavam, contrafeitos. O gerente inclinou-se e disse, com uma reverência que não sentia:

— Gostaria de tomar algum refresco, Homem Santo?

— Leite de cabra, se por acaso tiver. Se não, água pura será mais do que suficiente. E obrigado.

— É um privilégio do estabelecimento.

O gerente fez outra reverencia e afastou-se, tentando definir o dialeto lento e suave que não conseguia identificar. Mas não importava. Aquele sacerdote alto, de túnica branca., tinha negócios a tratar com o laoban, e isso era tudo o que importava. Chegara mesmo a pronunciar o nome do laoban, um nome raramente falado na Golden Mile. Naquela noite em particular, o poderoso taipan estava ali.., numa sala que não admitiria publicamente conhecer. Mas não cabia ao gerente informar ao laoban que o sacerdote se encontrava no cabaré; o homem de túnica deixara isso bem claro. Insistira que naquela noite a priva cidade devia ser absoluta. Quando o augusto taipan desejasse recebê-lo, um homem viria encontrá-lo. E assim tinha de ser; era a maneira do discreto laoban, um dos mais ricos e ilustres taipans de Hong Kong.

— Mande um garoto da cozinha sair à rua para providenciar leite de cabra —ordenou o gerente asperamente ao responsável pelo andar. — E diga a ele para se apressar. A existência de sua fétida prole vai depender disso.

O homem santo permaneceu sentado à mesa, passivamente, os olhos ardentes agora mais suaves, observando a atividade insensata, ao que tudo indicava sem condenar nem aceitar, mas apenas com a compaixão de um pai a contemplar filhos desgarrados.

Abruptamente, através das luzes em movimento, houve uma claridade intrometida. A várias mesas de distância, um fósforo forte se acendeu e apagou. Depois outro e finalmente um terceiro, este último levantado para uma cigarrilha preta e comprida. A sucessão de clarões de fósforos atraiu a atenção do sacerdote. Virou a cabeça lentamente na direção da chama, fixando-se no chinês solitário, barbudo e rudemente vestido que se desenhava na fumaça. Os olhos se encontraram; o aceno de cabeça do homem santo foi quase imperceptível, mal chegou a ser um movimento? sendo correspondido por um gesto também quase indefinível, enquanto o fósforo se extinguia.

Segundos depois, a mesa do fumante rudemente vestido pegou fogo, e as chamas se elevavam da superfície, espalhando-se depressa por todos os artigos de papel que ali estavam — guardanapos, cardápios, cestas de dim sum, em erupções isoladas de desastre em potencial. O desgrenhado chinês gritou e virou a mesa, com o maior estardalhaço, enquanto garçons corriam, berrando, na direção das chamas. Fregueses por todos os lados se levantaram, enquanto o fogo no chão — filetes de chamas azuis — inexplicavelmente se espalhava em torno dos pés a baterem. O pandemônio aumentou, enquanto as pessoas tentavam apagar as pequenas fogueiras com toalhas de mesa e aventais. O gerente e seus assistentes gesticulavam freneticamente, gritando que estava tudo sob controle, o perigo já passara. O conjunto de rock passou a tocar com uma intensidade ainda maior, tentando atrair a multidão de volta à sua órbita, afastando-a da área do pânico que já definhava.

E, de repente, houve um distúrbio ainda maior, uma erupção mais violenta. Dois empregados do cabaré colidiram com o Zhongguo ren em trajes esfarrapados, cuja negligência e fósforos enormes haviam causado o incêndio. Ele reagiu com cuteladas rápidas de Wing Chun — as mãos rígidas acertando em omoplatas e gargantas — enquanto os pés acertavam em barrigas, jogando os dois shi-ji para cima dos fregueses ao redor. A agressão física aumentou o pânico, o caos. O corpulento gerente, agora gritando, tentou intervir e também caiu, atordoado por um pontapé bem colocado nas costelas. O Zhongguo ren barbudo pegou então uma cadeira e jogou-a contra os vultos que berravam perto do homem caído, enquanto três outros garçons se metiam na confusão, em defesa de seu Zongguan. Homens e mulheres que apenas poucos segundos antes se limitavam a gritar passaram agora a sacudir os braços, agredindo qualquer um e todos que estivessem próximos. O grupo de rock atingiu seu limite máximo, a dissonância frenética à altura da cena. O tumulto era total, e o atarracado camponês olhou para o outro lado da sala, na direção da mesa pequena junto da parede. O sacerdote desaparecera.

O Zhongguo ren barbudo pegou uma segunda cadeira e espatifou-a contra uma mesa próxima, depois sacudiu uma perna quebrada para a multidão. Não faltava muito agora, mas aqueles poucos momentos eram cruciais.

O sacerdote passou pela porta do outro lado, na parede ao lado da entrada do cabaré. Fechou-a depressa, ajustando os olhos à semi-escuridão do corredor comprido e estreito. O braço direito estava rígido por baixo das dobras da túnica branca, o esquerdo estendido em diagonal pela cintura, também oculto pelo pano branco. No fim do corredor, a não mais que sete ou oito metros, um homem surpreso afastou-se abruptamente da parede, a mão direita enfiada sob o paletó para sacar, de um coldre invisível no ombro, um revólver enorme e de grosso calibre. O homem santo acenou com a cabeça, devagar, impassível, repetidamente, enquanto se adiantava, em passos graciosos, apropriados a uma procissão religiosa.

— Amita-fo, Amita-fo — murmurou ele suavemente, várias vezes, enquanto se aproximava do homem. — Tudo é sereno, tudo é paz, os espíritos assim querem.

— Jou matyeh? — O guarda estava ao lado de uma porta; empurrou a arma para a frente e acrescentou, no cantonês gutural de quem foi criado nos povoados do norte. — Está perdido, sacerdote? O que está fazendo aqui? Saia! Não pode entrar aqui!

— Amita-fo, Amita-fo...

— Saia! Agora!

O guarda não teve qualquer chance. O sacerdote puxou, das dobras na cintura, uma faca de gume duplo, fina como uma navalha. Passou-a pelo pulso do homem, quase separando do braço a mão que empunhava a arma, e depois passou a lâmina, com precisão cirúrgica, pela garganta de seu oponente; ar e sangue esguicharam, a cabeça foi arremessada para trás, numa massa de vermelho brilhante. O guarda caiu ao chão, já um cadáver.

Sem a menor hesitação, o sacerdote-assassino guardou a faca manchada de sangue na túnica e do lado direito tirou uma pequena metralhadora Uzi, o pente curvo com mais munição do que precisaria. Levantou o pé e lançou-o contra a porta com a força de um tigre das montanhas, depois correu para o interior, ao encontro do que sabia estar ali.

Cinco homens — Zhongguo ren — estavam sentados em torno de uma mesa, com bules de chá e copos de uísque forte perto de cada um; não havia papéis escritos em qualquer parte, não havia anotações ou memorandos, apenas ouvidos e olhos vigilantes. E à medida que cada par de olhos se virou em choque, os rostos se contorceram em pânico. Dois negociantes bem vestidos enfiaram as mãos por dentro dos paletós impecáveis, enquanto giravam em suas cadeiras; outro se jogou sob a mesa, enquanto os dois restantes se levantavam de um pulo, gritando, e corriam inutilmente para as paredes forradas de seda, desesperados, rogando por um perdão, mesmo sabendo que não haveria nenhum. Uma saraivada implacável atingiu os Zhongguo ren. O sangue jorrou de ferimentos fatais, crânios foram crivados de balas, olhos perfurados, bocas dilaceradas, num vermelho intenso, em gritos sufocados de morte. As paredes, o chão e a mesa envernizada reluziam de maneira chocante, com a prova sangrenta da morte. Por toda parte. Estava acabado.

O assassino contemplou sua obra. Satisfeito, ajoelhou-se ao lado de uma poça grande e estagnada de sangue, e passou nela o indicador. Tirou um pedaço de pano escuro da manga esquerda e estendeu-o por cima do que fizera. Levantou-se e saiu correndo da sala, desabotoando a túnica branca enquanto atravessava o corredor escuro; a túnica estava inteiramente aberta quando chegou à porta de ligação com o cabaré. Removeu a faca do tecido e ajeitou-a na bainha à cintura. Unindo as dobras do tecido com uma das mãos, o capuz no lugar, a arma letal segura do lado, abriu a porta e passou para o caos ruidoso, que não apresentava qualquer sinal de diminuir. Mas também por que deveria ser diferente? Ele se ausentara por apenas trinta segundos, não mais do que isso, e seu homem era bem treinado.

— Faai-di! — O grito partiu do camponês barbudo e atarracado de Cantão, a três metros de distância, que virava outra mesa e riscava mais um fósforo, largando-o no chão. — A polícia vai chegar a qualquer momento! O homem do bar acabava de pegar o telefone! Eu vi!

O sacerdote-assassino tirou a túnica do corpo e o capuz da cabeça. Às luzes frenéticas, seu rosto era tão macabro quanto o de qualquer componente do grupo de rock. Uma maquilagem intensa contornava os olhos, linhas brancas definindo o formato de cada um, o rosto de um castanho anormal.

— Siga na minha frente! — ordenou ele ao camponês.

Largou a túnica e a Uzi no chão, ao lado da porta, depois tirou um par de finas luvas cirúrgicas e guardou-as na calça de flanela.

Chamar a polícia para um cabaré na Golden Mile não era uma decisão tomada facilmente. Havia multas altas para administração insatisfatória, penalidades rigorosas pelos riscos para os turistas. A polícia conhecia esses riscos e agia rapidamente quando eles ocorriam. O assassino correu atrás do camponês de Cantão, que se juntou à multidão em pânico na entrada do cabaré, gritando para sair. O pequeno homem era um touro; os corpos à frente se afastaram sob a força de seus golpes. Os dois passaram pela porta e saíram para a rua, onde outra multidão se concentrara, gritando perguntas e epítetos, gozando o infortúnio do estabelecimento. Esgueiraram-se pelos espectadores excitados, e outro chinês baixo e musculoso, que esperava lá fora, acompanhou-os. Este pegou o braço do sacerdote sem hábito e levou-o para o mais estreito dos becos, onde tirou duas toalhas de baixo da túnica. Uma era macia e seca, a outra estava dentro de um plástico, quente, úmida e perfumada.

O assassino pegou a toalha úmida e começou a esfregá-la no rosto, em torno dos olhos, pela carne exposta do pescoço. Virou a toalha e repetiu o processo, com pressão ainda maior, limpando as têmporas e a linha dos cabelos, até que a pele branca apareceu. Enxugou-se com a segunda toalha, alisou os cabelos escuros e endireitou a gravata por cima da camisa creme, sob o blazer azul-marinho.

— Jau! — ordenou ele a seus dois companheiros, que saí ram correndo e desapareceram no meio da multidão.

E um ocidental solitário e bem-vestido saiu para a rua dos prazeres orientais.

Dentro do cabaré, o nervoso gerente censurava o homem do bar por ter chamado a jing cha; as multas cairiam em sua cabeça de merda! Pois a comoção inexplicavelmente se desvanecera, deixando os fregueses aturdidos. Garçons acalmavam os fregueses, dando tapinhas em ombros e removendo os destroços da confusão, endireitando mesas, providenciando novas cadeiras e distribuindo doses grátis de uísque. O grupo de rock concentrou-se nas músicas modernas prediletas e a ordem foi restabelecida, tão depressa quanto fora abalada. Com um pouco de sorte, pensou o gerente de smoking, a explicação de que um barman mais afoito confundira um bêbado beligerante com algo mais grave seria aceitável para a polícia.

E, de repente, todos os pensamentos de multas e pressão oficial se desvaneceram quando se olhos foram atraídos para um pano branco no chão, no outro lado da sala... diante da porta para as salas internas. Pano branco, um branco imaculado... o sacerdote? A porta! O laoban! A reunião! Respiração ofegante, o rosto coberto de suor, o obeso gerente correu entre as mesas até a túnica descartada. Ajoelhou-se, os olhos arregalados, prendendo a respiração ao ver o cano escuro de uma arma estranha saindo por baixo das dobras brancas. E o que o deixou sufocado, em seu terror que se avolumava, foi a visão de pequenas manchas e filetes finos de sangue lustroso e ainda não de todo seco no pano.

— Go hai maiyeh?

A pergunta foi feita por um segundo homem de smoking, só que sem o realce conferido pela faixa — na verdade, irmão do gerente e seu primeiro-assistente. E ele acrescentou uma imprecação, baixinho, enquanto o irmão recolhia a arma de aparência estranha na túnica manchada de sangue:

— Oh, maldito seja o cristão Jesus!

— Venha! — ordenou o gerente, levantando-se e encaminhando-se para a porta.

— A polícia! — protestou o irmão. — Um de nós tem de esperar aqui, falar com os guardas, acalmá-los, fazer o que for possível.

— Talvez não possamos fazer outra coisa que não oferecer as nossas cabeças! Depressa!

A prova estava no corredor escuro. O guarda abatido estava caído num rio do próprio sangue, a arma empunhada por uma mão quase que totalmente cortada do pulso. E a prova se tornava completa e irrefutável na sala de reunião. Cinco cadáveres ensangüentados estavam espalhados ali, numa confusão terrível. Um deles, de forma específica, chocante, atraiu o interesse horrorizado do gerente. Aproximou-se do corpo e crânio perfurados. Com um lenço, limpou o sangue e contemplou o rosto.

— Estamos perdidos — balbuciou ele. — Kowloon está perdida, Hong Kong está perdida, tudo está perdido.

— Como assim?

— Este homem é o Vice-Primeiro-Ministro da República Popular, sucessor do próprio Presidente.

— Olhe aqui!

O irmão primeiro-assistente estava inclinado sobre o corpo do laoban morto. Ao lado do cadáver ensangüentado, crivado de balas, havia um lenço preto. Estava aberto, os arabescos brancos exibindo manchas vermelhas. O irmão levantou o lenço e descobriu aturdido o que estava escrito no círculo de sangue por baixo: JASON BOURNE.

O gerente levantou-se de um pulo.

— Grande Jesus Cristão! — exclamou ele, o corpo inteiro tremendo. — Ele voltou! O assassino está de novo na Ásia! Jason Bourne! Ele voltou!

 

O sol mergulhava por trás das Montanhas Sangre de Cristo, na região central do Cobrado, enquanto o helicóptero Cobra emergia ruidosamente da claridade intensa — uma gigantesca silhueta em movimento — e descia para o limiar da floresta na encosta. A pista de concreto ficava a várias dezenas de metros de uma casa grande e retangular, de madeira e vidro grosso. Além dos geradores e discos de comunicações camuflados, não havia qualquer outra estrutura à vista. Arvores altas formavam uma muralha compacta, escondendo a casa de todos os forasteiros. Os pilotos daqueles aparelhos extremamente manobráveis eram recrutados entre os oficiais superiores do complexo de Cheyenne, em Cobrado Springs. Nenhum deles tinha patente inferior à de coronel, e todos haviam sido submetidos ao crivo do Conselho de Segurança Nacional, em Washington. Nunca falavam de suas viagens ao refúgio na montanha; o destino era sempre eliminado dos planos de vôo. As instruções eram transmitidas pelo rádio depois que os helicópteros já estavam no ar. O local não constava de qualquer mapa público, e seu sistema de comunicações estava além do escrutínio de aliados e inimigos. A segurança era total; tinha de ser. Aquele era um lugar para estrategistas; seu trabalho era tão sensível e freqüentemente acarretava implicações globais tão delicadas que os planejadores não podiam ser vistos juntos fora dos prédios do governo ou mesmo lá dentro, jamais em salas contíguas com portas de ligação. Havia olhos hostis e inquisitivos por toda parte — tanto aliados como inimigos — que estavam a par do trabalho daqueles homens; se os observassem juntos, os alarmes disparariam no mundo inteiro. O inimigo era vigilante, e os aliados resguardavam ciosamente os seus feudos de informações.

As portas do Cobra se abriram. Uma escada de aço foi baixada e um homem obviamente aturdido desceu para a luz dos refletores. Estava acompanhado por um general-de-divisão. O civil era esguio, de meia-idade, estatura mediana, vestia um terno listrado, camisa branca e gravata estampada. Mesmo ao sopro forte das pás do rotor em desaceleração, seu aprumo impecável se manteve intacto, como se fosse algo muito importante para ele e que não podia ser afetado. Ele seguiu o general, subindo um caminho de concreto até uma porta no lado da casa. A porta foi aberta quando os dois se aproximaram. Mas só o civil entrou; o general acenou com a cabeça, oferecendo uma saudação informal, que os militares veteranos reservam para os paisanos e oficiais do mesmo posto.

— Foi um prazer conhecê-lo, Sr. McAllister — disse o general. — Será levado de volta por outro.

— Não vai entrar?

— Nunca estive aí dentro — respondeu o general, sorrindo. — Apenas me certifico de que é de fato a pessoa e a levo do Ponto B ao Ponto C.

— Parece um desperdício para alguém do seu posto, general.

— Provavelmente não é — comentou o militar, sem acrescentar qualquer outro comentário. — E agora tenho outros deveres a cumprir. Adeus.

McAllister avançou por um corredor comprido, acompanhado agora por um homem corpulento, de rosto jovial, bem vestido, que apresentava todas as características externas de um agente da Segurança Interna — fisicamente ágil e competente, anônimo numa multidão.

— Fez boa viagem, senhor? — perguntou o homem mais jovem.

— E alguém pode fazer uma boa viagem numa coisa daquelas?

O guarda riu.

— Por aqui, senhor.

Passaram por várias portas, nos dois lados do corredor, chegando à extremidade, onde havia uma porta dupla maior, com duas luzes vermelhas nos cantos superiores, esquerdo e direito. Eram câmaras em circuitos separados. Edward McAllister não via artefatos assim desde que deixara Hong Kong, dois anos antes... e mesmo então porque fora designado por um breve período para o MI-6 do Serviço de Informações britânico, Setor Especial, para consultas. Em sua opinião, os britânicos pareciam paranóicos em questões de segurança. Jamais compreendera aquela gente, especialmente depois que lhe concederam uma citação por lhes prestar um serviço mínimo, que eles já deviam para começo de conversa dominar por completo. O guarda bateu na porta, houve um discreto estalido e ele a abriu, dizendo:

— Seu outro convidado, senhor.

— Muito obrigado — agradeceu uma voz.

O atônito McAllister reconheceu a voz no mesmo instante, de dezenas de noticiários de rádio e televisão, ao longo dos anos, as inflexões aprendidas numa escola preparatória exclusiva e diversas universidades de prestígio, com uma carreira de pós-graduação nas Ilhas Britânicas. Mas não houve tempo para se recompor. O homem de cabelos grisalhos, impecavelmente vestido, rosto alongado e vincado, que acusava os seus setenta e tantos anos, levantou-se de trás de uma mesa grande e atravessou a sala cautelosamente, com a mão estendida.

— Que bom que tenha vindo, Sr. Subsecretário! Posso me apresentar? Sou Raymond Havilland.

— Sei quem é, Sr. Embaixador. É um privilégio conhecê-lo, senhor.

— Embaixador sem pasta, McAllister, o que significa que só restou pouco privilégio. Mas ainda há muito trabalho.

— Não posso imaginar qualquer Presidente dos Estados Unidos nos últimos vinte anos que tenha sobrevivido sem o senhor.

— Alguns se confundiram, Sr. Subsecretário. Mas com sua experiência no Departamento de Estado, desconfio que sabe disso melhor do que eu. — O diplomata virou a cabeça. — Eu gostaria de apresentá-lo a John Reilly. Jack é um desses associados do Conselho de Segurança Nacional muito bem informados, sobre os quais não deveríamos ter qualquer conhecimento. Mas ele não é tão assustador, não é?

— Espero que não — murmurou McAllister, atravessando a sala e indo apertar a mão de Reilly, que se levantara de uma das duas cadeiras de couro na frente da mesa. — Prazer em conhecê-lo, Sr. Reilly.

— O prazer é meu, Sr. Subsecretário — disse o homem um tanto obeso, de cabelos ruivos e testa sardenta.

Os olhos por trás dos óculos de aros de aço não transmitiam qualquer jovialidade; eram penetrantes e frios. Encaminhando-se para trás da mesa e indicando a cadeira vazia à direita para McAllister, Havilland disse:

— O Sr. Reilly está aqui para cuidar que eu me mantenha na linha. Pelo que compreendo, isso significa que há algumas coisas que posso dizer, outras não, e umas poucas que só ele pode dizer. — O embaixador sentou. — Se isso lhe parece enigmático, Sr. Subsecretário, receio que seja tudo o que posso lhe oferecer a essa altura.

— O que aconteceu durante as últimas cinco horas, desde que recebi a ordem para me apresentar na Base Andrews da Força Aérea, tem sido um enigma, Embaixador Havilland. Não tenho a menor idéia do motivo pelo qual me trouxeram até aqui.

— Pois então vou explicar, em termos gerais —disse Havilland, olhando para Reilly e inclinando-se por cima da mesa. — Está em condições de prestar um serviço extraordinário a seu país... e a interesses muito além deste país... superando qualquer coisa que possa ter feito durante a sua longa e notável carreira.

McAllister estudou o rosto austero do embaixador, sem saber como responder.

— Minha carreira no Departamento de Estado tem sido satisfatória e, espero, profissional, mas não pode ser classificada de notável, no sentido mais amplo da palavra. Para ser franco, as oportunidades nunca se apresentaram.

— Há uma agora. E se encontra numa posição excepcional para realizá-la.

— De que forma? E por quê?

— O Extremo Oriente — respondeu o diplomata, com uma estranha inflexão na voz, como se a resposta constituísse uma indagação. — Está no Departamento de Estado há mais de vinte anos, desde que concluiu o curso de doutorado em Estudos do Extremo Oriente, em Harvard. Serviu a seu país de maneira louvável, passando muitos anos na Ásia. Desde que voltou de seu último posto, seus julgamentos foram extremamente valiosos na formulação da política para aquela parte conturbada do mundo. É considerado um brilhante analista.

— Agradeço suas palavras, mas quero lembrar que havia outros na Ásia. E muitos outros, que alcançaram uma posição igual ou superior à minha.

— Acidentes de percurso, Sr. Subsecretário. Vamos falar francamente: tem se saído muito bem.

— Mas o que me distingue dos outros? Por que sou mais qualificado para essa oportunidade do que eles?

— Porque nenhum outro se compara ao senhor como um especialista nos problemas internos da República Popular da China... creio que desempenhou um papel fundamental nas conferências comerciais entre Washington e Pequim. Além disso, nenhum dos outros passou sete anos em Hong Kong. — Raymond Havilland fez então uma pausa e depois acrescentou: — E, finalmente, nenhum outro em nossos postos asiáticos jamais foi designado ou aceito pelo MI-Seis britânico, Setor Especial.

— Ahn... — McAllister compreendeu que a última qualificação, que lhe parecia a menos importante, tinha um certo significado para o diplomata. — Meu trabalho no serviço de informações foi mínimo, Sr. Embaixador. A aceitação do Setor Especial foi baseada mais em sua própria... desinformação; creio que é esta a palavra, do que em qualquer talento especial meu. Eles simplesmente acreditavam nos conjuntos errados de fatos e as somas não conferiam. Não levei muito tempo para encontrar os “dados corretos”, como me lembro que eles disseram.

— Eles confiaram em você, McAllister. E ainda confiam.

— Posso presumir que essa confiança é essencial para essa oportunidade, qualquer que seja?

— Claro. É vital.

— E posso agora saber qual é a oportunidade?

— Pode sim. — Havilland olhou para o terceiro participante da reunião, o homem do Conselho de Segurança Nacional. — Se quiser...

— Muito bem, é a minha vez — disse Reilly, um tanto afável.

Deslocou o tronco enorme na cadeira e fitou McAllister, os olhos ainda rígidos, mas sem a frieza que haviam exibido antes, como se agora pedisse por alguma compreensão.

— Nossas vozes estão sendo gravadas neste momento... é seu direito constitucional saber disso... mas é um direito bilateral. Deve jurar que vai manter em segredo absoluto as informações que lhe serão transmitidas aqui, não apenas no interesse da segurança nacional, mas também no interesse possivelmente mais amplo de condições mundiais específicas. Sei que tudo isso parece uma isca para aguçar seu apetite, mas não é essa a intenção. Estamos falando muito sério. Vai concordar com isso? Se violar o juramento pode ser processado em julgamento secreto, sob os estatutos de sigilo da segurança nacional.

— Como posso concordar com uma condição dessas se ainda não tenho a menor idéia de qual é a informação?

— Posso lhe oferecer uma idéia geral e será suficiente para responder sim ou não. Se a resposta for não, será levado de volta a Washington. Ninguém sairá perdendo.

— Pode falar.

— Muito bem. — Reilly falava em tom calmo e suave. — Vamos discutir determinados eventos que ocorreram no passado... não a história antiga, mas também não acontecimentos atuais. As ações foram repudiadas... enterradas, para ser mais preciso. Isso lhe parece familiar, Sr. Subsecretário?

— Sou do Departamento de Estado. Enterramos o passado quando não há qualquer sentido em revelá-lo. As circunstâncias mudam, os julgamentos feitos de boa fé ontem podem se tornar um problema amanhã. Não podemos controlar essas mudanças, e o mesmo acontece com os russos e chineses.

— É isso mesmo! — exclamou Havilland.

— Ainda não — objetou Reilly, levantando a mão para o embaixador. — O subsecretário é evidentemente um diplomata experiente. Não disse sim nem não. —O homem do CSN tornou a fitar McAllister, os olhos por trás dos óculos de aros de aço outra vez penetrantes e frios. — Qual é a sua resposta, Sr. Subsecretário? Quer continuar ou prefere parar por aqui?

— Uma parte de mim quer se levantar e sair daqui o mais depressa possível — respondeu McAllister, olhando alternadamente para os dois homens. — A outra parte quer ficar. — Fez uma pausa, os olhos se fixando em Reilly, depois acrescentou: — Quer tenha sido essa a sua intenção ou não, o fato é que meu apetite está aguçado.

— É um preço muito alto a pagar por sentir fome —comentou o irlandês.

— É mais do que isso. — O subsecretário falava suave- mente. — Sou um profissional... e se sou o homem de que precisa, então não tenho opção, não é mesmo?

— Infelizmente, preciso ouvir uma resposta direta — insistiu Reilly. — Quer que eu repita a pergunta?

— Não será necessário. — McAllister franziu o rosto, concentrado em algum pensamento. — Eu, Edward Newington McAllister, compreendo perfeitamente que tudo o que se disser durante esta reunião... — Fez uma pausa, fitando Reilly nos olhos. — Presumo que vai preencher os detalhes, como horário, local e pessoas presentes.

— Data, local, hora e minuto, identificações... tudo está sendo devidamente registrado.

— Obrigado. Vou querer uma cópia antes de ir embora.

— Não tem problema. — Sem altear a voz, Reilly olhou para a frente e deu uma ordem. — Por favor, anote isso.Quero uma cópia desta gravação para o participante no momento de sua partida. Providencie também o equipamento para ele verificar o conteúdo no local. Vou rubricar a cópia... Continue, por favor, Sr. McAllister.

— Agradeço a presteza... Em relação ao que se disser nesta reunião, aceito a condição de sigilo absoluto. Não falarei com ninguém a respeito de qualquer aspecto da conversa, a menos que seja instruído em contrário, pessoalmente, pelo Embaixador Havilland. Compreendo também que posso ser processado em julgamento secreto se violar este acordo. Contudo, se tal julgamento vier a ocorrer, reservo-me o direito de confrontar meus acusadores, não suas declarações ou depoimentos. Acrescento isto porque não posso conceber quaisquer circunstâncias em que pudesse violar o juramento que acabo de prestar.

— Mas há circunstâncias em que isso pode acontecer — ressaltou Reilly, gentilmente.

— Não pelo meu código.

— Extremo maltrato físico, agentes químicos, ser enganado por homens e mulheres mais experientes. Há sempre meios, Sr. Subsecretário.

— Faço questão de repetir. Caso eu venha a ser processado algum dia... e isso já aconteceu com outros... reservo-me o direito de confrontar qualquer um e todos os meus acusadores.

— Está certo. Reilly tornou a olhar para a frente e disse: — Encerre a gravação e desligue os microfones. Confirme.

— Confirmado — respondeu uma voz estranha, saindo de um alto-falante em algum lugar por cima. — Vocês estão agora... desligados.

— Continue, Sr. Embaixador — disse o homem de cabelos ruivos. — Só vou interromper quando julgar necessário.

— Tenho certeza que sim, Jack. —Havilland virou-se para McAllister. — Retiro minha declaração anterior. Ele é mesmo um terror. Depois de quarenta e tantos anos de serviço, me aparece um fedelho ruivo que deveria fazer uma dieta para me dizer quando devo me calar.

Os três homens sorriram; o idoso embaixador conhecia o momento e o método para reduzir a tensão. Reilly sacudiu a cabeça e abriu os braços, com expressão jovial.

— Eu nunca faria isso, senhor... ou, pelo menos, não de maneira muito óbvia.

— O que acha, McAllister? Vamos desertar para Moscou e dizer que foi ele o recrutador. Os russos provavelmente nos dariam dachas e ele iria para Leavenworth.

— O senhor receberia a dacha, Sr. Embaixador. Eu partilharia um apartamento com uma dúzia de siberianos. Não, obrigado. Não é a mim que ele está interrompendo.

— Muito bom. Fico surpreso que nenhum daqueles intrometidos bem-intencionados do Gabinete Oval jamais o tenha escolhido para a sua equipe ou pelo menos o tivesse mandado para a ONU.

— Eles nem tinham conhecimento da minha existência.

— Essa situação vai mudar. — Havilland ficou abrupta- mente sério. Fez uma pausa, olhando para o subsecretário, depois continuou, em voz mais baixa: — Já ouviu falar alguma vez no nome de Jason Bourne?

— Como alguém que trabalhou na Ásia poderia deixar de ouvir? — respondeu McAllister. — De trinta e cinco a quarenta assassinatos, o assassino de aluguel que se esquivou a todas as armadilhas. Um matador patológico, cuja única moral era o preço do crime. Dizem que era americano... que é americano, não sei direito, pois desapareceu por completo... e que era um padre despojado do hábito, um importador que roubou milhões, um desertor da Legião Estrangeira francesa e só Deus sabe quantas outras histórias. A única coisa que sei com certeza é que ele nunca foi apanhado e que nosso fracasso em capturá-lo foi um fardo para a diplomacia americana em todo o Extremo Oriente.

— Havia algum padrão em suas vítimas?

— Absolutamente nenhum. Foram as mais variadas, a torto e a direito, pode-se dizer assim. Dois banqueiros aqui, três adidos ali... significando agentes da CIA... um ministro de estado de Délhi, um industrial de Cingapura e numerosos... até demais... políticos, de um modo geral homens decentes. Seus carros eram bombardeados nas ruas, os apartamentos explodidos. Houve também maridos e esposas infiéis, amantes de todos os tipos, envolvidos em vários escândalos. Não havia ninguém que não matasse, nenhum método que fosse muito brutal ou aviltante para ele. Oferecia soluções finais para egos feridos... Não havia padrão nenhum, apenas dinheiro. A oferta mais alta. Ele era um monstro... é um monstro, se ainda está vivo.

Mais uma vez, Havilland inclinou-se para a frente, os olhos fixados no Subsecretário de Estado.

— Disse que ele desapareceu por completo. Apenas isso? Não soube de mais nada, não ouviu quaisquer rumores ou informações confidenciais de nossas embaixadas ou consulados na Ásia?

— É claro que houve rumores, mas nenhum jamais foi confirmado. A história que ouvi com mais freqüência veio da polícia de Macau, onde a presença de Bourne foi constatada pela última vez. Disseram que ele não estava morto nem aposentado. Em vez disso, seguira para a Europa, à procura de clientes mais ricos. Se for verdade, pode ser apenas a metade da história. A polícia também declarou que diversos informantes revelaram que vários contratos saíram errados para Bourne. Em um caso, ele matou o homem errado, uma figura eminente do submundo malasiano. Em outro, teria estuprado a mulher de um cliente. Talvez o círculo estivesse se fechando sobre Bourne... e talvez não.

— Como assim?

— A maioria de nós aceitou a primeira metade da história não a segunda. Bourne não mataria o homem errado, especialmente alguém assim; não cometia esse tipo de erro. E se violentou a mulher de um cliente... o que é duvidoso... seria por ódio ou vingança. Teria obrigado o marido manietado a assistir e depois mataria os dois. A maioria de nós presumiu que a primeira história era a verdadeira. Bourne foi para a Europa, onde havia peixes maiores para fritar... e matar.

— Vocês estavam condicionados a aceitar essa versão — comentou Havilland, recostando-se na cadeira.

— Como assim?

— O único homem que Jason Bourne matou na Ásia pós- Vietnam foi um agente furioso que tentou matá-lo.

McAllister estava aturdido.

— Não estou entendendo.

— O Jason Bourne que acaba de descrever nunca existiu. Era um mito.

— Não pode estar falando sério.

— Estou sim. Foram tempos turbulentos no Extremo Oriente. As redes de tráfico de tóxicos, operando do Triângulo Dourado, travavam uma guerra desorganizada e secreta. Cônsules, vice-cônsules, policiais, políticos, quadrilhas de criminosos, patrulhas de fronteira... as ordens sociais mais altas e mais baixas... todos estavam sendo afetados. Dinheiro em quantidades incríveis era o instrumento de corrupção. Sempre e onde quer que ocorresse um assassinato bem divulgado... independente das circunstâncias ou de quem fosse acusado... Bourne entrava em cena e assumia o crédito pela morte.

— Ele era o assassino — insistiu um confuso McAllister. — Havia os sinais, os seus sinais! Todo mundo sabia disso!

— Todo mundo presumia, Sr. Subsecretário. Um telefonema irônico para a polícia, uma pequena peça de roupa enviada pelo correio, um lenço preto encontrado nas moitas no dia seguinte. Tudo era parte da estratégia.

— Estratégia? Mas do que está falando?

— Jason Bourne... O Jason Bourne original... era um assassino condenado, um fugitivo que morreu com uma bala na cabeça, num lugar chamado Tam Quan, nos últimos meses da guerra no Vietnam. Foi uma execução na selva. O homem era um traidor. O cadáver ficou lá para apodrecer... ele simplesmente desapareceu. Vários anos depois, o homem que o executou assumiu sua identidade para um dos nossos projetos, um projeto que quase deu certo, que deveria ter dado certo, mas que acabou fracassando.

— Corno assim?

— Escapou do nosso controle. Esse homem... um homem de bravura excepcional... passou três anos trabalhando para nós com o nome de Jason Bourne. Foi ferido, e o resultado foi uma amnésia. Ele perdeu a memória, não sabia quem era nem quem deveria ser.

— Santo Deus!

— Ele estava entre o fogo e a frigideira. Com a ajuda de um médico alcoólatra numa ilha do Mediterrâneo, tentou reconstituir sua vida, sua identidade. Mas, infelizmente, não conseguiu. Ele fracassou, mas a mulher que o amparara não. Seus instintos eram acurados; tinha certeza de que ele não era um assassino. Deliberadamente, forçou-o a analisar suas palavras, a avaliar seus talentos, até efetuar os contatos que o levariam de volta a nós. Acontece que nós, embora possuindo o mais sofisticado serviço de informações do mundo, não demos atenção ao fator humano. Preparamos uma armadilha para matá-lo...

— Devo interromper, Sr. Embaixador — disse Reilly.

— Por quê? — protestou Havilland. — Foi o que fizemos, e a conversa não está mais sendo gravada.

— Um indivíduo tomou essa decisão, não o governo dos Estados Unidos. isso deve ficar bem claro, senhor.

— Está certo — concordou Havilland, acenando com a cabeça. — Seu nome era Conklin, mas isso é irrelevante, Jack .

O pessoal do governo aceitou. Simplesmente aconteceu.

— O pessoal do governo também contribuiu para salvar sua vida.

— Só depois do fato consumado — murmurou Havilland.

— Mas por quê? — indagou McAllister, agora inclinado para a frente, fascinado pela estranha história. — Ele era um dos nossos. Por que alguém haveria de querer matá-lo?

— Sua perda de memória foi encarada como outra coisa. Acreditou-se erroneamente que ele mudara de lado, que matara três dos seus controles e sumira com muito dinheiro... fundos do governo, num total de quase cinco milhões de dólares.

— Cinco milhões? — Atônito, o subsecretário de Estado arriou lentamente na cadeira. —Recursos dessa magnitude estavam à disposição dele pessoalmente?

— Estavam —respondeu o embaixador. — E também eram parte do projeto, da estratégia.

— Presumo que é nisso que o silêncio se torna necessário... no projeto.

— É indispensável — interveio Reilly. — Não por causa do projeto em si... apesar de não termos apresentado desculpas pela operação... mas por causa do homem que recrutamos para se tornar Jason Bourne e do lugar de onde ele saiu.

— A história está cada vez mais enigmática.

— Vai ficar claro.

— Falem sobre o projeto, por favor.

Reilly olhou para Raymond Havilland, que acenou com a cabeça e disse:

— Criamos um assassino a fim de atrair para uma armadilha o mais terrível assassino da Europa.

— Carlos?

— Capta as coisas depressa, Sr. Subsecretário.

— Quem mais podia ser? Na Ásia, Bourne e o Chacal estavam sendo constantemente comparados.

— Essas comparações foram devidamente incentivadas — explicou Havilland. — E muitas vezes ampliadas e espalhadas pelos estrategistas do projeto, um grupo conhecido como Casa de Pedra 71. O nome derivou de uma casa segura na Rua 71, em Nova York, onde o ressuscitado Jason Bourne foi treinado. Era o posto de comando do projeto, e não deve esquecer esse nome.

— Estou entendendo... — murmurou McAllister, pensativo. — As comparações, aumentando a reputação de Bourne, serviam como um desafio a Carlos. Foi nesta altura que Bourne se transferiu para a Europa... a fim de levar o desafio diretamente ao Chacal. Para forçá-lo a se expor, confrontando o desafiante.

— Muito perspicaz, Sr. Subsecretário. Em suma, era essa mesmo a estratégia.

— Era extraordinária, brilhante mesmo. E não é necessário ser um perito para se compreender isso. Deus sabe que eu não sou.

— Mas pode se tornar...

— E disse que o homem que se tornou Bourne, o assassino mítico, passou três anos representando o papel e depois foi ferido...

— Levou um tiro —interrompeu Havilland. — Membranas do crânio foram destruídas.

— E ele perdeu a memória?

— Completamente.

— Que coisa terrível!

— Apesar de tudo o que lhe aconteceu e com a ajuda da tal mulher... ela era uma economista que trabalhava para o governo canadense, diga-se de passagem... ele chegou bem perto de descobrir tudo. Não acha que é uma história extraordinária?,

— É simplesmente incrível. Mas que espécie de homem faria isso... seria capaz de fazer isso?

O ruivo John Reilly tossiu de leve; o embaixador olhou para ele e passou-lhe a palavra.

— Estamos chegando agora ao ponto zero — anunciou o cão de guarda, deslocando o corpanzil na cadeira para fitar McAllister. — Se ainda tem alguma dúvida, talvez eu aceite que pule fora agora.

— Não gosto de me repetir. Já tem a sua gravação.

— A vontade é sua.

— Imagino que isso é outra maneira que vocês têm de dizer que pode não haver sequer um julgamento.

— Eu nunca diria isso.

McAllister engoliu em seco, sustentando o olhar calmo do homem do CSN. Depois de um momento, virou-se para Havilland e disse:

— Continue, por favor, Sr. Embaixador. Quem é esse homem? De onde ele veio?

— Seu nome é David Webb. É no momento professor- associado de Estudos Orientais numa pequena universidade no Maine. Casou com a canadense que literalmente o guiou para fora de seu labirinto. Sem ela, Webb teria sido morto... mas também sem ele, a canadense acabaria como um cadáver em Zurique.

— Extraordinário! — murmurou McAllister, a voz quase inaudível.

— Ela é a segunda esposa de Webb. Seu primeiro casamento terminou num ato trágico de massacre brutal... o momento em que sua história começou para nós. Há alguns anos, Webb era um jovem diplomata, servindo em Phnom Penh, um brilhante estudioso do Extremo Oriente, que falava fluente- mente várias línguas orientais e era casado com uma tailandesa, a quem conhecera no curso de pós-graduação. Tinham dois filhos e moravam numa casa à beira do rio. Era uma vida ideal para um homem assim. Combinava o conhecimento de que Washington precisava na região com a oportunidade de viver em seu próprio museu. Foi então que começou a escalada no Vietnam. E veio a manhã em que um caça a jato solitário... ninguém sabe realmente de que lado, mas também ninguém jamais disse isso a Webb... sobrevoou o local em baixa altitude e metralhou sua mulher e filhos, enquanto brincavam na água. Os corpos ficaram crivados de balas. Flutuaram para a margem do rio, enquanto Webb tentava alcançá-los. Ele recolheu-os, gritando impotente para o avião que desaparecia lá em cima.

— Que coisa horrível! — sussurrou McAllister.

— Foi nessa ocasião que Webb se transformou. Virou um homem que nunca fora, que nunca se imaginara capaz de ser. Tornou-se um guerrilheiro, conhecido como Delta.

— Delta? — repetiu o subsecretário de Estado. — Um guerrilheiro? Não estou entendendo.

— Nem poderia. — Havilland olhou para Reilly e depois voltou a se fixar em McAllister. — Como Jack deixou bem claro, estamos agora no ponto zero. Webb foi para Saigon, dominado pelo ódio. Ironicamente, através dos esforços de um agente da CIA chamado Conklin, que anos mais tarde tentou matá-lo, ingressou numa unidade de operações clandestinas chamada Medusa. Jamais se usavam nomes em Medusa, apenas as letras do alfabeto grego... e Webb tornou-se Delta Um.

— Medusa? Nunca ouvi falar.

— Ponto zero — disse Reilly. — O arquivo de Medusa ainda é secreto, mas recebemos permissão para uma revelação limitada neste caso. Os grupos da Medusa eram integrados por elementos internacionais que conheciam os territórios norte e sul do Vietnam. Para ser franco, quase todos eram criminosos... traficantes de tóxicos, ouro, armas, jóias, toda e qualquer espécie de contrabando. Havia também assassinos, fugitivos condenados à morte à revelia... e um punhado de colonos cujos negócios tinham sido confiscados, pelos dois lados. Contavam conosco... o Tio Grande... para resolver todos os seus problemas, em troca de se infiltrarem em áreas inimigas, matando os suspeitos de colaboração com os vietcongues e os chefes de aldeia que julgávamos hostis, além de promoverem, sempre que possível, a fuga de prisioneiros de guerra. Eram equipes de assassinato... esquadrões da morte, se preferir assim... e isso explica quase tudo. Mas é claro que nunca o diremos. Erros foram cometidos, milhões roubados. E é claro também que a maioria daquele pessoal nunca seria aceita em qualquer exército civilizado, inclusive Webb.

— Com seus antecedentes, suas credenciais acadêmicas, como ele pôde ingressar voluntariamente num grupo assim?

— Webb tinha um motivo irresistível — comentou Havilland. — Para ele, aquele avião em Phnom Penh era norte-vietnamita.

— Alguns diziam que ele era louco — continuou Reilly. — Outros afirmavam que era um tático extraordinário, o supremo guerrilheiro, capaz de compreender a mente oriental e líder dos mais agressivos grupos da Medusa, temido pelo Comando de Saigon tanto quanto pelo inimigo. Webb era incontrolável, as únicas regras que seguia eram as suas. Parecia empenhado numa caçada pessoal, à procura do homem que pilotara aquele avião e destruíra sua vida. Tornou-se a sua guerra, a sua ira; quanto mais violenta ficava, mais satisfatória para ele... ou talvez mais o aproximasse de seu desejo de morte.

— Morte?...?

O subsecretário de Estado deixou a palavra pairando no ar.

— Era a teoria predominante na ocasião — explicou o embaixador.

— A guerra terminou para Webb... ou Delta... tão desastrosamente quanto para o resto de nós — acrescentou Reilly. — Talvez pior, porque nada restou para ele. Não havia mais propósito, nada para atacar, ninguém para matar. Até que o abordamos e lhe oferecemos uma razão para continuar a viver. Ou talvez uma razão para continuar a tentar morrer.

— Transformando-se em Bourne e saindo à procura de Carlos, o Chacal — arrematou McAllister.

— Exatamente — confirmou o homem do Conselho de Segurança Nacional.

Houve um breve momento de silêncio, rompido por Havilland:

— Precisamos de sua volta.

As palavras foram pronunciadas suavemente, mas caíram como um machado em madeira dura.

— Carlos tornou a aparecer?

O embaixador sacudiu a cabeça.

— Não na Europa. Precisamos dele de volta na Ásia, e não podemos desperdiçar um minuto sequer.

— Alguém mais? Outro... alvo? — McAllister engoliu em seco, involuntariamente. — Já falaram com ele?

— Não podemos abordá-lo. Não diretamente.

— Por que não?

— Ele não nos deixaria passar por sua porta. Não confia em qualquer coisa ou pessoa de Washington; não se pode culpá-lo por isso. Por dias e semanas ele gritou por socorro, mas não quisemos escutar. Em vez disso, tentamos matá-lo.

— Devo objetar outra vez — interveio Reilly. —Não fomos nós. Foi um indivíduo, com base numa informação errada. E o governo investe no momento mais de quatrocentos mil dólares por ano num programa de proteção a Webb.

— De que ele escarnece. Acha que não passa de uma ar-

madilha para Carlos, caso o Chacal venha a descobri-lo. Está convencido de que vocês não se importam com ele e não sei se está muito longe da verdade. Ele viu Carlos. O fato de que o rosto ainda não entrou em foco em sua mente é algo que Carlos desconhece. O Chacal tem todos os motivos para procurar Webb. E se isso acontecer, vocês terão a sua segunda oportunidade.

— As possibilidades de Carlos encontrá-lo são tão remotas que se tornam praticamente inexistentes. Os registros da Casa de Pedra estão enterrados; e mesmo que isso não acontecesse, não contêm qualquer informação atualizada sobre o paradeiro de Webb ou o que ele faz.

— Não venha com essa, Sr. Reilly — protestou Havilland, irritado. — Os registros revelam seus antecedentes e qualificações. Com base nisso, até que ponto seria difícil? Ele é obviamente um acadêmico.

— Não estou lhe fazendo qualquer oposição, Sr. Embaixador — respondeu Reilly, um tanto abrandado. — Só quero deixar tudo bem claro. Vamos ser francos. Webb tem de ser tratado com o maior cuidado. Já recuperou grande parte de sua memória, mas não toda. De qualquer forma, recordou o bastante sobre Medusa para constituir uma ameaça considerável aos interesses do país.

— Como assim? — indagou McAllister. — Talvez não tenha sido a melhor e provavelmente não foi a pior, mas foi em suma uma estratégia militar em tempo de guerra.

— Uma estratégia que não foi aprovada, não foi registrada e nem reconhecida. Não há qualquer documento oficial.

— Como é possível? A operação foi financiada, e quando recursos são aplicados...

— Não precisa me explicar os regulamentos — interrompeu-o o obeso agente de informações. — Não estamos sendo gravados agora, mas não esqueça que tenho o seu juramento.

— É essa a sua resposta?

— Não. É a seguinte: não há estatuto de limitação e prescrição dos crimes de guerra, Sr. Subsecretário... e assassinatos e outros crimes violentos foram cometidos contra nossas próprias forças e contra o pessoal aliado. De um modo geral, foram cometidos por assassinos e ladrões no processo de saquear, estuprar e matar. Quase todos eram criminosos patológicos. Por mais eficaz que tenha sido sob muitos aspectos, Medusa foi um erro trágico, nascido do ódio e da frustração numa situação em que a vitória era impossível. De que adiantaria reabrir todas as velhas feridas? Além dos processos contra nós, iríamos nos tornar parias aos olhos de grande parte do mundo civilizado.

— Com já mencionei, não acreditamos em reabrir feridas no Departamento de Estado — comentou McAllister suave- mente, com alguma relutância. Voltando-se para o embaixador, acrescentou: — Estou começando a compreender. Quer que eu entre em contato com esse David Webb e tente persuadi-lo a voltar à Ásia. Para outro projeto, outro alvo... embora eu nunca tenha usado antes, em toda a minha vida, a palavra nesse contexto. E presumo que pedem a minha ajuda porque há paralelos evidentes no início de nossas carreiras... somos homens da Ásia. Assim, presumivelmente, temos percepções comuns em relação ao Extremo Oriente. E acham que ele vai me escutar.

— Essencialmente, é isso.

— Contudo, assegura que ele não quer qualquer contato conosco. É onde minha compreensão falha. Como eu poderia conseguir alguma coisa?

— Faremos tudo juntos. E como ele outrora fazia as regras para si mesmo, também vamos fazê-las agora. É indispensável.

— Por causa de um homem que vocês querem que seja morto?

— “Eliminado” é uma palavra mais apropriada. Tem de ser feito.

— E Webb pode fazê-lo?

— Não. Jason Bourne pode. Nós o despachamos sozinho para a clandestinidade por três anos, sob uma pressão extraordinária... e de repente ele perdeu a memória, passou a ser caçado como um animal. Apesar disso, conservou a capacidade de se infiltrar e matar. Estou sendo um tanto rude.

— Posso compreender. Já que não estamos sendo gravados... e caso isso ainda aconteça... — O subsecretário lançou um olhar de desaprovação para Reilly, que sacudiu a cabeça e deu de ombros. — Posso saber quem é o alvo?

— Pode, sim... e quero que grave o nome na memória, 

Sr. Subsecretário. É um ministro de Estado chinês, Sheng Chou Yang.

McAllister corou, furioso.

— Não preciso gravar o nome e acho que sabe disso muito bem. Ele trabalhava no grupo de planejamento econômico chinês e ambos participamos de conferências comerciais em Pequim, no final dos anos setenta. Li muito a seu respeito, analisei-o. Sheng era meu equivalente e eu não podia fazer por menos... um fato que desconfio que o senhor também sabe.

— Acha mesmo? — O embaixador de cabelos grisalhos alteou as sobrancelhas escuras e ignorou a censura. — E o que os seus estudos revelaram? O que aprendeu a respeito de Sheng?

— Ele era considerado muito inteligente, muito ambicioso... mas isso fica evidente por sua ascensão na hierarquia de Pequim. Foi reconhecido por observadores do Comitê Central há alguns anos, na Universidade Fudan, em Xangai. Inicialmente porque conhecia muito bem a língua inglesa e porque possuía uma noção firme e até mesmo sofisticada da economia ocidental.

— E que mais?

— Foi considerado um material promissor e, depois de uma doutrinação profunda, enviaram-no para a Escola de Economia de Londres, a fim de realizar estudos de pós-graduação. E foi assim que a coisa pegou.

— Pode explicar isso?

— Sheng é um marxista irredutível em termos de estado centralizado, mas tem um saudável respeito pelos lucros capitalistas.

— Ahn... — murmurou Havilland. — Quer dizer que ele aceita o fracasso do sistema soviético?

— Atribuiu esse fracasso à tendência russa para a corrupção e a conformidade insensata nos escalões superiores e o álcool nas camadas inferiores. Para seu crédito, eliminou uma parcela considerável desses abusos nos centros industriais.

— Não parece que ele foi treinado na IBM?

— Sheng é responsável por muitas das novas políticas comerciais da República Popular da China. E, com isso, ganhou muito dinheiro pan seu país. — O subsecretário de Estado tornou a se inclinar para a frente, os olhos intensos, uma expressão espantada... talvez atordoada fosse uma definição mais acurada. —Por que alguém no Ocidente haveria de querer Sheng morto? É um absurdo! Ele é nosso aliado econômico, um fator de estabilização política na maior nação do mundo, que se opõe a nós ideologicamente! Por intermédio dele e de outros homens iguais, conseguimos chegar a vários acordos. Sem ele, qualquer que seja o curso, há o risco de desastre. Sou um analista profissional da China, Sr. Embaixador. E insisto: o que está sugerindo é um absurdo. Um homem do seu gabarito deveria reconhecer isso antes de qualquer outro.

O idoso diplomata fitou seu acusador nos olhos com expressão firme, e quando falou foi devagar, escolhendo as palavras com todo cuidado:

— Há poucos momentos, estávamos no ponto zero. Um ex-funcionário do serviço diplomático chamado David Webb tornou-se Jason Bourne para um propósito. Da mesma forma, Sheng Chou Yang não é o homem que você conhece, não é o homem que estudou como seu equivalente. Ele virou esse homem com um propósito.

— Mas do que está falando? — protestou McAllister, na defensiva. — Tudo o que eu disse a respeito de Sheng está registrado... em registros oficiais... a maioria ultra-secreta e somente para os olhos de quem está autorizado.

— Somente para os olhos? — repetiu o embaixador, em tom de cansaço. — Para os ouvidos e para as línguas também... mexendo tão depressa quanto um tigre abana a cauda. Porque um carimbo oficial foi acrescentado a observações registradas, consultadas por homens que não têm a menor idéia de onde vieram as informações... estão lá e isso é suficiente. Mas não é, Sr. Subsecretário. Nunca foi.

— É evidente que possui outras informações de que não disponho — disse friamente o homem do Departamento de Estado. — Se é que é mesmo informação, e não desinformação. O homem que descrevi... o homem que conheci... é Sheng Chou Yang.

— Assim como o David Webb que lhe descrevemos era Jason Bourne?... Por favor, não fique irritado. Não estou fazendo um jogo. É importante que compreenda que Sheng não é o homem que conheceu. Nunca foi.

— Então quem conheci? Quem era o homem que participou daquelas conferências?

— Ele é um traidor, Sr. Subsecretário. Sheng Chou Yang é um traidor de seu país. Quando sua traição for desmascarada... como é inevitável... Pequim vai responsabilizar o Mundo Livre. As conseqüências desse erro irremediável são inconcebíveis. Contudo, não há qualquer dúvida quanto a seu propósito.

— Sheng... um traidor? Não posso acreditar! Ele é idolatrado em Pequim! Um dia ainda vai se tornar presidente!

— Se isso acontecer, a China será governada por um nacionalista fanático, cujas raízes ideológicas estão em Formosa.

— Está louco... completamente louco! Mas espere um instante! Disse que ele tinha um objetivo... “não há qualquer dúvida quanto a seu propósito”, foi o que falou.

— Sheng e seu pessoal tencionam assumir o controle de Hong Kong. Ele está preparando uma blitz econômica secreta, pondo todo o comércio e todas as instituições econômicas do território sob o controle de uma comissão “neutra”, uma espécie de câmara de compensação, aprovada por Pequim... o que significa aprovada por ele. O instrumento para isso será o tratado britânico que expira em 1997, e sua comissão constitui um prelúdio supostamente razoável à anexação e controle. Vai acontecer quando o caminho estiver livre para Sheng, quando não houver mais obstáculos à sua frente. Quando sua palavra for a única que conta em questões econômicas. Pode ser dentro de um ou dois meses. Ou daqui a uma semana.

— Acha mesmo que Pequim concordou com isso? — pro testou McAllister. — Está errado. Isso é uma loucura! A República Popular jamais vai tocar em Hong Kong em termos substantivos. Afinal, os chineses movimentam sessenta por cento de sua economia através do território. Os Acordos da China garantem cinqüenta anos de Zona Econômica Livre, e Sheng é um dos signatários, o mais importante!

— Mas Sheng não é Sheng... não como o conhece.

— Mas então quem ele é?

— Prepare-se para uma surpresa, Sr. Subsecretário. Sheng Chou Yang é o primogênito de um industrial de Xangai que fez sua fortuna no mundo corrupto da velha China, o Kuomintang de Cbiang Kai-shek. Quando ficou patente que a revolução  de Mao seria vitoriosa, a família fugiu, como aconteceu com tantos latifundiários e senhores da guerra, levando tudo o que podiam transferir. O velho é agora um dos mais poderosos taipans de Hong Kong... mas não sabemos exatamente qual deles. A colônia vai se tornar uma propriedade sua e da família, por cortesia de um ministro de Pequim, que por acaso é seu filho mais querido. E suprema ironia, a vingança final do patriarca... Hong Kong será controlada pelos próprios homens que corromperam a China Nacionalista. Durante anos eles exploraram o país sem qualquer consciência, lucrando com o trabalho árduo de um povo faminto e privado de qualquer direito, abrindo caminho para a revolução de Mao. E se isso lhe parece o jargão comunista, devo ressaltar que a maior parte é embaraçosamente acurada. Agora, alguns fanáticos, criminosos de colarinho branco, liderados por um maníaco, querem recuperar o que nenhum tribunal internacional da história jamais lhes concederia.

Havilland fez uma pausa e depois exclamou furioso uma única palavra:

— Maníacos!

— Mas se não sabe quem é esse taipan, como pode ter certeza de que qualquer parte da história é verdadeira?

— As fontes são ultra-secretas, mas foram confirmadas — interveio Reilly. — A história foi ouvida pela primeira vez em Formosa. Nosso informante original foi um membro do gabinete nacionalista, que achava que era um plano desastroso, que só podia levar a um derramamento de sangue em todo o Extremo Oriente. E nos suplicou que impedíssemos a sua consumação. Foi encontrado morto na manhã seguinte, com três balas na cabeça e a garganta cortada... para os chineses, isso significa um traidor morto. Desde então, cinco outras pessoas foram assassinadas, os corpos mutilados da mesma forma. É verdade. A conspiração está em pleno andamento e baseada em Hong Kong.

— Mas é uma insanidade!

— Para ser mais objetivo, nunca dará certo — declarou Havilland. — Se houvesse uma oração para o caso, poderíamos olhar para o outro lado e até dizer Vá com Deus! Mas não é possível. A coisa vai estourar, como aconteceu com a conspiração de Lin Piao contra Mao Tsé-tung em 1972. E quando isso acontecer, Pequim vai culpar o dinheiro americano e formosino, em cumplicidade com o britânico... além da aquiescência silenciosa das principais instituições financeiras do mundo. Oito anos de progresso econômico serão destruídos de um momento para o outro porque um grupo de fanáticos quer vingança. Em suas palavras, Sr. Subsecretário, a República Popular é uma nação desconfiada e turbulenta... e se me permite acrescentar algumas observações dos talentos que me atribui... tem um governo que pode se tornar paranóico a qualquer instante, obcecado com a traição, tanto interna como externa. A China vai acreditar que o mundo está empenhado em isolá-la economicamente, afastá-la dos mercados internacionais e subjugá-la, enquanto os russos sorriem no outro lado das fronteiras do norte. Vai reagir com rapidez e fúria, confiscando tudo, absorvendo tudo. Suas tropas vão ocupar Kowloon, a ilha, assim como os florescentes Territórios Novos. Investimentos de trilhões estarão perdidos. Sem a competência da colônia, o comércio vai definhar, uma força de trabalho de milhões de pessoas ficará no caos... a fome e a doença vão predominar. O Extremo Oriente vai pegar fogo, e o resultado final pode ser o desencadeamento de uma guerra em que nenhum de nós quer sequer pensar.

— Santo Deus! — balbuciou McAllister. — Isso não pode acontecer!

— Tem razão, não pode mesmo.

— Mas por que Webb?

— Não Webb — corrigiu Havilland. — Jason Bourne.

— Está certo. Por que Bourne?

— Porque espalhou-se por Kowloon a notícia de que ele já está lá.

— O quê?

— E sabemos que ele não está.

— O que disse?

— Ele atacou. Ele foi morto. Ele voltou à Ásia.

— Webb?

— Não, Bourne. O mito.

— Não estou entendendo mais nada!

— Posso lhe garantir que Sheng Chou Yang está entendendo muito bem.

— Como assim?

— Ele o trouxe de volta. Os talentos de Jason Bourne estão outra vez à venda... e, como sempre, seu cliente está além da possibilidade de descoberta. Nesse caso, o cliente é o mais improvável que se possa imaginar. Um eminente porta-voz da República Popular, que precisa eliminar sua oposição, tanto em Hong Kong como em Pequim. Durante os últimos seis meses, diversas vozes poderosas no Comitê Central de Pequim se tornaram estranhamente silenciosas. Segundo os anúncios oficiais do governo, vários membros morreram, o que é compreensível, levando-se em consideração a idade avançada de quase todos. Dois morreram supostamente em acidentes... um deles num desastre de avião, o outro de hemorragia cerebral quando escalava as montanhas de Shaoguan... se não é verdade, pelos menos é imaginativo. E mais outro foi “removido”... um eufemismo para cair em desgraça. E, finalmente, o caso mais extraordinário, o vice-primeiro-ministro da República Popular foi assassinado em Kowloon, quando ninguém em Pequim sabia que ele estava lá. Foi um episódio macabro, cinco homens massacrados no Tsim Sha Tsui, com o assassino deixando seu cartão de visitas. O nome Jason Bourne estava escrito a sangue no chão. Um ego de impostor exibia o crédito pela matança.

McAllister piscou várias vezes, os olhos se deslocando de um lado para outro, rapidamente, a esmo.

— Tudo isso está muito além da minha capacidade. — Uma pausa e ele voltou a ser um profissional, olhando firme para Havilland e indagando: — Existe alguma ligação?

O embaixador acenou com a cabeça.

— Os relatórios de nosso serviço de informações são específicos. Todos esses homens se opunham às políticas de Sheng... alguns abertamente, outros cautelosamente. O vice-primeiro-ministro, um velho revolucionário e veterano da Longa Marcha de Mao, era especialmente franco. Não suportava o arrivista Sheng. Mas o que estava fazendo secretamente em Kowloon, em companhia de banqueiros? Pequim não foi capaz de responder. Assim, para resguardar as aparências, era necessário que o assassinato nunca tivesse ocorrido. Com a sua cremação, ele tornou-se uma não-pessoa.

— E com o “cartão de visitas” do assassino.., o nome escrito em sangue... o segundo vínculo é com Sheng — comentou o subsecretário de Estado, a voz quase trêmula, enquanto massa geava nervosamente a testa. — Por que ele faria isso? Por que deixaria o seu nome?

— Ele está no negócio e foi um massacre espetacular. Está começando a compreender agora?

— Não tenho certeza do que está querendo dizer com isso.

— Para nós, esse novo Bourne é o caminho direto para Sheng Chou Yang. É a nossa armadilha. Um impostor está se apresentando como o mito, mas se o mito original descobrir e remover o original, estará em condições de alcançar Sheng. É realmente muito simples. O Jason Bourne que nós criamos vai substituir esse novo assassino que está usando o seu nome. Depois de assumir a posição necessária, o nosso Jason Bourne envia um alarme urgente... aconteceu algo drástico que ameaça toda a estratégia de Sheng... e Sheng tem de reagir. Não pode evitá-lo, pois sua segurança tem de ser absoluta, suas mãos precisam estar limpas. Ele será obrigado a se manifestar, quanto menos não seja para matar seu pistoleiro de aluguel, eliminar qualquer associação. E quando isso acontecer, desta vez não vamos falhar.

— É um círculo — disse McAllister, quase num sussurro, enquanto olhava fixamente para o embaixador. — E por tudo o que me falou, Webb não vai chegar nem perto, muito menos aceitar sua participação.

— Nesse caso, devemos lhe oferecer um motivo muito forte para agir —sugeriu Havilland, suavemente. —Em minha profissão... vamos ser francos, sempre foi a minha profissão... procuramos por padrões, padrões que levem um homem a entrar em ação.

Franzindo o rosto, os olhos fundos e vazios, o idoso embaixador recostou-se na cadeira; era evidente que não estava em paz consigo mesmo.

— Às vezes, são realizações terríveis.., até mesmo repulsivas... mas não se pode deixar de avaliar o bem maior, os benefícios maiores. Para todos.

— Isso não me diz nada.

— David Webb tornou-se .Jason Bourne essencialmente por um motivo... o mesmo motivo que o levou para Medusa. Uma esposa lhe foi tirada; seus filhos e a mãe de seus filhos foram mortos.

— Oh, não...

— É nesse ponto que eu me retiro — murmurou Reilly, levantando-se

 

Marie! Oh, Deus, Marie, aconteceu de novo! Uma comporta se abriu e não pude controlar a situação. Bem que tentei, minha querida, tentei com o maior empenho, mas acabei sendo engolfado... fui arrastado pela correnteza e estava me afogando! Sei o que você vai dizer se eu lhe contar. É por isso que não vou contar, mesmo sabendo que você vai ver em meus olhos, ouvir em minha voz... de alguma forma, só você sabe como. Vai dizer que eu deveria ter ido para casa ao seu encontro, conversar com você, ficar com você. Poderíamos então resolver tudo juntos. Juntos! Oh, Deus! O quanto você pode suportar? O quanto eu posso ser injusto? Por quanto tempo pode continuar assim? Eu a amo tanto, de tantas maneiras, que há ocasiões em que tenho de fazer tudo sozinho. Quanto menos não seja para lhe proporcionar uma folga por algum tempo, para deixá-la respirar por algum tempo, sem ficar com os nervos à flor da pele enquanto cuida de mim. Mas deve compreender, meu amor, que eu posso fazer! Fiz esta noite e me acalmei. Estou completamente calmo agora, estou bem agora. E voltarei para casa agora, voltarei para você, melhor do que me encontrava antes. Tenho de voltar, porque sem você não me resta coisa alguma.

O rosto encharcado de suor, o training grudado ao corpo, David Webb corria ofegante pela relva fria do campo escuro, passando pelas arquibancadas e subindo pelo caminho cimentado para o ginásio da universidade. O sol de outono desaparecera por trás dos prédios de pedra do campas, seu fulgor incendiava o céu vespertino, enquanto pairava sobre os distantes bosques do Maine. O frio de outono era penetrante e ele estremeceu. Não era o que os seus médicos desejavam.

Não obstante, ele seguira os conselhos médicos; fora um daqueles dias. Os médicos do governo haviam lhe dito que se houvesse ocasiões — e certamente ocorreriam —em que imagens súbitas e perturbadoras ou fragmentos de memórias aflorassem em sua mente, a melhor maneira de controlar a situação era com um exercício físico vigoroso. Seus eletrocardiogramas indicavam um coração saudável, os pulmões se encontravam num estado razoável, apesar de ele ser bastante tolo para fumar; e como o corpo tinha condições de agüentar a punição, era a melhor maneira de aliviar a mente. O que precisava em momentos assim era de serenidade.

— O que há de errado com uns poucos drinques e cigarros? — ele dissera aos médicos, enunciando a sua preferência genuína. — O coração bate mais depressa, o corpo não sofre e a mente certamente se torna mais aliviada.

— São depressivos — fora a resposta do único homem que ele escutava. — Não passam de estimulantes artificiais que só servem para conduzir a uma depressão adicional, a uma ansiedade ainda maior. Corra, nade ou faça amor com sua esposa... ou qualquer outra mulher, diga-se de passagem. Não seja um idiota para voltar aqui como um inválido... Se não se importa com você, pelo menos pense em mim. Trabalhei muito com você, seu ingrato. Vá logo embora, Webb. Pegue a sua vida... o que pode se lembrar... e trate de aproveitá-la. Está melhor do que a maioria das pessoas. Não se esqueça disso ou vou cancelar os nossos porres mensais controlados nos bares de nossa escolha e você que se dane. E que se dane de qualquer forma, porque vou sentir saudade de nossos porres... Vá embora, David. Está na hora de você ir.

Morris Panov era a única pessoa além de Marie que podia alcançá-lo. O que de certa forma era irônico, pois inicialmente Mo não era um dos médicos do governo; o psiquiatra não solicitara nem lhe fora oferecida a autorização de segurança para ouvir os detalhes secretos dos antecedentes de David Webb, em que estava sepultada a mentira de Jason Bourne. Mesmo assim, Panov se impusera, ameaçando as revelações mais embaraçosas se não lhe concedessem autorização e uma participação na terapia subseqüente. Seu raciocínio era simples, pois quando David estivera prestes a ser liquidado por homens desinformados, que estavam convencidos de que ele tinha de morrer, essa desinformação fora involuntariamente fornecida por Panov, deixando-o furioso pela maneira como acontecera. Ele fora abordado em pânico por alguém que não era propenso ao pânico e que fizera perguntas “hipotéticas” sobre um agente secreto possivelmente perturbado, numa situação potencialmente explosiva. Suas respostas foram contidas e equivocas; não podia e não faria o diagnóstico de um paciente que nunca vira... mas era possível e havia até precedentes, embora é claro que nada podia ser considerado sequer remotamente relevante, sem um exame físico e psiquiátrico. A palavra chave era nada; não deveria ter dito nada, conforme declarou depois. Pois suas palavras nos ouvidos de amadores selaram a ordem para a execução de Webb — a sentença de morte de “Jason Bourne” — um ato que só malograra no último instante, graças ao próprio David, enquanto os carrascos do esquadrão da morte ainda se encontravam em suas posições invisíveis.

Não apenas Morris Panov ingressara na junta médica no Hospital Walter Reed e posteriormente no complexo médico na Virginia, mas também literalmente comandara o espetáculo... o espetáculo de Webb. O filho da puta está com amnésia, seus imbecis! Vem tentando dizer isso a vocês há semanas, num inglês perfeitamente lúcido.., desconfio que lúcido demais para a mentalidade distorcida de vocês.

Haviam trabalhado juntos por meses, como médico e paciente.. e finalmente como amigos. Ajudara muito que Marie adorasse Mo... Santo Deus, como ela precisava de um aliado! O fardo que David fora para a esposa era indescritível, desde aqueles primeiros dias na Suíça, quando ela começara a compreender a angústia interior do homem que a mantinha cativa, até o momento em que assumira o compromisso — contra a vontade violenta dele — de ajudá-lo, jamais acreditando no que ele próprio acreditava, dizendo-lhe insistentemente que não era o assassino que se considerava, não era o criminoso que os outros diziam ser. A convicção de Marie tornara-se como uma âncora nos mares turbulentos de David, seu amor fora a base de uma sanidade a emergir. Sem Marie, ele era um homem sem amor, descartado e morto; sem Mo Panov era pouco mais que um vegetal. Mas com os dois a ampará-lo, estava afastando as nuvens turbilhonantes e tornando a encontrar o sol.

Fora por isso que ele optara por uma hora de corrida em torno da pista deserta e fria, em vez de seguir para casa, depois do seminário ao final da tarde. Os seminários semanais muitas vezes se prolongavam além da hora marcada para terminar; por isso, Marie nunca planejava o jantar, sabendo que sairiam para comer fora, os dois guardas discretos em algum lugar na escuridão por trás... como o que andava agora por trás dele pelo campo, quase invisível, o outro sem dúvida no interior do ginásio. Que loucura! Ou será que não?

O que o levara ao “exercício vigoroso” sugerido por Panov fora uma imagem que surgira de súbito em sua mente, enquanto estava conferindo provas de seus alunos, várias horas antes, na sala. Era um rosto... um rosto que conhecia e de que se lembrava, um rosto que amava muito. Um rosto de garoto que envelhecera em sua tela interior, até chegar a um retrato completo de uniforme, desfocado, imperfeito, mas uma parte dele. Enquanto lágrimas silenciosas rolavam por suas faces, ele compreendera que se tratava do irmão morto de que lhe haviam falado, o prisioneiro de guerra que resgatara na selva de Tam Quan anos antes, em meio a explosões terríveis e um traidor que executara, chamado Jason Bourne. Não fora capaz de controlar as imagens violentas e fragmentadas; mal conseguira chegar ao fim do seminário encurtado e saíra mais cedo alegando uma dor de cabeça muito forte. Precisava aliviar as pressões, aceitar ou rejeitar as camadas a descascar da memória, com a ajuda da razão, que lhe dizia para ir ao campo e correr contra o vento, qualquer vento forte., Não podia sobrecarregar Marie cada vez que uma comporta arrebentava; amava-a demais para isso. Quando podia cuidar pessoalmente, tinha de fazê-lo. Era um compromisso que assumira consigo mesmo.

Abriu a porta pesada, especulando por um instante por que a entrada de cada ginásio era projetada com o peso de uma ponte levadiça. Entrou e atravessou o chão de pedra, passando por uma arcada e descendo por um corredor de paredes brancas, até chegar à porta do vestiário dos professores. Ficou satisfeito porque o vestiário estava vazio; não sentia a menor disposição para uma conversa inconseqüente, e se tivesse de mantê-la, certamente pareceria mal-humorado, até mesmo estranho. Podia também dispensar os olhares curiosos que provavelmente provocaria. Estava quase na beira; tinha de voltar gradativamente, lentamente, primeiro dentro de si mesmo, depois com Marie. Oh, Deus, quando tudo aquilo acabaria? Quanto podia pedir a ela? Mas também nunca precisava pedir... Marie dava sem que lhe fosse pedido.

Webb alcançou a fileira de armários. O seu ficava quase no fim. Foi andando por entre o banco de madeira comprido e os armários de metal ligados. Os olhos foram subitamente atraídos para um objeto à frente. Correu em sua direção; um bilhete dobrado estava preso na porta de seu armário. Pegou-o e abriu-o: Sua esposa telefonou. Quer que você ligue para ela assim que puder. Diz que é urgente. Ralph.

O zelador do ginásio poderia demonstrar um mínimo de inteligência para sair e gritar por ele!, pensou Webb irritado, enquanto girava a combinação e abria o armário. Depois de vasculhar os bolsos da calça à procura de moedas, foi até o telefone público na parede. Inseriu uma moeda, perturbado ao constatar que a mão tremia. E de repente compreendeu o motivo. Marie nunca usava a palavra “urgente”. Evitava palavras assim.

— Alô?

— O que houve?

— Achei que você estaria aí — disse Marie. — A panacéia de Mo, a que ele garante que vai curá-lo, se não provocar antes uma parada cardíaca.

— O que houve?

— Venha para casa, David. Tem alguém aqui que deseja falar com você. Depressa, querido.

O Subsecretário de Estado Edward McAllister reduziu sua apresentação a um mínimo, mas incluiu determinados fatos para indicar a Webb que não era dos escalões inferiores do Departamento. Por outro lado, não exagerou sua importância; era o burocrata seguro, confiante de que qualquer competência que possuía podia acarretar mudanças na administração.

— Se quiser, Sr. Webb, nosso assunto pode esperar até que vista alguma roupa mais confortável.

David ainda estava de shorts e camisa de malha, manchados de suor, pois pegara suas roupas no armário e deixara o ginásio apressado, voltando de carro para casa.

— É melhor não —disse ele. —Não creio que o seu assunto possa esperar... a julgar pelo lugar de onde vem, Sr. McAllister.

— Sente-se, David. — Marie St. Jacques Webb entrou na sala, trazendo duas toalhas. —Sente-se também, Sr. McAllister.

Ela entregou uma toalha a Webb, enquanto os homens sentavam, de frente um para o outro, ao lado da lareira apagada. Marie foi postar-se atrás do marido e começou a enxugar seu pescoço e ombros com a segunda toalha, a luz de um abajur acentuando a tonalidade avermelhada de seus cabelos castanhos, as feições adoráveis, na sombra, os olhos fixados no homem do Departamento de Estado.

— Por favor, comece a falar — acrescentou ela. — Como já combinamos, tenho autorização do governo para ouvir qualquer coisa que possa dizer.

— Houve alguma dúvida? —indagou David, olhando para ela e depois para o visitante, sem fazer qualquer tentativa de disfarçar sua hostilidade.

— Absolutamente nenhuma — respondeu McAllister, sorrindo de modo contrafeito, mas sincero. — Ninguém que tenha tomado conhecimento das contribuições de sua esposa se atreveria a excluí-la. Onde outros fracassaram, ela foi bem-sucedida.

— Isso diz tudo — concordou Webb. — Sem dizer nada, é claro.

— Ei, David, pare com isso. Relaxe.

— Desculpe. Ela tem razão. — Webb tentou sorrir, mas não conseguiu muito bem. — Estou sendo preconceituoso e não devia... não é mesmo?

— Eu diria que tem todo o direito de ser — comentou o subsecretário. — Tenho certeza de que eu seria, se estivesse no seu lugar. Apesar de nossos antecedentes serem muito parecidos... também servi no Extremo Oriente por alguns anos... ninguém jamais me teria considerado para a missão que o senhor assumiu. Aquilo por que passou está anos-luz além de mim.

— E além de mim também. Obviamente.

— Não do meu ponto de vista. Deus sabe que o fracasso não foi seu.

— Agora está sendo gentil. Não é ofensa, mas gentileza demais... de sua posição... me deixa nervoso.

— Pois então vamos tratar imediatamente do problema que me trouxe aqui, está bem?

— Por favor.

— E espero que não tenha me julgado com muito rigor. Não sou seu inimigo, Sr. Webb. Quero ser seu amigo. Posso apertar botões que podem ajudá-lo, protegê-lo.

— Do quê?

— De uma coisa que ninguém esperava.

— Pode falar.

— Daqui a trinta minutos, sua segurança será dobrada — anunciou McAllister, os olhos fixos nos de David. — Essa é a minha decisão e vou quadruplicá-la, se julgar necessário. Todas as chegadas ao campus serão investigadas, o terreno será examinado de hora em hora. Os guardas em rodízio não serão mais parte do cenário, simplesmente mantendo-o à vista. Em vez disso, eles ficarão muito à vista. Tudo bastante óbvio e, espero, ameaçador.

— Oh, Deus! — Webb inclinou-se abruptamente para a frente. —É Carlos!

— Achamos que não— respondeu o homem do Departamento de Estado, sacudindo a cabeça. — Não podemos excluir Carlos, mas é uma possibilidade muito remota, altamente improvável.

— Ahn... — murmurou Webb. — Deve ser isso mesmo. Se fosse o Chacal, seus homens estariam espalhados por toda parte e fora de vista. Deixariam que ele viesse para cima de mim e só então o pegariam... e se eu fosse morto, o custo seria aceitável.

— Não para mim. Não precisa acreditar nisso, mas estou falando sério.

— Obrigado. Mas qual é o problema?

— Sua ficha foi violada... isto é, o arquivo de Casa de Pedra foi violado.

— Violado? Uma revelação não-autorizada?

— Não a princípio. Houve autorização, porque estava ocorrendo uma crise... e, de certa forma, não tínhamos alternativa. E de repente tudo escapou ao controle e agora estamos preocupados. Pelo senhor.

— Volte atrás, por favor. Quem teve acesso ao arquivo?

— Um homem de dentro. Suas credenciais eram as melhores, ninguém podia questioná-las.

— Quem era ele?

— Um homem do MI-Seis britânico, operando de Hong Kong, em quem a CIA confiava há muitos anos. Ele chegou a Washington e foi procurar diretamente seu contato na Agência, pedindo que lhe providenciasse tudo o que havia sobre Jason Bourne. Alegou que havia uma crise no território em decorrência direta do projeto Casa de Pedra. Também deixou claro que para haver uma troca de informações importantes entre os serviços britânico e americano... continuar a haver... era melhor que o seu pedido fosse atendido.sem demora.

— Ele precisava apresentar um motivo muito bom.

— E foi o que aconteceu.

McAllister fez uma pausa, nervoso, piscando os olhos e esfregando a testa com os dedos estendidos.

— E qual foi?

— Jason Bourne está de volta — respondeu McAllister, suavemente, —Tornou a matar. Em Kowloon.

Marie deixou escapar uma exclamação aturdida; apertou o ombro direito do marido, os olhos grandes e castanhos com uma expressão furiosa, assustada. Ficou olhando fixamente, em silêncio, para o homem do Departamento de Estado. Webb não se mexeu. Em vez disso, estudou McAllister, como um homem que estivesse observando uma cobra.

— Mas que história é essa? — sussurrou ele, para no instante seguinte altear a voz ao acrescentar: — Jason Bourne... aquele Jason Bourne... não existe mais. Nunca existiu!

— Você sabe disso e nós também. Na Ásia, porém, a sua tenda está bem viva. Sua criação, Sr. Webb... e uma criação brilhante, se quer saber minha opinião.

— Não estou interessado em sua opinião, Sr. McAllister. — David retirou a mão da esposa de seu ombro e levantou-se. — Em que esse agente do MI-Seis estava trabalhando? Qual é a sua idade? Qual é o seu fator de estabilidade, seu registro? Deviam ter uma ficha atualizada do homem.

— Claro que tínhamos, e não havia nada de irregular. Londres confirmou sua extraordinária folha de serviços, sua situação atual, além das informações que ele nos trouxe. Como chefe de posto do MI-Seis, ele foi chamado pela polícia de Kowloon-Hong Kong, por causa da natureza potencialmente explosiva dos acontecimentos. O próprio Foreign Office estava por trás dele.

— Errado!—gritou Webb, sacudindo a cabeça. Uma pausa e ele continuou, baixando a voz: — Ele foi usado, Sr. McAllister. Alguém lhe pagou uma pequena fortuna para obter aquele arquivo. E ele usou a única mentira que daria certo e todos vocês engoliram!

— Infelizmente, não é mentira... não pelo que ele sabia. Acreditou nas evidências, e Londres também acredita. Um Jason Bourne está de volta à Ásia.

— E se eu lhe dissesse que não seria a primeira vez que o controle central é alimentado com uma mentira, a fim de que um homem que trabalha demais, corre muitos riscos e é mal pago possa virar? Tantos anos, tantos perigos e ele nada tem em retribuição. Resolve então aproveitar a oportunidade que lhe proporciona uma pensão substancial pelo resto da vida. Nesse caso, aquele arquivo.

— Se foi isso, não vai lhe adiantar muita coisa. Ele morreu.

— Ele o quê?

— Foi baleado mortalmente em Kowloon, há duas noites, em sua sala, uma hora depois de chegar a Hong Kong.

— Mas isso não pode acontecer! — exclamou David, aturdido. — Um homem que troca de lado sempre providencia algum apoio. Faz um dossiê contra seu benfeitor antes de cometer o ato, informando-o que se alguma coisa lhe acontecer será entregue às pessoas certas. É o seu seguro... sua única garantia.

— Ele estava limpo — insistiu McAllister.

— Ou era estúpido.

— Ninguém pensa assim.

— E o que pensam?

— Que ele estava investigando um caso extraordinário que poderia eclodir na maior violência pelos submundos de Hong Kong e Macau. O crime organizado se torna de repente completamente desorganizado, uma situação não muito diferente das guerras das tongs, as sociedades secretas chinesas, nos anos vinte e trinta. As mortes vão se acumulando. Quadrilhas rivais promovem distúrbios, os cais se transformam em campos de batalha, armazéns e até mesmo navios cargueiros são explodidos por vingança ou para eliminar concorrentes. As vezes só é necessária a existência de várias facções poderosas e beligerantes... e um Jason Bourne ao fundo.

— Mas como não existe nenhum Jason Bourne, é trabalho da polícia, e não do MI-Seis.

— O Sr. McAllister acaba de dizer que o homem foi chamado pela polícia de Hong Kong — interveio Marie, lançando um olhar duro para o subsecretário de Estado. — E parece evidente que o MI-Seis concordou com a decisão. Por quê?

— Não é nada disso! — insistiu David, inflexível, a respiração ofegante.

— Jason Bourne não foi uma criação das autoridades policiais — protestou Marie, virando-se para o marido. — Foi criado pelo serviço secreto americano, por intermédio do Departamento de Estado. Mas desconfio que o MI-Seis entrou no caso por um motivo mais importante do que a descoberta de um assassino que se faz passar por Jason Bourne. Estou certa, Sr. McAllister?

— Está sim, Sra. Webb. Um motivo muito mais importante. Em nossas discussões, nos últimos dois dias, diversos membros de nossa seção concluíram que a senhora compreenderia a situação muito melhor do que nós. Vamos dizer que se trata de um problema econômico que pode levar a uma terrível agitação política, não apenas em Hong Kong, mas no mundo inteiro. É uma economista altamente considerada pelo governo canadense. Já assessorou embaixadores e delegações canadenses no mundo inteiro.

— Vocês dois se importariam de explicar ao homem que equilibra o orçamento por aqui?

— Este não  é um momento para se permitir  distúrbios

no mercado de Hong Kong, Sr. Webb, nem mesmo... e talvez especialmente... em seu mercado ilegal. Distúrbios acompanhados por violência dão a impressão de instabilidade do governo, até mesmo de uma instabilidade mais profunda. Este não é um momento para dar aos expansionistas da China Vermelha mais munição do que eles já possuem.

— E que mais, por favor?

— O tratado de 1997 — respondeu Marie. — Falta apenas uma década para o prazo terminar. É por isso que os novos Acordos estão sendo negociados com Pequim. Apesar disso, todo mundo está nervoso, todo mundo está apreensivo, é melhor ninguém balançar o barco. Estabilidade e tranqüilidade são essenciais agora.

David olhou para ela e depois tornou a se fixar em McAllister. Acenou com a cabeça.

— Estou entendendo. Costumo ler os jornais e revistas... mas acontece que não é um assunto sobre o qual eu tenha profundos conhecimentos.

— Os interesses de meu marido são outros — informou Marie a McAllister. — O estudo dos povos e suas civilizações.

— Isso mesmo — confirmou David. — E daí?

— Eu me interesso por dinheiro e o constante intercâmbio de dinheiro... sua expansão, os mercados e suas flutuações... a estabilidade ou sua carência. E se Hong Kong não for qualquer outra coisa, é dinheiro. Trata-se mais ou menos de seu único produto. A colônia não tem praticamente qualquer outra razão para existir. Suas indústrias morreriam sem dinheiro; sem a entrada de água, a bomba puxa em seco.

— E se a estabilidade acaba, vem o caos — acrescentou McAllister. — Era a desculpa dos velhos senhores da guerra na China. A República Popular avança para suprimir o caos, reprime os agitadores e subitamente nada mais resta, além de um gigante desajeitado a cuidar de toda a colônia e dos Novos Territórios. As cabeças mais frias de Pequim são ignoradas, em favor dos elementos mais agressivos, que querem salvar as aparências, através do controle militar. Os bancos sofrem um colapso, o comércio de todo o Extremo Oriente é paralisado. O caos.

— E a República Popular faria isso?

— Hong Kong, Kowloon, Macau e todos os territórios fazem parte de sua “grande nação sob o céu”... até os Acordos da China deixam isso bem claro. Constituem uma só entidade, e os orientais, como sabe muito bem, não toleram uma criança desobediente.

— Está querendo me dizer que um homem se passando por Jason Bourne pode fazer isso... pode provocar esse tipo de crise? Não posso acreditar.

— Parece uma história extraordinária, mas pode perfeitamente acontecer. O problema é que o mito o acompanha, esse é o fator hipnótico. Muitos assassinatos lhe são atribuídos, quanto menos não seja para distanciar os verdadeiros assassinos dos locais... conspiradores políticos fanáticos, tanto da direita como da esquerda usando a imagem letal de Bourne. Quando se pensa mais um pouco a respeito, não se conclui que foi exatamente assim que se criou o mito? Sempre que alguém de importância, em qualquer lugar da China Meridional, era assassinado, você, como Jason Bourne, cuidava para que a morte lhe fosse creditada. Ao final de dois anos, você era notório, embora só tivesse na verdade matado um homem, um informante bêbado de Macau que tentou estrangulá-lo.

— Não me lembro disso — murmurou David.

O homem do Departamento de Estado acenou com a cabeça em simpatia.

— Foi o que me disseram. Mas se os homens assassinados forem personalidades políticas poderosas... como o governador da Coroa, um negociador da República Popular ou qualquer outra pessoa assim... então toda a colônia entra em alvoroço. — McAllister fez uma pausa, sacudindo a cabeça como a encerrar o assunto, com uma expressão de cansaço. — Mas isso é uma preocupação nossa e não sua. Posso lhe garantir que temos os melhores homens da comunidade de informações trabalhando no caso. Seu problema, Sr. Webb, é a sua própria pessoa. E neste momento, por uma questão de consciência, é também um problema meu. Precisamos protegê-lo.

— Aquele arquivo nunca deveria ter sido entregue a ninguém — comentou Marie, friamente.

— Não tínhamos opção. Trabalhamos em estreita colaboração com os britânicos. Precisávamos provar que Casa de Pedra estava acabada, encerrada por completo. Que seu marido estava a milhares de quilômetros de Hong Kong.

— Disse onde ele estava? — gritou Marie. — Mas como pôde fazer isso?

— Não tínhamos opção — repetiu McAllister, tornando a esfregar a testa. —Devemos cooperar quando afloram determinadas crises. Tenho certeza de que pode compreender isso.

— O que não posso compreender, antes de mais nada, é por que havia um arquivo sobre meu marido! — protestou Marie, furiosa. — Era uma operação de sigilo, sigilo absoluto!

— O financiamento do Congresso a operações secretas exigia isso. É a lei.

— Não me venha com essa —berrou David, também furioso. — Já que está tão bem informado a meu respeito, então sabe também de onde saí. E quero que me responda uma coisa: onde estão todos os registros da Medusa?

— É uma coisa que não posso responder.

— Pois acaba de fazê-lo.

— O Dr. Panov pediu a vocês que destruíssem todos os arquivos de Casa de Pedra — insistiu Marie. — Ou pelo menos que usassem nomes falsos. Mas estou vendo que nem isso fizeram. Que espécie de homens são?

— Eu teria concordado com as duas coisas! — exclamou McAllister, com uma veemência súbita e surpreendente. — Lamento muito, Sra. Webb. Perdoe-me. Foi antes do meu tempo... E também me sinto ofendido. É possível que esteja certa, talvez nunca devesse existir um arquivo. Há sempre meios...

— Não me venha com essas besteiras — interrompeu-o David, a voz abafada. —É tudo parte de outra estratégia, outra armadilha. Vocês querem Carlos e não se importam com os meios para agarrá-lo.

— Eu me importo, Sr. Webb... e também não precisa acreditar nisso. O que representa o Chacal para mim... ou para a Seção do Extremo Oriente? É um problema europeu.

— Está querendo dizer que passei três anos de minha vida caçando um homem que não significava absolutamente nada?

— Claro que não. Os tempos mudam, as perspectivas mudam. E às vezes tudo se torna completamente inútil.

— Oh, Deus!

— Relaxe, David —murmurou Marie, sua atenção se concentrando por um instante no homem do Departamento de Estado, muito pálido, as mãos apertando os braços da cadeira. — Vamos todos relaxar. — Depois, ela fitou o marido nos olhos e acrescentou: — Aconteceu alguma coisa esta tarde, não é mesmo?

— Eu lhe contarei depois.

— Está certo. — Marie virou-se para McAllister, enquanto David tomava a sentar, o rosto contraído e cansado, mais velho do que parecia poucos minutos antes. — Não é verdade que tudo o que nos disse até agora está levando a alguma conclusão? Não há mais alguma coisa que quer que a gente saiba?

— Tem toda razão... e não é fácil para mim. Não esqueçam, por favor, que só recentemente fui designado e recebi plena autorização para conhecer o dossiê secreto do Sr. Webb.

— Inclusive a história de sua esposa e filhos no Camboja?

— Inclusive.

— Pois então diga logo o que tem a falar, por favor.

McAllister tornou a estender os dedos finos e massageou nervosamente a testa.

— Pelo que descobrimos... e Londres confirmou há cinco horas... é possível que seu marido seja um alvo. Um homem quer matá-lo.

— Mas não Carlos, não o Chacal — murmurou David, inclinando-se para a frente.

— Isso mesmo. Ou pelo menos ainda não conseguimos estabelecer qualquer ligação.

— E o que vocês sabem? — indagou Marie, sentando no braço da poltrona de David. — O que já descobriram?

— O agente do MI-Seis em Kowloon tinha muitos documentos confidenciais em sua sala, alguns dos quais poderiam ser vendidos por muito dinheiro em Hong Kong. Contudo, só levaram o arquivo sobre Casa de Pedra... o arquivo sobre Jason Bourne. Foi a confirmação que Londres nos forneceu. É como se fosse um aviso: ele é o homem que queremos, apenas Jason Bourne.

— Mas por quê? — gritou Marie, a mão apertando o pulso de David

— Porque alguém foi morto — respondeu David, calmamente. — E outra pessoa quer acertar as contas.

— E nisso que estamos trabalhando — confirmou McAllister, acenando com a cabeça. —E já fizemos algum progresso.

— Quem foi morto? — perguntou o ex-Jason Bourne.

— Antes de responder, quero que saiba que tudo o que temos é o que nosso pessoal em Hong Kong conseguiu descobrir. De um modo geral, não passa de especulação. Não existe qualquer prova. E lembre-se de que eles estão trabalhando sozinhos.

— Como assim? Onde estavam os britânicos? Afinal, vocês lhes entregaram o arquivo de Casa de Pedra!

— Eles nos deram a prova de que um homem foi morto por alguém que se identificou como a criação de Casa de Pedra, a nossa criação... você. Mas não estavam dispostos a identificar suas fontes, assim como também não revelamos os nossos contatos, Nosso pessoal tem trabalhado vinte e quatro horas por dia, sondando todas as possibilidades, tentando descobrir quem foram as fontes principais do MI-Seis, na suposição de que uma delas tenha sido responsável pela morte. Depararam com um rumor em Macau... mas chegaram à conclusão de que era apenas um rumor.

— Repito a minha pergunta — insistiu David. — Quem foi morto?

— Uma mulher — respondeu o homem do Departamento de Estado. — A esposa de um banqueiro de Hong Kong chamado Yao Ming, um taipan cujo banco é apenas uma fração de sua vasta fortuna. Sua riqueza é tão grande que ele tem sido bem recebido até em Pequim, como investidor e consultor. É um homem influente, poderoso, a um ponto indescritível.

— Quais foram as circunstâncias?

— Horríveis, mas não excepcionais. A esposa era uma atriz de importância menor que participou de diversos filmes dos irmãos Shaw, bem mais moça do que ele. Era também tão fiel quanto uma cadela no cio, se me permitem falar assim...

— Por favor, continue — disse Marie.

— O marido fingia ignorar isso. Ela era o seu troféu, jovem e bonita. A mulher também pertencia ao jet set da colônia, que tem a sua quota de personagens repulsivos. Num fim de semana, jogando alto nos cassinos de Macau, no outro apostando nas corridas de cavalos em Cingapura ou voando para as Pescadores, a fim de assistir às competições de roleta russa nas casas de ópio, milhares e milhares de dólares sendo apostados em quem vai morrer primeiro, enquanto dois homens sentam frente a frente, separados por uma mesa pequena, girando o tambor de um revólver com uma só bala. Há uma pequena diferença da roleta russa tradicional, pois eles apontam o revólver um para o outro. E é claro que, em tudo isso, há também um consumo indiscriminado de tóxicos, O último amante da mulher foi um distribuidor. Os fornecedores dele eram de Guangzhou, suas rotas, os canais a leste da fronteira de Lok Ma Chau.

— Segundo os relatórios que conheço, é um dos percursos mais amplos, com muito tráfico passando por lá — interrompeu David. —Por que se concentraram nele... em sua operação?

— Porque sua operação, como tão apropriadamente chamou, estava se tornando rapidamente a única na cidade, ou pelo menos naquele percurso. Ele estava sistematicamente eliminando os concorrentes, subornando as patrulhas marítimas chinesas para afundar suas embarcações e liquidar os tripulantes, Ao que parece, suas medidas eram eficazes, pois muitos corpos crivados de balas flutuaram até os brejos lamacentos e as margens do rio. As facções estavam em guerra e o distribuidor... o amante da jovem esposa... foi marcado para execução.

— Nas circunstâncias, ele deveria estar consciente dessa possibilidade. E deve ter se cercado de uma dúzia de guarda- costas.

— Acertou de novo. E esse tipo de segurança exige os talentos de uma lenda. Seus inimigos contrataram essa lenda.

— Bourne — murmurou David, sacudindo a cabeça e fechando os olhos.

— Isso mesmo, Há duas semanas o traficante e a esposa de Yao Ming foram mortos na cama, no Hotel Lisboa, em Macau, E foi um massacre sangrento. Os corpos ficaram quase irreconhecíveis. A arma do crime foi uma metralhadora Uzi. O incidente foi abafado. As autoridades da polícia e do governo foram subornadas com muito dinheiro... dinheiro de um taipan.

— Deixe-me adivinhar o resto — disse David, numa voz sem qualquer inflexão. — A Uzi. Foi a mesma arma usada num crime anterior atribuído a esse Bourne.

— Uma arma igual foi deixada no lado de fora de uma sala de reuniões num cabaré no Tsim Sha Tsui de Kowloon. Havia cinco cadáveres na sala. Três das vítimas estavam entre os mais ricos homens de negócios da colônia. Os britânicos não quiseram fornecer mais informações, apenas nos mostraram algumas fotografias bem ilustrativas.

— Esse taipan, Yao Ming... — murmurou David. — O marido da atriz. Ele é a ligação que seu pessoal encontrou, não é mesmo?

— Descobriram que ele era uma das fontes do MI-Seis. Suas Ligações em Pequim o transformavam num contribuinte importante para o serviço secreto. Ele era muito valioso.

— E depois sua esposa foi morta, sua amada e jovem esposa...

— Eu diria o seu amado troféu — interveio McAllister. — Tiraram o seu troféu.

— Tem razão. O troféu é muito mais importante do que a esposa.

— Passei muitos anos no Extremo Oriente. Há uma expressão para isso... creio que em mandarim... mas não consigo me lembrar qual é.

— Ren you jiaqian — disse David. — O preço da imagem de um homem.

— Acho que é isso mesmo.

— Só pode ser. O homem do MI-Seis foi procurado por seu contato transtornado, o taipan, recebeu a ordem de obter a ficha de Jason Bourne, o assassino que matou sua esposa... seu troféu... ou, em poucas palavras, o serviço secreto britânico poderia não receber mais informações das fontes em Pequim.

— Foi o que o nosso pessoal concluiu. E o agente do MI-Seis acabou sendo liquidado, porque Yao Ming não podia se permitir a menor associação com Bourne. O taipan tem de permanecer inatingível, intocável. Quer vingança, mas não com qualquer possibilidade de ser descoberto.

— O que dizem os britânicos? — indagou Marie.

— Em termos bem objetivos, disseram que deveríamos permanecer à distância de toda a situação. Londres foi rude. Fizemos a maior confusão com Casa de Pedra e não querem a nossa inépcia em Hong Kong durante estes momentos difíceis.

— Eles já confrontaram Yao Ming? — indagou David, observando atentamente o subsecretário.

— Quando mencionei o nome, disseram que era inadmissível. Para dizer a verdade, ficaram surpresos, mas isso não alterou a posição que assumiram. Se houve alguma diferença, mostraram-se foi ainda mais irritados.

— Um intocável — murmurou David.

— Provavelmente querem continuar a usá-lo.

— Apesar do que ele fez? — interveio Marie. — Apesar do que já pode ter feito e do que ainda pode fazer a meu marido?

— É um mundo diferente — respondeu McAllister, suavemente.

— Cooperaram com eles...

— Não havia alternativa.

— Pois então insistam que cooperem com vocês. Exijam!

— Se isso acontecesse, eles poderiam exigir outras coisas de nós. Não é possível.

— Mentirosos! — exclamou Marie, virando o rosto, repugnada.

— Não contei nenhuma mentira, Sra. Webb.

— Por que será que eu não confio no senhor? — indagou David.

— Provavelmente porque não pode confiar em seu governo, Sr. Webb... e não tem muitos motivos para confiar. Só posso lhe dizer que sou um homem de consciência. Pode ou não aceitar essa declaração... me aceitar ou não... mas enquanto isso providenciarei para que permaneça são e salvo.

— O senhor me olha de uma maneira estranha... por quê?

— Porque nunca estive na situação em que me encontro agora.

A campainha da porta soou. Sacudindo a cabeça ao som, Marie levantou-se e atravessou rapidamente a sala, até o vestíbulo. Abriu a porta. Por um momento, prendeu a respiração, olhando aturdida para os dois homens, parados lado a lado, ambos levantando carteiras de plástico preto, com suas identificações, um emblema prateado no topo, uma águia gravada, refletindo à luz das luzes da varanda. Mais além, encostado no meio-fio, havia um segundo sedã escuro; dentro, podia-se ver as silhuetas de outros homens e o brilho de um cigarro aceso... outros homens, outros guardas. Marie sentiu vontade de gritar, mas não o fez.

Edward McAllister acomodou-se no lugar do passageiro do seu carro do Departamento de Estado e olhou pela janela fechada para o vulto parado na porta. O ex-Jason Bourne estava imóvel, os olhos rigidamente fixos no visitante de partida.

— Vamos sair daqui — disse McAllister ao motorista, um homem mais ou menos de sua idade, calvo, com óculos de aros de tartaruga.

O carro arrancou, o motorista cauteloso, na rua estranha e estreita, arborizada, a um quarteirão da praia rochosa, na pequena cidade do Maine. Nenhum dos dois falou por vários minutos; o silêncio foi finalmente rompido pelo motorista:

— Como correu tudo?

— Como? — repetiu McAllister. — O embaixador poderia dizer: “Todas as peças estão no lugar.” A fundação está lá, a lógica está lá; o trabalho missionário foi concluído.

— Fico contente em saber disso.

— Fica mesmo? Pois então também estou contente. — McAllister levantou a mão direita trêmula, os dedos finos massageando a têmpora. — Não, não estou! Ao contrário, estou me sentindo muito mal!

— Sinto muito...

— E por falar em trabalho missionário, eu sou um cristão. Ou seja, eu creio... nada tão exagerado como ser um crente fervoroso, achar que nasci de novo, ensinar na escola dominical ou me prostrar no templo. Mas eu acredito. Minha esposa e eu vamos à igreja episcopaliana pelo menos duas vezes por mês e meus dois filhos são acólitos. Sou generoso porque quero ser. Pode compreender isso?

— Claro. Não tenho esses sentimentos, mas compreendo.

— Mas acabo de sair da casa daquele homem!

— Ei, fique calmo. Qual é o problema?

McAllister olhava fixamente para a frente, os faróis que corriam em sentido contrário criando sombras que passavam por seu rosto. E murmurou:

— Que Deus tenha misericórdia de minha alma..

 

Gritos preencheram subitamente a escuridão, uma cacofonia de vozes rugindo, cada vez mais próxima e mais intensa. E depois os corpos impetuosos os envolviam, corriam à frente, berrando, os rostos contorcidos em frenesi. Webb caiu de joelhos, cobrindo o rosto e o pescoço com as mãos, da melhor forma que podia, balançando os ombros para a frente e para trás, vigorosamente, criando um alvo em movimento dentro do círculo de ataque. As roupas escuras constituíam um fator positivo nas sombras, mas de nada adiantaria se houvesse uma rajada indiscriminada, liquidando também pelo menos um dos guardas. Só que as balas nem sempre eram a escolha de um assassino. Havia os dardos... mísseis letais com veneno, disparados por armas de ar comprimido, perfurando a carne exposta, provocando a morte em poucos minutos. Ou segundos.

Uma mão apertou seu ombro. Ele virou-se abruptamente, levantando o braço e desalojando a mão, enquanto dava um passo para a esquerda, agachando-se como um animal.

— Está bem, Professor? —indagou o guarda à sua direita, sorrindo ao clarão da lanterna.

— O que aconteceu?

— Não é sensacional? —gritou o guarda da esquerda, aproximando-se, enquanto David levantava.

— O quê?

— Garotos com esse espírito. Deixa a gente feliz só de assistir.

Estava acabado. A área do campus se encontrava outra vez em silêncio; à distância, entre os prédios de pedra junto das quadras de esporte e do estádio, podia-se avistar as chamas de uma fogueira, através das arquibancadas vazias. Uma festa do futebol americano alcançava o seu clímax, e os guardas estavam rindo.

— O que acha, Professor? — acrescentou o homem da esquerda. — Não se sente melhor agora, conosco aqui e todo o resto?

Estava acabado. A loucura auto-infligida terminara. Ou será que não? Por que seu peito latejava tanto? Por que se sentia tão atordoado, tão assustado? Alguma coisa estava errada.

— Por que toda essa parada me perturba? — indagou David, ao café da manhã, na copa da velha casa vitoriana alugada.

— Sente falta de seus passeios pela praia — comentou Marie, ajeitando o único ovo pochê do marido sobre a única fatia de torrada. — Coma isto antes de fumar um cigarro.

— Não é isso. A coisa me perturba. Há uma semana que sou um alvo numa galeria de tiro superficialmente protegida. Ocorreu-se ontem à tarde.

— Como assim? — Marie despejou a água e pôs a panela na pia da cozinha, os olhos fixos em David. — Seis homens estão ao seu redor, quatro nos “flancos” você disse, dois outros espiando tudo à frente e atrás.

— Uma parada.

— Por que chama assim?

— Não sei. Todos estão em seus lugares. marchando ao rufar dos tambores. Não sei.

— Mas sente alguma coisa?

— Acho que sim.

— Pois então me conte. Esses seus sentimentos já me salvaram a vida, no Guisan Quai, em Zurique. Eu gostaria de ouvir... isto é, talvez não goste, mas é melhor.

David rompeu a gema do ovo na torrada.

— Pode imaginar como seria fácil para alguém... alguém que parecesse bastante jovem para se passar por estudante... passar por mim num caminho e disparar um dardo com uma arma de ar comprimido? Poderia encobrir o som com uma tosse ou uma risada e eu ficaria com cem centímetros cúbicos de estricnina na corrente sangüínea.

— Você sabe muito mais sobre essas coisas do que eu.

— Tem toda razão. Porque seria assim que eu faria.

— Nada disso. Seria assim que Jason Bourne faria... não você.

— Muito bem, estou me projetando. O que não invalida o pensamento.

— O que aconteceu ontem à tarde?

David ficou brincando com a torrada e o ovo em seu prato.

— O seminário terminou depois da hora prevista, como sempre. Estava escurecendo, os guardas assumiram suas posições e começamos a atravessar o campus, a caminho do estacionamento. Havia uma festa da torcida... nossa insignificante equipe de futebol americano vai enfrentar outra, também insignificante, mas muito grande para nós. A multidão passou por nós... garotos correndo para uma fogueira por trás das arquibancadas, berrando, entoando canções de luta, numa animação cada vez maior. E pensei: Vai ser agora. Este é o momento em que vai acontecer, se é que alguma coisa vai acontecer. E pode estar certa de que durante aqueles poucos momentos eu fui Bourne. Agachei-me, dei um passo para o lado, observei todos que podia ver... estava à beira do pânico.

— E que mais? —indagou Marie, preocupada com o silêncio repentino do marido.

— Meus supostos guardas estavam olhando ao redor e rindo. Os dois na frente estavam se divertindo com a cena.

— E isso o deixou perturbado?

— Instintivamente. Eu era um alvo vulnerável, no meio de uma multidão excitada. Os nervos diziam isso; a mente não precisava fazê-lo.

— Quem está falando agora?

— Não tenho certeza. Sei apenas que durante aqueles poucos momentos nada fazia sentido para mim. E apenas poucos segundos depois, como a ressaltar os sentimentos que eu não expressara, o homem por trás de mim, à esquerda, aproximou-se e disse mais ou menos o seguinte: “Não é sensacional ver garotos com esse tipo de espírito? Não o faz se sentir bem?” Murmurei alguma coisa insana e ele acrescentou... e repito as suas palavras com exatidão... “O que acha, Professor? Não se sente melhor agora, conosco aqui e todo o resto?” — David fez uma pausa, levantando os olhos para a mulher. — Eu me sentia melhor agora... eu?

— Ele sabia qual era a função deles — protestou Marie. — Proteger você... Tenho certeza de que estava perguntando se você se sentia mais seguro.

— Será mesmo? E o que eles pensavam? Aquela multidão de garotos a berrar, a semi-escuridão, os corpos indefinidos, rostos obscuros... e ele aderindo à confusão, rindo... todos estavam rindo. Estão mesmo aqui para me proteger?

— O que mais poderia ser?

— Não sei. Talvez simplesmente eu tenha passado por onde eles jamais estiveram. Talvez eu esteja apenas pensando demais, pensando em McAllister e seus olhos. Exceto pelas piscadelas, eram olhos de peixe morto. Podia-se ler naqueles olhos qualquer coisa que se quisesse... dependendo da maneira como se sentia.

— O que ele disse a você foi um choque — comentou Marie, encostando-se na pia, os braços cruzados sob os seios, observando o marido atentamente. — Não podia deixar de ter um efeito terrível sobre você. Teve em mim.

— Provavelmente é isso mesmo — concordou David, acenando com a cabeça. — É irônico, mas assim como há muitas coisas que eu gostaria de lembrar, há muitas outras que eu gostaria de esquecer.

— Por que não telefona para McAllister e diz.a ele o que está sentindo, o que pensa? Tem os telefones dele, de casa e do escritório. Mo Panov lhe diria para fazer isso.

— Tem razão, Mo diria isso. — David comeu a torrada com ovo sem muita vontade. — “Se há um meio de se livrar de uma ansiedade específica, então trate de aproveitá-lo o mais depressa possível”... seria isso que ele diria.

— Pois então faça-o.

David sorriu, com o mesmo entusiasmo com que comia a torrada com ovo.

— Talvez eu faça, talvez não. Prefiro não anunciar uma

paranóia latente, passiva, recorrente ou como quer que eles chamem. Mo voaria até aqui e viraria minha cabeça pelo avesso.

— Se ele não vier, eu bem que posso fazer isso.

— Ni shi nühaizi — disse David, usando o guardanapo de papel, enquanto levantava e se aproximava de Marie.

— E o que isso significa, meu inescrutável marido e amante de número 87?

— Deusa cadela. Significa, numa tradução livre, que você é uma garota pequena... e não tão pequena assim... e que ainda posso vencê-la três em cada cinco vezes na cama, onde há coisas melhores para fazer do que lhe dar uma surra.

— Tudo isso numa frase tão curta?

— Não desperdiçamos palavras... pintamos quadros. E agora tenho de partir. A aula esta manhã vai ser sobre Rama II do Sião e suas pretensões aos estados malaios no início do século XIX. É um pé no saco, mas importante. E o pior é que tenho um estudante de intercâmbio de Moulmein, na Birmânia, e acho que ele sabe mais do que eu.

— Sião? — murmurou Marie, segurando-o pelo braço. — É a Tailândia.

— Isso mesmo, é a Tailândia agora.

— Sua esposa, seus filhos... não dói, David?

Ele fitou-a com um amor intenso.

— Não pode doer tanto quando não posso ver muito claramente. E às vezes torço para nunca poder.

— Não penso assim. Quero que você os veja, ouça, sinta. E saiba que eu também os amo.

— Oh, Deus!

Ele abraçou-a, os corpos se unindo num calor e afeição que somente aos dois pertencia.

A linha estava ocupada pela segunda vez e por isso David repôs o fone no gancho e voltou a concentrar sua atenção no Sião sob Rama II de W. F. Vella, a fim de verificar se o estudante birmanês estava certo sobre o conflito de Rama II com o sultão de Kedah, pela disposição da ilha de Penang. Era um momento de confrontação nos rarefeitos bosques acadêmicos; os pagodes de Moulmein da poesia de Kipling haviam sido substituídos por um esperto estudante de pós-graduação que não tinha qualquer respeito por seus superiores... Kipling compreenderia tal situação e trataria de combatê-la.

Houve uma batida na porta que foi aberta antes que David pudesse dizer para a pessoa entrar. Era um dos guardas, o homem que lhe falara ao final da tarde anterior, durante a concentração que antecedia o jogo... no meio da multidão, entre o barulho, intrometendo-se em seus medos.

— Tudo bem, Professor?

— Tudo bem. Seu nome Jim, não é mesmo?

— Não, Johnny. E não tem importância. Não esperamos que grave os nossos nomes direito.

— Algum problema?

— Justamente o oposto, senhor. Vim me despedir... em nome de todos, o contingente inteiro. Está tudo limpo e pode voltar à vida normal. Recebemos ordens para nos apresentarmos a B-Um-L.

— Como?

— Parece meio tolo, não acha? Em vez de dizer “Voltar ao quartel-general”, eles chamam de B-Um-L, como se alguém pudesse não entender.

— Eu não entendo.

— Base-Um-Langley. Somos da CIA, nós seis, mas acho que já sabia disso.

— Estão indo embora? Todos vocês?

— Isso mesmo.

— Mas pensei... pensei que houvesse uma crise aqui.

— Está tudo limpo.

— Não recebi o aviso de ninguém. McAllister não me disse nada.

— Desculpe, mas não o conheço. Acabamos de receber a ordem.

— Não pode simplesmente aparecer e dizer que vão embora sem nenhuma explicação! Fui informado de que eu era um alvo! Que um homem em Hong Kong queria me matar!

— Não sei se recebeu essa informação ou se apenas imaginou, mas sei que temos um legítimo problema A-um em Newport News. Temos de nos apresentar e nos lançar na nova missão.

— Um legítimo A-um...? E como eu fico?

— Descanse bastante, Professor. Disseram-nos que está precisando.

O agente da CIA virou-se abruptamente, passou pela porta e fechou-a.

Não sei se recebeu essa informação ou se apenas imaginou... O que acha, Professor? Não se sente melhor agora, conosco aqui e todo o resto?

Parada...? Charada!

Onde estava o telefone de McAllister? Onde? Guardara duas cópias, uma em casa e outra na gaveta da escrivaninha... não, na carteira! Encontrou a anotação. O corpo todo tremia, de medo e raiva, enquanto discava.

— Gabinete do Sr. McAllister — disse uma voz de mulher.

— Pensei que fosse sua linha particular. Foi o que ele me disse.

— O Sr. McAllister está ausente de Washington, senhor. Quando isso acontece, devemos receber e registrar as ligações.

— Registrar as ligações? Mas onde ele está?

— Não sei, senhor. Sou do serviço de secretaria. Ele telefona para cá de dois em dois dias. Quem devo informar que ligou?

— Isso não é o bastante! Meu nome é Webb... Jason Webb... não, David Webb! Preciso falar com ele agora! Imediatamente!

— Vou transferir a ligação para o departamento que está cuidando dos chamados urgentes...

Webb bateu o telefone. Tinha o número da casa de McAllister; discou-o.

— Alô?

Outra voz de mulher.

— O Sr. McAllister, por favor.

— Ele não está. Se quiser deixar seu nome e telefone, darei o recado.

— Quando?

— Ele deve telefonar amanhã ou depois. É o que sempre faz.

— Precisa me dar o telefone do lugar onde ele se encontra agora, Sra. McAllister... é a Sra. McAllister, não é mesmo?

— Espero que sim, depois de dezoito anos. Quem deseja falar com meu marido?

— Webb... David Webb.

— Mas é claro! Edward raramente fala do trabalho... e é claro que não o fez no seu caso... mas comentou que você e sua linda esposa são extremamente simpáticos. Nosso filho mais velho, que está na escola preparatória, parece muito interessado pela sua universidade. No último ano as suas notas caíram um pouco e as médias não foram muito altas, mas ele tem uma perspectiva da vida maravilhosa e entusiasmada, tenho certeza de que seria...

— Sra. McAllister — interrompeu-a David, bruscamente — preciso falar com seu marido o mais depressa possível!

— Lamento muito, mas acho que não será possível. Ele está no Extremo Oriente e é claro que não tenho um telefone em que posso encontrá-lo lá. Em emergências, sempre ligamos para o Departamento de Estado.

David desligou. Tinha de alertar — telefonar — Marie. A linha deveria estar desocupada agora; estava ocupada há quase uma hora e não havia ninguém com quem sua esposa pudesse falar por tanto tempo, nem mesmo o pai, a mãe ou os dois irmãos no Canadá. Havia a mais profunda afeição entre todos, mas ela era uma independente do Ontário. Não era francófila como o pai nem doméstica como a mãe; embora adorasse os irmãos, também não se incluía entre os lassos rústicos e francos, como eles. Descobrira outra vida nas camadas estratificadas da economia superior, com um doutorado e um ótimo emprego no governo canadense. E, finalmente, casara com um americano.

Quel dommage!

A linha ainda estava ocupada! Mas que droga, Marie!

E de repente David ficou imóvel, o corpo inteiro se transformando por um instante num bloco de gelo. Mal podia se mexer, mas mesmo assim se esforçou e saiu correndo da pequena sala, atravessando o corredor com tanta velocidade que esbarrou em três estudantes e outro professor, jogando dois contra as paredes e os outros no chão; era um homem subitamente possuído.

Chegando na frente da casa, ele pisou no freio, o carro parando com um ranger. David saltou e subiu correndo o caminho até a porta. Estacou abruptamente. os olhos arregalados, prendendo a respiração. A porta estava aberta e no painel afun-

dado estava impressa a marca de uma mão em vermelho... sangue.

David entrou correndo, derrubando tudo em seu caminho. Móveis viraram e abajures se espatifaram, enquanto ele revistava o andar térreo. E depois subiu, as mãos rígidas como se fossem blocos de granito, todos os nervos alertas a qualquer som, o instinto de matador tão aguçado e nítido quanto a mancha vermelha que vira na porta. Por um momento, compreendia e aceitava o fato de que era o assassino — animal letal — que Jason Bourne fora. Se a esposa estivesse lá em cima, mataria quem quer que tentasse fazer mal a ela... ou que já tivesse feito.

Deitado de bruços no chão, David empurrou a porta do quarto.

A explosão destruiu a parede do corredor. Ele rolou sob o impacto para o outro lado; não tinha arma, mas dispunha de um isqueiro. Revistou os bolsos da calça, retirando todas as anotações rabiscadas que os professores sempre guardam. Reuniu-as, virou-se para a esquerda e acendeu o isqueiro; a chama foi imediata. Jogou a tocha em fogo no interior do quarto, enquanto comprimia as costas contra a parede e se levantava, virando a cabeça para as outras duas portas do segundo andar, fechadas. Golpeou com os pés, um estrondo depois de outro, enquanto se jogava pelo assoalho e rolava para as sombras.

Nada. Os dois cômodos estavam vazios. Se houvesse um inimigo ali, então estava no quarto. Mas, a esta altura, a colcha pegara fogo. As chamas se elevavam gradativamente para o teto. Só restavam poucos segundos.

Agora!

Mergulhou para o interior do quarto, pegando a colcha em chamas e girando-a num círculo, enquanto se agachava e rolava pelo chão, espalhando cinzas por toda parte. Durante todo o tempo, esperava um impacto frio que nem gelo no ombro ou braço, mas sabendo que poderia superar e dominar o inimigo. Oh, Deus! Era outra vez Jason Bourne!

Não havia nada. Sua Marie não estava ali; nada havia além de um artefato primitivo, feito com barbante, que disparara uma espingarda, apontada para matar, quando abrisse a porta do quarto. David apagou as chamas com os correu para o abajur na mesinha-de-cabeceira e acendeu-o.

Marie! Marie!

E foi então que ele viu. Um bilhete no travesseiro de Marie: “Uma esposa por uma esposa, Jason Bourne. Ela está ferida, mas não morta, enquanto a minha está morta. Sabe onde me encontrar e a ela, se for discreto e afortunado. Talvez possamos chegar a um acordo, pois também tenho inimigos. Se não for possível, o que é a morte de mais uma filha?”

David gritou, caindo sobre os travesseiros, tentando abafar a indignação e o horror que subiam por sua garganta, procurando reprimir a dor que lhe lateja nas têmporas. Depois virou-se e olhou para o teto, dominado por uma passividade terrível e brutal. Coisas esquecidas afloraram subitamente... coisas que jamais revelara, nem mesmo para Morris Panov. De corpos arriando sob a sua faca, tombando sob a sua arma de fogo... não eram mortes imaginárias, mas reais. Haviam-no transformado no que não era, mas fizeram um bom trabalho. Ele se tornara a imagem do homem que não deveria ser. Tornara-se esse homem. Sobrevivera... sem saber quem era.

E agora conhecia os dois homens em seu íntimo que constituíam seu ser completo. Sempre se lembraria de um porque era o homem que queria ser, mas no momento tinha de ser o outro... o homem que desprezava.

Jason Bourne levantou-se e foi ao armário embutido, onde havia uma gaveta trancada, a terceira na escrivaninha do móvel. Levantou a mão e pegou uma chave presa com uma fita adesiva no teto do armário. Inseriu-a na fechadura e abriu a gaveta. Lá dentro, havia duas automáticas desmontadas, quatro rolos de arame fino que podia esconder nas palmas das mãos, três passaportes legais em três nomes diferentes e seis cargas de explosivo plastique, que poderiam destruir cômodos inteiros. Usaria uma ou todas. David Webb encontraria a esposa. Ou Jason Bourne se tomaria o terrorista com quem ninguém jamais sonhara, nem mesmo nos sonhos mais delirantes. Não se importava... coisas demais lhe haviam sido arrebatadas. Não suportaria mais.

Bourne ajustou as diversas peças e pôs um pente de balas na segunda automática. Estava pronto. Voltou à cama e deitou, olhando para o teto. Sabia que a logística acabaria se definindo.

 

E a caçada começaria. Encontraria Marie... viva ou morta... e se ela estivesse morta, ele mataria, mataria e continuaria a matar!

Quem quer que fosse o culpado, não escaparia dele. Nem de Jason Bourne.

 

Mal conseguindo se controlar, ele compreendeu que a calma era impossível. A mão apertou a automática, enquanto a mente turbilhonava em rajadas surrealistas e rápidas, à medida que uma opção após outra afloravam em sua cabeça. Acima de tudo, não podia ficar parado; tinha de se manter em movimento. Tinha de se levantar e entrar em ação!

O Departamento de Estado. Os homens que conhecera durante os últimos meses no remoto e secreto complexo médico da Virginia... aqueles homens insistentes e obcecados que o interrogaram implacavelmente, mostrando dezenas de fotografias, até que Mo Panov lhes ordenara que parassem. Descobrira seus nomes e os anotara, pensando que um dia poderia querer saber quem eram... sem qualquer outro motivo que não a desconfiança instintiva; eram os homens que haviam tentado matá-lo apenas poucos meses antes. Contudo, nunca lhes perguntara seus nomes e eles também não os revelaram, exceto como Harry, BilI ou Sam, presumivelmente na teoria de que as identidades concretas só serviriam para aumentar sua confusão. Mas, discretamente, ele lera os crachás de identificação, anotando os nomes, depois que se retiravam, em pedaços de papel, que guardara com seus pertences pessoais na gaveta da cômoda. Quando Marie o visitava, o que acontecia todos os dias, ele lhe entregava os nomes e recomendava que os escondesse na casa... e escondesse bem.

Posteriormente, Marie admitira que obedecera às suas instruções, embora achasse que suas suspeitas eram exageradas, um caso de destruição além do necessário. Até a manhã em que, poucos minutos depois de uma sessão acalorada com os homens de Washington, David lhe pedira que deixasse imediatamente o complexo médico, seguindo de carro para o banco em que tinha um cofre e fazendo o seguinte: pôr uma pequena mecha de seus cabelos no fundo inferior esquerdo do cofre, trancá-lo, sair do banco e voltar duas horas depois, a fim de verificar se os cabelos ainda estavam ali.

Não estavam. Marie prendera bem a mecha; não poderia cair se o cofre não fosse aberto. Ela a encontrara no chão de ladrilhos da caixa-forte do banco.

— Como soube? — indagara Marie.

— Um dos meus amigáveis interrogadores ficou irritado e tentou me provocar. Mo saíra da sala por alguns minutos e ele quase me acusou de fingir, de esconder as coisas. Eu sabia que você viria me visitar e resolvi fazer uma experiência. Queria conferir pessoalmente até que ponto eles iriam... até que ponto poderiam ir.

Nada fora sagrado então e nada era sagrado agora. Tudo era simétrico demais. Os guardas haviam sido retirados, suas próprias reações condescendentemente questionadas, como se fosse ele quem pedira a proteção adicional e nunca tivesse existido a insistência de um certo Edward McAllister. Horas depois, Marie fora seqüestrada, de acordo com um roteiro detalhado com muita precisão por um homem nervoso de olhos de peixe morto. E agora esse mesmo McAllister se encontrava subitamente a vinte e cinco mil quilômetros de distância do seu autodeterminado ponto zero. O subsecretário teria mudado de lado? Fora comprado em Hong Kong? Traíra Washington, assim como o homem a quem jurara proteger? Afinal, o que estava acontecendo? O que quer que fosse, entre os segredos profanos estava o codinome Medusa. Nunca fora mencionado durante os interrogatórios, não houvera qualquer alusão a respeito. Era como se o batalhão ignorado de psicóticos e assassinos nunca houvesse existido; sua história fora eliminada dos registros. Mas essa história podia ser reconstituída.... e seria por aí que ele começaria.

David deixou o quarto e desceu para o seu estúdio, outrora

uma pequena biblioteca ao lado do vestíbulo, na velha casa vitoriana. Sentou à escrivaninha, abriu a última gaveta e retirou diversos cadernos de anotações e outros papéis. Pegou uma espátula de latão e levantou o fundo falso; havia ali outros papéis. Era um sortimento vago e confuso de recordações fragmentadas, imagens que lhe haviam surgido nas horas mais inesperadas, de dia e de noite. Havia pedaços de papel e páginas arrancadas de pequenos blocos de anotações, papéis timbrados diversos, em que ele anotara as cenas e palavras que explodiam em sua cabeça. Era uma massa de evocações dolorosas, muitas tão torturadas que não podia partilhá-las com Marie, temendo que a dor fosse grande demais, as revelações de Jason Bourne excessivamente brutais, que a esposa não seria capaz de confrontar. Entre os segredos ali registrados estavam os nomes dos peritos em operações clandestinas que o haviam interrogado tão intensamente na Virginia.

Os olhos de David se focalizaram de repente na arma terrível, de grosso calibre, na beira da mesa. Sem percebê-lo, trouxera a arma do quarto; contemplou-a fixamente por um momento, depois pegou o telefone. Era o começo da hora mais angustiante e irritante de sua vida, pois a cada momento Marie ficava mais longe.

As duas primeiras ligações foram atendidas por esposas ou amantes; os homens que tentava encontrar subitamente não estavam, quando ele se identificava. Ainda estavam à margem! Os homens não fariam contato sem ele e essa autorização estava sendo negada. Oh, Deus, ele deveria ter imaginado!

— Alô?

— É a residência de Lanier?

— É, sim.

— Quero falar com William Lanier, por favor. Diga a ele que é urgente, um alerta Cento e Dezesseis. Meu nome é Thompson. Departamento de Estado.

— Um momento, por favor — respondeu a mulher, obviamente preocupada.

Alguns segundos depois uma voz de homem perguntou:

— Quem está falando?

— Aqui é David Webb. Lembra-se de Jason Bourne, não é mesmo?

— Webb? — Houve uma pausa, povoada pela respiração de Lanier. — Por que disse que seu nome era Thompson? Foi um alerta da Casa Branca?

— Tive a impressão de que você poderia não querer falar comigo. Entre as coisas de que me lembro, está a de que vocês não fazem contato com determinadas pessoas sem autorização. Estão fora dos limites. Simplesmente comunicam a tentativa de contato.

— Então presumo que também se lembra que é altamente irregular ligar para alguém como eu por um telefone domiciliar.

— Telefone domiciliar? Isso inclui agora a proibição de falar com as pessoas no lugar em que moram?

— Você sabe muito bem do que estou falando.

— Expliquei que era uma emergência.

— Não pode ter nada a ver comigo — protestou Lanier. — Você é um arquivo morto em minha seção...

— Completamente morto?

— Não foi isso o que falei. Só quis dizer que você não está mais entre as minhas atribuições, e a política é não interferir com o trabalho dos outros.

— Que outros? — indagou David, bruscamente

— Como vou saber?

— Está insinuando que não tem o menor interesse pelo que posso lhe dizer?

— Não tem a menor importância se estou interessado ou não. Você não consta de qualquer das minhas listas e isso é tudo o que preciso saber. Se tem alguma coisa a dizer, ligue para o seu contato autorizado.

— Já tentei. A esposa disse que ele estava no Extremo Oriente.

— Experimente o escritório. Certamente alguém por lá vai processá-lo

— Sei disso e não me agrada ser processado. Quero falar com alguém que eu conheça... e conheço você, Bill. Está lembra do? Era “BilI” na Virginia... foi assim que você me disse para chamá-lo. Estava interessado demais no que eu tinha a dizer naquela ocasião.

— Era outro tempo, agora é diferente. Não posso ajudá-lo, Webb, porque não posso aconselhá-lo. Não importa o que você me diga, não posso responder. Não estou atualizado sobre a sua situação... há quase um ano que não tenho qualquer informação. Seu contato é que está a par de tudo... E tenho certeza de que poderá encontrá-lo. Torne a ligar para o Departamento de Estado. E, agora, vou desligar.

— Medusa — sussurrou David. —. Está me entendendo, Lanier? Medusa.

— Medusa o quê? Está tentando me dizer alguma coisa?

— Vou revelar tudo, está me ouvindo? Vou denunciar toda aquela sujeira, a menos que me dêem as respostas que estou querendo!

— Por que em vez disso não se deixa processar? — disse friamente o homem das operações secretas. — Ou então se interne num hospital.

Houve um estalido abrupto e David, suando, também desligou. Lanier não tinha conhecimento de Medusa. Se soubesse alguma coisa, teria permanecido ao telefone, descobrindo tudo o que pudesse, pois Medusa cruzava as linhas de “política” e de estar “atualizado”. Mas Lanier também era um dos interrogadores mais jovens, não devia ter mais do que trinta e três ou trinta e quatro anos; era muito inteligente, mas não um veterano do serviço. Alguém uns poucos anos mais velho provavelmente teria recebido autorização para saber de tudo, seria informado sobre o batalhão renegado que ainda era mantido sob sigilo absoluto. David estudou os nomes na lista e os telefones correspondentes. Tornou a tirar o fone do gancho.

— Alô?

Uma voz de homem.

— É Samuel Teasdale?

— Isso mesmo. Quem está falando?

— Fico contente por ter sido você a ter atendido e não sua esposa.

— O padrão da esposa, sempre que possível — comentou Teasdale, subitamente cauteloso, — Só que a minha não está mais disponível. Neste momento viaja por algum lugar do Caribe, em companhia de alguém que nunca conheci. Agora que já conhece a história da minha vida, pode me dizer quem é você?

— Jason Bourne... está lembrado?

— Webb?

— Eu me lembro vagamente desse nome.

— Por que está me telefonando?

— Você se mostrou cordial. Lá na Virginia, disse-me para tratá-lo por Sam.

— Está bem, Davey, está bem. Tem toda razão. Eu lhe disse que me chamasse de 5am... é assim que os amigos me tratam, Sam... — Teasdale estava surpreso, transtornado, procurando por palavras. — Mas isso aconteceu há quase um ano, Davey. Você conhece as regras. Uma pessoa é designada para lhe falar, no local ou no Departamento de Estado. É essa a pessoa com quem deve manter contato... a pessoa que está a par de tudo.

— E você não está, Sam?

— Não em relação a você. Lembro a diretiva que chegou a nossas mesas duas semanas depois que você deixou a Virginia. Todos os pedidos de informações relativos ao “referido indivíduo” devem ser encaminhados à Seção tal e tal, tendo o “referido indivíduo” acesso total e contato direto com agentes no local e no Departamento.

— Os agentes... se é isso que eles eram... foram removidos, e meu contato de acesso total e direto desapareceu.

— Ora, não venha com essa — protestou Teasdale, suavemente, desconfiado. — Isso é absurdo. Não pode ter acontecido.

— Mas aconteceu! — berrou David. — E minha esposa também aconteceu!

— O que houve com sua esposa? Do que está falando?

— Ela desapareceu, seu filho da puta... todos vocês não passam de filhos da puta! Deixaram que acontecesse! — David segurou o pulso da mão que empunhava o telefone, apertando com toda força para impedir que tremesse. — Quero respostas, Sam. Quero saber quem deu a ordem, quem virou. Tenho uma idéia do responsável, mas preciso de respostas para agarrá-lo... agarrar a todos vocês, se for necessário.

— Pare por aí! — interrompeu Teasdale, furioso. — Se está tentando me comprometer, quero que saiba que está fazendo um péssimo trabalho! Ninguém vai me neutralizar! Se quer berrar, então procure os seus psiquiatras, não a mim! Não sou obrigado a falar com você. Tudo o que tenho de fazer é informar que você me telefonou, providência que tomarei assim que desligar. E quero acrescentar que não vou permitir que ninguém jogue um balde de merda na minha cabeça. Trate de cuidar bem dessa sua cabeça!

— Medusa! — berrou David. — Ninguém quer falar sobre o codinome Medusa, não é mesmo? Até hoje a história continua muito bem escondida, não é mesmo?

Não houve um estalido desta vez. Teasdale não desligou. Em vez disso, falou incisivamente, a voz não deixando transparecer qualquer comentário:

— Rumores... Como os arquivos de Hoover... dão para algumas histórias enquanto se toma uns tragos, mas não valem coisa alguma.

— Não sou um rumor, Sam. Eu vivo, respiro, vou ao banheiro e suo... como estou suando neste momento. Isso não é um rumor.

— Teve seus problemas, Davey.

— Eu estava lá! Lutei com Medusa! Algumas pessoas diziam que eu era o melhor... ou o pior. Por isso é que fui escolhido, por isso me tornei Jason Bourne.

— Não sei de nada a respeito. Nunca discutimos o problema, e portanto não posso saber. Alguma vez falamos a respeito, Davey?

— Pare de usar essa porta desse nome! Eu não sou Davey!

— Éramos “5am” e “Davey” na Virginia... não se lembra?

— Isso não importa! Todos estávamos empenhados em jogos. Morris Panov era o nosso árbitro, até o dia em que você resolveu endurecer.

— Pedi desculpas — disse Teasdale, gentilmente. —Todos temos maus dias. Já lhe falei sobre minha esposa.

— Não estou interessado em sua esposa, mas na minha! E vou desmascarar Medusa, a menos que obtenha algumas respostas, alguma ajuda!

— Tenho certeza de que poderá obter qualquer ajuda que julgar necessária se falar com seu contato no Departamento de Estado.

— Ele não está lá! Sumiu por completo!

— Então peça para falar com o substituto imediato. E vai ser processado.

— Processado? Oh, Deus, o que você é afinal? Um robô?

— Apenas um homem tentando realizar seu trabalho, Sr. Webb... e temo não poder fazer mais nada para ajudá-lo. Boa noite.

Houve um estalido e Teasdale não estava mais na linha.

Havia outro homem, pensou David, numa intensidade febril, olhando para a lista, estreitando os olhos invadidos pelo suor. Um homem tranqüilo, menos áspero que os outros, um sulista, cuja fala lenta e arrastada era uma cobertura para uma mente ágil ou a resistência a um trabalho em que se sentia contrafeito. Não havia tempo para invenção.

— E da residência de Babcock?

— Claro — respondeu uma voz de mulher, suave e musical. —Não o nosso lar, é claro, como sempre faço questão de ressaltar, mas residimos aqui.

— Posso falar com Harry Babcock, por favor?

— E posso saber quem deseja falar, por favor? Ele pode estar lá fora no jardim com as crianças, mas também pode ter ido ao parque. É muito bem iluminado hoje em dia... não como antes... e não se precisa temer por sua segurança, desde que se permaneça...

Uma cobertura para mentes ágeis, tanto o Sr. como a Sra. Harry Babcock.

— Meu nome é Reardon e sou do Departamento de Estado. Há uma mensagem urgente para o Sr. Babcock. Minhas instruções são para encontrá-lo o mais depressa possível. Trata-se de uma emergência.

Houve o eco de um fone sendo coberto, com sons abafados mais além, Harry Babcock entrou na linha, a fala lenta e incisiva.

— Não conheço nenhum Sr. Reardon. Todas as minhas mensagens são transmitidas por um controle que se identifica. É um controle, senhor?

— Nunca soube de ninguém que viesse do jardim ou do parque no outro lado da rua tão depressa, Sr. Babcock.

— Não é extraordinário? Talvez eu devesse estar correndo nos Jogos Olímpicos. Mas conheço sua voz, só não consigo identificar o nome.

— Que tal Jason Bourne?

A pausa foi breve... uma mente muito ágil.

— Esse nome já ficou no passado distante, não é mesmo? Eu diria que há cerca de um ano. É você, não é, David?

Não era uma pergunta.

— Sou eu mesmo, Harry. Preciso conversar com você.

— Nada disso, David. Deve falar com outros, não comigo.

— Está me dizendo que fui cortado?

— Eu não seria tão brusco e descortês, David. Teria o maior prazer em ouvir como você e a simpática Sra. Webb estão indo em sua nova vida. Massachusetts, não é mesmo?

— Maine.

— Isso mesmo. Desculpe. Está tudo bem? Como tenho certeza que compreende, meus colegas e eu estamos envolvidos com tantos problemas que não pudemos nos manter em contato com o seu caso.

— Alguém disse que vocês estavam proibidos de se envolverem.

— Acho que ninguém tentou.

— Quero conversar, Babcock — disse David, bruscamente.

— Mas eu não quero —respondeu Harry Babcock, incisivo, a voz quase glacial. — Sigo os regulamentos e, para ser franco, você está cortado para homens como eu. Não questiono os motivos... as coisas mudam, sempre mudam.

— Medusa! — exclamou David. — Não vamos falar a meu respeito, mas sim sobre Medusa!

A pausa foi mais prolongada do que antes. Quando Babcock falou, as palavras eram mais frias do que nunca:

— Este telefone é seguro, Webb, por isso vou dizer tudo o que quero. Você quase.foi liquidado há um ano e teria sido um erro. Nós o lamentaríamos sinceramente. Mas se romper os fios, não haverá qualquer lamentação amanhã. Exceto, é claro, de parte de sua esposa.

— Seu filho da puta! Ela desapareceu! Alguém a levou! E vocês canalhas deixaram que acontecesse!

— Não tenho a menor idéia do que está falando.

— Meus guardas foram retirados, todos eles, até o último, e minha mulher foi seqüestrada. Quero respostas, Babcock, ou vou revelar tudo o que sei. E agora faça exatamente o que eu mandar ou haverá lamentações como nunca sonhou... para todos vocês, suas mulheres, seus filhos órfãos... pode pensar em todo mundo que vai caber. Ou já esqueceu que sou Jason Bourne?

— O que não esqueci é que você é um maníaco. Com ameaças assim, só vai conseguir que enviemos uma equipe à sua procura. Ao melhor estilo Medusa. Gosta da idéia?

Subitamente, um zumbido intenso entrou na linha; era ensurdecedor, estridente, levando David a afastar o fone do ouvido. E, depois, a voz calma de uma telefonista comunicou:

— Estamos interrompendo a ligação para uma emergência. Pode falar, Cobrado.

— É Jason Bourne quem está na linha? — indagou uma voz de homem com sotaque da Costa Atlântica dos Estados Unidos, uma voz refinada, aristocrática.

— Sou David Webb.

— Claro que sim... mas também é Jason Bourne.

— Era — murmurou David, hipnotizado por algo que não podia definir.

— As linhas conflitantes de identidade se misturam, Sr. Webb. Especialmente para alguém que passou por tanta coisa.

— Mas quem é você?

— Um amigo, pode estar certo. E um amigo adverte alguém a quem chama de amigo. Fez algumas acusações afrontosas a alguns dos mais dedicados servidores de nosso país, homens que nunca permitirão o desaparecimento de cinco milhões de dólares... um dinheiro que continua inexplicado até hoje.

— Quer me revistar?

— Não, assim como também não estou interessado em investigar os caminhos tortuosos pelos quais sua eficiente esposa escondeu o dinheiro em uma dúzia de bancos europeus...

— Ela sumiu! Foram seus homens dedicados os responsáveis?

— Descreveram você como alguém com esgotamento nervoso... “frenético”, para ser mais preciso... a fazer acusações espantosas, relacionadas com sua esposa.

— Relativas a... Essa não! Ela foi seqüestrada de nossa casa! E alguém a está mantendo cativa porque me quer!

— Tem certeza?

— Pergunte ao peixe morto do McAllister. A história é

dele, inclusive o bilhete. E de repente ele está no outro lado do mundo!

— Um bilhete?   

— Muito claro. Muito específico. É história de McAllister e ele deixou que acontecesse! Vocês deixaram que acontecesse!

— Talvez você devesse examinar o bilhete mais atentamente.

— Por quê?

— Não importa. Pode se tomar tudo mais claro para você com alguma ajuda... ajuda psiquiátrica.

— Como assim?

— Pode estar certo de que queremos fazer tudo o que for possível por você. Passou por muita coisa... mais do que qualquer homem deveria passar... e sua extraordinária contribuição não pode ser ignorada, mesmo que o caso seja levado a um tribunal. Pusemos você na situação e ficaremos do seu lado... mesmo que isso implique violar leis, coagir tribunais.

— Mas do que está falando? — berrou David.

— Um respeitável médico militar matou a esposa, tragicamente, há alguns anos. A história saiu nos jornais. A tensão tornou-se demais. E as pressões sobre você foram dez vezes maiores.

— Não acredito nisso!

— Vamos pôr as coisas de outra maneira, Sr. Bourne.

— Eu não sou Bourne!

— Está certo, Sr. Webb. Vou ser franco.

— Já é um passo à frente!

— O senhor não está bem. Passou por oito meses de tratamento psiquiátrico... e ainda há uma boa parte de sua vida de que não consegue se lembrar. Nem mesmo sabia o seu nome. Está tudo nos registros médicos, registros meticulosos que deixam bem claro o estado avançado de sua doença mental, sua compulsão para a violência e rejeição obsessiva da própria identidade. E, em seu tormento, o senhor fantasia, finge ser pessoas que não é. Parece ter a compulsão de ser alguém que não o senhor mesmo.

— isso é loucura e sabe muito bem! Tudo mentira!

— “Loucura” é uma palavra dura, Sr. Webb, e as mentiras não são minhas. Contudo, é meu dever proteger nosso governo da calúnia, das acusações infundadas que podem prejudicar seriamente o país.

— Por exemplo?

— Sua fantasia secundária sobre uma organização desconhecida que chama de Medusa. Tenho certeza de que sua esposa vai voltar... se ela puder, Sr. Webb. Mas se persistir nessa fantasia, nessa invenção de sua mente torturada que o senhor chama Medusa, vamos considerá-lo um esquizofrênico paranóico, um mentiroso patológico propenso à violência incontrolável e à auto-ilusão, Se um homem assim alega que a esposa está desaparecida, quem sabe para onde a viagem patológica pode levá-lo? Estou sendo claro?

David fechou os olhos, o suor escorrendo pelo rosto.

— Muito claro — murmurou ele, desligando.

Paranóico... patológico. Miseráveis! Tornou a abrir os olhos, querendo descarregar a raiva arremetendo contra alguma coisa... qualquer coisa! Mas de repente ficou imóvel, enquanto outro pensamento lhe ocorria, o pensamento óbvio. Morris Panov! Mo classificaria os três monstros pelo que ele sabia que eram. Incompetentes e mentirosos, manipuladores e protetores egoístas de burocracias corruptas... e possivelmente ainda pior, muito pior. David estendeu a mão para o telefone e, tremendo, discou o número que tantas vezes no passado lhe trouxera uma voz tranqüilizante e racional, proporcionando um senso de valor, quando sentia que muito pouco de valor restava em sua pessoa.

— David, que prazer ouvi-lo! — exclamou Panov, com uma afeição genuína.  

— O prazer não será tão grande, Mo. É o pior telefonema que já lhe dei.

— Ora, David, está sendo dramático demais. Passamos por muita coisa...

— Escute!— berrou David. Ela desapareceu! Eles a seqüestraram!

As palavras saíram num jorro, as seqüências carecendo de ordem, os tempos confusos.

— Pare, David! — ordenou Panov, — Volte atrás. Quero ouvir tudo desde o começo. Quando esse homem foi procurá-lo... depois que... depois das lembranças de seu irmão.

— Que homem?

— O homem do Departamento de Estado.

— Está bem, está bem! McAllister era o seu nome.

— Comece daí. Nomes, títulos, posições. E soletre o nome daquele banqueiro em Hong Kong. E, pelo amor de Deus, fale devagar!               

David tornou a apertar o pulso que empunhava o fone. Começou de novo, impondo um falso controle à voz; tornou-se estridente, tensa, adquirindo velocidade involuntariamente. Acabou conseguindo relatar tudo que podia lembrar, sabendo horrorizado que não se lembrara de tudo. Espaços em branco desconhecidos acarretavam-lhe uma profunda angústia. Estavam voltando... os terríveis espaços em branco. Dissera tudo o que podia dizer no momento; não restava mais nada.

— David — começou Mo Panov, firmemente —, quero que faça uma coisa por mim. Agora.

— O quê?

— Pode lhe parecer uma tolice, até mesmo um tanto absurdo, mas sugiro que desça a rua até a praia e faça uma caminhada pela beira d’água. Meia hora, quarenta e cinco minutos, só isso. Escute a arrebentação, as ondas quebrando nos rochedos.

— Não pode estar falando sério!

— Claro que estou, David. Lembra que concordamos um dia que havia ocasiões em que as pessoas deveriam pôr a cabeça na geladeira... e Deus sabe que faço isso com mais freqüência do que um psiquiatra relativamente respeitado deveria fazer. As coisas podem nos sufocar, e antes de fazermos qualquer coisa, precisamos nos livrar de um pouco da confusão. Faça o que estou pedindo, David. Voltarei a lhe telefonar assim que puder, não devo demorar mais que uma hora. E quero você mais calmo do que está agora.

Era uma loucura, mas como acontecia com tanta coisa que Panov sugeria, suavemente, às vezes casualmente, havia verdade em suas palavras. David caminhou pela praia fria e rochosa, jamais esquecendo por um instante sequer o que acontecera; se foi pela mudança de cenário, o vento ou o barulho incessante e repetitivo do mar, o fato é que se descobriu a respirar mais firmemente... ainda profundamente, tão trêmulo quanto antes, mas sem os registros mais altos da histeria. Olhou para o relógio, o mostrador luminoso ressaltado pelo luar. Caminhara de um lado para outro por trinta e dois minutos; era toda a indulgência que podia suportar. Subiu pelo caminho através das dunas cobertas por uma vegetação rasteira e alcançou a rua, encaminhando-se para sua casa, acelerando a cada passo.

Sentou na cadeira atrás da escrivaninha, os olhos fixados no telefone, que começou a tocar. Atendeu antes que a campainha parasse.

— Mo?

— Sim.

— Estava muito frio na praia. Obrigado.

— Eu é que devo agradecer.

— O que descobriu?

E foi então que a extensão do pesadelo começou.

— Há quanto tempo Marie desapareceu, David?

— Não sei com certeza. Uma hora, duas, talvez mais. Mas o que isso tem a ver com qualquer coisa?

— Ela não poderia ter saído para fazer compras? Ou vocês dois tiveram uma briga e ela resolveu passar algum tempo sozinha? Ambos sabemos que as coisas se tornam às vezes muito difíceis para ela... você mesmo faz questão de ressaltar isso.

— Mas do que está falando? Há um bilhete explicando tudo! E sangue... a impressão de uma mão em sangue!

— Já mencionou isso antes, mas são pistas incriminadoras. Por que alguém faria isso?

— Como eu vou saber? Foi feito... eles fizeram! Está tudo aqui!

— Chamou a polícia?       

— Claro que não! Não é um caso para a polícia! E para nós... para mim! Será que não pode compreender isso? O que descobriu? Por que está falando assim?

— Porque tenho. Em todas as sessões, em todos os meses em que conversamos, nunca dissemos qualquer coisa que não a verdade um para o outro, porque a verdade é o que você precisa saber.

— Pelo amor de Deus, Mo, é Marie!

— Deixe-me acabar, por favor, David. Se eles estão mentindo... e já mentiram antes... vou descobrir e denunciá-los. Não poderia fazer outra coisa. Mas vou relatar exatamente o que eles me disseram, qual a história que o segundo homem da Seção do Extremo Oriente me contou e o que falou o chefe de segurança do Departamento de Estado, de acordo com o registro oficial dos acontecimentos.

— Registro oficial?

— Isso mesmo. Ele disse que você procurou o controle de segurança há pouco mais de uma semana. Segundo o registro, estava bastante agitado...

— Eu os procurei?

— Foi o que ele disse.. Segundo o registro, você alegou que recebera ameaças. Sua fala estava “incoerente”.., foi a palavra que eles usaram... e exigiu uma segurança adicional imediatamente. Por causa da indicação de confidencial em sua ficha, o pedido foi encaminhado aos escalões superiores, que decidiram: “Vamos dar o que ele quer. É melhor esfriá-lo.”

— Não posso acreditar!

— Isso não é tudo, David. E quero que me escute, porque escutei o que você disse.

— Está bem. Continue.

— Assim é melhor. Calma. Fique frio... não, risque a palavra “frio”.

— Por favor, continue.

— Depois que as patrulhas estavam postadas... novamente segundo os registros... você entrou em contato mais duas vezes, queixando-se de que os guardas não estavam cumprindo o seu dever. Disse que bebiam em seus carros na frente de sua casa, que riam de você quando o acompanhavam pelo campus, que eles... e aqui vou reproduzir literalmente... “escarneciam do que deveriam estar fazendo”. Gravei essa frase.

— Escarneciam?               

— Calma, David. Estou chegando ao fim dos registros. Você fez um último contato, declarando enfaticamente que queria que todos fossem removidos... que os guardas eram seus inimigos, os homens que queriam matá-lo. Em suma, você convertera os homens que tentavam protegê-lo em inimigos que iriam atacá-lo.

— E tenho certeza que isso se ajusta perfeitamente a uma dessas conclusões psiquiátricas idiotas de que estou convertendo... ou pervertendo.., minhas ansiedades em paranóia.

— Tem razão, ajusta-se perfeitamente — murmurou Panov. — Até demais.

— O que disse o segundo homem do Extremo Oriente?

Panov permaneceu em silêncio por um momento.

— Não é o que você quer ouvir, David, mas ele foi inflexível. Nunca ouviram falar de um banqueiro ou de qualquer taipan influente chamado Yao Ming. Disse que, pela situação atual de Hong Kong, teria memorizado o dossiê se tal pessoa existisse.

— Ele acha que inventei tudo? O nome, a esposa, a ligação com os tóxicos, os lugares, as circunstâncias... a reação britânica! Pelo amor de Deus, eu não poderia inventar essas coisas, mesmo que quisesse!

— Seria mesmo demais para você — concordou o psiquiatra, suavemente. — E também está ouvindo pela primeira vez tudo o que acabei de lhe contar e nada faz sentido. Não é assim que costuma recordar as coisas.

— Mo, é tudo mentira! Nunca entrei em contato com o Departamento de Estado. McAllister esteve aqui e contou a nós dois tudo o que lhe relatei, inclusive a história de Yao Ming E agora ela desapareceu e me deixaram uma pista para seguir. Por quê? Pelo amor de Deus, o que estão querendo fazer conosco?

— Perguntei por McAllister —informou Panov, o tom subitamente furioso. — O segundo homem do Extremo Oriente verificou com o setor de trânsito do Departamento de Estado e tornou a me ligar. McAllister voou para Hong Kong há duas semanas. Assim, de acordo com sua agenda meticulosa, não poderia ter ido à sua casa no Maine.

— Mas ele esteve aqui!

— Acho que acredito em você.

— O que isso significa?

— Entre outras coisas, que posso perceber a verdade em sua voz, às vezes mesmo quando você não pode. E também que a expressão “escarnecer” de alguma coisa geralmente não consta do vocabulário de um psicótico em estado de grande agitação... certamente não no seu, mesmo nos momentos mais delirantes.

— Não estou entendendo.

— Alguém conferiu onde você trabalhava e o que fazia

para viver e concluiu que seria apropriado acrescentar uma linguagem mais elevada. O que se chama de cor local, em seu caso. — Uma pausa e Panov explodiu: — Santo Deus, o que estão fazendo?

— Trancando-me no starting gate** — murmurou David. — Estão me forçando a sair em busca do que querem.

— Filhos da puta!

— É o que se chama de recrutamento. — David olhava fixamente para a parede. — Mantenha-se a distância, Mo, pois não há nada que possa fazer. Eles ajustaram todas as peças em seus devidos lugares. Estou recrutado.

David desligou. Atordoado, deixou o pequeno escritório e foi parar no vestíbulo vitoriano, contemplando os móveis virados, os abajures quebrados, porcelanas e vidros espalhados pelo chão da sala de estar. E nesse instante afloraram as palavras que Panov pronunciara no início da terrível conversa: “São pistas incriminadoras”.

Percebendo apenas vagamente para onde seus passos o levavam, aproximou-se da porta da frente e abriu-a. Forçou-se a olhar para a mão gravada no centro do painel superior, o sangue seco escuro à luz das lâmpadas da varanda. Chegou mais perto e examinou-a.

Era a impressão de uma mão, mas não uma mão impressa. Havia o contorno de uma mão — a impressão, a palma, os dedos estendidos — mas não as falhas na forma sangrenta, não as superposições ou depressões que uma mão sangrando deixaria ao ser comprimida contra a madeira dura, nenhuma marca de identificação, nenhuma parte isolada que gravaria as suas características específicas. Era como uma sombra achatada e colorida de um pedaço de vitral, sem outros planos que não a impressão única. Uma luva? Uma luva de borracha?

David desviou os olhos e encaminhou-se lentamente para a escada do meio do vestíbulo, os pensamentos se concentrando hesitantes em outras palavras, pronunciadas por outro homem. Um homem estranho, com uma voz hipnótica.

Talvez você devesse examinar o bilhete mais atentamente... Pode se tornar tudo mais claro para você com alguma ajuda... ajuda psiquiátrica.

David soltou um grito súbito, o terror se avolumando em seu íntimo, enquanto corria para a escada e subia para o quarto. Parou e ficou olhando fixamente para o bilhete datilografado na cama. Pegou-o com um medo repulsivo e levou-o para a penteadeira de Marie. Acendeu o abajur e examinou-o sob a luz.

Se o coração em seu peito pudesse explodir, então teria acabado naquele momento. Em vez disso, Jason Bourne estudou o bilhete friamente.

Os erres um pouco inclinados e irregulares estavam ali, assim como os dês, as hastes superiores incompletas, partidas no meio da marca.

Filhos da puta!

O bilhete fora escrito em sua própria máquina.

Recrutamento.

 

David sentou nos rochedos por cima da praia, sabendo que tinha de pensar com toda lucidez. Precisava definir o que tinha pela frente e o que esperavam dele, para depois formular um plano melhor do que a trama de quem quer que o estivesse manipulando. Acima de tudo, sabia que não podia se entregar ao pânico, nem mesmo à percepção do pânico, pois um homem em pânico era perigoso, um risco a ser eliminado. Se fosse além da conta, só estaria assegurando a morte de Marie e a sua; era muito simples. Tudo era frágil... violentamente frágil.

David Webb estava fora de cogitação. Jason Bourne tinha de assumir o controle. Oh, Deus! Era uma loucura! Mo Panov lhe recomendara que andasse pela praia — como Webb — e agora ele estava sentado ali — como Bourne — pensando nas coisas da maneira como Bourne pensaria. Tinha de negar uma parte de si mesmo e aceitar a parte oposta.

Estranhamente. não era impossível, nem mesmo intolerável, pois Marie dependia de sua ação. Seu amor, seu único amor... Não pense assim. Jason Bourne falou: Ela é um bem precioso que tiraram de você! Trate de recuperá-la. Jason Bourne falou: Não, não é um simples bem precioso, é minha vida!

Jason Bourne: Então viole todas as regras! Descubra-a! Traga-a de volta!

David Webb: Não sei como. Ajude-me!

Pois então me use! Use tudo o que aprendeu comigo. Tem os instrumentos, há anos que os possui. Era o melhor em Medusa. Acima de tudo, havia controle. Você pregava isso, vivia assim. E permaneceu vivo.

Controle.

Uma palavra muito simples. Uma demanda terrível.

David desceu dos rochedos e subiu outra vez o caminho pela vegetação rasteira, retornando à velha casa vitoriana, detestando o seu vazio repentino, assustador e injusto. Enquanto andava, um nome passou num relance por seus pensamentos; depois voltou e persistiu. Lentamente, o rosto que pertencia a esse nome entrou em foco... bem devagar, pois o homem despertava ódio em David, um sentimento que não era menos intenso do que a tristeza que também evocava.

Alexander Conklin tentara matá-lo — duas vezes — e quase conseguira. E Alex Conklin — segundo o seu depoimento, suas numerosas sessões psiquiátricas com Mo Panov e as vagas recordações que David pudera fornecer — fora um amigo íntimo do funcionário do serviço diplomático de David Webb, sua esposa tailandesa e seus filhos, no Camboja, uma vida inteira atrás. Quando a morte caíra do céu, enchendo o rio com círculos de sangue, David fugira às cegas para Saigon, dominado por uma raiva incontrolável. Fora seu amigo na CIA, Alex Conklin, quem lhe encontrara um lugar no batalhão ilegítimo que chamavam Medusa.

Se puder sobreviver ao treinamento na selva, será um homem como eles querem. Mas tome cuidado com eles... com todos eles, sem exceção, em cada minuto. São capazes de cortarem seu braço para ficarem com o relógio. Eram essas as palavras que David lembrava e também recordava, especificamente, que haviam sido pronunciadas pela voz de Alexander Conklin.

Ele sobrevivera ao treinamento brutal e se tomara Delta. Nenhum outro nome, apenas uma progressão no alfabeto. Delta Um. E depois da guerra Delta se tornara Caim. Caim é para Delta e Delta é para Carlos. Fora esse o desafio lançado a Carlos, o assassino. Criado por Casa de Pedra 71, um assassino chamado Caim pegaria o Chacal.

Fora como Caim, um nome que o submundo da Europa sabia que era na verdade o Jason Bourne da Ásia, que David acabara sendo traído por Conklin. Um simples ato de fé da parte de Alex poderia ter feito toda a diferença. Mas Alex não pudera encontrar qualquer base dentro de si para oferecê-lo; sua amargura pessoal impedia essa caridade. Acreditara no pior do ex-amigo, porque seu senso de martírio o levava a querer acreditar. Provocara seu amor-próprio ferido, convencendo-o de que era melhor do que o ex-amigo. Em seu trabalho com Medusa, Conklin tivera o pé direito destruído por uma mina de terra, o que encerrara a sua brilhante carreira como estrategista de campo. Um homem aleijado não podia continuar em ação no campo, onde uma crescente reputação talvez o conduzisse por caminhos ascendentes já percorridos por homens como Allen Dulles e James Angleton; e Conklin não possuía os talentos indispensáveis para a luta interna burocrática em Langley. Ele começara a definhar, um tático outrora extraordinário a observar os talentos inferiores ultrapassarem-no, sua competência só procurada em segredo, a cabeça de Medusa sempre nos bastidores, perigoso, alguém para se manter a distância.

Dois anos de castração imposta, até que um homem conhecido como Monge — um Rasputin das operações secretas — procurara-o porque um certo David Webb fora escolhido para uma missão extraordinária e Conklin o conhecia há anos. Casa de Pedra 71 estava criada, Jason Bourne tornara-se o seu produto, e Carlos o Chacal, o alvo. E durante trinta e dois meses Conklin controlara a operação, a mais secreta de todas as operações secretas, até que tudo desmoronara com o desaparecimento de Jason Bourne e a retirada de mais de cinco milhões de dólares da conta da missão em Zurique.

Sem qualquer indício em contrário, Conklin presumira o pior. O lendário Bourne resolvera virar; a vida no mundo clandestino se tornara insuportável para ele, e a tentação de mais de cinco milhões de dólares fora grande demais para resistir. Ainda mais para alguém conhecido como o camaleão, um especialista em cobertura total, que falava várias línguas e podia mudar de aparência e estilo de vida com tão pouco esforço que era capaz de literalmente desaparecer. Uma armadilha para um assassino fora armada e depois a isca sumira, revelando um ladrão ardiloso. Para o entrevado Alexander Conklin, não era apenas o ato de um traidor, mas também uma traição intolerável. Considerando tudo o que fora feito com ele, seu pé agora apenas um peso morto e desajeitado, inserido cirurgicamente em carne roubada, uma carreira outrora brilhante para sempre perdida, a vida pessoal uma solidão que só podia ser preenchida com a entrega total à Agência — uma devoção que não tinha retribuição — que direito tinha qualquer outro de mudar de lado? Que outro homem dera tanto quanto ele?

Assim, seu antigo amigo íntimo, David Webb, transformara-se no inimigo, Jason Bourne. E não somente o inimigo, mas uma obsessão. Ajudara a criar o mito; haveria agora de destruí-lo. A primeira tentativa fora com dois assassinos profissionais, nos arredores de Paris.

David estremeceu ao recordar, ainda contemplando um derrotado Conklin se afastando a claudicar, o vulto entrevado sob a mira de sua arma.

A segunda tentativa estava ainda enevoada para David. Talvez nunca a lembrasse completamente. Ocorrera na casa segura da operação, na Rua 71, em Nova York, uma engenhosa armadilha montada por Conklin, que malograra pelos esforços histéricos de David para sobreviver e, estranhamente, pela presença de Carlos, o Chacal.

Mais tarde, quando a verdade se tornara conhecida, de que o “traidor” não cometera qualquer traição, mas em vez disso sofria de uma aberração mental chamada amnésia, Conklin desmoronara. Durante os meses angustiantes da convalescença de David, na Virginia, Alex tentara repetidamente encontrar o antigo amigo íntimo, a fim de explicar, contar a sua parte da terrível história... e pedir desculpas, com todas as fibras do seu ser.

David, no entanto, não tinha o perdão em sua alma. E declarara:

— Se ele passar por aquela porta, vou matá-lo.

Isso vai mudar agora, pensou David, enquanto avançava apressado pela rua, a caminho de casa. Quaisquer que fossem os defeitos e traições de Conklin, poucos homens na comunidade de informações possuíam os conhecimentos e fontes que ele acumulara ao longo da vida. Há meses que David não pensava em Alex; lembrou-se dele agora, recordando de repente a última vez em que seu nome aparecera numa conversa. Mo Panov apresentara seu veredicto:

— Não posso ajudá-lo, porque ele não quer ser ajudado. Vai levar a sua última garrafa de fel para a vasta e negra sala de operações no céu aberto em seu crânio misericordiosamente morto. Ficarei surpreso se ele sobreviver à sua aposentadoria ao final do ano. Por outro lado, se ele continuar bebendo como está, podem metê-lo numa camisa-de-força e tirá-lo de circulação. Juro que não sei como ele consegue trabalhar todos os dias. Aquela pensão é uma tremenda terapia de sobrevivência... melhor do que qualquer coisa que Freud nos tenha deixado.

Panov fizera o comentário há mais de cinco meses. Conklin ainda estava no mesmo lugar.

Desculpe, Mo. A sobrevivência dele, de um jeito ou de outro, não é problema meu. Pelo que me diz respeito, ele já está morto.

Não está morto agora, pensou David, enquanto subia correndo os degraus da varanda vitoriana. Alex Conklin estava muito vivo, bêbado ou não; e mesmo que estivesse preservado em bourbon, ainda tinha as suas fontes, os contatos que cultivara durante uma vida inteira de devoção ao mundo da espionagem, que acabara por rejeitá-lo. Era um mundo em que as dívidas eram cobradas e pagas por medo.

Alexander Conklin. Número Um na lista de alvos de Jason Bourne.

David abriu a porta e mais uma vez parou no vestíbulo, só que seus olhos não viam os escombros. Em vez disso, o lógico nele ordenou-lhe que voltasse ao estúdio e iniciasse o processo; não havia nada além de confusão sem ordem imposta, e a confusão levava a indagações... algo que não podia se permitir agora. Tudo devia ser preciso na realidade que estava criando, a fim de desviar a curiosidade da realidade que existia.

Sentou-se à mesa e tentou se concentrar. Lá estava o sempre presente caderno de espiral da College Shop. David abriu a capa grossa para a primeira folha pautada e estendeu a mão para um lápis... Não conseguia pegá-lo! A mão se sacudia tanto que todo o corpo tremia. Prendeu a respiração e fechou a mão, comprimindo-a até que as unhas penetraram na carne. Cerrou os olhos, tornou a abri-los, forçando a mão a voltar ao lápis, ordenando que cumprisse sua função. Devagar, de forma um tanto desajeitada, os dedos agarraram o lápis amarelo. levando-o à posição correta. As palavras saíam quase ilegíveis, mas estavam ali.

A universidade — telefonar reitor e diretor do departamento. Crise na família, não Canadá — pode ser verificado. Invente — talvez um irmão na Europa. Uma licença — uma licença rápida. Mas imediato. Vai se manter em contato.

Casa — ligar para administradora, a mesma história. Pedir a Jack para verificar periodicamente. Ele tem a chave. Ligar termostato em 15°C.

Correspondência — preencher formulário no correio. Reter toda correspondência.

Jornais — cancelar.

As pequenas coisas, todas as malditas pequenas coisas — o trivial cotidiano insignificante adquiria uma enorme importância e precisava cuidar de tudo, a fim de que não houvesse qualquer sinal de partida brusca, sem um retorno planejado. Isso era vital; tinha de se lembrar em cada palavra que dissesse. As perguntas deviam ser reduzidas a um mínimo, as especulações inevitáveis mantidas em proporções controláveis, o que significa que precisava confrontar a conclusão óbvia de que os guarda-costas recentes estavam de alguma forma relacionados com a licença. Para romper a ligação, o meio mais plausível era enfatizar a curta duração da licença e enfrentar a questão com um repúdio direto. Por exemplo: “Diga-se de passagem, se estão especulando se isso tem alguma coisa a ver com minha preocupação pela segurança pessoal, quero que saibam que não há a menor relação. Aquilo é um capítulo encerrado. Afinal, não sou tão importante assim.” Saberia melhor como responder ao conversar com o reitor da universidade e o diretor do departamento; suas reações o orientariam. Se é que alguma coisa poderia orientá-lo. Se é que fosse capaz de pensar. Não vacile agora... continue em frente! Mexa esse lápis! Encha a página com coisas a fazer... e depois outra página e mais outra! Passaportes, iniciais em carteiras ou camisas correspondendo aos nomes usados; reservas em aviões — vôos de conexão, nada de viagens diretas... Oh, Deus, para onde? Marie onde você está?

Pare com isso! Controle-se. Você é capaz, tem de ser capaz.

Não tem alternativa; portanto, seja o que já foi outrora. Sinta o gelo. Seja o gelo.

Inesperadamente, a carapaça que ele estava construindo ao seu redor foi estilhaçada pelo som ensurdecedor da campainha do telefone, em cima da mesa, a poucos centímetros da mão. David olhou para o aparelho, engolindo em seco, imaginando se conseguiria parecer sequer remotamente normal. A campainha tornou a soar, numa terrível insistência. Você não tem alternativa.

Atendeu, apertando o fone com tanta força que as articulações ficaram brancas. E conseguiu balbuciar uma única palavra:

— Alô?

— Aqui é o centro telefônico especial, de comunicação por satélite...

— Como? O que foi que disse?

— Tenho uma ligação para o Sr. Webb. É ele quem está falando?

— É, sim.

E no instante seguinte o mundo que David conhecia explodiu em mil espelhos partidos, cada um oferecendo uma imagem de tormento indescritível.

— David

— Marie?

— Não entre em pânico, querido! Está me entendendo? Não entre em pânico!

A voz saía em meio à estática; ela fazia um esforço para não gritar, mas não conseguia se controlar.

— Você está bem? O bilhete dizia que estava machucada... ferida!

— Estou bem. Apenas alguns arranhões, mais nada

— Onde você está?

— No outro lado do oceano, e tenho certeza que dirão isso a você. Mas não sei direito. Eles me doparam.

— Oh, Deus! Não consigo mais suportar! Eles levaram você!

— Trate de se controlar, David. Sei o que isso está fazendo com você, mas eles não sabem. Entende o que estou dizendo? Eles não sabem.

Marie estava enviando uma mensagem codificada; não era

difícil decifrar. Ele tinha de ser o homem que odiava. Tinha de ser Jason Bourne, e o assassino estava vivo e muito bem, residindo no corpo de David Webb.

— Está certo. Tem toda razão. Eu já estava começando a enlouquecer.

— Sua voz está sendo amplificada...

— Era de imaginar.

— Estão deixando eu falar com você para que saiba que estou viva.

— Machucaram você?

— Não intencionalmente

— O que significam “arranhões”?

— Eu me debati. E lutei. Não se esqueça de que fui criada num rancho.

— Oh, não...

— David, por favor! Não deixe que eles façam isso com você!

— Comigo? É com você!

— Sei disso, querido. Acho que estão testando você. Pode compreender?

Novamente a mensagem. Jason Bourne pelo bem dos dois... por suas vidas.

— Claro, claro. — Ele diminuiu a intensidade da voz, tentando se controlar. — Quando aconteceu?

— Esta manhã, cerca de uma hora depois que você saiu.

— Esta manhã? Oh, Deus, o dia inteiro! Como foi?

— Bateram na porta. Dois homens...

— Quem?

— Só tenho permissão para dizer que são do Extremo Oriente. Na verdade, não sei mais nada além disso. Convidaram-me a acompanhá-los e recusei. Corri para a cozinha e avistei uma faca. Atingi um dos homens na mão.

— A marca na porta...

— Não estou entendendo.

— Não tem importância.

— Um homem quer falar com você, David. Escute o que ele tem a dizer, mas não com raiva, não com fúria... pode compreender?

— Claro que posso. Está certo. Compreendo.

A voz do homem entrou na linha. Era hesitante, mas precisa, quase britânica na pronúncia, alguém que aprendera inglês com um inglês ou com alguém que vivera na Inglaterra. Mesmo assim, era inconfundivelmente oriental; o sotaque era do sul da China, o tom, as vogais curtas e as consoantes bruscas indicando que era cantonês.

— Não queremos fazer mal algum à sua esposa, Sr. Webb, mas será inevitável, se não houver outro jeito.

— Eu não faria isso, se fosse você — respondeu David, friamente.

— É Jason Bourne quem está falando?

— Isso mesmo.

— O reconhecimento é o primeiro passo em nosso acordo.

— Que acordo?

— Você tirou uma coisa de grande valor de um homem.

— E vocês me tiraram uma coisa de grande valor.

— Ela está viva.

— E é bom que continue assim.

— A outra pessoa está morta. Você a matou.

— Tem certeza?

Bourne não concordaria prontamente, a menos que isso atendesse a seus propósitos.

— Temos certeza.

— Qual é a prova?

— Você foi visto. Um homem alto, que permaneceu nas sombras e correu pelos corredores do hotel, descendo pela escada de emergência, com a agilidade de um lince.

— Então não fui realmente visto, não é mesmo? Nem poderia. Eu estava a milhares de quilômetros de distância.

Bourne sempre se daria uma opção.

— Nesta era de aviões rápidos, que diferença faz a distância? — O oriental fez uma pausa e depois acrescentou, bruscamente: — Cancelou suas aulas por um período de cinco dias, há duas semanas e meia.

— E se eu lhe dissesse que compareci a um simpósio sobre as dinastias Sung e Yuan em Boston... o que estava de acordo com minhas funções...

O homem interrompeu-o cortesmente:

— Fico surpreso por Jason Bourne empregar uma desculpa tão lamentavelmente fraca.

Ele não queria ir a Boston. O simpósio estava a anos-luz de suas aulas, mas fora convidado oficialmente. O pedido viera de Washington, do Programa de Intercâmbio Cultural, através do Departamento de Estudos Orientais da universidade. Oh, Deus, todas as peças se ajustavam!

— Desculpa para quê?

— Para estar onde não estava. Uma enorme multidão se confundindo no recinto, certas pessoas pagas para jurar que o viram.

— Isso é ridículo, para não dizer obviamente amadorístico. Não pago a ninguém.

— Você foi pago.

— É mesmo? Como?

— Através do mesmo banco que já usou antes. Em Zurique. O Gemeinschaft, em Zurique... na Bahnhofstrasse, é claro.

— E estranho que eu não tenha recebido um extrato — comentou David, prestando toda atenção.

— Quando era Jason Bourne, na Europa, nunca precisou disso, pois sua conta era de três zeros... a mais confidencial, o que significa absolutamente secreta na Suíça. Contudo, encontramos a cópia de uma transferência para o Gemeinschaft entre os papéis de um homem... um homem morto, é claro.

— Foi o que imaginei. Mas não o homem que eu supostamente matei.

— Claro que não. Era o homem que ordenou a morte do outro... juntamente com um galardão muito apreciado de meu empregador.

— Um galardão não é um troféu?

— As duas coisas são conquistadas, Sr. Bourne. Mas já chega. Você é você. Vá para o Regent Hotel, em Kowloon. Registre-se sob qualquer nome que quiser, mas peça a suíte seis-nove-zero,,, diga que acha que foi feita uma reserva.

— Muito conveniente. Meus próprios aposentos.

— Vai poupar tempo.

— Mas levarei algum tempo para arrumar tudo por aqui.

— Temos certeza de que não vai provocar alarme e agirá o mais depressa que puder. Esteja lá no final da semana.

— Pode contar com as duas coisas. Coloque minha esposa de volta na linha.

— Lamento, mas não posso fazer isso.

— Mas você pode ouvir tudo o que dissermos!

— Falará com ela em Kowloon.

Houve um estalido ressonante e David não pôde ouvir mais nada na linha além da estática. Desligou; apertara o fone com tanta força que estava com uma cãibra entre o polegar e o indicador. Conseguiu retirar a mão cerrada e sacudiu-a vigorosamente. Sentia-se grato porque a dor lhe permitia retornar à realidade de maneira mais gradativa. Segurou a mão direita com a esquerda, prendendo-a firmemente. Comprimiu o polegar esquerdo na cãibra. Enquanto observava os dedos relaxarem, compreendeu o que tinha de fazer... e fazer sem desperdiçar uma hora nas questões triviais insignificantes que se tornavam agora tão importantes. Tinha de entrar em contato com Conklin em Washington, o rato de esgoto que tentara matá-lo, em plena luz do dia, na Rua 71, em Nova York. Alex, bêbado ou sóbrio, não fazia distinção entre as horas do dia e da noite, assim como as operações que conhecia tão bem, pois não havia noite e dia quando se tratava de seu trabalho. Havia apenas a luz fria de lâmpadas fluorescentes em escritórios que nunca fechavam. Se fosse necessário, ele pressionaria Alexander Conklin até que o sangue esguichasse dos olhos do rato de esgoto; descobriria o que precisava saber, pois tinha certeza de que Conklin era capaz de obter a informação.

David levantou-se, meio trôpego, deixou o estúdio e foi para a cozinha, onde se serviu de um drinque, outra vez grato porque a mão, embora ainda trêmula, já se mostrava um pouco mais controlável.

Podia delegar algumas coisas. Jason Bourne jamais delegava qualquer coisa, mas ele ainda era David Webb e havia diversas pessoas no campus em que podia confiar... certamente não com a verdade, mas com uma mentira útil. Ao voltar ao estúdio e ao telefone, ele já escolhera o seu conduto. Essa não, conduto! Uma palavra do passado da qual ele pensara estar livre para esquecer. Mas o rapaz faria o que ele pedisse; afinal, a tese de mestrado do estudante de pós-graduação seria analisada por seu conselheiro, um certo David Webb. Aproveite a vantagem,quer seja a escuridão total ou a luz do sol ofuscante, mas use-a para assustar ou use-a com compaixão, o que funcionar melhor.

— James? Aqui é David Webb.

— Oi, Sr. Webb. Onde foi que me estrepei?

— Não é nada disso, um. Estou com um problema e precisando de uma ajuda extracurricular. Está interessado? Vai exigir algum tempo.

— Neste fim de semana? Durante o jogo?

— Não. Apenas amanhã de manhã. Talvez uma hora, se tanto. E depois uma pequena bonificação em termos de seu curriculum vitae, se é que isso não parece uma coisa insignificante.

— Pode falar.

— Confidencialmente... e eu agradeceria se mantivesse assim... terei de me ausentar por uma semana, talvez duas. Estou prestes a ligar para os poderes constituídos e sugerir que você fique no meu lugar. Não vai ser problema para você. É a derrubada dos manchus e os acordos sino-soviéticos, que parecem bastante familiares hoje.

— De 1900 a 1912 — disse o candidato a mestrado, com absoluta confiança.

— Pode refinar um pouco... e não esqueça os japoneses, Port Arthur e o velho Teddy Roosevelt. Apresente tudo e faça comparações. É o que eu faria.

— Pode ser feito... e será feito. Consultarei as fontes. Que tal amanhã?

— Tenho de partir esta noite, um. Minha esposa já viajou. Tem um lápis à mão?

— Claro.

— Sabe o que dizem sobre o acúmulo de jornais e correspondência. Quero que ligue para o serviço de entrega do jornal e procure a agência do correio, pedindo que guardem tudo... assine qualquer coisa que for necessária. Depois, ligue para a Administradora Scully, aqui na cidade, fale com Jack ou Adele e diga...

O candidato a mestrado estava recrutado. O telefonema seguinte foi muito mais fácil do que David esperava, já que o reitor da universidade se preparava para um jantar em sua homenagem e estava muito mais interessado no discurso que faria do que na licença de um obscuro — embora insólito — professor-associado.

— Por favor, fale com o diretor do departamento, Sr. Wedd. Estou preocupado neste momento em levantar recursos para a universidade.

Não foi tão fácil tratar com o diretor do departamento.

— Tem alguma relação com os homens que circulavam com você na semana passada, David? Afinal, meu velho, sou uma das poucas pessoas por aqui que sabem que você esteve envolvido com coisas secretas lá em Washington.

— Não tem a menor relação, Doug. Aquilo foi um absurdo desde o começo, o que não acontece agora. Meu irmão sofreu um grave acidente, seu carro ficou totalmente destruído. Tenho de passar alguns dias em Paris, talvez uma semana. É só isso.

— Estive em Paris há dois anos. Os motoristas por lá são inteiramente doidos.

— Não são piores que os de Boston, Doug, e muito melhores que os do Cairo.

— Acho que posso dar um jeito. Uma semana não é tanto tempo assim, e Johnson passou quase um mês ausente, com pneumonia...

— Já tomei as providências necessárias... dependendo de sua aprovação, é claro; Jim Crowther. um aluno do mestrado, ficará no meu lugar. É uma matéria que ele conhece e tenho certeza de que fará um bom trabalho.

— Ah, sim, Crowther... um rapaz brilhante, apesar da barba. Jamais confiei em barbas, mas também estava aqui nos anos sessenta.

— Tente deixar crescer a barba. Pode libertá-lo.

— Vou ignorar o comentário. Tem certeza de que não tem nada a ver com aquele pessoal do Departamento de Estado? Preciso saber de todos os fatos, David. Como é o nome de seu irmão? Em que hospital de Paris ele está?

— Não sei qual é o hospital, mas Marie provavelmente sabe. Ela partiu esta manhã. Até a volta, Doug. Ligarei para você amanhã ou depois. Tenho de ir agora para o Aeroporto Logan de Boston.

— David...

— O que é?

— Por que tenho a sensação de que você não está sendo absolutamente sincero?

David se lembrou.

— Porque nunca estive antes nessa situação... pedir um favor a um amigo por causa de alguém em quem eu preferia não pensar.

E David desligou.

O vôo de Boston para Washington foi irritante, por causa de um professor fossilizado de pedantismo — um curso que David nunca fizera — que sentou ao seu lado. A voz do homem era tão exasperantemente autêntica quanto o tom solene do experiente ator de televisão que assumia o papel de douto veterano de uma corretora e insistia:

— Eles merecem!

A frase se repetiu interminavelmente na cabeça de David, independente do que o professor dizia... e ele não parava de falar. Só quando pousaram no Aeroporto Nacional é que o pedante admitiu a verdade:

— Fui um chato, mas peço que me perdoe. Tenho pavor de voar e por isso não parei de falar. Uma tolice, não acha?

— Não acho, não. Mas por que não disse logo? Não é nenhum crime.

— Imagino que me omiti com medo da pressão de um igual ou de uma condenação desdenhosa.

— Lembrarei disso na próxima vez em que sentar ao lado de alguém como você. — David sorriu. — Talvez eu pudesse ajudar.

— É muita gentileza sua. E muita sinceridade. Obrigado... muito obrigado.

— Não foi nada.

David foi pegar sua mala e saiu do terminal à procura de um táxi. Ficou contrariado porque os táxis não estavam aceitando passageiros isolados, mas insistindo em levar duas ou três pessoas que seguissem na mesma direção. Foi uma mulher que sentou ao seu lado no banco de trás, uma mulher atraente, que usou a linguagem do corpo, em combinação com os olhos suplicantes. Não fazia sentido para ele e por isso David não fez sentido para a mulher, mas agradeceu a ela por deixá-lo primeiro.

Registrou-se no Jefferson Hotel, na Rua 16, sob um nome falso, inventado no momento. O hotel, no entanto, fora escolhido com extremo cuidado; ficava a um quarteirão e meio do apartamento de Conklin, o mesmo apartamento em que o servidor da CIA vivia há quase vinte anos, quando não estava em campo. Fora um endereço que David fizera questão de descobrir, antes de deixar a Virginia... outra vez o instinto, a desconfiança visceral. Ele tinha também o número de um telefone, mas sabia que era inútil; não podia ligar para Conklin. O ex-estrategista de operações secretas erguera defesas, mais mentais do que físicas, e David queria confrontar um homem despreparado. Não haveria qualquer aviso, apenas uma presença cobrando uma divida, que deveria ser paga agora.

David consultou o relógio; faltavam dez minutos para ameia-noite, um momento tão bom quanto outro qualquer e melhor do que a maioria. Tomou um banho, trocou de camisa e tirou da mala uma das duas armas desmontadas, tirando-a do saco grosso, revestido internamente com papel laminado. Juntou as peças, testou o mecanismo de disparo, empurrou o pente na câmara. Estendeu a arma e estudou sua mão, satisfeito ao constatar que não havia mais qualquer tremor. Sentia-se limpo e discreto. Oito horas antes não teria acreditado que pudesse empunhar uma arma, pois teria medo de que disparasse. Mas isso fora oito horas antes, não era mais agora. A arma era agora uma parte integrante dele, algo com que se sentia perfeita mente á vontade, uma extensão de Jason Bourne.

Deixou o Jefferson e desceu a Rua 16, virando à direita na esquina e notando os números decrescentes dos velhos prédios de apartamentos... muito antigos, lembrando-o das velhas casas com fachada de pedra do Upper East Side de Nova York. Havia uma lógica curiosa na observação, levando-se em consideração o papel de Conklin no projeto Casa de Pedra, refletiu David. A casa segura do projeto em Manhattan era uma estrutura estranha, estofada, com um vidro azulado nas janelas superiores. Ele podia agora vê-la nitidamente, ouvir as vozes com clareza, sem realmente compreender... a fábrica de incubação de Jason Bourne.

Faça de novo!

Quem é o rosto?

Quais são os seus antecedentes? Seu método de matar?

Errado! Você está errado! Faça de novo!

Quem é este? Qual a ligação com Carlos?

Pense! Não pode haver erros!

Uma casa de pedra. Onde o seu outro eu fora criado, o homem de que tanto precisava agora.

Lá estava, o apartamento de Conklin. Era no segundo andar, de frente. As luzes estavam acesas; Alex se encontrava em casa e acordado. David atravessou a rua, consciente de que uma chuva fina e enevoada povoara subitamente o ar, difundindo o clarão dos lampiões, halos por baixo dos globos de vidro ondulados. Subiu os degraus e abriu a porta do pequeno saguão; entrou e estudou os nomes nas caixas de correspondência dos seis apartamentos. Cada uma tinha um círculo perfurado por baixo do nome, pelo qual o visitante se anunciava.

Não havia tempo para qualquer invenção complicada. Se o veredicto de Panov era acurado, sua voz seria suficiente. Apertou o botão de Conklin e esperou por uma resposta, que só veio depois de quase um minuto.

— Quem está ai?

— Harry Babcock — disse David, exagerando o sotaque. — Preciso falar com você, Alex.

— Harry? Mas o que... Claro, claro, pode subir!

A campainha zumbiu, parou por um instante... um dedo momentaneamente deslocado.

David entrou e subiu correndo a escada estreita para o segundo andar, torcendo para estar na frente da porta quando Conklin a abrisse. Chegou menos de um segundo antes de Alex, que com os olhos apenas parcialmente focalizados puxou a porta e começou a gritar. David adiantou-se, pondo a mão no rosto de Conklin, dando-lhe uma chave de braço e fechando a porta com o pé.

Não atacava uma pessoa fisicamente há muito tempo, há tanto tempo que não podia lembrar com precisão. Devia parecer estranho, até mesmo incômodo, mas não era nenhuma das duas coisas. Ao contrário, era perfeitamente natural. Oh, Deus!

— Vou retirar a mão, Alex. Mas se você começar a gritar, a mão volta. E não vai sobreviver se isso acontecer. Entendido?

David retirou a mão ,empurrando ao mesmo tempo a cabeça de Conklin.

— É uma surpresa e tanto —murmurou o homem da CIA, tossindo e cambaleando trÔpego, ao ser solto. — E também pede por um drinque.

— Aposto que tem sido uma dieta constante.

— Somos o que somos.

Meio desajeitado, ConkLin abaixou-se para pegar um copo vazio na mesinha ã frente de um sofá grande e muito usado. Levou-o para uni bar encostado na parede, feito com uma placa de cobre, onde garrafas idênticas de bourbon estavam alinhadas numa fila única. Não havia coqueteleiras nem água, apenas um balde de gelo; não era um bar para as visitas. Era para o anfitrião, o metal reluzente proclamando que se tratava de uma extravagância que o residente se permitia. O resto da sala não tinha a mesma classe. De certa forma, aquele bar de cobre era uma declaração.

— A que devo este prazer duvidoso? — indagou Conklin, servindo-se de uma dose. — Recusou-se a me receber na Virginia... disse que me mataria, e isso é um fato. Foi mesmo o que disse. Você me mataria se eu passasse por aquela porta... foram suas palavras.

— Você está bêbado.

— Provavelmente. Mas é o que quase sempre acontece a esta hora. Quer começar com um sermão? Não vai adiantar nada, mas pode.fazer uma tentativa, se quiser.

— Está doente.

— Não, estou bêbado. Foi o que você disse antes. Estou me repetindo?

— Ad nauseam.

— Desculpe por isso. — Conklin largou a garrafa no bar, tomou vários goles do copo, olhou para David. — Não passei por sua porta, você é que passou pela minha. mas suponho que isso é irrelevante. Veio aqui para finalmente executar a ameaça, consumar a profecia, converter os erros passados em acertos ou como quer que prefira chamar? Duvido muito que esse volume um tanto óbvio por baixo de seu paletó seja uma garrafa de uísque.

— Não sinto mais o impulso irresistível de vê-lo morto,

mas ainda assim posso matá-lo. Você tem condições para provocar esse impulso com a maior facilidade.

— Fascinante. Como eu faria isso?

— Basta não me fornecer o que preciso... e tenho certeza de que você pode fornecer.

— Deve saber de alguma coisa que desconheço.

— Sei que tem vinte anos de operações secretas e que conhece muito bem a maioria.

— História —murmurou o homem da CIA, tomando outro gole.

— Pode ser ressuscitada. Ao contrário da minha, sua memória está intacta. A minha é limitada, o que já não acontece com a sua. Preciso de informações, preciso de respostas.

— Sobre o quê? Para quê?

— Seqüestraram minha esposa — respondeu David simplesmente, uma simplicidade de gelo. — Levaram Marie.

Os olhos de Conklin piscaram, através do olhar fixo.

— Diga de novo. Acho que não ouvi direito.

— Ouviu, sim! E vocês, filhos da puta, estão por trás dessa história nojenta!

— Eu não! Eu não faria isso... não poderia! Mas o que está dizendo afinal? Marie desapareceu?

— Está num avião sobrevoando o Pacífico. E devo acompanhá-la. Vou voar para Kowloon.

— Está louco! Perdeu o juízo!

— Preste atenção, Alex, preste muita atenção a tudo o que vou dizer...

As palavras tornaram a sair rapidamente, mas agora com um controle que não conseguira na conversa com Morris Panov. Embriagado, Conklin tinha percepções mais aguçadas do que a maioria dos homens sóbrios na comunidade de informações, e era indispensável que ele compreendesse. David não podia se permitir qualquer lapso na narrativa; tinha de ser clara e objetiva desde o início... desde o momento em que falara com Marie pelo telefone do ginásio e a ouvira dizer: “Venha para casa, David. Tem alguém aqui que deseja falar com você. Depressa, querido.”

Enquanto ele falava, Conklin claudicou através da sala e

foi sentar-se no sofá, os olhos jamais se desviando do rosto de David. Quando David terminou de descrever o hotel da esquina, Conklin sacudiu a cabeça e estendeu a mão para o copo.

— É fantástico — murmurou ele, depois de um período de silêncio, de concentração intensa a lutar contra os vapores do álcool. Tornou a largar o copo. — É como se uma estratégia fosse montada e perdesse o fio.

— Perdesse o fio?

— Escapasse ao controle.

— Como?

— Não sei —continuou o antigo tático, tremendo um pouco, fazendo um esforço para não engrolar as palavras. — Você recebe um roteiro que pode ou não ser acurado, depois os alvos mudam... sua esposa por você... e a peça é cancelada. Você reage de maneira previsível, mas quando menciona Medusa é informado em termos expressos que será liquidado se persistir.

— Era de se esperar.

— Não é assim que se prepara um alvo. Subitamente sua mulher passa para um plano secundário, e Medusa é o perigo predominante. Alguém calculou mal. Alguma coisa perdeu o fio, alguma coisa aconteceu.

— Você tem o resto desta noite e o dia de amanhã para me obter algumas respostas. Estou no vôo das sete da noite para Hong Kong.

Conklin inclinou-se para a frente, sacudindo a cabeça devagar. A trêmula mão direita tornou a se estender para pegar o copo com bourbon.

— Está no lado errado da cidade —murmurou ele, tomando um gole. — Pensei que sabia disso, já que fez uma alusão ao meu elixir. Sou inútil para você. Estou fora dos limites, um autêntico caso de cesta de lixo. Ninguém me diz nada... e por que deveriam? Não passo de uma relíquia, Webb. Ninguém quer ter qualquer relação comigo. Estou liquidado, mais um passo e ficarei além da salvação... o que acredito ser uma expressão gravada nessa sua cabeça doida.

— Tem razão. Sei o que significa: “Mate-o. Ele sabe demais.”

— E talvez você queira me empurrar para esse ponto, não é? Dê-lhe corda, desperte a Medusa adormecida, cuide para que ele receba o que merece dos seus. Seria uma retribuição justa.

— Você me pôs nessa situação —comentou David, tirando a arma do coldre sob o paletó.

— É verdade. — Conklin acenou com a cabeça, olhando para a arma. — Porque conheci Delta e para mim qualquer coisa era possível... vi você em ação. Deus do céu, você estourou a cabeça de um homem... um dos seus próprios homens... em Tam Quan só porque acreditava... não sabia com certeza, apenas acreditava... que ele estava transmitindo pelo rádio a posição de um pelotão na Trilha Ho Chi Minh! Não houve acusações, não houve defesa, apenas mais uma execução sumária na selva. Por acaso você estava certo, mas também podia estar enganado. Podia tê-lo pressionado, detido, talvez conseguíssemos descobrir algumas coisas por seu intermédio. Mas Delta não admitia essas atitudes. Criava as suas próprias regras. E por isso era claro que podia ter virado em Zurique!

— Não me lembro dos detalhes específicos sobre Tam Quan, mas outros sabiam de tudo — disse David, com uma raiva sob controle. — Precisava tirar nove homens de lá... e não havia lugar para um décimo que poderia nos retardar ou mesmo nos liquidar, denunciando a nossa posição.

— Muito bem! São suas regras! É bastante inventivo; portanto, encontre um paralelo aqui e pelo amor de Deus puxe o gatilho como fez com ele... nosso genuíno Jason Bourne! Eu lhe disse em Paris para fazer isso! — Respirando fundo, Conklin fez uma pausa, fixando os olhos injetados em David. E depois de uma pausa, acrescentou num sussurro queixoso: — Eu lhe disse naquela ocasião e torno a pedir agora. Liquide-me. Não tenho coragem de fazê-lo pessoalmente.

— Éramos amigos, Alex! — gritou David. — Você estava sempre em nossa casa! Comia conosco e brincava com as crianças! Nadava com elas no rio!

Oh, Deus! Estava tudo voltando. As imagens, os rostos... Oh, não, os rostos... Os corpos flutuando em círculos de água e sangue... Controle-se! Rejeite tudo isso! Rejeite! E tem de ser agora. Agora!

— Isso aconteceu em outra terra, David. Além do mais...

Acho que você não quer que eu complete a frase.

— Além do mais, aquela mulher está morta. Prefiro que não repita a frase.

— E nada mais importa — disse Conklin, a voz rouca tomando mais um pouco do uísque. — Éramos ambos eruditos, não é mesmo?... Não posso ajudá-lo.

— Pode, sim. E vai.

— Esqueça, soldado. Não há a menor possibilidade.

— Dívidas devem ser pagas. E estou cobrando as suas.

— Sinto muito. Pode puxar esse gatilho a qualquer momento que quiser. Mas se não o fizer, quero que saiba que não vou me pôr além da salvação e perder tudo o que estou para ganhar... e ganhar de forma legítima. Se me permitirem ir para o pasto, pode estar certo de que vou pastar muito bem. Eles já levaram demais. Quero um pouco de volta.

O agente da CIA levantou-se e atravessou a sala desajeitadamente, voltando ao bar de cobre. Claudicava ainda mais do que David podia lembrar; o pé direito não era mais útil que um coto se arrastando pelo chão, o esforço dolorosamente óbvio.

— A perna está pior, não é mesmo? — perguntou David, bruscamente.

— Posso viver com isso.

— E pode também morrer com isso. — David levantou a automática. — Porque eu não posso viver sem minha mulher e você não se importa com isso. Sabe no que isso o transforma, Alex? Depois de tudo o que fez com a gente, de todas as mentiras, as armadilhas, a escória que usou para nos pegar...

— A você! — interrompeu Conklin, enchendo o copo e olhando para a arma. —Não a ela.

— Mate um de nós e matará os dois... mas você não é capaz de compreender isso.

— Nunca tive esse luxo.

— Sua nojenta autocompaixão não permitiria. Quer apenas chafurdar sozinho e deixar que a bebida pense por você. “Por causa de uma porra de uma mina, lá se vai o Diretor, o Monge, o Raposa Cinzenta... o Angleton dos anos oitenta.” Você é patético. Tem sua vida, sua mente...

— Pois acabe com tudo! Atire! Puxe o gatilho mas me deixe alguma coisa.

Conklin tomou subitamente todo o uísque do copo, seguindo-se uma tosse prolongada, com ânsias de vômito, o corpo todo se sacudindo. Depois do espasmo, ele fitou David, os olhos marejados de lágrimas, as veias vermelhas saltadas.

— Acha que eu não tentaria ajudá-lo se pudesse, seu filho da puta? — balbuciou ele, a voz rouca. — Acha que gosto de todo esse ‘pensamento’ a que me entrego? É você quem está sendo obtuso, David, é você quem está sendo obstinado. Não pode compreender, não é?

O homem da CIA estendeu o copo para a frente, segurando-o com dois dedos, deixou-o cair; espatifou-se, e os fragmentos voaram em todas as direções. E depois voltou a falar, a voz estridente, monótona, enquanto por baixo dos olhos remelentos um sorriso triste se insinuava nos lábios:

— Não posso suportar outro fracasso, velho amigo. E pode estar certo de que eu fracassaria. Mataria vocês dois, e acho que não poderia viver com isso.

David baixou a arma.

— Não com o que você tem na cabeça, não com o que descobriu. De qualquer forma, vou correr o risco. Minhas opções são limitadas, e escolho você. Para ser franco, não conheço mais ninguém. Além disso, tenho várias idéias, talvez mesmo um plano, mas precisa ser armado com a maior rapidez.

— É mesmo?

Conklin encostou-se no bar, para se apoiar.

— Posso fazer um café, Alex?

 

O café puro teve o efeito de deixar Conklin um pouco sóbrio, mas não tanto quanto a confiança de David nele. O ex-Jason Bourne respeitava os talentos de seu mais implacável inimigo do passado, e deixou-o compreender isso. Conversaram até quatro horas da madrugada, refinando os contornos indefinidos de uma estratégia, baseando-a na realidade, mas levando-a muito além. E à medida que o álcool diminuía, Conklin foi funcionando cada vez melhor. Passou a dar forma ao que David formulara apenas vagamente. Percebeu a solidez básica das idéias de David e encontrou as palavras para expressá-las.

— Está descrevendo uma situação de crise crescente, baseada no fato do seqüestro de Marie, depois confundindo-a com mentiras. Mas, como disse, tudo tem de ser feito em alta velocidade, atingindo-os com força e depressa, sem trégua.

— Use a verdade completa primeiro — interveio David, falando rapidamente. —Cheguei aqui com a ameaça de matá-lo. Fiz acusações baseado em tudo o que aconteceu... da história de McAllister à declaração de Babcock de que mandariam um grupo de execução à minha procura... até aquela voz anglicizada de gelo seco que me disse que parasse e desistisse de Medusa ou me chamariam de louco e me internariam num hospício. Nada disso pode ser negado. Aconteceu e estou ameaçando denunciar tudo, inclusive Medusa.

— Pois então vamos passar para a grande mentira — disse Conklin. servindo mais café. — Uma saída tão discreta que vai lançar tudo e todos na maior confusão.

— Como?

— Ainda não sei. Teremos de pensar a respeito. Deve ser algo totalmente inesperado, algo que vai desnortear os estrategistas... quem quer que sejam. O instinto me diz que em algum ponto eles perderam o controle. Se estou certo, um deles terá de fazer contato.

— Pois então pegue suas anotações — insistiu David. — Comece a analisá-los e descubra cinco ou seis pessoas que sejam competidoras lógicas.

— Isso pode levar horas, até mesmo dias. As barricadas estão levantadas e eu precisaria contorná-las. Não dispomos de tempo... você não dispõe de tempo.

— Tem de haver tempo! Comece a agir!

— Há um meio melhor, David. Panov o indicou a você.

— Mo?

— Sim. Os registros no Departamento de Estado... os registros oficiais.

— Os registros...? — David esquecera momentaneamente, o que não acontecera com Conklin. — Como assim?

— É por onde começaram a criar o novo arquivo sobre você. Entrarei em contato com a Segurança Interna com outra versão, pelo menos uma variação que pedirá respostas de alguém... se é que estou certo, se é que a coisa perdeu o fio. Os registros não passam de um instrumento, apenas registram, não confirmam a acurácia. Mas o pessoal da segurança responsável pelos registros vai disparar os foguetes se pensar que houve alguma interferência no sistema. E farão o trabalho por nós... Ainda assim, precisamos da mentira.

— Alex... —murmurou David, inclinando-se para a frente, em sua cadeira diante do sofá comprido e velho. — Há poucos momentos você usou o termo “saída”...

— Significa simplesmente uma interferência no roteiro, um rompimento do padrão.

— Sei o que significa... mas o que me diz de usarmos aqui literalmente? Não uma mera “saída”, mas uma ‘fuga”. Estão me chamando de patológico, esquizofrênico... isso significa que

fantasio, às vezes digo a verdade e às vezes não, supostamente não sou capaz de perceber a diferença.

— É exatamente o que estão dizendo — confirmou Conklin. — Alguns podem até acreditar. E daí?

— Por que não levamos até o fim? Diremos que Marie fugiu, conseguiu escapar. Entrou em contato comigo e estou indo encontrá-la.

Alex franziu o rosto, depois os olhos foram se arregalando gradativamente, as rugas desaparecendo.

— É perfeito — murmurou ele. — É simplesmente perfeito! A confusão vai se espalhar como fogo em mato seco. Em qualquer operação tão profunda, apenas dois ou três homens estão a par de todos os detalhes. Os outros são mantidos na ignorância. Pode imaginar algo assim? Um seqüestro sancionado oficialmente! Uns poucos no núcleo podem entrar em pânico e colidir entre si, tentando salvar a pele. Muito bom, Sr. Bourne.

Estranhamente, David não se ressentiu com o comentário, limitou-se a aceitá-lo, sem pensar.

— Estamos ambos exaustos — disse ele, levantando-se. — Sabemos para onde estamos indo. Assim, vamos dormir um pouco e repassar tudo pela manhã. Você e eu aprendemos há muitos anos a diferença entre um pouco de sono e absolutamente nenhum.

— Vai voltar para o hotel?

— Claro que não — respondeu David, contemplando o rosto pálido e contraído do homem da CIA. — Só quero que me arrume um cobertor. Ficarei aqui mesmo, na frente do bar.

— Deveria também ter aprendido quando não precisa se preocupar com algumas coisas — comentou Alex, levantando-se do sofá e claudicando em direção a um armário embutido perto do pequeno vestíbulo. —Se esta vai ser minha última aventura... de um jeito ou de outro... darei o melhor de mim. Pode até servir para me definir algumas coisas.

Ele virou-se, depois de pegar um cobertor e um travesseiro no armário, e acrescentou:

— Acho que se pode classificar de um estranho pressentimento, mas sabe o que fiz ontem à noite, depois do trabalho?

— Claro que sei. Entre outras pistas, há um copo quebrado no chão.

— Antes disso.

— O que foi?

— Passei por um supermercado e comprei uma tonelada de comida. Carne, ovos, leite... até mesmo aquele grude que chamam de mingau de aveia. Nunca faço isso.

— Estava precisando de uma tonelada de comida. Isso acontece.

— Quando acontece, vou a um restaurante.

— Onde está querendo chegar?

— Você dorme; o sofá é bastante grande. Eu vou comer. Quero pensar mais um pouco. Farei um bife, talvez alguns ovos.

— Precisa dormir.

— Duas horas ou duas e meia serão suficientes. E depois provavelmente comerei um pouco daquele horrível mingau de aveia.

Alexander Conklin atravessou o corredor do quarto andar do Departamento de Estado, o claudicar reduzido pela pura força de vontade, a dor maior por causa disso. Sabia o que estava lhe acontecendo: tinha um trabalho pela frente que queria muito realizar bem, até mesmo de forma brilhante, se é que a expressão ainda tinha alguma relevância para ele. Alex compreendia que meses de abuso como sangue e o corpo não podiam ser superados em poucas horas, mas podia convocar alguma coisa do seu íntimo. Era um senso de autoridade, misturado com uma ira justificada. Ah, que ironia! Um ano antes ele queria destruir o homem que chamavam de Jason Bourne; agora, era uma obsessão repentina e crescente ajudar David Webb... porque erradamente tentara matar Jason Bourne. Sabia que essa atitude poderia lançá-lo numa situação sem salvação, mas era certo que assumisse o risco. Talvez a consciência nem sempre produzisse covardes. Às vezes fazia um homem se sentir melhor consigo mesmo.

E também parecer melhor, refletiu ele. Forçara-se a andar muito mais quarteirões do que deveria, deixando que o frio vento de outono nas ruas acrescentasse alguma cor a seu rosto, o que há anos não acontecia. Combinando com a barba bem feita e um terno listrado devidamente passado que há meses não usava, não tinha agora muita semelhança com o homem que David encontrara na noite anterior. O resto era representa-

ção, ele sabia disso também, enquanto se aproximava das sacrossantas portas do Chefe de Segurança Interna do Departamento de Estado.

Pouco tempo se perdeu em formalidades, ainda menos em conversa informal. A pedido de Conklin — leia-se exigência da Agência —, um assessor saiu da sala. Ele fitou o rude general que fora do G-2 do Exército e agora comandava a Segurança Interna do Departamento de Estado. Alex tencionava assumir o controle com suas primeiras palavras.

— Não estou aqui numa missão diplomática entre serviços, General... é General, não é mesmo?

— Ainda sou chamado assim.

— Por isso, não estou preocupado em ser diplomático, entende?

— Entendo pelo menos que estou começando a não gostar de você.

— Eis aí algo que não me preocupa absolutamente. O que me interessa é um homem chamado David Webb.

— O que há com ele?

— O fato de reconhecer o nome tão prontamente não é muito tranqüilizador. O que está acontecendo, General?

— Quer um megafone, idiota?

— Quero respostas, Cabo... é isso o que você e este serviço são para nós.

— Tome cuidado, Conklin. Quando me telefonou, com sua suposta emergência e a devida confirmação, resolvi fazer algumas consultas. Essa sua grande reputação anda um pouco cambaleante hoje em dia, e uso o termo com perfeito cabimento. Não passa de um bêbado e isso não é segredo para ninguém. Assim, tem menos de um minuto para dizer o que quer, antes de ser expulso. E pode escolher.., o elevador ou a janela.

Alex calculara a probabilidade de o fato de beber ser telegrafada. Fitou nos olhos o chefe da Segurança Interna e falou calmamente, até suavemente:

— General, vou responder a essa acusação com uma frase. Se algum dia chegar aos ouvidos de outra pessoa, saberei de onde partiu, e a Agência também saberá. — Conklin fez uma pausa, os olhos penetrantes. — Nossos perfis são muitas vezes o que queremos que sejam, por motivos que não podemos reve-

lar. Tenho certeza de que compreende o que estou querendo dizer.

O homem do Departamento de Estado sustentou o olhar de Alex com uma expressão relutantemente compreensiva.

— Essa não! — murmurou ele. — Costumávamos promover a desonra dos homens que mandávamos para Berlim.

— Muitas vezes por sugestão nossa — confirmou Conklin, acenando com a cabeça. — E isso é tudo o que falaremos do assunto.

— Está certo. Eu estava alheio ao assunto, mas posso garantir que o perfil projetado está dando certo. Fui informado por um dos seus subdiretores que era melhor me manter a distância de meia sala do seu bafo.

— Nem mesmo quero saber quem foi, General, porque posso rir na cara dele. Se quer saber a verdade, eu não bebo.

Alex experimentou uma compulsão infantil de cruzar os dedos fora de vista, as pernas ou até os dedos dos pés. Mas nenhum método lhe ocorreu no momento, e ele acrescentou bruscamente, a voz inflexível:

— Vamos voltar a David Webb.

— Qual é seu interesse?

— Meu interesse? Minha vida, soldado! Alguma coisa está acontecendo e quero saber o que é. O filho da puta entrou à força em meu apartamento ontem à noite e ameaçou me matar. Fez algumas acusações absurdas, indicando homens de sua folha de pagamento, como Harry Babcock, Samuel Teasdale e William Lanier. Fomos conferir. Eles estão em sua divisão de operações secretas, em plena ação. Afinal, o que eles fizeram? Um deles chegou a declarar que mandariam um grupo de execução à procura de Webb. Mas como alguém pode falar assim? Outro lhe disse que voltasse para o hospital... ele esteve em dois hospitais e em nossa clínica conjunta muito particular na Virginia... nós todos o internamos lá... e saiu com a ficha limpa. Também tem alguns segredos na cabeça que nenhum de nós quer que sejam divulgados. O problema é que esse homem está prestes a explodir por causa de alguma coisa que vocês, seus idiotas, fizeram, deixaram acontecer ou fecharam os olhos quando ocorreu. Ele alega que tem provas de que vocês voltaram à sua vida e a viraram pelo avesso, que lhe prepararam uma armadilha e levaram o que ele tinha de mais precioso.

— Mas qual é a prova? — indagou o aturdido general.

— Ele falou com a esposa — respondeu Conklin, a voz subitamente sem qualquer inflexão.

— E daí?

— Ela foi tirada de casa por dois homens que a doparam e meteram num jato particular, levando-a para a Costa do Pacífico.

— Está querendo dizer que ela foi seqüestrada?

— Exatamente. E o que deve deixar vocês preocupados é que ela ouviu os dois homens conversando com o piloto e concluiu que toda a história suja tinha alguma relação com o Departamento de Estado... por motivos desconhecidos... houve até menção ao nome de McAllister. Para sua informação, ele é um dos subsecretários para o Extremo Oriente.

— Mas isso é uma loucura!

— E vai ser mais do que uma loucura... para todos nós. Ela escapou durante uma escala para reabastecimento em San Francisco. Foi quando entrou em contato com Webb no Maine. Ele está indo encontrá-la... só Deus sabe onde... e é melhor que vocês providenciem algumas boas respostas, a menos que possam provar que o homem é um lunático e que talvez tenha matado a mulher... e torço para que possam... que não houve nenhum seqüestro... e sinceramente espero que não tenha havido.

— Ele é mesmo doido! — exclamou o chefe da Segurança Interna do Departamento de Estado. — Li os registros. Tinha de ler... alguém ligou ontem à noite para falar sobre esse Webb. Não me pergunte quem, pois não posso revelar.

— Mas o que está acontecendo afinal? — indagou Conklin, inclinando-se através da mesa, as má na beirada, tanto para se apoiar quanto para aumentar o efeito.

— Ele é paranóico! O que mais posso dizer? Inventa coisas e acredita nelas.

— Não foi isso que os médicos do governo concluíram — comentou Conklin, friamente. —Acontece que sei alguma coisa a respeito.

— Mas eu não sei de nada!

— E provavelmente nunca saberá. Mas como membro sobrevivente da operação Casa de Pedra, procure alguém que possa me dizer as palavras certas e me deixar tranqüilo. Alguém por aqui abriu uma lata de vermes que precisamos tampar o mais depressa possível.

Conklin tirou do bolso um caderninho de anotações e uma caneta esferográfica; escreveu um número, rasgou a folha e largou-a na mesa.

— É um telefone seguro; uma verificação só levaria a um endereço falso. — Os olhos de Conklin eram duros, a voz firme, o ligeiro tremor contribuindo para torná-la ainda mais ameaçadora. — Deve ser usado entre três e quatro horas desta tarde, em nenhum outro momento. Providencie para que alguém entre em contato comigo. Não quero saber quem vai ser ou como você vai fazer. Talvez tenha de convocar uma de suas famosas conferências de política, mas quero respostas... nós queremos respostas.

— Pode estar completamente enganado, e sabe disso!

— Espero que tenha razão. Mas se eu não estiver, vocês aqui vão ser crucificados... e de maneira impiedosa... por entrarem em território proibido.

David estava grato por haver tantas coisas a fazer, pois sem isso poderia mergulhar num limbo mental e ficar paralisado pela tensão de saber tanto e ao mesmo tempo tão pouco. Depois que Conklin partira para Langley, ele voltara ao hotel e iniciara a lista inevitável. Listas contribuíam para acalmá-lo; eram preliminares à atividade necessária e o forçavam a se concentrar em questões específicas, em vez de pensar nos motivos de cada escolha. Remoer as razões entrevaria sua mente tão gravemente quanto a mina aleijara o pé direito de Conklin. Também não podia pensar em Alex, pois havia incontáveis possibilidades e impossibilidades. Nem podia telefonar para o seu antigo inimigo. Conklin era meticuloso; era de fato o melhor. O ex-estrategista projetava cada ação e a subseqüente reação. Sua primeira conclusão fora a de que, minutos depois de ligar para o chefe da Segurança Interna do Departamento de Estado, outros telefones seriam usados e dois seriam indubitavelmente grampeados. Ambos seus. O do apartamento e o telefone que usava em Langley.

Por isso, a fim de evitar quaisquer interrupções ou interceptações, ele não tencionava voltar ao escritório. Iria se encontrar com David mais tarde, trinta minutos antes de sua partida para Hong Kong.

— Acha que chegou aqui sem que ninguém o seguisse? — ele dissera a David. — Não tenho tanta certeza. Eles estão programando-o e sempre que alguém aperta um teclado fica de olho no número constante.

— Quer fazer o favor de falar inglês? Ou mandarim? Posso entender essas línguas, não essa merda que você fala.

— Podem ter posto um microfone debaixo de sua cama. Só espero que você não seja de falar dormindo.

Não haveria contato até se encontrarem no saguão do Aeroporto DulIes. Era por isso que David se encontrava agora numa loja de malas na Wyoming Avenue. Comprou uma grande bolsa de viagem, a fim de substituir sua mala; já se descartara da maior parte das roupas que trouxera. Coisas — precauções — estavam lhe voltando, entre as quais o risco injustificado de esperar na área de bagagem de um aeroporto. Como queria o anonimato maior da classe econômica, era melhor duas peças de bagagem. Compraria o que precisasse onde quer que estivesse, o que significava que precisava de bastante dinheiro, para isso e quaisquer emergências. Esse fato determinou sua parada seguinte, um banco na Rua 14.

Um ano atrás, enquanto os investigadores do governo examinavam o que restava de sua memória, Marie retirara discretamente os fundos que David deixara no Gemeinschaft Bank, em Zurique, bem como o dinheiro que ele transferira para Paris como Jason Bourne. Despachara o dinheiro para as Ilhas Caimãs, onde conhecia um banqueiro canadense, abrindo uma conta convenientemente confidencial. Considerando o que Washington fizera com seu marido —os danos à sua mente, o sofrimento físico e quase a perda da vida, porque muitos homens se recusa ram a ouvir os seus pedidos de socorro —, Marie não estava exigindo tanto assim do governo. Se David decidisse iniciar um processo —o que, apesar de tudo, não estava fora de cogitação —, qualquer advogado esperto arrancaria nos tribunais uma indenização superior a dez milhões de dólares, não apenas cinco milhões.

Ela expusera seus pensamentos sobre uma possível indenização a um extremamente nervoso subdiretor da CIA. Não discutira os fundos desaparecidos, a não ser para comentar que, com o seu treinamento financeiro, sentia-se consternada por saber que tão pouca proteção era dispensada aos dólares arduamente ganhos dos contribuintes americanos. Formulara a crítica com voz chocada, embora gentil, mas seus olhos diziam outra coisa. Deixara evidente que se tratava de uma mulher muito inteligente e altamente motivada, e seu recado fora entendido. Homens mais sábios e cautelosos perceberam a lógica de suas especulações e concluíram que era melhor esquecer o assunto. Os fundos estavam sob o código ultra-secreto, apenas para apropriações de emergência.

Sempre que precisavam de um dinheiro extra — para uma viagem, um carro, a casa — Marie ou David telefonava para o banqueiro nas Caimãs, que transferia um crédito para alguma das cinco dúzias de bancos correspondentes na Europa, Estados Unidos, Ilhas do Pacífico e Extremo Oriente, com exceção das Filipinas.

De uma cabine telefônica na Wyoming Avenue, David fez uma ligação a cobrar, espantando um pouco o banqueiro amigo pela quantia que queria imediatamente e os fundos que precisava ter disponíveis em Hong Kong. A ligação a cobrar custou menos de oito dólares; o dinheiro a ser transferido passava de meio milhão de dólares.

— Posso presumir, David, que minha querida amiga, a sábia e gloriosa Marie, aprova a operação?

— Foi ela quem me pediu que ligasse para você. Disse que não pode perder tempo com insignificâncias.

— É típico dela. Os bancos que vai usar serão...

David transpôs as portas de vidro grosso do banco na Rua 14 e passou vinte irritantes minutos com um vice-presidente que tentou ao máximo tornar-se um amigo instantâneo, e saiu com cinqüenta mil dólares, quarenta mil em notas de quinhentos e o resto misturado.

Pegou um táxi e seguiu para um apartamento em North West, onde vivia um homem que conhecera em seus dias como Jason Bourne, um homem que fizera um trabalho extraordinário para Casa de Pedra 71 do Departamento de Estado. Era um preto de cabelos prateados que fora motorista de táxi até o dia em que um passageiro deixara uma câmara Hasselblad em seu carro e nunca a reclamara. Por vários anos, o motorista experimentara e acabara encontrando a sua verdadeira vocação. Em termos simples, ele era um gênio em “alteração” — sua especialidade eram passaportes, carteiras de motorista com fotografia e outros documentos de identidade para os que se encontravam em conflito com a lei, especialmente com prisão decretada. David não se lembrara do homem, mas sob a hipnose de Panov dissera o seu nome — por mais improvável que pudesse parecer, era Cactus — e Mo levara o fotógrafo à Virginia, a fim de ajudar a reavivar uma parte da memória de David. Na primeira visita, transpareceram afeição e preocupação nos olhos do preto idoso. Embora lhe fosse bastante inconveniente, ele pedira permissão a Panov para visitar David uma vez por semana.

— Por que, Cactus?

— Ele está perturbado, senhor. Percebi isso através da lente há cerca de dois anos. Alguma coisa está faltando nele, mas apesar disso é um bom homem. Posso conversar com ele. E gosto dele, senhor.

— Venha quando quiser, Cactus. E, por favor, acabe com esse negócio de “senhor”. Reserve esse privilégio para mim... senhor.

— Puxa, como os tempos mudam. Chamo um dos meus netos de um bom negrinho e ele quer me arrebentar a cabeça.

— E bem que deveria... senhor.

David saltou do táxi e pediu ao motorista para esperar, mas ele recusou. David deu-lhe uma gorjeta mínima e subiu o caminho de pedra coberto de plantas, que levava à velha casa. Sob alguns aspectos, fazia-o lembrar da casa no Maine, muito grande, muito frágil e precisando de reparos. Ele e Marie haviam decidido comprar uma casa na praia assim que passasse um ano; não ficaria bem um professor-associado recém-nomeado se instalar no distrito mais caro. Tocou a campainha.

A porta foi aberta, e Cactus, estreitando os olhos por baixo de uma pala verde, cumprimentou-o casualmente, como se estivessem se encontrando a todo instante.

— Tem calotas no seu carro, David?

— Não estou de carro nem de táxi, O motorista não quis esperar.

— Deve ter ouvido todos aqueles rumores infundados espalhados pela imprensa fascista. Não dou importância às histórias. Só tenho três metralhadoras nas janelas. Vamos, entre logo. Tenho sentido saudade. Por que não telefonou para este velho amigo?

— Seu número não está na lista, Cactus.

— Deve ter havido um esquecimento.

Conversaram por vários minutos na cozinha de Cactus, por tempo suficiente para que o fotógrafo-especialista compreendesse que David estava com pressa. O velho levou David para seu estúdio, colocou seus três passaportes sob uma lâmpada para estudá-los e instruiu ao cliente para sentar na frente de uma câmara com a lente aberta.

— Vamos tornar os cabelos mais claros, mas não tão louro como você ficou depois de Paris. A tonalidade varia com a claridade, e podemos usar as mesmas fotos dessas coisinhas com diferenças consideráveis... ainda conservando o rosto. Vamos deixar as sobrancelhas de lado, pois acabaria virando a maior confusão.

— E os olhos?

— Não há tempo para aquelas lindas lentes de contato que arrumaram para você antes, mas podemos dar um jeito. Há óculos comuns com os prismas certos coloridos nos lugares certos. Você fica com olhos azuis, castanhos ou pretos, como quiser.

— Quero os três.

— São bem caros, David... e só com dinheiro na mão.

— Tenho bastante comigo.

— Então não deixe a notícia se espalhar.

— Agora, os cabelos. Quem?

— Nesta mesma rua. Uma sócia minha que tinha um salão de beleza até que os tiras resolveram verificar os quartos por cima. Ela faz um bom trabalho. Vou levá-lo até lá.

Uma hora mais tarde, David saiu de baixo de um secador de cabelos no cubículo pequeno e bem-iluminado, contemplando os resultados no espelho grande. A proprietária do estranho salão, uma preta baixa com cabelos grisalhos impecáveis e olhos avaliadores, postou-se ao seu lado.

— É você, mas não é você — comentou ela, primeiro acenando com a cabeça e depois sacudindo-a. — Devo reconhecer que foi um bom trabalho.

Realmente, concluiu David, observando-se atentamente. Os cabelos escuros estavam agora não apenas muito mais claros, mas também combinavam com a tonalidade da pele de seu rosto. Além disso, os cabelos pareciam ter agora uma textura mais leve, uma aparência arrumada mas também casual... um penteado elegante e informal, como diziam os anúncios. O homem que contemplava era ao mesmo tempo ele próprio e outra pessoa que tinha uma semelhança extraordinária... mas não era ele.

— Concordo plenamente — murmurou David. — Está muito bom. Quanto?

— Trezentos dólares. Isso inclui, é claro, cinco pacotes de xampu especial com instruções para o uso e a boca mais fechada de Washington. A primeira coisa vai durar por uns dois meses, a outra, pelo resto de sua vida.

— Você é maravilhosa. —David tirou do bolso o prendedor de dinheiro de couro, contou as notas e entregou-as. — Cactus disse que você ligaria para ele quando acabássemos.

— Não há necessidade. Ele calculou bem o tempo. Está na sala de visitas.

— Sala de visitas?

— Na verdade não passa de um corredor com um sofazinho e um abajur, mas gosto de chamar de sala de visitas. Não acha que soa mais simpático?

A sessão de fotografia correu depressa, interrompida por Cactus para alterar as sobrancelhas com uma escova de dentes e um spray para as três fotos separadas, para a mudança de camisa e paletó — o preto idoso tinha um guarda-roupa à altura de uma loja de aluguel de roupas — e finalmente para dois óculos diferentes, de aros de tartaruga e aros de aço, que alteraram seus olhos castanho-claros respectivamente para azuis e castanho-escuros, para dois dos passaportes. Depois, como um cirurgião meticuloso, o especialista tratou de ajustar as fotos em seus lugares, efetuando as perfurações originais do Departamento de Estado com extrema habilidade, sob uma enorme lente de aumento, usando um instrumento de sua invenção. Ao terminar, entregou os três passaportes para aprovação de David.

— Não há nenhum inspetor da alfândega que possa pegar esses passaportes — comentou Cactus, confiante.

— Parecem mais autênticos do que antes.

— Fiz uma limpeza, o que significa que acrescentei alguns vincos e um pouco de envelhecimento.

— Um trabalho sensacional, velho amigo... mais velho do que posso me lembrar, e sei disso. Quanto lhe devo?

— Não tenho a menor idéia. Foi um trabalho pequeno e tem sido um ano muito bom, com toda essa confusão por aí...

— Quanto, Cactus?

— O que acha que está bom? Não sei como você está na folha de pagamento de Tio Sam.

— Estou muito bem, obrigado.

— Quinhentos está ótimo.

— Pode me chamar um táxi?

— Demora muito e ainda se tem de torcer para que o motorista venha até aqui. Meu neto está à sua espera. Vai levá-lo para onde quiser. Ele é como eu, não faz perguntas. E você está com pressa, David, dá para perceber. Vamos embora. Eu o acompanharei até a porta.

— Obrigado. Deixarei o dinheiro aqui no balcão.

— Está certo.

Tirando o dinheiro do bolso, de costas para Cactus, David contou seis notas de quinhentos dólares e deixou-as no lado mais escuro do balcão do estúdio. Os passaportes a mil dólares cada eram uma pechincha, mas deixar mais do que isso poderia ofender o velho amigo.

David voltou ao hotel, deixando o carro a vários quarteirões de distância, no meio de um cruzamento movimentado, a fim de que o neto de Cactus não ficasse comprometido por um endereço. O rapaz estava cursando a Universidade Americana; embora obviamente adorasse o avó, era também óbvio que estava apreensivo com seu envolvimento nas atividades do velho.

— Vou saltar aqui — disse David, no tráfego engarrafado.

— Obrigado — murmurou o jovem preto, a voz calma

e jovial, os olhos inteligentes demonstrando alívio. — Não sabe como agradeço.

David fitou-o nos olhos.

— Por que fez isso? Afinal, para alguém que vai ser advogado, acho que deveria estar com as antenas ligadas em torno de Cactus o tempo todo.

— E estou, constantemente. Mas ele é um velho sensacional, que tem feito muito por mim E ainda me disse uma coisa. Falou que seria um privilégio para mim conhecer você, que talvez daqui a alguns anos ele me conte quem era o estranho em meu carro.

— Espero poder voltar muito mais cedo e lhe contar pessoalmente. Não creio que eu seja um privilégio, mas há uma história para contar que pode acabar nos livros jurídicos. Adeus.

De volta ao quarto no hotel, David enfrentou uma lista final, que não precisava ser escrita, pois já conhecia todos os itens. Tinha que selecionar as poucas roupas que levaria na bolsa grande de vôo e livrar-se de todo o resto, inclusive das duas armas que trouxera do Maine, em sua indignação. Uma coisa era desmontar armas e embrulhar as peças em papel laminado, outra muito diferente era conduzi-las por um portão de segurança. Seriam descobertas; ele seria detido. Tinha de limpá-las meticulosamente, destruir os percussores e largá-las num ralo de esgoto. Compraria uma arma em Hong Kong; não seria difícil.

Havia uma última coisa que precisava fazer, uma coisa angustiante. Tinha de se forçar a sentar e reconstituir tudo o que fora dito por Edward McAllister naquele início de noite no Maine... tudo o que haviam falado, especialmente as palavras de Marie. Alguma coisa estava enterrada em algum ponto daquela hora tensa de revelação e confrontação e David sabia que a perdera... e continuava perdendo.

Olhou para o relógio. Eram três e trinta e sete; o dia estava passando depressa, nervosamente. Ele precisava manter o controle. Oh, Marte, onde você está?

Conklin pôs o copo com ginger ale pura no balcão sujo e escalavrado do bar imundo na Rua 9. Era um freguês habitual pelo simples motivo de que ninguém em seu círculo profissional — e no que restava do círculo social — jamais passaria por aquelas portas de vidro. Havia uma certa liberdade no conhecimento e os outros fregueses aceitavam-no, o “manco” que sempre tirava a gravata no momento em que entrava, claudicando até um banco ao lado da máquina de pinball, na extremidade do balcão. E sempre que isso acontecia, havia um copo grosso cheio de bourbon à sua espera. Além disso, o proprietário-bartender não tinha objeções quanto a Alex receber telefonemas na cabine antiquada junto à parede. Era o seu “telefone seguro”, e estava tocando agora.

Conklin arrastou-se pelo assoalho, entrou na velha cabine, fechou a porta e tirou o fone do gancho.

— Alô?

— É da Casa de Pedra? —perguntou uma voz de homem, com sotaque estranho.

— Eu estive lá. Você também?

— Não, não estive, mas tenho acesso a todo o arquivo, a toda a confusão.

A voz!, pensou Alex. Como David a descrevera? Anglicizada? Um sotaque do meio-atlântico, refinada, certamente não tinha nada de vulgar. Era o mesmo homem. Os gnomos tinham trabalhado; eles haviam feito algum progresso. Alguém estava com medo.

— Nesse caso tenho certeza de que sua memória pode lembrar tudo o que registrei, pois eu estive lá e escrevi tudo... do princípio ao fim. Fatos, nomes, eventos, circunstâncias, antecedentes... tudo mesmo, inclusive a história que Webb me contou ontem à noite.

— Então posso presumir que se alguma coisa terrível acontecer, seu volumoso relatório pode acabar num subcomitê do Senado ou com uma matilha de cães de guarda da Câmara dos Representantes. Estou certo?

— Fico contente que possamos nos compreender.

— Não vai adiantar coisa alguma — comentou o homem, condescendente.

— Se alguma coisa terrível acontecer, eu não me importaria, não é mesmo?

— Está prestes a se aposentar. E bebe muito.

— Nem sempre. Há geralmente um motivo para as duas coisas em se tratando de um homem da minha idade e competência. Não poderiam estar ligadas a um determinado arquivo?

— Esqueça. Vamos conversar.

— Não antes de você dizer alguma coisa mais próxima. Afinal, Casa de Pedra vazou aqui e ali. A referência não é substantiva.

— Está certo. Medusa.

— Mais forte... mas ainda não o suficiente.

— Muito bem. A criação de Jason Bourne. O Monge.

— Mais quente.

— Fundos desaparecidos... sem prestação de contas e jamais recuperados... estimados em torno de cinco milhões de dólares. Zurique, Paris e outros pontos a oeste.

— Houve rumores. Preciso de uma pedra fundamental.

— Pois vou lhe dar. A execução de Jason Bourne. A data foi 23 de maio, em Tam Quan... e o mesmo dia, em Nova York, quatro anos depois. Na Rua 71. Casa de Pedra 71.

Conklin fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o vazio na garganta.

— Está certo — murmurou ele. — Você entrou no círculo.

— Não posso lhe dar meu nome.

— E o que vai dar?

— Uma palavra: Recue.

— Acha que vou aceitar?

— Tem de aceitar — disse a voz, as palavras incisivas. — Bourne é necessário no lugar para onde está indo.

— Bourne? — repetiu Alex, olhando fixamente para o aparelho.

— Isso mesmo, Jason Bourne. Ele não pode ser recrutado pelos meios normais, e ambos sabemos disso.

— E por isso seqüestram sua esposa? Mas que animais!

— Ela nada sofrerá.

— Não pode garantir isso. Não tem o controle absoluto da situação. Deve estar usando segundas e terceiras pessoas neste momento. Se bem conheço meu ofício... e pode estar certo de que conheço mesmo... eles provavelmente foram contratados no escuro, a fim de que ninguém possa chegar a vocês por intermédio deles. Nem mesmo sabe quem são... Oh, Deus, você não teria me telefonado se soubesse! Se pudesse entrar em contato com eles e obter as confirmações que deseja, não estaria falando comigo!

Houve uma pausa antes que a voz refinada voltasse a se manifestar:

— Então ambos mentimos, não é mesmo, Sr. Conklin? Não houve fuga da mulher, não houve telefonema para Webb. Não houve nada. Estava pescando e eu também, ambos acabamos de mãos vazias.

— É uma autêntica barracuda, Sr. Sem-Nome.

— Já passou por onde estou, Sr. Conklin. Inclusive por David Webb... E agora, o que pode me dizer?

Alex sentiu de novo o vazio na garganta, desta vez acompanhado por uma pontada de dor no peito.

— Você os perdeu, não é mesmo? — balbuciou ele. Perdeu a mulher.

— Quarenta e oito horas não é permanente — respondeu a voz, cautelosa.

— Mas vem tentando tudo para fazer contato! — acusou Conklin. — Chamou os seus condutos, o pessoal que contratou os cegos, e subitamente eles não estavam.., não pôde encontrá-los. Oh, Deus, você perdeu o controle! Perdeu o fio! Alguém interferiu em sua estratégia e não tem a menor idéia de quem seja. Ele entrou em seu roteiro e roubou-o de você!

— Nossas salvaguardas são amplas — protestou o homem, sem a convicção que demonstrara antes. — Os melhores homens no campo estão atuando em cada distrito.

— Inclusive McAllister? Em Kowloon? Hong Kong?

— Sabe disso?

— Sei.

— McAllister é um idiota, mas é bom no que faz. E é verdade, ele está lá. Não estamos em pânico. Vamos recuperar.

— Recuperar o quê?—indagou Alex, dominado pela raiva. — A mercadoria? Sua estratégia fracassou! Alguém mais está no comando. Por que ele lhe devolveria a mercadoria? Matou a mulher de Webb, Sr. Sem-Nome! O que pensava que estava fazendo?

— Queríamos apenas levá-lo até lá — respondeu a voz. na defensiva. — Explicar as coisas, mostrar a ele. Precisamos dele.

Ele parou de falar por um momento. Ao recomeçar, já estava outra vez sereno:

— E. pelo que sabemos, tudo ainda está ligado. As comunicações são notoriamente ruins naquela parte do mundo.

— Há desculpa para tudo neste negócio.

— Na maioria dos negócios, Sr. Conklin... Como interpreta a nova situação? Agora sou eu quem está perguntando... e com absoluta sinceridade. Tem alguma reputação.

— Tinha, Sem-Nome.

— Reputações não podem ser tiradas ou negadas, apenas aumentadas... em termos positivos ou negativos, é claro.

— É uma fonte de informações desautorizadas, e sabe disso.

— Também estou certo. Dizem que você era um dos melhores. Qual a sua interpretação?

Alex sacudiu a cabeça, dentro da cabine; o ar era abafado, o barulho do lado de fora do seu telefone “seguro” aumentava cada vez mais no bar miserável da Rua 9.

— O que eu disse antes. Alguém descobriu o que vocês estavam planejando... a pressão sobre Webb... e decidiu assumir o controle.

— Mas por quê?

— Porque essa pessoa, quem quer que seja, deseja Jason Bourne muito mais do que vocês — arrematou Alex, desligando em seguida.

Eram seis e vinte e oito quando Conklin entrou no saguão do Aeroporto Dulles. Esperara num táxi no final da rua do hotel de David e o seguira, dando instruções precisas ao motorista. Acertara em cheio, mas não havia sentido em sobrecarregar David com o conhecimento. Dois Plymouths cinzas seguiram o táxi de David, alternando as posições durante o percurso. Então era assim Um certo Alexander Conklin podia ser crucificado, mas também era possível que isso não acontecesse. As pessoas no Departamento de Estado estavam se comportando de maneira estúpida, pensou ele, enquanto anotava as placas dos Plymouths. Foi localizar David num reservado escuro no fundo do restaurante no aeroporto.

— É você, não é mesmo? — murmurou Alex, arrastando o pé morto para o banco. — É verdade que os louros se divertem mais?

— Deu certo em Paris. O que descobriu?

— Descobri vermes por baixo das pedras que não conseguem encontrar o caminho para a luz do dia. Mas também eles não saberiam o que fazer com a luz do sol, não é mesmo?

— A luz do sol ilumina, o que já não acontece com você. Corte as besteiras, Alex. Tenho de passar pelo portão dentro de poucos minutos.

— Em poucas palavras, eles criaram uma estratégia para atrair você a Kowloon. Baseava-se numa experiência anterior...

— Pode pular essa parte — interrompeu-o David. — Por quê?

— O homem disse que precisavam de você. Não de você... Webb. Precisavam de Bourne.

— Porque dizem que Bourne já se encontra lá. Relatei o que McAllister me contou. Ele entrou nisso?

— Não. Claro que não ia me entregar tanto, mas talvez eu possa usar a informação para pressioná-los. Mas ele me disse outra coisa, David, e você tem de saber. Não conseguem localizar seus condutos, e por isso não sabem quem são os cegos ou o que está acontecendo. Acham que é temporário, mas perderam Marie. Alguém mais quer você por lá e assumiu o controle.

David levou a mão à testa, os olhos fechados. Subitamente, em silêncio, as lágrimas rolaram por suas faces.

— Estou de volta, Alex. De volta a tanta coisa que não posso lembrar. Eu a amo muito e preciso demais dela!

— Pare com isso! — ordenou Conklin. — Você me deixou claro ontem à noite que eu ainda tinha uma mente, embora o corpo já não fosse a mesma coisa. Mas você tem as duas coisas. Aplique toda pressão neles!

— Como?

— Seja o que eles querem que se torne... seja o camaleão! Seja Jason Bourne!            

— Já tem tanto tempo...

— Você ainda é capaz de fazê-lo. Desempenhe o papel que lhe deram.

— Não tenho alternativa, não é mesmo?

Pelos alto-falantes, soou a última chamada do vôo 26 para Hong Kong.

Havilland, o de cabelos grisalhos, repôs o fone no gancho, recostou-se na cadeira e olhou para McAllister, no outro lado da sala. O subsecretário de Estado estava parado ao lado de um enorme globo terrestre a girar, empoleirado sobre um tripé todo ornamentado, na frente de uma estante. O dedo indicador estava pousado na região meridional da China, mas os olhos se fixavam no embaixador.

— Está feito —anunciou o diplomata. — Ele está no avião para Kowloon.

— Deus sabe que é uma coisa horrível — murmurou McAllister

— Sei que parece assim para você, mas deve avaliar as vantagens antes de fazer um julgamento. Estamos livres agora. Não somos mais responsáveis pelos eventos que ocorrerem. Estão sendo manipulados por uma parte desconhecida.

— Que somos nós! Repito: Deus sabe que é uma coisa horrível!

— Seu Deus considerou as conseqüências se fracassarmos?

— Somos dotados de livre-arbítrio. Somente nossa ética nos restringe.

— Uma banalidade, Sr. Subsecretário. Devemos pensar no bem maior.

— Há também um ser humano, um homem que.estamos manipulando, levando-o de volta a seus pesadelos. Acha que temos esse direito?

— Não temos alternativa. Ele é capaz de fazer o que ninguém mais pode... se lhe dermos um motivo para tal.

McAllister tornou a girar o globo, que ficou rodando enquanto ele se encaminhava para a mesa.

— Talvez eu não devesse dizê-lo, mas vou falar assim mesmo — murmurou ele, parando na frente de Raymond Havilland. — Acho que você é o homem mais imoral que já conheci.

— Uma questão de aparências, Sr. Subsecretário. Tenho uma graça salvadora que se sobrepõe a todos os pecados que já cometi. Farei qualquer coisa, assumirei as piores venalidades. a fim de impedir que este planeta exploda. E isso inclui a vida de um certo David Webb... conhecido no lugar em que eu o quero como Jason Bourne.

 

A neblina erguia-se como camadas de echarpes diáfanas sobre Victoria Harbor, enquanto o enorme jato circulava, no acesso final ao Aeroporto Kai-tak. O nevoeiro do início da manhã era denso, a promessa de um dia úmido na colônia. Lá embaixo, na água, os juncos e sampanas balançavam ao lado dos cargueiros, barcaças e barcas de vários níveis, além das patrulhas marítimas ocasionais que circulavam pelo porto. Enquanto o avião descia para o aeroporto de Kowloon, as fileiras irregulares de edifícios na ilha de Hong Kong adquiriram a aparência de gigantes de alabastro, estendendo-se pela neblina e refletindo os primeiros raios penetrantes do sol da manhã.

David estudou a paisagem lá embaixo, tanto como alguém sob uma terrível tensão quanto como um homem consumido por uma curiosidade estranhamente desligada. Marie estava em algum lugar daquele território fervilhante e superpovoado... esse era o seu pensamento predominante e a coisa mais angustiante em que pensar. Apesar disso, outra parte dele era como um cientista dominado por uma ansiedade fria, espiando pela lente embaçada de um microscópio, tentando discernir o que o olho e a mente pudessem compreender. O conhecido e o desconhecido se juntavam, e o resultado era a confusão e o medo. Durante as sessões com Panov na Virginia, David lera e relera centenas de folhetos de turismo ilustrados, descrevendo todos os lugares em que se sabia que o mítico Jason Bourne estivera; fora um exercício contínuo e muitas vezes doloroso de auto-sondagem. Fragmentos lhe ocorriam em relances de reconhecimento, mui tos eram breves e confusos demais, outros prolongados, as recordações súbitas espantosamente acuradas, as descrições suas, não as dos manuais dos agentes de viagens. Olhando para baixo agora, viu muito do que sabia que conhecia, mas não podia lembrar especificamente. Por isso, desviou os olhos e concentrou-se no dia que teria pela frente.

Telegrafara para o Regent Hotel em Kowloon, do Aeroporto Dulles, solicitando um quarto por uma semana, em nome de Howard Cruett, a identidade no refinado passaporte de olhos azuis de Cactus. E acrescentara: “Creio que já foram tomadas providências por nossa firma para a suíte seis-nove-zero, se estiver disponível. O dia da chegada está confirmado, o vôo não.”

A suíte estaria disponível. O que precisava descobrir era quem a tornara disponível. Seria o primeiro passo em direção a Marie. E antes, depois ou durante o processo, havia coisas para comprar... algumas seriam simples de comprar, outras não, mas não seria impossível descobrir até as mais inacessíveis. Aquela era Hong Kong, a colônia da sobrevivência e dos instrumentos de sobrevivência. Era também o único lugar civilizado do mundo em que as religiões floresciam, mas o único deus comumente reconhecido por crentes e descrentes era o dinheiro. Como Marie dissera:

— Não tem outra razão para existir.

A manhã morna recendia aos odores de uma humanidade apinhada e apressada; estranhamente, porém, os cheiros não eram desagradáveis. As calçadas estavam sendo freneticamente lavadas com mangueiras, o vapor se elevando dos pavimentos que secavam ao sol. A fragrância de ervas fervendo em óleo espalhava-se pelas ruas estreitas, saindo de carrocinhas e barracas clamando por atenção. Os ruídos se acumulavam, transformavam-se numa sucessão de crescendos constantes, exigindo aceitação e uma venda ou pelo menos uma negociação. Hong Kong era a essência da sobrevivência; era preciso trabalhar furiosamente, ou não se sobrevivia. Adam Smith estava superado e desatualizado; nunca poderia conceber um mundo assim. Escarnecia das disciplinas que ele projetara para uma economia de livre mercado; era uma loucura. Era Hong Kong.

David ergueu a mão para chamar um táxi, sabendo que já fizera isso antes, conhecendo as portas de saída para as quais se encaminhara depois da demora enfadonha na alfândega, convencido de que já passara pelas ruas por que o motorista o conduzia... não realmente lembrando, mas de certa forma conhecendo. Era ao mesmo tempo confortador e profundamente assustador. Conhecia e não conhecia. Era um fantoche sendo manipulado no palco de seu próprio espetáculo secundário e não sabia quem era o títere e quem o controlava.

— Foi um engano — disse David ao recepcionista, no outro lado do balcão de mármore oval, no meio do saguão do Regent. —Não quero uma suíte. Prefiro algo menor. Um quarto simples ou de casal servirá.

— Mas as providências já foram tomadas, Sr. Cruett — respondeu o desconcertado recepcionista, usando o nome no passaporte falso de David.

— Quem cuidou disso?

O jovem oriental verificou a assinatura na lista de reservas do computador.

— A reserva foi autorizada pelo assistente da gerência, Sr. Liang.

— Nesse caso, por cortesia, devo falar com o Sr. Liang, não é mesmo?

— Receio que será necessário. Não sei se há qualquer outra acomodação disponível.

— Não tem problema. Encontrarei outro hotel.

— é considerado um hóspede muito importante, senhor. Espere um instante que vou falar com o Sr. Liang. -

David acenou com a cabeça, enquanto o recepcionista, com a reserva na mão, passava por baixo do balcão na extremidade esquerda e atravessava apressado o saguão apinhado, a caminho de uma porta no outro lado. David correu os olhos pelo saguão opulento, que num certo sentido começava lá fora, no imenso pátio circular, com seus chafarizes altos, e estendia-se pelas elegantes portas de vidro, atravessando o chão de mármore para um semicírculo de janelas altas, de vidro fumê, por cima de  Victoria Harbor. A cena em constante movimento além era um acréscimo hipnótico à mise en scène do salão curvo na frente da parede de vidros de cor suave. Havia dezenas de mesinhas e sofás de couro, a maioria ocupada, com garçons e garçonetes uniformizados circulando de um lado para o outro. Era uma arena em que turistas e negociadores igualmente podiam contemplar o panorama do comércio do porto, apresentado à frente dos altos prédios da ilha de Hong Kong, à distância. A visão marinha lá fora era familiar a David, mas nada mais. Nunca antes estivera no interior daquele hotel extravagante; ou pelo menos nada do que via ali despertava-lhe qualquer lampejo de reconhecimento.

Subitamente, seus olhos foram atraídos para a visão do recepcionista atravessando o saguão apressado, vários passos à frente de um oriental de meia-idade, obviamente o assistente da gerência do Regent, Sr. Liang. O homem mais jovem tornou a passar por baixo do balcão e retomou sua posição na frente de David, os olhos obsequiosos se arregalando ao máximo que podiam, em expectativa. Segundos depois o executivo do hotel chegou, fazendo uma ligeira mesura de cintura como convinha à sua posição profissional.

— Este é o Sr. Liang, senhor — anunciou o recepcionista.

— Em que posso servi-lo? — disse o homem. — E posso acrescentar que é um prazer recebê-lo como nosso hóspede?

David sorriu e sacudiu a cabeça, polidamente.

— Infelizmente, talvez isso tenha de ficar para outra ocasião.

— Está insatisfeito com as acomodações que lhe foram reservadas, Sr. Cruett?

— Claro que não. E provavelmente até gostaria muito. Mas, como eu disse a seu jovem funcionário, prefiro aposentos menores, um quarto de solteiro ou mesmo de casal, mas não uma suíte. Contudo, fui informado de que talvez não haja qualquer outra coisa disponível.

— Seu telegrama mencionava expressamente a suíte seis- noventa, senhor.

— Sei disso e peço desculpas. Foi obra de um representante de vendas solícito demais. — David franziu o rosto, numa expressão amigável e inquisitiva, depois indagou, cortesmente: —  Por falar nisso, quem tomou as providências necessárias? Tenho certeza de que não fui eu.

— Talvez o seu representante — sugeriu Liang, os olhos evasivos.

— O representante de vendas? Ele não teria autoridade para tanto. Disse que foi uma das companhias daqui. Não podemos aceitar, é claro, mas eu gostaria de saber quem fez uma oferta tão generosa. Estou certo, Sr. Liang, já que autorizou pessoalmente a reserva, que pode me dar a informação.

Os olhos neutros tornaram-se mais distantes, depois piscaram; era o bastante para David, mas a farsa tinha de ser levada até o fim.

— Creio que um dos nossos funcionários... e temos muitos... veio me procurar com a solicitação, senhor. Há sempre muitas reservas, temos um movimento tão grande, que não posso me lembrar direito.

— Deve haver instruções sobre a conta.

— Temos muitos clientes honrados, cuja palavra pelo telefone é suficiente.

— Hong Kong mudou.

— Está sempre mudando, Sr. Cruett. É possível que seu anfitrião tencione lhe contar pessoalmente. Não seria apropriado que eu me intrometesse em tais desejos.

— Seu senso de confiança é admirável.

— Apoiado por um código de conta em nosso computador, naturalmente.

Liang ensaiou um sorriso; era falso.

— Já que não tem mais nada, vou ver se me arranjo por mim mesmo. Tenho amigos no Pen, no outro lado da rua — disse David, referindo-se ao reverenciado Peninsula Hotel

— Não será necessário. Podemos providenciar novas acomodações.

— Mas seu recepcionista disse...

— Ele não é o gerente-assistente do Regent, senhor.

Liang lançou um rápido olhar furioso ao jovem por trás do balcão, que se apressou em protestar, defensivo:

— A tela mostra que não há mais nada disponível!

— Cale-se! — Liang sorriu no instante seguinte, tão falso quanto antes, consciente de que indubitavelmente perdera a  parada junto com o controle. — Ele é muito jovem.., todos são jovens e inexperientes... mas muito inteligente, com muita boa vontade... Mantemos vários quartos em reserva para ocasiões de mal-entendidos.

Tornou a olhar para o recepcionista e falou asperamente, enquanto sorria:

— Ting, ruan-ji! — E continuou a falar, rapidamente, em chinês, cada palavra compreendida por um impassível David: —Preste atenção, seu frango sem osso! Não ofereça informações em minha presença, a menos que eu peça! Vai ser jogado na lata de lixo se fizer isso de novo. E agora ponha esse idiota no quarto dois-zero-dois. Está relacionado como reservado; tire- o da lista e tome todas as providências necessárias.

Liang, o sorriso artificial ainda mais acentuado, virou-se para David.

— É um quarto muito agradável, Sr. Cruett, com uma esplêndida vista do porto.

A disputa estava encerrada, e o vencedor minimizou a vitória com um agradecimento persuasivo.

— Muito obrigado — disse David, fitando os olhos do subitamente inseguro Liang. — Vai me poupar o trabalho de telefonar para toda a cidade, avisando às pessoas onde estou hospedado.

Ele parou, a mão direita parcialmente levantada, um homem prestes a continuar. David Webb estava agindo com base em um de vários instintos... instintos desenvolvidos por Jason Bourne. Sabia que era o momento de incutir medo.

— Quando fala em um quarto com uma esplêndida vista, presumo que está querendo dizer you hao jingse de fang jian. Estou certo? Ou meu chinês é muito ruim?

Liang ficou aturdido por um momento, antes de responder, suavemente:

— Eu não poderia formular de maneira melhor. O recepcionista providenciará tudo. Espero que aproveite bem sua estada conosco, Sr. Cruett.

— A satisfação deve ser medida pelos resultados, Sr. Liang. Este é um provérbio chinês muito antigo ou muito novo, não me lembro qual dos dois.

— Desconfio que é novo, Sr. Cruett. É ativo demais para

a reflexão passiva, que é a alma de Confúcio, como tenho certeza que sabe.

— Isso não é um resultado?

— É rápido demais para mim, senhor. — Liang fez uma mesura. — Se precisar de mais alguma coisa, não hesite em me procurar.

— Acho que não será necessário, mas de qualquer forma obrigado. Para ser franco, foi um vôo longo e desagradável, por isso vou pedir à telefonista para não completar as ligações até a hora do jantar.

— É mesmo? — A insegurança de Liang tornou-se acentuada demais; ele era um homem amedrontado. — Mas certamente, se houver alguma emergência...

— Não há nada que não possa esperar. E como não estou na suíte seis-noventa, a telefonista pode simplesmente dizer que sou esperado mais tarde. Não acha que é plausível? Estou muito cansado. Obrigado por tudo, Sr. Liang.

— Eu é que agradeço, Sr. Cruett.

Liang fez outra mesura, observando os olhos de David à procura de um último sinal. Não encontrou nenhum e virou-se depressa, nervosamente, voltando para sua sala.

Faça o inesperado. Confunda o inimigo, deixe-o surpreso. — Jason Bourne. Ou teria sido Alexander Conklin?

— É um ótimo quarto, senhor! — exclamou o aliviado recepcionista. — Tenho certeza de que vai ficar muito satisfeito.

— O Sr. Liang é muito atencioso. Eu gostaria de demonstrar meu agradecimento... e é o que farei, por sua ajuda. — David tirou do bolso o prendedor de dinheiro de couro, removeu discretamente uma nota de vinte dólares americanos. Estendeu a mão para um aperto, a nota escondida. — Quando o Sr. Liang encerra seu expediente?

O aturdido mas exultante recepcionista olhou para a direita e a esquerda enquanto falava, em frases desconexas:

— É muito gentil, senhor. Não é necessário, senhor, mas obrigado, senhor, O Sr. Liang deixa o escritório todas as tardes às cinco horas. Eu também saio a esta hora. Claro que continuaria se a gerência solicitasse, pois me esforço para fazer o melhor que posso, pela honra do hotel.

— Tenho certeza disso — comentou David. — E devo

acrescentar que o faz com muita competência. Minha chave, por favor. A bagagem deve chegar mais tarde. Atrasou por causa de uma troca de avião.

— Não tem problema, senhor!

David sentou na cadeira ao lado da janela, olhando através do porto para a ilha de Hong Kong. Nomes afloraram em-sua mente, acompanhados por imagens— Causeway Bay, Wanchai, Repulse Bay, Aberdeen, o Mandarin e, finalmente, tão nítido a distância, Victoria Peak, com sua vista impressionante de toda a colônia. Depois viu, em sua imaginação, as massas de humanidade circulando pelas ruas apinhadas, pitorescas e quase sempre sujas, os saguões e salões de hotéis sempre cheios, sob a luz suave dos lustres de ouro filigranado, os remanescentes bem-vestidos do império misturando-se relutantes com os emergentes empresários chineses... a velha coroa e o dinheiro novo precisavam chegar a um acordo... Vielas... Por algum motivo, vielas abarrotadas e desmanteladas entraram em foco. Vultos correndo pelos caminhos estreitos, esbarrando em gaiolas de passarinhos guinchando e cobras de vários tamanhos a se contorcerem... mercadorias de mascates nos degraus inferiores da escada do comércio no território. Homens e mulheres de todas as idades, de crianças a anciãos, estavam vestidos em trapos, uma fumaça densa e pungente se enroscava lentamente para cima, preenchendo o espaço entre os prédios em deterioração, difundindo a claridade, aumentando a aparência sinistra das paredes de pedras escuras, enegrecidas pelo uso e desuso. Viu tudo, e tudo possuía um significado, mas não podia compreender. Os detalhes específicos se esquivavam; não tinha pontes de referência, e era frustrante.

Marie estava por lá! Precisava encontrá-la! Levantou-se de um pulo, desesperado, querendo bater com a cabeça na parede, a fim de desanuviar a confusão. Mas sabia que não adiantaria... nada adiantaria, exceto o tempo, e não podia suportar a pressão do tempo. Tinha de encontrá-la, mantê-la, protegê-la, como Marie outrora o protegera, ao acreditar nele, quando ele próprio não acreditava. David passou pelo espelho por cima da cômoda e contemplou seu rosto pálido e desfigurado. Uma coisa era evidente. Precisava planejar e agir depressa, mas não como o homem que observava no espelho. Tinha de recorrer a tudo o que aprendera e esquecera como Jason Bourne. De algum lugar em seu íntimo, tinha de convocar o passado esquivo e confiar nos instintos não-lembrados.

Dera o primeiro passo; a ligação era sólida e sabia disso. De um jeito ou de outro, Liang lhe proporcionaria alguma coisa, provavelmente o nível mais baixo de informação, mas seria um começo... um nome, um lugar ou um ponto de correspondência, um contato inicial que levaria a outro e mais outro. O que precisava fazer era entrar em ação rapidamente, com tudo o que tivesse, sem dar tempo ao inimigo para manobrar, pressionar quem quer que alcançasse para posições de fala-e-sobrevive ou fica-calado-e-morre... e cumprir a ameaça. Para realizar qualquer coisa, no entanto, devia estar preparado. Tinha de comprar coisas, providenciar uma excursão pela colônia. Queria uma hora ou mais para observar do banco traseiro de um cano, desencavando da memória avariada qualquer coisa que pudesse.

Pegou uma lista telefônica do hotel, encadernada em couro vermelho, sentou-se na beira da cama e abriu-a, folheando as páginas rapidamente. O New World Shopping Centre, um complexo magnífico em cinco andares, reúne sob o mesmo teto os melhores produtos dos quatro cantos do mundo... Exagero à parte, o “complexo” ficava ao lado do hotel; serviria a seus propósitos. Limusines disponíveis. Temos uma frota de carros Daimlerier para alugar por hora ou por dia, para negócios ou passeio: turísticos. Por favor, entre em contato com a portaria. Disque 62. Limusines significavam também motoristas experientes, conhecedores dos caminhos confusos, das ruas secundárias, das estradas e dos padrões de tráfego de Hong Kong, Kowloon e dos Novos Territórios... e conhecendo ainda muitas outras coisas. Tais homens conheciam os prós e contras, as profundezas inferiores das cidades que serviam. A menos que estivesse enganado — e o instinto lhe dizia que não estava —, uma necessidade adicional seria atendida. Precisava de uma arma. E, finalmente, havia um banco no Distrito Central de Hong Kong que mantinha um acordo com uma instituição similar a milhares de quilômetros de distância, nas Ilhas Caimãs. Tinha de entrar nesse banco, assinar o que fosse necessário e sair com mais dinheiro do que qualquer homem são levaria em Hong Kong... ou em qualquer outro lugar do mundo, diga-se de passagem. Encontraria algum lugar para guardar o dinheiro, mas não em um banco, onde o horário de funcionamento limitava a sua disponibilidade. Jason Bourne sabia: Prometa a um homem sua vida e geralmente ele vai cooperar; prometa-lhe sua vida e muito dinheiro, e o efeito cumulativo levará à submissão total.

David pegou o bloco e o lápis ao lado do telefone, na mesinha-de-cabeceira; iniciou outra lista. As coisas pequenas assomavam-se maiores a cada hora que passava, e não lhe restavam muitas horas. Faltavam poucos minutos para as onze horas. O porto agora faiscava ao sol quase a pino. Tinha muitas coisas para fazer antes das quatro e meia, quando tencionava postar-se discretamente em algum lugar nas proximidades da saída dos empregados, dentro da garagem subterrânea do hotel, ou onde quer que descobrisse que poderia seguir e acuar o pálido Liang, sua primeira conexão.

Três minutos depois a lista estava pronta. Rasgou a folha, levantou-se da cama e foi pegar o paletó na cadeira. Abrupta- mente, o telefone tocou, rompendo o silêncio do quarto de hotel. David teve de fechar os olhos, contrair todos os músculos dos braços e da barriga, a fim de não correr para atender, esperando além da esperança pelo som da voz de Marie, mesmo como uma cativa. Não devia atender. Instinto. Jason Bourne. Não tinha controles. Se atendesse, ele passaria a ser o controlado. Deixou o telefone tocar, angustiado, enquanto atravessava o quarto e saía pela porta.

Passavam dez minutos de meio-dia quando voltou, carregando diversas bolsas de plástico fino de várias lojas do centro comercial. Largou as bolsas na cama e começou a retirar as compras. Entre os artigos, havia uma capa escura e leve, um chapéu de lona escuro, um par de tênis cinzentos, uma calça preta e um blusão também preto; eram as roupas que usaria à noite. Havia outras coisas: um rolo de linha de pesca com resistência para trinta e três quilos, com dois anzóis do tamanho da palma da mão, através dos quais se podia passar um pedaço de um metro da linha e prender nas duas extremidades, um peso de papel de meio quilo, no formato de um haltere em miniatura, de latão, um furador de gelo e um facão de caça com bainha, bastante afiado, gume duplo, com uma lâmina estreita de dez centímetros. Essas eram as armas silenciosas que levaria sempre, de dia e à noite. Só restava providenciar mais um item; haveria de encontrá-lo.

Enquanto estudava as compras, concentrado nos anzóis e na linha de pesca, David tornou-se consciente de um piscar de luz pequeno e sutil. Pisca, pára... pisca, pára. Era desconcertante, porque não podia localizar a fonte; como acontecia com tanta freqüência, teve de especular se havia mesmo uma fonte ou se a intromissão era apenas uma aberração de sua mente. E depois seus olhos foram atraídos para a mesinha-de cabeceira; os raios do sol entravam pelas janelas abertas para o porto, derramando-se sobre o telefone, mas a luz pulsante estava ali, no canto inferior esquerdo do aparelho... quase imperceptível, mas ali. Era o sinal de mensagem, um pequeno ponto vermelho que brilhava por um segundo, escurecia por um segundo, depois voltava a piscar, sempre nesses intervalos. Uma mensagem não era uma ligação, refletiu David. Foi até a mesa, estudou as instruções no cartão de plástico e depois pegou o fone; apertou o botão apropriado.

— Pois não, Sr, Cruett? — disse a telefonista, de sua mesa computadorizada.

— Há alguma mensagem para mim?

— Há, sim, senhor. O Sr. Liang está tentando localizá-lo...

— Pensei que minhas instruções tivessem sido claras — interrompeu-a David. — Não deveria haver ligações até que eu desse uma contra-ordem à mesa.

— Desculpe, senhor, mas o Sr. Liang é o gerente-assistente... o superior quando o gerente não está no hotel... como acontece esta manhã... esta tarde. Ele nos disse que é urgente. Vem telefonando para o senhor a intervalos de poucos minutos, durante a última hora. Vou avisá-lo agora, senhor.

David desligou. Não estava pronto para Liang ou, mais propriamente, Liang não estava pronto para ele... pelo menos não da maneira como o queria. Liang estava nervoso, possivelmente à beira do pânico, pois era o primeiro e o mais baixo contato e fracassara em deixar o alvo onde deveria, numa suíte grampeada, em que o inimigo poderia ouvir cada palavra. Mas à beira do pânico não era suficiente. David queria Liang além da beira. A maneira mais rápida de levá-lo a esse estado era não permitir qualquer contato, nenhuma discussão, nenhuma explicação para o fato de o alvo recrutado se esquivar ao laço.

David tirou as roupas da cama e guardou-as em duas gavetas da cômoda, juntamente com as coisas que estavam na bolsa de vôo; arrumou os anzóis e a linha de pesca entre as camadas de tecido. Pôs o peso de papel em cima de um cardápio do serviço de quarto e meteu a faca de caça no bolso do paletó. Olhou para o furador de gelo e foi subitamente invadido por um pensamento, também nascido de um estranho instinto: um homem consumido pela ansiedade reagiria além do necessário à visão inesperada de algo assustador. A imagem sinistra o chocaria, aprofundando seus medos. David tirou um lenço do bolsinho do paletó, abaixou-se para o furador e limpou o cabo. Pegando o instrumento letal com o lenço, caminhou rapidamente para o pequeno vestíbulo, calculou o nível dos olhos e cravou o furador na parede branca, em frente à porta. O telefone tocou e tornou a tocar, incessantemente, como se estivesse em frenesi. David deixou o quarto e atravessou apressado o corredor, na direção dos elevadores; entrou no corredor lateral e ficou observando.

Não se enganara. Os painéis de metal reluzentes se abriram e Liang saiu correndo do elevador do meio, avançando pelo corredor onde ficava o quarto de David. Passando pelos elevadores, David foi postar-se no canto de seu corredor. Podia ver o nervoso Liang tocar a campainha insistentemente, depois bater na porta, com crescente persistência.

Outro elevador se abriu e dois casais saíram, rindo. Um dos homens olhou curioso para David, depois deu de ombros, enquanto o grupo seguia para a esquerda. David tornou a concentrar sua atenção em Liang. O gerente-assistente estava agora frenético, tocando a campainha e batendo na porta. Parou de repente e encostou o ouvido na madeira; satisfeito, enfiou a mão no bolso e retirou um molho de chaves. David recuou prontamente quando Liang virou-se para olhar a um lado e outro, enquanto inseria a chave na fechadura. David não precisava ver; bastava ouvir.

Não esperou muito tempo. Um grito gutural abafado foi seguido pelo estrondo da porta. O furador de gelo causara seu efeito. David voltou correndo para o seu santuário, além do último elevador, outra vez comprimindo o corpo contra a parede; e ficou observando. Liang estava visivelmente abalado, a respiração irregular, profunda, enquanto apertava repetidamente o botão do elevador. Uma campainha soou e as portas do segundo elevador se abriram, O gerente-assistente entrou apressado.

David não tinha qualquer plano específico, mas sabia vagamente o que tinha de fazer, pois não havia outro meio. Desceu o corredor, passando pelos elevadores, correu pela distância restante até o seu quarto. Entrou e encaminhou-se para o telefone na mesinha-de-cabeceira, apertando os dígitos que gravara na memória.

— Portaria — disse uma voz jovial, que não parecia oriental; provavelmente era indiana.

— Estou falando com o porteiro-chefe? — indagou David.

— Está, sim, senhor.

— Não com um assistente?

— Não, senhor. Gostaria de falar com algum assistente específico? Talvez alguém para resolver um problema?

— Não — respondeu David, suavemente. — Quero falar com você mesmo. Tenho uma situação que deve ser tratada com absoluto sigilo. Posso contar com você? Estou disposto a ser generoso.

— É hóspede do hotel?

— Sou, sim.

— E não há nada de impróprio envolvido, é claro. Nada que possa prejudicar o estabelecimento.

— Só vai aumentar sua reputação, ajudando executivos cautelosos que desejam trazer negócios para o território. E muitos negócios.

— Estou a seu serviço, senhor.

Ficou acertado que uma limusine Daimlerler com o mais experiente motorista disponível, iria buscá-lo dentro de dez minutos, na saída do pátio na Salisbury Road. O porteiro estaria ao lado do carro e receberia, por seu sigilo, duzentos dólares americanos, cerca de mil e quinhentos dólares de Hong Kong. Não haveria o nome de qualquer pessoa no registro do aluguel — que seria pago em dinheiro, por vinte e quatro horas — apenas o nome de uma firma escolhido ao acaso. E o “Sr. Cruett”, escoltado por um empregado do hotel, poderia usar um elevador de serviço para o nível inferior do Regent, onde havia uma saída que levava ao New World Centre, com acesso direto ao ponto de encontro na Salisbury Road.

As cortesias trocadas e o dinheiro passando de mãos, David acomodou-se no banco traseiro do Daimlerler e confrontou o rosto vincado e cansado de um motorista uniformizado de meia-idade, cuja expressão esgotada foi apenas parcialmente atenuada por uma tentativa de ser amável.

— Seja bem-vindo, senhor. Meu nome é Pak-fei e vou me esforçar ao máximo para lhe prestar um serviço excelente. Diga-me para onde quer ir e o levarei. Conheço tudo.

— Eu estava contando com isso — respondeu David, suavemente.

— Como, senhor?

— Wo bushi luke — disse David, anunciando que não era um turista. E continuou em chinês: — Mas como há anos não venho aqui, quero efetuar um reconhecimento. Que tal a excursão normal e chata pela ilha e depois uma rápida viagem por Kowloon? Tenho de voltar mais ou menos dentro de duas horas... E daqui por diante vamos falar inglês.

— Seu chinês é muito bom... de alta classe, mas compreendo tudo o que diz. Mas apenas duas zhongtou...

— Horas — corrigiu-o David. — Não se esqueça de que estamos falando em inglês e não quero ser mal interpretado. Mas essas duas horas e sua gorjeta, assim como as restantes vinte e duas horas e a gorjeta por elas, vão depender da maneira como nos daremos, está certo?

— Claro! — exclamou Pak-fei, o motorista, acelerando o Daimlerler e entrando no tráfego insuportável da Salisbury Road. — Vou me esforçar para oferecer um excelente serviço!

Foi o que aconteceu, e os nomes e imagens que ocorreram a David no quarto do hotel foram reforçados pelos equivalentes concretos. Ele conhecia as ruas do Distrito Central, reconheceu o Mandarin Hotel e o Hong Kong Club, assim como a Chater Square, com o Supremo Tribunal da colônia, em frente aos grandes bancos de Hong Kong. Percorrera as pistas de pedestres apinhadas para a confusão total que era a Star Ferry, a permanente ligação da ilha de Kowloon por barcas. Queen’s Road, Hillier, Possession Street, a extravagante Wanchai... tudo lhe voltou, no sentido de que já estivera ali, já estivera naqueles lugares, conhecia-os, conhecia as ruas, até mesmo os atalhos para ir de uma parte a outra. Reconheceu o caminho sinuoso para a Aberdeen, prevendo a vista dos pomposos restaurantes flutuantes e, mais além, o incrível congestionamento de juncos e sampanas do povo dos barcos, uma gigantesca comunidade flutuante das pessoas eternamente despojadas; podia até ouvir o estardalhaço e gritos dos jogadores de mah-jongg, apostando encarniçadamente, sob o brilho difuso de lanternas a balançar, à noite. Conhecera homens e mulheres — contatos e condutos, refletiu ele — nas praias de Shek O e Big Wave, nadara nas águas apinhadas de Repulse Bay, com suas enormes estátuas de imitação e a elegância decadente do velho hotel colonial. Já vira tudo, conhecia tudo, mas não podia relacionar com nada.

Consultou o relógio; já estavam passeando há quase duas horas. Havia uma última parada a fazer na ilha e depois submeteria Pak-fei ao teste.

— Volte para a Chater Square —disse ele. —Tenho negócios a tratar em um dos bancos. Pode ficar me esperando.

O dinheiro não era apenas um lubrificante social e industrial; em quantidades bastante grandes, era também um passaporte para a maneabilidade. Sem dinheiro, homens em fuga ficavam entravados, as opções limitadas, os que estavam em perseguição muitas vezes eram frustrados pela carência de meios para manter a caçada. E quanto mais dinheiro, mais fácil liberá-lo; prova disso é a luta de um homem cujos recursos não lhe permitem solicitar mais que um empréstimo de quinhentos dólares, em comparação com a relativa facilidade de outro que tem uma linha de crédito de quinhentos mil dólares. Foi o que aconteceu com David no banco de Chater Square. Os acertos foram rápidos e profissionais; sem comentários, uma pasta de executivo foi providenciada para o transporte dos fundos, houve a oferta de um guarda para acompanhá-lo até o hotel, caso se sentisse mais seguro assim. Ele recusou, assinou os documentos necessários e não foram feitas mais perguntas. David voltou ao carro na movimentada rua.

Inclinou-se para a frente, pousando a mão esquerda no tecido macio do estofamento do banco, a poucos centímetros da cabeça do motorista. Segurava uma nota de cem dólares americanos entre o polegar e o indicador.

— Pak-fei, preciso de uma arma.

Lentamente, o motorista virou a cabeça. Olhou para a nota, depois virou-se ainda mais para fitar David. Desapareceram a exuberância artificial, o desejo arrogante de agradar. Em vez disso, a expressão no rosto vincado era passiva, os olhos distantes.

— Kowloon — murmurou ele. — No Mongkok.

E Pak-fei pegou a nota de cem dólares.

 

A limusine Daimler arrastava-se pela rua congestionada em Mongkok, uma massa urbana que possuía a distinção nada invejável de ser o distrito mais densamente povoado na história da humanidade. E povoado, cabe ressaltar, quase que exclusiva mente por chineses. Um rosto ocidental era uma raridade tão grande que atraía olhares curiosos, ao mesmo tempo hostis e divertidos. Nenhum homem ou mulher branca jamais era encorajado a ir a. Mongkok depois do escurecer; nenhum Oriental Cotton Club existia ali. Não era uma questão de racismo, mas o reconhecimento da realidade. Havia pouco espaço para os seus ... e eles zelavam pelos seus como todos os chineses o faziam, desde as primeiras dinastias. A família era tudo, e muitas famílias viviam não na miséria, mas nos limites de um único cômodo, com uma única cama, esteiras espalhadas pelo chão rude mas sempre limpo. Por toda parte a presença de pequenas sacadas confirmava as exigências de higiene, já que ninguém aparecia nelas, a não ser para pendurar interminavelmente a roupa lavada. Essas sacadas abertas ocupavam os lados de prédios de apartamentos adjacentes e pareciam estar em constante agitação, as brisas soprando contra as imensas paredes de pano, fazendo com que trajes de todos os tipos dançassem no lugar, às dezenas de milhares, prova adicional dos números extraordinários que habitavam a área.

E não se podia dizer que Mongkok fosse pobre. Por toda parte se avistavam ricos tecidos coloridos, o vermelho intenso sendo o ímã predominante. Podia-se contemplar cartazes enormes e requintados sempre que os olhos se erguiam acima das multidões; anúncios que se elevavam sucessivamente por três andares de altura margeavam as ruas e vielas, os caracteres chineses enfáticos, em suas tentativas de seduzir os consumi dores. Havia dinheiro em Mongkok, dinheiro discreto, assim como dinheiro histérico, mas nem sempre legítimo. O que não havia era excesso de espaço, e o que havia pertencia aos seus, não a forasteiros, a menos que um forasteiro — trazido por um dos seus — também trouxesse dinheiro para alimentar a máquina insaciável que produzia uma enorme variedade de bens terrenos e alguns não tão terrenos assim. Era uma questão de saber onde procurar e dispor do dinheiro para pagar o preço. Pak-fei, o motorista, sabia onde procurar, e Jason Bourne dispunha do dinheiro.

— Vou parar e dar um telefonema — disse Pak-fei, estacionando atrás de um caminhão, em fila dupla. — Trancarei o carro e voltarei depressa.

— Isso é necessário?

— À pasta é sua, senhor, não minha.

Santo Deus, pensou David, como ele era idiota! Não levara em consideração a pasta de executivo. Estava carregando mais de trezentos mil dólares no coração de Mongkok como se fosse seu almoço. Pegou a alça, puxando a valise para o colo, e verificou os fechos; estavam seguros, mas se os botões fossem comprimidos, mesmo que de leve, a tampa se abriria. Gritou para o motorista, que já saltara do carro:

— Traga-me um rolo de fita! Fita adesiva!

Era tarde demais. Os sons da rua eram ensurdecedores, as multidões pareciam um manto humano em movimento, havia gente por toda parte. E subitamente, uma centena de pares de olhos espiavam de todos os lados, rostos contorcidos se comprimiam contra o vidro — por todos os lados — e David era o centro de um vulcão que acabara de entrar em erupção. Podia ouvir os gritos inquisitivos de Bin go ah? e Chong man tui, mais ou menos o equivalente em inglês a”Quem é ele?” e “Uma boca que está cheia” ou, combinando, “Quem é o mandachuva?” Sentiu-se um animal enjaulado, sendo estudado por uma horda de bestas de outra espécie, talvez malignas. Apertou a pasta, olhando fixamente para a frente, enquanto duas mãos começavam a se introduzir pelo estreito espaço no alto da janela à direita. Lentamente, estendeu a mão para a faca de caça em seu bolso. Os dedos passaram pela abertura.

— Jau! — berrou Pak-fei, abrindo caminho pela multidão. — Este é um taipan muito importante, e a polícia lá na rua vai despejar óleo fervendo nos genitais de vocês se o incomodarem! Afastem-se, afastem-se!

Ele destrancou aporta, sentou ao volante e tornou a batê-la, com toda força, em meio a imprecações furiosas. Ligou o carro, acelerou, comprimiu a mão contra a buzina poderosa e assim a manteve, aumentando a cacofonia a proporções insuportáveis, enquanto o mar de corpos, devagar, relutante, se abria. O Daimler arremeteu aos solavancos pela rua estreita.

— Para onde estamos indo? — gritou David. — Pensei que já estivéssemos no lugar!

— O mercador com quem vai negociar transferiu sua base de operações, senhor, o que é bom, pois este não é um dos pontos mais agradáveis de Mongkok.

— Deveria ter telefonado primeiro. À situação lá atrás não foi das mais cômodas.

— Se me permite, senhor, gostaria de corrigir a impressão de serviço imperfeito — disse Pak-fei, olhando para David pelo retrovisor. — Sabemos agora que não está sendo seguido. E, em conseqüência, eu não serei seguido até o lugar para onde vou levá-lo.

— Mas do que está falando?

— Entra com as mãos vazias num banco na Chater Square e quando sai as mãos não estão mais vazias. Carregam uma pasta.

— E daí?

David observava atentamente os olhos do motorista, que a todo instante se fixavam em seu rosto.

— Nenhum guarda o acompanhou, e há pessoas más que ficam vigiando gente como o senhor.., e muitas vezes avisos são transmitidos por outras pessoas más lá de dentro. Estamos em tempos difíceis e por isso era melhor ter certeza neste caso.

— E tem certeza... agora.

— Tenho, sim, senhor. — Pak-fei sorriu. — Um automóvel nos seguindo numa rua secundária em Mongkok é facilmente visto.

— Então não houve telefonema.

— Claro que houve, senhor. Sempre se deve telefonar antes. Mas foi muito rápido e depois voltei pela calçada sem o quepe, por muitos metros. Não havia homens irados em automóveis, nenhum saltou para correr pela rua. Agora posso levá-lo ao mercador bastante aliviado.

— Também fico aliviado — murmurou David, especulando por que Jason Bourne o abandonara temporariamente. — E nem mesmo sabia que deveria estar preocupado... com a possibilidade de alguém me seguir.

As densas multidões de Mongkok foram se tomando mais ralas, enquanto os prédios ficavam mais baixos. David pôde divisar as águas de Victoria Harbor por trás de altas cercas de metal. Além das barricadas intimidativas, havia incontáveis armazéns, ao longo das docas onde os navios cargueiros atracavam, onde enormes guindastes se arrastavam e rangiam, levando os containers para os porões. Pak-fei virou na entrada de um armazém isolado, de um só andar; parecia deserto, com asfalto por toda parte, apenas dois carros à vista, O portão estava fechado; um guarda saiu de um cubículo de vidro e encaminhou-se para o Daimler com uma prancheta na mão.

— Não vai encontrar meu nome numa lista —disse Pak-fei, em chinês e com singular autoridade, enquanto o guarda se aproximava. — Avise ao Sr. Wu Song que o Regent Número Cinco está aqui e traz um taipan que é tão digno quanto ele. Ele nos espera.

O guarda acenou com a cabeça, estreitando os olhos ao sol da tarde, a fim de vislumbrar o importante passageiro.

— Aiya! — gritou Pak-fei pela impertinência do homem. Virando-se, ele fitou David e acrescentou, enquanto o guarda corria para o telefone: — Não deve me interpretar mal, senhor. O uso do nome do meu ótimo hotel não tem nada a ver com meu ótimo hotel. Na verdade, se o Sr. Liang ou qualquer outro soubesse que mencionei seu nome num negócio como este, eu seria afastado do meu emprego. Significa apenas que nasci no quinto dia do quinto mês no ano de nosso Senhor Cristão de 1935.

— Pode deixar que não contarei a ninguém — disse David, sorrindo interiormente, ao pensar que Jason Bourne, no final das contas, não o abandonara.

O mito que ele fora outrora conhecia os caminhos que levavam aos contatos certos — e os conhecia às cegas —, e esse homem ainda existia no fundo de David Webb.

A sala branca com cortinas do armazém, cheia de mostruários horizontais trancados, não diferia de um museu exibindo artefatos de civilizações do passado, como instrumentos primitivos, insetos fossilizados, esculturas místicas de religiões antigas. A diferença estava nos objetos. Ali estavam armas de todos os tipos, desde pequenas armas de baixo calibre e rifles a metralhadoras automáticas de mil tiros, com pentes espiralados em armações quase sem peso e foguetes guiados por laser a serem disparados do ombro, um arsenal para terroristas. Dois homens de terno montavam guarda, um no lado de fora da entrada da sala, outro dentro. Como era de se esperar, o primeiro fez uma mesura de desculpa e passou um detector eletrônico pelas roupas de David e seu motorista. Depois, estendeu a mão para a pasta de David, que a afastou, sacudiu a cabeça e gesticulou para o detector. O guarda passou-o pela superfície da pasta, conferindo os mostradores.

— Documentos particulares — disse David em chinês ao surpreso guarda, enquanto entrava na sala.

Ele levou quase um minuto inteiro para absorver o que via, livrar-se de sua incredulidade. Percebeu os avisos em letras grandes — Proibido Fumar — em inglês, francês e chinês, espalhados por todas as paredes, especulou por que estariam ali. Nada estava exposto. Apertou a pasta em sua mão como se fosse uma corda de salvação num mundo que enlouquecera com instrumentos de violência.

— Huanying! — exclamou uma voz, seguida pelo aparecimento de um homem de aspecto jovem.

Ele saiu de uma porta almofadada, usando um daqueles ternos europeus bem justos que exageram os ombros e comprimem a cintura, as abas traseiras do paletó ondulando como uma cauda de pavão, o produto de designers determinados a serem elegantes, mesmo ao custo de neutralizar a imagem masculina.

— Este é o Sr. Wu Song, senhor — disse Pak-fei, fazendo uma reverência primeiro para o mercador e depois para David. — Não é necessário dar seu nome, senhor.

— Bu! — disse o jovem mercador, apontando para a pasta de David. — Bu jing ya!

— Seu cliente, Sr. Song, fala chinês fluentemente. — O motorista virou-se para David. — Como ouviu, senhor, o Sr. Song protesta contra a presença de sua pasta.

— Não pode sair de minha mão — declarou David.

— Então não pode haver uma discussão de negócios séria — interveio Wu Song, num inglês impecável.

— Por que não? Seu homem verificou. Não tem armas dentro, e mesmo que houvesse e eu tentasse abrir, tenho a impressão de que eu estaria no chão antes de levantar a tampa.

— E plástico? —indagou Wu Song. —Microfones de plástico levando a gravadores em que o conteúdo de metal é tão pequeno que permanece ignorado até pelos detectadores mais sofisticados?

— Está sendo paranóico.

— Como dizem em seu país, isso faz parte do ofício.

— Seu conhecimento de expressões idiomáticas é tão bom quanto seu inglês.

— Universidade de Columbia, 1973.

— Formou-se em armamentos?

— Não. Em marketing.

— Aiya! — gritou Pak-fei.

Mas já era tarde demais. O rápido diálogo encobrira o movimento dos guardas; eles haviam atravessado a sala e, no último instante, se lançaram sobre David e o motorista.

Jason Bourne virou-se, deslocando o braço do atacante de seu ombro, prendendo-o por baixo do seu e torcendo-o, forçando o homem para baixo. Com toda força, bateu com a valise no rosto oriental. Os movimentos estavam lhe voltando. A violência retornava, como acontecera com um amnésico aturdido num barco de pesca, além da arrebentação de uma ilha do Mediterrâneo. Tanto esquecido, tanto inexplicado, mas lembrado. O homem caiu no chão, atordoado, enquanto seu companheiro se virava em fúria para David, depois de derrubar o motorista. Correu para a frente, as mãos levantadas num impulso em diagonal, o peito e os ombros largos constituindo a base do aríete duplo. David largou a pasta, pulou para a direita e tornou a girar, também para a direita, o pé esquerdo saindo do chão e atingindo o chinês na virilha, com tanta força que o homem se dobrou ao meio, gritando. No mesmo instante, David golpeou-o com o pé direito, a ponta acertando a garganta do atacante, direta mente abaixo do queixo; o homem rolou pelo chão, a respiração ofegante, uma das mãos na virilha, a outra comprimindo o pescoço. O primeiro guarda fez menção de se levantar; Bourne adiantou-se e bateu com o joelho no peito do homem, lançando-o no centro da sala, onde ele caiu inconsciente, por baixo de um mostruário.

O jovem mercador de armas estava perplexo. Testemunhara o inconcebível, esperando a qualquer momento que o que via se invertesse e seus guardas saíssem vitoriosos. E de repente, de maneira inequívoca, compreendeu que isso não iria acontecer. Saiu correndo em pânico para a porta almofadada, alcançando-a no mesmo instante em que David o alcançava. Segurando-lhe os ombros com enchimento, David girou o mercador de volta pela sala. Wu Song tropeçou nos próprios pés e caiu; levantou as mãos, suplicando:

— Não, por favor! Pare! Não posso suportar um confronto físico! Leve o que quiser!

— Não pode suportar o quê?

— Você me ouviu! Fico doente!

— Para que acha que serve tudo isso? — gritou David, gesticulando com o braço pela sala.

—Atendo a uma demanda, e é tudo. Leve o que quiser, mas não me toque. Por favor!

Repugnado, David encaminhou-se para o motorista caído, que estava se pondo de joelhos, um filete de sangue a escorrer-lhe do canto da boca.

— Eu pago pelo que levo — disse ele ao negociante de armas, enquanto segurava o braço do motorista e o ajudava a se levantar. — Está bem?

— Está se metendo numa grande encrenca, senhor — balbuciou Pak-fei, as mãos trêmulas, medo nos olhos.

— Não tem nada a ver com você. E Wu Song sabe disso não é mesmo, Wu?

— Eu trouxe você aqui! — insistiu o motorista.

— Para fazer uma compra. Assim, vamos acabar logo com isso. Mas, primeiro, amarre os dois guardas. Use as cortinas. Pode rasgá-las.

Pak-fei olhou suplicante para o jovem mercador.

— Grande Jesus Cristão, faça o que ele manda! — gritou Wu Song. — Ele vai me bater! Pegue as cortinas! Amarre os dois, seu imbecil!

Três minutos depois David tinha na mão uma arma de aparência estranha, volumosa, mas não grande. Era uma arma bastante moderna; o cilindro perfurado que era o silenciador se ajustava pneumaticamente, reduzindo a contagem de decibéis de um disparo a um mero estalido alto — mas não mais do que um estalido — sem afetar a precisão a curta distância. Tinha nove balas, os pentes removidos e inseridos na base da coronha em poucos segundos; havia três pentes de reserva, um total de trinta e seis balas, a potência de fogo de uma Magnum.357 numa arma com a metade do tamanho e peso de uma Colt.45.

— Extraordinária — murmurou David, olhando para os guardas amarrados e um trêmulo Pak-fei. — Quem a projetou?

Tanta competência estava lhe voltando. Tanto reconhecimento. De onde?

— Como um americano, talvez possa ofendê-lo — respondeu Wu Song. — É um homem de Bristol, Connecticut, que compreendeu que a companhia para a qual trabalha nunca o recompensaria adequadamente por sua invenção. Através de intermediários, procurou o mercado clandestino internacional e vendeu-a pelo lance mais alto.

— Seu?

— Não faço investimentos, apenas vendo.

— É verdade, eu tinha esquecido. Você atende a uma demanda.

— Exatamente.

— Você paga a quem?

— Deposito o dinheiro numa conta numerada em Cingapura. Não sei de nada. E sou protegido, é claro. Tudo está aqui sob consignação.

— Entendo. Quanto custa esta arma?

— Pode levá-la. É um presente meu.

— Você fede. E não aceito presentes de pessoas que cheiram mal. Quanto?

Wu Song engoliu em seco.

— O preço na lista é de oitocentos dólares americanos.

David enfiou a mão no bolso esquerdo e tirou as notas que guardara ali. Contou oito notas de cem dólares e entregou-as ao negociante de armas.

— Pagamento integral — disse ele.

— Certo.

— Amarre-o — ordenou David, virando-se para o apreensivo Pak-fei. — E não precisa ficar preocupado. Amarre-o logo!

— Faça o que ele está mandando, seu idiota!

— E depois leve os três para fora. Pelo lado do armazém junto do carro. Tome cuidado para não ser visto pelo guarda no portão.

— Depressa! — gritou Song. — Ele está furioso!

— Tem toda razão — confirmou David.

Quatro minutos depois os dois guardas e Wu Song passaram pela porta externa para o intenso sol da tarde, que se tomava ainda mais forte com os reflexos ondulantes nas águas de Victoria Harbor. Os joelhos e braços estavam amarrados com pano rasgado das cortinas, e por isso os movimentos eram hesitantes e trôpegos. O silêncio era garantido por chumaços de pano enfiados nas bocas dos guardas. Tais precauções não eram necessárias para o jovem mercador; ele estava apavorado.

Sozinho na sala, David pôs no chão a pasta recuperada e circulou rapidamente, estudando as armas nos mostruários, até encontrar o que queria. Quebrou o vidro com a coronha de sua arma e estendeu a mão para os artefatos que usaria — armas cobiçadas por terroristas em toda pane — granadas de tempo, cada uma com o impacto de uma bomba de dez. quilos. Como ele sabia? De onde vinha o seu conhecimento?

Retirou seis granadas e verificou cada carga da bateria. Como podia fazer isso? Como sabia onde procurar, o que comprimir? Não importava. Ele sabia. Olhou para o relógio.

Ligou o mecanismo de tempo de todas e saiu correndo pelos mostruários, quebrando os vidros e largando uma granada em cada um. Só lhe restava uma granada e ainda havia dois mostruários; levantou os olhos para os avisos Proibido Fumar em três línguas e tomou outra decisão. Correu, para a porta almofadada, abriu-a e viu o que esperava encontrar. Jogou lá dentro a última granada.

David tornou a conferir o relógio, pegou a pasta e saiu, fazendo questão de parecer no controle absoluto da situação. Aproximou-se do Daimler pelo lado do armazém em que Park-fei parecia estar pedindo desculpas a seus prisioneiros, suando profusamente. O motorista estava sendo alternadamente censurado e consolado por Wu Song, que queria apenas ser poupado de qualquer violência adicional.

— Leve-os para o quebra-mar. — ordenou David, apontando para a muralha de pedra que se erguia por cima das águas do porto.

Wu Song fitou-o fixamente e indagou:

— Quem é você?

O momento chegara. Tinha de ser agora.

David tornou a olhar para o relógio, enquanto se aproximava do negociante de armas. Pegou Wu Song pelo cotovelo e empurrou o apavorado chinês pelo lado do prédio, até um ponto em que as palavras baixas não seriam ouvidas pelos outros.

— Meu nome é Jason Bourne.

— Jason Bour...!

O oriental engasgou, reagindo como se um estilete tivesse perfurado sua garganta, os olhos testemunhando o ato final e violento de sua própria morte.

— E se tem alguma idéia sobre restaurar um ego ferido pela punição de alguém... como meu motorista, por exemplo... é melhor esquecer. Saberei onde encontrá-lo. — David fez uma pausa, por apenas uma fração de segundo. — É um homem privilegiado, Wu, mas com esse privilégio vem uma responsabilidade. Por determinados motivos, você pode ser interrogado e não espero que minta... de qualquer forma, duvido que seja muito bom em mentir... pode dizer que nos encontramos. Aceito isso. Pode até dizer que o roubei, se quiser. Mas se der uma descrição minha acurada, então é melhor estar no outro lado do mundo... e morto. Seria menos doloroso para você.

O graduado de Columbia ficou completamente imóvel, o

lábio inferior tremendo, enquanto fitava fixamente o oponente. David sustentou o olhar em silêncio, acenando com a cabeça uma vez. Soltou o braço de Wu Song e voltou para junto de Pak-fei e dos dois guardas amarrados, deixando o mercador em pânico com seus pensamentos desesperados.

— Faça o que eu mandei, Pak-fei — disse David, olhando mais uma vez para o relógio. — Leve-os para o quebra-mar e diga para se deitarem. Explique que ficarei cobrindo-os com a arma, até passarmos pelo portão. Creio que o empregador deles vai confirmar que sou um atirador relativamente eficiente.

O motorista gritou as ordens em chinês, relutante, fazendo uma mesura para o negociante de armas. Wu Song seguiu na frente dos outros, encaminhando-se desajeitado para o quebra- mar, a cerca de setenta metros de distância. David deu uma olhada no interior do Daimler.

— Jogue-me as chaves! — gritou ele para Pak-fei, — E depressa!

David pegou as chaves no ar e sentou-se ao volante. Ligou o motor, engrenou o Daimler e acompanhou a estranha procissão pelo asfalto por trás do armazém.

Wu Song e os dois guardas deitaram-se de bruços no chão. David saltou do carro, deixando o motor ligado, correu pela traseira para o outro lado, a arma recentemente comprada na mão, o silenciador fixado.

— Entre no carro e vamos embora! —gritou para Pak-fei. — Depressa!

O motorista embarcou, aturdido. David disparou três tiros, estalidos que levantaram o asfalto poucos centímetros à frente da cara de cada prisioneiro. Foi o suficiente; todos os três rolaram em pânico para a muralha de pedra. David sentou no banco da frente, ao lado do motorista.

— Vamos logo! — disse ele, lançando um último olhar ao relógio, a arma estendida pela janela, apontando na direção geral dos três corpos estendidos no chão. — Agora!

O portão foi aberto para o respeitável taipan na respeitável limusine. O Daimler passou em disparada e virou à direita no tráfego em velocidade da estrada de pista dupla que levava a Mongkok.

— Diminua a velocidade! — ordenou David. — E pare à beira da estrada, na terra.

— Esses motoristas são malucos, senhor. Estão acelerando porque sabem que dentro de poucos minutos mal conseguirão andar. Será difícil voltar à estrada.

— Acho que não.

E aconteceu. As explosões ocorreram uma após a outra, três, quatro, cinco... seis. O isolado armazém de um andar foi arremessado em fragmentos para o céu, as chamas e a densa fumaça preta preenchendo o ar por cima da terra e do porto, levando automóveis, caminhões e ônibus a pararem na estrada, com rangidos de freios.

— O senhor? — gritou Pak-fei, escancarando a boca, os olhos esbugalhados se fixando em David.

— Eu estive lá.

— Nós estivemos, senhor! Sou um homem morto! Aiya!

— Não, Pak-fei, não é. Está devidamente protegido. Aceite a minha palavra. Nunca mais ouvirá falar do Sr. Wu Song. Desconfio que ele vai para o outro lado do mundo, provavelmente para o Irã, a fim de ensinar marketing aos mullahs. Não sei quem mais poderia aceitá-lo.

— Mas por quê? E como, senhor?

— Ele está liquidado. Negociava com o que se chama “consignação”, o que significa que paga à medida que a mercadoria é vendida. Está me entendendo?

— Acho que sim, senhor.

— Ele não tem mais mercadoria alguma, só que não foi vendida. Simplesmente desapareceu.

— Como, senhor?

— Ele guardava bananas de dinamite e caixas de explosivo plástico na sala dos fundos. Eram coisas primitivas demais para ficar nos mostruários. E também muito volumosas.

— E o que aconteceu, senhor?

— Eu não devia ter fumado um cigarro... Vamos embora, Pak-fei. Tenho de voltar a Kowloon.

Ao entrarem no Tsim Sha Tsui, os movimentos da cabeça a se virar constantemente de Pak-fei se intrometeram nos pensamentos de David. O motorista não parava de observá-lo.

— O que é, Pak-fei?

— Não tenho certeza, senhor. Estou apavorado, é claro.

— Não acreditou no que eu lhe disse... que não tem nada a temer?

— Não é isso, senhor. Acho que devo acreditar, pois vi o que fez e vi a cara de Wu Song quando falou com ele. Acho que é por sua causa que estou assustado, mas também penso que pode ser um engano, pois me protegeu. Estava nos olhos de Wu Song. Não sei explicar direito.

— Não se preocupe. — David meteu a mão no bolso para pegar dinheiro. —Você é casado, Pak-fei? Ou tem uma namorada... ou um namorado? Não faz diferença.

— Sou casado, senhor. E com dois filhos crescidos, que têm bons empregos. Eles contribuem. Meu ídolo doméstico está e boa situação.

— E agora vai ficar ainda melhor. Vá para casa e pegue sua esposa... os filhos também, se quiser... e saia passeando, Pak-fei. Siga para os Novos Territórios, percorrendo muitos quilômetros. Pare e faça uma boa refeição em Tuen Mun ou Yuen Long. E depois passeie mais um pouco. Deixe que sua família aproveite este excelente automóvel.

— Para que, senhor?

— Uma xiao xin — explicou Ddvid, com o dinheiro na mão. — O que chamamos em inglês de uma pequena mentira inofensiva, que não prejudica ninguém. Quero que a quilometragem no carro corresponda ao lugar para onde me levou esta tarde... e à noite.

— Onde, senhor?

— Levou o Sr. Cruett primeiro para Lo Wu e depois passou pela base da serra até Lok Ma Chau.

— São os pontos de entrada na República Popular.

— Isso mesmo. — David tirou duas notas de cem dólares e depois uma terceira. — Acha que pode se lembrar e calcular a quilometragem certa?

— Claro, senhor.

— E acha que pode dizer que saltei do carro em Lok Ma Chau e subi pelas colinas durante cerca de uma hora? — acrescentou David, o dedo numa quarta nota de cem dólares.

— Dez horas se quiser, senhor. Não preciso dormir.

— Uma hora está ótimo. — David estendeu os quatrocentos

dólares diante dos olhos surpresos do motorista. — E saberei se não cumprir o nosso acordo

— Não precisa se preocupar, senhor! — Pak-fei, uma das mãos no volante, a outra pegando as notas. — Vou buscar minha esposa, os filhos, os pais dela e também os meus. Este animal que estou conduzindo é bastante grande para doze pessoas. Obrigado, senhor! Muito obrigado!

— Deixe-me a cerca de dez ruas da Salisbury Road e saia desta área. Não quero que o carro seja visto em Kowloon.

— Não seria possível, senhor. Estaremos em Lo Wu, em Le Ma Chau!

— A partir de amanhã de manhã, pode dizer o que quiser. Não estarei mais aqui. Vou embora esta noite. Nunca mais me verá.

— Entendo, senhor.

— Nosso acordo está fechado, Pak-fei.

Os pensamentos de Jason Bourne retornaram a uma estratégia que se tornava mais definida a cada movimento que fazia. E cada movimento o levava para mais perto de Marie. Tudo estava mais frio agora. Havia uma certa liberdade em ser o que não era.

Desempenhe o papel que lhe deram... Esteja em toda parte ao mesmo tempo. Aplique toda a pressão neles.

Às cinco e dois um Liang visivelmente perturbado transpôs rapidamente as portas de vidro do Regent. Olhou ao redor, bastante nervoso, observando os hóspedes que chegavam e partiam, depois virou à esquerda e desceu apressado para a rampa que levava à rua. David observava-o através da água que esguichava dos chafarizes, no outro lado do pátio. Usando isso como cobertura, David correu pela área movimentada, esquivando-se dos carros; chegou à rampa e desceu atrás de Liang para a Salisbury Road.

Ele parou no meio do caminho para a rua e virou-se, inclinando o corpo e o rosto para a esquerda. O chinês estacara abruptamente, o corpo inclinado para a frente, como uma pessoa ansiosa e com pressa faz quando se lembra de repente de alguma coisa ou muda de idéia. Só podia ser a segunda alternativa, pensou David, enquanto virava a cabeça cautelosamente e observava Liang atravessar apressado a entrada de carros e se encaminhar para o apinhado New World Shopping Centre. David sabia que o perderia no meio da multidão se não se apressasse; por isso, levantou as mãos, interrompendo o tráfego, e desceu correndo a rampa, em diagonal, em meio às buzinas estridentes e gritos furiosos dos motoristas. Chegou ao passeio do centro comercial, suando, ansioso. Não podia ver Liang! O mar de rostos orientais tornou-se um borrão, parecendo iguais, mas ao mesmo tempo diferentes. Onde estava ele? David correu para a frente, murmurando desculpas à medida que esbarrava em corpos e rostos aturdidos... e lá estava ele! Tinha certeza de que era Liang... mas não muita certezas não realmente. Vira um vulto de terno escuro virar na entrada do caminho para o porto, uma longa extensão de concreto por cima da água, em que as pessoas pescavam, passeavam ou realizavam os seus exercícios de tai chi pela manhã. Contudo, ele vira apenas as costas de um homem; se não fosse Liang, ele deixaria a rua e o perderia por completo. Instinto. Não o seu; mas o de Bourne... os olhos de Jason Bourne.

David desatou a correr, encaminhando-se para a entrada em arcada do passeio. O horizonte de edifícios de Hong Kong faiscava ao sol, a distância, o movimento no porto era intenso, com o final dos trabalhos do dia nas águas. Diminuiu a velocidade ao passar pela arcada; não havia outro caminho para voltar à Salisbury Road. O passeio era um beco sem saída que avançava pelo cais, o que acarretava uma pergunta, além de proporcionar uma resposta a outra. Por que Liang — se é que era mesmo Liang — se metera num beco sem saída? O que o atraía? Um contato, um ponto de correspondência, uma transmissão? O que quer que fosse, significava que o chinês não considerara a possibilidade de estar sendo seguido; essa era a resposta imediata de que David precisava. Dizia-lhe o que precisava saber. Sua presa estava em pânico; o inesperado só podia levá-lo a um pânico ainda maior.

Os olhos de Jason Bourne não mentiram. Era mesmo Liang, mas a primeira pergunta permaneceu sem resposta, aumentada até pelo que David viu. Entre os milhares e milhares de telefones públicos em Kowloon — em arcadas apinhadas e em recessos escuros de saguões discretos —, Liang escolhera um telefone na parede interna do passeio. Era exposto, aberto, no meio de um caminho largo, que era um beco sem saída. Não fazia sentido; até o amador mais insignificante possuía os instintos protetores básicos. Quando em pânico, procurava cobertura.

Liang enfiou a mão no bolso para pegar moedas. Subitamente, como se ordenado por uma voz interior, David compreendeu que não podia permitir que a ligação se efetuasse. Quando fosse feita, ele é que tinha de fazê-la. Era parte de sua estratégia, uma parte que o levaria para mais perto de Marie! O controle devia estar em suas mãos, não com os outros!

Começou a correr, seguindo direto para a proteção de plástico branco do telefone público, querendo gritar, mas sabendo que precisava chegar mais perto para ser ouvido acima do barulho no cais. O chinês acabara de discar; em algum lugar, um telefone estava tocando.

— Liang! — berrou David. — Largue esse telefone! Se quer viver, desligue e saia daí!

O chinês virou-se, o rosto uma máscara rígida de terror.

— Você! — gritou ele histericamente, comprimindo as costas contra o plástico branco. — Não... não! Não agora! Não aqui!

Os estampidos soaram de repente, rajadas que se acrescentaram aos sons incontáveis do porto. O pandemônio dominou o passeio, enquanto as pessoas gritavam, jogando-se no chão ou correndo em todas as direções, para longe do terror da morte instantânea.


 

— Aiya! — berrou Liang, mergulhando para o lado do telefone, enquanto as balas iam se cravar na parede do passeio e passavam zunindo por cima.

David avançou para o chinês, rastejando, enquanto tirava a faca da bainha.

— Não! —. gritou Liang, enquanto David, deitado de lado, agarrava-o pela frente da camisa e empurrava a lâmina para seu queixo, rompendo a pele, tirando sangue. — Não faça isso! Aiii!

O grito histérico se perdeu no pandemônio no caminho.

— Dê-me o número! Agora!

— Não faça isso comigo! Juro que não sabia que era uma armadilha!

— Não é uma armadilha para mim, Liang — murmurou David, ofegante, o suor escorrendo pelo rosto. — É para você!

— Para mim? Você está louco! Por que logo eu?

— Porque eles já sabem que estou aqui, e você me viu, falou comigo. Deu seu telefonema, e eles não podem permitir que continue vivo.

— Mas por quê?

— Recebeu o número de um telefone. Fez o seu trabalho e eles não podem deixar pistas.

— Isso não explica nada!

— Talvez meu nome explique. Eu me chamo Jason Bourne.

— Oh, Deus! — balbuciou Liang, o rosto pálido, os lábios entreabertos, fitando David.

— Você é uma pista, Liang. E por isso se tornou um homem morto.

— Não! Não! — O chinês sacudiu a cabeça. — Não pode ser! Não conheço ninguém, só sei o telefone! É uma sala vazia no New World Centre, um telefone instalado em caráter temporário. Por favor! O número é três-quatro-quatro-zero-um. Não me mate, Sr. Bourne! Pelo amor de nosso Deus Cristão, não me mate!

— Se eu pensasse que a armadilha era para mim, já haveria sangue por toda a sua garganta, não no queixo... Três-quatro-quatro-zero-um?

— Isso mesmo!

O tiroteio cessou da mesma forma súbita e inesperada como começara.

— O New World Centre fica ao lado, não é mesmo? Uma daquelas janelas lá em cima.

— Isso mesmo! — Liang estremeceu, incapaz de desviar os olhos do rosto de David. Fechou-os com toda força, as lágrimas escorrendo por baixo das pálpebras, enquanto sacudia a cabeça vigorosamente. — Nunca vi você! Juro pela cruz do santo Jesus!

— Às vezes eu me pergunto se estou em Hong Kong ou no Vaticano.

David levantou a cabeça e olhou ao redor. Ao longo de todo o passeio, pessoas apavoradas começavam a se levantar, hesitantes. Mães agarravam filhos, homens seguravam mulheres, homens, mulheres e crianças ficavam de joelhos, depois de pé;. e subitamente houve uma debandada em massa para a arcada que levava à Salisbury Road.

— Recebeu ordem para dar o telefonema daqui, não é mesmo? — indagou David rapidamente, tomando a se concentrar no assustado gerente-assistente.

— Isso mesmo, senhor.

— Por quê? Eles explicaram o motivo?

— Explicaram, senhor.

— Pelo amor de Deus, abra os olhos!

— Está bem, senhor. — Liang obedeceu, desviando os olhos enquanto continuava a falar: — Disseram que não confiavam no hóspede que pedisse a suíte seis-nove-zero. Era um homem que poderia obrigar outro a dizer mentiras. Por isso, queriam me observar quando eu lhes falasse... Sr. Bourne... não, eu não disse isso! Sr. Cruett... passei o dia inteiro tentando lhe falar, Sr. Cruett! Queria que soubesse que eu estava sendo insistentemente pressionado, Sr. Cruett. Eles não paravam de me telefonar. Queriam saber quando eu os chamaria... daqui. E eu dizia que o senhor ainda não havia chegado. O que mais podia fazer? Ao tentar localizá-lo constantemente, eu estava querendo avisá-lo. Não é óbvio, senhor?

— O óbvio é que você não passa de um imbecil.

— Não estou preparado para esse tipo de trabalho.

— E por que aceitou?

— Dinheiro, senhor. Eu estava com Chiang, com o Kuomintang. Tenho esposa e cinco filhos... dois filhos e três filhas. Tinha de escapar. Eles verificam os antecedentes e nos dão rótulos incontestáveis, sem apelação. Sou um homem culto, senhor. Universidade de Fudan, o segundo da minha turma... possuía meu próprio hotel em Xangai. Mas tudo isso não tem a menor importância agora. Quando Pequim assumir o controle, serei um homem morto, toda a minha família vai morrer. E agora vem me dizer que já posso me considerar um homem morto. O que vou fazer?

— Pequim... não vai tocar na colônia, não vai mudar coisa alguma — comentou David, lembrando os comentários de Marie naquela noite terrível, depois que McAllister fora embora. — A menos que os fanáticos tomem o poder.

— Todos eles são loucos, senhor. Não acredite em qualquer outra coisa. Não conhece direito aquela gente.

— Talvez não. Mas conheço alguns de vocês. E, para ser franco, prefiro não conhecê-los.

— “Aquele que está sem pecado que atire a primeira pe dra”, senhor.

— Pedras, mas não as bolsas de prata da corrupção de Chiang, não é mesmo?

— Como, senhor?

— Quais são os nomes de suas três filhas? Responda depressa!

— São... são.. Wang... Wang Sim...

— Esqueça! — David olhou para a arcada. — Ni bushi ren! Você não é um homem, é um porco! Passe bem, Liang do Kuomintang. Passe bem enquanto eles permitirem. Se quer saber, não estou absolutamente interessado no que possa acontecer com você.

David levantou-se, pronto para se jogar outra vez no chão, ao primeiro clarão irregular em uma janela lá em cima, à esquerda. Os olhos de Jason Bourne eram bastante acurados; não havia nada. David juntou-se à multidão que corria para a arcada e saiu para a Salisbury Road.

Ele fez a ligação de uma arcada congestionada e barulhenta ao lado da Nathan Road. Comprimiu o indicador no ouvido direito para escutar melhor.

— Wei? — disse uma voz de homem.

— Aqui é Bourne e falarei inglês. Onde está minha esposa?

— Wode tian ah! Dizem que fala nossa língua em numerosos dialetos.

— Já faz muito tempo e quero deixar tudo bem claro. Perguntei por minha esposa.

— Liang deu este número?

— Ele não tinha alternativa.

— E também está morto.

— Não me importo com o que faça, mas se estivesse no seu lugar pensaria muito antes de matá-lo.

— Por quê? Ele é inferior a um verme.

— Porque escolheu um idiota... pior do que isso, um idiota histérico. Ele falou com pessoas demais. Uma telefonista me informou que ele ligava para mim a intervalos de poucos minutos...

— Ligava para você?

— Cheguei esta manhã. Onde está minha esposa?

— Liang, o mentiroso!

— Não esperava que eu ficasse naquela suíte, não é mesmo? Mandei que ele me arrumasse outro quarto. Fomos vistos conversando... discutindo... na presença de meia dúzia de empregados do hotel. A polícia vai procurar por um americano rico que desapareceu.

— A calça de Liang está suja — disse o chin — Talvez seja o suficiente.

— É suficiente. E agora vamos falar sobre o paradeiro de minha esposa.

— Já ouvi. Não sou privilegiado com essa informação.

— Pois então chame alguém que saiba de tudo. Agora!

— Vai se encontrar com outros que sabem mais.

— Quando?

— Entraremos em contato com você. Em que quarto está?

— Eu ligo para você. Tem quinze minutos.

— Está me dando ordens?

— Sei onde você se encontra, em que janela, em que sala... é muito relaxado com o seu rifle. Deveria ter protegido o cano. A luz do sol reflete no metal, o que é básico. Em trinta segundos estarei a trinta metros de sua porta, mas você não sabe onde estou e não pode deixar esse telefone.

— Não acredito em você!

— Então experimente. Não está me observando agora, mas eu estou observando você. Tem quinze minutos, e quando tornar a ligar, quero falar com minha esposa.

— Ela não está aqui!

— Se eu achasse que estava, você já seria um homem morto, a cabeça separada do corpo por uma faca e jogada pela janela, para se juntar ao resto do lixo no porto. Se pensa que estou exagerando, verifique por aí. Pergunte às pessoas que já lidaram comigo. Pergunte ao seu taipan, o Yao Ming que não existe.

— Não posso fazer sua esposa aparecer de repente, Jason Bourne! — gritou o assustado capanga.

— Descubra o telefone em que poderei falar com ela. Ou ouço a voz de minha esposa... falando comigo... ou não tem mais nada. Exceto o seu cadáver sem cabeça e um lenço preto no pescoço sangrando. Quinze minutos!

David desligou e limpou o suor do rosto. Conseguira. A mente e as palavras eram de Jason Bourne... voltara a um tempo apenas vagamente lembrado e instintivamente sabia o que fazer, o que dizer, o que ameaçar. Havia uma lição em algum ponto. A aparência era muito mais importante do que a realidade. Ou havia uma realidade em seu íntimo, clamando para sair, querendo o controle, dizendo a David Webb para confiar no homem dentro dele?

David deixou a arcada opressivamente apinhada e virou à direita na calçada também abarrotada. A Milha Dourada do Tsim Sha Tsui estava se preparando para os jogos noturnos, e o mesmo acontecia com ele. Podia voltar ao hotel agora; o gerente-assistente estaria a quilômetros de distância, presumivelmente comprando uma passagem de avião para Formosa, se havia algum fundo de verdade em todas as suas declarações histéricas. David usaria o elevador de serviço para chegar a seu quarto, pois sempre havia a possibilidade de outros o aguardarem no saguão, embora duvidasse. O estande de tiro numa sala vazia no New World Centre não era um posto de comando e o atirador não era um comandante, mas apenas um retransmissor, agora apavorado, temendo por sua vida.

A cada passo pela Nathan Road, a respiração de David se tornava mais esbaforida, o peito batia mais forte. Dentro de doze minutos ouviria a voz de Marie. Oh, Deus, como queria ouvi-la! Tinha de ouvir! Era a única coisa que o manteria são, a única coisa que importava.

— Seus quinze minutos se esgotaram — disse David, sentado na beira da cama, tentando controlar o coração disparado, especulando se o eco rápido poderia ser ouvido pelo telefone como o escutava, torcendo para que não provocasse qualquer tremor em sua voz.

— Ligue para cinco-dois-seis-cinco-três.

— Cinco? — David reconheceu a estação. — Ela está em Hong Kong, não em Kowloon.

— Ela será transferida imediatamente.

— Tornarei a ligar para você depois de falar com ela.

— Não há necessidade, Jason Bourne. Homens que sabem de tudo estarão lá e vão falar com você. Minha parte está encerrada e você nunca me viu.

— Nem preciso ver. Uma fotografia será tirada quando sair dessa sala, mas não saberá de onde nem por quem. Provavelmente vai avistar uma porção de pessoas... no corredor, elevador ou saguão... mas não saberá qual tem uma câmara cuja lente parece um botão no paletó ou um emblema na bolsa. Passe bem, assecla. Tenha bons pensamentos.

David apertou a lingüeta do aparelho, cortando a ligação; esperou três segundos, soltou-a, ouviu o som de ligar, comprimiu os botões. Podia escutar a campainha. Oh, Deus, não conseguia mais suportar!

— Wei?

— Aqui é Bourne. Ponha minha esposa na linha.

— Como queira.

— David?

— Você está bem? — gritou David, à beira da histeria.

— Apenas cansada, meu querido, .mas isso é tudo. E vocêestá bem?

— Eles machucaram você... tocaram em você?

— Não, David. Têm sido muito gentis, para dizer a verdade. Mas você sabe como fico cansada às vezes. Lembra daquela semana em Zurique, quando você queria visitar o Fraumünster e os museus, sair para velejar no Limmat e eu disse que não agüentaria?

Não houvera nenhuma semana em Zurique. Apenas o pesadelo de uma única noite, quando os dois quase perderam a vida. Ele enfrentando seus executores em potencial na Steppdeckstrasse, ela quase estuprada, condenada à morte na deserta margem do rio, no Guisan Quai. O que Marie estava tentando lhe dizer?

— Claro que lembro.

— Então não deve se preocupar comigo, querido. Graças a Deus que você está aqui! Eles me prometeram que estaremos juntos em breve. Será como Paris, David. Lembra de Paris, quando eu pensava que perderia você? Mas você veio ao meu encontro e ambos sabíamos para onde ir. Aquela rua adorável, com as árvores de um verde escuro e...

— Já chega, Sra. Webb — interveio uma voz de homem, fazendo uma breve pausa e logo acrescentando, diretamente no fone: — Ou devo dizer Sra. Bourne?

— Pense, David, e tome cuidado! — gritou Marie, ao fundo. — E não se preocupe, querido! Aquela rua adorável, com as árvores verdes, minha árvore predileta...

— Ting zhi! — gritou o homem, dando uma ordem em

chinês. — Levem-na daqui! Ela está dando informações! Depressa! Não a deixem falar!

— Faça mal a ela de qualquer forma e vai se arrepender pelo resto de sua curta vida — disse David, a voz gelada. — Juro por Cristo que o encontrarei.

— Não há motivo para ser desagradável até agora — respondeu o homem, falando devagar, o tom sincero. — Ouviu sua esposa. Ela tem sido bem tratada. Não tem queixas.

— Alguma coisa está errada com ela! O que vocês fizeram que ela não pode me dizer?

— É apenas a tensão, Sr. Bourne. E ela estava lhe dizendo alguma coisa, não pode haver qualquer dúvida, em sua ansiedade, tentando descrever este local... de maneira errada, devo acrescentar... mas mesmo que a informação fosse acurada, seria tão inútil para você quanto o número do telefone. Ela está a caminho de outro apartamento, um dos milhões que existem em Hong Kong. Por que haveríamos de lhe fazer algum mal? Seria contraproducente. Um grande taipan quer conhecer você.

— Yao Ming?

— Como você, ele usa vários nomes. Talvez possam chegar a um acordo.

— Ou chegamos ou ele está morto. E você também.

— Acredito no que diz, Jason Bourne. Matou um parente meu que estava além do seu alcance, em sua própria ilha-fortaleza, em Lantau. Tenho certeza de que se lembra.

— Não mantenho registros. Yao Ming. Quando?

— Esta noite.

— Onde?

— Deve compreender que ele é um homem bastante conhecido e por isso o encontro deve ser num lugar insólito.

— Posso escolher?

— Isso é inaceitável. Não insista. Lembre-se que estamos com sua esposa.

David ficou tenso; estava perdendo o controle de que precisava desesperadamente.

— Diga onde.

— A Cidade Murada. Presumimos que a conhece.

— Já ouvi falar a respeito. — David tentou focalizar a memória que lhe restava. — O mais repulsivo cortiço da face da terra, se bem me lembro.

— O que mais poderia ser? É a única possessão legal da República Popular em toda a colônia. Até mesmo o abominável Mao Tsé-tung deu permissão para que nossa polícia fizesse uma limpeza. Mas os servidores públicos não são tão bem pagos como deveriam. Por isso, o lugar continua essencialmente o mesmo.

— A que horas?

— Depois do escurecer, mas antes de o bazar fechar. Entre nove e meia e quinze para as dez, pontualmente.

— Corno vou encontrar esse Yao Ming... que não é Yao Ming?

— Há uma mulher no primeiro quarteirão do mercado que vende entranhas de cobra como afrodisíaco, especialmente de naja. Procure-a e pergunte onde existe uma bem grande. Ela dirá quais os degraus que deve usar, que viela seguir. E haverá alguém à sua espera.

— Talvez eu nunca consiga chegar lá. A cor da minha pele não é bem-vinda no lugar.

— Ninguém lhe fará mal. Mas sugiro que não use roupas vistosas nem jóias caras.

— Jóias?

— Se tiver um relógio de alto preço, não o use.

Eles cortariam seu braço por um relógio. Medusa. Que assim fosse.

— Obrigado pelo aviso,

— Só mais uma coisa. Não pense em alertar as autoridades ou seu consulado numa tentativa imprudente de comprometer o taipan. Se o fizer, sua esposa morrerá.

— Isso não era necessário.

— Com Jason Bourne, tudo é necessário. Será devidamente vigiado

— De nove e meia às nove e quarenta e cinco.

David desligou e levantou-se da cama. Foi até a janela e olhou para o porto. O que era? O que Marie estava tentando lhe dizer?

...você sabe como fico cansada às vezes.

Não, ele não sabia. Marie era uma mulher forte, criada num rancho de Ontario, jamais se queixava de cansaço.

... não deve se preocupar comigo, querido.

Uma súplica tola e ela devia saber disso. Marie não desperdiçava momentos preciosos com tolices. A menos... ela estaria divagando de maneira incoerente?

Será como Paris, David... ambos sabíamos para onde ir... aquela rua adorável, com as árvores de um verde-escuro...

Não, ela não estava divagando, apenas dava essa impressão; havia uma mensagem. Mas qual? Qual era a rua adorável, com “árvores de um verde-escuro”? Nada lhe ocorria, e isso o estava levando à loucura. Falhava a Marie. Ela enviava um sinal e ele não conseguia entender.

Pense, David, e tome cuidado!... não se preocupe, querido! Aquela rua adorável, com as árvores verdes, minha árvore predileta...

Que rua adorável? Que árvores verdes, que árvore predileta? Nada fazia sentido... mas devia fazer! Ele deveria ser capaz de reagir, não ficar olhando por uma janela, a memória vazia. Socorro! Socorro!, ele gritou silenciosamente para ninguém.

Uma voz interior lhe disse para não se fixar no que não podia compreender. Havia coisas por fazer; não podia seguir voluntariamente para um encontro no campo escolhido pelo inimigo sem algum conhecimento prévio, sem algumas cartas para usar como trunfos... Sugiro que não use roupas vistosas... Não seriam vistosas de qualquer forma, pensou David, mas agora seria justamente algo oposto... e inesperado.

Durante os meses em que se livrara das camadas de Jason Bourne, um tema se repetira incessantemente. Mudança, mu dança, mudança. Bourne era um mestre da mudança; chamavam-no “o camaleão”, um homem que podia se fundir com qualquer ambiente, na maior facilidade. Não como algo grotesco, uma caricatura de peruca e nariz de cera, mas como alguém que podia adaptar os elementos essenciais da aparência ao ambiente imediato, de tal forma que as pessoas que haviam encontrado o “assassino” — raramente, no entanto, em plena luz ou parado bem perto — ofereciam as descrições mais variadas do homem caçado por toda Ásia e Europa. Os detalhes estavam sempre em conflito: os cabelos eram escuros ou claros; os olhos castanhos, azuis ou manchados; a pele pálida, bronzeada ou inchada; as roupas bem feitas e discretas, se o encontro ocorria num café elegante e pouco iluminado, ou amarrotadas e ordinárias, se a confrontação era no cais ou nas profundezas inferiores de uma cidade. Mudança. Sem esforço com um mínimo de artifícios. David Webb confiaria no camaleão que tinha dentro de si. Queda livre. Vá para onde Jason Bourne determinar.

Depois de saltar do Daimler, ele fora para o Península Hotel e alugara um quarto, depositando a pasta com o dinheiro no cofre do hotel. Tivera a presença de espírito de se registrar sob o nome no terceiro passaporte falso de Cactus. Se houvesse homens á sua procura, usariam o nome, que ele registrara no Regent; era tudo o que tinham.

Atravessando a Salisbury Road, usou o elevador de serviço, seguiu apressado para o seu quarto e pôs as poucas roupas de que precisava em sua bolsa de vôo. Mas não cancelou a hospedagem no Regent. Se homens saíssem à sua procura, queria que vigiassem onde não estava.

Depois de instalado no Peninsula, tinha tempo para comer alguma coisa e excursionar por várias lojas, até o anoitecer. Quando chegasse o momento, estaria na Cidade Murada... antes das nove e meia. Jason Bourne estava dando as ordens e David Webb tinha de obedecer.

A Cidade Murada de Kowloon não tinha qualquer muralha visível ao redor, mas é tão nitidamente definida que parece haver uma, feita com o aço mais duro. É sentida instantaneamente no congestionado mercado que se estende pela rua, na frente de prédios escuros e desmantelados, autênticas choças empilhadas umas por cima das outras, dando a impressão de que a qualquer momento todo o complexo em ruínas pode desabar, deixando apenas escombros, onde antes havia escombros armados. Mas há uma força enganadora, que se encontra ao descer um pequeno lance de degraus para o interior do cortiço interminável. Abaixo do nível da rua, há vielas calçadas com pedras, que na maioria dos casos são túneis que passam sob as frágeis estruturas. Em corredores imundos, mendigos aleijados competem com prostitutas seminuas e traficantes de tóxicos, à luz fantasmagórica de lâmpadas expostas, pendentes de fios que correm pelas paredes de pedra. Uma umidade pútrida impregna tudo; só há decadência e podridão, mas a força do tempo endureceu essa decomposição, petrificando-a.

Dentro das vielas repulsivas, sem qualquer ordem ou equilíbrio, há escadas estreitas e mal-iluminadas, que levam a uma sucessão vertical de apartamentos miseráveis, a média se elevando a três andares, sendo que dois acima da superfície. No interior dos cômodos pequenos e dilapidados, vende-se a mais ampla variedade de narcóticos e sexo. Tudo se encontra além do alcance da polícia — um acerto tácito de todas as partes — pois poucas autoridades da colônia se arriscam a penetrar pelas entranhas da Cidade Murada. É o seu próprio inferno auto-suficiente. Que assim fosse.

Lá fora, no mercado que ocupa a rua coalhada de lixo, onde nenhum tráfego é permitido, mesas imundas, em que se empilham mercadorias refugadas e/ou roubadas, ficam espremidas entre barracas cobertas de fuligem, nas quais bolsões de vapor se elevam de enormes caldeirões de óleo fervendo, em que pedaços suspeitos de carne, aves e cobras são continuamente mergulhados, depois removidos e largados sobre folhas de jornal, para venda imediata. As multidões se deslocam sob a luz fraca dos lampiões de um vendedor para outro, barganhando em vozes estridentes, gritando sem parar, comprando e vendendo. Há também os mascates de meio-fio, homens e mulheres em andrajos, sem barracas ou mesas, as mercadorias espalhadas na calçada. Ficam acocorados por trás de quinquilharias e jóias de fantasia, a maior parte roubada das docas, de gaiolas com besouros rastejando e passarinhos esvoaçando.

Perto da entrada do estranho e fétido bazar sentava uma mulher solitária e musculosa, num banquinho de madeira, as pernas grossas entreabertas, esfolando cobras e removendo-lhes as entranhas, os olhos escuros aparentemente obcecados pela serpente se contorcendo em suas mãos. Nos dois lados havia sacos de aniagem em movimento, de vez em quando se convulsionando, quando os répteis condenados se atacavam uns aos outros, numa fúria sibilante, enlouquecidos pelo cativeiro. Sob o pé direito descalço da mulher havia uma enorme naja, o corpo preto imóvel e ereto, os olhos pequenos firmes, hipnotizados pela multidão em movimento constante. A imundície do mercado era uma barricada apropriada à Cidade Murada sem mura lha que ficava além.

Virando a esquina no lado oposto do comprido bazar, um vulto desgrenhado entrou na multidão em movimento. O homem vestia um terno marrom ordinário e folgado, a calça enorme, o paletó muito grande, mas apertado nos ombros encurvados. Um chapéu de aba larga, preto e inconfundivelmente oriental, projetava uma sombra permanente em seu rosto. O andar era lento, como convinha a um homem parando na frente de várias barracas e mesas, examinando as mercadorias; mas apenas uma vez ele estendeu a mão hesitante para o bolso, a fim de efetuar uma única compra. O corpo todo parecia vergado, como um homem que passara anos empenhado em trabalho duro nos campos ou nas docas, a dieta nunca suficiente para sustentar um organismo de que tanto se exigia. Havia ainda uma certa tristeza nesse homem, um senso de inutilidade derivado de muito pouco, muito tarde e muito dispendioso, para a mente e o corpo. Era o reconhecimento da impotência, de orgulho abandonado, pois não havia nada de que se orgulhar; o preço da sobrevivência fora demais. E esse homem, esse vulto encurvado que, hesitante, comprou um cone de jornal com um suspeito peixe frito, não era diferente de muitos outros que circulavam pelo mercado... na verdade, podia-se até dizer que ele não se diferenciava em nada dos demais. Aproximou-se da mulher musculosa que estava arrancando as entranhas de uma cobra ainda a estrebuchar.

— Onde está a maior? — perguntou Jason Bourne, em chinês, os olhos fixados na naja imóvel, a gordura escorrendo do jornal sobre a mão esquerda.

— Chegou cedo — respondeu a mulher, sem qualquer expressão definida. — Está escuro, mas veio antes da hora.

— Fui chamado às pressas. Questiona as instruções do taipan?

— Ele é um miserável ordinário para um taipan — exclamou a mulher, num cantonês gutural. — Que me importa? Desça os degraus por trás de mim e pegue a primeira viela à esquerda. Uma puta estará esperando quinze ou vinte metros adiante. Ela espera pelo homem branco para levá-lo ao taipan... Você é o homem branco? Não posso dizer com esta luz e seu chinês é bom... mas não parece um homem branco, não usa roupas de homem branco.

— Se estivesse no meu lugar, faria questão de parecer um homem branco, vestir como um homem branco, se alguém mandasse que viesse até aqui?

— Eu faria questão como mil demônios de mostrar que era de Qing Gaoyan! — respondeu a mulher, rindo e mostrando os dentes podres. — Especialmente se você leva dinheiro. Está com dinheiro... nosso Zhongguo ren?

— Você me lisonjeia, mas não estou.

— Você mente. Os brancos mentem com palavras celestiais sobre dinheiro.

— Está bem, minto. Espero que sua cobra não me ataque por isso.

— Seu tolo! Ele é velho, não tem mais presas, não tem veneno. Mas é a imagem celestial do órgão de um homem. E me traz dinheiro. Você vai me dar dinheiro?

— Por um serviço, posso dar.

— Aiya! Você quer este velho corpo, deve ter um machado na calça. Corte a puta, não a mim!

— Não um machado, apenas palavras — disse Bourne, enfiando a mão direita no bolso da calça.

Ele retirou uma nota de cem dólares americanos e aproximou-a do rosto da vendedora de entranhas de serpentes, mantendo-a fora da vista dos outros mascates.

— Aiya... aiya! — murmurou a mulher, enquanto Jason afastava a nota de seus dedos ávidos.

A cobra morta caiu entre as pernas da mulher.

— O serviço — repetiu Bourne. — Como pensou que eu era um dos seus, espero que outros pensem da mesma forma. Tudo o que quero que você faça é dizer a quem perguntar que o homem branco nunca apareceu. Está certo?

— Está! Dê-me o dinheiro!

— O serviço?

— Você comprou cobras! Cobras! O que sei de um homem branco? Ele nunca apareceu! Tome aqui! Leve sua cobra! Faça amor!

A mulher pegou a nota, recolheu as entranhas com a mão

e meteu numa bolsa de plástico, em que havia um logotipo. Dizia Christian Dior.

Permanecendo encurvado, Bourne fez duas mesuras rápidas e afastou-se da multidão. Foi largar as entranhas da cobra na sarjeta, bastante longe de qualquer lampião para não ser notado. Segurando o cone pingando com o peixe fedorento, ele fingia repetidamente comer, enquanto descia lentamente os degraus e entrava nas profundezas fervilhantes da Cidade Murada. Olhou para o relógio, deixando cair o peixe. Eram nove e quinze; as patrulhas do taipan estariam assumindo as posições.

Precisava conhecer a extensão da segurança do banqueiro. Queria que fosse verdade a mentira que dissera ao atirador numa sala vazia por cima do passeio do porto. Em vez de ser vigiado, queria vigiar. Memorizaria cada rosto, cada função na estrutura de comando, a rapidez com que cada guarda tomava uma decisão sob pressão, o equipamento de comunicações; acima de tudo, queria descobrir onde havia fraquezas na segurança do taipan. David compreendia que Jason Bourne estava assumindo o controle; havia um objetivo no que ele estava fazendo. O bilhete do banqueiro começara com as palavras Uma esposa por uma esposa... Só era necessário trocar uma palavra. Um taipan por uma esposa.

Bourne entrou na viela à esquerda e percorreu várias dezenas de metros, passando por cenas que ignorou escrupulosa- mente; um residente da Cidade Murada se comportaria assim. Numa escada escura, uma mulher de joelhos realizava o ato pelo qual estava sendo paga, o homem de pé, com o dinheiro na mão, por cima da sua cabeça; um jovem casal, dois viciados óbvios quase em frenesi, suplicavam a um homem num dispendioso blusão preto de couro; um garotinho, fumando um cigarro de maconha, urinava contra a parede de pedra; um mendigo sem pernas passava ruidosamente em sua prancha com rodas pelas pedras do calçamento, entoando “Bong ngo, bong ngo!”, uma súplica por esmolas; em outra escada mal-iluminada um cafetão bem-vestido ameaçava uma de suas prostitutas com o desfiguramento facial se ela não produzisse mais dinheiro. David Webb refletiu que não estava na Disneylândia. Jason Bourne estudava a viela como se fosse uma zona de combate por trás das linhas inimigas. Eram nove e vinte e quatro. Os soldados deviam estar se colocando em seus postos. O homem externo e o homem interno viraram e começaram a voltar.

A prostituta do banqueiro estava assumindo sua posição, a blusa vermelha desabotoada, mal cobrindo os seios pequenos; a abertura tradicional na saia preta subia até a coxa. Era uma caricatura. O “homem branco” não devia cometer qualquer erro. Ponto um: Acentuar o óbvio. Uma coisa a lembrar; a sutileza não era tão importante. Vários metros atrás da mulher, um homem falava por um rádio portátil; ele alcançou a mulher, sacudiu a cabeça e se afastou apressado para a extremidade da viela, onde ficavam os degraus. Bourne parou, a postura arriada, virou-se para a parede. Passos soaram atrás dele, apressados, determinados, o ritmo se acelerando. Um segundo chinês aproximou-se e passou, um homenzinho de meia-idade, num terno escuro, gravata, sapatos tão engraxados que brilhavam. Não era um cidadão da Cidade Murada; sua expressão era uma mistura de apreensão e repulsa. Tinha a aparência e o comportamento de um executivo que recebia a ordem de cumprir deveres que considerava desagradáveis. Um homem da companhia, meticuloso, submisso, preocupado com o resultado final, pois as cifras não mentiam. Um banqueiro?

Jason estudou a fileira irregular de escadas; o homem saíra de uma delas. O som dos passos fora abrupto e recente; a julgar pelo ritmo, não haviam começado a mais de sessenta ou setenta metros de distância. A terceira escada à esquerda ou a quarta à direita. Em um dos apartamentos por cima de uma das duas escadas havia um taipan que esperava por sua visita. Bourne precisava descobrir qual e em que nível. O taipan tinha de ficar surpreso, até mesmo chocado. Tinha de compreender com quem estava lidando e o que suas ações lhe custariam.

Jason recomeçou a andar, agora assumindo a postura de um bêbado; as palavras de uma antiga canção mandarim lhe ocorreram. “Me li hua cherng zhang liu yue”, entoou ele, baixinho, balançando e batendo de leve na parede, enquanto se aproximava da prostituta.

— Tenho dinheiro — disse ele jovialmente, as palavras num chinês impreciso. — E você, linda mulher, tem o que preciso. Para onde vamos?

— Para lugar nenhum, bêbado maluco. Fique longe de mim.

— Bong ngo! Cheng bong ngo! — berrou o mendigo sem pernas, avançando ruídosamente pela viela. — Cheng gong ngo!

— Jau! — gritou a mulher. — Saia daqui antes que eu chute seu corpo inútil para fora da prancha, Loo Mi! Já disse para você não interferir com os negócios!

— Esse bêbado ordinário é negócio? Posso lhe arrumar alguém melhor!

— Ele não é meu negócio, querido. É uma irritação. Estou esperando por alguém.

— Então vou cortar os pés dele! — gritou a figura grotesca, tirando um cutelo da prancha.

— Mas que diabo está fazendo? — rugiu Bourne, em inglês, metendo o pé no peito do mendigo e empurrando o homem-tronco e sua prancha para a parede oposta.

— Há leis aqui! — berrou o mendigo, a voz estridente. Atacou um aleijado! Está roubando um aleijado!

— Pode me processar — disse Jason, virando-se para a mulher, enquanto o mendigo se afastava.

— Você... fala inglês.

A prostituta estava aturdida.

— E você também.

— Fala chinês, mas não é chinês.

— Em espírito, talvez. Estava à sua procura.

— Você é o homem?

— Sou.

— Vou levar você ao taipan.

— Não. Basta que me diga qual é a escada e o andar.

— Não são essas as minhas instruções.

— São as instruções novas, dadas pelo taipan. Duvida de suas novas instruções?

— Devem ser transmitidas.pelo homem que é o chefe dos outros.

— O pequeno Zhongguo ren, de terno escuro?

— Ele diz tudo para a gente. E paga pelo taipan.

— A quem ele paga?

— Pergunte a ele pessoalmente.

— O taipan quer saber. — Bourne enfiou a mão no bolso

e tirou um maço de notas dobradas. — Ele me disse para dar dinheiro extra a você, se cooperar comigo. Acha que seu chefe pode estar enganando-o.

A mulher recuou para a parede, olhando alternadamente para o dinheiro e para o rosto de Bourne.

— Se estiver mentindo...

— Por que eu mentiria? O taipan quer falar comigo e você sabe disso. Deve me levar até ele. Foi o taipan quem me disse para me vestir assim, me comportar assim, encontrar você e vigiar seus homens. Como eu saberia de você se ele não tivesse me contado?

— Lá em cima no mercado. Devia falar com alguém antes de vir para cá.

— Não estive lá. Desci direto. — Jason removeu várias notas. — Nós dois estamos trabalhando para o taipan. Tome aqui. Ele quer que você pegue isto e vá embora. Mas não deve subir para a rua.

Ele estendeu o dinheiro.

— O taipan é generoso — disse a prostituta, estendendo a mão para o dinheiro.

— Qual é a escada? —indagou Bourne, puxando o dinheiro de volta. — Que andar? O taipan não sabia.

— Ali — respondeu a mulher, apontando para a parede do outro lado. — A terceira escada, segundo andar. E agora me dê o dinheiro.

— Quem está recebendo do chefe? Diga depressa.

— No mercado tem a mulher das cobras, o velho ladrão vendendo correntes de ouro falso do norte e o homem do peixe e carne estragados.

— Isso é tudo?

— É, sim.

— O taipan tem razão, está sendo enganado. Ele ficará grato a você. — Bourne desdobrou outra nota. — Mas quero ser justo. Além do que está com o rádio, quantos outros trabalham para o chefe?

— Três outros, também com rádios — disse a prostituta, os olhos fixos no dinheiro, a mão avançando devagar.

— Pegue isto e vá embora. Siga por aquele lado, e não suba a rua.

A mulher pegou as notas e saiu correndo pela viela, os saltos altos ressoando, o vulto desaparecendo na semi-escuridão, Bourne ficou observando até que ela sumiu, depois virou-se e percorreu apressado o caminho para os degraus. Tornou a assumir a aparência encurvada, subindo para a rua. Três guardas e um homem no comando. Ele sabia o que tinha de fazer e precisava ser feito rapidamente. Eram nove e trinta e seis. Um taipan por uma esposa.

Encontrou o primeiro guarda conversando com o peixeiro, nervosamente, com gestos bruscos. O barulho da multidão era um obstáculo. O peixeiro não parava de sacudir a cabeça. Bourne escolheu um homem corpulento perto do guarda; saiu correndo e empurrou o inocente espectador para cima do guarda, dando um. passo para o lado, enquanto o homem do taipan recuava. Na breve confusão que se seguiu, Jason puxou o aturdido guarda para o lado, acertando-o na base da garganta com os nós dos dedos; virou-o quando ele começou a cair e, com a mão rígida, golpeou a sua nuca, no alto da espinha. Arrastou o homem inconsciente pela calçada, pedindo desculpas à multidão em chinês por seu amigo bêbado. Largou o guarda nos escombros de uma loja, pegou o rádio e quebrou-o.

O segundo homem do taipan não exigiu essa tática. Estava à margem da multidão, sozinho, gritando pelo rádio. Bourne aproximou-se; sua figura lamentável não representava qualquer ameaça e ele estendeu a mão, como se fosse um mendigo. O guarda acenou-lhe para que se afastasse; foi o último gesto de que ele se lembraria, pois Bourne pegou seu pulso, torceu-o e quebrou o braço do homem. Quatorze segundos depois, o segundo guarda do taipan estava caído nas sombras, sobre uma pilha de lixo, o rádio destruído.

O terceiro guarda estava em conferência com a mulher das cobras. Para satisfação de Bourne, ela também sacudia a cabeça, como o peixeiro fizera; havia uma certa lealdade na Cidade Murada em relação aos subornos, O homem tirou o rádio do bolso, mas não teve chance de usá-lo. Jason correu, pegou a velha naja desdentada e jogou sua cabeça na cara do homem. O arquejo horrorizado, seguido por um grito, era toda a reação de que Jason Bourne precisava. Os nervos na garganta constituem uma magnífica rede de fibras imobilizadoras, ligando os órgãos do corpo ao sistema nervoso central. Bourne agiu rapidamente e outra vez arrastou a vítima pela multidão, pedindo desculpas profusamente. Deixou o guarda inconsciente num ponto escuro do concreto. Aproximou o rádio do ouvido; não havia nada no receptor. Eram nove e quarenta. Restava o chefe dos homens.

O pequeno chinês de meia-idade, no terno elegante e sapa tos bem engraxados, corria de um lado para outro, tentando localizar seus homens, relutante em fazer o menor contato físico com as hordas em torno das barracas e mesas dos vendedores. Sua visão era dificultada pela pequena altura. Bourne observou para onde ele estava indo, correu na sua frente, depois virou-se abruptamente e desferiu o punho com toda força contra o baixo-ventre do executivo. Enquanto o chinês vergava, Jason passou o braço esquerdo por sua cintura e levantou-o. Carregou o corpo inerte para um trecho da calçada em que dois homens estavam sentados, balançando, passando uma garrafa de um para outro. Jason desferiu uma cutelada no pescoço do banqueiro e largou-o entre os dois homens. Apesar do torpor mental em que se encontravam, os dois bêbados providenciariam para que seu novo companheiro permanecesse inconsciente por um tempo considerável. Havia bolsos a vasculhar, roupas e um par de sapatos a serem removidos. Tudo isso valeria um preço; e qualquer que fosse a quantia que eles conseguiriam obter por seus esforços, já seria uma gratificação e tanto. Eram nove e quarenta e três.

Bourne não manteve mais a postura encurvada; o camaleão desaparecera. Correu através da rua transbordante de humanidade e desceu os degraus, entrando na viela. Conseguira! Eliminara a Guarda Pretoriana. Um taipan por uma esposa! Chegou à escada — a terceira, na parede da direita — e sacou a arma extraordinária que comprara de um negociante de armas em Mongkok. O mais silenciosamente possível, experimentando cada degrau com o pé, ele subiu para o segundo andar. Preparou-se diante da porta, equilibrando o peso, levantou a perna esquerda e acertou com toda força a madeira fina.

A porta foi arrombada. Jason pulou para o interior do cómodo, agachando-se, a arma estendida.

Três homens o fitavam, formando um semicírculo, cada

um com uma arma apontada para sua cabeça. Por trás deles, vestindo um traje de seda branca, um enorme chinês estava sentado numa cadeira. O homem acenou com a cabeça para os guardas.

Ele perdera. Jason Bourne calculara errado e David Webb morreria. Muito mais angustiante, ele sabia que em breve se seguiria a morte de Marie. Deixe-os disparar, pensou David. Puxar os gatilhos, acabando misericordiosamente com tudo. Ele matara a única coisa que importava em sua vida,

— Atirem, seus miseráveis! Atirem!


 

— Seja bem-vindo, Sr. Bourne disse o homem grande no traje de seda branca, acenando para que os guardas se afastassem. — Presumo que percebe a lógica de pôr sua arma no chão e empurrá-la para longe. Sabe que realmente não há alternativa.

David olhou para os três chineses; o homem no centro puxava para trás o cão da automática. David pôs a arma no chão e empurrou-a para a frente.

— Estava me esperando, não é? —indagou ele suavemente, enquanto o guarda à sua direita pegava a arma.

— Não sabíamos o que esperar... exceto o inesperado. Como conseguiu? Meus homens estão mortos?

— Não. Estão machucados e inconscientes, mas não mortos.

— Extraordinário. Pensava que me encontraria sozinho aqui?

— Fui informado de que estava em companhia de seu chefe e três outros, não de seis. Concluí que era lógico. Achei que mais homens chamaria atenção.

— Foi por isso que esses homens chegaram mais cedo, a fim de tomar as primeiras providências, não saindo deste buraco desde então. Calculei que poderia querer me capturar para trocar por sua esposa.

— É óbvio que ela não tem nada a ver com isso. Solte-a. Ela não pode lhe fazer mal. Mate-me, mas deixe-a partir.

— Pi ge! — disse o banqueiro, ordenando que dois dos guardas saíssem do apartamento; eles fizeram uma mesura e se retiraram apressados. Tornando a se virar para David, ele acrescentou: — Este homem vai ficar. Além da imensa lealdade que tem a mim, não fala nem compreende uma só palavra de inglês.

— Vejo que confia em seu pessoal.

— Não confio em ninguém.

O financista gesticulou para uma velha cadeira de madeira no outro lado da sala miserável, revelando no gesto um Rolex de ouro no pulso, diamantes incrustados em torno do mostrador, combinando com as abotoaduras.

— Sente-se. Não medi esforços e investi muito dinheiro para promover este encontro.

— O chefe dos seus homens... presumo que seja essa a sua função... — disse Bourne, estudando cada detalhe da sala enquanto se encaminhava para a cadeira —, recomendou que não usasse um relógio caro ao vir aqui. Acho que você não deu atenção ao aviso.

— Cheguei num cafetã sujo, com as mangas bastante largas para esconder o relógio. E observando suas roupas, tenho certeza de que o Camaleão compreende.

— Você é Yao Ming — murmurou David, sentando.

— É um nome que uso e estou certo de que entende. O Camaleão passa por muitos formatos e cores.

— Não matei sua esposa... nem o homem que por acaso estava com ela.

— Sei disso, Sr. Webb.

— Você o quê?

David levantou-se bruscamente, e o guarda deu um passo rápido em sua direção, a arma apontada.

— Sente-se — repetiu o banqueiro. — Não alarme meu devotado amigo ou ambos podemos lamentar, você muito mais do que eu.

— Sabia que não fui eu e ainda assim fez isso conosco!

— Sente-se logo, por favor.

— Quero uma resposta! — exclamou David, tornando a sentar.

— Porque você é o verdadeiro Jason Bourne. É por isso que está aqui, é por isso que sua esposa permanece sob a minha custódia e assim continuará até você realizar o que tenho a lhe pedir.

— Falei com ela.

— Sei que falou. Eu permiti.

— Ela parecia diferente... mesmo se levando em consideração as circunstâncias. É uma mulher forte, mais forte do que eu estava naquelas terríveis semanas na Suíça e Paris. Alguma coisa está errada com ela. Foi drogada?

— Claro que não.

— Está machucada?

— Em espírito, talvez, mas não por qualquer outra forma. Mas devo dizer que ela será machucada e morrerá se você se recusar. Preciso ser mais claro?

— É um homem morto, taipan.

— O verdadeiro Bourne fala. Isso é ótimo. Justamente o que preciso.

— Explique tudo.

— Estou sendo acossado por alguém que usa o seu nome — começou o taipan, a voz dura, a intensidade aumentando. —E muito mais severamente... que os espíritos me perdoem... do que a perda de uma jovem esposa. Por todos os lados, em todas as áreas, o terrorista, esse novo Jason Bourne, ataca. Mata meus homens, explode carregamentos de mercadorias valiosas, ameaça outros taipans de morte se fizerem negócios comigo. Seus honorários exorbitantes são pagos por meus inimigos, em Hong Kong e Macau, nos canais da Deep Bay e até no norte, nas próprias províncias.

— Tem uma porção de inimigos.

— Meus interesses são amplos.

— O que também acontecia, pelo que me disseram, com o homem que não matei em Macau.

— Por mais estranho que pareça, ele e eu não éramos inimigos — disse o banqueiro, respirando fundo, apertando o braço da cadeira, num esforço para se controlar. —Em determinadas áreas, nossos interesses convergiam. Foi assim que ele conheceu minha esposa.

— Muito conveniente. Ativos partilhados.

— Está sendo ofensivo.

— Não são minhas regras — respondeu Bourne, os olhos frios fixos no rosto do oriental. —Entre logo no assunto. Minha esposa está viva e a quero de volta, sem qualquer marca ou sequer uma voz alteada contra ela. Se lhe fizerem mal, por qualquer forma, você e seus Zhongguo ren não serão adversários para o que farei.

— Não está em condições de fazer ameaças, Sr. Webb.

— Webb não está — concordou o homem que fora outrora o mais caçado na Ásia e Europa. — Bourne está.

O oriental olhou firme para Jason, depois acenou com a cabeça duas vezes e baixou os olhos, para além do olhar de Webb.

— Sua audácia está no mesmo nível de sua arrogância. Vamos ao assunto. É muito simples, muito claro.

O taipan subitamente cerrou a mão direita, levantou o punho e bateu com força no frágil braço da cadeira decrépita.

— Quero provas contra os meus inimigos! — gritou ele, os olhos furiosos espiando por trás de duas paredes de carne intumescida, parcialmente fechadas. —A única maneira de conseguir isso é você me trazer esse impostor tão verossímil que toma o seu lugar! Quero ele na minha frente, observando-me, enquanto sente a vida deixá-lo em agonia, até me contar tudo o que preciso saber! Traga-o para mim, Jason Bourne!

O banqueiro respirou fundo e depois acrescentou, suavemente:

— Então, e só então, voltará a se encontrar com sua esposa.

David ficou olhando fixamente para o taipan, em silêncio, por um longo tempo, antes de perguntar:

— O que o faz pensar que posso consegui-lo?

— Quem melhor para capturar um farsante do que o original?

— Palavras — disse David. — Que não fazem o menor sentido.

— Ele estudou você. Analisou seus métodos, suas técnicas.

Não poderia passar por você se não tivesse feito isso. Descubra-o! Capture-o com as táticas que você criou pessoalmente.

— Só isso?

— Terá ajuda. Vários nomes e descrições, homens que estou convencido de que têm um envolvimento com esse novo assassino que usa um velho nome.

— Em Macau?

— Nunca! Não deve ser em Macau! Não pode haver qualquer alusão, ab nenhuma referência, ao incidente no Hotel Lisboa. Está acabado, encerrado; você nada sabe a respeito. Minha pessoa não pode ser associada de jeito nenhum com o que você está fazendo. Não tem nada a ver comigo. Se você aflorar, está caçando um homem que assumiu sua identidade. Está se protegendo, se defendendo. Algo perfeitamente natural, nas circunstâncias.

— Pensei que queria provas...

— Vão aparecer, quando me trouxer o impostor — gritou o taipan.

— Se não é em Macau, onde então?

— Aqui, em Kowloon. No Tsim Sha Tsui. Cinco homens foram liquidados na sala dos fundos de um cabaré, entre os quais um banqueiro... como eu, um taipan, meu sócio em diversas ocasiões e não menos influente... assim como outros três cujas identidades foram ocultas. Ao que tudo indica, foi uma decisão do governo. Nunca descobri quem eram.

— Mas sabe quem era o quinto homem.

— Ele trabalhava para mim. Foi meu representante naquela reunião. Se eu tivesse comparecido, seu homônimo teria me matado. é por onde você começa, aqui em Kowloon, no Tsim Sha Tsui. Eu lhe darei os nomes dos dois mortos conhecidos e as identidades de muitos homens que eram inimigos de ambos, agora meus inimigos também. E um último aviso, Sr. Bourne. Caso tente descobrir quem eu sou, a ordem será rápida, a execução ainda mais rápida. Sua esposa morrerá.

— E você também. Dê-me os nomes.

— Estão neste papel — disse o homem que usava o nome Yao Ming, enfiando a mão no bolso do traje de seda branca. — Foram datilografados por uma estenógrafa pública no Mandarin. Não haveria sentido em tentar localizar uma máquina de escrever específica.

— Uma perda de tempo — comentou Bourne, pegando o papel. — Deve haver vinte milhões de máquinas de escrever em Hong Kong.               

— Mas não tantos taipans com o meu tamanho de cintura, não é mesmo?

— Eis uma coisa que não esquecerei.

— Eu já contava com isso.

— Como posso entrar em contato com você?

— Não pode. Nunca. Este encontro jamais ocorreu.

— Então por que aconteceu? Por que tudo aconteceu? Digamos que eu consiga descobrir e capturar esse cretino que se intitula Bourne... e não há qualquer certeza... o que farei com ele? Deixo-o nos degraus da Cidade Murada?

— Pode ser uma esplêndida idéia. Drogado, ninguém lhe prestaria a menor atenção, além de lhe revistar os bolsos.

— Eu prestaria a maior atenção. Um prêmio por um prêmio, taipan. Quero uma. garantia absoluta. Quero minha esposa de volta.

— O que consideraria tal garantia?

— Primeiro, a voz dela ao telefone, convencendo-me de que está ilesa. Depois, quero vê-la.., por exemplo, andando de um lado para outro da rua, sozinha, sem ninguém por perto.

— Jason Bourne fala?

— Isso mesmo,

— Está certo. Desenvolvemos uma indústria de alta tecnologia aqui em Hong Kong, pode perguntar a qualquer pessoa no ramo da eletrônica em seu país. No fundo desta página tem o número de um telefone. Quando e se.. e apenas quando e se... o impostor estiver em suas mãos, ligue para esse número e repita várias vezes as palavras “mulher-serpente”...

— Medusa — sussurrou Jason, interrompendo-o. —Aerotransportada.

O taipan arqueou as sobrancelhas, com uma expressão neutra.

— Naturalmente, eu estava me referindo à mulher no bazar.

— Estava coisa nenhuma. Continue.

— Como eu disse, repita as palavras várias vezes, até ouvir uma série de estalidos...

— Ligando outro número, ou números — interveio Bourne outra vez.

— Creio que está relacionado com o som das palavras — confirmou o taipan. — Não acha engenhoso?

— É o que se chama de programação de recepção auditiva, os instrumentos acionados por uma impressão vocal.

— Como não está impressionado, deixe-me enfatizar a condição sob a qual a ligação pode ser efetuada. E pelo bem de sua esposa, espero que isso o impressione. A ligação só deve ser efetuada quando você estiver preparado para entregar o impostor poucos minutos depois. Caso você ou qualquer outro use o número e as palavras de código sem essa garantia, eu saberei que está havendo uma busca nas linhas. Nesse caso, sua esposa será morta e o cadáver desfigurado de uma mulher branca, sem identificação, será jogado nas águas ao largo de nossas ilhas. Estou sendo claro?

Engolindo em seco, reprimindo a fúria, apesar do medo angustiante, Bourne respondeu friamente:

— A condição está perfeitamente compreendida. E agora compreenda a minha condição. Quando e se eu fizer essa ligação, quero falar com minha esposa... não em poucos minutos, mas em segundos. Se isso não acontecer, quem estiver na linha vai ouvir o tiro e você saberá que seu assassino, o prêmio que diz que tem de obter, terá a cabeça estourada. Terá trinta segundos.

— Sua condição está compreendida e será atendida. Eu diria que a conferência está encerrada, Jason Bourne.

— Quero minha arma. Está com um dos guardas que se retiraram.

— Será entregue quando sair.

— Ele aceitará minha palavra?

— Não será necessário. Se você sair daqui, ele deve lhe entregar. Um cadáver não tem necessidade de arma.

O que resta das imponentes mansões da extravagante era colonial de Hong Kong está no alto das colinas, por cima da cidade, numa área conhecida como Victoria Peak, a maior montanha da ilha, o ponto culminante de todo o território. Ali, graciosos jardins complementam caminhos margeados por roseiras, que levam a mirantes e varandas, de onde os ricos contemplam os esplendores do porto lá embaixo e as ilhas externas a distância. As residências com as vistas mais invejáveis são versões adulteradas das grandes casas da Jamaica. São intrincadas, de pé-direito alto; os cômodos fluem de um para outro nos ângulos mais inesperados, a fim de aproveitar as brisas de verão durante essa estação longa e sufocante; por toda parte há madeira entalhada e envernizada, cercando e reforçando janelas, feitas para resistir aos ventos e às chuvas do inverno na montanha. A força e o conforto se unem nessas mansões menores, os projetos determinados pelo clima.

Uma das casas no distrito de Peak, no entanto, diferia das outras. Não no tamanho, força ou elegância, não na beleza dos jardins, que talvez fossem mais amplos que muitos dos vizinhos, não na imponência do portão ou na altura do muro de pedra que cercava a propriedade. Parte do que a fazia parecer diferente era o senso de isolamento que a envolvia, especialmente à noite, quando apenas umas poucas luzes se mantinham acesas nos numerosos cômodos e nenhum som escapava das janelas ou dos jardins. Era como se a casa fosse praticamente desabitada; certamente não havia ali qualquer indício de frivolidade. Mas o que a diferenciava drasticamente eram os homens no portão e outros iguais que se podia avistar da estrada, patrulhando o terreno, além do muro. Estavam armados e em uniformes de campanha. Eram fuzileiros americanos.

A propriedade fora arrendada pelo Consulado dos Estados Unidos, por determinação do Conselho de Segurança Nacional. A qualquer indagação, o consulado deveria comentar apenas que durante o mês seguinte numerosos representantes do governo e da indústria americana deveriam chegar à colônia, em momentos diversos e indeterminados, e a segurança e a eficácia das acomodações justificavam o aluguel. Era tudo o que o consulado sabia. Contudo, um pessoal selecionado do MI-Seis britânico, Setor Especial, recebera mais alguma informação, já que sua cooperação era julgada necessária e fora autorizada por Londres. Só que as informações eram limitadas ao que era necessário saber de imediato, algo com que Londres também concordara. Os que se encontravam nos mais altos escalões dos dois governos, inclusive os assessores do Presidente dos Estados Unidos e da Primeira-Ministra da Inglaterra, haviam chegado à mesma conclusão: quaisquer revelações sobre a verdadeira natureza da propriedade em Victoria Peak poderiam ter conseqüências catastróficas para o Extremo Oriente e o mundo. Era uma casa segura, o quartel-general de uma operação secreta tão sensível que até mesmo o Presidente e a Primeira-Ministra pouco sabiam dos detalhes, conhecendo plenamente apenas os objetivos.

Um pequeno sedã subiu para o portão. No mesmo instante, potentes refletores foram acionados, ofuscando o motorista, que levantou o braço para proteger os olhos. Dois fuzileiros se aproximaram, um em cada lado do veículo, empunhando suas armas.

— Já deviam conhecer o carro a esta altura — comentou o enorme oriental num traje de seda branca, olhando através da janela aberta.

— Conhecemos o carro, Major Lin — respondeu o cabo à esquerda. — Mas precisamos nos certificar do motorista.

— Quem poderia se passar por mim? —gracejou o enorme major.

— O Homem-Montanha, senhor — respondeu o fuzileiro à direita.

— Ah, sim, estou lembrando. Um campeão americano de luta-livre.

— Meu avô sempre falava nele.

— Obrigado, filho. Podia pelo menos ter dito seu pai. Posso seguir adiante ou estou preso?

— Vamos apagar os refletores e abrir o portão, senhor — disse o primeiro fuzileiro. — Antes que eu me esqueça, Major, obrigado pelo nome daquele restaurante em Wanchai. É um lugar de classe e não estoura a nossa fortuna.

— Mas, infelizmente, não encontrou nenhuma Suzie Wong.

— Quem, senhor?

— Não importa. O portão, por favor.

Dentro da casa, na biblioteca que fora convertida em escritório, o Subsecretário do Estado Edward Newington McAllister sentava-se por trás de uma escrivaninha, estudando as páginas de um dossiê, sob a luz forte de um abajur, fazendo marcas nas margens, ao lado de determinados parágrafos e linhas. Estava absorvido na leitura, em total concentração. O interfone soou e ele teve de forçar os olhos e a mão para o aparelho.

— O que é? — Escutou por um instante e depois acrescentou: — Mande-o entrar, é claro.

McAllister desligou e voltou a atenção ao dossiê à sua frente, o lápis na mão. No alto da página que estava lendo havia as mesmas palavras, na mesma posição, que se repetiam em cada página: Ultra Máximo Secreto. R.P.C. Interno. Sheng  Chou Yang.

A porta se abriu e o imenso Major Lin Wenzu, do Serviço Secreto Britânico, MI-Seis, Setor Especial, Hong Kong, entrou e fechou a porta, sorrindo para McAllister, que permanecera absorvido no dossiê.

— Continua o mesmo, hem, Edward? Enterrado nas palavras... há um padrão, uma linha a seguir.

— Eu gostaria de poder encontrá-la — murmurou o subsecretário de Estado, lendo febrilmente.

— E vai encontrar, .meu amigo. Qualquer que seja.

— Falarei com você dentro de um momento.

— Não há pressa. —O major tirou o Rolex e as abotoaduras de ouro. Colocou na mesa e acrescentou: — É uma pena devolver essas coisas. Emprestam certa presença à minha presença. Mas devo lhe tirar o chapéu, Edward. Não são básicas para o meu guarda-roupa, mas foi perfeito, como sempre acontece em Hong Kong, até para alguém do meu tamanho.

— Tem razão — concordou o subsecretário, ainda absorvido na leitura.

O Major Lin sentou na cadeira de couro preto na frente da mesa, permanecendo em silêncio por quase um minuto. Era evidente que não podia se conter por mais tempo.

— Posso ajudá-lo em alguma coisa, Edward? Ou, sendo mais objetivo, há alguma coisa relacionada com o trabalho em questão? Algo que possa me dizer a respeito?

— Receio que não, Lin.

— Terá de nos contar, mais cedo ou mais tarde. Nossos superiores em Londres terão de nos contar. “Façam o que ele pedir”, disseram eles. “Registrem todas as conversas e instruções, mas sigam suas ordens e aconselhem-no.” Aconselhar? Não há conselho, apenas tática. Um homem num escritório desocupado disparando quatro balas na parede do passeio do porto, seis na água, o resto cartuchos de pólvora seca... graças a Deus que não houve paradas cardíacas... e críamos a situação que você quer. Isso é algo que podemos compreender...

— Concluo que tudo correu muito bem.

— Houve um tremendo tumulto, se é isso o que está querendo dizer com “muito bem”.

— É isso mesmo.

McAllister recostou-se na cadeira, os dedos esguios da mão direita massageando a têmpora.

— Ponto marcado, meu amigo. O autêntico Jason Bourne foi convencido e entrou em ação. De quebra, você terá de pagar pela hospitalização de um homem com o braço quebrado e dois outros que alegam ainda se encontrarem em estado de choque, com os pescoços extremamente doídos. O quarto ficou embaraçado demais para dizer qualquer coisa.

— Bourne é muito bom no que faz... no que fazia.

— Ele é letal, Edward.

— Creio que você conseguiu controlá-lo.

— Pensando em cada segundo que ele tornaria a agir e destruiria toda aquela sala. Fiquei apavorado. O homem é um maníaco. A propósito, por que ele deve se manter a distância de Macau? É uma restrição estranha.

— Não há nada que ele não possa fazer aqui. Os assassinatos ocorreram aqui. Os clientes do impostor estão obviamente aqui em Hong Kong, e não em Macau.

— Como sempre, isso não é resposta.

— Vamos pôr a situação sob outro ângulo, e isso é o máximo que posso lhe dizer. Na verdade, você já sabe, pois desempenhou o papel esta noite. A mentira sobre a jovem esposa do mítico taipan e seu amante, assassinados em Macau. Tem alguma idéia a respeito?

— Um artifício engenhoso — comentou Lin, franzindo o rosto. — Poucos atos de vingança são tão prontamente compreendidos quanto o “olho por olho”. De certa forma, é a base de sua estratégia... até onde eu sei.

— O que acha que Webb faria se descobrisse que não passa de uma mentira?

— Ele não poderia descobrir. Você deixou bem claro que as mortes foram abafadas.

— Está subestimando-o. Chegando a Macau, ele viraria todas as latas de lixo para descobrir quem é esse taipan. Interrogaria todos os porteiros e até as camareiras... provavelmente ameaçaria ou subornaria uma dúzia de empregados do Hotel Lisboa e a maioria dos policiais, até descobrir a verdade.

— Mas temos sua esposa e isso não é mentira. Ele agirá de acordo.

— Só que numa dimensão diferente. O que quer que ele pense agora... e certamente deve ter suspeitas... não pode saber, não pode ter certeza. Mas se investigar em Macau e descobrir a verdade, terá provas de que foi enganado por seu governo.

— Como, especificamente?

Porque a mentira lhe foi transmitida por um alto funcionário do Departamento de Estado... para ser mais preciso, eu. E em sua opinião, ele já foi traído antes.

— Até aí nós sabemos.

— Quero um homem em plantão permanente na imigração em Macau... vinte e quatro horas por dia. Arrume pessoas em quem possa confiar e entregue fotografias, mas não transmita qualquer informação. Ofereça uma gratificação para quem quer que o localize e lhe telefone.

— Pode ser feito, mas tenho certeza de que ele não se arriscaria. Está convencido de que tem tudo contra ele. Basta haver um informante no hotel ou na polícia e sua esposa morre. Ele não correria esse risco.

— E nós também não podemos correr o risco, por mais remoto que seja. Se ele descobrir que está sendo usado outra vez... traído outra vez... pode ficar completamente perturbado e fazer e dizer coisas que teriam conseqüências inimagináveis para todos nós. Para ser franco, se ele seguir para Macau, pode se tornar um terrível perigo, em vez do trunfo que pensamos ter criado.

— Solução final? — murmurou o major.

— Não posso usar essa expressão.

— Não creio que será necessário chegar a esse ponto. Fui bastante convincentes Bati com a mão na cadeira e alteei a voz de maneira eficaz. “Sua esposa vai morrer!”, berrei. Ele acreditou em mim. Eu deveria ter estudado para ator.

— Trabalhou muito bem.

— Foi um desempenho à altura de Akim Tamiroff.

— Quem?

— Por favor. Já passei por isso no portão.

— Não estou entendendo.

— Esqueça. Em Cambridge, disseram que eu conheceria pessoas como você. Tive um professor de História Oriental que declarou que vocês não largam nada, todos vocês. Insistem em guardar os segredos porque os Zhongguo ren são inferiores, não podem compreender. É o que acontece neste caso, yang quizi?

— Claro que não.

— Então o que estamos fazendo? Posso entender o óbvio. Recrutamos um homem que se encontra em posição singular para caçar um assassino, porque o assassino o está encarnando... encarnando o homem que ele era. Mas chegar a esse ponto... seqüestrar sua esposa, envolver a nós, todos esses jogos elaborados e perigosos... Para falar a verdade, Edward, quando você me apresentou o roteiro, não pude deixar de questionar Londres. E eles me disseram: “Siga as ordens. E acima de tudo, fique calado.” Mas, como acabei de falar, não é suficiente. Precisamos saber mais. Sem isso, como o Setor Especial pode assumir qual quer responsabilidade?

— Por enquanto, a responsabilidade é nossa, as decisões são nossas. Londres concordou com isso. Eles não concordariam se não estivessem convencidos de que era a melhor maneira. Tudo deve ser contido. Não há qualquer margem para vazamento ou erro de cálculo. — McAllister inclinou-se para a frente, unindo as mãos, as articulações embranquecendo pela pressão aplicada. — Uma coisa posso lhe dizer, Lin. Juro por Deus que eu gostaria que não fosse uma responsabilidade nossa, especialmente comigo tão próximo do centro. Não que eu tome as decisões finais, mas preferia não tomar nenhuma. Não sou qualificado.

— Eu não diria isso, Edward. Você é um dos homens mais meticulosos que já conheci, e provou isso há dois anos. É um analista brilhante. Não precisa possuir pessoalmente a competência, desde que receba ordens de alguém que a tenha. Tudo o que precisa é de compreensão e convicção... e a convicção está estampada em seu rosto transtornado. Fará o que é certo, se lhe couber a execução.

— Acho que devo agradecer.

— O que você queria foi realizado esta noite. Assim, saberá em breve se o seu caçador ressuscitado ainda conserva a antiga capacidade. Durante os próximos dias, poderemos acompanhar os acontecimentos, mais isso será tudo. Já estão fora do nosso controle. Bourne inicia a sua perigosa jornada.

— Quer dizer que ele tem os nomes?

— Os nomes autênticos, Edward. Alguns dos piores membros do submundo de Hong Kong e Macau... soldados dos escalões superiores que cumprem ordens, comandantes que promovem negócios e acertam contratos, os mais violentos. Se há alguém no território que conheça esse impostor-assassino, pode estar certo de que seu nome consta da lista.

— Vamos iniciar a segunda etapa. Muito bom. — McAllister separou as mãos e olhou para o relógio. — Puxa, eu não tinha a menor idéia da hora. Foi um dia comprido para você. Não precisava devolver o Rolex e as abotoaduras esta noite.

— Eu sabia disso.

— Então por que veio?

— Não quero sobrecarregá-lo ainda, mas podemos ter um problema imprevisto. Pelo menos uma coisa que você não levou em consideração, talvez tolamente.

— O que é?

— Talvez a mulher esteja doente. O marido teve essa impressão quando falou com ela.

— Está falando sério?

— Não podemos excluir essa possibilidade... o médico não pode excluí-la.

— O médico?

— Achei que não havia necessidade de alarmar você. Convoquei um dos nossos médicos há vários dias... um homem de absoluta confiança. Ela não estava comendo e se queixava de náusea. O médico disse que podia ser ansiedade ou depressão, talvez mesmo um vírus. Receitou antibióticos e tranqüilizantes brandos. Ela não melhorou. Ao contrário, seu estado deteriorou-se rapidamente. Ela se tornou apática, tem acessos de tremedeira, a mente parece vaguear. E posso lhe assegurar que se trata de uma mulher que não é dada a essas coisas.

— Mas claro que não é! — exclamou o subsecretário, piscando os olhos rapidamente, os lábios contraídos. — O que podemos fazer?

— O médico acha que ela deve ser internada imediatamente no hospital para exames.

— Mas não pode ser! Isso está fora de cogitação!

O Major Lin levantou-se e avançou até a mesa, lentamente.

— Não conheço os desdobramentos da operação, Edward, mas posso determinar vários objetivos básicos, especialmente um. E não posso deixar de lhe perguntar uma coisa: o que acontece com David Webb se sua esposa está gravemente doente? O que acontece com seu Jason Bourne se ela morrer?


 

— Preciso da ficha médica dela o mais depressa que puder providenciar, Major. É uma ordem, senhor, de um ex-tenente do Corpo Médico de Sua Majestade.

Ele é o médico inglês que me examinou. É muito cortês, mas frio, e desconfio que é um médico excepcional. Está desconcertado, o que é ótimo.

— Vamos providenciar. Há sempre meios. Disse que ela não foi capaz de informar o nome de seu médico nos Estados Unidos?

Esse é o chinês enorme que sempre se mostra polido... insinuante até, embora pareça sincero. Ele tem sido gentil comigo, assim como seus homens também são gentis. Está cumprindo ordens — todos estão — mas não sabe por quê.

— Mesmo em momentos de lucidez, ela não se lembra de muita coisa, o que não é nada animador. Pode ser um mecanismo de defesa, indicando que ela está consciente da doença progressiva que deseja bloquear e apagar.

— Ela não é desse tipo, Doutor. É uma mulher forte.

— A força psicológica é relativa, Major. Muitas vezes os mais fortes são avessos a aceitar a própria mortalidade. O ego se recusa. Providencie a sua ficha médica. Preciso tê-la de qualquer maneira.

— Um homem vai entrar em contato com Washington e

o pessoal por lá cuidará de tudo. Sabem onde ela mora, suas condições, em poucos minutos falarão com os vizinhos. Alguém nos dirá. Descobriremos quem é o médico.

— Quero tudo na impressão de computador, transmissão por satélite. Dispomos do equipamento.

— Qualquer transmissão de informações deve ser recebida em nosso escritório.

— Pois então irei com você. Dê-me só mais alguns minutos.

— Está temeroso, não é mesmo, Doutor?

— Se for um caso de distúrbio neurológico, é sempre um problema assustador, Major. Se o seu pessoal puder trabalhar depressa, talvez eu consiga falar pessoalmente com o médico dela. Isso seria o ideal.

— Não descobriu nada em seus exames?

— Apenas possibilidades, nada de concreto. Há dor aqui e não há dor ali. Determinei uma tomografia cerebral computadorizada esta manhã.

— Está mesmo assustado.

— Apavorado, Major.

Todos vocês estão reagindo exatamente como eu queria. Ah, que fome! Comerei por cinco horas seguidas quando sair daqui... e vou sair! Será que você compreendeu, David? Entendeu o que eu estava lhe dizendo? Os bordos têm folhas de bordos; são tão comuns, querido, tão identificáveis! A folha única é Canadá. A embaixada! E aqui em Hong Kong é o consulado! Foi o que fizemos em Paris, meu querido! Foi terrível naquela ocasião, mas não será terrível agora. Lá em Ottawa informei a muita gente, pessoas que estavam sendo enviadas para todos os cantos do mundo. Sua memória está embotada, meu amor, mas a minha não... E você deve compreender, David, que. as pessoas com que lidei então não são muito diferentes das pessoas que agora me mantêm cativa. Sob alguns aspectos, é claro, não passam de robôs; mas são também indivíduos, que pensam, especulam e questionam por que lhes ordenam que façam determinadas coisas. Mas seguem os regulamentos, querido, porque se não o fizerem terão referências desfavoráveis em suas folhas de serviço, o que equivale a um destino pior do que a demissão — que raramente acontece — porque significa a ausência de promoção, o limbo. Têm sido muito gentis comigo — juro que é verdade —, como se estivessem constrangidos pelas ordens que receberam. Mas, apesar disso, cumprem suas obrigações. Acham que estou doente e se preocupam comigo, uma preocupação genuína. Eles não são criminosos nem carrascos, meu doce David. São burocratas à procura de orientação! São burocratas, David! Toda essa história incrível tem a palavra GOVERNO estampada por toda parte! Tenho certeza! Foi com pessoas assim que trabalhei por muitos anos. Eu era uma delas!

Marie abriu os olhos. A porta. estava fechada, o quarto vazio, mas ela sabia que havia um guarda lá fora... ouvira o major chinês dando as instruções. Ninguém tinha permissão para entrar em seu quarto, a não ser o médico inglês e duas enfermeiras específicas, que o guarda conhecera, e que ficariam de plantão até de manhã. Ela conhecia as regras, e com esse conhecimento poderia violá-las.

Ela sentou — Puxa, que fome! — e achou uma graça sombria ao pensamento de seus vizinhos no Maine sendo interrogados a respeito de seu médico. Mal conhecia os vizinhos e não havia médico nenhum. Residiam na cidade universitária há menos de três meses, desde o final do verão, para os preparativos de David. Com todos os problemas de alugar uma casa, descobrir o que a nova esposa de um novo professor-associado devia fazer ou ser, encontrar as lojas necessárias, providenciar roupa de cama e mesa — cuidar das mil e uma coisas que uma mulher precisa fazer para criar um lar — não houvera tempo para pensar num médico. Afinal, haviam convivido com médicos por oito meses e, à exceção de Mo Panov, ela teria a maior satisfação em nunca mais ter contato com outro.

Acima de tudo, havia David, lutando para escapar de seus túneis pessoais, como ele os chamava, esforçando-se ao máximo para não deixar transparecer a angústia, tão grato quando havia luz e memória. Como ele devorava os livros, como se regozijava quando lhe voltavam trechos amplos de história! Mas a alegria era contrabalançada pela angústia de compreender que segmentos de sua própria vida ainda se mantinham esquivos. E muitas vezes, à noite, ela sentia o colchão ondular e sabia que David estava deixando a cama para ficar sozinho, com seus pensamentos indefinidos e imagens obsedantes. Ela esperava alguns minutos e depois saía para o corredor, ia sentar nos degraus e ficava escutando. E de vez em quando acontecia: o choro suave de um homem forte e orgulhoso em agonia. Ela o procurava e David se virava; o constrangimento e o sofrimento eram demais. Ela dizia:

— Não está lutando sozinho, querido. Estamos lutando juntos. Da mesma forma como fizemos antes.

Ele falava então, relutante a princípio, depois se expandindo, as palavras saindo cada vez mais depressa, até que as comportas se rompiam e David encontrava coisas, descobria coisas. Árvores, David! Minha árvore predileta, o bordo. A folha de bordo, David! O consulado, meu querido! Ela tinha trabalho a fazer. Levantou a mão e apertou a campanhia para chamar a enfermeira.

Dois minutos depois a porta se abriu e uma chinesa de quarenta e poucos anos entrou, o uniforme de enfermeira engomado e imaculado.

— Em que posso servi-la, minha querida? — perguntou ela, jovialmente, num inglês de sotaque agradável.

— Estou muito cansada, mas não consigo dormir. Posso tomar uma pílula que me ajude?

— Vou falar com o médico. Ele ainda está no hospital. Tenho certeza de que não haverá problema.

A enfermeira se retirou e Marie saiu da cama. Foi até a porta, a camisola folgada do hospital escorregando do ombro esquerdo, o ar-condicionado e a abertura nas costas lhe provocando calafrios. Abriu a porta, surpreendendo o guarda jovem e musculoso, sentado numa cadeira, à direita.

— Pois não, Sra.?...

O guarda levantou-se de um pulo.

— Psiu!—ordenou Marie, levando o indicador aos lábios. — Entre aqui! Depressa!

Aturdido, o jovem chinês seguiu-a para o interior do quarto. Marie foi rapidamente para a cama e se deitou, mas não puxou as cobertas. Inclinou o ombro direito, a camisola escorregando, segura apenas pela protuberância do seio.

— Venha aqui! —sussurrou ela. — Não quero que ninguém mais me escute!

— O que é, senhora? — indagou o guarda., os olhos evitando a carne exposta de Marie e se concentrando em vez disso em seu rosto e nos compridos cabelos castanho-avermelhados Ele deu vários passos para a frente, mas ainda se manteve a distância. — A porta está fechada. Ninguém pode ouvir.

— Quero que você...

O sussurro de Marie tornou-se inaudível.

— Nem mesmo eu posso ouvi-la, senhora — comentou o guarda, chegando mais perto.

— Você é o mais simpático dos meus guardas. Tem sido muito gentil comigo.

— Não havia razão para me comportar de outra forma, senhora.

— Sabe por que estou sendo detida?

— Para sua própria segurança — mentiu o guarda, uma expressão neutra.

— Ahn...

Marie ouviu os passos lá fora se aproximando. Mudou a posição do corpo; a camisola se deslocou, deixando as pernas à mostra. A porta foi aberta e a enfermeira entrou.

— Como? — A chinesa estava espantada. Era evidente que seus olhos contemplavam uma cena desagradável. Olhou para o embaraçado guarda, enquanto Marie se cobria. — Eu me perguntava por que você não estava lá fora.

— A senhora pediu para falar comigo — respondeu o guarda, recuando.

A enfermeira lançou um olhar rápido para Marie.

— Foi isso mesmo?

— Se é o que ele diz...

— Isso é um absurdo — disse o guarda musculoso, encaminhando-se para a porta e abrindo-a. — A senhora não está bem. Sua mente se perde. E ela diz coisas tolas.

Ele passou pela porta e fechou-a. A enfermeira tornou a olhar para Marie, desta vez com expressão inquisitiva.

— Está se sentindo bem?

— Minha mente não se perde e não sou eu quem diz coisas tolas. Mas faço o que me mandam. — Marie fez uma pausa e depois acrescentou: — Quando aquele major imenso deixar o hospital, venha falar comigo, por favor. Tenho uma coisa para lhe dizer.

— Lamento, mas não posso fazer isso. Deve descansar. Pegue este sedativo. Vou buscar um copo d’água.

— Você é uma mulher — disse Marie, olhando fixamente para a enfermeira.

— Isso mesmo.

A chinesa pós um pequeno copo de papel com água na mesinha-de-cabeceira, junto com a pílula, e voltou para a porta. Lançou um último e inquisitivo olhar para a paciente e depois saiu.

Marie se levantou e foi silenciosamente até a porta. Encostou o ouvido no painel de metal; ouviu lá fora, no corredor, os sons abafados de uma conversa rápida, obviamente em chinês. Independente do que se dizia e da maneira como se fosse resolvida a conversa breve e excitada, ela plantara a semente. Trabalhe o visual, ressaltara Jason Bourne muitas vezes, durante o inferno por que haviam passado na Europa. É mais eficaz do que qualquer outra coisa. As pessoas tirarão as conclusões que você quer com base no que virem, muito mais do que pelas mentiras mais convincentes que puder lhes contar.

Ela foi até o armário e abriu-o. Haviam deixado no apartamento as poucas coisas que compraram para ela em Hong Kong, mas estavam guardados ali a calça comprida, a blusa e os sapatos com que chegara ao hospital; não ocorrera a ninguém tirá-los. Por que deveriam fazer isso? Podiam constatar que ela era uma mulher muito doente. Os tremores e espasmos convenceram a todos; era algo que podiam ver. Jason Bourne compreenderia. Marie olhou para o pequeno telefone branco na mesinha-de-cabeceira. Era um aparelho independente, os botões embutidos. Ela especulou, embora não houvesse ninguém que pudesse chamar. Foi até a mesa e pegou o telefone. Estava mudo, como já esperava. Havia a campainha para chamar a enfermeira; era tudo o que precisava e tudo o que lhe permitiam.

Foi até a janela e levantou a persiana branca só para se deparar com a noite. As luzes coloridas e ofuscantes de Hong Kong iluminavam o céu, e ela estava mais próxima do céu do que do solo. Como David diria... ou melhor, Jason: Que assim seja. A porta. O corredor.

Que assim fosse.

Marie foi até a pia. A escova e a pasta de dentes fornecidas

 pelo hospital ainda se encontravam nos invólucros de plástico; o sabonete também não fora usado, ainda estava na embalagem do fabricante, as palavras garantindo pureza além do hálito de anjos.

Ao lado ficava o banheiro; nada tinha de diferente, exceto uma caixa de toalhas higiênicas, com um cartaz pequeno, em quatro línguas, explicando o que não se devia fazer com elas. Marie voltou ao quarto. O que estava procurando? O que quer que fosse, não encontrara.

Estude tudo. Vai encontrar alguma coisa que poderá usar. Palavras de Jason; não de David. E foi então que ela viu.

Em determinados leitos de hospital — e aquele era assim — há uma alavanca ao pé da cama que, virada para um lado ou outro, o abaixa ou levanta. Essa alavanca pode ser removida — e muitas vezes o é — quando o paciente está recebendo soro ou se o médico deseja que permaneça numa determinada posição, como em tração, por exemplo. Uma enfermeira pode retirá-la, comprimindo-a e depois virando-a para a esquerda, antes de puxá-la. Isso é feito com freqüência durante as horas de visita, quando as pessoas podem ceder ao desejo do paciente de mudar de posição, contra a determinação do médico. Marie conhecia aquele leito e conhecia aquela alavanca. Quando David se recuperava dos ferimentos recebidos em Casa de Pedra 71, fora mantido vivo por alimentação intravenosa; Marie observara as enfermeiras. O sofrimento de seu futuro marido era mais do que ela podia suportar, e as enfermeiras estavam obviamente consciente de que, em seu desejo de tornar as coisas mais fáceis para ele, poderia prejudicar o tratamento médico. Ela sabia como remover a alavanca, que se tornava então um maneável instrumento de ferro.

Ela retirou-a e voltou à cama, escondendo a alavanca por baixo das cobertas. Esperou, pensando como eram diferentes seus dois homens... reunidos em um só. Seu amante, Jason, podia ser frio e paciente, aguardando o momento de entrar em ação, confiando na violência para garantir a sobrevivência. E seu marido, David, sempre generoso, tão disposto a escutar, o estudioso, evitando a violência a qualquer custo, porque já passara por tudo e detestava o sofrimento e ansiedade — acima de tudo, odiava a necessidade de eliminar os próprios sentimentos e se tornar um mero animal. E agora ele estava sendo chamado a se tornar o homem que detestava. David, meu David! Mantenha a sua sanidade! Eu o amo tanto!

Ruídos no corredor. Marie olhou para o relógio na mesinha-de-cabeceira. Dezesseis minutos haviam transcorrido. Ela pôs as mãos por cima das cobertas, enquanto a enfermeira entrava no quarto; baixou as pálpebras, como se estivesse sonolenta.

— Muito bem, minha cara — murmurou a chinesa, dando vários passos pelo interior do quarto. — Você me comoveu, não posso negar. Mas tenho ordens... instruções expressas a seu respeito. O major e seu médico já foram embora. E agora pode me dizer o que queria.

— Não... agora — balbuciou Marie, a cabeça descaindo, o rosto mais adormecido do que desperto. — Estou muito cansada. Tomei... a pílula.

— Tem algum problema com o guarda lá fora?

— Ele é doente... Nunca me toca... não me importo. Ele me arruma coisas... estou tão cansada...

— O que está querendo dizer com “doente”?

— Ele... gosta de olhar para mulheres... Não... me incomoda quando estou dormindo.

Marie fechou os olhos.

— Zang! — murmurou a enfermeira. —O safado, o safado!

Ela girou abruptamente nos calcanhares, saiu pela porta, fechou-a e disse ao guarda:

— A mulher está dormindo! Pode me entender?

— É uma sorte celestial.

— Ela diz que você nunca a toca.

— Nunca sequer pensei nisso.

— Pois não pense agora!

— Não preciso dos seus sermões, enfermeira megera. Tenho um trabalho a realizar.

— Pois então cuide apenas disso! Falarei com o Major Lin Wenzu de manhã!

A enfermeira lançou um último olhar furioso para o guarda e depois afastou-se pelo corredor, o ritmo e a postura agressivos.

— Ei, você! — O sussurro áspero veio da porta de Marie, que estava ligeiramente entreaberta. Ela abriu-a mais um pouco e acrescentou: — Aquela enfermeira! Quem é ela?

— Pensei que estava dormindo, senhora — disse o aturdido guarda.

— Ela me disse que ia contar isso a você.

— Como?.

— Ela vai voltar para mim! Diz que há portas de ligação com os outros quartos. Quem é ela?

— O que tem com ela?

— Não fale! Não olhe para mim! Ela vai ver você!

— Ela se afastou pelo corredor, virando à direita.

— Nunca se pode saber. E é melhor um demônio que se conhece do que outro que não se conhece. Entende o que estou querendo dizer, não é mesmo?

— Nunca sei o que as pessoas estão querendo dizer! — alegou o guarda, em fala suave, mas incisiva. — Não tenho a menor idéia do que ela fala e também não consigo entendê-la, senhora.

— Entre aqui. Depressa! Acho que ela é uma comunista! De Pequim!

— Pequim?

— Não vou com ela!

Marie puxou a porta e meteu-se por trás. O guarda entrou rápido no quarto e a porta foi fechada. O quarto estava escuro, a única iluminação vinha do banheiro, bastante reduzida pela porta quase fechada. O homem podia ser visto, mas não podia ver.

— Onde está, senhora? Fique calma. Ela não vai levá-la a parte alguma...

O guarda não conseguiu dizer mais nada. Marie acertou com a alavanca de ferro na base de seu crânio, com a força de uma mulher criada num rancho de Ontario, acostumada a manejar o relho, O guarda perdeu os sentidos; ela ajoelhou-se e começou a trabalhar rapidamente.

O chinês era musculoso, mas não grande, não alto. Marie não era grande, mas era alta para uma mulher. Com um jeito aqui e outro ali, as roupas e sapatos do guarda serviriam para uma saída rápida. Mas seus cabelos constituíam um problema. Correu os olhos pelo quarto. Estude tudo. Vai encontrar alguma coisa que poderá usar. E encontrou. Pendendo de uma barra cromada, na mesinha-de-cabeceira, havia uma toalha de rosto. Marie pegou-a, empilhou os cabelos no alto da cabeça e ajeitou a toalha ao redor. Não havia qualquer dúvida de que parecia absurdo e não resistiria a um exame mais atento, mas à primeira vista dava a impressão de ser uma espécie de turbante.

Só de cueca e meias, o guarda gemeu e começou a se erguer, mas logo recaiu na inconsciência. Marie correu para o armário, pegou suas roupas e foi até a porta, entreabrindo-a cautelosamente, apenas dois ou três centímetros. Duas enfermeiras — uma oriental, a outra européia — conversavam em voz baixa no corredor. A chinesa não era a mulher que voltara para ouvir sua queixa contra o guarda. Outra enfermeira apareceu, acenou com a cabeça para as duas e seguiu direto para uma porta no outro lado. Era um armário de roupa de cama. Um telefone tocou no posto de controle do andar, a cerca de quinze metros de distância, pelo corredor; à frente da mesa circular, o corredor se bifurcava. Um cartaz de Saída estava pendurado do teto, a flecha apontando para a direita. As duas enfermeiras em conversa se viraram e começaram a seguir para a mesa; a terceira deixou o armário, carregando uma pilha de lençóis. A fuga mais certa é realizada em etapas, aproveitando qualquer confusão que ocorra.

Marie saiu do quarto e atravessou o corredor até o armário embutido da roupa de cama. Era grande, deu para ela entrar e fechar a porta. Subitamente, o rugido de protesto de uma mulher povoou o corredor, deixando-a paralisada. Podia ouvir passos correndo, se aproximando, depois mais passos.

— O guarda! — berrou a enfermeira chinesa, em inglês. — Onde está aquele guarda safado?

Marie abriu uma fresta da porta do armário. Três enfermeiras excitadas estavam na porta de seu quarto; e entraram correndo.

— Você! Tirou suas roupas! Zangsile homem safado! Procurem no banheiro!

— Você! — gritou o guarda, a voz trêmula. — Deixou a mulher escapar! Vai ser responsável perante meus superiores!

— Largue-me, homem repulsivo! Você mente!

— E uma comunista! De Pequim!

Marie saiu do armário embutido, uma pilha de toalhas no

ombro, correu para o corredor que se bifurcava e a placa de Saída.

— Chamem o Major Lin! Peguei uma espiã comunista!

— Chamem a policia! Ele é um pervertido!

Deixando o prédio do hospital, Marie correu para o estacionamento, encaminhando-se para a área mais escura. Sentou-se ofegante nas sombras, entre dois carros. Tinha de pensar; precisava avaliar a situação. Não podia cometer qualquer erro. Largou as toalhas e suas roupas, começou a vasculhar os bolsos da roupa do guarda, procurando por uma carteira. Encontrou-a, abriu-a, contou o dinheiro, na semi-escuridão. Havia pouco mais de seiscentos dólares de Hong Kong, o que representava pouco menos de cem dólares americanos. Mal dava para um quarto de hotel; e depois viu um cartão de crédito, emitido por um banco de Kowloon. Não saia de casa sem isso. Se fosse necessário, apresentaria o cartão — apenas se fosse necessário — e se conseguisse encontrar um quarto de hotel. Tirou o dinheiro e o cartão de plástico da carteira, tornou a guardá-la no bolso, iniciou o processo meio sem jeito de trocar de roupa, enquanto estudava as ruas além do terreno do hospital. Para seu alívio, estavam apinhadas, e a multidão constituía a sua segurança imediata.

Um carro apareceu de repente no estacionamento, os pneus rangendo, indo parar diante da porta de EMERGÊNCIA. Marie levantou-se e olhou pelas janelas do automóvel. O corpulento major chinês e o frio e meticuloso médico saltaram do carro e correram para a entrada. Enquanto eles desapareciam no outro lado, Marie saía correndo do estacionamento para a rua.

Ela andou por horas, parando para se empanturrar em uma lanchonete, até que não agüentava mais a visão de outro hambúrguer. Foi ao banheiro e contemplou-se no espelho. Emagrecera e estava com olheiras, mas afora isso parecia bem. Os cabelos no entanto constituíam um problema. Estariam vasculhando Hong Kong à sua procura, e os primeiros itens de qualquer descrição seriam os cabelos e a altura. Nada podia fazer quanto à altura, mas era possível modificar drasticamente os cabelos. Foi a uma farmácia e comprou rolinhos e grampos. Depois,

lembrando o que Jason lhe pedira para fazer em Paris, quando sua fotografia aparecera nos jornais, puxou os cabelos para trás, prendendo-os num coque e comprimindo os lados contra a cabeça, O resultado era um rosto mais carrancudo, acentuado pela perda de peso e ausência de maquilagem. Era o efeito que Jason — David — quisera em Paris... Não, refletiu ela, não era David em Paris. Era Jason Bourne. E era noite, como  fora em Paris.

— Por que está fazendo isso, dona? — indagou uma balconista, parada perto do espelho, no balcão de cosméticos. — Tem cabelos muito bonitos.

— Estou cansada de escová-los. Só isso.

Marie deixou a farmácia, comprou sandálias sem saltos de um mascate na rua e uma imitação de bolsa Gucci de outro, os Gês virados para baixo. Restava-lhe o equivalente a 45 dólares americanos e não tinha ainda a menor idéia de onde passaria a noite. Era ao mesmo tempo muito tarde e muito cedo para ir ao consulado. Uma canadense chegando depois de meia-noite e pedindo abrigo provocaria alarme; além disso, ainda não tivera tempo para definir a melhor maneira de apresentar seu pedido. Para onde poderia ir? Precisava dormir. Não faça qualquer movimento quando estiver exausta. A margem para um erro torna-se grande demais. O descanso é uma arma. Não se esqueça disso.

Ela passou por uma arcada que estava fechando. Um jovem casal americano, de jeans, estava barganhando com o proprietário de uma barraquinha de camisetas.

— Ei, pare com isso, cara — disse o rapaz. — Não quer fazer mais uma venda esta noite? Vai diminuir um pouco o seu lucro, mas ainda ficará com alguns dineros em seu bolso, não é mesmo?

— Nada de dineros — protestou o vendedor, sorrindo. — Somente dólares, e está me oferecendo muito pouco. Tenho filhos. Está tirando a comida preciosa de suas bocas.

— Provavelmente ele possui um restaurante — comentou a garota.

— Querem um restaurante? Uma autêntica comida chinesa?

— Ei, você acertou em cheio, Lacy!

— Meu terceiro primo por parte de pai tem uma barraca excelente a duas ruas daqui. Tudo muito barato e muito bom.

— Esqueça — disse o rapaz. — Quatro dólares americanos pelas seis camisas. Pegue ou largue.

— Eu pego. Mas só porque você é muito forte para mim.

O mascate pegou as notas estendidas e meteu as camisas numa sacola de papel.

— Você é uma maravilha, Buzz. — A garota beijou-o no rosto e riu. — Ele ainda está operando com uma margem de lucro de quatrocentos por cento.

— Esse é o problema de vocês, graduadas em economia. Não levam em conta a estética. Farejar a caça, o prazer do conflito verbal!

— Se algum dia casarmos, vou sustentá-lo pelo resto de minha vida miserável, seu grande negociador.

As oportunidades vão surgir. Reconheça-as e trate de aproveitá-las. Marie aproximou-se dos jovens.

— Com licença — disse ela, dirigindo-se basicamente à moça. — Ouvi vocês falando...

— Eu não fui sensacional? — interrompeu o rapaz.

— Muito bom — respondeu Marie. — Mas desconfio que sua amiga tem razão. Aquelas camisetas certamente custaram a ele menos de 25 cents cada uma.

— Quatrocentos por cento — interveio a moça, balançando a cabeça. — Keystone afortunado.

— Quem é esse cara?

— É um termo de joalheria —explicou Marie. — Significa cem por cento.

— Estou cercado por filistéias! — exclamou o rapaz. — Sou estudante de História da Arte e algum dia serei diretor do Metropolitan!

— Só não deve tentar comprá-lo — comentou a moça, virando-se em seguida para Marie. — Não interprete mal. Não somos inconseqüentes, estamos apenas nos divertindo. E não deixamos que falasse o que queria.

— É uma situação bastante embaraçosa, mas o fato é que meu avião atrasou um dia e perdi a excursão pela China. O hotel está lotado e pensei...

— Precisa de um lugar para se refestelar? — interrompeu o estudante de História da Arte.

— Isso mesmo. Para ser franca, meus recursos são adequados, mas limitados. Sou professora no Maine... de economia, lamento dizer.

— Não precisa lamentar — disse a moça, sorrindo.

— Vou me juntar ao grupo amanhã... mas infelizmente será amanhã, não esta noite.

— Não podemos ajudá-la, Lacy?

— Claro que podemos. Nossa escola tem um acordo com a Universidade Chinesa de Hong Kong.

— Não é grande coisa em termos de serviço, mas o preço é ótimo — acrescentou o rapaz. — Três dólares americanos por noite. Mas como eles são antediluvianos!

— O que ele está querendo dizer é que há um código puritano. Os sexos são separados.

— Garotos e meninas juntos... — entoou o estudante de História da Arte. — Uma ova que estão!

Marie sentou na cama na vasta sala, sob um teto de quinze metros de altura; presumia que era um ginásio. Ao seu redor, muitas moças dormiam e outras continuavam acordadas. A maioria estava silenciosa, mas umas poucas roncavam, outras acendiam cigarros e havia corridas esporádicas para o banheiro, onde as lâmpadas fluorescentes permaneciam acesas. Ela estava entre crianças e desejava ser uma criança agora, livre dos terrores que espreitavam por toda parte. David, preciso de você! Pensa que eu sou forte, mas não consigo mais agüentar, querido! O que vou fazer? Como posso fazer?

Estude tudo. Vai encontrar alguma coisa que poderá usar. — Jason Bourne.


 

A chuva era torrencial, esburacando a areia, tamborilando nos refletores que iluminavam as grotescas estátuas de Repulse Bay — reproduções de enormes deuses chineses, mitos irados do Oriente em poses furiosas, algumas se erguendo até dez metros de altura. A praia escura estava deserta, mas havia multidões no velho hotel lá em cima, à beira da estrada, assim como no anacrônico estande de hambúrguer, no outro lado. Havia turistas e ilhéus, pessoas que foram à baía para tomar um drinque ou comer alguma coisa, contemplando as estátuas ameaçadoras que repeliam quaisquer espíritos malignos que pudessem emergir do mar. O súbito aguaceiro forçara as pessoas a entrarem; muitas esperavam que a tempestade amainasse para voltarem para suas casas.

Encharcado, Bourne agachava-se nas moitas,a seis ou sete metros da base de um ídolo de aparência feroz, no meio do caminho que descia para a praia. Removeu a água do rosto, olhando fixamente para os degraus de concreto que levavam à entrada do velho Colonial Hotel. Esperava pelo terceiro nome na lista do taipan.

O primeiro homem tentara prendê-lo numa armadilha na Star Ferry, o ponto de encontro combinado, mas Jason, com as mesmas roupas que usara na Cidade Murada, percebera as duas

patrulhas à espreita. Não fora tão fácil como procurar homens com rádios, mas também não fora muito difícil. Na terceira viagem através do porto, não tendo Bourne aparecido na janela designada no lado de boreste, os mesmos dois homens haviam passado por seu contato duas vezes, cada um falando rapidamente e depois seguindo para direções opostas, os olhos fixos em seu superior. Jason esperara até que a barca se aproximasse do cais e os passageiros se encaminhassem em massa para a rampa de saída na proa. Acertara o chinês à direita com um golpe nos rins, enquanto passava no meio da multidão, depois golpeara sua cabeça com o pesado peso de papel de latão; os passageiros seguiam apressados na semi-escuridão. Bourne atravessara entre os bancos vazios do outro lado; enfrentara o segundo homem, enfiando-lhe a arma na barriga, e levara-o para a popa. Empurrara o homem pela amurada e jogara-o no mar; enquanto o apito da barca cortava a noite, indicando que atracava no cais de Kowloon. Fora então procurar o contato, junto à janela, no meio da barca.

— Você cumpriu sua palavra — dissera Jason.  Desculpe ter me atrasado.

— Foi você quem telefonou?

Os olhos do contato estudaram surpresos as roupas maltrapilhas de Bourne.

— Isso mesmo.

— Não parece um homem com o dinheiro de que falou pelo telefone,

— Tem direito a essa opinião.

Bourne tirara do bolso um maço de notas americanas dobradas, o valor de mil dólares visível.

— Você é mesmo o homem. — O chinês olhara rapidamente por cima dos ombros de Jason, antes de indagar, ansioso: — O que você quer?

— Informações sobre alguém para alugar que diz se chamar Jason Bourne.

— Procurou a pessoa errada.

— Pagarei muito bem.

— Não tenho nada para vender.

— Acho que tem. — Bourne guardara o dinheiro e sacara a arma, chegando mais perto do homem, enquanto os passageiros de Kowloon embarcavam. — Vai me contar o que estou querendo saber por um preço ou será obrigado a me dizer tudo por sua vida.

— Só sei de uma coisa — protestara o chinês. — Minha gente não quer nada com ele!

— Por que não?

— Ele não é o mesmo homem.

— Como assim?

Jason prendera a respiração, observando o homem atentamente.

— Ele assume riscos que jamais correria antes. — O chinês tornara a olhar além de Bourne, o suor aflorando em sua testa. — Ele volta depois de dois anos. Quem sabe o que aconteceu? Bebida, narcóticos, doença de prostitutas... quem pode saber?

— O que está querendo dizer com “riscos”?

— Exatamente o que falei. Ele entra num cabaré no Tsim Sha Tsui... está havendo um tumulto, a polícia se encontra a caminho. Mas ele entra assim mesmo e mata cinco homens. Poderia ter sido apanhado, seus clientes descobertos. Jamais faria uma coisa assim há dois anos.

— Você pode estar interpretando a seqüência pelo avesso — comentara Jason Bourne. —Talvez ele tenha entrado... como um homem... e provocado o tumulto. Mata como esse homem e escapa como outro, aproveitando a confusão.

O oriental fitara por um instante os olhos de Jason, subitamente mais assustado do que antes, tornando a contemplar as roupas maltrapilhas.

— É bem possível — murmurara ele, a voz trêmula, agora sacudindo a cabeça para uma lado e depois para outro.

— Como se pode entrar em contato com esse Bourne?

— Não sei... juro pelos espíritos! Por que me faz essas perguntas?

— Como? — insistira Jason., inclinando-se para o homem, suas testas se encostando, a arma comprimida contra o baixo-ventre do oriental. — Se não querem nada com ele, devem saber onde ele pode ser encontrado, onde se pode fazer o conta to. Vamos, responda logo: onde?

— Oh, Jesus Cristão!

— Não é dele que quero saber! Bourne!

— Macau! Corre o rumor de que sua base é Macau. E juro que isso é tudo o que sei!

O homem olhava em pânico para a esquerda e a direita.

— Se está tentando descobrir os seus dois homens, não precisa mais se preocupar que vou lhe dizer onde estão — comentara Jason. — Um deles está caído ali, inconsciente, e espero que o outro saiba nadar.

— Aqueles homens são... Quem é você?

— Acho que você já sabe — respondera Bourne. — Vá para a popa da barca e fique por lá. Se der um passo para a frente antes de atracarmos, nunca mais será capaz de dar outro passo.

— Oh, Deus, você é...

— Eu não terminaria essa.frase, se fosse você.

O segundo nome estava acompanhado por um endereço improvável, um restaurante na Causeway Bay especialista em cozinha francesa clássica. De acordo com breves anotações de Yao Ming, o homem se comportava como o gerente, mas era na verdade o proprietário. Vários garçons eram tão hábeis com armas de fogo quanto com bandejas. O endereço residencial do contato não era conhecido; todos os seus negócios eram realizados no restaurante e desconfiava-se que ele não tinha uma residência permanente. Bourne voltara ao Peninsula, tirara o paletó e o chapéu e atravessara rapidamente o saguão apinhado até o elevador; um casal bem-vestido tentara não demonstrar choque por sua aparência. Ele sorrira e murmurara, à guisa de desculpas:

— Uma caçada ao tesouro da companhia. Uma bobagem, não é mesmo?

No quarto, ele se permitira uns poucos momentos para ser David Webb outra vez. Fora um erro; não pudera suportar a suspensão do fluxo de pensamento de Bourne. Eu sou ele de novo. Tenho de ser. Ele sabe o que fazer. Eu não sei! Livrara-se da sujeira da Cidade Murada e da umidade opressiva da Star Ferry com um banho de chuveiro, fizera a barba que aflorava no rosto e se vestira para um jantar em estilo francês.

Eu vou descobri-lo, Marie! Juro por Deus que vou descobri-lo! Era uma promessa de David Webb, mas era Jason Bourne quem gritava em fúria.

O restaurante mais parecia um requintado salão de jantar rococó no Boulevard Montaigne em Paris do que uma estrutura de um só andar em Hong Kong. Lustres intricados pendiam do teto, as lâmpadas pequenas irradiavam uma claridade suave, velas envoltas por vidro bruxuleavam nas mesas, com os linhos mais puros, os melhores cristais e pratarias.

— Infelizmente, monsieur, não temos mesas disponíveis esta noite — dissera o maître, o único francês visível.

— Disseram-me para perguntar por Jiang Yu e falar que era urgente — respondera Bourne, mostrando uma nota de cem dólares americanos. — Acha que ele poderia encontrar alguma coisa, se isto o encontrasse?

— Eu encontrarei, monsieur. — O maître apertara a mão de Jason sutilmente, recebendo o dinheiro. — Jiang Yu é um excelente membro de nossa pequena comunidade, mas sou eu quem seleciona. Comprenez-vouz?

— Absolument.

— Bien! Tem o rosto de um homem simpático e sofisticado. Por aqui, monsieur, por favor.

O jantar não chegaria a ser desfrutado; os eventos ocorreram muito depressa. Minutos depois da chegada de seu drinque, um chinês esguio, vestido de preto, aproximara-se da mesa. Se havia alguma coisa estranha nele, pensara David Webb, era a tonalidade mais escura da pele e a obliqüidade mais acentuada dos olhos. Era evidente que tinha sangue malásio. Pare com isso!, ordenara Bourne. Não vai nos adiantar coisa alguma!

— Pediu para falar comigo? — dissera o gerente, os olhos esquadrinhando o rosto que o fitava. — Em que posso servi-lo?

— Primeiro, sentando-se.

— E irregular sentar com os fregueses, senhor.

— Nem tanto... não se você é proprietário do restaurante. Por favor, sente-se.

— Por acaso é outra cansativa intromissão do Serviço de Impostos? Se for, espero que aprecie seu jantar, pelo qual vai pagar. Minhas contas estão cm absoluta ordem, perfeitamente precisas.

— Se pensa que sou britânico, então não prestou atenção às minhas palavras. E se por “cansativa” está se referindo a

meio milhão de dólares, então é melhor sumir da minha frente e me deixar apreciar o jantar.

Bourne recostara-se no reservado, pegando o copo com a mão esquerda para tomar um gole. A mão direita estava oculta.

— Quem o mandou? — perguntara o oriental de sangue misturado, enquanto sentava.

— Afaste-se da beira. Quero conversar com você discretamente.

— Está certo. — Jiang Yu se postara diretamente em frente a Bourne. — Devo perguntar outra vez: quem mandou você?

— E eu devo perguntar: gosta dos filmes americanos? Especialmente dos nossos westerns?

— Claro que gosto. Os filmes americanos são muito bonitos e admiro acima de tudo os filmes do Velho Oeste. Muito poéticos na retaliação, violentos com plenos motivos. Estou dizendo as palavras corretas?

— Está, sim. Porque neste exato momento você está em um filme.

— Como assim?

— Tenho uma arma muito especial por baixo da mesa. E aponta para entre as suas pernas. — Em apenas um segundo, Jason puxara a toalha, levantara a arma para mostrar o cano e tornara a ocultá-la. —Tem um silenciador que reduz o barulho de um 45 a um mero estalar de rolha de champanhe, mas não o impacto. Liao jie ma?

— Liao jie... — dissera o oriental, rígido, respirando fundo em seu medo. — Está com o Setor Especial?

— Não estou com ninguém, a não ser comigo mesmo.

— Quer dizer que não há meio milhão de dólares?

— Há tudo o que considere que a sua vida vale.

— Por que eu?

— Seu nome está numa lista —respondera Bourne, falando a verdade.

— Para execução? —- balbuciara o chinês, ofegante, o rosto contorcido.

— Isso depende de você.

— Devo-lhe pagar para não me matar?

— De certa forma, é isso mesmo.

— Não ando com meio milhão de dólares nos bolsos. Nem guardo tanto dinheiro no restaurante.

— Então me pague com outra coisa.

— O quê? Quanto? Está me deixando confuso.

— Informações, em vez de dinheiro.

— Que informações? — indagara o chinês, o medo se transformando em pânico. — Que informações eu poderia ter? Por que veio a mim?

— Porque tem se envolvido com um homem que quero encontrar. O homem de aluguel que se diz Jason Bourne.

— Não! Nunca aconteceu!

As mãos do oriental começaram a tremer. As veias em sua garganta latejavam, os olhos desviaram-se do rosto de Jason pela primeira vez. Ele mentira.

— Você é um mentiroso — dissera Bourne suavemente, empurrando o braço direito ainda mais por baixo da mesa, enquanto se inclinava para a frente. — Fez a conexão em Macau.

— Macau, sim! Mas não houve qualquer conexão! Juro pelas sepulturas de minha família por gerações!

— Está muito próximo de perder o estômago e a vida. Foi enviado a Macau para fazer contato com ele.

— Fui enviado, mas não cheguei a fazer contato!

— Prove. Como faria o contato?

— O francês. Eu deveria ficar no alto da escadaria da queimada Basílica de São Paulo, na Calçada, usando um lenço preto no pescoço. Quando um homem se aproximasse de mim... um francês... e comentasse sobre a beleza das ruínas, eu deveria dizer as seguintes palavras: “Caim é por Delta.” Se ele respondesse “E Carlos é por Caim”, eu deveria aceitá-lo como o vínculo com Jason Bourne. Mas juro que ele nunca... .

Bourne não ouvira o restante dos protestos do homem. Explosões sucessivas irromperam em sua mente, que fora lançada no passado. Uma luz branca ofuscante enchera seus olhos, os sons estrondosos eram insuportáveis. Caim é por Delta e Carlos é por Caim... Caim é por Delta! Delta Um é Caim! Medusa se mexe; a serpente se livra da pele. Caim está em Paris e Carlos será seu! Eram as palavras, os códigos, os desafios lançados ao Chacal. Eu sou Caim e sou superior e estou aqui! Venha me encontrar, Chacal! Eu o desafio a encontrar Caim, pois ele mata melhor do que você. É melhor me encontrar antes que eu encontre você, Carlos. Não é adversário para Caim!

Santo Deus! Quem no outro lado do mundo conheceria essas palavras... poderia conhecê-las? Estavam trancadas nos arquivos mais profundos das operações secretas! Eram uma ligação direta com Medusa!

Bourne quase apertara o gatilho da automática escondida, tão súbito fora o choque da incrível revelação. Removera o indicador, colocando-o além da guarda do gatilho; estivera perto de matar um homem por revelar uma informação extraordinária. Mas como poderia ter acontecido? Quem era o conduto para o novo “Jason Bourne” que tinha conhecimento dessas coisas?

Ele compreendera que precisava voltar. Seu silêncio estava denunciando-o, revelando seu -espanto. O chinês fitava-o fixa mente, a mão se estendendo além da beira do reservado.

—Puxe essa mão ou seus colhões e seu estômago vão virar picadinho.

O ombro do oriental levantara abruptamente e a mão aparecera sobre a mesa.

— O que contei é a pura verdade. O francês não apareceu. Se não, eu lhe contaria tudo. E você também contaria, se estivesse no meu lugar. Só protejo a mim mesmo.

— Quem mandou você para fazer o contato? Quem lhe deu as palavras para usar?

— Sinceramente, não sei de nada a respeito e você deve acreditar nisso. Tudo é feito por telefone, através de intermediários, que só conhecem as informações que transmitem. A prova da integridade está na chegada dos fundos com que me pagam.

— E como chegam esses fundos? Alguém tem de entregar a você.

— Alguém que não existe, que também foi contratado. Um anfitrião desconhecido de um jantar de luxo pede para falar com o gerente. Aceito seus elogios e durante a conversa um envelope passa para as minhas mãos. E tenho dez mil dólares americanos para fazer contato com o francês.

— E o que ocorre em seguida? Como você faz o contato?

— E preciso ir a Macau, ao cassino Kam Pek, no centro. É freqüentado quase que exclusivamente por chineses, pois  oferece os jogos de fan-tan e dai-sui. Passa-se pela Mesa Cinco e se deixa o telefone de um hotel em Macau... não um telefone particular... e um nome, qualquer nome... não o próprio, é claro.

— Ele liga para esse número?

— Pode ligar e pode não ligar. Você passa vinte e quatro horas em Macau. Se ele não ligar nesse período, você foi recusado, porque o francês não tem tempo para você.

— São essas as regras?

— Exatamente. Fui recusado duas vezes e na única vez em que houve aceitação ele não apareceu em Calçada.

— Por que acha que foi recusado? Por que acha que ele não apareceu?

— Não tenho a menor idéia. Talvez ele tivesse negócios demais para o seu matador. Talvez eu tenha dito as coisas erradas nas duas primeiras ocasiões. Talvez na terceira vez ele concluísse que havia homens suspeitos em Calçada, homens que pensou estarem comigo e terem más intenções em relação à sua pessoa. Não havia ninguém assim, é claro, mas não há apelação.

— Mesa Cinco — murmurara Bourne. — Os crupiês.

— Os crupiês mudam constantemente. Seu acordo é com a mesa. Creio que há um pagamento geral. Dividido entre todos. E com toda certeza ele não vai pessoalmente ao Kam Pek... deve contratar uma prostituta das ruas. É muito cauteloso, um verdadeiro profissional.

— Conhece alguma outra pessoa que tenha tentado entrar em contato com esse Bourne? — indagara Bourne. — Saberei se estiver mentindo.

— Acho que saberia mesmo. O senhor está obcecado... o que não é da minha conta... e me acuou na primeira negativa. Não, senhor, não sei. É a pura verdade, porque não me agrada a perspectiva de te as entranhas estouradas com o estalido de uma rolha de champanhe.

— Não poderia ser mais objetivo. Nas palavras de outro homem, acho que acredito em você.

— Acredite, senhor. Sou apenas um mensageiro... talvez dos mais caros, é verdade, mas assim mesmo um mero mensageiro.

— Pelo que estou informado, seus garçons são outra coisa.

— Não estão se mostrando muito observadores.

— De qualquer forma, você vai me acompanhar até a porta.

E agora havia o terceiro nome, um terceiro homem, no aguaceiro em Repulse Bay.

O contato reagira ao código:

— Ecoutez, monsieur. “Caim é por Delta e Carlos é por Caim.”

— Deveríamos nos encontrar em Macau! — gritara o homem pelo telefone. — Onde você estava?

— Ocupado — respondera Jason.

— Pode estar muito atrasado. Meu cliente dispõe de pouco tempo e está a par de tudo. Soube que seu homem anda por outras bandas. E ficou contrariado. Você prometeu, Francês!

— Onde ele pensa que meu homem anda?

— Em outro trabalho, é claro. E lhe contaram até os detalhes.

— Pois ele está enganado. O homem se encontra disponível, se o preço for coberto.

— Torne a me ligar dentro de alguns minutos. Falarei com meu cliente e verificarei se devemos continuar a conversa.

Bourne tornara a telefonar cinco minutos depois. Fora dado o consentimento, marcado o encontro. Repulse Bay. Uma hora da madrugada. A estátua do deus da guerra, no meio da descida para a praia, à esquerda, na direção do píer. O contato usaria um lenço preto no pescoço; o código seria o mesmo.

Jason olhou para o relógio; era uma e doze. O contato estava atrasado, e a chuva não era problema... ao contrário, era uma vantagem, uma cobertura natural. Bourne esquadrinhara cada palmo da área de encontro, doze metros em todas as direções com uma vista direta para a estátua. Cuidara disso depois da hora marcada, ocupando os minutos, enquanto vigiava o caminho até a estátua. Até agora, não havia nada de irregular. Nenhuma perspectiva de armadilha.

O Zhongguo ren finalmente surgiu, os ombros vergados, enquanto descia correndo os degraus, debaixo da chuva, a postura do corpo lhe permitindo esquivar-se do aguaceiro. Aproximou-se da estátua do deus da guerra e parou ao chegar perto do ídolo enorme e irado. Contornou os refletores, mas o que se pôde ver por um breve instante de seu rosto transmitia apenas raiva por não avistar ninguém.

Francês! Francês!

Bourne correu de volta pela folhagem na direção dos degraus, efetuando mais um reconhecimento antes do encontro, reduzindo sua vulnerabilidade. Contornou o enorme poste de pedra que margeava a escadaria e olhou através da chuva para a parte superior do caminho que levava ao hotel. E divisou o que esperava não ver. Um homem de capa e chapéu saiu do velho Colonial Hotel e desatou a correr. Parou no meio do caminho para a escadaria, tirando alguma coisa do bolso; virou-se, houve um pequeno clarão... respondido no mesmo instante por um brilho correspondente, numa das janelas do apinhado saguão. Pequenas lanternas. Sinais. Um sentinela estava a caminho de um posto avançado, enquanto seu intermediário ou apoio confirmava as comunicações. Jason tornou a se virar e retornou pelo caminho que percorrera através dos arbustos encharcados.

— Francês, onde você está?

— Aqui!

— Por que não respondeu antes? Onde?

— Bem em frente. No meio dos arbustos. Venha depressa!

O contato aproximou-se da folhagem; estava quase em cima. Bourne levantou-se de um pulo e agarrou-o, virando-o e empurrando-o pelas moitas molhadas, ao mesmo tempo em que lhe tapava a boca com a mão esquerda.

— Se quer viver, não faça qualquer barulho!

Avançando uns dez metros pela vegetação, Jason empurrou o contato contra o tronco de uma árvore.

— Quem está com você? —. perguntou ele bruscamente, retirando a mão devagar da boca do homem.

— Comigo? Não tem ninguém comigo!

— Não minta! — Bourne sacou a arma e encostou-a na garganta do homem. O chinês jogou a cabeça para trás, os olhos arregalados, a boca entreaberta. —Não tenho tempo para armadilhas! Não tenho tempo nenhum!

— E não tem ninguém comigo! Minha palavra nessas questões é a minha própria vida! Sem isso, não tenho profissão!

Bourne observou atentamente o homem. Tornou a pôr a

arma no cinto, pegou o contato pelo braço e empurrou-o para a direita.

— Venha comigo. E não faça barulho.

Noventa segundos depois Jason e o contato haviam rastejado pela vegetação encharcada para uma área da trilha a vinte e tantos metros a oeste do imenso ídolo. O aguaceiro encobrira quaisquer ruídos que poderiam ser captados numa noite seca. Subitamente, Bourne segurou o oriental pelo ombro, obrigando-o a parar. O sentinela podia ser divisado à frente, agachado, através do facho de um refletor da estátua, desaparecendo um instante depois. Foi apenas por um breve instante, mas era o suficiente. Bourne olhou para o contato.

O chinês estava aturdido. Não conseguia desviar os olhos da área de luz pela qual o sentinela passara. Os pensamentos lhe surgiam rápidos, o terror se acumulava; era patente em seu olhar.

— Si — ele murmurou. — Jiagian!

— Em simples palavras inglesas — disse Jason, através da chuva. — Aquele homem é um executor?

— Shi!... Sim.

— O que você me trouxe?

— Tudo — balbuciou o contato, ainda em choque. — O primeiro pagamento, as instruções... tudo.

— Um cliente não manda dinheiro se vai matar o homem que está contratando.

— Sei disso — murmurou o contato, balançando a cabeça e fechando os olhos. — É a mim que eles querem matar.

Suas palavras para Liang no passeio do cais haviam sido proféticas, pensou Bourne. Não é uma armadilha para mim... É para você... Já fez o seu trabalho e eles não podem deixar qualquer pista... Não podem permitir que você continue a viver.

— Há outro lá em cima, no hotel. Vi quando trocaram um sinal com lanternas. Foi por isso que não pude lhe responder por vários minutos.

O chinês virou-se e fitou Jason; não havia qualquer auto- compaixão em seus olhos.

— Os riscos da minha profissão — disse ele, simplesmente. — Como dizem os tolos, vou me juntar a meus ancestrais... e espero que eles não sejam tão tolos. Tome aqui.

O contato enfiou a mão no bolso interno e retirou um envelope, acrescentando:

— Está tudo aqui.

— Conferiu?

— Só o dinheiro. Está todo aí. Eu não me encontraria com o Francês com menos do que ele pediu, e o resto não é da minha conta. — De repente, o homem observou Bourne atentamente, piscando os olhos sob o aguaceiro. — Mas você não é o Francês!

— Adivinhou — disse Jason. — As coisas aconteceram muito depressa para você esta noite.

— Quem é você?

— Apenas alguém que apareceu no mesmo lugar em que você se encontrava. Quanto dinheiro trouxe?

— Trinta mil dólares americanos.

— Se esse é o primeiro pagamento, então o alvo deve ser alguém muito importante.

— Presumo que sim.

— Fique com o dinheiro.

— Como? O que foi que disse?

— Já esqueceu que não sou o Francês?

— Não estou entendendo.

— Não quero sequer as instruções. Tenho certeza de que alguém com o seu calibre profissional pode tirar todo o proveito. Um homem paga bem pelas informações que podem ajudá-lo... e paga muito mais por sua vida.

— Mas por que você faria isso?

— Porque nada disso me interessa. Só tenho uma preocupação. Quero o homem que se chama Bourne, e não tenho tempo a perder. Você recebe o que acabei de lhe oferecer e mais um dividendo... tirarei você vivo daqui, mesmo que tenha de deixar dois cadáveres na baía. Mas você precisa me entregar o que lhe pedi pelo telefone. Disse que seu cliente contou que o assassino do Francês estava indo para outro lugar. Onde? Onde está Bourne?

— Está falando muito depressa...

— Já disse que não tenho tempo a perder. Fale logo. Se recusar, vou embora e seu cliente mata você. Escolha o que preferir.

— Shenzen — balbuciou o contato, como se o nome o apavorasse.

— Na China? Há um alvo em Shenzen?

— É o que se pode presumir. Meu cliente rico tem fontes em Queen’s Road.

— O que é isso?

— O consulado da República Popular. Foi concedido um visto excepcional. Ao que tudo indica, foi tudo resolvido por uma alta autoridade em Pequim. A fonte não sabia por que, e quando questionou a decisão, foi afastada da seção. E informou a meu cliente. Por dinheiro, é claro.

— Por que o visto foi excepcional?

— Porque não houve o período de espera e o requerente não apareceu no consulado. Duas coisas sem precedentes.

— Ainda assim, foi apenas um visto.

— Na República Popular não existe nada como “apenas um visto”. Muito menos para um homem branco que viaja sozinho, com um passaporte duvidoso emitido em Macau.

— Macau?

— Sim.

— Qual é a data de entrada?

— Amanhã. A fronteira de Lo Wu.

Jason estudou o contato.

— Disse que seu cliente tem fontes no consulado. Você também tem?

— O que está pensando vai custar muito dinheiro, porque o risco é enorme.

Bourne levantou a cabeça e olhou pela chuva para o ídolo iluminado. Havia movimento, o sentinela procurava por seu alvo.

— Espere aqui — murmurou ele.

O trem do início da manhã de Kowloon para a fronteira de Lo Wu não chegava a demorar uma hora para cobrir o percurso. A compreensão de que estava na China levou menos de dez segundos.

Longa Vida para a República Popular!

Não havia necessidade do ponto de exclamação, já que os guardas da fronteira assumiam a posição. Eram rígidos, arrogantes, martelavam os passaportes com seus carimbos de borracha com a fúria de adolescentes hostis. Só que havia um sistema de apoio melhor. Além dos guardas, havia uma falange de moças em uniformes, sorrindo, por trás de várias mesas compridas, sobre as quais estavam pilhas de folhetos exaltando a beleza e as virtudes de sua terra e seu sistema. Se havia hipocrisia em suas posturas, ela não transparecia.

Bourne dera ao contato traído e marcado a quantia de sete mil dólares pelo visto. Era válido por cinco dias. O objetivo da visita estava indicado como “investimentos na Zona Econômica”; era renovável no serviço de imigração em Shenzen, com a prova do investimento, juntamente com a presença confirmadora de um banqueiro chinês, através do qual o dinheiro deveria ser aplicado. Em gratidão e sem custo adicional, o contato fornecera o nome de um banqueiro de Shenzen que poderia facilmente oferecer ao “Sr. Cruett” as melhores possibilidades de investimentos; o referido Sr. Cruett ainda estava hospedado no Regent Hotel, em Hong Kong. E houvera mais um bônus do homem cuja vida ele salvara em Repulse Bay: a descrição do homem viajando com um passaporte de Macau e atravessando a fronteira em Lo Wu. Tinha “um metro e oitenta e cinco de altura, oitenta e quatro quilos, pele branca, cabelos castanho-claros”. Jason ficara aturdido com a informação, recordando inconscientemente os dados constantes de seu próprio documento de identidade: “Alt. 1,85; Peso —85 kg; Sexo — Masc.; Cor — Branca; Cab. — Cast.-Claros”. Uma estranha sensação de medo o dominara. Não o medo da confrontação; queria isso, acima de tudo, pois desejava Marie de volta mais do que qualquer outra coisa no mundo. Em vez disso, o que havia era o horror por ser responsável pela criação de um monstro. Um semeador da morte, originário de ‘um vírus letal que ele desenvolvera no laboratório de sua mente e corpo.

Fora no primeiro trem que partira de Kowloon, ocupado quase que inteiramente por mão-de-obra especializada e pelos executivos permitidos — seduzidos — na Zona Econômica Livre de Shenzen da República Popular, na esperança de atrair investimentos estrangeiros. Em cada parada, no caminho para a fronteira, mais e mais passageiros embarcaram. Bourne circulara pelos vagões, observando atentamente cada um dos homens

brancos, um total de apenas quatorze, ao chegarem a Lo Wu. Nenhum deles se ajustava sequer vagamente à descrição do homem de Macau... a descrição de si mesmo. O novo “Jason Bourne” seguiria em outro trem. O original esperaria no outro lado da fronteira. E estava esperando agora.

Durante as quatro horas que passou ali, explicou dezesseis vezes ao inquisitivo pessoal da fronteira que aguardava um sócio nos negócios; obviamente, não entendera direito a programação e pegaram um trem antes do horário combinado. Como acontece com as pessoas em qualquer país estrangeiro, mas especialmente no Oriente, o fato de um americano cortês se esforçar para ser compreendido na língua dos nativos era positivamente benéfico. Ofereceram-lhe quatro xícaras de café, sete de chá quente, e duas moças uniformizadas riram muito ao lhe entregarem um sorvete chinês em casquinha, muito doce. Ele aceitou tudo, pois agir de outra forma seria grosseria, e desde que a maioria dos membros da Quadrilha dos Quatro literalmente perdera a cabeça, ser rude era perigoso, exceto para os guardas da fronteira.

Eram onze e dez. Os passageiros emergiam do corredor descoberto, comprido, murado, depois de passarem pelo serviço de imigração. Eram quase todos turistas, quase todos brancos, quase todos aturdidos e intimidados por estarem ali. A maioria se encontrava em pequenos grupos turísticos, acompanhados por guias — um de Hong Kong, outro da República Popular — que falavam de maneira aceitável o inglês, alemão ou francês e alguns, relutantemente, o japonês, pois esses visitantes tão detestados traziam mais dinheiro do que Marx ou Confúcio jamais haviam possuído. Jason observava cada branco com o máximo de atenção. Os muitos que tinham mais de um metro e oitenta de altura eram jovens demais, velhos demais, corpulentos. demais, magros demais ou óbvios demais em suas calças verdes ou amarelas para serem o homem de Macau.

Espere! Aquele ali! Um homem mais velho, num terno de gabardine castanho-amarelada, que parecia um turista de estatura mediana, claudicando, tornou-se de repente mais alto... e não estava mancando! Ele desceu rapidamente os degraus por entre a multidão e correu para o enorme estacionamento, ocupado por ônibus e furgões de turismo, além de uns poucos táxis, com um ZHAN — fora de serviço — nas janelas da frente. Bourne correu atrás do homem, esquivando-se por entre os corpos à sua frente, sem se preocupar com quem empurrava para o lado. Era o homem... o homem de Macau!

— Ei, você está louco? Ralph, ele me empurroul

— Empurre de volta. O que quer que eu faça?

— Faça alguma coisa!

— Ele já foi.

O homem de terno de gabardine pulou pela porta aberta de um furgão verde-escuro, com as janelas escuras, que segundo os caracteres chineses pertencia a um departamento chamado Santuário dos Pássaros de Chutang. A porta foi fechada e o veículo no mesmo instante arrancou de sua vaga no estacionamento, derrapando ao ultrapassar outros veículos na pista de saída. Bourne estava frenético; não podia deixar o homem sumir! Havia um táxi velho à sua direita, o motor ligado, em ponto morto. Ele abriu a porta, recebendo um grito em reação.

— Zhan! — berrou o motorista.

— Shi ma? — gritou Jason, tirando do bolso dinheiro americano suficiente para garantir cinco anos de fausto na República Popular.

— Aiya!

— Zou!—ordenou Bourne, sentando-se no banco da frente e apontando para o furgão, que virava no semicírculo. E acrescentou em cantonês: — Acompanhe aquele carro e poderá iniciar o seu próprio negócio na zona. Eu lhe prometo!

Marie, estou tão perto! Sei que é ele! Vou pegá-lo! Ele é meu agora! E é a nossa salvação!

O furgão passou pela saída, acelerando, seguiu para o sul no primeiro cruzamento, evitando a praça grande, abarrotada de ônibus e multidões de turistas, e evitando o fluxo interminável de bicicletas nas ruas. O motorista do táxi aproximou-se do furgão numa estrada primitiva, pavimentada mais com argila dura do que com asfalto. O veículo de janelas escuras podia ser visto à frente, iniciando uma curva longa, depois de ultrapassar um caminhão aberto que transportava maquinaria agrícola. Um ônibus de turismo se encontrava na extremidade da curva, balançando na estrada, por trás do caminhão.

Bourne olhou além do furgão; havia colinas à frente, a

estrada começava a subir. E depois outro ônibus de turismo apareceu, por trás deles.

— Schumchun — disse o motorista.

— Bin do? — perguntou Jason.

— O sistema de abastecimento de água de Schumchun — explicou o motorista, em chinês. — Um reservatório muito bonito, um dos lagos mais belos da China. Manda sua água para o sul, até Kowloon e Hong Kong. Fica cheio de visitantes nesta época do ano. A paisagem de outono é uma beleza.

O furgão acelerou de repente, já subindo, afastando-se do caminhão e do ônibus.

— Não pode ir mais depressa? Ultrapasse o ônibus e o caminhão!

— Tem muitas curvas à frente.

— Tente!

O motorista pisou o acelerador e ultrapassou o ônibus, deixando de bater por uma questão de centímetros, ao ser forçado a retornar a seu lado da estrada por um caminhão militar que vinha em sentido contrário, com dois soldados na cabine. Tanto os soldados como os guias do ônibus de turismo gritaram para eles através das janelas abertas.

— Vão dormir com suas mães horrendas! —gritou o motorista em resposta, inebriado por seu momento de triunfo, apenas para se defrontar com o caminhão largo, transportando maquinaria agrícola, bloqueando a passagem.

Estavam entrando numa curva fechada para a direita. Bourne segurou a janela e inclinou-se para fora ao máximo possível, a fim de ver o que havia pela frente.

— Não há nenhum carro! — gritou ele para o motorista, através do vento. — Vá em frente! Pode ultrapassar! Agora!

O motorista obedeceu, levando o velho táxi ao seu limite, os pneus rangendo na argila dura, derrapando perigosamente na frente do caminhão. Outra curva, também fechada, agora para a esquerda, a subida mais íngreme. À frente, havia uma reta, subindo por uma colina alta. Não se podia ver o furgão em parte alguma; desaparecera além da crista da colina.

— Kuai! — gritou Bourne. — Não pode fazer este carro ir mais depressa?

— Nunca andou tão depressa! Acho que os espíritos vão

explodir o motor! O que você vai fazer se isso acontecer? Levei cinco anos para comprar esta máquina profana e muitos subornos para poder trabalhar na Zona!

O táxi chegou ao topo da colina e começou a descer rapidamente para um enorme vale, à beira de um vasto lago, que parecia se estender por quilômetros. À distância, Bourne podia avistar montanhas de picos nevados e ilhas verdes pontilhando as águas azuis-esverdeadas, até onde a vista podia alcançar. O táxi foi parar ao lado de um pagode grande, vermelho e dourado, o acesso por uma escada comprida, de concreto envernizado. Os balcões abertos davam para o lago. Barraquinhas de refrescos e lojas de antiguidades espalhavam-se em torno do estacionamento, onde se encontravam quatro ônibus de turismo, com os guias bilíngües gritando instruções e suplicando aos seus turistas que não entrassem nos veículos errados, ao final do passeio.

O furgão de janelas escuras não estava em parte alguma. Bourne moveu a cabeça rapidamente, procurando em todas as direções. Onde estava?

— Para onde vai aquela estrada? —perguntou ele ao motorista, apontando.

— Vai para a estação das bombas. Ninguém tem permissão para descer por ali. A estrada é patrulhada pelo exército. Depois da curva, tem uma cerca alta e uma casa da guarda.

— Espere aqui.

Jason saltou do táxi e começou a se encaminhar para a estrada proibida, desejando ter uma câmara ou um guia... alguma coisa que o caracterizasse como turista. Nas circunstâncias, o melhor que podia fazer era assumir o andar hesitante e a expressão de olhos arregalados de um excursionista. Nenhum objeto era insignificante demais para sua inspeção. Aproximou-se da curva, no caminho mal pavimentado; viu a cerca alta e depois a casa da guarda. Uma barra de metal comprida estendia-se pela estrada, e dois soldados se encontravam ali, conversando, de costas para ele, olhando para o outro lado... na direção de dois veículos estacionados lado a lado, mais abaixo, junto a uma estrutura de concreto quadrada, pintada de marrom. Um dos veículos era o furgão de janelas escuras e o outro, um sedã marrom. O furgão começou a andar. Estava se encaminhando para a barreira!

Os pensamentos de Bourne foram rápidos. Não estava armado; era inútil sequer considerar a possibilidade de levar uma arma através da fronteira. Se tentasse deter o furgão e tirar o matador de lá de dentro, o tumulto atrairia os guardas, os rifles poderiam disparar implacavelmente. Portanto, tinha de atrair o homem de Macau para fora... por sua livre e espontânea vontade. Jason estava preparado para o resto; haveria de dominar o impostor, de um jeito ou de outro. Haveria de levá-lo de volta através da fronteira... de um jeito ou de outro. Nenhum homem era adversário para ele; não havia olhos, garganta ou virilha a salvo de um ataque rápido e agonizante. David Webb jamais enfrentara essa realidade. Bourne a vivera.

Havia um jeito!

Jason correu de volta ao início da curva deserta da estrada, além da vista da barreira e dos soldados. Reassumiu a pose do turista fascinado e ficou escutando. O motor do furgão caiu para ponto morto; o ranger de metal significava que a cancela estava sendo levantada. Só mais alguns momentos. Bourne manteve-se em sua posição nas moitas, ao lado da estrada. O furgão contornou a curva, enquanto ele calculava seus movimentos com precisão.

E de repente estava ali, na frente do veículo grande, com uma expressão apavorada, girando para o lado, abaixo da janela do motorista, batendo com a palma na porta e soltando um grito de dor, como se tivesse sido atropelado, talvez morto. E se jogou no chão, enquanto o furgão parava; o motorista saltou, um inocente prestes a protestar sua inocência. Não teve oportunidade de fazê-lo. O braço de Jason se estendeu e agarrou o homem pelo tornozelo, puxando-o e derrubando-o. O homem foi bater com a cabeça no lado do furgão e escorregou inconsciente para o chão. Bourne arrastou-o para a traseira do furgão, por baixo das janelas escuras. O casaco do homem estava estofado; era uma arma, algo previsível, considerando-se a carga transportada. Jason tirou-a e esperou pelo homem de Macau.

Ele não apareceu. O que não era lógico.

Bourne foi para a frente do furgão, segurou na beira do

assento, no lado do motorista, levantou-se abruptamente, a arma de prontidão, esquadrinhando a traseira do veículo.

Não havia ninguém. Estava vazio.

Saltou e foi até o motorista, cuspiu em sua cara, deu-lhe alguns tapas, até que recuperasse a consciência.

— Nali — sussurrou Bourne, o tom ríspido. — Onde ficou o homem que estava aqui?

— Lá atrás! — respondeu o motorista, em cantonês, sacudindo a cabeça. — No carro oficial, com um homem que ninguém conhece. Poupe a minha vida miserável! Tenho sete filhos!

— Volte para o volante. — Bourne levantou o homem e empurrou-o para a porta aberta. — E saia daqui o mais depressa que puder.

Não havia necessidade de qualquer outro conselho. O furgão disparou da área do reservatório de Schumchun, derrapando na curva para a entrada principal com tamanha velocidade que Jason pensou que despencaria pela margem. Um homem que ninguém conhece. O que isso significava? Não importava, o homem de Macau estava acuado. Encontrava-se num sedã marrom, além do portão da estrada proibida. Bourne voltou ao táxi e sentou no banco da frente; o dinheiro espalhado fora removido do chão.

— Está satisfeito? — disse o motorista. — Terei dez vezes o que largou em meus pés indignos?

— Corta essa, Charlie Chan. Um carro vai sair por aquela estrada da casa das bombas e você fará exatamente o que eu mandar. Está me entendendo?

— E você compreende dez vezes a quantia que deixou em meu táxi velho e sem valor?

— Compreendo perfeitamente. Pode ser quinze vezes, se fizer direito o seu trabalho. Vá para a saída do estacionamento. Não sei quanto tempo teremos de esperar.

— Tempo é dinheiro, senhor.

— Ora, cale essa boca!

A espera foi mais ou menos de vinte minutos. O sedã marrom apareceu e Bourne viu o que não percebera antes. As janelas eram ainda mais escuras que as do furgão; quem quer que se encontrasse lá dentro, estava invisível. E foi nesse instante que Jason ouviu as últimas palavras que desejava ouvir.

— Fique com o seu dinheiro — murmurou o motorista. — Voltarei para Lo Wu. Nunca vi você.

— Por quê?

— Aquele carro é do governo... um dos veículos oficiais do nosso governo... e não serei eu quem vai segui-lo.

— Ei, espere um pouco! Espere! Vinte vezes o que lhe dei, com uma gratificação adicional se tudo correr bem. Até eu dar outra instrução, pode ficar bem atrás do carro. Sou apenas um turista que quer conhecer a região. Não... espere! Vou lhe mostrar uma coisa! Meu visto diz que vim aqui para investir dinheiro. E os investidores têm permissão para olhar por aí!

— Vinte vezes? — repetiu o motorista, fitando Jason atentamente. — Qual a minha garantia de que vai cumprir sua promessa?

— Deixarei o dinheiro no assento, entre nós. Você está guiando; pode fazer uma porção de coisas com este carro para as quais eu não estaria preparado. Não vou tentar pegar o dinheiro de volta.

— Está bem. Mas vou ficar bem atrás. Conheço estas estradas. Não há muitos lugares por onde se passar.

Cerca de trinta e cinco minutos depois, com o sedã marrom ainda à vista, mas bem na frente, o motorista voltou a falar:

— Eles vão para o aeroporto.

— Que aeroporto?

— É usado pelas autoridades do governo e homens ricos do sul.

— Pessoas investindo em fábricas... na indústria?

— Esta é a Zona Econômica.

— Sou um investidor — murmurou Bourne. É o que diz o meu visto. Vamos em frente. Chegue mais perto. Depressa!

— Há outros cinco veículos entre nós e combinamos... eu fico bem para trás.

— Até eu dar outra instrução! A situação mudou. Tenho dinheiro. Estou investindo na China.

— Seremos parados no portão. E haverá telefonemas.

— Tenho o nome de um banqueiro em Shenzen.

— Ele tem seu nome, senhor? E está com uma lista das firmas chinesas com que vem negociando? Em caso positivo, pode ter uma boa conversa no portão. Mas se o banqueiro de Shenzen não o conhecer, será detido por prestar informação falsa. Sua permanência na China será tão longa quanto for necessário para investigá-lo meticulosamente. Semanas, meses.

— Tenho de alcançar aquele carro!

— Se chegar perto daquele carro, será fuzilado.

— Mas que diabo! — exclamou Jason em inglês, para logo depois voltar ao chinês: — Não tenho tempo para explicar, mas preciso ver o homem que está naquele carro.

— Isso não é da minha conta — disse o motorista, frio e cauteloso.

— Vá até o portão — ordenou Bourne. — Sou um passageiro que pegou em Lo Wu, e isso é tudo. Pode deixar que eu falo tudo.

— Está pedindo demais. Não quero ser visto em companhia de alguém como você.

— Faça o que estou mandando — disse Jason, tirando a arma do cinto.

As batidas em seu peito eram insuportáveis. Bourne estava parado ao lado de uma janela grande, olhando para o aeroporto. O terminal era pequeno, para viajantes privilegiados. A visão incongruente de despreocupados executivos ocidentais carregando pastas e raquetes de tênis enervava Jason, por causa do contraste extremo com os guardas uniformizados, de pé, em posições rígidas. Óleo e água eram aparentemente compatíveis.

Falando em inglês para o intérprete, que traduzira acuradamente para o oficial da guarda, ele alegara ser um confuso executivo, instruído pelo consulado na Queen’s Road, em Hong Kong, a ir ao aeroporto para se encontrar com uma alta autoridade que viria de avião de Pequim. Indicara o nome de um homem que conhecera rapidamente no Departamento de Estado em Washington, mas tinha certeza de que o reconheceria. Insinuara que a reunião contava com o beneplácito de homens importantes no Comitê Central. Recebera um passe que limitava seus movimentos ao terminal e depois indagara se o táxi podia permanecer no aeroporto, para o caso de precisar de transporte mais tarde. O pedido fora atendido.

— Se quer seu dinheiro, tem de ficar — ele dissera ao

motorista, em cantonês, enquanto recolhia as notas dobradas entre os dois.

— Tem uma arma e olhos furiosos. Sei que pode matar.

Jason fitara-o nos olhos.

— A última coisa no mundo que quero é matar o homem naquele carro. Eu só mataria para proteger sua vida.

O sedã marrom com as janelas opacas não estava no estacionamento. Bourne caminhara tão depressa quanto julgara apropriado para o terminal, indo se postar junto à janela, onde se encontrava agora, as têmporas latejando de ira e frustração, pois lá fora, no campo, podia divisar o carro do governo. Estava estacionado na pista, a não mais de quinze metros de distância, mas uma impenetrável muralha de vidro o separava do homem... e da libertação. E subitamente, o sedã disparou para a frente, na direção de um jato de tamanho médio, a várias centenas de metros para o norte, na pista. Bourne aguçou a vista, desejando estar munido de um binóculo. E depois compreendeu que seria inútil; o carro fez a volta na cauda do avião e desapareceu de seu campo de visão.

Mas que droga!

Poucos segundos depois o jato começou a taxiar para a cabeceira da pista, enquanto o sedã marrom voltava na direção do estacionamento e da saída.

O que ele podia fazer? Não posso ser deixado assim! Ele está ali! Ele é meu e está ali! E vai escapar! Bourne correu para o primeiro balcão, assumindo a atitude de um homem profundamente perturbado.

— O avião que está prestes a decolar! Eu deveria estar nele! Vai para Xangai e as pessoas em Pequim disseram que eu deveria estar nele! Mandem parar!

A funcionária atrás do balcão pegou o telefone. Discou rapidamente, depois deixou escapar um suspiro de alívio pelos lábios contraídos.

— Aquele não é o seu avião, senhor. Ele está voando para Guangdong.

— Para onde?

— A fronteira de Macau, senhor.

“Nunca! Não deve ser em Macau!”, gritara o taipan.

A ordem será rápida, a execução ainda mais rápida! Sua esposa morrerá!”

Macau. Mesa Cinco. O cassino de Kam Pek.

 

“Se ele seguir para Macau”, dissera McAllister, suavemente, “pode se tornar um terrível perigo...”

“Solução final?”

“Não posso usar essa expressão.”


 

— Você não vai me dizer isso! Não pode dizer! — Edward Newington McAllister levantou-se da cadeira de um pulo. — É inaceitável! Não posso admitir! Não vou ouvir!

— É melhor ouvir, Edward — disse o Major Lin Wenzu. — Aconteceu.

— A culpa é minha — acrescentou o médico inglês, parado diante da mesa, na mansão em Victoria Peak, fitando o americano. Todos os sintomas que ela apresentava levavam a um prognóstico de rápida deterioração neurológica. Perda de concentração e de foco visual, falta de apetite e uma correspondente perda de peso... e o que era mais significativo, os espasmos, quando ocorria uma total ausência de controle motor. Pensei sinceramente que o processo degenerativo alcançara uma crise negativa...

— E o que isso significa?

— Que ela estava morrendo. Claro que não em uma questão de horas, nem mesmo dias ou semanas. Mas o curso parecia irreversível.

— Poderia estar certo?

— Nada me agradaria mais do que concluir que estava certo, que meu diagnóstico foi pelo menos aceitável. Mas não posso. Nos termos mais simples, fui ludibriado.

— Quer dizer que foi golpeado?

— Figuradamente, foi o que aconteceu. E onde dói mais, Sr. Subsecretário. No meu orgulho profissional. Aquela mulher me enganou com sua encenação e provavelmente não sabe a diferença entre fêmur e febre. Tudo o que ela fez foi calculado, dos apelos à enfermeira até agredir o guarda e tirar suas roupas. Todos os seus movimentos foram planejados, e o único distúrbio foi meu.

— Oh, Deus, tenho de falar com Havilland!

— O Embaixador Havilland? — indagou Lin, arqueando as sobrancelhas.

McAllister virou-se para ele.

— Esqueça que ouviu isso.

— Não vou repetir, mas também não posso esquecer. As coisas estão mais claras, Londres está mais clara. Está falando do Estado-Maior, do próprio Olimpo.

— Não mencione esse nome para ninguém, doutor — disse McAllister.

— Já esqueci. E não tenho certeza se sequer sei quem ele é.

— O que posso dizer? O que você vai fazer?

— Tudo o que for humanamente possível — respondeu o major. — Dividimos Hong Kong e Kowloon em seções. Estamos investigando cada hotel, examinando meticulosamente os registros. Alertamos a polícia e as patrulhas marítimas. Todos têm cópias da descrição da mulher e receberam a instrução de que encontrá-la é uma preocupação prioritária do território...

— Mas o que você disse? Como pôde explicar?

— Pude dar uma ajuda nesse ponto — interveio o médico. — Tendo em vista a minha estupidez, era o mínimo que eu podia fazer. Emiti um alerta módico. Com isso, pudemos recrutar a ajuda de equipes paramédicas, que foram enviadas de todos os hospitais, embora permanecendo em contato pelo rádio para outras emergências, é claro. Estão esquadrinhando as ruas.

— Que espécie de alerta médico? — perguntou McAllister bruscamente.

— Um mínimo de informações, mas do tipo que cria o maior alvoroço. A mulher visitou uma ilha não-identificada no Estreito de Luzon, proibida aos viajantes internacionais por causa de uma doença virulenta, transmitida por talheres sujos.

— Com essa classificação — acrescentou Lin — nosso bom doutor eliminou qualquer hesitação de parte das equipes em abordá-la e detê-la. Não que fossem fazer isso, mas todo cesto tem sua maçã menos do que perfeita, e não podemos permitir nenhuma. Acredito sinceramente que vamos encontrá-la, Edward. Todos sabemos que ela se destaca numa multidão. Alta, atraente, com aqueles cabelos... e há mais de mil pessoas à sua procura.

— Torço para que você esteja certo, mas não posso deixar de me preocupar. Ela foi treinada por um camaleão — disse McAllister.

— Como?

— Não é nada, doutor — interveio o major. — Apenas um termo técnico em nossa profissão.

— Preciso do arquivo, todo ele!

— Para que, Edward?

— Eles foram caçados na Europa. Agora estão separados, mas ainda são caçados. O que fizeram naquela ocasião? O que vão fazer agora?

— Um fio da meada? Um padrão?

— Sempre existe — murmurou McAllister, esfregando a têmpora direita. — Com licença, senhores, mas tenho de pedir para que se retirem. Preciso dar um telefonema desagradável.

Marie trocou roupas e pagou uns poucos dólares por outras. O resultado foi aceitável: com os cabelos puxados para trás, sob um chapéu de sol mole, de aba larga, era uma mulher de aparência comum, com uma saia pregueada e uma blusa cinza larga, escondendo por completo a silhueta. As sandálias sem saltos diminuíam a sua altura, e a imitação de bolsa Gucci caracterizava-a como uma crédula turista em Hong Kong, justamente o que ela não era. Ligou para o consulado canadense e foi informada de como poderia chegar lá de ônibus. Ficava na Casa Asiática, décimo quarto andar, Hong Kong. Ela pegou o ônibus na Universidade Chinesa, atravessou Kowloon e o túnel para a ilha, sempre observando atentamente as ruas. Saltou no ponto indicado. Subiu no elevador, convencida de que nenhum dos homens lá dentro lhe lançara um segundo olhar; não era essa a reação habitual. Aprendera em Paris — ensinada

por um camaleão — como usar as coisas simples para mudar. As aulas estavam lhe voltando agora.

— Sei que parece ridículo — disse ela à recepcionista, em voz descontraída e jovial, um pouco aturdida —, mas tenho um primo em segundo grau, por parte de mãe, servindo aqui, e prometi vir visitá-lo.

— Isso não me parece ridículo.

— Mas vai parecer quando eu lhe disser que esqueci o nome dele. — As duas mulheres riram. — É verdade que nunca nos encontramos e provavelmente ele prefere continuar assim, mas tenho de dar uma satisfação à família.

— Sabe em que seção ele trabalha?

— Acho que tem alguma relação com economia.

— Deve ser a Divisão de Comércio. — A recepcionista abriu uma gaveta e tirou um folheto branco estreito, com a bandeira canadense impressa na capa. — Aqui está a nossa lista. Por que não senta e dá uma olhada?

— Muito obrigada. —Marie foi para uma poltrona de couro e sentou, acrescentando: — Tenho uma terrível sensação de incompetência. Afinal, eu deveria saber o nome dele. Tenho certeza de que você conhece os nomes dos primos em segundo grau por parte de mãe.

— Meu bem, não tenho a menor idéia.

O telefone da recepcionista tocou; ela atendeu. Virando as páginas, Marie leu rapidamente, esquadrinhando as colunas à procura de um nome que lhe evocasse um rosto. Encontrou três, mas as imagens eram nebulosas, as feições não muito claras. Mas na página doze um rosto e uma voz afloraram em sua mente, ao ler o nome Catherine Staples.

Catherine “Geladeira”, Catherine “Neve”, “varapau” Sta ples. Os apelidos eram injustos e não ofereciam um retrato ou avaliação acurada da mulher. Marie conhecera Catherine Staples quando trabalhara na Secretaria do Tesouro, em Ottawa, instruindo ela e outras pessoas da seção, o pessoal do corpo diplomático que estava sendo enviado para postos no exterior. Staples aparecera duas vezes, uma para um curso de atualização sobre o Mercado Comum Europeu... e a segunda, claro, para Hong Kong! Já havia transcorrido treze ou quatorze meses; embora a amizade não pudesse ser chamada de profunda — quatro ou cinco almoços, um jantar que Catherine preparara e outro com que Marie retribuíra — ela aprendera muito sobre a mulher que fazia o seu trabalho melhor do que a maioria dos homens.

Para começar, seu rápido progresso no Departamento de Assuntos Exteriores lhe custara um casamento. Declarara que renunciara ao casamento pelo resto de sua vida, já que as exigências de viagens e as horas de trabalho mais insólitas eram inaceitáveis para qualquer homem que tivesse algum valor. Com cinqüenta e poucos anos, Staples era uma mulher esguia, dinâmica, de estatura mediana, que se vestia com elegância, mas também com simplicidade. Era uma profissional séria, com uma ironia que transmitia sua aversão à incompetência, que sempre percebia e não tolerava. Podia ser generosa e até mesmo gentil com os homens e mulheres desqualificados para as funções em que serviam, já que não eram culpados por isso, mas mostrava-se implacável com os responsáveis pelas indicações, independente de suas posições. Se havia uma frase que resumia Catherine Staples era “dura porém justa”; além disso, ela era também bastante divertida, às vezes, num estilo em que zombava de si mesma. Marie esperava que ela continuasse justa em Hong Kong.

— Não há nenhum nome aqui que me lembre alguma coisa — disse Marie, levantando-se e indo devolver a lista à recepcionista. — Estou me sentindo uma idiota.

— Tem alguma idéia de sua aparência?

— Nunca pensei em perguntar.

— Lamento muito.

— Pois eu lamento ainda mais. Terei de dar um telefonema muito embaraçoso para Vancouver... Ah, encontrei um nome. Não tem nada a ver com meu primo, mas acho que é amiga de uma amiga. Uma mulher chamada Staples.

— Catherine a Grande? Ela está de fato aqui, embora muitas pessoas não se importassem se fosse promovida a embaixadora e enviada para a Europa Oriental. Deixa as pessoas nervosas. É uma mulher difícil.

— Quer dizer que ela se encontra aqui agora?

— A menos de dez metros de distância. Quer me dar o nome de sua amiga e ver se ela tem tempo para um alô?

Marie sentiu-se tentada, mas o ônus da burocracia proibia o atalho. Se a situação era como Marie julgava, um alarme fora enviado a todos os consulados amigos, e Staples podia sentir-se compelida a cooperar. Provavelmente não o faria, mas tinha de manter a integridade de seu cargo. Embaixadas e consulados constantemente solicitavam favores mútuos. Ela precisava de tempo com Catherine e não podia ser num cenário oficial.

— É muita gentileza sua — disse Marie à recepcionista. — Minha amiga ficaria feliz... Ei, espere um pouco! Você disse Catherine?

— Isso mesmo. Catherine Staples. E pode estar certa de que só existe uma.

— Tenho certeza que sim, mas acontece que o nome da amiga de minha amiga é Christine. Oh, céus, hoje não é o meu dia! Tem sido muito gentil e por isso vou parar de chateá-la e deixá-la em paz.

— Foi um prazer conversar com você, meu bem. Devia ver as pessoas que entram aqui, pensando que compraram um Cartier por um preço sensacional, até que pára de funcionar e um relojoeiro informa que por dentro só tem dois elásticos e um ioiô. — Os olhos da recepcionista baixaram para a bolsa Gucci com os gês invertidos.

— Essa não... — disse ela devagar.

— O que foi?

— Nada. Boa sorte com seu telefonema.

Marie esperou no saguão da Casa Asiática pelo tempo que achou seguro, depois saiu e ficou andando de um lado para outro, pela frente do prédio, por quase uma hora, na rua apinhada. Passava um pouco de meio-dia e ela já se perguntava se Catherine perdia tempo em almoçar... e um almoço seria uma excelente idéia. Havia ainda outra possibilidade, talvez uma impossibilidade, mas pela qual podia orar, se ainda se lembrasse. David podia aparecer, só que não seria como David, e sim como Jason Bourne, o que podia ser qualquer um. O marido como Bourne seria muito mais esperto; ela testemunhara a sua inventividade em Paris e era de outro mundo, um mundo letal, em que um passo em falso poderia custar a vida de uma pessoa. Cada movimento era premeditado, em três ou quatro dimensões. E se eu...? E se ele...? O intelecto desempenhava um papel muito maior no mundo violento do que os intelectuais não-violentos jamais admitiriam... seus cérebros estourariam num mundo que desdenhavam como bárbaro, porque não podiam pensar bastante depressa ou com profundidade suficiente. Cogito ergo coisa nenhuma. Por que ela estava pensando essas coisas? Pertencia ao segundo mundo, e David também! E no instante seguinte a resposta se tornou evidente. Haviam sido lançados de volta no outro mundo, precisavam sobreviver e encontrar um ao outro.

E lá estava ela! Catherine Staples saiu andando — marchando — da Casa Asiática e virou à direita. Estava a menos de doze metros de distância. Marie começou a correr, empurrando as pessoas, na tentativa de alcançá-la. Tente jamais correr, pois isso serve para destacá-la. Não me importo! Preciso falar com ela de qualquer maneira!

Staples atravessou a calçada. Havia um carro do consulado à espera no meio-fio, a insígnia da folha de bordo pintada na porta. Ela estava embarcando.

— Não! Espere! — gritou Marie, esbarrando em várias pessoas e segurando a porta no instante em que Catherine ia fechá-la.

— O que deseja? — gritou Staples, enquanto o motorista se virava no banco da frente, uma arma surgindo do nada.

— Por favor! Sou eu! Ottawa! As sessões de instruções!

— Marie? É mesmo você?

— Sou eu mesma. Estou com um problema e preciso de sua ajuda.

— Entre. — Catherine Staples afastou-se no banco, acrescentando para o motorista: — Pode guardar essa coisa tola. Ela é minha amiga.

Cancelando o almoço marcado, sob o pretexto de uma convocação da delegação britânica — uma ocorrência comum durante as conferências com os representantes da República Popular para discutir o tratado de 1997 —, Catherine Staples ordenou ao motorista que as deixasse no início da Food Street, na Causeway Bay. A Food Street oferecia o espetáculo irresistível de cerca de trinta restaurantes no espaço de dois quarteirões. O tráfego era proibido na rua, e mesmo que não fosse, não haveria a menor possibilidade de qualquer veículo motorizado passar pela massa humana em busca de cerca de quatro mil mesas. Catherine levou Marie à entrada de serviço de um restaurante. Tocou a campanhia, e quinze segundos depois a porta foi aberta, acompanhada pelos odores de uma centena de pratos orientais.

— Srta. Staples que prazer vê-la! — disse o chinês com um avental branco de cozinheiro... um dos muitos cozinheiros. — Por favor, entre. Como sempre, há uma mesa à sua espera.

Enquanto atravessavam o caos da enorme cozinha, Catherine virou o rosto para Marie e comentou:

— Graças a Deus que há umas poucas vantagens nesta profissão, tão mal paga. O proprietário tem parentes em Quebec... um excelente restaurante na St. John Street... e providencio para que seu visto seja concedido, como eles dizem, “bem-bem depressa”.

Catherine acenou com a cabeça para uma das poucas mesas vazias na área dos fundos, perto da porta da cozinha. Elas sentaram, literalmente ocultas pelo fluxo incessante de garçons passando apressadamente de um lado para outro das portas de vaivém, assim como pelo alvoroço permanente nas dezenas de mesas do restaurante apinhado.

— Obrigada por pensar num lugar assim — disse Marie.

Staples respondeu com sua voz gutural e inflexível:

— Ora, minha cara, qualquer pessoa com a sua aparência que se veste como está vestida agora e se maquila como está agora não quer atrair atenção.

— Como costumam dizer, acertou na mosca. A pessoa com quem ia almoçar vai aceitar a história da delegação britânica?

— Sem pensar duas vezes. A pátria está recorrendo a suas forças mais persuasivas. Pequim compra de nós vastas quantidades de trigo muito necessário... mas você sabe disso tão bem quanto eu, provavelmente muito mais, até em termos de dólares e cents.

— Não estou muito informada atualmente.

— Posso entender. — Staples acenou com a cabeça, olhando firme mas gentilmente para Marie, com expressão inquisitiva. — Eu estava aqui na ocasião, mas ouvimos os rumores e lemos os jornais europeus. Dizer que ficamos em choque não ésufi ciente para descrever o que as pessoas que conheciam você sentiram. Nas semanas que se seguiram, todos tentamos encontrar respostas, mas nos disseram para esquecer o assunto... para o seu bem. “Não tentem descobrir nada”, eles insistiram. “É do interesse dela que ninguém se meta.” Claro que acabamos sendo informados que você foi absolvida de todas as acusações... Mas que frase insultuosa, depois de tudo por que você passou! E depois você desapareceu, ninguém mais teve notícias suas.

— Eles disseram a verdade, Catherine. Era do meu interesse... do nosso interesse... que ninguém soubesse de nós. Passamos meses escondidos, e quando retomamos uma vida civilizada, foi num lugar remoto e sob um nome que poucas pessoas conheciam. Os guardas, no entanto, continuaram presentes.

— Nós?

— Casei com o homem sobre o qual você leu nos jornais. Claro que ele não era o homem descrito pelos jornais. Estava empenhado numa missão secreta para o governo americano. Renunciou a muita coisa de sua vida por esse compromisso terrivelmente estranho.

— E agora você está em Hong Kong e me diz que tem um problema.

— Isso mesmo, estou em Hong Kong e tenho um grave problema.

— Posso presumir que os acontecimentos do ano passado estão relacionados com suas dificuldades atuais?

— Acho que sim.

— O que pode me contar?

— Tudo o que sei, porque quero a sua ajuda. E não tenho o direito de pedi-la se você não souber de tudo o que sei.

— Gosto de uma linguagem sucinta. Não apenas pela clareza, mas também porque define a pessoa que a está usando. Você está dizendo também que se eu não souber de tudo provavelmente não poderei fazer nada.

— Eu não havia pensado assim, mas provavelmente você tem razão.

— Ótimo. Eu a estava testando. Na nouvelle diplomatie a simplicidade franca tornou-se tanto uma cobertura quanto um instrumento. É usada muitas vezes para encobrir a duplicidade, assim como para desarmar um adversário. Estou me referindo às recentes proclamações de seu novo país... novo como uma esposa, é claro.

— Sou economista, Catherine, e não diplomata.

— Combine os talentos que sei que você possui e poderá escalar as culminâncias de Washington, como teria feito em Ottawa. Mas também não teria a obscuridade que tanto deseja em sua vida civilizada recuperada.

— Nós precisamos disso. É tudo o que importa.

— Sondando de novo. Você não é uma mulher desprovida de ambição. Ama esse seu marido.

— E muito. Quero encontrá-lo. Quero-o de volta.

Catherine levantou a cabeça abruptamente, piscando os olhos.

— Ele está aqui?

— Em algum lugar. É parte da história.

— Não pode se controlar... e é isso mesmo o que estou querendo dizer, Marie... até nos encontrarmos em algum lugar mais discreto?

— Aprendi a ter paciência com um homem cuja vida dependia disso, vinte e quatro horas por dia, durante três anos.

— Puxa vida! Você está com fome?

— Faminta. Isso é também parte da história. Já que você está aqui e me escutando, podemos pedir alguma coisa?

— Evite o dim sum; é cozido demais e frito demais. O pato, porém, é o melhor de Hong Kong... Pode esperar, Marie? Prefere ir embora agora?

— Claro que posso esperar, Catherine. Toda a minha vida está em jogo. Meia hora não vai fazer qualquer diferença. E se eu não comer, não serei coerente.

— Sei disso. É parte da história.

Elas sentaram uma na frente da outra, no apartamento de Staples, separadas por uma mesinha, partilhando um bule de chá.

— Em trinta anos de serviço diplomático, acho que acabei de ouvir o que representa o mais clamoroso abuso do cargo... em nosso lado, é claro — comentou Catherine. — A menos que tenha ocorrido um sério mal-entendido.

— Está dizendo que não acredita em mim.

— Ao contrário, minha cara, você não poderia inventar essa história. Tem toda razão. Toda a coisa está impregnada de lógica ilógica.

— Eu não falei isso.

— Não precisava falar, pois é evidente. Seu marido é preparado, as possibilidades implantadas, e depois ele é disparado como um foguete nuclear. Por quê?

— Já lhe disse. Há um homem matando pessoas que se diz chamar Jason Bourne... o papel que David representou durante três anos.

— Um assassino é um assassino, não importa o nome que assuma, quer seja Gêngis Khan ou Jack o Estripador ou, se você quiser, Carlos o Chacal... até mesmo o assassino Jason Bourne. Armadilhas para homens assim são planejadas com o consentimento dos que vão executá-la.

— Não estou entendendo, Catherine.

— Pois então preste atenção, minha cara. É uma mente antiga que está falando. Lembra quando fui procurá-la para o curso de atualização sobre o Mercado Comum, com ênfase no comércio do bloco oriental?

— Claro que lembro. Fizemos um jantar uma para a outra. O seu foi muito melhor que o meu.

— Tem razão, foi mesmo. Mas na verdade estive lá para aprender como convencer meus contatos no bloco oriental de que eu poderia usar as taxas de flutuação de câmbio a fim de que as compras efetuadas conosco se tornassem mais lucrativas para eles. Foi o que fiz. E o pessoal de Moscou ficou furioso.

— E o que isso tem a ver comigo, Catherine?

Staples fitou Marie nos olhos, o comportamento gentil outra vez revestido de firmeza.

— Deixe-me explicar. Se você pensasse a respeito, haveria de presumir que eu estava em Ottawa para adquirir uma noção precisa da economia européia, a fim de poder realizar meu trabalho ainda melhor. Num certo sentido, isso era verdade. Só que não era o verdadeiro motivo. Eu estava lá para aprender a usar as flutuações das diversas moedas e oferecer contratos com maiores benefícios para os nossos clientes em potencial. Quando o marco alemão subia, vendíamos por franco, guilda ou qualquer outra moeda. Havia uma cláusula específica nos contratos.

— Não era um esquema dos mais proveitosos.

— Não estávamos em busca de lucros, mas sim querendo abrir mercados que se encontravam fechados para nós. Os lucros viriam mais tarde. Você foi muito objetiva ao falar da especulação com os taxas de câmbio. Apregoou os seus males, e tive de aprender a ser como um demônio... por uma boa causa, é claro.

— Muito bem, você usou a inteligência que tenho, qualquer que seja, para um propósito que eu desconhecia...

— É evidente que o objetivo tinha de ser mantido em segredo absoluto.

— Mas o que isso tem a ver com qualquer coisa que lhe contei?

— Posso farejar um pedaço de carne estragada, e lhe garanto que este nariz é experiente. Assim como eu tinha um motivo oculto ao procurá-la em Ottawa, quem quer que esteja fazendo isso com vocês tem uma razão mais profunda do que a captura do impostor de seu marido.

— Por que diz isso?

— Seu marido disse primeiro. É basicamente um problema de polícia, até mesmo de polícia internacional, um trabalho para a rede de informações altamente respeitada da Interpol. Eles estão muito mais qualificados para isso do que o Departamento de Estado ou o Foreign Office, a CIA ou o MI-Seis. Os serviços de informações exteriores não se preocupam com os criminosos não-políticos... os assassinos comuns... não podem se dar a esse luxo. Quase todos os imbecis revelariam as coberturas que conseguiram assumir se interferissem com o trabalho da polícia.

— Não foi o que McAllister falou. Ele garantiu que os melhores agentes dos serviços secretos americanos e ingleses estavam trabalhando no caso. Alegou que se esse assassino que se apresenta como meu marido... o que meu marido era aos olhos dos outros... assassinasse uma alta personalidade política em cada lado ou desencadeasse uma guerra no submundo, a situação de Hong Kong correria risco imediato. Pequim entraria em ação e assumiria o controle, usando como pretexto o tratado de 1997. “O oriental não tolera um filho desobediente”... foram estas as suas palavras.

— Inaceitável e inacreditável! — protestou Catherine Staples — Ou seu subsecretário é um mentiroso ou tem o QI de um asno. Apresentou todos os motivos para os nossos serviços secretos permanecerem fora do caso, não se envolverem em hipótese alguma. Até mesmo a insinuação de uma ação secreta seria desastrosa. Isso pode incendiar os homens mais frenéticos do Comitê Central. Mas, independente disso, não acredito em uma só palavra do que ele disse. Londres nunca permitiria, jamais concordaria sequer com a menção do nome do Setor Especial.

— Está enganada, Catherine. Não estava prestando atenção. O homem que voou para Washington a fim de buscar o arquivo de Casa de Pedra era britânico, do MI-Seis E foi assassinado por causa desse arquivo.

— Já ouvi isso e continuo a não acreditar. Acima de qualquer outra coisa, o Foreign Office insistiria para que toda essa confusão permanecesse aos cuidados da polícia, e somente da polícia. Vivemos em momentos difíceis e não há margem para trapaças, especialmente do tipo que leva uma organização oficial de serviço secreto a se envolver com um assassino. Estou absolutamente convencida de que você foi trazida para cá e forçaram seu marido a segui-la por outro motivo.

— Pelo amor de Deus, qual? — gritou Marie, inclinando-se para a frente bruscamente.

— Não sei. Talvez haja alguém mais.

— Quem?

— Isso foge à minha compreensão.

Silêncio. Duas mentes extremamente inteligentes refletiam sobre as palavras que cada uma pronunciara.

— Catherine — disse Marie finalmente —, aceito a lógica de tudo o que você diz, mas também falou que toda a situação estava impregnada de lógica ilógica. Vamos supor que eu esteja certa, que os homens que me detiveram aqui não eram assassinos nem criminosos, mas burocratas cumprindo ordens que não compreendiam, que a palavra governo se achava estampada em seus rostos e em suas explicações evasivas, até mesmo em sua preocupação por meu conforto e bem-estar. Sei que você acha que o McAllister que descrevi é um mentiroso ou um tolo... e se ele fosse um mentiroso e não um tolo? Presumindo essas coisas... e creio que são verdadeiras... estamos falando de dois governos agindo de acordo durante estes momentos difíceis. O que acontece nesse caso?

— Então há um desastre em desenvolvimento —murmurou Catherine Staples

— E tudo gira em torno de meu marido?

— Se você está certa, é isso mesmo.

— Não acha que é bem possível?

— Não quero nem pensar a respeito.


 

Cerca de sessenta e cinco quilômetros a sudoeste de Hong Kong, além das ilhas exteriores do Mar da China Meridional, fica a península de Macau, uma colônia portuguesa apenas nominalmente. As origens históricas estão em Portugal, mas seu apelo moderno e exuberante para o jet set internacional, com o Grande Prêmio anual, os cassinos e iates, está baseado nos luxos e estilos de vida exigidos pelos ricos da Europa. Apesar disso, não se deve cometer qualquer equívoco. É um lugar chinês. Os controles estão em Pequim.

Nunca! Não deve ser Macau! A ordem será rápida, a execução ainda mais rápida! Sua esposa morrerá!

Mas o assassino estava em Macau, e um camaleão tinha de entrar em outra selva.

Esquadrinhando os rostos e espiando os recantos escuros do pequeno e atulhado terminal, Bourne deslocou-se com a multidão para o píer do aerobarco de Macau, viagem que levaria cerca de uma hora. Os passageiros estavam divididos em três categorias distintas: residentes da colônia portuguesa de volta, principalmente chineses, em silêncio; jogadores profissionais, uma mistura racional, conversando discretamente, quando falavam, olhando ao redor a todo instante, a fim de avaliar a concorrência; e foliões da madrugada, turistas efusivos, exclusivamente brancos, muitos embriagados, com chapéus dos formatos mais estranhos e espalhafatosas camisas tropicais.

Ele deixara Shenzen e tomara o trem das três horas de Lo Wu para Kowloon. A viagem fora extenuante, seu raciocínio estava embotado, as emoções esgotadas. O impostor-assassino estivera tão perto! Se tivesse conseguido isolar o homem de Macau por menos de um minuto, poderia dominá-lo! Havia meios. Ambos tinham os vistos em ordem; um homem contraído em dor, a garganta lesada a ponto de não poder falar, poderia passar por um homem doente, talvez com alguma moléstia contagiosa, um visitante indesejável, a quem eles teriam o maior prazer em deixar partir. Mas não acontecera, não dessa vez. Ah, se ao menos ele pudesse ter visto o rosto do impostor!

E havia ainda a descoberta desconcertante de que aquele novo assassino, o mito que não era nenhum mito, mas sim um assassino brutal, tinha um contato na República Popular. Era profundamente perturbador, pois as autoridades chinesas que reconheciam um homem assim só o faziam para usá-lo. Era uma complicação que David não desejava. Não tinha nada a ver com Marie e com ele, e os dois eram a única coisa com que se importava. Tudo com que se importava! Jason Bourne: Traga o homem de Macau!

Ele voltara ao Peninsula, passando pelo New World Centre para comprar uma jaqueta de náilon escuro e um par de tênis azul-marinho. A ansiedade de David Webb era opressiva. Jason Bourne planejava sem ter conscientemente um plano. Pediu uma refeição leve e sentou-se na cama enquanto comia, assistindo ao noticiário da televisão sem prestar atenção. Depois, David recostou-se no travesseiro, especulando de onde vinham as palavras: O descanso é uma arma. Não se esqueça disso. Bourne despertou quinze minutos depois.

Jason comprara uma passagem para as oito e meia numa bilheteria do Serviço de Transporte Coletivo no Tsim Sha Tsui, durante a hora do rush. Para estar certo de que não era seguido — e precisava ter certeza absoluta — pegara três táxis diferentes para chegar a meio quilômetro do píer da barca de Macau uma hora antes da partida. Seguiu a pé o resto do percurso. Iniciara então um ritual para o qual fora treinado. A memória desse treinamento estava meio turva, mas não a sua prática. Fundira-se na multidão na frente do terminal, esquivando-se, andando em ziguezague, passando de um lado para outro, depois se mantendo subitamente imóvel à margem, concentrando-se nos padrões de movimento atrás de si, procurando por alguém que vira um momento antes, um rosto ou um par de olhos ansiosos voltados em sua direção. Não havia ninguém. Mas a vida de Marie dependia da certeza, e por isso ele repetiu o ritual duas vezes, acabando dentro do terminal mal iluminado, com bancos de frente para o cais e para a água. Continuou a procurar por um rosto frenético, uma cabeça que se virasse sem parar, uma pessoa girando, empenhada em encontrar alguém. Mais uma vez, não havia ninguém. Estava livre para seguir para Macau. E se encontrava agora a caminho.

Sentou-se num banco lá atrás, junto à janela, observando as luzes de Hong Kong e Kowloon se desvanecerem para um clarão no céu asiático. Novas luzes apareceram e desapareceram, enquanto o aerobarco ganhava velocidade e passava pelas ilhas exteriores, que pertenciam à China. Imaginou homens de uniforme a espiarem por lunetas e binóculos, sem saberem direito o que procuravam, mas tendo recebido a ordem de observar tudo. As montanhas dos Novos Territórios se erguiam ameaçadoras, o luar se refletindo em seus picos e acentuando-lhes a beleza, mas também dizendo: É aqui que você pára. Além deste ponto, somos diferentes. Não era bem assim. Pessoas apregoavam suas mercadorias nas praças de Shenzen. Os artesãos prosperavam, os fazendeiros abatiam seus animais e viviam tão bem quanto as classes instruídas em Pequim e Xangai... e geralmente em habitações melhores. A China estava mudando, não tão depressa para o Ocidente, e certamente ainda era um gigante paranóico, mas a verdade, refletiu David Webb, é que os estômagos distendidos das crianças, tão comum na China de anos atrás, estavam desaparecendo. Muitos dos políticos inescrutáveis nos escalões superiores eram gordos, mas poucos nos campos estavam passando fome. Houvera progresso, concluiu David, quer o resto do mundo aprovasse ou não os métodos.

O aerobarco desacelerou, o casco baixando para a água. Passou por um espaço num recife artificial, iluminado por refletores. Estavam em Macau, e Bourne sabia o que tinha de fazer. Levantou-se, pediu licença para passar pelo homem sentado ao seu lado e subiu pelo corredor, onde um grupo de americanos, uns poucos de pé, o restante sentado, cantava uma interpretação obviamente ensaiada de Mr. Sandman.

Rum bum bum bum...

Mr. Sandman, cante-me uma canção

Rum bum bum bum

Oh, Mr. Sandman...

Estavam altos, mas não bêbados, não barulhentos. Outro grupo de turistas, falando alemão, encorajava os americanos, aplaudindo ao final da canção.

— Gut!

— Sehrgut!

— Wunderbar!

— Danke, meine Herren.

O americano de pé mais próximo de Jason fez uma reverência para os alemães. Seguiu-se uma conversa breve e cordial, os alemães falando em inglês, o americano respondendo em alemão.

— Foi uma lembrança de casa — comentou Bourne para o americano.

— Ei, um Landsmann! A canção também inclui você, meu velho. Não acha que algumas dessas músicas antigas são sensacionais? Ei, você está com o grupo?

— Qual é o grupo?

— O da Honeywell-Porter — respondeu o homem, indicando uma agência de propaganda de Nova York, que Jason sabia ter filiais no mundo inteiro.

— Não, não estou.

— Foi o que pensei. Somos apenas uns trinta, contando com os australianos, e acho que já conheci todo mundo. De onde você é? Meu nome é Ted Mather e sou do escritório da H.P. em Los Angeles.

— Meu nome é um Cruett e sou professor. De Boston.

— Beanburg!* Pois então vou apresentá-lo a um Landsmann. Ou será Sradtsmann? Jim, este é Bernie Beantown.

Mather tornou a se inclinar, desta vez para um homem arriado junto à janela, a boca aberta, olhos fechados. Estava obviamente embriagado e usava um quepe de beisebol da equipe do Red Sox.

— Não perca tempo em falar, pois ele não pode ouvir. Bernard o Cérebro é do nosso escritório em Boston. Devia tê-lo visto há três horas. Terno impecável, gravata listrada, discorrendo sobre uma dúzia de gráficos que só ele podia compreender. Mas uma coisa posso garantir... ele nos manteve acordado. Acho que foi por isso que todos tomamos alguns tragos... e ele, muitos. Afinal, é a nossa última noite.

— Vão voltar amanhã?

— No último vôo da noite. Precisamos de algum tempo para nos recuperar.

— Por que Macau?           

— Uma comichão em massa pelas mesas de jogo. É o seu caso também?

— Pensei em fazer uma tentativa. Puxa, que saudade aquele quepe me dá! O Red Sox pode ganhar o título, e até esta viagem eu não havia perdido um jogo!

— E Bernie não vai sentir falta de seu chapéu! — O publicitário soltou uma risada, inclinou-se e arrancou o quepe da cabeça de Bernie, o Cérebro. — Tome aqui, Jim, fique com ele. Você merece.

O aerobarco atracou. Bourne desembarcou e passou pela imigração junto com a turma da Honeywell-Porter, como se fosse um deles. Ao descerem pela íngreme escada de cimento para o terminal forrado de cartazes, Jason — com a pala do quepe do Red Sox virada para baixo e os passos um pouco trôpegos — avistou um homem junto à parede da esquerda estudando os recém-chegados. O homem tinha na mão uma fotografia, e Bourne compreendeu que o rosto que ali estava era o seu. Riu de um comentário de Ted Mather, enquanto segurava o braço do cambaleante Bemie Beantown.

As oportunidades vão se apresentar. Trate de reconhecê-las e agir de acordo.

As ruas de Macau são quase tão extravagantemente iluminadas quanto as de Hong Kong, mas falta a sensação de humanidade demais em espaço de menos. E o que é diferente — diferente e anacrônico — são os muitos prédios em que estão fixados modernos anúncios luminosos, com caracteres chineses pulsando. A arquitetura desses prédios é hispânica muito antiga — portuguesa, mais precisamente — de caráter mediterrâneo. Parece que uma cultura inicial se rendeu à incursão impetuosa de outra, mas recusou-se a ceder seu primeiro imprimatur, proclamando a força de sua pedra sobre a impermanência ostentosa dos tubos de vidro coloridos. A história é deliberadamente negada; as igrejas vazias e as ruínas de uma catedral incendiada convivem numa estranha harmonia com os cassinos lotados, em que os crupiês falam cantonês e os descendentes dos conquistadores raramente são vistos. É tudo fascinante e até sinistro. É Macau.

Jason afastou-se do grupo da Honeywell-Porter e pegou um táxi, cujo motorista devia ter aprendido a guiar assistindo ao Grande Prêmio de Macau. Foi levado ao cassino Kam Pek, em meio aos protestos do motorista.

— O Lisboa para você, não o Kam Pek! O Kam Pek é para os chineses! Dai sui! Fan-tan!

— O Kam Pek, cheng nei — disse Bourne, arrematando com o por favor cantonês, mas não acrescentando mais nada.

O cassino era escuro. O ar era úmido e malcheiroso, a fumaça que subia em espiral em torno das lâmpadas por cima das mesas era densa, adocicada, pungente. Havia um bar afastado das mesas de jogo. Jason foi até lá e sentou-se num banco, arriando o corpo para reduzir sua altura. Falou em chinês, o quepe de beisebol projetando uma sombra sobre o seu rosto, o que era provavelmente desnecessário, já que mal se podia ler os rótulos das garrafas no outro lado do balcão. Pediu um drinque, e ao ser servido, deu uma generosa gorjeta ao bartender, em dinheiro de Hong Kong.

— Mgoi — disse o homem de avental, agradecendo.

— Hou — murmurou Jason, acenando com a mão.

Estabeleça um contato cordial assim que puder. Especialmente num lugar desconhecido, em que pode haver hostilidade. Esse contato pode lhe oferecer a oportunidade ou o tempo de que precisa. Seria Medusa ou Casa de Pedra? Mas não importava que ele não pudesse lembrar qual das duas.

Jason virou-se lentamente no banco e olhou para as mesas; encontrou o cartaz pendurado com o caracter chinês para “cinco”- Tornou a se virar para o balcão, tirou do bolso o caderninho de anotações e uma caneta esferográfica. Rasgou uma página e escreveu o número do telefone de um hotel de Macau, que memorizara da revista Voyager, distribuída aos passageiros do aerobarco. Escreveu um nome que só lembraria se fosse necessário e arrematou com as seguintes palavras: Não sou amigo de Carlos.

Baixou a mão ao lado do balcão, derramou o drinque e pediu outro. Quando foi servido, mostrou-se ainda mais generoso do que antes na gorjeta.

— Mgoi saai — disse o bartender, fazendo uma mesura.

— Msa — murmurou Bourne, tornando a acenar com a mão e parando o movimento subitamente, em sinal para que o bartender permanecesse ali. —Poderia me prestar um pequeno favor? Não levaria mais que dez segundos.

— O que é, senhor?

— Entregue este bilhete ao crupiê da Mesa Cinco. É um velho amigo meu e quero que saiba que estou aqui. — Jason dobrou o bilhete e levantou-o. — Pagarei pelo favor.

— É um privilégio celestial meu, senhor.

Bourne ficou observando. O crupiê pegou o bilhete, abriu-o rapidamente, enquanto o bartender se afastava, e meteu-o por baixo da mesa. A espera começou.

Foi interminável, tanto tempo que o bartender foi substituído para o resto da noite. O crupiê foi transferido para outra mesa, e duas horas depois foi também substituído. E duas horas mais tarde um terceiro crupiê assumiu a Mesa Cinco. O assoalho ao seu redor agora encharcado de uísque, Jason logicamente pediu café e contentou-se com um chá; já eram duas e dez da madrugada. Mais uma hora e iria para o hotel cujo telefone escrevera, arrumaria um quarto de qualquer maneira. Estava começando a apagar.

E de repente tudo mudou. Estava acontecendo! Uma chinesa com a saia aberta do lado típica das prostitutas encaminhou-se para a Mesa Cinco. Contornou os apostadores até o canto direito e falou rapidamente com o crupiê, que meteu a mão por baixo da mesa e discretamente lhe entregou o bilhete dobrado. Ela acenou com a cabeça e afastou-se, seguindo para a porta do cassino.

Ele não aparece pessoalmente, como era de se imaginar. Usa prostitutas da rua.

Bourne deixou o bar e foi atrás da mulher. Lá fora, na rua escura, onde havia algumas pessoas, mas parecia deserta para os padrões de Hong Kong, permaneceu uns quinze metros atrás da prostituta, parando de vez em quando para olhar pelas vitrines iluminadas, depois se apressando para não perdê-la.

Não aceite o primeiro intermediário. É o que eles esperam. O primeiro pode ser um indigente que está ganhando uns poucos dólares e não sabe de nada. Não aceite nem mesmo o segundo e o terceiro. Vai reconhecer o contato. Ele será diferente.

Um velho encurvado aproximou-se da prostituta. Seus corpos roçaram e ela soltou um grito estridente, enquanto lhe entregava o bilhete. Jason simulou embriaguez e virou-se, seguindo o velho encurvado.

Aconteceu quatro quarteirões depois, e o homem era de fato diferente. Um chinês pequeno, bem vestido, o corpo socado, ombros largos e cintura estreita, irradiando força. A rapidez de seus gestos, ao pagar o velho maltrapilho e começar a atravessar a rua em passos rápidos, era um aviso a qualquer adversário. Para Bourne, era um convite irresistível; aquele era um contato com autoridade, um vínculo com o Francês.

Jason apressou-se para o outro lado da rua; estava uns cinqüenta metros atrás do homem e perdendo terreno. Não havia sentido em ser sutil por mais tempo, e por isso desatou a correr. Segundos depois estava diretamente atrás do contato, o solado dos tênis amortecendo o barulho de seus passos. Mais à frente havia uma viela entre o que pareciam ser dois prédios do governo, com as janelas às escuras. Tinha de agir depressa, mas de tal maneira que não causasse um tumulto, não oferecendo às pessoas por perto qualquer motivo para gritar ou chamar a polícia. Naquele caso, as chances maiores estavam do seu lado; a maioria das pessoas era constituída por bêbados ou drogados, os outros eram trabalhadores cansados, ansiosos por voltarem para casa depois do expediente. O contato aproximou-se da entrada da viela. Agora! Bourne correu à frente do homem, pelo lado direito, dizendo em chinês:

— O Francês! Tenho notícias do Francês! Depressa!

Ele entrou pela viela e o contato, aturdido, os olhos arregalados, não teve opção se não acompanhá-lo, como um zumbi. Agora!

Arremetendo das sombras, Jason agarrou a orelha esquerda do homem, puxando-a, torcendo-a, empurrando o contato para a frente e levantando o joelho para a base de sua espinha, a outra mão em seu pescoço. Desferiu um chute por trás do joelho do homem, que caiu, girando o corpo e fitando-o.

— Você! Ë você! O contato estremeceu na semi-escuridão; de repente, tornou-se mais calmo, determinado. — Não, você não é ele.

Sem qualquer movimento de advertência, o chinês impulsionou a perna direita, o corpo deixando o chão numa trajetória acelerada invertida. Acertou os músculos da coxa esquerda de Jason, acompanhando com outro golpe, do pé esquerdo, atingindo o seu abdome, enquanto se levantava de um pulo, as mãos estendidas e rígidas, o corpo musculoso se movendo agilmente, até graciosamente, num semicírculo, em expectativa.

O que se seguiu foi uma batalha de animais, dois executores treinados, cada movimento efetuado em intensa premeditação, cada golpe letal recebido com pleno impacto. Um lutava por sua vida, o outro, pela sobrevivência e libertação... e pela mulher sem a qual não podia viver, sem a qual não viveria. Finalmente, a altura, o peso e um motivo além da própria vida fizeram a diferença, proporcionando a vitória a um e a derrota a outro.

Engalfinhados contra a parede, ambos suados e contundidos, o sangue escorrendo de bocas e olhos, Bourne prendeu o pescoço do contato numa chave de braço por trás, comprimindo o joelho esquerdo em suas costas, a perna direita em torno dos tornozelos do homem.

— Você sabe o que acontece agora! —sussurrou ele, espaçando as palavras, em chinês, a fim de aumentar a ênfase. — Um pouco de pressão e lá se vai a sua espinha. Não é uma maneira agradável de morrer. E você não precisa morrer. Pode viver, e com mais dinheiro do que o Francês jamais lhe pagaria. Aceite a minha palavra: o Francês e seu matador não vão continuar a existir por muito tempo. Tome a sua decisão. Agora!

Jason aumentou a pressão; as veias na garganta do homem estavam distendidas, a ponto de estourarem.

— Está bem, está bem! — balbuciou o contato. — Quero viver, não morrer!

Eles se sentaram na viela escura, de costas apoiadas na parede, fumando cigarros. O homem falava inglês fluentemente, tendo aprendido com as freiras numa escola católica portuguesa.

— Você é muito bom — comentou Bourne, limpando o sangue dos lábios.

— Sou o campeão de Macau. É por isso que o Francês me paga. Mas você me superou. Estou desonrado, não importa o que venha a acontecer.

— Não está, não. Acontece apenas que conheço mais alguns golpes sujos do que você. Não são ensinados onde você aprendeu e não deveriam ser em parte alguma. Além do mais, ninguém jamais saberá.

— Mas eu sou jovem e você é velho!

— Nem tanto assim. E me mantenho em boa forma, graças a um médico maluco que me diz o que devo fazer. Quantos anos acha que eu tenho?

— Tem mais de trinta!

— Certo.

— Um velho!

— Obrigado.

— É também muito forte, muito pesado... mas é mais do que isso. Sou um homem são, mas você não é.

— É possível. — Jason esmagou o cigarro no chão. Tirou dinheiro do bolso e acrescentou: — Vamos conversar objetivamente. Eu estava falando sério. Pagarei muito bem. ... Onde está o Francês?

— Nem tudo está em equilíbrio.

— Como assim?

— O equilíbrio é importante.

— Sei disso, mas não entendo onde está querendo chegar.

— Há uma falta de harmonia, e o Francês está furioso. Quanto vai me pagar?

— Quanto pode me dizer?

— Onde o Francês e seu assassino estarão amanhã à noite.

— Dez mil dólares americanos.

— Aiya!

— Mas só se você me levar até lá.

— Fica no outro lado da fronteira! -

— Tenho um visto para Shenzen. É válido por mais três dias.

— Pode ajudar, mas não é legal para a fronteira de Guangdong.

— Pois então procure uma saída. Dez mil dólares. Americanos

— Darei um jeito. — O contato fez uma pausa, os olhos fixos no dinheiro que o americano segurava. — Posso receber o que creio que vocês chamam de adiantamento?

— Quinhentos dólares americanos e mais nada.

— As negociações na fronteira custarão muito mais.

— Ligue para mim. Levarei o dinheiro.

— Ligar para onde?

— Arrume um quarto de hotel para mim aqui em Macau. Guardarei o dinheiro em seu cofre.

— O Lisboa.

— O Lisboa, não. Não posso ir para lá. Qualquer outro.

— Não há problema. Ajude-me a levantar... Não! Será melhor para a minha dignidade se eu não precisar de ajuda.

— Como quiser — disse Jason Bourne.

Catherine Staples estava sentada à sua escrivaninha, o fone mudo ainda em sua mão; contemplou-o distraidamente por um momento e depois desligou. Sentia-se aturdida com a conversa que acabara de concluir. Como não havia qualquer força do serviço secreto canadense operando em Hong Kong, os diplomatas cultivavam suas próprias fontes na polícia da colônia, para as ocasiões em que houvesse necessidade de informações acuradas. Essas ocasiões ocorriam invariavelmente no interesse dos cidadãos canadenses que residiam ou visitavam a colônia. Os problemas variavam dos que eram presos aos que eram assaltados, dos canadenses que eram trapaceados aos que trapaceavam. Havia também problemas mais profundos, questões de segurança e espionagem, a primeira envolvendo as visitas de altas autoridades do governo, a segunda, os meios de proteção contra a vigilância eletrônica e o fornecimento de informações importantes através de atos de chantagem contra o pessoal do consulado. Era do conhecimento discreto mas geral que agentes do bloco soviético e de regimes fanaticamente religiosos do Oriente Médio usavam tóxicos e prostitutas de todos os sexos, de acordo com a preferência de cada um, no empenho incessante de obter informações confidenciais de um governo hostil. Hong Kong era um gigantesco mercado de tóxicos e carne. E fora nessa área que Staples realizara alguns dos seus melhores trabalhos no território. Salvara as carreiras de dois adidos de seu próprio consulado, além de um americano e três britânicos. Fotografias das pessoas em atos comprometedores haviam sido destruídas, juntamente com os negativos correspondentes, os extorsionários banidos da colônia com ameaças não apenas de denúncia, mas também de dano físico. Em um caso, de um funcionário consular iraniano, ele berrara furioso de seus aposentos na Gammon House, acusando-a de se intrometer em assuntos muito acima de sua posição. Ela escutara em silêncio por tanto tempo quanto pudera suportar a voz fanhosa, depois encerrara a conversa com uma declaração brusca:

— Será que você não sabia? Khomeini gosta de garotinhos.

Tudo isso se tornara possível através de seu relacionamento com um viúvo inglês ao final da meia-idade que optara por se aposentar da Scotland Yard para se tornar o chefe de Assuntos Coloniais da Coroa em Hong Kong. Aos sessenta e sete anos, Ian Ballantyne aceitara o fato de que sua permanência na Scotland Yard chegara ao fim, mas o mesmo não acontecia necessariamente com o uso de seus talentos profissionais. Foi despachado voluntariamente para o Extremo Oriente, onde assumira a divisão de informações da polícia da colônia. À sua maneira tranqüila, moldara uma organização agressivamente eficiente, que sabia mais sobre o mundo secreto de Hong Kong do que qualquer outra das agências que operavam no território, inclusive o MI-Seis, Setor Especial. Catherine e Ian haviam se conhecido num desses insípidos jantares burocráticos impostos pelo protocolo consular. Depois de uma conversa prolongada, entremeada de comentários espirituosos e avaliação de sua companheira à mesa, Ballantyne se inclinava e dissera simplesmente:

— Acha que ainda somos capazes de fazer, minha velha?

— Vamos tentar — respondera Catherine.

E fizeram. Gostaram, e Ian tornou-se um ponto de referência na vida de Catherine, sem vínculos nem compromissos. Gostavam um do outro, e isso era suficiente.

E Ian Ballantyne acabara de desmentir tudo o que o Subsecretário de Estado Edward McAllister dissera a Marie Webb e seu marido no Maine. Não havia nenhum taipan em Hong Kong chamado Yao Ming, e suas fontes impecáveis — leia-se bem pagas — em Macau garantiam que não houvera qualquer duplo homicídio no Hotel Lisboa envolvendo a esposa de um taipan e um traficante de tóxicos. Não havia mortes assim desde a partida das forças japonesas de ocupação em 1945. Sempre surgiam ferimentos a faca e a bala em torno das mesas dos cassinos, além de várias mortes em quartos, atribuídas a super-doses de narcóticos, mas nenhum incidente como o descrito pelo informante de Staples.

— É um emaranhado de mentiras, Cathy — dissera Ian. — Com que propósito, não posso imaginar.

— Minha fonte é legítima, querido. O que você pode farejar?

— Odores repugnantes, minha cara. Alguém está correndo um grande risco por um objetivo considerável. Ele está se cobrindo, é claro... Pode-se comprar qualquer coisa por aqui, inclusive silêncio... mas tudo não passa de ficção. Quer me contar mais alguma coisa?

— E se eu lhe dissesse que a história é orientada por Washington, e não pelo Reino Unido?

— Eu teria de contestá-la. Para chegar a esse ponto, Londres tem de estar envolvida.

— Mas não faz sentido!

— Do seu ponto de vista, Cathy. Não conhece o deles. E posso lhe garantir uma coisa... esse maníaco, Bourne, tem todos nós na palma da mão. Uma de suas vítimas é um homem sobre o qual ninguém vai falar. Nem mesmo eu posso lhe dizer o nome dele, minha velha.

— Dirá se eu lhe fornecer mais informações?

— Provavelmente não, mas deve tentar.

Staples continuou sentada à mesa, filtrando as palavras.

Uma de suas vítimas é um homem sobre o qual ninguém vai falar.

O que Ballantyne estava querendo dizer com isso? O que estava acontecendo? E por que uma economista canadense se encontrava no centro da súbita tempestade?

Independente de qualquer coisa, porém, ela estava segura.

O Embaixador Havilland, pasta de executivo na mão, entrou no escritório em Victoria Peak. McAllister levantou-se de um pulo, disposto a desocupar a cadeira para o seu superior.

— Fique onde está, Edward. Quais são as novidades?

— Não há nenhuma, infelizmente.

— Não é isso o que estou querendo ouvir!

— Sinto muito.

— Onde está aquele filho da puta retardado que deixou acontecer?

McAllister empalideceu, enquanto o Maior Lin Wenzu, que não fora visto por Havilland, se levantava do sofá encostado na parede dos fundos.

— Sou o filho da puta retardado, o chinês que deixou acontecer, Sr. Embaixador.

— Não vou pedir desculpas — disse Havilland, virando-se, a voz áspera. — São os pescoços de vocês que estamos tentando salvar, não os nossos. Vamos sobreviver. Vocês não.

— Não tenho o privilégio de compreendê-lo.

— A culpa não é dele — protestou o subsecretário de Estado.

— Então é sua? — gritou o embaixador. — Era o responsável pela custódia da mulher?

— Sou o responsável por tudo aqui.

— E uma atitude bastante cristã de sua parte, Sr. McAllister, mas no momento não estamos lendo as escrituras na escola dominical.

— A responsabilidade foi minha — interveio Lin. —Aceitei a missão e falhei. Nos termos mais simples, a mulher foi mais esperta do que nós.

— Você é Lin, do Setor Especial?

— Isso mesmo, Sr. Embaixador.

— Ouvi boas referências a seu respeito.

— Tenho certeza de que minha atuação neste caso anula

— Fui informado de que ela também se mostrou mais esperta do que um médico competente.

— É verdade —confirmou McAllister. — Um dos melhores clínicos do território.

— Um inglês — acrescentou Lin.

— Isso não era necessário, Major. Assim como também não era preciso usar a palavra “china” para se referir a si mesmo. Não sou um racista. O mundo não sabe, mas não tem tempo para essas besteiras. — Havilland foi até a mesa, pôs a pasta em cima, abriu-a e tirou um grosso envelope pardo, com as margens pretas. — Pediram o arquivo de Casa de Pedra. Aqui está. É desnecessário dizer que não pode sair desta sala. Quando não estiver lendo, deve ficar trancado no cofre.

— Quero começar o mais depressa possível.

— Acha que vai encontrar alguma coisa?

— Não sei onde mais procurar. A propósito, instalei-me numa sala no fim do corredor, O cofre fica aqui.

— Pode entrar e sair quando quiser — disse o embaixador. — O quanto contou ao major?

— Apenas o que fui instruído a contar. — McAllister olhou para Lin Wenzu, antes de acrescentar: — Ele se queixou com freqüência de que deveria ter mais informações. Talvez tenha razão.

— Não estou em condições de insistir na minha queixa, Edward. Londres foi firme, Sr. Embaixador. E é claro que aceitei as condições.

— Não quero que “aceite” nada, Major. Quero que se sinta mais assustado do que nunca em sua vida. Vamos deixar o Sr. McAllister entregue à sua leitura e daremos um passeio. Ao entrar, vi um jardim grande e atraente. Quer me acompanhar?

— Seria um privilégio, senhor.

— Não sei se é mesmo um privilégio, mas posso garantir que é necessário. Deve compreender tudo, pois precisa encontrar a mulher de qualquer maneira.

Marie estava de pé junto à janela do apartamento de Catherine

Staples, contemplando a atividade lá embaixo. As ruas estavam apinhadas, como sempre, e ela experimentava um impulso quase irresistível de sair do apartamento e caminhar anônima entre as multidões, dar uma volta pela Casa Asiática, na esperança de encontrar David. Pelo menos estaria em movimento, olhando, escutando, esperando... não pensando em silêncio, quase enlouquecendo. Mas não podia sair; dera sua palavra a Catherine. Prometera ficar no apartamento, não permitir a entrada de ninguém e atender ao telefone apenas se uma segunda chamada imediata fosse precedida por dois toques da campainha. Seria Staples na linha.

A querida Catherine, a competente Catherine... a assustada Catherine. Ela tentara esconder seu medo, mas estava patente em suas perguntas, formuladas muito depressa, com bastante intensidade, em suas reações às respostas, sempre aturdida, com freqüência acompanhadas por uma falta de fôlego, enquanto os olhos se desviavam, os pensamentos obviamente em disparada. Marie não compreendera, mas sabia que Staples tinha um profundo conhecimento do mundo clandestino do Extremo Oriente; e quando uma pessoa informada tentava esconder seu medo pelo que ouvia, então havia muito mais na história do que sabia a pessoa que a contava.

O telefone tocou. Duas vezes. Silêncio. Depois uma terceira. Marie correu para o telefone na mesinha ao lado do sofá e atendeu ainda no início do terceiro toque da campainha.

— Alô?

— Marie, quando o mentiroso do McAllister falou com você e seu marido, mencionou um cabaré no Tsim Sha Tsui, se bem me lembro. Estou certa?

— Está, sim. Ele disse que uma Uzi... trata-se de uma arma...

— Sei o que é, minha cara. A mesma arma que foi supostamente usada para matar a esposa do taipan e seu amante em Macau, não é mesmo?

— É, sim.

— Mas ele disse alguma coisa... qualquer coisa... sobre os homens que foram mortos no cabaré em Kowloon?

Marie pensou por um momento.

— Acho que não. O ponto que ele queria ressaltar era a arma.

— Tem certeza?

— Tenho, sim. Eu me lembraria.

— Também acho, Marie.

— Já reconstituí aquela conversa mil vezes. Descobriu alguma coisa?

— Descobri. Não ocorreu qualquer assassinato como o que McAllister descreveu no Hotel Lisboa, em Macau.

— O caso foi abafado. O banqueiro pagou.

— Mas nem de longe o que a minha fonte impecável pagou... em mais do que dinheiro. Com o carimbo muito cobiçado de seu gabinete, que pode levar a lucros maiores e por muito tempo. Em troca de informações, é claro.

— O que está querendo dizer, Catherine?

— Que esta é a operação mais inepta de que já ouvi falar ou um plano brilhantemente concebido para envolver seu marido por meios que ele nunca teria considerado e com os quais certamente jamais concordaria. Desconfio que é a segunda hipótese.

— Por que diz isso?

— Um homem chegou esta tarde ao Aeroporto Kai-tak, um estadista que sempre foi muito mais que um diplomata. Todos sabemos disso, mas o mundo ignora. Sua chegada foi registrada por todo mundo. Ele hesitou quando os meios de comunicação tentaram entrevistá-lo, alegando que estava exclusivamente em ferias em sua amada Hong Kong.

— E daí?

— Ele nunca tirou férias em toda a sua vida.

McAllister saiu apressado para o jardim murado, com suas treliças e móveis de ferro batido brancos, as fileiras de roseiras e laguinhos cheios de pedras. Guardara o arquivo de Casa de Pedra no cofre, mas as palavras estavam indelevelmente gravadas em sua mente. Onde eles estavam? Onde ele estava?

Ali! Sentados em dois bancos de concreto, de frente um para o outro, por baixo de uma cerejeira, Lin inclinado para a frente, hipnotizado. McAllister não pôde mais se conter; saiu correndo. Não tinha mais fôlego quando alcançou a árvore, olhando para o major do Setor Especial do MI-Seis.

— Lin, quando a esposa de Webb falou com o marido pelo telefone... a ligação que você cortou... o que ela disse exatamente?

— Começou a falar sobre uma rua de Paris arborizada, creio que ela disse que eram suas árvores prediletas — respondeu Lin, espantado. — Era evidente que ela estava tentando dizer a ele onde se encontrava, só que errou completamente.

— Ao contrário, ela estava totalmente certa! Quando conversamos, você também contou que ela disse a Webb que “as coisas foram terríveis” naquela rua em Paris ou algo parecido...

— Foi de fato o que ela disse — confirmou o major.

— Mas que eles estariam melhor lá.

— Ela também disse isso.

— Em Paris um homem foi morto na embaixada, um homem que tentou ajudar os dois!

— O que está tentando dizer, McAllister? — interveio Havilland.

— A referência às árvores na rua não tem qualquer significado, Sr. Embaixador, o que já não acontece com a alusão à sua árvore predileta. O bordo, a folha de bordo! O símbolo do Canadá! Não há embaixada canadense em Hong Kong, mas existe um consulado. Ë o ponto de encontro dos dois. É o padrão. É Paris de novo!

— Não alertou todas as embaixadas amigas... e os consulados?

— Mas que diabo! — explodiu o subsecretário de Estado. — O que eu ia dizer? Já esqueceu que estou sob um juramento de silêncio, senhor?

— Tem toda razão. A censura é merecida.

— Não pode amarrar por completo as nossas mãos, Sr. Embaixador — disse Lin. — E uma pessoa que respeito profundamente, mas alguns de nós também merecem um pouco de respeito, se vamos cumprir nossas funções. O mesmo respeito que acaba de me conceder ao me relatar a história assustadora. Sheng Chou Yang... é incrível!

— A discrição deve ser absoluta.

— E será — declarou o major.

— O consulado canadense —murmurou Havilland. — Providencie-me a lista de todo o seu pessoal.


 

O telefonema veio às cinco horas da tarde, e Bourne estava preparado. Não houve troca de nomes.

— Está tudo acertado — disse o interlocutor. — Devemos estar na fronteira pouco antes das nove da noite, quando há a troca da guarda. Seu visto de Shenzen será examinado e os carimbos de borracha serão acionados, mas nenhum vai tocar no papel. Depois de entrar, estará entregue à sua própria sorte. Mas não atravessou a fronteira por Macau.

— E como poderá ser a volta? Se o que você me disse é verdade e tudo correr bem, haverá alguém comigo.

— Não serei eu. Vou levá-lo pela fronteira e até o local. Depois disso, irei embora.

— Isso não responde à minha pergunta.

— Não é tão difícil quanto entrar, a menos que seja revistado e encontrem contrabando.

— Não haverá nenhum.

— Então sugiro embriaguez. Não é tão raro assim. Há um aeroporto nos arredores de Shenzen usado por viajantes especiais...

— Sei disso.

— Talvez possa alegar que estava no avião errado, o que também não é tão raro assim. Os horários são terríveis na China.

— Quanto por esta noite?

— Quatro mil, Hong Kong e um relógio novo.

— Combinado.

Cerca de quinze quilômetros ao norte da aldeia de Gongbei as colinas começam a subir e logo se transformam numa serra, com pequenas montanhas cobertas por florestas densas. Jason e seu ex-adversário na viela de Macau foram avançando pela estrada de terra. O chinês parou de repente e olhou para as colinas.

— Mais cinco ou seis quilômetros e chegaremos a um campo. Vamos atravessá-lo e subir por um segundo nível de bosques. Precisamos tomar muito cuidado.

— Tem certeza de que eles estarão lá?

— Transmiti a mensagem. Se houver uma fogueira de acampamento, então eles estão lá.

— O que dizia a mensagem?

— Exigia uma conferência.

— Por que no outro lado da fronteira?

— Só podia ser no outro lado da fronteira. Isso também era parte da mensagem.

— Mas você não sabe o motivo.

— Sou apenas o mensageiro. As coisas não estão em equilíbrio.

— Disse isso ontem à noite. Não pode explicar o que significa?

— Não posso explicar para mim mesmo.

— Poderia ser porque a conferência tinha de ocorrer aqui, na China?

— Sem dúvida isso é parte da história.

— E tem mais?

— Wen ti — disse o guia. — Perguntas que derivam de sentimentos.

— Acho que compreendo.

E Jason compreendia mesmo. Tinha as mesmas dúvidas, os mesmos sentimentos, depois que vira o assassino que se dizia chamar Bourne viajando num veículo oficial da República Popular.

— Foi generoso demais com o guarda. O relógio era muito caro.

— Posso precisar dele.

— Talvez ele não esteja no mesmo posto.

— Posso encontrá-lo.

— Ele vai vender o relógio.

— Não tem problema. Darei outro.

Abaixados, eles correram pelo mato alto do campo, um trecho de cada vez, Bourne seguindo o guia, os olhos esquadrinhando incessantemente os flancos e a frente, encontrando sombras na escuridão... e que ainda não era uma escuridão total. Nuvens rápidas e baixas encobriam a lua, mas de vez em quando jatos de luz projetavam-se por breves momentos, iluminando a paisagem. Alcançaram uma área de árvores altas e começaram a subir. O chinês parou e virou-se, levantando as mãos.

— O que foi? — sussurrou Jason.

— Devemos ir agora muito devagar, sem fazer barulho.

— Patrulhas?

O guia deu de ombros.

— Não sei. Não há harmonia.

Foram subindo pela floresta densa, parando a cada guincho de um pássaro perturbado e o subseqüente adejar de asas, deixando o momento passar. O murmúrio da mata era constante e envolvente, os grilos empenhados em sua permanente sinfonia, o pio de uma coruja solitária respondido por outra, pequenas criaturas disparando por entre as moitas. Bourne e o guia chegaram ao fim das árvores altas; havia um segundo campo inclinado de mato alto à frente e podiam divisar à distância os contornos escuros e irregulares de outra floresta subindo.

Havia também outra coisa. Um clarão no topo da colina seguinte, no cume das matas. Era uma fogueira de acampamento, a fogueira de acampamento! Bourne teve de fazer um esforço para se controlar, para não se levantar e sair correndo pelo campo, subir o mais depressa possível até a fogueira. A paciência era tudo agora, e se encontrava num ambiente escuro, algo que conhecia muito bem; memórias vagas lhe diziam para confiar em si mesmo... diziam que ele era o melhor que existia. Atravessaria o campo e subiria em silêncio até o topo da floresta; encontraria um lugar na mata que lhe proporcionasse uma visão nítida da fogueira, do ponto de encontro. Esperaria e observaria; e saberia quando entrar em ação. Já fizera isso muitas vezes antes... os detalhes específicos lhe escapavam, mas não o padrão. Um homem se afastaria e, como um felino espreitando em silêncio na floresta, ele seguiria esse homem, até chegar o momento propício. Mais uma vez, saberia que momento seria, e o homem seria seu.

Marie, não vou falhar desta vez. Posso me movimentar agora com uma espécie de pureza terrível... sei que isso parece um absurdo, mas é verdade... Posso odiar com pureza... creio que foi essa a minha origem. Três corpos sangrando, flutuando à margem de um rio, me ensinaram a odiar. Uma marca de mão feita com sangue numa porta no Maine me ensinou a reforçar esse ódio e nunca mais permitir que torne a acontecer. Não discordo muitas vezes de você, meu amor, mas estava enganada em Genebra, enganada em Paris. Eu sou um matador.

— O que está havendo com você? — sussurrou o guia, aproximando a cabeça de Jason. — Não está acompanhando meu sinal!

— Desculpe. Eu estava pensando.

— Também estou, peng you! Por nossas vidas!

— Não precisa se preocupar. Pode ir embora agora. Estou vendo a fogueira lá em cima. — Bourne tirou o dinheiro do bolso. — Prefiro ir sozinho. Há menos possibilidade de se avistar um homem do que dois.

— E se houver outros homens... patrulhas? Você me venceu em Macau, mas não sou totalmente desprovido de valor nesse aspecto.

— Se há muitos homens, só estou interessado em um.

— Mas por quê?

— Quero uma arma. Não pude me arriscar a atravessar a fronteira com uma.

— Aiya!

Jason entregou o dinheiro ao guia.

— Está tudo aí. Nove mil e quinhentos. Quer voltar para o bosque e contar? Tenho uma lanterna pequena.

— Não se pode duvidar do homem que o venceu. A dignidade não admitiria tamanha descortesia.

— Suas palavras são maravilhosas, mas não servem para

comprar um diamante em Amsterdam. Vá embora agora, suma daqui. O território é meu.

— E aqui está a minha arma. — O guia tirou-a do cinto e entregou-a a Bourne, enquanto pegava o dinheiro. — Use-a, se precisar. O pente está cheio. Nove balas. Não há registro, não há como descobrir sua origem. O Francês me ensinou.

— Passou pela fronteira com esta arma?

— Você comprou o relógio, eu não. Poderia largar num saco de lixo, mas depois vi a cara do guarda. Não vou mais precisar dela.

— Obrigado. Só quero dizer mais uma coisa: se mentiu para mim, haverei de encontrá-lo. Pode contar com isso.

— As mentIras não seriam minhas e receberia o seu dinheiro de volta.

— Você é demais.

— Porque você me derrotou. Devo ser honrado em todas as coisas.

Bourne foi avançando devagar, bem devagar, pela extensão de mato alto, cheio de urtigas, repelindo os espinhos do pescoço e testa, satisfeito pelo casaco de náilon que o protegia. Sabia instintivamente uma coisa que o guia ignorava, o motivo pelo qual não queria que o chinês o acompanhasse. Um campo com mato alto era o lugar mais lógico para se postar patrulhas; o mato se mexia quando intrusos escondidos rastejavam através dele. Por isso, era necessário observar o mato balançando do solo e seguir na direção das brisas predominantes, aproveitar as súbitas lufadas de vento que desciam das montanhas.

Ele podia divisar o começo do novo trecho de floresta, as árvores se elevando à beira do mato alto. Começou a se erguer para uma posição agachada e no instante seguinte tornou a baixar o corpo, permaneceu imóvel. Lá na frente, à sua direita, um homem estava parado na margem do campo, um rifle nas mãos, observando o mato ao luar intermitente, procurando por um padrão nas hastes que se curvavam às brisas. Uma rajada de vento desceu turbilhonando das montanhas. Bourne aproveitou para avançar, chegando a três metros do guarda. Palmo a palmo, rastejou até a beira do campo; estava agora paralelo ao homem, cuja concentração se focalizava à frente, não nos flancos. Jason se adiantou até poder olhar entre as hastes. O guarda olhou para a esquerda. Agora!

Bourne levantou-se de um pulo e, correndo, lançou-se para cima do homem. Em pânico, o guarda virou instintivamente a coronha do rifle, a fim de se defender do ataque súbito. Jason agarrou o cano, torcendo-o por cima da cabeça do homem e acertando no crânio exposto, ao mesmo tempo em que batia com o joelho em seu tórax. O guarda arriou. Bourne arrastou rapidamente o corpo para o mato alto, fora de vista. No mínimo de tempo possível, Jason tirou o blusão do guarda e rasgou a camisa nas costas, em tiras. Momentos depois o homem estava amarrado, de tal maneira que qualquer movimento apertava ainda mais as correias improvisadas. A boca estava amordaçada, uma manga rasgada dando a volta pela cabeça para manter a mordaça no lugar.

Normalmente,como em ocasiões anteriores — Bourne sabia por instinto que esse fora o curso habitual de eventos similares — ele não perderia tempo em sair correndo do campo, subindo o trecho de floresta, na direção da fogueira. Em vez disso, porém, estudou o vulto inconsciente do oriental estendido no chão; algo o perturbava... algo que não estava em harmonia. Para começar, esperava que o guarda estivesse no uniforme do exército chinês, pois recordava nitidamente a visão do veículo oficial em Shenzen e sabia quem estava lá dentro. Mas não era apenas a ausência de um uniforme; estranhava também as roupas do homem. Eram ordinárias e sujas, malcheirosas das manchas de comida gordurosa. Inclinou-se e virou o rosto do homem, abrindo sua boca; havia poucos dentes, enegrecidos pela deterioração. Que tipo de guarda era aquele? Que tipo de patrulha? Era um rufião, sem dúvida experiente, um criminoso embrutecido, contratado nas ruas miseráveis do Oriente, onde a vida era barata e de um modo geral não tinha a menor importância. Contudo, os homens na “conferência” lidavam com dezenas de milhares de dólares. O preço que pagavam por uma vida era muito alto. Alguma coisa não estava em harmonia.

Bourne pegou o rifle e saiu rastejando do mato. Não vendo nada, não ouvindo nada além dos murmúrios da floresta à sua frente, levantou-se e correu para as árvores. Subiu depressa, sem fazer barulho, parando como antes a cada guincho de um pássaro, a cada adejar de asas, a cada interrupção abrupta da sinfonia dos grilos. Não rastejava agora, mas avançava com as pernas meio dobradas, segurando o rifle pelo cano, um porrete, se houvesse necessidade. Não podia haver tiros, a menos que sua vida dependesse disso, não podia alertar a presa. A armadilha estava se fechando, era agora apenas uma questão de paciência... paciência e a espreita final, quando as garras da armadilha se fechariam de maneira implacável. Chegou ao topo da floresta, deslizando em silêncio por trás de um bloco de pedra, à beira do local do acampamento. Sem fazer barulho, largou o rifle no chão, tirou do cinto a pistola que o guia lhe dera e espiou além da rocha.

E divisou o que esperava encontrar lá embaixo. Um soldado estava parado ali, de uniforme, um revólver num coldre na cintura, seis ou sete metros à esquerda da fogueira. Era como se quisesse ser visto, mas não identificado. Fora de harmonia. O homem olhou para o relógio; a espera começara.

Durou quase uma hora. O soldado fumara cinco cigarros; Jason permanecera imóvel, mal respirando. E de repente aconteceu, lentamente, sutilmente, sem trombetas a anunciar, uma entrada desprovida de dramaticidade. Um segundo vulto apareceu; emergiu calmamente das sombras, abrindo os últimos galhos ao surgir. E, sem qualquer aviso, relâmpagos caíram do céu noturno, queimando a cabeça de David Webb, atordoando a mente de Jason Bourne.

Pois quando o homem entrou no clarão da fogueira, Bourne arquejou, apertando com toda força o cano da arma para não gritar... ou não matar. Estava olhando para um fantasma de si mesmo, uma aparição obsedante do passado que voltava para espreitá-lo. Não importava agora quem era o caçador. O rosto era o seu e ao mesmo tempo não era... talvez o rosto que poderia ter sido antes de os cirurgiões mudarem-no para ser o rosto de Jason Bourne. Como o corpo esguio e firme, o rosto era mais jovem — mais jovem do que o mito que estava imitando —, e naquela juventude estava a força... a força de um Delta de Medusa. Era simplesmente inacreditável. Até mesmo o jeito de andar era igual, cauteloso, como um felino, os braços compridos balançando dos lados, tão obviamente eficientes nas artes de matar. Era Delta, o Delta de que ele fora informado, o Delta que se tornara Caim e finalmente Jason Bourne. Estava olhando para si mesmo e ao mesmo tempo para outra pessoa, mas acima de tudo para um matador. Um assassino.

Um estalido a distância intrometeu-se nos sons da floresta nas montanhas. O assassino parou, depois afastou-se da fogueira e mergulhou para a direita, enquanto o soldado se jogava ao chão. Uma rajada ensurdecedora e ressonante irrompeu do meio das árvores; o matador rolou pela relva do acampamento, as balas levantando a terra por perto, e alcançou a escuridão das árvores. O soldado chinês estava apoiado num joelho, disparando freneticamente na direção do assassino.

E depois houve uma escalada na batalha estrondosa, não de um nível para o seguinte, mas em três estágios separados. As explosões foram imensas. Uma primeira granada destruiu o acampamento, seguindo-se uma segunda, desenraizando árvores, os galhos secos, soprados pelo vento, pegando fogo, e finalmente uma terceira, lançada para o alto, detonando com enorme força na área da mata de que a metralhadora disparara. E de repente havia chamas por toda parte. Bourne protegeu os olhos, dando a volta pelo bloco de rocha, a arma na mão. Uma armadilha fora preparada para o matador e ele caíra nela! O soldado chinês estava morto, a arma explodida, assim como a maior parte de seu corpo. Um vulto saiu em disparada subitamente da esquerda para o inferno que fora o acampamento, depois virou-se e correu por entre as chamas. Deu duas voltas, avistou Jason e disparou em sua direção. O assassino voltara, na esperança de matar aqueles que queriam matá-lo. Girando, Bourne pulou primeiro para a direita, depois para a esquerda, finalmente jogou-se no chão, os olhos fixados no homem a correr. Levantou- se e pulou para a frente. Não podia deixar o homem escapar! Correu pelo fogo furioso; o vulto à sua frente se esgueirava entre as árvores. Era o matador! O impostor que alegava ser o mito letal que enfurecera a Ásia, usando esse mito para seus propósitos pessoais, destruindo o original e a esposa que ele amava. Bourne correu como nunca correra antes, desviando-se das árvores e saltando sobre as moitas, com uma agilidade que negava os anos transcorridos entre Medusa e o presente. Estava de volta a Medusa! Era Medusa! E a cada dez metros encurtava a distância que os separavam em cinco. Conhecia as florestas, e cada floresta era uma selva, cada selva era sua amiga. Sobrevivera na selva; sem pensar — apenas sentindo —, conhecia suas curvaturas, trepadeiras, os buracos inesperados e as ravinas abruptas. Estava ganhando... ganhando! E no instante seguinte lá estava ele, o assassino apenas poucos passos à sua frente!

Com o que parecia ser a última reserva de energia em seu corpo, Jason investiu... Bourne contra Bourne! As mãos eram as garras de um puma ao agarrarem os ombros do vulto a correr à sua frente, os dedos se cravando na carne dura e osso, enquanto puxava o matador para trás, os calcanhares se fincando na terra, o joelho direito atingindo a espinha do homem. Sua fúria era tão intensa que conscientemente teve de lembrar a si mesmo para não matar. Continue vivo! Você é a minha liberdade, a nossa liberdade!

O assassino gritou, enquanto o verdadeiro Jason Bourne prendia seu pescoço numa chave de braço e virava a cabeça para a direita, forçando-o para baixo. Os dois caíram, o antebraço de Bourne comprimindo a garganta do impostor, a mão esquerda cerrada a golpear repetidamente o baixo-ventre do assassino, tirando o ar do corpo enfraquecido.

O rosto? O rosto? Onde estava o rosto que pertencia ao passado? A uma aparição que queria levá-lo de volta a um inferno que a memória apagara? Onde estava o rosto? Não era aquele!

— Delta! —.gritou o homem.

— Como foi que me chamou? — balbuciou Bourne.

— Delta! — repetiu o homem, a voz estridente, se contorcendo. — Caim é por Carlos, Delta é por Caim!

— Mas quem...

— D’Anjou! Eu sou d’Anjou! Medusa! Tam Quan! Não temos nomes, apenas símbolos! Pelo amor de Deus! Paris! O Louvre! Você salvou minha vida em Paris... como salvou tantas vidas em Medusa! Eu sou d’Anjou! Disse a você o que precisava saber em Paris! Você é Jason Bourne! O louco que foge de nós não passa de uma criação! Minha criação!

David Webb contemplou o rosto contorcido, o bigode grisalho perfeitamente aparado, os cabelos prateados que se derramavam sobre a cabeça envelhecida. O pesadelo voltara... estava na selva sufocante de Tam Quan, sem saída, com a morte ao redor. E de repente se encontrava em Paris, aproximando-se da escadaria do Louvre, ao sol ofuscante da tarde. Tiros. Carros derrapando, pessoas gritando. Tinha de salvar o rosto por baixo dele! Tinha de salvar o rosto de Medusa, que podia fornecer as peças que faltavam do insano quebra-cabeças!

— D’Anjou? — murmurou Jason. — Você é d’Anjou?

— Se me devolver a garganta — balbuciou o Francês —, eu lhe contarei uma história. E estou certo de que também tem uma história para contar.

Philippe d’Anjou contemplou as ruínas do acampamento, agora fumegantes. Fez o sinal-da-cruz, enquanto revistava os bolsos do “soldado” morto, retirando tudo de valioso que encontrou.

— Vamos soltar o homem lá embaixo quando partirmos — disse ele. — Não há outro acesso para este lugar. Foi por isso que o coloquei lá.

— E mandou que ele procurasse o quê?

— Como você, sou de Medusa. Os campos relvados... apesar do que possam pensar poetas e consumidores... são caminhos e armadilhas. Os guerrilheiros sabem disso. Nós sabíamos.

— Não poderia prever a minha chegada.

— Claro que não. Mas podia e previ cada movimento que minha criação faria. Ele deveria chegar sozinho. As instruções eram expressas... mas quem poderia confiar nele, muito menos eu?

— Não estou entendendo.

— É parte da história. Vai saber de tudo.

Desceram pela floresta, d’Anjou, mais velho, apoiando-se nas árvores para facilitar a descida. Chegaram ao campo, ouvindo os gritos abafados do guarda manietado ao entrarem pelo mato alto. Bourne cortou as tiras de pano com a faca e o Francês pagou ao homem.

— Zou ba! — gritou d’Anjou. O homem fugiu pela escuridão. — Ele não passa de um lixo. Todos não passam de lixo, mas não hesitam em matar por um preço e desaparecem.

— Tentou matá-lo esta noite, não é mesmo? Era uma armadilha.

— Isso mesmo. Achei que ele ficou ferido nas explosões. Foi por isso que parti em seu encalço.

— Pensei que ele tinha dado a volta para pegá-lo pela retaguarda.

— Faríamos isso em Medusa...

— Foi por isso que pensei que você era ele. — Jason sentia uma fúria repentina. — O que você fez?

— É parte da história.

— Quero ouvir tudo! Agora!

— Há um trecho plano a poucas centenas de metros daqui, naquela direção, à esquerda — disse o Francês, apontando. — Era um pasto, mas ultimamente o lugar tem sido usado por helicópteros que voam ao encontro de um assassino. Podemos sentar na extremidade para descansar... e conversar. Apenas uma precaução para o caso de o fogo atrair alguém da aldeia.

— Fica a oito quilômetros de distância.

— Não se esqueça de que estamos na China.

As nuvens haviam se dispersado, sopradas pelos ventos noturnos; a lua descia para o horizonte, mas ainda se encontrava bastante alta para iluminar as montanhas distantes. Os dois homens de Medusa sentaram-se no chão. Bourne acendeu um cigarro, enquanto d’Anjou dizia:

— Lembra de Paris, daquele café apinhado em que conversamos, depois da loucura no Louvre?

— Claro. Carlos quase nos matou naquela tarde.

— E você quase capturou o Chacal.

— Fiquei no quase. O que tem aquele café em Paris?

— Eu lhe disse na ocasião que voltaria à Ásia. Para Cingapura ou Hong Kong, talvez as Seychelles. A França nunca foi um bom lugar para mim. Depois de Dienbienphu... tudo o que eu tinha foi destruído, explodido por nossos próprios soldados... falar em reparações não tinha o menor sentido. Uma conversa vazia, de homens vazios. Foi por isso que ingressei em Medusa. O único meio possível de me recuperar era uma vitória americana.

— Lembro de tudo — disse Jason. — O que isso tem a ver com esta noite?

— Como é óbvio, voltei à Ásia. Como o Chacal me vira, tive de dar uma volta comprida, o que me proporcionou tempo para pensar. Precisava fazer uma avaliação objetiva das circunstâncias e possibilidades. Ao fugir por minha vida, meus recursos não eram amplos, mas também não eram patéticos. Corri o risco de voltar à loja na St. Honoré naquela tarde e para ser franco roubei até o último sou que lá encontrei. Conhecia a combinação do cofre e felizmente estava bem abastecido. Podia tranqüilamente comprar uma passagem para o outro lado do mundo, fora do alcance de Carlos, viver por muitas semanas sem pânico. Mas o que faria com o resto da minha vida? Os recursos acabariam se esgotando e meus talentos... tão aparentes no mundo civilizado... não me permitiriam viver o outono de minha vida no conforto de que me haviam privado. Mas eu não fora uma cobra na cabeça de Medusa à toa. Deus sabe que descobri e desenvolvi talentos que nunca sonhara possuir... e cheguei à conclusão, para ser franco, de que a moral não era um problema. Fora enganado e poderia enganar outros. E estranhos sem nome e sem rosto haviam tentado me matar várias vezes, o que.me permitia assumir a responsabilidade pela morte de outros estranhos sem nome e sem rosto. Pode perceber a simetria, não é mesmo? Ao serem removidas, as equações tomam-se abstratas.

— Tenho ouvido muitas besteiras —comentou Bourne.

— Então não está prestando atenção, Delta.

— Não sou Delta.

— Está bem. Bourne.

— Não sou... Ora, continue. Talvez eu seja mesmo.

— Comment?

— Rien. Continue.

— Ocorreu-me que independente do que lhe aconteceu em Paris... quer tenha vencido ou perdido, quer tenha sido morto ou poupado... Jason Bourne estava liquidado. E eu tinha certeza absoluta de que Washington jamais diria qualquer palavra de reconhecimento ou esclarecimento. Você simplesmente desapareceria. “Além de salvação”... creio que é essa a expressão.

— Sei disso. Então eu estava liquidado.

— Naturellement. Mas não haveria explicações, não podia haver. Mon Dieu, o assassino inventado por eles enlouquecera... e se matara! Não podia haver mesmo qualquer explicação. Os estrategistas recuam para os recessos mais escuros quando seus planos... “perdem o fio”, creio que é essa a expressão.

— Também a conheço.

— Bien. Pode então compreender a solução que encontrei para mim, para os últimos dias de um homem mais velho.

— Estou começando a perceber.

— Bien encore. Havia um vazio aqui na Ásia. Jason Bourne não existia mais, mas sua lenda permanecia viva. E há sempre homens dispostos a pagar pelos serviços de alguém tão extraordinário. Assim, eu sabia o que tinha de fazer. Era apenas uma questão de encontrar o pretendente certo...

— Pretendente?

— Está bem, o impostor, se prefere assim. E treiná-lo nas técnicas de Medusa, as técnicas do mais louvado membro daquela fraternidade criminosa extra-oficial. Fui para Cingapura e rebusquei as cavernas dos párias, muitas vezes temendo por minha vida, até que encontrei o homem. E posso acrescentar que não demorei muito. Ele estava desesperado, fugia para salvar a vida há quase três anos, mantendo-se sempre apenas poucos passos à frente daqueles que o caçavam. É um inglês, um ex-comando, que tomou um porre uma noite e matou sete pessoas nas ruas de Londres, num acesso de fúria. Por causa de sua excepcional folha de serviços, foi enviado para um hospital psiquiátrico no Kent, de onde fugiu e de alguma forma... só Deus sabe como... chegou a Cingapura. Dispunha de todos os instrumentos para o ofício, só era preciso refiná-los e orientá-los.

— Ele parece comigo. Como eu costumava parecer.

— Muito mais agora do que parecia antes. As feições básicas já existiam, assim como a compleição alta e o corpo musculoso; eram trunfos. Foi apenas uma questão de alterar um nariz um pouco proeminente e arredondar um queixo mais pontudo do que eu me lembrava que você tinha... como Delta, é claro. Você estava diferente em Paris, mas não tão radicalmente que eu não pudesse reconhecê-lo.

— Um comando:.. —murmurou Jason. —Combina perfeitamente. Quem é ele?

— Um homem sem nome, mas não sem uma história macabra — respondeu d’Anjou, olhando para as montanhas distantes.

— Sem nome?

— Ele jamais me deu nenhum que não negasse no momento seguinte.., nenhum sequer remotamente autêntico. Ele guarda esse nome como se fosse a única extensão de sua vida, a revelação levando inevitavelmente à sua morte. Claro que ele está certo. As circunstâncias atuais confirmam isso. Se eu tivesse um nome, poderia encaminhá-lo através de um contato cego às autoridades britânicas em Hong Kong. Os computadores seriam acionados e especialistas viriam de Londres, promovendo uma caçada humana como eu jamais poderia realizar. Nunca o pegariam vivo... ele não deixaria, e os britânicos não se importariam... e assim meus objetivos estariam atendidos.

— Por que os britânicos querem liquidá-lo?

— Basta dizer que Washington teve seus Mi Lais e sua Medusa, enquanto Londres tem uma unidade militar muito mais recente sob o comando de um psicótico homicida que deixou centenas de pessoas massacradas em sua esteira... sem muitas distinções entre inocentes e culpados. Ele está a par de muitos segredos, que se forem revelados podem levara violentas explosões de vingança por todo o Oriente Médio e África. O pragmatismo está em primeiro lugar, e você sabe disso. Ou deveria saber.

— Ele era o comandante? —indagou Bourne, aturdido.

— Não era um mero soldado, DeIta. Foi capitão aos vinte e dois anos e major aos vinte e quatro, quando era quase impossível se conseguir uma promoção, por causa da política de economia de Whitehall. Não tenho a menor dúvida de que de seria general a esta altura, se a sua sorte persistisse.

— Foi o que ele contou a você?

— Em momentos periódicos de embriaguez, quando as verdades mais terríveis podem aflorar... mas nunca disse o seu nome. Os acessos de embriaguez geralmente ocorrem uma ou duas vezes por mês, por vários dias a fio, quando ele tenta apagar no álcool o passado de aversão a si próprio. Mas sempre se mostrou bastante coerente antes das explosões, pedindo-me para amarrá-lo, confiná-lo, protegê-lo de si mesmo... E reconstituía acontecimentos horríveis do passado, a voz rouca, gutural, cavernosa. Descrevia cenas de tortura e mutilação, interrogatórios de prisioneiros com facas perfurando seus olhos, cortando os pulsos, os cativos sendo obrigados a olhar enquanto suas vidas se esvaíam das veias. Até onde pude juntar os fragmentos, calculo que ele comandou muitos dos mais perigosos e brutais ataques contra os levantes fanáticos do final dos anos setenta e início dos anos oitenta, do Iêmen aos banhos de sangue na África Oriental. Em um momento de exultação alcoólica, contou que o próprio Idi Amin parava de respirar à menção de seu nome, tão grande era a sua reputação de igualar... e até mesmo superar... a estratégia de brutalidade de Amin.

D’Anjou fez uma pausa, balançando a cabeça devagar e alteando as sobrancelhas, na aceitação gaulesa do inexplicável.

— Ele era subumano... é subumano... mas apesar disso um oficial e cavalheiro, por assim dizer, de inteligência excepcional. Um completo paradoxo, uma contradição total do homem civilizado... Ria do fato de seus homens desprezarem-no e chamarem-no de animal, mas nenhum deles jamais se atreveu a apresentar um protesto oficial.

— Por que não? — perguntou Jason, perturbado e angustiado pelo que estava ouvindo. — Por que nunca o denunciaram?

— Porque ele sempre os salvava... ou pelo menos à maioria... quando a batalha parecia perdida.

— Entendo... — murmurou Bourne, deixando o comentário flutuar nas brisas da montanha. — Não, não entendo! — A voz estava agora furiosa, como se ele se sentisse súbita e inesperadamente mortificado. — A estrutura de comando é sempre eficiente. Por que seus superiores o suportavam? Eles não podiam deixar de saber.

— Pelo que pude depreender de suas palavras, ele realizava as missões quando outros não podiam... ou não queriam fazer. Aprendeu o segredo que nós em Medusa aprendemos há muito tempo. Jogue de acordo com as condições mais implacáveis do inimigo. Mude as regras de acordo com a cultura. Afinal, a vida humana para os outros não é a mesma coisa que representa no conceito judaico-cristão. E como poderia ser? Para muitos, a morte é uma libertação de condições humanas insuportáveis.

— Respirar é respirar! — insistiu Jason, a voz áspera. — Existir é existir e pensar é pensar! — acrescentou David Webb. — Ele é um Neanderthal.

— Tanto quanto Delta foi, em determinadas ocasiões. E você nos tirou de muitas...

— Não diga isso! — protestou o homem de Medusa, interrompendo bruscamente o Francês. — Não era a mesma coisa!

— Mas certamente uma variação — insistiu d’Anjou. — Em última análise, os motivos realmente não importam, não é mesmo? Só os resultados. Ou não está interessado em aceitar a verdade? Houve um tempo em que viveu assim. Jason Bourne vive agora com mentiras?

— No momento, eu apenas vivo... de um dia para outro, de uma noite para outra... até que esteja tudo acabado. De um jeito ou de outro.

— Deve ser mais específico.

— Quando eu quiser ou precisar — respondeu Bourne, a voz gelada. — Quer dizer que ele é bom, hem? Seu comando... o major sem nome. Bom no que faz.

— Tão bom quanto Delta... talvez melhor. É que ele não tem consciência... absolutamente nenhuma. Já você, no entanto, por mais violento que fosse, apresentava relances de compaixão. Alguma coisa em seu íntimo assim o exigia. “Poupem este homem”, você dizia. “Ele é um marido, um pai, um irmão. Vamos incapacitá-lo,.mas deixá-lo vivo, permitir que volte a funcionar mais tarde.” Minha criação, o seu impostor, jamais faria isso. Ele quer sempre a solução final... a morte diante de seus olhos.

— O que aconteceu com ele? Por que matou todas aquelas pessoas cm Londres? Estar de porre não é motivo suficiente, não depois do que ele passou.

— É como se fosse um modo de viver a que não se pode renunciar.

— Você mantém a arma guardada, a menos que esteja ameaçado. Afora isso, pode convidar as ameaças.

— Ele não usou armas naquela noite em Londres... apenas as mãos.

— Como?

— Saiu pelas ruas à procura de inimigos imaginários... foi o que calculei de seus delírios. “Estava nos olhos deles!”, gritava o homem. “Está sempre nos olhos! Sabem quem eu sou, o que eu sou!” Era ao mesmo tempo assustador e tedioso, Delta. Nunca ouvi um nome, nenhuma referência específica, a não ser a Idi Amin, que qualquer soldado da fortuna bêbado pode usar para se promover. Envolver os britânicos em Hong Kong implicaria envolver a mim mesmo, e não posso fazer isso. Tudo é tão frustrante que resolvi voltar aos métodos de Medusa. Faça você mesmo. Ensinou-nos isso, Delta. A todo instante nos dizia... ordenava... para usarmos a imaginação. Foi o que fiz esta noite. E fracassei, como se poderia esperar de um velho.

— Responda à minha pergunta — insistiu Bourne. — Por que ele matou aquelas pessoas em Londres?

— Por um motivo tão banal quanto inútil... e bastante comum. Ele foi rejeitado, e seu ego não podia tolerar a rejeição. Duvido sinceramente que houvesse qualquer outra emoção envolvida. Como acontece com todas as suas indulgências, a atividade sexual não passa de uma descarga animal. Não há qualquer afeição, pois ele não tem capacidade para isso. Mon Dieu, ele estava tão certo!

— Mais uma vez. O que aconteceu?

— Ele voltou ferido de alguma missão particularmente brutal em Uganda, esperando retomar o relacionamento com uma mulher em Londres... alguém, posso imaginar, de nobre estirpe, como dizem os ingleses, sem dúvida uma volta ao passado. Mas ela se recusou a recebê-lo e contratou guardas armados para proteger sua casa em Chelsea. Dois desses guardas estavam entre as sete pessoas que ele matou naquela noite. A mulher alegou que ele tinha um temperamento incontrolável e que seus acessos de bebedeira o tornavam brutal... o que de fato acontecia. Para mim, no entanto, ele era o homem perfeito. Em Cingapura, segui-o quando saiu de um bar de bandidos e observei quando acuou dois assassinos num beco... contrebandiers que haviam ganhado muito dinheiro com uma venda de tóxicos naquela sórdida caverna no cais... encostando-os na parede e cortando suas gargantas com um único golpe de sua faca, para depois tirar o dinheiro de seus bolsos. Compreendi naquele instante que ele tinha tudo o que eu queria. Encontrara o meu Jason Bourne. Aproximei-me devagar, em silêncio, a mão estendida, com mais dinheiro do que ele tirara de suas vítimas. E conversamos. Foi o começo.

— Então Pigmalião criou sua Galatéia e o primeiro contrato que aceitou foi a Afrodite que lhe deu vida. Bernard Shaw adoraria essa história... mas eu tenho vontade de matar você.

— De que adiantaria? Você veio encontrá-lo esta noite e eu vim destruí-lo.

— O que é parte de sua história — murmurou David Webb, desviando os olhos do Francês e contemplando as montanhas em fogo, pensando no Maine e na vida com Marie, tão violentamente abalada. E, de repente, ele gritou, com a maior fúria: — Seu filho da puta! Eu poderia matá-lo! Tem alguma idéia do que fez?

— Essa é a sua história, Delta. Deixe-me primeiro acabar a minha.

— Conte tudo e direitinho... Eco. Não era esse o seu no me... Eco?

As lembranças estavam voltando.

— Era, sim. Você disse certa vez a Saigon que não podia viajar sem o seu “velho Eco”. Eu tinha de acompanhar o seu grupo, porque podia discernir problemas com as tribos e chefes de aldeias que outros não eram capazes de perceber... o que não tinha muito a ver com meu símbolo alfabético. Claro que não havia nada de místico. Eu passara dez anos nas colônias. Sabia quando os Quan-si estavam mentindo.

— Termine a sua história.

— Traição — disse d’Anjou, as palmas estendidas. — Assim como você foi criado, também criei meu Jason Bourne. E assim como você enlouqueceu, o mesmo aconteceu com a minha criação. Ele se virou contra mim, tornou-se a realidade que era a minha invenção. Esqueça Galatéia, Delta. Ele virou Frankenstein, sem nenhum dos tormentos do monstro. Rompeu comigo e começou a pensar por conta própria, a trabalhar para si mesmo. Depois que seu desespero passou... com a minha ajuda inestimável e o bisturi de um cirurgião... ele recuperou o senso de autoridade, assim como a arrogância, a feiúra. Considera-me uma insignificância. Foi assim que me chamou, uma “insignificância”! Uma não-pessoa insignificante que o usou! A mim, que o criei!

— Está querendo dizer que agora ele firma os seus próprios contratos?

— Contratos deturpados, grotescos e extraordinariamente perigosos.

— Mas eu o descobri através de você, por intermédio de

seu acerto no cassino de Kam Pek. Mesa Cinco. O telefone de um hotel em Macau e um nome.

— Um método de contato que ele acha conveniente manter. E por que não? A segurança é quase absoluta... e o que eu posso fazer? Procurar as autoridades e dizer “Tem um sujeito pelo qual sou responsável que insiste em usar o sistema que criei para que ele possa ser contratado para matar alguém”? Ele até usa o meu conduto.

— O Zhongguo ren com as mãos rápidas e os pés ainda mais rápidos?

D’Anjou fitou Jason nos olhos.

— Então foi assim que você conseguiu, como descobriu estes lugar. Delta não perdeu a classe, n’est-ce pas? O homem está vivo?

— Está, sim... e dez mil dólares mais rico.

— O cochon tem uma fome insaciável por dinheiro. Mas não posso criticá-lo. Eu costumava usá-lo. Pagava quinhentos para ele recolher e entregar uma mensagem.

— Foi isso que trouxe sua criação até aqui esta noite, a fim de que pudesse matá-lo? O que lhe deu tanta certeza de que ele viria?

— Um instinto de homem da Medusa e o conhecimento superficial de uma extraordinária ligação que ele fez, um contrato muito lucrativo e tão perigoso que poderia lançar Hong Kong em guerra, paralisar toda a colônia.

— Já ouvi essa teoria antes —comentou Jason, recordando as palavras de McAllister numa noite no Maine. — E continuo a não acreditar. Quando os matadores se matam uns aos outros, são eles que saem perdendo. Além de se exterminarem, fazendo com que os informantes saiam das toca pensando que podem ser os próximos.

— Se as vítimas são limitadas a um padrão tão conveniente, é claro que você está certo. Mas não quando incluem uma poderosa personalidade política de uma vasta e agressiva nação.

Bourne ficou um pouco surpreso e disse suavemente:

— China?

O Francês acenou com a cabeça.

— Cinco homens foram mortos no Tsim Sha Tsui...

— Sei disso.

— Quatro dos cadáveres não tinham a menor importância. O que já não acontecia com o quinto. Era o Vice-primeiro-Ministro da República Popular.

— Santo Deus!

Jason franziu o rosto, a imagem de um carro aflorando em sua mente. Um carro com as janelas escuras e um assassino lá dentro. Um veículo oficial do governo chinês.

— Minhas fontes dizem que houve um atrito entre o governo da colônia e Pequim, mas o pragmatismo e as aparências acabaram prevalecendo... desta vez. Afinal, para começo de conversa, o que o vice-primeiro-ministro estava fazendo em Kowloon? Um líder tão augusto do Comitê Central podia ser também um corrupto? Mas, como eu disse, foi apenas por esta vez. A verdade, Delta, é que minha criação precisa ser destruída, antes de aceitar outro contrato que poderia mergulhar a todos nós num abismo.

— Lamento, Eco, mas ele não pode ser morto. Precisa ser capturado e levado para alguém.

— E isso é parte de sua história?

— É sim.

— Conte-me tudo.

— Apenas o que você precisa saber. Minha esposa foi seqüestrada e trazida para Hong Kong. Para resgatá-la... e vou resgatá-la ou vocês todos vão morrer... tenho de entregar sua criação. E agora estou um passo mais próximo, porque você vai me ajudar... e ajudar para valer. Se não o fizer...

— As ameaças são desnecessárias, Delta — interrompeu o homem de Medusa. — Sei muito bem.o que pode fazer. Já o vi em ação. Quer o homem por motivos seus e eu o quero pelos meus. Estamos juntos na batalha.


 

Catherine Staples insistiu para que o seu convidado no jantar tomasse outro martíni de vodca, embora recusasse para si mesma, alegando que seu copo estava cheio pela metade.

— E também está vazio pela metade — disse o adido americano de trinta e dois anos, sorrindo débil e nervosamente, afastando os cabelos escuros da testa. — E estupidez da minha parte, Catherine. Lamento, mas não posso esquecer que você viu as fotografias... não importa que salvou minha carreira e provavelmente minha vida... ainda penso naquelas malditas fotografias.

— Ninguém mais as viu, com exceção do Inspetor Ballantyne.

— Mas você viu.