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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LOBOS DE CALLA / Stephen King
LOBOS DE CALLA / Stephen King

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LOBOS DE CALLA

 

Tian foi abençoado (embora poucos fazendeiros houvessem usado tal palavra) com três tratos de terra: o Campo do Rio, onde sua família cultivara arroz desde tempos imemoriais; o Campo da Beira da Estrada, onde ka-Jaffords cultivara tubérculos, abóboras e milho durante esses mesmos longos anos e gerações; e o Filho-da-Puta, um trato ingrato que produzia sobretudo pedras, bolhas e esperanças desfeitas. Tian não foi o primeiro Jaffords decidido a arrancar alguma coisa dos oito hectares atrás da casa natal; seu grand-père, seu avô, perfeitamente são na maioria dos outros aspectos, convencera-se de que havia ouro ali. A mãe de Tian estivera igualmente certa de que a terra podia dar porim, um tempero de grande valor. A doidice particular de Tian era madrigal. Claro que daria madrigal no Filho-da-Puta. Tinha de dar. Ele conseguira mil sementes (e lhe custaram um dinheirinho bom), agora estavam escondidas sob as tábuas do assoalho de seu quarto. Restava apenas, antes do plantio no ano seguinte, preparar a terra no Filho-da-Puta. Dessa árdua tarefa, era mais fácil falar do que realizar.

O clã dos Jaffords era abençoado com gado, incluindo três mulas, mas estaria louco quem tentasse usar uma mula no Filho-da-Puta; o animal que desse o azar de ver-se atribuir tal tarefa provavelmente estaria caído de perna quebrada ou morto a ferroadas ao meio-dia do primeiro dia. Um dos tios de Tian quase encontrara esse último destino alguns anos antes. Voltara correndo para casa, gritando no máximo dos pulmões e perseguido por enormes vespas mutantes com ferrões do tamanho de pregos.

Haviam encontrado o ninho (bem, Andy encontrara; as vespas não o incomodavam, tivessem o tamanho que tivessem) e queimaram-no com querosene, mas talvez houvesse outros. E havia buracos. Sim, senhor, muitos buracos, e não se podia queimá-los, podia-se? Não. O Filho-da-Puta ficava no que os antigos chamavam de “terra solta”. Tinha portanto quase tantos buracos quanto pedras, para não falar em pelo menos uma gruta que expelia rajadas de ar nojento, cheirando a matéria em decomposição. Quem sabia que monstros e almas-do-diabo se escondiam em sua negra goela?

E os piores buracos não ficavam onde um homem (ou uma mula) pudesse vê-los. Não, senhor, nem pensar. Os quebra-canelas estavam sempre ocultos entre touceiras de ervas daninhas e mato alto. A mula pisava, ouvia-se um estalido seco como um galho se partindo, e aí a maldita coisa jazia no chão, dentes à mostra, revirando os olhos, zurrando em agonia para o céu. Até a gente acabar com a miséria dele, quer dizer, e o gado era valioso em Calla Bryn Sturgis, mesmo o gado não exatamente amarrado.

Tian, portanto, plantava com a irmã colada em suas pegadas. Não havia motivo para não fazê-lo. Tia era roont, logo para pouco mais servia. Era uma mocetona — os roonts em geral atingiam dimensões prodigiosas — e disposta. Ô Homem Jesus a amava. O Velho fizera-lhe uma árvore de Jesus, que chamava de crusie-fix, e ela usava-o aonde quer que fosse. A coisa balançava de um lado para outro, batendo na pele suada enquanto ela puxava.

O arado era amarrado aos ombros dela por um arreio de couro cru. Atrás, guiando o arado pelos cabos de pau-ferro e a irmã pelas rédeas, Tian grunhia e puxava quando a lâmina afundava e ameaçava atolar-se. Era o fim da Terra Plena, mas quente como o verão ali no Filho-da-Puta; Tia tinha o macacão escuro, molhado e grudado nas coxas longas e carnudas. Toda vez que Tian jogava a cabeça para tirar os cabelos dos olhos o suor voava da cabeleira num chuveiro.

— Cuidado, sua cadela! — gritava. — Essas pedras quebram a lâmina, você está cega?

Cega, não; nem surda; só roont. Ela puxava para a esquerda, com força. Atrás, Tian tropeçava para a frente com uma torção do pescoço e ladrava sua perna contra outra pedra, que não vira e o arado, por milagre, evitara. Ao sentir as primeiras gotas de sangue escorrerem pelos tornozelos, imaginava (e não pela primeira vez) que loucura trouxera os Jaffords até ali. No mais fundo do coração, tinha a idéia de que o madrigal não daria mais que o porim antes, embora se pudesse cultivar a erva-do-diabo; sim, poderia ter cultivado todos os oito hectares com aquela merda, se quisesse. O segredo era mantê-la longe, sempre a primeira tarefa na Terra Plena.

— Arr! — gritou. — Devagar, menina! Eu não posso plantar de novo se você desenterrar, posso?

Tia voltou a cara larga, suada e vazia para o céu cheio de nuvens baixas e zurrou uma gargalhada. O Homem Jesus, mas ela até soava como uma jumenta. Mas era risada, risada humana. Tian se perguntava, como às vezes não podia deixar de fazer, se aquela risada significava alguma coisa. Ela entendia algo do que ele dizia ou apenas respondia ao tom da sua voz? Será que algum dos roonts...

— Bom-dia, sai — disse uma voz alta e quase sem tom atrás dele. O dono da voz ignorou o grito de surpresa de Tian. — Belos dias, e que durem sobre a terra. Eu vim aqui de uma boa passeada para me pôr à disposição de vocês.

Tian girou e viu Andy ali parado — em todos os seus 2,10m — e quase caiu de cara no chão quando a irmã deu outro de seus arrancos para a frente. As rédeas do arado foram arrancadas de suas mãos e voaram em torno do pescoço com um estalo audível. Tia, ignorando esse desastre potencial, deu outro passo à frente. Ao fazê-lo, cortou o fôlego do irmão. Ele lançou um arquejo tossido, engasgado, e mordeu as correias. Andy a tudo isso assistiu com seu sorriso largo e sem sentido de sempre.

Tia tornou a arrancar e Tian foi erguido do chão. Caiu em cima de uma pedra que se enterrou violentamente no rego de suas nádegas, mas pelo menos pôde voltar a respirar. Por enquanto, pelo menos. Maldito campo infeliz! Sempre fora assim! Sempre seria!

Tian tornou a agarrar a correia de couro, antes que ela se apertasse de novo em seu pescoço, e berrou:

— Agüenta aí, sua cadela! Ôoa, se não quer que eu torça esses peitões inúteis da sua frente!

Tia parou de muito boa vontade e olhou para trás para ver o que era. Alargou o sorriso. Ergueu o braço musculoso — reluzente de suor — e apontou.

— Andy! — disse. — Andy veio!

— Eu não sou cego — disse Tian, levantando-se e esfregando os fundilhos. Estaria sangrando também aquela parte dele? Ó bom Homem Jesus, achava que sim.

— Bom-dia, sai — disse Andy a ela, e bateu três vezes na garganta metálica com os três dedos de metal. — Longos dias e belas noites.

Embora Tia houvesse sem dúvida ouvido a resposta padrão a isso — E que você tenha isso em dobro — mil vezes ou mais, pôde apenas erguer a cara idiota e zurrar sua risada de jumento. Tian sentiu um surpreendente momento de dor, não nos braços, na garganta ou no ofendido traseiro, mas no coração. Lembrou-se vagamente dela quando menina: bonitinha e esperta como um vaga-lume, tão inteligente quanto se poderia desejar. Depois...

Mas antes que pudesse terminar o pensamento, veio-lhe uma premonição. Sentiu o coração afundar. A notícia ia chegar enquanto ele estava ali fora, pensou. Ali naquele trato esquecido por Deus onde nada é bom e toda sorte é má. Era hora, não era? Passava da hora.

— Andy — disse.

— Sim! — disse Andy, sorrindo. — Andy, seu amigo! De volta de um ótimo passeio e às suas ordens. Gostaria do seu horóscopo, sai Tian? É a Terra Cheia. A lua está vermelha, o que se chamava de Lua da Caçadora no Mundo Médio, quer dizer. Vai chegar um amigo. Os negócios vão prosperar! Você terá duas idéias, uma boa e outra ruim...

— A ruim foi vir aqui arar este campo — disse Tian. — Esqueça meu maldito horóscopo, Andy. Por que está aqui?

Andy sorriu, na certa porque não se perturbava — era um robô afinal, o último em Calla Bryn Sturgis por quilômetros e quilômetros em volta —, mas a Tian ele pareceu perturbar-se mesmo assim. O robô parecia uma figura de adulto desenhada com traços, incrivelmente alto e magro. Pernas e braços prateados. A cabeça era um barril de aço inoxidável com olhos elétricos. O corpo, que não passava de um cilindro, era de ouro. Gravada no meio — no que seria o peito de um homem —, sua legenda:

 
   

 

NORTH CENTRAL POSITRONICS, LTDA.

EM ASSOCIAÇÃO COM

INDÚSTRIAS LaMERK

APRESENTA

 

ANDY

 

Design: MENSAGEIRO (Várias Outras Funções)

Serial # DNF-44821-V-63

 

Por que ou como sobrevivera aquela coisa tola, quando todo o resto dos robôs desaparecera — havia gerações —, Tian nem sabia nem ligava. Podia-se vê-lo em Calla (não se aventurava além de suas fronteiras) andando sobre as pernas prateadas incrivelmente finas, olhando para toda parte, de vez em quando dando estalidos para si mesmo quando armazenava (ou talvez expurgava — quem sabia?) informação. Cantava cantigas, passava adiante fuxicos e boatos de uma ponta a outra da aldeia — o Robô Mensageiro era um andarilho incansável — e parecia gostar de distribuir horóscopos sobre tudo, embora na localidade se concordasse que faziam pouco sentido.

Mas tinha uma função, e isso significava muito.

— Por que veio aqui, seu saco de pregos e raios? Me responda! São os Lobos? Eles estão vindo do Trovão?

Tian ficou ali parado, olhando de baixo a estúpida face metálica sorridente de Andy, o suor esfriando na pele, rezando com toda a força para que a coisa idiota dissesse não e oferecesse seu horóscopo de novo, ou talvez cantasse “The Green Corn A-Dayo”, todos os vinte ou trinta versos.

Mas tudo que Andy disse, ainda a sorrir, foi:

— Sim, sai.

— Cristo e o Homem Jesus — disse Tian (obtivera do Velho a idéia de que os dois nomes se referiam à mesma coisa, mas jamais se dera ao trabalho de perguntar). — Quanto tempo?

— Uma lua de dias antes que eles cheguem — respondeu Andy, ainda a sorrir.

— De cheia a cheia?

— Por aí assim, sai.

Trinta dias, então, mais ou menos. Trinta dias até os Lobos. E não havia sentido em esperar que Andy estivesse errado. Ninguém sabia como o robô podia saber que eles estavam vindo do Trovão com tanta antecedência, mas ele sabia. E jamais se enganava.

— À porra com sua má notícia! — gritou Tian furioso com o tremor que ouviu na própria voz. — Pra que serve você?

— Sinto muito que a notícia seja ruim — disse Andy. Suas entranhas estalaram audivelmente, os olhos faiscaram um azul mais forte, e ele deu um passo à frente. — Não gostaria que eu lhe dissesse o seu horóscopo? É o fim da Terra Plena, um momento particularmente propício para concluir um negócio e conhecer novas pessoas.

— E à porra com sua falsa profecia também!

Tian abaixou-se, pegou um torrão de terra e atirou-o no robô. Uma pedra enterrada no torrão ressoou no couro metálico de Andy. Tia arque-jou e se pôs a chorar. Andy recuou um passo, a sombra arrastando-se no campo do Filho-da-Puta. Mas o sorriso detestável e idiota continuou.

— Que tal uma cantiga? Eu aprendi uma engraçada com os mannis do norte da aldeia: se chama “Em Época de Perda, que Deus Seja seu Patrão”. — Em algum ponto no fundo das entranhas de Andy veio o trêmulo apito de um cano, seguido por uma onda de teclas de piano. — É assim...

O suor rolando pela face e grudando os colhões a coçar nas coxas. O fedor de sua própria obsessão. Tia com a cara idiota voltada para o céu. E aquele robô idiota portador de más notícias preparando-se para cantar alguma espécie de hino dos mannis.

— Cale a boca, Andy. — Falou bastante calmo, mas por entre dentes cerrados.

— Sai — concordou o robô, e caiu em misericordioso silêncio.

Tian foi até a irmã que berrava, abraçou-a e sentiu o forte (mas não desagradável) cheiro dela. Não havia nenhuma obsessão nisso, apenas o cheiro do trabalho e obediência. Deu um suspiro e começou a alisar o trêmulo braço da moça.

— Deixe disso, sua babaca chorona — disse.

As palavras podem ter sido feias, mas o tom era bondoso ao extremo, e foi ao tom que ela reagiu. Começou a calar-se. O irmão ficou com a chama do quadril dela pulsando logo abaixo de sua caixa torácica (Tia tinha quase um palmo a mais que ele), e é provável que qualquer estranho que parasse para olhá-los ficasse espantado com a semelhança dos rostos e a grande dessemelhança dos tamanhos. A semelhança pelo menos se justificava: os dois eram gêmeos.

Ele consolou a irmã com uma mistura de carinhos e xingamentos — nos anos desde que ela voltara roont do leste os dois modos de expressão eram a mesma coisa para Tian Jaffords —, e finalmente ela parou de chorar. E quando um pardal cruzou o céu voando, fazendo volteios e emitindo a habitual série de piados, ela apontou-o e riu.

Surgia em Tian uma sensação tão estranha à sua natureza que ele nem a reconhecia.

— Não está direito — disse. — Não, senhor. Pelo Homem Jesus e todos os deuses que existem, não está, não. — Olhou para o leste, onde as colinas ondulavam para longe numa crescente e membranosa escuridão que podiam ser nuvens, mas não eram. Eram as bordas do Trovão. — Não está direito fazerem isso com a gente.

— Tem certeza de que não gostaria de ouvir seu horóscopo, sai? Eu vejo reluzentes moedas e uma bela dama morena.

— As damas morenas vão ter de passar sem mim — disse Tian, e pôs-se a tirar o arreio dos largos ombros da irmã. — Eu sou casado, como você sabe muito bem.

— Muitos homens casados dão os seus pulinhos — observou Andy. A Tian, pareceu quase presunçoso.

— Não os que amam as esposas. — Tian pôs o arreio nos ombros (ele próprio o fizera, pois havia uma acentuada escassez de tachas para seres humanos na maioria dos celeiros de ferramentas) e voltou-se para a casa. — E não os camponeses, de qualquer modo. Me mostre um fazendeiro que pode dar pulinhos que eu beijo seu rabo brilhante. Vamos, Tia. Tire-os e os coloque no chão.

— Pra casa?

— Isto mesmo.

— Almoçar em casa? — Ela olhava-o com uma expressão confusa e esperançosa. — Batatas? — Uma pausa. — Molho de carne?

— Claro — disse Tian. — Por que não, diabos?

Tia deu um salto e pôs-se a correr para a casa. Havia alguma coisa quase assustadora nela quando corria. Como observara um dia o pai, não muito antes da queda que o levara para sempre: “Clara ou escura, aí está um monte de carne em movimento.”

Tian saiu andando devagar atrás dela, cabisbaixo, atento aos buracos que a irmã parecia evitar sem sequer olhar, como se uma parte profunda dela houvesse mapeado o local de cada um. A estranha sensação nova continuava a crescer e crescer. Ele conhecia a raiva — qualquer camponês que perdera vacas para a doença do leite ou visse uma tempestade de granizo abater seu milho a conhecia bem —, mas aquilo era mais fundo. Era fúria, uma coisa nova. Andava devagar, cabisbaixo, punhos cerrados. Não teve consciência de que Andy vinha atrás até o robô dizer:

— Tem outra notícia, sai. No noroeste da aldeia, no Caminho do Feixe de Luz, estranhos do Mundo Exterior...

— Foda-se o Feixe de Luz, fodam-se os estranhos e foda-se você também — disse Tian. — Me deixe em paz, Andy.

Andy ficou ali parado por um instante, cercado pelas pedras, matos e montículos inúteis do Filho-da-Puta, o ingrato trato de terra dos Jaffords. Dentro dele estalaram relés. Os olhos faiscaram. E ele decidiu ir conversar com o Velho. O Velho jamais o mandava se foder. O Velho sempre estava disposto a ouvir seu horóscopo.

E sempre estava interessado em estranhos.

Andy partiu para a aldeia e Nossa Senhora da Serenidade.

 

Zalia Jaffords não viu o marido e a cunhada voltando do Filho-da-Puta; não ouviu Tia mergulhar a cabeça repetidas vezes no barril de água de chuva do lado de fora do celeiro e soprar a umidade dos lábios como um cavalo. Zalia estava no lado sul da casa, pendurando a roupa e de olho nas crianças. Só soube que Tian voltara ao vê-lo olhando-a pela janela da cozinha. Ficou muito mais surpresa por vê-lo ali do que pela sua aparência. Tinha o rosto de uma palidez cinza, a não ser pelos dois borrões de cor no alto das bochechas e um terceiro brilho no centro da testa parecendo uma marca a fogo.

Ela largou os poucos pregadores que ainda trazia presos na roupa da cesta e encaminhou-se para a casa.

— Aonde vai, mamãe? — gritou Heddon.

— Aonde vai, mamãe? — ecoou Hedda.

— Esqueçam — disse ela. — Só fiquem de olho nos ka-bebês.

— Puur-quê? — choramingou Hedda.

Fizera desse choramingo uma ciência. Um dia desses ia esticá-lo um pouco demais e a mãe lhe daria uma porrada na cabeça.

— Porque vocês são os mais velhos — ela disse.

— Mas...

— Cale a boca, Hedda Jaffords.

— A gente toma conta deles, mãe — disse Heddon. Seu Heddon era sempre simpático; na certa não tão inteligente quanto a irmã, mas inteligência não era tudo. Longe disso. — Quer que a gente termine de pendurar a roupa?

— Hed-don... — disse a irmã.

O irritante choramingo de novo. Mas Zalia não tinha tempo para eles. Apenas lançou um olhar aos outros; Lyman e Lia, que tinham cinco anos, e Aaron, dois. Aaron sentava-se nu no chão, batendo feliz duas pedras uma na outra. Era um raro não gêmeo, e como as mulheres da aldeia a invejavam por isso! Porque Aaron sempre estaria seguro. Os outros, porém, Heddon e Hedda... Lyman e Lia...

De repente compreendeu o que podia significar, ele de volta à casa no meio do dia daquele jeito. Rezou aos deuses para estar errada, mas quando chegou à cozinha e viu a maneira como ele olhava para as crianças, teve quase certeza.

— Diga que não são os Lobos — pediu numa voz seca e frenética. — Diga que não são.

— São — respondeu Tian. — Trinta dias... Andy disse: de lua a lua. E nisso Andy nunca...

Antes que prosseguisse, Zalia Jaffords levou as palmas das mãos às têmporas e deu um grito. No pátio ao lado, Hedda deu um salto. Mais um instante e estaria correndo para a casa, mas Heddon a conteve.

— Eles não vão levar ninguém jovem como Lyman e Lia, vão? — perguntou Zalia. — Hedda ou Heddon, talvez, mas certamente não os pequenos. Ora, eles só farão seis anos dentro de meio ano!

— Os Lobos têm levado crianças até de três anos, e você sabe disso — falou Tian.

Abria e fechava as mãos, abria e fechava. A sensação dentro dele continuava a crescer — a sensação mais profunda que a simples raiva. Ela olhou-o, as lágrimas escorrendo pela face.

— Talvez seja hora de dizer não — disse Tian numa voz que mal reconhecia como sua.

— Como podemos nós? — sussurrou ela. — Como, em nome de Deus, podemos nós?

— Não sei — disse ele. — Mas venha cá, mulher, estou pedindo. Ela foi, lançando uma última olhada aos cinco filhos lá atrás no quintal — como para assegurar-se de que ainda estavam todos lá, que nenhum Lobo os levara ainda —, e depois atravessou a sala de visitas. O grand-père sentava-se em sua poltrona do canto ao lado da lareira, cabeça baixa, cochilando e sibilando pela boca murcha desdentada.

Daquela sala, via-se o celeiro. Tian puxou a esposa até a janela e apontou:

— Ali — disse. — Está vendo, mulher? Está vendo bem?

Claro que ela via. A irmã de Tian, com quase 2m de altura, estava de pé com as alças do macacão abaixadas e os peitões reluzindo com água do barril de chuva com que os borrifava. Parado na porta do celeiro via-se Zalman, irmão da própria Zalia. Quase 2,20m, do tamanho de lorde Perth, alto como Andy, e com uma cara tão vazia quanto a da moça. Um parrudo rapaz olhando uma parruda moça com os peitos de fora daquele jeito bem podia estar exibindo um volume nas calças, mas nenhum havia nas de Zally. Nem haveria jamais. Era um roont.

Ela se voltou para Tian. Os dois se olharam, um homem e uma mulher não roonts, mas apenas por azar. Até onde sabiam, bem podiam ser Zalman e Tia ali parados olhando Tian e Zalia junto ao celeiro, maiores no corpo e vazios na cabeça.

— Claro que estou vendo — disse ela. — Você acha que eu sou cega?

— Isso não faz você às vezes desejar ser? — perguntou ele. — Vê-los assim?

Zalia não respondeu.

— Não está direito, mulher. Não está direito. Nunca esteve.

— Mas desde tempos imemoriais...

— Fodam-se os tempos imemoriais também! — gritou Tian. — São crianças! Nossas crianças!

— Quer que os Lobos incendeiem Calla até o chão, então? Que nos deixem de garganta cortada, os olhos fritos na cara? Foi o que aconteceu antes. Você sabe que foi.

Ele sabia, claro. Mas quem daria um jeito, senão os homens de Calla Bryn Sturgis? Certamente não havia autoridade, nem mesmo um xerife, alta ou baixa, naquelas paragens. Estavam por conta própria. Mesmo muito tempo atrás, quando os Baronatos Interiores fulgiam com luz e ordem, eles teriam visto pouquíssimos sinais daquela vida brilhante lá fora. Aquelas eram as terras de fronteira, e a vida ali sempre fora estranha. Então os Lobos haviam começado a aparecer, e a vida tornara-se muito mais estranha. Havia quanto tempo começara aquilo? Quantas gerações? Tian não sabia, mas achava “tempos imemoriais” tempo demais. Os Lobos já saqueavam as aldeias de fronteira quando o grand-père era jovem, sem dúvida — o próprio irmão gêmeo do grand-père fora levado quando os dois estavam sentados no chão, brincando.

— Eles levaro ele purquê ele tava mais perto da istrada — dissera-lhes muitas vezes o grand-père. — Se eu saio de casa primêro que ele, ficava mais perto da istrada e eles levava eu, Deus é bom!

Então beijava o crucifixo de madeira que o Velho lhe dera, olhava para o céu e cacarejava.

Mas o próprio avô de seu avô lhe dissera que em seu dia — o que haveria sido cinco ou talvez seis gerações atrás, se os cálculos de Tian estavam certos — os Lobos atacavam do Trovão em seus cavalos cinzentos. Certa vez perguntara ao Velho: E quase todos os bebês eram gêmeos naquele tempo? Algum dos velhos algum dia disse isso? O grand-père pensara um pouco e balançara a cabeça. Não lembrava o que os anciães diziam a respeito, sim ou não.

Zalia olhava-o ansiosa.

— Você não está em estado de pensar nessas coisas, eu aposto, depois de passar a manhã no terreno pedregoso.

— Meu estado de espírito não vai mudar a hora da chegada nem quem irão levar — disse Tian.

— Você não vai fazer nenhuma tolice, Ti, vai? Nenhuma tolice, e ainda por cima sozinho.

— Não — disse ele.

Sem hesitação. Já começara a fazer planos, ela pensou, e permitiu-se um tênue brilho de esperança. Certamente ele não podia fazer nada contra os Lobos — nenhum deles podia —, mas Tian estava longe de ser idiota. Numa aldeia camponesa onde homem nenhum pensava além de plantar a próxima leira (plantar os cadáveres nas noites de sábado), ele era uma meia anomalia. Sabia escrever o próprio nome; sabia escrever palavras que diziam EU TE AMO, ZALLIE (e a conquistara com elas, mesmo ela não sabendo lê-las ali no chão); sabia somar os números e também contá-los dos pequenos para os grandes, que dizia ser ainda mais difícil. Seria possível...?

Parte dela não queria concluir o pensamento. E assim, quando voltou o coração e a mente de mãe para Hedda e Heddon, Lia e Lyman, parte dela quis ter esperança.

— E aí?

— Vou convocar uma Assembléia da Cidade. Vou mandar a pena.

— Eles virão?

— Quando souberem da notícia, cada homem de Calla vai aparecer. Discutiremos a questão. Talvez desta vez eles queiram lutar. Talvez queiram lutar por seus bebês.

Atrás deles, uma velha voz rachada disse:

— Seu idiota assassino.

Tian e Zalia voltaram-se, de mãos dadas, para olhar o velho. Assassino era uma palavra forte, mas Tian achou que o velho os olhava — olhava para ele — com um ar bastante bondoso.

— Por que diz isso, grand-père? — ele perguntou.

— Os home sai dessa asembréia qui tu pensa e vai queimar metade dos campo, se são bebum — disse o velho. — Home sóbrio... — Balançou a cabeça. — Tu nunca qui vai incontrá um.

— Acho que desta vez você talvez esteja errado, grand-père — disse Tian, e Zalia sentiu um gélido terror apertar seu coração. E o que enterrava nele, quente, era aquela esperança.

 

Teria havido menos resmungos se ele lhes desse pelo menos um aviso de uma noite, mas Tian não faria isso. Eles não podiam se dar ao luxo nem de uma noite de repouso. E quando mandou Heddon e Hedda com a pena, eles vieram. Tian sabia que viriam.

O Salão da Assembléia de Calla ficava no fim da rua Alta da aldeia, além do Armazém Geral de Took e na esquina do Pavilhão, agora empoeirado e escuro com o fim do verão. Logo as senhoras da aldeia começariam a decorá-lo para a Colheita, mas nunca se fazia uma longa Noite da Colheita em Calla. As crianças sempre adoravam ver os homens de palha jogados na fogueira, claro, e os mais ousados roubavam seu quinhão de beijos ao se aproximar a noite, mas só isso. Os enfeites e festivais podiam servir para o Mundo Médio e o Mundo Interior, mas ali não era nenhum dos dois. Ali tinham coisas mais sérias com que se preocupar que Festivais do Dia da Colheita.

Coisas como os Lobos.

Alguns dos homens — dos ricos fazendeiros do oeste às três fazendas de gado do sul — vieram a cavalo. Eisenhart da Rocking B chegou a trazer o rifle e bandoleiras cruzadas no peito. (Tian Jaffords duvidava que as balas servissem para alguma coisa, ou que o velho rifle disparasse, mesmo que alguma delas servisse.) Uma delegação dos mannis veio amontoada numa carroça puxada por uma parelha de mutantes castrados — um com três olhos, o outro com uma coluna de carne rósea brotando das costas. A maioria dos homens de Calla veio em jumentos e burros, metidos em calças brancas e longas camisas coloridas. Tiravam os empoeirados sombreiros pelos cordões ao entrarem no Salão da Assembléia, olhando-se nervosos uns aos outros. Bancos de pinho simples. Sem mulheres e nenhum dos roonts, encheram menos de trinta dos noventa bancos. Conversava-se um pouco, mas ninguém ria.

Tian postou-se de pé na frente com a pena na mão, olhando o sol descer para os lados do horizonte, o ouro aprofundando-se firme para uma cor que parecia sangue infectado. Quando tocou a terra, Tian lançou mais uma olhada à rua Alta. Estava vazia, a não ser por três ou quatro roonts sentados nos degraus do Took’s. Todos enormes e inúteis, exceto para levantar pedras do chão. Não viu mais homens nem mais jumentos chegando. Inspirou fundo, soltou o ar, tornou a inspirar e ergueu o olhar para o céu que escurecia.

— Homem Jesus, eu não acredito em ti — disse. — Mas se está aí, me ajude agora. Agradeça a Deus.

Entrou e fechou as portas do Salão da Assembléia com um pouco mais de força do que haveria sido necessário. A conversa cessou. Cento e quarenta homens, a maioria de fazendeiros, viram-no andar até a frente da sala, as largas pernas da calça branca drapejando, as botas rangendo no piso de pau-ferro. Esperava estar aterrorizado àquela altura, talvez até sem fala. Era um camponês, não um ator de palco nem um político. Então se lembrou dos filhos, e quando ergueu o olhar para os homens, viu que não tinha dificuldade para encará-los. A pena em sua mão não tremeu. Quando falou, as palavras seguiam-se facilmente umas às outras, com naturalidade e coerência. Talvez não fossem o que ele esperava — talvez o grand-père tivesse razão sobre isso —, mas eles pareciam bastante dispostos a escutar.

— Vocês todos sabem quem eu sou — disse ali parado, com as mãos entrelaçadas em torno do cabo da antiquada pena avermelhada. — Tian Jaffords, filho de Luke, marido de Zalia Hoonik, quer dizer. Ela e eu temos cinco filhos, dois pares e um não gêmeo.

Ouviram-se baixos murmúrios, com muita probabilidade devido à sorte de Tian e Zalia terem o seu Aaron. Ele esperou que as vozes cessassem.

— Eu vivi em Calla toda a minha vida. Partilhei do khef de vocês como vocês partilharam do meu. Agora peço que escutem o que tenho a dizer.

— Nós agradecemos, sai — murmuraram eles. Pouco menos que uma resposta padrão, mas Tian se sentiu encorajado.

— Os Lobos estão chegando — disse. — Eu soube disso por Andy. Trinta dias de lua a lua e eles estarão aqui.

Mais murmúrios em voz baixa. Tian ouviu consternação e revolta, mas não surpresa. Quando se tratava de espalhar notícias, Andy era muitíssimo eficiente.

— Mesmo aqueles entre nós que sabem ler e escrever um pouco quase não têm papel para escrever — disse Tian —, por isso eu não posso lhes dizer com nenhum grau de certeza quando vieram a última vez. Não há registros conhecidos, só o boca a boca. Eu sei que estava bem crescido... Faz mais de vinte anos...

— Vinte e quatro — disse uma voz no fundo da sala.

— Não, 23 — corrigiu outra mais à frente. Reuben Caverra levantou-se. Era um homem gordo, de alegre cara redonda. A alegria desaparecera agora, porém, e via-se apenas angústia. — Levaram Ruth, minha mana, peço que me escutem.

Um murmúrio — na verdade não mais que um vocalizado suspiro de concordância — veio dos homens amontoados nos bancos. Podiam ter-se espalhado, mas preferiram ficar ombro a ombro. Às vezes havia conforto no desconforto, calculou Tian.

Reuben disse:

— A gente estava brincando debaixo do grande pinheiro no pátio da frente quando eles chegaram. Eu fiz uma marca naquela árvore cada ano depois. Mesmo depois que eles trouxeram ela de volta, continuei marcando. São 23 marcas e 23 anos. — E com isso, sentou-se.

— Vinte e três ou 24, não faz diferença — disse Tian. — Aqueles que eram crianças quando os Lobos vieram da última vez estão adultos agora e tiveram filhos eles próprios. Há uma bela colheita aqui para aqueles bastardos. Uma bela colheita de crianças. — Fez uma pausa, dando-lhes uma chance de pensar na idéia seguinte por si mesmos antes de dizê-la em voz alta. — Se deixarmos que isso aconteça — falou por fim. — Se nós deixarmos os Lobos levarem nossos filhos para o Trovão, para depois devolvê-los como roonts.

— Que mais diabos a gente pode fazer? — gritou um homem sentado num dos bancos do meio. — Eles não são humanos!

A isso, ouviu-se um murmúrio geral (e infeliz) de concordância.

Um dos mannis se levantou, ajeitando a capa azul-escura nos ombros. Olhou os outros em volta com olhos melancólicos. Não eram loucos aqueles olhos, mas a Tian ele parecia muito longe de racional.

— Eu peço que me escutem — disse o homem.

— Nós agradecemos, sai. — Respeitoso, mas reservado. Ver um manni na aldeia era uma coisa rara, e ali havia oito, todos num bando. Tian alegrara-se com a vinda deles. Quando nada, o aparecimento dos mannis acentuava a mortal seriedade da questão.

— Escutem o que o Livro dos mannis diz: Quando o Anjo da Morte passou por Ayjip, matou o primogênito de cada casa onde não se espalhara o sangue de um cordeiro sacrificial nos umbrais. Assim diz o Livro.

— Louvado seja o Livro — disseram os outros mannis.

— Talvez devêssemos fazer a mesma coisa — prosseguiu o porta-voz deles. Tinha a voz calma, mas uma veia pulsava loucamente em sua testa. — Talvez devamos transformar os próximos trinta dias numa festa de alegria pelos pequenos, e depois botá-los para dormir, e deitar seu sangue sobre a terra. Que os Lobos levem os cadáveres para o leste, se quiserem.

— Você é louco — disse Benito Cash, indignado e ao mesmo tempo quase rindo. — Você e toda a sua gente. Nós não vamos matar nossos bebês.

— Não seria melhor que os que voltam estivessem mortos? — perguntou o manni. — Grandes cascas inúteis. Favas debulhadas.

— Ié, e os irmãos e irmãs deles? — perguntou Vaughn Eisenhart. — Pois os Lobos só levam um de cada dois, como você bem sabe.

Levantou-se um segundo manni, este com uma sedosa barba branca batendo no peito. O primeiro se sentou. O velho Henchick olhou os outros em volta, depois para Tian.

— Você está com a pena, meu jovem. Eu posso falar?

Tian fez-lhe sinal que fosse em frente. Não era, de modo algum, um mau começo. Que examinassem inteiramente o caixão onde estavam metidos, examinassem até os cantos. Confiava em que veriam que no fim não havia alternativa: que os Lobos levassem um em cada dois abaixo da idade da puberdade como sempre fizeram, ou que eles se levantassem e lutassem. Mas para ver isso precisavam entender que todas as outras opções eram becos sem saída.

O velho falou pacientemente. Até com pesar.

— Essa é uma idéia terrível, é, sim. Mas pensem nisso, sais: se os Lobos chegassem e nos encontrassem sem filhos, podiam nos deixar em paz para todo o sempre.

— Ié, podiam, sim — roncou um dos pequenos fazendeiros, que se chamava Jorge Estrada. — E talvez não. Manni-sai, você mataria de fato todas as crianças de uma aldeia pelo que pode ser?

Um forte rumor de concordância percorreu a multidão. Outro pequeno fazendeiro, Garrett Strong, levantou-se. Tinha uma cara de cachorro truculenta. Enfiara os polegares no cinto.

— É melhor nós matarmos todos — disse. — Bebês e adultos igualmente.

O manni não pareceu revoltado com isso. Nem qualquer dos outros de capas azuis à sua volta.

— É uma opção — disse o velho. — Nós discutiríamos isso se outros quisessem. — Sentou-se.

— Eu, não — disse Garrett. — Seria como cortar a porra da cabeça para poupar o barbear, peço que me escutem.

Houve risadas e gritos de Bem falado. Garrett tornou a sentar-se, parecendo um pouco menos tenso, e pôs o chapéu ao lado do de Vaughn Eisenhart. Um dos outros fazendeiros, Diego Adams, escutava, os negros olhos atentos.

Ergueu-se outro pequeno fazendeiro — Bucky Javier. Tinha olhos azuis intensos, numa pequena cabeça que parecia pender para trás do queixo com uma barbicha.

— E se fôssemos embora por algum tempo? — perguntou. — Se levássemos nossos filhos e voltássemos para o oeste. Até o braço oeste do Grande Rio, talvez?

Houve um momento de pensativo silêncio diante dessa ousada idéia. O braço oeste do Whye ficava quase no Mundo Médio... onde, segundo Andy, surgira recentemente e desaparecera mais recentemente ainda um grande palácio de vidro verde. Tian já ia responder quando Eben Took, o dono do armazém, o fez por ele. Tian sentiu um alívio. Esperava falar o mínimo possível. Quando acabassem de discutir, lhes diria o que restava.

— Vocês estão loucos? — perguntou Eben. — Os Lobos vêm, vêem que partimos e queimam tudo até o chão: fazendas e ranchos, safras e depósitos, raiz e galho. Para que voltaríamos nós?

— E se eles forem atrás de nós? — interveio Jorge Estrada. — Você acha que seria difícil nos seguir para tipos como os Lobos? Eles tocariam fogo na aldeia, como diz Took, nos seguiriam e levariam as crianças do mesmo jeito.

Mais ruidosa concordância. Batidas de botas nas tábuas de pinho do assoalho. E alguns gritos de Escutem ele, escutem ele!

— Além disso — disse Neil Faraday, levantando-se e segurando o enorme e imundo sombreiro na frente —, eles nunca roubam todas as nossas crianças.

Falou num tom assustado de “sejam razoáveis” que deixou Tian irritado. Era a opinião que temia acima de todas as outras. O apelo à razão de uma falsidade mortal.

Um dos mannis, este mais jovem e sem barba, deu uma risada alta de desdém.

— Ah, uma salva em cada duas. E isso torna tudo certo, torna? Deus o abençoe!

Podia ter falado mais, mas Henchick baixou a mão torta sobre o braço do rapaz, que não disse mais nada, embora tampouco baixasse a cabeça submisso. Tinha os olhos ardentes, os lábios uma fina linha branca.

— Não digo que isso esteja certo — disse Neil. Começara a girar o sombreiro de uma maneira que deixava Tian meio tonto. — Mas temos de enfrentar os fatos, não temos? Ié. Eles não levam todos. Ora, minha filha, Georgina, é tão capaz e esperta...

— É, sim, e seu filho George é um desastrado de cabeça oca — disse Ben Slightman. Era o capataz de Eisenhart, e não tinha muita paciência com idiotas. Tirou os óculos, limpou-os com um lenço e tornou a pô-los. — Eu o vejo sentado nos degraus do Took’s quando passo a cavalo pela rua. Vejo muito bem. Ele e alguns outros igualmente cabeças ocas.

— Mas...

— Eu sei — disse Slightman. — É uma decisão difícil. Talvez seja melhor algumas cabeças ocas do que todos mortos. — Fez uma pausa. — Ou todos levados em vez de apenas metade.

Gritos de Escutem ele e Nós agradecemos quando Ben Slightman se sentou.

— Eles sempre nos deixam alguns para prosseguirmos, não deixam? — perguntou um pequeno fazendeiro cuja casa ficava logo a oeste da de Tian perto da fronteira de Calla. Chamava-se Louis Haycox, e falou num tom de voz pensativo e amargo. Por baixo do bigode, os lábios curvavam-se num sorriso que não tinha muito humor. — Nós não vamos matar nossos filhos — disse, olhando para os mannis. — E a bênção de Deus para vocês, cavalheiros, mas eu não acredito que mesmo vocês pudessem fazer isso, chegar até o matadouro. Ou não todos. Não podemos pegar mala e cuia e ir para o oeste... ou para outro lado... porque deixamos as fazendas atrás. Eles incendeiam tudo, claro, e vêm atrás das crianças do mesmo jeito. Precisam delas, sabe Deus por quê.

“Sempre retornamos à mesma coisa: somos fazendeiros, a maioria. Fortes quando pomos a mão no solo, fracos quando não. Eu tenho dois guris, de quatro anos, e os amo muito. Odiaria perder qualquer um dos dois. Mas daria um para ficar com o outro. E minha fazenda. — Murmúrios de concordância. — Que outra escolha temos nós? Eu digo o seguinte: seria o pior erro do mundo enfurecer os Lobos. A não ser, claro, que possamos resistir a eles. Se fosse possível, eu resistiria. Mas não vejo como.”

Tian sentiu o coração murchar a cada palavra de Haycox. Quanto de sua indignação o homem roubara? Deuses e o Homem Jesus!

Wayne Overholser levantou-se. Era o mais bem-sucedido fazendeiro de Calla Bryn Sturgis, e tinha uma vasta pança inclinada para provar isso.

— Peço que me escutem.

— Nós agradecemos, sai — murmuraram os outros.

— Eu vou contar a vocês o que vou fazer — disse ele, olhando em volta. — O que nós sempre fizemos, é isso. Algum de vocês quer falar em resistir aos Lobos? Será algum de vocês tão louco assim? Com o quê? Lanças e pedras, alguns arcos e bahs? Talvez quatro velhos calibres como aquele ali? — Apontou o dedo para o rifle de Eisenhart.

— Não faça gozação com meu pau-de-fogo, filho — disse Eisenhart, mas com um sorriso triste.

— Eles vão vir e levar as crianças — disse Overholser, olhando em volta. — Algumas. Depois vão nos deixar em paz durante uma geração ou mais tempo. Assim é, assim tem sido, e minha opinião é que deixem pra lá. — Elevaram-se rumores de desaprovação, mas ele esperou que cessassem. — Vinte e três ou 24 anos, não importa — continuou, quando todos se calaram de novo. — De qualquer modo é um longo tempo. Um longo tempo de paz. Será que vocês esqueceram umas coisas, gente? Uma é que as crianças são uma safra como outra qualquer. Deus sempre manda mais. Eu sei que isso parece duro. Mas é como temos vivido e como temos de continuar.

Tian não esperou por nenhuma das respostas padrão. Se fossem mais adiante por esse caminho, qualquer chance que ele pudesse ter de dissuadi-los estaria perdida. Ergueu a pena de opópanax e disse:

— Escutem o que eu digo! Querem ouvir, eu peço?

— Nós agradecemos, sai — responderam eles. Overholser olhava-o desconfiado.

E você tem razão de me olhar desse jeito, pensou Tian. Pois eu estou farto desse bom senso covarde, estou mesmo.

— Wayne Overholser é um homem esperto e bem-sucedido — disse —, e eu odeio falar contra a posição dele por esses motivos. E por outros também: ele é velho o bastante para ser meu pai.

— Cuidado que ele não seja seu pai — gritou o único trabalhador da fazenda de Garrett Strong, que se chamava Rossiter, e houve uma risada geral. Até Overholser sorriu com a piada.

— Filho, se você odeia mesmo falar contra mim, não fale — disse. Continuava a sorrir, mas apenas com a boca.

— Mas eu devo — disse Tian. Começou a andar devagar de um lado para outro diante dos bancos. Em suas mãos, a pena cor de ferrugem de opópanax oscilava. Ele ergueu a voz ligeiramente, para que entendessem que não mais falava apenas ao grande fazendeiro. — Eu devo, porque sai Overholser é velho suficiente para ser meu pai. Os filhos dele estão crescidos, vocês sabem disso, uma moça e um rapaz. — Fez uma pausa, depois fulminou: — Nascidos com dois anos de diferença.

Ambos individuais, não gêmeos, em outras palavras. Ambos a salvo dos Lobos, embora ele não precisasse dizer isso em voz alta. A multidão murmurou.

Overholser corou com um vermelho forte e perigoso.

— Isso é uma coisa dos diabos para você dizer. Minha opinião não tem nada a ver com esse negócio de individual ou duplo! Me dê essa pena, Jaffords. Eu preciso dizer mais algumas coisas.

Mas as botas começaram a patear nas tábuas, primeiro devagar, e depois ganhando velocidade até chocalharem como granizo. Overholser olhou em volta furioso, tão rubro agora que estava quase roxo.

— Eu quero falar! — gritou. — Vocês não querem me ouvir, eu peço.

Gritos de Não, não, Agora não, Jaffords está com a pena e Sente-se e escute soaram em resposta. Tian teve a idéia de que Overholser estava aprendendo — e surpreendentemente tarde na vida — que muitas vezes havia um profundo ressentimento contra o mais rico e mais bem-sucedido da aldeia. Os menos afortunados ou menos espertos (a maioria das vezes eram os mesmos) podiam levantar os chapéus quando a gente rica passava em suas buckas ou carruagens baixas, podiam mandar um porco ou vaca mortos como agradecimento quando a gente rica emprestava seus empregados para ajudar na construção de uma casa ou celeiro, os ricos podiam ser aplaudidos na Assembléia de Fim de Ano por ajudarem a comprar o piano que agora estava na música do Pavilhão. Mas os homens de Calla batiam com as botas para abafar a voz de Overholser com uma certa satisfação selvagem.

Overholser, não acostumado a ser barrado dessa maneira — perplexo, na verdade —, tentou mais uma vez.

— Eu gostaria de falar, peço-lhes, eu tenho a pena!

— Não — disse Tian. — Mais tarde se quiser, mas agora, não.

Isso na verdade recebeu aplausos, sobretudo dos menores dos pequenos fazendeiros e alguns de seus trabalhadores. Os mannis não se juntaram. Estavam agora amontoados de forma tão compacta que pareciam uma mancha de tinta azul no meio do salão. Era visível que se sentiam espantados com aquela virada. Vaughn Eisenhart e Diego Adams, enquanto isso, aproximaram-se para ladear Overholser e falar-lhe em voz baixa.

Você tem uma chance, pensou Tian. É melhor aproveitá-la ao máximo. Ergueu a pena, e eles se calaram.

— Todos terão uma chance de falar — disse. — Quanto a mim, digo o seguinte: não podemos prosseguir assim, simplesmente curvando a cabeça e ficando quietos enquanto os Lobos levam nossas crianças. Eles...

— Sempre as devolvem — disse timidamente um trabalhador chamado Farren Posella.

— Elas voltaram como meras cascas! — gritou Tian, e ouviram-se alguns gritos de Escutem ele. Ainda não basta, porém, pensou Tian. Não basta nem um pouco. Ainda não.

Tornou a baixar a voz. Não queria discutir com eles. Overholser tentara isso e não fora a parte alguma, ou tudo ou nada.

— Elas voltam como cascas. E daí? Que significa isso para nós? Alguns podem não dizer nada, que os Lobos sempre fizeram parte de nossa vida em Calla Bryn Sturgis, como um ou outro ciclone ou tremor de terra. Mas não é verdade. Eles vêm há seis gerações, no máximo. Mas Calla está aqui há mil anos ou mais.

O velho manni de ombros ossudos e olhos tristes levantou-se a meio.

— Ele diz a verdade, gente. Houve fazendeiros aqui... e muita gente manni entre eles... quando a escuridão no Trovão ainda não havia baixado, muito menos os Lobos.

Eles receberam isso com ares de espanto. Isso pareceu satisfazer o velho, que assentiu com a cabeça e sentou-se.

— Assim, no curso maior do tempo, os Lobos são quase uma coisa nova — disse Tian. — Seis vezes eles vieram e durante talvez 120 ou 140 anos. Quem sabe? Pelo que sabemos, o tempo amaciou, de algum modo.

Um baixo rumor. Alguns assentimentos.

— Em todo caso, uma vez a cada geração — continuou Tian. Tinha consciência que se formava um contingente hostil em torno de Overholser, Eisenhart e Adams. Ben Slightman podia ou não estar com eles; provavelmente estava. Aqueles ele não mudaria mesmo que fosse dotado de uma língua de anjo. Bem, podia passar sem eles, talvez. Se pegasse o resto. — Eles vieram uma vez em cada geração. E quantas crianças levaram? Três dúzias. Quatro?

“Sai Overholser pode não ter bebês, mas eu tenho; não um par de gêmeos, mas dois. Heddon e Hedda, Lyman e Lia. Amo os quatro, mas em um mês redondo dois deles serão levados. E quando voltarem, serão roont. Qualquer faísca que torne completo um ser humano estará apagada para sempre.”

Escutem ele, escutem foi o grito que varreu a sala como um suspiro.

— Quantos de vocês têm gêmeos sem cabelos além dos da cabeça? — perguntou Tian. — Levantem as mãos.

Seis homens ergueram a mão. Depois oito. Uma dúzia. Toda vez que Tian começava a pensar que eram só aqueles, outra mão relutante se erguia. No fim, contou 22, e claro que nem todos que tinham filhos estavam ali. Via que Overholser estava consternado com um número tão grande. Diego Adams levantara a mão, e Tian ficou contente por ver que ele se afastara um pouco de Overholser, Eisenhart e Slightman. Três dos mannis haviam erguido a mão. Jorge Estrada, Louis Haycox. Muitos outros ele conhecia, o que não surpreendia de modo algum, na verdade; conhecia quase todos aqueles homens. Provavelmente todos, a não ser alguns sujeitos errantes que trabalhavam em pequenas fazendas por baixos salários e comida quente.

— Cada vez que eles vêm e levam nossas crianças, levam um pouco mais de nossos corações e almas — disse Tian.

— Ora, vamos — disse Eisenhart. — Isso é um pouco de exagero...

— Cale a boca, fazendeiro — disse uma voz. Era de um homem que chegara atrasado, o da cicatriz na testa. Era chocante em sua raiva e desdém. — Ele está com a pena. Deixe-o falar até o fim.

Eisenhart virou-se para marcar quem lhe falara desse jeito. Viu, e não deu resposta. E Tian não se surpreendeu.

— Obrigado, père — respondeu Tian, em voz calma. — Já quase acabei. Continuo pensando nas árvores. A gente tira as folhas de uma árvore forte e ela vive. Talha muitos nomes na casca e a casca torna a crescer. A gente pode até tirar um pouco do miolo, que ela vive. Mas se continuar tirando o miolo, vai chegar uma hora em que mesmo a árvore mais forte morre. Eu já vi isso, e é uma coisa feia. Elas morrem de dentro pra fora. A gente vê nas folhas, que vão ficando amarelas do tronco até as pontas dos galhos. E é isso que os Lobos estão fazendo a esta pequena cidade. O que estão fazendo com nossa Calla.

— Escutem ele! — gritou Freddy Rosário, da fazenda vizinha. — Escutem muito bem ele.

Ele próprio tinha gêmeos, embora ainda fossem de peito e provavelmente estivessem a salvo. Tian prosseguiu:

— Vocês dizem que se resistirmos e lutarmos eles matarão todos nós e incendiarão Calla da fronteira leste à oeste.

— É — disse Overholser. — É o que eu digo. E não sou o único.

De toda a sua volta vieram rumores de concordância.

— No entanto, toda vez que simplesmente ficamos de lado, de cabeça baixa e mãos abertas enquanto os Lobos levam o que nos é mais caro que nossas colheitas, casas ou celeiros, eles tiram um pouco mais do miolo da árvore que é esta aldeia! — Tian falou forte, agora de pé, ainda com a pena erguida numa das mãos. — Se não nos levantarmos e lutarmos logo, seremos roonts nós mesmos!

Altos gritos de Escutem ele! Exuberante batedura de botas. Até mesmo alguns aplausos.

George Telford, outro fazendeiro de gado, sussurrou brevemente para Eisenhart e Overholser. Eles escutaram e balançaram a cabeça. Telford levantou-se. Tinha cabelos prateados, era bronzeado e bonitão, naquela maneira curtida que as mulheres parecem gostar.

— Já acabou, filho? — perguntou bondosamente, como se perguntaria a uma criança se já brincara bastante por uma tarde e estava pronta para ir dormir.

— É, acho que sim — disse Tian.

Sentia-se de repente desanimado. Telford não era fazendeiro na mesma escala de Vaughn Eisenhart, mas tinha uma língua de prata. Tian teve a idéia de que ia perder aquela, afinal.

— Pode me dar a pena, então?

Tian pensou em retê-la, mas de que ia adiantar? Falara o melhor que pudera. Tentara. Talvez ele e Zalia devessem arrumar a trouxa e ir para o oeste eles próprios, de volta às Médias. Lua a lua até os Lobos chegarem, segundo Andy. Podia-se ter uma boa dianteira em relação ao problema em trinta dias.

Passou a pena.

— Todos apreciamos o ardor do jovem sai Jaffords, e certamente ninguém duvida de sua coragem — disse George Telford. Falava com a pena colada no lado esquerdo do peito, sobre o coração. Os olhos percorriam a platéia, parecendo querer fazer contato, contato amigo, com cada homem. — Mas temos de pensar tanto nas crianças que ficariam quanto nas que seriam levadas, não temos? Na verdade, temos de proteger todas as crianças, sejam gêmeos, trigêmeos ou individuais, como o sai Aaron de Jaffords.

Voltou-se então para Tian.

— Que dirão vocês a seus filhos quando os Lobos atirarem nas mães deles e talvez atearem fogo aos grand-pères com suas varas-de-fogo? Que podem dizer para tornar normal o barulho daqueles gritos a noite toda? Para suavizar o cheiro de peles e colheitas queimadas? São essas as almas que estaremos salvando? Ou o miolo da árvore de uma árvore de faz-de-conta?

Fez uma pausa, dando a Tian uma chance de responder, mas Tian não tinha resposta a dar. Quase os conquistara... mas não contara com Telford. O filho-da-puta da língua de veludo, que também havia muito passara da idade em que precisaria preocupar-se com a batida dos Lobos na sua porta, nos grandes cavalos cinzentos.

Telford assentiu com a cabeça, como se o silêncio de Tian não fosse mais que o esperado, e tornou a voltar-se para os bancos.

— Quando os Lobos chegam — disse —, vêm com armas que despejam fogo... as varas-de-fogo, vocês conhecem... e armas, e coisas voadoras de metal. Não me lembro o nome destas...

— Bolas que zumbem — gritou alguém.

— Bolas de fogo — gritou outro.

— Invisíveis! — gritou um terceiro.

Telford balançava a cabeça e sorria delicadamente. Um professor com bons alunos.

— Sejam o que forem, cruzam o ar voando e buscam os alvos, e quando localizam, lançam lâminas voadoras afiadas como navalhas. Podem despir uma pessoa da cabeça aos pés em cinco segundos, não deixando nada em cima além de um círculo de sangue e pêlos. Não duvidem de mim, pois eu vi.

— Escutem ele, escutem bem ele! — gritaram os homens nos bancos. Tinham os olhos enormes e assustados.

— Os próprios Lobos são terríveis — prosseguiu Telford, passando suavemente de uma história de beira de fogueira para outra. — Parecem um pouco com os homens, mas não são homens; são um tanto maiores e muito mais pavorosos. E aqueles a quem eles servem no distante Trovão são de longe mais terríveis. Vampiros, eu soube. Homens com cabeças de pássaros e outros animais, talvez. Ronins insepultos com capacetes quebrados. Guerreiros do Olho Escarlate.

Os homens murmuraram. Até Tian escutou uma correria de patas de ratos em suas costas à menção do Olho.

— Os Lobos eu vi; o resto me contaram — continuou Telford. — E embora eu não acredite em tudo, acredito em muita coisa. Mas esqueçam o Trovão e o que pode se entocar lá. Fiquemos com os Lobos. Eles é que são nosso problema, e problema suficiente. Sobretudo quando aparecem armados até os dentes! — Balançou a cabeça, com um sorriso medonho. — Que faríamos nós? Será que podemos derrubá-los dos cavalos cinzentos com foices, sai Jaffords? Você acha?

Um sorriso de escárnio acolheu isso.

— Não temos armas que resistam contra eles — disse Telford. Era agora seco e prático, um homem dizendo ao que tudo se resumia. — Mesmo que as tivéssemos, somos camponeses, fazendeiros e criadores de gado, não guerreiros. Nós...

— Pare com essa conversa de covarde, Telford. Devia envergonhar-se.

Arquejos chocados acolheram esse arrepiante pronunciamento. Costas e pescoços estalaram, quando os homens se voltaram para ver quem falara. Devagar, pois, como para dar-lhes exatamente o que esperavam, o recém-chegado de cabelos prateados e longa barba, usando um longo capote de gola dobrada, levantou-se lentamente do banco no fundo da sala. A cicatriz em sua testa — em forma de cruz — brilhava à luz das lâmpadas de querosene.

Era o Velho.

Telford recuperou-se com relativa rapidez, mas quando falou, Tian achou que ele ainda estava chocado.

— Peço perdão, père Callahan, mas sou eu que estou com a pena...

— Para o inferno com sua pena infiel e com seu covarde conselho — disse père Callahan.

Desceu o corredor central, andando com o sombrio balanço da artrite. Não era tão velho quanto o sábio manni, nem o grand-père de Tian (que diziam ser a pessoa mais velha não apenas ali, mas em Calla Lockwood ao sul), mas parecia de algum modo um pouco mais que os dois. Mais velho que as eras. Alguma coisa disso sem dúvida tinha a ver com os olhos obcecados que viam o mundo debaixo da cicatriz na testa (Zalia dizia que ele mesmo a fizera). Mais tinha a ver com o som dele. Embora estivesse ali havia anos suficientes para construir aquela estranha igreja do Homem Jesus e converter meia Calla à sua doutrina espiritual, nem mesmo um estranho seria tapeado para acreditar que père Callahan era dali. A estrangeirice estava na fala plana e anasalada e no muitas vezes obscuro jargão que usava (“gíria de rua”, como a chamava). Sem dúvida viera de um daqueles outros mundos de que os mannis viviam falando, embora nunca mencionasse isso e Calla Bryn Sturgis não fosse sua terra. Tinha aquela autoridade seca e inquestionável que tornava difícil disputar seu direito a falar, com ou sem a pena.

Mais jovem que o grand-père de Tian ele podia ser, mas père Callahan ainda era o Velho.

 

Agora ele examinava os homens de Calla Bryn Sturgis, sem sequer olhar para George Telford. A pena cedia na mão deste. Ele se sentou no primeiro banco, ainda segurando-a.

Callahan começou com um dos seus termos de gíria, mas eles eram camponeses e ninguém precisava pedir explicações.

— Isso é titica de galinha.

Examinou-os por mais tempo. A maioria não retribuiu o seu olhar. Após um instante, até Eisenhart e Adams baixaram os olhos. Overholser manteve a cabeça erguida, mas sob o duro olhar do Velho parecia mais petulante que desafiador.

— Titica de galinha — repetiu o homem de capote negro e gola dobrada, enunciando cada sílaba.

Uma pequena cruz de ouro luziu sob a dobra da gola dobrada para trás. Na testa, a outra cruz — a que Zalia dizia que ele fizera na própria carne com a unha do polegar, como penitência parcial por algum pecado terrível — fulgia sob as lâmpadas como uma tatuagem.

— Este rapaz não é um dos meus, mas ele tem razão, e eu acho que todos vocês sabem disso. Sabem em seus corações. Mesmo você, Sr. Overholser. E você, George Telford.

— Não sei nada disso — disse Telford, mas a voz era fraca e despida daquele encanto persuasivo anterior.

— Todas as suas mentiras vão deixá-los zarolhos, era o que minha mãe lhes teria dito.

Callahan deu a Telford um débil sorriso que Tian não queria dirigido a si. E então Callahan se voltou para ele.

— Eu nunca vi a coisa mais bem posta do que você colocou esta noite, filho. Nós agradecemos, sai.

Tian ergueu a mão débil e conseguiu dar um sorriso mais débil ainda. Sentia-se como uma personagem numa tola peça de festa, salvo no último instante por uma improvável intervenção sobrenatural.

— Eu sei muito de covardia, e que isso sirva a vocês — disse Callahan aos homens no banco. Ergueu a mão direita, deformada e torcida por uma velha queimadura, olhou-a fixo e deixou-a cair ao lado. — Tenho experiência pessoal, se poderia dizer. Sei como uma decisão covarde leva a outra... e a outra... e a outra... até ser tarde demais para voltar atrás, tarde demais para mudar. Sr. Telford, eu lhe garanto que a árvore da qual o jovem Sr. Jaffords falou não é faz-de-conta. Calla corre sério perigo. Suas almas correm perigo.

— Ave-Maria, cheia de graça — disse alguém no lado esquerdo da sala —, o Senhor é convosco. Bendito o fruto do vosso ventre, Je...

— Guarde isso — cortou Callahan. — Guarde pro domingo. — Seus olhos, faíscas azuis, estudavam-nos. — Por esta noite, esqueçam Deus, Maria e o Homem Jesus. Esqueçam as varas-de-fogo e as bolas que zumbem dos Lobos, também. Vocês têm de lutar. São os homens de Calla, não são? Então ajam como homens. Parem de se comportar como cachorros se arrastando de barriga no chão para lamber as botas de um amo cruel.

Overholser tornou-se vermelho-escuro com isso, e começou a levantar-se. Diego Adams agarrou o seu braço e falou-lhe ao ouvido. Por um instante, Overholser permaneceu como estava, paralisado numa espécie de agachamento cruel, e depois voltou a sentar-se. Adams levantou-se.

— Soa bem, padrone — disse com seu sotaque pesado. — Soa corajoso. Mas ainda tem algumas perguntas, talvez. Haycox fez uma delas. Como podem camponeses levantar-se contra assassinos armados?

— Contratando assassinos armados nossos — respondeu Callahan.

Houve um momento de absoluto e pasmo silêncio. Era quase como se o Velho houvesse passado para outra língua. Finalmente Adams disse, cautelosamente:

— Eu não compreendo.

— Claro que não — disse o Velho. — Então ouçam e aprendam, fazendeiro Adams e todos vocês, escutem e aprendam. A menos de seis dias de cavalo a noroeste de nós, e seguindo para sudeste pelo Caminho do Feixe de Luz, vêm três pistoleiros e um “aprendiz”. — Sorriu do espanto deles. Depois voltou-se para Slightman. — O “aprendiz” não é muito mais velho que seu filho Ben, mas já é tão rápido quanto uma serpente e mortal como um escorpião. Os outros são de longe mais rápidos e mortais. Eu soube por Andy, que os viu. Querem grossos calibres? Estão à disposição. Eu acertei meu relógio e garanto.

Desta vez, Overholser se levantou por inteiro. O rosto ardia como se ele tivesse febre. O barrigão tremia.

— Que história pra menino dormir é essa? — perguntou. — Se existiram tais homens, deixaram de existir com Gilead. E Gilead é poeira no vento há mil anos.

Não houve murmúrios de apoio ou contestação. Não houve murmúrios de espécie alguma. A multidão continuava paralisada, apanhada na reverberação da única palavra mítica: pistoleiros.

— Você está errado — disse Callahan —, mas não precisamos brigar por isso. Vamos ver por nós mesmos. Irá um pequeno grupo, eu acho. O Jaffords aqui... eu próprio... e que tal você, Overholser? Quer vir?

— Não existem pistoleiros — rugiu Overholser. Às suas costas, levantou-se Jorge Estrada.

— Père Callahan, que a graça de Deus recaia sobre o senhor...

— ...e sobre você, Jorge.

— ...mas mesmo que existissem pistoleiros, como poderiam três resistir a quarenta ou sessenta? E não quarenta ou sessenta homens normais, mas quarenta ou sessenta Lobos?

— Escutem ele, o que ele diz faz sentido! — gritou Eben Took, o dono do armazém.

— E por que eles iriam lutar por nós? — continuou Estrada. — Nós conseguimos viver de um ano para outro, não mais. Que poderíamos oferecer a eles, além de algumas refeições quentes? E quem aceita morrer por comida?

— Escutem ele, escutem ele! — gritaram em uníssono Telford, Over-holser e Eisenhart. Os outros patearam fortemente as tábuas.

O Velho esperou até que a pateada cessasse e disse:

— Eu tenho livros na reitoria. Meia dúzia.

Embora a maioria deles soubesse disso, a idéia de livros — todo aquele papel — ainda provocou um suspiro geral de espanto.

— Segundo um deles, os pistoleiros eram proibidos de aceitar recompensas. Supõe-se que é porque eram descendentes de Arthur Eld.

— O Eld! O Eld! — sussurraram os mannis, e vários ergueram punhos no ar com o primeiro e o quarto dedos esticados.

Formando chifres, pensou o Velho. Vai, Texas. Conseguiu abafar uma risada, mas não o sorriso que aflorou aos seus lábios.

— Estamos falando dos casos sem remédio que vagam pela terra, fazendo boas ações? — perguntou Telford numa voz ligeiramente gozadora. — Certamente você está velho demais para essas histórias, Père.

— Não são casos sem remédio — disse pacientemente Callahan. — São pistoleiros.

— Como podem três homens resistir aos Lobos, Père? — ouviu-se perguntar Tian.

Segundo Andy, um dos pistoleiros era na verdade uma mulher, mas Callahan não viu necessidade de turvar as águas mais ainda (embora a parte demoníaca dele quisesse, ainda assim).

— Isso é uma questão para o dinh deles, Tian. Vamos perguntar a ele. E eles não estariam lutando apenas pela comida, você sabe. De jeito nenhum.

— Por que mais, então? — perguntou Bucky Javier.

Callahan achava que iam querer a coisa que estava debaixo do assoalho de sua igreja. E isso era bom, porque aquela coisa acordara. O Velho, que um dia fugira de um lugar chamado a Terra de Jerusalém, Jerusalem’s Lot, queria livrar-se dela. Se não se livrasse dela em breve, ela ia matá-lo.

— Na hora, Sr. Javier — disse. — Tudo na hora certa, sai.

Enquanto isso, começara um sussurro no Salão da Assembléia. Percorreu os bancos de boca em boca, uma brisa de esperança e medo.

Pistoleiros.

Pistoleiros a oeste, vindos do Mundo Médio.

E era verdade, que Deus os ajudasse. Os últimos filhos letais de Arthur Eld, avançando para Calla Bryn Sturgis pelo Caminho do Feixe de Luz. Ka como o vento.

— Hora de ser homens — disse-lhes père Callahan. Por baixo da cicatriz na testa, os olhos ardiam como lâmpadas. Mas seu tom não deixava de ser compassivo. — Hora de resistir, cavalheiros. Hora de resistir e ser autênticos.

 

A Face na Água

O tempo é uma face na água: era um provérbio de muito tempo atrás, na distante Mejis. Eddie Dean jamais estivera lá.

Só que estivera, de certa forma. Roland carregara todos os quatro companheiros — Eddie, Susannah, Jake, Oi — para Mejis uma noite, contando uma longa história quando acamparam na Interestadual 70, no Pedágio do Kansas, num Kansas que jamais existira. Naquela noite contara-lhes a história de Susan Delgado, seu primeiro amor. Talvez seu único amor. E como a perdera.

O ditado poderia ter sido verdadeiro quando Roland era um menino não muito mais velho que Jake Chambers, mas Eddie o achava ainda mais verdadeiro agora, quando o mundo se enrolava como a mola principal de um relógio antigo. Roland contara-lhes que não se podia confiar nem mesmo em coisas básicas como os pontos cardeais no Mundo Médio; o que era absolutamente oeste hoje podia ser sudoeste amanhã, por mais louco que isso parecesse. Havia dias em que Eddie juraria que tinham 48 horas, alguns deles seguidos por noites (como aquela em que Roland os levara a Mejis) que pareciam ainda mais compridas. Depois viera uma tarde em que parecia que quase se via a escuridão precipitar-se para nós no horizonte para nos encontrar. Eddie imaginava se o tempo se perdera.

Haviam viajado (e varado) para fora de uma cidade chamada Lud no Mono Blaine. Blaine é um pé no saco, dissera Jake em varias ocasiões, mas ele — ou a coisa — revelara ser muito mais que um pé no saco; o Mono Blaine era inteiramente louco. Eddie matara-o com falta de lógica (“Uma coisa em que você e naturalmente bom, docinho”, dissera-lhe Susannah), e haviam desembarcado do trem numa Topeka que não fazia exatamente parte do mundo do qual vinham Susannah, Jake e ele. O que era bom, na verdade, porque aquele mundo — em que o time de beisebol pró-Kansas City se chamava Os Monarcas, a Coca-Cola se chamava Nozz-A-La e o grande fabricante de carros japoneses era Takuro e não Honda — fora arrasado por algum tipo de peste que matara quase todo mundo. Assim, apegue-se ao seu Espírito Takuro e dirija-o, pensou Eddie.

A passagem do tempo parecera-lhe bastante clara durante tudo isso. Grande parte do tempo ele estivera cagado de medo — achava que todos eles haviam estado, com exceção talvez de Roland —, mas, sim, parecera real e claro. Ele não tivera aquela sensação de tempo escorrendo do seu poder nem mesmo quando andava pela I-70 com balas zunindo nos ouvidos, olhando o tráfego paralisado e ouvindo o borbulhar do que Roland chamava de solvente. Mas após o confronto no palácio de cristal com o velho amigo de Jake, o Homem do Tiquetaque, e o velho amigo de Roland (Flagg... ou Marten... ou — apenas talvez — Maerlyn), o tempo mudara.

Não imediatamente, porém. Nós viajamos naquela porra daquele projétil cor-de-rosa... vimos Roland matar a própria mãe por engano... e quando voltamos...

É, fora quando acontecera. Haviam despertado numa clareira a uns 50 quilômetros do Palácio Verde. Ainda podiam vê-lo, mas todos haviam compreendido que aquilo era outro mundo. Alguém — ou alguma força — transportara-os sobre ou através do solvente de volta ao Caminho do Feixe de Luz. Quem ou o que houvesse sido na verdade tivera consideração suficiente para preparar um lanche para cada um, completo até com refrigerantes Nozz-A-La e pacotes meio manjados de bolinhos de chocolate Keebler.

Perto deles, grudado num tronco de árvore, estava um bilhete do ser que Roland por pouco deixara de matar no Palácio: “Renuncie a Torre. Este e seu último aviso.” Ridículo, na verdade. Roland não renunciaria mais a Torre do que mataria o cãozinho de estimação de Jake, o trapalhão, e depois o assaria num espeto para o jantar. Nenhum deles renunciaria a Torre Negra de Roland. Que Deus os ajudasse, estavam naquilo para ir até o fim.

Ainda nos resta um pouco de luz do dia, dissera Eddie no dia em que encontraram a nota de advertência de Flagg. Querem usá-la ou não?

Sim, respondera Roland de Gilead. Vamos usá-la.

E assim haviam feito, seguindo o Caminho do Feixe de Luz pelos intermináveis campos abertos divididos uns dos outros por cinturões de mato baixo emaranhado, irritante. Não havia sinal de gente. Os céus haviam permanecido baixos e nublados dia após dia e noite após noite. Como seguiam o Caminho do Feixe de Luz, as nuvens diretamente acima às vezes rolavam e abriam-se, revelando pedaços de azul, mas nunca por muito tempo. Uma noite abriram-se o suficiente para revelar uma lua cheia, com uma cara visível no meio: o desagradável e cúmplice sorriso e entrecerrar de olhos do Mendigo. Isso significava fins de verão pelos cálculos de Roland, mas para Eddie parecia metade de tempo nenhum, o mato na maior parte derreado ou morto mesmo, as árvores (as poucas que havia) nuas, o matagal esquálido e pardo. Havia pouca caca, e pela primeira vez em semanas — desde que deixaram a floresta governada por Shardik, o urso ciborg — às vezes iam para a cama de barriga não inteiramente cheia.

Mas nada disso, pensava Eddie, era tão irritante quanto a sensação de haverem perdido a noção do tempo: horas, dias, semanas, estações, pelo amor de Deus. A lua podia ter dito a Roland que era fim de verão, mas o mundo em volta deles parecia mais a primeira semana de novembro, cochilando sonolenta rumo ao inverno.

O tempo, concluiu Eddie nesse período, era em grande parte criado por fatos externos. Quando muita merda acontecia, o tempo parecia passar rápido. Se se ficava atolado em nada alem da merda habitual de sempre, ele reduzia a marcha. E quando tudo parava, o tempo aparentemente parava por completo. Simplesmente fazia as malas e ia para Coney Island. Estranho, mas verdade.

Havia tudo parado de acontecer, pensava Eddie (e com nada a fazer além de empurrar a cadeira de rodas de Susannah por um aborrecido campo após o outro, havia tempo de sobra para pensar). A única singularidade em que podia pensar desde que retornara do Globo do Mago era o que Jake chamara de Número Misterioso, e isso na certa não queria dizer nada. Haviam precisado resolver um enigma matemático no Berço de Lud para chegar a Blaine, e Susannah sugerira que o Número Misterioso era um remanescente disso. Eddie estava longe de seguro de que ela tivesse razão, mas, ora, era uma teoria.

E, realmente, que poderia haver de tão especial no número 19? O Número Misterioso, na verdade. Após pensar um pouco, Susannah salientara que era ao menos um número primo, como os que haviam aberto o portão entre eles e o Mono Blaine. Eddie acrescentara que era o único que vinha entre o 19 e o vinte toda vez que a gente contava. Jake rira disso e lhe dissera que parasse de ser panaca. Eddie, sentado junto a fogueira do acampamento a esculpir um coelho (quando terminasse ia junta-lo ao gato e ao cachorro já na sua mochila), mandara-o parar de fazer gozação de seu único verdadeiro talento.

 

Talvez fizesse um mês e uma semana ou duas que retornavam pelo Caminho do Feixe de Luz quando chegaram a dois sulcos duplos antigos, que haviam sem dúvida alguma sido um dia uma estrada. Não acompanhava exatamente o Caminho do Feixe de Luz, mas Roland desviou-se um pouco e conduziu-os por ali assim mesmo. Tinha muita semelhança com o Feixe para as finalidades deles, disse o pistoleiro. Eddie achou que o fato de estarem mais uma vez na estrada poderia rearrumar as coisas, ajudá-los a sacudir aquela enlouquecedora sensação de pasmaceira nas Latitudes do Cavalo, mas isso não aconteceu. A estrada levou-os acima para o outro lado de uma série ascendente de campos que pareciam degraus. Acabaram chegando ao topo de um longo cume norte-sul. Quase uma floresta de história de fadas, pensou Eddie ao passarem por suas sombras. Susannah acertou em cheio um pequeno gamo no segundo dia na floresta (ou talvez fosse o terceiro... ou quarto), e a carne era deliciosa, após uma constante dieta de burritos vegetarianos, mas não se viam quaisquer ogros ou duendes travessos nas profundas sendas, nem elfos — Keebler ou outra forma. E tampouco mais gamos.

— Eu não paro de procurar a casinha de doces — disse Eddie. Àquela altura, já fazia vários dias que vinham serpeando por entre as esplendidas árvores antigas. Ou talvez fosse apenas uma semana. Tudo que ele sabia com certeza era que continuavam relativamente próximos do Caminho do Feixe de Luz. Viam-no no céu... e sentiam-no.

— Que casinha de doces é esta? — perguntou Roland. — É outra história? Se for, gostaria de ouvir.

Claro que gostaria. O cara era um glutão por histórias, sobretudo aquelas que começavam com um “Era uma vez, quando todo mundo morava na floresta”. Mas a maneira como ouvia era um tanto esquisita. Meio distanciado. Eddie comentara isso com Susannah, e ela acertara em cheio com uma única explicação, como muitas vezes fazia. Tinha uma capacidade poética misteriosa, quase estranha, de por sentimentos em palavras, encaixando-os no lugar.

— É por isso que ele não as escuta com olhos arregalados como uma criança na hora de dormir — disse. — Assim é apenas como você quer que ele escute, docinho.

— E como é que ele escuta?

— Como um antropólogo — respondeu ela prontamente. — Como um antropólogo tentando entender uma cultura estranha por meio de seus mitos e lendas.

Tinha razão. E se a maneira de escutar de Roland o deixava incomodado, provavelmente era porque em seu coração Eddie achava que se alguém devia ouvir histórias como cientistas, seriam ele, Suze e Jake. Pois vinham de um onde e um quando mais sofisticados. Não vinham?

Se vinham ou não, os quatro haviam descoberto que um grande número de histórias era comum aos dois mundos. Roland conhecia uma chamada “O Sonho de Diana”, estranhamente semelhante a “A Dama ou o Tigre”, que todos os três nova-iorquinos exilados haviam lido na escola. A de Lorde Perth parecia-se muito com a história de Davi e Golias, da Bíblia. Roland ouvira muitos relatos do Homem Jesus, que morreu na cruz para redimir os pecados do mundo, e disse a Eddie, Susannah e Jake que Jesus tinha Sua razoável parcela de seguidores no Mundo Médio. Também havia músicas comuns aos dois mundos. “Careless Love” era uma. “Hey Jude”, outra, embora no mundo de Roland a primeira frase da letra fosse: “Hey Jude, I see you, lad.”

Eddie passou no mínimo uma hora contando a Roland a história de João e Maria, transformando a perversa bruxa comedora de crianças em Rhea do Coos quase sem pensar nela. Quando chegou a parte em que ela tentava engordar as crianças, ele se interrompeu e perguntou a Roland:

— Conhece esta? Uma versão desta?

— Não — disse Roland —, mas é uma bela história. Conte até o fim, por favor.

Eddie contou, acabando com o exigido E viveram felizes para sempre, e o pistoleiro aquiesceu.

— Ninguém nunca vive feliz para sempre, mas deixamos as crianças aprenderem isso por conta própria, não é?

— Ié — disse Jake.

Oi trotava nos calcanhares do menino, olhando para Jake com a expressão habitual de calma adoração nos olhos cercados de dourado.

— Ié — disse o trapalhão, copiando exatamente a inflexão um tanto triste do garoto.

Eddie passou um braço pelos ombros de Jake.

— É uma pena você estar aqui e não em Nova York — disse. — Se estivesse na Maçã, menino Jake, na certa teria seu próprio psiquiatra infantil a esta altura. Estaria resolvendo esses problemas com seus pais. Indo ao fulcro dos conflitos não resolvidos. Talvez tomando alguns remédios também. Ritalina, essas coisas.

— No todo, eu prefiro estar aqui — disse Jake, e baixou o olhar para Oi.

— Ié — disse Eddie. — Eu não o culpo.

— Essas histórias se chamam “contos da carochinha” — disse Roland.

— Ié — repetiu Eddie.

— Mas não havia fadas nessa.

— É — concordou Eddie. — Isso parece mais uma categoria que outra coisa. Em nosso mundo, a gente tem as histórias de detetive e suspense... de ficção científica... faroestes... os contos da carochinha. Sacou?

— É — disse Roland. — As pessoas do seu mundo sempre querem apenas histórias de um só sabor? Só um gosto na boca?

— Eu acho que isso chega bastante perto — disse Susannah.

— Come-se ensopado? — perguntou Roland.

— Às vezes uma ceia, eu acho — disse Eddie —, mas quando se trata de diversão, a gente tende a ficar com um sabor de cada vez, e não deixa coisa nenhuma tocar em outra no prato. Embora pareça chato quando se diz assim.

— Quantas dessas histórias da carochinha você diria que existem?

Sem hesitação — e certamente sem conluio —, Eddie, Susannah e Jake disseram a mesma palavra exatamente na mesma hora:

— Dezenove!

E um instante depois Oi repetia em sua voz rouca:

— De-enove!

Olharam-se uns aos outros e riram, porque “19” se tornara uma espécie de palavra-chave entre eles, substituindo “cascata”, que Jake e Eddie haviam desgastado demais. Mas o riso tinha um travo de nervosismo, porque aquele negócio de 19 se tornara meio esquisito. Eddie vira-se ta-lhando-o no lado de seu mais recente animal de madeira, como uma marca: Ei, você, chapa, bem-vindo à nossa farra! Nós a chamamos de Bar-Dezenove. Susannah e Jake haviam confessado que traziam lenha para a fogueira noturna em braçadas de 19 achas. Nenhum deles soube dizer por quê; apenas parecia correto fazer assim, de alguma forma.

Depois houvera a manhã em que Roland os parara na borda da mata pela qual viajavam então. Apontara para o céu, onde uma árvore particularmente antiga deitara os peludos galhos. A forma que os galhos tomavam contra o céu era o número 19. Visivelmente 19. Todos o tinham visto, mas Roland o vira primeiro.

Contudo ele, que acreditava em presságios e portentos tão rotineiramente quanto Eddie acreditava em lâmpadas elétricas e baterias Double-A, tendia a descartar sua curiosa e súbita paixão ka-tet pelo número. Haviam chegado perto, disse, tão perto quanto poderia qualquer ka-tet, assim os pensamentos, hábitos e pequenas obsessões tendiam a espalhar-se entre eles todos, como um resfriado. Ele acreditava que Jake facilitava isso em certa medida.

— Você tem o toque, Jake — disse. — Não sei se é tão forte em você quanto em meu velho amigo Alain, mas, pelos deuses, eu creio que pode ter.

— Eu não sei do que você esta falando — respondeu Jake, franzindo o cenho intrigado.

Eddie sabia — mais ou menos — e calculava que Jake ia saber, com o tempo. Se o tempo algum dia recomeçasse a passar normalmente, quer dizer.

E no dia em que Jake trouxe os bolinhos, ele soube.

 

Haviam parado para o almoço (os mais desinteressantes burritos vegetarianos, a carne de gamo acabara e os bolinhos de chocolate Keebler nada mais eram que uma gostosa lembrança), quando Eddie percebeu que Jake desaparecera e perguntou ao pistoleiro se sabia aonde fora o garoto.

— Deu o fora cerca de meia volta atrás — disse Roland, e apontou a estrada com os dois dedos restantes da mão direita. — Ele tem razão. Se não tivesse, nós todos sentiríamos.

Roland olhou o seu burrito e deu uma mordida sem nenhum entusiasmo.

Eddie abriu a boca para dizer outra coisa, mas Susannah se adiantou.

— Aí esta ele. Ei, doçura, que é que tem aí?

Jake tinha os braços cheios de umas coisas redondas do tamanho de bolas de tênis. Só que aquelas jamais iriam ricochetear mesmo; pequenos chifres brotavam delas. Quando o garoto se aproximou mais, Eddie sentiu o cheiro das bolas, e era maravilhoso — como pão recém-assado.

— Acho que podem ser boas de comer — disse Jake. — Cheiram a massa de pão fermentada que minha mãe e a Sra. Shaw... a governanta... compravam no Zabar’s. — Olhou para Susannah e Eddie, sorrindo um pouco. — Vocês conhecem o Zabar’s?

— Eu com certeza — disse Susannah. — O melhor de tudo, huummm. E como cheiram. Ainda não comeu nenhum, comeu?

— Nem pensar. — Lançou um olhar interrogador a Roland.

O pistoleiro pôs fim ao suspense pegando uma, quebrando os chifres e mordendo o que restou.

— Bolinhas-de-bolo — disse. — Não vejo um há sabe Deus quanto tempo. Eram maravilhosos. — Os olhos azuis brilhavam. — Não precisa comer os chifres; não são venenosos, mas azedos. Podemos fritá-los, se restou um pouco de carne de gamo. Assim pegarão o gosto de carne.

— Parece uma boa idéia — disse Eddie. — De derrubar a gente. Quanto a mim, acho que salto os bolinhos de cogumelo, ou seja lá o que forem.

— Não são cogumelos de jeito nenhum — disse Roland. — Parecem mais uma espécie de baga do chão.

Susannah pegou um, mordiscou-o e deu uma dentada maior.

— Você não vai querer passar isto, querido — disse. — O amigo do meu pai, Pop Mose, diria: “Estes são de primeira.” — Pegou outro dos bolinhos de Jake e correu o dedo pela superfície sedosa.

— Talvez — disse Roland —, mas eu li um livro para uma redação no ensino médio... acho que se chamava Nós Sempre Moramos no Castelo... em que uma dona maluca envenenava a família toda com uma coisa destas. — Curvou-se para Jake, erguendo as sobrancelhas e esticando os cantos da boca no que esperava fosse um arrepiante sorriso. — Envenenou toda a família e eles morreram em A-gonia!

Eddie caiu do toro em que se sentava e começou a rolar sobre as agulhas de pinheiro e folhas caídas, fazendo caretas e ruídos horríveis. Oi corria em volta dele, repetindo o nome de Eddie numa serie de agudos latidos.

— Pare com isso — disse Roland. — Onde encontrou essa coisa, Jake?

— Lá atrás — disse Jake. — Numa clareira que avistei da trilha. Esta cheia dessas coisas. E também, se vocês tem fome de carne... eu sei que eu tenho... há todo tipo de sinais. Muitos frescos. — Vasculhou com os olhos o rosto de Roland. — Muito... frescas. — Falou devagar, como a alguém não fluente na língua.

Um sorriso brincou nos cantos da boca de Roland.

— Fale baixo mas claro — disse. — Que é que o preocupa, Jake?

Quando Jake respondeu, os lábios mal davam a forma das palavras.

— Tinha uns homens me vigiando enquanto eu colhia os bolinhos. — Fez uma pausa e acrescentou: — Estão nos vigiando agora.

Susannah pegou um dos bolinhos, admirou-o, depois meteu a cara como para cheirá-lo como uma flor.

— Lá atrás por onde a gente veio? À direita da trilha?

— É — disse Jake.

Eddie levou o punho fechado à boca, como para abafar uma tosse, e disse:

— Quantos?

— Acho que quatro.

— Cinco — disse Roland. — Talvez até seis. Um é uma mulher. Outro um menino não muito mais velho que Jake.

Jake olhou-o, espantado. Eddie perguntou:

— Ha quanto tempo estão lá?

— Desde ontem — disse Roland. — Passaram a seguir-nos desde o leste.

— E você não falou pra gente? — perguntou Susannah, um tanto severamente, sem se incomodar em cobrir a boca e obscurecer a forma das palavras.

Roland olhou-a com o mais tênue brilho no olhar.

— Eu estava curioso por saber quem de vocês seria o primeiro a farejá-los. Na verdade, apostava em você, Susannah.

Ela lançou-lhe um olhar frio e não disse nada. Eddie pensou que havia mais que um pouco de Detta Walker naquele olhar, e sentiu-se alegre por não vê-lo dirigido a si próprio.

— Que fazemos com eles? — perguntou Jake.

— Por enquanto, nada — disse o pistoleiro.

Jake visivelmente não gostou disso.

— E se eles forem iguais ao ka-tet de Tiquetaque? Gasher, Hoots e aqueles caras?

— Não são.

— Como você sabe?

— Porque já nos teriam atacado e virado comida de moscas.

Não parecia haver uma boa resposta para isso, e pegaram a estrada de novo. A trilha serpeava por entre sombras profundas, abrindo caminho no meio de árvores seculares. Antes de andarem vinte minutos, Eddie ouviu o barulho de seus perseguidores (ou seguidores): galhos partidos, mato baixo farfalhando, uma vez até uma voz baixa. Dicas, na terminologia de Roland. Eddie estava enojado consigo mesmo por não tê-los percebido durante tanto tempo. Também imaginava o que aqueles caras faziam para ganhar a vida. Se era seguir a caça e deitar armadilhas, não eram lá muito bons nisso.

Eddie Dean tornara-se parte do Mundo Médio de muitas formas, algumas tão sutis que ele não tinha consciência delas, mas ainda pensava nas distâncias mais em quilômetros que em rodas. Calculava que haviam feito uns vinte e tantos desde o local onde Jake tornara a juntar-se a eles com os bolinhos e a notícia, quando Roland encerrou o dia. Pararam no meio da estrada, como sempre faziam desde que entraram na floresta; desse modo as brasas da fogueira do acampamento tinham pouca chance de atear fogo a mata.

Eddie e Susannah recolheram uma bela coleção de galhos caídos, enquanto Roland e Jake faziam um pequeno acampamento e passavam a dividir o tesouro de bolinhos do garoto. Susannah rolou sem esforço sua cadeira de rodas pelo solo embaixo das árvores, com os galhos no colo. Eddie andava perto, trauteando baixinho.

— Olhe para a esquerda, doçura — disse ela.

Ele o fez, e viu um distante piscar laranja. Uma fogueira.

— Não são muito bons, né? — perguntou.

— É. A verdade é que tenho um pouco de pena deles.

— Alguma idéia do que estão aprontando?

— Hum-hum, mas acho que Roland tem razão: vão nos dizer quando estiverem prontos. Ou isso, ou decidirão que não somos o que querem e simplesmente desaparecerão na paisagem. Vamos, vamos voltar.

— Só um segundo. — Ele catou mais um galho, hesitou e pegou outro. Então ficou certo. — Tudo bem — disse.

Quando voltavam, ele contou as achas que pegara, depois as do colo de Susannah. O número total chegava a 19 em cada caso.

— Suze — disse, e quando ela o olhou: — O tempo recomeçou.

Ela não lhe perguntou o que queria dizer, apenas assentiu com a cabeça.

 

A decisão de Eddie de não comer os bolinhos não durou muito; cheiravam demasiado bem fritando no torrão de gordura de gamo que Roland (uma alma sovina e assassina) poupara na sua velha bolsa surrada. Eddie pegou seu quinhão num dos velhos pratos que haviam encontrado nas matas de Shardik e devorou-os.

— São tão bons quanto lagostas — disse, e depois se lembrou dos monstros na praia que haviam comido os dedos de Roland. — Quer dizer, gostosos como os cachorros-quentes de Nathan. Desculpe por provocá-lo, Roland.

— Não se preocupe com isso — disse Jake, sorrindo. — Você nunca provoca forte.

— Uma coisa que vocês precisam saber — disse Roland. Ele sorria — sorria mais agora, muito mais —, mas tinha os olhos sérios. — Todos vocês. Os bolinhos às vezes trazem sonhos muito vívidos.

— Quer dizer que deixam a gente doidão? — perguntou Jake, meio nervoso.

Pensava em seu pai. Elmer Chambers experimentara muitas dessas coisas esquisitas na vida.

— Doidão? Eu não sei se...

— Chapado. Alucinado. Vendo coisas... Como quando se tomou mescalina e entrou no círculo de pedra onde aquela coisa... você sabe... quase me machucou.

Roland fez uma pausa, lembrando. Havia uma espécie de súcubo aprisionado naquele círculo de pedras. Deixado à própria sorte, sem dúvida teria iniciado Jake sexualmente, depois fodido com ele até matá-lo. Mas na verdade Roland o fizera falar. Para castigá-lo, ele lhe mandara uma visão de Susan Delgado.

— Roland? — Jake olhava-o com um ar de ansiedade.

— Não se preocupe, Jake. Alguns cogumelos fazem o que você esta pensando... mudam a consciência, aumentam-na... mas não esses bolinhos. São bagas, apenas boas pra comer. Se seus sonhos forem particularmente vividos, basta lembrar que está sonhando.

Eddie achou isso um discursinho bastante estranho. Para começar, não era do feitio de Roland ter uma tão terna solicitude com a saúde mental deles. E tampouco desperdiçar palavras.

Começou tudo de novo, e ele sabe disso, pensou. Houve uma ligeira folga lá fora, mas agora o relógio esta andando de novo. Jogo recomeçado, como dizem.

— Vamos montar uma sentinela, Roland? — perguntou Eddie.

— Por mim, não — disse confortavelmente o pistoleiro, e começou a enrolar um cigarro para si.

— Você não os acha perigosos mesmo, acha? — perguntou Susannah, e ergueu os olhos para a mata, onde as árvores individuais agora se perdiam na escuridão geral do anoitecer. A pequena faísca que era a fogueira do acampamento apagara-se, mas as pessoas que os seguiam continuavam lá Ela as sentia. Quando baixou o olhar para Oi e viu-o olhando na mesma direção, não ficou surpresa.

— Acho que talvez seja problema deles — disse Roland.

— O que quer dizer isso? — perguntou Eddie, mas Roland não quis falar mais.

Simplesmente se deitou na estrada com um pedaço de couro de gamo enrolado embaixo do pescoço, olhando o céu escuro e fumando.

Mais tarde, o seu ka-tet dormiu. Não puseram sentinelas nem foram perturbados.

 

Os sonhos, quando vieram, não foram sonhos de modo algum. Todos sabiam disso, com exceção de Susannah, que num sentido bastante real não estava ali de jeito nenhum naquela noite.

Meu Deus, estou de volta a Nova York, pensou Eddie. E, em seguida: Realmente de volta a Nova York. Isto está realmente acontecendo.

Estava mesmo. Ele estava em Nova York. Na Segunda Avenida.

Foi quando Jake e Oi dobraram a esquina, vindos da Quarenta e Quatro.

— Ei, Eddie — disse Jake, sorrindo. — Bem-vindo de volta ao lar.

Jogo recomeçado, pensou Eddie. Jogo recomeçado.

 

O Bosque de Nova York

Jake adormeceu olhando a escuridão pura — não havia estrelas na noite nublada nem lua. Ao embarcar, teve a sensação de queda que reconheceu consternado: em sua vida anterior como uma chamada criança normal, muitas vezes sonhava com quedas, sobretudo na época das provas, mas isso cessara desde seu violento renascimento no Mundo Médio.

Então a sensação de queda desapareceu. Ele ouviu uma breve melodia tilintada de algum modo bonita demais: três notas e a gente queria que parasse, uma dúzia e a gente pensava que ia matar-nos se não parasse. Cada toque parecia fazer vibrarem os seus ossos. Parece havaiana, não parece?, ele pensou, pois embora a melodia não se parecesse de jeito nenhum com o terrível gorjeio do solvente, de algum modo parecia.

Parecia.

Então, exatamente quando ele de fato achava que não podia ouvi-la mais, a terrível e gorjeada melodia cessou. A escuridão por trás dos olhos dele de repente se iluminou num forte vermelho-escuro.

Ele os abriu cautelosamente para o sol forte.

E ficou boquiaberto.

Diante de Nova York.

Táxis passavam apressados, brilhando com um amarelo forte à luz do sol. Um jovem negro com fones de ouvido de um walkman passou por ele, batendo as sandálias um pouco ao ritmo da música e dizendo: “Cha-da-ba, cha-da-ba-bu!” Um martelo mecânico batia nos tímpanos de Jake. Pedaços de cimento despencaram num caminhão de entulho com um baque que ecoou de uma face de rochedo de prédios a outra. O mundo ressoava com um barulhão. Ele se acostumara aos profundos silêncios do Mundo Médio sem na verdade compreender isso. Não mais. Passara a amá-los. Contudo, aquele barulho e afobação tinham suas atrações, e Jake não podia negá-lo. De volta ao bosque de Nova York. Sentiu um sorrisinho esticar os seus lábios.

— Aque! Aque! — gritou uma voz baixa e angustiada.

Jake olhou para baixo e viu Oi sentado na calçada com a cauda enrolada em volta. O trapalhão não usava botinhas vermelhas, nem Jake os sapatos vermelhos (graças a Deus), mas ainda era muito como a visita deles à casa de Roland de Gilead, que eles haviam alcançado viajando no Globo cor-de-rosa do Mago. O globo de vidro que causara tanta encrenca e infelicidade.

Não havia vidro agora... ele apenas adormecera. Mas aquilo não era sonho. Era mais intenso que qualquer sonho que ele já tivera, e mais vívido. Também...

Também as pessoas continuavam a contorná-lo e a Oi, parados à esquerda de um bar do centro chamado Kansas City Blues. Enquanto ele fazia essa observação, uma mulher na verdade pisou em Oi, levantando a saia negra reta um pouco acima do joelho para fazê-lo. Seu rosto preocupado (Eu sou apenas mais uma nova-iorquina cuidando da minha vida, logo não me fode, era o que dizia o rosto a Jake) não mudou.

Eles não vêem a gente, mas de algum modo nos sentem. E se podem sentir-nos, devemos estar mesmo aqui.

A primeira pergunta lógica era: Por quê? Jake pensou nisso um instante e decidiu classificá-lo. Teve uma idéia de que a resposta ia vir. Enquanto isso, por que não desfrutar Nova York enquanto a tinha?

— Vamos lá, rapaz — disse, e dobrou a esquina.

O trapalhão, que visivelmente não era nenhum garoto de cidade, andava tão junto dele que ele sentia a sua respiração fazendo cócegas em seus calcanhares.

Segunda Avenida, pensou. E depois: Deus do céu...

Antes que pudesse concluir o pensamento, viu Eddie Dean parado diante do guarda-bagagens Barcelona, parecendo ofuscado e mais que um pouco deslocado num velho jeans, camisa de pele de gamo e mocassins do mesmo material. Tinha os cabelos limpos, mas caídos nos ombros, de uma forma que sugeria que nenhum profissional cuidava dele havia bastante tempo. Jake compreendeu que ele próprio não parecia muito melhor; também usava uma camisa de pele de gamo e, na metade de baixo, os restos esbagaçados dos tênis que calçava no dia em que deixara para sempre o lar, lançando velas para o Brooklyn, Dutch Hill e outro mundo.

É bom que ninguém nos veja, pensou, e decidiu que isso não era verdade. Se as pessoas os vissem, eles provavelmente estariam ricos com trocados antes do meio-dia. A idéia o fez dar um sorriso.

— Ei, Eddie — disse. — Bem-vindo de volta ao lar.

Eddie balançou a cabeça, parecendo divertido.

— Vejo que trouxe seu amigo.

Jake baixou a mão e deu um tapinha afetuoso em Oi.

— É minha versão do American Express Card. Eu não vou para casa sem ele.

Ia prosseguir — sentia-se espirituoso, borbulhante, cheio de coisas divertidas para dizer — quando alguém dobrou a esquina, passou por eles sem olhar (como todos os demais) e mudou tudo. Era um garoto usando uns tênis que pareciam os de Jake, só que eram os de Jake. Não o par que ele calçava agora, mas eram dele, sem dúvida. Eram os que Jake perdera em Dutch Hill. O homem de reboco que guardava a porta entre os mundos os arrancara de seus pés.

O garoto que acabava de passar por eles era John Chambers, era ele, só que aquela versão parecia mais suave, inocente e inteiramente jovem. Como você sobreviveu?, ele perguntou às suas próprias costas que se afastavam. Como você sobreviveu à tensão mental de perder a mente, e fugir de casa, e àquela casa horrível no Brooklyn? Sobretudo, como sobreviveu ao porteiro? Você deve ser mais duro do que parece.

Eddie deu uma dupla olhada tão cômica que Jake riu apesar de sua própria surpresa. Fê-lo lembrar-se daqueles painéis de revistas de história em quadrinhos em que Archie ou Jughead tentavam olhar para dois lados ao mesmo tempo. Baixou o olhar e viu uma expressão semelhante na cara de Oi. De algum modo, aquilo tornava a coisa toda ainda mais engraçada.

— Que caralho? — perguntou Eddie.

— Reprise instantânea — disse Jake, e riu mais ainda. Saiu engraçado como o diabo, mas ele não ligava. Sentia-se engraçado.

É como quando nós olhávamos Roland no Grande Salão de Gilead, só que isto é em Nova York, e estamos em 31 de maio de 1977. Foi o dia em que me ausentei sem licença do Piper! Reprise instantânea, baby!

— Ausência... — começou Eddie, mas Jake não lhe deu chance de acabar. Foi atingido por outra percepção. Só que atingido era uma palavra demasiado branda. Foi sepultado por ela, como um homem que por acaso está na praia quando vem uma onda rolando. Seu rosto fulgiu tão forte que Eddie chegou a dar um passo atrás.

— A rosa! — sussurrou ele. Sentiu-se fraco demais no diafragma para falar mais alto, e tinha a garganta tão seca quanto uma tempestade de areia. — Eddie, a rosa!

— Que é que tem?

— Este é o dia em que a vi! — Estendeu o braço e tocou o antebraço de Eddie com a mão trêmula. — Tenho de ir à livraria... depois ao terreno baldio. Acho que havia uma delicatessen...

Eddie balançava a cabeça e começava a parecer excitado ele próprio.

— A Comestíveis Finos e Artísticos Tom e Jerry, esquina da Segunda com a Quarenta e Seis...

— A deli desapareceu, mas a rosa está lá! Aquele meu eu andando pela calçada está indo vê-la, e nós podemos vê-la, também!

A isso, os olhos de Eddie fulgiram.

— Vamos, então — disse ele. — Não queremos perder você. Ele. Quem caralho for.

— Não se preocupe — disse Jake. — Eu sei pra onde ele está indo.

 

O Jake à frente deles — o de Nova York, o da primavera de 1977 — andava devagar, olhando para todos os lados, claramente curtindo o dia. O Jake do Mundo Médio lembrava exatamente como aquele garoto se sentia: o súbito alívio quando as vozes que discutiam em sua mente

 

(Eu morri!)

 

(Eu não morri!)

 

haviam finalmente parado o bate-boca. Na cerca de tábuas que havia, onde dois comerciantes jogavam o jogo-da-velha com uma caneta Mark Cross. E, claro, o alívio de estar longe do Colégio Piper e da insanidade da Redação Final para a classe de inglês da Sra. Avery. A Redação Final contava 25 por cento para a nota final de cada aluno, a Sra. Avery deixara isso perfeitamente claro, e a de Jake fora blablablá. O fato de sua professora ter depois lhe dado um 10+ não mudava o fato, apenas deixava claro que não era só ele; todo mundo estava pirando, virando 19.

Estar fora disso tudo — mesmo por pouco tempo — fora sensacional. Claro que ele estava curtindo o dia.

Só que o dia não está inteiramente direito, pensou Jake — o Jake que andava atrás de seu velho eu. Alguma coisa nele...

Olhou em volta, mas não pôde compreender. Fins de maio, forte sol estivai, montes de gente a passear e olhar vitrinas na Segunda Avenida, muitos táxis, uma outra limusine negra comprida; nada errado em nada daquilo.

Só que havia.

Tudo estava errado naquilo.

 

Eddie sentiu o garoto puxar sua manga.

— Que é que há com esse quadro? — perguntou Jake.

Eddie olhou em volta. Apesar de seus problemas de adaptação (seu comprometido retorno a Nova York, que estava claramente poucos anos atrás do seu quando), sabia o que Jake queria dizer. Alguma coisa estava errada.

Olhou ao longo da calçada, subitamente certo de que não teria uma sombra. Haviam perdido suas sombras como os meninos numa das histórias... uma das 19 histórias da carochinha... ou seria talvez alguma coisa mais nova, tipo O Leão, a Bruxa e o Guarda-roupa ou Peter Pan? Uma do que poderia chamar-se Moderno Dezenove?

De uma forma ou de outra, não importava, porque suas sombras estavam ali.

Mas não deviam estar, pensou Eddie. Não devíamos poder ver nossas sombras no escuro.

Idéia idiota. Não estava escuro, pelo amor de Deus, uma luminosa manhã de maio, o sol faiscando num cromo de carros a passar e nas vitrinas das lojas no lado leste da Segunda Avenida com força suficiente para fazer a gente entrecerrar os olhos. Contudo, de algum modo parecia escuro para Eddie, como se não passasse de uma frágil superfície, como o pano de fundo de um cenário teatral. “Ao Alvorecer Veremos a Floresta.” Ou Um Castelo na Dinamarca. Ou a Cozinha da Casa de Willy Loman. Neste caso, vemos a Segunda Avenida, no centro de Nova York.

É, uma coisa assim. Só que atrás daquele cenário se encontrariam a oficina e os depósitos dos bastidores, apenas em crescente escuridão. Um vasto universo morto onde a Torre de Roland já teria ruído.

Por favor, faça com que eu esteja errado, pensou Eddie. Por favor, que isso seja apenas um caso de choque cultural ou o puro e velho cagaço.

Não achava que fosse.

— Como chegamos aqui? — perguntou a Jake. — Não havia porta... — Perdeu o fio e depois perguntou com certa esperança: — Será que é um sonho?

— Não — disse Jake. — Parece mais quando viajamos no Vidro do Mago. Só que desta vez não havia globo. — Ocorreu-lhe uma idéia. — Mas você ouviu música? Sinos? Pouco antes de baixar aqui?

Eddie assentiu com a cabeça.

— Foi meio esmagador. Fez meus olhos aguarem...

— Certo — disse Jake. — Exatamente.

Oi farejava um hidrante. Eddie e Jake pararam para deixar o chapinha levantar a pata e pregar seu recado no que já era visivelmente um quadro de avisos. À frente deles, o outro Jake — o Garoto Setenta e Sete ainda andava devagar, olhando feito um basbaque para todos os lados. Para Eddie, parecia um turista de Michigan. Até esticava o pescoço para olhar o alto dos prédios, e ocorreu a Eddie a idéia de que se a Câmara do Cinismo de Nova York o pegasse fazendo aquilo, tomariam o cartão de crédito da Bloomingdale’s do cara. Não que ele fosse se queixar; tornaria o garoto mais fácil de seguir.

E justo quando ele pensava isso, o Garoto Setenta e Sete desapareceu.

— Aonde você iria? Nossa, aonde você iria?

— Não esquenta — disse Jake. (Em seus calcanhares, Oi acrescentou dois centavos de “Ax!”) O garoto sorria. — Eu simplesmente entrei na livraria... hum... Restaurante da Mente de Manhattan, era como se chamava.

— Onde você comprou Charlie Chuu-Chuu e o livro de adivinhações?

— Certo.

Eddie adorou o sorriso confuso e deslumbrado na cara de Jake. Iluminava o rosto todo.

— Lembra-se de como Roland ficou excitado quando eu disse o nome do dono.

Eddie lembrava. O dono do Restaurante da Mente de Manhattan era um cara chamado Calvin Tower.

— Depressa — disse Jake. — Eu quero ver.

Não precisou pedir duas vezes. Também Eddie queria ver.

 

Jake parou na entrada da livraria. O sorriso não desapareceu, exatamente, mas falhou.

— Que foi? — perguntou Eddie. — Qual é o problema?

— Sei não. Alguma coisa diferente, acho. É só que... aconteceu tanta coisa desde que estive aqui...

Olhava o quadro-negro de avisos na vitrina, que Eddie julgou uma maneira esperta de vender livros. Parecia o tipo de coisa que se via em restaurantes, ou talvez nas feiras de peixe.

 

ESPECIAIS DE HOJE

 

Do Mississipi! — William Faulkner frito

Capa Dura — Preço de Mercado

Brochuras da Vintage Library — 75 centavos cada

 

Do Maine! — Stephen King gelado

Capa Dura — Preço de Mercado

Promoções do Clube do Livro

Brochuras — 75 centavos

 

Da Califórnia! — Raymond Chandler bem cozido

Capa Dura — Preço de Mercado

Brochuras — 7 por U$ 5,00

 

Eddie olhou mais à frente e viu o outro Jake — o outro não bronzeado sem a expressão de forte claridade nos olhos — parado numa mesinha de exposição. Livros infantis. Na certa tanto as Dezenove Histórias da Carochinha quanto o Moderno Dezenove.

Desista, disse a si mesmo. Isso é merda obsessivo-compulsiva e você sabe disso.

Talvez, mas o bom e velho Jake Setenta e Sete ia fazer uma compra daquela mesa que ia mudar — e muito provavelmente salvar — suas vidas. Ou de jeito nenhum, se ele pudesse dar um jeito.

— Vamos — ele disse a Jake. — Vamos entrar.

O garoto recusou.

— Que é que há? — perguntou Eddie. — Tower não vai poder nos ver, se é com isso que você está preocupado.

— Tower não vai poder — disse Jake —, mas e se ele puder?

Apontou seu outro eu, o que ainda não conhecera Gasher e Tiquetaque e a velha gente de River Crossing. O que ainda não conhecera o Mono Blaine e Rhea de Cöos.

Jake olhava para Eddie com um ar de assustada curiosidade.

— E se eu vir a mim mesmo?

Eddie achou que isso podia acontecer de fato. Diabos, qualquer coisa podia acontecer. Mas isso não mudava o que ele sentia no coração.

— Acho que devemos entrar, Jake.

— Ié... — Saiu com um longo suspiro. — Eu também.

 

Entraram e não foram vistos, e Eddie sentiu alívio em contar 21 livros na mesinha de exposição que chamara a atenção do garoto. Só que, claro, quando Jake pegou os dois que queria — Charlie Chuu-Chuu e o livro de adivinhações —, ficaram 19.

— Encontrou alguma coisa, filho? — perguntou uma voz macia. Era um sujeito gorducho com uma camisa branca de gola aberta. Atrás dele, num balcão que parecia poder ter sido roubado de uma fonte de refresco da virada do século, um trio de caras velhos tomava café e mordiscava massas. Havia um tabuleiro de xadrez com um jogo em andamento no balcão de mármore.

— O cara sentado na ponta é Aaron Deepneau — sussurrou Jake. — Vai me explicar o enigma de Sansão.

— Xiu! — fez Eddie.

Queria escutar a conversa entre Calvin Tower e o Garoto Setenta e Sete. De repente, parecia muito importante... só que, por que estava tão escuro ali dentro, porra?

Só que não está escuro de jeito nenhum. O lado leste da rua pega bastante sol a esta hora, e com a porta aberta este lugar recebe toda luz dele. Como pode você dizer que está escuro?

Pois de algum modo estava. A luz do sol — o contraste da luz do sol — só a tornava pior... O fato de que não se podia ver exatamente a tornava pior ainda... e Eddie percebeu uma coisa terrível: aquelas pessoas corriam perigo. Tower, Deepneau, o Garoto Setenta e Sete. Provavelmente, ele e Jake do Mundo Médio, e Oi também.

Todos eles.

 

Jake viu o seu outro eu, mais jovem, recuar um passo do dono da livraria, os olhos arregalados de surpresa. Porque ele se chamava Tower, pensou. Foi isso que me surpreendeu. Mas não por causa da Torre de Roland — eu ainda não sabia disso —, mas por causa do desenho que botei na última página de minha Redação Final.

Colara uma foto da Torre Inclinada de Pisa na última página, depois escrevera por cima com Crayola preto, escurecendo-a o melhor que pôde.

Tower perguntou como ele se chamava. Jake Setenta e Sete disse-lhe e o homem o gozou um pouco. Era uma gozação benigna, dessas que se recebe de adultos que na verdade não gostam de crianças.

— Bom manuseio, parceiro — dizia Tower. — Parece o herói vagabundo de um romance de faroeste, o cara que irrompe em Black Fork, Arizona, limpa a cidade e depois segue adiante. Alguma coisa de Wayne D. Overholser, talvez...

Jake chegou um passo mais perto do seu velho eu (uma parte dele pensava que maravilhoso quadro aquilo tudo daria no Embalos de Sábado à Noite) e arregalou ligeiramente os olhos.

— Eddie!

Ainda sussurrava, embora soubesse que as pessoas na livraria não podiam...

Só que, talvez em algum nível, pudessem. Lembrou-se da senhora na rua Quarenta e Quatro, puxando a saia até o joelho para passar por cima de Oi. E agora Calvin Tower desviava ligeiramente os olhos para seu lado, antes de voltar à outra versão dele.

— Talvez seja bom não chamar desnecessariamente a atenção — murmurou Eddie no ouvido de Jake.

— Eu sei — disse o garoto —, mas veja Charlie Cbuu-Chuu, Eddie!

Ele olhou, e por um momento não viu nada — a não ser o próprio Charlie, claro: Charlie com o olho de farol e o sorriso não exatamente digno de confiança. Depois Eddie ergueu as sobrancelhas.

— Eu achava que Charlie Chuu-Chuu tinha sido escrito por uma senhora chamada Beryl Evans — sussurrou.

Jake assentiu com a cabeça.

— Eu também.

— Então quem é esse... — Eddie deu outra olhada. — Quem é essa Claudia y Inez Bachman?

— Não faço a menor idéia — disse Jake. — Nunca ouvi falar dela em minha vida.

 

Um dos velhos no balcão veio saltitando para o lado deles. Eddie e Jake afastaram-se. Ao recuarem, a coluna de Eddie deu uma pequena e fria torção. Jake ficou muito pálido, e Oi emitia uma série de baixos e angustiados gemidos. Havia algum problema ali, sem dúvida. De certa forma, eles haviam perdido suas sombras. Eddie simplesmente não sabia como.

O Garoto Setenta e Sete tirara a carteira e pagava pelos dois livros. Houve mais algumas conversas e bem-humoradas risadas, e depois ele se dirigiu para a porta. Quando Eddie foi atrás dele, o Jake do Mundo Médio agarrou-lhe o braço.

— Não, ainda não, eu vou voltar.

— Pouco estou ligando que você alfabetize a casa toda — disse Eddie.

— Vamos esperar na calçada.

Jake pensou nisso, mordendo o lábio, e balançou a cabeça. Encaminharam-se para a porta, pararam e saíram da frente quando o outro Jake voltou. O livro de adivinhações estava aberto. Calvin Tower voltara a cochilar sobre o tabuleiro de xadrez no balcão. Olhou em volta com um sorriso simpático.

— Mudou de idéia sobre a xícara de café, ó Hiperbóreo Guerreiro?

— Não, eu queria lhe perguntar...

— É a parte do enigma de Sansão — disse o Jake do Mundo Médio. — Acho que não tem importância. Embora o tal Deepneau cante uma cantiga muito bonitinha, se você quiser ouvi-la.

— Eu passo — disse Eddie. — Vamos embora.

Saíram. E embora tudo na Segunda Avenida ainda estivesse errado — aquela sensação de interminável escuridão nos bastidores, atrás do próprio céu —, era de algum modo melhor do que dentro do Restaurante da Mente de Manhattan. Pelo menos havia ar fresco.

— Eu vou lhe dizer uma coisa — disse Jake. — Vamos descer a Segunda com a Quarenta e Seis agora mesmo. — Indicou com a cabeça a versão dele que escutava Aaron Deepneau cantar. — Eu nos alcanço.

Eddie pensou e balançou a cabeça.

O rosto de Jake se abateu um pouco.

— Não quer ver a rosa?

— Pode apostar seu rabo que sim — disse Eddie. — Estou doido para vê-la.

— Então...

— Acho que ainda não acabamos aqui. Não sei por que, mas acho que não.

Jake — a versão Garoto Setenta e Sete — deixara a porta aberta quando voltara lá para dentro, e agora Eddie entrava. Aaron Deepneau contava a Jake um enigma que eles iriam depois testar com o Mono Blaine: O que é o que é, que corre mas não anda, tem boca mas não fala. O Jake do Mundo Médio, enquanto isso, olhava mais uma vez o quadro de avisos na vitrina da loja (William Faulkner frito, Raymond Chandler bem-passado). Tinha um daqueles ares que expressam mais dúvida e ansiedade que mau gênio.

— Aquele sinal está diferente, também — disse.

— Como?

— Não me lembro.

— É importante?

Jake voltou-se para ele. Tinha os olhos obcecados abaixo da testa franzida.

— Não sei. É outro enigma. Eu detesto enigmas!

Eddie solidarizou-se com ele. Quando um Berilo não é um Berilo?

— Quando é Claudia — respondeu.

— Hum?

— Deixa pra lá. Melhor recuar, Jake, senão vai atropelar a si mesmo.

Jake lançou um olhar espantado à versão de John Chambers que avançava, depois fez o que Eddie sugerira. E quando o Garoto Setenta e Sete começou a descer a Segunda Avenida com os novos livros na mão esquerda, o Jake do Mundo Médio deu a Eddie um sorriso cansado.

— Eu me lembro de uma coisa — disse. — Quando deixei essa livraria, tinha certeza de que jamais tornaria a voltar aqui. Mas voltei.

— Considerando-se que somos mais fantasmas que pessoas, eu diria que isso é discutível. — Deu um tapinha amistoso na nuca de Jake. — E se você esqueceu alguma coisa importante, talvez Roland possa fazê-lo lembrar. Ele é bom nisso.

Jake sorriu aliviado. Sabia por experiência própria que o pistoleiro realmente era bom em ajudar as pessoas a lembrarem. O amigo dele, Alain, podia ter sido o que tinha a capacidade mais forte de tocar outras mentes, e o amigo Cuthbert tinha um senso de humor nesse ka-tet particular, mas Roland se transformara com os anos num hipnotizador do cacete. Podia ter feito uma fortuna em Las Vegas.

— Podemos me seguir agora? — perguntou Jake. — Dar uma conferida na rosa?

Olhou para um lado e outro da Segunda Avenida — rua escura e iluminada ao mesmo tempo — com uma espécie de infeliz perplexidade.

— É provável que tudo esteja melhor por lá. A rosa torna tudo melhor. Eddie ia dizer tudo bem quando um sedã Lincoln cinza parou na frente da livraria de Calvin Tower. Estacionou no meio-fio amarelo na frente de um hidrante de incêndio sem absolutamente qualquer hesitação. Abriram-se as portas da frente, e quando Eddie viu quem saltava de trás do volante agarrou o ombro de Jake.

— Ai! — disse Jake. — Cara, isso dói!

Eddie não lhe deu atenção. Na verdade, apertou ainda mais a mão no ombro de Jake.

— Nossa! — sussurrou Eddie. — Minha Nossa Senhora, que é isso? Que porra é essa?

 

Jake viu Eddie empalidecer até um cinza-claro. Os olhos saltavam das órbitas. Não sem dificuldade, retirou a mão cravada em seu ombro. Eddie fez que ia apontar com aquela mão, mas pareceu não ter a força necessária. Deixou-a cair ao lado da perna com um pequeno baque.

O homem que saltara do lado do carona do sedã contornou-o até a calçada, enquanto o motorista abria a porta traseira do lado do meio-fio. Mesmo para Jake os movimentos deles pareciam treinados, quase como passos numa dança. O homem que saltou do banco traseiro usava um caro terno executivo, mas isso não mudava o fato de que era basicamente um naniquinho gorducho, com uma pança e cabelos negros embranquecendo nas laterais. Cabelo negro de caspa, pela aparência dos ombros do terno.

Para Jake, o dia de repente pareceu mais escuro que nunca. Ergueu o olhar para ver se o sol desaparecera atrás de uma nuvem. Não desaparecera, mas quase lhe pareceu que se formava uma corona negra em torno do círculo brilhante, como um círculo de máscara em torno do olho de uma estrela espantada.

Meio quarteirão abaixo na direção do centro, sua versão 1977 olhava a vitrina de um restaurante, e Jake lembrava o nome da casa: Chew Chew Mama’s. Não muito adiante ficava a Torre da Power Records, onde ele diria que Tower vende barato hoje. Se aquela versão dele olhasse para trás, teria visto o Town Car cinza... mas não olhara. O Garoto Setenta e Sete tinha a mente firmemente fixada no futuro.

— É Balazar — disse Eddie.

— Como?

Eddie apontava o nanico gorducho, que parara para ajeitar a gravata Sulka. Os outros três o ladeavam agora. Pareciam ao mesmo tempo relaxados e vigilantes.

— Enrico Balazar. E parecendo muito mais jovem. Nossa, ele é quase de meia-idade!

— Estamos em 1977 — lembrou-lhe Jake. Depois, quando a ficha caiu: — É o cara que você e Roland mataram?

Eddie contara-lhe a história do tiroteio na boate de Balazar em 1987, deixando de fora as partes mais sangrentas. A parte, por exemplo, em que Kevin Blake pusera a cabeça do irmão de Eddie no escritório de Balazar, para enxotar Eddie e Roland para o espaço aberto. Henry Dean, o grande sábio e viciado ilustre.

— Ié — disse Eddie. — O cara que Roland e eu matamos. E o que estava dirigindo, Jack Andolini. O Velho Duplo-Feio, como as pessoas o chamavam, embora jamais na cara dele. Ele passou por uma daquelas portas comigo pouco antes de começar o tiroteio.

— Roland o matou também. Não matou?

Eddie fez que sim com a cabeça. Era mais simples que tentar explicar que Jack Andolini morrera cego e desfigurado sob as patas vorazes das lagostrosidades na praia.

— O outro guarda-costas é George Biondi. Narigão. Eu mesmo o matei. Vou matá-lo. Daqui a dez anos. — Eddie parecia que ia desmaiar a qualquer segundo.

— Eddie, você está bem?

— Acho que sim. Acho que tenho de estar.

Haviam-se afastado da entrada da livraria. Oi ainda se agachava junto aos calcanhares de Jake. Segunda Avenida abaixo, o outro eu anterior de Jake desaparecera. Estou correndo por ele, pensou Jake. Talvez saltando por cima da boneca do cara da UPS. Saltando disparado para a delicatessen, porque tenho certeza de que é um bom caminho de volta ao Mundo Médio. O caminho de volta para ele.

Balazar espiou o seu reflexo na vitrina ao lado do quadro de avisos do ESPECIAIS DE HOJE, deu aos lados do cabelo acima da têmpora uma última ajeitada com as pontas dos dedos e cruzou a porta aberta. Andolini e Biondi foram atrás.

— Caras durões — disse Jake.

— Os piores — concordou Eddie.

— Do Brooklyn.

— Bem, sim.

— Por que durões do Brooklyn estão visitando um sebo de livros em Manhattan?

— Acho que é para descobrir isso que estamos aqui. Jake, eu machuquei o seu ombro?

— Eu estou bem. Mas na verdade não quero voltar lá.

— Nem eu. Então, vamos.

Voltaram a entrar no Restaurante da Mente de Manhattan.

 

Oi continuava nos calcanhares de Jake, ainda gemendo. O garoto não gostava muito do barulho, mas compreendia. O cheiro de medo na livraria era palpável. Deepneau sentava-se atrás do tabuleiro de xadrez, olhando infeliz para Calvin Tower e os recém-chegados, que não pareciam nada com bibliófilos em busca da fugidia primeira edição. Os outros dois caras ao balcão tomavam o resto de seu café em grandes goles, com o ar de sujeitos que acabaram de lembrar-se de compromissos importantes em outra parte.

Covardes, pensou Jake com um desprezo que não reconheceu como uma coisa relativamente nova em sua vida. Cagões. A velhice perdoa parte disso, mas não tudo.

— Temos umas duas coisinhas a discutir, Sr. Toren — dizia Balazar. Falava com uma voz baixa, calma, razoável, sem sequer um traço de sotaque. — Por favor, se pudermos passar ao seu escritório...

— Nós não temos negócios — disse Tower. Não parava de olhar para Andolini. Jake julgava saber por quê. Jack Andolini parecia o psicótico com o machado num filme de horror. — No próximo 15 de julho podemos negociar. Podemos. Portanto, podemos conversar depois do 4. Eu acho. Se você quisesse. — Sorriu, para mostrar que estava sendo razoável. — Mas agora? Puxa, eu não vejo por quê. Nem é junho ainda. E para sua informação, meu nome não é...

— Ele parece não entender — disse Balazar. Olhava para Andolini; olhou para o narigudo; ergueu as mãos até os ombros, depois deixou-as cair. Qual é o problema deste nosso mundo?, dizia o gesto. — Jack? George? Esse homem recebeu um cheque meu... a quantia antes do ponto decimal era seguida por cinco zeros... e agora diz que não vê sentido em conversar comigo.

— Inacreditável — disse Biondi.

Andolini não disse nada. Simplesmente olhava para Calvin Tower, os turvos olhos castanhos espiando por baixo do desagradável volume do crânio como animaizinhos maus espiando de dentro de uma gruta. Com uma cara daquelas, supunha Jake, não era preciso falar muito para fazer-se entender. Tratando-se de intimidação.

— Eu quero conversar com você — disse Balazar. Falou num tom de voz paciente, razoável, mas fixava os olhos no rosto de Tower com terrível intensidade. — Por quê? Porque meus empregados neste caso querem que eu converse com você. Pra mim, isso basta. E sabe por quê? Acho que você pode me dar cinco minutos de papo pelos 100 mil paus. Não pode?

— Os 100 mil paus já se foram — disse Tower de cara fechada. — Como tenho certeza que você e quem quer que o contratou sabem.

— Isso não me interessa — disse Balazar. — Por que interessaria? O dinheiro era seu. O que me interessa é se você vai ou não nos levar ao seu escritório. Se não, vamos ter nossa conversa aqui mesmo, na frente de todo mundo.

Todo mundo agora consistia em Aaron Deepneau, um trapalhão e dois nova-iorquinos expatriados que ninguém na livraria podia ver. Os contracupinchas de Deepneau haviam corrido como os cagões que eram.

Tower fez uma última tentativa.

— Não tenho ninguém pra tomar conta da loja. A hora do almoço está chegando e muitas vezes temos alguns curiosos durante...

— Este lugar não fatura cinqüenta dólares por dia — disse Andolini — e todos sabemos disso, Sr. Toren. Se está mesmo preocupado em perder uma grande venda, deixe que ele fique na caixa registradora alguns minutos.

Durante um horrível segundo, Jake pensou que o cara que Eddie chamara de “Velho Duplo-Feio” se referia a ninguém mais que John “Jake” Chambers. Depois entendeu que Andolini apontava para Deepneau, atrás do dono da livraria.

Tower cedeu. Ou Toren.

— Aaron? — perguntou. — Se incomoda?

— Não se você não — disse Deepneau. Parecia perturbado. — Tem certeza de que quer conversar com esses caras?

Biondi lançou-lhe uma olhada. Jake pensou que Deepneau levantara-se sob esse olhar de uma maneira admirável. De uma forma esquisita, sentia-se orgulhoso do velho companheiro.

— Ié — disse Tower. — Ié, está ótimo.

— Não se preocupe. Ele não vai perder a virgindade do cu por sua causa — disse Biondi, e riu.

— Cuidado com a língua, você está num lugar de intelectuais — disse Balazar, mas Jake achou que ele deu um risinho. — Vamos lá, Toren. Só um papinho.

— Meu nome não é este! Eu o mudei legalmente em...

— Qualquer que seja — disse Balazar num tom tranqüilizador. Chegou a dar um tapinha no braço de Tower. Jake ainda tentava acostumar-se à idéia de que todo aquele... todo aquele melodrama... se passara antes de ele deixar a loja com os dois novos livros (novos para ele, de qualquer modo) e retomar sua jornada. Que tudo acontecera por trás de suas costas.

— Um cabeçudo é sempre um cabeçudo, certo, chefe? — perguntou jovialmente Biondi. — Só um holandês. Não importa que nome se dê.

Balazar disse:

Se eu quiser que você fale, George, eu lhe digo o que quero que diga. Sacou?

— Tudo bem — disse Biondi. Depois, talvez após concluir que isso não pareceu suficientemente entusiástico: — Ié! Claro.

— Ótimo.

Balazar, agora segurando o braço no qual dera um tapinha, guiava Tower para o fundo da loja. Livros empilhavam-se em desordem ali; o ar pesava com o cheiro de um milhão de páginas mofadas. Uma porta tinha a inscrição SÓ FUNCIONÁRIOS. Tower pegou um molho de chaves, que chocalharam levemente quando ele escolheu uma entre elas.

— As mãos dele estão tremendo — murmurou Jake.

Eddie assentiu com a cabeça.

— As minhas também estariam.

Tower encontrou a chave desejada, girou-a na fechadura, abriu a porta. Deu outra olhada nos três homens que tinham vindo visitá-lo — caras durões do Brooklyn — e conduziu-os para a sala dos fundos. A porta fechou-se atrás deles, e Jake ouviu o barulho de um ferrolho sendo corrido. Duvidava que o próprio Tower houvesse feito aquilo.

Jake olhou o espelho convexo anti-roubo no canto da loja, viu Deepneau pegar o telefone ao lado da caixa registradora, pensar um pouco e tornar a pô-lo no lugar.

— Que fazemos agora? — perguntou Jake.

— Eu vou tentar alguma coisa — disse Eddie. — Vi num filme uma vez — Postou-se diante da porta fechada e deu uma piscadela para Jake. — Lá vou eu. Se não fizer nada além de bater com a cabeça, fique à vontade pra me chamar de babaca.

Antes que Eddie pudesse perguntar-lhe do que falava, Eddie entrou pela porta. Jake viu-o fechar os olhos e franzir a boca numa careta. Era a expressão de alguém que espera levar uma baita trombada.

Só que não houve nenhuma baita trombada. Eddie simplesmente passou através da porta. Por um momento, um dos mocassins ficou para fora, depois passou também. Ouviu-se um longo barulho rascante, como a mão de alguém correndo por madeira áspera.

Jake curvou-se e pegou Oi.

— Feche os olhos — disse.

— Olus — concordou o trapalhão, mas continuou a olhar para Jake com aquela expressão de tranqüila adoração.

Jake fechou os olhos, apertando-os. Quando tornou a abri-los, Oi imitava-o. Sem perda de tempo, Jake atravessou a porta com a inscrição SÓ FUNCIONÁRIOS. Fez-se um momento de escuridão e ele sentiu cheiro de madeira. No fundo da cabeça, ouviu dois daqueles angustiantes sinos de novo. E já atravessara.

 

Era uma área de depósito muito maior do que Jake esperava — quase tão grande quanto um armazém com altas pilhas de livros para todos os lados. Ele calculou que algumas daqueles pilhas, presas no lugar por pares de caibros em pé que mais escoravam que serviam de prateleira, deviam ter de 3 a 5 metros de altura. Alas estreitas e tortuosas passavam entre elas. Em duas ele viu plataformas rolantes que lembravam as escadas de embarque móveis de alguns pequenos aeroportos. O cheiro de livros velhos era o mesmo que na frente, mas muito mais forte, quase esmagador. Acima delas pendiam lâmpadas com protetores espalhadas, que proporcionavam uma iluminação amarelada e desigual. As sombras de Tower, Balazar e dos amigos deste saltavam de forma grotesca na parede à esquerda deles. Tower virou para aquele lado, levando os visitantes para um canto que na verdade era um escritório: havia uma mesa com máquina de escrever e fichário Rolodex, três velhos arquivos e uma parede coberta com vários pedaços de papel. E um calendário com um cara do século XIX na folha de maio que Jake não reconheceu... e então reconheceu. Robert Browning. Jake o citara na sua Redação Final.

Tower sentou-se atrás de sua escrivaninha, e logo pareceu arrependido de tê-lo feito. Jake solidarizou-se com ele. A maneira como os outros três se amontoaram à sua volta não podia ser muito agradável. As sombras saltaram na parede atrás da escrivaninha como gárgulas.

Balazar meteu a mão no paletó e tirou uma folha dobrada de papel. Abriu-a e largou-a na escrivaninha de Tower.

— Tá reconhecendo isso?

Eddie adiantou-se. Jake agarrou-o.

— Não chegue perto! Eles vão sentir você!

— Não me importa — disse Eddie. — Eu preciso ver esse papel.

Jake seguiu-o, sem saber o que mais fazer. Oi mexeu-se em seus braços e gemeu. Jake mandou-o calar-se e ele piscou os olhos.

— Desculpe, companheiro — disse Jake —, mas tem de ficar calado.

Estaria ainda a sua versão 1977 no terreno baldio? Uma vez lá dentro o Jake anterior escorregara de algum modo e perdera os sentidos. Já acontecera isso? Não adiantava adivinhar. Eddie tinha razão. Jake não gostava, mas sabia que era verdade: eles deviam estar ali, não lá, e ver o papel que Balazar mostrava agora a Calvin Tower.

 

Eddie pegou as duas primeiras linhas antes que Jack Andolini dissesse:

— Chefe, eu não estou gostando disso. Tem uma sensação meio estranha.

Balazar assentiu.

— Eu concordo. Tem alguém aqui com a gente, Sr. Toren?

Ainda parecia calmo e cortês, mas tinha os olhos em toda parte, avaliando o potencial do grande cômodo para esconder alguma coisa.

— Não — disse Tower. — Bem, tem Sergio; é o gato da loja. Imagino que esteja em algum lugar por aqu...

— Isto aqui não é loja — disse Biondi —, é um buraco onde você enterrou seu dinheiro. Um desses designers frescos teria problema para cobrir o orçamento em um lugar deste tamanho, e livraria ainda por cima? Cara, tu tá brincando.

Ele mesmo é quem está, pensou Eddie. Está brincando consigo mesmo.

Como se a idéia os invocasse, os terríveis sinos recomeçaram. Os bandidos reunidos no escritório de Tower não os ouviam, mas Jake, Eddie e Oi sim; Eddie lia isso nos rostos angustiados dos outros. E de repente o cômodo, já escuro, começou a ficar mais escuro ainda.

Estamos voltando, pensou Eddie. Nossa, estamos voltando! Mas não antes...

Curvou-se para a frente entre Andolini e Balazar, ciente de que os homens olhavam em volta com olhos arregalados e assustados, mas pouco estava ligando. O que o interessava era o papel. Alguém contratara Balazar primeiro para fazê-lo assinar (provavelmente) e depois empurrá-lo debaixo do nariz de Tower/Toren quando chegasse a hora (certamente). Na maioria dos casos, Il Roche, A Rocha, se satisfaria em mandar dois de seus durões — o que ele chamava de seus “cavalheiros” — numa missão daquela. O serviço, porém, era bastante importante para merecer sua atenção pessoal. Eddie queria saber por quê.

 

MEMORANDO DE ACORDO

 

Este documento constitui um Pacto ou Acordo entre o Sr. Calvin Tower, residente no estado de Nova York, dono de propriedade imobiliária que é principalmente um terreno baldio, identificado como Lote nº 298 e Bloco nº19, localizado...

 

Os sinos tocavam de novo em sua cabeça, causando-lhe arrepios. Desta vez mais alto. As sombras adensavam-se, saltando pelas paredes do depósito. A escuridão que Eddie sentira lá fora na rua irrompia ali dentro, e seria pior, claro que seria, estar afogado em escuridão seria uma maneira terrível de partir.

E se houvesse coisas naquela escuridão? Coisas famintas como o porteiro?

Há. Era a voz de Henry. Pela primeira vez em quase dois meses. Eddie imaginava Henry parado logo atrás dele com um pálido sorriso de viciado: olhos injetados e amarelos, dentes estragados. Você sabe que há. Mas quando ouve os sinos tem de partir, irmãozinho, como acho que você sabe.

— Eddie! — gritou Jake. — Está voltando! Está ouvindo?

— Agarre meu cinto — disse Eddie. Correu os olhos de um lado para outro sobre o papel nas gorduchas mãos de Tower. Balazar, Andolini e o Narigudo ainda olhavam em volta. Biondi chegara a sacar a arma.

— Seu...?

— Talvez não sejamos separados — disse Eddie.

Os sinos tocavam mais alto que nunca, e ele gemeu. As palavras do acordo borraram-se na sua frente. Eddie espremeu os olhos, trazendo de volta a letra impressa.

 

... identificado como Lote nº298 e Bloco nº19, localizado em Manhattan, cidade de Nova York, na rua Quarenta e Seis com a Segunda Avenida, e a Empresa Sombra, empresa que negocia com o estado de Nova York.

 

Neste dia, 15 de julho de 1976, a Sombra está pagando uma soma não retornável de 100 mil dólares a Calvin Tower, cujo recibo é reconhecido em relação à sua propriedade. Em consideração ao aqui exposto, Calvin Tower concorda em não...

 

Dia 15 de julho de 1976. Nem bem um ano atrás.

Eddie sentiu a escuridão baixando sobre eles, e tentou socar o resto dela pelos olhos adentro até o cérebro: o suficiente, talvez, para entender o que se passava ali. Se conseguisse isso, seria pelo menos um passo para descobrir o que significava tudo aquilo.

Se os sinos não me levarem à loucura. Se as coisas na escuridão não nos devorarem na volta.

— Eddie! — disse Jake. Aterrorizado, a julgar pela voz. Eddie ignorou-o.

 

... Calvin Tower concorda em não vender, alugar ou de outro modo empenhar a propriedade durante um período de um ano, a contar desta data e terminar a 15 de julho de 1977. Fica entendido que a Empresa Sombra terá a preferência na compra da propriedade anteriormente mencionada, como definido a seguir.

 

Durante esse período, Calvin Tower preservará e protegerá plenamente o interesse declarado da Empresa Sombra e não permitirá nenhum comprometimento ou outros empenhos...

 

Havia mais, porém agora os sinos estavam hediondos, de estourar a cabeça. Por apenas um momento Eddie compreendeu — diabos, quase podia ver — como seu mundo se tornara tênue. Todos os mundos, na certa. Tênue e desgastado como seus jeans. Pegou uma frase final do acordo: ... satisfeitas estas condições, terá o direito de vender ou dispor de outra forma da propriedade à Sombra ou qualquer outra parte. E aí as palavras sumiram, tudo sumiu, rodopiando num redemoinho negro. Jake agarrava o seu cinto com uma das mãos e Oi com a outra. O trapalhão latia feito um louco agora, e Eddie teve outra imagem confusa de Dorothy sendo levada pelo tufão para a Terra de Oz.

Havia coisas na escuridão: vultos que assomavam por trás de olhos de fantástica fosforescência, aquelas coisas que se via nos filmes sobre a exploração das mais profundas fendas do leito do mar. Só que nesses filmes os exploradores sempre se achavam dentro de uma campânula de mergulho, enquanto ele e Jake...

Os sinos atingiram um volume de rachar os tímpanos. Eddie sentia-se como se o tivessem mergulhado de cabeça no mecanismo do Big Ben ao bater a meia-noite. Gritava sem ouvir a própria voz. E então parou, tudo sumiu — Jake, Oi, o Mundo Médio —, e ele flutuava em algum ponto além das estrelas e galáxias.

Susannah!, ele gritou. Cadê você, Suze?

Não houve resposta. Só escuridão.

 

Mia

Era uma vez, nos idos dos anos 1960 (antes que o mundo seguisse adiante), uma mulher chamada Odetta Holmes, uma jovem muito simpática e com uma realmente grande consciência social, rica, bonita e inteiramente disposta a cuidar do próximo (ou da próxima). Sem sequer percebê-lo, essa mulher partilhava o corpo com uma criatura muito menos simpática chamada Detta Walker, que estava cagando para o próximo (ou próxima). Rhea do Cöos teria reconhecido Detta e a chamaria de irmã. Do outro lado do Mundo Médio, Roland de Gilead, o último pistoleiro, atraíra para si essa mulher dividida e criara uma terceira, muito melhor e mais forte que qualquer das duas anteriores. Era a mulher pela qual Eddie Dean se apaixonara. Ela o chamava de marido, e assim a si mesma pelo nome do pai dele. Havendo perdido os arranca-rabos feministas das décadas posteriores, fazia isso de muito bom grado. Se não se chamava Susannah Dean com orgulho e felicidade, era apenas porque sua mãe lhe ensinara que o orgulho vem antes da queda.

Agora havia ainda uma quarta mulher. Ela nascera da terceira em mais um período de tensão e transformação. Pouco estava ligando para Odetta, Detta ou Susannah; não ligava para nada além do novo cara na sua frente. A nova dona precisava ser alimentada. Era o que importava e só o que importava para ela.

Essa nova mulher, tão perigosa à sua maneira quanto fora Detta, era Mia. Não usava o nome do pai de ninguém, só a palavra que na Língua Superior significa mãe.

 

Ela andava devagar por um corredor para o lugar do banquete. Passou pelos aposentos em ruínas, as naves e nichos vazios, as galerias esquecidas onde os apartamentos eram ocos e nenhum tinha número. Em algum lugar daquele castelo havia um velho trono encharcado de sangue antigo. Em algum lugar escadarias conduziam a criptas emparedadas com ossos de uma profundidade que só Deus sabia. Mas havia vida ali; vida e comida abundante. Mia sabia tanto disso quanto sabia que tinha pernas embaixo de si e a saia estruturada e de muitas camadas roçando nelas. Comida abundante. Vida para a gente e nossa safra, como dizia o ditado. E estava com tanta fome agora. Claro! Não estava comendo por dois?

Chegou a uma ampla escadaria. Um barulho leve, mas forte, subiu até ela: a batida de máquinas de trens lentos sepultadas na terra abaixo da mais profunda das criptas. Mia pouco ligava para elas, nem pela North Central Positronics Ltda., que as construíra e pusera em movimento dezenas de milhares de anos antes. Pouco ligava para computadores bipolares, ou portas, ou os Feixes de Luz, ou a Torre Negra que ficava no centro de tudo.

Importava-se com os cheiros. Eles vagavam para ela, densos e maravilhosos. Frango, molho e assado de porco temperados em gordura a estalar. Fatias de bife sangrentas, rodelas de queijo úmido, imensos camarões Calla Fundy parecendo gordos gomos de laranja. Peixe no espeto com olhos negros a mirar fixo, a barriga empanturrada de molho. Grandes potes de jambalaia e fanata, os vastos ensopados de caldo largo do extremo sul. Acrescentem-se a isso cem frutas e mil doces, e ainda não se estaria nem no começo! Os tira-gostos! Os primeiros bocados do primeiro prato!

 

Do pé da escadaria, um largo corredor coberto de mármore negro polido seguia uns 30 metros até um par de portas duplas. Mia apressou-se a percorrê-lo. Via seu reflexo flutuando embaixo, e as chamas elétricas que ardiam nas profundezas do mármore como tochas embaixo d’água, mas não viu o homem que vinha atrás dela, descendo a ampla curva da escadaria não com escarpins elegantes, mas com botas velhas e surradas. Ele usava jeans desbotados e uma camisa de cambraia azul, em vez de roupas da corte. Uma arma, uma pistola com um gasto cabo de sândalo, pendia-lhe do lado esquerdo, o coldre amarrado com couro cru. Tinha o rosto bronzeado e curtido. Cabelos negros, embora agora semeados de crescentes faixas brancas. Os olhos eram a feição mais impressionante. Azuis, frios e firmes. Detta Walker não temia homem algum, nem mesmo esse, mas temera aqueles olhos de atirador.

Havia um saguão antes das portas duplas. Coberto de quadrados de mármore vermelhos e pretos. Retratos desbotados de antigos senhores e senhoras cobriam as paredes de lambris de madeira. No centro, via-se uma estátua feita de mármore e cromo de aço imbricados. Parecia ser um cavaleiro errante, com o que poderia ter sido um revólver de seis balas ou uma pequena espada acima da cabeça. Embora tivesse o rosto quase liso — o escultor pouco mais fizera que insinuar as feições —, Mia sabia quem era ele, sem dúvida. Quem devia ser.

— Eu vos saúdo, Arthur Eld — disse, e fez sua mais profunda mesura. — Por favor, abençoai estas coisas que vou levar para meu uso. E para uso de meu chapinha. Boa-noite a vós.

Não podia desejar-lhe longos dias sobre a terra, pois os dias dele — e os da maioria da sua espécie — haviam passado. Em vez disso, tocou os lábios sorridentes com as pontas dos dedos e soprou-lhe um beijo. Após tais cumprimentos, entrou no salão de jantar.

Tinha 40 metros de largura e 70 de comprimento, o salão. Fortes tochas elétricas em bainhas de cristal enfileiravam-se nos dois lados. Centenas de cadeiras postas numa imensa mesa de pau-ferro carregada de delicias quentes e frias. Havia um prato branco com delicadas teias azuis, um prato especialíssimo, diante de cada cadeira. As cadeiras estavam vazias, os pratos especialíssimos vazios, e as taças de vinho também, embora o vinho para enchê-las repousasse em baldes de ouro a intervalos ao longo da mesa, gelado e pronto. Era como ela sabia que seria, como vira em suas fantasias mais queridas e nítidas, como descobrira repetidas vezes, e ia descobrir enquanto precisasse, ela e a companheira. Onde quer que estivesse, o castelo estava perto. E se havia um cheiro de umidade e mofo antigo, e daí? Se vinham das sombras embaixo da mesa barulhos de correrias — talvez de ratos ou mesmo doninhas —, que lhe importava isso? Acima da mesa tudo era exuberante e iluminado, fragrante, maduro e pronto para levar. Que as sombras embaixo da mesa cuidassem de si mesmas. Isso não era da sua conta, não, senhor.

— Eis que aqui chega Mia, filha de ninguém! — gritou alegremente para o salão vazio com uma centena de aromas de carnes, molhos, cremes e frutas. — Estou faminta, e serei alimentada. Além disso, alimentarei meu chapinha! Se alguém quer dizer alguma coisa contra mim, que dê um passo à frente! Deixe-me vê-lo muito bem, e ele a mim!

Ninguém se adiantou, claro. Os que poderiam ter-se banqueteado ali haviam-se ido muito tempo atrás. Agora só restava a batida profunda e sonolenta de máquinas de trens lentos (e os fracos e desagradáveis barulhos de correria da Terra Embaixo da Mesa). Atrás dela, o pistoleiro permanecia calado, observando. Tampouco era a primeira vez. Ele não via castelo algum, mas via-a; ele a via muito bem.

— Quem cala, consente — gritou ela. Apertou com a mão a barriga, que começava a estufar-se. Curvar-se. Depois, com uma risada, tornou a gritar: — Ié, consente mesmo! Aqui vem Mia para o banquete. Que a sirva bem, e ao chapinha que cresce dentro dela. Que os sirva muito bem!

E banqueteou-se, mas não num só lugar e jamais de um dos pratos. Detestava os pratos, os pratos especialíssimos azul e branco. Não sabia por que, nem queria saber. O que a interessava era a comida. Percorreu a mesa como uma mulher no maior bufê do mundo, pegando as coisas com os dedos e atirando-as à boca, às vezes mastigando carne quente e macia direto do osso e jogando as sobras de volta nos pratos. Algumas vezes errava e os nacos de carne saíam rolando pela branca toalha de linho da mesa, deixando salpicos de molho e manchas que pareciam sangramento de nariz. Uma dessas carnes rolantes derrubou um vaso de molho. Uma despedaçou um prato de cristal cheio de geléia de uva-do-monte. Um terceiro rolou para fora do outro extremo da mesa, onde Mia ouviu alguma coisa arrastá-lo para baixo. Ouviu-se um breve e agudo bochincho, seguido por um uivo de dor, quando uma coisa enterrou os dentes em outra. Depois silêncio. Breve, porém, e logo quebrado pela risada de Mia. Ela limpou os dedos gordurosos no colo, bem devagar. Gostando da forma como as manchas das carnes e molhos errados se espalhavam sobre a cara seda. Gostando das curvas de seus seios que amadureciam e a sensação dos mamilos sob as pontas dos dedos, ásperos, duros e excitados.

Dirigiu-se devagar até a mesa, falando consigo mesma em muitas vozes, criando uma espécie de lunática algaravia.

Como estão indo eles, doçura?

Ah, estão indo muito bem bem, obrigada por perguntar, Mia.

Você acha realmente que Oswald agia só quando atirou em Kennedy?

Nem num milhão de anos, querida — foi um serviço da CIA desde o começo. Eles, ou aqueles caipiras milionários do crescente de aço do Alabama.

Bombingham, Alabama, doçura, não é verdade?

Já ouviu o novo disco de Joan Baez?

Meu Deus, sim, ela não canta como um anjo? Eu soube que ela e Bob Dylan vão se casar...

E por aí vai, fuxicos e fofocas. Roland ouvia a voz culta de Odetta e os rudes, mas pitorescos palavrões de Detta. Ouvia a voz de Susannah, e muitas outras também. Quantas mulheres em sua cabeça? Quantas personalidades, formadas e meio formadas? Viu-a estender a mão por cima dos pratos vazios que não estavam ali e as taças vazias (também ausentes), comendo direto das bandejas de servir, mastigando tudo com o mesmo prazer faminto, o rosto assumindo aos poucos o brilho da gordura, o corpete do vestido (que ele não via mas sentia) escurecendo quando ela os limpava repetidas vezes ali, espremendo o tecido, colando-o aos seios — os movimentos eram claros demais para não serem vistos. E a cada parada, antes de passar adiante, ela pegava o ar vazio à sua frente e jogava um prato que não via ou no chão a seus pés ou para o outro lado da mesa, numa parede que devia existir em seus sonhos.

— Pronto! — gritava com a voz desafiante de Detta Walker. — Pronto, sua desagradável velha Dama Azul, eu o quebrei de novo! Quebrei a porra do prato, e que tal acha você? Que tal acha isso agora?

Depois, passando ao lugar seguinte, podia dar uma agradável risada meio forçada e perguntar a fulano de tal se seu menino fulano ia vir até ali em Morehouse, e não era maravilhoso ter tão ótima escola para gente de cor, simplesmente uma maravilhosíssima!... coisa! E como vai sua mãe, querido? Ah, sinto muito saber, vamos todos rezar para a recuperação dela.

Estendia o braço para pegar mais um daqueles pratos de faz-de-conta enquanto falava. Pegava uma grande terrina cheia de reluzente cabrito preto com rodelas de limão. Baixava o rosto para ele como um porco metendo a cara no cocho. Engolia. Tornava a erguer o rosto, com um sorriso delicado e pudico no fulgor das tochas elétricas, as ovas de peixe destacando-se como suor negro na pele morena, pontilhando a face e a testa, aninhando-se em torno das narinas como coágulos de sangue velho — Ah, sim, acho que estamos fazendo um maravilhoso progresso, gente como aquele Buli Connor vive no pôr do sol já faz anos, e a melhor vingança deles é que o sabem —, e depois atirava a terrina para trás por cima da cabeça como uma louca jogadora de vôlei, parte do cabrito chovendo sobre os cabelos (Roland quase podia vê-lo), e quando a terrina se espatifava na pedra, sua polida cara de mas-não-é-uma-festa-maravilhosa contraía-se num vampiresco rosnado de Detta Walker, e ela talvez gritasse: Pronto, sua insuportável velha Dama Azul, que tal acha isso? Quer enfiar um pouco desse caviar na buceta véia, vá em frente! Vá em frente! Vai ser ótimo, craro!

E então passava para o lugar seguinte. E o seguinte. E o seguinte. Alimentando-se no grande salão de banquete. Alimentando a si mesma e ao seu chapinha. Não se voltando nem uma vez para ver Roland. Jamais percebendo que aquele lugar nem existia, estritamente falando.

 

Eddie e Jake andavam longe da mente e das preocupações de Roland quando os quatro (cinco, se se contasse Oi) se deitaram naquela noite após banquetear-se com as bolinhas de bolo fritas. Concentrara-se em Susannah. O pistoleiro tinha quase toda a certeza de que ela ia sair a vagar nessa noite, e de novo ele ia segui-la quando o fizesse. Não para ver o que ela estava aprontando; sabia o que seria de antemão.

Não, sua preocupação principal era protegê-la.

No início daquela tarde, por volta do momento em que Jake retornara com a braçada de comida, Susannah começara a mostrar sinais que ele conhecia: a fala truncada e curta, movimentos um tanto bruscos para serem naturais, tendência a esfregar, ausente, a têmpora ou acima da sobrancelha esquerda. Não via Eddie esses sinais?, perguntava-se Roland. Eddie era um observador de fato tapado quando Roland o conhecera, mas mudara muito desde então.

E ele a amava. Amava-a. Como não via o que Roland via? Os sinais não eram exatamente tão óbvios quanto haviam sido na praia do mar Ocidental, quando Detta se preparava para saltar e tomar o controle de Odetta, mas estavam ali sem dúvida, e não tão diferentes, aliás.

Por outro lado, a mãe de Roland tinha um ditado: O amor tropeça. Talvez fosse por Eddie estar demasiado próximo dela para ver. Ou não queira ver, pensou Roland. Não queria enfrentar a idéia de passar por tudo isso de novo. Fazê-la enfrentar a si mesma e à sua natureza dividida.

Só que desta vez não se tratava dela. Roland suspeitava disso havia muito tempo — desde antes da confabulação deles com a gente de River Crossing, na verdade — e agora ele sabia. Não, não se tratava dela.

E assim deitara-se ali, ouvindo a respiração deles encompridar-se ao adormecerem um a um: Oi, depois Jake, depois Susannah. Eddie por último.

Bem... não exatamente por último. Fraco, muito fraco, Roland ouvia um murmúrio de conversa das pessoas do outro lado da colina sul, as que os vinham seguindo e vigiando. Tomando coragem para adiantar-se e dar-se a conhecer, provavelmente. Roland tinha os ouvidos aguçados, mas não o suficiente para pegar o que eles diziam. Haviam sido meia dúzia de diálogos antes que alguém emitisse um longo psiu. Depois fora o silêncio, a não ser pelo baixo fungado intermitente do vento nos topos das árvores. Roland jazia imóvel, olhando a escuridão acima, onde nenhuma estrela brilhava, à espera de que Susannah se levantasse. Ela acabou por fazê-lo.

Mas antes disso Jake, Eddie e Oi entraram em todash.

 

Roland e seus companheiros haviam ficado sabendo do todash (o que existia para saber) por Vannay, o tutor da corte no longo tempo atrás em que eram jovens. Formavam um quinteto, para começar: Roland, Alain, Cuthbert, Jamie e Wallace, filho de Vannay. Wallace, de uma inteligência feroz mas sempre doentio, morrera do mal da queda, às vezes chamado mal do rei. Então haviam ficado quatro, e sob o guarda-chuva do verdadeiro ka-tet. Vannay conhecera-o muito bem, e esse conhecimento sem dúvida fazia parte do seu pesar.

Cort ensinara-os a navegar pelo sol e pelas estrelas; Vannay mostrara-lhes a bússola, o quadrante, o sextante, e ensinara-lhes a matemática necessária para usá-los. Cort ensinara-os a lutar. Com a história, problemas de lógica e manuais do que chamava “verdades universais”, Vannay ensinara-lhes que às vezes podiam evitar ter de fazê-lo. Cort ensinara-os a matar se tivessem de fazê-lo. Vannay, com o manquejar e o sorriso doce mas distraído, ensinara-lhes que na maioria das vezes a violência piorava mais os problemas do que os resolvia. Chamava-a de câmara oca, onde todos os verdadeiros sons são distorcidos por ecos.

Ensinara-lhes física — a que havia. Ensinara-lhes química — a que restara. Ensinara-os a terminar frases como “A árvore é igual a”, “Quando eu corro me sinto tão contente quanto” e “Não pudemos deixar de rir porque”. Roland detestava esses exercícios, mas Vannay não o deixava escapulir deles.

— Sua imaginação é uma coisa pobre, Roland — disse-lhe o tutor certa vez. Roland devia ter uns 11 anos na época. — Não vou deixar que você a alimente com rações curtas e a torne mais pobre ainda.

Ensinara-lhes os Sete Mostradores da Magia, recusando-se a dizer se acreditava em algum deles, e Roland achou que fora como tangente a uma daquelas lições que Vannay falara do todash. Não sabia ao certo. Sabia que Vannay falara da seita manni, pessoas que eram viajantes de longe. E não falara também do Arco-íris do Mago?

Roland achava que sim, mas tivera duas vezes a curva rósea do arco-íris em seu poder, uma vez quando menino e uma já homem, e embora viajasse nela nas duas vezes — com os amigos na segunda ocasião —, isso jamais o tornara todash.

Ah, mas como você iria saber?, perguntou a si mesmo. Como iria você saber, Roland, quando estava lá dentro?

Porque Cuthbert e Alain lhe teriam dito, aí está por quê.

Tem certeza?

Um sentimento tão estranho que chegava a não ser identificável subiu do peito do pistoleiro — seria indignação? horror? talvez mesmo um senso de traição? —, quando compreendeu que não, não tinha certeza. Sabia apenas que a bola o levara para o fundo de si mesma, e ele tivera sorte de sair de novo.

Não há bola aqui, pensou, e mais uma vez foi aquela outra voz — a voz seca, implacável, de seu velho tutor capenga, cuja dor pelo filho único jamais terminara de fato — que lhe respondeu, e com as mesmas palavras:

Tem certeza?

Pistoleiro, você tem certeza?

 

Começou com um longo estalo. O primeiro pensamento de Roland foi a fogueira do acampamento: um deles pusera alguns galhos verdes de pinheiro nela, e eles faziam aquele barulho quando as agulhas pegavam fogo. Mas...

O barulho aumentou, tornou-se uma espécie de zumbido elétrico. Roland sentou-se e olhou além do fogo que morria. Arregalou os olhos e seu coração começou a acelerar-se.

Susannah voltara-se do lado de Eddie, afastara-se um pouco, também. Eddie estendera o braço e Jake o imitou. Tocaram-se as mãos. E, quando Roland os olhava, eles começaram a sumir da existência numa série de pulsações bruscas. Oi fazia o mesmo. Quando desapareceram, foram substituídos por um baço fulgor cinza que se aproximava das formas e posições de seus corpos, como se alguma coisa mantivesse seus lugares na realidade. Cada vez que retornavam, havia o zumbido estalado. Roland via as pálpebras fechadas ondularem quando os globos rolavam embaixo.

Sonhavam. Mas não sonhavam apenas. Aquilo era todash, a passagem entre dois mundos. Supunha-se que os mannis podiam fazê-lo. E que alguns pedaços do Arco-íris do Mago podiam possibilitar à pessoa fazê-lo também, quer se quisesse ou não. Um determinado pedaço.

Eles podiam ficar presos lá dentro e cair, pensou Roland. Vannay disse isso também. Ele disse que virar todash era cheio de perigos.

Que mais dissera? Roland não teve tempo de lembrar, pois naquele momento Susannah se sentou, enfiou os soquetes de couro macio que ele fizera para ela nos cotocos das pernas e içara-se para a cadeira de rodas. Um momento depois, saía rolando para as árvores antigas no lado norte da estrada. Diretamente oposto ao lugar onde os vigilantes se achavam acampados; por esse tanto devia-se agradecer.

Roland permaneceu onde estava por um instante, dilacerado. Mas no fim seu curso era bastante claro. Não podia acordá-los enquanto se achavam em estado todash; fazer isso seria um risco terrível. Podia apenas seguir Susannah, como fizera outras noites, e esperar que ela não se metesse em encrenca.

Você podia também pensar um pouco no que aconteceria em seguida. Era a voz seca e professoral de Vannay. Agora que estava de volta, parecia que o velho tutor aparentemente pretendia ficar um tempo. A razão jamais foi o seu ponto forte, mas você tem de fazer, mesmo assim. Vai querer esperar até que os visitantes se façam conhecer, claro — mas no fim, Roland, você tem de agir. Mas pense primeiro. Mais cedo será melhor do que mais tarde.

Sim, mais cedo é sempre melhor do que mais tarde.

Ouviu outro estalo, mais alto. Eddie e Jake haviam voltado, Jake deitado com o braço enrolado em torno de Oi, e depois tornaram a desaparecer, nada ficando do que eram além de fraco brilho ectoplásmico. Bem, deixa pra lá. O trabalho dele era seguir Susannah. Quanto a Eddie e Jake, haveria água se Deus quisesse.

E se você voltasse e eles tivessem desaparecido? Acontece, Vannay disse. Que vai dizer a ela se ela acordar e descobrir que os dois desapareceram, o marido e o filho adotivo?

Não era para se preocupar no momento. No momento tinha Susannah com quem se preocupar, Susannah para manter em segurança.

 

No lado norte da estrada, velhas árvores com troncos enormes erguiam-se a consideráveis distâncias umas das outras. Os galhos podiam entrançar-se e criar um sólido dossel acima, mas no solo havia bastante espaço para a cadeira de rodas de Susannah, e ela seguia em boa marcha, serpeando por entre os vastos paus-ferro e pinheiros, rolando ladeira abaixo por cima de uma fragrante camada de musgos e agulhas.

Não era Susannah. Nem Detta ou Odetta, tampouco. Esta se chama Mia.

Roland pouco estava ligando se ela se chamava Rainha dos Dias Verdes desde que voltasse salva, e as outras ainda estivessem lá quando o fizesse.

Ele começou a sentir o cheiro de verde mais forte, mais novo; juncos e plantas aquáticas. Com ele vieram o odor de lama, o martelar das rãs, a sarcástica saudação, huul! huul!, de uma coruja, o espadanar na água de alguma coisa que saltara. Isso foi seguido por um fino grito de alguém que morria, talvez o saltador, talvez aquele em que ele saltou. O mato baixo começava a cobrir musgos e agulhas, primeiro pontilhando-os e depois tomando-os completamente. A cobertura de árvores adelgaçava-se. Mosquitos e muriçocas zumbiam. Besouros costuravam o ar. Os cheiros de pântano tornavam-se mais fortes.

As rodas da cadeira haviam passado por cima do manto de folhas no chão sem deixar traços. À medida que o manto dava lugar ao espalhado mato baixo, Roland começou a ver galhos quebrados e folhas arrancadas, marcando a passagem dela. Depois, quando ela chegou ao terreno baixo mais ou menos plano, as rodas começaram a afundar na terra cada vez mais fofa. Vinte passos adiante, ele começou a ver água entrando nos traços. Susannah era sábia demais para ficar atolada, porém — muito esperta. Vinte passos além dos primeiros sinais de umidade, ele deu com a própria cadeira, abandonada. Sobre o assento havia a calça e a blusa dela. Entrara no pântano nua, a não ser pelas luvas que cobriam seus cotocos.

Lá embaixo viam-se tiras de neblina pairando sobre poças de água parada. Erguiam-se montículos cobertos de mato; num deles, amarrado com arame a um toro seco fincado em pé, via-se o que Roland a princípio tomou por um antigo espantalho. Quando chegou mais perto, percebeu que era um esqueleto humano. A testa da caveira fora afundada, deixando um triângulo escuro entre as órbitas vazias. O ferimento fora feito por alguma espécie de tacape primitivo, sem dúvida, e deixara-se o cadáver (ou o espírito que ficara) para assinalar aquele ponto como o limite de algum território tribal. Provavelmente, estavam mortos havia muito tempo, ou se haviam mudado, mas a cautela era uma verdadeira virtude. Roland sacou o revólver e continuou a procurar a mulher, passando de um montículo a outro e piscando com uma ou outra fisgada de dor no quadril esquerdo. Era preciso toda a sua concentração e agilidade para acompanhá-la. Isso se devia em parte ao fato de ela não ter o interesse dele de manter-se tão seca quanto possível. Estava tão nua quanto uma sereia, e movia-se como tal, tão à vontade na lama e água do pântano quanto em terra seca. Arrastava-se sobre os montículos maiores, deslizava pela água entre eles, parando de vez em quando para desgrudar uma sanguessuga. Na escuridão, o andar e deslizar pareciam fundir-se num único movimento coleante de enguia, perturbador.

Ela penetrou meio quilômetro, talvez, no pântano úmido, com o pistoleiro seguindo paciente logo atrás. Roland mantinha o maior silêncio possível, embora duvidasse que fosse necessário; a parte dela que via, sentia e pensava estava longe dali.

Finalmente ela parou, erguida em cima das pernas truncadas e segurando-se a emaranhados de galhos de cada lado para equilibrar-se. Olhou por cima da superfície negra de uma poça, cabeça erguida, corpo imóvel. O pistoleiro não sabia se a poça era grande ou pequena; os limites perdiam-se na neblina. Mas havia luz ali, uma espécie de fraca radiação desfocada que parecia jazer logo abaixo da superfície da própria água, talvez emanando de troncos podres em lenta decomposição.

Ficou ali parada, examinando o bosque coberto de musgo como uma rainha examinando um... um o quê? Um salão de banquete? Foi o que ele acabou por acreditar. Quase por ver. Era um sussurro da mente dela para a dele, e batia com o que ela dizia e fazia. O salão de banquete era a maneira engenhosa de manter a mente dela separada de Mia, como mantivera Odetta separada de Detta aqueles anos todos. Mia podia ter muitos motivos para querer manter sua existência em segredo, mas certamente o maior deles tinha a ver com a vida que trazia dentro de si.

O chapinha, como ela o chamava.

Então, com uma rapidez que o assustou (embora já houvesse visto isso antes, também), ela começou a caçar, deslizando em fantásticos espadanos silenciosos primeiro ao longo da borda da poça, depois um pouco para dentro dela. Roland observava-a com uma expressão que continha horror e luxúria quando ela tricotava e tecia seu caminho entrando e saindo nos juncos, por entre e por cima dos montículos. Agora, em vez de desgrudar as sanguessugas da pele e jogá-las fora, ela jogava-as na boca, como pedaços de açúcar. Os músculos das coxas ondulavam. A pele parda luzia como seda molhada. Quando ela se voltou (Roland já se escondera atrás de uma árvore e tornara-se uma das sombras), ele viu como os seios dela haviam amadurecido.

O problema, claro, ia além do “chapinha”. Tinha-se de pensar em Eddie também. Que diabos há com você, Roland?, ele podia ouvi-lo dizendo. Podia ser nosso filho. Quer dizer, não se pode saber com certeza que não é. Ié, ié, eu sei que alguma coisa a possuiu enquanto a gente puxava Jake, mas isso não quer necessariamente dizer...

E por aí seguia, blablablá, como diria o próprio Eddie, e por quê? Porque ele a amava e ia querer o filho da sua união. E porque discutir era tão natural para Eddie Dean quanto respirar. Cuthbert fora a mesma coisa.

Nos juncos, a mão da mulher saltou para a frente e agarrou uma rã de bom tamanho. Ela apertou, e a rã explodiu, esguichando entranhas e uma reluzente carga de ova entre os dedos dela. A cabeça estourou. Ela levou-a à boca e comeu-a gulosamente enquanto as pernas esverdeadas ainda tremelicavam, lambendo o sangue e os fios brilhantes de tecido dos nós dos dedos. Depois imitou alguma coisa e gritou: “Que tal acha isso, sua Dama Azul fedorenta?”, numa voz baixa e gutural que causou arrepios em Roland. Era a voz de Detta Walker. Detta em estado mais perverso e louco.

Quase sem pausa, ela seguiu em frente de novo, buscando. Em seguida veio um peixinho... depois outra rã... e então o verdadeiro prêmio: um rato-d’água que guinchou, contorceu-se e tentou morder. Ela esmagou a vida dele e meteu-o na boca, com patas e tudo. Um instante depois, curvou-se e regurgitou os restos — uma massa retorcida de pele e ossos lascados.

Mostre isso a ele, então — sempre supondo que ele e Jake voltem de qualquer aventura onde estejam, quer dizer. E diga: “Eu sei que as mulheres devem ter estranhos desejos quando estão grávidas, Eddie, mas isso não parece um pouco estranho demais? Olhe pra ela, buscando no meio dos juncos e lama como uma espécie de jacaré humano. Olhe pra ela e me diga se está fazendo aquilo para alimentar a criança. Qualquer criança humana.”

Mas ele não discutiria. Roland sabia disso. O que não sabia era o que a própria Susannah poderia fazer quando Roland lhe dissesse que ela estava gerando uma coisa que ansiava por carne crua no meio da noite. E como se já não fosse preocupante o suficiente, agora havia todash. E estranhos que vinham em busca deles. Mas os estranhos eram o menor dos seus problemas. Na verdade, achava a presença deles quase reconfortante. Não sabia o que eles queriam, e no entanto sabia. Encontrara-os antes, muitas vezes. No fundo, sempre queriam a mesma coisa.

 

Agora a mulher que se chamava Mia começava a falar enquanto caçava. Roland conhecia aquela parte de seu ritual também, mas causava-lhe arrepios, deixando-o bambo. Ele olhava direto para ela, mas ainda assim era difícil acreditar que aquelas diferentes vozes viessem da mesma garganta. Ela se perguntava como ela própria estava. Respondia-se que estava ótima, muito obrigada. Falava em alguém chamado Bill, ou talvez fosse Bull. Perguntava pela mãe de alguém. Perguntava a alguém sobre um lugar chamado Morehouse, e depois, numa voz profunda e grave — voz de homem, sem dúvida —, dizia-se que não iria para Morehouse, ou não casa. Riu disso com a voz rouca, logo devia ser alguma espécie de piada. Apresentou-se várias vezes (como fizera nas outras noites) como Mia, um nome que Roland conhecia bem de sua vida anterior em Gilead. Era quase um nome santo. Duas vezes fez mesura, erguendo invisíveis saias de uma maneira que dava pontadas no coração do pistoleiro — ele vira aquelas mesuras primeiro em Mejis, quando com os amigos Alain e Cuthbert fora mandado lá pelos pais.

Ela voltou com esforço à borda da

(salão)

poça, reluzindo e molhada. Ficou ali imóvel por cinco minutos, depois dez. A coruja uivou sua desdenhosa saudação de novo — huul — e como em resposta a lua saiu das nuvens para dar uma breve olhada em volta. Quando o fez, desapareceu a sombra que escondia um animalzinho. Ele tentou passar correndo pela mulher. Ela pegou-o impecavelmente e enterrou a cara na barriga peluda. Ouviu-se um úmido barulho de mastigação, seguido por várias mordidas estaladas. Ergueu os restos para o luar, suas mãos e pulsos negros úmidos mais enegrecidos ainda com o sangue. Deu um sonoro arroto e rolou de volta à água. Desta vez fez um grande espadano, e Roland soube que o banquete dessa noite acabara. Ela comera até alguns mosquitos, agarrando-os no ar. Ele só podia esperar que nada do que comera lhe fizesse mal. Até agora, nada fizera.

Enquanto ela fazia sua toalete, mais ou menos, lavando a lama e o sangue, Roland retirou-se por onde viera, ignorando as dores mais freqüentes no quadril esquerdo e andando com toda a sua astúcia. Observara-a passar por aquilo três vezes antes, e uma delas fora o bastante para ver como tinha os sentidos aguçados naquele estado.

Parou ao lado da cadeira de rodas dela, olhando em volta para assegurar-se de que não deixara vestígios. Viu a pegada de uma bota, alisou-a e jogou algumas folhas em cima para ter certeza. Não muitas; muitas teriam sido pior do que nenhuma. Feito isso, dirigiu-se de volta à estrada e ao acampamento, sem mais pressa. Que veria Mia quando ela limpava a cadeira de rodas? Uma espécie de carrinho motorizado? Não importava. O que importava era o grau de esperteza dela. Se ele não despertasse com a necessidade de fazer xixi quando partia numa de suas expedições anteriores, era muito provável que ainda não soubesse das viagens de caça, e devia ser esperto com essas coisas.

Não tão esperto quanto ela, verme. Agora, como se não bastasse o fantasma de Vannay, lá vinha Cort pregar-lhe um sermão. Ela mostrou a você antes, não mostrou?

Sim. Ela mostrou-lhe astúcia suficiente para três mulheres. Agora havia uma quarta.

 

Quando Roland viu a brecha nas árvores à frente — a estrada que vinham seguindo e o lugar onde haviam acampado para a noite —, inspirou fundo duas vezes.

Água se Deus quiser, lembrou a si mesmo. Sobre as grandes coisas, Roland, você não tem voz.

Não era uma verdade confortável, sobretudo para um homem numa missão como a dele, mas aprendera a viver com ela.

Inspirou de novo e andou. Soltou o ar num longo e aliviado suspiro ao ver Eddie e Jake em sono profundo ao lado da fogueira apagada. A mão direita do garoto, que estava entrelaçada com a de Eddie quando o pistoleiro seguira Susannah para fora do acampamento, agora abraçava o corpo de Oi.

O trapalhão abriu um olho e encarou Roland. Depois tornou a fechá-lo.

Roland não a ouviu voltar, mas sentiu-a do mesmo jeito. Apressou-se a deitar-se, rolou para um lado e pôs o rosto na curva do cotovelo. E dessa posição observou quando a cadeira de rodas saiu do meio das árvores. Ela a limpara rapidamente, mas bem. Roland não viu uma única mancha de lama. Os raios brilhavam ao luar.

Ela estacionou a cadeira onde estava antes, deslizou para fora com a graça de sempre e foi até onde jazia Eddie. Roland viu-a aproximar-se da forma adormecida do marido com certa ansiedade. Porque a mulher que se chamava mãe estava próxima demais do que fora Detta.

Ficando completamente imóvel, como alguém no mais profundo sono, Roland preparou-se para mexer-se.

Então ela afastou o cabelo do lado do rosto de Eddie e beijou a cavidade de sua têmpora. A ternura desse gesto disse ao pistoleiro tudo que ele precisava saber. Era seguro dormir. Fechou os olhos e deixou que a escuridão o envolvesse.

 

Confabulação

Quando Roland acordou pela manhã, Susannah ainda dormia, mas Eddie e Jake estavam de pé. Eddie fizera uma pequena fogueira nova sobre os ossos cinzentos da outra. Ele e o garoto sentavam-se perto dela pelo calor, comendo o que Eddie chamava de burritos. Pareciam ao mesmo tempo excitados e preocupados.

— Roland — disse Eddie. — Acho que a gente precisa ter uma conversa. Aconteceu uma coisa ontem de noite...

— Eu sei — disse Roland. — Eu vi. Vocês ficaram todash.

— Todash? — perguntou Jake. — O que é isso?

Roland começou a explicar-lhes, depois balançou a cabeça.

— Se vamos confabular, Eddie, é melhor você ir acordar Susannah. Assim não teremos de repetir a primeira parte. — Olhou para o sul. — E esperemos que nossos amigos não nos interrompam até termos nossa conversa. Eles não têm nada com isso.

Mas já se perguntava a respeito.

Observou com mais que interesse comum quando Eddie sacudiu Susannah, inteiramente seguro, mas de modo algum confiante de que seria ela quem abriria os olhos. Foi. Ela se sentou, espichou-se, correu os dedos pelos cachos curtos.

— Qual é seu problema, doçura? Eu queria dormir mais uma hora, pelo menos.

— A gente precisa conversar, Suze — disse Eddie.

— Todos vocês precisam, mas ainda não — ela disse. — Meu Deus, como estou dolorida.

— Dormir em chão duro às vezes faz isso — disse Eddie.

Pra não falar em caçar nua nos pântanos e lama, pensou Roland.

— Me dê um pouco d'água, doçura. — Estendeu as palmas e Eddie encheu-as com água de uma das bolsas. Ela jogou-a no rosto e nos olhos, deu um gritinho de arrepio e disse: — Gélida.

— Véia! — disse Oi.

— Ainda não — ela disse ao trapalhão —, mas me dê mais alguns meses como os últimos que eu estarei. Roland, vocês do Mundo Médio já ouviram falar em café?

Roland fez que sim com a cabeça.

— Da fazenda do Arco Externo. Lá do sul.

— Se encontrarmos algum, pegamos, não pegamos? Prometa-me, agora.

— Eu prometo — disse Roland.

Susannah, enquanto isso, examinava Eddie.

— Que é que há? Vocês não parecem muito legais.

— Mais sonhos — disse Eddie.

— Eu também — disse Jake.

— Sonhos, não — disse o pistoleiro. — Como você dormiu, Susannah?

Ela o olhou com um ar franco. Roland não sentiu nem uma sombra de mentira na resposta.

— Feito uma pedra, como sempre faço. Uma coisa pra que serve essa viagem toda: pode jogar fora a porra do seu Nembutal.

— Que coisa todashesca é essa, Roland? — perguntou Eddie.

— Todash — ele corrigiu, e explicou-lhes o melhor que pôde. O que mais lembrava das doutrinas de Vannay era que os mannis faziam longos períodos de jejum, para induzir o estado de espírito certo, e viajavam por aí, em busca do lugar exato em que induzir o estado todash. Era uma coisa que determinavam com ímãs e grandes pesos de chumbo.

— Está me parecendo que esses caras teriam direito a uma cidade natal em Needle Park — disse Eddie.

— Em qualquer lugar de Greenwich Village — acrescentou Susannah.

— “Parece havaiano, não parece?” — perguntou Jake com uma voz grave e profunda, e todos riram. Até Roland riu um pouco.

— Todash é outra maneira de viajar — disse Eddie quando cessaram as risadas. — Que nem as portas. E as bolas de vidro. Correto?

Roland ia dizer sim, mas hesitou.

— Acho que todas podem ser variações da mesma coisa — disse. — E segundo Vannay, as bolas de vidro... pedaços do Arco-íris do Mago... facilitam entrar em todash. Às vezes fácil demais.

Jake disse:

— Nós realmente tremulamos e apagamos... como lâmpadas elétricas. O que você chama faíscas.

— Ié... vocês apareciam e desapareciam. Quando desapareciam, ficava um fulgor baço onde haviam estado, quase como se alguma coisa estivesse guardando o lugar pra vocês.

— Graças a Deus que estava — disse Eddie. — Quando acabou... quando aqueles sinos recomeçaram a tocar e nós nos soltamos esperneando... vou lhe dizer a verdade, eu achava que não íamos voltar.

— Nem eu — disse Jake em voz baixa. O céu tornara a ficar nublado, e à fraca luz da manhã ele parecia muito pálido. — Eu perdi você.

— Eu nunca fiquei tão feliz por ver um lugar na minha vida como quando abri os olhos e vi esse pedacinho de estrada — disse Eddie. — E você junto de mim, Jake. Até o trapalhão me pareceu bom. — Lançou uma olhada a Oi, e depois a Susannah. — Nada parecido lhe aconteceu ontem à noite, hein?

— Nós a teríamos visto — disse Jake.

— Não se ela todashasse para outro lugar — disse Eddie.

Susannah balançou a cabeça, parecendo perturbada.

— Eu simplesmente passei a noite dormindo. Como disse a vocês. E você, Roland?

— Nada a declarar — disse Roland.

Como sempre, guardaria sua opinião até seu instinto dizer-lhe que era hora de dá-la. E, além disso, o que disse não era exatamente uma mentira. Olhou atentamente para Eddie e Jake.

— Há problema, não há?

Eddie e Jake entreolharam-se, depois olharam para Roland. Eddie deu um suspiro.

— Ié, provavelmente.

— É muito sério? Vocês sabem?

— Acho que não. Sabemos, Jake?

Jake abanou a cabeça.

— Mas tive algumas idéias — continuou Eddie —, e se estiver certo, nós temos um problema. E dos grandes. — Engoliu. Com força. Jake tocou-lhe a mão e o pistoleiro ficou preocupado ao ver com que rapidez e firmeza Eddie segurou os dedos do garoto.

Roland estendeu a mão e puxou a de Susannah para dentro da dele. Teve uma breve visão daquela mão agarrando a rã, espremendo-a e esguichando as entranhas. Afastou-a logo da mente. A mulher que fizera isso não estava agora ali.

— Contem-nos — ele disse a Eddie e Jake. — Contem-nos tudo. Gostaríamos de ouvir tudo.

— Cada palavra — concordou Susannah. — Em nome dos seus pais.

 

Eles contaram o que lhes acontecera na Nova York de 1977. Roland e Susannah escutavam, fascinados, quando contaram que seguiram Jake até a livraria, e viram Balazar e seus cavalheiros encostarem na frente.

— Hum! — disse Susannah. — Os mesmos bandidões! É quase como um romance de Dickens.

— Quem é Dickens, e que é um romance? — perguntou Roland.

— Romance é uma longa história contada num livro — disse ela. — Dickens escreveu cerca de uma dúzia. Foi talvez o melhor que já viveu. Em suas histórias, pessoas numa grande cidade chamada Londres viviam encontrando outras que conheciam de muito tempo atrás. Eu tinha um professor na faculdade que detestava a forma como isso vivia acontecendo. Dizia que as histórias de Dickens eram cheias de falsas coincidências.

— Um professor que não sabia do ka ou não acreditava nele — disse Roland.

Eddie assentiu.

— Ié, isso é ka, sem dúvida.

— Eu estou mais interessado na mulher que escreveu Charlie Chuu-Chuu do que nesse contador de história Dickens — disse Roland. — Jake, eu imagino se você...

— Eu estou na sua frente — disse Jake, desafivelando as correias de sua mochila.

Quase com reverência, retirou o velho livro esbodegado contando as histórias da locomotiva Charlie e seu amigo o Maquinista Bob. Todos olharam a capa. O nome embaixo do título era Beryl Evans.

— Cara — disse Eddie. — Isso é muito esquisito, eu não quero me desviar nem nada assim... — Fez uma pausa, compreendendo que acabara de fazer um trocadilho ferroviário, e prosseguiu. Roland não estava muito interessado em trocadilhos e piadas, fosse como fosse. — ... mas isso é esquisito. O que Jake comprou, o Jake Setenta e Sete, era de Claudia alguma coisa Bachman.

— Inez — disse Jake. — Também tinha um y. Qualquer um de vocês sabe o que estou falando.

Nenhum sabia, mas Roland disse que havia nomes parecidos em Mejis.

— Creio que era uma espécie de título honorífico que acrescentavam. E não sei ao certo se é para o lado. Jake, você disse que o cartaz na vitrina era diferente do de antes. Como?

— Não me lembro. Mas quer saber de uma coisa? Acho que se vocês me hipnotizassem de novo... sabem como é, com a bala... eu me lembraria.

— E no devido tempo eu também — disse Roland —, mas esta manhã o tempo é curto.

Voltamos a isso de novo, pensou Eddie. Ontem, mal existia, e agora é curto. Mas é tudo sobre o tempo, de alguma forma, não é? Os velhos tempos de Roland, os nossos velhos tempos e estes novos tempos. Estes perigosos novos tempos.

— Por quê? — perguntou Susannah.

— Nossos amigos — disse Roland, e indicou o sul com a cabeça. — Estou com a sensação de que eles logo vão-se dar a conhecer.

— São amigos nossos? — perguntou Jake.

— Isso realmente está ao lado — disse Roland, e mais uma vez se perguntou se era de fato verdade. — Por enquanto, voltemos o pensamento de nosso khef para essa Livraria da Mente, ou como quer que se chame. Vocês viram as harpias da Torre Inclinada bicando o dono, não viram? Esse tal Tower ou Toren.

— Fazendo pressão sobre ele, quer dizer? — perguntou Eddie. — Torcendo o braço dele?

— É.

— Claro que estavam — disse Jake.

— Estavam — interveio Oi. — Claro que estavam.

— Eu aposto qualquer coisa que Tower e Toren são na verdade o mesmo nome — disse Susannah. — Esse toren é “torre” em holandês. — Viu Roland preparando-se para falar e ergueu a mão. — É a maneira como as pessoas fazem tudo em nosso pedaço do universo, Roland: trocar o nome estrangeiro por um mais... bem... americano.

— Ié — disse Eddie. — Assim, Stempowicz se torna Stamper... Yakov se torna Jacob... ou...

— Ou Beryl Evans se torna Claudia y Inez Bachman — disse Jake. Sorriu, mas não parecia muito divertido.

Eddie tirou um graveto meio queimado da fogueira e pôs-se a rabiscar com ele no chão. Uma a uma, formaram-se as Grandes Letras: C... L... A... U...

— Narigão chegou a dizer que Tower era holandês. “Um cabeçudo é sempre um cabeçudo, certo, chefe?”

Olhou para Jake, em busca de confirmação. Jake assentiu, depois pegou o graveto e continuou com D... I... A.

— O fato de ele ser holandês faz muito sentido, vocês sabem — disse Susannah. — A certa altura os holandeses foram donos da maior parte de Manhattan.

— Quer outro toque de Dickens? — perguntou Jake. — Escreveu y no chão depois de CLAUDIA, então ergueu os olhos para Susannah. — Que tal aquela casa mal-assombrada por onde eu entrei neste mundo?

— A Mansão — disse Eddie.

— A Mansão em Dutch Hill. (Dutch Hill significa Colina Holandesa) — disse Jake.

— Colina Holandesa. É, está certo. Porra.

— Vamos ao núcleo — disse Roland. — Acho que é o papel do acordo que vocês viram. E sentiram que tinham de vê-lo, não foi?

Eddie fez que sim com a cabeça.

— Alguma vez vocês se sentiram parte da esteira do Feixe de Luz?

— Roland, eu acho que era o Feixe de Luz.

— O caminho para a Torre, em outras palavras.

— Ié — disse Eddie.

Pensava em como as nuvens fluíam ao longo do Feixe de Luz, como as sombras se curvavam em sua direção. Tudo serve ao Feixe de Luz, dissera-lhes Roland, e a necessidade que Eddie sentira de ver o papel que Balazar pusera diante de Calvin Tower parecera necessidade mesmo, dura e imperativa.

— Conte-me o que dizia.

Eddie mordeu o lábio. Não se sentia tão assustado sobre isso quanto sobre o entalhamento da chave que no fim lhes permitira resgatar Jake e puxá-lo para o outro lado, mas fora por pouco. Porque, como a chave, aquilo era importante. Se ele esquecesse alguma coisa, as palavras podiam despencar.

— Cara, eu não me lembro de jeito nenhum, palavra por palavra...

— Acha que isso tem importância? — perguntou Susannah.

— Eu acho que tudo tem — respondeu Roland.

— E se a hipnose não funcionar comigo? — perguntou Eddie. — E se eu for, tipo, um bom paciente?

— Deixe isso comigo — disse Roland.

— Dezenove — disse Jake abruptamente. Todos se voltaram para ele, que olhava as letras no chão desenhadas por ele e Eddie ao lado da fogueira extinta. — Claudia y Inez Bachman. Dezenove letras.

 

Roland pensou um instante e deixou passar. Se o número 19 fazia de algum modo parte daquilo, o sentido se mostraria com o tempo. Por enquanto, havia outros assuntos.

— O papel — disse. — Vamos ficar nisso por enquanto. Me falem tudo que lembrem a respeito.

— Bem, era um acordo legal, com selo embaixo e tudo. — Eddie fez uma pausa, impressionado com uma questão bastante básica. Roland na certa tinha sua parte nela — afinal, fora uma espécie de agente da lei —, mas não machucaria ter certeza.

— Você sabe dos advogados, não sabe?

Roland falou no tom mais seco.

— Você esquece que eu venho de Gilead, Eddie. O mais interior dos Baronatos Interiores. Tínhamos mais mercadores, camponeses e manufaturadores que advogados, eu acho, mas o conde teria estado perto.

Susannah deu uma risada.

— Você me faz pensar numa cena de Shakespeare, Roland. Duas personagens... podem ter sido Falstaff e o príncipe Hal... estão conversando sobre o que vão fazer quando ganharem a guerra e assumirem. E um deles diz: “Primeiro mataremos todos os advogados.”

— Seria uma maneira justíssima de começar — disse Roland, e Eddie achou seu tom pensativo um tanto arrepiante. Então o pistoleiro tornou a voltar-se para ele. — Continue. Se pode acrescentar alguma coisa, Jake, por favor continue. E relaxem, vocês dois, por amor a seus pais. Por enquanto eu quero apenas um esboço.

Eddie supunha que já sabia disso, mas ouvir Roland dizê-lo o fez sentir-se melhor.

— Tudo bem. Era um Memorando de Acordo. Isso estava bem no topo, em letras grandes. No pé, dizia Acordado com, e havia duas assinaturas. Uma era de Calvin Tower. A outra era de Richard alguma coisa. Lembra, Jake?

— Sayre — disse Jake. — Richard Patrick Sayre. — Fez uma breve pausa, movendo os lábios, e balançou a cabeça. — Dezenove letras.

— E que dizia o tal acordo? — perguntou Roland.

— Não muita coisa, se quer saber a verdade — disse Eddie. — Ou pelo menos foi o que me pareceu. Basicamente, dizia que Tower possuía um terreno baldio na esquina da rua Quarenta e Seis com a Segunda Avenida...

— O terreno baldio — disse Jake. — Aquele que tinha a rosa.

— Ié, esse mesmo. De qualquer modo, Tower assinou o acordo a 15 de julho de 1976. A Empresa Sombra deu-lhe 100 mil paus. O que ele deu em troca, até onde pude ver, foi a promessa de não vender o terreno a ninguém além da Sombra no ano seguinte, cuidar dele... pagar os impostos e essas coisas... e depois dar à Sombra preferência de venda, supondo que não o houvesse vendido até então, de qualquer modo. O que ele não tinha quando estávamos lá, mas o acordo ainda tinha um mês e meio de vigência.

— O Sr. Tower disse que gastou os 100 mil paus — interveio Jake.

— Havia alguma coisa no acordo sobre a preferência de compra dessa Empresa Sombra? — perguntou Susannah.

Eddie e Jake pensaram no assunto, trocaram um olhar e balançaram a cabeça.

— Têm certeza? — perguntou Susannah.

— Não absoluta, mas bastante — disse Eddie. — Acha que isso tem importância?

— Eu não sei — disse Susannah. — Esse tipo de acordo de que você fala... bem, sem a preferência no topo, não parece fazer muito sentido. É ao que tudo se resume, quando se pára pra pensar. “Eu, Calvin Tower, concordo em pensar na venda do meu terreno baldio. Você me paga 100 mil dólares e eu pensarei no assunto por todo um ano. Quando não estiver tomando café nem jogando xadrez com meus amigos, quer dizer. E quando o ano acabar, talvez eu o venda a você, e talvez o mantenha, e talvez simplesmente o leiloe a quem der o melhor lance. E se você não o pegar, docinho, é só cuspir.”

— Você esqueceu uma coisa — disse Roland, num tom suave.

— O quê? — perguntou Susannah.

— Essa Sombra não é uma empresa comum cumpridora da lei. Pergunte a si mesma se uma empresa cumpridora da lei iria contratar alguém como Balazar para levar suas mensagens.

— Você tem razão — disse Eddie. — Tower estava mucho assustado.

— Seja como for — disse Jake —, torna pelo menos algumas coisas mais claras. O cartaz que eu vi no terreno baldio, por exemplo. A Empresa Sombra também tinha o direito de “anunciar projetos futuros” ali pelos seus 100 mil paus. Você viu essa parte, Eddie?

— Acho que sim. Logo depois da parte que proibia Tower de qualquer alienação ou embaraços à propriedade, por causa do “interesse declarado” da Sombra, não era?

— Certo — disse Jake. — O cartaz que eu vi no terreno dizia... — Parou, pensou, ergueu as mãos, como se lesse um cartaz que apenas ele visse: — A CONSTRUTORA MILLS E A IMOBILIÁRIA SOMBRA ASSOCIADAS CONTINUAM A REFAZER A FACE DE MANHATTAN. E depois: EM BREVE, OS CONDOMÍNIOS DE LUXO BAÍA DA TARTARUGA.

— Então é para isso que eles o querem — disse Eddie. — Condomínios. Mas...

— Que são condomínios? — perguntou Susannah, franzindo a testa. — Parece algum tipo de novo tráfico de especiarias.

— É uma espécie de acordo de co-apartamentos com serviços e áreas de lazer comuns — disse Eddie. — Provavelmente já existiam no seu tempo, mas com um nome diferente.

— Ié — disse Susannah com certa aspereza. — Nós os chamávamos cooperativas. Ou então íamos até o centro e os chamávamos prédios de apartamentos.

— Não importa, porque jamais se tratava de condomínios — disse Jake. — O cartaz jamais disse, sobre o edifício, que iam erguê-lo ali, aliás. Tudo isso é apenas, vocês sabem... chute, como se chama?

Jake deu um sorriso.

— Camuflagem, é. É sobre a rosa, não o prédio! E eles não podem pegá-la enquanto não possuírem o terreno onde ela brota. Eu tenho certeza.

— Você pode ter certeza sobre o prédio não significar nada — disse Susannah —, mas o nome Baía da Tartaruga tem certa ressonância, você não diria? — Olhou para o pistoleiro. — Aquela parte de Manhattan chama-se Turtle Bay, que significa a mesma coisa, Baía da Tartaruga, Roland.

Ele assentiu, sem surpresa. A Tartaruga era um dos Doze Guardiães, e quase certamente ficava no extremo oposto do Feixe de Luz em que eles agora viajavam.

— O pessoal da Construtora Mills pode não saber da rosa — disse Jake —, mas aposto que o da Empresa Sombra sabe. — Passou a mão no pêlo do pescoço de Oi, que era denso o suficiente para fazer seus dedos desaparecerem inteiramente. — Acho que em algum ponto de Nova York... em algum prédio comercial, provavelmente em Turtle Bay no East Side... há uma porta com a inscrição EMPRESA SOMBRA. E em algum lugar por trás dessa porta há outra porta. Daquela que traz a gente pra cá.

Durante um minuto, ficaram pensando a respeito — sobre mundos a girar num único eixo em agonizante harmonia —, e ninguém disse nada.

 

— Eis o que acho que está acontecendo — disse Eddie. — Suze, Jake, sintam-se livres para interromper se acharem que estou entendendo errado. Esse tal Cal Tower é uma espécie de guardião da rosa. Talvez não saiba disso num nível consciente, mas deve ser. Ele e talvez a família dele toda antes. Isso explica o nome.

— Só que ele é o último — disse Jake.

— Você não tem certeza disso, doçura — disse Susannah.

— Não tem aliança — respondeu Jake, e Susannah assentiu com a cabeça, dando-lhe pelo menos uma aprovação provisória.

— Talvez em certa época houvesse muitos Torens donos de bens imóveis em Nova York — disse Eddie —, mas esses dias passaram. Agora a única coisa que se interpõe entre a Empresa Sombra e a rosa é um cara gordo quase falido que mudou de nome. E um... como chama o cara que adora livros?

— Bibliófilo — disse Susannah.

— Ié, um desses. E George Biondi pode não ser nenhum Einstein, mas disse pelo menos uma coisa inteligente quando estávamos escutando. Disse que o lugar de Tower não era uma loja de verdade, mas apenas um buraco onde se enterra dinheiro. O que está acontecendo com ele é uma história muito velha de onde nós viemos, Roland. Quando minha mãe via um cara rico na TV... Donald Trump, por exemplo...

— Quem? — perguntou Susannah.

— Você não o conhece, ele era um garoto em 1964. E isso não importa. De manga de camisa a manga de camisa em três gerações", nos dizia minha mãe. “É o estilo americano, meninos.”

“Portanto, aí está Tower, um tipo Roland... o último de sua linhagem. Vende um pedaço de propriedade aqui, um pedaço ali, pagando os impostos, as prestações da casa, os cartões de crédito e as contas do médico, as ações. E sim, estou inventando isso tudo... só que às vezes não parece.”

— É — disse Jake. Falou num tom baixo, fascinado. — Não parece.

— Talvez você partilhasse o khef dele — disse Roland. — O mais provável é que o tenha tocado. Como dizia meu velho amigo Alain. Vá em frente, Eddie.

— E todo ano ele diz a si mesmo que a livraria vai dar retorno. Empatar, talvez, como fazem às vezes as coisas em Nova York. Saem do vermelho e entram no branco, e aí está tudo bem. E finalmente resta apenas uma coisa para vender: o terreno dois-nove-oito no Bloco 19 em Turtle Bay.

— Dois-nove-oito somam 19 — disse Susannah. — Eu gostaria de poder decidir se isso significa alguma coisa ou é apenas a Síndrome do Carro Azul.

— Que é essa Síndrome do Carro Azul? — perguntou Jake.

— Quando compra um carro azul, a pessoa vê carros azuis por toda parte.

— Aqui, não; não se vê — disse Jake.

— Aqui, não — entoou Oi, e todos o olharam.

Passavam-se dias, às vezes semanas, sem que Oi fizesse nada além de dar um ou outro eco da conversa deles. Então dizia alguma coisa que quase podia ser produto de pensamento original. Mas não se sabia. Não ao certo. Nem mesmo Jake sabia ao certo.

Como não sabemos ao certo sobre o 19, pensou Susannah, e deu um tapinha na cabeça do trapalhão. Oi respondeu com uma piscadela amistosa.

— Ele se aferra àquele terreno até o amargo fim — disse Eddie. — Quer dizer, ora, nem sequer é dono do prédio de merda onde fica a livraria, só o aluga.

Jake assumiu.

— A Comestíveis Finos e Artísticos Tom e Jerry fechou as portas, e Tower mandou demoli-la. Porque parte dele quer vender o terreno. Essa parte diz que ele seria maluco se não vendesse.

Jake calou-se um instante, pensando em algumas idéias que lhe vinham no meio da noite. Idéias malucas, pensamentos e vozes malucos que não se calavam.

— Mas há outra parte dele, outra voz...

— É a Tartaruga e o Feixe de Luz — concordou Jake. — É provável que sejam a mesma coisa. E a voz o manda aferrar-se ao terreno a qualquer custo. — Olhou para Eddie. — Acha que ele sabe da rosa? Acha que vai lá às vezes dar uma olhada?

— Um coelho caga na mata? — respondeu Eddie. — É claro que vai. E claro que sabe. Em algum nível ele deve saber. Porque um terreno de esquina em Manhattan... quanto valeria uma coisa dessas, Susannah?

— Na minha época, provavelmente um milhão de dólares — disse ela. — Em 1977, só Deus sabe. Três? Quatro? — Deu de ombros. — O bastante para permitir ao sai Tower continuar vendendo livros com prejuízo pelo resto da vida, desde que tivesse um razoável cuidado no investimento do principal.

Eddie disse:

— Tudo isso mostra como ele reluta em vender. Quer dizer, Suze já indicou como pouco ganhou a Sombra pelos seus 100 mil paus.

— Mas eles ganharam alguma coisa — disse Roland. — Uma coisa muito importante.

— Um pé na porta — disse Eddie.

— Você diz a verdade. E agora, quando expira o termo do acordo deles, mandam a versão de seu mundo do Grande Caçador de Caixão. Caras de alto calibre. Se a cobiça ou a necessidade não obrigam Tower a vender-lhes a terra com a rosa, eles o aterrorizarão para fazê-lo.

— Ié — disse Jake. E quem ficaria do lado de Tower? Talvez Aaron Deepneau. Talvez ninguém. — E aí, que fazemos nós?

— A compraremos nós mesmos — disse prontamente Susannah. — Claro.

 

Fez-se um momento de pasmo silêncio, e depois Eddie balançou a cabeça pensativamente.

— Claro, por que não? A Empresa Sombra tem preferência no acordozinho deles... na certa tentaram, mas Tower não quis. Logo, claro compraremos. Quantas peles de gamo você acha que ele vai querer? Quarenta? Cinqüenta? Ele é um negociador realmente duro, talvez possamos incluir algumas relíquias do Povo Antigo. Vocês sabem, xícaras, pratos e pontas de flechas. Seriam motivo de conversa nos coquetéis.

Susannah olhava-o com um ar reprovador.

— Tudo bem, talvez não tenha muita graça — disse Eddie. — Mas temos de enfrentar os fatos, doçura. Nós não passamos de um bando de maltrapilhos peregrinos atualmente acampados numa outra realidade... quer dizer, isto nem é mais o Mundo Médio.

— E também — disse Jake num tom de desculpa — nem estamos de fato lá, pelo menos não da maneira como quando se cruza uma das portas. Eles nos sentem, mas basicamente somos invisíveis.

— Tomemos uma coisa de cada vez — disse Susannah. — No que se refere à grana, eu tenho bastante. Se pudéssemos pegá-la, quer dizer.

— Quanto? — perguntou Jake. — Eu sei que é meio indelicado, mas...

— A gente foi um pouco longe demais pra se preocupar em ser polido — disse Susannah. — A verdade, doçura, é que eu não sei exatamente. Meu pai inventou dois processos dentais que tinham a ver com capas para os dentes, e explorou-os ao máximo. Abriu uma empresa chamada Indústrias Dentais Holmes e cuidou sozinho da maior parte do lado financeiro até 1959.

— O ano em que Mort a empurrou na frente do trem do metrô — disse Eddie.

Ela balançou a cabeça.

— Isso foi em agosto. Cerca de um mês e meio depois meu pai teve um ataque cardíaco... o primeiro de muitos. Parte daquilo foi provavelmente tensão com o que me acontecera, mas não vou assumir tudo. Ele era muito esforçado, puro e simples.

— Você não tem de assumir nada — disse Eddie. — Quer dizer, não é a mesma coisa como se você saltasse na frente do vagão do metrô.

— Eu sei. Mas seus sentimentos e o tempo que duraram nem sempre têm muito a ver com a verdade objetiva. Com mamãe morta, meu trabalho era cuidar dele, e eu não consegui... jamais consegui tirar completamente da cabeça a idéia de que foi minha culpa.

— Dias passados — disse Roland, sem muita simpatia.

— Obrigada, chapa — disse Susannah. — Você tem muito jeito para pôr as coisas em perspectiva. Em meu caso, meu pai entregou o lado financeiro da empresa ao seu contador, depois do ataque do coração... um velho amigo chamado Moses Carver. Eu diria que quando Roland me puxou de Nova York para este sacudido pedaço de lugar nenhum, talvez eu valesse 8 ou 10 milhões de dólares. Seria isso o bastante para comprar parte do terreno do Sr. Tower, sempre supondo-se que ele o venderia?

— Ele provavelmente o venderia por peles de gamo, se Eddie tem razão em relação ao Feixe de Luz — disse Roland. — Eu creio que uma parte profunda da mente e do espírito de Tower, o ka que o fez apegar-se ao terreno por tanto tempo, estava à nossa espera.

— À espera da cavalaria — disse Eddie com um traço de sorriso. — Como o Forte Ord nos últimos dez minutos de um filme de John Wayne.

Roland olhou-o, sem sorrir.

— Ele estava à espera do Branco.

Susannah levou as mãos pardas ao rosto pardo e olhou-os.

— Então eu acho que ele não está esperando por mim — disse.

— É — disse Roland —, ele está. — E perguntou-se, ligeiramente, de que cor era a outra. Mia.

— Nós precisamos de uma porta — disse Jake.

— Precisamos de pelo menos duas — disse Eddie. — Uma pra lidar com Tower, claro. Mas antes que possamos fazer isso, temos de retornar ao tempo de Susannah. E quero dizer tão perto ao tempo em que Roland a pegou quanto possível. Será um barato retornar a 1977, entrar em contato com esse tal Carver e descobrir que ele fez declararem Odetta Holmes legalmente morta em 1971. Que toda a propriedade foi entregue aos parentes em Green Bay ou San Berdoo.

— Ou retornar a 1968 e descobrir que o Sr. Carver desapareceu — disse Jake. — Desviou tudo para suas próprias contas e retirou-se para a Costa del Sol.

Susannah olhava-o com uma chocada expressão tipo ó-meu-Deus que teria sido cômica em outras circunstâncias.

— O pai Moses jamais faria uma coisa dessas! Ora, era meu padrinho!

Jake pareceu embaraçado.

— Desculpe. Eu li muitos romances policiais: Agatha Christie, Ed McBain, Rex Stout... e coisas assim acontecem neles o tempo todo.

— Além disso — disse Eddie —, uma grana grossa faz coisas fantásticas com as pessoas.

Ela lançou-lhe um olhar frio e avaliador que pareceu estranho, quase de outra pessoa, em seu rosto. Roland, que sabia alguma coisa que Eddie e Jake não sabiam, achou-o um olhar de espremedor de rã.

— Como iriam vocês saber? — perguntou ela. — Desculpem. Isso não era necessário.

— Tudo bem — disse Eddie. Sorriu. O sorriso pareceu rígido e inseguro. — É o calor do momento. — Estendeu o braço, tomou a mão dela e apertou-a.

Ela retribuiu o aperto. O sorriso no rosto de Eddie se ampliou um pouco, começando a parecer que seu lugar era ali mesmo.

— É apenas que eu conheço Moses Carver. Ele é realmente honesto. Eddie ergueu a mão, não tanto demonstrando crença quanto indisposição de ir mais longe nesse caminho.

— Deixa ver se estou entendendo sua idéia — disse Roland. — Primeiro, depende de sua capacidade de retornar ao seu mundo de Nova York não num ponto no tempo, mas em dois.

Fez uma pausa, enquanto pensavam nisso, depois Eddie balançou a cabeça.

— Certo. Mil, novecentos e sessenta e quatro, pra começar. Susannah desapareceu há uns dois meses, mas ninguém abriu mão da esperança nem nada assim. Ela aparece, todos aplaudem. Retorno da filha pródiga. Temos a grana, o que pode levar um tempinho...

— A parte difícil vai ser fazer papai Moses abrir mão dela — disse Susannah. — Quando se trata de dinheiro no banco, aquele homem tem mão de vaca. E tenho toda a certeza de que, no fundo, ele ainda me vê com oito anos.

— Mas legalmente é seu, certo? — perguntou Eddie.

Roland via que ele ainda agia com certa cautela. Não superara inteiramente aquela brecha — como se ia saber? — ainda. E o olhar que a acompanhara.

— Quer dizer — continuou Eddie — que ele não pode impedi-la de pegar o dinheiro, pode?

— Não, doçura — disse ela. — Meu pai e pai Moses constituíram um fundo para mim, mas isso acabou em 1959, quando eu fiz 21 anos. — Virou os olhos, negros e de surpreendente beleza e expressão, para ele. — Pronto. Não precisa mais me aporrinhar sobre minha idade, precisa? É só subtrair que você pode fazer as contas por si mesmo.

— Isso não importa — disse Eddie. — O tempo é uma face na água.

Roland sentiu um arrepio correr-lhe pelos braços acima. Em algum ponto — talvez num chamejante campo de flores de rosas cor de sangue ainda longe dali — alguém acabara de pisar sobre sua cova.

 

— Tem de ser grana — disse Jake, com um tom seco e objetivo.

— Hum? — Eddie desviou o olhar de Susannah com esforço.

— Grana — repetiu Jake. — Ninguém honraria um cheque, mesmo um cheque administrativo, de 13 anos. Sobretudo um cheque de um milhão de dólares.

— Como você sabe dessas coisas, docinho? — perguntou Susannah.

Jake deu de ombros. Gostasse ou não (em geral não gostava), ele era filho de Elmer Chambers, que não era um dos mocinhos do mundo — Roland jamais o chamaria parte dos Brancos —, mas fora um mestre no que os executivos das redes chamam de "matar". Um Grande Caçador de Caixão na Terra da TV, pensou Jake. Talvez isso fosse meio injusto, mas dizer que Elmer Chambers sabia negociar jogadas difíceis decididamente não era injusto. E, sim, ele era Jake, filho de Elmer. Não esquecera o rosto do seu pai, embora às vezes desejasse que sim.

— Grana, por favor, grana — disse Eddie, quebrando o silêncio. — Um negócio desses tem de ser em grana. Se houver um cheque, a gente saca em 1964, não 1977. Enfia numa mochila de ginástica... já tinha mochila de ginástica em 1964, Suze? Deixa pra lá. Não importa. A gente enfia na mochila e leva pra 1977. Não precisa ser no mesmo dia em que Jake comprou Charlie Chuu-Chuu e O Que É o Que É?, mas tem de ser próximo.

— E não pode ser depois de 15 de julho de 1977 — disse Jake.

— Nossa, não — concordou Eddie. — Seria muito provável descobrirmos que Balazar convencera Tower a vender, e lá estaríamos nós, mochila de grana numa das mãos e cara de pastel, com grandes sorrisos para passar o tempo.

Fez-se um momento de silêncio — talvez pensassem nessa lúgubre imagem —, e então Roland disse:

— Vocês fazem parecer muito fácil, e por que não? Pra vocês três, a idéia de portas entre este mundo e o mundo de vocês parece quase tão comum quanto montar numa mula para mim. Ou pôr um revólver de seis balas. E há um bom motivo para se sentirem assim. Cada um de vocês cruzou essas portas. Eddie na verdade cruzou nos dois sentidos... neste mundo e de volta ao dele.

— Devo dizer a você que a viagem de volta a Nova York não foi muito engraçada — disse Eddie. — Muito uso de armas.

Pra não falar da cabeça do meu irmão rolando pelo chão do escritório de Balazar.

— Tampouco foi cruzar a porta em Dutch Hill — acrescentou Jake. Roland assentiu com a cabeça, cedendo esses pontos sem abrir mão dos seus.

— Durante toda a minha vida eu aceitei o que você disse quando o conheci, Jake... o que você disse quando estava morrendo.

Jake baixou os olhos, pálido, e não respondeu. Não gostava de lembrar isso (era misericordiosamente nebuloso, em qualquer caso), e sabia que Roland também não. Ótimo!, pensou. Você não iria querer lembrar. Você me deixou cair! Você me deixou morrer!

— Você disse que havia outros mundos além desses — disse Roland —, e há mesmo. Nova York, com todos os seus múltiplos tempos, é um entre muitos. O fato de sermos atraídos repetidas vezes para lá tem a ver com a rosa. Eu não tenho dúvidas sobre isso, nem de que, de algum modo, não entendo que a rosa é a Torre Negra. Ou isso, ou...

— Ou é outra porta — murmurou Susannah. — Uma que dá para a própria Torre Negra.

Roland assentiu.

— A idéia fez mais que cruzar minha mente. Seja como for, os mannis sabem desses outros mundos, e de algum modo dedicaram suas vidas a eles. Acreditam que todash é o mais sagrado dos ritos e o mais exaltado dos estados. Meu pai e os amigos dele havia muito conheciam as bolas de vidro; isso eu já lhes contei. Que o Arco-íris do Mago, todash e essas portas mágicas bem podem ser a mesma coisa é algo que não calculamos.

— Aonde você quer chegar com isso, docinho? — perguntou Susannah.

— Estou simplesmente lembrando a vocês que eu vaguei por muito tempo — disse Roland. — Devido a mudanças no tempo, um amaciamento do tempo que eu sei que vocês sentiram, venho procurando a Torre Negra há mais de mil anos, às vezes saltando gerações inteiras como uma ave marinha cruza do topo de uma onda para outro, molhando apenas os pés na espuma. Jamais, em todo esse tempo, encontrei uma dessas portas entre os mundos até dar com uma delas na praia à beira do mar Ocidental. Não tinha idéia do que eram, embora pudesse dizer a vocês alguma coisa do todash e das curvas do arco-íris.

Roland olhou-os com um ar sério.

— Vocês falam como se meu mundo fosse tão cheio de portas mágicas quanto o seu é de... — pensou um pouco — de aviões ou ônibus-diligências. Não é.

— O lugar onde estamos agora é um lugar onde você nunca esteve antes, Roland — disse Susannah. Tocou o pulso bronzeado dele com dedos delicados. — Não estamos mais em seu mundo. Você mesmo disse isso, lá naquela versão de Topeka onde Blaine finalmente perdeu as estribeiras.

— Certo — disse ele. — Eu só quero que percebam que tais portas podem ser muito mais raras do que vocês compreendem. E agora vocês ralam não de uma, mas de duas. Portas que podem mirar no tempo, como miram um revólver.

Eu não miro com a mão, pensou Eddie, e teve um leve arrepio.

— Quando você põe a coisa desse jeito, Roland, parece meio difícil.

— Então, que fazemos agora? — perguntou Jake.

— Talvez eu possa ajudá-los — disse uma voz.

Todos se voltaram, só Roland não se surpreendeu. Ele ouvira o estranho chegar, mais ou menos na metade da conversa. Não se voltou com interesse, porém, e uma olhada ao homem parado a uns 5 metros deles na beira da estrada bastava para dizer-lhes que o recém-chegado era do mundo dos seus novos amigos ou do ao lado.

— Quem é você? — perguntou Eddie.

— Onde estão seus amigos? — perguntou Susannah.

— De onde são vocês? — perguntou Jake, com os olhos iluminados de ansiedade.

O estranho usava um longo casacão preto aberto sobre uma camisa preta com gola abotoada. Tinha os cabelos compridos e brancos, espetados dos lados e na frente, como se em pânico. Trazia na testa uma cicatriz em forma de T.

— Meus amigos ainda estão um pouco lá atrás — disse ele, e indicou com o polegar por cima dos ombros a mata, de uma maneira deliberadamente não específica. — Eu agora chamo Calla Bryn Sturgis de minha terra. Antes disso, Detroit, Michigan, onde eu trabalhava num abrigo de sem-teto, fazendo sopa e organizando reuniões de AA. Trabalho que eu conhecia muito bem. Antes disso... por pouco tempo... Topeka, Kansas.

Observou com uma espécie de divertido interesse como os três mais jovens se sobressaltaram ao ouvirem isso.

— Antes, cidade de Nova York. E, antes disso, uma cidadezinha chamada Jerusalem’s Lot, no estado do Maine.

 

— Você é do nosso lado — disse Eddie. Falou numa espécie de suspiro. — Santo Deus, você é mesmo do nosso lado!

— É, acho que sou — disse o homem de gola virada. — Eu me chamo Donald Callahan.

— Você é padre — disse Susannah.

Olhou da cruz que lhe pendia do pescoço — pequena e discreta, mas de ouro reluzente — para a maior, mais grosseira, na testa.

Callahan balançou a cabeça.

— Não sou mais. Outrora. Talvez um dia de novo, com a bênção, mas agora não. Agora sou apenas um homem de Deus. Posso perguntar... de onde são vocês?

— 1964 — disse Susannah.

— 1977 — disse Jake.

— 1987 — disse Eddie.

Os olhos de Callahan brilharam.

— 1987. E eu vim aqui em 1983, contando como fazíamos então. Por isso me diga uma coisa, rapaz, uma coisa muito importante. O Red Sox já havia ganhado a Série Mundial quando você partiu?

Eddie jogou a cabeça para trás e riu. O som era ao mesmo tempo surpreso e alegre.

— Não, cara, desculpe. Eles perderam a última no ano anterior... no estádio Shea, contra o Mets... e aí o tal Bill Buckner, que jogava na primeira base, deixou uma fácil passar por ele. Jamais vai poder conviver com isso. Venha e sente-se aqui, que tal? Não há café, mas Roland... o cara bonitão à minha direita... faz um chá muito bom de ervas.

Callahan voltou a atenção para Roland e então fez uma coisa espantosa: caiu sobre um dos joelhos, baixou levemente a cabeça e levou o punho à testa cicatrizada.

— Salve, pistoleiro, que tenhamos sorte na trilha.

— Salve — disse Roland. — Adiante-se, bom estranho, e fale-nos de sua necessidade.

Callahan ergueu o olhar para ele, surpreso.

Roland devolveu-lhe o olhar calmamente e balançou a cabeça.

— Sorte ou não, que você encontre o que procura.

— E você também — disse Callahan.

— Então adiante-se — disse Roland. — Adiante-se e junte-se à nossa confabulação.

 

— Antes que continuemos mesmo, posso fazer uma pergunta?

Era Eddie. Ao lado dele, Roland fizera uma fogueira e remexia nos pertences combinados do grupo em busca da pequena panela de barro — um artefato do Povo Antigo — em que gostava de fazer o chá.

— Claro, rapaz.

— Você é Donald Callahan.

— Sou.

— Qual é seu segundo nome?

Callahan virou um pouco a cabeça, ergueu uma sobrancelha e sorriu.

— Frank. Do meu avô. Isso significa alguma coisa?

Eddie, Susannah e Jake entreolharam-se. O pensamento que acompanhou esse olhar fluiu fácil entre eles: Donald Frank Callahan. Dezenove letras.

— Significa, sim — disse Callahan.

— Talvez — disse Roland. — Talvez não.

Despejou a água para o chá, manejando a bolsa d'água com facilidade.

— Você parece ter sofrido um acidente — disse Callahan, olhando a mão direita dele.

— Eu me viro — disse Roland.

— Se vira com uma ajudinha dos amigos, pode-se dizer — acrescentou Jake, sério.

Callahan balançou a cabeça, sem compreender e sabendo que não precisava: eles eram ka-tet. Talvez ele não conhecesse o termo, mas o termo não era importante. Estava no jeito como se olhavam uns aos outros e moviam-se em torno uns dos outros.

— Vocês sabem meu nome — disse Callahan. — Posso ter o prazer de saber os de vocês?

Eles se apresentaram: Eddie e Susannah Dean, de Nova York; Jake Chambers, de Nova York; Oi, do Mundo Médio; e Roland Deschain, de Gilead, que existira. Callahan balançou a cabeça para cada um deles, levando o punho fechado à testa.

— E a vocês vem Callahan, de Lot — disse quando acabaram as apresentações. — Ou que era de lá. Agora acho que sou apenas o Velho. É como me chamam em Calla.

— Seus amigos não vêm se juntar a nós? — perguntou Roland. — Não temos muita coisa pra comer, mas sempre há chá.

— Talvez ainda não.

— Ah — disse Roland, e balançou a cabeça como se entendesse.

— De qualquer modo, nós comemos bem — disse Callahan. — Foi um ano bom em Calla... até agora, pelo menos... e teremos prazer em dividir o que temos. — Fez uma pausa, pareceu pensar que fora longe demais, rápido demais, e acrescentou: — Talvez. Se tudo correr bem.

— Se — disse Roland. — Um velho mestre meu dizia que esta era a única palavra de mil letras.

Callahan riu.

— Não está mal! Seja como for, nós na certa estamos melhor em termos de comida que vocês. Também temos bolinhos frescos... Zalia os encontrou... mas acho que vocês já os conhecem. Ela disse que o trato de terra, embora grande, tinha um ar de que fora remexido.

— Jake os encontrou — disse Roland.

— Na verdade foi Oi — disse Jake, e alisou a cabeça do trapalhão. — Acho que é uma espécie de farejador de bolinho.

— Há quanto tempo vocês sabem que estamos aqui? — perguntou Callahan.

— Dois dias.

Callahan deu um jeito de parecer ao mesmo tempo divertido e exasperado.

— Desde que começamos a segui-los, em outras palavras. E nós tentamos ser muito habilidosos.

— Se não achassem que precisavam de alguém mais habilidoso, não teriam vindo — disse Roland.

Callahan deu um suspiro.

— Você diz a verdade, eu lhe agradeço.

— Vêm em busca de ajuda e socorro? — perguntou Roland.

Havia apenas uma leve curiosidade em sua voz, mas Eddie Dean sentiu um profundo arrepio. As palavras pareceram ficar pairando ali, cheias de ressonância. E ele não estava sozinho nessa sensação. Susannah tomou sua mão direita. Um momento depois, Jake deslizou a sua na esquerda.

— Isso não cabe a mim dizer.

Callahan pareceu de repente hesitante e inseguro de si. Com medo, talvez.

— Você sabe como chegar à linhagem do Eld? — perguntou Roland com a mesma voz curiosamente delicada. Estendeu a mão para Eddie, Susannah e Jake. Até para Oi. — Pois estes são meus, claro. Como eu sou deles. Somos redondos, e rodamos como fazemos. E você sabe o que nós somos.

— São? — perguntou Callahan. — Todos vocês?

Susannah disse:

— Roland, em que é que você está metendo a gente?

— Que nada seja zero, que nada seja livre — disse ele. — Eu não sou dono de vocês, nem vocês são donos de mim. Pelo menos por enquanto. Eles não decidiram pedir.

Vão pedir, pensou Eddie. Sonhos com a rosa e a deli à parte, não se julgava particularmente mediúnico, mas não precisava ser mediúnico para saber que eles — as pessoas das quais esse Callahan viera como representante — iam pedir. Em alguma parte castanhas haviam caído no fogo, e era Roland quem devia tirá-las.

Mas não apenas Roland.

Você cometeu um erro aqui, chapa, Eddie pensou. Perfeitamente compreensível, mas um erro ainda assim. Não somos a cavalaria. Não somos a patrulha de cidadãos. Não somos pistoleiros. Somos apenas almas perdidas da Grande Maçã que...

Mas não. Não. Eddie soubera quem eram eles desde River Crossing, quando o povo antigo se ajoelhara na rua para Roland. Diabos, soubera desde a floresta (em que ainda pensava como a Floresta de Shardik), onde Roland os ensinara a mirar com o olho, atirar com a mente, matar com arte. Não três, não quatro. Um. O fato de Roland acabá-los, completá-los desse jeito era horrível. Ele estava cheio de veneno e beijara-os com os lábios envenenados. Tornara-os pistoleiros, e haveria Eddie pensado que não restava serviço para a linhagem de Arthur Eld naquela casca de mundo vazia? Que simplesmente os deixariam engatinhar pelo Caminho do Feixe de Luz até chegarem à Torre Negra de Roland e consertarem qualquer injustiça que houvesse lá? Bem, pense de novo.

Foi Jake quem disse o que ia pela mente de Eddie, que não gostou nem um pouco do ar de excitação nos olhos do garoto. Imaginava que muitos garotos haviam ido para muitas guerras com o mesmo ar de va-mos-chutar-alguns-rabos na cara. O pobre menino não sabia que fora envenenado, e isso o fazia bastante burro, porque ninguém devia saber melhor que ele.

— Eles vão, sim — disse Jake. — Não é verdade, Sr. Callahan? Eles vão pedir.

— Eu não sei — disse Callahan. — Seria preciso convencê-los...

Não terminou, olhando para Roland, que sacudiu a cabeça.

— Não é assim que funciona — disse o pistoleiro. — Não sendo do Mundo Médio, você talvez não saiba disso, mas não é assim que funciona. Convencer não é conosco. Nosso negócio é chumbo.

Callahan deu um profundo suspiro e balançou a cabeça.

— Eu tenho um livro — disse. — Chama-se Histórias de Arthur.

Os olhos de Roland brilharam.

— Tem? Tem mesmo, de fato? Eu gostaria de ver esse livro. Gostaria muito.

— Talvez veja — disse Callahan. — As histórias que contém certamente não são como as da Távola Redonda que eu li quando menino, mas... — Balançou a cabeça. — Eu entendo o que você está me dizendo, vamos deixar por aí. Os pedidos são três, estou certo? E você acaba de me fazer o primeiro.

— Três, sim — disse Roland. — Três é um número de força.

Eddie pensou: Se quer tentar um verdadeiro número de força, Roland, amigo velho, tente 19.

— E todos três têm de ser respondidos com sim.

Roland fez que sim com a cabeça.

— E se forem, não se pode pedir mais. Nós podemos ser lançados para a frente, sai Callahan, mas ninguém pode nos lançar para trás. Assegure-se de que sua gente... — indicou com a cabeça a mata ao sul deles — entenda isso.

— Pistoleiro...

— Me chame Roland. Estamos em paz, você e eu.

— Tudo bem, Roland. Escute-me bem, está bem, eu peço. (Pois assim dizemos em Calla.) Nós que viemos a vocês somos apenas meia dúzia. Nós seis não podemos decidir. Só Calla pode decidir.

— Democracia — disse Roland.

Empurrou o chapéu da testa, esfregou-a e deu um suspiro.

— Mas se nós seis concordarmos... especialmente sai Overholser... Interrompeu-se, olhando meio cauteloso para Jake. — Como? Eu disse alguma coisa?

Jake balançou a cabeça e fez sinal a Callahan para que continuasse.

— Se nós seis concordarmos, é praticamente negócio fechado.

Eddie fechou os olhos, como em estado de felicidade.

— Diga isso de novo, chapa. Callahan olhou-o, intrigado e cauteloso.

— Como?

— Negócio fechado. Ou qualquer coisa de seu onde e quando. — Fez uma pausa. — Nosso lado do grande ka.

Callahan pensou um pouco e começou a sorrir.

— Eu fiquei de cu na mão — disse. — Meti o pé na jaca, botei pra quebrar, chutei o balde, soltei a franga, entrei numa fria, fiquei trincado. Coisas assim?

Roland parecia intrigado (talvez até meio entediado), mas o rosto de Eddie Dean era pura felicidade. Susannah e Jake pareciam estar em algum ponto entre a diversão e uma espécie de surpresa e tristeza saudosa.

— Manda brasa, chapa — disse Eddie com a voz rouca, e fez um gesto de vamos lá, cara, com as mãos. Parecia como se falasse através de uma garganta lacrimosa. — Manda brasa pra valer.

— Talvez outra hora — disse Callahan delicadamente. — Outra hora a gente pode sentar e ter nossa conversa sobre os velhos lugares e expressões. Beisebol, se você quiser. Mas agora o tempo é curto.

— Em mais aspectos do que você sabe, talvez — disse Roland. — Que quer de nós, sai Callahan? E agora deve falar objetivamente, pois eu já lhe disse de todas as maneiras possíveis que não somos errantes que seus amigos podem entrevistar e contratar ou não como seus trabalhadores de roça ou vagabundos montados.

— Por enquanto eu só peço que fiquem onde estão e permitam-me trazê-los a vocês — disse ele. — Tem o Tian Jaffords, que é realmente o responsável por estarmos aqui, e a mulher dele, Zalia. Tem Overholser, o que mais precisa ser convencido de que precisamos de vocês.

— Não vamos convencer a ele nem a ninguém — disse Roland.

— Eu compreendo — apressou-se a dizer Callahan. — Sim, você já deixou perfeitamente claro. E tem Ben Slightman e seu garoto, Benny. O jovem Ben é um caso curioso. A irmã dele morreu há quatro anos, quando os dois tinham dez anos. Ninguém sabe se isso faz do jovem Ben um gêmeo ou um individual. — Parou de repente. — Eu me desviei. Desculpe.

Roland fez um gesto com a mão aberta, para indicar que estava tudo bem.

— Você me deixa nervoso, escute-me, peço-lhe.

— Não precisa nos pedir nada, doçura — disse Susannah.

Callahan sorriu.

— É apenas a nossa maneira de falar. Em Calla, quando se encontra alguém, pode-se dizer: “Como vai da cabeça aos pés, bem, eu lhe pergunto?” E a resposta: “Eu estou ótimo, sem ferrugem, dê graças-sai aos deuses.” Ainda não ouviu isso?

Eles balançaram a cabeça, não. Embora algumas das palavras fossem conhecidas, as expressões em geral apenas acentuavam o fato de que vinham de algum outro lugar, um lugar onde a conversa era estranha e os costumes talvez mais ainda.

— O que interessa — disse Callahan — é que as fronteiras estão aterrorizadas por criaturas chamadas Lobos, que vêm do Trovão uma vez a cada geração e roubam as crianças. Tem mais, mas esse é o problema crucial. Tian Jaffords, que tem a perder não apenas um filho desta vez, mas dois, deu um basta, chegou a hora de se levantar e lutar. Outros, homens como Overholser, dizem que fazer isso seria uma tragédia. Acho que ele e outros como ele levaram a melhor, mas a chegada de vocês mudou tudo. — Curvou-se para a frente, avidamente. — Wayne Overholser não é um mau homem, apenas um homem com medo. É o maior fazendeiro de gado em Calla, e assim tem mais a perder que alguns dos demais. Mas se pudesse ser convencido de que nós podemos repelir os Lobos, que podemos de fato vencê-los, acho que ele também se levantaria e lutaria.

— Eu disse a você... — começou Roland.

— Você não convence — interrompeu Callahan. — Sim, eu entendo. Entendo. Mas se eles virem vocês, ouvirem vocês falarem e depois se convencerem...?

Roland deu de ombros.

— Haverá água se Deus quiser, como dizemos.

Callahan fez que sim com a cabeça.

— Dizem também em Calla. Posso passar para outro assunto, relacionado?

Roland ergueu as mãos, de leve — como, pensou Eddie, para dizer a Callahan que isso era com ele.

Por um instante, o homem da cicatriz na testa não disse nada. Quando o fez, a voz baixara. Também Eddie se curvara para escutá-lo.

— Eu tenho uma coisa. Uma coisa que você quer. Que pode precisar. Já chegou até você, eu acho.

— Por que fala assim? — perguntou Roland.

Callahan umedeceu os lábios e então falou uma única palavra:

— Todash.

 

— E daí? — perguntou Roland. — Que é que tem com todash?

— Vocês não entraram? — Callahan pareceu inseguro por um instante. — Nenhum de vocês entrou?

— Digamos que sim — disse Roland. — Que é que você tem com isso, e que tem isso a ver com seu problema nesse lugar que você chama de Calla?

Callahan deu um suspiro. Embora ainda fosse cedo no dia, parecia cansado.

— Isto é mais difícil do que eu pensava — disse. — E de longe. Você é consideravelmente mais... qual é a palavra?... forte, creio. Mais forte do que eu esperava.

— Você esperava encontrar apenas vagabundos montados de mãos rápidas e cabeças ocas, não é mais ou menos isso? — perguntou Susannah. Parecia furiosa. — Bem, se deu mal, docinho de mel. De qualquer modo, a gente pode ser vagabundo, mas não temos selas. Não precisamos de selas nem de cavalos.

— Nós trouxemos cavalos para vocês — disse Callahan, e isso foi o bastante.

Roland não entendeu tudo, mas achava que agora tinha o bastante para esclarecer um bocado a situação. Callahan soubera que eles viriam, soubera quantos seriam e que vinham a pé, não montados. Algumas dessas coisas poderiam ter sido passadas por espiões, mas não tudo. E todash... sabendo que alguns deles haviam entrado em todash...

— Quanto a cabeças ocas, podemos não ser os quatro mais brilhantes do planeta, mas...

Ela se interrompeu de repente, piscando os olhos. Levou as mãos à barriga.

— Suze? — perguntou Eddie, na mesma hora preocupado. — Suze, que foi? Você está bem?

— Apenas gases — disse ela, e deu-lhe um sorriso. Para Roland, aquele sorriso não parecia muito autêntico. E ele julgou ver minúsculas linhas de tensão em torno dos cantos dos olhos dela. — Bolinhos demais ontem de noite. — E antes que Eddie pudesse fazer-lhe mais perguntas, ela se voltou de novo para Callahan. — Se tem mais alguma coisa a dizer, diga, doçura.

— Tudo bem — disse Callahan. — Eu tenho um objeto de grande poder. Embora vocês ainda estejam a muitas rodas de minha igreja em Calla, onde o objeto está escondido, acho que ele já chegou a vocês. A indução ao estado de todash é apenas uma das coisas que ele faz. — Inspirou fundo e expirou. — Se você nos prestar... pois Calla é minha cidade agora, também, você sabe, onde espero acabar meus dias e ser enterrado... o serviço que eu peço, eu lhe darei essa... coisa.

— Pela última vez, eu lhe peço que não fale mais assim — disse Roland. O tom era tão áspero que Jake olhou em volta consternado. — Isso desonra a mim e ao meu ka-tet. Temos de fazer o que você pede, se julgarmos sua Calla Branca e aqueles a quem chama Lobos agentes das trevas externas: quebradores de raios, se você sabe. Podemos não aceitar a recompensa por nossos serviços, e vocês não devem oferecer. Se um de seus próprios companheiros falasse assim... o que você chama Tian ou o que você chama Overholster...

(Eddie pensou em corrigir a pronúncia do pistoleiro, e depois decidiu ficar de boca fechada — quando Roland estava zangado, em geral era melhor ficar calado.)

— ...seria diferente. Eles não sabem nada além de lendas. Mas você sai, tem pelo menos um livro, que devia tê-lo ensinado melhor. Eu já lhe disse que o nosso negócio é chumbo, e é mesmo. Mas isso não faz de nós pistoleiros de aluguel.

— Tudo bem, tudo bem...

— Quanto ao que você tem — disse Roland, a voz erguendo-se e sobrepondo-se à de Callahan —, gostaria de ver-se livre dele, não gostaria? Aterroriza você, não aterroriza? Mesmo que decidamos passar ao lado de sua cidade, você nos pediria para levá-lo conosco, não? Não pediria?

— Sim — disse Callahan, com um ar infeliz. — Você diz a verdade, e eu agradeço. Mas... é apenas que ouvi um pouco de sua confabulação... o bastante para saber que retornar... passar para o outro lado, como dizem os mannis... e não apenas para um lugar, mas dois... ou talvez mais... e tempo... Eu os ouvi falar em mirar o tempo, como com uma arma...

O rosto de Jake encheu-se de entendimento e horrorizada surpresa.

— Qual? — perguntou ele. — Não pode ser o rosa de Mejis, porque Roland já entrou lá, ele jamais o pôs em todash. Logo, qual?

Uma lágrima escorreu pela face esquerda de Callahan, depois outra. Ele enxugou-as meio ausente.

— Eu jamais me atrevi a manuseá-lo, mas o vi. Senti seu poder. Cristo Homem Jesus me ajude, eu tenho o Treze Preto debaixo das tábuas do assoalho da minha igreja. E ganhou vida. Está me entendendo? — Olhou-os com os olhos molhados. — Ganhou vida.

Callahan enterrou o rosto nas mãos, escondendo-o deles.

 

Quando o homem santo da cicatriz na testa partiu para buscar seus companheiros de trilha, o pistoleiro ficou olhando-o sem mover-se. Tinha os polegares enfiados no cós do velho jeans remendado, e parecia poder ficar assim até a próxima era. No momento em que Callahan desapareceu, ele voltou-se para seus próprios companheiros e fez um gesto urgente, quase de urso, de agarrar alguma coisa no ar: Venham a mim. Quando eles o fizeram, ele se acocorou. Eddie e Jake fizeram o mesmo (para Susannah, ficar de cócoras era quase um estilo de vida). O pistoleiro falou quase com brusquidão.

— O tempo é curto, por isso me digam, cada um de vocês, e sem frescura: honesto ou não?

— Honesto — disse logo Susannah, depois deu outra piscadela e esfregou a barriga sob o seio esquerdo.

— Honesto — disse Jake.

— Ones — disse Oi, embora não lhe houvessem perguntado.

— Honesto — concordou Eddie —, mas cuidado.

Pegou um graveto não queimado da beira da fogueira, espanou a penugem de pinho e escreveu na terra negra embaixo:

 

 Calla Callahan

 

— Vivo ou Memorex? — disse Eddie. Então, vendo a confusão de Susannah: — É coincidência, ou isso significa alguma coisa?

— Quem sabe? — perguntou Jake. Falavam todos em voz baixa, cabeças juntas sobre a escrita no chão. — Parece 19.

— Acho que é apenas coincidência — disse Susannah. — Certamente, nem tudo que encontramos em nosso caminho é ka, é? Quer dizer, nem soam parecido. — E pronunciou as palavras. Calla com a língua para cima, fazendo um som de a largo. Callahan com a língua para baixo, com um som de a muito mais cortante. — Calla é espanhol em nosso mundo... como muitas das palavras que você se lembra de Mejis, Roland. Significa rua ou praça, eu acho... não me cobrem isso, porque já deixei para trás há muito o espanhol do colégio. Mas, se estou certa, usar a palavra como prefixo do nome de uma aldeia, ou toda uma série de outras, como parece acontecer por aqui, faz muito bom sentido. Não perfeito, mas muito bom. Callahan, por outro lado... — Deu de ombros. — Que é? Irlandês? Inglês?

— Tenho certeza de que não é espanhol — disse Jake. — Mas essa coisa de 19...

— Ao caralho com 19 — disse Roland, com rudeza. — Isso não é hora para jogo de números. Ele logo estará de volta aqui com os amigos, e eu gostaria de falar com vocês an-tet de outro assunto antes que ele volte.

— Você acha possível que ele tenha razão sobre o Treze Preto? — perguntou Jake.

— Acho — disse Roland. — Com base apenas no que aconteceu com você e Eddie ontem de noite, acho que a resposta é sim. É perigoso para nós ter uma coisa dessas se ele estiver certo, mas temos de tê-la. Receio que esses Lobos do Trovão a peguem se nós não o pegarmos. Deixa pra lá, não precisamos nos preocupar com isso agora.

Mas parecia muito preocupado mesmo. Voltou o olhar para Jake.

— Você se assustou quando ouviu o nome do grande fazendeiro. Você também, Eddie, embora dissimulasse melhor.

— Desculpe — disse Eddie. — Esqueci o rosto de...

— Não esqueceu nem um pouco — disse Roland. — A não ser que eu tenha esquecido também. Porque eu próprio ouvi o nome, e recentemente. Só não lembro onde. — Depois, com relutância: — Estou ficando velho.

— Eu estava na livraria — disse Jake. Pegou a mochila, mexeu nervosamente nas correias, desatou-as. Abriu-a enquanto falava. Era como se quisesse assegurar-se de que Charlie Chuu-Chuu e O Que É o Que É? ainda estavam ali. — O Restaurante da Mente de Nova York. É tão esquisito. Uma vez aconteceu comigo, e uma vez eu vi acontecer comigo. Isso em si já é um enigma muito bom.

Roland fez um rápido gesto rotatório com a mão direita estropiada, mandando-o prosseguir e ser rápido.

— O Sr. Tower se apresentou — disse Jake — e depois eu fiz o mesmo. Jake Chambers, eu disse. E ele disse...

— Bom manuseio, parceiro — interveio Eddie. — Foi o que ele disse. Depois disso Jake Chambers soava como o nome de um herói de um romance de faroeste.

— “O cara que irrompe em Black Fork, Arizona, limpa a cidade e segue adiante” — citou Jake. — E depois ele disse: “Alguma coisa de Wayne D. Overholser, talvez.” — Olhou para Susannah e disse: — Wayne D. Overholser. E se você me disser que é uma coincidência, Susannah... — Interrompeu-se num luminoso e súbito sorriso. — Eu a mandarei beijar meu rabo de menino branco.

Susannah riu.

— Não é preciso isso, mariquinha. Não creio que seja coincidência. E quando encontrarmos o amigo fazendeiro de Callahan, pretendo perguntar a ele qual é o seu segundo nome. Aposto que não apenas começa com D, mas será alguma coisa como Dean ou Dane, apenas quatro letras... — Levou a mão ao ponto embaixo do seio. — Esses gases! O que eu não daria por um rolo de Tums ou mesmo uma garrafa de... — Ela se interrompeu de novo. — Jake, o que foi? Algo errado?

Jake tinha Charlie Chuu-Chuu nas mãos, e seu rosto tornara-se de uma palidez mortal. Olhos arregalados, chocados. A seu lado, Oi gania nervoso. Roland curvou-se para olhar, e também arregalou os olhos.

— Bons deuses — disse.

Eddie e Susannah olharam. O título era o mesmo. A ilustração era a mesma: uma locomotiva antropomórfica subindo uma colina a expelir fumaça, o limpa-trilhos em forma de sorriso, o farol um alegre olho. Mas as letras amarelas que corriam no pé da página, História e Ilustrações de Beryl Evans, haviam desaparecido. Não havia nenhum crédito de autoria.

Jake virou o livro e olhou a lombada. Dizia Charlie Chuu-Chuu e McCauley House, Editora. Nada mais.

Ouviram vozes ao sul. Callahan aproximava-se com seus amigos. Callahan de Calla. Callahan de Lot, como ele também se chamara.

— Página de rosto, doçura — disse Susannah. — Olhe lá, rápido.

Jake olhou. Mais uma vez, havia apenas o título da história e o nome da editora, desta vez com um colofão.

— Olhe a página de copyright — disse Eddie.

Ele virou a página. Ali, no verso da página de rosto e ao lado onde a história começava, estava a informação sobre direitos autorais. Só que não havia informação, na verdade não.

 

Copyright 1936,

estava escrito. Números que somavam 19.

O resto estava em branco.

 

Overholser

Susannah pôde observar muita coisa naquele longo e interessante dia, porque Roland lhe deu a oportunidade e porque, depois que passara a náusea da manhah, ela se sentiu inteira de novo.

Pouco antes de Callahan e seu grupo entrarem ao alcance do ouvido, Roland murmurou-lhe:

— Fique perto de mim, e não quero ouvir uma palavra de você, a não ser que eu pergunte. Se a tomarem por minha sh’veen, tudo bem.

Em outras circunstâncias, ela poderia ter alguma coisa impertinente para dizer sobre a idéia de ser a calada esposinha dele, sua costela de noite, mas não havia tempo nessa manhã, e de qualquer modo estava longe de ser motivo de pilhéria; a seriedade no rosto dele deixava isso claro. E, também, a parte da fiel e calada subordinada atraía-a. Na verdade, qualquer parte atraía-a. Mesmo em criança, raramente se sentira tão feliz como quando fingia ser outra pessoa.

O que provavelmente explica tudo que se pode conhecer de você, doçura, ela pensou.

— Susannah? — chamou Roland. — Está me ouvindo?

— Muito bem — disse ela. — Não se preocupe comigo.

— Se sair como eu quero, eles a verão pouco e você os verá muito.

Como uma mulher que crescera negra nos Estados Unidos de meados do século XX (Odetta rira e aplaudira-a durante toda a leitura de O Homem Invisível, de Ralph Ellison, muitas vezes balançando de um lado para outro na cadeira como alguém que recebeu uma revelação), Susannah sabia exatamente o que ele queria. E ia dar-lhe. Uma parte dela — uma despeitada parte Detta Walker — sempre se ressentiria da ascendência de Roland em seu coração e mente, mas na maior parte ela o reconhecia como o que era: o último de sua espécie. Talvez mesmo um herói.

 

Vendo Roland fazer as apresentações (ela foi apresentada por último, após Jake, e quase negligentemente), Susannah teve tempo de refletir sobre como se sentia bem, agora que os aborrecidos espasmos no lado esquerdo haviam desaparecido. Diabos, até a renitente dor de cabeça seguira seu caminho, e aquela sugadora ficara rondando por perto — às vezes na nuca, às vezes numa têmpora ou noutra, às vezes logo acima do olho esquerdo, como uma enxaqueca a chocar — por uma semana ou mais. E, claro, havia as manhãs. Cada uma a encontrava nauseada e com um sério caso de perna bamba durante a primeira hora ou por aí assim. Ela jamais vomitava, mas naquela primeira hora sempre se sentia à beira de fazê-lo. Não era estúpida a ponto de se enganar com tais sintomas, mas tinha motivo para saber que não significavam nada. Apenas esperava que não fosse constranger-se inchando como Jessica, a amiga de sua mãe, não uma, mas duas vezes. Duas falsas gravidezes, e nos dois casos a mulher parecera pronta para expelir gêmeos. Trigêmeos, até. Mas claro que Jessica Beasley já não menstruava mais, e isso tornava muito fácil a mulher acreditar que estava grávida. Susannah sabia que não estava grávida pelo simples motivo de que ainda menstruava. Ficara menstruada no mesmo dia em que haviam despertado no Caminho do Feixe de Luz, com o Palácio Verde uns 40 ou 60 quilômetros atrás. Já tivera outro ciclo desde então. Os dois haviam sido demasiado fortes, necessitando o uso de trapos para conter o fluxo escuro, e antes suas regras sempre eram leves, alguns meses não mais que alguns fios do que sua mãe chamava “rosas de dama”. Mas ela não se queixava, porque antes de sua chegada a este mundo suas regras em geral eram dolorosas e às vezes excruciantes. As duas que tivera desde que retornara ao Caminho do Feixe de Luz não haviam doído nada. Não fosse pelos trapos encharcados que ela enterrava cuidadosamente num ou noutro lado da trilha, não teria idéia de que era o seu dia do mês. Talvez fosse a pureza da água.

Claro que ela sabia do que se tratava; não era preciso ser um cientista de foguetes, como às vezes dizia Eddie. Os sonhos malucos e embolados que ela não lembrava, a fraqueza e a náusea pela manhã, as passageiras dores de cabeça, os ferozes ataques de gases e uma ou outra cãibra, tudo se resumia à mesma coisa: ela queria aquele bebê. Mais que qualquer outra coisa no mundo, queria o chapinha de Eddie crescendo em sua barriga.

O que não queria era inchar numa humilhante gravidez falsa.

Esqueça isso tudo agora, ela pensou quando Callahan se aproximava com os outros. Neste momento, tem de ficar atenta. Tem de ver o que Roland, Eddie e Jake não vêem. O jeito como não se larga nada. E sentia que podia fazer bem esse trabalho.

Realmente, jamais se sentira melhor em sua vida.

 

Primeiro veio Callahan. Seguido de dois homens, um que parecia por volta dos 30 e outro que para Susannah tinha quase duas vezes isso. O mais velho tinha bochechas gordas que seriam dobras em mais uns cinco anos, e rugas abriam caminho dos lados do nariz até o queixo. Seu pai chamava esses de “quero rugas” (e tinha um belo conjunto delas). O mais jovem usava um sombreiro esbagaçado, o mais velho um limpo Stetson branco que a fez querer sorrir — parecia daqueles que o mocinho usava num antigo filme de faroeste em preto e branco. Contudo, ela achava que uma cobertura daquela não saía barata, e que o homem que a usava devia ser Wayne Overholser. “O grande fazendeiro”, como o chamara Roland. O que precisava ser convencido, segundo Callahan.

Mas não por nós, pensou Susannah, o que era uma espécie de alívio. A boca franzida, os olhos astutos e, acima de tudo, todas aquelas rugas profundas (outra cortava verticalmente a testa logo acima dos olhos) sugeriam que sai Overholser ia ser um pé no saco quando se tratasse de convencimento.

Logo atrás desses dois — especificamente atrás do mais jovem — vinha uma mulher alta e elegante, provavelmente não negra, mas ainda assim com a pele quase tão escura quanto a da própria Susannah. Fechando a retaguarda, um rapaz de ar sério, óculos e roupas de camponês, provavelmente dois ou três anos mais velho que Jake. Era impossível não perceber a semelhança entre os dois; tinham de ser Slightman pai e filho.

O garoto pode ser mais velho que Jake em anos, ela pensou, mas tem uma aparência molenga ainda assim. Verdade, embora não necessariamente uma coisa ruim. Jake vira demasiado para um garoto que ainda não chegara à adolescência. Fizera demasiado também.

Overholser olhou as armas deles (Roland e Eddie traziam cada um grandes revólveres com cabo de sândalo: a Ruger .44 da cidade de Nova York pendia da axila de Jake, no que Roland chamava muleta de estivador) e depois para Roland. Fez uma saudação pró-forma, o punho semifechado passando em algum ponto perto da testa. Não fez mesura. Se Roland se sentiu ofendido com isso, não o mostrou no rosto. Nada mostrava no rosto além de um polido interesse.

— Salve, pistoleiro — disse o homem que vinha andando ao lado de Overholser, e realmente caiu sobre um dos joelhos, com a cabeça baixa e a testa apoiada no punho. — Eu sou Tian Jaffords, filho de Luke. Esta senhora é minha esposa Zalia.

— Salve — disse Roland. — Que eu seja Roland para você, se lhe apraz. Que longos sejam os seus dias sobre a terra, sai Jaffords.

— Tian. Por favor. E que você e seus amigos tenham duas vezes...

— Eu sou Overholser — interrompeu bruscamente o homem de Stetson branco. — Viemos ao seu encontro, e de seus amigos, a pedido de Callahan e do jovem Jaffords. Eu passaria as formalidades e entraria no assunto o mais breve possível, não se ofenda, peço-lhe.

— Perdão, mas isso não é bem assim — disse Jaffords. — Nós fizemos uma assembléia, e os homens de Calla votaram...

Overholser tornou a interromper. Susannah achava que ele era exatamente esse tipo de homem. Duvidava que ele ao menos percebesse que o fazia.

— A cidade, sim. Calla. Eu vim com todo o desejo de agir direito com minha cidade e meus vizinhos, mas estou muito ocupado no momento, nunca estive tanto...

— A árvore de charyou — disse Roland em voz baixa, e embora Susannah conhecesse um sentido mais profundo para a expressão, que lhe trouxe picadas na espinha, os olhos de Overholser se iluminaram. Ela teve então seu primeiro sinal de como ia ser aquele dia.

— Vem a colheita, sim, senhor, eu lhe agradeço.

Afastado para um lado, Callahan olhava a mata com uma espécie de estudada paciência. Atrás de Overholser, Tian Jaffords e a esposa trocaram um olhar constrangido. Os Slightman apenas esperavam e observavam.

— De qualquer modo, até aí você entende — disse Overholser.

— Em Gilead, nós éramos cercados por fazendas e terras livres — disse Roland. — Eu tinha meu quinhão no trigo e milho no celeiro. É, e raízes também.

Overholser dava a Roland um sorriso que Susannah achava francamente ofensivo. Dizia: Nós sabemos que, não, não sabemos, sai? Afinal, somos ambos homens do mundo.

— De onde é você mesmo, sai Roland?

— Meu amigo, está precisando ir a um otorrino — disse Eddie.

Overholser olhou-o, intrigado.

— Perdão, meu ouvido?

Eddie fez um gesto de Aí, tá vendo?, e balançou a cabeça.

— Exatamente o que quero dizer.

— Fique quieto, Eddie — disse Roland. Ainda suave como leite. — Sai Overholser, podemos por um momento trocar nomes e fazer um ou dois bons votos, sem dúvida. Pois é assim que as pessoas civilizadas e bondosas se comportam, não é? — Fez uma pausa, uma breve pausa de acentuação, e então disse: — Com bandidos é diferente, mas não há bandidos aqui.

Overholser comprimiu os lábios e olhou duro para Roland, pronto para ofender-se. Não viu nada no rosto do pistoleiro que justificasse isso e tornou a relaxar.

— Obrigado — disse. — Tian e Zalia Jaffords, como já disse...

Zalia fez uma mesura, espalhando saias invisíveis de cada lado de gastas calças de cotelê. — ... e aqui estão Slightman pai e filho.

O pai levou o punho à testa e balançou a cabeça. O filho, o rosto um temor absoluto (sobretudo pelas armas, supôs Susannah), curvou-se com a perna direita estendida rígida à frente e o calcanhar plantado.

— O Velho você já conhece — concluiu Overholser, falando com exatamente aquele seco desdém com o qual ele próprio se ofenderia, se dirigido ao seu estimado ego.

Susannah supôs que quando o cara era o grande fazendeiro, se acostumava a falar simplesmente tudo que queria. Perguntava-se até onde ele podia empurrar Roland antes de descobrir que não empurrara coisa alguma. Porque alguns homens não podiam ser empurrados. Podiam nos acompanhar por um tempo, mas então...

— Estes são meus companheiros de trilha — disse Roland. — Eddie Dean e Jake Chambers, de Nova York. E esta é Susannah.

Indicou-a sem voltar-se para ela. O rosto de Overholser lançou uma expressão intensamente masculina e conhecedora que Susannah já tinha visto antes. Detta Walker tinha um jeito de varrer aquela expressão da cara dos homens que ela não acreditava que sai Overholser fosse gostar.

Apesar disso, ela lançou a Overholser e ao resto deles um sorrisinho pudico e fez a mesura da saia invisível. Achou a sua tão graciosa quanto a de Zalia Jaffords, mas claro que uma mesura não era exatamente a mesma quando não se tinham as pernas e os pés. Os recém-chegados haviam observado as partes que lhe faltavam, claro, mas os sentimentos deles a esse respeito não a interessavam muito. Mas imaginava o que eles pensavam de sua cadeira de rodas, a que Eddie pegara para ela em Topeka, onde o Mono Blaine acabara. Aquela gente jamais teria visto coisa igual.

Callahan talvez tenha, pensou. Porque ele é do nosso lado. Ele...

O garoto perguntou:

— Esse é um trapalhão?

— Quer calar a boca? — disse Slightman, parecendo quase chocado pelo fato de o filho ter falado.

— Está tudo bem — disse Jake. — Ié, é um trapalhão. Oi, vá até ele.

Apontou o Ben filho. O trapalhão trotou em torno da fogueira até onde o recém-chegado estava de pé e encarou o garoto com seus olhos debruados de dourado.

— Eu nunca vi um domesticado antes — disse Tian. — Já ouvi falar, claro, mas o mundo seguiu adiante.

— Talvez nem todo ele tenha seguido — disse Roland. Olhou para Overholser. — Talvez ainda vigorem alguns dos velhos costumes.

— Posso fazer carinho nele? — perguntou o rapaz a Jake. — Não vai me morder?

— Pode, e ele não morde.

Quando Slightman filho se acocorou diante de Oi, Susannah certamente esperou que Jake tivesse razão. Com uma mordida do trapalhão no nariz do garoto, as coisas não iam ficar nada bem.

Mas Oi deixou-se afagar, chegando a esticar o pescoço para cima, a fim de experimentar o cheiro do rosto de Slightman. O menino riu.

— Como disse que era o nome dele?

Antes que Jake pudesse responder, o próprio trapalhão falou:

— Oi!

Todos riram. E com essa simplicidade eles ficaram juntos, bem encontrados naquela trilha que seguia o Caminho do Feixe de Luz. A ligação era frágil, mas até Overholser a sentia. E quando riu, o grande fazendeiro parecia poder ser um bom sujeito. Talvez assustado, e pomposo sem dúvida, mas havia alguma coisa ali.

Susannah não sabia se devia ficar satisfeita ou assustada.

 

— Eu gostaria de ter uma palavrinha a sós com você, se não se importa — disse Overholser.

Os dois garotos haviam-se afastado um pouco com Oi, Slightman filho perguntando a Jake se o trapalhão sabia contar, como ele ouvira dizer que alguns sabiam.

— Acho que não, Wayne — foi logo dizendo Jaffords. — Ficou combinado que voltaríamos para nosso acampamento, dividiríamos o pão e explicaríamos nossa necessidade a essa gente.

— Eu não faço objeção a ter uma palavra com sai Overholser — disse Roland —, nem você, sai Jaffords, eu acho. Pois não é ele seu dinh? — E, então, antes que Tian pudesse fazer outras objeções (ou negá-las): — Dê chá a essa gente, Susannah. Eddie, venha aqui conosco um pouco, se estiver tudo bem por você.

Essa frase, nova a todos os ouvidos, saiu da boca de Roland parecendo perfeitamente natural. Susannah ficou maravilhada com ela. Se houvesse tentado dizer aquilo, teria parecido estar sugando.

— Temos sempre comida no sul — disse timidamente Zalia. — Comida, brotos e café. Andy...

— Nós comeremos com prazer e tomaremos seu café com alegria — disse Roland. — Mas primeiro tome o chá. Ficaremos só alguns instantes, não é, sai?

Overholser fez que sim com a cabeça. Desaparecera sua expressão de severo desconforto. E também sua rigidez corporal. Do outro lado da estrada (perto de onde a mulher chamada Mia deslizara para dentro da mata ainda na noite passada), os garotos riram quando Oi fez alguma coisa esperta — Benny com surpresa, Jake com óbvio orgulho.

Roland tomou o braço de Overholser e levou-o um pouco adiante na estrada. Eddie acompanhou-os. Jaffords, de testa franzida, fez que ia com eles afinal. Susannah tocou o seu ombro.

— Não vá — disse em voz baixa. — Ele sabe o que faz.

Jaffords olhou-a em dúvida por um instante e foi com ela.

— Talvez eu pudesse fazer um fogo para você, sai — disse Slightman pai com um olhar de simpatia às suas pernas amputadas. — Ainda vejo algumas fagulhas, vejo, sim.

— Por favor — disse Susannah, pensando como era maravilhoso aquilo.

Como era maravilhoso, como era estranho. E potencialmente mortal também, claro, mas aprendera que tinha igualmente seus charmes. A possibilidade de escuridão é que fazia o dia parecer tão luminoso.

 

Adiante na estrada, a uns 10 metros dos outros, os três homens sentaram-se juntos. Overholser parecia ser o único a falar, às vezes gesticulando violentamente para acentuar um argumento. Falava como se Roland não passasse de um pistoleiro vagabundo que aparecera por acaso na estrada com alguns companheiros bêbados sem importância atrás. Explicava-lhe que Tian Jaffords era um tolo (embora bem-intencionado) que não compreendia as verdades da vida. Disse que se se pudesse fazer alguma coisa, Wayne Overholser, filho de Alan, seria o primeiro na fila para fazê-la; jamais se furtara a uma tarefa em sua vida, mas ir contra os Lobos era loucura. E por falar em loucura, acrescentou baixando a voz, havia o Velho. Quando se atinha à sua igreja e rituais, era ótimo. Nessas coisas, um pouco de loucura dava um bom molho. Aquilo, no entanto, era um pouco diferente. Ié, e de longe.

Roland ouviu tudo, balançando de vez em quando a cabeça. Quase nada falou. E quando Overholser por fim acabou, o grande fazendeiro de Calla Bryn Sturgis simplesmente ficou a olhar com uma espécie de fixa fascinação o pistoleiro à sua frente. Sobretudo os olhos azuis baços.

— Você é mesmo o que diz? — perguntou finalmente. — Fale a verdade, sai.

— Eu sou Roland de Gilead — disse o pistoleiro.

— Da linhagem do Eld? Você diz isso?

— Por direito e mandato — disse Roland.

— Mas Gilead... — Overholser fez uma pausa. — Gilead há muito desapareceu.

— Eu — disse Roland — não.

— Você mataria todos nós ou faria com que nos matassem? Diga-me, eu lhe peço.

— Que faria você, sai Overholser? Não depois; nem um dia, uma semana ou uma lua a partir de agora, mas neste minuto?

Overholser ficou parado um longo tempo, olhando de Roland para Eddie e de novo para Roland. Ali estava um homem não acostumado a mudar de idéia; se mudasse, isso o machucaria como um rompimento. De mais abaixo na estrada veio a risada dos garotos quando Oi foi pegar alguma coisa que Benny jogara — um pau quase tão grande quanto o próprio trapalhão.

— Eu escutaria — disse Overholser por fim. — Isso eu faria, com a ajuda dos deuses, e agradeceria.

— Em outras palavras, ele explicou os motivos pelos quais era um serviço de tolo — disse mais tarde Eddie a Susannah — e depois fez exatamente o que Roland queria que fizesse. Pareceu coisa de magia.

— Às vezes Roland é mágico — disse ela.

 

O grupo de Calla acampara num aprazível topo de uma colina não muito ao sul da estrada, mas um pouco fora do Caminho do Feixe de Luz, de modo que nuvens ainda pairavam imóveis no céu, parecendo ao alcance da mão. A trilha ali no meio da mata fora cuidadosamente assinalada; algumas das fogueiras que Susannah via tinham o tamanho da sua palma. Aquelas pessoas podiam ser camponeses rudes e trabalhadores braçais, mas era claro que a floresta os deixava inquietos.

— Posso empurrar um pouco essa cadeira pra você, meu rapaz? — perguntou Overholser a Eddie quando começaram o estirão final encosta acima.

Susannah sentia o cheiro de carne assando e imaginava quem cuidava da comida se todo o grupo de Callahan-Overholser viera ao encontro deles. Havia a mulher falado em alguém chamado Andy? Um empregado, talvez? Falara, sim. O pessoal de Overholser? Talvez. Certamente, um homem que podia comprar um Stetson tão grande quanto o agora jogado para trás em sua cabeça podia ter uma equipe.

— Tome — disse Eddie. Não ousava exatamente acrescentar: — Eu lhe peço.

(Ainda lhe soa falso, pensou Susannah), mas se afastou para um lado e entregou as barras da cadeira a Overholser. O fazendeiro era um homem grande, a encosta fácil, e agora ele empurrava a mulher, que pesava perto de 65 quilos, mas sua respiração, embora forte, permaneceu regular.

— Posso lhe fazer uma pergunta, sai Overholser? — perguntou Eddie.

— Claro — respondeu Overholser.

— Qual é seu segundo nome?

Houve um ligeiro afrouxamento na condução da cadeira; Susannah atribuiu-o a mera surpresa.

— É um nome curioso, meu jovem; por que pergunta?

— Oh, é uma espécie de passatempo meu — disse Eddie. — Na verdade, eu digo a sorte com eles.

Cuidado, Eddie, cuidado, pensou Susannah, mas estava divertida apesar de si mesma.

Ah, é?

— É — disse Eddie. — Agora você, aposto que seu segundo nome começa com... — pareceu calcular — com a letra D. — Só que pronunciou Dei, como as Grandes Letras da Língua Superior. — E eu diria que é curto. Cinco letras? Talvez apenas quatro?

De novo o afrouxamento na marcha da cadeira.

— Com os diabos! — disse Overholser. — Como você sabe? Me diga!

Eddie deu de ombros.

— É só conta e palpite, de fato. Na verdade, erro quase tanto quanto acerto.

— Mais — disse Susannah.

— Eu lhe digo que o meu segundo nome é Dale — disse Overholser —, embora se alguém um dia me explicou por quê, eu esqueci. Perdi meus velhos quando era criança.

— Sinto muito pela sua perda — disse Susannah, feliz por ver que Eddie se afastava. Provavelmente para contar a Jake que ela tinha razão sobre o segundo nome: Wayne Dale Overholser. Igual a 19.

— Esse jovem é são ou idiota? — perguntou Overholser a Susannah. — Me diga, eu lhe peço, porque eu não percebo.

— Um pouco das duas coisas — disse ela.

— Mas não há dúvida sobre essa cadeira, não é? É certeira feito uma bússola.

— Agradeço — ela disse, e deu um pequeno suspiro para dentro de alívio.

Se saíra direito, provavelmente era porque ela não planejara exatamente como falar.

— De onde veio isso?

— De uma boa distância lá atrás — disse ela.

Essa virada na conversa não lhe agradava muito. Achava que era tarefa de Roland contar a história (ou não). Ele era o dinh deles. Além disso, o que era contado apenas por um não podia ser contradito. Ainda assim, pensou que podia dizer mais alguma coisa.

— Ali está a barreira entre os mundos. Nós viemos do outro lado dela, onde tudo é muito diferente. — Esticou o pescoço em volta para olhá-lo. Ele tinha a face e o pescoço ruborizados, mas na verdade, ela pensou, estava se saindo muito bem para um homem já bem entrado na casa dos 50. — Sabe do que estou falando?

— Ié — disse ele, boquiaberto, e cuspiu para a esquerda. — Não que eu tenha visto ou ouvido pessoalmente, você entende. Nunca ando muito longe; muita coisa a ver com a fazenda. Os de Calla em geral não são mateiros simplórios, mesmo assim, você sabe.

Oh, sim, eu acho que sei, pensou Susannah, vendo outro clarão mais ou menos do tamanho de um prato de jantar. A infeliz árvore assim assinalada teria sorte se sobrevivesse ao próximo inverno.

— Andy falou muitas vezes da barreira. Faz um barulho, ele diz, mas não sabe dizer o que é.

— Quem é Andy?

— Você vai conhecê-lo pessoalmente muito em breve. Você não é de Nova York, como seus amigos?

— Sou — ela disse, mais uma vez em guarda. Ele virou a cadeira de rodas em torno de um pau-ferro esbranquiçado. As árvores eram mais esparsas agora e o cheiro de cozinha era muito mais forte. Carne... e café. A barriga dela roncou.

— E eles não são pistoleiros — disse Overholser, indicando Jake e Eddie com a cabeça. — Você não me dirá isso, certamente.

— Você deve decidir por si mesmo quando chegar a hora — disse Susannah.

Ele não respondeu por alguns instantes. Depois a cadeira de rodas rugiu sobre um afloramento de rocha. À frente deles, Oi andava entre Jake e Benny Slightman, que haviam feito amizade com a rapidez dos garotos. Ela se perguntava se era uma boa idéia. Pois os dois garotos eram diferentes. O tempo mostraria aos dois quanto, e para mágoa deles.

— Ele me assustou — disse Overholser. Falou numa voz quase baixa demais para ouvir-se. Como para si mesmo. — São os olhos dele, eu acho. Sobretudo os olhos.

— Gostaria de seguir então igual a antes? — perguntou Susannah.

A pergunta estava longe de ser tão leve quanto ela esperava que parecesse, mas ainda estava surpresa com a fúria da reação dele.

— Você ficou maluca, mulher? Claro que não... se vi uma saída da caixa onde você está. Me escute bem. Aquele rapaz... — Apontou para Tian Jaffords, que caminhava à frente com a esposa. — ... aquele rapaz praticamente me acusou de covardia. Tinha de assegurar que todos soubessem que eu não tinha filhos da idade que os Lobos gostam. Não como os dele, você sabe. Mas você acha que eu sou algum idiota que não sabe fazer contas?

— Eu, não — disse Susannah.

— Mas ele sim? Eu meio que acho isso. — Overholser falava como um homem quando seu orgulho e medo lutam em sua cabeça. — Eu lá quero entregar os bebês aos Lobos? Bebês que são mandados de volta como roonts para serem um atraso de vida na cidade eternamente? Não! Mas tampouco quero que algum cabeça-dura nos leve a um erro sem retorno!

Ela percebeu movimentos pelo canto do olho.

— Nossa mãe! — gritou Eddie.

A mão de Susannah voou para o revólver que não estava ali. Ela tornou a se virar para a frente na cadeira. Andando pela ladeira em direção a eles, movendo-se com um cuidado afetado que ela não pôde deixar de achar divertido, mesmo em seu espanto, vinha um homem de metal de pelo menos 2,5m de altura.

Jake levara a mão à muleta de estivador e à arma ali pendurada.

— Calma, Jake! — disse Roland.

O homem de metal, olhos luzindo azul, parou na frente deles. Ficou perfeitamente imóvel por talvez dez segundos, tempo suficiente para Susannah ler o que trazia gravado no seu peito. North Central Positronics, pensou, de volta para mais uma chamada ao palco. Para não falar na LaMerk Industries.

Então o robô ergueu um braço prateado e pôs a mão prateada na testa de aço inoxidável.

— Salve, pistoleiro, que vem de longe — disse. — Longos dias e belas noites.

Roland levou os dedos à própria testa.

— Que você tenha tudo isso em dobro, Andy-sai.

— Obrigaaado.

Ouviu-se o tilintar de suas incompreensíveis entranhas. Então ele se curvou para Roland, olhos azuis faiscando mais forte. Susannah viu a mão de Eddie esgueirar-se para o cabo de sândalo do antigo revólver que usava. Roland, porém, nem piscou.

— Eu preparei uma gostosa refeição, pistoleiro. Muitas coisas boas da abundância da terra, ié.

— Eu lhe agradeço, Andy.

— Que fique bem. — As entranhas do robô tornaram a tilintar. — Enquanto isso, será que não quer ouvir seu horóscopo?

 

O Caminho do Eld

Por volta das duas da tarde daquele dia, os dez se sentaram para o que Roland chamou de almoço de rancheiro.

— Durante as tarefas matinais, vocês olham para a frente com amor — disse aos amigos depois. — Nas da noite, olham para trás com nostalgia.

Eddie achou que ele estava brincando, mas com Roland nunca se podia ter completa certeza. O pouco humor que ele tinha era seco ao ponto da desidratação.

Não foi a melhor refeição que Eddie já tivera, o banquete servido pela velha gente de River Crossing ainda mantinha o posto de honra nesse aspecto, mas após semanas nas matas, subsistindo com os burritos do pistoleiro (e cagando duro como pacotes de excremento de coelho às vezes duas vezes por dia), era boa comida de fato. Andy serviu bifes sensacionais ao ponto e cobertos com molho de cogumelo. Acompanhados de feijão, coisas enroladas como tacos e milho assado. Eddie experimentou uma espiga e achou-a dura mas gostosa. Havia ainda a salada de repolho cru, Tian Jaffords insistia em dizer-lhes que fora feita pelas mãos de sua esposa. E também um maravilhoso pudim chamado bolo de morango. E, claro, café. Eddie calculava que eles quatro juntos haviam mandado para dentro pelo menos uns quatro litros. Até Oi bebeu um pouco. Jake serviu-lhe um pires de café escuro e forte. Oi farejou, disse: “Caffe!”, e bebeu com grande rapidez e eficiência.

Não houve conversa séria durante a refeição (“Comida e confabulação não se misturam” era apenas uma das muitas pepitinhas de sabedoria de Roland), e no entanto Eddie ficou sabendo muita coisa sobre Jaffords e sua esposa, sobretudo como se vivia a vida ali, no que Tian e Zalia chamavam de “terras de fronteira”. Esperava que Susannah (sentada ao lado de Overholser) e Jake (com o jovem em quem Eddie já pensava como o Garoto Benny) estivessem aprendendo o mesmo tanto. Teria esperado que Roland se sentasse com Callahan, mas este não se sentou com ninguém. Levou a comida para uma certa distância de todos eles, benzeu-se e comeu sozinho. E não muito. Furioso com Overholser por roubar o espetáculo ou apenas solitário por natureza? Difícil saber com tão pouco tempo, mas se alguém houvesse encostado um revólver em sua cabeça Eddie teria votado na última hipótese.

O que mais fortemente o impressionou foi como era civilizada aquela parte do mundo, cacete. Fazia Lud, com seus Grays e Pubes em guerra, parecer as ilhas Canibal numa história marítima juvenil. Aquelas pessoas tinham estradas, agentes da lei e um sistema de governo que fazia Eddie lembrar-se das assembléias da Nova Inglaterra. Havia um Salão de Assembléia Municipal e uma pena que parecia ser algum tipo de símbolo de autoridade. Se se queria convocar uma assembléia, tinha-se de fazer circular a pena. Se um número suficiente de pessoas a tocasse quando chegasse ao seu lugar, havia uma reunião. Se não, não havia. Mandavam-se duas pessoas levar a pena, e a contagem delas era aceita sem questionar. Eddie duvidava que isso funcionasse em Nova York, mas para um lugar como aquele parecia uma maneira ótima de dirigir tudo.

Havia pelo menos mais setenta outras Callas, que se estendiam num leve arco ao norte e ao sul de Calla Bryn Sturgis. Calla Bryn Lockwood ao sul e Calla Amity ao norte eram também fazendas e ranchos pecuários. Também sofriam as periódicas depredações dos Lobos. Mais ao sul ficavam Calla Bryn Bouse e Calla Staffel, contendo vastos tratos de terra agrícola, e Jaffords dizia que também elas sofriam com os Lobos... pelo menos ele achava que sim. Mais ao norte, Calla Sen Pinder e Calla Sen Chre, de fazendas e ovinos.

— Fazendas de bom tamanho — disse Tian —, mas vão ficando menores quando se avança para o norte, você sabe, até chegarmos a terras onde cai neve... pelo que me dizem; eu nunca vi... e faz-se um queijo maravilhoso.

— Os do norte usam tamancos de madeira, ou assim dizem — explicou Zalia a Eddie, parecendo meio nostálgica. Ela própria usava uns tamancões velhos chamados botas de praia.

As pessoas das Callas viajavam pouco, mas as estradas estavam lá se quisessem viajar, e o comércio era ativo. Além delas, havia o Whye, também chamado de Grande rio, que corria ao sul de Calla Bryn Sturgis até os mares do Sul, ou assim diziam. Havia Callas de mineração e Callas de manufatura (onde se faziam as coisas com prensas a vapor e até mesmo, sim, com eletricidade), e até uma Calla dedicada a nada mais que o prazer: jogo e cavalgadas loucas e divertidas, e...

Mas nesse ponto Tian, que era quem vinha falando, sentiu os olhos de Zalia sobre ele e voltou à panela para buscar mais feijão. E um conciliador prato da salada da esposa.

— Então — disse Eddie, e riscou uma curva no chão. — Essas são as terras de fronteira. As Callas. Um arco que vai para norte e sul por... que distância, Zalia?

— Isso é coisa de homem, é mesmo — disse ela. Então, vendo seu próprio homem ainda junto ao fogo em brasa, examinando as panelas, curvou-se um pouco para Eddie: — Está falando em quilômetros ou em voltas?

— Um pouco dos dois, mas eu me sinto melhor com quilômetros.

Ela assentiu com a cabeça.

— Talvez uns 3 mil quilômetros, mais ou menos. — Apontou para o norte. — E duas vezes isso, mais ou menos. — Apontou para o sul.

Continuou assim, apontando para direções opostas, e depois baixou os braços, cruzou as mãos no colo e retomou a pose tímida de antes.

— E essas cidades, essas Callas, se estendem por toda a distância?

— Assim nos dizem, se faz favor, e os comerciantes vêm e vão. A noroeste daqui, o Grande rio se divide em dois. Nós chamamos o braço esquerdo de Devar-Tete Whye... o Pequeno Whye, pode-se dizer. Claro que vemos mais viagens fluviais do norte, pois o rio corre do norte para o sul, você entende.

— Entendo. E para leste?

Ela baixou os olhos.

— Trovão — disse numa voz que Eddie mal pôde ouvir. — Ninguém vai lá.

— Por quê?

— É escuro lá — disse ela, ainda sem erguer os olhos do colo. Então ergueu o braço. Desta vez apontou na direção de onde tinham vindo Roland e seus amigos. Na direção do Mundo Médio. — Lá — disse — o mundo está acabando. Ou assim nos dizem. E lá... — Apontou para o leste e ergueu os olhos para Eddie. — Lá, no Trovão, já acabou. No meio ficamos nós, que apenas queremos seguir nosso caminho em paz.

— E acha que isso vai acontecer?

— Não.

E Eddie viu que ela chorava.

 

Pouco depois disso, Eddie desculpou-se e entrou numa touceira de árvores para um momento a sós. Quando se levantou, pegando algumas folhas para limpar-se, uma voz falou bem atrás dele.

— Essas, não, sai, se faz favor. Essas são plantas venenosas. Limpe-se com elas e vai ficar se cocando.

Ele saltou e girou, agarrando o cós da calça jeans com uma das mãos e estendendo a outra para o revólver de Roland, pendurado numa árvore próxima. Então viu quem tinha falado — ou o que tinha falado — e relaxou um pouco.

— Andy, na verdade não é muito católico se esgueirar por trás de pessoas que estão dando uma cagada. — Apontou então para um colmo de baixo mato verde. — E aquelas dali? Que problemas eu vou ter se me limpar com elas?

Seguiram-se pausas e chocalhos.

— Como? — perguntou Eddie. — Eu fiz alguma coisa errada?

— Não — disse Andy. — Eu apenas estou processando informação, sai. Católico: palavra desconhecida. Esgueirar, eu não fiz isso, eu andei, se está bom pra você. Dando uma cagada: provavelmente gíria para excreção de...

— Ié — disse Eddie —, é isso aí. Mas escute: se você não se esgueirou até onde eu estava, Andy, como foi que não o ouvi? Quer dizer, tem mato baixo. A maioria das pessoas faz barulho quando atravessa vegetação rasteira.

— Eu não sou uma pessoa, sai — disse Andy.

Eddie achou que ele pareceu presunçoso.

— Cara, então. Como pode um cara grandalhão como você ser tão silencioso?

— Programação — disse Andy. — Essas folhas servem muito bem, pode pegá-las.

Eddie revirou os olhos e agarrou um punhado.

— Ah, programação. Claro. Eu devia saber. Obrigado, sai, longas noites, puxe meu saco e vá pro céu.

— Céu — disse Andy. — Lugar pra onde a gente vai depois da morte; uma espécie de paraíso. Segundo o Velho, os que vão para o céu se sentam à direita de Deus Pai Todo-Poderoso, para todo o sempre e sempre.

— Ié. Quem vai se sentar à esquerda? Todos os vendedores de Tupperware?

— Sai, eu não sei. Tupperware é uma palavra desconhecida para mim. Gostaria de ouvir seu horóscopo?

— Por que não? — disse Eddie.

Começou a voltar para o acampamento, guiado pelo barulho de garotos a rir e dos latidos do trapalhão. Andy seguiu-o, reluzindo mesmo debaixo do céu nublado e parecendo não fazer barulho. Era fantástico.

— Qual a sua data de nascimento, sai?

Eddie achou que devia estar preparado para esta.

— Eu sou Lua de Cabra — disse, e pensou mais um pouco. — Cabra de barbicha.

— A neve do inverno traz muita infelicidade, o frio do inverno é forte e bárbaro — disse Andy. Sim, havia presunção em sua voz, sem dúvida.

— Forte e bárbaro, isto sou eu — disse Eddie. — Não tomo um banho de verdade há mais de um mês, logo é melhor acreditar que sou forte e bárbaro. De que mais você precisa, Andy velho? Quer ver a palma da minha mão, ou alguma coisa assim?

— Não é preciso, sai Eddie. — O robô parecia inequivocamente feliz e Eddie pensou: Eis-me aí, espalhando felicidade a toda parte que vou. Até os robôs me amam. É meu ka. — Estamos na Terra Plena, sai, todos agradecemos. A lua está rubra, o que se chama Lua da Caçadora no Mundo Médio. Vai viajar, Eddie? Vai viajar para longe! Você e seus amigos! Esta noite mesmo você retornará a Calla Nova York. Encontrará uma dama negra. Vai...

— Eu quero saber mais sobre a viagem a Nova York — disse Eddie, detendo-o. O acampamento estava logo à frente, e ele próximo o bastante para ver as pessoas se movimentando. — Nada de brincadeiras, Andy.

— Você entrará em todash, sai Eddie! Você e seus amigos. Deve ter cuidado. Vai ouvir os kammen... os sinos, você conhece bem... todos devem se concentrar uns nos outros. Para evitar se perderem.

— Como você sabe dessas coisas? — perguntou Eddie.

— Programação — disse Andy. — Horóscopo está feito, sai. De graça. — E, depois, o que pareceu a Eddie a loucura final do acampamento. — Sai Callahan... o Velho, você sabe... diz que eu não tenho licença para dizer a sorte, por isso eu nunca cobro.

— Sai Callahan fala a verdade — disse Eddie, e então, quando Andy recomeçou a adiantar-se: — Mas espere um minuto, Andy. Espere, eu lhe peço. — Era absolutamente fantástico como isso começara a parecer legal.

Andy parou de bom grado e volveu para Eddie os olhos azuis fulgentes. Eddie tinha umas mil perguntas sobre todash, mas no momento estava mais curioso sobre outra coisa.

— Você sabe sobre esses Lobos?

— Ah, sim. Eu disse a sai Tian. Ele ficou irado.

Mais uma vez, Eddie detectou alguma coisa semelhante a presunção na voz de Andy... mas sem dúvida era apenas impressão sua, certo? Um robô, mesmo um sobrevivente dos velhos tempos, não podia sentir os mal-estares dos seres humanos. Podia?

Você não levou muito tempo para esquecer o mono, levou, doçura?, perguntou em sua cabeça a voz de Susannah. E foi seguida pela de Jake: Blaine é um pé no saco. E depois, apenas a sua própria: Se você tratar esse cara como nada mais que uma máquina que diz a sorte numa arcada de circo, Eddie velho, você merece o que lhe acontecer.

— Me fale dos Lobos.

— Que quer saber, sai Eddie?

— De onde eles vêm, para começar. O lugar onde acham que podem pôr os pés pra cima e peidar alto. Para quem trabalham. Por que levam as crianças. E por que as que levam voltam arruinadas. — Então lhe ocorreu outra pergunta. Talvez a mais óbvia. — E, também, como vocês sabem que eles vão vir?

Estalidos dentro de Andy. Muitos desta vez, talvez todo um minuto. Quando o robô voltou a falar, foi com uma voz diferente. Fez Eddie lembrar-se do guarda Bosconi, do bairro. Na avenida Brooklyn, a ronda de Bosco Bob. Se a gente o encontrava, andando pela rua e rodando o cassetete, ele falava com a gente como se a gente fosse um ser humano e ele também — como vai indo, Eddie, como vai sua mãe atualmente, como vai seu irmão imprestável, você vai se inscrever nos Middlers PAL, tudo bem, lhe vejo no colégio, fique fora do fumo, tenha um bom dia. Mas se achava que talvez você houvesse feito alguma coisa, Bosco Bob virava um cara que a gente não queria conhecer. Esse não sorria, e os olhos por trás dos óculos pareciam poças de gelo em fevereiro (o que por acaso era o Tempo da Cabra daquele lado do Qualquer Coisa Verde). Bosco Bob jamais batera em Eddie, mas umas duas vezes — uma pouco depois de alguns garotos atearem fogo ao mercadinho de Woo Kim — ele tivera certeza de que o filho-da-puta de uniforme azul ia espancá-lo, se ele fosse estúpido o bastante para ficar por perto. Não era esquizofrenia — pelo menos não do tipo puro de Detta/Odetta —, mas chegava perto. Havia duas versões do guarda Bosconi. Uma delas era um cara legal. A outra era um tira.

Quando Andy tornou a falar, não mais parecia o tio bem-intencionado, mas meio estúpido, que acreditava que as histórias de menino-jacaré e de Elvis-está-vivo-em Buenos Aires que a Inside View publicava eram absolutamente verdadeiras. Aquele Andy soava sem emoção e meio morto.

Parecia um robô louco, em outras palavras.

— Qual é a sua senha, Eddie?

— Como?

— Senha. Você tem dez segundos. Nove... oito... sete... Eddie lembrou-se de filmes de espião que tinha visto.

— Você quer que eu diga alguma coisa tipo “As rosas florescem no Cairo” e aí você diz “Só no jardim da Sra. Wilson”, e aí eu digo...

— Senha incorreta, sai Eddie... dois... um... zero.

De dentro de Andy veio o barulho de baque que Eddie achou singularmente desagradável. Parecia uma lâmina de faca afiada cortando carne e penetrando na tábua de cortar embaixo. Viu-se pensando pela primeira vez no Povo Antigo, que certamente construíra Andy (ou talvez o povo antes do Povo Antigo, chamemo-lo de Povo Realmente Antigo — quem sabia ao certo?). Não um povo que o próprio Eddie quisesse conhecer, se os últimos remanescentes de Lud fossem um exemplo.

— Você pode tentar mais uma vez — disse a voz fria. Tinha uma semelhança com a que perguntara a Eddie se ele gostaria de ouvir o seu horóscopo, mas isso era o melhor que se podia dizer: uma semelhança. — Quer tentar de novo, Eddie de Nova York?

Eddie pensou rápido.

— Não — disse —, está tudo bem. A informação é restrita, certo?

Vários estalos. Depois:

— Restrita: confinada, mantida dentro de certos limites, como a informação num determinado documento ou disco-q; limitada aos autorizados a usar essa informação; os autorizados anunciam-se dando a senha. — Outra pausa para pensar, e depois: — É, Eddie. Essa informação é restrita.

— Por quê? — quis saber Eddie.

Não esperava resposta, mas Andy deu-lhe uma:

— Diretriz 19.

Eddie deu-lhe um tapinha no flanco metálico.

— Meu amigo, isso não me surpreende nem um pouco. Diretriz 19 é o que é.

— Gostaria de ouvir um horóscopo ampliado, Eddie-sai?

— Eu acho que passo.

— Que tal uma música chamada “The Jimmy Juicy I Drank Last Night”? Tem muitos versos divertidos.

A nota rachada de uma flauta aguda veio de algum ponto no diafragma de Andy.

Eddie, que achava assustadora a idéia de muitos versos divertidos, acelerou o passo para junto dos outros.

— Por que não deixamos isto pra outra hora? — perguntou. — No momento eu acho que preciso de outra xícara de café.

— Dê-se o prazer de uma — disse Andy.

A Eddie ele pareceu meio triste. Como Bosco Bob quando a gente lhe dizia que ia estar ocupado para a Liga PAL naquele verão.

 

Roland sentava-se num afloramento de pedra, tomando sua xícara de café. Ouvia Eddie sem dizer nada, e apenas com uma leve mudança de expressão: um mínimo erguer das sobrancelhas às palavras Diretriz 19.

Do outro lado da clareira, defronte deles, o jovem Slightman sacara uma espécie de canudo que produzia bolhas extraordinariamente duras. Oi corria atrás delas, estourando várias com os dentes. Depois começou a entender o que o garoto parecia querer, que era que ele as amontoasse numa pequena pilha de luz. A pilha de bolhas fez Eddie lembrar-se do Arco-íris do Mago, as perigosas bolas de vidro. Será que Callahan tinha mesmo uma? A pior de todas?

Mais adiante dos garotos, na borda da clareira, Andy permanecia parado com os braços cruzados sobre a curva de aço inoxidável do peito. Esperando para tirar o jantar que ele trouxera e cozinhara para o grupo, supunha Eddie. O perfeito criado. Cozinha, limpa, fala da dama negra que a gente vai encontrar. Só não espere que viole a Diretriz 19. Não sem a senha, pelo menos.

— Venha cá, pessoal, por favor — disse Roland, erguendo levemente a voz. — É hora de um dedo de confabulação. Não vai demorar muito, o que é bom, pelo menos para nós, pois já tivemos a nossa, antes de Callahan nos procurar, e após algum tempo as conversas chateiam, chateiam mesmo.

Eles se aproximaram e sentaram-se perto dele, obedientes como crianças, os de Calla e os de mais distante e que dali iriam mais distante ainda.

— Primeiro eu gostaria de ouvir o que vocês sabem desses Lobos. Eddie me disse que Andy talvez não saiba como descobre o que sabe.

— Você fala a verdade — murmurou o pai Slightman. — Os que o fizeram ou os que vieram depois o impediram de falar sobre o assunto, embora ele sempre nos avise da vinda deles. Sobre as outras coisas, sua boca não pára de tagarelar.

Roland olhou o grande fazendeiro de Calla.

— Você nos informará, sai Overholser?

Tian Jaffords pareceu decepcionado por não ser chamado. A mulher também. O pai Slightman balançou a cabeça, como se a escolha de Roland fosse o que esperava. O próprio Overholser não se envaideceu como Eddie teria calculado. Em vez disso, baixou os olhos para as pernas cruzadas e as botas forradas por uns trinta segundos, e esfregou o lado do rosto, pensando. A clareira estava tão silenciosa que Eddie ouvia o raspar da palma da mão do fazendeiro nos tocos de pêlos de três dias. Por fim Overholser deu um suspiro e ergueu o olhar para Roland.

— Eu agradeço. Você não é o que eu esperava, devo dizer. Nem o seu tet. — Voltou-se para Tian. — Você tinha razão em nos arrastar até aqui, Tian Jaffords. Esta é uma reunião que precisávamos ter, e eu agradeço.

— Não fui eu quem trouxe você aqui — disse Jaffords. — Foi o Velho.

Overholser fez um cumprimento a Callahan. Este retribuiu, descreveu a forma de uma cruz no ar com a mão cicatrizada — como a dizer, pensou Eddie, que não fora ele tampouco, mas Deus. Talvez fosse, mas quando se tratava de puxar brasas do fogo ele apostava 2 dólares em Roland para cada um que apostava em Deus e no Homem Jesus, pistoleiros celestiais.

Roland esperou, o rosto calmo e perfeitamente delicado.

Finalmente Overholser se pôs a falar. Falou durante quase 15 minutos, devagar, mas sempre objetivo. Havia o negócio dos gêmeos, para começar. Os moradores das terras Callas percebiam que as crianças nascidas aos pares eram mais exceção que a regra em outras partes do mundo e outras épocas anteriores, mas na área deles do Grande Crescente eram os filhos individuais, como o Aaron dos Jaffords, que eram as raridades. As grandes raridades.

E, a partir de uns 120 anos atrás (ou talvez 150; com o tempo como estava, era impossível precisar esse tipo de coisa com qualquer certeza), os Lobos haviam começado suas incursões. Não vinham exatamente uma vez a cada geração; isso teria sido a cada vinte anos mais ou menos, e o período era mais longo. Contudo, ficava perto.

Eddie pensou em perguntar a Overholser e Slightman como o Povo Antigo poderia ter fechado a boca de Andy em relação aos Lobos se eles só vinham atacando a partir do Trovão havia menos de dois séculos, mas deixou pra lá. Perguntar o que não podia ser respondido era perda de tempo, teria dito Roland. Ainda assim, era interessante, não era? Interessante imaginar quando alguém (ou alguma coisa) programara o Mensageiro Andy (muitas outras funções) pela última vez.

E por quê.

As crianças, disse Overholser, uma de cada par, entre as idades de três e 14 anos talvez, eram levadas para o leste, para a terra do Trovão. (O velho Slightman passou o braço pelos ombros do filho durante esta parte da história, notou Eddie.) Eles ficavam lá por um período relativamente curto — talvez um mês, talvez dois. Depois, a maioria era devolvida. Sobre os que não voltavam, supunha-se que haviam morrido na Terra das Trevas, que qualquer ritual diabólico que fizessem com eles matava alguns em vez de apenas arruiná-los.

Os que retornavam eram na melhor das hipóteses idiotas que faziam coisas. Uma criança de cinco anos voltava sem a capacidade da fala duramente conquistada, reduzida a nada mais que balbucios e a pegar o que queria. Fraldas que haviam sido deixadas esquecidas dois ou três anos antes voltavam a ser usadas e podiam continuar em uso até o roont ter dez ou 12 anos.

— Sim, senhor, Tia ainda se mija um dia em cada seis, e pode-se contar que se caga uma vez por lua também — disse Jaffords.

— Ouçam o que ele diz — concordou Overholser com ar sombrio. — Meu próprio irmão, Welland, foi assim até morrer. E claro que têm de ser vigiados com mais constância, pois se virem alguma coisa que gostem, comem até estourar. Quem está vigiando o seu, Tian?

— Minha prima — disse Zalia antes que Tian pudesse falar. — Hedda e Heddon já ajudam um pouco, também; chegaram a uma idade bastante provável...

Interrompeu-se e pareceu compreender o que dizia. Torceu a boca e calou-se. Eddie julgou entender. Heddon e Hedda já podiam ajudar, claro. No ano seguinte, um deles ainda poderia. Mas o outro...

Uma criança levada com dez anos podia voltar com alguns rudimentos de linguagem, mas nunca iria além disso. As levadas mais velhas eram de algum modo piores, pois pareciam voltar com uma vaga compreensão do que lhes haviam feito. Do que lhes fora roubado. Essas tendiam a chorar muito, ou simplesmente desligar-se de si mesmas e ficar olhando para o leste, como coisas perdidas. Como se pudessem ver seus pobres cérebros lá, circulando como aves no céu escuro. Meia dúzia dessas chegava a suicidar-se.

Os roonts permaneciam crianças em estatura também, como na fala e no comportamento, até cerca de 16 anos. Então, de maneira inteiramente repentina, a maioria assumia o tamanho de jovens gigantes.

— Vocês não podem ter idéia de como é, se não tivéssemos visto e passado por isso — disse Tian. Olhava as cinzas da fogueira. — Não têm idéia do sofrimento que isso causa a eles. Quando nascem os dentes dos bebês, sabe como eles choram?

— Sei — disse Susannah.

Tian balançou a cabeça.

— É como se do corpo todo deles brotassem dentes.

— Ouçam o que ele diz — disse Overholser. — Durante 16 ou 18 meses, tudo que meu irmão fez foi dormir, comer, chorar e crescer. Eu me lembro dele chorando até no sono. Eu me levantava da cama e lá estava aquele choramingo dentro do peito, das pernas, da cabeça dele. Era o barulho dos ossos crescendo de noite, me escutem.

Eddie pensou no horror. Ouviam-se histórias de gigantes — fi-fi-fo-fum e essa coisa toda —, mas até agora ele jamais pensara em como poderia ser tornar-se um gigante. Como se do corpo todo deles brotassem dentes, pensou com um arrepio.

— Um ano e meio, não mais que isso, e acabou, mas imagino quanto tempo deve ter parecido para eles, devolvidos sem mais sentido de tempo que pássaros ou besouros.

— Interminável — disse Susannah. Tinha o rosto muito pálido e parecia nauseada. — Deve parecer interminável.

— O sussurro à noite quando os ossos crescem — disse Overholser. — A dor de cabeça quando o crânio cresce.

— Zalman gritou uma vez durante nove dias seguidos — disse Zalia. A voz era sem expressão, mas Eddie viu o horror nos olhos dela; viu muito bem. — As maçãs do rosto se estufavam. A gente via. A testa curvava-se cada vez mais para fora, e se a gente encostava a orelha, ouvia o crânio estalando ao expandir-se. Parecia um galho de árvore sob o peso da neve.

“Gritou durante nove dias. Nove. De manha, ao meio-dia e no silêncio da noite. Gritava e gritava. Os olhos esguichavam água. Nós rezávamos a todos os deuses para que ele perdesse a voz... que ficasse mudo, até... mas nada disso acontecia, digo graças. Se a gente tivesse uma arma, acho que teria matado ele ali deitado no catre, só para acabar com a dor, Na verdade, meu velho e bom pai estava pronto para cortar a garganta quando isso parou. Os ossos continuaram crescendo por algum tempo... o esqueleto, vocês sabem... mas a cabeça era o pior e finalmente parou, dêem graças a Deus, e ao Homem Jesus também.”

Balançou a cabeça em direção a Callahan. Ele retribuiu e ergueu a mão para ela, estendida no ar por um instante. Zalia voltou-se para Roland e seus amigos.

— Agora eu tenho cinco meus — disse. — Aaron está a salvo, e eu agradeço, mas Heddon e Hedda têm dez anos, idade de primeira. Lyman e Lia têm só cinco, mas cinco já está no ponto. Cinco é...

Ela cobriu o rosto com as mãos e nada mais disse.

 

Assim que o surto de crescimento parava, disse Overholser, alguns deles tinham condições de trabalhar. Outros — a maioria — não conseguiam nem mesmo fazer tarefas rudimentares como arrancar tocos ou cavar buracos de estaca. A gente os via sentados nos degraus do Armazém Geral de Took ou às vezes atravessando os campos em grupos, rapazes e moças de enorme altura, peso e estupidez, às vezes rindo uns para os outros e balbuciando, outras vezes apenas de olhos grudados no céu.

Não se acasalavam, por isso podia-se ser grato. Embora nem todos atingissem proporções prodigiosas, e suas capacidades mentais e físicas variassem um pouco, parecia haver um padrão universal: vinham sexualmente mortos.

— Pedindo perdão a vocês pela crueza — disse Overholser —, mas não acredito que meu irmão teve um só tesão de mijo depois que o trouxeram. Zalia? Você algum dia viu seu irmão com... você sabe...

Ela balançou a cabeça.

— Que idade tinha você quando eles vieram, sai Overholser? — perguntou Roland.

— A primeira vez, você quer dizer. Welland e eu tínhamos nove anos. — Falou rápido. Isso deu ao que disse o ar de um discurso ensaiado, mas Eddie não achou assim. Overholser era uma força em Calla Bryn Sturgis; era, Deus nos salve e apedreje os corvos, o grande fazendeiro. Era-lhe difícil voltar na mente a uma época em que fora criança, pequena, impotente e aterrorizada. — Nossa mãe e nosso pai tentaram nos esconder no celeiro. Pelo menos foi o que me disseram. Eu mesmo não me lembro de nada, claro. Me treinei pra não lembrar, acho. É, é bem provável. Uns lembram melhor que outros, Roland, mas todas as histórias dão no mesmo: um é levado, outro deixado para trás. O levado volta roont, talvez capaz de trabalhar um pouco, mas morto da cintura para baixo. Aí... quando chegam aos trinta anos...

Quando chegavam aos trinta anos, os gêmeos roont envelheciam de repente, de uma forma chocante. Os cabelos embranqueciam e muitas vezes caíam completamente. Os olhos embaçavam-se. Músculos que haviam sido prodigiosos (como eram agora os de Tia Jaffords e Zalman Hoonik) afrouxavam e desgastavam-se. Às vezes eles morriam em paz, durante o sono. Mas na maioria das vezes, porém, o fim não era pacífico de jeito nenhum. Surgiam as feridas, às vezes na pele, mas na maioria das vezes no estômago ou na cabeça. No cérebro. Todos morriam muito antes da idade natural, não fosse pelos Lobos, e muitos como quando haviam crescido do tamanho de crianças normais para o de gigantes: gritando de dor. Eddie imaginava quantos desses idiotas, morrendo do que lhe parecia câncer terminal, eram simplesmente sufocados, ou talvez lhes ministrassem fortes sedativos que os levavam muito além da dor, do sono. Não era o tipo de pergunta que se fizesse, mas imaginava que a resposta teria sido muitos. Roland às vezes empregava a palavra delah, sempre dita com um ligeiro movimento de cabeça para os lados do horizonte.

Muitos.

Os visitantes de Calla, as línguas e lembranças unidas pela angústia, podiam ter continuado por algum tempo, amontoando uma triste recordação em cima da outra, mas Roland não os deixou.

— Agora falem dos Lobos, eu peço. Quantos são os que vêm?

— Quarenta — disse Tian Jaffords.

— Espalhados por toda Calla? — perguntou o velho Slightman. — Não, mais de quarenta. — E para Tian, num tom de desculpa: — Você não tinha mais de nove anos quando eles vieram a última vez. Quarenta na aldeia, talvez, porém mais vieram às cidades e ranchos em volta. Eu diria sessenta no total, Roland-sai, talvez oitenta.

Roland olhou para Overholser, sobrancelhas erguidas.

— Isso foi há 23 anos, veja bem — disse o fazendeiro —, mas eu diria que sessenta é o número certo.

— Vocês os chamam de Lobos, mas que são eles realmente? São homens? Ou outra coisa?

Overholser, Slightman, Tian e Zalia: por um instante, Eddie sentiu-os partilhando khef, quase podia ouvi-los. Isso o fez sentir-se solitário e deixado de fora, como quando se via um casal se beijando numa esquina, envoltos nos braços um do outro ou olhando-se dentro dos olhos, totalmente perdidos nos respectivos olhares. Bem, ele não tinha de sentir-se mais assim, tinha? Tinha seu próprio ka-tet, seu próprio khef. Para não falar de sua própria mulher.

Enquanto isso, Roland fazia o impaciente gesto de girar os dedos que Eddie passara a conhecer bem. Vamos lá, gente, dizia, o dia está passando.

— Não há como dizer ao certo o que são eles — disse Overholser. — Parecem homens, mas usam máscaras.

— Máscaras de lobo — disse Susannah.

— É, dona, máscaras de lobo, cinzentas como os cavalos.

— Está dizendo que todos vêm em cavalos cinzentos? — perguntou Roland.

O silêncio foi mais breve desta vez, mas Eddie ainda teve aquela sensação de khef e ka-tet, mentes consultando-se por meio de alguma coisa tão elementar que nem podia ser acertadamente chamada de telepatia; era mais elementar que telepatia.

— Yer-bugger, sim, senhor! — disse Overholser, um termo de gíria que parecia significar Pode apostar o rabo, não me insulte perguntando isso de novo. — Todos em cavalos cinzentos. Usam calças cinzentas que parecem pele. Botas pretas com cruéis esporas grandes de aço. Capas e capuzes verdes. E as máscaras. Sabemos que são máscaras porque foram encontradas deixadas para trás. Parecem de aço, mas apodrecem ao sol como carne, coisas fedidas.

— Ah.

Overholser lançou-lhe um olhar de lado quase ofensivo, desses que perguntam: Você é louco ou apenas retardado? Então Slightman disse:

— Os cavalos cavalgam feito o vento. Alguns levam um bebê na sela e outro atrás.

— Você afirma isso? — perguntou Roland.

Slightman balançou enfaticamente a cabeça.

— Dou graças aos deuses. — Viu Callahan fazer de novo o sinal-da-cruz no ar e suspirou. — Perdão, Velho.

Callahan deu de ombros.

— Você estava aqui antes de mim. Convoque todos os deuses que queira, desde que saiba que eu acho que eles são falsos.

— E vêm do Trovão — disse Roland, ignorando a última observação.

— Ié — disse Overholser. — A gente vê onde fica para aquele lado cerca de 100 rodas. — Apontou para o sudeste. — Pois nós saímos da mata na última montanha antes do Crescente. Podemos ver toda a Planície Oriental de lá, e depois uma grande escuridão, como uma nuvem de chuva sobre o horizonte. Dizem, Roland, que no passado muito distante a gente via as montanhas ali.

— Como as Rochosas de Nebraska — murmurou Jake.

Overholser olhou-o.

— Como, Jake-soh?

— Nada — disse Jake, e deu um sorrisinho embaraçado.

Eddie, enquanto isso, registrava do que Overholser o chamara. Não sai, mas soh. Simplesmente mais uma coisa interessante.

— Nós ouvimos falar do Trovão — disse Roland. Sua voz era um tanto aterrorizante na falta de emoção, e quando Eddie sentiu a mão de Susannah deslizar para dentro da sua, sentiu-se satisfeito.

— É uma terra de vampiros, ogros e bichos-papões, dizem as histórias — disse-lhes Zalia. A voz era tênue, à beira do tremor. — Claro, são histórias antigas...

— São verdadeiras — disse Callahan. Tinha a voz áspera, mas Eddie sentiu o medo nela. Ouviu muito bem. — Existem vampiros... outras coisas também, muito provavelmente... e o Trovão é o ninho deles. Podemos falar mais sobre isso outra hora, pistoleiro, se lhe apraz. Por enquanto, apenas me escute, eu lhe peço: de vampiros eu sei um bocado. Não sei se os Lobos levam as crianças de Calla para eles... prefiro pensar que não... mas sim, existem vampiros.

— Por que você fala como se eu duvidasse? — perguntou o pistoleiro.

Callahan baixou os olhos.

— Porque muitos duvidam. Eu mesmo duvidava. Duvidava muito e... — Sua voz rachou-se. Ele pigarreou, e quando concluiu foi quase num sussurro. — ... foi a minha desgraça.

Roland permaneceu calado alguns instantes, agachado sobre as botas antigas e com os braços em torno dos joelhos ossudos, balançando um pouco para a frente e para trás. Depois, para Overholser:

— A que horas eles vêm?

— Quando levaram Welland, meu irmão, era de manhã — disse o fazendeiro. — Não muito depois do desjejum. Eu me lembro, porque Welland perguntou à mãe se podia levar a xícara de café consigo para o celeiro. Na última vez, porém, quando vieram e pegaram a irmã de Tian, o irmão de Zalia e muitos outros...

— Eu perdi duas sobrinhas e um sobrinho — disse o pai Slightman.

— Daquela vez não foi muito depois do sino do meio-dia no Salão da Assembléia. Sabemos o dia porque Andy sabe, e até aí ele nos conta. Então ouvimos o trovão dos cascos quando vieram do leste e vimos a crista de galo de poeira que levantavam...

— Então vocês sabem quando eles vêm — disse Roland. — Na verdade, sabem de três formas: Andy, o som dos cascos dos cavalos, a onda de poeira.

Overholser, pegando a insinuação do pistoleiro, ficou com as gordas bochechas roxas até o pescoço.

— Eles vêm armados, Roland, você sabe. Com armas... fuzis e revólveres como os que seu tet carrega, granadas também... e outros instrumentos. Armas terríveis do Povo Antigo. Varas-de-fogo que matam com um toque, bolas metálicas que zumbem e são chamadas de zangões ou pomos de ouro. As varas queimam a pele e param o coração... elétricas, talvez, ou talvez...

Eddie ouviu a palavra seguinte de Overholser como ant-NÔMICO. A princípio pensou que o homem tentava dizer "anatomia". Um momento depois percebeu que provavelmente era "atômico".

— Assim que os zangões farejam a gente, seguem até onde quer que a gente corra — disse o garoto de Slightman muito sério —, por mais que a gente vire e volte.

— Pode apostar — disse o velho Slightman. — Depois brotam lâminas que giram tão rápido que a gente não as vê, e que nos cortam em pedaços.

— Tudo em cavalos cinzentos — meditou Roland. — Todos da mesma cor. Que mais?

Nada, parecia. Já haviam contado tudo. Eles vinham do leste no dia que Andy previa, e durante uma hora terrível — talvez mais — Calla se enchia do trovejante bater dos cascos dos cavalos cinzentos e dos gritos dos pais desolados. Capas verdes rodopiavam. Máscaras de lobo parecendo metal e apodrecidas ao sol como pele rosnavam. As crianças eram apanhadas. Às vezes alguns pares passavam despercebidos e eram deixados intatos, sugerindo que a presciência dos Lobos não era perfeita. Ainda assim, devia ser muito boa, pensou Eddie, porque se as crianças eram mudadas de lugar (como muitas vezes eram) ou escondidas em casa (como quase sempre eram), eles as descobriam mesmo assim, e logo. Mesmo no fundo dos montes de madeira ou feno eram descobertas. Os de Calla que tentavam resistir eram fuzilados, fritados pelos bastões de luz — alguma espécie de laser? — ou cortados em pedaços pelos zangões voadores. Quando tentava imaginá-los mais tarde, Eddie recordava um filmezinho sangrento a que Henry o arrastara para ver, Phantasm, chamava-se. No velho Majestic. Esquina de Brooklyn com a avenida Markey. Muito parecido com sua antiga vida, o Majestic cheirava a mijo e pipoca, e àquele tipo de vinho que vinha em sacos pardos. Às vezes havia agulhas nos corredores. Não boas, mas às vezes — em geral a noite, quando o sono tardava — uma parte profunda dele ainda chorava pela antiga vida da qual o Majestic fizera parte. Chorava por ela como uma criança roubada choraria pela mãe.

As crianças eram levadas, o bater dos cascos recuava na direção de onde tinham vindo, e isso era o fim.

— Não, não pode ser — disse Jake. — Eles devem trazê-las de volta, não devem?

— Não — disse Overholser. — Os roonts voltam no trem, escute, posso lhe mostrar um grande monturo e... Como? Qual é o problema?

Jake ficara boquiaberto e perdera quase toda a cor.

— Tivemos uma experiência muito ruim com um trem não faz muito tempo — disse Susannah. — São monos os trens que trazem suas crianças de volta?

Não eram. Overholser, os Jaffords e os Slightman não tinham a menor idéia do que era um mono, na verdade. (Callahan, que fora à Disneylândia quando adolescente, sabia.) Os trens que traziam as crianças de volta eram puxados por simples locomotivas velhas (espero que nenhuma chamada Charlie, pensou Eddie), sem maquinistas e engatadas a um ou talvez dois vagões abertos. As crianças vinham amontoadas neles. Quando chegavam, em geral vinham chorando de medo (e de queimaduras de sol também, se o clima a oeste do Trovão estivesse quente e claro), cobertas de comida e sua própria merda seca, e desidratadas ainda por cima. Não havia estação na estrada de ferro, embora Overholser opinasse que podia ter havido, séculos antes. Assim que as crianças eram descarregadas, usavam-se parelhas de cavalos para puxar os trens dos enferrujados trilhos. Ocorreu a Eddie que eles podiam imaginar o número de vezes em que os Lobos tinham vindo pelo número de máquinas no ferro-velho, como calcular a idade de uma árvore pela contagem dos anéis do tronco.

— Qual a distância, vocês diriam? — perguntou Roland. — A julgar pela condição deles quando chegam?

Overholser olhou para Slightman, depois para Tian e Zalia.

— Dois dias? Três?

Eles encolheram os ombros e balançaram a cabeça.

— Dois ou três dias — Overholser disse para Roland, falando com mais confiança do que talvez se justificasse, a julgar pela aparência dos outros. — O bastante para queimaduras de sol e para comer a maior parte da ração que lhes resta...

— Ou pintar-se com ela — grunhiu Slightman.

—... mas não o bastante para morrer de insolação — concluiu Overholser. — A julgar pela distância a que foram levados de Calla, eu só posso dizer é que desejo que apreciem a viagem, pois ninguém sabe a que velocidade o trem se arrasta quando cruza as planícies. Vem devagar e com suficiente majestade até o outro lado do rio, mas isso pouco quer dizer.

— É — disse Roland. — É, sim. — Pensou um pouco. — Restam 27 dias?

— Vinte e seis agora — disse Callahan em voz baixa.

— Uma coisa, Roland — disse Overholser.

Falou em tom de desculpa, mas projetava o queixo. Eddie achou que ele recuara para o tipo de cara de que a gente pode desgostar à primeira vista. Quer dizer, se se tinha um problema com figuras de autoridade, e Eddie sempre tivera.

Roland ergueu as sobrancelhas em muda pergunta.

— Nós não dissemos sim — disse Overholser.

Olhou para o pai Slightman, como em busca de apoio, e Slightman o deu com um aceno de cabeça.

— Você deve saber que nós não temos como saber que vocês são quem dizem ser — disse Slightman num tom de desculpa. — Minha família não foi educada com livros, e não há nenhum na fazenda... sou capataz da Rocking B de Eisenhart... a não ser os livros de contabilidade, mas em menino eu ouvi tantas histórias de Gilead, pistoleiros e Arthur Eld quanto qualquer outra criança... ouvi falar da colina de Jerico e histórias de sangue e raios de pretensos... mas nunca soube de um pistoleiro sem dois dedos, ou de uma pistoleira parda, ou de alguém que não tem idade suficiente para fazer a barba por anos ainda.

O filho dele pareceu chocado, e em agônico embaraço também. O próprio Slightman pareceu embaraçado, mas continuou.

— Imploro o seu perdão se o ofendo, na verdade imploro...

— Escutem-no, escutem-no — roncou Overholser.

Eddie começava a pensar que, se o queixo do cara se projetasse mais um pouco, ia partir-se e cair.

—... mas qualquer decisão que tomemos terá longos ecos. Você deve ver que é assim. Se tomarmos a errada, pode significar a morte da nossa aldeia, e de tudo nela.

— Eu não acredito no que estou ouvindo! — gritou indignado Tian Jaffords. — Você acha que eles são uma fraude? Deus do céu, homem, você não o viu? Você não...

A esposa pegou-o pelo braço com força bastante para deixar marcas no bronzeado do camponês com as pontas dos dedos. Ele olhou-a e calou-se, embora apertasse os lábios com força.

Em algum ponto ao longe, um corvo crocitou, um som ligeiramente mais agudo. Então todos se calaram. Um a um, voltaram-se para Roland de Gilead, para ver o que ele ia responder.

 

Era sempre a mesma coisa, e isso o cansava. Eles queriam ajuda, mas exigiam referências. Um desfile de testemunhas, se pudessem obtê-las. Queriam o resgate sem risco, simplesmente fechar os olhos e ser salvos.

Roland balançou devagar para a frente e para trás, abraçado aos joelhos. Depois assentiu para si mesmo com a cabeça e ergueu-a.

— Jake — disse. — Venha cá.

Jake olhou para Benny, seu novo amigo, levantou-se e foi até Roland, Oi seguiu em seus calcanhares, como sempre.

— Andy? — disse Roland.

— Sai?

— Traga-me quatro dos pratos em que comemos. — Enquanto o robô fazia isso, ele falou a Overholser: — Você vai perder alguma cerâmica. Quando os pistoleiros chegam à aldeia, sai, tudo se quebra. É uma simples verdade da vida.

— Roland, não creio que precisemos...

— Calado — disse Roland, e embora a voz fosse delicada, Overholser calou-se imediatamente. — Você contou sua história; agora nós contaremos a nossa.

A sombra de Andy caiu sobre ele. O pistoleiro ergueu o olhar e viu os pratos que não haviam sido lavados e ainda brilhavam de gordura. Depois voltou-se para Jake, que passara por uma considerável modificação. Sentado com o garoto Benny, vendo Oi fazer seus truques espertos e sorrindo de orgulho, Jake parecia qualquer outro garoto de 12 anos — descuidado e cheio da velha raça, provável ou não. Agora o sorriso desaparecera e era difícil dizer qual seria a sua idade exata. Os olhos azuis olhavam os de Roland, quase do mesmo tom. Abaixo dos ombros, a Ruger que Jake pegara na escrivaninha do pai pendia no coldre. O gatilho estava preso num laço de couro cru que ele afrouxou sem olhar. Bastava um pequeno puxão.

— Diga sua lição, Jake, filho de Elmer, e seja fiel.

Roland esperava que Eddie ou Susannah interferissem, mas nenhum dos dois o fez. Ele os olhou. Tinham os rostos frios e graves como o de Jake. Ótimo.

A voz de Jake também não tinha expressão, mas as palavras saíram duras e seguras.

— Eu não miro com a mão; quem mira com a mão esqueceu o rosto do seu pai. Eu miro com o olho. Eu não atiro com a mão...

— Eu não vejo o que isso... — começou Overholser.

— Calado — disse Susannah, e apontou o dedo para ele.

Jake pareceu não ter ouvido. Não tirava os olhos de cima de Roland. Tinha a mão direita em cima do peito, os dedos abertos.

— Aquele que atira com a mão esqueceu o rosto do seu pai. Eu atiro com a mente. Eu não mato com a arma; aquele que mata com a arma esqueceu o rosto do seu pai.

Parou. Inspirou fundo. E soltou.

— Eu mato com o coração.

— Mate estes — disse Roland, e, sem mais aviso, jogou todos os quatro pratos para cima. Eles voaram e separaram-se, formas negras contra o céu branco.

A mão de Jake, a que repousava no peito, tornou-se um borrão. Puxou a Ruger do coldre, ergueu-a e começou a puxar o gatilho enquanto a de Roland ainda se erguia no ar. Os pratos não pareceram explodir um atrás do outro, mas todos juntos. Os cacos choveram sobre a clareira. Alguns caíram na fogueira. Um ou dois percutiram na cabeça metálica de Andy.

Roland ergueu os braços, as mãos abertas movendo-se num borrão. Embora ele não lhes houvesse ordenado, Eddie e Susannah fizeram o mesmo, no momento em que os visitantes de Calla Bryn Sturgis se encolhiam, chocados pelo barulho da fuzilaria. E a rapidez dos tiros.

— Olhem aqui pra nós, está bem, e agradeçam — disse Roland.

Estendeu as mãos. Eddie e Susannah fizeram o mesmo. Eddie pegara três cacos de cerâmica. Susannah tinha cinco (e um corte pouco fundo na polpa de um dos dedos). Roland agarrara uma dúzia inteira de pedaços de fragmentos caídos. Parecia quase o suficiente para fazer um prato inteiro, se os pedaços fossem colados uns nos outros.

Os seis de Calla olhavam fixo, incrédulos. O garoto Benny, que continuava com as mãos nos ouvidos, baixou-as então devagar. Olhava para Jake como se olharia para um fantasma ou aparição baixados do céu.

— Meu... Deus — disse Callahan. — Parece um truque num espetáculo do Oeste Selvagem.

— Não é truque — disse Roland —, jamais pense isso. É o Caminho do Eld. Nós pertencemos a esse an-tet, khef e ka, vigiar e garantir. Pistoleiros, está bem? E agora vou lhes dizer o que faremos. — Buscou Overholser com os olhos. — O que queremos fazer, digo, porque ninguém nos dá ordens. Contudo, acho que nada do que digo vai deixá-los demasiado desconfortáveis. Se porventura deixar... — Deu de ombros. Se deixar, é uma pena, dizia o dar de ombros.

Deixou cair os cacos de cerâmica entre as botas e espanou as mãos.

— Se esses cacos fossem Lobos — disse —, só restariam 56 para perturbá-los, em vez de sessenta. Quatro deles caídos mortos no chão antes que vocês pudessem dar uma respirada. Mortos por um garoto. — Olhou para Jake. — O que vocês chamariam menino, talvez. — Fez uma pausa. — Estamos acostumados a longos obstáculos.

— O carinha é um atirador de tirar o fôlego, isso eu admito — disse o pai Slightman. — Mas há uma diferença entre pratos de barro e Lobos a cavalo.

— Para você, sai, talvez. Não para nós. Não assim que começar o tiroteio. Quando começar o tiroteio, matamos qualquer coisa que se mexa. Não foi para isso que vocês nos procuraram?

— E se eles não puderem ser mortos a tiros? — perguntou Overholser. — Não possam ser derrubados mesmo pelo mais duros dos grossos calibres?

— Por que vocês desperdiçam um tempo tão curto? — perguntou Roland. — Vocês sabem que eles podem ser mortos, senão jamais teriam vindo nos procurar, para começar. Eu não perguntei, porque é claro por si mesmo.

Overholser enrubescera mais uma vez, roxo.

— Eu rogo o seu perdão — disse.

Benny, enquanto isso, continuava a fitar Jake com olhos arregalados, e Roland sentiu uma pequena pontada de arrependimento pelos dois meninos. Ainda podiam conseguir alguma amizade, mas o que acontecera a mudaria em aspectos fundamentais, a transformaria numa coisa inteiramente diferente do habitual khef alegre que eles partilhavam. O que era uma vergonha, porque quando Jake não era chamado a ser pistoleiro, ainda era apenas uma criança. Perto da idade que o próprio Roland tinha quando lhe haviam imposto a prova de maturidade. E foi uma vergonha.

— Agora me escutem — disse — e me escutem muito bem. Vamos deixá-los por um breve período para voltar ao nosso acampamento e tomar nossa decisão. Amanhã, quando chegarmos à sua aldeia, conversaremos com um de vocês...

— Venham a Seven-Mile — disse Overholser. — Nós os receberemos e agradeceremos, Roland.

— Nossa casa é muito menor — disse Tian —, mas Zalia e eu...

— Teríamos muito prazer em recebê-los — disse Zalia. Corara tanto quanto Overholser. — É, teríamos, sim.

Roland disse:

— Tem uma casa, além de uma igreja, sai Callahan?

Callahan sorriu.

— Tenho, sim, e agradeço a Deus.

— Talvez pudéssemos ficar em sua casa na primeira noite em Calla Bryn Sturgis — disse Roland. — Seria possível?

— Claro, e sejam bem-vindos.

— Poderia nos mostrar sua igreja. Apresentar-nos aos mistérios dela.

 olhar de Callahan foi firme.

— Muito me alegraria a oportunidade de fazer isso.

— Nos dias seguintes — disse Roland, sorrindo —, vamos nos lançar à hospitalidade da cidade.

— Vão encontrá-la em abundância — disse Tian. — Isto eu lhes prometo. — Overholser e Slightman assentiam com a cabeça.

— Se a comida que acabamos de comer serve de sinal, tenho certeza de que isso é verdade. Nós agradecemos, sai Jaffords; obrigado a um e a todos. Durante uma semana, vamos os quatro circular por sua cidade, metendo o nariz aqui e ali. Talvez um pouco mais de tempo, porém a probabilidade é de uma semana. Vamos examinar o traçado da terra e a forma como se distribuem os prédios nela. Ficar de olho na chegada dos Lobos. Vamos falar com a Calla folken*e a Calla folken falar conosco... vocês aqui presentes poderiam cuidar disso pra nós?

Callahan assentia.

— Não posso falar pelos mannis, mas tenho certeza de que todo mundo se mostrará mais que disposto a falar com vocês sobre os Lobos. Deus e o Homem Jesus sabem que não há segredo. Se eles virem uma chance de que talvez tenham condições de nos ajudar, farão tudo o que você pedirem.

— Os manni também vão falar comigo — disse Roland. — Já conversei com eles antes.

— Não se deixe levar pelo entusiasmo do Velho, Roland — disse Overholser. Ergueu as mãos rechonchudas no ar, um gesto de cautela. — Há outros na cidade que vocês terão de convencer...

— Vaughn Eisenhart, por exemplo — disse Slightman.

— É, e Eben Took, sem dúvida — disse Overholser. — O Armazém Geral é a única coisa que leva seu nome, você sabe, mas ele é dono da pensão e do restaurante defronte dela... além de metade dos lucros no aluguel de cavalos e carruagens... e papéis de crédito na maioria das pequenas propriedades por aqui.

“Por falar em pequenas propriedades, não podemos negligenciar Bucky Javier — ressoou Overholser. — Ele só não é o maior deles porque deu metade do que tinha à irmã mais moça quando ela se casou. — Overholser curvou-se para Roland, o rosto iluminado por um fragmento da história da cidade prestes a ser transmitida. — Roberta Javier, irmã de Bucky, moça de sorte. Quando os Lobos vieram a última vez, ela e o irmão gêmeo só tinham um ano. Por isso eles seguiram adiante.”

— O irmão do próprio Bucky foi levado da vez anterior — disse Slightman. — Já faz quase quatro anos que Bully morreu. Da doença. Desde então, não há o bastante que Bucky possa fazer por aqueles dois caçulas. Mas devia falar com ele, sim. Só tem pouco mais de 30 hectares, mas se veste com elegância.

Roland pensou: Eles continuam não entendendo.

— Obrigado — disse. — O que temos diretamente em frente se resume, sobretudo a ver e ouvir. Feito isto, vamos pedir a quem estiver encarregado da pena que a circule para que se possa convocar uma assembléia. Nessa reunião, diremos a vocês se a cidade pode ser defendida e de quantos homens vamos precisar para nos ajudar, se for possível.

Roland viu Overholser inchando-se para falar e fez-lhe que não com a cabeça.

— Não precisaremos de muito, em todo caso — disse. — Somos pistoleiros, não um exército. Pensamos diferente e agimos diferente de um exército. Talvez a gente peça no máximo que cinco fiquem conosco. Provavelmente, menos... só dois ou três. Mas podemos precisar de mais pra nos ajudar a preparar.

— O quê? — perguntou Benny.

Roland sorriu.

— Isto eu ainda não posso dizer, pois não vi como são as coisas em sua Calla. Mas, em casos assim, a surpresa é sempre a arma mais poderosa, e em geral são necessárias muitas pessoas para preparar uma boa surpresa.

— A maior surpresa prós Lobos — disse Tian — seria até mesmo se lutássemos.

— E se vocês decidirem que Calla não pode ser defendida? — perguntou Overholser. — Me diga isso, eu lhe peço.

— Então eu e meus amigos agradeceremos sua hospitalidade e seguiremos adiante — disse Roland —, pois temos nossos assuntos mais adiante no Caminho do Feixe de Luz. — Observou os rostos abatidos de Tian e Zalia por um momento, e acrescentou: — Não acho isso provável, vocês sabem. Em geral, há um jeito.

— Que a assembléia receba favoravelmente o seu julgamento — disse Overholser.

Roland hesitou. Aquele era o ponto onde se poderia martelar a ver, se ele quisesse. Se aquelas pessoas ainda acreditavam que um tet de um pistoleiro seria obrigado pelo que camponeses e fazendeiros decidissem em assembléia pública, eles realmente haviam perdido a forma do mundo como fora outrora. Mas seria isso tão ruim assim? No fim, tudo se desenvolveria e faria parte de sua longa história. Ou não. Se não, ele acabaria sua história e sua busca em Calla Bryn Sturgis, mofando embaixo de uma lápide. Talvez nem isto; talvez acabasse morto embaixo de um monturo em algum ponto a leste da aldeia, ele e seus amigos, muita carne podre para ser picada pelos corvos e pelos outros pássaros chamados rústicos. Ka diria. Sempre dizia.

Enquanto isso, eles o olhavam.

Roland levantou-se, contraindo-se com a dura explosão de dor no quadril direito. Pegando as dicas dele, Eddie, Susannah e Jake também se levantaram.

— Fomos bem recebidos — disse Roland. — Quanto ao que está à frente, haverá água se Deus quiser.

— Amém — disse Callahan.

 

Todash

— Cavalos cinzentos — disse Eddie.

— É — concordou Roland.

— Cinqüenta ou sessenta, todos em cavalos cinzentos.

— É, foi o que disseram.

— E não acharam isso nem um pouco estranho — ruminou Eddie.

— Não, não pareceram achar.

— É?

— Cinqüenta ou sessenta cavalos, todos da mesma cor? Eu diria que sim.

— Esse pessoal de Calla cria cavalos eles mesmos.

— É.

— Trouxeram alguns para cavalgarmos. — Eddie, que jamais montara um cavalo na vida, estava agradecido por pelo menos isso ter sido adiado.

— É, amarrados na colina.

— Tem certeza disso?

— Senti o cheiro deles. Imagino que era o robô que cuidava deles.

— Por que levariam cinqüenta ou sessenta cavalos, todos da mesma cor, aliás?

— Porque eles na verdade não pensam nos Lobos nem em nada relacionado a eles — disse Roland. — Estão muito ocupados sentindo medo.

Eddie assobiou cinco notas que não formavam exatamente uma melodia. Depois disse:

— Cavalos cinzentos.

Roland assentiu:

— Cavalos cinzentos.

Por um momento, ficaram olhando um para o outro. Eddie adorava quando Roland sorria. O som era seco, tão feio quanto os chamados dos gigantescos pássaros pretos que chamavam de rústicos... mas ele adorava. Talvez porque Roland ria muito raramente.

Era fim de tarde. Acima, as nuvens haviam-se adelgaçado o suficiente, tornando-se de um azul-claro quase da cor do céu. O grupo de Overholser retornara ao acampamento deles. Susannah e Jake haviam retornado à estrada da floresta para catar mais bolinhos. Após o grande repasto, arrumaram a bagagem, ninguém queria nada mais pesado. Eddie sentou-se num toro, talhando. Roland sentou-se a seu lado, com todas as suas armas desmontadas no chão diante deles, sobre um pedaço de pele de gamo. Ele lubrificava as peças uma a uma, virando cada ferrolho, cilindro e cano para a luz do dia, para uma olhada final antes de colocá-las de lado para tornar a montá-las.

— Você disse a eles que estava fora de suas mãos — disse Eddie —, mas eles não sabem mais disso do que sabiam do negócio dos cavalos cinzentos. E você não insistiu no caso.

— Isso só iria angustiá-los — disse Roland. — Havia um ditado em Gilead: Que o mal espere pelo dia em que deve se abater.

— Hum-hum — disse Eddie. — Havia um ditado no Brooklyn: Não se tira fuligem de um casaco de pele. — Ergueu o objeto que estava fazendo. Seria um pião, pensou Roland, um brinquedo para um bebê. E mais uma vez se perguntou quando Eddie poderia saber sobre a mulher com quem se deitava toda noite. As mulheres. Não no topo de sua mente, mas embaixo. — Se você decidir que a gente pode ajudá-los, então temos de ajudá-los. É a isso que na verdade se resume o Caminho do Eld, não é?

— É — disse Roland.

— E se não conseguirmos que nenhum deles resista conosco, resistimos sozinhos.

— Ah, não estou preocupado com isso — disse Roland. Tinha um pires cheio de óleo de arma leve e cheiroso. Mergulhou nele a ponta de um trapo de camurça, pegou a mola do carregador da Ruger de Jake e começou a limpá-la. — Tian Jaffords resistiria conosco, por falar nisso. Certamente tem um ou dois amigos que fariam o mesmo, independentemente do que a assembléia decida. No aperto, tem a esposa dele.

— E se a gente fizer com que os dois sejam mortos, que será das crianças? Têm cinco. Acho que há também um cara velho no quadro. Um desses avôs. Provavelmente cuidam dele também.

Roland encolheu os ombros. Poucos meses atrás, Eddie haveria interpretado erroneamente esse gesto — e o rosto sem expressão do pistoleiro — como indiferença. Agora sabia que não. Roland era tão prisioneiro de suas próprias regras e tradições quanto fora Eddie da heroína.

— E se nós formos mortos nesta aldeiazinha, fodendo com esses Lobos? — perguntou Eddie. — Seu último pensamento não vai ser: "Eu não acredito que merda eu fui, jogando fora minha chance de chegar à Torre Negra a fim de ajudar um bando de moleques remelentos." Ou sentimentos semelhantes.

— A menos que continuemos autênticos, jamais chegaremos nem a mil quilômetros da Torre — disse Roland. — Vai me dizer que não acha isso?

Eddie não podia, porque achava. E também sentia outra coisa: uma espécie de sanguinária avidez. Queria de fato tornar a lutar. Ter alguns daqueles Lobos, fossem lá o que fossem, na mira de um dos grandes revólveres de Roland. Não havia sentido em enganar-se sobre a verdade: queria arrancar alguns escalpos.

Ou máscaras de lobo.

— Que é que realmente o está perturbando, Eddie? Eu gostaria que falasse enquanto somos só eu e você. — O pistoleiro torceu a boca num sorriso tênue, torto. — Fale, eu lhe peço.

— Vê-se, né?

Roland encolheu os ombros e esperou.

Eddie pensou na pergunta. Era uma grande pergunta. Enfrentá-la fazia-o sentir-se desesperado e incompetente, muito parecido com o que sentia quando diante da tarefa de talhar a chave que levaria Jake Chambers ao mundo deles. Só que então ele tinha o fantasma de seu grande irmão para culpar, Henry sussurrando no fundo de sua cabeça que ele não prestava, nunca prestara, nunca prestaria. Agora era apenas a enormidade do que Roland perguntava. Porque tudo o perturbava, estava tudo errado. Tudo. Ou talvez errado fosse a palavra errada, e por 180 graus. Porque, em outro aspecto, tudo parecia demasiado certo, demasiado perfeito também...

— Aarrgh — disse Eddie. Agarrou tufos de cabelos dos dois lados da cabeça e puxou. — Não consigo pensar em nada pra dizer.

— Então diga a primeira coisa que lhe vier à mente. Não hesite.

— Dezenove — disse Eddie. — Toda essa coisa virou 19.

Caiu para trás sobre o fragrante chão da mata, cobriu os olhos e esperneou como uma criança dando chilique. Pensou: Talvez matar alguns Lobos me endireite. Talvez eu só precise disso.

 

Roland deu-lhe todo um minuto contado e depois disse:

— Está se sentindo melhor?

Eddie sentou-se.

— Na verdade estou.

Roland balançou a cabeça, com um leve sorriso.

— Então pode falar mais? Se não pode, deixamos pra lá, mas eu aprendi a respeitar suas sensações, Eddie... muito mais do que você compreende... e se falar, eu escuto.

O que ele dizia era verdade. Os sentimentos iniciais do pistoleiro por Eddie haviam oscilado entre a cautela e o desprezo pelo que via como fraqueza de caráter. O respeito viera mais lentamente. Começara no escritório de Balazar, quando Eddie lutara nu. Muito poucos homens que ele conhecia poderiam ter feito isso. Crescera com a compreensão do quanto Eddie se parecia com Cuthbert. Depois, no mono, Eddie agira com uma espécie de criatividade desesperada que Roland podia admirar, mas nunca igualar. Eddie Dean tinha o senso de ridículo sempre intrigante, mas às vezes irritante, de Cuthbert Allgood; e também os rápidos e profundos lampejos de intuição de Alain Johns. Mas no fim não se parecia com nenhum dos velhos amigos de Roland. Às vezes era fraco e centrado em si mesmo, mas dono de profundas reservas de coragem e do bom irmão da coragem, o que o próprio Eddie chamava às vezes de “coração”.

Mas era a intuição dele que Roland queria aproveitar agora.

— Tudo bem então — disse Eddie. — Não me detenha. Não faça perguntas. Só escute.

Roland fez que sim com a cabeça. E esperou que Susannah e Jake não voltassem, pelo menos ainda não.

— Eu olho para o céu... lá em cima, onde as nuvens rompem neste mesmo minuto... e vejo o número 19 escrito em azul.

Roland ergueu o olhar. E, sim, lá estava. Ele o via também. Mas também via uma nuvem que parecia uma tartaruga, e outro buraco no fiapo evanescente que parecia um vagão de artilharia.

— Eu olho para as árvores e vejo 19. Para o fogo, vejo 19. Os nomes formam 19, como os de Overholser e Callahan. Mas é só isso que posso dizer, o que posso ver, o que posso pegar. — Falava com desesperada rapidez, olhando diretamente dentro dos olhos de Roland. — E mais uma coisa. Tem a ver com todash. Eu sei que vocês às vezes acham que tudo me faz lembrar como é ficar doidão, mas, Roland, entrar em todash é como ficar drogado.

Eddie sempre lhe falava dessas coisas, como se Roland jamais houvesse posto nada mais forte que erva no cérebro e no corpo em toda a sua vida, o que estava longe da verdade. Ele podia lembrar isso a Eddie outra hora, mas não agora.

— Só estar aqui em seu mundo já é como entrar em todash. Porque... ah, cara, isso é difícil... Roland, tudo aqui é real, mas não é.

Roland pensou em lembrar-lhe que aquele não era o seu mundo, não mais — para ele a cidade de Lud fora o fim do Mundo Médio e o princípio de todos os mistérios que esperavam além —, mas de novo manteve a boca fechada.

Eddie pegou um punhado de folhas, enchendo as mãos com as fragrantes agulhas e deixando cinco marcas negras em forma de mão no chão da mata.

— Real — disse. — Eu sinto o toque e o cheiro. — Levou o punhado de agulhas à boca e esticou a língua para tocá-las. — Sinto o gosto. E, ao mesmo tempo, é tão irreal quanto o 19 que a gente vê na fogueira, ou aquela nuvem no céu que parece uma tartaruga. Entende o que estou dizendo?

— Entendo muito bem — murmurou Roland.

— As pessoas são reais. Você... Susannah... Jake... o tal Gasher que pegou Jake... Overholser e os Slightman. Mas a maneira como as coisas do meu mundo continuam aparecendo aqui, isso não é real. Não é sensato nem lógico tampouco, mas não é isso que eu quero dizer. Simplesmente não é real. Por que as pessoas aqui em cima cantam “Hey Jude”? Eu não sei. Por que isso me lembrou coelhos? Aquele urso ciborg, Shardik... de onde eu conheço esse nome? Toda aquela merda sobre o Mágico de Oz, Roland... tudo isso aconteceu com a gente, não tenho dúvida, mas ao mesmo tempo não me parece real. Parece todash. Como 19. E que acontece no Palácio Verde? Ora, nós entramos na mata, como João e Maria. Há uma estrada para caminharmos. Bolas de bolinho para catar. A civilização acabou. Tudo se desenrola. Foi você que nos disse. Nós vimos em Lud. Só que, adivinha? Não existe! Rapaz, babaca, peguei ele!

Eddie deu uma breve risada. Soou aguda e doentia. Quando ele tirou o cabelo da testa, deixou nela uma marca escura de terra da mata.

— A piada é que, lá fora, a bilhões de quilômetros de lugar nenhum, nós demos com uma aldeia de livro infantil. Civilizada. Decente. O tipo de gente que a gente acha que conhece. Talvez não goste deles... Overholser é meio duro de engolir... mas a gente sente que os conhece.

Estava certo nisso também, pensou Roland. Ainda nem vira Calla Bryn Sturgis e já a cidade lembrava-lhe Mejis. Em alguns aspectos, parecia perfeitamente razoável — aldeias camponesas no mundo inteiro tinham semelhanças umas com as outras —, mas em outros era perturbador. Perturbador como o diabo. O sombreiro que Slightman usava, por exemplo. Seria possível que ali, a milhares de quilômetros de Mejis, os homens usassem chapéus semelhantes? Supunha que sim. Mas era provável que o sombreiro de Slightman lhe lembrasse tão fortemente o usado por Miguel, o velho mozo à Beira-mar de Mejis, todos esses anos depois? Ou era apenas sua imaginação?

Quanto a isso, Eddie diz que eu não tenho nenhuma, pensou.

— A aldeia de livro infantil tem um problema de história da carochinha — continuava Eddie. — E assim as pessoas do livro infantil chamam um bando de heróis de cinema para salvá-las dos vilões das histórias da carochinha. Eu sei que é real... gente vai morrer, muito provavelmente, e o sangue será real, os gritos, o choro depois serão reais... mas ao mesmo tempo alguma coisa nisso não parece mais real que um cenário de palco.

— E Nova York? — perguntou Roland. — Como lhe pareceu?

— A mesma coisa — disse Eddie. — Quer dizer, pense só. Dezenove livros deixados na mesa depois que Jake pegou Charlie Chuu-Chuu e o livro de adivinhações... e depois, de todos os bandidos de Nova York, aparece logo Balazar! Aquele puto!

— Vamos, vamos, ora! — chamou Susannah, alegremente, detrás deles. — Nada de palavrões, garotos.

Jake empurrava-a pela estrada, o colo dela cheio de bolinhos. Os dois pareciam animados e felizes. Roland supôs que o fato de comer bem de manhã cedo tinha alguma coisa a ver com isso. Disse:

— Às vezes essa sensação de irrealidade passa, não passa?

— Não é exatamente irrealidade, Roland. É...

— Deixe as sutilezas pra lá. Às vezes passa, não passa?

— Passa — disse Eddie. — Quando eu estou com ela.

Aproximou-se dela. Curvou-se. Beijou-a. Roland observava-os, perturbado.

 

A luz do dia ia desaparecendo. Eles sentavam-se em torno da fogueira e deixavam-na ir. O pouco apetite que haviam conseguido reunir fora facilmente satisfeito com os bolinhos que Susannah e Jake haviam trazido para o acampamento. Roland vinha meditando numa coisa que Slightman dissera, e com mais profundidade do que seria saudável, provavelmente. Afastou a coisa então ainda mal digerida e disse:

— Alguns de nós, ou todos, podemos nos encontrar mais tarde, esta noite, na cidade de Nova York.

— Eu só espero chegar a ir desta vez — disse Susannah.

— Será como ka quiser — disse Roland, sem expressão. — O importante é que fiquem juntos. Se só um fizer a viagem, acho que pode ser você quem vai, Eddie. Se só um fizer a viagem, esse deve ficar exatamente onde ele... ou talvez ela... está até os sinos recomeçarem.

— Os kammen — disse Eddie. — Foi como Andy os chamou.

— Vocês todos entendem isso?

Eles assentiram, e olhando os seus rostos Roland percebeu que cada um deles se reservava o direito de decidir o que fazer quando chegasse a hora, com base nas circunstâncias. O que estava exatamente certo. Ou eram pistoleiros ou não eram, afinal.

Surpreendeu-se dando um breve bufido de risada.

— Qual é a graça? — perguntou Jake.

— Simplesmente pensar que uma vida longa traz estranhos companheiros — disse Roland.

— Se se refere a nós — disse Eddie —, eu vou-lhe dizer uma coisa, Roland... você mesmo não é lá muito normal.

— Acho que não — disse Roland. — Se atravessarmos em grupo... dois, três, talvez todos... devemos nos dar as mãos quando os sinos começarem.

— Andy disse que tínhamos de nos concentrar uns nos outros — disse Eddie. — Para evitar que nos percamos.

Susannah surpreendeu a todos começando a cantar. Só que, para Roland, parecia mais um coro de galés — uma coisa para ser gritada verso por verso — que uma música mesmo. Mas mesmo sem uma verdadeira melodia para cantar, a voz era bastante melodiosa:

— Filhos, quando ouvirem a música do clarinete... Filhos, quando ouvirem a música da flauta! Filhos, quando ouvirem a música do pan-dei-ro... Vocês devem se curvar e adorar o ííí-DOLO!

— Que é isso?

— Um hino da roça — disse ela. — Uma daquelas coisas que meus avós e bisavós cantavam quando catavam o algodão do velho senhor. Mas os tempos mudam. — Sorriu. — Eu a ouvi pela primeira vez num café de Greenwich Village, em 1962. E o homem que a cantava era um branco berrador de blues chamado Dave Van Ronk.

— Aposto que Aaron Deepneau estava lá também — murmurou Jake. — Diabos, aposto que estava sentado à porra da mesa ao lado.

Susannah voltou-se para ele, surpresa e pensativa.

— Por que diz isso, docinho?

Eddie disse:

— Porque ele ouviu Calvin Tower dizer que esse tal de Deepneau vinha rondando o Village desde... que foi que ele disse, Jake?

— O Village não, Bleecker Street — disse Jake, com uma ligeira risada. — O Sr. Tower disse que o Sr. Deepneau vinha rondando a Bleecker Street antes de Bob Dylan saber como se soprava mais que uma nota sol em sua Hohner. Devia ser uma gaita de boca.

— É — disse Eddie —, e embora eu possa não apostar uma fortuna no que Jake diz, poria bem mais que uns trocados. Claro, Deepneau estava lá. Não me surpreenderia nem que Jack Andolini estivesse atendendo no bar, porque é assim que tudo funciona na Terra do 19.

— Seja como for — disse Roland —, aqueles de nós que cruzarem devem permanecer juntos. E quero dizer ao alcance da mão, o tempo todo.

— Eu acho que não vou estar lá — disse Jake.

— Por que diz isso, Jake? — perguntou o pistoleiro, surpreso.

— Porque não vou adormecer — disse Jake. — Estou excitado demais.

Mas todos acabaram adormecendo.

 

Ele sabe que é um sonho, uma coisa causada nada mais que por uma observação casual de Slightman, e no entanto não consegue escapar. Procure sempre a porta dos fundos, dizia-lhes Cort, mas se houver uma porta dos fundos neste sonho, Roland não pode encontrá-la. Eu sabia da colina de Jericó e de histórias de sangue e trovões de faz-de-conta, foi o que disse o capataz de Eisenhart. Só que a colina de Jericó parecera bastante real para Roland. Por que não pareceria? Ele estiver a lá. Fora o fim deles. O fim de todo um mundo.

O dia está de um calor sufocante; o sol chega ao zênite e parece ficar lá parado, como se as horas tivessem sido suspensas. Abaixo deles, estende-se um longo campo em descida, cheio de grandes faces de pedra cinza-escuro, estátuas corroídas por erosão, deixadas por pessoas há muito desaparecidas, e os homens de Grissom avançam implacáveis entre elas, enquanto Roland e seus poucos companheiros finais se retiram sempre para cima, atirando sem parar. A fuzilaria é constante, interminável, o barulho das balas assobiando nas faces de pedra um agudo contraponto que entra em suas cabeças como o sanguinário zumbido de mosquitos. Jamie DeCurry foi morto por um franco-atirador, talvez o filho do próprio Grissom, com seu olho de águia. Com Alain, o fim foi muito pior; levou um tiro de seus dois melhores amigos na escuridão da noite antes da batalha final, um erro estúpido, uma morte horrível. Não houve socorro. A coluna de DeMullet foi emboscada e massacrada em Rimrocks, e quando Alain cavalgou de volta após a meia-noite para contar-lhes, Roland e Cuthbert... o barulho de suas armas... e, ah, quando Alain gritou os nomes deles...

E agora estão no topo e não resta lugar nenhum para correr. Atrás deles, a leste, há um precipício de argila xistosa para o Salt — o que a 600 quilômetros dali se chama de mar Limpo. A oeste fica a colina das faces de pedra, e os homens de Grissom que avançam gritando. Roland e seus homens mataram centenas, mas ainda restam 2 mil, e esse é um cálculo por baixo. Dois mil homens, as caras uivantes pintadas de azul, alguns com armas de fogo e uns poucos até com flechas — contra uma dúzia. E tudo que lhes resta agora, ali no topo da colina de Jericó, sob o sol ardente. Jamie morto, Alain morto sob as armas de seus amigos — o impassível Alain, digno de confiança, que podia ter cavalgado para a segurança, mas preferiu não fazê-lo — e Cuthbert, que fora baleado. Quantas vezes? Cinco? Seis? A camisa está encharcada roxa sobre a pele. Um lado do rosto afundou em sangue; o olho desse lado projeta-se ligeiramente sobre a bochecha. Mas ainda segura a trombeta de Roland, aquela que foi soprada por Arthur Eld, ou assim contavam as histórias. Não a devolverá. “Porque eu a sopro mais doce do que você jamais soprou”, ele diz a Roland, rindo. “Pode tê-la de volta quando eu morrer. Não esqueça de pegá-la, Roland, pois é sua propriedade.”

Cuthbert Allgood, que um dia cavalgou para o Baronato de Mejis com a caveira de um corvo montada no cabeçote da sela. “A vigia”, chamava-a, e conversava com ela como se estivesse viva, pois esse era o seu capricho, e às vezes deixava Roland meio louco com sua loucura, e ali estava sob o sol ardente, cambaleando para ele com um revólver fumegante numa das mãos e a Trombeta de Eld na outra, coberto de flechas, meio cego e agonizando, mas ainda rindo. Ah, bons deuses, rindo e rindo.

— Roland! — grita. — Fomos traídos! Eles têm mais homens. Estamos de costas para o mar! Nós os temos exatamente onde os queremos. Vamos atacar?

E Roland entende que ele tem razão. Se sua busca da Torre Negra deve realmente terminar ali na colina de Jericó — traídos por um dos seus e depois esmagados por aquele bárbaro resto do exército de John Farson —, que termine esplendidamente.

— Ié! — grita ele. — É, muito bem. Vocês do castelo, a mim! Pistoleiros, a mim! A mim, estou dizendo!

— Quanto a pistoleiros, Roland — diz Cuthbert —, eu estou aqui. E nós somos os últimos.

Roland primeiro olha para ele, depois o abraça sob aquele céu horrendo. Sente o corpo ardente de Cuthbert, a trêmula magreza suicida. E, no entanto ele ri. Bert ainda ri.

— Tudo bem — diz Roland com voz rouca, olhando os poucos homens que lhe restam em volta. — Vamos para cima deles. E não aceitaremos quartel.

— Neca, nada de quartel, absolutamente nenhum — diz Cuthbert.

— Não aceitaremos a rendição deles, se oferecerem.

— Em nenhuma circunstância! — concorda Cuthbert, rindo mais que nunca. — Nem mesmo se todos os 2 mil depuserem as armas.

— Então toque a porra dessa corneta.

Cuthbert leva a cometa aos lábios ensangüentados e sopra uma grande explosão — a explosão final, pois quando o instrumento cai dos seus dedos um minuto depois (ou talvez cinco, ou dez; o tempo não tem significado nessa batalha final), Roland a deixará caída no pó. Em sua dor e sede de sangue esquecerá tudo sobre Eld.

— E agora, meus amigos, adiante!

— Avante! — grita a última dúzia sob o sol escaldante.

É o fim deles, o fim de Gilead, o fim de tudo, e ele não liga mais. A velha fúria rubra, seca e enlouquecedora abate-se sobre sua mente, afogando todo pensamento. Uma última vez, então, pensa. Que assim seja.

— A mim! — grita Roland de Gilead. — Adiante! Pela Torre!

— A Torre! — grita Cuthbert a seu lado, cambaleando para trás.

Ergue a Trombeta de Eld para o céu numa das mãos, o revólver na outra.

— Não façam prisioneiros! — berra Roland. — NÃO FAÇAM PRISIONEIROS!

Correm para baixo rumo à horda de caras azuis de Grissom, ele e Cuthbert à frente, e quando passam pelas primeiras faces cinza-escuro, que se apóiam no mato alto, lanças, flechas e balas voando em toda a sua volta, começam os sinos. É uma melodia muito além de bela; ameaça rasgá-lo em pedaços com sua crua beleza.

Agora, não, ele pensa. Ah, deuses, agora, não — deixem-me acabar com isso. Deixem-me acabar com isso e meu amigo a meu lado, e ter paz finalmente. Por favor. Estende o braço para pegar a mão de Cuthbert. Por um instante, sente o toque dos dedos viscosos de sangue do amigo, ali na colina de Jericó, onde a brava e risonha existência dele foi apagada... e então os dedos que tocam os seus desaparecem. Ou melhor, os seus derreteram-se entre os de Bert. Está caindo, está caindo, o mundo escurece, ele está caindo, os sinos tocam, os kammen tocam (“Parecem havaianos, não parecem?”), e ele está caindo, a colina de Jericó desapareceu, a Trombeta de Eld desapareceu, há escuridão e letras rubras na escuridão, algumas são Grandes Letras, o bastante para ele poder ler o que dizem, as palavras dizem...

 

Diziam PARE. Embora Roland visse que as pessoas atravessavam a rua apesar do sinal. Davam uma rápida olhada na direção do fluxo de tráfego e se mandavam. Um sujeito atravessou apesar de um bate-vê amarelo que vinha. O bate-vê desviou-se e tascou a buzina. O pedestre gritou para ele sem medo, depois espetou o dedo médio da mão direita para cima e sacudiu-o atrás do veículo que se afastava. Roland teve a idéia de que o gesto provavelmente não significava longos dias e belas noites.

Era noite na cidade de Nova York, e embora gente passasse para todos os lados, ninguém era do seu ka-tet. Ali, ele admitiu para si mesmo, estava uma contingência que Roland dificilmente esperara: que a única pessoa a aparecer fosse ele próprio. Não Eddie, mas ele. Aonde, em nome de todos os deuses, devia ele ir? E que devia fazer quando chegasse lá?

Lembre-se do seu próprio conselho, pensou. “Se aparecer sozinho”, dissera-lhes, “fiquem onde estão.”

Mas significava isso simplesmente se empoleirar em... ergueu os olhos para o sinal verde... na esquina da Segunda Avenida com a rua Cinqüenta e Quatro, sem fazer nada além de olhar um sinal mudar de PARE para SIGA em branco?

Enquanto pensava nisso, uma voz gritou às suas costas, alta e delirante de alegria.

— Roland! Meu favo de mel! Se vire e olhe pra mim! Me veja muito bem!

Ele se virou, já sabendo o que ia ver, mas sorrindo mesmo assim. Como fora terrível reviver aquele dia na colina Jericó, mas que antídoto aquele — Susannah Dean voando pela rua Cinqüenta e Quatro abaixo em sua direção, sorrindo e chorando de alegria, os braços abertos.

— Minhas pernas! — ela gritava no topo da voz. — Minhas pernas! Eu as tenho de volta! Ah, Roland, favinho de mel, louvado Homem Jesus. EU RECUPEREI AS MINHAS PERNAS!

 

Lançou-se ao abraço dele, beijando-lhe a face, o pescoço, a testa, o nariz, os lábios, sempre a repetir:

— Minhas pernas, ah, Roland, você está vendo, eu posso andar, eu posso correr, eu tenho as minhas pernas, louvados sejam Deus e todos os santos. Eu recuperei as minhas pernas.

— Dê-se toda a alegria delas, coração querido! — disse Roland. Adotava o dialeto local que recentemente descobrira ser um velho jeito seu, ou talvez hábito. Por ora era o dialeto de Calla. Imaginou que se passasse muito tempo ali em Nova York logo se veria erguendo o dedo médio para os táxis.

Mas eu sempre seria um forasteiro, pensou. Ora, não consigo nem dizer “aspirina”. Toda vez que tento, a palavra sai errada.

Ela tomou a mão direita dele, arrastou-a com surpreendente força e botou-a em sua perna.

— Está sentindo? — perguntou. — Quer dizer, não estou só imaginando, estou?

Roland riu.

— Você não correu para mim como se tivesse asas tipo Raf? Correu, sim, Susannah. — Pôs a mão esquerda, a com todos os dedos, na perna esquerda dela. — Uma e duas pernas, cada uma com um pé embaixo. — Olhou com ar de reprovação. — Mas precisamos comprar uns sapatos para você.

— Pra quê? Isto é um sonho. Tem de ser.

— Entramos em todash. Estamos realmente aqui. Se você cortar seu pé, Mia, vai ficar com um corte amanhã, quando acordar junto à fogueira do acampamento.

O outro nome saíra quase... mas não exatamente por si mesmo. Agora ele esperava, todos os músculos retesados como arame, para ver se ela ia notar. Se rolasse, ele se desculparia e diria que entrara em todash direto de um sonho com alguém que conhecera muito tempo antes (embora só houvesse existido uma mulher de alguma importância após Susan Delgado, e não se chamava Mia).

Mas ela não notou, e Roland não ficou muito surpreso.

Porque ela se aprontava para mais uma de suas expedições de caça — como Mia —, quando soaram os kammen. E, ao contrário de Susannah, Mia tinha pernas. Banqueteia-se de comidas ricas em açúcar e gordura num grande salão, fala com todos os amigos, ela não ia a Morehouse nem à casa de ninguém, e tinha pernas. Portanto esta tinha pernas. Esta é as duas mulheres, embora não o saiba.

De repente Roland viu-se desejando que não encontrassem Eddie. Talvez sentisse a diferença, embora a própria Susannah não. E isto podia ser ruim. Se Roland tivesse feito três pedidos, como o príncipe abandonado numa história infantil da hora de dormir, ali e então todos os três teriam sido a mesma coisa: resolver até o fim aquele problema de Calla Bryn Sturgis antes que a gravidez de Susannah — a gravidez de Mia — ficasse óbvia. Ter de lidar com as duas coisas ao mesmo tempo ia ser difícil.

Talvez impossível.

Ela encarava-o com olhos arregalados, inquisidores. Não porque ele a chamara de um nome que não era o seu, mas por querer saber o que eles deveriam fazer em seguida.

— Esta é a sua cidade — disse ele. — Eu visitaria a livraria. E o terreno baldio. — Fez uma pausa. — E a rosa. Você pode me levar?

— Bem — disse ela, olhando em volta —, é a minha cidade, sem a menor dúvida, mas a Segunda Avenida não parece igual ao que era nos dias em que Detta partia em expedições de furtos na Macy's.

— Então não pode encontrar a livraria e o terreno baldio?

Embora decepcionado, Roland não chegou nem perto de ficar desesperado. Haveria um meio. Sempre havia um...

— Ah, problema nenhum — disse ela. — As ruas são as mesmas. Nova York é apenas uma grade, Roland, com as avenidas correndo numa direção e as ruas na outra. Fácil como uma torta. Venha.

O sinal voltara a PARE, mas após uma rápida olhada em frente Susannah pegou o braço dele e atravessaram a rua Cinqüenta e Quatro. Ela caminhava a passos largos, destemida, apesar dos pés descalços. Os quarteirões eram curtos, mas cheios de lojas exóticas. Roland não pôde deixar de admirá-las com olhos arregalados, mas sua falta de atenção parecia bastante segura; embora as calçadas estivessem apinhadas de gente, ninguém esbarrava neles. Ouvia os saltos das botas batendo na calçada, contudo, e via as sombras que projetavam na luz das vitrinas em exposição.

Quase lá, pensou. Se a força que nos trouxe fosse um pouco mais poderosa, estaríamos lá.

E, percebeu, a força poderia de fato ficar mais poderosa, se Callahan tivesse razão sobre o que se encontrava escondido debaixo do piso de sua igreja. Ao se aproximarem do centro e da fonte da coisa que fazia aquilo...

Susannah puxou seu braço e ele parou de chofre.

— São seus pés? — perguntou ele.

— Não — disse ela, e ele viu que ela estava assustada. — Por que está tão escuro?

— Susannah, é de noite.

Ela deu-lhe um puxão impaciente no braço.

— Eu sei, não sou cega. Você não... — Hesitou. — Não consegue sentir?

Roland percebeu que sim. Primeiro, a escuridão na Segunda Avenida realmente não estava nada escura. O pistoleiro ainda não conseguia compreender a forma prodigiosa como aquelas pessoas de Nova York desperdiçavam as coisas que as de Gilead guardavam como as mais raras e preciosas. Papel; água; petróleo refinado; luz artificial. Esta última se via em toda parte. O lume das vitrinas das lojas (embora a maioria estivesse fechada, os artigos expostos continuavam iluminados), o brilho ainda mais forte de um lugar que vendia sanduíches chamado Blimpie’s, e acima de tudo isso, peculiares lâmpadas elétricas alaranjadas pareciam encharcar de luz o próprio ar. Mas Susannah tinha razão. Uma sensação soturna emanava do ar apesar das lâmpadas alaranjadas. Parecia rodear as pessoas que andavam na rua. Fê-lo pensar no que Eddie dissera antes: Todo esse negócio está virando 19.

Mas aquela escuridão, mais sentida que vista, nada tinha a ver com 19. A gente tinha de subtrair seis para entender o que ocorria ali. E pela primeira vez Roland acreditou realmente que Callahan tivesse razão.

— Treze Preto — disse ele.

— Como?

— Foi o que nos trouxe aqui, nos enviou a todash, e o sentimos em toda a nossa volta. Não é o mesmo de quando voei dentro da grapefruit, mas é parecido.

— Passa uma sensação ruim — disse ela, em voz baixa.

— É ruim. O Treze Preto com quase toda probabilidade talvez seja o mais terrível objeto dos dias do Eld que ainda permanece na face da Terra. Não que o Arco-íris do Mago fosse dessa época; tenho certeza de que existia antes...

— Roland! Ei, Roland! Suze!

Eles ergueram os olhos, e apesar de seus receios anteriores, Roland ficou imensamente aliviado ao ver não só Eddie, mas Jake e Oi também, uma quadra adiante. Eddie acenava. Susannah retribuiu o aceno com exuberância. Roland agarrou seu braço antes que ela se pusesse a correr, o que era sua clara intenção.

— Cuidado com os pés — disse ele. — Não precisa pegar alguma infecção e levá-la para o outro lado.

Acertaram um passo rápido. Eddie e Jake, os dois calçados, correram ao encontro deles. Os pedestres se afastavam sem olhá-los nem interromper suas conversas, viu Roland, e então observou que isso não era bem verdade. Um menininho, sem dúvida não mais velho que três anos, caminhava vigorosamente ao lado da mãe. A mulher não pareceu notar nada, mas quando Eddie e Jake os contornaram, o pequeno observou-os com olhos imensos e maravilhados... e chegou mesmo a estender a mão para afagar Oi, que trotava rapidamente.

Eddie passou à frente de Jake e chegou primeiro. Segurou Susannah à distância do braço, admirando-a. Sua expressão, viu Roland, era exatamente igual à do menininho.

— Então? Que acha, doçura? — Susannah falava, nervosa, como uma mulher que chega em casa ao encontro do marido com um penteado novo, radical.

— Uma melhoria definitiva — disse Eddie. — Eu não preciso delas pra amá-la, mas são mais que boas chegando à terra do excelente. Nossa, agora você é uns 2 centímetros mais alta que eu!

Susannah constatou a verdade da afirmação e riu. Oi farejou o tornozelo que não estava ali na última vez que vira aquela mulher, e depois também riu. Um estranho latido-ganido, mas claramente uma risada por tudo aquilo.

— Eu gosto das suas pernas, Suze — disse Jake, e o perfunctório tom do elogio fez Susannah mais uma vez rir. O garoto não notou; já se virará para Roland. — Quer ver a livraria?

— Tem mais alguma coisa pra ver lá?

O rosto de Jake ensombreceu-se.

— Na verdade, não muito. Está fechada.

— Eu gostaria de ver o terreno baldio, se houver tempo antes de sermos mandados embora de volta — disse Roland. — E a rosa.

— Elas machucam? — Eddie perguntou a Susannah. Olhava-a intensamente, na verdade.

— São ótimas — respondeu ela, rindo. — Excelentes.

— Você está diferente.

— Eu aposto! — disse ela, e deu uns passinhos de dança. Fazia luas e luas desde que dançara pela última vez, mas a grande alegria que tão visivelmente sentia compensou qualquer falta de graça. Uma mulher de terno executivo e balançando uma pasta topou com o maltrapilho grupo de perambulantes e afastou-se com uma guinada brusca, na verdade avançando alguns passos na rua para contorná-los. — Pode apostar que estou, eu tenho pernas!

— Igual à letra da música — disse-lhe Eddie.

— Hum?

— Esqueça — disse ele, e passou-lhe um braço em volta da cintura. Porém mais uma vez Roland viu-o dando a ela aquele olhar de busca, inquisitivo. Mas, com sorte, ele vai deixá-la em paz, pensou Roland. E foi o que Eddie fez. Beijou-lhe o canto da boca, depois se virou para Roland. — Então você quer ver o famoso terreno baldio e a ainda mais famosa rosa, né? Bem, eu também. Conduza-nos, Jake.

 

Jake conduziu-os pela Segunda Avenida, parando apenas para darem uma olhada rápida no Restaurante da Mente de Manhattan. Ninguém desperdiçava luz naquele estabelecimento, contudo, e na verdade não havia muito a ver. Roland esperava ver a tabuleta com o menu, mas desaparecera.

Lendo-lhe a mente à maneira prosaica como fazem as pessoas que partilham khef, Jake disse:

— Ele na certa o muda todo dia.

— Talvez — disse Roland.

Olhou através da vitrina mais um pouco, nada viu além de prateleiras escuras, algumas mesas e o balcão que Jake mencionara, aquele onde se sentavam os velhos tomando café e jogando a versão de Castelos daquele mundo. Nada a ver, mas alguma coisa a sentir, mesmo através do vidro: desespero e perda. Fora um cheiro, pensou Roland, teria sido amargo e um tanto rançoso. O cheiro do fracasso. Talvez de sonhos que nunca se realizaram. O que o tornava a perfeita alavanca para alguém como Enrico “Il Roche” (A Rocha) Balazar.

— Já viu o bastante? — perguntou Eddie.

— Sim. Vamos embora.

 

Para Roland, o passeio de oito quarteirões da Segunda com a Cinqüenta e Quatro até a Segunda com a Cinqüenta e Seis foi como visitar um país no qual até aquele momento semi-acreditava. Como pode ser estranho para Jake?, perguntou-se. O vagabundo que pedira ao garoto uma moeda se fora, mas o restaurante junto ao qual ele se sentara estava lá: Chew Chew Mama’s. Ficava na esquina da Segunda com a Cinqüenta e Dois. Uma quadra adiante, a loja de discos, Torre da Power Records. Continuava aberta — segundo um relógio acima que dava as horas em pontos elétricos, faltavam 14 minutos para as oito da noite. Sons altos vazavam da porta aberta. Guitarras e tambores. A música daquele mundo. Fê-lo lembrar-se da música sacrifical tocada pelos Gray na cidade de Lud, e por que não? Ali era Lud, de alguma maneira torcida de outro onde e quando. Teve certeza disso.

— São os Rolling Stones — disse Jake —, mas não a que tocava no dia em que vi a rosa. Aquela era “Paint It Black”.

— Não reconhece esta? — perguntou Eddie.

— Sim, mas não me lembro do título.

— Ah, mas devia — disse Eddie. — É “Nineteenth Nervous Breakdown”, o colapso nervoso dos 19 anos.

Susannah parou, olhou em volta.

— Jake?

Jake assentiu.

— Ele está certo.

Eddie, enquanto isso, pescara uma folha de jornal da porta gradeada da sentinela junto à Torre da Power Records. Uma parte de The New York Times, na verdade.

— Benzinho, sua mamãe não lhe ensinou que a melhor classe de pessoas não faz garimpo de sarjeta? — perguntou Susannah.

Eddie ignorou-a.

— Olhe só isto — disse ele. — Todos vocês.

Roland curvou-se mais para perto, meio esperando ver a notícia de outra peste, mas não era nada tão abalador. Pelo menos não pelo que ele sabia.

— Leia pra mim o que diz — pediu a Jake. — As letras saem e entram nadando de minha mente. É porque estamos todash... colhidos no meio...

— FORÇAS RODESIANAS ESTREITAM CERCO A ALDEIAS MOÇAMBICANAS — leu Jake. — DOIS ASSISTENTES DE CARTER PREVÊEM UMA ECONOMIA DE BILHÕES NO PLANO DE BEM-ESTAR SOCIAL. E aqui embaixo: CHINESES REVELAM QUE TERREMOTO DE 1976 FOI O MAIS MORTAL EM QUATRO SÉCULOS. E também...

— Quem é Carter? — perguntou Susannah. — O presidente antes de Ronald Reagan? Enfeitou as duas outras palavras com uma forte piscadela.

Eddie até então não conseguira convencê-la de que falava a sério sobre Reagan ser presidente. Nem ela acreditara em Jake quando o garoto lhe dissera que podia parecer loucura, mas a idéia era ao menos levemente plausível, porque Reagan fora governador da Califórnia. Susannah apenas rira disso e assentira com a cabeça, como lhe dando pontos pela criatividade. Sabia que Eddie conversara com Jake para confirmar sua história de pescador, mas ela não engolira. Imaginava que poderia ver Paul Newman como presidente, talvez até Henry Fonda, que parecera bastante presidencial em Limite de Segurança, mas o anfitrião de Death Valley Days? Não, lá no íntimo.

— Não importa Carter — disse Eddie. — Vejam a data.

Roland tentou, mas as letras continuavam entrando e saindo a nadar.

— Qual é, pelo seu pai?

— Dois de junho — disse Jake. Olhou para Eddie. — Mas se o tempo é o mesmo aqui e lá no outro lado, não devia ser primeiro de junho?

— Mas não é o mesmo — disse Eddie, implacável. — Não é. O tempo passa mais rápido deste lado. Jogo começado. E o relógio do jogo está correndo rápido.

Roland pensou.

— Se voltarmos de novo aqui, vai ser mais tarde toda vez, não é?

Eddie assentiu.

Roland continuou, falando tanto consigo mesmo quanto com os outros.

— Cada minuto que passarmos no outro lado, no de Calla, vai transcorrer aqui um minuto e meio. Ou talvez dois.

— Não, dois não — disse Eddie. — Tenho certeza de que não é o dobro. — Mas seu olhar nervoso de volta à data no jornal sugeria que não tinha certeza alguma.

— Mesmo que você tenha razão — disse Roland —, só o que podemos fazer agora é seguir adiante.

— Para 15 de julho — disse Susannah. — Quando Balazar e seus cavalheiros deixarem de jogar limpo.

— Talvez a gente deva deixar aquela Calla folken resolver seu próprio negócio — disse Eddie. — Detesto dizer isso, Roland, mas talvez a gente deva.

— Não podemos fazer isso, Eddie.

— Por que não?

— Porque Callahan tem o Treze Preto — disse Susannah. — Nossa ajuda é o preço dele pra devolvê-lo. E precisamos disso.

Roland fez que não com a cabeça.

— Ele vai devolver de qualquer modo... Achei que fui claro sobre isso. Sente terror da coisa.

— Ié — disse Eddie. — Eu também tive a mesma sensação.

— Temos de ajudá-los porque é o Caminho do Eld — disse Roland a Susannah. — E porque o caminho de ka é sempre o caminho do dever.

Julgou ver um lampejo no fundo dos olhos dela, como se ele tivesse dito alguma coisa engraçada. Imaginou que tivesse, mas não fora Susannah quem se divertira. Fora Detta ou Mia quem achara aquelas idéias engraçadas. A questão era qual das duas. Ou haviam sido as duas?

— Odeio a sensação daqui — disse Susannah. — Essa sensação sombria.

— Eu me sentiria melhor no terreno baldio — disse Jake. Saiu andando, e os outros o seguiram. — As rosas tornam tudo melhor. Vocês vão ver.

 

Quando Jake atravessou a rua Cinqüenta, começou a apressar o passo. No lado do centro da cidade da Quarenta e Nove, começou a fazer jogging. Na esquina da Segunda com a Quarenta e Oito pôs-se a correr. Não pôde evitar. Conseguiu uma ajudinha do SIGA na Quarenta e Oito, mas o sinal no poste começou a piscar vermelho assim que chegou ao meio-fio da calçada.

— Jake, espere! — gritou Eddie de trás, mas o garoto não parou. Talvez não pudesse. Sem dúvida, Eddie sentiu a influência da coisa; assim como Eddie e Susannah. Um zumbido elevava-se no ar, fraco e agradável. Era tudo o que não era a terrível sensação sombria à volta deles.

Para Roland, o zumbido trouxe lembranças de Mejis e Susan Delgado. De beijos trocados num colchão de relva macia.

Susannah lembrou-se de quando estava com o pai, na infância, arrastando-se para o colo dele e pondo a pele lisa da face junto à áspera trama de seu suéter. Lembrou-se de que fechava os olhos e inspirava fundo o cheiro que era dele e só dele: tabaco de cachimbo, gaultéria e o ungüento que esfregava nos pulsos, onde a artrite começara a mordê-lo na revoltante idade de 25 anos. O que aqueles cheiros significavam para ela era que tudo estava bem.

Eddie viu-se lembrando de uma viagem a Atlantic City quando era muito pequeno, não mais que cinco ou seis anos. A mãe levara-os, num determinado ponto do dia ela e Henry haviam saído para comprar casquinhas de sorvete. A Sra. Dean apontara a calçada larga e dissera: Ponha a bunda bem ali, Sr. Homem, e fique ali até a gente voltar. E ele fizera isso. Poderia ter ficado ali o dia todo, olhando a descida até a praia do fluxo e refluxo cinzentos do mar. As gaivotas sobrevoando logo acima da espuma, chamando umas às outras. Cada vez que as ondas recuavam, deixavam uma escorregadia imensidão de areia marrom tão brilhante que ele mal conseguia olhá-la sem franzir os olhos. O barulho das ondas era ao mesmo tempo enorme e acalentador. Eu poderia ficar aqui para sempre, lembrou-se que pensara, porque é lindo e pacífico... e está tudo bem. Tudo aqui está bem.

Roland e Eddie seguraram Susannah pelos cotovelos sem mais que uma troca de olhares. Ergueram seus pés descalços da calçada e carregaram-na. Na Segunda com a Quarenta e Sete o trânsito corria contra eles, mas Roland lançou uma das mãos aos faróis que se aproximavam e gritou:

— Salve! Pare em nome de Gilead!

E eles obedeceram. Houve um grito de freios, uma batida de pára-lama dianteiro com traseiro e o tinido de vidro caindo, mas pararam. Roland e Eddie atravessaram num clarão de refletor de faróis e uma cacofonia de buzinas. Susannah entre eles com os pés recuperados (e já muito sujos) a 10 centímetros do chão. A sensação de felicidade e correção foi ficando mais forte à medida que se aproximavam da esquina da Segunda com a Quarenta e Seis. Roland sentiu o zumbido da rosa a correr-lhe delirantemente no sangue.

Sim, pensou. Por todos os deuses, sim. É isto. Talvez não apenas a porta de entrada para a Torre Negra, mas a própria Torre. Deuses, que força! Que puxão! Cuthbert, Alain, Jamie — ah, se vocês estivessem aqui!

Jake estava na esquina da Segunda com a Quarenta e Seis, olhando para uma larga cerca de um metro e cinqüenta de altura. Lágrimas escorriam-lhe pelas faces. Da escuridão além da cerca vinha um forte zumbido harmônico. O zunzum de várias vozes, todas cantando juntas. Cantando uma nota ampla e aberta. E aqui, sim, diziam as vozes. Eis a sua possibilidade. Eis a boa virada, o encontro afortunado, a febre que irrompeu pouco antes do amanhecer e deixou-lhe o sangue calmo. Eis o desejo que se torna verdade e o olho entendedor. Eis a bondade que lhe foi dada e assim aprendida a passar adiante. Eis a clareza e a sanidade que você julgava perdidas. Eis onde está tudo bem.

Jake virou-se para eles.

— Estão sentindo? — perguntou. — Estão?

Roland fez que sim com a cabeça. Eddie também.

— Suze? — perguntou o garoto.

— É quase a coisa mais linda do mundo, não? — disse ela.

Quase, pensou Roland. Ela disse quase. Nem lhe escapou o fato de que ela levou a mão à barriga e acariciou-a ao dizer isso.

 

Os cartazes de que Jake se lembrava estavam ali — Olivia Newton-John no Radio City Music Hall, um grupo chamado G. Gordon Liddy e os Grots num lugar chamado Mercury Lounge, um filme de terror intitulado Guerra dos Zumbis, NÃO ULTRAPASSE. Mas...

— Aquele não é o mesmo — disse ele, apontando uma pichação cor de rosa-maravilha esmaecida. — É da mesma cor, e as letras de fôrma parecem escritas pelo mesmo grafiteiro, mas quando estive aqui antes, era um poema sobre a tartaruga. “Veja a enorme TARTARUGA!, No casco ela carrega a Terra.” E depois alguma coisa sobre seguir o Feixe de Luz.

Eddie avançou mais um pouco e leu o seguinte: “Ó SUSANNAH-MIO, minha moça dividida em duas, Done estacionou sua BANHEIRA no DIXIE PIG, no ano de 99.” Ele olhou para Susannah.

— Que diabos quer dizer isso? Alguma idéia, Suze?

Ela fez que não com a cabeça. Tinha os olhos muito abertos. Olhos assustados, pensou Roland. Mas qual das mulheres estava assustada? Ele não soube dizer. Só sabia que Odetta Susannah Holmes fora dividida desde o início, e aquele “mio” era muito próximo de Mia. O zumbido que vinha da escuridão atrás da cerca dificultava pensar nessas coisas. Ele queria ir direto e já para a origem do zumbido. Precisava ir, como um homem morrendo de sede para a água.

— Vamos — disse Jake. — A gente pode pular pro outro lado, é fácil.

Susannah baixou os olhos para os pés descalços, sujos, e recuou um passo.

— Eu não — disse. — Não posso. Sem sapatos, não.

O que fazia perfeito sentido, mas Roland achou que tinha mais alguma coisa ali. Mia não queria ir lá. Sabia que alguma coisa terrível poderia acontecer se o fizesse. Com ela e seu bebê. Por um momento, esteve à beira de insistir, de deixar a rosa cuidar da coisa que brotava dela e da sua problemática personalidade nova, tão forte que Susannah aparecera ali com as pernas de Mia.

Não, Roland. Era a voz de Alain. O amigo que sempre fora o mais forte no toque. Hora errada, lugar errado.

— Vou ficar com ela — disse Jake.

Falou com imenso pesar, mas sem qualquer hesitação, e Roland foi inundado por seu amor pelo garoto que deixara certa vez morrer. A ampla voz da escuridão além da cerca cantava palavras daquele amor; ele a ouviu. E do simples perdão, em vez da difícil marcha forçada da expiação? Achou que sim.

— Não — disse ela. — Você vai, favinho de mel. Vou ficar ótima. — Sorriu-lhes. — Esta também é a minha cidade, vocês sabem. Posso cuidar de mim mesma. E além disso... — Baixou a voz como se confidenciasse um grande segredo. — Acho que a gente é meio invisível.

Eddie olhava-a mais uma vez daquela maneira perscrutadora, como se a perguntar se ela poderia não ir com eles, pés descalços ou não, mas dessa vez Roland não parecia preocupado. O segredo de Mia estava seguro, pelo menos por ora; o chamado da rosa era forte demais para que Eddie conseguisse pensar em muito mais coisas. Estava doido para prosseguir.

— Devíamos ficar juntos — disse Eddie, relutante. — Para a gente não se perder quando voltar. Foi o que você disse, Roland.

— A que distância fica a rosa daqui, Jake? — perguntou o pistoleiro. Era difícil falar com aquele zumbido como um vento nos ouvidos. Difícil pensar.

— Fica bem no meio do terreno. Talvez uns 30 metros, mas provavelmente menos.

— No segundo em que ouvirmos os sinos — disse Roland —, a gente corre para a cerca e Susannah. Todos os três. Combinado?

— Combinado — disse Eddie.

— Todos três e Oi — disse Jake.

— Não, Oi fica com Susannah.

Jake fez um ar de reprovação, claramente não gostando da idéia. Roland não esperava que fosse diferente.

— Jake, Oi também tem os pés nus... e você não disse que tem vidro quebrado lá?

— Ih, ié... — Arrastado. Relutante. Em seguida, Jake apoiou-se num joelho e encarou Oi nos olhos debruados de dourado. — Fique com Susannah, Oi.

— Oi! Ica! — Oi fica. Isso bastava para Jake. Ele levantou-se, virou-se para Roland e assentiu com a cabeça.

— Suze? — perguntou Eddie. — Tem certeza?

— Sim.

Enfática. Sem hesitação. Roland teve quase certeza de que era Mia no controle, puxando as alavancas e girando os mostradores. Quase. Mesmo então, não foi positivo. O zumbido da rosa tornava impossível ter certeza de qualquer coisa, além de que tudo... tudo... podia estar bem.

Eddie assentiu, beijou-lhe o canto da boca e avançou para a cerca ripas com seu estranho poema Ó SUSANNAH-MIO, minha moça dividida em duas. Enlaçou os dedos formando um degrau. Jake apoiou o pé, içou-se e desapareceu como um hálito de brisa.

— Aque! — gritou Oi, e calou-se, sentando-se ao lado de um dos pés descalços de Susannah.

— Você é o próximo, Eddie — disse Roland.

Enlaçou os dedos restantes, pretendendo dar a Eddie o mesmo calço que ele dera a Jake, mas ele simplesmente agarrou-se ao alto da grade e saltou para o outro lado. O drogado que Roland vira pela primeira vez num avião a jato chegando ao aeroporto Kennedy jamais poderia ter feito aquilo.

O pistoleiro disse:

— Fiquem onde estão. Os dois. — Talvez se dirigisse à mulher e ao trapalhão, mas só olhava para a mulher.

— Vamos ficar ótimos — disse ela, e curvou-se para afagar o pêlo sedoso de Oi. — Não vamos, garotão?

— Oi!

— Vá ver sua rosa, Roland. Enquanto ainda consegue.

Roland lançou-lhe um olhar pensativo e agarrou-se à cerca. Um momento depois, desaparecera, deixando Susannah e Oi sozinhos na mais vital e vibrante esquina de todo o universo.

 

Coisas estranhas aconteceram-lhe enquanto ela esperava.

Lá atrás no caminho por onde tinham vindo, perto da Torre da Power Records, o relógio de um banco piscava sinais alternados de hora e temperatura: 8h27, 17,77°C, 8h27, 17,77°C, 8h27, 17,77°C. Então, de repente, piscava 8h34, 17,77°C, 8h34, 17,77°C. Ela não desviou os olhos dele, jurava. Teria ocorrido alguma avaria com a maquinaria do relógio?

Deve ter, ela pensou. Que mais poderia ser? Nada, imaginou, mas por que tudo de repente parecia diferente? Até ficava diferente? Talvez seja a minha maquinaria que ficou avariada.

Oi ganiu e esticou o longo pescoço para ela. Quando fez isso, ela percebeu por que tudo parecia diferente. Além de algum modo passar sete minutos não contados por ela, o mundo recuperara sua perspectiva anterior, em tudo familiar. Uma perspectiva mais baixa. Estava mais próxima de Oi por estar mais próxima do chão. As esplêndidas pernas inferiores e pés que usara quando abrira os olhos em Nova York haviam desaparecido.

Como acontecera isso? E quando? Nos sete minutos perdidos?

Oi ganiu mais uma vez. Desta foi quase um latido. Olhava além dela, no lado oposto. Ela virou-se para lá. Seis pessoas atravessavam a Quarenta e Seis em direção a eles. Cinco eram normais. A sexta, uma mulher de rosto branco com um vestido manchado de musgo. Tinha as cavidades dos olhos vazias e pretas. A boca abria-se aparentemente até o esterno, e Susannah via um verme verde rastejando pelo lábio inferior. Os que atravessavam com ela abriam-lhe seu próprio espaço, assim como os outros pedestres na Segunda Avenida haviam aberto o de Roland e seus amigos. Susannah imaginou que nos dois casos os transeuntes mais normais sentiam alguma coisa fora do comum e evitavam passar perto. Só que aquela mulher não estava todash.

Aquela mulher estava morta.

 

O zumbido ia aumentando cada vez mais enquanto os três tropeçavam no ermo cheio de tijolos e lixo do terreno baldio. Como antes, Jake via rostos em cada ângulo e sombra. Viu Gasher e Hoots; Tiquetaque e Flagg; as armas de Eldred Jonas, Depape e Reynolds; a mãe, o pai e Greta Shaw, a governanta deles, que parecia um pouco com Edith Bunker na TV, e que sempre se lembrava de tirar as cascas de seu sanduíche. Greta Shaw, que às vezes o chamava de ’Bama, embora isso fosse um segredo só entre os dois. Eddie viu pessoas do antigo bairro: Jimmie Polio, o garoto do pé deformado, e Tommy Fredericks, que sempre ficava tão nervoso ao assistir aos jogos de beisebol de rua que fazia caretas e a garotada o chamava de Tommy Halloween. Havia Skipper Brannigan, que puxaria uma briga com o próprio Al Capone, se este houvesse revelado suficiente falta de sensatez para ir ao bairro deles, e Csaba Drabnik, o Porra Louca húngaro. Viu o rosto da mãe numa pilha de tijolos quebrados, os olhos luminosos dela recriados dos cacos quebrados de uma garrafa de refrigerante. Viu sua amiga Dora Bertollo (toda a garotada do quarteirão a chamava de Tetas Bertollo, pois as tinha realmente grandes, do tamanho de melancias). E, claro, Henry. O irmão em pé bem ao longe no fundo, nas sombras, olhando-o. Só que Henry sorria em vez de zoar, e parecia normal. Estendia a mão e mostrava a Eddie o que parecia um polegar erguido. Vá, parecia sussurrar o zumbido a elevar-se. Vá, Eddie, mostre a eles do que você efeito. E eu não contei àqueles caras? Quando saíamos e ficávamos atrás da Dahlie fumando os cigarros de Jimmie Polio, não lhes contei? “Meu maninho convenceria até o diabo a atear fogo em si mesmo”, eu dizia. Sim. Ele contara. E isto foi o que sempre senti, sussurrou o zumbido. Eu sempre amei você. Às vezes eu o reprimia, mas sempre o amei. Você era o meu homenzinho.

Eddie caiu em prantos. E eram lágrimas boas.

Roland viu todos os fantasmas de sua vida naquela ensombrada ruína cheia de entulhos, desde a mãe e sua ama-seca até os visitantes de Calla Bryn Sturgis. E à medida que seguiam andando, aumentava aquela sensação de acerto. O sentimento de que todas as suas decisões difíceis, toda a dor e o sangue derramado não haviam, afinal, sido em vão. Havia um motivo. Havia um propósito. Havia vida e amor. Ouvia tudo isso na cantiga da rosa, e também ele se pôs a chorar. Sobretudo de alívio. Chegar ali fora uma jornada difícil. Muitos haviam morrido. No entanto, ali eles viviam: ali cantavam uma cantiga com a rosa. Sua vida não fora um sonho árido, afinal.

Deram-se as mãos e avançaram aos tropeções, ajudando uns aos outros a evitar as tábuas cheias de pregos e os buracos onde podiam enfiar, torcer e até quebrar um tornozelo. Roland não sabia se alguém podia quebrar um osso no estado todash, mas não sentia a menor vontade de descobrir.

— Isto aqui vale tudo mais — disse, a voz rouca.

Eddie assentiu.

— Nunca mais vou parar. Talvez não pare nem que morra.

Jake fez-lhe o gesto de OK com o polegar e o indicador, e riu. O som era doce aos ouvidos de Roland. Embora fosse mais escuro ali do que na rua, as lâmpadas cor de laranja da Segunda com a Quarenta e Seis eram fortes o bastante para proporcionar ao menos alguma iluminação. Jake apontou uma tabuleta caída numa pilha de tábuas.

— Vêem isto? É a placa da delicatessen. Eu a arranquei das ervas daninhas. Por isso é que está aqui. — Olhou em volta, depois apontou o outro lado. — E olhem!

A placa ainda estava de pé. Roland e Eddie viraram-se para lê-la. Embora nenhum deles a houvesse visto antes, sentiram uma forte sensação de déjà-vu, apesar disso.

 

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Como Jake lhes dissera, a placa parecia velha, necessitando de restauração ou substituição imediata. Jake lembrara-se da pichação pintada sobre a placa, e Eddie se lembrava dela da história de Jake, não porque significasse alguma coisa para ele, mas apenas porque era estranha. E ali estava, igual à relatada: BANGO SKANK. O cartão de visita de algum grafiteiro há muito desaparecido.

— Eu acho que o número do telefone na placa é diferente — disse Jake.

— É? — perguntou Eddie. — Qual era o antigo?

— Não me lembro.

— Então como pode ter certeza de que é diferente?

Em outro lugar e em outro tempo, Jake talvez tivesse se irritado com aquelas perguntas. Agora, acalmado pela proximidade da rosa, sorria, em vez disso.

— Não sei. Acho que não posso ter certeza. Mas parece diferente. Igual à tabuleta na vitrina da livraria.

Roland mal ouvia. Avançava sobre as pilhas de tijolos, tábuas e vidro quebrado com suas surradas botas de caubói, os olhos brilhantes mesmo nas sombras. Vira a rosa. Alguma coisa jazia a seu lado, no local onde Jake encontrara sua versão da chave, mas Roland não prestava atenção alguma. Só via a rosa, brotando de um tufo de grama, manchada de roxo com tinta derramada. Ajoelhou-se diante dela. Um momento depois Eddie juntava-se à esquerda dele, Jake à direita.

 

A princípio Susannah ficou muito bem. Equilibrava-se apesar de ter perdido um pé e uma metade de si mesma — o ser que chegara ali, em todo caso —, e agora forçava a assumir a antiga e conhecida postura (e odiosamente subserviente), semi-ajoelhada e semi-sentada na imunda calçada e encostada na cerca de tábuas em torno do terreno baldio. Um pensamento sarcástico cruzou-lhe a mente — Tudo o que preciso é de uma placa de cartolina e uma caneca de estanho.

Continuou no lugar, mesmo após a visão da mulher morta atravessando a rua Quarenta e Seis. A cantoria — o que ela julgava fosse a voz da rosa — ajudava. Oi também ajudava, aconchegando seu calor junto ao dela. Acariciava-lhe o pêlo sedoso, usando a realidade dele como um ponto de apoio. Dizia a si mesma repetidas vezes que ela não era insana. Tudo bem, perdera sete minutos. Talvez. Ou talvez as entranhas dentro daquele moderníssimo relógio ali houvessem acabado de ter um ataque de soluços. Tudo bem, ela vira uma mulher morta atravessando a rua. Talvez. Ou talvez só vira uma entupida de droga estupidificada, Deus sabe que não havia escassez delas em Nova York...

Uma drogada com um verme verde saindo da boca?

— Posso ter imaginado essa parte — disse ela ao trapalhão. — Certo?

Oi dividia sua nervosa atenção entre Susannah e os faróis que passavam a toda, que talvez lhe parecessem enormes e predatórios animais de olhos luminosos. Gania nervosamente.

— Além disso, os meninos logo vão voltar.

— Ninos — concordou o trapalhão, parecendo esperançoso.

Por que não fui com eles? Eddie teria me levado nas costas, Deus sabe que ele já fez isso antes, tanto com o arreio quanto sem.

— Não podia — sussurrou. — Eu simplesmente não podia. Porque alguma parte dela temia a rosa. Ou chegar perto demais da flor. Teria aquela parte assumido o controle durante os sete minutos que haviam desaparecido? Susannah temia que tivesse assumido. Se assim fosse, já fora embora àquela altura. Levara de volta as pernas e simplesmente dera o fora nelas para a Nova York de cerca de 1977. Nada bom. Mas levara consigo seu medo da rosa, e isso era bom. Ela não queria ter medo de uma coisa tão forte e maravilhosa.

Outra personalidade? Você acha que a dama que trouxe as pernas era outra personalidade?

Outra versão de Detta Walker, em outras palavras?

A idéia deu-lhe vontade de gritar. Pensou que agora entendia como se sentiria uma mulher se, mais ou menos cinco anos depois de uma operação de câncer aparentemente bem-sucedida, o médico lhe dissesse que um raio X de rotina detectara uma sombra em seu pulmão.

— Outra vez, não — ela murmurou, a voz baixa e frenética, ao passar um novo grupo escolar de pedestres. Todos se afastaram um pouco da cerca de tábuas, embora isso reduzisse consideravelmente o espaço entre eles. — Não, outra vez, não. Não pode ser. Estou inteira. Estou... estou consertada.

Fazia quanto tempo que seus amigos haviam partido?

Olhou o relógio piscando, na rua abaixo. Dizia 8h42, mas ela não teve certeza se podia confiar nele. Parecia ter passado mais tempo. Muito mais. Talvez devesse chamá-los com um grito. Só para gritar olá. Como estão se saindo aí?

Não. Nada disso. Você é uma pistoleira, menina. Pelo menos é isso o que ele diz. O que acha. E não vai mudar o que ele pensa de você gritando como uma menina de escola que acabou de ver uma cobra sob um arbusto. Só vai ficar sentada aqui e esperar. Pode fazer isso. Você tem a companhia de Oi e...

Então viu o homem parado no outro lado da rua. Só parado junto a uma banca de jornal. Nu. Um malfeito corte em Y, costurado com grandes pontos industriais, começava na virilha, subia e bifurcava-se no esterno. Os olhos vazios fitavam-na. Através dela. Através do mundo.

Qualquer possibilidade de que aquilo fosse uma alucinação terminou quando Oi começou a latir. Olhava diretamente o homem nu no outro lado da rua.

Susannah desistiu do silêncio e pôs-se a gritar por Eddie.

 

Quando a rosa se abriu, revelando a fornalha escarlate no interior de suas pétalas e o sol em chamas no centro, Eddie viu tudo que importava.

— Ó meu Deus — suspirou Jake a seu lado, mas era como se estivesse a mil quilômetros de distância.

Eddie via coisas fantásticas e quase as deixou escapar. Albert Eins-tein na infância, não exatamente atropelado por uma caminhonete de leite ao atravessar. Um adolescente chamado Albert Schweitzer saindo de uma banheira e pisando exatamente no sabonete ao lado da tampa puxada. Um Oberleutnant nazista queimando uma folha de papel com a data e o local da invasão do Dia D escritos. Viu um homem que pretendia envenenar todo o abastecimento d’água de Denver morrer de um ataque cardíaco num restaurante à beira da estrada Interestadual 80 em Iowa, com um saco de batata frita do McDonald’s no colo. Viu um terrorista revestido de explosivos desviar-se de repente de um restaurante numa cidade que poderia ter sido Jerusalém. O terrorista ficara hipnotizado por nada mais que o céu e o pensamento de que cobria, no arco acima, os justos e os injustos igualmente. Viu quatro homens resgatarem um menino de um monstro, cuja cabeça toda parecia consistir em um único olho.

Porém, mais importante que tudo isso, era o imenso peso acumulado de pequenas coisas, desde aviões que não haviam caído sobre homens e mulheres que haviam chegado ao lugar certo na hora perfeita e assim fundado gerações. Viu beijos trocados em vãos de porta, carteiras devolvidas e homens que haviam chegado a um caminho que se bifurcava e escolhido a bifurcação certa. Viu milhares de encontros fortuitos nada fortuitos, dez milhares de decisões acertadas, uma centena de milhares de respostas certas, um milhão de atos de não reconhecida bondade. Viu a velha gente de River Crossing e Roland ajoelhando-se na poeira para a bênção de tia Talitha; mais uma vez ouviu-a dando a bênção livre e alegremente. Ouviu-a dizer-lhe que pusesse a cruz que lhe dera aos pés da Torre Negra e falasse em nome de Talitha Unwin no outro lado da Terra. Viu a própria Torre nas dobras em chamas da rosa, e por um momento compreendeu seu propósito: que distribuía suas linhas de força a todos os mundos que existiam e mantinha-os coesos na grande hélice do tempo. Para cada tijolo que caía no chão e não na cabeça de um menino, para cada furacão que não atingia o campo de motoristas com trailers, para cada míssil que não decolara, para cada mão afastada da violência, havia a Torre.

E a voz cantando baixo da rosa. A melodia que prometia que tudo ia dar certo, que tudo podia dar certo, que todo tipo de coisa ia dar certo.

Mas tem alguma coisa errada nela, pensou.

Uma dissonância cacofônica enterrada no zumbido, como cacos de vidro quebrado. Havia um desagradável clarão roxo a tremeluzir no núcleo quente, uma luz fria que não fazia parte dali.

— Há dois centros de existência — ouviu Roland dizer. — Dois! — Como Jake, era como se estivesse a milhares de quilômetros de distância.

— A Torre... e a rosa. Mas são a mesma coisa.

— A mesma coisa — disse Jake.

O garoto tinha o rosto pintado de luz brilhante, vermelho-escura e amarelo-ouro. Mas Eddie achou que também ele via a outra luz, um reflexo roxo a tremeluzir igual a um hematoma. Ora dançava na testa de Jake, ora na face, ora nadava no poço do seu olho; ora desaparecia, ora reaparecia na testa como a manifestação de uma má idéia.

— Que é que há com ela? — Eddie ouviu-se perguntando, mas não obteve resposta. Nem de Roland, nem de Jake, nem da rosa.

Jake ergueu o dedo e começou a contar. Contar as pétalas, viu Eddie. Mas era desnecessário contar. Todos os três sabiam quantas pétalas havia ali.

— Precisamos ter este terreno — disse Roland. — Ser donos dele e protegê-lo. Até os Feixes de Luz se restabelecerem e a Torre tornar-se mais uma vez segura. Porque, enquanto a Torre Negra enfraquece, esta é que mantém tudo coeso. E também está enfraquecendo. Doente. Vocês sentem?

Eddie abriu a boca para dizer claro que sentia, e foi quando Susannah começou a gritar. Um momento depois Oi juntou sua voz à dela, latindo ferozmente.

Eddie, Jake e Roland entreolharam-se como pessoas a dormir que são despertadas do mais profundo dos sonhos. Eddie foi o primeiro a levantar-se. Virou-se e saiu aos tropeços de volta à cerca e à Segunda Avenida, gritando o nome dela. Jake seguiu-o, parando só o bastante para arrancar alguma coisa do emaranhado de bardana onde se encontrava a chave antes.

Roland se permitiu um último e agonizante olhar à rosa silvestre que crescia tão bravamente ali naquela tombada terra devastada de tijolos, tábuas, ervas daninhas e lixo. Ela já começava a enrolar as pétalas de novo, escondendo a luz que ardia dentro.

Eu voltarei, disse-lhe. Juro pelos deuses de todos os mundos, por minha mãe e pai e meus amigos que já existiram, que eu voltarei.

Mas sentia medo.

Roland virou-se e correu para a cerca de tábuas, escolhendo o caminho pelo lixo tombado com inconsciente agilidade, apesar da dor no quadril. Ao correr, voltou-lhe um pensamento que lhe martelava a mente como um coração: Dois. Dois centros de existência. A rosa e a Torre. A Torre e a rosa.

Todo o resto se mantinha entre eles, girando em frágil complexidade.

 

Eddie precipitou-se para a cerca, caindo mal, de braços e pernas abertos, levantou-se de um salto e avançou diante de Susannah sem sequer pensar. Oi continuava latindo.

— Suze? Que foi? Que é que há?

Estendeu a mão para pegar o revólver de Roland e nada encontrou. Parecia que armas não entravam em todash.

— Ali! — gritou ela, apontando o outro lado da rua. — Ali! Está vendo-o? Por favor, Eddie, por favor diga que está!

Eddie sentiu a temperatura do sangue despencar. O que ele via era um homem nu que fora aberto e depois costurado novamente até em cima, no que só poderia ser uma tatuagem de autópsia. Outro homem — vivo — comprou um jornal na banca ao lado, verificou o tráfego e atravessou a Segunda Avenida. Embora sacudisse o jornal para abri-lo e ver a manchete ao fazê-lo, Eddie viu a maneira como contornou o cadáver. Como as pessoas nos contornavam, pensou.

— Também tinha outro — sussurrou ela. — Uma mulher. Andando. E um verme ras-ras-rastejando...

— Olhe à direita — disse Jake, tenso.

Apoiado num joelho, acariciava Oi mandando-o calar-se. Na outra mão, segurava uma coisa rosa amassada, o rosto pálido como queijo cottage.

Eles olharam. Uma criança vagava devagar em sua direção. Só se podia dizer que era uma menina por causa do vestido vermelho e azul que usava. Quando ela se aproximou, Eddie viu que o azul devia ser o mar. Os pingos grossos vermelhos revolviam-se em pequenos barcos a vela cor de bala. Tivera a cabeça esmagada em algum acidente cruel, esmagada até ficar mais larga que comprida. Os olhos eram uvas espremidas. Sobre um dos pálidos braços, trazia uma bolsa de plástico branco. A melhor bolsa vou-a-um-acidente-de-carro-e-não-sei de uma menina.

Susannah inspirou para gritar. A escuridão que apenas sentira antes agora era quase visível. Sem a menor dúvida, palpável; comprimia-a como terra. E, no entanto ela queria gritar. Precisava gritar. Gritar ou enlouquecer.

— Nem um pio — sussurrou-lhe no ouvido Roland de Gilead. — Não a perturbe, pobre coisa perdida. Por sua vida, Susannah! — O grito expirou num longo e horrorizado suspiro.

— Estão mortos — disse numa voz rala, controlada. — Os dois.

— Mortos errantes — respondeu Roland. — Ouvi falar deles pelo pai de Alain. Não deve ter sido muito depois que voltamos de Mejis, porque após isso não se passou muito tempo até tudo... como é que você diz, Susannah? Antes de tudo ir pro inferno numa cesta de mão. Em todo caso, foi Burning Chris quem nos avisou que se algum dia entrássemos em todash, talvez víssemos os errantes. — Apontou o outro lado da rua onde o morto continuava parado. — Os que como ele do lado de lá morreram tão de repente que não compreendem o que aconteceu com eles ou simplesmente se recusam a aceitar isso. Cedo ou tarde, seguem mesmo adiante. Não creio que sejam muitos.

— Obrigado, meu Deus — disse Eddie. — Parece uma coisa saída de um filme de zumbi de George Romero.

— Susannah, que é que houve com suas pernas?

— Eu não sei. Num minuto eu as tinha, e no seguinte fiquei como antes. — Pareceu tomar consciência do olhar de Roland e virou-se para ele. — Está vendo alguma coisa engraçada, doçura?

— Somos ka-tet, Susannah. Conte o que realmente aconteceu.

— Que porra você tá tentando insinuar? — perguntou-lhe Eddie. Talvez houvesse dito mais, porém, antes que começasse, Susannah agarrou-lhe o braço.

— Você me sacou, não foi? — ela perguntou a Roland. — Tudo bem, vou contar a vocês. Segundo aquele extravagante relógio digital, eu perdi sete minutos enquanto esperava vocês. Sete minutos e as minhas belas pernas novas. Não quis dizer nada porque... — A voz vacilou, depois continuou. — Porque tive medo de que pudesse estar enlouquecendo.

Não é disso que você tem medo, pensou Roland. Não exatamente.

Eddie deu-lhe um breve abraço e um beijo na face. Lançou um olhar nervoso ao cadáver nu no outro lado da rua (a menina com a cabeça esmagada seguira vagando, graças a Deus, pela rua Quarenta e Seis em direção às Nações Unidas) e desviou-o para o pistoleiro:

— E se em vez de sete minutos, pulasse três meses? E se na próxima vez que voltarmos aqui, Calvin Tower tiver vendido o terreno? Não podemos deixar que isso aconteça. Porque aquela rosa, cara... — Lágrimas haviam começado a escorrer-lhe dos olhos.

— É a melhor coisa do mundo — disse Jake, baixinho.

— De todos os mundos — disse Roland.

Acalmaria Eddie e Jake saber que aquele particular lapso de tempo fora provavelmente na cabeça de Susannah? Que Mia saíra durante sete minutos, dera uma olhada em volta e depois tornara a mergulhar em seu buraco, como Punxsutawney Phil no Groundhog Day? Provavelmente não. Mas uma coisa ele viu no rosto desfigurado de Susannah: ela sabia o que estava acontecendo, ou tinha fortes suspeitas. Deve ser infernal para ela, pensou.

— Temos melhor a fazer se formos realmente mudar as coisas — disse Jake. — Assim nós mesmos não somos muito melhores que errantes.

— Também precisamos chegar a 1964 — disse Susannah. — Se quisermos pôr a mão na minha massa. Podemos, Roland? Se Callahan pegou o Treze Preto, isto vai funcionar como uma porta?

O que vai funcionar é diabrura, pensou Roland. Diabrura é pior. Mas antes que pudesse dizê-lo (ou qualquer outra coisa), os sinos todash começaram. Os pedestres na Segunda Avenida não os ouviam mais do que viam os peregrinos reunidos perto da cerca de tábuas, mas o cadáver do outro lado da rua levou as mãos mortas aos ouvidos, a boca contraindo-se para baixo numa careta de dor. E então eles conseguiram ver através dele.

— Segurem-se uns nos outros — disse Roland. — Jake, ponha a mão no pêlo de Oi, e fundo! Não faz mal se doer!

Jake fez como mandou Roland, os sinos mergulhando no fundo de sua cabeça. Lindos mas dolorosos.

— Como a raiz de um canal sem Novocaína — disse Susannah.

Virou a cabeça, e por um momento viu através da cerca de tábuas. Tornara-se transparente. Além dela, estava a rosa, as pétalas agora fechadas, mas ainda emanando seu brilho silenciosamente maravilhoso. Sentiu o braço de Eddie deslizar em volta de seus ombros.

— Segure-se, Susannah... não importa o que faça, segure-se.

Ela tomou a mão de Roland. Por mais um instante, viu a Segunda Avenida, e então tudo desapareceu. Os sinos devoraram o mundo e ela voava através da cegante escuridão com o braço de Eddie nos ombros e a mão de Roland apertando a sua.

 

Quando a escuridão os libertou, estavam na estrada, a quase 13 metros do acampamento. Jake sentou-se devagar, depois se virou para Oi.

— Tudo bem com você, menino?

— Oi.

Jake acariciou a cabeça do trapalhão. Olhou em volta como os outros. Tudo ali. Suspirou, aliviado.

— Que é isto? — perguntou Eddie.

Pegara a outra mão de Jake quando começaram os sinos. Agora, colhido nos dedos entrelaçados, havia um objeto rosa amassado. Parecia tecido; e também metal.

— Não sei — respondeu Jake.

— Você pegou no terreno, logo depois dos gritos de Susannah — disse Roland. — Eu o vi.

Jake assentiu.

— Sim, acho que talvez tenha pegado. Porque era o lugar onde estava a chave, antes.

— Que é isto, docinho?

— Uma espécie de saco. — Ergueu-o pelas tiras. — Eu diria que era meu saco de boliche, mas este ficou atrás, nas pistas, com a minha bola dentro. Em 1977.

— Que é que tem escrito no lado? — perguntou Eddie.

Mas ele não conseguiu decifrar. As nuvens mais uma vez tinham-se agregado, e não havia luar. Voltaram a pé para o acampamento, lentamente, trêmulos como inválidos, e Roland acendeu a fogueira. Então olharam para o texto no lado do saco de boliche rosa.

 

NADA ALÉM DE PONTOS NAS PISTAS DO MUNDO MÉDIO

 

Era o que dizia.

— Não está certo — disse Jake. — Quase, mas não muito. O que diz no meu saco é NADA ALÉM DE PONTOS NAS PISTAS DO CENTRO DA CIDADE. Timmy me deu quando acertei em cheio os pinos 2-8-2. Disse que eu não tinha idade suficiente pra me pagar uma cerveja.

— Um pistoleiro do boliche — disse Eddie, e balançou a cabeça. — As maravilhas nunca param, não é?

Susannah pegou o saco e correu os dedos pela superfície.

— Que tipo de tecido é este? Parece metal. E é pesado.

Roland, que tinha uma idéia da utilidade do saco, embora não quem nem o que o deixara para eles, disse:

— Ponha na sua mochila com os livros, Jake. E guarde tudo com muita segurança.

— Que vamos fazer em seguida? — perguntou Eddie.

— Dormir — disse Roland. — Acho que vamos ficar muito ocupados durante as próximas semanas. Temos de aproveitar nosso sono quando e onde o encontrarmos.

— Mas...

— Durmam — disse Roland, e estendeu suas peles.

Todos acabaram dormindo, e todos sonharam com a rosa. Exceto Mia, que se levantou na última hora escura da noite e saiu de mansinho para empanturrar-se no grande salão de banquete. E lá se banqueteou muito bem.

Afinal, comia por dois.

 

CONTANDO HISTÓRIAS

 

O Pavilhão

Se alguma coisa no passeio a cavalo por Calla Bryn Sturgis surpreendeu Eddie, foram a facilidade e a naturalidade com que ele se adaptou a montaria. Ao contrário de Susannah e Jake, que haviam cavalgado em acampamentos de verão, ele jamais sequer acariciara um cavalo. Quando ouvira o pocotó dos cascos a se aproximar na manha apos o que julgou ser o Todash Número Dois, sentira uma pontada de pavor. Não era andar a cavalo que temia nem os próprios animais, mas a possibilidade — diabos, a forte probabilidade — de parecer um idiota. Que tipo de pistoleiro jamais andara a cavalo?

Mas ainda assim encontrou tempo para trocar uma palavra com Roland, antes de os animais chegarem.

— Não foi a mesma coisa ontem a noite. Roland ergueu as sobrancelhas.

— Não foi 19 ontem à noite.

— Que quer dizer com isto?

— Não sei o que quero dizer.

— Eu também não sei — meteu-se Jake —, mas ele tem razão. Ontem à noite Nova York parecia a coisa verdadeira. Quer dizer, sei que entramos em todash, mas mesmo assim...

— Verdadeira — meditou Roland.

E Jake, sorrindo, disse:

— Verdadeira como as rosas.

 

Os Slightman encabeçavam o grupo de Calla desta vez, cada um trazendo duas montarias puxadas por longos cabrestos. Não havia nada de muito intimidador nos cavalos de Calla Bryn Sturgis, sem dúvida não eram muito parecidos com os que Eddie imaginara galopando pela Baixa no relato de Roland sobre os antigos mejis. Aqueles animais eram criaturas atarracadas, pernas robustas, com pelos desgrenhados e olhos grandes, inteligentes. Embora maiores que os potros de Shetland, nada tinham a ver com os garanhões de olhos ferozes que estivera esperando. Não apenas haviam sido seladas, mas cada uma das montarias trazia amarrado um conveniente colchonete.

Ao se encaminhar para o seu (não precisou que lhe dissessem qual era, ele sabia: o ruão, de pêlo branco malhado com manchas escuras e arredondadas), todas as suas dúvidas e receios se desfizeram. Eddie fez uma única pergunta, dirigida a Ben Slightman filho, após examinar os estribos.

— Estes vão ficar curtos demais para mim, Ben... pode me mostrar como encompridar?

Quando o jovem desmontou para fazê-lo ele mesmo, Eddie abanou a cabeça.

— É melhor que eu aprenda — disse, sem o menor constrangimento.

Enquanto o jovem lhe mostrava, percebeu que na verdade não precisava da lição. Viu como se fazia quase no momento mesmo em que Benny deslizou os dedos pelo estribo, revelando o tirante de couro atrás. Não se tratava de conhecimento oculto, inconsciente, e tampouco lhe pareceu uma coisa sobrenatural. Foi só isso, o cavalo uma realidade quente e fragrante diante de si, e ele entendeu como tudo funcionava. Só tivera uma única experiência exatamente igual aquela desde que chegara ao Mundo Médio, e fora a primeira vez em que amarrara uma das armas de Roland.

— Precisa de ajuda, doçura? — perguntou Susannah.

— Só me levante se eu cair do outro lado — grunhiu ele, mas claro que não fez nada disso. O cavalo manteve-se firme, oscilando o mínimo quando Eddie enfiou o pé no estribo e virou-se na sela preta simples feita na fazenda de gado.

Jake perguntou a Benny se tinha um poncho. O filho do capataz olhou em dúvida o céu nublado acima.

— Não acho mesmo que vá chover — respondeu. — É quase sempre assim durante os dias na época da colheita...

— Eu o quero para Oi.

Perfeitamente calmo, perfeitamente seguro. Ele se sente exatamente como eu, pensou Eddie. Como se houvesse feito isso milhares de vezes antes.

O rapazola retirou um impermeável enrolado de um de seus alforjes e entregou-o a Jake, que lhe agradeceu, vestiu-o e depois acomodou Oi no espaçoso bolso na frente, como uma bolsa de canguru. Tampouco houve sequer um protesto do trapalhão. Eddie pensou: Se eu dissesse a Jake que esperava que Oi trotasse atrás de nós, como um cão pastor, ele teria perguntado: “Ele sempre viaja assim?” Não... mas poderia pensar nisso.

Ao partirem, Eddie percebeu o que tudo aquilo lhe lembrava: as histórias que ouvira de reencarnação. Tentara afastar a idéia, resgatar o garoto prático, realista e resoluto do Brooklyn, criado a sombra de Henry Dean, e não conseguira muito seu intento. A idéia de reencarnação talvez fosse menos aflitiva se lhe houvesse ocorrido de cara, mas não. O que pensou foi que não podia ser da linhagem de Roland, simplesmente não podia. A não ser que Arthur Eld tivesse a certa altura parado perto de Co-Op City. Talvez para uma bala de canela e uma rosquinha frita de Dahlie Lundgren. Que burrice projetar uma idéia dessas pela capacidade de cavalgar sem aulas um cavalo obviamente dócil. Mas a idéia retornara-lhe em momentos ocasionais durante todo o dia, e o acompanhara até no sono na noite anterior: o Eld. A linhagem do Eld.

 

Almoçaram ao meio-dia na cela, e enquanto comiam sanduíches e tomavam café frio, Jake afrouxou o passo de sua montaria para ficar junto a de Roland. Do bolso do poncho, Oi espichou a cabeça com olhos brilhantes para o pistoleiro. Jake dava de comer ao trapalhão pedaços de seu sanduíche, e viam-se migalhas presas nos bigodes de Oi.

— Roland, posso falar com você como dinh? — Jake parecia meio sem graça.

— Claro. — Roland tomou o café e olhou para o garoto, interessado, balançando satisfeito para a frente e para trás na sela.

— Ben... isto é, os dois Slightman, mas principalmente o rapaz... perguntaram se eu gostaria de passar a noite com eles. La na Rocking B.

— Você quer ir? perguntou Roland.

As bochechas do garoto se ruborizaram.

— Bem, eu achei que se vocês estivessem na cidade com o Velho e eu lá no campo... no sul da cidade, entende... teríamos duas imagens diferentes do lugar. Meu pai diz que a gente não vê nenhuma coisa muito bem se só a olha de um ponto de vista.

— É a pura verdade — disse Roland, e desejou que nem sua voz nem sua expressão traíssem a tristeza e o remorso que de repente sentiu.

Ali estava um garoto que agora se sentia envergonhado por ser menino. Fizera um amigo, e o amigo o convidara para hospedar-se na casa dele, como às vezes fazem os amigos. Benny havia-lhe sem a menor dúvida prometido que ele poderia ajudar na alimentação dos animais, e talvez atirar com seu arco (ou bah, se este atira raios em vez de flechas). Haveria lugares que Benny gostaria de partilhar, lugares secretos a que talvez tivesse ido com sua irmã gêmea em outros tempos. Uma plataforma na árvore, quem sabe, ou um lago de peixes nos juncos especial para ele, ou um trecho da margem do rio onde se dizia que piratas de Eld haviam enterrado ouro e jóias. Esses tipos de lugares aonde meninos vão. Mas grande parte de Jake Chambers se sentia agora envergonhado por querer fazer essas coisas. Era a parte que fora despojada pelo zelador da Mansão em Dutch Hill, por Gasher, pelo Homem do Tiquetaque. E pelo próprio Roland, claro. Se dissesse não ao pedido de Jake agora — mesmo com o mínimo traço de indulgência na voz, por exemplo —, o garoto mudaria de idéia.

O garoto. O pistoleiro se deu conta do quanto gostaria de continuar chamando Jake assim, e de até que ponto o tempo para fazer isso ia ser favorável. Sentia um mau pressentimento sobre Calla Bryn Sturgis.

— Vá com eles depois que jantarem conosco no Pavilhão esta noite — disse Roland. — Vá e passe bem, como dizem por aqui.

— Tem certeza? Porque se achar que poderia precisar de mim...

— O ditado de seu pai é dos bons. Meu velho mestre...

— Cort ou Vannay?

— Cort. Ele nos dizia que um zarolho vê plano. São necessários dois olhos, meio separados um do outro, para ver as coisas como realmente são. Portanto, sim. Vá com eles. Faça do menino seu amigo, se isso parece natural. Ele parece bastante agradável.

— Ié — disse brevemente Jake. Mas o rubor descia-lhe mais uma vez pela face. Roland ficou feliz ao ver isso.

— Passe o dia de amanhã com eles. E os amigos dele, se tiver um bando com quem costuma andar.

Jake fez que não com a cabeça.

— Fica longe no campo. Ben disse que Eisenhart tem muita ajuda no lugar, e ha alguns garotos de sua idade, mas não o deixam brincar com eles. Porque é filho do capataz, imagino.

Roland assentiu. Isso não o surpreendeu.

— Vão-lhe oferecer aquela cerveja graf esta noite no Pavilhão. Preciso lhe dizer que vai ser chá gelado assim que fizermos o primeiro brinde?

Jake abanou a cabeça.

Roland tocou a têmpora, os lábios, o canto de um olho e mais uma vez os lábios.

— Cabeça clara. Boca fechada. Veja muito. Fale pouco.

Jake deu-lhe um breve sorriso e o polegar erguido.

— E vocês?

— Nós três vamos nos hospedar com o padre esta noite. Espero que amanhã a gente talvez possa ouvir a história dele.

— E ver... — Haviam ficado um pouco atrás dos outros, mas mesmo assim Jake baixou a voz. — Ver a coisa de que ele nos falou?

— Isto eu não sei — respondeu Roland. — Depois de amanhã, vamos os três partir a cavalo até a Rocking B. Talvez ao meio-dia nos encontraremos com sai Eisenhart e tenhamos uma pequena confabulação. Depois, durante os próximos dias, nos quatro vamos dar uma olhada nesta cidade, por dentro e por fora. Se tudo correr bem com você lá na fazenda, Jake, cuidarei para fique lá durante o tempo que quiser e que eles o recebam.

— Verdade? — Embora conservasse a expressão composta (enquanto o ouvia), o pistoleiro achou que Jake ficou muito satisfeito.

— Sim. Pelo que deduzo... o que percebo... há três grandes problemas em Calla Bryn Sturgis. Overholser é um deles. Took, o lojista, outro. O terceiro e Eisenhart. Vou querer saber com muito interesse o que você acha dele.

— Vai saber — disse Jake. — E obrigado-sai.

Deu três tapas na garganta. Depois sua seriedade desfez-se num largo sorriso. Um sorriso de menino. Incitou o cavalo a trotar, avançando para contar ao novo amigo que sim, ia poder passar a noite, sim, ia poder ficar e brincar.

 

— Nossa mãe! — exclamou Eddie.

As palavras saíram baixas e lentas, quase a exclamação de uma personagem de quadrinhos assombrada. Mas apos quase dois meses nas matas a paisagem justificava uma exclamação. E havia o elemento surpresa. Num momento, vinham apenas fazendo pocotó pela trilha da floresta, sobretudo a dois (Overholser cavalgava sozinho a frente do grupo, Roland, solitário, seguia-o atrás). No seguinte, as árvores haviam desaparecido e a própria terra se afastado para o norte, sul e leste. Foram assim presenteados com uma repentina vista, de tirar o fôlego e afundar o estômago, da cidade cujas crianças eles deviam salvar.

Mas a principio Eddie não tinha de modo algum olhos para o que se abria diretamente abaixo dele, e quando olhou para Susannah e Jake, viu que eles também olhavam além de Calla. Eddie não precisou desviar o olhar para Roland, para saber que também ele tinha a vista cravada na frente. Definição de um errante, pensou Eddie, um sujeito que esta sempre olhando além.

— Sim, uma belíssima paisagem, damos graças aos deuses — comentou Overholser, complacente; e, então, com uma olhada a Callahan: — Ao Homem Jesus, também, claro, todos os deuses são um só quando se trata de dar graças, assim eu ouvi, e este e um ditado bastante bom.

Ele poderia ter continuado a tagarelar. Na certa o fez; quando se era o grande fazendeiro de gado, a gente tinha em geral de fazer-se ouvir, e do começo ao fim. Eddie não prestou a mínima atenção. Retornara a atenção à paisagem.

Adiante deles, além da aldeia, via-se uma faixa cinzenta de rio correndo para o sul. O braço do grande rio conhecido como Devar-Tete Whye, lembrou-se Eddie. Onde saia da floresta, o Devar-Tete corria entre margens íngremes, mas baixavam quando o rio penetrava nos primeiros campos cultivados, depois desapareciam de todo. Ele viu alguns renques de palmeiras, verdes e destoantemente tropicais. Além da aldeia de dimensões moderadas, a terra a oeste do rio era um brilhante verde disparado por todo lado com mais cinza. Eddie teve certeza de que num dia ensolarado aquele cinza se transformava num resplandecente azul, e de que quando o sol estava a pino o clarão seria forte demais para se olhar. Contemplou os campos de arroz. Ou talvez a gente os chame de arrozais.

Além desses e a leste do rio ficava o deserto, estendendo-se por quilômetros. Eddie via riscos de metal correndo para dentro deles, e deduziu que eram trilhos de ferrovia.

E além do deserto — ou obscurecendo o resto dele — via-se apenas escuridão. Erguia-se no céu como uma muralha vaporosa, parecendo varar as nuvens que flutuavam baixas.

— O distante Trovão, sai — disse Zalia Jaffords.

Eddie assentiu com a cabeça.

— Terra dos Lobos. E Deus sabe do que mais.

— Yer, bugger — acrescentou Slightman filho.

Tentava parecer rude e prosaico, mas para Eddie parecia muito assustado, talvez a beira das lágrimas. Mas os Lobos não o levariam, com certeza... se nosso gêmeo morria, isto nos tornava um filho individual a revelia, não era assim? Bem, isso sem dúvida funcionou para Elvis Presley, mas claro que o Rei não viera de Calla Bryn Sturgis. Nem de Calla Lockwood ao sul.

— Nãão, o Rei era um garoto do Mississippi — disse Eddie, em voz baixa.

Tian virou-se na sela para olhá-lo.

— Como disse, sai?

Eddie, alheio a que falara em voz alta, respondeu:

— Desculpe-me. Estava falando comigo mesmo.

Andy, o Robô Mensageiro (multifuncional), chegou a passos largos do atalho adiante deles a tempo de ouvir isto:

— Os que mantém conversa consigo mesmos viram triste companhia. Este é um velho ditado de Calla, sai Eddie, eu lhe peço que não o tome pessoalmente.

— E, como disse antes e sem a menor dúvida tornarei a dizer, não se pode limpar o catarro de um paletó de camurça, meu amigo. Um velho ditado de Calla Bryn Brooklyn.

As entranhas de Andy estalaram. Os olhos azuis lampejaram.

— Catarro: muco do nariz. Também uma pessoa rabugenta. Camurça: produto de couro curtido que...

— Não ligue, Andy — interveio Susannah. — Meu amigo só esta sendo tolo. Faz isso com muita freqüência.

— Ah, sim — disse Andy. — É um filho do inverno. Gostaria que eu fizesse seu horóscopo, Susannah-sai? Vai encontrar um belo homem! Terá duas idéias, uma ruim e uma boa! Terá um de cabelos escuros...

— Fora daqui, seu idiota — disse Overholser. — Direto para a cidade, linha reta, nada de extravio. Verifique se esta tudo certo no Pavilhão. Ninguém quer saber de seus malditos horóscopos, peço seu perdão, Velho Camarada.

Callahan não deu qualquer resposta. Andy curvou-se, deu três tapas na garganta metálica e partiu de volta pela trilha, que era íngreme, mas de confortável largura. Susannah viu-o afastar-se com o que talvez fosse alívio.

— Foi um tanto duro com ele, não? — perguntou Eddie.

— Ele não passa de uma peça de maquinaria — respondeu Overholser, dividindo as últimas palavras em sílabas, como a falar com uma criança.

— E às vezes sabe ser irritante — disse Tian. — Mas me digam, sais, que acham de nossa Calla?

Roland conduziu devagar seu cavalo, pondo-o entre o de Eddie e o de Callahan.

— É muito linda — disse. — Sejam quais forem os deuses, eles favoreceram este lugar. Vejo milho, tubérculos, feijão e... batatas? São batatas ali?

— Sim, são batatas, sim — respondeu Slightman, claramente contente com o olho de Roland.

— E adiante fica todo aquele magnífico arroz — disse Roland.

— Todas as pequenas propriedades junto ao rio — disse Tian —, onde a água é doce e lenta. E sabemos como somos afortunados. Quando o arroz fica pronto, para plantar ou para colher, todas as mulheres se juntam. Há cantoria nos campos, e até dança.

— Vem-vem a commala — disse Roland. Pelo menos foi o que Eddie ouviu.

Tian e Zalia se iluminaram de surpresa e reconhecimento. Os Slight-man trocaram um olhar e sorriram.

— Onde foi que ouviu “A Balada do Arroz”? — perguntou o mais velho. — Quando?

— Na minha casa — respondeu Roland. — Há muito tempo. Vem-vem a commala, brote, brote o arroz, ô camaradas. — Apontou para oeste, distante do rio. — Lá esta a maior fazenda, mergulhada no trigo. É a sua, sai Overholser?

— É sim, sai, obrigado.

— E além, para o sul, mais fazendas... e depois as de pasto. Aquela é de gado... aquela lá, ovelha... aquela outra, gado... mais gado... mais ovelha.

— Como pode saber a diferença de tão longe? — perguntou Susannah.

— As ovelhas comem a grama mais perto da terra, dama-sai — disse Overholser. — Assim, onde você vê as manchas de terra marrom-claro, é a terra de pasto das ovelhas. As outras... o que vocês chamariam de ocre, imagino, é o pasto do gado.

Eddie pensou em todos os filmes de faroeste que vira no Majestic: Clint Eastwood, Paul Newman, Robert Redford, Lee Van Cleef.

— Na minha terra, contam lendas de guerras serranas entre os criadores de gado e os criadores de ovelha — disse. — Porque, diziam, as ovelhas comiam a grama rente demais. Arrancavam até as raízes, vocês sabem como é, de modo que não tornaria a crescer.

— Isso é uma tolice completa, com o seu perdão — disse Overholser. — As ovelhas de fato ceifam rente, sim, mas depois mandamos as vacas ate lá pra aguar. O estrume que elas defecam e cheio de raízes.

— Ah — disse Eddie.

Não pode pensar em nenhuma outra coisa. Explicada assim, toda a idéia de guerras entre os criadores parecia requintadamente estúpida.

— Vamos indo — disse Overholser. — A luz do dia está se dissipando, está sim, e há um banquete preparado para nos no Pavilhão. Toda a cidade vai estar lá para receber vocês.

E para nos dar uma boa examinada, também, pensou Eddie.

— Mostre o caminho — disse Roland. — Podemos estar lá no final do dia. Ou estou enganado?

— Não — respondeu Overholser, lançando então os pés nos lados do cavalo e puxando-lhe bruscamente a cabeça em volta (só ver isso fez Eddie estremecer). Partiu à frente pelo caminho. Os outros o seguiram.

 

Eddie nunca esqueceu esse encontro com a Calla folken; era uma lembrança sempre de fácil alcance. Pois tudo que aconteceu foi uma surpresa, imaginava, e quando tudo e uma surpresa, a experiência adquire uma característica onírica. Lembrava-se de como as tochas mudavam quando se falava — a luz estranha e variada. Lembrava-se da inesperada saudação à multidão. Os rostos voltados para cima, seu pânico sufocante e a raiva que sentiu de Roland. Susannah içando-se sozinha ao banco do piano, no que os locais chamavam de música. Ah, sim, sempre essa lembrança. Pode apostar. Porém, ainda mais vívida que sua lembrança dos entes queridos era a do pistoleiro.

A de Roland dançando.

Mas antes de vir qualquer dessas coisas, veio o passeio pela rua Alta de Calla, e seu senso de pressentimento. Sua premonição de dias ruins a caminho.

 

Chegaram à cidade propriamente dita uma hora antes do por do sol. As nuvens se separaram e deixavam passar a última luz vermelha do dia. A rua estava vazia. A superfície estava impregnada de óleo. Os cascos dos cavalos faziam baques abafados na massa compacta marcada de rodas. Eddie viu uma estrebaria, um lugar chamado Repouso dos Viajantes, que parecia uma combinação de pensão e restaurante, e, na extremidade da rua, um prédio de dois andares que só podia ser o Salão da Assembléia de Calla. Afastado, a direita deste, o clarão das tochas, assim ele imaginou que pessoas esperavam ali, mas na extremidade norte da cidade, por onde eles entraram, não havia ninguém.

O silêncio e as largas calcadas vazias começaram a dar-lhe arrepios. Lembrou-se da história de Roland sobre o percurso final de Susan dentro de Mejis na parte de trás de uma carroça, em pé com as mãos amarradas na frente e um laço corrediço ao pescoço. A rua dela também estivera vazia. A princípio. Depois, não longe do cruzamento da Grande Estrada com a estrada do Rancho de Silk, Susan e seus captores haviam passado por um único fazendeiro, um homem que Roland descrevera como tendo olhos de abatedor de ovelhas. Depois ela seria bombardeada com legumes c paus, até com pedras, mas aquele fazendeiro solitário fora o primeiro, ali parado com a mão cheia de cascas de milho, que jogou quase com delicadeza nela quando passou a caminho de... bem, a caminho da árvore de charyou, a Feira da Colheita do Povo Antigo.

Enquanto cavalgavam para Calla Bryn Sturgis, Eddie não parou de esperar aquele homem, aqueles olhos de abatedor de ovelhas, e o punhado de cascas de milho. Porque aquela cidade lhe dava a impressão de ruim. Não má — maus como os mejis na certa haviam sido na noite da morte de Susan Delgado —, mas má de uma forma mais simples. Má como má sorte, mas escolhas, maus presságios. Mau ka, talvez. Curvou-se para Slightman pai.

— Onde diabos esta todo mundo, Ben?

— Lá adiante — disse Slightman, e apontou para o clarão das tochas.

— Por que estão tão quietos? — perguntou Jake.

— Eles não sabem o que esperar — disse Callahan. — Os forasteiros que de fato vemos de vez em quando são o ocasional mascate, malfeitor, jogador... ah, e os mercados flutuantes do lago que às vezes param no alto verão.

— Que é um mercado flutuante do lago? — perguntou Susannah.

Callahan descreveu uma chata larga a vapor, movida a roda propulsora e alegremente pintada, coberta de lojinhas. Estas prosseguiam devagar pelo Devar-Tete Whye abaixo, parando em Callas do Meio Crescente até todas as suas mercadorias acabarem. A maior parte não passa de artigos inferiores, disse Callahan, mas Eddie não teve certeza se confiava inteiramente nele, pelo menos no que se referia aos mercados flutuantes do lago; ele falava com a aversão quase inconsciente dos religiosos antigos.

— E os outros forasteiros vêm para roubar seus filhos — concluiu Callahan. Apontou para a esquerda, onde um comprido prédio de madeira parecia ocupar quase metade da rua Alta. Eddie contou não dois ou quatro corrimãos aos quais amarrar animais, mas oito. Dos longos. — O Armazém Geral de Took, que lhes faca bem — acrescentou, com o que talvez fosse sarcasmo.

Chegaram ao Pavilhão. Eddie mais tarde calculou o número de presentes em setecentos ou oitocentos, mas quando os viu pela primeira vez — uma massa de chapéus, toucas, botas e mãos calejadas abaixo da longa luz vermelha do sol do cair da tarde daquele dia — a multidão parecia enorme, inenarrável.

Eles vão jogar bosta em nós, pensou. Jogar bosta em nós e gritar: “Árvore de Charyou.” Embora ridícula, a idéia também era forte.

A Calla folken afastou-se recuando para os dois lados, criando uma passarela de relva verde que levava a uma plataforma suspensa de madeira. Contornando em círculo o Pavilhão, viam-se tochas presas em gaiolas de ferro. A essa altura, continuavam todas emitindo uma chama amarela bastante comum. O nariz de Eddie captou o forte mau cheiro de óleo.

Overholser desmontou. O mesmo fizeram os demais do grupo. Eddie, Susannah e Jake olharam para Roland, sentado como estava por um momento, curvado levemente para a frente, um dos braços lançado sobre a parte mais alta da sela, parecendo perdido nos próprios pensamentos. Então ele tirou o chapéu e estendeu-o para a multidão. Bateu na garganta três vezes. A multidão murmurou. De apreciação ou surpresa? Eddie não soube dizer. Não com raiva, contudo, decididamente não com raiva, e isso era bom. O pistoleiro ergueu um pé calçado de bota por cima da sela e desmontou com ligeireza. Eddie saltou do cavalo com mais cuidado, cônscio de todos os olhos cravados nele. Pendurara o arreio de Susannah antes, e agora se punha de costas ao lado da montaria dela. A multidão murmurou mais uma vez quando viu que lhe faltavam as pernas desde pouco acima dos joelhos.

Overholser avançou a passos vivos pela abertura, apertando algumas mãos ao longo do caminho. Callahan encaminhou-se diretamente atrás dele, desenhando de vez em quando o sinal-da-cruz no ar. Outras mãos estenderam-se da multidão para segurar os cavalos. Roland, Eddie e Jake seguiram lado a lado. Oi continuava no largo bolso da frente do poncho que Benny emprestara a Jake, olhando em volta, desinteressado.

Eddie percebeu que na verdade sentia o cheiro da multidão — suor, cabelos, pele queimada de sol e o ocasional borrifo do que as personagens nos filmes de faroeste em geral chamavam (com desprezo semelhante ao de Callahan pelos mercados flutuantes do lago) de “mijo”. Também sentia cheiro de comida: carne de porco e bife, pão fresco, cebola frita, café e folhas. Embora seu estômago roncasse, ele não estava com fome. Não, com fome mesmo, não. A idéia de que o caminho por onde andavam ia desaparecer e aquelas pessoas se fechando a volta deles não lhe deixava a mente. Eram tão caladas! Em algum lugar próximo, ele ouviu os primeiros noitibós e curiangos sintonizando-se para a noite.

Overholser e Callahan subiram até a plataforma. Eddie ficou alarmado ao ver que nenhum dos outros do grupo que saíra para encontrá-los fez o mesmo. Mas Roland galgou sem hesitação os três largos degraus de madeira. Eddie seguiu-o, consciente de que seus joelhos estavam meio fracos.

— Tudo bem com você? — murmurou Susannah em seu ouvido.

— Até aqui.

À esquerda da plataforma havia um palco redondo com sete homens, todos vestindo camisas brancas, calcas jeans azuis e faixas na cinta. Eddie reconheceu os instrumentos que seguravam, e embora o bandolim e o banjo o fizessem achar que a musica na certa iria ser da variedade chuta-bosta, a visão deles era tranqüilizadora. Não se contratavam bandas para tocar em sacrifícios humanos, contratavam-se? Talvez só um ou dois tocadores de tambor, para assustar os espectadores.

Eddie voltou-se para encarar a multidão com Susannah nas costas. Desanimou-o ver que a passagem que se abrira no fim da rua Alta agora de fato desaparecera. Rostos erguiam-se para olhá-lo. Mulheres e homens, velhos e moços. Sem nenhuma expressão nos semblantes, nem crianças entre eles. Rostos que passavam quase o tempo todo ao sol e tinham as fissuras para prová-lo. Aquela sensação de pressentimento não o largava.

— Ponha-me no chão, Eddie — disse Susannah, baixinho. Embora não gostasse da idéia, ele a pôs.

— Sou Wayne Overholser, da fazenda Seven-Mile — disse Overholser, avançando até a borda do palco com a pena na frente. — Eu peço agora que me ouçam.

— Nós agradecemos-sai — eles murmuraram.

Overholser virou-se e estendeu uma das mãos para Roland e seu tet, ali em pé, as roupas manchadas da viagem (Susannah não em pé, exatamente, mas sentada entre Eddie e Jake nos quadris e apoiada numa das mãos). Eddie achava que jamais se sentira examinado com tamanha ansiedade.

— Nós, Calla folken, ouvimos Tian Jaffords, George Telford, Diego Adams e todos os demais que falaram no Salão da Assembléia — disse Overholser. — Ali eu mesmo falei. “Eles vão vir e levar as crianças”, disse, me referindo aos Lobos, claro: “Depois vão nos deixar mais uma vez em paz por uma geração ou mais tempo. Assim é, assim tem sido, e minha opinião é que deixem isso pra lá.” Agora acho que aquelas palavras talvez tenham sido meio apressadas.

Murmúrio da multidão, suave como uma brisa.

— Naquela mesma assembléia, ouvimos père Callahan dizer que havia pistoleiros ao norte de nós.

Outro murmúrio. Este foi um pouco mais alto. Pistoleiros... Mundo Médio... Gilead.

— Ficou decidido entre nos que um grupo devia ir ver. Foi essa gente que encontramos, foi sim. Eles afirmam ser o que père Callahan disse que eram. — Overholser agora parecia desconfortável, quase como se reprimindo um traque. Eddie vira essa expressão antes, sobretudo na TV, quando políticos confrontados com algum fato e que não podiam demonstrar mal-estar eram obrigados a retroceder. — Eles afirmam ser do mundo extinto. Quer dizer...

Continue, Wayne, pensou Eddie, desembuche. Você pode.

—... quer dizer, da linhagem de Eld.

— Os deuses sejam louvados — esganiçaram-se algumas mulheres. — Os deuses os mandaram para salvar nossos bebes, mandaram sim!

Ouviram-se xius. Overholser esperou o silencio com uma expressão atormentada no rosto.

— Eles podem falar por si mesmos... e devem... mas já vi o suficiente para crer que talvez tenham condições de ajudar-nos com nosso problema. Portam boas armas, como vocês podem ver, e sabem usá-las. Acertei meu relógio e garanto, e agradeçam.

Desta vez o murmúrio da multidão foi mais alto, e Eddie sentiu boa vontade nele e relaxou um pouco.

— Tudo bem, então, que eles se apresentem a vocês, um por um, para que possamos ouvir suas vozes e ver muito bem seus rostos. Este é o dinh deles. — Ergueu a mão para Roland.

O pistoleiro avançou. O pôr do sol vermelho deixava-lhe o lado esquerdo da face em chamas; o direito, tingido de amarelo com o lume da tocha. Deu um passo a frente. O baque do salto da bota surrada nas tábuas foi muito claro no silêncio; sem motivo algum, Eddie pensou num .punho batendo na tampa de um caixão. Roland curvou-se até embaixo, palmas abertas estendidas para eles.

— Roland de Gilead, filho de Steven — disse. — A Linhagem de Eld.

Todos suspiraram.

— Que o recebam bem. — Ele recuou um passo e deu uma olhada a Eddie.

Aquela parte ele podia fazer.

— Eddie Dean, de Nova York — disse. — Filho de Wendell. — Pelo menos é isto que mamãe sempre afirmou, pensou. Então, sem ter consciência de que ia dizê-lo: — A Linhagem de Eld. O ka-tet do 19.

Deu um passo atrás, e Susannah avançou até a borda da plataforma. Costas eretas, olhando-os calmamente, disse:

— Sou Susannah Dean, mulher de Eddie, filha de Dan, a Linhagem de Eld, o ka-tet do 19, que sejamos bem recebidos e vocês passem bem. — Fez uma mesura, erguendo os lados da saia imaginaria.

Diante disso, ouviram-se risadas e aplausos.

Enquanto ela proferia sua apresentação, Roland curvou-se para sussurrar alguma coisa breve no ouvido de Jake. Ele assentiu e depois se adiantou, confiante. Parecia muito jovem e belo à luz final do dia.

Estendeu o pé e curvou-se sobre ele. O poncho projetou-se comicamente para a frente com o peso de Oi.

— Sou Jake Chambers, filho de Elmer, a Linhagem de Eld, o ka-tet do 99.

Noventa e Nove? Eddie olhou para Susannah, que lhe ofereceu um mínimo encolher de ombros. Que merda e esta de 99? Então pensou, que diabos. Ele também não sabia o que era o ka-tet do 19, e o dissera.

Mas Jake não havia terminado. Ergueu Oi do bolso do poncho de Ben Slightman. A multidão murmurou a visão do animal. Jake lançou uma rápida olhada a Roland que perguntava... Tem certeza?... e Roland assentiu com a cabeça.

A princípio, Eddie não achou que o amiguinho peludo ia fazer alguma coisa. Calla folken, mais uma vez, havia-se calado totalmente, tão mudos que desta vez se voltou a ouvir com grande nitidez o canto vespertino dos pássaros.

Então Oi ergueu-se em suas pernas traseiras, esticou uma delas para a frente e realmente se curvou sobre ela. Oscilou, mas manteve o equilíbrio. Estendia a patinha preta com a palma virada para cima, como a de Roland. Houve arquejos, risadas, aplausos. Jake parecia estupefato.

— Oi! — disse o trapalhão. — Eld! Agadeço!

Cada palavra clara. Manteve a vênia por mais um instante, caiu então sobre as quatro patas e saiu correndo alegre para junto de Jake. O aplauso foi estrondoso.

De um gesto brilhante e simples, Roland (pois, quem mais, pensou Eddie, poderia ter ensinado o trapalhão a fazer aquilo) tornara aquelas pessoas amigas e admiradoras. Por esta noite, ao menos.

Assim, essa foi a primeira surpresa: Oi fazendo uma reverência para o Calla folken e declarando-se ele mesmo an-tet com seus companheiros viajantes. A segunda veio logo em cima.

— Não sou orador — disse Roland, avançando mais uma vez. — Minha língua se enrola mais que a de um bêbado na Noite da Colheita. Mas tenho certeza de que Eddie vai nos brindar com uma palavra.

Foi a vez de Eddie ficar estupefato. Abaixo deles, a multidão aplaudia e batia apreciativamente os pés no chão. Houve gritos de Graças-sai. Fale bem e Escutem ele, escutem ele. Até a banda entrou no número, tocando um floreio capenga, mas alto.

Eddie teve tempo de fuzilar Roland com um único olhar frenético e furioso. Por que caralho está fazendo isto comigo? O pistoleiro retribuiu-lhe olhar com brandura, cruzando depois os braços no peito.

O aplauso se extinguia. Assim como sua raiva, substituída por terror. Overholser observava-o com interesse, os braços cruzados em imitação consciente ou inconsciente de Roland. Abaixo dele, Eddie via alguns rostos individuais na frente da multidão: os Slightman, os Jaffords. Olhou para o outro lado e lá estava Callahan, os olhos azuis apertados. Acima destes, a irregular cicatriz cruciforme na testa parecia brilhar intensamente.

Que porra se espera que eu diga a eles?

Melhor dizer alguma coisa, Eddie, falou mais alto a voz de Henry. Eles estão esperando.

— Perdão se sou um pouco lento para dar a partida — disse. — Percorremos quilômetros e voltas e mais quilômetros e voltas, e vocês são a primeira gente que vemos em vários...

Vários o quê? Semana, mês, ano, década?

Eddie riu. Parecia a si mesmo o maior idiota do mundo, um cara em que não se podia confiar para controlar o próprio pau na hora de mijar, quanto mais uma arma.

— Em várias luas azuis.

Todos riram disso, e com vontade. Alguns chegaram até a aplaudir. Ele tocara o senso de humor da cidade sem se dar conta. Relaxou, e quando o fez se viu falando com bastante naturalidade. Ocorreu-lhe, só de passagem, que não muito tempo atrás o pistoleiro armado em pé ali diante daquelas setecentas pessoas assustadas, esperançosas, estivera sentado em frente da TV, apenas de cueca amarela, comendo Chee-tos, derrubado pela heroína, e vendo Zé Colméia.

— Viemos de muito longe — disse ele — e ainda temos uma grande distância a percorrer. Nosso tempo aqui será breve, mas faremos o que pudermos, eu peço que me escutem.

— Continue, estranho! — gritou alguém. — São belas as suas palavras!

Ié mesmo?, pensou Eddie. Novidade pra mim, cara.

Alguns gritos de Ié e São, sim.

— Os curandeiros em meu baronato tem um ditado — contou-lhes Eddie. — “Primeiro, não façam mal algum.” — Ele não tinha certeza se era um lema de advogado ou um lema de médico, mas o ouvira em muitos filmes e programas de TV, e parecia danado de bom. — Nós não faremos mal algum aqui, saibam vocês, mas ninguém jamais arrancou uma bala, nem sequer uma farpa da unha do dedo de um garoto, sem derramar algum sangue.

Ouviram-se murmúrios de concordância. Overholser, contudo, exibia a expressão indecifrável de jogador de pôquer, e na multidão Eddie viu olhares de dúvida. Sentiu um surpreendente jorro de raiva. Não tinha o menor direito de sentir raiva daquelas pessoas, que não lhe haviam feito absolutamente mal algum, nem lhes haviam recusado absolutamente nada (pelo menos até então), mas mesmo assim sentiu.

— Temos outro ditado no baronato de Nova York — disse-lhes. — “Ninguém come de graça.” Pelo que sabemos, a situação de vocês é séria. Resistir e lutar contra esses Lobos seria perigoso. Mas às vezes não fazer nada faz as pessoas se sentirem enojadas e famintas.

— Escutem ele, escutem ele! — gritou o mesmo sujeito atrás na multidão. Eddie viu o robô Andy lá no fundo, e perto dele uma grande carroça cheia de homens com volumosas capas pretas ou azul-escuras. Ele supôs que fossem mannis.

— Examinaremos o lugar em volta, e assim que entendermos o problema, vamos ver o que pode ser feito. Se acharmos que a resposta é não, nós tocaremos a aba de nossos chapéus e seguiremos adiante.

Duas ou três fileiras atrás, estava um homem de chapéu surrado de caubói branco. Tinha sobrancelhas brancas desgrenhadas e um bigode branco combinando. Eddie achou que ele se parecia um pouco com o pai Cartwright naquele antigo seriado de TV, Bonanza. Aquela versão do patriarca Cartwright não parecia muito encantada com o que Eddie dizia.

— Se pudermos ajudar, ajudaremos — continuou, agora com a voz inteiramente neutra. — Mas não faremos isso sozinhos, camaradas. Peço que me escutem. Escutem muito bem. É melhor que defendam o que precisam. É melhor que estejam prontos para lutar pelas coisas que conservaram.

Com isto, bateu um dos pés esticado para a frente — o mocassim que usava não produziu a mesma batida de punho fechado na tampa de caixão, mas ele pensou nisso de qualquer modo... e curvou-se. Fez-se um silêncio mortal. Então Tian Jaffords começou a aplaudir. Zalia juntou-se a ele. Benny também aplaudiu. Seu pai cutucou-o, mas o garoto continuou aplaudindo, e após um momento o velho Slightman também.

Eddie lançou um olhar faiscante a Roland. A expressão suave do pistoleiro não se alterou. Susannah puxou-lhe a perna da calça e Eddie curvou-se para ela.

— Saiu-se muito bem, amor.

— Não graças a ele. — Eddie indicou Roland com a cabeça.

Mas agora que chegara ao fim, sentia-se surpreendentemente bem. E sabia que falar não era mesmo o forte de Roland. Podia fazê-lo quando não tinha apoio algum, mas não dava importância àquilo.

Então agora você sabe o que é, pensou. O porta-voz de Roland de Gilead.

E no entanto isso era tão ruim assim? Não cumprira Cuthbert Allgood a mesma função muito antes dele?

Callahan adiantou-se.

— Talvez pudéssemos recebê-los um pouco melhor do que fizemos, meus amigos... dar-lhes as verdadeiras boas-vindas de Calla Bryn Sturgis. Ele começou a aplaudir. A gente reunida juntou-se imediatamente desta vez. O aplauso foi longo e vigoroso. Ouviram-se vivas, assobios, batidas de pés (a batida de pés um tanto menos satisfatória sem um piso de madeira para amplificar o ruído). A bandinha tocou não apenas um floreio, mas toda uma série deles. Susannah segurou uma das mãos de Eddie. Jake a outra. Os quatro curvaram-se em sinal de cortesia como algum grupo de rock ao final de uma apresentação, e os aplausos redobraram.

Por fim, Callahan silenciou-os erguendo as mãos.

— Trabalho sério pela frente, pessoal — disse. — Coisas sérias em que pensar, coisas sérias a fazer. Mas, por ora, vamos comer. Mais tarde, dançar, cantar e alegrarmo-nos. — Recomeçaram a aplaudir novamente e Callahan mais uma vez os silenciou. — Chega! — gritou, rindo. — E vocês, mannis aí atrás, sei que trazem suas próprias rações, mas não há motivo algum na terra para que não comam e bebam o que tem conosco. Juntem-se a nós, façam isso, sim! Que passem bem!

Que nos livre a todos, pensou Eddie, e ainda assim aquela sensação de pressentimento não o deixava. Era como um convidado parado na periferia do grupo, logo além do brilho das tochas. E era como um ruído. O salto de bota num piso de madeira. Um punho na tampa de um caixão.

 

Embora houvesse bancos e longas mesas de cavalete, só os mais velhos comeram seus jantares sentados. E que famoso jantar foi, com literalmente duzentos pratos entre os quais escolher, a maioria comida caseira e deliciosa. Os procedimentos começaram com um brinde a terra de Calla. Foi proposto por Vaughn Eisenhart, que se ergueu com uma caneca cheia até a borda numa das mãos e a pena na outra. Eddie julgou que talvez aquela fosse a versão do Crescente do Hino Nacional.

— Que ela sempre esteja bem! — gritou o rancheiro, e esvaziou sua caneca de graf num longo gole. Eddie admirou a goela do homem, quando nada; a cerveja de maca de Calla Bryn Sturgis era tão forte que só cheirá-la fez seus olhos lacrimejarem.

— BEBAM! — responderam os presentes, dando vivas e bebendo.

Naquele momento, as tochas que contornavam o Pavilhão ficaram da cor rubro-escura do sol que havia pouco se fora. A multidão exclamou oohhs, aahhs e aplaudiu. Quanto à tecnologia, Eddie achou que não se justificava tamanha admiração — certamente não se comparava ao Mono Blaine, ou aos computadores bipolares que governavam Lud —, mas projetava uma linda luz sobre a multidão e parecia inócua. Ele aplaudiu com os demais. Susannah também. Andy trouxera-lhe e desdobrara a cadeira de rodas com uma cortesia (também oferecera falar-lhe do belo estranho que logo iria conhecer). Agora ela a girava avançando com um prato de comida no colo no meio dos grupinhos de pessoas, papeando aqui, seguindo adiante, e mais uma vez papeando ali, seguindo adiante. Eddie deduziu que ela tivera sua cota de coquetéis não muito diferentes daquele, e sentiu um certo ciúme de sua desenvoltura.

Começou a notar crianças na multidão. Parecia que os locais haviam decidido que os visitantes não iam apenas sacar seus paus-de-fogo e iniciar um massacre. Permitiu-se que a garotada mais velha perambulasse sozinha. Circulavam em bandos protetores que Eddie se lembrava de sua própria infância, recolhendo volumosas quantidades de comida das mesas (embora nem sequer os apetites de adolescentes vorazes chegassem a causar uma mossa naquela fartura). Eles observavam os de fora, mas nenhum ousava aproximar-se.

As crianças pequenas permaneciam junto aos pais. As da dolorosa idade intermediária amontoavam-se em volta do escorrega, dos balanços e do intricado trepa-trepa na extremidade mais afastada do Pavilhão. Algumas usavam a construção, mas a maioria apenas olhava a festa com os olhos perplexos daqueles que são de algum modo apanhados desprevenidos. O coração de Eddie foi para elas. Ele viu quantos pares formados — era misterioso — e deduziu que eram aquelas crianças perplexas, apenas um pouco grandes demais para usar o equipamento do playground, que dariam o maior número aos Lobos... se eles concedessem permissão aos Lobos para fazerem a coisa de sempre, só isso. Não viu nenhum dos roont, e imaginou que haviam sido deliberadamente mantidos separados, para não sombrear a festa. Eddie até entendia isso, mas esperava que estivessem tendo sua própria festa em algum lugar. (Mais tarde, descobriu que foi exatamente o que ocorreu — cookies e sorvetes atrás da igreja de Callahan.)

Jake teria se encaixado perfeitamente no grupo intermediário de crianças, fosse ele de Calla, mas claro que não era. E fizera um amigo que lhe caia sob medida: mais velho em idade, mais novo em experiência. Os dois circulavam de mesa a mesa, ciscando ao acaso. Oi seguia atrás de Jake bastante contente, sempre balançando a cabeça de um lado para outro, Eddie não tinha a menor dúvida de que se alguém fizesse um gesto agressivo em direção a Jake de Nova York (ou de seu novo amigo Benny de Ha), o sujeito ia ver que lhe faltavam dois dedos. A certa altura, viu os dois garotos se entreolharem, e embora não houvessem trocado uma palavra desataram a rir no mesmo momento. E isso fez Eddie lembrar-se tão convincentemente de suas próprias amizades da infância que lhe doeu.

Não que pudesse permitir-se muito tempo para introspecção. Sabia pelos relatos de Roland (e por tê-lo visto em ação algumas vezes) que os pistoleiros de Gilead haviam sido muito mais que oficiais da paz. Também eram mensageiros, guarda-livros, às vezes espiões, de vez em quando até executores. Mais que tudo, porém, haviam sido diplomatas. Eddie, criado pelo irmão e amigos com pepitas de sabedoria como: Por que não pode me comer como faz sua irmã e Eu fodi sua mãe e claro que ela foi ótima, para não mencionar a sempre popular: Não me calo, cresço, e quando olho pra você, vomito, jamais se julgaria um diplomata, mas no geral achou que se portava muito bem. Só Telford foi grosso, mas a banda fechou-lhe a matraca, graças.

Sabia Deus que era um caso de afundar ou nadar; a Calla folken podia sentir medo dos Lobos, mas não se acanhava quando chegava para perguntar como Eddie e os outros de seu tet iam cuidar deles. Eddie se deu conta de que Roland lhe fizera um grande favor, forçando-o a falar diante de todo o bando deles. O que o aqueceu um pouco para isso.

Dizia a todos as mesmas coisas, repetidas vezes. Seria impossível falar de estratégia antes de haverem dado uma boa olhada na cidade. Impossível dizer quantos homens de Calla seriam necessários para juntar-se a eles. O tempo mostraria. Eles espreitariam a luz do dia. Haveria água se Deus quisesse. Mais todos os outros clichês que ocorriam. (Até lhe passou pela mente prometer-lhes uma galinha em cada panela depois que os Lobos fossem vencidos, mas segurou a língua antes que fosse tão longe.) O fazendeiro de uma pequena propriedade chamado Jorge Estrada quis saber o que eles fariam se os Lobos decidissem por fogo na aldeia. Outro, Garrett Strong, pediu que Eddie lhes dissesse onde as crianças seriam mantidas em segurança quando os Lobos chegassem.

— Pois não podemos deixá-las aqui, como você deve saber muito bem — disse.

Eddie, que percebeu que sabia muito pouco, sorveu sua cerveja e foi evasivo. Um sujeito chamado Neil Faraday (Eddie não soube dizer se era dono de uma pequena propriedade ou apenas um trabalhador braçal) aproximou-se e disse-lhe que tudo aquilo já tinha ido longe demais.

— Eles nunca levam todas as crianças, você sabe.

Eddie pensou em perguntar a Faraday o que ele pensaria de alguém que dissesse: “Bem, só dois deles estupraram minha mulher”, e decidiu guardar o comentário para si mesmo. Um sujeito de pele escura, bigodudo, chamado Louis Haycox, apresentou-se e disse a Eddie que decidira que Tian Jaffbrds tinha razão. Passara várias noites insones desde a assembléia, pensando bem em tudo, e havia finalmente decidido que ia levantar-se e lutar. Se o quisessem, era isso. A combinação de sinceridade e terror que Eddie viu na expressão do homem tocou-o profundamente. Não era nenhum rapazola excitado que não sabia o que estava fazendo, mas um adulto maduro que na certa sabia tudo bem demais. Assim, ali eles chegavam com suas perguntas e se iam sem quaisquer respostas verdadeiras, porém parecendo apesar disso mais satisfeitos. Eddie falou ate ficar com a boca seca, depois trocou a caneca de madeira com graf por chá gelado, não querendo se embriagar. Também não queria comer mais; estava empanturrado. Mas eles ainda continuaram chegando. Cash e Estrada. Strong e Echeverria. Winkler e Spalter (primos de Overholser, disseram). Freddy Rosario e Farren Posella... ou era Freddy Posella e Farren Rosario?

A cada dez ou 15 minutos, as tochas mudavam mais uma vez de cor. De vermelho para verde, de verde para laranja, de laranja para azul. Os jarros de graf circulavam. A conversa ficou mais alta. Assim como as risadas. Eddie passou a ouvir gritos mais freqüentes de Yer-bugger e alguma coisa que soava como Vá fundo!, sempre seguidos de gargalhadas.

Viu Roland conversando com um velho de capa azul. O ancião tinha a barba mais espessa, mais longa e mais branca que já vira fora de um épico bíblico de TV. Ele falava serio, encarando o rosto de Roland, maltratado pela intempérie. Uma vez tocou no braço do pistoleiro, puxou-o um pouco. Roland escutava, assentia, nada dizia — em todo caso, não enquanto Eddie o observava. Mas ele esta interessado, pensou Eddie. Ah, esta — o velho compridão e feio ouvia alguma coisa que lhe interessava muito.

Os músicos voltavam em bando para o coreto, quando mais alguém avançou para Eddie. Era o sujeito que o fizera lembrar-se de pai Cartwright.

— George Telford — disse. — Que passe bem, Eddie de Nova York.

Deu em sua testa um tapa superficial com o lado do punho fechado, depois abriu a mão e estendeu-a. Usava acessório de cabeça de um rancheiro, um chapéu de caubói em vez do sombreiro de rancheiro, mas a palma da mão parecia admiravelmente macia, a não ser por uma linha de calos correndo na base dos dedos. É aí que segura as rédeas, pensou Eddie, e quando se põe a trabalhar, na certa é isso.

Eddie fez-lhe uma pequena mesura.

— Longos dias e belas noites, sai Telford.

Ocorreu-lhe perguntar se Adam, Hoss e Little Joe, de Bonanza, estavam de volta na Ponderosa, mas decidiu de novo manter sua boca sabichona calada.

— Que você tenha tudo isso em dobro, filho, em dobro. — Olhou a arma na coxa e depois o rosto de Eddie. Tinha os olhos astuciosos e não particularmente amistosos. — Seu dinh usa o par desta, percebo.

Eddie sorriu, mas nada disse.

— Wayne Overholser contou que seu ka-babby apresentou uma senhora exibição de tiroteio com outra arma. Creio que sua mulher a esta usando esta noite?

— Creio que sim — disse Eddie, não ligando muito para aquela coisa de ka-babby.

Sabia muito bem que Susannah tinha a Ruger. Roland decidira que seria melhor se Jake não fosse armado para a Rocking B de Eisenhart.

— Quatro contra quarenta seria um grande esforço, não acha? — perguntou Telford. — Sim, senhor, seria um esforço da pesada. Ou talvez sejam sessenta chegando do leste; ninguém parece se lembrar com certeza, e por que se lembrariam? Vinte e três anos e um longo tempo de paz, agradeça a Deus e ao Homem Jesus.

Eddie sorriu e nada disse por mais algum tempo, esperando que Telford mudasse de assunto. Esperando que Telford desse o fora, na verdade.

Não existe tal sorte. Os chatos não desgrudam da gente: isto era quase uma lei da natureza.

— Claro que quatro armados contra quarenta... ou sessenta... seria uma visão melhor do que três armados e um em pé por perto para animar a torcida. Sobretudo quatro armados com calibres pesados, ouça-me por favor.

— Escutá-lo é ótimo — disse Eddie.

Próximo à plataforma, onde eles haviam sido apresentados, Zalia Jaffords dizia alguma coisa a Susannah. Eddie achou que Suze também parecia interessada. Ela tem a mulher do fazendeiro, Roland, o Senhor das porras dos Anéis, Jake começa a ter um amigo, e que é que eu tenho? Um cara que se parece com pai Cartwright e interroga com uma minúcia e rigor iguais a Perry Mason.

— Vocês têm mais armas? — perguntou Telford. — Sem dúvida devem ter mais, se acham que podem opor resistência aos Lobos. Quanto a mim, acho essa idéia uma loucura; não fiz o menor segredo disso. Vaughn Eisenhart acha a mesma coisa...

— Overholser também pensava assim e mudou de idéia — disse Eddie, como uma maneira de só passar o tempo. Tomou o chá e olhou para Telford por cima da borda da caneca, esperando uma reprovação. Talvez até um breve olhar de exasperação. Não obteve nenhuma das duas coisas.

— O Cata-vento Wayne — disse Telford, e riu consigo mesmo. — Ié, ié, vira pra cá, vira pra lá. Eu não teria tanta certeza dele ainda, jovem sai.

Eddie pensou em dizer: Se acha que isso é uma eleição, é melhor que pense mais uma vez, e depois não o fez. Boca fechada, veja muito, fale pouco.

— Vocês tem atiradores rápidos, talvez? — perguntou Telford. — Ou grenados?

— Ah... bem — disse Eddie —, assim é que deve ser.

— Nunca ouvi falar de mulher pistoleira.

— Não?

— Nem de garoto, aliás. Sequer como aprendiz. Como vamos saber que vocês são o que dizem ser? Peço-lhe que me diga.

— Bem, esta é uma pergunta difícil de responder — disse Eddie. Passara a sentir forte aversão por Telford, que parecia velho demais para ter filhos em risco.

— Mas as pessoas vão querer saber — disse Telford. — Certamente antes que tragam a tempestade.

Eddie se lembrou do ditado de Roland: Podemos ser empurrados para a frente, mas não para trás. Era óbvio que eles ainda não haviam entendido isso. Telford com certeza não. Claro que as perguntas tinham de ser respondidas, e respondidas sim; Callahan mencionara isso e Roland o confirmara. Três delas. A primeira era alguma coisa sobre ajuda e socorro. Eddie achou que essas perguntas ainda não haviam sido respondidas, e não via como poderiam ter sido, mas achou, sim, que seriam feitas no Salão da Assembléia quando chegasse a hora. As respostas talvez fossem dadas por pessoas simples como Posella e Rosario, que nem sequer sabiam o que eles estavam dizendo. Pessoas que tinham de fato filhos em risco.

— Quem é você realmente? — perguntou Telford. — Diga-me, eu lhe peço.

— Eddie Dean de Nova York. Espero que não esteja questionando minha honestidade. Espero por Deus que não esteja fazendo isso.

Telford deu um passo atrás, de repente cauteloso. Eddie sentiu uma alegria maligna ao ver isso. Medo não era melhor que respeito, mas por Deus era melhor que nada.

— Nãão, de jeito nenhum, meu amigo! Por favor! Mas me diga isto... você já usou alguma vez a arma que leva ai? Diga-me, eu lhe peço.

Eddie viu que Telford, embora apreensivo com ele, não acreditava mesmo. Talvez ainda lhe restasse muito do antigo Eddie Dean, daquele que realmente fora de Nova York, no semblante e na atitude para aquele vaqueiro-sai acreditar nisso, mas Eddie não achava que fosse isso. Não a essência disso, de qualquer modo. Ali estava um cara que decidira ficar de lado vendo as criaturas do Trovão levarem os filhos dos seus vizinhos, e talvez um homem como aquele simplesmente não pudesse acreditar nas respostas simples e finais que uma arma permitia. Eddie, contudo, passara a conhecer essas respostas. Até a amá-las. Lembrou-se do único dia deles em Lud, empurrando Susannah a toda em sua cadeira de rodas sob um céu cinzento, enquanto martelavam os tambores dos deuses. Lembrou-se de Frank, de Luster e do Marinheiro Topsy; pensou numa mulher chamada Maud ajoelhando-se para beijar um dos lunáticos que Eddie matara a tiros. Que foi que ela dissera? Você não devia ter baleado Winston, pois hoje era o aniversário dele. Qualquer coisa assim.

— Eu usei esta, a outra e a Ruger também — respondeu ele. — E jamais ouse falar comigo assim de novo, meu amigo, como se nós dois fossemos os únicos a entender alguma piada.

— Se o ofendi de alguma maneira, pistoleiro, eu rogo seu perdão.

Eddie relaxou um pouco. Pistoleiro. Pelo menos o filho-da-puta de cabelos grisalhos teve a presença de espírito para dizê-lo, embora talvez não acreditasse.

A banda musical apresentou outro floreio. O líder deslizou a tira da guitarra pela cabeça e gritou:

— Agora, venham todos! Já chega de comida! Hora de gastá-la e suá-la dançando, é isso aí!

Vivas e gritos estridentes. Ouviu-se também um matraquear de explosões que fez Eddie deixar cair a mão, como vira Roland fazer com a dele em muitas ocasiões.

— Calma, meu amigo — disse Telford. — São só bombinhas de estalo. Crianças soltando busca-pés de Festa da Colheita, você sabe como é.

— É mesmo — disse Eddie. — Eu rogo seu perdão.

— Não precisa. — Telford sorriu. Um belo sorriso de pai Cartwright, e nele Eddie viu uma coisa clara: aquele homem jamais ficaria do lado deles. Não, era isso, até e a não ser que cada Lobo vindo do Trovão jazesse morto para a inspeção da cidade naquele mesmo Pavilhão. E se isso acontecesse, ele ia afirmar que sempre estivera do lado deles desde o inicio.

 

A dança continuou até o nascer da lua, e naquela noite a lua surgiu clara. Eddie revezou-se com várias senhoras da cidade. Dançou duas vezes com Susannah nos braços, e quando dançaram a quadrilha, ela se virou e cruzou — alemanda esquerda, alemanda direita — com bela precisão na cadeira de rodas. Junto à luz das tochas sempre a mudar, tinha o rosto úmido e maravilhado. Roland também dançou, cavalheiresco, mas (achou Eddie) sem nenhum verdadeiro prazer nem jeito para a coisa. Certamente, não havia nada ali que os preparasse para o que rematou a noite. Jake e Benny Slightman haviam sumido perambulando sozinhos, mas uma vez Eddie os vira ajoelhados embaixo de uma árvore e jogando finca, só que com canivete, em vez dos ferrinhos de ponta afiada.

Quando acabou a dança, houve cantoria. Esta começou com a própria banda — uma balada de amor chorosa e depois um numero de ritmo rápido e animado, tão carregado da gíria de Calla que Eddie não conseguiu acompanhar a letra. Não teve de fazê-lo para saber que era no mínimo levemente obscena; ouviam-se berros e gargalhadas dos homens e gritinhos de alegria das senhoras. Algumas das mais velhas tapavam os ouvidos.

Após essas duas melodias, várias Calla folken subiram ao coreto para cantar. Eddie achou que nenhuma teria chegado muito longe no programa Star Search — em busca de novos talentos —, mas cada uma foi saudada com entusiasmo ao avançar para a banda e aplaudida vigorosamente (e no caso de uma jovem e bonita matrona, com muita lascívia) ao descer. Duas meninas de uns nove anos, obviamente gêmeas idênticas, cantaram uma balada chamada “Ruas de Campara” em perfeita e pungente harmonia, acompanhadas por apenas uma guitarra que uma delas tocava. Eddie ficou impressionado com o silêncio arrebatado no qual as pessoas ouviam. Embora a maioria dos homens estivesse em profunda embriaguez, nenhum deles quebrou o silêncio atento. Nem se soltaram bombinhas. Muitos (entre eles, o tal Haycox) ouviam com lágrimas escorrendo-lhes pelas faces. Se perguntado antes, Eddie teria dito: claro que entendia o peso emocional sob o qual mourejava a cidade. Não lhe perguntaram. Agora ele sabia disso.

Quando terminou a música sobre a mulher seqüestrada e o caubói moribundo, fez-se um momento de absoluto silêncio. Eddie pensou: Se eles levantassem as mãos para votar no que fazer sobre os Lobos naquele momento, nem mesmo pai Cartwright ousaria votar por não se envolver.

As meninas fizeram uma cortesia e pularam lepidamente para a relva. Eddie achou que isso seria suficiente para encerrar a noite, mas então, para sua surpresa, Callahan subiu ao palco e disse:

— Aqui vai uma música ainda mais triste que minha mãe me ensinou, e lançou-se numa alegre balada chamada “Pague pra Mim Mais uma Rodada, seu Veado”. Era tão obscena quanto a que a banda tocara antes, mas desta vez Eddie entendeu a maioria das palavras. Ele e os outros da cidade juntavam-se em grande animação no último verso de cada estrofe: Antes que tenha me posto no chão, pague pra mim mais uma rodada, seu veado!

Susannah levou a cadeira de rodas até o coreto e ajudaram-na a subir durante os aplausos que se seguiram a apresentação do Velho. Ela falou brevemente com os três guitarristas e mostrou-lhes alguma coisa no braço de um dos instrumentos. Todos assentiram com a cabeça. Eddie imaginou que eles conheciam a música ou uma versão dela.

A multidão aguardava em expectativa, ninguém mais que o próprio marido da dama. Ele ficou encantado, mas não inteiramente surpreso quando ela viajou sobre “Maid of Constant Sorrow,” a música sobre a donzela de sofrimento constante que as vezes cantara na trilha. Susannah não era nenhuma Joan Baez, mas tinha a voz autêntica, cheia de emoção. E por que não? Era a música de uma mulher que abandonou o lar por um lugar estranho. Quando terminou, não se fez silêncio, como após o dueto das meninas, mas houve uma rodada de aplauso honesto, entusiástico. Ouviram-se gritos de Isso aí!, Mais uma vez! Mais estrofes! Ela não ofereceu mais estrofes (pois cantara todas as que conhecia), porém fez uma profunda mesura. Eddie bateu palmas até as mãos doerem, depois enfiou os dedos nos cantos da boca e assobiou.

E então — parecia que as maravilhas dessa noite jamais chegariam ao fim — o próprio Roland escalou o palco, enquanto eles ajudavam Susannah a descer com todo o cuidado.

Jake e seu novo amigo chegavam ao lado de Eddie, Benny Slightman com Oi no colo. Até aquela noite Eddie diria que o trapalhão teria mordido qualquer um fora do ka-tet de Jake que tentasse fazer o mesmo.

— Ele sabe cantar? — perguntou Jake.

— Novidade pra mim se souber, amiguinho — respondeu Eddie. — Vamos ver. — Não fazia a mínima idéia do que esperar, e ficou meio entretido ao ver como seu coração martelava.

 

Roland retirou o revólver de dentro do coldre e o cinturão de cartuchos. Entregou-os a Susannah, que os pegou e prendeu as tiras de couro na cintura. O tecido da blusa franziu-se apertado quando ela o fez, e por um momento Eddie achou que seus seios pareciam maiores. Depois ele descartou a impressão como efeito da luz.

As tochas brilhavam alaranjadas. Roland ficou a luz delas, desarmado e com os quadris tão finos como um garoto. Por um momento, apenas cravou os olhos nos rostos calados, atentos, e Eddie sentiu a mão fria e pequena de Jake deslizar para dentro da sua. Não houve a menor necessidade de o garoto dizer o que estava pensando, porque o próprio Eddie também pensava a mesma coisa. Ele jamais vira um homem parecer tão solitário, tão distante do curso da vida humana, com sua camaradagem e cordialidade. Vê-lo ali, naquele local de fiesta (pois era uma fiesta, não importa o quão desesperado fosse o problema que se encontrava por baixo dela), só acentuava a verdade dele: era o último. Não existia mais nenhum outro. Se Eddie, Susannah, Jake e Oi eram de sua linhagem, não passavam de um rebento distante, longe do tronco. Reflexões posteriores, quase. Roland, contudo... Roland...

Xiu, pensou Eddie. Você não quer pensar nessas coisas. Esta noite, não.

Lentamente, Roland cruzou os braços sobre o peito, estreitos e apertados, para por a palma da mão direita no lado esquerdo da face e a da mão esquerda no lado direito. Isso não significou bulhufas para Eddie, mas a reação das cerca de setecentas Calla folken foi imediata: um estrépito jubiloso e aprovador muito além de simples aplausos. Eddie lembrou-se de um concerto dos Rolling Stones em que estivera. A multidão fizera aquele mesmo estardalhaço quando o baterista dos Stones, Charlie Watts, começar a bater no cincerro um ritmo sincopado que só podia significar “Mulher de Cabaré Brega”.

Roland ficou parado assim, braços cruzados, palmas das mãos na face, até eles se calarem.

— Somos todos bem acolhidos em Calla — disse ele. — Peço que me escutem.

— Nós agradecemos! — rugiram. E — Nós o escutamos muito bem! Roland assentiu e sorriu.

— Mas eu e meus amigos estivemos longe e ainda temos muito a fazer e ver. Agora, enquanto esperamos pelo bom momento, vocês se abrirão para nós se nos abrirmos para vocês?

Eddie sentiu um calafrio. E a mão de Jake apertar a sua. É a primeira das perguntas, pensou.

Antes que chegasse a concluir o pensamento, já haviam berrado sua resposta:

— Sim, e obrigado!

— Vocês nos vêem pelo que somos e aceitam o que fazemos?

Lá vai a segunda, pensou Eddie, e agora era ele quem apertava a mão Jake. Viu Telford e o tal Diego Adams trocarem um olhar de quem sabe das coisas, consternado. O olhar de homens percebendo de repente que tudo esta afundando diante deles e são impotentes para fazer qualquer coisa a respeito. Tarde demais, rapazes, pensou Eddie.

— Pistoleiros! — gritou alguém. — Pistoleiros justos e autênticos, nós agradecemos! Agradecemos em nome de Deus!

Bramidos de aprovação. Um estrondo de gritos e aplausos. Gritos de obrigado, bravo e até yer-bugger. Quando se calaram, Eddie esperou que Roland lhes fizesse a última pergunta, a mais importante: “Vocês pedem ajuda e socorro?”

Ele não a fez. Apenas disse:

— Nós vamos seguir nosso caminho para esta noite, e deitar nossas cabeças, pois estamos cansados. Mas eu lhes darei uma música final e um sapateadinho antes de sairmos, darei, sim, pois creio que vocês conhecem os dois.

Um jubiloso clamor de concordância recebeu isso. Todos conheciam, certo!

— Eu conheço e adoro — disse Roland de Gilead. — Conheço dos antepassados, e jamais esperei voltar a ouvir “A Canção do Arroz” de quaisquer lábios, menos que todos dos meus próprios. Estou mais velho agora, estou sim, e não tão desenferrujado como antes. Peço perdão para os passos que der errado...

— Pistoleiro! — gritou uma mulher. — Tão grande é a alegria que sentimos, ié!

— E não sinto eu a mesma coisa? — perguntou o pistoleiro, suavemente. — Não lhes dou alegria da minha alegria e água que carreguei a força de meu braço e do meu coração?

— Dá, sim, para comer da colheita verde — entoaram eles em uníssono, e Eddie sentiu as costas arderem e os olhos lacrimejarem.

— Ó meu Deus — suspirou Jake. — Ele sabe tanto...

— Dou-lhes a alegria do arroz — disse Roland.

Ficou por mais um instante no brilho alaranjado, como se reunisse forças, e então se pôs a dançar uma coisa que se enquadrava entre uma jiga e um número padronizado de sapateado. Lenta a princípio, muito lenta, calcanhares e dedos, calcanhares e dedos. De vez em quando as batidas dos saltos faziam aquele ruído de punho em tampa de caixão, mas agora ganhava ritmo. Apenas ritmo no início, e depois, quando os pés do pistoleiro começaram a ganhar velocidade, era mais que ritmo; tornou-se uma espécie de dança ao som de suingue. Era a única descrição que ocorria a Eddie, a única que parecia encaixar-se.

Susannah aproximou-se deles. Tinha os olhos imensos, o sorriso assombrado. Comprimiu as mãos entre os seios.

— Ó Eddie! — sussurrou. — Você imaginava que ele sabia fazer isso? Fazia a mínima idéia?

— Não — disse Eddie. — A menor idéia.

 

Mais rápido moviam-se os pés do pistoleiro em suas velhas e surradas botas. Depois, mais rápido ainda. O ritmo se tornava cada vez mais claro, e Jake de repente percebeu que conhecia aquela batida. Conhecia da primeira vez que ficara todash em Nova York. Antes de encontrar-se com Eddie, um jovem negro com fones de cabeça de um walkman passou por ele, batendo as sandálias um pouco ao ritmo da música e dizendo baixinho “Cha-da-ba, cha-da-ba-bu!”. E esse era o passo ritmado que Roland fazia com os pés no palanque da banda, cada Bu! rematado por um chute e um acentuado arremesso da perna para a frente e uma forte batida do calcanhar na madeira.

Em volta deles, as pessoas começaram a bater palmas. Não no ritmo das batidas, mas descompassadas. E a balançar. As mulheres que usavam saias jogavam-nas para a frente e rodopiavam. A expressão que Jake via em todos os rostos, dos mais velhos aos mais moços, era a mesma: de pura alegria. Não só isso, ele pensou, e lembrou-se de uma frase que sua professora de inglês usara sobre como alguns livros nos fazem sentir: O êxtase de perfeito reconhecimento.

O suor começou a brilhar no rosto de Roland. Ele baixou os braços cruzados e se pôs a bater palmas. Quando o fez, o Calla folken começou entoar uma palavra repetidas vezes no compasso: Vem!... Vem!... Vem!... Ocorreu a Jake que esta era a palavra que alguns garotos usavam para se referir a gozar, e de repente duvidou que fosse mera coincidência.

Claro que não é. Como o cara negro batendo os pés naquele mesmo compasso. É tudo o Feixe de Luz, e é tudo 19.

— Vem!... Vem!... Vem!

Eddie e Susannah haviam se juntado ao canto. Benny também. Jake abandonou o pensamento e fez igual.

 

No fim, Eddie não tinha uma idéia exata do que significariam as palavras de “A Balada do Arroz”. Não por causa do dialeto, no caso de Roland, não, mas porque eles as jorravam rápido demais para acompanhar. Uma vez, na TV, ele vira um leiloeiro de tabaco na Carolina do Sul. Era parecido com aquilo. Havia rimas fortes, rimas fracas, rimas alternadas, até rimas forçadas — palavras que não rimavam de forma alguma, mas eram inseridas a força por um momento no encontro dos limites da música. Não era uma música, de fato; era como um cântico, ou algum delirante hip-hop de esquina. Isto foi o mais perto a que Eddie pode chegar. E durante todo o tempo os pés de Roland martelaram nas tábuas seu ritmo de arrebatamento que extasiava as pessoas; e durante todo o tempo a multidão batia palmas e entoava: Vem, vem, vem, vem.

O que Eddie conseguiu apanhar dizia o seguinte:

 

Vem-vem-commala

O arroz chega ô pessoal

O arroz vem a cair

Eu vejo tudo brotar

Eles vem ô pessoal

A Or-i-za oferecemos

Que seja verde o arroz, ôôô

Vê-lo todos o vemos

Que seja verde o arroz, ôôô

Vem-vem-commala!

Vem-vem-commala!

O arroz chega ô pessoal

No fundo do fundo do vale

Mato-vem-commala

Sob o céu azul, ôôô

Relva verde e alta, ôôô

Moça e seu cara

Se deitam juntos

Escorregam, deslizam

Sob o céu, ôôô

Vem-vem-commala!

O arroz chega ô pessoal

 

No mínimo mais três versos seguiam-se aos dois últimos. A essa altura Eddie perdera o encadeamento das palavras, mas tinha quase certeza de que captara a idéia: um rapaz e uma moça, plantando tanto arroz quanto filhos na primavera do ano. O tempo do cântico, de uma rapidez suicida para começar, acelerava-se cada vez mais até as palavras não passarem de um vômito de jargão, e a multidão batia palmas tão depressa que as mãos eram uma mancha. E os saltos das botas de Roland haviam desaparecido inteiramente. Eddie teria dito que era impossível alguém dançar naquela velocidade, sobretudo após haver ingerido uma refeição pesada.

Mais devagar, Roland, ele pensou. Não parece provável que a gente possa ligar para 911 se você evaporar.

Então, a algum sinal que nem Eddie, Susannah ou Jake entenderam, Roland e a Calla folken pararam em plena velocidade, lançaram as mãos para o céu, projetaram o quadril para a frente, como numa cópula.

— COMMALA! — gritaram todos, e este foi o fim.

Roland oscilava, o suor escorrendo-lhe pela face e pela testa, e tombou do palco no meio da multidão. O coração de Eddie bateu em ziguezague no peito. Susannah gritou e começou a girar a cadeira de rodas para a frente. Jake a deteve antes que pudesse avançar, agarrando uma das alças.

— Acho que isso faz parte do show! — ele disse.

— Ié, eu também tenho quase certeza que faz — disse Benny Slightman.

A multidão dava vivas e aplaudia. Roland era transportado de um lado para outro e acima deles por amistosos braços erguidos. Seus próprios braços estenderam-se para as estrelas acima. O peito arfava como um fole. Eddie via numa espécie de descrença hilariante o pistoleiro ondular em direção a eles como na crista de uma onda.

— Roland canta, Roland dança, e para cúmulo de tudo mais — disse ele — Roland mergulha do palco como Joey Ramone.

— De que e que você esta falando, doçura? — perguntou Susannah.

Ele abanou a cabeça.

— Esqueça. Mas nada pode superar isso. Tem de ser o fim da festa.

Era.

 

Meia hora depois, quatro cavaleiros avançavam devagar pela rua Alta de Calla Bryn Sturgis. Um deles envolto num pesado salide. Plumas glaciais saíam-lhes das bocas e das de suas montarias a cada exalada. O céu estava cheio de salpicos frios de lascas de diamante, o Velho Astro e a Velha Mãe as mais brilhantes entre elas. Jake já seguira seu caminho com os Slightman para a Rocking B de Eisenhart. Callahan conduzia os outros três viajantes, cavalgando um pouco a frente deles. Mas, antes de conduzi-los a qualquer lugar, insistiu em envolver 'Roland na pesada manta.

— Você disse que não são nem 2 quilômetros até sua casa — começou Roland.

— Não importa sua tagarelice — disse Callahan. — As nuvens se dispersaram, a virada da noite ficou quase fria o bastante para nevar e você dançou uma commala como eu jamais vi em meus anos aqui.

— Quantos anos seriam isso? — perguntou Roland.

Callahan abanou a cabeça.

— Não sei. Sinceramente, pistoleiro, eu não sei. Sei muito bem quando cheguei aqui, isto foi no inverno de 1983, nove anos depois que deixei a cidade de Jerusalem’s Lot. Nove anos depois que ganhei isto. — Ergueu brevemente a mão cicatrizada.

— Parece uma queimadura — comentou Eddie.

Callahan assentiu com a cabeça, porém não disse mais nada sobre o assunto.

— De qualquer modo, o tempo aqui e diferente, como todos vocês devem saber muito bem.

— Segue à deriva — disse Susannah. — Como os pontos da bússola.

Roland, já envolto na manta, fora despedir-se de Jake com uma palavra... e outra coisa, também. Eddie ouviu o tinido de metal quando alguma coisa passou da mão do pistoleiro para a do aprendiz. Um dinheirinho, talvez.

Jake e Benny Slightman saíram cavalgando na escuridão lado a lado. Quando Jake se voltou e acenou-lhe um último adeus, Eddie retribuiu-o com uma surpreendente pontada. Meu Deus, você não é pai dele, pensou. Isto era verdade, mas não fez a pontada ir embora.

— Vai dar tudo certo, Roland? — Eddie não esperara nenhuma resposta além de sim, não quisera nada mais que um pouquinho de bálsamo para aquela pontada. Por isso, o longo silencio do pistoleiro o alarmou.

Por fim, Roland respondeu:

— Esperamos que sim. — E sobre o assunto de Jake Chambers mais nada disse.

 

Agora ali estava a igreja de Callahan, um prédio de ripas de madeira baixo e simples com uma cruz engastada acima da porta.

— Como você a chama, père. — perguntou Roland.

— Nossa Senhora da Serenidade.

Roland assentiu.

— Muito bom.

— Você sente? — perguntou Callahan. — Algum de vocês sente? — Não precisou dizer do que falava.

Roland, Eddie e Susannah ficaram calados por talvez um minuto inteiro. Roland fez que sim com a cabeça.

Callahan repetiu o movimento, satisfeito.

— Esta dormindo. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Agradeçam a Deus.

— Mas tem alguma coisa ali — disse Eddie. Indicou com a cabeça a igreja. — É como um... não sei, um peso, quase.

— Sim — disse Callahan. — Como um peso. É terrível. Mas esta noite esta dormindo. Graças a Deus. — Desenhou uma cruz no ar glacial.

Abaixo de uma trilha simples de terra (mas nivelada, e ladeada por sebes cuidadosamente tratadas) ficava outro prédio de ripas de madeira. A casa de Callahan, o que ele chamava de reitoria.

— Vai-nos contar sua história esta noite? — perguntou Roland.

Callahan deu uma olhada no rosto magro e exausto do pistoleiro e fez que não com a cabeça.

— Nem uma palavra dela, sai. Nem sequer se você estivesse descansado. A minha não é nenhuma história para a luz das estrelas. Amanhã, no desjejum, antes de você e seus amigos saírem em suas pequenas missões... estaria bem assim?

— Sim — disse Roland.

— E se aquilo acordar de noite? — perguntou Susannah, e inclinou a cabeça para a igreja. — Acordar e mandar a gente todash?

— A gente vai — disse Roland.

— Você tem uma idéia do que fazer com isso, não? — perguntou Eddie.

— Talvez — respondeu Roland. Tomaram o atalho até a casa de Callahan, incluindo-o entre eles tão naturalmente quanto respirar.

— Alguma coisa a ver com aquele velho sujeito manni com quem você estava falando? — perguntou Eddie.

— Talvez — repetiu Roland. Olhou para Callahan. — Diga-me, père, isso alguma vez já enviou você a todash? Conhece a palavra, não?

— Conheço — disse Callahan. — Duas vezes. Uma ao México. Uma cidadezinha chamada Los Zapatos. E uma... eu acho que... ao Casulo do Rei. Acho que tive muita sorte de conseguir voltar, dessa segunda vez.

— De que Rei esta falando? — perguntou Susannah. — Arthur Eld?

Callahan fez que não com a cabeça. A cicatriz em sua testa faiscou à luz das estrelas.

— É melhor não falar disso agora — disse ele. — Não à noite. — Olhou tristonho para Eddie. — Os Lobos estão chegando. Já é muito ruim. Agora chega um rapaz que me diz que o Red Sox perdeu de novo a Série Mundial para o Mets?

— Lamento que sim — disse Eddie, e sua descrição do jogo final, um jogo que fazia pouco sentido para Roland, embora se parecesse um pouco com Pontas chamadas Arcos por alguns, levou-os até a casa.

Callahan tinha uma governanta. Embora não se achasse à vista, deixara uma panela de chocolate quente na chapa de aquecimento do fogão.

Enquanto o bebiam, Susannah disse:

— Zalia Jaffords me disse uma coisa que talvez lhe interesse, Roland.

O pistoleiro ergueu as sobrancelhas.

— O avô do marido mora com eles. É tido como o homem mais velho de Calla Bryn Sturgis. Tian e o velho não têm boas relações há anos... Zalia não tem nem certeza do motivo de estarem putos um com o outro, de tanto tempo que faz... mas Zalia se da muito bem com ele. Ela disse que ele ficou bastante senil nos últimos dois anos, mas ainda tem seus dias de lucidez. E ele afirma que viu um desses Lobos. Morto. — Fez uma pausa.

— Afirma que ele mesmo o matou.

— Por Deus! — exclamou Callahan. — Não diga uma coisa destas!

— Digo, sim. Ou melhor, Zalia disse.

— Este — disse Roland — seria um relato digno de ser ouvido. Isso foi na última vez que os Lobos vieram?

— Não — respondeu Susannah. — Nem da vez anterior, quando até Overholser mal tinha largado as fraldas. Da vez anterior a essa.

— Se eles vêm a cada 23 anos — disse Eddie —, já faz quase setenta hoje.

Susannah assentiu.

— Mas ele já era adulto, mesmo então. Disse a Zalia que um moit deles surgiu na estrada do Oeste e esperou a chegada dos Lobos. Não sei quantos poderiam formar um moit...

— Cinco ou seis — disse Roland. Confirmava com a cabeça sobre o chocolate.

— De qualquer modo, o grand-père de Tian estava entre eles. E mataram um dos Lobos.

— Que era? — perguntou Eddie. — Com que se parecia sem a máscara?

— Ela não disse — respondeu Susannah. — Acho que ele não o descreveu para ela. Mas a gente devia...

Um ronco elevou-se, longo e profundo. Eddie e Susannah voltaram-se assustados. O pistoleiro adormecera. Tinha o queixo no esterno. Os braços cruzados, como se houvesse apagado para dormir ainda pensando na dança. E no arroz.

 

Só havia um quarto extra, portanto Roland dividiu o catre com Callahan.

Eddie e Susannah deram-se assim ao luxo de uma espécie de lua-de-mel rústica: sua primeira noite juntos sozinhos, numa cama e sob um teto. Não estavam cansados demais para aproveitar isso. Depois, Susannah logo passou ao sono. Eddie ficou acordado um pouco. Hesitante, enviou a mente na direção da igrejinha bem cuidada de Callahan, tentando tocar a coisa que existia lá dentro. Provavelmente uma má idéia, mas ele não pôde resistir a pelo menos tentar. Não havia nada. Ou melhor, um nada defronte a alguma coisa.

Eu podia acordá-lo, Eddie pensou. Acho que realmente podia. Sim, e alguém com um dente infectado podia dar uma pancadinha nele com um martelo, mas por que você faria isso?

Bem, vamos acabar tendo mesmo que acordá-lo. Acho que vamos precisar dele.

Talvez, mas isso era para outro dia. Era hora de largar este.

Mas por algum tempo Eddie foi incapaz de fazê-lo. Imagens lampejavam em sua mente, como cacos de espelho quebrados na brilhante luz do sol. A terra de Calla, estendendo-se espraiada abaixo deles sob o céu nublado, o Devar-Tete Whye uma fita cinza, os canteiros verdes em sua margem; o arroz chega, ô pessoal. Jake e Benny Slightman entreolhando-se rindo sem que houvesse uma palavra trocada entre eles para explicá-lo. A passarela de relva verde entre a rua Alta e o Pavilhão. As tochas mudando de cor. Oi curvando-se e falando (Eld! Agadeço!) com perfeita clareza. Susannah cantando: “Eu conheci o sofrimento todos os meus dias.”

No entanto, o que ele se lembrava mais claramente era de Roland em pé, magro e desarmado, nas tábuas com os braços cruzados no peito e as mãos coladas na face; aqueles baços olhos azuis prestando atenção nas pessoas. Roland fazendo perguntas, duas das três. E depois o ruído de suas botas nas tabuas, lento a princípio, depois se acelerando. Cada vez mais rápido, até se tornarem uma mancha a luz das tochas. Batendo palmas. Suando. Sorrindo. Embora seus olhos não sorrissem, não aqueles olhos azuis de artilheiro; continuavam tão frios como sempre.

Mas como dançara! Grande Deus, como dançara a luz das tochas.

Vem-vem-commala, o arroz chega, ô pessoal, pensou Eddie.

A seu lado, Susannah gemeu em algum sonho.

Eddie virou-se para ela. Deslizou a mão sob o braço dela para colocá-la em concha no seu seio. Seu último pensamento foi para Jake. Melhor fariam se tomassem conta dele naquela fazenda. Se não o fizessem, iam ser um bando de vaqueiros dignos de dó.

Eddie dormiu. Não houve sonhos. E abaixo deles, enquanto a noite avançava e a lua se punha, aquele mundo de fronteira girava como um relógio agonizante.

 

Torção Seca

Roland despertou de outro sonho horroroso com a colina de Jericó na hora antes do amanhecer. O chifre. Alguma coisa sobre o chifre de Arthur Eld. A seu lado na cama enorme, o Velho dormia com uma careta no rosto, como se vítima de seu próprio pesadelo. Vincava-lhe em ziguezague a testa larga, o que rompia os braços da cruz cicatrizada na pele.

Foi a dor que acordou Roland, não o sonho ruim com o chifre caído da mão de Cuthbert quando o velho amigo tombou. O pistoleiro se sentia preso num torno desde o quadril até os tornozelos. Visualizava a dor como uma série de anéis brilhantes e em chamas. Era o preço que tinha de pagar pelos atrozes esforços na noite anterior. Se fosse só isso, tudo estaria bem, mas ele sabia que tinha mais coisa ali do que apenas ter dançado a commala daquela forma um tanto entusiástica demais. Nem era o reumatismo, como vinha dizendo a si mesmo nas últimas semanas, o período de ajuste necessário de seu corpo à temperatura úmida daquele outono. Não ignorava como os tornozelos, sobretudo o direito, começaram a engrossar. Observara um engrossamento semelhante dos joelhos, e embora os quadris ainda parecessem em bom estado, quando punha as mãos neles sentia que o direito vinha mudando sob a pele. Não, não era igual ao reumatismo que afligira Cort tão dolorosamente em seu último ano de vida, mantendo-o dentro de casa ao pé da fogueira nos dias chuvosos. Aquilo era pior. Artrite, das ruins, do tipo seco. Não levaria muito tempo para atingir-lhes as mãos. Roland alimentaria de bom grado uma doença com a direita, se a satisfizesse; ensinara-a a fazer várias coisas bem desde que as lagostrosidades haviam levado os dois primeiros dedos, mas ela nunca mais ia ser como antes. Só que as enfermidades não funcionavam assim, funcionavam? Não se podia aplacá-las com sacrifícios. A artrite chegava quando chegava e ia embora quando queria.

Talvez eu tenha um ano, pensou, deitado na cama ao lado do religioso adormecido do mundo de Eddie, Susannah e Jake. Talvez até dois.

 Não, dois não. Provavelmente nem sequer um. Como era que Eddie dizia às vezes? Deixe de gozação. Eddie tinha um monte de ditados de seu mundo, mas aquele era particularmente bom. Particularmente apto.

Não que ele fosse desistir da Torre se o Velho Torcedor de Osso tirasse sua destreza para atirar, selar um cavalo, cortar uma tira de couro cru, até picar lenha para uma fogueira de acampamento, uma coisa simples assim; não, ele estava naquilo até o fim. Mas não gostava da idéia de cavalgar atrás dos outros, depender deles, talvez amarrado ao arreio com as rédeas, porque não conseguiria mais segurar a parte mais alta da sela. Nada além de uma âncora flutuante, daquelas que eles não teriam como levantar se e quando se exigisse navegação rápida.

Se chegar a isso, eu me mato.

Mas não o faria. Esta era a verdade. Deixe de gozação.

O que lhe trouxe Eddie mais uma vez à mente. Precisava falar com ele sobre Susannah, e já. Este foi o conhecimento com que despertou, e talvez valesse a dor. Não ia ser uma conversa agradável, mas tinha de ser feita. Era hora de Eddie saber sobre Mia. Ela ia achar mais difícil se esgueirar, agora que eles estavam numa cidade — numa casa —, mas teria de fazê-lo mesmo assim. Não podia discutir tanto com as necessidades do bebê e dos próprios desejos irresistíveis dela quanto Roland, com os anéis de dor que lhe circulavam pelo quadril direito, os joelhos e os tornozelos, mas que até o momento lhe haviam poupado as talentosas mãos. Se Eddie não fosse avisado, poderiam ver-se em terríveis apuros. Mais problemas eram coisa de que não precisavam agora; isso poderia afundá-los.

Ali deitado na cama, a dor latejando, Roland observava o céu clarear. Desanimou-o ver que a claridade não mais vicejava toda no leste; afastava-se um pouco mais para o sul agora.

O nascer do sol também estava à deriva.

 

A governanta era bonita, uns quarenta anos. Chamava-se Rosalita Munoz, e quando viu Roland encaminhar-se até a mesa, disse:

— Uma caneca de café, depois o senhor vem comigo.

Callahan empinou a cabeça para Roland quando ela foi até o fogão pegar o bule. Eddie e Susannah ainda não se haviam levantado. A cozinha era só deles.

— É muito grave o que tem na perna, senhor?

— É só o reumatismo — disse Roland. — Passa entre todos da minha família pelo lado do meu pai. Vai estar funcionando lá pelo meio-dia, com sol brilhante e ar seco.

— Eu conheço bem o reumatismo — disse Callahan. — Agradeça a Deus por não ser pior.

— É o que eu faço. — E a Rosalita, que trouxe pesadas canecas de café fumegante. — E lhe agradeço, também.

Ela largou as canecas, fez uma mesura e depois o olhou tímida e seriamente.

— Eu jamais vi a dança do arroz sapateada melhor, sai.

Roland deu um sorriso enviesado.

— Estou pagando por isso esta manhã.

— Vou pôr o senhor em forma — disse ela. — Tenho uma gordura de gato especial, feita por mim. Primeiro tira a dor e depois a manqueira. Pergunte ao père.

Roland olhou para Callahan, que confirmou com a cabeça.

— Depois vou deixá-lo em forma. Agradeço-sai.

Repetiu a mesura e saiu.

— Preciso de um mapa de Calla — disse Roland depois que ela saiu. — Não precisa ser grande arte, mas tem de ser correto e fiel quanto a distâncias. Pode desenhar um pra mim?

— De jeito nenhum — disse Callahan, senhor de si. — Eu desenho umas coisinhas, mas não saberia desenhar um mapa que o levasse até o rio, nem que me pusesse uma arma na cabeça. Só que este não é um talento eu tenho. Mas conheço dois que poderiam ajudá-lo nisso. — Ergueua voz — Rosalita! Rosie! Venha até aqui um instante, faça o favor!

 

Vinte minutos depois, Rosalita tomou Roland pela mão, o aperto firme e seco. Levou-o para a despensa e fechou a porta.

— Tire as calças, por favor — disse. — Não fique acanhado, poisduvido que tenha alguma coisa que eu não vi antes, a não ser que os homens sejam feitos de forma diferente em Gilead e no Mundo Interior.

— Não creio que sejam — disse Roland, e deixou as calças caírem.

O sol já se levantara, mas Eddie e Susannah continuavam deitados. Roland não tinha a menor pressa de acordá-los. Haveria muitos inícios de dias à frente — e noites adentradas, também, provavelmente —, mas naquela manhã deixe-os curtir a paz de um telhado acima de suas cabeças, o conforto de um colchão de penas sob seus corpos e a requintada intimidade permitida por uma porta entre seus segredos e o resto do mundo.

Rosalita, uma garrafa de líquido oleoso, claro, numa das mãos, deu um silvado com o carnudo lábio inferior. Examinou o joelho direito de Roland, tocou o quadril direito com a mão esquerda. Ele se retraiu um pouco do toque, embora fosse pura delicadeza.

Ela ergueu os olhos para ele. Eram castanhos tão escuros que quase chegavam a ser negros.

— Isso não é reumatismo. É artrite. Do tipo que se espalha rápido.

— É, de onde eu venho alguns a chamam de torção seca — disse ele. — Nem uma palavra disso ao père, nem aos meus amigos.

Os olhos escuros encararam-no, firmes.

— Não vai conseguir guardar este segredo por muito tempo.

— Estou ouvindo muito bem. Mas enquanto eu puder guardar o segredo, eu vou guardar o segredo. E você vai me ajudar.

— Sim. Não se preocupe. Vou esperar o momento propício.

— Eu lhe agradeço. Muito bem, isso vai me ajudar?

Ela olhou a garrafa e sorriu.

— Vai, sim. É hortelã e brotos do pântano. Mas o segredo é a bílis de gato que está aí dentro... só três gotas em cada garrafa, o senhor sabe. São gatos da montanha que chegam pelo deserto, vindos da grande escuridão.

Ela destampou a garrafa e despejou um pouco daquela coisa oleosa na palma da mão. O cheiro de hortelã penetrou de estalo no nariz de Roland, seguido por um outro, menos intenso, mas muito menos agradável. Sim, ele reconheceu que podia ser bílis de puma ou suçuarana, ou fosse lá como chamavam os gatos da montanha naquelas bandas.

Quando ela se curvou e esfregou-lhe as rótulas, o calor foi imediato e intenso, quase forte demais para suportar. Mas quando abrandou um pouco, causou-lhe um alívio maior do que ele teria ousado esperar.

Ao terminar de passar-lhe o ungüento, ela disse:

— Como está seu corpo agora, pistoleiro-sai?

Em vez de responder-lhe com a boca, ele a apertou contra o corpo magro, desnudo, e abraçou-a com força. Ela retribuiu o abraço com uma falta de vergonha ingênua e sussurrou-lhe no ouvido:

— Se é quem diz que é, precisa não deixar que levem os bebês. Não, nem um único sequer. Não importa o que digam os grandes vermes como Eisenhart e Telford.

— Faremos o melhor que pudermos — disse ele.

— Que bom. Obrigada. — Ela recuou, baixou os olhos. — Uma parte do senhor não tem artrite e tampouco reumatismo. Parece muito cheia de vida. Talvez uma senhora a visse de relance no luar esta noite, pistoleiro, e suspirasse por companhia.

— Talvez ela vá tê-la — disse Roland. — Você me daria uma garrafa deste negócio para levar em minhas viagens por Calla, ou é cara demais?

— Nãão, não é cara demais — disse ela. Em seu flerte, sorrira. Agora assumia mais uma vez um ar grave. — Mas acho que só vai ajudá-lo por algum tempo.

— Eu sei — disse Roland. — E não importa. Estendemos o tempo como podemos, mas no fim o mundo leva tudo de volta.

— E, leva sim — concordou ela.

 

Quando saiu da despensa, abotoando a fivela do cinturão, ele finalmente ouviu movimento no outro quarto. O murmúrio da voz de Eddie, seguido de um sonolento repique de risada feminina. Callahan estava junto ao fogão, servindo-se de café fresco. Roland foi até ele e falou rapidamente.

— Eu vi carurus-de-cacho na trilha à esquerda de sua entrada, entre a igreja e aqui.

— Sim, e os frutos estão maduros. Você tem olhos aguçados.

— Meus olhos não importam, você sabe. Vou sair para encher meu chapéu. Quero que Eddie se junte a mim enquanto sua mulher talvez estale um ou três ovos. Dá para cuidar disso?

— Acho que sim, mas...

— Ótimo — disse Roland, e saiu.

 

Quando Eddie chegou, Roland já enchera metade do chapéu com as bagas cor de laranja, e também já comera vários punhados. A dor nas pernas e no quadril haviam desaparecido com surpreendente rapidez. Colhendo, ele se perguntava quanto não haveria pagado Cort por uma única garrafa de gordura de gato de Rosalita Munoz.

— Cara, essas parecem com as frutas de cera que nossa mãe punha num paninho ornamental de mesa todo Dia de Ação de Graças — disse Eddie. — A gente pode mesmo comê-las?

Roland pegou uma fruta quase do tamanho da ponta do seu polegar e lançou-a na boca de Eddie.

— Tem gosto de cera, Eddie?

Os olhos de Eddie, cautelosos para começar, de repente se arregalaram. Ele engoliu, deu um enorme sorriso e estendeu a mão pedindo mais.

— Iguais a uvas-do-monte, só que mais doces. Será que Suze sabe fazer muffins? Mesmo que ela não saiba, aposto que a governanta de Callahan...

— Me escute, Eddie. Escute com muita atenção e controle suas emoções. Pelo seu pai.

Eddie estendia a mão para pegar um arbusto particularmente cheio de frutas. Interrompeu-se então e apenas o olhou, o rosto sem expressão. A luz do dia, Roland viu como ele parecia mais velho. Era realmente extraordinário como amadurecera.

— De que se trata?

Roland, que decidira guardar o segredo até que lhe parecesse mais complexo do que de fato era, surpreendeu-se com a rapidez e simplicidade que foi contado. E Eddie, ele percebeu, não ficou de todo surpreso.

— Há quanto tempo você sabe?

Roland escutou, à espera de acusação nesta pergunta, mas não ouviu nenhuma.

— Com certeza? Desde que a vi se esgueirar para a floresta. Eu a vi comendo... — O pistoleiro fez uma pausa. — ... o que ela comia. Ouvi-a falando com pessoas que não estavam lá. Desconfiei muito antes. Desde Lud.

— E não me contou.

— Não. — Agora viriam as recriminações, e uma generosa ajuda do sarcasmo de Eddie. Só que não vieram.

— Quer saber se estou puto, não? Se vou criar algum problema com isso?

— Vai?

— Não. Não estou zangado, Roland. Exasperado talvez, e com uma porra de medo por Suze, mas por que eu estaria danado com você? Não é você o dinh? — Foi a vez de Eddie fazer uma pausa. Quando tornou a falar, foi mais específico. Não era fácil para ele, mas pôs para fora. — Não é você o meu dinh?

— Sim — disse Roland.

Estendeu a mão e tocou o braço de Eddie. Ficou pasmo com o seu desejo, quase necessidade, de explicar. Resistiu. Se Eddie conseguia chamá-lo não apenas de dinh, mas de seu dinh, ele tinha de comportar-se como dinh. O que disse foi:

— Você não parece exatamente aturdido com a minha notícia.

— Ah, estou surpreso — disse Eddie. — Talvez não aturdido, mas... bem... — Pegou as bagas e jogou-as no chapéu de Roland. — Eu via algumas coisas, certo? Às vezes ela fica pálida demais. Às vezes se contrai e agarra seu corpo, mas se pergunto ela diz que são só gases. E seus seios estão maiores. Tenho certeza. Mas, Roland, ela continua menstruando! Há um mês, mais ou menos, eu a vi enterrando os trapos... e cheios de sangue. Encharcados. Como é que pode? Se ela engravidou quando puxamos Jake... enquanto mantinha o demônio do círculo ocupado... já faz quatro meses, no mínimo, na certa cinco. Mesmo levando em conta a forma como o tempo passa devagar por nós, tem de ser.

Roland assentiu.

— Eu sei que ela tem tido as menstruações. E isto é prova conclusiva de que o filho não é seu. A coisa que ela tem dentro de si desdenha seu sangue de mulher.

Roland pensou nela espremendo a rã na mão, estalando-a. Bebendo a bílis preta. Lambendo-a dos dedos como melado.

— Será que... — Eddie fez menção de comer uma das bagas, decidiu-se contra e jogou-a em vez disso no chapéu de Roland. O pistoleiro achou que passaria algum tempo até Eddie voltar a sentir de novo a excitação do verdadeiro apetite. — Roland, será que chegaria a ter a aparência de um bebê humano?

— Com quase toda a certeza, não.

— Do que, então?

E antes que as pudesse dizer, as palavras saíram.

— É melhor não falar no diabo.

Eddie estremeceu. O pouco de cor restante em seu rosto agora o deixava.

— Eddie? Você está bem?

— Não — disse Eddie. — Claro que não estou nada bem. Mas também não vou desmaiar como uma garota num concerto de Andy Gibb. Que é que vamos fazer?

— Por enquanto, nada. Já temos demasiadas outras coisas a fazer.

— Não temos mesmo — disse Eddie. — Aqui, os Lobos chegam em 24 dias, se é que calculei certo. Lá em Nova York, quem sabe que dia é hoje? Seis de junho? Dez? Mais perto de 15 de julho do que ontem, sem dúvida. Mas Roland... e se o que ela tem ali dentro não é humano, não podemos ter certeza de que sua gravidez vai durar nove meses. Ela pode pôr para fora em seis. Diabos, pode pôr amanhã.

Roland assentiu com a cabeça e esperou. Se Eddie sacara até aí, sem dúvida conseguiria sacar o que faltava até o fim do caminho.

E o fez.

— Estamos de mãos atadas, não?

— Sim. Podemos observá-la, mas não há muito mais que possamos fazer. Não podemos nem mantê-la quieta, na esperança de moderar suas atividades, porque é bem provável que adivinhasse por que fazíamos isso. E precisamos dela. Para atirar quando chegar a hora, mas antes vamos ter de treinar algumas dessas pessoas com quaisquer armas com que se sintam à vontade. Na certa vai acabar sendo com arcos. — Roland fez uma careta. No fim acertara o alvo no Campo do Norte com suficientes flechas para satisfazer Cort, mas jamais gostara de arco e flecha nem de besta ou clava. Estas eram as armas preferidas de Jamie DeCurry, não dele.

— Vamos ter realmente de nos valer delas para atacar, não?

— Ah, vamos.

E Eddie sorriu. Sorriu apesar de si mesmo. Ele era o que era. Roland viu isso e alegrou-se.

 

Ao refazerem o caminho de volta à casa-reitoria de Callahan, Eddie perguntou:

— Você abriu tudo pra mim, Roland, por que não abrir pra ela?

— Não sei bem se eu entendo o que quer dizer.

— Ah, acho que entende, sim — disse Eddie.

— Tudo bem, mas acho que você não vai gostar da resposta.

— Já ouvi todo tipo de respostas suas, e não saberia dizer se gostei muito mais de uma em cinco. — Eddie pensou. — Nãao, isto é generoso demais. Digamos uma em cinqüenta.

— Aquela que se chama de Mia... o que significa mãe na Língua Superior... sabe que está esperando um filho, embora eu duvide que saiba que espécie de filho.

Eddie pensou nisso em silêncio.

— Seja o que for, Mia pensa na coisa como seu bebê, e vai protegê-lo até o limite de sua força e vida. Se isto significar se apoderar do corpo de Susannah... assim como Detta Walker às vezes se apodera do de Odetta Holmes... ela o fará se puder.

— E na certa pode — disse Eddie, pessimista. Depois se virou de frente para Roland. — Portanto, o que eu acho que está me dizendo, corrija-me se entendi errado, é que não quer dizer a Suze que ela talvez esteja criando monstro na barriga porque isso poderia prejudicar sua eficácia.

Roland poderia ter reagido à severidade desse julgamento, mas preferiu não fazê-lo. Em essência, Eddie tinha razão.

Como sempre quando se enfurecia, o sotaque de malandro de rua de Eddie tornou-se mais pronunciado. Era quase como se falasse pelo nariz em vez de pela boca.

— E se alguma coisa mudar no próximo mês, ou por aí assim, se ela entrar em trabalho de parto e parir o Monstro da Lagoa Negra, por exemplo, vai ficar completamente despreparada. Não terá sequer uma pista.

Roland parou a uns 5 metros da casa-reitoria. Dentro da janela, viu Callahan conversando com dois jovens, um rapazola e uma mocinha. Mesmo dali, percebeu que eram gêmeos.

— Roland?

— Você diz a verdade, Eddie. Adianta isso? Se adiantar, espero que consiga. O tempo não é mais apenas um rosto na água, como você mesmo observou. Tornou-se uma mercadoria preciosa.

Mais uma vez esperou uma patente explosão de Eddie Dean, completa com frases tipo lamba meu cu ou engula merda e morra. Mais uma vez não veio nenhuma. Eddie o encarava, só isso. O olhar firme e meio pesaroso. Triste por Susannah, claro, mas também por eles dois. Os dois parados ali e conspirando contra um do tet.

— Eu vou junto com você — disse Eddie —, mas não porque é o dinh nem porque um daqueles dois tem chance de voltar sem cérebro do Trovão. — Apontou os gêmeos com quem o Velho conversava na sala. — Eu trocaria todo garoto nesta cidade pelo que Susannah carrega em si. Se fosse uma criança. Meu filho.

— Sei que o faria — disse Roland.

— É a rosa que me preocupa — disse Eddie. — Esta é a única coisa pela qual vale a pena arriscá-la. Mas, mesmo assim, você tem de me prometer que se as coisas saírem erradas, se ela entrar em trabalho de parto, ou se essa rapariga Mia começar a se apoderar, vamos tentar salvá-la.

— Eu sempre tentarei salvá-la — disse Roland, e então teve uma breve e terrível imagem, breve mas muito clara, de Jake pendendo sobre a queda embaixo das montanhas.

— Jura? — perguntou Eddie.

— Juro — respondeu Roland. Seus olhos se encontraram com os do homem mais moço.

Na mente, contudo, ele viu Jake caindo no abismo.

 

Os dois chegaram à porta da reitoria no momento em que Callahan conduzia o jovem casal para fora. Eles eram, pensou Roland, com muita probabilidade as crianças mais deslumbrantes que já vira. Tinham os cabelos negros como carvão, os do garoto na altura dos ombros, os da garota presos por uma fita e caindo à altura do bumbum. Os olhos eram de um perfeito azul-escuro, a tez branco-cremosa, os lábios um vermelho sensual, surpreendentes. Salpicos de apagadas sardas espalhavam-se pelas maçãs do rosto. Pelo que notou Roland, os salpicos também eram idênticos. Eles desviaram o olhar dele para Eddie e depois de volta a Susannah, encostada no vão da porta da cozinha com um pano de prato numa das mãos e uma caneca de café na outra. Partilhavam uma expressão de maravilhada curiosidade. Roland viu cautela, mas nenhum medo, em seus rostos.

— Roland, Eddie, eu gostaria que conhecessem os gêmeos Tavery, Frank e Francine. Rosalita foi buscá-los, os Tavery moram a menos de 1 quilômetro daqui, entendem? Vocês terão seu mapa pronto esta tarde, e duvido que terão visto um mais excelente em toda a vida. É apenas um dos talentos que eles têm.

Os gêmeos Tavery mostraram seus bons modos, Frank com uma vênia e Francine com uma reverência.

— Vocês nos fazem bem e nós agradecemos — disse-lhes Roland.

Um idêntico rubor infundiu a tez cremosa; os dois murmuraram seus obrigados e prepararam-se para ir embora. Antes que pudessem fazê-lo, Roland passou um braço em volta de cada par de ombros estreitos, mas bem-feitos, e acompanhou os gêmeos por um trecho da caminhada. Mais do que com a perfeita beleza infantil dos dois, ele estava encantado com a penetrante inteligência que viu em seus olhos azuis. Não tinha a menor dúvida de que fariam seu mapa; nem dúvida alguma de que Callahan mandara Rosalita buscá-los como uma espécie de aula prática, se é quealguém ainda precisa de alguma: sem interferência, uma daquelas belas crianças seria um idiota inarticulado dali a um mês.

— Sai? — perguntou Frank. Agora se desprendia um toque de preocupação de sua voz.

— Não me tema — disse Roland —, mas me escute bem.

 

Callahan e Eddie observaram Roland acompanhar os gêmeos Tavery devagar pelo atalho pavimentado de lajes até o caminho de terra contíguo da entrada para a casa. Os dois pensaram a mesma coisa: Roland parecia um avô benévolo.

Susannah juntou-se a eles, olhou, depois puxou a camisa de Eddie.

— Venha comigo um instante.

Ele a seguiu até a cozinha. Rosalita já se fora e os dois ficaram a sós. Susannah tinha os olhos castanhos enormes brilhando.

— De que se trata? — perguntou ele.

— Ponha-me no colo.

Ele o fez.

— Agora me beije rápido, enquanto tem a chance.

— É só isto que você quer?

— E não basta? É melhor bastar, senhor Dean.

Ele beijou-a, e com vontade, mas não pôde deixar de reparar como tinha os seios maiores quando se apertaram contra ele. Ao afastar o rosto do dela, viu-se à procura de traços da outra em seu rosto. Daquela que se chamava mãe na Língua Superior. Viu apenas Susannah, mas imaginou que dali em diante estaria condenado a ver. E não parou de evitar que os olhos baixassem para a barriga. Tentou desviá-los, mas era como se pesassem naquela direção. Perguntou-se em que medida aquilo que existia entre eles mudaria agora. Não foi uma especulação agradável.

— Este foi melhor? — perguntou.

— Muito. — Ela sorriu um pouco, e depois o sorriso se desfez. Algum problema?

Ele deu um sorriso e beijou-a mais uma vez.

— Refere-se a outro além de que todos provavelmente vamos morrer aqui? Necas. Nada mesmo.

Mentira-lhe ele antes? Não se lembrava, mas achava que não. E mesmo que houvesse mentido, jamais o fizera com tanta desfaçatez. Com tamanha maquinação.

Isso era ruim.

 

Dez minutos depois, rearmados com canecas de café fresco (e uma tigela com frutas de caruru-de-cacho), saíram para o pequeno quintal atrás da reitoria. O pistoleiro ergueu por um momento o rosto para o sol, saboreando seu peso e calor. Depois se voltou para Callahan.

— Nós três vamos ouvir sua história agora, père, se quiser nos contar. E depois talvez passear até sua igreja e ver o que tem lá.

— Eu quero que tire aquilo de lá — disse Callahan. — A coisa não profanou a igreja, como poderia quando Nossa Senhora jamais foi consagrada para começar? Mas isso a tem mudado para pior. Mesmo quando a igreja ainda estava sendo construída. Eu sentia o espírito de Deus dentro dela. Já não sinto mais. Aquela coisa o expulsou. Quero que você a tire de lá.

Roland abriu a boca para dizer alguma coisa esquiva, mas Susannah falou antes que ele pudesse.

— Roland? Você está bem?

Ele se voltou para ela.

— Ora, estou. Por que não estaria?

— Você não pára de esfregar o quadril.

Teria mesmo esfregado? Sim, ele viu, esfregara. A dor já retornava, se alastrando, apesar do sol quente, apesar da gordura de gato de Rosalita. A torção seca.

— Não é nada — respondeu ele. — Só um toque do reumatismo.

Ela olhou-o, duvidosa, depois pareceu aceitar. É uma desgraçada maneira de começar, pensou Roland, com no mínimo dois de nós guardando segredos. Não podemos continuar assim. Não por muito tempo.

Virou-se para Callahan.

— Conte-nos sua história. Como ganhou essas cicatrizes, como chegou aqui e como obteve o Treze Preto. Ouviremos cada palavra.

— Sim — murmurou Eddie.

— Cada palavra — ecoou Susannah.

Todos os três olhavam para Callahan, o Velho, o religioso que permitia que o chamassem de père, mas não de padre. Levou a mão direita torta à cicatriz na testa e alisou-a. Acabou dizendo:

— Foi a bebida. É no que acredito agora. Não Deus, não os demônios, não a predestinação, não a companhia de santos. Foi a bebida. — Fez uma pausa e deu-lhes um sorriso. Roland se lembrou de Nort o comedor de erva em Tull que fora trazido dos mortos pelo homem de preto. Nort sorrira assim. — Mas se Deus fez o mundo, então fez a bebida. E isto também é Sua vontade.

Ka, pensou Roland.

Callahan ficou ali sentado, calado, alisando a cicatriz em forma de crucifixo na testa e reunindo os pensamentos. E depois começou a contar sua história.

 

A História do Padre (Nova York)

Foi a bebida, ele passou a acreditar quando finalmente a deixou e veio a claridade. Não Deus, não Satanás, nem alguma profunda batalha psicossexual entre a abençoada mãe e o abençoado pai. Apenas a bebida. E lá surpreendia que o uísque o pegasse pelas orelhas? Ele era irlandês, um padre, mais um ponto e a gente está fora.

Do seminário em Boston, fora para uma paróquia municipal em Lowell, Massachusetts. Seus paroquianos haviam-no adorado (não se referia a eles como seu rebanho, rebanhos eram o que a gente chamava de gaivotas a caminho do monte de lixo da cidade), mas após sete anos ali, Callahan começara a ficar pouco à vontade. Quando conversara com o bispo Dugan no escritório da diocese, ele usara todas as palavras-chave da época para expressar essa inquietação: anomia, mal-estar urbano, crescente falta de empatia, sensação de desligamento da vida espiritual. Tomara um trago no banheiro antes do encontro (seguido por duas balas de hortelã Wintergreen Life Savers, não era nenhum tolo), e fora particularmente eloqüente naquele dia. A eloqüência nem sempre se origina da crença, mas muitas vezes da garrafa. E ele não era nenhum mentiroso. Acreditava no que dizia naquele dia no gabinete de Dugan. Em cada palavra. Como acreditava em Freud, no futuro da missa falada em inglês, na nobreza da Guerra à Pobreza de Lyndon Johnson e na idiotice de sua guerra que se alastrava pelo Vietnã: afundando até a cintura no Imenso Lamaçal, e o grande idiota dizia para forçar a barra como queria a velha modinha popular. Ele acreditava em grande parte porque aquelas idéias (se é que eram idéias e não apenas conversa fiada de coquetéis) andavam tendo alta cotação na época no Grande Quadro intelectual. A Consciência Social subiu dois e um terço, Casa e Lar desceu dois e um quarto, mas ainda é a ação quente na Bolsa. Depois tudo ficou mais simples. Depois ele passou a entender que não andava bebendo demais por se sentir espiritualmente perturbado, mas se sentia espiritualmente perturbado porque andava bebendo demais. Dava vontade de protestar, dizer que não podia ser isso, ou não apenas isso. Mas era isso, só isso. A voz de Deus é baixa e pequena, a voz de um pardal num ciclone, dizia o profeta Isaías, e todos damos graças. É difícil ouvir claramente uma voz baixa quando se está coberto de merda até o tampo de tão embriagado. Callahan deixou os Estados Unidos para o mundo de Roland antes de a revolução do computador desovar o acrônimo GIGO — G(arbage) I(n), G(arbage) O(ut), lixo dentro, lixo fora —, mas com tempo suficiente para ouvir alguém numa reunião dos AA observar que se a gente põe um babaca num avião em São Francisco e o leva até a Costa Leste, o mesmo babaca desembarca em Boston. Em geral com quatro ou cinco drinques debaixo do cinto. Mas isto foi depois. Em 1964 ele acreditara no que acreditava, e muita gente ficara ansiosa por ajudá-lo a encontrar seu caminho. De Lowell ele fora para Spofford, Ohio, um subúrbio de Dayton. Ali, ficou cinco anos, e depois começou a sentir-se agoniado de novo. Em conseqüência, passou a desabafar mais uma vez a mesma conversa. Daquela que o escritório diocesano escutava. Daquela que faz a pessoa ir para o fim da fila. Anomia. Desligamento espiritual (desta vez de seus paroquianos suburbanos). Sim, eles gostavam dele (e ele gostava deles), mas alguma coisa continuava parecendo errada. E de fato havia uma coisa errada, sobretudo no tranqüilo bar da esquina (onde todo mundo também gostava dele) e no armário de bebidas alcoólicas na sala da reitoria. Acima de pequenas doses, o álcool é uma toxina, e Callahan vinha-se envenenando todas as noites. Era o veneno em seu sistema, não o estado do mundo nem o de sua própria alma, que o estava derrubando. Fora isso sempre tão óbvio assim? Depois (em outra reunião dos AA), ele ouvira um sujeito referir-se ao alcoolismo e à dependência como o elefante na sala: como era possível não vê-lo? Callahan não lhe dissera, ainda estava nos primeiros noventa dias de sobriedade àquela altura (“Tire o algodão dos ouvidos e enfie na boca”, aconselhavam os dos velhos tempos, e todos agradecemos), mas podia ter-lhe dito, na verdade, sim. Era possível não ver o elefante se fosse um elefante mágico, se tivesse o poder — como O Sombra — de toldar as mentes dos homens. De fazer a gente acreditar mesmo que nossos problemas eram espirituais e mentais, mas de modo algum etílicos. Meu Bom Jesus, só a perda do sono REM, relacionada à bebedeira, bastava para nos foder com plena razão, mas de algum modo a gente nunca pensava nisso quando estava ativo. A pinga transformava seu processo mental numa coisa semelhante àquele número circense em que todos os palhaços vêm saltando do carrinho. Quando as revíamos na sobriedade, as coisas que disséramos e fizéramos nos faziam estremecer (“Eu me sentava num bar resolvendo todos os problemas do mundo, depois não conseguia encontrar meu carro no estacionamento”, lembrou um colega na reunião, e todos agradecemos). As coisas em que a gente pensava eram piores ainda. Como se podia passar a manhã vomitando e à tarde acreditar que estava tendo uma crise espiritual? Mas ele, sim. E seus superiores também, possivelmente porque outros estivessem tendo seus próprios problemas com o elefante mágico. Callahan começou a achar que uma igrejinha, uma paróquia rural, o poria de volta em contato com Deus e consigo mesmo. E assim, na primavera de 1969, viu-se mais uma vez na Nova Inglaterra. No norte da Nova Inglaterra, desta vez. Abriu a loja — saco e bagagem, crucifixo e casula sacerdotal — na agradável cidade de Jerusalem’s Lot, no estado do Maine. Ali finalmente encontrou com o verdadeiro diabo. Olhou-o na cara.

E se encolheu.

 

— Um escritor se aproximou de mim — disse ele. — Um homem chamado Ben Mears.

— Eu acho que li um dos livros dele — disse Eddie. — Air Dance era o título. Sobre um cara que é enforcado pelo assassinato cometido pelo irmão?

Callahan assentiu.

— É esse mesmo. Também um professor chamado Matthew Burke, e os dois acreditavam que havia um vampiro em ação em ’Salem’s Lot, daqueles que fazem outros vampiros.

— Existe outro tipo? — perguntou Eddie, lembrando-se de centenas de filmes no Majestic e talvez milhares de revistas em quadrinhos compradas (e às vezes roubadas) na Dahlie’s.

— Existe, e vamos chegar lá, mas isso não tem importância agora. Acima de tudo, havia um garoto que acreditava. Ele tinha mais ou menos a mesma idade que o Jake de vocês. Os dois não me convenceram a princípio, mas eles estavam convencidos, e era difícil opor-se à sua crença. E também alguma coisa vinha acontecendo em Lot, isto com certeza. Pessoas desapareciam. Pairava uma atmosfera de terror na cidade. Impossível descrevê-la agora, sentado aqui ao sol, mas pairava. Eu tive de oficiar no enterro de outro garoto. Chamava-se Daniel Glick. Duvido que fosse a primeira vítima desse vampiro em Lot, e certamente não a última, mas foi a primeira que apareceu morta. No dia do enterro de Danny Glick, minha vida de algum modo mudou. E também não me refiro a mais um dia sem o meio litro de uísque. Alguma coisa mudou em minha cabeça. Eu sentia. Como um interruptor que foi ligado. E embora eu não tenha tomado uma bebida faz anos, esse interruptor continua ligado.

Susannah pensou: Foi quando você entrou em todash, padre Callahan.

Eddie pensou: Foi quando você entrou em 19, meu chapa. Ou talvez seja 99. Ou talvez os dois, de algum modo.

Roland apenas escutava. Não se via reflexão alguma em sua mente, era uma perfeita máquina receptora.

— O escritor, Mears, havia-se apaixonado por uma moça da cidade chamada Susan Norton. O vampiro a levou. Creio que fez isso em parte porque pôde, e em parte para punir Mears por ousar formar um grupo, um ka-tet, para tentar caçá-lo. Fomos ao lugar que o vampiro tinha comprado, um destroço velho chamado Casa Marsten. A coisa que morava lá usava o nome de Barlow.

Callahan se interrompeu a pensar, examinando-os, os três, e de volta àqueles velhos tempos. Por fim, recomeçou.

— Barlow tinha ido embora, mas deixado a mulher. E uma carta. Endereçada a todos nós, mas dirigida sobretudo a mim. No momento em que a vi aberta ali no celeiro da Casa Marsten, compreendi que era tudo verdade. O médico que estava conosco ouviu o peito dela e tirou sua pressão, mas só para ter certeza. Nenhum batimento cardíaco. Pressão sangüínea zero. Mas quando Ben lhe enfiou com força a estaca, ela ressuscitou. O sangue fluiu. Ela gritou repetidas vezes. As mãos... eu me lembrei das sombras das mãos dela na parede...

Eddie agarrou a mão de Susannah. Eles ouviam numa expectativa horrorizada, que não era nem crença nem descrença. Não se tratava de um trem pensante energizado por circuitos de computador avariados, nem de homens e mulheres que haviam revertido à selvajaria. Era alguma coisa aparentada ao demônio invisível que chegara ao lugar em que haviam puxado Jake. Ou ao porteiro da casa em Dutch Hill.

— O que ele lhe dizia no bilhete, esse tal de Barlow? — perguntou Roland.

— Que minha fé era fraca e que eu ia me desgraçar. Tinha razão, claro. Àquela altura, a única coisa em que eu realmente acreditava era numa garrafa de Bushmills. Só que eu não sabia. Mas ele, sim. A bebida também é um vampiro, e talvez seja preciso um pra conhecer outro.

“O garoto que estava conosco tinha se convencido de que esse príncipe dos vampiros pretendia matar os pais dele em seguida, ou transformá-los. Por vingança. O garoto tinha sido levado preso, vejam bem, mas escapou e matou o cúmplice semi-humano do vampiro, um cara chamado Straker.”

Roland balançou a cabeça, achando que esse garoto se parecia cada vez mais com Jake.

— Como se chamava ele?

— Mark Petrie. Fui com ele até sua casa, e com todo o considerável poder que minha igreja permite: a cruz, a estola, a água benta e, claro, a Bíblia. Mas já passara a pensar nessas coisas como símbolos, e isto foi meu tendão-de-aquiles. Barlow estava lá. Tinha pegado os pais de Petrie. E depois o garoto. Ergui minha cruz. Ela brilhou. E o feriu. Ele gritou. — Callahan sorriu, lembrando aquele grito de agonia. A imagem gelou o coração de Eddie. — Eu disse que se machucasse Mark, eu ia destruí-lo, e naquele momento poderia ter destruído mesmo. Ele também sabia disso. Sua resposta foi que antes que eu fizesse, ele cortaria a garganta da criança. E ele poderia tê-lo feito.

— Impasse mexicano — murmurou Eddie, lembrando um dia perto do mar Ocidental em que ele enfrentara Roland numa situação de impressionante semelhança. — Impasse mexicano, baby.

— Que aconteceu? — perguntou Susannah.

O sorriso de Callahan desapareceu. Esfregava a mão direita estro-piada como o pistoleiro esfregara o quadril, sem parecer dar-se conta disso.

— O vampiro fez uma proposta. Pouparia o garoto se eu largasse a cruz que tinha na mão. Nós nos enfrentaríamos um ao outro desarmados. Sua fé contra a minha. Eu concordei. Deus me ajude, eu concordei. O garoto

 

O garoto se foi, como um redemoinho de água turva.

Barlow parece ficar mais alto. Os cabelos puxados para trás da testa, à maneira européia, parecem flutuar em volta do crânio. Veste um terno escuro e uma gravata vermelha berrante, com um nó impecável, e a Callahan parece fazer parte da escuridão que o cerca. Os pais de Mark Petrie jazem mortos a seus pés, os crânios esmagados.

— Cumpra sua parte da barganha, xamã.

Mas por que deveria ele? Por que não repeli-lo, aceitar um empate esta noite? Ou matá-lo já? Alguma coisa está errada com a idéia, terrivelmente errada, mas ele não consegue atinar exatamente o que é. Nem qualquer daquelas palavras-chave que o ajudaram em momentos de crise anteriores lhe será de alguma valia ali. Isto não é anomia, falta de empatia, nem a angústia existencial do século XX; isto é um vampiro. E...

E sua cruz, que andou brilhando ferozmente, começa a escurecer.

O medo salta-lhe na barriga com uma confusão de fios elétricos quentes. Barlow encaminha-se em direção a ele pela cozinha dos Petrie, e Callahan vê as presas da coisa com muita nitidez, porque Barlow sorri. O sorriso de um vencedor.

Callahan dá um passo atrás. Depois dois. Então bate com a bunda na borda da mesa, e a mesa recua até a parede, e não lhe resta mais lugar algum para onde correr.

— É triste ver a fé de um homem falhar — diz Barlow, e estende a mão. Por que não deveria estendê-la? A cruz que Callahan segura no alto agora está escura. Agora não passa de um pedaço de gesso, um pedaço barato de renda irlandesa que sua mãe comprou numa loja de suvenires em Dublin, na certa a preço de banana. O poder que tinha de descarregar pelo seu braço acima, voltagem espiritual suficiente para fazer desmoronar paredes e estilhaçar pedras, desapareceu.

Barlow toma-a de seus dedos. Callahan grita desesperadamente, o grito de uma criança que de repente percebe que o bicho-papão sempre foi real, à espera pacientemente de sua chance no armário. E agora vem um ruído que vai persegui-lo pelo resto da vida, desde Nova York e as secretas rodovias secretas dos Estados Unidos às reuniões dos AA em Topeka, onde ele ficou sóbrio para a parada final em Detroit, até sua vida ali, em Calla Bryn Sturgis. Vai lembrar-se dele quando estiver morto. O ruído são dois estalos secos quando Barlow quebra os braços da cruz, e o baque sem sentido quando ele joga o que restou dela no chão. E também vai lembrar-se do pensamento cosmicamente ridículo que lhe veio, mesmo quando Barlow partia em sua direção: Meu Deus, eu preciso de uma bebida.

 

O père fitava Roland, Eddie e Susannah com os olhos de quem está se lembrando dos piores momentos absolutos de sua vida.

— A gente ouve todo tipo de ditados e lemas nos Alcoólicos Anônimos. Tem um que me retorna à mente sempre que eu penso naquela noite. Em Barlow agarrando meus ombros.

— O quê? — perguntou Eddie.

— Cuidado com o que pede ao rezar — disse Callahan. — Porque você pode simplesmente recebê-lo.

— Você recebeu sua bebida — disse Roland.

— Ah, sim — confirmou Callahan. — Recebi minha bebida.

 

As mãos de Barlow são fortes, implacáveis. Quando Callahan é puxado para a frente, de repente entende o que vai acontecer. Não a morte. A morte seria uma misericórdia comparada a isso.

Não, por favor, não, tenta dizer, mas nada lhe sai da boca além de um gemido baixo, rápido.

— Agora, padre — sussurra o vampiro.

A boca de Callahan é apertada contra a carne putrefata da garganta fria do vampiro. Não há anomia alguma, nem disjunção social, nada de ramificações éticas ou raciais. Só o fedor da morte e uma veia, aberta e pulsátil com o sangue morto e infectado de Barlow. Nenhum senso de perda existencial, nenhuma dor pós-moderna pela extinção do sistema de valores americanos, nem sequer a culpa psicorreligiosa do homem moderno. Só o esforço de prender a respiração para sempre, ou desviar a cabeça, ou as duas coisas. Ele não pode. Prende-se ali pelo que parece uma eternidade, besuntando-se de sangue na face, testa e queixo como pintura de guerra. Em vão. No fim faz o que todos os alcoólatras devem fazer assim que a pinga os pegou pelas orelhas: bebe.

Ponto três. Você está fora.

 

— O garoto conseguiu fugir. Houve esse tanto. E Barlow me soltou. Matar-me não teria sido nada divertido, teria? Não, a diversão era me deixar vivo.

“Eu vaguei sem rumo mais ou menos durante uma hora, por uma cidade que cada vez ia deixando de existir. Não há muitos vampiros Tipo Um, o que é uma bênção, porque o Tipo Um pode causar um inferno de muitos estragos num período extremamente curto. Embora a cidade já estivesse semi-infectada, eu estava cego demais, chocado demais, para percebê-lo. E nenhum dos novos vampiros se aproximou de mim. Barlow deixara esta marca em mim com tanta certeza quanto Deus deixou o sinal dele em Caim antes de mandá-lo para a terra de Node. Seu relógio e sua garantia, como diria você, Roland.

“Havia uma fonte de água potável na alameda ao lado da drogaria Spencer, o tipo de coisa que nenhum Departamento de Saúde Pública teria sancionado alguns anos depois, mas naquela época havia uma ou duas em cada cidade pequena. Lavei ali o sangue de Barlow do meu rosto e pescoço. Tentei tirá-lo do cabelo também com a água. Depois fui para St. Andrews, minha igreja. Decidira orar por uma segunda chance. Não ao Deus dos teólogos que acreditam que tudo sagrado e profano acaba vindo de dentro de nós mesmos, mas ao Deus antigo. Aquele que proclamou a Moisés que não devia permitir que vivesse uma feiticeira e deu ao seu próprio filho o poder de ressuscitar dos mortos. Uma segunda chance era tudo o que eu queria. Minha vida por isso.

“Quando cheguei a St. Andrews, eu quase corria. Havia três portas por onde se entrar. Fui até a do meio. Em algum lugar o cano de descarga de um carro soltou explosões, e alguém riu. Eu me lembro muito bem desses ruídos porque demarcam a fronteira de minha vida como padre da Santa Igreja Católica Romana.”

— Que aconteceu com você, doçura? — perguntou Susannah.

— A porta me rejeitou — disse Callahan. — Tinha uma maçaneta de ferro, e quando a toquei saiu fogo como um raio em sentido contrário. Me derrubou pelos degraus escada abaixo até a calçada de cimento. Fez isto. — Ele ergueu a mão cicatrizada.

— E isso? — perguntou Eddie, apontando a testa dele.

— Não — disse Callahan. — Esta veio depois. Eu me levantei. Andei mais um pouco. Passei mais uma vez pela Spencer. Só que desta vez entrei. Comprei uma atadura para minha mão. E aí, enquanto eu pagava, vi o cartaz. Viaje pela Grande Grey Dog.

— Ele quer dizer Greyhound, doçura — Susannah disse a Roland. — É uma empresa de ônibus de âmbito nacional.

Roland assentiu com a cabeça e girou um dedo em seu gesto de continue.

— A Srta. Coogan me disse que o próximo ônibus ia para Nova York, então comprei uma passagem. Se ela me dissesse que ia para Jacksonville ou Nome ou Hot Burgoo, Dakota do Sul, eu teria ido a qualquer um desses lugares. Queria apenas sair da cidade. Não me importava que as pessoas estivessem morrendo e pior que morrendo, algumas delas amigos meus, algumas delas meus paroquianos. Só queria ir embora. Vocês entendem isso?

— Sim — disse Roland sem hesitação. — Muito bem.

Callahan olhou-o no rosto e o que viu ali pareceu tranqüilizá-lo um pouco. Quando continuou, parecia mais calmo.

— Loretta Coogan era uma das solteironas da cidade. Devo tê-la assustado, porque ela disse que eu teria de esperar o ônibus do lado de fora. Eu saí. O ônibus acabou chegando. Entrei e dei a passagem ao motorista. O ônibus começou a rodar. Passamos sob o pisca-pisca amarelo no meio da cidade, e tínhamos percorrido o primeiro quilômetro. O primeiro quilômetro da estrada que me trouxe até aqui. Mais tarde, talvez às quatro e meia da manhã, ainda escuro lá fora, o ônibus parou em

 

— Hartford — disse o motorista. — Aqui é Hartford, moço. Vamos fazer uma parada de descanso de vinte minutos. Não quer entrar e comprar um sanduíche ou coisa que o valha?

Callahan tateia no bolso para retirar a carteira com a mão enfaixada e quase a deixa cair. O gosto da morte na boca, um gosto degenerado, farináceo como uma maçã podre. Ele precisa de alguma coisa para tirar aquele gosto, e se não tirá-lo, alguma coisa que o modifique, e se nada o modificar, pelo menos alguma coisa para disfarçá-lo, como a gente às vezes disfarça uma falha num piso de madeira com um pedaço de tapete barato.

Estende uma nota de 20 dólares para o motorista do ônibus e diz:

— Pode me comprar uma garrafa?

— Senhor, as normas...

— E fique com o troco, claro. Uma de meio litro seria ótimo.

— Eu não preciso de ninguém bagunçando meu ônibus. Vamos chegar a Nova York em duas horas. Você pode comprar o que quiser assim que chegar lá. — O motorista tenta sorrir. — É a Cidade da Diversão, você sabe.

Callahan — ele não é mais padre Callahan, o raio de fogo da maçaneta da porta respondeu a essa questão, pelo menos — acrescenta uma nota de 10 à de 20. Agora estende 30 dólares. Mais uma vez diz ao motorista que uma de meio litro seria ótimo, e não espera nenhum troco. Desta vez o motorista, que não é idiota, pega o dinheiro.

— Mas não vá me criar confusão, eu não quero ninguém bagunçando meu ônibus — repete ele.

Callahan assente com a cabeça. Sem bagunça, um grande escore. O motorista entra na combinação de mercearia-loja-de-bebidas-restaurante-de-pedidos-rápidos que existe na borda de Hartford, à borda do amanhecer, sob luzes amarelas de alta intensidade. Há rodovias secretas nos Estados Unidos, rodovias ocultas. Esse lugar fica numa das rampas de acesso a essa rede de estradas do lado sombrio, pressente Callahan. Fica na forma como xícaras descartáveis Dixie e maços de cigarro amassados voam pelo macada-me na hora antes do amanhecer. Isso sussurra da placa nas bombas de gasolina, a que diz PAGUE A GASOLINA ANTES DO PÔR DO SOL. Na forma como o adolescente do outro lado da rua se senta na rampa da varanda às quatro e meia da manhã, com a cabeça nos braços, um estudo silencioso de dor. As rodovias secretas ficam ali fora, próximas, e sussurram-lhe. “Vamos, companheiro”, dizem. “É aqui onde você pode esquecer tudo, até o nome que ataram a você quando não passava de um bebê nu, balindo, ainda manchado de sangue de sua mãe. Amarraram um nome a você como uma lata ao rabo de um cachorro, não foi? Mas você não precisa arrastá-lo por aí. Venha. Vamos.” Mas ele não vai a parte alguma. Espera o motorista do ônibus voltar, e logo o motorista volta, e ele pega a garrafa de meio litro de Old Log Cabin num saco de papel pardo. Esta é uma marca que Callahan conhece bem, meio litro da bebida custa provavelmente 2 dólares e 25 centavos aqui onde Judas perdeu as botas, o que significa que o motorista de ônibus acabou de receber uma gorjeta de quase 28 dólares, pegar ou largar. Nada mal. Mas é este o jeito americano, não? Dar muito para receber pouco. E se o Log Cabin tirar esse terrível gosto da boca — muito pior do que a dor latejante na mão queimada —, terá valido cada centavo dos 30 dólares. Porra, teria valido uma nota de 100.

— Nada de confusão — diz o motorista. — Eu jogo você no meio da via expressa Cross Bronx se começar a bagunçar. Juro por Deus que jogo.

Quando o Greyhound pára na Alfândega, Don Callahan está embriagado. Mas não cria confusão; fica simplesmente sentado em silêncio até a hora de saltar e juntar-se ao fluxo de humanidade sob as frias luzes fluorescentes: os drogados, os taxistas, os pequenos engraxates, os garotos vestidos de mulher que chupam seu pau por 10 dólares, os tiras rodando os cassetetes, os traficantes de drogas portando rádios transistores, os operários uniformizados que acabam de chegar de Nova Jersey. Callahan junta-se a eles, bêbado mas quieto; os policiais girando os cassetetes não chegam a olhá-lo duas vezes. O ar da Alfândega cheira a fumaça de cigarro, joysticks, escape. Os ônibus atracados roncam. Todo mundo ali parece solto. Sob as frias e brancas luzes fluorescentes, todos parecem mortos.

Não, ele pensa, passando por uma placa onde se lê PARA A RUA. Mortos não. Não mortos.

 

— Cara — disse Eddie. — Você esteve na guerra, não? Gregos, romanos, Vietnã?

Quando o Velho começara o relato, Eddie torcera para que ele acabasse logo a história e eles pudessem ir até a igreja e ver o que estivesse enfurnado lá. Não esperara ficar tocado, muito menos abalado, mas ficara. Callahan conhecia coisas que Eddie julgava impossível que mais alguém conhecesse: a tristeza das xícaras descartáveis Dixie rolando pela calçada, a enferrujada desesperança naquela placa nas bombas de gasolina, a aparência do olhar humano na hora antes do amanhecer.

Acima de tudo, como às vezes a gente tinha de acertar.

— As guerras? Não sei — disse Callahan. Depois deu um suspiro e assentiu com a cabeça. — Sim, acho que sim. Passei aquele primeiro dia em cinemas e aquela primeira noite no parque da Washington Square. Vi que as outras pessoas desabrigadas se cobriam com jornais, e foi o que eu fiz. E eis um exemplo de como a vida, a qualidade de vida e a textura de vida pareciam ter mudado para mim, a começar naquele dia do enterro de Danny Glick. Vocês não vão entender já, mas me acompanhem. — Olhou para Eddie e sorriu. — E não se preocupe, meu filho, não vou falar até o fim do dia. Nem sequer da manhã.

— Continue e conte qualquer história das coisas antigas que quiser, que isso lhe faz bem — disse Eddie.

Callahan desatou a rir.

— Agradeço! Ié, agradeço muitíssimo! O que ia dizer é que eu tinha me coberto da cintura pra cima com o Daily News e a manchete dizia: IRMÃOS HITLER ATACAM NO QUEENS.

— Ó meu Deus, os Irmãos Hitler — exclamou Eddie. — Eu me lembro deles. Aquela dupla de débeis mentais. Espancavam... quem? Judeus? Negros?

— Os dois grupos — respondeu Callahan. — E esculpiam suásticas em suas testas. Não tiveram chance de terminar a minha. O que foi bom, porque o que tinham em mente após o corte era muito mais que uma simples surra. E isso foi anos depois, quando voltei a Nova York.

— Suástica — disse Roland. — O emblema no avião que encontramos perto de River Crossing? O com David Quick dentro?

— Hã-hã — disse Eddie, e desenhou uma na grama com o bico de sua bota.

A grama despontou quase imediatamente, mas não antes de Roland ver que sim, a marca na testa de Callahan podia ter sido planejada para ser uma daquelas. Se tivesse sido concluída.

— Naquele dia em fins de outubro de 1975 — continuou Callahan — os Irmãos Hitler eram apenas uma manchete sob a qual eu dormi. Passei a maior parte daquele segundo dia em Nova York andando sem parar e lutando contra a urgência de matar uma garrafa. Parte de mim queria lutar em vez de beber. Tentar expiar. Ao mesmo tempo, eu sentia o sangue de Barlow agindo dentro de mim, mergulhando-me cada vez mais fundo. O mundo tinha um cheiro diferente, e nada melhor. As coisas pareciam diferentes e nada melhores. E o gosto dele retornando devagarinho à boca, um gosto de peixe morto ou vinho podre.

“Eu não tinha a menor esperança de salvação. Nem me passou pela cabeça. Mas expiação não tem a ver com salvação. Nem com céu. Mas trata de limpar sua consciência aqui na Terra. E você não pode fazer isso embriagado. Eu não me julgava um alcoólatra, nem sequer então, mas me perguntava, sim, se ele tinha me transformado num vampiro. Se o sol ia começar a queimar minha pele e eu ia passar a olhar para os pescoços de senhoras.”

Deu de ombros e riu:

— Ou talvez dos cavalheiros. Vocês sabem o que dizem do sacerdócio: somos apenas um bando de bichas enrustidas correndo em volta e brandindo a cruz na cara das pessoas.

— Mas você não era vampiro — disse Eddie.

— Nem sequer do Tipo Três. Nada além de impuro. No lado de fora de tudo. Banido. Sempre sentindo o fedor dele e sempre vendo o mundo como coisas da espécie dele devem vê-lo, em matizes de cinza e vermelho. Vermelho era a única cor viva que me permitia ver durante anos. Tudo mais era apenas um laivo.

“Acho que eu estava procurando um dos escritórios chamados Manpower... você sabe, a empresa de mão-de-obra diarista? Eu ainda era muito musculoso naquele tempo, e é claro que muito mais jovem, também.

“Não encontrei a Manpower. O que encontrei, sim, foi um lugar chamado Lar. Ficava na Quinta Avenida com a Quarenta e Sete, não muito longe da ONU.”

Roland, Eddie e Susannah se entreolharam. Fosse qual fosse o Lar, existira a apenas duas quadras do terreno baldio. Só que não estaria vazio então, pensou Eddie. Não em 1975. Em 75 ainda continuava sendo Comestíveis Finos e Artísticos Tom e Jerry. Nossa Especialidade: Bandejas para Bufês. De repente desejou que Jake estivesse ali. Eddie achou que a esta altura o garoto estaria dando pulos de emoção.

— Que tipo de loja era o Lar? — perguntou Roland.

— Não era loja nenhuma. Um abrigo. Um abrigo onde se bebia. Não tenho certeza de que era o único em Manhattan, mas aposto que era um dos muito poucos. Eu não sabia quase nada sobre abrigos na época, só alguma coisa de minha primeira paróquia, mas com o passar do tempo aprendi bastante. Vi o sistema dos dois lados. Havia vezes em que eu era o cara que servia as conchas de sopa às seis da tarde e distribuía as mantas às nove da noite; em outras, eu era o cara que tomava a sopa e dormia sob as mantas. Depois de uma inspeção na cabeça para ver se tinha piolho, claro.

“Há abrigos que não deixam a gente entrar se sentem cheiro de pinga no bafo. E há uns que deixam a gente entrar se afirmarmos que estamos no mínimo duas horas rio abaixo de nosso último drinque. Há lugares, poucos, que recebem a gente bêbado de mijar nas calças, desde que possam nos revistar na porta e livrar-nos de toda bebida alcoólica. Assim que você passa aos cuidados deles, eles o põem numa sala especial trancada com o restante dos caras do fundo. Você não pode dar uma escapadinha para arranjar outra bebida se mudar de idéia nem assustar o pessoal que está menos empapado que você, se ficar com delirium tremens e começar a ver bichos saindo das paredes. Não se permite a entrada de mulheres na sala trancada; elas têm chances demais de serem estupradas. Este é apenas um dos motivos de morrerem mais mulheres desabrigadas nas ruas do que homens desabrigados. É o que dizia Lupe.

— Lupe? — perguntou Eddie.

— Já vou chegar nele, mas por ora basta dizer que era o arquiteto da política do álcool no Lar. Ali, eles mantinham trancada a bebida, não os bêbados. A gente conseguia um trago se precisasse, e se prometesse ficar quieto. Mais um tranqüilizante. Não é um procedimento médico recomendado... não tenho nem certeza de que era legal, pois nem Lupe nem Rowan Magruder eram médicos... mas parecia funcionar. Eu trabalhei de graça durante os dois primeiros dias, e depois Rowan me chamou ao seu escritório, que era mais ou menos do tamanho de um armário de vassouras. Ele me perguntou se eu era alcoólatra. Respondi que não. Ele me perguntou se estava fugindo de alguma coisa. Respondi que sim, de mim mesmo. Ele me perguntou se eu queria trabalhar, e desatei a chorar. Ele tomou isso como um sim.

“Passei os nove meses seguintes, até junho de 1976, trabalhando no Lar. Fazia as camas, preparava a sopa na cozinha. Ia aos pedidos de levantamento de fundos com Lupe ou às vezes com Rowan, levava bêbados a reuniões dos AA na caminhonete do Lar, dava tragos aos caras que tremiam horrivelmente até para segurar o copo sozinho. Assumi a contabilidade porque era melhor nisso do que Magruder ou Lupe, ou qualquer dos outros caras que trabalhavam lá. Não foram os dias mais felizes de minha vida, eu jamais chegaria a tanto, e o gosto do sangue de Barlow nunca deixou minha boca, mas foram dias de graça. Eu não pensava muito. Só mantinha a cabeça baixa e fazia tudo que me mandavam fazer. Comecei a me curar.

“Em algum momento durante aquele inverno, percebi que tinha começado a mudar. Foi como se tivesse desenvolvido uma espécie de sexto sentido. Às vezes ouvia repiques de um carrilhão. Horrível, mas ao mesmo tempo agradável. Às vezes, andando na rua, as coisas começavam a parecer escuras mesmo que o sol brilhasse. Lembro que olhava para ver se minha sombra continuava lá. Eu seria positivo se não estivesse, mas sempre estava.”

O ka-tet de Roland trocou um olhar.

— Às vezes havia um elemento olfativo nessas fugas. Era um cheiro amargo, como cebola forte misturada com metal quente. Passei a achar que contraíra uma forma de epilepsia.

— Foi ver um médico? — perguntou Susannah.

— Não fui. Temia o que mais ele pudesse encontrar. Um tumor no cérebro parecia o mais provável. O que fazia era manter a cabeça baixa e continuar trabalhando. Então, uma noite, fui ver um filme na Times Square. Era uma reapresentação de dois faroestes de Clint Eastwood. Que eles chamavam de faroestes spaghetti?

— Ié — disse Eddie.

— Comecei a ouvir os sinos. O carrilhão. E a sentir aquele cheiro, cada vez mais forte. Tudo isso me chegava pela frente e à esquerda. Olhei para ali e vi dois homens, um mais velho, o outro mais jovem. Foi bastante fácil localizá-los, porque três quartos da sala estavam vazios. O mais moço inclinava-se para perto do mais velho, que nunca tirava os olhos da tela, mas passava o braço em volta dos ombros do mais moço. Se eu tivesse visto isso em qualquer outra noite, teria sido muito positivo quanto ao que estava acontecendo, mas não naquela noite. Observei. E comecei a ver um tipo de luz azul-escura, primeiro em volta do mais moço, depois em volta dos dois. Não era como nenhuma luz que eu tinha visto antes. Era como a escuridão que às vezes eu sentia na rua, quando os sinos começavam a repicar em minha cabeça. Como o cheiro. Eu sabia que aquelas coisas não estavam ali, e no entanto estavam. E compreendi. Não aceitei a princípio, isso veio depois, mas compreendi. O cara mais moço era um vampiro.

Ele se interrompeu, pensando em como contar sua história. Em como apresentá-la.

— Acredito que haja três tipos de vampiros em ação no nosso mundo. Eu os chamo de Tipo Um, Dois e Três. Os Tipo Um são raros. Barlow era Tipo Um. Vivem vidas muito longas, e podem passar períodos prolongados, cinqüenta anos, uma centena, talvez duas centenas, em profunda hibernação. Quando entram em atividade, são capazes de fazer novos vampiros, os que chamamos de não mortos. Os não mortos são Tipo Dois. Eles também são capazes de fazer novos vampiros, mas não astutos. — Olhou para Eddie e Susannah. — Vocês viram A Noite dos Mortos-vivos?

Susannah fez que não com a cabeça, Eddie que sim.

— Os não mortos nesse filme são zumbis, de cérebro totalmente morto. Os vampiros Tipo Dois são mais inteligentes que esses, mas não muito. Não podem sair durante as horas de luz diurna. Se tentam, ficam cegos, sofrem graves queimaduras ou são mortos. Embora eu não saiba com certeza, acho que a duração de suas vidas é em geral curta. Não porque a mudança de vivo e humano para não morto e vampiro encurta a vida, mas porque a existência dos Tipos Dois é extremamente perigosa.

“Na maioria dos casos, isto é o que acredito, não o que sei, os vampiros Tipo Dois criam outro tipo de vampiros Tipo Dois, numa área relativamente pequena. A essa altura da doença, e isto é uma doença, o vampiro Tipo Um, o vampiro rei, já se mandou. Em ’Salem’s Lot, eles na verdade mataram o filho-da-puta, um dos que talvez fossem apenas uma dúzia no mundo todo.

“Em outros casos, os Tipos Dois criam os Tipos Três. Estes são como mosquitos. Não podem criar mais vampiros, mas podem sugar. E sugam.”

— Eles pegam Aids? — perguntou Eddie. — Quer dizer, você sabe o que é isso, certo?

— Sei, embora só tenha ouvido o termo na primavera de 1983, quando trabalhava no Abrigo Ligthtouse em Detroit e meu tempo nos Estados Unidos encurtara. Claro que sabíamos havia mais de dez anos que existia alguma coisa. Alguns na literatura médica chamavam de GRID, acrônimo em inglês para Deficiência Imunológica Relacionada a Gays. Em 1982, começaram a publicar em jornais artigos sobre uma nova doença chamada “Câncer de Gay”, e especulações de que era contagiosa. Na rua, alguns homens a chamavam de Doença das Feridas de Foda, devido às manchas que deixava. Não creio que os vampiros morram disso nem que adoeçam disso. Mas podem pegar. E passar para outros. Ah, sim. E eu tenho motivo para pensar assim. — Os lábios de Callahan tremeram, depois se firmaram.

— Quando o demônio-vampiro fez você beber seu sangue, ele lhe deu a capacidade de ver tudo isso — disse Roland.

— Deu.

— Todos eles, ou só os Três? Os pequenos?

— Os pequenos — matutou Callahan, exprimindo em seguida uma risada breve e sem graça. — Sim, eu gosto disso. Em todo caso, os Três são tudo que vi, pelo menos desde que deixei Jerusalem’s Lot. Mas claro que os Tipos Um como Barlow são mais raros, e os Tipos Dois não duram muito tempo. A própria fome deles os desgraça. São sempre vorazes. Os Tipos Três, contudo, podem sair na luz do dia. E tiram seu principal sustento da comida, assim como nós.

— Que foi que você fez naquela noite? — perguntou Susannah. — No cinema?

— Nada — disse Callahan. — Todo o meu tempo em Nova York, minha primeira vez em Nova York, não fiz nada até abril. Eu não tinha certeza, você sabe. Quer dizer, meu coração tinha, mas a cabeça se recusava a acompanhar. E o tempo todo a interferência da mais insignificante das coisas: eu era um alcoólatra a seco. Um alcoólatra também é vampiro, e essa parte de mim vinha ficando cada vez mais sedenta, enquanto o resto tentava negar minha natureza essencial. Assim, eu disse a mim mesmo que vi dois homossexuais se acariciando no cinema, nada mais que isso. Quanto ao resto — os repiques do carrilhão, o cheiro, a luz azul-escura em volta do jovem —, me convenci de que era epilepsia, ou alguma coisa remanescente do que Barlow me fizera, ou as duas coisas. E é claro que quanto a Barlow eu tinha razão. Seu sangue estava acordado dentro de mim. E via.

— Era mais que isso — disse Roland. Callahan voltou-se para ele.

— Você entrou em todash, père. Alguma coisa o chamava deste mundo. A coisa em sua igreja, eu suspeito, embora não devesse estar ali quando soube pela primeira vez dela.

— É — disse Callahan. Encarava Roland com cauteloso respeito. — Não estava. Como é que você sabe? Me diga, eu lhe peço.

Roland não lhe deu a resposta.

— Continue — disse. — Que lhe aconteceu em seguida?

— Lupe aconteceu em seguida.

 

Seu último nome era Delgado.

Roland registrou apenas um momento de surpresa ao ouvi-lo — um arregalar dos olhos —, mas Eddie e Susannah conheciam o pistoleiro bem o bastante para entender que mesmo isso era extraordinário. Ao mesmo tempo, haviam-se acostumado a essas coincidências que talvez pudessem não ser coincidências, que cada uma era o clique de alguma incrível rodinha numa engrenagem.

Lupe Delgado tinha 32 anos, alcoólatra já quase — um dia de cada vez — há cinco anos longe da bebida, e trabalhava no Lar desde 1974. Magruder fundara a instituição, mas foi Lupe Delgado quem a investiu de vida e finalidades reais. Durante o dia, fazia parte da equipe de manutenção no Hotel Plaza, na Quinta Avenida. A noite, trabalhava no abrigo. Ajudara a elaborar a política “molhada” do Lar, e foi a primeira pessoa a cumprimentar Callahan quando ele entrou.

— Eu estava em Nova York pouco mais de um ano naquela primeira vez — disse Callahan —, mas em março de 1976 eu me...

Fez uma pausa, lutando para dizer o que todos três entenderam pelo olhar em seu rosto. Ficara com o rosto todo enrubescido, a não ser onde lhe cortava a cicatriz, que parecia emanar um brilho branco quase sobrenatural em comparação.

— Ah, tudo bem. Eu imagino que vocês diriam que em março eu me apaixonei por ele. Isto me torna um veado? Uma bicha? Não sei. Dizem que todos nós somos, não dizem? Alguns são mesmo, de qualquer modo. E por que não? A cada mês ou dois parecia haver mais uma matéria no jornal sobre um padre com uma queda por meter a mão pelas batas dos sacristãos acima. Quanto a mim, não tenho motivo algum para me ver como bicha. Deus sabe que eu não era imune a uma virada de perna de mulher bonita, freira ou não, e jamais passou por minha mente molestar os sacristãos. Nem nunca existiu nada de físico entre mim e Lupe. Mas eu o amava, e não falo só de sua mente, de sua dedicação ou de suas ambições para com o Lar. E tampouco só porque ele tinha escolhido fazer seu verdadeiro trabalho entre os pobres, como Cristo. Havia uma atração física.

Callahan fez uma pausa, lutou, e então desabafou:

Deus do céu, ele era lindo. Lindo!

— Que aconteceu com ele? — perguntou Roland.

— Chegou numa noite de neve em fins de março. A casa estava cheia, e os nativos agitados. Já tinha ocorrido uma briga de socos, e ainda nos refazíamos disso, pondo tudo em ordem. Um cara começou a ter um ataque violento de delirium tremens, e Rowan Magruder o levou para os fundos, em seu escritório, dando-lhe café com um pouco de uísque. Como acho que lhes contei, não tínhamos trancafiamento no Lar. Era hora do jantar, já passara meia hora, na verdade, e três dos voluntários não haviam chegado por causa do tempo. O rádio estava ligado e duas mulheres dançavam. “Passando o tempo no zoológico”, dizia Lupe.

“Começava a tirar meu paletó, encaminhando-me para a cozinha, um cara chamado Frank Spinelli me deteve, queria saber sobre uma carta de recomendação que eu lhe tinha prometido... e também uma mulher, Lisa alguma coisa, que queria ajuda com um dos passos dos AA: ‘Fiz uma lista dos que nós prejudicávamos’... mais um rapaz que queria ajuda com um formulário para se candidatar a um emprego, sabia ler mas não escrever... alguma coisa começou a queimar no fogão... uma confusão total. E eu gostava disso. Do jeito como envolvia a gente num redemoinho e nos arrastava a toda junto. Mas no meio de tudo isso, parei. Os sinos deixaram de tocar e os únicos cheiros eram o bodum dos bêbados e a comida queimando... mas aquela luz envolvia o pescoço de Lupe como um colarinho. E vi marcas ali. Só pequeninas. Não mais que picadas, na verdade.

“Parei, e devo ter cambaleado, porque Lupe avançou correndo pra mim. E então o senti, apenas de leve: cebola forte e metal quente. Também devo ter apagado por alguns segundos, porque de repente os dois estávamos no canto perto do gabinete de inscrição, onde guardávamos o material dos AA, e ele me perguntava quando eu havia comido a última vez. Sabia que às vezes eu esquecia de fazer isso.

“O cheiro desapareceu. O brilho azul em volta de seu pescoço se foi. E aquelas picadas, onde alguma coisa o mordera, também haviam sumido. A não ser que o vampiro fosse um verdadeiro beberrão, as marcas logo sumiam. Mas eu sabia. Não era nada bom perguntar a ele com quem havia estado, ou quando e onde. Os vampiros, mesmo os Tipo Três — sobretudo os Tipo Três, talvez —, têm seus macetes protetores. As sanguessugas lacustres segregam uma enzima na saliva que mantém o sangue fluindo enquanto se alimentam. Também anestesia a pele; assim, a não ser que você esteja vendo mesmo a coisa ali, não sabe o que está acontecendo. Com esses vampiros Tipo Três, é como se eles transportassem um tipo de amnésia seletiva, de curto prazo, na saliva.

“Eu apaguei de algum modo. Disse a ele que apenas me sentira tonto por um ou dois segundos, botei a culpa na saída brusca do frio para todo aquele barulho, luz e calor lá dentro. Lupe aceitou, mas me disse que eu tinha de ir com calma. ‘Você é valioso demais para o perdermos, Don’, disse, e então me beijou. Aqui.”

Callahan tocou o lado direito do rosto com a mão direita cicatrizada.

— Portanto acho que menti quando disse que não havia nada físico entre nós, não? Houve esse beijo. Ainda me lembro exatamente da sensação. Até da leve espetada da barba fina por fazer em seu lábio superior... aqui.

— Eu sinto muitíssimo por você — disse Susannah.

— Obrigado, minha cara — disse ele. — Eu me pergunto se sabe o que isso significa. Como é maravilhoso receber condolências de alguém do seu próprio mundo. É como ser um náufrago e receber notícias de casa. Ou água doce de uma fonte após anos da coisa engarrafada rançosa. — Estendeu as mãos, tomou a dela nas suas duas. Para Eddie, alguma coisa naquele sorriso pareceu forçada, ou até falsa, e teve uma repentina e horrível idéia. E se père Callahan estivesse sentindo naquele exato momento o cheiro misturado de cebola amarga e metal quente? E vendo um brilho azul, não em volta do pescoço de Susannah como uma gola, mas em volta da barriga como um cinto?

Eddie olhou para Roland, mas não veio ajuda alguma dali. A face do pistoleiro não tinha expressão.

— Ele tinha Aids, não tinha? — perguntou Eddie. — Algum vampiro Tipo Três gay mordeu seu amigo e passou isso pra ele.

— Gay — disse Callahan. — Você pretende mesmo me dizer que esta palavra imbecil realmente... — Sua voz se extinguiu, ele balançando a cabeça.

— É isso aí — disse Eddie. — O Red Sox ainda não tinha ganhado a Série e os homossexuais são gays.

— Eddie! — ralhou Susannah.

— Qual é? — defendeu-se Eddie — Acha que é fácil ser o último a sair de Nova York e esquecer de apagar as luzes? Porque não é, não. E ouça bem, eu mesmo estou me sentindo cada vez mais careta. — Virou-se para Callahan: — De qualquer modo, foi o que aconteceu, não?

— Acho que sim. Você precisa lembrar que eu também não sabia grande coisa naquela época, e vinha negando e reprimindo o que sabia de fato. Com grande vigor, como dizia o presidente Kennedy. Vi o primeiro, o primeiro “pequeno”, naquele cinema na semana entre o Natal e o Ano-novo de 1975. — Deu uma risada breve, mais um latido. — E agora, repensando o passado, aquele cinema era chamado Gaiety. Não é surpreendente? — Fez uma pausa, examinando os rostos com alguma perplexidade. — Não é. Vocês com certeza não estão nada surpresos.

— A coincidência foi cancelada, querido — disse Susannah. — O que vivemos nestes dias é mais como a versão da realidade de Charles Dickens.

— Não estou entendendo.

— Não precisa, doçu... Continue. Conte sua história.

O Velho levou um momento para encontrar o fio interrompido e continuou.

— Eu vi o meu primeiro Tipo Três em fins de dezembro de 1975. Naquela noite, mais ou menos três meses depois que vi a luz azul em volta do pescoço de Lupe, eu encontraria mais meia dúzia. Só um deles caindo sobre a presa. Foi andando numa viela em East Village com outro cara. Ele, o vampiro, estava em pé assim. — Callahan levantou-se e demonstrou, braços abertos, palmas apoiadas numa parede invisível. — O outro, a vítima, parado entre seus braços apoiados, olhava-o de frente. Poderiam estar conversando. Poderiam estar se beijando. Mas eu sabia, eu sabia, que não era nenhuma das duas coisas.

“Os outros... vi dois em restaurantes, sozinhos. Aquele brilho se espalhava pelas mãos pelos e pelos rostos de todos — manchava o contorno dos lábios como... como suco de mirtilo elétrico —, e o cheiro de cebola queimada pairava à volta deles como um perfume.” Callahan deu um breve sorriso. “Me impressiona como cada descrição que tento fazer tem uma espécie de sorriso enterrado. Porque não estou apenas tentando descrevê-los, sabem, mas tentando entendê-los. Ainda continuo tentando entendê-los. Compreender como poderia existir aquele outro mundo, aquele mundo secreto, ali o tempo todo, bem ao lado do que eu sempre conheci.”

Roland tem razão, pensou Eddie. Isso é todash. Tem de ser. Ele não sabe, mas é. Será que isso o torna um de nós? Parte de nosso ka-tet?

— Vi um na fila no Banco Marine Midland, onde o Lar fazia suas transações financeiras — disse Callahan. — No meio do dia. Eu estava na fila do depósito, uma mulher na do saque. Aquela luz a envolvia toda. Ela me viu olhando-a e sorriu. Contato visual destemido. De flerte. — Fez uma pausa. — Sensual.

— Você os reconhecia por causa do sangue do demônio em você — disse Roland. — Eles o reconheciam?

— Não — respondeu de pronto Callahan. — Se houvessem conseguido me ver, me isolar, minha vida não valeria um centavo. Embora eles passassem a saber de mim. Mas isto foi depois.

“O que quero frisar é que sabia que eles estavam ali. E quando vi o que aconteceu com Lupe, soube o que o havia possuído. Eles também o vêem. Sentem o cheiro. Assim como na certa ouvem os repiques do carrilhão. Suas vítimas ficam marcadas, e depois disso mais outros tendem a chegar, como besouros a uma luz. Ou cachorros, todos decididos a mijar no mesmo poste telefônico.

“Tenho certeza de que aquela noite em março foi a primeira vez que Lupe foi mordido. Nunca vi aquele brilho em volta dele antes... nem as marcas no lado do pescoço, que não pareciam mais que dois talhozinhos ao fazer a barba. Mas ele foi mordido repetidas vezes depois. Tinha a ver com a natureza do trabalho que fazíamos, trabalho com pessoas em trânsito. Talvez beber sangue pingado de álcool seja o grande barato deles. Quem sabe?

“De qualquer modo, foi por causa de Lupe que cometi meu primeiro assassinato. O primeiro de muitos. Este foi em abril...”

 

É abril e a atmosfera finalmente começou a ficar com o ar e o cheiro de primavera. Callahan estava no Lar desde as cinco, preenchendo cheques para cobrir as contas de final do mês, depois trabalhando em sua especialidade culinária, por ele batizada como Guisado de Sapos e Bolinhos de Massa Cozida. Trata-se na verdade de um ensopadinho de carne com massinha, mas o nome pitoresco o diverte.