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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


FANTASMAS / Dean R. Koontz
FANTASMAS / Dean R. Koontz

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

            Que força seria capaz de fazer desaparecer quase toda a população de uma cidade? O que poderia atacar tão sorrateiramente e deixar tão desfigurados os corpos daqueles que foram encontrados?

            O que seria capaz de secar o cérebro de um homem e sugar-lhe todo o sangue em apenas doze segundos? Que esperança os sobreviventes poderiam nutrir?

            Snowfield, uma pequena estação de esqui nas Montanhas Rochosas, era uma cidadezinha aprazível. Mas isso fora no passado; hoje, Snowfield é um pesadelo, um retrato do Inferno!

            Hoje, mais de duzentos dos quinhentos moradores da pequena cidade desapareceram sem deixar vestígios, e pelo menos outros cento e cinqüenta morreram — repentinamente, de um mal terrível e misterioso... Algo de muito estranho e apavorante estava acontecendo em Snowfield, e o pior ainda estava por vir.

            Fantasmas é também povoado de personagens delineados com tanta vividez que nós leitores não podemos deixar de nos envolver e nos preocupar com seu destino: a Dra. Jennifer Paige, de trinta e dois anos, que passou grande parte de sua vida se atormentando por um erro que cometera quando tinha apenas dezenove. Agora, ali em Snowfield, justamente quando está aprendendo a esquecer o passado, justamente quando está começando a amar a vida, se vê envolvida numa terrível luta pela sobrevivência; Lisa Paige, quatorze anos, idolatra a irmã mais velha, mas descobre que sua sobrevivência dependerá exclusivamente de sua própria força e coragem interior; o xerife Bryce Hammond, que perdera a família em um trágico acidente um ano antes, quando encontra Jenny Paige em Snowfield encontra também uma nova esperança, uma nova chance de reconstruir sua vida... se conseguir sobreviver...

 

 

 

 

 

            O grito foi longínquo e breve. Um grito de mulher.

            O delegado Paul Henderson ergueu os olhos do seu exemplar de Time. Inclinou a cabeça, ouvido atento.

            Os grãos de poeira vagavam preguiçosos num raio de sol brilhante que penetrava por uma das janelas com mainel. No relógio da parede, o ponteiro dos minutos, fino e vermelho, movia-se silenciosamente pelo mostrador.

            O único ruído era o ranger da cadeira de escritório de Henderson, quando ele mudou de posição.

            Através das grandes janelas da frente, ele podia enxergar um trecho da rua principal de Snowfield, a Skyline Road, que estava perfeitamente calma e serena ao sol dourado da tarde. Apenas as árvores se moviam, as folhas adejando ao vento suave.

            Depois de escutar atentamente por vários segundos, Henderson ficou sem ter certeza se realmente ouvira alguma coisa.

            Imaginação, falou consigo mesmo. Apenas a racionalização de um desejo.

            Quase estava preferindo que alguém tivesse gritado. Estava se sentindo inquieto.

            Durante a baixa temporada, de abril a setembro, ele era o único auxiliar de xerife em tempo integral designado para a subdelegacia de Snowfield, e o trabalho era tedioso. No inverno, quando a cidade recebia vários milhares de esquiadores, havia bêbados para atender, brigas para apartar e roubos para investigar nos quartos das estalagens, pousadas e motéis onde os esquiadores se hospedavam. Mas agora, no começo de setembro, somente estavam funcionando a Candleglow Inn, um hotel e dois pequenos motéis; os nativos eram tranqüilos, e Henderson — que tinha apenas 24 anos e estava concluindo o seu primeiro ano como delegado — sentia-se entediado.

            Ele soltou um suspiro, voltou o olhar para a revista sobre a mesa... e ouviu um outro grito. Como anteriormente, era longínquo e breve, mas desta feita parecia voz de homem. Não era um mero gritinho excitado ou mesmo um grito de alarme; era o som do terror.

            Franzindo o cenho, Henderson se levantou e se dirigiu para a porta, ajeitando o revólver no coldre sobre o quadril direito. Passou pelo portão de vaivém na grade que separava a área pública da cadeia propriamente dita e já estava a meio caminho da porta, quando percebeu um movimento na sala às suas costas.

            Isso era impossível. Estivera sozinho na cadeia o dia todo e desde o começo da semana passada não havia prisioneiro algum nas três celas de detenção. A porta dos fundos estava trancada e era o único outro meio de entrada na prisão.

            Quando se virou, contudo, descobriu que não estava mais sozinho. E de repente não estava nem mais um pouquinho entediado.

 

            Durante o crepúsculo daquele domingo no começo de setembro, as montanhas estavam pintadas somente de duas cores: verde e azul. As árvores — pinheiros, abetos, espruces — pareciam ter sido feitas do mesmo feltro que cobria as mesas de bilhar. Havia sombras frescas e azuis por toda a parte, ficando maiores e mais profundas e mais escuras a cada minuto.

            Ao volante do seu Pontiac Trans Am, Jennifer Paige sorriu, animada pela beleza das montanhas e pela sensação de volta ao lar. Ali era o seu lugar.

            Saiu da estrada estadual de três faixas e entrou na estrada municipal asfaltada de duas faixas que serpenteava e subia os seis quilômetros e meio que levavam a Snowfield, através do desfiladeiro.

            Sentada ao seu lado, a sua irmã de quatorze anos, Lisa, falou:

            — Adoro isto aqui.

            — Eu também.

            — Quando vamos ter um pouco de neve?

            — Dentro de um mês, talvez antes.

            As árvores se amontoavam bem junto à estrada. O Trans Am entrou num túnel formado pelos ramos pendentes e Jenny ligou os faróis.

            — Nunca vi neve, a não ser em fotografia — falou Lisa.

            — Na primavera que vem já estará farta dela.

            — Nunca. Eu não. Sempre sonhei em viver num lugar com neve, igual a você.

            Jenny lançou um olhar à mocinha. Mesmo para irmãs, pareciam-se muitíssimo: os mesmos olhos verdes, o mesmo cabelo avermelhado, as mesmas maçãs do rosto altas.

            — Você me ensina a esquiar? — pediu Lisa.

            — Bem, querida, quando os esquiadores chegarem haverá os costumeiros ossos quebrados, tornozelos torcidos, costas estropiadas, ligamentos estirados... Eu vou estar bem ocupada.

            — Ah — exclamou Lisa, sem conseguir disfarçar a decepção.

            — Além disso, por que aprender comigo, quando pode tomar aulas com um profissional de verdade?

            — Um profissional? — falou Lisa, animando-se um pouco.

            — Claro. Hank Sanderson lhe dará aulas, se eu pedir.

            — Quem é ele?

            — É o dono da Pine Knoll Lodge e ensina a esquiar, mas tem somente um punhado de alunos privilegiados.

            — É seu namorado?

            Jenny sorriu, lembrando-se de como era ter quatorze anos. Nesta idade, a maioria das garotas preocupava-se obsessivamente com garotos, garotos acima de todo o resto.

            — Não, Hank não é meu namorado. Eu o conheço há dois anos, desde que vim para Snowfield, mas somos apenas bons amigos.

            Passaram por um cartaz verde com letras brancas: SNOWFIELD — 5KM.

            — Aposto que haverá muitos garotos legais da minha idade.

            — Snowfield não é uma cidade muito grande — advertiu Jenny. — Mas suponho que dê para encontrar um ou dois garotos bem legais.

            — Ah, mas durante a temporada de esqui vai haver dúzias!

            — Calma, garota! Você não vai sair com gente de fora — pelo menos durante alguns anos.

            — E por que não?

            — Por que eu estou dizendo que não.

            — Mas por que não?

            — Antes de sair com um rapaz, você tem que saber de onde ele vem, como ele é, como é a família dele.

            — Ah, mas eu sou fantástica para julgar caráter — falou Lisa. — Minhas primeiras impressões são totalmente confiáveis. Não precisa se preocupar comigo. Não vou me envolver com um assassino da machadinha ou um estuprador maluco.

            — Tenho certeza disso — disse Jenny, reduzindo a marcha do Trans Am quando a estrada fez uma curva fechada —, porque vai sair apenas com a rapaziada do local.

            Lisa soltou um suspiro e balançou a cabeça numa exibição teatral de frustração.

            Caso ainda não tenha reparado, Jenny, atravessei a puberdade enquanto você estava fora.

            Ah, isso não escapou à minha atenção.

            Fizeram a curva. Havia outra reta à frente, e Jenny acelerou de novo.

            Lisa falou:

            — Tenho até peitos.

            — Também reparei nisso — retrucou Jenny, recusando-se a ficar chocada com a maneira desabusada da garota.

            — Não sou mais criança.

            — Mas também não é uma adulta. É uma adolescente.

            — Sou uma moça.

            — Digamos, uma mocinha.

            — Pombas...

            — Escute, sou sua guardiã legal. Sou responsável por você. Além disso, sou sua irmã e a amo. Vou fazer o que acho — o que sei — que é o melhor para você. — Lisa soltou um suspiro ruidoso. — Porque a amo — enfatizou Jenny.

            De cara feia, Lisa falou:

            — Você vai ser tão severa quanto a mamãe. Jenny assentiu.

            — Talvez mais ainda.

            — Pombas...

            Jenny lançou um olhar para Lisa. A garota olhava pela janela do banco direito do carro, o rosto apenas parcialmente visível, mas não parecia estar zangada. Não estava fazendo bico. Na verdade, os lábios pareciam estar suavemente curvados num vago sorriso.

            Quer se dêem conta, quer não, pensou Jenny, todos esses jovens querem ter regras a seguir. A disciplina é uma expressão de preocupação e amor. O negócio é não forçar demais a barra.

            Olhando de novo para a estrada, flexionando as mãos no volante, Jenny falou:

            — Vou lhe dizer o que vou deixar que você faça.

            — O quê?

            — Vou deixar que amarre os seus sapatos. Lisa piscou.

            — Hã?

            — E vou deixar que vá ao banheiro quando tiver vontade.

            Sem conseguir mais manter a pose de dignidade ofendida, Lisa soltou uma risadinha.

            — Vai me deixar comer quando estiver com fome?

            — Ora, claro. — Jenny abriu um sorriso. Von deixar até mesmo que arrume a sua cama de manhã cedo.

            — Puxa, mas quanta permissividade!

            Naquele momento, a menina parecia ainda mais jovem do que era. De tênis, jeans e blusa em estilo caubói, sem conseguir abafar as risadinhas, Lisa parecia doce, meiga e terrivelmente vulnerável.

            — Amigas? — perguntou Jenny.

            — Amigas.

            Jenny ficou surpresa e satisfeita com a facilidade com que ela e Lisa estavam se relacionando durante a longa viagem para o norte, desde Newport Beach. Afinal de contas, a despeito dos laços sangüíneos, eram virtualmente estranhas. Aos 31 anos, Jenny era 17 anos mais velha do que Lisa. Saíra de casa antes do segundo aniversário de Lisa, seis meses antes da morte do pai de ambas. Durante os anos de estudo na faculdade de medicina e a sua residência no Columbia Presbyterian Hospital de Nova York, Jenny estivera ocupada demais e longe de casa demais para visitar a mãe e Lisa com regularidade. Então, depois de completar a residência, voltara para a Califórnia a fim de abrir um consultório no Snowfield. Nos dois últimos anos, trabalhara exaustivamente para estabelecer uma clínica médica viável que servisse a Snowfield e a mais algumas cidadezinhas nas montanhas. Recentemente a mãe delas morrera e só então Jenny sentira não ter tido um relacionamento mais chegado com Lisa. Talvez pudessem começar a compensar todos os anos perdidos — agora que só restavam elas duas.

            A estrada municipal continuava a subir regularmente, e o crepúsculo ficou temporariamente mais claro quando o Trans Am saiu das sombras do vale da montanha.

            — Meus ouvidos parece que estão cheios de algodão — falou Lisa, bocejando para igualar a pressão.

            Dobraram uma curva fechada e Jenny diminuiu a marcha do carro. À sua frente via-se uma reta longa e ascendente, e a estrada municipal se transformou na Skyline Road, a rua principal de Snowfield.

            Lisa espiou atentamente pelo pára-brisa manchado, examinando a cidade com um deleite evidente.

            — Não é nada do que eu imaginava!

            — E o que estava esperando?

            — Ah, sabe como é, um bocado de moteizinhos feios com letreiros luminosos, postos de gasolina demais, coisas desse tipo. Mas este lugar é legal demais!

            — Temos normas de construção rígidas — explicou Jenny. — O gás neon não é aceitável. Não se permitem cartazes de plástico. Nada de coros extravagantes, nada de cafés com formato de cafeteiras.

            — É um barato — exclamou Lisa, boquiaberta, enquanto rodavam lentamente cidade adentro.

            A propaganda externa se resumia a cartazes rústicos de madeira com

            O nome de cada loja e o ramo de negócios a que se destinava. A arquitetura era um tanto eclética — norueguesa, suíça, bávara, franco- alpina, ítalo alpina —, mas todos os prédios eram projetados num ou noutro estilo montanhês, fazendo uso liberal de pedras, ardósia, tijolos, madeiras, vigas aparentes, janelas com mainel, vitrais e caixilhos de chumbo. As residências particulares ao longo da extremidade superior da Skyline Road também eram enfeitadas com jardineiras cheias de flores nos peitoris das janelas, sacadas e varandas com grades rebuscadas.

            — É bonito de verdade — comentou Lisa, enquanto subiam a longa ladeira que levava ao teleférico na extremidade alta da cidade. Mas é sempre assim tão quieto?

            Ali, não — falou Jenny. — Durante o inverno o local ganha vida de verdade e...

            Deixou a frase por terminar ao se dar conta de que a cidade não estava meramente quieta, Parecia morta.

            Em qualquer outra tarde agradável de domingo em setembro, pelo menos alguns residentes estariam passeando pelas calçadas de pedras e sentados nas varandas e sacadas que davam para a Skyline Road. O inverno estava chegando e esses últimos dias de tempo bom eram preciosos. Mas hoje, com a tarde se transformando em noitinha, as calçadas, varandas e sacadas estavam desertas. Ate mesmo nas lojas e casas em que havia luzes acesas, não se via sinal de vida. O Trans Am de Jenny era o único cano que se movia na rua comprida.

            Ela freou num sinal de "pare" no primeiro cruzamento. A St. Moritz Way cruzava a Skyline Road, estendendo-se por três quadras a leste e quatro a oeste. Ela olhou nas duas direções, sem enxergar ninguém.

            A quadra seguinte da Skyline Road também estava deserta. E mais a quadra depois dela.

            — Estranho — comentou Jenny.

            — Deve estar passando um programa formidável na TV — falou Lisa.

            — Acho que sim.

            Passaram pelo Restaurante Mountainview, na esquina de Vail Lane com Skyline. As luzes estavam acesas e a maior parte do interior era visível através das grandes janelas de canto, mas não havia ninguém à vista. Mountainview era um ponto de encontro popular para os nativos, tanto no inverno quanto na baixa temporada, e era incomum que o restaurante estivesse completamente deserto a esta hora. Não havia nem garçonetes lá dentro.

            Lisa já parecia ter perdido o interesse pela estranha quietude, embora tivesse sido a primeira a reparar nela. Estava de novo fitando boquiaberta e encantada a arquitetura pitoresca.

            Mas Jenny não conseguia acreditar que todo mundo estivesse grudado ao aparelho de TV, como Lisa sugerira. Cenho franzido, perplexa, ela olhava para cada janela enquanto continuava a subir a ladeira. Não enxergou um único indício de vida.

            Snowfield tinha seis quadras de comprimento de alto a baixo de sua rua principal inclinada, e a casa de Jenny ficava no meio da última quadra, no lado oeste da rua, próximo ao sopé do teleférico. Era um chalé de pedra e madeira, de dois andares, com três águas-furtadas no lado do sótão que dava para a rua. O telhado de ardósia multianguloso era uma mistura de cinza, azul e preto. A casa ficava afastada uns seis metros da calçada de pedras, por trás de uma cerca viva que chegava à cintura. Num dos cantos da varanda via-se um cartaz que dizia DRA. JENNIFER PAIGE, juntamente com o horário de funcionamento do consultório.

            Jenny estacionou o Trans Am na entrada curta para carros.

            — Que barato de casa! — exclamou Lisa.

            Era a primeira casa que Jenny possuía; ela a amava e sentia orgulho dela. Bastava ver a casa para sentir-se relaxada e contente, e por um momento ela se esqueceu da estranha quietude que envolvia Snowfield.

            — ..... Bem, é um pouco pequena, especialmente porque metade do andar de baixo está ocupado pelo meu consultório e sala de espera. E é mais do banco do que minha. Mas tem personalidade, não tem?

            — De montão — concordou Lisa.

            Saltaram do carro e Jenny descobriu que o sol poente dera origem a um vento frio. Ela estava usando uma suéter verde de mangas compridas com os jeans, mas se arrepiou mesmo assim. O outono nas Sierras era uma sucessão de dias agradáveis e noites contrastantemente frias. — espreguiçou-se, libertando os músculos que tinham ficado tensos durante a longa viagem, depois fechou a porta do carro. O som ecoou pelas montanhas acima e pela cidade abaixo. Era o único som na quietude do crepúsculo.

            Junto à traseira do Trans Am ela parou por um momento, fitando a Skyline Road até o centro de Snowfield. Nada se movia.

            — Eu poderia ficar aqui para sempre — declarou Lisa, abraçando o próprio corpo enquanto examinava, toda feliz, a cidade lá embaixo.

            Jenny prestou atenção. O eco da porta do carro batida sumiu — e não foi substituído por outro som qualquer, exceto o zunir suave do vento.

            Há silêncios e silêncios. Nenhum deles é igual ao outro. Há o silêncio da dor no salão ricamente atapetado e drapejado de veludo de uma casa funerária, que é bem diferente do silêncio árido e terrível da dor no quarto solitário de um viúvo. Para Jenny, parecia, curiosamente, haver um motivo para dor no silêncio de Snowfield. Contudo, não sabia por que se sentia daquele jeito, ou por que um pensamento tão esquisito fora lhe ocorrer, para início de conversa. Pensou também no silêncio de uma noite suave de verão, que não é verdadeiramente um silêncio, mas um coro sutil de asas de mariposa batendo nas janelas, de grilos movendo-se HK grama, e de balanços de varanda suspirando e rangendo muito de leve. O sono sem sons de Snowfield também continha um pouco dessa qualidade, uma sugestão de atividade febril — vozes, movimento, luta — que ficava logo além do alcance dos sentidos. Mas era mais do que isso. Havia ainda o silêncio de uma noite de inverno, profunda, fria e sem coração, mas contendo uma expectativa dos ruídos explosivos e crescentes da primavera. Este silêncio também estava pleno de expectativa, e aquilo deixava Jenny nervosa.

            Tinha vontade de gritar perguntando se havia alguém ali. Não o fez, porém, porque os vizinhos poderiam aparecer, assustados com o seu grilo, iodos sãos e salvos, e confusos com sua apreensão, e então ela ficaria com cara de boba. Uma médica que bancava a tola em público na segunda-feira era uma médica sem pacientes na terça.

            —...ficar aqui para sempre e sempre e sempre — dizia Lisa, ainda encantada com a beleza da aldeia montanhesa.

            — Não está deixando você... inquieta? — perguntou Jenny.

            — O que?

            —   O silêncio.

            — Ah, estou adorando. É tão sereno. Era sereno. Não havia sinais de encrenca.

            Então por que estou nervosa desse jeito? indagou-se Jenny. Abriu a mala do carro, tirou uma das valises de Lisa, depois a outra. Lisa pegou a segunda valise e estendeu a mão para a mala do carro para pegar uma sacola com livros.

            — Não pegue peso demais — advertiu Jenny. — Vamos ter que fazer mais umas duas viagens, de qualquer maneira.

            Cruzaram o relvado até um caminho de pedras que levava até a varanda da frente, onde, em resposta ao pôr-do-sol âmbar-púrpura, as sombras se erguiam e abriam pétalas como se fossem flores que vicejassem à noite.

            Jenny abriu a porta da frente e entrou no Vestíbulo escuro.

            — Hilda, chegamos! Não houve resposta.

            A única luz na casa vinha da extremidade oposta do corredor, para além da porta aberta da cozinha.

            Jenny largou a valise no chão e acendeu a luz do corredor.

            — Hilda?

            — Quem é Hilda? — perguntou Lisa, largando a sua valise e a sacola com livros.

            — Minha governanta. Ela sabia a que horas devíamos chegar. Pensei que, a essa altura, já estivesse cuidando do jantar.

            — Puxa, uma governanta! Ela dorme no emprego?

            — Ela usa o apartamento que fica em cima da garagem — explicou Jenny, pousando a bolsa e as chaves do carro na mesinha do Vestíbulo que ficava sob um grande espelho de moldura de metal.

            Lisa ficou impressionada.

            — Ei, você é rica, ou coisa parecida? Jenny achou graça.

            — Antes fosse. Na verdade, não posso me dar ao luxo de ficar com Hilda... mas também mio posso me dar ao luxo de ficar sem ela. — Perguntando-se por que a luz da cozinha estaria acesa se Hilda não estava em casa, Jenny começou a descer o corredor, com Lisa logo atrás. — Trabalhando em horário integral no consultório e ainda fazendo visitas de emergência a domicílio em três outras cidades nas montanhas, eu jamais comeria outra coisa além de sanduíches de queijo e rosquinhas, se não fosse Hilda.

            — Ela cozinha bem?

            — Maravilhosamente. Bem até demais, quando se trata de sobremesas.

            A cozinha era um aposento grande e de tolo alto. Panelas, frigideiras, conchas e outros utensílios pendiam de um suporte brilhante de aço inoxidável, acima de uma ilhota central para o fogão de quatro bocas, uma grelha e uma área de trabalho. Os balcões da cozinha eram de ladrilhos de cerâmica e os armários de carvalho escuro. Na extremidade oposta do aposento ficavam pias duplas, fornos duplos e um forno do microondas, além da geladeira.

            Jenny virou à esquerda logo que transpôs a porta e foi direto à secretária embutida onde Hilda planejava cardápios e organizava listas de compras, Seria aquele o local onde deixaria um bilhete. Mas não havia bilhete algum, e Jenny estava se afastando da escrivaninha quando escutou Lisa ofegar.

            A mocinha rodeara a extremidade oposta da ilhota central. Estava parada junto à geladeira, fitando algo no chão, em frente às pias. O rosto estava sem cor alguma, e ela tremia.

            Tomada de um pavor repentino, Jenny rodeou rapidamente a ilhota.

            Hilda Beck estava deitada de costas no chão, morta. Fitava o teto com olhos que não enxergavam, e a sua língua descolorida e dura aparecia por entre os lábios inchados.

            Lisa ergueu os olhos da mulher morta, fitou Jenny, tentou falar, mas não conseguiu emitir um único som.

            Jenny tomou a irmã pelo braço e conduziu-a até o outro lado da cozinha, de onde não poderia enxergar o cadáver. Abraçou-a.

            A mocinha abraçou-a também. Com força. Ferozmente.

            — Tudo bem, querida?

            Lisa não disse nada. Tremia incontrolavelmente.

            Há apenas seis semanas, chegando em casa depois de uma vesperal no cinema, Lisa encontrara a mãe deitada no chão da cozinha de sua casa em Newport Beach. Morrera de uma hemorragia cerebral maciça. Ficara in i asada. Sem ter conhecido o pai, que morrera quando tinha apenas dois mios, Lisa era especialmente apegada à mãe. Durante algum tempo a perda a deixara profundamente abalada, confusa, deprimida. Aos poucos, aceitou a morte da mãe, descobrira de novo como sorrir e achar graça. Nos últimos dias, estava parecendo de novo uma garota normal. E agora isso.

            Jenny levou a garota até a secretária, fez com que se sentasse, depois agachou-se na sua frente. Tirou um lenço de papel de uma caixa sobre a escrivaninha e enxugou a testa úmida de Lisa. A mocinha não apenas estava mortalmente pálida, estava também gelada.

            — Em que posso ajudar, mana?

            — T-t-tudo bem — falou Lisa, com a voz trêmula.

            Ficaram de mãos dadas. A garota agarrava a mão da irmã com tanta força que quase chegava a doer.

            Igualmente, ela falou:

            Pensei... logo que a vi ali... no chão daquele jeito... pensei... é loucura, mas pensei... que era a mamãe. — As lágrimas brilhavam nos seus olhos, mas ela se controlava. — S-sei que mamãe morreu. E essa mulher nem se parece com ela. Mas foi... a surpresa... o choque... uma coisa tão confusa.

            Elas continuaram de mãos dadas e, aos poucos, Lisa foi relaxando o aperto.

            Dali a um pouco, Jenny perguntou:

            — Está se sentindo melhor?

            — Estou. Um pouquinho.

            — Quer se deitar?

            — Não. — Soltou a mão de Jenny para pegar outro lenço de papel da caixa. Enxugou o nariz. Olhou para a ilhota, atrás da qual jazia o corpo. — Aquela é Hilda?

            — É.

            — Sinto muito.

            Jenny sempre gostara imensamente de Hilda Beck. Estava abaladíssima com a morte da mulher, mas neste momento estava mais preocupada com Lisa do que com qualquer outra coisa.

            — Mana, acho melhor você sair daqui. Que tal esperar no meu consultório enquanto eu examino direito o corpo? Depois tenho que ligar para o gabinete do xerife e para o legista municipal.

            — Espero aqui com você.

            — Seria melhor se...

            — Não! — exclamou Lisa, começando a tremer de novo. — Não quero ficar sozinha.

            — Tudo bem — tranqüilizou-a Jenny. — Pode ficar sentada aqui.

            — Ah, pombas — falou Lisa, infeliz. — O jeito que ela estava... toda inchada... toda roxa. E a expressão no rosto dela... — Enxugou os olhos com as costas das mãos. — Por que ela está toda escura e inchada daquele jeito?

            — Bem, obviamente já morreu faz alguns dias — falou Jenny. — Mas, ouça, tem que tentar não pensar sobre essas coisas...

            — Se ela já morreu faz alguns dias — objetou Lisa, com a voz trêmula —, por que não está cheirando mal aqui? Não devia estar?

            Jenny franziu o cenho. Claro que devia estar cheirando mal, se Hilda Beck estava morta há tempo suficiente para a sua carne empretecer e os tecidos do seu corpo incharem do jeito que incharam. Devia estar. Mas não estava.

            — Jenny, o que aconteceu com ela?

            — Ainda não sei.

            — Estou com medo.

            — Não tenha medo. Não há motivo para ter medo.

            — Aquela expressão no rosto dela — falou Lisa. — É horrível.

            — Não importa como tenha morrido, deve ter sido rápido. Ela não parece ter estado doente ou ter lutado. Não pode ter sentido muita dor.

            — Mas... parece que ela morreu no meio de um grito.

 

            Jenny Paige jamais vira um corpo como aquele. Nada na faculdade ou na sua própria prática de medicina a tinha preparado para a condição estranha do cadáver de Hilda Beck. Agachou-se junto ao corpo e examinou-o com tristeza e desprazer — mas também com uma curiosidade considerável e com uma perplexidade cada vez maior.

            O rosto da mulher estava intumescido; era agora uma caricatura redonda, macia e um tanto lustrosa da fisionomia que ela tivera em vida. O corpo também estava inchado, e em alguns lugares fazia pressão contra as costuras do vestido de andar em casa, cinza e amarelo. Onde a carne era visível — pescoço, braços e mãos, panturrilhas, tornozelos —, ela tinha um ar macio, de coisa madura demais. Contudo, o inchaço não parecia ser aquele formado pelos gases, que era uma conseqüência natural da decomposição. Por exemplo, o estômago devia estar imensamente distendido pelos gases, muito mais inchado do que qualquer outra parte do corpo, mas estava apenas moderadamente dilatado. Além disso, não havia cheiro de decomposição.

            Vista de perto, a pele escura e manchada não parecia ser o resultado de deterioração dos tecidos. Jenny não conseguia localizar nenhum sinal visível da decomposição em progresso; nenhuma lesão, nenhuma bolha, nenhuma pústula purgando. Como se compõem de tecidos comparativamente macios, os olhos de um cadáver, em geral, dão mostras de degeneração física antes da maior parte das outras porções do corpo. Os olhos de Hilda Beck, porém — arregalados, fixos —, eram espécimes perfeitos. Os brancos dos olhos eram límpidos, nem amarelados nem descoloridos por vasos sangüíneos estourados. As íris também eram límpidas. Nem sequer havia as cataratas leitosas pós- morte para obscurecer a cor azul e cálida.

            Em vida, geralmente havia alegria e bondade nos olhos de Hilda. Ela estava com 62 anos, uma mulher grisalha de rosto meigo e jeito de vovó. Falava com ligeiro sotaque alemão e tinha uma voz surpreendentemente linda. Cantava com freqüência enquanto limpava a casa ou cozinhava, e encontrava alegria nas coisas mais simples.

            Jenny sentiu uma pontada aguda de dor ao dar-se conta do quanto sentia a falta de Hilda. Fechou os olhos por um momento, sem conseguir olhar para o cadáver. Controlou-se, prendeu as lágrimas. Finalmente, quando tinha readquirido o seu distanciamento profissional, abriu os olhos e prosseguiu com o exame.

            Quanto mais olhava para o corpo, mais a pele parecia machucada. O colorido indicava machucaduras severas: preto, azul e um amarelo profundo, as cores se misturando umas com as outras. Mas nada se parecia nem remotamente com qualquer outra contusão que Jenny já vira. Pelo que podia perceber, a contusão era universal: não havia uma única polegada quadrada de pele visível que estivesse livre dela. Segurou com cuidado a manga do vestido da governanta e empurrou-o para cima até onde permitia o braço inchado. Sob a manga, a pele também estava escura, e Jenny desconfiou que o corpo inteiro estava coberto com uma série incrível de pisaduras contíguas.

            Olhou de novo para o rosto da sra. Beck. Cada centímetro de pele apresentava sinais de contusão. Às vezes, a vítima de um sério acidente de carro sofria ferimentos que lhe causavam pisaduras na maior parte do rosto, mas uma condição tão severa era sempre acompanhada de um trauma pior, tal como um nariz quebrado, lábios partidos, maxilar quebrado... Como é que a sra. Beck poderia ter adquirido pisaduras tão grotescas quanto aquelas sem sofrer igualmente outros ferimentos mais sérios?

            — Jenny? — falou Lisa. — Por que está demorando tanto?

            — Só mais um minutinho. Continue aí mesmo.

            Bem... talvez as contusões que cobriam o corpo da sra. Beck não fossem resultantes de golpes administrados externamente. Seria possível que a descoloração da pele fosse causada, em vez disso, por pressão interna, pelo intumescimento do tecido subcutâneo? Esse intumescimento estava, afinal de contas, vividamente presente. Para ter causado pisaduras tão completas, porém, sem dúvida, o inchaço teria que ter ocorrido repentinamente, com uma violência incrível. Mas isso não fazia sentido, droga. O tecido vivo não podia inchar assim tão depressa. O inchaço abrupto era sintomático de certas alergias, é claro. Um dos piores era uma severa reação alérgica à penicilina. Mas Jenny não tinha ciência de nada que pudesse causar um inchaço crítico com tal rapidez que resultasse naquelas machucaduras horrendas e universais.

            E mesmo que o intumescimento não fosse simplesmente o inchaço clássico pós-morte — e ela tinha certeza que não era —, ainda que fosse a causa das pisaduras, em nome de Deus, o que teria causado o intumescimento, para início de conversa? Ela já eliminara a reação alérgica.

            Se um veneno fosse o responsável, era de uma variedade extremamente exótica. Mas onde Hilda teria entrado em contato com um veneno exótico? Ela não tinha inimigos. A simples idéia de assassinato era absurda. E conquanto uma criança fosse capaz de colocar uma substância estranha na boca apenas para descobrir o gosto, Hilda não faria uma coisa tão idiota. Não, veneno não.

            Moléstia?

            Se fosse moléstia, causada por bactéria ou vírus, não era nada parecido com as coisas que ensinaram Jenny a reconhecer. E se provasse ser contagioso?

            — Jenny? — chamou Lisa. Moléstia.

            Aliviada por não ter tocado diretamente no corpo, desejando nem mesmo ter tocado na manga do vestido, Jenny se pôs rapidamente em pé, oscilou e se afastou do cadáver.

            Sentiu um calafrio.

            Pela primeira vez, reparou no que estava sobre a tábua de carne ao lado da pia. Havia quatro batatas grandes, um repolho, um pacote de cenouras, uma faca comprida e um descascador de legumes. Hilda estivera preparando a refeição quando caíra morta. Sem mais nem menos. Hum. Aparentemente não estava doente, não tinha tido nenhum sinal. Que diabo, uma morte tão repentina não era indicativa de moléstia.

            Que moléstia resultava em morte sem primeiro passar pelos estágios mais debilitantes de doença, desconforto e deterioração física? Nenhuma. Nenhuma que fosse do conhecimento da medicina moderna.

            — Jenny, podemos sair daqui? — pediu Lisa.

            — Shhh. Num minuto. Deixe-me pensar — falou Jenny, apoiando-se na ilhota, olhando para a mulher morta.

            Um pensamento vago e assustador estava começando a acossá- la: a peste. A peste — tanto bubônica quanto sob outras formas — não era desconhecida em partes da Califórnia e do Sudoeste. Nos últimos anos, umas duas dúzias de casos haviam sido registradas. Contudo, era raro alguém morrer de peste hoje em dia, pois ela podia ser curada pela administração de estreptomicina, cloranfenicol ou qualquer uma das tetraciclinas. Algumas formas de peste se caracterizavam pelo aparecimento na pele de manchas pequenas, arroxeadas, hemorrágicas. Em casos extremos, as manchas se tornavam quase negras e se espalhavam até que grandes porções do corpo fossem tomadas por elas. Na Idade Média, essa peste se tornara conhecida simplesmente como a Morte Negra. Mas será que as manchas podiam nascer com tal abundância a ponto de o corpo da vítima ficar tão completamente preto como o de Hilda?

            Além disso, Hilda morrera subitamente, enquanto estava cozinhando, sem primeiro sofrer de vômitos, incontinência, febre — o que eliminava a peste. E o que, na verdade, eliminava também todas as outras moléstias contagiosas conhecidas.

            No entanto, não havia sinais visíveis de violência. Não havia ferimentos sangrentos de arma de fogo, nem de facadas. Não havia indicação alguma de que a governanta tivesse sido espancada ou estrangulada.

            Jenny rodeou o corpo e foi até o balcão junto à pia. Tocou o repolho e ficou espantada ao notar que ainda estava frio. Não estivera aqui na tábua de carne mais do que uma hora, aproximadamente.

            Afastou-se da pia e olhou de novo para Hilda, mas com pavor ainda maior do que antes.

            A mulher morrera nesta última hora. O corpo ainda podia estar quente,

            Mas o que a matara!

            Jenny não estava mais perto da resposta agora do que estivera antes de examinar o corpo. E embora a moléstia parecesse não ser a culpada aqui, ela não podia eliminá-la. A possibilidade de contágio, embora remota, era assustadora.

            Ocultando de Lisa a sua preocupação, Jenny falou:

            — Vamos indo, meu bem, posso usar o telefone do consultório.

            — Já estou me sentindo melhor — disse Lisa, mas se levantou prontamente, e era evidente que estava ansiosa para ir embora.

            Jenny abraçou a garota e deixaram a cozinha.

            Um silêncio irreal parecia encher a casa. O silêncio era tão profundo que o sussurro dos passos delas no tapete do corredor, em contraste, parecia estrondoso.

            A despeito das luzes fluorescentes do teto, o consultório de Jenny não era uma sala árida e impessoal como as que a maioria dos médicos de hoje em dia prefere. Ao contrário, era um consultório antiquado de médico do interior, como se fosse uma das ilustrações de Norman Rockwell para o Saturday Evening Post. As prateleiras estavam lotadas de livros e revistas médicas. Havia seis arquivos de madeira antigos que Jenny comprara por um precinho bom num leilão. Nas paredes estavam pendurados diplomas, quadros de anatomia e duas grandes aquarelas de Snowfield. Ao lado do armário de remédios trancado havia uma balança, e ao lado desta, numa mesinha, uma caixa de brinquedos baratos — carrinhos de plástico, soldadinhos, bonecas em miniatura — e pacotes de goma de mascar sem açúcar que eram dados como recompensa (ou suborno) para as crianças que não choravam durante os exames.

            Uma escrivaninha de pinho, grande, riscada, escura, era a peça central da sala, e Jenny levou Lisa até a grande cadeira de couro que ficava por trás dela.

            — Desculpe — disse a mocinha.

            — Por quê? — perguntou Jenny, sentando-se na beirada da escrivaninha e puxando o telefone para junto de si.

            — Desculpe a minha fraqueza. Quando vi... o corpo... bem... fiquei histérica.

            — Não ficou nada histérica. Só chocada e assustada, o que é compreensível.

            — Mas você não ficou chocada nem assustada.

            — Ah, fiquei — disse Jenny. — Não apenas chocada: atordoada.

            — Mas não ficou assustada, como eu fiquei.

            — Fiquei assustada, e ainda estou assustada. — Jenny hesitou, depois concluiu que, afinal de contas, não devia esconder a verdade da garota. Falou-lhe da possibilidade perturbadora de contágio. — Não creio que seja uma moléstia isso que estamos enfrentando, mas posso estar errada. E se estiver...

            A garota fitou Jenny espantada, de olhos arregalados.

            — Você estava assustada, como eu, mas ainda assim passou todo aquele tempo examinando o corpo. Pombas, eu não poderia fazer isso. Eu não. Nunca.

            — Bem, querida, mas é que eu sou médica. Fui treinada para isso.

            — Mesmo assim...

            — Você não fraquejou, pode estar certa — tranqüilizou-a Jenny. Lisa assentiu, aparentemente sem ter se convencido.

            Jenny tirou o fone do gancho, pretendendo chamar o xerife em Snowfield, antes de ligar para o legista em Santa Mira, a sede do condado. Não houve ruído de discar, apenas um sibilar suave. Ela mexeu no aparelho, apertando e soltando as traves de desligar, mas nenhum sinal de linha.

            Havia algo de sinistro no fato de um telefone estar enguiçado quando uma mulher jazia morta na cozinha. Talvez a sra. Beck tivesse sido assassinada. Se alguém cortara a linha do telefone e entrara na casa, e se esgueirara por trás de Hilda com cuidado e astúcia... bem... poderia tê-la apunhalado nas costas com uma faca de lâmina comprida que afundara o bastante para penetrar no coração, matando-a instantaneamente. Nesse caso, o ferimento estaria onde Jenny não podia vê-lo, a não ser que tivesse virado o corpo completamente, de bruços. Isso não explicava por que não havia sangue algum. E nem explicava as pisaduras universais, o inchaço. Apesar disso, a ferida podia estar nas costas da governanta, e como ela morrera nesta última hora, também era concebível que o assassino — se houvesse um assassino — ainda pudesse estar aqui, dentro da casa.

            Estou dando asas demais à imaginação, pensou Jenny.

            Mas decidiu que seria uma atitude sensata ela e Lisa saírem da casa imediatamente.

            — Vamos ter que dar um pulo no vizinho e pedir a Vince ou Angie Santini que dêem os telefonemas para nós — explicou Jenny suavemente, levantando-se da beirada da mesa. — Nosso telefone está enguiçado.

            Lisa piscou os olhos.

            — Isso tem algo a ver com... o que aconteceu?

            — Não sei — falou Jenny.

            Seu coração batia com força enquanto ela cruzava o consultório em direção à porta semicerrada. Ficou imaginando se haveria alguém à espera do outro lado.

            Acompanhando Jenny, Lisa falou:

            — Mas o telefone estar enguiçado agora... é um pouco estranho, não acha?

            — Um pouco.

            Jenny estava quase esperando encontrar um estranho imenso e sorridente com uma faca. Um desses sociopatas que parecem proliferar hoje em dia. Um desses imitadores de Jack, o Estripador, cujo trabalho sangrento mantém os repórteres de TV bem supridos de filmes repulsivos para O noticiário das seis.

            Espiou para o corredor antes de se aventurar a sair, preparada para dar um salto para trás e bater a porta se visse qualquer pessoa. O corredor estava deserto.

            Lançando um olhar para Lisa, Jenny viu que a garota se apercebera rapidamente da situação.

            Atravessaram rapidamente o corredor em direção à parte da frente da casa: ao se acercarem das escadas que levavam ao segundo andar, que ficavam juntinho do Vestíbulo, os nervos de Jenny estavam mais tensos do que nunca. O assassino — se é que existe um assassino, lembrou a si mesma, cheia de exasperação — podia estar nas escadas, escutando enquanto elas passavam na direção da porta da frente. Podia saltar degraus abaixo enquanto elas passavam por ele, a faca erguida bem no alto...

            Mas ninguém esperava nas escadas.

            Ou no Vestíbulo. Ou na varanda.

            Do lado de fora, o crepúsculo rapidamente se transformava em noite. A luz remanescente era arroxeada, e as sombras — um exército zumbi de sombras — se erguiam de dezenas de milhares de locais nos quais se tinham ocultado da luz do sol. Dentro de dez minutos estaria escuro.

 

            A casa de pedra e sequóia dos Santinis era de um estilo mais moderno do que a residência de Jenny, toda cheia de quinas arredondadas e ângulos suaves. Erguia-se do solo pedregoso, adaptando-se aos contornos da encosta, tendo como pano de fundo maciços pinheiros; quase parecia ser uma formação natural. As luzes estavam acesas em dois dos cômodos do andar inferior.

            A porta da frente estava entreaberta. Lá dentro tocava-se música clássica.

            Jenny tocou a campainha e deu alguns passos para trás, para onde Lisa estava esperando. Acreditava que ambas deviam se manter a uma certa distância dos Santinis; era possível que tivessem sido contaminadas pelo simples fato de terem estado na cozinha com o cadáver da sra. Beck.

            — Não se poderia querer vizinhos melhores — falou para Lisa, desejando que aquele bolo duro e frio no seu estômago se derretesse. — Gente ótima.

            Ninguém atendeu à campainha.

            Jenny se adiantou, apertou de novo o botão e voltou para o lado de Lisa. Continuou:

            — São donos de uma loja de artigos de esqui e outra de presentes na cidade.

            A música cresceu, diminuiu, cresceu. Beethoven.

            — Pode ser que não haja ninguém em casa — falou Lisa.

            — Tem que haver alguém. A música, as luzes...

            Um vento repentino e forte se agitou por sob o telhado da varanda, e as rajadas de ar interferiram com os acordes de Beethoven, transformando brevemente aquela música doce num ruído irritante e dissonante.

            Jenny escancarou a porta. Havia uma luz acesa no escritório que ficava à esquerda do Vestíbulo. Uma luminosidade leitosa saía pelas portas abertas do escritório e se espalhava pelo Vestíbulo de piso de carvalho até o limiar da sala de estar escura.

            — Angie? Vince? — chamou Jenny Não houve resposta.

            Somente Beethoven. O vento arrefecera, e a música rasgada fora costurada na tranqüilidade sem ventos. A Terceira Sinfonia, Eroica.

            — Oi? Tem alguém em casa?

            A sinfonia atingiu a sua conclusão emocionante, e quando a última nota sumiu, não começou nenhuma música nova. Aparentemente, a vitrola se desligara sozinha.

            — Oi?

            Nada. A noite por trás de Jenny estava silenciosa, assim como ficara a casa à sua frente agora.

            — Você não vai entrar aí, vai? — perguntou Lisa, ansiosa. Jenny lançou um olhar para a garota.

            — O que foi?

            Lisa mordeu o lábio.

            — Tem alguma coisa errada aí. Você também está sentindo, não está?

            Jenny hesitou. Relutantemente, falou:

            — É, estou.

            — É como se... se estivéssemos sozinhas aqui... só você e eu... e ao mesmo tempo... não estivéssemos.

            Jenny tinha a estranha sensação de que estavam sendo observadas. Virou-se e examinou a relva e os arbustos que tinham sido quase completamente engolidos pela escuridão. Olhou para cada uma das janelas que davam para a varanda. Havia luz no escritório, mas as outras janelas estavam às escuras, negras e lustrosas. Alguém podia estar parado por detrás de qualquer uma daquelas vidraças, envolto nas sombras, vendo sem ser visto.

            — Vamos embora, por favor — pediu Lisa. — Vamos chamar a polícia ou qualquer outra pessoa. Vamos embora agora. Por favor.

            Jenny balançou a cabeça.

            — listamos esgotadas. Nossa imaginação está nos pregando peças. Do qualquer forma, tenho que dar uma olhada lá dentro, para o caso de haver alguém ferido... Angie, Vince, quem sabe uma das crianças...

            — Não.

            Lisa agarrou o braço de Jenny, retendo-a. Sou médica. Tenho a obrigação de ajudar. Mas se você pegou um germe ou coisa parecida da sra. Beck, pode contaminar os Santinis. Foi você mesma quem disse.

            — É, mas pode ser que já estejam morrendo da mesma coisa que matou Hilda. E então? Podem "estar precisando de cuidados médicos.

            — Não creio que seja uma moléstia — falou Lisa, desolada, fazendo eco aos pensamentos de Jenny. — É uma coisa pior

            — O que poderia ser pior?

            — Não sei. Mas eu... eu sinto. É uma coisa pior.

            O vento soprou de novo e agitou os arbustos junto da varanda.

            — Está bem — falou Jenny. — Você fica esperando aqui enquanto eu vou dar uma olhada em...

            — Não — replicou Lisa rapidamente. — Se você vai entrar ali, eu também vou.

            — Meu bem, você não estaria fraquejando se...

            — Eu vou — insistiu a jovem, soltando o braço de Jenny. — Vamos terminar logo com isso.

            Entraram na casa.

            Parada no Vestíbulo, Jenny espiou pela porta aberta à esquerda.

            — Vince? — Dois abajures lançavam uma luz dourada e cálida em todos os cantos do escritório de Vince Santini, mas a sala estava deserta. — Angie? Vince? Tem alguém aí?

            Nenhum som perturbava o silêncio sobrenatural, embora a escuridão em si parecesse de certa forma alerta, atenta... como se fosse um animal imenso e agachado.

            À direita de Jenny, a sala de estar estava envolta em sombras tão espessas como estamenha preta densamente tecida. Na extremidade oposta, alguns fiapos de luz rebrilhavam nas beiradas e no pé de um par de portas que isolavam a sala de jantar, mas o brilho fraco nada fazia para dispersar as sombras do lado de cá.

            Ela encontrou e acionou o interruptor de parede que acendeu uma luz, revelando a sala de estar desocupada.

            — Está vendo? — falou Lisa. — Não tem ninguém em casa.

            — Vamos dar uma olhada na sala de jantar.

            Cruzaram a sala de estar, que era mobiliada com confortáveis sofás em bege e elegantes poltronas Rainha Anne em verde-esmeralda. O som e o gravador estéreo estavam instalados discretamente num móvel de canto. Era de lá que vinha a música. Os Santinis tinham saído e deixado os aparelhos ligados.

            Na extremidade da sala, Jenny abriu as portas duplas, que rangeram ligeiramente.

            Também não havia ninguém na sala de jantar, mas o lustre iluminava uma cena curiosa. A mesa estava posta para um ajantarado de domingo: quatro jogos americanos; quatro pratos de jantar limpos; quatro pratos de salada combinando, três deles limpinhos, o quarto com um porção de salada; quatro jogos de talheres de aço inoxidável; quatro copos — dois cheios de leite, um de água e um quarto de um líquido cor de âmbar que bem podia ser suco de maçã. Cubos de gelo, apenas parcialmente derretidos, flutuavam tanto no suco quanto na água. No centro da mesa estavam as travessas: um prato de salada, uma travessa com presunto, batatas ao forno, um prato grande com ervilhas e cenouras. Excetuando a salada, de onde fora tirada uma porção, a comida não fora tocada. O presunto esfriara. Todavia, a crosta gratinada do prato de batatas estava perfeita, e quando Jenny encostou a mão no prato, percebeu que ainda estava quente. A comida fora posta na mesa nesta última hora, talvez, apenas há uns trinta minutos.

            — Parece que tiveram que ir a algum lugar com muita pressa — comentou Lisa.

            Franzindo o cenho, Jenny falou:

            — Chega a parecer que foram levados à força.

            Havia alguns detalhes perturbadores. Como a cadeira virada. Estava deitada de lado, a curta distância da mesa. As outras cadeiras estavam em pé, mas no chão, ao lado de uma delas, estava uma colher de servir e um garfo de carne de dois dentes. Um guardanapo amassado também estava no chão, num canto da sala, não como se tivesse sido largado ali, mas arremessado. Na mesa, o saleiro estava virado.

            Pequenas coisas. Nada de dramático. Nada de conclusivo.

            Apesar disso, Jenny ficou preocupada.

            — Levados à força? — indagou Lisa, atônita.

            — Talvez.

            Jenny continuava a falar baixinho, como a irmã. Ainda tinha a sensação inquietante de que alguém estava por perto, oculto, à espreita — pelo menos na escuta. Paranóia, advertiu a si mesma.

            — Nunca ouvi falar de alguém raptando uma família inteira — disse Lisa.

            — Bem... pode ser que eu esteja errada. Provavelmente uma das crianças passou mal de repente e eles tiveram que correr para o hospital em Santa Mira. Alguma coisa no gênero.

            Lisa examinou a sala de novo, inclinou a cabeça para escutar o silêncio sepulcral da casa.

            — Não, acho que não.

            — Nem eu — admitiu Jenny.

            Rodeando lentamente a mesa, examinando-a como se esperasse descobrir uma mensagem secreta deixada pelos Santinis, o medo cedendo lugar u curiosidade, Lisa falou:

            — Isso me faz lembrar de uma coisa que li certa vez num livro sobre fatos estranhos. Sabe... O Triângulo das Bermudas ou um livro parecido. Havia um grande navio, o Mary Celeste... lá por 1870, mais ou menos...Bem, o caso é que o Mary Celeste foi encontrado à deriva no meio do Atlântico, com a mesa posta para o jantar, mas com toda a tripulação desaparecida. O navio não fora danificado numa tempestade, não estava fazendo água nem nada. Não havia motivo para a tripulação tê-lo abandonado. Além disso, os botes salva-vidas ainda estavam no navio. Os lampiões estavam acesos, as velas envergadas, e a comida na mesa, como eu disse,. Tudo estava exatamente como devia estar, exceto que até o último homem no navio havia sumido. É um dos grandes mistérios do mar.

            — Mas estou certa de que, não há nenhum grande mistério nisto — retrucou Jenny, inquieta. — Estou certa de que os Santinis não sumiram para sempre.

            Lisa parou na metade do caminho, ergueu os olhos, pestanejou olhando para Jenny.

            — Se eles foram levados à força, será que isso tem algo a ver com a morte da sua governanta?

            — Talvez. Ainda não podemos ter certeza. Falando ainda mais baixo do que antes, Lisa indagou:

            — Acha que devemos arranjar uma arma, ou coisa parecida?

            — Não, não. — Olhou para a comida intacta esfriando nas travessas. O sal derramado. A cadeira virada. Afastou-se da mesa. — Vamos, meu bem.

            — Para onde?

            — Vamos ver se o telefone está funcionando.

            Cruzaram a porta que ligava a sala de jantar à cozinha e Jenny acendeu a luz.

            O telefone ficava na parede junto à pia. Jenny tirou o fone do gancho, escutou, mexeu nas traves de desligar, mas não conseguia linha.

            Desta vez, contudo, não era como realmente se não houvesse linha, como acontecera na sua casa. Era uma linha aberta, cheia do sibilar suave da estática eletrônica. Os números do corpo de bombeiros e da subdelegacia estavam num adesivo na base do aparelho. Apesar de não escutar o sinal de discar, Jenny apertou as teclas com os sete dígitos do gabinete do xerife, mas não conseguiu completar a ligação.

            Então, quando Jenny voltava a mexer nas traves de desligar, começou a desconfiar de que havia alguém na linha, escutando.

            Falou ao aparelho:

            — Alô? — Um sibilar distante. Como ovos frigindo numa chapa. — Alô? — repetiu.

            Apenas a estática distante. O que chamavam de "ruído branco".

            Ela disse a si mesma que não havia nada a não ser os sons comuns de uma linha telefônica aberta. Mas o que ela achava que estava ouvindo era alguém que a escutava atentamente enquanto ela o escutava.

            Bobagem.

            Sentiu um arrepio na nuca e, bobagem ou não, desligou rapidamente.

            — O gabinete do xerife não pode ficar longe, numa cidade tão pequena — falou Lisa.

            — Uns dois quarteirões.

            — Por que não andamos até lá?

            Jenny tinha a intenção de revistar o restante da casa, para o caso dos Santinis estarem em algum outro cômodo, feridos ou doentes. Agora, estava se perguntando se alguém estivera na linha telefônica com ela, escutando na extensão em outra parte da casa. Essa possibilidade modificava tudo. Ela não fazia pouco-caso do seu juramento de Hipocrates; na verdade, apreciava as responsabilidades especiais que faziam parte do seu trabalho, pois era do tipo de pessoa que precisava ter testadas regular mente as suas opiniões, a sua inteligência e a sua energia. Adorava um desafio. Neste exato momento, porém, a sua responsabilidade principal era para com Lisa e para consigo mesma. Talvez o mais sensato a fazer fosse ir buscar o delegado, Paul Henderson, voltar para cá com ele e então revistar o resto da casa.

            Embora ela quisesse crer que era apenas a sua imaginação, ainda sentia olhares inquisitivos; alguém à espreita... à espera.

            — Vamos embora — falou para Lisa. — Venha. Nitidamente aliviada a jovem foi andando depressa na frente, passando pela sala de jantar e de estar até a porta da frente.

            Lá fora, caíra a noite. O ar agora estava mais fresco do que estivera ao entardecer, e logo ficaria frio de verdade — uns sete ou cinco graus, talvez até mais frio — um lembrete de que o outono nas Sierras era sempre breve e que o inverno estava ansioso para chegar e se instalar.

            Ao longo da Skyline Road, as luzes das ruas se acenderam automaticamente com a chegada da noite. Nas vitrines de diversas lojas também se haviam acendido as luzes noturnas, ativadas pelos diodos sensíveis à luz que tinham reagido ao mundo exterior em fase de escurecimento.

            Na calçada diante da casa dos Santinis, Jenny e Lisa se detiveram, impressionados com a vista que se lhes descortinava.

            Descendo pelo lado da montanhas, os telhados pontudos e bicudos destacando-se no céu noturno, a cidade era ainda mais bela do que fora ao crepúsculo. Algumas chaminés deixavam escapar plumas fantasmagóricas de fumaça de madeira. Algumas janelas brilhavam com as luzes que vinham de dentro, mas a maioria, como espelhos escuros, refletia os raios dos postes de luz. O vento brando fazia com que as árvores se agitassem suavemente, em ritmo de canção de ninar, e os sussurros resultantes eram como os suspiros meigos e os murmúrios sonhadores de mil crianças serenamente adormecidas.

            Contudo, não somente a beleza era impressionante. A imobilidade absoluta, o silêncio — foi isso que fez com que Jenny se detivesse. Ao chegarem à cidade, achara-o estranho. Agora, estava achando-o agourento.

            — A subdelegacia do xerife fica na rua principal — disse para Lisa. — Daqui a duas quadras e meia.

            Apressaram-se a entrar no coração silencioso da cidade.

 

            Uma única lâmpada fluorescente brilhava na penumbra da cadeia municipal, mas o seu pescoço flexível estava dobrado vivamente, focalizando a luz no alto de uma escrivaninha, revelando pouca coisa mais da grande sala principal. Uma revista aberta jazia sobre o mataborrão da escrivaninha, diretamente sob o facho de luz dura e branca. Tirando isso, o local estava escuro, exceto pela luminosidade pálida que se filtrava pelas janelas com mainel, vinda dos postes de luz.

            Jenny abriu a porta e entrou, com Lisa logo atrás.

            — Alô? Paul? Você está aí?

            Ela localizou um interruptor de parede, acendeu as luzes do teto — e crispou-se toda ao ver o que jazia no chão à sua frente. Paul Henderson. Carne escura, pisada. Inchado. Morto!

            — Ah, Jesus! — exclamou Lisa, afastando-se rapidamente. Foi aos tropeções até a porta aberta, apoiou-se contra o umbral e inspirou em grandes haustos o ar fresco da noite.

            Com esforço considerável, Jenny abafou o medo primitivo que começara a surgir dentro de si e se dirigiu para junto de Lisa. Pondo a mão no ombro esguio da garota, perguntou:

            — Você está bem? Quer vomitar?

            Lisa estava fazendo força para não ter engulhos. Finalmente, balançou a cabeça.

            — Não. N-não vou vomitar. Já vou ficar bem. V-vamos sair daqui.

            — Daqui a um minuto — falou Jenny. — Primeiro quero dar uma olhada no corpo.

            — Você não pode querer olhar para aquilo.

            — Tem razão. Não quero, mas talvez cú possa ter alguma idéia do que estamos enfrentando. Você pode esperar aqui junto à porta.

            A moça suspirou, resignada.

            Jenny dirigiu-se para o cadáver que estava esparramado no chão, ajoelhou-se ao lado dele.

            Paul Henderson estava nas mesmas condições de Hilda Beck. Cada centímetro visível da carne do delegado estava pisado. O corpo estava intumescido: um rosto inchado e distorcido; o pescoço quase do mesmo tamanho da cabeça; dedos que pareciam pedaços de lingüiça; um abdome dilatado. No entanto, Jenny não conseguia detectar nem o mais leve sinal de decomposição.

            Olhos que não enxergavam saltavam de um rosto manchado e preto. Aqueles olhos, justamente com a boca escancarada e retorcida, demonstravam uma emoção inconfundível: o medo. Como Hilda, Paul Hender.

            — Você está bem? Quer vomitar?

            Lisa estava fazendo força para não ter engulhos. Finalmente, balançou a cabeça.

            — Não. N-não vou vomitar. Já vou ficar bem. V-vamos sair daqui.

            — Daqui a um minuto — falou Jenny. — Primeiro quero dar uma olhada no corpo.

            — Você não pode querer olhar para aquilo.

            — Tem razão. Não quero, mas talvez eu possa ter alguma idéia do que estamos enfrentando. Você pode esperar aqui junto à porta.

            A moça suspirou, resignada.

            Jenny dirigiu-se para o cadáver que estava esparramado no chão, ajoelhou-se ao lado dele.

            Paul Henderson estava nas mesmas condições de Hilda Beck. Cada centímetro visível da carne do delegado estava pisado. O corpo estava intumescido: um rosto inchado e distorcido; o pescoço quase do mesmo tamanho da cabeça; dedos que pareciam pedaços de lingüiça; um abdome dilatado. No entanto, Jenny não conseguia detectar nem o mais leve sinal de decomposição.

            Olhos que não enxergavam saltavam de um rosto manchado e preto. Aqueles olhos, justamente com a boca escancarada e retorcida, demonstravam uma emoção inconfundível: o medo. Como Hilda, Paul Henderson parecia ter morrido subitamente... e nas garras gélidas e potentes do terror.

            Jenny não fora amiga íntima do morto. Conhecia-o, é claro, pois todos conheciam uns aos outros numa cidade tão pequena quanto Snowfield. Ele parecia bastante agradável, um bom policial. Sentiu-se desolada com o que acontecera a ele. Ao fitar-lhe o rosto contorcido, um fio de náusea formou um nó de dor seca no seu estômago, e ela teve que desviar os olhos.

            A arma do delegado não estava no coldre. Estava no chão, junto ao corpo. Um revólver calibre 45.

            Ela fitou a arma, considerando as implicações. Talvez tivesse escorregado do coldre quando o delegado caíra ao chão. Talvez. Mas ela duvidava. A conclusão mais óbvia era que Henderson puxara o revólver para se defender de um atacante.

            Se fosse assim, então não fora morto por veneno ou moléstia.

            Jenny olhou atrás de si. Lisa ainda estava parada junto à porta aberta, apoiada contra o umbral, fitando a Skyline Road.

            Levantando-se um pouco, afastando-se do corpo, Jenny ficou agachada junto ao revólver por longos segundos, examinando-o, tentando decidir se devia ou não tocá-lo. Não estava tão preocupada com o contágio quanto estivera imediatamente após a descoberta do corpo da sra. Beck. Aquilo estava parecendo cada vez menos com um caso de peste estranha. Além disso, se havia uma moléstia exótica acossando Snowfidd, era assustadoramente virulenta, e Jenny, a esta altura, certamente estaria contaminada. Nada tinha a perder se pegasse o revólver e o examinasse mais atentamente. O que mais a preocupava era que podia estar apagando impressões digitais incriminadoras ou outras provas importantes.

            Mas mesmo que Henderson tivesse sido assassinado, não era provável que o criminoso tivesse usado a arma da própria vítima, deixando nela, convenientemente, suas impressões digitais. Além do mais, Paul não parecia ter sido baleado; ao contrário, se é que houvera algum disparo, provavelmente fora ele quem puxara o gatilho.

            Ela pegou o revólver e o examinou. O cilindro tinha capacidade para seis balas, mas três das câmaras estavam vazias. O cheiro acre de pólvora queimada revelava que a arma fora disparada recentemente; no dia de hoje; quem sabe, nesta última hora.

            Carregando o 45, examinando o chão de cerâmica, ela se pôs de pé e caminhou primeiro até uma ponta da área de recepção, depois até a outra. Percebeu um brilho de metal, depois outro, e ainda outro: três cartuchos usados.

            Nenhum dos tiros fora disparado para baixo, para o chão. A cerâmica, muito bem polida, não apresentava marcas.

            Jenny empurrou a porta de vaivém na grade de madeira e entrou na área da cadeia propriamente dita. Desceu um corredor formado por pares de escrivaninhas fronteiras, arquivos e mesas de trabalho. Parou no centro do aposento e olhou lentamente para as paredes em verde- claro e o teto branco de tijolo acústico, procurando buracos de bala. Não achou nenhum.

            Ficou surpresa. Se a arma não tinha sido disparada no chão, nem apontada para as janelas da frente — e não o fora, pois não havia um só vidro quebrado —, então tinha que ter sido disparada com o cano apontado para dentro da sala, à altura da cintura ou mais alto. Nesse caso, para onde tinham ido as balas? Não via nenhum móvel danificado, nenhuma madeira lascada ou melai laminado destruído ou plástico arrebentado, embora soubesse que uma bala de calibre 45 causaria estragos consideráveis no ponto de impacto.

            Se as balas usadas não estavam nesta sala, então havia apenas um outro lugar em que poderiam estar: no corpo do homem ou homens para quem Paul Henderson apontara a arma.

            Mas se o delegado houvesse ferido um assaltante — ou dois ou três — com três tiros de um revólver calibre 45, três tiros colocados tão certeiramente no tronco do assaltante que as balas tinham sido detidas sem atravessá-lo, então haveria sangue por toda parte. Mas não havia uma só gota.

            Confusa, voltou-se para a escrivaninha onde a lâmpada fluorescente de haste flexível lançava a sua luz sobre um exemplar aberto da revista Time. Ao lado, uma placa de metal onde se lia SARGENTO PAUL J. HENDERSON. Fora aí que ele estivera sentado, passando uma tarde aparentemente enfadonha, quando o que quer que tenha acontecido... acontecera.

            Com plena certeza do que ia escutar, Jenny tirou o fone do gancho do aparelho sobre a mesa de Henderson. Nada de sinal de discar. Apenas o sibilar eletrônico, de asa de inseto, de uma linha aberta.

            Como acontecera antes, quando tentara usar o telefone na cozinha dos Santinis, teve a sensação de que não era a única que estava na linha. Desligou o aparelho... com força demais, abruptamente demais.

            As mãos lhe tremiam.

            Na parede dos fundos da sala havia dois quadros de avisos, uma fotoeopiadora, um armário de armas trancado, um rádio de polícia e um teletipo. Jenny não sabia como operar o teletipo. Além disso, ele estava mudo e parecia enguiçado. Não conseguiu fazer o rádio funcionar. Embora a força estivesse ligada, a lâmpada indicadora não acendia. O microfone continuava mudo. Quem quer que tivesse acabado com o delegado acabara também com o teletipo e o rádio.

            Voltando para a área de recepção na frente da sala, Jenny reparou que Lisa não estava mais parada no umbral da porta, e, por um instante, seu coração ficou gelado. Depois viu a garota acocorada junto ao corpo de Paul Henderson, espiando-o atentamente.

            Lisa ergueu os olhos quando Jenny atravessou a porta na grade. Apontando para o cadáver muito inchado, a garota falou:

            — Não sabia que a pele podia esticar deste jeito sem rachar.

            A sua pose — curiosidade científica, distanciamento, indiferença estudada para com o horror da cena — era tão transparente quanto uma vidraça. Os seus olhos dardejantes a traíam. Fingindo que não estava achando aquilo desgastante, Lisa desviou o olhar do delegado e se pôs de pé.

            — Meu bem, por que não fica perto da porta?

            — Fiquei enjoada comigo mesma por ser tão covarde.

            — Ouça, mana, já lhe disse...

            — Quero dizer, acho que vai acontecer algo com a gente, algo ruim, aqui mesmo em Snowfield, hoje, a qualquer minuto, algo ruim de verdade. Mas não tenho vergonha desse medo, porque faz sentido ter medo, depois de tudo que a gente viu. Mas tive medo até mesmo do corpo do delegado, e isso foi muito infantil.

            Quando Lisa fez uma pausa, Jenny ficou calada. A jovem tinha mais coisas a dizer, e precisava botar tudo para fora.

            — Ele está morto — continuou Lisa. — Não pode me fazer mal. Não há motivo para ter medo dele. É errado ceder aos medos irracionais, li errado, é fraqueza e é burrice. Uma pessoa deve enfrentar esse tipo de medo — insistiu. — Enfrentá-lo é a única forma de vencê- lo. Certo? Então resolvi enfrentar isto.

            Inclinando a cabeça, indicou o homem morto a seus pés.

            Há uma angústia tão grande nos seus olhos, pensou Jenny.

            Não era meramente a situação em Snowfield que estava mexendo com a garota. Era a lembrança de ter encontrado a mãe morta de derrame numa tarde clara e quente de julho. De repente, por causa de tudo isso, tudo aquilo lhe estava voltando, e voltando com força.

            — Agora estou bem — dizia Lisa. — Ainda estou com medo do que possa acontecer com a gente, mas não estou com medo dele. — Lançou um olhar ao cadáver para comprovar o que dizia, depois ergueu os olhos e fitou os de Jenny. — Está vendo? Pode contar comigo agora. Não vou fraquejar mais.

            Pela primeira vez, Jenny percebeu que era um modelo para Lisa. Com os olhos, o rosto, a voz e as mãos, Lisa revelava, de inúmeras maneiras sutis, um respeito e uma admiração por Jenny que eram bem maiores do que esta imaginara. Sem recorrer a palavras, a moça estava dizendo algo que emocionava Jenny profundamente: Eu a amo, porém, ainda mais do que isso, eu gosto de você; tenho orgulho de você, acho que é fantástica, e se for paciente comigo, eu afarei orgulhosa e feliz de me ter como irmã caçula.

            A percepção de que ocupava uma posição tão elevada no panteão pessoal de Lisa foi uma surpresa para Jenny. Por causa da diferença de idades e porque Jenny estivera longe de casa quase constantemente desde que Lisa tinha dois anos, ela imaginara ser virtualmente uma estranha para a garota. Ficou a um só tempo lisonjeada e comovida com essa nova visão do relacionamento de ambas.

            — Sei que posso contar com você — assegurou à garota. — Nunca me ocorreu o contrário.

            Lisa sorriu, constrangida. Jenny abraçou-a. Por um momento, Lisa se agarrou a ela com força, e quando se afastaram, perguntou:

            — Como é... encontrou alguma pista do que aconteceu aqui?

            — Nada que faça sentido.

            — O telefone não funciona, não é?

         — Não.

            — Quer dizer que estão todos enguiçados na cidade.

            — Provavelmente.

            Foram até a porta e depois saíram para a calçada de pedras redondas. Olhando para a rua silenciosa, Lisa falou:

            — Está todo mundo morto.

            — Não se pode ter certeza.

            — Todo mundo — insistiu a mocinha, suave e desoladamente. — A cidade inteira. Todos eles. Dá para se sentir.

            — Os Santinis estavam desaparecidos, não mortos — lembrou- lhe Jenny.

            Uma lua crescente se erguera acima das montanhas enquanto ela e Lisa estavam na subdelegacia do xerife. Nos lugares cobertos pela noite que os postes de rua e as luzes das lojas não alcançavam, a luz prateada da lua delineava os contornos das formas obscurecidas. O luar, porém, nada revelava. Ao contrário, caía como um véu, agarrando- se mais a alguns objetos do que a outros, oferecendo apenas vagos indícios de suas formas, e, como todos os véus, dando um jeito de tornar todas as coisas debaixo de si ainda mais misteriosas e obscuras do que teriam sido em total escuridão.

            — Um cemitério — falou Lisa. — A cidade inteira é um cemitério, Não podemos pegar o carro e ir buscar ajuda?

            — Sabe que não. Se foi uma moléstia que...

            — Não foi moléstia.

            — Não podemos ter certeza absoluta.

            — Eu tenho. Tenho certeza. Além disso, você falou que também quase a havia eliminado.

            — Mas enquanto houver a mais leve chance, embora remota, temos que nos considerar em quarentena.

            Lisa pareceu notar a arma pela primeira vez.

            — Isso era do delegado?

            — Era.

            — Está carregada?

            — Ele disparou três vezes, restando, portanto, três balas no cilindro.

            — Disparou contra o quê?

            — Quem me dera saber.

            — Você vai ficar com ela? — perguntou Lisa, tremendo. Jenny fitou o revólver na sua mão direita e assentiu.

            — Acho que talvez eu deva.

            — É. Mas, pensando bem... não adiantou para salvá-lo, não é?

 

            Elas seguiram pela Skyline Road, movendo-se alternadamente por sombras, luz amarelada dos postes de rua, escuridão e luar fosfórico. Árvores regularmente espaçadas cresciam em jardineiras junto ao meio-fio, à esquerda. À direita, passaram por uma loja de presentes, um pequeno café e a loja de artigos de esqui dos Santinis. Em cada um dos estabelecimentos, fizeram uma pausa para espiar pelas janelas e vitrines, buscando sinais de vida, sem nada encontrar.

            Também passaram por residências que davam diretamente para a calçada. Jenny subiu os degraus de cada uma das casas e tocou a campainha da frente. Ninguém veio atender, nem mesmo naquelas casas em que havia luzes acesas no interior. Ela chegou a pensar em experimentar para ver se algumas daquelas portas estavam destrancadas e depois entrar. Mas não o fez, porque desconfiava, a exemplo de Lisa, que os ocupantes (se é que haveria algum) estariam nas mesmas condições grotescas de Hilda Beck e Paul Henderson. Ela precisava localizar pessoas vivas, sobreviventes, testemunhas. Não podia saber de mais nada por meio de cadáveres.

            — Existe alguma usina nuclear aqui por perto? — perguntou Lisa.

            — Não. Por quê?

            — Alguma grande base militar?

            — Não.

            — É que pensei... quem sabe, radiação.

            — Radiação não mata assim tão de repente.

            — Uma explosão bem forte de radiação?

            — Não deixaria as vítimas com essa aparência.

            — Não?

            — Haveria queimaduras, bolhas, lesões.

            Chegaram ao Salão de Beleza Linda Dama, onde Jenny sempre cortava o cabelo. A loja estava deserta, como era normal num domingo comum. Jenny ficou imaginando o que teria acontecido com Madge e Dani, as esteticistas proprietárias do salão. Gostava delas. Torcia para que tivessem passado o dia fora da cidade, visitando os namorados em Mount Larson.

            — Veneno? — indagou Lisa, ao se afastarem do salão de beleza.

            — Como é que a cidade toda poderia ser envenenada simultaneamente?

            — Algum tipo de comida estragada.

            — É, talvez todos estivessem num mesmo piquenique, comendo a mesma salada de batata estragada ou porco contaminado, ou qualquer coisa no gênero. Mas não estavam. Só existe um piquenique comunitário aqui, no Quatro de Julho.

            — Água envenenada?

            — Só se todos resolvessem beber água exatamente no mesmo momento, para que não houvesse tempo de avisar uns aos outros.

            — O que é praticamente impossível.

            — Além disso, isso não se parece com nenhum tipo de reação a veneno de que eu tenha conhecimento,

            A padaria dos Liebermanns. Lira um prédio limpo e branco com toldo de listras azuis e brancas. Durante a temporada de esqui, os turistas faziam fila até o meio do quarteirão, o dia todo, sete dias por semana, só para comprar as grandes roscas de canela, os bolinhos pegajosos, os biscoitos com pedacinhos de chocolate, os bolos de amêndoas recheados com chocolate mole e outras guloseimas que Jakob e Aida Liebermann produziam com tremendo orgulho e raro talento artístico. Os Liebermanns gostavam tanto do seu trabalho que até optaram por morar perto dele, num apartamento por cima da padaria (não havia luz visível ali no momento), e embora não houvesse tanto lucro nas atividades de abril a outubro quanto havia no resto do ano, ainda assim eles permaneciam abertos de segunda a sábado, na baixa temporada. As pessoas vinham de todas as cidades montanhesas próximas — Mount Larson, Shady Roost e Pineville — para comprar sacos e caixas cheios das gulodices dos Liebermanns.

            Jenny se aproximou da grande vitrine e Lisa encostou a testa no vidro. Na parte de trás do prédio, lá onde ficavam os fornos, a luz jorrava vivamente por uma porta aberta, inundando uma ponta do salão de vendas e iluminando indiretamente o resto do lugar. À esquerda ficavam pequenas mesas de café, cada uma delas com um par de cadeiras. Os mostruários de esmalte branco e frente de vidro estavam vazios.

            Jenny rezou para que Jakob e Aida tivessem escapado do destino que parecia ter sido reservado ao restante de Snowfield. Eles eram duas das pessoas mais meigas e bondosas que ela já conhecera. Gente como os Liebermanns fazia de Snowfield um bom lugar para se viver, um refúgio cio mundo rude onde a violência e a maldade eram desconcertantemente comuns.

         Afastando-se da vitrine da padaria, Lisa falou:

            — E quanto a resíduos tóxicos? Um vazamento químico. Algo que tivesse levantado uma nuvem de gás mortífero.

            — Aqui não — explicou Jenny. — Aqui não existe nenhum vazadouro de resíduos químicos. Nem fábricas. Nada no gênero.

            — Às vezes isso acontece quando um trem descarrila e um vagão cheio de substâncias químicas se arrebenta.

            — A ferrovia mais próxima fica a 32 quilômetros.

            O cenho franzido, pensando, Lisa começou a se afastar da padaria.

            — Espere, quero dar uma olhada aqui dentro — falou Jenny, aproximando-se da porta da frente da loja.

            — Por quê? Não tem ninguém aí.

            — Não podemos ter certeza. — Forçou a maçaneta da porta, mas não conseguiu abri-la. — As luzes estão acesas nos fundos, na cozinha. Eles podem estar lá, preparando as coisas para assar amanhã, sem saber o que aconteceu no resto da cidade. Esta porta está trancada. Vamos dar a volta pelo outro lado.

            Por trás de um portão sólido de madeira, um corredor de serviço estreito e coberto atendia tanto à padaria dos Liebermanns quanto ao Salão de Beleza Linda Dama. O portão se fechava com um trinco de correr, que logo cedeu aos dedos trêmulos de Jenny. Abriu-se com um guincho e um ranger das dobradiças sem óleo. O túnel entre os dois prédios era assustadoramente escuro; a única luz ficava na extremidade oposta, uma mancha cinzenta e apagada em forma de arco, onde o corredor terminava num beco.

            — Não estou gostando disso — falou Lisa.

            — Tudo bem, querida. Venha atrás de mim e fique bem juntinho. Se ficar desorientada, vá passando a mão pela parede.

            Embora Jenny não quisesse contribuir para o medo da irmã, revelando as suas próprias dúvidas, o corredor às escuras também a deixava nervosa. A cada passo, a passagem parecia ficar mais estreita, espremendo-as.

            Quando já estavam a cerca de um quarto do caminho, dentro do túnel, Jenny sentiu-se tomada da estranha sensação de que ela e Lisa não estavam sozinhas. Dali a um instante, percebeu algo que se movia no espaço mais escuro, sob o telhado, a uns três metros da sua cabeça. Não soube dizer exatamente como o percebeu. Não ouvia nada que não fosse o eco de seus passos e dos de Lisa; também não enxergava grande coisa. Só que, de repente, pressentiu uma presença hostil, e ao fitar atentamente o teto escuro como breu do corredor, teve certeza de que a escuridão estava... mudando.

            Mexendo-se. Movendo-se. Movendo-se lá em cima nos caibros do telhado.

            Disse a si mesma que estava imaginando coisas, mas quando chegou à metade do túnel os seus instintos animais estavam berrando para que fugisse dali, para que corresse. Os médicos não deviam entrar em pânico; a serenidade fazia parte do treinamento. Apertou o passo um pouco, mas só um pouquinho, não muito, não em pânico. Depois de alguns passos, andou ainda mais depressa, e mais, até que se pegou correndo, mesmo a contragosto.

            Irrompeu beco adentro. Estava sombrio aqui, mas não tão escuro quanto no túnel.

            Lisa saiu da passagem correndo, aos tropeções, escorregou num trecho de asfalto molhado e quase caiu.

            Jenny agarrou-a e impediu-a de ir ao chão.

            Elas foram andando de costas, espiando a saída do corredor coberto e sem luz. Jenny ergueu o revólver que trouxera da subdelegacia.

            — Você sentiu? — indagou Lisa, sem fôlego.

            — Qualquer coisa debaixo do telhado. Provavelmente pássaros, ou quem sabe, na pior das hipóteses, vários morcegos.

            Lisa sacudiu a cabeça.

            — Não, não. Debaixo do telhado, não. Estava agachado contra a parede.

            Continuaram fitando a boca do túnel.

            — Eu vi alguma coisa nos caibros do telhado — falou Jenny.

            — Não - insistiu a jovem, sacudindo vigorosamente a cabeça.

            — O que foi que você viu então?

            — Estava contra a parede. À esquerda. Mais ou menos na metade do túnel. Quase tropecei nele.

            — O que era?

            — Eu... não sei exatamente. Não pude ver direito.

            — Escutou alguma coisa?

            — Não — falou Lisa, os olhos grudados no corredor.

         — Sentiu algum cheiro?

            — Não. Mas a escuridão era... bem, houve um lugar em que a escuridão ficou... diferente. Pude sentir alguma coisa se movendo... sei lá... se mexendo...

            — Foi isso que eu pensei que vi... mas lá em cima nos caibros do telhado.

            Elas esperaram. Nada saiu do corredor.

            Aos poucos, os batimentos do coração de Jenny baixaram de um galope desenfreado para um trote rápido. Ela baixou o revólver.

            A respiração delas ficou calma. O silêncio noturno voltou a se derramar como óleo grosso.

            As dúvidas vieram à tona. Jenny começou a desconfiar de que ela e Lisa simplesmente haviam sucumbido à histeria. Não gostava nem um pouquinho dessa explicação, pois não combinava com a imagem que fazia de si própria. Mas era suficientemente honesta consigo mesma para enfrentar o fato desagradável de que, pelo menos desta vez, entrara em pânico.

            — Estamos apenas nervosas — falou para Lisa. — Se houvesse alguma coisa ou alguém perigoso aí dentro, já teria vindo atrás de nós a essa altura... não acha?

            — Talvez.

            — Ei, sabe o que pode ter sido?

            — O quê? — quis saber Lisa.

            O vento frio soprou de novo e sussurrou baixinho no beco.

            — Gatos — falou Jenny. — Alguns gatos. Eles gostam de ficar nesses corredores cobertos.

            — Não acho que fossem gatos.

            — Podia ser. Uns dois gatos lá em cima nos caibros. E um ou dois aqui no chão, junto da parede, onde você viu alguma coisa.

            — Parecia maior do que um gato. Parecia bem maior do que um gato — falou Lisa, nervosamente.

            — Está certo, então não eram gatos. O mais provável é que não fosse nada. Estamos muito excitadas. Nossos nervos estão à flor da pele. — Soltou um suspiro. — Vamos ver se a porta dos fundos da padaria está aberta. Foi isso que viemos aqui verificar — está lembrada?

            Elas se dirigiam para os fundos da padaria dos Liebermanns, mas olhando repetidamente para trás, para a boca da passagem coberta.

            A porta de serviço da padaria estava destrancada, e havia luz e calor por detrás dela. Jenny e Lisa entraram num depósito comprido e estreito.

            A porta interna levava do depósito até a imensa cozinha, que tinha uni cheiro gostoso de canela, farinha, nogueira-preta e extrato de laranja. Jenny inspirou profundamente. As fragrâncias apetitosas que inundavam a cozinha eram tão caseiras, tão naturais, tão pungentes e tranquilizadoramente reminiscentes de épocas normais e lugares normais, que ela sentiu um pouco da sua tensão se esvair.

            A padaria era bem equipada com pias duplas, um enorme frigorífico, diversos fornos, vários armários imensos de esmalte branco para armazenagem, uma máquina de amassar farinha, e mais uma grande variedade de outros utensílios. O meio do aposento era ocupado por um balcão comprido e largo, a principal área de trabalho; uma das pontas do balcão tinha um tampo de aço inoxidável brilhante, e a outra uma superfície de cepo de açougueiro. A parte de aço inoxidável, que ficava mais perto da porta do depósito, pela qual Jenny e Lisa tinham entrado, estava cheia de panelas, fôrmas de bolo, fôrmas de abrir, tabuleiros, tudo empilhado, limpo e brilhando. A cozinha inteira brilhava.

            — Não tem ninguém aqui — falou Lisa.

            — É o que parece — falou Jenny, ficando mais animada ao se adiantar mais para dentro da cozinha.

            Se a família Santini tinha escapado, e se Jakob e Aida tinham sido poupados, então quem sabe a maioria da cidade não estava morta. Quem sabe...

            Oh, Deus.

            Do outro lado dos utensílios empilhados, no meio do cepo de açougueiro, estava um grande disco de massa de torta. Um rolo de macarrão de madeira apoiava-se na massa. Duas mãos agarravam as pontas do rolo de macarrão. Duas mãos humanas cortadas.

            Lisa se encostou a um armário de metal com tanta força que as coisas que estavam dentro chacoalharam ruidosamente.

            — Que diabo está acontecendo? Que diabo!

            Atraída por uma fascinação mórbida e pela necessidade urgente de compreender o que estava acontecendo ali, Jenny se aproximou mais do balcão e fitou as mãos sem corpo, encarando-as com igual medida de repulsa e descrença — e com um medo afiado como lâminas. As mãos não estavam machucadas nem inchadas; tinham a cor de carne normal, embora muito pálidas. O sangue — o primeiro sangue que via até então — escorrera dos pulsos cortados irregularmente e brilhava em gotas e borrões, em meio a uma nuvem fina de farinha. As mãos eram fortes; ou mais precisamente — tinham sido fortes. Dedos rombudos. Nós dos dedos grandes. Indubitavelmente mãos de homem, com pêlos brancos e crespos nas costas. As mãos de Jakob Liebermann.

            — Jenny!

            Jenny ergueu os olhos, espantada.

            O braço de Lisa estava erguido, estendido; apontava para o outro lado da cozinha.

            Por trás do balcão de cepo de açougueiro, instalados na comprida parede do lado oposto da cozinha, ficavam três fornos. Um deles era imenso, com um par de portas sólidas de aço inoxidável. Os outros dois fornos eram menores do que o primeiro, embora ainda maiores do que os modelos convencionais usados na maioria dos lares; havia uma porta em cada um deles, e cada uma delas tinha uma parte de vidro no centro. Nenhum dos fornos estava ligado no momento, o que era uma felicidade, pois se os menores estivessem funcionando, a cozinha teria estado tomada de um fedor nauseante.

            Cada um deles continha uma cabeça cortada.

            Jesus.

            Rostos mortos e pavorosos olhavam sem ver para dentro da cozinha, os narizes apertados de encontro ao vidro do forno.

            Jakob Liebermann. O cabelo branco manchado de sangue. Um dos olhos pluvialmente fechado, o outro olhando fixo. Os lábios apertados numa careta de dor.

            Ainda Liermann. Os dois olhos abertos. A boca escancarada como se maxilares se tivessem deslocado.

            Por um momento, Jenny não conseguiu acreditar que as cabeças fossem reais. Era demais, chocante demais. Pensou em máscaras do Dia das Bruxas, dispendiosas e naturais, espiando através das janelas de celofane nas caixas de fantasia, e pensou nas novidades pavorosas vendidas nas lojas de artigos de mágicas e brincadeiras — aquelas cabeças de cera com cabelo de náilon e olhos de vidros, aquelas coisas assustadoras que os meninos às vezes achavam divertidíssimas (e sem dúvida era isso o que estas eram) —, e, absurdamente, pensou numa fala de um comercial de misturas de bolo para a TV: Nada é tão carinhoso quanto o que sai de um forno!

            O coração dela batia com força.

            Estava febril, tonta.

            No balcão de cepo de açougueiro, as mãos ainda estavam segurando o rolo de macarrão. Jenny quase esperava que elas saíssem andando de repente sobre o balcão, como se fossem dois caranguejos.

            Onde estavam os corpos decapitados dos Liebermanns? Enfiados no grande forno, por trás das portas de aço sem janelas? Rígidos e congelados no imenso frigorífico?

            A bile subiu à sua garganta, mas ela a sufocou.

            O revólver 45 agora parecia uma defesa ineficaz contra este inimigo desconhecido e terrivelmente violento.

            Outra vez, Jenny teve a sensação de estar sendo observada, e a batida de seu coração não era mais um tambor de parada, mas sim tímpanos.

            Ela se voltou para Lisa.

            — Vamos dar o fora daqui. — A garota se dirigiu para a porta do depósito. — Por aí não! — exclamou Jenny vivamente. Lisa se virou, pestanejando, confusa. — O beco não — falou Jenny. — E aquele corredor escuro de novo, não.

            — Santo Deus, não — concordou Lisa.

            Atravessaram rapidamente a cozinha e a outra porta, e entraram no salão de vendas da padaria. Passaram pelos mostruários vazios, pelas mesinhas de café e as cadeiras.

            Jenny teve problemas com a tranca da porta da frente. Estava emperrada. Ela pensou que teriam que sair pelo beco, afinal de contas. E então se deu conta de que estava tentando girar o trinco ao contrário. Girando-o na direção certa, a tranca correu com um claque e Jenny escancarou a porta.

            Saíram para o ar fresco da noite.

            Lisa atravessou a calçada até um pinheiro alto. Parecia ter necessidade ele se encostar em alguma coisa.

            Jenny foi se juntar à irmã, lançando um olhar apreensivo à padaria. Não ficaria surpresa de ver os dois corpos decapitados vindo em sua direção com intenções demoníacas. Mas nada se movia na região da padaria, exceto a beira recortada do toldo listrado de azul e branco que ondulava à brisa inconstante.

            A noite permanecia silenciosa.

            A lua estava um tanto mais alta no céu, desde a hora em que Jenny e Lisa tinham entrado na passagem coberta.

            Dali a um pouco, a garota falou:

            — Radiação, moléstia, veneno, gás tóxico — puxa vida, estávamos completamente enganadas. Somente outras pessoas, pessoas doentes, fazem esse tipo de barbaridade. Certo? Algum psicopata tarado fez tudo isso.

            Jenny sacudiu a cabeça.

            — Um homem sozinho não podia ter feito tudo isso. Para dominar uma cidade de quase quinhentas pessoas, teria sido preciso um exército de assassinos psicopatas.

            — Então foi isso o que aconteceu — disse Lisa, toda trêmula.

            Jenny correu os olhos nervosamente pela rua deserta. Parecia imprudente, até mesmo inconseqüente, estar parada ali, à vista de tudo e todos, mas ela não conseguia pensar em outro lugar que fosse mais seguro.

            — Os psicopatas não entram para clubes nem planejam assassinatos em massa como se fossem rotarianos planejando um baile de caridade. Quase sempre agem sozinhos.

            Dardejando olhares de sombra em sombra, como se esperasse que uma delas tivesse substância e intenções malévolas, Lisa falou:

            — E quanto ao grupo de Charles Manson, nos anos 60, aquelas pessoas que mataram aquela artista de cinema — como era o nome dela?

            — Sharon Tate.

            — É. Não podia ser um grupo de pirados como eles?

            — No máximo, havia meia dúzia de pessoas no núcleo da família Manson, e aquele foi um desvio muito raro do padrão do lobo solitário. De qualquer modo, meia dúzia não poderia fazer isso com Snowfield. Teriam que ser cinqüenta, cem, quem sabe mais. Um número tão grande de psicopatas não poderia agir junto. — Ficaram ambas caladas por algum tempo. Depois, Jenny falou: — Tem outra coisa que não faz sentido. Por que não havia mais sangue na cozinha?

            — Havia um pouco.

            — Praticamente nenhum. Umas poucas manchas no balcão. Devia haver sangue por toda parte.

            Lisa esfregou os braços vivamente, para cima e para baixo, tentando gerar um pouco de calor. O seu rosto era como cera à luz amarelada do poste de rua mais próximo. Parecia ter bem mais do que quatorze anos. O terror a amadurecera.

            A mocinha falou:

            — Também não havia sinais de luta. Jenny franziu o cenho.

            — É mesmo, não havia.

            — Reparei logo nisso — falou Lisa. — Parecia tão esquisito. Parece que eles não ofereceram nenhuma resistência. Nada arremessado. Nada quebrado. O rolo de macarrão teria dado uma boa arma, não é? Mus de não o usou. Também não havia nada derrubado.

            — É como se eles não houvessem resistido, como se... tivessem posto o pescoço na guilhotina de bom grado.

            — Mas por que fariam uma coisa dessas? Por que fariam uma coisa dessas?

            Jenny ficou olhando para a Skyline Road na direção da sua casa, que ficava a menos de três quadras de distância, depois desviou o olhar para a Taverna Ye Olde Towne, a Loja de Variedades Big Nickle, a Sorveteria Patterson, a Pizzaria Mario.

            Há silêncios e silêncios. Um nunca é igual ao outro. Há o silêncio da morte, encontrado em túmulos e cemitérios desertos, na geladeira do necrotério de uma cidade e, em certas ocasiões, em quartos de hospital; é um silêncio sem mácula, não simplesmente uma quietude, mas um vácuo. Como médica que já tivera o seu quinhão de pacientes com moléstias terminais, Jenny conhecia bem esse silêncio sombrio e especial.

            Era isso. Era o silêncio da morte.

            Ela não quisera admiti-lo. Fora por isso que ainda não gritara um "Alô" nas ruas funéreas. Tivera medo de que ninguém respondesse.

            Agora não gritava porque tinha medo de que alguém respondesse. Alguém ou alguma coisa. Alguém ou alguma coisa perigosa.

            Finalmente, não tinha outra escolha senão aceitar os fatos. Snowfield estava indisputavelmente morta. Não era mais uma cidade: era um cemitério, uma coleção primorosa de túmulos de pedra- madeira-tijolo-telha-empena-sacada, um campo-santo construído à moda de uma pitoresca aldeia alpina.

            O vento recomeçou a soprar, assobiando debaixo dos beirais dos prédios. Soava como a eternidade.

 

            As autoridades do condado, com sede em Santa Mira, ainda não tinham tomado ciência da crise de Snowfield. Tinham seus próprios problemas. O tenente Talbert Whitman entrou na sala de interrogatórios justo na hora em que o xerife Bryce Hammond ligava o gravador e começava a informar o suspeito de seus direitos constitucionais. Tal fechou a porta sem fazer ruído. Sem querer interromper, agora que o interrogatório estava começando, ele não se sentou à mesa em que os três outros homens se achavam sentados. Em vez disso, dirigiu-se à grande janela, a única janela, no aposento oblongo.

            O departamento policial do Condado de Santa Mira ocupava uma estrutura em estilo espanhol que fora erigida no final da década de 30. As portas eram sólidas e tinham um som sólido quando eram fechadas, e as paredes eram grossas o bastante para acomodar peitoris de janela de 45cm de profundidade, como aquele em que Tal Whitman se instalara.

            Do outro lado da janela ficava Santa Mira, a sede do condado, com uma população de 18 mil almas. Pela manhã, quando o sol finalmente chegava ao alto das Sierras e acabava com as sombras das montanhas, Tal às vezes se pegava olhando, espantado e encantado, para os contra-fortes suaves e arborizados onde se erguia Santa Mira, pois ela era uma cidade excepcionalmente limpa e jeitosa que lançara suas raízes de concreto e ferro com um certo respeito pelas belezas naturais em que crescera. Agora, a noite já se instalara. Milhares de luzes brilhavam nas colinas suaves abaixo das montanhas, e parecia que as estrelas tinham caido aqui.

            Para um filho do Harlem, negro como uma sombra nítida de inverno, nascido na pobreza e na ignorância, Tal Whitman linha acabado, aos trinta anos, num lugar bem inesperado. Inesperado, mas maravilhoso.

            Do lado de cá da janela, todavia, a cena não era assim tão especial. A sala de interrogatórios se parecia com inúmeras outras em delegacias de polícia por todo o país. Um piso barato de linóleo. Arquivos muito castigados. Uma mesa redonda de reunião e cimo cadeiras. Paredes verdes. Lâmpadas fluorescentes nuas.

            Na mesa de reuniões no centro da sala, o ocupante atual da cadeira de suspeitos era um corretor imobiliário de 26 anos, alto e bem- apessoado, chamado Fletcher Kale. Ele estava ficando num estado impressionante de indignação justificada.

            — Escute, xerife — dizia Kale —, vamos acabar logo com essa merda? O senhor não precisa ler para mim os meus direitos outra vez, pelo amor de Deus. Já não passamos por tudo isso unia dúzias de vezes, nos três últimos dias?

            Bob Robine, o advogado de Kale, bateu rapidamente no braço do cliente para fazer com que ele ficasse quieto. Robine era gorducho, de rosto redondo, com um sorriso doce mas com os olhos duros de um segurança de cassino.

            — Fletch — disse Robine —, o xerife Hammond sabe que deteve você sob suspeita o máximo de tempo que a lei permite, e sabe que eu sei disso também. Então, tudo que ele vai fazer é resolver isso de um jeito ou de outro dentro da próxima hora.

            Kale pestanejou, assentiu e mudou de tática. Desabou na cadeira como se um grande fardo de dor repousasse sobre seus ombros. Quando falou, havia um leve tremor na sua voz.

            — Desculpe se perdi a cabeça por um minuto, xerife. Não devia ter estourado com o senhor daquele jeito. Mas é tão duro para mim... tão duro. — O rosto dele pareceu afundar, e o tremor na sua voz ficou ainda mais pronunciado. — Quero dizer, pelo amor de Deus, perdi a minha família. Minha mulher... meu filho... os dois mortos. Bryce Hammond falou:

            — Sinto muito que o senhor ache que eu o tratei injustamente, Sr. Kale. Apenas tento fazer o que acho ser melhor. Às vezes estou certo. Quem sabe esteja errado desta vez.

            Aparentemente decidindo que não estava assim tão encrencado, afinal de contas, e que podia se dar ao luxo de ser magnânimo agora, Fletcher Kale enxugou as lágrimas do rosto, sentou-se mais ereto na cadeira e falou:

            — Bem... é, bem... acho que dá para eu entender a sua posição, xerife.

            Kale estava subestimando Bryce Hammond.

            Bob Robine conhecia o xerife melhor do que o seu cliente. Franziu o cenho, lançou um olhar para Tal, depois fitou Bryce insistentemente.

            Pela experiência de Tal, a maioria das pessoas que lidava com o xerife subestimava-o, assim como Fletcher Kale o fizera. Era fácil fazê- lo. Bryce não parecia impressionante. Tinha 39 anos, mas aparentava bem menos. O cabelo avermelhado e espesso lhe caía por sobre a testa, dando-lhe um ar juvenil e desarrumado. Tinha o nariz achatado, com um punhado de sardas espalhadas por ele e por ambas as faces. Os olhos azuis eram claros e vivos, embora cobertos por pálpebras pesadas que davam a impressão de que ele estava entediado, sonolento, ou mesmo que era meio lerdo de raciocínio. A sua voz também enganava. Era suave, melódica, gentil. Além do mais, ele falava lentamente às vezes, e sempre com deliberação calculada, e algumas pessoas achavam que falava daquele jeito porque tinha dificuldade em formular os pensamentos. Nada podia estar mais longe da verdade. Bryce Hammond tinha consciência perfeita de como os outros o viam e, quando podia tirar vantagem disso, reforçava essas opiniões errôneas com um modo de ser insinuante, com um sorriso quase boçal e com uma fala ainda mais arrastada que faziam com que parecesse o clássico tira do interior.

            Apenas uma coisa impedia Tal de apreciar plenamente esse confronto: ele sabia que a investigação Kale afetara Bryce Hammond num nível profundo e pessoal. Bryce estava magoado, arrasado com as mortes sem sentido de Joanna e Danny Kale, porque, de uma forma curiosa, este caso fazia eco aos acontecimentos ocorridos na sua própria vida. Assim como Fletcher Kale, o xerife perdera mulher e filho, embora as circunstâncias de sua perda fossem consideravelmente distintas das de Kale.

            Um ano atrás, Ellen Hammond tivera morte instantânea num desastre de carro. Timmy, de sete anos, sentado no banco da frente ao lado da mãe, sofrera sérios ferimentos na cabeça e estava em coma há doze meses. Os médicos não davam a Timmy muita chance de recobrar a consciência.

            Bryce quase fora destruído pela tragédia. Apenas recentemente é que Tal Whitman começara a sentir que o amigo estava se afastando do abismo do desespero.

            O caso Kale reabrira as feridas de Bryce Hammond, mas ele não permitira que a dor lhe embotasse os sentidos; ele não fizera com que ele se descuidasse de coisa alguma. Tal Whitman sabia qual o momento preciso, na quinta à noite, em que Bryce começara a suspeitar de que Fletcher Kale era culpado de dois assassinatos premeditados, pois subitamente algo frio e implacável surgira nos olhos encobertos do xerife.

            Agora, enquanto rabiscava num bloquinho amarelo como se estivesse apenas parcialmente interessado no interrogatório, o xerife falou:

            — Sr. Kale, em vez de fazer uma série de perguntas às quais o senhor já respondeu uma dúzia de vezes, por que não faço um resumo daquilo que o senhor nos contou? Se o meu resumo parecer correto para o senhor, então poderemos prosseguir com esses itens sobre os quais gostaria que me esclarecesse.

            — Claro. Vamos terminar logo com isso e sair daqui — disse Kale.

            — Tudo bem então — falou Bryce. — Sr. Kale, segundo o seu testemunho, sua esposa, Joanna, sentia-se aprisionada no casamento e na maternidade, achava que era jovem demais para ter tanta responsabilidade. Achava que tinha cometido um grande erro e que iria ter que pagar por ele o resto da vida. Queria curtir um pouco, queria fugir, então se voltou para as drogas. O senhor diria que foi assim que nos descreveu o estado de espírito dela.

            — Foi — concordou Kale. — Exatamente.

            — Ótimo — falou Bryce. — Então ela começou a fumar maconha. Não demorou muito para ela viver drogada quase o tempo todo. Durante dois anos e meio o senhor viveu com uma viciada, o tempo todo esperando poder modificá-la. Então, h;i uma semana, ela pirou de vez, quebrou um bocado de pratos e jogou comida pela cozinha, e o senhor teve uma trabalheira para conseguir acalmá-la. Foi então que descobriu que ela começara a usar recentemente o PCP — que ó chamado de "pó de anjo" nas ruas. O senhor ficou chocado. Sabia que algumas pessoas ficam maniacamente violentas quando estão sob a influência do PCP; então fez com que ela lhe mostrasse onde guardava o seu suprimento e o destruiu. Depois, disse a ela que se voltasse a usar drogas perto de Danny novamente, o senhor lhe daria uma surra que poderia matá-la.

            Kale pigarreou.

            — Mas ela ficou rindo de mim. Disse que eu não era espancador de mulheres e que não devia fingir que era um machão. E mais: "Porra, Fletch, seu eu te desse um chute no saco, você me agradeceria por estar animando o seu dia."

            — E foi aí que o senhor se descontrolou e começou a chorar? — perguntou Bryce.

         Kale respondeu:

            — Bem.., é que eu me dei conta de que não tinha nenhuma influência sobre ela.

            Sentado no peitoril da janela, Tal viu o rosto de Kale se retorcer de dor... ou de uma imitação razoável de dor. O filho da mãe era bom.

            — E quando o viu chorar — disse Bryce —, ela caiu em si.

            — Certo. Acho que... aquilo mexeu com ela... um homenzarrão como eu chorando feito um bebê. Ela também chorou e prometeu não tomar mais PCP. Conversamos sobre o passado, sobre o que tínhamos esperado do casamento, dissemos um bocado de coisas que talvez devêssemos ter dito antes e nos sentimos mais próximos do que nos últimos dois anos. Pelo menos eu me senti assim. Pensei que ela também. Ela jurou que começaria a diminuir o consumo de maconha.

            Ainda rabiscando, Bryce falou:

            — Então, na quinta-feira passada, o senhor chegou cedo do trabalho e encontrou o seu filho, Danny, morto no quarto de casal. Escutou um barulho às suas costas. Era Joanna, segurando um cutelo de açougueiro, o mesmo que usara para matar Danny.

            — Ela estava drogada — disse Kale. — PCP. Pude perceber logo. Aquela loucura nos olhos dela, o ar animalesco.

            — Ela berrou um bocado de baboseiras sobre cobras que moravam dentro da cabeça das pessoas, sobre as pessoas sendo controladas por cobras perversas. O senhor foi se afastando dela, e ela veio atrás. O senhor não tentou tirar o cutelo de suas mãos...

            — Imaginei que seria morto. Tentei argumentar com ela.

            — Então o senhor continuou se afastando em círculos até chegar à mesinha-de-cabeceira onde guardava um 38 automático.

            — Eu avisei a ela que largasse o cutelo. Eu avisei.

            — Em vez disso, ela correu para cima do senhor com o cutelo levantado. Então o senhor atirou nela. Uma vez. No peito.

            Kale agora estava inclinado para a frente, com o rosto nas mãos. O xerife largou a caneta. Pousou as mãos sobre o estômago, com os dedos entrelaçados.

            — Agora, sr. Kale, espero que o senhor possa ter mais um pouquinho de paciência comigo. Só mais umas perguntinhas e depois todos poderemos sair daqui e continuar vivendo as nossas vidas.

            Kale tirou as mãos do rosto. Estava claro para Tal Whitman que Kale achava que "continuar vivendo as nossas vidas" queria dizer que ele seria finalmente libertado.

            — Estou bem, xerife. Pode prosseguir. Bob Robine não disse uma palavra.

            Esparramado na cadeira, parecendo frouxo e sem ossos, Bryce Hammond disse:

            — Enquanto o estivemos detendo sob suspeita, sr. Kale, surgiram algumas perguntas para as quais precisamos de respostas, a fim de podermos ficar tranqüilos com relação a essa coisa terrível. Bem, algumas dessas perguntas podem parecer muito corriqueiras para o senhor, muito indignas de gastarmos o meu ou o seu tempo com elas. São pequenas coisas, lenho que admitir. O motivo pelo qual estou continuando a incomodá-lo... bem, é porque quero ser reeleito no ano que vem, sr. Kale. Se os meus oponentes me pegarem em qualquer falha técnica, em qualquer coisinha, por menor que seja, vão fazer de tudo para transformar a coisa num escândalo. Vão dizer que sou preguiçoso, que não sou mais o mesmo, ou algo parecido.

            Bryce abriu um sorriso para Kale — um largo sorriso. Tal nem podia acreditar.

            — Compreendo, xerife — falou Kale.

            Do seu assento no vão da janela, Talbert Whitman se retesou e se inclinou para diante.

            E Bryce Hammond falou:

            — Bem, a primeira coisa é... eu estava me perguntando por que motivo o senhor atirou na sua mulher e depois lavou um bocado de roupa antes de nos ligar para comunicar o que acontecera.

 

            Mãos cortadas. Cabeças cortadas.

            Jenny não conseguia tirar do pensamento aquelas imagens horrendas enquanto andava rapidamente pela calçada, junto com Lisa.

            A dois quarteirões para leste da Skyline Road, na Vail Lane, a noite era tão quieta e discretamente ameaçadora quanto no restante de Snowfield. As árvores aqui eram maiores do que aquelas na rua principal; bloqueavam a maior parte do luar. As luzes das mas também eram mais espaçadas, e as pequenas poças de luz âmbar eram separadas por lagos agourentos de escuridão.

            Jenny cruzou dois mourões e pisou num caminho de tijolos que levava a um chalé estilo inglês de um só pavimento que ocupava um terreno bem fundo. Uma luz suave se irradiava pelas janelas de vidro de chumbo com as vidraças em forma de losango.

            Tom e Karen Oxley moravam no chalé enganadoramente pequeno. Na verdade, ele tinha sete cômodos e dois banheiros. Tom era o contador da maioria de pousadas e motéis da cidade. Karen dirigia um encantador café francês na alta temporada. Os dois eram radioamadores e tinham um aparelho de ondas curtas, e fora por esse motivo que Jenny viera até aqui.

            — Se alguém sabotou o rádio do gabinete do xerife — falou Lisa —, o que a faz pensar que também não sabotaram este?

            — Talvez não soubessem da existência dele. Vale a pena dar uma olhada.

            Ela tocou a campainha, e quando não houve resposta, experimentou abrir a porta. Estava trancada.

            Dirigiram-se aos fundos da propriedade, onde uma luz tom de conhaque se filtrava pelas janelas. Jenny olhou, desconfiada, para o gramado dos fundos, que estava envolto nas sombras das árvores. Os passos delas ecoavam com som cavo no piso de madeira da varanda dos fundos. Ela tentou abrir a porta da cozinha e encontrou-a trancada também.

            Na janela mais próxima, as cortinas estavam abertas. Jenny olhou para dentro e viu apenas uma cozinha comum: balcões verdes, paredes de cor creme, armários de carvalho, utensílios que brilhavam, nenhum sinal de violência.

            Outras janelas davam para a varanda, e uma delas, Jenny sabia, era de um gabinete de leitura. As luzes estavam acesas, mas as cortinas se achavam cerradas, Jenny bateu no vidro, mas ninguém respondeu. Tentou abrir a janela, viu que estava trancada. Agarrando o revólver pelo cano, ela estilhaçou a vidraça mais próxima do batente central. O ruído do vidro que se partia foi alto e dissonante. Embora isso fosse uma emergência, ela se sentia como uma ladra. Meteu a mão pela vidraça quebrada, soltou o trinco, abriu as duas metades da janela e subiu pelo peitoril para dentro da casa. Atrapalhou-se um pouco com as cortinas, depois descerrou-as para Lisa poder entrar com mais facilidade.

            Havia dois corpos no pequeno gabinete de leitura. Tom e Karen Oxley.

            Karen estava deitada no chão, de lado, as pernas puxadas para junto da barriga, os ombros curvados para diante, os braços cruzados sobre os seios — uma posição fetal. Estava pisada e inchada. Tinha os olhos arregalados de terror. A boca estava escancarada, congelada para sempre num grito.

            — Os rostos deles são o pior — falou Lisa.

            — Não consigo entender por que os músculos faciais não se relaxaram com a morte. Não entendo como podem permanecer tensos deste jeito.

            — O que será que viram! — perguntou Lisa.

            Tom Oxley se achava sentado diante do rádio de ondas curtas. Estava caído por cima do rádio, a cabeça voltada para o lado. Coberto de machucaduras e horrendamente inchado, igual a Karen. A mão direita se agarrava a um microfone de mesa, como se ele tivesse perecido enquanto se recusava a largá-lo. Era evidente que não conseguira mandar um pedido de socorro. Se tivesse conseguido enviar a mensagem, a polícia sem dúvida já teria chegado a Snowfield.

            O rádio estava mudo.

            Era o que Jenny imaginara tão logo vira os corpos.

            Todavia, nem o estado do rádio nem o estado dos corpos eram tão interessantes quanto a barricada. A porta do gabinete estava fechada c, presumivelmente, trancada. Karen e Tom tinham arrastado um armário pesado até a frente da porta. Depois tinham empurrado um par de poltronas contra o armário, depois encostado um aparelho de televisão contra as poltronas.

            — Estavam resolvidos a não deixar alguma coisa entrar aqui — falou Lisa.

            — Mas ela entrou, de qualquer maneira.

            — Como?

            Ambas olharam para a janela pela qual haviam entrado.

            — Estava trancada pelo lado de dentro — falou Jenny. A sala tinha apenas uma outra janela.

            Elas foram até ela e afastaram as cortinas.

            Também estavam trancadas por dentro, com toda a segurança.

            Jenny ficou olhando para a noite lá fora até que sentiu que algo oculto na escuridão também a fitava, dando uma boa olhada nela enquanto estava ali, desprotegida, na janela iluminada. Ela fechou depressa as cortinas.

            — Um quarto trancado — falou Lisa.

            Jenny virou-se lentamente e examinou o gabinete de leitura. Havia uma pequena saída de um duto de aquecimento, coberta com uma placa de metal cheia de fendas estreitas, e ainda cerca de um centímetro e meio de espaço sob porta com barricada. Mas não havia jeito de alguém ter obtido acesso ao aposento.

            Ela falou:

            — Pelo que estou vendo, somente bactérias, gás tóxico ou algum tipo de radiação poderiam ter entrado aqui para matá-los.

            — Mas nenhuma dessas coisas matou os Liebermanns. Jenny concordou.

            — Além disso, ninguém armaria uma barricada para impedir a entrada de radiação, gás ou germes.

            Quantos dos habitantes de Snow field tinham se trancado em casa, pensando que tinham encontrado refúgios defensáveis — e acabaram morrendo tão súbita e misteriosamente quanto aqueles que não tinham tido tempo de correr? E o que era aquilo que podia entrar em quartos trancados sem abrir portas ou janelas? O que passara por essa barricada sem mexer nela?

            A casa dos Oxleys estava tão silenciosa quanto a superfície da lua.

            Finalmente, Lisa falou:

            — E agora?

            — Acho que talvez vamos ter que nos arriscar a apanhar o contágio. Vamos sair da cidade e ir até o telefone público mais próximo ligar para o xerife em Santa Mira, contar a ele a situação e deixar que ele resolva como lidar com ela. Depois voltaremos para cá e esperaremos. Não teremos contato direto com pessoa alguma, e eles poderão esterilizar a cabine telefônica, se acharem necessário.

            — Detesto a idéia de voltar para cá, depois de ter saído — falou Lisa, ansiosa.

            — Eu também. Mas temos que agir de modo responsável. Vamos indo — disse Jenny, virando-se para a janela aberta pela qual tinham entrado.

            O telefone tocou.

            Espantada, Jenny se voltou para o som estridente. O telefone estava na mesa do rádio. Tocou de novo. Ela agarrou o fone e retirou-o do gancho.

            — Alô? — Não houve resposta. — Alô? Um silêncio gélido.

            A mão de Jenny segurou com mais força o fone.

            Alguém estava prestando atenção, permanecendo em silêncio completo, esperando que ela falasse. Ela estava resolvida a não lhe dar essa satisfação. Simplesmente apertou o fone de encontro ao ouvido e fez força para escutar alguma coisa, qualquer coisa, nem que fosse o débil fluxo da respiração da misteriosa figura. Não foi emitido o mais leve som, mas ela podia sentir, na outra extremidade da linha, a presença que sentira ao pegar no telefone na casa dos Santinis e na subdelegacia do xerife.

            Parada naquele aposento com barricada, naquela casa silenciosa onde a Morte penetrara de modo impossivelmente furtivo, Jenny Paige sentiu uma estranha transformação ocorrendo na sua pessoa. Era uma mulher instruída, de raciocínio e lógica, nem ao menos ligeiramente supersticiosa. Até o momento, tentara resolver o mistério de Snowfield aplicando as ferramentas da lógica e da razão. Pela primeira vez na vida, porém, elas lhe haviam falhado totalmente. Agora, no fundo da sua mente, algo... se deslocou, como se uma cobertura de ferro imensamente pesada estivesse sendo tirada de uma cova escura no seu subconsciente. Nessa cova, dentro de câmaras antigas da sua mente, jazia uma legião de sensações e percepções primitivas, um espanto supersticioso que era novo para ela. Virtualmente ao nível da memória da raça armazenada nos genes, ela pressentia o que estava acontecendo em Snowfield. Esse conhecimento estava dentro dela; todavia, era tão estranho, tão fundamentalmente ilógico, que ela lhe opôs resistência, lutando com força para suprimir o terror supersticioso que fervia dentro de si.

            Agarrando o fone, ela escutou a presença silenciosa na linha e discutiu consigo mesma:

            — Não é um homem; é uma coisa.

            — Besteira.

            — Não é humano, mas é consciente.

            — Você está histérica.

            — Indizivelmente malévolo; perfeita e puramente perverso.

            — Pare com isso, pare com isso, parei

            Teve vontade de bater o telefone. Não pôde fazê-lo. A coisa do outro lado da linha a hipnotizara. Lisa se acercou.

            — O que foi? O que está acontecendo?

            Trêmula, ensopada de suor, sentindo-se maculada pelo simples fato de estar escutando aquela presença desprezível, Jenny já ia arrancar o telefone do ouvido quando ouviu um sibilar, um clique — e depois o sinal de linha.

            Por um momento, atônita, não teve reação.

            Então, com um gemido, apertou o botão da telefonista no aparelho. Ele começou a tocar. Que som doce, maravilhoso, reconfortante.

            — Telefonista.

            — Telefonista, é uma emergência — disse Jenny. — Quero falar com o gabinete do xerife do condado, em Santa Mira.

 

            — Roupa? — indagou Kale. — Que roupa?

            Bryce podia ver que Kale ficara sobressaltado com a pergunta e que estava apenas fingindo que não entendia.

            — Xerife, aonde quer chegar com isso? — perguntou Bob Robine. Os olhos encobertos de Bryce permaneceram assim, e ele manteve a voz baixa, lenta.

            — Ora, Bob, só estou tentando resolver tudo, para podermos todos sair daqui. Juro que não gosto de trabalhar aos domingos, e este já está praticamente perdido. Tenho essas perguntas a fazer, e o sr. Kale não precisa responder a nenhuma delas, mas vou fazê-las, para poder ir para casa e botar os pés para cima e tomar uma cerveja.

            Robine soltou um suspiro. Olhou para Kale.

            — Só responda se eu disser que pode. Agora preocupado, Kale assentiu. Franzindo o cenho para Bryce, Robine disse:

            — Continue.

            — Quando chegamos na casa do sr. Kale na quinta-feira passada — continuou Bryce —, depois que ele ligou para comunicar as mortes, eu notei que a ponta de uma das pernas das calças dele e a extremidade grossa inferior da sua suéter estavam ambas ligeiramente úmidas, tão ligeiramente que mal dava para se reparar. Fiquei achando que ele lavara tudo que estava usando e que não deixara as roupas no secador o tempo suficiente. Então, dei uma espiada na lavanderia e encontrei uma coisa interessante. No armário ao lado da máquina de lavar, onde a sra. Kale guardava os seus sabões, detergentes e amaciantes de tecidos, havia duas impressões digitais sangrentas na caixa grande de Cheer. Uma estava borrada, mas a outra estava nítida. O laboratório diz que a digital é do sr. Kale.

            — De quem era o sangue que estava na caixa? — indagou vivamente Tobine.

            — Tanto a sra. Kale quanto Danny eram tipo O. O Sr. Kale também. Isso torna um pouco mais difícil para nós...

            — O sangue na caixa de detergente? — interrompeu Robine.

            — Tipo O.

            — Então poderia ser o sangue do meu próprio cliente! Ele poderia tê-lo deixado na caixa numa ocasião anterior, quem sabe depois de ter se cortado na semana passada, quando mexia no jardim.

            Bryce sacudiu a cabeça.

            — Como você sabe, Bob, esse negócio de tipo de sangue está ficando altamente sofisticado hoje em dia. Ora, podem dividir uma amostra em várias enzimas e identidades de proteínas, mas o sangue de uma pessoa é quase tão único quanto as suas impressões digitais. Portanto, eles puderam nos dizer, inequivocamente, que o sangue na caixa de Cheer — o sangue na mão do sr. Kale quando deixou aquelas duas digitais — era do pequeno Danny Kale.

            Os olhos cinzentos de Fletcher Kale continuaram parados e inexpressivos, mas ele ficou bem pálido.

            — Posso explicar — falou.

            — Espere aí! — disse Robie. — Explique primeiro a mim — em particular.

            O advogado levou o seu cliente para o canto mais afastado da sala.

            Bryce estava largado na sua cadeira. Sentia-se cinzento, esgotado. Estava daquele jeito desde a quinta-feira, desde que vira o corpo patético e amassado de Danny Kale.

            Esperava sentir um prazer considerável ao ver Kale passar por maus pedaços. Mas não havia prazer naquilo.

            Robine e Kale retornaram.

            — Xerife, infelizmente o meu cliente fez uma burrice. — Kale tentava parecer adequadamente constrangido. — Fez uma coisa que poderia ser mal interpretada — como aconteceu até com o senhor. O sr. Kale estava assustado, confuso, arrasado de dor. Não conseguia pensar com clareza. Tenho certeza de que qualquer júri o compreenderia. Sabe, quando ele achou o corpinho do filho, pegou-o no colo...

            — Ele nos disse que não tocou nele.

            Kale enfrentou com firmeza o olhar de Bryce e falou:

            — Logo que vi Danny deitado no chão... eu não podia realmente acreditar que ele estava... morto. Peguei-o no colo... achando que devia levá-lo ao hospital... Mais tarde, depois que atirei em Joanna, olhei para baixo e vi que estava coberto com... o sangue de Danny. Eu tinha atirado na minha mulher, mas de repente me dei conta de que podia parecer que também tinha matado o meu próprio filho.

            — Ainda havia o cutelo de açougueiro na mão da sua mulher — falou Bryce. — E ela também estava toda coberta com o sangue de Danny. E o senhor podia ter concluído que o legista encontraria o pó de anjo na corrente sangüínea dela.

            Agora estou percebendo tudo isso — disse Kale, tirando um lenço do bolso e enxugando os olhos. — Mas, na hora, fiquei com medo de ser acusado de uma coisa que não fizera.

            A palavra "psicopata" não era exatamente correta para Fletcher Kale, concluiu Bryce. Ele não era maluco. Tampouco era exatamente um sociopata. Não havia uma palavra que o descrevesse adequadamente. Todavia, um bom tira reconheceria o tipo e enxergaria o potencial para atividades criminosas e, talvez, igualmente, o talento para violência bruta. Existe um certo tipo de homem que tem muita vitalidade e gosta de muita ação, um homem que tem uma boa dose de encanto superficial, cujas roupas são mais caras do que o seu padrão financeiro permite, que não possui um único livro (como Kale não possuía), que parece não ter opinião definida sobre política ou arte ou economia ou qualquer outro assunto de importância real, que não é religioso, exceto quando lhe acontece alguma desgraça ou quando quer impressionar alguém com sua devoção (como Kale, que não freqüentava igreja alguma, e que agora lia a Bíblia na sua cela pelos menos durante quatro horas diárias), que tem um corpo atlético mas que parece abominar uma atividade sadia como o exercício físico, que passa as horas de lazer em bares e boates, que engana a mulher por força do hábito (como Kale o fazia, segundo todos os informes), que é impulsivo, não é digno de confiança, está sempre atrasado para todos os compromissos (como Kale), cujos objetivos são vagos ou irrealísticos ("Fletcher Kale? É um sonhador."), que saca no vermelho com freqüência e mente sobre dinheiro, que toma emprestado com facilidade mas custa a pagar, que exagera, que sabe que vai ficar rico algum dia, mas que não tem nenhum plano específico para adquirir essa fortuna, que nunca duvida nem pensa no ano que vem, que se preocupa apenas consigo mesmo, e somente quando já é tarde demais. Havia um tal homem, um tal tipo, e Fletcher Kale era um exemplo excelente do animal em questão.

            Bryce já vira outros como ele. Seus olhos eram sempre inexpressivos; não se podia ler nada neles. Os rostos exprimiam a emoção adequada para o momento, embora cada expressão fosse um pouquinho certa demais. Quando expressavam preocupação por outra pessoa além de si mesmos, dava para se perceber um toque nítido de insinceridade. Não se vergavam ao peso do remorso, da moralidade, do amor ou da empatia. Em geral, levavam vidas de destruição aceitável, arruinando e amargurando aqueles que os amavam, destruindo as vidas de amigos que acreditavam e confiavam neles, traindo a confiança depositada neles, mas sem jamais cruzar diretamente a linha que os separava de um comportamento declaradamente criminoso. De vez em quando, todavia, um homem desses ia longe demais. E como era do tipo que nunca fazia as coisas pela metade, sempre ia longe demais mesmo.

            O corpinho ensangüentado e destroçado de Danny Kale, caído num canto.

            O acinzentado que envolvia a mente de Bryce ficou mais espesso, até parecer uma fumaça fria e oleosa. Ele disse para Kale:

            — O senhor nos contou que sua mulher fumava maconha constantemente há dois anos e meio.

            — É verdade.

            — Seguindo ordens minhas, o legista procurou algumas coisas que, normalmente, não lhe interessariam. Como o estado dos pulmões de Joanna. Ela não era nem fumante, que dirá toxicômana. Os pulmões estavam limpos.

            — Eu disse que ela fumava maconha, não tabaco — falou Kale.

            — Tanto a fumaça da maconha quanto a do tabaco comum danificam os pulmões — continuou Bryce. — No caso de Joanna, não havia dano absolutamente nenhum.

            — Mas eu...

            — Quieto — aconselhou Bob Robine a seu cliente. Apontou um dedo longo e esguio na direção de Bryce, agitou-o e falou:

            — O importante é: havia PCP no sangue dela ou não?

            — Havia — concordou Bryce. — Estava no sangue dela, mas ela não o fumou. Joanna tomou o PCP oralmente. Ainda havia um bocado dele no seu estômago.

            Robine pestanejou, surpreso, mas se recobrou rapidamente.

            — Lá vem você — disse. — Ela o tomou. Que importância tem?

            — Na verdade — retrucou Bryce —, havia mais PCP no seu estômago do que na sua corrente sangüínea.

            Kale tentou parecer curioso, preocupado e inocente — tudo aura só tempo; até mesmo as suas feições elásticas estavam forçadas por essa expressão.

            De cara fechada, Bob Robine falou:

            — Com que então havia mais no estômago dela do que na sua corrente sangüínea. E daí?

            — O pó de anjo é altamente absorvível. Tomado oralmente, não fica no estômago por muito tempo. Ora, conquanto Joanna tenha engolido droga suficiente para ficar pirada, não houve tempo para que fosse afetada. Sabe, é que tomou o PCP com sorvete. Que formou uma camada protetora no seu estômago e retardou a absorção da droga. Durante a autópsia, o legista encontrou sorvete de calda de chocolate parcialmente digerido. Portanto, não houve tempo para o pó de anjo causar alucinações ou deixá-la louca furiosa. — Bryce fez uma pausa, depois inspirou fundo. — Também havia sorvete de calda de chocolate no estômago de Danny, mas nenhum PCP. Quando o sr. Kale nos contou que chegara cedo do trabalho na quinta-feira, não falou que trouxera uma surpresa para a família. Meio galão de sorvete de calda de chocolate.

            O rosto de Fletcher Kale estava inexpressivo. Finalmente, ele parecia ter esgotado toda a sua coleção de expressões humanas. Bryce falou:

            — Encontramos uma lata de sorvete parcialmente vazia no congelador de Kale. De calda de chocolate. O que eu acho que aconteceu, sr. Kale, é que o senhor serviu um pouco de sorvete para todo mundo. Acho que temperou secretamente a porção da sua mulher com PCP, para mais tarde poder alegar que ela estava alucinada pela droga. Não pensou que o legista descobriria a sua manobra.

            — Espere aí um minuto, pombas! — gritou Robine.

            — Então, enquanto lavava na máquina as suas roupas ensangüentadas — dizia Bryce a Kale —, o senhor lavou a louça suja de sorvete e a guardou, porque a sua história era que tinha chegado em casa e encontrado o pequeno Danny já morto e a mãe dele já piradona com PCP.

            Robine disse:

            — Isso são só suposições. Esqueceu-se do motivo? Em nome de Deus, por que o meu cliente faria uma monstruosidade dessas?

            Observando os olhos de Kale, Bryce falou:

            — Investimentos High Country.

            O rosto de Kale permaneceu impassível, mas os olhos vacilaram.

            — Investimentos High Country? — indagou Robine. — O que é isso? Bryce fitou Kale.

            — O senhor comprou sorvete antes de ir para casa na quinta- feira?

            — Não — disse Kale, secamente.

            — O gerente da loja 7-Eleven na rua Calder diz que comprou. Os músculos dos maxilares de Kale ficaram saltados quando ele cerrou os dentes, com raiva.

            — E quanto à Investimentos High Country? — perguntou Robine. Bryce disparou outra pergunta para Kale.

            — Conhece um homem chamado Gene Terr? — Kale apenas o fitava. — Às vezes chamado de "Jeeter".

            — Quem é ele? — quis saber Robine.

            — O líder da Demon Chrome — falou Bryce, sem desfitar Kale. — É uma gangue de motoqueiros. Jeeter é traficante de drogas. Na verdade, nunca conseguimos pegá-lo com a boca na botija; conseguimos apenas engaiolar parte do seu pessoal. Pressionamos Jeeter e ele nos levou a alguém que admitiu fornecer erva regularmente ao sr. Kale. Não à sra. Kale. Ela jamais comprou.

            — E quem afirma isso? — perguntou Robine com veemência. — Esse motoqueiro selvagem? Esse refugo social? Esse traficante de drogas? Ele não é uma testemunha de confiança!

            — De acordo com nossas fontes, o sr. Kale não comprou apenas erva na terça-feira passada. Comprou também pó de anjo. O homem que lhe vendeu as drogas testemunhará em troca de .imunidade.

            Com presteza e astúcia animais, Kale se levantou de um salto, agarrou a cadeira vazia ao seu lado, arremessou-a por sobre a mesa, em cima de Bryce Hammond, e correu para a porta da sala de interrogatórios.

            Quando a cadeira saiu das mãos de Kale e voou pelos ares, Bryce já se movimentara, e ela passou por cima da sua cabeça, inofensivamente. Ele já estava do outro lado da mesa quando a cadeira caiu ruidosamente ao chão, às suas costas.

            Kale abriu a porta e lançou-se para o corredor.

            Bryce estava quatro passos atrás dele.

            Tal Whitman saltara do peitoril da janela como se tivesse sido arremessado para fora com uma carga de explosivos, e estava um passo atrás de Bryce, gritando.

            Chegando no corredor, Bryce viu Fletcher Kale se dirigindo para uma porta de saída amarela a cerca de seis metros de distância. Correu no encalço do filho da puta.

            Kale se jogou em cima da trava e escancarou a porta de metal.

            Bryce alcançou-o uma fração de segundo mais tarde, quando Kale estava pondo o pé no estacionamento de macadame.

            Pressentindo Bryce logo atrás de si, Kale se virou com uma fluidez felina e desferiu um soco com a mão enorme.

            Bryce se desviou e revidou com outro soco, atingindo a barriga dura e plana de Kale. Deu mais um golpe, atingindo-o no pescoço.

            Kale cambaleou para trás, levando as mãos à garganta, tossindo e se engasgando.

            Bryce avançou.

            Kale, porém, não estava tão atordoado quanto fingia estar. Saltou para diante quando Bryce se aproximou e se atracou com ele.

            — Canalha — disse Kale, espumando.

            Seus olhos cinzentos estavam arregalados. Os lábios se mostravam repuxados, deixando os dentes à mostra, como se ele estivesse rosnando. Parecia um lobo.

            Os braços de Bryce estavam presos, e embora ele fosse também um homem forte, não conseguia se livrar do abraço de ferro de Kale. Deram alguns passos cambaleantes para trás, tropeçaram e caíram, com Kale por cima. A cabeça de Bryce bateu com força no chão e ele pensou que ia desmaiar.

            Kale deu-lhe um único soco, ineficaz, depois saiu de cima dele e rastejou rapidamente para longe.

            Afastando a escuridão que crescia por trás de seus olhos, surpreso por Kale ter aberto mão da vantagem, Bryce ficou de quatro. Sacudiu a cabeça... e então viu o que o outro fora pegar.

            Um revólver.

            Jazia no macadame, a alguns metros de distância, brilhando sombriamente à luz amarelada das lâmpadas de vapor de sódio.

            Bryce buscou o seu coldre. Vazio. O revólver no chão era o seu próprio. Aparentemente, caíra do coldre e rolara pelo piso quando ele fora ao chão.

            A mão do assassino se fechou sobre a arma.

            Tal Whitman se aproximou e desceu o cassetete, atingindo Kale na nuca. O homenzarrão desabou em cima da arma, inconsciente.

            Agachando-se, Tal virou Kale de barriga para cima e tomou o seu pulso.

            Segurando a base do seu próprio crânio latejante, Bryce foi mancando até eles.

            — Ele está bem, Tal?

            — Está. Vai voltar a si dentro de alguns minutos. Pegou o revólver de Bryce e se pôs de pé. Aceitando a arma, Bryce falou:

            — Fico lhe devendo essa.

            — Nem por isso. Que tal a sua cabeça?

            — Quem me dera ser dono de uma companhia de aspirina.

            — Eu não esperava que ele fosse correr.

            — Nem eu — concordou Bryce. — Quando as coisas ficam cada vez piores para um homem assim, geralmente ele fica mais calmo, mais controlado, mais cuidadoso.

            — Bem, acho que esse aí viu as paredes se fechando sobre si. Bob Robine estava parado no vão da porta, fitando-os, balançando

            a cabeça, consternado.

            Dali a alguns minutos, quando Bryce Hammond estava sentado à sua mesa, preenchendo os formulários que acusavam Fletcher Kale de dois homicídios, Bob Robine bateu na porta aberta. Bryce ergueu os olhos.

            — E então, advogado, como vai o seu cliente?

            — Está bem. Mas não é mais meu cliente.

            — É? Decisão sua ou dele?

            — Minha. Não posso aceitar um cliente que mente para mim a respeito de tudo. Não gosto de ser feito de bobo.

            — Ele quer chamar outro advogado ainda esta noite?

            — Não. Quando for citado, vai pedir ao juiz um defensor público.

            — Isso vai ser logo de manhãzinha.

            — Não está perdendo tempo, não é?

            — Com esse aí, não.

            — Ótimo — assentiu Robine. — Ele não presta mesmo, Bryce. Sabe, há 15 anos que sou um católico apóstata — disse ele, suavemente.

            — Concluí há muito tempo que não existia nada disso de anjos, demônios, milagres. Achava que tinha instrução demais para pensar que o Mal — com M maiúsculo — caminha pelo mundo com pés de cabra. Lá na cela, porém, Kale se virou para mim e disse: "Eles não vão me pegar. Não vão me destruir. Ninguém pode. Eu vou escapar desse."

            Robine continuou:

            — Quando o adverti contra o excesso de otimismo, ele disse: "Não tenho medo de gente como você. Além disso, não cometi nenhum assassinato. Apenas me livrei de um lixo que estava empestando a minha vida."

            — Jesus — exclamou Bryce.

            Ambos ficaram calados. Depois, Robine soltou um suspiro.

            — E quanto aos Investimentos High Country. Como é que isso forneceu o motivo?

            Antes que Bryce pudesse explicar, Tal Whitman entrou apressadamente, vindo do corredor.

            — Bryce, posso dar uma palavrinha com você? — Lançou um olhar para Robine. — É melhor que seja em particular.

            — Claro — falou Robine.

            Tal fechou a porta às costas do advogado.

            — Bryce, conhece a sra. Jennifer Paige?

            — Faz algum tempo que começou a clinicar em Snowfield.

            — Sei. Mas que tipo de pessoa diria que ela é?

            — Não a conheço. Ouvi dizer que é boa médica. E o pessoal daquelas cidadezinhas das montanhas está bem contente por não ter mais que vir até Santa Mira para se consultar.

            — Também não a conheço. Só queria saber se você tinha ouvido algum comentário sobre... se ela é chegada à bebida. Quero dizer... se toma uns pileques.

            — Não, nunca ouvi nada no gênero. Por quê? O que está acontecendo?

            — Ela ligou faz alguns minutos. Disse que houve um desastre lá em Snowfield.

            — Desastre? O quer ela que dizer com isso?

            — Bem, ela diz que não sabe. Bryce pestanejou.

            — Ela parecia histérica?

            — Assustada, mas não histérica. Não quer falar com outra pessoa, só com você. Está na linha três. — Bryce estendeu a mão para o telefone.

                   — Mais uma coisa — disse Tal, linhas de preocupação vincando-lhe a testa. — Ela me disse uma coisa, mas não faz sentido. Ela disse...

            — Sim?

            — Disse que todo mundo por lá está morto. Todo mundo em Snowfield. Disse que ela e a irmã são as únicas pessoas vivas.

 

            Jenny e Lisa saíram da casa dos Oxleys pelo mesmo caminho por onde entraram: a janela.

            A noite estava ficando cada vez mais fria. O vento soprava de novo.

            Voltaram para a casa de Jenny no alto da Skyline Road a fim de buscar agasalhos para protegê-las do frio.

            Depois desceram a ladeira de novo e foram para a subdelegacia do xerife. Havia um banco de madeira preso às pedras redondas junto ao meio-fio, em frente à cadeia municipal, e elas se sentaram ali para esperar a ajuda vinda de Santa Mira.

            — Quanto tempo vai levar até eles chegarem? — perguntou Lisa.

            — Bem, Santa Mira fica a quase cinqüenta quilômetros daqui, e as estradas são bem sinuosas. E eles têm que tomar umas precauções incomuns. — Jenny olhou para o relógio de pulso. — Acho que devem chegar dentro de uns 45 minutos, no máximo uma hora.

            — Pombas.

            — Não ó tanto tempo assim, meu bem.

            A garota levantou a gola da jaqueta de brim forrada de pele.

            — Jenny, quando o telefone tocou na casa dos Oxleys e você atendeu...

            — Sim?

            — Quem estava ligando?

            — Ninguém.

            — O que você ouviu?

            — Nada — mentiu Jenny.

            — Pela expressão do seu rosto, achei que havia alguém ameaçando você, ou coisa parecida.

            — Bem, eu estava perturbada, é claro. Quando o telefone tocou, eu pensei que os telefones estivessem funcionando de novo, mas quando atendi e ele ficou mudo, fiquei... arrasada. Foi só isso.

            — Depois deu linha?

            — Deu.

            Ela provavelmente não acredita em mim, pensou Jenny. Acha que estou tentando protegê-la de alguma coisa. E é claro que estou. Como posso explicar a sensação de que alguma coisa malévola estava ao telefone comigo? Eu mesma nem consigo entender. Quem ou o quê estava ao telefone? Por que ele... ou a coisa... finalmente liberou a linha?

            Um pedaço de papel passou voando pela rua. Nada mais se movia.

            Uma nesga fina de nuvem passou sobre um dos cantos da lua.

            Dali a um pouco, Lisa falou:

            — Jenny, caso alguma coisa me aconteça hoje...

            — Nada vai lhe acontecer, meu bem.

            — Mas caso alguma coisa me aconteça hoje — insistiu Lisa —, quero que saiba que... bem... tenho muito... orgulho de você.

            Jenny envolveu com o braço os ombros da irmã, e ficaram ainda mais juntinhas.

            — Mana, lamento não termos passado muito tempo juntas nesses anos.

            — Você ia para casa sempre que podia — falou Lisa. — Sei que não foi fácil. Acho que li umas dúzias de livros sobre o que uma pessoa tem que enfrentar para poder ser médica. Sempre soube que havia um fardo grande para você carregar, muitas preocupações.

            Surpresa, Jenny falou:

            — Bem, mesmo assim eu devia ter ido em casa mais vezes.

            Ficara longe de casa em algumas ocasiões porque não fora capaz de enfrentar a acusação nos olhos tristes da mãe, uma acusação que era ainda mais poderosa e tocante porque jamais fora verbalizada: Você matou o seu pai, Jenny; partiu-lhe o coração e isso o matou.

            — E mamãe também tinha muito orgulho de você.

            A frase de Lisa não apenas surpreendeu Jenny, como a abalou,

            — Mamãe estava sempre falando para todo mundo da sua filha, a médica — continuou Lisa, sorridente, recordando. — Acho que havia horas em que as amigas estavam prestes a riscá-la do clube de bridge, se ela dissesse mais uma só palavra sobre a sua bolsa de estudos ou as suas boas notas.

            Jenny pestanejou:

            — Está falando sério?

            — Claro que estou.

            — Mas mamãe nunca...

            — Nunca o quê? — indagou Lisa.

            — Bem... nunca falou nada sobre... papai? Ele morreu há doze anos.

            — Pombas, sei disso. Ele morreu quando eu tinha dois anos e meio. — Lisa franziu o cenho. — Mas do que é você que está falando?

            — Quer dizer que nunca ouviu mamãe me culpar?

            — Culpá-la por quê?

            Antes que Jenny pudesse responder, a tranqüilidade sepulcral de Snowfield foi extinta. Todas as luzes se apagaram.

            Três carros-patrulha saíram de Santa Mira, entraram nas colinas envoltas na noite, na direção das encostas altas e banhadas pelo luar das Sierras, na direção de Snowfield, as luzes vermelhas de emergência faiscando.

            Tal Whitman guiava o carro que encabeçava a procissão, e o xerife Hammond sentava-se ao seu lado. Gordy Brogan estava no banco de trás com outro delegado, Jake Johnson.

            Gordy estava com medo.

            Sabia que seu medo não era visível, e sentia-se grato por isso. Na verdade, ele parecia unia pessoa que não saberia como ter medo. Era alto, graúdo, musculoso. Tinha as mãos fortes e grandes de um jogador de basquete profissional; parecia capaz de acabar com a folga de quem quer que lhe causasse encrencas. Sabia que tinha um rosto atraente; as mulheres já lhe tinham dito isso. Mas também era um rosto sombrio, de aspecto rude. Os lábios eram finos, dando-lhe à boca um ar cruel. Jake Johnson fora quem se exprimira melhor: Gordy, quando você fecha a cara, parece um homem que come galinhas vivas no café da manhã.

            A despeito de sua aparência feroz, contudo, Gordy Brogan estava com medo. Não era a possibilidade de moléstia ou veneno que lhe causava medo. O xerife dissera que havia indícios de que as pessoas em Snowfield tinham sido mortas não por germes ou substâncias tóxicas, mas por outras pessoas. Gordy temia ter que usar a arma pela primeira vez desde que se tornara delegado, há dezoito meses. Temia ser forçado a atirar em alguém, quer para salvar a própria vida, a vida de outro delegado, ou a de uma vítima.

            Ele não achava que seria capaz de fazê-lo.

            Há cinco meses descobrira uma fraqueza perigosa em si mesmo, ao atender a um chamado de emergência da Loja de Artigos Esportivos Donner. Um antigo empregado descontente, um homem corpulento chamado Leo Sipes, voltara à loja duas semanas depois de ter sido despedido, espancara o gerente e quebrara o braço do vendedor contratado para substituí-lo. Quando Gordy chegara ao local, Leo Sipes — grande, burro e bêbado — estava usando uma machadinha para destruir toda a mercadoria. Gordy não conseguira convencê-lo a se render. Quando Sipes viera atrás dele, brandindo a machadinha, Gordy sacara o revólver. E então descobrira que não podia usá-lo. O dedo no gatilho ficara frágil e inflexível como gelo. Ele tivera que guardar a arma e arriscar um confronto físico com Sipes. Dera um jeito e conseguira tirar a machadinha de Sipes.

            Agora, cinco meses mais tarde, sentado no banco de trás do carro-patrulha e escutando Jake Johnson falar com o xerife Hammond, seu estômago se retesou e ficou embrulhado ao pensar no que uma bala calibre 45 de ponta oca faria a um homem. Ela literalmente arrancaria a sua cabeça. Transformaria um ombro em fiapos de carne e agulhas partidas de osso. Abriria um peito, destroçando o coração e.tudo mais no seu caminho. Poderia arrancar fora uma perna, se atingisse a rótula, transformaria um rosto numa pasta sangrenta. E Gordy Brogan, Deus tivesse piedade dele, não era capaz de fazer uma coisa dessas a ninguém.

            Esta era a sua terrível fraqueza. Sabia que havia gente que diria que a sua incapacidade de atirar em outro ser humano não era uma fraqueza, mas sim um sinal de superioridade moral. Contudo, ele sabia que isso nem sempre era verdade. Havia horas em que atirar era um ato moral. Um policial fazia o juramento de proteger o público. Para um tira, a incapacidade de atirar (quando atirar era claramente justificado) não era somente uma fraqueza, mas uma loucura, talvez até um pecado.

            Durante os últimos cinco meses, depois do episódio desalentador na Loja de Artigos Esportivos Donner, Gordy tivera sorte. Atendera apenas alguns chamados envolvendo suspeitos violentos. E, felizmente, conseguira dominar os adversários usando os punhos, ou o cassetete, ou ameaças — ou disparando tiros de advertência para o alto. Certa vez, quando parecia que atirar em alguém seria inevitável, o outro guarda, Frank Autry, atirara primeiro, ferindo o pistoleiro antes que Gordy tivesse que se defrontar com a tarefa impossível de puxar o gatilho.

            Agora, porém, algo inimaginavelmente violento tinha transpirado lá em Snowfield. E Gordy sabia muito bem que violência freqüentemente tinha que ser enfrentada com violência.

            A arma no seu quadril parecia pesar quinhentos quilos.

            Ficou pensando se estaria chegando a hora em que a sua fraqueza seria revelada. Ficou pensando se morreria esta noite... ou se causaria, graças à sua fraqueza, a morte desnecessária de outrem.

            Orou ardentemente para poder vencer essa coisa. Sem duvida possível um homem ser pacífico por natureza e, ainda assim, ter a coragem de se salvar, salvar seus amigos, sua gente.

            Com as luzes vermelhas de emergência faiscando no teto, os três carros-patrulha branco e verde subiram a estrada sinuosa, adentrando as montanhas cobertas pela noite, na direção dos picos onde o luar criava a ilusão de que já tinha caído a primeira neve da temporada.

            Gordy Brogan estava com medo.

 

            Os postes de rua e todas as outras luzes se apagaram, lançando a cidade na escuridão.

            Jenny e Lisa se levantaram de um salto do banco de madeira.

            — O que aconteceu?

            — Shhh — fez Jenny. — Escute!

            Mas houve apenas um silêncio contínuo.

            O vento parara de soprar, como se espantado com o blecaute abrupto da cidade. As árvores esperaram, os ramos imóveis como roupas velhas num armário.

            Graças a Deus pela lua, pensou Jenny.

            O coração batendo com força, Jenny se virou e examinou os prédios às suas costas. A cadeia municipal. Um pequeno café. As lojas. As residências.

            Todas as entradas se achavam tão coalhadas de sombras que era difícil dizer se as portas estavam abertas ou fechadas — ou se, neste instante, estavam se abrindo lenta, muito lentamente, para libertar os mortos horrendos, inchados, demoniacamente reanimados, nas ruas escuras.

            Pare com isso, pensou Jenny. Os mortos não voltam à vida.

            Seus olhos pousaram no portão em frente à passagem de serviço coberta que ficava entre a subdelegacia do xerife e a loja de presentes ao lado. Era exatamente como o corredor sombrio e apertado ao lado da padaria dos Liebermanns.

            Será que também havia algo escondido neste túnel? E, com as luzes apagadas, vinha se arrastando inexoravelmente na direção desta extremidade do corredor, ansioso para passar para a calçada escura?

            Aquele medo primitivo de novo.

            Aquela sensação de mal.

            Aquele terror supersticioso.

            — Vamos — disse para Lisa.

            — Para onde?

            — Para a rua. Nada poderá nos pegar ali...

            — ...sem que a gente o veja chegando — concluiu Lisa, compreendendo.

            Foram para o meio da rua iluminada pelo luar.

            Quanto tempo até o xerife chegar? — indagou Lisa.

            Pelo menos mais uns quinze ou vinte minutos.

            As luzes da cidade se acenderam todas de uma vez. Uma explosão brilhante de fulgor elétrico atingiu-lhe os olhos surpresos — depois novamente a escuridão.

            Jenny ergueu o revólver, sem saber ao certo para onde apontar.

            A sua garganta estava ressequida pelo medo, a boca seca.

            Uma explosão de som — um lamento pavoroso — percorreu Snowfield.

            Jenny e Lisa soltaram um grito, chocadas, e se viraram, esbarrando uma na outra, olhando com olhos apertados para a escuridão tingida pelo luar.

            Depois o silêncio.

            Novo grito estridente.

            Silêncio.

            — O quê? — perguntou Lisa.

            — O posto do corpo de bombeiros!

            Ela soou de novo: a sirene estridente vinda do lado leste da St. Moritz Way, do posto do Corpo de Bombeiros Voluntários de Snowfield.

                   Bong!

            Jenny sobressaltou-se de novo, girou o corpo.

            Bong! Bong!

            — Um sino de igreja — falou Lisa.

            — A igreja católica, a oeste na Vail.

            O sino tocou mais uma vez — um som alto, profundo, lamentoso, que retumbou nas janelas vazias ao longo da escuridão da Skyline Road, e em outras janelas invisíveis por toda a cidade morta.

            — Alguém tem que puxar uma corda para tocar o sino — falou Lisa. — Ou apertar um botão para disparar uma sirene. Portanto, tem que haver mais alguém aqui, além de nós.

            Jenny ficou calada.

            A sirene tocou de novo, soou e depois se calou, soou e se calou, e o sino da igreja começou a tocar outra vez, e o sino e a sirene gritaram juntos, ao mesmo tempo, repetidas vezes, como se estivessem anunciando a chegada de alguém de tremenda importância.

            Nas montanhas, a um quilômetro e meio da entrada para Snowfield, a paisagem noturna era pintada somente em tons de negro e prata. As árvores grandes não eram verdes; eram formas lúgubres, na sua maioria sombras, com beiradas alvacentas de folhas e agulhas vagamente definidas.

            Contrastantemente, o acostamento da auto-estrada era cor de sangue, tingido pelas luzes giratórias no alto dos três sedas Ford que exibiam o emblema do departamento policial do condado de Santa Mira nas suas portas dianteiras.

            O delegado Frank Autry dirigia o segundo carro, e o delegado Stu Wargle estava derreado no banco ao lado do motorista.

            Frank Autry era esguio, musculoso, com cabelos grisalhos bem cortados. Tinha as feições nítidas e econômicas, como se Deus não estivesse com disposição de desperdiçar coisa alguma no dia em que criara a sua ficha genética: olhos cor de avelã sob uma testa bem cinzelada; um nariz estreito e nobre; boca nem parcimoniosa nem generosa demais; orelhas pequenas, quase sem lóbulos, grudadas à cabeça. Usava um bigode muitíssimo bem tratado.

            Trajava a sua farda exatamente do jeito que o manual de instruções mandava; botas pretas lustradas até parecerem espelhos, calças marrons com vinco perfeito, cinto e coldre de couro brilhantes e flexíveis graças à lanolina, camisa marrom extremamente bem passada.

            — Porra, não foi justo — disse Stu Wargle.

            — Os comandantes não têm que ser justos, têm que estar com a razão — replicou Frank.

            — Que comandante? — indagou Wargle, lamuriosamente.

            — O xerife Hammond. Não era a ele que se referia?

            — Não penso nele como meu comandante.

            — Bem, mas é o que ele é.

            — Ele quer é me sacanear — falou Wargle. — O safado. Frank ficou calado.

            Antes de ingressar na polícia do condado, Frank Autry fora um oficial militar de carreira. Reformara-se do Exército dos Estados Unidos aos 44 anos, depois de 25 anos de serviço notável, e se mudara para Santa Mira, a cidade em que nascera e fora criado. Sua intenção era abrir um pequeno negócio qualquer para completar a sua pensão e se manter ocupado, mas não achou nada que lhe parecesse interessante. Aos poucos foi percebendo que, ao menos para ele, um emprego sem farda, sem uma cadeia de comando, sem um elemento de risco físico e sem um sentido de serviço público era um emprego que não valia a pena ter. Há três anos, com 46 anos de idade, ingressara no departamento policial e, a despeito de ter sido rebaixado de major, que era o posto que tinha no Exército, estava muito feliz desde então.

            Isto é, estava muito feliz exceto nas ocasiões (em geral durante uma semana por mês) em que tinha Stu Wargle como parceiro. Wargle era insuportável. Frank tolerava o sujeito apenas para testar a sua própria autodisciplina.

            Wargle era um relaxado. O cabelo estava sempre precisando ser lavado. Quando fazia a barba, deixava sempre uns fios espetados. O seu uniforme vivia amassado, as botas jamais eram engraxadas. Era grande demais na barriga, grande demais nos quadris, grande demais no traseiro.

            Wargle era um chato. Não tinha absolutamente nenhum senso de humor. Não lia nada, não sabia de nada... mas tinha opiniões definidas sobre Iodos os assuntos sociais e políticos do momento.

            Wargle era um nojento. Tinha 45 anos de idade e ainda limpava o nariz em público. Arrotava e peidava descaradamente.

            Ainda largado de encontro à porta do lado direito do carro, Wargle falou:

            — Eu devia largar o serviço às dez horas. Dez horas, porra! Não é justo o Hammond me destacar para esta merda em Snowfield. E eu com programa marcado com uma gatona.

            Frank não se deu por achado. Não perguntou com quem Wargle tinha marcado para sair. Continuou dirigindo o carro, os olhos fixos na estrada, esperando que Wargle não lhe contasse quem era a "gatona".

            — Ela é garçonete no Spanky's Diner — falou Wargle. — Talvez você a conheça. Uma dona loura. O nome dela é Beatrice, mas é conhecida por Bea.

            — É raro eu ir ao Spanky's — disse Frank.

            — Ah. A cara dela não é ruim, sabe. Um par de mamas de respeito. Tem uns quilinhos sobrando, não muitos, mas ela se acha pior do que realmente é. Insegurança, sabe como é. Então, se você fizer o jogo direito, se explorar as dúvidas que ela tem com relação a si mesma, se disser que a quer assim mesmo, embora ela tenha se deixado ficar um pouco gorducha... porra, ela fará qualquer coisa que você quiser. Qualquer coisa.

            O nojento riu como se tivesse dito algo insuportavelmente engraçado.

            Frank teve vontade de dar-lhe um soco na cara. Não o fez.

            Wargle era um misógino. Falava das mulheres como se fossem membros de outra espécie, uma espécie inferior. A idéia de um homem partilhar a sua vida e pensamentos mais íntimos com uma mulher, a idéia de que uma mulher pudesse ser amada, querida, admirada, respeitada, valorizada por sua sabedoria, percepção e humor... isso era um conceito totalmente estranho para Stu Wargle.

            Frank Autry, por outro lado, estava casado há 26 anos com sua linda Ruth. Adorava-a. Embora soubesse que era um pensamento egoísta, às vezes rezava para ser o primeiro a morrer, evitando ter que enfrentar a vida sem Ruth.

            — Aquele nojento do Hammond quer ver a minha caveira. Está sempre enchendo o meu saco.

            — Sobre o quê?

            — Tudo. Não gosta do jeito como eu uso o uniforme. Não gosta do jeito como eu escrevo os relatórios. Disse que eu preciso melhorar a minha atitude. Puta merda, a minha atitude! Ele quer me sacanear, mas eu não deixo. Vou agüentar mais cinco anos, sabe, para poder receber a minha aposentadoria de trinta anos. Aquele safado não vai me arrancar a minha aposentadoria.

            Quase dois anos antes, os eleitores da cidade de Santa Mira aprovaram um projeto que dissolvia a polícia metropolitana, colocando a manutenção da lei nas mãos do departamento policial do condado. Era um voto de confiança em Bryce Hammond, que criara o departamento do condado, mas um dispositivo do projeto dispunha que nenhum policial da cidade perderia o emprego ou a aposentadoria por causa da transferência de poder. Desse modo, Bryce Hammond tinha que agüentar Stewart Wargle.

            Chegaram à entrada para Snowfield.

            Frank deu uma olhada no espelho retrovisor e viu o terceiro carro patrulha sair da posição de três carros. Como fora planejado, ele se postou à entrada da estrada para Snowfield, formando um bloqueio.

            O carro do xerife Hammond continuou o caminho para Snowfield e Frank foi atrás.

            — Para que diabo tivemos que trazer água? — quis saber Wargle.

            Havia três garrafas de cinco galões de água no chão da parte traseira do carro.

            — A água em Snowfield pode estar contaminada — disse Frank.

            — E toda aquela comida que botamos na mala?

            — Também não podemos confiar na comida por lá.

            — Não creio que estejam todos mortos.

            — O xerife não conseguiu contato com Paul Henderson, na subdelegacia.

            — É daí? O Henderson é um babaca.

            — A doutora falou que Henderson está morto, juntamente com...

            — Porra, a doutora é biruta ou está de porre. Além do mais, quem no seu juízo perfeito iria se consultar com uma médica? Provavelmente ela deu pra passar durante todo o curso da faculdade.

            — O quê?

            — Nenhuma dona tem capacidade pra se formar em medicina sem abrir as pernas!

            — Wargle, você nunca deixa de me espantar.

            — Qual é o problema? — indagou Wargle.

            — Nenhum. Esqueça. Wargle arrotou.

            — Bem, não creio que estejam todos mortos. — Outro problema com Stu Wargle era que ele não tinha imaginação alguma. — Que monte de merda. E eu de programa marcado com uma gatona.

            Franky Autry, por outro lado, tinha uma imaginação muito boa. Talvez boa demais. Enquanto guiava montanha acima, enquanto passava por um cartaz que dizia SNOWFIELD — SKM, sua imaginação funcionava como uma máquina bem lubrificada. Tinha a sensação perturbadora — premonição? palpite? — de que estavam se dirigindo diretamente para o Inferno.

 

            A sirene do posto de bombeiros berrava.

            O sino da igreja tocava cada vez mais depressa.

            Uma cacofonia ensurdecedora percorria a cidade.

            -— Jenny! — gritou Lisa.

            Fique de olhos abertos! Atenção aos movimentos!

            A rua era uma colcha de retalhos de dez mil sombras; havia lugares escutou em demasia para vigiar.

            A aliene gemia, o sino tocava, e agora as luzes começaram a piscar de novo — luzes das casas, luzes das lojas, luzes das ruas —, acendendo e apagando, acendendo e apagando tão rapidamente que criaram um efeito estroboscópico. A Skyline Road tremeluzia; os prédios pareciam saltar na direção da rua, depois voltar para trás, depois saltar para diante; as sombras dançavam espasmodicamente.

            Jenny fez uma volta completa, o revólver esticado na frente do corpo.

            Se havia algo se aproximando, encoberto pelo espetáculo de luz estroboscópica, ela não podia vê-lo.

            Pensou: Pode ser que, ao chegar, o xerife encontre duas cabeças cortadas no meio da rua. A minha e a de Lisa.

            O sino da igreja estava mais alto do que nunca e soava contínua e furiosamente.

            A sirene se transformou num guincho de balançar os dentes e furar os ossos. Parecia um milagre que as janelas não estivessem se estilhaçando.

            Lisa tapava os ouvidos com as mãos.

            A anua tremia na mão de Jenny, Lia não conseguia mantê-la imóvel.

            Então, tão abruptamente quanto começara, o pandemônio cessou. A sirene se calou. O sino da igreja parou de soar. As luzes permaneceram acesas.

            Jenny correu os olhos pela rua, esperando alguma coisa acontecer, alguma coisa pior.

            Nada, porém, aconteceu.

            Mais uma vez a cidade ficou tranqüila feito um cemitério.

            Um vento surgiu vindo do nada e fez com que as árvores oscilassem, como se respondendo a uma música etérea além do alcance do ouvido humano.

            Lisa saiu do transe em que estava e falou:

            — Foi quase como se... como se estivessem tentando nos amedrontar... nos provocando.

            — Provocando — concordou Jenny. — É, era exatamente isso o que parecia.

            — Brincando com a gente.

            — Como o gato com os ratos — disse Jenny, baixinho. Ficaram paradas no meio da rua silenciosa, com medo de voltar ao banco diante da cadeia municipal, com medo de que o movimento de ambas pudesse fazer recomeçar a sirene e o sino.

            De repente, escutaram um ronco baixo. Por um instante, o estômago de Jenny se retesou. Ela levantou a arma mais uma vez, embora não pudesse enxergar nada em que atirar. Depois, reconheceu o som: eram motores de automóvel subindo com esforço a estrada íngreme da montanha.

            Ela se voltou e olhou para o começo da rua. O ronco dos motores ficou mais alto. Um carro dobrou a curva, no comecinho da cidade.

            Luzes de teto vermelhas faiscantes. Um carro de polícia. Dois carros de polícia.

            — Graças a Deus — exclamou Lisa.

            Jenny acompanhou a irmã rapidamente até a calçada de pedras redondas em frente à subdelegacia.

            Os dois carros-patrulha verde e branco vieram subindo lentamente a rua deserta e estacionaram junto ao meio-fio, em frente ao banco de madeira. Os dois motores foram desligados simultaneamente, O silêncio mortal de Snowfield tomou posse da noite mais uma vez.

            Um negro atraente fardado de delegado saltou do primeiro carro, deixando a porta aberta. Olhou para Jenny e Lisa, mas não falou imediatamente. A sua atenção se deteve na rua sobrenaturalmente silenciosa e deserta.

            Um segundo homem saltou do banco dianteiro do mesmo veículo. Tinha cabelos avermelhados e rebeldes. Suas pálpebras eram tão pesadas que ele parecia prestes a pegar no sono. Estava vestido à paisana — calças cinzentas, uma camisa azul-clara, uma jaqueta de náilon azul-escura —, mas tinha um distintivo preso à jaqueta.

            Quatro outros homens saltaram das patrulhas. Todos os seis recém-chegados ficaram parados ali por um longo momento, sem falar, os olhos percorrendo as lojas e casas silenciosas.

            Naquela bolha de tempo suspensa e estranha, Jenny teve uma premonição gélida em que não queria acreditar. Teve certeza... pressentiu... soube... que nem todos eles sairiam vivos daquele lugar.

 

            Bryce curvou-se sobre um dos joelhos ao lado de Paul Henderson.

            As outras sete pessoas — seus próprios homens, a dra. Paige e Lisa — ficaram na área de recepção, do lado de fora da grade de madeira, na subdelegacia de Snowfield. Estavam quietas na presença da Morte.

            Paul Henderson fora um bom homem com instintos decentes. Sua morte era um terrível desperdício.

            Bryce chamou:

            — Dra. Paige?

            Ela se agachou do outro lado do corpo.

            — Sim?

            A senhora não mudou o corpo de lugar? Nem mesmo toquei nele, xerife. Não havia sangue?

            É como o senhor está vendo agora. Nada de sangue. O ferimento poderia ser nas costas — falou Bryce. Mesmo que fosse, ainda haveria um pouco de sangue no chão. Pode ser. — Ele fitou-lhe os olhos impressionantes — verdes pontilhados de dourado. — Normalmente eu não mexeria num corpo até que o legista o tivesse examinado. Mas esta não é uma situação normal, Terei que virar este homem de barriga para baixo.

            — Não sei se é seguro tocar nele.

            — Alguém tem que fazê-lo — disse Bryce.

            A dra. Paige se levantou e todos recuaram um ou dois passos. Bryce levou a mão ao rosto distorcido e enegrecido de Henderson.

            — A pele ainda está ligeiramente quente — exclamou, surpreso. A dra. Paige falou:

            — Não creio que tenham morrido há muito tempo.

            — Mas um corpo não fica descolorido e inchado em duas horas — falou Tal Whitman.

            — Estes corpos ficaram — replicou a doutora.

            Bryce virou o corpo de bruços, deixando as costas à mostra. Nenhum ferimento.

            Esperando encontrar uma depressão anormal no crânio, Bryce meteu os dedos pela cabeleira espessa do morto, tateando os ossos. Se o delegado tivesse sido atingido com força na parte de trás da cabeça... Mas tampouco fora isso o que acontecera. O crânio estava intacto.

            Bryce se pôs de pé.

            — Doutora, essas duas decapitações que a senhora mencionou... acho melhor darmos uma olhada nelas.

            — Será que um dos seus homens poderia ficar aqui com a minha irmã?

            — Compreendo como se sente — falou Bryce. — Mas não creio que seja sensato dividir os homens. Pode ser que não haja segurança em ficarmos todos juntos; mas, por outro lado, pode ser que haja.

            — Tudo bem — assegurou Lisa a Jenny. — Eu não quero ficar para trás, de qualquer maneira.

            Era uma garota de coragem. Tanto ela quanto a irmã intrigavam Bryce Hammond. Estavam pálidas e seus olhos se achavam cheios de sombras roxas de choque e horror, mas enfrentavam este pesadelo vivo e bizarro muito melhor do que a maioria das pessoas o faria.

            As Paiges foram guiando o grupo todo para fora da subdelegacia e na direção da padaria.

            Bryce estava achando difícil acreditar que Snowfield tivesse sido uma aldeia normal e movimentada há pouco tempo. A cidade parecia seca, extinta e morta, como uma antiga cidade perdida num deserto longínquo, num canto do mundo onde até o vento, às vezes, se esquecia de ir. A quietude que envolvia a cidade parecia um silêncio de inúmeros anos, de décadas, de séculos, um silêncio de épocas inimaginavelmente longas, empilhadas umas sobre as outras.

            Pouco depois de chegar em Snowfield, Bryce utilizara um megafone elétrico para tentar obter uma resposta das casas silenciosas. Agora parecia tolice ter sequer esperado uma resposta.

            Entraram na padaria dos Liebermanns pela porta da frente e foram para a cozinha nos fundos do prédio.

            Na mesa de cepo de açougueiro, duas mãos cortadas agarravam as pontas de um rolo de macarrão.

            Duas cabeças cortadas espiavam por duas portas de forno.

            — Oh, meu Deus — exclamou Tal, baixinho.

            Bryce estremeceu.

            Jake Johnson se encostou num armário branco e alto, necessitando evidentemente de um apoio. Wargle falou:

            — Cristo, eles foram abatidos como se fossem duas vacas... E logo estavam todos falando a uma voz.

            — ...por que diabo alguém faria...

            — ...doente, pervertido...

            — ...e onde estão os corpos?

            — Sim — disse Bryce, erguendo a voz para se sobrepujar ao vozerio —, onde estão os corpos! Vamos procurá-los.

            Durante dois segundos ninguém se mexeu, todos petrificados pela idéia do que poderiam encontrar.

            — Dra. Paige, Lisa... não há necessidade de vocês nos ajudarem — continuou Bryce. — Basta se afastarem.

            A médica assentiu. A mocinha sorriu, agradecida.

         Trepidantemente, revistaram todos os armários, abriram todas as gavetas e portas. Gordy Brogan olhou dentro do grande forno, que não era equipado com visor, e Frank Autry examinou o frigorífico. Bryce inspecionou o banheiro pequeno e impecável num dos cantos da cozinha. Mas não puderam achar os corpos (ou qualquer pedaço dos corpos) do casal idoso.

            — Por que o assassino levaria os corpos? — perguntou Frank.

            — Talvez estejamos lidando com gente de algum culto — falou Jake Johnson. Provavelmente queriam os corpos para algum ritual macabro.

            — Se houver algum ritual — falou Frank —, parece-me que foi realizado aqui mesmo.

            Gordy Brogan se precipitou para o lavatório, tropeçando e oscilando, um garotão desajeitado que parecia formado apenas de pernas compridas e braços compridos, cotovelos e joelhos. Sons de ânsias de vômitos atravessaram a porta que ele fechara atrás de si.

            Stu Wargle achou graça e falou:

            — Jesus, que maricas.

            Bryce se voltou para ele, de cara fechada.

            — Em nome de Deus, o que está achando tão engraçado, Wargle? Tem gente morta aqui. Acho que a reação de Gordy é bem mais natural do que qualquer uma das nossas.

            O rosto pesado de Wargle, de olhinhos pequenos, toldou-se de raiva. Ele não tinha nem espírito para ficar encabulado. Deus, como desprezo este homem, pensou Bryce. Quando Gordy voltou do banheiro, estava sem jeito.

            — Desculpe, xerife.

            — Não tem do quê, Gordy.

            Eles saíram juntos da cozinha, passando pelo salão de Vendas e se dirigiram para a calçada.

            Bryce foi imediatamente até o portão de madeira entre a padaria e a loja vizinha. Olhou sobre o topo do portão para o corredor coberto e sem luz. A dia. Paige se acercou dele e Bryce perguntou:

            — Foi aqui que a senhora pensou ter visto alguma coisa nos caibros do telhado?

            — Bem, lisa achou que a coisa estava agachada junto à parede.

            — Mas do corredor era este!

            — Era.

            O túnel estava totalmente às escuras.

            Ele pegou a lanterna elétrica de cabo comprido de Tal, abriu o portão que rangia, sacou o revolver e entrou no corredor. Havia ali um odor vago de umidade desagradável. O guincho das dobradiças enferrujadas do portão e depois o som de seus próprios passos ecoaram túnel abaixo, precedendo-o.

            A luz da lanterna era potente; cobria mais da metade da passagem. Todavia ele a manteve próximo de si, movendo-a para diante e para trás, cobrindo a área mais imediata, examinando as paredes de concreto, depois olhando para o teto, que ficava uns três metros acima da sua cabeça. Pelo menos nesta parte do corredor, os caibros do telhado estavam desertos.

            A cada passo que dava, Bryce se sentia mais certo de que sacar o revólver fora desnecessário — até que chegou mais ou menos no meio do túnel. Então, de repente, sentiu... algo estranho... um tinir, um tremor frio e agoureiro na espinha. Sentiu que não estava mais sozinho.

            Era um homem que confiava nos seus palpites, e não ignorou este. Parou de andar, ergueu a arma, prestou mais atenção do que antes ao silêncio, passou rapidamente a luz da lanterna pelas paredes e teto, olhou pára os caibros com especial atenção, fitou a escuridão adiante quase até a entrada do beco, e chegou até a olhar para trás para ver se algo havia surgido magicamente às suas costas. Nada esperava na escuridão. No entanto, ele continuava a sentir que estava sendo observado por olhos inamistosos.

            Adiantou-se de novo, e a sua luz iluminou qualquer coisa. Coberto por uma grade de metal, um ralo de trinta centímetros quadrados se encontrava no chão da passagem. Dentro do ralo, algo indefinível cintilou, refletindo a luz da lanterna; mexeu-se.

            Cautelosamente, Bryce se aproximou mais e dirigiu o facho diretamente para dentro do ralo. O que quer que cintilara já tinha sumido.

            Ele se agachou junto ao ralo e espiou pelas fendas da grade. O facho de luz revelou apenas as paredes de um cano. Era um cano de escoamento, de cerca de 45 centímetros de diâmetro, e estava seco, o que significava que ele não vira apenas água.

            Um rato? Snowfield era uma estação de esportes que recebia turistas relativamente afluentes. Portanto, a cidade tomava medidas invulgarmente rígidas para se manter livre de todo o tipo de animais nocivos. É claro que, a despeito de todas as precauções de Snowfield neste sentido, a existência de um ou dois ratos não era de todo impossível. Podia ter sido um rato. Mas Bryce não acreditava que tivesse sido.

            Ele caminhou até o fundo do beco, depois voltou para o portão onde Tal e os outros estavam à espera.

            — Viu alguma coisa? — perguntou Tal.

            — Não vi grande coisa — respondeu Bryce, passando para a calçada e fechando o portão atrás de si. Contou-lhes da sensação que tivera de estar sendo observado e do movimento no cano.

            — Os Liebermanns foram mortos por gente — falou Frank Autry. — Não por algo pequeno o bastante para se enfiar por um cano.

            — Sem dúvida é o que parece — concordou Bryce.

            — Mas o senhor sentiu alguma coisa lá? — perguntou Lisa, ansiosa.

            — Senti alguma coisa — disse Bryce à garota. — Aparentemente não me afetou com a mesma intensidade com que você disse que a afetou. Mas era definitivamente... estranho.

            — Que bom — falou Lisa. — Ainda bem que não acha que somos apenas mulheres histéricas.

            — Considerando o que passaram, vocês são o mais “anti- histéricas " que se possa desejar.

            — Bem — falou a mocinha —, Jenny é médica, e eu acho que também gostaria de ser médica algum dia, e os médicos simplesmente não podem se dar ao luxo de serem histéricos.

            Ela era uma garota engraçadinha — embora Bryce não pudesse ter deixado de notar que a irmã mais velha era ainda mais bonita. Tanto a garota quanto a doutora tinham o mesmo tom de cabelo: um castanho-avermelhado de cerejeira bem encerada, grosso e lustroso. Ambas também tinham a mesma pele dourada. Como, porém, as feições da dra. Paige eram mais maduras do que as de Lisa, eram também mais interessantes e atraentes, na opinião de Bryce. Os olhos da doutora eram ainda de um tom mais verde do que os da irmã.

            Bryce falou:

            — Dra. Paige, gostaria de ver aquela casa onde os corpos estavam dentro do gabinete de leitura com barricada.

            — É — falou Tal. — Os assassinatos do quarto trancado.

            — É na casa dos Oxleys, lá na Vail.

            Ela os conduziu rua abaixo na direção da esquina da Vail Lane com a Skyline Road.

            O arrastar seco dos passos deles era o único som, e fez Bryce pensar novamente em locais desertos, com escaravelhos pulando em pilhas de pergaminhos de papiro frágeis e antigos, em túmulos do deserto.

            Dobrando a esquina na Vail Lane, a dra. Paige parou e disse:

            — Tom e Karen Oxley... hã... moravam a duas quadras daqui, descendo a rua.

            Bryce examinou a rua. Falou:

            — Em vez de irmos direto para a casa dos Oxleys, vamos dar uma olhada em todas as casas e lojas daqui até a casa deles... pelo menos neste lado da rua. Acho que é seguro nos dividirmos em dois grupos de quatro. Não vamos tomar direções inteiramente diferentes. Estaremos perto o bastante para nos ajudarmos uns aos outros, se houver encrenca. Dra. Paige, Lisa... vocês ficam comigo e com Tal. Frank, você fica encarregado da segunda equipe. — Frank assentiu. — Vocês quatro fiquem bem juntos — advertiu Bryce. — E quero dizer juntos mesmo. Cada um de vocês tem que ficar à vista dos outros três o tempo todo. Compreenderam?

            — Compreendemos, xerife — respondeu Frank Autry.

            — Tudo bem, então vocês quatro examinem o primeiro prédio depois deste restaurante e nós examinaremos o prédio vizinho a ele. Vamos alternando os prédios até o fim do quarteirão, depois paramos e trocamos impressões. Se vocês encontrarem algo de realmente interessante, algo mais do que simples corpos adicionais, venham me buscar. Se precisarem de ajuda, disparem dois ou três tiros. Escutaremos os tiros mesmo que estejamos dentro de outro prédio, li vocês também fiquem atentos a tiros disparados por nós.

            — Posso fazer uma sugestão? — indagou a dra. Paige.

            — Claro — retrucou Bryce. Voltando-se para Frank Autry, ela falou:

            — Se depararem com qualquer cadáver que apresente sinais de hemorragia nos olhos, ouvidos, nariz ou boca, avisem-me imediatamente. E também se houver quaisquer indícios de vômito ou diarréia.

            — Porque essas coisas podem indicar uma moléstia? — perguntou Bryce.

            — É — respondeu ela. — Ou envenenamento.

            — Mas já eliminamos essas possibilidades, não foi? — perguntou Gordy Brogan.

            Jake Johnson, aparentando mais idade que seus 57 anos, falou:

            — Não foi uma moléstia que cortou Fora a cabeça daquelas pessoas.

            — Estive pensando nisso — replicou a dra. Paige. — E se se tratar de uma moléstia ou uma toxina química que jamais encontramos antes — uma forma mutante de raiva, digamos —, que mata algumas pessoas mas simplesmente deixa as outras loucas furiosas'? E se as mutilações foram feitas por aqueles que ficaram alucinados?

            — Isso seria provável? — quis saber Tal Whitman.

            — Não. Mas, pensando bem, talvez não seja impossível. Além disso, quem é capaz de dizer o que é provável ou improvável, agora? Seria provável que uma coisa dessas acontecesse a Snowfield, para começo de conversa?

            Frank Autry puxou o bigode e falou:

            — Mas se há bandos de maníacos raivosos correndo soltos por aí... onde estão eles?

            Todos olharam para a rua tranqüila. Para as poças de sombra mais fundas que se derramavam por relvados, calçadas e carros estacionados. Para as janelas de sótão apagadas. Para as janelas de porão às escuras.

            — Se escondendo — falou Wargle.

            — Esperando — falou Gordy Brogan.

            — Não, isso não faz sentido — falou Bryce. — Maníacos raivosos não ficariam escondidos, esperando e planejando. Eles nos,atacariam.

            — Além disso — disse Lisa suavemente —, não é gente com raiva. É alguma coisa bem mais estranha.

            — Ela provavelmente tem razão — falou a dra. Paige.

            — O que não me faz sentir nem um pouquinho melhor — disse Tal.

            — Bem, se encontrarmos sinais de vômitos, diarréia ou hemorragia — falou Bryce —, então saberemos. E se não encontrarmos...

            — Terei que apresentar uma nova hipótese — concluiu a dra. Paige. Ficaram calados, sem animação para começar a busca porque não sabiam o que podiam encontrar — ou o que poderia encontrá-los.

            O tempo parecia ter parado.

            O alvorecer, pensou Bryce Hammond, jamais chegará se não nos mexermos.

            — Vamos indo — falou.

 

            O primeiro prédio era estreito e fundo, com uma combinação de galeria de arte e loja de artesanato no primeiro andar. Frank Autry quebrou uma vidraça na porta da frente, meteu a mão para dentro e destrancou a porta. Entrou e acendeu as luzes.

            Fazendo sinal para os outros entrarem, falou:

            — Espalhem-se. Não fiquem junto demais. Não queremos oferecer um alvo fácil.

            Enquanto falava, Frank se lembrava do seu tempo de serviço no Vietnã, há quase vinte anos. Esta operação tinha a qualidade angustiante de uma missão de busca-e-destruição em território dos guerrilheiros.

            Percorreram cautelosamente o salão de exposição da galeria, mas não acharam ninguém. Tampouco havia pessoa alguma no pequeno escritório nos fundos do salão. Todavia, uma porta no escritório abria para uma escada que levava ao segundo andar.

            Subiram a escada ao estilo militar. Frank subiu sozinho até o alto, arma na mão, enquanto os outros esperavam. Localizou o interruptor no alto da escada, acendeu-o e viu que estava no canto da sala de estar do apartamento do dono da galeria. Quando teve certeza de que a sala estava vazia, fez sinal aos seus homens para subirem. Enquanto os outros subiam a escada, Frank penetrou na sala de estar, sempre grudado à parede, atento.

            Eles revistaram o resto do apartamento, tratando cada porta como ponto potencial de emboscada. Tanto o gabinete de leitura quanto a sala de jantar estavam desertos. Não havia ninguém escondido nos armários.

            No chão da cozinha, contudo, encontraram um homem morto. Ele estava usando apenas calças de pijama azuis, mantendo aberta a poria da geladeira com o corpo pisado e inchado. Não havia ferimentos visíveis. Não havia expressão de horror no seu rosto. Aparentemente, morrera tão de repente que nem pudera ver o seu atacante... e sem o menor sinal de advertência de que a morte estivesse próxima. No chão ao seu redor via-se material para preparar um sanduíche: um vidro partido de mostarda, um pacote de salame, um tomate parcialmente amassado, um pacote de queijo suíço.

            — Não foi doença alguma que o matou — disse Jake Johnson, enfaticamente. — Como é que podia estar doente se ia comer salame?

            — E tudo aconteceu depressa mesmo — falou Gordy. — Ele estava com as mãos cheias das coisas que tirou da geladeira, e quando se virou... a coisa aconteceu. Bum: sem mais nem menos.

            Descobriram outro cadáver no quarto. Ela estava na cama, nua. Não tinha menos de vinte anos, nem mais de quarenta. Era difícil adivinhar a sua idade por causa das pisaduras e do inchaço globais. Seu rosto estava contorcido de terror, precisamente como o de Paul Henderson, Ela havia morrido no meio de um grito.

            Jake Johnson tirou uma caneta do bolso da camisa e enfiou-a pelo gatilho de uma automática 22 que jazia nos lençóis amassados, ao lado do corpo.

            — Não creio que seja preciso tomar cuidado com isso — falou Frank. — Ela não foi baleada. Não há nenhum ferimento; nada de sangue. Se alguém usou a arma, esse alguém foi ela mesma. Deixe-me vê-la.

            Ele tirou a automática das mãos de Jake e ejetou o pente. Estava vazio. Ele mexeu no cursor, apontou a boca da arma para a mesinha-de-cabeceira e examinou o cano, não havia bala na câmara. Levou a boca da arma ao nariz, farejou, sentiu o cheiro de pólvora.

            — Foi disparada recentemente? — perguntou Jake.

            — Muito recentemente. Supondo-se que o pente estivesse cheio quando ela o usou, isso quer dizer que deu dez tiros.

            — Olhe isto aqui — dizia Wargle.

            Frank se virou e viu que Wargle apontava para um buraco de bala na parede em frente ao pé da cama; ficava mais ou menos na altura de dois metros.

            — E aqui — falou Gordy Brogan, chamando a sua atenção para outra bala localizada na madeira lascada da cômoda escura de pinho.

            Encontraram todos os dez invólucros de metal na cama ou ao redor dela, mas não conseguiram descobrir onde as outras oito balas estavam localizadas.

            — Você acha que ela acertou oito vezes? — perguntou Gordy a Frank.

            — Besteira, isso seria impossível! — exclamou Wargle, ajeitando o cinturão nos quadris gordos. — Se tivesse acertado em alguém oito vezes, não seria o único cadáver no quarto, porra.

            — Certo — disse Frank, embora lhe desagradasse ter que concordar com Stu Wargle sobre qualquer coisa. — Além disso, não há sangue. Se tivesse acertado oito vezes, haveria um bocado de sangue.

            Wargle foi até o pé da cama e fitou a mulher morta. Ela estava recostada em dois travesseiros fofos, e tinha as pernas abertas numa paródia grotesca de desejo.

            — O cara na cozinha devia estar aqui, trepando com essa dona — falou Wargle. — Quando acabou com ela, foi para a cozinha preparar alguma coisa para comerem. Enquanto estavam separados, alguém entrou aqui e a matou.

            — Mataram primeiro o homem na cozinha — falou Frank. — Ele não podia ter sido apanhado de surpresa se tivesse sido atacado depois que ela atirou dez vezes.

            Wargle falou:

            — Cara, eu bem que gostaria de ter passado o dia todo na cama com uma gata dessas.

            Frank olhou para ele, de boca aberta.

            — Wargle, você é revoltante. Fica ouriçado até com um cadáver inchado... só porque está nu?

            O rosto de Wargle ficou vermelho, e ele afastou os olhos do cadáver.

            — Que diabo está havendo com você, Frank? O que acha que sou — algum tarado? Hein? Porra, não. Eu vi aquela foto ali na mesinha-de-cabeceira. — Apontou para uma fotografia emoldurada em prata ao lado do abajur. — Está vendo, ela está de biquíni. Dá para se ver que ela era uma gata bonitona. Mamas grandes. Pernas espetaculares. Foi isso que me ouriçou, meu chapa.

            Frank balançou a cabeça.

            — O que me espanta é que você consiga ficar ouriçado com qualquer coisa no meio disto, no meio de tanta morte.

            Wargle achou que aquilo era um elogio. Piscou o olho.

            Se eu sair disto aqui com vida, pensou Frank, não vou deixar nunca mais que Bryce Hammond destaque o Wargle para meu parceiro. Prefiro me demitir.

            Gordy Brogan perguntou:

            — Como é que ela pode ter acertado oito vezes e não ter detido alguma coisa? Como é que não há uma só gota de sangue?

            Jake Johnson voltou a correr a mão pela cabeleira branca.

            — Não sei, Gordy. Mas uma coisa eu sei... gostaria que Bryce não tivesse me escolhido para vir para cá.

 

            Ao lado da galeria de arte, o cartaz na frente do prédio pitoresco de dois andares dizia:

 

            BROOKHART'S

            CERVEJA — VINHO — BEBIDAS ALCOÓLICAS

            FUMO — REVISTAS — JORNAIS — LIVROS

 

            As luzes estavam acesas, e a porta destrancada. O Brookhart's ficava aberto até as nove, mesmo nas noites de domingo durante a baixa temporada.

            Bryce entrou primeiro, seguido por Jennifer e Lisa Paige. Tal entrou por último. Ao escolher um homem para protegei a sua retaguarda numa situação de perigo, Bryce sempre preferia Tal Whitman. Não confiava em mais ninguém como confiava em Tal, nem mesmo em Frank Autry.

            Brookhart era um lugar atravancado, mas curiosamente simpático e agradável. Havia refrigeradores altos de porta de vidro cheios de latas e garrafas de cerveja, prateleiras, suportes e caixas cheios de garrafas de vinho e bebidas alcoólicas, e outras prateleiras atopetadas de livros, revistas e jornais. Charutos e cigarros estavam empilhados em caixas e caixotes, e latas de fumo para cachimbo ficavam expostas em montes, ao acaso, sobre diversos balcões. Uma variedade de guloseimas se encaixava em qualquer canto que houvesse espaço: barras de chocolate, dropes, goma de mascar, amendoim, pipoca, batatinhas fritas e mais outros salgadinhos.

            Bryce foi na frente, procurando corpos nos corredores da loja deserta. Mas não havia nenhum.

            Havia, contudo, uma imensa poça d'água, com cerca de dois centímetros de profundidade, que cobria metade do chão. Eles a rodearam cuidadosamente.

            — De onde veio essa água toda? — indagou Lisa.

            — Deve haver um vazamento no tanque de condensação debaixo de um dos refrigeradores de cerveja — falou Tal Whitman.

            Passaram por uma caixa de vinho e deram uma boa olhada em todos os refrigeradores. Não havia água alguma nas proximidades daqueles aparelhos elétricos, que roncavam baixinho.

            — Quem sabe é um cano furado — falou Jennifer Paige. Continuaram a exploração, descendo para a adega, que era usada

            para a armazenagem de vinho e outras bebidas em caixotes de papelão, subindo depois para o último andar, acima da loja, onde havia um escritório. Não encontraram nada de anormal.

            Novamente dentro da loja, dirigiram-se para a porta da frente, Bruce parou e se agachou para olhar mais de perto a poça no chão. Umedeceu a ponta do dedo no líquido; parecia ser água, e não tinha cheiro.

            — O que foi? — perguntou Tal. Novamente de pé, Bryce respondeu:

            — É estranho... toda esta água aqui.

            — Vai ver que é o que a dra. Paige falou... só um cano furado. Bryce assentiu. Todavia, embora não soubesse dizer por que, a poça

            grande lhe parecia significativa.

            A Farmácia Tayton era um local pequeno que atendia Snowfield e todas as cidades montanhesas vizinhas. Um apartamento ocupava dois andares acima da farmácia; era decorado em tons de creme e pêssego, com peças de realce verde-esmeralda, e com diversas antigüidades de boa qualidade.

            Frank Autry conduziu os seus homens por todo o prédio, mas não acharam nada de extraordinário — a não ser o carpete ensopado da sala de visitas. Estava realmente encharcado; praticamente chapinharam nele.

 

            A Candleglow Inn positivamente irradiava encanto e classe: os beirais fundos e as cornijas primorosamente entalhadas, as janelas com mainel flanqueadas por persianas brancas entalhadas. Duas lâmpadas de carruagem afixavam-se em pilastras de pedra, uma de cada lado do curto caminho de pedra. Três holofotes pequenos espalhavam leques de luz, dramaticamente, na fachada da estalagem.

            Jenny, Lisa, o xerife e o tenente Whitman pararam na calçada diante da Candleglow, e Hammond perguntou:

            — Estão funcionando nesta época do ano?

            — Sim — respondeu Jenny. — Conseguem ter metade dos quartos ocupados durante a baixa temporada. Sua reputação é fantástica entre viajantes exigentes... e têm apenas dezesseis quartos.

            — Bem... vamos dar uma olhada.

            As portas da frente davam para um saguão pequeno e confortavelmente mobiliado: piso de carvalho, tapete oriental escuro, sofás em bege-claro, um par de cadeiras Rainha Anne estofadas num tecido cor-de-rosa, mesinhas laterais de cerejeira, abajures de latão.

            A mesa da recepção ficava à direita. Havia uma campainha no balcão de madeira e Jenny a apertou diversas vezes, rapidamente, sem esperar resposta, e não obtendo nenhuma.

            — Dan e Sylvia têm um apartamento por trás do escritório — disse ela, apontando para o escritoriozinho apertado do outro lado do balcão.

            — São os donos disto aqui? — indagou o xerife.

            — São. Dan e Sylvia Kanarsky.

            O xerife fitou-a por um momento.

            — Amigos?

            — É. Amigos íntimos.

            — Então é melhor não irmos olhar no apartamento deles.

            Compreensão e compaixão brilhavam nos seus olhos azuis de pálpebras pesadas. Jenny ficou surpresa ao se dar conta, repentinamente, da bondade e inteligência que havia no rosto dele. Durante esta última hora, vendo-o trabalhar, ela aos poucos começara a perceber que ele era consideravelmente mais alerta e eficiente do que aparentava ser a princípio. Agora, fitando aqueles olhos sensíveis, compassivos, ela se deu conta de que ele era perceptivo, interessante, digno de respeito.

            — Não podemos simplesmente ir embora — falou ela. — Este lugar vai ter que ser revistado, mais cedo ou mais tarde. A cidade inteira tem que ser revistada. É melhor nos livrarmos logo desta parte.

            Ela levantou uma parte do balcão de madeira que tinha dobradiças e começou a cruzar a portinha para o escritório além dele.

            — Por favor, doutora — falou o xerife —, deixe sempre que um de nós, eu ou o tenente Whitman, vá na frente.

            Ela recuou obedientemente e ele a precedeu ao entrarem no apartamento de Dan e Sylvia, mas não acharam ninguém. Nenhum cadáver.

            Graças a Deus.

            De volta à recepção, o tenente Whitman folheou o livro de registros.

            — Há somente seis quartos alugados no momento, e ficam todos no segundo andar.

            O xerife localizou uma chave mestra num porta-chaves junto às caixas de correspondência.

            Com cautela quase monótona, eles subiram e revistaram os seis quartos. Nos cinco primeiros encontraram bagagem, máquinas fotográficas, postais parcialmente escritos e outros indícios de que realmente havia hóspedes na estalagem, mas não encontraram os hóspedes propriamente ditos.

            No sexto quarto, quando o tenente Whitman tentou abrir a porta do banheiro conjugado, viu que estava trancada. Bateu com força na porta e gritou:

            — Polícia! Tem alguém aí? Ninguém respondeu.

            Whitman olhou para a maçaneta, depois para o xerife.

            — Não tem trinco deste lado, então deve ter alguém aí dentro. Arrombo a porta?

            — Parece madeira sólida — falou Hammond. — Não vale a pena deslocar o seu ombro. Arrebente a fechadura com um tiro.

            Jenny pegou o braço de Lisa e puxou a garota para o lado, para fora do caminho de qualquer lasca que pudesse voar.

            O tenente Whitman gritou uma advertência para quem quer que estivesse no banheiro, depois disparou um único tiro. Abriu a porta com um pontapé e entrou rapidamente.

            — Não tem ninguém aqui.

            — Quem sabe saíram pela janela — disse o xerife.

            — Aqui não tem nenhuma janela — falou Whitman, franzindo o cenho.

            — Tem certeza de que a porta estava trancada?

            — Absoluta. E só podia ser trancada por dentro.

            — Mas como... se não havia ninguém aí? Whitman deu de ombros.

            — Além do mais, tem uma coisa aqui que acho que você deve vir ver.

            Todos foram ver, na verdade, pois o banheiro era grande o bastante para acomodar quatro pessoas. No espelho que encimava a pia, uma mensagem fora escrita às pressas em letras grandes, pretas, gordurosas:

 

            Timothy Flyte o inimigo antigo

 

            Noutro apartamento, em cima de outra loja, Frank Autry e seus homens encontraram outro carpete ensopado e chapinharam nele também. Na sala de visitas, sala de jantar e quartos, o carpete estava seco, mas no corredor que levava à cozinha estava encharcado. E na própria cozinha, três quartos do piso ladrilhado estavam cobertos de água, com poças que, em alguns lugares, chegavam a ter cerca de dois centímetros de profundidade. Parado no corredor, olhando para a cozinha, Jake Johnson falou:

            — Deve ser um cano furado.

            — Foi isso que você disse na outra casa — lembrou-lhe Frank. — Parece muita coincidência, não acha?

            Gordy Brogan comentou:

            — É só água. Não sei o que possa ter a ver com... todos os assassinatos.

            — Merda — falou Stu Wargle —, estamos perdendo tempo. Não tem nada aqui. Vamos embora.

            Ignorando-os, Frank entrou na cozinha, pisando com cuidado numa das extremidades do laguinho, dirigindo-se para uma zona seca perto de uma fileira de armários. Abriu diversos armários antes de encontrar um pequeno recipiente de plástico usado para guardar sobras de comida. Estava limpo e seco, e tinha uma tampa de pressão que o vedava completamente. Numa gaveta encontrou uma colher de medida, e usou-a para colocar água no recipiente.

            — O que está fazendo? — perguntou Jake, parado junto à porta.

            — Coletando uma amostra.

            — Amostra? Por quê? Não passa de água.

            — É — replicou Frank. — Mas há alguma coisa de esquisito nela.

            O banheiro. O espelho. As letras grandes, pretas, gordurosas. Jenny fitou as cinco palavras em letras de fôrma.

            — Quem é Timothy Flyte? — perguntou Lisa.

            — Pode ser o cara que escreveu isto — respondeu o tenente Whitman.

            — O quarto está alugado a Flyte? — perguntou o xerife.

            — Tenho certeza de que não vi o nome dele no livro de registro — disse o tenente. — Podemos verificar quando descermos, mas tenho absoluta certeza.

            — Talvez Timothy Flyte seja urn dos assassinos — falou Lisa. — Provavelmente o sujeito que alugou este quarto reconheceu-o e deixou esta mensagem.

            O xerife balançou a cabeça.

            — Não. Se Flyte tem alguma coisa a ver com o que aconteceu nesta cidade, não deixaria o nome no espelho deste jeito. Trataria de apagá-lo.

            — A não ser que não soubesse que estava ali — falou Jenny.

            — Ou talvez soubesse que estava ali, mas, sendo um daqueles maníacos raivosos de que a senhora falou, não se importasse com o fato de ser ou não apanhado — disse o tenente.

            Bryce Hammond olhou para Jenny.

            — Há alguém na cidade chamado Flyte?

            — Não que eu saiba.

            — Conhece todo mundo em Snowfield?

            — Conheço.

            — Todos os quinhentos habitantes?

            — Praticamente todo mundo — retrucou ela.

            — Praticamente todo mundo, não é? Então poderia haver um Timothy Flyte aqui?

            — Mesmo que não o conhecesse pessoalmente, ainda assim teria ouvido alguém falar nele. É uma cidade pequena, xerife, pelo menos durante a baixa temporada.

            — Poderia ser alguém de Mount Larson, Shady Roost ou Pineville — sugeriu o tenente.

            Ela desejou que eles pudessem passar a outro lugar para discutir a mensagem no espelho. Do lado de fora. Ao ar livre. Onde nada pudesse se esgueirar na direção deles sem se revelar. Tinha a sensação fantástica, sem base, mas inegável, de que alguma coisa — alguma coisa muito estranha — estava se movimentando noutra parte da estalagem neste exato minuto, cumprindo sorrateiramente alguma tarefa pavorosa que ela, o xerife, Lisa e o delegado ignoravam, para mal deles.

            — E quanto à segunda parte da mensagem? — indagou Lisa, apontando para o INIMIGO ANTIGO.

            — Bem, voltamos ao que Lisa falou primeiro — disse Jenny, finalmente. — Parece que o homem que escreveu isto estava nos dizendo que Timothy Flyte era seu inimigo. Nosso também, acho eu.

            — Talvez — retrucou Bryce Hammond, com ar de dúvida. — Mas parece um jeito estranho de colocar a coisa — "o inimigo antigo". Meio esquisito, quase arcaico. Se ele se trancou no banheiro para fugir de Flyte e depois escreveu uma advertência apressada, não teria dito "Timothy Flyte, meu velho inimigo", ou outra coisa mais direta? O tenente Whitman concordou.

            — Na verdade, se ele quisesse deixar uma mensagem acusando Flyte, teria escrito "Foi Timothy Flyte", ou talvez "Timothy Flyte matou todos eles". A última coisa que ele ia querer era ser obscuro.

            O xerife começou a mexer nos artigos na prateleira funda que ficava acima da pia, logo abaixo do espelho: um frasco de creme para a pele, loção pós-barba com cheiro de limão, um barbeador elétrico de homem, um par de escovas de dentes, pasta de dente, pentes, escovas de cabelo, um estojo de maquiagem para mulher.

            — Ao que parece, havia duas pessoas neste quarto. Admitindo- se que elas se trancaram no banheiro, então duas pessoas desapareceram como que por encanto. Mas com que escreveram no espelho?

            — Parece que foi com lápis de sobrancelha — falou Lisa.

            — Eu também acho — concordou Jenny.

            Revistaram o banheiro procurando um lápis de sobrancelha preto. Não conseguiram achá-lo.

            — Formidável — falou o xerife, exasperado. — Quer dizer que o lápis de sobrancelha sumiu, juntamente com duas pessoas que se trancaram aqui. Duas pessoas raptadas de um quarto trancado.

            Desceram e foram até a recepção. Segundo o registro dos hóspedes, o quarto em que a mensagem fora encontrada era ocupado pelo sr. e sra. Harold Ordnay, de São Francisco.

            — Nenhum dos outros hóspedes se chama Timothy Flyte — disse o xerife Hammond, fechando o livro de registro.

            — Bem — falou o tenente Whitman —, acho que é só o que podemos fazer por aqui, no momento.

            Jenny ficou aliviada ao ouvi-lo dizer aquilo.

            — Está bem — concordou Bryce Hammond. — Vamos nos encontrar com Frank e os outros. Talvez eles tenham achado algo que nós não achamos.

            Começaram a cruzar o saguão. Depois de darem dois passos, Lisa os deteve com um grito.

            Todos a viram um segundo depois que chamou a atenção da garota. Estava numa mesinha lateral, diretamente no facho de luz de um abajur de cúpula cor-de-rosa, tão lindamente iluminada que quase parecia um objeto de arte em exposição. Uma mão de homem. Uma mão cortada.

            Lisa desviou o olhar da visão macabra.

            Jenny abraçou a irmã, olhando por sobre o ombro de Lisa com uma fascinação apavorada. A mão. A mão maldita, zombeteira, impossível.

            Segurava com firmeza um lápis de sobrancelha entre o polegar e os dois primeiros dedos. O lápis de sobrancelha. O mesmo. Tinha que ser.

            O horror de Jenny foi tão grande quanto o de Lisa, mas ela mordeu o lábio e conteve um grito. Não foi meramente a visão da mão que a enjoou e aterrorizou. O que a fez prender a respiração até o peito arder foi o fato de que a mão não estava naquela mesinha lateral momentos atrás. Alguém a colocara ali enquanto eles estavam lá em cima, sabendo que a encontrariam. Alguém estava debochando deles, alguém com um senso de humor extremamente pervertido.

            Os olhos encobertos de Bryce Hammond estavam abertos como Jenny jamais os vira.

            — Droga, mas esta coisa não estava aqui antes, estava?

            — Não — respondeu Jenny.

            O xerife e o delegado estavam carregando as armas com a boca apontada para o chão. Agora, ergueram os revólveres como se pensassem que a mão cortada poderia largar o lápis de sobrancelha, saltar da mesa, jogar-se sobre o rosto de alguém e arrancar-lhe fora os olhos.

            Ficaram sem fala.

            Os desenhos em espiral do tapete oriental pareciam ter-se transformado em serpentinas de refrigeração, lançando ondas de ar gelado.

            Lá em cima, num quarto distante, uma tábua de chão ou uma porta sem lubrificação rangeu, gemeu, rangeu.

            Bryce Hammond ergueu os olhos para o teto do saguão.

            Crrrééééc.

            Podia ser apenas um barulho natural de acomodação. Ou podia ser outra coisa.

            — Agora não há mais dúvida — disse o xerife.

            — Sobre quê? — perguntou o tenente Whitman, olhando não para o xerife, mas para as outras entradas que davam para o saguão.

            O xerife se voltou para Jenny.

            — A senhora disse que, ao ouvir a sirene e o sino da igreja, pouco antes de chegarmos, teve a consciência de que o que quer que tivesse acontecido a Snowfield ainda poderia estar acontecendo.

            — Foi.

            — Agora sabemos que tinha razão.

 

            Jake Johnson esperava com Frank, Gordy e Stu Wargle no fim do quarteirão, num trecho de calçada fortemente iluminado em frente ao Mercado Gilmartin, uma mercearia.

            Viu Bryce Hammond sair da Candleglow Inn, e pedia aos céus que o xerife andasse mais depressa. Não gostava de ficar ali parado naquela luz toda. Que diabo, era como estar num palco. Jake sentia-se vulnerável.

            É claro, alguns minutos antes, enquanto faziam uma revista em alguns dos prédios da rua, eles tinham tido que passar por zonas escuras onde as sombras pareciam pulsar e se mover como criaturas vivas, e Jake olhara com um anseio feroz para este mesmo trecho de calçada fortemente iluminada. Tivera tanto medo da escuridão como tinha agora da luz.

            Correu a mão nervosamente pelo cabelo branco e espesso. A outra mão ele deixou sobre a ponta do revólver que sobressaía do coldre.

            Jake Johnson não apenas acreditava na cautela; adorava-a. A cautela era seu deus. Seguro morreu de velho; mais vale um pássaro na mão do que dois voando; devagar se vai ao longe.. Ele tinha um milhão de máximas que, para ele, eram como postes de luz marcando o único caminho seguro. Para além dessas luzes ficava um vácuo frio de risco, chances e caos.

            Jake nunca se casara. O casamento significava assumir muitas responsabilidades novas. Significava pôr em risco as suas emoções e o seu dinheiro, e todo o seu futuro.

            No tocante às finanças, também levara uma existência cautelosa e frugal. Tinha feito um bom pé-de-meia, diversificando os seus fundos numa ampla variedade de investimentos.

            Jake, agora com 57 anos, trabalhava para o departamento policial do condado de Santa Mira há mais de 37 anos. Podia ter-se aposentado há bastante tempo. Mas se preocupava com a inflação, portanto continuava no emprego, aumentando o valor da sua aposentadoria, poupando mais e mais dinheiro.

            Ter-se tornado policial fora talvez a única coisa não cautelosa que Jake Johnson já fizera. Ele não quisera ser tira. Santo Deus, não! Mas o seu pai, Big Ralph Johnson, fora xerife do condado nos anos 40 e 50, e esperava que o filho seguisse os seus passos. Big Ralph jamais aceitava um não como resposta. Jake tinha certeza de que Big Ralph o deserdaria se ele não entrasse para a força policial. Não que houvesse uma vasta fortuna na família; não havia. Mas havia uma boa casa e contas bancárias respeitáveis. E por trás da garagem da família, enterrados no gramado, a um metro de profundidade, havia diversos vidros grandes de conserva cheios de maços bem enroladinhos de notas de vinte, cinqüenta e cem dólares, dinheiro que Big Ralph aceitara de suborno e que guardara para a época das vacas magras. E, assim, Jake se tornara um tira como o pai, que finalmente morrera aos 82 anos, quando Jake estava com 51. A essa altura Jake não tinha outro jeito senão continuar como tira pelo resto de sua vida profissional, já que era a única coisa que sabia fazer.

            Ele era um tira cauteloso. Por exemplo, evitava atender a chamados de problemas domésticos, porque os policiais às vezes eram mortos ao tentar separar maridos e mulheres exaltados. As paixões eram muito violentas nesse tipo de confronto. Olhem só para esse corretor imobiliário, Fletcher Kale. Um ano atrás, Jake comprara um terreno nas montanhas por intermédio de Kale, e o homem parecia tão normal quanto qualquer outro. Agora matara a mulher e o filho. Se um tira tivesse interferido naquele dia, Kale o teria matado também. Quando um despachante da polícia alertava Jake para um roubo em andamento, ele normalmente mentia sobre a sua localização, dizendo-se tão longe da cena do crime que outros guardas estariam mais próximos dela; então, aparecia por lá mais tarde, quando tudo já estava sob controle.

            Não era covarde. Houve vezes em que se encontrou na linha de fogo e, nessas ocasiões, portou-se como um tigre, um leão, um urso furioso. Ele era apenas cauteloso.

            Havia serviços de polícia que ele realmente apreciava. Cuidar do trânsito não era ruim. E adorava o serviço burocrático. O único prazer que sentia ao fazer uma prisão era o preenchimento subseqüente de numerosos formulários que o mantinham em segurança na delegacia durante algumas horas.

            Desta feita, infelizmente, as suas manobras de ficar remanchando no preenchimento da papelada tinham sido um tiro pela culatra. Estava na delegacia, ocupado com uns formulários, quando a dra. Paige telefonara. Se estivesse na rua, patrulhando, poderia ter evitado esta missão.

            Mas, agora, cá estava ele. Parado sob a luz forte, tornando-se um alvo perfeito. Droga.

            Para tornar as coisas piores, era evidente que algo extremamente violento ocorrera dentro do Mercado Gilmartin. Duas das cinco grandes vidraças na parte da frente tinham sido quebradas de dentro para fora; a calçada estava toda cheia de cacos de vidro. Caixas de comida de cachorro enlatada e pacotes de latas de cerveja tinham sido arremessados pelas janelas e agora estavam espalhados pela calçada. Jake estava com medo de que o xerife fosse mandar que eles entrassem no mercado para ver o que acontecera, e estava com medo de que algo perigoso ainda estivesse lá, à espera.

            O xerife, Tal Whitman e as duas mulheres finalmente chegaram ao mercado e Frank Autry mostrou-lhes o recipiente de plástico que continha a amostra de água. O xerife falou que encontrara outra enorme poça d'água no Brookhart's, e eles concordaram que aquilo podia significar alguma coisa. Tal Whitman contou-lhes sobre a mensagem no espelho — e sobre a mão cortada... doce Jesus! — na Candleglow Inn e ninguém sabia também o que aquilo significava.

            O xerife Hammond voltou-se para a frente estilhaçada do mercado e disse o que Jake temia que dissesse:

            — Vamos dar uma olhada.

            Jake não queria ser o primeiro a cruzar as portas. Nem um dos últimos também. Ficou no meio da procissão.

            A mercearia estava uma bagunça. Em volta das três caixas registradoras, expositores de metal pretos tinham sido derrubados. Goma de mascar, balas, lâminas de barbear, livros de bolso e outros artigos pequenos derramavam-se pelo chão.

            Eles atravessaram a parte dianteira da loja, examinando cada corredor ao passarem por ele. A mercadoria tinha sido arrancada das prateleiras e lançada ao chão. Caixas de cereais tinham sido rasgadas, e os pedaços de papelão colorido sobressaíam no meio dos flocos de milho e dos croquilos. Das garrafas de vinagre destroçadas vinha um fedor pungente. Vidros de geléia, picles, mostarda, maionese e molhos estavam misturados num monte irregular e viscoso.

            No início do último corredor, Bryce Hammond se virou para a dra. Paige.

            — A loja estaria aberta hoje de noite?

            — Não — replicou a médica —, mas eu acho que às vezes eles arrumam as prateleiras nos domingos à noite. Não é sempre. Só de vez em quando.

            — Vamos dar uma olhada nos fundos — falou o xerife. — Podemos encontrar alguma coisa de interessante.

            Disso é que eu tenho medo, pensou Jake.

            Seguiram Bryce Hammond pelo último corredor, pisando em e se desviando de pacotes de dois quilos de açúcar e farinha, alguns dos quais tinham se rasgado.

            Enfileirados nos fundos da loja havia refrigeradores para carne, queijo, ovos e leite. Para além dos refrigeradores ficava a área de trabalho brilhando de limpa onde a carne era cortada, pesada e embrulhada para o consumo.

            Os olhos de Jake dardejaram nervosamente sobre as mesas de porcelana e cepo de açougueiro. Ele soltou um suspiro de alívio quando viu que não havia nada em cima delas. Não teria ficado surpreso de ver o corpo do gerente da loja cortado habilmente em filés, assados e costeletas.

            Bryce Hammond falou: — Vamos dar uma olhada no depósito.

            Não vamos não, pensou Jake.

            Hammond continuou:

            — Quem sabe nós... As luzes se apagaram.

            As únicas janelas ficavam na parte da frente da loja, mas mesmo lá estava escuro. As luzes das ruas também tinham se apagado. Aqui, a escuridão era total, cegante.

            Várias vozes falaram a um só tempo:

            — Lanternas!

            — Jenny!

            — Lanternas!

            Então um bocado de coisa aconteceu muito depressa.

            Tal Whitman acendeu uma lanterna elétrica e o facho de luz, como uma lâmina, apunhalou o chão. No mesmo instante, algo o atingiu por trás, algo invisível que se aproximara sob o manto da noite, sorrateira e velocissimamente. Whitman foi lançado para a frente, caindo em cima de Stu Wargle.

            Autry estava soltando a outra lanterna de cabo comprido da presilha no seu cinturão de armas. Todavia, antes que pudesse acendê- la, tanto Wargle quanto Tal Whitman caíram em cima dele e os três foram ao chão.

            Quando Tal caiu, a lanterna voou da sua mão.

            Bryce Hammond, brevemente iluminado pela luz em movimentos, tentou agarrar a lanterna, mas errou. Ela caiu no chão e foi girando para longe, lançando sombras loucas e agitadas com cada revolução, sem iluminar nada.

            E uma coisa fria tocou a nuca de Jake. Fria e ligeiramente úmida — no entanto, algo que estava vivo.

            Ele se crispou todo ante o toque, tentou se afastar e se virar.

         Algo rodeou o seu pescoço com a presteza de um chicote.

            Jake ficou sem fôlego.

            Mesmo antes de poder erguer as mãos para lutar com o seu assaltante, seus braços foram agarrados e presos.

            Estava sendo erguido no ar como se fosse uma criança.

         Tentou gritar, mas uma mão gélida se fechou sobre a sua boca. Pelo menos ele achava que era uma mão. Mas parecia a pele de um enguia, fria e úmida.

            E fedia também. Não muito. Não emanava nuvens de fedor. Mas o cheiro era tão diferente de qualquer coisa que Jake já sentira antes, tão amargo e pungente e inclassificável, que, mesmo em pequenas quantidades, era quase intolerável.

            Ondas de terror e repulsão quebraram e espumaram dentro dele, e ele pressentiu que estava na presença de algo inimaginavelmente estranho e inquestionavelmente perverso.

            A lanterna elétrica ainda rodopiava pelo chão. Somente uns dois segundos tinham se passado desde que Tal a deixara cair, embora para Jake parecesse muito mais do que isso. Agora ela rodopiava pela última vez e bateu de encontro à base do refrigerador de leite. A lente se estilhaçou em inúmeros pedaços e até mesmo aquela luz débil e errática lhes foi negada. Embora não houvesse iluminado nada, fora melhor do que a escuridão total. Sem ela, a esperança também se extinguiu.

            Jake se esticou, se retorceu, se flexionou, se sacudiu e se contorceu numa dança epilética de pânico, num fandango espasmódico de fuga. Mas não conseguiu libertar nem ao menos uma das mãos. O seu adversário invisível simplesmente apertava mais o seu braço.

            Jake escutou os outros se chamando uns aos outros; pareciam estar muito longe.

 

            Jake Johnson desaparecera.

            Antes que Tal pudesse localizar a lanterna intacta, aquela que Frank Autry deixara cair, as luzes do mercado piscaram e depois se acenderam, firmes e fortes. A escuridão não durara mais do que quinze ou vinte segundos.

            Mas Jake sumira.

            Procuraram-no. Não estava nos corredores, na geladeira de carne, no depósito, no escritório nem no banheiro dos empregados.

            Saíram do mercado — agora em número de sete — atrás de Bryce, movendo-se com extrema cautela, esperando encontrar Jake do lado de fora, na rua. Mas ele não estava lá.

            O silêncio de Snowfield era um grito mudo e zombeteiro de ridículo.

            Tal Whitman achou que a noite parecia agora infinitamente mais escura do que fora há alguns minutos. Era um imenso papo no qual tinham entrado, inadvertidamente. Esta noite profunda e atenta estava com fome.

            — Onde é que ele pode ter ido? — perguntou Gordy, parecendo um tanto selvagem, como sempre parecia quando franzia o cenho, muito embora, no momento, estivesse apenas com medo.

            — Ele não foi a lugar algum — disse Stu Wargle. — Ele foi levado.

            — Não pediu socorro.

            — Nem teve chance.

            — Acha que ele está vivo... ou morto? — perguntou a mais jovem das Paiges.

            — Bonequinha — falou Wargle, esfregando a barba por fazer na ponta do queixo —, eu não ficaria cheia de esperança, se fosse você. Aposto o meu último tostão como vamos achar Jake em algum lugar, duro feito uma tábua, todo inchado e roxo como os outros todos.

            A mocinha estremeceu e se acercou mais da irmã. Bryce Hammond disse:

            — Calma, não vamos dar Jake por perdido assim tão depressa.

            — Concordo — manifestou-se Tal. — Existe muita gente morta nesta cidade. Mas me parece que a maioria não está morta. Apenas desaparecida.

            — Estão todos mais mortos do que bebês sob o efeito do napalm. Não é mesmo, Frank? — Wargle não perdia uma chance de implicar com Frank sobre o tempo que este servira no Vietnã. — Só que ainda não os encontramos.

            Frank não se deu por achado. Tinha inteligência e autocontrole demais para isso. Falou:

            — O que não entendo é por que aquilo não nos pegou a todos quando teve a chance. Por que apenas derrubou Tal?

            — Eu ia acender a lanterna — disse Tal. — Aquilo não queria que eu o fizesse.

            — É — disse Frank —, mas por que Jake foi o único a ser agarrado, e por que se mandou logo depois?

            — Está brincando conosco — disse a dra. Paige. A luz da rua fazia seus olhos faiscarem com um fogo verde. — É como eu falei na hora do sino da igreja e da sirene. É como um gato brincando com os ratos.

            — Mas por quê? — indagou Gordy, exasperado. — O que consegue com tudo isso? O que é que aquilo quer?

            — Esperem aí — aparteou Bryce. — Que história é essa de todo mundo estar falando em "aquilo"? Da última vez em que fiz uma pesquisa informal, me parece que o consenso geral era que somente um bando de assassinos psicopatas poderia ter feito isso. Maníacos. Gente.

            Eles se entreolharam, inquietos. Ninguém estava ansioso para dizer o que lhe passava pela cabeça. Coisas inimagináveis agora eram imagináveis. Eram coisas que pessoas razoáveis não conseguiam verbalizar com facilidade.

            O vento soprou na escuridão e as árvores obedientes se inclinaram, reverentes.

            As luzes da rua piscaram.

            Todos se sobressaltaram, assustados com a inconstância da luz. Tal levou à mão ao revólver no coldre. Mas as luzes não se apagaram.

            Ficaram atentos à cidade sepulcral. O único som era o sussurro das árvores agitadas pelo vento, que era como a última, longa expiração antes do túmulo, um último suspiro extenso.

            Jake está morto, pensou Tal. Ao menos desta vez Wargle tem razão. Jake está morto, e talvez nós todos também estejamos, só que ainda não sabemos.

            Voltando-se para Frank Autry, Bryce perguntou:

            — Frank, por que você falou "aquilo", em vez de "eles", ou coisa parecida?

            Frank lançou um olhar para Tal, buscando apoio, mas Tal também não sabia ao certo por que ele próprio dissera "aquilo". Frank pigarreou. Passou o peso do corpo de um pé para o outro e olhou para Bryce. Deu de ombros.

            — Bem, senhor, acho que falei "aquilo" porque... bem... um soldado, um adversário humano, nos teria feito em pedaços logo ali no mercado, quando tinha a oportunidade, a todos nós de uma vez, na escuridão.

            — Então você acha... o quê? Que este adversário não é humano?

            —   Talvez possa ser algum tipo de... animal.

            — Animal? É mesmo isso que você acha? Frank parecia muitíssimo constrangido.

            — Não, senhor.

            — Então, o que é que você acha? — perguntou Bryce.

            — Que diabo, não sei o que pensar — falou Frank, frustrado, — Como sabe, tive treinamento militar. Um militar não gosta de entrar às cegas em qualquer situação. Gosta de planejar cuidadosamente a sua estratégia. Mas um planejamento estratégico eficiente depende de uni conjunto confiável de experiências. O que aconteceu em batalhas semelhantes em outras guerras? O que outros homens fizeram em circunstâncias semelhantes? Tiveram êxito ou fracassaram? Desta vez, porém, não batermos de comparação. Não há nenhuma experiência a que se recorrer. Isso é estranho demais. Vou continuar pensando no inimigo como um "aquilo" neutro e sem rosto.

            Voltando-se para a dra. Paige, Bryce falou:

            — E quanto à senhora? Por que também empregou a palavra "aquilo"?

            — Não tenho certeza. Talvez porque o guarda Autry a tenha empregado.

            — Mas foi a senhora que propôs a teoria de uma espécie mutante de raiva que poderia criar um bando de maníacos homicidas. Está se descartando dela agora?

            Ela franziu o cenho.

         — Não. A esta altura não podemos nos descartar de nada. Porém, xerife, eu nunca quis dizer que aquela fosse a única teoria possível.

            — Tem outras?

            — Não.

            — E quanto a você? — perguntou Bryce a Tal.

            Tal se sentia tão constrangido quanto Frank aparentara estar.

            — Bem, acho que usei "aquilo" porque não posso mais aceitar a teoria de maníacos homicidas.

            As pálpebras pesadas de Bryce se ergueram mais do que habitualmente:

            — Ah, é? E por que não?

            — Por causa do que aconteceu na Candleglow Inn. Quando descemos e encontramos aquela mão na mesa do saguão, segurando o lápis de sobrancelha que estávamos procurando... bem... isso não me pareceu o que um biruta homicida faria. Todos nós somos tiras há bastante tempo e já lidamos com a nossa cota de desequilibrados. Algum de vocês já encontrou um tipo desses com senso de humor? Até mesmo um senso de humor pervertido? São gente sem humor. Perderam a capacidade de rir de qualquer coisa, o que é provavelmente parte do motivo pelo qual são malucos. Assim, logo que vi aquela mão na mesa do saguão, a coisa pareceu não se encaixar. Concordo com Frank; pelo menos no momento, vou pensar no nosso inimigo como um "aquilo" sem rosto.

            — Por que nenhum de vocês admite o que está sentindo? — perguntou baixinho Lisa Paige. Ela tinha quatorze anos, uma adolescente prestes a se tornar uma linda moça, mas fitava cada um deles com o olhar franco e direto de uma criança. — De certa forma, bem lá no fundo, onde lealmente importa, todos sabemos que não foi gente que fez aquelas coisas. É uma coisa realmente terrível... pombas, dá para a gente sentir... uma coisa estranha e nojenta. Seja lá o que for, nós estamos sentindo. Estamos Iodos com medo dela. Então estamos tentando, de todas as formas, não admitir que ela existe.

            Somente Bryce retribuiu o olhar da mocinha. Fitou-a, pensativo. Os outros desviaram o olhar de Lisa. Também não estavam querendo fitar uns aos outros.

            Nos não estamos querendo olhar para dentro de nós mesmos, pensou Tal, e é exatamente isto o que a garota está dizendo que façamos. Não queremos olhar para dentro e encontrar superstições primitivas. Somos todos adultos, civilizados, razoavelmente intruídos, e os adultos não devem acreditar em bicho-papão.

            — Lisa tem razão — falou Bryce. — O único modo de resolver esta parada — talvez o único modo de evitarmos virar vítimas também — é ficar de cabeça aberta e soltar a imaginação.

            — Concordo — falou a dra. Paige. Gordy Brogan sacudiu a cabeça.

            — Mas, então, em que devemos pensar? Em qualquer coisa? Quero dizer, não deve haver limites? Devemos começar a nos preocupar com fantasmas, assombrações, lobisomens e... e vampiros? Tem que haver algumas coisas que possamos eliminar.

            — Claro — disse Bryce, pacientemente. — Gordy, ninguém está dizendo que estamos lidando com fantasmas e lobisomens. Mas temos que nos dar conta de que estamos lidando com o desconhecido. Isso é tudo. O desconhecido.

            — Não aceito isso — disse Stu Wargle, emburrado. — O desconhecido, uma ova. No final das contas, vamos ver que tudo foi obra de algum pervertido, algum lixo humano muito parecido com todo o lixo humano com que já lidamos antes.

            — Wargle — disse Frank —, o seu jeito de pensar é exatamente o que fará com que deixemos passar provas importantes. E também é o jeito de pensar que nos matará a todos.

            — Esperem só — disse-lhes Wargle. — Vocês vão ver que tenho razão.

            Cuspiu na calçada, enfiou os polegares no cinturão e tentou dar a impressão de que era o único homem sensato do grupo.

            Tal Whitman viu o que havia por trás da atitude de machão; viu o terror em Wargle também. Embora fosse um dos homens mais insensíveis que Tal já conhecera, Stu não ignorava a reação primitiva de que Lisa Paige falara. Quer admitisse, quer não, sentia claramente o mesmo frio nos ossos que percorria todos eles.

            Frank Autry também viu que o ar imperturbável de Wargle não passava de uma pose. Num tom de admiração exagerada e insincera, Frank falou:

            — Stu, você nos fortifica com seu belo exemplo. Inspira-nos. O que faríamos sem você?

            — Sem mim — retrucou Wargle, com azedume — vocês desceriam latrina abaixo, Frank.

            Fingindo pesar, Frank olhou para Tal, Gordy e Bryce.

            — Esse cara não é um pretensioso?

            — Claro que é. É um pretensioso e um cabeça-de-vento — falou Tal. — Só que essa última qualidade não é culpa dele; é o resultado dos esforços desesperados da natureza para preencher um vácuo.

            Era uma piadinha boba, mas provocou grandes risadas. Embora Stu gostasse de dar alfinetadas nos outros, não gostava de ser o alvo delas. No entanto, até mesmo ele conseguiu dar um sorriso.

            Tal sabia que não era bem da piada que estavam rindo, mas sim da Morte, rindo dela na sua cara esquelética.

            Quando as risadas cessaram, porém, a noite ainda estava sombria.

            A cidade ainda estava inaturalmente silenciosa.

            Jake Johnson ainda estava desaparecido.

            E aquilo ainda estava à solta.

            A dia. Paige virou-se para Bryce Hammond e perguntou:

            — Está pronto para ir dar uma olhada na casa dos Oxlcys? Bryce balançou a cabeça.

            — Não no momento. Nilo creio que seja sensato continuarmos as nossas explorações até conseguirmos reforçou, Nilo vou perder outro homem. Não se puder evitar.

            Tal notou a angústia nos olhos de Hryco quando ele mencionou Jake.

            Pensou: Bryce, meu amigo, voce sempre assume demais a responsabilidade quando algo dá errado, do mesmo modo que sempre se apressa a partilhar o crédito para êxitos que foram inteiramente seus.

         — Vamos voltar para a subdelegacia — disse Bryce. — Temos que planejar cuidadosamente nossos movimentos, é preciso dar uns telefonemas.

            Voltaram pelo mesmo caminho por que tinham vindo. Stu Wargle, ainda resolvido a provar que não tinha medo, insistiu em fechar a retaguarda desta feita, e foi atrás dos outros, andando com arrogância.

            Ao chegarem à Skyline Road, um sino de igreja tocou, sobressaltando-os. Tocou de novo, lentamente, de novo...

            Tal sentiu o som metálico vibrar nos dentes.

            Todos tinham parado numa esquina, atentos ao sino e olhando para o leste, para a outra extremidade da Vail Lane. A pouco mais de uma quadra de distância, uma torre de igreja de tijolos sobressaia acima dos outros prédios. Havia uma luzinha pequena em cada canto do telhado de ardósia pontudo do campanário.

            — A igreja católica — informou-lhes a dra. Paige, erguendo a voz para competir com o sino. — Atende a todas as cidades da redondeza. Nossa Senhora das Montanhas.

            O soar de um sino de igreja podia ser uma música alegre. Mas nada havia de alegre nesse aí, concluiu Tal.

            — Quem será que o está tocando? — perguntou-se Gordy, em voz alta.

            — Pode ser que não haja ninguém tocando — falou Frank. — Talvez ele esteja lidado a um dispositivo mecânico de algum tipo; provavelmente a um cronômetro.

            No campanário iluminado, o sino balançava, lançando um reflexo de bronze juntamente com a sua única nota límpida.

            — Ele geralmente toca a esta hora no domingo à noite? — perguntou Bryce à dra. Paige.

            — Não.

            — Então não está ligado a um cronômetro. A uma quadra de distância, bem acima do chão, o sino faiscou e tocou de novo.

            — Então, quem está puxando a corda? — indagou Gordy Brogan.

            Uma imagem macabra surgiu na cabeça de Tal: Jake Johnson, pisado e inchado e mortinho da silva, parado na câmera do tocador de sino na base da torre da igreja, a corda segura nas mãos exangues, morto mas demoniacamente animado, morto mas puxando a corda, apesar disso, puxando e puxando, o rosto morto voltado para cima, exibindo o sorriso largo e sem alegria de um cadáver, os olhos protuberantes fitando o sino que balançava e soava sob o telhado pontudo.

            Tal estremeceu.

            — Talvez devêssemos ir até a igreja para ver quem está lá — falou Frank.

            — Não — disse Bryce, imediatamente. — É isso que aquilo quer que façamos. Que vamos dar uma olhada. Que entremos na igreja. Então apagará as luzes de novo...

            Tal reparou que também Bryce, agora, estava usando o pronome "aquilo".

            — É — concordou Lisa Paige. — Aquilo está lá neste exato minuto, esperando por nós.

            Até mesmo Stu Wargle não estava preparado para encorajá-los a visitar a igreja esta noite.

            No campanário aberto, o sino visível balançava, lançando novos reflexos de bronze, balançava, cintilava, balançava, faiscava, como se estivesse mandando uma mensagem semafórica de força hipnótica ao mesmo tempo que soava monotonamente: Você está ficando sonolento, mais sonolento, quer dormir, dormir... está profundamente adormecido, num transe... está em meu poder... virá à igreja... virá agora, venha, venha, venha à igreja e veja a surpresa maravilhosa que o espera aqui... venha... venha...

            Bryce se sacudiu, como que despertando de um sonho. Falou:

            — Se aquilo quer que vamos à igreja, mais um motivo para não irmos. Nada mais de explorações até o alvorecer.

            Todos se afastaram da Vail Lane e caminharam para o norte na Skyline Road, passando pelo Restaurante Mountainview, na direção da sub-delegacia.

            Tinham caminhado talvez uns seis metros quando o sino da igreja parou de tocar.

            Mais uma vez aquele silêncio irreal derramou-se pela cidade como um fluido viscoso, cobrindo tudo.

            Quando chegaram à subdelegacia descobriram que o cadáver de Paul Henderson tinha desaparecido. Parecia que o delegado morto simplesmente se levantara e saíra andando. Como Lázaro.

 

            Bryce estava sentado à mesa que pertencera a Paul Henderson. Afastara para um lado o número aberto da Time que Paul aparentemente estava lendo quando Snowfield fora riscada do mapa. Uma folha de bloco amarela jazia sobre o mata-borrão, preenchida com a letra parcimoniosa de Bryce.

            Ao redor dele, os seis outros dedicavam-se a tarefas que ele lhes designara. Havia uma atmosfera de tempo de guerra na delegacia. A determinação sombria de sobreviver fizera nascer entre eles uma camaradagem, fraca a princípio, mas que ficava cada vez mais forte. Existia até mesmo um otimismo discreto, talvez baseado na observação de que ainda estavam vivos quando havia tantos outros mortos.

            Bryce correu rapidamente os olhos pela lista que fizera, tentando determinar se deixara passar alguma coisa. Finalmente, puxou para si o telefone. Conseguiu linha imediatamente, e sentiu-se grato por isso, ao pensar nas dificuldades de Jennifer Paige no tocante ao assunto.

            Hesitou antes de dar o primeiro telefonema. Tinha nítida consciência da imensa importância do momento. Nunca houvera nada parecido com a selvagem obliteração de toda a população de Snowfield. Dentro de horas, surgiriam no condado de Santa Mira jornalistas às dúzias, às centenas, vindos de todo o mundo. Pela manhã, a história de Snowfield teria tirado das manchetes todas as outras notícias. As principais redes de televisão estariam interrompendo a sua programação normal para dar boletins especiais enquanto durasse a crise. A cobertura da mídia seria Intensa. Até que o mundo soubesse se algum germe em mutação tinha ou não tido um papel nesses acontecimentos, centenas de milhões de pessoas esperariam de respiração presa, imaginando se as suas próprias sentencia de morte tinham sido assinadas em Snowfield. Mesmo que a hipótese de moléstia fosse descartada, a atenção do mundo não se desviaria de Snowfield até que o mistério tivesse sido explicado. A pressão para encontrar uma solução iria ser insuportável.

            Num nível pessoal, a própria vida de Bryce seria modificada para sempre. Ele era o encarregado do contingente policial. Portanto, apareceria em todas as reportagens. Essa idéia o apavorava. Não era o tipo de xerife que gostava de aparecer. Preferia se manter à sombra.

            Mas simplesmente não podia largar Snowfield agora.

            Ligou para o número de emergência no seu próprio gabinete em Santa Mira, desprezando a mesa telefônica. O sargento que estava de serviço era Charlie Mercer, um bom homem, que faria exatamente o que lhe mandassem fazer.

            Charlie atendeu o telefone no meio do segundo toque.

            — Departamento de polícia — falou, na sua voz nasalada.

            — Charlie, aqui é Bryce Hammond.

            — Sim, senhor. Estávamos imaginando o que teria acontecido por aí. — Bryce descreveu sucintamente a situação em Snowfield. — Santo Deus! — exclamou Charlie. — Jake também está morto?

            — Não sabemos ao certo se está morto. Torcemos para que não esteja. Agora escute, Charlie: há muitas coisas que temos que fazer nas próximas duas horas, e seria mais fácil para todos nós se pudéssemos guardar segredo até termos estabelecido a nossa base aqui e garantido os perímetros. Contenção, Charlie, é esta a palavra-chave. Snowfield tem que ficar completamente isolada, e isso será bem mais fácil de conseguir se pudermos agir antes que os jornalistas comecem a subir as montanhas. Sei que posso contar com você para ficar de boca fechada, mas alguns dos homens são...

            — Não se preocupe — falou Charlie. — Podemos ficar na moita por umas duas horas.

            — Ótimo. A primeira coisa que quero é mais doze homens. Mais dois no bloqueio da estrada na entrada para Snowfield. Dez aqui comigo. Sempre que possível, escolha homens solteiros sem família.

            — Está tão ruim assim?

            — Está. E é melhor escolher homens que não tenham parentes em Snowfield. Outra coisa: eles terão que trazer comida e bebida para uns dois dias. Não os quero consumindo coisa alguma aqui em Snowfield até sabermos ao certo que a água e os alimentos aqui são seguros.

            — Certo.

            — Cada homem deve trazer o seu revólver, uma arma de motim e gás lacrimogêneo.

            — Tudo bem.

            — Isso vai deixar você com pouco pessoal, e ficará ainda pior quando começar a chover o pessoal da mídia. Você vai ter que convocar alguns dos delegados auxiliares para dirigir o tráfego e controlar as multidões. Bem, Charlie, você conhece bem esta parte do condado, não é?

            — Nasci e me criei em Pineville.

            — Foi o que pensei. Estive olhado o mapa do condado, e, ao que me consta, só existem dois caminhos que dão passagem até Snowfield. O primeiro é a rodovia, que já bloqueamos. — Ele rodopiou na cadeira giratória e fitou o grande mapa emoldurado na parede. — Depois, uma antiga trilha de incêndio que sobe até dois terços do caminho, do outro lado da montanha. No fim da primeira trilha, ela emenda com uma trilha do deserto. Daquele ponto em diante não passa de uma vereda de pedestres, mas, pelo que está no mapa, vai dar direto no alto da maior pista de esqui deste lado da montanha, logo acima de Snowfield.

            — É — falou Charlie. — Já excursionei por aqueles lados. Oficialmente, é a Velha Trilha do Deserto Mount Greentree. Ou, como os nativos costumavam chamá-la: a Rodovia do Linimento para Músculos.

            — Teremos que colocar dois homens no começo da trilha de incêndio e mandar voltar quem quer que queira entrar por aquele lado.

            — Teria que ser um repórter danado de cabeçudo para tentar.

            — Não podemos nos arriscar. Conhece qualquer outro caminho que não esteja no mapa?

            — Não — retrucou Charlie. — De outro modo, a pessoa teria que vir para Snowfield diretamente por terra, abrindo a sua própria trilha a cada passo. E lá é deserto de verdade, não um playground para excursionistas de fim de semana, por Deus que não é. Nenhum excursionista experiente tentaria vir por terra. Seria uma burrice.

            — Está certo. Outra coisa que vou querer é um número de telefone dos arquivos. Lembra daquele seminário de atividades policiais a que compareci em Chicago... faz um ano e pouco? Um dos oradores era oficial do Exército. Copperfield, acho eu. General Copperfield.

            — Claro — falou Charlie. — A Divisão CBW do Corpo Médico do Exército.

            — É isso.

            — Acho que chamam o setor de Copperfield de Unidade de Defesa Civil. Espere um instante. — Charlie esteve fora da linha menos de um minuto. Voltou com o número, leu-o para Bryce. — Fica em Dugway, Utah. Jesus, acha que isso pode ser uma coisa para fazer com que essa turma venha correndo? Isso é de dar medo.

            — É de dar medo mesmo — concordou Bryce. — Mais umas coisinhas. Quero que você ponha um nome no teletipo. Timothy Flyte. — Bryce soletrou o nome. — Sem descrição. Sem endereço conhecido. Descubra se é procurado em algum lugar. Verifique também com o FBI. Depois, descubra tudo que puder sobre um tal Harold Ordnay e esposa, de São Francisco. — Deu a Charlie o endereço que estava no registro de hóspedes da Candleglow Inn. — Mais uma coisa. Quando esses novos homens vierem para cá, mande que tragam alguns sacos de plástico para cadáveres do necrotério municipal.

            — Quantos?

            — Para começar... uns duzentos.

            — Hã... duzentos!

            — Podemos precisar bem mais do que isso, antes de terminarmos. Talvez tenhamos que pedir emprestado de outros condados. Verifique a possibilidade. Muita gente parece ter simplesmente desaparecido, mas os corpos ainda podem aparecer. Havia umas quinhentas pessoas vivendo aqui. Possivelmente precisaremos de igual número de sacos para cadáveres.

            E talvez até mais de quinhentos, pensou Bryce. Porque podemos precisar de alguns sacos para nós mesmos também.

            Embora Charlie tivesse escutado atentamente quando Bryce lhe contara que a cidade inteira fora riscada do mapa, e embora não houvesse dúvidas de que ele acreditava em Bryce, era óbvio que não tinha compreendido totalmente, emocionalmente, as terríveis dimensões do desastre até ouvir o pedido de duzentos sacos para cadáveres. Uma imagem de todos aqueles cadáveres, selados no plástico opaco, empilhados uns em cima dos outros nas ruas de Snowfield... fora isso o que, finalmente, o atingira.

            — Santa Mãe de Deus — murmurou Charlie Mercer.

            Enquanto Bryce Hammond estava ao telefone com Charlie Mercer, Frank e Stu começaram a desmontar o imenso rádio de polícia que ficava de encontro à parede dos fundos da sala. Bryce dissera-lhes para descobrir o que havia de errado com o aparelho, pois não havia sinais visíveis de danos.

            A chapa dianteira estava presa por dez parafusos muito bem apertados. Frank soltou-os, um de cada vez.

            Como sempre, Stu não era de grande ajuda. Ficava lançando olhares para a dra. Paige, que estava na outra extremidade da sala, trabalhando com Tal Whitman em outro projeto.

            — Ela é mesmo muito gostosa — falou Stu, lançando um olhar cobiçoso para a doutora e limpando o nariz ao mesmo tempo.

            Frank ficou calado.

            Stu olhou para a secreção que arrancara do nariz, inspecionando-a como se fosse uma pérola encontrada numa ostra. Voltou a olhar para a doutora.

            — Olhe só como ela enche aqueles jeans. Porra, como eu adoraria dar uma metidinha nela.

            Frank fitou os três parafusos que retirara do rádio e contou até dez, resistindo ao impulso de enfiar um daqueles parafusos na cabeça dura de Stu.

            — Espero que não seja tão burro que vá dar uma cantada nela.

            — Por que não? Ela é um tesão, meu chapa.

            — Tente só, e o xerife lhe dará um chute na bunda.

            — Ele não me mete medo.

            — Você me espanta, Stu. Como pode estar pensando em sexo numa hora dessas? Ainda não lhe ocorreu que todos podemos morrer aqui, esta noite, quem sabe até nos próximos minutos?

            — Mais um motivo para dar uma cantada nela, se tiver uma chance. Que merda, se estamos vivendo com as horas contadas, afinal, quem se importa? Quem quer morrer broxa? Certo? Até a outra é bonitinha.

            — A outra o quê?

            — A garota, a guria — falou Stu.

            — Ela só tem quatorze anos.

            — Um tesãozinho.

            — É uma criança, Wargle.

            — Tem idade bastante.

            — Isso é doentio.

            — Não gostaria que ela o envolvesse com as perninhas firmes, hein, Frank?

            A chave de parafusos escorregou da fenda na cabeça do parafuso e raspou o metal da placa com um guincho irregular.

            Numa voz quase inaudível, mas que, apesar disso, congelou o sorri so de Wargle na cara, Frank falou:

            — Se eu souber que você encostou um dedo sujo naquela garota ou em qualquer outra, seja onde for, seja quando for, não vou apenas ajudar a fazer acusações contra você; vou mesmo é atrás de você. Sei como ir atrás de um homem, Wargle. Não pilotei escrivaninha no Vietnã, estive no campo de batalha. E ainda sei como cuidar de mim mesmo. Sei como cuidar de você. Está me ouvindo?

            Por um momento, Wargle não conseguiu falar. Ficou apenas fitando os olhos de Frank.

            Trechos de conversa vinham de outras partes da sala grande na direção deles, mas nenhuma das palavras era clara. Ainda assim, era óbvio que ninguém se dava conta do que estava acontecendo junto ao rádio.

            Wargle finalmente pestanejou, lambeu os lábios e baixou os olhos para a ponta dos sapatos, erguendo-os em seguida e abrindo o seu sorriso de bom moço.

            — Puxa vida, Frank, não fique chateado. Não fique tão nervoso. I!u não falei a sério.

            — Entendeu bem o que eu disse? — insistiu Frank.

            — Claro, claro. Mas já lhe disse que não falei a sério. Era só papo furado. Conversa de homem, sabe como é. Sabe que não falei a sério. Pelo amor de Deus, acha que sou algum tarado? Vamos, Frank, não esquenta. Tá legal?

            Frank fitou-o por mais um momento, depois disse:

            — Vamos terminar de desmontar este rádio.

 

            Tal Whitman abriu o armário de armas.

            Jenny Paige falou:

            — Santo Deus, mas é um verdadeiro arsenal.

            Ele foi passando as armas para ela, e Jenny enfileirou-as numa mesa de trabalho próxima.

            O armário parecia conter uma quantidade de armas excessiva para uma cidade como Snowfield. Dois rifles de alta potência com mira telescópica. Duas espingardas semi-automáticas. Duas armas de motim não letais - espingardas especialmente modificadas que disparavam apenas pelotas macias de plástico. Duas pistolas de sinalização. Dois rifles que disparavam granadas de gás lacrimogêneo. Três revólveres: um par de 38 e um grande Magnum 375 Smith & Wesson.

            Enquanto o tenente empilhava caixas de munição na mesa, Jenny inspecionava mais de perto o Magnum.

            — Que monstro, hein?

            — É. Dá para se derrubar um touro com ele.

            — Parece que Paul mantinha tudo muitíssimo bem cuidado.

            — A senhora manuseia as armas como se entendesse muito bem delas — disse o tenente, colocando mais munição na mesa.

            — Sempre odiei armas. Nunca pensei em ter uma — falou ela. — Mas quando eu já morava aqui há uns três meses, começamos a ter problemas com um bando de motoqueiros que resolveu instalar uma espécie de retiro de verão numas terras na Mount Larson Road.

            — A Demon Chrome.

            — Isso mesmo. Uma turma da pesada.

            — Para não dizer coisa pior.

            — Umas duas vezes, quando fui ver um paciente à noite, em Mount Larson ou Pineville, arranjei uma escolta de motocicletas indesejada. Seguiam dos dois lados do carro, perto demais para meu gosto, sorrindo para mim pelas janelas laterais, gritando, dizendo bobagens. Não tentaram nada, na verdade, mas foi...

            — Ameaçador.

            — Exatamente. Então comprei um revólver, aprendi a atirar, tirei licença de porte.

            O tenente começou a abrir as caixas de munição.

            — Teve ocasião de usá-la?

            — Bem — disse ela — nunca tive que atirar em ninguém, graças a Deus. Mas tive que exibi-la, certa vez. Tinha acabado de escurecer. Eu estava a caminho de Mount Larson e os Demons me escoltaram de novo, só que desta vez foi diferente. Quatro deles ficaram me cercando e depois começaram a diminuir a marcha, forçando-me a diminuir também. Finalmente, forçaram-me a parar completamente, no meio da estrada.

            — Isso deve ter feito o seu coração bater feito louco.

            — Se fez! Um dos Demons saltou da moto. Era grande, talvez 1,90m, de cabelos crespos e longos, e barba. Usava um lenço amarrado na cabeça, e um brinco de ouro. Parecia um pirata.

            — Tinha um olho vermelho e amarelo tatuado na palma de cada mão?

         — Tinha! Pelo menos na palma que botou contra a janela do carro quando ficou me espiando.

            O tenente se apoiou contra a mesa onde tinham colocado as armas.

            — O nome dele é Gene Terr. É o líder da Demon Chrome. É difícil encontrar gente pior do que ele. Já esteve na cadeia duas ou três vezes, mas nunca por coisa séria e nunca por muito tempo. Sempre que parece que Jeeter vai ler que cumprir pena longa, um dos seus assume a culpa por todas as acusações. Ele tem um poder incrível sobre os seus seguidores. Fazem tudo que ele quer. É quase como se o adorassem, Mesmo depois que estão na cadeia, Jeeter cuida deles, contrabandeia dinheiro e drogas para eles, e eles continuam fieis ao sujeito. Sabe que não podemos tocá-lo portanto é sempre irritantemente polido e prestativo conosco, Ungindo ser um cidadão de bem. É uma grande piada, que ele curte. Bem, e aí Jeeter se aproximou do seu carro e ficou espiando-a?

            — Foi. Queria que eu saltasse e eu não quis saltar. Ele falou que eu devia ao menos baixar o vidro para não termos que ficar gritando um com o outro para sermos ouvidos. Eu falei que não me importava de grilar um pouquinho. Ele ameaçou quebrar o vidro se eu não o baixasse. E sabia que, se o fizesse, ele meteria a mão dentro do carro e destrancaria a porta, portanto achei que seria melhor sair do carro de bom grado. Disse a ele que saltaria se ele recuasse um pouco. Ela se afastou da porta e eu peguei a arma debaixo do banco. Mal abri a porta e saltei, ele tentou avançar sobre mim. Enfiei a boca da arma na barriga dele. O cão da arma estava puxado para trás; ela estava pronta para disparar. Ele percebeu isso imediatamente.

            — Santo Deus, o que eu daria para ter visto a cara dele! — disse o tenente Whitman, abrindo um sorriso.

            — Eu estava morta de medo — disse Jenny, recordando. — Quero dizer, com medo dele, é claro, mas também com medo de ter que puxar o gatilho. Nem mesmo tinha certeza de que poderia puxar o gatilho. Mas sabia que não podia deixar que Jeeter visse que eu tinha as minhas dúvidas.

            — Se ele tivesse visto, a senhora não escaparia da sanha dele.

            — Foi o que pensei. Portanto fui muito fria, muito firme. Disse a ele que era médica, que estava indo visitar um doente que se achava muito mal e que não tinha a intenção de perder tempo. Falei baixo o tempo lodo. Os outros três homens ainda se encontravam montados nas motos, e de onde estavam não podiam ver a arma ou ouvir exatamente o que eu dizia. Esse tal de Jeeter me parecia do tipo que prefere morrer a deixar que alguém o veja recebendo ordens de uma mulher, portanto eu não queda embaraçá-lo e forçá-lo talvez a fazer uma besteira.

            O tenente sacudiu a cabeça.

            — A senhora sacou direitinho como ele é.

            ...... Também lembrei-lhe que ele próprio talvez viesse a precisar de um médico qualquer dia desses. E se sofresse uma queda daquela moto, estivesse largado no chão, em estado crítico, e eu fosse a médica a atendê-lo. Nesse caso, se ele me machucasse naquela ocasião, eu teria boas razões para me vingar. Disse a ele que há coisas que um médico pode fazer para complicar os ferimentos, para ter certeza de que o paciente terá uma recuperação longa e dolorosa. Pedi-lhe que pensasse nisso.

            Whitman fitou-a, de boca aberta.

            Ela continuou:

            — Não sei se foi aquilo que o perturbou, ou se foi simplesmente o revólver, mas ele hesitou, depois fez um estardalhaço para impressionar os três companheiros. Disse-lhes que eu era amiga de um amigo. Que me conhecera há alguns anos, mas que não se lembrara de mim a princípio. Eu deveria receber todas as cortesias que a Demons Chrome era capaz de dar. Ninguém jamais me incomodaria, falou. Depois voltou a montar na sua Harley e se afastou, e os outros três o seguiram.

            — E a senhora continuou a viagem até Mount Larson?

            — O que mais podia fazer? Ainda tinha um doente para visitar.

            — Incrível.

            — Devo admitir, contudo, que fui suando e tremendo a viagem toda.

            — E nenhum motoqueiro a incomodou mais, desde então?

            Na verdade, quando passam por mim nas estradas vizinhas, todos sorriem e dão adeus. Whitman achou graça.

            — Portanto — continuou Jenny —, eis aí a resposta à sua pergunta: film, sei usar uma arma, mas espero nunca precisar atirar em ninguém.

            Ela olhou para o Magnum 375 na sua mão, fechou a cara, abriu uma caixa de munição e começou a carregar o revólver.

            O tenente tirou dois cartuchos de outra caixa e carregou uma das espingardas.

            Ficaram em silêncio por algum tempo e depois ele perguntou;

            — A senhora teria feito o que disse a Gene Terr?

            — O quê? Atirar nele?

            — Não. Quero dizer, se ele a tivesse machucado, talvez estuprado, e depois, mais tarde, a senhora tivesse uma chance de tê-lo como paciente... teria...?

            Jenny terminou de carregar o Magnum, encaixou o cilindro no lugar e largou o revólver.

            — Bem, eu ficaria tentada. Por outro lado, porém, tenho um enorme respeito pelo juramento de Hipócrates. Portanto... bem... imagino que isso queira dizer que, no fundo, sou uma molenga... mas teria dado ao Jeeter o melhor tratamento médico que pudesse.

            — Sabia que diria isso.

            — Falo grosso, mas sou uma banana por dentro.

            — Nada disso — falou ele. — É preciso ser forte de verdade para enfrentá-lo do jeito que a senhora o enfrentou. Agora, se ele a tivesse machucado e, mais tarde, a senhora se aproveitasse da sua condição de médica só para acertar as contas com ele... bem, aí seria diferente.

            Jenny ergueu os olhos do 38 que acabara de tirar dentre as armas expostas sobre a mesa e fitou os olhos do negro. Eram olhos límpidos, penetrantes.

            — Dra. Paige, a senhora tem o que chamamos de "raça". Se quiser, pode me chamar de Tal. A maioria das pessoas me chama assim. É o diminutivo de Talbert.

            — Tudo bem, Tal. E você pode me chamar de Jenny.

            — Ah, não sei não.

            — E por que não?

            — Afinal a senhora é médica. Minha tia Becky, que foi quem me criou, sempre leve um grande respeito pelos médicos. Acho meio esquisito ficar chamando um médico... ou uma médica... pelo nome de batismo.

            — Os médicos também são gente. E levando-se em conta que estamos todos aqui numa espécie de panela de pressão...

            — Mesmo assim — disse ele, balançando a cabeça.

            — Se isso o incomoda, então me chame como a maioria dos meus pacientes.

            — Como é?

            — Doc.

            — Doc? — Ele refletiu, depois um sorriso lento se espalhou pelo seu rosto. — Doc. Faz a gente pensar num daqueles velhotes simplórios, grisalhos e rabugentos que Barry Fitzgerald costumava representar no cinema, naqueles filmes dos anos 30 ou 40.

            — Desculpe eu não ser grisalha.

            — Tudo bem. Também não é uma velhota simplória. Ela riu baixinho.

            — Gostei da ironia — falou Whitman. — Doc. É, e quando penso em você enfiando o revólver na barriga de Gene Terr, cai bem.

            Carregaram mais duas armas.

            — Tal, por que tantas armas para uma pequena subdelegacia numa cidade como Snowfield?

            — Se você quiser obter fundos federais e estaduais equivalentes para o orçamento policial do condado, tem que atender às exigências deles em toda sorte de coisas ridículas. Uma das especificações é para arsenais mínimos em subdelegacias como esta. Agora... bem... quem sabe devemos estar contentes por termos todo esse armamento.

            — Exceto que, até agora, não vimos nada em que atirar.

            — Desconfio de que vamos ver — falou Tal. — E deixe que lhe diga uma coisa.

            — O que é?

            O rosto largo, escuro e bonito de Tal podia ter uma aparência perturbadoramente severa.

            — Não creio que tenha que se preocupar em atirar em outras pessoas. Não estou acreditando que tenhamos que nos preocupar com pessoas.

            Bryce ligou para o telefone particular e confidencial da residência do governador, em Sacramento. Falou com uma empregada que insistiu em que o governador não podia atender, nem mesmo sendo um telefonema de vida e morte de um velho amigo. Ela queria que Bryce deixasse um recado. Depois ele falou com o chefe dos empregados domésticos, que também queria que deixasse recado. A seguir, tendo esperado um pouco, falou com Gary Poe, o principal assessor e conselheiro político do governador Jack Retlock.

            — Bryce — falou Gary —, o Jack não pode atender no momento.

            Está no meio de um jantar importante. O ministro do comércio japonês e o cônsul-geral de São Francisco.

            — Gary...

            — Estamos dando um duro danado para conseguir a nova usina eletrônica nipo-americana para a Califórnia, e receamos que ela vá para o Texas ou o Arizona ou até mesmo Nova York. Jesus, Nova York!

            — Gary...

            — Por que eles chegaram a pensar em Nova York, com todos os problemas trabalhistas e o altos impostos que eles têm por lá? Às vezes eu acho...

            — Gary, cale a boca.

            — Hã?

            Bryce nunca falava bruscamente com ninguém. Até mesmo Gary Poe, que contribuiu falar mais alto e mais depressa do que um animador de parque de diversões, ficou tão chocado que perdeu a fala.

                   — Gary, é uma emergência. Chame o Jack para mim.

            Num tom magoado, Poe falou:

            — Bryce, tenho autorização para...

            — Tenho um bocado de coisas para fazer nas próximas duas horas, Gary. Isto é, se conseguir sobreviver. Não posso passar quinze minutos explicando tudo isso a você e depois mais quinze explicando tudo Jack. Escute, estou em Snowfield. Parece que todo mundo que morava aqui morreu, Gary.

            — O quê?

            — Quinhentas pessoas.

            —   Bryce, se isso é uma piada ou...

            —- Quinhentos mortos. E isso é o de menos. Agora, pelo amor de Deus, quer chamar o Jack?

            — Mas Bryce, quinhentos...

         — Chame o Jack, porra!

            Poe hesitou, depois falou:

            Meu chapa, é melhor que essa merda seja séria.

            Largou o telefone e foi chamar o governador.

            Bryce conhecia Jack Retlock há dezessete anos. Quando entrara para a força policial de Los Angeles, fora destacado para servir com Jack, como recruta. Naquela época, Jack era um veterano da força há sete anos, um policial experimentado. Na verdade, Jack parecia tão experiente e tão por dentro de tudo, que Bryce chegara a desesperar de algum dia vir a ter a metade do seu desempenho no emprego. Dentro de um ano, contudo, chegara a ter um desempenho melhor. Resolveram ficar juntos, como parceiros. Porém, dali a dezoito meses, farto de um sistema legal que libertava regularmente os marginais que ele lutava tanto para aprisionar, Jack abandonou a polícia e ingressou na política. Como tira, colecionara um punhado de citações por bravura. Usou a sua imagem de herói para conseguir se eleger vereador por Los Angeles, depois se candidatou a prefeito, ganhando por maioria esmagadora. De prefeito, passara a governador do Estado. Era uma carreira bem mais impressionante do que o progresso claudicante de Bryce até o posto de xerife em Santa Mira, mas Jack sempre fora o mais agressivo dos dois.

            — Doody? É você? — perguntou Jack, atendendo o telefone em Sacramento.

            Doody era o apelido dele para Bryce. Sempre dissera que o cabelo avermelhado de Bryce, suas sardas, seu ar sadio e olhos de marionete faziam com que se parecesse com Howdy Doody.

            — Sou eu, Jack.

            — Gary está falando umas loucuras idiotas...

            — É verdade — disse Bryce.

            Contou a Jack tudo sobre Snowfield. Depois de escutar a história toda, Jack inspirou fundo e falou:

            — Gostaria que você fosse dado à bebida, Doody.

            — Não é o álcool falando, Jack. Escute, a primeira coisa que quero é...

            — A Guarda Nacional?

            — Não! — exclamou Bryce. — Isso é exatamente o que quero evitar, enquanto tivermos escolha.

            — Se eu não usar a Guarda e todas as agências ao meu dispor, e mais tarde se concluir que eu devia tê-las mandado logo no início, meu rabo vai virar grama e haverá uma manada de vacas esfomeadas ao meu redor.

            — Jack, estou contando com você para tomar as decisões certas, não apenas as decisões políticas certas. Até sabermos mais sobre essa situação, não queremos hordas de guardas invadindo isto aqui. Eles são ótimos para ajudar numa inundação, numa greve de correios, esse tipo de coisa. Mas não são militares em tempo integral. São vendedores de sapatos, advogados, carpinteiros e professores. Isso aqui exige uma ação policial eficiente, severamente controlada, e esse tipo de coisa só pode ser conduzida por tiras de verdade, tiras em tempo integral.

            — E se seus homens não derem conta do recado?

            — Então serei o primeiro a berrar pela Guarda. Finalmente, Retlock falou:

            — Tudo bem, nada de guardas. Por enquanto. Bryce soltou um suspiro.

            — E também quero o Departamento Estadual de Saúde longe daqui.

            — Doody, seja razoável. Como posso fazer isso? Se houver alguma possibilidade de que uma doença contagiosa tenha arrasado com Snowfield... ou algum tipo de envenenamento ambiental...

            — Escute, Jack, o Departamento de Saúde faz um bom trabalho quando se trata de descobrir e controlar vetores para surtos de peste ou envenenamento alimentar em massa ou contaminação de água. Essencialmente, porém, eles são burocratas; mexem-se lentamente. Não podemos nos dar ao luxo de nos mexermos lentamente neste caso. Tenho a sensação de que estamos vivendo com as horas contadas. A coisa toda pode estourar a qualquer hora; na verdade, ficarei surpreso se não estourar. Além disso, o Departamento de Saúde não tem o equipamento para cuidar do caso, nem um plano de contingência para cobrir a morte de uma cidade inteira. Mas existe alguém que tem, Jack. A Divisão CBW do Corpo Médico do Exército tem um programa relativamente novo a que dão o nome de Unidade de Defesa Civil.

            — Divisão CBW? — perguntou Retlock. Havia uma tensão nova na sua voz. — Está se referindo ao pessoal da guerra química e bacteriológica?

            — Isso mesmo.

            — Santo Cristo, você não acha que isso tenha algo a ver com gás que afeta o sistema nervoso ou guerra bacteriológica...

            — Provavelmente não — falou Bryce, pensando nas cabeças cortadas dos Liebermanns, naquela sensação esquisita que tomara conta dele no corredor coberto, ou na maneira incrivelmente súbita como Jake Johnson desaparecera. — Mas não sei o suficiente a respeito para eliminar a CBW ou outra coisa qualquer.

            Uma ponta dura de raiva se cristalizara na voz do governador.

            — Se o maldito Exército foi descuidado com uma daquelas porras de vírus do juízo final, vou tirar o couro deles!

            — Calma, Jack. Talvez não seja um acidente. Talvez seja obra de terroristas que deitaram as mãos numa amostra de algum agente da CBW. Ou quem sabe são os russos fazendo um pequeno teste do nosso sistema de análise e defesa da CBW. Foi para cuidar desse tipo de situação que o Corpo Médico do Exército instruiu a sua Divisão CBW no sentido de criar o setor do general Copperfield.

            — Quem é Copperfield?

            — General Copperfield. É o comandante da Unidade de Defesa Civil da Divisão CBW. Este é precisamente o tipo de situação de que querem ser avisados. Dentro de horas Copperfield pode colocar uma equipe de cientistas bem treinados em Snowfield. Biólogos, virologistas, bacteriologistas, patologistas treinados na medicina legal mais moderna, pelo menos um imunologista e bioquímico, um neurologista... até mesmo um neuropsicólogo. O departamento de Copperfield projetou elaborados laboratórios de campo móveis. Guardam-nos em depósitos pelo país todo, então deve haver um relativamente perto de nós. Não chame a turma do Departamento de Saúde, Jack. Eles não têm gente do calibre que Copperfield pode oferecer, e não têm um equipamento de diagnóstico atualizado tão móvel quanto o de Copperfield. Quero chamar o general; na verdade, vou chamá-lo, mas preferia ter a sua concordância e a sua garantia de que os burocratas estaduais não vão ficar andando por aqui, interferindo.

            Depois de uma breve hesitação, Jack Retlock perguntou:

            — Doody, em que tipo de mundo deixamos que o nosso se transformasse, no qual coisas como o departamento de Copperfield são necessárias?

            — Você vai deixar a Saúde de fora?

            — Vou. Do que mais você precisa?

            Bryce lançou um olhar à lista à sua frente.

            — Podia falar com a companhia telefônica e pedir que tirasse os circuitos de Snowfield do controle automático. Quando o mundo descobrir o que aconteceu aqui, todos os telefones da cidade ficarão tocando feito doidos, e nós não poderemos manter as comunicações essenciais. Se ele pudessem fazer todas as ligações para e de Snowfield passarem por algumas telefonistas especiais e "podassem" os telefonemas dos maníacos e...

            — Pode deixar — falou Jack.

            — Claro que podemos ficar sem telefone a qualquer momento. A dra. Paige teve problemas em conseguir linha da primeira vez que tentou, então eu vou precisar de um aparelho de ondas curtas. O que temos aqui na subdelegacia parece ter sido sabotado.

            — Posso lhe conseguir uma unidade de ondas curtas móvel, um furgão com o seu próprio gerador de gasolina. O Gabinete de Prontidão para Terremotos tem dois. Mais alguma coisa?

            — Por falar em geradores, seria bom que não tivéssemos que depender do suprimento de força público. Evidentemente, nosso inimigo aqui pode mexer nele quando bem quiser. Pode conseguir dois grandes geradores para nós?

            — Posso. Mais alguma coisa?

            — Se eu me lembrar de algo, não hesitarei em pedir.

            — Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Bryce. Como amigo, estou muito chateado por você estar metido nisto. Mas, como governador, estou muito feliz por isto, seja lá o que for, ter caído na sua jurisdição. Existem alguns babacas por aí que já teriam metido os pés pelas mãos se esse caso tivesse caído no colo deles. A essa altura, se fosse uma moléstia, já estaria espalhada pela metade do Estado. Ainda bem que você está aí.

            — Obrigado, Jack.

            Ficaram ambos calados por um momento. Então, Retlock falou:

            — Doody?

            — Sim, Jack.

            — Cuide-se.

            — Pode deixar. Bem, tenho que falar com Copperfield. Ligo para você depois.

            — Por favor, Bryce, ligue mesmo. Não suma, companheiro. Bryce largou o telefone e correu os olhos pela subdelegacia. Stu Wargle e Frank estavam tirando a chapa dianteira de acesso ao rádio. Tal e a dra. Paige estavam carregando as armas, Gordy Brogan e a jovem Lisa Paige, o maior e a menor do grupo, estavam fazendo café e arrumando a comida sobre uma das mesas de trabalho.

            Mesmo no meio do desastre, pensou Bryce, mesmo aqui nesta situação "além da imaginação", temos que comer e tomar café. A vida continua.

            Tirou o fone do gancho para discar o número de Copperfield em Dugway, Utah.

            Não deu linha.

            Ele mexeu na trave de desligar.

            — Alô — disse. Nada.

            Bryce pressentiu alguém ou algo à escuta. Podia sentir a presença, como a dia. Paige tinha descrito.

            — Quem é? — perguntou.

            Não estava esperando uma resposta, mas recebeu-a. Não era uma voz. lira um som estranho, mas familiar: o grito de aves, talvez gaivotas. É, gaivotas guinchando estridentes acima da costa varrida pelo vento.

            O som se modificou. Transformou-se num retinir. Num chocalhar. Como feijões numa cuia rasa. O som de advertência de uma cascavel. É, não havia dúvida. O som bem distinto de uma cascavel.

            E então ele se modificou de novo. Zumbidos eletrônicos. Não, eletrônicos não. Abelhas. Abelhas zumbindo, enxameando.

            E agora os gritos das gaivotas de novo.

            E o pio de outra ave, um trinado musical.

            E um arfar. Como o de um cão cansado.

            E um rosnar. Não um cão, algo maior.

            E o ruído característico de gatos brigando.

            Embora não houvesse nada de especialmente ameaçador quanto aos sons em si — exceto, talvez, no caso da cascavel e do rosnar —, Bryce ficou gelado com eles.

            Os ruídos animais cessaram.

            Bryce ficou à espera, à escuta, e perguntou:

            — Quem é? — Nenhuma resposta. — O que você quer?

            Um outro som veio pelo fio e penetrou Bryce como se fosse um punhal de gelo. Gritos. Homens, mulheres e crianças. Mais do que uns poucos. Dúzias, vintenas. Não gritos teatrais; não terror de mentirinha. Eram os gritos chocantes e ferozes dos amaldiçoados: gritos de agonia, de medo e de desespero de cortar o coração.

            Bryce sentiu-se mai.

            Seu coração disparou.

            Parecia-lhe que tinha uma linha aberta para as entranhas do Inferno.

            Aqueles seriam os gritos dos mortos de Snowfield, capturados numa fita? Por quem? Por quê? Seriam ao vivo ou seriam uma gravação?

            Um grito derradeiro. Uma criança. Uma garotinha. Ela gritou de terror, depois de dor, depois de sofrimento inimaginável, como se estivesse sendo feita em pedaços. Sua voz aumentou, cresceu em espirais, e mais e...

            Silêncio.

            O silêncio ainda era pior do que os gritos, porque a presença sem nome ainda estava na linha e Bryce pôde senti-la ainda com mais força. Ficou abalado com a percepção do mal puro e inexorável.

            Aquilo estava ali.

            Ele desligou rapidamente.

            Estava tremendo. Não estivera em perigo algum... e no entanto estava tremendo.

            Correu o olhar pela cadeia. Os outros ainda estavam entregues às tarefas que ele lhes designara. Aparentemente, ninguém tinha reparado que sua sessão mais recente ao telefone fora bastante diferente daquelas que a antecederam.

            O suor lhe escorria pela nuca.

            Acabaria por ter que contar aos outros o que acontecera. Mas não nesse momento. Porque, neste momento, não podia confiar na própria voz. Eles sem dúvida perceberiam o tremor nervoso e saberiam que esta estranha experiência o tinha abalado muitíssimo.

            Até que os reforços chegassem, até que a cabeça-de-ponte deles em Snowfield estivesse mais firmemente estabelecida, até que todos se sentissem menos temerosos, não era sensato deixar que os outros o vissem tremendo de pavor. Afinal de contas, buscavam nele a liderança. Ele não pretendia desapontá-los.

            Inspirou ampla, profundamente.

            Tirou o fone do gancho e escutou imediatamente o sinal de discar.

            Aliviadíssimo, ligou para a Unidade de Defesa Civil da CBW em Dugway, Uttah.

            Lisa gostava de Gordy Brogan.

            A princípio parecera ameaçador e emburrado. Era um homem grande, e as suas mãos eram tão enormes que levavam todos a pensar no monstro de Frankenstein. O rosto dele até que era bonito, mas quando franzia o cenho, mesmo que não estivesse zangado, mesmo que estivesse apenas preocupado com alguma coisa ou pensando com muita concentração, as suas sobrancelhas se uniam ferozmente e os olhos muito negros ficavam ainda mais negros, e ele parecia o próprio fim do mundo.

            Um sorriso o transformava. Era uma coisa espantosa. Quando Gordy sorria, todos sabiam logo que estavam vendo o verdadeiro Gordy Brogan. Sabiam que o outro Gordy — o que todos pensavam ver quando ele franzia o cenho ou quando o seu rosto estava em repouso — era puramente fruto da sua imaginação. O seu sorriso cálido, amplo, chamava a atenção para a bondade que brilhava em seus olhos, a meiguice na sua fisionomia larga.

            Quando se o conhecia bem, ele era como um cãozinho avantajado, ansioso para que gostassem dele. Era um dos raros adultos que sabia conversar com uma criança sem ficar constrangido ou ser paternalista. Neste aspecto, era até melhor do que Jenny. E, até mesmo nas circunstâncias ninais, sabia rir.

            Enquanto punham a comida na mesa — frios, pão, queijo, frutas frescas, rosquinhas — e faziam café, Lisa falou:

            — Você não me parece um tira.

            — É ? E como é que um tira deve parecer?

            — Ué! Será que falei a coisa errada? "Tira" é uma palavra ofensiva?

            — Em alguns lugares, é. Como nas prisões, por exemplo.

            Ela ficou espantada ao ver que ainda podia rir depois de tudo o que acontecera esta noite. Falou:

            — Não, serio. Como é que os membros da polícia gostam de ser chamados? Policiais?

            — Não importa. Sou delegado, policial, tira... o que você quiser. Só que você acha que não tenho cara disso.

            — Ah, tem cara sim — falou Lisa. — Especialmente quando franze as sobrancelhas. Mas não parece um tira.

            — O que pareço, para você?

            — Deixe-me pensar. — Interessou-se imediatamente pelo jogo, pois desviava a sua atenção do pesadelo que a cercava. — Talvez você pareça... um jovem pastor.

            —   Eu?

            — Bem, você ficaria fantástico no púlpito, fazendo um sermão sobre as penas do inferno. E posso vê-lo sentado na residência paroquial, um sorriso encorajador no rosto, escutando os problemas dos outros.

            — Eu, um pastor — disse ele, nitidamente atônito. — Com essa sua imaginação, você devia ser escritora quando crescer.

            — Acho que vou ser médica, como Jenny. Um médico pode fazer tanto bem. — Ela fez uma pausa. — Sabe por que você não se parece com um tira? É porque não consigo imaginá-lo usando isso. — Apontou para o revólver dele. — Não consigo imaginar você atirando em alguém. Mesmo que ele merecesse.

            Ela ficou espantada com a expressão que se estampou no rosto de Gordy Brogan. Ele ficara visivelmente chocado.

            Antes que ela pudesse perguntar qual o problema, as luzes piscaram.

            Lisa ergueu os olhos.

            As luzes piscaram de novo. E de novo.

            Ela lançou um olhar pelas janelas da frente. Lá fora, as luzes dos postes de rua também piscavam.

            Não, pensou. Não, por favor, Deus, de novo, não. Não nos lance de novo na escuridão; por favor, por favor!

            As luzes se apagaram.

 

            Bryce falara com o oficial de serviço da noite que guarnecia a linha de emergência na Unidade de Defesa Civil da CBW em Dugway, Utah. Não precisara dizer muito até ser transferido para o telefone da casa do general Galen Copperfield. Este escutara com atenção, mas pouco falara. Bryce queria saber se era provável que um agente químico ou bacteriológico pudesse ser o causador da agonia e obliteração de Snowfield. Copperfield dissera "Sim". Mas dissera somente isto. Avisara a Bryce que estavam falando numa linha telefônica livre e fizera referências vagas, mas severas, a normas de segurança e informações confidenciais. Quando tinha ouvido todo o essencial, mas apenas alguns dos detalhes, ele interrompera Bryce um tanto bruscamente e sugerira que discutissem o resto quando se encontrassem frente a frente.

            — Já ouvi o bastante para me convencer de que a minha organização deve se envolver.

            Ele prometeu mandar um laboratório de campo e uma equipe de investigadores para Snowfield até o alvorecer, ou logo depois.

            Bryce estava pousando o fone no gancho quando as luzes piscaram, diminuíram, piscaram, oscilaram... e se apagaram.

            Ele buscou a lanterna elétrica na mesa à sua frente, encontrou-a e acendeu-a.

            Ao voltarem à subdelegacia, há pouco, haviam localizado duas lanternas elétricas adicionais, de cabo longo, equipamento policial. Gordy ficara com uma, a dra. Paige com a outra. Agora, as duas lanternas se acenderam simultaneamente, abrindo longas feridas brilhantes na escuridão.

            Tinham discutido um plano de ação, uma rotina para seguir se as luzes se apagassem de novo. Agora, como fora planejado, todos se dirigiram para o centro da sala, longe de portas e janelas, e se amontoaram num círculo, as costas voltadas para dentro, reduzindo a sua vulnerabilidade.

            Ninguém falou muito. Estavam todos de ouvidos atentos.

            Lisa Paige estava à esquerda de Bryce, os ombros esbeltos encurvados, a cabeça baixa.

            Tal Whitman estava à direita de Bryce, os dentes à mostra num rosnado silencioso, enquanto inspecionavam a escuridão que ficava além do Incho móvel da lanterna.

            Tal e Bryce estavam de revólver na mão.

            Eles três estavam de frente para os fundos da sala, enquanto os outros quatro — dra. Paige, Gordy, Frank e Stu — encaravam a frente do Aposento.

            Bryce jogava o facho da sua lanterna sobre tudo, pois até os contornos vagos dos objetos mais triviais subitamente pareciam ameaçadores. Nada, porém, se escondia ou se movia por entre as peças familiares de móveis e equipamento.

            Silêncio.

            Na parede dos fundos, junto ao canto direito da sala, havia duas portas. Uma dava para o corredor que servia as três celas de detenção. Eles tinham revistado aquela parte do prédio anteriormente; as celas, a sala de interrogatórios e os dois banheiros que ocupavam aquela metade do andar térreo estavam todos desertos. A outra porta dava para a escada que levava ao apartamento do delegado. Aqueles aposentos também estavam desocupados. Apesar disso, Bryce voltava repetidamente o facho da lanterna para as portas entreabertas. Estava intranqüilo quanto a elas. Na escuridão, ouviu-se uma batida suave.

            — O que foi isso? — perguntou Wargle.

            — Veio daqui — falou Gordy.

            — Não, daqui — retrucou Lisa Paige.

            — Quietos! — Exclamou Bryce, vivamente. Turn... tum-tum.

            Era o som de um golpe amortecido. Como um travesseiro caindo ao chão.

            Bryce mexeu a sua lanterna rapidamente daqui para ali.

            Tal acompanhou o facho de luz com o revólver.

            Bryce pensou: o que faremos se as luzes ficarem apagadas a noite toda? O que faremos quando as pilhas das lanternas finalmente acabarem? O que vai acontecer então!

            Desde pequeno não sabia o que era ter medo do escuro. Agora estava se lembrando de como era.

            Tum-tum... tum... tum-tum.

            Mais alto. Porém não mais perto.

            Tum!

            — As janelas! — exclamou Frank.

            Bryce deu meia-volta, sondando com a lanterna elétrica.

            Os três fachos fortes encontraram as janelas da frente ao mesmo tempo, transformando os quadrados de vidro em espelhos que ocultavam o que quer que houvesse por trás deles.

            — Voltem as luzes para o chão ou o teto — falou Bryce. Um facho subiu, dois desceram.

            A luz indireta revelou as janelas, mas não as transformou em superfícies de prata refletivas.

            Tum!

            Algo bateu numa janela, fez chocalhar uma vidraça solta e ricocheteou dentro da noite. Bryce teve uma impressão de asas.

            — O que foi isso?

         — ...um pássaro...

            — ...não um pássaro de um tipo que já...

            — ...algo...

            — ...terrível...

            A coisa voltou, batendo de encontro ao vidro com mais determinação do que antes: tum-tum-tum-tum-tum! Lisa berrou. Franky Autry arquejou, e Stu Wargle exclamou:

            — Puta que o pariu!

            Gordy emitiu um som mudo e estrangulado.

            Fitando a janela, Bryce sentiu como se tivesse atravessado a cortina da realidade e sido projetado num lugar de pesadelo e ilusão.

            Com os postes de rua apagados, a Skyline Road se achava às escuras, exceto pelo luar luminoso; todavia, a coisa na janela estava vagamente iluminada.

            Mesmo a vaga iluminação daquela monstruosidade esvoaçante era demais. O que Bryce viu do outro lado do vidro — o que ele pensou ter visto na multiplicidade caleidoscópica de luz, sombra e luar — foi algo saído de um sonho febril. Tinha uma envergadura de asas de 1,00m a l,20m. Uma cabeça insetóide. Antenas curtas e trêmulas. Mandíbulas pequenas, pontudas e em movimento incessante. Um corpo segmentado. Que ficava suspenso entre as asas cinzentas e tinha aproximadamente o tamanho e o formato de duas bolas de futebol sobrepostas. Ele também era cinzento, do mesmo tom das asas — um cinza doentio, bolorento —, tinha penugem e parecia úmido. Bryce vislumbrou ainda os olhos: lentes imensas, negras como o pixe, multifacetadas, protuberantes, que refratavam e refletiam a luz, brilhando sombria e esfaimadamente.

            Se ele estava vendo o que pensava ver, a coisa na janela era uma mariposa grande como uma águia. O que era uma loucura.

            Ela se jogou contra as janelas com fúria renovada, num frenesi, as asas pálidas batendo tão depressa que se tornou um borrão. Movia- se ao longo das vidraças escuras, ricocheteando repetidamente dentro da noite, depois voltando, tentando febrilmente entrar pela janela. Tumtumtumtum. Mas não tinha forças para quebrar a janela e entrar. Além do mais, não tinha carapaça; o seu corpo era inteiramente macio e, a despeito do tamanho incrível e aparência intimidadora, incapaz de romper o vidro.

            Tumtumtum.

            E então foi embora.

            As luzes se acenderam.

            É como uma maldita peça de teatro, pensou Bryce.

            Quando se deram conta de que a coisa na janela não ia voltar mais, Iodos se adiantaram, num consenso tácito, até a frente da sala. Cruzaram o portão na grade que levava à área do público, aproximaram-se das janelas e ficaram olhando para fora num silêncio atônito.

            A Skyline Road não sofrerá nenhuma modificação.

            A noite estava vazia.

            Nada se mexia.

            Bryce sentou-se na cadeira rangedora à mesa de Paul Henderson. Os outros se aproximaram.

            — E então — falou Bryce.

            — E então — falou Tal. Entreolharam-se, inquietos.

            — Alguma idéia? — perguntou Bryce.

            Ninguém falou nada.

            — Alguma teoria sobre o que possa ter sido?

            — Obsceno — disse Lisa, e estremeceu.

            — Ah, isso foi mesmo — falou a dra. Paige, colocando uma mão reconfortante no ombro da irmã mais moça.

            Bryce ficou impressionado com a força e resistência emocionais da doutora. Parecia estar agüentando cada choque que Snowfield lhe proporcionava. Na verdade, parecia até estar resistindo melhor do que os seus próprios homens. Os olhos dela eram os únicos que não se desviavam quando ele os fitava. Retribuía o olhar, francamente. Esta, pensou ele, é uma mulher especial.

            — Impossível — falou Frank Autry. — Foi isso. Simplesmente impossível.

            — Que diabo, o que está havendo com vocês? — indagou Wargle. Franziu o rosto gordo. — Foi só um pássaro. Era só isso que estava lá fora. Só uma droga de um pássaro.

            — Uma ova que foi — falou Frank.

         — Só um pássaro nojento — insistiu Wargle. Quando os outros discordaram, ele falou: — A luz fraca e todas aquelas sombras lá fora dão uma impressão falsa. Vocês não viram o que acham que viram.

            — E o que você acha que vimos? — perguntou-lhe Tal. O rosto de Wargle ficou vermelho. — Será que vimos a mesma coisa que você viu, a coisa em que não quer acreditar? — insistiu Tal. — Uma mariposa? Viu uma maldita mariposa, grande, feia, impossível?

            Wargle fitou os sapatos.

            — Vi um pássaro. Apenas um pássaro.

            Bryce se deu conta de que Wargle era tão completamente desprovido de imaginação que não conseguia aceitar a possibilidade do impossível, nem mesmo quando o havia testemunhado com os próprios olhos.

            — De onde ela veio?—perguntou Bryce. Ninguém soube dizer.

            — O que queria? — continuou Bryce.

            — Queria a gente — respondeu Lisa.

            Todos pareciam concordar com a opinião dela.

            — Mas aquela coisa na janela não foi o que pegou o Jake — disse Frank. — Era frágil, levinha. Não poderia levar embora um homem

            adulto.

            — Então o que pegou o Jake? — perguntou Gordy.

            — Uma coisa maior — falou Frank. — Uma coisa bem mais forte e perversa.

            Bryce concluiu que, afinal de contas, era chegada a hora de lhes contar sobre as coisas que ouvira — e sentira — ao telefone, no intervalo dos seus telefonemas para o governador Retlock e o general Copperfield: a presença silenciosa; o grito triste das gaivotas; o ruído de advertência de uma cascavel; e o pior de tudo, os gritos de agonia e desespero de homens, mulheres e crianças. Não tinha a intenção de tocar naquele assunto até a manhã seguinte, até a chegada da luz do sol e dos reforços. Mas eles poderiam perceber algo importante que ele deixara passar, algum detalhe, alguma pista que seria útil. Além disso, agora que tinham Iodos visto a coisa na janela, o incidente do telefone, por comparação, mio era mais muito chocante.

            Os outros escutaram Bryce falar, e essa nova informação teve uni efeito negativo no comportamento deles.

            — Que espécie de degenerado gravaria os gritos de suas vítimas? — perguntou Gordy.

            Tal Whitman balançou a cabeça.

            — Podia ser outra coisa. Podia ser...

            — O quê?

            — Bem, talvez nenhum de vocês queira escutar isso neste momento

            — Já que começou, vá até o fim — insistiu Bryce.

            — Bem — falou Tal —, e se não foi uma gravação que você ouviu? Quero dizer, sabemos que desapareceu gente de Snowfield. Na verdade, pelo que vimos, tem mais gente desaparecida do que morta. Portanto... e se os desaparecidos estão presos em algum lugar? Como reféns? Quem sabe os gritos viessem de gente ainda viva, que estava sendo torturada e morta talvez naquele momento, bem na hora em que você tinha o fone no ouvido.

            Lembrando-se daqueles gritos terríveis, Bryce sentiu a medula congelar lentamente.

            — Quer tenha sido ou não gravado — disse Frank Autry —, é provável que seja um erro pensar em termos de reféns.

            — É — falou a dra. Paige. — Se o sr. Autry está querendo dizer que temos que ter cuidado para não limitar nossas idéias a situações convencionais, concordo inteiramente. Isso não me parece um drama de reféns. Algo tremendamente esquisito está acontecendo aqui, algo que ninguém ainda encontrou antes, portanto não vamos cair em erro só porque nos sentimos mais confortáveis com explicações aconchegantes e familiares. Além disso, se estamos lidando com terroristas, como é que isso combina com aquela coisa que vimos na janela?

            Bryce assentiu.

            — Tem razão. Mas não creio que Tal tenha querido dizer que as pessoas estão sendo mantidas como reféns por motivos convencionais.

            — Não, não — disse Tal. — Não precisa ser coisa de terrorista ou de seqüestrador. Se há pessoas mantidas como reféns, isso não quer dizer necessariamente que haja outras pessoas prendendo-as. Estou até disposto a considerar que estão sendo aprisionados por algo que não é humano. Se isso não é ser liberal, o que é? Talvez aquilo as esteja aprisionando, o aquilo que nenhum de nós pode definir. Quem sabe as esteja aprisionando apenas para prolongar o prazer que sente em acabar com a vida delas. Quem sabe as esteja aprisionando apenas para nos provocar com os seus gritos, do jeito que provocou Bryce ao telefone. Que diabo, se estamos lidando com algo verdadeiramente extraordinário, verdadeiramente inumano, os seus motivos para fazer reféns — se é que fez algum — certamente serão incompreensíveis.

            — Pombas, vocês estão falando como lunáticos — disse Wargle. Todos o ignoraram.

            Tinham atravessado o espelho. O impossível era possível. O inimigo era o desconhecido.

            Lisa Paige pigarreou. Seu rosto estava cinzento. Numa voz que mal se ouvia, disse:

            — Quem sabe teceu uma teia em algum lugar, num lugar escuro, num porão ou numa caverna, amarrou nela todas as pessoas desaparecidas, envolveu-as em casulos, vivas. Quem sabe está guardando-as só para quando tiver fome de novo?

            Se não havia absolutamente nada que ficasse além da esfera da possibilidade, se até mesmo as teorias mais ousadas podiam se confirmar, então talvez a mocinha estivesse certa, pensou Bryce. Talvez houvesse uma leia enorme vibrando baixinho em algum lugar escuro, cheia de guloseimas, cem, duzentos ou mais homens-mulheres-crianças embalados individualmente para conservarem o frescor e facilitar o consumo. Em algum canto de Snowfield havia seres humanos que tinham sido reduzidos ao terrível equivalente de tortinhas embrulhadas em alumínio, esperando apenas servir de alimento para algum horror de outra dimensão, brutal, inimaginavelmente perverso, sombriamente inteligente.

            Não. Ridículo.

            Por outro lado: talvez.

            Jesus.

            Bryce se agachou em frente ao rádio de ondas curtas e espiou as suas entranhas destroçadas. Os painéis dos circuitos tinham sido arrancados. Várias partes pareciam ter sido esmagadas num torno ou amassadas com martelo.

            Frank disse:

            — Eles teriam que retirar a chapa protetora para mexer nisso aí, como nós retiramos.

            — Então, depois que esculhambaram com a merda toda — disse Wargle —, por que teriam se dado ao trabalho de recolocar a chapa?

            — E por que se dar a todo esse trabalho, só para começo de conversa? — questionou-se Frank. — Bastaria arrancar o fio do lugar para o rádio deixar de funcionar.

            Lisa e Gordy apareceram quando Bryce estava se afastando do rádio. A mocinha falou:

            A comida e o café estão prontos, se alguém quiser comer alguma coisa.

            — Estou morrendo de fome — disse Wargle, lambendo os lábios.

            — Todos devemos comer alguma coisa, mesmo sem vontade — falou Bryce.

            — Xerife — falou Gordy —, Lisa e eu estivemos pensando nos animais, nos bichinhos de estimação. Nós fomos levados a pensar nisso porque o senhor falou que tinha ouvido ruídos de cães e gatos ao telefone. Senhor, o que aconteceu a todos os bichos de estimação?

            — Ninguém viu nem gatos nem cachorros — falou Lisa. — Nem escutou nenhum latido.

            Pensando nas ruas silenciosas, Bryce franziu o cenho e falou:

            — Tem razão. É estranho.

            — Jenny falou que há uns cachorros bem grandes na cidade. Alguns pastores alemães. Pelo menos um doberman que ela conhece. Até mesmo um dinamarquês. Não acha que eles teriam lutado? Não acha que alguns dos cachorros teriam conseguido escapar? — perguntou a garota.

            — Vamos admitir — falou Gordy rapidamente, antecipando a resposta de Bryce — que a coisa fosse grande bastante para dominar um cachorro normal e zangado. Sabemos também que as balas não puderam detê-la, o que significa que talvez nada possa. É aparentemente grande e muito forte. Porém, senhor, grande e forte não contam muito, necessariamente, para um gato. Os gatos são uns verdadeiros raios. Seria preciso algo um bocado traiçoeiro para pegar todos os gatos da cidade.

            — Um bocado traiçoeiro e um bocado ligeiro — falou Lisa.

            — É — comentou Bryce, inquieto. — Um bocado ligeiro.

            Jenny estava começando a comer um sanduíche quando o xerife Hammond se sentou numa cadeira ao lado da escrivaninha, equilibrando o prato no colo.

            — Importa-se de ter um pouco de companhia?

            — De modo algum.

            — Tal Whitman andou me contando que a senhora é o flagelo da nossa gangue de motoqueiros local.

            Ela sorriu.

            — Tal está exagerando.

            — Aquele homem não sabe o que é exagerar — falou o xerife. — Deixe-me contar-lhe uma coisa a respeito dele. Há um ano e pouco viajei para Chicago a fim de participar de uma conferência sobre atividades policiais. Fiquei fora três dias e, quando voltei, Tal foi a primeira pessoa que vi. Perguntei-lhe se tinha acontecido alguma coisa de especial enquanto eu estivera fora, e ele me disse que tinham ocorrido as coisas de sempre, motoristas bêbados, brigas de bar, uns furtos, diversos GNA...

            — O que é GNA? — perguntou Jenny.

            — Ah, é um chamado para gato-na-árvore.

            — Os policiais não salvam mesmo os gatos, não é?

            — Acha que não temos coração? — perguntou, fingindo estar chocado.

            — GNA? Ora, vamos!

            Ele abriu um sorriso. Tinha um sorriso maravilhoso.

            — Lá uma vez em cada dois meses nós temos que tirar um gato de cima de uma árvore. Mas um GNA não quer dizer apenas gatos nas árvores. É nosso código para qualquer tipo de chamada chatinha que nos afaste de trabalhos mais importantes.

            — Ah!

            — Bem, então, quando voltei de Chicago, aquela vez, Tal me disse que tinham sido três dias bem comuns. E depois, quase como se só então tivesse se lembrado, contou que houvera uma tentativa de roubo, num mercado 7-Eleven. Tal era apenas um freguês, à paisana, quando o fato ocorrera. Um tira, porém, mesmo quando não está de serviço, é obrigado a andar armado, e Tal tinha um revólver num coldre de tornozelo. Ele me contou que um dos marginais estava armado, e que fora forçado a matá-lo; que eu não devia me preocupar pensando se fora homicídio justificado ou não. Disse que fora mais do que justificado. Quando fiquei preocupado com ele, falou: "Bryce, foi uma sopa." Mais tarde, fiquei sabendo que os dois marginais tinham pretendido atirar em todo mundo. Então Tal atirara num deles... embora tivesse sido atingido antes. O marginal enfiara uma bala no braço esquerdo de Tal, e, uma fração de segundo mais tarde, Tal o matara. O ferimento de Tal não era sério, mas sangrava pra diabo, e deve ter doído uma barbaridade. Naturalmente eu não reparara na atadura porque estava debaixo da manga da camisa, e Tal não se dera ao trabalho de falar no assunto. Bem, então, lá está Tal no 7-Eleven, sangrando feito um desesperado, e descobre que está sem munição. O segundo bandido, que pegou a arma que o primeiro deixara cair, também está sem munição, e resolve correr. Tal vai no seu encalço; eles se atracam e rolam de um lado para o outro da pequena mercearia. O sujeito tinha cinco centímetros e nove quilos a mais do que Tal, não estava ferido. Mas sabe o que o guarda que atendeu ao chamado contou que encontraram, quando chegaram ao local? Que Tal estava sentado no balcão ao lado da caixa registradora, sem camisa, tomando um cafezinho de cortesia, enquanto o funcionário tentava estancar o fluxo de sangue. Um dos suspeitos estava morto. O outro estava inconsciente, esparramado no meio de uma massa pegajosa de Hostess Twinkies, Fudge Fantasies e bolinhos de coco. Parece que tinham derrubado uma prateleira cheia de bolinhos e merendas bem no meio da luta. Cerca de cem pacotes de guloseimas tinham se esparramado pelo chão, e Tal e o outro sujeito tinham pisoteado tudo enquanto se atracavam. A maioria dos pacotes se abrira. Havia coberturas, biscoitos esfarelados e Twinkies esmagados por todo um corredor. Todo aquele lixo estava cheio de pegadas incertas, e dava para se acompanhar o progresso da briga olhando para a trilha pegajosa.

            O xerife terminou a sua história e olhou para Jenny, na expectativa.

            — Ah, e ele tinha dito ao senhor que fora uma prisão fácil... uma sopa.

            — Pois é — riu-se o xerife.

            Jenny lançou um olhar para Tal Whitman, que estava do outro lado da sala, comendo um sanduíche e conversando com o guarda Brogan e Lisa.

            — Então — continuou o xerife —, quando Tal me diz que a senhora é o flagelo da Demon Chrome, sei que não está exagerando. Exagero não faz o gênero dele.

            Jenny sacudiu a cabeça, impressionada.

            — Quando contei a Tal sobre o meu breve encontro com esse homem que ele chama de Gene Terr, ele agiu como se pensasse que era uma das coisas mais corajosas que alguém já fizera. Comparado com a "sopa" dele, a minha história deve ter parecido uma disputa num playground de jardim de infância.

            — Não, não — falou Hammond. — Tal não estava apenas sendo gentil. Ele realmente acha que a senhora fez uma coisa corajosa pra burro. E eu também. O Jeeter é uma cobra, dra. Paige. Do tipo venenoso.

            — Pode me chamar de Jenny, se quiser.

            — Bem, Jenny-se-quiser, pode me chamar de Bryce.

            Ele tinha os olhos mais azuis que ela já vira. Seu sorriso se definia tanto por aqueles olhos luminosos quanto pela curva da boca.

            Enquanto comiam, conversavam sobre coisas inconseqüentes, como se aquela fosse uma noite comum. Ele possuía uma capacidade impressionante de deixar as pessoas à vontade, a despeito das circunstâncias. Trazia consigo uma aura de tranqüilidade. Ela se sentiu agradecida pelo interlúdio calmo.

            Quando terminaram de comer, todavia, ele voltou a conduzir a conversa de volta à crise que estavam enfrentando.

            — Você conhece Snowfield melhor do que eu. Temos que encontrar um quartel-general adequado para esta operação. Este lugar é pequeno demais. Logo teremos mais dez homens aqui. E a equipe de Copperfield pela manhã.

            — Quantos homens ele vai trazer?

            — Pelo menos doze. Talvez até vinte. Preciso de um QG de onde cada aspecto da operação possa ser coordenado. Talvez fiquemos aqui por vários dias, então é preciso que haja um quarto onde o pessoal que não está de serviço possa dormir, e também precisamos de uma lanchonete para alimentar todo mundo.

            — Uma das estalagens seria o lugar ideal — disse Jenny.

            — Talvez. Mas não quero o pessoal dormindo de dois em dois em muitos quartos diferentes. Ficariam vulneráveis demais. Temos que bolar todo mundo num único dormitório.

            — Então, o Hilltop Inn é a melhor solução. Fica a uma quadra daqui, do outro lado da rua.

            — Ah, sim, claro. O maior hotel da cidade, não é?

         — É. O Hilltop tem um saguão bem grande porque funciona também como bar.

            — Já tomei um drinque ali uma ou duas vezes. Se modificarmos o mobiliário do saguão, podemos transformá-lo numa área de trabalho para acomodar lodo mundo.

            — Tem também um grande restaurante dividido em duas salas. Uma parte poderia ser uma lanchonete e poderíamos trazer colchões dos quartos e usar a outra metade do restaurante como dormitório.

            — Vamos dar uma olhada nele — falou Bryce.

            Ele largou o prato de papel vazio em cima da mesa e se pôs de pé.

            Jenny lançou um olhar às janelas da frente. Pensou na estranha criatura que voam de encontro ao vidro e, mentalmente, ouviu o barulho suave mas frenético: tumtumtumtum.

            — Quer dizer... dar uma olhada agora?

            — Por que não?

            — Não seria melhor esperar pelos reforços? — perguntou.

            — Provavelmente ainda demorarão um pouco para chegar. Não faz sentido ficar parado olhando para ontem. Todos vamos nos sentir melhor se estivermos fazendo alguma coisa construtiva. Vai desviar a nossa atenção... das coisas piores que já vimos.

            Jenny não conseguia se libertar da lembrança daqueles olhos negros de inseto, tão malévolos, tão esfaimados. Fitou as janelas, fitou a noite além delas. A cidade não mais lhe parecia familiar. Era totalmente estranha agora, um lugar hostil no qual ela era uma desconhecida mal acolhida.

            — Não estamos nem um pouquinho mais seguros aqui do que estaríamos ali — falou Bryce, gentilmente.

            Jenny assentiu, lembrando-se dos Oxleys no seu quarto com barricada. Ao se levantar da escrivaninha, falou:

            — Não há segurança em lugar algum.

 

            Saíram da delegacia, liderados por Bryce Hammond. Cruzaram as pedras da calçada manchadas pelo luar, atravessaram uma torrente de luz cor de âmbar de um poste de rua e adentraram a Skyline Road. Bryce levava uma espingarda, assim como Tal Whitman.

            A cidade estava parada. As árvores não respiravam, e os edifícios eram como miragens diáfanas penduradas em paredes de ar.

            Bryce saiu da luz, caminhou no calçamento pintalgado de luar, cruzando a rua, encontrando sombras dispersas no meio dela. Sempre sombras.

            Os outros o seguiam silenciosamente.

            Algo rangeu sob o pé de Bryce, sobressaltando-o. Era uma folha seca.

            Ele podia ver o Hilltop Inn pouco mais adiante, na Skyline Road.

            Era uma construção de pedra cinzenta de quatro andares, a quase uma quadra de distância, e estava muito escura. Algumas das janelas do quarto andar refletiam a lua cheia, mas, dentro do hotel, nem uma só luz ardia.

            Todos já tinham alcançado ou ultrapassado o meio da rua quando algo surgiu, vindo da escuridão. Bryce percebeu, em primeiro lugar, uma sombra da lua que perpassou pelo calçamento, como uma ondulação numa poça d'água. Instintivamente, baixou a cabeça. Escutou o som de asas. Sentiu algo roçar de leve sobre a sua cabeça.

            Stu Wargle gritou.

            Bryce endireitou o corpo e rodopiou.

            A mariposa.

            Estava fixada firmemente ao rosto de Wargle, agarrando-se por algum meio que não era visível para Bryce. Toda a cabeça de Wargle estava coberta pela coisa.

            Wargle não era o único que gritava. Os outros também gritaram e recuaram, surpresos. A mariposa também ginchava, emitindo um som estridente e intenso.

            Aos raios prateados do luar, as imensas asas pálidas e aveludadas do inseto impossível se agitavam, se abriam e fechavam com uma graça e beleza horríveis, fustigando a cabeça e os ombros de Wargle.

            Wargle saiu cambaleando, ladeira abaixo, movendo-se às cegas, arranhando a coisa terrível que se agarrava ao seu rosto. Os seus gritos logo ficaram abafados; dentro de dois segundos, cessaram por completo.

            Bryce, como os outros, ficou paralisado pelo nojo e pela incredulidade.

            Wargle começou a correr, mas percorreu apenas alguns metros antes de parar abruptamente. As mãos largaram aquela coisa no seu rosto. Os joelhos estavam cedendo.

            Saindo do seu breve transe, Bryce deixou cair a espingarda inútil e correu na direção de Stu.

            Wargle não desabou ao chão, afinal de contas. Em vez disso, os joelhos trêmulos ficaram firmes e ele ficou ereto. Os ombros foram jogados para trás. O corpo se retorcia e estremecia como se estivesse sendo percorrido por uma corrente elétrica.

            Bryce tentou agarrar a mariposa e arrancá-la de cima de Wargle. Mas o delegado começou a oscilar e se debater numa dança-de-são-vito de dor e sufocação, e as mãos de Bryce se fecharam em torno do ar. Wargle cruzou a rua erraticamente, sacudindo-se de um lado para outro, ondulando, se contorcendo e rodopiando, como se estivesse preso a fios sendo manipulados por um titereiro bêbado. As mãos pendiam frouxas ao lado do corpo, o que tornava a sua dança frenética e espasmódica especialmente lúgubre. As mãos se agitavam muito debilmente, mas não se levantavam para tentar arrancar o assaltante de cima de si. Era quase como se, agora, ele estivesse tomado de êxtase, e não nas garras da dor. Bryce seguiu-o, tentou ajudar, mas não conseguia se aproximar.

            E então Wargle desabou.

            Naquele mesmo instante, a mariposa se ergueu e virou, suspensa no ar as asas batendo muito rapidamente, o olhar negro como a noite e maligno Veio para cima de Bryce.

            Ele deu um passo trôpego para trás e cobriu o rosto com os braços.

            A mariposa passou voando por cima da cabeça dele.

            Bryce girou o corpo, ergueu os olhos.

            O inseto do tamanho de uma pipa continuou o seu vôo silencioso, cruzando a rua e se dirigindo para os prédios do outro lado.

            Tal Whitman levantou a sua espingarda. O estampido parecia um tiro de canhão na cidade silenciosa.

            A mariposa caiu para um lado, em pleno vôo. Veio rodopiando quase até o chão, depois alçou vôo de novo e continuou o seu caminho, desaparecendo por sobre um telhado.

            Stu Wargle estava esparramado no calçamento, de costas, imóvel.

            Bryce se pôs de pé e foi para junto de Wargle. O delegado jazia no meio da rua onde havia luz suficiente para se ver que o seu rosto tinha sumido Jesus Sumido. Como se tivesse sido arrancado fora. O cabelo e tiras irregulares do couro cabeludo encimavam o osso branco da sua testa. Um crânio espiava para Bryce.

 

            Tal, Gordy, Frank e Lisa sentavam-se em poltronas vermelhas de couro sintético num canto do saguão do Hilltop Inn. O hotel estava fechado desde o término da última estação de esqui e eles tinham removido as coberturas brancas empoeiradas das poltronas antes de desabarem nelas, enternecidos com o choque. A mesinha de centro de café ainda estava coberta com um pano; ficaram fitando o objeto amortalhado, incapazes de olhar uns para os outros.

         No canto mais afastado da sala, Bryce e Jenny encontravam-se ao lado do corpo de Stu Wargle, que estava num aparador longo e baixo, de encontro à parede. Ninguém nas poltronas conseguia se forçar a olhar para aquele lado.

            Fitando a mesinha de centro coberta, Tal talou:

            — Eu atirei naquela coisa maldita. Acertei. Sei que acertei.

            — Todos nós vimos o chumbo pegar nela — concordou Frank.

            — Então por que ela não explodiu? — quis saber Tal. — Foi atingida em cheio por chumbo de espingarda calibre 20. Devia ter ficado em pedaços, porra.

            — Armas não vão salvar a gente — falou Lisa. Numa voz distante, assombrada, Gordy falou:

            — Podia ter sido qualquer um de nós. Aquela coisa podia ter nu-pegado. Eu estava logo atrás de Stu. Se ele tivesse se abaixado ou pulado fora...

            — Não — disse Lisa. — Não. Ela queria o guarda Wargle. Mais ninguém. Só o guarda Wargle.

            Tal fitou a garota:

            — Como assim?

            A pele dela estava com a palidez de seus ossos.

            — O guarda Wargle recusou-se a admitir que a vira quando estava batendo contra a janela. Ele insistiu que era só um pássaro.

            — E daí?

            — Então ela o queria. A ele, especialmente. Para lhe ensinar uma lição. Mas, principalmente, para nos ensinar uma lição.

            — Mas aquela coisa não podia ter escutado o que Stu dissera.

            — Mas escutou.

            — Mas não podia ter compreendido.

            — Mas compreendeu.

            — Acho que você está lhe creditando inteligência demais — falou Tal. — Era grande, é verdade, e diferente de qualquer coisa que já tenhamos visto antes. Mas ainda era só um inseto. Uma mariposa. Certo?

            A mocinha ficou calada.

            — Não é onisciente — continuou Tal, tentando convencer a si mesmo, mais do que a qualquer outra pessoa. — Não vê tudo, ouve tudo e sabe tudo.

            A mocinha fitava silenciosamente a mesinha de centro coberta.

            Controlando a náusea, Jenny examinou a horrenda ferida de Wargle. As luzes do saguão não eram bastante fortes, então ela usou uma lanterna elétrica para inspecionar as beiradas do ferimento e espiar para dentro do crânio. O centro do rosto demolido do morto fora consumido até os ossos: toda a pele, carne e cartilagem tinham desaparecido. Até o osso em si parecia estar parcialmente dissolvido em alguns lugares, furadinho como se tivesse sido borrifado com ácido. Os olhos tinham desaparecido. Contudo, existia carne normal em todos os lados da ferida; havia carne macia e intacta ao longo dos dois lados do rosto, dos pontos externos dos maxilares até os malares, e havia pele lisa do meio do queixo para baixo e do meio da lesta para cima. Era como se algum artista macabro tivesse projetado uma moldura de pele sadia para dar destaque à horrenda exibição de osso em exposição no centro da face.

            Tendo visto o suficiente, Jenny desligou a lanterna elétrica. Anteriormente, tinham coberto o corpo com o pano retirado de uma das poltronas. Agora, Jenny acabou de puxar o pano para cima do rosto do morto, aliviada por estar cobrindo aquele sorriso esquelético.

            — E então? — indagou Bryce.

            — Não há marcas de dentes — falou ela.

            — E uma coisa daquela teria dentes?

            — Sei que tinha boca, um pequeno bico quitinoso. Vi as suas mandíbulas se mexendo quando se jogou contra as janelas da subdelegacia.

            — É, eu também vi.

            — Uma boca daquelas marcaria a carne. Haveria cortes. Marcas de mordidas. Sinais de mastigação e arrancamento.

            — Mas não havia nenhum.

            — Não. A carne não parece ter sido rasgada. Parece ter sido... dissolvida. Nas beiradas da ferida, a carne que resta está até meio cauterizada, como se tivesse sido queimada com alguma coisa.

            — Acha que aquele... aquele inseto... secretou um ácido? — Ela fez que sim. — E dissolveu o rosto de Stu Wargle?

            — E chupou a carne liqüefeita — disse ela.

            — Santo Deus.

            — É.

            Bryce estava pálido feito uma máscara mortuária, e, contrastantemente, as sardas pareciam arder e brilhar no seu rosto.

            — Isso explica como pode ter feito tanto estrago em apenas alguns segundos.

            Jenny tentou não pensar no rosto ossudo que espiava para fora da carne... como uma fisionomia monstruosa que tivesse retirado uma máscara de normalidade.

            — Acho que o sangue sumiu — falou. — Todo ele.

            — Como?

            — O corpo estava numa poça de sangue?

            — Não.

            — Também não havia sangue no uniforme.

            — Eu reparei.

            — Devia haver sangue, devia ter jorrado como uma fonte. As cavidades dos olhos deviam estar cheias de sangue, mas não há uma única gota.

            Bryce esfregou a mão pelo rosto. Esfregou-a com tanta força, na verdade, que levou um pouco de cor às faces.

            — Dê uma olhada no pescoço dele — falou Jenny. — Na jugular. Ele não se adiantou para o corpo.

            — E dê uma olhada na parte de dentro dos braços e na parte de trás das mãos. Não há sinal de veias em parte alguma, nenhum tom de azul.

            — Vasos sangüíneos arruinados?

            — É. Acho que todo o sangue foi retirado do seu corpo. Bryce inspirou fundo. Disse:

            — Eu o matei. Sou o responsável. Devíamos ter esperado pelos reforços antes de sair da subdelegacia... como você falou.

            — Não, não. Voce tinha razão. Lá não era mais seguro do que na rua.

            — Mas ele morreu na rua.

            — Os reforços não teriam feito a menor diferença. Do jeito que aquela coisa infernal caiu do céu... que diabo, nem mesmo um exército a lei ia detido. Ligeiro demais. Surpreendente demais.

            A desolação tomara conta dos olhos dele. Sentia a sua responsabilidade vivamente demais. Ia ficar insistindo em se culpar pela morte do seu subalterno.

            Com relutância, ela falou:

            — Tem coisa pior.

            — Não pode ser.

            — O cérebro dele...

            Bryce ficou esperando. Depois, falou:

            — O que é que tem? O que é que tem o cérebro dele?

            — Sumiu.

            — Sumiu?

            — O crânio dele está vazio. Totalmente vazio.

            — Como é que pode saber disso sem ter aberto...

            Ela estendeu a lanterna elétrica para ele, interrompendo-o.

            — Pegue isso e ilumine as órbitas dele.

            Ele não fez nenhum gesto para seguir a sugestão dela. Os seus olhos agora não estavam encobertos. Estavam abertos, arregalados.

            Ela reparou que não conseguia segurar direito a lanterna elétrica. Sua mão tremia violentamente.

            Ele também reparou. Colocou a lanterna no aparador, ao lado do cadáver amortalhado. Tomou ambas as mãos da moça e segurou-as nas suas, grandes e curtidas; aqueceu-as com as mãos em concha.

            Ela falou:

            — Não há nada para além das órbitas, nada, absolutamente nada, nada mesmo, exceto a parte de trás do crânio dele.

            Bryce esfregou-lhe as mãos, tranqüilizadoramente.

            — Só uma cavidade úmida, escareada — continuou ela. Enquanto falava, a sua voz aumentava de volume e falhava: — Aquilo corroeu o rosto dele, corroeu os seus olhos, provavelmente com a mesma velocidade com que ele era capaz de piscar, pelo amor de Deus, corroeu a sua boca e arrancou a língua pela raiz, retirou as gengivas que cobriam os seus dentes, depois corroeu o céu da boca, Jesus, e simplesmente consumiu o seu cérebro, consumiu todo o sangue do seu corpo também, provavelmente chupou-o todo e...

            — Calma, calma — falou Bryce.

            Mas as palavras jorravam aos trancos e barrancos, como se fossem elos de uma cadeia que a prendesse a um albatroz.

            — ...consumiu tudo aquilo num máximo de dez ou doze segundos, o que é impossível, maldito seja, simplesmente impossível! Devorou... está compreendendo?... devorou quilos e quilos de tecido... só o cérebro pesa uns três quilos... devorou tudo isso em dez ou doze segundos!

            Ela ficou arfando, as mãos presas nas dele.

            Ele a levou para um sofá coberto por um pano empoeirado. Sentaram-se lado a lado.

            No outro canto da sala, nenhum dos outros estava olhando para aquele lado.

            Jenny ficou contente por isso. Não queria que Lisa a visse naquele estado.

            Bryce pôs a mão no seu ombro. Falou-lhe em voz baixa, reconfortante.

            Aos poucos ela foi ficando mais calma. Não menos perturbada. Não com menos medo. Simplesmente mais calma.

            — Melhor? — perguntou Bryce.

            — Como diria a minha irmã... acho que fraquejei com você, não foi?

            — De modo algum. Está brincando ou o quê? Eu nem mesmo pude pegar a lanterna e olhar para dentro daqueles ossos, como você queria que eu fizesse. Você é que teve coragem para examiná-lo.

            — Bem, obrigada por ter me acalmado. Você sabe como ninguém costurar nervos esfarrapados.

            — Eu? Mas eu não fiz nada.

            — Você tem um jeito bem reconfortante de não fazer nada. Ficaram em silêncio, pensando em coisas em que não queriam pensar.

            Então, ele falou:

            — Aquela mariposa... — Ela esperou. — De onde veio! — perguntou ele.

            — Do inferno?

            — Mais alguma sugestão? Jenny deu de ombros.

            — Era mesozóica? — falou, em tom de brincadeira.

            — Quando foi isso?

            — Era dos dinossauros.

            Os olhos azuis dele brilharam, interessados.

            — Mariposas como aquela existiam naquele tempo?

            — Não sei — admitiu ela.

            — Dá para imaginá-la voando por cima dos pântanos pré- históricos.

            — É. Atacando os animais pequenos, incomodando um Tyrannosaurus rex do mesmo jeito que as nossas pequenas mariposas de verão nos incomodam.

            — Mas se é da era mesozóica, onde andou escondida nos últimos cem milhões de anos? — perguntou ele. Mais segundos se passaram.

            — Será que podia ser... algo de um laboratório de engenharia genética? — ela se perguntou. — Uma experiência com recombinação de ADN?

            — Será que já estão tão adiantados? Podem produzir espécies totalmente novas? Eu só sei daquilo que leio nos jornais, mas pensei que ainda faltavam anos para chegarem a esse tipo de coisa. Ainda estão trabalhando com bactérias.

            — Você provavelmente tem razão — disse ela. — No entanto...

            — É. Nada é impossível porque a mariposa está aqui. Depois de novo silêncio, ela falou:

            — E o que mais estará rastejando ou voando por aí?

            — Está pensando no que aconteceu a Jack Johnson?

            — É. O que foi que o levou? Não foi a mariposa. Mesmo mortífera como ela é, não poderia tê-lo matado sem barulho, e não poderia carregá-lo para longe. — Ela soltou um suspiro. — Sabe, a princípio eu não quis tentar sair da cidade porque tinha medo de que fôssemos espalhar uma epidemia. Agora não tentaria sair porque sei que não sairíamos com vida. Seríamos detidos.

            — Não, não, estou certo de que poderíamos tirar você daqui — falou Bryce. — Se pudermos provar que isso não tem nada a ver com doenças, se o pessoal do general Copperfield puder eliminar isso, então, é claro, você e Lisa serão levadas embora em segurança, imediatamente.

            Ela sacudiu a cabeça.

            — Não. Tem algo lá fora, Bryce, algo mais astucioso e muito mais intimidador do que a mariposa, e que não quer que nós vamos embora. Quer brincar conosco antes de nos matar. Não vai deixar nenhum de nós partir; então, é bom encontrarmos logo essa coisa e descobrir como lidar com ela antes que ela fique cansada da brincadeira.

            Nas duas salas do grande restaurante do Hilltop Inn, as cadeiras estavam empilhadas de cabeça para baixo em cima das mesas, tudo coberto com grandes pedaços de plástico verde. Na primeira sala, Bryce e os outros removeram as coberturas de plástico, tiraram as cadeiras de cima da mesa e começaram a preparar o lugar para servir como lanchonete.

            Na segunda sala, os móveis tiveram que ser retirados para abrir espaço para os colchões que, mais tarde, seriam trazidos do andar superior. Tinham começado a esvaziar aquela parte do restaurante quando escutaram o som débil, mas inconfundível, de motores de automóveis.

            Bryce se dirigiu para as portas envidraçadas. Olhou para a esquerda, para o começo da ladeira da Skyline Road. Três carros- patrulha do condado vinham subindo a rua, as luzes vermelhas do teto piscando.

            — Estão aqui — disse Bryce aos outros.

            Estivera pensando nos reforços como um reabastecimento reconfortante do seu contingente dizimado. Agora se dava conta de que mais dez homens ou mais um era praticamente a mesma coisa.

            Jenny Paige tivera razão quando dissera que a vida de Stu Wargle provavelmente não teria sido salva se tivessem esperado pelos reforços antes de deixarem a subdelegacia.

            Todas as luzes do Hilltop Inn e também da rua principal piscaram. Ficaram baixas. Apagaram-se. Mas voltaram depois de apenas um segundo de escuridão.

            Eram 23:15 de domingo, e começara a contagem regressiva para a meia-noite, a hora do encantamento.

 

            Quando a meia-noite chegou na Califórnia, eram oito horas da manhã de segunda-feira em Londres.

            O dia estava melancólico. Nuvens cinzentas se derretiam sobre a cidade. Uma garoa constante e desanimadora caía desde antes do alvorecer. As árvores afogadas pendiam murchas, as ruas cintilavam sombriamente e todo mundo que andava pelas calçadas parecia possuir guarda-chuvas pretos.

            No Churchill Hotel, em Portman Square, a chuva batia de encontro às janelas e escorria pelos vidros, distorcendo a visão no refeitório. Raios ocasionais, cuja luz passava pelas vidraças tomadas pela água, lançavam breves imagens imprecisas de gotas de chuva nas toalhas de mesa brancas e limpas.

            Burt Sandler, de Nova York, em viagem de negócios a Londres, sentava-se a uma das mesas junto à janela, imaginando como, em nome de Deus, iria justificar o tamanho desta conta de café da manhã na sua despesa de representação. O seu convidado começara pedindo uma garrafa de bom champanhe: Mumm's Extra Dry, que não era barato. Junto com o champanhe, o seu convidado queria caviar — champanhe e caviar no café da manhã! — e duas qualidades de frutas frescas. E estava claro que o velhote ainda não parara de fazer os seus pedidos.

            Do outro lado da mesa, o dr. Timothy Flyte, o objeto do espanto de Sandler, examinava o cardápio com alegria infantil. Falou para o garçom:

            — E quero também um pouco dos seus croissants.

            — Pois não, senhor — retrucou o garçom.

            — Estão frescos?

            — Estão sim, senhor. Bem frescos.

            — Ótimo. E ovos — continuou Flyte. — Dois belos ovos, é claro, com a gema mole, e torradas com manteiga.

            — Torradas? — perguntou o garçom. — Além dos dois croissants, senhor?

            — É, é sim — disse Flyte, roçando o dedo pelo colarinho ligeiramente puído da camisa branca. — E uma porção de bacon com os ovos.

            O garçom pestanejou.

            — Sim, senhor.

            Finalmente, Flyte ergueu os olhos para Burt Sandler.

            — O que é um café da manhã sem bacon! Não estou certo?

            — Eu também sou adepto do ovos-com-bacon — concordou Burt Sandler, forçando um sorriso.

            — Muito sensato da sua parte — falou Flyte, judiciosamente. Os óculos de aros largos tinham escorregado nariz abaixo e agora estavam encarapitados na ponta redonda e vermelha do próprio. Com um dedo comprido e magro ele os recolocou no lugar.

            Sandler reparou que a armação, na parte que repousava sobre o nariz, tinha sido quebrada e remendada. O remendo era tão nitidamente amador que ele desconfiou ter sido feito pelo próprio Flyte, para poupar dinheiro.

            — As lingüiças estão boas? — perguntou Flyte ao garçom. — Diga a verdade. Eu as devolverei imediatamente se não forem da melhor qualidade.

            — Temos lingüiças excelentes — assegurou-lhe o garçom. — Eu mesmo gosto muito delas.

            — Lingüiças, então.

            — Em vez do bacon, senhor?

            — Não, não, não. Além dele — disse Flyte, como se a pergunta do garçom não fosse apenas ditada pela curiosidade, mas pela burrice.

            Flyte tinha 58 anos, mas parecia uma década mais velho. O seu cabelo ralo e espetado se enroscava no alto da cabeça e sobressaía ao redor das orelhas grandes como se estivesse cheio de eletricidade estática. Tinha o pescoço esquálido e enrugado; os ombros eram estreitos; o seu corpo tendia mais para ossos e cartilagem do que para carne. Podia-se duvidar, legitimamente, que fosse capaz de comer tudo aquilo que tinha pedido.

            — Batatas — falou Flyte.

            — Pois não, senhor — disse o garçom, anotando no bloco de pedidos, onde já quase não havia espaço para escrever.

            — Tem pasteizinhos doces? — indagou Flyte.

            O garçom, um modelo de comportamento, dadas as circunstâncias, sem ter feito a mais leve alusão à gula espantosa de Flyte, olhou para Burt Sandler, como que a dizer: O seu avô é totalmente senil, senhor, ou é um corredor de maratonas que precisa de calorias?

            Sandler apenas sorriu.

            Para Flyte, o garçom falou:

            — Temos sim, senhor, de diversos tipos. Temos um delicioso...

            — Traga-me um prato deles, variados. No final da refeição, é claro.

            — Perfeitamente, senhor.

            — Bom. Ótimo. Excelente! — disse Flyte, todo sorridente. Finalmente, coin uma ponta de relutância, deixou de lado o seu cardápio.

            Sandler quase soltou um suspiro de alívio. Pediu suco de laranja, ovos, bacon e torradas, enquanto o professor Flyte ajeitava o cravo de um dia de idade preso à lapela do seu terno azul um tanto lustroso.

            Quando Sandler terminou de fazer o seu pedido, Fly te inclinou- se para ele com ar de conspiração.

            — Vai tomar um pouco do champanhe, sr. Sandler?

            — Creio que vou aceitar uma ou duas taças — disse Sandler, esperando que as borbulhas liberassem a sua mente e o ajudassem a formular uma explicação digna de crédito para esta extravagância, uma história que pudesse convencer até mesmo os contadores parcimoniosos que examinariam a conta com microscópio de elétron.

            Flyte olhou para o garçom.

            — Então é melhor o senhor trazer duas garrafas.

            Sandler, que estava sorvendo água gelada, quase se engasgou. O garçom se foi e Flyte espiou pela janela manchada de água ao lado da mesa deles.

            — Que tempo horrível. Nova York no outono é assim?

            — Temos nossa cota de dias chuvosos. Mas o outono pode ser belo às vezes.

            — Aqui também — disse Flyte. — Embora eu imagine que tenhamos mais dias como este do que vocês. A reputação de Londres para o tempo chuvoso não é inteiramente imerecida.

            O professor insistiu em conversar fiado até que o champanhe e o caviar tivessem sido servidos, como se temesse que, tão logo o assunto de negócios tivesse sido discutido, Sandler mandaria prontamente cancelar o resto do pedido.

            Ele parece um personagem de Dickens, pensou Sandler.

            Tão logo tinham feito um brinde, desejando-se mutuamente boa sorte, e tinham sorvido o Mumm's, Flyte falou:

            — Quer dizer que veio desde Nova York para me ver, não é? Seus olhos brilhavam alegremente.

            — Para ver diversos escritores, na verdade — falou Sandler. — Faço essa viagem uma vez ao ano. Sondo os livros em andamento. Os autores britânicos são populares nos Estados Unidos, especialmente os autores de thrillers.

            — MacLean, Follet, Forsythe, Bagley, essa turma?

            — É, e alguns são mesmo muito populares.

            O caviar estava soberbo. Por insistência do professor, Sandler experimentou um pouco com cebola batidinha. Flyte enchia pequenas fatias de torradas com montes de caviar e comia-o sem o auxílio de condimentos.

            — Mas não vim apenas em busca de thrillers — explicou Sandler. — Estou atrás de outros gêneros também. E de autores desconhecidos também. E ocasionalmente sugiro projetos, quando tenho um assunto para um determinado autor.

            — Aparentemente, tem algo em mente para mim.

            — Primeiro, deixe-me dizer-lhe que li O inimigo antigo logo que foi publicado e achei-o fascinante.

            — Muitas pessoas acharam-no fascinante — falou Flyte. — Mas a maior parte achou-o enfurecedor.

            — Ouvi dizer que o livro criou problemas para o senhor.

            — Virtualmente apenas problemas.

            — Tais como?

            — Perdi meu cargo na universidade há quinze anos, na idade de 43 anos, quando a maioria dos acadêmicos está adquirindo estabilidade no emprego.

            — Perdeu o seu cargo por causa de O inimigo antigo?

            — Eles não puseram a coisa nesses termos — disse Flyte —-, engolindo um bocado de caviar. — Isso faria com que parecessem ter a mente muito estreita. Os administradores da minha faculdade, o chefe do meu departamento e a maior parte dos meus ilustres colegas preferiram atacar indiretamente. Meu caro sr. Sandler, a competição entre políticos ambiciosos e as atitudes maquiavélicas dos jovens executivos nas grandes companhias são ninharias, em termos de baixeza e perversidade, quando comparadas ao comportamento dos acadêmicos que, de repente, vislumbram uma oportunidade de galgar os degraus da vida universitária à custa de um colega. Espalharam boatos sem fundamento, nojeiras escandalosas sobre as minhas preferências sexuais, sugestões de confraternização íntima com as minhas alunas. E com os meus alunos também, diga-se de passagem. Nenhuma dessas calúnias foi discutida abertamente num fórum onde eu pudesse refutá-las. Apenas boatos, murmurados por trás das costas. Venenosos. Mais abertamente, fizeram sugestões polidas de incompetência, excesso de trabalho, fadiga mental. Foram me eliminando aos poucos, entende, embora para mim isso fosse tão penoso quanto uma demissão abrupta. Dezoito meses depois da publicação de O inimigo antigo, tinham me posto na rua. E nenhuma outra universidade queria me aceitar, ostensivamente por causa de minha má reputação. O verdadeiro motivo, é claro, era que minhas teorias eram excêntricas demais para os gostos acadêmicos. Fui acusado de tentar fazer fortuna explorando o gosto do homem comum pela pseudociência e pelo sensacionalismo, de vender a minha credibilidade.

            Flyte parou para tomar mais um gole de champanhe, saboreando-o. Sandler ficou genuinamente chocado com o que Flyte lhe contara.

            — Mas isso é um absurdo! O seu trabalho foi um tratado erudito. Jamais foi dirigido às listas de bestsellers. O homem comum teria a maior dificuldade em acompanhar O inimigo antigo. É virtualmente impossível fazer fortuna com esse tipo de obra.

            — Um fato que meus direitos autorais bem podem atestar — disse Flyte, terminando o restinho do caviar.

            — O senhor era um arqueólogo respeitado — disse Sandler.

            — Bem, nunca fui assim tão respeitado — disse Flyte, depreciando a si mesmo. — Embora nunca tivesse sido uma vergonha para a minha profissão, como foi sugerido com tanta freqüência posteriormente. Se a conduta de meus colegas lhe parece incrível, sr. Sandler, é porque o senhor não compreende a natureza dó animal. Quero dizer, do animal cientista. Os cientistas são educados para acreditar que todo novo conhecimento vem em porções minúsculas, grãos de areia empilhados uns sobre os outros. Portanto, nunca estão preparados para aqueles visionários que chegam a novas conclusões que, da noite, para o dia, transformam completamente todo um campo de investigação. Copérnico foi ridicularizado por seus contemporâneos por crer que os planetas giravam em torno do sol. Claro que mais tarde provou-se que Copérnico estava com a razão. Existem exemplos incontáveis na história da ciência. — Flyte enrubesceu e bebeu mais champanhe. — Não que eu me compare a Copérnico ou a qualquer desses outros grandes homens. Estou simplesmente tentando explicar por que meus colegas estavam condicionados a se voltar contra mim. Eu devia ter esperado por isso.

            O garçom veio apanhar o prato de caviar. Aproveitou para servir o suco de laranja de Sandler e as frutas frescas de Flyte.

            Quando ficou sozinho de novo com Flyte, Sandler perguntou: — Ainda acredita que sua teoria tinha validade?

            — Inteiramente! — exclamou Flyte. — Estou certo: ou, pelo menos, há uma chance danada de boa que esteja. A história está cheia de misteriosos desaparecimentos em massa para os quais os historiadores e arqueólogos não podem oferecer explicações viáveis.

            Os olhos remelentos do professor ficaram vivos e penetrantes por sob as fartas sobrancelhas brancas. Inclinou-se sobre a mesa, fixando Burt Sandler com um olhar hipnótico.

            — No dia 10 de dezembro de 1939 — continuou Flyte —, perto das colinas de Nanquim, um exército de três mil soldados chineses, a caminho da linha de frente para lutar contra os japoneses, simplesmente desapareceu sem deixar vestígios, antes de sequer se aproximar da batalha. Nem um só corpo foi encontrado. Nem uma única sepultura. Nem uma testemunha. Os historiadores militares japoneses jamais encontraram registros de terem enfrentado aquela força chinesa em particular. No campo por onde passaram os soldados desaparecidos, nenhum camponês ouviu ruídos de tiros ou outras indicações de conflito. Um exército evaporou-se em pleno ar. Em 1711, durante a Guerra Espanhola de Sucessão, quatro mil soldados partiram para uma expedição aos Pireneus. Até o último homem desapareceu em terreno familiar e amistoso, antes mesmo de montarem acampamento na primeira noite.

            Flyte ainda era tão entusiasmado pelo tema quanto o fora ao escrever o seu livro, dezessete anos antes. As frutas e o champanhe estavam esquecidos. Ele fitava Sandler como que o desafiando a contestar as suas notórias teorias.

         — Numa escala maior — prosseguiu o professor —, consideramos as grandes cidades maias de Copán, Piedras Negras, Palenque, Menché, Seibal e várias outras que foram abandonadas da noite para o dia. Dezenas de milhares, centenas de milhares de maias abandonaram as suas casas em 610 d.C, aproximadamente, talvez no espaço de uma semana, talvez no espaço de um dia. Alguns parecem ter fugido para o norte, para fundar novas cidades, mas há evidências de que inúmeros milhares simplesmente desapareceram. Tudo isso num espaço de tempo chocantemente curto. Não se deram ao trabalho de levar muitas das suas panelas, ferramentas, utensílios de cozinha... Meus ilustres colegas dizem que a terra ao redor daquelas cidades maias ficou infértil, tornando essencial, dessa forma, a mudança do povo para o norte, onde a terra seria mais produtiva. Se esse grande êxodo, porém, foi planejado, por que deixar para trás os pertences? Por que deixar para trás as preciosas sementes de milho? Por que nem um só sobrevivente voltou para saquear aquelas cidades com os tesouros abandonados? — Flyte bateu na mesa de leve com o punho cerrado. — É irracional! Os emigrantes não começam viagens longas e árduas sem se preparar, sem levar todas as ferramentas que possam ajudá-los. Além disso, em algumas das casas de Piedras Negras e Seibal existem evidências de que as famílias partiram depois de preparar refeições elaboradas... mas sem comê-las. Isso sem dúvida pareceria indicar que a partida deles fora repentina. Nenhuma teoria atual responde adequadamente a essas perguntas — exceto a minha, por mais excêntrica que seja, por mais estranha que seja, por mais impossível que seja.

            — Por mais assustadora que seja — acrescentou Sandler.

            — Exatamente — concordou Flyte.

            O professor afundou de volta na cadeira, sem fôlego. Reparou na taça de champanhe, agarrou-a, esvaziou-a e lambeu os lábios.

            O garçom apareceu e voltou a encher as taças.

            Flyte consumiu rapidamente as suas frutas, como que temendo que o garçom pudesse levar embora os morangos de estufa se eles permanecessem intactos.

            Sandler teve pena do velhote. Era evidente que há muito tempo o professor não era convidado para uma refeição cara servida numa atmosfera elegante.

            — Fui acusado de tentar explicar todos os desaparecimentos misteriosos, dos maias até o juiz Crater e Amelia Earhart, com uma única teoria. Isso foi muito injusto. Jamais mencionei o juiz ou a desafortunada aviadora. Estou interessado apenas no desaparecimento em massa inexplicado de seres humanos e de animais. Houve literalmente centenas deles ao longo da História.

            O garçom trouxe croissants.

            Do lado de fora, um raio cruzou velozmente o céu sombrio e botou o pé pontiagudo na terra, em outra parte da cidade. A sua descida flame-jante foi acompanhada de um terrível estrondo e um rugido que ecoou por todo o firmamento.

            Sandler falou:

            — Se, após a publicação do seu livro, tivesse havido um novo e espantoso desaparecimento em massa, isso teria dado considerável credibilidade...

            — Ah — interrompeu Flyte, batendo enfaticamente na mesa com o dedo esticado —, mas houve tais desaparecimentos!

            — Mas sem dúvida teriam sido notícia de primeira página...

            — Tive ciência de dois casos. Pode haver outros. — insistiu Flyte. — Um deles foi o desaparecimento de grandes quantidades de espécimes inferiores... especificamente peixes. Foi comentado na imprensa, mas sem grande destaque. Política, assassinato, sexo e cabras de duas cabeças são as únicas coisas que os jornais gostam de noticiar. É preciso ler revistas científicas para saber o que está realmente acontecendo. Foi por isso que eu soube que, faz oito anos, os biólogos marinhos notaram um decréscimo dramático da quantidade de peixes numa das regiões do Pacífico. Na realidade, em algumas espécies houvera uma redução pela metade. Em certos círculos científicos houve pânico a princípio, um medo de que a temperatura do oceano pudesse estar sofrendo uma súbita modificação que fosse despovoar os mares de todas as espécies, exceto as mais resistentes. Mas esse acabou não sendo o caso. Aos poucos a vida marinha naquela área — que cobria centenas de quilômetros quadrados — acabou se reabastecendo. No fim, ninguém pôde explicar o que acontecera aos milhões e milhões de criaturas que tinham desaparecido.

         — Poluição — sugeriu Sandler, alternando goles de suco de laranja e de champanhe.

            Passando marmelada num pedaço de croissant, Flyte disse:

            — Não, não, não. Não senhor. Teria sido preciso o mais maciço caso de poluição da água já registrado para causar um despovoamento tão devastador numa área tão extensa. Um acidente naquela escala não teria passado despercebido. Mas não houve acidentes, nem vazamentos de óleo, nada. Na verdade, um mero vazamento de óleo não poderia ser responsável; a região afetada e o volume de água eram vastos demais para isso. E não apareceram peixes mortos nas praias. Os peixes simplesmente desapareceram sem deixar vestígio.

            Burt Sandler estava empolgado. Podia sentir o cheiro do dinheiro. Tinha palpites sobre alguns livros, e nenhum dos seus palpites jamais dera errado. (Bem, se não contarmos o livro de dietas escrito pela estrela de cinema que, uma semana antes da data da publicação, morreu de desnutrição depois de passar seis meses se alimentando de toranja, mamão, torradas com passas e cenouras.) Havia um bestseller certo nessa história; duzentos ou trezentos mil exemplares encadernados, talvez até mais; dois milhões em brochuras. Se ele pudesse persuadir Flyte a popularizar e atualizar o material acadêmico árido de O inimigo antigo, o professor poderia pagar o seu próprio champanhe por muitos e muitos anos.

            — O senhor falou que teve ciência de dois desaparecimentos em massa desde a publicação de seu livro — disse Sandler, encorajando-o a continuar.

            — O outro foi na África, em 1980. Entre três a quatro mil nativos de uma tribo — homens, mulheres e crianças — desapareceram de uma área relativamente remota da África Central. Encontraram vazias as suas aldeias; tinham abandonado todos os seus pertences, inclusive grandes quantidades de comida. Pareciam simplesmente ter corrido para dentro do mato. Os únicos sinais de violência eram alguns pedaços quebrados de cerâmica. Claro que os desaparecimentos em massa naquela parte do mundo são mais tristemente freqüentes do que costumavam ser, principalmente devido à violência política. Os mercenários cubanos, operando com armamentos soviéticos, vêm contribuindo para o extermínio de tribos inteiras que não estão dispostas a colocar suas identidades étnicas a reboque dos propósitos revolucionários. Porém, quando aldeias inteiras são chacinadas para fins políticos, são sempre saqueadas, depois queimadas, os corpos sendo enterrados em covas comunitárias. Nesse caso a que me refiro não houve saques, nem queimadas, nem corpos encontrados. Algumas semanas mais tarde, os guarda-caças naquele distrito comunicaram um decréscimo inexplicável na população animal. Ninguém ligou o fato aos aldeões desaparecidos; considerou-se isso um fenômeno separado.

            — Mas o senhor sabe que não é assim.

            — Bem, eu desconfio que não é assim — disse Flyte, passando geléia de morango num último pedaço de croissant.

            — A maior parte desses desaparecimentos parece ocorrer em áreas remotas — disse Sandler. — O que torna difícil a verificação,

            — É. Isso também me foi lançado no rosto. Na verdade, a maior parte dos incidentes provavelmente ocorre no mar, pois este cobre a maior parte da Terra. O mar pode ser tão remoto quanto a Lua, e muita coisa que ocorre por sob as ondas fica ignorada por nós. No entanto, não se esqueça dos dois exércitos que mencionei: o chinês e o espanhol. Esses desaparecimentos ocorreram dentro do contexto da civilização moderna. E se dezenas de milhares de maias foram vítimas do inimigo antigo para cuja existência criei a minha teoria, então aquele foi um caso em que cidades inteiras, centros de uma civilização, foram atacadas com ousadia assustadora.

            — Acha que poderia acontecer agora, hoje...

            — Sem dúvida alguma!

            — ...num lugar como Nova York, ou mesmo aqui em Londres?

            — Claro que sim! Poderia acontecer virtualmente em qualquer parte que tenha as escoras geológicas que descrevi no meu livro.

            Ficaram os dois sorvendo champanhe, pensando.

            A chuva martelava as janelas com maior fúria do que antes.

            Sandler não tinha certeza de que acreditava nas teorias que Flyte formulara em O inimigo antigo. Sabia que elas podiam formar a base de um livro de tremendo sucesso, escrito em linguagem popular, mas isso não significava que tinha que acreditar nelas. Não queria realmente acreditar. Acreditar era como abrir a porta do Inferno.

            Olhou para Flyte, que estava ajeitando novamente o seu cravo murcho, e falou:

            — Isso me dá arrepios.

            — E deve dar — assentiu Flyte. — Deve dar mesmo. O garçom chegou com ovos, bacon, lingüiças e torradas.

 

            O hotel era uma fortaleza.

            Bryce ficou satisfeito com os preparativos que tinham sido feitos.

            Finalmente, após duas horas de trabalho árduo, ele se sentou à mesa da lanchonete improvisada, sorvendo café sem cafeína numa caneca branca de cerâmica em que estava gravado o timbre azul do hotel.

            Por volta de uma e meia da madrugada, com a ajuda dos dez delegados que tinham vindo de Santa Mira, muita coisa tinha sido feita. Uma das duas salas fora convertida em dormitório; havia vinte colchões enfileirados no chão, o suficiente para acomodar qualquer turno da equipe de investigação, mesmo depois da chegada do pessoal do general Copperfield. Na outra metade do restaurante, duas mesas compridas foram armadas numa das extremidades, onde se poderia formar uma fila de pessoas para se servirem na hora das refeições. A cozinha fora limpa e posta em ordem. O grande saguão fora transformado num enorme centro de operações, com escrivaninhas, algumas improvisadas, máquinas de escrever, arquivos, quadros de avisos e um grande mapa de Snowfield.

            Além disso, fora feita uma meticulosa inspeção de segurança no hotel, e foram tomadas medidas para impedir uma invasão pelo inimigo. As duas entradas dos fundos — uma através da cozinha, outra através do saguão — estavam trancadas, e uma segurança adicional fora conseguida por meio de grandes tábuas enfiadas sob as trancas e pregadas nas molduras das portas. Bryce mandara tomar essa precaução extra para evitar o desperdício de guardas nessas entradas. A porta que dava para as escadas de emergência estava lacrada da mesma forma; nada podia entrar nos andares superiores do hotel e descer para surpreendê-los. Agora, somente um par de pequenos elevadores ligava o térreo aos três andares superiores, e havia dois guardas de vigia ali. O outro guarda vigiava a entrada principal. Um grupo de quatro homens se assegurara de que todos os quartos superiores estavam vazios. Um outro grupo verificara que todas as janelas do térreo estavam trancadas; a maior parte também estava fechada pela própria tinta com que fora pintada. Apesar disso, as janelas eram o ponto fraco nas fortificações deles.

            Se alguma coisa tentar entrar por meio de uma janela, pensou Bryce, pelo menos teremos o ruído do vidro se partindo para nos alertar.

            Cuidara-se também de diversos outros detalhes. O corpo mutilado de Stu Wargle fora temporariamente guardado num quartinho para material de limpeza adjacente ao saguão. Bryce montara uma escala de serviço e criara turnos de doze horas para os próximos três dias, prevendo a hipótese da crise durar tanto tempo. Finalmente, não pôde pensar em mais nada para ser feito até o alvorecer.

            Agora estava sentado sozinho a uma das mesas redondas no refeitório, sorvendo o café, tentando equacionar os acontecimentos daquela noite. Os seus pensamentos acabavam voltando sempre para uma idéia indesejada:

            O cérebro dele tinha sumido. O sangue todo fora chupado... até a última maldita gota.

            Afastou da cabeça a imagem nauseante do rosto destruído de Wargle, levantou-se, foi buscar mais café, depois voltou para a mesa.

            O hotel estava muito quieto.

            Na outra mesa, três dos homens do turno da noite — Miguel Hernandez, Sam Potter e Henry Wong — jogavam cartas, mas não falavam muito. Quando falavam, era quase aos sussurros.

            O hotel estava muito quieto.

            O hotel era uma fortaleza.

            O hotel era uma fortaleza, porra.

            Mas seria seguro?

 

            Lisa escolheu um colchão num canto do dormitório, onde podia dar as costas a uma parede.

            Jenny desdobrou um dos dois cobertores empilhados ao pé do colchão e cobriu a mocinha.

            — Quer o outro?

            — Não — falou Lisa. — Esse chega. Mas é gozado, eu me deitar toda vestida.

            — Logo as coisas voltarão ao normal — disse ela, mas mal acabou de falar percebeu como era vazia essa afirmação.

            — Vai dormir agora?

            — Ainda não.

            — Gostaria que viesse — falou Lisa. — Gostaria que viesse se deitar neste colchão aqui ao lado.

            — Você não está sozinha, meu bem — disse Jenny, afagando o cabelo da jovem.

            Alguns delegados — inclusive Tal Whitman, Gordy Brogan e Frank Autry — tinham se deitado nos outros colchões. Havia também três guardas fortemente armados que vigiariam todos os demais durante a noite.

            — Eles vão apagar mais um pouco a luz? — indagou Lisa.

            — Não. Não podemos nos arriscar a ter escuridão.

            — Ótimo. Para mim já estão baixas o suficiente. Você fica comigo até eu pegar no sono? — pediu Lisa, parecendo bem mais jovem do que os seus quatorze anos.

            — Claro.

            — E conversa comigo?

            — Claro. Mas vamos conversar baixinho, para não incomodar os outros.

            Jenny se deitou ao lado da irmã, a cabeça apoiada numa das mãos.

            — Quer conversar sobre o quê?

            — Não importa. Qualquer coisa. Qualquer coisa menos... esta noite.

            — Bem, há uma coisa que eu queria lhe perguntar — falou Jenny. — Não é sobre esta noite, mas é sobre uma coisa que você disse esta noite. Lembra quando estávamos sentadas no banco em frente à cadeia, esperando pelo xerife? Lembra que estávamos falando da mamãe e você disse que ela costumava... contar vantagem a meu respeito?

            Lisa sorriu.

            — A filha dela, a médica. Ah, ela tinha tanto orgulho de você, Jenny. Como acontecera antes, a frase perturbou Jenny.

            — E mamãe nunca me culpou pelo derrame do papai? — perguntou.

            — Por que culparia? — indagou Lisa, franzindo o cenho.

            — Bem... porque acho que causei a ele algum sofrimento, numa certa época. Sofrimento e muita preocupação.

            — Você? — perguntou Lisa atônita.

            — E quando o médico do papai não pôde controlar a sua pressão alta e ele teve o derrame...

            — Segundo a mamãe, a única coisa ruim que você fez em toda a sua vida foi quando resolveu pintar o gato malhado de preto para o Dia das Bruxas e manchou de tinta toda a mobília da varanda.

            Jenny riu, surpresa.

            — Havia me esquecido disso. Eu tinha apenas oito anos. Sorriram uma para a outra, e naquele momento sentiram-se irmãs, mais do que nunca.

            E então Lisa perguntou:

            — Por que você acha que mamãe a culpava pela morte do papai? Foi de causas naturais, não foi? Um derrame. Como isso poderia ser culpa sua?

            Jenny hesitou, voltando o pensamento para treze anos atrás, quando tudo começara. O fato da mãe jamais tê-la culpado pela morte do pai lhe dava uma sensação profundamente libertadora. Sentiu-se livre pela primeira vez desde os dezenove anos.

            — Jenny?

            — Hein?

            — Está chorando?

            — Não, estou bem — disse, engolindo as lágrimas. — Se a mamãe não me culpava, então eu acho que estava errada me culpando. Só estou feliz, meu hem. Feliz por causa do que você me contou.

            — Mas o que foi que você pensou que fez? Se vamos ser boas irmãs, não devemos guardar segredos. Me conte, Jenny.

            — É uma longa história, mana. Um dia eu conto para você, mas não agora. Agora quero ouvir falar de você.

            Conversaram sobre banalidades durante mais alguns minutos, e os olhos de Lisa foram ficando cada vez mais pesados.

            Jenny ficou pensando nos olhos gentis e encobertos de Bryce Hammond.

            E nos olhos de Jakob e Aida Liebermann, arregalados nas cabeças cortadas.

            E nos olhos do delegado Wargle. Sumidos. Aquelas cavidades vazias no crânio oco.

            Tentou se forçar a não pensar naquelas coisas macabras, naquele olhar sinistro da morte. Mas os seus pensamentos teimavam em voltar para aquela imagem de violência e morte monstruosas.

         Desejou ter alguém para conversar com ela até pegar no sono, como estava fazendo agora com Lisa. Ia ser uma noite muito intranqüila.

            No quartinho para material de limpeza adjacente ao saguão e encostado ao poço do elevador, a luz estava apagada. Não havia janelas.

            Havia no quartinho um leve odor de fluidos de limpeza. Pinho- sol. Lysol. Lustra-móveis. Cera. Outros artigos de limpeza estavam estocados nas prateleiras ao longo de uma das paredes.

            No canto direito do aposento que ficava mais longe da porta, havia uma grande pia de metal. A água escorria de uma bica com defeito... uma gota a cada dez ou doze segundos. Cada gota d'água atingia a bacia de metal com um ping macio e cavo.

            No centro do quarto, tão amortalhado na completa escuridão quanto todo o resto, o corpo sem rosto de Stu Wargle jazia sobre uma mesa, coberto por um pedaço de pano.

            Tudo estava quieto.

            Exceto pelo ping monótono da água que gotejava.

            Uma expectativa ansiosa pairava no ar.

            Frank Autry se encolheu debaixo da coberta, de olhos fechados, e pensou em Ruth. Ruthie, alta, esguia, de rosto meigo. Ruthie, da voz doce mas decidida, Ruthie da risada rouca que a maioria das pessoas achava contagiante, sua mulher há 26 anos. Ela era a única mulher que já amara; ainda a amava.

            Falara com ela ao telefone durante alguns minutos, pouco antes de vir se deitar. Não pudera lhe contar muito sobre o que estava acontecendo... só que havia uma situação de cerco ocorrendo em Snowfield, que estavam mantendo isso em sigilo enquanto pudessem, e que, pelo jeito, não iria para casa esta noite. Ruthie não insistira pedindo detalhes. Tinha sido uma boa esposa de militar durante os seus anos no Exército. Ainda era.

            Pensar em Ruth era o seu primeiro mecanismo de defesa psicológico. Nas horas de tensão, nas horas de medo, dor e depressão, ele simplesmente pensava em Ruth, concentrava-se unicamente nela, e o mundo árduo desaparecia. Para um homem que passara a maior parte da vida entregue a trabalhos perigosos, para um homem cuja profissão raramente permitia que ele esquecesse que a morte era uma parte íntima da vida, uma mulher como Ruth era um remédio indispensável, uma inoculação contra o desespero.

 

            Gordy Brogan estava com medo de fechar os olhos de novo. Cada vez que os fechara, fora atormentado por visões sangrentas que surgiam da sua própria escuridão particular. Agora jazia sob a coberta, olhos abertos lixos nas costas de Frank Autry.

            Mentalmente, compunha a sua carta de demissão para Bryce Hammond, Só poderia datilografar e entregar a carta depois que toda essa história de Snowfield tivesse acabado. Não queria deixar os seus companheiros em meio a uma batalha; não era correto. Poderia até prestar-lhes alguma ajuda, já que parecia não ser necessário que ele atirasse em gente. Todavia, tão logo essa coisa estivesse resolvida, tão logo estivessem de volta a Santa Mira, ele escreveria a carta e a entregaria ao xerife, em mãos.

            Não tinha mais dúvidas: o serviço de polícia não era (e jamais tinha sido) coisa para ele.

            Ainda era moço; ainda tinha tempo de trocar de profissão. Tornara-se um tira em parte como um gesto de rebeldia contra os pais, pois era a última coisa que eles queriam que fosse. Tinham notado o jeito fantástico que ele tinha para lidar com animais, a sua capacidade de ganhar a confiança e a amizade de qualquer criatura de quatro pernas em meio minuto cravado, e tinham desejado que se tornasse veterinário. Gordy sempre se sentira sufocado pela afeição infatigável da mãe e do pai, e quando eles o tinham incentivado para uma carreira na medicina veterinária, ele rejeitara a possibilidade. Agora via que eles estavam com a razão e que só queriam o que era melhor para ele. Na verdade, bem no fundo, sempre soubera que eles estavam certos. Ele nascera para curar, não para manter a ordem.

            Também se sentira atraído para o uniforme e o distintivo porque ser um tira lhe parecera uma boa forma de provar a sua masculinidade. A despeito de seu tamanho e músculos impressionantes, a despeito do seu interesse agudo por mulheres, sempre acreditara que os outros o consideravam andrógino. Quando garoto, nunca se interessara por esportes, que era a obsessão dos seus contemporâneos masculinos. E aquela conversa Interminável sobre carros velozes simplesmente o entediava. Os seus interesses eram outros, meio afeminados aos olhos de alguns. Embora o seu talento fosse apenas médio, adorava pintar. Tocava trompa. A natureza o fascinava, era um ávido observador de pássaros. A sua aversão pela violência não fora adquirida na vida adulta; mesmo em criança, evitara confrontos. O seu pacifismo, quando considerado junto com a sua reticência na companhia das moças, fazia- o parecer, pelo menos aos próprios olhos, um pouco menos do que másculo. Porém agora, finalmente, ele viu que não precisava provar coisa alguma.

            Iria para a faculdade, tomar-se-ia um veterinário. Ficaria satisfeito. Os pais também ficariam felizes. A sua vida entraria nos eixos novamente.

            Fechou os olhos, suspirando, profundamente, procurando dormir. Porém, vindas da escuridão, surgiam imagens apavorantes de cabeças cortadas de cães e gatos, imagens arrepiantes de animais esquartejados e torturados.

            Abriu depressa os olhos, ofegando.

            O que acontecera a todos os animais de estimação em Snowfield?

 

            O quartinho de material de limpeza, adjacente ao saguão.

            Sem janelas, sem luz.

            O ping monótono da água caindo na pia de metal tinha parado.

            Mas agora não havia silêncio. Algo se mexia na escuridão. Emitia um ruído macio, molhado, sorrateiro, enquanto deslizava pelo quarto escuro como breu.

            Jenny ainda não estava pronta para dormir. Foi para a lanchonete, serviu-se de uma xícara de café e se reuniu ao xerife numa mesa de canto.

            — Lisa está dormindo? — perguntou ele.

            — Como uma pedra.

            — E você, como está? Isso deve ser muito difícil para você. Todos os seus vizinhos, amigos...

            — É difícil lamentar do modo adequado — disse ela. — Estou meio entorpecida. Se me permitisse reagir a todas as mortes que me afetaram, estaria um bagaço. Então, mantenho as minhas emoções entorpecidas.

            — É uma reação sadia e normal. É assim que todos estamos lidando com a situação.

            Beberam o café, papearam um pouco. E então:

            — Casada? — perguntou ele.

            — Não. E você?

            — Fui.

            — Divorciado?

            — Ela morreu.

            — Ah, Jesus, é claro. Li a respeito. Desculpe. Um ano atrás, não foi? Acidente de trânsito?

            — Um caminhão desgovernado.

            Ela estava olhando nos olhos dele e achou que estavam nublados, um pouco menos azuis do que antes.

            — Como vai indo o seu filho?

            — Ainda está em coma. Acho que nunca vai sair.

            — Sinto muito, Bryce, sinto de verdade.

            Ele envolveu a caneca com as mãos e ficou fitando o café.

            — Do jeito que está, será uma benção, na verdade, se finalmente ele se for. Eu fiquei entorpecido durante algum tempo. Não sentia nada, não só emocional, mas fisicamente também. Houve uma vez em que cortei o dedo quando estava descascando uma laranja; sangrei por toda a cozinha, e até comi uns pedaços de laranja com sangue antes de reparar que havia algo errado. Mesmo assim não senti nenhuma dor. Ultimamente , estou começando a compreender, a aceitar. — Ergueu os olhos e encarou Jenny. — O estranho é que, desde que cheguei aqui em Snowfield, as coisas não estão mais cinzentas.

            — Cinzentas?

            — Há muito tempo que todas as coisas perderam o colorido, tem sido tudo cinzento. Mas esta noite...foi o contrário. Esta noite houve tanta emoção, tanta tensão, tanto medo, que tudo ficou extraordinariamente vívido.

            Então Jenny falou da morte da mãe, do efeito surpreendentemente forte que tivera sobre ela, a despeito dos doze anos de separação parcial que deviam ter amortecido o golpe.

            Novamente, Jenny ficou impressionada com a capacidade de Bryce Hammond de fazê-la ficar à vontade. Pareciam conhecer-se há anos.

            Ela até mesmo se pegou contando a ele os erros que cometera aos dezoito e dezenove anos, o seu comportamento ingênuo e cabeçudo que tanta dor causara aos pais. No final do seu primeiro ano na faculdade, ela viera a conhecer um homem que a cativara. Ele fazia pós- graduação, chamava-se Campbell Hudson, apelidado de Cam, cinco anos mais velho do que ela. Fora conquistada pela atenção dele, seu charme, sua corte apaixonada. Até então, tivera uma vida protegida; nunca tivera namorado firme, nem mesmo era de sair muito. Era um alvo fácil. Apaixonando-se por Cam Hudson, ela se tornou não apenas sua amante, mas sua aluna e discípula embevecida e praticamente sua escrava dedicada.

            — Não consigo imaginá-la submetendo-se a alguém — disse Bryce.

            — Eu era jovem.

            — Sempre uma desculpa aceitável.

            Ela fora viver com Cam, sem tomar as devidas precauções para esconder da mãe e do pai o seu pecado. E eles achavam mesmo que era pecado. Depois, ela decidira — ou melhor, deixara que Cam decidisse por ela — que abandonaria os estudos e iria trabalhar como garçonete para ajudá-lo a se manter enquanto ele concluía o seu mestrado e doutorado.

            Depois de aprisionada no cenário servil de Cam Hudson, passou, aos poucos, a achá-lo menos atencioso e menos encantador do que fora no passado. Descobriu que ele tinha um gênio violento. O pai dela morreu quando ela ainda estava vivendo com Cam, e, no enterro, ela sentiu que a mãe a culpava pelo falecimento prematuro. Contando um mês exato do dia em que o pai fora enterrado, descobriu que estava grávida. Já estava grávida quando ele morrera. Cam ficou furioso e insistiu num aborto rápido. Ela pediu um dia para pensar no assunto, mas ele ficou enraivecido até mesmo com um atraso de 24 horas. Espancou-a tão brutalmente que ela abortou. Tudo terminou então. A tolice terminou, ela amadureceu de um dia para o outro... embora o seu amadurecimento abrupto tivesse vindo tarde demais para agradar ao pai.

            — Desde então — contou a Bryce — passei a minha vida trabalhando duro — talvez duro demais — para provar à minha mãe que estava arrependida e que era, afinal de contas, digna do seu amor. Trabalhei nos fins de semana, recusei inúmeros convites para festas, cortei as férias na maior parte dos últimos doze anos, tudo com o propósito de me aperfeiçoar. Não visitei a família tanto quanto devia. Não podia enfrentar a minha mãe. Podia ler a acusação em seus olhos. E então, hoje à noite, soube por Lisa a coisa mais espantosa.

            — A sua mãe jamais a culpou — disse Bryce, exibindo aquela sensibilidade e percepção fantásticas que ela já vira nele antes.

            — Acertou! —disse Jenny. — Ela nunca me acusou de nada.

            — Provavelmente tinha até orgulho de você.

            — Acertou de novo. Nunca me considerou culpada pela morte de papai. Eu é que vivia me culpando. A acusação que eu achava que via nos olhos dela era apenas um reflexo dos meus próprios sentimentos de culpa. — Jenny riu baixinho e amargamente, sacudindo a cabeça. — Seria engraçado se não fosse tão triste.

            Nos olhos de Bryce Hammond ela viu a compaixão e compreensão que vinha buscando desde o enterro do pai.

            — Somos muito parecidos em algumas coisas, você e eu. Acho que ambos temos complexo de mártir.

            — Não tenho mais — disse ela. — A vida é curta demais. Isso é algo que acabei aprendendo hoje. De agora em diante vou viver, viver de verdade... se Snowfield deixar.

            — Vamos vencer essa situação — disse ele.

            — Gostaria de ter certeza.

            — Sabe — falou Bryce —, ter alguma coisa pela qual esperar vai nos ajudar a vencer. Então, que tal me dar uma coisa pela qual esperar?

            — Hein?

            — Um encontro. — Ele se inclinou para a frente. O cabelo espesso e avermelhado lhe caiu nos olhos. — Ristorante Gervasio, em Santa Mira. Minestrone. Camarões na manteiga e alho. Uma boa vitela, quem sabe um filé. Acompanhamento de massa. Eles fazem um maravilhoso vermicelli al pesto. Um bom vinho.

            Ela abriu um sorriso.

            — Eu adoraria.

            — Esqueci de falar no pão de alho.

            — Ah, adoro pão de alho.

            — Zabaglione de sobremesa.

            — Vão ter que carregar a gente para fora — disse ela.

         — Vou providenciar os carrinhos de mão.

            Papearam por mais alguns minutos, aliviando a tensão; depois, finalmente, ambos se sentiram prontos para dormir.

            Ping.

            No quartinho de limpeza escuro onde o corpo de Stu Wargle jazia sobre uma mesa, a água recomeçara a pingar na pia de metal.

            Ping,

            Algo continuava a se mover sorrateiramente na escuridão, rodeando e rodeando a mesa. Fazia um ruído untuoso, molhado, de quem deslizava na lama.

            Aquele não era o único som no aposento; havia muitos outros ruídos, Iodos baixos e suaves. O arfar de um cão cansado. O sibilar de um gato zangado. Um riso tranqüilo, cristalino, persistente; o riso de uma criança pequena. Depois, o choramingar doloroso de uma mulher. Um gemido. D in suspiro. O gorjeio de um pardal, emitido com clareza, mas baixinho, para não chamar a atenção dos guardas colocados no saguão. O chocalhar de uma cascavel. O zumbido de mangangás. O zunido mais estridente e sinistro das vespas. Um cão rosnando.

            Os ruídos cessaram tão abruptamente quanto tinham começado.

            O silêncio retornou.

            O silêncio perdurou, total, exceto pelas notas regularmente espaçada da água que caía, durante cerca de um minuto.

            Ping.

            Houve um farfalhar de pano no quarto sem luz. A mortalha que cobria o cadáver de Wargle. A mortalha escorregara de cima do morto e caira ao chão.

            Um deslizar, de novo.

            E um ruído de madeira seca se lascando. Um ruído frágil, abafado, mas violento. Como um osso se partindo, vivamente.

            Novamente o silêncio.

            Ping.

            Silêncio.

            Ping. Ping. Ping.

 

            Enquanto Tal Whitman esperava pelo sono, pensou no medo. Esta era a palavra-chave; era a emoção básica que o forjara. O medo. A sua vida era uma longa e vigorosa negação do medo, uma refutação da sua existência. Ele se recusava a ser afetado (e humilhado e motivado) pelo medo. Não admitia que coisa alguma pudesse lhe dar medo. Bem cedo, na vida, a dura experiência lhe ensinara que até o mero admitir do medo poderia expô-lo ao seu apetite voraz.

            Ele nascera e se criara no Harlem, onde o medo estava em toda a parte; medo de quadrilhas de rua, medo dos viciados, medo da violência sem sentido, medo da privação econômica, medo de ser excluído do fluxo da vida. Naqueles cortiços, naquelas ruas cinzentas, o medo esperava para engolir você no instante em que você lhe fazia o mais leve sinal de reconhecimento.

            Na infância, não estivera seguro nem mesmo no apartamento que dividia com a mãe, um irmão e três irmãs. O pai de Tal fora um sociopata, um espancador de mulheres que aparecia em casa uma ou duas vezes por mês pelo simples prazer de bater na mulher até deixá-la sem sentidos e de aterrorizar os filhos. Claro que a mãe não era muito melhor do que o velho. Bebia vinho demais, fumava baseados demais e era quase tão implacável com os filhos quanto o pai.

            Quando Tal estava com nove anos, numa das raras noites em que o pai estava em casa, houvera um incêndio no cortiço. Tal fora o único sobrevivente da família. A mãe e o pai tinham morrido na cama, sufocados pela fumaça enquanto dormiam. O irmão de Tal, Oliver, e as suas irmãs (Heddy, Louisa e o bebê Francesca) também se foram, e agora, tantos anos mais tarde, às vezes era até difícil acreditar que tinham realmente existido.

            Depois do incêndio, ele foi morar com a irmã da mãe, tia Rebecca. Ela também morava no Harlem. Becky não bebia. Não consumia drogas. Não tinha filhos, mas tinha um emprego, freqüentava a escola noturna, acreditava na auto-suficiência e era cheia de ideais. Muitas vezes dizia a Tal que nada havia a temer exceto o Próprio Medo, e que o Próprio Medo era como o bicho-papão, apenas uma sombra, não sendo digno que se tivesse medo dele. "Deus lhe deu saúde, Talbert, e uma boa cabeça. Se você puser tudo a perder, a culpa será só sua, de mais ninguém", dizia ela.

            Com o amor, a disciplina e a orientação da tia Becky, o jovem Talbert acabara por se convencer de que era virtualmente invencível. Não tinha medo de coisa alguma na vida; também não tinha medo de morrer.

            Fora por esse motivo que, anos mais tarde, depois de sobreviver ao tiroteio no mercado 7-Eleven, em Santa Mira, ele pudera dizer a Bryce Hammond que a coisa fora uma sopa.

            Agora, pela primeira vez em muitos, muitos anos, ele se deparava com um nó de medo.

            Tal pensou em Stu Wargle, e o nó de medo ficou mais apertado, espremendo as suas entranhas.

            Os olhos tinham sumido completamente do crânio.

            O Próprio Medo.

            Mas esse bicho-papão era real.

            Faltando meio ano para o seu 31º. aniversário, Tal Whitman estava descobrindo que ainda podia sentir medo, não importava o quão veementemente o negasse. O seu destemor muito o ajudara na vida. Porém, opondo-se a tudo aquilo em que acreditara antes, dava-se conta agora de que havia vezes em que ter medo era simplesmente ser inteligente.

            Pouco antes do alvorecer, Lisa acordou de um pesadelo de que não conseguia se lembrar.

            Olhou para Jenny e os outros que estavam dormindo, depois voltou-se para as janelas. Do lado de fora, a Skyline Road estava enganadora-mente tranqüila ao se aproximar o fim da noite.

            Lisa sentiu vontade de urinar. Levantou-se e caminhou sem fazer barulho por entre duas filas de colchões. Na abertura em arco da sala, sorriu para o guarda, que piscou para ela.

            Havia um homem no refeitório, folheando uma revista.

            No saguão havia dois guardas postados junto às portas dos elevadores. As duas portas enceradas de carvalho na entrada do hotel, cada uma com um vidro oval chanfrado no centro, estavam trancadas, mas havia uni terceiro guarda postado junto a elas. Ele segurava uma espingarda e espiava para fora através de um dos vidros ovais, vigiando o principal caminho que dava para o prédio.

            Um quarto homem estava no saguão. Lisa fora apresentada a ele antes um delegado calvo de rosto vermelho chamado Fred Turpner. Estava sentado à maior das mesas, cuidando do telefone, que devia ter tocado com freqüência durante a noite, pois havia duas páginas de papel almaço elidas de recados. Quando Lisa ia passando, o telefone tocou de novo. Fred ergueu uma das mãos para cumprimentá-la, depois tirou o fone do gancho.

            Lisa foi direto para os banheiros, que ficavam num canto do saguão:

 

            GATINHAS DA NEVE

           GATÕES DA NEVE

 

            Aquela jocosidade não combinava com o restante do Hilltop Inn.

            Ela atravessou a porta marcada GATINHAS DA NEVE. OS banheiros tinham sido considerados território seguro porque não tinham janelas e podiam ser alcançados somente através do saguão, onde sempre havia guardas. O banheiro feminino era grande e limpo, com quatro reservados e pia. Os pisos e paredes eram de cerâmica branca margeados por ladrilhos azul-escuros nas beiradas do chão e no alto das paredes.

            Lisa usou o primeiro reservado e depois a pia mais próxima. Quando terminou de lavar as mãos e ergueu os olhos para o espelho que encimava a pia, ela o viu. Ele. O delegado morto. Wargle.

            Estava parado atrás dela, a uns três metros de distância, no meio do aposento. De sorriso aberto.

            Ela girou o corpo, certa de que era alguma falha no espelho, um truque qualquer do espelho. Claro que ele não estava ali.

            Mas ele estava ali. Nu. Sorrindo obscenamente.

            O seu rosto fora recomposto. As faces gordas, a boca de lábios grossos e aparência gordurosa, o nariz de porco, os olhinhos furtivos. A carne estava inteira de novo, como que por mágica.

            Impossível.

            Antes que Lisa pudesse reagir, Wargle se interpôs entre ela e a porta. Seus pés descalços batiam surdamente no chão de ladrilhos.

            Alguém estava batendo com força na porta.

            Wargle parecia não estar ouvindo.

            Batendo e batendo e batendo...

            Por que simplesmente não abriam a porta e entravam?

            Wargle estendeu os braços e fez sinais de venha-a-mim com as mãos. Sempre sorrindo abertamente.

            Desde o momento em que o vira, Lisa não tinha gostado de Wargle. Percebera que ele sempre olhava para ela quando pensava que ela estava olhando para outro lado, e a expressão nos seus olhos era perturbadora.

            — Venha cá, tesãozinho — disse ele.

            Ela olhou para a porta e se deu conta de que não havia ninguém batendo nela. Ela estava escutando apenas o bater frenético de seu próprio coração.

            Wargle lambeu os lábios.

            Lisa ofegou subitamente, surpreendendo a si mesma. Estivera tão totalmente paralisada pela volta do homem dentre os mortos, que tinha se esquecido de respirar.

            — Venha cá, sua putinha.

            Ela tentou gritar. Não conseguiu. Wargle se tocou, obscenamente.

            — Aposto que você está querendo um bocado disto aqui, não é? — falou, sorriso aberto, os lábios úmidos, constantemente lambidos.

            Mais uma vez, ela tentou gritar. Mais uma vez, não conseguiu. Mal conseguia arrancar cada respiração dos pulmões que ardiam.

            Ele não é real, disse consigo mesma.

            Se fechasse os olhos por alguns segundos, apertando-os bem, e contasse até dez, ele não estaria aqui quando ela olhasse de novo.

            — Putinha.

            Ele era uma ilusão. Talvez até parte de um sonho. Quem sabe sua vinda ao banheiro não era apenas outra parte do seu pesadelo?

            Mas ela não pôs à prova a sua teoria. Não fechou os olhos e contou até dez. Não teve coragem.

            Wargle deu um casso na sua direção, ainda se bolinando.

            Ele não é real. E uma ilusão.

            Mais um passo.

            Ele não é real é uma ilusão.

            — Venha cá, tesãozinho, deixe eu mamar nesses seus peitinhos. Ele não é real, é uma ilusão, ele não é real, e uma...

            — Você vai adorar, tesãozinho. Ela recuou, afastando-se dele.

            — Corpinho engraçadinho que você tem, tesãozinho. Muito engraçadinho.

            Ele continuou a avançar.

            A luz agora estava por trás dele. A sua sombra caiu sobre ela. Os fantasmas não lançavam sombras.

            A despeito da sua risada e de seu sorriso fixo, a voz dele foi ficando cada vez mais áspera, mais irritada.

            — Sua piranha estúpida. Vou usar você pra valer. Mas pra valer mesmo. Melhor do que qualquer daqueles garotos de ginásio. Você não vai conseguir andar direito por uma semana quando eu acabar com você, tesãozinho.

            A sombra dele a engolira completamente.

            Com o coração batendo com tanta força que parecia querer sair do peito, Lisa recuou mais, e mais — mas logo colidiu com a parede. Estava encurralada.

            Olhou ao seu redor à procura de uma arma, algo que pelo menos pudesse jogar em cima dele. Não havia nada.

            Estava cada vez mais difícil respirar. Ela se sentia tonta e fraca.

            Ele não é real. É uma ilusão.

            Mas ela não podia mais se iludir: não podia mais acreditar em sonhos.

            Wargle parou quase em cima dela. Olhou-a fixamente. Oscilou de um lado para o outro e balançou-se para a frente e para trás nas plantas dos pés descalços, como se alguma música louca-sombria- particular estivesse crescendo e diminuindo e crescendo dentro dele.

            Fechou os olhos odiosos, oscilando sonhadoramente.

            Passou-se um segundo.

            O que ele está fazendo!

            Dois segundos, três, seis, dez.

            Ainda assim, os olhos dele permaneciam fechados.

            Ela se sentiu transportada num redemoinho de histeria.

            Será que poderia se esgueirar e passar por ele? Enquanto estava de olhos fechados? Jesus. Não. Ele estava perto demais. Para escapar, teria que roçar nele. Jesus. Roçar nele? Não. Deus, aquilo faria com ele saísse do transe, ou fosse lá o que era aquilo, e ele a agarraria, e as suas mãos seriam frias, mortalmente frias. Ela não conseguiria se forçar a tocar nele. Não.

            Então ela notou que algo estranho estava acontecendo por trás dos olhos dele. Movimentos sinuosos... As pálpebras não mais se ajustavam à curvatura dos globos oculares.

            Ele abriu os olhos.

            Eles tinham sumido.

            Por trás das pálpebras havia apenas cavidades negras e vazias.

            Ela finalmente gritou, mas o grito que emitiu ficava além da capacidade humana de ouvir. A respiração saiu do seu corpo numa velocidade de trem expresso, e ela sentiu a garganta se mover convulsivamente, mas não saiu absolutamente som algum que pudesse trazer auxílio.

            Os olhos dele.

            Os olhos vazios dele.

            Ela estava certa de que aquelas órbitas vazias ainda podiam vê- la. Sugavam-na com seu vácuo.

            O sorriso largo não desaparecera.

            — Gostosa — falou.

            Ela gritava o seu grito silencioso.

            — Gostosa. Me beija, gostosa.

            De alguma forma, escuras como a meia-noite, aquelas cavidades orladas de ossos ainda cintilavam com uma percepção malévola.

            — Me beija.

            Não.

            Deixe que eu morra, ela rezava. Deus, por favor, deixe que eu morra primeiro.

            — Quero chupar a sua língua suculenta - disse Wargle ansiosamente, dando uma risadinha.

            Estendeu a mão para ela.

            Ela apertou o corpo contra a parede imóvel.

            Wargle tocou-lhe a face.

            Ela se crispou e tentou se afastar.

            As pontas dos dedos dele correram de leve pela sua face.

            A mão dele estava fria e escorregadia.

            Ela escutou um gemido fraco, seco, sinistro. - Uh-uh-uh-uh uhhhhhh -, e percebeu que estava escutando a si mesma.

            Sentiu um cheiro estranho, acre. O hálito dele? O hálito fétido de um morto, expelido de pulmões apodrecidos? Acaso os mortos-vivos respiravam? O fedor era leve, mas insuportável. Ela teve ânsias de vômito. Ele baixou o rosto na direção do rosto dela.

            Ela fitou os seus olhos carcomidos, a escuridão hedionda para além deles, e era como espiar por duas portinholas para as câmaras mais profundas do Inferno.

            A mão dele apertou-lhe a garganta.

            Ele falou:

            — Me dá...

            Ela inspirou com dificuldade.

            — ...um beijinho.

            Ela expirou, soltando outro grito.

            Só que desta vez o grito não foi mudo. Desta vez ela emitiu um som que parecia alto o bastante para estilhaçar os espelhos do banheiro e lascar os ladrilhos de cerâmica.

            Enquanto o rosto morto e sem olhos de Wargle baixava lentamente na sua direção, enquanto ela escutava o próprio grito ecoando pelas paredes, o redemoinho de histeria no qual estava girando tornou um redemoinho de escuridão, e ela foi atraída para o oblívio.

 

            No saguão do Hilltop Inn, num sofá cor de ferrugem, encostado à parede que ficava mais longe dos banheiros, Jennifer Paige sentava-se ao lado da irmã, abraçando-a.

            Bryce estava agachado na frente do sofá, segurando a mão de Lisa, que ele não conseguia aquecer não importa o quanto a apertasse e esfregasse.

            Excetuando os guardas de serviço, todo mundo estava reunido atrás de Bryce, formando um semicírculo na frente do sofá.

            Lisa tinha uma aparência terrível. Seus olhos estavam fundos, velados, atormentados. O rosto, tão branco quanto o chão de ladrilhos no banheiro feminino, onde a haviam encontrado inconsciente.

            — Stu Wargle está morto — assegurou-lhe Bryce, mais uma vez.

            — Ele queria que eu o b-b-beijasse — repetia a garota, insistindo resolutamente na sua história absurda.

            — Não havia mais ninguém no banheiro, só você — disse Bryce. — Só você, Lisa.

            — Ele estava lá — insistiu a jovem.

         — Viemos correndo logo que você gritou. Você estava sozinha...

            — Ele estava lá.

            — ...caída no chão, no canto, desmaiada.

            — Ele estava lá.

            — O corpo dele está no quartinho de limpeza — disse Bryce suavemente, apertando-lhe a mão. — Nós o colocamos lá antes. Não está lembrada?

            — Ainda está lá? — perguntou a garota. — Seria melhor vocês darem uma olhada.

            Bryce e Jenny trocaram olhares. Ela assentiu. Lembrando-se de que qualquer coisa era possível esta noite, Bryce se pôs de pé, soltando a mão da moça. Dirigiu-se para o quartinho de material de limpeza.

            — Tal?

            — Sim?

            — Venha comigo. Tal sacou o revólver.

            Tirando a própria arma do coldre, Bryce falou:

            — Os outros ficam aqui.

            Com Tal ao seu lado, Bryce cruzou o saguão até a porta do quartinho e parou diante dela.

            — Não acho que ela seja do tipo que inventa histórias — disse Tal.

            — Sei que não é.

            Bryce pensou em como o corpo de Paul Henderson tinha sumido da subdelegacia. Pombas, pensou, aquilo era muito diferente da situação atual. O corpo de Paul estava acessível, sem ninguém a vigiá- lo. Mas ninguém poderia ter chegado ao corpo de Wargle — e ele não poderia ter se levantado e caminhado sozinho — sem ter sido visto por um dos três delegados postados no saguão. No entanto, ninguém e nada fora visto.

            Bryce dirigiu-se para a esquerda da porta e fez sinal a Tal para ir para a direita.

            Prestaram atenção durante vários segundos. O hotel estava silencioso. Não vinha som algum de dentro do quartinho.

            Mantendo o corpo longe da abertura da porta, Bryce se inclinou para diante e estendeu a mão para a maçaneta, girou-a lenta e silenciosamente até onde foi possível. Hesitou. Lançou um olhar a Tal, que indicou estar pronto. Bryce inspirou fundo, escancarou a porta para dentro e deu um salto para trás, para se proteger.

            Nada saiu correndo do quarto às escuras.

            Tal foi se movendo devagarinho para a ombreira da porta, estendeu a mão para dentro do quarto, tateou em busca do interruptor, encontrou-o.

            Bryce estava agachado, à espera. Tão logo a luz se acendeu, ele se arremeteu para dentro, o revólver apontado para a frente.

            A luz fluorescente nua jorrava dos painéis gêmeos do teto e cintilava nas beiradas da pia de metal e nas garrafas e latas de material de limpeza.

            A mortalha em que tinham enrolado o corpo jazia amontoada no chão, ao lado da mesa.

            O cadáver de Wargle desaparecera.

 

            Deke Coover era o guarda que estava de vigia nas portas de entrada do hotel. Não ajudou muito a Bryce. Passara a maior parte do tempo olhando para fora, para a Skyline Road, de costas para o saguão. Alguém poderia ter retirado o corpo de Wargle sem que Coover tomasse conhecimento.

            — O senhor mandou que eu vigiasse a entrada da frente, xerife — falou Deke. — Contanto que não estivesse cantando, Wargle poderia ter saído dali sozinho, dançando e agitando uma bandeira em cada mão, e não teria chamado a minha atenção.

            Os dois homens postados junto aos elevadores, perto do quartinho de limpeza, eram Kelly MacHeath e Donny Jessup. Eram dois dos homens mais moços de Bryce, com vinte e poucos anos, mas ambos capazes, dignos de confiança e razoavelmente experientes.

            MacHeath, um sujeito louro e corpulento, de pescoço taurino e ombros cheios, balançou a cabeça e falou:

            — Ninguém entrou ou saiu daquele quartinho a noite toda.

            — Ninguém — concordou Jessup. Era um homem magro e musculoso, de cabelos crespos e olhos cor de chá. — A gente teria visto.

            — A porta é logo ali — observou MacHeath.

            — E passamos a noite toda aqui.

            — O senhor nos conhece, xerife — disse MacHeath.

            — Sabe que não somos relaxados — disse Jessup.

            — Quando estamos de serviço...

            — ...estamos de serviço — concluiu Jessup.

            — Porra — exclamou Bryce —, o corpo de Wargle sumiu. Não saiu de cima da mesa e atravessou a parede!

            — Mas também não saiu de cima da mesa e atravessou aquela porta — insistiu MacHeath.

            — Senhor — disse Jessup —, Wargle estava morto. Eu mesmo não vi o corpo, mas, pelo que me contaram, estava bem morto. Os mortos ficam onde a gente os bota.

            — Não necessariamente — falou Bryce. — Não nesta cidade. Não esta noite.

            No quartinho de material de limpeza, junto com Tal, Bryce falou:

            — Não há outra saída aqui, exceto a porta. Caminharam lentamente pelo quarto, examinando-o.

            A bica com defeito deixou cair uma gota d'água que atingiu a bacia da pia de metal com um ping suave.

            — A saída de aquecimento — disse Tal, apontando para uma grade numa das paredes, diretamente sob o teto. — O que você acha?

            — Está falando sério?

            — É melhor a gente dar uma olhada.

            — Não tem tamanho para passar um homem.

            — Lembra do roubo na Joalheria Krybinsky?

            — Como vou esquecer? Ainda não foi resolvido, como Alex Krybinsky fica me lembrando cada vez que nos encontramos.

            — O sujeito entrou no porão de Krybinsky por uma janela destrancada do tamanhinho daquela grade.

            Bryce sabia, como o sabia qualquer tira que lidava com roubo e invasão de domicílio, que um homem de porte comum não precisava de mais que uma abertura surpreendentemente pequena para obter acesso a um edifício. Qualquer buraco em que coubesse a cabeça de um homem também tinha tamanho suficiente para deixar passar todo o seu corpo. Os ombros eram mais magros do que a cabeça, é claro, mas podiam ser jogados para a frente ou contorcidos de forma a poderem passar; igualmente a largura dos quadris era quase suficientemente maleável para seguir o mesmo caminho dos ombros. Mas Stu Wargle não tinha sido um homem de porte comum.

            — A barriga de Stu teria entalado ali como uma rolha numa garrafa — disse Bryce.

            Apesar disso, ele pegou um banquinho que estava num canto, subiu nele e foi olhar mais de perto a saída em questão.

            — A grade não é presa por parafusos — disse ele a Tal. — É um modelo de encaixe, portanto poderia ter sido recolocada pelo lado de dentro do conduto, depois de Wargle ter passado, desde que ele tivesse entrado com os pés em primeiro lugar.

            Retirou a grade da parede.

            Tal passou-lhe uma lanterna elétrica.

            Bryce dirigiu o facho de luz para o conduto de aquecimento escuro e franziu a testa. A passagem estreita de metal percorria apenas uma curta distância antes de dar uma guinada abrupta de noventa graus para cima.

            Desligando a lanterna e passando-a a Tal, Bryce falou:

            — Impossível. Para passar por aqui, Wargle não poderia ser maior do que Sammy Davis Jr., e teria que ser tão flexível quanto o homem-borracha de um parque de diversões.

 

            Frank Autry se aproximou de Bryce Hammond na mesa central de operações no meio do saguão, onde o xerife estava sentado, lendo as mensagens que tinham chegado durante a noite.

            — Senhor, tem uma coisa que precisa saber sobre Wargle. Bryce ergueu os olhos.

            — E o que é?

            — Bem... não gosto de ter que falar mal dos mortos...

            — Nenhum de nós gostava mesmo dele — disse Bryce, sem meias palavras. — Qualquer tentativa de honrar a sua memória seria hipócrita. Portanto, se souber de alguma coisa que possa me ajudar, Frank, não faça cerimônia.

            Frank sorriu.

            — O senhor se teria dado muito bem no Exército. — Sentou-se na beirada da mesa. — Na noite passada, quando Wargle e eu estávamos desmontando o rádio lá na subdelegacia, ele fez vários comentários nojentos sobre a dra. Paige e Lisa.

            — Papo de sexo?

            — É.

            Frank contou a conversa que tivera com Wargle.

            — Santo Deus — disse Bryce, sacudindo a cabeça.

            — O que ele falou sobre a garota foi o que mais me incomodou — disse Frank. — Wargle não estava brincando quando falou sobre, quem sabe, dar uma prensa nela se a oportunidade se apresentasse. Não creio que tivesse ido aos limites do estupro, mas era capaz de dar uma prensa das grandes e usar a sua autoridade, o seu distintivo, para coagi-la. Não creio que aquela garota pudesse ser coagida, tem garra demais. Mas acho que Wargle poderia tentar. — O xerife bateu com o lápis na mesa, fitando o ar, pensativo. — Mas Lisa não estava sabendo disso — continuou Frank.

            — Será que não podia ter escutado a conversa de vocês?

            — Nem uma palavra.

            — Ela podia ter desconfiado do tipo de homem que Wargle era, pelo jeito como ele olhava para ela.

            — Mas não podia saber — falou Frank. — Entende aonde estou querendo chegar?

            — Entendo.

            — Qualquer criança — falou Frank —, se inventasse uma história a esse respeito ficaria satisfeita dizendo que um morto correra atrás dela. Normalmente não enfeitaria a história dizendo que o morto queria molestá-la.

            Bryce concordou.

            — A cabeça das crianças não é assim tão barroca. As suas mentiras em geral são simples, não elaboradas.

            — Exatamente — disse Frank. — O fato de ter dito que Wargle estava nu e que queria molestá-la... bem, para mim isso acrescenta credibilidade à história dela. Bem, todos gostaríamos de acreditar que alguém se esgueirou para dentro do quartinho de limpeza e roubou o corpo de Wargle. E gostaríamos de imaginar que colocaram o corpo no banheiro feminino, que Lisa o viu, entrou em pânico e imaginou o resto. E que, depois que ela desmaiou, alguém tirou o corpo de lá, de alguma forma incrivelmente inteligente. Mas esta explicação está toda furada. O que aconteceu foi muito mais estranho do que isso.

            Bryce largou o lápis e se recostou na cadeira.

            — Merda. Você crê em fantasmas, Frank? Em mortos-vivos?

            — Não. Existe uma explicação real para isso — falou Frank. — Não um monte de baboseiras e superstições. Uma explicação real.

            — Concordo. Mas o rosto de Wargle estava...

            — Eu sei. Eu vi.

            — Como é que o rosto dele podia ter sido recomposto?

            — Não sei.

            — E Lisa falou que os olhos dele...

            — É. Ouvi o que ela falou. Bryce soltou um suspiro.

            — Já tentou resolver o Cubo de Rubik? Frank pestanejou.

            — Não, nunca.

            — Bem, eu já — falou o xerife. — O danado quase me deixou maluco, mas eu não desisti, e acabei resolvendo. Todo mundo acha que é um quebra-cabeça difícil, mas, comparado a este caso, é brincadeira de jardim de infância.

            — Tem mais uma diferença — falou Frank.

            — Qual é?

            — Se você não conseguir resolver o Cubo de Rubik, o castigo não é a morte.

            Em Santa Mira, na sua cela na cadeia municipal, Fletcher Kale, assassino da mulher e do filho, acordou antes do alvorecer. Ficou imóvel no colchão fino de espuma e olhou para a janela, que apresentava uma faixa retangular do céu antes da aurora para a sua inspeção.

            Ele não ia passar a vida na prisão. Não ia.

            Tinha um destino magnífico. Era isso que ninguém compreendia. Eles viam o Fletcher Kale que existia agora, sem conseguir enxergar aquilo em que ele se transformaria. Estava destinado a ter tudo: dinheiro a perder de vista, um poder que transcendia a imaginação, fama, respeito.

            Kale sabia que era diferente da ralé da humanidade, e era esta certeza que fazia com que seguisse em frente, a despeito de toda a adversidade. As sementes de grandeza dentro dele já estavam brotando. Com o tempo, faria com que todos vissem o quanto estavam errados a seu respeito.

            A percepção, pensou, fitando a janela com grades, a percepção é meu maior dom. Sou extraordinariamente perceptivo.

            Ele via que, sem exceção, os seres humanos eram impulsionados pelo interesse. Nada de errado nisso. Era a natureza da espécie. Era assim mesmo que a humanidade tinha que ser. Mas a maioria das pessoas não suportava enfrentar a verdade. Inventavam uns conceitos ditos inspiradores como amor, amizade, honra, verdade, fé, confiança e dignidade individual. Alegavam acreditar em todas essas coisas e em outras mais. Todavia, bem no fundo, sabiam que era tudo babaquice. Só que não queriam admitir. E então, burramente, se atavam a um código de conduta piegas e autocongratulatório, a sentimentos nobres mas vazios, frustrando assim os seus verdadeiros desejos, destinando- se ao fracasso e à infelicidade.

            Idiotas. Deus, como os desprezava.

            Da sua perspectiva singular, Kale via que a humanidade era, na realidade, a espécie mais implacável, perigosa e inexorável na face da terra. E ele curtia essa certeza. Tinha orgulho de pertencer a uma raça assim.

            Sou muito avançado para a minha época, pensou Kale, sentando-se na beirada do catre e pondo os pés descalços no chão frio da cela. Sou o passo seguinte na evolução. Evoluí além da necessidade de acreditar em moralidade. É por isso que me olham com tanto asco. Não porque tenha matado Joanna e Danny. Eles me odeiam porque sou melhor do que eles, mais completamente afinado com a minha verdadeira natureza humana.

            Ele não tivera outra escolha a não ser matar Joanna. Ela se recusara a lhe dar o dinheiro, afinal de contas. Estava pronta para humilhá-lo profissionalmente, arruiná-lo financeiramente e destruir o seu futuro inteiro.

            Tivera que matá-la, ela estava no seu caminho.

            Quanto a Danny, fora uma pena. Kale lamentava um pouco essa parte. Não sempre. Só de vez em quando. Uma pena. Necessário, mas uma pena.

            De qualquer maneira, Danny sempre fora um filhinho da mamãe. Na verdade, era totalmente distante do pai. Isso fora obra de Joanna. Provavelmente fazia lavagem cerebral no menino, voltando-o contra o seu velho. No final, Danny já nem era mais filho de Kale. Tornara-se uni estranho.

            Kale deitou-se no chão da cela e começou a fazer flexões.

            Um-dois, um-dois, um-dois.

            Pretendia manter-se em forma para o momento em que se lhe apresentasse uma oportunidade de fuga. Sabia exatamente aonde iria quando fugisse. Não para o Oeste, não para fora do condado, não para os lados de Sacramento. Era isso o que esperavam que fizesse.

            Um-dois, um-dois.

            Conhecia um esconderijo perfeito. Ficava bem aqui no condado. Não iriam procurá-lo bem debaixo de seus narizes. Quando não conseguissem encontrá-lo dentro de um dia ou dois, concluiriam que já se tinha mandado e parariam de procurar ativamente nas vizinhanças. Depois de passadas varias semanas, quando já nem estivessem pensando mais nele, então ele sairia do esconderijo, voltaria a passar pela cidade e se dirigiria para o Oeste.

            Um-dois.

            Mas, primeiro, iria para as montanhas. Era lá que ficava o esconderijo. As montanhas lhe ofereciam a melhor chance de escapar dos tiras, depois de fugir. Estava com um palpite. As montanhas. É. Sentia-se atraído para as montanhas.

 

            O alvorecer chegou nas montanhas, espalhando-se como uma mancha viva no céu, embebendo-se na escuridão, descolorindo-a.

            A floresta que ficava acima de Snowfield estava quieta. Muito quieta.

            Na vegetação rasteira, as folhas estavam orladas de orvalho. O cheiro agradável do humo rico se erguia do chão esponjoso da floresta.

            O ar estava frio, como se a última expiração da noite ainda pairasse sobre a terra.

            A raposa estava imóvel sobre uma formação calcária que se projetava de um declive aberto, pouco abaixo da linha das árvores. O vento eriçava levemente o seu pêlo cinzento.

            Seu hálito formava uma pequena pluma fosfórica no ar revigorante.

            A raposa não era uma caçadora noturna, no entanto estava à espreita desde uma hora antes do alvorecer. Não comia há quase dois dias.

            Não conseguia encontrar caça. Os bosques estavam invulgarmente silenciosos e despidos do cheiro das presas.

            Em todas as suas temporadas como caçadora, a raposa jamais encontrara uma quietude tão estéril quanto esta. Os dias mais amargos do inverno tinham mais promessas do que este. Mesmo nas nevascas de janeiro havia sempre o cheiro do sangue, o cheiro da caça.

            Agora não.

            Agora não havia nada.

            A morte parecia ter chamado todas as criaturas nesta parte da floresta — excetuando a pequena raposa faminta. No entanto, não havia nem ao menos o cheiro da morte, nem mesmo o fedor forte de uma carcaça apodrecendo na vegetação rasteira.

            Finalmente, porém, ao cruzar a baixa formação calcária, tomando cuidado para não pisar numa das fendas ou buracos acanalados que levavam às cavernas lá embaixo, a raposa vira algo se mover no declive à sua frente, algo que não fora apenas agitado pelo vento. Ela se imobilizara nas pedras baixas, olhando para cima, para o perímetro impreciso deste novo braço da floresta.

            Um esquilo. Dois esquilos. Não, havia mais deles ainda — cinco, dez, vinte. Estavam alinhados lado a lado na penumbra ao longo da linha das árvores.

            Primeiro, nenhuma caça. Agora, uma abundância igualmente estranha de caça.

            A raposa farejou.

            Embora os esquilos estivessem apenas a cinco ou seis metros de distância, ela não conseguia sentir o cheiro deles.

            Os esquilos olhavam diretamente para ela, mas não pareciam assustados.

            A raposa inclinou a cabeça para o lado, a desconfiança moderando a sua fome.

            Os esquilos se moveram para a esquerda, todos de uma só vez, num grupinho compacto, e depois saíram das sombras das árvores, afastando-se da proteção da floresta, entrando em campo aberto, dirigindo-se diretamente para a raposa. Eles se misturavam uns com os outros, por cima, por baixo, ao redor, formando uma confusão de peles castanhas, um borrão de movimento na grama marrom. Quando pararam abruptamente, todos no mesmo instante, estavam apenas a três ou quatro metros da raposa. E já não eram mais esquilos.

            A raposa estremeceu e emitiu um som sibilante.

            Os vinte pequenos esquilos eram agora quatro grandes guaxinins.

            A raposa rosnou baixinho.

            Ignorando-a, um dos guaxinins ergueu-se nas patas traseiras e começou a lamber as dianteiras.

            O pêlo das costas da raposa ficou todo eriçado.

            Ela farejou o ar.

            Não havia cheiro.

            Ela baixou bem a cabeça e observou atentamente os guaxinins. Os seus músculos lisos ficaram ainda mais tensos do que estavam, não porque pretendesse dar o bote, mas porque pretendia fugir.

            Havia alguma coisa muito errada.

            Todos os quatro guaxinins agora estavam sentados nas patas traseiras, as patas dianteiras erguidas, a barriga à mostra.

            Estavam observando a raposa.

            Geralmente, o guaxinim não era presa para a raposa. Era agressivo demais, tinha os dentes afiados demais, era ligeiro demais com as garras. Mas embora estivesse a salvo da raposa, o guaxinim não apreciava o confronto; nunca se pavoneava como aqueles quatro estavam fazendo.

            A raposa lambeu com a língua o ar frio.

            Farejou de novo e, finalmente, conseguiu sentir um cheiro.

            As suas orelhas grudaram-se ao crânio e ela rosnou.

            Não era cheiro de guaxinim. Não era cheiro de nenhum habitante da floresta que já tivesse encontrado antes. Era um odor desconhecido, ativo, desagradável. Leve. Mas repelente.

            Esse odor repulsivo não vinha de nenhum dos quatro guaxinins que se postavam diante da raposa. Ela não conseguia detectar exatamente de onde estava vindo.

            Pressentindo um grave perigo, a raposa deu meia-volta no calcário, afastando-se dos guaxinins, embora sentisse relutância em dar-lhes as costas.

            As suas patas rasparam e as suas garras fizeram ruído na superfície dura quando ela se precipitou encosta abaixo, por cima da rocha plana, desgastada pelo tempo, a cauda ondeando atrás de si. Ela saltou por cima de uma fenda de trinta centímetros na pedra...

            ...e, em pleno salto, foi agarrada no ar por algo escuro, frio e pulsante.

            A coisa irrompeu de dentro da fenda com força e velocidade brutais, chocantes.

            O guincho agoniado da raposa foi agudo e breve.

            Com a mesma rapidez com que foi agarrada, a raposa foi atraída para dentro da fenda. Um metro e meio mais abaixo, no fundo do abismo em miniatura, havia um pequeno buraco que levava às cavernas por baixo do afloramento de calcário. O buraco era pequeno demais para deixar passar a raposa, mas a criatura que se debatia foi arrastada por ali assim mesmo, com os ossos se partindo pelo caminho.

            Sumiu.

            Tudo isso num piscar de olhos. Em meio piscar.

            Na verdade, a raposa fora sugada para dentro da terra mesmo antes que o eco de seu último grito tivesse ressoado de volta de uma colina distante.

            Os guaxinins tinham sumido.

            Agora, uma torrente de pequenos ratos silvestres escorria por sobre as superfícies lisas do calcário. Dezenas deles, vintenas. Pelo menos uns cem.

            Dirigiam-se para a beira da fenda.

            Ficaram olhando para baixo.

            De um em um, os ratinhos pularam da beirada para o fundo do buraco, depois passaram pela pequena abertura natural que levava à caverna lá embaixo.

            Logo, todos os ratinhos também tinham desaparecido.

            Mais uma vez a floresta acima de Snowfield ficou em sossego.

 

            Santa Mira.

            Segunda-feira — 01:02.

            — Alô?

            — É do Santa Mira Daily Newsl

                   — É.

            — Do jornal?

            — Dona, o jornal está fechado. Passa de uma da manhã.

            — Fechado? Não sabia que jornal fechava.

            — Aqui não é o New York Times.

            — Mas não estão imprimindo agora a edição de amanhã?

            — A impressão não é feita aqui. Aqui é o setor comercial e editorial. Quer falar com o impressor, ou o quê?

            — Bem... tenho uma reportagem.

            — Se é um obituário ou um bazar de igreja ou coisa assim, então ligue de novo de manhã, depois das nove, e...

            — Não, não. É uma reportagem das grandes.

            — Sei, uma venda de objetos usados, não é?

            — Como?

            — Esqueça. Terá que ligar de novo pela manhã.

            — Espere, escute, trabalho para a companhia telefônica.

            — Isso não é uma grande reportagem.

            — Não, escute, é porque trabalho para a telefônica que descobri essa coisa. O senhor é editor?

            — Não, sou encarregado da venda de espaço publicitário.

            — Bem... mesmo assim, quem sabe pode me ajudar.

            — Dona, estou sentado aqui num domingo à noite — não, já é segunda de madrugada —, sozinho neste escritório sombrio, tentando imaginar como é que vou conseguir anunciantes suficientes para manter este jornal funcionando. Estou cansado, estou irritado...

            — Que horrível.

            — ...e receio que a senhora tenha que voltar a ligar pela manhã.

            — Mas unia coisa terrível aconteceu em Snowfield. Não sei exatamente o quê, mas sei que tem gente morta. Pode ter até um bocado de gente morta, ou pelo menos correndo risco de vida.

            — Pombas, eu devo estar mais cansado do que imaginava. Estou ficando interessado, mesmo a contragosto. Conte mais.

            — Mexendo no serviço telefônico de Snowfield, ele não está mais no sistema de discagem automática, e restringimos todos os telefonemas de fora. Agora só se pode falar com dois números na cidade, e ambos estão sendo atendidos pelos homens do xerife. O motivo pelo qual fizeram essas modificações é isolar o lugar antes que os repórteres descubram que tem coisa acontecendo.

            — Dona, andou bebendo?

            — Eu não bebo.

            — Então, o que andou fumando?

            — Ouça, ainda sei mais um pouco. Estão recebendo telefonemas do gabinete do xerife em Santa Mira o tempo todo, e do gabinete do governador, e de uma base militar em Utah, e eles...

 

            São Francisco.

            Segunda-feira — 01:40.

            — Aqui fala Sid Sandowicz. O que deseja?

            — Estou dizendo a eles que quero falar com um repórter do San Francisco Chronicle, cara.

            — Sou eu.

            — Pô, cara, vocês desligaram na minha cara três vezes! Porra, qual é a de vocês?

            — Olha como fala.

            — Merda.

            — Escute, você tem idéia do número de garotos que liga para os jornais, fazendo a gente perder tempo com brincadeiras idiotas e furos inventados?

            — Hein? Como é que soube que eu era um garoto?

            — Por que você tem voz de doze anos.

            — Tenho quinze.

            — Parabéns.

            — Merda!

            — Escute, filho, tenho um garoto da sua idade, e é por isso que estou perdendo tempo com você, coisa que os outros não quiseram fazer. Portanto, se tem alguma coisa realmente interessante para dizer, diga logo.

            — Bem, meu velho é professor em Stanford. É virologista e epidemiologista. Sabe o que isso quer dizer, cara?

            — Ele estuda vírus, moléstias, coisas assim.

            — Certo. E se deixou corromper.

            — Como assim?

            — Aceitou uma subvenção da porra dos milicos. Cara, está metido com um grupo de guerra biológica. Dizem que vão fazer uma aplicação pacífica das suas pesquisas, mas você sabe que isso é uma babaquice. Ele vendeu a alma, e agora eles vieram buscá-lo. Jogaram merda no ventilador.

            — O fato do seu pai ter se vendido — se é que se vendeu mesmo — pode ser uma grande notícia para o pessoal da sua família, filho, mas duvido que desperte muito o interesse dos nossos leitores.

            — Escuta, cara, eu não liguei pra você só pra te sacanear, não. Tenho uma reportagem de verdade. Hoje eles vieram buscá-lo. Está havendo uma crise. Querem que eu pense que ele foi para o Leste a negócios, mas eu fui na moita lá para cima e escutei atrás da porta do quarto deles quando ele contou para a velha. Houve uma espécie de contaminação em Snowfield. Uma grande emergência. Está todo mundo tentando guardar segredo.

            — Snowfield, Califórnia?

            — É, é. O que eu acho, cara, é que eles estavam fazendo algum teste secreto de arma bacteriológica no nosso próprio pessoal e a coisa fugiu ao controle. Ou quem sabe foi algum derramamento acidental. O certo é que a coisa por lá está feia.

            — Como se chama, filho?

            — Ricky Bettenby. O meu velho se chama Wilson Bettenby.

            — Stanford, foi o que você disse?

            — É. Vai até o fim nessa, cara?

            — Pode ser que valha a pena. Mas antes de começar a ligar para o pessoal de Stanford, preciso lhe fazer mais perguntas.

            — Manda brasa. Vou lhe contar o que puder. Quero que isso vire um escândalo, cara. Quero que ele pague por ter se vendido.

 

            Durante a noite, os vazamentos foram aparecendo, de um em um. Em Dugway, Utah, um oficial do Exército, que não podia ter feito isso, usou um telefone público fora da base para ligar para Nova York e contar a história para um irmão caçula muito querido que era foca do Times. Na cama, depois de ter feito sexo, um assessor do governador contou para a amante, uma repórter. Estes e outros buracos na represa fizeram com que o fluxo de informação crescesse de um filete para uma torrente.

            Às três da manhã, a mesa telefônica do departamento policial do condado de Santa Mira não dava mais conta do recado. Ao alvorecer, os repórteres de jornal, televisão e rádio estavam invadindo Santa Mira. Logo nas primeiras horas da manhã, a rua na frente dos escritórios do xerife estava lotada com carros de imprensa, furgões para filmagem com os logotipos das estações de TV de Sacramento e São Francisco, repórteres e curiosos de todas as idades.

            Os delegados desistiram de tentar impedir as pessoas de se reunir no meio da rua, pois elas eram em número grande demais para se limitar às calçadas. Isolaram o quarteirão com cavaletes e transformaram-no num grande recinto ao ar livre para a imprensa. Dois garotos empreendedores de um prédio de apartamentos próximo começaram a vender Tang, biscoitos e — com a ajuda da série mais comprida de fios e extensões que alguém se lembrava de ter visto — café quente. A sua barraquinha tornou-se a central de boatos, onde os repórteres se reuniam para partilhar teorias e fofocas, enquanto esperavam pelas últimas informações oficiais.

            Outros jornalistas se espalharam por Santa Mira, procurando pessoas que tinham amigos ou parentes morando em Snowfield, ou que tinham algum parentesco com os delegados que estavam lá no momento. No entroncamento da estrada estadual e a Snowfield Road, ainda outros repórteres davam plantão junto ao bloqueio da estrada feito pela polícia.

            A despeito de toda essa movimentação, uma boa parte da imprensa ainda não tinha chegado. Muitos representantes da mídia do Leste e da imprensa estrangeira ainda estavam em trânsito. Para as autoridades que vinham se esforçando para lidar com a confusão o pior ainda estava por vir. Segunda-feira à tarde o circo estaria formado.

 

            Pouco depois do alvorecer, o rádio de ondas curtas e os dois geradores elétricos movidos a gasolina chegaram ao bloqueio na estrada que marcava o perímetro da zona de quarentena. Os dois pequenos furgões que os conduziam eram guiados pelos Patrulheiros das Rodovias da Califórnia (CHiP). Permitiram que eles passassem pelo bloqueio até um ponto a meio caminho dos seis quilômetros e meio da Snowfield Road, onde foram estacionados e abandonados.

            Quando os patrulheiros retornaram ao local do bloqueio, os delegados do condado passaram um rádio dando conta da situação para o QG em Santa Mira. Por sua vez, o QG entrou em contato com Bryce Hammond no hotel Hilltop.

            Tal Whitman, Frank Autry e dois outros homens levaram um carro-patrulha até a metade da Snowfield Road e pegaram os furgões abandonados. Desse modo, mantinha-se a contenção de quaisquer possíveis vetores de moléstias.

            O rádio de ondas curtas foi instalado num canto do saguão do Hilltop. Uma mensagem enviada para o QG em Santa Mira foi recebida e respondida. Agora, se algo acontecesse aos telefones, não ficariam inteiramente isolados.

            Dentro de uma hora, um dos geradores fora ligado aos circuitos dos postes de rua no lado oeste da Skyline Road. O outro foi ligado no sistema elétrico do hotel. Esta noite, se o suprimento principal de força fosse misteriosamente desligado, os geradores passariam a funcionar automaticamente. A escuridão duraria apenas um ou dois segundos.

            Bryce estava confiante de que nem mesmo aquele inimigo desconhecido poderia levar embora uma vítima nesse espaço de tempo.

            Jenny Paige começou a manhã com um banho de esponja insatisfatório, seguido de um café da manhã completamente satisfatório, composto de ovos, fatias de presunto, torradas e café.

            Depois, acompanhada por três homens fortemente armados, ela subiu a rua até a sua casa, onde pegou roupas limpas para si mesma e para Lisa. Também deu uma passada no seu consultório, onde apanhou um estetoscópio, um esfigmomanômetro, abaixa-língua, algodão, gaze, talas, ataduras, torniquetes, anti-sépticos, seringas descartáveis, analgésicos, antibióticos e outros instrumentos e suprimentos de que precisaria a fim de montar uma enfermaria de emergência num dos cantos do saguão do Hilltop.

            A casa estava quieta.

            Os delegados ficavam olhando à sua volta, nervosos, entrando em cada aposento como se esperassem que houvesse uma guilhotina armada em cima da porta.

            Quando Jenny estava terminando de arrumar os suprimentos médicos no consultório, o telefone tocou. Todos ficaram olhando para ele.

            Sabiam que somente dois telefones na cidade estavam funcionando e que ambos ficavam no Hilltop.

            O telefone tocou de novo.

            Jenny atendeu. Não disse "alô".

            Silêncio.

            Ela esperou.

            Após um segundo, ouviu os gritos distantes de gaivotas. O zumbido de abelhas. O miado de um gatinho. Uma criança chorando. Outra criança: rindo. Um cão arfando. O chocalhar de uma cascavel.

            Bryce ouvira coisas semelhantes ao telefone na noite passada, na subdelegacia, pouco antes da mariposa vir bater nas janelas. Ele dissera que os sons tinham sido ruídos animais perfeitamente comuns e familiares. A despeito disso, tinham-no perturbado. Não conseguira explicar por quê.

            Agora Jenny sabia exatamente o que ele queria dizer.

            Pássaros cantando.

            Sapos coaxando.

            Um gato ronronando.

            O ronronar tornou-se um sibilar. O sibilar tornou-se um grito estridente de gato, cheio de raiva. O grito tornou-se um guincho de dor, breve mas terrível.

            Então uma voz:

            — Vou enfiar a minha grande pica na sua irmãzinha suculenta. — Jenny reconheceu a voz. Wargle. O morto. — Está me ouvindo, Doc?

            Ela ficou calada.

            — E estou me lixando para o buraco em que vou enfiar — continuou ele, soltando uma risadinha.

            Ela bateu com o telefone.

            Os delegados olharam para ela, com ar de expectativa.

            — É... não havia ninguém na linha — disse ela, resolvendo não lhes contar o que tinha ouvido. Eles já estavam nervosos demais.

            Do consultório de Jenny foram para a Farmácia Tayton, na Vail Lane, onde ela apanhou mais medicamentos: analgésicos adicionais, uma vasta gama de antibióticos, coagulantes, anticoagulantes e quaisquer outras coisas de que pudesse vir a necessitar.

            Quando estavam terminando na farmácia, o telefone tocou.

            Jenny era quem estava mais perto dele. Não queria atender, mas não pôde resistir.

            E lá estava aquilo de novo.

            Jenny esperou um momento, depois disse:

            — Alô? Wargle falou:

            — Vou usar a sua irmãzinha com tanto gosto que ela não vai poder andar por uma semana.

            Jenny desligou.

            — Ninguém — disse aos delegados.

            Achou que não tinham acreditado nela. Estavam fitando as suas mãos trêmulas.

 

            Bryce estava sentado à mesa central de operações, falando por telefones com o QG em Santa Mira.

            O pedido de informações sobre Timothy Flyte não dera em nada. Flyte não era procurado por nenhuma agência policial nos Estados Unidos ou Canadá. O FBI nem mesmo ouvira falar dele. O nome no espelho do banheiro na Candleglow Inn ainda era um mistério.

         A polícia de São Francisco pudera dar informações sobre os desaparecidos Harold Ordnay e esposa, em cujo quarto fora encontrado o nome de Timothy Flyte. Os Ordnays eram donos de duas livrarias em São Francisco. Uma delas era uma livraria de varejo comum. A outra vendia livros antigos e raros. Aparentemente, era, de longe, a mais lucrativa das duas. Os Ordnays eram conhecidos e respeitados nos círculos de colecionadores. Segundo a sua família, Harold e Blanche tinham ido para Snowfield passar um fim de semana prolongado para comemorar o seu 31º. aniversário de casamento. A família jamais ouvira falar em Timothy Flyte. A polícia teve permissão para examinar o caderno de endereços pessoal dos Ordnays, mas não foi encontrado ninguém por nome de Flyte.

            A polícia ainda não conseguira localizar nenhum dos empregados das livrarias. Todavia, esperavam fazê-lo tão logo as duas lojas abrissem, às dez da manhã. Esperava-se que Flyte fosse uma relação comercial dos Ordnays da qual os empregados tivessem conhecimento.

            — Fique me mantendo a par das novidades — disse Bryce ao policial de plantão ao telefone, em Santa Mira. — Como estão as coisas por aí?

            — Um pandemônio.

            — E vai piorar.

            Quando Bryce estava desligando, Jenny Paige voltou do seu safári em busca de drogas e equipamentos médicos.

            — Onde está Lisa?

            — Trabalhando na cozinha — disse Bryce.

            — Ela está bem?

            — Claro. Há três homens grandes, fortes e armados com ela. Esqueceu? Algum problema?

            — Eu conto depois.

            Bryce destacou os três guardas armados de Jenny para novas tarefas, depois ajudou-a a montar uma enfermaria num dos cantos do saguão.

            — Isso provavelmente é esforço desperdiçado — disse ela.

            — Por quê?

            — Até agora não houve ninguém ferido. Só morto.

            — Bem, isso pode mudar.

            — Acho que aquilo só ataca quando quer matar. Não tem meias medidas.

            — Pode ser. Mas com todos esses homens carregando armas, e com todo mundo danado de nervoso, não me surpreenderia se alguém ferisse um companheiro acidentalmente, ou mesmo atirasse no próprio pé.

            Ajeitando umas garrafas na gaveta de uma escrivaninha, Jenny disse:

            — O telefone tocou na minha casa, e de novo na farmácia. Era Wargle.

            Narrou-lhe os dois telefonemas.

            — Tem certeza de que era mesmo ele?

            — Lembro-me distintamente da voz dele. Uma voz desagradável.

            — Mas, Jenny, ele foi...

            — Eu sei, eu sei. O rosto dele foi carcomido, o cérebro sumiu, e todo o seu sangue foi sugado do corpo. Eu sei. E estou ficando maluca tentando adivinhar o que está se passando.

            — Alguém fazendo uma imitação?

            — Se é, então tem alguém por aí que faz o Rich Little parecer um amador.

            — Ele parecia estar...

            Bryce interrompeu a frase no meio, e tanto ele quanto Jenny se voltaram ao ver Lisa aparecer correndo. A jovem fez-lhes um sinal.

            — Venham! Depressa! Tem uma coisa esquisita acontecendo na cozinha.

            Antes que Bryce pudesse detê-la, ela voltou correndo por onde viera. Vários homens começaram a ir em seu encalço, sacando as armas, mas Bryce ordenou-lhes que parassem.

            — Fiquem aqui. Fiquem em seus postos. Jenny já saíra correndo atrás da garota.

            Bryce correu para o refeitório, alcançou Jenny, passou à sua frente, sacou o revólver e acompanhou Lisa pelas portas de vaivém que conduziam à cozinha do hotel.

            Os três homens destacados para este turno de tarefas na cozinha — Gordy Brogan, Henry Wong e Max Dunbar — já tinham trocado os abridores de lata e os utensílios de cozinha pelos revólveres, mas não sabiam para o que apontar. Ergueram os olhos para Bryce, com ar desconcertado e perplexo.

 

            Lá vamos nós rodear a amoreira,

                   a amoreira, a amoreira.

 

            O ar se enchia com o canto de uma criança. Um garotinho. A voz dele era clara, frágil e doce.

 

            Lá vamos nós rodear a amoreira,

                   de manhã bem ceeediiinhoooo!

 

            — A pia — falou Lisa, apontando.

            Intrigado, Bryce se aproximou da pia dupla mais próxima, com Jenny vindo logo atrás.

            A canção mudara. A voz era a mesma.

 

            Este velho sabe tocar

            Toca pão-pa-ra-rão no meu tambor

            Com um pão-pa-ra-rão-pão, pão-pão

            Dá um osso ao cão...

 

            A voz da criança saía do ralo da pia, como se ela estivesse presa lá embaixo, no encanamento.

 

            ...e este velho se manda pra casa.

 

            Durante segundos metronômicos, Bryce escutou com intensidade fascinada. Perdera a fala.

            Lançou um olhar para Jenny. Ela o olhava com a mesma expressão atônita que vira no rosto dos homens quando passara pelas portas de vaivém.

            — Começou de repente — disse Lisa, erguendo a voz para abafar a cantoria.

            — Quando? — quis saber Bryce.

            — Tem uns dois minutos — respondeu Gordy Brogan.

            — Eu estava na pia — disse Max Dunbar. Era um homem corpulento, cabeludo, de aparência rude e olhos castanhos simpáticos e tímidos. — Quando a cantoria começou... pombas, acho que dei um salto de meio metro!

            A canção mudou de novo. A doçura foi substituída por uma devoção untuosa, quase zombeteira:

 

            Jesus me ama, disso eu sei,

                   pois a Bíblia me diz que sim

 

            — Não estou gostando disso — falou Henry Wong. — Como é que pode?

 

            Chama a si os pequeninos.

            Eles são fracos, mas Ele é forte.

 

            Não havia no canto nada de claramente ameaçador; no entanto, como os ruídos que Bryce e Jenny tinham ouvido pelo telefone, a voz meiga da criança, vinda de uma fonte tão absurda, era de dar nos nervos. Assustadora.

 

            Sim, Jesus me ama.

            Sim, Jesus me ama.

            Sim, Jesus...

 

            O cantar cessou abruptamente.

            — Graças a Deus! — exclamou Max Dunbar, estremecendo de alívio, como se o canto melódico da criança tivesse sido insuportavelmente áspero, estridente, desafinado. — Aquela voz estava atingindo até a raiz dos meus dentes.

            Depois de vários segundos passados em silêncio, Bryce começou a se debruçar para espiar para dentro do ralo...

            ...e Jenny disse que talvez ele não devesse...

            ...e algo explodiu vindo daquele buraco escuro e redondo.

            Todos gritaram, Lisa deu um berro e Bryce recuou, com medo e surpresa, amaldiçoando-se por não ter sido mais cuidadoso, levantando bruscamente o revólver, mirando na coisa que saía de dentro do ralo.

            Mas era somente água.

            Um jato alto de água excepcionalmente nojenta e gordurosa explodiu até quase o teto e depois caiu sobre todos os presentes. Foi um jato de curta duração, apenas um ou dois segundos, lançando borrifos em todas as direções.

            Algumas das gotas imundas atingiram o rosto de Bryce. Manchas escuras apareceram na frente de sua camisa. Aquilo fedia.

            Era exatamente o que se esperaria que brotasse de um ralo entupido: água marrom e suja, fiapos de lama viscosa, pedaços das sobras do café da manhã que tinham sido levados ao triturador.

            Gordy pegou um rolo de toalhas de papel e todos esfregaram os rostos e procuraram secar as manchas das roupas.

            Ainda estavam se enxugando, ainda esperando para ver se a cantoria ia recomeçar, quando Tal Whitman empurrou uma das portas de vaivém.

            — Bryce, acabamos de receber uma ligação. O general Copperfield e a sua equipe chegaram ao bloqueio na estrada e receberam ordens de passar há uns dois minutos.

 

            Snowfield parecia limpinha e tranqüila à luz cristalina da manhã. Uma brisa agitava as árvores. O céu estava sem nuvens.

            Saindo do hotel, com Bryce, Frank, Doc Paige e mais alguns outros atrás de si, Tal olhou para o sol, e essa visão trouxe-lhe uma lembrança de sua infância no Harlem. Ele costumava comprar balas de um centavo na Loja Boaz, que ficava na extremidade oposta da quadra em que se localizava o apartamento de sua tia Becky. Preferia os dropes de limão. Eram do tom de amarelo mais lindo que já vira. E agora, esta manhã, ele via que o sol estava precisamente daquele tom de amarelo, pendurado no céu como um imenso drope de limão. Aquilo lhe trouxe de volta as imagens, os sons e os odores da Boaz com uma força surpreendente.

            Lisa se aproximou de Tal e todos pararam na calçada, olhando para o sopé da ladeira, esperando pela chegada da Unidade de Defesa Civil da CBW.

            Nada se movia no sopé da ladeira. A montanha estava silenciosa. Era evidente que a equipe de Copperfield estava a alguma distância dali.

            Esperando ao sol de limão, Tal ficou imaginando se a Loja Boaz ainda existia no mesmo local. O mais provável é que fosse apenas mais uma loja vazia, imunda e pilhada. Ou quem sabe vendia revistas, fumo e balas apenas como fachada para o tráfico de drogas.

            À medida que ele envelhecia, percebia mais nitidamente uma tendência para a degeneração em todas as coisas. Bairr