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O GRITO DA TERRA DO GELO / Stuart Hill
O GRITO DA TERRA DO GELO / Stuart Hill

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O GRITO DA TERRA DO GELO

 

Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília não é uma adolescente comum. Aos 13 anos, ela é uma princesa, herdeira do trono da Terra do Gelo, e uma forte guerreira, determinada a seguir os passos do pai, o poderoso e justo rei Redrought. Mimada e insuportável, com pintas de megera indomada, ela esconde sua fragilidade por trás de uma resistente muralha que construiu ao redor de si mesma. Obstáculo que precisará transpor para lidar com o maior desafio de sua vida: a invasão de seu pequeno reino por um grande e poderoso império. Para resistir à invasão, ela deve reunir e liderar aliados improváveis e incomuns, aqueles que hoje só existem na imaginação dos homens, como lobisomens e vampiros.

O grito da Terra do Gelo não é uma simples história de aventura e fantasia.

Usando estes elementos como base, o autor desenvolve uma narrativa que lida ao mesmo tempo com assuntos tão diferentes - e complexos como conflitos adolescentes e diversidade cultural e racial.

A guerra enfrentada por Thirrin é tão difícil contra seu inimigo quanto contra ela mesma. Obrigada a amadurecer durante a crise, ela encontra forças no bruxo Oskan, numa convivência não muito harmoniosa, já que ela percebe que o jovem é o único que consegue enxergar a menina frágil dentro dela.

A diversidade é representada por seres fantásticos e mágicos. Além de vampiros e lobisomens, há espaço para zumbis, trolls, misteriosos seres da floresta e uma raça de leopardos inteligentes. Todos eles têm a existência ameaçada pela racionalidade fria e científica que a tudo globaliza. O poderoso império de Polipontus - personificado na figura do cruel general Scipio Bellorum - também representa o inevitável e esmagador progresso tecnológico, que escraviza os homens e destrói a Natureza.

A solução contra o poder do metal e do fogo do Império Polipontino é o poder feminino, que une razão e sensibilidade, seja na liderança de Thirrin, na capacidade de cura das bruxas ou na força de guerreiras, que mostram sua bravura em impressionantes batalhas descritas pelo autor.

O grito da Terra do Gelo é uma história de crescimento, união e superação.

Mostra, acima de tudo, que os pequenos Davis existem e que, unidos, são fortes o bastante para reagir contra um Golias muito mais ameaçador que a sua versão bíblica.

 

Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília portava seus nomes com desembaraço. Estava com treze anos de idade, era alta para a idade e montava tão bem quanto o melhor dos soldados do pai. Era também herdeira do trono da Terra do Gelo. Seu professor poderia acrescentar que ela prestava atenção quando queria, era inteligente quando se dava ao trabalho de tentar e tinha o mesmo temperamento do pai. Poucos a comparavam com a mãe, que tinha morrido quando Thirrin nasceu. Mas os que se lembravam da moça altiva, do feroz povo hipolitano, diziam que Thirrin era sua imagem fiel.

O soldado destacado para sua guarda não se importava com nada disso. Estavam caçando na floresta desde o amanhecer e ele estava cansado e com frio, mas Thirrin não dava sinal de querer voltar para casa. Estavam seguindo uma trilha que ela insistia ser de pegadas de lobisomem e o soldado receava que ela estivesse com a razão. Já tinha afrouxado as lanças na bainha e, havia uma hora, vinha cavalgando com o escudo em posição.

Os lobisomens foram banidos da Terra do Gelo depois das Guerras dos Fantasmas, nas quais o pai de Thirrin, o rei Redrought, derrotou o exército do rei e da rainha dos vampiros na Batalha das Rochas-dos-Lobos. Era provável que o lobisomem que ela estava seguindo fosse apenas um solitário à procura de caça fácil nas pastagens de gado, mas todo o cuidado era pouco. Pensou que, se tivesse sorte, poderia capturá-lo e levá-lo de volta para a cidade, como um troféu. E talvez, antes de ser executado, ele pudesse dar alguma informação útil sobre a Terra-dos-Fantasmas.

— Ouça! — disse Thirrin, autoritária, despertando de um agradável devaneio sobre a conquista do respeito e da gratidão do pai. — Logo adiante! Estou ouvindo um rosnado!

O soldado levou a sério o que ela disse e pôs a lança em riste.

— Fique atrás de mim — disse ele, esquecendo-se de toda a formalidade no momento de perigo.

Mas, antes que eles conseguissem se mexer, o mato fechado que cercava a trilha se abriu de repente e um animal enorme saltou dali. Tinha uma forma vagamente humana, mas extremamente peluda, e sua cara era uma estranha mistura de lobo e homem. Olhou para eles por um instante, com os olhos cheios de ódio, e avançou. Desviou-se com facilidade do golpe desajeitado do soldado e investiu direto contra Thirrin; mas o cavalo da menina era treinado para o combate e deu um salto adiante para enfrentar o ataque, erguendo as patas dianteiras com suas ferraduras de aço.

Apanhado de surpresa, o lobisomem recebeu toda a força dos cascos, mas só cambaleou um segundo para trás antes de rosnar furioso e atacar novamente. Dessa vez, Thirrin tinha sacado seu longo sabre de cavaleira e, com um movimento harmonioso, fez o cavalo dar meia-volta, inclinou-se a partir da sela e aplicou um corte profundo no braço do lobisomem.

A essa altura, o soldado tinha se recuperado e atacou, derrubando o lobisomem no chão. Antes que ele pudesse se erguer, os dois cavalos se aproximaram ombro a ombro, bufando irados e ar-remetendo com os cascos dianteiros.

A criatura conseguiu se pôr de pé de qualquer jeito e recuou para o meio do mato cerrado, aonde os cavalos não podiam acompanhá-la. Lambeu um pouco seus ferimentos com uma língua comprida e vermelha, para então sair da moita espinhenta e, sem aviso, se lançar sobre a montaria de Thirrin, derrubando-a da sela. Seu cavalo de batalha fugiu atabalhoadamente, guinchando de pavor, e ela caiu na trilha, atordoada e com dificuldade para respirar. Por um instante, teve a impressão de estar assistindo a uma cena muda e minúscula do mundo, a partir de um ponto muito acima de onde a ação ocorria. Estonteada, ela se dava conta da existência de algum tipo de perigo, mas não conseguia se lembrar exatamente do que se tratava. Ficou olhando enquanto um soldado atacava um lobisomem gigantesco, mas a criatura lhe quebrava a lança e o cavalo do soldado se empinava e fugia a galope com o homem agarrado a ele em desespero. Agora, o lobisomem dava meia-volta para vir devagar na direção dela.

A noção da realidade voltou, violenta. O mundo invadiu totalmente sua cabeça e, sobressaltada, ela se lembrou de onde estava. O lobisomem vinha se aproximando devagar, com passos determinados, como se estivesse aproveitando aqueles momentos antes do abate, como um gato com um camundongo indefeso, ao alcance das patas.

A espada de Thirrin estava caída logo ali. Ela a apanhou e se pôs de pé de um salto. A criatura parou e arreganhou os lábios que cobriam dentes enormes, quase como se estivesse forçando um sorriso. Thirrin não hesitou. Dando o grito de guerra da Casa do Es-cudo-de-Tília, ela atacou.

Antes que a criatura tivesse como reagir, a lâmina da espada lhe penetrou fundo no ombro, fazendo com que ela cedesse terreno, surpresa com a ferocidade da menina. Mas nesse instante as botas de Thirrin escorregaram em folhas molhadas e ela caiu no chão, estatelada. De imediato, a criatura atacou, arrancou-lhe a espada, jogando-a para longe, e se sentou sobre ela, com seu peso enorme impedindo Thirrin de respirar. Dentro dela, porém, ainda rugia um espírito de luta. E, quando a criatura aproximou a boca do seu pescoço, Thirrin deu-lhe um forte soco no focinho. O lobisomem abanou a cabeça e espirrou, totalmente estupefato.

— Acabe rápido com isso, homem-lobo, e se certifique de que todos os ferimentos sejam na frente. Não quero que ninguém diga que morri fugindo — gritou ela, conseguindo disfarçar o pavor da sua voz.

A criatura voltou a abaixar a cabeça mais perto do seu rosto, mas dessa vez havia em seus olhos uma expressão de perplexidade quase humana. Ficou nessa posição por quase um minuto, parecendo examiná-la com atenção. Depois, sem aviso, jogou a cabeça para trás e uivou, com a voz subindo a uma nota aguda, de dar calafrios, antes de voltar a cair lentamente até o silêncio. A criatura a encarou mais uma vez com olhos tão humanos que Thirrin teve a impressão de que praticamente poderia conversar com ela. De repente, afastou-se de um salto, deixando Thirrin tentando recuperar o fôlego, livre daquele peso enorme.

Aos poucos, ela foi se esforçando para se sentar e observou enquanto o lobisomem apanhava sua espada e a enfiava de ponta no tapete fofo de folhas da floresta. Tomou então uma atitude que surpreendeu a menina: a criatura colossal fez uma reverência, dobrando um dos braços diante do torso enquanto o outro ondulava num gesto delicado, como o mais elegante dos cortesãos.

Apesar de tudo, Thirrin quase sufocou um risinho. O lobisomem mais uma vez jogou a cabeça para trás e de sua boca saiu um barulho áspero, meio tosse, meio rosnado, como se estivesse rindo. Em seguida, saiu correndo por entre as árvores, não deixando para trás nada além do balançar de galhos.

Thirrin conseguiu se pôr de pé e apanhou a espada. Tremia do choque, mas estava fascinada. Por que o lobisomem não a matou?

Aquele tipo de ser conseguia pensar e tomar decisões? E, se fosse esse o caso, aquela criatura específica realmente decidiu deixá-la viver?

Estava estarrecida. Aquilo abalava tudo o que sempre tinham lhe dito, todas as suas idéias e noções sobre o Povo-Lobo. Sempre tinha achado que eram assassinos insensatos, tão irracionais quanto qualquer outra criatura primitiva e cruel do outro lado da fronteira norte da Terra do Gelo. Mesmo assim, o homem-lobo tinha demonstrado... o quê? Talvez compaixão?

Um barulho forte do meio das árvores interrompeu seus pensamentos e ela posicionou a espada preparando-se para outro ataque. Mas era só o soldado que a escoltava. Tinha conseguido controlar o cavalo em disparada e agora voltava a toda a velocidade, pronto para morrer em sua defesa. Melhor isso que morrer como punição por não ter cumprido bem seu dever.

Por quase dez minutos, Thirrin precisou suportar que ele a examinasse para se certificar de que ela não estava ferida, além de uma explicação longa e detalhada de como ele não tinha tido nenhuma condição de controlar o cavalo desembestado. Por fim, ela teve permissão de montar no cavalo do soldado e eles deram início ao longo percurso de volta para casa. Calada, Thirrin repassava o que tinha acontecido. Poderia de fato rejeitar tudo o que sempre aceitou ser a verdade sobre os lobisomens? Enquanto seguia o caminho de volta, sua mente sagaz continuava a raciocinar sobre a espantosa possibilidade de que o Povo-Lobo fosse constituído de criaturas pensantes e até mesmo capazes de sentimento.

Depois de Thirrin passar alguns minutos na garupa, seu próprio cavalo ressurgiu, saindo a trote do meio das árvores, com relinchos de alívio ao vê-los.

— Bela ajuda você me deu — disse Thirrin, mal-humorada. — Eu deveria ter deixado o homem-lobo ficar com você.

Seguiram pelo trajeto mais curto de volta; dali a algum tempo o denso emaranhado de árvores foi se abrindo em pequenas clareiras e acampamentos de lenhadores à medida que eles chegavam aos limites da floresta. As árvores então desapareceram totalmente e à sua frente os campos se estendiam. Fizeram pararem os cavalos e olharam ao longe, por sobre a vasta planície que cercava Frostmarris, a capital da Terra do Gelo. A região era uma colcha de retalhos de cercas vivas e campos, pomares e jardins, tudo verde e fértil no curto verão do país, enquanto diretamente à sua frente a cidade se erguia das regiões rurais que a cercavam, como um enorme navio num mar de trigo dourado.

Cada um de seus portões imponentes era voltado para um dos quatro ventos e, acima do portão sul, estava suspenso o enorme sino do solstício, com seu bronze polido reluzindo ao sol, parecendo acenar para chamar de volta para casa Thirrin e seu guarda. Ela via, no centro da cidade, a fortaleza do pai que dominava as ruas da sua posição elevada no monte. O estandarte real com um urso branco rompante num campo azul estava perfeitamente visível, por causa de uma brisa fresca que o estendia ao máximo e o fazia tremular como se estivesse à frente de uma investida da cavalaria do rei Redrought.

Thirrin esporeou o cavalo, já se recuperando do choque do combate e ansiosa para contar ao pai o acontecido com o homem-lobo. Atravessaram a planície em disparada, levantando uma nuvem de poeira nas estradas secas do verão, e logo ela e o soldado passavam pelos portões da cidade e subiam pela rua principal. Era dia de feira, e os camponeses de fazendas e aldeias próximas tinham suas barracas enfileiradas ao longo do caminho, vendendo de tudo, desde legumes e queijos a ovos e carne recém-abatida. Fazia calor e enxames de moscas tinham sido atraídos pelo sangue e pelas vísceras, o que deixou o cavalo de Thirrin tão nervoso que ele bufava e andava de lado enquanto avançavam lentamente em meio à multidão.

— Abram caminho para a princesa! — gritou seu guarda, indo adiante e usando o cavalo para fazer com que o povo se afastasse. Desacostumados a ver a família real, alguns dos camponeses que raramente vinham à cidade olhavam admirados enquanto Thirrin passava. Alguns chegaram a avançar, esforçando-se para tocar na bainha de sua túnica ou em suas botas de montaria, como se ela fosse algum tipo de relíquia sagrada. Isso a deixou profundamente constrangida e Thirrin imediatamente tirou o escudo das costas para seguir com ele no braço, escondendo-se por trás da máscara da sua condição.

— É a princesa! É a princesa! — O murmúrio ia adiante dela, percorrendo a multidão de camponeses. Thirrin se flagrou com o desejo de ter usado o elmo; não o simples gorro de ferro que geralmente usava para caçar. Pelo menos, o equipamento de combate dispunha de uma viseira que escondia parte do seu rosto. A ela restava apenas esperar que a multidão de caipiras achasse que seu rubor fosse apenas o colorido forte de uma guerreira.

Chegou afinal aos portões externos da cidade alta e os guardas de plantão impediram-lhe a passagem, como sua função exigia.

— Quem busca acesso à presença do rei? — perguntaram, com formalidade. Thirrin olhava fixamente para eles, altiva e calada, esperando que o guarda que a escoltava respondesse por ela.

— Sua filha e herdeira, a princesa Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília.

Os guardas se empertigaram em posição de sentido e Thirrin entrou no castelo. Assim que atravessou o amplo pátio, ela desmontou e deixou as rédeas do cavalo soltas, arrastando no chão, pois sabia que um cavalariço viria correndo apanhar o animal. Entrou então a largas passadas no salão-mor da fortaleza do pai.

Mal passou pelo portal escancarado, ela parou por um instante para que seus olhos se acostumassem à penumbra. Aos poucos, os escudos amassados de guardas-da-coroa — os soldados de elite do exército — mortos havia muito tempo e os estandartes de guerras antigas começaram a se distinguir da escuridão; e ela retomou os passos decididos.

A sua frente, o piso de lajes parecia se estender interminavel-mente pelas sombras, mas aqui e ali pequenas ilhas de claridade se formavam nas pedras desgastadas pelo tempo, à medida que o sol lançava seus feixes através das aberturas para ventilação no alto do telhado. Na outra extremidade do salão, ela conseguia divisar uma plataforma elevada sobre a qual estava um trono de carvalho negro. Os braços tinham sido esculpidos na forma das pernas dianteiras de um urso e os pés, na das patas de um dragão. Acima do trono, estava suspenso o estandarte de guerra da Terra do Gelo: um urso polar, em pé, com a boca arreganhada num rosnado feroz e as garras estendidas. Era esse mesmo estandarte que o pai de Thirrin levava quando conseguiu por fim derrotar o exército do rei e da rainha dos vampiros na Batalha das Rochas-dos-Lobos.

Não havia ninguém no trono. E, quando chegou ao tablado, Thirrin passou rápido ali por trás e abaixou a cabeça para entrar por um portal baixo. Do outro lado do portal, havia um cômodo pequeno e aconchegante, onde o rei Redrought Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Urso do Norte, possante guerreiro e sábio monarca, estava com os pés de molho numa larga tina de água. Estava recostado numa poltrona estofada com almofadas fofas, com os olhos fechados. Mas Thirrin sabia que estava acordado porque não estava roncando e um homenzinho encarquilhado acabava de fazer um movimento no tabuleiro de xadrez.

— Você está roubando de novo, Grimswald! — disse o rei em tom irritado.

— Será que estou? Posso lhe garantir que não era minha intenção. Devo ter me enganado. Quer que eu devolva o bispo ao lugar? — respondeu o homenzinho numa voz esganiçada.

Redrought abriu um olho injetado e olhou furioso para Grimswald.

— É, vou devolver o bispo — concluiu o velhote.

A essa altura, o rei se deu conta da presença da filha.

— Ah, Thirrin! Entre, entre! Ponha mais água na tina, por favor! Meus calos estão me matando hoje. — Com a cabeça, ele indicou uma chaleira que fervia a fogo lento num pequeno fogareiro e Thirrin, obediente, atravessou o aposento, apanhou a chaleira e derramou a água quente na tina.

— Fria, primeiro! — berrou Redrought, tirando de supetão os pés de dentro d'água, o que entornou boa parte dela no piso.

— Desculpe! — disse Thirrin, submissa, e misturou a água quente com a fria num grande jarro antes de derramá-la na tina.

— Ah, agora melhorou! — disse Redrought, com a voz estrondosa. Na realidade, parecia que o rei só sabia berrar, gritar ou vociferar, não importava o estado de humor em que se encontrasse. Mas parecia que ninguém se incomodava muito com isso. Pelo menos, ele nunca precisava repetir o que dizia.

Quando ele se acomodou de volta nas almofadas, Thirrin percebeu que sua enorme barba ruiva — que se espalhava sobre o peito como um incêndio numa floresta na montanha — tinha começado a balançar e ondular e observou fascinada quando a pequena cabeça de uma gatinha apareceu e piscou os olhos para ela.

— Ah, Primplepuss, cá está você! — exclamou o rei, apanhando a gatinha nas mãos gigantescas, calejadas da guerra. — Eu sabia que tinha visto você mais cedo. Preciso me lembrar de pentear a barba antes de dormir. Não quero esmagar minha gatinha, não é mesmo?

Primplepuss deu um miado baixinho em resposta e Redrought ficou apreciando, encantado, enquanto ela passava a lamber uma pata.

— Pai, tenho notícias importantes — disse Thirrin quando achou que poderia desviar sua atenção da gatinha.

— Bem, deve ser importante mesmo, Grimswald — disse o rei Redrought ao velhote. — Ela só me chama de "pai" quando faz alguma coisa errada ou quando alguma catástrofe está iminente.

— Nada fiz de errado, pai.

— Então, o que houve?

— Hoje de manhã, lutei contra um lobisomem na floresta.

— Um lobisomem, foi? Você não está ferida, está? — perguntou ele, agarrando-lhe os braços para uma inspeção minuciosa. Ela abanou a cabeça e, depois de mais alguns minutos de exame meticuloso, ele fez que sim e prosseguiu. — Bem, não podemos deixar que o Povo-Lobo se sinta à vontade para andar por aqui, agora, não é mesmo? Exatamente onde foi que o viu? E você o matou?

— Logo depois da ponta da Península, perto do pico Negro. E não, não o matei. Ele só ficou ferido no ombro e no braço esquerdo e recebeu muitas patadas dos cavalos.

— O que não é nada para um lobisomem. Terei de mandar uma patrulha.

— Isso mesmo! — concordou Thirrin, erguendo os olhos brilhantes. — Mas antes quero lhe fazer uma pergunta, papai. — Ela fez uma pausa enquanto organizava os pensamentos. — Será que os lobisomens podem... podem sentir e pensar Quer dizer, como as pessoas. E será que eles... entendem que nós temos... ai, não sei dizer... pensamentos, sentimentos e uma vida a viver?

Redrought ficou em silêncio enquanto raciocinava. Tinha passado a maior parte da vida lutando contra o Povo-Lobo e contra outras criaturas que viviam para lá das suas fronteiras setentrionais.

Nunca tinha tido nem tempo nem vontade de se perguntar se eles pensavam em alguma coisa. Mas era um bom rei, perspicaz o suficiente para saber que algo de importante estava por trás das perguntas da filha.

— Por que me faz essas perguntas? O que aconteceu? Thirrin respirou fundo.

— O lobisomem poderia ter me matado hoje, mas não o fez. Ele me desarmou e poderia ter rasgado meu pescoço. Mas, quando lhe dei um soco no nariz e disse para acabar rápido, ele parou e me soltou. Até enfiou minha espada no chão e a deixou ali para eu apanhá-la. E não entendo por que motivo. Se o Povo-Lobo não sente nem pensa, por que ele me deixou viva?

Redrought não sabia e naquele momento não se importava com isso. Estava se sentindo simplesmente dominado por uma enorme sensação de alívio. De repente, segurou a filha com um abraço tão apertado que lhe cortou a respiração, quase tanto quanto na hora em que o homem-lobo se sentou em cima dela.

— Você não pode correr esse tipo de risco de novo! Está me ouvindo? — esbravejou ele, com a raiva nutrida pela terrível consciência de que sua filha poderia ser morta com tanta facilidade.

— Mas, papai, não corri risco nenhum. Não é comum que lobisomens entrem na floresta. Como eu poderia saber que ele estaria por lá?

Redrought sabia que essa era a pura verdade, mas não conseguiu se sentir melhor com isso. Soltou-a do abraço e se sentou de novo, pesadamente.

— Enviarei de imediato uma patrulha completa.

— E eu quero comandá-la.

— Ah, não, mocinha! Minha filha e herdeira ficará em segurança aqui no castelo. Que outros impetuosos ganhem fama com isso! — disse Redrought, em tom decidido.

— Mas eles vão precisar de mim para levá-los ao local exato. Mais ninguém sabe o caminho.

— Além do guarda que a escoltava — retrucou o rei, com um toque de triunfo na voz.

— Além do guarda que me escoltava — Thirrin foi forçada a admitir, com relutância.

— Ótimo! Grimswald, convoque o capitão da guarda. Você pode lhe passar os detalhes, Thirrin, e depois trate de correr para sua aula. Hoje é geografia, se não estou enganado.

Grimswald apitou à porta, chamando o guarda, que chegou ruidoso com sua armadura.

— Capitão Edwald, a princesa denuncia a presença de um lobisomem nas proximidades da cidade. Informe-se dos detalhes e despache uma patrulha! — disse o rei com a voz retumbante, afagando Primplepuss com delicadeza. A gatinha fechou os olhos para se proteger do estrondo da voz de Redrought. Depois, quando Thirrin e o capitão se afastaram para conversar, ela esfregou a carinha no enorme dedo do rei que lhe fazia cócegas na bochecha.

Thirrin ficou furiosa. Era ela que deveria comandar a patrulha em busca do lobisomem, não aquele soldado bronco! E o pior era que a patrulha talvez matasse o lobisomem assim que o encontrasse e ela não sabia ao certo como se sentiria a respeito. Não conseguia deixar de lembrar que ele poderia tê-la matado facilmente se tivesse tido vontade. Também não conseguia se esquecer do jeito ridículo com que fez a reverência e da risada que pareceu dar antes de fugir. Ela passou com fúria pelo corredor sombrio até a sala do professor, avançando como uma vingativa deusa da guerra pelas súbitas rajadas de luz do sol sob cada janela.

Chegando à porta do preceptor, ela bateu uma vez com o punho protegido pela cota de malha e entrou impetuosamente. Maggiore Totus estava bebendo um refrescante copo d'água, a maior parte do qual derramou pela frente das vestes pretas, quando se surpreendeu com sua chegada. Bastou uma olhada para a expressão ardente nos olhos de Thirrin, para ele não dizer nada sobre a necessidade de boas maneiras, mesmo no caso de princesas. Em vez disso, ele deu um sorriso de boas-vindas e lhe indicou um lugar junto da janela.

— Sua Alteza talvez se sentisse mais à vontade num vestido, em vez de cota de malha — sugeriu ele, usando a rígida formalidade de sua fala como escudo contra o mau humor de Thirrin.

— Não! — retrucou ela, irritada. Mas, cedendo um pouco, tirou o cinturão e o pendurou no encosto da cadeira. Era função de Maggiore Totus certificar-se de que ela fosse tão bem instruída quanto um herdeiro ao trono da Terra do Gelo deveria ser. Mas as únicas aulas que realmente atraíam sua atenção eram as dos mestres de equitação e de armas. Todas as outras matérias faziam com que o tempo se arrastasse demais e, com isso, ela se aperfeiçoou na arte de olhar fixamente para os livros enquanto sua mente galopava pelas planícies ou velejava pelos mares cinzentos da Terra do Gelo.

Agora, enquanto Maggiore Totus organizava suas anotações, ela deixava sua cabeça devanear novamente, imaginando-se montada no dorso de uma das gigantescas corujas-das-neves que no inverno viviam nos campos cobertos de gelo. Das alturas em que se encontrava, no largo dorso branco da coruja, ela via as montanhas das Rochas-dos-Lobos, que se elevavam íngremes a partir da planície ao norte, exibindo seus picos pontiagudos como dentes em contraste com o azul gelado do céu, enquanto para o sul os picos conhecidos como Donzelas Dançarinas se erguiam em ondulações delicadas de um lado a outro do horizonte, para então descer devagar sob a forma de colinas baixas e verdes até as terras do Império do Polipontus. Maggiore já lhe tinha ensinado que esse nome estranho na realidade significava "muitas pontes" e refletia o grande número de rios que percorriam aquela região próspera e viçosa.

Do alto, nas costas da imaginária coruja-das-neves, Thirrin via a quantidade de rios que atravessavam a terra imperial como finos fios de prata aplicados num fabuloso tecido verde, bordado com o desenho regular dos campos de cultivo e os borrões escuros de florestas, charcos e pastagens.

Sobrevoou então as cidades desse próspero reino meridional, com as ruas que se alastravam cinzentas lá embaixo. Os aglomerados urbanos tinham se tornado tão grandes que se derramavam para fora das muralhas, ameaçando a terra verde da periferia com fábricas escuras, que emitiam fumaça a milhares de metros de altura enquanto enchiam de ouro o tesouro do país. Com essa fortuna, o Polipontus tinha formado um exército impressionante que, ao longo dos anos, conquistou um enorme império que se estendia para todos os pontos cardeais, fora do alcance do conhecimento de Thirrin. O exército era comandado pelo temido general Scipio Bellorum, que jamais perdeu uma guerra de conquista sequer e saiu vitorioso de todas as batalhas que comandou em pessoa.

A coruja de Thirrin agora fazia um vôo rasante sobre as ruas das cidades do Império. Lá ela via o povo. Algumas pessoas estavam vestidas com opulência e andavam com uma confiança que abria caminho através das multidões apinhadas nas calçadas. Muitos trajavam uniforme de soldado, prontos para lutar e morrer nas guerras do Império. Mas a maioria usava farrapos e uma grande parte dela era composta de escravos, designados para trabalhar nas fábricas que produziam as armas de que o exército necessitava para suas guerras em terras distantes.

Essa era a realidade do Império. As pessoas não passavam de mais um recurso a ser utilizado por aqueles poucos que governavam os extensos territórios. E, se Thirrin tivesse se perguntado se havia alguma diferença básica para os camponeses da sua própria sociedade, ela poderia ter alegado que na Terra do Gelo ninguém era chamado de escravo e ninguém era forçado a trabalhar em fábricas que envenenavam o ar e destruíam a terra. O fato de a vida de um "vassalo" que morasse no país do seu pai ser pouco diferente da vida de um escravo não a teria perturbado. Pelo menos, seu povo tinha casa própria para morar e comia parte dos alimentos que se esforçava por cultivar.

E então, com os olhos da imaginação, sua coruja se virou novamente para o norte até voltar a sobrevoar a Terra do Gelo. E, lá embaixo, as florestas e pastagens passavam livres, como um mar verde em torno das ilhas muradas das cidadezinhas. Era somente no inverno que o reino fazia jus ao seu nome e realmente se tornava a Terra do Gelo, branca e congelada desde as Rochas-dos-Lobos até as Donzelas Dançarinas, durante sete meses do ano.

Maggiore Totus observava Thirrin enquanto os olhos da menina, fixos a uma distância indefinida, nada viam. Ele suspirou. Thirrin era a aluna mais difícil a quem ele precisara ensinar, mas também era uma das mais inteligentes. E era essa consciência que o mantinha no palácio como preceptor real. Nos recessos mais profundos da sua mente brilhante, ele abrigava a esperança de despertar o amor pelo saber nessa princesa guerreira, de tal modo que um dia a Terra do Gelo fosse governada por uma rainha erudita além de lutadora.

No entanto, qualquer esperança dessa natureza parecia estar muito distante e enquanto isso ele se impôs a tarefa de tentar reconquistar a atenção da menina.

— Acho que podemos adiar nossa aula sobre a principal fonte de renda do continente meridional e, em vez disso, concentrar nossa atenção na topografia de campos de batalha famosos.

Thirrin resmungou, concordando, com uma ligeira melhora de humor, e se surpreendeu por gostar de verdade da aula.

 

Naquela noite, Redrought ofereceu um dos seus banquetes oficiais. Todos os barões e baronesas sabiam que seriam chamados à capital Frostmarris para uma refeição com o rei pelo menos três vezes por ano. Comer e beber era na realidade menos importante que a verdadeira tarefa de manter uma vigilância cerrada sobre qualquer aristocrata cuja ambição pudesse crescer além da conta. Mas, apesar dessa atitude cautelosa diante dos nobres, Redrought era um rei muito popular. Não era arrogante e, o que era ainda mais importante, era um general experiente. Não só tinha derrotado o rei e a rainha dos vampiros da Terra-dos-Fantasmas, mas tinha também rechaçado muitos ataques de piratas às costas da Terra do Gelo.

De fato, o banquete daquela noite era oficialmente em comemoração da vitória obtida por ele contra uma das maiores ameaças que o país tinha enfrentado em mais de uma década. Exatamente um ano antes, Redrought conduziu seu exército ao campo de Enseada do Mar, onde travou batalha contra as forças unidas dos corsários do sul e dos piratas das ilhas. A frota dos inimigos possuía mais de duzentas naus e eles tinham desembarcado um exército de vinte mil homens. Mas, depois de uma luta sangrenta que durou um dia inteiro, o inimigo acabou sendo empurrado para o mar, tendo suas naus incendiadas pelos vitoriosos guardas-da-coroa do rei Redrought.

E agora o salão-mor do Palácio estava tomado de festejos barulhentos, já que aqueles mesmos soldados comiam e bebiam às mesas inferiores, enquanto contavam uns aos outros como tinha sido brilhante sua atuação no campo de Enseada do Mar. A galeria de menestréis que ocupava toda a parede sul estava lotada com os melhores músicos da cidade, que tocavam uma seqüência interminável de marchas e canções para acompanhar a bebida. E, entre as longas fileiras de mesas, acrobatas tombavam e se lançavam uns contra os outros numa estranha combinação de palhaçada e habilidade.

Enquanto Thirrin olhava de seu lugar à mesa principal, o salão-mor parecia arfar e redemoinhar como um mar tempestuoso. Mas sua visão de pequenos detalhes era prejudicada pela densa névoa de fumaça que se erguia do fogo aceso na lareira central. Até mesmo os enormes estandartes dos regimentos dos guardas-da-coroa, suspensos de cada uma das vigas do telhado, refulgiam meio embaçados entre os filetes de fumaça à deriva que acabariam por sair ondulantes pelos respiradouros lá no alto do teto. Um urso bailarino surgiu através do nevoeiro a meio caminho entre as fileiras de mesas, de tal modo que, aos olhos de Thirrin, ele pareceu uma miniatura de montanha com um sentido de ritmo meio desajeitado. E, de quando em quando, um dos acrobatas se lançava para o céu, como um golfinho que salta de um mar negro e enfumaçado.

Thirrin acabou por voltar a atenção para a mesa principal e ouviu seu pai conversando, ou melhor, gritando, bem-humorado com um dos barões. Ela sempre se sentava ao lado do rei nos banquetes oficiais. Era bom que os senhores e senhoras da Terra do Gelo conhecessem a herdeira legítima. E, como sabia o quanto isso era importante, Thirrin fazia o possível para estar à altura. Ela se esforçava ao máximo para esmagar sua timidez natural, ocultan-do-a por trás de uma fachada encantadora e ao mesmo tempo inteligente. Procurava rir na hora certa e falar somente quando tinha plena certeza do que estava dizendo; mas não sabia ao certo se tinha sucesso nisso.

A baronesa Aethelflaed, uma senhora idosa com tranças compridas e olhos pequenos e cintilantes, debruçou-se sobre a mesa na sua direção.

— Eu soube que a princesa deparou recentemente com um homem-lobo — disse ela, dando com delicadeza a Thirrin uma oportunidade para entrar na conversa.

— É mesmo, foi hoje de manhã. Consegui feri-lo no ombro e ele acabou fugindo.

— Creio — disse a baronesa, voltando-se para o rei — que a Terra-dos-Fantasmas pode estar precisando de mais vigilância, Redrought.

O rei deu de ombros e baixou a cabeça para demonstrar que concordava, mas não considerava o problema com tanta importância assim.

— É verdade, imagino. Mas nenhum dos vigias na fronteira relatou nada de errado. — Distraído, ele torceu no dedo uma de suas tranças especiais de dia de festa, enquanto refletia sobre a situação. — Reforçarei as guarnições das fronteiras e enviarei mais espiões — disse um instante depois. — Isso deve bastar por enquanto.

— Desde que para tanto você não enfraqueça as defesas ao sul — disse a velha baronesa. — Confio no Polipontus e no seu Império tanto quanto confio no rei e na rainha dos vampiros. Suspeito de que o general Scipio Bellorum tenha a ambição de acrescentar a Terra do Gelo às suas conquistas.

Redrought deu uma risada.

— Você se preocupa demais, Aethelflaed! Bellorum tem a ambição de acrescentar o mundo inteiro às suas conquistas. E neste momento está ocupado no sul. Portanto, pare de se preocupar e trate de beber.

— Acho que a baronesa tem razão — disse Thirrin, baixinho, com a mente ocupada com um problema que já vinha remoendo havia algum tempo. — Se vigiarmos uma fronteira com excesso de atenção, podemos pôr as outras em risco. Precisamos de mais aliados.

— Correto — disse o rei, concordando. — Mas estamos isolados aqui nestas nossas terras setentrionais. Ao sul, fica o Império do Polipontus e mais ao norte temos a Terra-dos-Fantasmas. Não temos exatamente uma fartura de escolhas, não é mesmo?

— Não, mas às vezes é possível encontrar amigos nos lugares mais improváveis — disse Thirrin, com o pensamento se voltando inexplicavelmente para o lobisomem e seu jeito de olhar para ela antes de soltá-la.

O rei piscou um olho para a filha e sorriu.

— Você está certa. Talvez devêssemos começar a procurar o mais rápido possível. — Recostou-se então na cadeira, esticou-se prazerosamente e descansou os pés em cima da mesa. Thirrin achou graça quando ele deu um jeito de manobrar os grandes chinelos felpudos entre os pratos e taças do banquete, até encontrar espaço suficiente para cruzá-los com conforto. Mais cedo, quando seu camareiro fez objeção ao calçado, ele argumentou que os chinelos amarelos felpudos eram muito mais confortáveis para seus calos que as botas bem engraxadas do traje oficial de rei. E a rigidez da sua expressão bastou para avisar o camareiro do perigo de dizer mais uma palavra que fosse.

Depois que se acomodou, o rei enfiou a mão na gola densamente bordada das vestes e dali extraiu com delicadeza Primplepuss, a gatinha real, e a colocou sobre a curva assustadora da sua barriga.

Grimswald! — berrou ele. — Grimswald, onde é que você está?!

O camareiro-da-parafernália-real surgiu junto ao cotovelo do rei e Thirrin se flagrou imaginando se ele teria estado escondido debaixo da mesa.

— Sim, senhor! — disse o homenzinho enrugado.

— Vá buscar leite para Primplepuss. Ela está com sede, não está, meu amorzinho! — disse ele, afagando-lhe a bochecha com carinho e dizendo a todos os que estavam ao redor que ela estava ronronando, muito embora, com o barulho do banquete, não fosse possível ouvir nem um tigre-de-dentes-de-sabre.

Quando a gatinha começou a brincar com as tranças da barba de Redrought, Thirrin percebeu que não haveria mais nenhuma condição de extrair do seu pai nada que fizesse sentido pelo resto da noite. Resolveu então ir juntar-se aos guardas-da-coroa logo adiante, no salão inferior.

Ela saltou da plataforma real e foi se encaminhando na direção do ruído de machados sendo lançados para acertar algum alvo, chegando no instante exato em que um partia a maçã que tinha sido colocada no centro do alvo. Os aplausos estrondosos quase a derrubaram para trás, mas ela atravessou a multidão suarenta de homens e mulheres e exigiu uma chance de tentar. Podia ser tímida em companhia educada e quando enfrentava as conversas que tivessem necessidade de boas maneiras; mas não tinha nenhum receio semelhante quando estava entre seus companheiros guerreiros. Aqui não precisava ser cortês nem tomar cuidado com o linguajar. Na verdade, os guardas-da-coroa costumavam passar os primeiros minutos pedindo desculpas por sua própria falta de educação. Mas, uma vez que se empolgassem, tudo isso era esquecido e ela era tratada quase como os outros guerreiros jovens, embora sua posição sempre fosse cuidadosamente reconhecida.

— A princesa vai tentar! — Foi o grande grito que se ergueu. Um dos guerreiros, cheio de respeito, colocou-lhe na mão um dos machados menores.

— Trate de me dar um do tamanho certo — exigiu ela, indignada, fazendo um gesto de concordância quando lhe passaram um machado de combate de tamanho normal.

A essa altura, a maçã tinha sido substituída no alvo. Com grande esforço, ela ergueu o machado, mirou, se afastou e o atirou com tanta força que caiu de joelhos. Quando se atreveu a olhar para o alvo, viu a maçã partida ao meio com perfeição, aos pés da grossa placa de arremesso. Rindo, aliviada, aceitou os gritos de aplauso dos guardas-da-coroa e se permitiu ser carregada em triunfo por todas as mesas.

Do alto dos ombros que a carregavam, através das mechas espiraladas de fumaça, Thirrin enxergava todo o comprimento do salão-mor. Algum instinto atraiu seu olhar para as portas enormes no exato instante em que elas se abriam com violência e uma rajada de ar mais frio invadia o salão, atravessando a densa nuvem de fumaça como um carvão quente atravessa a neve. Fez-se silêncio no salão e Thirrin respirou fundo quando o ar frio a atingiu. Agora a fumaça estava quase toda dispersada e ela pôde ver com clareza soldados que entravam em marcha pelo portal, arrastando entre eles um enorme vulto desgrenhado.

Os soldados trajavam o uniforme da guarda do palácio e seu assunto era obviamente importante, de modo que os guardas-da-coroa se apressaram a arrastar para um lado as mesas improvisadas sobre cavaletes. Logo estava desimpedido um corredor largo que levava direto ao tablado do rei e o estranho grupo avançou.

— Ponham-me no chão! — ordenou Thirrin. Os homens que estavam carregando a princesa nos ombros a puseram no chão e ela atravessou a multidão para chegar à mesa principal ao mesmo tempo que os soldados. Foi então que ela viu exatamente o que estavam arrastando. Era o lobisomem. Seus pulsos estavam amarrados com cordas grossas a um pau atravessado sobre seus ombros e ele estava cercado por um círculo de aço afiado, pois cada guarda trazia sua lança preparada para atacar à menor provocação. Os guardas saudaram o rei.

— Meu Senhor, trazemos o invasor da Terra-dos-Fantasmas para sua sentença.

Depois de alguns segundos carregados, em que tentou desenredar da barba uma Primplepuss apavorada, a resposta de Redrought foi curta e grossa:

— Deviam tê-lo matado no campo! Trazê-lo até aqui foi um desperdício de energia. — Ele afagou Primplepuss delicadamente, tentando acalmá-la. — E ainda vão me sujar de sangue o piso todo!

Thirrin aproximou-se do pai.

— Reivindico o direito de sentença! — gritou, com a voz reverberando pelo salão.

O homem-lobo voltou-se para olhar para ela, com a carantonha começando a perder a expressão de ferocidade, como se farejasse alguma esperança remota, mas sem ousar acreditar nela.

O silêncio que se seguiu foi por fim interrompido pelo rei.

— Você? Por quê? — perguntou ele, ainda irritado com o susto de Primplepuss.

— Porque fui eu que verti seu sangue primeiro. Pela lei ancestral, sua vida me pertence.

— Você tem razão — disse Redrought, depois de refletir por um momento. — Como quer que o matemos?

Thirrin sorriu cheia de gratidão para o pai e, como de costume, ele se enterneceu e retribuiu o sorriso.

— Não quero que o matem. Quero escoltá-lo até a fronteira e libertá-lo — disse ela, com cuidado, ainda sorrindo em meio a protestos ruidosos.

— Como? — rugiu o rei, com sua melhor voz de monarca indignado. — Ele é um monstro, uma aberração da Terra-dos-Fantasmas. O mundo será um lugar melhor sem ele. Basta pendurá-lo, retalhá-lo e poderemos continuar com a festa.

Thirrin esperou que silenciassem os vivas que acompanharam essa frase do rei, para então se ajoelhar, implorando.

— Meu senhor Redrought Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Urso do Norte, Guardião do Povo, conceda a sua filha, sua única filha e herdeira do trono da Terra do Gelo, essa dádiva e favor. Eu gostaria de conduzir a escolta até a fronteira para lá libertar a criatura, de modo que ela possa viver para falar do que ocorreu nesta noite.

Os olhos do pai tinham se contraído, cheios de cautela, assim que Thirrin adotou a linguagem cerimonial da corte. Às vezes era muito parecida com a mãe, que era esperta como ela só. Mesmo assim, tinha amado a mulher e ela jamais usou sua inteligência para fins condenáveis.

— Se eu for lhe conceder esse favor, preciso primeiro saber por que motivo quer que o lobisomem viva — disse ele, afinal, numa voz que para ele foi baixa.

— Pelos motivos sobre os quais falamos mais cedo. O senhor sabe que nem mesmo as barreiras de escudos de todos os guardas-da-coroa nem os cascos trovejantes de toda a sua cavalaria seriam suficientes para manter nossos inimigos afastados, se todos resolvessem atacar de uma vez. Mesmo que Scipio Bellorum e o Império polipontino atacassem isoladamente, sem apoio de nenhum de nossos outros inimigos, nós nunca os poderíamos conter. O senhor mesmo já disse que é impossível impedir o avanço dos exércitos imperiais. Em outras palavras, precisamos de aliados.

— Ora! E você acha que o Povo-Lobo seria uma boa amizade?

— Acho.

— E que um lobo desgrenhado promoverá uma aliança?

— Pai, olhe para o pescoço dele. Ele está usando a coleira de metal de um chefe dos homens-lobos. Não é um lobisomem qualquer.

— Estou usando a coleira de ouro do rei do Povo-Lobo — atalhou uma voz grave, rosnando. — Não subestimem seu prisioneiro!

Seguiu-se um silêncio de choque. Poucas pessoas sabiam que o Povo-Lobo falava, muito menos que usava palavras com inteligência e orgulho.

— Então, você é um refém ideal para a paz — disse Redrought, olhando para o prisioneiro.

— Não, pai! O homem-lobo é meu!

— Minha filha quer lhe conceder a liberdade. Você promete ser aliado da Terra do Gelo, se ela fizer valer sua vontade?

— Prometo — rosnou novamente a voz grave.

— E seu povo também?

— E meu povo também.

— Como vamos saber que podemos confiar em você?

Veio do lobisomem um estranho ruído, meio ganido, meio fungada, e Thirrin percebeu que ele estava rindo.

— Vocês não têm como saber. Precisam só confiar... em mim.

— E o que vai acontecer se seus aliados entrarem em guerra contra nós? Vocês poderiam ignorar o rei e a rainha dos vampiros?

— Olhe, se vai começar a procurar problemas, é melhor me matar de uma vez e acabar com isso — respondeu o homem-lobo com ar de superioridade.

— Às vezes, é preciso simplesmente assumir riscos — disse Redrought, concordando. — Thirrin, o prisioneiro é seu.

Ela soltou um grito de alegria, subiu com um salto no tablado e lhe deu um forte abraço.

— Obrigada, papai — murmurou em seu ouvido. Então, recuperando a compostura, ajoelhou-se diante dele. — Receba meus agradecimentos, meu pai. Que sua decisão se revele sensata e acertada.

— É melhor que seja mesmo — respondeu ele, com aspereza, começando a afagar Primplepuss, que, recuperada do susto, agora estava se lambendo.

— Solte o prisioneiro — ordenou Thirrin, voltando-se para o guarda.

Ergueu-se mais uma vez um protesto estrondoso, mas o rei fez que sim e os nós foram cortados.

O lobisomem ficou ali em pé, esfregando os pulsos e olhando por todo o salão, com uma expressão desconfiada e perplexa. A princesa tinha lutado por sua vida, retribuindo sua compaixão.

Thirrin tinha se exposto a um risco terrível, pondo sua confiança numa espécie que era inimiga do seu povo havia séculos. A criatura colossal de repente se comoveu com a bravura da princesa. Algum aspecto da sua impetuosidade e fragilidade tocava fundo no lobisomem e, como monarca com mais de vinte anos de experiência de governo, ele reconhecia nobreza e personalidade à primeira vista. Essa princesa do Povo-Humano seria de extrema importância nas lutas do porvir.

Com um súbito impulso de corresponder à coragem de Thirrin, ele avançou e se ajoelhou diante dela.

— Pela constante mudança das fases da lua abençoada, eu, Grishmak Bebedor-de-Sangue, rei do Povo-Lobo, juro amizade eterna à Terra do Gelo e seu governante, em especial a Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília. Sua dor é minha dor; sua alegria, minha alegria; sua guerra, minha guerra!

A voz do homem-lobo ecoou pelo salão-mor, agora em estranho silêncio. Depois, a criatura jogou para trás a cabeça e soltou um uivo longo, horripilante, que aos poucos foi descendo pelas escalas até se reduzir ao silêncio.

 

Thirrin comandava o grupo, enveredando ainda mais pela floresta adentro. Estavam cavalgando a manhã inteira, para exercitar alguns cavalos das estrebarias reais. De fato, não havia nenhuma necessidade de que a princesa se juntasse a soldados e cavalariços, cujo trabalho consistia em manter saudáveis e em boa forma os garanhões de guerra de Redrought; mas era um ótimo pretexto para ela sair da sala de aula.

Em pé no estribo, ela acelerou até um meio galope, desvian-do-se das árvores e aos poucos se distanciando à frente dos outros. Respirou fundo o cheiro agradável do tapete de folhas, revirado pelos cascos dos cavalos, e sentiu que o vento levava embora a poeira da sala de aula. No alto das árvores, gralhas e corvos davam gritos ásperos denunciando a presença dos cavaleiros e, no chão da floresta, um súbito farfalhar no mato rasteiro indicava algum animal que escapulia assustado. Mas Thirrin estava simplesmente feliz de estar passeando a cavalo, vendo a mata se incendiar com suas cores de outono e sentindo o odor penetrante de terra molhada. Ali entre as árvores fazia um calor surpreendente e o sol se derramava através do dossel formado pelas copas das árvores como se os últimos estertores do curto verão da Terra do Gelo tivessem se reunido ali antes que se instalasse o implacável inverno do norte.

Mas pouco adiante dali, no rumo norte, o céu estava de um cinza escuro como carvão e um ronco ameaçador ressoava pesadamente no ar. A tempestade tinha se preparado a manhã inteira e agora dava a impressão de estar prestes a cair. Relâmpagos iluminavam as nuvens que avançavam lentamente pelo céu e, através de falhas naturais na densa cobertura de folhas, Thirrin pôde ver ao longe um espesso nevoeiro de chuva. Relutante, ela decidiu ordenar que voltassem.

Deu meia-volta, puxou as rédeas para parar o cavalo e ficou olhando enquanto os outros se aproximavam. De repente, como que surgindo do nada, um animal gigantesco irrompeu do meio das árvores. Mesmo correndo de quatro, ele era da altura de um cavalo; mas então ergueu-se nas patas traseiras, ficando muito mais alto que eles. Era um urso cinzento, imponente, poderoso e fácil de se enfurecer. Ele golpeou o cavaleiro mais próximo, derrubando-o da sela, enquanto os outros cavalos debandavam, bufando de terror.

Arrancando uma lança da bainha na sela, Thirrin assumiu o comando da situação e, empunhando-a em riste, investiu contra o animal. O urso se virou de frente para ela e foi atingido diretamente no peito. Com um rugido, ele se arremessou contra Thirrin, mas seu cavalo saiu de lado, com agilidade, e ela sacou a pesada espada de lâmina larga.

Estava desesperada para atrair o urso para longe do homem ferido. Por isso, recuou devagar, fazendo com que o animal se afastasse. A lança ainda estava fincada em seu peito, mas ele parecia não se dar conta disso enquanto procurava atingi-la com garras cortantes como navalhas. Thirrin se defendia com a espada, causando ferimentos que o urso praticamente não percebia enquanto continuava a se precipitar para alcançá-la. Logo, Thirrin começou a pensar se seria possível conseguir derrubá-lo de algum modo.

Foi então que os outros cavaleiros irromperam de volta na clareira. Tinham reassumido rapidamente o controle dos seus cavalos, que, treinados para o combate, avançavam para o ataque.

Os soldados gritavam enquanto atacavam o animal, desviando sua atenção de Thirrin, que imediatamente apanhou outra lança da bainha. Mais duas lanças foram fincadas no peito do urso e, quando os soldados davam meia-volta para ganhar distância, Thirrin atacou com violência e o atingiu no flanco.

O urso se ergueu até sua plena altura e rugiu, com a voz reverberando pela floresta. Inclinou-se então lentamente para a frente e tombou no chão, morto. Caiu um silêncio profundo e por um instante todos ficaram olhando para o gigantesco urso caído. Estavam prestes a começar a dar parabéns uns aos outros por terem realmente conseguido matá-lo, quando um gemido fez com que se lembrassem do ferido.

Todos desmontaram e correram até onde ele estava. O braço estava rasgado do ombro ao cotovelo, com forte sangramento. Rapidamente os soldados envolveram o ferimento com uma capa e a amarraram no lugar com tecido que rasgaram de suas túnicas. Não era possível fazer mais nada enquanto não chegassem de volta a Frostmarris. Por isso, depois de ajudar o ferido a montar no cavalo, começaram a viagem de volta.

Um vento frio percorria a floresta, avançando à frente da tempestade que continuava seu percurso pelo céu, como a vanguarda de um exército invasor. Chegou então a chuva, chiando através das árvores como um ninho de cobras iradas. As lâminas de água gelada as atingiam com tanta força que arrancavam folhas dos galhos e a trilha se transformou rapidamente num rio veloz.

Thirrin decidiu ir à frente na esperança de encontrar abrigo para o ferido e logo deixou os outros para trás. Estava começando a se perguntar o que mais poderia acontecer durante um passeio tão atribulado e murmurou uma rápida oração para a Deusa, pedindo orientação. A trilha, que seguia sinuosa entre as árvores apinhadas, não dava nenhum sinal de oferecer abrigo maior que galhos e folhas insuficientes e ela estava pronta para dar meia-volta, quando uma súbita explosão derrubou seu cavalo. Ela rolou de lado para não ser atingida pelos cascos que golpeavam o ar e sacou a espada. Mas o único inimigo era um raio que tinha destroçado um velho carvalho, reduzindo-o a lascas.

Seu cavalo se esforçava para se levantar do chão e ela, segurando suas rédeas, procurava acalmá-lo enquanto ele guinchava e tremia. Os trovões ribombavam em torno deles, abafando sua voz, e, enquanto Thirrin ainda lutava com o animal, os outros membros do grupo chegaram galopando pela trilha. Um dos soldados desmontou e a ajudou a forçar o cavalo a ficar parado.

— Estaremos mais seguros na clareira, longe das árvores — gritou Thirrin, conduzindo-os rapidamente pelo caminho por onde acabavam de vir. — Melhor ficar encharcado até os ossos que ser atingido por um raio.

No entanto, quando chegaram à larga clareira, todos pararam, puxando as rédeas, surpresos. Adiante deles, estava postado um vulto alto, envolto numa capa, com os braços perfeitamente cruzados e a cabeça encapuzada baixa. O que mais teriam de enfrentar nessa manhã movimentada?, perguntou-se Thirrin. Ela e os soldados sacaram as espadas, mas o vulto não se mexeu. Daí a um momento, ela sufocou seu medo e avançou.

— Você está diante da princesa Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, herdeira do trono da Terra do Gelo. Identifique-se!

O vulto fez uma profunda reverência. Empertigou-se então e jogou para trás o capuz. Thirrin quase riu de alívio. Era só um garoto. Alto para sua idade de talvez quinze anos, mas mesmo assim um garoto. Por um instante, sob o extraordinário poder da tempestade, todos tinham pensado que mais uma das criaturas da Terra-dos-Fantasmas tinha cruzado a fronteira. Mas esse garoto era obviamente humano, como demonstrou ao enxugar a chuva dos olhos e sorrir.

— Meu nome é Oskan Filho da Bruxa. Venham comigo. Posso lhes dar abrigo.

Sem dizer mais nada, ele atravessou a clareira e seguiu por uma trilha entre as árvores que de algum modo eles não tinham percebido anteriormente. Chegando à conclusão de que o garoto não lhes poderia fazer nenhum mal e de que ela e os companheiros precisavam de ajuda depois dos acontecimentos da manhã, Thirrin fez seu cavalo avançar e o grupo inteiro a acompanhou. A trilha era íngreme e foi aos poucos se tornando pedregosa, o que dificultou em muito o avanço dos cavalos, mas, depois de alguns minutos, uma formação rochosa se ergueu escarpada diante deles.

O caminho parecia terminar numa parede de granito, mas Oskan Filho da Bruxa acenava para que o acompanhassem. A essa altura, os trajes de Thirrin estavam totalmente molhados e a tempestade caía com força ainda maior. Por isso, decidida a confiar no garoto, ela seguiu na direção das rochas até que viu uma larga abertura de caverna, voltada para um lado que a escondia da trilha.

O grupo entrou na caverna e desmontou. Era limpa e seca, com pilhas de capim e folhas secas encostadas numa parede, como se o garoto tivesse juntado ração para os cavalos de hóspedes que aguardava.

— Podem alojar seus animais aqui mesmo — disse Oskan. — Tragam o ferido por aqui. — Ele conduziu Thirrin e os soldados, que mais ou menos carregavam o companheiro ferido, por um corredor estreito em direção a uma escuridão que foi se adensando aos poucos até se tornar um breu.

— Esperem aí um instante — disse a voz de Oskan e ouviu-se o chiado e o estalido de uma pederneira. De repente, a luz brotou de um braseiro no meio do recinto e sombras fantásticas dançavam em torno de uma ampla caverna interior, enquanto Oskan ia rápido acendendo mais lâmpadas e braseiros.

Logo a caverna estava toda iluminada e Thirrin olhava ao redor com interesse. Uma camada de samambaia seca e limpa cobria o piso liso e sobre algumas mesas dispostas junto às paredes surpreendentemente regulares havia panelas perfeitamente empilhadas. Um forte aroma de ervas e temperos fazia com que o lugar parecesse ter o cheiro das cozinhas do palácio.

— Deitem o ferido aqui — disse Oskan aos soldados, indicando uma cama encostada numa das paredes. Todos ficaram olhando em silêncio, enquanto o garoto colocava uma mesa ao lado da cama e depois saía pela caverna recolhendo vários objetos. Feito isso, ele apanhou um banquinho, sentou-se e começou a desenrolar a capa que tinha sido usada como atadura no braço do homem.

— O que você está fazendo? — perguntou Thirrin, desconfiada.

O garoto praticamente não levantou os olhos da mistura de vinho tinto e sal que estava preparando numa tigela, mas por fim respondeu.

— Vou costurar o braço desse homem.

— Costurar o braço! — repetiu ela, sem se controlar. — Ele não é um pedaço de pano!

— Não é mesmo — concordou Oskan, em tom calmo. — Mas sua pele e parte do músculo foram rasgados e costurar tudo junto vai ajudá-lo a sarar muito mais rápido.

Thirrin estava pensando em sacar a espada e expulsar dali o garoto maluco, quando um dos soldados se manifestou.

— Minha senhora, conheço esse rapaz. Ele é filho de Annis Branca, a bruxa boa que morava nesta região.

— E daí? — retrucou Thirrin, enfurecida. — Isso lhe dá o direito de torturar meu serviçal?

— A mãe dele era curandeira, entre outras coisas — prosseguiu o soldado. — E eu me lembro de ela ter feito exatamente isso quando um dos guardas-da-coroa se feriu durante o treinamento com armas no palácio. Ele passou pelo lado errado quando deveria ter se desviado. Com isso, um machado lhe cortou um pedaço do músculo da perna. Ele sangrou muito e sem dúvida teria morrido, mas Annis Branca veio e estancou o sangramento. Depois costurou a perna dele.

— E o ferimento não pegou a podridão verde? — perguntou ela, interessada nessa história de armas.

— Não, minha senhora. A bruxa conseguiu mantê-lo limpo com algum líquido e o homem se curou. Quando melhorou de todo, nem mesmo mancava.

Ela concordou. O soldado era um veterano que ela conhecia desde sempre e ela confiava na sua experiência.

— Está bem. Trate de costurar o braço — disse ela a Oskan, como se ele estivesse tentando evitar a tarefa.

Thirrin observou enquanto ele lavava as mãos com mais vinho tinto. Depois ele apanhou uma agulha com uma curva estranha e, com pinças, segurou a agulha na chama de uma lamparina até ela refulgir incandescente. Mais uma vez, Thirrin se questionou quanto à sanidade mental do garoto; especialmente quando ele então mergulhou a agulha no vinho tinto com sal.

— Seus soldados precisarão segurá-lo — disse Oskan. — Não tenho papoula.

— Papoula! — Thirrin explodiu mais uma vez, sem conseguir se conter. — O que uma flor pode ter a ver com isso?

O garoto assistiu à explosão de raiva com serenidade, antes de responder.

— A papoula é uma droga que teria diminuído a dor. Mas a minha acabou faz um ano.

Thirrin olhou para o veterano, que a tranqüilizou com um gesto de cabeça, mas toda a calma se perdeu quando ela viu Oskan enfiar a linha na agulha e puxá-la através de um dente de alho.

— Ajuda a impedir a podridão verde — explicou ele.

— Siga em frente! Não quero saber de mais nada — disse ela, lançando as mãos para o alto em desespero.

Não foi fácil costurar o ferimento. O corte era profundo e até a simples limpeza com sal e vinho tinto já fazia o cavalariço gritar e se debater. Quando Oskan deu o último ponto, todos estavam exaustos do esforço de tentar imobilizar o homem. Mas, finalmente, o ferimento recebeu um curativo adequado e o braço foi enfaixado.

— Vamos deixá-lo agora. A força de cura da Natureza se encarregará do resto — disse Oskan. — Vejam, ele já está adormecendo. Logo se esquecerá da dor.

Thirrin olhou fixamente para ele, como se ele fosse louco.

— Bem, fico feliz por ele. Eu mesma acho que vai demorar muito para eu conseguir esquecer esse corpo-a-corpo desagradável.

De volta ao espaço principal da caverna, Thirrin se sentou um pouco afastada dos outros, com o olhar fixo no fogo, enquanto a floresta soprava ali para dentro os cheiros penetrantes de folhagem e terra molhada. Os homens estavam calados, cansados depois dos traumas daquele dia. Um deles ela despachara para Frostmarris para informar o rei do que tinha ocorrido e agora não a incomodava esperar que a tempestade passasse para poder voltar ela mesma para a cidade. Os raios e trovões pareciam ter avançado mais adiante pelas planícies afora, mas a chuva ainda caía forte, com um chiado constante, enquanto abria caminho pelo espesso dossel das árvores. Pouco tempo depois, Oskan apareceu, vindo pelo corredor que levava à parte interior da caverna. Thirrin observou enquanto ele lavava as mãos e se voltava para o fogo, onde mexeu num grande caldeirão que estava o tempo todo ali fervendo sozinho. Os aromas que subiram da panela fizeram roncar o estômago de Thirrin e os homens também demonstraram interesse.

— Na mesa junto da entrada vocês encontrarão algumas cumbucas — disse Oskan para a caverna em geral. Houve alguma disputa entre os que foram buscá-las e Oskan serviu conchas de um ensopado encorpado.

Lembrando-se do seu dever e das boas maneiras, um dos homens serviu Thirrin em primeiro lugar, pondo meio desajeitadamente o ensopado, uma colher tosca de pau e um naco de pão na laje da lareira ao lado de onde ela estava sentada. Quando Thirrin adotava sua perfeita "atitude de princesa", os homens sabiam que o melhor era não tratá-la com muita liberdade. Era óbvio que ela estava tentando impressionar o jovem curandeiro. Portanto, por enquanto, a etiqueta e o comportamento correto precisariam ser seguidos à risca. Todos sabiam que ela voltaria a ser a de sempre no próximo exercício com armas.

Thirrin suspirou. Esses homens eram soldados e cavalariços. Não podia esperar deles as habilidades refinadas de camareiros do palácio. Agradeceu com um imperioso gesto de cabeça e o homem se retirou para o outro lado da lareira, onde os outros estavam comendo ruidosos. Cheia de escrúpulo, ela experimentou o ensopado. Era surpreendentemente saboroso, temperado com ervas e condimentos que Thirrin não conseguiu identificar, e o pão era tão bom quanto qualquer um produzido pelas cozinhas palacianas. Pouco depois, ela ergueu os olhos e viu que Oskan vinha se sentar junto dela. Ficou surpresa e irritada. Como herdeira do trono, esperava que esse desconhecido a deixasse em respeitosa solidão enquanto comia. Não apenas isso, mas agora ela precisaria conversar e achava que não conseguiria fazê-lo sem enrubescer. Bastava que a pusessem em qualquer situação que fosse mesmo vagamente nova e pessoal para que se sentisse perdida. Sua pele clara, quase translúcida, e o cabelo ruivo pareciam transmitir tudo o que sentia. Ela podia erguer o queixo num desdém arrogante e até mesmo torcer o nariz numa emergência, mas não era provável que conseguisse enganar ninguém se ficasse vermelha como um pôr-do-sol de verão. Oskan se sentou no banquinho ao lado sem sequer fingir esperar por sua permissão.

— O ensopado está bom? — perguntou, como se estivesse falando com um dos soldados.

— Razoável — respondeu Thirrin, com frieza e altivez. Ele fez que sim, como se não estivesse surpreso com a resposta.

— Imagino que as cozinhas do palácio preparem um banquete todos os dias.

Thirrin concluiu que ele era muito bronco para perceber que estava sendo confiado demais com ela.

— Todos os dias, não — disse ela. — Mas de lá sai a melhor comida da Terra do Gelo.

— É claro — respondeu ele, concordando.

Ela lançou para ele um olhar cortante, perguntando-se se estava sendo sarcástico, mas viu apenas uma aceitação inocente.

— Os homens disseram que você é filho de Annis Branca, a Bruxa. Onde é que ela está? Mesmo as mulheres com o Poder deveriam demonstrar respeito à herdeira da Terra do Gelo.

Ele olhou para ela com estranheza antes de responder.

— É verdade; mas nem mesmo a princesa Thirrin Freer For-te-no-Braço Escudo-de-Tília tem como exigir a presença dos mortos. Eles costumam se fazer de surdos diante de ordens para que demonstrem respeito.

— Ah! — disse ela, ficando ainda mais vermelha do que antes. — Eu não sabia.

Oskan mastigou e engoliu antes de responder.

— Tudo bem. Sei que você não pretendia ser grosseira. Thirrin se exasperou. Grosseira! Para ela, era provavelmente impossível que a família real fosse grosseira. Eles diziam o que sentiam e cabia ao resto da sociedade aceitar. Mas no íntimo estava furiosa consigo mesma. No fundo, não queria ofender esse garoto estranho que lhes dera abrigo contra a tempestade, tratamento ao cavalariço ferido e agora alimento da sua própria panela. Como seu pai sempre lhe dizia, a realeza tinha um dever para com os membros da sociedade que lhe eram inferiores. Estaria abaixo da sua dignidade demonstrar raiva por um camponês e sem dúvida estaria abaixo dela a sensação de embaraço.

— Quando ela morreu? — perguntou Thirrin, determinada a não tomar conhecimento do rosto esfogueado e a manifestar um interesse adequado e distante pelas dificuldades de alguém que um dia seria seu súdito.

— Há dois anos.

— E você morou sozinho todo esse tempo?

— Não foi difícil — respondeu ele, dando de ombros. — Minha mãe sabia que estava morrendo e, antes do fim, me ensinou tudo o que eu precisava saber.

— Que tipo de curandeira não consegue curar a si mesma? — As palavras saíram antes que ela se desse conta de que ia pronunciá-las. E, com isso, encolheu os dedos dos pés.

Oskan olhou para ela por muito tempo em silêncio, a ponto de ela quase começar a se contorcer de constrangimento, mas por fim respondeu.

— Somente a Deusa tem como curar todas as doenças. Thirrin teve a impressão de ter recebido um basta, mas a voz e o tom de Oskan permaneceram neutros e até mesmo agora ele apenas limpava tranqüilo a cumbuca com um pedaço de pão, sem demonstrar nenhum sinal de raiva.

Depois disso, Thirrin desistiu de tentar se comportar como uma princesa e só ficou ali sentada no que ela esperava parecer um silêncio majestoso, enquanto os homens comiam uma segunda cumbuca de ensopado e a chuva continuava a cortar o dossel da floresta lá fora, como lâminas líquidas. Mais tarde, Oskan recolheu as cumbucas e as empilhou organizadamente em cima de uma mesa.

— Logo vai escurecer — disse ele. — Vocês talvez precisem passar a noite aqui.

— Impossível! — respondeu Thirrin, quase gritando, horrorizada por algum motivo com o pensamento de ter de passar a noite com o garoto estranho. — Não temos roupa de cama.

— Tenho muitos cobertores no fundo da caverna. Quem sabe um de seus homens não poderia apanhá-los?

— O rei espera que eu esteja de volta hoje à noite — disse ela com firmeza e quase riu de alívio quando ouviu o ruído de cavalos que se aproximavam. Foi até a entrada da caverna e observou a chegada de uma escolta de dez cavaleiros, que era conduzida pela trilha acima pelo soldado que enviara mais cedo. Era óbvio que estava certa. Redrought realmente a esperava de volta naquela noite.

— Recolham suas coisas e selem os cavalos — ordenou ela aos homens, de repente assumindo pleno controle de si mesma. Voltou-se então para Oskan: — Deixamos o ferido aos seus cuidados e enviaremos um cirurgião mais tarde.

 

Thirrin tinha um dia inteiro de estudos pela frente. Matemática, geografia, história natural e o que Maggiore Totus chamava de ciência alquímica. Ela bem queria que seu pai não tivesse resolvido instruí-la e tivesse permitido simplesmente que ela dependesse de escribas e outros "espertos", como Redrought os chamava. Afinal de contas, ele nem sabia escrever o próprio nome e, mesmo assim, conseguia governar seu reino com inteligência e sagacidade havia mais de vinte anos. Então, por que ela precisava saber escrever, contar e fazer todas aquelas outras coisas brilhantes que a impediam de ser ela mesma?

— Porque os tempos estão mudando e eu quero uma filha que saiba qual é seu lugar no mundo e como mantê-lo! — A voz trovejante do pai ainda ressoava na sua lembrança.

Bem, talvez o mundo estivesse mudando, mas era realmente útil que ela soubesse os principais produtos de exportação do continente meridional? Ou calcular a área de um cilindro ou ainda preparar um medicamento infalível contra a hidropisia? Ela achava que não, mas seu pai estava determinado. E assim precisava aprender a ser como um dos estudiosos espertos da comunidade.

— Pois bem, Vossa Alteza, devo supor que fez seu trabalho de matemática? — perguntou Maggiore Totus.

Calada e com frieza, Thirrin lhe entregou um maço de papel, detestando o modo pelo qual o homenzinho conseguia fazer com que se sentisse culpada mesmo quando tinha cumprido as tarefas. Ela sabia que poderia matá-lo por diversos métodos sangrentos em menos tempo do que ele levava para ajeitar os óculos esquisitos que ficavam pousados bem na ponta do seu nariz; mas nem mesmo essa distração conseguiu ajudá-la!

O preceptor estalava a língua baixinho enquanto passava os olhos pelas folhas desordenadas de papel.

— Bem, a resposta está certa, mas exatamente como você chegou a ela continua para mim um perfeito mistério.

— Se o resultado está certo, que diferença faz? — perguntou Thirrin, irritadiça.

— Faz diferença porque eu teria uma comprovação de que você simplesmente não adivinhou a resposta.

Consigo mesma ela achava que, no caso da matemática, ter a resposta certa era tudo o que era necessário, mas não disse nada.

— Agora me explique exatamente o que significa essa bagunça aqui? — perguntou o pequeno preceptor, apontando para um borrão de tinta. Thirrin encolheu os ombros e Totus começou a calcular até onde poderia ir, antes que ela explodisse e fosse embora, furiosa. Concluiu que Thirrin estava a um passo de abandonar o universo do aprendizado para ir passar o resto do dia com os homens da guarda do pai e fez uma retirada condigna.

— Muito bem! Vamos partir do pressuposto de que você tenha chegado à resposta por meios lógicos e convencionais, está bem?

A princesa deu de ombros mais uma vez e o preceptor voltou para sua mesa. Ele olhou pela janela para o jardim que tanto o tinha surpreendido quando da sua chegada para ensinar à princesa. De algum modo, não se esperava encontrar um refúgio de paz tão bonito no meio da intimidante fortaleza de Frostmarris. Roseiras magníficas exibiam cores vivas e deslumbrantes e cercas vivas e bordaduras podadas com esmero mal conseguiam conter uma profusão bem ordenada de flores coloridas. Mas algumas das maravilhosas plantas já estavam começando a deixar transparecer um leve esgotamento e as folhas em algumas das árvores e arbustos mais delicados já estavam avermelhadas. Ele sentiu um súbito pavor quando se deu conta de que o inverno implacável da Terra do Gelo não podia estar muito distante.

— Durante o resto do dia, vamos estudar geografia — informou —, concentrando nossa atenção no continente meridional. — Thirrin deu um gemido. — E em especial em sua marinha e o papel desempenhado por ela na derrota dos corsários e zéfiros na grande Batalha do Mar do Meio.

A aluna se animou e Maggiore Totus tentou se convencer de que não estava traindo seus padrões de ensino mais e mais, a cada dia que passava. Quase todas as aulas precisavam ter algum ponto relacionado à vida militar para prender a atenção da aluna. Mesmo assim, dizia ele para se tranqüilizar, ela um dia seria a rainha da Terra do Gelo e provavelmente precisaria liderar suas tropas também em batalhas. Ele não podia esperar que uma filha do rei Redrought fosse qualquer outra coisa a não ser belicosa e sem interesse pelas sutis artes do conhecimento. Ele teria a sensação de sucesso se, no final do aprendizado, a princesa conseguisse escrever uma frase inteligível, ler uma carta sem ajuda e examinar as contas com seu quartel-mestre. Enquanto isso, ele almejaria alcançar as estrelas, na esperança de pelo menos conseguir que ela chegasse ao topo de um monte de tamanho razoável.

No quadro-negro, desenhou as posições de batalha das frotas adversárias e observou enquanto Thirrin, feliz, as copiava em seu caderno. Mas sua atenção foi atraída de volta para o jardim do outro lado da janela, com seus sinais da aproximação do inverno. Quem dera pudesse partir antes que chegassem os terríveis ventos e nevascas! Antes que as temperaturas baixas e profundamente penetrantes gravassem em cada janela desenhos cheios de samambaias de gelo. Na sua terra natal, no litoral sul do mar do Meio, o inverno costumava trazer um pouco de chuva delicada e os dias tinham uma temperatura agradável, mas sem excesso de calor. Lá, o vinho seria delicioso e a fala cadenciada das pessoas seria uma melodia a embalar sua mente até uma quietude quase esquecida aqui no frio do norte.

— Sr. Maggiore Totus! — A voz cortante de Thirrin interrompeu seus pensamentos. — O senhor não está sonhando acordado, está? — E ela lhe deu um sorriso tão fulgurante que ele não pôde deixar de sorrir de volta.

Thirrin podia ser encantadora quando se esquecia de ser princesa. Mas ultimamente era muito raro que isso acontecesse e Totus começava a se perguntar o que estaria passando pela cabeça da aluna. Ele achava possível que soubesse, mas não tinha certeza. E exatamente de que modo poderia perguntar à herdeira de um trono se ela receava precisar governar o país antes de estar pronta? E se estava apavorada com a possibilidade de seu pai morrer antes que ela tivesse tempo para uma experiência adequada da vida? Redrought era um homem forte, muito forte, mas a história da Terra do Gelo era violenta e os estudos de Maggiore tinham revelado que, dos oito últimos monarcas, somente dois tinham morrido no leito e somente um governara por mais de vinte anos — e esse único era o próprio Redrought!

Ele quase conseguia sentir pena de Thirrin, mesmo quando ela era insuportável. Podia ser que estivesse recebendo a melhor formação para seu futuro papel de rainha, mas a possibilidade bastante concreta de que poderia estar no governo da Terra do Gelo antes dos dezesseis anos tinha de ser um fardo terrível, especialmente tendo em vista que o país tinha a Terra-dos-Fantasmas como vizinho ao norte e o impressionante Império polipontino com seu general Scipio Bellorum ao sul. Governar até mesmo um reino minúsculo em idade tão tenra seria pressão suficiente para qualquer um, mas a Terra do Gelo não tinha nada além de inimigos terríveis em suas fronteiras terrestres e somente o mar impiedoso, com seus piratas e saqueadores, a leste e a oeste.

Durante o resto do dia, ele foi brando com a aluna, permitindo-lhe um pouco de tempo para relaxar antes que fosse convocada pelo mestre de armas ou pela professora de equitação. Não que ela desse a impressão de considerar difíceis essas aulas específicas. Saía sempre correndo da sala do preceptor, cora um ar de alívio e felicidade que era extremamente ofensivo, toda vez que partia para erguer uma barreira de escudos com os guardas-da-coroa ou para fazer com que algum feroz garanhão de combate obedecesse a seus comandos. Maggiore Totus suspirou; teria ido embora para sua terra natal havia muito tempo, se não considerasse que Thirrin tinha em si tudo o que era necessário para ser alguém de grande erudição. Mas ele sabia que sua inteligência afiada jamais seria usada para examinar detalhadamente os complexos fatos e números que pudessem revelar alguma verdade nova e empolgante, algum teorema jamais cogitado.

De repente, batidas fortes na porta fizeram com que ele desse um grito curto de susto e um guarda-da-coroa barbudo e gigantesco entrou na sala.

— Tenho ordens de levar a princesa à praça de armas! — disse ele, com a voz retumbante.

Maggiore lhe lançou um olhar furioso. Por que eles sempre tinham de gritar? E era realmente necessário que portassem lança e escudo o tempo todo?

— Creio que a princesa Thirrin ainda não terminou todo o trabalho — respondeu ele, decidido a fazer valer sua autoridade de preceptor real.

— Terminei, sim... bem, pelo menos a maior parte. Posso terminar o que falta como trabalho de casa, não posso?

Ela parecia tão desesperada para fugir dali que Maggiore deu um suspiro resignado.

— Ora, está bem! Mas espero que a apresentação esteja melhor do que da última vez.

— Vai estar! — respondeu Thirrin. E, enquanto se encaminhava apressada para a porta, de repente parou e lhe deu um beijo no alto da careca. — Obrigada, Maggie! — disse ela, saindo correndo pelo corredor.

Agora os soldados estavam marchando para o norte havia mais de um mês e as estupendas estradas militares do Império polipontino permitiam que tivessem coberto mais de mil e duzentos quilômetros. Seu regimento, o das Panteras Brancas da província Asteriana, estava lutando no sul menos de seis semanas antes; mas, depois do final vitorioso daquela campanha específica, eles tinham recebido uma semana de descanso para então começar sua marcha rumo ao norte.

Nenhum dos soldados sabia exatamente para onde estava se deslocando, da mesma forma que a maioria dos oficiais, embora corressem muitos boatos. Alguns diziam que finalmente iam atacar a Terra do Gelo, o vizinho imediato do Império na direção norte, e a maioria achava que já estava mesmo na hora. Por algum motivo, o general Scipio Bellorum tinha deixado a Terra do Gelo em paz apesar de declarar guerra contra todo e qualquer país em torno de suas fronteiras. E o motivo exato continuava a ser um profundo mistério. No entanto, mais uma vez, os rumores forneciam algumas dicas. A mais popular era a de que a Terra do Gelo era um país de bruxaria, que até mesmo o famigerado Bellorum considerava amedrontador. Outros, porém, duvidavam dessa hipótese: o general não tinha medo de nada. Dizia-se até que teria vida eterna porque a própria morte não ousava levá-lo.

Os soldados agora estavam se aproximando da região da fronteira, a caminho para se reunir ao enorme exército em processo de concentração. A planície larga e levemente ondulada que se aninhava entre os sopés da cadeia de montanhas das Donzelas Dançarinas estava coberta de acampamentos militares, forjas, arsenais, praças de armas e pistas para treinamento da cavalaria. Para os soldados do regimento das Panteras Brancas, tudo aquilo era muito conhecido. Cada quadra de tendas e cada praça de armas eram sempre dispostas exatamente na mesma posição de modo que, não importava onde estivessem, no Império ou em campanha, todos se sentiam perfeitamente à vontade.

E agora podiam ver seu grande chefe, Scipio Bellorum, em pessoa: meio homem, meio deus, impiedoso e distante, percorrendo as fileiras da tropa enquanto apresentavam armas. Eles aguardavam suas ordens.

Thirrin passou o resto do dia feliz, fazendo exercícios com armas com o corpo de elite dos guardas-da-coroa. Alguns minutos depois de acertar o alvo com um lançamento de machado, ela já estava satisfeita e descontraída, tendo se livrado de toda a poeira da sala de aula. Os soldados enormes, todos escolhidos especialmente por sua altura e força, tratavam as habilidades guerreiras de Thirrin com um respeito imenso. Ela não era apenas sua futura rainha, mas também seu mascote e símbolo de sorte. Eles aplaudiam sempre que ela acertava o alvo com o dardo e educadamente não tomavam conhecimento quando ela não acertava. Mas ao longo dos três anos em que vinha sendo instruída pelo mestre-de-armas, havia cada vez mais motivo para aplaudir do que para manter um silêncio cortês.

Quando o sol se pôs e a sessão de instrução tinha terminado, Thirrin sentia um cansaço agradável e começou a se encaminhar para seus aposentos, pensando contente no jantar. Então, mudando de idéia, preferiu se dirigir para os aposentos do pai. Naquela noite, não haveria nenhum banquete oficial, de modo que as cozinhas estariam aproveitando um período mais tranqüilo antes que começasse a próxima rodada de jantares diplomáticos em honra de um ou outro dos barões de Redrought. E o rei devia estar comendo na maior tranqüilidade possível em seu quarto. Thirrin decidiu se reunir a ele, sabendo que ele ficaria feliz de passar algumas horas da noite com a filha. Além disso, Thirrin tinha em mente alguns assuntos sobre os quais queria conversar.

Ela atravessou o sombrio salão-mor, ouvindo as passadas de suas botas que ecoavam nas vigas enegrecidas;de fumaça lá no alto, acima de sua cabeça, na escuridão do teto. Enquanto passava, alguns dos antigos estandartes de combate ondulavam preguiçosos, como se algum espectro do vento de algum campo de batalha perdido no tempo ainda acariciasse as cores desbotadas dos regimentos. Mais adiante, podia ver o trono do pai sobre o tablado alto, erguendo-se das sombras espessas como uma montanha de carvalho esculpido. Chegou até o trono e deu a volta rápido em direção a uma porta que estava ligeiramente aberta na parede por trás.

— Grimswald! Eu disse que queria cerveja, não água suja de rio! — A voz retumbante de Redrought parecia golpear o camareiro-da-parafernália-real.

— Bem, tenho certeza de que veio do mesmo barril do qual Vossa Majestade bebeu com prazer ontem — respondeu uma voz feita de poeira e couro velho.

— É, mas hoje está com gosto de água de rio! E os peixes fazem nos rios coisas impronunciáveis. Trate de me trazer outra.

— Como Vossa Majestade quiser.

Thirrin entrou no exato instante em que o velho camareiro acenava para um dos serviçais que aguardava nas sombras, no fundo do aposento aconchegante. Entregou um jarro ao homem e, com uma expressiva piscada, mandou-o apanhar cerveja de outro barril.

— Thirrin! — gritou o pai quando a viu em pé à soleira da porta. — Entre! Entre! Grimswald, ponha mais um lugar à mesa. Minha filha veio comer com o velho pai.

O pequeno camareiro apressou-se a buscar talheres e arrumar uma cadeira junto à mesa simples de madeira, onde Redrought comia quando não havia dignitários a receber.

— Ouvi dizer que você hoje se equiparou ao meu melhor guarda-da-coroa no lançamento do machado — disse ele, sorrindo orgulhoso para a filha.

— É verdade. E, se o mestre de armas não tivesse encerrado o exercício, eu o teria superado — respondeu Thirrin.

Redrought caiu na gargalhada. Era comum ele rir desbraga-damente quando outras pessoas teriam somente sorrido.

— Aposto que teria mesmo! Sigmund está ficando enferrujado. Logo vou ter de providenciar um jeito de aposentá-lo. A família é das províncias do norte. Tenho certeza de que ele se contentará com um pedaço de terra e uma pensão.

— Ele ainda atira o machado melhor que homens com metade da sua idade — disse Thirrin, defendendo o velho soldado. — Seria uma pena que sua guarda pessoal perdesse toda a experiência dele.

— Ora, não se preocupe! Ele ainda está bom para mais uns cinco anos. Estou só pensando no futuro — respondeu Redrought, bem-humorado.

O serviçal voltou com o jarro de cerveja e Grimswald serviu um pouco no caneco de Redrought. O rei tomou um grande gole.

— Agora, sim! Sempre sei quando um barril está ficando passado!

— Claro, senhor — disse o camareiro, sorrindo para si mesmo como um garoto levado.

— E não se esqueça de Primplepuss! Onde está a tigela de leite dela?

— Está comigo, senhor! — respondeu o homenzinho enrugado, parecendo tirar um prato da manga.

Redrought deu um largo sorriso e, remexendo por dentro da túnica, tirou a gatinha.

— Ah, cá está você, meu docinho! — disse, abrandando a voz, e a pequena criatura miou, concordando. Os dedos do rei, enormes e calejados pelo manejo de armas, envolveram a gatinha com delicadeza e a puseram na mesa diante do prato de leite. Ele sorriu satisfeito para ela por alguns instantes enquanto ela tomava o leite. Voltou-se então para a filha: — Bem, por que você resolveu jantar comigo?

— Preciso de uma razão?

— Não, mas geralmente, quando toma essa decisão, é porque tem um favor a pedir. Caso contrário, está no refeitório com os guardas-da-coroa ou nas estrebarias com os cavalariços.

De repente, Thirrin sentiu um pouco de culpa. Será que ela não fazia refeições com o pai por outros motivos além de pedir favores?

— Não estou querendo nada — acabou respondendo, na defensiva.

— Só o prazer da minha companhia, é isso?

Nesse instante, a comida chegou e ela esperou que os criados servissem tudo em travessas e se retirassem antes de continuar.

— É, pelo prazer da sua companhia... e também para fazer algumas perguntas.

— Ah! — gritou o rei, como se suas suspeitas tivessem se confirmado; mas depois sorriu. — O que você quer saber?

Thirrin ficou mastigando a coxa de frango um tempo enquanto organizava os pensamentos. Desde que conhecera Oskan na floresta, vinha se perguntando sobre a mãe e o pai dele. Ocorreu-lhe então que ninguém jamais mencionava o pai. Pensou que deveria se lembrar de perguntar ao rei se alguém sabia quem era o pai, depois que tivesse saciado sua curiosidade a respeito de alguns outros pontos.

— Por que as bruxas não foram banidas daqui depois da guerra com a Terra-dos-Fantasmas? — perguntou ela, por fim.

— As más foram banidas — respondeu o rei. — Mas as boas eram... são... muito úteis.

— De que modo? — perguntou ela.

— São curandeiras e parteiras; sabem tirar doenças das lavouras e são uma brilhante linha de defesa contra qualquer mal que possa vir do rei e da rainha dos vampiros. Não só isso — disse o rei, fazendo uma pausa para esvaziar o caneco de cerveja —, mas são de uma lealdade a toda prova, sempre as primeiras a oferecer ajuda quando necessário. Seria bom você se lembrar disso quando assumir o trono.

Ela concordou, enquanto digeria as informações.

— Como era Annis Branca?

— Uma das melhores! — disse Redrought, com a voz retumbante. — Poderosa. Eu a vi trazer uma criança de volta da beira da morte quando tudo já tinha sido tentado em vão. E uma vez, quando eu estava caçando, vi quando ela fez um javali em investida mudar de rumo sem mais nada além da ameaça dos seus olhos.

Pai e filha mastigaram em silêncio enquanto absorviam a imagem da bruxa.

— E vou lhe dizer mais uma coisa! — prosseguiu Redrought, apontando um nabo na direção da filha. — Ela era linda. O cabelo preto como azeviche polido e os olhos, como o mar debaixo de um céu tempestuoso!

Thirrin olhou para o pai, perplexa. Nunca o tinha ouvido pronunciar nada nem de longe poético e no entanto ali estava ele descrevendo Annis Branca, como se estivesse cantando em seu louvor.

Ele enrubesceu e pigarreou.

— É claro que ela ficou um pouco desgrenhada mais para o fim da vida. Isso sempre acontece com as bruxas, mas seu poder nunca diminuiu.

— Ainda assim, essa poderosa curandeira não conseguiu se curar — disse Thirrin.

— Estava na hora dela — disse Redrought, dando de ombros.

— As bruxas sempre sabem e deixam a vida com dignidade.

Thirrin chamou o criado com um gesto e ele lhe serviu uma taça de vinho, com três partes de água, como era o correto para a sua idade.

— Agora é o filho que mora na caverna.

— É, Oskan, eu sei. Ele está tratando o cavalariço ferido.

— Será que ele herdou os poderes da mãe?

— Quem sabe? — Redrought encolheu os ombros novamente. — São raros os bruxos homens. Em geral, os homens são magos, mais voltados para a matemática do que para a magia. Mas não consideram abaixo de sua condição fazer cair raios, quando necessário, ou fazer com que as pedras andem, caso isso sirva a seus objetivos.

— Ele é curandeiro — disse Thirrin, como se esse fato confirmasse os poderes sobrenaturais dele.

— Ora, é mesmo — concordou Redrought. — Pode ser, então, que tenha os dons da mãe, mas quem poderá dizer? Não é garantido.

— O cirurgião já trouxe o cavalariço de volta para a cidade? — perguntou Thirrin.

Redrought deu de ombros.

— Não sei. Pergunte a Grimswald. GRIMSWALD!

— Sim, meu senhor? — O homenzinho saiu das sombras por trás da cadeira do rei.

— Ah, cá está você. O cirurgião...

— Não, meu senhor. Ele achou melhor deixá-lo em repouso mais um dia ou dois.

— Quando irá buscá-lo? — perguntou Thirrin, sabendo que Grimswald teria conhecimento de todos os detalhes dos planos do cirurgião.

— Creio que amanhã, minha senhora.

— Ótimo. Vou junto. Meu cavalo precisa do exercício. Redrought olhou para a filha detidamente. Era mais provável que seu cavalo precisasse de descanso do que de exercício. Mas então deu de ombros mentalmente. Que ela tivesse um amigo, se quisesse. Para uma filha da realeza, ela estava se aproximando da idade de casar, mas já era esperta demais para deixar qualquer coisa atrapalhar uma decisão vantajosa para a Casa do Escudo-de-Tília que pudesse ser selada com um casamento.

— E o pai dele? — perguntou Thirrin, interrompendo os pensamentos do pai.

— Pai de quem? Do cirurgião?

— Não! De Oskan. Quem era o pai dele?

— Ninguém sabe ao certo — disse o rei, encolhendo os ombros mais uma vez. Quase acrescentou que nem mesmo Annis Branca tinha certeza, mas decidiu que esse tipo de assunto não era adequado para os ouvidos da filha. — É claro que não faltam rumores: duendes da floresta, espíritos, até mesmo vampiros. Mas é provável que tenha sido simplesmente um ser humano, um viajante, que... bem... você sabe, por acaso estava aqui de passagem.

— Quer dizer que ela não era casada? — perguntou Thirrin.

— Não. As bruxas escolhem quem elas querem pelo tempo que desejarem. É muito raro que cheguem a oficializar essas uniões.

— Então, o pai de Oskan poderá ter sido qualquer um ou qualquer criatura

— Pode. Mas um duende da floresta é a preferência atual dos fofoqueiros — respondeu Redrought, acrescentando: — Veja bem, ele é branco o suficiente para ter algum sangue de vampiro nas veias, por assim dizer. Mas quem vai saber?

Thirrin concordou. Seu novo amigo era sem dúvida um mistério interessante.

O cavalo de Thirrin estava selado, esperando no pátio, com o sopro da sua respiração subindo como pluma no ar frio e revigorante do início da manhã. Era um tempo perfeito para cavalgar: uma geada forte tinha deixado um brilho branco cristalino no alto dos telhados das casas, como um prenúncio das futuras neves do inverno, e os sons matutinos de gente acordando nas casas ecoavam com a pureza de sinos repicando no ar frio.

Thirrin tinha concedido ao cirurgião uma hora de vantagem para poder galopar até alcançá-lo e, enquanto ela e sua escolta de dois soldados seguiam a trote pelas ruas sinuosas da cidade, seus cavalos bufavam inquietos com a expectativa da corrida. Passados os portões, atiçaram as montarias e partiram, atravessando a rica planície rural que alimentava a capital. Em minutos, tinham chegado às margens da floresta e à Grande Estrada, que seguia caminho entre as árvores em seu percurso rumo às províncias do norte.

Alcançaram o cirurgião e seu assistente no instante em que estavam prestes a sair da estrada para entrar no emaranhado de trilhas da floresta e puxaram as rédeas para andar a passo. O rosto de Thirrin estava corado com o frio cortante e, não querendo resfriar seus cavalos, ela forçou as mulas tranqüilas do médico e do assistente a um trote acelerado enquanto seguiam para a caverna de Oskan.

A floresta estava escura e brilhante, com sombras profundas e sol filtrado que se acumulava em fachos entre os marrons vivos e os vermelhos flamejantes das folhas de outono. Os ruídos dos esquilos atarefados ecoavam pelos galhos enquanto tratavam de armazenar alimento para o inverno iminente. Thirrin estava tão absorta, tentando avistar os bichinhos ruivos que se arremessavam de um lado para outro pelo dossel da floresta, que quase se surpreendeu quando os cavalos começaram a subir pela trilha íngreme que levava à caverna.

Forçou-se a concentrar a atenção no terreno acidentado e pedregoso, não querendo chegar à casa de Oskan com o cavalo mancando. Quando se aproximavam do fim do caminho, olhou para cima e viu o garoto alto esperando à entrada da gruta.

Ele levantou a mão num cumprimento. Então, ao se dar conta da presença de Thirrin, abaixou a cabeça numa reverência formal.

— Sejam bem-vindos à minha casa — disse ele, em tom cortês, enquanto todos desmontavam. — Seu cavalariço está se recuperando bem.

— Isso sou eu quem decide, meu rapaz — respondeu o cirurgião, com rispidez. — Onde está o paciente?

Oskan os levou para dentro da gruta, que tinha um perfume doce e penetrante, a fragrância da secagem de ervas e condimentos. O ferido estava deitado num catre baixo, ao lado do fogo. Quando entraram, ele se ergueu apoiado num cotovelo e teria ficado em pé se o cirurgião não o empurrasse de volta para o leito.

— Antes que você vá a qualquer lugar, quero examinar seus ferimentos. — Ele arrancou os curativos limpos e olhou horrorizado para os pontos caprichados que uniam as bordas do corte profundo. — Ouvi dizer que você tinha feito isso! O que lhe dá direito de arriscar a vida deste homem?

— Nada nem ninguém — respondeu Oskan, parecendo confuso. — Costurei o ferimento para ajudá-lo a fechar.

— Você acha que tem condição de curar alguém quando lhe acrescenta outros ferimentos?

Thirrin assistia a esse confronto em silêncio, sabendo que ele acabaria acontecendo. Afinal de contas, ela mesma se horrorizou com os métodos de Oskan, até o velho soldado lhe dizer que tinha visto o mesmo tratamento ser aplicado por Annis Branca. Agora olhava para o ferido e se espantava com a diferença que via nele. Estava evidente que ele não sentia mais dor e, de onde ela estava, o ferimento parecia estar sarando sem complicações. Também não havia nenhum sinal de febre. Apesar de tudo, precisava admitir que o tratamento de Oskan parecia estar funcionando.

— Ele está me parecendo muito bem — disse ela ao cirurgião. O homem olhou de relance para ela, mal conseguindo disfarçar a indignação.

— Perdoe-me, minha senhora, mas a senhora não tem como saber isso, nem esse... menino! — Esta última palavra, ele pronunciou com desdém. — Estudei durante cinco anos com os maiores mestres de anatomia e cirurgia no continente meridional. Mais quatro anos trabalhei nos hospitais deles e outros dez anos depois, como clínico altamente respeitado, antes que Sua Majestade, seu pai, me convocasse a vir para Frostmarris para assumir o posto de cirurgião-chefe do rei! Em comparação com meus conhecimentos e experiência, o que pode saber esse menino, filho de uma bruxa?

— O suficiente para fazer sarar sem problemas um dos cortes mais profundos que vi na minha vida — respondeu Thirrin, com atrevimento.

O olhar do cirurgião foi mais do que significativo.

— Na minha vasta experiência de clínica médica, já vi outros muito, muito piores e consegui curá-los!

— E acha que foi por sorte ou por conhecimento? — perguntou Thirrin, com o temperamento começando a se inflamar com a arrogância do homem.

O cirurgião só conseguiu conter a raiva por levar em conta a posição de Thirrin como filha de Sua Majestade, o rei.

— O raciocínio da minha senhora está toldado por sua falta de conhecimento no meu campo. Falta esta que somente se equipara à desse menino. — Ele se voltou para Oskan, com um desprezo brutal. — Você chegou a sangrar o paciente?

— Achei que o urso já o tinha feito perder um volume suficiente de sangue — respondeu Oskan, com calma.

— E exatamente de que forma você espera limpar desse corpo os humores malignos provenientes das garras do urso?

— Nada sei sobre humores. Só limpei o ferimento e dei os pontos. — Agora Oskan estava visivelmente perdendo a paciência.

— Então o ferimento vai infeccionar, o homem vai morrer e terá sido você quem o matou tanto quanto o animal que o atacou!

Thirrin se aproximou do cavalariço e deu uma espiada no ferimento bem costurado.

— A mim parece perfeitamente bem. Sarando direito, sem nenhum sinal de infecção. — Ela se voltou para os dois soldados de sua escolta, ambos veteranos de meia-idade com longa experiência em ferimentos de combate. — O que vocês dois acham?

Eles concordaram com que o ferimento parecia estar sarando bem e olharam, fixamente, sem titubear, para o cirurgião enfurecido.

— Nenhum de vocês sabe nada sobre o processo de cura de ferimentos desse tipo. Ou ele volta para a cidade agora para lhe aplicarmos uma sangria profunda ou morre!

— Eu preferiria que ele ficasse aqui pelo menos mais três dias — disse Oskan, em voz baixa. — Naturalmente, com a permissão da princesa.

— Parece-me que deveríamos perguntar ao paciente o que ele acha — disse Thirrin. — Afinal de contas, o braço é dele. — Ela se voltou para o homem e ergueu as sobrancelhas, esperando que ele se pronunciasse.

O cavalariço estava o tempo todo olhando de um membro do grupo para o outro, totalmente intimidado com as pessoas importantes que estavam discutindo a seu respeito; mas afinal conseguiu falar, gaguejando.

— Acho que gostaria que o filho da bruxa continuasse o tratamento.

— Para você ele é Oskan Filho da Bruxa — atalhou Thirrin, com rispidez.

— Esse homem simplesmente não tem como saber o que é melhor para si! — protestou o cirurgião. — Ele mal sabe em que dia estamos; imaginem ter a capacidade para tomar uma decisão médica.

— Sei, sim, em que dia estamos — retrucou o ferido, com a raiva despertada. — Hoje é o dia de Thor. E sei mais uma coisa. No ano passado, caí do cavalo e cortei o joelho. O corte tinha um quarto do tamanho deste ferimento, mas ainda assim conseguiu infeccionar, me deu febre e levou um mês para chegar ao estado em que este ferimento se encontra com só alguns dias de tratamento! — Ele se calou, ao perceber de repente que todos prestavam atenção ao que dizia. Mas reuniu coragem e prosseguiu: — Eu estava caçando para o rei. Por isso, Sua Majestade mandou que esse homem, seu cirurgião, me tratasse. Minha mulher me disse que ele quase me matou e que ela teria me tratado melhor com vinho velho e curativos limpos, como a mãe dela costumava usar.

— Ora, isso é um absurdo! Não preciso defender meus métodos clínicos para um bando de ignorantes.

— Não precisa mesmo — retrucou Thirrin, com frieza. — Está evidente que o homem prefere confiar nos métodos de Oskan, Filho da Bruxa. Sugiro, portanto, que o senhor deixe os ignorantes aqui e retorne a Frostmarris.

— Mas, minha senhora, o rei me ordenou que...

— Examinasse o paciente, o que o senhor fez. Como já cumpriu seu dever, eu agora lhe dou permissão para voltar à cidade e a seus outros pacientes que têm a sorte de desfrutar de seus vastos conhecimentos.

Por nunca ter sido dispensado por uma menina de treze anos, o cirurgião levou alguns instantes para recompor a dignidade, mas então deu meia-volta e partiu apressado dali, apanhando o serviçal e a mula enquanto saía.

Thirrin ficou olhando sua partida. Voltou-se então e aqueceu as mãos ao fogo.

— Bem, vamos levar o paciente de volta lá para dentro? — disse, animada, ajudando o homem a se pôr de pé. — E vocês dois podem ir cuidar dos cavalos — disse então para a escolta, que a saudou e saiu da caverna. Oskan segurou o paciente pelo braço ileso e o levou para a cama pelo corredor estreito que unia o conjunto de cavernas.

Foi enquanto ficou sozinha por alguns minutos que a máscara de Thirrin começou a cair. No que estava pensando? De repente, ela se deu conta, com pavor, que de fato tinha se livrado de todos, menos de Oskan, que logo regressaria à lareira junto da qual ela estava sentada sozinha! Quando tinha um problema com que lidar, como o do cirurgião e do caçador ferido, ela se sentia bem, até mesmo cheia de autoridade; mas, quando estava sozinha ou quando o assunto lhe dizia respeito pessoalmente, era aí que quase sempre tudo dava errado.

Quase entrou em pânico. Estar sozinha com um garoto indicava que ela provavelmente ficaria vermelha, gaguejaria e faria o papel de pateta!

Se agisse rapidamente, poderia passar pela entrada da caverna e chamar os homens de volta. Desse modo, pelo menos, haveria outros ao redor para distrair a atenção. Mas nesse instante ouviu Oskan voltando de lá de dentro e abandonou a idéia. Muito melhor dar a impressão de ser uma princesa no controle da situação — mesmo que não se sentisse assim — do que ser apanhada correndo para lá e para cá, gritando como uma tonta.

Tentou se acalmar e precisou recorrer a toda a sua formação de guerreira enquanto se preparava para lidar com seu constrangimento. Mas no final até que se saiu muito bem. Praticamente não havia rubor no seu rosto quando Oskan ressurgiu. Ela respirou fundo algumas vezes para se tranqüilizar e conseguiu manter a voz relativamente neutra.

— É melhor torcer para que ele agora não fique com febre nem com a podridão verde, Oskan. Caso contrário, nosso querido cirurgião fará o possível para que o expulsem.

O garoto apanhou um banco e se sentou ao lado dela antes de responder.

— De qualquer jeito, eu torceria para que ele não adoecesse — disse ele e, dando um dos sorrisos mais luminosos que Thirrin já tinha visto, prosseguiu: — Mas agora torço ainda mais. Quero provar que aquele mentecapto pretensioso está totalmente errado.

Thirrin retribuiu o sorriso, começando aos poucos a se sentir à vontade, e decidiu perdoar-lhe o fato de não ter pedido permissão para se sentar na sua presença.

— E há alguma dúvida?

— Sempre alguma coisa pode dar errado numa cura.

— E você imagina que vá dar errado?

— Não — respondeu ele, com mais um sorriso.

Havia algo na presença tranqüila do garoto que ajudava Thirrin a se sentir extraordinariamente descontraída e ela, cheia de coragem, resolveu perguntar sobre algum outro talento que ele pudesse ter aprendido com a mãe.

— Você faz magia?

Ele levou tanto tempo para responder que ela achou que de algum modo o tinha ofendido, mas por fim ele falou.

— Na verdade, não sei o que você quer dizer quando usa a palavra magia. Posso prever o tempo, mas qualquer pastor faz isso.

Conheço os hábitos dos animais, mas o mesmo se pode dizer de qualquer um que more na floresta...

— Você prevê o futuro?

— Você está falando da Visão? — perguntou ele, dando de ombros. — Às vezes... pode ser que sim. Mas nunca por ordem e nunca uma situação como um todo. Existe sempre um mistério, sempre alguma coisa que não é para a gente saber.

Thirrin concordou. Suas suspeitas se confirmavam.

— Você consegue atrair raios?

Oskan ficou um pouco em silêncio, perplexo com a pergunta sem rodeios.

— Nunca tentei. Parece idéia de maluco. Eles podem atingir a gente.

— Não tinha pensado nisso. — Thirrin agora estava começando a se sentir tão bem na companhia do garoto que sua natureza contraditória resolveu assumir o controle da situação e ela de imediato passou a sentir muito calor e desconforto. Agora estava sendo ameaçada por uma total humilhação social. Levantou-se, preparando sua saída. Ser uma princesa, com o direito da realeza de deixar de lado as convenções das despedidas, costumava ter suas vantagens. — Quanto tempo vai reter meu serviçal?

— Mais três ou quatro dias — respondeu Oskan. Depois, olhando para ela em pé ali, rígida, com sua plena atitude de princesa, ele acrescentou: — Minha senhora — e fez uma reverência.

Ela foi até a entrada da caverna e, com a cabeça, fez um gesto de comando para os soldados da escolta, que prontamente lhe trouxeram o cavalo.

— Voltarei daqui a quatro dias, então.

— Nesse prazo, ele deverá estar pronto para montar — disse Oskan, fazendo que sim.

Thirrin montou com facilidade na sela e, firmando-se por trás da segurança de sua fachada de princesa, sentiu coragem suficiente

para lhe estender a mão. Perplexo, Oskan ficou simplesmente olhando para aquela mão, sem entender nada, e Thirrin achou que seria preciso passar pela tortura de ordenar que ele a beijasse. Mas ele então tomou seus dedos e os levou aos lábios, por muito mais tempo do que a ela pareceu estritamente necessário.

— Daqui a quatro dias, Oskan, Filho da Bruxa.

— Daqui a quatro dias, minha senhora. Estarei à sua espera. Thirrin partiu à frente da escolta, sentindo de repente a necessidade de soltar o escudo da sela, para portá-lo no braço.

 

Thirrin estava sentada em seu quarto, olhando pela janela o jardim lá embaixo. Supostamente deveria estar fazendo o dever de geografia, mas uma forte empolgação a dominava a ponto de transbordar e ela não conseguia se concentrar. Era a época de lule. Os criados trouxeram azevinho, hera e o sagrado visgo para o salão-mor e os penduraram nas vigas do telhado, de tal modo que o lugar dava a impressão de uma enorme floresta entre quatro paredes, com o cheiro penetrante das folhagens perenes impregnado por toda parte. Os guardas-da-coroa tinham escolhido a maior tora que conseguiram encontrar e a arrastaram através da cidade, guar-dando-a em segurança no pátio da fortaleza real, pronta para a procissão triunfal até a lareira na noite de lule. Tudo tinha aquele ar empolgante, palpitante, que essa festa sempre proporcionava. A luz das velas era mais brilhante, a música soava mais delicada e até mesmo os atos mais comuns pareciam embebidos da expectativa da festa.

Para Thirrin, porém, havia mais um motivo de entusiasmo: seu aniversário caía no dia de lule e ela completaria catorze anos, a maioridade para as meninas. Todos sabiam que ela era a herdeira do trono; mas, naquele dia, Redrought faria sua apresentação formal aos guardas-da-coroa, que a proclamariam sua princesa e lhe jurariam lealdade. Aos catorze anos, ela seria considerada em idade adequada para o matrimônio e no passado muitas princesas reais foram forçadas exatamente a isso, como um meio de selar uma aliança ou de confirmar a posição de poder de algum grande senhor. Elas não tinham tido muita escolha, mas com Redrought era diferente e, fosse como fosse, os tempos tinham mudado. Ninguém estava interessado em fazer aliança com aquele minúsculo reino cercado de gelo, nos confins do norte. Havia séculos que a sobrevivência da Terra do Gelo dependia do poderio de seus exércitos e da sagacidade dos seus reis e rainhas. E, com Redrought, o país contava com uma feliz associação da astúcia de uma raposa com a força de luta de um javali.

O fato de Thirrin saber que ele era também um dos pais mais maleáveis que qualquer menina teimosa pudesse querer era um segredo que ela guardava com prazer. Ele podia ser o rei Redrought Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Urso do Norte, Defensor do Reino, Descendente de Thor, mas para Thirrin era só papai, um homem que gostava de gatos e de chinelos confortáveis e tinha uma risada tremenda que podia amassar estanho a cinqüenta passos de distância.

Um movimento no jardim abaixo da sua janela atraiu seu olhar e ela ficou observando enquanto um dos guardas-da-coroa, envolto numa capa pesada, de sentinela no portão, batia os pés em posição de sentido e depois marchava de um lado para o outro para se manter aquecido, com a respiração visível como uma pluma, no ar enregelante do inverno da Terra do Gelo. Por baixo de toda a empolgação decorrente da proximidade de Iule e da sua maioridade, ela sentia crescer uma leve sombra de decepção. Tudo estava quase perfeito; velas, azevinho, música, mas o jardim estava com um tom cinzento, opaco e sem graça. Aquela época do ano, ele deveria estar brilhante e revigorante com a claridade cristalina de neve recém-caída. Mas não se via neve. Havia, sim, uma grossa camada de gelo sujo que cobria tudo. Os rios tinham congelado, como de costume, e enormes pingentes de gelo pendiam de cada telhado, como espadas e adagas de cristal. Mas neve não se via. Pela primeira vez na vida, Thirrin teve a impressão de que ia celebrar Iule e seu aniversário sem que a nevasca habitual uivasse na escuridão lá fora, longe do calor aconchegante e enfumaçado do salão-mor. Era um pouco preocupante que sua maioridade ocorresse exatamente no ano em que as neves se atrasavam. Talvez ela devesse deixar de lado sua educação moderna e ver naquilo alguma mensagem. Afinal de contas, a Terra do Gelo estava cercada de inimigos. Talvez aquele fosse algum tipo de aviso.

Só os mais idosos na cidade de Frostmarris conseguiam se lembrar de algum ano em que as neves tivessem se atrasado tanto e, pessimistas, resmungavam sobre maus presságios. Diziam que, da última vez em que ocorreu atraso semelhante, uma terrível doença surgiu, matando milhares por todo o país. E antes disso, pelo que seus avós lhes contaram, a guerra tinha devastado toda a região. Muitos começavam a murmurar a respeito de Scipio Bellorum e seu exército invencível, que estavam só aguardando uma oportunidade para invadir o país. Mas Thirrin desprezava tudo isso, como seu preceptor, Maggiore Totus, também. Por fim, concluiu que esse tipo de superstição era para camponeses. Como jovem instruída, ela sabia que disposições climáticas e direções dos ventos causavam o atraso das neves. Mesmo assim, no fundo, não conseguia deixar de se sentir inquieta.

Procurava se animar pensando nos preparativos para a grande festa. Havia um fluxo constante de mercadores que vinham da cidade para o castelo; serviçais seguiam apressados para lá e para cá, carregando cestas cheias de todos os tipos de alimentos, desde queijos e frutas secas a ovos e até mesmo laranjas importadas do continente meridional. Alguns dos guardas-da-coroa foram dispensados do serviço da guarda para ajudar nos preparativos. Esses podiam ser vistos, andando pesadamente, trazendo nos ombros enormes mantas de toucinho defumado ou pedaços inteiros de carne bovina. Aromas deliciosos de carnes e pães assando nos fornos se infiltravam por todos os corredores e os sons etéreos de músicos distantes que ensaiavam cânticos típicos de Iule nas torres e porões chegavam sorrateiros aos ouvidos sempre que o barulho cedia um pouco.

No entanto, mesmo antes dos preparativos para a festa de Iule e do seu aniversário, Thirrin sentia uma pitada a mais de emoção secreta, embora não admitisse a causa, nem para si mesma. Tinha convidado Oskan para o banquete de Iule. Ou melhor, tinha enviado uma convocação real, com a ordem de que se apresentasse no vigésimo primeiro dia do Mês do Gelo. Pelo menos, a falta da neve indicava que as estradas estariam desobstruídas e que ele conseguiria vir sem problemas da sua caverna na floresta. Mesmo assim, ela resolveu enviar uma escolta montada para buscá-lo. Naquela época do ano, os lobos estavam sempre famintos. Era preciso que ela também se certificasse de que ele e o cirurgião não deparassem um com o outro. Desde que ela trouxe o cavalariço da caverna de Oskan para casa e ele voltou a trabalhar só com uma leve cicatriz no braço que mostrava onde tinha sido ferido, o cirurgião estava insuportável.

Ela se levantou do assento no vão da janela e foi apanhar a espada. Detestava ficar sentada parada muito tempo e sabia que, mesmo durante os preparativos de Iule, sempre havia guardas-da-coroa prontos para exercícios com armas lá embaixo na liça ou nas praças de instrução. Enquanto seguia pelo corredor, o alvoroço e o barulho a cercavam em redemoinho, enchendo seus olhos, nariz e ouvidos com cores, perfumes e uma música distante e mágica. Thirrin tinha a impressão de que poderia explodir de felicidade. Para que tudo ficasse perfeito só estava faltando a neve. Mas, embora o céu estivesse de um cinza sombrio, carregado, não havia sinal nem mesmo do menor floquinho.

O dia seguinte era a véspera de Iule e Thirrin tinha resolvido conduzir ela mesma a escolta montada que apanharia Oskan mais tarde ao anoitecer. Planejava dizer que estava só cavalgando por ali por acaso e que pensou em fazer uma visita só para se assegurar de que ele chegaria em segurança a Frostmarris. É claro que o fato de estarem levando um cavalo a mais para ele iria desmascará-la um pouco, mas ela poderia se esconder por trás de sua imagem de princesa e ninguém se atreveria a mencionar esse ponto. Enquanto isso, passaria algum tempo com Redrought.

Seu pai sempre dizia que ela só fazia uma refeição com ele ou visitava seus aposentos particulares quando queria alguma coisa. Em parte para provar o contrário, ela resolveu chegar aos aposentos do pai pouco depois da refeição do meio-dia, para ficar ali até o entardecer, sem pedir nada.

De um lado a outro do salão-mor, atrapalhando o caminho até os aposentos do rei, havia uma estimulante pista de obstáculos: decorações estendidas no piso prontas para ser presas às paredes de estuque; mesas de cavalete dispostas em todos os tipos de ângulos tortos enquanto os criados prendiam guirlandas de hera às bordas e camareiros aflitos, seguindo apressados para cozinhas, copas ou des-pensas. Agora faltava menos de um dia para o início da grande festa e tudo precisava estar pronto. Alguns dos barões e baronesas mais importantes de Redrought ficariam na cidade e encontrar acomodações para sua comitiva e soldados de escolta era o pesadelo costumeiro de todos os anos. Thirrin achava estranho; mas, por mais cedo que a criadagem começasse os preparativos, sempre havia esse pânico enlouquecedor antes que tudo afinal entrasse nos eixos.

Por fim, ela deu a volta ao trono de Estado e quase caiu pela pequena entrada, escondida atrás dele, que levava aos aposentos de Redrought. Fechou a porta às suas costas e se encostou um pouco na madeira trabalhada, totalmente entregue à empolgação dos preparativos. Quando finalmente olhou para cima, foi envolvida pela calma e tranqüilidade do aposento. O rei estava sentado na poltrona de sempre, cercado por uma montanha de almofadas coloridas, enquanto Grimswald, o velho camareiro-da-parafernália-real, sentado num banquinho ao lado, lia trechos de um livro com belas iluminuras. Thirrin reconheceu que essa era uma das tradições pessoais de seu pai para a época de Iule. Durante as duas semanas que precediam a festa, ele fazia com que lhe lessem todos os dias um trecho do Livro dos antepassados. E, fiel ao seu jeito de ser, de repente deu uma estrondosa gargalhada enquanto examinava satisfeito os arabescos que ilustravam as páginas e avistou um dos animais míticos o espiando ali. Redrought tinha encomendado o livro dos Santos Frades do continente meridional quando Thirrin ainda era bebê e foi tamanho o trabalho dedicado às páginas profusamente decoradas que ela já estava com oito anos quando o livro finalmente foi entregue.

— Ah, Thirrin! — exclamou o pai, quando a viu à porta. — Entre! Entre! Grimswald está só aqui lendo a história de Edgar, o Valente, e da sua guerra contra o Povo-Dragão das Rochas-dos-Lobos.

Essa era uma das histórias preferidas de Thirrin e ela atravessou rapidamente o aposento e se espremeu para se sentar na enorme poltrona de Redrought, junto com ele. Jogou no chão algumas das almofadas fofas para abrir mais espaço e então apanhou Primplepuss, que a cumprimentava com um miado cortês, pondo-a no colo. A gatinha ronronou alto e se acomodou para um bom banho de lambidas enquanto Grimswald prosseguia com a história.

Era um dos capítulos mais longos do Livro dos antepassados. Por isso, quando Edgar finalmente matou o rei dos dragões na última batalha da guerra prolongada, a fraca luz da tarde já se recolhera às sombras da noite fechada.

— Excelente! Excelente! — exclamou Redrought, vibrando. — Bela leitura, Grimswald. Você deve estar com sede. Tome um pouco de cerveja e, já que vai estar com a mão na massa, traga um caneco para mim também e um pouco de cerveja fraca para a princesa.

Thirrin se esticou, soltando os músculos que tinham ficado dormentes durante a longa leitura.

— Bem, papai, já fez sua lista para o Velho Elfo Gordo?

— Fiz. E, se ele não me trouxer um par de chinelos novos e um cinturão para a espada, no ano que vem não vai ganhar suas tortas com hidromel!

Ela sorriu para o rei, sentindo de repente um amor sem limites pelo homem que, fora da época de Iule, passava a maior parte de seu dia governando o país e mesmo assim conseguia encontrar tempo para compartilhar com a filha as velhas brincadeiras tradicionais.

— E você? — perguntou ele. — Já queimou sua carta na lareira?

— Queimei. Estou com esperança de ganhar uma espada nova e uma sela para combate.

— Você não acha isso um pouco pesado para as renas?

— Se acharem pesado, elas vão ver como é ser recheio de um pastelão de carne! Não podemos deixar que o Velho Elfo Gordo se contente com renas de segunda categoria.

— Gosto de pastelão de carne — disse Redrought, com ar sonhador, esfregando a curva impressionante da barriga. — Grimswald! Comida!!!

Estava óbvio que o camareiro-da-parafernália-real já imaginava que o rei estivesse com fome e tinha dado ordens para que o jantar ficasse pronto na hora em que a história do Livro dos antepassados terminasse. Logo, a mesa estava coberta com pratos e travessas com empadão de carne de caça, pilhas de legumes e tortas de frutas fumegantes. Era uma simples questão de pôr mais um prato para Thirrin e pedir à cozinha algum reforço para a possibilidade de os apetites reais conseguirem limpar a mesa e ainda quererem mais.

Grimswald aproveitou a oportunidade para se retirar com os criados, deixando que Thirrin e Redrought fizessem a refeição sozinhos. Na época de Iule, nunca havia tempo suficiente para aprontar tudo o que era necessário para que as festividades transcorressem sem tropeços.

— Você vai receber os barões das Terras do Meio este ano, não vai? — perguntou Thirrin.

Redrought engoliu o monstruoso bocado de empadão de carne de caça que estava mastigando.

— Vou. O senhor Athelstan, a senhora Aethelflaed e o velho senhor Cerdic. Aethelflaed é a única pessoa que conseguiu beber mais que o velho Cerdic e este ano ele quer uma revanche. Já encomendei uma quantidade maior de cerveja por precaução.

— E o barão Athelstan não vai competir?

— Não, esse aí é todo luxento! Toma um gole de vinho, dá umas mordiscadas num pedaço de peru, se tanto. Eu preferiria ter convidado a senhora Theowin, da Terra dos Prados. Pode-se contar com ela para rir bastante na época de Iule; mas este ano está preocupada com os desfiladeiros das montanhas que levam ao Polipontus.

— É mesmo? — Thirrin ficou imediatamente alerta para a possibilidade de problemas provenientes do enorme império ao sul.

— É. Alguns dos seus espiões relataram movimentação de tropas. Nada de sério. É provável que estejam simplesmente realizando manobras, aprontando-se para sua próxima guerra. Aquele general deles, Scipio Bellorum, não consegue nunca ficar parado e já se passaram três meses desde a última campanha. Deve estar ficando irrequieto.

— Tem certeza de que a próxima guerra que ele está planejando não será contra nós?

Redrought ficou mastigando, pensativo.

— É. Admito que já examinei essa possibilidade. Mas acho que ele vai atacar primeiro para o sul. Os últimos informes dos espiões dizem que não havia nada fora do comum. Mas, veja bem, isso foi há mais de duas semanas e, quando Bellorum decide entrar em ação, ninguém é mais veloz que ele. Mesmo assim, os próximos informes devem estar chegando qualquer dia desses e tenho confiança em que não terão nada de novo a nos contar. Um dia, porém, ele virá para cá... disso tenho certeza. E só então veremos como a barreira de escudos e o arco longo se sairão diante de canhões e arcabuzes.

— Os guardas-da-coroa vão arrasar com eles! — disse Thirrin, feroz.

— É verdade — concordou Redrought, pensativo. — Vão arrasar com eles muitas e muitas vezes, mas os exércitos do Império têm uma arma secreta, muito pior que qualquer canhão.

— E que arma é essa? — perguntou ela, ansiosa por qualquer informação sobre algum novo método de combate.

— O tamanho — respondeu Redrought, com simplicidade. — O puro tamanho. Você pode derrotá-los uma vez após a outra e eles simplesmente não param de vir. Um único exército polipontino é no mínimo três vezes maior que nossa maior força regional e eles dispõem de quatro exércitos prontos para marchar mesmo nos poucos períodos de paz que se permitem. Quando estão em estado de guerra, geralmente possuem seis exércitos completos, cada um com cem mil soldados e mais quatro de reserva. Numa emergência, além de todos esses, ainda podem ser convocados mais três exércitos de veteranos!

Thirrin ficou calada, digerindo essa informação. Pelas aulas de Maggiore Totus, ela sabia que o Polipontus jamais tinha sofrido derrota em guerras. E raramente chegava a perder uma batalha que fosse.

— Então, o que podemos fazer? — perguntou ela, finalmente.

— Esperar que o próximo país escolhido por eles os mantenha ocupados por muito tempo, que talvez consiga mesmo promover tamanho desgaste que mudem de idéia sobre os prazeres da guerra.

— Mas não podemos contar com isso. Eles nunca perderam uma guerra até agora... E o que vai acontecer se formos nós realmente o próximo país escolhido na lista deles?

Redrought estava na metade de uma enorme torta de frutas e levou algum tempo para limpar o creme e as migalhas antes de responder.

— Só podemos esperar que as reformas do exército que pus em vigor há cinco anos sejam suficientes para deter seu ataque. Todas as regiões agora têm seu corpo de elite de guardas-da-coroa, além de um regimento de cavalaria profissional, e o período de treinamento na milícia foi prolongado para quatro meses. Você sabe tanto quanto eu o que isso significa: todo fazendeiro e lavrador, todo cai-xeiro e dono de loja, todos estão treinados para combate. Além disso, o novo imposto de guerra resultou em todos eles estarem armados com escudo, elmo, espada e lança. O que mais podemos fazer?

Todos os cidadãos aptos eram forçados a servir na milícia sempre que houvesse alguma emergência militar e deviam participar de treinamentos todos os anos. Mas Thirrin sabia que isso não bastava. Mesmo com os melhores métodos de treinamento e com soldados profissionais os liderando, a milícia ainda era um exército de lavradores e comerciantes. Os soldados polipontinos passavam todos os instantes do dia treinando, lutando ou se preparando para isso. Um soldado da milícia passava algumas semanas do ano aprendendo a formar uma barreira de escudos e a usar um machado.

Eles não teriam chance contra os assassinos profissionais de Bellorum.

— Precisamos de aliados — afirmou Thirrin, decidida.

A essa altura, Primplepuss acordou e foi andando, sonolenta, para o colo do rei. Redrought demorou alguns minutos de arrulhos e carinhos até a gatinha se acomodar feliz.

— E quem você sugeriria? — prosseguiu ele, como se não tivesse ocorrido a interrupção. — Permita-me lembrar-lhe que o Polipontus se interpõe entre nós e qualquer outro aliado em potencial ao sul; na direção do mar, temos somente os zéfiros e os corsários, que nos odeiam, e muito longe ao sul, o continente meridional, que fica distante demais.

— E a Terra-dos-Fantasmas?

A enorme mão calejada de guerra de Redrought bateu na mesa com violência, fazendo com que Primplepuss desse um salto vertical e pousasse de volta no colo do rei.

— De novo esse assunto! O rei e a rainha dos vampiros querem a morte de todos nós. Por que concordariam com uma aliança?

Thirrin, nem um pouco abalada pela explosão do pai, respondeu tranqüila.

— Por vantagens e segurança mútuas. Se nós cairmos, a Terra-dos-Fantasmas será a próxima. Maggiore Totus me disse que os governantes do Polipontus acreditam na ciência e na racionalidade. Vampiros e fantasmas, bruxas e zumbis seriam um insulto à visão de mundo que eles têm. Seria necessário exterminar todas essas criaturas tão pouco científicas, pelo menos para livrar o mundo delas.

— Talvez os polipontinos não tomassem conhecimento deles — respondeu Redrought, com a voz mais baixa, à medida que começava a captar as palavras da filha. — Ouvi dizer que alguns dos seus cientistas não acreditam nem mesmo em pedras-ímãs. Você sabe, uns pedaços de metal que são atraídos para o ferro. Eles se recusam a dar crédito a elas, mesmo quando vêem o efeito com os próprios olhos. Esse é um tipo de negação poderosa. Quem sabe, poderosa o bastante para que rejeitem a existência de um país inteiro.

— Scipio Bellorum ia deixar de tomar conhecimento de uma conquista? Não acredito. Especialmente se houver uma oportunidade de anexar outra terra e toda a sua riqueza ao Império. Ele estaria louco para invadir a Terra-dos-Fantasmas quase no mesmo instante em que tivesse resolvido o problema da Terra do Gelo.

O rei refletiu em silêncio sobre as palavras da filha. Era um governante astuto e a argumentação de Thirrin merecia um exame minucioso.

— Talvez... talvez você tenha razão. — Distraído, ele acariciava Primplepuss, que se acomodara novamente enquanto ele raciocinava. Por fim, chegou a uma conclusão: — Eles jamais concordariam com uma aliança comigo. Nós nos odiámos com a mesma intensidade. Mas com você, Thirrin... — Ele estendeu a mão para apanhar outra torta de frutas e a devorou com tranqüila competência. — É claro que você já deu um primeiro passo ao tornar seu amigo aquele rei dos homens-lobos que você libertou. Quem sabe não poderia dar continuidade a isso depois do Iule.

Thirrin suspirou feliz. Sentia um orgulho enorme por ter convencido seu pai dos pontos positivos de um plano que ela vinha preparando havia algum tempo. Geralmente, seu pai ouvia com paciência e calma as idéias da filha sobre o governo do país, para depois reduzi-las a pó. Dessa vez, porém, aceitou sua argumentação. Ela guardou mentalmente as instruções de procurar aliados e escolheu um empadão de carne para comer.

 

Uma luminosa lua cheia tinha nascido quando Thírrin finalmente partiu com uma escolta de dez soldados da cavalaria para ir apanhar Oskan. Na cidade, a temperatura tinha caído alguns graus abaixo do ponto de congelamento e, enquanto os cavalos seguiam do castelo pelas ruas, o matraquear dos cascos ferrados parecia áspero e quebradiço no ar enregelante. O cheiro penetrante de fumaça de lenha enchia as ruas estreitas, enquanto as pessoas alimentavam as lareiras com toras e galhos e o gelo rebrilhava por toda parte acima da linha das cumeeiras, de modo que Frostmarris parecia uma cidade de cristal negro, refletindo a beleza fria e brilhante da noite enluarada. Mesmo assim, as neves não tinham chegado e agora os céus estavam limpos das nuvens que se tinham debruçado sobre a cidade, o que permitia que a temperatura caísse tanto abaixo do ponto de congelamento que a respiração dos cavalos ficava em torno dos focinhos e das rédeas numa fina teia de cristais de gelo, delicada como renda.

Thirrin e os soldados da cavalaria estavam todos usando pesados abrigos de pele sobre a armadura e trotavam pelas ruas a passo acelerado na esperança de se aquecer e aos cavalos com a máxima rapidez possível. As vias estavam quase desertas, tendo em vista que as portas de cada casa estavam fechadas para a família se proteger do frio implacável e se preparar para o Iule. Até mesmo as tabernas estavam relativamente tranqüilas nessas últimas horas antes do amanhecer. Então, com a primeira luz da manhã, os cânticos tradicionais seriam entoados e teriam início os festejos desenfreados. Agora, porém, cada som ínfimo era ampliado no ar gélido, tanto que a pequena escolta de Thirrin parecia um regimento de cavalaria inteiro.

Chegaram por fim ao portão principal e rapidamente receberam da guarda a permissão para passar. Seguiram ruidosos pelo longo túnel da barbacã e então refrearam os cavalos quando contemplaram a terra para lá das muralhas da cidade. Diante deles, estendia-se a planície de Frostmarris, silenciosa e sombria, sob o luar prateado e frio. Ao longe, um lobo uivou, emprestando uma voz ao silêncio e Thirrin estremeceu. As alcatéias estavam famintas e tinham descido das montanhas para atacar as fazendas afastadas. Nenhum ser humano jamais tinha sido apanhado, mas as pessoas temiam pelo gado e as antigas lendas de ataques de lobos sempre voltavam à mente quando as alcatéias uivavam no frio do inverno.

Thirrin instigou seu cavalo a avançar, descendo pela trilha íngreme que levava à planície. Então, quando chegou a terreno plano, sacudiu as rédeas e o cavalo saltou adiante. O terrível frio da noite aumentou a ponto de parecer uma navalha cortante, com o vento gerado pela própria velocidade, e Thirrin se abaixou por trás do pescoço do garanhão enquanto atravessavam a planície em disparada. Atrás dela, os soldados da cavalaria acompanharam o ritmo, espalhando-se num amplo leque como uma capa viva que tremulasse atrás da cabeça da princesa. Poderiam ter seguido pela estrada larga que rumava para o norte, até as cidades de Pendris e Wearford, que se aninhavam nos confins setentrionais da Terra do Gelo. Em vez disso, porém, Thirrin os levou pelos campos de inverno, saltando sebes e valas, num galope desenfreado pela noite adentro.

Ao longe estava a floresta, como um aglomerado de nuvens escuras prenunciando uma tempestade. Ela foi se avultando aos poucos à medida que os cavalos atravessavam os campos a galope e, em cerca de vinte minutos, Thirrin desacelerou um pouco, para finalmente seguir a um trote acelerado assim que alcançaram as primeiras árvores esparsas. Quando entraram no verdadeiro limiar da floresta, ela parou e esperou enquanto cada soldado apanhava a pederneira e se preparava para acender um archote embebido em breu. Esperou olhando adiante para a escuridão antiqüíssima das árvores. A floresta à noite era muito diferente do bosque que parecia ser de dia. Nem todos os seres sobrenaturais das trevas tinham sido banidos para a Terra-dos-Fantasmas depois da Batalha das Rochas-dos-Lobos, simplesmente porque não tinha sido possível encontrar todos. E, daqueles que ficaram para trás, muitos se instalaram ali nas sombras profundas das árvores apinhadas.

Depois de alguns minutos, os olhos de Thirrin se acostumaram aos níveis mais densos da escuridão e o belo mosaico branco e preto do luar filtrado pelas copas das árvores se tornou visível com todo o seu brilho sutil. Então o súbito clarão dos archotes que se acendiam afastou a visão e a treva se fechou em torno do círculo de luz que eles portavam.

Encontraram a trilha que acabaria seguindo sinuosa até a caverna de Oskan e continuaram avançando a passo rápido. Os soldados começaram a entoar uma canção de cavalaria, mas as vozes ecoavam e reverberavam estranhamente em meio às árvores, como se um esquadrão de espectros estivesse cavalgando com eles, em algum ponto fora do alcance da visão. Com isso, logo se calaram. Mas a floresta continuou a fazer seus próprios comentários misteriosos à medida que eles passavam. Ao longe, um galho caiu. Ali perto, raminhos estalaram. E de vez em quando o uivo lamentoso e solitário de um lobo caçador soava, fraco pela distância e forte pelo medo que causava.

Thirrin empunhou o escudo e segurou mais alto seu archote aceso. Os soldados agiram do mesmo modo. O peso conhecido restaurou a confiança de todos e eles prosseguiram, conduzindo os cavalos com os joelhos, como em combate. Pouco tempo depois, Thirrin achou que viu o refulgir de olhos vermelhos ao longe entre as árvores. Mas quando olhou naquela direção, não viu mais nada. Isso continuou por um tempo e ela estava decidida a não mencionar o fato à escolta quando o sargento falou.

— Acho que estamos sendo seguidos, minha senhora. Sugiro que cavalguemos com os sabres desembainhados.

Ela concordou e, transferindo o archote para a mão do escudo, sacou a comprida espada de cavalaria.

— O que você acredita que seja? Lobos não atacam gente.

— Não faço idéia, senhora — respondeu ele, prontamente. — Algumas criaturas esquisitas vivem na floresta; não importa o que sejam, não vão gostar das armas da cavalaria.

Ela sorriu, animada por sua segurança.

— Logo estaremos na caverna de Oskan, Filho da Bruxa. Pode ser que ele tenha algumas respostas para nós.

— É, senhora. Pode ser.

Seguiram em frente, acelerando involuntariamente o passo a medida que os olhos vermelhos iam se aproximando aos poucos. Quando chegaram à clareira onde Thirrin tinha conhecido Oskan no outono, iam a um meio galope, a maior velocidade que se atreviam a forçar na trilha traiçoeira. Então, avançaram até o outro extremo do pequeno vale e, a um sinal de Thirrin, deram meia-volta e encararam não importa o que os estivesse seguindo.

O luar forte iluminou a clareira e eles viram com nitidez cerca de vinte vultos que surgiram a partir das árvores. Eram quase humanos, mas o corpo parecia estar coberto por folhas brilhantes de azevinho, quase como uma armadura, e todos portavam escudos redondos e longas lanças feitas de uma madeira cinzenta que parecia reluzir ao luar. Thirrin estava suficientemente perto para ver que sua pele era da mesma estranha cor cinzenta e seus olhos eram do vermelho vibrante de frutinhos.

Mais fascinada do que temerosa, ela fez o cavalo avançar alguns passos e, em pé nos estribos, proclamou:

— Sou a Princesa Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, herdeira do trono da Terra do Gelo. Identifiquem-se para que eu possa saber se são amigos ou inimigos. — Sua voz soou aguda e feroz no silêncio, como o grito de desafio de uma ave de rapina, e sua escolta sentiu crescer ainda mais a confiança que tinha na jovem líder.

Inesperadamente, um vulto escuro surgiu da beira da clareira e uma voz conhecida falou:

— Esses são soldados do rei dos Azevinhos, que governa todas as regiões silvestres durante o inverno.

— Oskan! — gritou Thirrin, surpresa. — Você conhece esse pessoal? Soldados, você está dizendo? O que estão fazendo na Terra do Gelo?

— Eles estão aqui desde antes que seu povo, Thirrin, desse esse nome a esta terra e o rei dos Azevinhos é tão velho quanto a existência das árvores, do mesmo modo que seu irmão, o rei dos Carvalhos, que governa no verão.

— Reis? Quem são esses governantes que eu nunca... — Sua voz foi se calando à medida que lhe ocorriam recordações de cantigas e histórias da carochinha. — Você está querendo dizer que os reis da floresta virgem são de verdade?!

— São tão verdadeiros quanto a floresta ao seu redor e sua dupla linhagem real é muito mais antiga que a Casa do Escudo-de-Tília.

Thirrin deixou-se sentar, perplexa, em silêncio, examinando as lendas que agora estavam diante dela, até que seu aguçado senso de etiqueta e de oportunidade de repente a dominou. E ela, voltando a se pôr de pé nos estribos, ergueu a espada acima da cabeça.

— Eu os saúdo e a seu real senhor, soldados do rei dos Azevinhos. Vão agora e levem cordiais cumprimentos de Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília.

Do meio das fileiras dos estranhos soldados de azevinho, um vulto alto deu um passo adiante e ergueu a lança em saudação. Em seguida, recuando por entre as árvores às suas costas, todos eles simplesmente desapareceram.

— Muito bem — disse Oskan, aproximando-se até se postar junto do seu estribo. — O rei dos Azevinhos e o rei dos Carvalhos são amigos poderosos para ter e inimigos ainda piores.

— Receio que em breve precisemos de todos os amigos que pudermos arranjar — respondeu Thirrin, baixinho, ainda pasma com as criaturas lendárias que acabava de ver. E então, recuperando subitamente a rispidez, perguntou: — E de onde você surgiu, Oskan? Eu já tinha passado por sustos suficientes sem você me saltar das sombras como um fantasma magrelo!

Oskan empertigou o corpo alto e esguio para ficar ainda mais alto e respondeu com dignidade:

— Estava esperando por sua chegada. Achei melhor... intervir antes que as coisas ficassem fora de controle.

Thirrin quase respondeu que tinha dominado a situação o tempo todo, muito obrigada, quando decidiu se calar. Oskan tinha razão. Quem sabe o que teria acontecido se ele não tivesse aparecido naquela hora?

— Você chegou no momento exato — disse ela, finalmente. Mas de algum modo seu tom saiu errado. Estava parecendo uma das camareiras idosas do palácio recompensando algum miserável ajudante de cozinha ao dignar-se a falar com ele.

Ela preencheu o silêncio constrangedor que se seguiu, passando o escudo para as costas.

— Bem, você trouxe suas coisas ou vamos ter de subir até a caverna

— Não demoro para me aprontar. Espere aqui.

Ele já tinha ido antes que ela tivesse tempo para lhe dizer que ninguém mandava a herdeira do trono da Terra do Gelo esperar em lugar nenhum e já estava de volta quando ela se deu conta de estar contente por não ter dito nada.

Esperou enquanto ele montava sem nenhuma elegância no cavalo tranqüilo que tinham trazido para ele.

— Então, por que não vi esses soldados do azevinho antes? — disse ela, então. — Já cavalguei à noite na floresta muitas vezes.

Oskan olhou para ela e desajeitadamente fez seu cavalo avançar.

— A pergunta que está fazendo está errada. Você deveria se perguntar por que os soldados do azevinho deixaram que vocês os vissem. Eu mesmo geralmente os vejo umas duas vezes a cada inverno e o mesmo vale para os soldados do carvalho no verão. Mas nunca ouvi dizer que se mostrassem para gente da cidade. Alguma coisa deve estar incomodando esse povo.

— Como por exemplo o quê?

— Quem sabe? Vai ver que estão preocupados com o atraso das neves.

Thirrin deu um tapa na perna, exasperada.

— Agora você também? Não! O próximo passo é me dizer que vai haver uma praga ou uma péssima colheita.

— Não. É provável que desta vez seja guerra.

Ela puxou as rédeas de um jeito tão repentino que seu cavalo bufou, surpreso.

— Guerra! Do que você está falando?

— Esses presságios seguem ciclos — disse Oskan, dando de ombros. — Minha mãe me disse que da última vez que as neves se atrasaram houve fome e antes daquela vez, a peste. Desta vez, deve ser guerra.

Thirrin se voltou na sela e acenou apressadamente para que os soldados da escolta recuassem para uma distância maior. Não havia necessidade de que dali se espalhassem boatos.

— Mas você não acredita nisso, certo?

— Acredito — respondeu ele, com uma simplicidade tão franca que ao mesmo tempo chocou e convenceu Thirrin. Aquilo batia exatamente com seus medos, mas era muito perturbador ouvir outra pessoa falar de uma guerra vindoura com tanta certeza.

— Quando?

— Não sei dizer... com exatidão.

— Dentro de um ano?

— Isso mesmo. E provavelmente antes da mudança da estação.

Prosseguiram em silêncio enquanto Thirrin repensava o assunto. Maggiore Totus riria de tanta superstição; mas a verdade é que ele também riria da idéia de um rei dos Azevinhos e de um rei dos Carvalhos. Mas ela agora sabia sem a menor dúvida que eles existiam.

Oskan e ela estavam muito à frente da escolta àquela altura e, como nenhum dos dois portava archotes, podiam ver a beleza simples do luar se filtrando em preto e branco através das árvores, que rebrilhavam misteriosas ao redor.

— O que deveríamos fazer? — perguntou ela.

— Não sei. Não sou político nem soldado. Acho que precisamos simplesmente estar preparados.

Ela concordou em silêncio. Estavam tão prontos quanto era possível. A única coisa para a qual não tinham como se preparar era a direção de onde viria uma invasão.

— Suponho que você não faça a menor idéia de quem vai nos atacar, certo? — perguntou ela, meio disposta a confiar em quaisquer intuições ou poderes místicos que ele pudesse ter herdado da mãe.

— Faço, sim. É fácil. E claro que vai ser o Império do Polipontus.

— É claro — repetiu ela com uma ironia discreta. — Mas por que você tem tanta certeza?

— Na realidade, é lógico. Quem mais poderia ser?

— Os corsários e os zéfiros. Esses andam meio parados há muito tempo.

Oskan pensou um pouco e então abanou a cabeça.

— Não. Sem dúvida, vai ser o Polipontus.

Exatamente por que motivo acreditava nele era algo que não estava claro nem para si mesma, mas acreditava, sim. O único problema era convencer o rei e fazer com que ele convocasse a milícia nos condados do sul e enviasse o exército real para ajudar mesmo que fosse só por precaução. Ela teria de abordar esse assunto com ele durante o banquete de lule no dia seguinte. Depois de algumas cervejas comemorativas, seu pai estava sempre mais aberto a discussões.

Enquanto cavalgavam, ecoou pela floresta o uivo lamurioso de um lobo ao longe, que fez com que os cavalos relinchassem nervosos.

— Podemos não ter neve, mas mesmo assim está frio suficiente para forçar as alcatéias a descer das montanhas — disse ela.

— É verdade — respondeu Oskan. — Mas isso não foi um lobo ou pelo menos não foi um lobo por completo.

— Mais um lobisomem, aqui na Terra do Gelo?

— Na realidade, uma fêmea de lobisomem.

— Você sabe a diferença? Então, deve entender a língua que falam. O que ela está dizendo?

O uivo irrompeu de novo e veio descendo devagar pelas oitavas até um gemido grave e estranho.

— Consigo entender um pouco, não tudo. Ela está dando algum aviso e fazendo um chamado... — Parou de falar e, ao brilho delicado da lua, seu rosto pareceu de uma palidez cadavérica.

— Ela está chamando o Povo-Lobo para uma concentração de forças! Isso não acontece há gerações! Alguma coisa importante deve estar ocorrendo. Talvez devamos esperar que a guerra venha do norte no final das contas!

Thirrin ficou em pé nos estribos e acenou para que a escolta se preparasse para galopar até Frostmarris. Mas Oskan segurou seu braço.

— Espere aí. Tem mais. — Ele escutou enquanto os uivos distantes prosseguiam, tecendo uma rede tristonha de sons pelo céu noturno. — Não, eu estava com a razão. O problema está mesmo vindo do sul e ela acha que eles vão se atrasar demais para cumprir seu... bem, ela usou a palavra "juramento" e depois "à princesa".

Thirrin sufocou um grito e em seguida rosnou ordens para os soldados.

— Larguem os archotes. Vamos cavalgar até a cidade!

— E é bem provável que ela esteja certa, é claro — continuou Oskan, como se estivesse num bate-papo tranqüilo junto à lareira sobre o preço do pão. — A fêmea de lobisomem é obviamente só uma parte de um sistema de transmissão de mensagens de volta para a Terra-dos-Fantasmas. E, quando a mensagem chegar lá, não importa o que seja que está prestes a acontecer já terá acontecido, se você está me entendendo. Eu queria saber que juramento é esse que ela mencionou. E quem será essa princesa

Impaciente, Thirrin lhe deu um tapa no lado da cabeça.

— Cale a boca e vamos!

Com isso, seu cavalo saltou adiante através da floresta. Oskan instigou sua montaria e de imediato desejou não ter feito isso quando o animal disparou atrás de Thirrin e da escolta. Ele se agarrou ao pescoço do animal, na tentativa desesperada de evitar os galhos e ramos que os açoitavam acima enquanto eles seguiam a toda a velocidade pela trilha estreita. O perfume agradável das folhas caídas lançadas para o alto pelos cascos de doze cavalos a galope fez com que se lembrasse dos bolos de Iule que esperava comer. Mas logo se esqueceu totalmente da comida para se concentrar em se manter montado no animal desembestado.

No que pareceu um tempo incrivelmente curto, saíram do meio das árvores e se espalharam pelas terras cultivadas que se estendiam até as muralhas da cidade como um mar varrido pelo vento. No mínimo, ali estava ainda mais frio do que sob o abrigo da floresta e Oskan tentou se enrolar melhor na capa para manter aquele gelo terrível lá fora. Mas de nada adiantou. Mal ele acabava de arriscar a vida para agarrar uma ponta da capa e o vento da sua própria velocidade a arrancava da sua mão mais uma vez. Ele fechou firmemente a boca sobre os dentes que tiritavam de frio e fixou o olhar adiante, em Thirrin e na escolta montada. Perguntou-se se sua aparência estaria tão desvairada como a deles, só cascos em louca velocidade e capas enfunadas, e concluiu que devia estar igual.

Frostmarris estava se aproximando, erguendo-se acima da planície como uma cadeia de montanhas disciplinadas, toda em ângulos retos e arestas perfeitas, em vez de picos pontiagudos. Mas ao luar suas muralhas de granito reluziam levemente como se não fossem feitas de nada mais sólido do que nuvens enluaradas, à espera de uma rajada de vento para soprá-las para longe por cima da planície. Na limpeza do ar noturno, Oskan conseguia ver o brilho de lanças enquanto os guardas faziam sua lenta ronda das muralhas e ficou impressionado com uma sensação da vulnerabilidade da cidade. Um exército poderia arrasá-la pela fome, derrubar suas muralhas, matar sua população. Era esse o assunto da mensagem da fêmea de lobisomem? Mas por que o Povo-Lobo se importaria com Frostmarris? Antes que pudesse sequer pensar melhor sobre essas questões, suas mãos se soltaram e ele quase escorregou de lado da sela. Com o coração batendo feito louco, conseguiu a muito custo voltar à posição vertical e resolveu concentrar toda a sua atenção em cavalgar e deixar as perguntas para mais tarde.

 

Oskan sentia pavor de precisar dormir no salão-mor junto com todos os outros convidados menos importantes que encheriam o castelo para a festa de Iule. Estava acostumado à privacidade da sua caverna e para ele era assustadora a idéia de compartilhar o espaço com qualquer quantidade de perfeitos desconhecidos. Mas não precisava ter se preocupado. Tinham reservado um quarto para ele. Sem dúvida era pequeno, com o mínimo de espaço necessário para a cama estreita, uma cômoda para os poucos objetos pessoais que trazia e um banco para estender a roupa, mas era um quarto particular, um privilégio enorme. Ele sabia com certeza que alguns comerciantes bem ricos estavam se aconchegando em torno da lareira central do salão-mor, disputando espaço com cães de caça e tentando proteger seus pertences dos outros convidados. Quase sentia culpa por um camponês órfão como ele ter recebido um quarto só para si; quase, mas não chegava a tanto.

Esticou-se confortavelmente debaixo das cobertas pesadas, saboreando a paz e a tranqüilidade. Uma hora antes, ele estava com Thirrin nos aposentos particulares do rei e a tremenda voz de Redrought enchia todo o ambiente, até mesmo a cabeça de Oskan.

Assim que chegaram ao pátio do castelo, a princesa saltou do cavalo e esperou, impaciente, enquanto ele descia da sela, cheio de cuidado. Em seguida, ela o conduziu ao salão-mor, entrando pelas enormes portas duplas à sua frente. Nem Thirrin nem sua escolta pareciam se importar de passar por cima de alguns convidados que tinham se acomodado para a véspera de Iule em torno da lareira central. Oskan murmurou desculpas apressadas a alguns vultos indignados que se levantaram um pouco do chão para resmungar atabalhoadamente, no clarão vermelho do salão iluminado apenas pelo fogo. A situação não melhorou em nada quando a maioria dos cães, vendo Thirrin e seus soldados e concluindo que já era de manhã e estava na hora de dar uma corrida lá fora, começou a latir com animação e a pular de um lado para o outro por cima dos demais convidados adormecidos. Quando alcançaram o impressionante trono de carvalho sobre o tablado e entraram por trás dele para chegar aos aposentos do rei, era total o tumulto no salão-mor, com cães latindo, sentinelas gritando ameaças e convidados despertados querendo saber o que estava acontecendo.

Thirrin bateu uma vez na porta baixa que dava para os apartamentos pessoais do pai e entrou sem se identificar. Uma sentinela que estava bem junto à porta pôs a lança em riste e gritou espantada, exigindo uma explicação do que queriam ali. Um pequeno emaranhado de cabelos brancos e rugas num camisolão vermelho saltou de um catre baixo, com um gritinho agudo.

— Quem é, Bergeld? Mande-os embora! Chame a guarda!

— É a princesa, senhor — respondeu a sentinela, baixando o escudo e a lança.

— A princesa? A uma hora dessas? — Grimswald, o camareiro, esfregou os olhos e examinou o grupo formado por Thirrin, Oskan e os soldados. — Parece que não é só a princesa. Senhora, pode dispensar seus homens.

Thirrin levantou a mão e sua escolta fez uma saudação e foi embora. Oskan, no conforto da sua cama, lembrou-se de como o aposento tinha parecido de repente muito maior com a saída dos dez soldados fortemente armados. Grimswald, então, com uma dignidade forçada, pigarreou e perguntou exatamente o que eles queriam.

— Tenho notícias urgentes para meu pai — respondeu Thirrin, com uma ênfase discreta porém significativa na palavra "meu".

— Bem, já que você acordou o rei, é melhor dizer de uma vez que raio de notícia é essa! — Uma voz trovejante invadiu a sala, sendo logo seguida de um enorme camisolão branco que passou irritado por uma porta, vindo de um cômodo interno. Oskan simplesmente ficou de queixo caído diante da figura impressionante do rei. Seu camisolão largo e o turbilhão do cabelo e da barba ruiva faziam com que ele parecesse um vulcão coberto de neve, em plena erupção, e os roncos que se ouviam das profundezas do seu peito avanta-jado sugeriam a probabilidade de mais fogos de artifício.

— Pai, ouvimos uma fêmea de lobisomem na floresta...

— Só isso? Ora, tratem de caçá-la amanhã! Foi só por isso que você me acordou? — O rei estava revoltado, com o rosto quase tão vermelho quanto o cabelo flamejante.

— Não — respondeu Thirrin, apressada. — Oskan entende a língua deles e parece que ela fazia parte de um sistema de retransmissão de mensagens lá para a Terra-dos-Fantasmas.

A essa altura, o rei tinha ido até a poltrona que usava durante o dia e estava ajeitando as almofadas a seu modo quando parou e olhou para cima, contraindo os olhos, cheio de interesse.

— O que ela dizia? — perguntou.

— Ela estava fazendo uma convocação! Para uma reunião do Povo-Lobo...

— Por Odin! — exclamou Redrought, pasmo. — O que mais? Thirrin tinha parado de falar, aumentando involuntariamente a tensão.

— Ela dizia que achava que não lhes restava tempo suficiente para cumprir o juramento feito à princesa.

O rei se pôs de pé de um salto e se voltou para Oskan.

— Você sabe de onde essa mensagem vinha?

Por um instante, Oskan se intimidou diante do olhar feroz de Redrought, mas depois respondeu.

— Seu chamado era para outros mais ao norte. Logo, deve ter vindo do sul.

— Então é o Polipontus — disse o rei, surpreendendo Oskan com um sorriso. — Parece que por fim vamos conhecer o general Scipio Bellorum, não é, Thirrin?

— É, papai. Finalmente. — E ela sorriu também.

Mais tarde no calor gostoso da cama, para Oskan tudo aquilo parecia irreal. Com uma velocidade incrível, o rei despachou mensagens para todos os pontos cardeais, convocando a milícia e ordenando aos regimentos da guarda-da-coroa que marchassem imediatamente para o sul. O plano de Redrought, no entanto, parecia ser o de seguir com a cavalaria no dia seguinte à festa de lule. Estava óbvio que ele não considerava a invasão importante e que tinha a fria determinação de aproveitar o banquete de lule antes de ir a qualquer lugar.

— Será que a senhora Theowin sabe o que está acontecendo? — perguntou então Thirrin.

— Sem dúvida que sim — respondeu Redrought. — Seus patrulheiros mantêm vigilância cerrada sobre a fronteira todos os dias do ano. Ela e sua guarda darão trabalho a qualquer força invasora até chegarmos lá. Mas, calculando pelo que seus novos aliados, o Povo-Lobo, estavam dizendo, a invasão ainda não aconteceu.

Eles estavam só preocupados com a possibilidade de não estar prontos a tempo para ajudar.

Thirrin estava radiante de alegria. Já estava colhendo os frutos por ter insistido numa aliança com pelo menos parte das criaturas da Terra-dos-Fantasmas. Mas foi nesse momento que Redrought começou a duvidar dos informes sobre a emergência.

— Você efluente mesmo na língua dos lobos? — perguntou ele a Oskan, com a voz ensurdecedora.

— Sou, sim, senhor — respondeu Oskan, com segurança. — Isso minha mãe me ensinou antes mesmo que eu aprendesse a ler e escrever.

— Você sabe ler! — berrou Redrought, surpreso. Apanhando seu precioso Livro dos antepassados, que ainda estava ao lado da poltrona, ele o abriu ao acaso e mandou que Oskan lesse onde ele estava apontando. Oskan leu. E, quando Redrought olhou para Grimswald com ar de interrogação e o velho camareiro fez que sim, o rei deu um grunhido de satisfação e sorriu.

— Filha, você tem um conselheiro instruído! Faça bom uso dele! — Tanto Oskan quanto Thirrin enrubesceram com isso e o rei deu uma risada estrondosa.

— Agora, Grimswald, traga minha capa e minhas botas! Vamos até a torre de vigia para ver se os aliados de Thirrin estão dizendo mais alguma coisa sobre o general Scipio Bellorum.

Oskan estremeceu na cama quando se lembrou dos ventos gelados que sopravam em torno da torre elevada que se erguia acima das ameias de Frostmarris. Lá embaixo, estava a cidade parecendo pequena e dura ao luar, como um brinquedo delicado esculpido em cristal. Ficou olhando fascinado para o emaranhado de ruas e travessas que faziam a rede de ligação entre os quatro portões principais da cidade; mas então se retesou quando o uivo agudo do Povo-Lobo veio cortando o ar frio da noite como uma navalha.

A voz chegava toda entrecortada pelo vento e Oskan precisou esperar que o ciclo de uivos recomeçasse para conseguir captar tudo.

— E aí? — perguntou o rei, com a voz retumbante, através de uma nuvem espessa formada por sua própria respiração. — O que estão dizendo?

— É uma resposta do norte — disse Oskan. — A convocação começou, mas eles imaginam que demore meses para que todos os seus guerreiros sejam reunidos. Dizem que a invasão vai acontecer antes disso, talvez em menos de uma semana, mas vão se preparar para ajudar a princesa... se ela sobreviver.

— Hum, um pessoal otimista — comentou Redrought num tom de voz que era baixo para ele.

— Tem mais uma coisa — disse então Oskan. — O Povo-Lobo diz que poderia ter avisado a princesa pessoalmente, mas acharam que não conseguiriam chegar a Frostmarris sem que fossem mortos pelos guardas da cidade antes que pudessem se aproximar dela.

— Bem pensado — reconheceu o rei. — Mesmo assim, agora nós sabemos, graças a você, Oskan. A milícia foi convocada no país inteiro. Meus guerreiros profissionais partirão daqui a uma hora, dando início a uma marcha forçada para o sul. E eu seguirei no comando da cavalaria no dia seguinte ao Iule. Deveríamos alcançar os guardas-da-coroa um dia depois, para chegarmos juntos à Terça Sul dentro de mais um dia.

— Cinco dias — disse Thirrin, baixinho. — E o Povo-Lobo calcula que falte uma semana para a invasão.

— Pois bem, eu calculo que não aconteça antes que se passe uma semana — disse Redrought, confiante. — Ainda não recebi nenhuma notícia da senhora Theowin e suas patrulhas sem dúvida teriam visto qualquer concentração de tropas abaixo da fronteira sul. Logo, só pode ter começado a acontecer. Não é brincadeira fazer manobras com um exército do tamanho do de Scipio Bellorum, vocês sabem. Imagino que nada vá acontecer nos próximos oito ou nove dias.

— Mas você mesmo disse que Bellorum venceu a maior parte das suas guerras pelo simples tamanho de seus exércitos, sua disciplina de ferro e por fazer o inesperado — ressaltou Thirrin.

— É verdade. Mas ele não sabe que estamos preparados para ele, sabe?

Oskan se aconchegou mais debaixo dos cobertores e continuou a relembrar o encontro com Thirrin e o pai. Não havia como negar que os dois estavam profundamente preocupados com a ameaça de invasão; mas havia outro sentimento que chegava a superar essa preocupação: os dois encaravam a invasão com grande expectativa! Oskan tinha certeza de que pai e filha mal podiam esperar para sair para o campo de batalha e testar sua capacidade contra o poderoso exército do Polipontus. E, acima de tudo, contra o lendário talento e ousadia do famoso general Scipio Bellorum. Oskan estava estarrecido. A ameaça da guerra o enchia de um terror sem disfarces. Quando falou com Thirrin sobre o presságio das neves tardias, tudo de algum modo lhe pareceu remoto e dissociado da sua própria realidade. Mas agora que o Povo-Lobo estava concentrando forças e que o rei estava convocando a milícia, tudo lhe parecia apavorantemente verdadeiro. Com o ouvido aterrorizado da sua imaginação, ele quase ouvia as passadas pesadas do exército do Império à medida que avançava contra o pequeno país. Mas no palácio real mais ninguém parecia estar muito preocupado. Oskan sabia que àquela altura todos, desde o barão mais nobre até o serviçal mais humilde, teriam conhecimento de cada detalhe e, mesmo assim, ouvia com nitidez os primeiros movimentos do castelo, com a realeza se preparando para o dia de Iule, como se a guerra e sua ameaça de morte e caos não estivessem a ponto de desabar sobre eles.

No entanto, talvez estivessem só escondendo seus verdadeiros sentimentos e prosseguindo com a vida da melhor forma possível. Afinal, quando repassou consigo mesmo os fatos, Oskan teve de admitir que realmente não havia nada que pudesse fazer. Os guar-das-da-coroa tinham partido e a milícia tinha sido convocada. E nenhuma preocupação faria a menor diferença. Talvez essa atitude descontraída diante de situações horrendas fosse contagiante, pensou ele, quando finalmente se acalmou e adormeceu.

Lá fora, o Povo-Lobo continuava a uivar: suas mensagens assumiam um tom de urgência que qualquer um poderia ter reconhecido se prestasse atenção. Mas Oskan continuava dormindo no aconchego e na momentânea segurança da sua cama. A lua se pôs num esplendor de prata e aos poucos a aurora do solstício iluminou o céu no leste. O castelo estava alvoroçado com os preparativos para a festa de Iule, que enchiam todos os corredores e salões com aromas deliciosos e um burburinho animado. Mesmo assim, Oskan continuava dormindo, até que finalmente foi despertado algumas horas depois por batidas fortes na porta e por um guarda do palácio, trajando uma armadura pesada, que irrompeu pelo quarto adentro.

— A princesa Thirrin exige sua presença no salão-mor! Se estiver com muito sono, ela me deu ordens de derrubá-lo da cama e arrastá-lo trajado como esteja! — O soldado olhava para ele com rispidez e Oskan se sentou na cama, com os olhos arregalados.

— Estou acordado! Levo só um minuto para me vestir!

O guarda concordou em silêncio e desapareceu. Oskan saiu da cama, desajeitado, e começou a se vestir. Foi enquanto estava lutando para enfiar a cabeça pela gola da camisa que ouviu o som delicado de cânticos chegar aos poucos aos seus ouvidos, através do tecido, enchendo-o de empolgação pelo sentido que o dia tinha. Era Iule! A morte do ano velho e nascimento do novo.

Era um dia que sempre tinha adorado. Sentou-se na cama um instante, lembrando-se de quando decorava a caverna com a mãe. Ela sempre sabia exatamente onde encontrar o azevinho de folhas mais lustrosas com os frutinhos mais coloridos. E sempre levava o filho junto quando partia pela floresta adentro em busca de visgo. Uma vez, encontraram um pequeno bosque de macieiras silvestres, velhas e retorcidas, que estavam quase se partindo ao meio sob o peso das estranhas folhas pálidas da planta que se espalhava por cima delas. Mesmo assim, sua mãe tinha feito uma reverência compenetrada às árvores, pedindo permissão antes de cortar um feixe de visgo com uma foice gravada com sinais esquisitos.

Ele ainda se lembrava da caverna, com o perfume refrescante de folhagens perenes e o aroma de deliciosas carnes e massas no forno. Na realidade, a época de Iule era uma das raras ocasiões em que sua mãe dava pistas de quem poderia ter sido o pai de Oskan. Ele sabia que era melhor não a importunar com esse assunto, mas costumava guardar os fragmentos de informações para pensar nelas mais tarde.

— Foi nesta época do ano em que eu o vi pela primeira vez — disse ela um dia, quando estavam colhendo azevinho. — Era alto e muito magro e claro como uma bétula prateada.

— Mas, mãe, ele era quem? Como se chamava? Ela deu um sorriso misterioso antes de responder.

— Gente como ele nunca diz o nome. Quem vier a conhecer seu nome terá poder sobre ele. Tanto é assim que só os parentes mais próximos têm acesso a esse conhecimento.

— Então, não posso pelo menos saber que tipo de gente ele era?

— Ah, eles são os mais velhos. Os Primeiros de todos os seres pensantes. Não consegue adivinhar? Não lhe dei uma quantidade suficiente de pistas?

Oskan achava que talvez ela tivesse dado mesmo.

— Ele era poderoso? Era bom?

— Toda aquela gente tem poder. Quanto a ser bom, quem vai saber? Essa gente escolhe entre a luz e a treva; é uma escolha que todos eles precisam fazer. Uma escolha que você também terá de fazer um dia.

Eram tão nítidas as lembranças que ele quase conseguia sentir de novo a brisa que soprava pela floresta naquele dia, afagando sua pele, e com ela chegou o aroma das tortas e pastelões que a mãe tinha preparado para o Iule. Foi então que voltou a si e percebeu que o aroma vinha das cozinhas do palácio, o que lhe relembrou que Thirrin o aguardava para o desjejum de Iule.

Terminou de se vestir e saiu rápido para o corredor, que lhe pareceu movimentado como uma rua num dia de feira. Serviçais passavam apressados de um lado para o outro, carregando bandejas e cestas de comida, e convidados em trajes luxuosos andavam com a máxima velocidade que sua pose permitiria. Oskan tinha sido levado ao quarto por um guarda, na calada da noite, quando estava quase a ponto de desmaiar de exaustão. Por isso, para ele o lugar exato em que se encontrava no palácio era um mistério. Mas percebeu que todos os convidados seguiam na mesma direção e, supondo que o corredor levasse ao salão-mor, se apressou a acompanhá-los.

Quando chegou ao final da passagem, quase caiu no espaço enorme que os velhos ainda chamavam de salão de festas. O barulho, as cores e os cheiros o deixaram atarantado enquanto músicos tocavam, coros cantavam, serviçais e cortesãos em trajes coloridos andavam apressados e cães de caça alvoroçados latiam e se perseguiam uns aos outros em torno das mesas que já estavam sendo ocupadas por convidados. No fundo do salão, Redrought estava sentado em seu trono imponente, num luxuoso traje verde-escuro que combinava perfeitamente com os ramos de azevinho que pendiam das vigas e adornavam as paredes. Estava usando a antiga coroa de ferro da Casa do Escudo-de-Tília e, por ser o rei, era a única pessoa que podia portar espada naquele recinto enorme. Até mesmo os guardas do palácio portavam somente lanças e clavas.

Redrought permaneceu em silêncio compenetrado enquanto os serviçais cumpriam suas tarefas em alvoroço. Mas, depois de observá-los algum tempo, deixou a compenetração de lado e aos gritos deu início a uma conversa com um dos mercadores que estava sentado à cabeceira de uma das longas fileiras de mesas. Pelo jeito com que o rei afagava o traje e erguia a manga para a luz para poder admirar a cor, Oskan supôs que o mercador fosse algum membro da Liga dos Tecelões e que Redrought estivesse mais que satisfeito com suas vestes para a festa de Iule.

A mesa principal estava disposta em ângulo reto em relação às fileiras e mais fileiras de longas mesas sobre cavaletes que enchiam todo o salão-mor. E, enquanto Oskan estava ali parado, olhando, elas iam sendo rapidamente ocupadas à medida que convidados chegavam e procuravam encontrar um bom lugar tão perto do tablado e do rei quanto fosse possível. Havia uma nítida ordem de precedência, com os mercadores ricos perto da cabeceira próxima à mesa principal; os menos prósperos, no centro, e os camponeses que tinham tido a sorte de ser convidados, apinhados na ponta da mesa perto das portas enormes. A nobreza estava sentada com o rei à cabeceira da mesa. E, dando-se conta disso, Oskan a examinou de um lado a outro à procura de Thirrin. Ela não estava lá, mas ele percebeu que havia um trono menor ao lado do de Redrought no qual nem mesmo os barões ou baronesas mais importantes tinham tentado se sentar.

Portanto, Thirrin ainda não tinha chegado. Não era preciso dizer mais nada sobre suas ameaças de arrancá-lo da cama se ele não se apressasse, pensou Oskan. E, no exato instante em que se virava para se encaminhar até a ponta mais distante de uma das mesas, ouviu-se uma fanfarra estridente e o salão ficou mudo. No meio desse silêncio repentino, chegou decidido o vulto esguio de Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília. Estava usando um vestido simples azul-celeste e trazia na cabeça um diadema de prata com uma enorme safira engastada. Oskan ficou olhando admirado. Nunca a tinha visto com outra roupa que não fosse traje de combate. Até mesmo seu cabelo, geralmente trançado e escondido por baixo do elmo, agora caía solto num esplendor de dourado-avermelhado e seus olhos brilhavam entusiasmados enquanto ela contemplava o salão. Como era o dia de seu aniversário de catorze anos, na realidade ela era a convidada de honra, tendo por isso precedência até mesmo em relação ao rei.

Thirrin teria ficado surpresa se soubesse o que Oskan e muitos outros estavam pensando. "Linda" era uma palavra usada para mulheres adultas, para sua mãe e uma ou duas das jovens da nobreza que às vezes vinham à corte. Ela era só Thirrin, que completava hoje catorze anos, cansada de uma noite maldormida. Achava que estava inquieta por causa da guerra iminente, mas no fundo não acreditava nisso. Era muito mais provável que o motivo fosse o de ser véspera de Iule e de seu aniversário, o dia em que seria formalmente apresentada à corte e proclamada herdeira.

Quando acabou adormecendo, foi para ser perturbada por sonhos estranhos. Num deles, estava cavalgando, usando a armadura completa, e ao seu lado corria um gato realmente enorme, um leopardo, ao que lhe parecia. Mas era diferente de qualquer leopardo que ela já tivesse visto nos livros de seu preceptor Maggiore Totus. O pêlo era em sua maior parte de um branco brilhante com marcas que iam do cinza-prata ao negro mais profundo. Mas o que era ainda mais esquisito era que ela não o estava caçando, nem ele a ela. No sonho, Thirrin tinha um imenso carinho pelo animal, orgulho de estar a seu lado e se sentia quase humilde — uma sensação que se lembrou não lhe ser costumeira! Maggiore

Totus diria que era um clássico sonho de ansiedade, mas ela não tinha se sentido nem um pouco ansiosa; só orgulhosa e feliz.

Agora, olhava para ver se Maggiore estava na extremidade próxima de uma das mesas, negando habilmente a si mesma que estivesse no fundo procurando por Oskan. O barulho e o rebuliço próprios de lule voltaram a se afirmar e as pessoas recomeçaram a circular enquanto procuravam um lugar o mais próximo possível da mesa principal. Foi assim que, quando acabou por avistar o filho da bruxa, ela ficou surpresa de vê-lo parado bem em frente, de queixo caído, com uma expressão ligeiramente idiotizada.

Irritou-se ao vê-lo e não foi só por causa da boca aberta. No caos que se seguiu às notícias da guerra, Thirrin tinha se esquecido de lhe enviar os trajes novos que comprara para ele para a festa de lule e ele ainda estava usando a túnica e as calças surradas de sempre.

Não se dignando a chamá-lo diretamente, ela acenou para um camareiro e falou baixinho junto ao seu ouvido. Oskan ficou olhando enquanto o homem se afastava dela, descia do tablado onde Thirrin estava sentada à mesa principal e se apressava a vir na sua direção.

— Sua Alteza Real sugere que o senhor feche a boca antes que um dos cães faça alguma coisa terrível nela. — Os maxilares de Oskan se fecharam com um estalido forte. — Ela também deseja que o senhor ocupe um lugar próximo da cabeceira da mesa central.

Oskan estivera se encaminhando para o setor reservado para os camponeses, perto das portas enormes, mas agora seguia timidamente para a mesa cuja cabeceira ficava bem em frente ao trono de Thirrin. O gordo mercador que já estava sentado ali olhou para a túnica surrada e estava prestes a lhe dizer em alto e bom som exatamente para onde ele devia ir, quando o camareiro murmurou algumas palavras no seu ouvido e indicou com a cabeça a mesa principal. Thirrin já estava fuzilando o mercador com seu olhar mais gélido e ele rapidamente se afastou um pouco mais no banco sem dar palavra.

A sua frente, estava um homenzinho moreno que usava, diante dos olhos, pequenos pedaços de vidro montados numa moldura. Oskan ficou fascinado com essa invenção e olhou para ela com assombro. O homenzinho olhou para ele de volta e Oskan percebeu que seus olhos pareciam enormes por trás do vidro.

— Ah, é claro! Eles tornam as coisas maiores, como uma gota de orvalho aumenta o tamanho da folha de capim na qual está pousada.

— Corretíssimo, meu rapaz! Esses são meus óculos, projetados especialmente por mim para corrigir minha miopia ou "visão fraca", como vocês poderiam dizer. — Ele se levantou e estendeu uma mão pequena e muito limpa. — Posso me apresentar? Sou Maggiore Totus, preceptor da princesa Thirrin.

Oskan apertou sua mão, com ar sério.

— Sou Oskan, conhecido como Filho da Bruxa... hum, amigo de Thirrin ou deveria dizer amigo da princesa Thirrin Freer Forte-no...?

— "Amigo de Thirrin" serve — interrompeu Maggiore, com delicadeza. — Serve muito bem mesmo. E eu poderia dizer que sinto uma satisfação imensa por ela ter conhecido um rapaz tão inteligente. Até agora, nenhuma outra pessoa conseguiu adivinhar a verdadeira natureza dos meus óculos. Estou muito impressionado.

Oskan sentiu que estava se aquecendo com uma combinação de prazer e constrangimento; mas, apesar disso, não pôde deixar de notar o forte sotaque do homenzinho.

— Você não é da Terra do Gelo, é? Seu nome já deixa isso bem evidente, mas sua voz também... Ela canta.

— Não sou — respondeu Maggiore, com um sorriso. — Sou do litoral norte do continente meridional, onde o sol é imensamente generoso e só se encontra gelo em bebidas refrescantes. E logo voltarei para casa, agora que a princesa está chegando aos limites da sua paciência com o estudo. — Sua voz se tornou tristonha e os olhos por trás dos óculos se perderam numa distância repleta de olivais imaginários e pequenos povoados serranos, banhados pelo sol e tranqüilos com sua poeira suave. — Pelo menos tenho esperança de voltar em breve para casa, mas esses rumores da guerra podem resultar no fechamento dos portos e em perigo para as viagens por mar. Vamos esperar para ver.

Thirrin olhava com ar de aprovação o bate-papo entre Oskan e Maggiore. Havia algo de muito parecido na natureza dos dois. Ambos demonstravam fascinação pelo mundo que os cercava e ambos sabiam tanto. Thirrin tinha certeza de que teriam muito assunto de conversa. E agora, tranqüila, sabendo que seus dois convidados prediletos estavam se divertindo juntos, ela poderia concentrar a atenção na mesa principal e no debate sobre a guerra iminente. Mas, antes que pudesse abrir a boca, ouviu-se uma fanfarra e os doces cânticos do Iule encheram o salão.

A algazarra foi diminuindo e todos os olhos se voltaram para ver a abertura das portas enormes e a lenta entrada no salão de um coro de meninos e mulheres. Atrás deles vinham dezenas e mais dezenas de serviçais carregando travessas e outros recipientes de todo tipo de comida imaginável. E, encabeçando a procissão, vinha Grimswald, o camareiro-mor, trazendo um enorme pão redondo. Thirrin não pôde deixar de perceber a falta das notas graves dos guardas-da-coroa que geralmente faziam parte do coro. Quase como se tivesse lido seu pensamento, Redrought de um salto se pôs de pé e somou sua voz profundamente grave à cantoria. Pelo centro do salão vinha seguindo a procissão, desviando da enorme lareira central, onde a tora de Iule arderia, para subir vagarosa até o tablado, onde o rei esperava. Por mais um instante ou dois, a delicada canção antiga foi se infiltrando no silêncio, subindo lentamente até as vigas, reverberando a partir do teto, de tal modo que os cantores pareciam estar acompanhando a si mesmos num cânone desordenado. E então, por fim, a canção morreu como um suspiro delicado. O rei sacou a espada e, enquanto Grimswald segurava bem alto o pão redondo, ele o cortou ao meio.

Ergueu-se um bramido do salão e os serviçais se espalharam por todos os cantos, começando a servir a comida. Uma quantidade cada vez maior de ajudantes de cozinha vinha chegando pelas portas, trazendo ainda mais iguarias. E a longa galeria de menestréis que se projetava acima das grandes portas de repente se encheu de músicos que tocavam uma melodia animada para dança.

Thirrin esperou paciente que os nobres convidados sentados à cabeceira da mesa terminassem o primeiro prato de seu desjejum de Iule e então, enquanto os criados se encarregavam de limpar o que restava, fez sua pergunta.

— Alguma notícia sobre a convocação da milícia? Tudo correu bem?

— Nem problemas nem entraves em nenhum canto — respondeu Redrought, com a voz fortíssima se elevando com facilidade acima do barulho no salão. — Estou mais que satisfeito. Iule é uma péssima época para convocar a milícia. Todos querem passar o dia com a família. Mas tudo está dando certo, correndo bem como deveria.

Thirrin se recostou na cadeira e ouviu com atenção enquanto cada um dos senhores e senhoras à mesa acrescentava detalhes; mas em geral os relatos eram os mesmos. Tudo estava correndo bem. Ela já conhecia a disposição e a força de cada regimento com probabilidade de travar combate com o inimigo. Tanto assim que, quando Redrought começou a descrever detalhes para o que estavam menos a par, Thirrin relaxou e deixou o olhar passear pelo salão.

Os equilibristas e acrobatas já estavam saltando habilmente em torno das mesas num deslumbramento de lantejoulas. Um tinha até mesmo conseguido saltar dos ombros de seu parceiro para alcançar uma das cerca de doze vigas mestras que se estendiam de um lado a outro do salão. Agora estava ali, sentado, chamando o povo logo abaixo e apanhando com destreza pequenos bocados de comida que lhe eram lançados.

Thirrin sorriu. Adorava essa parte inicial do dia de Iule. Todos ainda estavam alegres e cheios de energia; mas, lá para o meio da tarde, a maioria estaria dormindo aos roncos, em pilhas, ou en-tabulando conversas de profunda seriedade com pessoas que provavelmente acabaram de conhecer. Seus olhos continuaram passeando e foram pousar em Oskan e Maggiore Totus. Os dois pareciam já ter chegado a esse estágio. Estavam debruçados sobre a mesa, conversando, com as cabeças bem próximas. Ela os observou, tentando descobrir sobre o que estariam debatendo, mas não conseguiu. "Deve ser a expectativa de vida da minhoca", pensou, desdenhosa. Mas continuou a observá-los por alguns minutos, procurando deixar de lado um desejo cada vez maior de abandonar a mesa principal para ir ter com eles. Era inexplicável a irritação que Oskan lhe causava e, depois de tentar descobrir o motivo para o aborrecimento, concluiu que era porque ele não tinha olhado nem uma vez para ela durante todo o tempo em que ela passou a observá-lo. Por ser compenetrada demais para atirar um pãozinho nele, ela chamou um criado e o despachou para a mesa de Oskan.

— Sua Alteza Real exige que os senhores se lembrem da sua presença — proclamou ele, ao chegar perto dos dois conversadores. Oskan olhou para o homem, surpreso. Estavam falando sobre a fauna da floresta e ele, de tão absorto, quase se esqueceu de onde estava.

— Humm... diga à princesa que não nos atreveríamos a nos esquecer dela.

O criado estava fazendo uma rígida reverência quando Maggiore pôs a mão no seu braço com delicadeza.

— Não. Diga a Sua Alteza Real que ela nunca esteve fora de nossos pensamentos e que estamos profundamente agradecidos por ela se lembrar de nós.

O criado se retirou e transmitiu a mensagem e Thirrin olhou para eles com frieza. Na realidade, estava tão feliz e descontraída quanto seria possível estar, tendo em vista a invasão iminente, mas não ia permitir que Oskan tomasse conhecimento disso. Quanto a Maggiore Totus, ela não tinha dúvida de que ele estava observando os dois jovens e rindo por dentro. Para ela, o fato de ser esse riso simpático e carinhoso fazia pouca diferença; ela ainda considerava isso irritante.

Depois disso, a intervalos, tanto Oskan como Maggiore se lembravam de olhar para a mesa principal e fazer um brinde a Thirrin, mas a expressão dela permaneceu uma máscara séria.

Antes do meio da manhã, os festejos tinham atingido seu ruído máximo e vivas estrondosos irromperam quando as portas duplas se abriram de repente e soldados da guarda do palácio entraram no salão arrastando a gigantesca tora de Iule. Foram necessários alguns minutos para conseguir puxá-la pelas lajes, enquanto os convidados entoavam uma ruidosa canção de boas-vindas e músicos a escoltavam até a lareira à espera. Achas menores já estavam ardendo ali e eram elas que sustentariam a tora de Iule acima da espessa camada de carvões em brasa que forrava o piso da lareira central. Então, dez homens fortes da guarda do palácio içaram a tora em barras de ferro reforçadas e a baixaram aos poucos até as chamas que a aguardavam. Por um instante, fez-se silêncio no salão. E então uma única voz entoou um elogio ao Sol, que iniciaria sua longa viagem de retorno depois desse dia, o mais curto do ano. Quando se calou a última nota, canecos, taças e copos de couro foram erguidos numa saudação e esvaziados num único movimento. E um brado enorme subiu até as vigas do telhado.

O exército imperial avançava arrogante pela estrada estreita, atravessando a passagem nas montanhas, com o baque surdo de cada passo disciplinado dizendo ao mundo que o conquistador estava chegando e nada poderia impedi-lo. Em menos de uma hora, a estrada começou a se alargar e os soldados avistaram pela primeira vez a terra que estavam prestes a anexar ao Império.

A baronesa Theowin da Terça Sul da Terra do Gelo estava observando enquanto o comandante polipontino transpunha a fronteira. Ficou surpresa ao ver que ele não correspondia a nenhuma descrição de Scipio Bellorum que tivesse chegado ao seu conhecimento, mas logo deixou para lá esse enigma visto que se preparava para agir. A baronesa mal teve tempo para convocar a milícia e mandar um aviso para Frostmarris, mas a ajuda ainda levaria dias para chegar e ela teria de enfrentar um Império sozinha. Ficou olhando enquanto o exército imperial passava presunçoso, como se já tivesse vencido a guerra, e pôs de lado todos os outros pensamentos.

O comandante Lucius Tarquinus das forças imperiais do Polipontus ergueu a mão e o exército parou de imediato. As unidades de pífanos e tambores, que vinham enchendo o ar gelado com uma estimulante música marcial, se calaram e um silêncio de expectativa se abateu sobre os soldados.

Tarquinus fez então sua montaria dar mais alguns passos e, ficando em pé nos estribos, gritou:

— Veni, Vidi, Vicil — A tradicional frase proferida no início de cada uma das numerosas invasões do Império.

Theowin deu um sorriso irônico."Vim, vi, venci”, é mesmo?", disse ela, traduzindo as palavras para si mesma. "Bem, é certo que você veio e sem dúvida está vendo, mas vencer são outros quinhentos." Ela levantou a mão e cortou o ar com ela, num gesto feroz.

Uma tempestade de flechas caiu sobre o exército polipontino. Alguns oficiais de elite que cavalgavam junto com o comandante tombaram ao chão e ali ficaram imóveis enquanto seus cavalos debandavam. Por um instante, reinou o caos; mas em seguida a rígida disciplina das tropas imperiais se reafirmou, e cada um voltou à sua posição, com o escudo erguido acima da cabeça, enquanto recuava. O comandante Tarquinus voltou até o exército com seu cavalo num trote tranqüilo, quase como se estivesse dando um passeio agradável, e assumiu o controle imediatamente.

Ele tinha observado a posição aproximada do inimigo, oculto por trás de um afloramento rochoso, e despachou um destacamento de infantaria pesada com a formação de testudo ou tartaruga: escudos cerrados para formar um teto e muralhas em torno da unidade, protegendo os soldados ali dentro.

A baronesa Theowin deu ordens imediatas para que os arqueiros recuassem e eles desapareceram entre os montes. Então, com um gesto de cabeça para a cavalaria, ela os liderou numa investida arrasadora, guinchando e uivando o grito de guerra da Terra do Gelo, enquanto se abatiam sobre a infantaria.

Cavalos e cavaleiros investiram contra os escudos e um tremendo ruído metálico ressoou pela terra como o som de um sino sinistro. Por alguns instantes, o sabre da cavalaria e a espada da infantaria desferiram golpes despedaçantes; mas então, no momento em que Tarquinus ia enviar reforços, a baronesa e seus soldados recuaram velozes pelo terreno congelado para desaparecer em meio às gargantas e ravinas daquela terra fronteiriça.

Depois de cerca de mais duas horas, foi servida a refeição do meio-dia. Isso só se tornou evidente porque havia ainda mais comida nas mesas e os convidados se dedicavam à tarefa de consumi-la, dando fortes suspiros e abanando a cabeça. Mas de algum modo conseguiram cumprir a missão, depois da qual alguns dos menos preparados começaram a cair num sono tranqüilo em meio à algazarra da cantoria, dos gritos e risos.

Thirrin estava debatendo com o barão da Terça Central as reais vantagens e desvantagens do arco e flecha em comparação com o mosquetão, quando se deu conta de que Oskan tinha se levantado e olhava para o fundo do salão-mor. Ela acompanhou seu olhar e viu quando as portas imponentes se abriram e um grito de advertência soou. Caiu sobre o salão um silêncio tão completo e fatal quanto o gelo do meio do inverno e todos os olhos se voltaram para ver dez homens da guarda do palácio que avançavam arrastando um lobisomem no meio do grupo.

Seus braços estavam amarrados à haste de uma lança que tinha sido posta de um lado a outro dos seus ombros e uma corrente pesada prendia suas pernas forçando-o a andar com passinhos ridículos. Mesmo assim, os guardas se mantinham a certa distância, pressionando suas lanças na carne do animal com tanta força que Thirrin pôde ver sangue escorrendo pela densa pelagem negra. Revoltada, ela se pôs de pé de um salto e, antes que o estranho grupo chegasse ao tablado onde ela estava, sua voz enfurecida cortou o silêncio.

— Tratem de soltá-lo! — Os guardas pararam e olharam para ela, admirados. — Soltem meu aliado agora e deixem que ele se aproxime da mesa principal.

A Princesa parecia estar quase em chamas com o cabelo ruivo sobressaindo em torno da cabeça como um halo de ira e os guardas se apressaram a soltar o lobisomem. Ouviu-se um suspiro quando as correntes caíram e as mãos foram liberadas da haste da lança. Ele ficou um instante esfregando os pulsos e depois se dirigiu para o tablado a passos largos. Os guardas de imediato aprestaram suas lanças e formaram uma barreira de escudos em torno da mesa principal.

— Larguem as lanças e se afastem! — ordenou Thirrin, áspera. O comandante da guarda olhou para Redrought, que concordou em silêncio. Com isso, à medida que os soldados se afastavam lentamente, o lobisomem se aproximou da mesa e se abaixou apoiado num joelho. O forte silêncio que mais uma vez se abateu sobre o salão foi interrompido por um som de gemido e fungação, enquanto a criatura contorcia o rosto, no esforço de usar a fala humana. Por fim, uma súbita explosão de sons irrompeu da sua boca.

— Salve princesa Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, herdeira do reino humano da Terra do Gelo. Saudações do meu senhor, o rei Grishmak do Povo-Lobo. — A forte vazão de sons roufenhos reverberou nas paredes de pedra do salão e Thirrin respondeu, aceitando o cumprimento.

— Saudações a meu aliado, o rei Grishmak. Que notícias seu enviado nos traz?

— Minha senhora, sua terra foi invadida! O Povo-Lobo está reunindo forças, mas receamos chegar tarde demais. — O homem-lobo reassumiu o controle da voz e baixou um pouco o volume; mas ela ainda ecoava, rompendo o silêncio do salão. — Os exércitos do Polipontus já atravessaram o passo da montanha no sul e seu povo está lutando para detê-los.

— Eles já invadiram! — vociferou Redrought. — Quando? A que horas? Quantos?

— Ao amanhecer de hoje e seus contingentes são mais de dez vezes superiores ao exército desta terra que lhes opõe resistência.

— Dez vezes! — berrou Redrought. — Preciso de números exatos, detalhes, tipos de armamento. Mas imagino que você não saiba contar.

A criatura se ergueu até atingir sua altura total e encarou Redrought nos olhos.

— Nada escapa a meu povo se quisermos ver. Agora sei que minha notícia não é totalmente inesperada. Vocês deviam saber da chegada da guerra, mesmo que não saibam quantos guerreiros o inimigo tem. Mas meu povo sabe contar e por isso posso lhe dizer que os polipontinos têm vinte mil soldados de cavalaria, trinta mil que levam paus que matam com barulho e cinqüenta mil soldados com lanças compridas. Eles também têm com eles uns tubos de metal sobre rodas, parecidos com os paus de matar com barulho, mas maiores.

— Canhões! — disse Thirrin. — Quantos?

— Duzentos.

— Cem mil soldados e duzentos canhões! — disse Redrought, arfando. —A senhora Theowin e seus guardas-da-coroa não conseguirão nunca detê-los. — De repente, ele se levantou e chamou seus comandantes pelo nome. Vultos vieram correndo dos quatro cantos do salão. — Cerdic, Gunlath, Eobold, Athelstan. Convoquem sua cavalaria e mandem emissários às cidades afastadas. Vamos antecipar a concentração de tropas. Partiremos dentro de duas horas!

— Mas meu senhor! — protestou o comandante Athelstan.

— Como podemos ter certeza de que essa não é alguma artimanha do rei e da rainha dos vampiros? Como podemos ter certeza de que eles não estão atraindo nossas melhores tropas para o sul, para poder nos atacar pelo norte?

— Porque o rei Grishmak é meu aliado! — exclamou Thirrin.

— E porque Oskan, o Filho da Bruxa, ouviu e traduziu as mensagens do Povo-Lobo ontem à noite. Eles não poderiam saber que nós entenderíamos seus uivos.

— Quer dizer que foi assim que vocês souberam — comentou o lobisomem. — Onde está esse humano que entende nossa língua?

— Seria bem possível que o filho da bruxa fosse aliado da Terra-dos-Fantasmas. Como vamos saber que ele não faz parte de uma conspiração? — insistiu Athelstan.

Os olhos azuis de Thirrin faiscaram com uma raiva feroz; mas, antes que ela pudesse falar, um forte grito vindo da entrada do salão atraiu todos os olhares para um soldado de trajes sujos pela viagem, que era escoltado até o tablado por dois guardas do palácio. Ele parou diante do rei, saudou-o e pôs uma flecha em cima da mesa.

— Meu senhor, sou da Terça Sul. Fui enviado com a flecha do chamado pela senhora Theowin. O Polipontus nos invadiu e nosso exército está em enorme desvantagem em números.

Redrought deu uma risada estrondosa.

— Creio que aí está sua resposta, Athelstan. Vamos pôr de lado todos os medos. Agora não desperdice mais tempo: concentre sua tropa!

— Mas e os números desse exército invasor, meu senhor? Cem mil deve ser um erro. Como se pode esperar que criaturas como essa consigam contar direito? — perguntou Athelstan, turrão.

A cor do rei ficou mais forte e sua voz roncava num tom ameaçador quando ele falou.

— Suponho que você aceite o informe desse soldado. — Sem esperar por resposta, ele se voltou para o emissário: — E então?

— Meu senhor, o exército do Polipontus é gigantesco. Eles têm cinqüenta mil lanceiros, trinta mil mosqueteiros e vinte mil na cavalaria. Além disso, têm duzentos canhões. A milícia e o exército da Terça Sul estão em desvantagem de dez para um.

Redrought lançou um olhar injetado para Athelstan.

— Comandante, creio que isso responde a cada uma das suas dúvidas. De algum modo, creio que os exércitos do Polipontus não são sua maior preocupação no momento. Você atraiu a desaprovação da princesa Thirrin. É melhor sumir daqui e tratar de concentrar seus contingentes!

O rei então sacou a espada e subiu desajeitado para cima da mesa.

— Inimigos entraram na Terra do Gelo! — berrou, com sua voz de combate mais alta. — Eles matam nosso povo, ameaçam nossas cidades, incendeiam nossos campos e escravizam nossos filhos. Sangue! Raios! E fogo!

A guarda do palácio começou a bater lanças em escudos e um canto lento começou num ritmo sem trégua que foi crescendo até chegar a um barulho ensurdecedor que batia no teto do salão.

— FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! Todos os presentes no salão-mor entraram no ritmo, batendo nas mesas com o punho, prato e faca e pisando forte no chão, de tal modo que se tinha a impressão de que um enorme exército de gigantes estava saindo em marcha para esmagar os insignificantes soldados do Polipontus.

— FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora!

E em toda aquela enorme erupção de espírito de luta, somente Oskan notou que a terrível figura belicosa de Redrought Forte -no-Braço Escudo-de-Tília, Urso do Norte, Bebedor de Sangue, ainda estava usando chinelos fofos e que Primplepuss, a gatinha, escondida no colarinho da sua camisa, espiava para ver o que significava aquele barulho todo.

 

Foi terrível a decepção de Thirrin. O presente de Iule dado por Redrought, uma nova sela de combate, estava onde ela a tinha jogado no canto do quarto. Tinha também conseguido fazer uma mossa no bojo do seu escudo quando o atirou furiosa na parede. O rei ia para a guerra sem ela! Estava a ponto de estourar. De início, considerou a decisão a pior das humilhações possíveis; mas, depois que se passaram os primeiros momentos de raiva e decepção, teve tempo para pensar e aos poucos sua atitude mudou. Redrought podia não querer levá-la para enfrentar o poderoso exército do Polipontus, mas diante de toda a casa real reunida ele a proclamara sua regente e lhe dera o grande anel de Estado. O poder de governar era agora dela na ausência do rei. E não apenas isso: ele também lhe dera um nome de guerra. Agora deveria ser conhecida oficialmente pelo nome de Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte.

Gata Selvagem do Norte — gostava do nome. Gostava muito. Olhou-se no espelho que tinha sido importado do continente meridional e sorriu. Mas não lhe sobrava tempo para aproveitar a sensação. Tinha muito a fazer. O rei partiria com a cavalaria em menos de uma hora e era preciso evacuar a cidade.

Um apressado conselho de guerra tinha chegado à conclusão de que, como as estradas não estavam obstruídas pela neve, qualquer inimigo vitorioso conseguiria avançar com facilidade para o norte, entrar em Frostmarris e capturar a cidade e seus moradores antes que qualquer defesa pudesse ser organizada pela pequena guarnição que seria deixada na retaguarda. Seria muito melhor que o povo de Frostmarris se retirasse para o norte, buscando refúgio na província controlada pelos hipolitanos. Esse era outro povo, de guerreiros ferozes, que também vivia dentro das fronteiras da Terra do Gelo e devia lealdade ao rei. A mãe de Thirrin tinha sido membro da sua aristocracia e seu casamento com o rei Redrought fortaleceu os laços já existentes entre os dois povos.

Da sua província, seria possível organizar um contra-ataque na primavera. As neves podiam estar atrasadas, mas acabariam vindo. E, quando viessem, nem mesmo os poderosos exércitos do Polipontus conseguiriam se movimentar. Não faltaria tempo durante os longos meses da noite hibernal para fazer planos para a guerra.

Enquanto tudo isso passava pela cabeça de Thirrin, ela estava se aprontando com sua melhor armadura completa: cota de malha, elmo, escudo, sabre pesado e machado de cabo curto. A familiaridade e o peso reconfortantes acalmavam seus nervos e lhe davam um sentido maior de objetivo, não que ela precisasse de muita ajuda. Já tinha transmitido suas primeiras ordens aos principais cidadãos para começar a evacuação de Frostmarris. Todos os carroções e cavalos estariam à espera em pontos de concentração designados e os cidadãos viriam se reunir trazendo os poucos pertences que lhes seria permitido levar. Havia muito tempo, Redrought tinha traçado seus planos para a guerra e repetidas vezes o exército e a população participavam do treinamento. A única diferença era que dessa vez era para valer. Uma das poucas vantagens de ser um país pequeno, com muitos inimigos num mundo perigoso, era a presteza com que as pessoas se dispunham a enfrentar problemas sem reclamar muito.

Thirrin afivelou o cinto, prendeu a última tira e seguiu para a porta a passos largos. Estava começando a virar a maçaneta quando lhe ocorreu um pensamento óbvio e devastador. Todos os planos e evacuações pressupunham que Redrought seria derrotado e morto! Ficou ali parada, com a cabeça encostada na madeira da porta, enquanto absorvia a idéia. Estava fazendo planos para a eventualidade da morte do pai.

O homem enorme com a voz como uma tempestade nas montanhas, uma risada semelhante a uma avalanche e um senso de diversão quase infantil. Sempre que pensava nele como rei, ela se lembrava das vitórias em combate e da sua capacidade para governar o país. Mas, como pai, ele era o homem que a tinha criado, que brincava de urso com ela quando pequena, perseguindo-a pelos corredores do palácio, com roncos ensurdecedores, e fingindo devorá-la quando a levantava do chão. Como pai, ele era o homem que gostava de gatos, se queixava dos calos e tinha uma coleção ridícula de chinelos fofos. O que ela faria se ele morresse em combate?

Por um instante, o pânico ameaçou dominá-la, mas então ela endireitou os ombros e jogou a cabeça para trás. O que faria? Seria uma filha digna do pai, vingaria sua morte e lideraria o povo com bravura e estilo. Ela era Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, e, se seu pai morresse na batalha, conquistaria seu lugar de direito em Valhalla, podendo lá descansar feliz, por ter conhecimento de como ela era forte.

Ela abriu a porta e saiu para o corredor. O palácio fervilhava como um formigueiro que alguém chutou. Serviçais se apressavam de um lado para outro, soldados também corriam para cumprir obrigações de última hora enquanto os cães de caça latiam e uivavam ao captar o estado de espírito geral. Em sua maioria, os convidados para a festa de lule já tinham ido embora, dispersando-se cada um para sua casa, para se preparar para a emergência. Thirrin estava procurando Maggiore e Oskan. Seu primeiro ato como regente tinha sido pôr em funcionamento o plano de evacuação da cidade e o segundo, designar como seus conselheiros oficiais aquele que agora era seu ex-preceptor e o filho da bruxa.

Oskan pareceu ficar confuso quando o rei concordou com sua indicação e, quando os homens da guarda do palácio deram sua aprovação ruidosa, ele se retraiu como se fossem atingi-lo. Apesar da situação de emergência, Thirrin deu um largo sorriso. Ela sabia que o filho da bruxa era mais do que aparentava ser. Nele havia algo de incomum, provavelmente mágico, embora ela ainda não soubesse ao certo exatamente que forma esse aspecto poderia assumir. Mas, não importa o que acabasse se revelando, ela estava determinada a tirar bom proveito disso.

Chegou aos aposentos do pai para encontrar o rei sentado confortavelmente na poltrona enquanto Grimswald se alvoroçava para lá e para cá, abrindo cômodas e falando com os criados em tom áspero. Oskan e Maggiore estavam parados ali perto, o homem mais velho bebericando de um belo copo de cristal lapidado enquanto o filho da bruxa roía as unhas. Quando se aproximou, Thirrin deu um tapa nas mãos de Oskan, afastando-as da boca, e ele, envergonhado, escondeu as mãos nas costas.

— Ah, Thirrin, que bom! A concentração de tropas está quase pronta. Acho que temos uns dez minutos para as decisões finais — disse Redrought, feliz, com a voz retumbante.

— Decisões finais?

— É. Vou deixar Primplepuss com você — disse ele, afagando carinhosamente a gatinha. — Certifique-se de que ela seja alimentada corretamente e trate de lhe dar atenção constante ou ela ficará magoada.

— Certo, papai — respondeu Thirrin, achando que uma hora tão importante na história do país precisava ser assinalada por algo mais significativo do que instruções de como alimentar a gatinha real.

— Ah, e vou deixar Grimswald também com você.

O súbito ruído metálico, quando o velho camareiro deixou cair uma peça da armadura do rei, demonstrou claramente que ele não tinha conhecimento dessa parte.

— Mas, meu senhor, sempre o acompanhei em campanha! Quem mais vai cuidar do que lhe for necessário? Quem mais conhece exatamente a disposição preferida para seus aposentos?

— Ninguém, Grimmy — respondeu o rei, com bondade na voz. — Mas vou me movimentar com velocidade e sua velha mula nunca vai conseguir acompanhar o ritmo.

— Mesmo assim, o rei tem uma dignidade e um sentido de majestade a manter — insistiu o velho camareiro. — Eu poderia acompanhá-los no meu próprio ritmo, para ir ao seu encontro mais tarde, depois da batalha.

Redrought se calou, como era raro fazer, mas então respondeu, com cuidado:

— É provável que eu não necessite dos seus serviços depois da batalha, Grimmy.

No silêncio que acompanhou essas palavras, os olhos de Thirrin se encheram de lágrimas e Grimswald começou a chorar, assoando o nariz ruidosamente e olhando para o rei como uma criancinha que assiste à inesperada partida do pai para sempre.

— Além disso — vociferou Redrought, com a voz mais ou menos no volume habitual —, você está velho demais. Se você fosse um cavalo, eu já o teria liberado do serviço para morrer no pasto há anos... ou já o teria comido.

O velho camareiro deu um sorriso, como tinha sido a intenção do rei.

— Agora, trate de se certificar de ter arrumado todos os mapas e cartas. Acho que algumas ficaram na câmara do conselho.

Grimswald fez uma reverência e então, quase com timidez, apanhou a mão do rei e a segurou por um instante. Depois, enrubescendo por ter desrespeitado as normas da etiqueta, saiu apressado para cumprir a tarefa.

— Mantenha Grimswald ao seu lado, Thirrin. Ninguém é melhor do que ele para organizar um palácio e ocasiões de cerimônia são sua especialidade. Nunca se sabe. Pode acontecer de no futuro vir uma época em que a rainha da Terra do Gelo precise dos conhecimentos que ele tem de precedência e procedimentos. Além disso, trinta anos de serviços não deveriam terminar num campo de batalha.

— Vou cuidar para que ele fique bem, papai — respondeu Thirrin, em voz baixa.

— Ótimo — disse Redrought, com um tom de quem encerra o assunto, mas então acrescentou: — Em breve a Terra do Gelo será sua, Thirrin. Você foi criada e formada para isso, de modo que sabe o que está fazendo.

— Sei, papai — murmurou Thirrin, sem conseguir confiar na voz.

— Sem nenhuma neve para bloquear as estradas, vou precisar derrotar essa força invasora, se for possível. Se não for assim, todo o país estará desprotegido e ninguém estará preparado para tentar detê-los. Mas, se eu conseguir arrasá-los, não restará nada do nosso exército. E você vai precisar de toda ajuda que conseguir obter, porque o Polipontus enviará outras forças. O velho Scipio Bellorum não desistirá com tanta facilidade. Quando as neves chegarem, você estará segura por todo o restante do inverno e poderá se preparar para a ofensiva na primavera. Você já fez aliança com o Povo-Lobo. Pode ser que haja outros que a ajudem.

— Quem?

— Não tenho certeza... mais para o norte, para lá da Terra-dos-Fantasmas. Ouvi rumores de algum tipo de povo por lá. Mas não sei. Descubra. Por trás da cara mais improvável, pode haver alguém com quem fazer amizade.

— E o rei e a rainha dos vampiros?

— Bem, esses são os que têm a cara mais improvável de todas. Mas, se alguém conseguir fazer aliança com eles, esse alguém é você. Você é diferente. Talvez seja a parte da sua mãe. A cada dia, está mais parecida com ela. Quando sorri, eu a vejo de novo, minha corajosa donzela escudeira dos hipolitanos. — Ele deu um sorriso triste.

Um súbito rebuliço do lado de fora da porta indicou a chegada de um mensageiro que vinha informar ao rei que a concentração de tropas estava terminada.

Thirrin avançou correndo, abraçou Redrought com força e o beijou. Doía saber que essa era provavelmente a última vez que via o pai.

— Adoro você, papai — murmurou ela, no seu ouvido. Depois recuou um passo, com uma expressão firme no rosto, quando o soldado entrou. Redrought ergueu a mão e o soldado esperou, calado.

— Maggiore Totus e Oskan Filho da Bruxa, vocês dois ocupam o posto sagrado de conselheiro real. Estão à altura da missão?

— Não, meu senhor — disse Oskan, sem pensar.

— Ótimo! — respondeu Redrought, com a voz retumbante voltando ao nível normal. — Eu teria ficado preocupado se você achasse que estava. Basta dizer a ela o que você pensa francamente e não dar atenção aos seus rosnados. Isso fará com que ela pense ainda mais.

— Não se preocupe, meu senhor — disse Maggiore, com sua delicada voz cantada. — Faremos o máximo para cuidar bem dela.

O rei lhe deu um sorriso simpático e então apanhou o escudo.

— Bem, lá vamos nós! — berrou para o jovem soldado, que aguardava ali, calado. — Temos uma briguinha à nossa espera.

Quando a porta se fechou com violência depois da sua passagem, um enorme vazio de silêncio preencheu o aposento, enquanto Primplepuss, que estava observando tudo atentamente do seu lugar na poltrona de Redrought, ficou ali parada, com o olhar fixo onde eles tinham sumido. Mas a porta permaneceu fechada e daí a algum tempo ela olhou para Thirrin e abriu a boca num miado que quase não se ouviu.

Um vento gelado mantinha o campo de batalha limpo da fumaça dos canhões e mosquetes, de modo que Redrought tinha uma nítida visão da luta. Ele e a senhora Theowin estavam a cavalo num monte com vista para o terreno rochoso fechado entre a cadeia montanhosa das Donzelas Dançarinas e as águas congeladas do rio Freme, onde os dois exércitos lutavam para destruir um ao outro. Por um instante, o rei ficou impressionado com a incrível beleza da batalha. Os pífanos e tambores do exército polipontino trilavam e roncavam sempre que o vento trazia o som na sua direção. E os diferentes regimentos se movimentavam com uma precisão e graça que Redrought considerou quase comoventes. Os soldados inimigos usavam cores vivas, peitorais de metal muito polido sobre calças e gibões vermelhos, amarelos ou azuis, dependendo do regimento ao qual pertencessem. Esses, acompanhados das fitas e plumas que também faziam parte da farda, quase brilhavam em contraste com o couro e o aço do exército de Redrought.

Pelo lado esquerdo, os guardas-da-coroa da Quarta Sul estavam avançando contra uma linha de mosqueteiros e lanceiros, enquanto no meio a infantaria da milícia estava conseguindo resistir surpreendentemente bem contra os espadachins polipontinos. No alto do monte, parecia a Redrought ser quase possível esquecer a dor e o sangue da guerra; mas, quando o vento mudava, os berros dos feridos se abatiam sobre eles como uma onda enorme até o vento mudar novamente de direção e mais uma vez tudo dar a impressão de um bale mudo.

Ele esperou pelo momento exato antes de dar o sinal para que a cavalaria da Quarta Sul invadisse o campo; com os soldados sacando os sabres de uma só vez, num arco elegante que cintilou ao sol. Depois soou um clarim e os cavalos saltaram adiante em pleno galope, simulando uma investida contra o centro das forças polipontinas, onde os mosqueteiros deram uma saraivada de tiros e os lanceiros cerraram fileiras prontos para receber o impacto da investida. Mas, no último momento, numa curva calculada, a cavalaria se desviou para por fim se abater como uma sólida muralha de cavalos e aço sobre a ala direita do inimigo. Redrought via nitidamente os cavalos treinados para o combate atacarem com os cascos a linha à sua frente enquanto os membros da cavalaria golpeavam com sabres os soldados polipontinos. Por um instante, a linha inimiga hesitou, cedendo terreno diante da ferocidade do ataque, mas em seguida um regimento de infantaria de reserva se aproximou e conseguiu salvar a posição.

Redrought ficou profundamente impressionado com a disciplina que os invasores demonstraram o tempo todo. De início, sentiu certa decepção ao ver que Scipio Bellorum não estava em pessoa no comando do exército; mas, não importava quem fosse aquele general, ele era ardiloso e determinado, apesar de um pouco carente de imaginação.

— Táticas de combate ao pé da letra — comentou Redrought com a senhora Theowin, enquanto o exército polipontino reagia quase mecanicamente a cada problema que ele apresentava. — Vai ser um choque tremendo quando descobrirem que perderam a batalha.

Esse era o segundo dia de combate e já estava quase na hora da última investida. A senhora Theowin tinha seguido uma brilhante tática de contenção até a chegada do rei, usando seu pequeno contingente para atormentar os polipontinos e retardar seu avanço, tanto que eles tinham conseguido cobrir apenas pouco mais de um quilômetro e meio depois de conseguir forçar a entrada pelo passo das montanhas. Era claro que, ali tão perto das montanhas, o terreno era rochoso e as ravinas e encostas íngremes, cobertas de cascalho, se tornaram pontos ideais para emboscadas, de onde Theowin comandava ataques quase suicidas, de investida veloz e retirada imediata.

Redrought agora olhava disfarçadamente para ela enquanto Theowin, tranqüila, montada no cavalo, assistia à batalha. Seu perfil era o de uma águia velha e feroz, pensou ele. A viseira do elmo mal conseguia cobrir a enorme curva do seu nariz e os olhos de um azul brilhante não revelavam nada além de frieza e cálculo enquanto a batalha ora favorecia um lado, ora o outro. Trazia a longa cabeleira, cinzenta como o aço, presa em duas tranças, que estavam enroladas por cima das orelhas, de tal modo que ela parecia estar usando dois elmos menores logo abaixo da borda do elmo verdadeiro. Também tinha pintado uma linha negra abaixo dos olhos e mastigava alguma coisa que tingia os dentes brancos e fortes de um vermelho sangue. Redrought estremeceu. Quantos soldados polipontinos tinham tido aquele rosto velho e feroz como sua última visão antes que a escuridão final os levasse? Sentiu-se grato por ela ser sua aliada.

Voltou a atenção para a batalha e iniciou seus movimentos finais. Deu o sinal e a bateria de bestas começou sua barragem, com as enormes máquinas sobre rodas arremessando nuvens e mais nuvens de flechas de aço cortante contra as fileiras inimigas. Um dos poucos canhões que restavam respondeu ao ataque, mas seu alcance era muito curto para atingir a posição de Redrought. A quantidade dos grandes armamentos foi reduzida em mais de três quartos após o primeiro dia de combate, quando o rei comandou a cavalaria no ataque contra as baterias inimigas. Depois que Redrought calculou quanto tempo era necessário para reposicionar cada canhão e recarregá-lo, foi uma simples questão de cercá-los e atacar entre os tiros. Se o general inimigo tivesse tido um pouco de criatividade, é claro que teria posicionado os canhões em círculos ou quadrados defensivos, protegendo-os com lanceiros, mas felizmente esse general não era nenhum Scipio Bellorum. Ele já dispunha de uma vantagem numérica suficiente. Se também tivesse talento tático, a Terra do Gelo teria perdido a batalha no primeiro dia.

Redrought agora dava ordens aos regimentos de arqueiros e eles também começaram a arremessar nuvens de flechas devastadoras contra as posições inimigas. Era realmente uma pena que não dispusesse de mais arqueiros. O alcance real das flechas era mais que duas vezes superior ao dos mosquetes e era possível lançar seis flechas por minuto em comparação com uma única salva desfechada pelas armas pesadonas. No primeiro dia da batalha, os arqueiros tiveram um duelo breve porém sangrento com os mosqueteiros, durante o qual os arqueiros exterminaram seus adversários sem sequer chegar ao alcance das armas inimigas.

No entanto, nem tudo tinha dado certo para a Terra do Gelo. A força invasora era enorme e extremamente disciplinada, movimentando-se com segurança e bravura contra os soldados de Redrought. E, muito embora seu general não fosse nenhum gênio, no mínimo era competente e era óbvio que tinha grande experiência. A milícia sofreu muito nos primeiros estágios da batalha e foi preciso recorrer a toda a astúcia de Redrought e à firmeza dos experientes guardas-da-coroa para manter a posição e impedir uma debandada. A senhora Theowin tinha sido também um coringa de valor inestimável, levando o terror ao inimigo onde quer que aparecesse, comandando a cavalaria em investidas ferozes que esmagavam as defesas mais fortes, para então fugir antes que a cavalaria polipontina revidasse. Repetidas vezes, sua chegada no último instante tinha sido a única salvação e os polipontinos aos poucos foram se desgastando.

Houve mais um fator que levou os soldados da Terra do Gelo a níveis mais altos de coragem do que jamais tinham atingido antes. Redrought fez com que se espalhasse o rumor de que ele próprio achava que Scipio Bellorum tinha decidido não comandar pessoalmente a invasão por acreditar que a vitória estava garantida. Aquele pequeno país seria presa fácil e o exército polipontino devastaria aquela terra, destruindo toda resistência e se apropriando do que quisesse. Eles escravizariam o povo — os entes queridos daqueles mesmos soldados que estavam agora lutando contra os invasores —, roubariam gado e bens e depois, quando tivessem esgotado a terra, destruiriam tudo o que para eles não tivesse serventia. Era provável que Bellorum achasse que a Terra do Gelo seria anexada ao enorme Império do Polipontus antes que se encerrasse uma estação de campanha.

Como Redrought esperava, os soldados se inflamaram com isso. Estava em jogo o orgulho pessoal e nacional e os polipontinos iam pagar caro por cada pedaço de terra que ocupassem.

E agora chegava a hora de Redrought jogar sua última cartada. O general polipontino não fazia a menor idéia de que ele estivesse disposto a sacrificar seu exército inteiro para impedir o avanço do inimigo. Thirrin precisava ter tempo para escapar para a província dos hipolitanos e não poderia restar um soldado inimigo que pudesse se valer do atraso da estação das neves.

— Chegou a hora, então, Theowin — disse ele à baronesa velha e feroz, com o cavalo parado ao lado dele.

— Chegou — respondeu ela, calmamente. E então prosseguiu em outro tom: — Mas, antes de avançar, gostaria de lhe pedir uma coisa.

Redrought ficou chocado ao perceber o que lhe pareceu quase um toque de pânico na voz dela.

— Peça! Se eu puder lhe dar, já é seu.

Ela hesitou como se estivesse procurando as palavras certas, o que preocupou Redrought ainda mais. Finalmente, falou:

— Depois que o barão morreu, nenhum homem chegou perto de mim em vinte anos. Parece que eu os espanto por algum motivo. Por isso... gostaria que meu senhor me beijasse. Que me deixasse sentir uma barba roçar meu rosto mais uma vez antes que eu morra.

No silêncio que se seguiu, ouvia-se nitidamente, ecoando pelo campo de batalha, o canto de guerra dos guardas-da-coroa.

— FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! — A feroz determinação naquela explosão de som deu ao rei o grau exato de coragem brutal de que precisava e ele de repente se inclinou na sela e beijou a boca da guerreira sinistra. Enquanto ele a beijava com firmeza, seus elmos bateram um no outro ressoando como sinos, o que atraiu a atenção do regimento de cavalaria concentrado de reserva por trás do morro e dos soldados se ergueu um brado de enorme entusiasmo.

Redrought deu uma risada estrondosa e então, pondo-se em pé nos estribos, sacou a espada e deu o sinal de avançar. A cavalaria saiu, abrindo um leque, descendo o morro a passo lento. A sua frente, Redrought via nitidamente como, ao longo dos dois últimos dias de combate, sua tática tinha oprimido os polipontinos, forçando-os a uma atitude defensiva. Agora estavam acuados, cercados pelo exército da Terra do Gelo, muito embora ainda estivessem em vantagem numérica de no mínimo três para um em relação às forças de Redrought. Talvez seu general tivesse a esperança de que eles se destruiriam, atirando-se contra seus contigentes mais numerosos e que ele acabaria vencendo a guerra de desgaste bastando para isso ficar sentado e aguardar. Mas não havia a menor chance de que isso ocorresse. Redrought estava pronto para encerrar a batalha naquele mesmo instante.

Os arqueiros ainda despejavam nuvens de flechas sobre as fileiras inimigas, concentrando a mira principalmente no centro, sabendo exatamente onde o tremendo golpe de Redrought cairia. Os polipontinos tinham posicionado os canhões que restavam nos ângulos de um quadrado defensivo e, no início do dia, devastaram as fileiras da Terra do Gelo. Mas Redrought reagiu rapidamente à ameaça, ordenando aos besteiros que, com suas longas flechas de aço, alvejassem essas baterias. O duelo se travou ao longo de duas horas e seu resultado foi que os canhões emudeceram com a morte das equipes que os manejavam. Enquanto isso, os guardas-da-coroa mantinham um ataque obstinado contra a ala esquerda do inimigo, suportando salvas e mais salvas dos mosquetes, para então correr adiante, protegidos por uma formação cerrada de escudos e atacar a linha de frente, forçando os polipontinos a recuarem. E, o tempo todo, a milícia espumava como um mar, avançando e recuando enquanto com sua passagem deixava uma quantidade de mortos, como destroços jogados na praia.

Redrought calculou sua hora até o último segundo possível. E então, debruçando-se para beijar a senhora Theowin mais uma vez, se ergueu nos estribos e lançou o grito de guerra da Terra do Gelo.

— Sangue! Raios! E fogo! Sangue! Raios! E fogo!

Os soldados da cavalaria se uniram a ele num enorme brami-do e, como um só corpo, saltaram à frente numa investida que fez tremer a terra. Os arqueiros aumentaram a velocidade com que atiravam as flechas e logo as estavam desfechando por cima das cabeças da cavalaria. Deixaram então de lado os arcos e, sacando espadas, avançaram para dar apoio aos outros.

Redrought ouvia o canto dos guardas-da-coroa enquanto sua cavalaria se abatia sobre as fileiras do exército polipontino e, com o vento gerado pela sua velocidade, seu cabelo tremulava e dançava como labaredas em torno do elmo. Mesmo naquele momento, a disciplina do inimigo era mantida e eles procuravam reorganizar as fileiras destroçadas enquanto a cavalaria da Terra do Gelo caía sobre eles, ensurdecedora. Uma salva de mosquetes irrompeu no ar gelado de inverno, atingindo direto as fileiras avançadas da cavalaria, mas foi tão eficaz quanto jogar pedras contra uma onda de maremoto e a investida prosseguiu, trovejante. Redrought berrava sua raiva e seu cavalo lhe fazia eco com relinchos enquanto penetravam na linha de soldados à sua frente. As fileiras inimigas foram rompidas e a cavalaria abriu uma cunha profunda na posição polipontina, com a senhora Theowin brandindo a torto e a direito um enorme machado e os cavalos atacando com as patas os soldados polipontinos à sua frente. Também os guardas-da-coroa entraram pela brecha na linha inimiga e foram constantemente abrindo caminho, cantando enquanto avançavam. No centro do exército polipontino, o general observava com calma, abaixo do estandarte de guerra de um cavalo branco em corrida, enquanto o exército de Redrought vinha arrasando suas linhas. Então, sacando a espada, ele berrou uma ordem e o que restava da sua cavalaria, antes poderosa, saltou adiante para ir de encontro aos soldados da Terra do Gelo.

Muitos dos mosqueteiros usavam as armas como clavas, por não terem tempo para recarregar no espaço restrito da luta corpo-a-corpo, e até mesmo alguns dos lanceiros, os destacamentos de maior sucesso das tropas inimigas, deixavam de lado suas lanças de seis metros de comprimento e sacavam cutelos. Em pé, ombro a ombro, os soldados polipontinos golpeavam e cortavam quem estivesse diante deles; mas os escudos dos guardas-da-coroa, em constante formação cerrada, os rechaçavam enquanto a louca turba das milícias avançava, dando berros selvagens.

Redrought e sua cavalaria ainda forçavam o avanço, empurrando o inimigo diante de si. Então, ao avistar o estandarte polipontino, ele fez o cavalo rumar na sua direção para enfrentá-lo, com o animal empinando e relinchando em desafio antes de investir. O rei e o general se defrontaram num forte retinir de espada contra espada. Redrought forçou seu inimigo para trás numa exibição feroz de furor guerreiro que terminou quando o Urso do Norte quebrou o braço do general através do escudo e lhe decepou a cabeça dos ombros. Os polipontinos recuaram, consternados, mas mesmo nesse momento sua disciplina prevaleceu e eles se reuniram em torno do estandarte para organizar uma desafiadora defesa de uma última posição, em torno de um pequeno morro no centro do campo.

Por um instante, toda a luta cessou. Era o estágio final da batalha e Redrought preparou sua cavalaria para a última investida. As linhas imperiais estavam eriçadas como um porco-espinho de aço, já que os lanceiros puseram as lanças em riste, e os mosqueteiros do inimigo que ainda tinham suas armas as recarregaram para aguardar num silêncio intimidante. A senhora Theowin parou o cavalo ao lado do rei, sorrindo por trás de uma máscara de sangue que lhe escorria pelo rosto de um ferimento no couro cabeludo, enquanto limpava com delicadeza a lâmina do machado num fino lenço de renda que tinha tirado não se sabe de onde.

— Vão dar trabalho para morrer, Theowin — disse Redrought, com calma.

— Vão mesmo — concordou ela. — São bons, não são?

— Muito bons. Mas nós quase arrasamos com eles e, quando chegarem quaisquer reforços do Polipontus, o melhor general de toda a Terra do Gelo estará à espera deles e nem mesmo Scipio Bellorum conseguirá derrotá-lo.

— O melhor general da Terra do Gelo? — perguntou a Senhora Theowin. — Quem é?

— Ah, você o conhece bem. Todos nós conhecemos: o general Neve e seu aliado, o marechal Gelo. Não existe exército que consiga avançar em meio a uma das suas nevascas, nem passar por qualquer estrada que eles tenham bloqueado. Theowin riu.

— Nenhum exército mesmo — concordou ela e então apontou com o machado para as linhas polipontinas. — Vamos?

Redrought fez que sim. Em pé nos estribos, ergueu a espada bem alto e, com a voz trovejante, deu a ordem de avançar. Com um grito forte, os soldados da Terra do Gelo se abateram sobre as linhas inimigas. Uma salva de tiros de mosquete os atingiu à queima-roupa, abrindo um rombo no corpo da milícia, mas mesmo assim eles não paravam de avançar, com a tropa inteira entoando o canto de guerra dos guardas-da-coroa:

— FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! Redrought e sua cavalaria colidiram contra a linha de lanceiros inimigos, afastando-os com um bramido enorme, gritos rasgando o ar enquanto tombavam soldados de ambos os lados. Muitas selas ficaram vazias pelo golpe das lanças compridas, mas pela brecha avançaram velozes os guardas-da-coroa e a milícia, investindo contra as tropas imperiais até restar um pequeno grupo lutando em torno do estandarte de guerra, que oscilava para lá e para cá à medida que mãos desesperadas procuravam tomá-lo e soldados polipontinos o defendiam com fúria. Tanto Redrought como Theowin tinham perdido a montaria e agora comandavam a pé a luta pela posse do estandarte de guerra, golpeando a esmo os adversários renitentes à sua frente.

Os dois lados perderam soldados em enorme quantidade enquanto o rei ordenava um ataque após o outro contra os inimigos na defensiva, que, com sua admirável disciplina inabalável e reorganizando continuamente a linha de frente, negavam à Terra do Gelo seu estandarte. Afinal, porém, Redrought derrubou suas defesas no exato instante em que a senhora Theowin tombava sob uma saraivada de golpes de espada.

Com um urro de ódio e tristeza, Redrought avançou, derrubando todos os que lhe surgiam pela frente, com golpes largos do machado que tirou da mão sem vida de Theowin. Os últimos soldados polipontinos lutavam ferozes, mas tombaram pelo machado do rei, até que por fim ele se encontrou lutando sozinho contra o porta-estandarte, de todo o exército invasor o último homem ainda em pé.

O porta-estandarte usava o elmo emplumado e armadura elegantemente dourada de seu posto, mas sua espada estava suja de sangue e era afiada como uma navalha e ele lutava pela honra de seus companheiros caídos. Redrought e o porta-estandarte esgrimiram, girando em torno do eixo do mastro da bandeira que o soldado polipontino tinha fincado fundo no chão. Cada golpe da sua espada era movido pelo desespero e por uma sede insaciável de matar o rei bárbaro que tinha destruído seu exército; mas ele também era um veterano de mais de vinte campanhas e lutava com a habilidade da sua longa experiência. Investida e estocada, parada e finta, a economia e o controle das suas táticas eram estupendos. Mas Redrought não tinha nem o tempo nem a vontade de admirar o esmero com que o outro esgrimia e, detectando uma súbita brecha na defesa, cortou fundo no encontro entre o pescoço e o ombro, derrotando o último polipontino.

Vitorioso, Redrought apanhou o estandarte de guerra e o segurou no alto com um enorme brado de euforia. No entanto, aos seus pés, o porta-estandarte foi dominado por uma onda de ódio que o impeliu, apesar da dor. E, com seu último alento, estendeu a mão para cima e fincou a espada fundo na barriga de Redrought.

Um estranho silêncio se abateu aos poucos sobre o campo de batalha. Só se ouviam os gemidos dos mortos e os lamentos do vento gelado.

 

Thirrin ficou olhando enquanto o último carroção passava pesado pelos portões da cidade e então, sem pressa, fez com que seu cavalo avançasse. O silêncio de Frostmarris era perturbador e até mesmo o perfume de lenha queimada típico do inverno tinha sumido, deixando as ruas com um cheiro extraordinariamente neutro, a não ser pelo eventual odor acre de estrume nos lugares onde um dos muitos cavalos tinha largado uma pilha.

Em seus mil anos de história, a capital tinha sido evacuada só uma vez antes; mas, com as estradas abertas em razão do atraso das neves, eles não tinham realmente opção. Thirrin precisou admitir que, se os polipontinos saíssem vitoriosos, Frostmarris estaria à mercê deles e resistir a um cerco ali no inverno seria impossível. Seu cavalo estava se aproximando do arco que levava ao longo túnel de entrada a partir do portão principal e, puxando as rédeas, ela olhou de volta para a fortaleza real em seu morro proeminente. O estandarte de guerra da Terra do Gelo ainda tremulava no alto da torre, com o urso branco em pé, realçado com nitidez no vento gelado em contraste com o azul imaculado do céu.

— Volto na primavera — murmurou ela. — E volto com um exército que há de rechaçar qualquer invasor, até mesmo Scipio Bellorum!

Fez o cavalo entrar pelo túnel, fechando os olhos para se proteger do vento frio e enregelante que vinha do mundo lá fora e se afunilava por ali; mas afinal chegou ao portão principal e passou para o sol luminoso de um revigorante dia de inverno. Oskan esperava por ela com uma escolta montada de dez homens; mas ela dispensou os soldados mandando que seguissem mais adiante e, conseguindo captar o olhar do filho da bruxa, apontou autoritária para seu lado.

Oskan estava montado numa mula tranqüila, com as orelhas compridas como espadas e uma cara parecida com a de um camelo que estivesse achando graça de alguma coisa. E, embora pudesse ver que o animal era forte e bem-disposto, Thirrin teria preferido que um dos seus conselheiros mais importantes tivesse escolhido um cavalo treinado para a guerra.

Thirrin olhou ao longe na planície, até onde a longa serpente sinuosa de carroções, cavalos e gado avançava vagarosa em seu trajeto pela estrada do norte.

— Precisamos andar mais rápido se quisermos chegar aos hipolitanos antes das neves.

— Maggiore Totus está cuidando disso agora — respondeu Oskan. — Ele deu ordens ao comandante da cavalaria para que aumente o ritmo e mandou posicionar guias na retaguarda para forçar os retardatários a avançar.

Ela aprovou a decisão e então perguntou:

— Onde foi que você encontrou esse animal?

— Foi o cavalariço-mor que me deu — disse Oskan, afagando o pescoço da mula. — Jenny é simpática e amável, além de ter a força de dois cavalos.

— Jenny? — Lá de cima da enorme altura do seu cavalo, Thirrin olhou para ele.

— É. Combina com ela, você não acha? Ela sabe que não monto muito bem e faz vista grossa.

— É mesmo? — perguntou Thirrin, num tom gelado como o vento. — E será que Jenny consegue acompanhar o ritmo de pleno galope? — Com essas palavras, a princesa e seu cavalo se lançaram à frente, disparando pela estrada de acesso à cidade para chegar à planície. Oskan foi atrás, agarrando-se desesperado quando a mula de repente mudou o passo para uma velocidade surpreendente. A certa altura, ela deu a impressão de estar mesmo alcançando o alto cavalo que seguia disparado à sua frente, mas Thirrin puxou as rédeas para fazer alto e mal conseguiu esconder seu espanto quando a mula logo parou ao seu lado com Oskan, sem fôlego, agarrado ao seu pescoço.

— Acho que ela serve — admitiu Thirrin.

Durante o resto da manhã, o comboio de carroças foi seguindo pela estrada, a uma velocidade ligeiramente maior, com a escolta da cavalaria indo para cima e para baixo, insistindo com os carroceiros para que avançassem. Na vanguarda da coluna, ia Thirrin, com seus dois conselheiros e os comandantes dos destacamentos reduzidos da cavalaria e dos guardas-da-coroa. O choro de bebês, latidos de cachorros e queixas dos cidadãos iam se avolumando e se desdobrando pela planície enquanto eles avançavam lentamente e com grande dificuldade; mas no fundo todos estavam muito animados. Redrought sempre dizia que o povo de Frostmarris revelava seu melhor lado numa situação de crise e parecia que ele estava com a razão. Não havia brigas; eram poucas as desavenças e, embora se ouvissem muitos gemidos, ninguém se recusava a ajudar quando necessário.

Tudo parecia estar indo tão bem quanto as circunstâncias permitiam. Mas, mesmo assim, a preocupação de Thirrin era desesperadora. Como poderia ter esperança de conduzir sua gente em segurança até os hipolitanos bem no meio do inverno? Tinha sorte por ainda não ter nevado, mas sabia que isso seria apenas uma questão de tempo e então o que haveria de fazer? Seus conselheiros eram um velho que entendia mais de livros do que da realidade da guerra e um garoto que era praticamente da sua idade. Não tinha ninguém com quem contar e, aos catorze anos, simplesmente não se sentia preparada para guiar ninguém, muito menos toda a população de uma cidade, a lugar nenhum.

Apesar disso, como aparentava ser uma líder forte, o povo parecia ter uma espantosa confiança nela e executava seus planos com prazer. Uma das lições mais importantes que tinha aprendido recentemente foi a de que aparentar força e confiança às vezes era tudo o que o povo exigia do seu líder.

Mesmo assim, à medida que o tempo foi passando e que as margens da Grande Floresta foram se aproximando, começou a surgir uma inquietação entre os refugiados. O trajeto até a segurança com os hipolitanos no norte passava pelo meio da enorme área coberta de árvores e muitas pessoas olhavam pesarosamente para a floresta, tomadas de um pavor supersticioso. Gerações de crianças malcomportadas tinham sido ameaçadas com bichos-papões e monstros da floresta e até mesmo adultos descobriam que seus sonhos eram invadidos por essas imagens terríveis, sentindo-se mais uma vez reduzidos a crianças por seus medos. E agora esses temores estavam se concretizando numa realidade apavorante, com os galhos rígidos e nus das árvores no inverno avultando no horizonte como uma gorda nuvem de tempestade. Só alguns caçadores se atreviam a andar por suas trilhas estranhas e, embora o exército enviasse patrulhas com bastante regularidade pela estrada do norte, para a maior parte da população, a floresta ainda era um lugar de mistério e pavor. E agora, à medida que se aproximavam dela, a floresta estava se esforçando para fazer jus à reputação que tinha, com o vento gélido encontrando ali sua voz, ao soprar pelos quilômetros de montes e vales cobertos de árvores, gemendo e uivando

melancólico, como fantasmas de lobos. Logo, até mesmo o bebê mais barulhento se calou e todo o gado parou seus constantes mugidos, com a aproximação cada vez maior daquela sombra enorme.

— Se estão preocupados só com a visão da floresta, esperem até que se dêem conta de que vamos armar acampamentos nela durante uma semana mais ou menos — disse Thirrin.

— É verdade — disse Maggiore Totus, corrigindo sem habilidade seu jeito de segurar as rédeas da égua mansa. — Creio que um lembrete dessa situação deveria ser transmitido aos cidadãos para abrandar o choque da realidade.

Thirrin concordou e acenou para o comandante da cavalaria.

— Diga ao povo que se certifique de ter tudo o que for necessário para acampar algumas noites na floresta.

O comandante bateu continência e se afastou, transmitindo a mensagem para os soldados.

— Talvez eu devesse falar com as pessoas — disse Oskan. — A maioria delas sabe quem eu sou e que moro na floresta. E todos podem ver que ela nunca me fez mal algum.

— Mas, meu caro Oskan — salientou Maggiore, em tom amável —, você é filho de uma bruxa. Reconhecidamente uma bruxa branca, mas bruxa mesmo assim, exatamente uma das... criaturas que o povo teme que vivem na floresta. Acredito ser melhor que você não os faça lembrar de quem você descende.

— Mas minha mãe era uma boa mulher, uma curandeira. Ela ajudou muitos cidadãos de Frostmarris.

— É verdade, mas creio que você não está levando em conta a mente coletiva de um grande grupo de pessoas assustadas. Se eles se lembrarem de que uma bruxa branca que os ajudou vivia na floresta, também se lembrarão da possibilidade de bruxas negras, que poderiam atuar exatamente do modo contrário.

Thirrin ouvia o debate, calada mas consciente de que precisaria aproveitar qualquer oportunidade que a ajudasse a manter o povo unido. Depois de um instante refletindo, ela falou:

— Acho que os cidadãos já pensaram o suficiente sobre as criaturas malignas que podem viver sob as árvores. Está na hora de fazer com que se lembrem de que o bem também pode viver ali. Vá falar com eles, Oskan.

Todos os que se encontravam perto o bastante para ouvir ficaram impressionados com a semelhança entre o jeito de falar da princesa e o do seu pai. E se tranqüilizaram com isso.

Oskan sorriu para ela e se afastou, seguindo ao longo da fileira de carroções, parando de vez em quando para conversar com um carroceiro ou com alguém que estivesse acompanhando o comboio a pé.

— Sei que é provável que você considere o que vou dizer uma superstição boba, Maggie, mas vou pedir a Oskan que realize... — Thirrin encolheu os ombros enquanto se esforçava para encontrar a palavra certa — alguma coisa... algum tipo de cerimônia antes que entremos na floresta. Algo que ajude as pessoas a acreditarem que de algum modo estão protegidas.

— Pelo contrário, senhora, concordo com a idéia — respondeu Maggiore, com um sorriso. — É sábio usar todos os recursos possíveis para manter os cidadãos calmos. Estarei lá, disposto a cantar não importa o que queira e espalhando tanto incenso quanto a senhora creia ser necessário.

— Obrigada, Maggie — disse ela, sorrindo. — Eu esperava que você dissesse algo semelhante.

O longo comboio de refugiados seguia tão devagar que já passava do meio-dia quando finalmente chegaram ao limite da floresta e, embora o sol ainda estivesse bem acima do horizonte no oeste, já era noite escura sob o dossel da mata virgem. A enorme multidão estava parada em silêncio diante de duas árvores gigantescas — um carvalho e uma faia — que se estendiam por cima da estrada, criando um arco natural de entrada num mundo diferente.

Thirrin acenou para Oskan, que acabava de retornar da missão de tranqüilizar as pessoas a respeito da floresta.

— Acho uma boa idéia realizar algum tipo de cerimônia para pedir proteção antes de entrarmos entre as árvores — disse ela.

— Ótimo. Quem você sugere para essa cerimônia?

— Você, é claro. Você tem parentesco com as bruxas brancas e pode acrescentar a isso seu posto oficial de conselheiro real. Partindo de você, a cerimônia vai ter peso.

— De mim! — explodiu Oskan. — Não sou sacerdote; não tenho poderes especiais. E exatamente o que vocês esperam que eu faça? Esfregue dois pauzinhos um no outro e resmungue alguma baboseira?

— Se for necessário — disse Thirrin, com firmeza muito maior do que a que sentia. — Não me importa o que você faça, desde que pareça ser bom e faça o povo encarar melhor a viagem pelo meio da floresta.

— Quer dizer que basta eu apanhar meu chapéu e meus guizos e fazer meu papel de bobo da corte? É isso? — protestou ele, começando a ter a impressão de que Thirrin estava se valendo dele para atingir seus próprios objetivos.

— Olhe, não ligo a mínima para o que você for fazer, desde que faça alguma coisa para ajudar essas pessoas a acreditarem que não é perigoso dormir entre as árvores de noite — respondeu Thirrin, de repente sentindo um cansaço horrível.

— Bem, não posso e não quero fazer isso — disse ele, chiando de raiva, enquanto as fileiras mais próximas da coluna de refugiados começavam a olhar para eles com curiosidade. — Eu... eu me sentiria ridículo!

Maggiore Totus foi aproximando sua égua mansa para se unir a eles.

— Oskan, meu querido, esta guerra está fazendo com que todos nós nos comportemos como normalmente nem em sonho nos comportaríamos. — Ele deu um sorriso calmo e imediatamente uma influência tranqüilizadora dominou todos eles. — Olhe só para mim, já vi mais invernos do que gostaria de me lembrar e mesmo assim estou andando a cavalo e comandando pessoas como se tivesse nascido para essa função! Precisamos da sua ajuda, Oskan.

O garoto ficou olhando aborrecido para o chão por alguns minutos. Todos tinham exigências a fazer dele. Mas, antes de conhecer Thirrin, ele era livre como os animais na floresta fechada. Era esse o preço da amizade? Valia a pena? Ele não tinha certeza. Era um assunto sobre o qual precisaria pensar quando tivesse mais tempo.

Daí a pouco, levantou o queixo e falou com firmeza.

— Não posso realizar nenhum ritual pedindo proteção, mas acho que deveríamos solicitar ao rei dos Carvalhos e aos seus soldados permissão para entrar no seu reino com uma multidão tão grande. Esse pedido poderia ter a forma de uma cerimônia e talvez também possa garantir nossa proteção.

Thirrin deu um suspiro de alívio, mas, um pouco confusa e se lembrando de que ele tinha ousado se manifestar contra sua idéia, retrucou, grosseira:

— Quer me dizer o que houve com o rei dos Azevinhos?

— Dá para ver que você está esquecida das tradições e cantigas de criança — respondeu Oskan. — Os dois reis disputam a supremacia o ano inteiro. O rei dos Azevinhos reina a partir do solstício de verão, quando a força do sol começa a definhar, e o rei dos Carvalhos ocupa o trono das estações a partir do solstício de inverno, quando o poder do sol começa seu lento retorno. Portanto, se quisermos ser diplomáticos e manter boas relações com o atual governante da floresta, deveríamos lhe pedir o direito de passar pelo seu reino, especialmente porque até o momento você só enviou suas reais saudações ao rei dos Azevinhos.

Thirrin ficou calada um instante. Ainda não gostava da idéia do governo de outro monarca no território da Terra do Gelo, mas tinha consciência da sua desesperada necessidade de aliados. E aos poucos outra idéia ia se formando.

— Você pode pedir aos soldados do rei para cuidar de nós enquanto estivermos passando por suas terras?

Oskan lhe lançou um olhar cortante.

— Bem... posso... se eu quiser.

— Ótimo. Vá em frente. Do que vai precisar?

— De nada... bem, talvez alguns barris de cerveja e hidromel, se tivermos — respondeu ele, ainda com a impressão de estar sendo manipulado de algum modo.

— Cerveja acho que não é problema. Mas não tenho certeza sobre o hidromel. Vou ordenar uma busca nos carroções.

Logo cinco grandes barris de cerveja e dois menores de hidromel tinham sido encontrados e foram colocados no meio da estrada, debaixo do arco formado pelo carvalho e pela faia. O povo se reuniu na estrada, numa enorme multidão cheia de expectativa. Eles sabiam que alguma coisa estava acontecendo e rumores diziam que Oskan, o Filho da Bruxa, ia fazer algum tipo de mágica.

Se tivesse sabido que se pretendia que ele cumprisse a expectativa que os cidadãos tinham dele como mago, Oskan teria se recusado a prosseguir. Mas, felizmente, ele não sabia e logo se pôde ver seu vulto alto e magro em pé debaixo do arco das árvores, com as mãos erguidas acima da cabeça. Thirrin fez um sinal para um corneteiro da cavalaria e uma fanfarra ressoou, reverberando pela floresta estranhamente silenciosa. A voz de Oskan retumbou com uma força surpreendente e Thirrin se descobriu imaginando se esse era mais um truque que ele teria aprendido com a mãe. Mas refreou seus pensamentos e se concentrou no que ele dizia.

— Saudações da princesa Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, herdeira do trono da Terra do Gelo e regente do país, tendo em vista que seu pai, o rei Redrought, está em combate com invasores do Polipontus. Saudações a Sua Majestade, o rei dos Carvalhos, monarca da mata fechada e de todos os lugares por desbravar. A princesa estende a mão da amizade a Sua Majestade e pede permissão para conduzir seu povo através dos seus domínios enquanto procuram se refugiar dos invasores do Polipontus e de seus soldados.

"Estes pequenos símbolos de amizade, a princesa oferece a Sua Majestade." (A essa altura, Oskan fez uma pausa para indicar os barris com gestos amplos.) "Ela pede que seja perdoada a pobreza das oferendas e solicita sua compreensão nesta época de crise. Ela também anseia pelo privilégio de que os soldados de Sua Majestade cuidem de seu povo durante a travessia pelo seu território e aqui promete perpétua amizade e aliança ao rei dos Carvalhos e seus súditos."

Thirrin ficou surpresa com a formalidade da linguagem usada por Oskan e imaginou que ele tivesse encontrado tempo para conversar com Maggiore Totus enquanto ela vasculhava o comboio de carroças em busca de hidromel e cerveja. Mas ainda mais surpreendente era a presença impressionante que o rapaz magricela conseguiu impor ali, parado sob o dossel da floresta. Sua longa capa azul-noite e a opulenta túnica vermelha, presentes de Iule de Thirrin, pareciam refulgir à luz do sol poente e sua figura estreita lançava uma sombra alta que penetrava longe por entre as árvores. Mas ainda mais extraordinário que tudo isso era a indefinível aura de poder que parecia emanar dele enquanto aguardava no silêncio que se seguiu à sua fala. Oskan podia negar que tivesse herdado algum dom da sua mãe, mas havia ocasiões em que Thirrin tinha quase certeza de que ele era bem mais do que até ele mesmo sabia.

Alguns minutos depois, a multidão começou a se inquietar e um leve murmúrio ia e vinha entre as pessoas, como o barulho do mar. Mas de repente veio uma rajada de vento, uivando entre as árvores da floresta, para então cessar de todo como se alguém tivesse aberto e fechado rapidamente uma porta gigantesca num dia de tempestade. Então, no silêncio que se seguiu, chegaram andando cerca de vinte vultos estranhos.

Thirrin inclinou-se para a frente na sela e olhou para eles com atenção. Todos eram tão altos quanto o guarda-da-coroa mais alto que ela já tivesse visto. Sua armadura fez com que ela se lembrasse dos soldados do rei dos Azevinhos com quem tinha deparado pouco antes do Iule: como a deles, ela parecia ser feita de folhas lustrosas de tamanhos diferentes e lhes cobria o corpo da cabeça aos pés. A pequena área de pele que estava à vista era da cor de casca de árvore e seus olhos eram de um verde brilhante, como folhas de carvalho que acabam de brotar. Quando ouviu atrás de si um movimento e soube instintivamente que um soldado da cavalaria estava sacando a espada, ela fez um gesto para que ele não se mexesse.

Oskan deu um passo adiante e levantou a mão num cumprimento. Um soldado-carvalho respondeu, erguendo a lança e a fincando firme junto aos pés. Seguiu-se um instante em que tudo parou enquanto aos poucos um murmúrio de espanto contido partia da multidão que enchia a estrada e o campo ao redor. Então, Thirrin fez o cavalo avançar e saudou os soldados.

— Sou a princesa Thirrin. Levem minhas saudações a seu real senhor e digam que lhe agradeço a paciência e compreensão enquanto conduzo meu povo até a região dos hipolitanos para lá da fronteira norte da Grande Floresta. Transmitam-lhe a certeza da minha gratidão e da amizade da Casa Real do Escudo-de-Tília.

Mais uma vez, o soldado-carvalho fez uma saudação e, voltando-se para os companheiros, com um gesto ordenou que recolhessem a doação de cerveja e hidromel. Então, enquanto os raios horizontais do sol agora iluminavam os troncos e as copas da floresta com um tom suave de dourado, os soldados recuaram em meio à vegetação baixa e simplesmente desapareceram. Mais uma vez, uma súbita rajada de vento percorreu os galhos das árvores, promovendo uma chuva de folhas e impregnando as pessoas que estavam ali com o cheiro gostoso da terra molhada e do tapete de folhas caídas. Depois, do mesmo modo repentino, o vento parou e o silêncio voltou.

— Ora, ora, como é fascinante! — exclamou Maggiore Totus, de onde estava, montado na égua logo atrás de Thirrin. — A menos que estejamos todos sob os efeitos de uma histeria coletiva, acho que vou ter de reavaliar minha visão pessoal da história natural. Parece que o rei dos Carvalhos e sua gente e, por extensão natural, o rei dos Azevinhos e os súditos dele existem mesmo. Senhora, observar seu comportamento foi um importante acréscimo para a minha formação.

— Não se esqueça do lobisomem, Maggie — respondeu Thirrin.

— Não, mesmo. Como eu poderia me esquecer?

— Basta citar o nome de qualquer outro animal que você imagine pertencer exclusivamente ao mundo da mitologia e eu tenho a sensação de que nos próximos meses é bem provável que o conheçamos em pessoa.

Redrought se recostou na posição mais confortável possível. A maior parte da dor tinha cedido e agora ele sentia simplesmente um cansaço mortal. A paisagem ao redor era sinistra. Até onde conseguia enxergar, soldados mortos e gravemente feridos estavam deitados onde tinham caído, muito embora, ao longo das últimas horas, os gemidos, em sua maioria, tivessem se calado e o silêncio só fosse perturbado pelo bater das asas das aves carniceiras.

Estava começando a se sentir meio tonto, mas conseguiu raciocinar que isso talvez se devesse à perda de sangue. E sem nenhuma dúvida sua visão estava se escurecendo. Não conseguia mais ter certeza se o tempo estava ficando nublado ou não. Se o general Neve estivesse realmente a caminho, Redrought poderia partir feliz. Tinha derrotado o primeiro exército polipontino e Thirrin teria tempo para preparar uma ofensiva de primavera. Deu um sorriso, satisfeito. Era uma mocinha formidável e seria uma rainha temível. A mistura do sangue real da Terra do Gelo com o das mulheres guerreiras dos hipolitanos tinha criado uma gata selvagem! O rapaz Oskan ia precisar de todo o seu poder de bruxo para estar à altura dela. Ele riu alto e então parou de repente. Bem no limite da sua visão cada vez mais fraca, surgiram três vultos. Eram altos e usavam armadura como guardas-da-coroa muito ricos. Mas, à medida que se aproximaram, ele pôde ver que se tratava de jovens mulheres de uma beleza extraordinária.

— Salve, Redrought Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Urso do Norte! — disse uma delas com uma voz que era ao mesmo tempo feroz e melodiosa. — Você precisa deixar tudo isso para trás e nos acompanhar!

— Para onde? — perguntou Redrought, apavorado com a presença das mulheres.

— Para Asgard! Seu lugar à mesa o espera no salão de Valhalla. Venha! O senhor Odin não espera por ninguém.

Redrought ficou surpreso ao descobrir que conseguia ficar em pé e que estava livre da dor. As mulheres severas sorriram e, tomando suas mãos, o conduziram na direção de uma bela ponte de luz colorida como o arco-íris.

O desfiladeiro pela cadeia de montanhas chamada de Donzelas Dançarinas ainda estava aberto e o regimento da cavalaria polipon-tina fez a travessia a trote sem encontrar resistência. O comando os enviou como reforços para o exército invasor que tinha partido três dias antes e eles imaginavam encontrar nada menos que um acampamento confortável já preparado ou até mesmo alojamentos em alguma das cidades capturadas. Nenhum mensageiro tinha sido enviado de volta com a notícia das vitórias esperadas, mas isso não era incomum. Um país pequeno como a Terra do Gelo não apresentaria nenhuma dificuldade para uma força polipontina e proclamar uma vitória dessas equivaleria a afirmar o óbvio.

O oficial da cavalaria era jovem e tinha sentido uma forte decepção por não estar incluído na primeira onda da invasão; mas a disciplina era tudo e ele aceitou as ordens sem questionamento. Agora, conduzia sua tropa de mil cavalos para se unir a uma campanha que só se desdobraria por completo na primavera seguinte e estava feliz com a expectativa de honrar seu nome de família de Cassius Brontus.

A idéia de iniciar a invasão no inverno e firmar uma posição de apoio para o ano seguinte tinha sido proposta pelo grande general Scipio Bellorum e com toda a certeza tinha apanhado de surpresa os exércitos do pequeno país. Cassius Brontus trazia, enfiado no alforje, um mapa da Quarta Sul da Terra do Gelo que tinha sido feito antes naquele mesmo ano por cartógrafos espiões polipontinos. Nada teria mudado; mas, mesmo que tivesse, esperava encontrar o exército invasor vitorioso, simplesmente seguindo a trilha de destruição e morte que tivessem deixado com sua passagem.

A saída do desfiladeiro surgiu e ele ordenou que fizessem alto. O manual de treinamento da cavalaria determinava que soldados cavalgassem com sabres sacados e escudos nos braços em todos os territórios que ainda não estivessem sob seu comando. E, embora acreditasse que aquela região já estivesse nas mãos do Polipontus, ele não tinha recebido nenhuma confirmação disso e deu as ordens cabíveis. A medida que avançavam, abriu-se à sua frente um amplo panorama. Estendia-se diante deles uma terra acidentada e hostil, cheia de rochas partidas e encostas de cascalho. E, sob o azul brilhante do céu e a luz ofuscante do sol, ela exibia uma beleza selvagem que fez o jovem oficial estremecer. Se o povo tivesse qualquer semelhança com a região que habitava, o Polipontus teria um adversário à altura.

Entraram na terra em formação de batalha, seguindo pela estrada que descia a partir do desfiladeiro. Logo depararam com provas da resistência ao avanço do exército invasor, com cavalos mortos e armamento destruído ainda no lugar onde tinham caído ou sido largados. Cassius Brontus ficou cismado. O procedimento normal era fazer a limpeza dos destroços depois de um enfrentamento; a menos, naturalmente, que o exército estivesse sob pressão pesada. Seus soldados passaram sem dar um segundo olhar para os resíduos da batalha. Suas forças tinham enfrentado situações difíceis antes, tendo sempre saído vitoriosas.

No entanto, em seguida, passaram por mais equipamentos destruídos e então pelos restos calcinados de quatro carroções de suprimentos e até mesmo seis canhões, com seus carrinhos torrados, enegrecidos, e os canos quebrados por marretadas que deveriam ter sido espantosamente ferozes. Cassius Brontus deu ordem de alto e determinou que sua tropa carregasse as pistolas de cavalaria de cano longo. Cada soldado levava duas em coldres de cada lado das selas. Cumprida essa ordem, partiram novamente, mas desta vez o jovem oficial enviou patrulheiros e batedores para verificarem o caminho à frente.

Em cinco minutos, os batedores voltaram correndo pela estrada, aos gritos de que o campo de batalha ficava logo adiante. Foi um alívio para Cassius Brontus. Era evidente que o exército polipontino tinha acuado o inimigo cedo e pelo menos ele e seus soldados não precisariam cavalgar muito mais até que seus alojamentos lhes fossem designados. A essa altura, surgiram na estrada os patrulheiros, cavalgando a grande velocidade, olhando para trás enquanto vinham. De imediato, o oficial pôs a tropa em alerta.

— Todos mortos, senhor! Morreram todos! — gritavam os patrulheiros enquanto voltavam a galope até o regimento de cavalaria.

De olhos arregalados, pararam diante do comandante numa nuvem de cascalho solto e cavalos empinados.

— Informem com clareza! — ordenou Cassius Brontus, em tom cortante. — Quem morreu? Quantos e onde?

— Toda a força invasora, senhor. A oitocentos metros daqui. O impacto das palavras o deixou atordoado. Todo um exército polipontino exterminado? Impossível!

— Vocês estão enganados! Pode haver alguns soldados do Polipontus entre os caídos, mas vocês devem ter visto os restos do exército da Terra do Gelo.

— Vimos, senhor. Eles também estão lá. Vimos o estandarte de guerra deles caído com o nosso.

— Nosso estandarte de guerra caiu?!

— Caiu, senhor. Está na mão do cadáver de um gigante de barba ruiva com uma bela armadura. Nosso porta-estandarte jaz morto por baixo dele.

No silêncio do seu choque, o jovem oficial chegou à conclusão óbvia. Os dois exércitos tinham se exterminado e a descrição do guerreiro gigante de barba ruiva equivalia à de Redrought, rei da Terra do Gelo.

Recuperando-se rapidamente, despachou dois emissários com notícias do desastre de volta pelo desfiladeiro e ordenou que suas tropas avançassem em formação de combate. Sua mente ágil funcionava rápido. Era provável que a Terra do Gelo tivesse arriscado tudo para exterminar o exército invasor e tudo indicava que não lhes restasse nada com que defender sua terra. Ela estava ali, pronta para ser capturada e, se ele agisse com rapidez suficiente, o nome de Cassius Brontus seria imortalizado no Império do Polipontus. Para começar, ele sabia que a herdeira do trono daquela terrinha não passava de uma menina de treze ou catorze anos. Quem a estava protegendo agora? Alguns bárbaros a quem chamavam de guardas-da-coroa Um saco de gatos de soldados mal treinados da Milícia. Ele dispunha de um regimento inteiro de soldados de cavalaria disciplinados e calejados na batalha. Se aproveitasse o momento agora, poderia cavalgar para conquistar o palácio e capturar a menina. Uma monarca de fachada posta no trono de um reino dominado por uma mera subdivisão do exército invasor. Ele estaria feito! Uma promoção, talvez seu próprio exército. E no futuro, quem sabe um lugar no Senado?

Ordenou que seguissem a meio galope, com o ruído dos cascos dos cavalos reverberando no desfiladeiro estreito pelo qual a estrada agora seguia. E então as muralhas de rocha de cada lado foram sumindo à medida que a estrada se abria para um largo platô, chapado à luz do brilhante sol de inverno. Espontaneamente, os soldados puxaram as rédeas, fazendo alto. A sua frente, uma cena que nenhum deles jamais tinha presenciado: um exército polipontino derrotado e destruído, espalhado pela terra como as árvores caídas de uma floresta destroçada. Mesmo tendo sido avisados pelos informes dos patrulheiros, ainda foi um choque terrível. Havia mais de trezentos anos que nenhuma força armada do seu país era derrotada e, no entanto, ali estava uma força invasora inteira, totalmente esmagada.

Cassius Brontus foi o primeiro a se recuperar. Tinha um plano a executar e sua ambição lhe fornecia a energia de que precisava. Deu ordens para proteção da área e despachou mais mensageiros com pedidos de suprimentos e das tendas mais resistentes que os intendentes tivessem. Estava óbvio que nenhuma cidade tinha sido conquistada por enquanto e, se o Polipontus quisesse manter o pequeno ponto de apoio que tinha naquela terra, precisariam estar preparados para enfrentar o inverno mais frio e mais prolongado que qualquer um deles já tinha conhecido.

Seus soldados saíram em companhias, em busca de sobreviventes e no esforço de estabelecer controle sobre a área. Ele estava prestes a mandar patrulheiros ao norte pela estrada para a eventualidade de que a Terra do Gelo pudesse ter mais uma surpresa para eles e um segundo exército já estivesse em marcha, quando de repente percebeu um grupo de cinco ou seis vultos que vinham correndo de uma cadeia de montes, na direção da parte do campo de batalha, onde os corpos se acumulavam mais. De início, achou que fossem humanos, mas em seguida não teve tanta certeza. Sem dúvida, estavam correndo sobre duas pernas; mas mesmo àquela distância pareciam enormes e talvez estivessem usando algum tipo de traje de peles ou eles mesmos fossem peludos! Uma companhia da cavalaria os avistou e, enquanto Cassius Brontus observava, os soldados deram meia-volta com primorosa disciplina e galoparam na direção dos vultos. As cinco criaturas pararam de correr e se voltaram para enfrentar o ataque. Ressoou uma rajada de tiros de pistola e então um estranho rugido ululante subiu pelos ares. Cavalos se empinaram e relincharam e sabres de cavalaria refulgiram ao sol com o início de um combate feroz. Mas que não durou muito. Antes que outros pudessem esboçar qualquer reação, dez cavalos corriam em disparada, sem cavaleiros, pelo planalto rochoso.

Velozes como raios, os vultos correram então para onde estavam caídos os estandartes de guerra, que rasgaram dos mastros, enrolaram como bolas e enfiaram num saco grosseiro que traziam. Cassius Brontus se mantinha em silêncio, só observando. Era o tipo de comandante perfeitamente preparado para "dançar conforme a música", como se dizia, e, já tendo perdido dez soldados, não se dispunha a arriscar a vida de mais nenhum deles. Os vultos peludos apanharam dois cadáveres do meio daquela confusão medonha e saíram correndo a uma velocidade espantosa de volta aos montes de onde tinham saído. Algumas das companhias de cavalaria dispersas pelo campo saíram em perseguição, mas seu comandante fez sinal para que um dos corneteiros se aproximasse e lhe ordenou que soasse o toque de reunir. A rígida disciplina das forças polipontinas se afirmou imediatamente e todas as companhias deram meia-volta e galoparam até onde ele estava.

— Comandante! Aqueles bichos levaram o estandarte do nosso exército invasor! — gritou, ao se aproximar, o oficial responsável por uma das companhias.

— É verdade. E que utilidade teria para nós a bandeira desonrada de um exército derrotado? Talvez você tenha pensado em limpar as botas com ela antes da revista de amanhã de manhã.

— Bem, não, mas...

— Mas o quê? — perguntou o comandante em tom brando.

— É um estandarte do Polipontus.

— Não passa de um trapo conspurcado. Reúna seus soldados e aguarde ordens!

A essa altura, os vultos estranhos tinham chegado à cadeia de montes ao longe, desaparecendo de vista. Cassius Brontus estava mais do que feliz de vê-los partir. Tinha ouvido histórias esquisitas sobre os monstros que assombravam a Terra do Gelo e estava começando a pensar que tinha tido a primeira experiência direta com alguns deles. A julgar pelo que tinham feito com parte da sua cavalaria, ele se sentia aliviado por ver que era improvável que aqueles seres tivessem o cérebro ou a disciplina para compor uma força guerreira eficaz. E ele estremecia só de pensar no que exatamente eles pretendiam fazer com os corpos que levaram do campo.

 

Era a quarta noite em que os refugiados passavam na floresta. Estavam acampados no leito da estrada principal, com carroções de bagagem dispostos como uma muralha ao sul e ao norte do local e com fogueiras de vigilância acesas a intervalos regulares sob as árvores. A princípio, o povo tinha se adaptado perfeitamente às condições e, depois da cerimônia realizada por Oskan, na qual os soldados do rei dos Carvalhos tinham surgido, o pavor da floresta cedeu lugar a um simples medo. Mas agora, depois de passar pela profunda escuridão da noite da floresta, voltava a ameaça de que um temor crescente pudesse fugir ao controle a qualquer momento.

Thirrin esperava reanimar o moral dando muita importância à exibição dos poucos soldados de que dispunha, postados em uniforme completo de combate ao longo das barreiras de defesa improvisadas com carroções e em torno das fogueiras de vigilância. Mas, quando os duzentos soldados se posicionaram ao longo dos quase oitocentos metros de comprimento do acampamento, a impressão foi simplesmente a de que não dariam conta do recado.

— Maggie, o que posso fazer? — perguntou ela a Maggiore Totus, quando estavam sentados em torno da fogueira próxima da muralha de carroções ao sul. Primplepuss estava aconchegada no joelho de Thirrin, aproveitando o calor do fogo e aceitando delicadamente os pequenos bocados de frango que Thirrin lhe oferecia. — O povo está mais satisfeito do que antes; mas, com o primeiro uivo de lobo, eles poderiam se transformar numa turba furiosa e descontrolada, aos gritos de pavor.

— Não há nada que você realmente possa fazer. Só precisamos chegar ao fim da floresta o mais rápido possível — respondeu o homenzinho. — Às vezes, até mesmo o maior líder precisa aceitar as limitações de uma situação e simplesmente esperar que as coisas melhorem.

— Não é isso o que eu quero ouvir — foi sua resposta grosseira e irracional. — Você não pode me sugerir alguma solução mágica?

— Infelizmente, não é essa a minha especialidade. E se você pedisse a Oskan?

Os dois se voltaram para o filho da bruxa, que estava sentado, mudo, com os olhos fixos no negrume impenetrável da floresta para lá do acampamento.

Thirrin lhe deu uma cutucada com o dedão do pé.

— E aí? O que você sugere?

Oskan voltou para ela os olhos bem abertos, que nada viam. Depois piscou e a visão pareceu despertar nas pupilas dilatadas.

— Desculpe. Você falou comigo?

— Falei! — respondeu Thirrin, irritada. — O que podemos fazer para melhorar o moral do povo? Eles continuam com medo da floresta e ainda temos pelo menos mais dois dias de viagem até chegar à fronteira norte. Maggie achou que você talvez pudesse usar algum tipo de magia.

— Eu não disse nada de parecido! — protestou Maggie, mas Oskan só deu de ombros.

— Já lhe disse antes que não sei o que você quer dizer quando usa a palavra magia. Minha mãe tinha algum Conhecimento, mas eu não sou ela. Além disso, o povo não tem nada a temer da floresta. É da cavalaria que deveriam ter medo.

— Cavalaria? Que cavalaria? — retrucou Thirrin, irritada, fazendo com que Primplepuss olhasse para ela querendo saber o que estava acontecendo.

— A que vem do sul. Ainda não há perigo. Estão a pelo menos um dia de distância de nós, a cavalo.

— Como você sabe? Que cavalaria? Polipontina?

— É, polipontina. Como eu sei? — Ele deu de ombros mais uma vez. — Só sei que sei.

— Então meu pai morreu e o exército foi dizimado.

— Só estou vendo a cavalaria que se aproxima. Não sei de mais nada. Lamento.

Thirrin ficou em silêncio por alguns segundos, permitindo-se ser a filha preocupada de um soldado que estava longe na guerra. Endireitou-se então e firmou os ombros para reassumir a responsabilidade pelo seu reino.

— Maggie, você acredita nisso? É possível que Oskan esteja certo

— Minha senhora, desde que cheguei a este estranho país do norte, aprendi que a pessoa verdadeiramente racional mantém a mente aberta em todas as ocasiões. Afinal de contas, vi figuras de lendas andando à luz do sol e ouvi um lobisomem trazer notícias de uma invasão. Logo, é fácil acreditar num simples caso de clari-vidência nos avisando da perseguição por parte de uma cavalaria. No mínimo, deveríamos nos preparar para todas as possibilidades e tomar as precauções que forem possíveis. Despache um emissário veloz até os hipolitanos, com o pedido de que enviem ajuda assim que for possível, e posicione os poucos soldados que temos como uma retaguarda. Ao mesmo tempo, o povo deverá avançar com a máxima rapidez possível.

— Oskan, devemos partir esta noite? — perguntou Thirrin, debruçada na direção dele e olhando fixamente no seu rosto como se estivesse tentando se comunicar com alguém que mal estivesse consciente.

— Não — respondeu ele, num tom surpreendentemente descontraído. — O comandante da cavalaria é movido por uma ambição colossal, mas ele conhece o valor de fazer repousar a tropa e a trilha que ele está seguindo é tão óbvia que ele sabe que não será possível nos perder. Basicamente, acha que somos uns patetas e espera capturar a "princesinha" dentro de um dia ou dois.

— Princesinha! — exclamou Thirrin, lívida. — Ele está caçando a Gata Selvagem do Norte e ela está com as garras e dentes prontos para seu pescoço! — De um salto, ela se pôs de pé, deixando Primplepuss cair no chão como uma trouxa malfeita, e por cerca de um minuto andou para lá e para cá antes de se sentar de novo, murmurando para si mesma: — Como se pode esconder o rastro da população inteira de uma cidade? É impossível! Gostaria de ver se ele se sairia melhor.

— A opinião de um idiota não tem valor, senhora — disse Maggiore. — Enquanto isso, sugiro mantermos em segredo essa... possibilidade de perseguição. Como você salientou antes, bastaria muito pouco para provocar pânico no povo.

Cassius Brontus entrou pelo portão principal de Frostmarris conduzindo sua cavalaria. Tinha cavalgado à frente até a cidade com seu regimento montado e mais quinhentos homens que tinham chegado à Terra do Gelo pouco depois de receberem notícias da destruição da sua força invasora. Tinha seguido então a toda a velocidade pela estrada principal, sem encontrar nenhuma resistência, chegando à capital no prazo de dois dias.

A princípio, eles se aproximaram das muralhas imponentes com cautela; mas logo ficou evidente que os informes dos patrulheiros estavam corretos e que a cidade estava abandonada. Mesmo assim, entrou com enorme cuidado pelos portões principais, com todos os soldados cavalgando com pistolas na mão e sabres sacados, preparados para alguma cilada. Mas a cidade estava deserta. O vento de um frio implacável murmurava fantasmagórico pelas ruas vazias e aqui e ali fazia uma porta bater forte, com o som reverberando pelo silêncio total do povoado. Para a imaginação exacerbada dos jovens membros da legião, cada janela os espiava enquanto passavam pelas ruas cheias de ecos e cada beco escondia um exército de sombras. Era quase como se os fantasmas de Frostmarris tivessem vindo oferecer resistência à invasão. O vento trazia um murmúrio confuso e, uma vez, ele quase teve certeza de ouvir um risinho perverso. Mas, quando olhava na direção dos sons, eles paravam e não se via nada por ali.

Logo, os cavalos começaram a refugar e a bufar nervosos. E, quando um deles se empinou, quase derrubando o cavaleiro, o comandante praticamente se convenceu de ter visto um vulto esfarrapado fugindo sorrateiro por um beco. Mas Cassius Brontus era produto da melhor educação disponível nas grandes escolas e campos de treinamento do Polipontus. Era um homem impregnado de ciência e crença num universo racional. Se uma coisa não pudesse ser contada, estudada através de um microscópio ou dissecada numa laje de mármore, ele sabia que ela não existia. Lembrando-se disso, atribuiu todos os seus temores à mera imaginação e eles rapidamente desapareceram. Riu, de repente, quando a rua à sua frente se tornou reta e ele viu que ela apresentava uma subida constante até o portão aberto da cidadela. A cidade lhe pertencia! Ele acelerou o passo do cavalo para um trote rápido.

Mas, por trás da cavalaria, as sombras se adensavam como fumaça viva. Os medos dos soldados podiam não os afetar hoje, mas em algum ponto não muito adiante estavam à espreita.

Os soldados da cavalaria logo estavam atravessando a passos largos o salão-mor do palácio e, depois de dar ordens para que fosse arrancado o pavilhão do urso branco da Terra do Gelo, Cassius Brontus subiu pessoalmente até a enorme viga transversal de carvalho e o substituiu pela águia imperial do Polipontus.

Deixando cinqüenta homens como guarnição mínima na cidadela, ele então partiu em perseguição à princesa. Era extrema sua confiança. Sob seu comando, dispunha de mais de mil e quinhentos soldados de cavalaria bem treinados e o rastro a seguir tinha a largura de um rio. Partiram a trote rápido, com os cascos batendo forte nas ruas vazias e faziam soar o toque de combate do Império em seus clarins enquanto avançavam. A cidade reverberava o ruído arrogante da sua presença; mas, quando o último cavalo desapareceu pelo longo túnel e saiu para a planície ensolarada do lado de fora das muralhas, um silêncio profundo e intimidante voltou a se abater sobre Frostmarris. O sargento porta-bandeira do regimento, no comando da guarnição que tinha ficado ocupando a cidade, sabia de algum modo que o inverno seria longo e que precisaria recorrer a toda a sua experiência considerável para manter a disciplina.

Cassius Brontus, no entanto, estava quase empolgado. Estava se sentindo como um garoto num passeio à sua cidade de veraneio preferida. Acreditava que seu destino o aguardava e não podia deixar de pensar que seria glorioso. O grande general Scipio Bellorum em pessoa tinha demonstrado o mesmo instinto e ousadia no início da carreira e quem sabe... quem sabe o nome de Cassius Brontus um dia não seria pronunciado com a mesma reverência com que hoje as pessoas se referiam ao comandante-em-chefe do exército. Ele reconhecia que ainda seria longo o caminho a percorrer até poder se equiparar ao general, que tinha anexado três países e cinco províncias ao Império do Polipontus. Mas ele, Cassius Brontus, ainda era jovem e, se conseguisse capturar a princesa da Terra do Gelo, teria iniciado sua carreira militar com um feito mais importante até mesmo do que Scipio Bellorum na dele.

Esses pensamentos favoráveis conseguiam manter afastado até o vento enregelante da Terra do Gelo e Cassius Brontus olhava ansioso à frente para a enorme floresta que começava a crescer ameaçadora no horizonte. Mas a mata fechada não continha para ele motivo de temor. Ao seu olhar militar, o gigantesco organismo vivo que era a Grande Floresta não representava nada mais que uma boa fonte de material para embarcações, torres de assédio e outros equipamentos de que os vitoriosos exércitos do Polipontus pudessem precisar. O Império consumia quantidades colossais de matérias-primas para manter em funcionamento suas máquinas de guerra e, para ele, a árvore maior e mais antiga não passava de mais alguns pedaços de lenha.

Cassius Brontus, da posição em que se encontrava na vanguarda da tropa, via com nitidez que a estrada penetrava na floresta e que o rastro da princesa e do seu povo entrava junto. Seus patrulheiros, um povo caçador do extremo sul do Império, lhe asseguravam com certeza que os rastros tinham muito menos que uma semana. E, considerando-se o ritmo lento ao qual uma caravana daquele tamanho conseguiria se movimentar, ele esperava alcançá-los no prazo de dois dias.

Chegaram às margens da floresta e entraram nela sem a menor hesitação. De repente, a luminosidade do dia de inverno se reduziu a uma penumbra esverdeada e o ruído dos cascos nas lajes da estrada geravam um eco sobrenatural em meio ao silêncio das árvores, que lembrava o de um templo. Mas qualquer sensação de reverência que os soldados pudessem sentir foi descartada. Em regiões de bosques, havia ecos simplesmente porque as ondas sonoras reverberavam nos troncos das árvores. A atmosfera parecia pesada porque o vento e qualquer movimentação do ar geralmente era prejudicada pela vegetação baixa e pela folhagem densa. Como Cassius Brontus, eram soldados da ciência e da racionalidade, determinados em sua missão de levar a lógica e a ordem a um mundo paralisado pela superstição. O Império do Polipontus até agora tinha levado a luz do conhecimento a mais de cinqüenta países e províncias, esmagando as crenças irracionais das populações, por bem ou por mal.

Mas, por enquanto, todos esses ideais filosóficos ficavam num segundo lugar bem distante em relação às suas ambições. Tanto quanto seu jovem comandante, estavam determinados a ganhar o máximo de terreno possível sobre sua presa antes que escurecesse. Na floresta, a noite cairia cedo e os dias de inverno já eram bastante curtos. Por isso, de pé nos estribos, Cassius Brontus deu o sinal para que aumentassem a velocidade e passaram para um meio galope. Cavalos e soldados conseguiam manter esse ritmo por horas a fio, devorando o chão à sua frente e se aproximando da coluna de refugiados como se tivessem um encontro marcado com as Deusas do Destino, nas quais sua presa supersticiosa provavelmente acreditava.

Tinham avançado bem nos dois últimos dias. Maggiore Totus conseguiu transmitir à coluna de refugiados uma noção de urgência sem causar pânico, alegando que as neves do inverno estavam finalmente chegando e que, se não se apressassem, cairiam sobre eles antes que alcançassem a província dos hipolitanos. Mas era impossível que superassem em velocidade a cavalaria que se aproximava. Oskan, num estado de espírito pensativo e sinistro, continuava a dar avisos sobre o avanço da cavalaria inimiga e sua autoridade serena era tamanha que até mesmo Maggiore aceitava suas previsões sem questionamento.

— Quanto tempo ainda temos, Oskan? — perguntou Thirrin pela quarta vez na mesma hora.

— Mais ou menos um dia.

— Não dá para você ser mais preciso? — retrucou ela, em tom ácido. — Preciso saber com exatidão.

Estavam seguindo no fim da coluna com os duzentos soldados que formavam a retaguarda. A floresta estava muito silenciosa naquele dia, como se estivesse prendendo a respiração, e Oskan refletia perfeitamente esse sentido de premonição da mata. Em torno dele, havia uma atmosfera como a da meia-noite no salão deserto de uma grande fortaleza. Quando falava, era em voz baixa e contida, tanto que Thirrin precisava se esforçar para ouvir o que dizia.

Por fim, ele pareceu despertar daquela estranha disposição de espírito e voltou para ela os olhos de repente brilhantes.

— Vão nos alcançar a exatamente um dia contado a partir de agora. Você e os guardas-da-coroa defenderão um lugar estreito na estrada, onde o inimigo não terá como recorrer à vantagem numérica. Mas não sei como vai terminar. Não consigo ver mais nada. A Visão surge e desaparece. Não tenho controle sobre ela.

Ela ficou olhando para ele, sem se dar conta de que estava prendendo a respiração até de repente soltar um suspiro explosivo.

— Vá contar a Maggie — ordenou. — Eu falo com o capitão da guarda.

Oskan concordou e então sorriu, o que foi surpreendente. Agora que tinha passado o último dos seus avisos de vidente, era como se uma escuridão se dispersasse da sua cabeça e o garoto que ela conhecia voltasse para ajudá-la.

— Acha que ele vai acreditar em mim?

— Claro que vai. Nosso inofensivo mestre do racional tem em segredo mais fé nos seus poderes, Oskan, do que qualquer outra pessoa... além de mim. Agora, vamos.

Enquanto o garoto seguia a galope na mula deselegante, Thirrin prosseguiu sozinha, mergulhada em pensamentos. Sem dúvida, Oskan estava certo do tipo de lugar que ela escolheria para firmar posição contra a cavalaria polipontina. Um local estreito na estrada, com a vegetação baixa bem densa à sombra das árvores para proteger os flancos dos guardas-da-coroa, seria óbvio como escolha de posição. O inimigo não conseguiria usar seus números com eficácia, por maiores que fossem, e os soldados da Terra do Gelo poderiam se dispor em linhas a dez de fundo, dependendo exatamente do quanto a estrada fosse estreita ali. Tudo o que precisava fazer era manter o olhar alerta para esse lugar óbvio e falar com os soldados.

Daí a uma hora, chegaram ao local. Por algum motivo conhecido apenas pelos antigos engenheiros que abriram a estrada, ela se estreitava abruptamente enquanto descia um morrote e as árvores se apinhavam até a borda num trecho especialmente fechado, denso com arbustos baixos e espinheiros. Nenhum cavalo conseguiria abrir caminho por um emaranhado daqueles para apanhá-los pelo flanco e a crista do morro daria a Thirrin e a seus guardas-da-coroa uma ligeira vantagem sobre os inimigos.

Ela procurou se livrar da sensação de desespero que vinha se infiltrando nela aquele dia inteiro. A cavalaria do Império polipontino tinha a reputação de ser a melhor do mundo conhecido e para enfrentá-la Thirrin só dispunha de duzentos soldados de infantaria. Que esperança eles tinham? Estavam em desvantagem numérica, com pouquíssima chance de qualquer tipo de ajuda ou da chegada de reforços antes que fossem dizimados. Por isso, resistir parecia não fazer muito sentido. Por que não se render simplesmente?

Deixar-se ser capturada e implorar por clemência para com seu povo?

Por um instante, ela quase se convenceu dessa argumentação. Mas então se lembrou das terríveis histórias dos massacres e atrocidades cometidas pelos soldados do Império. É claro que não tinha como saber se os relatos eram ou não verdadeiros. Quem conta um conto aumenta um ponto e aquelas histórias sempre eram contadas pelos derrotados nas muitas guerras travadas pelo Império. O que em si era bastante natural, já que os polipontinos até ali nunca tinham perdido uma guerra. As pessoas odiavam o Império. Era claro que odiavam: ele lhes roubava a liberdade, esmagava sua individualidade. Logo era perfeitamente compreensível que fossem comuns histórias negativas sobre o modo pelo qual tratavam os derrotados. Talvez fossem de fato exageradas e a população acabasse sendo bem tratada. E, mesmo que todas as histórias fossem verdadeiras, o que ela poderia fazer? Ela realmente se importava se as populações de povoados inteiros fossem escravizadas e transferidas para trabalhar nas minas ou fábricas do Império? Realmente se importava se os que eram velhos demais para ter alguma utilidade para os senhores de escravos do Império fossem abatidos num ato assassino em prol da eficiência? Desde que estivesse em segurança e lhe permitissem manter pelo menos a aparência da realeza, por que deveria continuar a lutar em situação de desvantagem tão esmagadora? Com uma sensação de alívio, secreta e profundamente chocante, ela se imaginou entregando a responsabilidade pela Terra do Gelo ao Império. Poderia se tornar uma rainha de fachada, que cumpriria à risca as ordens e teria permissão para morar em Frostmarris, em conforto e tranqüilidade. E podia ser que, para o povo, simplesmente tivesse ocorrido uma troca de um sistema de governo por outro.

Mas então o sangue do clã Forte-no-Braço despertou, rugin-do no seu cérebro, e o espírito de luta dos hipolitanos, o povo da sua mãe, endireitou sua espinha, que começava a fraquejar, e fez com que um arrepio de entusiasmo percorresse suas veias. Ela era herdeira do trono da Terra do Gelo e nunca poderia saber ao certo se eram falsas as histórias sobre a crueldade dos polipontinos. Era seu dever defender sua terra e seu povo! Era esse seu papel e o significado da sua vida. Trair sua confiança, mesmo em condições insuperáveis de inferioridade, seria a mais terrível das traições. Acima de tudo, era filha do seu pai e era seu dever firmar posição com os guardas-da-coroa para dar à coluna de refugiados pelo menos alguma chance de escapar. Ou morrer tentando. Mesmo assim, tremia com a terrível responsabilidade daquilo tudo. Pela primeira vez na sua vida curta e arrogante, ela se descobriu sentindo inveja de outras garotas da mesma idade: jovens camponesas ou filhas de ricos mercadores e artesãos. Elas só precisavam se preocupar consigo mesmas e com os parentes próximos. Será que os ombros jovens daquelas meninas seriam fortes o suficiente para agüentar o fardo de um país inteiro?

Aquela altura, seu cavalo tinha subido o pequeno morro pelo qual a estrada seguia e ela puxou as rédeas. O capitão dos guardas-da-coroa vinha, imperturbável, logo atrás dela; mas, quando viu que ela parava, levantou a mão e seu comando de soldados de infantaria fez alto, com uma batida de pés.

— Vamos defender nossa posição daqui, capitão Eodred — disse Thirrin.

Ele concordou em silêncio e, dirigindo-se aos soldados, ordenou-lhes que saíssem de forma. Voltou-se então para Thirrin.

— Quando lutaremos, senhora?

— Daqui a pouco menos de um dia, enfrentaremos uma cavalaria e estaremos em desvantagem numérica.

Ele fez que sim, aceitando a informação sem questionamento.

— Uma boa posição — disse ele, olhando ao redor. — Aqui poderíamos conter um inimigo dez vezes maior que nós.

— É verdade, mas por quanto tempo, capitão?

— Isso cabe aos deuses decidirem — disse ele, dando de ombros.

Mais tarde naquela noite, Oskan, Maggiore e Grimswald voltaram a galope para deliberar com Thirrin. A coluna de refugiados estava agora alguns quilômetros mais adiante e continuaria a viajar pela noite adentro na luta por escapar ao mau tempo que Maggiore os fez acreditar que estava a caminho. Todos os três estavam usando armadura emprestada e Thirrin fez o maior esforço para não cair num acesso de riso quando viu Grimswald. O elmo que usava era tão grande que a viseira chegava ao seu queixo; e, se ele virasse a cabeça de repente, o elmo continuava a olhar para a frente até girar devagar para acompanhar o rosto que supostamente deveria proteger. Até mesmo Maggie e Oskan tinham um aspecto levemente ridículo, como o de crianças grandes usando a roupa dos pais. Depois de muito esforço, Thirrin conseguiu controlar suas feições para então perguntar:

— E posso saber por que motivo vocês três estão de armadura?

— Porque queremos pelo menos uma chance de sobreviver ao primeiro ataque amanhã — respondeu Oskan, em tom grosseiro.

— Bem, não precisam se preocupar. Posso garantir que sobreviverão. Vocês três estarão com os carroções. — Thirrin esperou, calada, enquanto a chuva de protestos e argumentos se abatia sobre ela, e depois respondeu: — Nenhum de vocês recebeu treinamento. Nenhum de vocês é guerreiro por natureza. Todos vocês morreriam. E rápido.

"Maggie, você mal consegue usar uma faca de frutas sem se cortar. Grimswald, admiro sua bravura, mas você me é muito mais útil providenciando tudo de que necessito com precisão. E Oskan..." (Ela deu um suspiro, exasperada por ter de chamar a atenção para o óbvio.) "Oskan, você é um curandeiro, entre outras coisas. Sua missão é reparar os estragos que a guerra provoca, não os provocar."

— Mas Maggie e eu somos seus conselheiros. O rei em pessoa nos nomeou. Não podemos abandoná-la ao primeiro sinal de um combate! Redrought esperaria que ficássemos ao seu lado — disse Oskan, com a voz assumindo um tom de desespero à medida que se dava conta de que Thirrin também estava determinada.

— O rei esperaria que conselheiros aconselhassem, não que lutassem. Você e Maggie me prestarão o melhor serviço guiando meu povo em segurança até os hipolitanos — respondeu Thirrin, com calma. Ela bem sabia que ali estava lidando com o orgulho masculino tanto quanto com a lealdade e o sentido de dever. Oskan era um garoto prestes a cruzar o limiar da vida adulta e seria duro para ele suportar a idéia de deixar que uma mocinha de catorze anos lutasse enquanto ele ia embora. — Oskan, você precisa ajudar Maggie a conduzir os carroções até um lugar seguro. Você se tornou para o povo um símbolo de esperança e de poder mágico. Quando está com eles, sentem menos medo e isso, associado à autoridade de Maggie, é exatamente o que é necessário agora. Se os abandonar na floresta, entrarão em pânico e acabarão debandando. Seu dever é para com eles.

Oskan olhava para os pés, mas afinal concordou, com um gesto. Sabia que ela estava certa, mas seu amor-próprio tinha exigido que ele pelo menos tentasse ajudar na luta iminente. Maggiore também concordou, embora para ele o gesto significasse mais um reconhecimento de que Thirrin tinha amadurecido o suficiente para cumprir o papel que a guerra a forçara a assumir. Ela já era uma rainha dos pés à cabeça, com um ar de autoridade e um espírito combativo. Mas agora tinha desenvolvido também uma diplomacia que tratava com perfeição o frágil orgulho de um adolescente. Maggiore de repente sentiu um imenso orgulho dela e, inclinan-do-se, beijou sua mão.

— Não se preocupe com o povo, senhora. Cuidaremos dele.

— Obrigada, Maggie — respondeu ela com simplicidade, sorrindo. Depois, prosseguiu: — Mais um assunto. Minha parenta mais próxima é a basiléia dos hipolitanos, minha tia. Eu a nomeio agora minha herdeira. Se eu tombar amanhã, vocês hão de servir a ela com a mesma lealdade com que serviram a mim.

Ninguém respondeu, mas tanto Oskan como Maggiore fizeram uma profunda reverência e Grimswald assoou o nariz num lenço que encontrou depois de muito remexer por baixo da armadura.

O dia seguinte nasceu frio e luminoso, mais uma vez. Tempo bom para uma batalha, como disse o capitão Eodred. Durante o jantar na noite anterior, Thirrin tinha perguntado a Oskan se ele poderia prever com exatidão a hora em que a cavalaria inimiga chegaria, mas a Visão não quis lhe dar respostas e ele abanou a cabeça entristecido. Não muito depois, ele, Maggiore e Grimswald partiram a cavalo para ir se reunir à coluna de refugiados, deixando Thirrin com uma sensação de isolamento, apesar de estar cercada por duzentos guardas-da-coroa. Naquela hora, ela quase passou mal de medo; mas, agora que o dia tinha raiado, estava ocupada demais para se sentir só ou até mesmo nervosa. Havia equipamentos a verificar, consertos de emergência a providenciar, ordens a dar, patrulheiros a despachar para ter notícias da aproximação dos polipontinos. Quando terminou tudo isso, ela organizou a formação para a batalha, pondo os soldados mais fortes e mais bem preparados nas fileiras da frente e dispondo-os em dez filas de fundo no trecho estreito da estrada.

Agora só lhes restava esperar. Thirrin assumiu sua posição bem no centro da primeira linha da barreira de escudos, enquanto o capitão Eodred controlava a ala esquerda e seu subcomandante, à direita. Os soldados deram vivas quando Thirrin encaixou seu escudo na barreira e o portador do estandarte de guerra do regimento enrolou a bandeira e a pôs aos seus pés dizendo que agora seu estandarte de guerra era a princesa e que o inimigo só conseguiria chegar a ela se todos eles tombassem. Essas palavras foram recebidas com mais vivas. Então, os soldados começaram a bater os machados e espadas nos escudos, criando um ritmo como um rufar que foi aos poucos subindo até um crescendo estrondoso que se expandiu pelas árvores próximas, ecoando e reverberando pela floresta adentro.

Thirrin ergueu seu machado em reconhecimento à saudação, com a esperança desesperada de que nenhum dos guardas-da-coroa percebesse o medo que estava sentindo de decepcioná-los. Dominar a técnica das armas no campo de treinamento era uma coisa; mas como ela se sairia na batalha? Todos aqueles soldados esperavam que ela lhes fornecesse liderança e um exemplo de coragem e ferocidade. E se não conseguisse concretizar essas expectativas? Por um instante, uma chama de pânico se acendeu na boca do seu estômago e fez vibrar seu corpo inteiro.

Mas nesse momento uma seqüência sonora minúscula veio chegando por entre as árvores. Uma corneta estava soando o toque de guerra da Terra do Gelo. Um dos patrulheiros tinha avistado o inimigo! De imediato, as fileiras de soldados se apinharam em torno dela, com os escudos ainda mais unidos.

— Guardas-da-coroa da Terra do Gelo. Aqui resistimos ou morremos! — A voz cristalina de Thirrin ecoou no ar frio e, enquanto falava, todo o seu medo desapareceu. A sorte estava lançada. Seu destino estava agora nas mãos dos deuses.

Durante mais alguns minutos, porém, nada aconteceu. Thirrin olhava fixamente pela estrada até o ponto em que uma curva ligeira impedia a visibilidade, mas tudo estava tranqüilo. O sol brilhante de inverno caía em cascata através dos galhos nus das árvores, manchando o piso da floresta e as lajes da estrada num jogo deslumbrante de luz e sombra. Ali perto um pássaro cantou, com a doce melodia das notas amplificada no silêncio do ambiente, de modo que o som lhes saciou os sentidos à vontade.

Nada mais se mexeu. O vento se amainou até um mero sussurro que mal balançava os raminhos mais finos e, naquela calmaria, o frio sol de inverno aqueceu o denso tapete de folhas caídas no chão, fazendo com que um rico perfume de terra envolvesse os soldados à espera.

E então, como o espatifar de vidro que se quebra, o inimigo surgiu à vista deles. Fileiras e mais fileiras de cavalaria vinham a meio galope pela estrada. Todos os soldados cavalgavam com pistolas e sabres sacados. Um murmúrio percorreu os guardas-da-coroa à espera e então eles se calaram totalmente. Thirrin olhava ávida para a cavalaria. Esses eram os primeiros soldados polipontinos que ela via na sua vida e seu aspecto era ao mesmo tempo exótico e de uma beleza estranha.

Todos usavam peitorais primorosamente polidos e elmos com máscaras de proteção semelhantes a gaiolas. Mas para Thirrin o mais estranho de tudo eram as plumas brilhantes e as fitas de seda que refulgiam nos rajados raios de sol. Até mesmo seus grossos casacos de inverno tinham ricos bordados e os oficiais usavam golas e punhos de renda. Ela poderia ter rido se não soubesse que esses eram os guerreiros ferozes que tinham criado o maior império jamais visto pela história.

Na vanguarda da sua tropa, Cassius Brontus viu a barreira de escudos dos guardas-da-coroa que impedia a passagem e ordenou calmamente aos soldados que fizessem alto. Não estava surpreso. Os toques de aviso dos patrulheiros de Thirrin o prepararam para uma situação exatamente como essa e seus soldados vinham cavalgando num estado de alerta extremo havia mais de três quilômetros. As forças adversárias ficaram se encarando quase uns cinco minutos e então Cassius Brontus acenou para que seus oficiais se aproximassem.

Tinha a desagradável consciência de que o comandante da Terra do Gelo tinha escolhido bem sua posição. A densa vegetação baixa garantia que a tropa não fosse atingida pelo flanco e a estreiteza da estrada naquele ponto permitia que ele usasse seu escasso número de guardas-da-coroa com grande efeito. Ainda por cima, os cavalos seriam forçados a investir morro acima. Estava evidente que o comandante era um veterano cheio de artimanhas que seria preciso matar. Mesmo assim, ele seria morto. E Cassius Brontus alcançaria os refugiados, mataria os idosos e escravizaria os demais. Conseguiria bons preços por criaturas tão resistentes. Mas o mais importante de tudo seria capturar a princesa. Ela era a chave que abriria todo o seu futuro e estava só esperando para ser apanhada.

A conversa com seus oficiais foi curta. Só lhes cabia um procedimento. Investir e arrasar o pequeno bando da infantaria da Terra do Gelo. Rapidamente, voltaram para seus destacamentos e Cassius Brontus se retirou para o lado da estrada.

Caiu um silêncio tão completo que Thirrin conseguia ouvir o sussurro do sangue circulando nos ouvidos. Imaginou que um arauto fosse avançar do meio da cavalaria polipontina a qualquer momento para apresentar um ritual de exigências que ela rejeitaria também em tom de ritual e então, quando essa parte terminasse, poderiam começar o combate. Mas não aconteceu nada de parecido. Um toque metálico e estridente irrompeu das fileiras dos polipontinos e eles atacaram.

Foi um choque para Thirrin. Principalmente porque o comandante deles, o que usava mais plumas e fitas do que qualquer outro, estava assistindo à movimentação, parado à beira da estrada. Mas ela se recuperou rápido e se preparou enquanto a cavalaria começava a subir a ladeira a pleno galope.

Diante dela, uma muralha de cavalos vivos vinha investindo contra a fina barreira de escudos como um maremoto. Era certo que seriam arrasados. Mas então suas veias foram invadidas por uma onda encolerizada, resultante da combinação da fúria de combate da Terra do Gelo com a dos hipolitanos. Sua voz aguda se elevou com uma potência espantosa acima do tropel da investida e a barreira de escudos se ergueu e avançou unida para enfrentar o ataque.

O formidável impacto do assalto deixou Thirrin desnorteada, mas ela se recuperou depois de um segundo e olhou para a direita e para a esquerda. A linha de frente tinha resistido. Diante deles, cavalos lutavam para se pôr de pé e cavaleiros caíam num emaranhado de homens e cavalos que se contorcia como uma tempestade no mar. Os que ainda estavam montados atacavam com seus sabres compridos os guardas-da-coroa que os enfrentavam e ressoou uma salva desigual das longas pistolas da cavalaria. Thirrin brandia o machado, furiosa, enquanto os soldados polipontinos procuravam avançar por cima dos corpos caídos, contra a barreira de escudos. E aos poucos as maldições e gritos explosivos dos guardas-da-coroa se consolidaram no conhecido canto de guerra.

— FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora!

E então, com uma velocidade que a perturbou, os cavaleiros diante deles foram desaparecendo e Thirrin ficou olhando enquanto galopavam, voltando morro abaixo.

Cassius Brontus observou a retirada calmamente. Os soldados inimigos estavam apinhados na estreita posição de defesa e seriam necessárias várias investidas para afinal tirá-los dali. Mas estavam em forte desvantagem numérica e ele poderia usar, para cada ataque, soldados descansados. O final era inevitável. Só demoraria um pouco mais do que tinha esperado. Acenou para o esquadrão de cavalaria seguinte e ficou assistindo, impassível, enquanto eles subiam pelo morro em tropel na direção dos guardas-da-coroa. Mais uma vez, a barreira de escudos se inchou para receber o ataque e o rugido trovejante da investida encheu a floresta ao redor. O retinir dos sabres em escudos e dos machados contra a pesada armadura dos cavalos era interrompido por salvas e mais salvas de tiros; mas mesmo assim a linha de frente resistiu e mais uma vez a cavalaria recuou.

Thirrin assistiu à retirada a meio galope da cavalaria inimiga e verificou rapidamente a barreira de escudos. Já tinham precisado passar para trás muitos guardas-da-coroa mortos e feridos para limpar o caminho para a linha de frente. De perto, as pistolas de cano longo da cavalaria estavam produzindo um efeito devastador. Mesmo enquanto gritava palavras de incentivo e louvor aos guardas-da-coroa, seu raciocínio perspicaz estava calculando que seriam necessárias só mais três investidas daquelas para romper a barreira. Sentia uma raiva enorme. Se tivesse só mais quinhentos soldados, poderia ter defendido a estrada indefinidamente, derrotando o inimigo pelo desgaste. Do jeito que as coisas iam, sua primeira batalha estava prestes a terminar em derrota. Por um instante, a realidade da situação fez com que perdesse a esperança e ela precisou lutar para conter as lágrimas de revolta e frustração. Imediatamente, os soldados ao seu redor pressentiram isso e olharam alarmados para sua líder.

A reação de Thirrin foi rápida. Segurando com mais força o escudo e o machado, ela riu alto, com o som gerando seu próprio poder, e logo estava novamente impregnada pela terrível alegria do combate.

— Guardas-da-coroa da Terra do Gelo. Fizemos o Império pagar caro por seus ataques; mas agora acho que já estamos aquecidos o suficiente para realmente fazer com que sofram! Depois da próxima investida, mandaremos de volta somente os cavalos. Os cavaleiros deitaremos por terra em tributo ao nosso rei, Redrought Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Urso do Norte!

Vivas ensurdecedores acolheram suas palavras e mais uma vez o ritmo matraqueado dos machados batendo nos escudos cresceu e retumbou pelas árvores em resposta. Muitos dos soldados veteranos ouviam a voz do próprio Redrought reverberando nos tons agudos daquela menina e a ferocidade com que lutava dava a eles coragem diante da desvantagem esmagadora. Mas, ao pé do morro, Cassius Brontus observava a barreira de escudos com um espanto cheio de empolgação. A julgar pela voz alta e cristalina que acabava de ouvir, o comandante do inimigo era apenas uma menina. Mas a conclusão mais importante era que uma única menina em toda a Terra do Gelo teria condições para comandar uma unidade de infantaria. A herdeira do trono em pessoa estava apenas a alguns passos dali! Estava quase nas suas garras! Ele esporeou o cavalo e convocou os oficiais para uma reunião.

No alto do morro, Thirrin olhava enquanto Cassius Brontus falava com os comandantes das suas unidades. Ela sabia que alguma coisa diferente estava prestes a acontecer e seu palpite foi o de que seria uma investida em grande escala, com o uso de todos os soldados disponíveis. Ela olhou para sua rala linha de soldados e duvidou de que pudessem fazer frente ao ataque. Se ao menos tivesse mais guardas-da-coroa! E então, inesperadamente, ocorreu-lhe a imagem de Oskan chamando os soldados do rei dos Carvalhos pouco antes de entrarem na floresta. Claro! Ela precisava convocar aliados! Era considerado o cúmulo da falta de diplomacia que as forças de uma potência amiga interviesse numa guerra sem ser convidada. Ela quase riu alto e então, com a mesma rapidez, voltou a ficar séria. Não podia se entusiasmar demais. Era possível que não tivesse o poder nem o direito de chamar os soldados do rei dos Carvalhos.

Ordenou a um guarda-da-coroa que estava ali perto, com uma trompa de caça, que fizesse soar o toque de convocação. Todos os soldados viram quando ela deu um passo adiante da barreira de escudos e ergueu os braços.

— Saudações a Sua Majestade, o rei dos Carvalhos, senhor da floresta e de todos os lugares selvagens, da princesa Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, herdeira do trono da Terra do Gelo. Ouça agora meu pedido de ajuda. Soldados do Império polipontino cruzaram suas fronteiras sem sua permissão e agora ameaçam meu povo e minha própria pessoa real. Solicitamos sua ajuda para nos defendermos do inimigo e agradecemos à Sua Majestade a amizade e a aliança!

Em pé, sozinha, diante das fileiras prejudicadas, ela parecia incrivelmente frágil e vulnerável; mas os guardas-da-coroa sabiam como era forte na batalha e confiavam implicitamente na sua decisão e liderança. Muitos já estavam olhando em volta para ver a chegada dos soldados-carvalhos, mas nada acontecia. Por alguns minutos, Thirrin ficou ali em silêncio. Um súbito toque de cornetas estridentes vindo das fileiras inimigas deu a impressão de zombaria, especialmente quando se fez acompanhar de risadas. Mas então surgiu um vento, que soprava e aumentava sua força enquanto zunia e rugia pelos galhos das árvores. Da mesma forma repentina, ele cessou, seguindo-se um silêncio mortal.

Cassius Brontus tinha se posicionado na vanguarda da cavalaria. Sua intenção era liderar o assalto e capturar ele mesmo a princesa. Essa era até então sua maior oportunidade política e militar e ele não pretendia permitir que uma ridícula cerimônia supersticiosa o impedisse de aproveitá-la. Fez um sinal para o corneteiro, que fez soar o toque de ataque.

Toda a força da cavalaria investiu para atacar, subindo o morro num tropel na direção da linha de guardas-da-coroa que aguardava firme. A voz de Thirrin se avolumou superando o barulho do galope dos cavalos, no grito de guerra da Casa do Escudo-de-Tília.

— Sangue! Raios! E fogo! Sangue! Raios! E fogo! Mantenham-se firmes, guerreiros da Terra do Gelo!

E seus soldados responderam com seu canto de combate:

— FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! FORA! Fora! Fora! Então, com um ronco tremendo, avançaram para enfrentar a investida. O retinir da colisão dos escudos com a cavalaria ecoou pela floresta e ouviu-se o estouro de uma salva de tiros de pistola. A barreira de escudos se curvou perigosamente e Thirrin berrou a ordem para que firmassem a posição. E então, em meio a todo aquele estrépito desastroso, explodiu um novo som. Era um barulho semelhante a uma avalanche nas montanhas e a algazarra crescia ainda mais com os relinchos apavorados dos cavalos e os gritos dos homens. Thirrin ficou olhando, pasma, enquanto as próprias árvores da floresta pareciam avançar sobre rodas para se abater sobre os francos da cavalaria. Os soldados-carvalhos tinham chegado e estavam atacando diretamente o inimigo. Com um enorme grito de triunfo, os guardas-da-coroa avançaram e endireitaram sua linha, golpeando os inimigos à sua frente e os arrancando das selas.

Cassius Brontus olhava ao redor, descontrolado. Isso não podia estar acontecendo! Arvores não lutavam! Pedaços de pau com o formato semelhante ao de soldados não tinham como investir e atacar sua cavalaria! Aquilo era uma loucura. No entanto, estava acontecendo e seus soldados estavam sendo cercados. Dando-se conta do perigo, ordenou a retirada. Suas palavras foram traduzidas em toques de corneta que soaram acima do fragor da batalha. Mas, no momento em que deram meia-volta, os soldados descobriram que sua rota de fuga estava bloqueada por outros daqueles impossíveis soldados de madeira.

Thirrin aproveitou a oportunidade e, dando o grito de guerra da Terra do Gelo, liderou seus guardas-da-coroa numa investida esmagadora contra a cavalaria acuada. Os soldados polipontinos lutavam com uma fúria controlada que demonstrava sua perfeita disciplina. Por mais de meia hora, a cavalaria continuou a lutar, agora na defensiva, contra as forças aliadas da Terra do Gelo e do rei dos Carvalhos.

As ambições políticas de Cassius Brontus não tinham mais nenhuma importância para ele. Agora queria simplesmente salvar seu comando do extermínio. Em circunstâncias muito diferentes, teria considerado a situação quase engraçada: a passagem, em menos de duas horas, da arrogante certeza da vitória para uma luta desesperada pela sobrevivência. Mas não tinha tempo para refletir sobre esse tipo de ironia. Enquanto vociferava suas últimas ordens desesperadas, sua cavalaria começou a dar salvas contínuas de tiros de pistola e ele liderou os soldados num ataque derradeiro contra a parte da emboscada mais enfraquecida nos combates travados até então. Mas Thirrin tinha adivinhado seus pensamentos corretamente e os guardas-da-coroa estavam preparados para recebê-los.

Instigada pelo desespero, a investida polipontina era um turbilhão de fúria disciplinada. Colidiram contra a barreira de escudos, forçando os soldados da Terra do Gelo a cederem terreno até sua linha se curvar como um arco esticado. Mas no centro estava postada a figura veemente de Thirrin Freer Forte-no-Braço Escu-do-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, e ela controlava seus guardas-da-coroa com uma determinação que crescia em força quanto mais ela a exigia. Sua voz aguda se erguia como o grito de um falcão, mais alta que o barulho da batalha, e seus soldados voltavam constantemente à formação à medida que ela os conclamava a resistir e a defender a posição. Seu machado estava lascado e seu escudo, cortado e riscado pelos sabres da cavalaria inimiga, mas ainda assim ela se mantinha firme e seus soldados, com ela.

E então um suspiro estranho veio das fileiras da cavalaria e um grito de desespero ressoou. Cassius Brontus tinha tombado. Seu cavalo exausto tropeçou e imediatamente soldados da Terra do Gelo se abateram sobre ele, despedaçando-o ali mesmo. Em resposta, irrompeu entre os guardas-da-coroa um grito de alegria e avançaram com a determinação renovada. Finalmente a cavalaria começou a ceder terreno, tendo perdido sua última esperança.

Por mais uma hora, a cavalaria continuou a lutar contra Thirrin e seus aliados. Mais para o final, desmontaram e formaram um quadrado defensivo. Não restava munição para suas pistolas, mas continuaram com os sabres, postados ombro a ombro, defendendo seu estandarte até o último homem.

Três vezes Thirrin lhes ofereceu condições para que se rendessem, mas a cada vez as recusaram. Soldados do Império nunca tinham capitulado. E assim, quando os últimos raios do pôr-do-sol de inverno banhavam as árvores nuas num esplendor de luz vermelha e dourada, todos foram abatidos onde estavam em torno do estandarte.

Os guardas-da-coroa e os soldados do rei dos Carvalhos recuaram e ficaram ali em silêncio, olhando para os soldados da cavalaria, caídos à sua frente. Thirrin finalmente tirou o elmo, encostou o escudo nas pernas e por um instante se permitiu voltar a ser mais uma vez uma menina de catorze anos. Chorou pela morte de todos os que a cercavam, chorou por seu povo forçado a sair de casa no inverno implacável e chorou pelo jovem soldado polipontino que jazia aos seus pés, com o sangue escorrendo do ferimento no pescoço, onde o machado de Thirrin tinha cortado fundo.

E, enquanto as lágrimas brotavam dos seus olhos, uma fileira de nuvens cinzentas como o aço se abateu sobre a terra, liberando a primeira nevasca do inverno num turbilhão branco que amortalharia os caídos e conservaria os corpos por meses a fio.

 

A primeira tempestade de inverno amainou durante a noite e, ao raiar do dia, uma manta ininterrupta de neve refletia o brilho do sol. Em comparação com a brancura revigorante e enregelante do novo dia, a população de Frostmarris parecia ainda mais suja e maltrapilha do que de costume; mas, agora que a tempestade estava terminada, sua disposição de espírito estava mais leve. As neves por fim tinham chegado e eles podiam começar a esperar que o mau agouro daquele atraso passasse a se dissipar.

Como de costume, Oskan e Maggiore iam na frente e logo perceberam que aos poucos as árvores estavam rareando. Estavam chegando ao fim da floresta e ao meio-dia já tinham alcançado sua margem. Diante deles, estava uma larga planície coberta de neve, refulgindo cintilante ao sol de inverno. Mal era possível discernir o caminho como uma leve reentrância na superfície de ondulações suaves. E, quando a tempestade seguinte atingisse a velha estrada, seu leito ficaria totalmente perdido até o degelo na primavera.

Depois de uma curta parada para apreciar a vista à frente, o povo prosseguiu a passos pesados. Maggiore se virou na sela e olhou para trás por cima dos refugiados.

— Você não sente nenhuma necessidade de voltar para ver como a princesa está se saindo? — perguntou, em tom descontraído.

— Não — respondeu Oskan, olhando para ele com um sorriso. — Sei que ela está bem. Ela acabou de vencer sua primeira batalha, Maggie. Provou ser a guerreira que todos nós sabíamos que era. E além disso, não me agrada a idéia de ela me esfolar vivo por ter deixado o povo à mercê do frio. O fato de termos pelo menos dois dias de tempo bom até a próxima tempestade não vai fazer nenhuma diferença para ela.

— Não, acho que não — respondeu automaticamente o homenzinho elegante. Mas, de repente, seu pensamento e sua atenção tinham mudado de direção. Thirrin venceu a batalha e eles tinham pelo menos dois dias até a próxima tempestade! Depois de um cálculo rápido, ele se deu conta de que chegariam à principal cidade hipolitana antes da próxima onda de mau tempo. Com um grito de alegria, forçou a égua a um galope dificultado pela neve, atirando o chapéu para o alto e rindo fortemente enquanto as pessoas olhavam e davam vivas.

Em seguida, puxou as rédeas pensando em como tinha mudado durante as últimas semanas: o homem racional, dedicado à ciência, agora estava perfeitamente disposto a aceitar sem questionamento a palavra de um garoto camponês de educação duvidosa! E no fundo não se importava com isso! Até aquele momento, Oskan tinha sempre acertado e que espécie de racionalidade rejeita a prova só porque ela parece um pouco... exótica

Maggiore passou o resto do dia entoando canções alegres e saltitantes do continente meridional. Sua voz soava totalmente sem graça no denso silêncio da terra coberta de neve; mas ele parecia não se importar. E o povo acrescentava suas vozes num emaranhado de canções e melodias diferentes que irrompiam da coluna de refugiados como um bando de aves barulhentas.

Foi Oskan quem avistou primeiro o borrão colorido que se movimentava constantemente na direção deles, atravessando a brancura da terra. Os olhos aguçados logo revelaram que se tratava de algum tipo de cavalaria proveniente do norte, vindo pela estrada principal. Ele chamou Maggiore mais para perto e apontou à frente.

— Os hipolitanos nos encontraram — disse, com simplicidade.

Thirrin conduziu a marcha através da floresta num ritmo firme, que poderiam sustentar por horas a fio. Queria deixar as árvores para trás o mais rápido possível. Traziam suprimentos suficientes para três dias; mas, se fossem atingidos por uma tempestade de neve realmente forte, poderiam ser forçados a parar por uma semana ou mais. Na verdade, como não esperava que nenhum deles sobrevivesse ao confronto com a cavalaria imperial, ela só tinha dedicado uma atenção muito superficial à necessidade de suprimentos que garantissem sua chegada em segurança à terra dos hipolitanos. Mas foi Oskan quem insistiu com ela para verificar e voltar a verificar as provisões, antes de deixá-la e voltar para a coluna na noite anterior à batalha. Agora, ela estava feliz por ter lhe dado ouvidos; mas, apesar do choque de sua primeira exposição à guerra nua e crua, ainda restava na sua personalidade o suficiente da princesa para ela se sentir irritada com ele por não recomendar que reservasse mais alimentos. No entanto, acabou admitindo que os dois eram inexperientes no que dizia respeito a provisões e mantimentos. Tratava-se de um erro bastante fácil. Pensando bem, eram inexperientes em tudo!

Na realidade, ela se recuperou do trauma do combate mais cedo do que jamais poderia ter imaginado e agora sabia que poderia liderar seus soldados na batalha com confiança e habilidade. Como os próprios guardas-da-coroa diziam, Thirrin tinha uma "invulnerabilidade" e os veteranos do seu primeiro combate se gabariam disso pelo resto da vida.

Meia hora depois que o último soldado polipontino tombou, ela já tinha se recuperado o suficiente para se lembrar de agradecer aos soldados do rei dos Carvalhos. E até mesmo lhes ofereceu os despojos da guerra: armas e armaduras dos soldados caídos. Em resposta, eles fizeram uma profunda reverência e depois foram sumindo na trama da floresta, os vultos se reintegrando às árvores e à terra, deixando Thirrin e seus homens parados sozinhos na estrada.

Isso tinha sido mais de um dia atrás e desde então as primeiras neves caíram, levando Thirrin a ordenar uma marcha acelerada noite adentro num esforço de conseguir alcançar a coluna de refugiados. Mas, se caísse mais neve antes que ela chegasse a eles, sua primeira vitória bem poderia ser sua última.

Pouco depois do meio-dia, depararam com um monte de pedras empilhadas no meio da estrada. Thirrin deu ordens para que o desmontassem e ali dentro encontraram grande quantidade de nozes, frutas e outros frutos secos da floresta. Provisões enviadas pelo rei dos Carvalhos. Os homens deram vivas, batendo espadas e machados nos escudos como saudação, enquanto Thirrin simplesmente respondeu com um grito para a floresta ao redor.

— Obrigada... não nos esqueceremos disso!

A noite seguinte foi ainda mais fria do que o normal para um inverno na Terra do Gelo. Mesmo depois que acenderam enormes fogueiras, os ventos enregelantes conseguiam enfiar seus dedos gelados nas pequenas redomas de calor e luz que cercavam as chamas. Dez dos soldados mais velhos morreram durante a noite: barbas grisalhas tornadas brancas pelo gelo, mãos rígidas no punho da espada. Com uma sensação de mudo desespero, Thirrin se deu conta de que não demoraria muito para que os soldados mais jovens começassem a morrer também, mas não havia nada que pudesse fazer. Pelos seus cálculos, a menos que chegassem a algum abrigo em dois dias no máximo, ela poderia perder até um quarto dos soldados sobreviventes à batalha. Com isso em mente, impôs um ritmo massacrante à marcha, instigando os soldados a prosseguir com o lembrete de que não era só a ferocidade no combate que definia um bom soldado, mas também a energia e a resistência.

Continuaram a marchar durante a noite, mais uma vez, com os passos se desacelerando num ritmo arrastado nas horas mais escuras. A floresta transmitia os ecos distantes de gritos e berros estranhos, como se animais gigantescos os estivessem caçando. Uma hora, Thirrin achou que ouvia uivos, mas eram muito fracos e ela não tinha como saber se era o som de lobos comuns expulsos das montanhas pela fome ou se eram os gritos do Povo-Lobo, seu aliado. Então, pouco antes do amanhecer, tudo se calou enquanto eles avançavam a duras penas; sendo o único som o leve rangido dos pés que rompiam a fina crosta da neve congelada para pisar na neve fofa por baixo. Thirrin estava exausta e seus soldados também. Precisavam parar, mesmo que fosse por cerca de uma hora, para se alimentar e aquecer junto a uma fogueira as mãos e pés congelados.

Thirrin acabava de dar o comando de alto quando captou o som da batida de cascos de cavalos que se aproximavam constantes. Sem uma palavra, a barreira de escudos foi erguida e ela assumiu seu lugar bem no centro. Todos os soldados tinham os olhos fixos à frente, voltados para um ponto onde a estrada fazia uma curva e sumia de vista por entre as árvores. Thirrin se flagrou pensando se conseguiriam oferecer alguma resistência nas condições em que se encontravam. Mas esqueceu qualquer pensamento dessa natureza quando os cavalos surgiram. Estavam a cerca de quinhentos metros de distância e, no ar limpo e frio da manhã, ela via que vinham em duas colunas: uma composta de animais pequenos e vigorosos e a outra, de cavalos maiores. As duas colunas traziam soldados em trajes muito coloridos.

Um dos cavalos menores liderava as colunas e seu cavaleiro usava um gorro vermelho com abas pendentes que de algum modo pareceu conhecido aos olhos de Thirrin. Vendo a barreira de escudos à sua frente, o líder ordenou que fizessem alto antes de avançar com outro soldado que estava num dos cavalos maiores. Quando se aproximaram, Thirrin pôde ver que o comandante da cavalaria era uma mulher e que trazia a mão erguida num gesto de paz.

— Quem é você que cavalga armada pela floresta nestes tempos de guerra? — gritou Thirrin.

A mulher não respondeu mas desmontou e veio caminhando até poucos metros de distância da barreira de escudos formada pelos guardas-da-coroa. Seu rosto era severo e de uma beleza fria e Thirrin calculou que ela deveria ter a idade de Redrought. De repente, a mulher abaixou-se sobre um joelho.

— Salve, princesa Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília! Sou sua vassala Elemnestra Celeste, basiléia dos hipolitanos, e este — disse ela, indicando o homem enorme que se postava em atitude respeitosa poucos metros atrás dela — é meu consorte, Olememnon.

Os guardas-da-coroa começaram a dar vivas, mas Thirrin impôs o silêncio com um gesto seco. Algo naquela mulher lhe dizia para se conduzir somente com a máxima dignidade nesse primeiro encontro.

— Saudações, Elemnestra Celeste, basiléia dos hipolitanos. Gostaria de informá-la de que você não mencionou por completo os títulos que me são devidos, já que faltou o epíteto de guerreira "Gata Selvagem do Norte", a mim dado por meu pai, Redrought, rei desta terra — disse ela, orgulhosa.

A mulher a encarou nos olhos por um instante e depois abaixou a cabeça em reverência.

— Perdoe-me, minha senhora. Não fomos avisados desse acréscimo a seus títulos, mas devo dizer que é um epíteto adequado para alguém que acaba de conquistar sua primeira vitória com tanta glória. — A mulher ergueu então os olhos e sorriu, com o rosto inteiro transformado numa beleza calorosa e radiante. Levantou-se então antes de prosseguir. — E já que estamos falando de títulos, a senhora também deixou de mencionar um dos meus. O de "tia": sua mãe era minha irmã mais nova.

Era claro que Thirrin sabia que a basiléia, ou governadora dos hipolitanos, era sua tia. Mas até aquele instante não conhecia os parentes da mãe e, depois dos traumas dos últimos dias, achava que seria possível que lhe perdoassem esse pequeno esquecimento temporário.

— Saudações, então, tia Elemnestra. E este deve ser meu tio Olememnon — respondeu Thirrin, cumprimentando o homem gigantesco que permanecia ali esperando, calado.

— Bem, sim... acho que sim — respondeu Elemnestra, como se nunca lhe tivesse ocorrido que um homem pudesse ocupar essa posição. — Olememnon. Adiante-se e cumprimente sua... sobrinha.

O cônjuge da governadora deu um passo adiante e sorriu enquanto se abaixava sobre um joelho. Tinha a compleição sólida, com ombros largos e um tórax avantajado; mas não usava barba, o que era estranho. Thirrin se perguntou se ele teria sofrido algum acidente medonho, mas depois percebeu que nenhum dos outros soldados nos cavalos maiores, todos homens, usava barba. Por fim, ocorreu-lhe a explicação ditada pelo senso comum. Estava claro que eles se barbeavam. Ela quase sentiu um choque. Era estranho ver homens da Terra do Gelo sem barba. Era quase como olhar para versões mais velhas de Oskan, com a diferença de que todos aqueles soldados tinham a estatura de homens adultos.

Os outros soldados montados nos cavalos menores eram mulheres, tão altas e esguias como a basiléia. Portavam pequenos arcos compostos, lanças e escudos em forma de meia-lua, feitos de vime reforçado, enquanto os homens levavam escudos redondos e machados, como os próprios guardas-da-coroa. Mas os trajes de todos eram os mesmos: calças bordadas em cores vivas, casacos e bonés vermelhos com abas laterais pendentes.

Thirrin voltou a atenção para Olememnon, que ainda estava ajoelhado diante dela. Saiu do meio da barreira de escudos, segurou a mão dele e o ajudou a se pôr de pé.

— Saudações, tio — disse, com formalidade, e depois deu um beijo na bochecha raspada dele.

— Saudações, minha senhora — respondeu ele, numa voz baixa e grave, sorrindo também para ela.

Thirrin se virou então para a tia, deu um passo à frente e a abraçou. Os guardas-da-coroa irromperam em vivas e dessa vez Thirrin não tentou impedi-los.

Maggiore olhou ao redor. Os aposentos eram claros e espaçosos e as paredes de reboco branco com seus murais de montes e árvores faziam com que se lembrasse da terra da sua infância. A diferença era que esses montes eram maiores, naturalmente. E estavam no norte, não muito longe das regiões de gelo permanente, onde os dias e as noites duravam seis meses. Então como os pintores daquela terra fria tinham conhecimento dos montes baixos e das espécies diferentes de árvores encontradas lá para as bandas do sul? Como poderiam saber da existência de países onde o sol é generoso e as chuvas se comportam com gentileza suficiente para cair em épocas previstas do ano de modo que as pessoas possam se preparar para elas? Era um enigma, embora ele supusesse que simplesmente copiavam obras que tinham visto enquanto viajavam. Mesmo assim, havia murais por toda parte no palácio da basiléia e eram tão vibrantes e de qualidade tão alta que Maggiore quase se convenceu de que comprovavam algum tipo de vínculo entre os hipolitanos e as terras do sul.

Mas contentou-se em deixar que o mistério da decoração permanecesse sem explicação naquele meio-tempo. Ainda estava apreciando o raro prazer de não sentir frio. Um fogo forte ardia no cesto de achas no centro do aposento e as janelas estavam muito bem fechadas contra a violenta nevasca que caía ruidosa sobre a cidade de Bendis, a principal cidade dos hipolitanos. Era exatamente de um ambiente aquecido e de alimentação farta que ele precisava depois daquela viagem infernal, embora tivesse de admitir que as coisas poderiam ter corrido muito pior.

— Graças a quaisquer deuses em que um agnóstico como eu possa acreditar, a basiléia recebeu nossas mensagens e enviou ajuda — murmurou Maggiore consigo mesmo.

Quando os soldados os encontraram na estrada, de imediato deram alimentos ao povo e, tomando conhecimento da ação de Thirrin na retaguarda, a própria basiléia tinha seguido até a floresta com mantimentos. Quando Thirrin e sua escolta chegaram às muralhas da cidade, os refugiados já estavam instalados havia mais de um dia; tanto que eles se juntaram às aglomerações postadas ao longo da via principal que levava à cidadela.

A recepção de Thirrin foi de fato espantosa: os hipolitanos consideravam a princesa alguém do seu próprio povo, o que não chegava a ser surpreendente, reconheceu Maggiore consigo mesmo, se levarmos em conta que sua mãe tinha pertencido à aristocracia governante. Eles davam vivas, acenavam e, por estranho que pareça, estendiam peles diante das patas do cavalo que a basiléia lhe dera, de tal modo que Thirrin era obrigada a passar por cima delas.

Maggiore percebeu que estava fascinado pelas tradições dos hipolitanos e, apesar de ter passado somente dois dias na cidade, já tinha feito muitas descobertas. Como estrangeiro que passou a maior parte do tempo em Frostmarris, ele se surpreendeu ao ouvir palavras que não reconhecia pipocarem aqui e acolá na fala das pessoas.

Um dialeto ele até esperava, mas essas palavras pareciam os resquícios de um idioma que agora estava quase perdido. Também a religião era diferente. Até onde pudesse ver em sua rápida olhada por ali, os deuses locais eram em sua maioria do sexo feminino, com uma Deusa Mãe dominante, e isso parecia se refletir na sociedade dos mortais, com poucos homens ocupando posições de poder em qualquer nível. Por um tempo, o orgulho masculino de Maggiore tinha se sentido revoltado, mas depois sua brilhante cabeça de estudioso o fez se sentir fascinado. E, por fim, teve de admitir que o sistema estava estabelecido e organizado e que toda a população parecia bastante satisfeita.

Sentado diante do fogo, no conforto do seu aposento, chegou à conclusão inescapável de que os hipolitanos eram imigrantes, talvez eles mesmos tivessem sido refugiados, que se instalaram na região em alguma época passada. Até mesmo seus nomes eram diferentes, com uma quantidade de Cassandras e Ifigênias, que refulgiam como pedras preciosas exóticas em contraste com o pano de fundo cinzento de Aethels e Cerdics. A curiosidade intelectual de Maggiore estava totalmente mobilizada e ele trataria de extrair o máximo de informações que conseguisse.

Uma batida na porta interrompeu suas divagações e ele olhou para cima justo quando Oskan e Thirrin entraram. Estava óbvio que estavam discutindo enquanto se encaminhavam para ali e continuaram a falar mesmo depois que ambos ergueram a mão num gesto de reconhecimento da sua presença.

— Não temos nenhuma condição de ficar sentados durante os meses de inverno, nutrindo a esperança de que os polipontinos vão simplesmente desaparecer! — disse Thirrin, com a irritação costumeira, prova de que estava totalmente recuperada da marcha e da batalha.

— Nunca sugeri nada parecido — respondeu Oskan, com igual vigor. — Se você me escutasse de verdade, em vez de partir do pressuposto de que eu vá dizer alguma coisa só para irritá-la, teria me ouvido dizer que eu achava bom que o povo agora tivesse oportunidade para se recuperar antes do reinício da estação de campanhas na primavera. Não espero que você vá fazer qualquer coisa que nem de longe se assemelhe a um descanso.

— Não mesmo! É preciso convocar a milícia do norte e ela terá de ser equipada, treinada e alojada. É preciso garantir a entrega de mantimentos, a fabricação, conserto e preparação de armas! O descanso é um luxo ao qual não posso nem quero me entregar!

— Mas talvez minha senhora e seu jovem conselheiro possam pelo menos se sentar por enquanto — disse Maggiore, baixinho, indicando algumas cadeiras encostadas nas paredes.

Thirrin e Oskan foram apanhá-las e as puseram junto ao fogo.

— Vou realizar uma reunião hoje à noite com a basiléia e seu conselho. Por isso, Oskan e eu estamos nos preparando, dando vazão a nossas idéias. O que você tem a dizer, Maggie?

— A respeito de que aspecto específico da situação?

— Qualquer um! Todos!

— Parece que você está com os preparativos militares já em andamento. E o que dizer da diplomacia e da aliança?

— Ah, é verdade. Decidi...

Oskan de repente se levantou, foi até a janela e abriu as bandeiras. A tempestade uivante que estava lá fora invadiu o aposento, atirando uma grande onda de neve sobre a lareira, onde chiou e crepitou nas chamas. Thirrin e Maggiore tossiram e espirraram com o vapor enfumaçado que subiu e começaram a gritar com Oskan, mais alto que o rugido do vento.

— Escutem! — ordenou Oskan num tom tão autoritário que os outros dois se calaram. — Não estão ouvindo?

— Ouvindo o quê? — perguntou Thirrin.

— Os uivos!

Os três ficaram ali mudos, no meio da neve e da fúria do vento, prestando atenção enquanto aos poucos o som cortante de um uivo se isolava do ruído da tempestade.

— Lobos. E daí? Estão com fome e desceram das montanhas!

— Não! Não são lobos. É o Povo-Lobo. Estão chamando por você — disse ele, com firmeza.

Thirrin se pôs de pé, de um salto.

— O que estão dizendo?

Oskan ficou quase um minuto inteiro escutando, com os olhos fora de foco enquanto se concentrava. Thirrin mal conseguia refrear sua frustração, mas não ousou dizer nada enquanto ele não estivesse pronto. Por fim, ele piscou os olhos.

— Eles querem um salvo-conduto para entrar na cidade. Querem que você vá se encontrar com eles do lado de fora dos portões.

— Certo! — Thirrin correu para a porta. — Oskan, dê ordens para que todos os guardas dos portões os deixem passar. Ninguém pode feri-los de modo algum, sob pena de morte! Maggie, diga à basiléia o que está acontecendo e venha nos encontrar no salão-mor.

Enquanto Thirrin e Oskan desciam da cidadela, o vento continuou a uivar e a atirar a neve numa saraivada cortante, como flechas de gelo que quase tornavam impossível enxergar. Oskan se flagrou querendo saber como qualquer pessoa ou criatura conseguia sobreviver em condições semelhantes. E, no entanto, o Povo-Lobo tinha vindo no meio da tempestade e agora estava esperando do lado de fora dos portões.

Os guardas já tinham recebido suas ordens e estavam prontos para permitir a passagem de Thirrin e Oskan para o meio da nevasca. Quando abriram os portões, porém, quatro vultos cobertos de neve entraram trôpegos, carregando o que parecia ser uma grande maca. Os guardas sacaram as espadas, mas Thirrin de pronto deu uma ordem e eles as embainharam de novo. O mais alto dos estranhos vultos avançou um passo e fez reverência, ajoelhando-se num joelho. Levantou então o rosto medonho e a princesa pôde ver com nitidez a mistura de homem e lobo nas suas feições.

— Minha senhora, precisamos subir à cidadela da basiléia dos hipolitanos. Trazemos algo que lhes pertence. — A voz da criatura retumbava sem esforço, mais alta que os uivos do vento.

— Do que se trata?

— Aqui não, minha senhora. Não seria... adequado. Thirrin olhou de relance para a maca e concordou rapidamente com um gesto.

— Venham comigo.

Quando chegaram ao salão-mor, Elemnestra, a basiléia, e seu cônjuge, Olememnon, já estavam à espera. Ocupavam os tronos de Estado, usando as vestes oficiais como se estivessem esperando uma visita de dignitários estrangeiros. Ao lado, os dez membros do Alto Conselho dos hipolitanos esperavam em silêncio, da mesma forma que Maggiore, que aparentava estar ansioso.

Quando Thirrin entrou no salão a passos largos, não pôde deixar de perceber que Maggiore e Olememnon eram os únicos homens presentes; mas estava tão voltada para o esforço de aparentar calma que lhe sobrava pouco tempo para pensar em qualquer outro assunto.

Quando chegou ao tablado, Elemnestra se levantou para lhe oferecer o trono, mas Thirrin acenou para que voltasse a se sentar. Os lobisomens avançaram então e depositaram seu fardo numa mesa de cavalete perto dali. Houve um murmúrio entre os membros do conselho diante da aparência do Povo-Lobo e os guardas em torno do salão discretamente soltaram as espadas nas bainhas.

Thirrin olhou ao redor, consciente da desconfiança que reinava no salão, e sentiu crescer sua impaciência.

— Esse povo é meu aliado e já me demonstrou imensa lealdade e confiança. Se alguém aqui presente os maltratar por meio de palavras ou atos, invocarei meus poderes de herdeira do trono da Terra do Gelo e ordenarei seu imediato enforcamento! — Olhou em torno, com ar feroz. Ninguém a encarou. — Ótimo! Peço então ao Povo-Lobo que fale agora. O que nos trazem aí?

Mais uma vez foi o mais alto dos lobisomens que se adiantou.

— Minha senhora, nosso fardo é pesado e nós o trouxemos de longe, do campo de batalha no sul. — Um murmúrio percorreu o salão, à medida que as pessoas se davam conta pela primeira vez de que as criaturas sabiam falar. — Mas o peso não foi para nós nenhuma dificuldade física. O Povo-Lobo poderia carregar dez vezes mais pelo dobro da distância, sem precisar se esforçar. Não, o fardo maior foi o da tristeza, por sabermos a dor que precisávamos trazer à nossa aliada.

— O que vocês nos trazem? — perguntou Thirrin, mantendo o olhar firme nele, com o rosto pálido à luz dos archotes do salão.

O homem-lobo abaixou a cabeça e, virando-se para a maca, afastou a coberta, revelando os corpos de Redrought e da senhora Theowin, acondicionados em neve que os preservara perfeitamente.

Em todo o salão, uma exclamação foi sufocada e então fez-se um silêncio total enquanto Thirrin se aproximava da maca. Redrought ainda estava com sua armadura, embora o elmo estivesse sobre seu peito, e o Povo-Lobo também tinha se dedicado a limpar todos os vestígios de sangue dos corpos, de tal modo que aparentavam estar adormecidos, num sono profundo e enobrecido.

Thirrin olhou para o pai e se lembrou do homem enorme que adorava gatos e chinelos fofos e felpudos, que brincava com ela quando era pequena e lhe contava histórias antes de dormir.

Seus olhos se encheram de lágrimas quando ela segurou as mãos geladas.

— Papai — murmurou. — Amo você, papai. — Ela se inclinou e o beijou no rosto. Depois, empertigando-se, ela se voltou para o homem-lobo. — Quais são as notícias da batalha?

— O rei derrotou seus inimigos e lhes tomou o estandarte que agora está aos seus pés. Mas seu exército foi destruído enquanto destruía. Os números dos inimigos eram altos demais, mas acreditamos que ele sabia o que estava fazendo e sacrificou seu exército para lhe dar tempo de reunir uma segunda hoste e pedir auxílio aos seus aliados. Nós do Povo-Lobo não estávamos prontos. São necessários muitos ciclos da lua abençoada para reunir nosso povo. Mesmo assim, alguns de nós foram lá assistir, para poder lhe trazer notícias, minha senhora. Quando vimos a baronesa Theowin tombar e o rei Redrought ser morto no exato instante em que se apoderava do estandarte de guerra do inimigo, nos apressamos a recolher os corpos do campo antes que fossem apanhados pelos soldados a cavalo que chegaram depois da luta.

"E agora nós os entregamos à senhora, nossa aliada, e também lhe trazemos saudações do nosso rei, Grishmak Bebedor-de-Sangue. Ele manda dizer que a convocação está em andamento e estará completa na primavera, quando ele aguardará seu chamado para a guerra."

Thirrin permanecia ali em silêncio, contemplando o corpo de Redrought, com o rosto pálido e os olhos brilhantes. E então deu a impressão de retomar o controle de si mesma e ergueu a cabeça.

— Retribuímos as saudações e a amizade de Sua Majestade Grishmak Bebedor-de-Sangue e lhe garantimos que o chamado para a guerra será enviado quando do início da nova estação de combate. — Olhou então novamente para o pai e acrescentou numa voz que começou baixa, mas foi subindo com um vigor crescente: — Antes disso, porém, temos piras a construir e um ódio a acumular a uma altura tal que seu fogo chamusque o Império do Polipontus. Um ódio que há de rugir com violência pelas próprias ruas do Império até que o palácio do imperador estoure em chamas. Que nossa motivação seja a vingança! Que nossas armas sejam o ódio! Que nossa raiva seja o poder que há de esmagar o Império!

Irrompeu imediatamente um enorme clamor enquanto os guardas batiam com as espadas nos escudos, o Povo-Lobo uivava e todos davam vivas. Maggiore achou interessante descobrir que ele mesmo estava gritando com todos os outros e observou com estranha ironia que a emoção tinha o poder de derrubar até mesmo a mente mais objetiva.

 

A grande praça diante do palácio da basiléia estava cercada de gente. No centro, tinha sido construída uma pira, com o uso de grossas achas de carvalho, empilhadas em camadas de tal modo que ela se erguia para os céus como uma pirâmide de madeira. Soldados estavam derramando óleo e outros inflamáveis sobre a lenha já encharcada de líquidos combustíveis e estendiam as bandeiras de guerra da Terra do Gelo sobre duas plataformas armadas no alto. Uma ficava cerca de um metro abaixo da outra e tinha à frente o impressionante emblema do falcão da baronesa Theowin; enquanto a mais alta estava ornada com o símbolo pessoal de Redrought, o urso rompante.

O céu era uma presença escura e pesada, com a ameaça de mais neve, e um vento cortante soprava implacável entre as fileiras da população muda, fazendo com que se enrolassem ainda mais nas grossas capas de inverno. Diante da multidão, estavam formados os guardas-da-coroa: as armaduras refulgiam vermelhas à luz dos archotes que cada soldado portava. E, dos prédios que davam para a praça, longos estandartes de luto esvoaçavam e panejavam com o vento, com seu roxo escuro quase negro em contraste com o brilho da neve.

As pessoas já estavam esperando havia mais de uma hora e, apesar do frio extremo, não davam sinal de impaciência. Todos tinham consciência de estar prestes a presenciar um dos acontecimentos mais importantes na história da Terra do Gelo. Um grande rei guerreiro e sua fiel vassala seriam cremados numa cerimônia tão espetacular quanto foi possível à herdeira organizar, levando-se em consideração as circunstâncias da guerra e da invasão.

Em épocas mais normais, o monarca morto teria sido cremado na planície diante da cidade de Frostmarris e, uma vez extintas as chamas, um monte fúnebre teria sido erguido para encobrir as cinzas. Mas a princesa Thirrin tinha decretado que as cinzas do pai, misturadas com as da senhora Theowin, seriam recolhidas numa urna e nenhum monte fúnebre seria erguido enquanto ela não retornasse à capital no comando de um exército de libertação.

A neve começou a cair vagarosa, depositando-se na enorme pilha de lenha no centro da praça e acrescentando novas camadas ao gelo compactado que recobria todas as superfícies. Oskan, Filho da Bruxa, tinha dito que cairia uma neve ligeira, nada que interrompesse o funeral, de modo que o povo levantou o capuz e simplesmente encolheu os ombros para se proteger do frio.

De repente, soou uma fanfarra de trompas graves e os guar-das-da-coroa no mesmo instante se puseram em posição de sentido. Um murmúrio percorreu a multidão e todas as cabeças se voltaram para tentar enxergar ao longo da rua principal que levava à cidadela. Ao longe, abriram-se lentamente os portões da fortaleza, dali saindo uma comprida procissão. Os cidadãos que estavam mais atrás, no lugar em que a rua chegava à praça, agora tinham a vantagem porque podiam ver com clareza a princesa Thirrin, em armadura completa, marchando à frente de uma escolta de guardas-da-coroa e guerreiros dos hipolitanos. Ao seu lado, vinha a basiléia e, logo atrás, o Filho da Bruxa e Maggiore Totus. Os soldados marchavam numa formação quadrada, em torno de um grande esquife que estava sendo carregado nos ombros largos de dez lobisomens.

O povo inteiro abafou uma exclamação de espanto ao ver o Povo-Lobo marchando com os soldados. Até a aliança de Thirrin com o rei Grishmak, eles eram inimigos declarados da Terra do Gelo e a maioria dos cidadãos ainda considerava estranha e assustadora sua presença dentro das muralhas de uma cidade. Mas, enquanto a multidão assistia à aproximação do cortejo, as criaturas enormes mantinham o passo em exata sincronia com os soldados da escolta e a noção da sua ferocidade contida acrescia uma dignidade ao funeral muito maior do que até mesmo a das tropas mais disciplinadas.

Caiu um silêncio, interrompido apenas pelo ruído lento e ritmado dos passos em marcha. Nenhum dos cidadãos chorou. Redrought tinha sido um bom rei, no que dissesse respeito à vida da população. Não tinha exigido novos impostos, não os tinha ameaçado com a cobrança de novos dízimos e seus apetites e interesses não resultaram em novos fardos para a sociedade da Terra do Gelo. E, ainda por cima, morreu em serviço, procurando defender o país de invasores: atividade em que tinha sido competente.

Mas, para a maioria dos cidadãos, o rei era uma figura remota e era difícil sentir alguma emoção direta por sua morte. Estavam mais interessados nos aspectos práticos do seu sucessor. Thirrin seria capaz de defender o país, e portanto a vida dos cidadãos, de uma invasão dos polipontinos? Até aquele momento, tinha se saído bem, promovendo a evacuação de Frostmarris com habilidade e comandando a situação e depois derrotando a cavalaria inimiga que os perseguia. Também tinha demonstrado um talento espantoso para fazer aliança com os mais improváveis... povos.

Sob muitos aspectos, para os cidadãos comuns era mais fácil aceitar a idéia de uma aliança com o Povo-Lobo e com os reis dos Carvalhos e dos Azevinhos do que para a aristocracia governante.

A população era realista, disposta a aceitar qualquer amizade que lhe salvasse a pele. Só quem sabe que somente uma colheita o protege da morte pela fome compreende realmente que o inimigo jurado de ontem pode trabalhar a seu lado no campo no dia seguinte. Só maluco fica de briguinha no quintal dos fundos quando a guerra está chegando pela porta da frente.

Enquanto isso, assistiam ao lento progresso do cortejo fúnebre, que não acontecia só por ser entretenimento de graça nos dias escuros do inverno, mas para dar ao povo a oportunidade de avaliar o moral da elite governante. Se os nobres parecessem preocupados, o povo teria todo o direito de ficar apavorado.

A procissão entrou vagarosa na praça antes de dar uma volta completa por ela. A expressão de Thirrin estava fixa, com rigidez e tanto Oskan quanto Elemnestra, a basiléia dos hipolitanos, pareciam absortos em outros assuntos. Somente a curiosidade intelectual de Maggiore fazia com que seus olhos passassem velozes de uma visão interessante para outra enquanto observava os fascinantes costumes fúnebres do país. O povo da Terra do Gelo relaxou como um todo. Não havia sinais de ansiedade em parte alguma da elite governante.

Enquanto o esquife passava perto da multidão, muitas cabeças se esticaram para ver o corpo do rei Redrought e o da senhora Theowin. A neve que o Povo-Lobo tinha posto em torno deles os deixou em perfeito estado de conservação e os dois tinham uma aparência adequadamente severa e guerreira. O fato de também darem a impressão de estar dormindo aumentou ainda mais o distanciamento emocional que o povo sentia e uma estranha atmosfera festiva se desenvolveu quando a multidão começou a aplaudir. Thirrin chegou a perder por um instante o domínio de si mesma e lançou um olhar de censura para a multidão, mas depois relaxou. Era provável que seu pai tivesse preferido palmas e vivas a lamentações. Afinal de contas, eram símbolos de admiração.

A procissão então se aproximou da pira e a escolta de soldados fez alto, permitindo que os loBisomens que carregavam o féretro avançassem e subissem lentamente a escada que tinha sido construída na enorme pilha de lenha. Agora a multidão se calava enquanto as criaturas dispunham o corpo do rei e o da vassala em suas respectivas plataformas e os cobriam com o estandarte correspondente a cada um. Quando recuaram, os guardas-da-coroa começaram a Bater com o punho da espada e o cabo dos machados nos escudos. Devagar e com suavidade, o som foi aumentando e se avolumando, percorrendo a praça inteira enquanto subia num crescendo extraordinário que reverBerava das nuvens carrancudas e dos prédios de pedra. Depois, aos poucos, foi se reduzindo até o silêncio, quando o Povo-Lobo retomou sua posição entre os soldados.

Thirrin não tinha preparado nenhum discurso nem tinha pedido que outros falassem. No silêncio, residia sua dor. Na falta de palavras e retórica, a perda do país. Calada, avançou um passo e, sem se voltar, estendeu a mão. A Basiléia veio se juntar a ela e lhe entregou um arco composto dos hipolitanos e uma única flecha, em cuja extremidade tinha sido enrolado um pano encharcado de breu. Thirrin ajustou a flecha no arco e puxou a corda. Fez um sinal de cabeça. A Basiléia acendeu a ponta coberta de pano e se afastou. A princesa ergueu Bem alto o arco e disparou a flecha em chamas, que seguiu seu curso como um minúsculo cometa em contraste com o pano de fundo cinzento das nuvens carregadas.

A multidão acompanhou sua trajetória, quando ela subiu num arco para, descrevendo uma parábola graciosa, cair fundo nas achas empilhadas da pira. Imediatamente, uma pequena chama surgiu na lenha empapada de combustível e começou a crescer. Nesse momento, a Basiléia deu o sinal e todas as mulheres-soldados dos hipolitanos ergueram os arcos e desfecharam uma saraivada de flechas incandescentes sobre a pira. Depois, os guardas-da-coroa avançaram apressados e ali atiraram os archotes acesos que portavam.

Com isso, a pira irrompeu numa enorme bola de fogo que atingiu a multidão com seu calor.

Os guardas-da-coroa voltaram à posição e ficaram assistindo enquanto as chamas se firmavam num fogaréu constante. Agora o Povo-Lobo jogava a cabeça para trás e começava seus típicos uivos lamentosos e assustadores, com as notas subindo pelas oitavas para depois descer vagarosamente até o silêncio.

Thirrin ficou olhando enquanto as chamas subiam violentas a uma altura enorme, iluminando os brancos e os cinzas de inverno da cidade com dourados e vermelhos ferozes. Ela procurou manter a cabeça desanuviada enquanto o calor inacreditável aos poucos desfazia o corpo do homem que tinha sido seu mestre e guia desde quando ela se lembrava. Fazia um esforço para acreditar que estava assistindo aos ritos fúnebres em honra a um homem que não fosse mais importante para ela do que qualquer outro grande guerreiro. Mas a imagem de um rosto risonho, com uma barba imensa, não parava de surgir à força no seu pensamento. Sua generosidade expansiva e bruta a tinha consolado durante muitas decepções e ferimentos da infância, mas foi a lembrança dos ridículos chinelos felpudos que finalmente fez com que chorasse.

A visão da donzela guerreira, jovem e severa, com lágrimas escorrendo pelo rosto impassível foi uma imagem da qual muitos da multidão presente se lembrariam quando pensassem no funeral de Redrought Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Urso do Norte, rei da Terra do Gelo.

Foi uma surpresa que a câmara do conselho estivesse meio vazia, tendo em vista a importância da reunião convocada por Thirrin. A mesa, estavam somente a basiléia, os dez membros do conselho de governo e cinco comandantes, enquanto o contingente de Thirrin compreendia ela mesma, Oskan, Maggiore Totus e todos os oficiais que tinham marchado para o norte com ela.

A nova rainha da Terra do Gelo ainda estava se acostumando à idéia de pleno comando e poder e passou quase meia hora discutindo com a tia, a basiléia, antes que a reunião começasse mesmo.

— Quero todos os meus comandantes aqui no conselho, aí incluídos os do exército hipolitano! — declarou Thirrin, com frieza. — Não apenas os que as tradições hipolitanas permitem — concluiu, unindo as mãos atrás do corpo na tentativa de fazer com que parassem de tremer.

A basiléia Elemnestra encarou firme o olhar da sobrinha por um instante e depois respondeu com um tom baixo e venenoso.

— Mas nossos homens não foram treinados para participar de reuniões como esta!

— Os homens detêm posições de comando no seu exército, certo?

— Detêm. E qualquer coisa que precisem saber chega a seu conhecimento por meio dos superiores imediatos.

Thirrin manteve a voz baixa e comedida. A menor hesitação revelaria como tinha medo daquela tia assustadora.

— Quer dizer que recebem todas as notícias e planos através de terceiros, sendo excluídos de todo contato direto. Isso não é bom, basiléia. Quero que minhas ordens sejam ouvidas diretamente, não transmitidas por outra pessoa que talvez não dê às palavras o peso e a ênfase exata que desejo.

— Não é possível que todos os oficiais compareçam a todas as conferências e conselhos. Alguns comandantes sempre receberão informações de terceiros — argumentou a basiléia.

— É verdade. Isso não pode deixar de acontecer em exércitos de tamanho respeitável. Mas você quer deixar de fora pelo menos dez comandantes de meio escalão que poderiam facilmente participar desta reunião só porque são homens e isso eu não aceito. É injusto, antiquado a ponto de ser ridículo e, acima de tudo, não é um estilo eficaz para a condução de assuntos militares. Você acha de verdade que o general Scipio Bellorum permitiria que tradições tão mesquinhas prejudicassem o funcionamento da sua máquina bélica?

— Bellorum é um bárbaro assassino. Seria impossível que eu soubesse como ele agiria.

Thirrin respirou fundo para se acalmar. Estava determinada a pelo menos dar a impressão de que a basiléia não a preocupava.

— Ele é o general de maior sucesso que o mundo que conhecemos já viu! Pegou um monstro militar enorme e desajeitado e, em cinco anos, o transformou numa força de combate de uma competência mortal. E, nos últimos dez anos do seu comando, acrescentou três países e cinco províncias novas ao Império polipontino. Se não quisermos nos tornar o quarto Estado soberano a ser transformado simplesmente em mais uma região administrativa no quadro das suas ambições imperiais, é melhor aprender a pensar e agir como ele. E isso significa eficiência e a capacidade de admitir quando o pior inimigo que temos somos nós mesmos! Agora, como rainha da Terra do Gelo, eu lhe ordeno que mande chamar seus comandantes ou invocarei os poderes do meu posto e a farei substituir por uma basiléia, tia ou não, que seja mais sensata!

Maggiore Totus observava sua ex-aluna, deliciado com uma satisfação que começava a ser uma expectativa. Thirrin já o tinha surpreendido algumas vezes desde o início da guerra, demonstrando uma capacidade cada vez maior para lidar com situações muito diferentes de qualquer experiência que pudesse ter tido antes. No entanto, pensou consigo mesmo, aquela era uma situação muito delicada. Ela não podia se dar ao luxo de excluir nenhum segmento da sociedade nessa hora de crise extrema e o modo pelo qual resolveria esse conflito poderia afetar os rumos da guerra.

A basiléia permaneceu calada um instante, obviamente avaliando o teor da ameaça da sobrinha. Por fim, concordou com um gesto, chamou uma guarda e a despachou em busca dos comandantes do sexo masculino.

Thirrin deu um profundo suspiro de alívio. Seguiram-se dez minutos de um silêncio constrangido até que começassem a chegar os primeiros dos oficiais. Thirrin os cumprimentou com um sorriso e, com a perfeita compreensão de que nunca tinham comparecido a uma reunião semelhante, indicou pessoalmente onde cada um deveria se sentar. Explicou então por que estavam todos ali:

— Este é um conselho de guerra. Dispomos de cinco meses antes que a primavera comece a limpar a neve e o gelo das estradas. Nesse período, pretendo treinar uma força de combate sem par em toda a história da Terra do Gelo. Ela deverá ser eficaz, disciplinada e bem equipada. Já dei ordens para aumentarem a produção de armas e já convoquei a milícia. Em questão de dias, os recrutas destreinados chegarão e caberá ao exército normal a tarefa de treiná-los.

O mais confiante dos oficiais hipolitanos levantou a mão e Thirrin consentiu que ele falasse.

— Suponho, então, que os métodos de treinamento da milícia sejam alterados de alguma forma, Sua Alteza.

— Não — respondeu Thirrin. — Eles serão mantidos com acréscimos. O período e o método de instrução básica serão os mesmos. Mas quero que cada membro da milícia receba a mesma instrução que os regimentos dos guardas-da-coroa. Não quero saber de grupo de elite no meu exército. Cada soldado deverá fazer parte da elite!

Durante a hora seguinte, Thirrin delineou seus planos e respondeu a perguntas sobre todos os aspectos da estratégia, desde a instrução e alojamentos até suprimentos. Estava horrorizada com a noção que tinha da enormidade da tarefa que enfrentaria, bem como do fato de todos contarem com ela para ser sua líder. Por sorte, já tinha refletido sobre essas questões por muito tempo e com grande afinco e tinha uma solução pronta para a maioria dos problemas em potencial.

Finalmente, depois de examinadas todas as possibilidades, ela se recostou na cadeira e sorriu.

— Tenho mais um assunto que precisa ser discutido. Pretendo fazer uma expedição real para uma reunião com os vampiros na Terra-dos-Fantasmas.

Esperou tranqüilamente que a algazarra de protestos cedesse, para então prosseguir.

— Pretendo ir por uma única razão: nós precisamos de aliados.

— Mas já fizemos aliança com o Povo-Lobo e com os reis dos Carvalhos e dos Azevinhos — ressaltou Elemnestra. — Por que arriscar sua vida numa visita ao Palácio do Sangue, do rei e da rainha dos vampiros?

— Já examinei essa questão com meus conselheiros, Maggiore Totus e Oskan, Filho da Bruxa, e nós três chegamos a um consenso: se a Terra do Gelo quiser sobreviver a esse ataque do Império polipontino, precisaremos de mais aliados. Na realidade, quanto mais aliados, melhor. Não devemos nunca nos esquecer de que estamos tentando defender nosso pequeno país do maior e mais eficiente exército que o mundo conheceu. E vocês todos sabem que ele é comandado pelo general mais bem-sucedido de toda a história. Mesmo com a ajuda do rei e da rainha dos vampiros, nossa sobrevivência ainda é duvidosa. Mas, sem eles, é certo que estaremos perdidos.

— Mande então, no seu lugar, um embaixador da sua confiança. Não podemos nos arriscar a perder nossa rainha num momento destes — alertou a basiléia.

Maggiore Totus pigarreou, pedindo licença, e se levantou.

— Levamos esse aspecto em consideração, mas concluímos que, como nossas relações com a Terra-dos-Fantasmas se encontram num nível especialmente frágil, seria necessário enviar uma missão diplomática do mais alto calibre para reparar e restabelecer os devidos laços. Especialmente por estarmos ao mesmo tempo solicitando ajuda militar.

— E você tem como garantir a segurança da rainha? — perguntou Elemnestra.

— Senhora, nenhum de nós tem como afirmar que estará vivo para tomar o desjejum amanhã, muito menos garantir a segurança do monarca de um país devastado pela guerra. Existem, porém, ocasiões em que é preciso correr riscos pelo bem geral.

— Então deverá levar um exército de escolta.

— E fazer com que o rei e a rainha dos vampiros achem que estamos tentando invadir seu país? — perguntou Thirrin. — Não! Vou levar uma pequena escolta de dez cavaleiros e vinte soldados da infantaria.

— Como podemos ter certeza de que a Terra-dos-Fantasmas não empreenderá uma invasão agora que estamos ocupados com a guerra no sul? — perguntou um dos comandantes hipolitanos.

— Por dois motivos — respondeu Thirrin, descontraída. — Primeiro, não recebemos das fortalezas das fronteiras nenhum relato inesperado que dissesse respeito a movimentações de tropas. E, em segundo lugar, somos uma espécie de Estado-tampão entre o Império e o próprio território deles. Acrescente-se a isso o fato de os polipontinos serem homens da ciência e da racionalidade. Para eles, o rei e a rainha dos vampiros seriam alvo de total abominação: criaturas a serem esmagadas e exterminadas da face da terra. Se a Terra do Gelo cair, o território deles será o seguinte na lista de compras de Scipio Bellorum e não haveria para ninguém do seu... povo a possibilidade da cidadania nas vastas fronteiras do Império. Seriam todos dizimados. Esse fato será nossa maior defesa nas negociações que se aproximam. — Ela olhou em torno da mesa para saber se seria feita mais alguma pergunta antes de prosseguir. — Vou levar comigo Oskan, Filho da Bruxa, mas Maggiore Totus permanecerá aqui. A viagem pode se tornar difícil e arriscada e não quero vítimas entre meus conselheiros.

Outro comandante dos hipolitanos levantou a mão e ela se virou para ele.

— Como a senhora pretende informar o rei e a rainha dos vampiros das suas intenções? Não é possível que vá simplesmente cruzar a fronteira e esperar uma recepção amistosa.

— Nossos aliados do Povo-Lobo vão preparar o caminho para nós. Já entrei em contato com o rei Grishmak e ele concordou em enviar emissários ao Palácio do Sangue. Quando eu alcançar a fronteira, Suas Majestades vampíricas já terão conhecimento da minha chegada — respondeu Thirrin, com mais segurança do que sentia de fato.

— É claro que a rainha poderia estar caindo numa cilada engendrada por si mesma — ressaltou a basiléia.

— É verdade — concordou Thirrin. — Mas, como já dissemos, há ocasiões em que é preciso correr riscos. E como é esse o caso, decidi tomar o máximo de precauções possíveis. — Pôs-se de pé e, elevando a voz para que todos pudessem ouvi-la com clareza, proclamou: — Neste momento, diante de todos, eu nomeio minha herdeira, basiléia Elemnestra, minha tia e leal vassala. Na eventualidade da minha morte ou desaparecimento, ela será declarada rainha e será sua líder na luta contra o Império polipontino. Eu agora lhe entrego o grande anel de Estado que me será devolvido quando do meu retorno da missão.

Thirrin tirou o anel do dedo e o entregou à basiléia, que o aceitou com uma expressão desnorteada. Maggiore ficou tão surpreso como todos os demais com esse gesto; mas, sorrindo em segredo por dentro, precisou admitir que esse era o modo perfeito para curar o dano causado pela insistência de Thirrin em que os oficiais do sexo masculino também comparecessem à reunião. Agora estava quase completo seu amadurecimento para o papel de rainha da Terra do Gelo, pensou Maggiore, e talvez sua missão real à Terra-dos-Fantasmas acrescentasse aqueles indefíníveis toques de acabamento que fariam dela uma monarca que desperta um verdadeiro respeito.

Scipio Bellorum, pensativo, observava seu exército do ponto de observação no alto do morro. Dali conseguia acompanhar com precisão as manobras táticas, à medida que a cavalaria enfrentava os blocos disciplinados da infantaria. Tinha dado ordens de que fosse usada munição real nas manobras de exercício, permitindo-se um índice de perdas de dez por cento. Talvez fosse um pouco de desperdício, mas nada como a ameaça de derramamento de sangue para aguçar a concentração de um soldado, em especial quando esse sangue pode ser o dele mesmo.

Tinha perfeito conhecimento do revés sofrido pelo seu primeiro exército invasor e, agora que as neves tinham chegado, sabia que alguns meses se passariam antes que pudesse mandar para lá qualquer tipo de reforço substancial. Tudo tinha sido um risco calculado. Como as neves estavam atrasadas, havia uma probabilidade de que ele pudesse ter estabelecido uma forte cabeça-de-ponte antes da primavera. Bem, essa oportunidade lhe escapou pelos dedos e agora precisava tirar o melhor partido da situação.

O único problema real, aos seus olhos, era manter as tropas em excelentes condições de combate ao longo dos vagarosos meses do inverno. Para uma unidade de combate, era facílimo perder a agressividade. Mas, se conseguisse mantê-los ocupados com jogos de guerra e permitisse que os canhões, assim como os mosquetes, usassem munição carregada, teria criado condições tão semelhantes à guerra quanto possível, sem realmente travar combate com um inimigo real. Sem dúvida, era um terrível desperdício de homens e munições, mas o exército tinha como suportá-lo. E tudo se justificaria com facilidade quando ele invadisse a Terra do Gelo na primavera seguinte, com uma força de invasão descansada e pronta para o combate.

Sorriu calmamente consigo mesmo. Pelo menos estaria num perfeito estado de preparação, quando chegasse o degelo. Não haveria necessidade de aguardar até que regimentos cobrissem longos percursos por estradas recém-abertas.

Pouco depois, ele se deu conta de uma fome agradável. Nada como manobras para estimular o apetite. Um pouco de carne para o jantar, naquela noite, pensou ele. Carne malpassada com um daqueles excelentes vinhos tintos provenientes de uma das suas últimas conquistas. Os dois se complementariam com perfeição.

 

Thhirrin fez questão de não demonstrar ter percebido os longos protetores de lã que Oskan tinha enrolado com cuidado nas orelhas da mula, Jenny. Mesmo o fato de serem de um amarelo brilhante com " pompons vermelhos nas pontas não a levou a fazer nenhum tipo de comentário. Estava determinada a não dar atenção a eles nem aos adereços profusamente coloridos que adornavam a mula; mas estava chegando à rápida conclusão de que em algumas ocasiões Oskan fazia um esforço deliberado para irritá-la. Ele ainda se recusava a montar num cavalo, o que ela considerava mais adequado para um dos seus conselheiros mais importantes. E agora seu prazer era fazer com que um animal de aparência ridícula por natureza parecesse ainda mais ridículo, vestindo-o com peças de tricô de cores vivas!

A escolta de dez cavaleiros hipolitanos e vinte guardas-da-coroa tinha aberto largos sorrisos como totais idiotas quando Oskan surgiu montado na mula. E Thirrin calculava que qualquer pessoa que encontrassem na estrada faria o mesmo. Não se podia dizer que aquilo estivesse de acordo com a dignidade da majestade ou da missão diplomática.

— Você está pronto? — perguntou ela, olhando do alto de seu enorme cavalo de combate, com uma atitude que esperava transmitir uma superioridade desdenhosa, e Oskan lhe deu um sorriso luminoso, concordando em silêncio.

Ao longo da estrada principal que saía da cidade hipolitana estavam postados os refugiados de Frostmarris, que assistiam à sua passagem em silêncio quase total. Sabiam que a jovem rainha estava correndo um risco terrível; e que, se ela fracassasse, era quase certo que fossem condenados à derrota nas mãos do Império polipontino. Até mesmo a visão da mula com seus protetores de orelha não adiantou muito para animar seu estado de espírito. Alguns se despediram acenando; um ou dois disseram bênçãos e pequenas fórmulas mágicas para garantir uma viagem segura; mas, fora isso, a multidão estava muda como um lago congelado.

Thirrin se sentiu aliviada quando por fim passaram pelos portões e a estrada se estendia, vazia, à sua frente. Oskan tinha dito que poderiam contar com pelo menos três dias de tempo calmo, período ao fim do qual deveriam estar próximos da fronteira. E sem dúvida o dia estava claro e luminoso: o melhor tempo para viajar no inverno, se a viagem não pudesse ser evitada. A neve congelada refletia o brilho do sol e o céu exibia o azul perfeito de esmalte lavado. Thirrin sentiu o cheiro gostoso do ar. Além dos fortes odores imediatos dos cavalos e do couro dos equipamentos dos soldados, o dia tinha apenas o perfume frio e limpo da neve. De repente, ela se sentiu livre. E, se estivesse sozinha, teria saído em disparada com o ar a espetar seu rosto, atiçando o cavalo a velocidades cada vez maiores. Mas agora ela era a rainha da Terra do Gelo, impedida de agir daquele modo pela predominante noção de seus deveres. De repente, pesou sobre ela como um fardo a percepção de que, daquele momento em diante, a responsabilidade afetaria todas as suas decisões e atos. E isso azedou seu humor.

— Imagino que você esteja com frio — disse a Oskan, irritada.

— Claro. Estamos no inverno — respondeu ele, calmamente.

— Daria para pensar que você sente mais frio que a maioria.

Ele olhou para ela, procurando avaliar essa mudança de tom.

— Senhora — disse, então —, passei toda a minha vida numa gruta e andei nu em qualquer tipo de clima até os sete anos. É verdade, estou com frio, o que é óbvio. Todo o mundo que sai de perto da lareira num inverno na Terra do Gelo sente frio. Mas não estou me queixando. Estou com tanto frio e me sinto tão revigorado quanto alguém que acabou de mergulhar num lago nas montanhas.

A resposta de Thirrin foi um grunhido mal-humorado, mas ela teve de admitir para si mesma que ele sem dúvida parecia estar bastante agasalhado, com o tipo de casaco e perneiras acoichoadas de cores vivas que eram comuns entre os hipolitanos. Na realidade, Oskan combinava perfeitamente com Jenny, a mula. Para Thirrin, a única surpresa era ele não estar usando protetores de orelha por baixo do gorro vermelho vivo.

Além disso, sua atitude não estava exatamente em sintonia com as circunstâncias. O povo, em sua maioria, tinha se despedido deles com um ar melancólico, reconhecendo a situação desesperadora que levava a nova rainha daquela terra a procurar uma aliança com seu antigo inimigo. Oskan, entretanto, dava a impressão de estar partindo num passeio de férias.

— Por que está tão contente? — perguntou Thirrin, em tom de acusação. — Todos os outros estão apavorados com a guerra, mas você parece um pinto no lixo.

— Eu estou feliz — disse ele, com um enorme sorriso — porque neste instante não estamos em combate. O sol rebrilha na neve e o céu está azul como a asa de um martim-pescador.

— E você acha que essa atitude é correta? Alguns já morreram e muitos outros morrerão antes que a guerra termine. Mesmo assim, sorri como se sua boca tivesse a ambição de chegar até as orelhas!

— E exatamente de que maneira uma cara sofredora seria útil ao esforço de guerra? — perguntou ele, irritado, com o humor começando a se alterar. — Uma cara fechada vai trazer os mortos de volta? Ou fortificar algum povoado? Se eu me permito rir diante da desgraça, minha cabeça consegue uma trégua de todo esse estresse, o que a levará a funcionar melhor para a senhora e para sua guerra. E, se de fato devo ser um dos seus conselheiros, Vossa Majestade, aceite este conselho: aproveite a felicidade onde e quando a encontrar, porque nos próximos meses ela vai ser muito rara!

Thirrin puxou as rédeas, furiosa, parou o cavalo e lhe lançou um olhar raivoso.

— Não estou gostando do seu tom, senhor conselheiro real! Talvez meu pai tenha se enganado e você estivesse melhor em alguma outra função.

— Talvez! Talvez! Você realmente não faz idéia de como as pessoas se sentem, não é mesmo? — retrucou Oskan, com acidez, com uma raiva estranhamente exagerada diante da situação. — Nunca desejei a missão de ser a voz da razão para Sua Majestade, a rainha da surdez. Será que ela realmente imagina que advertências sobre o risco de eu perder minha posição sejam para mim algum tipo de ameaça? Nada neste mundo me agradaria mais do que voltar para minha gruta e viver como eu bem quiser.

— É mesmo? E como você conseguiria morar na sua caverna com as tropas do Império cruzando a Grande Floresta por todos os cantos?

— Posso lhe garantir que na mata eu só sou visto quando quero. Por que será que Thirrin Freer Forte-no-Braço-Barulhenta-de-Acordar-os-Mortos acha que nunca me viu até este ano, quando eu a vi desde que ela ousou entrar pela primeira vez entre as árvores, com o cavalo puxado pela guia?

Thirrin estava tão louca de raiva que poderia ter dado um berro, mas controlou a voz, falando entre dentes, com frieza:

— Quem sabe Oskan, Filho da Bruxa, não preferiria usar seus supremos conhecimentos da mata trabalhando como patrulheiro para a milícia? Depois que terminasse seu treinamento básico, é claro.

— E exatamente qual dos seus regimentos de caipiras com couraça de ferro Vossa Majestade imagina ter a capacidade para me prender? — perguntou ele, com um sorriso cruel. De repente Thirrin se deu conta de como suas feições podiam ser felinas e ferozes quando ele estava com raiva. — Os curandeiros são os inimigos mais apavorantes, herdeira da Casa dos Fortes-no-Braço. O conhecimento que salva vidas pode ser usado para fazer o contrário. Especialmente quando corre em suas veias o sangue dos Sábios.

Thirrin olhou um instante para ele e ficou pasma com a transformação. Os olhos estavam arregalados e enfurecidos, os lábios exibiam os dentes muito brancos e estranhamente pontudos e ela realmente acreditou que sua pele estouraria de tanta raiva se ela tocasse nele. E ainda havia mais uma coisa. Em torno dele, havia uma espécie de aura de poder que era quase palpável. Parecia que essa aura adensava o ar que o cercava, tremulando como ondas de calor, mas recuando quando o olho tentava defini-la.

De fato, ele seria o mais terrível dos inimigos e, embora Thirrin estivesse furiosa e naquele instante acalorado não quisesse fazer outra coisa senão sacar a espada e forçá-lo a implorar perdão, um insistente sinal de alarme soava no seu cérebro: Você precisa dele. O país precisa dele. Não o empurre por caminhos sombrios por causa do seu próprio orgulho. Você agora é rainha. Não pode permitir que uma raiva pessoal exponha o país ao perigo.

Ela de algum modo sabia que aquele era um momento crucial. Não saberia dizer de onde isso tinha vindo, nem como. Mas sabia que, se perdesse Oskan agora, o lado das Trevas sairia ganhando.

Respirou fundo, lutando contra as emoções e, aos poucos, as dominou. Quando olhou de novo para ele, viu que os olhos de Oskan estavam estranhamente desfocados, mas ainda chispavam com uma raiva que ela involuntariamente tinha despertado. Cabia a ela destruir aquele estado de espírito e reconquistá-lo. Ela se inclinou na sela e olhou para ele com atenção.

Oskan, Filho da Bruxa, não nos deixe. Precisamos de você. Você acha que sua mãe, Annis Branca, teria nos deixado numa hora de tanta necessidade? Volte, Oskan.

Aos poucos, os olhos voltaram a entrar em foco, mas ele ainda olhava para Thirrin como se ela fosse uma desconhecida.

Muito tempo atrás, Annis Branca tinha lhe falado do pai e de como sua gente sempre precisava fazer uma escolha entre a luz e a treva. Bem, agora chegava sua hora de escolher. A raiva violenta, fumegante, que pareceu brotar do nada, lhe oferecia a oportunidade de escolher. Ele poderia usar seus poderes para si mesmo num rematado egoísmo ou poderia usá-los para ajudar outras pessoas, muitas vezes sem grande retribuição, talvez nem mesmo um agradecimento. Só isso.

Naturalmente, a decisão era óbvia e seu sorriso se abriu quase como se ele fosse um lobo mostrando os dentes. Mas então ele voltou a reconhecer a menina que parecia tão desesperada e abanou a cabeça. O que foi mesmo que ela disse? "Volte"? Por que deveria voltar? Por que deveria dedicar seu poder e sua força para ajudar os outros? Mas ele já sabia a resposta. Thirrin Freer Forte -no-Braço Escudo-de-Tília precisava dele, da mesma forma como seu minúsculo país, tolo e corajoso. Aos poucos, ele deu as costas à tentação da treva e olhou ao redor.

— Você disse para eu voltar. E pode me dizer aonde acha que eu fui? E quem está deixando quem?

— Você ameaçou voltar para sua caverna.

— Ameacei? Não... Pelo que eu me lembre, era você quem estava fazendo ameaças.

— Uma prerrogativa real. Deixe as ameaças para lá.

Ele pareceu um pouco confuso, mas dali a pouco deu o antigo sorriso amigo.

— O que será que deu na gente?

— Quem vai saber? Mas já passou. Vamos esquecer.

— Não. Vamos nos lembrar — retrucou Oskan, em tom misterioso. Mas sorriu de novo, um sorriso tão luminoso que Thirrin se sentiu reconfortada, com um alívio profundo.

Todo aquele tempo, a escolta de soldados tinha ficado parada, observando ansiosa o casal brigar por alguma coisa que eles não entendiam. Mas, agora que a rainha e seu conselheiro se descontraíram e começaram a conversar em tons normais, retomaram a marcha.

O dia muito curto do inverno na Terra do Gelo tornava necessário prosseguir a marcha depois do pôr-do-sol, se eles quisessem cobrir uma distância razoável. Mas não houve necessidade de acender os archotes que carregavam. Faltava um dia para a lua cheia e, quando ela foi subindo num céu cheio de estrelas brilhantes, sua luz suave, de um cinza-prateado, era refletida e ampliada pela neve, de modo que o mundo inteiro parecia reluzir como uma pérola no escuro.

Mas o frio era tremendo. E, sem o calor do sol, as temperaturas já baixas caíram tanto que o couro ficou quebradiço e respirar doía. Suportaram marchar no frio por mais quatro horas. Depois, assim que Thirrin deu ordens para que fizessem alto, os soldados passaram à tarefa de construir abrigos, descarregando varas compridas e flexíveis dos cavalos de carga para formar com elas estruturas rígidas, no formato de cúpula, sobre as quais foram amarradas muitas camadas de grossos tapetes trançados e peles de animais. Também o piso dentro dos abrigos era coberto com esteiras de vime, braseiros acesos foram postos perto das entradas e logo as tendas chegavam a uma temperatura que pelo menos estava acima do ponto de congelamento. Até os cavalos tinham seu próprio abrigo, construído no mesmo estilo, mas com um espesso leito de palha. A necessidade de carregar equipamento suficiente para possibilitar a viagem no auge do inverno foi um dos motivos para Thirrin ter querido manter seus números reduzidos; mas todos estavam bem acostumados àquelas condições e realizaram suas tarefas com eficiência.

Thirrin ainda estava preocupada com a possibilidade de nevascas, mas Oskan disse que tempestades de neve que atingissem a parte sul da floresta só passariam para o norte quando eles estivessem se aproximando das Rochas-dos-Lobos e a essa altura não estariam muito longe do Palácio do Sangue, do rei e da rainha dos vampiros.

Ela e Oskan comeram juntos na tenda real, ouvindo a cantoria que vinha do abrigo dos guardas-da-coroa, montado a alguma distância dali. A estranha discussão que tiveram mais cedo naquele dia fez com que de início eles se sentissem constrangidos. Mas, depois que Oskan a classificou de "poluição mágica" trazida pelo vento que soprava da Terra-dos-Fantasmas, os dois ficaram mais à vontade.

— Afinal de contas, que outra coisa poderia ter sido? A discussão surgiu do nada, atingiu píncaros de estupidez e desapareceu assim que a enfrentamos com um pouco de bom senso — disse ele, sendo racional.

— Assim que eu a enfrentei com bom senso — salientou Thirrin. — Você já estava pronto para se mandar para sua caverna, como um bebezão irritado.

— É verdade. Mas acho que talvez fosse melhor a gente não reacender uma briga já morta e enterrada — disse Oskan, antes de prosseguir em tom amável. — Parece que precisamos dar uma melhorada nos talentos diplomáticos de Vossa Alteza antes da reunião com Suas Majestades vampíricas no Palácio do Sangue. Não queremos guerrear com dois inimigos.

Thirrin respirou fundo para responder e foi soltando o ar devagar. Oskan estava com a razão. Seria preciso usar a maior diplomacia jamais vista neste mundo para ela conseguir selar a paz com a Terra-dos-Fantasmas. Sendo assim, era melhor começar a se exercitar de uma vez.

— Quer mais um pouco de ensopado? — perguntou-lhe, amavelmente, chamando o criado.

Os dois começaram então a examinar a missão em detalhes, repassando inúmeras vezes os obstáculos e dificuldades até esgotar todas as possibilidades que conseguiram imaginar.

— Eles têm a reputação de ser escorregadios como enguias na banha. Sele cada acordo que fizer da única forma que o rei e a rainha dos vampiros respeitam.

— E essa forma qual é?

— Com sangue, é claro.

— Ah, isso mesmo.

— Qualquer outro tipo de compromisso, eles simplesmente vão ignorar. E pode acontecer de você entrar em combate contando com eles, mas sem ter nada além de uma aliança vazia como um odre de vinho no fim de uma festa.

— E o acordo terá de ser selado com o sangue de quem? — perguntou Thirrin.

— O deles... e o seu, é claro. Na verdade, você vai assinar um pacto. E, na Terra-dos-Fantasmas, o sangue tem o mesmo valor legal do juramento mais sério.

— Como você sabe tudo isso? — perguntou Thirrin. — Quase parece que você já lidou com Suas Majestades vampíricas antes.

Oskan abanou a cabeça.

— Maggiore e eu passamos um tempo muito valioso nos arquivos dos hipolitanos enquanto você elaborava planos para reorganizar o exército. Maggie supôs que pudesse haver algo de útil por lá, porque a província fica tão perto da fronteira, e acabamos achando um tesouro. — Ele se voltou para chamar o criado e, depois que sua caneca e a de Thirrin estavam cheias de novo, prosseguiu: — No subterrâneo mais profundo dos arquivos, deparamos com uma arca rotulada com o nome do rei Theobad, o Bravo, da Terra do Gelo. Ela tratava da época da chegada dos hipoiitanos aqui há mais de quatrocentos anos quando, como você sabe, houve uma guerra. Maggie ficou fascinado e não parava de dizer frases como: "Ah, isso explica tanta coisa" e "E por isso que a cultura hipolitana é tão diferente. Eles são do continente meridional", o que eu não sabia. Você sabia?

Thirrin abanou a cabeça, lamentando ter perdido a mãe quando era tão pequena. Podia ser que, se tivesse vivido mais, sua mãe hipolitana lhe tivesse passado conhecimentos desse tipo.

— Não, isso eu não sabia. Mas os nomes que usam são diferentes e são as mulheres que governam. Por isso, suponho que tenham vindo de algum lugar muito exótico.

— Isso mesmo — concordou Oskan. — Todas as histórias heróicas de antigamente falam da guerra entre o rei Theobad e os hipoiitanos. De como eles se enfrentaram por tanto tempo e com tanta ferocidade que, por fim, começaram a se admirar e a se respeitar uns aos outros. Mas nenhuma história jamais menciona o fato de Theobad ter firmado um tratado de não-agressão com a Terra-dos-Fantasmas, tratado este que lhe proporcionou liberdade para se dedicar por inteiro à luta contra os hipoiitanos. Se você pensar bem, até faz sentido. Suas Majestades vampíricas teriam com certeza invadido o país enquanto Theobad lutava sua guerra, se ele não tivesse anteriormente firmado um acordo com eles.

— Por que você não me disse nada disso antes? Esse tempo todo achei que íamos tentar o impossível e agora descubro que no passado houve tratados com a Terra-dos-Fantasmas! — protestou Thirrin.

— Eu ia lhe contar hoje à noite de qualquer maneira — explicou Oskan, às pressas. — E pretendia contar antes, mas com todo o planejamento e preparação para a viagem, o assunto me escapou.

— Escapou! Uma das informações mais importantes que eu poderia usar para convencer Suas Majestades vampíricas a entrar em acordo conosco... e ela lhe escapou!

— É. Pode acontecer — disse ele, dando de ombros. — Também sou humano... em parte.

Thirrin contou até dez e se lembrou da necessidade de diplomacia.

— Prossiga com sua história, então. E não me deixe mais nada de fora!

Para se controlar, Oskan tomou um gole da caneca e continuou:

— Bem, como nós sabemos pelas histórias heróicas, Theobad e a basiléia dos hipolitanos daquela época finalmente firmaram a paz, pela qual ela concordou em reconhecer o rei da Terra do Gelo como seu suserano, em troca pelo território que se tornou a província de Hipólita. E desde aquela época a basiléia atendeu ao chamado do monarca da Terra do Gelo sempre que houve guerra. Eles são nossos maiores aliados. Mas os arquivos também fornecem detalhes sobre o tratado entre Theobad e a Terra-dos-Fantasmas e informam que o tratado foi redigido e selado com o sangue do rei misturado ao de Suas Majestades vampíricas.

— E ele dizia exatamente como o rei Theobad conseguiu persuadi-los a assinar? — perguntou Thirrin, ansiosa.

— Hum... não.

— Não?!

— Não. Só dizia que houve um acordo sobre um pacto de não-agressão e que eles o assinaram — respondeu Oskan, encolhendo os ombros, constrangido.

— Que maravilha! — explodiu Thirrin. — Quer dizer que sabemos exatamente que forma legal usar se conseguirmos entrar em acordo com o rei e a rainha dos vampiros, mas não fazemos a menor idéia de como conseguir esse acordo! É nisso que dá contar com as lições da história!

— É, mas pelo menos podemos lhes mostrar que já houve outros tratados. Não estamos inventando nada de novo nem desrespeitando proibições — salientou Oskan.

— Certo — concordou Thirrin, à medida que começava a finalmente enxergar algum uso para aquela informação. — Mas o mais importante é eles saberem que nós temos conhecimento de tratados anteriores. Sem dúvida, eles se lembram de ter assinado o pacto de não-agressão com Theobad, mas deixaram que esse fato se perdesse com o passar dos séculos. É óbvio que a memória imortal é longa, Oskan, mas ela não precisa revelar todos os seus segredos a criaturas insignificantes de vida curta, como você e eu.

Eles continuaram a debater os planos até altas horas da noite gelada. Mas Oskan acabou indo para sua tenda para dormir algumas horas. Sua cabeça fervilhava com problemas e possibilidades, mas estava tão cansado que logo adormeceu. E, no instante em que começava a mergulhar nos profundos reinos do sono, seu pensamento se voltou para a estranha discussão que tinha tido com Thirrin mais cedo. Foi tão esquisito, tudo surgindo do nada como uma tempestade nas montanhas, e depois ele se sentiu... diferente, de algum modo que não conseguia identificar com precisão. Mas, antes que pudesse analisar mais a situação, caiu em sono profundo.

Quando o dia amanheceu, eles já estavam marchando havia duas horas. Se é que isso era possível, estava ainda mais frio quando recolheram os abrigos e partiram. Tanto que Thirrin começou a se perguntar se Oskan teria protetores de orelha de reserva que ela pudesse usar no seu cavalo. Mas resistiu ao impulso de perguntar. Seria preciso que fosse iminente a ulceração pelo frio para ela lhe dar o gosto dessa pequena vitória.

Quando o sol raiou finalmente num fogo esplêndido, pararam para fazer o desjejum. O aroma caseiro de toucinho frito e panquecas parecia totalmente deslocado na beleza austera do início do dia de inverno. Mas Thirrin não se lembrava de ter comido nada tão delicioso. Ela mastigava faminta enquanto olhava direto para o lento ondular do campo de neve que aqui e ali refletia os raios baixos do sol nascente formando arco-íris brilhantes. De um horizonte ao outro, o céu exibia um azul puríssimo irretocável e ela considerou quase impossível acreditar na previsão de Oskan de que haveria nevascas antes do final do dia seguinte. Mas deixou de lado seu próprio ceticismo recém-descoberto e logo estava com a escolta novamente em marcha no esforço de chegar à fronteira antes que o tempo piorasse.

Mantiveram um bom ritmo o dia inteiro, com paradas freqüentes para rápido descanso e refeições enquanto recorriam a todas as suas forças para enfrentar o frio cruel e os declives cada vez mais íngremes. A certa altura, uma manada de bisões de pêlo desgrenhado atravessou tranqüila o trajeto que seguiam, parando para cavar a neve em busca de líquen e capim, observando os soldados com uma curiosidade apática, enquanto ruminavam. Mas não houve nenhum outro sinal de vida nas terras congeladas.

O dia curto logo passou ao anoitecer. E, enquanto o sol mergulhava abaixo do horizonte, a temperatura voltou a cair rapidamente. Para Thirrin, porém, o extremo desconforto do frio quase se compensava com a beleza do nascer da lua sobre os campos de neve. A luz de prata parecia cair do céu num chuvisco brilhante que transformava até mesmo os objetos mais corriqueiros em sutis obras de arte que deslumbravam o olhar. Mas Thirrin não se permitiu tempo para apreciar o esplendor que a cercava e, depois de olhar de relance para as neves espelhadas que pareciam respirar a luz de volta para o céu, ordenou que fosse armado o acampamento.

Naquela noite, nuvens vindas do sul começaram a avançar e a encobrir o céu. Thirrin e Oskan, da entrada da tenda, olhavam enquanto o enorme volume de vapor ia aos poucos engolindo o campo de estrelas cintilantes. A extremidade avançada da massa de nuvens parecia se estender quilômetros pelo céu acima, com seus montes enfunados e vales delicadamente banhados pelo luar.

— Tenho certeza de que não as acharemos tão bonitas amanhã quando as nevascas nos atingirem — comentou Thirrin.

— Não. Mas na hora em que começar a cair a neve já devemos estar bem perto da fronteira — respondeu Oskan, voltando-se para olhar para as montanhas das Rochas-dos-Lobos, cujos picos pontiagudos se erguiam em contraste com o céu, como as ameias quebradas de uma fortaleza gigantesca.

— E o que vai acontecer então? Você sabe a distância exata da fronteira até o Palácio do Sangue? Poderíamos morrer congelados antes mesmo de pôr os olhos em Suas Majestades vampíricas.

— Isso não vai acontecer. — Os olhos de Oskan estavam agora com uma estranha expressão vazia, sua voz estava mais grave e suas palavras tinham assumido o timbre de uma cantilena ou canção monótona, enquanto ele falava. — Nós nos encontraremos com eles e depois com algo mais fantástico, ainda mais assustador que eles. Um aliado, Thirrin, o maior aliado que chegaremos a ter...

Thirrin reconheceu os sinais da Visão no seu conselheiro e prendeu a respiração enquanto esperava que ele dissesse mais. Mas em vez disso os olhos de Oskan se desanuviaram e ele deu um sorriso.

— Acho que não vem mais nada. Foi só um relance...

— O que você viu? Quem é esse aliado? — perguntou ela, ansiosa.

— Não sei — disse ele, encolhendo os ombros. — Alguém poderoso e feroz, mas um amigo leal. Embora não seja nem homem nem mulher... — E abanou a cabeça. — Não sei mais que isso. Talvez a Visão volte e nos diga mais alguma coisa.

Mas não aconteceu nada naquela noite e, quando amanheceu, o manto de nuvem baixa e pesada monopolizava a atenção de Thirrin. Seguiram adiante sob o céu cinza-chumbo, como se estivessem carregando um peso enorme. Agora estavam escalando os contrafortes da cadeia de montanhas que formava a fronteira e grandes rochas cobertas de neve, como carneiros gigantes, começavam a se destacar da paisagem em torno deles.

No entanto, mesmo esses sinais de que estavam chegando ao destino não conseguiam tirar a atenção de Thirrin do céu ameaçador. A luz estava com um tom esquisito, quase pardo, e havia uma sensação de expectativa como se a terra inteira estivesse prendendo a respiração. Esperavam que a qualquer momento caíssem os primeiros sopros de neve, mas isso não aconteceu, o que aumentou a tensão já crescente. De repente, Jenny, a mula de Oskan, soltou um zurro fortíssimo que pareceu quase abafado debaixo daquele céu de um cinza profundo. Mas ela continuou com o estranho guincho chiado por quase um minuto antes de finalmente se calar.

— E agora o que foi isso? — perguntou Thirrin, em tom de desaprovação, do alto de seu cavalo.

— O vento está chegando — respondeu Oskan, simplesmente.

— Só isso?

Seu conselheiro olhou para ela, mas não disse nada. Depois, fez a mula parar, desmontou, procurou nos alforjes até encontrar mais um casaco provido de um grande capuz e o vestiu. Em seguida, desdobrou um cobertor grosso e cobriu o dorso da mula com ele, prendendo-o com amarras na dianteira e na traseira.

Thirrin entendeu a sugestão e ordenou aos soldados da escolta que vestissem qualquer roupa de reserva que tivessem. Depois, com a ajuda de Oskan, cobriu seu cavalo com um cobertor. Não tinha certeza do que teria pela frente. Os ventos de inverno da Terra do Gelo eram lendários e desde a infância ela ouvia histórias de que congelavam aves nos galhos e animais no chão. Mas, apesar de cavalgar e caçar em locais ermos desde que mal conseguia andar, até aquele dia ela nunca tinha se afastado tanto para o norte nem estado ao ar livre quando os ventos se abatiam sobre a terra.

Depois de mais ou menos meia hora, Thirrin começava a se perguntar se Oskan e sua mula poderiam ter se enganado, quando leve sopro fez ondular a crina do seu cavalo e ela ouviu um som como o de um mar distante arrebentando tempestuoso na costa. Virou-se na sela, mas não viu nada. A neve estava congelada, de modo que não havia flocos soltos para serem soprados e, naquela região da Terra do Gelo, não havia árvores para balançar os galhos com a passagem da tempestade.

Mas o som foi se aproximando cada vez mais, subindo num uivo agudo até que, de repente como uma porta que se fecha com violência, o vento os atingiu. Se tivesse tido condição, Thirrin teria dado um grito sufocado de espanto. A temperatura caiu como um peso de chumbo e não havia roupa que os conseguisse proteger do vento. Ela puxou o capuz para a frente e se encurvou por cima da sela. Quase conseguia ver o couro das rédeas tornando-se quebra-diço enquanto continuavam a cavalgar e nenhum tipo de incentivo teria conseguido fazê-la tirar as luvas e tocar no aço da armadura ou da espada. Sabia que, se fizesse isso, deixaria no metal impressões digitais da espessura da sua carne.

O vento terrível soprou constante durante o resto do dia. Um dos cavalos de carga caiu e se recusou a se levantar de novo; com isso, redistribuíram sua carga entre os outros e o deixaram ali para morrer. Em condições extremas como aquela, não havia possibilidade de compaixão. Bastaria só um pouco mais de dificuldade para todos eles morrerem congelados. Thirrin temia a chegada da noite. Caso não conseguissem chegar à fronteira ou se perdessem, precisariam armar acampamento novamente e a idéia de tentar fincar tendas no meio daquele vendaval era um verdadeiro pesadelo.

Aquela altura, estavam subindo a duras penas por um caminho muito bem definido que seguia sinuoso pelas encostas rochosas e íngremes dos contrafortes. A sua frente, as Rochas-dos-Lobos se destacavam do céu como dentes quebrados e Thirrin só conseguia fazer preces para que não perdessem o caminho até o passo.

Ali, a neve tinha sido raspada das rochas espalhadas pelo terreno numa desordem negra e irregular que não oferecia ponto de apoio para nenhum tipo de vida. Toda a paisagem parecia morta e árida como um deserto. Tudo se apresentava horrivelmente ameaçador aos olhos de Thirrin e exatamente adequado para a fronteira com uma terra governada pelos mortos-vivos. Mas, se ela a tivesse visto no verão, teria percebido que no fundo das fissuras, onde os ventos não conseguiam chegar, lagartos, camundongos e muitas outras criaturas dormiam, à espera da volta do sol.

Então, repentinamente como uma avalanche nas montanhas, a neve se abateu sobre eles, em redemoinhos cortantes causados pelo vento. Eles ficaram imediatamente presos num mundo branco e claustrofóbico, onde não era possível aplicar nenhum ponto de referência. Não havia norte nem sul, leste nem oeste e somente a força da gravidade permitia que soubessem distinguir onde ficava o chão. Thirrin tinha procurado se preparar para isso e todos estavam atados a uma corda para que ninguém se perdesse ou pelo menos para que ninguém se perdesse mais que o grupo inteiro. Mas agora nenhuma precaução ou plano lhes serviam de nada. Estavam totalmente cegos: cada indivíduo envolto num casulo de neve turbilhonante que reduzia a visibilidade a praticamente nenhuma. Thirrin não conseguia nem mesmo enxergar Oskan, que ela sabia estar seguindo bem a seu lado, e não ouvia nada a não ser os zunidos do vento.

Ela parou e, pela resistência da corda, percebeu que todos os demais também pararam. Mas agora não tinha plano algum a propor: ninguém podia fazer nada. Se avançassem, poderiam se perder. Se permanecessem parados, poderiam morrer congelados, e a nevasca era tão violenta que ninguém seria capaz nem mesmo de encontrar as tendas, muito menos armá-las.

Por alguns minutos ficaram parados, aguardando, com a esperança de que a neve parasse; mas ela continuava a formar remo-inhos e a açoitá-los como uma terrível seda branca, com seu frio mortal extraindo o pouco calor que seus corpos ainda retinham. Thirrin sabia que em pouquíssimos minutos todos poderiam começar a morrer e o desespero a dominou. Pensou na Terra do Gelo governada por sua tia Elemnestra. Thirrin a tinha nomeado sua herdeira num gesto destinado a remediar a fissura aberta entre elas quando, desrespeitando as tradições hipolitanas, tinha insistido em que homens participassem dos conselhos de guerra. Mas não duvidava de que, se Elemnestra se tornasse rainha, ela tentaria impor o sistema hipolitano a todo o território da Terra do Gelo. Thirrin podia imaginar a guerra civil, à medida que barões e baronesas pegassem em armas contra a imposição de uma cultura estrangeira como aquela. Como Scipio Bellorum riria quando seus exércitos esmagassem aquele pequeno país tolo o suficiente para lutas internas enquanto ele o invadia.

Thirrin deu um grito de desespero, com a voz se misturando aos zunidos do vento, que lhe respondeu e a reverberou, em zombaria. Aquele era o som que uma garganta fria e morta produziria, ela se flagrou pensando com uma calma súbita e extraordinária. Escutou, quase ouvindo palavras e uma melodia cruel naquele barulho. Mas então achou que surgia uma nota diferente, de algum modo mais... terrosa, com mais calor de vida, e se voltou para o lugar de onde vinha o novo som. Ele se repetiu, agora ululando em contraste com as subidas e descidas do vento e irrompendo tanto para a direita como para a esquerda.

Surgiu então no seu campo visual uma cara enorme e peluda.

— Por aqui! — berrou uma voz poderosa e o cavalo de Thirrin avançou de imediato. Seguiram trôpegos, em confusão, por alguns minutos e então pareceu que a neve parava e eles quase tombavam ao entrar num espaço largo, enfumaçado e cheio de luz, fogo e um calor abençoado. Thirrin limpou a neve das pálpebras congeladas e olhou ao redor. Estavam numa caverna cheia de criaturas grandes e peludas que, ao vê-la, jogaram a cabeça para trás e uivaram.

O Povo-Lobo tinha conseguido encontrá-los.

 

Os lobisomens comiam muita carne. E não faziam muita questão de ela estar cozida ou crua. Mas adivinharam rápido que Thirrin e seu pessoal preferiam que a carne não estivesse sangrando e logo os convidados tinham diante de si enormes pilhas de bifes fumegantes em travessas toscas feitas de lajes de pedra.

Todos comeram com voracidade enquanto o calor da caverna os envolvia e aos poucos descongelava dedos, braços e pernas. Assim que sentiu o sangue pulsando forte de novo nas veias, Thirrin se pôs de pé e foi inspecionar sua escolta. Para seu espanto, não havia nenhuma lesão permanente além de alguns casos leves de ulceração pelo frio.

O nervosismo entre os soldados era inevitável. Os lobisomens até podiam ser aliados, mas a amizade era muito recente e havia toda uma longa história de séculos de conflito entre as duas raças. Mas, além de alguns olhares desconfiados e de armas mantidas bem à mão, a escolta conseguiu se comportar corretamente.

Até mesmo os cavalos estavam em boa forma, parados pacientes num cercado que o Povo-Lobo tinha construído com galhos nos fundos da caverna. Estavam comendo uma ração grosseira, feita de capim fenado, nozes e do mesmo tipo de líquen que Thirrin tinha visto os bisões comendo mais cedo no trajeto. De início, os cavalos estavam muito nervosos com a presença dos lobisomens, refugando e bufando sempre que se aproximavam, mas quando o Povo-Lobo espalhou a ração no piso do cercado e os deixou de lado, eles se acalmaram.

Só então Thirrin se permitiu dar uma olhada na caverna. Era enorme. Quase tão grande quanto o salão-mor em Frostmarris, com a diferença de que aqui havia pelo menos oito fogueiras, não apenas a fogueira única que em Frostmarris ocupava o centro do salão. Cada fogueira ardia em lareiras que pareciam ser permanentes e todas tinham grupos do Povo-Lobo reunidos ao redor, no que Thirrin supôs serem famílias ampliadas. Mas a lareira central era a maior e ali um lobisomem muito grande com uma coleira de prata estava sentado cercado por dezenas de outros que pareciam estar recebendo ordens ou trazendo os melhores pedaços de carne.

Era evidente que aquele era o centro do poder na caverna. E, respirando fundo para se acalmar, Thirrin se dirigiu para lá, apanhando Oskan no caminho. Assim que percebeu que ela se aproximava, o lobisomem enorme se levantou e, por incrível que pareça, fez uma mesura.

— Saudações, minha senhora Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, rainha da Terra do Gelo. Sou a baronesa Lishnok Caveira-Arreganhada, dos Caveiras-Arre-ganhadas das montanhas das Rochas-dos-Lobos. Talvez tenha ouvido falar da minha família.

Thirrin ainda estava se recuperando da cena de uma criatura gigantesca fazendo uma mesura e, por um instante perigoso, quase deu um risinho, mas logo se controlou e respondeu com extrema cortesia:

— Saudações, baronesa Caveira-Arreganhada. Todo o meu grupo e eu lhe devemos a vida e a Casa dos Fortes-no-Braço e Escudos-de-Tília há de se lembrar disso para sempre. O fato de eu não ter um profundo conhecimento da sua família é uma falha que assumo plenamente e só posso atribuir a culpa às hostilidades que no passado existiram entre nossas raças. Mas, deste dia em diante, a Casa da Caveira-Arreganhada será conhecida por toda parte na Terra do Gelo.

A baronesa deu um sorrisinho diante dessa resposta elegante e, estendendo uma pata de garras enormes, convidou Thirrin a sentar ao seu lado. Thirrin aceitou com prazer mais uma porção de carne cozida do próprio prato da mulher-lobo e abriu espaço para Oskan ao seu lado. Os dois começavam a praticar seus conhecimentos de diplomacia.

— Diga-me, baronesa, esta... morada pertence à sua família há muito tempo?

— Mais de dez gerações de Caveiras-Arreganhadas se criaram neste salão — disse a enorme mulher-lobo, passeando o olhar pela caverna com orgulho. — Foi aqui que a baronesa Pé-Macio Pêlo-Alvo fundou a dinastia da Caveira-Arreganhada, depois de lutar nas Guerras do Sangue contra o rei e a rainha dos vampiros, há mais de três mil luas. Ela adotou o novo sobrenome para comemorar o fato de ter pessoalmente esfolado o rosto do porta-estandarte dos vampiros e desde então nos orgulhamos em usá-lo.

— Uma origem muito valorosa para um nome ilustre — disse Oskan, servindo-se de mais um pedaço de carne. — Mas agora seu povo se tornou aliado de Suas Majestades vampíricas, não é mesmo?

— O rei Grishmak Bebedor-de-Sangue, senhor do Povo-Lobo entrou em aliança e parceria com o rei e a rainha dos vampiros, sim. E, enquanto os interesses dos nossos dois povos continuarem a seguir na mesma direção, o pacto sem dúvida persistirá.

Thirrin procurava as palavras certas enquanto olhava ao redor da caverna, tentando não se deixar abater pelo fato de saber que todo o futuro da Terra do Gelo dependia dela e de como se saísse nos próximos dias. Mas por fim conseguiu afastar seus medos.

— Imagino que seus aliados saibam da nova aliança entre o Povo-Lobo e a Terra do Gelo — disse ela.

— Sabem, sim. E o rei Grishmak esteve preparando o terreno para sua missão junto a Suas Majestades vampíricas. Eles esperam vê-la amanhã à noite na sala do trono do Palácio do Sangue.

Thirrin começava a se dar conta de que a diplomacia significava que às vezes era preciso demonstrar uma agradável surpresa diante de coisas das quais já se tinha conhecimento. Por isso, ela se levantou para agradecer à baronesa o empenho do seu rei.

— Que a luz sagrada da lua brilhe para sempre sobre o pêlo de Sua Majestade Grishmak Bebedor-de-Sangue — disse ela, usando a bênção correta dos lobisomens para esse tipo de ocasião. — Se eu não tiver o prazer de me encontrar com Sua Alteza Real antes de deixar seu território, queira por favor lhe transmitir minha gratidão por organizar para mim esse encontro com o rei e a rainha dos vampiros. Sem dúvida, só a obra de um gênio poderia superar a animosidade de séculos e obter de Suas Majestades vampíricas esse consentimento.

— O rei Grishmak é poderoso em tudo o que faz — afirmou a baronesa, com lealdade. — Mas sua gratidão poderá ser transmitida pessoalmente, já que Sua Majestade, o rei, estará no Palácio do Sangue amanhã à noite para ajudar a defender sua causa.

Ocorreu a Thirrin que somente criminosos precisavam "defender sua causa", mas sorriu, agradecida, e continuou a mastigar o bife enquanto praticava a nova técnica de guardar os pensamentos consigo mesma.

Oskan, que estava ouvindo com atenção, limpou os dedos, lambendo-os à maneira dos lobisomens.

— Existe alguma... indicação exata de como os vampiros encaram nossa visita?

- Soube que estão fascinados e curiosos para conhecer a nova rainha da Terra do Gelo — respondeu a baronesa. E então, abaixando a voz, ela se inclinou para a frente e disse: — Seria bom que vocês se mostrassem interessantes e animados ao máximo possível. Ser imortal é um fardo terrível, pelo que ouvi dizer. Os anos vão se arrastando, sem que surja nada de realmente novo para despertar seu interesse. Você consegue imaginar viver para sempre, sem nenhuma esperança de uma morte tranqüila, nenhuma esperança de uma suave dispensa do esforço da vida?

— A menos que alguém lhe enfie uma estaca no coração, o decapite ou o destrua pelo fogo — ressaltou Oskan.

— Bem, é verdade que existem essas possibilidades, creio eu — admitiu a baronesa. — Mas não se pode dizer que sejam mortes tranqüilas e o conhecimento de que somente um fim violento os libertará da vida deve aumentar o peso da imortalidade.

— Imagino que sim — concordou Oskan. — Portanto, devemos ser animados e interessantes para ajudar a aliviar o tédio deles, é isso?

— Seria vantajoso para vocês. É mais provável que consigam obter um acordo deles se os acharem divertidos.

— Desse jeito, ficamos parecendo uma companhia de teatro ambulante ou crianças de quem se espera que agradem os avós — respondeu Thirrin, irritada. Agora, o trauma daquele dia com o frio e a nevasca estava começando a afetá-la e sua habilidade diplomática começava a fraquejar.

— Bem, crianças é o que vocês praticamente são, mesmo considerando os anos de vida da sua própria gente — retrucou a baronesa. E então, dando-se conta da situação, acrescentou: — Apesar de nenhuma criança jamais ter demonstrado tamanha capacidade em combate ou tanta maturidade política. Lembrem-se, porém, de que até mesmo o mais idoso dos mortais é uma criança em comparação com o rei e a rainha dos vampiros. Eles são antiqüíssimos. Homem e mulher até podem ter sido um dia; mas há quanto tempo e de que raça, até eles já esqueceram.

— Quer dizer que, no fundo, você está nos aconselhando a demonstrar respeito e a ajudá-los a superar mais um dia cansativo — disse Oskan.

— Isso mesmo. O respeito é sempre recomendável quando lidamos com uma potência estrangeira e especialmente quando precisamos de auxílio — respondeu a baronesa, com ênfase. — Naturalmente, estou dizendo tudo isso com o máximo respeito por vocês. Todos nós precisamos de ajuda às vezes. O segredo é deixar isso bem claro para o rei e a rainha dos vampiros.

Thirrin e Oskan concordaram em silêncio, aceitando esse conselho e então, por algum entendimento tácito, mudaram de assunto, para as áreas mais seguras das linhagens e dos feitos de antepassados.

Finalmente, depois de mais uma hora de conversa cortês, a baronesa se levantou e, fazendo uma profunda mesura, pediu aos convidados permissão para se recolher para a noite. Thirrin, em seu papel de rainha da Terra do Gelo, concordou com gentileza. E, depois disso, ela e Oskan se retiraram para a lareira que lhes estava designada.

Por toda a caverna, os grupos familiares dispunham em torno das lareiras enormes pilhas de peles. Era evidente que a decisão da baronesa de ir dormir era um sinal para que toda a sua gente fizesse o mesmo. Foram distribuídos entre os soldados da escolta pelames curtidos toscamente; mas Thirrin e Oskan receberam peles opulentas e maravilhosamente macias que eram de um branco puríssimo e muito suntuosas.

Logo todos estavam dormindo, exaustos em conseqüência da longa marcha e da nevasca. Por toda a caverna, os archotes foram apagados e em pouco tempo a única luz provinha do bruxulear do fogo nas lareiras. Mas, à medida que a noite ia passando, até mesmo esse clarão se reduziu quando as chamas se transformaram em tições em brasa, com as lareiras cravejando a escuridão da caverna como galáxias na vastidão do espaço.

Thirrin e sua escolta despertaram em sobressalto, já que os lobisomens saudavam o novo dia com um coro de uivos. As peles pesadas que tapavam a entrada da caverna foram afastadas e a luz brilhante e frágil de um ensolarado dia de inverno invadiu a escuridão. Com ela vinha o cheiro de neve recém-caída e um ar fresco e penetrante que abria caminho pelo ar abafado da fumaça de lenha e dos numerosos corpos peludos, como uma lâmina afiadíssima cortando lã crua.

Era quase inevitável que o desjejum consistisse em carne, muita carne. Nunca ocorreu ao Povo-Lobo que os humanos comessem qualquer outra coisa. Foi assim que, quando uma das soldadas encontrou nos seus alforjes uma maçã armazenada para o inverno e se sentou para comê-la acompanhando um bife gigantesco, alguns dos lobisomens se reuniram em torno para olhar.

— Às vezes penso que vocês humanos são simplesmente nossos primos sem pêlo. Mas em outras ocasiões percebo que as diferenças são mais profundas — disse um lobisomem velho e grisalho, com tristeza.

A soldada lhe ofereceu uma fatia da maçã. Mas, depois de farejá-la, ele deu um sonoro espirro e foi embora apressado, determinado a encontrar um pedaço de carne bem sangrento para comer.

Depois da refeição, Thirrin e Oskan foram cumprimentar a baronesa Caveira-Arreganhada e a encontraram roendo um lombo que tinha a marca do rebanho hipolitano bem nítida. Thirrin levantou uma sobrancelha para Oskan, mas os dois foram suficientemente diplomáticos para não mencionar a carne roubada enquanto se aproximavam da lareira. A baronesa se levantou, fez uma mesura e os convidou a se sentarem.

— Bom-dia, Vossa Majestade e conselheiro Oskan. Como podem ver, as neves foram sopradas mais para o norte e meu faro me diz que só voltarão daqui a uma semana.

— Daqui a seis dias — corrigiu Oskan.

A gigantesca mulher-lobo baixou a cabeça.

— Vejo que estou na presença de alguém profundamente impregnado nas tradições do tempo... e talvez em outros conhecimentos. — Depois de olhar pensativa para Oskan por alguns instantes, ela prosseguiu: — Com a permissão de Vossa Majestade, enviarei um guia e uma guarda de vinte cabeças do meu povo para se somar ao seu grupo.

— Agradeço à baronesa a gentileza — respondeu Thirrin, com formalidade. — O acréscimo do Povo-Lobo tornará minha escolta verdadeiramente digna de uma rainha.

Ela e Oskan aceitaram então uma segunda refeição matinal durante os preparativos para sua partida. Enquanto comiam, viram que a caverna se tornava movimentada como um formigueiro.

— Que notícias chegaram aqui sobre a convocação dos lobisomens? — perguntou Thirrin.

— Os resultados são lentos, como de costume. Mas, quando nossa presença for necessária, todos já deverão estar recolhidos — respondeu a baronesa, fazendo com que o exército do Povo-Lobo parecesse uma colheita viva.

— Ótimo. Vamos enfrentar Scipio Bellorum e seus exércitos diante das muralhas de Frostmarris e, se quisermos sobreviver, precisaremos de todos os nossos aliados.

— Você está certa ao descrever a força do Império polipontino como "exércitos" no plural. Realmente seus números são enormes. Mas, senhora... — A baronesa se inclinou na direção da princesa e sua cara grande e peluda expressava profunda seriedade. — Não cometa o erro de pensar que o único ponto forte do exército do Império está relacionado ao tamanho. Desde que se criou a aliança entre nós e se tornou evidente o perigo de Scipio Bellorum, nossos espiões não param de vigiar muito além das fronteiras e agora sabemos com certeza que o Império pode convocar mais soldados do que as populações somadas de nossas duas nações! Mas há ainda algo mais a temer; mais ainda que seus canhões e mosquetes. No centro e cerne da sua força imensa está a inteligência. Scipio Bellorum e seus oficiais conseguem direcionar a tropa com uma disciplina e um brilho tático aos quais ninguém até o momento conseguiu resistir!

— Então devemos esperar que a frente unida da nossa aliança os surpreenda o suficiente para que cometam erros — respondeu Thirrin, procurando parecer corajosa e desafiadora.

— Scipio Bellorum não é um mero valentão que escolhe pequenos países isolados, que não tenham amigos para auxiliá-los. Não considerem que suas alianças, por mais inteligentes que sejam, serão suficientes por si só para salvar qualquer um de nós nessa guerra iminente — advertiu a baronesa. — Nossos espiões recorrem a muitas fontes, não apenas aos olhos e ouvidos limitados da humanidade, presa nas fronteiras de seus pequenos países, mas à águia que enxerga longe, a outras aves que vivem em muitas regiões e a animais que cruzam continentes em suas migrações. E eles contam de uma guerra entre o Império polipontino e uma potência de muito, muito longe no oeste, cujos exércitos se equiparavam aos de Bellorum em tamanho e disciplina. Durante três anos, eles disputaram o prêmio de uma terra rica em florestas, escravos e minério e o confronto foi semelhante ao de dois gigantes brigando pelo direito de caça nos campos de gelo no extremo norte. Mas Bellorum e seus oficiais tiveram a astúcia de uma alcatéia faminta e armaram tantas ciladas e armadilhas para o inimigo que ele tombou diante dos exércitos imperiais numa batalha após a outra.

— Então que esperança nós temos? — perguntou Thirrin, consciente de como era jovem e inexperiente, com a voz quase exausta de desespero.

— Devemos cobrar muito caro pela Terra do Gelo. Os exércitos que destruirmos, o ferro que forçarmos o Império a gastar conosco deverão valer muito mais do que a terra que eles desejam adquirir.

— Uma eficaz distribuição de recursos — disse Oskan. E então, ao perceber que os outros estavam olhando para ele, deu uma explicação: — Em outras palavras, devemos usar o que tivermos para obter o maior efeito possível. Nenhuma flecha será atirada, nenhum batalhão movimentado, sem que seja no exato momento para essa ação. Nossos soldados precisarão ser mais disciplinados que os dele, mais bem treinados e nossa tática deverá ser ainda superior.

— Se não, fracassaremos — acrescentou Thirrin, simplesmente.

— Isso mesmo — concordou a baronesa.

Thirrin e seu grupo partiram uma hora depois. A escolta tinha passado parte da noite anterior limpando as armaduras e outros equipamentos, de modo que agora eles rebrilhavam ao sol do início da manhã. Quando assumiram posição na coluna, Thirrin sentiu um arrepio de orgulho. As dez cavaleiras hipolitanas refulgiam como faisões em seus manteletes e chapéus bordados em cores vibrantes e os vinte guardas-da-coroa pareciam engrenagens bem polidas numa máquina poderosa. E, quando os vinte lobisomens da casa da baronesa se acrescentaram à escolta, a impressão era de que ali estava um exército que poderia conquistar o mundo inteiro ou foi o que achou a jovem rainha.

Tinham combinado que os cavalos de carga e as tendas seriam deixados na caverna, já que o Palácio do Sangue ficava a menos de um dia de cavalgada dali. Portanto, com flâmulas panejando galantes ao vento que agora estava leve e o estandarte pessoal da Casa Real dos Fortes-no-Braço esvoaçando à luz cristalina da manhã, a embaixada da Terra do Gelo partiu em sua missão.

As montanhas das Rochas-dos-Lobos agora se elevavam à sua frente e, enquanto seguiam por uma trilha da qual o vento do dia anterior tinha varrido toda a neve, Thirrin olhava fixamente para um ponto ao longe onde a trilha desaparecia entre duas plataformas imponentes da cadeia de montanhas. Lá ficava o passo de entrada na Terra-dos-Fantasmas e de lá parecia se desprender um medo gelado, como se viesse da boca aberta de algum morto-vivo.

Só os lobisomens pareciam não estar afetados pela proximidade do país governado pelos mortos-vivos. Os soldados de Thirrin marchavam quase em silêncio total e até mesmo Oskan parecia nervoso.

— Há bruxas na Terra-dos-Fantasmas, não é mesmo? — perguntou-lhe Thirrin.

— Das más, sim — respondeu ele. — Seu pai as expulsou depois de vencer a Batalha das Rochas-dos-Lobos. Mas ele permitiu que as bruxas boas, como a minha mãe, ficassem.

— Eu me lembro de ele ter me contado isso — disse Thirrin, concordando. — Ele disse que elas eram úteis e leais.

— E é isso mesmo o que têm sido. Elas vigiam as fronteiras há anos. Não esqueça: nem todo o mal é controlado por Suas Majestades vampíricas. Existem espíritos, duendes e criaturas perversas que assombram a Terra do Gelo até mesmo agora e é o poder das bruxas que os mantém sob controle.

— Já ouvi camponeses falarem desse tipo de coisa: trasgos e criaturas da noite. Mas, se as bruxas são tão competentes contra eles, como é que eles ainda aparecem em histórias de gado que adoece e de bebês que são roubados?

Oskan olhou para ela, irritado.

— O exército da Terra do Gelo talvez seja o mais forte no mundo conhecido, à exceção do exército do Império. Mesmo assim, seu pai travou constantemente guerras de fronteira para manter o país a salvo. Se todos adotássemos sua atitude, estaríamos nos perguntando por que seu exército não impede todo e qualquer ataque de piratas a aldeias de pescadores, bem como todos os ataques de vampiros do lado de cá das fronteiras. O poder também tem seus limites.

Thirrin teve de aceitar a lógica da sua argumentação e sorriu, concordando com ele.

— Bem, espero que as bruxas saibam que somos gratos.

— Não se preocupe. A gente do campo e os lavradores têm seus costumes. É só a elite da sociedade que esquece.

— Então vou me certificar de que lembrem de agora em diante — respondeu Thirrin, decidida.

Prosseguiram em silêncio, alerta à medida que a fronteira ia sempre se aproximando mais. Agora o passo estava bem visível, muito aberto diante deles como um ferimento grave. Thirrin estremeceu e imediatamente torceu para que ninguém da sua escolta tivesse percebido. Eles não podiam ver que ela estava com medo. Mas não era preciso que se preocupasse. Todos os seus soldados estavam ocupados demais cada um com seus próprios medos para perceber o de qualquer outra pessoa.

Dali a menos de uma hora, a trilha começou uma subida íngreme e, depois de muito esforço com os cavalos, por fim se encontraram no limiar do passo. De cada lado, os picos das Rochas-dos-Lobos se erguiam, áridos e coroados de neve, em contraste com o azul brilhante do céu. E diante deles o desfiladeiro se abria. Era largo o bastante para permitir a passagem de vinte cavaleiros lado a lado e a trilha seguia sinuosa, fora do alcance da visão, para além de esporões e afloramentos que se projetavam dos flancos das montanhas. Ótimo terreno para emboscadas, pensou Thirrin; mas, em vez de correr o risco de ter suas intenções mal interpretadas por qualquer um, ela ordenou que todas as armas fossem embainhadas.

Os lobisomens então avançaram alguns passos e, jogando a cabeça para trás, deram um uivo coletivo que ecoou e reverberou pelas rochas. Os cavalos refugaram e relincharam, mas os cavaleiros conseguiram controlá-los. Todos os olhos estavam voltados para o desfiladeiro ali adiante. Agora era a hora para uma traição, se era isso o que o destino lhes reservava. Mas Thirrin, percebendo que era essa idéia que passava pela mente da escolta, esporeou imediatamente seu cavalo para entrar no desfiladeiro e deu o sinal para que os corneteiros soassem a fanfarra da Casa Real da Terra do Gelo. Com sua presença agora proclamada para todos, ela abriu caminho ao longo da trilha.

Depois de percorrerem poucos metros, perderam de vista a entrada por onde tinham passado. Altas muralhas rochosas se erguiam acima deles e atrás de cada rochedo parecia haver alguém escondido, espiando. De vez em quando, pedrinhas deslizavam pela face do penhasco, como se alguma criatura tivesse pisado nelas sem querer, e o vento que tinha começado a gemer em meio às saliências rochosas parecia estar mascarando vozes grosseiras.

Alguns minutos depois, sombras voadoras surgiram no céu acima da escolta. Era difícil avaliar seu tamanho com exatidão, mas pareciam grandes demais para aves. Thirrin acenou para que o capitão do Povo-Lobo se aproximasse e perguntou de que tipo de criatura se tratava.

— Vampiros, Majestade — respondeu ele, confirmando os temores de Thirrin. — Vampiros em sua forma modificada. Estão só observando o andamento das coisas e sem dúvida mantendo informadas Suas Majestades vampíricas.

— Sem dúvida — concordou Thirrin.

De vez em quando, uma das criaturas fazia um vôo rasante o suficiente para que as asas coriáceas e a cara de morcego fossem vistas com nitidez; mas a maior parte do tempo pairavam bem alto, acima da escolta, como um amontoado de nuvens negras.

Alguns dos soldados informaram que vultos, percebidos no limiar do campo visual, passavam sorrateiros entre as rochas, mas desapareciam assim que alguém olhasse diretamente para eles. Ao ouvir esse relato, Oskan deu de ombros.

— Quem vai se surpreender com a existência de fantasmas na Terra-dos-Fantasmas?

Mais ou menos quando tinham percorrido a metade do passo, um enorme troll de pedra surgiu rolando, caindo bruscamente de uma rocha saliente como uma pequena avalanche impedindo a passagem. Thirrin deu ordem de alto; mas, quando sua tropa começou a sacar espadas e formar uma barreira de escudos, fez sinais furiosos para que parassem. Relutantes, eles embainharam as armas e aguardaram. O troll rugiu e, levantando no ar uma pedra enorme, começou a avançar. No entanto, em rápida reação, os lobisomens formaram uma falange compacta e investiram contra ele, uivando e rosnando ferozes. Por um instante, o troll ficou observando sua aproximação com olhos pequenos e apalermados antes de largar a pedra, mal-humorado, e subir de volta para seu penhasco, onde pareceu se fundir com a rocha. O capitão da guarda do Povo-Lobo fez um gesto para que Thirrin avançasse e ela conduziu sua pequena tropa adiante.

Não houve mais nenhum incidente desse tipo e eles prosseguiram rapidamente pelo passo. Cerca de uma hora depois, atingiram a outra extremidade de modo totalmente inesperado. Quando fizeram a volta por um espigão, de repente descortinaram, como de uma janela descomunal e impressionante, a vista de uma terra de densos pinheirais e montes pedregosos que se estendia das Rochas-dos-Lobos até se perder no nevoeiro ao longe. Embora fosse inverno, a fragrância penetrante dos pinheiros chegou até eles, mesclando-se ao cheiro frio da neve para criar um perfume revigorante que levantou o ânimo de todos.

Mas o medo voltou a se abater rapidamente sobre eles quando se deram conta de uma torre de observação, alta e negra, erguida sobre um penhasco com vista total para o passo. Em sua maioria, os vampiros voadores deram voltas em torno da torre antes de pousar empoleirados nas ameias, como gigantescas aves negras.

Mais uma vez, a tropa de lobisomens jogou a cabeça para trás e uivou antes de pisar na Terra-dos-Fantasmas e Thirrin, do mesmo modo, ordenou aos corneteiros que anunciassem sua presença real. Com uma sensação de cartada decisiva, esporeou o cavalo e entrou na terra cujos governantes eram os piores inimigos da Terra do Gelo havia séculos.

 

Desde a partida de Thirrin e Oskan, Maggiore Totus passou uma boa parte do tempo certificando-se de que a população de Frostmarris fosse alojada com algum conforto. Na medida do possível, eles tinham sido abrigados dentro da cidade hipolitana, mas não havia como espremer todo o povo de uma cidade de grande porte no interior das muralhas de uma muito menor, especialmente quando a população original desta última continuava morando ali.

Um acampamento para a população excedente foi construído bem junto das muralhas, pelo lado de fora, e Maggiore em pessoa supervisionou a construção, certificando-se de que as ruas tivessem largura adequada e que fossem escavadas latrinas em quantidade suficiente e designando cidadãos para a tarefa de recolhimento do lixo. Ele se queixava amargamente de todo aquele trabalho para qualquer um que se dispusesse a ouvir, mas em segredo estava adorando aquilo tudo. Era quase como projetar e construir uma cidade nova inteira a partir do zero, o que lhe permitiu testar algumas teorias que tinha desenvolvido ao longo dos anos. Era com enorme prazer que afirmava que a maioria das suas idéias funcionava.

Tinha havido um fracasso ou dois. Ninguém quis se inscrever nos coros distritais que ele criou com a intenção de estimular e desenvolver um espírito de comunidade na nova povoação. E no final ele encarou com bastante serenidade o surgimento espontâneo de uma liga de futebol entre os distritos. Mas então começou a perceber que o acampamento para a população excedente estava passando a funcionar como uma cidade autônoma e ficou decididamente feliz quando surgiram as primeiras oficinas e lojas.

Mas agora o acampamento começava a se gerir sozinho, com alguns cidadãos sendo nomeados para uma comissão dedicada a supervisionar as diversas funções e Maggiore renunciou ao cargo de planejador urbano. Por algum tempo, ocupou-se procurando alojar as multidões que acorriam à cidade em resposta à convocação da milícia. Mas logo o exército assumiu o controle dessa função, com o acréscimo de alguns bairros novos ao seu acampamento para a população excedente.

A certa altura, ele começou a desejar ter viajado com Thirrin. Afinal, era o único com a experiência de vida e as maneiras corretas necessárias para missões diplomáticas. Mas bem no fundo sabia que jamais conseguiria resistir ao frio de uma viagem no inverno da Terra do Gelo. Mesmo ali na cidade hipolitana, sentado ao lado de uma lareira acesa, sentia frio. Era quase certo que uma viagem pelos ermos teria acabado com ele. Além disso, ultimamente tinha descoberto um projeto que acabou por atrair sua inteligência.

Estava agora sentado no seu aposento, com as janelas bem fechadas a protegê-lo da tempestade de neve que uivava pela cidade inteira. Na lareira, o fogo estava alto, com toras, e um copo de vinho estava ali à mão, enquanto ele organizava as últimas anotações que tinha feito. Primplepuss estava enrodilhada confortavel-mente no seu colo e ele a afagava distraído enquanto sua pena escrevia apressada de um lado a outro da página. Quando a guerra terminasse, ele esperava poder reunir suas anotações numa obra erudita sobre as origens dos hipolitanos. Não que alguém fosse ler, supunha ele, mas pelo menos com isso mantinha a cabeça ativa e pronta para quando a princesa voltasse da Terra-dos-Fantasmas e o degelo da primavera permitisse a retomada da guerra.

Naquele instante, estava à espera do tio de Thirrin, Olememnon. Com sua ajuda, Maggiore estava compilando as anotações necessárias para o relato histórico e até ali ele tinha sido uma fascinante fonte de informações. Além do mais, Maggiore descobriu que apreciava a companhia tranqüila do homem enorme. Olememnon tinha um humor seco e sua voz grave e suave podia dizer as coisas mais escabrosas com tanta seriedade que muitas vezes Maggiore levava alguns segundos para captar o que o outro tinha dito. E mais, como consorte da basiléia, a condição social de Olememnon era superior à de qualquer outro homem na província. E, como não tinha nenhum dever além de lutar nas guerras da Terra do Gelo, era um aliado perfeito na busca de manuscritos e documentos de Estado que ajudassem na pesquisa. Para ele não havia porta fechada nem arquivo que estivesse fora do seu alcance. Por isso, bastava que Maggiore mencionasse ter a aprovação de Olememnon para que todas as objeções desaparecessem.

Até ali, os estudos do pequeno mestre tinham confirmado o que era de conhecimento geral: que os hipolitanos originalmente não eram do norte. Hoje, Maggiore esperava chegar à parte mais interessante da sua investigação e descobrir de que ponto exato no continente meridional esse povo fascinante era proveniente. Estava saboreando a idéia da pesquisa, quando ouviu uma leve batida na porta.

— Entre! — disse com sua melhor voz de mestre-escola. E a porta se abriu.

Entrou no aposento um dos maiores homens que Maggiore tinha conhecido. Olememnon era mais alto até mesmo que o rei Redrought e devia ter mais ou menos a mesma largura. No entanto, a barba raspada lhe dava a aparência de um menino que cresceu demais. Para Maggiore, cuja própria barba de estudioso quase lhe chegava à cintura, um homem de cara raspada ainda era uma imagem estranha, especialmente porque todos os homens dos quatro cantos da Terra do Gelo deixavam a barba crescer assim que conseguiam. Essa era apenas mais uma diferença entre os hipolitanos e os outros cidadãos da Terra do Gelo.

O homenzarrão o cumprimentou sorridente, com os olhos e a expressão se iluminando à medida que avançava.

— Ah, Olememnon! Sente-se. Um copo de vinho? — perguntou Maggiore, servindo a bebida antes de ouvir a resposta. — Está pronto para nossa conversinha? Lembrou-se de mais alguma lenda ou conto folclórico que ainda não registrei?

— Não tenho certeza. Pode ser. Depende do que você quer ouvir — respondeu Olememnon, com a voz grave e suave enchendo todo o espaçoso aposento de Maggiore.

— Bem, vejamos — disse o pequeno letrado, apanhando as anotações e equilibrando os óculos na ponta do nariz. — Ah, é mesmo! Estávamos prestes a estudar o surgimento dos hipolitanos. A terra de origem e o motivo para a migração.

— Bem, essa parte é fácil. A guerra e a necessidade de escapar de uma potência que não permitia que vivêssemos como queríamos — disse Olememnon, bebericando o vinho e se recostando na poltrona que rangia. Primplepuss olhou para o alto quando o homenzarrão entrou no aposento e agora pulava do colo de Maggiore para ir andando até o novo colo onde se instalaria. Talvez houvesse alguma coisa no cônjuge da basiléia que lhe lembrasse outro homem especial que ocupava um aposento inteiro da mesma forma e essa fosse sua maneira de lhe render homenagem. Olememnon a afagou assim que ela se instalou no seu colo e, ao acompanhamento do seu ronronar, olhou com ar de expectativa para Maggiore, que esperava com a pena parada.

— Certo, certo. Bem, fale-me o que souber do início, enquanto vou anotando — disse Maggiore, que sabia que o grandalhão era um contador de histórias por natureza.

— Ora, ora, vejamos... — começou Olememnon — os hipolitanos no passado viviam nas montanhas do continente meridional, muitos séculos atrás. Mesmo naquela época, eram um povo feroz que se dedicava à caça e à luta. Mas os outros povos próximos os respeitavam e aprenderam a reverenciar a Grande Deusa Mãe, por meio de oferendas enviadas às sacerdotisas guerreiras que serviam a ela em santuários no topo das montanhas.

— Hum-hum! — disse Maggiore, enquanto continuava a escrever. Alguns dos seus palpites estavam certos. Na sua terra natal, havia lendas sobre guerreiras que serviam à Deusa da Lua.

— Por muitas gerações, a vida foi boa para os hipolitanos, mas surgiu então uma ameaça de guerra e uma enorme movimentação de gente veio do leste. Seus exércitos eram imensos e, depois de muitas batalhas, os hipolitanos recuaram para se abrigar nos seus santuários nas montanhas.

"Nossos soldados travaram uma guerra prolongada e cruel, mas sabiam que não tinham como vencer. O inimigo era poderosíssimo e não parava de enviar exércitos contra nossos redutos. Mas a basiléia daquela época, a rainha Athenestra, criou um plano. Quando a lua abençoada estivesse escura, as sacerdotisas guerreiras e os homens combatentes abririam uma faixa larga entre os exércitos que nos cercavam, para servir de caminho que permitisse ao nosso povo fugir para outras terras e encontrar a paz novamente.

"E isso foi o que eles fizeram, tomando o inimigo de surpresa e irrompendo contra suas fileiras. Assim começou a enorme caminhada que nos levou a atravessar muitas nações até por fim chegarmos a terras que nos deram a impressão de nossa terra natal. Esta região tinha montanhas e invernos tão implacáveis como os que conhecíamos nas nossas cidadelas construídas entre as nuvens.

"É claro que essa região era na Terra do Gelo. Mas aqui o povo era o mais forte que tínhamos visto desde a guerra com os invasores do leste. Lutamos muito e com enorme empenho, nunca saindo vencedores, nunca derrotados, sem que nenhum dos lados fosse capaz de conquistar a vitória final. Até que finalmente o rei daquela época, que se chamava Theobad, declarou uma trégua e, depois de longos entendimentos, chegou-se a um acordo. A rainha Athenestra reconheceria o rei da Terra do Gelo como seu suserano e, em troca, teríamos permissão para permanecer nas terras que agora controlamos. E, desde aquele dia, os hipolitanos são súditos leais da Terra do Gelo e seus maiores aliados em tempos de guerra."

Olememnon ficou em silêncio e tomou um golinho do vinho enquanto Maggiore escrevia fielmente suas palavras na taquigrafia especial que tinha inventado para as anotações dos seus estudos. Por fim, ele pôs a pena na mesa e sorriu.

— Bem, essa foi uma história e tanto. É claro que eu já tinha adivinhado uma parte, mas os detalhes são fascinantes. Vou precisar verificar e corroborar alguns dos pontos mais precisos, mas no todo você me deu uma estrutura maravilhosamente sucinta a partir da qual posso expandir meus estudos.

— Mais uma coisa, Maggie — disse Olememnon, enquanto esticava na direção do fogo as pernas compridas, de músculos fortes. Primplepuss deu um salto gracioso dali de cima e começou a se lamber. — Essas histórias antigas me fizeram pensar numa coisa... Existe uma semelhança entre as descrições dos invasores que expulsaram os hipolitanos da sua terra natal e o Império polipontino.

— É mesmo? — perguntou o homenzinho. — De que natureza

— Bem, principalmente no método de combate. Seu modo de simplesmente esmagar o adversário com o tamanho do exército. De como uma força derrotada era só substituída por outra e mais outra até que toda a resistência fosse desgastada.

— É, entendo o que você quer dizer. Mas é provável que seja só uma coincidência. Afinal de contas, não estamos falando aqui de táticas sutis, não é mesmo? Na realidade, esse é o método usado por quem é maior e mais forte que todos os outros e emprega a força bruta para conseguir o que quer. No passado, foram seus invasores; hoje, são os polipontinos.

— Pode ser. Mas até onde consigo calcular o Império começou no sul e ao longo dos anos foi se expandindo para o norte. Especialmente nos últimos vinte anos, mais ou menos, desde que Scipio Bellorum assumiu o pleno comando do exército. Mas eles vêm de que lugar no sul? A que distância daqui? Você sabe?

Maggiore teve de admitir que não sabia. Era um dado interessante, que ele mais tarde pesquisaria.

— Quanto ao fato de os polipontinos serem valentões — prosseguiu Olememnon —, bem, você tem razão. E isso foi mais do que suficiente para a conquista de um Império. Mas, com o general Scipio Bellorum, ao poder da força bruta está aliada uma grande inteligência tática; e essa é uma combinação difícil de combater.

— É, eu sei — respondeu o pequeno mestre, atingido pela lembrança abrupta e dolorosa da guerra que os aguardava depois do degelo da primavera.

— Se pelo menos fôssemos combater esse exército sem o general, poderíamos, talvez pudéssemos ter uma chance. Mas com ele...? — O grandalhão deu de ombros e então se levantou para ir embora. — Mas é assim que falam os derrotistas. E eu tenho uma milícia a ajudar a treinar. Nos vemos hoje à noite no jantar, Maggie.

E, súbito como o vento que muda de direção, Olememnon se foi. Maggiore já estava acostumado a essas rápidas alterações de ritmo e humor no amigão. Mas qualquer aposento do qual ele saísse parecia insuportavelmente vazio por um tempo, como se tivesse deixado para trás um vácuo. Primplepuss teve a mesma sensação e miou queixosa, mas depois, com a compostura e o equilíbrio típicos de qualquer gato, ela se adaptou rapidamente e miou de novo para lembrar Maggie da sua hora de comer.

Ele pôs de lado as anotações e se levantou para ir apanhar o cocho, percebendo então que o pequeno animal não era mais um filhote. Suas pernas tinham crescido e a cabeça estava perdendo o aspecto redondo de bebê à medida que ela desenvolvia as linhas esguias de uma gata adulta. Thirrin perceberia a diferença quando voltasse de viagem.

Seus pensamentos se voltaram mais uma vez para a jovem rainha e sua missão. Tanta coisa dependia do seu sucesso e tanta coisa poderia facilmente dar errado. Não se tratava de ele não ter confiança nela. Nas últimas semanas, Thirrin tinha amadurecido a uma velocidade assustadora — as circunstâncias não permitiam nada diferente —, mas ela ia tentar uma aliança com o mais antigo inimigo da Terra do Gelo. Eram séculos de rancor e ódio a superar. E, se fracassasse, todos morreriam. Ele deu de ombros. Não havia nada que pudesse fazer para ajudá-la. Só lhe restava ter esperança e aguardar os acontecimentos, como todos os outros.

 

Havia mais de uma hora, Thirrin e sua escolta de soldados e lobisomens vinham atravessando o pinheiral escuro. Levaram a manhã inteira para descer do passo e alcançar a borda da floresta, centenas de metros mais abaixo, e foi com um suspiro de alívio que por fim entraram entre as árvores. Ali pelo menos dispunham de algum abrigo contra o vento frio e implacável que tinha começado a soprar, mas agora os soldados estavam ficando nervosos. Por toda parte ao redor, a floresta ecoava com ruídos estranhos. De repente se ouviam guinchos e uivos distantes e logo voltava o silêncio. De vez em quando, uma sombra cinzenta e cintilante se formava ao longe na penumbra e os acompanhava por um tempo, para logo se desfazer como névoa ao sol.

Mas ali na floresta o sol não entrava. Eventualmente Thirrin via apenas de relance um pouco do céu através dos galhos muito densos e a claridade que parecia provir de um brilho insalubre refletido pela neve que de algum modo conseguia abrir caminho entre as árvores para chegar ao chão. Aquele lugar não era nada parecido com a floresta da sua terra. Lá, as árvores eram apinhadas de criaturas que corriam apressadas pelos galhos e troncos em busca de alimento. Mesmo no inverno, quando a maioria das árvores perdia as folhas, havia uma sensação de vida em repouso; e os muitos animais que não hibernavam procuravam nozes ou caçavam uns aos outros com uma determinação aguçada pela fome. Mas ali naquele pinheiral imenso, onde nenhuma árvore passava os meses frios dormindo, havia apenas uma sensação de vigilância. Até mesmo os uivos e guinchos que surgiam aqui e ali na penumbra pareciam não ter nada a ver com a vida animal. Ali era frio demais, longe demais de qualquer necessidade de comunicação com outros seres vivos. Thirrin achou que o som era semelhante ao de gelo liso sendo arranhado por facas afiadas e brilhantes. Teve um calafrio, puxou a capa mais para perto do corpo e procurou olhar adiante até onde as árvores aglomeradas permitiam. O mundo inteiro parecia ter sido tomado pelos troncos, raízes retorcidas e galhos duros, cobertos de acículas, daquelas árvores de um verde-escuro quase preto.

Chegaram afinal a uma clareira e os soldados quase avançaram correndo, felizes de encontrar aquele espaço, mas logo refrearam o passo e ficaram olhando, espantados. Bem no meio da clareira, sentada no tronco quebrado de uma árvore morta, estava uma enorme coruja-das-neves. Sua altura era no mínimo três vezes maior que a das corujas brancas que habitavam os campos de neve ao norte da Terra do Gelo e seus olhos azuis, cheios de vida, pareciam animados por uma inteligência aguçada. O capitão dos lobisomens se adiantou e saudou a criatura, que olhou fixamente para ele, piscando devagar. Seguiu-se uma estranha conversa, com a coruja e o lobisomem piando e rosnando um para o outro e depois o capitão bateu continência e voltou para a margem da clareira. Parou diante de Thirrin; mas, antes que pudesse falar, a coruja abriu as enormes asas brancas e levantou vôo em silêncio, com sua forma brilhante reluzindo na penumbra à medida que ela diminuía de tamanho, subindo ao céu acima das árvores.

— Suas Majestades vampíricas enviaram seu arauto para saudá-la, rainha Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte. Eles lhe dão as boas-vindas que Vossa Majestade merece e lhe recomendam que se apresse, já que o tempo está se fechando novamente, e cairá neve antes do anoitecer — disse o capitão, adotando, distraído, a linguagem formal da corte enquanto retransmitia a mensagem da coruja.

— É verdade? — perguntou Thirrin, voltando-se para Oskan. — Vai cair neve?

— Daqui a mais ou menos duas horas — respondeu Oskan, concordando com um gesto. De todo o grupo de humanos, ele era o único que parecia estar tão à vontade quanto os lobisomens na floresta escura.

— Então precisamos nos apressar. Capitão, existe um trajeto mais direto até o Palácio do Sangue?

— Não, Vossa Majestade. Mas, se formos mais rápido, deveríamos chegar lá antes que a neve caia, caso o Filho da Bruxa tenha acertado a hora.

— O Filho da Bruxa sempre acerta — respondeu ela, espore-ando o cavalo para atravessar a clareira.

Depois de mais uma hora de marcha forçada, as árvores começaram a ralear e, por fim, sua presença ameaçadora cedeu lugar a uma encosta larga e extensa que descia até o fundo de um vale. A essa altura, as nuvens já se acumulavam, bojudas, cinzentas como o ferro, e a claridade tinha se reduzido a uma penumbra estranha que parecia latejar a partir do campo todo coberto de neve. Mas pelo menos o vento enregelante tinha amainado e a escolta prosseguiu ruidosa pela terra congelada sem ter de tirar da bagagem mais roupas de reserva.

A última luz trêmula do dia logo se apagou, dando lugar a uma noite de uma escuridão profunda. Thirrin ordenou que um de cada dois soldados acendesse um archote e assim seguiram caminho.

Entretanto, os lobisomens pareciam não precisar de nenhum auxílio dessa natureza no escuro. Sua visão noturna era tão aguçada que eles iam na frente, descobrindo o caminho no que parecia aos humanos um ermo sem trilhas. Daí a algum tempo, entre o Povo-Lobo irromperam rosnados e grunhidos animados e o capitão surgiu junto ao estribo de Thirrin.

— Vossa Majestade, o Palácio do Sangue.

Thirrin olhou em frente, acompanhando a indicação do seu dedo, e lá, numa fenda entre os montes ao longe, ela mal pôde discernir uma forma que se avultava, com o contorno levemente delineado por luzes que piscavam.

— Estou vendo — respondeu ela, em voz baixa, enquanto repelia uma súbita onda de medo que ameaçava dominá-la. — Oskan, você está sentindo... alguma coisa?

O Filho da Bruxa olhou firmemente para a frente em silêncio por alguns instantes.

— Nada de inesperado: o mal, uma idade impressionante, ódio pelo que é mortal — disse ele, dando de ombros. — Um típico ninho de vampiros.

— Portanto, nenhum desastre? — concluiu Thirrin. — Nenhuma morte repentina?

— Sua morte está em outro lugar, Thirrin Escudo-de-Tília — respondeu ele, com simplicidade.

Ela lhe lançou um olhar penetrante para ver se havia alguma intenção de insulto no uso do nome abreviado. E então perguntou:

— Morte gloriosa?

— Oculta — respondeu ele, com um sorriso.

— Oculta, Vossa Majestade — corrigiu ela, com sua veemência costumeira, e o sorriso de Oskan se transformou num esgar de lobo.

Avançaram a uma velocidade maior até o palácio se agigantar diante deles. Mesmo na escuridão da noite nublada, era fácil enxergar os detalhes, já que de cada uma das centenas de janelas saía uma luz verde, espectral, e havia archotes dispostos nas muralhas bem como ao longo do telhado a intervalos regulares. Ele se erguia da terra ao redor como uma montanha em miniatura, com suas dezenas de flechas e torres recortadas como uma escuridão mais densa em contraste com o céu nublado. Os arcos ogivais das janelas e portas se reuniam num emaranhado arquitetônico que parecia ter brotado da terra como algum fungo rochoso e bem disciplinado. Mas, à medida que Thirrin e seu grupo se aproximavam, dava para perceber que o que antes lhes tinha parecido uma pedra comum escura era na realidade pedra polida, do vermelho mais escuro. Na realidade, quase negro, como sangue seco.

As colossais portas duplas estavam abertas e a luz esverdeada se derramava sobre a neve como uma poça de algum líquido pegajoso. Thirrin quase esperava que borbulhasse e chiasse como a água fétida de um pântano, mas a ilusão foi destruída quando os lobisomens da vanguarda entraram na claridade, que lançou suas sombras enormes e desgrenhadas na sua direção. Ela puxou as rédeas, fazendo alto, e ordenou que os corneteiros tocassem uma fanfarra. As notas frágeis e metálicas se elevaram na noite escura e, depois que se calaram, restou somente o silêncio.

Ficaram parados ali alguns instantes, aguardando. E então a neve prevista começou a cair. De fato, a decisão já tinha sido tomada. Depois de dar uma examinada ao redor, eles encontraram uma grande estrebaria vazia, onde deixaram os cavalos, e então voltaram a pé para a frente do palácio.

Todos esperavam que Thirrin tomasse a iniciativa e, sabendo disso, ela imediatamente empertigou os ombros e começou a subir o lance de degraus polidos que levava às portas abertas. No alto da escada, um amplo terraço se estendia até a soleira do grande portal em arco. Acima, as muralhas se elevavam como um penhasco e as luminosas janelas verdes olhavam para eles ali embaixo, como olhos cheios de ódio. Thirrin captou tudo isso rapidamente antes de avançar, segura, respirando fundo o tempo todo para se acalmar enquanto procurava controlar o medo e a repulsa que percorriam aos gritos seu corpo inteiro.

No portal, ela parou e se voltou para Oskan, que estava logo atrás.

— Acho que não podemos esperar um comitê de boas-vindas depois de tantos séculos de guerra.

— Não — concordou ele. — Seria melhor simplesmente entrar e sair logo da neve.

Ela fez que sim e, depois de esperar um instante, entrou num salão imensamente alto e amplo. O piso revestido de preto e branco se estendia por uma distância aparentemente impossível. E, por toda parte, era iluminado pelo mesmo clarão verde, muito embora não houvesse archotes, lanternas nem nenhum outro meio de iluminação até onde ela conseguisse enxergar.

Os outros membros do grupo a acompanharam e logo o ruído das botas e armaduras ecoava no espaço vazio. Na outra extremidade do salão, numa penumbra mal iluminada, Thirrin mal conseguia divisar um tablado elevado. E, quando se aproximaram, ela percebeu que nele havia dois tronos, ambos esculpidos da mesma pedra de um vermelho escuro. Não havia porém nenhum sinal de outros ocupantes em todo o palácio, vivos ou mortos.

Thirrin estava prestes a ordenar aos corneteiros que fizessem soar mais uma fanfarra quando a luz verde aumentou até atingir um brilho ofuscante e o salão se encheu de vultos altos e pálidos, que chiavam e observavam com olhos grandes, sem piscar. Imediatamente, os soldados de Thirrin formaram uma barreira de escudos em torno dela, com as lanças em riste.

Na tensão silenciosa que se abateu sobre o salão, ouviu-se uma voz fria, leve e mortífera:

— Já vi esse tipo de formação para combate e conheço bem sua eficácia. Vejo que você mantém a tropa tão bem treinada quanto seu pai mantinha.

Thirrin deu uma ordem áspera e os soldados baixaram os escudos. Ela saiu da cerca de lanças que ainda se eriçava na roda protetora e olhou assombrada para o tablado, onde agora dois vultos estavam sentados nos tronos vermelhos. Também eles eram pálidos e magros e, apesar de estarem sentados, dava para Thirrin ver que eram altos. Um dia tinham sido homem e mulher, mas agora exibiam uma beleza terrível e antinatural que os excluía totalmente da espécie humana. Ambos tinham a pele branca como a neve e os lábios eram úmidos, de um vermelho escuro, como fígado cru.

— Meu pai sempre me ensinou a necessidade de disciplina e exercícios entre os guardas-da-coroa do exército. Desse modo, até mesmo mortais podem encarar e combater os mortos-vivos.

O rei e a rainha dos vampiros olhavam para ela em silêncio e ela prosseguiu:

— Mas a necessidade de aliados quando enfrentamos o perigo é de igual importância e as chances de vitória se multiplicam quando os amigos nos apoiam.

Ela deu um leve passo para o lado, permitindo que Suas Majestades vampíricas avaliassem plenamente o que ela sabia que eles já deviam ter visto com clareza. Os lobisomens instintivamente tinham formado um círculo próprio, encerrando a barreira de escudos dos soldados de Thirrin, voltados para fora, prontos para rechaçar qualquer ataque por parte dos vampiros.

— Não há nenhuma necessidade de você exibir sua mestria de combate aqui — disse a rainha dos vampiros. — Estamos num palácio, não numa fortaleza. Não há soldados aqui, além dos seus.

Thirrin baixou a cabeça, concordando, e deu outra ordem. As lanças foram depostas e a escolta assumiu a posição de sentido.

— Acho que os mortais estão sentindo frio — disse o rei dos vampiros, lançando descontraidamente um olhar na direção da enorme fornalha que se erguia mais ou menos na metade do salão. De imediato, labaredas fortes irromperam no ar frio, para então baixar, queimando uniformemente e aquecendo com rapidez o ambiente. Thirrin nunca tinha visto uma lareira com chaminé, como aquela. Em Frostmarris, o salão-mor era aquecido por uma enorme lareira central e a fumaça acabava por encontrar uma saída, através de respiradouros no telhado. Mas ela não tinha nenhuma intenção de parecer uma caipira diante daquelas criaturas frias e sofisticadas. Por isso, apenas agradeceu com um gesto.

— Bem, creio que esta é uma visita diplomática. Vamos então ao que interessa? — disse o rei, fazendo com que Thirrin se lembrasse por um instante de Maggiore Totus. Mas essa ilusão logo se dissipou quando ela olhou para cima e viu seus dentes pontiagudos.

— Claro, sem dúvida. Vim avisá-los de que a Terra do Gelo foi invadida pelo Império polipontino, tendo meu pai morrido quando da destruição do exército invasor.

— Ah, muito bem — disse a rainha. — É evidente que você não precisa da nossa ajuda, se já os derrotou.

— Infelizmente, eles ainda ocupam a região sul da Terra do Gelo; de modo que, com a chegada da primavera, poderão mandar outro exército nos atacar.

— Exército que vocês também destruirão, suponho eu.

— Naturalmente! — respondeu Thirrin, com veemência.

— Então pergunto-lhe mais uma vez: por que você procura nossa ajuda se está tão óbvio que pode lidar com qualquer coisa que o Império polipontino mande contra seu país?

Thirrin tentou encarar o olhar frio da rainha dos vampiros, mas de repente se deu conta da enorme carga de tempo e experiência que se encontrava nas horrendas profundezas dos gélidos olhos azuis da vampiresa. Era provável que essa mulher descorada já existisse havia centenas de anos, matando para prosseguir pelos séculos afora, mantendo sua não-vida desumana com o sangue de quantidades incontáveis de pessoas. Ela era odiosa, horrenda e profundamente má e Thirrin sentiu uma necessidade irresistível de estar longe do Palácio do Sangue. Estar em qualquer lugar, menos ali, àquela luz doentia e esverdeada, cercada por aqueles cortesãos pálidos, mortos-vivos.

— Pois bem — continuou a rainha —, você ainda diz que precisa da nossa ajuda ou não?

— Bem, precisamos, sim — respondeu Thirrin, sem pensar, temendo que sua missão diplomática tivesse fracassado antes de ter começado. — Nós destruímos um exército, mas eles vão mandar outro... é assim que lutam... simplesmente não param de chegar... não param. Só vão parar quando estivermos destruídos. E então eles virão atrás de vocês! Matarão a todos, incendiarão seu palácio, exorcizarão seus fantasmas... — Ela parou, sentindo a total incompetência dos seus catorze anos e procurando não corar.

— Quer dizer que vocês não os derrotaram. Só conseguiram ganhar um pouco de tempo — disse a voz docemente cruel da rainha dos vampiros. — E agora quer pôr de lado um milênio de hostilidades para que nos tornemos amigos. Como isso é conveniente... para vocês.

— Também para vocês, Vossa Majestade — disse Oskan, procurando auxiliar Thirrin. — A rainha da Terra do Gelo está absolutamente certa quando afirma que, se nós tombarmos, vocês serão os próximos. O Império se orgulha de ser moderno, de ser científico e racional. Monstr... pessoas como Vossas Majestades e seus súditos são exatamente o contrário dos ideais deles. Para eles, vocês são aberrações da natureza e eles os destruirão, nem que seja só para concretizar sua idéia de um mundo mais organizado.

— Que história é essa de científico? Isso significa o quê? —. perguntou a rainha dos vampiros.

— Significa acreditar somente no que a lógica lhe diz ser verdadeiro. Em alguns casos, significa acreditar somente no que se pode ver e no que se pode pesar ou medir. Significa negar que alguma coisa exista a menos que já tenha sido reconhecida pela ciência e na maioria dos casos isso significa que essa coisa possa ser pesada, medida ou vista — disse Oskan, causando enorme impressão em Thirrin com sua abordagem fria e serena.

— Que estupidez! — disse a rainha, com violência. — Não ocorre a eles que existem coisas que não podem ser pesadas ou medidas?

— Acho que sim. Mas nesse caso é provável que eles creiam que sua ciência ainda não desenvolveu os meios para pesar ou medir a coisa em questão.

— Logo, por esse raciocínio, meu jovem mortal, a ciência deles terá de nos aceitar porque é óbvio que podemos ser pesados e medidos. Portanto, eles terão de aceitar nossa concretude e direito de existir — disse o rei dos vampiros, com um sorriso triunfal que revelou todos os seus dentes brilhantes e muito pontiagudos.

— É o que se pensaria, não é mesmo? — respondeu Oskan, insistindo no assunto. — Mas Vossa Majestade está se esquecendo da lamentável capacidade que os mortais têm de ser injustos. Veja bem, eles não gostam de vocês. Nem mesmo da idéia de que vocês existam. E, quando alguma pessoa racional do mundo da ciência não gosta de alguma coisa e acha que ela não deveria existir, suas alternativas são deixá-la para lá ou tentar destruí-la. No seu caso, vão tentar destruí-los; não só por não gostarem de vocês, mas simplesmente porque vocês ocupam um país rico e amplo que eles querem para si. — Oskan encolheu os ombros. — Nos meus quinze anos de vida e experiência, receio dizer que cheguei à conclusão de que às vezes as pessoas simplesmente não são justas.

Suas Majestades vampíricas olharam para eles por um instante e em seguida começaram juntas a dar risinhos. De início baixos, mas depois cada vez com mais força até suas gargalhadas frias ecoarem pelo teto extremamente alto do salão.

— Ai, meu querido, que maravilha! Como eles são perfeitamente esplêndidos! — disse a rainha. — Estou tão feliz por termos permitido que viessem. Faça com que repitam a atuação. Eu poderia ficar ouvindo a noite inteira!

— Ora, ora, docinho! — disse o rei, simulando irritação. — Você está sendo extremamente injusta. Lembre-se por favor da dignidade deles como embaixadores. Eles têm todo o direito ao nosso respeito e às nossas boas maneiras!

Suas Majestades vampíricas olharam sérios um para o outro e então voltaram a explodir em risadas incontroláveis. Os mortos-vivos da corte agora se juntavam ao coro, até o salão estar tomado de um som medonho de risadas debochadas e o rei e a rainha se ampararem um no outro, sem forças, enxugando as lágrimas.

Thirrin e Oskan se sentiam como crianças bobas que tivessem tentado impressionar adultos sofisticados e só tivessem conseguido fazer papel de palhaços. Quanto mais a risadaria prosseguia, pior os dois se sentiam, até que por fim só conseguiam pensar em fugir correndo de tanta humilhação. O rosto de Thirrin ardia num vermelho forte e Oskan estava ali encurvado como se o peso da vergonha o puxasse para o chão.

— Basta! — berrou de repente uma voz grave e gutural, erguendo-se poderosa acima das risadas e as abafando como se fosse a chama de uma vela. — A rainha Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, é minha aliada e amiga e não quero que zombem dela!

Thirrin voltou-se para o lado de onde chegava a voz e ficou olhando à medida que um lobisomem enorme vinha percorrendo a extensão do salão. Imediatamente, a guarda do Povo-Lobo jogou a cabeça para trás e uivou em cumprimento e saudação enquanto seu rei se aproximava.

Grishmak Bebedor-de- Sangue, o Primeiro, ergueu uma pata em reconhecimento enquanto passava pela escolta de lobisomens e depois parou diante de Thirrin. Enquanto forçava a cabeça para trás para encará-lo nos olhos, ela se deu conta de ter se esquecido de como ele era alto e quase recuou sobressaltada quando a pata enorme pegou sua mão e a levou aos lábios num cumprimento elegante.

— Vossa Majestade, posso ser o primeiro a lhe dar as boas-vindas formais ao Palácio de Suas Majestades vampíricas? Eles mesmos estão esquecidos das regras da etiqueta e da cortesia que deveriam ser respeitadas entre governantes. Mas há quem seja suficientemente palerma para acreditar que a mera imortalidade física de algum modo lhes desculpe a falta de educação e a grosseria. — Ele se voltou para os tronos gêmeos onde o rei e a rainha dos vampiros estavam sentados, olhando furiosos para ele. — Alguns reis e rainhas cometeram o erro de acreditar que o longo número de anos que passaram sentados num trono nunca haveria de se acabar e que nada conseguiria derrubar seu poder. Eu lembraria a esses governantes que guerras já foram travadas por motivos muito menores que um insulto a um amigo querido e também lhes relembraria que eles perderam aquela guerra, quase tendo sido destruídos, imortais ou não!

A raiva de Grishmak provinha de um carinho verdadeiro por Thirrin, que vinha crescendo desde que ele fizera aliança com ela. É claro que, naquele momento, aceitar seu oferecimento de amizade tinha sido simplesmente a decisão mais sensata, em especial porque a recusa teria significado que ele seria enforcado, arrastado e esquartejado pelos guardas-da-coroa de Redrought. Mas, paralelamente a toda a sensatez política e militar de formar uma forte aliança contra o Império polipontino, Grishmak descobriu que simplesmente gostava de Thirrin.

Grishmak olhava para o rei e a rainha dos vampiros com ar ameaçador, desafiando-os a dizer mais alguma palavra ofensiva à jovem humana.

Por seu lado, Thirrin descobriu que dentro dela crescia um enorme carinho pelo rei lobisomem e ficou feliz de ver Suas Majestades vampíricas desviarem os olhos como se estivessem observando alguma outra coisa na outra extremidade do salão.

— Creio que deveríamos nos lembrar— prosseguiu Grishmak Bebedor-de-Sangue — de que a dignidade de um verdadeiro monarca é inata e às vezes pode ser encontrada na mais jovem das rainhas, enquanto outros que governam há séculos ainda precisam adquiri-la e talvez jamais consigam.

Thirrin sorriu para o rei lobisomem, com a segurança e o equilíbrio agora perfeitamente restaurados.

— Muito me alegra vê-lo, rei Grishmak Bebedor-de-Sangue. A baronesa Caveira-Arreganhada disse que Vossa Majestade estaria aqui e fico muito feliz por ela estar certa.

— Ah, e como vai a baronesa? Eu realmente preciso visitar suas cavernas da próxima vez que fizer uma expedição real.

— Ela vai bem e foi muito gentil ao nos abrigar depois que meu grupo se perdeu numa nevasca terrível. Seus lobisomens nos salvaram da morte certa e nos conduziram às cavernas da baronesa. Sua hospitalidade foi ao mesmo tempo carinhosa e profundamente cortês — respondeu Thirrin, sem se dignar olhar de relance para o rei e a rainha dos vampiros. — Ela também me contou a origem interessante do seu nome de família. Como eu gostaria de ter estado lá para ver a jovem baronesa Pé-Macio esfolar o rosto do porta-estandarte depois da derrota do exército dos vampiros.

— Também foi antes do meu tempo — respondeu o rei Grishmak. — Mas deve ter sido uma visão esplêndida!

— Agora que vocês dois já trocaram amabilidades, talvez pudéssemos nos voltar para as devidas negociações — disse a voz gélida da rainha dos vampiros, interrompendo-os.

O gigantesco homem-lobo piscou um olho para Thirrin disfarçadamente e então se voltou de frente para os dois tronos.

— Negociações? Tudo já não está acertado? Sem a menor dúvida, nenhum de nós tem escolha. Aliados, temos alguma chance contra o Império. Sozinhos não temos absolutamente nenhuma esperança.

— Há pontos a debater, detalhes a decidir — insistiu o rei dos vampiros.

— Trabalho para escribas — rosnou Grishmak. — Redijam um tratado e nós todos o assinaremos. Agora — disse ele, voltan-do-se para Thirrin —, disponho de um conjunto de cavernas confortáveis e aquecidas, longe deste labirinto mórbido. Lá há espaço suficiente para toda a sua escolta, além de muita carne vermelha. Ah, é verdade. Vocês gostam dela bem... cozida, mas também isso pode ser providenciado.

— Você está coberto de razão, é claro — disse a rainha dos vampiros, com um sorriso afetado. — A aliança entre nós é uma solução óbvia. Especialmente quando a rainha da Terra do Gelo tem um conselheiro de tão alto nível que é mais aparentado com nosso povo do que com o dela.

— Está querendo dizer o quê? — retrucou Thirrin.

Suas Majestades vampíricas sorriram ao ver que tinham marcado um ponto e a rainha prosseguiu:

— O rapaz, Oskan, Filho da Bruxa, como creio que o chamam. Temos muitas bruxas na nossa terra, de modo que ele é quase um cidadão nosso.

— A mãe dele era uma bruxa branca. Elas lutam contra vocês e ainda protegem nossa terra do seu mal!

— Bem, reconheço a existência de alguns rebeldes que resistem a nós. Mas o poder da magia sempre é o poder da magia. Ele vem da mesma fonte que o nosso. E esse rapaz tem uma forte ligação com essa fonte. Isso qualquer um percebe.

— Não pratico magia negra! — explodiu Oskan, com o rosto vermelho e os olhos chispando.

— Magia negra? Quem foi que falou em magia negra? — perguntou a rainha, com a voz carregada de desdém. — Não estou me referindo a todas aquelas baboseiras e matemática típicas dos homens. Sua fonte de poder lhe chegou através da sua mãe, da linhagem feminina. Quanto a seu pai... bem, ele não era exatamente o que se poderia chamar de mortal, era? Mas, além disso tudo, meu caro Oskan, Filho da Bruxa, você tem um poder de uma fonte muito feminina. Você é um bruxo. Uma bruxa em versão masculina.

Agora chegava a hora de Thirrin salvar seu conselheiro enquanto ele se afogava num mar de emoções conflitantes.

— Vossa Majestade realmente acredita ser essa informação alguma revelação chocante? — perguntou Thirrin, com tanto desdém na voz quanto tinha percebido na da rainha dos vampiros. — Quem quer que tenha visto meu principal conselheiro nos ajudando em nosso esforço ao longo das últimas semanas terá presenciado seu poder em atuação. Mas sou grata a Vossas Majestades vampíricas por darem um nome a esse poder — disse ela, com a voz forte e firme. — Se Oskan, Filho da Bruxa, for de fato um bruxo, já sabemos que seus dons operam pelo bem contra o mal e todos nós temos motivos para sentir gratidão por seus poderes.

Caiu um silêncio e, enquanto a atmosfera parecia estalar de ódio e rancor, o rei Grishmak se voltou direto para os tronos.

— Será que agora todos nós acabamos de marcar pontos? Porque estou ficando com fome e, para ser franco, acho um pouco frio e mórbido o gosto de Vossas Majestades no que diz respeito à decoração do palácio. Quanto mais rápido eu voltar para minha caverna, melhor. Vamos todos só admitir que precisamos uns dos outros e ordenar aos escribas que continuem a trabalhar no tratado para que possamos assiná-lo e nos livrar da presença uns dos outros o mais rápido possível. De acordo?

Depois de um instante de tensão reprimida, Suas Majestades vampíricas concordaram em silêncio e Grishmak deu um suspiro de cansaço.

— Ótimo. Agora, Thirrin... quer dizer, Vossa Amável Majestade, meu convite ainda vale. Gostaria de jantar comigo?

— Eu adoraria — respondeu Thirrin, com um sorriso.

O enorme homem-lobo tomou seu braço. Com delicadeza, fez com que desse as costas aos tronos gêmeos e a conduziu pelo salão na direção das portas.

— Por sinal, o que acabei de dizer sobre nos livrarmos da presença uns dos outros não se aplica a você. Estava me referindo a Suas Majestades da cara-amarrada lá atrás.

— Eu sei — respondeu ela. — E quanto à decoração concordo totalmente. É quase tão alegre como um iceberg.

O lobisomem e a jovem rainha passaram majestosos pela multidão de nobres vampiros que aos poucos abria passagem para o casal formidável. A escolta de soldados e do Povo-Lobo seguia atrás, com Oskan em último lugar. Estava pensativo, finalmente encontrando respostas para as perguntas que vinha se fazendo havia anos. A afirmação, por parte da rainha dos vampiros, de que ele era bruxo explicava muita coisa, mas ainda levaria algum tempo para se ajustar à idéia. Agora, sabia por que às vezes conseguia ler o futuro, falar com animais selvagens, até mesmo curar sem usar remédios e prever o tempo com tanta precisão. Oskan tinha também muitas outras habilidades, que ele agora percebia que talvez tivessem suas raízes na magia. Tudo aquilo exigiria que ele refletisse um pouco.

Thirrin e o rei Grishmak chegaram à entrada e por ali deixaram o Palácio do Sangue, acompanhados das escoltas e de Oskan. As imensas portas duplas se fecharam com violência após sua passagem, com um forte estrondo. Oskan despertou, assustado, dos seus devaneios — quando bateram, as portas só não o atingiram por um triz. Dando meia-volta, furioso, olhou para as peças de madeira, tachonadas e providas de dobradiças, com tanta ferocidade que de repente as portas se abriram de novo, batendo nas paredes internas do palácio com tamanha força que sofreram rachaduras profundas.

— Tenho certeza de que vocês não tiveram a intenção de ser grosseiros — berrou ele, por cima da cabeça dos cortesãos que se encolhiam bem ali junto da entrada. — Parece que suas portas se fecharam com alguma rajada de vento. Eu as mandaria consertar, se fosse vocês.

— É bom ter por perto alguém como esse bruxo — disse Grishmak, com um sorriso que revelou seus dentes enormes. Em seguida, encabeçando a comitiva, desceu as escadas do palácio e se dirigiu para a floresta próxima.

 

Thirrin e Oskan aceitaram com prazer uma variedade de carnes. Tinham sido rasgadas, em vez de cortadas, em grandes nacos e ainda fumegavam da grelhada rápida que tinham recebido no fogo ali perto. O rei Grishmak comia com uma elegância surpreendente, apanhando fatias de carne crua entre o polegar e o indicador, para delas arrancar com os dentes um bocado discreto antes de devolver a porção que sobrava para a laje de pedra que lhe servia de prato.

As cavernas eram secas e aquecidas. E, como o rei do Povo-Lobo tinha prometido, eram de tamanho mais do que suficiente para abrigar todos eles. Na realidade, eram tão espaçosas que eles tomaram a decisão de ir buscar os cavalos nos estábulos do palácio para alojá-los numa das cavernas interligadas em vez de deixá-los aos cuidados incertos dos vampiros.

As cavernas ficavam num afloramento rochoso a cerca de um quilômetro e meio do Palácio do Sangue. E, enquanto fazia sua refeição, Thirrin via pelo menos seis fogueiras acesas no espaço enorme. Era evidente que o rei Grishmak tinha trazido consigo uma grande comitiva nessa visita a Suas Majestades vampíricas. E, embora nem Thirrin nem Oskan conseguissem entender exatamente quais seriam os deveres das dezenas de lobisomens, parecia que todos estavam espantosamente ocupados, alvoroçando-se de junto de uma fogueira para outra e constantemente se aproximando de Grishmak para murmurar no seu ouvido.

— O tratado deve estar pronto para ser assinado amanhã — disse o rei enquanto lambia educadamente o último sangue do fundo do prato.

— Rápido assim? — perguntou Oskan. — Eu imaginava que fôssemos ter de lidar antes com todo tipo de minúcia e disputas sobre questões legais.

— Não. Você pode apostar que os escribas das Suas Majestades da cara-amarrada já estão trabalhando nisso há semanas. Amanhã de manhã, o pessoal deles vai chegar aqui com o tratado pronto para ser assinado. Mas tem uma coisa — disse Grishmak, olhando firmemente para eles. — Deixem que meus escribas leiam tudo primeiro. Tenho quase certeza de que eles vão tentar nos passar a perna em algum detalhe dos termos e vocês podem acabar cedendo uma província aqui ou uma cidade acolá, se não tiverem cuidado.

— Será um prazer permitir que seu pessoal leia o tratado antes — disse Thirrin, concordando. — Sou gratíssima por sua ajuda.

— E eu fico feliz por ser útil — respondeu o rei, com a voz rouca. — Vocês dois se saíram muito bem para quem é tão jovem. Suas Majestades vampíricas são escorregadias como peixes num barril de banha, mesmo para alguém com o pêlo grisalho como eu. Mas garanto que, antes que se passem algumas dezenas de ciclos da lua abençoada, vocês dois serão páreo duro para eles, quer eles tenham vivido um milênio, quer não.

— É verdade que eles viveram todo esse tempo? — perguntou Thirrin, num murmúrio de assombro.

— Bem, acho que tecnicamente deveríamos dizer existiram — respondeu Grishmak. — Mas na realidade faz mais tempo. Talvez tenham uns mil e duzentos anos de existência, mas governam há mil anos.

— Eles afirmam que seu reino vai até o topo do mundo, onde o gelo nunca derrete — disse Oskan. — Isso é verdade?

— Não. Bem que gostariam, mas ao norte daqui há criaturas mais poderosas do que eles jamais conseguirão ser, embora essas criaturas sejam mortais e não vivam um dia a mais do que qualquer outro ser que caminha sobre a terra.

— Quem são eles? — perguntou Thirrin, intrigada com o fato de Maggiore jamais ter mencionado essas criaturas nas aulas de geografia. — São gente?

— Gente? Bem, é claro que são gente — respondeu Grishmak, surpreso. — Mas se você está querendo saber se são humanos, nesse caso, não são, não.

— São o que, então?

Grishmak relutou em responder, mas daí a pouco falou:

— São misteriosos e calados. Não entram em contato com outros, a menos que os forasteiros tomem a iniciativa. E depois, se não gostarem da pessoa, simplesmente a matam.

— Está bem, mas o que eles são? — perguntou Oskan, frustrado com as insinuações e enigmas do rei.

O lobisomem gigantesco fixou o olhar na fogueira mais próxima e, quando respondeu, sua voz estava baixa como se ainda estivesse resolvendo o que dizer.

— São as criaturas mais fortes que conheço e seriam aliados formidáveis na guerra que está por vir. Pode ser... pode ser que haja uma pequena possibilidade de Thirrin conquistar a amizade deles e trazê-los para a luta. Se existe alguém com condições de conseguir isso, é ela. Thirrin conseguiria promover a paz entre a noite e o dia, entre a escuridão e a luz, se quisesse. — Ele piscou os dois olhos e se voltou para encarar a jovem rainha da Terra do Gelo. — Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, dou-lhe uma incumbência. Seu desafio é fazer uma aliança com o senhor Tharaman-Thar das Geleiras. Ele, que é branco como a neve, forte como a rocha, com a altura de um homem na cernelha, sábio como um estudioso, delicado como uma pluma e feroz como a mais violenta das tempestades de inverno. Traga-o para nosso pacto e até mesmo Scipio Bellorum se intimidará. Com o senhor Tharaman do nosso lado, teremos uma chance de impedir o avanço até mesmo do Império... pelo menos por um tempo.

— Aceito com prazer. Farei o que puder para tentar conquistá-lo para nosso lado. Mas onde ele vive e como posso chegar lá? E exatamente que tipo de... criatura ele é?

— É o inverno sob a forma de animal — respondeu Grishmak. — Ele e seu povo são os leopardos-das-neves. São altos e grandes, tanto quanto seus cavalos. Seus dentes são como estilhaços de estrelas e suas garras como sabres de cavalaria. Se os tivermos como aliados, poderemos rechaçar o Império e viver em liberdade!

— Leopardos-das-neves! — repetiu Oskan, pasmo. — Mas como vamos conseguir falar com eles?

— Exatamente como falam comigo. Eles usam a linguagem dos humanos.

— Eles falam?

— Oskan, Filho da Bruxa, você andou surdo por seus bosques e cavernas — perguntou o rei Grishmak, carrancudo. — Você realmente acredita que somente os seres humanos usam linguagem e conversam entre si?

— É claro que não — respondeu Oskan, irritado. — Conheço a língua das aves e dos quadrúpedes. Se me concentrar, consigo até mesmo entender alguns dos significados dos insetos e peixes. Mas você não está dizendo que eles usam uma língua de animais. Está nos dizendo que esses leopardos usam as palavras da fala humana. Como isso pode acontecer?

— Você já conversou com o Povo-Lobo em muitas ocasiões sem nunca parecer surpreso — disse o rei, dando de ombros. — Qual é a diferença?

— Pelo menos em parte seu povo é humano. Sua linguagem vem do que há de humano no seu sangue. Esses leopardos também são em parte humanos?

— Não,-são exclusivamente felinos. Mas suas lendas dizem que, quando criou o mundo, o Único amou o poder e a beleza deles tanto quanto amou a inteligência e a capacidade de adaptação da humanidade. Por isso, os abençoou com o dom da fala, para que suas duas criações preferidas pudessem um dia conversar entre si. Vocês não estão entendendo? Essa hora agora chegou. Thirrin, leve essa lenda até os leopardos-das-neves e trate de trazê-los para nossa aliança.

— Mas eles vão querer nos obedecer?

— Não! Nunca! — uivou o rei Grishmak. — Eles são um povo livre e pensante que não obedece a ninguém a não ser a seu próprio senhor Tharaman-Thar. Mas podem concordar em ajudá-la.

Thirrin ficou olhando para o lobisomem enquanto seu cérebro absorvia as informações sobre esse novo povo.

— E exatamente onde é que eles vivem? E como eu chego lá?

— A terra deles é na montanha do Eixo do Mundo. O palácio de Tharaman-Thar é todo feito de rocha e gelo natural e seu povo vive de caçar morsas e os gigantescos ursos do gelo que perambulam por lá — respondeu Grishmak. — Quanto a como chegar lá, você vai precisar de ajuda. Nenhum cavalo conseguiria viajar pelas neves e geleiras que mudam e se transformam a cada dia. E, se forem apanhados por uma tempestade, morrerão a menos que disponham de conhecimentos que apenas alguns têm. Você tem certeza de que está preparada para seguir numa viagem difícil como essa?

— Não — respondeu Thirrin, rapidamente. — Mas não tenho escolha. Um aliado desses poderia mudar o rumo da guerra e nos ajudar a repelir o Império. Quem são os que podem nos guiar?

— Existem tribos do Povo-Lobo que vivem muito mais para o norte. Eles caçam nas Geleiras e às vezes passam semanas viajando até voltar para casa. Se eu mandar uma mensagem agora, talvez eles estejam aqui dentro de dois ou três dias.

Thirrin olhou em silêncio para o fogo e então falou, em tom decidido:

— Mande chamá-los, Grishmak. Tenho uma aliança a fazer.

Na noite seguinte, um arauto e uma escolta de vampiros chegaram às cavernas carregando um enorme documento feito de pergaminho bem acabado. De início, exigiram que ele fosse assinado imediatamente; mas, quando Grishmak riu deles, concordaram em deixá-lo para ser lido e devolvido na noite seguinte. Um grupo de lobisomens de pêlo grisalho apanhou então o documento e foi para o fundo das cavernas, onde era possível ouvir seus rosnados e gru-nhidos até altas horas da noite.

Mais tarde naquele dia, o rei Grishmak enviou mensageiros para o norte, em busca das tribos do Povo-Lobo que viviam nas Geleiras. Thirrin ficou ali parada em silêncio, pensativa, enquanto assistia à partida dos mensageiros, com o estranho passo elástico que os lobisomens usavam quando sabiam que tinham muitos quilômetros a percorrer. E também sua cabeça percorreu do mesmo jeito os acontecimentos dos últimos meses.

Em menos de um ano, sua vida tinha sido destroçada e sacudida, resultando numa nova forma com a qual ela ainda estava tentando se acostumar. Com a Terra do Gelo invadida e seu pai morto, ela se tornou rainha de uma terra que provavelmente sucumbiria diante do Império dentro do curto período de alguns meses. Somente seus soldados e a rede de alianças que ela estava lutando para criar poderiam salvar seu povo. E tudo isso teria de ser coordenado por ela, basicamente uma menina que ainda não tinha quinze anos, com pouca ou nenhuma experiência além da sala de aula e dos campos de exercícios com armas.

A maior parte do tempo, o puro ímpeto da emergência bastava para manter sua atenção concentrada, mas às vezes, quando era forçada a esperar quieta que os acontecimentos se desenrolassem, o impacto pleno da sua situação quase impossível se abatia terrível sobre ela. Como conseguiriam vencer? Que chance o exército de um minúsculo reino do norte, com uma colcha de retalhos de aliados, poderia ter contra a impressionante pujança e poderio do Império polipontino? Por que não reduzir simplesmente as perdas e fugir para o exílio, onde poderia pelo menos viver no conforto e segurança que a fortuna do tesouro real lhe proporcionaria?

Lutou contra a forte maré de pânico que vinha se avolumando no seu interior e se voltou abruptamente para entrar de novo na caverna. Oskan a acompanhou.

— Agora que você acabou de quase se matar de pavor, eu gostaria de conversar um pouco — disse ele, em voz baixa.

— O que você está querendo dizer? Eu, me matar de pavor?

— O Império. Como é mesmo? Não temos nenhuma chance. A essa altura, no ano que vem, nós todos poderemos estar destruídos.

— Como você sabia que eu estava...? — Sua pergunta foi sumindo à medida que ela era dominada por uma sensação de assombro que agora estava se tornando familiar.

— Ora, não se preocupe — disse Oskan, com um largo sorriso. — Eu não estava lendo seus pensamentos. É só que me encontrei exatamente na mesma situação que você. Não tenho nada a fazer neste instante e de repente estava com todo o tempo do mundo para começar a me preocupar e entrar em pânico. Por isso, achei que o melhor era que nós dois nos mantivéssemos ocupados.

Thirrin procurou se agarrar à sua dignidade real.

— E o que meu conselheiro sugere? — perguntou ela, com uma voz que se tornou arrogante pelo alívio que sentiu por ele não estar lendo seus pensamentos.

— Bem, para começar, acho melhor providenciar o retorno da maior parte da escolta para os hipolitanos. Sem dúvida os cavalos não podem vir conosco até as Geleiras e imagino que tenhamos de levar todas as nossas provisões. Portanto, quanto menor o grupo, melhor.

— É, você está com a razão. Dê ordens ao capitão da escolta enquanto eu falo com o rei. — Thirrin se afastou a passos largos para procurar Grishmak, fingindo não perceber a reverência de Oskan, um pouco debochada demais para seu gosto.

Encontrou o rei do Povo-Lobo em reunião ao redor da enorme fogueira central da caverna. Cerca de vinte indivíduos do Povo-Lobo estavam em pé diante dele, todos rosnando e uivando no seu idioma estranho. Mas, assim que viram que Thirrin se aproximava, educadamente passaram para a fala humana. O rei se levantou para cumprimentá-la e, para que ela pudesse se sentar, removeu da rocha ao seu lado uma pilha de ossos que estavam jogados ali.

Grishmak concordou que mandar de volta parte da escolta era um bom plano e ordenou a alguns homens-lobos que os conduzissem de volta aos hipolitanos.

— Na realidade, eu os mandaria todos de volta, se estivesse no seu lugar. Seria muito melhor se você fosse até o Eixo do Mundo sozinha com o Filho da Bruxa. O senhor Tharaman-Thar ficaria muito mais impressionado com a bravura de um grupo pequeno do que com a ostentação de uma escolta.

— E, se somente Oskan e eu fôssemos, isso não faria a Casa Real da Terra do Gelo parecer menos importante? — perguntou Thirrin, aceitando gentilmente do camareiro de Grishmak mais uma travessa de carne grelhada.

O rei deu uma risada curta e áspera.

— Esse ninho de vampiros pode se deslumbrar com a visão de soldados e armas... afinal de contas, seu pai chegou a derrotá-los em combate... mas os leopardos-das-neves são diferentes. Eles entendem o que é um coração valente e acreditam que ele dá mais glória a um governante do que qualquer quantidade de soldados.

— Ah! Então, Thara... Tharaman-Thar não tem ele mesmo muitos soldados?

Grishmak afagou carinhosamente o joelho de Thirrin, com sua enorme pata peluda.

— Não precisa se preocupar com isso. Os leopardos-das-neves podem não exceder em número os exércitos do Império; mas, quando ele lhes ordena que lutem, são uma avalanche poderosa, uma nevasca feroz. Creio que até mesmo Scipio Bellorum ficaria intimidado ao vê-los.

Thirrin concordou em silêncio, pensando consigo mesma que o Império em breve travaria combate com o exército mais estranho que jamais tinha enfrentado. Não eram só seres humanos que investiriam contra eles, mas também o Povo-Lobo, vampiros e talvez até mesmo gigantescos leopardos-das-neves! Se ela fosse Scipio Bellorum, daria uma olhada para os monstros vorazes que aguardavam a hora de lutar, daria meia-volta e fugiria correndo para o Polipontus.

Mas isso não ia acontecer. O general Bellorum era um soldado brilhante e cruel. Ele se adaptaria e o mesmo faria seu exército. A guerra contra ele não seria vencida por nenhum milagre, só por luta renhida e pelo que se esperava que fossem táticas brilhantes. De repente, ela se sentiu exausta; tanto que, depois de comer toda a carne do prato, se retirou educadamente e foi se sentar num canto tranqüilo no fundo da caverna, onde adormeceu de imediato.

Thirrin foi despertada pelo som de asas enormes que rufavam no ar. Pela entrada da caverna, viu o rei Grishmak esperando paciente, com os nobres da corte e, levantando-se atabalhoadamente, ela se apressou até onde ele estava.

— Ah, Thirrin, cá está você. Eu estava prestes a mandar um camareiro buscá-la.

— Que barulho é esse? — perguntou ela, enquanto o som das asas continuava forte como trovões.

— Vampiros — respondeu o rei. — Sob a forma de morcegos. Acho que o rei e a rainha estão chegando para assinar o tratado e, pelo que o som indica, estão acompanhados da maior parte da corte.

Algumas gigantescas criaturas coriáceas foram caindo do céu do entardecer e dando passos para aterrissar, como damas elegantes descendo de uma carruagem. Os vampiros pararam à entrada da caverna, onde dobraram as asas colossais com uma exatidão minuciosa, e olharam ao redor. Eram de uma estranha coloração cinzenta, como o céu da madrugada num dia chuvoso, e tinham a cara semelhante à de cães, com presas enormes. Suas feições começaram a escorrer e a ficar borradas, como quadros largados na chuva, enquanto o corpo parecia se derreter como cera de velas até que lentamente se coagulou em formas humanas.

— Ah, rei Grishmak e rainha Thirrin — disse a rainha dos vampiros enquanto alisava seu belo vestido de seda. — Meu consorte e eu viemos provar da sua hospitalidade... e, enquanto estamos aqui, seria bom assinar de uma vez esse tratado que tanto lhes interessa.

— Sejam bem-vindas Suas Majestades vampíricas à embaixada do Povo-Lobo. Queiram entrar e se sentar, por favor — disse Grishmak, seguindo na direção da maior fogueira na caverna, onde um semicírculo de quatro rochas volumosas tinha sido montado para servir como tronos toscos.

O rei dos lobisomens acompanhou os vampiros aos seus lugares e então, segurando a mão de Thirrin, a levou para a pedra ao lado da sua própria. Quando todos se sentaram, Thirrin não pôde deixar de perceber que ela e Grishmak olhavam para Suas Majestades vampíricas de um plano mais alto. E que as longas pernas dos vampiros ficaram esticadas para a frente de um modo que pareciam ser alunos de escola grandes demais para suas carteiras. Por dentro, ela deu um sorriso. Estava evidente que havia ocasiões em que era possível marcar pontos mesmo dentro das restrições da diplomacia.

Oskan foi se postar atrás do trono de Thirrin e caiu um silêncio enquanto todos se olhavam.

— Bem — disse finalmente o rei dos vampiros —, como está claro que não vão nos oferecer nada para beber, poderíamos assinar logo esse tratado.

— Não tenho sangue para lhes oferecer — explicou Grishmak. — E, por algum motivo, ninguém quis se apresentar quando procurei doadores.

— O sangue de lobisomem é contaminado com o de animal — disse a rainha dos vampiros, estremecendo. — Mas o sangue humano, por outro lado...

—.. não está sendo oferecido — atalhou Thirrin, com frieza.

— Vamos então ao que interessa — disse o rei dos vampiros, com um suspiro de cansaço.

Grishmak ergueu a pata e cinco lobisomens de pêlo grisalho avançaram, com o da frente segurando na mão o rolo de pergaminho do tratado. Ele fez uma profunda reverência para as pessoas nos tronos e, a um gesto de Grishmak, começou a falar.

— Meus colegas e eu estudamos em detalhe o documento e encontramos alguns... erros na sua redação.

— Erros? — perguntou a rainha dos vampiros, com uma voz entediada.

— É, erros. De algum modo, foi incluída uma cláusula que exigia que a rainha Thirrin cedesse um terço do seu território a Suas Majestades vampíricas além de pagar um tributo de vinte rapazes e vinte donzelas por mês.

— É mesmo? Não posso imaginar como isso aconteceu — disse o rei dos vampiros, com uma inocência deslavada. — Deve ter sido algum lapso.

— Sendo assim, tenho certeza de que Suas Majestades vampíricas não farão nenhuma objeção ao fato de meus colegas e eu termos nos incumbido de eliminar essa cláusula, bem como a que exigia que a Terra do Gelo reconhecesse sua condição de vassala diante da Terra-dos-Fantasmas.

Os vampiros tossiram e olharam para outro lado.

— Está bem, está bem. Certo! — disse finalmente a rainha dos vampiros no silêncio que se seguiu. — Vamos assinar esse tratado para poder voltar para nosso palácio e ir embora desta... cena rústica.

Grishmak estalou os dedos e um camareiro surgiu trazendo uma almofada com quatro adagas e quatro penas. Thirrin seguiu o exemplo do lobisomem e apanhou uma adaga e uma pena, esperando quase sem conseguir respirar enquanto a almofada era levada às majestades vampíricas. Também eles apanharam uma adaga e uma pena cada um e, sem hesitação, fizeram um corte no ante-braço e molharam a ponta da pena no sangue que escorria.

O lobisomem de pêlo grisalho apresentou então o tratado e Suas Majestades vampíricas o assinaram. Grishmak também cortou o antebraço, embora não com a mesma dramaticidade ou profundidade dos vampiros, e molhou a pena no pequeno talho. Assinou seu nome no tratado e se voltou para Thirrin, com um sorriso. Respirando fundo, ela se encheu de coragem e cortou o braço. A lâmina estava afiada e o sangue brotou com facilidade. Rapidamente, acrescentou seu nome aos outros três no tratado. A luz fraca da caverna, ela achou que o sangue parecia preto e quase teve um calafrio enquanto o via se estender, grosso e brilhante, pelo pergaminho.

Grishmak então se pôs de pé de um salto, jogou a cabeça para trás e uivou com uma ferocidade tão horripilante que todos os outros

sons desapareceram. Veio então, estrondosa, a voz gutural e grave do rei do Povo-Lobo.

— Que todas as deusas e deuses da terra e do céu, todos os espíritos do sangue e da morte, todos os circunstantes e cumpridores de votos testemunhem este ato e considerem que nossos nomes escritos representam um compromisso moral. E que qualquer um que desrespeite essa confiança caia da face da Mãe Terra e viva para sempre esfolado diante do olho eterno do sol ardente, seja ele mortal, imortal, vampiro, do Povo-Lobo ou ser humano! — Ele voltou o olhar injetado para Suas Majestades vampíricas. — Pelo alho, pela madeira e pelo fogo purificador, que assim seja!

O rei e a rainha dos vampiros se puseram de pé de um salto e chiaram, arreganhando os lábios úmidos e vermelhos para mostrar os dentes pontudos.

— Você foi longe demais, Grishmak!

— Pode ser — concordou ele, novamente com a voz amena e calma. — Mas agora vocês estão amarrados e nem mesmo vocês ousariam romper esse tratado.

O rei e a rainha dos vampiros chiaram outra vez e, encami-nhando-se para a saída da caverna, eles e seus cortesãos voltaram a se transformar em morcegos gigantescos que foram embora voando, aos guinchos.

— Ótimo, um serviço bem-feito — disse Grishmak, animado. — Será que eu sou o único que está com fome?

 

Tinham passado a maior parte do curto dia de inverno viajando. O ar estava enregelante e nele minúsculas partículas de gelo pairavam e cintilavam ao sol brilhante, de modo que tinham a impressão de estar percorrendo um mundo de cristal polido. Thirrin e Oskan estavam bem aninhados por baixo de espessas cobertas de peles, enquanto o mundo branco e refulgente passava rápido. Estavam num trenó baixo e comprido, puxado a uma velocidade vertiginosa por seis enormes lobisomens brancos, cujas pernas avançavam incansáveis pela neve afora enquanto seus braços deslocavam o ar como pistões de uma máquina viva. Ao lado, ia um segundo trenó, cheio de alimentos e combustível, além de outros equipamentos necessários para sua sobrevivência nos ermos do extremo norte. Esse também estava sendo puxado por seis lobisomens brancos. E, enquanto corriam, constantemente levantavam o focinho como se quisessem farejar a rota até o Topo do Mundo. O Povo-Lobo tinha chegado no dia anterior às cavernas do rei Grishmak, anunciando sua presença com forte clamor e latidos prolongados, que até o ouvido destreinado de Thirrin poderia dizer que era diferente do linguajar habitual dos lobisomens. Com eles, vinha uma das mensageiras do rei que tinha partido três dias antes para procurá-los, e ela saudou seu líder com orgulho enquanto se aproximava.

— Estavam a grande distância para o norte e para o leste, meu senhor — explicou ela usando a fala humana. — Mas responderam à sua convocação de imediato.

O rei baixou a cabeça em sinal de aprovação e se voltou para os lobisomens recém-chegados, que prontamente uivaram para saudá-lo.

— Povo-Lobo das Geleiras, tenho uma importante tarefa para vocês — disse ele. — Essa fêmea humana é Thirrin Freer Forte -no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, rainha da Terra do Gelo e aliada do nosso povo. Ela é também uma amiga querida, cuja segurança e bem-estar eu prezo acima de tudo.

Os enormes lobisomens brancos se voltaram para contemplá-la: as caras ferozes por um instante calmas enquanto farejavam o ar, fixando seu cheiro e guardando sua forma de cor. Depois, em coro, jogaram a cabeça para trás e uivaram.

— Sua missão, meu povo, é levar a rainha Thirrin e seu conselheiro à corte dos leopardos-das-neves no Eixo do Mundo, onde ela convidará seu rei para se unir à nossa aliança contra o Império polipontino. Caberá a vocês a responsabilidade pela segurança e perfeito estado de saúde dela. Nenhum sangue há de ser derramado que não seja o de vocês. Nenhuma respiração cessará a não ser a de vocês. Cerrarão os dentes diante da morte e serão inimigos da derrota. E devolverão a rainha aqui a esta caverna depois de passada uma metade do ciclo da lua abençoada. Estão entendendo?

A líder do Povo-Lobo branco, Grinelda Dente-de-Sangue, deu então um passo adiante. Ela era uma cabeça mais alta até mesmo do que o rei e, aos olhos de Thirrin e Oskan, sua boca parecia tão cheia de dentes como uma floresta de árvores.

— O senhor Tharaman-Thar e seus leopardos-das-neves são um povo temível, rei Grishmak Bebedor-de-Sangue — disse ela, sem rodeios. — Mas a rainha humana será devolvida em segurança ou morreremos em sua defesa.

— Obrigado, Grinelda Dente-de-Sangue, não posso pedir mais que isso — respondeu Grishmak, depois de um momento de silêncio. Voltou-se então para Thirrin: — Agora você pode perceber como sua missão é perigosa. Os leopardos-das-neves não devem satisfação a ninguém. Se não gostarem de você, vão matá-la.

Esse era o dever que residia no centro do poder de Thirrin. Naquele instante, o que ela mais teria gostado de fazer era transferir toda aquela responsabilidade para outra pessoa, mas sabia que não tinha alternativa. Era para esse tipo de pressão e perigo que tinha nascido. Por isso, simplesmente concordou em silêncio e tentou dar a impressão de que partir em expedição para encontrar leopardos assassinos era um acontecimento corriqueiro na sua vida.

— Antes de partir, rei Grishmak, desejo lhe pedir que dê abrigo a Oskan, o Bruxo, até minha volta... ou — concluiu depois de uma pequena pausa — até que eu não volte.

A forma alterada do seu nome foi um choque momentâneo que emudeceu Oskan, mas ele se recuperou rápido e explodiu, furioso.

— Se você ousar tentar me deixar aqui, vou atrás a pé. E, quando eu morrer na neve, volto como assombração. Vou fazer da sua vida uma desgraça total. Nenhum fantasma será tão criativo na perversidade como eu. Vou estragar sua comida; transformar sua bebida em sangue; uivar e gemer a noite inteira. Em nenhum lugar você estará a salvo de mim. E não pense que eu não teria como fazer isso, Thirrin, rainha da Terra do Gelo, porque posso lhe garantir que teria, sim.

Thirrin olhou para o jovem conselheiro, cujos olhos estavam arregalados e iluminados por uma raiva mal reprimida. Havia ocasiões em que ela considerava a amizade dele apavorante, mas essa impressão foi logo superada por uma sensação de enorme alívio e gratidão. Pelo menos, não teria de encarar sozinha os leopardos-das-neves.

— Creio, rei Grishmak, que não precisaremos mais abusar da sua hospitalidade — disse ela. — Nós dois vamos ao palácio do senhor Tharaman-Thar.

— Como queira, minha senhora — disse o homem-lobo, com um gesto de aprovação, no fundo aliviado por não precisar conter o poder de um bruxo furioso. —Aguardaremos ansiosos seu retorno.

Uma súbita inclinação no terreno deu um solavanco no trenó e os pensamentos de Thirrin voltaram ao presente. Oskan parecia fascinado pela região em torno deles, enquanto os lobisomens seguiam caminho a uma velocidade inacreditável. Ele olhava para cima para acompanhar os galhos de um pequeno bosque de pinheiros pelo qual estavam passando e se virou no assento para observá-los à medida que os trenós deixavam o bosque para trás e prosseguiam velozes na direção do reino dos leopardos-das-neves.

— De todas as árvores, essas são as que se encontram mais ao norte — disse ele, quase só para si mesmo. — Daqui em diante, terminam as terras da humanidade e começa o domínio dos Ermos.

A sua frente, a terra era branca e sem acidentes sob o manto de neve levemente ondulante. O sol já tinha desaparecido depois do curto dia do inverno boreal, deixando o céu tingido com o brilho rosado que acompanhava sua luz. E, pouco acima do horizonte, o brilho puríssimo da estrela vespertina se destacava à medida que a luz do dia se apagava.

Thirrin olhou para Oskan enquanto ele admirava a estrela.

— Por que você estava tão determinado a vir comigo ao reino dos leopardos-das-neves, Oskan?

Ele se voltou para ela, com um leve ar de preocupação.

— Se você fracassar, Thirrin, e morrer tentando fazer uma aliança com Tharaman-Thar, a Terra do Gelo estará perdida e Scipio Bellorum e tudo o que ele representa governarão seu território. O racionalismo, a ciência, a indústria, o progresso. Todas essas coisas, que são muito boas em si e quando desempenham seu correto papel na vida de uma nação. Mas, ao que eu saiba, no Império elas dominam tudo. A magia e o mistério não têm espaço nem valor; até mesmo a natureza não passa de um enorme depósito para fornecer à ciência e à indústria as matérias-primas de que necessitam. Que lugar poderia existir para mim num mundo desses? Eu seria uma espécie de refugo, um lixo deixado na praia pela maré vazante. Até interessante a seu modo, mas sem nenhum valor real além do despertado por uma pequena curiosidade. — Ele se voltou para olhar adiante para o céu que aos poucos ia revelando a beleza das estrelas. — Prefiro a morte rápida debaixo da pata esmagadora de um leopardo-das-neves, prefiro ser a vítima de alguma força incontrolável da natureza, a ir me apagando aos poucos como uma lâmpada com pouco óleo.

Ela concordou, compreendendo perfeitamente seu ponto de vista.

— É óbvio que você vem pensando nisso há algum tempo e eu suspeitava que fosse dizer algo semelhante. — De repente, ela sorriu para ele. — Olhe só para nós dois! Mal deixamos de ser crianças e já somos antiquados demais para as mudanças deste mundo. É possível já nascer velho? Porque às vezes é assim mesmo que me sinto. Como podemos ter esperança de resistir ao progresso irrefreável? Como vamos poder vencer uma guerra contra as forças da ciência?

Oskan bufou, com desdém.

— A que pergunta você quer que eu responda primeiro? Nascer velho? É, agora mesmo eu me sinto com noventa anos. Quanto ao resto, não estamos lutando contra o progresso ou a ciência.

Os dois são idéias que pertencem a todas as pessoas. Idéias que deveriam nos ajudar a entender a beleza do nosso mundo e a aprimorar a vida de tudo o que nele existe. Mas o Império seqüestrou essas idéias e o progresso, aos olhos deles, significa descartar tudo o que não seja novo, não importa se bom ou ruim. E, para o Império, a ciência é só um meio para criar modos mais eficazes de matar pessoas.

— Você acha que todos os cientistas são maus? — perguntou ela.

— Maggiore Totus é um cientista — respondeu ele, simplesmente.

— É — disse ela, lembrando-se das experiências e testes com os quais tinha se esforçado tanto, só um ano antes... em outra vida. — Mas ele usaria a ciência para deixar as pessoas felizes.

— Usaria. E tenho certeza de que existem muitos como ele. Os dois se calaram, ouvindo o chiado dos puxadores do trenó enquanto seguiam velozes pela neve. A última claridade tinha sumido do céu e as estrelas brilhavam frias lá no alto, cintilando e coruscando como cristais no ar congelado.

Os lobisomens continuavam correndo, aparentemente incansáveis, farejando o vento e de vez em quando corrigindo sua rota enquanto se dirigiam para o Eixo do Mundo. Mas então, quando uma meia-lua surgiu no horizonte, uivaram para saudar a sagrada provedora da luz e foram desacelerando até parar.

Oskan e Thirrin ficaram olhando enquanto o Povo-Lobo se ocupava em retirar do segundo trenó a maior parte do seu conteúdo e construía uma tenda baixa com tamanho suficiente para abrigar a todos. Quando tudo estava pronto, Grinelda Dente-de-Sangue fez uma reverência cortês e lhes perguntou se gostariam de reunir-se a eles no abrigo.

Com a devida atitude majestosa, Thirrin concordou e aceitou a ajuda de uma mão coberta de pêlo quando saltou do trenó. Feita de espessas camadas de couros curtidos, a tenda era ampla, com uma boa profundidade de peles empilhadas como piso e braseiros dispostos a intervalos no seu interior espaçoso. Junto da entrada, uma fogueira enorme tinha sido montada e ali dois lobisomens estavam agachados com fatias de carne em varetas, tentando assá-la para os convidados humanos. Depois de olhar por alguns instantes, período em que a carne primeiro foi queimada e depois caiu no meio das cinzas, Oskan apanhou educadamente as varetas e disse aos lobisomens que ele e a rainha preferiam preparar a própria comida.

Os lobisomens pareceram aliviados e, depois de fazer uma reverência, foram apressados ajudar nas outras tarefas de instalação do acampamento. Mas logo ficou claro que Thirrin não era melhor que eles na tarefa de cozinhar. E Oskan lhe disse que deixasse por sua conta.

— De qualquer modo, estou bastante enjoada de carne — murmurou ela, quando o resto do grupo estava ocupado. — Eu seria capaz de matar por um pão ou uma porção de cenouras.

— Ou até mesmo uma maçã! — completou Oskan, baixinho. Ela baixou a cabeça vigorosamente, em sinal de aprovação.

— Nunca pensei que me flagraria sonhando com repolhos e nabos; mas neste exato momento eles me parecem o alimento dos deuses. Meu maxilar dói de mastigar toda essa carne malpassada.

— Imagino que podemos contar com mais do mesmo cardápio lá com os leopardos-das-neves — disse Oskan. — Naturalmente, supondo-se que nós mesmos não sejamos incluídos nele.

— Bem, se chegar a esse ponto, vou fazer o que puder para entalar na garganta deles — disse Thirrin, feroz, olhando com surpresa para Oskan, que não parava de dar risinhos incontroláveis. Pensou que havia horas em que era simplesmente impossível entender os meninos.

O grupo inteiro de doze lobisomens brancos e dois humanos se apinhou na tenda para fazer sua refeição e, assim que ela terminou, o Povo-Lobo se acomodou para dormir. Não houve cerimônia, nem havia muito espaço; mas os braseiros, o fogo e os corpos peludos geraram calor suficiente para tornar o ambiente bastante confortável. Mesmo o frio intenso das horas escuras descobriu ser impossível penetrar no casulo aquecido que os lobisomens tinham criado. Logo tanto Thirrin como Oskan estavam dormindo e acordaram sobressaltados com a brilhante luz da manhã e os uivos do Povo-Lobo saudando o dia.

Agora tinham avançado tanto para o norte que a claridade do dia duraria pouco mais que três horas e, antes que chegassem ao fim da expedição, passariam a viajar por uma noite perpétua. Grinelda Dente-de-Sangue insistiu com todos que comessem, arrumassem as coisas e retomassem a jornada o mais rápido possível e daí a alguns minutos eles estavam novamente voando pelo gelo a caminho do Eixo do Mundo.

A terra agora era quase totalmente plana e sem acidentes. De vez em quando, eles passavam por formas estranhamente contorcidas, em lugares onde o vento tinha criado esculturas fantásticas com a neve. Mas na maior parte das vezes o terreno somente se desenrolava e ondulava lentamente rumo ao horizonte, sem nenhum ponto de referência ou acidente geográfico que mostrasse que eles realmente estavam chegando a algum lugar.

A medida que foram se aproximando do reino dos leopardos-das-neves, o tempo começou a mudar. Thirrin achava que fosse impossível ficar ainda mais frio, mas a temperatura caiu violentamente e uma espessa geada branca começou a se acumular na superfície de tudo. As cobertas externas do trenó estavam rígidas com ela e até mesmo o pelame dos lobisomens cintilava com um glacê de cristais. O ar queimava com um frio horrendo que congelava a pele viva em segundos de exposição e a claridade do sol, refletida pelo mundo branco ao redor deles, fazia com que seus olhos doessem mesmo por trás das fendas dos óculos de osso de baleia que só permitiam a entrada do mais fino feixe de luz.

Mas o brilho intenso do sol deixou de ser um problema quando, numa manhã, o dia não raiou e eles entraram no mundo da perpétua noite de inverno. Para Oskan, a verdadeira magia da natureza se concentrou nessa viagem ao Eixo do Mundo. Lá no alto, o céu cravejado de estrelas marcava vagaroso as horas do dia, à medida que as constelações nasciam do horizonte e aos poucos seguiam sua rota até o poente, enquanto o trenó deslizava pelas neves afora. Raras vezes, uma estrela cadente passava como uma pincelada de luz atravessando o céu e ele se flagrava como uma criança fazendo um pedido de que vencessem a guerra por vir e de que ninguém morresse. Mas em seguida, cinicamente, ele se lembrava de que a primeira parte do pedido era improvável e a segunda, impossível.

O nascer da lua era sempre saudado pelos lobisomens, que paravam abruptamente e uivavam quando o brilhante fogo prateado começava a surgir no horizonte. Mesmo estando meio cheia, sua luz era suficiente para iluminar as neves com um clarão de tirar o fôlego, que de algum modo conseguia ser mais claro e ao mesmo tempo mais sutil que a luz do dia.

Tanto Oskan como Thirrin começaram a perder a noção do tempo e, com isso, seu entendimento da realidade. Sem a troca normal do dia pela noite e da noite pelo dia, eles se sentiam à deriva num mundo de uma beleza gélida, viajando sem parar para sempre através do nada. Nenhum dos dois se importava muito com isso. Uma excursão eterna através da beleza era preferível a qualquer guerra e aos poucos toda a sensação de urgência se desgastou do seu pensamento.

Um dia, porém, enquanto os trenós murmuravam sobre as neves intermináveis, Oskan sentiu uma mudança nas feições do ar. Empertigou-se sentado mesmo e olhou ao longe pelos campos cobertos de neve até o horizonte, mas não havia nada que pudesse ver.

— O que foi? — perguntou Thirrin.

— O mundo está criando intempéries — respondeu ele, sem tirar os olhos da linha distante onde a terra se encontrava com o céu.

— Mau tempo?

— Eu diria péssimo.

Imediatamente, Thirrin chamou os lobisomens e os trenós pararam. Grinelda Dente-de-Sangue saiu dos tirántes, voltou até onde estavam os dois humanos e fez uma profunda reverência.

— Algum problema, minha senhora?

— Oskan, o Bruxo, diz que temos mau tempo pela frente. A criatura olhou para o garoto por alguns segundos, farejou o ar e chamou os outros, usando sua própria língua. Realizou-se ali uma conferência aos grunhidos, interrompida por muito farejar, espremer de olhos para o horizonte e cuspidas especulativas na direção de onde soprava o vento. Por fim, a líder se voltou para os humanos.

— O Bruxo está com a razão, mas os sinais são muito fracos. Devemos ter três dias antes que a tempestade se abata sobre nós.

— Dois dias e meio — disse Oskan, com firmeza.

— Então vamos precisar fazer nosso próprio abrigo. Ainda faltam quatro dias de viagem para chegarmos às fronteiras das terras dos leopardos-das-neves.

— Esses abrigos levam muito tempo para construir? — perguntou Thirrin.

— Não — respondeu Grinelda Dente-de-Sangue, abanando a cabeça. — No máximo uma hora. Ainda temos pelo menos dois dias de viagem.

— Então, tratemos de não desperdiçar esse tempo — disse Thirrin, em sua melhor voz de rainha.

Grinelda fez mais uma reverência, voltou à sua posição na frente da equipe e, com uivos ferozes, retomaram o trajeto pelas neves afora, a uma velocidade espantosa.

No entanto, por mais veloz que o Povo-Lobo seguisse através das Geleiras, não houve como escapar do tempo. Durante o dia seguinte, as estrelas aos poucos se esconderam à medida que uma enorme massa de nuvens avançava por todo o céu. E com elas veio um estranho som de relinchos e uivos, fraco com a distância e inconstante, como o de uma alcatéia em caça que farejou algum rastro. Era a voz do vento distante, gelado e mortífero, o vento que odiava todas as coisas vivas e que esgotaria o calor da vida de tudo o que tocasse.

Ao longo dos dias e horas seguintes, o vento aos poucos os alcançou, devorando a distância entre seu frio de congelar o sangue e as equipes de lobisomens que continuavam a correr incansáveis pela noite ártica. Logo Thirrin e Oskan enxergavam uma sombra de um cinza escuro que dançava e turbilhonava no horizonte enquanto a nevasca se abatia sobre eles e cada vez mais se aproximavam os gemidos e lamentos.

Finalmente, as turmas de lobisomens pararam e voltaram os trenós de frente para a tempestade que se avizinhava, numa forma em "V" unindo as frentes dos trenós com forte amarração de cordas de couro. Das geleiras em volta, cortaram rapidamente blocos, usando lâminas de osso de baleia que conseguiram enrijecer e afiar cuspindo nelas e deixando a saliva congelar. A medida que um grupo cortava os blocos, outro construía com eles um muro, de modo que logo os trenós estavam cercados por uma barreira em forma de barco que se elevava à altura dos ombros, com uma ligeira inclinação para dentro. A "proa" pontuda dessa barreira estava voltada direto para o vento e sua parte traseira ia se afllando até uma segunda ponta.

Agora a nevasca estava apenas a alguns minutos dali e Thirrin e Oskan observavam pasmos enquanto os lobisomens se movimentavam a uma velocidade incrível, dispondo os grossos pelames das tendas por cima dos dois trenós, com amarras firmes para garantir um abrigo seguro. O piso congelado foi como de costume coberto com pêlos e braseiros foram acesos enquanto todos entravam às pressas e se acomodavam para aguardar a tempestade.

Em menos de uma hora, os lobisomens tinham construído um refúgio à prova das intempéries e por pouco teria sido tarde demais. De repente, o vento os atingiu, aos uivos e guinchos como um exército de vampiros gigantes. O teto de peles batia e estremecia violentamente. Thirrin e Oskan tiveram medo de que ele se rasgasse, mas logo ficou evidente que as cordas de couro que o prendiam aos trenós iam resistir, e os dois começaram a se tranqüilizar.

O ambiente ficou bastante agradável à medida que a temperatura no interior das paredes de gelo chegou a um nível confortável e uma gostosa sensação de segurança os dominou. Até mesmo a carne das provisões que o Povo-Lobo serviu tinha um sabor melhor do que apresentava havia muito tempo. Mesmo assim, Thirrin e Oskan ainda sentiam falta do simples prazer de um pedaço de pão ou de um prato de legumes cozidos.

Depois da refeição, os lobisomens começaram a contar histórias e lendas da sua tribo do norte, nas quais caçavam ursos gigantes e baleias mágicas no gelo e pelos mares afora. Falaram sobre como seu grande herói Ukpik tinha lutado contra o demônio da escuridão numa batalha de seis meses de duração, da qual ele acabara saindo vitorioso, com isso trazendo o sol de volta para iluminar o mundo. Falaram também sobre como o demônio da escuridão de algum modo conseguia roubar o sol de novo todos os anos, mergulhando o mundo no inverno, até Ukpik repetir sua proeza e salvar a luz do mundo bem a tempo para o verão.

No curto silêncio que se seguiu a essa epopéia, Thirrin decidiu contar a história de Edgar, o Valente, e sua guerra contra o Povo-Dragão das montanhas das Rochas-dos-Lobos. Os lobisomens ficaram muito impressionados e rosnaram com aprovação quando ela terminou. Mas só Oskan percebeu como Thirrin estava triste. Ninguém mais sabia que ela estava se lembrando da última vez que tinha ouvido a história, sentada com o pai no confortável aconchego dos seus aposentos na véspera de Iule, enquanto Grimswald, o camareiro-da-parafernália-real, lia o texto do Livro dos antepassados. Mas isso tinha sido quando ela ainda era criança.

Por dois dias, a tempestade se abateu violenta sobre eles, guinchando como um "saco cheio de macacos", como Oskan a descreveu. Mas finalmente o vento foi amainando aos poucos, até que com um último gemido se afastou pelo gelo, deixando que o silêncio retornasse. Grinelda Dente-de-Sangue abriu a portinhola na tenda de peles e saiu por ali engatinhando. Na direção para onde o vendaval tinha soprado, a neve estava acumulada em torno do muro de blocos de gelo num monte alongado que se estendia pela escuridão adentro; mas, no lado batido pelo vento, o muro estava alisado e polido como se uma mão gigantesca o tivesse esfregado até dar brilho.

Os outros também saíram de qualquer maneira e começaram a se espreguiçar e a respirar fundo tudo o que tiveram coragem daquele ar implacavelmente gelado, mas maravilhosamente puro. Dois dias passados num espaço restrito na companhia de doze enormes lobisomens peludos não era uma experiência das mais perfumadas e a beleza imaculada do mundo do gelo criava um contraste impressionante com o ambiente no interior da tenda. Depois de alguns minutos aproveitando a liberdade do espaço, o Povo-Lobo começou a preparar comida e logo todos estavam fazendo a inevitável refeição de carne.

Depois, em questão de instantes, as tendas e todos os outros equipamentos estavam guardados e eles partiram novamente na expedição ao reino dos leopardos-das-neves. Thirrin e Oskan se instalaram num dos trenós, como de costume, e saíram velozes pelo gelo enquanto o mundo ia ficando cada vez mais frio.

O Povo-Lobo parecia determinado a compensar ao máximo o tempo perdido e correu por horas a fio, com as estrelas seguindo lentamente seu curso no céu de cristal negro. E então, enquanto Oskan e Thirrin apreciavam o majestoso teatro da noite, uma súbita explosão de cor tremulou como uma longa faixa luminosa de um horizonte ao outro. Os dois sufocaram um grito e os lobisomens reduziram a velocidade e pararam antes de jogar a cabeça para trás e uivar.

— O que houve? — perguntou Thirrin. — O que são essas luzes estranhas?

— Os véus da lua abençoada, minha senhora — respondeu Grinelda, enquanto uma cortina cascateante de chamas amarelas e vermelhas tremeluzia e bruxuleava pelo céu. — São prenúncios de uma sorte excelente.

A imensidão visual da exposição de luz gerava um espantoso contraste em relação ao seu silêncio total. Na opinião de Thirrin, uma manifestação de tanto esplendor e beleza deveria estalar e ru-gir como a maior das fogueiras e, no entanto, cada cachoeira de cor, cada estandarte de luz ondulante era de uma mudez tão estranha quanto a de um palácio vazio.

— Acho que me lembro de Maggiore ter dito alguma coisa sobre isso numa das aulas de geografia.

— Quer dizer que de vez em quando você prestava atenção? — murmurou Oskan, como se não quisesse perturbar a exibição de luzes e afugentá-la.

— Tinha um nome esquisito... aurora boreal, acho... É, é isso mesmo! Aurora boreal.

— E então o que ela é? O que a provoca?

— Não me lembro direito — respondeu Thirrin. — Tem a ver com a luz do sol nas camadas mais altas da atmosfera ou alguma coisa semelhante.

— Esse é o problema da ciência. Ela precisa explicar a beleza. Não consegue simplesmente deixar que aconteça.

— Mas não impede a beleza de existir.

— Não, mas faz desaparecer o mistério. A magia. Prefiro o nome que o Povo-Lobo lhe dá: os véus da lua abençoada.

— Mas você me perguntou o que era. Você quis saber.

— Pois bem, da próxima vez não responda. Saber exatamente o que as coisas são não melhora em nada a minha vida.

— Você sabe que não acredita no que está dizendo. Está só reagindo contra o Império e seus cientistas. Você mesmo já afirmou que a ciência pode ser usada para o bem.

— É, é verdade, acho que sim — concordou Oskan, relutante. — Mas deixem um pouco de magia no mundo. Deixem um pouco de mistério para a gente aproveitar.

Os lobisomens agora recomeçavam a puxar os trenós, prosseguindo viagem sob a majestade silenciosa e colossal das luzes do norte até que, no horizonte, começou a surgir o que parecia uma leve inclinação da terra por baixo da sua crosta de gelo. Aos poucos, aproximadamente ao longo da hora seguinte, os montes se revelaram montanhas que subiam numa imponência assombrosa, brancas e resplandecentes, em contraste com o negrume da noite perpétua. A aurora boreal banhava os penhascos brancos com um tom forte de azul e carmim e uma estrela cadente passou brilhante acima do pico mais alto.

— O reino dos leopardos-das-neves — gritou Grinelda e os trenós avançaram a uma velocidade ainda maior, encaminhando-se para as montanhas.

 

OPovo-Lobo parou e estava olhando fixamente para um ponto ao longe. Thirrin e Oskan se levantaram no trenó e tentaram discernir exatamente o que estava se aproximando. De início, não enxergaram nada. E, quando chamaram Grinelda, ela, sem tirar os olhos do horizonte, fez um gesto para que se calassem. E então, daí a alguns minutos, todos os lobisomens se soltaram dos tirantes e formaram um círculo bem fechado em volta dos humanos seus protegidos. Oskan abafou um grito e segurou a mão de Thirrin.

— Lá! — disse ele, apontando. — Um leopardo, um leopar-do enorme!

Ela acompanhou o trajeto do dedo que apontava, ajustou os olhos para aquela distância e por fim o viu. Estava mais perto do que ela imaginava. Sua pele principalmente branca com pintas negras era uma camuflagem perfeita para o pano de fundo da neve, gelo e sombras. E Oskan não tinha exagerado. Ele era mesmo enorme, mais ou menos do tamanho de um cavalo de batalha na cernelha, e sua cabeça impressionante era iluminada por olhos cor de âmbar, cheios de vida.

Enquanto ele vinha sem pressa pela neve na direção deles, Thirrin percebeu que as patas eram gigantescas e pareciam macias.

Apesar do peso óbvio do animal, elas o levavam pela neve mais solta sem nem uma vez afundar. Mas o que realmente atraiu a atenção de Thirrin foi a boca. A medida que se aproximava, o leopardo ergueu a cabeça e arreganhou um pouco os beiços num ato que era tão semelhante a Primplepuss que Thirrin soube que ele estava fazendo reconhecimento do cheiro deles. O movimento revelou uma série de dentes que lhe causou um calafrio. Pareciam mais brancos que a neve ao redor, sendo o menor deles mais comprido que os dedos da mão de Thirrin, e as presas pareciam mortíferas como sabres de marfim.

Thirrin apertou a mão de Oskan uma vez, para se tranqüilizar, e então a soltou, erguendo a cabeça com altivez enquanto assumia sua plena majestade.

A criatura parou a uns três metros do lobisomem mais avançado e se sentou. Depois de examiná-los por um instante, ela lambeu uma pata e deu um enorme bocejo, exibindo os dentes impressionantes. E então, para assombro dos humanos que faziam parte do grupo, ele falou:

— Quem são vocês que invadem o território de Tharaman, o Thar dos leopardos-das-neves?

Apesar de Thirrin e Oskan terem sido informados de que os leopardos sabiam falar, sua expectativa era a de que falassem como os lobisomens, emitindo os grunhidos e rosnados de um animal de uma forma que acabava se assemelhando à fala. Mas a voz daquela criatura era perfeitamente humana, até mesmo refinada, com um toque de tédio.

— Você sabe muito bem que nós somos do Povo-Lobo da tribo de Ukpik — retrucou a líder dos lobisomens brancos. — E trazemos conosco a rainha Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte e monarca da Terra do Gelo. Com ela, veio seu conselheiro, Oskan, o Bruxo. São humanos que desejam uma audiência com Tharaman-Thar dos leopardos-das-neves.

A criatura parou imediatamente de lamber a pata e olhou para cima.

— Humanos! Por aqui? Deixem-me ver esses seres lendários. Thirrin saltou de uma vez do trenó e avançou na direção do leopardo, enquanto Oskan a acompanhava, desajeitado, procurando não aparentar medo.

O gato gigantesco olhou para eles por um bom tempo.

— Essas coisas insignificantes são seres humanos? Bem, que decepção! Não posso acreditar que essas criaturas diminutas sejam abençoadas com a mesma língua do povo leopardo. Diga-lhes que voltem para o lugar de onde vieram.

Thirrin se irritou tanto que esqueceu o medo e, sacando a espada, avançou contra o leopardo.

— Diminuta ou não, senhor Gatinho, não vou voltar, a menos que eu leve sua cabeça para pôr como troféu na minha parede, é claro!

As orelhas da criatura se abaixaram, de surpresa.

— Eles falam nossa língua e, ainda por cima, com perfeita dicção!

Àquela altura, Thirrin estava em pé bem abaixo do queixo do leopardo e lhe encostou a espada no pescoço largo.

— Eu diria que são vocês que falam nossa língua, gatinho, e para animais falam muito bem. Mas, se quer que saiam da sua boca palavras em vez de sangue, sugiro que demonstre muito mais respeito!

O leopardo gigante olhou para ela ali embaixo e, erguendo descontraído uma pata, abriu e fechou garras longas e cintilantes.

— Eu diria que o ser humano carece um pouco de armamento e tamanho para representar uma ameaça verdadeira para mim. Mesmo assim, devo admitir que tem bravura. É quase uma pena matá-lo.

— Ah, é mesmo, você poderia me matar, sr. Bichano — disse Thirrin, com a voz chiando de tanta raiva. — Mas posso lhe garantir que você morreria dos ferimentos que receberia antes de poder se vangloriar! — E, súbita e rapidamente como um raio, sua espada cintilou. Com isso, caíram na neve os bigodes de ambos os lados do leopardo-das-neves, bem como a ponta da sua barba.

O felino gigante soltou um rugido que quase derrubou Thirrin no chão e se ergueu nos quartos traseiros tão alto que pareceu um imenso monólito de gelo vivo. As duas patas dianteiras rebrilhavam agora com garras enormes e a boca aberta parecia uma caverna orlada com estalactites brancas e pontiagudas. Ela esperou que ele atacasse; mas, em vez disso, ele deu um passo atrás e olhou para os seus bigodes.

— Ai de mim! O que os outros vão dizer? — Ele olhou de relance para Thirrin. — Estou muito ridículo? — E então fez uma coisa que por pouco a levou a deixar cair a espada. Ele riu e esse som foi tão humano e alegre que ela quase riu junto.

A enorme tensão que tinha se acumulado evaporou e Oskan deu um suspiro de alívio. De algum modo, apesar de Thirrin e do seu temperamento, eles tinham sobrevivido ao primeiro encontro com um leopardo-das-neves.

— Senhora, meu nome é Taradan, sou o subcomandante dos exércitos de Tharaman-Thar dos leopardos-das-neves. Parece que não começamos com o pé direito. A culpa é totalmente minha por subestimar a bravura dos seres humanos. Podemos recomeçar?

— Podemos — concordou Thirrin.

— Sou-lhe grato para sempre, minha senhora. Então, em primeiro lugar, como arauto do Thar do Povo-Leopardo, eu poderia perguntar-lhe o motivo que a trouxe a nossas terras?

— Desejo uma audiência com Tharaman-Thar, durante a qual declararei meus motivos em alto e bom som para que todos ouçam.

— Entendo... quer dizer que vocês não são a vanguarda de um exército invasor?

— Não — disse Thirrin, com um riso seco. — Vim oferecer amizade e aliança ao Povo-Leopardo. Mais do que isso não direi enquanto não me encontrar na presença do Thar.

— Está certo. Fiz as perguntas que a tradição determina e, como está evidente que vocês não fazem parte de um exército invasor, vou escoltá-los até o palácio real do senhor Tharaman, o centésimo Thar do Povo-Leopardo. — Afastando-se um pouco pelas neves, ele então levantou a cabeça e emitiu uma série de sons agudos, curtos e engasgados que ecoaram pelo céu.

Daí a alguns instantes, Thirrin achou que ouviu uma resposta ao longe, seguida de mais duas de direções diferentes. Quando novamente se fez silêncio, o leopardo-das-neves se virou para eles.

— Embarque de novo no trenó, Thirrin-Thar, e que seu Povo-Lobo me acompanhe. Ainda temos uma longa viagem pela frente.

Os lobisomens retomaram os tirantes dos trenós e Thirrin e Oskan se acomodaram de novo por baixo das peles. Logo estavam seguindo em disparada pelas neves afora, atrás do leopardo gigante que corria na frente, com a graça e a beleza de água provida de músculos.

Algumas horas mais tarde, eles começaram a se aproximar dos sopés das montanhas que se erguiam no Eixo do Mundo. Os altos picos e encostas estavam cobertos uniformemente com neve e, à luz das estrelas e de uma lua quase cheia, refulgiam e tremeluziam como esculturas de luz.

— É lindo — afirmou Oskan, em tom neutro, como se estivesse dizendo qual era o dia da semana. — Lindo e terrível. Muito parecido com nosso amigo, o leopardo.

— É — concordou Thirrin. — Era quase possível que ele fosse feito do mesmo material que a montanha.

Oskan olhou adiante para onde Taradan galopava pela neve.

— É verdade. Difícil acreditar que circule sangue quente por aquele corpo magnífico. Eu imaginaria que fosse mercúrio ou talvez ichor, o sangue dos deuses.

— Você acha que vamos morrer, Oskan? — perguntou Thirrin de repente, num tom completamente calmo.

— Não sei — respondeu ele, dando de ombros. — Pode ser. Mas Taradan me parece bastante simpático... por enquanto.

— É mesmo, mas minha sensação é a de que tudo isso é fachada. E que, se você chegasse a atingi-lo abaixo da camada externa, encontraria uma selvageria inacreditável.

— Tenho certeza disso. Afinal de contas, são animais selvagens. Só porque falam como Maggiore Totus, não significa que tenham a mesma atitude que ele diante da vida. Se no final concluírem que não gostam de nós, pode ter certeza de que não passaremos de lanche para o leopardo que nos alcançar primeiro.

— É, acho que sim. Mesmo assim, precisávamos tentar, não é?

— Precisávamos — concordou Oskan.

Daí a pouco tempo, Thirrin e Oskan perceberam que estavam afinal chegando ao fim da viagem. Um vale amplo se abriu à sua frente e começaram a avançar mais devagar. Os penhascos que encerravam o vale pelos dois lados começaram a se erguer mais elevados e mais próximos à medida que a trilha ia estreitando. As grandes pedras caídas se reuniam em torno das muralhas altíssimas, como se suas faces rochosas fossem cascatas congeladas e as pedras fossem os borrifos glaciais soprados em algum passado inimaginável. Foi nesse momento que Thirrin percebeu vultos sentados ou deitados no alto das rochas. Leopardos-das-neves! Cada um tinha no mínimo o tamanho de um cavalo de batalha, mas seu pelame se fundia com tanta perfeição com o pano de fundo que ela só os percebeu quando os trenós passaram direto abaixo deles.

— Oskan. Olhe!

Ele olhou para a direção indicada pelo dedo.

— São dezenas deles!

— Dezenas que podemos ver. É provável que haja outras centenas ou até mesmo milhares nos observando neste exato instante.

Os lobisomens prosseguiam velozes, seguindo Taradan de perto, à medida que ele se aproximava de uma muralha escarpada no fim do vale. Agora Thirrin podia ver que havia uma larga plataforma semelhante a um terraço aos pés desse penhasco monumental e que, no seu centro exato, havia uma grande rocha ornamentada num esplendor de cristal, com enormes pingentes de gelo que rebrilhavam e cintilavam à luz das estrelas como diamantes lapidados. Mas esse espetáculo pareceu insignificante à medida que ela se deu conta de que toda a plataforma estava tomada por centenas e mais centenas de leopardos-das-neves.

— Oskan, eles estão por toda parte!

— Eu sei, estou vendo — respondeu ele, com a voz muito baixa.

Ficaram olhando com assombro para os felinos gigantescos sentados em fileiras organizadas em torno da rocha central que se erguia cerca de três metros acima deles. Foi então que Thirrin percebeu que havia alguma outra coisa no alto da rocha. Era o maior leopardo que tinham visto até então. Seu pêlo era de um branco brilhante e apresentava manchas, rosetas e pequenas listas tão negras que parecia que o céu da noite tinha derramado sua escuridão sobre o pêlo refinado. Mas, quando o trenó se aproximou mais, foi a cabeça magnífica que atraiu o olhar dos dois. Os olhos eram de um âmbar avermelhado como as brasas incandescentes de uma fogueira e os bigodes eram como finas hastes de marfim. E então, quando o animal bocejou, o vermelho escuro da sua boca era o cenário perfeito para a exposição dos dentes, que refulgiam e cinti-lavam como se tivessem sido polidos.

Taradan parou e o mesmo fizeram os trenós que o acompanhavam. Ele andou devagar até onde estavam Thirrin e Oskan.

— Sejam bem-vindos à corte do senhor Tharaman-Thar. Como podem ver, sua chegada era esperada, e o Thar em pessoa ouvirá seu pedido.

— Você se dispõe a nos apresentar? — perguntou Thirrin.

— Será uma honra para mim — disse ele. E então, abaixando a cabeça como se estivesse fazendo uma reverência, murmurou: — Mostre-lhe o ímpeto que me mostrou. Esconda seu medo e seja arrogante como uma imperatriz.

— Quando eu quiser um conselho seu, sr. Gatinho, avisarei com a devida antecedência — respondeu ela, com uma raiva gelada nos olhos.

— Assim mesmo — disse Taradan, satisfeito, piscando um olho para ela.

Thirrin e Oskan saltaram do trenó e acompanharam o arauto até a plataforma elevada. A visão de tantos leopardos enormes, todos com o olhar fixo neles enquanto se aproximavam, transformou o pequeno percurso numa experiência muito desconfortável. Mas os dois conseguiram esconder o medo e caminharam com a cabeça erguida.

Uma série de rochas em degraus servia como escada até a plataforma natural e, enquanto Thirrin e Oskan subiam por ela, os leopardos mais próximos recuaram, abrindo um caminho até onde Tharaman-Thar esperava.

Ouviu-se um burburinho de rosnados e murmúrios à medida que eles passavam pela multidão de felinos enormes; mas, fora isso, eles se mantinham em silêncio, com o olhar fixo na rocha, como se esperassem que o Thar determinasse o tom dos cumprimentos.

Enquanto isso, Tharaman-Thar continuava deitado à vontade, lambendo uma pata. Parecia totalmente alheio à presença dos humanos e ligeiramente entediado. Por fim, Thirrin e Oskan chegaram ao pé do seu trono-rocha e ali pararam, esperando em silêncio.

Taradan, o arauto, soltou um enorme rugido que ecoou pelos penhascos e começou a proclamar.

— Salve, senhor Tharaman, grande Thar dos leopardos-das-neves e governante das Geleiras. É ele quem traz o sol de volta ao céu e permite que o inverno reine em sua devida estação. Ele é o senh...

— Já sabemos. Passe adiante, Taradan. Não quero ficar aqui o dia inteiro. Quem você me traz? — perguntou Tharaman-Thar, numa voz grave e refinada.

Thirrin sacou a espada, plantou-a com firmeza entre os pés e pousou as mãos no punho. Tinham-na avisado que o rei dos leopardos-das-neves respeitaria somente a bravura e a segurança. Por isso, respirando fundo para se acalmar, ela começou a falar.

— Ele não lhe traz absolutamente ninguém. Mas, se lhe tivesse sido permitido cumprir sua função corretamente e me anunciar, Vossa Majestade teria descoberto que ele escoltou outro monarca até a sua presença! — Sua voz aguda como que cortou o ar gelado e todos os leopardos enormes olharam assombrados para ela, chocados.

— Meu nome é rainha Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, governante da Terra do Gelo. Não comando nenhum corpo celeste e nenhuma estação espera minha permissão para ter início. Mesmo assim, exijo um pouco de respeito de meus iguais e reverência dos muitos que me são inferiores!

Tharaman-Thar virou a cabeça enorme para olhar para ela, com os olhos de âmbar refulgindo.

— Quer dizer que as lendas eram verdadeiras. Os seres humanos existem e sabem falar nossa língua. Que interessante! — Ele se virou para continuar a lamber a pata. — Eu estava em dúvida se deveria acreditar nos informes. Mas agora vejo que estavam corretos sob todos os aspectos. É mesmo. E vocês são fraquinhos, não são?

Thirrin controlou a raiva e a direcionou para a voz.

— Eu, por meu lado, só ouvi falar dos leopardos-das-neves há alguns dias. Sua fama parece estar restrita a uma pequena área dos ermos congelados. Mas fui avisada nestas últimas horas de que seu governante é arrogante e não tem conhecimento de como se comportar de modo civilizado ao receber convidados!

Ouviu-se um grito abafado dos cortesãos ali em volta. Tharaman-Thar parou de lamber a pata para lhe lançar um olhar furioso. E Taradan mantinha os olhos fixos no chão.

— Foi você que cortou os bigodes e a barba do meu arauto, não foi? — perguntou Tharaman-Thar.

— Fui eu. Achei que ele precisava melhorar suas maneiras. Mas agora vejo que a culpa não era dele.

Ao ouvir essas palavras, o Thar se levantou e soltou um enorme rugido; mas, cerrando os dentes para afastar o medo, Thirrin não lhe deu atenção e se voltou para Taradan.

— Queira aceitar minhas desculpas, arauto-mor. Agora percebo que não lhe cabia culpa. Mal se pode dizer que sua sociedade seja civilizada e ninguém tem o direito de esperar de um indivíduo um comportamento melhor do que o que sua terra natal lhe pode ensinar.

Tharaman-Thar voltou a rugir e se debruçou ameaçador da borda da rocha.

— O lêmingue não deveria chiar num parlamento de gatos!

— Não faço idéia do que seja um lêmingue, meu senhor Tharadan-Thar, mas aposto que muito poucos deles são treinados

para combate, são um osso duro de roer e estão armados com uma espada que poderia abrir um talho no pescoço de um gato antes que ele sequer pensasse em saltar de uma rocha! — Veloz como uma garça que se arremessa, ela girou e enfiou a espada na boca aberta de um leopardo que tinha se aproximado por trás. — Talvez meu senhor Thar não dê valor a esse indivíduo. Mas se realmente não quer que eu lhe espete o cérebro, sugiro que lhe ordene que recue.

Num gesto quase imperceptível, o Thar dos leopardos baixou a cabeça para o enorme felino, que se afastou com cuidado.

— Por que veio aqui? O que quer de nós?

Thirrin se voltou para olhar de frente para o trono e respondeu, com raiva:

— Depois de um cumprimento cortês, essas deveriam ter sido suas primeiras perguntas!

— Só posso lhe agradecer as valiosas aulas de etiqueta que Vossa Majestade nos está dando — disse o Thar, com sarcasmo. — Mas agora talvez seja a sua hora de ser cortês o suficiente para me responder.

— Sem dúvida. Vim lhes oferecer amizade.

— Bela maneira de demonstrar! — exclamou o leopardo gigante, com uma risada. — E, seja como for, por que precisaríamos da sua amizade ou deveríamos desejá-la?

— Porque, no dia em que os humanos tomarem conhecimento da sua existência, muita gente virá para cá, mas não com ofertas de amizade, só de guerra!

— E por que eles viriam até o Eixo do Mundo?

— Para dominá-lo. Escravizar seu povo, matá-los e tomar suas peles.

— Tomar nossas peles? — perguntou Tharaman-Thar, incrédulo. — Por que fariam isso? Eles não têm a própria pele?

— Têm, sim, mas os humanos sentem frio e as peles de vocês são tão lindas que eles vão querer transformá-las em roupas para poder ter a aparência tão bela e majestosa quanto a sua.

O enorme leopardo emudeceu e seus olhos de âmbar se perderam pelas geleiras iluminadas pelas estrelas.

— Como posso acreditar numa coisa dessas? Já é difícil acreditar que cheguem a representar alguma ameaça, por serem tão pequenos e insignificantes. E ainda por cima vocês são os únicos humanos que já vi. Para o Povo-Leopardo, vocês são uma lenda. Como posso saber que existem mais que um punhado de vocês?

— Os humanos vivem em quase todas as partes do mundo — disse Thirrin. — Eu soube que falamos muitas línguas diferentes, que temos cores diferentes de pele e que acreditamos em muitos deuses diferentes. Mas, sob um aspecto, quase todos nós somos iguais: travamos guerras, desejamos o poder e a fortuna e queremos dominar tudo o que vemos ao redor. Somos realmente terríveis e aterrorizantes para quem chega a nos conhecer. Podemos parecer insignificantes, mas nossos números são arrasadores e nosso armamento de guerra nos torna mais fortes que os guerreiros mais ferozes de qualquer outra espécie. Tenha medo dos humanos, Tharaman-Thar. Tenha medo por seus leopardos-das-neves. Uma vez que os olhos da humanidade se voltem para vocês, restará muito pouco que possam fazer para se salvar e a seu território. Vocês serão caçados e mortos. Serão privados de seu lar, de sua dignidade e até mesmo de suas peles. Serão largados para mergulhar na escuridão da morte, esquecidos pelas terras que um dia governaram.

Tharaman-Thar lhe lançou um olhar duro e demorado. Depois falou, em voz baixa:

— Se eu fosse acreditar em você, Thirrin-Thar, por que então iria fazer uma aliança com monstros tão medonhos?

— Porque eu disse que quase todos nós éramos iguais. Há quem seja honrado e conviva com seus vizinhos sem mal algum ou pelo menos com o mínimo de mal que se faça necessário. Nós caçamos para comer, da mesma forma com que vocês, e tiramos da natureza o de que precisamos. Mas alguns de nós tiram o mínimo possível e sempre tentam recompensá-la quando surge a oportunidade. Mas, agora, até mesmo nós estamos ameaçados por nossa própria espécie. E, se formos derrotados, vocês também serão.

"Está se aproximando uma grande guerra contra um Império impiedoso... e eu estou tentando construir uma aliança de povos livres de muitas espécies, para combater esse Império. O Povo-Lobo já se uniu a nós e até mesmo o rei e a rainha dos vampiros, mas precisamos de mais aliados ou seremos derrotados. Eu lhes ofereço a amizade e a morte; ofereço o desespero e um vislumbre de esperança; ofereço uma longa batalha sem nenhum modo de prever como ela há de terminar. Mas, sozinhos, é certo que serão derrotados... neste ano, no próximo ou ainda no seguinte, mas não há a menor dúvida de que cairão. Conosco, pelo menos terão uma chance."

No silêncio que se seguiu, Tharaman-Thar levantou a cabeça como se estivesse farejando o vento e, quando voltou a olhar para baixo, disse:

— Farejo seu espírito, rainha Thirrin. Ele é jovem porém forte e não se dispõe a dizer nada a não ser a verdade. Mas suas palavras são estranhas e terríveis. Como podemos admitir a ameaça e o poder desse Império que nunca vimos e do qual de fato nunca ouvimos falar até hoje? E por que deveríamos fazer uma aliança com qualquer povo, se sempre vivemos sozinhos desde que o Único nos fez do gelo da terra, da luz da lua e do fogo do sol?

Thirrin permaneceu calada enquanto organizava os pensamentos.

— Leopardos do Eixo — disse ela, empertigando os ombros, cheia de determinação —, creio que até mesmo o Grande Criador está prendendo a respiração nesta noite. O Único nos criou com formas diferentes, mas pôs em nossa garganta a mesma língua e em nossa cabeça os mesmos pensamentos para que um dia seus dois preferidos em toda a Criação pudessem conversar. — Sua voz reverberou no ar gelado, com os penhascos e muralhas rochosas do anfiteatro natural projetando o som bem longe no vale. Sua esperança tinha sido a de que lembrar aos leopardos seu mito de criação, que o rei Grishmak do Povo-Lobo lhe contara, geraria alguma reação, mas eles permaneceram mudos. Thirrin quase entrou em pânico enquanto encarava o olhar impassível de milhares de olhos de âmbar; mas com um enorme esforço para se controlar ela respirou fundo e prosseguiu: — Tharaman-Thar perguntou qual é o povo que ameaça minhas terras e a vida de vocês. Por isso, vou tentar explicar. O Império polipontino é enorme. Ele se estende do mar Meridional para o leste e para o oeste além do nosso conhecimento. Seus governantes são cruéis, incontroláveis e esmagam tudo o que estiver no seu caminho.

— Isso é o que você diz — gritou uma voz do meio das fileiras de leopardos. — Como vamos saber que eles não são simplesmente um inimigo pessoal seu que vocês querem destruir?

— Boa pergunta — disse o Thar, voltando-se para Thirrin. — E então, como vamos saber?

— Não vão saber; não há como saber — respondeu Thirrin, com o sangue guerreiro começando a ferver. — Vocês só têm minha palavra, a palavra de uma criatura que saiu das lendas e só hoje se tornou realidade. Mas, se eu não conseguir convencê-los de que estou dizendo a verdade, nós todos morreremos, só isso. Minhas cidades serão incendiadas; meu povo, escravizado; e o Império polipontino ampliará implacavelmente suas fronteiras cada vez mais para o norte até descobrir mais uma terra, o Eixo do Mundo, uma terra fantástica, belíssima e por conquistar. E então vocês precisarão lutar sozinhos contra um inimigo poderoso. E não se deixem iludir quanto a isso. Vocês serão derrotados, sim, e morrerão, sim, aos milhares.

De repente, uma raiva imensa ardeu no seu corpo e, dirigindo-se a passos largos ao trono-rocha do Thar, ela subiu ali e se postou no alto olhando para a multidão. Sacou então a espada e gritou:

— Mas se os leopardos-das-neves do Eixo do Mundo se recusarem a lutar na sua própria guerra, meu povo e seus aliados morrerão combatendo para defender as fronteiras desta terra que vocês consideram tão segura. Que vergonha se vocês não fizerem nada para defender o norte!

O leopardo gigante deu um suspiro e caminhou tranqüilo até onde Thirrin estava.

— Poderia fazer a gentileza de responder a minhas perguntas sem a retórica e os insultos? Este Parlamento de leopardos necessita apenas de fatos e informações para tomar sua decisão. Suas opiniões pessoais e provocações só servem para embaralhar as questões.

Thirrin sentiu o rosto arder, mas se consolou com a probabilidade de que os felinos gigantes não reconhecessem o embaraço em seres humanos.

— Disponho-me a responder a quaisquer perguntas propostas pelo Parlamento, mas reservo-me o direito de dar minha opinião sobre qualquer assunto.

— De acordo. Então responda-me o seguinte: Vossa Majestade mencionou nosso mito da criação do mundo. Logo, estou correto em pressupor que um dos motivos para vocês imaginarem que meus leopardos os ajudarão deriva de ambos os nossos povos serem amados pelo Grande Criador, certo?

— Sim, esse é um dos motivos.

— E também estou correto em supor que o povo do Império polipontino seja constituído de seres humanos também; portanto, igualmente amados pelo Grande Criador?

— Bem, sim, eles são humanos, mas...

— Mas eles são uma ameaça e por isso nós deveríamos ajudar vocês.

— Sim.

— Mas por que deveríamos supor que o Único deseja que matemos a eles? Compartilhamos a dádiva da fala com todos os seres humanos, não apenas com a população da Terra do Gelo. Talvez um dia nos encontremos em conversa com enviados do Império e lembrem-se de que somente temos sua informação de que nossa conversa não será amistosa.

— Mas... mas o povo do Império polipontino fala uma língua diferente. Vocês não conseguiriam conversar com eles. Não conseguiriam de modo algum! — disse Thirrin, erguendo a voz em tom de triunfo à medida que percebia a importância desse ponto.

— Uma língua... diferente? — disse o Thar, como se considerasse a idéia estranha. — Está querendo dizer que os humanos do Império usam palavras diferentes quando falam?

— Totalmente diferentes. Na realidade, somente os povos da Terra do Gelo e das Geleiras usam a língua que estamos falando agora. O Povo-Lobo a utiliza como língua comum para a comunicação com outras espécies e até mesmo Suas Majestades vampíricas a empregam. — Thirrin agora conseguia avistar a vitória, embora ela ainda lhe parecesse vaga e distante. Tudo o que precisava fazer era apresentar seus argumentos com lógica e precisão e talvez conseguisse vencer!

Mas o Thar ainda tinha muito a dizer.

— Rainha Thirrin, quase tenho a impressão de que vocês querem que lutemos contra essas pessoas simplesmente porque elas falam uma língua diferente, como Vossa Majestade disse, e porque vêm de outra parte do mundo — disse ele tranqüilo, com determinação.

Thirrin procurou reprimir sua frustração. Parecia que ela só estava confundindo as coisas.

— Não, grande Thar. A Terra do Gelo nunca entrou em guerra nem tirou uma vida por nenhum motivo que não fosse sua própria defesa! Julgamos as pessoas por sua conduta e por sua disposição pessoal. A língua que usam e o local em que nasceram não têm nenhuma importância para nós. Somos apenas dois povos intimamente vinculados que enfrentam um inimigo comum, um inimigo que pretende conquistar o mundo com o mal e a agressão.

— E como vamos saber — perguntou uma voz solitária — que o povo do Império usa palavras diferentes? Diga algumas delas. Deixe que ouçamos até que ponto são diferentes.

— Mas não sei nenhuma palavra — disse ela, sentindo um vazio terrível à medida que suas chances de persuadir os leopardos pareciam estar se esvaindo.

— Hum... acho que sei uma frase — disse uma voz fraca, de lá das sombras abaixo do trono-rocha.

— Ora — disse Thirrin, entre dentes, olhando para a penumbra ali embaixo —, trate de subir aqui então. E rápido!

Oskan escalou a rocha com dificuldade e ficou parado, piscando com o luar forte. Mas a visão da enorme multidão de leopardos que enchia a parte inferior do vale gelado pareceu deixá-lo mudo e ele ficou ali, olhando para os pés como um aluno envergonhado.

— Estamos esperando — disse o Thar impaciente, com seu vozeirão. — Diga as tais palavras. Vamos ver como a língua deles é diferente.

Oskan se sentia tão pouco parecido com um bruxo que poderia ter chorado. Na realidade, isso por pouco não aconteceu, quando um terrível nervosismo ameaçou dominá-lo por completo. Mas então, lentamente, uma pequena centelha de coragem se acendeu em seu cérebro. Ele respirou fundo e de repente deu um berro:

— Veni, Vidi, Vicil

O som agudo da voz em pânico cortou o ar gelado e um rugi-do se ergueu das fileiras de leopardos.

— É, é isso mesmo — disse ele, sentindo-se mais confiante a cada segundo. — Veni, Vidi, Vici. Maggiore Totus, um dos conselheiros da rainha Thirrin, uma vez me disse que os generais do Império usam essa frase sempre que invadem um território novo. É uma espécie de fórmula ritual.

— Tudo muito interessante, tenho certeza — disse Tharaman-Thar. — Mas o que significa?

— Significa: Vim, vi, venci. Maggiore disse que os polipontinos, quando invadem, sempre têm tanta certeza de vencer que proclamam a vitória assim que pisam no solo estrangeiro.

Mais um ronco de rugidos se ergueu da enorme multidão de leopardos. A arrogância do Império pareceu irritá-los.

— Estou vendo — disse o Thar, devagar. — E eles sempre vencem? Parece que vocês estão insinuando que são invencíveis.

— Se eu acreditasse nisso, não estaria me preparando para a guerra neste momento — disse Thirrin. — Sei que podem ser derrotados. Logo depois do Iule, meu pai, o rei Redrought Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, destruiu um único exército polipontino. Mas não se iludam. Qualquer vitória contra o Império tem um preço altíssimo. No conflito, o exército da Terra do Gelo foi destruído e meu pai foi morto. — Ela parou de falar. Um estranho ronco se avolumou à medida que os enormes felinos emitiam uma quantidade de rosnados engasgados que ecoavam e reverberavam pelo vale, até aos poucos se reduzir e sumir. Ela olhou para Tharaman-Thar, com ar de interrogação.

— Uma saudação de guerreiros aos bravos que morreram — explicou ele. — O rei Redrought e seu exército devem ter sido realmente poderosos.

— Eles eram — respondeu ela, com orgulho, de repente percebendo que esse sacrifício, aliado à sua própria coragem, estava causando maior impressão entre os leopardos do que todos os argumentos que tinha apresentado. — A façanha do meu pai não encerrou a tentativa de invasão. Só nos proporcionou um prazo

um pouco maior. Na verdade, apesar de ser enorme a força inimiga, meu pai derrotou apenas a vanguarda que tinha sido enviada para testar nossas defesas. Se tivessem vencido, teriam devastado nosso país e acrescentado a Terra do Gelo ao Império ali mesmo. Mas, graças ao meu pai, eles precisaram reprogramar a conquista para quando chegar a primavera.

"Se o Império tivesse saído vitorioso, eles não teriam demonstrado nenhuma clemência. Quando o Império vence, os soldados derrotados são mortos, suas casas são saqueadas e incendiadas e, dos que restarem, os muito jovens e os muito velhos são mortos enquanto os mais fortes são escravizados. Essa é a gente que vocês enfrentarão... seja como parte de uma aliança que pelo menos tem alguma esperança de sucesso, seja em algum momento no futuro, defendendo sozinhos suas posições, sem absolutamente nenhuma esperança."

— Rainha Thirrin, vejo que foi totalmente franca conosco — disse Tharaman-Thar. — Vossa Majestade nos avisa que, se não lutarmos, tudo indica que o Império acabará por nos descobrir e nos destruir; mas também nos adverte para os terríveis perigos que enfrentaremos se decidirmos nos unir à sua aliança. Como Thar dos leopardos do Eixo do Mundo, eu poderia ordenar a meu povo que lutasse na guerra iminente, mas não o farei. Caberá a eles decidir.

Ele voltou o olhar para seus leopardos-das-neves, que estavam todos atentos, ouvindo suas palavras. Virou-se então de novo para Thirrin e Oskan.

— Por mim, eu diria que deveríamos nos agarrar à leve esperança que a aliança nos oferece e defender a Terra do Gelo na ofensiva que se aproxima. Mas essa pode não ser a opinião do meu povo. — Ele fez uma pausa. — Precisamos levar em conta um fator do qual Vossa Majestade não tem conhecimento.

— E qual seria esse fator?

— Já estamos em guerra.

— Já em guerra...? — A voz de Thirrin foi sumindo à medida que ela se conscientizava da situação desesperadora em que se encontrava.

— Mesmo que o Parlamento dos leopardos concorde em participar da sua aliança, não poderíamos enviar um exército com todas as nossas forças porque precisamos defender nossas fronteiras orientais contra os trolls-do-gelo.

— Trolls-do-gelo! Exatamente que criaturas eles são? — perguntou Thirrin, em voz baixa, enquanto se dava conta de que sua missão na terra dos leopardos-das-neves podia ter sido uma total perda de tempo.

— São nossos arquiinimigos. Odeiam todas as criaturas de sangue quente e invadem nossas fronteiras a cada inverno. Até agora, sempre conseguimos rechaçá-los; mas, se reduzirmos muito nossas forças, eles poderiam devastar nossas terras, destruir nossos redutos e matar nosso povo.

Thirrin concordou, com resignação. Seus piores temores se confirmavam, mas ela ouviu educadamente enquanto Tharaman-Thar prosseguia.

— No entanto, acho que poderíamos manter nossas guarnições nas fronteiras orientais se eu comandar minha guarda pessoal na guerra contra os polipontinos e convocar voluntários das milícias das fortalezas do oeste. Nenhum desses soldados fez parte do nosso contingente nas fronteiras orientais. Logo, não haverá enfraquecimento de nossa força de defesa por lá.

— Quantos soldados Vossa Majestade poderia levar? — perguntou Thirrin, interessada, à medida que seu ânimo se recuperava.

— A guarda real dispõe de mil leopardos e talvez outros mil pudessem ser obtidos a partir das milícias.

Thirrin quase deu um grito de alívio e prazer, mas então se lembrou de que os leopardos ainda teriam de votar.

— Senhor Tharaman-Thar, a Terra do Gelo e todas as terras do norte estarão para sempre em dívida para com seu povo, se eles resolverem participar da nossa aliança. Vossa Majestade poderia pedir que tomem a decisão?

De repente, o leopardo gigantesco se ergueu nas patas traseiras, elevando-se sobre a terra como a ameaça viva de uma avalanche, e rugiu três vezes para o céu gelado.

— Ouçam agora minha voz e tomem sua decisão, leopardos do Eixo do Mundo. Nenhum povo consegue resistir sozinho a dois inimigos. Seríamos esmagados entre o martelo do Império e a bigorna dos trolls-do-gelo. Agora, porém, recebemos o oferecimento de amizade e aliança com seres humanos que se postarão ao nosso lado num novo tipo de guerra, contra um povo avassalador no seu número e terrível no seu poderio. Portanto, examinem bem suas opções: a aliança e a possível morte com a rainha Thirrin da Terra do Gelo ou o isolamento e a morte certa quando os exércitos dos aliados forem destruídos e não restar ninguém para resistir ao nosso lado. — O Thar fez uma pausa para contemplar os felinos gigantes que cobriam todos os níveis do vale do Gelo como um tapete vivo. O silêncio que se erguia deles era total. Só se ouviam os gemidos fracos do vento e o murmúrio dos estalidos do gelo. Então, Tharaman-Thar respirou fundo e disse em voz retumbante:

— A escolha, meu povo, só cabe a vocês!

Em resposta irromperam com estrondo para os céus rosnados violentos que rolaram e retumbaram pelo vale inteiro. Nem Thirrin nem Oskan conseguiram discernir qualquer tipo de resposta ou opinião no barulho ensurdecedor. Mas por fim todos se calaram e Tharaman-Thar abaixou a cabeça em aprovação.

— O Parlamento já se manifestou, Thirrin-Thar. Vossa Majestade tem algo a dizer?

— Eu teria se soubesse qual foi a decisão — disse ela, num tom misto de ansiedade e irritação.

— Vossa Majestade conseguiu o que queria. Os leopardos do Eixo do Mundo lutarão na sua aliança.

 

Abasiléia dos hipolitanos observava as manobras das tropas na planície abaixo do morro onde estava parada, a cavalo. Por dentro, estava satisfeita, mas tomava grande cuidado para não deixar que isso transparecesse para os oficiais que estavam ali por perto. O consenso tinha sido o de que cada soldado recebesse o mesmo treinamento e instrução que os guardas-da-coroa da tropa de elite; isso antes que sua sobrinha a rainha Thirrin partisse em busca de aliados. Resultou que a milícia foi convocada; e ao treinamento básico com armas sucederam-se exercícios táticos, marchas forçadas e outras provas de resistência.

Os guardas-da-coroa, na tentativa de manter sua condição de tropa de elite do exército, implementaram voluntariamente seu próprio regime de treinamento, no qual marchavam mais tempo, lutavam mais e resistiam mais que as milícias. Tudo estava indo muito bem e, se a basiléia Elemnestra deveria agradecer a seu consorte, o certo era que ela não o faria... em público.

Ela se voltou na sela, captou o olhar do marido e fez para ele um ínfimo gesto de aprovação para demonstrar seu prazer. Olememnon permaneceu impassível mas, quando mais ninguém estava olhando, retribuiu piscando um olho para ela. Depois de trinta anos juntos, não precisavam de longos discursos para se fazerem entender.

Os outros setores do exército também estavam se esforçando no treinamento. Um dia após o outro, a cavalaria praticava formações e, se os bonecos de madeira tivessem realmente sido soldados polipontinos, os exércitos do Império já teriam perdido alguns milhares, decepados por sabres da cavalaria e fisgados por lanças.

Os regimentos de arqueiros passavam a maior parte das horas de claridade praticando com alvos, atirando ondas e mais ondas de flechas numa chuva devastadora sobre alvos desenhados na neve. Houve quem chegasse a demonstrar orgulho por ter praticado até os dedos sangrarem, mas, depois que alguns foram detidos sob a acusação de "conduta negligente" pela basiléia em pessoa, todos os outros se certificaram de sempre usar as dedeiras de couro.

Na qualidade de basiléia, Elemnestra não costumava supervisionar pessoalmente o progresso do treinamento. Já tinha muito a fazer com a administração diária da província e os preparativos para a campanha que se aproximava. Mas tinham chegado notícias de que Thirrin estava finalmente voltando e trazendo aliados em sua companhia. Era verdade que o informe lhe chegou um pouco truncado e, no momento em que o mensageiro transmitia a mensagem, ela mandou prendê-lo por beber em serviço. Mesmo assim, Thirrin estava voltando e, por ser a basiléia, Elemnestra estava determinada não só a estar em pleno comando de todos os preparativos quando a rainha chegasse, mas também a ser vista como alguém que detém o pleno comando.

Enquanto observava os regimentos no campo de instrução lá embaixo, formando barreiras de escudos e se atacando mutuamente com espadas cegas, ela repassava as palavras exatas do informe do mensageiro. Decidiu por fim que estava perfeitamente preparada para acreditar em duas dúzias de lobisomens brancos puxando a rainha num trenó. Também estava disposta a aceitar que o conselheiro da sobrinha era um bruxo. No fundo, nenhuma surpresa quanto a esse ponto. Na sua opinião, Oskan era cheio de artimanhas e tinha um ar de duplicidade que estava perfeitamente explicado pelo fato de ser bruxo. Mas ela nunca iria acreditar que Thirrin tivesse feito uma aliança com uma espécie de leopardos brancos de porte gigantesco que moravam no Eixo do Mundo. Era óbvio que o mensageiro tinha bebido e talvez tivesse visto regimentos de cavalaria, todos montados em cavalos brancos ou sarapintados. O que por si só já seria espantoso, sem nenhuma necessidade de aumento. Mesmo assim, ela esperava que o mensageiro estivesse certo quanto aos números. O acréscimo de três mil cavaleiros seria de enorme utilidade para seu exército.

Seu pensamento continuou a repassar os preparativos e os problemas apresentados pela campanha que se aproximava, mas depois de algum tempo ela se descobriu absorta nas manobras simuladas na planície lá embaixo. As tropas de defesa eram compostas apenas de unidades da milícia, enquanto os soldados que as atacavam eram guardas-da-coroa. Por mais de vinte minutos, os recrutas conseguiram resistir aos soldados profissionais, enquanto os tambores rufavam e retumbavam no ar gelado, dando ritmo e uma sensação de coesão aos esforços dos defensores para manter suas posições. Os tambores tinham sido idéia de Maggiore Totus. Ele lhes disse que o Império usava os instrumentos para intimidar os inimigos, mas ele mesmo tinha aprimorado o sistema com o uso de ritmos e compassos diferentes para dar instruções e ordens no auge da batalha. Um oficial comandante poderia enviar uma mensagem aos tambores e com isso os regimentos receberiam ordens de se movimentar para a esquerda, para a direita, de manter a mesma posição, avançar ou recuar.

Elemnestra foi forçada a admitir que o professorzinho às vezes tinha idéias simplesmente brilhantes, mas sua natureza calma e estudiosa era tão estranha ao temperamento fogoso e cheio de energia da hipolitana que ela considerava quase impossível a comunicação com ele. Tinha tomado conhecimento, porém, de que ele e Olememnon se tornaram grandes amigos e muitas vezes se perguntava que assuntos encontravam para conversar enquanto se aconchegavam perto da lareira central por horas a fio depois que anoitecia. Naturalmente, ela poderia ter se juntado a eles para descobrir, mas ela era a basiléia e nunca se rebaixaria procurando abertamente a companhia de simples homens.

De repente, deu-se conta de que seu consorte tinha aproximado o cavalo e esperava tranqüilo que ela percebesse sua presença.

— E então? — disse ela, num tom de indiferença ensaiada.

— Outro mensageiro solicita audiência com a basiléia — respondeu Olememnon, nem um pouco ofendido com a frieza da mulher.

— Permissão concedida.

Olememnon acenou para que a soldada avançasse e ela se abaixou dobrando um joelho, apenas aguardando que a basiléia lhe desse permissão para falar.

— O que tem a me dizer? — perguntou Elemnestra.

— Minha senhora, a rainha cruzou a fronteira e já está na Terra do Gelo. Ela e sua escolta devem chegar aqui antes do anoitecer.

— Ótimo. E os aliados que a rainha traz? Você concorda com a estimativa anterior de três mil?

— Sim, minha senhora. O rei deles em pessoa vem à frente da sua guarda pessoal de mil cabeças. E vieram também dois mil voluntários das milícias.

— Excelente. Olememnon, seus cavalos vão precisar das melhores estrebarias. Certifique-se de que tudo esteja preparado.

Mas, antes que ele pudesse se mexer para cumprir as ordens, a soldada pigarreou, como se estivesse pedindo desculpas.

— Perdão, senhora, mas os aliados não têm cavalos...

— Então, são da infantaria! O primeiro mensageiro estava mais bêbado do que pensei. Olememnon, aumente sua punição para vinte chibatadas! — Mais uma vez a soldada pigarreou e Elemnestra se voltou para ela, furiosa. — Mocinha, você está com algum problema na garganta?

— Não, minha senhora — disse ela, quase sussurrando. — Mas creio que a senhora deveria saber que nossos novos aliados também não são da infantaria.

— O que eles são então?

— Leopardos, senhora.

A basiléia ficou observando-a com os olhos azuis, gélidos.

— Você viu pessoalmente essas criaturas? — perguntou ela, então.

— Vi, senhora. E falei com o subcomandante, Taradan. Foi ele quem me transmitiu seus números exatos.

— Falou com o subcomandante. Quer dizer que eles têm humanos que trabalham com eles?

— Não, minha senhora. Taradan é um leopardo.

— Você falou com um...? — A voz de Elemnestra foi enfraquecendo e ela olhou para o consorte, que encolheu ligeiramente os ombros e permaneceu calado. Depois de pensar um instante, ela sacudiu a cabeça como se quisesse expulsar dali todas as impossibilidades e prosseguiu: — Olememnon, liberte o primeiro mensageiro e dê-lhe um dia a mais de pagamento. Pode ser que eu tenha me precipitado.

No calor agradável dos seus aposentos, Maggiore Totus tomava golinhos do seu copo de vinho quente. Tinha ouvido os avisos sobre o retorno de Thirrin e acabava de terminar seus relatórios sobre os treinamentos e preparativos que ficaram sob sua responsabilidade durante a ausência dela. Mas, ao contrário da Basiléia Elemnestra, ele não tinha nenhuma imagem a preservar nem posição que estivesse desesperado por manter. Portanto, estava bem mais descontraído nas suas expectativas. Sua mente de estudioso repassava alguns dos elementos mais extravagantes dos informes dos mensageiros. Algumas semanas antes, ele os teria descartado como pura fantasia; mas, desde que se retirara para o norte com a Casa Real, não tinha apenas visto o Povo-Lobo e os vampiros, mas de fato conversado com eles. Se criaturas lendárias como aquelas podiam existir, por que não gigantescos leopardos falantes? Como a de um verdadeiro cientista, sua mente permanecia totalmente aberta para todas as possibilidades e ele decidiu aguardar os acontecimentos.

O vento fez vibrar as venezianas e um leve sopro de neve caiu no chão, onde derreteu rapidamente. Já estava quase acostumado aos invernos no norte, tendo aprendido até mesmo a apreciar a sensação de aconchego que um aposento aquecido proporcionava quando o mundo lá fora estava isolado pelo gelo. Deu um suspiro, satisfeito e pousou os óculos confortavelmente na ponta do nariz, antes de começar a folhear os papéis que estavam sobre a escrivaninha. Em algum momento num futuro mais pacífico, ele esperava presentear Thirrin com uma história do povo hipolitano, que ele vinha compilando com o auxílio de Olememnon. Afinal de contas, a mãe dela pertenceu à aristocracia hipolitana, de modo que a herança ali registrada era tão sua quanto a da própria Terra do Gelo.

Mas sua história ainda estava sob a forma de anotações e havia uma guerra a ser travada. Sem dúvida, ainda demoraria muito até Thirrin ter tempo para se sentar e ler qualquer coisa que não fossem relatórios de combate e listas de baixas. Deu um suspiro e sentiu que uma tristeza já sua conhecida começava a dominá-lo à medida que pensava na jovem rainha e em suas responsabilidades.

Foi então que uma súbita batida na porta anunciou a chegada do seu amigo Olememnon e o aposento se encheu de uma energia tranqüila quando o homenzarrão entrou, batendo as botas para soltar a neve, com um largo sorriso de desculpas para o pequeno mestre que estalava a língua e se alvoroçava em torno dele.

— As botas, Olememnon, as botas! Pronto, agora você espalhou neve pelo piso todo e ela vai ficar aí em poças quando derreter.

— Bem, chame um serviçal para limpar o chão. É para isso que eles existem — disse ele, sem que a voz grave jamais precisasse subir acima do seu habitual nível equilibrado.

— É, é mesmo. Acho que deveria chamar. Mas todos eles vivem ocupados. Não gosto de incomodá-los.

— Dê-me então um pano e eu faço a limpeza.

— Claro que não! Sente-se e tome um pouco de vinho.

O consorte da basiléia se acomodou numa poltrona junto à lareira central e encheu um copo com o vinho que era mantido aquecido nas cinzas.

— Quer dizer que afinal a rainha está voltando para cá? Maggiore parou um pouco de limpar a neve, agora derretida, e olhou para Olememnon, que estava mais atrás.

— Está e, se quisermos acreditar nos informes, ela vem na companhia de leopardos brancos gigantes.

— Esquisito, não é? — disse o consorte da basiléia, concordando. — Mas conheço os dois mensageiros e costumam ser soldados confiáveis.

O pequeno mestre terminou de enxugar as poças e devolveu o esfregão ao seu devido lugar.

— Quanto a isso, procuro manter minha mente aberta, Olememnon. Desde que vim morar na Terra do Gelo, já vi muitas lendas caminhando à luz do sol para descartar qualquer possibilidade como história da carochinha.

O amigo fez que sim. Depois esperou até Maggiore reabastecer o próprio copo com o vinho quente e se sentar.

— A sua saúde, Maggie!

— Igualmente, Ollie.

Os dois homens ficaram ali absortos bebendo, num silêncio amistoso por alguns instantes, até Olememnon falar.

— Imagino que você tenha lido os informes que chegaram do sul?

— Li. Homem extraordinário, esse Scipio Bellorum. Quantos outros generais fazem campanha no inverno?

— Nenhum que eu saiba. Mas ele não está conseguindo tudo como queria. A cidade sitiada de Inglesby ainda não caiu e ele perdeu quase um exército inteiro quando tentaram seguir pela Grande Estrada.

— É verdade. Só posso supor que a ciência tão alardeada do Império não inclua a disciplina da meteorologia. Se não fosse assim, Bellorum jamais teria mandado suas tropas partirem quando estava iminente uma nevasca. Quantos sobreviveram?

— O último informe dos lobisomens dizia que menos de mil conseguiram chegar de volta ao acampamento próximo da fronteira.

— Pode ter sido um lance de sorte para nós. A meta deles deve ter sido Frostmarris. Se chegarem à capital antes que voltemos para lá, será um terrível golpe psicológico ao nosso esforço de guerra.

— Bem, não podemos nos arriscar a enviar uma guarnição por enquanto. O mau tempo ainda está se formando ao sul da floresta e qualquer tropa que seja apanhada ao ar livre morrerá, seja ela da Terra do Gelo, seja do Império.

— Quanto falta para o tempo limpar?

— As bruxas brancas que chegaram do sul na semana passada calculam no mínimo mais um mês. Dizem que a floresta e a região em torno de Frostmarris estão cobertas por um clima gerado ali mesmo, algo que elas nunca viram antes, mas é evidente que sabem o suficiente a respeito para afirmar que por enquanto ele não vai se deslocar.

— Ótimo — disse Maggie. — Isso nos dá tempo para preparar uma guarnição para a capital.

Thirrin e sua escolta estavam viajando para o sul havia mais de uma semana. Ela se sentia desgostosa por estar tão suja e totalmente desarrumada. Não conseguia se lembrar da última vez em que tinha posto uma muda de roupas limpas. E, apesar de manter o cabelo trançado com perfeição, detestava imaginar que tipo de fauna poderia estar morando nele. Olhou para Oskan, na esperança de, a partir da aparência dele, avaliar exatamente como ela mesma devia estar desgrenhada. Mas, fora alguns trechos irregulares de barba incipiente, ele parecia irritantemente bem arrumado. O cabelo cortado muito curto e trajes pretos e simples não costumam demonstrar a falta de cuidados, não importa por quanto tempo sejam negligenciados.

Ela olhou para onde Tharaman-Thar vinha trotando à frente do seu exército de leopardos-das-neves. Sem dúvida, ele era uma visão magnífica. Todos os felinos gigantes eram e a única coisa de que precisavam para se manter meticulosamente limpos era uma rápida lambida e secagem com o dorso de uma pata. Mas, apesar da inveja que tinha da sua aparência primorosa, Thirrin sentia o calor gostoso da empolgação enquanto os conduzia para se juntar ao exército que defenderia a Terra do Gelo. Com aliados tão formidáveis, ela finalmente sentia que teriam alguma chance, mesmo que pequena, de rechaçar os polipontinos de volta para suas próprias terras. Ou, caso isso não fosse possível, talvez manter um Estado independente no norte, do outro lado da Grande Floresta.

Ela se voltou no trenó para apreciar a linha de leopardos que marchavam em fila dupla até onde sua visão alcançava. Seu pêlo era tão bem camuflado em contraste com a neve, que era impossível ter certeza de onde terminava a linha. E agora, que tinham entrado nas latitudes em que o sol brilhava por um curto período no inverno, esse pêlo reluzia e cintilava com um matizado sutil que surpreendia a visão. Parecia que os deuses do inverno tinham moldado soldados com a matéria das Geleiras, e que os tinham armado com marfim assustador e garras de aço congelado.

Tharaman-Thar percebeu seu olhar e imediatamente veio deslizando até chegar ao lado do trenó.

— Estou sentindo cheiros estranhos, Thirrin-Thar, como nada de que meu faro se lembre.

— Descreva esses cheiros para mim.

— Um sangue em circulação, mas que não é sangue. Penetrante, como seria o cheiro da neve se ela tivesse vida. Ele desanuvia a cabeça e afasta toda a idéia de sono.

Thirrin ficou sem saber o que dizer, mas Oskan respondeu.

— Meu senhor, esse é o cheiro das árvores. Penetrante, porque é de pinheirais. A Terra-dos-Fantasmas tem florestas densas e os ventos passaram soprando por quilômetros de árvores, a menos de um dia de marcha daqui.

— O que são árvores?

— Seres que crescem, plantas mais altas que alguns morros. Sólidas e que não saem do lugar — respondeu Oskan.

— Plantas? — repetiu Tharaman-Thar, pensativo. — As únicas plantas que conheço são os liquens que surgem nas regiões mais meridionais do meu território nos meses de verão. Mas eles mal conseguem se levantar do chão. Como vou poder acreditar nessas árvores que ficam mais altas que morros?

— Só ao vê-las, suponho — respondeu Oskan. — E isso vai acontecer daqui a algumas horas.

— Talvez vocês estejam exigindo demais da minha capacidade para acreditar.

— Talvez sim. Mas não é verdade que os seres humanos que só existiam nas lendas apareceram? E agora vocês não estão marchando para o sul como aliados de uma rainha humana? Mesmo um mês atrás, Vossa Majestade teria acreditado em algo semelhante?

— Não — respondeu Tharaman-Thar, lacônico. — E não tenho certeza se acredito nem mesmo agora. Meus sonhos às vezes são extraordinariamente nítidos.

— Ah, mas não somos nós o material de que são feitos os pesadelos? — perguntou Oskan, com um largo sorriso.

O leopardo gigante o encarou com os olhos de âmbar chis-pando.

— Não tenho dúvida de que alguns de vocês sejam, Oskan, o Bruxo. Só posso me alegrar por você estar do nosso lado.

O sol se pôs no início da tarde e eles prosseguiram como um exército de fantasmas sob os céus estrelados. Nenhum som vinha dos leopardos e somente o ligeiro chiado dos corredores sobre a terra coberta de neve denunciava a presença do trenó de Thirrin e Oskan. No horizonte, começou a se avolumar um grupo de formas altas, quase um choque para a visão depois de dias de geleiras com leves ondulações e de planícies cobertas pela neve. Oskan acenou para Tharaman-Thar e o rei leopardo veio se aproximando para caminhar ao lado do trenó.

— Diga-me o que está vendo no horizonte — disse o bruxo.

— Barras de forma alta, que se espalham — respondeu o leopardo. — Como desenhos que o gelo faz na superfície polida de uma rocha, mas escuros em vez de brancos.

— São árvores — disse Oskan, simplesmente, concordando com a descrição. — As primeiras árvores que crescem bem na fronteira da cadeia do norte. Vocês estão prestes a entrar nos reinos dos seres humanos. Estejam preparados para a crueldade e a gentileza, para a amizade e o ódio. As pessoas são feitas de todas as possibilidades e condições.

— Bruxo, suas palavras não me consolam.

— Não. Mas são um aviso.

Quando chegaram às árvores, Thirrin e sua escolta pararam enquanto os leopardos-das-neves se reuniam em torno das plantas, farejando seu cheiro estranho e olhando para o alto dos galhos.

— Em breve, chegaremos às florestas, enormes aglomerados de árvores que se estendem por quilômetros — proclamou Thirrin para o exército de felinos gigantes. — Muitos animais vivem lá; alguns perigosos, mas nenhum que represente um problema para qualquer um de vocês. Enquanto viajamos entre as árvores, vocês poderão caçar e logo depois entraremos na Terra do Gelo, onde vocês se alimentarão dos rebanhos que criamos em nossas terras. Mas antes disso devemos atravessar a Terra-dos-Fantasmas. Os governantes do país, o rei e a rainha dos vampiros, são nossos aliados. Por isso, não seremos ameaçados.

— É o que esperamos — disse Oskan, baixinho.

— Esta é a etapa final da nossa viagem — prosseguiu Thirrin, fingindo não ter ouvido o comentário. — Vamos em frente!

Imediatamente, os leopardos-das-neves se organizaram em sua fila dupla e todos seguiram pela noite adentro.

 

Thirrin e os leopardos-das-neves estavam na Terra do Gelo havia meio dia. Depois de uma breve pausa para descanso com o rei Grishmak e uma visita de cortesia nada cortês a Suas Majestades vampíricas no Palácio do Sangue, eles partiram antes do amanhecer e ao meio-dia já tinham atravessado o passo nas montanhas das Rochas-dos-Lobos e entrado na Terra do Gelo. Thirrin ainda estava com seu trenó e sua guarda de lobisomens brancos e o rei Grishmak tinha concordado com que eles deveriam continuar a seu serviço enquanto ela necessitasse deles.

Thirrin logo descobriu que rumores do seu retorno tinham chegado antes dela e, depois que dois mensageiros vieram encontrá-la no caminho, soube que a notícia sobre os leopardos-das-neves estaria correndo pelas ruas da cidade. Mas agora as pessoas já começavam a se postar ao longo da estrada. Como poderiam ter ouvido falar da sua volta e de onde vinham, naqueles ermos congelados das regiões mais setentrionais da Terra do Gelo, ela mal podia imaginar. Mas lá estavam elas, olhando com assombro para o exército de gigantescos leopardos brancos ou fugindo em pânico diante dessa visão.

E, quanto mais se aproximavam da capital regional, maiores eram as multidões ao longo da estrada. Logo, aos hipolitanos vieram se juntar os nativos de Frostmarris, que tinham saído dos assentamentos de refugiados em torno da periferia da cidade, e, depois de admirar espantados os leopardos, ficaram roucos de tanto gritar vivas pelo retorno da sua jovem rainha.

Tharaman-Thar seguia trotando ao lado do trenó de Thirrin e observava as multidões ao longo da estrada.

— Agora começo a entender o que me disse acerca da população dos humanos e a acreditar nas suas palavras — disse ele, voltando-se para ela. — Já vi uma quantidade de gente que equivale a toda a nação dos leopardos-das-neves e ainda não chegamos à cidade.

— É verdade e nós somos apenas um pequeno país, meu senhor Thar. Imagine, então, a população do Império polipontino, cujo território se estende além do nosso conhecimento até todos os pontos do horizonte.

O leopardo gigante ficou em silêncio um instante e então, levantando a cabeça, rugiu com tanta força e ferocidade que as multidões ao longo do caminho recuaram. E, quando seus três mil soldados responderam, muitas pessoas correram ou se jogaram ao chão, convencidas de que estavam prestes a ser atacadas.

— Thirrin-Thar, afinal consigo calcular plenamente os perigos que você enfrenta. Nossa guerra será longa.

— Ou muito curta, se não conseguirmos detê-los — disse Oskan, em tom severo.

— Ah, nós os deteremos — respondeu Tharaman. — Só me pergunto se o final será do nosso agrado.

Por fim, surgiram ao longe as muralhas da cidade hipolitana. O sol brilhava forte sobre a neve, realçando os contornos de grande parte da paisagem; mas, à medida que se aproximavam, eles começaram a avistar uma enorme multidão que se espalhava como uma mancha escura naquele branco puríssimo. Diante do portão principal, a basiléia aguardava com uma guarda de honra da cavalaria e dos guardas-da-coroa. E, derramando-se pela planície vizinha, quase toda a população estava ali acenando e dando vivas.

Com a aproximação de Thirrin e sua escolta, alguns dos cavalos refugaram, nervosos, ao sentir o cheiro desconhecido dos leo-pardos. Mas seus cavaleiros conseguiram controlá-los e a cavalaria se manteve firme enquanto o trenó era puxado pelo largo trecho de terra que levava às muralhas da cidade. E então, quando a turma de lobisomens estava ao alcance de uma flecha da guarda de honra à espera, eles foram andando mais devagar até parar e fez-se um silêncio. Todos os olhos se voltavam para o exército de leopardos-das-neves, postados calados em fileiras disciplinadas. Thirrin saltou do trenó e Tharaman-Thar veio se juntar a ela. Os dois então caminharam solenes na direção da basiléia.

Elemnestra desmontou e fez uma reverência dobrando um joelho enquanto a sobrinha se aproximava.

— Salve, rainha Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte. Seu retorno em segurança alegra meu coração e o de todos os seus súditos.

— Salve, basiléia Elemnestra. Quais são as notícias da guerra?

— No momento, tudo está parado. Mas seu exército está preparado para lutar em defesa do país quando a mudança da estação desobstruir as estradas.

— Excelente. Ainda hoje passaremos as tropas em revista — respondeu Thirrin, com formalidade. E então, ficando visivelmente mais à vontade, prosseguiu: — Minha tia, poderia mandar buscar um pão e um punhado de maçãs?

A basiléia olhou surpresa para ela e depois, dando-se conta de que ela não estava brincando, acenou para uma soldada e a enviou a cavalo para a cidade. No silêncio que se seguiu, os olhos de Elemnestra foram parar na figura colossal de Tharaman-Thar. De tão perto, a sensação de poder assombroso que parecia emanar do animal numa pulsação ritmada se tornava quase avassaladora e, apesar do frio, uma leve transpiração começou a brotar no lábio superior da basiléia.

Dando-se conta do seu olhar minucioso, o Thar dos leopar-dos-das-neves voltou os olhos brilhantes para Elemnestra e a guerreira precisou recorrer a todo o seu espírito de luta para encará-lo. Thirrin percebeu intimamente o esforço da tia e deixou que ela sofresse mais alguns segundos antes de falar.

— Elemnestra, basiléia dos hipolitanos, eu lhe apresento o senhor Tharaman, centésimo Thar dos leopardos-das-neves, governante das Geleiras, flagelo dos trolls-do-gelo, e agora nosso amigo e aliado na guerra contra o Império polipontino.

Com sua habitual noção aguçada de etiqueta e precedência, Elemnestra imediatamente aquilatou o Thar como seu superior na hierarquia de liderança e fez uma reverência, dobrando um joelho.

— Salve, Tharaman-Thar dos leopardos-das-neves! Saudações! Seja bem-vindo à minha pequena província. É uma honra para nós abrigar Vossa Majestade e seu exército.

Tharaman continuou a encará-la em silêncio por alguns segundos, com os grandes olhos cor de âmbar parecendo investigar sua verdadeira alma enquanto lhe examinavam o rosto. E então, afinal, retumbou no ar gelado a voz refinada e bela.

— Salve, Elemnestra dos hipolitanos, sua oferta de hospitalidade é aceita com gratidão e amizade.

Um rumor de empolgação percorreu a parte da multidão presente que estava próxima o suficiente para ouvir. Estavam comprovados os boatos: a rainha Thirrin tinha realmente feito aliança com leopardos falantes!

Por um instante, a basiléia pareceu quase chocada, mas logo se recuperou e sorriu em resposta. Thirrin agora cumprimentava o tio Olememnon, com a formalidade da presença real logo esquecida à medida que eles se abraçavam e conversavam, animados, sobre a viagem e os preparativos militares. Mas foram interrompidos por uma figura franzina que se mantinha educadamente ali perto e pigarreou de leve.

Thirrin se voltou para o recém-chegado e sua atitude de rainha foi desaparecendo ainda mais quando ela reconheceu quem ele era.

— Maggie! — gritou ela, feliz, abraçando com força o conselheiro real. — Como tenho coisas para lhe contar! Nós sempre imaginamos que as terras mais para o norte fossem mortas e vazias, mas elas estão apinhadas de vida e de maravilhas. Ah, se você ao menos tivesse vindo conosco, teria ficado paralisado de espanto.

Maggiore Totus sorriu para a antiga aluna, com carinho.

— Tenho certeza de que teria mesmo. Mas parece que você trouxe para cá algumas das maravilhas. Posso ser apresentado ao rei dos leopardos-das-neves?

Thirrin apertou sua mão e se voltou para o Thar, que observava tranqüilo os reencontros.

— Senhor Tharaman, este é Maggiore Totus, um grande estudioso do continente meridional e estimado conselheiro real.

O leopardo-das-neves piscou lentamente seus olhos enormes em corteses saudações felinas e Maggie fez uma reverência tão baixa quanto lhe permitiram suas juntas enferrujadas pelo frio.

— Salve, Tharaman, centésimo Thar dos leopardos-das-neves, senhor das Geleiras e flagelo dos trolls-do-gelo — declamou o velho mestre, provando que estivera ouvindo atentamente toda a solenidade. — Permita-me expressar a gratidão de todo o povo da Terra do Gelo por sua ajuda nesta hora da nossa maior necessidade.

— Sua gratidão é reconhecida, Maggiore Totus, e afirmo que a nobreza do povo da Terra do Gelo sempre atrairia amigos e aliados para sua causa por mais desesperadora que fosse sua necessidade.

Thirrin se perguntava se o mestre e o rei conseguiriam superar a formalidade do comportamento cortês, quando Maggie fez uma pergunta.

— Vossa Majestade sabe que existe uma espécie de leopardo-das-neves nas altas montanhas do sul do meu país, mas eles são muito inferiores ao seu povo vigoroso.

— É mesmo? — disse o Thar, profundamente interessado. — Sob que aspecto?

— Bem, para começar, são muito menores. É provável que cheguem à altura da minha cintura. E o que é mais impressionante, não sabem falar.

— Então, presume-se que se assemelhem a nós de algum outro modo.

— Ah, sim, o pêlo e as manchas deles são exatamente como os seus e, com exceção do tamanho, seus detalhes anatômicos são idênticos. Mas há outras diferenças também. Por exemplo, eles parecem ser animais solitários, ao passo que esse seu povo evidentemente vive junto, em grandes grupos.

Um ronco profundo de puro prazer brotou do peito de Tharaman à medida que ele tomava gosto pela conversa.

— E aí está mais uma coisa — continuou Maggie. — Eles também não conseguem ronronar.

— Então você tem certeza de que são mesmo leopardos-das-neves? — perguntou o Thar, com uma risada.

— Tenho, sim. Mas talvez sejam somente tão parecidos com vocês como os primatas das terras quentes são conosco.

— Mas esses primatas são considerados seres humanos?

— Bem, não — admitiu Maggiore. — Mas alguns estudiosos no continente meridional estão começando a formular teorias segundo as quais eles seriam algum tipo de parente nosso que não atingiu o mesmo desenvolvimento.

— Logo, se esses primatas não são humanos, da mesma forma esses seus felinos das montanhas não podem ser leopardos-das-neves.

Talvez possam ser vistos como um tipo de primeira tentativa dos deuses para criar uma nova espécie, que modelos mais recentes tornaram ultrapassados.

— Exatamente, exatamente! — concordou Maggie, com entusiasmo. — Se me permite acrescentar...

Mas nesse ponto ele foi interrompido pelo retorno da soldada que Elemnestra tinha despachado para a cidade em busca de pão e maçãs. A basiléia entregou dois pães grandes e um saco de maçãs a Thirrin, que imediatamente se virou e acenou para Oskan, que tinha ficado assistindo a tudo lá do trenó.

Ele veio correndo por sobre a neve e, depois de uma apressada reverência e saudação a todos os dignitários, apanhou um dos pães e começou a arrancar grandes pedaços com os dentes. Todos observavam espantados e Elemnestra parecia prestes a dizer alguma coisa quando Thirrin também começou a devorar seu pão. Depois que os dois tinham acabado com metade de cada pão, cada um apanhou uma maçã e a comeu rápido, para então acabar com o pão.

Thirrin olhou para as expressões de espanto ao redor e deu a explicação.

— Faz semanas que não comemos nada a não ser carne.

— Mas parece que faz meses — acrescentou Oskan. — Acho que eu não conseguiria nem olhar para outro bife ou costeleta, imagine comer!

Thirrin concordou sem falar e Elemnestra fez um sinal discreto para Olememnon, que entendeu perfeitamente o que ela pretendia e mandou um cavaleiro ao palácio com ordens de que o cardápio para o banquete daquela noite fosse alterado.

O grupo então esperou educadamente que a rainha e Oskan comessem mais uma maçã e daí em diante a basiléia assumiu o comando da solenidade.

Ligeiramente à esquerda do grupo de recepção, havia um grande aglomerado de mulheres, com um ou dois homens entre elas.

Eram de todas as idades, e seus trajes iam desde os ricos e esplêndidos até amontoados de trapos de cheiro forte. Mas todas pareciam ser tratadas com respeito pelos soldados e pela multidão ao redor. A frente delas estava uma figura pequena e mirrada, quase dobrada ao meio pela idade. Estava apoiada num cajado que era tão franzino e retorcido quanto ela e seu cabelo branco e fino dançava e tremulava com a brisa leve como se ela estivesse no meio de um furacão. Seu nome era Wenlock Mãe-das-Bruxas e ela era a mais velha e mais respeitada das bruxas brancas da Terra do Gelo. A basiléia acenou para elas e o grupo inteiro se aproximou para cercar Thirrin e sua escolta.

— Saudações, rainha Thirrin — disse a Mãe-das-Bruxas, com uma voz surpreendentemente forte. — Damos graças à Grande Deusa por nossa rainha ter voltado sã e salva da Terra-dos-Fantasmas e juramos nossa lealdade na luta que está por vir.

Thirrin olhava para elas com um misto de assombro e respeito. Essas eram as bruxas brancas de que seu pai lhe tinha falado. Depois que derrotou o rei e a rainha dos vampiros na Batalha das Rochas-dos-Lobos e expulsou da Terra do Gelo todas as criaturas mágicas, Redrought permitiu que as bruxas brancas ficassem e elas retribuíram prestando serviços com uma lealdade inabalável. Thirrin cumprimentou a Mãe-das-Bruxas com a cabeça e lhe agradeceu seu constante apoio.

— Não há de quê, rainha — respondeu a velha, sem rodeios. — Mas nosso principal objetivo aqui é saudar um dos nossos, Oskan, o Bruxo.

Oskan deu um passo à frente e fez uma reverência diante da velha. Depois, esperou em silêncio que ela falasse.

— Lembro-me da sua mãe, Annis Branca. Se não tivesse morrido, ela teria assumido meu cajado como Mãe-das-Bruxas quando eu fosse chamada para as Terras do Verão. Mas a Deusa tinha outros planos para ela e ela voltou para casa antes de mim. A Mãe sabe o que faz e cabe a nós simplesmente aceitarmos. Mas tenho o seguinte a lhe dizer, Oskan, o Bruxo: seu caminho não será fácil. Grande parte dele está oculto, como estava o destino da sua mãe. Mas já me foi revelado que, como salvador de vidas, você jamais poderá matar, com a possível exceção de uma única vez. E, se isso acontecer, você há de pagar um alto preço. Mandaram-me lhe dizer que a morte virá dos céus e a cura, da terra.

— Mas o que isso significa? — perguntou Oskan, com ar preocupado.

— A Deusa lhe dirá quando estiver disposta — respondeu a velha, rindo — e nem um minuto antes. Contente-se em saber o seguinte, Oskan, o Bruxo: você tem as boas graças da Mãe. Seus poderes são mais fortes do que os de qualquer um que eu tenha conhecido. Posso sentir a presença deles como tempestades no ar do verão. — Nesse momento, ela parou de falar e seus olhos se voltaram desdenhosos para a basiléia e seus soldados. — Há quem pense que a Deusa é só para as mulheres e que ela não tem tempo para os homens. Bem, essas pessoas se esquecem de que ela tem seu marido a quem muito ama. Também se esquecem de que ela é a mãe de todos nós e o amor da mãe por seus filhos homens é forte e especial.

"Não são muitos os homens que portam o fardo dos poderes da Deusa. Essa é a bênção que ela lhes concedeu. Suas dádivas são pesadas e ela fica feliz de ver seus filhos homens livres de preocupações. Mas às vezes ela escolhe um homem cujo espírito seja forte. Vocês podem vê-los aqui entre nós", disse, indicando com a cabeça os poucos homens que se encontravam no grupo ali atrás. "E, quando isso acontece, seus poderes são de encher os olhos. Mas nenhum, absolutamente nenhum, se equipara a você, Oskan, o Bruxo. E digo o seguinte a todos com ouvidos para ouvir: eu o nomeio meu sucessor! Você portará o cajado da Mãe-das-Bruxas quando eu por fim for chamada para as Terras do Verão. Você será Oskan, o Pai-das-Bruxas, o segundo do seu sexo a portar o cajado."

Ouviu-se um grito de espanto do grupo atrás dela e ela riu.

— Estamos realmente vivendo tempos marcantes, não é mesmo? Mas não morri ainda e espero continuar viva por mais alguns anos. A Deusa ainda tem outras missões para você, Oskan, filho de Annis Branca, amado da Mãe.

Oskan se deixou cair de joelhos e abaixou a cabeça.

— Será que terei força suficiente?

— A Deusa o escolheu — disse a velha, torcendo o nariz para ele. — Ela nunca erra. Agora vou entrar. Está frio. — E com isso deu meia-volta e se afastou na direção da cidade.

— Acho que fomos dispensados — disse Thirrin, curvando-se para ajudar Oskan a ficar de pé. — Vamos, posso ouvir os chamados de um naco de pão com queijo.

— E cebolas em conserva! — disse o bruxo, com os olhos brilhando.

— Essas você vai precisar disputar comigo! — Thirrin ergueu a mão para Grinelda e sua turma de puxadores de trenó, que vieram rápido pela neve e ficaram esperando que ela e Oskan embarcassem.

No trenó, que se encaminhava para os portões da cidade com sua escolta de leopardos-das-neves, Thirrin acenava para a multidão que gritava vivas, enquanto ela e Oskan debatiam a possibilidade de ensopado de legumes para o jantar daquela noite, procurando não dar a perceber como estavam com água na boca.

O banquete foi um "louvor aos legumes e frutos armazenados para o inverno", nas palavras de Maggiore. Alguns oficiais dos guardas-da-coroa à mesa principal deixaram transparecer certa decepção quando não foi servida carne; mas, depois de algumas rodadas de vinho e cerveja, eles começaram a se animar. Mesmo assim, um ou dois deles ainda olhavam com inveja para as pilhas de carne crua que os soldados dos leopardos-das-neves e o Povo-Lobo estavam comendo ali embaixo, na parte principal do salão e um veterano com marcas de muitas guerras do rei Redrought se flagrou observando cada bocado que Tharaman-Thar selecionava delicadamente da larga tigela posta sobre a mesa diante dele.

Thirrin tinha se perguntado como os leopardos reagiriam a um banquete com humanos, mas não precisava ter se preocupado. Depois de uma desconfiança inicial, os soldados ali no salão logo perceberam que os enormes felinos eram guerreiros como eles mesmos e não demorou muito para que estivessem se gabando de suas façanhas em batalhas e ouvindo histórias sobre a guerra com os trolls-do-gelo nas terras distantes lá para o norte.

Ela também tinha se preocupado com a associação de força bruta e bebida e, em segredo, esperava que os leopardos não gostassem de cerveja nem de vinho; mas eles simplesmente bebiam tudo o que lhes era oferecido e começaram a se juntar ao coro dos guardas-da-coroa nas canções mais vigorosas ou apenas ficavam sentados ronronando alto, tanto que o salão estava tomado de um ronco semelhante ao de trovões inofensivos.

É claro que no salão-mor não havia lugar para todos os soldados, fossem leopardos, fossem humanos; mas fogueiras enormes foram acesas no pátio do palácio, com mesas dispostas ao redor, para que muitos dos soldados que não estavam de plantão pudessem participar dos festejos.

Thirrin tinha plena consciência de que o banquete não era apenas uma cerimônia de Estado destinada a acolher a rainha de volta a seus territórios, mas era também um modo ideal de apresentar os novos aliados ao exército da Terra do Gelo e aos seus oficiais. Era preciso admitir que leopardos falantes seriam algo bem fora da experiência do seu povo, mas até o momento as apresentações iniciais estavam indo bem. Thirrin percebia que havia pelo menos três fases na reação da sua gente a Tharaman-Thar e seus soldados: de início, o medo; seguido imediatamente por espanto e assombro; para então se transformar numa espécie de orgulho da posse, à medida que os humanos competiam entre si para provar que cada um conhecia os leopardos melhor que qualquer outro. Ainda não tinha presenciado demonstrações de total familiaridade, mas isso praticamente não a surpreendia. Tinha certeza de que, com o tempo, seus súditos cheios de habilidade começariam a demonstrá-la.

A basiléia Elemnestra estava conversando com Tharaman-Thar sobre táticas, enquanto seu consorte Olememnon experimentava contar algumas piadas hipolitanas a Taradan, que tinha sido inestimável como ponte entre os dois povos mais ou menos na primeira hora do encontro. Uma súbita risada ruidosa provou que humanos e felinos compartilhavam o mesmo senso de humor. Taradan então contou uma piada tão grosseira que a própria Thirrin sentiu que seu rosto se avermelhava quando ele chegou ao final, mas a estrondosa gargalhada de Olememnon distraiu a atenção de todos e ninguém percebeu.

— Minha senhora, exatamente de que modo Vossa Majestade pretende incorporar o exército do Thar às nossas táticas? — perguntou Elemnestra.

— Tharaman e eu estivemos debatendo esse assunto no caminho de volta das Geleiras — respondeu Thirrin, aliviada por poder tratar de temas conhecidos. — E já tomamos algumas decisões sobre idéias que vamos tentar pôr em prática nos próximos dias.

— Eles seriam classificados como infantaria ou cavalaria?

— Cavalaria — respondeu Thirrin, com firmeza. Mas nem ela nem Tharaman quiseram adiantar mais nada sobre essa questão.

Ao longo dos dias que se seguiram, a cabeça de Thirrin estava num turbilhão enquanto ela comparecia a reuniões e exercícios de treinamento, além de discutir sobre logística e movimentação de tropas. Era difícil que se passasse uma hora em que não se envolvesse em um ou outro problema de natureza militar, desde a supervisão da construção de bestas novas até o melhor método de transportar catapultas para lançamento de pedras. Mas o principal era que o treinamento estava transcorrendo com uma precisão que era quase impecável.

E então, numa linda manhã de frio estimulante, ela e o Thar saíram da cidade para cavalgar até a vasta planície. Lá já os aguardavam o exército dos leopardos-das-neves e um grande contingente da elite da cavalaria, selecionado entre os regimentos tanto da Terra do Gelo como dos hipolitanos. Os soldados prudentemente tinham conduzido os cavalos a certa distância contra o vento em relação aos leopardos; mas, mesmo assim, muitos cavalos refugavam e relinchavam, nervosos.

Thirrin, como de costume, vinha puxada no trenó por sua guarda de lobisomens; mas, quando chegaram a um ponto equidistante dos dois grupos de guerreiros, ela saltou do trenó e ordenou que este fosse levado de volta à cidade.

A jovem rainha fez um sinal e um escudeiro lhe trouxe seu cavalo de batalha. Ela se encaminhou devagar ao encontro dele, chamando seu nome e o tranqüilizando enquanto ele vinha pela neve até ela. Quando ele chegou, ela tomou as rédeas das mãos do escudeiro e o enorme cavalo a afagou com o focinho. Depois de lhe dar uma maçã, Thirrin o conduziu até Tharaman-Thar, que observava sua aproximação, em silêncio.

— Quer dizer que essas são as criaturas que vocês chamam de cavalos? — comentou o rei dos leopardos. — A mim parecem instáveis e assustadiços.

— Este é Osdred, meu cavalo de batalha — disse Thirrin, com um carinho no pescoço altivo de Osdred. — A cavalaria da Terra do Gelo dispersou as fileiras compactas dos lobisomens na Batalha das Rochas-dos-Lobos e já rechaçou os corsários de volta para o mar de onde vieram. Mas é verdade, pode ser fácil assustar cavalos e às vezes é fácil fazê-los fugir. No entanto, uma montaria treinada é outro assunto. Espere, vou lhe mostrar... — Com agilidade, ela montou na sela e, ficando de pé nos estribos, sacou a espada e deu o grito de guerra da Casa dos Fortes-no-Braço. Imediatamente, o cavalo berrou num desafio feroz e se empinou, atacando com as patas dianteiras.

O Thar fez que sim, lentamente, mas não disse nada.

— Rosne para ele, faça alguma provocação — gritou Thirrin. — Finja atacá-lo.

Tharaman deu um rugido ensurdecedor e se empinou nas patas traseiras. O cavalo saltou adiante, bufando, e, sem medo, obedeceu aos comandos de Thirrin, enquanto ela girava para se aproximar mais do leopardo-das-neves, descrevendo círculos em torno dele, simulando ataques e golpes com seu sabre.

Ela recuou e aguardou a reação do Thar, que ficou um instante sentado, antes de falar.

— Animal de estranhas contradições. Guerreiros delicados: comedores de capim, mas com a coragem de caçadores. Deixe-me ver o que mais os cavalos sabem fazer.

Thirrin concordou e voltou a meio galope até o regimento de cavalaria, que estava observando com interesse o primeiro encontro de um cavalo com um leopardo-das-neves. De repente, ela deu um grito forte e os cavaleiros avançaram como uma onda, atravessando as neves para o lugar onde os leopardos estavam parados, aguardando. Mantendo sua posição, os felinos gigantescos rugiram com a aproximação da cavalaria, mas no último instante os cavalos viraram para um lado, seguindo a indicação do sabre de Thirrin, que os conduziu de volta numa longa curva até onde o Thar se encontrava, a observar tudo tranqüilo.

— Estou satisfeito — disse o rei dos leopardos. — Seus cavalos são guerreiros de verdade; meu exército e eu teremos orgulho de chamar sua cavalaria de companheiros.

Thirrin concordou e sorriu. Depois desmontou e começou a analisar métodos de instrução com o Thar.

Durante o resto daquele dia, a montaria de cada soldado foi apresentada aos leopardos e, em obediência a instruções de Thirrin, os enormes felinos sopravam nas narinas dos cavalos para demonstrar amizade. Então, à medida que o curto dia de inverno foi se encerrando, ela começou a pôr seu plano em ação, criando uma linha de cavalaria que alternava cavalos e felinos lado a lado. Qualquer inimigo contra o qual eles investissem enfrentaria uma combinação mortífera de lança, sabre, dentes e garras.

Quando o sol tingia a neve de um vermelho forte, Thirrin e o Thar fizeram avançar a nova cavalaria em seus primeiros passos. Aos poucos, foram aumentando a velocidade até dispararem pela neve a pleno galope, com os leopardos-das-neves dando um estranho rosnado entrecortado, como desafio, e os cavalos relinchando, enquanto os soldados entoavam o hino ou canto de combate da Terra do Gelo.

Thirrin riu alto de pura alegria.

— Se não for por mais nada, vamos destruí-los só com nosso barulho — gritou ela para Tharaman que galopava a seu lado.

— Espero que não — respondeu ele. — Prefiro quando o inimigo tem disposição para lutar!

Mais tarde, quando a lua nasceu sobre a terra congelada, uma coluna mista de cavalos e leopardos voltou para a cidade num trote ligeiro. Felinos e humanos, cantando canções de marcha, esquecidos do povo postado ao longo da estrada até a cidadela, observando sua passagem com admiração e esperança.

 

Os meteorologistas imperiais prometiam pelo menos uma semana de tempo calmo. E, como os tinha ameaçado com vinte chibatadas para cada dia de imprecisão, Scipio Bellorum se sentia inclinado a acreditar neles. Sem dúvida, agora o tempo estava bom, até mesmo esplêndido, com os céus de um azul sem nuvens e um frio animador.

Tempo perfeito para cavalgar.

Atrás dele, vinham uma cavalaria de vinte mil e uma infantaria de oitenta mil, composta de regimentos de lanceiros, escudeiros e mosqueteiros. Além desses, ele dispunha de uma bateria de cem canhões e toda uma ralé de sapadores, carpinteiros e os seguidores habituais de um acampamento militar. Desta vez, não haveria erros. O desastre da invasão anterior tinha sido uma das pouquíssimas derrotas sofridas por qualquer exército imperial desde que ele assumira o comando dos militares vinte anos antes e agora estava determinado a que não ocorresse outra.

Era confiável a informação que seus espiões tinham transmitido de que não havia nenhuma força de defesa na região e que a cidade mais próxima tinha apenas uma milícia desprezível a defendê-la. Era portanto simples a decisão. Ele tomaria o povoado e o usaria como acampamento de base para a campanha futura. Suas tropas imperiais altamente treinadas e esplendidamente equipadas romperiam as muralhas e tomariam a cidade em dois dias, três no máximo. Daí em diante, as caravanas de suprimentos poderiam começar a chegar e, com o degelo da primavera, eles estariam prontos para a guerra em si.

Ele seguia perfeitamente à vontade, com a mão no quadril, as botas muito bem engraxadas descansando em estribos dourados. Apesar do frio, não usava chapéu na cabeça de cabelos grisalhos cortados bem curtos, pois acreditava que os homens deveriam poder reconhecer o comandante com facilidade. Mas nenhum dos soldados jamais teria confundido sua silhueta esguia, rígida e empertigada com a de qualquer outro. Esse homem, com seus olhos azuis-claros e o nariz fino e aquilino, os tinha levado a uma vitória após a outra. E esse mesmo homem tinha mandado enforcar alguns deles, açoitá-los e vendê-los como escravos se achasse que não tinham dado o melhor de si. Esse era Scipio Bellorum, comandante dos exércitos imperiais, e ninguém — nem mesmo o próprio imperador — lhe negaria algo que ele quisesse, se estivesse ao seu alcance concedê-lo.

O que acabou ocorrendo foi que a estimativa de Bellorum para a queda da cidadezinha de Inglesby estava errada em mais de uma semana. A milícia e a população os rechaçaram por dez dias, apesar de os canhões terem rompido as muralhas em mais de seis lugares. Ele agora observava a última força de ataque jorrar de volta por uma das brechas. Era a terceira vez em três horas que os defensores repeliam seus soldados e Bellorum começava a perder a paciência.

Some-se a isso o fato de o tempo ter piorado havia mais de três dias e de, num raro ato de precipitação, Bellorum ter perdido um grande contingente enviado em missão para formar a guarnição da capital, Frostmarris. A tropa foi apanhada por uma nevasca e o general, que era famoso por sua sorte, tinha perdido a parada. Geralmente, ele se certificava de que todos os pontos estavam sob controle antes de avançar, mas a estrada estava aberta e era grande demais a tentação de obter aquela presa. Se tivesse conseguido tomar a cidade sem que fosse necessário dar um golpe com raiva, a guerra praticamente estaria encerrada.

Mas, pelo menos dessa vez, ele fracassou. E, para aumentar sua fúria, a temperatura tinha sofrido forte queda e começava a nevar, o que tornava o acampamento dos assediadores um local de morte e lesões causadas pelo frio. Agora era imperioso que a cidadezinha de Inglesby fosse tomada, não só para satisfazer a honra polipontina, mas em nome da sobrevivência. Se não conseguissem se abrigar debaixo de algo mais substancial que lona exclusiva das forças armadas imperiais, todos morreriam com aquele frio extraordinário.

— Coronel Marcellus, creio que aquele é seu regimento — disse Bellorum enquanto as tropas imperiais recuavam das muralhas da cidade. Sua voz era cortante como o vento que varria a terra congelada e o estremecimento dos homens que estavam por perto teve mais causas do que o simples frio.

Um dos oficiais parados no pequeno grupo atrás dele avançou, lentamente.

— É, senhor. Mas eles estão em desvantagem por não conhecerem a disposição das ruas. E os guardas-da-coroa da defesa são duros como couro congelado.

— Mais duros que tropas imperiais? — perguntou o general, em voz baixa.

— Não, senhor. Mas os defensores estão lutando por suas casas e seus entes queridos. Só isso já lhes dá um incentivo maior.

— Coronel Marcellus, nossos incentivos incluem sobreviver para ver a primavera e não ser enforcado por falta de bravura militar.

Você agora vai reagrupar seu regimento e em pessoa comandar uma nova invasão da cidade. Não haverá retirada. Espero voltar a vê-lo, morto ou como comandante vitorioso à frente das tropas que o adoram. Está me entendendo?

Marcellus bateu continência e se afastou marchando para se juntar ao seu regimento, que ainda estava se derramando pela brecha nas muralhas. Bellorum então ordenou um novo bombardeio da cidade para manter os defensores ocupados enquanto mandava vir reforços.

Em quinze minutos, o regimento estava reorganizado e voltava a invadir pela brecha, exatamente ao mesmo tempo que as outras tropas imperiais abriam caminho pelos portões principais e por outras três brechas em torno das muralhas.

Dessa vez, os defensores foram empurrados lentamente para trás, lutando rua a rua, casa a casa, até por fim, depois de mais de cinco horas de combate desesperado, em que o próprio general ajudou a manter as linhas de comunicação prejudicadas, os defensores controlavam uma única barricada no pátio da cidadela. Ali, os últimos guardas-da-coroa ergueram sua barreira de escudos e se postaram ombro a ombro com a população sobrevivente.

Atirando saraivadas e mais saraivadas contra as carroças viradas de roda para cima e velhas cabeceiras de camas que compunham a barricada, as tropas imperiais atacaram uma cerca de lanças que os esperava para perfurá-los com o próprio ímpeto da investida e a pressão dos companheiros que vinham por trás. Os ataques se repetiam, como um mar tempestuoso que se joga contra um promontório rochoso; mas a cada vez os invasores recuavam e a defesa se mantinha firme.

Das ruínas da casa da guarda do portão, Bellorum observou o combate por quase uma hora, seu rosto era uma máscara impassível, até que de repente desmontou e sacou a espada. Tinha chegado a hora de dar o exemplo. Encaminhou-se até a linha de frente das tropas exaustas, que ainda mais uma vez recuavam, e olhou para os soldados em silêncio. Então, erguendo a espada, ele se voltou e encarou a última barricada. Aquela altura, o curto dia de inverno chegava ao final e a neve voltava a cair, indo pousar lentamente nos escombros e corpos da cidade sitiada.

Os defensores aguardavam calados. Não havia o que pudessem fazer. Antes, seu comandante tinha tentado negociar com Bellorum, sob a proteção de uma bandeira branca, numa tentativa de evacuar os não combatentes; mas, depois de ouvi-lo alguns instantes, o general fez um sinal para o mosqueteiro ao seu lado. Com isso, o comandante dos guardas-da-coroa levou um tiro na cabeça. Até mesmo o rei e a rainha dos vampiros nas Guerras dos Fantasmas respeitavam a bandeira branca. Só Bellorum, ao que parecia, impunha suas próprias condições.

O ruído surdo de escudo grudado em escudo era o único som que vinha da linha de defesa quando as tropas imperiais começaram a avançar. Dessa vez, porém, em vez de atacar investindo, os soldados do Império foram andando em frente, devagar, impossíveis de conter como uma inundação que se avolumava atrás do general brutal. A população sobrevivente apanhou pedras e telhas quebradas para atirar sobre os soldados polipontinos numa chuva mortífera. Mas mesmo assim eles continuavam avançando, sem se dar conta da resistência. Bellorum chegou à barricada e começou a subir, com o escudo erguido acima da cabeça para receber os golpes de machados e espadas, mas sua expressão continuava impassível e calma como se ele estivesse dando um passeio no jardim. Por fim, chegou ao topo do obstáculo e brandiu a espada na direção da linha dos guardas-da-coroa, com a lâmina fina serpenteando com uma precisão mortal para perfurar o olho e o cérebro do soldado diante dele. E então, refulgindo à luz dos archotes, ela voou para a esquerda e para a direita, rasgando um pescoço, cortando uma jugular. A linha começou a ceder terreno e as tropas imperiais avançaram, golpeando e vergastando, num assalto sangrento. E Bellorum continuava a avançar, matando o que estivesse no caminho.

Em quinze minutos, a maior parte da resistência estava esfa-celada e Bellorum pôs suas tropas vitoriosas a trabalharem na eliminação dos poucos sobreviventes que restavam. Para começar, os soldados foram desarmados e decapitados. Depois, a população do lugar foi arrebanhada e encostada numa muralha para ser sistematicamente executada por fileiras organizadas de mosqueteiros. O general deu um sorriso sinistro enquanto se afastava dali para dirigir a instalação do seu quartel-general na cidadela. Quando estava mais ou menos no meio do pátio, parou junto do corpo de um oficial polipontino. Era o coronel Marcellus, quase irreconhecível por trás da máscara de sangue que tinha escorrido de um enorme ferimento na cabeça. Bellorum ergueu a espada em saudação antes de prosseguir calmamente.

Mais tarde naquela noite, ergueram-se uivos do lado de fora das muralhas da cidade. Alguns soldados de guarda no portão da cidadela ouviram o som e supuseram que animais carniceiros tinham vindo se alimentar dos corpos. Mas os gritos do lobisomem solitário estavam criando o primeiro elo vocal da corrente que transmitiria a notícia da queda de Inglesby, de uma voz a outra, através do país congelado, até a cidade dos hipolitanos.

Nos seus aposentos, Maggiore Totus olhava enquanto Thirrin andava de um lado para outro. Ele sabia que ela acabaria parando e lhe perguntando o que fazer; que lhe pediria conselhos para depois desconsiderá-los totalmente e fazer o que pretendia desde o início. Ali sentados com ele estavam Olememnon, com ar solene, e Oskan, com ar sonolento. A única outra pessoa em pé era Elemnestra e seu corpo oscilava para a frente e para trás enquanto Thirrin se aproximava, dava meia-volta e se afastava.

Tharaman-Thar compartilhava um tapete perto da lareira com Primplepuss, que estava aconchegada entre suas patas gigantescas. De vez em quando, ele levantava a cabeça para observar Thirrin em seu desassossego. Dava então um bocejo enorme e se deitava de novo, com o focinho voltado para as chamas.

— Bellorum em pessoa está atacando! Atacando no inverno e Inglesby caiu, Maggie! Onde é que fica Inglesby?

— No mesmo lugar onde estava quando Vossa Majestade perguntou pela última vez, há cinco minutos. A uns quinze quilômetros do passo sul que dá entrada ao Polipontus e a uns cinco quilômetros da Grande Estrada.

— Quer dizer que ele poderia avançar até Frostmarris e estar lá em questão de dias!

— Pelo menos não por mais uma semana. Oskan nos informa com segurança que haverá nevascas durante esse período. E tenho certeza de que, mesmo quando terminarem, Bellorum precisará de reforços primeiro. Os lobisomens nos dizem que ele perdeu muitos soldados na tomada da cidade e mais ainda morreram com o frio.

— Mas, Maggie, estamos lidando com um homem que é totalmente imprevisível! Ele não só iniciou uma invasão no inverno; mas, quando a primeira investida fracassou, não teve a elegância de relaxar e esperar a chegada da primavera! Não, não Scipio Bellorum! Ele simplesmente reuniu mais um exército e atacou de novo, mesmo sabendo que teremos no mínimo dois meses de mau tempo pela frente.

— Bem, se ele for tão brilhante como todos dizem que é, imagino que tenha aprendido a lição e que agora vá esperar. Nem mesmo a disciplina do exército polipontino tem como resistir a uma nevasca. Eles podem morrer em perfeita ordem, mas não escaparão da morte se tentarem sair em marcha em qualquer direção durante a próxima semana — disse Oskan, com as últimas palavras do comentário perdidas num bocejo espantoso.

— Não tenho tanta certeza — retrucou Thirrin, pessimista.

— Estou começando a me perguntar se esse general não tem algum tipo de segredo.

— Ele é apenas um homem, sabia? Não um vampiro — disse Oskan, lendo com perfeição seu pensamento. — Um dia, ele vai morrer como todos nós, mortais, e, se não for prudente, isso vai acontecer mais cedo do que qualquer um de nós ousaria esperar.

— Ele se recostou onde estava como se o esforço de falar tivesse esgotado todas as suas energias.

— Até mesmo aqui a maior arma desse general polipontino está atuando — disse Tharaman-Thar, levantando a cabeçorra para olhar para eles.

— E que arma é essa? — perguntou Thirrin.

— O medo. Nós todos estamos com medo dele, ou pelo menos da sua reputação. É óbvio que ele é muito inteligente. As histórias que vocês me contaram são de um homem que é frio, impiedoso e violento na sua crueldade. E no entanto nenhum de vocês disse que ele é um bárbaro. Mesmo além das fronteiras do seu país, ele conseguiu cultivar uma imagem de desumanidade sofisticada, de uma inteligência implacável. — O enorme leopardo fez uma pausa para organizar os pensamentos. — Está claro que ele é um verdadeiro gênio. Suas armas são tanto físicas, seu exército, como psicológicas, o medo que o precede. E, quando a isso se soma a reputação de inteligência extraordinária, ele realmente parece invencível.

— Sua análise é impecável, meu senhor Tharaman — disse Maggie, em voz baixa. — Mas receio que haja uma falha no seu raciocínio se Vossa Majestade estiver insinuando que as histórias sejam de algum modo injustificadas. Veja bem, os fatos comprovam sua reputação. Ele é mesmo impiedoso; é mesmo cruel. E até agora se mantém invencível.

— Seus exércitos já foram derrotados.

— É, mas nunca quando ele estava no comando — disse Maggie. — Mesmo quando estavam em forte desvantagem numérica, sua tática brilhante sempre saiu vitoriosa.

— Então chegou a hora de ele provar o sabor da derrota — rosnou Tharaman, ameaçador.

— Concordo com isso — disse Oskan.

Thirrin permaneceu calada. Começou a andar de um lado para o outro novamente e, de repente, parou.

— Muito bem! — Todos concentraram a atenção nela, sabendo pelo tom da voz que ela já tinha tomado uma decisão. — Os lobisomens nos dizem que Frostmarris parece vazia e o tempo vai se manter péssimo por mais uma semana. Logo, temos tempo para nos preparar para avançar. Quando as nevascas pararem, Tharaman e eu conduziremos a cavalaria até Frostmarris e assumiremos o controle. Elemnestra virá atrás com a infantaria. Alguma pergunta? Não? Ótimo. Então, mexam-se! Quero a cavalaria se exercitando nos cercados cobertos e a infantaria também! Maggie, convoque todos os oficiais da logística e os especialistas em tática. Oskan... volte para a cama por umas duas horas. Vou querer que você esteja alerta e pronto para fazer contribuições razoáveis depois do descanso!

A sala se esvaziou como uma jarra emborcada, deixando Maggie no silêncio com Primplepuss.

— Bem, suponho que o melhor é obedecer às ordens e ir dar instruções aos oficiais — disse ele para a gatinha que não era mais um filhote, tendo se tornado uma adolescente pernalta. Mas antes terminou o copo de xerez e chamou Grimswald para que providenciasse outro. Enquanto as nevascas da Terra do Gelo estivessem soprando, nada se movimentava pelo país e dez minutos de paz aqui e ali não fariam diferença.

O tempo estava limpo, claro e fazia mais frio do que em qualquer momento até então naquele inverno. Oskan tinha recomendado com insistência que não iniciassem a cavalgada naquele dia, mas Thirrin estava determinada. E as ruas estavam lotadas de gente que enfrentava o frio para se despedir da rainha e da espantosa cavalaria, em sua partida para Frostmarris. A população olhava assombrada para as colunas duplas que refulgiam ao sol, com a respiração de cavalo e leopardo formando plumas no ar gelado enquanto eles esperavam que Thirrin e Tharaman-Thar dessem a ordem de avançar.

Oskan estava montado na mula, Jenny, tendo tido a bravura de recusar o conforto do trenó dos lobisomens e agora parecia tão à vontade quanto se estivesse sentado num saco de vidro quebrado enquanto ouvia Maggiore Totus, que falava com seriedade junto ao seu estribo.

— Lembre-se de usar com regularidade a comunicação dos lobisomens. Preciso estar informado de tudo o que acontecer. Não vou poder manter um suprimento adequado, com a logística funcionando perfeitamente, se não souber exatamente do que vocês precisam e para quando.

— Enviarei uma mensagem todas as noites à terceira hora depois do pôr-do-sol — disse Oskan.

— Ótimo. E é claro que aguardo uma mensagem hoje à noite.

— É claro — respondeu Oskan, resignado.

Thirrin se voltou na sela e olhou para trás pelas colunas duplas da cavalaria. Ainda mais atrás, estava a infantaria dos hipolitanos e da Terra do Gelo, com a milícia e os guardas-da-coroa indistinguíveis, agora que a instrução pesada e os novos equipamentos davam a todos os soldados exatamente a mesma aparência.

A jovem rainha olhou de relance para Tharaman, que concordou piscando devagar. Ela então se ergueu nos estribos e deu a ordem de marcha. Imediatamente, um ritmo grave e estrondoso ecoou pelas ruas quando tímpanos dispostos sobre quatro grandes cavalos começaram a impor o ritmo da marcha.

Elemnestra assistiu à partida da cavalaria a trote e então deu a ordem para que a infantaria acompanhasse. Estava também no comando de seu próprio regimento pessoal de arqueiras montadas. As quinhentas guerreiras estavam todas com os trajes dos hipolitanos, o gorro típico e as calças e túnicas de cores vibrantes e cada uma portava um arco composto e quatro aljavas com flechas de cada lado da sela.

O único integrante da infantaria que seguia a cavalo era Olememnon, que só vinha montado por insistência da basiléia Elemnestra. Pela sua cabeça tinha passado a idéia estranha de que, como comandante da infantaria, ele deveria compartilhar das mesmas condições dos seus soldados. Às vezes, pensou ela, Olememnon não tinha nenhuma noção da sua própria dignidade de consorte e ela não estava disposta a expor sua própria posição ao descrédito aos olhos da população. Já bastava ele ter passado a maior parte da manhã com aquele conselheirozinho estrangeiro da rainha, despedindo-se e provavelmente bebendo demais daquele xerez lá do sul. Às vezes, sua escolha de amigos era deplorável.

Ele estava ligeiramente atrás dela agora, num cavalo de envergadura grande o suficiente para agüentar a carga da estrutura muscular de Olememnon acrescida do peso do escudo e das armas. Ela percebeu que ele estava olhando e sorriu, mas ele retribuiu batendo continência. Bem, pensou Elemnestra consigo mesma, que fique de cara amarrada. Logo vai baixar a guarda quando o frio penetrar nos seus ossos durante a noite e nenhuma quantidade de cobertores e mantas de peles conseguir aquecê-lo. Realmente não havia nada como o corpo de outra pessoa para a gente se aconchegar quando a noite estalava com um frio de congelar o sangue.

Aquela altura, a cavalaria já estava saindo a trote pelos portões da cidadela, para descer pela cidade. Ouviam-se vivas das pessoas ao longo do caminho e Thirrin movimentava a cabeça para cumprimentar o povo à esquerda e à direita enquanto seguia em frente. Oskan demonstrava mais entusiasmo ao retribuir os vivas da multidão e acenava para todos feito um louco. Jenny também pôs para trás as orelhas compridas, cobertas pelos agasalhos de lã, e deu zurros fortes e prolongados, ganhando com isso um olhar de censura de Thirrin, mas continuou a zurrar assim mesmo.

Numa tentativa de disfarçar o barulho, Thirrin começou a cantar o hino da cavalaria e logo soldados e leopardos estavam todos cantando com vigor. No entanto, mais forte que todos os demais, Jenny continuava a zurrar sua própria canção. Uma vez fora dos portões da cidade e fora da necessidade de manter a dignidade da realeza, Thirrin se voltou na sela.

— Você tinha de deixar a mula fazer aquilo? — perguntou a Oskan, com grosseria.

— Aquilo o quê

— Você sabe muito bem do que estou falando. Os zurros. E já que estamos tocando no assunto, achei que já tínhamos nos entendido quanto a sua mula usar agasalhos nas orelhas. Aos olhos e ouvidos de todos devemos ter parecido uma porcaria de um circo!

— Quanto aos zurros, não conheço nenhum modo de impedi-la depois que ela se anima — respondeu Oskan, com dignidade. — E os agasalhos são uma necessidade total para um animal com orelhas compridas como as de Jenny. Imagine o atraso que enfrentaríamos se ela sofresse lesões pelo frio.

— Posso lhe garantir que ferimentos causados pelo frio em qualquer parte da anatomia desse animal não nos atrasariam por um segundo que fosse. Se ela não estivesse apta a prosseguir viagem, eu pessoalmente a abateria com um machado — disse Thirrin, venenosa. E então acrescentou, para completar: — E o faria com prazer!

Com a dignidade ofendida, Oskan e Jenny se recolheram ao silêncio. E a viagem prosseguiu com Tharaman fazendo comentários e observações despreocupadas na tentativa de melhorar o ambiente. Nem mesmo as piadas de Taradan conseguiram causar impressão no silêncio de aço e ele e o Thar se contentaram em murmurar apenas um para o outro até a pausa para a refeição do meio-dia.

Mas, em pouco tempo, Thirrin e Oskan tinham se perdoado e tagarelavam como se nada tivesse acontecido. Tharaman-Thar os observava de sua altura enorme e concluiu que é totalmente impossível compreender os humanos jovens, que ainda não procriaram.

Agora a cavalaria tinha avançado alguns quilômetros à frente da infantaria, como combinado. Se tudo corresse bem, Thirrin chegaria a Frostmarris e lá firmaria posição no prazo de dois dias. E a infantaria levaria aproximadamente quatro a cinco dias para se reunir a ela, dependendo das condições. Até o momento, eram boas as notícias transmitidas pelos espiões do Povo-Lobo. A cidade ainda estava desocupada e não havia sinal de tropas imperiais nas estradas de acesso a ela. Parecia que Scipio Bellorum estava sendo sensato e consolidando sua posição antes de lançar um ataque ao norte. Talvez ele até esperasse pela primavera como qualquer ser humano normal. Mas Thirrin não estava contando com essa hipótese. Preferia esperar o inesperado quando se tratava do general polipontino.

Naquela noite, acamparam sob um maravilhoso dossel de estrelas que cintilava e bruxuleava como se o próprio céu estivesse congelado e coberto de cristais de gelo. Os soldados humanos tinham todos tendas de couro grosso que acomodavam três deles e cada uma dispunha de uma fogueira acesa bem do lado de fora da entrada. Thirrin, Oskan, Tharaman e Taradan estavam confortavelmente sentados em torno da sua própria fogueira, apreciando a combinação de perfumes penetrantes da fumaça de lenha e o cheiro limpo da neve. Já tinham debatido e analisado seus planos de um modo tão meticuloso que tinha deixado até Maggiore Totus satisfeito e agora se contentavam em conversar despreocupadamente. Mas foi enquanto conversavam que uma idéia ocorreu a Thirrin.

— Oskan, o rei dos Carvalhos é quem reina nos bosques no momento, não é?

— É, até o solstício de verão, quando o rei dos Azevinhos assume o poder. Por quê?

— Quero agradecer a Suas Duas Majestades pelo apoio durante nossa retirada de Frostmarris e acho que sei exatamente como fazer isso. Você acha que conseguiria convocar os soldados deles novamente?

— Acho que conseguiria, sim.

— Ótimo. Amanhã de manhã cedo vamos chegar aos limites da floresta. Esteja preparado. — Ela não quis dizer mais nada sobre o assunto e logo foi dormir, deixando os outros olhando sem entenderem.

— Parece que as fêmeas humanas gostam de cultivar um mistério exatamente como as fêmeas do Povo-Leopardo — disse Tharaman-Thar, ronronando como se estivesse achando graça.

No dia seguinte, eles começaram a marcha antes do amanhecer. O rangido da neve congelada debaixo dos cascos e patas parecia amplificado no silêncio da madrugada e o retinir sedoso dos equipamentos se erguia em torno da coluna de seis mil como uma brisa suave entre árvores de aço.

Já estavam começando a deixar para trás a paisagem erma e rochosa da região norte da Terra do Gelo e pequenos aglomerados de árvores surgiram no horizonte. Na primavera e no verão, haveria plantações de trigo e cevada ao longo do caminho, mas o inverno tinha escondido tudo por baixo do seu manto monocromático.

Enquanto avançavam, o leste começou a clarear e aos poucos o negrume da noite cedeu lugar ao rosa e ao azul do amanhecer. Depois, o sol surgiu no céu, deixando a neve com um brilho dourado, de modo que eles pareciam estar atravessando um incêndio frio. E seguiam adiante. Aos poucos, a estrada começou a descer para um vale largo até que finalmente avistaram os primeiros sinais da floresta ao longe. A noite ainda se mantinha firme por baixo das copas e um som semelhante ao do mar alcançou seus ouvidos. Eram os galhos dançando e farfalhando com o vento.

— Oskan — disse Thirrin —, esteja pronto para chamar o rei dos Carvalhos quando eu ordenar.

O bruxo fez com que Jenny avançasse um pouco de onde estava, logo atrás da rainha e do Thar.

— Pronto eu vou estar, mas o que exatamente quer que eu diga

— Basta chamá-los. Eu serei meu próprio arauto quando chegar a hora.

Cavalgaram mais duas horas para chegar às primeiras árvores, onde Thirrin ordenou que parassem. Oskan desmontou e esperou enquanto dois corneteiros tocavam uma fanfarra que rever-berou por toda a floresta. Deu então um passo à frente e gritou:

— Saudações a Sua Majestade, o rei dos Carvalhos, senhor da Grande Floresta e de todos os lugares ermos depois do solstício de inverno. Saudações também ao monarca seu irmão, o rei dos Azevinhos, senhor da Grande Floresta e de todos os lugares ermos depois do solstício de verão. A rainha Thirrin Freer Forte-no-Braço Escudo-de-Tília, Gata Selvagem do Norte, envia seus cumprimentos, da mesma forma com que o senhor Tharaman, centésimo Thar dos leopardos-das-neves, senhor das Geleiras e flagelo dos trolls-do-gelo.

Sua voz foi sumindo entre as sombras das árvores e fez-se silêncio. Até mesmo o vento serenou, numa calmaria inquietante.

Mas, no instante em que Oskan respirava fundo para gritar de novo, um forte vendaval veio atravessando a floresta, rugindo e uivando como se alguém tivesse aberto uma porta para deixar passar um furacão. Então, o vento voltou a se reduzir a nada e, do emaranhado escuro da vegetação baixa, veio avançando uma divisão de soldados. Sua pele era do verde-acinzentado de cascas de árvores; os olhos, do verde brilhante de folhas de carvalho recém-abertas, e a armadura era polida e lustrosa como bolotas antes da maturação. Das tropas humanas e dos leopardos, ergueu-se um murmúrio e os cavalos relincharam, nervosos. Thirrin levantou a mão para obter silêncio e desmontou.

— Sejam bem-vindos, soldados do rei dos Carvalhos. Levem minhas cordiais saudações e minha gratidão ao seu senhor e acrescentem a seguinte mensagem: a rainha Thirrin da Terra do Gelo tem o prazer de conceder a Suas Duas Majestades o vale que desce da serra até as margens da sua floresta. Como amiga, ela sugere que Suas Majestades o encham com árvores e animais silvestres, estendendo assim as fronteiras do seu reino para sempre. Que Suas Majestades saibam que a rainha Thirrin faz este oferecimento em gratidão pela ajuda que lhe deram contra seus inimigos, bem como pelo auxílio que prestaram ao seu povo durante a retirada para o norte.

Depois de um instante de silêncio, um soldado-carvalho se adiantou das fileiras e ergueu a lança em saudação enquanto os demais batiam com a lança no escudo até a floresta ecoar com um ribombar ensurdecedor. E então, enquanto o som ia aos poucos desaparecendo, o vento aumentou de novo, enchendo toda a floresta, e os soldados-carvalhos recuaram no meio da vegetação baixa. O vento cessou e na calmaria ouviu-se a voz fascinante e refinada de Tharaman-Thar.

— Vivi para ver muitos assombros, que sequer foram imaginados por nossos poetas. Encontro-me abaixo de plantas gigantescas que arranham o céu com seus ramos, promovi a aliança do meu povo com os humanos das lendas e vi soldados feitos e moldados da própria matéria da terra. Que maravilha o tempo em que vivi! Que maravilha a vida que me foi concedida! Se eu morrer nesta guerra, não terei motivo para sentir tristeza. Tive mais riqueza do que se pode contar e luto por meus amigos que estão acima de todos e são a menina dos olhos do Único! — Com isso, ele jogou a cabeça para trás e soltou um rugido que retumbou pelas árvores afora e subiu para os céus como um estandarte de som esvo-açando com o vento. Imediatamente, os leopardos responderam e o barulho tremendo fez com que, num raio de quilômetros, corvos e gralhas saíssem voando aos milhares.

 

Lá estava Frostmarris na planície diante deles, ima-culada em seu manto de neve. Os lobisomens brancos que tinham puxado o trenó de Thirrin na viagem pelas terras setentrionais estavam agora atuando como patrulheiros " e tinham sido enviados à frente para confirmar que a cidade estava realmente desocupada, enquanto a cavalaria permanecia oculta sob a sombra da floresta. Já fazia mais de uma hora que os lobisomens tinham partido e Thirrin começava a pensar em mandar alguns cavaleiros, quando um uivo enfraquecido pela distância soou pelo ar gelado.

— O que estão dizendo? — perguntou Thirrin, impaciente, a Oskan; mas ele levantou a mão para ela ficar em silêncio enquanto ele se concentrava.

— Frostmarris não está ocupada por nenhum ser humano vivo — disse ele, por fim.

— E o que isso significa? — retrucou Thirrin, com aspereza.

— Estou só repassando as palavras exatas deles — disse ele, encolhendo os ombros. — Mas imagino que queiram dizer que não há nenhuma ocupação por parte de soldados do Império.

Tharaman-Thar ficou parado, farejando a brisa que soprava direto de Frostmarris.

— Pelo cheiro, a cidade está vazia — disse ele, dali a um instante. — Não farejo nenhum ser humano, nenhum cavalo, nem cachorros-amigos nem gatos-companheiros. Só ratos, camundongos e as criaturas menores. Frostmarris está esperando para ser reocupada.

— Vamos, então. Minha capital me aguarda — disse Thirrin, concordando.

A cavalaria se desdobrou pela planície numa coluna dupla de cavalo e leopardo. Os cavaleiros seguiram garbosos, com as lanças erguidas e flâmulas esvoaçando ao vento, quando Thirrin e o Thar avançaram com sua presença assombrosa. Logo atrás deles vinha trotando Jenny, revirando as orelhas cobertas pelos agasalhos de lã e de vez em quando soltando um pequeno zurro entrecortado que era rapidamente interrompido quando Oskan dava um puxão forte nas rédeas.

Com aquele ritmo, eles logo transpuseram a distância entre a floresta e a cidade e, à medida que se aproximavam dos portões principais, a tensão foi aumentando. O sol poente incendiou o enorme sino de bronze do solstício, suspenso acima da barbacã. Thirrin se debruçou para a frente na sela. Foi somente um controle enorme que a impediu de sair galopando adiante. De repente, Grinelda, líder dos lobisomens brancos, apareceu no portal e, jogando a cabeça para trás, uivou em sinal de boas-vindas. A cavalaria subiu rapidamente pela trilha sinuosa que levava à gigantesca porta elevadiça, onde todos fizeram alto.

Os portões estavam escancarados e um vento frio soprava forte pelo longo túnel de entrada, trazendo consigo uma surpreendente ausência de cheiros. Normalmente, a cidade apresentaria cheiros, principalmente fortes e desagradáveis, de fumaça, excrementos, gado, cavalos, pão assando, carne assando, cerveja e de seres humanos em geral. Mas agora seu alento era só o do inverno: neve, gelo e vazio.

Oskan olhou para Thirrin, esperando um longo discurso inspirador a respeito da retomada dos seus direitos e do simbolismo da reocupação de Frostmarris. Mas em vez disso ela ficou pálida e, depois de olhar fixamente pelo túnel por um tempo, acabou falando em voz baixa.

— Vamos. Vamos entrar de uma vez.

O ruído dos cascos com ferraduras sobre as pedras do calçamento ecoou ao redor deles quando saíram do túnel para a via principal da cidade. Sob o manto de neve imaculada, as ruas estavam mais limpas do que Oskan jamais tinha visto. Somente as pegadas dos patrulheiros do Povo-Lobo, quase parecidas com as de humanos, marcavam a neve em certos pontos, mostrando nitidamente os locais em que eles tinham vasculhado os prédios e as ruas em busca de qualquer sinal de ocupação. Mas tudo estava vazio.

Thirrin conduziu a cavalaria pela rua principal que subia em rampa suave até a cidadela. Ali também os portões principais estavam abertos. Ela desmontou para atravessar o largo pátio, levando o cavalo pela rédea. Voltou-se então e deu ordens ríspidas para seus comandantes, que saíram apressados para alojar cavalos, verificar o aquartelamento e posicionar sentinelas nas muralhas da cidade e da cidadela. Depois, caminhou até as portas duplas do salão-mor e, seguida por Oskan e Tharaman, as abriu e entrou a passos largos.

Depois da claridade do luminoso dia de inverno, o salão parecia negro como a noite. Aos poucos, seus olhos foram se ajustando e o espaço enorme e escuro, semelhante a uma caverna, se tornou nítido. O telhado de vigas aparentes ainda estava ornado com antigos estandartes de batalha e na outra ponta do salão o gigantesco trono de carvalho ainda estava