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A AMEAÇA DOS DISCOS VOADORES / Peter Kapra
A AMEAÇA DOS DISCOS VOADORES / Peter Kapra

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A AMEAÇA DOS DISCOS VOADORES

 

Estendido em uma rede, sob a sombra agradável dos pinheiros da Costa Brava, num multicolorido e abarrotado "camping", com a mente absorvida no caos benigno das idéias mais insólitas, atrevidas e incrongruentes, numa tarde estivai, propícia ao sono, deixava-me levar pelo barulho das vozes e pela música confusa dos transistores. De vez em quando, pensava no livro que estava lendo, cujo título, autor e referência encabeçam esta obra. De repente, alguém passou junto a mim, parando e pousando seus olhos estranhamente azuis na capa do livro que estava entre minhas mãos. No começo, mal notei que se tratava de um estrangeiro louro, de cabelos grandes e descuidados e compleição robusta, que se vestia no estilo descuidado dos turistas em férias: camisa de algodão com desenhos geométricos e bermuda curta e descontraída. Era muito jovem e, apesar de seu aspecto exótico, passava totalmente despercebido num lugar como aquele, dada a diversidade de tipos que ali vinham buscar o lazer das férias.

— Boa tarde — cumprimentou-me, em francês. Desculpe... o senhor se interessa por esse tema?

Seu indicador robusto apontou para o volume que eu tinha entre as mãos. Assenti, vagamente surpreso, recorrendo a meus quase esquecidos conhecimentos da língua gaulesa. Observei seu rosto e seus olhos que, no começo, pareceram-me cinzentos, e que finalmente classifiquei como azuis, embora quando falasse com ele tivesse a impressão de que adquiriam a tonalidade do céu ou das águas do mar que, na realidade, são incolores.

— Sim. É um assunto interessante — disse, pouco desejoso de conversar e esperando que essa atitude inibisse o estrangeiro, o que não aconteceu.

Ele insistiu:

— Conheço esta obra. Li o original em inglês e não estou de acordo com a idéia geral do autor, que não se compromete muito, não afirmando nem negando nada. Prefiro a ingenuidade de Antônio Ribeira, a meticulosidade de Aimé Michel, a fé de Andrew Thomas ou a eficiência de Frank Edwards.

Não sendo um técnico no assunto, entretanto, interessa-me o suficiente para que os nomes citados me fossem já familiares, razão pela qual levantei a cabeça e enfrentei o meu interlocutor. De novo, tive que forçar a memória para recorrer a meus antigos conhecimentos de francês:

— O senhor leu este livro?

— Sim.

— Não acredita, então que existem discos voadores? — perguntei.

— Muito ao contrário! — exclamou ele com veemência..— Sei que eles existem!

Considerei oportuno levantar-me e abandonei a cômoda rede. Sentia-me ligeiramente indisposto e perturbado, mas desejoso de conhecer a opinião dos que, fora de meu país, dizem não estar sujeitos a nenhum tipo de censura.

— Para começar — observei —, os 908 casos de tipo I que se descrevem aqui, e que não são todos classificados pela "Flying Saucer Review" ou o catálogo "magonia" supõem uma realidade tangível que não podemos rela­cionar nem sequer com o folclore medieval, nem com os mitos da antigüidade, nem com os contos de fadas e gnomos. Já se viu, já se tocou e até já se sofreram as conseqüências da proximidade dos "discos". E não parece tra­tar-se de um só tipo de fenômeno, mas de vários deles.

Se fosse possível estabelecer a autentici­dade de todos os casos expostos, comprova­ríamos que muitos dos aceitos como de tipo I são errôneos, falsos ou são devidos a causas puramente físicas ou psíquicas, ou frutos da imaginação das testemunhas. A mente é um mecanismo muito complexo e conserva arqui­vados segredos mais vinculados ao subcons­ciente que à realidade. Também não podemos afirmar que casos como o da misteriosa "Nave Aérea", que se observou em diversos lugares dos Estados Unidos entre os meses de março e abril de 1897, não fosse o "vôo de provas" de algum tipo de globo dirigível, no estilo do "Graf Zeppelin"; e tripulado não por seres extra-terrestres, mas por europeus. O fato de que, por diversas vezes, tenham falado em in­glês com os camponeses de lowa, Kansas, Illi­nois e Indianápolis, oferecendo até grati­ficação em dólares, parece confirmá-lo. — Posso apontar-lhe todos os casos falsos — afirmou o estrangeiro, muito sério. — Mas não o farei.

— Afirmação gratuita e inquestionável — repliquei.

Seu semblante pareceu tornar-se inescrutável como uma máscara.

— Não estou mentindo — acrescentou. — Sei bem o que digo.

— É uma pena, disse eu, tentando livrar-me da inquieta depressão que começava a invadir-me, e usando um tom irônico. — Eu não teria dúvidas em escrever um livro sobre esses casos se me parecessem interessantes e se dispusesse de informação necessária e verídica.

Tive a vaga impressão de que a expressão do rapaz de transformava numa animação súbita.

— O senhor é escritor? — perguntou.

Senti que a veia do gracejo me acometia e repliquei:

— Sou "escrevedor", mas não escrevente, e muito menos escriba. Para ser mais claro, cultivo o gênero da ficção científica.

— Antecipação? Como Lovecraft, Bradbury, Asimov ou Clark?

— Pior que eles — admiti modestamente, acrescentando: Mas melhor que outros. Pelo menos, como Júlio Verne, procuro documentar-me sobre as ciências atuais.

Vi que ele sorria, satisfeito. Perguntou, então:

— Assina com seu próprio nome, ou usa pseudônimo?

Mencionei meu nome de guerra e estranhei que ele o conhecesse. Não parecia ser daqueles que necessitam da literatura de evasão.

— Li muitas coisas interessantes de sua autoria — disse, citando em seguida mais de uma dúzia de títulos de obras minhas.

— Mas o senhor fala espanhol? — exclamei, estupefato. — Que eu saiba, minhas novelas não foram traduzidas para o francês.

— Eu as li em espanhol — respondeu-me, falando, de repente, como um oriundo de Valladolid. — Peço-lhe que me desculpe... Estou aqui como francês! Faço-me chamar M. Mareei Molay... Mas nasci em outro planeta. Sugere-lhe algo o nome de "Zemu"?

Eu tinha ficado entre atônito e confuso, sem saber o que pensar nem o que dizer. Instintivamente, tentei sorrir e estou certo de que só consegui fazer uma careta.

— "Zemu"? Que quer dizer?

— É o nome do meu mundo. Vim para cá durante a guerra galática, em agosto de 1954, e quando esta terminou, ordenaram-me que ficasse aqui como observador.

Pela primeira vez encarei a possibilidade de estar diante de um louco. Mas ele captou meu pensamento, aumentando assim meu espanto.

— Não estou maluco — apressou-se a dizer, em perfeito castelhano. — Minha mente está lúcida, e minhas idéias não estão afetadas por nenhuma dissociação psíquica. Além do mais, posso provar tudo o que digo.

— Sou o "T'get" B'snik — disse, esclarecendo em seguida: Minha categoria pode equiparar-se à de um capitão civil, porque em "Zemu" não existe exército. O capitão civil comanda uma seção de cento e vinte homens de todas as especialidades. Embora lhe seja difícil acreditar, são muitos os que, como eu, vivem neste planeta há muitos anos — fez um gesto amplo, apontando o céu. — Lá em cima existem centenas de milhares de mundos habitados. É lógico. A ignorância e a superstição fizeram com que os antigos acreditassem que a Terra fosse o centro do Universo. Essa crença ainda não está totalmente superada. Mas os homens cultos ainda não sabem o que ainda não puderam comprovar. Vocês são tão céticos que nos vêem e não acreditam em nós. Não é paradoxal?

— Você tem o aspecto de um ser humano — observei.

— E que aspecto pensa que têm os homens de outros mundos? Por que teríamos de ser inteiramente diferentes, se nossa origem remota ela mesma, apesar de que o meio em que nos desenvolvemos não seja idêntico, como nossa ciência e nossa cultura?

Meu assombro ia aumentando progressivamente. Não sabia se o homem que estava à minha frente era um erudito da antecipação, um desequilibrado mental ou um descomunal gracejador.

— Sempre acreditei que a vida inteligente não se desenvolve no mesmo nível, em ambientes distintos — creio que repliquei, para dizer algo, o que provocou um largo sorriso no meu informante casual.

— Que sabem vocês de exobiologia, se não fizeram mais do que intuir a probabilidade de sair deste planeta? Deve saber que, no Universo, existem trilhões de espécies diferentes, porque seus cromossomos são geneticamente distintos. E não é só isso. O número das espécies desaparecidas é incalculável, mas os da que ainda não se formaram é infinitamente maior! O Universo, meu caro amigo, é uma enorme esfera que pulsa em contínua expansão, que cria e destrói mundos, sóis, galáxias inteiras, ininterruptamente. Ninguém jamais foi capaz de medir a extensão do Universo, nem ninguém jamais poderá fazê-lo. Entende? É infinitamente grande, e nós, as espécies inteligentes, os "humanóides", "andróides", ou antropóides, como quiser chamar-nos, vimos evoluindo biologicamente há trilhões de séculos, vimos retrocedendo, avançando cultural e tecnicamente, segundo as condições de cada um em nossos respectivos planetas.

"Disse-me, ainda há pouco, que, se lhe fornecessem dados verídicos e interessantes, escreveria um livro. Pois bem. Vou transmitir-lhe os fatos mais importantes de uma contenda intergalática que teve por cenário este mesmo planeta, e da qual vocês nem tiveram notícia, apesar de milhões de pessoas terem visto nossas naves espaciais em plena luta!

— Uma guerra galática ao nosso redor, sem que nossos controles de vigilância a tenham detectado? — exclamei. - Isto é um absurdo!

— Espere, por favor. A força aérea dos Estados Unidos, Ingraterra, França e outros países detectaram-nos com seus radares. Têm recebido informações contínuas sobre "discos voadores", e tudo isso levou à criação do Projeto "Blue Book", de origem oficial na América do Norte, e à organização de todas as associações que aparecem citadas neste livro, como o APRO, AMUGO, FSR, NICAP, OURANOS, GEPA, etc. etc, que já se estendem por todo o mundo, com publicações periódicas e investigadores sérios que estudam todos os fenômenos observados.

"Isso é uma realidade. Já se viram naves lenticulares, abobadadas, fusiformes, pequenos discos-sondas, esferas de luz, aerotermos, girostatos, discoplanos anti-magnéticos e até "homens-voadores".

"Nós, os "zemus", junto com os gigantes "ozcaros", tivemos que enfrentar os agressivos e perigosos "d'diomos", que são quase pigmeus, e seus confrades, os "provnos", "al-keos" e os "grisdos".

"Essa guerra iniciou-se com grandes escaramuças de nossas naves de vigilância e terminou com um combate massiço, em torno do Sol, que teve lugar em meados do ano de 1954. O senhor se lembra da onda de "discos voadores" que foram descobertos naquela época?

"Utilizamos o fundo do mar como base de provisões e instalamos observatórios em altas e inacessíveis montanhas, onde não poderíamos ser incomodados.

— Qual foi a causa dessa guerra? — perguntei, sem saber por quê.

— Tínhamos que defender vocês e impedir que os "d'diomos" e seus aliados se instalassem neste planeta, criando uma vanguarda perigosa na Via Láctea.

— Quer dizer que vocês acudiram em nossa defesa?

O homem que dizia chamar-se Molay fez um gesto ambíguo e retrucou:

— Sim e não. Na realidade, nosso Conselho Cívico não levou em conta os seres da Terra, que considerava como uma espécie inferior.

Senti que a indignação se apoderava de mim. Mas ele não me deixou exteriorizá-la, antecipando-se à minha explosão de ira.

— Durante a última guerra mundial, os Estados Maiores japoneses e americanos, se quer um exemplo próximo, não levaram em conta a vida dos polinésios que povoaram as ilhas do Pacífico. Em escala muito maior fizemos algo parecido, mais racional e humanitário, procurando não prejudicá-los, o que foi plenamente conseguido. E foi por ocasião daquele conflito que pudemos tomar conhecimento dos avanços técnicos e científicos da Terra, coisa que despertou o interesse do Congresso Cívico.

"Antes já tínhamos aqui observadores cujos informes jamais chegaram às altas esferas dos governantes de "Zemu". Mas a contenda fez funcionar muitas fontes e os informes apareceram, unindo-se aos programas bélicos. Assim, os componentes do Conselho Cívico tomaram conhecimento de uma série de coisas e, desde então, começamos a prestar atenção aos habitantes da Terra, onde estamos agora desenvolvendo nossa influência entre os altos dignatários, os mais renomados homens de ciência, os filósofos e pensadores, tentando inculcar em vocês todos uma consciência universal que os aproxime de nós, ao mesmo tempo em que procuramos divulgar os conhecimentos da energia atômica para impedir uma catástrofe que poderia ser irremediável.

— E você pretende que eu escreva sobre tudo isso? — perguntei.

— Sim... Quero que o faça — respondeu B'snik.

 

Zemu é o quarto planeta do sistema solar que os habitantes daquela região planetária chamam de "Tlaca". É um mundo magnífico, coberto de água e terra em partes iguais, com montanhas naturais cheias de vegetação exuberante, clima suave, rios límpidos e caudalosos nas planícies e numerosas povoações que se estendem geometricamente sobre a superfície do globo.

Nada em Zemu foi feito por acaso. Sua antiquíssima população humana criara, no decorrer dos séculos, sábias e justas leis que todos respeitavam.

Homens, mulheres e crianças viviam felizes nas comunidades de tipo rural, alojados em casinhas rodeadas de árvores frutíferas, nas quais buscavam a base de sua alimentação.

Todos aqueles seres tinham uma ocupação concreta, uma missão a cumprir, de acordo com a capacidade psicotécnica de cada um. As moradas rurais eram os dormitórios ou habitat dos "zemus" que ali se reuniam com seus familiares, uma ver terminada a jornada de trabalho. Esta se compunha de uma medida de tempo equivalente a quatro horas diárias; o resto do dia era empregado em descanso, no cultivo de algum hobby, na ampliação dos conhecimentos através do estudo, ou na prática de algum esporte.

Entretanto, a surpresa do observador teria sido grande ao constatar a inexistência de qualquer tipo de instalação industrial em toda a superfície de Zemu. Nem sequer existiam vias de comunicação visíveis e as únicas edificações monumentais eram os enormes estádios — cerca de uma centena com capacidade para mais de um milhão de espectadores cada um, que se erguiam em diferentes lugares do planeta, distanciados das comunidades rurais, e que, umas vinte vezes por ano, viam-se impressionantemente abarrotados de seres.

Os habitantes de Zemu tinham acentuada tendência ao esporte e costumavam celebrar freqüentemente uma espécie de Olimpíada de muitas modalidades de esportes, na qual competiam os representantes de diversas povoações, individualmente e por equipes. Era para isso que tinham sido construídos os estádios.

Entretanto, como se locomoviam os "zemus" se não parecia haver estradas nem se viam veículos de transporte? Onde trabalhavam, estudavam, ou passavam as quatro horas diárias que a lei promulgada pelo Conselho exigia de todos os cidadãos?

A explicação estava no subsolo de Zemu, a centenas de milhares de metros de profundidade, onde os túneis metálicos permitiam velocidades supersônicas aos veículos de transporte que levavam e traziam gente continuamente, dos locais de trabalho às colônias de descanso e lazer.

A história de Zemu era tão pródiga em avatares, lances, contendas e conflitos como podia ser a de qualquer mundo povoado por indivíduos com ambições, imaginação e inquietudes. Inúmeras vezes, as guerras obscureceram e assolaram a terra; seus habitantes conheceram a miséria, a fome, o desespero e a morte provocada por terríveis e espantosas epidemias.

Afortunadamente, essas épocas desastrosas tinham passado à historia, e no século XXV de seu Terceiro Ciclo, a paz interna estava assegurada por um sábio e eficiente Conselho Cívico que governava prudentemente os interesses de todos os cidadãos de Zemu, entre os quais figurava o "S'get" Etsnik, que era uma espécie de oficial "observador", com poder sobre quarenta homens e cuja missão estava dirigida para a vigilância exterior.

B'snik tinha escolhido aquela arriscada e difícil profissão precisamente pelo perigo de que esta se revestia. A temeridade, a aventura, o arrojo e o perigo eram elementos indispensáveis na profissão de "N.S.T.", iniciais que correspondiam às três categorias de "observadores" de Zemu.

Quando B'snik abandonou a escola civil, seu destino já estava traçado. Um eficiente psíquico elevado capacitava-o a escolher entre as mais prestigiosas profissões da sociedade na qual não existiam classes nem privilégios, mas sim capacidade física e psíquica, os dois únicos valores reconhecidos. Entretanto, em vez de inclinar-se para a escola técnica superior, que teria podido conduzi-lo aos mais elevados postos dos Colégios Superiores, de onde eram selecionados os elementos para o Conselho Cívico, B'sník escolheu a escola de formação dos "N.S.T.", instalada na Situação 2.456, onde foi admitido como aspirante.

Ao fim de dois anos, ou seja, quando contava dezenove, B'snik recebia sua qualificação de N'get, que o colocava à frente de um grupo de dez homens dedicados à "observação" interplanetária. O mundo de B'snik ampliou-se, então, aos seis mundos do Sistema "Tlaca". Governou uma pequena nave espacial e se fez responsável pela vida de seus dez subalternos.

Aconteceu que, durante um vôo de exploração a Crosm, nos confins do Sistema "Tlaca", um acidente em terra privou-o de um de seus homens que foi substituído posteriormente por uma formosa moça aspirante a "get", chamada Eunik, por quem B'snik logo começou a sentir forte atração sentimental.

O contrato matrimonial celebrou-se no dia seguinte ao da cerimônia de entrega de títulos e promoções, na qual B'snik foi promovido a "S'get" e Eunik recebeu seu distintivo de "N'get".

Imediatamente, com uma licença especial, partiram para a Colônia 12.546, onde o Departamento de Habitação lhes havia reservado uma casinha simpática, com alojamentos adequados para os três filhos que a lei os havia autorizado a ter, depois de verificados os devidos reconhecimentos genéticos.

B'snik, como "S'get" recém-nomeado, podia mandar em quarenta pessoas, entre as quais havia, naturalmente, quatro "N'get"; Eunik, portanto, pela lei matrimonial, foi agregada ao grupo de B'snik. Não era raro em Zemu, que um cônjuge ficasse sob as ordens do outro, nem que ambos formassem um casa perfeito, tanto física como intelectualmente. Eunik era quatro anos mais jovem que seu esposo e além de admirá-lo, devia-lhe submissão e respeito no terreno profissional.

Enquanto viajavam, recém-casados, para seu novo lar, na Colônia 12.456, abraçado a Eunik, B'snik fez um comentário que lançou uma sombra sobre a felicidade de ambos:

— Ouvi dizer na Base Um que foram detectadas numerosas naves de outra galáxia.

— Oh, B'snik, chefe e esposo meu, não pense nisso agora! Será que sua mente está sempre absorta no dever? A lei lhe exige quatro horas diárias de serviço. As vinte restantes nos pertencem.

— Dezesseis — observou B'snik, brincalhão.

Eunik olhou para ele surpreendida.

— Como você e eu pertencemos ao mesmo grupo, meu serviço é independente do seu. Eu saio e você entra. Temos que viver de acordo com o regulamento espacial.

— Oh, céus, que erro cometi ao casar-me com você, B'snik!

Ele beijou-a nos lábios, atraindo-a para si, enquanto o veículo subterrâneo que os transportava a seu destino deslizava silenciosamente a mais de três mil quilômetros por hora, impulsionado por uma eficaz e invisível corrente magnética.

 

Os temores do "S'get" B'snik não eram infundados. Observadores interplanetários, de vigilância nos mais longíquos confins da galáxia, já tinham detectado há certo tempo uma crescente e contínua exploração de sistemas interplanetários por parte de naves lenticulares e tripuladas por seres "andróides" de pequena estatura e cabeça volumosa — de cérebro desenvolvido e, portanto, extremamente inteligentes — que desapareciam rapidamente quando os observadores de Zemu ou de outro mundo habitado os descobriam.

Na Base Um, o Centro de Observação Interestalar de Zemu havia detectado numerosos casos, comunicando imediatamente ao Conselho Cívico. Ao fim de certo tempo, a ordem recebida foi:

"Capturem uma dessas naves e averiguem de onde vêm, o que pretendem e quem são os seres que as tripulam".

O próprio B'snik, que recebera ordens daquele tipo durante seu período como "N’get", sabia como era difícil cumpri-las. Cinco vezes, exatamente, sua nave-comando descobriu a presença de intrusos. E em três ocasiões o "N’get" B'snik e sua tripulação saíram e missão de caça, disparando descargas magnéticas paralisantes que de nada haviam adiantado.

Em numerosas colônias rurais, também se viram naves de vários tipos e foram comprovadas algumas "azemussagens". Depois, o clamor do alarma propragou-se ao ficar constatado que os misteriosos "pigmeus" do espaço tinha efetuado alguns sequestros, levando em suas naves homens, mulheres e crianças, do quais nada mais se soube.

A vigilância se intensificou e se realizou a primeira mobilização civil, com o objetivo de reforçar a vigilância exterior que se fez mais intensa e eficaz. Criaram-se também, naquela época, as primeiras naves de propulsão fotônica, levíssimas e que podiam desenvolver velocidades incríveis.

Foi o "N’get" Krevo, sob cujas ordens B'snik tinha servido em seus tempos de aspirantes, quem capturou a primeira espaçonave "d'dioma", conseguindo interceptar sua trajetória de evasão magnetizando-a com os impulsos uliaiumínicos, e capturar seus tripulantes que eram seis pequenos seres cabeçudos que falavam uma língua gritante e incompreensível.

Transportados para a Base Um, os "d'-diomos" foram encerrados em celas separadas e submetidos a reconhecimento e estudos por parte dos biólogos e antropólogos.

O resultado foi desencorajador, porque os prisioneiros se negaram a colaborar com seus captores, encerrando-se num mutismo hostil. E o pior foi que, ao fim de poucas semanas, os cativos morreram repentinamente.

Foi pouco o que se pôde averiguar sobre sua origem, sistema social, organização e até morfologia, embora os antropólogos tivessem podido comprovar que se tratava de "humanóides" de desenvolvida capacidade intelectual e fisiologia muito semelhante à humana, embora seus braços peludos fossem mais grossos que o normal.

Ignorava-se então que procediam de uma galáxia situada a mais de cem anos-luz de distância da constelação de Boyero, e que faziam parte de uma federação de mundos de origem antiquíssima, conhecidos entre eles de "d'-diomos". Como eram numerosos os planetas da confederação "Dioma", para diferenciá-los entre si antepunha-se ao nome de cada um, um signo. Assim, havia os "a'diomos", "b’diomos", "d'diomos", etc.

Devido à criação das naves de propulsão fotônica, construídas na fábrica astronáutica subterrânea da Situação 1.311, o Conselho Cívico ordenou à Base Um que realizasse um exploração extragalática na direção cósmica de onde procediam as naves inquietantes dos "d'diomos" que deveriam ser "observados", mas não capturados, devido ao que acontecera aos seus primeiros.

Reforçado o corpo de "observadores" interplanetários pela mobilização ordenada pelo Conselho Cívico, logo se obtiveram resultados alentadores. Também os "observadores" situados em diferentes planetas de galáxia informaram a crescente aparição de "discos" "d'diomos" em tão longíquos como o Sistema Solar.

Aquilo tudo só poderia significar uma coisa: se os incursores continuavam suas visitas, seqüestros, aterrissagens e observações, a guerra seria inevitável. O Conselho Cívico de Zemu mantinha relações cordiais com numerosos mundos da galáxia, como era o caso dos "ocaros", os "trenxtlos" e os "miranos", povos que faziam parte de civilizações altamente desenvolvidas e que ocupavam mundos situados em longínquos pontos da Via Láctea. Havia até mesmo, desde alguns séculos atrás, intercâmbio de mensageiros plenipotenciários e tinha sido permitida a emigração e mistura dessas raças em colônias de mundos virgens.

Miran era governado por um antiquíssimo sistema monárquico e hereditário. O rei era um deus para seus súditos. Entretanto, aquele planeta jamais havia conhecido a guerra. A lei era tão antiga como a dinastia, e era sagrada e inviolável. Só os loucos ousavam desafiá-la ou burlá-la e, quando isso acontecia, a eletrocução acabava com a vida do infrator.

Zemu e Miran mantinham relações diplomáticas não cordiais, muito diferentes das estabelecidas com Ozcar, o planeta submergido pelas águas e cujas provoações estavam situadas no fundo do mar pouco profundo.

Sabia-se que todos aqueles mundos procediam da altiva raça que habitava Trenxtil, mergulhada agora num bárbaro ocaso, vítima da alienação: seus doze bilhões de seres já eram incapazes de fugir a um destino fatal que obscurecia suas mentes e dizimava seus planetas.

Parecia que, depois de um milhão de anos, a raça que, indubitavelmente, dera origem às mais, estava destinada a desaparecer...

 

Parei ao chegar a este ponto. O "zumbido" mental que produz em mim a transmissão telepática de M. Mareei Molay, possivelmente enviada de algum lugar do país vizinho do outro lado dos Pirineus, diminuiu sensivelmente. Quase não percebo nada enquanto escrevo.

Olho em torno de mim e estou confuso e perturbado. Ainda me impressiona bastante falar comigo mesmo e ouvir a "ele" dentro de minha mente. Não me atrevo a perguntar embora saiba que M. Mareei Molay "capta" minhas dúvidas. Isso se deve à última discussão telemental que tivemos ao começar esta obra. Eu pretendia realizar um relato encadeado, leve, ágil, de muitas páginas, onde surgiriam estranhos personagens como o "N'ivo" (espécie de general) Krevo, chefe supremo das Forças Cívicas de Zemu no Sistema Solar; Ter-me-ia agradado falar da doçura de Eunik, no comando de sua nave espacial de cinqüenta metros de diâmetro, evoluindo fugazmente por entre o enxame de discos inimigos que sobrevoava a Terra no nosso ano de 1954. Mas "ele" me proibiu.

— Quero uma narração resumida e breve, tipo informe.

— Mas ninguém vai querer ler um negócio desse tipo!

— Pouco se me dá que leiam ou não! Não é agora que as pessoas devem conhecer-nos, mas este relato, expressamente narrado com sobriedade, terá a função de fazer com que se comece a crer em nossa existência.

Aquele era seu indomável cavalo de batalha. O sentido de obediência à sua lei era tão acentuado nele, que era incapaz de violar qualquer de seus pontos. O resultado foi o que narrei até agora, nessa prosa seca e despojada, pela qual não sou absolutamente responsável. Seu propósito era o de falar pouco ou nada de si mesmo ou de sua raça, e acentuar o elogio do feito realizado por sua frota espacial, ao livra-nos da inquietante presença dos "d'diomos".

Eu, entretanto, resisti a essa idéia. O relato de uma guerra espacial cresce de interesse. Os termos técnicos utilizados para designar as máquinas e sua utilização, as armas e os métodos de navegação sideral carecem de sentido para todos os meus leitores.

Por outro lado, o impressionante destino de "trenxtlos", sua origem misteriosa e o virus genético que dizima uma raça que chegou a alcançar a exorbitante cifra de cem multiplicado por cem mil vezes por si mesmo, fascinava-me muitíssimo mais que uma onda de “discos voadores".

— Por favor. Mareei — dirigi-me a ele telementalmente, — fale-me um pouco mais sobre os habitantes de Trenxtil.

— Mas eles não tomaram parte na guerra! Seu embaixador no Conselho Cívico de Zemu se negou prestar-nos ajuda, alegando a caótica situação em que se encontra atualmente sua raça, cujo fim é iminente.

— É esse o destino da humanidade cósmica? — insisti.

— Não! — pareceu gritar B'snik, com toda a energia de sua mente, pois meu cérebro sofreu um "choque". — Este é o destino dos "tranxtlos", não o nosso! Eles se negaram terminantemente a misturar seu sangue com o nosso! É isso que está ocasionando a dizimação de sua raça! Não é uma certeza, mas uma probabilidade muito forte. Nós, que há séculos nos temos misturado aos "miranos", "ozearos" e "hurkos", dada a proximidade desses povos no planeta Zemu, criamos uma super-raça, e jamais sentimos os sintomas da enfermidade que dizima os "trenxtlos".

Além disso, na nossa lei consideramos "hormônimos fraternos" todos os seres que têm a mesma morfologia que nós.

— Assim como nós? — perguntei. Mas não obtive resposta.

 

O "S'get" B'snik pressentiu o perigo ao cercar-se da rugosa, estéril, desértica e áspera superfície do planeta atrás do qual se havia ocultado a nave desconhecida que vinha seguindo desde o vácuo exterior do sistema Tlaca.

Trata-se, segundo pôde apreciar das telas telescópicas, de um desses mundos gigantes e errantes, de um desses imensos globos mortos e desagregados de algum sistema solar já desaparecido. Só a inércia, a coesão e a escassa força centrífuga de seu núcleo interno ainda o mantinha unificado em forma de bloco. Mas B'snik sabia que a mais ínfima explosão, o mais leve tremor, ou mesmo a força magnética externa podia romper seu equilíbrio geofísico e dispersar pelos cosmos os fragmentos de sua enorme massa.

Com o semblante inexpressivo, B'snik virou-se para o "N'get" Lerk, seu primeiro oficial.

— Cuidado com esse planeta morto, Lerk! Nossas vibrações podem provocar um cataclisma.

— Temos que nos aproximar. Não estranharia se a nave tivesse aterrissado aí para ocultar-se. Estávamos quase em cima dela.

— Eu sei, Lerk — respondeu B'snik gravemente. — Mas não sacrificarei minha tripulação e minha nave para alcançá-los. Qualquer um de nós vale muito mais que eles.

Lerk deve ter pensado que seu chefe evitava deliberadamente os riscos, por levar a bordo sua esposa que esperava um bebê. Entretanto, a "N'get" Eunik, oficial de navegação, tinha sempre demonstrado um grande zelo no cumprimento de seu dever. Nem Lerk nem os outros dois oficiais de bordo podiam reprovar-lhe o que quer que fosse. Mas o chefe da nave de observação e vigilância amava sua esposa.

— Quais são suas ordens, então?

— Vamos manter-nos em posição orbital fixa, a dez mil quilômetros da superfície deste mundo errante que classificamos como... — Antes de continuar, o "S'get" B'snik consultou uma pequena tabela de dados astronômicos — ... "Zek-4.

— "Zek-4 - repetiu o oficial Lerk. — Controle de navegação, verificar sua órbita.

— Aqui, controle de navegação — respondeu a agradável voz da oficial Eunik, através da rede de um amplificador de cádmio. — Classificado e computado... "Zek-4" em registro.

— Ordens transmitida — acrescenta Lerk, tornando a olhar para seu chefe que continuava sentado diante do painel principal, com o olhar fixo nos indicadores e gráficos de direção. — Mais alguma coisa?

— Uma vez na posição orbital fixa, uma das naves auxiliares efetuará um reconhecimento a baixa altura. Se os intrusos aterrisaram e estão na superfície, poderemos detectá-los por meio dos projetos ultralumínicos de baixa freqüência. Não creio que eles possam detectar-nos.

Entretanto, o "N'get" Lerk, apesar da inteligência invulgar que o conduzira a ocupar o segundo posto da nave, estava acometido de uma curiosidade invencível.

— E quem vai realizar a exploração? — perguntou, tentando não deixar transparecer suas emoções.

B'snik não vacilou em responder:

— Irá a "N'get" Eunik. Ela é a mais indicada neste caso. Sua condição de mulher não a exime do cumprimento do dever. Além disso, como oficial de navegação, sempre se encarregou dos reconhecimentos exteriores quando a nave está em órbita fixa.

Aquilo era verdade: Se a nave não navega, o oficial responsável pelo controle da navegação, ficava livre, enquanto os outros oficiais ficavam obrigados a permenecer de guarda.

Por outro lado, antes de empreender aquele vôo, Eunik tinha ficado encarregada das comunicações. Entretanto, como o controlador de navegação que a precedera fora promovido, passando a ocupar outro cargo mais elevado em outra nave, Eunik teve que ocupar seu posto.

Agora, surgia o problema de enviar à superfície de um planeta moribundo e perigoso a tripulação de uma nave auxiliar. Naquele caso concreto, o destino havia desejado que o oficial de controle de navegação fosse uma mulher, que estivesse grávida e que fosse a esposa do comandante da nave.

— Posição orbital fixa na conjunção 10-2-10.000 - disse de repente, Eunik, através do amplificador de cádmio.

— Correto — admitiu B'snik, olhando para o painel. — Agora, "N’get" Eunik, prepare-se com a primeira nave auxiliar para efetuar um reconhecimento a baixa altura, utilizando os projetos infralumínicos.

— Sim, B'snik — respondeu Eunik, quase alegremente.

— Trata-se de localizar a nave desconhecida para que nós possamos interceptá-la em terra. Precisamos de informes rápidos e precisos. Não preciso dizer-lhe que não deve expor-se ao mínimo risco.

— Assim farei, B'snik — replicou Eunik. — Estarei pronta dentro de cinco minutos.

— De acordo. Vá preparar-se.

 

Eunik era mulher — ou devo dizer ainda o é? — muito bonita, inteligente e intrépida. O maior prazer de sua existência era servir à sua raça, ao seu mundo e à sua civilização, através das ordens de seu esposo a quem adorava como homem e como oficial. Na sua residência da Colônia 12.546, a vida com ele tinha tido sempre as características da felicidade completa. Ambos amavam os mesmos esportes, deleitavam-se com os mesmos poemas e jamais haviam tido a mais insignificante discussão.

Como se isso fosse pouco, o amor e a vitalidade de ambos fez com que ela sentisse, pela primeira vez, palpitar uma vida nova em seu seio. O filho que estava para vir seria forte, são, hábil, valente com seus pais.

Eunik não quiz permanecer em casa quando eles receberam ordem de partir. Poderia tê-lo feito, alegando seu estado, mas preferiu acompanhar seu esposo, não só pelo amor que lhe devotava, mas também porque o dever assim o exigia.

Estava contente pelo fato de B'snik não ter feito exceção com ela. O regulamento devia ser cumprido e, com muito mais razão, nos altos espaços siderais, onde as vidas de toda a tripulação dependiam do perfeito sincronismo entre o comando e a obediência.

Eunik vestiu o traje prateado utilizado para as explorações exteriores. Abandonar a nave principal a bordo de um pequeno disco ovalado, com capacidade reduzida, exigia uma série de precauções que não podia esquecer.

Os dez homens que tinha sob seu comando, todos jovens, alguns aspirantes e técnicos, aguardavam-na formados no hangar, quando ela saiu da cabine mortiz. Passou-os brevemente em revista, verificando seus equipamentos de vôo individual e os indicadores de suas cápsulas de oxigênio, e logo subiu a bordo da pequena nave, indo ocupar seu posto diante do painel de comando direto.

Os tripulantes seguiram-na e se colocaram nos devidos lugares, sem falar, sentados à volta da cabine circular.

— Pronto, Pach? — perguntou Eunik.

— Sim tudo pronto.

— Decolagem autorizada... Impulsos magnéticos !

O acelerador ciclotrônico se pos em marcha silenciosamente. A pequena nave de impulso magnético, já tendo perdido parte de sua gravidade, soergueu-se sobre o piso metálico do hangar, ao mesmo tempo em que se corria uma das escotinhas inferiores.

Entre os homens que abandonavam a nave de comando surgiram olhares de simpatia para sua chefe. Eunik era humana, inteligente e bela. Seus subalternos adoravam-na.

Entretanto, ao dirigir-se a seus comandados, o tom da "N’get" era, agora, frio e oficial.

— Lá embaixo, nas sombras de um mundo errante e morto, ocultou-se uma nave de procedência ignorada, que não obedeceu as ordens de detenção. As circunstâncias nos obrigam a sermos precavidos, e por isso vamos descer a fim de tentar localizar os intrusos.

Temos de atuar com sigilo e rapidez. Quando detectarmos por meio dos projetores infralumínicos, avisaremos ao chefe. Eles intervirão para imobilizar a neve em terra, antes que possa decolar.

— Essas naves não são mais rápidas que as nossas? — perguntou um aspirante.

— Não, uma vez que já íamos alcançá-la quando seus tripulantes optaram por reguiar-se nesse nundo que a casualidade pôs em seu caminho. Ou talvez soubessem já da existência desse planeta, procurando-o como esconderijo, ao se verem perseguidos.

Nossas naves médias, de propulsão fotônica, são um pouco mais rápidas que as dele. Devem ter tido uma surpresa ao descobrir que nossa civilização era mais avançada que a deles.

— Sim — admitiu Pach. — É possível que resolvam deixar-nos em paz, de agora em diante.

Não cante vitória antes do tempo, Pach. Sabe-se que esses seres procedem de mundos altamente civilizados e em contínua expansão. Seu objetivo é o de observar-nos, assim como nós também temos observado outras raças da galáxia.

A pequena nave prateada e lenticular já descia sobre a rugosa e áspera superfície daquele mundo aparentemente inorgânico que vagava por entre as eternas sombras do cosmos. Os tripulantes da nave auxiliar podiam ver o ambiente exterior através das telas de projeção, infralumínicas, cujos raios cortavam as trevas conferindo uma coloração azul-esverdeada à paisagem abrupta.

Eunik e seus subalternos tinham visto mundos mortos e vivos, agrestes e escabrosos, mas o que agora contemplavam na tela, à medida que a pequena nave se aproximava, era algo de apavorante, aterrador e espantoso.

Viram altas montanhas pardas, grutas profundas e negras, que fendiam irregularmente a costa do planeta, abismos insondáveis, planícies de areia imóvel, e, o que era mais desolador, nem o menor indício de vida. Ali, a morte e a desolação desenhavam um mapa de trajédia.

— Uma nave pode ocultar-se em qualquer lugar — observou um técnico.

— Cuidado, Kufverk — replicou Nunik. — Eles também devem saber, tão bem como nós, o perigo que correm de provocar um desiquilíbrio geofísico. As altas vibrações moleculares podem produzir uma hecatombe e não me agradaria ver-me envolvida por uma explosão.

— Que pode acontecer? — perguntou um jovem técnico, mobilizado pelo Conselho Cívico como auxiliar de Observação Interestelar, sem poder ocultar um gesto de temor.

— Poderíamos chocar-nos contra um desses enormes blocos pétreos que se desprenderiam como enormes projéteis: seríamos destruídos e projetados ao infinito, como meteoros — respondeu Eunik, com um sorriso, acrescentando: Entretanto, essa possibilidade é muito remota. Nossas vibrações moleculares são débeis.

Entretanto, o que "N’get" jamais podia esperar era que acontecesse o que aconteceu: no momento mais inesperado, quando, para evitar o cume ponteagudo de uma montanha, manobrou os comandos de subida... estes não lhe obedeceram!

— Cuidado, Eunik! — gritou Pach, pondo-se de pé.

Um instante depois uma luz que cegava envolveu-os por completo.

Tudo pareceu tornar-se branco, reluzente, como se o sol tivesse surgido de repente das trevas, envolvendo-os com raios incandescentes. Eunik já quase sem sentidos, tentou corrigir o rumo. Mas as alavancas de vôo não - responderam.

A nave, já sem controle, foi dirigida pelo raio de luz para uma fenda na rocha que ninguém tinha observado antes, e em cujo interior estava a nave que estavam perseguindo.

 

Eunik recuperou os sentidos encontrando-se para sua surpresa, no interior de uma cabine de paredes metálicas e amplas dimensões, onde havia quatro pequenos seres com uniformes brancos, escafandros metálicos e rostos peludos onde pareciam grandes olhos saltados que a fitavam atravé do metal transparente de seus capacetes.

A mulher de B'sinik deu-se conta de que lhes haviam colocado um estranho capacete e tinham aplicado em seus pés descalços algo parecido com catodos ou ventosas de metal brilhante.

Um dos quatro pequenos indivíduos se aproximou dela. Eunik tentou afastar a desagradável impressão que lhe causavam aqueles olhos estranhos. Percebeu também que, pela abertura da boca de um deles apareciam dentes esquisitos, de uma alvura impressionante.

— Não deve temer nada, senhora — pareceu dizer o indivíduo, em língua "zemu". — Não queremos fazer-lhe mal.

Eunik se recompôs. Estava acostumada o enfrentar todo tipo de situação difícil e inesperada, uma vez que tinha sido eficazmente treinada para isso. Apesar de que fosse aquela a primeira vez que se via diante daquele tipo de criatura, seu contato com outras raças não era novidade.

Soube também que não lhe falavam em língua "zemu", mas transmitiam-lhe o pensamento, possivelmente por meios elétricos.

— Não temo nada. É evidente que não — disse, com segurança.

— Ainda bem, senhora. Sou Vaak-Diomo, o chefe desta nave espacial. Estes são meus ajudantes. Não se preocupe, tão pouco, com seus companheiros. Todos estão bem, dormindo e descansando. Vocês são de "Zemu" ou de "Oscar"?

— De "Zemu" — respondeu Eunik.

— Já o imaginava. Desligaram-se de uma nave maior que permanece imóvel sobre este mundo morto.

— Sim.

— Como se chama a senhora?

— Eunik.

— Seu esposo comanda a nave maior, não é verdade?

Eunik não ocultou a surpresa.

— Como souberam?

— Captamos suas ordens psíquicas... Uma espécie de encefaloscopia profunda. Lamento que nosso aspecto externo seja tão diferente do seu. Sei que nos considera repulsivos. Entretanto, asseguro-lhe que o sentimento não é recíproco. Vocês são esbeltos, bem proporcionados e inteligentes.

"Nossa raça, como vê, não foi favorecida no que diz respeito à estética — Eunik pensou captar algo como um suspiro de resignação mental. — Mas isso não importa. Não devem considerar-nos como inimigos. Somos uma vanguarda de exploração nesta concentração de estrelas — Galáxias, não é assim que a chamam?

Procedemos de "D'diomo" e viajamos por "túneis hiperlúnicos". Nossos irmãos continuarão chegando paulatinamente, uma vez que não podemos voltar. A inversão do tempo no-lo impede. Compreende?

— Não podem regressar à sua galáxia?

— Não, temos de estabelecer bases aqui, intensificando a exploração e buscando mundos onde possamos estabelecer-nos definitivamente. Há muitos planetas brumosos e desabitados que podem servir-nos.

— A Via Láctea pertence as raças que a povoam — respondeu Eunik, secamente.

— Vocês têm espaço de sobra e nós temos carência deles. Não queremos lutar...

— Mas vocês nos têm vigiado, interceptando nossas comunicações e até seqüestrando nossos congêneres! — acusou Eunik.

— Sim, é verdade — disse Vaak-Diomo, sem alterar a expressão de seu rosto bestial. — Fizemos isso porque necessitávamos de saber como eram vocês, qual era sua cultura e em que nível estão suas ciências e suas técnicas.

Por isso desejamos ser acolhidos como viajantes do cosmo que necessitam de hospedagem para suas naves.

— Temo que isso não seja possível. Terão que regressar à sua galáxia mesmo que quando ali cheguem, tenham transcorrido milhões de anos. Se deixarmos que se instale aqui, não pararão de expandir-se, enviando tantos seres de sua espécie, que terminariam por se apoderar de tudo. E não creio que o cruzamento de nossas respectivas raças nos favoreça muito.

— Obrigado por sua sinceridade, senhora. Acabou de dizer-nos aquilo que já sabíamos por outras fontes. Entretanto, nossa expansão é irreversível. Nossas naves continuarão a chegar, cada vez mais rápidas e aperfeiçoadas, e nós nos veremos obrigados a invadir planetas que reúnem condições de vida para nós.

Enquanto decidimos qual será a sorte de vocês, a senhora será convenientemente atendida em uma cela semelhante à que ocupam seus companheiros. Não sou partidário de exterminá-los, a menos que nossa segurança assim o exija... Agora durma e descanse. Se resolvermos matá-los, não sofrerão absolutamente nada... Passe bem, senhora Eunik... Tenha sonhos felizes...

Sem poder subtrair-se à influência hipnótica daqueles olhos saltados, Eunik adormeceu.

 

O "S'get" B'snik recebeu a notícia sem sequer pestanejar, deixando o primeiro oficial Lerk confuso e perplexo, sem saber se seu chefe era um homem ou uma máquina sem sentimentos.

— Está bem, Lerk. Eunik desapareceu e não sabemos o que foi feito de sua nave auxiliar. Entretanto, não creio que tenham sofrido um acidente.

— Isso é o que supõe Brax! Ouviu um grito pelo rádio antes de perder o contato!

— Isso não significa nada de concreto. Podem ter sido atacados ou se terem chocado contra o solo. Como conheço a perícia de Eunik, recuso a possibilidade do acidente. Isso tudo quer dizer que podem ter sido atacados pela nave estrangeira que devemos considerar, a partir deste momento, como inimiga.

Eles não podem sair de seu refúgio. Se o fizerem, nós os interceptamos. Portanto, pensei que o melhor é esperar um pouco, pedir ajuda ao "T'get" S'bol, e depois atacar.

— E correr o risco de que esse mundo instável arrebente e nos envolva num cataclisma?

— Nossa vida é risco, Lerk. Nessa profissão morre-se com facilidade. Não podemos deixar nossos companheiros em poder dos intrusos. Temos de fazer todo o possível para resgatá-los e, ao mesmo tempo, capturar esses seres para levá-los à Base Um. Precisamos saber mais sobre eles.

— Não creio que se deixem apanhar. Na pior das hipóteses, eles se auto-destruiriam, eliminando sua mulher e os...

— Basta, Lerk! — exclamou B'snik, deixando transparecer, pela primeira vez suas emoções.

— Minha atitude não pode sofrer influências pelo fato de Eunik ser minha esposa e estar entre os prisioneiros!

— Sim, entendo — replicou o primeiro oficial. —. Direi a Brax que se comunique com o "T'get" S'bol para que este nos envie auxílio.

— Faça-o imediatamente.

Lerk abandonou o posto de comando. Poderia ter dado instruções pelo interfone, mas preferiu deixar B'snik a sós. Era um homem angustiado e precisava ficar sozinho com sua dor.

B'snik estava obviamente angustiado, mas isso não o impedia de cumprir com seu dever de chefe da nave espacial. Dava-se conta de que a adversidade lhe havia assestado um rudo golpe. Era possível que Eunik e seu grupo estivessem mortos. Mas algo lhe dizia que isso não havia acontecido e seu pressentimento não lhe mentia. Entretanto, que fazer? Se enviasse outra nave auxiliar, outras onze pessoas correriam o mesmo risco e sua tripulação poderia ficar reduzida à metade. Acusa-lo-iam de inexperiência e im-perícia. Não era isso que o Centro de Observação Inetrestelar esperava dele. O mais sensato era o que havia feito. Pedir ajuda e esperar. Mas isso significava ter que perder tempo, ser paciente e ter calma. Seria capaz de resistir, sabendo que Eunik podia estar correndo perigo de vida?

E se em vez de esperar, descesse com a nave até à superfície daquele rugoso planeta mergulhado nas sombras, e tentasse imobilizar a nave alienígena com descargas anti-magnéticas? Não correria o risco de provocar um cataclisma? A observação direta lhe havia indicado o perigo que encerrava aquele mundo aparentemente morto. E se não estivesse morto? E se seu núcleo fosse mais sólido do que tudo dava a entender? Como arriscar-me ao pior, pondo em perigo sua nave, sua vida e a de Eunik?

Lerk regressou logo, trazendo más notícias:

— Sinto muito, B'snik. S'bol está em missão além de Miran, seguindo uma esquadrilha de astronautas intrusos. Não pode ajudar-nos. Vai para regiões remotas e tardará em regressar. Parece que há uma verdadeira invasão extragaláticas. Aconselharam-nos a avisar ao "N'ivo" Falke, na Base Um.

— S'bol está louco! — exclamou B'snik, pondo-se de pé de um salto e encarando seu primeiro oficial. — Quando recebemos ajuda da Base Um, já será tarde... vamos atacar sozinhos!

Lerk não pode conter sua alegria.

— Sim, B'snik! Atacaremos quanto antes! Se esse mundo resistiu às vibrações da nave inimiga, por que não há de resistir às vibrações da nossa?

— Ordene situação de emergência. Que se faça a conexão de todos os detectores e se percorra a superfície com "ecos magnéticos". Assim que houver resposta afirmativa, nós os paralisaremos com três focos.

Lerk apressou-se a ocupar seu posto de ordens. Sua voz era firme ao repetir as ordens que recebera de B'snik.

A imobilidade da nave de mais de sessenta metros de diâmetro em sua couraça de titânio anti-magnético terminou, e esta iniciou uma descida lenta e gradual, até colocar-se em posição adequada para iniciar a projeção dos "ecos magnéticos" sobre o solo.

— Brax — chamou B'snik, pelo interfone, — preste atenção aos vibradores acústicos. Ao mais leve indício de sismo, devemos saltar para o espaço.

— Não há nenhuma alteração, B'snik — replicou a voz do "ISTget" encarregado das comunicações. — Evidentemente, trata-se de um mundo morto, como um meteoro gigantesco, mas que não dá mostras de desequilíbrio. Seu núcleo deve ser férreo.

— Não tem magnetismo, Brax.

— Sim, mas pode possuir outro metal não magnético, embora isso seja raro.

— De qualquer maneira, fique atento ao controle. Temos de abrir bem os olhos.

E exploração continuou durante várias horas, varrendo grandes zonas daquela insólita paisagem revelada apenas nas telas infra-lumínicas, até que, de repente, um intenso raio branco surgido da fenda de uma vertente montanhosa, golpeou a nave.

Diante de seu painel de controle de direção, B'snik não vacilou, apesar de ter ficado momentaneamente cego. Sua mão direita, instintivamente, pressionou um comando. Era a única coisa que podia fazer naquele instante: Tirar a nave do perigo.

A astronave vibrou intensamente, balanceou um pouco e terminou por evitar o fatídico raio luminoso que teria neutralizado todos os dispositivos de vôo. Mas o abalo molecular foi tão grande que ocasionou um forte impacto sobre o terreno.

Logo em seguida, enquanto a nave de B'snik escapava nas alturas, o solo tremeu sobre o planeta morto. Produzindo-se um desequilíbrio geológico, provocado pelas vibrações magnéticas, e a terra se abriu numa enorme fenda que fez com que se precipitassem para o seu interior os altos cumes das montanhas.

Não se verificou, entretanto, a esperada hecatombe final. Tudo se reduziu a um tremor local de gigantescas proporções, mas que não acabou com a precária existência do planeta solitário.

A nave "d'dioma", que causara o desequilíbrio, ficou sepultada sob milhões de toneladas de pó e de rochas, enquanto a que era dirigida por B'snik se punha a salvo a grande altura, para verificar os danos causados pelo raio.

Logo foi verificado que não houvera nenhum estrago. B'snik recebeu os informes de seus colaboradores sem pestanejar, apesar de que, em seu íntimo, a angústia pela sorte de Eunik tivesse acabado de aumentar penosamente.

— Tivemos sorte! — disse Brax. — O raio luminoso não nos causou dano.

— Só estivemos expostos a ele durante décimos de segundo — declarou B'snik. — Entretanto, e conveniente efetuar uma experiência geral de manobra, para nos certificarmos de que tudo está funcionando corretamente. Depois, desceremos de novo.

Pouco depois, Lerk informou as mudanças sofridas na superfície do planeta errante. Mostrou a B'snik a gravação realizada até o momento do ataque.

— Os que efetuaram o disparo ultralumínico estavam ocultos dentro desta fenda — Lerk assinalou a projeção na "tela. — Se a intensidade térmica tivesse sido um pouco maior, ou se tivéssemos ficado expostos ao raio apenas alguns segundos a mais, não teríamos podido subtrair-nos ao seu ataque.

— Sim — admitiu B'snik. — É evidente que calcularam mal.

— E pagaram caro as conseqüências dos erros! Olhe como está agora o lugar de onde nos atacaram.

B'snik pôde comprovar na tela o que dizia Lerk. A paisagem tinha mudado totalmente.

— Devem ter ficado soterrados! — declarou.

— E, portanto, não têm escapatória — concluiu Lerk. — Podemos atacá-los, imobilizá-los com nossos desintegradores moleculares.

B'snik não respondeu imediatamente. Fez retroceder aquela espécie de filme tomado durante o reconhecimento do planeta morto e comparou-o com o estado atual em que se achava o lugar sacudido pelas vibrações moleculares.

— Essa nave está sepultada sob milhões de toneladas de pó e rochas. Entretanto, deve estar intacta...

— Ou transformada em sucata — atalhou Lerk.

— Não! — gritou B'snik, virando-se para o seu primeiro oficial. — Tem que estar intacta. Pressinto que Eunik e nossos companheiros encontraram-se dentro dela, à espera de que vamos salvá-los!

— Se assim for, ficarão felizes quando os resgatarmos! Mas como o faremos, B'snik?

— Vamos pousar exatamente aqui — disse B'snik, assinalando um ponto na tela. — Em seguida, iniciaremos a desintegração do terreno. Empregaremos um equipamento antitérmico. É preciso chegar até onde está essa nave, perfurar sua surperfície e tirar dela todos os seus ocupantes. Ação imediata!

- Sim, B'snik!

A sonda magnética acionada pelo "ISTget" Brax revelou perfeitamente o relevo da nave sepultada a trinta metros de profundidade. Imediatamente, o equipamento de perfuração, com seus desintegradores e instrumentos antitérmicos, iniciou o trabalho em linha horizontal, abrindo uma galeria de quase dois metros de altura, por dois de largura.

Jorros de lava ardente surgiram do buraco, quando o fogo fundiu o pó e as rochas. Em meio àquele rio fervente, os homens, protegidos por seu equipamento refrigerado, avançaram pelo interior da galeria.

Em menos de quinze minutos, chegaram até o lugar onde estava sepultada a espaçonave "D'dioma". Os tubos flexíveis da refrigeração tinham solidificado as paredes do túnel, a muito baixas temperaturas. Parecia agora uma negra galeria de paredes de gelo.

Os perfuradores avisaram a B'snik pelo rádio que tinham alcançado o objetivo e informaram-no sobre certos ruídos que captaram no interior da nave aprisionada.

— Perfurar o metal pelo local mais direto. Depois quero que Kranx entre pela abertura — ordenou B'snik. — Os demais, que permanecerem no túnel, fiquem de sobreaviso para o que possa ocorrer.

B'snik não disse mais nada. A prancha metálica, uma liga de Cuprovanádio ionizado, fundiu-se ante o raio ígneo utilizado pelo "aspirante" Kranx, até deixar uma abertura capaz de permitir-lhe a passagem. Através desta, Kranx viu uma câmara de dimensões reduzidas, com uma máquina de partículas e um painel de controle, além de uma porta de correr, onde havia um "d'diomo a olhá-lo.

A atitude do "pigmeu" não era agressiva. Mas Kranx dirigiu para ele seu projetor paralisante, fazendo estremecer o indivíduo, que, em seguida, estatelou-se no chão, entre convulsões.

— Abati um — informou Kranx. — Deve haver mais, mas não consigo captar nenhum ruído.

— Que entrem Bresk e Luygon! — ordenou B'snik. — Revistem todo o interior. Enviarei reforços.

Os outros dois perfuradores, obedecendo às ordens de B'snik, seguiram Kranx em direção ao interior da nave, empunhando com força seus projetores paralisantes. Passaram por cima do "d'diomo" insensibilizado e foram dar num corredor em forma de disco, onde encontraram outro indivíduo de enorme cabeça, olhos saltados e macacão branco, que se deixou abater pela dupla descarga dos projetores, sem oferecer resistência.

Finalmente, por uma porta aberta, chegaram à sala de controle, onde se encontravam os outros cinco "d'domos". Mas estes tinham levantado seus grandes braços que quase tocavam o teto, enquanto um deles falava com voz aguda.

— Estão rendendo-se! — exclamou Luygon, que já estava pronto para disparar. — Que ninguém se mova! Alguém entende nossa língua?

— Eu... Um pouco... — disse Vaak-Diomo. — Mim ser chefe desta nave.

Kranx avançou até colocar-se em frente a Vaak-Diomo, para cujo rosto apontou o projetor.

— Onde estão nossos companheiros, o que eram comandados pela "N'get" Eunik?

— Estar bem... Adormecidos... Não correr perigo... Nós não ter tido sorte.

— Queremos vê-los! — exigiu Bresk.

Vaak-Diomo assentiu com um gesto de cabeça e apontou para a porta.

— Vá na minha frente! — ordenou Kranx. — Leve-me até onde está Eunik.

Vaak-Diomo caminhou submissamente para a porta, seguido de Kranx, enquanto Bresk e Luygon continuavam vigiando os outros "d'diomos".

O chefe da nave estrangeira levou Kranx para uma porta de correr que se abriu à pressão de um interruptor. Ao atravessá-la, entraram num recinto onde, estendida no solo, como morta, jazia Eunik.

— Que aconteceu com ela? — perguntou Kranx, alarmado.

— Está dormindo — replicou Vaak-Diomo. — Eu agradecer a vocês gentilesa de ter vindo salvar-nos. Não resistir muito tempo sepultados. Somos seus prisioneiros... Eu despertar senhora.

Vigiado pela arma paralizante de Kranx, Vaak-Diomo inclinou-se grotescamente sobre Eunik. Seu grande braço estirou-se e sua mão enluvada roçou o rosto da moça, ao mesmo tempo em que murmurava umas palavras sem sentido para Kranx.

Eunik abriu os olhos no instante em que o "N'get" Lerk e vários "zemus" irrompiam no corredor da nave estrangeira. Imediatamente, B'snik que continuava a dar as ordens pelo rádio, mandou que Eunik, assim como todos os outros componentes do grupo que fora resgatado, fosse submetida a um minucioso exame médico, a fim de que fossem avaliadas as consequências de sua permanência naquele ambiente estranho. Em seguida, poderiam retornar à nave principal.

Ao recobrar os sentidos, Eunik disse a Kranx:

— Creio que estou bem... Não sinto nada. Que aconteceu?

Kranx, sorrindo, contou à esposa de seu chefe tudo o que acontecera, enquanto Vaak-Diomo assitia à cena, silencioso e inexpressivo.

Com a chegada dos outros "zemus" armados, o chefe da nave "d'diomos" foi conduzido à sua própria cabine de controle, onde permaneceu sob vigilância, até que tivessem realizado as necessárias verificações que a segurança exigia.

Ao terminar o exame médico, Eunik foi autorizada a voltar à nave e ir ao encontro de seu esposo que a recebeu cheio de alegria, abrançando-a na presença do sorridente Lerk.

— Pensávamos que você estivesse perdida — disse B'snik.

— E estava mesmo. Não sei o que aconteceu.

— Mas nós sabemos. Ficou provado que as pequenas naves auxiiiares são fáceis de dominar pelos disparos ultraluminosos dessa gente. Quiseram fazer o mesmo conosco, mas fracassaram. Produziu-se um sismo na montanha em que se escondiam e esta desmoronou. Tivemos que perfurar a terra para chegar até vocês. Como é que eles a trataram?

— Não posso me queixar. O chefe da nave me tratou bem. É possível falar com eles, pois interrogaram-me. Creio que podemos estabelecer o diálogo com Vaak-Diomo. Comigo, empregaram um processo eletrônico, ou algo parecido. A energia elétrica de escassa voltagem acionou meu cérebro.

— É claro que interrogamos esses indivíduos. No Centro Geral de Observação Intergalática apreciaram extraordinariamente este serviço.

Eunik recebeu autorização para retirar-se para descansar, enquanto B'snik cuidava pessoalmente da operação de resgate da nave "d'dioma" soterrada, que eles queriam transladar para a Base Um de Zemu, a fim de que fosse estudada pelos técnicos.

Assim, o "S'get" visitou a espaçonave inimiga quando teve certeza de não correr mais nenhum risco, e falou com Vaak-Diomo, que permanecia impassível e silencioso, junto com seus ajudantes, na cabine de controle agora em poder dos "zemus".

— Como é que aprendeu nossa língua? — quis saber B'snik, olhando fixamente para Vaak-Diomo.

— Passei algum tempo em Zemu, senhor.

— Onde? Com quem?

— Perto de uma colônia. Estabelecemos contato com uma família de técnicos que submetemos a um tratamento psíquico. Eles nos ensinaram muitas coisas.

— Quanto tempo faz que vocês vêm à Zemu?

— Muitos anos. Na realidade, estabelecemos bases em diversos mundos desta galáxia... Desculpe minha dificuldade de expressão. Não estou familiarizado com sua língua. Custa-me entender e falar.

— Acho que seu desembaraço no nosso idioma é plenamente satisfatório. Qual é o propósito de sua presença em nossos mundos?

Vaak-Diomo entreabriu a boca, mostrando dentes branquíssimos.

— Sua pergunta me causa espanto, senhor. Pensei que já estivesse a par de nossos objetivos. Sabemos que outros compatriotas nossos já foram capturados e interrogados.

— Supomos que querem estabelecer-se em outros mundos.

— Somos obrigados a isso. Gostaríamos de poder estabelecer relações amistosas, mas isso não é possível. Um abismo nos separa. Poderíamos ajudá-los muito em sua evolução, o que os tornaria iguais ou superiores a nós próprios.

— Que pretende dizer? — estranhou B'snik. — Consideram-se mais civilizados que nós?

— Represento uma raça infinitamente superior em número a de vocês.

— O número não indica uma qualidade superior!

— O senhor conhece nossa civilização?

— Não, mas isso pouco importa — replicou B'snik. — Nem vocês nem suas naves podem superar-nos. Se tentarem estabelecer-se em nossos domínios, nós os expulsaremos.

— Nossa população é comparável ao número de estrelas existentes no Universo e reproduzimo-nos continuamente, com inusitada rapidez. Estamos destinados a controlar o Universo. Ninguém poderá impedir-nos.

— Nós o faremos! — respondeu B'snik, secamente.

— Sinto muito decepcioná-lo, mas não o conseguirão. Há muito tempo já estabelecemos bases secretas em inúmeros mundos desta Galáxia. Vocês tiveram muito pouco contato conosco e pensam que somos uma vanguarda de exploração. Isso não deixa de ser verdade, mas estamos chegando continuamente. A cada dia que passa, nossas naves são melhores e mais rápidas.

— As nossas também. Diante do perigo que representa para nós a presença indesejável de vocês, aperfeiçoamos nossos meios de propulsão e...

— Eu sei — disse Vaak-Diomo. — Foi graças a isso que puderam alcançar-nos. Entretanto, não sabem de que meio dispomos. Ainda não averiguaram nada a respeito do que temos aqui.

B'snik resolveu concluir a discussão e atalhou:

— Está bem. Tudo isso será examinado por nossos técnicos. Vocôs são nossos prisioneiros. Não tentem desobedecer nenhuma ordem ou morrerão. Vamos tomar todas as medidas necessárias para seu transporte para Zemu. Uma vez lá, minha missão com vocês terá terminado.

— Entendido, senhor — respondeu Vaak-Diomo. — Saberemos morrer com dignidade. Este é o nosso destino em suas mãos. Mas há mil bilhões de "d'diomos" aguardando.

 

Encontrei M. Mareei Moley sentado numa poltrona do hotel onde tínhamos marcado encontro telepaticamente. Estava em manga de camisa, com uma gravata solta, calças de tecido cinzento e sapatos de modelo espalhafatoso. O curioso era que, na nossa época, nem sequer um extraterrestre como ele passava despercebido. Chamava a atenção de todos quantos o viam, pois andava sempre na moda.

Deixou o jornal francês que lia e se levantou, estendendo-me a mão.

— Olá — cumprimentou-me, com um sorriso.

— Como vai o trabalho?

— Trago aqui tudo o que escrevi até agora. Você pode lê-lo e fazer as modificações que quiser. Como tudo isso é puro absurdo, não creio que alguém leia mais de vinte páginas.

B'snik, como se fazia chamar M. Mareei Molay, ou vice-versa, apontou-me uma poltrona em frente à dele e fez um sinal ao boy que se apressou a aproximar-se.

— Martini seco para mim — pediu Molay, em francês. — E você?

Estive a ponto de pedir vinho tinto, mas acabei dizendo, por esnobismo: -"Gin-Tonic".

Meu anfitrião, que lia quase todos os meus pensamentos, sorriu e observou, quando o empregado do hotel se retirou:

— Você é curioso, Peter. Está zangado comigo? Quando sonhou ter todo o dinheiro que agora possui?

— O dinheiro que você me envia parece falso. Como o fazem?

Tornou a sorrir e me disse:

— Não é falso. Temos uma boa organização, com fundos próprios. Já o informei que trabalho em uma oficina mercantil, em Lyon? É claro que temos dinheiro na Suíça, em Paris, em Nova York e até em Moscou. Se eu "desvio" alguns milhares de dólares para que você escreva sua obra, não faço mais do que cumprir as ordens.

Esta inocente novela cumpre o duplo objetivo de informar o leitor e fazer com que sejam descobertos os "d'diomos" sobreviventes e ocultos de nossas vistas. Diz-se por aí que o pior cego é aquele que não quer ver...

— Sim, sim — atalhei. — Não posso me queixar de minha sorte; a única coisa que me perturba é sentir-me um pouco como cobaia de vocês.

Ele se inclinou para mim, olhando-me com seus estranhos olhos azuis, e deu-me uma palmada amigável no braço.

— Acho-o muito simpático, Peter.

— Meu nome é Pedro.

— Não importa. Gosto mais de seu pseudônimo. Hoje mesmo farei as modificações que achar necessárias. Intercalarei chaves que só você conhecerá entre todos os habitantes da Terra. Entretanto, vai esquecê-las logo. Deve cuidar, além disso, para que a impressão da novela não modifique uma só vírgula das mensagens.

— Não lhe posso dar certeza absoluta disso. Em que consistem essas chaves?

— Frases, palavras e até letras com sentido para os interessados. Para o resto dos leitores que tiverem acesso à novela, esta carecerá de significado.

— Você acredita que a obra será lida pelos interessados de que fala?

— Sim, claro — disse ele. — Na realidade, eles não são muitos. Mas estão esperando instruções... E sabem que estas chegarão desse modo!

— Como é possível isso?

  1. Mareei Molay fez um gesto amplo e retrucou:

— Fizemos chegar até eles uma mensagem pelo rádio. As ondas são bem recebidas no mundo inteiro. Umas chegam de muito longe e outras parecem vir de pontos longínquos, quando na realidade são emitidas em locais próximos. Uma novela de ficção científica pode converter-se em periódicos informativos. A imprensa também transmite mensagens cifradas em artigos ou anúncios. As ondas de rádio podem ser alteradas, retidas, modificadas e até interpoladas.

A chegada de um garçom, com a bandeja e dois copos, interrompeu o "T'get" B'snik. Depois, enquanto bebíamos, mudou de assunto, dizendo-me:

— Agora você vai escrever sobre a guerra galáticade 1954.

— Não teme que muitos leitores achem o relato inverossímel?

— Olhe para mim, Peter. E olhe à sua volta. Eu sou uma realidade, assim como os outros. Tudo é real para quem o admite e irreal para os que não querem aceitar. Isso é lógica humana. Tudo está revolucionado, desde o clássico até o ultra-moderno. Expressando-se em um mesmo idioma, as pessoas falam línguas distintas. Que significa a Galáxia para um homem sem cultura? Um homem saberá, por ventura, a linguagem técnica dos astrônomos? E um matemático estará a par dos profundos estudos que se fazem sobre as diversas formas de arte? Você não vai falar de química com uma estudante de economia, nem conseguirá interessar um chofer de táxi dos problemas da fauna abissal.

"Um mesmo idioma serve para muitas profissões. As pessoas de cultura mediana utilizam alguns milhares de vocábulos. Mas a técnica, em suas diversas facetas, utiliza outros milhares e cada especialista emprega uma linguagem diferente.

Eu continuava sem compreender onde ele queria chegar e comuniquei-lhe meu estado de confusão.

— Espere, Peter. Você vai empregar uma linguagem simples, um vocabulário não muito rebuscado, sem complicações. É isso o que tem feito até agora em suas obras: só em raras ocasiões introduz palavras técnicas que só os especialistas podem entender. Há quem se preocupe em conhecer seu significado, assim como há outros que passam por cima desses termos. Mas você tem muitos modos de dizer as coisas, para evitar a monotonia. Chega a variar bastante seus temas para não cair na repetição.

— Sim, mas...

— Se eu lhe mando chamar um número telefônico e transmitir uma mensagem, saberá você o que está dizendo?

— Sim, claro! — exclamei, impensadamente.

— Então vamos experimentar — disse M. Mareei Molay. — Ligue para este número. — Escreveu rapidamente um número sobre o papelzinho da conta que o garçom deixara sobre a mesa. — Só precisa dizer: "Vaxk-daf-gram-edda-alum-vi". Nada mais que isso. Quer que repita?

Olhei para ele furiosamente.

— Quer me fazer de bobo? — perguntei.

— Longe de mim tal intenção, Peter— respondeu, sem alterar um só traço de sua expressão.

— Só lhe quis dar um exemplo, nada mais. Quando a contenda terminou, muitos "d'diomos", "grisados", "provnos" e "alkeos" se refugiaram neste planeta. Conseguimos detectar muitos deles e até capturá-los. Entretanto, calculamos em aproximadamente seis ou oito mil os que desapareceram e transformaram seu aspecto físico por meio de operações plásticas.

Você ficaria assombrado se soubesse como é fácil transformar o organismo dessa gente. Portanto, é impossível saber, quando se anda pela rua contemplando as pessoas que passam, quem nasceu na Terra ou quem chegou a bordo de uma nave extraterrestre.

Você se lembra daquela série da televisão chamada "Os Invasores"? Embora tivesse muitas falhas, serve como exemplo. Os "d'diomos" não se desintegram ao morrer, como se fossem partículas ionicas instáveis. Morrem como você ou eu, deixando seus cadáveres à ação dos elementos. Mas nem a autópsia mais perfeita pode revelar sua origem extraterrestre.

Sabemos que já não chegam em bandos, como antes. Destruímos suas naves e arrasamos suas bases. Mas estamos perdendo lamentavelmente o tempo de averiguar se determinado indivíduo aqui, na Espanha, nos pampas argentinos ou até mesmo na Groenlândia, é um "d'diomo". Isso só eles mesmos sabem e, evidentemente, escondem-no cuidadosamente.

— E como se multiplicam? Não é melhor deixá-los para que desapareçam sozinhos?

— Não importa o aspecto que tenha um "d'diomo", ele será sempre o que é. E eles se reproduzem como vocês ou nós. Criam suas próprias famílias, têm filhos que educam no segredo de sua raça. Se não os desmascararmos e não os eliminarmos, dentro de alguns séculos dominarão toda a galáxia e o sacrifício de nossos combatentes, durante a contenda, terá sido inútil.

Não encontrei argumento para replicar. B'snik, como sempre, tinha razão. Ele conhecia melhor do que eu os "d'diomos".

 

A nave intergalática penetrou em órbita em torno da Terra. Pela primeira vez em sua existência, B'snik ficou contagiado pela beleza daquele pequeno mundo que aparecia projetado na tela de observação.

Virou-se para o "N'get" Lerk que estava, como todos os membros da tripulação, vestido com o equipamento de emergência, e lhe disse:

— Eis aí nosso objetivo, Lerk... Parece um mundo de brinquedo!

— Segundo os dados fornecidos por nossos observadores permanentes, trata-se de um mundo muito belicoso.

— Com efeito. Seus habitantes formam um mosaico de povos intensamente divididos. Temos motivos para crer que, na mais remota antigüidade, raças muito poderosas do universo vieram estabelecer-se aqui, formando colônias e povoações sem nenhum vínculo racial entre si.

— Isso é uma teoria — objetou Lerk.

— Sustentada por lendas e achados arqueológicos — acrescentou B'snik. — De qualquer maneira, nós nem sequer conhecemos nossa verdadeira origem. A verdade é que os terrestres são muitos parecidos fisicamente conosco. O estranho é que tantos séculos de cultura e de ciência nos separem.

— Segundo os dados que nos foram fornecidos pelos "observadores" permanentes, não estão em um ciclo muito atrasado. Possuem uma técnica bastante avançada.

B'snik sorriu e retrucou:

— Sim. Há povos que possuem bombas atômicas e outros que ainda caçam com flechas e zarabatanas.

— Como é possível isso?

— Devido à diversidade de governantes, línguas e costumes. Há povos que ainda não saíram da pré-história e vivem como selvagens. Outros, evoluem pouco a pouco. O hemisfério setentrional, ao contrário, onde se concentrou a civilização e a cultura, tem tentado sempre estender sua hegemonia aos pontos mais distantes do planeta. A evolução continua, mas em ritmo lento.

Uma chamada pelos alto-falantes interrompeu o diálogo.

— Recebido sinal "KAR-6", B'snik, na posição 13-45!

— Muito bem. Anote, Lerk. Posição 13—45. Atravessaremos a atmosfera o mais rapidamente possível. Já há alguns anos, as forças aéreas deste planeta possuem detectores de radar, e não convém que nos deixemos ver por muito tempo. Devemos dar a impressão de um meteoro que cai no mar.

— Não será violento demais o choque contra as águas?

— Não. Está calculado. Você situou a posição?

- Sim... 13-45.

— Bem. Vamos lá.

Para qualquer observador situado na costa francesa, a "estrela fugaz" que apareceu naquela noite no céu, descendo das alturas e desaparecendo atrás da linha do horizonte, só podia ser classificada como algo meteórico que as camadas altas da atmosfera provavelmente incendiariam e destruiriam.

Mas não foi assim. A nave espacial reduziu ligeiramente a velocidade antes de penetrar nas águas do Atlântico e logo submergiu, desaparecendo em seguida sob as águas.

A bordo do petroleiro "Cambridge", o timoneiro Henry G. Stump pestanejou ao ver aquela espécie de pequena lua brilhante que foi engolida pelas ondas. Entretanto, apesar da inusitada marola que se formou logo depois, não ficou certo de ter visto bem, pensando que talvez tivesse sido vítima de uma alucinaçao produzida pelo sono, ou pelos sentidos cansados pela jornada de trabalho duro.

Por esse motivo, o timoneiro não disse a ninguém o que tinha visto durante seu turno de guarda. Falar com seus companheiros sobre "discos voadores" era expor-se a ser objeto de troça.

Entretanto, Henry G. Stump não tinha bebido nem havia sofrido qualquer perturbação dos sentidos. Era um entre muitos homens que tinham visto "discos voadores".

Sob as águas, na obscuridade, a nave tripulada pelo "S'get" B'snid se orientava agora por uma invisível linha radial, orientada em sua direção por seres inteligentes que viviam nos abismos submarinos, a mais de quinhentos metros de profundidade. A astronave foi conduzida para perto de uma cordilheira submarina de relativa altura, perto da qual havia uma planície arenosa.

O pouso se fez ali, sobre uma plataforma oculta pela areia, cujo diâmetro era muito maior do que a nave. Em poucos segundos, a superfície submarina começou a abrir-se lentamente, fazendo aparecer uma cavidade lisa, de mais de cento e cinqüenta metros de largura e com uma profundidade de vinte e cinco metros.

Os peixes evitavam há muito aquelas águas estranhas. Se alguém tivesse podido ver a "fossa" em que ficara submersa a nave espacial, e se esse alguém tivesse sido um habitante da Terra, seu assombro não teria limites. Mas ninguém podia presenciar a manobra que manejavam os controles "comporta" submarina.

No fundo da fossa, a nave se moveu sobre uns trilhos de aço. Abriu-se uma porta intensamente iluminada por focos fortíssimos e se viu uma galeria de paredes metálicas, totalmente invadida pelas águas. Entretanto, quando a nave espacial ficou imóvel, a porta se fechou, numa manobra dirigida à distância, e as águas começaram a ser escoadas pelos orifícios gradeados que havia no solo.

Em dez minutos o "hangar" ficou seco. Abriu-se, então, uma escotilha na nave, ao mesmo tempo em que a parte do muro da galeria se erguia, fazendo aparecer três escadas metálicas pelas quais desceram seis homens vestidos com roupas fabricadas em diferentes lugares da Terra.

B'snik, seguido de seus quatro oficiais, Lerk, Eunik, Brax e Etlid, desceu também, indo ao encontro dos outros. Cumprimentaram-se ao pé das escadas e os recém-chegados levantaram as mãos, com as palmas para frente.

— É melhor que se acostumem ao aperto de mãos que é o costume deste mundo — disse o chefe do grupo de recepção. — Aqui, todos se cumprimentam assim... Meu nome é Farter. Estes são os "S'get" Parr, S'kin e Groxlan... Harold Green é um colaborador nativo.

O norte-americano de tez branca e corpo delgado, que sorria mostrando dois dentes de ouro e que apertou calorosamente a mão dos recém-chegados, chamou a atenção destes.

— Como vai? — perguntou B'snik.

— Muito bem — respondeu Harold Green, em língua "zemu". — Muito prazer em conhecê-lo. Destruíram muitos "d'diomos"?

— Não, nenhum. Fico muito surpreso em encontrá-lo aqui.

— Harold não é o único nativo que colabora conosco. Acompanha-nos desde menino. Escapou de um orfanato e foi educado na Situação Terra—51, sendo um excelente engenheiro de comunicações. É o homem que enviamos com mais confiança ao exterior.

— Vejo que aprenderam muitas coisas aqui — disse B'snik, sorrindo. — Só nos forneceram alguns milhares de metros de fita magnética com explicações confusas.

— Terão tempo de aprender tudo. Agora, a tripulação pode sair da nave e ocupar os alojamentos. Enquanto se instalam os dispositivos adicionais de combate, vamos explicar-lhes qual é a situação no momento. Estão programadas também excursões ao exterior. Creio que gostarão deste planeta e da gente que o povoa. Há cidades perigosas, mas também existem verdadeiros paraísos de paz.

De qualquer maneira, sejam benvindos à Terra. Os "d'diomos" não devem estar muito tranqüilos se, como supomos, já detectaram sua chegada. O nome do "S'get" B'snik já se tornou famoso até aqui, graças à captura do chefe Vaak-Diomo.

— Ora, vamos! — exclamou B'snik. — Terei que repetir mais uma vez que não fui eu que o capturei, mas sim Eunik?

 

— Um hóspede do hotel apaixonou-se por mim — disse Eunik a seu esposo, enquanto se aninhava em seus braços.

— Ora, não gosto nada disso, Eunik! — ralhou B'snik, sorrindo.

— Não pude evitá-lo. Sinto muito. O homem me seguia por todos os cantos, até que Harold Green assumiu um ar zangado, conseguindo, finalmente, que me deixasse em paz. Dissemos-lhe que eu era uma emigrante húngara... Olhe, B'snik, teremos muito trabalho para aprender os costumes destes povos! Os habitantes de Nova York não falam, nem se vestem, nem se comportam da mesma maneira que os de Roma; os russos não se parecem em nada com os negros. Existe uma incrível variedade de raças que me desorienta. Por exemplo, os negros da América não são iguais aos negros da África.

— Claro que não, minha querida. Cada país tem seus costumes e suas línguas. Muitos anos terão que passar até que neste planeta exista uma lei para todos, um único governo e uma mesma linguagem.

— Já tentaram implantar uma língua que se chama "esperanto" — disse Eunik —, mas esta não progrediu muito. Entretanto, seria a grande solução para eles.

O "T'get" Farter já está aqui há muito tempo e está certo de que se trabalha para manter os povos desunidos, em vez de se buscar a união. Há muita gente que teme perder seus privilégios. O único modo de modificar essas estruturas sociais é a força. É isso o que pretendem os idealistas, mas até agora não tiveram êxito. Cada dia existem mais pactos e uniões entre países. Se nós ajudássemos algum lado, inclinaríamos a balança a seu favor, e isso daria origem a uma guerra mundial. Além disso, não teríamos conseguido muita coisa, talvez nada, mesmo. As consciências não estão preparadas. Aqui, o passado tem tanta importância quanto o futuro. O que não parece preocupar a ninguém é o presente. Cometem-se as maiores atrocidades para conseguir dinheiro, cujo poder é extraordinário. Na realidade, o dinheiro parece ser o que mais importa nessa civilização. Há quem chegue a arriscar sua vida por um punhado desses bilhetes de papel.

— Sim. Harold me disse que o valor das pessoas é avaliado em função do dinheiro que possuem — disse Eunik.

— Efetivamente. E o surpreendente é que existem seres incapazes de gastar todo o dinheiro que ganham, enquanto a maioria não tem o dinheiro necessário para cobrir suas necessidades.

— Isso é cruel! — exclamou Eunik.

— É uma forma elementar de progresso. Essa civilização progride graças ao estímulo econômico. Se as pessoas pudessem satisfazer às suas necessidades sem trabalhar, a história seria muito diferente. E o mais surpreendente não é que uns ganhem mais dinheiro que outros porque sabem mais ou porque dispenderam mais esforços no sentido de progredir, mas sim o fato de que há indivíduos totalmente ineptos, estúpidos e inúteis que gozam de grandes privilégios pelo simples fato de terem nascido numa família abastada. Até no nascimento há desigualdade.

— Eles não nascem todos iguais?

— Fisicamente, sim, Mas, ao lado dos que nascem em casebres, deitados na palha em meio às noites frias, há os que nascem em luxuosos palácios, cercado do maior conforto e de todas as regalias. Em Zemu, nosso filho Zeik recebe o mesmo tratamento que o filho do "N'ivo" Falke. Isso não ocorre aqui. Há castas e privilégios que se tentam abolir há séculos, sem êxito. E parece que já houve, por causa disso, grandes revoluções, mas, com o tempo, a fúria se acalma e cada um volta a seus próprios interesses, tentando apoderar-se do máximo que for possível, segundo a lei da conquista.

Viver neste planeta é uma luta contínua, mas o mais estranho é o pouco valor que esses seres atribuem a suas vidas, arriscando-as continuamente por puerilidades. Eles roubam, matam, enganam, ameaçam e maltratam sem motivo justificado.

— Devem estar loucos... como os "trenxtlos" — disse Eunik.

— Não. Aqui, a covilação está no que poderíamos chamar de alvorada, e os "trenxtlos" estão no ocaso. Cada dia que passo aqui, aprendo muita coisa, e já me convenci de que chegaram outros seres antes de nós a este planeta, misturando-se indevidamente aos nativos.

— Seriam os antigos deuses alados? — perguntou Eunik.

— Sim, era como os chamavam. Os eruditos consideravam-nos fruto da imaginação e da superstição dos povos antigos. Mas eu não creio. Aqui, houve seres super-civilizados, cujos conhecimentos se perderam ou se esqueceram.

Esses seres travaram lutas aéreas e não é possível que tantas lendas tenham podido conservar-se em regiões tão distantes e sem contato entre si, sem que procedam de uma origem comum. Por outro lado, sabemos muito bem que antes que se formasse este planeta, já existiam seres que viajavam pelo cosmos em naves ultralumínicas.

— O mais impressionante de tudo isso é a fé que esta gente tem em seus sábios. Aqui se crê, e parece que chegaram até mesmo a demonstrá-lo matematicamente, que a luz se move à absurda e relativa velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo. Como é possível que tenham cometido tal erro?

B'snik sorriu.

— É verdade. Nós sabemos que não há limite para a velocidade da luz. Entretanto, responda-me, Eunik, está você" certa disso?

Eunik levantou a cabeça e olhou de surpresa para seu esposo.

— Que é que você quer dizer, B'snik? Está de acordo com esse tal de Eistein?

— Não, claro que não. O que acontece é que eles não têm conhecimento do que se passa além deste seu pequeno mundo. Todo o resto não passa de teorias, para eles. E para refutar um ser considerado por todos como um gênio, é preciso saber mais do que ele, coisa que não é possível. Mas pense que esta humanidade se renova continuamente, e os mitos e as lendas vão desaparecendo. O falso é rejeitado e o verdadeiro prevalece. Essa foi a história do nosso primeiro ciclo. É a mesma coisa em todos os lugares.

A luz, evidentemente, viaja muito mais depressa do que aqui se crê. Nós o sabemos, mas eles nem sequer podem comprová-lo. Preferem ficar com a opinião de seus gênios.

Essa é a sua filosofia, mas não a nossa. Lembre-se de que os "d'diomos", apesar de sofrerem derrota após derrota, continuam obstinando-se em considerar-se superiores a nós.

Eunik pareceu despertar, de repente, ao recordar que se encontravam na base secreta "zemu" de um mundo estranho e que sua missão ali era lutar contra os invasores que haviam chegado de outra galáxia.

— Quando começaremos a... luta, B'snik?

— Luta? Não diga tolices, Eunik! Isto não é uma luta. É uma operação de limpeza, quase sem risco. Entre nós, só morrem os que se descuidam ou cometem erros.

— E se isso por acaso acontecer? E se cometermos um erro?

— Você não confia em mim?

— Sim, meu amor — disse Eunik, enlaçando o pescoço de seu esposo. — Mas espero que possa voltar algum dia a Zemu para poder abraçar Zeik.

— Nós voltaremos... quando esta guerra terminar.

A guerra era uma realidade. Lutava-se no espaço, entre as órbitas de Marte e da Terra. Igneas naves interplanetárias deslizavam cintilantes no vazio sideral, procurando sempre descobrir em suas telas espectroscópicas os rastros deixados pelas naves inimigas. Instantaneamente, máquinas complicadíssimas se punham automaticamente em funcionamento para estabelecer o rumo e a posição do adversário. Iniciava-se, então, uma perseguição de "cálculo" e um raio desintegrador ultra-lumínico era dirigido para o lugar onde se encontraria a vítima alguns minutos depois.

Se os prognósticos eletrônicos não falhassem, a nave "d'dioma", "provna", "grisda" ou "alkee" era alcançada pelo raio no instante preciso, e desintegrada numa fração de segundo.

Aquele era um aspecto da luta intergalática que B'snik conhecia muito bem, devido a sua excelente atuação no episódio da captura da aeronave de Vaak-Diomo, com quem os "zemus" haviam aprendido a maneira de vencer seus adversários. B'snik havia trabalhado muito bem, e sua recompensa fora a tarefa de servir de assessor militar a um observador interplanetário muito graduado. Assim, vira-se enviado à base terrestre, sob as ordens do "T'get" Farter.

Enquanto tudo isso acontecia, B'snik e sua tripulação visitavam os diferentes países daquele novo e surpreendente mundo.

"M. Mareei Molay" nasceu, pois, no gabinete de documentação que os "zemus" e seus colaboradores terrestres possuíam na Base Submarina "KAR-61". Dali partiam com freqüência, com diferentes rumos, as naves auxiliares de guerra e transporte, muitas das quais, apesar das precauções tomadas pelos pilotos, eram avistadas por testemunhas terrestres, o que aumentava o mistério em torno dos "discos voadores".

ETsnik sairá de seu refúgio muitas vezes, por curtos períodos de tempo. Uma nave auxiliar o levava onde desejava ir, trazendo-o de volta quando terminava sua inspeção de reconhecimento. A vertiginosa velocidade dessas naves e a facilidade que tinham de ficar imóveis no ar tinham feito com que se propagasse a fábula dos discos voadores. Uma vez, no Café de Paris, B'snik custou a conter um sorriso ao ouvir os comentários que alguns estudantes faziam sobre os misteriosos objetos. "— Não compliquem as coisas, "compains" — dizia um cabeludo, com ares de sabedoria. — Os "discos" procedem de instalações secretas dos Estados Unidos ou da União Soviética. Se os aviões voam, por que não hão de voar esses aparelhos circulares?

— Bah! Você não sabe o que está dizendo, Gaston.

— E você, sabe?

Bisnik poderia ter intervido na conversa, explicando como os discos se sustentavam no ar, mas não o fez. Estava ali para aprender, ouvir, ver e calar, ou falar o menos possível. Seus instrumentos de trabalho eram um transistor, uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço, como se fosse turista, e uma memória que faria inveja a um estudante da Sorbonne.

A suspensão é antigravitacional, por meio da anulação magnética da atração terrestre. Ou, dito de outro modo, é uma "queda" para cima, proporcionalmente acelerada, por meio da inversão da força magnética" — poderia ter dito B'snik, apesar de que estivesse seguro de que ninguém ia entendê-lo.

E os "d'diomos"? Onde estariam aqueles invasores secretos, vindos de outra galáxia?

B'snik sabia que muitos deles já se tinham confundido com os moradores naturais da Terra, que estavam em contato permanente uns com os outros e que possuíam instalações e bases secretas nos bosques, nos desertos e nas montanhas mais inacessíveis. Como ele, faziam-se passar por terráqueos e se preparavam para a paulatina chegada de seus congêneres, ampliando suas bases e instalações. Tinham construído clínicas particulares e se submetiam a tratamento cirúrgico, do qual saíam transformados em "ingleses", "italianos", "búlgaros", "chineses", etc.

Entretanto, graças ao trabalho intenso realizado pelos observadores "zemu", a chegada de novas expedições estava sendo sustada. As naves de vigilância "zemu" atacavam os "d'diomos" intrusos, tanto no espaço exterior quanto no interior da atmosfera terrestre, ou ainda sobre o solo. Nessas ocasiões, não se pôde evitar que diversos habitantes da Terra fossem testemunhas de freqüentes "desintegrações" de naves invasoras.

Nestes casos, o "N'ivi" Krevo tinha ordenado o envio imediato de agentes externos para fazer desaparecer qualquer vestígio ou pista que sugerisse a presença de inteligências superiores. Entretanto, não se pôde evitar que os jornais falassem do caso, nem que algumas testemunhas afirmassem ter visto coisas fantásticas.

A verdade era que os combatentes de Zemu jamais deixavam rastros no solo, coisa que não acontecia com os "d'diomos", que pareciam não se importar em ser descobertos pelos arborígenes do planeta que se propunham a ocupar.

Outra grande vitória das forças de Zemu teve lugar na zona gelada da Antártida, onde os "d'diomos" e seus aliados, os "grisdos", haviam instalado uma grande base militar, aproveitando o inverno polar e a obscuridade contínua.

Uma nave de Zemu, seguindo outra "grisda", descobriu aquela base secreta, contra a qual se organizou um ataque massiço e fulminante, que fez com que perecessem mais de cinco mil "d'diomos" e "grisdos" com um potencial técnico considerável.

A luta, entretanto, reacendeu-se quando os "d'diomos" conseguiram que sua longínqua federação enviasse o reforço de uma grande frota de guerra. Os planetas de Trenxtl e Ozcar também se viram atingidos pela sanha dos invasores, tornando maior a responsabilidade de Zemu como defensor da paz galática.

Com o aparecimento de novo tipo de nave dos "d'diomos", veículos muito mais poderosos que os anteriores, os "zemus" e seus aliados os "ozcarps", começaram a sofrer as primeiras derrotas. As forças começavam a se nivelar e foi necessária uma mudança na estratégia galática "zemu".

No novo esquema de ação, B'snik foi promovido a "Tget", com autoridade sobre cento e vinte homens, o que o transformava quase num general, com grota e base própria. Substituiu o "Tget" Farter na base submarina "KAR— 6". Também seus ajudantes, Lerk, Brax, Eunik e Etlir, foram promovidos a "S'get", distingüindo-se logo, à frente de suas naves médias, na cruenta e desesperada luta que se desenvolvia pela expulsão dos "d'diomos".

O novo "S'get" Lerk, entretanto, desobedecendo às ordens de B'snik, caiu numa armadilha que lhe prepararam os "alkeos" na superfície da Lua, morrendo ali, com sua nave e seus quarenta tripulantes.

Eunik, ao contrário, realizou uma proeza maiúscula, paralisando quatro naves de guerra e conseguindo capturar mais de cem "pigmeus", entre os quais estavam muitos técnicos e cientistas.

Foi graças a tão importante captura que o Centro Geral de Observações pôde realizar o PROJETO QUASAR que, algum tempo depois, iria trazer a paz intergalática, após ter sido destruído tudo; um sistema solar binário, com doze planetas, o que deixou os "d'diomos" sem suas mais importantes bases industriais.

Eunik foi promovida ao mesmo posto do esposo e condecorada pela Assembléia do Conselho Cívico. Em seguida, designaram-na para um posto importante no Centro Geral de Observação, com sede em Zemu, o que fez com que se separasse de seu marido.

B'snik alegrou-se com o fato, apesar de sentir a separação: sabia que a esposa era uma oficial inteligente e era fatal que seus serviços fossem requeridos em outro lugar. A despedida foi prolongada e emocionante, mas marcada pela esperança do reencontro em melhores condições.

Estava-se em meados de fevereiro de 1955. A guerra galática, incógnita e secreta para os habitantes da Terra, desenvolvia-se em torno deles com uma ferocidade que fazia a Guerra Mundial parecer brincadeira de criança.

 

Foi o "T'get" B'snik que teve a idéia de mandar pintar as naves de sua base submarina com siglas convencionais terrestres. Cada "S'get" escolheu um número de classificação, como o "U.N.643", de Brax, ou o "USAF-F-14", de Etldir.

Acontecia que, com freqüência, as naves de Zemu ficavam avariadas e eram obrigadas a fazer pousos forçados em lugares despovoados para proceder aos reparos necessários, e a idéia das pinturas tinha o objetivo de despistar, na medida do possível, as eventuais testemunhas, o que, realmente era muito difícil. Quase sempre, as pessoas se assustavam ao ver as naves, e saíam correndo. Muitas vezes, no caso de se conseguir travar diálogo com os terráqueos, foi preciso ameaçá-los para que não revelassem o que tinham visto.

O caso mais surpreendente que aconteceu com o "T'get" B'snik foi quando a nave média comandada pelo "S'get" Brax regressou à base, depois de uma avaria que a obrigou a aterrisar perto de uma auto-estrada solitária do Novo México. Ao decolarem novamente, descobriram que levavam um terráqueo clandestino a bordo! O indivíduo se escondera em uma caixa de material fotográfico e, segundo disse, introduzira-se secretamente a bordo, enquanto se realizavam os reparos.

O primeiro impulso de Brax foi o de agarrar o sujeito pelos fundilhos e lançá-lo no vácuo, mas depois decidiu interrogá-lo e levou-o, hipnotizado, ao "T'get" B'snik, que se enfureceu ao ser informado do fato.

— E a vigilância, Brax? Como o deixaram aproximar-se da nave? E se fosse um "d'diomo"?

— Sinto muito, B'snik. Havia vigilância, mas esse tal de Leo Ramsey, arrastando-se pelo solo como uma serpente, conseguiu burlá-la.

B'snik decidiu-se, enfim, a interrogar o prisioneiro.

Leo Ransey era redator de um jornal em Tucson e tinha vinte e sete anos. Quando viajava em seu Chevrolet, avistara o disco voador e vira nele a possibilidade de sair do anonimato e da mediocridade. Entretanto, após o interrogatório do "S'get" Brax, sua mente começou a transformar-se num tremendo caos e, persuadido de que aqueles seres provinham de outro mundo, Leo Ramsey sentira-se tomado pelo medo e ansiava por poder retornar à casa.

Os "zemus" o tiraram do transe hipnótico e levaram-no, com um capuz negro sobre a cabeça, ao escritório do chefe daquela base secreta.

B'snik olhou-o atentamente e depois mandou que se sentasse.

— Onde estou? — atreveu-se a perguntar o terráqueo.

— Em lugar seguro. Tranqüilize-se. Disseram--me que o senhor viu a nave enquanto viajava em seu automóvel e que se aproximou, arrastando-se e introduzindo-se no interior desta.

— Sim, foi isso que aconteceu... Quem são vocês?

— O senhor quer viver, esquecendo-se de tudo o que viu, ou morrer? Se me responder a esta pergunta, responderei às suas, senhor Ramsey — disse B'snik, seriamente.

— Vão matar-me? — perguntou Leo Ramsey, alarmado.

— É o que deveria fazer. Sua vida não significa nada para nós. Por outro lado, manter nosso segredo vale muito mais que sua existência. Entretanto, tranqüilize-se. Disse que não quer morrer e compreendo-o. Mas talvez possamos chegar a um acordo.

— Sim, por que não fazemos um trato? O senhor me deixa voltar a Tucson e eu prometo não dizer nada do que vi.

B'snik sorriu.

— Nunca poderia deixá-lo ir embora nessas condições, senhor Ramsey. Podem interrogá-lo até extrair de si tudo o que viu aqui.

Algo na serena atitude do "T'get" B'snik começou a devolver a confiança que Leo Ramsey tinha em si mesmo e fê-lo pensar que seu interlocutor era um sujeito razoável e que pareceia proceder de outro mundo.

— Escute, senhor. Quando vi o "disco", a primeira coisa em que pensei foi uma reportagem sensacional. Imaginei meu artigo publicado integralmente em todos os jornais da nação. Sabe como é difícil abrir caminho na imprensa. Pois bem, a verdade é que não teria inconveniente em fazer algo por vocês, se... Bem, não nos enganemos. Suspeito que são algo parecido com espiões russos infiltrados no país.

— Está enganado, Ramsey. Procedemos de um mundo distante, chamado Zemu, e estamos aqui tentando defendê-los, sem que ninguém nô-lo tenha pedido, da invasão de outros seres cuja presença nos desagrada.

— Fala sério? — perguntou Leo Ramsev.

— Sim, e você veio complicar as coisas, entrando clandestinamente em uma nave. Onde deixou o carro em que viajava?

— Junto à auto-estrada. Já devem ter descoberto meu desaparecimento. A polícia vai supor que fui seqüestrado e procurará meu rastro pelas imediações. Não estranharia se encontrassem as marcas da nave.

— Duvido — respondeu B'snik. — Meus homens não costumam deixar rastros. Escute, Ramsey, gostaria de fazer uma grande viagem?

— Prefiro voltar a Tucson.

— Esqueça disso, por hora. Posso enviá-lo a Zemu na primeira expedição. Ali, poderá ensinar inglês aos "aspirantes"...

— E nunca mais voltaria a Tucson?

— Talvez, embora não possa garanti-lo. De qualquer maneira, aqui não me interessa guardá-lo. Saiba que estamos em guerra e esta base pode ser descoberta e destruída. O que acontecer a nós não importa, mas você pode realizar em Zemu um bom trabalho. Tem família?

— Sim, pai, mãe e uma irmã que devem estar muito preocupados comigo.

— Sinto muito, mas não há outro modo de solucionar seu caso. Que lhe pareceria trabalhar para nós?

— Trabalhar em quê?

— Seria uma espécie de agente secreto de informação. Evidentemente, não atuaria sozinho. Acompanhá-lo-ia sempre um dos nossos, que trabalharia consigo.

— Isso pode ser interessante! — exclamou Ramsey. — E poderia voltar a Tucson?

— Não precisamente lá. Primeiro, modificaríamos seu rosto, e depois o enviaríamos para a Inglaterra ou outro país de língua inglesa. Não lhe faltariam meios econômicos e pode escolher a personalidade que quiser.

— Aceito! — respondeu Leo Ramsey sem vacilar.

B'snik tomou, então, a palavra para explicar a Leo toda a situação. Falou a existência de outros mundos muito mais desenvolvidos técnica e cientificamente, além da Terra. Informou o repórter sobre a ameaça que representavam os "d'diomos" e sobre a missão dos "zemus" de expulsá-los da Terra. Disse-lhe, ainda, da intenção dos altos comandos "zemus" de deixarem apenas alguns observadores na Terra, quando terminasse a contenda.

Leo Ramsey começava a sentir-se entusiasmado.

— Se o que me diz é verdade, será um prazer colaborar com vocês para derrotar o inimigo. Farei parte do serviço secreto?

— Primeiro, vou apresentá-lo a Harold Greeh, um contrapatriota seu que está há muitos anos conosco, e em quem confiamos plenamente. Ele o informará mais detalhadamente de tudo. Mas lembre-se, Ramsey, sua sentença de morte está em suspenso. Se tentar trair-nos, eliminamo-lo imediatamente.

 

  1. Mareei Molay me disse que o nome do repórter era falso, assim como o do jornal para o qual havia trabalhado. Compreendi que não queria dar a verdadeira identidade daquele homem.

Informou-me, por outro lado, que chegaram a ter milhares de indivíduos nascidos no planeta Terra atuando para eles em diversas partes do mundo e que várias vezes fizeram desaparecer provas palpáveis da existência de "discos" em diversos lugares do mundo.

Continuando o seu relato "telemental", B'snik informou:

— Tivemos muitas dificuldades naqueles agitados dias. Os "d'diomos" estavam causando muitas baixas, assim como seus aliados, os "grisdos" e "alkeos". Descobriram nossas bases secretas, uma situada nos Andes e outra no coração da selva africana, e destruíram-nas inadvertidamente.

A contenda sempre começava a tomar um rumo inquietante, e se não fosse a captura que Eunik realizou em Marte, talvez tivéssemos tido que abandonar nossas posíções exteriores e regressar a Zemu para proteger nosso mundo.

"Já lhe disse que a captura levada a cabo por minha esposa nos serviu para conhecer dados muito significativos e importantes sobre o lugar de origem dos d'diomos". Graças a esses dados, pudemos enviar potentes projéteis desintegradores que lhes causaram muitos prejuízos.

Depois, optaram pelas negociações e a retirada quase total, embora os "d'diomos" aclimatados à existência na Terra, isto é, os que tinham sido submetidos a operações plásticas, não pudessem regressar a seu mundo, permanecendo isolados e devendo assumir seu próprio destino. Para esses indivíduos a guerra continua. Sabemos que estão agrupados por instinto de conservação e que, apesar de tudo, querem perpetuar sua espécie "humana", crescendo e se multiplicando como os naturais deste planeta.

— E não há nenhum modo de identificá-los? — perguntei.

— Sim, apesar de que o processo seja muito sutil. Os raios "X" nos revelam as cicatrizes ósseas de seus esqueletos. Para adquirir o aspecto de autênticos terráqueos, submeteram-se a complicadas operações cutâneas e ósseas.

A raça "d'diomo" é muito forte. De união entre um desses "pigmeus" falsificados e uma mulher nativa, sairá, ou um terráqueo, se prevalecer a hereditariedade da mãe, mas de mentalidade "d'dioma", ou então um autêntico "pigmeu" que seu pai tratará de ocultar ou destruir, para não delatar-se.

"Sei que se verificaram algumas dessas uniões e alguns bebês "d'diomos" vivem na Terra. Seus pais estão desligados de seu mundo e aspiram a perpetuar-se aqui, contando com meios econômicos importantes para chegarem a se impor em alguma região, criar uma nação independente e, com o correr dos anos, ameaçar os habitantes naturais deste planeta.

— Parece — observei, pensativo — que esta não foi a única invasão que sofremos, procedente do espaço exterior.

— Realmente, não foi — disse B'snik. — Nem será a última. Nós também somos uma espécie de invasão, embora nossos propósitos sejam totalmente diversos dos dos "d'diomos". Nosso dever é o de continuar procurando e localizando todos os "d'diomos" existentes. Para isso, montamos serviços de vigilância em hospitais, postos de polícia, fronteiras e até em grandes instalações industriais, e é raro o dia em que não prendemos algum.

— Que fazem vocês com os "d'diomos", quando os descobrem?

— São enviados a um de nossos planetas, chamado Crosm, onde se aclimatam sob controle científico. Ali eles crescem e se desenvolvem sem perturbar ninguém. Assim ficou estipulado nos tratados de paz. Se não parecessem tão pouco com "d'diomos", poderíamos devolvê-los a seu mundo.

 

B'snik, vestido com roupas de fabricação francesa, abandonou a nave auxiliar que havia chegado a uma determinada região ao sul de Paris. Com um gesto, despediu-se do oficial piloto que o acompanhava, e dirigiu-se, com uma pasta na mão, para um atalho conhecido que cortava os matagais vizinhos, até chegar a uma estrada onde o esperava um automóvel com as luzes apagadas.

Um homem jovem fumava um cigarro, recostado no assento do motorista. Este não se assemelhava em nada ao repórter Leo Ramsey, mas era o mesmo indivíduo que, uma noite, embarcara clandestinamente na nave espacial "zemu". Parecia estar adormecido, e B'snik teve que abrir a porta e sacudi-lo.

— Vamos, Etienne; acorde!

B'snik deu a volta no Peugeot e sentou-se junto a Ramsey, sorrindo na obscuridade.

— Parece que não estava dormindo, mas somente absorto em seus próprios pensamentos. Em que está pensando?

Enquanto punha o carro em marcha, Leo Ramsey disse:

— Sei que tenho outra vida, uma família, um lar. Por que não posso lembrá-lo?

— lnjetamos-lhe um soro que o fez esquecer tudo o que havia de negativo para nós em sua existência. Posso assegurar-lhe, Etienne, que você não era grande coisa. Agora vale muito mais como homem.

— Mas... Ponha-se em meu lugar. Mareei! — exclamou o jovem. — Eu não sou como você. Penso, tenho consciência, e sei que estou psiquicamente mutilado.

— Está servindo a uma boa causa, Etienne, e não deve preocupar-se. Mudamos até suas impressões digitais. Agora é Etienne Vries, importante editor francês, com dinheiro, posição e independência. Está realizando um bom trabalho em suas revistas e graças a você cento e trinta e nove "d'diomos" foram enviados a Crosm. E trago aqui novos planos que nos permitirão prender muitos mais. As chaves e contra-senhas que se publicaram até agora já deram seus frutos. Mas suas publicações estão marcadas e todo o pessoal sob suas ordens, inclusive você, está sendo vigiado. Se cometer qualquer erro, pode considerar-se morto.

— Sei disso, e confesso que não estou muito preocupado. Qual é a nova idéia?

— Com a intenção de protegê-lo, Harold e eu pensamos em introduzi-lo em algum Serviço Secreto francês. Suas revistas serão agora publicações normais, sem mensagens nem senhas. Entretanto, se investigarem sua vida privada, descobrirão seu vínculo com um Serviço Oficial do governo, o que infundirá pânico aos "d'diomos" ocultos.

— Mas fique sabendo que, de qualquer maneira, eles não me metem medo, Mareei! Às vezes, até desejo que me descubram e me liquidem.

— Não diga tolices! Você é um de nossos colaboradores mais valiosos.

— Não parece.

— Por que diz isso?

— Pela pouca confiança que demonstram ter em mim.

— Você é obstinado, Etienne. Gostaria que lhe dissemos que é, de onde veio, e o que fazia antes. Não é verdade?

— Estou obsecado, Mareei! — exclamou Ramsey. — Nem sequer a língua que falo é a minha. Vocês, ao contrário, são todos "zemus". Não precisam preocupar-se com a família.

— Engana-se. Lembro-me sempre de Eunik. Tenho um filho que nem sequer conheço e gostaria de vê-lo. Sou mais humano do que pensa. Mas diga-me, o que faria se soubesse que tem uma família?

— Já lhe disse Mareei! Procuraria saber como estão, se precisam de algo. Sobra-me dinheiro e posso ajudá-los.

B'snik não respondeu. Tinha virado a cabeça e, pela janela traseira, estava observando os faróis de um carro que se mantinha à distância. Sem saber a razão, teve o pressentimento de que os estavam seguindo.

— Desvie para a direita no primeiro cruzamento, Etienne — disse. Acho que nos estão seguindo.

— Seguir-nos? Isso não pode ser... Tomei todas as precauções.

— Com os "d'diomos", todas as precauções são poucas. Faça o que eu digo.

Ramsey obedeceu e imediatamente puderam comprovar que o carro que os seguia não os perdia de vista, aproximando-se ainda mais deles. Imediatamente, B'snik abriu sua pasta e tirou dela o que parecia ser um gravador de fabricação japonesa e seus dedos pressionaram um botão. Depois falou rapidamente, em língua "zemu":

— Brekko, um carro está nos seguindo. Estamos aproximadamente no quilômetro trinta da estrada de Etampes. Venha imediatamente e retenha esse veículo para que possamos intervir. Outra voz respondeu, em "zemu", e B'snik desligou seu rádio, guardando-o na pasta.

— Não corra, Etienne — disse o "Tget" em francês. — Acho que vamos ter uma luta. Tem armas?

— O lança-chamas e uma pistola "welters", com licença.

— Isso basta. Temo que, vigiando seus empregados, tenham descoberto algo sobre você. Devem tê-lo seguido, sem que percebesse, descobrindo a nave e a minha chegada... Tenho certeza de que pretendem capturar-me!

— Segure-se firme! — gritou Ramsey, de repente, ao ver surgir diante deles outro carro, cujo propósito era interceptar-lhes o caminho.

Leo Ramsey virou bruscamente o volante. Saindo da estrada e freiando violentamente sobre um campo. Talvez tivesse empregado uma arma de desenho insólito, que despediu rapidíssimas ondulações luminosas e vibratórias que incendiaram imediatamente o Peugeot dirigido por Leo Ramsey. Este e B'snik ainda tiveram tempo de sair do carro, fugindo pelo prado, mas as pequenas ondulações luminosas seguiram-nos, alcançando-os e fazendo com que caíssem.

Em poucos segundo, três homens surgiram do carro agressor e outros três do carro que tinha seguido Etienne e B'snik. Aproximaram-se correndo dos dois e um deles deu instruções rápidas em língua estranha. Levantaram, então, os corpos de Ramsey e B'snik, levando-os para um dos veículos. Imediatamente, puseram os carros em marcha e se afastaram das imediações.

Poucos minutos depois, uma nave espacial chegava ao local do assalto, sobrevoando a estrada, sem poder encontrar os carros que procurava. As chamas em micro-onda também não obtiveram resposta, o que aumentou a preocupação do "S'ger" Brekko, que pressentiu a morte de seu chefe.

 

Quando B'snik e Leo Ramsey, que não tinham morrido, recobraram os sentidos, encontravam-se em macias camas no interior do que parecia ser o "bangalô” de um motel. Quatro homens de aspecto pouco tranquilizador os rodeavam. Perceberam, também, que estavam atados pelos pés e mãos às barras metálicas das camas. Um homem de estatura mediana, pele morena e olhos esbugalhados postou-se diante de B'snik, com um instrumento eletrônico na mão direita.

— Boa noite, "T'get" B'snik — disse, em francês. — Há muito tempo o procurávamos. Hoje, podemos felicitar-nos pela sua captura.

Os "zemus", grandes cultivadores do esporte, costumavam aceitar as derrotas esportivamente. B'snik sorriu.

— Se sabem quem sou, não é justo que eu saiba, por minha vez, quem são vocês?

— Somos o comando "Bora" — disse seu interlocutor. — Meu nome é Sargo.

— Felicito-os. Realizaram uma ação rápida e eficaz.

— Não foi tão rápida assim. Levamos meses, vigiando Etienne Vries — o homem que dizia chamar-se Sargo virou-se para Ramsey. — Mirei Me é nossa agente.

— Não! — exclamou Ramsey, aterrado, pensando na bela moça com quem vinha mantendo relações. — Não é possível!

— Nossos cirurgiões também sabem fazer moças bonitas. Mireille Meunier é "d'dioma" Seu nome é Drewa.

— Não se atormente, Etienne — disse B'snik.

— Nós também falhamos. Muito bem, Sargo, que esperam de nós?

— Ainda não sabe? Queremos a chave de "KAR-6".

— Ora, que tolo fui! Devia imaginar. O pior é que nossa base se fecha por dentro e não tem fechadura. De que lhes serviria uma chave falsa?

— Falei em sentido figurado. Não se faça de tolo, pois compreendeu-me perfeitamente. Queremos saber a maneira de atingir a base. Não precisa ter pressa em falar, B'snik. Consideramos você o "zemu" mais perigoso da Terra. Não se sente lisonjeado? Sabemos, ainda, que sua esposa capturou em Marte quatro de nossas estações mais importantes e que, devido a isso, sofremos enormes perdas. Já faz tempo que lutamos uns contra os outros e nos conhecemos bem. Nós, que estamos impossibilitados de voltar a nosso mundo, aclimatamo-nos a este, e formamos uma colônia importante aqui, infiltrando-nos em postos chave de várias nações poderosas, para conseguir o que nos propusemos. Entretanto, vocês estão tentando impedi-lo. São sagazes e estão bem equipados, mas nós não ficamos atrás. Não é verdade?

— O processo que utilizaram, enredando Etienne com uma mulher bonita, é ignóbil e velho. Só poderia dar resultado com um terráqueo.

— Na guerra, todos os métodos são lícitos, B'snik! E não quero continuar a discutir com você! Está em nosso poder e temos meios para obrigá-lo a dizer onde está a base secreta "KAR-6"!

— É mesmo, Sargo? E como vai consegui-lo?

— Com isto — respondeu o outro, mostrando o objeto que levava na mão. Há muito tempo, nossos sábios trabalhavam neste encefaloscópio. Queriam utilizá-lo em cérebros vivos, mas encontravam terríveis dificuldades. Não sei quem descobriu que o cérebro de um cadáver recém-morto opõe muito pouca ou nenhuma resistência às ondas do "neurovisor". Curioso, não é? Os mortos não se importam com o que se faz com eles, e suas mentes ainda conservam o arquivo da memória. Mas não se opõem a que as revistemos.

O chefe "d'diomo" se virou para seus homens e pronunciou uma ordem em sua língua. Aterrado, B'snik viu que um dos indivíduos tirava de seu bolso um estilete afiado e, sem vacilar, enfiava-o com força no peito de Leo Ramsey.

Um aterrador grito de angústia saiu da gargante do homem que se fazia chamar de Etienne Vries e que tinha galgado os mais altos postos sociais da capital francesa!

 

Quando recebi aquela informação que me enviava à distância M. Mareei Molay, estremeci de medo. Que estaria eu fazendo? Iria por acaso substituir aquele homem que os seguidores de Sargo tinham liquidado de modo tão cruel? Iria continuar de algum modo o trabalho de Etienne Vries?

Imediatamente, senti a imperiosa necessidade de rasgar todas as páginas escritas e iniciar outra obra que nada tivesse a ver com o inquietante tema que me propusera. — Não escrevo mais! — gritei. — Nem chaves, nem mensagem, nada! Faça-o você mesmo, ou arranje outro títere! Que pretende? Que Sargo venha buscar-me?

— Por Deus, Peter! Aquele sujeito já foi enviado a Crosm há anos, junto com todo o comando "Bora"! — apressou-se a tranquilizar-me "M. Mareei Molay". — Não precisa preocupar--se com ele!

— Você mesmo me disse que havia milhares de "d'diomos" ocultos por aí. Se Sargo foi capturado, restam outros capazes de fazer o mesmo. Essa gente luta por sobreviver.

— Vamos, vamos, Peter. Sua novela será lida por muita gente, inclusive por "d'diomos", mas ninguém pensará que é cúmplice nosso, principalmente porque não é.

— Não, não sou — disse, defendendo-me. — Mas pareço muito...

— Deixe de suscetibilidades. Já lhe disse que receberá cartas de leitores, sem dúvida nenhuma. Está tocando no assunto dos discos voadores e isso sempre desperta interesse. Por outro lado, os "d'diomos" que lerem a obra ficarão perplexos e confusos. Eles sabem a verdade e estranharão que você também a conheça. Quererão averiguar as coisas...

— E virão buscar-me com o estilete com que furaram o coração de Leo Ramsey, transformando-me em cadáver pra investigar minha mente com o "neurovisor"!

— Por favor, Peter, não se precipite! Nada disso acontecerá, asseguro-lhe! Já lhe disse que, quando a obra for publicada, você estará, com um nome suposto, desfrutando de estupendas férias nos mares do Sul. Quem irá localizá-lo ali?

— Segundo você mesmo, os "d'diomos" têm muito poder e chegam a qualquer parte do mundo.

— Não exagere. Em primeiro lugar, se você não escrever a obra, outro o fará. Em segundo lugar, Leo Ramsey não está morto.

— Senti-me como se me estivessem transformando em pedra.

— Não? — perguntei, atônito.

— Não. E parece mentira que ainda não me conheça bem. Disse-lhe que não acreditei em Sargo. Não há nada, nem ninguém capaz de fazer um morto "falar". Sargo só queria impressionar-me. E se me permite, continuarei o relato. Depois, faça o que achar melhor. Concorda?

Estava tão confuso e aturdido, que não sei o que respondi. Suponho, entretanto, que concordei, pois Mareei Molay continuou sua história.

B'snik, com os olhos muito abertos, viu que o corpo de Ramsey se contraía num espasmo agônico, enquanto o estilete manchado de sangue era retirado de seu peito. Sargo, como num ritual, aproximou-se do cadáver e aplicou-lhe a mão na cabeça, pressionando os botões do aparelho, até que se produziu algo como um zumbido, enquanto uma luz acinzentada iluminava uma tela diminuta.

— Aqui está! — exclamou Sergo, com voz triunfal. — Gostaria que você pudesse interpretar esses sinais, B'snik!

— Que quer dizer?

Sargo inclinado sobre o corpo de Leo Ramsey com o "neurovisor" na mão, parecia exultante.

— Vou traduzir para você algo do que o morto nos está dizendo... Chama-se Leo Ramsey e nasceu em Tucson, Novo México. Trabalhava em um jornal de sua cidade, quando uma noite, viajando de carro pelo deserto, encontrou uma nave espacial de Zemu, avariada. Ávido por conseguir uma reportagem sensacional, arrastou-se e penetrou na nave sem ser visto.

B'snik ficou confuso ao ouvir tudo aquilo. Os "d'diomos" possuíam um aparelho capaz de pesquisar a mente de um defunto. Como seria possível?

Entretanto, Sargo não inventava aqueles dados. Continuou a relatar corretamente todos os dados sobre Ramsey, e, ao terminar, perguntou:

— Está certo, tudo isso?

— Se está tão seguro de que descobriu na mente de Vries, por que me pergunta?

— Estou certo porque já experimentei isso muitas vezes. O pior é que este homem ignora onde está a base "KAR-6". Acho que teremos de averiguar a verdade em você. Parece que não terei outro remédio senão matá-lo, embora nos conviesse mais tê-lo vivo.

— A mim também convém mais viver, E não é porque tenha especial apreço por minha vida, mas porque preciso servir à minha causa. Vou dizer-lhe algo, Sargo. Esse aparelho é um truque para impressionar-me. Nem sequer acredito que Etienne esteja morto. Esta comédia foi muito mal representada. Os cérebros dos mortos não podem fornecer informações. Você pensou que, antes que me matassem, eu lhes diria o que desejam saber. Creio que Etinenne Vries está inconsciente devido a uma injeção paralisante. Não seria difícil para mim entender que, se, morto, trairia a minha causa, era melhor fornecer-lhe logo a informação que me pediam e continuar vivo, com a possibilidade de uma revanche posterior. Viver para lutar é o mais importante. Morrer inutilmente é uma tolice. Bem, que esperam para matar-me? Devem saber que meus companheiros estão procurando-me e não tardarão a localizar-me.

Sargo dirigiu um olhar instintivo para a janela e deixou escapar uma interjeição.

— Você é muito hábil, B'snik! Sim, este aparelho é um truque. Averiguamos todos estes dados por outras fontes: além de termos agentes infiltrados na editora de Vries, a moça que dormia às vezes com ele, Mireille Meunier, trabalha para nós.

— E como souberam seu nome?

— Algo mais que simples dedução. Leo Ramsey desapareceu de Novo México há um ano. Alguns de seus traços faciais são idênticos. Também comparamos vários artigos do Jornal para o qual escrevia com os que escreve agora em suas revistas, e, embora a linguagem seja diferente, a pessoa que os escreveu parece ter sido a mesma.

Esperávamos que Vries ou você nos disse-se onde está a base "KAR-6". Foi para isso que montamos todo esse esquema.

— Sinto muito. Nunca teriam êxito. Não pode chegar à "KAR-6" sem identificação prévia. Protegemo-nos muito bem, e a única coisa que pode fazer agora é matar-nos e terá dois inimigos a menos contra quem lutar.

Sargo franziu o cenho e saiu da sala. Logo depois, entrou outro "d'diomo" com uma caixa de madeira na mão, vinha a mando de Sargo, para atender a Etienne. Tirou a caixa material desinfetante e começou a cuidar da ferida que o rapaz tinha no peito. B'snik observou-o e disse:

— Pensei que o estilete se tivesse enterrado profundamente no seu peito.

— Não foi isso que aconteceu. A lâmina afundou-se no cabo. A ferida foi superficial, só atingindo a pele. Mas a ponta continha uma droga paralisante. Não está morto, como você mesmo disse.

Quando Sargo regressou duas horas depois, acompanhava-o uma mulher jovem e bela, envolta num abrigo de leopardo de alto preço. Etienne, deitado em sua cama, já se havia recuperado. Já lhe tinham soltado uma das mão, como B'snik, para que tomasse um café quente.

A mulher, ao entrar, olhou primeiro para B'snik e depois se aproximou de Etienne.

— Sinto muito — disse. - Sou "d'dioma".

— Sim já fui intormado disso. Você representou muito bem

— E as naves que vinham buscá-los? — perguntou Sargo a B'snik. — Não esperava encontrá-los mais aqui. A pasta e o rádio estão em poder de nossos técnicos. Creio que poderão estabelecer contato com os seus.

— Quer que lhe diga a contra-senha? É muito simples... Tem que ser dita em língua "zemu".

Sargo sorriu.

— Sei que um "T'get" vale tanto como seus homens e suas naves, ou talvez mais. Você é importante. Só queremos negociar com seus subalternos.

B'snik levantou a cabeça, olhando fixamente para Sargo.

— Quer tentar tudo, hein? Por que trouxe esta moça aqui? Que pretente?

— Mireille tem fraquezas. Está realmente enamorada de seu homem e temi que cometesse alguma tolice. Não queremos que as autoridades francesas se intrometam em nossos assuntos.

— Você é detestável, Sargo! — exclamou Mireille, com os olhos brilhantes. — Nós todos sabemos que está cometendo erro após erro. Não serve para dirigir este comando. Deve reconhecê-lo.

— Cale-se! — Rugiu Sargo, fazendo um gesto ameaçador para ela.

— Não me calarei e direi tudo a Vrik, assim que o encontrar!

A discussão entre os dois "d'diomos" tornou-se mais feroz. B'snik, pressentindo que se tratava de uma farsa, permaneceu impassível, apoiado sobre o cotovelo, olhando à sua volta. Já imaginava o final da representação. Mireille, fingindo-se de protetora de Etienne Vries, ficaria. Depois, iria facilitar-lhes a fuga e lhes diria que a levassem com eles. Seu destino parecia ser mesmo a "KAR-6". Tudo parecia tender a introduzir um agente inimigo na base submarina.

Mas o "S'get" Etlir e um grupo de quarenta "zemus", irrompendo no motel no instante mais inesperado, terminou com aquela grotesca representação.

O ataque realizou-se ao amanhecer; desceram dos céus os primeiros "zemus", equipados com retroimpulsores individuais, presos às costas e com armas paralisantes ultramagnéticas. Antes que os "d'diomos" pudessem reagir, as armas de Etlir e seus homens entraram em ação. Não podendo evitar que Etienne e B'snik sofressem as inofensivas conseqüências das descargas.

Ficaram paralizados em suas camas com seus captores, mas foram reanimados antes de serem tirados daquele lugar.

Pouco depois, voando a grande velocidade sobre o Atlântico, B'snik disse a Sargo:

— Logo você estará dentro da base "KAR-6", meu amigo. Dali vamos enviá-lo a Crosm, onde poderá dedicar-se tranqüilamente ao cultivo de flores.

Sargo, de carra amarrada, não replicou.

— Vocês tinham que perder esta luta — continuou B'snik. — Em primeiro lugar, esta é nossa galáxia. Não defendemos a Terra porque temos nela qualquer interesse especial, mas porque seus habitantes foram uma civilização evolutiva e interessante, da qual pode sair uma raça altamente inteligente. Vocês não teriam feito mais do que entorpecer o progresso deste mundo.

Creio que me expressei bem. Vocês não serão nossos prisioneiros: vamos dar-lhes um mundo, controlado racionalmente seu desenvolvimento e crescimento. Será isso uma derrota militar? Não, de modo algum. Em última análise, estaremos dando-lhes, ordenada e racionalmente, o que vieram buscar. Mas se vocês tivessem vencido a luta, as coisas não se passariam do mesmo modo. Imagino que nos teriam aprisionado, imposto deveres e obrigações, sem conceder-nos direito algum, e o mais provável seria que nos tivessem destruído ou aniquilado.

Estamos satisfeitos com os resultados obtidos. Agora, gostaríamos que seus companheiros, os que ainda vivem disfarçados em terráqueos, viessem apresentar-se a nós e nos pedissem para serem levados para Crosm. Terminaríamos com essa contenda vergonhosa e poderíamos dizer que o bom senso se impôs.

 

— Utilizamos "d’diomos" devidamente adestrados para capturar seus companheiros ocultos — disse-me B'snik. — Foi uma idéia magnífica de Harold Green e Leo Ramsey.

— Que aconteceu a este último?

B'snik bebeu seu whisky com água e olhou para mim, sorridente.

— Foi com Mireille para Crosm. Lá se casaram e tiveram muitos filhos... E com esse enlace, não burlamos a natureza, pois conhecemos muito bem as leis genéticas. Os filhos de Etienne e Mireille poderiam ir para um colégio em Paris, passando facilmente por dois francesinhos.

— Você não acredita que se possa modificar as estrututas genéticas? Acha que Huxley tinha razão em seu "Admirável Mundo Novo"?

— Oh, não! A criação da vida "in vitro" é muito mais custosa do que pelo processo natural. Além do mais, seria desumano privar os seres de um dos mais sutis prazeres criados pela lei da continuidade das espécies. Isso ofenderia a Deus.

— Que pensam vocês sobre Deus?

— Uma utopia. Um simples conceito filosófico. Diante do Supremo Poder de Deus, o mal carece de sentido. Quem se oporia a Ele?

Deus existe. Quem quiser pode vê-lo, mas só com o espírito. Está em tudo quanto nos rodeia. O Universo maravilhoso, imenso, mágico, é obra sua. Mas supor Deus como um ser parecido conosco... Vamos, isso é minimizar sua essência!

— A Biblia nos ensina que Ele nos fez à sua imagem e semelhança.

— Isso são símbolos, meu amigo. E, sem duvidar da palavra bíbiica, esta também não se referia ao homem, mas ao espírito do homem.

Em Zemu não temos templos. Por quê? Não precisamos rezar a Deus para que nos proteja. Já superamos esse período histórico. Por outro lado, sabemos, sem que ninguém precise explicar, que Deus é o criador de tudo, e que sem ele nada existiria. Não há beleza nesta simplicidade?

Gostaria de continuar conversando com B'snik sobre esse aspecto tão fascinante de seu tipo de cultura, mas o objetivo de nosso último encontro era outro. Ele tinha vindo pessoalmente para dizer que se ia.

— Fui promovido a "N'ivo" — dissera-me, ao me cumprimentar, com muita sumplicidade.

Felicitei-o calorosamente e perguntei:

— E a obra? Ainda não dissemos nada! Pensa que alguém vai acreditar em tudo isso? — sacudi à sua frente o maço de papéis que continham o que eu havia escrito até então.

B'snik olhou-me fixamente e perguntou:

— Você tem muito interesse por essa obra?

— Sinceramente, não. Foi você quem me ditou tudo. Não é fruto de minha imaginação.

— Pois então, rasgue-a. A situação mudou sensivelmente nos últimos tempos.

— Que quer dizer?

— Minha promoção a "N'ivo" está ligada a isso. Adquiri um renome fatício, e os "d'diomos" já não representam ameaça para ninguém. Não creio que haja mais que uma dúzia deles espalhados pelo mundo. Nossa missão aqui terminou.

— É verdade? Como foi isso?

 

O "T'get" B'snik leu atentamente o informe que acabava de lhe apresentar o "S'get" Brax. Levantou, então, os olhos e perguntou:

— Foi confirmado?

— Sim, B'snik. O "T'get" Verm, chefe da base atual, é por antigüidade, e não por experiência ou do informe, comunicou que se têm visto freqüentemente nas naves "d’diomas" pelas cercanias.

— Isso não significa nada, Brax! Além do mais, parece que Verm é um imbecil, e, se ocupa o posto atual, é por antigüidade, e não por experiência ou sabedoria. Esse informe deve ser confirmado. Envie alguém a Nova York, para que fale com esse "d'diomo".

— Está nas mãos da polícia, mas vou encarregar-me do assunto pessoalmente. Posso levar Harold?

— Ordeno-lhe que o leve! E traga-me esse sujeito! Não importa o que ele tenha dito à imprensa, nem à polícia. Ninguém vai acreditar nele, principalmente se nós fizermos com que o caso todo pareça brincadeira de mau gosto. Mas esse tal de Frakwas tem que ser interrogado por nós e, se é verdade tudo o que diz, será levado para Crosm.

Brax se retirou e B'snik chamou Harold Green pelo interfone, pondo-o a par da situação e dando-lhe uma série de instruções.

— E o Quartel General Inimigos? — perguntou Harold Green.

— Disso encarrego-me eu. Só quero a confirmação do informe. Envie-me de Nova York um aviso. "Sim" ou "não". E quero isso quanto antes.

B'snik cortou a comunicação e concentrou-se de novo no informe. Se a notícia era verdadeira, um "d'diomo" transformado em terráquio se tinha apresentado em um hospital de Nova York, queixando-se de uma doença interna. Ao ser examinado pelos médicos, estes verificaram a existência de certas moléstias de tipo ósseo e se puseram em contacto com a polícia. O "d'diomo" não se encontrava em perigo de vida, mas estava muito assustado e confessou ter chegado à Terra dez anos atrás, a bordo de uma nave interplanetária. Disse também que sua anatomia fora modificada por cirurgiões que não deviam ter feito um bom trabalho, ocasionando os males que agora o afligiam. Depois, prestou serviços em uma nave com base em algum lugar da Amazônia, cuja localização sabia com exatidão. Ao que parece, a polícia não acreditaria nele, considerando-o como um estranho louco que tivesse sofrido um acidente e cujos olhos se tivessem soldado irregularmente.

O informe terminava dizendo que a polícia de Nova York estava realizando uma investigação para averiguar a identidade de Frakwas.

Ao anoitecer, B'snik recebeu de Nova York uma comunicação muito simples, feita por Brax: o "S'get" dizia unicamente "sim". B'snik mandou que Brax se dirigisse com o homem para a base "KAR-9", mandando dizer, também, ao "T'get" Verm que providenciasse mais seis naves.

— Que aconteceu, B'snik? — perguntou o oficial de comunicações.

— Localizamos o Quartel General dos "d'diomos" rebeldes. Vamos atacá-los, no caso de resistirem. Não se apresentará outra oportunidade como esta.

A base submarina foi imobilizada quase totalmente e, antes de empreender a marcha, B'snik falou pelo rádio interno com seus subordinados.

— Vamos reunir nossas forcas com as do "Tget" verm. chefe da base "KAR-9", a fim de preparar um golpe definitivo para o Quartel General dos rebeldes "d'diomos", que se encontra num ponto localizado em Mato Grosso.

Não preciso dizer-lhes que espero, de todos, a máxima eficiência e dedicação no cumprimento das ordens. A operação que vamos realizar significa muito para nós e talvez represente a volta definitiva a Zemu, de onde estamos longe há tanto tempo. Isso só será possível se a nossa presença aqui não for mais necessária.

Não é minha intenção aniquilar ninguém, mas até agora, os processos que utilizamos, fazendo voltar prisioneiros de Crosm para informar os "d'diomos" das condições de vida que vão encontrar lá, revelaram-se inúteis. Os "d'diomos" se mostram irredutíveis, e ainda confiam na vitória. A verdade é que estão isolados de seus mundos há anos. São vários os chefes que se mostram intransigentes. Vamos sitiá-los, cortando-lhes as saídas. Se não cederem ao nosso ultimato, atacaremos com armas paralisantes. Se, apesar disso, ainda não os tivermos dominado, matá-lo-emos!

Aquilo contradizia increvelmente as ordens que sempre havia dado o "T'Get" B'snik. Entretanto, este tinha motivos suficientes para dizê-lo. Ultimamente os "d'diomos" tinham aperfeiçoado um anti-paralisador muito eficiente, que tinha, em várias escaramuças com os "zemus", tirado a vida de muitos destes últimos. Portanto, matar, agora, era uma necessidade de auto-defesa. Mas B'snik queria antes apurar as possibilidades de rendição do inimigo. — Boa sorte a todos... Viva Zemu!

As naves foram saindo de suas bases e a última foi a dirigida pessoalmente pelo "T'get" B'snik.

No dia seguinte, a imprensa brasileira informou o testemunho de várias pessoas, tanto na costa como no interior, que diziam ter visto mais de quinze discos voadores viajando em direção leste-oeste. Houve relatos sérios, ao lado de testemunhas sensacionalistas que diziam ter visto "marcianos" e "homenzinhos verdes" e toda sorte de seres fantásticos criados pela imaginação.

(Tudo isto me foi "transmitido" para que eu o relatasse, e assim o faço. Duvido muito, entretanto, que alguém creia. Mas isso também está previsto. Os que dirigiram esta ação, vindo de onde vieram; sabem mais do que nós sobre muitas coisas).

 

O "N'ivo" B'snik veio despedir-se. Eu sabia qual fora o resultado da última luta, nas profundezas da selva Amazônica, mas queria ouvi-lo de viva voz.

— Graças à informação que Frakwas nos deu, colocamo-nos sobre o Quartel General dos "d'diomos", bloqueando-lhes as saídas e disparando raios paralisantes. Parecemos pegá-los de surpresa, o que, a princípio, me causou surpresa. Deduzi, depois que alguém de seus serviços de informação devia ter guardado a notícia de que Frakwas havia falado, e, graças a isso pudemos ter vantagem da surpresa.

— Vocês não tiveram baixas?

— Sim. Lá dentro daquela imensa base, um dos nossos grupos de assalto foi atacado por raios desintegradores. Meus homens tiveram que atirar para matar, sem vacilação, e ganhamos a luta.

— Fantástico! — exclamei. — Terminou, então, a guerra?

— Sim. Fui promovido a "N'ivo", o que vem a ser algo assim como general, e vou voltar para Zemu. Aqui ficará um grupo reduzido, à frente do qual estará Harold Green e outros bons colaboradores que vão iniciar uma missão de contatos com determinados governos da Terra. Não deve esperar resultados imediatos. Ainda se passarão muitos anos antes que se produzam revelações sensacionais.

— Creio que esta obra será uma revelação sensacional — disse eu.

— Pobre amigo! — exclamou B'snik. — Temo que ninguém acredite em nada do que escreveu. Além disso, devo pedir-lhe que suprima todas as chaves que intercalamos no relato. Já não têm mais nenhum objetivo.

— Mas não ficará nenhum "d'diomo"! A não ser que ainda haja muito poucos, mas estão totalmente dispersos e tendem a desaparecer.

— De qualquer maneira, quero publicar a obra.

— Faça-o — disse B'snik, num tom enigmático.

— Mas seja sincero no final.

Aquilo me deixou bastante perplexo. Falamos de outras coisas, ele pediu-me algumas novelas para levar para Zemu e, por fim, despedimo-nos. Suas últimas palavras foram:

— Não gostaria de vir comigo para meu mundo?

— Não — respondi.

Ele se foi e eu fiquei só e pensativo...

 

Abri os olhos e contemplei os galhos dos pinheiros. Perto de mim, uns meninos brincavam com uma bola de plástico.

Confuso, olhei para os retalhos de azul celeste que os ramos deixavam aparecer. E ao levar a mão ao bolso, à procura do cigarro e do isqueiro, notei o livro entre meus dedos. Olhei para ele. "Passaporte para Magonia", li.

Teria sonhado? Não existiria M. Mareei Molay? Que história era aquela de guerra invisível? Teria sido tudo fruto de minha imaginação, de meu subconsciente? Onde estava eu? Em que época?

Logo me convenci de que as perguntas eram óbvias. O que sonhei ter escrito nem sequer existia. Não me tinha movido da rede. Meus olhos se fecharam, na calma estival da tarde, e todo o resto chegou através dos caminhos insondáveis da mente. Nem sequer havia dormido meia hora!

Entretanto, tive a vaga e estranha impressão de que nem tudo era um sonho. E se alguém, de algum lugar, acionando os misteriosos fios de subconciente, tivesse feito germinar em mim aquelas estranhas idéias?

Não poderia ser algo assim como uma mensagem vinda do Mais Além, para que me sentasse diante da máquina e descrevesse meu "sonho"?

Para começar, o tema fugia às minhas obras anteriores. Já escrevi muita coisa sobre "discos voadores" de todos os tipos, sobre seres estranhos, gênios e até demônios. Mas nunca havia narrado um sonho, em que eu próprio interviesse.

Foi por isso que decidi escrevê-lo. Não creio que seja mais que um sonho, uma divagação sem sentido. Mas... e se for outra coisa?

Por isso, tal como o sonhei, contei a vocês.

 

                                                                                Peter Kapra  

 

                      

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