Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CASO ECSTASY / Heinz Konsalik
O CASO ECSTASY / Heinz Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CASO ECSTASY

 

Viu-a pela primeira vez na piscina do Estádio Príncipe Regente.

 

Estava deitada na relva, ao lado da piscina, na meia sombra de um arbusto, sobre uma toalha de listas vermelhas e brancas. Um biquini estampado com flores coloridas e muito reduzido não ocultava quase nada do seu corpo escultural. Parecia dormir, tinha os braços cruzados atrás do pescoço e o rosto estava rodeado de enormes caracóis negros. Era uma face magra com as maçãs salientes, sobrancelhas com um traçado fino, pestanas longas que saíam de umas pálpebras azuladas e uma boca de lábios carnudos pintados de um vermelho-vivo.

 

Não havia homem que passasse por ela que não olhasse. Um homem idoso, já careca e com um ventre proeminente, espantado com o corpo da linda mulher, foi buscar uma máquina fotográfica e fotografou-a em segredo, a alguma distância, com uma teleobjectiva.

 

Robert Habicht observava a cena com um sorriso. Estava sentado na borda da piscina, balançava as pernas na água morna e tinha acabado de perguntar a si próprio se beberia ou não uma Coca-Cola, quando o seu olhar se fixou na mulher adormecida. Admirou-se com o facto de ela conseguir dormir tão profundamente, como se estivesse deitada num quarto sossegado, apesar do barulho e dos gritos das crianças que vinham da piscina.

 

Robert ficava sempre fascinado com as pessoas que conseguiam repousar tão profundamente. Ele próprio não precisava de dormir muito para carregar energeticamente o corpo e o espírito. O seu pai, por exemplo, assim que caía na cama, o mundo podia desabar. Nada o acordava. O máximo que podia acontecer era virar-se para o outro lado. Quanto à mãe enrolava-se como um gato debaixo dos lençóis e só acordava quando o despertador tocava impiedosamente. Além disso, havia os companheiros de Robert nos escuteiros: enquanto acampavam ficavam deitados, como bonecos, nos colchões de ar ou sacos-cama e só o toque de despertar os fazia acordar. Nessa altura, Robert já estava no rio ou lago junto ao qual tinham acampado a admirar o nascer do Sol e os voos rejubilantes das cotovias.

 

Robert levantou-se da borda da piscina, passou as duas mãos pelo cabelo húmido e ainda não decidira se iria ao restaurante mais perto beber uma Coca-Cola ou se continuaria a admirar a rapariga. Com os seus dezoito anos, não pertencia como muitos dos seus colegas de estudo que frequentavam o ginásio Kõnig Ludwig aos que diziam coisas atrevidas às raparigas que passavam e que faziam até «listas de conquistas». Preferia ficar sentado ao piano a tocar Chopin ou Beethoven, lia a filosofia de Spinoza e Montaigne e ocupava-se intensamente dos fenómenos sobre extraterrestres e da vida em planetas distantes e desconhecidos.

 

«Arregalar» os olhos a uma rapariga, que era o nome dado pelos amigos a uma piscadela de olho, era um jogo desconhecido para Robert. Ele nunca tentara, com medo de ser gozado, e tinha plena consciência de que era incapaz de namoriscar.

 

Mas a mulher que estava a dormir no relvado, com um minibiquíni e aquela profusão de caracóis negros, mudara completamente a perspectiva de Robert. Não foi ao bar reprimindo a vontade de beber uma Coca-Cola. Em vez disso, contornou a piscina, que tinha cinquenta por vinte metros, e aproximou-se da rapariga. Quando já estava a cerca de três metros dela, sentou-se na relva, encolheu as pernas e apoiou o queixo.

 

A rapariga adormecida que ele admirava com alguma excitação interior, tinha seios redondos e firmes, longas pernas esguias e um corpo que não revelava pontos de gordura nem nas nádegas nem na barriga: era perfeito, provavelmente exercitado num centro de fitness. O mesmo pareciam pensar os rapazes bronzeados que passavam pela desconhecida, tipo playboys, que só iam à piscina com a intenção de arranjar uma aventura com uma das muitas e belas raparigas que a povoavam. O Estádio Príncipe Regente não fazia parte das piscinas públicas normais da cidade, fora financiada por uma instituição de Munique: ali espreguiçavam-se ao sol rainhas de beleza, modelos fotográficos, manequins e belas mulheres casadas, que se deixavam admirar por jovens ociosos.

 

Robert achava muito ordinária e incomodativa a maneira como os homens fixavam as mulheres que dormiam. Não podia manifestar a sua revolta, ficava apenas dentro dele, mas subitamente tornou-se tão forte que quase se levantou e gritou que as deixassem em paz. Reprimiu os seus pensamentos de revolta porque também a estava a olhar fixamente e a pensar como meteria conversa com ela quando acordasse. Naquele momento, procurava as palavras certas, mas tudo o que lhe ocorria era estúpido e perfeito para ela largar a rir. Mesmo assim, Robert ficou sentado a três metros dela, não tirou os olhos das suas coxas e seios e começou a conjecturar: «Como serão os seus olhos? Castanhos, cinzentos ou verdes...? Azuis não são de certeza, cabelo preto com olhos azuis é uma raridade.» Por fim concordou que só poderiam ser castanho-escuros.

 

Os seus pensamentos foram interrompidos. Algumas crianças, que estavam a jogar à bola a alguma distância dele, atirando-a de uns para os outros, o que na realidade era proibido, afastaram-no das suas congeminações. Um chuto demasiado alto fez com que a bola descrevesse um arco e fosse cair sobre o ventre da rapariga, que estremeceu e se levantou. Simultaneamente, Robert ergueu-se num salto, aproximou-se dela e tirou-lhe a bola das mãos. Depois lançou-a na direcção das crianças, pôs-se de cócoras e ficou a olhar para a rapariga, que tal como esperara, tinha os olhos de um castanho profundo. Agora sentada, os seus seios já não se mostravam tão redondos, a reduzida parte de cima do biquini mal os tapava. A mulher olhou admirada para Robert, com um sorriso nos cantos dos lábios.

 

Crianças disse ele, tomando a iniciativa. A bola magoou-a?

 

Não vale a pena falar sobre isso respondeu ela. A voz era tão suave e profunda como os olhos. Virou-se

 

para o lado, agarrou nos óculos de sol e colocou-os no nariz bem delineado. De resto, fora bom terem-na acordado, pois estava há muito tempo ao sol e, se continuasse, no dia seguinte sentir-se-ia mal. Por sorte, tinha um creme muito bom que resolvia imediatamente o problema, um produto fabricado no Havai e que suavizava as dores das queimaduras solares.

 

Riu-se da pergunta de Robert, um riso natural e fresco como ele nunca ouvira. O Havai era um dos lugares de sonho da rapariga, estar deitada sob as palmeiras, na areia branca, seria a realização de um dos seus maiores desejos. O creme fora-lhe trazido por uma amiga, convidada, por amigo generoso, a ir ao Havai.

 

Para Robert tornou-se problemático encontrar outro assunto de conversa. De facto, já se levantara e ia-se embora, mas a proximidade da rapariga não, já não era uma adolescente, mas sim uma jovem, talvez até casada e alguns anos mais velha do que ele, daquela mulher encantadora, prendeu-o ali como um imã.

 

Chamo-me Robert Habicht apresentou-se.

 

E eu Ulrike Sperling... e soltou novamente o seu riso gutural. Não é divertido? Um Habicht encontra uma Sperling1.

 

Robert acenou com a cabeça em silêncio. Sabia perfeitamente o que os seus companheiros responderiam naquele momento o mais inofensivo teria sido: «É um perfeito

 

1 Habicht significa «açor» e Sperling «pardal» (N da T)

 

passarinho!», mas Robert nunca ousaria dizer semelhante coisa.

 

Que coincidência comentou ele finalmente. Depois, reunindo toda a sua coragem perguntou: Vem muitas vezes à piscina?

 

De vez em quando.

 

Robert reparou que Ulrike estava a olhá-lo por trás dos óculos escuros e inquiriu com alguma insegurança.

 

E você?

 

Também venho de vez em quando.

 

Ela reclinou-se na cadeira e apoiou a cabeça nos braços. Depois, disse que ele não era um daqueles playboys que andavam por ali e que conseguia adivinhar o que ele seria.

 

Um universitário! disse ela.

 

Ainda não. Eu... eu vou agora fazer a prova de admissão à faculdade.

 

Mas parece mais velho. Uma pergunta indiscreta: que idade tem?

 

Isso interessa-lhe realmente?

 

Acha que, de outro modo, a faria?

 

Dezoito...

 

Enquanto dava a resposta, pensou que a única consequência seria levantar-se e ir-se embora, mas a resposta dela fê-lo ficar.

 

Ainda tem uma vida inteira à sua frente. Ainda bem.

 

Porque diz isso? Também ainda é nova.

 

Isso é relativo. É casada?

 

Foi uma pergunta corajosa e Robert ficou estupefacto consigo próprio. Ela abanou a cabeça e os cabelos negros voaram.

 

Não.

 

Permita-me que lhe diga que é incompreensível. É uma linda mulher!

 

Obrigada pelo cumprimento.

 

Não precisa de cumprimentos. Sabe que é muito atraente.

 

Robert estava atónito consigo próprio pelo facto de proferir semelhantes frases. Há meia hora considerava aquilo impossível, mas agora as palavras saíam-lhe com tanta naturalidade dos lábios como se estivesse habituado a falar assim com mulheres.

 

A conversa estava quase a afundar-se, pois Robert não tinha experiência. Dissera-lhe que era muito bonita e ela rira-se. Que mais poderia dizer? Assunto Havai: arrumado. Casada: excluído. Sobre que mais se poderia conversar? Sobre Spinoza: impossível! Sobre Chopin: talvez. Mas como se passava agora para esse assunto? Talvez os próximos fornecessem a ponte.

 

Ela libertou-o de todas as perguntas ao olhar para o relógio. Já dezoito horas, queria aquilo dizer. Era altura de se ir embora. Levantou-se e Robert constatou que Ulrike era quase da sua altura. Um metro e setenta e oito... uma altura rara para mulher.

 

Tem algum compromisso? perguntou ele.

 

Não, mas já estive tempo suficiente ao sol. Gostaria de ir para casa e passar o creme do Havai pelo corpo.

 

Posso fazer-lhe uma proposta?

 

Já sei! Novamente o riso gutural. Vamos beber um sumo de laranja ao bar.

 

Adivinhou mal. Eu convido-a.

 

Também gostaria de beber um café.

 

Novamente ao lado! Convido-a para jantar. No Káfer.

 

Káfer? Tirou os óculos de sol e os olhos castanho-escuros fixavam-no com uma expressão mista de espanto e ironia. Tem dinheiro para isso, senhor Habicht?

 

O meu pai é muito generoso... e sou poupado.

 

E vai desperdiçar comigo o seu dinheiro no Káfer? Precisamente comigo?

 

Não conheço melhor sítio onde o gastar. Permite que a convide?

 

Nós conhecemo-nos há meia hora.

 

Não devemos viver pelos ponteiros do relógio, mas ser nós próprios a determinar o ritmo de vida.

 

Isso é muito filosófico.

 

Leio muitas obras sobre filosofia, é uma mania. E também gosto muito de tocar piano.

 

Jazz?

 

Chopin.

 

«Chegámos bem ao tema Chopin», disse para si próprio, «mas aparentemente ela prefere jazz.» Nisso não lhe poderia ser agradável. O jazz, e sobretudo toda a música clássica moderna, estavam completamente fora do seu entendimento musical. Quando ouvia uma sinfonia dodecafónica era como se a orquestra estivesse a afinar os instrumentos, num emaranhado de sons e ritmos. Robert não tinha a menor inclinação para os compositores modernos.

 

Ulrike olhou-o e confessou que não conhecia Chopin, que uma vez ouvira na rádio alguma coisa de Mozart, mas que mudara imediatamente de posto. Não gostava daquele género de música, preferia as canções de Michael Jackson, ao som das quais gostava de dançar, e Robert respondeu que no Kàfer teriam tempo suficiente para discutir o assunto.

 

Conversaram durante mais um quarto de hora no átrio e depois ela virou-se e saiu. Ele ficou a contemplá-la, o olhar fixo nas suas nádegas, no seu caminhar bamboleante, furioso com os homens que a miravam, dirigindo-lhe até a palavra. Ela apenas atirava a cabeça para trás e continuava em silêncio. Robert confirmou que Ulrike era orgulhosa, mas, todavia, aceitara um convite para jantar! Porquê? Será que um finalista de dezoito anos não era um homem? Aquela questão trouxe-lhe novamente uma sensação de insegurança e, muito confuso, saiu também.

 

Quando se reencontraram, no mesmo local, ela envergava um discreto vestido de Verão amarelo com pintas brancas. Os caracóis negros estavam atados num rabo-de-cavalo, calçara sapatos de salto alto, de couro com riscas coloridas e Robert constatou aquilo com alegria parecia mais nova com a maquilhagem. No entanto, ela também não escondeu o seu espanto: de fato, Robert parecia muito mais velho e era difícil avaliar a sua idade.

 

Podemos perguntou ela alegremente?

 

Podemos.

 

Uma proposta: não vamos ao Káfer, mas sim a um restaurante mais barato.

 

De modo algum! Decidi ir ao Káfer e é para lá que vamos.

 

Só comerei uma sopa.

 

Permita que não leve isso a sério. Um Habicht é mais forte do que um Sperling!

 

Naquele momento, sentiu um grande entusiasmo. Aquele novo Robert Habicht era espirituoso, libertara-se de todas as suas lutas interiores e até estaria pronto a ouvir uma peça de jazz em vez de uma sonata de Beethoven.

 

Como o Káfer era exactamente em frente do Estádio Príncipe Regente, só precisavam de atravessar a rua para alcançar aquele templo gastronómico. Como ainda era cedo para jantar, encontraram uma mesa livre, pois comer no Káfer sem reserva era uma espécie de prémio da lotaria. Conseguiram uma mesa junto às escadas, onde se costumavam sentar os clientes in que queriam ser vistos e que as pessoas queriam ver.

 

Com que começamos? perguntou Robert antes de lhe trazerem o menu. Talvez com uma taça de champanhe...

 

Mais uma vez foi atacado pelas dúvidas. Estaria correcto? Champanhe? Não seria um exagero, que demonstrava a sua inexperiência? Não deveria antes ter perguntado se ela queria um aperitivo? Mas olhou-a de soslaio e não leu qualquer protesto na sua expressão. O facto acalmou-o e ocupou-se da ementa que o criado lhe entregara.

 

O que ia encomendar para si próprio era-lhe completamente indiferente, bastava-lhe o facto de estar sentado em frente àquela mulher, olhar para ela, ouvir a sua voz e sentir um louco desejo de que o tempo parasse.

 

Ulrike escolheu cuidadosamente para não sobrecarregar muito a carteira de Robert. Como entrada, geleia de cabeça de borrego em vinagrete, depois medalhões de vitela à provençal com batatas Dauphine e, como sobremesa, um gelado de canela com chocolate. Para beber, escolheram a pedido de Ulrike um vinho aberto, um Sancerre seco, e, quando terminaram a meia garrafa, pediram água mineral.

 

Ao encomendar, Ulrike conseguiu fazer as contas ao que ele iria pagar pelo jantar e zangou-se consigo própria por ter aceite o convite. Apesar de todos os cuidados, a conta era bastante elevada. «E o que significa tudo isto?», perguntou a si própria. «É um rapaz muito amável e parece que foi a primeira vez que convidou alguém para jantar.» E logo ela! Era um rapaz inteligente, lia obras filosóficas, tocava piano, interessava-se por ovnis e durante a conversa tentou explicar-lhe Chopin, mas ela não conseguia compreender... Poderia ter dado melhor uso ao dinheiro do que num jantar com ela.

 

Depois de ele pagar e ela insistir que tinha mesmo de ir para casa, Robert perguntou se se poderiam encontrar novamente.

 

Porquê? perguntou ela.

 

Porque sim...

 

Talvez o destino nos reúna novamente contrapôs ela.

 

Isso para mim é demasiado vago. Não podemos confiar no acaso, e eu desejo vê-la de novo.

 

Para gastar outra vez uma enorme quantia?

 

Também podemos ir beber um sumo de laranja. Qual é a diferença? Foi bonito estar aqui consigo.

 

Com uma desconhecida. Não me perguntou quem sou, o que faço e que tipo de vida levo...

 

Contar-me-á. Talvez da próxima vez...

 

Se houver uma próxima vez!

 

Sei ter esperança.

 

Abandonaram o restaurante, ficaram parados na rua e Ulrike Sperling apontou para o parque de estacionamento do Príncipe Regente. Tinha lá o seu carro, um pequeno Fiat, que chegava perfeitamente para ela. Manejável, cabia em qualquer lugar de estacionamento, ideal para uma mulher.

 

Quando ela lhe estendeu a mão para se despedir, Robert perguntou-lhe se a podia acompanhar até ao carro. Ulrike hesitou e perguntou-lhe se não tinha automóvel e se iria de autocarro ou metro.

 

Não respondeu ele, o meu carro está na Rua Neher, perto do estádio. Mesmo assim, gostaria de a acompanhar..., de ficar consigo o máximo de tempo possível disse ele com um tom triste. Para mim, foi uma noite única.

 

Para mim também. Ela retirou a mão. É por isso que nos devemos separar o mais depressa possível acrescentou.

 

Ela virou-se, atravessou a rua em direcção ao Príncipe Regente e Robert ficou a olhá-la até a sua silhueta desaparecer atrás das árvores. Na sua memória ficou um vestido amarelo, o movimento bailarino das suas pernas longas e a marca das nádegas no fino tecido. Robert era suficientemente honesto para confessar a si próprio que aquela noite fora um fiasco evitável. Ficara com muito pouco da sua mesada, passara duas horas num restaurante com uma mulher mais velha muito bela, cheio de inibições às quais decidira sobrepor-se. Apesar de tudo, ficou com uma sensação de felicidade, que explicou com um orgulhoso «consegui!», enquanto formulava um desejo: «Preciso de vê-la outra vez.»

 

Atravessou a rua e entrou no carro. Há nove semanas que tirara a carta de condução e o pai oferecera-lhe um automóvel, um «calças arregaçadas» como era vulgarmente chamado, já com oito anos, mas muito bem cuidado. O pai dizia que com aquele carro poderia exercitar-se antes de lhe comprar um outro novo. Dali a um ano já teria prática suficiente e Robert compreendera o ponto de vista do pai.

 

Enquanto conduzia até casa, o seu pensamento não se afastou de Ulrike Sperling. Ficara claro que ela não era casada e era quase inacreditável que uma mulher tão bonita vivesse sozinha, segundo o que lhe dissera durante o jantar, mas não passara dali.

 

Quem era, na realidade, Ulrike Sperling? De que vivia? Como tinha tempo para frequentar uma piscina a horas em que todos estão a trabalhar? Para Robert, havia algo de secreto nela se bem que tivesse sido mais fácil perguntar-lhe. Da próxima vez, falaria com ela sobre isso. Voltariam a ver-se, acreditava firmemente. «Nessa altura perguntar-lhe-ei: o que faz na vida?»

 

Em casa, a mãe e o pai já estavam à sua espera e a mesa ainda estava posta.

 

Vens muito tarde da piscina comentou o pai sem que parecesse uma crítica, mas sim admiração.

 

Encontrei dois amigos e fomos beber uma cerveja.

 

Deixei o teu jantar no forno...

 

Não tenho fome, mamã. Robert procurou um motivo para ir imediatamente para o quarto. Desculpem... ainda tenho de ir ler um texto em latim. Boa noite.

 

Boa noite, meu filho.

 

Conseguira fugir. Quando chegou ao quarto, atirou-se para cima da cama, ficou a olhar para o tecto e, como se de uma tela de cinema se tratasse, viu um vestido amarelo, passos dançantes e umas nádegas bamboleantes, que se viam por baixo do tecido.

 

«E de manhã tenho de pedir mais dinheiro ao meu pai», pensou.

 

Os Habicht eram o exemplo de uma família alemã da classe média-alta.

 

Com um capital rigidamente amealhado e um empréstimo bancário, Hubert Habicht construíra uma casa em Pasmg, nos arredores de Munique. Cento e sessenta metros quadrados de superfície útil, cave e águas-furtadas que serviam de ateliê, onde antigamente Hubert Habicht pintava e fazia olaria, e que haviam sido transformadas em sala de música onde estava o piano de Robert, um modelo de cauda japonês, pois o pai não tinha meios para lhe comprar um Steinway. A casa era rodeada por um jardim de noventa metros quadrados. Não era muito grande, mas um maior daria muito trabalho, dissera Habicht ao comprar o terreno. Em vez de cavar e limpar folhas, os seus tempos livres eram dedicados à pintura e à olaria, o que era óbvio para alguém que visitasse a casa, pois havia vasos artisticamente pintados por todo o lado. Mais tarde, quando Robert, filho único, descobrira os seus dotes musicais, Habicht desistiu, sem queixas, do seu ateliê e começou a coleccionar selos.

 

Hubert Habicht era conselheiro do Governo estadual da Baviera. Quando perguntavam à senhora Habicht, cujo nome de solteira era Willkens, em que departamento trabalhava o marido, não sabia responder. E para quê? Um conselheiro doutorado em jurisprudência era suficiente. Para que seria preciso saber onde trabalhava o marido? Sabia apenas que era no governo!

 

Gerda Habicht era o protótipo de esposa e mãe. Servia a família, que era o centro do seu mundo, e a onda agitadora da emancipação passara por ela sem causar qualquer efeito. Não compreendia como, para uma esposa e mãe, poderia haver algo mais importante do que a família. Afirmação feminina que significava isso? Gerda Habicht tinha um marido e um filho, uma casa e um cão, um boxer com o pêlo listado de negro que respondia pelo nome de Bambus. Tinha o seu lindo jardim e todos os anos a família fazia férias em Norderney e uma vez até haviam ido à Riviera turca, a Antalya. Que poderia querer mais? O que poderia a vida proporcionar de mais valioso? O que queria dizer todo aquele disparate da emancipação? A felicidade não reside no egoísmo, dizia a si própria.

 

A grande paixão de Gerda era o filho Robert. O nascimento fora uma tortura e só depois de catorze horas de trabalho de parto ele dera o seu primeiro vagido, e o médico dissera, aliviado, que era um rapaz teimoso que não queria vir ao mundo, mas que finalmente parara de resistir. Para Hubert Habicht, Robert era uma espécie de príncipe herdeiro. Quando falava dele a alguém nunca dizia «Robert», mas sim «o meu filho» ou até mesmo «o meu filho Robert».

 

O conselheiro Habicht era muito estimado pelos colegas. Subira na hierarquia do funcionalismo público sem fazer grande alarido, cumpria as exigências do seu cargo e era fiel ao partido, o que, na Baviera, era um fundamento sólido para uma carreira sem incidentes. Por isso, o seu filho pôde crescer num jardim de rosas burguês, onde tudo florescia e onde todos os problemas estavam resolvidos. A descoberta de que Robert era dotado para a música desencadeou grande entusiasmo nos pais, que culminou na compra do piano de cauda. A professora de Robert afirmava que o jovem era um enorme talento, com capacidade para ser um pianista de fama mundial. Era bom ouvir aquelas palavras, mas elas trouxeram um pouco de intranquilidade à família. O desejo de Habicht era fazer do filho um jurista, enquanto a mãe Gerda pleiteava por uma carreira de pianista nos palcos internacionais.

 

No entanto, não passavam de sonhos de futuro. Robert chegou rapidamente a finalista e Habicht já podia informar com orgulho que o filho era o segundo melhor aluno do curso, e teria sido o melhor se a matemática não lhe causasse algumas dificuldades, contudo, quando Robert perguntava por que razão se havia de preocupar com senos e cossenos, se nunca os iria utilizar na vida, Habicht respondia que fazia parte de uma boa cultura geral. Além disso, a matemática fortalecia o pensamento lógico, o que era muito importante durante a vida.

 

Naquela noite, Robert estava deitado na cama e cheio de uma estranha inquietação. Os seus pensamentos dirigiam-se para aquela Ulrike Sperling e começou a analisá-la. A idade? Devia estar quase nos trinta anos. Profissão? Era tactear no escuro. Onde havia um emprego que proporcionasse tanto tempo livre? Talvez fosse professora, sim, era possível, os professores normalmente só têm aulas de manhã, ficam com as tardes livres. Todavia, Ulrike poderia também ter uma actividade artística ou trabalhar por conta própria, sobrando-lhe assim tempo para despender da maneira que preferisse. Como alternativa, poderia ser filha de pais ricos e passar a vida no golfe, na equitação, nos desfiles de modelos, nas piscinas e em idas ao cabeleireiro. Mas nesse caso não conduziria um automóvel tão pequeno, antes um cabriolé de marca, a condizer com a sua imagem.

 

Robert falara com ela graças à bola que quase a atingira e há muito tempo que só olhava para a própria sombra. Enquanto fitava o tecto, recordou-se da sua primeira experiência com uma rapariga. Completara, na altura, quinze anos e os seus colegas de escola gabavam-se de já ter namorado, ou até fornicado «belas gatinhas», e chamavam-lhe atrasado por ser profundamente sério e nunca ter metido as mãos debaixo das saias de uma rapariga.

 

Contudo, um dia Robert encontrou-se por acaso com uma em Isarauen. Chamava-se Júlia e estava a apanhar sol na margem do rio. Conheciam-se, pois Júlia vivia perto dele, em Pasing. Quando Robert se sentou perto dela, Júlia achou logo que o sol aquecera de repente e tirou a parte de cima do biquini. Tinha uns seios muito bonitos, em forma de maçãs, e quando pediu a Robert que lhe espalhasse creme solar pelo corpo, entregando-lhe a bisnaga, ele fê-lo, mas não ficou muito impressionado com o facto. Então, quando a mão dele passou pelos seios de Júlia e ouviu a respiração da rapariga acelerar-se e a parte inferior do corpo dela agitar-se, retirou o dedo como se se tivesse queimado, levantando-se de um salto. Depois, limpara o resto de creme no seu ventre e partira em silêncio. No entanto, ainda ouviu o que Júlia lhe gritou. Que era um cara de cu! Ou seria maricas? Tudo aquilo o perturbou muito e só encontrou consolo em Mozart e Scarlatti.

 

Para limpar a reputação de virgem junto dos colegas de escola e camaradas escuteiros, Robert transformou a situação com Júlia numa experiência sexual. Falou-lhes dos seus mamilos erectos, do baixo-ventre que, excitado, se movimentava em círculos, das pernas que o entrelaçavam e da boca que emitira gemidos e gritos ou seja, fez uma descrição tão realista que até os mais incrédulos acreditaram nele. A partir dessa altura, Robert passou a fazer parte do círculo dos colegas «mais evoluídos e com aquilo aprendera que era necessário mentir para ficar bem visto. Mas agora sentia-se a mudar. O encontro com Ulrike Sperling era semelhante à ruptura de um dique: o que até agora tinha estivera fechado, fluía agora sem inibições para o seu íntimo. O desejo de voltar a ver a rapariga parecia um peso sobre o seu coração, Robert nunca sentira nada assim.

 

Dormiu pouco, num sono agitado. Nu sobre a cama, sentia a pressão da roupa como se fosse a pele de Ulrike e, quando se virara de lado e os olhos passavam ligeiramente pelo tecto, encolhia-se como se tivesse tocado os seios de Ulrike. Deviam ser tão firmes e suaves como aquele edredão, que as mãos de Robert contorciam. Pela primeira vez, sentiu um impulso irreprimível, enrolou-o em forma de seio, beijou-o e enterrou o rosto nele, até que por fim adormeceu profundamente.

 

Na tarde do dia seguinte, Robert vagueou novamente pela piscina do Estádio Príncipe Regente, mas Ulrike Sperling não estava. Também a procurou durante todo o dia e ficou quase com a certeza de que ela tinha um emprego com horas fixas e que apenas aproveitara um dia livre para ir nadar e gozar o sol. Foi uma situação que foi amargamente obrigado a reconhecer, pois as possibilidades de um reencontro diminuíam. Talvez no sábado ou domingo Robert conseguisse matar a sua sede. Fora, decerto, o que ela quisera dizer quando lhe falara de um acaso.

 

Ao terceiro dia voltou a vê-la. Encontrava-se de novo deitada de barriga para cima, quase na mesma posição, com um biquini tão exíguo como o anterior, mas vermelho, e não estava a dormir. Tinha uma toalha enrolada no pescoço e lia um livro, de um conhecido autor de best sellers que os críticos literários não levavam a sério. Os milhões de exemplares vendidos provocavam desconfiança e cautela nas mentes dos elitistas.

 

Robert aproximou-se suavemente de Ulrike, inclinou-se e disse:

 

Lê estes sentimentalismos triviais?

 

Ela assustou-se e deixou cair o livro sobre o colo, com uma expressão quase zangada.

 

Gosto do autor. Já leu alguma coisa dele?

 

Não.

 

Mas diz mal. Não é melhor do que esses críticos que andam por aí. Eles também não lêem estes livros, procedem assim só porque não gostam do escritor.

 

Parecia realmente zangada, fechou o livro e pô-lo de lado.

 

Esperei por si disse Robert para ver se a punha de bom humor. Estive aqui todos os dias.

 

Devia utilizar melhor o seu tempo. Ou quer ir novamente jantar comigo ao Kàfer?

 

O meu dinheiro já não chega para isso.

 

Haveria sempre a possibilidade de ser eu a convidar.

 

Não quero ser uma sobrecarga para si.

 

Sobrecarga! Vou tirar prazer de alguma coisa e partilho-o consigo. Hoje, por exemplo, estou com uma vontade louca de comer caviar com puré de batata.

 

Um prazer dispendioso.

 

De vez em quando, é preciso soltar as amarras, senão a vida torna-se um vale de lamentações.

 

Naquele momento Robert teve a certeza de que Ulrike era filha de pais ricos. Tempo e dinheiro com fartura e, pelos vistos, o hábito de comer caviar como se fosse um bolo... Na realidade, era incompreensível o facto de aquela mulher dar ouvidos a um rapazote de dezoito anos.

 

A seguir, ele propôs que fossem tomar um sumo de laranja ao bar do estádio, e foram seguidos pelos olhares atentos dos playboys quando passaram pela piscina ao lado um do outro, o que fez com que Robert se sentisse orgulhoso por ter o privilégio de acompanhar aquela bela mulher.

 

Gostaria de saber mais sobre si observou ele quando se sentaram numa mesa de canto, no bar.

 

Porquê? perguntou ela.

 

Há quatro dias que não faço outra coisa senão pensar em si.

 

Não esteve ocupado com os seus filósofos e esse Popin?

 

Chopin.

 

Ele riu-se. Como era aquilo possível? Como filha de família rica deveria ter uma boa formação académica, e isso incluía saber quem era Chopin. Robert ficou novamente sem perceber.

 

Chopin! É obrigatório conhecê-lo? perguntou Ulrike, rindo.

 

Que pergunta para uma mulher instruída! Robert voltou a sentir-se inseguro e perguntou imediatamente.

 

Quem é você, Ulrike Sperling?

 

Sou uma mulher de trinta e três anos, não sou casada nem viúva, possuo um apartamento em Schwabing, um gato que se chama Lori e um Fiat Punto. Está contente?

 

Não completamente...

 

Que quer saber mais?

 

Tem uma situação financeira desafogada?

 

Poderá dizer-se isso.

 

O seu pai é rico?

 

Só tenho um padrasto. Era trabalhador da construção civil, estava sempre bêbado, batia na minha mãe e tentou violar-me quando eu tinha catorze anos. Procurei defender-me e ele deu-me uma tareia que me deixou a pão e laranja. Subitamente, desapareceu. Até hoje ninguém sabe para onde foi. Olhou para Robert com a cabeça inclinada. Desiludido?

 

Está a mentir disse Robert, tenso. Porquê?

 

Porque faria isso? É a verdade.

 

E a sua profissão?

 

Já fui bailarina. Levantou a mão num gesto largo, como se quisesse fazer desaparecer aquela parte da sua vida, mas não era suficientemente boa para ficar na Ópera Estadual, pois nunca consegui dançar em pontas... mas há outros palcos. Tornei-me no que se pode chamar uma «bailarina contorcionista».

 

Não consigo imaginar o que seja.

 

O próprio Robert reparou no tom desiludido da sua voz, enquanto Ulrike passava as mãos pelo cabelo.

 

Três anos depois já estava farta e fui para trás de um balcão.

 

O que quer isso dizer? perguntou ele, cada vez mais inseguro.

 

Muito simples: trabalho num bar. Das oito da noite até às quatro da manhã. Durmo toda a manhã e à tarde venho apanhar sol e respirar algum oxigénio.

 

É então uma empregada de bar?

 

Preferia que utilizasse uma expressão mais cortês.

 

Onde?

 

No Bar Toscana e Ulrike empurrou o copo vazio. Agora é que ficou mesmo desiludido, não é verdade?

 

Robert não respondeu. Não se poderia chamar desilusão, mas sim o fim das suas fantasias, tudo o que romantizara sobre aquela mulher desvanecera-se.

 

Ulrike ajudou-o a sair do seu embaraço, perguntando-lhe se ele já estivera num bar.

 

Não, ainda não contrapôs ele. Só os conheço de filmes e decerto que há muito exagero. Empregada de bar é uma profissão muito honrada e provavelmente até difícil. Todas as noites até às quatro da manhã...

 

É enervante acrescentou ela, mas, mesmo assim, adoro aquele trabalho. Aprende-se como a natureza humana é imperfeita, fraca e falsa.

 

É muito amarga...

 

Tive sempre de fazer tudo sozinha. Ela olhou para a piscina. Agora gostaria de me ir embora.

 

Ainda é cedo protestou Robert.

 

Mesmo assim!

 

Levantou-se abruptamente e ele não teve alternativa senão segui-la, mas, na verdade, a pressa dela veio a calhar. Era preciso digerir tudo o que ouvira nos últimos minutos, pois, se apenas dez por cento do que ele via na televisão sobre as empregadas de bar fosse realidade, seria o suficiente para fortalecer a sua recente desilusão.

 

Robert acompanhou Ulrike até à saída e voltou para junto da piscina. Tinham-se despedido com um aperto de mão, mas fora diferente do primeiro. Ulrike retirou rapidamente os dedos e partiu sem sequer olhar para trás.

 

Ficou sentado durante muito tempo à beira da piscina, a olhar para quem saltava da prancha e a pensar. Era impossível que Ulrike fosse como as empregadas de bar que ele conhecia dos filmes, que eram sempre bonitas, mas devassas. Mas Ulrike era diferente, nada tinha a ver com elas, falava de outra maneira, movimentava-se de modo diferente e os olhos não tinham uma expressão aliciadora. «É uma excepção», concluiu Robert.

 

No dia seguinte, durante um intervalo entre aulas, falou de Ulrike a um colega que tinha uma enorme reputação de conquistador, e ele olhou-o incrédulo, e estalou a língua.

 

Conheceste uma empregada de bar? perguntou ele.

 

Sim. Uma mulher linda.

 

Meu rapaz, meu rapaz...

 

O que quer dizer isso?

 

Uma prostituta de bar! Não a largues. Poderás aprender o que é realmente fornicar...

 

Idiota! Ela é uma mulher honesta!

 

Robert estava furioso, mas aquelas palavras ficaram-lhe no pensamento, instalaram-se, torturaram-no e quase lhe dilaceraram o coração. Procurou uma maneira de se distrair, mas só encontrou alívio quando se agarrou ao piano e, com uma expressão até agora desconhecida, executou uma sonata de Beethoven. Lá em baixo, na sala, Hubert Habicht levantou a cabeça e olhou para a mulher.

 

Ouve disse ele, orgulhoso. Que execução. O rapaz faz-se...

 

Pedi ao Gerhard que me desse explicações de matemática à noite explicou Robert três dias mais tarde, depois de, em vão, ter esperado por Ulrike na piscina. Poderão ir até tarde.

 

Gerhard era o melhor aluno de matemática da turma e Habicht anuiu com um aceno de cabeça.

 

Verificava uma actividade notável no filho e estava contente com o facto de a odiada matemática ainda lhe despertar interesse. Quando perguntou se as explicações seriam permanentes, Robert contrapôs que não sabia, dependia do sucesso que iria ou não obter. Depois hesitou na pergunta seguinte.

 

Preciso de mais dinheiro, papá.

 

Quanto? perguntou Habicht satisfeito por ver a ânsia de aprendizagem de Robert.

 

Ainda não sei. Apesar de amigos... Gerhard não o fará de borla. Não tem que o fazer. Tu sabes que o pai dele...

 

De quanto precisas agora?

 

De momento, de cem marcos.

 

Ena! Não és parco no pedir!

 

É preciso investir no sucesso, papá.

 

Habicht, que estava de muito bom humor, riu-se da frase e tirou uma nota de cem marcos da carteira.

 


Gasta-o convenientemente disse ele. E se quiserem tomar uma bebida...

 

Nós ocupamo-nos de matemática e não de álcool.

 

E, se vieres tarde, conduz com cuidado.

 

Robert acenou com a cabeça, meteu a nota no bolso do casaco e abandonou rapidamente a sala. Sempre aqueles avisos, aquelas advertências, como se ele ainda fosse uma criança! Irritava-o ouvir constantemente aquelas recomendações paternas, pois já se tornavam insuportáveis! Aos olhos do seu pai nunca crescera e, com dezoito anos, era ainda uma criança a quem é preciso dar a mão para não cair nas escadas. Cos diabos, já era um homem! Quando iriam finalmente aceitar isso?

 

À noite, Robert entrou no seu Citroen e dirigiu-se a Schwabing. Procurara o endereço do Bar Toscana na lista telefónica e fora fácil encontrá-lo. Depois de dar muitas voltas, estacionou o carro numa transversal distante, onde finalmente encontrara um lugar vago, dirigiu-se a pé para o Toscana e parou perto, a observar a fachada.

 

Um letreiro de néon, uma porta grossa, duas janelas fechadas. Robert observou dois homens a tocar à campainha e uma portinhola a abrir-se, decerto para controlar os clientes, e só depois disso a entrada foi autorizada. «Então não é para todos», pensou Robert. «Deve ser um bar muito esquisito.»

 

Com alguma hesitação atravessou a rua e colocou o dedo na campainha. A portinhola abriu-se e um rosto de homem emergiu da semiescuridão. Tinha um olhar duro.

 

Sim? perguntou a voz, soando ameaçadora.

 

Gostaria de entrar! disse Robert com uma energia forçada.

 

Presumo que se perdeu no caminho.

 

Isto é ou não um local público?

 

Isso decido eu! A voz tornou-se mais rude. Desaparece, rapaz...

 

O que não lhe agrada em mim? Tenho piolhos?

 

Acabaste de deixar as fraldas! Desaparece e rápido!

 

Vou repetir com mais clareza: vai abrir a porta e eu vou entrar! Robert assumira o tom de voz que, pelos vistos, era habitual ali. Sou amigo de Ulrike Sperling e ela vai ficar furiosa se você se continuar a comportar dessa maneira.

 

Amigo de Ula? O homem que estava atrás da porta esboçou um sorriso. Donde a conheces?

 

Isso não lhe diz respeito! Abra a porta!

 

A rudeza fazia com certeza parte da masculinidade..., o que foi uma nova lição para Robert. A cortesia é uma virtude que por vezes se confunde com idiotice ou fraqueza. Era preciso reparar nisso. A arrogância leva-nos mais longe do que a subserviência. Robert nunca experimentara, mas naquele momento, pela primeira vez, o efeito surpreendeu-o: a porta abriu-se.

 

O mal-educado porteiro, tipo guarda-costas, olhou Robert de alto a baixo. Encontravam-se numa antecâmara alcatifada de vermelho-escuro e havia um bengaleiro com um balcão, atrás do qual estava uma rapariga com uma blusa muito exígua e uma super minissaia que evidenciavam todos os traços do seu corpo. Além disso, tinha cabelos louros até aos ombros e rosto de boneca, fazendo lembrar uma Barbie. Ela riu-se e disse-lhe, piscando o olho:

 

Trinta marcos.

 

Não tenho nada para deixar no bengaleiro afirmou ele.

 

Entre, cavalheiro.

 

Muito bem...

 

Meteu a mão no bolso do casaco, retirou a nota de cem marcos e recebeu de troco setenta, e só então o porteiro, com uma espécie de grunhido, abriu a porta dupla que ficava ao fundo, e Robert pôde olhar para o interior do bar.

 

A primeira reacção àquela nova aventura da sua vida foi de espanto. Viu uma grande sala com mexas redondas e cadeiras estofadas, alguns nichos isolados com cortinas de seda coloridas, tapetes vermelhos redondos e, no meio, uma pista de dança circular de mármore branco. No meio da fraca iluminação, distinguiu algumas empregadas de mesa, que usavam tão pouca roupa como a rapariga do bengaleiro, e vários pares que dançavam. Uma banda composta por três homens tocava num palco que ficava no canto direito e à esquerda, abrangendo quase toda a parede, situava-se o balcão do bar, enfeitado com cromados, madeira polida e espelhos. À frente viam-se os bancos, ocupados por pares visivelmente excitados... Na realidade, tudo correspondia ao que Robert conhecia dos filmes, mas com um ar mais inofensivo. Em resumo, uma desilusão.

 

O que ele não descobriu depois de olhar para tudo, foi o mundo que existia por trás de uma parede falsa interrompida por uma porta. A seguir, havia um longo corredor com portas à esquerda e à direita, no total uns dez quartos, cujo recheio o deixaria espantado. Cada um daqueles «apartamentos» tinha uma enorme cama redonda, paredes espelhadas e um jacuzi, além de uma câmara de vídeo sobre um tripé, com a qual se filmava tudo o que se desejava, podendo levar-se a cassete como recordação. Um serviço especial que rapidamente chegou aos ouvidos das partes interessadas, o que originava uma boa frequência dos «estúdios».

 

Por trás do longo balcão, Robert viu finalmente Ulrike, mas só a conseguiu reconhecer pelos cabelos..., o rosto era-lhe estranho, pois estava coberto de maquilhagem, uma máscara que apenas vivia dos olhos e de uns lábios pintados de vermelho-vivo. Para Robert foi uma facada no coração. «Deve ser ela... Onde está a linda rapariga da piscina?»

 

Quando se aproximou do balcão, Ulrike reconheceu-o, abandonou imediatamente o seu local de trabalho e veio ter com ele. Trazia um vestido com um decote tão grande que metade dos seios estava à mostra, e tão apertado que se reconheciam perfeitamente as suas formas. A cor rosa ainda surtia mais efeito.

 

A pergunta que lhe fez soou-lhe como uma bofetada.

 

O que faz aqui?

 

Queria ver onde trabalhava.

 

Por favor, vá-se embora

 

Ele abanou a cabeça e lutou contra a repulsa que sentia.

 

Sou um cliente como qualquer outro.

 

Como é que Bolo, aquele idiota, o deixou entrar?

 

Eu disse-lhe que éramos amigos... Robert arrancou o olhar daquele rosto estranho e acenou para o bar. Gostaria de beber alguma coisa.

 

Um cocktail custa vinte marcos e uma garrafa de champanhe, trezentos...

 

Ele tentou esboçar um sorriso.

 

Faça-me um cocktail à sua escolha, Ulla... Não é assim que a tratam aqui?

 

Ula virou-se, dirigiu-se ao balcão e ele seguiu-a, como que levado à trela. Só quando voltou para trás do balcão é que ela tornou a olhá-lo. Robert sentou-se num dos bancos e achou-o terrivelmente desconfortável.

 

Um cocktail, sim. E depois, por favor, vá-se embora... pediu ela. Vou preparar-lhe um Pawpaw.

 

São-me completamente indiferentes as misturas que vai fazer... Porque me está a expulsar?

 

Este lugar não é para si, Robert.

 

Pronunciara o seu nome pela primeira vez. Robert, como soava na sua boca! Achou que nunca ouvira o seu nome assim, tão suave, tão melodioso, como o som de um violoncelo tocando em sol.

 

Diga outra vez: Robert.

 

Ele não sabia como aquilo era imaturo, até infantil e também não reparou no olhar compassivo de Ulrike. Mas ela fez-lhe a vontade.

 

Robert. Colocou à sua frente um copo alto com uma palhinha de plástico. Eis o seu Pawpaw. Por conta da casa...

 

Isso quer dizer que é você que o paga.

 

Eu recebo gorjetas.

 

Não posso aceitar. O que bebo é para pagar. Chupou pela palhinha e achou que a mistura de rum da Martinica, sumo de lima, laranja, ananás e papaia, bem como os pedaços desses frutos era muito refrescante e saborosa. «Uma coisa destas vale vinte marcos», disse para si próprio. «Ainda se paga todo o ambiente, a música, as raparigas e os seios semivisíveis de Ulrike. Tudo incluído no preço.» Robert voltou a sentir uma pressão na laringe.

 

- Ulrike? perguntou ele, agarrando o copo com ambas as mãos. Porque está a fazer isto?

 

O quê?

 

Trabalhar aqui?

 

Você próprio poderá responder: tenho uma renda para pagar, comprar comida e, de vez em quando, alguma coisa decente para vestir. Muito simples. Preciso de viver.

 

Existem muitos outros empregos.

 

Acha? Que sabe você da vida, Robert? Cresceu no seio de uma boa família... Que faz o seu pai?

 

É conselheiro de Estado. Ora vê! Nunca passou fome, nunca teve problemas, padrastos a querer violá-lo, chefes que lhe fazem cócegas com o dedo quando estão sozinhos consigo, não é demitido por afastar o dedo...

 

E aqui ninguém lhe toca? Ele engoliu em seco. Pela maneira como está vestida...

 

Isso sou eu quem decide. Robert, beba e vá-se embora. Por favor.

 

Apetece-me um segundo cocktail.

 

Mas eu não lho faço.

 

Então pedirei à sua colega.

 

Muito bem. Ela suspirou e retirou o copo vazio. Mas só se prometer que depois se vai embora.

 

Prometido.

 

O bar estava cada vez mais cheio e alguns casais desapareciam pela porta dos fundos sem que Robert se preocupasse com isso. Estava sentado no banco, olhava para Ulrike enquanto ela servia outros clientes e irritou-se quando um homem, visivelmente bêbado, lhe meteu uma nota de cinquenta marcos no decote. «Deviam dar-lhe uma bofetada», pensou Robert. «Não se trata assim uma senhora e muito menos Ulrike. E ela ainda se ri. De que outra maneira poderia reagir? É o trabalho dela, aliás, horroroso!»

 

Ficou no bar, a beber o seu segundo cocktail, que pagou, até por volta das onze horas e até obedeceu quando Ulrike lhe disse:

 

Mas agora tem mesmo de ir, Robert.

 

Ele acenou com a cabeça e ela respirou fundo.

 

Vejo-a amanhã na piscina?

 

Não sei.

 

Se não for, volto cá.

 

Isso é quase chantagem...

 

Não, é apenas um desejo. Estendeu-lhe a mão e segurou-a durante mais tempo do que numa despedida normal. Você é a minha trigonometria esférica.

 

O que sou eu?

 

A investigação da relação entre faces e ângulos de cubos... Era o que eu deveria estar a estudar hoje, matemática!, mas os seus cocktails são melhores e muito mais valiosos. Até amanhã...

 

Largou-lhe a mão, riu-se perante a sua expressão de incompreensão e abandonou o bar. Na antecâmara voltou a encontrar o porteiro a quem Ulrike chamara Bolo. O monte de músculos olhou-o com um ar zangado.

 

Agora já conhece a minha cara observou Robert, enquanto o outro abria a porta. Da próxima vez espero que não haja discussões...

 

Veremos. Bolo abriu a porta. Põe-te a andar... O ar fresco vai fazer-te bem...

 

Mal Robert saiu do bar, surgiu uma figura que vinha da quase escuridão e se dirigia ao balcão. Era um tipo latino, de cabelos negros e com um fino bigode. Encostou-se ao bar e esperou até Ulrike terminar de servir um cliente.

 

Quem era? perguntou, com uma pronúncia italiana.

 

Quem? replicou Ulrike.

 

Não fiques tão zangada, Ula! O rapaz que acabou de sair.

 

Um cliente.

 

Quase te dedicaste exclusivamente a ele.

 

Nem dei por isso.

 

Agora andas com miúdos?

 

Que chatice! Foi a primeira vez que cá esteve!

 

Bolo diz que o conheces.

 

Bolo é um idiota! replicou ela, zangada.

 

Tem cuidado, Ula. Um rapaz daquela idade não compensa... Depois do primeiro round cai da cama, mas pode ter olhos vigilantes. Não corras riscos, Madonna, mesmo que te dê comichões.

 

Tu conheces-me! disse ela, enquanto empurrava o copo na sua direcção.

 

Sempre que quiseres. Ele riu-se e tamborilou com os dedos no balcão. Salvatore está sempre pronto.

 

Piscou-lhe o olho, desapareceu na semiescuridão do bar. e encostou-se à parede, observando os clientes.

 

Chamava-se Salvatore Brunelli e era natural de uma aldeiazinha, San Marco, que ficava nas montanhas que circundavam Rocca Busambra, perto da cidade de Gerleone, na Sicília. Profissão: electricista.

 

Era, sem dúvida, um homem muito atraente.

 

«Nem todos os dias se apanha uma pista destas: estão a caminho vinte quilos de heroína. Vêm do Vietname, através da Polónia, para Munique.» E mais não disse o informador anónimo, não referiu ponto de encontro nem datas, apenas que vinha aí alguma coisa.

 

Para o inspector Peter Reiber, chefe do Departamento de Narcóticos da Polícia de Munique, aquela vaga comunicação foi o suficiente para dar o alarme. Para ele não havia dúvida de que a informação era verdadeira e não uma brincadeira de mau gosto, como já lhe acontecera tantas vezes. Os telefonemas anónimos devem ser sempre tratados com cautela, por isso, foi rapidamente convocada uma reunião no seu gabinete.

 

A voz do informador anónimo tinha uma pronúncia de leste Reiber encolheu tristemente os ombros, mas infelizmente não gravámos a conversa. É impossível registar todos os telefonemas. Podia tratar-se de um polaco e só pergunto a mim próprio por que motivo um polaco delata um negócio de milhões quando se trata de uma operação polaco-vietnamita. E isto também é novo: o Vietname. Como se sabe, o contrabando de narcóticos está nas mãos de três grandes: a máfía italiana, as tríades chinesas e a máfia russa. Agora aparecem os vietnamitas, partindo do pressuposto de que a informação é verdadeira. Nesse caso, teremos de lidar com um novo grupo que se está a meter no negócio com toda a força. Por outras palavras, Munique vai ser palco de mais uma guerra, podemos estar nessa iminência.

 

Além da conversa telefónica temos mais alguma informação? perguntou um inspector.

 

Nada. Apenas: «Estão a caminho vinte quilos de heroína.»

 

Isso significa que já podem estar há muito em Munique.

 

Então a informação não faria sentido.

 

No fundo, não faz. Como poderemos ter a certeza de que o negócio vai acontecer sem conhecer o local e as horas?

 

Devemos intensificar a vigilância da fronteira com a Polónia.

 

Reiber disse-o apesar de saber que tal proposta não passaria de um desejo, pois essa fronteira tinha tantos buracos que parecia um passador. Vigiá-la intensivamente era impossível do ponto de vista técnico e também devido à carência de pessoal. O outro inspector deu voz ao que Reiber estava a pensar.

 

Então teremos de construir um muro como o de Berlim ao longo de toda a fronteira polaca. Deixemo-nos de brincadeiras. Que podemos fazer?

 

Nada!

 

Reiber disse-o de um modo tão decidido que alguns colegas se assustaram. A palavra «nada» é odiada no círculo policial, significa impotência em relação ao crime e já tinham sido vezes de mais obrigados a constatar o crescimento da criminalidade internacional, que escolhia a Alemanha como país ideal para os seus crimes. As luvas de veludo das leis alemãs tornaram-se chão muito fértil para crimes de qualquer espécie, e a proibição de escutas telefónicas decretada pelos políticos de Bona abria ainda mais o mercado alemão à criminalidade. O inspector-chefe Reiber manifestara-se certa vez de maneira especialmente drástica e frustrada no seio de um círculo de confiança:

 

Enquanto os crimes perpetrados por gangs forem punidos com quatro ou cinco anos, enquanto um assassino, com um bom advogado, que use como defesa os danos psíquicos que o réu sofreu durante a infância, for condenado a apenas dez anos e durante esse período se porte como um menino de coro e pinte figuras de Nossa Senhora nas paredes da cela, saindo por isso em liberdade condicional ao fim de seis anos, enquanto isso acontecer, existe algo de podre na nossa justiça! Pensem só naquele caso do Norte da Alemanha: uma mulher, depois de alguns anos de cadeia, sai da prisão, libertada condicionalmente por bom comportamento. O que acontece? Dois meses mais tarde, assalta outra mulher e fere-a com vários golpes de arma-branca. Prisão, interrogatório, um caso claro. E como reage o procurador? Liberta a mulher, argumentando que não havia motivos para a prender porque tinha um domicílio permanente. Onde vivemos então! Suponhamos que parto a cabeça de alguém com um copo depois de ter bebido quatro cervejas e duas aguardentes. O que me acontece? Pouco. Posso provar que há quatro anos sofri um acidente de automóvel, donde resultaram danos cranianos e cerebrais. Um psiquiatra declara que no momento do crime se verificara uma síndroma isolada de canalização de afectos devido ao grau de alcoolémia, sendo muito importante a palavra «isolado»... Nenhum tribunal me condenará por homicídio, quando muito por homicídio involuntário devido a uma perda temporária de capacidades mentais. E apanho uma sentença leve! No entanto, a minha intenção era matar, cometer um homicídio a sangue-frio! Mas saio em liberdade e o outro está morto! A nossa justiça está podre e Reiber conclui: Só nos resta uma hipótese, mas seria um golpe de sorte ou um acaso: a heroína já estar há muito no porto quando recebemos a pista do nosso informador.

 

Temos contactos nos círculos vietnamitas? perguntou o outro inspector.

 

Não, só nos polacos.

 

E mesmo assim ainda fica uma grande questão em aberto. O interlocutor de Reiber inclinou-se um pouco para a frente. Se os polacos estão envolvidos, por que razão um deles nos daria uma pista?

 

Também me fiz a mesma pergunta. Reiber bebeu um pouco de água do copo que estava à sua frente, pois toda aquela impotência secara-lhe as goelas. Cada um deve cozinhar a sua própria sopa.

 

Delatando os companheiros?

 

Talvez por vingança pessoal...

 

Então teria informações concretas sobre o negócio. Contudo, tudo isto é muito vago... Prefiro acreditar que alguém quer avisar a polícia de que, de futuro, terá de contar com um novo grupo.

 

Ninguém dá a conhecer a existência num movimento subversivo.

 

Talvez queira espalhar a inquietação e deixar a polícia insegura ante a hipótese de um novo sindicato. Estamos às apalpadelas no escuro. O inspector que dialogava com Reiber levantou-se. É assim que vejo as coisas. Uma afronta em relação à polícia! Que nos resta fazer? Esperar que haja mais informações que confirmem que este grupo polaco-vietnamita realmente existe. Depois acrescentou com algum receio. Que mais nos resta fazer?

 

Os informadores anónimos de Reiber de nada sabiam, não havia conhecimento de um negócio de vinte quilogramas de heroína e até se duvidava do facto. Ninguém ouvira falar de um grupo polaco-vietnamita e, se existisse, rapidamente se saberia no seio dos círculos interessados na «segurança de mercado». Os italianos e os chineses aumentariam a sua actividade, sobretudo se os preços fossem mais baixos.

 

Quatro dias depois do misterioso telefonema, o inspector-chefe, Theo Wortke, do Departamento de Homicídios, telefonou a Reiber.

 

Tenho um cadáver na mesa do Instituto de Medicina Legal disse ele num tom irónico, que já era conhecido em toda a polícia. Quem se ocupa há mais de dezasseis anos do modo como as pessoas morrem, fica com a alma endurecida. Conseguimos identificá-lo. Chama-se Karyl Podniewsky, um polaco. Como ouvi dizer que vocês...

 

Vou imediatamente para aí! exclamou Reiber, desligando o telefone.

 

Meia hora mais tarde, ele e Wortke encontravam-se perante o cadáver, na câmara frigorífica. Estava congelado e parecia dormir um sono tranquilo. O médico patologista repetiu o que Wortke já sabia.

 

O óbito ocorreu por estrangulamento com um fino arame de aço. O homem deve ter sido surpreendido por trás, pois não há vestígios de luta no corpo. Hora da morte: ontem entre as dezassete e as dezoito horas. Ao almoço comera carne de porco com feijão...

 

Isso é assim tão importante? perguntou Peter Reiber, enojado.

 

Para nós sim. O patologista voltou a cobrir o cadáver. Além disso, era um drogado, o corpo está cheio de marcas de agulhas e continha ainda no organismo restos de heroína. E foi por isso que te contactámos. Wortke afastou-se do morto e deu uma pequena palmada no braço de Reiber. Faz parte da tua irmandade dos narcóticos. Estranho é o facto de ter os documentos com ele. Passaporte polaco, visto de entrada na Alemanha com validade de três dias. Objectivo da viagem: turismo. Tudo irrepreensível até alguém o estrangular. Consegues deduzir alguma coisa a partir daqui?

 

Não.

 

Primeiro, um polaco telefona para ti e agora há um polaco assassinado. Poderá existir alguma relação?

 

É possível, mas também pode ser coincidência. Reiber saiu da sala depois de agradecer ao médico. Não era tão insensível como Wortke, que considerava um morto como uma coisa e um pormenor de relatório. Reiber só era confrontado com cadáveres quando um drogado dava o «tiro dourado»1 e era necessário investigar a fundo a área dos narcóticos. Nesses contextos também se encontrava sempre

 

Sobredosagem (overdose). (N da T)

 

com Wortke, pois o suicídio está igualmente na jurisdição do departamento criminal. Wortke dizia sempre:

 

Mais um anjinho! Tens muito mais trabalho do que eu. Se não fosse assim, poderíamos sentar-nos calmamente a jogar xadrez.

 

Era um exagero, mas Wortke gostava dessas frases bombásticas.

 

O que conseguiram saber sobre este homicídio? perguntou Reiber, já no corredor, mas Wortke encolheu os ombros, o que era muito esclarecedor.

 

O corpo foi encontrado em Westpark Ost. Uma senhora, que passeava o cão por volta das nove da noite, descobriu o cadáver atrás de um arbusto. Para ser mais concreto, foi o cão... A senhora está agora no hospital em estado de choque. Mas não foi assassinado ali, entre as dezassete e as dezoito horas, como determinou o patologista, ninguém é estrangulado no Westpark! É óbvio. Ninguém tem coragem para fazer isso.

 

À excepção de um asiático... observou Reiber pensativo.

 

Tu conheces bem a tua clientela internacional.

 

Matam com muita rapidez, ao teu lado, no meio da multidão, nos autocarros, nos comboios, hospitais e estádios de futebol. Estou a pensar no que sucede em África, no Soweto, arrabalde de Joanesburgo, onde ocorrem com frequência assassínios rápidos e silenciosos. É fim-de-semana, os trabalhadores receberam o salário semanal. Viagem de regresso a Soweto em autocarros tão cheios que mal se consegue respirar e onde os corpos vão colados uns aos outros. Nessa situação ninguém cai e atrás está alguém, bem apertado contra ti, que te atravessa o coração com um raio de bicicleta. Sentes apenas uma picada de agulha e morres. Só quando todos saem, no final da carreira, é que fica um dentro do autocarro que já não pode sair: o assassinado. Nunca se apanha o criminoso.

 

Transponhamos isso para o Westpark. Wortke passou a mão pela testa. O criminoso surge pelas costas, coloca rapidamente o arame em torno do pescoço da vítima, pressiona bruscamente, a traqueia parte e a vítima cai nos arbustos... Isso faz-se em segundos. Teoricamente está bem, Peter, mas é impossível. Um morto não fica das cinco da tarde até às nove da noite no Westpark sem que alguém repare nele. Aqui não se trata de um autocarro para o Soweto. O polaco deve ter sido atirado para os arbustos pouco tempo antes de a reformada ter ido passear o cão. Todavia, dou-te razão numa coisa: tem todo o aspecto de ser um homicídio perpetrado por asiáticos, e com isso chegamos aos teus vietnamitas.

 

E no meio de um túnel escuro! Não temos a menor pista. Ainda não, mas quem sabe, até um cão cego acaba por encontrar um grão de milho.

 

Então começa a trabalhar rapidamente. Wortke procurou um maço de cigarros no bolso, não encontrou nenhum e, como substituto, colocou um fósforo entre os dentes e começou a mastigá-lo. O colega era não fumador. Há uma coisa de que tenho a certeza: está ali um cadáver com um passaporte falso e que ninguém conhece, um morto desconhecido... Ficam-me sempre pendurados no pescoço! Vamos beber uma cerveja?

 

Era uma boa ideia. Reiber também estava ansioso por beber qualquer coisa, encontros com mortos secavam-lhe as goelas e faziam sede.

 

Foi um acto de coragem Robert ter tocado, no dia seguinte, à campainha do Toscana. Além de possíveis desentendimentos, só tinha no bolso cinquenta marcos, que eram o seu único capital. Dali sairiam os trinta da entrada e ficavam uns ridículos vinte para um cocktail. Pela primeira vez, Robert tomou consciência de que ele, o único filho de um conselheiro de Estado, levava uma vida mais pobre do que os músicos da Kaufinger Strasse. Ao pé dele eram ricos.

 

Bolo abriu a portinhola, meteu a cabeça rapada de fora e perguntou:

 

Que queres?

 

Tens três tentativas para adivinhar, como nos contos de fadas.

 

A porta abriu-se, a rapariga do bengaleiro meteu na caixa os trinta marcos da entrada, mas quando Robert quis passar a porta basculante, Bolo agarrou-o por um braço.

 

Vais arranjar problemas avisou ele.

 

Com quem? Robert sacudiu-lhe a mão. Desde que pague a minha conta, sou um cliente como outro qualquer.

 

Se isso não for um erro. Bolo deu-lhe passagem. Já vi sair daqui alguns na horizontal...

 

Sem se preocupar em olhar em volta, Robert dirigiu-se imediatamente ao balcão do bar e ainda de longe conseguiu perceber que Ulrike namoriscava com um cliente. Cabelos brancos, fato de alfaiate, ventre saliente e, decerto, uma carteira cheia. Ulrike riu-se, o que fez balançar os seus seios. Robert achou aquilo repugnante. Quando ela o viu aproximar-se do bar, puxou involuntariamente para cima o decote do vestido. Robert sentou-se ao lado do homem de cabelos brancos e ficou durante algum tempo a olhar Ulrike em silêncio. Só ela depois perguntou:

 

Que deseja beber?

 

Um cocktail respondeu ele.

 

Novamente um Pawpaw”?

 

Não. Hoje quero um Blade Runner.

 

É muito forte...

 

Pedi-lo-ia se não fosse?

 

Ela hesitou, mas depois foi buscar vodca, rum branco e comtreau à prateleira, sumo de limão e bitter, colocou tudo dentro de um misturador e depois deitou a mistura sobre gelo picado. O cavalheiro que estava ao lado de Robert saíra do banco e fora à casa de banho.

 

Donde conhece o Blade Runnerl perguntou Ulrike colocando o copo com alguma força sobre o balcão.

 

Comprei esta tarde um livro de cocktails.

 

Robert provou a bebida. Era óptima, mas realmente muito forte. Não foi à piscina...

 

Tive de lavar roupa. Ela abanou a cabeça. Não devia ter vindo...

 

Provavelmente será a última vez. Pôs as duas mãos sobre o balcão. Os vinte marcos deste Blade Runner são o meu último dinheiro, mas vou ver se consigo arranjar mais... Preciso de voltar a vê-la.

 

De vez em quando na piscina...

 

Não. Todos os dias. Sempre!

 

Mas isso é um disparate! A voz de Ulrike soava irritada, mas havia um toque de compaixão. Você não pertence a este mundo.

 

Porque só tenho dezoito anos e não tenho cabelos brancos como o homem com quem estava a namoriscar?

 

Ela ouviu a repreensão e olhou para a semiescuridão da sala. Salvatore Brunelli estava encostado sob o nicho e olhava-os.

 

Faz parte das minhas funções conviver com os clientes, dar-lhes conversa. Só isso. Quem olha para o meu decote pede mais bebidas.

 

A sua frivolidade, o tom em que proferia aquelas palavras e os movimentos do tronco mostravam a Robert que ela estava numa luta interior. «Não é ela», tentou dizer a si próprio. «Não é a verdadeira Ulrike Sperling... É apenas uma fachada, uma capa profissional sob a qual se esconde e que, no fundo, odeia, da qual gostaria de fugir, mas não vê saída.» Ele pensava conhecer a verdadeira Ulrike, a jovem da piscina pública, que não ligava aos olhares dos homens. Essa era a verdadeira, a Ulrike que estava atrás do bar era uma criação artística, um papel de uma peça de teatro, a involuntária heroína de uma tragédia.

 

Quanto tempo vai aguentar isto? perguntou ele.

 

Aguentar? Ela riu-se. Você está completamente enganado, Robert. Sinto-me bem aqui, ganho bem e ainda sou jovem no aspecto relacional. Daqui a sete anos terei quarenta e até lá espero ter poupado o suficiente para abrir a minha própria boutique. Voltou a rir. Ou então caso-me com um homem rico. Ter um objectivo na vida é quase sempre uma ilusão. Não se consegue ver a verdade porque se tropeça na ilusão. Se de vez em quando não surgissem surpresas...

 

Eu gostaria de ser a sua surpresa, Ulrike.

 

Disse-o com uma cara muito séria, não era uma brincadeira ou um simples galanteio. No entanto, Robert não reparou na expressão assustada dos olhos dela. A falta de sentido das suas palavras não era consciente, tinha simplesmente dito o que pensava e desejava sem ter em conta a realidade.

 

O nome de Ulrike Sperling também era, de certo modo, amargo quando tomado à letra: era uma ave de rua. Passara a sua infância e adolescência a fugir do padrasto que a perseguia e que, quando bêbado, baixava as calças e andava pela casa mostrando o seu membro erecto. A fugir dos jovens do clube de natação e ginástica, que lhe apalpavam os seios. Com quinze anos fora violada e desflorada por um colega de turma durante uma peregrinação de três dias a Lourdes. Ulrike não admirou as maravilhas da gruta santa, mas sim a dolorosa transformação em mulher. Para ela foi um choque e durante muito tempo não teve qualquer contacto com homens, mas isso aconteceu por si: quando foi aceite na escola de ballet, conheceu colegas para os quais as mulheres eram uma espécie de ser neutro. Mais tarde, já no corpo de bailado, havia mais lésbicas do que namorados à espera junto à porta dos artistas após uma representação, e que a tentavam seduzir com os seus chiques carros desportivos e relógios de ouro cravejados de brilhantes.

 

Nessa altura, Ulrike Sperling ainda era muito arisca, um Porsche ou um Ferrari não eram cartão-de-visita. Isso só mudou quando saiu da companhia de bailado e se tornou «bailarina contorcionista» num bar com shows ao vivo. Percebera finalmente que o seu corpo poderia ser um capital valioso, sobre o qual se poderia especular e que se tornaria numa mina de ouro como nos contos de fadas. Enfeita-te burro e tilintam as moedas.

 

Foi a altura em que Ulrike fechou os seus valores morais numa caixa, mas uma caixa cheia de notas. No entanto, era selectiva, não ia para a cama com qualquer um, escolhia-os a dedo e não se perdia, de modo algum, numa ligação longa. Dava e recebia. Um negócio proveitoso, cujos vestígios rapidamente desapareciam com um duche. Apenas uma vez se esqueceu dos seus propósitos de nunca se apaixonar por um dos seus numerosos clientes. Acontecera há três anos, já tinha trinta, altura em que conheceu um suíço, um homem de negócios, que a tratou com cortesia e como uma senhora, a levou a passar o fim-de-semana a Berna, lhe mostrou a sua firma uma sociedade fiduciária e de administração de bens, um andar antigo com sete computadores. Nesse domingo, viveram horas de ternura e de uma entrega total junto ao Thuner See. Pela primeira vez na vida, Ulrike acreditou que era feliz, que encontrara um homem em quem podia confiar.

 

Viveram juntos quatro meses. Ulrike desistiu dos seus compromissos, acabou com a vida que levara até então e sentia-se bem no papel de amante. Beat, era o nome do suíço, trazia-a nas palminhas, bastava esboçar um desejo para o ver concretizado. Assim, a realidade tornou-se um sonho e o sonho realizou-se, finalmente, Ulrike tinha um futuro para viver.

 

Foi num dia de Outono que Beat propôs a Ulrike que investisse o seu dinheiro em acções. Ela amealhara sessenta mil marcos, dinheiro ganho «na horizontal», mas já não falavam sobre esse assunto. Muito entusiasmada, Ulrike entregou o seu pequeno tesouro a Beat, por certo um fiel depositário, pois, só por si, a designação de fiduciário transmitia seriedade e confiança. E realmente Beat aplicou bem o dinheiro, mostrou a Ulrike as acções que comprara, lindos documentos impressos a cores que garantiam dez por cento de lucro pelo menos e fechou-as num cofre de banco.

 

Duas semanas mais tarde, Beat desapareceu e as acções guardadas no cofre não valiam o papel em que estavam impressas, pois aquela sociedade nem sequer existia. O escritório em Berna era uma farsa e os sete computadores apenas serviam para enganar os clientes. Depois de longas investigações, Ulrike descobriu que Beat fora para o Senegal, um lugar seguro.

 

Ao entregar todo o seu dinheiro ao amante, Ulrike ficara sem um marco. Aquele novo mundo brilhante desaparecera e o futuro desfizera-se. Nela só crescera um ódio mortal em relação a todos e a tudo, ódio por aquela vida que até então fora uma mentira total. Contudo, esse sentimento fez crescer a determinação de Ulrike de nunca mais se deixar enganar, mas de, pelo contrário, enganar aquela sociedade suja. A terrível frase da Bíblia «olho por olho, dente por dente» tornar-se-ia a sua divisa, queria continuar a viver e descarregar a sua ira sobre toda a gente. Era-lhe indiferente que as pessoas estivessem ou não inocentes, ela fora uma dessas inocentes e tinham-na usado com uma frieza de gelo. Acabara de perceber que a vida era uma guerra permanente e só saía vencedor aquele que fosse mais impiedoso.

 

E assim tudo voltou ao início: a cama voltou a ser o local de negócio de Ulrike e nela conheceu Franz von Gleichem. Explicara imediatamente que não tinha necessidade de pagar para fazer amor, vinha só por recomendação de um amigo que lhe aguçara a curiosidade. Isso não lhe interessava, respondera Ulrike imediatamente. Quais eram os seus desejos? E durante quanto tempo? E sem preservativos. Von Gleichem pareceu ficar contente, pois voltou a telefonar dois dias mais tarde e marcou um encontro com Ulrike no Bar Toscana.

 

Não era um local desconhecido para ela, pois clientes do bar eram também seus. Apanhar alguém na rua era para ela uma indignidade, o último estádio da degradação moral. Descer tão baixo seria desistir completamente da sua personalidade. Portanto, ela frequentava determinados locais, participava em conversas mais ou menos interessantes, despia-se e levava «as notas» para sua casa. Deixava que os homens ficassem com uma sensação de triunfo, pois pecuniariamente funcionava melhor. Um homem que se sentisse vencedor investia mais na sua vitória o orgulho masculino é uma mina de ouro.

 

No Toscana, Ulrike encarou com Bolo, o porteiro, mas quando este ouviu o nome de Von Gleichem, não perguntou mais nada, abriu a porta. No bar, foi recebida por Salvatore Brunelli com um forte aperto de mão e uma cortesia gordurosa. O siciliano conduziu-a a uma enorme sala situada nas traseiras do bar, decorada como o gabinete de um rico industrial. Por trás de uma secretária sentava-se Von Gleichem, que se levantou assim que eles entraram, enquanto Brunelli abandonava imediatamente a sala.

 

Fico muito feliz por ter aceite o meu convite disse Von Gleichem.

 

Se bem que lhe tivessem pago pelos seus serviços, há dois dias, ele, para grande espanto de Ulrike, tratava-a com deferência, o que provocava um certo distanciamento. Pensou nas duas horas que tinham passado juntos e na nota de mil marcos que Von Gleichem deixara na sua mesa-de-cabeceira, achando muito estranho aquele seu comportamento, como se a estivesse a ver pela primeira vez.

 

Já tinha esperado por si ontem acrescentou ele.

 

Precisei de tempo para pensar. Ulrike olhou em volta. Não havia divã, apenas sofás de couro, estantes com livros, ficheiros de escritório e uma secretária. Como prefere: no sofá ou sobre a secretária?

 

Não diga disparates! Parecia zangado e autoritário. Pedi que viesse aqui...

 

Pediu? repetiu ela como se fosse uma palavra desconhecida.

 

Sim, pedi! Von Gleichem voltou para trás da secretária, sentou-se e acrescentou: Estive a pensar numa coisa!

 

Apesar de não lhe ter dito que se sentasse, ela atirou-se para cima de um dos grandes sofás de couro e traçou as longas pernas. Por baixo da minissaia, usava apenas umas exíguas cuecas, mas aquilo não pareceu ter qualquer efeito sobre Von Gleichem, que a olhou, mas não para entre as coxas.

 

Estou muito espantada.

 

Não terá necessidade de se vender.

 

Só uma pessoa que tenha dinheiro suficiente pode dizer isso. Ela reclinou-se no sofá. Quer dar-me uma lição de moral? Logo o senhor? Há dois dias...

 

Esqueça aquela noite. Já lhe disse que não preciso de comprar mulheres.

 

Elas caem-lhe como maçãs de uma árvore... Ulrike inclinou-se na direcção dele e a sua voz tornou-se provocante. O que quer de mim?

 

Tenho algo em mente para si.

 

Seja mais concreto, por favor.

 

Von Gleichem tirou uma garrafa de conhaque da secretária e levantou-a.

 

Também quer?

 

Obrigada. Só bebo em serviço.

 

Serviço é uma excelente expressão. Von Gleichem riu-se e encheu o copo. Estou a ver que tem sentido de humor, o que é muito bom. Bebeu um pequeno gole e depois sobrepôs as mãos.

 

Franz von Gleichem, conhecido em determinados círculos de Munique como «o Barão dos Bares», era um homem muito conhecedor e especializara-se em bares e locais nocturnos. Herdara quatro milhões de marcos do pai, que os ganhara como proprietário de uma fábrica de cerveja, mas Franz, formado em economia, não considerava que o seu futuro fosse a fábrica de cerveja, mas sim o negócio imobiliário, de preferência bens de raiz, que estavam mais próximo do seu significado literal: comprou três casas velhas e transformou-as em clubes privados que era um nome mais apropriado para bordéis aristocráticos. A sua clientela era, portanto, a alta sociedade, industriais, políticos e até banqueiros. Franz tinha uma expressão maldosa, já conhecida no círculo de amigos: «De vez em quando há aqui sessões do parlamento...» Claro que era um exagero, toda a gente sabia o que queria dizer com aquilo. Os clubes tinham uma boa reputação e estavam livres de qualquer rusga policial, pois não é nada agradável prender advogados no meio de um banho de espuma.

 

Depois dos clubes, Von Gleichem ocupou-se da vida nocturna oficial de Munique. Comprou bares ou mandou-os construir, com quartos nas traseiras, que convidavam a jo gos sexuais: para uns era bodybuilding, para outros ginásti ca erótica. Como as coisas exclusivas tinham o seu preço, a cervejeira do pai tornou-se apenas um negócio secundário; os restantes milhões foram ganhos através dos outros negócios. Von Gleichem dominava um império de prazer e tornara-se intocável.

 

Vai acabar com esses «serviços» disse ele no seu tom determinado, que afastava qualquer resistência. E já.

 

E vou viver para debaixo da ponte... Ulrike levantou-se. O que se lhe meteu na cabeça? Quer mandar em mim? Prezo a minha liberdade acima de tudo! Quero fazer o que quiser e ficamos assim! Quando me apetecer dormir durmo, quando tiver fome, como, quando precisar de foder fodo! Tudo depende da minha decisão! Ninguém me con vence, nem o senhor!

 

Está a cair num mal-entendido. Pode ser que eu não me tenha expressado correctamente.

 

O senhor não disse nada.

 

Ulrike aproximou-se da secretária e apoiou as mãos na superfície. O seu olhar irado fascinava e intimidava ao mesmo tempo. Era uma mulher muito temperamental, parecia uma gata brava, e Von Gleichem não tinha qualquer interesse em amansá-la, estava muito bem assim.

 

Posso ir-me embora? perguntou ela, zangada.

 

Só mais uma palavra.

 

Sobre o quê?

 

O Toscana agrada-lhe?

 

Um sorvedouro de dinheiro como qualquer outro bar. Pertence-me.

 

Já tinha suposto isso.

 

Franz von Gleichem não deu importância à ironia e até se riu, o que irritou ainda mais Ulrike. Como podia ele rir-se quando lhe estavam a dar pontapés nas canelas?

 

Ofereço-lhe um emprego, aqui no Toscana, como empregada de bar.

 

Eu atrás do balcão e o senhor como patrão. Não, obrigada.

 

Parecia uma decisão definitiva, mas numa mulher nada é definitivo. Um conhecedor da psicologia feminina não dá importância a essa aparente determinação, são apenas defesas retóricas e fáceis de contornar.

 

Receberá cinco por cento dos rendimentos brutos e deixará de ir para a cama com homens.

 

A não ser consigo. Não é verdade?

 

Não me deito com os meus funcionários, talvez eu seja diferente dos outros, mas não testo os meus empregados novos.

 

E o que aconteceu anteontem?

 

Já lhe disse que esqueça esse dia! A sua actividade no bar será passageira, tenho muito mais em mente para si.

 

Será possível explicar-se melhor?

 

Ele via as defesas dela ficarem cada vez mais fortes, mas abanou a cabeça e voltou a virar-se para o cálice de conhaque.

 

Ainda não, preciso de observá-la primeiro.

 

Assim desisto. Boa noite.

 

Ela virou-se e dirigiu-se à porta, mas antes de rodar a maçaneta, a voz dele fê-la parar.

 

Ulrike... disse Von Gleichem com uma voz suave e acariciadora. Poderá tornar-se uma mulher muito rica a curto prazo. A sua própria villa com jardim e piscina, um carro topo de gama, férias em Barbados ou no Taiti, modelos exclusivos, jóias, conta bancária na Suíça... Isso não a atrai?

 

Ganha-se assim tanto a trabalhar no balcão de um bar? quis ela saber, virando-se para Franz von Gleichem.

 

Claro que não.

 

E que tenho de fazer para isso?

 

Mais tarde. Von Gleichem acenou com a mão e esvaziou o cálice. As grandes fortunas vêm por vezes por caminhos tortuosos. Preciso ver primeiro se é competente. Ulrike, peço-lhe apenas uma oportunidade.

 

E porquê eu?

 

Porque tenho a sensação de que você é suficientemente inteligente para este trabalho. Sempre confiei nos meus instintos, que nunca me enganaram.

 

Está a dizer charadas, senhor Von Gleichem, e nunca fui muito boa para as resolver, ao contrário da minha mãe, que faz tudo quanto são palavras cruzadas.

 

Pense no assunto, Ulrike e o tom de Von Gleichem não deixava dúvidas de que desejava terminar a conversa. Venha ter comigo aqui ao Toscana dentro de três dias. Se nessa altura me disser que não, então tê-la-ei sobrestimado e você é pouco esperta. E abandone imediatamente o «serviço».

 

Vou esforçar-me.

 

Ulrike saiu da sala e lá fora era esperada por Salvatore Brunelli, que lhe estudou o rosto, mas ela adoptou uma expressão impenetrável, que aguçou a curiosidade do siciliano. Até Bolo a olhou interrogativamente, obtendo apenas como resposta um olhar inexpressivo. No entanto, perguntou-lhe confíantemente:

 

Voltaremos a ver-nos?

 

Consulte o seu horóscopo respondeu Ulrike. Saiu para a rua, respirou fundo e a pesada porta fechou-se atrás dela. Só naquele instante, livre da voz de Von Gleichem, se sentiu confundida com as suas últimas frases. O futuro que ele lhe retratara condizia perfeitamente com o seu grande sonho que ela sabia não passar de uma miragem. No entanto, alguém lhe estava agora a oferecer esse futuro sem lhe explicar o que tinha a fazer. Caminhos muito sinuosos, dissera Von Gleichem. Como se deveria entender aquelas palavras?

 

Ulrike sentou-se num café que ficava perto do bar, pediu um expresso e afastou um cliente que se quis sentar à sua mesa.

 

Há muitas mesas livres! disse ela com rudeza.

 

O encontro com Von Gleichem parecia ter surtido algum efeito. Nos três dias de meditação, Ulrike desistiu das suas tarefas habituais, passeou pelo Jardim Zoológico da cidade, andou pelas zonas só para peões do centro da cidade e foi olhando para as montras dos grandes costureiros da Rua Maximilian. Admirou os modelos expostos, os preços e perdeu-se em cogitações: «Poderás servir-te de tudo isto, se disseres apenas ”sim”!» Mas o que viria atrás desse sim? Entregava-se completamente nas mãos de Von Gleichem, perdendo a sua própria personalidade? Parecia um pacto com o Diabo, que lhe prometeria bens terrenos em troca da alma? Quem era aquele Franz von Gleichem?

 

Nas três noites seguintes, Ulrike andou de bar em bar, às voltas por Munique, mas não estava à procura de clientes, apenas a tentar reunir informações. No entanto, obtinha sempre a mesma resposta:

 

Franz, «o Barão»? Que queres dele? Conhece-lo? Tem o dedo em tudo o que seja vida nocturna. Vale um número bastante grande. Como chegaste até ele? Não é para as tuas unhas.

 

Eram informações que não alarmavam Ulrike, mas sim a sossegavam. Suspeitara de que Franz von Gleichem pudesse ser um aldrabão bem-falante, mas mudara de opinião devido à maneira respeitosa como falavam dele. Só havia uma questão que ainda não esclarecera: porquê ela? Precisamente ela? É certo que era bonita, mas em Munique havia muitas como ela, e mais jovens. Portanto, não poderia ter sido isso que despertara a atenção de Von Gleichem e, além do mais, ele queria esquecer as horas que tinham estado na cama, pois desde o início ficara claro que não a queria como amante, mas sim por ser vistosa e com classe. Por outro lado, prometera-lhe o céu na terra... Como se poderia entender aquilo?

 

Os três dias de espera tornaram-se quase insuportáveis para Ulrike. Na última noite, passou as horas às voltas na cama, pouco dormiu, até se sentou, olhou para a parede escura e continuou a pensar: «Devo? Não devo? Podia tentar desligar-se a qualquer momento, se as promessas fossem falsas. Vou dizer-lhe claramente que tenho vontade própria e que ninguém me consegue vergar, nem mesmo com uma villa, jóias, peles e um Jaguar. É isso mesmo que lhe vou dizer.»

 

Passados os três dias, Ulrike tocou à campainha do Toscana e mais uma vez a peça mostrou estar bem ensaiada: Bolo abriu a portinhola, grunhiu, abriu a porta, permitiu a passagem a Ulrike, dizendo:

 

Já esperava que voltasses!

 

Depois mandou-a ir ter com Salvatore, que a conduziu à sala que ficava atrás do bar, onde ficou novamente face a face com Franz von Gleichem, dizendo-lhe então o que exercitara durante todo o dia:

 

Decidi aceitar a sua proposta.

 

Uma decisão muito feliz, Ulrike.

 

Não, é apenas curiosidade. Quero saber o que tenciona fazer comigo.

 

Von Gleichem deu a volta à secretária, estendeu-lhe a mão e apertou a dela firmemente, mas foi um gesto apenas impessoal. Ulrike recordou-se então da ternura com que aquelas mãos lhe tinham acariciado o corpo, o que até a admirara porque a maioria dos homens não estava com tais preâmbulos, entrando a matar. Mantivera os olhos fechados e pensara apenas no dinheiro.

 

A partir de amanhã à noite trabalhará no bar disse Franz von Gleichem.

 

E que mais?

 

Mais nada.

 

E como é com os seus serviços suplementares? Sei que nas traseiras há uma série de quartos reservados aos clientes que pagam bem.

 

Proibido.

 

Vai começar! Ulrike abanou a cabeça. Sabe, eu não permito que me proíbam nada. Proibido? Isso significa que me vou embora. Não nos conseguimos entender, senhor Von Gleichem.

 

Irá conhecer homens muito importantes, mas não nos quartos dos fundos. Porque mantém essa sua pose de ouriço-cacheiro, Ulrike? Espere com calma, as tarefas importantes demoram quase sempre muito tempo a realizar, são como as obras de arte.

 

O que tenho eu a ver com isso? perguntou ela ironicamente. Com arte?

 

Aquilo que estou a planear é como se fosse uma obra de arte e terá de se fazer pouco a pouco.

 

Explique-me isso um pouco melhor.

 

Von Gleichem regressou à sua secretária e sentou-se.

 

Mais tarde. Não gosta de surpresas?

 

Não, quando me colocam em situações desconfortáveis.

 

Posição desconfortável... Von Gleichem sorriu. Vindo da sua boca! Até agora ganhou a sua vida numa situação desconfortável. Fez um gesto com a mão quando Ulrike tentou dizer algo. Não se fala mais disso! Já passou! Começa a trabalhar amanhã, às nove da noite.

 

Não tenho qualquer experiência como empregada de bar.

 

René faz as bebidas e você serve-as e sorri para os clientes... é tudo. E quando esse cliente, como muitos que estão no bar, descarregar sobre si os seus problemas quotidianos, ouça com paciência e sinta pena dele. Ele ficará mais satisfeito, mas trate de fazer com que o fulano vá bebendo... É assim tão difícil?

 

Ulrike acenou com a cabeça.

 

Repito a minha pergunta: porquê eu?

 

Quer mesmo ouvir a minha resposta?

 

Sim!

 

Tem a aparência de um anjo, mas é filha de Satanás.

 

Nunca ninguém me disse isso.

 

Ulrike ficou petrificada a olhar Von Gleichem e o sorriso dele irritou-a, sentiu vontade de lhe dar uma bofetada, mas, com um enorme esforço, conteve-se. Cerrou os punhos e apertou-os contra o corpo.

 

Porque estavam todos a ser desonestos ou não a conheciam bem. Quando você tiver dinheiro, nascem-lhe as asas. Por dinheiro, faz tudo...

 

Isso não é verdade! Ela recuou três passos da secretária. Só quero ganhar o suficiente para levar uma vida normal...

 

A que chama normal? A normalidade é um conceito subjectivo. Para uns, um apartamento de três assoalhadas e uma cerveja à noite é normal; para outros, será uma villa e champanhe. O que é que lhe interessa mais: cerveja ou champanhe?

 

Champanhe.

 

Muito bem! Creio que ainda vai levar muito tempo a descobrir-se. Um gesto enérgico e subitamente uma frase dura. Pode ir, Ulrike.

 

Ela hesitou, tinha ainda muitas perguntas a pôr e coisas para dizer, mas a maneira súbita como Von Gleichem se fechou impediu-a de o fazer. Apenas acenou com a cabeça, virou-se e saiu da sala. Lá fora, Salvatore Brunelli esperava-a e conduziu-a ao longo do brilhante balcão do bar.

 

Para cumprimentar a nova colaboradora, um cocktail por conta da casa disse ele alegremente. Fico muito contente por ficares a trabalhar connosco. Que queres?

 

Deixo ao teu critério.

 

Um Montego Beach?

 

Por mim...

 

Mais tarde, quando já estava do lado de fora do Bar Toscana e olhava para o reclamo luminoso, perguntou-se se teria tomado a decisão certa. A maneira como Von Gleichem a valorizara, deixara-a impressionada: um anjo que era filho de Satanás. Horrível e sem qualquer fundamento, ela via-se de uma maneira completamente diferente: como uma pessoa a quem a vida sempre tratara mal, que nunca soubera o que era felicidade, que sempre se fechara em si mesma para não ser esmagada e que sempre lutara para não se afogar. Que lugar teria Satanás dentro dela? Seria satânico lutar por um pouco de segurança na vida?

 

Ulrike atravessou rapidamente a rua, apanhou um táxi e foi para casa. Quando chegou ao pequeno apartamento, arrancou a colcha que protegera a sua cama da sujidade dos seus «clientes» e atirou-a para um canto. Acabou! Acabou! Tinha chegado a uma encruzilhada da vida e decidira-se pelo desvio da direita. Seria o caminho certo? Brevemente se veria onde ia dar.

 

Na noite seguinte, às nove em ponto, Ulrike estava atrás do bar. Era como se tivesse sido sempre assim...

 

A primeira pessoa a dar-se conta das mudanças de Robert foi a mãe.

 

Gerda Habicht, que, ao contrário do marido, era muito virada para as artes e conhecedora de música, reparou que ocorrera uma grande alteração na execução pianística do filho. Considerou essa mudança como um processo de amadurecimento e uma noite falou com o cônjuge sobre o assunto, enquanto Robert batia vigorosamente sobre as teclas na «sala de música».

 

Estás a ouvir, Hubert? perguntou ela, apurando ainda mais o ouvido.

 

O quê?

 

Hubert Habicht levantou a cabeça. Estava a ler um relatório sobre a última assembleia da Câmara Municipal de Munique, e parecia muito irritado com uma nova proposta dos Verdes para impugnação da construção de um novo edifício, pois para tal seria necessário abater três árvores seculares. Tratava-se do anexo de um hospital e levantou-se uma questão: o que seria mais importante? A saúde das pessoas ou três árvores.

 

Robert está a tocar Chopin...

 

É o que faz sempre.

 

Mas agora interpreta-o como se se tratasse do jovem Beethoven... Arrebatador, selvagem...

 

Hubert Habicht acenou com a cabeça. Aquela mudança passara-lhe completamente ao lado e não tinha ouvido para tais liberdades de interpretação. E logo música nesse exemplo o senhor conselheiro era um morcego cego, sobretudo quando a mulher o incitava a ir ver uma ópera. Ficava sentado numa das primeiras filas da Staatoper de Munique e dizia num dos intervalos de Siegried: «Vai partir a bigorna com a espada... Materialmente é impossível!» Ou depois de O Ouro do Reno: «Os deuses vão até Valhalla pelo arco-íris. Como é possível? Um arco-íris é apenas um reflexo.» Depois de uma noite dessas, Gerda Habicht sentia-se sempre muito só.

 

Robert está a mudar disse ela com firmeza. A alma manifesta-se na música... Robert está com algum problema.

 

Exacto! Na matemática.

 

Não é isso.

 

Então?

 

É mais profundo.

 

Que outros problemas pode ter o meu filho. Tem explicações de matemática, o que significa que o problema está a ser resolvido e será superado.

 

Com aquilo, Habicht pusera termo à discussão. A proposta dos Verdes preocupava-o mais, se bem que não pudesse fazer nada pois fazia parte dos políticos silenciosos, cujo génio apenas se manifestava dentro da própria casa, onde fazia reformas que transformariam o mundo. Contudo, como o seu génio não era tornado público, pertencia tragicamente aos sonhadores solitários.

 

Naquela noite, Gerda Habicht fez o seu pudim de chocolate, do qual Robert tanto gostava. Depois do jantar perguntou:

 

Tens alguma coisa que te preocupe, Robert?

 

Não, mamã. Fugiu com o olhar. Porquê?

 

Era apenas uma pergunta. Na escola ou coisa assim...

 

Não, mamã. Corre tudo bem. Depois acrescentou alegremente: Está tudo sob controlo.

 

A sua maneira de falar foi tão credível que Gerda Habicht achou que a interpretação de Chopin à maneira de Beethoven fora um acaso, pelo que a dor interior de Robert se manteve assim oculta.

 

Além do mais, mesmo que soubesse dos factos não lhe teria sido possível ajudar o filho. Contudo, a última visita deste ao Bar Toscana, a descoberta da porta das traseiras que comunicava com o outro lado da casa e com um corredor onde dez portas davam para dez pequenos quartos, nos quais raparigas, na sua maioria polacas, russas, húngaras, checas e até uma asiática, recebiam clientes, e, por fim, a ameaça de Bolo à saída: «Se queres continuar de boa saúde não voltes!», tinham reforçado a determinação de Robert de arrancar Ulrike daquele meio.

 

Arrancar. Uma palavra forte! Arrancar, mas como e para onde? Como o poderia fazer? Um estudante de dezoito anos de bolsos vazios, cujo único capital era uma inteligência acima da média e uma excelente técnica pianística. Nestas condições, como se pode salvar uma rapariga? Mas Robert nem sequer sabia se Ulrike quereria «ser salva», se não seria uma completa idiotice imiscuir-se na vida dela quando mal a conhecia e, sobretudo, se tinha o direito de se armar em missionário, partindo apenas de um sentimento para o qual ainda nem sequer encontrara um nome.

 

Amor? O que é o amor? era a questão que mais ocupava o espírito de Robert. Quando ouvia os colegas de escola a contar o que haviam feito num banco ou numa cave, não conseguia imaginar que isso tivesse alguma coisa a ver com o verdadeiro amor. Continuava a pensar na sua experiência com a rapariga em Isarauen, que se excitara tanto com o toque da sua mão, assustando-o. Fora insultado por causa disso. Será que tudo girava à volta de possuir um corpo feminino e anunciar com orgulho: «Levei-a para a cama!» Será essa a grande vitória tal como Wagner a descrevia no seu Tristão e Isolda? Não, deve haver algo mais.

 

Só estava ligado a Ulrike por um aperto de mão e alguns olhares que não tinham passado da mera admiração pelo seu corpo, olhos, voz e movimentos. E havia uma corrente eléctrica contínua que passava dela para ele, uma súbita união de almas... pelo menos era assim que Robert via as coisas. Quando olhava para Ulrike, sentia o coração e não o sexo, era muito diferente do que se passava com os seus amigos, que tinham sempre a mão na braguilha das calças.

 

Robert foi obrigado a um enorme controlo para não aparecer no bar durante quatro dias. No entanto, no quinto o pai Hubert voltara a dar uma nota de cem marcos ao filho, a necessidade de ver Ulrike ultrapassou-o.

 

Bolo olhou para Robert pela portinhola. Deixou-o entrar, mas agarrou-o na antecâmara.

 

Aviso-te! disse ele num tom quase amigável.

 

De quê? Robert ficou parado. Ameaças todos os clientes?

 

Não sejas idiota! Para que andas atrás de Ula?

 

Eu? Só quero beber um cocktail.

 

E ficas sentado durante horas no bar a olhar para ela.

 

Uns jogam aos dardos, outros bilhar e outros vão para os quartos das traseiras... Eu olho para Ula. Cada um faz o que lhe apetece.

 

És um idiota!

 

Já ouvi isso várias vezes... Já me habituei. Agora posso entrar?

 

Para Ula és um zero.

 

Até os zeros são importantes quando estão à frente de um número.

 

Aquela frase foi de mais para Bolo. Encolheu os ombros e deixou-o passar.

 

Depois não digas que não te avisei. Salvatore é um fulano muito duro.

 

Àquela hora o bar já estava bastante cheio. O disc jockey, atrás da sua mesa de mistura, optara por música rock e havia alguns pares na pista de dança. Robert contornou-a e sentou-se ao balcão. René, a empregada que fazia as bebidas, foi a primeira a vê-lo e deu uma pequena cotovelada a Ula, que estava a atender um cliente gordo, o qual lhe contava as suas aventuras em Ibiza. Tinha ido para a cama com três raparigas na mesma noite. Ula desculpou-se com as seguintes palavras:

 

São tudo tretas, homem! Terás sorte se conseguires uma! e veio ter com Robert.

 

Tu? disse ela, mas o seu olhar parecia acariciá-lo.

 

Sim. Eu.

 

Senti a tua falta...

 

A sério? O coração de Robert começou a bater com força.

 

A sério.

 

Bolo disse-me que eu não era nada para ti.

 

Bolo tem o cérebro de um gorila.

 

Deve ter, porque é mesmo um gorila... É assim que se diz, não é?

 

Onde estiveste?

 

Em casa. Estudei matemática, toquei Mozart e Schubert, li um livro sobre ovnis... E não tinha dinheiro. Foi a razão principal.

 

E agora tens?

 

Chega para dois cocktails.

 

Posso convidar-te?

 

Fico mais à vontade se isso não acontecer.

 

Não digas disparates!

 

E tu que fizeste? perguntou Robert.

 

Todas as noites são iguais.

 

E de dia?

 

A última vez que estivemos na piscina do Príncipe Regente, um fotógrafo tirou-nos um retrato. Lembras-te? Fui buscar a fotografia.

 

Tem-la contigo?

 

Não... Está na minha casa sobre a cómoda...

 

Tu... tu puseste-a numa moldura?

 

Nem repararam que subitamente se tinham começado a tratar por tu. Durante a última visita de Robert ainda existira alguma cerimónia. Ulrike acenou com a cabeça.

 

É uma linda fotografia. Só por isso.

 

Só por isso...

 

Robert olhou para René, que lhe trazia um cocktail, se bem que ele ainda não tivesse pedido nada. O cocktail tinha uma cor verde e cheirava a creme de menta.

 

Obrigado. Que surpresa é esta? perguntou ele. René colocou o copo à sua frente.

 

Um Vodu disse ela. Levanta os mortos e mata os vivos. Nessa altura, ele olhou para Salvatore Brunelli, que continuava encostado a uma coluna, observando tudo. Muito apropriado!

 

Na outra ponta do balcão, o gordo acenava a Ula com ambas as mãos.

 

O que é isto? gritava ele. Não me podes abandonar assim! Quem trata de mim?

 

Ele está a falar contigo afirmou Robert, dando um gole no seu cocktail.

 

Sim. Está a falar comigo.

 

Vai ter com ele. E acrescentou com alguma amargura. É o teu trabalho.

 

Ela hesitou, entendeu a mudança de tom, mas foi ter com o outro cliente, dizendo em voz alta para que todo o balcão ouvisse:

 

Continua lá, gordinho! Foste a Ibiza para foder... Uma mão agarrou a mão de Robert quando ele ia pegar novamente no copo. Salvatore estava atrás dele, mas tão chegado, que Robert conseguia sentir o odor do seu perfume. Um aroma doce, semelhante ao de mulher.

 

Uma das minhas tarefas é tratar do bem-estar dos nossos empregados. Estás a incomodar. Fui claro? perguntou Salvatore em voz tão baixa que só Robert o conseguia ouvir.

 

Muito claro... Agora não percebo. Robert virou-se no banco do bar. Os olhos negros de Brunelli estavam mesmo em frente aos seus. Eu não devo nada a nenhuma das vossas prostitutas.

 

Tem cuidado, rapaz... As abas do nariz de Salvatore alargaram-se. Poderá acabar mal.

 

As vossas raparigas têm sida?

 

Meu cabrão. Toma bastante atenção! Salvatore estendeu o lábio inferior e expeliu ar contra o rosto de Robert. Vais sair do bar na vertical... Senão, és atirado para a rua na horizontal. Entendeste?

 

Não muito bem.

 

Quais são as perguntas?

 

Apenas uma: porque não posso beber aqui o meu cocktail?

 

Porque eu não quero.

 

Isso não é razão.

 

Para mim é. Brunelli moveu a cabeça ligeiramente para trás e distanciou-se o suficiente para lhe poder bater. Um velha regra do boxe: O melhor golpe nunca vem de perto. Deixa Ula em paz!

 

Somos amigos.

 

Vocês são um monte de lixo! E agora rua, filho da puta!

 

Naquele momento, Robert perdeu a cabeça. Estavam a ofender a mãe, a rebaixá-la como ser humano, a sua mãe, que ele adorava.

 

Robert não hesitou muito tempo. Fazendo girar o banco, deu uma bofetada na face de Brunelli, cujo eco se ouviu em toda a sala, acompanhado de um grito de Ula, mas a um homem como o siciliano seria preciso atingi-lo com um soco no queixo. Só isso faria efeito, tudo o resto de nada servia.

 

Brunelli não hesitou um segundo. O seu punho atingiu Robert no meio da cara, fazendo-o cair do banco, e quando se quis levantar, levou um pontapé nas nádegas, outro no peito e um terceiro na cabeça. O sangue começou a sair-lhe pelo nariz, sentia dores em todo o corpo e tentou afastar-se do bar, mas Ulrike, que já estava junto dele, abraçou-o e com um grande lenço limpou-lhe o rosto coberto de sangue. Brunelli recuara e levantara os braços, como um futebolista que acabara de marcar um golo.

 

São todos testemunhas de que ele me bateu primeiro! Todos viram! gritou ele, dando mais um passo atrás. Foi em legítima defesa...

 

Ele apenas tentou defender a honra da mãe, meu porco! gritou-lhe Ulrike. Nunca mais lhe toques, nunca mais! Se não, mato-te!

 

Brunelli olhou-a fixamente, como se ela realmente tivesse na mão uma faca ou uma arma de fogo. «E fá-lo-ia», pensou ele. «Macacos me mordam se ela não é capaz disso! Aqueles olhos, a boca tensa, os músculos distendidos... como um predador prestes a saltar sobre a presa.» Deu mais dois passos atrás e viu como Ulrike ajudava Robert a pôr-se de pé. Encostou-o à parede, voltou a limpar-lhe o sangue do rosto e sustentou-o o tempo suficiente até ele se conseguir mexer.

 

Vem disse ela, com uma ternura na voz que até então permanecera escondida. Vem. Vou levar-te para casa.

 

Robert abanou a cabeça.

 

Posso ir sozinho disse com obstinação. Tirou o lenço da mão de Ulrike, limpou de novo o rosto e observou o pano ensanguentado. Posso ir sozinho repetiu.

 

Não podes. Vou chamar um táxi.

 

O meu carro está perto daqui...

 

Não podes conduzir nesse estado!

 

Posso!

 

Afastou-se da parede, retirou a mão de Ulrike e cambaleou pelo bar até à saída. Brunelli olhava-o ainda com ar de rufião, pois agora não havia ninguém que ajudasse Robert a chegar até à porta. Henri, o disc jockey, pôs um disco e a voz de Tina Turner inundou o bar. Dois pares começaram logo a dançar, como se nada tivesse acontecido.

 

Robert fez um enorme esforço para chegar ao bengaleiro. Bolo recebeu-o e abanou a cabeça.

 

Eu disse-te! exclamou ele, ufano. Eu avisei-te. Olha que lindo serviço! És mesmo idiota!

 

Abriu a porta, Robert saiu e Bolo gritou-lhe:

 

Não voltes mais! Esquece Ula...

 

Robert ficou sentado no carro mais ou menos meia hora até se sentir com forças para conduzir até casa. Esgueirar-se para o seu quarto como esperara, não era possível. Hubert Habicht ainda se encontrava sentado na sala, a ler uma conhecida revista semanal e irritado com uma notícia sobre o chanceler federal Kohl. Gerda Habicht estava na cama, afundada na leitura de um romance sobre uma dramática relação a três, aparentemente um novo estilo de vida que ela nunca entendera. Nunca lhe passaria pela cabeça arranjar um jovem amante. Só a ideia de ir para a cama com um «miúdo» a arrepiava.

 

Robert não teve alternativa. Tinha de passar pelo pai.

 

Hubert Habicht levantou a cabeça quando o ouviu entrar e ia voltar ao artigo sobre Helmut Kohl quando, provavelmente pelo canto do olho, reparou na grande mancha de sangue na camisa de Robert. Endireitou-se, observou o estado do rosto do filho e o seu primeiro pensamento foi óbvio.

 

Um acidente de automóvel? perguntou, levantando-se do sofá. Muitos prejuízos? Como aconteceu? Tiveste a culpa?

 

Está tudo bem com o carro, papá.

 

Robert aproximou-se, não valia a pena esconder-se.

 

Mas tu... o teu rosto... estás cheio de sangue...

 

Eu... eu fui assaltado, papá.

 

Assaltado? Hubert Habicht olhava fixamente para o filho. O sangue coalhado fazia com que o seu rosto parecesse uma máscara. Meu Deus! Onde foi? Mas como? Onde? Quem te assaltou? Aproximou-se de Robert e apalpou-o. Como te sentes? Terás lesões internas? Vou chamar imediatamente o doutor Heimes! Assaltado! O meu filho Robert assaltado! Mas é assim! As nossas penas são muito frouxas. Não se está seguro em lado algum. Começa a ser uma aventura sair de casa à noite! Vou telefonar ao médico.

 

Foi um estrangeiro. Um asiático. Apareci quando ele ia roubar o meu carro. Foi mais rápido e forte do que eu e sabia kung fu. Voei pelos ares...

 

Meu pobre e querido filho! Habicht apertou o filho contra si e beijou-o na testa ensanguentada. Mas subitamente subiu-lhe uma fúria irreprimível. Sempre esses estrangeiros! gritou ele de indignação com a voz a tremer. Quanto tempo teremos de aguentar estas coisas? A máfia italiana, a máfía russa, gangs romenos, gangsters polacos, tríades chinesas, assassinos do Kosovo... Em que país vivemos então? Mais de cinquenta por cento dos crimes são cometidos por estrangeiros. E o que faz o Governo? Anda na boa vida. E a polícia? Confessa que se sente praticamente impotente. Deus do céu, para que pagamos impostos na Alemanha?!

 

Habicht, respirando pesadamente, correu para o telefone e chamou o médico de família, Julius Heimes, que prometeu ir imediatamente. O segundo telefonema foi para a polícia de Munique, Departamento de Homicídios, mas disseram-lhe que não podiam fazer nada porque o assaltado ainda estava vivo. Como tal, transferiram cortesmente a chamada para o Departamento de Crime Organizado, que também só tinha jurisdição sobre narcóticos, associações criminosas e falsificação de dinheiro. O inspector Peter Reiber atendeu a chamada.

 

Ouviu com muita paciência o que o transtornado Habicht lhe relatou, dizendo depois:

 

Por favor, venha com o seu filho à esquadra.

 

Ir? Ele está gravemente ferido! gritou Habicht com indignação.

 

Foi para o hospital? perguntou Reiber tranquilamente.

 

Não! Está aqui em casa.

 

É capaz de se movimentar?

 

Não lhe partiram as pernas! berrou Habicht fora de si. É seu dever deslocar-se em caso de ferimentos graves! Fala o conselheiro Hubert Habicht, do Governo estadual bávaro. Quero que saiba que...

 

Iremos aí!

 

Reiber desligou. Já havia conflitos suficientes, não precisava de arranjar mais. Mesmo que tudo ficasse em águas de bacalhau, certas pessoas tinham o seu peso.

 

Muito bem! afirmou Habicht, pousando o auscultador. A partir de agora vão ficar a saber que não estão a lidar com um zé-ninguém.

 

Meia hora mais tarde, os agentes da polícia judiciária batiam à porta de Habicht, em Pasing. Heimes ainda lá estava, observara Robert, não determinara quaisquer problemas internos, mas sim um nariz partido, nódoas negras nas nádegas, ombros e peito, a face esquerda inchada e uma ferida no lado esquerdo do couro cabeludo. O médico ligara-lhe a cabeça, o que conferia um ar muito dramático à situação. Quando o inspector-chefe Reiber entrou, Robert estava sentado num sofá, ainda com a camisa ensanguentada, o que fortalecia a impressão de ter sido gravemente ferido.

 

Finalmente! exclamou Habicht. Estava a ver que não vinham.

 

Caímos num engarrafamento explicou Reiber cortesmente.

 

Num engarrafamento? A polícia num engarrafamento! A voz de Habicht estava carregada de ironia. Não têm sirenes?

 

Só as utilizamos para casos muito graves.

 

Ah! E o caso do meu filho Robert não é uma situação aguda? Ouvem-se sirenes por todo o lado, mas quando se pede ajuda para um ferido grave...

 

Reiber ouviu todas as queixas. Complicações, para quê? Era sempre o mesmo: um pai a descarregar a sua exaltação.

 

Conte-nos o que se passou pediu Reiber, virando-se para Robert. Onde e quando?

 

Por volta das vinte e duas e trinta, na Holzwiesenstrasse.

 

Em Neu Perlach?

 

Sim. Um colega meu mora na Konstantinstrasse e eu vou lá para que me dê explicações de matemática. Não encontrei lugar para estacionar na rua dele. Robert fechou os olhos, tentando imaginar como se poderia ter passado, e descreveu a situação. Vinha de casa do meu amigo e ao longe reparei que alguém estava a tentar abrir o meu carro. Corri para ele e gritei: «O que está a fazer?», e quis afugentá-lo... Depois, só sei que levei um pontapé na cara e voei pelos ares. Quando me consegui pôr de pé, o tipo já tinha fugido. Puro kung fu...

 

Como assim, kung fu? Reiber ficou atento.

 

O homem era asiático...

 

Tem a certeza?

 

Claro, agarrei-o de frente e pude ver claramente o rosto.

 

Era chinês, coreano, vietnamita?

 

O meu filho Robert não é sinólogo! quase gritou Habicht irritado. Já é suficientemente revoltante que esses vândalos andem no meio de nós.

 

Os asiáticos poderão pensar o mesmo de nós.

 

O tom de voz de Reiber não deixou dúvidas sobre o que achava do racismo dos Habicht. Hubert percebeu imediatamente e respirou fundo, mas desistiu de um confronto, perfeitamente consciente de que não o levaria a lado nenhum.

 

Continuemos... Reiber observou a cabeça ligada de Robert. O que fez depois?

 

Sentei-me no carro e esperei até ter forças para conduzir. Depois vim para casa.

 

Não voltou à do seu amigo

Não. Porquê?

 

Era a que ficava mais perto. Com esses ferimentos... os primeiros socorros estavam logo ali à esquina...

 

Não me lembrei disso. Fiquei como que tolhido. Quando consegui pensar, só tive um desejo: regressar a casa.

 

Isso parece claro! tornou Habicht. Aqui há segurança.

 

Que tipo de carro conduz? Reiber tomou algumas notas no seu bloco. «Tal como o inspector Columbo na televisão», pensou Robert involuntariamente. «Só falta o casaco roto.»

 

Um Citroen de dois cavalos.

 

O famoso «calças arregaçadas».

 

Adoro aquele carro. É muito divertido.

 

E estaciona-se em qualquer lado, sem medo que o roubem.

 

Que quer isso dizer? perguntou Habicht. Como jurista, não gostava nada daqueles comentários, que lançavam a dúvida.

 

Temos muita experiência no que toca a assaltantes de carros. Reiber fechou o bloco e meteu-o no bolso das calças. Os bandos polacos e romenos especializaram-se, mas até agora não havia asiáticos. Os outros têm preferências. Os carros mais roubados são da gama média, mas sobretudo, da alta. Mercedes, BMW, Audi, Volvo, Lancia, Alfa Romeo, Porsche, Jaguar... Isso compensa. Dá dinheiro dos dois lados da fronteira. Nunca vimos um «calças arregaçadas» ser furtado por profissionais. E agora aparece um asiático a querer levar um?

 

Está a insinuar que o meu filho Robert mentiu? avançou Habicht. Escandaloso! Farei queixa de si aos seus superiores! O meu filho foi espancado e ferido, e a polícia duvida das suas declarações! Esta Alemanha está cada vez melhor!

 

Pai... Robert levantou a mão para o apaziguar. Não te excites. Ainda estou vivo, o carro ficou intacto... Devias estar contente com isso. E virou-se para Reiber. E agora o que acontece, senhor inspector?

 

Amanhã terá de ir à esquadra prestar declarações.

 

O meu filho Robert não sairá de casa até ficar completamente recuperado! Habicht apontou para o médico. O doutor Heimes poderá atestá-lo.

 

Mas porquê, pai? Robert fez um sinal com a cabeça a Reiber. As coisas não estão assim tão graves. Irei ter consigo amanhã, senhor comissário.

 

Reiber ficou contente quando conseguiu sair da casa de Habicht. No carro, o seu companheiro, outro inspector, disse-lhe com os punhos fechados.

 

Livra! O senhor conselheiro estava muito exaltado. Se ele fizesse queixa de ti aos nossos superiores, iria haver chatice.

 

Ele não vai fazer nada. Reiber esboçou um gesto com a mão e pôs o motor a trabalhar. Conheço estes tipos. Também os há na polícia. Parece que estão cheios de ar quente e por trás são balões vazios. O melhor é ouvir tudo o que eles dizem, activar a produção de cera nos ouvidos e deixar que se entupam.

 

Não acreditas neste Robert Habicht, pois não, Peter?

 

A sua descrição dos factos é pouco habitual. Não corresponde à experiência que temos com ladrões de carros e muito menos com o crime organizado.

 

Talvez um ladrão por conta própria.

 

Quem quer fanar um dois-cavalos quando ao lado estão camparias luxuosas? Não deve ser bom da cabeça! E ainda por cima kung fui os profissionais desaparecem na escuridão sem ruído. Há qualquer coisa que não bate certo! Quem sabe o que o rapaz quer ocultar? Mas esperemos até amanhã, sacar-lhe-ei tudo sem a presença do pai...

 

Contudo, no dia seguinte, Robert manteve as suas declarações iniciais. Apareceu sem o pai junto do inspector Reiber, da Décima Terceira Esquadra, acompanhado pelo médico da família.

 

Para Reiber estava tudo dito. Ouviu o relatório médico e a descrição dos ferimentos, tomou nota do depoimento, pediu as assinaturas e meteu-o numa pasta. Iria ficar ali a criar pó durante anos.

 

De uma coisa já tenho a certeza comentou Reiber para o colega quando Robert e Heimes saíram. Não houve assalto nem kung fu! Os ferimentos não correspondem a um golpe desse género. O rapaz levou uma carga de pancada e usou o assalto como desculpa com medo do papá! Mas para nós o caso está resolvido, só me irrita sermos sobrecarregados com este tipo de coisas!

 

O caso do polaco Karyl Podniewski, encontrado morto no Westpark Ost, foi arquivado. Não havia o mais pequeno indício, a menor suspeita e nenhuma ligação. Karyl era um turista inofensivo, só se estranhava o facto de ter sido assassinado à boa maneira asiática: com um arame de aço.

 

As investigações feitas na Polónia também forneceram uma imagem inofensiva do sujeito: última residência conhecida, Warka, uma pequena cidade junto a Pilica, a sul de Varsóvia; profissão: farmacêutico, solteiro, sem problemas judiciais, boa reputação, casa própria, acima de qualquer suspeita, um burguês impecável. Aparentemente ninguém sabia se era viciado em heroína. Então, porque se assassina um homem como ele e daquela forma?

 

Reiber e Wortke falavam acerca do caso quando este último o resolveu com uma explicação muito inteligente.

 

O homem tinha quarenta e seis anos e era solteiro. Poderia ser homossexual... e assim tratar-se-ia de homicídio sexual.

 

De dia, no Westpark Ost? Com um arame de aço?

 

Já sabemos que entre os homossexuais há muitos asiáticos.

 

A mim cheira-me a outra coisa.

 

Reiber folheou novamente o dossiê relativo ao caso antes de Wortke o arrumar.

 

Que, antes de ser morto, comeu salsichas de porco com feijão verde?

 

Era um comentário típico de Wortke, que se tornara um pouco cínico devido à sua permanente relação com mortos.

 

Este Karyl era farmacêutico.

 

Preferias que fosse ginecologista?

 

Os farmacêuticos têm muitos conhecimentos de química...

 

Estás a querer dizer...

 

Só uma ideia: contrabando de droga através de farmacêuticos. Seria uma forma de não levantar suspeitas.

 

E voltaríamos ao ponto de partida: o meu morto é na realidade o teu morto. Leva-o, se consegues seguir-lhe o rasto...

 

Há ainda aquele telefonema anónimo a dizer que ia entrar heroína pela Polónia, e assim temos uma nova organização no mercado: a dos vietnamitas. Combinemos as coisas: há um polaco assassinado à maneira dos asiáticos e o morto é farmacêutico. Não consegues ver o filme?

 

A imagem é muito sumida, meu caro.

 

Mas tem contornos.

 

E o que te mostram?

 

Circunstâncias.

 

E onde estão os protagonistas?

 

Desconhecidos.

 

Cumprimentos! Tens o caso quase resolvido.

 

A ironia de Wortke não atingiu Reiber. Sabia que por trás dela não havia menosprezo, mas sim um encorajamento amigável.

 

Deveríamos investigar a farmácia da vítima, em Warka.

 

Bravo!

 

Como assim?

 

Por teres decorado o nome dessa terra. Que achas que acontece se entrarmos em contacto com as autoridades polacas?

 

Pouco.

 

Então esquece. Além disso, a heroína não se guarda na cave, nem mesmo em Warka. Já vem preparada, com maior ou menor grau de pureza, do Triângulo Dourado ou da Colômbia. Mas a quem estou eu a dizer semelhante coisa!

 

A cocaína é acessível para um farmacêutico e, sobretudo, o LSD. E depois... Ecstasy. Reiber deu subitamente uma palmada na testa. Que idiota! Porque não pensei logo nisso! Ecstasy, a droga da moda! O céu da juventude.

 

A mais potente das pílulas energéticas! Qualquer farmacêutico pode preparar ecstasy, até um simples aprendiz de química! Qualquer pessoa que trabalhe num laboratório pode fabricar essa mistura diabólica... Theo... Reiber, cada vez mais excitado, puxou da documentação referente ao morto. A imagem turva parece estar cada vez mais clara: aparece um farmacêutico polaco em Munique e é assassinado. Por asiáticos? Tratar-se-á de uma guerra, a heroína contra o ecstasy? Sabemos que determinado tipo de comprimidos desta droga vem da Polónia. Até agora de uma maneira engenhosa e secreta... Será que o ecstasy está a perturbar o mercado de drogas asiático? Meu Deus, se isso fosse verdade...

 

O quê?

 

Travar-se-ia, a curto prazo, uma verdadeira guerra de gangs e haveria cadáveres por todo o lado. Seria uma luta sem tréguas, pois arame de aço ainda é a arma mais inofensiva!

 

E como pretendes resolver a situação? perguntou Wortke, se bem que já soubesse a resposta.

 

Como sempre: esperar!

 

Portanto, é tudo uma merda!

 

O cenário do ecstasy é muito complicado e está muito ramificado. É a droga da moda entre os mais jovens, juntamente com a onda da música techno que se ouve em todas as discotecas. Já prendemos passadores de ecstasy em pátios de escola, onde oferecem comprimidos às crianças de treze anos. E quem toma um desses pela primeira vez, quer um segundo e um terceiro, começando aí a dependência. É a simples táctica dos passadores: «Oferece três que terás um cliente fixo.»

 

E depois?

 

Depois nada. Os passadores também são jovens e por vezes até mais novos do que os clientes, o que faz com que não os possamos prender. Têm residência fixa, porventura a casa dos pais, que não fazem a menor ideia do que se passa, talvez até os reprimam, mas de que serve isso? Estes pequenos gangsters calam-se, como os seus colegas adultos da máfia e das tríades. Não há fontes, ou moradas e, quando um fala, apanhamos um passador, que se mantém em silêncio, e o jogo recomeça! Não conseguimos entrar nos locais de produção e distribuição de ecstasy, e só sabemos uma coisa: a maior parte dos comprimidos, que são às carradas, vem da Polónia e da Chechénia. É um negócio de milhões, no mercado negro, cem comprimidos são comprados por sete cêntimos e meio cada um e vendidos a quarenta! Se forem misturados com heroína ou speed, que é o caso dos carregamentos polacos, o preço ainda sobe mais. Conseguimos estimar que só em Munique são vendidos mais de cem mil comprimidos de ecstasy à clientela juvenil todos os fins-de-semana, o que proporciona um lucro de cerca de cinco mil marcos! E a um preço entre os quarenta e os sessenta cêntimos por comprimido qualquer jovem tem acesso. Contrariamente, a heroína é uma droga de luxo, cada dose custa para cima de cem marcos! Raciocinemos com alguma lógica: o mercado da heroína e cocaína reduz-se, mas o de ecstasy expande-se, o que significa que o crime organizado terá de fazer alterações de mercado. As máfias e as tríades ver-se-ão obrigadas a lutar pelo novo mercado e os actuais passadores polacos, chechénos e holandeses serão liquidados, como o nosso querido turista, o farmacêutico de Warna.

 

Isso parece espantoso. Wortke colocou o punho sobre a pasta do processo Podniewski. O rapaz é teu. Se tiveres razão, teremos de mandar construir mais câmaras frigoríficas no Instituto de Medicina Legal.

 

Não. Reiber foi ao encontro do cinismo de Wortke. Haverá mais mortos por identificar, pois ninguém nos dará informações.

 

E tu voltarás a defrontar os velhos opositores, agora a utilizarem novos métodos.

 

Isso poderá ter as suas vantagens. Reiber aceitou o cigarro que Wortke lhe oferecia e acendeu-o. O presente mercado de ecstasy é completamente invisível, os comprimidos vêm de todos os lados. Se as máfias e as tríades assumirem a liderança do mercado, este será perfeitamente organizado, e assim conheceremos os nossos adversários e poderemos actuar contra alvos determinados.

 

O teu optimismo é espantoso.

 

Meu caro Theo... Reiber sorriu. Que seria de nós se não tivéssemos a menor réstia de esperança? É o pão do dia-a-dia.

 

Mesmo após os depoimentos prestados na Décima Terceira Esquadra, para Hubert Habicht o assalto ao filho Robert não se ficou pelas declarações. Aproveitou a oportunidade para dar que falar no seu posto de trabalho após quase vinte anos de silêncio e discrição.

 

O conselheiro estadual dirigiu aos seus superiores um memorando com o título: «População ameaçada pela criminalidade estrangeira.» Não descreveu nada de novo, mas o facto de o filho de um alto funcionário ter sido assaltado por um asiático, ficando gravemente ferido, chegava para que o assunto passasse a ter importância.

 

Foi pedido um relatório à polícia de Munique, Hubert Habicht retratou dramaticamente o drama ocorrido em sua família e sugeriu usando um discurso muito cuidadoso que a política de imigração alemã deveria ser revista, A polícia tinha poucos recursos, era mal paga e ineficaz, pois gastavam-se milhões de marcos em impostos para suportar os estrangeiros. Havia grandes problemas, uma senhora que atravessasse sozinha um parque durante a noite já estava a cometer meio suicídio. Hubert Habicht não foi muito mais longe. Um funcionário público alemão será sempre, apesar das críticas, um servidor fiel do Estado, por isso, são recompensados com reformas incomparavelmente superiores às das outras áreas.

 

É claro que o relatório de Habicht teve apenas como efeito durante pouco tempo que as atenções se virassem para ele. As suas opiniões eram partilhadas por todos e infelizmente correspondiam aos factos, aliás, sobejamente conhecidos, mas as alterações legislativas exigiam uma maioria parlamentar, como ele já sabia, e aquelas seriam vetadas pela oposição sempre em total desacordo com as propostas do Governo. Basicamente, isto não era lógico, mas fazia parte do processo democrático e a Alemanha era uma democracia exemplar.

 

Habicht nada tinha a dizer a esse respeito, pôr em causa o sistema seria cometer haraquiri. Assim, ficou com a sensação de ter dito uma verdade absoluta, sem questionar os métodos políticos, e via agora que o filho havia sido vítima dos novos tempos.

 

Ao contrário do pai, Robert estava contente com o facto de o processo começar a cair no esquecimento, pois assim a sua mentira não teria consequências, até que surgiu a decisão fatal: Habicht passaria a acompanhar Robert às explicações de matemática na Konstantinstrasse e iria buscá-lo duas horas mais tarde. O colega de Robert, até então completamente a leste do assunto, alinhou no jogo depois de Robert o ter informado da situação, dizendo que estava, de facto, a dar-lhe explicações de matemática.

 

E ainda não foste para a cama com ela? perguntou Gerhard espantado.

 

Não, raios. Não!

 

Incompreensível. Consegues engatar uma puta de bar e não a levas para a cama? Tu não és normal, Robert! O que queres dela então?

 

Não sei. Lidarias com as coisas de outra maneira...

 

Isso é tão certo como uma omeleta ser feita de ovos! Fora com as roupas e baioneta preparada para o ataque.

 

Ela não é uma prostituta.

 

Tens assim tanta certeza? O amigo foi buscar uma Coca-Cola e ofereceu-a a Robert. Robby, tenta, agarra-lhe as mamas.

 

Vocês são uns porcos! São todos uns porcos! Robert levantou-se e pôs a Cola de lado. Não conhecem Ulrike. Ela é diferente.

 

Talvez seja lésbica!

 

Não vale a pena falar contigo sobre o assunto. Faz-me apenas um favor: se o meu pai te perguntar, estive sempre em tua casa.

 

Tens a minha palavra, mas, se tiveres um cinco a matemática, eu também serei responsável.

 

Poderás dizer que sou incapaz de aprender.

 

E com as mulheres também não te safas! Quando, nessa noite, Hubert foi buscar o filho, fez a eterna pergunta:

 

Como está a correr, filho?

 

Mal, papá. Robert olhou para a rua escura. As fachadas das casas pareciam sorrir-lhe, cada janela era um rosto cheio de escárnio. Percebo as fugas de Bach, mas matemática não, e não acredito que isto mude.

 

A força reside na vontade. Habicht levantou a mão. Ou como diz o povo: quando há força de vontade, há sempre um caminho.

 

Isso são ditados, papá

 

São sabedorias muito antigas, meu rapaz. Ferramentas para a vida. Sempre me agarrei a eles.

 

Nunca serei um conselheiro estadual...

 

Isso já se sabe. A tua mãe já te vê como um segundo Svatoslaw Richter, num palco, mas isso ainda não foi decidido.

 

Robert calou-se. «Errado, pai», pensou ele, reclinando-se no assento do automóvel. «Talvez já haja mais decisões do que pensas. Vocês não viram a maneira como Ulrike se ajoelhou ao meu lado, como limpou o meu sangue com o lenço, como gritou àquele Burnelli e como me tomou nos braços. Não viram nada disso, e eu amo-a, é a única coisa que conheço do meu futuro.»

 

Não se viram durante dez dias, durante os quais as feridas de Robert desapareceram, os hematomas foram absorvidos pelo organismo e foi tratado pela mãe como se o tivessem cortado aos pedaços. Andava sempre à volta dele, punha-lhe pomada, fazia-lhe litros de cacau e quando ele tentava afastar-se dos cuidados exagerados da mãe, dizendo que já nada lhe doia, que já estava bom, ela não ouvia os seus protestos, mandava-o calar, afirmando que uma mãe sabe sempre quando o filho está doente. Só faltava levar-lhe a comida à boca.

 

Também foram dez dias durante os quais Robert batalhou com a matemática, pois o pai levava-o a casa do colega, dez dias em que ganhou a atenção dos colegas, pois nenhum deles experimentara os efeitos do kung fu. Só o conheciam da televisão, dos filmes de Bruce Lee, e o facto de Robert o ter sentido na pele fazia dele uma autêntica celebridade.

 

Mas sobretudo foram dez dias em que Robert sentiu muitas saudades de Ulrike. De dia para dia, a sua inquietação crescia e as suas fantasias tomavam forma. O que teria acontecido com Ulrike? O que lhe fizera aquele odioso Brunelli depois de ela lhe dizer que o matava? Era um pensamento que quase levava Robert à loucura, fazendo sempre as mesmas perguntas: por que razão Ulrike trabalhava naquele bar? Porque não procurava outro emprego? O que a agarrava àquele meio? Uma mulher da sua idade, tinha muitas possibilidades de arranjar outro emprego.

 

Foram dias em que Robert se tornou cada vez mais silencioso e se fechou em si próprio, dando largas à sua tristeza. Para a mãe, aquilo era sinónimo de que o filho ainda sofria das sequelas do assalto e até Hubert Habicht chegou à mesma conclusão quando, à noite, conversaram na cama.

 

Robert é um rapaz muito sensível comentou Habicht, com alguma tristeza na voz. Tem, infelizmente, uma natureza de artista.

 

Preferias que ele fosse um pugilista? perguntou logo Gerda.

 

Porquê sempre os mesmos extremos? Habicht decidiu não alimentar discussões com a mulher. Com Robert tudo leva mais tempo, mas quando acaba é de vez acrescentou.

 

Disse aquilo sem saber que se tornaria verdade num futuro próximo...

 

Quando o seu rosto já estava normal e os hematomas desapareceram Robert voltou à piscina do Príncipe Regente. A sua esperança era encontrar Ulrike. Se havia alguma possibilidade de a ver, além do bar, era ali.

 

E ela estava lá! Tal como no dia do primeiro encontro, deitara-se à beira da piscina, ao sol, desta vez com uma tanga vermelha e uma parte de cima muito exigua, e o seu cabelo brilhava. Era tão bela, tão incrivelmente bela!

 

Robert ficou atrás da torre de saltos a espiá-la. No seu olhar, todavia, não havia cobiça, mas sim admiração, tal como um artista aprecia a sua obra. Só quando Ulrike se sentou, ele saiu do seu esconderijo e se lhe dirigiu lentamente.

 

Ela viu-o chegar, mas não se pôs logo de pé ou lhe acenou, nem deu qualquer sinal de ter reparado nele. Ficou sentada até Robert chegar, e então estendeu os braços e disse:

 

Que bom que estejas aqui.

 

Que bom que estejas aqui.

 

Ele nem reconheceu a sua própria voz, pois tinha um tom completamente diferente. Quando se sentou ao lado de Ulrike, ela passou-lhe as mãos pelo rosto e ombros.

 

Como estás? perguntou.

 

Estás a ver? Não ficaram marcas.

 

Tive medo por ti.

 

E eu por ti.

 

Ela abanou a cabeça e deixou cair as mãos no colo. A tanga era tão estreita que alguns pêlos saíam pelas bordas do tecido. Robert reparou nisso enquanto seguia o movimento das mãos de Ulrike.

 

Em mim ninguém toca disse ela e, ao reparar no olhar dele, ajeitou o tecido para os esconder. Porque não vieste?

 

Onde?

 

Aqui. Esperei por ti todos os dias.

 

Não sabia e, além disso, os meus pais trataram-me como se fosse um deficiente. Nem um passo sem apoio.

 

Tens uns pais óptimos, não é?

 

Em demasia. Por vezes, prendem-me os movimentos, para eles serei sempre uma criança.

 

Não posso avaliar. Fui obrigada a ser adulta ainda em criança.

 

Voltou a deitar-se na toalha às riscas amarelas e brancas e pôs as mãos debaixo do pescoço. A pele brilhava ao sol e a exígua parte de cima do biquini apenas tapava os mamilos.

 

Podias ter telefonado acrescentou ela.

 

Para onde? Para o bar? Nunca me deste o teu número particular.

 

Meu Deus! É verdade! Tu não o conheces.

 

Também ignoro onde moras. Apenas sei que tens um apartamento em Schwabing, onde se passeia um gato chamado Lori, e que conduzes um Fiat Punto.

 

Já é muita coisa. Ela riu-se e os seios balançaram. Então acrescentemos o resto: vivo na Agnesstrasse. Dois quartos, cozinha e casa de banho, vista para as traseiras, mas tem varanda e o sol da manhã. É tudo.

 

E telefone?

 

Ulrike disse-lhe o número e Robert repetiu-o seis vezes até o decorar.

 

Não tenho memória para números explicou sorrindo. Acredites ou não, nem sequer sei de cor o do telefone dos meus pais. Pura e simplesmente não os decoro. Depois digo-to.

 

Depois? perguntou ela sorrindo.

 

Enquanto tu te vestes para ir para esse bar horrível.

 

Ela acenou com a cabeça, fechou os olhos e gozou o calor do sol. Robert estava sentado a seu lado, acariciava-a com o olhar e quando a mão esquerda lhe caiu da coxa, ele pegou-lhe com cautela e colocou-a sobre o seu joelho. Era uma mão pequena mas muito bem feita com dedos longos. «A mão de uma pianista», pensou Robert encantado. «Como que talhadas para se mover sobre um teclado ou para acariciar um corpo.»

 

Amo-te disse ele subitamente.

 

Ela abriu os olhos sem mudar de expressão.

 

Nunca mais digas isso.

 

Di-lo-ei mil vezes! Amo-te!

 

É a frase mais estúpida da tua vida. Apoiou-se nos cotovelos e afastou os cabelos do rosto. Perfeitamente idiota.

 

Por seres quinze anos mais velha do que eu? Não é isso.

 

Por seres uma empregada de bar? Porque levas uma vida que não me interessa? Não amo o passado, mas sim o presente e o nosso futuro.

 

O nosso futuro? Onde está esse futuro? Julgo que és um tipo que pensa com lógica... Mas o que disseste não mostra isso.

 

Tu também me amas... Só não o dizes.

 

Gosto de ti, o que faz uma grande diferença e sentou-se, agarrou no chapéu de palha que estava a seu lado e pô-lo na cabeça, como se assim conseguisse distanciar-se dele. Vamos beber uma Coca-Cola.

 

Ulrike, pensei muito nestes últimos dez dias...

 

Em muita coisa errada.

 

Ela levantou-se, dobrou a toalha e colocou-a sobre o braço. Robert agarrou-a quando ela se quis virar.

 

Ulrike, estás a mentir. Perdoa-me, mas estás a mentir...

 

Porque vamos complicar as coisas, Robert? Deixa-as estar assim.

 

Com o tempo isso não será nada.

 

Tempo! O que é o tempo? Ela riu-se com alguma dureza, um riso completamente diferente daquele que Robert ouvira até então. Tempo é uma palavra terrível. Soa a algemas! E eu detesto estar presa... Só estou bem livre. Para mim, o que é permanente significa morte. Ela virou-se para ele e abanou a cabeça. Nunca mais fales disso, Robert. Hoje é hoje. É o tempo que temos, nada mais.

 

Depois da Coca-Cola, Ulrike mostrou pressa em ir para casa. Robert acompanhou-a até ao carro, mas depois de ela já ter aberto a porta, fazendo menção de entrar, virou-se para ele, deu-lhe um beijo entre os olhos, atirou-se para cima do assento, fechou a porta e partiu, embora Robert lhe estivesse a bater no vidro.

 

Sim! Estás a mentir! gritou ele, correndo atrás do carro. Sei que é isso. Sinto-o! Porque foges?

 

Naquela noite, ele não foi à explicação de matemática, o colega tinha bilhetes para um concerto de rock e ia com a sua amiga Isabella, a boneca com um traseiro de sonho, como ele se lhe referia, expressão que Robert achava muito baixa.

 

Gerda Habicht voltou a levantar a cabeça quando o filho se sentou ao piano e começou a tocar, enquanto o marido olhava para os seus selos novos com uma lupa.

 

Ouve isto! disse Gerda. Ouve...

 

Já sei. Toca Chopin como se fosse o jovem Beethoven... retorquiu ele, aborrecido.

 

Não, é Liszt! corrigiu ela, ofendida. Nunca ouvi Liszt tocado com tanta ternura.

 

E isso é mau ou bom?

 

Não se consegue conversar contigo! protestou ela. Não conheces Liszt?

 

Era sogro de Richard Wagner.

 

Pelo menos isso...

 

Voltou a reclinar-se e ouviu, admirada, a execução do filho.

 

Era raro Franz von Gleichem visitar o Toscana. Quando aparecia no bar, era apenas para inspeccionar se tudo corria como estava estabelecido. Vinha de repente, sem se fazer anunciar, mas Salvatore Brunelli não tinha medo de surpresas, o seu Toscana era um modelo.

 

Naquele dia, Von Gleichem também não fez qualquer reparo. O bar tinha muitos clientes, os quartos das traseiras estavam sempre ocupados até às duas, mas naquela noite ainda era cedo, passava pouco das dez horas.

 

Alguma coisa de especial? perguntou, e Brunelli abanou a cabeça.

 

Nada.

 

O incidente com o jovem apaixonado de Ula era avaliado como um nada. O jovem engolira o aviso, não houvera inquéritos policiais e, portanto, tudo acabara bem. O facto de uma das raparigas ter sido espancada por um cliente insatisfeito também não era digno de menção, nada daquilo era especial; apenas o quotidiano.

 

Von Gleichem foi rapidamente para o seu escritório e mandou chamar Ulrike. O olhar de Brunelli acompanhou-a até à porta.

 

Está com bom aspecto, Ula disse Von Gleichem quando ela se sentou em frente à secretária. Bronzeada, com vitalidade e um aspecto mais jovem.

 

Pelos vistos, ainda tem muito que aprender no que toca a elogios contrapôs ela, mas não num tom orgulhoso.

 

Está com um ar muito feliz. Apaixonou-se?

 

Não acha que isso é um excesso de confiança, senhor Von Gleichem?

 

Quem consegue penetrar na alma de uma mulher? Fez um gesto com a mão e mudou de assunto. Vamos começar... ou melhor, estamos a preparar-nos.

 

O quê? Ulrike olhava para ele sem compreender nada.

 

Quando a contratei disse-lhe que tinha grandes projectos para si, que íamos construir uma obra de arte...

 

Já me recordo, quase me esquecera, mas até agora nada aconteceu.

 

Tudo necessita de um determinado tempo para crescer. Agora tudo já chegou a um grau de maturidade, com o qual nos podemos alegrar.

 

Vai escrever um volume de poesia?

 

Amanhã à noite receberemos a visita de três parceiros de negócio, polacos. Gostaria que tratasse deles pessoalmente...

 

De três ao mesmo tempo? Ainda não fiz nada de parecido...

 

Ulrike, pare com a ironia! Não os irá servir na horizontal. Será apenas muito amável. Se puder...

 

Serei tão suave como mel...

 

São uns tipos muito importantes. Von Gleichem reclinou-se, acendeu um cigarro e deu um pequeno gole no uísque irlandês que René lhe trouxera. Quero fazer-lhe uma confidência, Ulrike.

 

E porquê a mim?

 

Porque é um Diabo com asas de anjo.

 

Parece-me que já lhe ouvi essa frase.

 

Estamos a falar de milhões.

 

Para mim? perguntou ela com ironia, pois não estava a levar Von Gleichem a sério.

 

É tudo uma questão de percentagem. Fez círculos com o fumo do cigarro, uma arte sempre admirada em sociedade. Vamos ter guerra.

 

Guerra? Aqui? Nas notícias...

 

Ulrike... uma guerra oculta. Na nossa área de trabalho existem dois grandes grupos que, apesar da concorrência, têm vivido em paz, pelo menos aparentemente: a máfía italiana e as tríades chinesas. Esta aparente paz foi perturbada recentemente pelos russos e já há muitos mortos, mas agora apareceu um quarto concorrente que vai desequilibrar os tão bem distribuídos marcos com uma mercadoria que se poderá chamar macabramente «popular». Esse quarto sou eu.

 

Ulrike olhava fixamente para Von Gleichem e não percebia nada.

 

O senhor, como?

 

Juntamente com os polacos, iremos conseguir que toda uma geração se ligue a nós. A juventude pertence-nos.

 

Continuo sem compreender. Ulrike encolheu os ombros. Quem lhe pertence?

 

Todos os jovens com mais de quinze anos. Também podem ser mais jovens... E vão ficar-nos muito gratos, pois distribuiremos felicidade, nostalgia amorosa, aumento da capacidade de pensar, estados de alma magníficos e impulsos criadores. O mundo e a sua imagem estão a abrir-se.

 

Até parece que está a falar de cocaína.

 

A cocaína está fora de moda! Até o negócio da heroína sofrerá e é essa a guerra que iremos travar. Teremos a máfía e as tríades contra nós. Sabe o que isso significa?

 

Adivinho disse Ulrike suavemente. Tem... tem uma nova droga?

 

Não é assim tão nova. Em Inglaterra, já é tomada por meio milhão de jovens, na Áustria já deve alcançar os setenta mil e nos Estados Unidos pertence à vida de todos os dias, como a aspirina ou os comprimidos para a tosse. O número de utilizadores está a crescer em todos os países civilizados, só o mercado alemão é que ainda está muito mal servido.

 

E de que droga se trata?

 

A voz de Ulrike ficou subitamente rouca.

 

Chamam-lhe ecstasy.

 

Meu Deus...

 

Conhece?

 

Já ouvi falar... li em revistas...

 

Neste caso, o dinheiro está, literalmente, nas ruas e precisamos ser mais rápidos do que as grandes «empresas» para controlar o mercado. Ainda não existe organização alguma, mas resolveremos o problema com uma central de distribuição e várias filiais. É para isso que precisamos dos nossos amigos polacos. O melhor ecstasy vem da Polónia e, nos últimos seis meses, testei-a em mais de seiscentos utilizadores.

 

E que tenho eu a ver com isso? repetiu ela.

 

Ainda não compreendera por que razão lhe estavam a contar tudo aquilo e, por seu lado, Von Gleichem olhava-a espantado, sem entender a causa de tal pergunta.

 

Você tratará dos convidados polacos.

 

Já sei. Ser apenas amável e não ir com eles para a cama. Ela abriu um sorriso irónico. Vai ser uma batalha defensiva. E que mais?

 

O Toscana vai transformar-se na central. Todas as entregas vindas da Polónia, Chechénia, Holanda e Hungria virão para cá. Daqui sairá um bem organizado grupo de distribuidores. Para fazer contas com o vendedor, necessito de uma pessoa em quem possa confiar a cem por cento, que não me engane e que seja capaz de controlar o serviço externo. Você!

 

Não... não está a falar a sério? Sentiu os joelhos a ficarem fracos e quase não se conseguia manter de pé. Saltara da cadeira ao ouvir a palavra «Você» e teve de se sentar novamente. Von Gleichem ria-se compreensivamente. Não posso fazer isso... E, além do mais, nem me perguntou se aceito o cargo.

 

Você quere-o, Ulrike.

 

Não!

 

E porque não? Estou interessado nos seus motivos.

 

Não quero ter nada a ver com drogas.

 

E não terá. Von Gleichem inclinou-se para trás e abanou a cabeça, como se se tratasse de um mal-entendido. O ecstasy não é um narcótico.

 

É uma droga!

 

O álcool também o é! E você vende-o todas as noites aos litros. Poderá argumentar-se que faz mal ao fígado e às células cerebrais, sendo, portanto, um factor da degradação do organismo humano.

 

Mas isso é um disparate! Jogo de palavras! Ulrike saltou novamente do sofá. Como pode comparar o álcool ao ecstasy!

 

Muito simples: é um outro tipo de droga e nada mais. O álcool enevoa a mente e o ecstasy dá-lhe um potencial muito maior. Poderá até perguntar o que é melhor: o álcool, que amolece o ser, ou uma enorme vitalidade? O que escolheria, Ulrike?

 

Uma vida normal sem drogas.

 

O que é normal hoje em dia? Von Gleichem fez um gesto com a mão, como que dizendo que Ulrike acabara de dizer uma enorme idiotice. Para o actual ritmo de vida, o homem precisa de uma permanente irrigação dos nervos. Discotecas, rádio, música, televisão, jogos de futebol, narizes esmagados de pugilistas, bolas de ténis a voar e homicídios à entrada da porta. Quanto mais terrível, melhor. Depois, guerras e actos terroristas em todo o mundo, bombas, comandos assassinos, desvios de aviões e terramotos. Que alimento para os nervos quando se está sentado a assistir! Que triste e monótona seria a vida, se o homem não fizesse parte de tudo isso.

 

Quem o ouve fica completamente arrepiado. O senhor odeia os homens!

 

Não. Apenas uso os fracos. Só lhes quero dar aquilo de que crêem necessitar, neste caso ecstasy. Von Gleichem inclinou-se sobre a secretária na direcção de Ulrike. Está comigo?

 

Qual é a percentagem?

 

Eu sabia! Você é um anjo diabólico!

 

Quero acabar com esta vida que levo e finalmente obter o sol da independência, livrar-me até de si.

 

Dez por cento dos rendimentos? ofereceu ele.

 

Na fase inicial. Depois, quinze por cento!

 

Façamos um acordo: dez por cento nos primeiros dois anos, doze por cento até ao quinto ano e a partir do sexto quinze por cento. É uma oferta de luxo.

 

Também terei de lidar com dealers?

 

Sim, eu arranjo o produto e você distribui. A forma mais fácil de trabalhar em equipa.

 

E o risco todo recai sobre mim. Prendem sempre o dealer e nunca o homem dos bastidores.

 

Von Gleichem reclinou-se na cadeira, contente. Retirou de uma gaveta da secretária uma garrafa de cristal com conhaque de quinze anos e dois balões, nos quais verteu o líquido. Ofereceu um deles a Ulrike e tomou o outro entre as mãos como se o quisesse aquecer.

 

Suponhamos que você terá, aqui em Munique, um lucro semanal de cem mil marcos, o que não é uma utopia, pois já conheço todos os números. Em Chicago, por exemplo, o ecstasy proporciona um rendimento semanal de um milhão de marcos! Mas Munique não é Chicago. Num total de cem mil marcos, a sua parte seria de dez mil por semana e quarenta mil por mês. Construamos uma boa organização, que abranja toda a Baviera e que mais tarde se espalhe a outros países, sobretudo aos «esfomeados» de Leste. Assim sendo, não é preciso um curso de matemática para fazer as contas da quantidade de dinheiro que irá entrar. A sua independência está visivelmente perto.

 

Trabalharei consigo!

 

Mas só comigo! E isso não é dependência, pois somos sócios! É assim que terá de ver as coisas, Ulrike.

 

Ela calou-se. Olhou para o copo com conhaque e não hesitou em agarrá-lo. Sabia que, se o fizesse, estaria amarrada a um compromisso, uma ligação que nunca mais se desfaria.

 

«Um compromisso que me abre o céu mas que me leva ao inferno. Irei aniquilar gerações inteiras, rebentar-lhes o cérebro, o fígado e o coração com os pequenos comprimidos que provocam a felicidade, que aceleram a circulação e afastam o cansaço, que desfazem as defesas do organismo. Contudo, se a organização se estabelecer, ganha-se cem mil marcos por semana! São quatrocentos mil por mês. Em três meses é-se milionário! Num ano...», foram estes os pensamentos que lhe ocorreram.

 

A mão de Ulrike estendeu-se e agarrou no cálice de conhaque. Fez um brinde a Von Gleichem e bebeu-o de um trago.

 

Com aquele gole determinara o seu destino, um caminho ao sol sobre corpos mutilados... e do qual não havia retorno.

 

Tenho a possibilidade de viajar por Inglaterra durante catorze dias disse Robert uma noite aos pais.

 

Ainda estavam sentados à mesa, o jantar fora gulache com massa verde, cerveja sem álcool e água mineral. Hubert Habicht gostava de um jantar quente, pois o almoço no refeitório era de má qualidade. Além disso, sentia muito prazer em sentar-se de estômago cheio frente à televisão, ver o telejornal e comentar as notícias, dizendo quase sempre: «O mundo está louco!»

 

Inglaterra? Habicht levantou a cabeça. Como Inglaterra?

 

Este ano, o nosso grupo de escuteiros vai visitar a ilha. É um intercâmbio, depois os colegas britânicos vêm cá e nós recebemo-los em nossa casa. Inscrevi-me para a viagem e iremos ficar em parques de campismo. É também um intercâmbio de culturas.

 

Para Habicht, cultura era um conceito ao qual prestava especial atenção. É a cultura que distingue o homem dos animais. Um animal pode pensar e até com lógica, tem sentimentos, sente dor e alegria, desenvolve um carácter e até uma imaginação criativa, mas só o homem é capaz de armazenar cultura, seja o que for que se entenda por esta palavra.

 

Uma boa ideia. Habicht olhou rapidamente para o relógio. Faltava pouco para as dez da noite... e o telejornal iria começar dentro em pouco. Era altura de ir para a sala. Quando será a viagem? perguntou enquanto se levantava.

 

No próximo domingo.

 

Custo?

 

Estamos a contar com quinhentos marcos.

 

Os pais dos teus colegas devem ser todos milionários. Sou apenas um funcionário público...

 

Habicht foi para a sala, instalou-se no cadeirão de orelhas que era só dele e ligou a televisão. Robert sentou-se a seu lado no sofá.

 

É uma sorte sermos tão poupados disse Habicht. Amanhã levanto o dinheiro.

 

Obrigado, papá.

 

Começara o telejornal. Por todo o lado terror, guerra, mortes, atentados à bomba, manifestações, verborreia política, homicídios, crises e ameaças... Era espantoso como o mundo não explodia.

 

Sempre se disse que o ser humano era a jóia da coroa da criação filosofou Habicht com amargura. Não! É um aborto da natureza.

 

E mesmo a assim a vida é bela.

 

Sim. Lá isso é verdade. Habicht olhou para o filho. Enganamo-nos a nós próprios e transformamos essa mentira na nossa razão de viver. Como poderíamos sobreviver? Meu rapaz, tu nem sabes o que a vida ainda te reserva. Vais para a Grã-Bretanha e na Irlanda do Norte há uma guerra religiosa, uma guerra desse género no nosso século! Mais contraditório não pode ser!

 

Depois do telejornal ainda continuaram a debater os erros do mundo. Robert só ouviu metade e deixou ao pai o grande monólogo sobre política internacional. Só pensava numa coisa: «Tenho o dinheiro, posso desaparecer durante dez dias, posso gozar de dez dias de liberdade. Foi uma boa ideia, esta viagem a Inglaterra.»

 

No domingo, Habicht levou o filho até à estação de caminhos-de-ferro, deu-lhe mais alguns conselhos paternais sobre a viagem e ficou a olhar para ele enquanto desaparecia no átrio. Depois voltou para casa, fez um pequeno desvio por um jardim da cerveja e bebeu uma caneca. Estava uma manhã quente e soalheira e um verdadeiro bávaro nunca passaria num jardim da cerveja sem uma paragem.

 

Robert esperou meia hora para ter a certeza de que o pai se fora embora. Depois, bebeu um batido de chocolate, pôs a mochila às costas, apanhou um táxi e dirigiu-se a Schwabmg, à Agnesstrasse.

 

A casa onde Ulrike vivia era da viragem do século, e precisava urgentemente de ser restaurada. No quadro das campainhas descobriu o que queria: Sperling, quarto andar. A porta do edifício estava apenas encostada e Robert entrou num amplo átrio. Não havia elevador, apenas uma larga escadaria de madeira. Os velhos degraus rangiam enquanto ele subia.

 

Sobre a porta de madeira trabalhada do quarto andar, havia uma placa oval com o nome de Ulrike. Antes de pressionar o botão da campainha, olhou para o relógio: sete minutos para as dez e meia.

 

Robert ouviu a campainha, um toque triplo muito harmónico e não um som agudo. Esperou, mas nada aconteceu. Tocou mais três vezes e só depois lhe pareceu escutar um barulho proveniente do interior da casa. Ao quinto toque, ouviu finalmente a voz de Ulrike atrás da porta.

 

Quem é?

 

Eu respondeu Robert.

 

Quem?

 

Robert...

 

Silêncio durante dois segundos, mas para ele um silêncio infinito. Depois, ouviu-se novamente a voz de Ulrike, incrédula e assustada.

 

-Tu?

 

Sim. Abres?

 

Uma chave girou na fechadura, uma tranca afastou-se para o lado e a porta abriu-se. Olharam um para o outro, mas não disseram palavra.

 

Ulrike usava apenas umas cuecas reduzidas e sobre elas um roupão transparente que deixava ver todo o seu corpo, não escondendo nada. Pela primeira vez, Robert pôde contemplar os seios nus dela, que lhe fizeram recordar aquela manhã em que entrara na casa de banho, cuja porta estava apenas encostada, e vira a mãe no duche, virada de lado, uma linda mulher na sua nudez, que brilhava com a água Uma visão que lhe tornara tenso o corpo e da qual se afastou com enorme esforço para fechar suavemente a porta Nesse dia ficara tão espantado com aquela sensação que mais tarde, à mesa do pequeno-almoço, não conseguiu proferir palavra, sendo obrigado a mastigar várias vezes cada garfada para a engolir. A mãe, agora vestida à sua frente, tinha-o subitamente perturbado, perdera parte da sua maternidade. Quando Robert olhara, vira apenas uma linda mulher nua no duche.

 

A sensação repetiu-se quando olhou para Ulrike e ele sentiu a garganta a secar.

 

Posso... posso entrar?

 

Com certeza. Entra.

 

Ulrike afastou-se e colocou-se atrás dele. A tranca de segurança correu novamente no ferrolho. Robert tirou a mochila dos ombros e deixou-a cair no chão, um chão de parqué com um tapete persa. Era um hall pequeno com um bengaleiro incorporado e um espelho de tamanho natural. Havia uma porta que aparentemente dava para um quarto.

 

Que... que queres daqui? perguntou Ulrike, abrindo a porta da sala.

 

Robert entrou e arrastou a mochila atrás de si.

 

Estou em Inglaterra...

 

Como devo entender isso?

 

Oficialmente estou em Inglaterra. Durante dez dias. com um grupo de escuteiros. Dez dias, Ulrike! Temos dez dias para nós...

 

Isso quer dizer que queres ficar dez dias aqui em casa?

 

Foi o que pensei.

 

Largou a mochila, sentou-se a um canto do sofá circular, de couro rosado, com um tapete afegã vermelho-escuro à frente, e uma mesa de vidro que assentava em colunas de mármore, além de dois candeeiros de pé que, à noite, lançavam uma luz indirecta e suave sobre o tecto. Na parede havia um armário de madeira talhada, com uma abertura para a televisão, e as cortinas de ambas as janelas eram de seda amarela.

 

É bonita a tua sala. Pela tua descrição, tinha imaginado outra coisa comentou ele.

 

Mais primitiva?

 

Mais simples.

 

Sou a proprietária do apartamento. Comprei-o quando... era dançarina. Nessa altura ainda o pude pagar. Ulrike ficou parada, na sua mal encoberta nudez, a olhar para ele. Em que pensaste quando decidiste vir para aqui?

 

Sair do meu mundo durante dez dias. Dez dias contigo... Não pensei em mais nada.

 

E se os teus pais descobrem que não estás em Inglaterra, mas sim em minha casa?

 

Como podem saber?

 

Posso ter visitas.

 

Estás à espera de alguém?

 

Não, mas...

 

Temos de riscar a palavra «mas» do nosso vocabulário. Robert reclinou-se no sofá de couro e envolveu Ulrike num longo olhar. Estás maravilhosa...

 

Como se ele tivesse dito algo de frívolo, ela fechou o roupão, mas não servia de nada, pois o tecido era transparente de mais. Ela abanou a cabeça, abandonou a sala por outra porta que dava para o quarto e regressou poucos minutos depois de saia e blusa.

 

Robert aproveitara aqueles minutos para admirar o apartamento. Na sala, havia uma segunda porta que comunicava com a cozinha, moderna e com todos os aparelhos eléctricos necessários, até um forno microndas, que superava a da casa dos pais. Robert parou em frente a uma fotografia que estava numa moldura de mogno. Mostrava um homem com um ar desportivo que sorria para a câmara. Vestia um casaco branco, uma camisa amarela aberta e era muito bem-parecido. Quando Robert ouviu Ulrike a aproximar-se, tirou a fotografia da parede.

 

Quem é este? perguntou ele.

 

Poderia dizer que é meu tio, mas não, é um conhecido.

 

Um amante teu?

 

Robert, sou uma mulher de trinta e três anos, com uma vida atrás de mim.

 

Uma vida que queremos apagar, juntamente com as recordações. Este homem também é para apagar. Puxou uma das gavetas do armário e atirou a fotografia lá para dentro. A partir de hoje, tudo vai mudar.

 

Durante dez dias. A voz de Ulrike mostrava alguma ironia e distância. Devias ter ido para Inglaterra!

 

Não estás contente por eu ter vindo?

 

Claro que sim... Apenas não me agrada este género de surpresas. Poderia não estar sozinha.

 

Ele abanou a cabeça e voltou a sentar-se.

 

Gostaria que não falasses assim. Para mim és Ulrike... e não Ula, o passado.

 

À noite sou Ula, atrás de um balcão.

 

É um nome que deixa de existir quando sais do Toscana. Quando entras esta porta, és Ulrike. É assim que quero ver as coisas.

 

Não fazia sentido discutir com ele sobre o assunto e Ulrike, percebendo-o, evitou-o. Que mais poderia fazer naquele momento?

 

Já tomaste o pequeno-almoço? perguntou, com alguma resignação na voz.

 

Sim. E tu?

 

Eu não. Foste tu que me acordaste. Normalmente durmo até às onze. Ontem fiquei até mais tarde no bar, até às quatro! Tivemos convidados da Polónia, que beberam vodca até perder a consciência. Salvatore mandou-os depois para o hotel em dois táxis. E agora estás tu aqui.

 

Ela foi para a cozinha e Robert ouviu-a mexer em louça. Depois, algo a fritar. Ovos estrelados com fiambre ou bacon, era ao que cheirava. Pegou na mochila, ainda sobre o tapete, e levou-a para o quarto, onde uma larga cama de casal, com uma colcha azul, ocupava quase todo o espaço. Uma das paredes estava completamente coberta por um armário espelhado, no qual se poderia ver o reflexo das pessoas que estivessem deitadas, e quando Robert se sentou na cama, afastando o edredão de penas ainda quente do corpo de Ulrike, conseguiu imaginar como seria excitante observar duas pessoas em jogos amorosos.

 

Mas também lhe ocorreu outro pensamento: o que aquele espelho teria reflectido de paixão e êxtase, de ternura e realização durante todos os anos em que Ulrike se deitara naquela cama. Robert viu-se ao espelho, atirou-se de costas para cima da cama, levantou as pernas e deixou-se ficar assim.

 

Passou-se algum tempo até que reparasse que Ulrike estava à porta a olhá-lo. Voltou a sentar-se e colocou as mãos sobre os joelhos.

 

É como vês disse ela, num tom provocante. Adoro espelhos, gosto muito de me ver neles, adoro o meu corpo. Poderia estar sempre a olhá-lo e a admirar todos os movimentos. Sinto-me feliz em frente de um.

 

Mesmo a dois...

 

Também assim! Ulrike fez um sinal com a cabeça na direcção da sala. O pequeno-almoço está pronto.

 

Robert levantou-se e seguiu-a. Sobre a mesa de vidro estendera uma toalha violeta e pusera chávenas, pratos, a cafeteira com café, uma travessa com ovos estrelados e bacon, dois copos com sumo de laranja e um prato com enchidos já cortados salame, carnes fumadas e uma espécie de chouriço feito de carne de peru.

 

Robert sentou-se no sofá.

 

Eu não tenho fome anunciou.

 

Mas tenho eu! E que fome! Não bebes uma chávena de café comigo?

 

Ulrike sentou-se à frente dele, deitou o café na chávena, pôs um ovo estrelado no prato e começou a comer. Robert olhava-a em silêncio e depois de ela ter comido o pão, perguntou:

 

Onde posso desfazer a mochila?

 

No quarto. Por trás da porta da direita, o armário está completamente livre.

 

Para hóspedes frase amarga.

 

Ela acenou com a cabeça e serviu-se de uma fatia de chouriço de peru.

 

Adivinhaste, creio que ainda lá está um roupão de banho de homem. Empurra-o para o lado.

 

Vou desfazê-lo.

 

Se te diverte! Eu nem sei quem se esqueceu dele. Está lá há imenso tempo.

 

Continuou a comer o pequeno-almoço, enquanto ele voltou para o quarto, abriu a mochila e a porta do armário, empurrou o roupão para o lado e arrumou as suas coisas. Não era muita roupa, apenas o necessário para um escuteiro: um fato de treino, roupa interior, meias, duas camisas, um par de sapatos, um par de calças, um casaco, máquina de barbear, uma escova de cabelo e uma harmónica. Como a mãe o ajudara a fazer a mochila, Robert teve de a levar, pois nos acampamentos era habitual tocar e cantar em frente às fogueiras. Alguns dos seus companheiros levavam guitarras e até um tambor. Eram sempre noites muito agradáveis com música alegre sob o céu da noite. Quando Robert voltou, Ulrike estava reclinada num sofá a fumar um cigarro.

 

O teu café já está frio disse ela. Vou buscar outra chávena.

 

Não é preciso.

 

Ela continuou sentada, expelindo o fumo para o tecto e fechou os olhos por instantes.

 

E o que vai acontecer a seguir? perguntou. Uma pergunta para a qual não tinha resposta. «Está um rapaz aqui sentado», pensou ela, «que quer ser homem. De certeza que nunca esteve com uma mulher, mas toda a sua ansiedade de chegar ao céu lhe brilha nos olhos. Que situação! Ele devia ter falado com o pai sobre o assunto. Conheço os pais modernos, que vão com os filhos a um bordel e dizem: ”Agora aprende!”, e pagam por isso quinhentos marcos. Será que nenhuma rapariga o estimulou? Cos diabos, está ali sentado e olha para mim como um predador atrás de grades. Será que ainda existe tal coisa? Um rapaz desta idade que nunca tentou saltar para cima de uma rapariga! Em que mundo viveu até agora? Filho de um conselheiro de Estado...»

 

Ulrike tentou imaginar a família Habicht, superburguesa e fechada no que tocava à parte inferior do corpo. Erotismo? O que é isso? Sexo é uma porcaria, a pornografia um instrumento do Diabo. Foder? Só de aliança e com um único objectivo: procriação, segundo a máxima católica que sentir prazer é perverso e a perversidade é pecado. Tudo o que desperta o corpo é pecado, e ninguém diz aos padres que a amiga de Jesus, Maria Madalena, era uma prostituta. Será que Robert fora educado assim? Pobre rapaz...

 

Estou aqui... ouviu-o dizer e sinto-me feliz. Amo-te.

 

Tu nem sequer sabes o que é amor.

 

Sei, sim. Agarrou na chávena com o café frio e bebeu um gole. Amor é saber que duas pessoas são uma da outra e que nasceram uma para a outra, tendo um destino comum.

 

O finalista-filósofo! Ela riu-se. Tudo o que disseste não se encaixa em nós.

 

Encaixa, sim. Tu apenas ainda não percebeste...

 

Foi um dia em que as horas se arrastaram lentamente. Ulrike foi com Robert a Tegernsee. Almoçaram num restaurante da floresta e passearam de barco até Bad Wiessee. À noite voltaram para Schwabing e Ulrike mudou de roupa. O vestido estreito muito decotado, a maquilhagem que tornava o seu rosto estranho, os sapatos de salto alto que faziam as suas pernas ainda mais belas do que eram... Robert olhava-a em silêncio.

 

Vais passar aqui umas noites aborrecidas observou ela depois de se transformar em Ula. Eu não posso pedir dez dias livres, preciso de ganhar dinheiro. Não tenho um pai que me sustente.

 

Verei televisão e esperarei por ti. O dia pertence-nos.

 

Meio dia.

 

Suficiente para ser feliz.

 

Ela saiu e à porta ainda lhe disse:

 

Se tiveres fome, há tudo o que precisas no frigorífico.

 

O primeiro dia de Robert «em Inglaterra» passara-se, mas estava contente consigo próprio. Vivia em casa de Ulrike, ela não o tinha posto na rua e restava-lhe a esperança de, nos nove dias que se seguiam, conseguir uma nova vida

 

Robert ficou a ver televisão até por volta da uma hora da manhã, despiu-se e deitou-se na enorme cama. Tudo tinha o odor do perfume de Ulrike, as almofadas pareciam impregnadas dele e Robert enterrou nelas o rosto. Depois deitou-se de costas, admirou o seu corpo nu no espelho da parede e cobriu-se rapidamente porque estava a pensar em Ulrike e o seu sexo reagiu de imediato.

 

Quando ela regressou, por volta das três da manhã, Robert dormia profundamente e nem deu pela sua presença. Mesmo quando Ulrike se meteu na cama a seu lado, sob o edredão de penas, continuou imóvel. Ficou algum tempo sentada a seu lado, a admirar-lhe o corpo, e depois estendeu a mão e passou-a pelos contornos do baixo-ventre do rapaz Com um suspiro, virou-se e apagou a luz da mesa-de-cabeceira.

 

Quem sabe no que estaria a pensar naquele momento...

 

Peter Reiber juntou os seus colaboradores para a habitual reunião matinal, que era uma parte importante do trabalho criminalista. Não só se reviam situações como surgiam novas informações e acontecimentos, se estudavam futuras tácticas, eram avaliadas as denúncias dos informadores e depois se fazia uma apreciação geral.

 

Naquela manhã, Reiber tinha uma novidade. Colocou em cima da mesa um dossiê ainda fino, o que para todos os presentes significava que se iria falar de algo desagradável. Começou sem rodeios.

 

Depois das últimas investigações, parece que se está a instalar em Munique um novo grupo de crime organizado.

 

Já o tinha referido na última reunião: é o do ecstasy. Ontem à noite, a polícia encontrou três raparigas, entre os quinze e os dezasseis anos e três rapazes entre os dezoito e os dezanove, num estado perfeitamente lastimável.

 

Estavam completamente pedrados, num estado de delírio apenas conhecido nos viciados em LSD. No ano passado, pensámos que esta moda passara, porque o LSD era pouco utilizado e o panorama se cingia a haxixe, cocaína e sobretudo heroína. Neste momento, também não se trata de LSD, mas sim de um pequeno comprimido que foi baptizado de ecstasy, pois coloca os consumidores em êxtase, num estado de excitação que o cérebro não consegue controlar, pois a droga afecta-o. Na última reunião expliquei-vos que os comprimidos são tão baratos em relação a uma dose de heroína que todos os jovens os podem comprar apenas com a semanada que recebem. Além do mais, são eles próprios que os distribuem, julgando que são inofensivos. Foi feita uma rusga às discotecas in de música techno: noventa por cento dos jovens tinham consumido ecstasy, sendo o total estimado em mil e duzentos comprimidos! O dealer foi preso, mas é claro que está tão calado como um peixe. Contudo, o facto de aparecer tanto ecstasy nas discotecas indica que foi ou irá ser formado um novo grupo. Para ser mais concreto, teremos de lidar com outro grupo de criminosos, e o mais alarmante é o facto de o dealer detido ser polaco.

 

Como o morto no Westpark Ost. Um jovem agente levantou a mão. Já se sabe mais alguma coisa sobre o homicídio?

 

Nada de novo, apenas que era farmacêutico. Segundo as informações mais recentes, os comprimidos de ecstasy vêm da Polónia, mas o fornecedor e o distribuidor nunca são a mesma pessoa, e é por isso que está a estabelecer-se um novo grupo.

 

Uma máfia do ecstasy?

 

Não gostaria de ir tão longe. Estou a pensar mais numa espécie de «negócio familiar», numa central de aspecto totalmente inofensivo, que envia distribuidores com um ar igualmente inofensivo, rapazes e raparigas que não dêem nas vistas nessas discotecas de loucos, onde um rapaz de vinte e cinco anos é um corpo estranho. Se aparecermos numa delas todos se esconderão, e ainda não há polícias com quinze anos.

 

Devíamos arranjar informadores dessa idade alvitrou um agente, mas Peter Reiber fez um gesto de irritação.

 

Deus do céu! O que estás para aí a dizer? Se estão proibidas as escutas por violarem a lei, como podes insinuar que usemos menores? Isso significaria fazer tábua rasa da legislação que a eles respeita.

 

Mas seria para a sua própria protecção.

 

Explica isso a um político! Defendem cada parágrafo como protegem o pénis.

 

Devíamos falar com alguém de Bona, senhor comissário.

 

Isso não resulta. Precisamos de encontrar outros caminhos que sejam legais aos olhos dos políticos. E legal é, na opinião deles, tudo o que passe despercebido. A fuga ao fisco também não é penalizável nem ilegal quando se trata de proteger um ministro. Reiber olhou em volta. Alguém tem alguma proposta a fazer?

 

É claro que ninguém falou, todos os presentes naquela sala conheciam perfeitamente os problemas da polícia para dizer algo de disparatado, pois não havia dinheiro para a pôr ao nível da máfía e os políticos recusavam-se a aceitar qualquer alteração no que respeitava aos direitos humanos Para lutar contra os bandos de romenos, jugoslavos, kosovo -albaneses, vietnamitas, polacos, russos, libaneses, curdos, chineses ou sul-americanos, os cofres do Governo mantinham-se fechados. Consequência assustadora: quase setenta e cinco por cento de todos os crimes na República federal eram cometidos por estrangeiros.

 

Peter Reiber esperou para ver se alguém propunha algo. encolheu os ombros e fechou o dossiê que estava à sua frente. Agora vinham as suas famosas estatísticas... Os agentes da secção esperavam pacientemente, mas aquilo que tinham ouvido não era acerca de um caso resolvido, mas sim um capítulo assustador da história actual da polícia alemã.

 

Tenho aqui os últimos números enviados pelos nossos colegas de Berlim disse Reiber num tom contido e são muito interessantes porque os podemos comparar com os nossos, aqui em Munique. Como já veremos, em Berlim os problemas são mais ou menos os mesmos que encontramos noutros estados e grandes cidades. A polícia de Berlim possui um efectivo de dezanove mil e trezentos agentes e, além disso, há mais onze mil empregados administrativos, o que perfaz aproximadamente trinta mil, entre os quais cerca de vinte e dois por cento são mulheres. Dispõe de mil duzentos e trinta carros-patrulha, na sua maioria já velhos, incluindo quatrocentos e cinquenta Ladas que vieram da antiga República Democrática, havendo a acrescentar mil cento e quarenta miniautocarros e outros veículos, duzentos e quarenta e seis motociclos, sessenta e três cavalos e trinta bicicletas.

 

Ouviram-se risos entre os presentes, mas Reiber fez um gesto com a mão.

 

Não se riam! Enquanto os gangsters andam com carros ultramodernos, rádios sofisticados, telemóveis e até dispositivos para visão nocturna, em Berlim perseguimo-los com Ladas arcaicos. Isto não é para rir, mas sim para chorar! Mas continuemos. Para o controlo administrativo total das grandes cidades alemãs e ainda para planeamento, informação, serviço de reconhecimento e gestão de dados, a polícia berlinense dispõe de quatrocentos computadores, um número muito inferior ao que encontramos, por exemplo, nos escritórios de uma grande firma! Aposto que os funcionários das finanças estão mais bem apetrechados do que a polícia!

 

Uma aposta ganha à partida! gritou um dos agentes, e Reiber esboçou um leve sorriso, enquanto folheava os relatórios.

 

Em Berlim, é assim, mas todos sabemos que aqui, em Munique, as coisas são diferentes, só que também não são satisfatórias nem se podem remediar. Muito bem! Nós não andamos de Lada, mas com bons BMW e também mais de trinta bicicletas... Novamente risos e até aplausos, mas contra o crime organizado somos como uma tartaruga atrás de uma lebre. A máfia, usemos esse nome para englobar todos os bandos, anda sempre à nossa frente. Apesar dos informadores, só chegamos ao comboio depois de ele ter partido, somos uma espécie de homens do lixo, já para não falar da frustração que nos causa a proibição de usar aparelhos de escuta! E por isso temos um grande problema, face ao qual tanto a polícia berlinense como nós somos impotentes: o crescimento alarmante da criminalidade juvenil. Reiber agarrou nalgumas folhas dos relatórios. Tenho aqui estatísticas que pedi à nossa outra secção e, depois de as ler, compreendo que a polícia hesite muito em tornar públicas algumas informações. Reiber pigarreou e respirou fundo. No ano passado, a criminalidade juvenil cresceu mais de cinquenta por cento e a tendência deste ano é para crescer ainda mais! E não se trata de casos sem importância, como roubos de bicicletas ou assaltos, a escala vai do assalto a propriedades privadas a ferimentos graves. Para isso utilizam barras de ferro, tacos de basebol, correntes de bicicletas e até pedaços de betão armado. Mais de metade dos assaltos nas ruas são cometidos por jovens e com uma brutalidade até agora desconhecida e que não era considerada possível. Temos um bando de raparigas entre os doze e os quinze anos que é um verdadeiro terror, doze dos assaltos foram praticados por elas. Objectivos: raparigas e velhos, que são sempre espancados. Único motivo: «Queremos dinheiro!» Segundo informações obtidas até agora, temos em Munique cerca de trinta bandos deste tipo, em Berlim são cerca de cinquenta, e oitenta dos chamados «grupos espontâneos», que só atacam de vez em quando pelo mero prazer de espalhar o terror ou para ter mais dinheiro à sua disposição. Os prazeres são drogas, álcool, noites de techno e quase tudo o que obtêm é imediatamente consumido. E a polícia? Os criminosos juvenis são tratados com luvas de pelica e, perante a lei, uma rapariga de treze anos que agrida um velho não pode ser punida! De qualquer modo, estes jovens vão para lares educativos e lá tiram o curso superior do crime, pois é sabido que esses institutos de correcção são como universidades na matéria. Isso já nós conhecemos e também que nada vai mudar, é um problema sem solução em todos os países do mundo. Reiber voltou a meter os papéis no dossiê. E agora o aspecto mais importante que nos diz respeito: esta explosão da criminalidade juvenil está ligada ao consumo de drogas e, neste caso, o ecstasy está à frente em Munique, como também em Amesterdão, Berlim, Paris e Viena. Quando leio que em Berlim dos onze mil quinhentos e vinte e sete crimes mais graves são cometidos por jovens, então só poderei dizer o seguinte: temos à nossa frente tempos muito duros.

 

Reiber calou-se e fechou o dossiê, observando o efeito das suas palavras: os agentes permaneceram em silêncio, viviam diariamente as limitações da polícia.

 

Temos de reprimir o culto do ecstasy continuou Reiber e atirou imediatamente uma questão para a mesa. Como?

 

Com um controlo mais apertado e rusgas aos locais conhecidos, descobrindo os criminosos ainda não identificados e prendendo os consumidores de droga respondeu um dos agentes.

 

Estamos completamente impedidos de o fazer atalhou outro.

 

É verdade, e nada irá mudar. Tomemos novamente o exemplo de Berlim: apesar do aumento da criminalidade, Berlim quer poupar os oitenta milhões de marcos, em equipamento, que custaria uma «reforma da polícia», além da verba necessária para construir duas mil novas esquadras. Nós, aqui em Munique, e em relação ao crime organizado, também somos uma pequena matilha de cães farejantes, é, uma guerra para obter mais um rádio, enquanto a máfía possui armas laser, comunica através de telefones via satélite e desloca-se em Mercedes blindados. Nesta situação só existe uma saída para conseguirmos algum êxito: temos de espalhar mais informadores jovens, embora com mais de dezoito anos, pois só assim conseguiremos chegar aos criminosos juvenis. Quando leio que a percentagem de resolução de crimes, em Berlim, não passa dos quarenta e quatro por cento, juro a mim próprio nunca chegar a este número aqui em Munique. Em colaboração com o comando, preparei novos planos, dos quais falaremos depois. Ideia básica: aliciar informadores que pertençam ao círculo criminoso.

 

E o que lhes podemos prometer? perguntou outro agente.

 

Neste caso não estamos completamente na merda! Reiber nem se deu ao trabalho de escolher outra palavra, era conhecido por chamar as coisas pelos nomes. Cada marco que oferecermos aos informadores deve ser declarado como um extra e incluído nos relatórios administrativos. E voltará a estar sobre a mesa dos políticos, em Bona, uma regulamentação melhorada no que concerne às testemunhas e à sua protecção, tal como já existe nos Estados Unidos, Podemos adivinhar o que vai acontecer! Na realidade, cada político deveria ser assaltado e roubado pelo menos uma vez para que aprendam a pensar em termos mais realistas. Reiber voltou a pigarrear. Esqueçam imediatamente a última frase! É o que eu penso, mas fica entre nós. Comecemos então com a nova tarefa do nosso comissariado: recrutamento de jovens informadores para o problema do ecstasy.

 

O que foi falado naquela manhã, na Décima Terceira Esquadra, na realidade estava ultrapassado.

 

Os jovens distribuidores de ecstasy já obtinham de Franz von Gleichem recompensa muito mais elevada do que a que poderia ser oferecida pela polícia. A máfía ia novamente dar dois passos à frente e, sem que Reiber o soubesse, a sua estratégia já fora por água abaixo.

 

O despertar de Robert foi uma reacção súbita, ainda semiadormecido, e sentisse o calor de um corpo a seu lado. Ergueu-se, virou-se para o lado e viu Ulrike, em cujo rosto, rodeado pela cabeleira, se reflectia um sorriso que irradiava descontracção. Tinha apenas umas cuecas vestidas, respirava tranquilamente e de vez em quando passava-lhe um ligeiro tremor pelo corpo ou vibrava o interior das suas coxas.

 

Cuidadosamente, para não a acordar, Robert sentou-se e olhou para o relógio. Passava pouco das oito da manhã, o sol filtrava-se através das cortinas fechadas e os seus raios caíam sobre o ventre de Ulrike. Na parede espelhada, ele conseguia ver-lhe os pés, as pernas e os contornos dos seios. Tinha atirado o edredão para o lado e Robert seguiu pelo espelho o percurso da sua mão, que brilhava sobre a pele de Ulrike sem a incomodar, era apenas uma carícia. Mesmo assim, sentiu as palmas das mãos a aquecerem como se estivessem sobre uma fogueira.

 

Ficou alguns minutos sentado, a admirar todas as linhas do corpo dela, fotografando-o no seu cérebro e desenhando-a no ar. Uma respiração mais profunda assustou-o, mas Ulrike não acordou, virou apenas a cabeça para o lado, embora mudasse ligeiramente de posição e os seus seios apontassem na direcção de Robert, como se pedissem as carícias das suas mãos, que, tão excitadas como o seu sangue, se afundaram cuidadosamente neles. Agarrou-os entre os dedos, sentiu a firmeza dos mamilos e, quando deitou mais um olhar ao espelho, viu um jovem corpo musculado que se inclinava sobre uma mulher nua e cuja excitação se via claramente entre as pernas.

 

Pela primeira vez, esta reacção não lhe foi penosa, mas, antes que pudesse desviar o olhar do espelho, dois braços agarraram-no e puxaram-no para baixo. Durante alguns momentos, Robert ficou sem respiração com a boca firmemente colada aos seios de Ulrike. Depois soltou-se, mas logo as pernas dela o apertaram contra o ventre.

 

Robert não foi capaz de dizer uma só palavra, de pronunciar o nome de Ulrike, de fazer um único movimento... Só sentia as mãos dela a conduzi-lo, um colo húmido que o recolhia, sentia um calor a invadi-lo e o seu corpo a cair num ritmo que o solicitava, como uma fogueira entre as coxas, enquanto um grito lhe saía da garganta. Naquele momento de libertação, deixou de sentir o coração, pareceu-lhe que se afastava deste mundo, experimentou aquilo que os asiáticos chamam «pequena morte» e caiu com todo o peso do seu corpo sobre Ulrike.

 

Ela não se mexeu mais, ficou sob Robert, as pernas ainda envoltas no seu corpo, mas agora sem pressão, sem força, como um peso quente. Manteve os olhos fechados e ele, quando se ergueu e a olhou, reparou que ela tinha o corpo coberto de suor e entre os seus seios via-se uma pequena poça de transpiração.

 

A voz do rapaz quebrou quando gritou suavemente o nome dela, quase em pânico.

 

Ulrike, eu... eu...

 

E ela respondeu ainda de olhos fechados, mas num tom assustadoramente maternal.

 

Como vês, és capaz.

 

Eu não queria. Acredita, eu...

 

Mas eu queria empurrou-o para o lado e ficou deitada. Agarrou num toalhete, que colocou entre as coxas. Viste tudo no espelho?

 

Não vi nada. Já não estava neste mundo.

 

Tens de aprender, Bob.

 

Ulrike colocou-o de costas, inclinou-se sobre ele e, enquanto Robert olhava para o espelho e via o que ela lhe fazia, soube que aquele dia mudara completamente o resto da sua vida.

 

E a partir daquela manhã ela começou a tratá-lo por Bob e não Robert.

 

Tinham tomado duche juntos e feito novamente amor sob os quentes jactos de água, e agora Robert estava sentado no sofá de couro, enrolado num grande toalhão de banho, e esperava o pequeno-almoço. Não se sentia cansado, mas sim poderosamente descontraído. Enquanto ouvia os ruídos vindos da cozinha, ocorreram-lhe à ideia algumas histórias dos seus colegas de escola. No dia seguinte contavam sempre o que tinham feito com a namorada no domingo, tornavam-se poderosamente másculos com as suas detalhadas narrações, e Robert ficava sempre impressionado com as coisas de que aqueles rapazes eram capazes. Agora sabia que a maior parte do que diziam era fantasia. A verdade, como ele a vivera, não se explicava com palavras, a linguagem não tinha qualquer cabimento, só havia uma coisa que podia descrever aquele enleio a música Tristão e Isolda», pensou Robert. O segundo acto. Uma música que só se pode sentir. Vem até mim, para uma noite de amor” Ou O Navio Fantasma, primeiro acto O holandês e Senta estão silenciosos em frente um do outro, mas a música reflecte tudo o que os seus corações sentem Ou Chopin, List, Schumann, Schubert. Só a música conseguia exprimir um amor infinito ”

 

Robert decidiu compor uma sonata para piano dedicada a Ulrike e foi arrancado aos seus pensamentos quando ela saiu da cozinha com um enorme tabuleiro Cheirava a pão aquecido na torradeira, a bacon frito e a ovos estrelados, aparentemente o pequeno-almoço habitual de Ulrike. Ainda andava nua, envolta numa nuvem de perfume com odor a limão. Os cabelos estavam presos e nos pés trazia umas pantufas orientais coloridas. Era por isso que os seus passos não se ouviam.

 

Enquanto comiam Robert perguntou

 

Amas-me?

 

Não sei. Ela inclinou a cabeça um pouco para o lado e observou-o como se fosse um quadro. Na realidade não sei, Bob.

 

Depois de tudo o que aconteceu esta manhã? Parecia desiludido

 

Desejava-te, foi isso. O teu belo corpo jovem, as tuas forças ainda intactas, o animal selvagem que descobri em ti. Foi muito bonito

 

Nada mais!

 

Ainda não sei

 

Esse «ainda» deixa-me mais calmo. Temos ainda nove dias e noites à nossa frente

 

Mas tu amas-me?

 

Mesmo que pareça ridículo, quero-te loucamente, infinitamente! Preencherás a minha vida. Contigo terei um futuro

 

Acreditas nisso?

 

Sei que sim! Depois de acabar o curso, dedicar-me-ei somente ao piano. Verás: em dois ou três anos darei o primeiro concerto como solista.

 

E quem te financiará durante esses anos? O teu pai põe-te na rua quando souber da nossa relação.

 

Ganharei dinheiro como pianista de bar...

 

Tonto! Isso é do século vinte. Hoje em dia, nos bares, ouve-se techno-rock e há disc jockeys para mudar os discos.

 

Também posso fazer isso. Seja como for, ganharei dinheiro, dinheiro suficiente.

 

E depois, um dia, virás a ser um pianista famoso. Robert Habicht toca Beethoven, de fraque, num piano de cauda. E eu espero no camarim pelo grande artista em vestido de noite, rodeada de flores e chamar-me-ão «minha senhora». Achas mesmo que fui feita para isso?

 

Um dia serás o centro da sociedade.

 

Que goza comigo!

 

Não a conheces.

 

Leio o suficiente sobre ela. Uma mulherzinha cheia de jóias. Nunca estará de acordo comigo!

 

E qual é o teu objectivo de vida?

 

Uma boutique, exclusiva, ligeiramente louca e tão cara que todos dirão: «A loja de Ula é só para o jet set.»

 

Exactamente aqueles de quem não gostas.

 

Sim, mas desprezá-los-ei com cada vestido, ou fato de noite que me comprem. Isso alegra-me.

 

E porquê este desprezo?

 

Vou dizer-to claramente! Inclinou-se para ele e Robert esteve tentado a apertar-lhe os seios. Porque venho da sarjeta, porque um pequeno-almoço desses idiotas seria o suficiente para me alimentar a mim e à minha mãe durante um mês. Porque fodem com todos e chamam-lhes senhoras... e a nós prostitutas. Bob, tu nunca conheceste esse mundo. Cresceste sobre almofadas de cetim e desejas continuar sobre elas, de preferência em cima de mim.

 

Robert abanou energicamente a cabeça, estendeu as mãos e agarrou os seios de Ulrike.

 

-Estás a ver as coisas de forma completamente errada objectou ele

 

É a maneira certa e afastou-lhe as mãos. Larga-me. Ou queres mais?

 

Não. Assim não. Largou-a e encostou-se. Sabia que ela falara assim de propósito para o tornar inseguro ou até para o testar. Façamos um compromisso. tu ficas com a tua boutique e eu dou concertos

 

Uma coisa não depende da outra

 

Não. Pensarei em ti em cada audição e até tocarei para ti Tal como Robert Schumann sempre pensou na sua Clara Robert Schumann? Robert? É algum tio teu?

 

Não exactamente. Ele levantou-se e apertou o roupão. Vou vestir-me

 

Ela acenou com a cabeça e sentiu que tinha dito um disparate

 

Disse alguma coisa errada? perguntou, mexendo o café já frio. Sou apenas uma inculta

 

A felicidade não depende de se conhecer ou não Robert Schumann disse ele, dirigindo-se ao quarto

 

Ulrike seguiu-o, inclinou-se na ombreira da porta e voltou a ver-se ao espelho

 

Façamos um acordo propôs, indo até à cama e sentando-se. As suas pernas ligeiramente abertas, reflectidas no espelho, excitaram Robert. Tu dás-me formação cultural e eu ensino-te os segredos do amor. Combinado? Quem era Robert Schumann?

 

Um famoso compositor alemão. As canções infantis mais bonitas são dele

 

E eu mostro-te o Vento na Flor de Lótus. Vamos, Bob Despe-te

 

Hua Dinh Son nascera em An Khe, uma pequena cidade no Vietname do Sul, junto do rio Ba, e passara a juventude em Saigão, primeiro como pedinte, depois como paquete num hotel de terceira, levando os turistas franceses e americanos aos bordéis. A sua máxima, «flor jovem que ainda mal se abriu!», caía sempre bem e trazia-lhe boas gorjetas. Não conhecera os pais, crescera entre montes de lixo e dejectos malcheirosos e nem conseguia lembrar-se de que um dia o haviam abandonado num arrozal, com três anos. Quando recordava a sua vida, compreendia que os pais, que o tinham alimentado até àquela idade, simplesmente o deitaram fora como um vaso partido. Um motorista de camião levara-o até Saigão e entregara-o à polícia.

 

O que podia esta fazer com uma criança de três anos’? Não conseguira entrar para um lar de infância, pois estavam todos cheios e, além disso, quem suportaria os custos? Assim, a polícia optou pela solução mais simples: levou a criança para um parque, colocou-a debaixo de uma árvore, deu-lhe uma gamela de arroz e um peixe frito e deixou nas mãos do acaso o destino de Hua Dinh Son.

 

Son era um rapazinho muito tenaz. Dotado da proverbial capacidade de iniciativa asiática, fingiu ser aleijado, sentou-se nas ruas mais concorridas de Saigão a pedir, até que, aos dez anos, descobriu que arranjar prostitutas era um bom negócio. À noite, dormia nos parques ou nas margens relvadas do rio Ba, mas aos quinze anos construiu um abrigo, encontrou num parque de Saigão uma rapariga de catorze anos que também não tinha casa, levou-a consigo e começou a vendê-la à hora aos soldados americanos.

 

Um bom negócio. A «flor meio aberta» Nungjei rapidamente arranjou vasta clientela, a cabana transformou-se numa casota de madeira, Son ia pescar de barco ou fazia excursões com turistas pelas margens do rio e começou a ver-se que ambos tinham conseguido sair da sarjeta.

 

Mas depois veio a catástrofe: os americanos abandonaram o Vietname, os vietcongues entraram em Saigão, que passou a chamar-se Ho Chi Minh, e a fonte do bem-estar secou. Por outro lado, começou a caça aos colaboracionistas e milhares foram enforcados publicamente em praças e estádios de futebol.

 

Tal como milhares dos seus compatriotas, Son decidiu escapar-se do Vietname e as coisas correram-lhe muito melhor do que a muitos outros... Não fugiu num barco de pesca de madeira com o fundo podre, que, mais tarde, em mar aberto, sobretudo no do Sul da China seria atacado e pilhado por piratas. Tinha a sua própria embarcação a motor, no mercado negro comprou a maior quantidade de gasolina possível, carregou-a de conservas, bidões de água, uma metralhadora americana, munições suficientes, pacotes de arroz, um fogão a gás propano e abandonou a pátria. Para sempre, isso era claro.

 

Levou Nungjei consigo, a fim de que não se tornasse uma prostituta dos vietcongues, pois, na realidade ela contribuíra para que ambos tivessem alcançado algum bem-estar. No entanto, depois de estarem há três dias no mar do Sul da China e de Son ter avistado no horizonte os contornos de um grande cargueiro, tendo assim a certeza de que seria salvo, disse para Nungjei:

 

Estive a pensar que a vida é muito dura. Devemos tentar sempre alcançar algo de novo, e o novo está à vista.

 

Quando o disse, encontravam-se encostados à amurada do barco. Son acariciou o rosto oval de Nungjei, beijou-a na testa e deu-lhe um enorme empurrão no peito, fazendo-a sair borda fora.

 

Ela gritou quando caiu à água, esticou os braços na sua direcção, mas ele foi para a casa do leme, sem olhar em volta, ligou o motor e partiu a toda a velocidade.

 

«Será rápido», pensou ele. «Ela não sabe nadar e há tubarões por todos os lados, até aqui nas rotas internacionais. Lamento, Nungjei, mas a vida é dura. Como é que eu costumo dizer? Devemos ser capazes de ser vítimas...»

 

O restante percurso de Son, desde o centro de recolhimento destinado aos fugitivos vietnamitas, em Singapura, até Volomin, uma pequena cidade a norte de Varsóvia, ficou no escuro, e também não ficou muito clara a forma como Hua Dinh Son se tornou proprietário de uma serração. Todavia, e apesar das suas origens asiáticas, foi muito bem acolhido pelos habitantes de Volomin. Casou com uma poteca, já falava, embora mal, o idioma local e até aderira à religião católica. Era muito louvado pelo facto e quando O casal Dinh se sentava, aos domingos, na igreja, os olhos do padre recaíam sempre sobre Son.

 

De vez em quando, talvez duas vezes por mês, ia viajar.

 

Vou tentar angariar novos clientes dizia ele sempre. A madeira já não se vende com facilidade e a concorrência é enorme. Só eu sei como é difícil vender dez esteres de madeira! É preciso dar graxa aos clientes, senão a bolsa fica vazia.

 

Parecia ter sucesso, pois quando regressava das viagens trazia sempre dinheiro, por vezes dólares, metade dos quais trocava por zlotys, metendo o restante no cofre. Não lhe rendiam juros, mas a vida é dura e nunca se sabe se, de um dia para o outro, será preciso procurar um novo sítio para dormir. Alguns milhares de dólares são uma boa garantia para prevenir qualquer percalço.

 

A última viagem de Son levara-o até Munique. Fora uma tarefa simples, mas que lhe rendera cinco mil dólares. O «cliente» não lhe dera muito trabalho. Quando Son lhe pusera o arame de aço à volta do pescoço e apertara, o homem estremecera, atirara os braços para a frente e morrera sem fazer ruído. Ele deixara-o simplesmente debaixo de um arbusto, fora depois a uma cervejaria e bebera uma cerveja, refrescante e com sabor a ervas. Na Polónia não havia daquilo.

 

Son não conhecia a pessoa que lhe encomendava os «trabalhos», só tinham contactos telefónicos, mas ela falava a sua língua materna, mantinha a palavra, não o enganava e depositava a retribuição dos seus bons préstimos num cacifo de estação, cuja chave enviava para a morada de Son. Eram sempre pequenos hotéis nos subúrbios da cidade, que tinham poucos clientes e que também alugavam os quartos à hora. Ali, Son não precisava identificar-se, viajava sempre anonimamente e não deixava rasto.

 

Ao início interrogara-se como é que os seus compatriotas tinham conseguido o seu nome e morada em Volomin, e sobretudo como sabiam que era o homem certo para «resolver problemas». Depois de uma fuga que o levara à Polónia, e durante a qual considerara qualquer tipo de escrúpulos como um peso à vida, segundo a sua filosofia, fazia frequentes vítimas, ficara preso àquele pequeno ninho chamado Volomin. A razão fora Marika, uma rapariga mais velha do que ele com um defeito no pé esquerdo, mas que tinha a vantagem de ser a filha única do proprietário de uma serração, Josef Dschulanski. Um homem honesto, uma firma sã, uma ilha salvadora para um Son sem pátria.

 

É claro que Josef Dschulanski se opôs, de início, à presença do vietnamita e correu com ele quando lhe foi pedir emprego, mas a filha Marika, que, devido ao seu defeito, não tinha grandes hipóteses de conseguir um marido, apaixonou-se pelo estrangeiro, apreciando sobretudo a sua arte asiática de amar. Marika perdeu a cabeça na cabana de madeira, entre o cheiro de madeira acabada de cortar, até dizer ao pai:

 

Estou grávida.

 

De quem? berrara Josef Dschulanski. O tipo que venha já aqui!

 

Ele temia o mais grave, quem se atirara a Marika ou era cego ou idiota, mas, mesmo assim, havia um neto.

 

Os receios de Dschulanski ainda pioraram quando Marika apresentou o orgulhoso Hua Dinh Son como pai do seu filho.

 

Um asiático! gritara Dschulanski. Um vietnamita! Prefiro morrer! Em que estavas a pensar, minha vagabunda? Serei o alvo do gozo de toda a gente. A filha de Dschulanski metida com um amarelo!

 

Eu amo-o! dissera Marika. É um homem trabalhador.

 

Isso nota-se! E agora?

 

Vou casar com ele.

 

E assim aconteceu. Numa localidade com cerradas tradições católicas, uma criança precisava de um pai legítimo, de um educador. Fosse branco, negro ou amarelo, um filho é sempre uma dádiva de Deus. Os habitantes de Volomin foram unânimes em receber Son na igreja católica, mais um cristão é sempre bem-vindo.

 

Mas a vida precisa de vítimas, já sabemos isso.

 

Ao sexto mês, Marika abortou, escorregara na serração e caíra de uma altura de quatro metros. Uma queda misteriosa, mas ela disse que se sentira subitamente tonta e que caíra no vazio. A queda não lhe provocara ferimentos, mas a criança não sobrevivera.

 

Para o filho morto teria sido um rapaz, Son erigiu um altar em forma de crucifixo e uma imagem da Virgem Negra de Tschenstochau, o que fez com que toda a cidade gostasse ainda mais do vietnamita.

 

Contudo, o terrível destino ainda não fizera vítimas suficientes e, seis meses mais tarde, Josef Dschulanski fora trespassado por uma grade vertical, acidente que acontece com frequência nas serrações. Normalmente, a vítima perde um braço ou a mão, mas neste caso morrera.

 

Son também lhe erigiu um altar, só que em frente da Virgem Negra não estava uma vela, antes uma fotografia do respeitável sogro. A polícia, que investigou o acidente, chegou a uma conclusão: falta de atenção e máquina com uma protecção deficiente. Son levou isso muito a peito e modernizou imediatamente todas as máquinas, agora era o proprietário da serração. Evitou que pudesse vir outro filho e, com a esposa, Marika, habituou-se a uma vida sem preocupações, até que um dia recebeu um telefonema que o iria empurrar para outro destino.

 

Depois de amanhã estarás em Berlim! disse uma voz em vietnamita.

 

Son olhou fixamente para a parede do seu escritório e abanou a cabeça em sinal de incredulidade.

 

Quem fala? retorquiu ele em polaco.

 

A voz não respondeu àquela pergunta imbecil, e continuou.

 

Vais para o Hotel Gloria, onde o porteiro te entregará uma carta. Cumpre à risca tudo o que lá estiver. Entendeste?

 

Son não era cobarde, nunca o fora, por isso, não se atemorizou. A escola da vida que levara até então dera-lhe a sabedoria: seja o que for, como for ou onde for, protege-te! A vida é uma guerra.

 

Sabe o que é um cu? perguntou ele. Pode lambê-lo.

 

O teu cu não vale nada a voz não se alterou, não acusou o teor da resposta, mas a tua cabeça é muito importante.

 

Foi uma frase que Son percebeu imediatamente, por isso não pôs mais questões. A voz repetiu:

 

Depois de amanhã, em Berlim, Hotel Gloria. Está tudo na carta.

 

Son respirou fundo.

 

Donde me conhece?

 

Conhecemos todos os compatriotas que podem trabalhar para nós...

 

Então é trabalho? -É fácil

 

E porque não pode ser feito por outro?

 

Tu fá-lo-ás! Porque é que perguntas?

 

Não conheço Berlim.

 

Também não irás ver muitas coisas. Depois do trabalho, voltarás imediatamente para a Polónia. Há milhares de dólares à tua disposição. Hua Dinh Son, esperamos por ti.

 

A conversa terminara. Son desligou o telefone e sobreveio-lhe uma sensação que já tivera em Saigão, quando os vietcongues estavam para chegar, mas excluía agora peremptoriamente a hipótese de fugir de novo e desaparecer mais uma vez no desconhecido. Conseguira um local seguro para viver, tornara-se dono de uma serração e de uma boa casa e era considerado pelos cidadãos de Volomin. Alcançara um objectivo e não estava disposto a desistir de tudo.

 

«Vejamos o que me espera em Berlim», disse a si próprio. «Não há trabalho que eu não consiga fazer, e milhares de dólares são o suficiente para me ocupar dele.»

 

Só não lhe agradou a ameaça à sua cabeça, o que apontava para um trabalho pouco habitual.

 

Pela primeira vez, Son inventou uma razão para viajar e Marika não fez muitas perguntas. Angariar clientes para a serração, mesmo fora do país era compreensível. Só a ideia de que se fariam construções no estrangeiro com madeira de Volomin enchia-a de orgulho. Son era um bom homem de negócios, e o pai dela teria agora todos os motivos para se orgulhar do genro.

 

Dois dias mais tarde, um transeunte encontrou um cadáver nos arbustos, junto a um canal, em Berlim, mas a polícia judiciária, que já estava habituada, considerou o caso como rotineiro.

 

A morte ficara a dever-se ao rompimento da traqueia, mas não fora um assalto, o morto tinha carteira, dinheiro e documentos. Era russo e estava ilegalmente em Berlim

 

Número cinco disse o comissário. Claro que os papéis são falsos e não se consegue identificar o cadáver. Um homicídio típico da máfía e mais um morto para o arquivo. É de loucos. Se isto continuar assim, Berlim tornar-se-á rapidamente a capital do crime. Que podemos fazer em relação a este novo caso, meus senhores? Nada. São assassinos profissionais que não deixam vestígios. Chegam, matam e desaparecem. Em breve, teremos um triângulo criminal: Moscovo, Palermo, Berlim.

 

Ao regressar, Son guardou quinhentos dólares no cofre, respondeu vagamente às perguntas de Marika e deixou que constasse que o negócio da madeira, do ponto de vista internacional, era muito difícil. Em Berlim as coisas não tinham corrido muito bem, mas conseguia alguns bons contactos.

 

Vendo bem as coisas, o negócio fora fácil de concretizar, tudo o que precisava de saber estava na carta que o porteiro do Hotel Gloria lhe entregara.

 

Nome, ponto de encontro, hora e uma fotografia, sendo tudo para destruir, além de mil dólares num cacifo, depois do trabalho feito não havia maneira mais simples de ganhar dinheiro.

 

Durante a viagem de regresso, Son tivera tempo suficiente para pensar na sua nova situação, pois sabia que a este trabalho se seguiriam outros. Após aquele dia em Berlim, tornara-se o carrasco de um grupo, do qual apenas conhecia a voz, uma voz vietnamita, e continuava às voltas com a mesma pergunta: «Donde me conhecem? Como me puderam descobrir em Volomin? Porque é que me escolheram a mim? Será que deixei rasto durante a viagem até à Polónia? Onde teria errado?»

 

Hua Dinh Son esperou por um novo telefonema, por um indício que o conduzisse aos mandantes, mas foi uma esperança vã.

 

A voz telefonou mais cinco vezes e era sempre o mesmo modelo: local, hora, carta no hotel, dólares no cacifo.

 

Son foi a Colónia, Amesterdão, Paris e Frankfurt, e o último local fora Munique.

 

«É assim que se conhece a Europa», dissera ele uma vez a si próprio, com um sarcasmo macabro. «E ainda por cima recebendo bom dinheiro. Podemos habituar-nos a tudo. Até à simples arte de matar.»

 

Dez dias tinham chegado para Robert viver dez céus ou dez infernos, pois, para ele, haviam sido ambos. O inferno era nocturno, quando Ulrike estava a trabalhar no Bar Toscana e ele ficava sozinho em casa: olhava para a televisão, bebia duas latas de cerveja e fazia festas ao gato Lori, que se habituara rapidamente à presença de Robert. Deixava-se agarrar, adormecia ao seu colo, brincava com ele com as unhas recolhidas e esfregava-se a ronronar nas suas pernas. Depois, ele falava-lhe e dizia-lhe como amava Ulrike e que se lhe partia o coração pensar que naquele momento ela estava atrás de um balcão de bar, e que todos lhe podiam ver os seios.

 

O céu começava quando Ulrike voltava para casa, quase sempre por volta das três da manhã, tomava duche e se metia na cama ao lado de Robert. Enrolava-se como uma criança, procurando calor e protecção, e ele metia-lhe o braço debaixo do pescoço, beijava-lhe os olhos fechados e voltava a adormecer envolto no perfume da sua pele.

 

Mas de manhã, quase sempre por volta das nove horas, abria-se o paraíso. Era quando Ulrike acordava, empurrava o edredão, passava as mãos pelo corpo de Robert e lhe dizia:

 

Olha para o espelho. Vê com os teus olhos o que nós fazemos...

 

Começava então a hora do êxtase, em que o céu caía sobre dois corpos que se procuravam. No espelho, parecia uma dança satânica, em que os membros eram afastados uns dos outros e se afundavam em movimentos frenéticos.

 

Nos intervalos destas «aulas», Ulrike fumava um cigarro, bebia sumo de laranja e por vezes uma Coca-Cola com vodca, ficava deitada de costas, de joelhos dobrados, e atirava o fumo para cima de Robert.

 

Acho que te poderia amar disse ela uma vez em voz baixa.

 

Ele apoiou-se nos cotovelos e beijou-lhe o peito.

 

«Poderia amar» não é «amar».

 

É sempre a mesma coisa, nada sabes de mim.

 

Não há mais nada, já sei o suficiente.

 

Sou uma pessoa má, Bob.

 

És uma criatura encantadora.

 

Só conheces o meu corpo, que é um objecto, se assim lhe podemos chamar. Uma pessoa é mais do que um corpo. Ulrike apagou o cigarro, deu um gole na Coca-Cola com vodka e sentou-se. Subitamente achou-se horrível ao ver o seu reflexo no espelho. Os cabelos empapados de suor e as marcas da falta de sono no rosto. «Meu Deus!», pensou. «Aos trinta e três anos estou uma velha! Nunca mais conseguirei ter um amante com dezanove anos!» Olha para mim! ordenou, a Robert.

 

Não faço outra coisa.

 

O que vês?

 

Uma deusa.

 

E não posso ser uma deusa má?

 

Para mim és sempre um raio de sol sem o qual não existe vida.

 

Que galanteio de mau gosto.

 

Existe algo de mais piroso do que um pôr do Sol quando pintado ou descrito? E, no entanto, é belo. Conheces os concertos para violino, de Max Bruch? Pirosos ao quadrado, dirão muitos, mas fechamos os olhos, deixamo-nos levar por aquela música doce e embaladora e dizemos que o homem que escreveu aqueles sons devia estar imensamente apaixonado.

 

Não conheço essa música. Ulrike levantou-se e evitou olhar-se ao espelho enquanto andava nua pelo quarto. Penteou-se, fez um rabo-de-cavalo e agarrou no seu roupão transparente. Queres ganhar dinheiro? perguntou subitamente. Muito dinheiro?

 

Quem não quer? Robert riu-se e dobrou os braços atrás do pescoço. Nasce do chão?

 

Na realidade, pode dizer-se que sim.

 

Dá-me a morada exacta replicou ele, divertido. Sempre fui um grande coleccionador de cogumelos... Também posso coleccionar dinheiro.

 

Estou a falar a sério, Robert. Ela sentou-se ao seu lado e tapou-lhe o sexo com o edredão. Era uma exigência silenciosa; acabara a hora do sexo. Aceitei outro trabalho além das minhas tarefas no bar.

 

Outro trabalho? Ele olhou-a estupefacto. Desde quando?

 

Há duas semanas.

 

E só agora me dizes? Também é à noite?

 

De momento, sim, mas pretendo dedicar-me só a ele. Assim, poderei deixar o bar.

 

Isso seria fabuloso.

 

Robert ergueu-se, puxou as pernas para fora da cama e sentou-se ao lado de Ulrike. Aquela novidade deixara-o muito contente. Longe do bar, daquele meio, da penumbra, de todos aqueles homens que não a respeitavam, das notas que lhe metiam no decote. Seria o primeiro passo para um futuro novo? Iria ela finalmente deixar a vida que levara até então?

 

Que trabalho é? perguntou Robert.

 

Arranjei uma representação...

 

Representação? Tens de te explicar melhor.

 

Estou em vias de montar uma organização para distribuir um artigo de marca. Primeiro em Munique e depois por toda a Baviera. Levantou-se, atirou o roupão para o chão e foi para a casa de banho. Robert seguiu-a para tornar a tomar duche, mas ela não quis, não lhe apetecia voltar a sentir os órgãos genitais dele no duche. É um artigo da moda muito cobiçado. Na América, na Holanda, em França e até em Berlim, deu muito lucro. Já é vendido em Munique, mas falta uma organização. Trata-se de vendas ocasionais, mas eu quero concentrá-las e dominar o mercado Foi para o duche, mas deixou a porta da cabina aberta Enquanto se virava e revirava debaixo dos jactos de água. continuou a falar.

 

Inicialmente, requererá muito esforço, Bob. É preciso lutar pelos clientes. Precisamos de ser duros e inteligentes e de saber boxe para que a concorrência não nos engula. Pensei que me poderias ajudar.

 

Nunca joguei boxe comentou ele, alegre. O artigo que vais distribuir deve ser muito bom. Roupas não são.

 

Ulrike saiu do duche, Robert agarrou na grande toalha de banho, envolveu-a e secou-a. Enquanto o fazia, as mãos fecharam-se sobre os seios de Ulrike, mas ela bateu-lhe nas mãos.

 

Deixa-te disso! protestou ela num tom duro, que Robert nunca ouvira e ao qual não estava habituado. Vamos falar a sério! Há muito dinheiro envolvido, para ti também.

 

Dinheiro que surge do chão? Então é um mineral valioso...

 

Por favor, pára com as parvoíces! É um medicamento.

 

Não pode ser verdade! Arranjaste uma representação de um laboratório farmacêutico?

 

Porquê o espanto? Não me digas que não tenho cere bro só porque não conheço Schumann ou o teu amado Chopin! Distribuo um preparado que tem imenso consumo

 

Livre de substâncias químicas...

 

Desses há centenas.

 

E para que serve?

 

Para evitar o cansaço e a falta de energia. Contra depressões e impotência. Aumenta o bem-estar geral.

 

Leste muito bem o folheto. Resumamos: é um excitante!

 

Disparate! É tão inofensivo como um comprimido de vitaminas. Quantos milhares de preparados desse género são engolidos todos os dias? Tudo tem vitaminas! Desde o sumo de frutas ao iogurte, dos espinafres ao marisco. Lê-se por todo o lado: rico em vitaminas. Eu vendo um remédio novo: alimentação do cérebro.

 

E porque pensas que posso estar interessado nisso?

 

Robert, subitamente muito sério, tirou a toalha que cobria o corpo de Ulrike e atirou-a para um canto da casa de banho. «Um psicofármaco», pensou, «Ulrike vende excitantes e as pessoas que os engolem acreditam na sua eficácia. O que já não se disse sobre o assunto! Não é o doente que fica são, mas sim o fabricante. Até esta história das vitaminas é vista de várias maneiras pelos cientistas. Agora Ulrike mete-se num negócio tão pouco claro.»

 

Tens de ajudar a arranjar distribuidores jovens respondeu ela à última pergunta de Robert.

 

Precisamente eu? Voltou a rir-se, mas algo constrangido. Devo dizer aos meus colegas: «Ouçam! Podem aumentar a vossa semanada se distribuírem comprimidos duvidosos às pessoas!»

 

Podes deixar de lado o «duvidosos». É um negócio real. Os medicamentos de venda livre vão dos hipnóticos às pomadas... Nós não oferecemos sono, pelo contrário, vendemos energia!

 

Os chamados comprimidos para acordar...

 

Não me interessa o nome que vocês, os cultos, lhe dão! Mas pensa: os teus colegas, os amigos, os grupos de escuteiros queixam-se todos de falta de dinheiro.

 

Certo. Entre nós só há dois filhos de milionários.

 

Isso pode mudar.

 

Ulrike começou a vestir-se. Em Munique estava muito calor, era um dia de Verão. Os donos das cervejarias esfregavam as mãos e as ruas estavam cheias de gente. Decidiu-se por uma blusa larga sem sutiã, umas cuecas estreitas e uma saia tão curta que se podia ver metade das suas coxas. Ainda se podia gabar de não ter uma ponta de celulite.

 

O que queres fazer hoje? perguntou ela.

 

Pensei que podíamos ir a Chiemsee, alugar um barco, baixar âncora no meio do mar e fazer amor ao sol

 

Já não consegues pensar em mais nada?

 

Quando estás à minha frente, não.

 

Então hoje ficarás a pensar sozinho. Vou sair sozinha. Tenho um encontro.

 

Vou contigo.

 

Não! disse ela de uma maneira tão dura que Robert se encolheu.

 

Porquê? perguntou ele, e a desconfiança patente nos seus olhos divertia Ulrike.

 

Vou encontrar-me com uns homens. Não há motivo para ciúmes, Bob, são negócios.

 

Os distribuidores de comprimidos?

 

Não, os grossistas. Contente?

 

Nem por isso.

 

Robert seguiu-a enquanto ela andava pelo quarto. Olhava para as suas nádegas a oscilar e controlou-se para não as agarrar. Os seus pensamentos giravam apenas em torno da posse do corpo quente de Ulrike para gozar com a penetração e com a explosão de todos os seus sentimentos. Era claro para Robert que aquela mulher o tinha vencido, que quebrara toda a sua força de vontade e que o seu mundo se reduzira àquele ventre vibrante. Por vezes, nas noites em que ficava sozinho com Lori, o gato, no colo, à frente da televisão à espera de Ulrike, Robert dizia a si próprio: «Tu és louco. Completamente louco... Mas é uma loucura maravilhosa, que enche a alma e da qual ninguém quer acordar. Talvez seja fatal, mas já não posso fugir dela.»

 

Não me agrada nada esta história dos comprimidos. protestou Robert. Ulrike, afasta-te disso.

 

Ela encolheu os ombros como resposta, pegou na carteira e saiu do apartamento. Mesmo quando ele lhe gritou «Pensa bem!», não reagiu. Fora a primeira contrariedade daqueles seis dias em que tinham vivido juntos e, quatro horas depois, quando Ulrike regressou, não dirigiu palavra a Robert, foi para a cozinha e preparou um almoço rápido hambúrgueres e batatas fritas. Só muito mais tarde, depois de folhear uma revista que comprara, voltou a falar com Robert.

 

Não confias em mim? perguntou ela.

 

Não tenho confiança nesse medicamento respondeu feliz por se quebrar aquele horrível silêncio. Mostra-me uma das tabletes.

 

Ulrike mostrou uma pequena hesitação.

 

Não tenho nenhuma, mas amanhã trago-te uma.

 

Quero experimentar uma dessas pílulas milagrosas

- nem reparou no olhar espantado de Ulrike, pois ria-se à gargalhada. Um comprimido para a inteligência? Veremos. Talvez me ajude com a matemática.

 

No nono e décimo dias, os últimos, Robert conseguira, depois de muito suplicar, que Ulrike o deixasse levá-la até ao bar e a fosse buscar por volta das três da manhã. Ele esperava em frente ao Toscana, observava as idas e vindas dos clientes, que algum tempo depois voltavam a sair acompanhados para partirem em táxis ou nos seus automóveis.

 

É claro que Bolo reparou que o carro de Ulrike estava estacionado em frente ao bar e que atrás do volante havia um homem. Passou a informação a Salvatore Brunelli, que apenas precisou dar uma olhadela pela portinhola para perceber o que se passava.

 

Conseguiste apanhar o pequeno, Ulla? perguntou ele, sublinhando as suas palavras com um sorriso odioso.

 

Isso não te diz respeito! respondeu Ulrike.

 

Se não for um erro. O rapaz é demasiado limpo. Na cama poderá ser um garanhão, mas no resto é um anjo sem asas. Será perigoso para todos nós, se ele souber de mais...

 

Ele nunca será perigoso. Ama-me.

 

Os superidiotas são assim! Ulla, não faças merda só porque ele fode bem.

 

Na noite seguinte, Franz von Gleichem mandou chamar Ulrike ao seu gabinete, mas, antes de ele começar a falar, ela enfrentou-o.

 

Já sei o que me vai dizer. Salvatore encheu-lhe os ouvidos. Sim, é verdade, tenho um amante quinze anos mais novo do que eu. Alguma coisa contra?

 

Você ama-o?

 

Digamos que gosto dele.

 

Von Gleichem voltou a retirar a garrafa de conhaque e os dois cálices da gaveta da secretária. Tinha por hábito beber durante uma conversa séria. Encheu os copos, empurrou um na direcção de Ulrike e sentou-se, mas ela continuou de pé.

 

Não estou interessado na sua vida privada começou ele, erguendo o copo desde que não interfira nos nossos interesses comuns. Pode até ter um harém, mas composto de cegos. Estamos entendidos?

 

Ulrike sentou-se, mas não tocou no conhaque. Em vez disso, sentiu uma enorme agressividade contra o homem que estava sentado à sua frente seguro, dominador e implacável, que emanava um estranho fluido.

 

Tem medo? perguntou ela com sarcasmo.

 

Não. Só lhe peço que seja cautelosa. Só receio por si, Ulrike. Se o rapaz souber alguma coisa sobre o nosso negócio e falar, estará arrumada.

 

Isso é claro.

 

É por isso que estamos aqui sentados, pois a honestidade entre nós deve ser a base da nossa ligação. O mundo em que vivemos já é suficientemente difícil, e será melhor não arranjarmos dificuldades suplementares.

 

Bob não constitui um risco.

 

Então chama-se Bob. Presumo que seja o diminutivo de Robert. E que mais?

 

Que mais, o quê?

 

O apelido.

 

É assim tão importante?

 

Eu decido sobre a importância das coisas.

 

Mais uma frase que Ulrike sentiu como se fosse uma bofetada.

 

Senhor Von Gleichem disse ela, disse-lhe, na nossa primeira conversa, que não permito que me dêem ordens e que me defendo de tudo o que ameace a minha liberdade, o que acontece neste momento.

 

Não é verdade, Ulrike sempre aquele tom amigável, aquela superioridade disfarçada de jovialidade. Muita coisa mudou e radicalmente. Faz parte de um negócio perigoso e será preciso protegê-lo bem. A liberdade tem limites quando se começa a tornar perigosa.

 

Bob não é um perigo teimou ela.

 

Não pode ter garantias disso.

 

Posso. Ela respirou fundo e atirou-lhe com a frase seguinte à cara. Está dependente de mim! Completamente dependente! Chega?

 

Von Gleichem bebeu o conhaque e estendeu ligeiramente os lábios, ficando com um ar tão irónico que Ulrike teve de se controlar para não lhe atirar com o conteúdo do copo à cara.

 

O velho jogo... comentou ele. Você arranja um jovem e torna-o seu escravo, mesmo que o espezinhe, será para ele um prazer. Mas os escravos também se podem libertar e virar-se contra a dona. Lembre-se de Espártaco que, em Roma, abalou um império... Se o seu escravo nos prejudicar, poderá ser a nossa perdição... inclinou-se para a frente e a voz transformou-se numa faca afiada. O nome completo! O nome completo!

 

Habicht, Robert Habicht. Ela assustara-se com aquela voz e sentiu o medo a invadi-la, um medo angustiante quando encarou Franz von Gleichem. Eram frios, de lobo, de predador. É filho de um conselheiro de Estado.

 

Enlouqueceu? A voz de Von Gleichem tornara-se contida, suave e perigosa. Não era homem de discussões, quando tomava grandes decisões quase sussurrava e quase sempre havia vítimas. Meteu na cama uma carga de explosivos!

 

Ao contrário. Bob vai ajudar-nos...

 

Ajudar? Será que estou com falhas de audição?

 

Irá arranjar jovens que nos possam ser úteis. Ele próprio será vendedor, fará tudo o que eu quiser. Eu... eu já lhe falei dos comprimidos...

 

Já lhe... A voz de Von Gleichem tornou-se ainda mais suave. A minha intuição diz-me que a deveria fazer desaparecer já.

 

Isso seria difícil... Bob está lá fora no carro, à minha espera.

 

Isso não é problema para Salvatore. Von Glei chem voltou a encher o copo de conhaque e abanou a cabeça como se não conseguisse abarcar tanta estupidez. Como explicou as coisas a Bob?

 

Contei-lhe que era um preparado para excitar as funções psíquicas e que melhorava o bem-estar geral. Um su plemento vitamínico.

 

Você tem realmente sentido de humor, Ulrike. Suplemento vitamínico. Fabuloso! Von Gleichem riu-se e a voz subiu de tom. E ele acredita?

 

Sim. Nunca mencionei o nome de ecstasy, só o farei quando Robert não puder passar sem ela. Esta noite dar-lhe-ei os primeiros comprimidos.

 

E se ele declinar?

 

Não há esse risco, é uma pessoa instável, um jovem muito sensível.

 

Estou surpreendido. Von Gleichem parecia mais calmo. Usou uma bela táctica, Ulrike. Primeiro, a dependência sexual e depois a do ecstasy... Sempre disse que você era um diabo com asas de anjo, e, de facto, não me enganei.

 

Nessa noite, Robert ingeriu um pequeno comprimido redondo azulado, que, dizia-se, provocava um rosto sorridente, sendo por isso que, no meio, lhe chamavam Smiley.

 

Tem uma forma esquisita observou Robert antes de o engolir com cerveja e parece uma cara a rir-se.

 

É porque o comprimido te faz sentir feliz e porque é tão inofensivo como esta cara. Verás que daqui a meia hora terei de te agarrar para que não trepes às árvores.

 

Ou te viole! disse ele sorrindo.

 

Terei cuidado. Ulrike despiu as roupas de trabalho e foi, como de costume, para o duche. A sua nudez era uma provocação. Sou mais resistente do que pensas.

 

Mais um, Peter. Vem até cá e iremos os dois. Theo Wortke, o especialista em homicídios, acenou ao agente que estava à porta, dizendo-lhe que se podia ir embora. Um morto na cave de uma casa perto da estação de Steinhausen.

 

Que tenho a ver com isso?

 

Peter Reiber lutava contra o cansaço. Na noite anterior, fizera parte de uma rusga, juntamente com a polícia de costumes, apreendera duzentos gramas de cocaína, detivera três passadores e um jovem que estava numa discoteca techno cuspira-lhe na cara, mas era proibido dar uma estalada ao tipo chamavam-lhe «atitude excessiva» e nesses casos a polícia nunca tinha razão, cuspir não magoa disse Reiber, na defensiva.

 

Foi cerveja a mais, é contigo.

 

Erro. Ecstasy...

 

Merda!

 

A vítima ainda tem dez comprimidos no bolso. Por isso, é tua.

 

A zona da casa, perto de uma estação de eléctricos, fora completamente isolada pela polícia, como se se tivesse descoberto uma bomba. À frente da casa estava um vagabundo, que tresandava a fezes e a urina, enrolado num cobertor. Olhou para os agentes da polícia e gritou imediatamente, pondo os braços no ar:

 

Não tenho nada a ver com o crime! Apenas encontrei o corpo! Sou um homem honesto...

 

Wortke e Reiber nem se preocuparam com o vagabundo, seguiram os polícias, que lhes indicavam o caminho. Na cave da casa, encostada à parede, com as pernas encolhidas, de olhos esbugalhados como se a sua última visão tivesse sido algo de incrivelmente belo ou assustador, estava uma rapariga. Usava uma parca vermelho-clara, camisola amarela e calças de ganga justas. Os longos cabelos louros cobriam-lhe, em parte, o rosto, só se vendo os olhos e a ponta do nariz. O polícia afastou os cabelos com a mão.

 

No máximo, dezassete anos! observou Reiber. Wortke acenou com a cabeça.

 

Tão bonita, tão jovem e tão estragada.

 

Reiber abanou a cabeça, mas nada disse, pois conhecia as expressões frias de Wortke. Junto à morta, estavam dez comprimidos azulados num saco de plástico, com um formato estranho: uma cabeça de lebre com as orelhas esticadas

 

Os comprimidos Playboy disse Reiber, apanhando o saco. Berlim é o local onde a distribuição é maior Origem muito provável: Polónia. Uma porcaria cheia de impurezas, cujos efeitos já não se conseguem controlar

 

E agora chegaram a Munique. Parabéns, Peter. Comprimidos polacos, um polaco encontrado morto no Westpark Ost, assassinado à maneira asiática, um morto devido aos comprimidos polacos... Quando pedes a reforma?

 

Entretanto tinham chegado o médico da polícia e o fotógrafo, que começaram o trabalho de rotina: fotografias do cadáver em todos os ângulos, grande plano do rosto com os olhos esbugalhados, uma primeira observação para determinar a hora da morte e a pergunta habitual de Wortke.

 

Hora aproximada, Ludwig? O médico da polícia olhou para cima. Estava ajoelhado junto ao cadáver.

 

Difícil de estabelecer, mas pelo menos há dez horas.

 

Isso significa que pode ter ocorrido por volta da meia-noite.

 

Mais ou menos. Causa: falha cardíaca, mas só teremos a certeza depois da autópsia. Posso-te dizer já: sobredosagem de ecstasy. Reiber virou-se quando a maca foi trazida para a cave.

 

Só Wortke olhava inalterado enquanto a rapariga foi lá posta e coberta com um lençol.

 

A pequena não morreu aqui declarou Wortke subitamente. O local da descoberta não é o mesmo do da morte. Foi transportada para aqui depois.

 

Bravo, embora seja óbvio desde o início. Reiber virou-se para o colega. Porque dizes isso, Theo?

 

Nós não somos tão parvos como vocês pensam. Primeiro: ninguém vem ingerir comprimidos de ecstasy para a cave de um edifício desabitado. Para quê uma cave? Tomam-nos numa discoteca ou vão para lá, a fim de encontrar outros drogados. Querem potencializar a sua vitalidade e os seus impulsos sexuais, não se querem sentir cansados, desejam sim, passar horas a fio a dançar ao som daquela música techno. Pretendem, como dizem os jovens, estar nessa! A sua necessidade de movimento é levada a um extremo... Quem vem sozinho para uma cave?

 

Fiquei sem resposta... admitiu Reiber.

 

Finalmente! Wortke sorriu. Depois da tua primeira informação sobre o ecstasy no contexto do caso de homicídio no Westpark Ost, li bastante sobre drogas, pois compreendi que muito em breve teria mais cadáveres sobre a mesa e não queria passar por parvo. O resumo de hoje: a rapariga foi trazida para aqui, já morta, de uma discoteca ou festa particular. Não há, por isso, muita gente que saiba do caso, nem testemunhas.

 

Empiricamente sim. Pessoas que saibam dos factos ou testemunhas têm sempre um confidente a quem contam as suas experiências. E, por sua vez, este tem outro confidente... Assim, a história vai passando de boca em boca até chegar à tona. Já aconteceu milhares de vezes: o «comissário Mexericos».

 

Reiber olhou para os homens que transportavam a maca pelas estreitas escadas e replicou:

 

Só que neste círculo, meu caro Theo, tudo é diferente. Estes users, tal como são chamados, são um isco colorido que se distinguem entre si, mas que ficam calados. Podes pescar um, mas ele mantém-se mudo. Também não têm complexos de culpa, pois, para eles, não é crime tomar estes comprimidos, inserem-se num outro mundo e não compreendem o facto de os querermos proteger. Os miúdos techno vivem num universo próprio criado por eles, por isso nem sequer têm pena dos que morrem. Na vida quotidiana isso acontece a muita gente por outras causas que não o ecstasy e ninguém chama a polícia. Ou já alguém veio ter contigo quando um jovem se suicida e deixa uma carta: «O meu assassino é o meu patrão, Johannes Schulze. Foi ele quem me matou.» Prendes o fulano por homicídio?

 

Que pergunta idiota rosnou Wortke.

 

Para entender os consumidores precisamos mudar a maneira de pensar. Somos demasiado realistas e é isso mesmo que os techno não querem, desejam fugir da realidade e ficar durante horas num mundo substituto e longínquo. Conseguem-no com o ecstasy tal como, nos anos sessenta, com o LSD. Não esperes que surja qualquer informação acrescentou Reiber.

 

Vou trabalhar este caso à maneira clássica retorquiu Wortke, e a frase soou como uma jura. Olhou para o local onde a rapariga estivera. Casa dos pais, educação, formação, círculo de amigos, hobbies, namorados, relações suspeitas... Garanto-te uma coisa: encontrarei o fim deste fio em qualquer lado e puxá-lo-ei. Ainda consigo pensar com lógica e os technos não, rebentam com o cérebro.

 

Quando voltaram para cima, todos os carros da polícia já tinham partido menos os de Reiber e de Wortke. Um agente da esquadra deste último entregou-lhe a bolsa da rapariga, que fora encontrada junto do corpo com o conteúdo habitual: dois batons, uma caixa de pó-de-arroz, um lenço, um porta-chaves, um bilhete de cinema antigo, um pente sem dois dentes, uma escova de cabelo redonda, um porta-moedas com quarenta e dois marcos, uma carteira transparente com as fotografias do pai e da mãe e uma caixa de preservativos.

 

Uma coisa já sabemos comentou Wortke cinicamente, folheando os papéis que estavam numa bolsa à parte. Já não era virgem. Como se chamava? Lisa Brunnmeier, nome tipicamente bávaro, idade, dezassete anos, tal como tinhas estimado. Residência em Menzing... É muito longe daqui e da cave.

 

Wortke voltou a meter tudo na bolsa e respirou fundo.

 

Agora tenho de fazer uma coisa de que tu te safas sempre: visitar os pais e dar-lhes a notícia. Fazes ideia de como esses minutos são tremendos? Estás perante duas pessoas que não sabem de nada e dizes: «Sou Theo Wortke, do Departamento de Homicídios da Polícia de Munique», e, depois de ver o espanto nos seus olhos, acenas com a cabeça e continuas: «Lamento informá-los, mas a vossa filha Lisa morreu.» Que mais podes dizer? Acredita que são os piores minutos da minha profissão. É por isso que odeio todos os criminosos, odeio-os profundamente! Olhou para Reiber como se lhe tivessem dado um tiro. Vens comigo?

 

Se te puder ajudar, Theo.

 

Poderás explicar aos pais da rapariga o que é o ecstasy, consegues fazê-lo melhor do que eu. Talvez eles nos possam dar algumas indicações sobre os amigos, as discotecas e o que observaram sem saber do que se tratava.

 

Está bem, vou contigo.

 

Obrigado. Às vezes és mesmo um amigo, mas só às vezes.

 

Voltara a ser o Wortke que Reiber conhecia e de quem gostava muito.

 

A embriaguez, aquela embriaguez enlouquecedora, manteve-se quase até às dez horas. Depois, Robert caiu na cama, colocou as mãos sobre o rosto e afundou-se numa imbecilidade total.

 

O que vivera desde as três horas da manhã até ao momento, aquelas sete horas de uma vida impulsionada a motor, ficaram na sua mente como uma espécie de êxtase de felicidade.

 

Primeiro, fora a sensação de falta de peso, que fazia com que Robert andasse pelo apartamento de Ulrike como se tivesse asas. Ligara o gira-discos, pusera um dos discos de rock e dançara com ela de uma maneira perfeitamente selvagem e sem o menor sinal de cansaço. Pusera disco atrás de disco e Ulrike apagara as luzes e acendera três velas, que irradiavam uma luz violeta-clara.

 

Subitamente, outras sensações avassalaram Robert: uma vontade, um ímpeto, um impulso de se lançar sobre Ulrike. Arrancou-lhe as cuecas, atirou-a para o chão e caiu sobre ela com tanta força, que ela gritou e começou a bater-lhe com os punhos no peito.

 

Quando a largou, se levantou e exigiu que ela dançasse outra vez com ele, Ulrike tinha o corpo vermelho das suas dentadas, e começou até a recear que Robert a pudesse matar, pelo que se atirou a ele batendo-lhe com as mãos e os pés, fazendo-o cair em si e romper em lágrimas.

 

Contudo, essa fase foi curta. Saltou novamente, atirou-se para cima da cadeira, esticou as pernas e experimentou uma incrível sensação de felicidade, que o fez desejar não regressar a outro mundo, até que se seguiu uma outra, horrível o coração batia-lhe desordenadamente, os membros pareciam pesados como chumbo, que o fez cair numa tremenda depressão.

 

Assim, Robert estava deitado na cama, com as mãos sobre o rosto, e só se levantou quando Ulrike lhe colocou um pano húmido e frio sobre o peito. Levantou a cabeça, olhou-a e viu as numerosas marcas de dentes na sua pele nua

 

Perdoa-me... gaguejou ele esticando os braços na sua direcção. Por favor, perdoa-me. Eu... eu não me consegui controlar...

 

Ela sentou-se a seu lado, esfregou-lhe o peito com o pano molhado e limpou-lhe o suor do rosto. Que bem que lhe sabia! Os batimentos cardíacos estavam a acalmar, a respiração apaziguava-se e a sensação de peso ia desaparecendo Até a clareza de pensamento se foi lentamente apossando dele, mas ainda estava preso à passada sensação de felicidade. Sentiu-se novamente forte e ouvia todos os ruídos como que amplificados: o ranger do colchão, por exemplo, quando Ulrike se mexia, parecia um grito.

 

O que me fizeste? perguntou Robert, libertando-se das suas mãos. Nunca me senti tão solto, tão feliz nem tão forte.

 

Estivemos sete horas ininterruptamente a dançar e a ter relações. Ela levantou-se e colocou o pano húmido na mesa-de-cabeceira.

 

Sete horas? Mas isso é uma loucura...

 

Sim, foi uma loucura.

 

Ainda é uma loucura. Que horas são?

 

Dez e meia...

 

Tenho de ir para casa. O comboio de Dover para Paris e Munique já chegou há muito. A... viagem a Inglaterra terminou. Preciso de me ir embora, Ulrike, mas não quero. Quero é ficar contigo! Não quero voltar para casa, nunca mais!

 

Tens de voltar! contrariou-o ela carinhosamente.

- Não podes ficar mais tempo aqui.

 

Virei todos os dias...

 

Foi para o duche, vestiu-se e fez a mochila. Engoliu apressadamente uma torrada com presunto e bebeu uma chávena de café.

 

Queres que te leve a algum lado? perguntou ela.

 

Não, tomo um táxi. Quando já estava à porta voltou para trás e colocou-lhe as mãos no rosto. Eu amo-te... E agora sei que tu me amas, estes dez dias foram os mais belos da minha vida.

 

És tão jovem... Haverá ainda muitos mais como estes.

 

Contigo, só contigo.

 

Quem pode saber isso? Ela empurrou-o para a porta e deu-lhe um beijo fugaz. Usava novamente o roupão transparente e o seu corpo transformava-se em algo de misterioso e excitante. Agora tens de te ir embora...

 

Volto amanhã de manhã.

 

Não, vais para a escola.

 

Digo que estou doente e até é verdade. Para mim, és uma febre.

 

Pôs a mochila às costas e continuou a hesitar em abandonar o apartamento. Só quando Ulrike abriu a porta e o empurrou para as escadas é que ele se pôs em movimento, deu três passos, virou-se e quis voltar para trás. Ela esticou o braço, apontou para as escadas e disse energicamente:

 

Já para baixo!

 

Tu pareces o arcanjo Gabriel à porta do Paraíso.

 

E não te vou deixar entrar.

 

Ele acenou com a cabeça, desceu as escadas e abandonou o prédio. Uma hora mais tarde, a mãe abraçava-o, muito excitada e de lágrimas nos olhos.

 

Finalmente! gritou. Finalmente! Meu filho, onde estiveste? Há quatro horas que esperamos por ti, o papá já telefonou algumas vezes, e também para a estação, e disseram-lhe que o comboio de Paris já tinha chegado há muito. Onde estiveste este tempo todo?

 

As despedidas prolongaram-se mamã. Já sabes o que acontece entre colegas.

 

E nem sequer escreveste um postal. Nem um beijo

 

Oh, mamã! Foi para a sala e atirou-se para o sofá. Não tivemos tempo para isso. Visitámos muitas coisas.

 

Foi bonito?

 

Maravilhoso, foram dias inesquecíveis.

 

Pareces muito cansado, Robert.

 

Ainda te admiras? Tentou rir-se, mas estava demasiado agitado. Dez dias a andar por Inglaterra é cansativo.

 

Então descansa. O instinto maternal de Gerda Habicht começou a fluir. Vai deitar-te, Robert. Depois levo-te uma caneca de cacau e adormeces. Vou telefonar ao papá para lhe dizer que chegaste bem. Também ficou preocupado. Mas podias ter escrito um postal, queríamos saber como é Inglaterra.

 

À noite, o diálogo repetiu-se, Hubert Habicht também reclamou a falta de um postal

 

Não foi possível repetiu Robert. Todos os dias mudávamos de sítio. Levantar e desmontar o acampamento e ainda as visitas, que duravam todo o dia. Vimos muitas coisas.

 

Isso é muito bom. Habicht olhava para o filho com um ar bem-disposto. Uma viagem de estudo é um investimento para toda a vida. Decerto que te foi útil.

 

Sim, papá. Robert olhava para o pai, mas as saudades que tinha de Ulrike eram visíveis. Aprendi muito... muito mesmo. Para toda a vida...

 

Dizer a uns pais, que não fazem a menor ideia do sucedido, que a filha está morta devia ser trabalho de freiras, até porque a família Brunnmeier continuava sem saber o que se passava quando, pela manhã, descobriu que a filha não estava na cama. Elfriede, a mãe, queria acordá-la e fazia-o sempre do mesmo modo: «Lisa, meu amor, levanta-te!», e Lisa respondia sempre: «Sim, mamã. Vou já.»

 

Mas daquela vez não houve resposta e a cama estava feita. Lisa não voltara para casa.

 

Por trás disto está algum rapaz! gritou Josef Brunnmeier imediatamente quando Elfriede lhe deu a notícia. Se apanho o tipo, ninguém o reconhecerá. A minha filha! Ficar fora de casa! A culpa é da educação que lhe deste! A rapariga precisa de mais liberdade, já tem dezassete anos! Meu Deus, uma discoteca não faz mal a ninguém, todos lá vão... Será que se tornou numa prostituta? Ficar assim com um tipo qualquer! Deixa-a chegar a casa, vai ver o que lhe acontece!

 

E depois apareceram à porta dois inspectores da Polícia Judiciária, que se identificaram e disseram:

 

Temos más notícias para vos dar. A vossa filha está morta.

 

Os Brunnmeier caíram cada um na sua cadeira e olhavam fixamente para Reiber e Wortke, como se eles tivessem falado numa língua estrangeira. A primeira a tomar consciência das coisas foi Elfriede, que tapou o rosto com as mãos e começou a chorar, enquanto Josef Brunnmeier, abanando a cabeça, o único movimento que conseguia fazer, ficou sentado, como que paralisado. Morta? perguntou ele. Era uma voz totalmente monocórdica. Morta? Como? Onde e como? Mas não é possível. Homicídio? Mas isso...

 

Não foi homicídio, senhor Brunnmeier. Wortke empurrou Reiber: «Agora abre tu a boca! Explica-lhes», queria aquilo dizer. Ela suicidou-se.

Lisa? Impossível.

 

Brunnmeier olhava fixamente para Reiber e Wortke. Quem consegue entender que uma rapariga alegre se possa suicidar, sobretudo o pai? Algo semelhante à esperança surgiu nos olhos de Brunnmeier.

 

Será... será realmente Lisa? Não há possibilidade de erro? Não será engano? insistiu.

 

A sua filha trazia os documentos com ela Reiber deu um passo em frente e a fotografia do bilhete de identidade corresponde ao rosto da morta. Além disso, teremos de vos pedir que a identifiquem. Não é preciso ser já... -Olhou Elfriede Brunnmeier, imóvel na cadeira. Quando estiverem um pouco mais calmos. Deveria tratar da sua esposa, senhor Brunnmeier. Onde posso ir buscar um copo de água?

 

Lisa...

 

Brunnmeier voltou a abanar a cabeça, ainda não estava em si. Wortke saiu da sala e encontrou a cozinha, e voltou com um copo de água gelada. Estendeu-o a Elfriede, mas ela abanou a cabeça e continuou a chorar copiosamente,

 

Lisa não tinha motivos... insistiu o infeliz pai.

 

Foi um acidente, senhor Brunnmeier.

 

Acidente? Então não foi suicídio?

 

As duas coisas. Ela matou-se, pois provocou o acidente.

 

Onde?

 

Ainda não sabemos.

 

Atropelada? Brunnmeier saltou da cadeira. Devem saber onde foi a minha filha encontrada! Brunnmeier ainda demorou algum tempo a compreender. o que acontecera com Lisa. Continuava a objectar: Impossível, não pode ser. Nós teríamos reparado. Elise não faz essas coisas! Contudo, quando finalmente entendeu que a filha fora vítima de uma overdose, ficou estupefacto e imóvel, dizendo com uma sobriedade terrível: Meu Deus! Nós não a conhecíamos, preocupámo-nos muito pouco com ela, a culpa também é nossa. E então começou também a chorar. As informações que Reiber e Wortke obtiveram nessa tarde relatavam a evolução de uma jovem normal, igual aj muitas outras: um lar organizado, o pai era mestre-de-obras, a mãe fora, antes do casamento, vendedora num supermercado. Lisa tivera as doenças infantis habituais, como sarampo e varicela, não sofrera sobrecargas psicológicas, frequentara a escola pública, tirara um curso de cabeleireira e, depois de um ano de aprendizagem, empregara-se. Gostava muito de música rock, vestia-se discretamente mas com alguma sensualidade, não tinha amigos fixos, gostava de ir a discotecas, adorava dançar, não tomava bebidas alcoólicas, apenas Coca-Cola ou limonada, gostava de comer gelados, kebab ou Big Macs, tinha um grande círculo de amigos e, como cabeleireira, conhecia imensas pessoas. Uma vida perfeitamente normal subitamente desfeita pelo ecstasy.

 

Depois da difícil ida ao Instituto de Medicina Legal, onde os Brunnmeier identificaram a filha e Elfriede desmaiou junto do cadáver, Wortke e Reiber reuniram-se na Décima Terceira Esquadra e voltaram a ler os relatórios.

 

Aqui temos nós o famoso palheiro onde é preciso procurar a agulha disse Wortke. Um terreno muito vasto. Quem lhe entregou os comprimidos? Peter, isto vai ser outro puzzle. Terás de andar por aí às voltas. Centenas de interrogatórios...

 

Ou poucos, se tivermos sorte. Reiber leu novamente o relatório. Ela tomou os comprimidos num lugar qualquer e morreu de falha cardíaca, mas não se encontrava sozinha, estava acompanhada por, pelo menos, uma pessoa que a tirou do lugar onde morreu e a deixou naquela cave. Isto é uma pista: qual é o cidadão normal que conhece um edifício em ruínas junto à estação de Steinhausen? Estas casas são normalmente conhecidas dos marginais. É aqui que se escondem, que a droga é distribuída e também há festas dos amantes de música techno, a salvo da polícia. É, portanto, lógico que Lisa Brunnmeier se movimentava nestes círculos sem que ninguém soubesse. Sempre foi boa filha, mas quando escurecia despia o vestido de boa cidadã, sobretudo aos sábados e domingos. Hoje é segunda-feira, deve ter sido uma longa madrugada, pois os cabeleireiros fecham às segundas. Agora transformou-se numa noite eterna.

 

Esclarecedor. Wortke agarrou numa garrafa de cerveja que estava sobre a secretária de Reiber, pô-la na boca e bebeu um grande trago. Era sempre assim: os cadáveres faziam-lhe sede. Então auscultemos o meio a partir de amanhã. E se foi uma festa particular?

 

Darei a volta ao seu círculo de amigos, por exclusão de partes. Reiber bateu com o punho na secretária.

Descobrirei de onde vem o ecstasy que entra em Munique.

 

Lisa é a primeira morte por sobredosagem e deverá ser a última. Não quero ter parecenças com Amesterdão em Munique!

 

Uma palavra poderosa, Peter. Wortke levantou-se, foi até à janela e olhou para a rua. Em frente ficava a estação ferroviária de Munique. Com alguma sorte, descobrirás quem removeu o corpo e talvez o traficante local da droga, mas nunca chegarás aos seus produtores e distribuidores. Não tenhas ilusões, tu próprio disseste que este problema está para além das nossas fronteiras. Raios, esta impotência põe-me doente...

 

Na noite de segunda para terça-feira, a polícia apareceu nas discotecas e clubes techno mais conhecidos. Interrogaram centenas de pessoas, sobretudo jovens, apreenderam navalhas de ponta e mola, tacos de basebol, duas pistolas, dez gramas de cocaína, seis gramas de heroína pura, um quilo de haxixe, doze papéis mata-borrão ensopados em LSD e trezentos e quarenta comprimidos de ecstasy do tipo Snuley, Playboy e Seppi. Junto dos technos apanharam um preparado quase puro, sem cortes, que era também uma das drogas mais caras do mercado: setenta marcos, por embalagem, o que era quase inacessível para um drogado. Um Smiley podia adquirir-se por quarenta marcos, e um comprimido sem nome, o mais impuro de todos, já se vendia por dez marcos. Em Amesterdão, a Meca da droga europeia, compram-se no mercado negro cem comprimidos por setenta cêntimos! Que negócio!

 

Por muito bem sucedidas que tenham sido as rusgas, para Reiber não chegava. As vinte e quatro prisões efectuadas não lhe trouxeram quaisquer informações. Ninguém conhecera Lisa Brunnmeier, era completamente desconhecida nas discotecas techno, as fotografias da morta não foram identificadas e olhadas com um encolher de ombros: «Nunca te vi.» Reinava um silêncio total no que dizia respeito às perguntas sobre a origem da droga. Só um dos presos contou o seguinte:

 

Há um tipo que vai de discoteca em discoteca e traz consigo uma caixa de madeira. Quando a abre, pode procurar-se tudo o que se quiser. Desde chutos a folhas, há lá de tudo. Circula com aquela caixa como se andasse a vender flores.

 

Reiber deixou que o conduzissem à prisão sem lhe fazer mais perguntas.

 

Está a mentir disse, resignado. E amanhã o juiz liberta-o. O próximo.

 

Tal como Reiber previra, toda aquela acção policial fora um tiro na água, no que dizia respeito a Lisa Brunnmeier. Até os amigos mais íntimos, que foram interrogados no dia seguinte e cujos nomes Reiber obtivera dos pais de Lisa, apenas sabiam que a morta gostava muito de dançar, ria muito, estava sempre contente. Drogas? Nunca! Ecstasy? Não faziam ideia. Qual a discoteca que frequentava com aior assiduidade? Três. Estavam limpos. Era como se ReiBer estivesse a bater contra uma parede. Não esperava outra coisa disse ele a Wortke uando se voltaram a encontrar para troca de informações. Investigámos todas as discotecas e clubes conhecidos, mas quantos desconhecidos haverá em Munique? Não sabemos. Tenho de voltar ao meu plano original: precisamos de formadores jovens do meio techno. Oteu pedido nunca será aceite! Reiber fez um gesto com a mão.

 

Então falo-ei sem autorização!

 

Que idade tens, Peter?

 

Trinta e três.

 

Realmente és demasiado jovem para passar o resto da tua vida como jardineiro. Se isso se sabe, serás imediatamente demitido.

E se tiver êxito?

Ficará registado, mas, mesmo assim, lixas-te. O sucesso não anula o facto de teres ultrapassado as tuas competências! Nós somos funcionários públicos, rapaz! Wortke tirou duas folhas de papel do bolso das calças e colocou-as sobre a secretária de Reiber. O que tenho aqui é muito actual, o relatório da autópsia. Tirei alguns apontamentos, o texto oficial vem amanhã. E agora ouve: a boa da Lisa teve relações sexuais antes de morrer e, apesar de ter ttrês preservativos na mala, desistiu deles. Porquê?

 

Porque já estava bastante passada e não se conseguia controlar.

 

Exacto. A morte deveu-se a paralisia pulmonar atribuída a uma sobredose de MDMA, portanto metilendioxime tanfetamina, misturada com um MDEA alucinogénico e alguma heroína.

 

Que mistura diabólica! exclamou Reiber tirando as folhas da mão de Wortke. Quem produz uma coisa destas é um assassino. |

 

Sim, de acordo com o código penal e com as leis referentes à produção de fármacos. Wortke bateu com o dedo na folha de papel que Reiber tinha na mão. O mais interessante é a relação sexual. Não pode ter sido numa discoteca pública.

 

Porque não? Há cantos escuros, traseiras, etc. Tudo é possível. A grande questão é: Lisa Brunnmeier sobreviveu à cópula ou teve o colapso cardíaco na sequência da grande excitação juntamente com o ecstasy? Se for esse o caso, o parceiro não a pôde ter levado para outro lado sem se fazer notar. Por isso, penso...

 

Ela morreu numa festa particular. Talvez até estivesse sozinha com o companheiro num apartamento, ou quarto, ou num desses esconderijos no subsolo.

 

Que ninguém conhece. Há muitas possibilidades,

 

Merda!

 

Podes dizer mais alto. Se só havia um homem presente, se não houver mais testemunhas da morte de Lisa, ficamos nas lonas. Não acredito! Reiber atirou com os apontamentos de Wortke para cima da mesa. Encontrá-la-emos no círculo de Lisa. Vamos interrogar todos novamente e uma terceira vez e uma quarta, se necessário, até uma, mais cedo ou mais tarde, se descair. Só precisamos de ter paciência e furar, furar, furar. Depois de amanhã é o enterro de Lisa. O Ministério Público libertou o corpo.

 

Eu sei.

 

Vais ao funeral?

- Sim. E tu?

 

Vou ficar um pouco de lado a observar. Já vi muitas vezes o assassino deitar flores para a sepultura.

 

O teu criminoso é de outro tipo! Neste caso só arrastou e escondeu um cadáver. Não matou. Só sentiu medo, pânico e nojo. Os verdadeiros assassinos estão noutro sítio e quero encontrá-los.

 

Reiber amachucou as notas do relatório da autópsia, atirou-as para o cesto de papéis e a força com que os arremessou exprimia uma raiva imensa.

 

Temos novamente de conversar disse Von Gleichem, que tinha à frente o seu obrigatório cálice de conhaque. Mandara chamar Ulrike e falava com uma voz contida, pois poderia ser uma conversa perigosa.

 

Pensei muito nesse Robert Habicht e também pedi informações. O pai é um alto funcionário, mas tipicamente de cadeira, com direito a reforma. Casa própria, sem empréstimos. O filho Robert, o seu amante, um rapaz excelente, finalista do liceu, toca muito bem piano, pertence a um grupo de escuteiros, só ambiciona ser músico e é bem acompanhado pelos pais, sendo, como se diz hoje em dia, um menino da mamã. E é precisamente com um tipo assim que você vai para a cama, Ulrike. É perverso!

 

Não está a ver bem as coisas, senhor Von Gleichem.

- Ulrike riu-se-lhe na cara. «O que soubeste de Robert não passara de aparências... Eu conheço-o melhor, despertei o verdadeiro Robert Habicht.» Todas as pessoas podem evoluir.

 

E você tem os meios para o fazer... Acho que me julgou capaz disso. Eu acho-a capaz de tudo. De cada céu e de cada inferno. No entanto, para mim o rapaz é demasiado sensível e frágil.

 

Isso já passou. Ele mudou.

 

Em quê?

 

Tornou-se um homem que só tem o nome, Robert Habicht, em comum com o antigo.

 

Deveria ter sido modista. O cinismo de Von Gleichem não atingiu Ulrike, pois já estava habituada, as suas ironias já não faziam efeito. Então como está o rapaz agora?

 

Vai construir o «negócio» em conjunto comigo.

 

Ena! Mas isso ainda precisa de ser discutido.

 

Tomou um comprimido de ecstasy e nunca mais se libertará.

 

Tem a certeza?

 

Deixará de ter vontade própria. Só fará o que eu lhe mandar. «Vivo em ti», disse-me ele uma vez. «Sem ti sinto-me vazio.»

 

O rapaz também lê romances cor-de-rosa? Von Gleichem sorriu. Ulrike, parece-me que você é que está mesmo apaixonada por ele e se tornou dependente. Mas um dia ele acordará desse estado. O que acontecerá então?

 

Não penso nisso.

 

Mas eu penso! Um negócio de milhões depende desse acordar, assim como a nossa liberdade! Ulrike, você foi muito pouco prudente! No nosso ramo pensa-se com a cabeça e não com os genitais. Passei ontem todo o dia a perguntar-me: o que vamos fazer com esse Robert Habicht

 

Trabalhará para nós.

 

Aposta a sua cabeça nisso, Ulrike?

 

Não tenho medo de o perder.

 

Ela olhou-o nos olhos em ar de desafio. «Que sabes de Robert?», pensou. «Já saiu da infância e entrou num mundo que só eu lhe posso oferecer. Vamos organizar os dois este negócio e dentro de um ou dois anos gozar a nossa riqueza em Maiorca ou na ilha da Madeira. Sim, amo-o... mas também é um instrumento que me é necessário para circular pelas ruas onde está o dinheiro. Mais tarde... Não pensemos no futuro. Robert também amará as rugas que eu terei um dia.»

 

Não se esqueça de que vivemos perigosamente. Von Gleichem juntou as mãos, parecia rezar. Ontem à noite houve um caso mortal. Uma sobredose de ecstasy da nossa empresa. Aqueles malditos polacos entregaram comprimidos impuros, com mistura. Só agora estou a dar por isso. Temos de os trocar imediatamente. São os Playboy, é preciso recolher tudo.

 

Junto de quem? Conhece as centenas de compradores? A maior parte dos comprimidos já devem ter sido vendidos há muito tempo.

 

E se houver mais mortes? Nem todos poderão ser despachados de maneira tão pouco suspeita!

 

Nós não somos responsáveis pelos erros do utilizador. Também se pode ficar doente com grandes quantidades de gelado ou se se beber em excesso.

 

Mas no nosso caso poderemos ter a polícia à perna.

 

Onde é que a polícia pode pegar?

 

Tem alguns profissionais competentes, embora muitos sejam de uma ingenuidade incrível, nem se lembram de que uma pessoa que morre de sobredosagem tem uma série de conhecidos e de que um deles poderá descair-se.

 

Desde que Von Gleichem entrara em cena, tomara todas as medidas preventivas para não ter dificuldades com a polícia, mas o maior risco eram as testemunhas. Se bem que o silêncio fosse a melhor defesa, os viciados têm um carácter muito frágil e o melhor método para furar esse muro de silêncio era a privação. Não uma privação clinicamente orientada, mas a brutal, sem droga do dia para a noite. E quando há tortura, além de tremores e cãibras, o coração acelera, os olhos parecem querer sair das órbitas e a língua parece couro. Então aparece alguém com um comprimido e zaz: «Dou-to, se disseres onde o adquiriste.» Depois grita-se o nome, o local, tudo sai cá para fora para conseguir apagar o fogo interior.

 

«Um dia desses poderá chegar», pensara Von Gleichem. Se bem que a polícia não possa utilizar esses métodos, pois vão contra os direitos humanos, é possível que haja pessoas interessadas e sem escrúpulos que se imiscuam no mercado com estes métodos para afastar a concorrência e entregá-la às autoridades, podendo mais tarde tornarem-se milionárias com o negócio. Um viciado poderá constituir um perigo de morte...»

 

Von Gleichem olhou para Ulrike com uns olhos assustadoramente frios, um rosto que parecia uma máscara. «Em que estará ela a pensar? Que andará por aquela cabeça. perguntou a si próprio e os olhos de um morto não podian ser mais inexpressivos. «Também poderá ser um incómodo devido àquela paixão. Uma filha de Satanás com corpo de ninfa.»

 

Vamos recolher os comprimidos Playboy informou. Mudamos para Smiley, Barney e Chanel. Depois de amanhã os senhores da Polónia voltam a Munique, mas vou anular os contratos.

 

Se o deixarem.

 

A frase de Ulrike estava certa. Naquele negócio não se podia simplesmente dizer: acabou, fim, metam a vossa porcaria no cu! Tal atitude provoca resistência, o que, naquele ramo, terminava quase sempre num caixão. Contudo, von Gleichem já contava com uma luta sem tréguas.

 

Tomei precauções revelou ele, reclinando-se na cadeira. Os tipos vão ficar muito mansos.

 

Isso seria novidade.

 

Novidade para si serão as medidas que tomei. Há surpresas que nos deixam espantados, caso contrário não seriam surpresas. Passou a mão direita pelo ar, como se quisesse esquecer o assunto. Voltemos a esse Robert Habicht. Partamos do princípio de que ele está realmente apai xonado por si, que faz tudo o que você exige, que se tornará dependente do ecstasy e que perde a razão na sua cama. Como reagiria ele se vir uma rapariga que comprou a droga a morrer à sua frente? Poderá engolir isso, apesar de toda a dependência? Pensará sempre: «Vendi-lhe a morte», e este remorso crescerá nele até explodir. Será preciso explicar-lhe os efeitos secundários.

 

Isso é completamente idiota! exclamou Ulrike com dureza.

 

Como, idiota? Von Gleichem abanou a cabeça. É lógico. Dado o carácter de Habicht é até muito realista

 

Se tornar a haver mortos, não terá conhecimento. Ele entrega os comprimidos aos dealers, será, comigo, uma espécie de grossista, não entra em contacto com os consumidores, nunca sendo confrontado com a morte.

 

Mas ouvirá falar e saberá que foi ele quem os vendeu.

 

Um fabricante de aguardente enforca-se por alguém ter bebido até à morte?

 

Estamos a falar em círculos, Ulrike. Von Gleichem percebeu que não fazia sentido discutir sobre Robert Habicht. Teria de encontrar outro caminho para acabar com aquela ligação. O rapaz poderá tornar-se num excelente garanhão, devido à sua experiência na arte de amar, ser forte e incansável devido ao ecstasy... No entanto, não passa de um fraco em quem não confio. Pode ser fenomenal na interpretação de Chopin, mas não é a pessoa apropriada para o nosso negócio. E fico com a minha opinião mesmo que você discorde.

 

Ulrike adormeceu tarde, e, pouco antes das oito da manhã, a campainha tocou. Ela assustou-se, olhou para o despertador na mesa-de-cabeceira e virou-se para o outro lado. «Às dez para as oito ninguém tem de me tocar à campainha», pensou ela, «pelo menos até às onze não estou para ninguém. Deixem-me dormir. Seja quem for, vá-se embora!»

 

Mas a campainha voltou a ouvir-se sem interrupção, alguém devia ter o dedo continuamente sobre o botão, o que fez Ulrike sentar-se e cerrar os punhos.

 

Vai-te embora! gritou ela. Claro que o maçador, que estava lá em baixo, à porta do prédio, não ouviu. Quero dormir, filho da mãe!

 

Como se o maçador a tivesse ouvido, interrompeu aquele ruído contínuo e logo o retomou, mas de maneira rítmica. Três vezes curto, três vezes longo, três vezes curto, três vezes longo, e assim continuou. Era enervante.

 

Ulrike saltou da cama, correu para a porta, premiu o trinco eléctrico, vestiu o roupão e colocou a corrente de segurança. Depois abriu uma fresta da porta.

 

Na escada viu um vulto, que parou a meio com falta de ar, e abriu a porta.

 

Meu idiota! ralhou, zangada. Que queres daqui? Sabes muito bem que a esta hora estou a dormir

 

Exactamente por isso. Robert Habicht sorriu-lhe e aquele sorriso jovial quebrou-lhe as resistências. Quero es tar ao pé de ti quando dormes.

 

Ela afastou-se.

 

Entra! disse ela. Porque não foste à escola

 

Telefonei e disse que estava doente durante uma semana. Temos mais uma semana para nós, todas as manhãs das oito à uma da tarde.

 

É a essa hora que posso dormir.

 

É isso que queres?

 

Fez escorregar o roupão pelos ombros dela, inclinou-se e beijou-lhe os seios. Mesmo defendendo-se interiormente sentiu um arrepio da ponta dos dedos à ponta dos cabelos. Encolheu-se quando os lábios de Robert lhe começaram a chupar os mamilos e a mão desceu até ao baixo-ventre. A resistência morrera, só havia desejo, um desejo impetuoso e inabalável dele, e o sangue a pulsar-lhe nas veias

 

Deitados na cama e com a sua poderosa nudez emvolta nas pernas de Ulrike, Robert levantou subitamente a cabeça e parou.

 

Dá-me um comprimido... pediu respirando pesadamente.

 

Não! Ele pôs-lhe as mãos no peito. Não, Bob

 

Por favor! Quero sentir tudo como da outra vez Aquele céu, que cai sobre mim. Aquele flutuar. Por favor

 

Não, Bob! Não!

 

Tenho de experimentar novamente. Não sejas má. Por favor, por favor...

 

Ela deu-lhe um comprimido, ecstasy, marca Smile que, uma hora depois, começou a fazer efeito e Robert transformou-se num vulcão durante quatro horas.

 

Foram horas cheias de paixão e de uma felicidade irracional, em que ele foi de uma energia inexcedível, artificial que punha o coração em chamas e paralisava o cérebro. Era um êxtase que criava um super-homem e a sua negação.

 

Hua Dinh Son voltou a receber um telefonema, de uma outra voz, mas que também falava vietnamita. Um compatriota. Son ficou contente mesmo quando soube a razão do telefonema.

 

Vais fazer uma linda viagem disse a voz com toda a cortesia e respeito inerentes à educação asiática.

 

Estou pronto para ver o mundo respondeu Son com igual cortesia. Em que direcção do céu está a felicidade?

 

A oeste, meu irmão. Novamente em Munique.

 

Munique é uma linda cidade. Gostei muito de lá estar.

 

Irás encontrar quatro homens que emanam um cheiro desagradável. Devem ser lavados.

 

Logo quatro? Son inclinou a cabeça. O trabalho não lhe metia medo, mas quatro encomendas de uma só vez era demasiado, mesmo para uma pessoa habituada. Só sou eu? Tenho de fazer tudo sozinho? Uma pergunta que fez em voz alta. Por favor tenham em conta que eu só tenho duas mãos. Mais duas poderiam vir a calhar.

 

Tu és um especialista disse a voz. Não temos ninguém que esteja livre para te ajudar. Lê os jornais alemães dos próximos dias e saberás o que estou a dizer. Há tarefas a cumprir em Berlim, Hamburgo, Frankfurt e Colónia. Para Munique só te temos a ti e pensa no ouro que te aparecerá dentro do cacifo: quatro vezes três mil dólares.

 

São doze mil dólares.

 

Son ficou com o olhar fixo no tecto do quarto. Não havia dúvida de que era uma tarefa realmente importante. Todavia, também deveria ser muito difícil para que abrissem tanto os cordões à bolsa. Por isso, eram precisas informações concretas antes de ir para Munique.

 

Continua, irmão pediu ele.

 

São três polacos e um alemão.

 

Outra vez polacos?

 

Como é habitual, encontrarás todos os pormenores numa carta que estará no teu quarto. Desta vez ficarás no Hotel Kõnig Karl. A despesa será paga quando acabares a tarefa.

 

Também tenho de comer e beber, irmão.

 

Está tudo resolvido, como sempre... Ou tens motivo para te sentires descontente? Se assim é, di-lo já.

 

Não, não. Correu sempre tudo muito bem.

 

Son estava a proteger-se, não deve haver descuidos em relação a um patrão que ninguém conhece. Tal como diz o ditado: «Não te atires contra o nevoeiro, espera que se dissipe.»

 

Quando devo partir, irmão? perguntou.

 

Na próxima segunda-feira. Apanhas o primeiro avião que sai de Varsóvia para Frankfurt e depois continuas até Munique. Podes ficar três dias lá para realizares o trabalho. Os bilhetes de avião estão no aeroporto de Varsóvia no balcão da LOT. Como vês fazemos tudo por ti.

 

São realmente bons amigos e Son fez uma vénia ao telefone. «Respeita quem te paga.» Farei tudo o que quiserem.

 

A conversa terminou. Son pigarreou, levantou-se e foi para a cave. Lá abriu uma porta, cuja chave apenas ele pôssuía, e entrou no seu esconderijo secreto.

 

Era um subterrâneo sem janelas, com mais de cem anos cujas paredes, revestidas com pedras do rio que passava ao lado, embranquecidas pela água, eram extremamente resistentes. Son não sabia qual teria sido, em tempos idos, a utilidade daquela divisão. Transformara-a e a sua esposa, Marika, nunca lá entrara. Tinha medo de ratazanas e acreditara em Son quando ele lhe contara que vira muitas, e do tamanho de coelhos, assim como aranhas.

 

Naquele compartimento estavam três estacas grossas enterradas no chão, cada uma delas com uma cabeça de madeira cravada na extremidade. Contudo, não eram iguais, tinham diferentes larguras e alturas de pescoço, e até olhos de vidro que miravam Son, tais como os utilizados nas próteses. Olhos azuis, castanhos e cinzento-esverdeados, que pareciam vivos à luz da lâmpada pendurada no tecto.

 

Son dirigiu-se a uma caixa de madeira colocada sobre uma pequena mesa, levantou a tampa e retirou três finos arames de aço. Olhando longamente para o pescoço da primeira cabeça, escolheu um deles, fê-lo rodar no ar, agarrouo pelas pontas e esticou-o. Esgueirou-se, agachado, sem ruído e inclinado para a frente, até à cabeça, como se fosse um predador preparado para golpear o pescoço da vítima. Então, com o olhar fixo na zona da nuca, e com a rapidez de um raio, as mãos passaram o fino fio metálico por cima da cabeça e puxaram-no, cortando a traqueia e fazendo a cabeça voar pelos ares como se fosse a de um ser humano.

 

Son puxou o fio para si e não ficou contente com o seu desempenho: fora muito lento, demasiado lento, ainda sobrara tempo para um grito ou um gesto de defesa. A rapidez e o silêncio andavam a par, não podia haver hesitações e até se devia evitar que a vítima chegasse a entrar em pânico.

 

Son recuou e olhou para outra das duas cabeças, cujo pescoço era grosso e curto, o que tornava a tarefa mais difícil: neste caso, era preciso acertar no curto espaço existente entre queixo e traqueia para a poder quebrar com um golpe seco. «É preciso treinar», pensou ele, enrolando o fio de aço nos dedos. «Uma morte rápida e silenciosa é uma arte e um artista que não pratica deixa de o ser. Hua Dinh Son, não podes errar.»

 

Também foi muito lento quando atacou a segunda cabeça, o arame ficou pendurado no queixo, teria sido uma catástrofe. Son atirou o fio metálico contra o muro, agarrou depois num fio ainda mais fino e concentrou-se na terceira cabeça.

 

Melhorara, mas era o pescoço mais fino e esses são mais raros, pertencem, por regra, a asiáticos, mas não a polacos ou alemães.

 

Son praticou o estrangulamento durante duas horas, exercitando-se mais vezes na cabeça com o pescoço mais curto. Se conseguisse com aquela uma morte silenciosa e rápida, não teria mais dificuldades.

 

Na segunda-feira tinha de partir para Munique, o que significava que podia treinar até domingo, ou seja, três dias.

 

Son, com o fio esticado nas mãos, olhou para a última cabeça, que tinha olhos azuis, e, subitamente, odiou-a.| O ataque seguinte foi perfeito, o arame ficou exactamente sobre a laringe. Os três polacos não apareceram no Bar Toscana à hora marcada. Franz von Gleichem esperou uma hora, antes de telefonar para o hotel e de lá disseram-lhe que tinham saído de táxi há cerca de uma hora. Não, não haviam deixado qualquer aviso.

 

Von Gleichem continuou à espera. Salvatore Brunelli armara-se com uma pistola e até Bolo estava armado com uma pequena metralhadora dissimulada sob o longo casaco de porteiro. Era uma arma pequena, mas incrivelmente eficaz, que os mafiosos ocultavam numa pasta. Von Gleichem estava, portanto, preparado para uma conversação agitada mesmo que não acreditasse que os visitantes pudessem ser brutais em público. Mas os polacos não vieram ao bar.

 

Em vez disso, apareceu no Toscana um indivíduo baixo e elegantemente vestido, que subiu para um banco, pediu um cocktail Montego Beach e ficou a olhar para a frente em silêncio. Um cliente discreto com um rosto de asiático. Ul rike, que o servira, perguntou a si própria se seria japonês, coreano ou vietnamita, pois, para um europeu, são todos iguais, só um asiático os sabe distinguir.

 

O cliente bebeu mais um cocktail, olhou para o relógio de pulso, de ouro com brilhantes engastados, de fabrico suí ço, acenou a Ulrike e disse cortesmente:

 

Gostaria de falar com o senhor Von Gleichem disse num alemão perfeito.

 

Ulrike olhou-o espantada.

 

Ignoro se o senhor Von Gleichem está respondeu ela.

 

Sei que sim.

 

Então sabe mais do que eu.

 

É um hábito meu e o cliente riu-se com alguma contenção. Por favor, diga-lhe que estou aqui.

 

Não posso.

 

Pode.

 

O senhor não sabe tudo. Ulrike não escondeu a sua raiva. Quem falasse assim com ela, por muito educado que fosse, chocava com granito. Se deseja falar com o senhor Von Gleichem terá de se dirigir ao gerente, o senhor Brunelli.

 

É o italiano que está ali encostado à coluna? É antipático e eu não falo com quem não gosto. Na minha terra diz-se: «Olha para o rosto, pois é um livro aberto.»

 

-Qual é? A China?

 

O Vietname, um país maravilhoso, é impossível não gostar dele. Tem muitas mulheres bonitas, como você... mas diferentes. Chamo-me Lok, dizer o meu nome completo seria complicado. Lok chega e é mais fácil de pronunciar. Voltou a sorrir para Ulrike e desceu do banco. Agora leve-me ao senhor Von Gleichem, Ulla.

 

Ulrike encolheu-se. «Ele sabe o meu nome! Como, se nunca esteve no Toscana? Salvatore, vem cá. Há qualquer coisa que não está bem.» Mas em vez de fazer sinal a Brunelli, perguntou:

 

Como conhece o meu nome, senhor Lok?

 

Já lhe disse que sei tudo. Lok apontou para a porta que comunicava com as traseiras do bar. Também sei que o senhor Von Gleichem está ali e espera três polacos. Chega? Será este o meu salvo-conduto para falar com ele?

 

Ulrike hesitou. «Salvatore, vem cá... Estou com um pressentimento estranho. O que quer um vietnamita do chefe?» Subitamente recordou-se das imagens que vira na televisão e em revistas: cadáveres numa casa, dois mortos com um tiro na nuca. Um indício muito claro, dissera a polícia, crimes cometidos pela máfia, que usou vietnamitas. Havia dois bandos, em Munique, a lutar pelo controlo do contrabando de cigarros e, do dinheiro de protecção. «O que tem Von Gleichem a ver com cigarros e extorsões? Para isso ele conta com a máfia italiana. Será que os vietnamitas também querem uma parte? Salvatore, com os diabos, não fiques encostado à coluna. Vem cá!»

 

Lok não esperou pela resposta de Ulrike. Sem pressas, com uma autoconfiança invulgar, contornou o bar, abriu a porta que dava para o gabinete de Von Gleichem e voltou a fechá-la, mas Brunelli, que também o vira, atravessou o bar a correr, sacou da pistola e entrou no gabinete quando o vietnamita estava a dizer:

 

Deite fora os seus macacos italianos!

 

Estava a referir-se a Salvatore, Lok parecia mesmo saber tudo ou até adivinhar. Von Gleichem ficou em silencio durante alguns instantes, o que acontecia com frequência era conhecido por fazer durar um segundo exactamente um segundo.

 

Que deseja? gritou ele, e depois em voz mais baixa e perigosa. Quem é você?

 

Chamo-me Lok, o que não lhe diz nada, mas irá dizer-lhe muito quando lhe revelar o que sei: espera três senhores polacos...

 

Von Gleichem ergueu as sobrancelhas, sentou-se e fez um sinal a Brunelli.

 

Podes sair.

 

Fico à porta, chefe. Esse tipo não sairá daqui vivo Ninguém dará por isso, tenho o silenciador.

 

Lok esperou até Salvatore abandonar a sala, puxou a cadeira que estava à frente da secretária e sentou-se.

 

Um tipo muito antipático comentou ele, enquanto se sentava. Primitivo! Como pode ter ao seu serviço um aborto destes?

 

O que deseja? Von Gleichem não tinha vontade de cair na conversa de Lok. Entra por aqui dentro

 

Vim visitá-lo.

 

Isso é uma questão de opinião. Então?

 

Como já lhe disse, espera três homens de negócios polacos. Por favor, não espere. Não virão.

 

Como se atreve...

 

Um momento! Lok levantou a mão direita como que para se defender. Não se excite, senhor Von Gleichem. Leia os jornais de depois de amanhã e veja daqui a pouco as notícias na televisão. Para os jornais já é tarde, na melhor das hipóteses só saberão depois de amanhã. Os três polacos tiveram um acidente...

 

De táxi? Von Gleichem levantou-se. Isso é horrível!

 

Digamos que apanharam um taxista com muito azar.

 

Estão gravemente feridos?

 

Lok olhou para o relógio de brilhantes.

 

Presumo que estejam agora a ser levados para o Instituto de Medicina Legal.

 

Medicina Legal? Von Gleichem olhou fixamente para Lok. Agora percebia quem era aquele cortês vietnamita. Estão... estão mortos?

 

O caminho terreno é curto, mas o céu é infinito.

 

Meu Deus! Von Gleichem afundou-se na cadeira.

- O que se passou? E como sabe tudo isto? Presenciou o acidente?

 

Estaria aqui sentado, se assim fosse? Eu sabia que ia haver um acidente.

 

Sabia?

 

Não foi um acidente normal... Mas terá oportunidade de ler tudo nos jornais. Lok meteu a mão no bolso esquerdo do casaco, tirou três papéis dobrados e abriu-os à frente de Von Gleichem. Se tiver a bondade de ler.

 

O que é isto? Von Gleichem reclinou-se.

 

Um contrato respondeu Lok, sorrindo.

 

Contrato? Não compreendo...

 

Um asiático perceberia imediatamente. Porque precisa sempre um europeu de tantas explicações? Pense bem na sua situação, senhor Von Gleichem. Tinha três sócios: os homens da Polónia. Entregavam-lhe drogas, LSD, mas sobretudo ecstasy, o comprimido que maravilha os jovens. Nós sabemos que a mercadoria não prestava: impura, misturada, perigosa. Agora os três já não existem e o senhor é obrigado a procurar novos produtores. Sócios honestos, parceiros de negócio atrás dos quais se esconde um enorme potencial.

 

E será você? perguntou Von Gleichem. O seu cinismo voltara. Chama-se Lok? Presumo que seja vietnamita.

 

É o primeiro passo para que nos entendamos.

 

Para ser mais claro, a máfia vietnamita quer Munique tal como já conseguiu Berlim. Só o produto muda, em vez de cigarros, ecstasy.

 

Admiro a sua inteligência comentou Lok com cortesia.

 

E eu admiro a sua ousadia. Assim ficamos quites,

 

O contrato, senhor Von Gleichem.

 

No cesto dos papéis. Para limpar o traseiro esse papel é muito áspero.

 

Noto que tem um grande sentido de humor. Lok inclinou-se ligeiramente e não perdera a calma quando continuou. Não estamos interessados no mercado de distribuição, só na produção, e entregamos produtos puros. A margem de lucro para si é ligeiramente mais pequena do que aquela que conseguia com os polacos, mas, além de um produto de qualidade, terá protecção. Acho que deve ler o contrato, senhor Von Gleichem.

 

Primeiro quero testar o seu produto, senhor Lok.

 

De acordo. Lok levantou-se e fez uma ligeira vénia. Amanhã mandamos-lhe amostras. Sei que assinarão o contrato. Agora que os três polacos o abandonaram...

 

Dirigiu-se à porta, mas antes de girar a maçaneta a pergunta de Von Gleichem fê-lo parar.

 

Onde ocorreu o acidente?

 

No Nymphenburger Park.

 

Meu Deus do céu! O que foram ali fazer? Deviam vir para aqui!

 

Foram encontrados no Nymphenburger Park, ao lado uns dos outros.

 

Encontrados? Ao lado uns dos outros? Von Gleichem estava visivelmente irritado. E o táxi?

 

Não havia nenhum táxi.

 

Mas o carro deve ter...

 

Morreram rapidamente e sem dor. Lok abriu a porta. Salvatore, que esperava lá fora, ouviu as palavras com a mesma clareza que Von Gleichem. Foram estrangulados com um arame de aço. Desejo-vos uma boa noite,.

 

Ninguém impediu Lok de abandonar o Toscana.

 

No Departamento de Homicídios da Polícia de Munique fora dado um alerta vermelho. O comissário Wortke foi arrancado da cama e telefonou a Reiber, gritando ao bocal:

 

A merda começou! Três mortos no Nymphenburger Park, colocados ao lado uns dos outros, além de um motorista de táxi, dentro do carro, em Hirschgarten. Os quatro foram assassinados com um arame de aço. São homicídios de crime organizado! A abreviatura significava que se tratavam de homicídios perpetrados por grupos de crime organizado.

 

Depois ligou para a sua esquadra. As coisas estavam a correr rotineiramente. Médico-legista, fotógrafos e já iam a caminho quatro ambulâncias. A busca de provas decorria na área onde os corpos tinham sido encontrados, que já fora

 

Quatro de uma vez! exclamou Wortke quando se sentou no carro, dirigindo-se ao condutor, um agente. Não sabia que Munique estava tão perto de Palermo. Ou será Hong Kong? Aposto que estes quatro também vão ficar a ganhar pó nas prateleiras. Para que servem os informadores encobertos de Reiber? Aqui trata-se de alguém que permanece invisível, a quem ninguém tem acesso.

 

Não pode ser só um, senhor comissário. O agente abanou a cabeça. Impossível, não se consegue matar quatro homens ao mesmo tempo.

 

É isso que vamos ver, Hermann. Nada já me surpreende. Tudo é possível, mesmo que pareça louco e absurdo.

 

Se o assassino os tivesse morto a tiro... Mas estrangulados com um arame de aço? Quatro de uma vez? Não pode ser.

 

Pouco depois, Wortke encontrou Reiber no local onde os corpos tinham sido descobertos. O fotógrafo tirara fotografias aos três cadáveres e o médico-legista tomava notas. Outra equipa dos Homicídios investigava o motorista assassinado em Hirschgarten e estava em contacto com Wortke via rádio.

 

Polacos! informou este último quando Reiber se aproximou dos corpos. Que dizes agora? Estão a limpar a casa para se instalarem num apartamento mobilado. A guerra de bandos... É espantoso como demorou tanto tempo.

 

Ainda se pode tratar de um acerto de contas privado,

 

Uma bela expressão! Quem está no caminho de quem e onde? Polacos contra estranguladores. Que têm em comum que os incomoda mutuamente?

 

O mercado dos narcóticos. Quando descobrirmos alguma coisa sobre a vida destes polacos, ficaremos a saber mais. O primeiro morto era farmacêutico. Estou ansioso para conhecer a profissão destes três.

 

No caso do motorista de táxi, iam ter uma surpresa. O ou os assassinos tinham-se esquecido de que havia um taxímetro, que indica os quilómetros percorridos e a tarifa a pagar.

 

Não bate certo! quase gritou Wortke, que já ob servara o taxímetro. Nem sabemos onde os polacos e o motorista foram assassinados e por que razão aqueles estão no Nymphenburger Park e o outro em Hirschgarten. É perto, mas porque carga de água espalharam os cadáveres? Partamos do pressuposto de que foi este táxi que foi buscar os polacos ao hotel...

 

Também não poderemos garantir isso adiantou Reiber.

 

A investigação está a decorrer... Foram-nos buscar mas não sabemos onde... O que o taxímetro mostra é muito estranho. Devem ter andado por toda a cidade, se não os quilómetros não batem certo.

 

Ou os polacos nunca estiveram no hotel, tendo sido apanhados fora da cidade, em Rottach, Chiemsee ou queri sabe onde. Segundo os quilómetros percorridos, poderemos estabelecer um raio.

 

Por outras palavras, teremos de procurar em quase todo o Norte da Baviera. Wortke susteve o lápis com que estava a tomar notas. Isso é bom, é muito bom

 

Como assim? perguntou Reiber estupefacto

 

Porque posso passar o caso para outras mãos, será um assunto do Departamento de Homicídios Estadual, nós só temos jurisdição em Munique. Nestas situações, é sempre constituída uma comissão especial. Não podia ser melhor para nós.

 

E se os polacos saíram, de facto, de um hotel em Munique?

 

Então estamos no charco.

 

Às seis e quarenta e cinco, Wortke e Reiber já sabiam que o homicídio quádruplo era da sua responsabilidade: os inquéritos feitos junto dos hotéis tinham provado que os três polacos estavam no Raphael e que o táxi os fora buscar por volta das dez da noite, segundo o porteiro.

 

Hotel Raphael... Não eram nenhuns pobrezinhos. Wortke olhou novamente para as suas notas. Então o taxímetro está errado. Do Raphael até Hirschgarten não se [paga aquela quantia.

 

E como foram os três mortos parar ao Nympnenburger Park? perguntou Reiber. O ou os assassinos não os levaram às costas. Há qualquer coisa que não bate certo.

 

Nada bate certo! Wortke deu um soco na secretária. Três polacos e um motorista de táxi passeiam-se à noite. Depois são estrangulados com um arame de aço em dois locais diferentes. Como chegou o assassino até eles? Num táxi em movimento há uma segurança relativa.

 

Relativa, dizes bem! Reiber estava em frente ao grande mapa de cidade de Munique e seguia o percurso do hotel Raphael a Hirschgarten com o dedo. Sabes, tudo é possível. Pode ser-se assassinado num táxi em andamento, incluindo o motorista.

Isso toca os limites da bruxaria. Wortke não conseguiu resistir ao sarcasmo. Devíamos contratar David Copperfield como investigador.

Também não nos serve de nada. Reiber entrou no ford de Wortke. Ele pode voar e deixar-se cortar em dois, mas nem com truques conseguiria matar quatro pessoas em dois locais diferentes.

 

Por outras palavras, devem ter sido vários.

 

É a única explicação racional.

 

Uma afirmação da qual Hua Dinh Son se riria.

 

Son ficava sempre muito espantado com as informações pormenorizadas que obtinha do mandatário.

 

Daquela vez também recebeu instruções precisas dentro de um envelope que estava nas mãos do recepcionista do hotel. Fotografias e descrição dos três polacos, com altura e peso aproximado, número dos quartos no Hotel Raphael, horas a que se iam encontrar com o Von Gleichem e a qui iriam precisar de um táxi para os levar ao Bar Toscana.

Son estava assim muito admirado com o facto de o cliente saber, de facto, tudo. Tinha-lhe o maior respeito e consideração, mas simultaneamente sabia que o haviam escolhido para executor e nunca mais conseguiria libertar-se destas tarefas. Tornara-se involuntariamente um instrumento nas mãos de desconhecidos; estivessem onde estivessem dominavam totalmente a sua vida. Ele continuava a tentar saber donde vinham as instruções, mas os sobrescritos não tinham selos, eram entregues em mão.

 

O recepcionista do hotel só lhe fornecia informações vagas: uma vez fora um jovem que trouxera a carta, um estrangeiro de aspecto asiático, outra, uma rapariga, tambén asiática. Como se poderia determinar se era vietnamita? Para um alemão, todos os indivíduos de raça amarela. Sim! Todos falavam alemão, eram muito corteses e agradeciam-lhe imenso o favor de entregar a carta ao senhor Hua Dinh Son. Deviam sentir-se muito seguros para o tratar pelo nome, mas nunca aparecera em lado algum um registo em nome de Son. O pequeno hotel que lhe era indicado alugara-lhe o quarto sem registo pelo que um controlo policial nunca o detectaria. Além do mais, a estada era paga antecipadamente e havia uma enorme gorjeta para a recepção, o que não estava muito de acordo com as muitas leis que espartilhavam a vida na Alemanha.

 

Depois de pensar durante algum tempo, Son estabeleceu um plano simples e sem complicações e para o qual não era preciso ser feiticeiro: telefonou para o Raphael e pediu para falar ao senhor Pavel Szunowski, que nem sequer suspeitou quando ouviu:

 

Sir, daqui fala o seu motorista de táxi.

 

Son falava um bom inglês. Aprendera-o no campo de refugiados vietnamitas, em Hong Kong, e mais tarde em Singapura. Mandaram-me que o levasse, juntamente com os outros dois senhores, à presença do senhor Von Gleichem. A que horas precisam do táxi?

 

Por volta das vinte e duas.

 

Szunowski disse-o sem suspeitar de nada, até estava muito contente com o facto de Von Gleichem lhe oferecer um serviço tão perfeito, mas não se deu conta de que o motorista falava inglês, o que era muito pouco habitual em Munique.

 

Quando chegar ao hotel, informo-os concluiu Son com toda a cortesia, acrescentando sem ironia: Uma continuação de muito boa noite, sir... Depois da conversa, Son estudou o mapa da cidade de Munique, que comprara aquando da sua outra missão. Encontrar um táxi no meio da cidade não era muito arriscado, apenas quase impossível. Seria, portanto, mais sensato pedir um táxi numa zona mais afastada. Para tal, escolheu o Hirschpark, foi de autocarro até à Steubenplatz, passeou-se pelo parque, encontrou uma cabina telefónica e ligou para a central de táxis a pedir um. A morte do motorista não constituiu problema para Son.

 

(Sentou-se no banco de trás, inclinou-se para a frente, colocou-lhe o arame em torno da garganta e puxou antes de o homem poder reagir. Tal como acontecera às cabeças com que se treinava, partiu-lhe a traqueia e o taxista caiu sem emitir um único som. Son empurrou-o para o lugar do passageiro, sentou-se ao volante, conduziu o carro em torno do Hirschpark, meteu o morto na bagageira e voltou para o centro da cidade. Nem sequer pensou que pudesse ter sido visto, àquela hora já não havia ninguém no Hirschpark e até os donos dos cães já teriam dado a sua volta. Estava rodeado por uma solidão quase silenciosa. Estacionou à porta do Hotel Raphael, que só era permitido a taxistas, foi ter com o recepcionista e pediu-lhe que informasse o senhor Szunowski de que o táxi chegara. O porteiro também não se admirou, em Munique havia tantos estrangeiros a conduzir táxis jugoslavos, turcos e negro africanos que um asiático não levantava a menor suspeita. Son era, como se costuma dizer, um virtuoso na arte de matar. Em vez de se dirigir a Schwabing, ao Toscana, foi em direcção ao Nymphenburger Park, pois já estudara muito bem o itinerário no mapa da cidade. Passado algum tempo, o polaco observou espantado:

 

Mas por aqui não se vai para Schwabing.

 

Não, sir. Son olhou para ele pelo espelho retrovisor. Recebi ordens do senhor Von Gleichem para os conduzir à sua casa particular, fora da cidade. Mas estava combinado...

 

Desculpe, não posso dizer nada, sir. Tenho a minha missão.

 

Os três polacos começaram a discutir o assunto entre si. Havia qualquer coisa que não lhes agradava e que não estava nos planos, até que o que ia ao lado de Son colocou a mão sobre o braço dele.

 

Por favor, pare o carro.

 

Aqui, sir? perguntou Son. Estamos no Nyrnphenburger Park.

 

Leve-nos de volta à cidade, mas antes pare. Son travou, os três polacos saíram e foi esse o seu erro fatal. Ele imitou-os e abriu a bagageira do táxi, onde estava o motorista morto, e enquanto os polacos discutiam uns com os outros, tirou de lá um saco de compras de dentro deste, e uma meia cheia de areia húmida, que é um excelente instrumento de agressão. A pancada seca na cabeça danifica imediatamente o sistema nervoso e conduz à perda de sentidos, mas a maior vantagem era o facto de não deixar ferimentos externos, pois não é contundente.

 

Son era um homem rápido: três pancadas, umas atrás das outras, e os polacos caíram, pelo que se tornou extremamente fácil colocar o arame em torno do pescoço e apertar.

 

Son era, por natureza, um homem muito organizado e por isso não deixou os três cadáveres de qualquer maneira, colocou-os ao lado uns dos outros, de costas, junto a um arbusto, como se fossem dormir, e até lhes fechou as pálpebras, tal como se faz aos mortos, num gesto piedoso. Depois, subiu para o táxi, voltou a Hirschpark, tirou o motorista da bagageira, voltou a sentá-lo ao volante e passeou-se durante uma hora pelo parque. Na Arnulfstrasse, subiu para um autocarro e voltou para o centro da cidade.

 

No restaurante de Augustinerbràu encomendou carne de porco com chucrute, refeição pela qual ansiara todo o dia, bebeu uma cerveja branca e sentiu-se muito bem. Estava orgulhoso.

 

É muito fácil matar quatro pessoas ao mesmo tempo quando se é tão dotado para o homicídio como Hua Dinh Son, que, no dia seguinte, abandonou Munique.

 

Todas as manhãs, à hora em que deveria estar na escola, Robert tocava à campainha de Ulrike. À quarta vez, esta achou muito desagradável sair da cama para abrir a porta e deu uma chave ao rapaz.

 

Assim, também todas as manhãs se repetiam as horas de êxtase: Robert despia-se, engolia um Smiley, metia-se na cama de Ulrike, puxava-a para si e, quando começava a sentir a droga a fazer efeito, parecia-lhe estar tão leve que, se abrisse os braços, voava, a sensação de felicidade fazia desaparecer quaisquer inibições e o sangue começava a pulsar com força nas veias, caía sobre ela e deixava de haver tempo e espaço. No quinto dia, Ulrike fez uma tentativa: levou Robert consigo para o Toscana. Sem o círculo de luz colorida, a música, as raparigas e os clientes, o bar ficava com um aspecto assustador.

 

Até os altos bancos do bar eram deprimentes, as velhas decorações de seda, os cortinados, o longo balcão não iluminado, as mesas sem toalhas, os candeeiros cujas lágrimas de cristal não brilhavam com as luzes. Um mundo apagado, no qual não havia ilusões.

 

Estavam sós. Brunelli e Bolo só apareceriam ao fim da tarde, assim como as raparigas, o disc jokey e os empregados.

 

Apenas duas mulheres-a-dias lavavam o chão, areavam metais no balcão do bar e nos bancos, mas não prestaram atenção a Ulrike e Robert, estavam habituadas a nada ver Inicialmente, Robert hesitou em entrar no Toscana, mas. como Ulrike lhe prometeu que estariam sozinhos, não se preocupou mais. Estava agora no meio da sala e Ulrike desapareceu atrás de uma porta que conduzia à cave. Lá existia uma sala situada por trás dos barris de cerveja, protegida por uma porta de aço, onde se guardavam dois cofres dos quais só Von Gleichem e Ulrike possuíam as chaves e conheciam a combinação. Neles estavam empilhadas caixas e caixas de comprimidos de ecstasy cujo valor no mercado negro ascendia aos dois milhões de marcos e que vendidos renderiam quatro milhões; o que restava do último fornecimento, embora se previsse uma nova entrega na semana seguinte, se as negociações com os polacos corressem bem. Contudo, naquele momento, Ulrike estava longe de adivinhar que tudo iria mudar, que naquela noite a máfia vietnamita iria entrar em acção e que para ela, como sócia do negócio, poderiam surgir problemas.

 

Quando Ulrike regressou ao bar, com algumas caixas. Robert estava sentado num banco e tinha-se servido de uma cerveja.

 

Que viemos aqui fazer? perguntou ele, insatisfeito. Prometeste mostrar-me não sei o quê.

 

Eram quatro horas da tarde e Robert dissera à mãe que ia com dois companheiros dos escuteiros procurar um tambor novo, pois o deles estragara-se na viagem a Inglaterra.

 

Amas-me? perguntou Ulrike como resposta, colocando as caixas sobre a mesa.

 

Mas tu já sabes que sim.

 

Muito?

 

A minha vida não faz sentido sem ti.

 

Não te esqueças disso. Inclinou-se para ele e beijou-o fugazmente. Vais ajudar-me a vender os comprimidos de que tanto gostas.

 

Robert olhou fixamente para ela como se a tivesse ouvido falar numa língua estrangeira.

 

Eu vou... disse ele gaguejando. Eu vou...

 

Não ficas feliz quando tomas um Smiley?

 

Incrivelmente feliz.

 

Então agora vais ajudar para que outros sintam a mesma felicidade. É assim tão mau? Só estarás a fazer bem aos outros, a ajudá-los a ficarem fortes, cheios de amor. E muitos nos irão comprar essa felicidade.

 

Mas... são comprimidos proibidos.

 

Ao tomá-los encontras o êxtase e não consegues viver sem eles. Não te tornaste num homem mais forte?

 

De facto...

 

Os vendedores chegam às quatro.

 

Ulrike empurrou uma caixa para Robert e levantou a tampa. Muito bem arrumados, estavam dois mil comprimidos violeta-claros, tendo estampado o rosto cómico de Barney, a figura principal da série televisiva Fred Feuerstein.

 

Estes são os melhores e mais caros, cada um vende-se por quarenta marcos e poderás ganhar quatro.

 

Abriu a outra caixa, na qual estavam os Smiley, e Robert olhou lá para dentro:

 

Então está aqui uma pequena fortuna comentou, estupefacto.

 

Depende da quantidade que venderes, e isso é contigo. Os comerciantes que estão a chegar são clientes antigos e poderás ganhar muito dinheiro, se arranjares outros novos. Eu disse-te que, a curto prazo, ficarias rico. Vão pôr-te o dinheiro nas mãos, só precisas de os mostrar.

 

Ele olhou-a como só naquele momento tivesse compreendido tudo o que ouvira.

 

Há quanto tempo estás metida nisto? perguntou, e a sua voz ainda tinha algo de frio.

 

Há algumas semanas. Como se adivinhasse os seus pensamentos, acrescentou rapidamente. Não é nada de ilegal, Bob! Apenas tornamos as pessoas felizes. Tu sentes isso na pele, e amas-me.

 

O que tem isso a ver?

 

Ligar-nos-á para sempre.

 

Ele acenou com a cabeça e olhou-a, enquanto ela atravessava o bar e desaparecia pelas traseiras. Depois ouviu uma porta a abrir-se, permitindo a entrada a quem estava do lado de fora, três rapazes da idade de Robert, vestidos com calças de ganga e T-shirts de estampagens coloridas. Pareciam conhecer bem o local, pois dirigiram-se imediatamente à mesa onde estavam as caixas.

 

Ena! disse um deles, alto e cabelos compridos. És novo? Depois dirigiu-se a Ulrike, que apareceu a seu lado. Onde o descobriram? Um junkie muito limpinho. Estão a formar uma associação? Riu-se, indicou a caixa de Robert e tamborilou com os dedos. Duzentos. Barney. Têm desconto?

 

Preço fixo. Ulrike empurrou-lhe a mão. Isto não é um bazar de Istambul. Põe aí o dinheiro. Oito mil marcos e depois dá duzentos ao Bob.

 

Ah, tu és Bob! Um dealer baixo e algo gordo, de rosto sardento, sorriu para Robert. Donde vens, Bob?

 

Directamente da escola! respondeu Robert. Em matemática, cinco e em música, um. Queres saber mais alguma coisa?

 

Não, já chega. O gordo fez um gesto com a mão. Desta vez levo só cinquenta Barney. São demasiado caros para os meus clientes, mas vou precisar de quinhentos Playboy.

 

Não estão à venda. Ulrike mostrou a caixa. Só Smiley.

 

Merda! O sardento fez uma cara arreliada. E quando volta a haver Playboy?

 

Não o voltaremos a vender.

 

E porquê?

 

Política da empresa. Ulrike não viu necessidade de trazer à baila a morte da rapariga, muito menos na presença de Robert. Vamos mudar de produto.

 

Quando ouço a palavra política tenho vontade de vomitar! O gordo e baixo fingiu que ia vomitar. Muito bem! Quinhentos Smiley. Desconto?

 

Agarra-te aos tomates! disse Ulrike, rude.

 

Se tu o fizeres, não grito.

 

Ouviu-se um riso curto, mas alto, e depois começou o negócio. Tinham trazido pequenos sacos de plástico, contavam os comprimidos, colocavam o dinheiro sobre a mesa e saíam do Toscana.

 

Até amanhã disse o sardento à despedida. Vou ter novos clientes. Descobri uma discoteca seca... ainda existem sítios assim! E amanhã cedo vou ao ginásio Holbein. Também ainda estão limpos. Robert olhou-o com uma expressão dura.

 

Conheço o ginásio Holbein disse ele depois de os três terem abandonado o bar. Rapazes porreiros! As turmas de finalistas fizeram um torneio de futebol contra eles. Ganharam-nos três a zero. Bons desportistas, e agora querem vender-lhes Smiley?

 

Também devias tentar junto dos teus amigos. Ulrike disse-o de uma maneira tão tranquila como se estivesse a perguntar-lhe se queria uma Coca-Cola.

 

Os meus amigos? Nunca!

 

Não te safarás com eles?

 

Não é isso, mas...

 

Mas ainda me amas...

 

Isso já tu sabes.

 

Então, tenta. Voltou a dar-lhe um beijo e fez uma festa carinhosa no rosto e no cabelo. Meu querido...

 

Robert não conseguiu responder, pois já haviam entrado

no bar os clientes seguintes, dois jovens, que não tinham mais de dezasseis anos, muito bem vestidos e de cabelos louros encaracolados. Entraram e atravessaram o bar como se estivessem a imitar os movimentos de Gary Cooper. Também tiraram notas do bolso, um, uma de mil marcos e o outro uma de quinhentos, talvez trouxessem dinheiro dos seus companheiros. Naquela tarde catorze dealers foram recolher comprimidos de ecstasy.

 

Ulrike manteve a porta aberta até às seis horas e depois encerrou o negócio. Às sete, chegariam Salvatore Brunelli e Bolo.

 

Contente? perguntou Ulríke amontoando as caixas quase vazias. Quanto apuraste? Seis mil e setecentos marcos? Trezentos e vinte e cinco marcos são para ti. Num dia! E agora que me dizes?

 

Nada.

 

Numa semana ganharás três vezes o salário mensal do teu pai, num mês, dez vezes mais! Não estás contente?

 

Robert hesitou.

 

Preciso habituar-me ao que estou a vender. Não posso pensar...

 

Guardou no bolso do casaco o dinheiro que Ulrike lhe entregou e tirou rapidamente a mão, como se tivesse tocado numa coisa em brasa.

 

Tens de pensar que vais ficar rico, independente... e que me amas.

 

Foi o argumento mais forte. Convencia. «Eu amo-a e tudo o resto não é importante», pensou Robert, «e não tem lugar nesta vida.»

 

Era um escravo que até beijava o chicote que o açoitava

 

Dois dias depois, os jornais saíram com grandes títulos na primeira página.

 

Quatro homicídios da máfia em Munique.

 

Três homens de negócios polacos e um motorista de táxi vítimas de um gang asiático?

 

Será que Munique se tornou a capital do crime internacional?

 

Guerra de drogas também em Munique? A polícia mostra-se impotente.

 

Começou a luta sangrenta pelo mercado de droga.

Quatro homicídios numa noite. A polícia tacteia no escuro.

 

Aquilo não correspondia a toda a verdade. Wortke e Reiber tinham ordenado, com a autorização dos superiores, silêncio absoluto no que dizia respeito às investigações. A imprensa não teve acesso a quaisquer informações nem sequer ao facto de as quatro vítimas terem sido mortas com arames de aço. Claro que isso provocou grande especulação no dia seguinte, mas os nervos de Wortke e de Reiber aguentaram as ironias e sarcasmos dos meios de comunicação.

 

Os motoristas de táxi de Munique puseram fumos negros nos táxis no dia do enterro do colega, flores nas antenas, os mais bramavam pela prometida liberdade de imprensa, mas a proibição manteve-se. Não podiam publicar fotografias dos mortos, à excepção do motorista de táxi, nem foram referidos os nomes dos três polacos nem as suas origens. É um escândalo, gritavam os periódicos, e uma revista famosa Wortle obteve a informação através de um dos seus agentes; até oferecia dez mil marcos à pessoa que conseguisse sacar as fotografias dos estrangulados do Departamento de Homicídios.

 

Quanto menos informação fosse tornada pública, mais sucesso teriam as investigações. O trabalho de pormenor, pão do dia-a-dia para os criminalistas, ofereceu finalmente uma imagem do que teria acontecido na noite do crime.

 

Wortke e Reiber, trabalhando em conjunto, tinham conseguido reunir as peças do puzzle: dos três polacos, que tinham vindo de avião de Varsóvia, no dia anterior à sua morte, um, tinha um stande de compra e venda de automóveis, o segundo era advogado e o terceiro químico.

 

Era um ponto de partida, pois o primeiro polaco a ser estrangulado era dono de uma farmácia. Haveria alguma relação? Sim, também fora estrangulado com um arame de aço.

 

Na sua vida privada, os três não levantavam a menor suspeita. Bons pais de família, atentos a tudo o que os rodeava e sem cadastro. A única coisa que ninguém sabia era o motivo por que haviam viajado juntos para Munique, nem as respectivas esposas arranjavam explicação para tal, dizendo apenas que os maridos por vezes faziam viagens de negócios. Para onde, raramente diziam. A profissão é uma coisa e a vida familiar outra... é preciso separá-las. As esposas não tinham razões de queixa, a situação económica das famílias era sólida, sem serem ricas, viviam bem. A morte dos maridos constituía um ponto de interrogação para elas e até nem sabiam porque tinham viajado juntos para Munique.

 

A gerência do Hotel Raphael estava contente com o corte de informações, pois assim o nome do estabelecimento não apareceria nos jornais, mas foi exactamente ali que as investigações de Wortke e Reiber obtiveram resultados mais valiosos, o porteiro fora uma fonte de informações inesgotável. Relatou o seguinte:

 

Os três polacos traziam muito pouca bagagem, que fora levada pela polícia para o laboratório, mas tudo indicava que a sua estada seria curta.

 

À noite, fora recebido um telefonema de um motorista de táxi, que pediu para falar com Pavel Szunowski. Em inglês. Qual o tema da conversa? O porteiro lamentou muito mas não ouvia as conversas dos clientes! Pouco depois, cerca das vinte e duas horas, um táxi parara em frente ao hotel e recolhera os três polacos. O motorista fora à recepção para que os informassem da sua chegada; era um estrangeiro, asiático.

 

Em cheio! exclamou Wortke a Reiber depois daquela resposta. Os teus queridos rapazes! É uma superpista! Agora só precisamos de saber para que companhia trabalha o asiático, e obteremos resultados.

 

Não, porque o motorista morto era alemão. Reiber coçou pensativamente o nariz. Contudo, já temos uma ideia do procedimento. O assassino matou primeiro o taxista, meteu-o na bagageira, e veio depois ao hotel para buscar os três polacos. Eles não poderiam suspeitar, pois o homem falara ao telefone em inglês, para saber a que horas os devia vir buscar. No Nymphenburger Park estrangulou os três.

 

Refinado concordou Wortke.

 

De um sangue-frío impressionante.

 

E porque não deixou ficar o táxi no Nymphenburger Park e voltou para o Hirschpark?

 

Para nos mostrar a sua genialidade... não há outra explicação. Quis ridicularizar a polícia alemã. Olhem! Posso fazer o que quiser! Ninguém me apanha! Um jogo satânico! Este homicida deve adorar matar! Recapitulemos e Wortke olhou para o bloco-notas. Um vendedor de automóveis, um advogado e um químico voam juntos de Varsóvia para Munique, embora estas três profissões não sejam compatíveis. O químico fabrica drogas, o dono da firma de automóveis trata de transportes e o advogado pode tratar de assuntos muito diversificados, com boas relações; até pode arranjar imunidade diplomática, ou seja, um terceto fabuloso. Mas a máfia asiática aparece-lhes pela frente e ataca súbita e friamente, como é costume. Trata-se do controlo do mercado. Pergunta: com quem iam os (polacos negociar aqui em Munique? Com um dos outros grupos de traficantes. Reiber encolheu os ombros. Se o soubéssemos, poderíamos encerrar o processo e dançar à volta da mesa. Wortke olhou-o admirado, enquanto Reiber desenhava pequenas figuras no bloco. A umas, acentuava o contorno, e a outras riscava-as e substituía-as por números.

 

Queres tornar-te num segundo Miro? perguntou Wortke.

 

Estou a tentar pôr ordem na confusão. Reiber bateu com o lápis nos desenhos. Em Berlim, os grupos de vietnamitas matam os opositores com um tiro na nuca. As tríades chinesas variam nos métodos, usam armas de fogo, enforcam, atropelam, trucidam, cortam as cabeças...

 

Só uma pessoa como tu lhes pode chamar «métodos»

- disse Wortke, fingindo-se abalado.

 

Os coreanos não estão em cena, nem a máfía japonesa descobriu ainda a Alemanha, opera sobretudo nos Estados Unidos, na costa do Pacífico. Os russos, e romenos, albaneses e polacos resolvem as suas disputas de forma clássica: atiram a matar. Da máfía italiana nem é preciso falar, pois os seus processos são conhecidos e um exemplo para o crime organizado internacional.

 

Muito bem dito! apoiou Wortke.

 

Mas agora está a emergir uma nova forma de matar: o arame de aço, uma especialidade que vem de longe, até agora praticada apenas por uma raça. Pensando logicamente, só nos restam dois grupos neste círculo de criminosos! as tríades chinesas e a máfía vietnamita. Sou de opinião que podemos, neste caso, riscar os chineses. Se manifestassem algum interesse pelo mercado, já teriam agido há muito. O que é, portanto, o mais lógico, senhor conselheiro criminal? Que se trate de um novo grupo vietnamita, e logo aqui, em Munique. Tinham de começar por qualquer lado. Reiber voltou ao sarcasmo. Partamos do pressuposto de que a minha teoria está certa: quais são os opositores? Estamos a andar em círculos. Wortke colocou a mão larga sobre os desenhos de Reiber. Mantenho a minha proposta ilegal: temos de arranjar informadores» jovens e protecção às testemunhas. Isso põe os cabelos de pé aos nossos políticos, mas de outra maneira não entraremos no círculo. Os informadores anónimos metem-se em todo o lado, mas não chegam aos utilizadores, é um mundo muito especial, no qual não conseguem penetrar porque, tal como disseste, são demasiado velhos, quase avós para esses jovens. Pára! Reiber fez um gesto com o braço. Achas que a onda de ecstasy se está a espalhar. A rapariga morta perto da estação... São dois sapatos diferentes, Theo.

 

Para mim, não.

 

A trilogia dos polacos também pode ter a ver com heroína ou cocaína ou até com contrabando de carros roubados e de cigarros. Os vietnamitas não estão interessados em auto móveis.

 

Certo.

 

E cigarros... É uma especialidade berlinense.

 

Não exclusivamente.

 

Em Munique o contrabando de cigarros nunca desempenhou grande papel, tu sabe-lo melhor do que eu. As fronteiras mais permeáveis ficam a leste e a oeste, e Amesterdão é um bom local de troca. Aqui trata-se apenas de ecstasy. Estive a estudar o assunto: só na Áustria existem, de acordo com as avaliações do gabinete de segurança, setenta mil consumidores do comprimido maldito, e todos os dias aparecem mais. É como uma bola de neve. Os números vêm de peritos: em Viena são vendidos todos os fins-de-semana quase dez mil comprimidos, e a Baviera faz fronteira... quê? Com a Áustria.

 

De qualquer modo tenho os números. Reiber sentia-se pressionado por Wortke. Meu Deus! Nós sabemos tudo! Até reuni documentação para utilização interna, mas provas, Theo, provas nada, só números! Estamos às apalpadelas no escuro, admite. Quem sabe melhor do que eu que em Munique, nas rusgas feitas às discotecas techno, há cada vez mais utilizadores de ecstasy E agora já temos a primeira morte, Lisa Brunnmeier. Todavia, não há uma única prova que indique que o mercado está controlado pelos vietnamitas! É tudo tão lógico e continuamos sem poder fazer nada.

 

Os comprimidos têm de vir de algum lado!

 

Sobretudo da Polónia. -Ah!

 

Mas também de laboratórios locais. Qualquer estudante de química minimamente dotado pode fabricar ecstasy mas nunca heroina ou cocaina. Reiber agarrou na sua folha com as pequenas figuras amarrotou-a e atirou-a para o cesto dos papéis. Na sexta-feira vou dar uma conferência sobre ecstasy em colaboração com a comissão especial, criada para estudar o problema. Um especialista em drogas e um médico irão dirigir as investigações. A organização de um grupo de escolhidos decorrerá na sala de conferências do Departamento Criminal Estadual. Também vens?

 

Que pergunta! Wortke fingiu estar muito triste. Departamento de Homicídios só lida com cadáveres.

 

Depois de reunidas todas as informações, o panorama.. era sombrio, embora houvesse muitas coisas interessantes. Os inquéritos ao círculo de amigos de Lisa Brunnmeier tinham terminado e pintavam um quadro que não correspondia ao que os pais haviam feito da sua querida filha, pois, foi-se descobrindo, peça a peça, uma vida dupla

 

A cabeleireira trabalhadora, a ajuizada jovem que morava com os pais, a alegre rapariga de dezassete anos era, por outro lado, uma consumidora de drogas, a menina das lotas, a viciada em música techno... Só Wortke encontrou set rapazes que já tinham dormido com Lisa nas últimas três semanas!

 

Como podia ser? Como podiam o dia e a noite ser tão diferentes para ela?

 

O casal Brunnmeier sofreu um choque enorme ao a posto perante os factos. Enquanto a mãe, Elfriede, chorava copiosamente, Josef passeava de um lado para o outro, furioso.

 

Criei uma prostituta! berrava ele, acusando sobretudo a esposa, e injustamente. A culpa é minha? Não não, é tua! Dás liberdade a mais à rapariga... Deixa-la ir dançar... Sim, que mal faz ir encontrar-se com os amigos pensas tu! Afinal tomava drogas e abria as pernas a todos! A minha filha! Que escândalo! Vou trespassar a firma, vender a casa e deixar esta cidade. Quem é que me vai encomendar uma casa de banho ou uma canalização nova? Acabo mas é a lavar escadas. Quem tem uma filha de merda, só pode arranjar trabalhos de merda!

 

A sua raiva atingiu tal ponto que apanhou quatro dos rapazes que tinham andado com Lisa e deu-lhes uma forte tareia, pelo que foi acusado de agressão com danos físicos. Josef Brunnmeier esforçava-se muito por saber o que estava por trás da vida dupla da filha, mas, tal como a polícia chocava com uma parede de silêncio. Todas as perguntas não tinham qualquer resposta, ninguém sabia nada de concreto. Ecstasy? Aqui, na discoteca? Não! Nunca ouvimos falar... Quer dizer, já ouvimos, mas nunca tivemos comprimidos desses na mão. Que aspecto têm? Parecem rebuçados?

 

Os amantes de Lisa não sabiam de nada, tal como era de esperar. Era verdade que ela era uma traquinas, mas mas viciada em drogas? Nunca tinham reparado. É claro que andàva sempre high, não devido ao ecstasy, pois quando um ’ rapaz lhe agradava abria-lhe logo a braguilha das calças. Era mesmo muito libidinosa... Isso é proibido?

 

Wortke ouviu tudo aquilo pacientemente, embora, por vezes, estivesse tentado a dar um pontapé no traseiro de alguns mais teimosos, sobretudo quando reparava que o detestavam por ser da bófía e que se mantinham em silêncio, mostravam uma resistência passiva e sorriam ironicamente. Era o mesmo que falar para os peixinhos.

 

(Wortke não deu pontapés aos rapazes, pois um polícia deve saber controlar-se, embora, na Judiciária, fosse frequentemente difícil engolir as provocações. Um criminoso podia perguntar durante um interrogatório: «O que queres demim, meu cara de cu? Vai-te foder!», e era preciso ficar calado e continuar com o interrogatório. Um agente da polícia tem de arranjar nervos para isso.

 

Para Wortke ficou claro que todos os amigos de Lisa Brunnmeier apenas sabiam que ela era uma rapariga fácil, e tambem foi possível confirmar que nas discotecas que ela frequentava se vendia ecstasy. O saquinho cheio de comprimidos que fora encontrado junto dela indicava que acabara de adquirir uma nova remessa pouco antes do acidente, mas até então ainda não se conseguira determinar onde Lisa fora dançar naquela noite, onde tivera relações sexuais e onde morrera. Não estava sozinha, pois os vestígios de esperma eram recentes, o que indicava que pelo menos um homem assistiria à sua morte, o que a levara para a cave de um edifício em ruínas.

Acho que temos uma pista quente foi o balanço de Reiber, só que ainda não a vemos. Cheira-me a queimado, mas não encontro a panela. Chocámos com um formigueiro e agora anda tudo às voltas. A minha experiência diz-me que alguém irá cometer um erro, o veneno é a insegurança. Esperemos!

 

Para os meios de comunicação isso significa: «A polícia é incapaz!» recordou Wortke amargamente.

 

Isso transtorna-te assim tanto, Theo?

 

Não. Wortke abanou selvaticamente a cabeça, mas fica-nos a experiência amarga de que neste país todos te podem atirar com lixo.

 

Os jornais que Von Gleichem comprou no dia seguinte e que leu com uma sensação dolorosa, confirmaram que estava numa situação dos diabos. Lok, o visitante vietnamita, não pronunciara palavras ocas. Os três homens de negócios polacos não tinham aparecido no Toscana, tinham sido encontrados assassinados e colocados ao lado uns dos outros no Nymphenburger Parque. A conferência de imprensa não oferecera mais informações e as extrapolações da imprensa e da televisão não interessavam a Franz von Gleichem. Agora tinha a certeza de que todos os negócios com aqueles mafíosos desconhecidos seriam uma ditadura, e também sabia que se tratava da sua cabeça. O mercado em Munique e em toda a Baviera seria dividido depois do aparecimento dos vietnamitas, não havia saída, só fugir da cidade, mas, Von Gleichem não queria isso. Era o rei dos bares de alterne da cidade, respeitado e admirado pela sociedade. Os seus clubes, que não passavam de bordéis privados, com raparigas extraordinariamente belas, eram frequentados por economistas, políticos e homens da cultura muito conhecidos e que apareciam com frequência nas gazetas sociais, pessoas de reputação internacional. Desistir daquele pequeno império que levara mais de vinte anos a construir, significaria o fim de uma vida de trabalho. Agora entendia que uma entrada de leão no mercado de ecstasy fora um erro enorme e a sua cabeça era muito preciosa para correr o risco de a perder numa luta pelo mercado.

 

«Não é cobardia, mas a noção exacta do momento presente», dizia ele a si próprio. Sempre odiara a cobardia, fora sempre um lutador. Contudo, havia um velho ditado chinês que dizia: «Quem recua também pode vencer», e a longa marcha de Mao Tsé-Tung fora prova cabal disso; ele ganhara.

 

Cinco dias depois da morte dos três polacos, Lok voltou a aparecer no Toscana e Ulrike mandou-o imediatamente entrar pela porta das traseiras. Von Gleichem, que já esperara a visita nos dias anteriores, levantou-se quando ele entrou no gabinete e forçou-se a sorrir quando o vietnamita lhe fez uma vénia e depois se sentou no sofá de couro, mas o seu rosto parecia uma máscara.

 

Leu os jornais? perguntou Lok, num tom amigável. Von Gleichem entendeu aquela amabilidade como se lhe estivessem a cuspir na cara.

Porque estamos com esta conversa parva? replicou com rudeza. Apresente as suas propostas. Estão sobre a sua secretária. Estes homicídios eram necessários?

 

Não foram homicídios. Lok reclinou-se e traçou as pernas. A língua alemã é muito rude. Chamamos-lhes liquidação. Ninguém pode ser criticado por querer a casa limpa. «Descobre quem ta suja e dormirás em paz», as antigas máximas continuam a ser as melhores regras de vida.

- Voltou a sorrir. Agora ficou limpa.

 

Você quer o mercado de ecstasy? perguntou Von Gleichem irritado, pois a cortesia de Lok mexia-lhe com os nervos.

Digamos que o queremos proteger.

De quem?

Dos comerciantes selvagens que vêm de Amesterdão e da Áustria, dos polacos e russos e dos pequenos laboratórios onde se fabricam comprimidos impuros. É uma enorme tarefa, senhor Von Gleichem, que exige uma grande capacidade de organização. Além disso também será necessário

um forte investimento de capital.

 

Para ser mais preciso, vou pagar taxa de protecção.

Von Gleichem pegou nos papéis que estavam sobre a secretária. O que me é oferecido é um acordo sobre segurança, um seguro. Que disparate é esse?

Não é a mesma coisa? Nós protegemos o seu negócio, a sua casa...

 

Mas então será preciso outro contrato.

 

Chegará um aperto de mão. Para nós, sela um negócio. «Confia no próximo como em ti mesmo e tudo te correrá bem na vida.»

 

Confiança! Von Gleichem coçou o nariz. Mas isso existe?

 

Para nós, sim. O sorriso frio de Lok não se apagava, se bem que se pudesse ver que se sentia ofendido. A desconfiança é um grão podre e deve ser arrancada»

 

Tem um ditado para tudo!

 

A tradição é o terreno da nossa vida.

 

Mao pensava de outra maneira.

 

E o que restou dele? A nova China está a reconstruir os templos que ele destruiu. Mas para que estamos a falar da China? Devemos falar de Munique.

 

Seja mais concreto e diga-me o que deseja realmente

 

Uma divisão em duas partes.

 

Protecção de zona, também para toda a Baviera? Von Gleichem voltou a atirar os papéis para cima da mesa. Agarramos num mapa, fazemos um risco e à esquerda ficas tu e à direita, eu. É assim?

 

Não, está a ver as coisas de maneira errada, senhor Von Gleichem. Lok inclinou-se um pouco para a frente na cadeira. O nosso trabalho em conjunto é muito mais simples: nós entregamos os bens e o senhor vende-os, e sobre isso, haverá ainda a protecção. Continuará com o negócio como até agora, mas a sua margem de lucro ficará un pouco mais reduzida.

 

Von Gleichem teve de se sentar. Não esperara por aquela viragem, era um aspecto totalmente novo, com o qual não contara, pois parecia-lhe impensável. Os vietnamitas não queriam o mercado, só estavam interessados no fornecimento da mercadoria. Assim, ficava tudo como dantes, só que os polacos eram afastados do negócio.

 

E que mais? perguntou Franz von Gleichem cautelosamente.

 

Nada mais.

 

É tudo?

 

Ainda não perguntou quais são as nossas condições, senhor Von Gleichem.

 

Então pergunto: quais são?

 

Vai ter de nos comprar ecstasy a um preço um pouco mais elevado, mas obterá a mercadoria mais pura possível. Pagar-nos-á trinta por cento do total das vendas, uma verdadeira prova de amizade. Lok cruzou as mãos e colocouas sobre o joelho dobrado. Houve um sábio que disse: «O cobrador de dinheiro nunca verá o céu.»

 

Esse ditado devia estar pendurado em todas as repartições de finanças!

 

Mas não se aplica a si, senhor Von Gleichem. Lok riu-se. Costuma dizer-se: «Quem oferece aos ricos é idiota», mas o senhor nunca foi nem é idiota.

 

E quando poderá entregar o ecstasy?

 

Von Gleichem não tinha vontade de discutir impostos com Lok. A venda de drogas era um negócio de milhões não declaráveis ao fisco. Pelo mundo inteiro lidava-se com mais dinheiro do que o orçamento dos Estados Unidos, mas o ecstasy só constituía uma pequena percentagem, o dinheiro gordo vinha da heroína, da cocaína e do haxixe, contudo, a droga da moda no meio juvenil começara a espalhar-se nas discotecas, nos bares, nos locais onde os jovens se encontravam, e até nas escolas, os dealers vendiam comprimidos e desapareciam imediatamente e parecia ser completamente inofensiva. «O teu cérebro floresce, sentes-te sempre feliz, é muito forte e desconheces o significado da palavra cansaço. O que te inibe desaparece, passas a ser como sempre quiseste que te chamassem: um tipo porreiro! E quem tomar ecstasy uma vez terá muita dificuldade em se livrar do hábito. É como um grande balde que nunca se desfazia», era nestes termos que os vendedores apresentavam a droga.

 

Nós entregamos imediatamente. Lok apontou para os papéis. Assine, por favor.

 

Por favor! Aquela maldita cortesia!

 

O que me vai entregar? perguntou Von Gleichem, agarrando na caneta. A palavra «seguro» parecia sorrir-lhe ironicamente. Barney? Smiley ou Chanel?

 

Não queremos copiar os outros, estamos a fabricar um novo preparado.

 

Von Gleichem deixou cair a caneta. Uma nova forma de ecstasy? Cuidado! Poderá ser muito perigoso. Não queria envenenar os jovens, mas sim excitá-los, é essa a diferença entre as drogas duras e os comprimidos da felicidade.

 

Porquê algo de novo? perguntou com alguma reserva. Já temos experiência com os outros comprimidos

 

E mortos! Em Inglaterra mais de cinquenta, nos Es tados Unidos algumas centenas, noutros países casos isolados, em Berlim duas e em Munique um «acidente».

 

Retirei o Playboy do mercado imediatamente afirmou Von Gleichem como se se quisesse justificar.

 

É um homem interessado na ecologia? perguntou Lok.

 

Von Gleichem olhou-o sem entender. Que quer dizer com isso? Fez donativos para a manutenção da selva amazónica, no Brasil, para a purificação de águas e mares, para a conservação dos pandas e dos tigres, para a proibição de despejos venenosos no mar do Norte, para o cultivo de fruta e de vegetais ecológicos... Como vê, sabemos tudo sobre si; É um defensor do ambiente.

 

Von Gleichem estava simultaneamente estupefacto e assustado. Como sabiam aquilo tudo? Tudo o que Lok dissera era verdade. Também fazia doações para a Greenpeace, a WWF e as organizações de salvamento de náufragos, e nos donativos para as vítimas de catástrofes naturais o seu nome nunca faltava nas listas. Era um homem que contribuia para as causas justas.

 

E que concluiu daí? perguntou ele, ouvindo a sua voz a adquirir um tom mais exaltado.

 

Que deverá ficar satisfeito por saber que estamos a desenvolver um comprimido de ecstasy ecológico. Mas isso só pode ser uma brincadeira! Permita-me que lhe explique. Lok inclinou a cabeça para trás e olhou para o tecto, como se as frases que« proferira estivessem lá escritas. À partida, este comprimido de ecstasy distingue-se de todos os outros pela embalagem. Não são pílulas nem comprimidos, mas sim uma pequena pirâmide muito atraente, envolta em papel colorido: ecstasy em pó. Pode misturar-se facilmente numa bebida ou engoli-la. A mistura consiste em produtos naturais puros, dos quais nenhum é proibido. Contém ginseng, chá verde, gingco, guaraná, cola pura e frutose, mistura que, na proporção exacta, produz o mesmo efeito dos outros comprimidos de ecstasy, só que são apenas matérias-primas naturais. Não há químicos, é tudo ecológico. Testámos este ecstasy «cem por cento natural e vegetariano» nos Estados Unidos, com excelentes resultados, e é mais barato: apenas dois marcos e dez cêntimos por pirâmide. Lok voltou a rir-se, baixou a cabeça e o seu olhar tornou-se aguçado e penetrante. Que margem de lucro obterá se os vender a um preço inferior a dez marcos? Irá dominar o mercado, deixará de haver concorrência! Iremos levantar o mundo com o nosso pó ecológico: trata-se de produtos naturais, não proibidos e completamente legais.

Demasiado bom para ser verdade! Von Gleichem respirou fundo. Se tudo isso for verdade... será mesmo uma revolução.

 

É verdade, confirmada pelo sucesso que teve nos Estados Unidos. Aqui não se fabricam venenos.

 

O cianeto também é um produto natural, pois é retirado da amêndoa amarga, e o veneno da rã-amarela brasileira também. Contudo, é com ele que os índios envenenam as pontas das setas. Para mim, ecologia é outra coisa.

 

O nosso contrato está elaborado para esse preparado.

- A voz de Lok continuava calma, mas Von Gleichem conseguiu detectar uma ameaça velada. Somos os fabricantes e produtores, para nós só existe este ecstasy. Porque está a reagir tão criticamente, senhor Von Gleichem? Até agora tem vendido uma felicidade atrás da qual estava a morte. Ainda não morreu ninguém por tomar a nossa pirâmide, as experiências são as pontes sobre os rios...

 

Deixar-me-ei surpreender.

 

Von Gleichem agarrou novamente na caneta. Estava pronto para entrar naquela aventura e, sem hesitar, assinou o contrato. Até uma doença tem prazo, sobretudo quando é simulada. Depois de oito manhãs apaixonadas, Robert voltou a aparecer na escola, mas os seus colegas não lhe prestaram muita atenção, sempre fora uma espécie de estranho para eles. Não tinha namorada, nem aventuras amorosas de fim-de-sema’ na, não fumava haxixe, nem ia a discotecas. No desporto era quase um zero, até na natação, e ainda por cima pertencia aos escuteiros, o que os outros achavam ridículo. Sempre ao piano, Chopin, Debussy, Beethoven e Schumann, e o seu amor por fenómenos extraterrestres. Um chato! Só o melhor amigo de Robert, o génio matemático Gerharde lhe perguntou: Já estás bom? E Robert respondeu da mesma maneira curta.

 

Já.

 

Ninguém reparara que ele se transformara noutra pessoa, apenas Gerda Habicht, sua mãe, parecia notar mudanças. Falou com o marido sobre o assunto, mas numa altura muito má, quando ele andava às voltas com a sua colecção de selos. Nos últimos tempos, não gosto muito do que vejo em Robert anunciou Gerda, preocupada. Correcto. Habicht levantou os olhos da sua colecção. Está a precisar de cortar o cabelo. Não é isso, Hubert. Então o que é? Habicht olhava extasiado para os selos ingleses de 1901. Está com um ar cansado e pálido, trabalha demasiado

 

Para fazer um bom final de ano é preciso estudar. As boas notas não caem do céu. A instrução dá trabalho, Robert está com um olhar muito estranho. Já reparaste nos olhos dele?

 

Claro que sim, são azuis!

 

Habicht ficou impaciente, não gostava de ser incomodado quando estava às voltas com os seus selos. Toda a gente ’precisa de um hobby relaxante, sobretudo um funcionário governamental. O serviço a uma secretária já é suficientemente opressivo.

 

Gostaria de conversar contigo a sério.

 

’ Gerda Habicht estava zangada, sentou-se num banco em frente ao marido e Habicht suspirou: quando falavam do filho, havia sempre discussão.

 

O que é que reparaste nele? perguntou de lupa na mão, com a qual observava os selos. Está outra vez a tocar Chopin como se fosse Beethoven?

 

Robert está a abusar das suas forças! disse Gerda.

- Por vezes anda por aí como um fantasma. Já o vi sentado no jardim a olhar fixamente para o vazio, sem se mexer,.. imóvel. Acho que entrou em depressão.

 

Pensa na matemática. É fácil ficar muito deprimido quando se tem um cinco num teste.

 

A tua estúpida matemática! Estou preocupada com Robert!

 

Perfeitamente desnecessário.

 

Emagreceu.

 

Efeitos da viagem a Inglaterra. Eu também não gosto d comida inglesa.

E as olheiras? Ele está doente!

Habicht esforçou-se por não perder a paciência.

 

Está bem, está bem concordou, agarrando novamente na lupa. Tratarei do assunto. Vou falar com o nosso filho. Estás contente?

 

Gerda Habicht, percebendo que não fazia sentido continuar a conversar com o marido, inclinou a cabeça para trás, gesto que traduzia a sua revolta, e saiu do escritório. Habicht. suspirando de alívio, agarrou num envelope cheio de selos, que tinha adquirido recentemente, e começou a separá-los com uma pinça. Não podia estragar as serrilhas, pois um selo é tão sensível como vidro, todos os coleccionadores o sabem.

 

É claro que não falou a Robert acerca das preocupações da mãe, há muito que se esquecera do assunto. Para ele, só se estava doente quando se caía na cama. Rubert aprendera isso com o pai, que tinha sido um velho soldado. A juventude estava cada vez mais fraca...

 

Contudo, Robert foi submetido a um interrogatório paternal, ao qual só respondeu mentiras, e também se submeteu com coragem à continuação das explicações em casa do amigo, agora durante as tardes, mas depois ia para o Toscana, onde distribuía Smiley, Barney, e o caríssimo Chanel, o ecstasy mais puro que se vendia na Alemanha.

 

Diz-me lá afinal para onde vais quando sais daqui? perguntou-lhe o amigo uma vez, durante um intervalo. Sabes que me estás a manchar a reputação? Todos sabem que te dou explicações e depois vais ter um cinco no exame final! A minha reputação irá por água abaixo!

 

Sobreviverás com os teus uns. Sou e serei sempre um idiota no que diz respeito à matemática e suporto a minha estupidez.

 

Então diz-me, pelo menos, por onde andas.

 

Tenho uma namorada.

 

Pareceu simples e esclarecedor. O amigo abriu um largo sorriso, mas ficou sério rapidamente.

 

Não me digas que é aquela do bar de alterne?

 

Porque não? Robert acenou com a cabeça. Gerhard era um bom amigo, em quem podia confiar. Eu amo-a...

 

Meu idiota!

 

Obrigado.

 

Sinceramente, és um perfeito cara de cu! Fode-se com uma pessoa assim, mas não serve para namorada. Qual será o fim de tudo isso?

 

Ela também me ama.

 

E tu acreditas?

 

Sim, vamos viver juntos. Depois do exame final, vou estudar música. Vejo o meu futuro como pianista, como Barenboim... ao piano e à frente da orquestra.

 

Ele não andava com uma puta a reboque!

 

Que sabes tu de Ulrike? Robert fez um gesto com a mão quando o amigo quis continuar a falar. Ela dá-me forças e autoconfiança. É uma mulher maravilhosa e preciso dela.

 

Para a cama.

 

Não! Para viver comigo, mas tu não entendes.

 

Confesso que não! Só adivinho que te vai destruir.

 

Esse problema é meu! Robert olhou o amigo com os lábios cerrados. Tu tens de me prometer que não abrirás a boca sobre este assunto. Seja como for que tudo se desenvolva, nem uma palavra.

 

Prometido, mas estou ansioso por saber se algum dia te ouvirei com a Orquestra Filarmónica de Munique. Robert Habicht interpreta o concerto número um para piano, de Tchaikovski.

 

Receberás um convite. Primeira fila, ao meio e o riso de Robert parecia de vitória. E bato-te, se assobiares.

 

Na conta bancária que Robert abrira, porque já tinha dezoito anos, estavam sete mil seiscentos e cinquenta marcos. A soma subia todos os dias, os negócios corriam bem, e só uma coisa o assustava: vender ecstasy aos colegas. Sabia que dois deles consumiam marijuana e talvez pudessem ser os seus primeiros clientes, mas mesmo apesar dos comprimidos serem inofensivos, facto que Ulrike acentuava sempre, havia uma barreira moral que não conseguia ultrapassar. «Os meus colegas não», pensava Robert. «Devem permanecer limpos.»

 

Como contraponto, decidiu ir a uma festa techno, onde segundo o que os vendedores diziam, o ecstasy seria engolido como se fossem rebuçados. Devia ser um espanto observar tantos jovens em êxtase.

 

Nada disse a Ulrike acerca dessa sua intenção e, após [uma tarde de vendas, meteu vinte Smiley no bolso, trouxe de casa umas calças de ganga velhas e uma T-shirt, onde estava estampada a frase «Sou uma ilha», recordação que trouxera da viagem a Helgoland, há anos, vestiu-se no carro

 

entrou numa das discotecas mais in, que fora reconstruída a partir de um estábulo. Conseguira sacar a morada a um jovem dealer sem que Ulrike reparasse.

 

Robert entrou, pela primeira vez, num mundo que lhe era totalmente estranho e não comparável com o Toscana

 

A grande sala estava quase às escuras, mas do tecto irradiavam raios coloridos a um ritmo selvagem, como redemoinhos e ouvia-se uma música estridente, que saía de diversos altifalantes espalhados por todo o lado e que dava cabo dos nervos. Uma multidão de corpos excitados, que se atropelavam, enchiam a pista de dança, e os seus braços e mãos pareciam tornar-se gigantes com os raios de luz que se moviam ao ritmo da música. Eram trovões e raios, e Robert teve de fazer algum esforço para distinguir um único som, mas os seus ouvidos não reconheciam aquilo como música, apenas como ritmo, um martelar naqueles corpos agitados e rostos iluminados pela luz. Os dançarinos eram tão jovens que Robert perguntou a si próprio, espantado: «Que idade tens? Pertences a este meio? Que queres tu deste mundo estranho e ameaçador?»

 

Começou a tentar passar através daquela multidão de jovens que dançavam e pelas mesas, e procurou o balcão. Encontrou-o junto à parede do fundo; era de madeira talhada à maneira rústica. Nas paredes havia posters de bandas techno, cujos nomes Robert desconhecia e sentou-se num banco. Junto a ele estavam alguns jovens da sua idade a beber Coca-Cola ou cocktails de fruta. Dois deles tremiam tanto que tinham de agarrar o copo com as duas mãos e o motivo não era álcool, pois Robert não viu uma única bebida alcoólica, nas prateleiras, ao contrário do que acontecia no Toscana.

 

Os jovens nem lhe deram atenção e Robert respirou fundo. Como estava dentro da sua faixa etária, não causava suspeitas.

 

Pediu uma Coca-Cola ao empregado do bar e acabara de dar o primeiro gole quando uma jovem se acercou dele. Tinha um copo de sumo de laranja na mão e ainda não estava tão suada como as outras que vinham da pista de dança. Robert olhou-a pelo canto do olho. Longos cabelos louros até aos ombros, seios redondos que se viam por baixo da blusa, nádegas pequenas, pernas esbeltas e calçava sapatos com sola de borracha. O seu rosto, que lhe fez lembrar as raparigas que apareciam nas revistas americanas, estava virado para ele. Tinha lábios finos, um nariz infantil, esboçava um sorriso e no canto esquerdo da boca surgiu uma pequena concavidade. «Bonita», pensou Robert. «Rosto de boneca e cabelos que parecem seda.» Assustou-se quando ela lhe perguntou:

 

És novo aqui?

 

Pareço ser? retorquiu ele.

 

Nunca te vi cá.

 

Com esta confusão, não deves ter reparado em mim.

Ela riu-se e a voz era tão clara com os cabelos. Não danças? perguntou ela.

 

Tu também não estás a dançar.

 

Hoje doem-me as costas. De desporto, sabes. Jogo hóquei.

 

Isso é raro, nunca conheci nenhuma rapariga que jogasse hóquei. Gosto mais de nadar.

 

É o meu segundo desporto favorito.

 

Também salto e anteontem caí mal na água. A nádega esquerda está tão azul como o céu de Ádria.

 

O céu de Ádria é bom. Voltou a rir-se, bebeu um gole do sumo de laranja e colocou o copo sobre o balcão.

- Então nenhum de nós pode dançar hoje.

 

Infelizmente, é verdade.

 

Tinham de gritar para se fazerem ouvir devido ao volume das marteladas da música techno. O interesse de Robert despertava cada vez mais, a jovem tinha uns olhos que pareciam âmbar escuro, que davam uma expressão especial ao rosto, olhos que precisavam ser investigados.

 

Chamo-me Robert disse ele, sentindo-se na obrigação de se apresentar.

 

E eu chamo-me Christa.

 

E que fazemos agora? Com a sua proximidade, Robert começou a sentir-se bem naquela discoteca horrível, que se chamava Setecentos e Setenta e Sete... Não podemos dançar, pois estamos inválidos... É um problema.

 

A história do salto era obviamente mentira, Robert nunca passara da prancha de um metro e jamais sentira a mera apetência para se lançar de grandes alturas; a água pod» ser muito dura. Mas acreditou que Christa jogasse hóquei; podia muito bem imaginá-la sobre patins e de aléu na mão

 

Podemos dançar sempre no mesmo lugar, Robert propôs ela. Para trás e para a frente, entendes?

 

Isso é aborrecido.

 

Propões algo melhor.

 

Podemos sair desta barulheira e ir passear. Está uma noite de Verão quente e clara.

 

És romântico?

 

Pôs a cabeça de lado ao fazer a pergunta e os seus olhos de âmbar brilhavam. «Ela é muito bonita», pensou Robert «Na realidade, terrivelmente bonita.»

 

Romântico? repetiu ele. De vez em quando

 

E agora que vez é?

 

Hoje é dia de ir lá para fora, para o ar fresco. Aqi mal se pode respirar.

 

Abandonaram a discoteca e encostaram-se ao muro exterior. Uma meia lua brilhante iluminava algumas nuvens. Ainda estava tanto calor como de dia.

 

Vens cá muitas vezes? perguntou Robert depois de esperar em vão que Christa proferisse a primeira palavra

 

Também de vez em quando. Soltou novamente uma gargalhada clara e atirou com os cabelos para a cara. Não sou exactamente do tipo techno, só venho às vezes

 

E para que vais lá?

 

Para me abstrair um pouco do quotidiano. A vida é uma merda, sempre a ver televisão, além das parvoíces que acontecem em casa, por isso às vezes é preciso fugir. Aqui pelo menos, acontece alguma coisa, encontras tipos que te compreendem, que, como tu, querem ouvir um pouco de barulho, sacudir as teias de aranha. Ela olhou para Robert. Como são as coisas em tua casa?

 

Por uns instantes, ficou sem saber o que dizer ao ouvir o discurso de Christa; não estava de acordo com o seu aspecto exterior, com o seu ar de boneca.

 

Barulho, dizes tu? Robert colocou-lhe o braço sobre os ombros, gesto que ela aceitou sem a menor hesitação. Pertences àqueles milhares de extremistas que não faltam às manifestações, que batem em toda a gente, roubam carros e lojas, atiram cocktails molotov à polícia, inundam as ruas...

 

Eu disse isso? Só afirmei que a vida é uma monotonia total.

Há cinemas, Christa.

 

Sempre a mesma merda.

 

Vai a um concerto.

 

Porra! Isso não! Adormeço.

 

Lê um livro.

 

Estás parvo? Um livro? Ler? Não sou masochista! Levantou a cabeça para ele. Tu lês?

 

Sim, bastante.

 

Policiais?

 

Poucos.

 

Pornográficos?

 

Também não. Livros sobre viagens espaciais e possíveis mundos novos.

 

Ah! Sobre os homenzinhos verdes. Voltou a rir.

- Enganaste-te quando entraste na Setecentos e Setenta e Sete! Ela apontou para o quarto crescente e encostou-se mais a Robert. Em que pensas quando olhas para a Lua?

 

Que está a uma distância de cerca de trezentos e oitenta e cinco mil quilómetros e tem um diâmetro perto de dez mil e quinhentos quilómetros. A gravidade da sua su| perficie é um sexto da da Terra.

 

É tudo?

Há mais?

Onde moram os homens que estão na Lua?

Não há lá homens.

Vês? E eu acredito que sim! Sou mais romântica do que tu.

 

A resposta desarmou-o, não havia argumentos.

 

Tens razão concordou, sentindo-se cada vez melhor com a proximidade do corpo de Christa. Acreditemos, que há homens na Lua. Mas agora estão a dormir.

 

Porquê?

 

Porque é quarto crescente, estão a dormir no lado es curo da Lua. É óbvio!

 

Muito óbvio. A mão dela procurou a de Robert entrelaçou os dedos e apertou-a. Robert... Apesar dos teus homenzinhos verdes és um rapaz muito simpático

 

E tu uma rapariga muito bonita.

 

Voltarei a ver-te?

 

Christa, parece que te queres ir embora.

 

Já são onze da noite e tenho de estar em casa a horas. O meu velho fica à janela com um cronómetro.

 

Como vais para casa?

 

De metro.

 

Posso levar-te de carro?

 

Tens carro? Que carro?

 

Um «calças arregaçadas».

 

Classe! Ela colocou-se nas pontas dos pés e deu-lhe um beijo na face. Robert, és um tipo porreiro

 

Não tens namorado? Fez a pergunta porque se lembrou subitamente de que ela estava sozinha na discoteca

 

Amigos? De sobra, até do hóquei, mas um fixo não tenho. Até agora só encontrei parvos, aqueles que, depois de beberem três Coca-Colas, me querem saltar para cima. Não gosto disso.

 

E aqui na discoteca não tens ninguém que te agrade? perguntou Robert, duvidoso.

 

Aqui dança-se até à loucura, o som entorpece o cérebro, agarra-se ao corpo e não consegues fazer nada contra isso.

 

Foram até ao parque de estacionamento e era quase natural irem abraçados. Só se largaram em frente ao carro

 

Porque achas que a vida dá vontade de vomitar? perguntou Robert. Tu tens tudo. Que queres mais?

 

O que tenho eu?

 

Os seus olhos voltaram a brilhar, mas era um brilho de revolta.

 

O teu clube de hóquei...

 

Todos os sábados à tarde. Não posso ir lá mais vezes

 

Porque trabalhas?

 

Exacto. Já estiveste oito horas de pé num armazém? Que fedor! Quando entram compradores não dás por isso, mas estar ali tanto tempo... Milhares de pessoas entram e saem. «Menina, atende-me?», «O que é isto! Não serve! Preciso do tamanho C!», «Menina, preciso de algo que me eleve o peito!», «Menina, já estou à espera de que me atendam há um quarto de hora!», «Menina, isto está-me apertado nas costas...», «Menina, ando à procura dos sutiãs que anunciaram na televisão.» Cem vezes a mesma merda, é enervante. E à noite ficas em casa e está tudo rabugento, dá-te vontade de desaparecer.

 

Então és vendedora.

 

Rapaz esperto. Num armazém, na secção de roupa interior de senhora. É preciso ser sempre cortês, o cliente é rei, dizem os lá de cima, da direcção. Já alguma vez atendeste uma cliente chata?

 

Vender significa servir, e servir vem de serviço.

 

Não comeces com bocas. Ela abriu a porta do carro e encostou-se. Gosto de ti, Robert, mas pára de brincar com as palavras.

 

Que idade tens? perguntou ele, pois, com aquela visão da vida, parecia ter séculos de desilusões atrás de si.

 

Dezasseis. E tu?

 

Um pouco mais de dezoito.

 

Mas comportas-te como se tivesses trinta. Trinta pareceu-lhe exagerado, é a idade dos avós.

 

Ela subiu para o carro, fechou a porta e esperou que Robert se sentasse ao volante.

 

A saia de Christa subiu e mostrou as esbeltas coxas. À luz da Lua a sua pele brilhava como se fosse seda castanho-clara. Ela reclinou-se, esticou as pernas, puxou a bainha do vestido um pouco mais para cima e, com ambas as mãos, empurrou os cabelos para trás.

 

Também gosto de ti! exclamou Robert subitamente, mas sem a mesma força com que o dissera a Ulrike.

 

Então está tudo bem. Christa voltou a soltar uma clara gargalhada. Acelera, Robert.

 

Para onde?

 

Leva-me até Gráfelfing. Depois digo-te onde parar Disse-o na Killerstrasse, esquina com a Schulstrasse

 

Robert travou.

 

Vives perigosamente gracejou ele. Rua dos assassinos!

 

Não vivo aqui. Vivo perto.

 

A rua da escola também é mortal.

 

Não, é noutro sítio...

 

E porque não me queres dizer? Onde te posso ir buscar quando nos encontremos de novo?

 

Na Setecentos e Setenta e Sete. Em minha casa nunca. O meu pai... já te disse, está com um cronómetro à janela. Um horror, Bob.

 

Robert estremeceu e o seu rosto endureceu subitamente. Havia algo de frio e depressivo no seu coração.

 

Não me chames Bob pediu. Chamo-me Robert

 

Gosto mais de Bob. Porque não Bob?

 

Não... não me agrada.

 

Ninguém te percebe. Christa abriu a porta do carro e saiu. Robert soa tão burguês, é o guarda-florestal do bosque dos contos de fadas.

 

Também há uma ópera de Meyerbeer: Robert, Diable...

 

Outra vez essa merda da cultura! Larga isso, porra! Ela fechou a porta, mas depois inclinou-se e gritou pelo vidro. Na sexta-feira volto à discoteca. Adeus...

 

Ficou a olhar para ela até desaparecer na esquina. Uma boneca a dançar à luz da Lua.

 

Christa...

 

Robert pôs o motor em marcha, passou a mão pelos olhos e dirigiu-se lentamente para casa. Tinha que conduzir devagar, pois milhares de pensamentos inundavam-lhe desordenadamente a cabeça.

 

A sala de conferências do Departamento Criminal Estadual estava completamente cheia quando o comissário-chefe Reiber subiu para a tribuna de papéis na mão.

 

Encontravam-se presentes todos os altos responsáveis da polícia e na primeira fila viam-se também alguns políticos, conselheiros municipais e dirigentes estaduais. Ficou muito contente... Quando saíssem da sala, algo lhes deveria ter ficado no ouvido.

 

Reiber esperou até que os convidados se instalassem e se fizesse silêncio, e bateu então com o dedo no microfone. Tudo em ordem, o som estava bom; não se deve confiar... nos técnicos. O toque com o dedo também foi sinal de que ia começar.

 

Minhas senhoras e meus senhores! Caros e caras colegas! começou Reiber com o seu tom habitual, mas logo na primeira frase informou a audiência da razão daquela reunião. Isto não é uma conferência, mas sim um alerta. Irão ouvir coisas que já conhecem e também algo de assustadoramente novo e perguntarão: «O que se pode fazer contra isso?» Como responsável pela Décima Terceira Esquadra também faço a mesma pergunta a mim próprio, pois todos os dias tento fazer sair a polícia do estado do torpor em que se encontra.

 

Calou-se e encarou a primeira fila: os políticos escondÉram-se atrás de expressões de esperança e o intendente da

polícia limitava-se a olhá-lo.

 

Como sabem, trata-se do crime organizado continuou Reiber, um capítulo particularmente triste da nossa história criminal, o qual domina actualmente as estatísticas:

No negócio de drogas, no contrabando de carne branca, na prostituição, na extorsão, e em proporções cada vez maiores, nos homicídios. Não gostaria de me referir ao facto de a Alemanha estar neste momento a ser palco de uma guerra de bandos que faz lembrar a época de ouro de Chicago. Um exemplo triste é Berlim: num ano houve mais de cinquenta homicídios perpetrados pela máfia. Criminosos: russos, viietnamitas e romenos. Nos últimos meses, a guerra tem sido pelo contrabando de tabaco e todos perguntar-se-ão:

 

Cigarros? O que se pode ganhar com isso? É um negócio ridículo. A heroína, a cocaína, a marijuana, o speed, o crack e a escravatura branca compensam, mas cigarros?» Só vos vou referir alguns números: em cada cigarro que entra sem pagar impostos, o estado perde catorze cêntimos. Só de Janeiro até Abril deste ano, a polícia conseguiu apreender duzentos e sessenta milhões de cigarros destinados ao mercado negro, o que significaria uma perda em impostos de trinta e seis milhões de marcos e meio. Em quatro meses! Isto apreendidos, mas quantos entraram ilegalmente no mercado? É impossível avaliar! Para a máfía é um negócio excelente, um mercado seguro, mas, para o dominar, é preciso matar... é tão simples como isto. Mas isto só serve de exemplo, actualmente, tudo gira à volta de outro mercado que se encontra numa espécie de fase de construção. Fizemos progressos, mas aquilo que sabemos ainda não chega. Estamos a ver desabrochar uma nova actividade do crime organizado, mas continuamos de mãos e pés atados, o que parece, e é, assustador! Trata-se da divulgação da droga da moda, o ecstasy, no seio de um grupo de consumidores que até agora era demasiado jovem: entre os catorze e os dezoi to anos. Levantou as mãos para se defender de um possível ataque. Eu sei que há dealers suficientes neste grupo etário, mas constituem uma espécie de sociedade, conhecem-se e têm locais fixos onde se injectam. Com o ecstasy é outra coisa.

 

Reiber folheou os seus papéis e os ouvintes calaram-se. Ainda não havia vestígios de perplexidade. O que ele dissera até então era do conhecimento geral, as novidades importantes viriam a seguir.

 

Porque é o ecstasy tão perigoso? perguntou Reiber. Quando começou a aparecer, parecia inofensivo; com seis Cubas Libres ficava-se mais high do que com um comprimido de ecstasy, pois aquela bebida é uma mistura de rum, sumo de limão e Coca-Cola. Quando se quer usar uma expressão refinada diz-se que o ecstasy é a droga dos designers, mas com isto estamos muito perto da verdade; é uma droga! Para lhes proporcionar as melhores informações, pedi ao especialista na matéria, professor doutor Hans Eberlem, que lhes apresentasse o ecstasy e vos desse todas as explicações. Por favor, o professor Eberlein.

 

Reiber afastou-se e da primeira fila levantou-se um homem já idoso, com um estômago saliente, que subiu à tribuna e espalhou um monte de papéis e pigarreou.

 

Há quase vinte anos que investigo o ecstasy, altura em que surgiu nos Estados Unidos, sendo ainda desconhecido na Europa começou ele. Também nesse país era tão inofensivo como a Coca-Cola, pois não Continha substâncias perniciosas e não estava sob a alçada da respectiva lei, mas mais tarde isso veio a verificar-se. Nos Estados Unidos os comprimidos podiam ser vendidos livremente e eram usados para as dores de cabeça, insónias, pruridos ou picadas de insecto, adicionados às vitaminas, e quem os comprasse era o único responsável. Não havia proibições, mas já nessa altura os farmacêuticos e os médicos avisavam contra a utilização de ecstasy, embora sem resultados. O lóbi dos fabricantes era mais forte até a nível de capital, e os políticos sabem disso.

 

Fora uma frase péssima, pois os que estavam entre os convidados sorriram, tomando aquelas palavras como brincadeira.

 

Assim continuaram alegremente até à primeira morte, um rapaz de dezanove anos vítima de hemorragia cerebral. Consequência acidental de um jogo de basebol? A autópsia determinou que não fora um acidente, nem um aneurisma, pois as veias do cérebro estavam tão finas que rebentaram e os rins mostravam uma clara insuficiência funcional. O jovem tinha, portanto, três causas de morte dentro de si, só que a do cérebro fora mais rápida. O director do Instituto de medicina Legal americana lançou a suspeita de uma droga perigosa; o professor Eberlein respirou fundo e desde então, tudo mudou... e não para melhor: os comprimidos de ecstasy tornaram-se melhores, o que significa, mais perigosos. Eberlein fez uma pausa e bebeu um gole do copo de águamineral que tinha junto de si, pensando que aquela introdução era necessária para que se compreendessem melhor as explicações que se seguiriam.

 

O que é então o ecstasy? perguntou. É um derivado de anfetamina. Isso não lhes diz nada? Quimicamente é uma metilanfetamina, e nada mais do que um meio para tirar o apetite. Uma coisa destas não é proibida e tem venda livre, só quando se lhe misturam outras substâncias, como por exemplo, um alucinogénio, ou cafeína, é que se torna uma droga infernal. Até existem comprimidos que têm heroína ou até speed.., cuja acção é potencializada, causando inexoravelmente dependência. O ecstasy também pode ser uma passagem para as drogas duras, pois não existe uma receita única. Cada tipo de comprimido é diferente. Na Europa, conhecemos até agora seis tipos de preparados: Smily, Barney, Chanel, Seppi, Playboy e Sem Nome, sendo este ultimo o mais prejudicial.

 

Eberlein desceu da tribuna e dirigiu-se a um grande rolo que estava preso à parede com grampos, soltou a correia de segurança e desenrolou a tela. Ao lado das diferentes fórmulas do comprimido estava ainda um esquema do corpo huma no com todos os órgãos internos, as veias e os músculos principais. Antes de Eberlein voltar para a tribuna bebeu um pouco mais de água mineral. As explicações que se seguiam levariam muito tempo e não havia nada pior para dificultar o discurso do que a garganta seca.

 

Olhemos para o comprimido Sem Nome Apareceu primeiro em Hamburgo e de acordo com a composição, é um comprimido fabricado no Leste, possivelmente na Polónia, com muitas impurezas e misturas de anfetaminas e cafeína, o que o torna especialmente perigoso. O corpo reage com taquicardias e um colapso circulatório que pode levar à morte. Em Munique, o Sem Nome, assim chamado porque não tem uma fórmula definida como os outros, raramente aparece, mas receia-se que surja rapidamente no mercado porque é o mais barato. Os mais caros, os Chanel, já existem na Alemanha e na Áustria e o seu efeito é também assustador: retiram todo o controlo sobre o corpo! Os componentes do Chanel são especialmente fortes, desse modo, vão pela corrente sanguínea até ao cérebro e activam todos os transmissores que desencadeiam a sensação de felicidade o batimento cardíaco normal eleva-se e as capacidades motoras aumentam, mas a necessidade de ingestão de líquidos fica tão reprimida que pode levar ao colapso de todos os órgãos, ou seja, aquilo a que chamamos «colapso múltiplo». Depois temos os Barney, os mais vendidos, que quase não contêm impurezas e cujo efeito é extremo: primeiro, uma grande euforia e mais tarde uma grave depressão, o céu e o inferno tocam-se. Para além disso, aqui na Baviera funcionam como a droga clássica. A seguir, aparecendo primeiro em Berlim e também vindo da Polónia, surgiu o Playboy,,|, em Munique está bem distribuído no mercado. É um.(. sujo, ou seja, contém muitas impurezas e o seu efeito sobre o organismo é totalmente incontrolável. Em Berlim registaram-se alguns casos de paranóia, que, de acordo com os conhecimentos actuais, é uma doença que provoca delírio sistemático, e que, em relação à esquizofrenia se baseia no desenvolvimento das perturbações de carácter e se manifesta através de fixações mórbidas. Eberlem voltou a beber um gole de água.

 

Vejo nas vossas caras espantadas que reconhecem o perigo a que estes jovens estão expostos, mas ainda não é tudo! Outra pílula, igualmente muito utilizada em Munique, tem o bonito nome de Smiley, também é de fabrico polaco e surgiu pela primeira vez na Áustria, nas zonas de Linz e Salzburgo. O Smiley é bastante impuro, como todos os produtos que vêm de Leste, e contém, para além do habitual netilanfetamina, um alucinogénio. Consequência: provoca ilusões, problemas sensoriais, estimulação dos sentidos e representações irracionais, podendo conduzir ao suicídio.

 

O professor Eberlem vírou-se e dírígíu-se ao grande quadro. De lá, deitou um olhar aos ouvintes, viu rostos estupefactos, que simultaneamente demonstravam impotência, apontou para o quadro.

 

Vêem aqui um corpo humano com veias, órgãos, cérebro e glândulas danificados pelo ecstasy. Contudo, iria demasiado longe se lhes tentasse mostrar os possíveis efeitos futuros do comprimido, devemos cingir-nos ao presente.

Comecemos pelo cérebro: consumo de ecstasy activa todos os neurotransmissores, que provocam uma sensação de felicidade. Consequência: quem ingerir três ou quatro vezes, comprimidos habitua-se a esta sensação de euforia, provocando uma dependência psicológica. Sem droga não há vontade de viver! Os olhos, a que chamamos os espelhos da alma, reagem com um aumento da pupila para o dobro, é assim que reconhecemos imediatamente os consumidores os quais não contam com o seguinte: devido à utilização prolongada de ecstasy, haverá danos substanciais no sistema nervoso e um decréscimo muito rápido das capacidades oculares. A audição, e isso excita particularmente os fãs ecstasy, aumenta tanto que o viciado passa a viver no meio do barulho. Os sons tornam-se muito altos e a música transforma-se em ruído. O mundo desfaz-se em sons, uma experiência que pode conduzir à surdez.

 

O professor Eberlein bateu com a ponta do dedo no quadro, ele próprio preso ao tema que abordava. Os longos meses em que estudara as vítimas do ecstasy também o tinham abalado, apesar de ser um cientista frio, sobretudo porque tinham todas entre os dezasseis e os dezanove anos. Mais recentemente, observara um miúdo de catorze cujo cérebro estava completamente danificado e que, incurável, vivia numa instituição. Comprara ecstasy aos dealers jovens no pátio da escola, que apareciam duas vezes por semana antes ou depois das aulas e nos intervalos, parecendo lobos atrás das presas.

 

Aqui temos a boca prosseguiu o professor que reage à sua maneira. O palato e a traqueia secam e os lábios tornam-se rígidos e salientes, mas o comprimido impede a dispersão de humidade e diminui a necessidade de ingestão de líquidos. O protesto do organismo é bastante audível; os dentes e os maxilares colam-se, é o ranger de dentes de êxtase. Descemos um pouco mais, até ao fígado, que, como todos sabem filtra os venenos sendo o grande purificador. No entanto, com o ecstasy ele deverá, mais tarde om mais cedo, capitular, tal como no alcoolismo crónico: o princípio activo do ecstasy, o MDMA, aloja-se no fígado e resulta numa morte por envenenamento, nada haverá a fazer.

 

Um alcoólico pode ser desintoxicado, um consumidor de icstasy, não. E agora o coração, que, no ser humano, tem o trabalho mais pesado e importante, sendo quase sempre ignorado, e que também será um órgão fatal para os consumidores de ecstasy. Quem ingerir esta droga design, que palavra tão baixa e criminosa!, sofre lesões irreversíveis no coração. A frequência cardíaca aumenta, o pulso acelera-se e a circulação explode. Que coração poderá suportar esta situação a longo prazo? Quanto mais tempo o êxtase se instalar, mais depressa haverá um colapso. Investiguei casos em que os consumidores foram encontrados em perigo de vida depois de passarem quatro dias sob o efeito do comprimido. Só uma acção clínica imediata impediu a morte cardíaca, mas, numa discoteca techno, como se pode encontrar um médico com rapidez? Uma voz que vinha do círculo de ouvintes interrompeu o professor. Um jovem agente da polícia levantou a mão como se estivesse na escola e, enquanto falou, as cabeças viraram-se para ele.

 

Um médico que trate de um caso desses é obrigado a participá-lo à Polícia Judiciária ou ao Departamento de Saúde? perguntou ele.

 

A resposta veio de Peter Reiber, que se levantou e subiu à tribuna.

 

Não há lei alguma que obrigue a isso. A má utilização de drogas deve ser participada, pois é ilegal, mas no caso do ecstasy a legislação não é muito clara, pois os comprimidos são feitos a partir de substâncias de venda livre. Nem a lei acerca da má utilização de produtos farmacológicos se aplica neste caso, pois o ecstasy não é um medicamento. Um médico pode, portanto, invocar a sua ética profissional e não abrir a boca acerca dos doentes. Avisá-los-á ; explicar-lhes-á que devem tentar desintoxicar-se, o que nunca acontece, mas só em casos raros nos dirá alguma coisa. O caso muda de figura quando há morte devido a sobredosagem com ecstasy. Nesse caso, ficamos com tudo em cima dos ombros e chocamos sempre com o famoso muro de silêncio, ninguém diz nada, todos se calam, incluindo, como é lógico, o tipo que anda com os comprimidos no bolso e os vende.

 

Então precisamos de legislação especial propôs o jovem agente.

 

Não só. Reiber riu-se. Só em Munique necessitamos de investigar alguns milhares de famílias e em toda a Alemanha seriam algumas centenas de milhares! É totalmente impraticável. E que resultados obteríamos? Prendíamos algumas centenas de dealers, imediatamente substituídos por outros, pois nunca chegaremos às cúpulas. Os grandes traficantes, sobretudo os fabricantes de droga, estam no estrangeiro e muito bem organizados: já sabemos que os comprimidos provêm da Polónia e de Amesterdão. Mas voltemos à sua pergunta, caro colega. Quando um médico investiga um jovem doente que sofre de taquicardias ou colapsos nervosos, dores no fígado ou depressão, deverá procurar todas as causas possíveis, mas a questão do ecstasy será a última que colocará, e obterá esta resposta: «Não! O que é o ecstasy?» Além disso, são raros os casos agudos, o mais diabólico desta droga da moda é a decadência, Os danos cerebrais avançam passo a passo, as células nervosas vão ficando danificadas e o contacto com o cérebro diminui assustadoramente. Quando se dá o colapso total, é demasiado tarde. As células mortas já não se renovam. Virou-se para Eberlein, que ainda estava de pé junto do quadro. Não é assim, senhor professor?

 

Exactamente. Eberlein acenou várias vezes com a cabeça. Como o ecstasy trava a ingestão de líquidos, o maior perigo reside na secagem dos rins a par das perturbações do ritmo cardíaco, caso em que ainda haverá salvação se tratado a tempo. Mas o que significa a tempo? Cada organismo reage ao veneno de maneira diferente. Só raramente existem casos de morte instantânea, é uma morte lenta, às vezes muito lenta! Mas continuemos a observar o quadro.

 

Bateu com o dedo no desenho.

 

Qual o efeito do ecstasy no sexo? É o capítulo que tem maior impacte nos consumidores, juntamente com a sensação de felicidade. Existem dois efeitos contrários: a libido, ou seja, o impulso sexual, decai continuamente, a liberação do desejo sexual diminui e a capacidade de sentir orgasmos é cada vez mais diminuta; ou então acontece exactamente o contrário. O impulso sexual explode e perde-se todo o controlo, pois o cérebro afectado pelo ecstasy expele os neurotransmissores necessários. Chega-se assim a um êxtase imcontrolável e a excessos de vitalidade, que, por sua vez, sobrecarregam o coração e a circulação até ao colapso. A temperatura do corpo sobe até aos quarenta graus, uma febre artificial. Quando isto acontece durante muito tempo, poderão imaginar o estado em que fica um indivíduo que tome esses comprimidos. Dos rins já falámos: devido à repressão da sensação de sede, reduz-se a sua limpeza, o que conduz ao envenenamento. O professor Eberlein afastou-se do quadro e voltou para a tribuna. Isto foi apenas um panorama geral, os efeitos do ecstasy são profundamente diferenciados. Pigarreou. Há perguntas?

 

O que se pode fazer contra isso? inquiriu alguém.

 

Devolvo-lhe a pergunta: o que pode fazer como agente da polícia?

 

Silêncio, pois todos conheciam os problemas, mas ninguém tinha propostas de solução. O único que disse alguma coisa foi precisamente Theo Wortke, do Departamento de Homicídios.

 

Leis mais duras! gritou.

 

É um caminho muito longo. Reiber abanou a cabeça. As leis levam muito tempo a circular em Bona e, alem disso, há ainda a guerra entre partidos, um diz sim e o outro grita não. Presentemente estamos a viver um exemplo modelo deste teatro: a lei contra o crime organizado. Sem ela, os mafíosos dançam-nos à frente do nariz e morrem a rir com esta concepção de democracia, vivem aqui como num paraíso, estão sempre a troçar de nós.

 

Por favor, Reiber... protestou o intendente da polícia, em tom reprovativo.

 

Perdão. Reiber fez uma rápida vénia. Mas sejamos honestos pelo menos dentro do nosso círculo: neste país, o crime organizado está nas termas. Em Berlim já se registaram cinquenta e quatro mortes da autoria da máfia vietnamita e quase todos os dias é encontrada uma nova vítima dessa guerra de bandos. O que pode a polícia fazer? Rusgas, prisões, interrogatórios inúteis... Os pequenos são apanhados, mas os tubarões estão nas praias da Riviera. Sejamos claros: nós, a polícia, não temos hipótese, perante a máfia! E porquê? Porque somos os maus da fita e eles os criminosos geniais, acerca de quem até se fazem filmes. Há milhares de cigarros a serem vendidos no mercado negro e com isso apoia-se a máfia, sim, damos-lhe a possibilidade de aumentar o seu poderio, e nós, nós somos os idiotas que queremos acabar com esse consumo. Com o ecstasy passa-se o mesmo, os jovens utilizadores vêem-nos como patetas que não percebem nada dos novos tempos e que querem reprimir a felicidade da juventude. Somos os grandes idiotas que vivemos no século passado...

 

Reiber! voltou o intendente a gritar, mas o comissário já não pediu desculpa.

 

Que podemos fazer? Esclarecer? Placards, circulares, posters, conversas pessoais, anúncios na televisão? Viremo-nos para onde nos viremos, todos se rirão de nós’ E quem paga tudo isto?, Bona, os governos estaduais e as autarquias? Eles viram os bolsos: vazios! Já desbarataram o dinheiro em construções luxuosas, estádios desportivos, palácios de vidro comunais. Ecstasy? É uma parvoíce. Com a sida foi diferente, pois tratava-se da saúde pública. Nesse caso, apareciam painéis informativos, anúncios nos jornais e na televisão, mas alguma vez viram um placard que dissesse: «Toma ecstasy e desiste do teu cérebro»? Esta indolência não é apenas nojenta, mostra a assustadora indiferença da nossa sociedade perante o suicídio!

 

E como queres mudar tudo isso? gritou Wortke

 

Não sei. Reiber encolheu os ombros. Sinto-me tão impotente como todos vós. Dizem-nos que sempre que as coisas correm mal nos viremos para o Estado! Sou de opinião de que, se esse Estado que entrega milhares de milhões à União Europeia, oferece outros tantos para o desenvolvimento de países estrangeiros e, para tal, nos eleva os impostos de uma maneira insustentável, então deveria também preocupar-se com o que acontece no país e que a sua juventude seja protegida. Só que as pessoas têm vistas curtas, não reconhecem os problemas, e transformam-nos em coisas menores. Senhor intendente, mesmo que isto não seja maneira de falar de um agente, vendo bem as coisas, é tudo uma merda! Os meus agradecimentos, minhas senhoras e meus senhores.

 

Reiber saiu do púlpito. O silêncio reinava à sua volta, apenas uma pessoa batia palmas e gritava Bravo!»: Wortke.

 

Contudo, todos estavam habituados às suas exteriorizações...

 

Robert transformara-se num grande distribuidor e a sua

conta bancária, em nome de Fred Schneider, em KleinWalsertal, estava cada vez mais recheada. Para ele era uma sensação nova e agradável poder dispor de tanto dinheiro, que fora formalmente extorquido aos seus clientes. Onde ele aparecia, sobretudo em discotecas e festas de jovens, era recebido como um herói, um fornecedor de sonhos que abria caminho para o Paraíso, um homem que preparava o caminho para a felicidade.

 

É curioso comentou ele uma noite, dirigindo-se a Ulrike.

 

Depois de tomar dois Chanel vivera novamente um êxtase amoroso, após o que ficou sem forças, na cama, a fumar um charro para recuperar, por conselho de Ulrike.

 

Isso vai acalmar-te! dissera ela. Acredita!

A tua circulação voltará ao normal. Um charro faz milagres.

 

Robert experimentara e, de facto, parecera-lhe que conseguia controlar o seu pulso acelerado, mas, na verdade, ele estava a aumentar o consumo de drogas. O seu corpo tornara-se dependente do veneno, tal como se tornara de Ulrike.

 

O que é curioso, Bob? perguntou ela.

 

Em três semanas ganhei mais do que o meu pai em dois anos...

 

Então alegra-te. E porquê? Porque temos um negócio.

 

Que não é normal

 

A que chamas normal? Ulrike virou-se de lado. As pessoas escrupulosas não obtêm tais rendimentos. Por outro lado, todos os anos, antes das férias de Verão, as companhias petrolíferas aumentam o preço da gasolina Porquê? Porque os condutores não se podem defender! precisam da gasolina seja a que preço for. Também se os hábitos alimentícios se alteram e, por exemplo, há mais consumo de carne de porco, os preços sobem imediatamente, e o mesmo sucede onde a procura for grande, tudo fica automaticamente mais caro. Dizem poupe energia, e o que acontece? Como o consumo diminui, sobe o preço da electricidade e do gás. Assim, devido à rentabilidade, asseguram-se os postos de trabalho. Quanto às nossas pílulas, têm procura e por isso ganhamos bom dinheiro. É desta forma que tens de ver as coisas, Bob.

 

A paixão e o corpo de Ulrike ainda fascinavam tanto Robert que, depois de uma hora de êxtase, crescia algures dentro dele uma espécie de sobressaturação. Não tinha explicação para o facto, mas agora também, depois daqueles abraços selvagens, pensou subitamente em Christa, na boneca da discoteca, na sua crença de que havia um homem na Lua e no facto de reconhecer que, aos dezasseis anos,]! se pode achar a vida um horror. Começou a pensar por que motivo estava agora a pensar em Christa, tendo Ulrike nua a seu lado.

 

Levantou-se, apagou o charro num cinzeiro, na mesa-de-cabeceira, e colocou os pés no tapete.

 

Onde vais? A pergunta de Ulrike foi como que um empurrão nas costas.

 

Para o duche.

 

Tu hoje estás diferente, Bob.

 

Diferente?

 

Sinto-o.

 

Esgotaste-me. Preciso de um duche frio. Consegues dar cabo de um homem.

 

Não, não é isso.

 

Ela sentou-se na cama e Robert voltou-se, olhou-a e suspirou. «É tão bonita que enlouquece uma pessoa. A pele bronzeada e brilhante, os cabelos, os seios redondos, as curvas das ancas, as pernas longas... Maldição! Sei perfeitamente que é irresistível. Se abrir os braços agora, eu caio neles. Gostaria de ser a sua Primavera, pois para mim, ela é o Verão em todo o seu esplendor.»

 

Continuou, mas quando chegou à porta da casa de banho parou.

 

Que mais pode ser? perguntou.

 

Eu sinto outra coisa. Tu mudaste de um dia para o outro, as mulheres sentem essas coisas. Têm um sexto sentido. Passa-se algo de estranho contigo...

 

Olha para mim! Fez uma pose de modelo perante uma máquina fotográfica e riu-se. Diz-me o que ainda não conheces em mim? Existe algo que te seja estranho? Que ruga te falta ainda?

 

Meu pequeno idiota! Ela riu-se com muita ternura. O teu corpo não é um segredo... É o que está dentro de ti e não consigo ver. Tens problemas com os teus pais?

 

Nem por sombras. Nem lhes passa pela cabeça. Só a minha mãe é que diz que estou muito pálido. Voltou a rir-se, mas não parecia muito feliz. Se nos visse, ficaria cega.

 

Também não te conceberam às escuras.

 

Quem sabe? Nunca vi o meu pai beijá-la. Devem fazê-lo às escondidas, se é que o fazem.

 

Ela riu-se e Robert desapareceu na casa de banho.

 

Na noite seguinte claro que foi ter explicações de matemática, dirigiu-se à discoteca na esperança de ver Christa, e, na realidade, ela estava lá, muito feliz, aos saltos pela sala ao som daquele tremendo techno. Todavia, quando viu Robert abandonou imediatamente a pista e veio ter com ele.

 

Ena! gritou por cima daquela barulheira medonha.

- Vieste!

 

Sou portador de uma mensagem para ti disse ele, agarrando-lhe ambas as mãos.

 

De quem?

 

Do homem da Lua.

 

Ela pendurou-se no seu pescoço e apoiou a cabeça no seu ombro.

 

Quando falaste com ele? perguntou ela, rindo

 

Três vezes, nas últimas noites. Ele quer ver-te.

 

Ah, não! E que lhe respondeste?

 

Disse-lhe: «Se Christa quiser, vemo-nos amanhã à noite.» E é hoje.

 

Aldrabão! Ela apontou para a saída. Só me queres tirar daqui.

 

Exacto.

 

Não gostas do sítio?

 

Há outros mais agradáveis.

 

A rua ópera, os concertos e merdas dessas. Robert, por favor, acaba com isso.

 

Já observaste a Terra a respirar?

 

Ela olhou-o como se ele lhe tivesse falado numa língua desconhecida.

 

O que faz a Terra?

 

Respira. Até se consegue cheirar.

 

Deves estar pedrado! E cheira?

 

Sim. A ervas, a musgo... a sol.

 

Mas o Sol não tem cheiro.

 

Deixa-me surpreender-te. Robert colocou-lhe o braço sobre os ombros. Vamos embora.

 

Para o homem da Lua?

 

Sim, vamos vê-lo.

 

Ela fez beicinho, como uma menina mimada, mas cedeu e seguiu-o até à porta da discoteca. Caminharam em silêncio pela noite clara até ao relvado que ficava do outro lado. cheio de arbustos e sebes, que o separavam da rua. Quando Robert parou, Christa deu um passo à sua frente e disse, muito séria:

 

Não sou daquelas que se levam para trás de um arbusto! Podes tirar daí a ideia!

 

Robert abanou a cabeça, despiu o casaco e colocou-o aberto sobre o relvado. Hirta e em guarda, Christa fitava-o semicerrando os olhos cor de âmbar.

 

Não tentes! És um tipo porreiro, mas eu não sou

 

prostituta! Se me tocas, vais dar-te mal, juro. Uma vez, um tipo violou-me, mas isso não voltará a acontecer.

 

- Senta-te pediu ele, deixando-se cair primeiro sobre o casaco.

 

- Porquê? O tom de voz exprimia receio e ela até deu um passo atrás.

 

Tens medo de mim?

 

A confiança às vezes é estupidez.

 

Onde ouviste essa frase?

 

Li num romance e é verdade.

 

Não tens motivos para desconfiar de mim. Vá lá! Senta-te. Quero mostrar-te uma coisa.

 

Não pode fazer isso de pé?

 

Não. Ele bateu com a mão no casaco. Vem cá...

 

Ela hesitou, mas depois aproximou-se, sentou-se a seu lado, encolheu as pernas, e abraçou os joelhos. Uma barreira.

 

E agora? perguntou, encarando expectante Robert, e o seu olhar mostrava que estava pronta a defender-se.

 

Robert apontou para o céu, uma imensidão sem nuvens, na qual nadavam a Lua e as estrelas, até parecia que se podiam agarrar.

 

Ali! Ele esticou o braço. O homem da Lua. Estás a vê-lo?

 

Onde?

 

Christa atirou a cabeça para trás e olhou para a Lua, que ficara mais redonda desde o primeiro encontro de ambos. Viam-se claramente as crateras, as planícies e os vales.

 

Lá está ele, o homem da Lua. Olha bem! Ali os olhos, o rosto enrugado, a boca torta e o queixo redondo. É um velho, um homem muito velho. Olha! Está a sorrir Para ti. Ele vê-te, vê-te mesmo. Está a dizer-te: «Christa, tu és uma rapariga muito bonita. Gosto de ti.»

 

Ela acenou com a cabeça e apoiou-a no ombro de Robert.

 

Estou a ouvi-lo e ainda diz mais: «Podes confiar em Robert.»

 

Como o homem da Lua me conhece bem. Voltaram a calar-se e olharam o céu estrelado, imersos na paz imensa que os rodeava, todo um mundo que parecia ser só deles.

 

Deita o rosto na relva pediu Robert suavemente

 

Como se fosses dormir.

 

Ela obedeceu, deitou-se no chão, encolheu as pernas e encostou o rosto ao chão. A terra ainda estava quente do sol e esse calor subia pelas plantas até se misturar com o ar da noite.

 

Sentes a terra a respirar? perguntou Robert.

 

Sim, é mesmo verdade. Para Christa foi uma experiência estranha e poderosa. Respira... e cheira a sol.

 

Esticou-se de barriga para baixo e enterrou a cabeça nas ervas. É maravilhoso, é lindo! Não sabia. Estendeu a mão na direcção de Robert e ele agarrou-lha. Porque não sabia eu disto?

 

Poucas pessoas conhecem e podem falar disso.

 

E quem te contou?

 

Ninguém, descobri sozinho. Gosto de estar deitado na relva, debaixo de uma árvore, junto a um lago, na margem de um rio ou num bosque. A natureza é a melhor amiga do homem, mas ele destrói-a sistematicamente, está a ficar sem alma. Sabes que há povos, como os Russos, que não ignoram que a terra é a fonte de toda a sua força, e a escolheram para dar o nome ao seu país? E que os primeiros habitantes da Austrália, os aborígenes, dormem ainda hoje sobre a terra? Construíram-lhes cabanas, quiseram civilizá-los mas eles recusaram e continuaram a manter os seus hábitos. A terra é mãe. Nada a pode substituir, o seu cheiro é o elixir de vida. Todos nós já perdemos essa sensação e quanto mais nos desenvolvemos, mais nos afastamos. O progresso, para nós, é a morte da alma.

 

Rússia quer dizer «terra dos Russos» (N da T)

 

Tu falas como um padre. Christa sentou-se novamente sobre o casaco de Robert. Mas há uma coisa que admiro em ti: és um rapaz inteligente, enquanto sou uma noz podre!

 

Ainda tens muito tempo para aprender.

 

Será que quero? Não! Voltou a deitar-se sobre o relvado e cheirou a erva. De que me serve saber quantas obras escreveu Mozart, se passo o dia no armazém a vender sutiãs e cuecas, e à noite estou tão farta que só quero muito barulho à minha volta? O que significa para mim uma merda como «esta imagem de beleza esmagadora...»?

 

A Flauta Mágica! Como conheces a frase?

 

Ouvi-a na rádio. O meu velho fica de lágrimas nos olhos. Ela voltou a esticar-se sobre a terra. Tu... eu poderia dormir sobre a relva, cheira mesmo bem. Já alguma vez o fizeste?

 

Muitas.

 

Onde?

 

Por todo o lado. Nas nossas excursões de escuteiros dormimos quase sempre ao relento.

 

Tu és... Ela levantou a cabeça e apertou-a entre as mãos como se se tivesse levantado um vento forte, que lhe despenteava os cabelos. Tu és escuteiro? Todos os dias uma boa acção... Que alegria!

 

Mas tu tens uma cama em casa disse ele. Não precisas de fazer isso.

 

Uma boa acção todos os dias? Agora vendia todos os dias comprimidos de ecstasy. Também era uma boa acção? Decerto que sim para os jovens compradores... Ele, Robert, proporcionava-lhes uma sensação de felicidade, uma evasão à vida quotidiana, a força para dançar durante horas sem Se cansarem, o êxtase do amor, uma vida diferente. Era uma boa acção. Robert já a sentia na sua própria vida.

 

Uma cama? Christa olhou para cima. Sim, mas que todos os dias se transforma num sofá. Para que quero

eu um sofá? Estou o dia inteiro no armazém, metida entre prateleiras.

 

E à noite?

 

Ou fico com os meus pais a ver televisão ou venho para a discoteca. Esticou-se novamente no relvado. Gostaria de dormir na relva. Contigo... reparou no duplo sentido da palavra e disse: Dormir não é foder! Quero dizer, dormir mesmo...

 

No próximo sábado podíamos ir até ao lago Wõrth e acampar. Com fogão a gás, sopa de ervilhas feita na panela de ferro, Coca-Cola gelada do saco térmico, colchões de ar e sacos-cama. Tomar banho no lago à luz do luar, ouvir os grilos, o coaxar das rãs, o marulhar das ondas...

 

Seria maravilhoso, Robert.

 

Vou buscar-te no sábado de manhã.

 

Não. Voltamos a encontrar-nos na esquina da Killerstrasse com a Schulestrasse. Se o meu velho vê que um rapaz me vem buscar fica fulo. Mas se eu disser: «Vou para o treino de hóquei», ele acredita. Escorregou novamente para cima do casaco de Robert e colocou a cabeça sobre a sua coxa direita. Não era um gesto sexual, queria apenas ter a cabeça mais alta. A que horas?

 

Às dez está bem? Robert meteu os dedos por entre os cabelos de Christa. É muito cedo?

 

Pode ser. Tens uma tenda bonita?

 

É surpresa, vais gostar.

 

Robert passou os dedos pelos cabelos da rapariga. Seda. pareciam mesmo fios de seda, um monte de fios dourados. Os cabelos de Ulrike são mais duros e grossos. Só se pode fazer festas.» O facto de o nome da amante lhe ter ocorrido subitamente, aquela comparação cortou-lhe a respiração e teve de inspirar fundo para soltar a pressão interior.

 

Com certeza! concordou ela.

 

Mas como vais explicar ao teu pai que não dormes em casa?

 

Digo-lhe que fico em casa de Moni, a minha melhor amiga, que trabalha no mesmo armazém, na secção de cabedais. Por vezes durmo em casa dela, estou a dizer-te a verdade, não o faço com rapazes. Tem vinte anos e o meu velho gosta dela, mas acho que Moni gostaria de lhe cuspir na cara e a mim também me dá vontade de vomitar...

 

Sempre a pregar lições de moral e a chamar nomes aos vizinhos. Toda a gente mente. Os mais honestos ainda são os tipos da Setecentos e Setenta e Sete

 

Não te esqueças de mim

 

Ela levantou um pouco a cabeça da coxa de Robert e disse muito séria

 

Tu és muito especial, nunca conheci uma pessoa como tu. És como o homem da Lua: tão longe e, no entanto, tão perto

 

E tu és como um duende que saiu do cálice de uma flor

 

Disparate! Ergueu-se e endireitou a blusa. Sou Christa Helling, filha de Fritz Hellimg e vendedora de sutiãs num armazém. Tudo o resto são cantigas

 

Dissera pela primeira vez o seu nome completo. Se os Hellimg tivessem telefone, seria fácil descobrir a morada

 

Vamos? perguntou Robert

 

Para onde?

 

Para a discoteca

 

Não me apetece. Aqui está-se melhor. Acho que contigo me sinto melhor cá fora, mas só contigo

 

Espero que sim. E já não tens medo?

 

Não, És um rapaz muito sério. Voltou a apoiar a cabeça na coxa de Robert e olhou o céu estrelado. Quantas estrelas há? perguntou subitamente

 

Biliões, não sei ao certo

 

Ah, sempre há coisas que ignoras!

 

Enfiou-lhe o punho no estômago, mas não se tratava de um soco, mas sim de uma palmada amorosa. Robert agarrou-lhe firmemente o pulso, levou-o aos lábios e beijou-o

 

Não sei assim tanto. Que queres saber das estrelas?

 

Gostaria que me oferecesses uma

 

Desejo concedido. Enterrou novamente os dedos no ouro sedoso dos seus cabelos. Qual queres?

 

Aquela ali! Apontou para o céu. A ultima, a que está no final do arco

 

Porquê precisamente aquela?

- Agrada-me

 

Vais baralhar toda a astronomia. Não te posso oferecer essa, é a última estrela da Ursa Maior.

 

Ah! Então conhece-la! Escorregou pela coxa e pôs-lhe a cabeça no colo. Então escolhe outra para mim! Robert mirou durante alguns instantes o céu estrelado e procurou um ponto brilhante que estava longe, muito lonse dos outros. Na infinidade descobriu um brilho fraco, que piscava como um semáforo.

 

Aquela ali! Lá está ela. Consegues vê-la? Robert esticou o braço e virou com a outra mão o rosto de Christa na direcção da estrela que escolhera... Está ali uma enorme... e a seguir vem a escuridão. E depois, à esquerda, brilha a tua estrela. Já a viste?

 

Sim. Christa falava num tom desiludido. Acende e apaga...

 

É só aparência, brilha para ti e diz-te: «Sou a estrela chamada Christa.»

 

E a que distância está?

 

Milhões de anos-luz, mas quando a olhas está sempre junto de ti. Robert acenou com o braço livre para o firmamento. Olá, estrela Christa...

 

E tu não tens uma? perguntou ela. Ele riu-se, cheio de uma ternura espontânea.

 

Até tenho duas... respondeu suavemente.

 

Onde?

 

Os teus olhos...

 

Estás a ficar parvo novamente!

 

Saltou do colo de Robert e sentou-se muito direita ao seu lado. A sua reacção espantou-o, esperara que, pelo menos, Christa ficasse contente ou que aquelas palavras lhe dessem um pouco de felicidade. Em vez disso, saíram-lhe as garras. De facto, podemos ser arranhados por um gato que estamos a mimar, e sem sabermos porquê.

 

Vamos? perguntou Christa.

 

Para a discoteca?

 

Não, para casa.

 

Tão depressa?

 

Estou cansada. Levantou-se e limpou as ervas da roupa. Leva-me até à esquina que já conheces.

 

A súbita mudança de humor irritou-o pois não encontrava explicação para aquilo. Fizera algo que não devia? «Disse-lhe que as minhas estrelas eram os seus olhos... O que a irritou tanto? És uma rapariga muito misteriosa, Christa. Vês o homem na Lua, tenho de te oferecer uma estrela, mas uma única palavra quebra todo o encanto.»

 

Foram em silêncio até à Killerstrasse, esquina com a Schulstrasse. Ali, Christa colocou a mão sobre o braço de Robert, acenou com a cabeça e saiu do carro.

 

Ficamos assim? perguntou ele, quando viu que ela não proferia uma única palavra. Sábado de manhã às dez horas?

 

Está bem e adeus!

 

Ele hesitou, mas depois pôs o pé no acelerador, foi-se embora e Christa ficou parada a olhar para o carro até ver apenas duas pequenas luzes vermelhas. Só então levantou os braços, cerrou os punhos e gritou no silêncio da escuridão da rua:

 

Amo-te! Maldição! Amo-te!

 

Abriu os dedos, passou-os pelos cabelos e desgrenhou-os com movimentos selvagens.

 

Amo-te de verdade... disse em voz baixa. É uma loucura, uma loucura, mas amo-te, meu querido idiota!

 

Quando incomodavam o conselheiro de Estado doutor Hubert Habicht enquanto folheava a sua colecção de selos, ele conseguia ser muito descortês. Mesmo assim, a esposa, Gerda, afastou-o da sua calma concentração, entrou pela chamada sala para homens e ficou parada à porta.

 

Desculpa, Hubert disse ela, mas é muito importante.

 

Habicht levantou os olhos. Estava, naquele momento, a observar um selo, de 1914, do Sudoeste Africano, antiga colónia alemã, pertencente à última série saída antes da Primeira Guerra Mundial. «Que tempos áureos», pensava Habicht ao observar o selo.

 

-O que é assim tão importante, Gerda perguntou ele automaticamente.

 

Um telefonema para ti.

 

Não estou à espera de telefonemas importantes. Quem é?

 

O doutor Pupp...

 

Emil? Habicht franziu a testa. Passa a chamada para aqui, Gerda.

 

Esperou pela ligação e levantou o auscultador.

 

Habicht...

 

Aqui Pupp, Emil... Como estás, meu velho? Habicht alargou as abas do nariz. Conhecia o doutor Emil Pupp desde os tempos de estudante. Tinham estado na mesma associação de estudantes, a Urania, embebedavam-se juntos, haviam marchado em traje de gala estudantil durante os festejos, mas agora, que eram «velhos senhores», contactavam pouco até Pupp começar a dar aulas no liceu frequentado por Robert. Estabelecera-se de novo uma amizade íntima, mas que não lhe dava o direito de lhe chamar «meu velho», pois Habicht nunca tivera a ousadia de chamar ao colega nomes utilizados na juventude de ambos

 

Emil, como estás? perguntou Habicht com um tom reservado. Gerda disse-me que é importante. Estou muito ocupado.

 

Vocês, funcionários estaduais, estão sempre muito ocupados. Infelizmente, nada se vê melhorar, só piorar. Não demoro muito, vou ser breve. O doutor Pupp parecia de bom humor, o que irritou Habicht. Trata-se do teu filho

 

O meu filho Robert?

 

Será que tens mais, meu malandro? Portanto, Robert... Pupp pigarreou. Sabes que sou professor de matemática há vinte e cinco anos, mas nunca vi nada como o teu filho! Nunca quis crer que existissem génios, mas agora acredito! Ele no que respeita a números, é um génio ao contrário, um zero! O seu nível matemático parou nas contas de somar. As raízes quadradas para ele são vegetais, a trigonometria é chinês. Nunca vi uma coisa assim! Desculpa falar com tanta franqueza, mas é preciso fazer alguma coisa.

 

Há semanas que o meu filho frequenta explicações de matemática.

 

Não noto nada.

 

Está a esforçar-se imenso, estuda pela noite dentro. Não posso fazer mais nada. Quando éramos estudantes, eu também não percebia nada de química e consegui fazer o exame final com um dois. Ele tem uma alma de artista e a realidade nada lhe diz.

 

Acredito que Robert seja um pianista muito dotado, para pressionar as teclas não são precisos senos e co-senos. Também não é necessário saber a Teoria da Relatividade de Emstem para tocar Beethoven, mas o teu filho está igualmente mal nas outras disciplinas, dizem-me os colegas. Às vezes passa as aulas a dormir! Sempre foi bom a latim... agora caiu vertiginosamente.

 

É a primeira vez que ouço isso. Habicht fechou o álbum de selos, aquelas notícias eram verdadeira