Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


CONTRABANDISTAS DE DIAMANTES / Ian Fleming
CONTRABANDISTAS DE DIAMANTES / Ian Fleming

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CONTRABANDISTAS DE DIAMANTES

 

A estação de pesca e caça na estuário de Santa Lúcia, na Zu-lulândia, era algo que eu vinha aguardando havia muito. Eu aca­bara de fechar a porta da frente de minha casa, em Johannesburg, e ia entrando no automóvel, para iniciar a viagem de 450 milhas até à costa, quando um carteiro de uniforme cinzento chegou peda­lando com um telegrama. Senti viva tentação de deixar aquilo sem abrir, mas, felizmente, refleti melhor, e verifiquei que se tratava de telegrama de Ian Fleming. A mensagem críptica de Fleming deveria conduzir-me a um dos episódios mais agradáveis por que já passei em minha variada carreira e, o que era ainda mais importante, não interferia com a minha viagem a Zululândia. Fleming desejava apenas saber quando e onde poderia entrar em contato comigo, por telefone, dentro dos próximos dias. Respondi: "Hotel Santa Lúcia Zululândia qualquer noite" e, mal esperando receber qualquer res­posta, parti com minhas varas de pesca.

Na verdade, ouvi muito mais a respeito e, após uma inun­dação de telegramas entre Londres, Santa Lúcia e Tânger, meu encontro com Fleming se verificou justamente como êle o descreve. Ao chegar ao Hotel El Minzah, em Tânger, fui saudado pelo porteiro com uma nota que ainda conservo (ai de mim, que aprendi a con­servar mesmo os bilhetes mais triviais!):

 

             Benvindo! Estou no quarto 52.

             Por favor, telefone-me ao chegar, e tomaremos um drink.

             É bom tê-lo aqui.

                         Ian F.

 

Isto parecia ser um começo promissor, e não me decepcionei. A companhia de Fleming, durante, aproximadamente, os próximos dez dias, constitui uma experiência deveras estimulante.

Uma das coisas que apreciei nele foi a sua sem-cerimônia. Êle era conhecido por um número bastante grande da sociedade britânica de Tânger e, automaticamente, incluiu-me em vários al­moços e jantares que lhe foram oferecidos. Aqui é que entra o meu "disfarce", e esta é a oportunidade que agora se me apresenta de desculpar-me pelo papel que representei, enganando uma porção de gente demasiado bem educada para que me fizesse, na ocasião, perguntas embaraçosas.

Os formalismos corteses, no Hotel El Minzah, cederam logo lugar a uma discussão terra-a-terra acerca da forma e do escopo deste livro. Tornei claro desde o começo que, embora a decisão de contar a história ficasse inteiramente sob minha responsabilidade, eu desejava estar certo de que a versão publicada estaria livre de injunções por motivos de segurança e todas as outras objeções. Ian Fleming, como ex-oficial do serviço secreto naval, concordou inteiramente com isso, mas, tal como as coisas ocorreram, teve de amenizar algumas de minhas opiniões um tanto críticas, e alguns nomes e detalhes interessantes precisaram ser inteiramente omiti­dos. Era meu desejo que a história não ofendesse ninguém, exceto os escroques — e, isso, penso eu, foi conseguido. Até certo ponto, a tarefa de Fleming foi facilitada pelo fato de eu haver levado comigo um diário privado de minhas próprias atividades, o qual tinha sido por mim compilado, em momentos de lazer, durante longo tempo, e foram essas anotações e minhas lembranças que êle, de modo sumamente hábil, converteu numa narrativa concatenada.

Esse bizarro encontro em Tânger teve suas origens em novem­bro de 1953, quando Sir Percy Sillitoe se aposentou como chefe do MI5. Êle contou-me, quando me convidou para associar-me a êle, de que modo tudo aquilo acontecera. Estava êle desfrutando suas horas de lazer em Eastbourne, quando chegou uma carta de Sir Reginald Leeper, ex-embaixador britânico, e que era então, como hoje, presidente do Comitê Londrino da De Beers Consolidated Mi­nes. Sir Ernest Oppenheimer havia-lhe pedido, segundo suas pró­prias palavras, para que êle visse se Sir Percy estaria interessado em dar-lhe seus conselhos e assistência quanto a um assunto que êle esperava ter oportunidade de expor a Sir Percy.

Esse "assunto" acabou sendo, nada mais nada menos, do que um enorme e ilícito tráfico de diamantes, e Sir Ernest Oppenheimer desejava que Sir Percy criasse uma organização para combatê-lo.

Quem não estaria interessado nisso? Sir Percy voou ime­diatamente para Muizenburg, nas imediações da Cidade do Cabo, onde Sir Ernest estava passando suas férias de verão.

Sir Percy ficou imensamente impressionado pela figura de Sir Ernest Oppenheimer — por sua sedução pessoal e seu agudíssimo espírito — não podendo compreender por que razão sua biografia não havia jamais sido escrita: a história do homem que começou em 1902, em Kimberley, como representante de uma pequena fir­ma de diamantes, e que, em menos de cincoenta anos, construíra o maior império de diamante, ouro, carvão e cobre do mundo.

Parece que Sir Ernest se mostrou indulgente com a completa ignorância de Sir Percy acerca da indústria de diamantes, até o momento em que tais gemas são engastadas em anéis de noiva­do. Explicou-lhe o processo básico da mineração e comércio de diamantes, bem como os pontos em que, na sua opinião, havia possibilidade de derrame das pedras. Sugeriu, a seguir, que Sir Percy deveria examinar pessoalmente as próprias minas em todo o continente africano, voltar a Johannesburg e fazer um relatório quanto à probabilidade de se evitar o "escoamento" de diamantes ao menos em sua fase final de produção.

Sir Percy concordou e, em março de 1954, partiu, juntamen­te com dois grupos de homens que êle já havia, a essa altura, esco­lhido, numa viagem cujo itinerário incluía no espaço de seis sema­nas, Accra, Aquatia, Freetown, Yengema, Leopoldville, Tshaikapa, Bakwanga, Luluabourg, Dundo, Elizabethville, Lushoto, Dar-es-Salaam, Mwadui, Lusaka, Salisbury, Pretória e Johannesburg — uma viagem que me espanta tivesse êle podido concluir, sem cair à beira do caminho, com a idade de sessenta e seis anos.

Infelizmente, a coisa já havia transpirado, chegando ao co­nhecimento da imprensa, como o demonstra o divertido frontis­pício deste livro — e Sir Percy achou aconselhável procurar seu velho amigo Mr. Swart, Ministro da Justiça, bem como o General de Divisão J. A. Brink, Comissário da Polícia Sul-Africana, e reve­lar-lhes, confidencialmente, sua missão. Assegurou-lhes que em circunstância alguma empregaria qualquer agente ou informante na África do Sul sem o consentimento do Comissário de Polícia. Conseguiu, também, avistar-se com o Brigadeiro Rademeyer, então chefe do CID. Fora êle quem criara o departamento de Detetives de Diamante da Polícia da África do Sul, com sede em Kimberley. Por infelicidade, estava êle em férias naquela ocasião, e constituiu um grande choque para Sir Percy ler, num dos jornais da África do Sul, que o Brigadeiro Rademeyer criticara, em termos acrimonio­sos, suas propostas e alegadas atividades, tendo comentado desfa-voràvelmente o fato de não lhe haver êle feito sequer uma visita. Mas devo dizer que, mais tarde, quando a IDSO (pois que nós nos intitulávamos International Diamond Security Organization) esta­va em pleno funcionamento, todos nós encontramos no Brigadeiro Deremeyer a mais decidida e valiosa cooperação, principalmente quando êle substituiu o General de Divisão Brink como Comissário de Polícia.

Sir Percy disse-me que, em sua viagem de seis semanas pelas minas de diamantes, ficara deslumbrado pelos milhares e milha­res de diamantes, desde o tamanho de uma ervilha até o de uma noz, os quais eram expostos à sua inspeção nas diferentes minas, fazendo com que êle começasse a sentir algo da sinistra fascinação que sempre cercou a mais fria dentre todas as gemas. Objetos tão pequenos e, ao mesmo tempo, tão valiosos, estavam destinados, evidentemente, a ligar-se para sempre a crimes e, até mesmo, a as­sassínios e, tendo visto a maneira pela qual eram manuseados, até o momento em que os colocavam em Londres, para serem vendidos pela Diamond Corporation, Sir Percy disse que apenas o surpre­endia o fato de que o desvio anual de diamantes, mediante furto, contrabando e mineração clandestina, não aumentasse de muitos milhões os algarismos que lhe haviam sido apresentados. Não ape­nas Sir Percy, mas todos nós, começamos a sentir verdadeira ad­miração pelos funcionários das várias companhias, por cujas mãos passavam diariamente gemas que valiam talvez cem vezes mais do que seus salários anuais.

Os planos de Sir Percy foram aprovados e êle regressou de avião a Londres, aceitando-me para completar a sua equipe — e foi assim que, decorados três anos, vim a encontrar Ian Fleming em Tânger. O tempo que passei em Tânger foi, para mim, algo assim como uma recompensa, como tomar uma chávena de chocolate após haver engolido uma dose de remédio. A principal diferença era ser Tânger algo inesperado. Trabalhar para a International Diamond Security Organization não era nada "divertido". O único prêmio consistia na satisfação de Sir Percy Sillitoe — um homem que não se sentia facilmente satisfeito, mas que, de tempos em tempos, nos dava algum sinal de encorajamento, enquanto nos en­tregávamos às nossas tarefas principais. Tais tarefas consistiam, primeiro, em aumentar-se a segurança nas minas e, segundo, em descobrir-se, sem a menor sombra de dúvida, os canais principais de contrabando para a Europa, o Oriente Médio e os países da Cor­tina de Ferro.

Esta última tarefa era a mais difícil das duas, mas, ao me­nos, tínhamos a vantagem de poder adotar um método de ataque — comprar dos próprios contrabandistas — coisa que não estava ao alcance das forças policiais, devido à falta de dinheiro. Nossas compras sub-reptícias, na Libéria e na Rodésia, não se destinavam diretamente à captura dos contrabandistas, mas resultaram na descoberta e desmascaramento de redes inteiras de contrabandis­tas, as quais até então agiam sub-terrâneamente.

O sistema normal da polícia, ao enfrentar, no passado, o pro­blema da IDB (Illicit Diamont Buying)1 baseava-se, principalmente, no método de "armadilha", segundo o qual um suspeito, devida­mente escolhido, era abordado por um policial à paisana, que lhe propunha a venda de diamantes pertencentes à "polícia". No mo­mento crítico, quando o suspeito caía na armadilha e aceitava o oferecimento do policial, era preso. Tal operação era concluída sem um único lampejo de verdadeira inteligência.

A persistente operação constituída pelo método de armadilha servia, sem dúvida, ao útil propósito de evitar que a IDB conquis­tasse predomínio em países tais como a África do Sul, mas a polícia acabou, inevitavelmente, por incorrer na crítica da Justiça, devido a um processo baseado no tal sistema de armadilha. Assim, no Tri­bunal Superior de Justiça da África do Sul, em setembro de 1953, o juiz Claasens, ao considerar um pai e um filho, de nome Vlok, inocentes de atividades relacionadas com a IDB, declarou existir duas espécies de armadilha. Uma, referia-se aos suspeitos do tráfi­co de diamantes e, a outra, consistia em induzir pessoas inocentes a fazer o que elas normalmente não o fariam. Aquele caso, proferiu o juiz, se enquadrava neste último tipo, com a agravante de que o policial que servira de chamariz era parente dos acusados. "Tais

 

1Compra ilegal de diamantes — N. do T.

 

casos disse o juiz aproximam-se muito da prostituição da polícia e dos Tribunais". Nós, da IDSO, concordávamos com esse parecer, sendo contrários a qualquer espécie de armadilha.

Durante sua breve vida, as relações da IDSO com a maior parte das forças policiais, particularmente as pertencentes aos ter­ritórios e protetorados coloniais britânicos, foram extremamente felizes. Quase todas essas forças policiais constituíam problemas mais sérios do que a IDB, mas, dentre todas elas, as de Sierra Le­one eram, sem a menor dúvida, as piores. O comissário de polícia, Bill Syer, bem como o chefe da CID, Bernard Nealon, não poderiam ter revelado maior espírito de cooperação e, de Sir Percy para baixo, sentimo-nos profundamente gratos por sua atitude.

Conforme verificamos ultimamente, a situação, naquele in­fortunado território, ainda deixa muito a desejar, embora muitas das recomendações da IDSO, relativas à melhoria da segurança, tenham sido gradualmente postas em prática. A permissão conce­dida pelo governo de Sierra Leone à Diamond Corporation, para es­tabelecimento de postos de compra nas vastas áreas diamantíferas, situadas nos pântanos e selvas do interior, modificou completa­mente a base legal e comercial da mineração e venda de diamantes. A questão básica, agora, gira em torno de uma disputa comercial direta entre a Diamond Corporation, de um lado, e a IDB, de outro. A vencedora será aquela que conquistar a boa vontade e o produ­to do trabalho de milhares de escavadores africanos recentemente legalizados. A IDB tem a vantagem de poder fixar seus preços sem levar em conta as taxas de exportação e, em certos casos conta com o apoio ilimitado de países situados atrás da Cortina de Ferro. A Diamond Corporation, por outro lado, tem a vantagem de contar com o apoio do governo oficial, preços estáveis e, a esta altura assim o espero — com medidas coibitivas adequadas contra o con­trabando através da fronteira da Libéria.

Uma parte bastante substancial do tráfico ilegal de diaman­tes já foi desviada para os canais oficiais proporcionados pela Dia­mond Corporation, mas é pouco provável que a batalha comercial se decida dentro de um mês ou de um ano.

Ian Fleming descreve de que modo a Diamond Corporation de Sierra Leone, sob a direção de Philip Oppenheimer, se entregou à sua tarefa com tremenda energia e entusiasmo. O governo de Sierra Leone está igualmente decidido a afastar — e a manter afas­tados — os imigrantes ilegais, provenientes do território francês vizinho, que estão a escavar diamantes em Sierra Leone. Do mes­mo modo, milhares de negociantes sírios e europeus, que vinham agindo, no passado, como revendedores, serão obrigados a pular a cerca entre a legalidade e a ilegalidade, se quiserem continuar a viver em Sierra Leone ou visitar esse território. O governador de Sierra Leone declarou, recentemente, que somente um intermediá­rio vendera diamantes, à Diamond Corporation, no valor de 80.000 libras esterlinas, e pedras no valor de 240.000 libras esterlinas a negociantes ilegais. A atividade deste homem é notória, sendo uma pena que seu nome, bem como o de muitos outros, precise ser, por enquanto, mantido em sigilo.

Terminarei fazendo dois comentários de caráter geral acerca deste livro.

Em primeiro lugar, Ian Fleming adotou o conveniente recurso literário de apresentar um único indivíduo — eu próprio — como sendo o chefe e o onisciente operador da IDSO, mas cumpre-me esclarecer que a IDSO era uma equipe cujo êxito, tal como ocorreu, deveria ser levado a crédito de Sir Percy Sillitoe e da Organização como um todo.

Em segundo lugar, devo ser o primeiro a admitir que nosso trabalho não foi, de modo algum, terminado. Existem ainda hoje, espalhados pelo mundo, criminosos poderosos, que vivem sob uma capa de radiosa respeitabilidade, desfrutando de uma riqueza que ainda provém do contrabando de diamantes provenientes da Áfri­ca.

Tais homens ouvirão falar deste livro e o lerão, por medo ou vaidade, para ver se suas atividades foram reveladas ou se seus nomes se acham aqui mencionados.

Eis uma palavra de advertência a esses distantes e gentis leitores. É bastante improvável que o nome de qualquer um deles não esteja nos arquivos da IDSO, em Londres ou em Johannesburg — e, embora, a própria IDSO se haja dissolvido, o serviço de "se­gurança internacional de diamantes" não é uma organização tem­porária, mas uma função permanente da polícia e das autoridades alfandegárias.

 

                 A REDE DE DIAMANTES DE UM MILHÃO DE QUILATES

Quando a gente escreve histórias sensacionais de espiões, costuma receber correspondência interessante. Certo dia, em abril de 1957, eu acabara de responder a uma carta de um especialista em combate sem armas, que me escrevia de um endereço secreto na Cidade do México, e agradecia a um admirador no Chile, quan­do meu telefone tocou. Era um amigo. Parecia misterioso:

— Você se lembra daquele caso em que Sillitoe se achava empenhado? Bem, o caso acaba de ser encerrado, e seu principal dirigente diz que agora lhe contará tudo a respeito. Seus livros o divertem, principalmente aquele acerca de contrabando de dia­mantes. Êle acha que você poderá escrever sua história. Está dis­posto a revelar-lhe tudo o que seja possível: nomes, datas, lugares. Ouvi já alguma coisa, e a história é formidável. Mas você terá de ir encontrá-lo na África... provavelmente em Tânger. Será que você pode ir?

Eu sabia alguma coisa acerca do trabalho de Sir Percy Silli-toe. Quando êle deixou a chefia do MI5, De Beers o contratara para desmantelar a rede dos contrabandistas de diamantes. Alguns pa­rágrafos sobre suas andanças haviam transpirado de quando em quando, nos últimos anos, para as páginas dos jornais. Parecia que a rede de contrabandistas estava dando um prejuízo à Diamond Corporation de mais de dez milhões de libras esterlinas, em pedras preciosas, por ano. Se aquele espião não citado realmente falasse, valeria a pena, evidentemente, sacrificar minhas férias de Páscoa. Fiz uma ou duas perguntas. Aquelas revelações me seriam feitas com o consentimento de De Beers? Não o seriam. Nesse caso, ha­veria quaisquer objeções, por motivos de segurança, a que a histó­ria fosse contada? Meu amigo era de opinião de que não haveria. Respondi que iria.

Meu amigo deu-me o nome do homem — John Blaize — que era um de seus nomes supostos, bem como um número de telefo­ne, bastante improvável na Zululândia.

Seguiu-se a isso uma semana de encontros —- com um ami­go da Scotland Yard e bom informante e, em meu clube, com um homenzinho suave de Antuérpia — e uma série de telegramas a Blaize, em Zululândia. Eu tentara telefonar-lhe, mas informaram-me que êle estava ausente, procurando fotografar um rinoceronte branco — o que constituía um outro toque bizarro. Parti, então, pela Air France, para o Hotel El Minzah, em Tânger, a fim de aguar -dar até que, no dia treze daquele mês, John Blaize entrasse em contato.

Eu já havia descoberto o que podia a respeito de Blaize: es­cola pública e Oxford, exames de direito e, após, solicitador do Te­souro. Ao irromper a guerra, alistou-se como soldado no regimento de um condado, mas, depois de sua admissão, foi transferido para o Serviço Secreto Militar, onde se saiu extremamente bem, termi­nando como tenente-coronel. Finda a guerra, viu-se atraído pelo MI5, tendo feito parte da equipe que acabou por desvendar o caso Fuchs. Empenhou-se, então, em penetrar no meio comunista sub­terrâneo — tarefa, às vezes, desagradável e perigosa, que o levou a viajar pelo mundo todo. Em 1954, Sir Percy Sillitoe, que, entre outras qualidades, possui a de conhecer os homens de real valor, o atraiu, mediante excelente salário, para o seu serviço, conseguindo sua ajuda na "operação diamante".

Depois disso, durante três anos, Blaize esteve na África, onde suas atividades tiveram éco em Beirute, Tânger, Antuérpia, Paris, Berlim e até Moscou.

Agora seu trabalho estava feito, tapados os canais principais de "escoamento" de diamantes, realizadas as prisões finais, e Blai-ze estava a sair das sombras e a voltar para a luz do dia.

Blaize apareceu, devidamente, no tempo aprazado, e encon­tramo-nos em meu quarto, no Hotel El Minzah.

Era um homem de cerca de quarenta anos, trajado à ma­neira típica do inglês no estrangeiro: paletó de tweed Lovat, calças cinzentas de flanela, suéter azul-marinho, gravata indiscritível e, o que era um tanto surpreendente, uma bela camisa de seda branca, de que êle possuía, conforme mais tarde me confessou, vinte e qua­tro outras. Embora de maneira discreta, era muito bem parecido. Tinha cabelos escuros, já com alguns fios brancos, e olhos astu­tos, bem-humorados, côr-de-ardósia, que se voltavam ligeiramente para cima nos cantos. Possuía sorriso cálido e voz tranqüila, quase imperceptivelmente hesitante. Falava sempre em tom seguro, mas modesto e, sempre que eu o interrompia, repetia cuidadosamente o que eu lhe dizia, antes de responder.

Quando estava consultando suas anotações, parecia um professor universitário ou um cientista — cabeça inclinada para a frente, ombros um tanto recurvos e sensíveis, mãos tranqüilas a mexer em seus pedaços de papel; mas, quando atravessava a sala, se assemelhava a um jogador de cricket pronto para empunhar o bastão: alegre, confiante, aventuroso.

Era um exemplo típico do "herói relutante" inglês, e eu acabei por gostar imensamente dele.

Quando chegou, estava cansado — um cansaço que provinha mais do que de sua viagem e tímido. Sentia-se também um tanto nervoso por haver sido localizado em Tânger e, durante a semana que trabalhamos juntos, êle insistiu em que nossos encontros se verificassem em horas e lugares estranhos. Desabafava-se então de sua história, verificando datas e fatos em pedaços desordenados de papel.

Quando êle terminava de falar, eu anotava a história, e êle, mais tarde, corrigia o que eu havia escrito. Era um trabalho deses­peradamente árduo, mas nós o apreciávamos.

Blaize não fumava. Em nosso primeiro encontro, após vários preâmbulos, êle pôs-se de pé junto à janela, fitando, através da roseira e dos hibiscos do famoso jardim do Minzah, o aglomerado de casas acachapadas que constitui o Kasbah. Começou hesitan­temente, demorando para entrar na narrativa. E foi assim, com a ajuda de minhas perguntas e de meu estímulo, que a história prosseguiu.

Certo dia, em princípios de 1954, meu velho chefe que acabava de aposentar-se — me convidou para jantar em seu clube e perguntou-me se eu gostaria de deixar o Serviço Secreto Militar e participar de uma equipe destinada a desbaratar os contrabandis­tas de diamantes. Seríamos pagos por De Beers grandes salários e todas as demais despesas. Eu estava cansado de trabalho rotinei­ro e, de qualquer modo, quando um homem já tem quase quarenta anos, ou pouco mais, é uma boa ocasião para que mude de empre­go. Sillitoe sempre foi um bom homem com quem se trabalhar — pois que sempre olhava por seus homens e fazia com que as coisas fossem realizadas e, pelo que ouvira falar de Oppenheimer e De Beers, também eles eram pessoas sensatas.

"Passei algumas noites em claro. Aquilo não iria ser uma coi­sa fácil, nem, na verdade, tão segura como ser funcionário público, mesmo que se tratasse de um serviço público bastante excitante. Aquilo ia ser como ir-se de novo para a guerra. Eu respondi que sim e, em agosto de 1954, parti para Johannesburg.

"Não lhe contarei todo o background da história dos diaman­tes. Mas o senhor precisa conhecer alguns fatos básicos, a fim de compreender de que modo começou o bando de contrabandistas e como se desenvolveu desde os velhos dias da IDB isto é, Illicit Diamond Buying em que, de quando em quando, um rapaz na­tivo, na própria mina, descobria um diamante e o enfiava na boca, ao invés de colocá-lo nas esteiras transportadoras.

Qual o volume do tráfico de diamantes, quando assumiu seu trabalho?

Blaize ergueu os ombros.

Cerca de dez milhões de libras esterlinas anuais, um mi­lhão a mais ou um milhão a menos — respondeu. — Naquele ano, o presidente da Interpol anunciou que dez milhões de libras ester­linas em diamantes estavam sendo contrabandeadas somente da África do Sul, e que essa era apenas uma das fontes. Mas êle estava um tanto desatualizado quanto ao Reino Unido.

"Pessoalmente, eu não juraria quanto à veracidade de qual­quer algarismo. O contrabando aumentou com a indústria dia­mantífera. Quando Cecil Rhodes — que foi, diga-se de passagem, o primeiro presidente da De Beers — reuniu todas as Minas de Diamantes de Kimberley, aí por 1890, um de seus objetivos era regulamentar o trabalho dos depósitos de diamantes e estabele­cer o plano de um mercado comum, de modo que as minas não fizessem concorrência umas às outras. A idéia era criar um preço mundial para os diamantes — um preço de monopólio, na verdade, como ouvimos falar que ocorre em outras indústrias: pneumáticos de automóvel, lâmpadas elétricas, válvulas de televisão, e assim por diante. Criaram, pois, uma organização de compra e venda de diamantes, conhecida como "The Diamond Syndicate". Essa orga­nização funcionou muito bem, até que, a partir do começo deste século, foi descoberta toda uma série de novas e fabulosas minas de diamantes.

Blaize consultou suas notas.

— Encontraram, em 1902, a Mina Premier, onde a pedra Cullinan e outras gemas famosas foram achadas. Depois, encon­traram os campos de aluvião do sudoeste da África, em 1908. As minas do Congo, em 1913. Os campos diamantíferos da Angola Portuguesa, em 1916; os campos industriais de diamantes da Cos­ta do Ouro, em 1919; Lichtenburg, em 1926; Namaqualand, em 1927. Os vastos campos de Sierra Leone, em 1930, e, por último — mas não menos importante — a famosa Mina Williamson, de Tanganika, em 1940.

"Essas novas descobertas não tardaram em desvirtuar a ma­quinaria de vendas de Rhodes, e a Diamond Syndicate sofreu, mais ou menos, um colapso. Já na metade da lista que lhe dei, a con­fiança nos diamantes desapareceu quase da noite para o dia. Pes­soas passaram a pensar que diamante já não era mais coisa rara, e os preços caíram verticalmente, ajudados pela baixa de preços entre as companhias de mineração rivais. Isso quase arrebentou o comércio de diamantes. Mas aí os De Beers, que devem ter tido uma coragem tremenda, meteram-se de novo em ação e acabaram com brincadeira. As companhias acharam que era melhor manter-se unidas que separadas. Tornaram, pois, a associar-se, e o antigo Sindicato de Diamantes de Rhodes foi reestabelecido.

"A lição de não cooperação fora aprendida, e as novas minas, da segunda metade de minha lista — bem como as companhias que as possuíam — mantiveram a linha, até que surgiu Williamson. Êle ficou fora durante algum tempo — pois que é uma pessoa resoluta, de caráter independente, cuja biografia deveria ser escrita algum dia — mas, no fim, também êle aderiu e, hoje cerca de 90 por cento de todo o diamante que se extrai, em toda a superfície do globo, são negociados através de um subsidiária da De Beers, a Diamond Trading Company — conhecida geralmente como Diamond Corpo­ration — em Londres. É tão sólida quanto o Pru e constitui um dos maiores serviços de corretagem de Londres — uma imensa fonte de dólares para a Inglaterra, e foi por isso que, como o senhor verá, à medida que eu lhe fôr contando minha história, que não tivemos dificuldade alguma em conseguir o apoio, quando precisamos dele, dos homens mais importantes do país. Blaize tornou às suas anotações.

— Para seu governo — prosseguiu — eis as companhias que mantêm contratos de venda com a Diamond Corporation:

 

               ÁFRICA OCIDENTAL PORTUGUESA

               Companhia de Diamantes de Angola

               COSTA DO OURO

               Consolidated Ajrican Selection Trust Limited

               SIERRA LEONE

               Sierra Leone Selection Trust Limited

               ÁFRICA EQUATORIAL FRANCESA

               Société Guiniéenne de

               Recherches et d'Explorations Minières

               CONGO BELGA

               Société Internationale Forestière du Congo

               Société Minière du Beceka

               TANGANIKA

               Williamson Diamonds Limited

 

"Isso à parte, naturalmente, da Union e das Companhias do Sudoeste da África, pertencentes à De Beers. Um mecanismo mais ou menos idêntico existe quanto às demais pedras preciosas, além dos diamantes. Encarrega-se das pedras preciosas a Industrial Distributors Ltd, de Johannesburg, que também pertence ao grupo De Beers.

"Pois bem. Isso parece, sem dúvida, um belo e organizado quadro de monopólio. E, com efeito, o seria, se não houvesse um desenvolvimento galopante nas condições relativas à indústria de diamantes, e se não houvesse uma gigantesca e não satisfeita de­manda de diamantes, como uma garantia contra a inflação que se verifica em todos os países do mundo. Quanto aos diamantes industriais, são eles empregados em máquinas operatrizes, e es­tão sendo armazenados na corrida armamentista, principalmente pelos Estados Unidos, Rússia e China. De modo que o preço do diamante subiu vertiginosamente, no mercado negro, nos últimos dez anos, fazendo com que qualquer risco, no campo do roubo e do contrabando, valha a pena — ajuntou, sorrindo sombriamente, Blaize — principalmente porque as penas de prisão não acompa­nharam o preço dos diamantes. Essas penas são, hoje, as mesmas que quando Rhodes se estabeleceu em Kimberley.

"O mecanismo para se lidar com os diamantes legais não dá margem a álibis. Todos os meses, a Diamond Corporation realiza reuniões a que comparecem os corretores respeitáveis. Lá, com­pram as pedras que estão à venda — três milhões de libras esterli­nas ou mais em cada reunião, e todo o negócio é tão aberto quanto o Stock Exchange em Londres. Mas, para cada negociante honesto que se acha arrolado na lista aprovada pela Diamond Corporation, há dois ou três, cujos nomes não se encontram na lista, que, con­forme se sabe, aceitam diamantes contrabandeados, e que, como também se sabe, os vendem nos países situados atrás da Cortina de Ferro.

"Os nomes desses homens estão numa lista negra organi­zada pela Diamond Corporation. Estabelecem seu mecanismo em Antuérpia, Beirute e outros lugares, e pagam os mesmos preços da Diamond Corporation e, às vezes, até mesmo preços mais elevados, pelo fluxo de pedras contrabandeadas em busca de mercado. São receptadores, em grande escala, de mercadorias roubadas, mas os países em que operam não se importam com isso, contanto que eles paguem as taxas e as licenças de exportação, bem como outros emolumentos.

"De qualquer modo, existe grande inveja em países interes­sados por diamantes, sem excluirem-se os Estados Unidos, por Londres possuir esse monopólio no mercado de pedras preciosas.

"Como eu disse, trata-se de um comércio gigantesco, e imen­samente valioso. Em 1953, por exemplo, pouco antes de assinar meu contrato, somente as vendas legais de pedras chegavam a ses­senta e um milhões de libras esterlinas. Hoje, estão em torno de oitenta milhões. Mas o mercado negro cresceu juntamente com o mercado lícito, e não restava outra alternava a De Beers senão procurar reduzir tais vendas, tanto como um serviço prestado aos vários países e companhias envolvidos na Diamond Corporation, quanto como uma operação comercial natural contra um competi­dor e, ainda — e isto não é uma coisa tão incidental como o senhor poderia talvez imaginar — como um dever patriótico: deter essa enorme e explosiva operação através da Cortina de Ferro, pois que os diamantes industriais constituem um dos nervos básicos da in­dústria de armamentos.

"Como o senhor vê, a coisa não se afastou muito do nativo negro que mete um diamante na boca e o vende, por umas poucas libras, a um agiota em Johannesburg. Hoje, o agente da IDB que compra diamantes de um ladrão negro, ou — o que é mais provável — de um respeitável funcionário europeu, pode estar certo de ter um bom preço assegurado para a sua pedra. Somente para dar-lhe uma idéia, o preço de uma gema pura, branco-azulada, de apenas um quilate, chegava a setenta libras em 1929, alcançando, hoje, 230 libras esterlinas.

"Eis aí o que faz com que tal comércio ilegal valha realmente a pena. Lembra-se de Sir Sillitoe me haver dito que uma das pri­meiras perguntas que fizera a Sir Ernest Oppenheimer, fora: "Até que ponto deseja que eu vá?" Como vê, há verdadeiras fortunas ao alcance de todos, durante todo o curso dos diamantes através dos canais legais, até o momento em que o negociante, nas reuniões mensais, faz um aceno com a cabeça e assina o seu cheque. Qual­quer que seja o salário de um indivíduo, faz-se mister que êle seja um homem verdadeiramente íntegro para que rejeite a oportunida­de de ganhar vinte mil, ou até cem mil libras esterlinas, numa úni­ca transação, principalmente tendo-se em vista a pequena senten­ça de prisão a que será condenado, caso venha a ser apanhado.

— Mas, certamente, deve haver algum meio de se evitar tal coisa... Raio X ou coisa que o valha, pois não?

Blaize sorriu amargamente:

— É o que se poderia pensar, mas, quando começamos a tra­balhar, ficamos surpresos ao verificar quão diminuto era o número de brancos que tinha de passar por tal exame. Creio que se supu­nha indigno fazer isso com os brancos. Muita coisa, hoje, já mudou a este respeito, mas o senhor ficaria surpreso, ao verificar quantas lacunas existem, mesmo num exame de raio X.

"Não podemos, como o senhor bem o percebe, submeter os homens constantemente a exames de raio X, mesmo que eles sejam negros. Eles ficariam saturados de raios gama. Em lugares como Kimberley, por exemplo, onde a maioria dos mineiros europeus vol­ta para suas casas todos os dias, se a gente os submetesse, todos os dias, a exames de raio X, eles morreriam como moscas. Tudo o que se pode fazer é efetuar uma revista no próprio local, fazendo com que os homens pensem que estão sendo submetidos a raio X, embora, às vezes, não o estejam sendo.

"Tínhamos uma ou duas idéias brilhantes. Primeiro, sugeri­mos ao Departamento Médico da De Beers que talvez se pudesse criar um aparelho de raio X suficientemente poderoso para revelar diamantes escondidos, mas sem que transmitisse aos homens uma quantidade muito grande de raios gama. Os médicos principais da companhia, Van Blommestein e Birt, foram aos Estados Unidos e à Holanda, verificando que um tal aparelho poderia ser construído, permitindo que um homem pudesse ser examinado — para ver se ocultava diamantes — duas vezes por semana. Eles ainda estão tratando disso.

"Depois, dirigi-me a um velho amigo do Serviço de Seguran­ça, em Harwell, e perguntei-lhe se se podia radioativar diamantes e localizá-los por meio de um computador Geiser. Êle conversou com os cientistas atômicos, mas estes lhe responderam que não se podia radioativar diamantes, pois que os diamantes eram for­mados de puro carvão. Felizmente, o laboratório de pesquisas da Diamond Corporation, em Johannesburg vinha trabalhando nesse mesmo sentido, e inventara uma maneira de se "rotular" diaman­tes, pintando-os com um elemento radioativo invisível. Isso tornou possível colocar-se sob a terra diamantes "rotulados" ou, então, no depósito de recuperação, a fim de pôr à prova a honestidade dos homens. Se os diamantes "rotulados" aparecem, ao fim da produ­ção diária, na "casa de separação", excelente! Mas se alguém o apa­nha e procura sair com êle através das "borboletas", uma espécie de contador Geiser faz soar uma campainha de alarme.

— Note bem — ajuntou Blaize, encolhendo, filosoficamente, os ombros — essas espécies de truques são sumamente úteis entre os operários de côr. Parecem uma espécie de mágica dos brancos. E tudo isso ajuda — bem como certos vôos ocasionais de helicóp­tero por sobre as grandes áreas de mineração, apontando várias câmeras de televisão, reais e falsas, na direção das minas. Essas coisas assustam os pequenos, mas não assustam os grandes. Os grandes têm seus próprios aeroplanos, para descer em meio ao matagal, e até mesmo, provavelmente, homens-rãs, para subir os rios a nado.

"É a batalha habitual da astúcia entre os policiais e os la­drões. Hoje em dia, os contrabandistas são tão poderosos e ricos que podem gastar quase tanto, na obtenção de diamantes ilegais, quanto as companhias de mineração para extraí-los legalmente da terra.

— Mas quem são essas pessoas poderosas? Ainda não consi­go fazer bem idéia de dez milhões de libras esterlinas de diamantes sendo contrabandeados anualmente. É uma operação enorme. De onde e para onde são eles verdadeiramente contrabandeados?

— Dir-lhe-ei acerca das pessoas, quando chegar o momento

— respondeu Blaize. — Quanto aos canais de contrabando — ajun­tou, remexendo seus papéis — eis aqui a cópia de um mapa que traçamos, mostrando as principais rotas para todos os lugares do mundo. Esse mapa lhe dará, grosseiramente, uma idéia da coisa. É apenas uma parte da história, mas o senhor poderá seguir o roteiro dos diamantes, enquanto eu lhe conto alguma das histórias que surgiram em lugares como esses.

Ao dizer isso, Blaize tomou de um lápis e traçou umas linhas sobre o mapa, de um lugar a outro.

— Quando chegamos a Johannesburg — prosseguiu — a pri­meira coisa que fizemos foi traçar uma rede secreta de investiga­ções que penetrasse nessa via subterrânea através do mundo e, com o decorrer do tempo, fomos, aos poucos, assinalando todas as junções. — Blaize sorriu entre dentes: — Procurávamos man-ter-nos afastados das luzes da ribalta — ajuntou, passando-me às mãos um recorte amarfanhado do Rand Daily Mail, que é aqui reproduzido no frontispício — mas isso não ajudou muito. De qual­quer modo, Johannesburg deveria ser nosso quartel-general, mas estabelecemos filiais em Kimberley, Freetown, Antuérpia, Paris e Londres. Além de Sir Sillitoe e de mim mesmo, tínhamos outros seis Agentes Principais. O senhor não pode publicar seus nomes, mas posso dizer-lhe que eles eram todos ingleses que tinham um passado de primeira classe no serviço secreto e de segurança, e eram todos homens bons.

"Era uma equipe feliz e dura. Nós nos chamávamos IDSO

— International Diamond Security Organization. Tínhamos uma jovem admirável que cuidava de nossos arquivos centrais e toda a ajuda material de que necessitávamos. De vez em quando, andá­vamos armados, pois teria sido uma loucura se não o fizéssemos, mas, na verdade, jamais tivemos de usá-las e, tal como correram as coisas, tampouco tivemos acidente algum, salvo casos ocasionais de febre. Tínhamos o nosso próprio código, e verificamos que o uso do sistema telegráfico normal era muito melhor do que se estabele­cêssemos o nosso próprio sistema de rádio.

 

               TRAFEGO MEDIO

               TRAFEGO LEVE

               CORTINA DE FERRO

               O Utf/ÃQ DÉ COMTRABAMPISTAS

               ® MINAS DE OIAMAA/TES

 

A Rede de Contrabando de Um Milhão de Quilates

"Contávamos muito com a ajuda do pessoal do serviço de se­gurança das próprias minas e, certamente, com os elementos das várias forças coloniais britânicas e estrangeiras, cuja assistência Sillitoe conseguira de antemão, mediante os bons ofícios de Whi­tehall. Na África do Sul, todas as modalidades de crime estão a car­go dos detetives do Departamento de Diamantes da Polícia da Áfri­ca do Sul. Também eles nos ajudaram tanto quanto possível. Mas o quadro, fora da África do Sul, era uma história completamente diferente e, após examinar de perto a situação, não me causou sur­presa o fato de Sir Ernest Oppenheimer haver resolvido criar seu próprio serviço secreto sob a direção de Sillitoe.

"Não tardou muito que nos estabelecêssemos e, a partir de fins de 1954, passamos a agir, ininterruptamente, até a primavera deste ano, em que demos por terminado nosso trabalho.

 

                                    A PRAIA DAS GEMAS

Durante a noite eu estive pensando em Blaize, perguntando a mim mesmo por que razão teria êle resolvido contar-me sua his­tória. Os espiões são treinados para conservar suas boca caladas, e raramente perdem esse hábito. Eis aí a razão por que as histórias verdadeiras de espiões são extremamente raras — e, quanto ao que me diz respeito, jamais vi em letra de fôrma uma história que parecesse inteiramente verdadeira. Mesmo no terreno da ficção, é muito escassa a boa literatura de espionagem. Há algo no assunto que conduz ao exagero, e a estrutura literária de "um começo, um meio e um final" não se presta a uma boa literatura de espionagem, a qual deveria ser cheia de situações indefinidas, de monotonia e de grande desespero. Talvez somente Somerset Maugham, Graham Greene e Eric Amber tenham apreendido a sordidez e o que há de tôrvo no Serviço Secreto.

Depois de uma boa noite de repouso, algo da tensão se dissi­para dos cantos da boca e dos olhos de Blaize. Timidamente, suge­riu êle que nos encontrássemos em algum outro lugar.

Gostaria de conhecer Tânger o mais possível, enquanto estou aqui.

Dirigimo-nos, pois, ao café principal — o Café de Paris. So­prava o vento do Levante, e o tempo estava frio, miserável. Sentamo-nos a um canto, portas a dentro, e pedimos expressos, dos quais sorvemos um gole e os esquecemos.

Indaguei por que me contava êle sua história, e se não have­ria qualquer objeção a isso, por medidas de segurança.

Blaize havia, evidentemente, pensado muito no assunto. Em poucas palavras, expôs-me, enfaticamente, suas razões.

Informação a respeito de diamantes não fazia parte do âmbito de Segredos Oficiais, não envolvendo, portanto, problema algum de segurança, salvo quanto ao que dizia respeito à segurança física de grande número de escroques. Na opinião de Blaize, era de interes­se público que se lançasse uma grande luz sobre o maior bando, talvez, de contraventores que agia em qualquer lugar do mundo. A propaganda era uma arma — que ainda não fora usada — contra essa gente e seus métodos. Ajudaria, certamente, não só a polícia sul-africana, como, também, outras forças policiais, conduzindo-as, possivelmente, a novas fontes de informação. E, finalmente, a operação IDSO fora uma boa coisa, e não havia razão por que, à semelhança de segredos muito maiores do tempo da guerra, as pessoas nela envolvidas não recebessem o seu quinhão de crédito por sua atuação.

A opinião de Blaize pareceu-me convincente. Êle não a defen­deu, mas, apenas a expôs, e, evidentemente, o fêz sem reservas.

Mudei de assunto e, partindo de nossa conversa anterior, perguntei-lhe que espécie de pessoas eram os contrabandistas.

— Os contrabandistas — respondeu Blaize — são gente de toda a espécie. O contrabandista mais perigoso é o alto funcionário europeu, perfeitamente respeitável, que trabalha na mina e que passa a trabalhar por conta própria. Não possui antecedentes cri­minais, mas, de repente, agrada-lhe a idéia de possuir cinqüenta mil libras no banco e, talvez, um Cadillac e uma amante em Paris. A gente pouco pode fazer com um homem assim. Até um certo dia, êle é honesto, mas, súbito, durante a noite, resolve, de repente, tornar-se um escroque.

"A coisa mais extraordinária, no negócio de diamantes, é que não haja um número maior ainda de contrabandos e roubos. Os prêmios são magníficos: a gente pode esconder no próprio corpo um número suficiente de diamantes para se tornar rico para o res­to da vida — e as penalidades, se a gente fôr apanhado, são ex­traordinariamente pequenas. Claro que, se a gente fôr apanhado, fica com o nome desmoralizado e é fichado na polícia, o que não é jamais uma boa idéia. Hoje em dia, um sujeito que é apanhado não é fichado apenas em seu próprio país ou país em que o seu crime é descoberto, mas em todos os arquivos da Interpol. Isso pode ser aborrecido, enquanto a gente não comprar uma nova identidade e um novo passaporte num lugar como este — ajuntou, fazendo um gesto em direção da janela.

"Há um lugar aí no Kasbah onde se podia comprar documen­tos falsos. Um passaporte britânico custava cerca de 50 libras; um americano, vinte. Os americanos — do tipo GI e de tripulantes de navios mercantes — encaram seus passaportes como constituin­do o último recurso de que podem valer-se para voltar para casa, quando tudo o mais já se foi. Um sujeito pode fazer com que um cirurgião lhe remodele o rosto, e tornar a entrar em circulação, mas mesmo um passaporte falso tem de ser renovado de tempos em tempos, e todo esse negócio é bastante arriscado. Mas, em toda a parte, há sempre gente se escondendo: da polícia, de suas esposas, ou de algum pecado da infância, que tais pessoas julgam mais im­portante do que realmente é. Quando a gente caminha pelas ruas de uma grande cidade, passa, provavelmente, de hora em hora, por algum fugitivo.

Blaize fêz um pausa. E ajuntou, pensativo:

— Penso, por exemplo, no que aconteceu a um homem cha­mado Tim Patterson. Eu o chamarei Tim Patterson porque, sob todos os aspectos, êle era um sujeito estimável, para quem a ten­tação, apenas, foi demasiado forte. Seu verdadeiro nome nada sig­nificaria para o senhor, e a última coisa que eu faria seria lançar o passado de um homem ao seu próprio rosto, a menos que êle fosse um patife de quatro costados. Tim Patterson, certamente, não era assim. Estará vivendo uma nova vida em alguma parte. Provavel­mente saindo-se bem em alguma coisa. Era um sujeito eficiente, e teve muito azar de ter sido apanhado.

— Que aconteceu?

— Patterson era um prospector — um prospector oficial — da De Beers. Devia ter entre vinte e cinco e trinta anos na época a que me refiro, que foi pouco antes de eu entrar em cena. A De Beers designou-o para a CDM — a Consolidated Diamond Mines do Sudoeste da África. Se a gente olhar um mapa da África do Sul e acompanhar a costa, numa distância de 200 milhas, depara com o Oranjemund — a desembocadura do Rio Orange. A partir desse ponto, litoral acima, encontra-se o mais fabuloso campo diaman­tífero do mundo. A CMD possui 180 milhas dessa costa, desde a desembocadura do Rio Orange até Diaz Point, junto ao pequeno ancoradouro chamado Luderitz. Atrás da costa, há milhares de mi­lhas quadradas de deserto árido, tendo atrás de si uma cordilheira — a mais inóspita paisagem que se possa imaginar.

"Não digo que as referidas praias sejam constituídas de só­lidos diamantes, mas são, sem dúvida, semeadas deles e, o que é mais, de maravilhosas gemas. Estas, são maiores junto da de­sembocadura do Rio Orange, e não há dúvida de que, através dos séculos, essas pedras venham sendo trazidas pelas águas de algum depósito imenso situado sob o mar. Algum dia, a menos que essa mina se esgote, algum sujeito inteligente, com alguma espécie de submarino ou escafandro, localizará tal depósito e, se êle puder descobrir um meio de realizar uma mineração submarina, chegará, com suas escavações, ao próprio "ninho" dos diamantes. O que, en­tão, concebivelmente acontecerá, é que os diamantes se reduzirão a cacos, convertendo-se apenas numa outra pedra semi-preciosa, como as safiras.

"Mesmo agora, a produção da CMD é fabulosa. Em 54, quan­do entrei na história, estavam extraindo dessa praia 55.000 qui­lates de diamantes por mês. No ano passado, chegaram a 80.000. Isto é mais do que a produção de todas as minas juntas, da De Beers na África do Sul. A CMD constitui uma operação gigantesca. A tarefa de peneiramento e lavagem do cascalho em vários pontos da costa, bem como o depósito de recuperação em Oranjemund, necessita de várias centenas de brancos especializados e de milha­res de negros.

"Esses negros são ovambos, levados para as praias diamantí­feras, através do deserto, por meio de ônibus ou de aviões fretados. Não existe outra maneira de se deixar o lugar senão por mar, pois que, do contrário, seria preciso caminhar, terra a dentro, através do deserto. E isso significaria morte. De modo que o senhor pode ver que, apesar de todas as amenidades proporcionadas pela De Beers à cidade mineira de Oranjemund, para seus funcionários e famílias, a gente que lá vive merece viva admiração.

"Bem, não muito depois de lá chegar, Charles Hallam — um dos principais geólogos da De Beers — e sua equipe de prospecto­res, a qual incluía o nosso amigo Tim Patterson, descobriram, na costa, minas de diamantes tão fabulosas, que resolveram extrair o "creme" delas, sem esperar que homens e equipamentos chegas­sem de Oranjemund. Um desses veios diamantíferos, num lugar chamado Chamaais Bay, ficou a cargo do jovem Patterson, que tinha um assistente europeu e uma pequena equipe de ovambos.

"Patterson ergueu suas tendas bem ao sul da Baía e, desde janeiro até agosto de 1952, ficou completamente isolado do resto do mundo, salvo quanto a uma viagem ocasional à relativamente confortável Oranjemund. E, quando seu assistente se encontrava empenhado em alguma outra tarefa, era êle o único responsável pela contagem, pesagem e armazenamento dos diamantes reco­lhidos ao largo da Praia de Chamaais. Semanalmente, Hallam, o geólogo, fazia-lhe uma visita e recolhia os diamantes encontrados durante a semana, levando-os para Oranjemund.

"Lá estava, pois, Tim Patterson, um jovem inglês com uma folha corrida de primeira classe, que se encontrava na África havia apenas dois anos. Todos gostavam dele, principalmente Hallam, que o tratava como a um filho. Mas Patterson estava sentado so­bre uma fortuna e, nas longas, solitárias noites passadas em sua tenda, êle espalhava sobre a sua cama de campanha os diamantes recolhidos durante o dia e punha-se a ouvir as focas a latir sobre a praia, sonhando com a riqueza.

"Ninguém sabe exatamente quando Patterson resolveu tra­balhar por conta própria, mas eu sei que, durante o meses que êle esteve em Chamaais, mais de um milhão de libras esterlinas de diamantes lhe passou pelas mãos, sendo que cerca de quarenta mil libras esterlinas desse valor lhe ficaram presas aos dedos.

"Não havia nada que impedisse Patterson de apoderar-se da quantidade de diamantes que lhe apetecesse, contanto que fizesse isso antes que Hallam aparecesse em seu Land-Rover para pesá-los e contá-los. Tudo o que êle tinha a fazer era colocar algumas ge­mas de lado quando seu assistente não estivesse olhando, e pensar numa maneira de levá-los para a civilização.

"Sabemos que Patterson pensou em três maneiras de retirar dali suas pedras. Quando chegasse o momento de suas férias, êle desceria até Oranjemund e seria lá submetido a uma revista com­pleta pela CDM, revista essa que, no caso da CDM, significava um exame completo de raio X, a que estavam sujeitos todos os seres humanos, animais e artigos que passassem através de suas altas cercas de arame.

"Patterson afastou de sua mente qualquer idéia de burlar os sistemas de controle, vencendo o raio X, embora pensasse em ten­tar subornar um radiologista. Mas desistiu de tal idéia. Era algo muito arriscado, e Patterson, que pertencia à espécie de operador solitário a que já me referi — esses que são os mais difíceis de se apanhar — queria evitar quaisquer obrigações com relação a quem quer que fosse. Queria, também, sair com todas as suas pedras, sem ter de pagar um quarto ou a metade de seu valor a um cúm­plice.

"Pensou, depois, em tomar de um Land-Rover e, sob pretexto de ir caçar, dirigi-lo através do deserto até um lugar não patrulha­do da fronteira, enterrando os diamantes na areia, junto de uma das balizas de demarcação. E, depois, vir apanhadas, quando já se encontrasse no mundo exterior.

"Mas isso, tampouco, daria certo. Significaria muitos dias de ausência de Chamaais Bay e, no deserto árido, as marcas das ro­das do Land-Rover o denunciariam durante anos.

"De modo que a coisa teria de ser feita pelo litoral — e essa foi a maneira por êle escolhida. Esconderia seus diamantes numa das praias, e tornaria à costa de avião ou de barco. Isso significaria pagar gordo preço a um piloto, mas, provavelmente, algumas cen­tenas de libras seriam o suficiente.

"Após haver tomado tal resolução, Patterson começou a jun­tar seu estoque secreto de diamantes numa lata de chá, que êle conservava enterrada na areia sob sua tenda e, no momento opor­tuno, a 28 de agosto de 1952, dirigiu-se a Oranjemund, onde lhe foram oferecidas várias festas de despedida, antes que êle passasse pelos exames de segurança e tomasse o avião para Johannesburg, a fim de gozar suas férias anuais, das quais êle não tinha intenção de voltar. Tim Patterson não teria mais de suportar a dura perma­nência numa tenda. Êle seria rico!

"No dia 25 de novembro, Patterson renunciou ao seu empre­go, escrevendo, cortêsmente, a seu amigo Hallam, que não tornaria à CDM. Hallam e seus amigos de Oranjemund ficaram tristes. To­dos eles gostavam de Patterson.

Blaize fêz uma pausa. Remexeu em seus papéis e apanhou uma folha dactilografada.

— Quanto a esta parte da história — disse êle — o melhor que tenho a fazer é ler minhas notas acerca deste caso. Fiz estas anotações segundo o que me disse Piet Willers, que era alto funcio­nário do Serviço de Segurança da CMD. Êle era um sujeito eficien­te e simpático. Embora isto nada tenha a ver com a história, Piet Willers conseguiu seu lugar por um golpe extraordinário de sorte. O antigo Chefe do Serviço de Segurança tinha sido morto por um avestruz. Estava êle dirigindo seu Land-Rover através do deserto, quando um bando de avestruzes foi tomado de pânico e investiu com o seu veículo. O pé de uma das aves entrou pela porta aberta, e sua unha do meio lhe dilacerou o peito, atíngindo-lhe o coração. — Blaize encolheu os ombros: — Mas eis aqui o que o seu sucessor, Piet Willers, me disse:

Num domingo, dia 21 de dezembro de 1952, às 2 e meia da tarde, o funcionário de Serviço de Segurança, du Raan, e o prospector Katze, fo­ram à minha casa, em Oranjemund, acompanhados de "T. S. Patterson", o ex-prospector, bem como de um homem chamado "Blake", que se dizia ser piloto, Katze, que era superintendente do Acampamento de Mineração sul, na Baía de Chamaais, informou-me que Patterson chegara, a pé, a seu acampamento, às dez e meia da manhã daquele mesmo dia, afirman­do que seu aeroplano fora obrigado a realizar uma aterragem forçada nas imediações da Baía dc Chamaais.

Pus-me a interrogar Blake, e êle me informou que êle e Patterson haviam partido de Luderitz, por avião, às seis e dez da manhã daquele dia. Seu aparelho, um Auster Autocrater, não tinha rádio, e êle precisara voar ao longo da costa a fim de manter sua direção e seus contatos com a terra. Meteu-se, mais tarde num nevoeiro, que se tornou tão baixo que se abateu sobre êle, para empregar suas próprias palavras, obrigando-o a aterrar

Essa história me deixou desconfiado, e perguntei a Blake por que razão não voara êle através do nevoeiro, ou, então, por que não se desvia­ra mais para o interior e não voara fora do nevoeiro, pois que Patterson deveria saber por experiência, tendo vivido na Baía de Chamaais, que o nevoeiro jamais se estendia mais do que três ou cinco milhas, terra a den­tro. Blake respondeu que estava voando a menos de quarenta pés e, assim, não poderia por entre os montes; tampouco poderia tentar subir, pois que não tinha idéia da altura do nevoeiro.

Interroguei, então, Katze acerca das condições do tempo em seu campo de mineração e ao longo do litoral, na direção da Baía de Chamaais. Informou-me que havia muito pouco nevoeiro sobre o mar, acrescentando que o piloto também lhe havia dito que fora obrigado a efetuar uma ater­ragem de emergência, devido a um desarranjo no motor.

Depois de haver advertido a Blake e a Patterson que iríamos investi­gar as circunstâncias de sua aterragem forçada, fiz com que ambos fossem removidos para o quartel da polícia local, em Oranjemund. Fiz também um relatório para Mr. Louwrens, o superintendente geral.

Blaize abanou tristemente a cabeça:

— Pobre sujeito! Êle estava metido numa entalada. A primei­ra coisa que Louwrens fêz foi mandar um tal Davis, um de seus me­cânicos de avião, examinar, em companhia de Willers, o aeroplano que havia caído. Viajaram de automóvel a noite toda e encontraram o aeroplano quando ia raiando o dia. Tinha caído a poucos metros do mar. Essa era a parte verídica da história de Patterson, mas as pegadas na areia contavam uma história diferente.

"Antes de mais nada, havia duas marcas claras de rodas, mostrando que o avião fizera uma aterragem perfeita, na direção do sudoeste para o norte. Os dois homens haviam descido do apa­relho, sendo que um deles usava sapatos de ginástica. Tinham ca­minhado juntos ao longo da praia e, depois, feito a volta e regres­sado juntos para o aeroplano, virando este último, de modo que o mesmo ficasse de frente para o sudoeste. Outros sinais de rodas revelavam, ainda, que o aeroplano correra pela praia para alçar vôo, mas que, justamente no momento em que se elevava do solo, a sua asa esquerda bateu numa pedra. Ambas as rodas, então, bateram também sobre pedras, e o aparelho, caiu cerca de cento e cinqüenta metros além, entre escolhos.

"O piloto deve ter feito um bom trabalho, pois ambos tiveram sorte de não morrer no acidente. Uma das asas, a parte inferior da cabine e a hélice ficaram danificadas, mas, infelizmente para a história de Patterson, o motor nada sofrera e, quando o experi­mentaram, poucos dias depois, com uma nova hélice, nada havia de anormal nele.

"Enquanto Patterson permanecia detido, o caso foi entregue ao Diamond Detetive Department, e um tal Sargento Cilliers foi en­carregado das investigações. Defrontou-se êle com o problema de que diamante algum fora encontrado quer em poder dos homens, quer no avião, sendo que o único crime de que poderiam eles ser acusados era o de violação de propriedade privada.

"Realizaram-se, porém, investigações em Luderitz, consta-tando-se que Patterson comprara um barco de pesca de quarenta pés e contratara os serviços de um piloto para o mesmo, o qual não tinha idéia quanto ao caráter de seu trabalho, mas que conhecia bem a costa e estava encarregado de conduzir Patterson à Cidade do Cabo — uma viagem deveras estranha, no caso em questão. Esse plano, evidentemente, constituía uma alternativa, abandona­da por Patterson a favor do aeroplano.

"Na véspera do Natal, Patterson e o piloto, diante de todas aquelas evidências, confessaram tudo. Tinham ido apanhar os diamantes de Patterson — e, quando o Sargento Cilliers conduziu Patterson, sob guarda, até à praia, Patterson mostrou-lhe a lata debaixo da pedra sob a qual êle a escondera, após o acidente do avião. Dentro dela, havia 1.400 diamantes de vários tamanhos, pe­sando 2.276 quilates. Aqueles diamantes valiam cerca de 40.000 libras esterlinas.

"Pobre Patterson! Êle e o piloto foram julgados em Luderitz. Foram julgados de acordo com a Lei de Proteção da Indústria de Diamantes, aprovada em 1939. Patterson foi condenado a nove meses de trabalhos forçados, e Blake a seis. Não foi muito. Por isso é que eu disse que tal "jogo" valia a pena. Patterson já se achava livre há mais de três anos. Pergunto a mim mesmo o que estará êle fazendo agora. Sinto, na verdade, um pouco de pena dele. O seu, foi um bom plano, que quase deu certo. Quanto a mim, não me agradaria nada ter ao alcance da mão milhões de libras esterlinas pertencentes a outrem.

— Diante de todos esses diamantes achados na praia, sur­preende-me que eles não tenham todas as semanas um caso de contrabando — comentei.

— Foi também o que pensei, ao chegar lá — disse Blaize. — Eles tinham acabado de esclarecer um outro caso, quando cheguei. Um caso muito menos importante, mas bastante típico. Gostaria de ouvi-lo?

— Gostaria.

— Havia um homem que trabalhava nos depósitos, em Oran-jemund. Era um sujeito respeitável, que chamarei de Graaf. Um dos pilares do clube de rugby local. Êle tinha um amigo chamado Andries Coetzee, que era um dos radiologistas do Corpo de Segu­rança. Certa tarde, em começos de 1954, de Graaf convidou Coet-zee e a esposa para um drink em sua casa. Nada havia de suspei­toso nisso. Nessas localidades mineiras, as pessoas vivem a trocar visitas entre si e, de mais a mais, os dois se conheciam bem.

"Depois das conversas habituais e de um ou dois drinks, de Graaf, de maneira um tanto misteriosa, convidou Coetzee a que o acompanhasse até seu quarto, pois queria falar-lhe de "negócios". Coetzee não podia imaginar de que espécie de "negócios" se tratava, mas acompanhou-o ao quarto e perguntou-lhe qual era o assunto. De Graaf respondeu, simplesmente:

— Bem, se você tem medo, diga logo.

"E, tendo Coetzee ficado perplexo, de Graaf, que devia ser uma espécie de sujeito teatral, além de um tanto amalucado, dirigiu-se ao guarda-roupa e apanhou um vidro de vaselina, erguendo-o sig­nificativamente diante dos olhos atônitos de Coetzee. Depois, sem proferir palavra, girou a tampa, enfiou o dedo na vaselina e tirou um grande diamante. Coetzee começou a compreender.

"A seguir, de Graaf retirou mais dois diamantes e expôs na palma da mão, as pedras lambusadas. E propôs a Coetzee levasse as pedras para fora da companhia. Seria fácil para Coetzee. Êle era um homem de confiança, acima de qualquer suspeita. De Graaf disse, ainda, que tinha um outro diamante escondido no jardim. Êle pagaria a Coetzee um quarto do valor dos quatro diamantes.

"Coetzee ficou perplexo ante tal proposta, principalmente por provir de Graaf, que êle até então considerara apenas como um su­jeito simpático e um bom jogador de rugby. Coetzee respondeu que sim — que faria o trabalho. Pedia apenas a de Graaf lhe dissesse o dia em que desejava que aquilo fosse feito. Depois, voltaram para o living-room, onde Mrs. Coetzee se encontrava.

"Na manhã seguinte, Coetzee dirigiu-se diretamente ao ge­rente geral e, a partir desse momento, todos os seus entendimentos com de Graaf foram controlados por Piet Willers, chefe do Depar­tamento de Segurança, bem como pelo Sargento Cilliers, do corpo de detetives.

"Nada aconteceu por espaço de quinze dias, quando de Graff teve uma outra conversa com Coetzee, perguntando-se se êle es­tava pronto a cumprir sua tarefa até o fim. Coetzee respondeu-lhe que se sentia inteiramente feliz com todo aquele negócio — o que, provavelmente, era verdade, pois que aquilo iria significar uma promoção para êle — e de Graaf, então, lhe entregou os quatro diamantes, pedindo que, entrementes, os guardasse. Verificou-se, depois, que as gemas pesavam 104 quilates e valiam mais de 6.000 libras esterlinas.

"Enquanto isso, o pessoal do departamento de segurança perguntava a si próprio de que maneira, com os diabos, de Graff, que trabalhava nos depósitos, podia ter deitado a mão aos diaman­tes. Evidentemente, êle tinha cúmplices, e Coetzee foi encarregado de procurar descobrir quem eram eles. Poucos dias mais tarde, de Graaf agarrou Coetzee e apresentou-lhe mais trinta e sete peque­nos diamantes, pesando vinte e seis quilates. Êle julgava que tinha Coetzee metido até o pescoço no negócio, e tratava-o como seu só­cio no crime.

"No decurso da conversação, Coetzee descobriu que de Gra-af tinha três europeus e dois ovambos trabalhando para êle. Um mês mais tarde, de Graaf entregou-lhe mais dezesseis diamantes, pesando trinta e sete quilates, e revelou-se o nome de seus cúm­plices.

"Os detetives da Diamond Corporation ficaram na expectati­va e, em fins de março, de Graaf apresentou seu pedido de renún­cia e foi ver Coetzee, a fim de combinar os arranjos finais, que eram simples. Logo depois que de Graaf fosse revistado e submetido a raio X, livre para partir para o mundo exterior, Coetzee, no Depar­tamento de Raio X, deveria passar-lhe o saquinho de diamantes — e de Graaf tomaria o ônibus e atravessaria o Rio Orange, rumo à liberdade.

"Tudo correu bem, e de Graaf dirigia-se, com uma fortuna no bolso, ao ônibus, quando os detetives o apanharam. O contraban­dista começou uma briga, mas acabou sendo dominado e levado para a cadeia. De Graaff foi condenado a três anos de trabalhos pesados, e seu cúmplice principal a dois anos. O resto do grupo — cerca de uma dúzia de indivíduos — foi despedido e entrou para a lista negra. Coetzee obteve sua promoção.

E Blaize concluiu:

— Um pequeno e sórdido caso típico, envolvendo um bando de escroques insignificantes e um homem honesto. Um caso não muito interessante, realmente, mas que lhe permitirá fazer idéia da vida nas comunidades diamantíferas — uma vida de drinks, rugby e "bons sujeitos", um dos quais tinha alguma coisa a mais em seu armário de remédios, no pequeno e bem arranjado bangalô em que morava, além de ataduras e linimentos.

 

                              OS DETETIVES DOS DIAMANTES

No dia seguinte, seguimos a pé, pelo Kasbah, até o Palácio do Sultão, onde fomos recebidos por um guia extremamente jo­vem e nos vimos forçados a exclamar, a intervalos, durante meia hora, "Muito interessante!", diante de tudo que êle nos mostrava. Ficamos encantados quando, de acordo com a tradição, o guia nos ofereceu sua irmã ao fim da visita, mas nós, muito castamente, nos retiramos para um café, situado sobre um edifício, sobranceiro à bela baía de Tânger, em forma de crescente — e ordenamos chá com hortelã.

Eu já começava a conhecer Blaize. Há muitos tipos de agente secreto, desde o desmazelado "investigador particular", saturado de álcool e de nicotina, que espiona esposas, maridos e amantes, até os profissionais de primeira categoria. Os artistas mais hábeis, nessa profissão, são homens como Alexander Foote, que trabalhou durante toda a guerra para os russos e se tornou o seu homem principal na Suíça. Foote, além de especialista em transmissões radiofônicas, era um homem meticuloso, dedicado, que trabalhava por uma causa e não por dinheiro. Voltou para a Inglaterra, depois da guerra, e pôs-se a trabalhar, quietamente, para o Ministério da Agricultura e da Pesca. Morreu no ano passado, segundo ouvi dizer.

Existem, também, os espiões pitorescos como Sorge, o bri­lhante espião alemão, amante do luxo, que trabalhava para a Rús­sia em Tóquio, e moças como Christine Granville, que foi assassi­nada, por um comissário de bordo alucinado de amor, num hotel de Kensington, em março de 1952, após uma fabulosa carreira de espionagem em tempo de guerra, pelo que conquistou a Medalha George.

Mas Blaize, como todos os melhores agentes ingleses, não pertencia a nenhuma dessas categorias. Possuía senso comum, paixão pela exatidão e um conhecimento dos homens, e de como usá-los, que o elevaria, por exemplo, aos mais altos cargos do servi­ço público. Mas tinha, também, gosto pela aventura e uma veia ro­mântica que, no serviço público, teria de ser sublimada, levando-o a dedicar-se a escalar montanhas ou ao teatro amador.

Aquela manhã, enquanto observávamos o vento do Levante tocar os cavalos brancos para a Baía de Tânger, contou-me êle os pormenores do caso "Desmond", e penso que suas observações preliminares ilustram bem as qualidades e o senso comum de tal homem.

— Receio não lhe estar fornecendo um quadro muito níti­do de minha vida diária em busca de contrabandistas. Decorrido algum tempo, isso se tornou um tanto monótono, uma exaustiva sucessão de viagens aéreas a todas as minas espalhadas por toda a África, tornando-me agradável aos figurões locais; conservando minha boca fechada e procurando fazer com que parecesse que mi­nhas sugestões para melhorar o serviço de segurança tivessem sido feitas pelo homem com quem eu estivesse falando, e não por mim.

"O senhor bem pode imaginar que a IDSO não era muito po­pular. Éramos um exército particular e vínhamos de Londres. Por outro lado, tínhamos carta branca absoluta do próprio Sir Ernest Oppenheimer, e seria sensato que colaborassem conosco — ou, ao menos, que fingissem fazê-lo.

"Aquilo era assim como durante a guerra, em que exércitos privados surgiam em campo e agiam à vontade, até que fossem de­bandados ou engolidos pelo serviço secreto britânico, que julgava devia ter monopólio em tais assuntos. O senhor decerto se lembra como era, principalmente no começo, quando dois ou três grupos isolados arquitetavam complots destinados a fazer voar pelos ares, por exemplo, os Portões de Ferro ou o Danúbio. E, depois, mais tarde, na Iugoslávia, onde grupos rivais depunham as armas em favor de Mihailovic e dos vermelhos. Eles criaram, então, o SOE, na tentativa de recolocar as coisas em seus lugares, e o SOE viu que estava contra o Serviço Secreto e o Serviço de Informações Militares da Marinha, o OSS, o MEW, o G2 e todos os outros grupos.

"Pois se até ainda recentemente tivemos quase que a mesma espécie de coisa com a desastrada façanha de um homem-rã de Grabb! Aquele foi um "assunto privado" que devia ter sido trata­do — se é que devia ser tratado — pela Marinha, que sabe infini­tamente mais a respeito de homens-rãs do que qualquer Serviço Secreto. O senhor certamente se lembra de como aquilo explodiu na cara de todo o mundo.

"Bem, a IDSO deveria parecer mais ou menos a mesma coisa aos olhos do pessoal regular do serviço de segurança da De Beers e do Departamento de Detetives da Diamond, em Kimberley — e a coisa "esquentou" em toda a parte. Grande parte de meu trabalho consistia em agir com tacto e dizer "Primeiro você, Alphonse" a fun­cionários de toda a África que se julgavam importantes.

"E, naturalmente, as linhas se cruzavam, às vezes, de ma­neira nada agradável. Quase que todo o meu trabalho consistia em lidar com agentes que trabalhavam para os dois lados — desco­brir algum canal de contrabando subterrâneo e colocar um espião numa de suas extremidades, na esperança de que eles acabassem por chegar ao topo. Algo assim como aquele livro que o senhor es­creveu o ano passado — sorriu Blaize — com a diferença de que as moças não são assim tão bonitas em torno das localidades dia­mantíferas. Fosse lá como fosse, logo no começo um desses agen­tes dúplices, muito tagarela, acabou por meter-se em complicações sumamente idiotas.

"Essas complicações envolviam um rapaz inteligente e bem parecido, chamado "Desmond". Ele, agora, anda nalinha. Esse foi o nome, em código, que lhe demos na ocasião, e terei de usar nomes fictícios ao referir-me a alguns dos outros sujeitos envolvidos no caso, pois que nem todos eles foram ainda apanhados.

"Esse tal sujeito provinha de boa família da África do Sul, mas saiu dos trilhos e, em 1951, foi condenado a dois anos de pri­são por tentativa de fraude. Na prisão, um patife simpático, chama­do Sammy Silberstein, afeiçoou-se por êle. Sammy é um conhecido judeu de Johannesburg. Está cumprindo sentença por posse ilegal de diamantes.

"Bem, êle conseguiu insinuar-se junto a Desmond e disse-lhe que havia uma fortuna em pedras na IDB. Disse que, havia vinte anos, vinha comprando diamantes, mas que já o haviam apanhado tantas vezes que, se cometesse um outro erro, poderia facilmente ser condenado por toda a vida. Disse a Desmond que Desmond era o homem exato para agir como seu testa de ferro. Tinha boa apa­rência, boas maneiras e amigos influentes.

"Para resumir uma longa história, quando Desmond foi posto em liberdade, em outubro de 1953, ambos já eram amigos íntimos, e Desmond concordou em procurar na Europa um mercado seguro para as pedras de Sammy. Sammy informou-lhe que já havia uma partida de diamantes à espera de comprador, e que ela valia qua­renta mil libras esterlinas. Um fornecimento regular de diamantes já estava assegurado.

"Desmond não tinha intenção de fazer o que Sammy deseja­va. Ele decidira entrar na linha. Após cumprir sua sentença de pri­são, voou para a Inglaterra, juntou-se à esposa e passou os meses seguintes à procura de trabalho. Então, justamente quando havia encontrado um lugar de vendedor, leu nos jornais que Sillitoe havia sido contratado pela De Beers para combater o bando de contra­bandistas.

"Desmond interessou-se pelo assunto. Viu nisso uma opor­tunidade de redimir seu passado e, talvez, obter uma recomenda­ção de Sillitoe, o que talvez lhe permitisse arranjar um emprego melhor que o de caixeiro-viajante. Conversou com sua esposa a respeito — a qual, diga-se de passagem, devia ser uma boa moça. Ela ficara do lado de Desmond durante todas suas complicações. Finalmente, Desmond escreveu a Sillitoe e foi vê-lo, contando-lhe toda a sua história.

"Sillitoe gostou do aspecto de Desmond e acreditou nele, mas a IDSO estava apenas iniciando suas atividades, e todos nós agí­amos da melhor maneira possível quanto à polícia sul-africana, de modo que Sillitoe resolveu entregar o caso ao Departamento de Detetive da Diamond Corporation, em Kimberley.

"Sillitoe avistou-se com o Brigadeiro Rademeyer, sub-chefe do Comissário de Polícia da África do Sul, e êle concordou em valer­se dos serviços de Desmond, contanto que a IDSO pagasse todas as despesas de Desmond, e desse a Desmond parte do valor de quais­quer diamantes que pudessem ser recuperados como resultado da operação.

Blaize sorriu:

— Termos bastante duros, mas, como eu disse, não quería­mos, àquela altura das atividades da IDSO, pisar nos calos de nin­guém. Desmond procurou-me e eu cuidei dele, a fim de convertê-lo em agente policial, agindo sob as instruções do Capitão van der Westhuisen, que era chefe do Departamento de Detetives da Dia­mond, em Kimberley.

"Bem, a polícia ordenou a Desmond entrasse em contacto com Sammy Silberstein, que então já havia deixado a prisão. Des­mond não teve dificuldade em fazê-lo. Sammy era dono de uma ga­rage em Kimberley, e ficou encantado de ver novamente Desmond. A única dificuldade era que os amigos de Sammy achavam que êle falava demais — o que era, certamente, verdade — e êle havia sido destituído da chefia do seu velho bando da IDB. Outro homem assumira seu lugar. Era um sujeito astuto e muito cauteloso, a quem chamarei "X". E X era muito diferente de Sammy Silberstein. Recusou imediatamente ter qualquer espécie de entendimento com Desmond, apesar de Desmond ter-lhe sido apresentado pessoal­mente por Sammy, dando ainda ordens estritas a Sammy para que este não fizesse qualquer negócio com Desmond sem que tivesse antes sua aprovação. Desmond era um camarada de rija tempera. Reconheceu em X um homem muito perigoso, mas perseverou e, fi­nalmente, após Desmond haver passado várias semanas em torno da garagem, fazendo amizade com o resto do bando, X amoleceu e disse que faria uma transação com Desmond, se os preços fossem satisfatórios.

"A história de Desmond era a de que êle tinha o seu mer­cado em Londres, e que se encontrava agora na África em busca de pedra. X disse-lhe, vagamente, que conhecia alguém que talvez soubesse onde havia uma "partida" de excelentes Pedras Brancas e gemas do Cabo, mas que, antes que alguém se aproximasse ainda mais dessa tal "partida", êle desejava saber qual o preço que os chefes de Desmond pagariam.

"Desmond deu-se ao trabalho de telegrafar para Londres e, na ocasião devida, entregou a X um telegrama em que se lia:

Pedras brancas superiores e brancas de primeira qualidade entre 17 e 10 xelins por quilate por pedra de um quilate até 60 libras por quilate por pedras cinco quilates; 90 libras por quilate pedras dez quilates e 120 libras por quilate pedras catorze quilates.

Pedras Cabo entre 10 libras esterlinas por um quilate até 14 libras pedras dez quilates.

"X disse que estava satisfeito, e Desmond teve a impressão de que tinha X no anzol.

"Mas tal não ocorreu. O Departamento de Detetives da Dia­mond disse que uma outra testemunha teria de estar presente quando o negócio fosse feito e a transação se efetivasse. Pensaram numa artimanha que deveria ter dado resultado, mas que não deu: meter um policial no negócio. Como o senhor percebe, Desmond jamais fingira saber coisa alguma acerca de diamantes, e X sabia que êle não tinha idéia alguma a respeito do valor das pedras. Ao mesmo tempo, evidentemente, um dos chefes de Desmond teria de estar presente, quando as pedras fossem entregues e o dinheiro pago, se ambas as partes estivessem de acordo quanto à avaliação. Esse seria um trabalho de especialista.

"De modo que Desmond recebeu instruções para dizer a X que o seu chefe estava tão interessado no negócio, que viria de avião, de Londres, a fim de ultimar a transação.

"De uma maneira típica, as suspeitas de X foram imediata­mente despertadas. Como todos os escroques realmente sabidos, embora êle nada pudesse ver, sentiu o cheiro de uma armadilha.

"Desmond, todavia, conseguiu enganá-lo, dissipando-lhe a desconfiança. Alguém teria de concordar quanto ao valor das pe­dras. Sua gente não iria comprar diamante algum, sem que os vis­se. De qualquer modo, o negócio dependia de confiança mútua, e se X realmente queria um mercado para seus diamantes, aquela não era maneira de agir.

"X, porém, manteve-se inflexível, e houve um período de im­passe. Isso proporcionou um certo tempo para que os detetives da Diamond tivessem uma idéia quanto ao homem que deveria ser apresentado como sendo o chefe de Desmond e especialista em avaliação de diamantes. Encontraram um alto funcionário da polí­cia sul-africana, de origem inglesa — um pássaro bastante raro na­quela altura — que tinha apenas um ligeiro sotaque sul-africano, e então me procuraram e pediram-me para arranjar-lhe um curso de adestramento em avaliação de pedras na Diamond Corporation. Pediram também à IDSO que pagasse as despesas desse homem em Londres, enquanto êle estava aprendendo a respeito de dia­mantes.

"Quisemos, novamente, demonstrar nosso espírito de coope­ração, e concordamos — e o tal homem, que jamais havíamos visto, mas que conhecíamos como "Charlie", foi para Londres e, mais ou menos em novembro, já havia êle assimilado tudo o que podia acer­ca de diamantes. Desmond procurou de novo X e conseguiu fazer com que êle novamente se interessasse pelo negócio, concordando, finalmente, em que se avistaria com o chefe de Desmond em Kim­berley.

"Tive a precaução de ir a Johannesburg dar uma olhada no "chefe" de Desmond, quando êle desceu do avião, vindo de Lon­dres, e fiquei horrorizado ao verificar que êle fora inteiramente mal escolhido para representar o papel de um poderoso negociante de diamantes, possuidor de fundos quase ilimitados. Disse aos de­tetives da Diamond que não se podia esperar dc modo algum que aquele seu homem enganasse a X, a menos que sua categoria fosse rebaixada. Eles concordaram, e Desmond recebeu instruções para dizer a X que o seu chefe ficara doente e que enviara em seu lugar um avaliador de confiança.

"Não sei como X reagiu ante essa nova mudança de plano, mas isso, positivamente, não deve ter aumentado sua confiança em Desmond, e eu estava, em meu íntimo, convencido de que toda aquela operação iria constituir um completo malogro.

"A situação, porém, estava fora de nossas mãos, e a máquina caminhava lentamente em direção do desastre.

"O "avaliador de confiança", com suas grandes botas de po­licial a aparecer sob a barra das calças, encontrou Desmond em Kimberley, e eu depositei 50.000 libras esterlinas no Standard Bank, a fim de que, se tudo corresse bem, o pacote de pedras pu­desse ser pago.

"Eles se encontraram — os dois espiões da polícia e o formi­dável X. X jogou suas cartas estupendamente. Não houve referência alguma a qualquer pacote de diamantes. Ao invés disso, X arras­tou o "avaliador de confiança" a uma conversa sumamente técnica acerca do valor de diamantes. Charlie sobreviveu bastante bem à primeira parte da conversa, mas, depois, permitiu que X o arras­tasse, cada vez mais profundamente, a detalhes sumamente técni­cos, e, então, fracassou fragorosamente. Quando sua ignorância, finalmente, se revelou, X deu-lhe jovialmente umas palmadinhas nas costas, dizendo--lhe que êle era um bom sujeito, mas nada sa­bia acerca de diamantes — e, dito isso, despediu-se, desejando-lhe uma boa tarde. E foi só.

"Mas nem tudo estava necessariamente perdido. Como eu disse, Desmond era um sujeito de rija tempera, e estava resolvido a apanhar em sua rede o maior número possível de membros da quadrilha, mesmo que não pudesse apanhar o membro principal da mesma, e voltou, então, sua atenção para Sammy Silberstein e para a arraia miúda.

"Sem consultar X, Sammy arranjou um encontro em sua ga­ragem, encontro esse para o qual, disse êle a Desmond, convidaria uma porção de vendedores que tinham excelentes ofertas a fazer. Sammy sentiu-se atraído pelas 50.000 libras que Desmond lhe dis­se estavam à espera, no Standard Bank, para a compra das ge­mas, e não lhe agradava nada a idéia de o "avaliador de confiança" encerrar sua conta no banco e tornar a Londres sem gastar nada desse dinheiro.

"Esse seria o momento para que os detetives da Diamond in­vadissem a garagem. Mas eles nada fizeram. De qualquer modo, o Destino estava cansado do jogo de Desmond, e resolvera fazer com que êle enfardasse suas coisas.

"Quando Desmond e seu "avaliador' chegaram à garagem, Charlie reconheceu entre os convidados um tal "Johnny", que, na prisão, fora companheiro de cela de Desmond. Infelizmente, Johnny era um homem que Charlie fizera com que fosse sentencia­do a quatro anos de prisão por roubo.

"Desmond e seu "avaliador" afastaram-se e conferenciaram entre si. Resolveram que a discrição constituia a melhor parte da coragem. Johnny, certamente, daria uma sova no "avaliador" — e, provavelmente, em ambos — mas, de qualquer modo, a essa altu­ra, Desmond já se sentia mais do que farto de tudo aquilo.

"Não obstante, resolveu o caso brilhantemente, deixando tudo muito bem preparado para que a polícia continuasse com o jogo, se assim o desejasse. Dirigiu-se a Johannesburg, telefonou a Sammy e disse-lhe que êle fora detido e revistado ao encaminhar-se para a garagem, tendo tido sorte de haver conseguido livrar-se daquilo. Acusou Sammy de ser um informante da polícia, dizendo-lhe que nada mais queria com êle. Sammy jurou que era o melhor amigo de Desmond, e pediu-lhe para ficar em Johannesburg, a fim de que êle pudesse provar sua inocência, trazendo-lhe um grande pacote de pedras. Desmond respondeu-lhe que não queria mais correr riscos, e desligou abruptamente.

"Eis aí como foi a coisa — suspirou Blaize. — Encontrei-me com Desmond aquela noite e êle me contou toda a história, partin­do, no dia seguinte, para Londres. Pagamos-lhe uma remuneração por seus serviços, e espero que êle, hoje, tenha um bom emprego. Êle o merece.

"Afinal de contas, a operação não constituiu uma perda total. Desmond recolhera muitas informações para a polícia e, mais tar­de, esta apanhou Johnny e outro amigo de Sammy na armadilha. Desmond conseguira os nomes de uma porção de homens das mi­nas que estava roubando — e essa gente foi despedida e metida na lista negra. De modo que os detetives da Diamond tinham grandes motivos para sentir-se orgulhosos.

"Isso, porém, não nos impressionou. X estava ainda em liber­dade, e era êle o homem que realmente nos interessava.

Contudo, aprendemos uma coisa: que precisávamos, de al­gum modo, estabelecer uma cooperação mais estreita com o Depar­tamento de Detetives de Diamantes.

"Naturalmente, o senhor bem pode perceber que o grande erro residia nesse ponto. Os detetives de diamante é que tinham insistido em que um de seus próprios homens servisse de testemu­nha, e não um avaliador verdadeiro, que a Diamond Corporation teria prazer em trazer, por via aérea, de Londres.

"Se tivéssemos trabalhado mais estreitamente ligados, pode­ríamos ter dado, juntos, um verdadeiro golpe. Tal como eram as coisas, havia essa espécie de luta pela supremacia a que já me referi. O resultado disso foi que tanto eles como nós fizemos papel de tolos.

Indaguei de Blaize se as relações entre a polícia da África do Sul e a IDSO haviam melhorado, depois de haver-se dissipado a desconfiança inicial.

— Sob certos aspectos, sim — respondeu Blaize. — O Coronel Grobeler, da Divisão de Johannesburg, não poderia ter sido um homem mais agradável com quem se lidar. Desconfio que a dificul­dade toda está em Pretória. Certa vez, um Capitão aposentado da CID, que estava em situação de saber o que se passava, disse-me que se desconfiava, realmente, fôssemos agentes do Governo britâ­nico e que nossa missão principal talvez consistisse em espionar a Polícia da África do Sul. Segundo esse sujeito da CID, tinham sido abertos prontuários para cada membro da IDSO em Pretória, e era provável que nós próprios estivéssemos sendo vigiados!

"Não, não posso dizer que nossas relações fossem um leito de rosas, mesmo no fim, mas tratava-se, principalmente, de uma questão de indivíduos. Apenas para dar-lhe um exemplo, sempre que havia uma vaga no corpo de segurança de uma das minas, a De Beers aceitava automaticamente o costume de que o lugar devia ser preenchido por um membro aposentado da Polícia sul-africana, contanto, naturalmente, que o homem tivesse altas recomenda­ções.

"Uma dessas ocasiões, Pretória enviou-lhes um verdadeiro "abacaxi". À primeira vista, parecia ser um sujeito por demais jac­tancioso e dogmático para que pudesse ser um bom agente do ser­viço de segurança. Nós, porém, não podíamos ofender Pretória e, assim, decidimos dar-lhe uma oportunidade. Mandei-o para Tan­ganika, a fim de lá trabalhar diretamente, sob as ordens da CID, numa tarefa a curto prazo, fazendo investigações acerca de um bando de contrabandistas cujas pegadas estávamos seguindo. O resultado disso foi uma calamidade. O homem escolhido especial­mente por Pretória decepcionou logo a Polícia de Tanganika, reve­lando logo sua tarefa secreta ao próprio grupo da IDB em cujo meio êle deveria penetrar; depois, afastou-se de cena e empregou nossos fundos em apostas mal sucedidas, com bookmakers locais.

"Deixou atrás de si um rastro de dívidas e de cheques sem fundos e, quando a coisa ficou muito quente para êle, tornou a Johannesbug e fingiu-se de doente. Fui interrogá-lo e êle teve, pra­ticamente, um ataque de nervos, acabando por gritar: "Seu inglês porco! Que direito tem você, afinal de contas, de estar neste País?"

Blaize sorriu com azedume:

— Percebe o que quero dizer? Mas êle não era um caso típi­co. Fizemos muitos amigos na União Sul-Africana e, de qualquer modo, nosso trabalho era com a Polícia britânica, em lugares tais como Sierra Leone, Rodésia, Bechuanaland e Tanganika. A gente não encontra melhores policiais em parte alguma do mundo.

 

                               A CASA SEGURA

O mundo dos espiões é tão cheio de jargão quanto o das com­petições automobilísticas ou o da indústria cinematográfica, mas, quando Blaize empregou um dos termos de sua profissão, êle o fêz com ironia, fazendo com que a frase soasse como se estivesse entre aspas. Quase todos os agentes secretos são um tanto esnobes a respeito de suas atividades. Gostam de usar apelidos ou palavras de gíria ao referir-se aos que foram excluídos, aos que são ele­mentos de ligação dos contrabandistas, aos que são indivíduos já muito notórios, aos falsos agentes, aos agentes conscientes ou aos que não sabem que o são, aos que já estão fora do jogo, e assim por diante. Mas Blaize encarava com saudável ceticismo a vida que então estava vivendo. Estava metido naquilo havia quinze anos, e achava que muitos de seus concidadãos eram "impostores" e mui­tos de seus produtos pura "engabelação" — uma de suas expres­sões prediletas.

Em suas conversas comigo, Blaize jamais tocou numa nota que soasse falso. Não havia gestos heróicos; os casos bem sucedi­dos eram golpes de sorte, e a palavra "perigo" jamais foi proferida. Ele discutia seus casos clinicamente, e guando eu, ao convertê-los em prosa, realçava um fato ou uma situação, êle, delicada mas fir­memente, me corrigia com um suave "Não foi bem assim".

Minha dificuldade consistia em fazer com que êle compreen­desse que aquilo que, para êle, eram coisas corriqueiras, para mim eram coisas estranhas e excitantes. Não fácil revestir de carne o esqueleto de sua história, e certos detalhes de segundo plano que consegui obter foram arrancados dele durante nossos interminá­veis passeios pelo Kasbah, nossas caminhadas pelo campo, ao re­dor de Tânger, e diante de drinks, em bares e night-clubs.

Abordamos, de certo modo, o assunto referente à gíria em­pregada pelos espiões, depois de uma partida de golfe a que nos entregamos num clube que tinha o imponente nome de Diplomatic Country Club. Blaize me havia dito que seu handicap1 era nove. O meu era também nove, mas Blaize era um "nove" muito melhor do que eu e, com efeito, não tive sequer a vantagem de um buraco jogando com êle. Sua bola era lançada sempre para a parte lisa do campo, enquanto que a minha caía sempre em terreno impenetrá­vel, coruscante de cascalho refulgente e de asfódelos, que delimi­tava os cursos de água, secos, entre os quais o campo de golfe fora construído.

Depois do jogo, quando nos sentamos fora da sede deserta do clube, a sorver um gim com água tônica, uma observação casual de minha parte fêz com que Blaize se pusesse a falar da "casa segura" da IDSO.

— O primeiro princípio de Clausewitz quanto à guerra — dis­se êle — é ter a gente uma base segura de modo que, quando eu e o resto da equipe chegamos a Johannesburg, estabelecemos aquilo que, na gíria da espionagem, se chama uma "casa segura", bem distante de nosso centro de operações. Essa "casa" era um aparta­mento situado numa rua distante de Johannesburg, onde pudés­semos encontrar nossos "contactos", principalmente os dúbios e perigosos. Informamos ao Departamento de Detetives da Diamond que dispúnhamos desse tal apartamento, e que eles também po­diam usá-lo, se o desejassem. Eles pareceram ficar muito gratos, pois, por estranho que pareça, não dispunham de lugar algum como aquele — embora eu não creia que eles o tenham jamais usado. Não era bem um apartamento. Era apenas um living-room e uma espécie de alcova separada por uma cortina, com uma porta que dava para um lavatório. O único sinal de conforto era um apa­rador com bebidas.

— E havia algum aparelhamento para registro de som?

 

Jogo com desvantagem imposta ao contendor ou contendo-res mais fortes. — N. do T.

 

— Não. Eu tinha algo melhor do que isso. Um aparelho cha­mado Minifon. A gente pode comprá-lo no mercado livre, mas foi, na verdade, a Gestapo que o inventou. A gente carrega o gravador no bolso do colete ou debaixo da axila, e os fios descem pelo braço da gente até o captador de som, que, na aparência, não é senão um relógio de pulso. É uma dessas engenhocas que, na realidade, dão resultado. Esse aparelho, de tempos em tempos, nos era muito útil.

"De maneira bastante singular, uma das primeiras pessoas que estiveram nessa casa foi William Percival Radley — "Tony" Ra-dley. Lembra-se desse nome? Um ano mais tarde, êle depôs contra o réu no roubo de jóias no valor de 200.000 libras esterlinas, ocor­rido em casa de Harry Oppenheimer. Tínhamos sido informados por Londres que um homem conhecido por esse nome deveria che­gar, segundo se acreditava, a Nairobi. Londres sugeria que talvez valesse a pena não o perder de vista. Tivemos um entendimento verbal a respeito com a Polícia de Quênia, mas, depois, lemos num jornal de Johannesburg que um tal Tony Radley estava dirigindo um salão de danças, chamado "Palais", em Commissioner Street.

"Éramos ainda muito cuidadosos quanto à Polícia sul-africa-na, de modo que, de acordo com a praxe, informamos ao Departa­mento de Detetives da Diamond que conhecíamos algo a respeito de Radley, e que achávamos que êle talvez pudesse ser um bom "contacto" para a IDSO. A Polícia não manifestou reação alguma ante a nossa insinuação, de modo que nos pusemos em ação por nossa própria conta e entramos em contato com Radley em meio aos aparelhos automáticos de música e às taxi-girls do "Palais". Mais tarde, Radley avistou-se conosco na casa secreta, parecendo bastante disposto a ajudar-nos, mas, na realidade, êle apenas pos­suía informações vagas acerca da IDB, as quais êle procurava fazer com que parecessem importantes, com a adulação típica dessa es­pécie de homem.

"Em princípios de 1955, conseguimos arrancar dele tudo o que nos foi possível — e descartamo-nos dele. Quando êle de novo apareceu em cena, foi por ocasião do roubo Oppenheimer.

"Por acaso, o outro defensor, no caso Oppenheimer, também surgiu mais ou menos nessa época. Este, era Donald Miles, ex­policial na Palestina e ex-membro do Serviço de Segurança Britâ­nico, que, mais tarde, deveria ser acusado juntamente com Radley. De certo modo, sinto-me um tanto responsável em complicação em que êle iria meter-se. Êle veio ver-me em julho de 1955, à pro­cura de um emprego como funcionário do serviço de segurança de uma mina. Tinha uma boa folha de serviços de guerra e um monte de cartas de recomendação dos lugares em que trabalhara antes. Possuía exatamente as qualificações de que necessitávamos, mas, infelizmente, não possuíamos, no momento, vaga alguma, e eu tive de recusá-lo. Seis meses mais tarde, foi êle acusado de ligação com o roubo. Alegra-me dizer que foi considerado inocente.

"Mas, voltando à "casa segura". Para começar, tínhamos um fluxo regular de visitantes que nos eram encaminhados por várias fontes. Em geral, apareciam à noite — toda a espécie de pessoas, quase todas elas falsas, e a maioria delas necessitada de dinheiro. Às vezes, possuíam informações de pouco valor, pelas quais lhes pagávamos uma ou duas libras. Outras vezes, desejavam ajustar contas com o chefe de uma das minas ou com um inimigo parti­cular e, muito raramente, havia uma pepita de ouro enterrada na imundície. Um desses visitantes apareceu em fevereiro de 1955.

"Aconteceu da seguinte maneira. Em setembro de 1954, um certo tipo, a que chamarei Kutze, fora detido em Beit Bridge, que é o posto fronteiriço situado no Limpopo, entre a Rodésia do Sul e a União. No bolso do colete de Kutze havia um magnífico diamante bruto de mais de oito quilates e, em novembro, êle foi submetido a julgamento por posse ilegal de pedra preciosa, sendo-lhe estipula­da uma multa de 200 libras esterlinas. A Diamond Trading Com­pany comprou a pedra. Seus especialistas concordaram em que se tratava de uma pedra aluvial e que provinha da África Ocidental, tendo sido, provavelmente, negociada através da África antes de ser vendida a Kutze na Rodésia. O fato de haver sido condenado representava para êle um golpe muito mais sério do que a multa ou mesmo a perda de sua pedra. Significava que êle era agora um homem marcado na Rodésia, que era o seu campo de operação, e êle queixou-se amargamente de sua sorte a um seu velho amigo chamado Karl, com quem êle antes estivera associado.

"Ora, aconteceu que Karl havia sido antes um informante da polícia em Kimberley e não se esquecera das gordas recompensas que se podiam obter mediante denúncias bem sucedidas. Kutze deu-lhe muitas informações acerca da IBD na Rodésia e, em feve­reiro de 1955, Karl foi ter uma conversa com o Chefe de Detetives Grobbelaar, diretor do escritório de detetives da Diamond em Jo­hannesburg. Grobbelaar era um policial de primeira classe e, ao ouvir a história de Karl, pensou logo que Karl poderia ir mais longe com a IDSO do que com a polícia sul-africana, e telefonou-me su­gerindo que deveríamos avistar-nos com Karl na "casa segura".

"Quem conhece os naturais da África do Sul, sabe que eles são as pessoas que mais sofrem, no mundo, de diarréia verbal. Falam em torrentes e, quanto mais falam, tanto mais inebriados ficam com sua própria eloqüência. Quando Karl se sentou, com um copo na mão, na "casa segura", e começou a falar, vi-me sufocado por uma catarata incessante de palavras, das quais eu só conse­guia compreender uma em cada dez. A pouco e pouco, batendo na mesa para que êle se calasse, e disparando contra êle perguntas que requeriam como resposta apenas um "sim" ou um "não", co­mecei a perceber aquele confuso quebra-cabeça oral e, no fim, o esforço valeu a pena.

"Segundo Karl, o diamante que Kutze perdeu em Beit Bridge não passava de uma gota de água no oceano. O Copperbelt estava aninhado de diamantes contrabandeados da IDB. Eram trazidos da Costa do Ouro e da Costa do Marfim, provenientes da mina Williamson, em Tanganika, bem como do Congo Belga, sendo que havia lá um fluxo incessante de europeus vindos da União para comprar essas pedras dos contrabandistas nativos e obter lucros fabulosos, quando as levavam para os lapidadores de Johannes­burg. Karl propôs fossem usados os nomes e os contactos que lhe foram revelados por Kutze, para que a IDSO pudesse penetrar no bando.

"Eu fiquei com Karl, tendo em vista fazer com que o meu próprio "agente duplo" agisse quase que de acordo com os próprios métodos que haviam fracassado no caso de Desmond. Tive de aco­modar a polícia da África do Sul e da Rodésia do Norte, dizendo-lhes o que pretendia fazer, e concordei em manter todo o mundo perfeitamente informado dos progressos dessa operação — e, final­mente, tudo ficou combinado. Karl viajaria, seguindo os canais de informações, para a Rodésia, estabeleceria contacto com o grupo da IDB a que Kutze se referira, compraria diamantes e os traria, através da fronteira, para a União. Lá, os diamantes seriam rece­bidos de suas mãos e vendidos à Diamond Corporation, podendo êle ficar com quaisquer lucros por êle obtidos, em troca de amplas informações acerca do bando da Rodésia.

Blaize fêz uma pausa.

— Note — prosseguiu êle — que, naquela ocasião, eu não estava bem certo da minha posição com relação a Karl. A polícia sul-africana não tinha absolutamente nada contra êle, mas seria perigoso, para mim, ter conivência com o contrabando de diaman­tes da Rodésia para a União. Eu persuadira a polícia da África do Sul e da Rodésia de que deveriam deixar Karl em paz, e eu estava realmente em situação de fazer dele um contrabandista licenciado. O que há de mau com os diamantes, é que cada gema carrega em si germe do crime. Karl era um homem perfeitamente honesto, mas qual seria sobre êle o efeito de comprar barato diamantes da IDB, com dinheiro da IDSO, e deparar com a possibilidade de fazer uma fortuna, se pudesse trazê-los de volta à União Sul-Africana sem que nós o soubéssemos?

"Cogitei muito a respeito e, finalmente, decidi que não finan­ciaríamos a primeira viagem de Karl, mas que êle teria de levantar cerca de mil libras esterlinas através de seus próprios recursos. Isso, de nosso ponto de vista, tornou o quadro um pouco melhor, mas ainda não era, de modo algum, inteiramente seguro. Isso ocor­reu nos primeiros dias da IDSO, e eu torcendo para que a coisa desse certo.

"A coisa não me tornou nada feliz no último encontro que tive com Karl, na "casa segura", antes dele tomar o avião para Ndola. Disse-me êle que Kutze se recusava, agora, a dar-lhe os nomes de seus "contactos" na Rodésia. Kutze deve ter "cheirado" alguma complicação, ou talvez Kutze houvesse falado demais. Era dema­siado tarde para modificar meus planos, de modo que dei a Karl o nome que morava em Kitwe e que escrevera à IDSO oferecendo seus trabalhos como informante. Como, também, íamos pagar to­das as despesas de Karl e eu não queria que a coisa, se sua missão falhasse, se tornasse muito dispendiosa, recomendei a Karl que me enviasse, após duas semanas, uma comunicação a respeito de seus progressos, mandando-me um dos três telegramas seguintes, de acordo com a situação:

Somente pequenos negócios à mão até agora Ponto Tornarei a telegrafar sobre...

Negócio não vale a pena Ponto Voltarei dia. Negócio bom. Ponto Necessário especialista em...

"Este último telegrama no caso de estarem surgindo pedras grandes e Karl necessitar de avaliador experimentado.

"Bem, Karl voou para o Copperbelt a 7 de março e, no dia 18, recebi o telegrama número 2:

Negócio não vale a pena Ponto Voltarei março 22.

"Aquilo parecia ruim de mais para que pudesse ser verdade. O IDB reinava no Copperbelt, e era inimaginável que Karl não ti­vesse conseguido penetrar no mercado. Isso me despertou grande desconfiança. Convenci-me de que meu "duplo agente" se havia convertido em "triplo", que dispendera todas as suas mil libras na aquisição de pedras baratas, e que procuraria agora contrabandeá-las sob a capa da IDSO, obtendo seus lucros.

"Discuti a situação com o Chefe de Detetives Grobbelaar, su-gerindo-lhe que Karl deveria "passar pelo espremedor' na Alfânde­ga, ao desembarcar. Grobbelaar concordou.

"No dia 22 de março, com efeito, Karl desembarcou, no aero­porto Jan Smuts, do avião procedente de Ndola, e ficou impressio­nado ao ver que era o primeiro passageiro escolhido para passar pela Alfândega — distinção habitualmente reservada apenas a pes­soas muito importantes. Deve ter ficado surpreso com a impor­tância e a influência da IDSO. Suas ilusões logo caíram por terra, quando êle e sua maleta foram conduzidos a uma sala à parte, sendo ignominiosa e meticulosamente revistados.

"Karl, tomado de grande indignação, dirigiu-se a um homem em traje civil, queixando-se daquele tratamento insultuoso. O ho­mem apresentou-se como sendo o Sargento Smith, do Departa­mento de Detetives da Diamond.

— Julguei que o senhor estivesse aqui para livrar-me de tudo isto! — gritou-lhe, enfurecido, Karl, e, a seguir, com menos jactân­cia, ajuntou: — Os diamantes estão na alça da maleta.

"Impassivelmente, Smith examinou a alça da maleta, afas­tando, com cuidado, o couro, em cujo interior havia cincoenta e dois diamantes envoltos em algodão. Disse, então, a Karl, que os diamantes tinham de ser declarados. Isso foi feito, e os diamantes, devidamente confiscados e selados, ficaram em poder da Alfânde­ga.

"Durante todo o tempo, Karl assegurava a Smith que toda aquela questão poderia ser satisfatoriamente explicada, mas que êle deveria ser conduzido à minha presença. Smith, então, o con­duziu, depois, à "casa segura", e o interrogatório começou.

"Karl informou que êle chegara ao aeroporto de Ndola e alu­gara um táxi, para que o conduzisse a seu hotel em Kitwe, situado a quarenta milhas de distância. Imediatamente, pôs-se a conversar com o motorista nativo a respeito da compra de diamantes, e o mo­torista lhe dera o nome de um outro chofer de táxi que, segundo o mesmo, conhecia todo o mercado de diamantes do Copperbelt, bem como o nome dos contrabandistas nativos.

"Karl mal podia acreditar em sua sorte, e pensou que o chofer ou estava mentindo descaradamente, ou então, que o IDB funcio­nava abertamente na Rodésia. Na verdade, Karl topara exatamente com o "contacto" certo, pois que o outro chofer de táxi arranjou uma série de encontros bem sucedidos. Mas, segundo Karl, embora êle ouvisse conversas infindáveis e um sem-número de promessas, não havia ainda, depois de dez dias de permanência em Kitwe, comprado sequer um único diamante, de modo que resolvera for­çar a situação, enviando-me o seu primeiro telegrama negativo, ao mesmo tempo em que dizia aos seus "contactos" do IDB que, como não havia nada que êle pudesse comprar, estava já arranjando as malas, devendo partir dentro de três dias. Essa sua astúcia, cer­tamente, deu resultado, pois que, durante os últimos três dias, caíra sobre êle um verdadeiro dilúvio de diamantes, pertencentes a contrabandistas europeus e nativos que atravessavam a fronteira congo-rodesiana. Durante esses entendimentos, Karl conseguira compilar uma lista enorme de nomes, tanto de elementos perten­centes à rede de contrabandistas da Rodésia, como dos que forma­vam os canais europeus que transpunham a fronteira da União.

"Karl afirmou que a gente com quem êle tivera de lidar cons­tituía um bando horroroso, habituado à traição e a delação. Não só compravam as pedras dos contrabandistas nativos e as vendiam aos contrabandistas da União, como, também, aumentavam seus lucros delatando à polícia da Rodésia do Norte não somente os seus competidores, como, também, os seus próprios clientes.

Blaize fêz uma pausa e ajuntou:

— Esse hábito de trabalhar para ambos os lados na IDB, diga-se de passagem, constitui uma velha história, convertendo num negócio complicado e arriscado o emprego de tais agentes. De qualquer modo, Karl havia, sem dúvida, cumprido sua tarefa, e as únicas duas questões eram apenas estas: por que razão não enviara êle um segundo telegrama cancelando o primeiro, quando os diamantes começaram a surgir, e por que motivo escondera os diamantes na alça de sua maleta?

"Karl respondeu que não havia razão alguma para enviar um outro telegrama, e que, além disso, seu dinheiro já se havia esgo­tado. Quanto àquilo de esconder as pedras na alça de sua maleta, disse que esperava ser recebido, na Alfândega, pelo Departamento de Detetives da Diamond, e que só ocultara os diamantes na alça da maleta para mostrar-lhes como era fácil burlar a vigilância do pessoal da Alfândega. Ele não tentou de modo algum as pedras, ao deparar com o Sargento Smith.

"Isso me pareceu muito bom, e os detetives da Diamond mostraram-se satisfeitos com a explicação. Afinal de contas, Karl saíra-se muito bem e, tanto a polícia da Rodésia do Norte, como os sul-africanos, ficaram muito sadsfeitos ao receber o relatório da IDSO.

"Na verdade, não tornámos a usar os préstimos de Karl, e receio que esse pobre sujeito não haja ganho muito dinheiro com esse seu trabalho. Êle não fizera boa compra e, quando os diaman­tes foram liberados pela Alfândega e importados legalmente pela Diamond Syndicate, os especialistas identificaram toda a "partida" como sendo constituída de pedras do Congo Belga — coisa de qua­lidade industrial inferior — cujo valor foi avaliado como sendo mais ou menos o que Karl havia pago. Karl ficou muito desapontado com isso — e eu dei-lhe uma gorjeta de 10 libras esterlinas e despedi-me dele.

"A lista de nomes e canais fornecida por Karl fêz com que eu voasse até Elizabethville e a mina de Williamson em Tanganika, para ver o que poderíamos fazer no sentido de bloquear o tráfico de diamantes em sua própria origem. Ambas as minas admitiram que estavam perfeitamente a par de tal tráfico, e que um fluxo inces­sante de perseguições a elementos locais tomava todo o tempo do pessoal de seu corpo de segurança. Certa parte desse contrabando parecia seguir a rota aérea Nairobi-Salisbury-Lourenço Marques­Durban da East African Airways, e, enquanto eu me encontrava na Rodésia, resolvi fazer algo para bloquear esse canal.

"Aconteceu que um ex-comissário de bordo da BOAC, que eu chamarei Patrick Sullivan, estava voando nessa rota. Havia êle sido entrevistado pela IDSO em Londres, após haver servido de tes­temunha a favor da Coroa, no processo movido contra uma outra tripulação da BOAC por motivo de contrabando e, ao voltar para a África, entrou em contacto comigo e concordou em trabalhar para nós.

"Nairobi era o quartel-general da East African Airways e, também, o centro de suprimento e transporte da mina Williamson, e Sullivan tornou-se hóspede regular de um dos hotéis de trânsito de passageiros, onde, acreditava êle, um dos garçons estava agindo como elemento de ligação do bando da IDB que agia fora da mina Williamson. Embora Sullivan tivesse estado envolvido no caso de Londres e se encontrasse, de certo modo, comprometido aos olhos da IDB local, o garçon supunha que ele talvez fosse um possível portador a serviço dos contrabandistas, de modo que, seguindo minhas instruções, Sullivan concordou em levar avante sua tarefa, pela qual os contrabandistas lhe pagariam gorda comissão.

"Vi-me de novo diante do perigo de converter um homem contrabandista licenciado. Embora êle me houvesse prometido te-legrafar-me sempre que estivesse transportando diamantes para Durban, sempre havia a possibilidade de que êle, de quando em quando, se esquecesse, de maneira conveniente para sua pessoa, de me fazer tal comunicação telegráfica, sendo protegido, em tais ocasiões, pelo fato de trabalhar para a IDSO. A fim de proteger-me, adverti Sullivan de que, quer êle nos informasse ou não de que estava transportando diamantes, estaria sujeito à revista habitual, na Alfândega. Sullivan aceitou tal condição.

"Ocorreu, então, algo bastante estranho. Não digo que a IDB tivesse ciência do duplo papel representado por Sullivan, mas o destino de Sullivan apresentou, sem dúvida, uma coincidência curiosa. Certo dia, recebi de Sullivan um telegrama misterioso, pe-dindo-me para que eu fosse encontrá-lo em Durban, "para discutir novos acontecimentos". Que acontecimentos eram esses, foi coisa que jamais fiquei sabendo, mas suponho que se tratava de algo bastante importante.

"Fosse lá o que fosse, numa viagem aérea de volta, pouco an­tes de nosso encontro, o avião Dakota da East African Airways, do qual Sullivan era comissário de bordo, espatifou-se de encontro ao topo Kilimanjaro, a montanha mais alta da África, e todos os pas­sageiros, bem como os membros da tripulação, morreram.

Blaize abanou, com ar de dúvida, a cabeça, e concluiu:

Creio que foi apenas má sorte, mas tal desastre constituiu, certamente, uma boa nova para o bando do IDB que operava em Tanganika e no Congo Belga.

 

                                ENTRA EM CENA MR. OXFORD

O vento do Levante continuava soprando, e Blaize e eu pas­samos o dia todo em meu quarto no Hotel El Minzah, relendo e cor­rigindo o que havíamos escrito. Eu ainda não tinha uma idéia clara de uma operação direta de contrabando saindo de uma mina de diamantes, e fiz uma porção de perguntas a Blaize acerca do servi­ço de segurança nas minas e das várias maneiras de burlá-lo.

Parecia-me que o roubo de diamantes, feito através da saída de uma mina ou da Casa de Classificação, não diferia de qualquer outra forma de roubo, sendo que, em outras circunstâncias, o la­drão leva o produto do furto a um receptador, que o passa adiante mediante certo lucro. Não me era possível formar uma idéia seme­lhante da maquinaria da IDB. Onde encontravam os contraban­distas um mercado para suas pedras? Segundo o que Blaize me havia dito, tanto Kimberley quanto Johannesburg estavam repletas de espiões e informantes da polícia, e a mim me parecia que um contrabandista tinha muito pouca oportunidade de desfazer-se de suas pedras sem que fosse apanhado.

De acordo com as notas que fiz aquela manhã, todo o pro­cesso se tornava um pouco mais claro, principalmente devido à entrada em cena de Mr. Oxford (este não é o seu verdadeiro nome), quem, assim o espero, embora Blaize não tivesse prova disso, não é o único homem metido nesse negócio.

— Evidentemente — disse-me Blaize — o primeiro lugar para se acabar com o contrabando se acha na própria mina. Na maioria das minas, isso deveria ser fácil — como, por exemplo, nas minas de Kimberley — mas, em lugares como Sierra Leone, onde todo o país se acha coalhado de diamantes, o serviço de segurança nas minas é quase impossível.

"Suponhamos que eu fosse um trabalhador europeu? Que é que me aconteceria, exatamente, quando eu saísse, em gozo de férias, de um lugar como a Consolidated Diamond Mines?

"Eu seria conduzido, pelo ônibus da Companhia, ao depar­tamento de raio X e introduzido numa bela sala de espera, cheia de revistas para se ler. Minha bagagem seria colocada numa estei­ra transportadora, que a levaria, muito lentamente, a um quarto escuro, passando por baixo de um aparelho de raio X, com um homem sentado ao alto, diante de algumas manivelas destinadas a controlar a velocidade da mesma e fazê-la parar.

"Ele estaria olhando diretamente através de minha maleta. Veria as tesouras, os zippers e as abotoaduras, bem como todos os demais objetos de metal que estivessem na maleta. Reconheceria imediatamente todas as sombras negras.

"Se houvesse alguma que êle não conhecesse, perguntaria o que era aquilo — pedindo, provavelmente, que a maleta fosse aber­ta. Tudo isso de maneira muito cortês, como se se tratasse de um exame de alfândega. Depois, o sujeito seria chamado para uma ou­tra sala — homens numa sala e mulheres em outra — e submetido a um exame de raio X, com particular atenção quanto à cabeça, o estômago e os pés. Se o radiologista visse uma mancha preta — no estômago do sujeito, por exemplo — êle talvez o comunicasse ao superintendente da mina, e o sujeito seria levado a um hospital e submetido, de maneira muito cortês, mas completa, a um purgati­vo. Por outro lado, o radiologista talvez fizesse apenas uma marca sobre um diagrama do corpo humano (todo mundo tem um desses diagramas em seu fichário) e aguardasse até que o sujeito saísse de novo de férias. Se a mancha tivesse mudado de lugar, ou se houvesse novas manchas quando êle tornasse a olhar através do sujeito, sua desconfiança estaria confirmada, e o camarada, certa­mente, teria de ir para o hospital. Tudo isso de maneira muito ci­vilizada, muito cortês, como lhe disse. Mas absolutamente comple­ta. Os negros são também tratados de maneira muito semelhante, mas sem a sala de espera e sem as revistas para ler. Não raro, seus estômagos estão cheios de manchas escuras. Mas essas manchas, em geral, não passam de botões, pregos e ou pedrinhas comuns, que eles engolem apenas para ver se as mágicas dos brancos real­mente funcionam. É espantoso o que eles conseguem engolir sem que isso lhes cause qualquer dano.

— Nas minas, em geral, existe alguma maneira de alguém sair carregando pedras preciosas, sem que o faça pelo portão prin­cipal?

— Não é fácil. Alguns desses lugares se assemelham a gigan­tescos campos de concentração. São circundados por cercas duplas de arame eletrificado, de dez pés de altura, com cães e guardas a realizar dia e noite patrulhas por entre as cercas — e, diga-se aqui, de passagem, que os alsacianos De Beers são os astros das expo­sições agrícolas locais. Do outro lado das cercas de arame, exis­tem muitas milhas de terrenos plano e deserto. De nada adianta a escavação de túneis para fuga. Já experimentaram lançar pedras por meio de catapultas, mas eles estão quase sempre sob o olhar vigilante dos guardas. E teria de ser uma pedra bastante grande para que não desaparecesse na areia. Tentaram fazer recipientes de chumbo que parecessem utensílios domésticos depositados em sua bagagem. Alguém lhes dissera — alguma pessoa interessada

— que os raios X não conseguem penetrar através do chumbo. Mas eles não são muito hábeis, quando se trata de estratagemas refina­dos como esse. Contentam-se, em geral, em economizar 20 ou 30 libras esterlinas durante seus nove meses de trabalho e, depois, em voltar para as suas tribos e esbanjar o dinheiro. Os rapazes nativos ganham, nas minas, cerca de duas libras por semana, além de sua própria manutenção. Os salários do pessoal administrativo e dos homens de confiança da Casa de Classificação são bastante bons — e esse pessoal não é submetido a raio X ao sair, todas as noites, do trabalho. É gente em quem eles confiam. E isso parece dar re­sultado, dizendo bem do tipo de homens que a De Beers emprega. À parte isso, há um ou dois pontos realmente fracos, antes que os diamantes deixem as minas e cheguem a Londres — oportunidades para que homens decididos possam dar um golpe de um milhão de libras esterlinas, mas não nos referiremos a eles. Já conversei com De Beers a respeito deles, e espero que se tenha feito algo no sentido de eliminar tais oportunidades.

"O grande problema, quando se rouba uma pedra e se con­segue passar com ela através dos "exames de segurança", é o que fazer, depois, com a pedra roubada. Isso não constitui grande pre­ocupação para os europeus. Estes, provavelmente escondem suas pedras até que apareça o homem certo — o homem que eles este­jam absolutamente seguros de que não é um informante da polícia. Ou, então, aos poucos, acumulam uma boa quantidade de pedras e, um dia, renunciam ao seu emprego, vão para Autuérpia e põem-se a subir e a descer a Pelikaanstraat, até que resolvam qual o cor­retor que deverão procurar. Afinal de contas, estarão perfeitamente em segurança. Encontram logo, em Pelikaanstraat, o homem indi­cado, e obtêm 50.000 ou 100.000 libras esterlinas para começar uma nova vida.

"O negro, porém, não deseja outra coisa senão arranjar suas 10 ou 50 libras e desfazer-se de sua pedra o mais rapidamente pos­sível. Nessa altura é que Mr. Henry Oxford entra em cena.

"Mr. Oxford é norte-americano, e os Estados Unidos são o maior mercado de diamantes do mundo — qualquer que seja a procedência destes últimos. Nova York, por exemplo, é uma das "estações terminais" realmente grandes para gemas contrabandea­das, em lugar de diamantes industriais. De quando em quando, as autoridades alfandegárias e a polícia realizam algumas apreensões espetaculares de pedras preciosas. Um dos maiores casos, desde o término da guerra, ocorreu em 1951, quando os agentes federais prenderam, no aeroporto de Idlewild, um homem chamado Leiser Weitman. Encontraram 100.000 dólares em diamantes ocultos nos saltos ocos de seus sapatos e, a seguir, mais 125.000 escondidos em seu corpo. Weitman foi condenado a vinte e dois meses de pri­são. Os homens da Alfândega disseram que o detiveram "porque êle parecia estar muito nervoso". Em geral, são informados por algum bando de contrabandistas rival. É uma atividade arriscada.

"De qualquer modo, a operação Mr. Henry Oxford nada tinha a ver com contrabando. Sua linha de ação era estritamente legal.

"Em dezembro de 1954, um dos nossos "contactos" recebeu uma circular. Ei-la aqui:

 

     Caixa Postal...

     Grand Central Station Nova York, 17

     Estritamente Confidencial — Urgentíssimo

     Prezado Senhor:

IMPORTAÇÃO E EXPORTAÇÃO DE DIAMANTES EM BRUTO

Estabelecemos uma fábrica num dos mercados livres da Europa, onde podemos receber mercadorias sem quaisquer questões ou complica­ções... Estamos prontos a pagar bom preço porque somente dessa maneira teremos certeza de que V.S. nos fornecerá mercadorias sem interrupção... V.S. deve considerar esta proposta como sendo estritamente confidencial... Estamos certos de que, se V.S. cooperar conosco, tornar-se-á um dos ho­mens de negócios mais bem sucedidos de seu país.

         De V.S., atenciosamente Henry Oxford

 

"Achei que valeria a pena estabelecer contacto com Mr. Oxford. Parecia tratar-se de um homem interessante. E, assim, nasceu "Mr. J. Staples", que escreveu para a Caixa Postal —, Grand Central Station, perguntando de que modo sua mercadoria deveria ser despachada e de que maneira seriam feitos os pagamentos.

"A resposta de Mr. Oxford — em fevereiro de 1955 — foi elu­cidativa. Esta vez, êle escreveu de Frankfurt, Alemanha:

 

           Caixa Postal ..........Frankfurt

           Prezado Senhor:

V.S. deve enviar sua mercadoria em envelopes de 20 quilates cada um, por via aérea, correspondência não registrada, sendo que a mercado­ria deve ser colada dentro do envólucro. Para sua segurança, envie apenas um número que indique o remetente, sendo que nós seremos as únicas pessoas que saberão quem fêz a remessa. O pagamento será efetuado, na volta do correio, em libras sulafricanas. Nossa sugestão no sentido de que nos envie os diamantes por correio regular não registrado se deve ao fato de ser esse método mais seguro e rápido. Ninguém imaginará, por um mo­mento sequer, que o envólucro contém diamantes em bruto. Estou muito interessado em diamantes em bruto, puros e brancos, em peças de 2 a 10 quilates cada uma, pelas quais pagarei de 12 a 30 dólares por quilate. Esta oportunidade é a maior de sua vida.

               Seu, sinceramente, H. Oxford

 

"Êle também teve a amabilidade de enviar a circular abaixo, como uma exortação a possíveis fregueses:

 

                      ESTRITAMENTE CONFIDENCIAL

Estamos interessados em ter um agente em quem possamos de­positar inteira confiança, e que seja leal e íntegro, pois o negócio que nos propomos fazer com V.S. só poderá ser realizado por um filho leal da Áfri­ca, que tenha a África e os africanos em lugar supremo em seu coração. Por conseguinte, foi concedida a V.S. a maior das oportunidades de sua vida de conseguir para si próprio uma fortuna jamais sonhada, que talvez chegue a US$ 1.000.000.000 (um bilhão de dólares) anuais.

Agora, falando francamente, eis aqui o que V.S. talvez deva poder fazer. Estamos interessados em que os africanos se beneficiem com a ri­queza da África. Já que somos uma das maiores e mais poderosas firmas que lidam com diamantes em bruto, gostaríamos que V.S. nos forneces­se diamantes não lapidados, enriquecendo, desse modo, a si próprio e a outros africanos. Gostaríamos de acentuar que os diamantes em bruto pertencem ao povo de seu país, pois que saem de suas terras e territórios, embora outras pessoas possam julgar-se com direito de reclamá-los.

Não se esqueça de que, embora esses diamantes em bruto perten­çam a V.S. e ao seu povo, V.S. pode fazer deles o que lhe apetecer, e que, de acordo com os costumes do mundo livre e democrático, quem quer que se oponha ao livre comércio, por africanos, de mercadorias africanas, constitui, certamente, a parte ILEGAL.

Se V. S. se sentir confiante de que será capaz de estabelecer os con­tactos adequados e, ainda, de levar avante, com êxito, a organização deste negócio, nós o instruiremos quanto à maneira de dirigir suas atividades, em colaboração conosco, sem qualquer risco para V.S.

Esta carta é estritamente confidencial e, pela honra de V.S. como africano, não deverá ela cair em mãos de pessoas indevidas.

Aguardando imediatamente sua resposta, somos sempre, de V.S., amigos confiantes.

"O senhor percebe a sua maneira engenhosa de agir. Fazia êle um apelo ao coração negro africano de Mr. J. Staples. E Mr. Staples cedeu ao seu incitamento e escreveu para Frankfurt, dizen­do que possuía uma pequena "partida" de 34 pedras, pesando 10 quilates, para ser vendida por 20 libras.

"Oxford mordeu a isca, concedeu a Staples um número em código — 3JS — e enviou-lhe as seguintes instruções de embar­que:

Estritamente Confidencial Fornecedor N.° 3. J. S. Condições de Embarque Para Diamantes em Bruto

Esta é para aconselhá-lo quanto à maneira de remeter-nos sua mercadoria, de modo a reduzir ao mínimo suas despesas de remessa e, assim, receber o mais alto preço possível em todo o mundo.

Se V. S. fizer as remessas de acordo com nossas instruções, rece­berá 30 por cento a mais do que qualquer outra pessoa lhe pagaria, pois que, dessa maneira, poderemos economizar e, por conseguinte, pagar-lhe a quantia extra que pudermos poupar, aumentando, desse modo, os seus lucros.

  1. V.S. nos enviará a mercadoria em envelopes aéreos simples (não registrados). Se não fôr registrado, ser-nos-á entregue imediatamente, sem qualquer demora, pois que os Regulamentos Alfandegários dos Estados Unidos estipulam que, se a remessa não fôr avaliada em mais de 250 dó­lares, a mesma não necessita de qualquer licença especial para entrar no país, e os diamantes em bruto são inteiramente livres de taxas nos Esta­dos Unidos.
  2. Desse modo, receberemos a mercadoria em Nova York sem qual­quer complicação, de acordo com os Regulamentos Alfandegários dos Estados Unidos, dentro de quatro dias, procedente de qualquer parte do mundo.
  3. Ao enviar-nos a mercadoria, use somente o seu Número de For­necedor, o que lhe dará a certeza de que ninguém — onde quer que se encontre — saberá quem é o remetente. Os envelopes em que V.S. enviar a mercadoria não deverão conter cartas, mas, apenas, mercadoria e fatura, sendo que esta última deverá declarar o mínimo de quilates ou número de pedras contidas no envelope. Quanto à fatura, não deverá revelar quantia superior a 250 dólares de mercadoria. Pode V.S. estar seguro de que lhe pagaremos o mais alto preço possível, não importando qual seja a quantia declarada na fatura.
  4. O conteúdo de cada envelope não deverá ser superior a 20 qui­lates.
  5. Pagamento. No mesmo dia em que recebermos a mercadoria, efe­tuaremos o pagamento a V.S., de uma das seguintes maneiras:

(1) Dinheiro enviado por carta, em qualquer moeda que V.S. deseje.

(2) Cheques para qualquer filial de qualquer banco existente em qualquer lugar do mundo, sem revelar o nome do remetente.

(3) Ordens telegráficas de pagamento para qualquer banco, para qualquer nome ou qualquer endereço que V.S. deseje.

"Henry Oxford também enviava um formulário, do qual tenho aqui uma cópia fotostática preenchida, detalhadamente, por Sta­ples, incluindo fotografias das pedras por êle enviadas.

"Entrementes, informamos nosso agente da IDSO na Alema­nha, o qual entrou em entendimento com as autoridades alfan­degárias alemãs. No momento oportuno, elas se lançaram sobre a correspondência de Oxford, bem como sobre o pacote enviado por 3. J. S. Como resultado disso e de outra ação levada a efeito na Alemanha, apoderaram-se de uma lista contendo os nomes de quase todos os fornecedores ilegais de Oxford na África, e um bom número de "irmãos africanos" foi dar com os costados na cadeia.

"Houve uma pausa por parte de Oxford e, depois, êle voltou com a seguinte carta:

Prezado Mr. Staples:

Desejo informar-lhe que meu marido está agora passando muito bem, depois de haver saído gravemente ferido de um desastre de aviação. Por essa razão, o senhor não tem recebido encomendas dele.

Com minhas melhores saudações, sou, atenciosamente, Mrs. Oxford

"J. Staples entrou em ação com um embarque de cinco qui­lates de pedras, endereçado, num envelope simples, ao antigo en­dereço alemão.

"Mas, nessa altura, o serviço secreto de Henry Oxford — que devia ser muito bom — já havia identificado J. Staples, e recebe­mos este golpe direto nos queixos:

 

11 de junho de 1956

Prezado Mr. Staples:

Nossa norma de conduta com nossos fornecedores se baseia na ve­racidade.

V.S. nos enviou 5 quilates de mercadoria que foram apreendidos pela polícia alemã. Podemos reaver isso de modo bastante fácil, mas a multa nos custaria mais do que poderíamos ganhar. De qualquer modo, faremos com que essa mercadoria seja liberada.

Seu caso, porém, é diferente. Temos informações de que V.S. está cooperando inteiramente com as autoridades inglesas, tanto na Inglaterra como na África do Sul. Por essa razão, não lhe estamos enviando as 20 libras sul-africanas, como V.S. solicitou.

Quanto a nós, se pudermos confiar num fornecedor sul-africano, pouco se nos dá que êle esteja ganhando meio milhão de libras esterlinas anuais, sem que corra qualquer risco. Dê-nos prova de sua lealdade para conosco, e de seu desejo de que realmente tenciona fazer negócios conos­co, e mudaremos nossa opinião a seu respeito, dando-lhe a maior das oportunidades, tal como a que ocorre apenas uma vez durante toda uma existência.

Aguardando sua resposta, somos, atenciosamente, H. Oxford

Mr. Staples estava inteiramente "visado", de modo que, pesa­rosamente, entregamos todo o caso às autoridades alfandegárias americanas. Qualquer dia destes, terei interesse em saber o que aconteceu, finalmente, com o engenhoso Mr. Oxford.

 

                         O JOGO DE UM MILHÃO DE LIBRAS

Blaize estava atrasado para o seu encontro no jardim de El Minzah. Quando apareceu, disse que passara quase toda a noite num night-club. Lá, estivera pagando intermináveis Cubas Libres — rum e Coca-Cola — a uma das moças do cabarét. Este estava absolutamente certo de que não havia rum algum na Coca-Cola, e que a bebida era apenas um substitutivo dos tradicionais "whiskies com água", que não passavam, na realidade, de chá fraco. A jovem era atraente, mas Blaize caíra em desgraça adormecendo no ca-barét e perdendo o ato em que ela representava. (Blaize disse-me que dormia sempre, em cabarets e night-clubs). A noitada não fora nada bem sucedida, e Blaize, finalmente, tornara a seu hotel às cinco horas da madrugada, depois que a jovem, para seu grande alívio, se despedira dele com o também tradicional: "Pas ce soir. Peut-être demain".

Essa era a minha oportunidade para perguntar a Blaise se êle deparara com muitas mulheres no negócio de contrabando: mensageiras bonitas, garotas sedutoras, nas cidades mineiras, que serviam de chamariz, e assim por diante. Blaize respondeu, tristemente, que as únicas garotas bonitas com que êle deparara estavam do "lado dos anjos". Eram moças que trabalhavam na Sala de Classificação, no último andar do escritório central da Diamond Corporation, em Johannesburg. Certo dia, êle ia saindo do edifí­cio no momento em que as jovens deixavam o trabalho. Chovia a cântaros, e Blaize deu a uma delas uma "carona" em seu automó­vel, levando-a até a casa dela. Ela sabia que Blaize tinha algo que ver com o serviço de segurança (êle era alvo de muita bisbilhotice na Diamond Corporation), e confessou-lhe que, às vezes, seus na­morados diziam, brincando, que iriam dar-lhe alguns diamantes. Uma das maneiras que eles sugeriam era que ela deixasse crescer as unhas e grudasse nelas os diamantes com cera. Ela poderia, assim, todos os dias, apanhar algumas pedras minúsculas. A pe­quena diminuição de peso verificada em sua produção diária não seria notada, mas os quilates das pedras furtadas aumentariam rapidamente. Essa tal garota disse a Blaize que não acreditava que alguém houvesse lançado mão de tal ardil. As moças eram bem pagas e tinham muito orgulho de seu trabalho.

Blaize disse que, em geral, os contrabandistas de diaman­tes não confiavam em mulheres. Tinham verificado que as pedras constituíam uma tentação demasiado grande. Somente uma mu­lher — e, por sinal, inteiramente inocente — cruzou o caminho da IDSO, envolvendo-se, incidentalmente, no maior golpe em que a IDSO se viu metida, um golpe tão grande que foi necessário pedir ao governo para que a financiasse.

— Até agora — disse Blaize — tenho procurado dar-lhe uma idéia do que eu e o resto da equipe da IDSO temos estado fazendo na África do Sul e no Oriente, evitando falar da África Ocidental e, praticamente, de Sierra Leone, onde tem havido as maiores opera­ções de contrabando do mundo.

"O caso, lá, é que o Comitê de Seleção de Sierra Leone dispu­nha dos direitos de mineração e prospecção em todo o país. Mas Sierra Leone é mais ou menos constituída de pura selva e matagais e, na realidade, o Comitê de Seleção limitava-se apenas a concen­trar seu trabalho numa área de, aproximadamente, 130 milhas quadradas, em torno de um lugar chamatlo Yengema. Esse lugar era tido como sendo uma Área Diamantífera Protegida, onde nin­guém podia viver ou trabalhar sem licença do Comissário do Dis­trito, mas, na prática, não se pode cercar e patrulhar 130 milhas quadradas de matagal inóspito, de modo que o lugar estava mais ou menos à mercê de escavadores ilegais. Era uma situação gro­tesca. Quando, por exemplo, andei por aqueles lugares, vi uma bela limousine estacionada à porta de uma loja de ínfima categoria, numa das aldeias. Perguntei a John Guntry — que era, nessa épo­ca, o gerente da mina de Yengema e um sujeito excelente — a quem pertencia aquele automóvel.

— Bem — respondeu-me — eu tinha, não faz muito tempo, um automóvel assim, mas o IDB local achou que, por uma questão de orgulho, devia estar pelo menos à altura do gerente da mina.

"Durante anos, o Governo não dispusera de dinheiro nem de política para fazer algo a respeito. Guntry conseguira seu corpo de segurança, mas Bernard Nealon, que é o chefe do CID em Fre­etown, tinha apenas um assistente, e, embora a força policial de Sierra Leone, sob a direção de um excelente Comissário — Bill Syer — seja constituída por um grupo estupendo de homens, prevalece a idéia geral, entre os mineiros ilegais, de que o solo de Sierra Leo­ne pertence aos sierra-leoneses.

 

"E Sierra Leone é juncada de diamantes, principalmente ao longo dos rios — o Bafi e o Sewa, por exemplo, bem como os cur­sos de água menores, como o Woa, o Tavi e o Moa — constituindo centenas de milhas de pequenos rios e de pântanos. Mesmo com centenas de policiais, helicópteros e Deus sabe mais o que, pouco se poderia fazer acerca da mineração ilegal nessa espécie de região. Os bandos de garimpeiros chegam todas as noites e põem-se a tra­balhar nas margens dos rios. Dormem durante o dia. Se a gente vôa num pequeno avião ou helicóptero por sobre a mata, vê as margens dos rios, todas as manhãs, cheias de buracos recém-escavados.

"Em outubro de 1954, fui acometido de forte febre, seguindo, depois, para Freetown, a fim de dar uma olhada em toda aquela mi­xórdia. O nome Freetown foi dado ao lugar em fins do século XVIII, quando colonizamos a Colônia com 400 escravos negros libertos e sessenta prostitutas vindas dos portos ingleses. É uma história extraordinária. Outras tribos, da Guiné Francesa, da Libéria e só Deus sabe de onde mais, penetraram no país em épocas diversas, e hoje lá existe uma mistura fantástica de nativos, além de um pu­nhado de autoridades inglesas e de homens de negócios. Quase não existem outros visitantes europeus, exceto algum caixeiro-viajante que se hospeda no único hotel — o City Hotel — que possui doze quartos, É uma localidade insignificante. A gente quase se enver­gonha de que aquilo seja uma possessão inglesa — principalmente depois de se visitar Leopoldville ou Elizabethville, que são tão bem cuidadas e amplas quanto Bruxelas ou Antuérpia. Os belgas, claro, não tiveram um grande império colonial, e podem dar-se ao luxo de dispender muito dinheiro e energia com o que possuem. Quanto a nós, obtivemos terras e colônias em todos os cantos do mundo, e não tivemos dinheiro nem entusiasmo suficientes para cuidar devidamente delas. Seja lá como fôr, não há dúvida de que Sierra Leone é uma de nossas possessões mais atrasadas.

"Felizmente, instalaram-me na casa de repouso da Selec-tion Trust, em Hill Station, colina sobranceira a Freetown, onde os fun­cionários do governo têm os seus bangalôs. É como se a gente esti­vesse no Ritz, em comparação com os pardieiros de Freetown. Mas fica à beira da selva — coisa de que eu me lembrei, certa manhã, ao encontrar uma grande cobra no alpendre. Os empregados mata­ram-na. Fiquei lá repousando durante vários dias, a relembrar vá­rias coisas com Nealon, da CID; depois, voei por sobre a floresta até Yengema, a fim de ouvir a parte da história contada pelo pessoal do Selection Trust. São homens maravilhosos, que trabalham lon­ge de sua gente, naquele lugar esquecido por Deus, mas, do ponto de vista da segurança, sua situação é irremediável. Os lugares de crivação acham-se situados a milhas de distância uns dos outros, em lugares muito isolados. Se o chefe do serviço de segurança local quisesse estabelecer contacto com um desses depósitos ou com a polícia, tinha de enviar um jipe através da mata e de um rio praticamente "pavimentado" de crocodilos, por meio de uma balsa que opera apenas uma vez ao dia, e que não funciona quando há enchentes. Não existia sequer um serviço de radio-comunicação. Quando eu lá estive, o Chefe do Serviço de Segurança, Harry Mor­gan, recebeu uma mensagem, através de um informante, na qual se dizia que estavam sendo feitas escavações a apenas poucas mi­lhas de distância de Yengema. Reuniu êle alguns de seus homens e solicitou o concurso de alguns homens da polícia africana, para que o ajudassem a prender os contraventores. Quando consegui­ram chegar ao lugar em que estavam sendo feitas as escavações, os mineiros já haviam desaparecido na noite, deixando atrás de si mais de duzentos buracos. As caixas cheias de diamantes, vindas de Yengema, chegam ao aeroporto, em Freetown, duas vezes por mês, depois de uma viagem incrível, num trem que faz uma média de onze milhas por hora, numa linha simples que está sendo sem­pre levada pelas enxurradas. Pouco antes de minha chegada, duas grandes remessas de diamantes haviam desaparecido em alguma parte, entre Freetown e a Inglaterra, sendo que uma das perdas só foi notada dias mais tarde.

"De modo que o senhor bem pode perceber qual era a situa­ção: extrema confusão, e o país inteiramente entregue à mineração ilegal.

— Mas de onde provém o contrabando? — indaguei. — De que modo os mineiros conseguem levar suas pedras para fora do país, e para onde?

— Existem duzentas milhas de fronteira aberta com a Libé­ria, e um fluxo incessante de nativos mandingos a atravessá-la. Há uma tribo muito esperta, que compra as pedras dos mineiros por uma ninharia e as leva, através da primeira etapa da rota de con­trabando, a Monróvia, capital da Libéria. Lá, vendem-nas às hor­das de negociantes de Antuérpia e de outros lugares. A Monróvia está repleta desses tipos, vindos da Bélgica e de Beirute. Esses ne­gociantes instalam os mandingos em hotéis, pagam todas as suas despesas, levam-nos de automóvel a toda a parte, seduzem-nos com relógios-pulseiras, charutos e compram-lhes os diamantes abertamente e — o que é mais — de maneira inteiramente legal. Os liberianos fecham os olhos a tais transações. A venda de licenças de exportação e de permissões aos negociantes traz uma fortuna para o país e para o bolso de altos funcionários negros — sendo que a "fachada" disso tudo é perfeitamente respeitável. Existe o mito de que tais diamantes são diamantes liberianos, extraídos de minas li­berianas. Tais minas, claro, não existem. Logo lhe falarei da única mina que realmente existe.

— Qual a importância desse tráfico? — perguntei. Blaize en­colheu os ombros:

— Até mesmo o governador de Sierra Leone admite que é de cerca de sete milhões de libras esterlinas — muito mais que a pro­dução anual da Comissão de Seleção de Sierra Leone.

Mas eu calculo que chegue a dez milhões de libras. Isto não passa de uma suposição minha, mas uma suposição que se ba­seia nas operações de compra que iniciamos na Morávia. Chegarei logo a este ponto. Como lhe digo, tivemos, mais ou menos naquela ocasião, um golpe de sorte. Um negociante alemão de diamantes, procedente da Morávia, a quem chamarei Willy Rosen, entrou em contacto com Nealon e descreveu-lhe toda a situação — e Nealon lhe revelou os pontos essenciais da história de Rosen. Percebi a coi­sa, redigi meu relatório, fiz as malas e voei para Londres. Um fator me favoreceu particularmente. Willy Rosen havia dito a Nealon que iria passar para o nosso lado.

"Não sei exatamente quais eram os motivos de Willy Rosen, como ainda hoje tampouco os sei: talvez, em parte, dinheiro, mas o mais importante era, provavelmente, o fato de Rosen — que tinha sido um refugiado durante quase toda sua vida — desejar abando­nar a Libéria e passar a viver no Ocidente. Desejava êle um passa­porte para participar do mundo dos negócios britânicos e — pois que tanto êle como sua esposa tinham ambições sociais — penetrar na sociedade inglesa.

"Willy Rosen nascera em Stuttgart. Seus pais eram judeus alemães. Seu pai morreu quando êle contava treze anos de idade, e êle estudou, por espaço de três anos, na Suíça. Quando Rosen ti­nha cerca de dezessete anos, Hitler começou seus programas, e Ro­sen fugiu para a África do Sul, onde tentou vários empregos. Finda a guerra, conheceu Lisl, sua futura esposa, que estava trabalhando em Johannesburg. Lisl é a mulher de quem eu estava lhe falan­do, mas ela desempenhou apenas um papel insignificante nesta história. Após várias vicissitudes, eles instalaram uma agência de negócios na Libéria, e a energia e simpatia de Willy Rosen, aliadas à inteligência de Lisl, fizeram com que ambos se sobressaíssem naquela inconsistente comunidade. Rosen conseguiu alguns bons negócios de importação e, ali por 1954, quando o conheci, possuía já cinco empregados de escritório alemães trabalhando para êle. E já se havia metido no negócio de diamantes. Além disso, fazia investimento em transações imobiliárias locais. Isso revelava que, ao contrário de outros negociantes europeus, êle estava realmente ligado ao país. Ademais, o meticuloso cuidado com que Rosen se atinha aos regulamentos concernentes à importação e exportação, bem como sua reputação de homem que esperava apenas obter lu­cros modestos em seus empreendimentos, produziram impressão favorável nos círculos governamentais liberianos — impressão essa da qual êle e, incidentalmente, nós, iríamos tirar proveito.

"Quando tudo isso foi relatado a Sillitoe, em Londres, ficou combinado que deveríamos usar Rosen e financiar suas ativida­des. Transmitimos esta informação à CID, em Freetown. Quaisquer dúvidas que porventura pudéssemos ter acerca da eficiência de Rosen, foram logo dissipadas. Rosen voou para Freetown a 25 de novembro, marcou um encontro secreto com Nealon e revelou que um negociante de diamantes libanês — conhecido, entre outros nomes, por Finkle — convidara Rosen a examinar uma "partida" de diamantes ilegais, tendo em vista fazer com que os mesmos en­trassem na Libéria.

"Rosen devia avistar-se com Finkle na noite de sábado, dia 28 e sugeriu que Nealon "desse uma batida" no lugar do encontro. Ne-alon concordou e, naquela noite, de calor sufocante, êle e seus ho­mens cercaram a casa. Infelizmente, não lhes foi possível bloquear todas as vias possíveis de fuga, receosos de despertar atenção.

"Após dar a Rosen vinte minutos para iniciar as negociações, Nealon e três de seus homens, que tinham estado de atalaia no jar­dim, arrombaram a porta e irromperam na sala de estar. Houve um pandemônio dos diabos, empenhando-se todos em violenta luta. Finkle, que era bom brigador, dotado de reações rápidas, desferiu um soco na cara de Rosen, ajudado por outros três libaneses, e lançou-se janela fora. Caiu, a vinte e cinco pés de distância, sobre um regador de jardim, mas não quebrou osso algum e desapareceu na noite. Sua esposa, Dolores, que estava em adiantado estado de gravidez, revelou sinais de parto prematuro, mas foi acalmado por Nealon e seus homens. Restabelecida a ordem, trinta e cinco dia­mantes foram apanhados no chão e, no dia seguinte, conseguiu-se localizar Finkle e prendê-lo, sob acusação de posse ilegal de dia­mantes. Tal acusação jamais lhe foi feita pessoalmente, pois que Finkle, de algum modo, fugira do país. Entrou para a lista negra de imigrantes cujo regresso ao país estava proibido. Muitos meses de­pois, conseguimos localizá-lo na casa de um conhecido negociante de diamantes, em Beirute.

"De qualquer modo, o procedimento de Rosen provara sua lealdade e, em janeiro de 1955, nós o transportamos de avião para Londres, a fim de tratar de negócios — negócios, na verdade, su­mamente interessantes. Em Londres, Rosen revelou que, durante os três meses anteriores, suas exportações de diamantes, da Mo-rávia, haviam aumentado progressivamente, até que sua última "partida", em dezembro, atingira quase 100.000 dólares. Rosen assegurou-nos que poderia manter suas compras pelo menos no mesmo nível de dezembro e, após discutir-se alguns pontos, ficou combinado, em Londres, que deveríamos usar Rosen como nosso comprador secreto na Morávia. Procuraríamos adquirir todo o "der­rame" de diamantes existente na Libéria e canalizar as pedras con­trabandeadas para as organizações legais de venda em Londres, desviando-as dos canais ilegais.

"Havia, porém, um obstáculo. Rosen teria, na Libéria, de pa­gar seus diamantes em dólares e, assim, precisaríamos fornecer-lhe os dólares necessários à compra de diamantes para a Diamond Corporation. Mas, era difícil obter-se uma soma assim tão grande em dólares, e a única solução era levar toda a história ao conhe­cimento do Governo britânico e colocar nossas cartas na mesa. Graças à importância, para a Inglaterra, do comércio de diaman­tes, não nos foi muito difícil persuadir Whitehall. Seus membros deixaram influenciar-se principalmente pelo fato de as pedras in­dustriais vendidas na Morávia estarem sendo compradas por um agente russo e enviadas, via Antuérpia e Zurique, através da Corti­na de Ferro, para a União Soviética, a fim de ser empregadas pela indústria bélica russa. Ficaram também impressionados pelo fato de que estaríamos retirando do mercado negro encomendas enor­mes de diamantes, que constituiriam uma fonte de dólares através do comércio legal entre a Inglaterra e os Estados Unidos.

"Resumindo uma longa história, as autoridades que concor­daram em apoiar-nos, inicialmente, com meio milhão de libras es­terlinas convertidas em dólares, entraram, mais tarde, quando já havíamos gasto essa soma enorme, com mais meio milhão de libras esterlinas".

Blaize riu entre dentes:

— Nada mau, fazer-se com que o Governo de Sua Majestade se lançasse a uma operação de um milhão de libras! O que não falta, a esses funcionários de Sua Majestade, é coragem! Não hou­ve, praticamente discussões, e esse plano gigantesco foi posto em execução em questão de horas.

 

               A MINA DE DIAMANTES DO SENADOR WHITHERSPOON

Desde o começo, Tânger ficou imensamente intrigada por nossa presença na cidade. É um lugar pequeno, e uma nova cara inglesa constitui novidade. Blaize, eu e a admirável Miss Doro­thy Cooper, que trabalhara no Foreign Office e que dactilografou meu manuscrito, passámos por uma verdadeira inquisição diária. Quanto à minha presença, era explicável. Eu talvez estivesse es­crevendo uma história de sensação baseada em Tânger ou, talvez, artigos para o meu jornal em Marrocos mas quem era Blaize? Descobriu-se rapidamente talvez mediante indagação nos escri­tórios da companhia de aviação que êle chegara, por via aérea, da Zululândia, e era claro, pela sua conversa, que êle conhecia a sua África. Mas que fazia êle? Blaize evitava comprometer-se: "Realizo pesquisas", costumava dizer vagamente e mudava de assunto. Eu não me desembarcarei assim com tanta facilidade. Eu tinha vários e bons amigos em Tânger, e eles estavam resolvidos a penetrar tanto em meu segredo como no do meu "zulú".

Posto de encontro à parede, insinuei que eu estava escreven­do um livro sobre um assunto científico. Acaso haviam eles ouvido falar no coelacanth? Podia ser que Blaize fosse algum especialista interessado nesse peixe — esse famoso "elo perdido".

Que coisa fastidiosa! Meus amigos, os olhos cheios de indi­ferença, puseram o assunto de lado. Ninguém em Dean's Bar o bar de Tânger — se interessava por coelacanths, e nenhum deles sabia o bastante acerca deles para que nos fizesse perguntas. Es­palhei logo a notícia de que Blaize fora o homem que descobrira o coelacanth. Havia apanhado um deles vivo. Estava em seu banhei­ro, no hotel.

Blaize mostrou-se encantado com esse "disfarce". Sugeriu que devíamos ter construído um recipiente oblongo, de formato curioso, com o qual êle andasse por toda a parte. De vez em quan­do, êle levantaria a tampa e olharia para dentro — e talvez até jogasse para o "peixe" algumas migalhas de alimento exótico. Con­cordamos em que isso seria levar a coisa demasiado longe.

Blaize raramente ria; mas um bocado acerca do coelacanth, e também riu ao contar-me a história da mina de diamantes do Senador Witherspoon. Contou-me essa história num café, o Socco Chico, que é a "cozinha dos ladrões" de Tânger. É nesse lugar que se reúnem escroques, contrabandistas, e traficantes de drogas — um bando abominável, sem dúvida.

Blaize disse:

— A operação Rosen correu suavemente e, em fins de junho, já havíamos gasto quase que todo o nosso fundo de um milhão de libras e conseguido transtornar toda a irmandade subterrânea de comerciantes de diamantes da Monrovia. Vários negociantes acharam as migalhas que sobraram da festa de Rosen insuficien­tes para pagar seus gastos — e fizeram as malas e deram o fora. Conseguimos também obter um cálculo bastante aproximado do derrame total de diamantes através da Libéria, e concordamos em que a quantidade de contrabando proveniente das concessões da Sierra Leone Selection Trust constituía pelo menos três vezes a produção total das minas.

"Rosen fizera um bom trabalho não só para nós, como para si próprio, pois que lhe pagamos uma gratificação de 15.000 libras por haver orientado a operação, sendo que Lisl Rosen recebeu de presente um anel de brilhantes à altura de uma duquesa. Por outro lado, transpirou, a pouco e pouco, que Rosen trabalhava para nós, e sua situação na Morávia se tornou não só invejável como pre­cária, e êle passou a receber ameaças constantes de violência por parte dos gangsters que trabalhavam para seus rivais.

"Mas era um homem rijo, jovial, e a última vez que eu soube notícias dele, estava êle se saindo muito bem em seus antigos ne­gócios.

"Enquanto nossas operações de compra se achavam em an­damento, a IDSO trabalhava segundo o mito de que os diamantes da Libéria, que saíam do país num fluxo incessante, provinham de suas próprias minas, como afirmavam os liberianos. Encontramos a resposta a esse enigma, e eu gostaria de saber quando o governo britânico irá tratar de todo esse assunto com a Libéria. Como o senhor percebe, uma vez que uma "partida de diamantes" obtém licença legal de exportação concedida por qualquer país do mundo, converte-se em mercadoria perfeitamente legal — e o fluxo de dia­mantes "liberianos" que se extravasa para Antuérpia, por exemplo, é um fluxo inteiramente legal, a respeito do qual o governo belga nada pode fazer. As pedras são legalmente importadas pela Bélgica e vão parar nas mãos dos corretores de Pelikaanstraat, sendo que, de lá, uma grande parte delas é reexportada para firmas "respei­táveis" de Zurique, saindo de novo da Suíça para países situados atrás da Cortina de Ferro.

"De modo que desejávamos saber, com certeza, se realmen­te havia minas de diamantes na Libéria. Diante do que ocorria, não havia para que não devesse haver, pois que nossos geólogos afirmavam ser bastante possível que certos rios liberianos carre­gassem diamantes em seus cursos, como é o caso de Sierra Leone. Quanto a nós, nada tínhamos em que basear-nos, e tanto a Em­baixada Britânica como a Americana na Monrovia — que se preo­cupavam igualmente pelo problema — se achavam completamente às escuras quanto ao assunto. O governo liberiano recusava-se a fornecer qualquer informação acerca da localização das minas e de sua produção. Felizmente, em março de 1955, o digno Senador William N. Whitherspoon entrou em cena — e acontecia que o Se­nador Witherspoon era o presidente do Comitê de Minas e Minera­ção da Câmara de Representantes da Libéria.

"O Senador Whitherspoon escreveu ao diretor administrativo do Selection Trust em Londres, dizendo ser o proprietário, de cer­tos direitos de mineração na Libéria, e que necessitava de auxílio e de capital para explorá-las. Oferecia-se, ao mesmo tempo, para fazer uma visita ao Selection Trust, em Londres, a fim de expor a situação.

"A IDSO aconselhou ao Selection Trust que se mostrasse in­teressado e, na ocasião oportuna, o senador negro chegou a Lon­dres e, na primeira reunião com os membros do Selection Trust, admitiu que a concessão que possuía se referia apenas a trabalhos de exploração diamantífera — a Dubret Company, em Zui, em meio da selva, situada a cerca de cem milhas ao norte de Monróvia.

"Aduziu, ainda, o senador, que já desbastara uma área na floresta, para servir de campo de aviação. Agora, desejava êle que o Selection Trust de Sierra Leone entrasse com o capital e forne­cesse a maquinaria necessária para explorar essa sua concessão. Se concordassem, êle lhes ofereceria dois terços dos interesses no negócio.

"Isso parecia uma magnífica oportunidade para se penetrar o mistério de todo o mito liberiano acerca de diamantes, e aconse­lhamos o Selection Trust a dizer ao Senador lhe daria uma resposta tão logo dois de seus geólogos tivessem examinado o local.

"O Senador Whitherspoon concordou, e o Selection Trust es­colheu para essa missão Mr. P. M. R. Willis, um seu geólogo vete­rano, bem como Harry Morgan, chefe do Serviço de Segurança em Yengema, bastante capaz de passar como sendo um prospector.

"Em princípios de abril, o Senador Whitherspoon que estava pronto a receber Morgan e Willis, mas sua carta sugeria que êle estava tão interessado em negócios de diamantes quanto na mine­ração dos mesmos".

Blaize remexeu em seus papéis:

— Eis aqui o que êle diz em 7 de abril de 1955, numa carta escrita do número 19 de Clay Street, Monróvia:

"Finalmente, após longa espera, nossas dificuldades quanto a mine­ração foram superadas, e eu estou anexando a esta carta cópias de Atos da Legislatura da Libéria, recentemente aprovados e publicados em folhetos relativos ao assunto. Isto lhes servirá de informação quanto à maneira pela qual as coisas são agora feitas em relação aos empreendimentos de mineração nesta República.

Recebi uma carta do gerente de sua Companhia em Sierra Leone, iníormando-me que os senhores Morgan e Willis foram as pessoas escolhi­das para visitar-me na Libéria, e pedindo-me "vistos" para os seus passa­portes. Encaminhei hoje esse pedido ao nosso Departamento de Estado, e informarei os referidos senhores logo que receba as devidas instruções.

Talvez deva dizer, aqui, que a compra de diamantes na Libéria cons­titui, hoje em dia, um negócio muito lucrativo, agora que tal lei foi aprova­da. A quantidade que pode ser adquirida diariamente talvez exceda qual­quer capital empregado. A Lei de Emendas e Tarifas Alfandegárias, etc., indica a maneira pela qual se pode fazer isso. Nós (os senhores e eu) pode­remos, pois, constituir imeditamente uma sociedade liberiana, demonstrar a qualquer banco do mundo que nossa sociedade vale dez mil dólares (US$ 10.000) e começarmos a enriquecer da noite para o dia. Embora, natural­mente, a lei me permita um direito de porcentagem de cincoenta por cento na referida sociedade, e embora o acordo estipule tal porcentagem, eu, não obstante, jamais exigirei isso. Estou certo de que poderemos fazer bons negócios. Há aqui muitos compradores de diamantes, mas, não raro sua falta de capital faz com que seus fornecedores percam a confiança neles e em sua capacidade financeira. Se uma firma de investimentos vier para a Libéria com capital suficiente, de acordo com a lei liberiana, e dispuser de direção capaz — direção essa que estou pronto a dar-lhe — suas compras serão ilimitadas.

Ficarei satisfeito, pois, se os senhores encararem este assunto seria­mente e, se possível, instruírem seus homens para que entrem em contacto comigo, a fim de iniciarmos entendimentos e, com efeito, estabelecermos nossa companhia, sendo que, enquanto eles estiverem aqui poderão efetu­ar compras maravilhosas, contanto que tragam capital para isso. Quanto ao que se refere a capital, não é necessário muito dinheiro, pois que pode­remos efetuar embarques semanais, mediante investimentos parcelados.

Aqui, estou preparado para proporcionar casa e comida a seus ho­mens, em meu próprio lar, além de lhes fornecer orientação legal, segu­rança pessoal e trazer-lhes a mercadoria que estiverem à venda. Que mais se poderá desejar?

Peço-lhes a fineza de me telegrafarem imediatamente, usando a 5.a Edição Bentley, e informando-me se seus homens devem ficar em minha casa ou num hotel, e qual a reação de VV.SS. quanto à minha proposta a respeito da compra de diamantes.

Se concordarem comigo quanto à compra de diamantes, os lucros de VV.SS. provenientes apenas desta fonte poderão equiparar-se aos de nossos esforços no campo da mineração, os quais, tenho a certeza, serão muito bem sucedidos, conforme mostrarei aos enviados de VV.SS. amos­tras e provas, quando eles aqui estiverem. Além disso, toda a Libéria está à minha disposição, pois posso obter licenças de prospecção, de acordo com nossas leis, em qualquer parte dela, segundo as provisões legais. Só necessito, da parte de VV.SS., conhecimentos técnicos e capitais.

Rogo a VV.SS. respondam com a máxima urgência a esta carta. Sinto-me, agora, muito melhor.

De VV.SS., atenciosamente, WlLLIAM N. WlTHERSPOON

"O pessoal do Selection Trust não se mostrou desanimado. A fim de se conseguir as informações vitais de que necessitávamos acerca da Libéria, concordaram em que deveríamos tocar a coisa para a frente segundo o plano original, mas que deveríamos, natu­ralmente, opôr-nos à criação de qualquer organização destinada à compra de diamantes. Ficou também decidido que nada devíamos dizer a Morgan e Willis acerca da operação de Rosen. Sentíamo-nos alegres pela oportunidade que se nos apresentava de obter uma vi­são independente do comércio de diamantes na Monróvia. Morgan e Willis partiram de Freetown a 10 de maio, e realizaram um tra­balho realmente esplêndido. Eis aqui o diário de Morgan, enviado à IDSO juntamente com o seu relatório — e o melhor que posso fazer é passá-lo às suas mãos tal qual êle foi redigido".

 

O DIÁRIO DE MORGAN

10 de maio

Willis e eu voamos para a Morávia, e fomos lá recebidos por Mr. Wi-therspoon, que nos conduziu ao Hotel Johnson, em Broad Street. Viajava conosco, no mesmo avião, Henry Brasseur, negociante de diamantes que regressava da Europa. Passamos pelo Departamento de Imigração, fomos fotografados, tiraram nossas impressões digitais e assinamos uma fórmu­la, na qual declaramos que não éramos comunistas. Minha profissão, nes­sa fórmula, foi anotada como sendo "gerente de mina".

11 de maio

Avistamo-nos com Witherspoon pela manhã, a fim de formular nos­sos planos. Dissemos-lhe claramente que esses planos deveriam incluir uma visita a todas ou quaisquer minas existentes na Libéria. Êle nos in­formou, de maneira bastante positiva, que havia apenas uma mina de diamantes na Libéria, a "sua", ou, em outras palavras, a Dubret Company, em Zui, situada, aproximadamente, a cem milhas a noroeste de Monróvia, à qual só se poderia chegar por via aérea ou a pé.

Witherspoon disse que existiam, provavelmente, outros depósitos de diamantes, mas acentuou, com ênfase, que não havia quaisquer ou­tros que estivessem sendo explorados, afirmando que êle o saberia, sendo, como era, presidente do Comitê de Minas e Mineração.

Que não existiam na Libéria quaisquer outras minas de diamantes que estivessem sendo exploradas, foi coisa de que tivemos confirmação, através de observações pessoais e de indagações que fizemos a muitas pessoas independentes. Jamais qualquer uma dessas pessoas insinuou houvesse na Libéria qualquer outra mina de diamantes, além da que exis­tia em Zui.

Durante essa reunião, Witherspoon sugeriu que nossa Companhia talvez se interessasse em abrir na Libéria uma agência de compra de dia­mantes. Conforme instruções que recebi de nosso escritório em Londres, respondi que Londres aguardava com interesse a remessa de diamantes que êle prometera, a fim de que se pudesse estudar o tipo de diamantes que se achavam à venda. Sua sugestão, quanto à abertura de uma agência de compras de diamantes, deu-me ensejo a que lhe fizesse perguntas per­tinentes acerca da quantidade de diamantes à venda, qual a concorrência que teríamos e por parte de quem, bem como as razões que o levavam a desejar abríssemos a referida agência. (Resposta: comissão de 5 ou 10 por cento). Aproveitei também a questão da agência como uma excusa para pedir-lhe nos mostrasse alguns diamantes em Monróvia.

12 de maio

À noite, êle nos levou a visitar "Willy Rosen", um comprador alemão de diamantes que emprega dois especialistas em diamantes que há trinta anos se dedicam a tal negócio.

Rosen mostrou-nos vários pacotes de diamantes, 99 por cento deles pertencentes ao tipo de Sierra Leone, os quais, segundo meus cálculos, não deviam pesar menos de 3.000 ou 4.000 quilates. Fomos informados de que toda aquela "partida" era resultado apenas de dois dias de compras feitas aos mandingos de Sierra Leone.

Êle retirou, de um dos pacotes, algumas pedras, descrevendo-as como diamantes liberianos típicos; cinco ou seis para cada quilate, pedras redondas, semelhantes às produzidas na Guiné Francesa, mas com uma proporção maior de "série" (gema).

Rosen disse, com toda a franqueza, que seus diamantes provinham, em enormes quantidades, de Sierra Leone. Essa sua afirmação, franca, de modo algum embaraçou Witherspoon, parecendo, ao contrário, alegrá-lo, como constituindo uma confirmação de sua asserção de que havia diaman­tes suficientes para justificar a aventura de nossa agência de compras.

Depois de nosso encontro com Rosen, dirigimo-nos ao Studor Ho­tel, onde Brasseur reside. Brasseur é associado a Julius Belcher na Du-bret Mining Company. Avistamo-nos com êle e com um armênio, Ardavast Powanlian, que reside, habitualmente, em Zui, onde se acha à testa dos trabalhos de mineração. Brasseur mostrou-nos 15 quilates de diamantes que Ardavast acabara de trazer-lhe, bem como cerca de 500 quilates de diamantes tipo Sierra Leone, que afirmou haver comprado na Libéria.

Pareceu espantado, quando lhe dissemos que íamos para Zui. Evi­dentemente, ouvia aquilo pela primeira vez, embora fosse sócio da compa­nhia que lá operava.

De lá, fomos a uma sorveteria, onde um egípcio, Kheir, nos exibiu e ofereceu para vender uma série de diamantes pesando 64 quilates. Já era, nessa altura, meia-noite e quinze. Duas semanas mais tarde, vimos a mesma pedra sob melhor luz, em casa de Willy Rosen, que pagara por ela 30 libras por quilate.

Depois de ver todos esses diamantes, Whiterspoon tornou ainda a dizer-nos que seria uma boa coisa se nossa Companhia abrisse uma agên­cia de compras.

13 a 15 de maio

Durante esse período, compramos equipamentos de campanha, ali­mentos, e alugamos um aeroplano, a fim de transportar-nos a Zui no dia

16.

Visitamos o cônsul britânico, David Mitchell, e o embaixador da Grã-Bretanha, Mr. Capper. Capper mostrou-se atônito ante o fato de os liberianos nos terem permitido visitar as minas e inspecionar a produção de diamantes, coisa que jamais haviam permitido antes a quaisquer re­presentantes do Governo inglês ou a qualquer firma inglesa de reputação, tendo-se mesmo recusado a permitir que tais pessoas examinassem uma "partida" de diamantes capturada dos contrabandistas. Indagou se seria possível enviar uma cópia de nosso relatório através do Foreign Office.

O encarregado de negócios americano, Frank Wile, colocou à nossa disposição toda a ajuda possível. Parecia muito preocupado com o comér­cio de diamantes entre o Leste e o Oeste. Prometeu enviar-me alguns alga­rismos acerca da exportação de diamantes pela Libéria.

Brasseur percebeu logo a significação de nossa visita e, antes de nossa partida, procurou desencorajar-nos quanto àquela nossa aventura, dizendo-nos que a pista de pouso de aviões em Zui não era nada segura, agora que as chuvas haviam chegado, e que o piloto não se arriscaria a lá aterrar, menos que fosse obrigado a fazê-lo sob pressão. Disse, ademais, que a mina se achava situada a seis horas e meia de caminhada em meio de uma selva sumamente insalubre, causadora de febres, repleta de peri­gos devidos a animais selvagens dos quais se referiu a bisões, elefantes e leopardos.

16 de maio

Voei para Zui num aeroplano alugado, um Piper Club, HB 00X, com lugar apenas para um passageiro, pilotado por Max Pop, sendo o primeiro a chegar com todo o material de acampamento amontoado em torno de mim na cabina, seguido, três horas mais tarde, por Willis e por um empre­gado africano de Whiterspoon, Robert Johnson, que se agachou no espaço destinado à bagagem, atrás do assento do passageiro.

A pista de aterragem achava-se utilizável, e os únicos animais sel­vagens que vimos no interior eram macacos e hipopótamos. A distância, desde a pista de aterragem até a localidade de Zui, era de cerca de uma milha e, de lá até o campo de mineração, mais onze milhas, três horas e meia de árdua caminhada, além da travessia, em canoa, do rio Mano.

O acampamento da Dubret Mining Company, a única mina de dia­mantes da Libéria, consiste de umas poucas casas nativas cobertas de ra­mos de palmeiras e de paredes de barro (numa das quais nós morávamos), capazes de acomodar entre quinze e setenta nativos, mas que se achavam ocupadas, na época de nossa visita, por apenas doze pessoas, excluindo nossos carregadores.

A mina que visitamos consistia de uma pequena clareira aberta em meio da mata, situada a meia milha de distância do rio Kumbor, e tinha uma área de superfície externa de trabalho que não ia além de 2.500 jar­das quadradas (cincoenta jardas quadradas). Nove homens trabalhavam na mina durante o período de nossa visita, usando equipamentos primiti­vos e tratando de aproximadamente uma jarda cúbica por dia. Seu equi­pamento consistia de três baterias de vaivém para lavagem do cascalho diamantífero, um conjunto de selhas móveis movidas a pedal, algumas bateias giratórias e pás.

O chefe da mina, Francis Gballeh, recebeu instruções para não nos prestar auxílio algum e, durante os dois ou três primeiros dias, não facili­tou em nada o nosso trabalho. Demos-lhe alguns presentes e êle, antes de nossa partida, nos deu expontâneamente muitas informações, mostrando­nos os diamantes obtidos durante a nossa estada lá. Assemelhavam-se ao tipo de diamantes liberianos que nos haviam sido mostrados em Monróvia, sendo também semelhantes ao único diamante que encontramos numa escavação existente junto ao Kumbor, a duzentas jardas de distância da mina.

17 de maio

O armênio, Ardavast, visitou-nos no acampamento. Advertiu-nos de que não devíamos trabalhar em sua mina, dizendo que seria obrigado a impedir-nos, se tentássemos fazê-lo. Queria que lhe prometêssemos enviar a êle ou a Brasseur uma cópia de nosso relatório, mas nós não nos com­prometemos a enviar-lho. Felizmente, êle não permaneceu muito tempo na mina, tendo caminhado doze milhas para avistar-se conosco, pois tinha necessidade de regressar no mesmo dia.

18 de maio

Escavei buracos no Kumbor e lavei o cascalho, em busca de dia­mantes. Encontrei uma pequena pedra tipo liberiano. Não havia possibili­dade de que ela tivesse sido ali enterrada, pois que Willis e eu estávamos fazendo as escavações.

Nosso equipamento, fornecido pelo Senador Whiterspoon, consistia de quatro bacias de zinco, cujos fundos haviam sido retirados e substitu­ídos por peneiras de arame, cujos crivos variavam de 8 a 1 mm. Por meio delas, fizemos o trabalho de bateiamento.

19 de maio

Infrutífera caminhada de vinte e cinco milhas, ida e volta, até Zui, ao encontro do aeroplano por nós alugado, a fim de que pudéssemos rea­lizar um vôo de reconhecimento. O aeroplano não apareceu senão às 3,30, quando já havíamos caminhado duas milhas de regresso ao acampamen­to, antes que caísse a noite.

20 a 24 de maio

Durante este período, fizemos umas poucas escavações e caminha­mos muito, à procura de outros sinais de mineração, ao mesmo tempo que colhíamos informações de quem quer que se mostrasse disposto a falar. Concluímos que não havia qualquer outro local de mineração de diaman­tes nas imediações de Zui.

É mais do que evidente que a mina de Zui não constitui bom negó­cio, do ponto de vista econômico.

Willis não pôde caminhar de volta a Sierra Leone, como se planejou originàriamente — e isso por dois motivos: primeiro, teve um envenenamento de sangue, devido a ferimentos na parte, o que o deixou incapa­citado durante dois dias; segundo, porque, enquanto estávamos em Zui, recebemos uma carta de Whitherspoon, aconselhando-nos a não tentar atravessar a fronteira, devido às atividades do exército liberiano, pois, di­zia-nos êle, não desejava fôssemos "humilhados".

25 de maio Regresso a Monróvia.

26 de maio

Encontramos (nome omitido: I.F.), que iria fazer breve viagem à In­glaterra. Este homem me pediu uma carta de apresentação ao nosso es­critório de Londres, pois levava consigo uma "partida" de diamantes que desejava vender. Adverti-o do risco de levar diamantes em seu poder, ao que êle me respondeu: "Oh, eu tenho passaporte diplomático!"

Visitamos, à tarde, o Bureau de Minas e Geologia, onde nos avista­mos com o seu diretor liberiano, Arthur Sherman, que nos convidou para sua casa, o que, efetivamente, fizemos. Mostrou-se muito interessado em nossas atividades, um tanto desconfiado e bastante reservado.

Jantar com Willy Rosen — e mais tagarelice.

27 de maio

Visita ao Departamento de Imigração, a fim de obter "vistos" de saí­da, que não nos foram concedidos, em vista do chefe de polícia haver rece­bido queixas de que havíamos violado as normas vigentes, tendo visitado o interior. Contamos o ocorrido a Whitherspoon, quem, mais tarde, nos acompanhou ao Departamento de Imigração, entregou os nossos passa­portes ao chefe de polícia com a ordem de "Assine isto aqui". Deixamos o Departamento dizendo ao chefe de polícia: "Obrigado por sua coopera­ção".

28 de maio

Dizem que os compradores de diamantes da Libéria realizaram uma reunião a fim de discutir quais as medidas que deveriam ser tomadas contra Willy Rosen, que estava comprando diamantes por preços tão altos e dirigindo seu negócio de maneira tão eficiente a ponto de dominar todo o comércio. Pretendem levar o assunto ao conhecimento do Presidente Tubman, queixando-se de que Willy Rosen é um agente da Diamond Cor­poration.

29 de maio

Foram feitos grandes esforços no sentido de obter-se dados quanto à exportação de diamantes pela Libéria. Ninguém podia nem queria exibir tais dados, sendo que os únicos dados publicados se referem a 20.000 quilates de diamantes, relativos ao ano de 1954. Tais diamantes não po­deriam ter saído das minas liberianas. O Encarregado de Negócios ameri­cano, que também tentou, na ocasião, obter tais dados, tampouco foi bem sucedido.

Drinks na Embaixada, à noite. Tivemos de sair cedo para uma en­trevista com o Presidente Tubman, mas o presidente não apareceu.

30 de maio

Brasseur e Belcher visitaram-nos no Hotel Johnson, dia 30 de maio, uma hora e meia antes de deixarmos o país e, em tom truculento, inda­garam que é que tínhamos estado fazendo no interior. Referimo-nos ao Senador Whitherspoon, e eles nos responderam que Whitherspoon lhes vendera toda a parte que lhe correspondia na mina, em troca de 10 por cento de quaisquer lucros, afirmando que podiam apresentar documen­tos confirmando tal assertiva. Respondi-lhes que nossos advogados gosta­riam, naturalmente, de examinar todos os documentos relevantes, antes do início das operações de mineração. Nessa altura, Whitherspoon chegou e conduziu-nos ao campo de aviação.

14 horas.   Vôo para Freetown.

Quando terminei a leitura, Blaize comentou, acremente: — Eis aí o que se refere à mina de diamantes do Senador Whithers-poon e também, incidentalmente, o que se refere aos milhões de libras esterlinas em diamantes "liberianos" que se escoam, anual­mente, pelo mundo inteiro.

 

"... o aeroplano dos contrabandistas caiu a poucos metros do mar".

Os saltos ocos usados por Leiser Weitman para' o contrabando de diamantes

 

Sir Pierce Sillitoe, KBE, LD, Dr. John Williamson

Milhares e milhares de diamantes, desde o tamanho de ervilhas até de nozes".

 

                               O ÂMAGO DA QUESTÃO

Em sua maior parte, os comentários de Blaize acerca dos ho­mens que êle conheceu, durante esses seus três anos, são amáveis. Referia-se aos contrabandistas nesse tom divertido, paternal, que os policiais não raro empregam quando se referem aos delinqüen­tes por eles capturados. Blaize não revelava ressentimento pelos obstáculos ocasionais que altos funcionários colocavam em seu caminho. Eles estavam realizando seu trabalho, e êle compreendia como deveria ter-lhes sido irritante ter aquele misterioso homem de Londres, apoiado por Sir Ernest Oppenheimer, metendo o nariz em tudo, fazendo perguntas e recomendando coisas que se refletiam em sua eficiência.

Mas Blaize era candente quanto à Libéria — e tinha, como vimos, muito boas razões para isso. Desprezava muitos daqueles negros grotescos de opereta que ocupavam altas posições oficiais, mas fazia pior juízo ainda dos brancos que os apoiavam e, não raro, os incitavam em sua venalidade. A Libéria era, afinal de contas, o primeiro Estado Negro, uma verdadeira Utopia na imaginação dos povos de côr do mundo todo e, se aquilo iria constituir o modelo da emancipação do negro, Blaize não alimentava muita esperança quanto ao futuro de Gana e da Federação das Índias Ocidentais.

Blaize era também bastante acerbo em sua crítica acerca de certos membros do ex-govêrno de Sierra Leone. Não lhe agradara a maneira pela qual eles pareciam ter desviado o olhar, enquanto toda uma colônia britânica se desintegrava. Na narrativa que se segue, relativa à extração e contrabando abertamente ilegais de diamantes em Sierra Leone, atenuei consideravelmente as críticas de Blaize quanto aos Culpados, que ficaram a observar, indiferen­tes, enquanto toda uma colônia inglesa perdia o seu nome.

O senhor verá — disse Blaize que, de meados de 1955 até o fim desse ano, nós já havíamos, mais ou menos, apreendi­do todo o quadro daquilo que chegou a constituir, coletivamen­te, a maior operação de contrabando do mundo. Havia pequenos desvios de diamantes das minas de Kimberley e, talvez, ocasional­mente, da Consolidated Diamond Mines, em Oranjemund. Havia, também, um derrame insignificante de diamantes procedentes do Congo Belga e da Mina Williamson, em Tanganika. Essas coisas se resumiam quase que exclusivamente a problemas de seguran­ça física, e fizemos, a respeito, várias recomendações, as quais se limitavam quase que apenas à redução do número de homens que tinham oportunidade de lidar com os diamantes, desde o momento em que as pedras saíam da mina até o momento em que entravam no cofre-forte do gerente. Quanto ao que dizia respeito à população do IDB — os contrabandistas, compradores ilegais e lapidadores — vimos uma porção de gente ser presa e muitos nomes irem parar na lista negra, mas tudo isso nada era comparado ao fluxo de pe­dras procedentes de Sierra Leone, o qual não se devia tanto ao con­trabando organizado, mas, antes, ao colapso completo da lei e da autoridade em toda uma colônia britânica quase tão grande quanto a Irlanda. A culpa disso não cabia, certamente, ao Selection Trust de Sierra Leone. Não fora o trabalho pioneiro do Selection Trust, e talvez jamais se ouvisse falar na indústria de diamantes em Sierra Leone. A culpa disso era devida ao desleixo e à negligência, a um governo local fraco e à ignorância de Whitehall. Na época em que entramos em cena, em 1954, ninguém — nem mesmo o Selection Trust ou o governo de Sierra Leone — percebia até que ponto a mineração ilegal no interior do país estava fugindo ao controle das autoridades; mas, em questão de meses a situação se deteriorara de tal modo, que qualquer pessoa que lesse os jornais locais teria julgado que eram os membros do Selection Trust de Sierra Leone, e não os que se entregam à mineração ilegal, que estavam burlando as leis e arruinando o país. Tudo isso terminou com um colapso parcial da administração e com os graves tumultos que irrompe­ram, em fins de 1955, em quase todas as regiões de Sierra Leone, levando à criação da Comissão de Inquérito presidida por Sir Her­bert Cox. O senhor poderá ler tudo isso no Livro Branco de Cox, mas este trecho — ajuntou Blaize, folheando o Livro Branco de Cox e assinalando a lápis um longo parágrafo — lhe dará uma idéia da coisa. Eis o que diz a Comissão:

Constatamos e, por conseguinte, aqui o relatamos, tal grau de des­moralização entre o povo, em suas instituições habituais e em sua maneira de encarar os deveres legais, que ficamos deveras chocados. A desonesti­dade converteu-se em algo que se aceita como constituindo um ingrediente normal da vida, e isso até um ponto em que ninguém se preocupou em combatê-la ou sequer deixar-se dela. O camponês e o pescador comuns parecem haver aceito, a princípio, um grau tolerável de corrupção; mais tarde, viu-se obrigado a aceitar, por receio, tal corrupção; e, finalmente, re­belou-se, alimentando tal falta de confiança nos outros — tal desconfiança das autoridades constituídas — que a restauração do respeito próprio e de alguma crença até mesmo na possibilidade da integridade pessoal de alguém é coisa que dificilmente será conseguida.

De qualquer forma, tudo isso diz respeito à política, e eu es­tou apenas procurando mostrar-lhe que é algo absolutamente sem propósito realizar-se qualquer trabalho secreto ou de segurança em meio a tal atmosfera. Fizemos todo o possível no sentido de ajudar a polícia, fornecendo, repetidamente, informações ao governo, a fim de que alguma coisa pudesse ser feita. Mas, os altos funcionários com quem nos avistamos, pouco mais fizeram do que abanar a cabeça com ar compreensivo e manter uma atitude de enigmática neutralidade — mesmo quando havia uma greve geral e arruaças em Freetown e Yengema, em 1955, ocasião em que várias centenas de agitadores procuraram destruir a mina. Foi somente devido à extraordinária coragem de John Gundry, o gerente da mina, e de gente como Harry Morgan, que as famílias européias existentes nas minas não foram, todas elas, massacradas. Armas e gases lacrimo­gêneos mantiveram as hordas à distância, sendo que, depois, as mesmas desapareceram em meio da mata e tornaram a dedicar-se à sua mineração ilegal, para a qual toda aquela agitação proporcio­nou excelente cobertura.

"Mais ou menos nessa ocasião, o comissário de Impostos So­bre a Renda resolveu exigir que todos os suspeitos da IDB decla­rassem as quantias recebidas de além mar durante os três anos anteriores, e o que haviam feito com o dinheiro. Êle tinha razões para crer que os bancos locais haviam recebido somente durante os últimos doze meses, mais do que três milhões de libras esterlinas do exterior, e, à parte nosso interrêsse no IDB, desejava receber o prêmio que lhe era devido. Era um homem de ação. Em princípios de março, enviou uma circular aos suspeitos, exigindo deles, den­tro de um mês, uma declaração completa das quantias que haviam recebido de além-mar. O bando de contrabandistas de Freetown foi tomado de pânico, sendo que vários dos principais suspeitos fizeram preparativos para imigrar para a Libéria. Um negociante libanês declarou que estava disposto a arranjar 50.000 libras es­terlinas, mas não disse se o faria através de suborno ou de taxas. Infelizmente, um grupo de ministros queixou-se ao Governador de que tal exigência estava perturbando o comércio do país, podendo levar a complicações — e o comissário foi chamado à ordem e obri­gado a retirar sua circular.

"Quanto à IDSO, os comentários em Freetown era de que o Governo bem podia haver dado ordens às autoridades alfandegá­rias para que não revistassem o pessoal do IDB no aeroporto, tendo em vista o fato de que os mesmos poderiam ser apanhados, presos e ter os seus diamantes apreendidos, afetando, assim, o comércio local.

"Â medida que o ano de 1955 ia chegando ao fim, as coisas passaram de ruins a piores no território, embora tivessem sido pos­tos em práticas vários meios de melhorar o serviço de segurança nas minas, e a produção houvesse aumentado de 25.000 quilates em dezembro de 1954 a 42.000 quilates em julho de 1955. Morgan apanhou um bom número de ladrões nas minas, mas a verdade é que havia um suprimento infindável deles. Depois de uma prisão, a produção melhorava imediatamente, mas tornava logo a dimi­nuir, quando outro ladrão assumia o lugar do que havia sido preso. O caos existente no país estava afetando os guardas africanos de Morgan, principalmente na Casa de Concentração, onde as pedras passavam pelas fases finais de recuperação e classificação. Certo dia, por exemplo, Morgan deteve o chefe dos guardas, bem como um rapaz encarregado da lubrificação das máquinas, e encontrou em seus bolsos 24 quilates de diamantes. Ambos se declararam, alegremente, culpados, pagando sem pestanejar uma multa de 300 libras esterlinas.

"Essas perdas, porém, nada significavam, comparadas ao as­salto em grande escala, fora das minas, ao solo diamantífero e, finalmente, o Selection Trust resolveu lançar uma grande campa­nha de compra de diamantes. Lyall, um dos prospectores vetera­nos, armou acampamento junto a um lugar de mineração proibido, onde havia cerca de trezentos mineiros ilegais, e ofereceu a tais homens, nos terrenos em que êle estava realizando sua prospec­ção, cinco xelins por dia, para que realizassem escavações para êle. Mostraram-se todos muito satisfeitos por fazer, por cinco xelins diários, um trabalho que, de outro modo, teriam de fazer de graça e, quando viram que os preços pagos por Lyall eram muito supe­riores aos que poderiam obter dos negociantes mandingos, ficaram encantados, e dedicaram-se com vontade às escavações. Mas os compradores mandingos e libaneses, das aldeias vizinhas, ficaram furiosos. Lyall viu-se inundado de pedras, tanto das escavações que êle próprio estava realizando, como provenientes de todo o país — e, ao término de tal experiência, já se sabia qual o padrão que se deveria adotar para solucionar de vez todo aquele problema: a criação de postos de compra, pela Diamond Corporation, em todo o território de Sierra Leone.

"Entrementes, porém, o Selection Trust de Sierra Leone fora persuadido a ceder seus direitos e monopólios de mineração. Reali­zavam-se reuniões em Londres, as quais levaram a Selection Trust a aceitar, em setembro, 1.570.000 libras esterlinas pela cessão de seus direitos, limitando a área que lhe cabia a 450 milhas quadra­das, por um período máximo de trinta anos. De sua parte, o Go­verno propôs a legalização dos mineiros ilegais, concedendo-lhes licenças de prospecção e mineração, enquanto que a Diamond Cor­poration estabeleceria um mecanismo adequado para a aquisição de pedras anteriormente ilegais.

"De um modo geral, embora isso fosse certamente injusto para com o Selection Trust e os acionistas da Consolidated African Selection Trust — o ramo da companhia em Sierra Leone — o plano era bom, do ponto de vista da IDSO. Não havia agora sentido em contrabandear-se diamantes para a Libéria, se os mineiros nativos podiam obter em Sierra Leone, de modo inteiramente legal, o preço estabelecido no mercado mundial. Não se podendo exterminar a mineração ilegal, a única solução consistia em legalizá-la. Isso foi devidamente feito e, em princípios do ano passado — a 6 de feve­reiro, para sermos exatos — foram suspensas todas as persegui­ções contra os mineiros e vendedores ilegais de diamantes. Foram concedidas licenças para escavações, e os negócios começaram. Em fins de março, mil e quinhentas licenças para mineração foram concedidas, sendo que tal número, mais tarde, se elevou a cerca de 5.000. Concederam-se autorizações também para negociantes, um dos quais — interessa-me observar — era o nosso velho amigo Finkle, que não perdeu tempo em regressar de Beirute para Free­town, abrindo uma casa comercial.

"A única licença de exportação foi concedida à Diamond Cor­poration, e eu fiquei atônito ante a maneira pela qual eles resolve­ram o problema de tragar essa nova e imensa inundação de pedras. Inauguraram postos de comércio de diamantes em Freetown e no interior, em Bo e Kenema, construíram casas para seu pessoal e montaram um sistema de comunicações aéreas e radiofônicas. Di­rigiam tais postos com a ajuda de jovens avaliadores — moços de educação universitária que trabalhavam sob o comando geral de um homem experimentado em diamantes — enviando-os para a selva com milhares de libras esterlinas, em notas de banco, em seus bolsos. Tanto os mineiros nativos quanto os comerciantes insistiam em ser pagos à vista, e não havia maneira alguma de obter-se uma segunda opinião quanto ao valor das pedras. Certo jovem, recém-chegado da Inglaterra, foi despertado, uma noite, por um negro, que trazia consigo um enorme diamante envolto num lenço sujo. Sem hesitação — mas, creio eu, com temor — o jovem ofereceu-lhe 10.000 libras esterlinas, as notas foram logo contadas sobre a mesa, e o negro tornou a desaparecer em meio da noite. A possibilidade de cometer um erro dispendioso, com uma pedra daquele tamanho, era grande, mas alegra-me dizer que a avaliação do jovem foi exata, merecendo êle grandes louvores por parte da Corporação.

"Para dar-lhe um exemplo da inundação de pedras, duran­te os primeiros três meses de atividade, basta que lhe diga que a Diamond Corporation comprou, somente em Bo, o equivalente a 600.000 libras esterlinas de diamantes, sendo que, desde então, o total dessas compras em meio da selva se elevou a milhões de libras.

"Hoje, embora a IDB na Libéria ainda funcione, a situação não é tão ruim como era na época em que entramos em cena — e as exportações de Sierra Leone aumentaram astronômicamente. Em 1955, por exemplo, antes do novo regime, a exportação de dia­mantes por Sierra Leone atingia a 1.400.000 libras esterlinas. No ano passado, essa quantia chegou a cerca de três milhões de libras e, quando forem abertos novos postos e os territórios adjacentes forem também incluídos nos canais legais, a soma total anual tal­vez seja o dobro dessa. Estes algarismos talvez não sejam muito agradáveis ao paladar dos acionistas do Selection Trust, que se viram obrigados a vender direitos que já datavam de setenta e cinco anos por apenas meio milhão de libras, mas, pelo menos, os com­pradores da Libéria, Beirute e Antuérpia, foram postos para fora do negócio, e a guerra contra o maior movimento de contrabando do mundo está prestes a ser ganha".

Blaize sorriu, sombriamente, e ajuntou:

— Mas talvez ainda não seja bem assim. Eis aqui um recorte do jornal West África, que conta com o apoio do governo, datado de 5 de maio de 1965:

As notícias de que diamantes avaliados em 750.000 libras esterlinas foram apreendidos, em Dakar, pela polícia da África Ocidental Francesa, em poder de dois indivíduos que viajavam por via aérea, um austríaco e um libanês, procedentes da Monrovia, nos fazem pensar até que ponto são bem sucedidas as medidas por nós adotadas. recentemente, acerca de mi­neração e venda de diamantes. Pois quase não há dúvida de que tais dia­mantes provém de Sierra Leone, embora seja difícil provar-se tal coisa...

Desde que a Diamond Corporation começou, em fevereiro, a com­prar diamantes, tem havido rumores de que suas aquisições têm sido muito menores do que se esperava. Mas o que parece certo é que a Cor­poração está comprando uma grande proporção dos diamantes extraídos pelos sierra-leoneses que têm permissão para dedicar-se à mineração. Por outro lado, existe ainda muita mineração ilegal, já que o novo plano de exploração legal de diamantes por indivíduos privados, requer tempo para ser posto em prática em todo O país... A longo prazo, a Corporação deverá vencer a batalha. Ela atribui valor real às pedras e paga-as de acordo com o que valem.

"Como vê, há ainda alguns grandes "vasamentos" que pre­cisam ser tapados. Amanhã, eu lhe falarei a respeito dos últimos tiros disparados pela IDSO, antes de apanharmos nossas mochilas e abandonarmos o campo de batalha.

 

                        MONSIEUR DIAMANT

Era o ultimo dia que passávamos juntos. O sol brilhava, e resolvi alugar um automóvel e ir almoçar nas Grutas de Hércules, logo ao sul do Cabo Spartel, onde o Mediterrâneo se lança, através do Estreito de Gibraltar, no Atlântico.

No caminho, demos uma volta pela chamada Floresta Diplo­mática — cerca de dez milhas quadradas de eucaliptos, sobreiros e mimosas em flor. Salvo homens e mulheres solitários nos campos, não deparamos coisa alguma viva, exceto, de vez em quando, com uma tartaruga a atravessar o caminho e, de tempos em tempos, com um casal de cegonhas, que dava uma breve corrida e se eleva­va graciosamente no ar, ao sentir o barulho do automóvel.

É, esse, um recanto curioso do mundo. Lá, entre ruínas ro­manas e fenícias, e acampamentos dispersos de mouros, bérberes e riffs, se acha um dos maiores centros de rádio-comunicação do mundo. A paisagem é, por toda parte, perfurada pelas enormes antenas de rádio da RCA e da Mackay, bem como pelas torres que se erguem nos terrenos cuidadosamente vigiados de onde a Voz da América irradia seus programas para a Europa e penetra nos países da Cortina de Ferro. Por alguma razão, aquele recanto so­branceiro e romântico, situado à esquerda do Continente Africano, constitui um local ideal para transmissão e recepção de rádio e, en­quanto por ali seguíamos tranqüilamente de automóvel, podíamos imaginar o ar, sobre nossas cabeças, vibrante de vozes sussurran­tes — o que nos produzia estranha sensação.

"As Grutas de Hércules e a aldeia próxima, de construção romana, onde, segundo nos informou nosso chofer, Hércules vi­vera, não tinham muito a apresentar sob o aspecto turístico, mas, de qualquer maneira, mandamos o carro embora e passamos a manhã a caminhar pelas areias desertas, infinitas, as quais desa­pareciam, sob as coruscações produzidas pelo calor, na direção de Casablanca, 200 milhas ao sul.

O vento do Levante lançava sobre a praia cardumes de pei-xes-caravelas. Blaize divertia-se a pisar sobre suas vesículas roxas, de aspecto venenoso, e, enquanto prosseguíamos, o seu caminhar era marcado pelo que, a nossos ouvidos, se assemelhava a tiros de revólver de pequeno calibre.

Sua história estava quase terminada e, enquanto andávamos pela praia, êle esvaziava seus bolsos das anotações e dos pedaços de papel de que se valera, nos dias anteriores, para avivar a memó­ria e documentar sua narrativa. Rasgava-os em pedacinhos, deten-do-se, às vezes, para lançá-los ao mar e ver as ondas empapá-los.

Qualquer escritor teria apreciado aquela cena — aquelas duas figuras solitárias a caminhar por aquela praia enorme e deserta, tendo, à esquerda, o Continente Africano e, à direita, do outro lado do oceano, as Américas. E aquele agente a destruir seus papéis...

Enquanto caminhávamos para o sul, tendo o sol à nossa frente, como duas pessoas numa seqüência de sonho em fita de cinema, Blaize concluiu sua história:

— Enquanto tudo isso se passava no Continente Africano, a IDSO não se mantivera ociosa na Europa e no Oriente Médio. Eu estivera inteiramente entregue à consecução de uma finalidade: acabar com a IDB e com o contrabando em sua fonte, e penso que o senhor concordará fomos bastante bem sucedidos. Entrementes, formamos um enorme arquivo secreto e um fichário com mais de 5.000 nomes, e a IDSO se mantinha em contacto constante com Londres, Paris e Antuérpia, procurando bloquear a outra extremi­dade do canal de contrabando na Europa.

"Claro que nada podíamos fazer quanto a pequenas "parti­das" de pedras que haviam sido legalmente exportadas, como o fluxo proveniente da Libéria, mas isso constituía apenas correntes subsidiárias que fluíam em direção do norte, e eu sempre podia fazer advertências a respeito delas à IDSO de Paris, esperando que, no fim, se pudesse fazer algo a respeito. Às vezes, Paris e Antuérpia eram informadas de antemão das "partidas" que estavam sendo enviadas, e a coisa se processava também em sentido contrário.

"Não tardou muito, e começamos a ter uma idéia dos que agiam em grande escala na Europa e, principalmente, do maior de­les todos, uma pessoa a quem chamarei "Monsieur Diamant". Este não é, claro, o seu nome verdadeiro, mas é o nome, ou melhor, o título que lhe demos".

Blaize parou um momento em sua caminhada, olhou-me e sorriu, com expressão entre enojada e irônica:

— O senhor tem escrito, em seus livros, acerca de alguns grandes patifes, mas a verdade é ainda mais estranha, e nenhum de seus patifes pode comparar-se a Monsieur Diamant. Eu diria que se trata do maior escroque da Europa, senão do mundo: não apenas grande, mas, também, inteiramente bem sucedido. Já está, agora, um tanto avançado em anos. Já deve ter mais de sessenta, e é um sujeito grandalhão, rijo, com cerca de dez milhões de libras no banco.

"Cremos que é de origem alemã. É um dos cidadãos mais respeitados da Europa — e, certamente, o mais temido — e, se eu lhe contasse tudo o que sei a respeito dele, e o senhor o publicasse e se visse, algum dia, por perto dele, êle faria com que o senhor desaparecesse da terra.

— Não o creio — disse eu. Blaize encolheu os ombros:

— Bem, eu não vou correr risco algum. Não lhe direi sequer o seu verdadeiro nome, nem onde êle vive, de modo que o senhor não se sentirá tentado a farejar-lhe o rastro. Não estou exagerando a respeito deste homem, e o senhor deve apenas aceitar a coisa como ela é e continuar a escrever sua história.

Blaize pôs-se de novo a andar pela praia.

— Bem, a coisa mais importante a respeito de Monsieur Dia­mant consiste no fato de ser êle inteiramente respeitável. É um nome ligado a muitas outras comunidades, além da que se dedi­ca ao mundo dos diamantes. Logo depois da guerra, quando os negócios de diamantes estavam sendo reorganizados, e lhe era importante fazer com que o seu próprio maquinismo tornasse a funcionar, Monsieur Diamant vivia sempre a voar para Londres. Costumava aparecer, de repente, ocupando os melhores aposentos do melhor hotel. Não era fácil viver-se bem em Londres naquela época, de modo que Monsieur Diamant costumava levar consigo a própria carne que comia, seu próprio mordomo, seu próprio creme, e assim por diante, fazendo com que seus alimentos lhe fossem preparados pelo cozinheiro-chefe. À noite, entretinha seus compar­sas com infindáveis garrafas de champanha, caviar e meia dúzia de garotas que alguns de seus agentes lhe arranjavam. As moças tinham sempre de ser jovens, e cada qual recebia cinqüenta libras por noite. Não sei se elas achavam que isso valia a pena. Monsieur Diamant tinha maneiras muito esquisitas com as garotas, não sen­do, na verdade, homem de modo algum atraente.

"Digo-lhe tudo isso apenas de passagem, para que lhe seja possível fazer uma idéia de tal sujeito, mas o caso é que as maiores "partidas" de diamantes entradas ilegalmente na Europa vão parar em suas mãos. É o maior dos contrabandistas — e isso há já vinte anos — sendo que primeiro os alemães e, agora, os russos e os chi­neses sabem disso e tratam com êle diretamente.

"Monsieur Diamant usa Antuérpia como um de seus quar­téis-generais e, partindo de lá, tem à sua disposição três vias de acesso através da Cortina de Ferro, dispondo de toda uma equipe de portadores profissionais. Essa gente recebe gordos salários, mas êle ainda, faz seguros, em nome de seus homens e de suas famílias, contra perdas por motivo de sentenças de prisão, obtém para os mesmos novos passaportes (quando os que eles possuem são con­fiscados) e cuida, de um modo geral, do bem-estar de todos.

"Seus canais principais são, primeiro, navios russos e pola­cos que partem do porto de Antuérpia; segundo, endereços secretos na Suíça e, terceiro, vias de ligação, através de Berlim Ocidental, para o Leste.

"Êle não é, certamente o único, mas é, sem termo de compa­ração, o maior de todos os contrabandistas e o mais bem organiza­do, tornando-se, assim, o nosso alvo principal na Europa".

— Qual o vulto de seu contrabando através da Cortina de Ferro? — indaguei. — E por que existe isso, afinal de contas? Ainda outro dia, os russos anunciaram que haviam descoberto enormes campos diamantíferos em não sei que parte do Círculo Ártico... num dos afluentes do rio Vilyui.

— Ninguém jamais viu coisa alguma que confirmasse essa história, e, seja lá como fôr, a Diamond Corporation não acredita haja qualquer coisa de novo nisso. Se os russos tivessem descober­to, mesmo, essas tais minas, por que razão estariam pagando, na Libéria e na Bélgica, preços mais altos do que os do mercado mun­dial, como nós sabemos que estão pagando? Acontece que temos um "contato" na zona russa de Berlim — no Ministério do Comércio — e ainda outro dia êle nos informou que, no espaço de quatorze dias apenas, em fevereiro deste ano, quase meio milhão de libras esterlinas em diamantes foi contrabandeado de Berlim Ocidental, de Hanau, de Brucken e de Idar Oberstein, que é onde os alemães tem a sua indústria de lapidação de diamantes.

"A maioria das pedras provinha da África e, o resto, do Brasil, sendo quase todas elas constituídas de diamantes industriais. Ti­nham sido contrabandeadas ou compradas em todas as partes do mundo. Provinham, em geral, de Antuérpia, mas algumas vinham da Holanda, dos Estados Unidos e até mesmo da Inglaterra, sendo que um pequeno número delas provinha de Israel e da Itália.

"Nosso homem em Berlim Ocidental nos informou que o destino de cerca de um quarto dessas pedras era a Rússia. Outro quarto iria para a China, e o resto era dividido entre os demais pa­íses comunistas — destinando-se todas elas, presumivelmente, à indústria de armamentos.

"Isso é muito diamante para apenas quinze dias e, se se tra­tar de caso típico, eleva a cerca de doze milhões de libras esterlinas anuais o valor de tal contrabando. Esse não constitui um algaris­mo impossível, mas sugere que os russos se interessam muito por tal comércio.

"De qualquer modo, nosso principal objetivo na Europa era fazer tudo o que pudéssemos no sentido de atrapalhar as fontes de fornecimento de diamantes de Monsieur Diamant, bem como o derrame de pedras por toda a Europa, sendo que grande parte de nosso trabalho na África consistia em fornecer indícios a Londres, Paris ou Antuérpia, sempre que tivéssemos notícia de que alguma remessa importante de diamantes estava sendo efetuada da África com destino a Monsieur Diamant ou a seus amigos. Nada havíamos que pudéssemos fazer pessoalmente contra êle. Eis aí o que quero dizer quando afirmo que êle é o maior contrabandista da Europa. Durante todos os seus trinta anos, aproximadamente, de atividade como contraventor, jamais sofreu êle qualquer condenação. Nas chefias de polícia da Europa, só o que se conseguia saber sobre êle é que fazia polpudas contribuições a associações beneficentes de pessoal da polícia e a clubes esportivos. Só os vários Serviços Se­cretos é que sabem o que há a seu respeito. Mas isso não o preocu­pa. Êle está acima da lei. É, na verdade, um delinqüente invulgar.

"Note — prosseguiu Blaize, convertendo-se, subitamente, em advogado meticuloso, de espírito preciso, e adotando uma certa terminologia legal — note que, ocasionalmente, um negociante de todo inocente se tornava alvo de nossas suspeitas, quando nos achávamos empenhados em extirpar da África esses "derrames" de diamantes. Talvez isso fosse inevitável, porque certos atos que constituem, com efeito, contravenções de leis alfandegárias, nem sempre se distinguem por baixeza moral por parte do contraventor. Isto não significa que eu esteja justificando as contravenções das leis alfandegárias, quando tais contravenções são provadas, mas, simplesmente, que as leis de quase todos os países, principalmente as aduaneiras, são de tal modo complexas, que, às vezes, o deter­minar-se a legalidade ou não de certos atos, no decurso do comér­cio internacional, não é coisa que se possa decidir num momento. O mesmo poderia dizer-se de outras contravenções. De modo que a participação de alguém em procedimentos legais ou em investi­gações, em nada denigre sua reputação, uma vez que, não raro, somente depois de muita argumentação é que um infortunado ne­gociante, suspeito de um crime ou de uma contravenção do direito civil — e inocente de ambas as coisas — consegue ver proclamada a sua inocência.

"Um desses casos foi o de Philip Schreiber. Schreiber tinha em seu poder, de modo perfeitamente legal, conforme depois fi­cou provado, uma certa quantidade de diamantes. Nessa altura, porém, a IDSO tinha seu dedo colocado de modo tão firme no co­mércio mundial de diamantes, que, às vezes, podia não somente acompanhar, mas, também, prever o movimento tanto dos dia­mantes contrabandeados, como dos legais. Foi assim, pois, que a IDSO, como algo rotineiro, pôde informar às autoridades aduanei­ras do Aeroporto de Yoff, em Dakar, acerca da chegada iminente de diamantes, no valor de 18.000 quilates, no poder de um tal P. Schreiber. Schreiber chegou a Dakar com seus diamantes, tal como fora previsto, em princípios de abril de 1956. Surgiu uma questão acerca da responsabilidade de Schreiber quanto a decla­rações aduaneiras, e o resultado foi que Schreiber ficou preso du­rante seis semanas em Dakar, sendo, depois, solto, sob aquilo que os franceses chamam "liberdade condicional", que é uma forma de fiança sem depósito de dinheiro — ou, em outras palavras, liberda­de dependente de julgamento do caso. Entrementes, os diamantes em questão foram avaliados por peritos, que estimaram o seu valor em 120.000 libras esterlinas, embora a estimativa original tivesse

sido 900.000 libras.

"Ao ser julgado o caso, a primeira decisão foi contrária a Schreiber — mas êle apelou da sentença. Decorrido um ano, o Tri­bunal de Apelação foi de opinião que os diamantes se achavam em trânsito, sendo que os mesmos só deixaram de "estar em trânsito" devido ao fato de o avião haver sido retardado em Dakar". (N.B. Com efeito, a 15 de maio, Schreiber foi absolvido purement et sim­plement. O Tribunal ordenou que os diamantes lhe fossem resti­tuídos. E assim se fêz. Schreiber saiu disso tudo sem uma nódoa sequer em seu caráter. I. F.).

"Em 1956, ocorreram três outros casos, sendo que os ne­gociantes neles envolvidos provaram sua inocência. No dia 6 de setembro de 1955, a IDSO de Londres, baseada, conforme afirmou, em "informações recebidas", telefonou para Paris, comunican­do que dois homens, chamados Amschel Benny Engel e Salomon Cukrowicz, partiram logo de Monróvia com destino àquela Capi­tal. Levavam consigo grande quantidade de diamantes. Deveriam tomar o avião da Air France — o famoso "Étoile de Dakar" — que fazia a rota Dakar-Aeroporto de Orly, e que deveria chegar a Paris no dia 17 de setembro.

"Como coisa de rotina, transmitimos essa informação a M. Lallet, Commissaire de la Policie de l'Air. Cukrowicz e Engel, com efeito, chegaram com seus diamantes, bem como um terceiro pas­sageiro, David Gollansky, que declarou que o pacote por êle trans­portado continha diamantes em bruto. No pacote estava estampa­do o selo do Governo da Libéria. Nosso homem dirigiu-se a Orly em companhia de M. Mário Pinei, o perito francês em diamantes. M. Pinei examinou os diamantes de Cukrowicz e de Engel e declarou que os mesmos eram originários de Sierra Leone, pesavam 265 qui­lates e valiam 9.500 libras esterlinas. Nosso homem, apoiado pela polícia, e em sua qualidade de representante do Selection Trust, reclamou devidamente as pedras, alegando que pertenciam à sua companhia e que deviam ter sido, nesta ou naquela ocasião, rou­badas.

"O pacote de Gollansky não foi aberto, mas, resumindo uma longa história, o Selection Trust moveu, subseqüentemente, um processo contra Cukrowicz, Engel e Gollansky, acusando-os de furto e de receptadores de vol ei recel.

"Cukrowicz, Engel e Gollansky somente foram ouvidos por magistrados a 16 de setembro. No fim, um non-lieu foi proferido a 12 de junho de 1956, sendo confirmado pela Chambre de Mise en Accusation — que é o equivalente francês do Grand Jury inglês — a 16 de outubro de 1956. Em outras palavras, o caso foi encerrado e os diamantes devolvidos aos acusados. Todos os três, Cukrowicz, Engel e Gollansky, tinham as pedras legalmente em seu poder — e a honestidade de todos eles ficou estabelecida.

"Depois — prosseguiu Blaize, despindo, para alívio meu, sua toga e peruca — duas diligências bem sucedidas tiveram lugar, em 1956, em rápida sucessão, em pontos diferentes da África Oci­dental, sendo que ambas só foram possíveis devido, em maior ou menor grau, à atividade da IDSO.

"No primeiro caso, um dos grandes mensageiros especiais deu um passo em falso. Tratava-se de um indiano, cujo chefe era financiado pela Hungria. Incidentalmente, possuía êle um passa­porte inglês emitido em Monróvia, bem como dois passaportes in­dianos concedidos no Cairo e em Damasco. Era um homem que viajava regularmente entre a Libéria e Beirute, e que vinha sendo por nós observado. Nessa ocasião, êle já se encontrava em Mon-róvia havia alguns meses, adquirindo incessantemente diamantes industriais a preços bem superiores ao do mercado. Afastava-se, agora, do país, tendo chegado a alcançar o Aeroporto Conakry, na África Ocidental Francesa, em trânsito para Paris e Budapeste.

"O diretor da Alfândega, em Conakry, havia sido informado a respeito. Ao ser interpelado, o indiano mostrou-lhe jovialmente o seu pacote e, com ar de triunfo, indicou-lhe o selo do Bureau de Minas da Monróvia, bem como a assinatura do diretor do referido bureau. Quando interrogado acerca do conteúdo do pacote, res­pondeu, tolamente, que continha apenas 800 pedras, ao invés da quantidade verdadeira e impressiva, isto é, 119.000 pedras, avalia­das, posteriormente, em 35.000 libras esterlinas.

"O portador não foi acusado de contravenção alguma, mas suas pedras foram apreendidas, tendo o indiano passado pela ver­gonha de ser despachado de volta para a Monróvia. Pouco depois, o seu chefe — o negociante que trabalhava para a Hungria — tomou um avião e foi visitá-lo, e posso bem imaginar que tal encontro deve ter sido sumamente desagradável para o tal indiano.

"A coisa continuava quente e, naquele mesmo e acidentado mês, um outro pássaro caiu na armadilha. Este, era um tal Alhaji Mustafa Ibrahim, portador de três passaportes britânicos concedi­dos em Lagos, Accra e Dakar, bem como atestados de viagem emi­tidos em Lagos e Freetown. Na época em que o nosso velho amigo Finkle, de Freetown, era um imigrante cuja entrada estava proibida no país, esse tal personagem agiu como seu mensageiro nas tran­sações com Beirute, e nós muitas vezes tínhamos tido vontade de apanhá-lo com a boca na botija. Agora, a 24 de abril, chegava êle ao Aeroporto de Accrà, procedente de Freetown, com um policial a segui-lo de perto. No aeroporto, Mustafa tomou um táxi, perten­cente a um motorista chamado Alio Giwa, para que o conduzisse, através da fronteira, à África Ocidental Francesa — e um policial da Costa do Ouro, de acordo com as instruções do conhecido Co­missário Mike Collins, o perseguiu e deteve o táxi pouco antes da localidade fronteiriça de Aflao. O carro foi revistado, e um pacote de diamantes pesando 712 quilates achava-se oculto, atado atrás da coluna do volante. Mustafa foi submetido a julgamento e os diamantes foram confiscados. Foi também condenado a oito meses de prisão, acusado de haver obtido, sob falso pretexto, um de seus muitos passaportes — sentença essa que fêz com que muitos de seus amigos chorassem no tribunal.

"E, assim, num breve resplendor de glória, e em meio de mui­ta choradeira e ranger de dentes na Monróvia e entre os amigos de Monsieur Diamant na Europa, a IDSO encerrou suas atividades e preparou-se para debandar.

"Uma vez que a Diamond Corporation se havia estabelecido em Sierra Leone e estava expulsando de lá, mediante métodos es­tritamente comerciais, a IDB, nada mais nos restava fazer que não pudesse ser feito pelo corpo de segurança da própria mina e pelas forças policiais locais africanas. Os poucos meses que se seguiram, nós os gastamos a atar alguns fios ainda soltos de toda aquela história e a discutir com De Beers a manutenção de um esqueleto da organização, a fim de conservar as coisas sob controle. Depois de toda a excitação e de toda a tensão dos meses anteriores, nada mais restava senão um anticlímax, à medida que nossos homens, a pouco e pouco, iam passando para outros empregos. Alguns deles voltaram para os serviços secretos ou de segurança, enquanto que outros ficaram trabalhando para a De Beers e a Anglo-American Corporation.

"Quanto ao que me diz respeito — ajuntou Blaize, dando de ombros — estou farto de escroques e enojado de espioná-los. Não desejo outra coisa senão um lugar tranqüilo de advogado rural ou de administrador de alguma universidade, ou então, algum outro trabalho em que eu possa limpar toda essa lama de meu espírito". E concluiu, sorrindo: — É como o senhor disse, na última frase de um de seus livros: "A coisa é melhor para se ler do que para se viver".

 

                                     POST SCRIPTUM

Logo cedo, na manhã seguinte, fui ao aeroporto, despedir-me de Blaize. De um céu carregado, caía um chuvisqueiro incessante, e a árida paisagem marroquina parecia ainda mais miserável do que habitualmente. No interior do branco e sujo edifício de concre­to, havia o odor matinal de sempre dos aeroportos modestos — um misto de café, gasolina, suor e fumo já velho de cigarros. A polícia da fronteira e os funcionários aduaneiros tinham o ar de quem houvesse dormido sem tirar a roupa, e havia ainda remela no canto de seus olhos desconfiados.

Blaize estava de partida para Nice, de onde deveria tomar um trem para Monte Carlo. Uma vez lá, com a ajuda de um livro sobre como se jogar na roleta, e uma centena de libras no bolso, pretendia, em quarenta e oito horas, seguindo a antiga maneira da Riviera, extirpar de seu organismo o que lhe ficara do Continente africano. Depois, tomaria um trem com destino a Londres, jogaria golfe durante um mês para completar a cura, e decidiria, depois, o que fazer.

Entristecia-me sua partida. Desde o começo, eu gostara dele e, após ouvir, por espaço de uma semana, a sua história, passara a admirá-lo. Admiro os profissionais, e Blaize era um profissional até a raiz dos cabelos. Mais importante ainda, possuía essas qualida­des que nos agrada encontrar em nossos compatriotas: coragem, humor, imaginação, senso comum e um coração cálido. Fora curioso encontrar tais qualidades num espião.

Despedimo-nos e combinamos tornar a encontrar-nos. Blai-ze, uma capa de chuva sobre suas roupas muito inglesas, mas sem chapéu, juntou-se aos outros passageiros, que tinham achado ne­cessário viajar num Domingo de Páscoa, e passou pela comissária de bordo da Air France, que tinha uma lista na mão.

Ouvi quando êle disse o seu nome. Voltou-se, lançou-me um sorriso de despedida e seguiu em meio da chuva.

Acerquei-me da porta aberta e observei os quatro motores do Constellation, um por um, serem postos em movimento, com arrancos e descargas de fogo. A chuva não havia ainda assentado a areia sobre a pista e, quando o grande avião se afastou, para a decolagem, um furacão ardente, produzido pelas hélices, me bateu em cheio no rosto. Ocultei-me atrás da vidraça e enxuguei o rosto com um lenço. Achava-me ainda a retirar a areia de meus olhos, quando ouvi o troar do avião, ao levantar vôo.

Sorri de mim para mim, ao deixar o aeroporto em direção do meu táxi. Parecia-me típico daquela bizarra semana o fato de o agente secreto, no final da peça, ter desaparecido do palco em meio a uma nuvem de pó.

Em fins de junho, recebi uma carta de Blaize. O envelope nada continha, exceto um recorte do Daily Telegraph de 19 de ju­nho. Eis o que dizia:

39.000 LIBRAS DE PEDRAS PRECIOSAS APREENDIDAS PELA ALFÂNDEGA

Homem de Hatton Garden Multado em 5.000 Libras e mandado para a prisão

Do Nosso Correspondente Especial Belfast, 5.a-Feira

Diamantes avaliados em 39.784 libras esterlinas foram apresenta­dos, hoje, ao Tribunal de Costódia, em Belfast. Nathan Ascher Glatt, de 36 anos, ex-refugiado judeu holandês asilado na Inglaterra, residente em Cla-remond Park, Finckley, confessou-se culpado de haver tentado exportá-los ilegalmente para a República da Irlanda.

Foi sentenciado a nove meses de prisão, multado em 5.000 libras e condenado a mais três meses de cárcere, por falta de pagamento. Os dia­mantes também lhe foram confiscados.

O tribunal foi informado por Mr. R.F. Sheldon, Solicitador da Coroa, que os diamantes foram encontrados "no corpo de Glatts". Seu interroga­tório durou cerca de catorze horas.

Todos os 716 diamantes se achavam ocultos em dois invólucros revestido de borracha. Fotografias exibidas do magistrado revelavam que os invólucros tinha cerca de duas polegadas de comprimento por uma po­legada e um quarto de diâmetro.

Mr. Sheldon declarou que Glatt somente apresentou os diamantes após haver sido obtida uma ordem de busca, concedida por um Juiz de Paz. Um exame foi procedido pelo Dr. H. P. Lowe, Juiz de Instrução, e pelo Dr. H. Rogers, Professor de Cirurgia em Queens's University, Belfast.

Para instrução do processo, Mr. Sheldon explicou que a República da Irlanda era um dos países para as quais a exportação de diamantes se achava proibida. Na segunda-feira da semana anterior, disse êle, Mr. H. J. Browning, sub-chefe de investigações da Alfândega e do Imposto de Con­sumo de Londres, viu Glatt chegar ao Aeroporto de Londres, nas primeiras horas da manhã.

Comprou uma passagem simples para Belfast, dando o nome de Harris, e foi seguido até o avião. No aeroporto de Belfast, êle foi visto diri­gindo-se aos lavatórios.

Depois disso, dirigiu-se à estação ferroviária e comprou uma passa­gem de primeira-classe para Dublin, mas foi retirado do trem pelos funcio­nários aduaneiros. Negou possuir qualquer diamante escondido.

Negou-se a permitir que um médico o examinasse. "Não permito que o meu corpo seja violado", afirmou. Mais tarde, após haver sido concedida permissão por um Juiz de Paz, Glatt foi conduzido a uma enfermaria. Após ter-se novamente recusado, foi agarrado e examinado", declarou Mr. Shel­don. Exibiu, então, os diamantes.

Os diamantes por êle transportados haviam sido investigados desde sua origem, na África do Sul, até sua chegada em poder de Glatts. Investigadores da alfândega já haviam observado o men­sageiro que deveria apanhá-lo em Glatts, num hotel de Dublin, quando de sua passagem pelo Aeroporto de Londres a caminho do local onde deveriam encontrar-se. A partir desse momento, todos os movimentos de Glatt foram anotados.

No alto do recorte, Blaize anotara, a lápis: Quem não preferi­ria antes jogar golfe?

Eis aí o nome dado, pelos homens da Organização Internacional de Segurança de Diamantes, ao fantástico bando de contrabandistas que fazia desaparecer da África, todos os anos, o equivalente a dez milhões de libras esterlinas de diamantes. Esse, o desafio enfrentado pelo chefe da ex-M.1.5, Sir Percy Sillitoe e seu esquadrão privado de combatentes, em sua luta para anular o contrabando.

Mestre em narrativas emocionantes, IAN FLEMING conta neste livro, a história real da luta contra a rede de contraban­distas que envolveu dois continentes DE UM MILHÃO — e o faz de modo tão excitante e fascinante DE QUILATES...   quanto uma obra de ficção.

 

                                                                                Ian Fleming  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Voltar à Página do Autor