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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OCULTOS NA ESCURIDÃO / J. M. Simmel
OCULTOS NA ESCURIDÃO / J. M. Simmel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OCULTOS NA ESCURIDÃO

 

Por volta das 18h de 11 de fevereiro de 1984, um certo Daniel Ross estava começando a se suicidar em seu apartamento térreo na sossegada Alameda Sandhöfer, em Frankfurt do Meno. O dia 11 de fevereiro de 1984 caía num sábado. Ross tinha escolhido esse momento para seu suicídio com todo o cuidado. Em iniciativas desse gênero, mesmo quando os métodos são bastante seguros, persiste sempre o perigo de ser perturbado por alguém, descoberto a tempo e trazido de volta à vida, com possíveis lesões no cérebro ou nas funções de numerosos outros órgãos. Por isso mesmo, os suicidas costumam ir para o meio do mato, subir em alguma montanha, meter-se em alguma cabana de abrigar barcos à beira de um lago. Ou então preferem determinado instante em que estão convencidos de que, por longo tempo, não serão incomodados, somente sendo detectados quando realmente já for tarde demais. Daniel Ross escolhera um sábado à tarde. Porque depois haveria a noite de sábado para domingo, o próprio domingo inteiro e, ainda, a noite para segunda-feira. Só então é que viria a faxineira. As peripécias de Ross nos quatro meses precedentes haviam sido de tal ordem que ele tinha bons motivos para não esperar qualquer chamada, nenhuma visita, enfim, absolutamente qualquer interesse de quem quer que fosse por ele ou por seu estado. Embora desesperado com essa situação, de toda maneira ela o deixava tranqüilo naquele fim de tarde. Nevava em Frankfurt, embora só um pouco.

E pela segunda vez lançou um punhado de cápsulas brancas boca adentro, engolindo-as com um grande gole de uísque. O escocês era tomado puro, e no copo só ficaram cubos de gelo. Tratou de comer metade de um sanduíche de presunto, mastigando cuidadosamente. Preciso comer alguma coisa com isso, pensou ele, senão acabo vomitando tudo de novo. Estava sentado à sua escrivaninha com o abajur verde aceso. Não havia outra luz no grande escritório repleto de livros. A janela junto à secretária dava para um jardim maltratado, onde dois gatos se perseguiam com miados estridentes. Virou a cabeça. A vidraça espelhava o seu rosto, pois lá fora já havia escurecido. Desviou rapidamente os olhos. Com isso, seu olhar deslizou sobre a escrivaninha coberta de manuscritos, onde se fixou numa pequena placa de prata inclinada sobre um suporte. Havia nela palavras gravadas. Leia, pensou ele, leia mais uma vez; você nunca foi tão feliz como naquele tempo.

O MUNDO EM QUE VIVEMOS PODE SER ENTENDIDO COMO O RESULTADO DO CAOS E DO ACASO; SE, NO ENTANTO, ELE FOR O RESULTADO DE ALGUMA INTENÇÃO. DEVE TER SIDO O DESÍGNIO DE UM DEMÕNIO. CONSIDERO O ACASO UMA EXPLICAÇÃO MENOS PENOSA E MUITO MAIS PLAUSÍVEL.

BERTRAND RUSSELL

PARA DANIEL, AO COMPLETAR-SE UM ANO EM GRANDE AMOR

SIBYLLE

VIENA, 17 DE NOVEMBRO DE 1971

Bem, disse ele para si mesmo, assim você pensou nela ainda uma vez. Agora, é tocar para a frente! De um pequeno frasco de tampa rosqueada, deixou mais cápsulas brancas caírem na concha de sua mão direita. Ele era canhoto. Tinha posto tudo o que precisava sobre a escrivaninha: um copo, uísque, cubos de gelo num recipiente de prata, um prato com vários sanduíches e quatro embalagens de Nembutal, que agora estavam abertas. ao lado dos frascos.

Fora bem fácil arranjar o narcótico. Por causa de um forte resfriado que tivera em dezembro do ano anterior, ele havia procurado um médico no distante bairro de Eschersheim e mediante a encenação de pequena manobra para distrair o profissional, roubara um bloco de receitas no instante propício. Elas estavam todas pré-carimbadas. Só fora preciso preenchê-las. Em seguida, fora a quatro farmácias diferentes. Cada embalagem continha vinte e cinco cápsulas, e ele precisava de cem. Havia se informado convenientemente na emissora, com um médico que era conselheiro científico da revista de saúde Hora de Consulta. Uma cápsula de Nembutal continha cem miligramas de Fenobarbital. A mais alta dosagem diária tolerável era de oitocentos miligramas, portanto oito cápsulas. Dez gramas de Fenobarbital seguramente liquidavam com qualquer um. Eram cem cápsulas. Ross engoliu sua quarta mancheia com o uísque e, em seguida, comeu a outra metade do sanduíche de presunto. Lá fora, os gatos miavam.

Já em dezembro seu desespero atingira tal ponto, que ficou decidido: iria se matar. Não havia outra saída. Um homem não pode continuar vivendo, pensava, quando chegou ao fim. Já em dezembro quisera suicidar-se, mas aí morreu seu mais velho amigo. No Hospital Martin Luther, de Berlim. Voara imediatamente para lá. Uma enfermeira da noite lhe transmitira as últimas palavras do amigo Fritz.

— Ele disse: “Já é tempo de eu dar o fora.” Então, fechou os olhos e morreu...

Já é tempo de eu dar o fora.

Aquelas palavras não o abandonaram mais, tornaram-se uma obsessão. Já era tempo de dar o fora. Já era mais que tempo. Dia após dia, ele ficava pensando na frase. Sonhava à noite com Fritz e ouvia-o dizer as palavras. Mesmo de dia, acordado, chegava a ouvi-lo. Bem alto. A esse ponto o levara o maldito Nobilam. E nem podia pensar nas outras conseqüências desse maldito Nobilam.

Quis resolver a parada logo depois do enterro do amigo, ainda em Berlim, mas então recebeu a oferta de uma produtora independente de televisão. Mais três semanas, e a coisa não deu em nada. Em seguida teve a impressão de que conseguiria, com um esforço desesperado, livrar-se daquele troço infernal. Durante três dias, ficou fora de si de tanta felicidade, até que veio a recaída. Mas que recaída! Com as mais horrendas alucinações provocadas pela abstinência. Não, não havia mais nenhuma saída para ele, nenhuma. Quinta-feira passada conseguira bater o seu próprio recorde. Treze comprimidos de Nobilam tinham sido necessários para lhe tirar parcialmente o medo, para deixá-lo mais ou menos calmo. O nojo de si mesmo tornou-se grande demais, e ele decidiu pôr um fim a tudo no sábado. Nunca sentira autocomiseração, ao contrário do que geralmente ocorre. Apenas repugnância, raiva e abominação. Isso o ajudou, ajudou-o enormemente.

De novo engoliu outro punhado de cápsulas, repetiu outro uísque, comeu mais um pouco. Ross mastigava praguejando. Que brincadeira de merda com aquelas cápsulas de miligramas. Havia ainda uma porção delas. Precisava mandá-las todas goela abaixo. É evidente que o efeito aumentava com o uísque. Ora bolas, é por isso mesmo que você está bebendo, que diabo, seu viciado em comprimidos, pensava ele. Você não pode se arriscar. Quase defronte estão as clínicas da universidade. E, a quinhentos metros, a Rua Heinrich Hoffmann, onde está a psiquiatria. Portanto, nada de riscos. E nada de praguejar, nada de fazer teatro, viu? Até a Marilyn conseguiu, engolindo comprimidos. Ou como é que você acha que ela deu o fora? Então, vamos. E rapidinho com isso. Estava engolindo o último pedaço do segundo sanduíche quando o telefone tocou. Já perturbado. atendeu mecanicamente, tão perturbado que nem se zangou ao ser incomodado.

— Sim?

— Quem está falando?

Voz de mulher. Com sotaque. Sotaque de quê? Dane-se qual o sotaque, pensou ele.

— Deseja falar com quem?

— Com o Sr. Daniel Ross.

— Ele não respondeu.

— Alô!

— Sim.

— O senhor é Daniel Ross?

— Sim. Que deseja? — Então notou que já estava com a voz levemente engrolada, e isso o encheu de satisfação. Já está começando, raciocinou. Bebeu um gole enorme.

— Meu nome é Mercedes Olivera. Preciso lhe falar urgente.

Ross colocou o copo na escrivaninha, com dureza. Agora estava furioso.

— Ah-ah!

— Como?

— Grande piada. E quem é a senhora? Alguém da emissora? Está com quem aí? Quem são os outros engraçadinhos? Quem são os filhos da puta — gritou fora de si, e assustou-se. Não, gritar não. A criatura vai pensar que alguma coisa está errada por aqui. Vem para cá. Manda alguém. A polícia. De repente sentiu um calor insuportável, o suor começou a escorrer. Isso ele já conhecia. Era do Nobilam. Há muito tempo já tinha uns acessos de transpiração, às vezes durante o sono, também na emissora, em pleno trabalho. Eram repentinos. O suor lhe corria da testa para dentro dos olhos. Por isso ardiam. Ele o sentia também correndo pelas costas, por debaixo do pijama. Sim, Ross estava de pijama, já se havia aprontado para dormir antes de começar com as cápsulas. Disse:

— Me desculpe. Sinto muito. Perdi a cabeça. A senhora está procurando um outro Ross. Ross é um nome muito comum.

— O senhor mora na Alameda Sandhöfer? — a voz soava muito decidida.

— Sim.

— Então é o senhor mesmo!

Isso está virando uma conversa de idiotas, pensou ele. E se forem uns caras que ainda estão lá na emissora e querem me engambelar? Não, imaginou. Não. Estão todos muito satisfeitos de não terem mais nada a ver comigo. Esses não tocam mais em mim. Estou empestado. Estou com a peste. Mas então quem é essa mulher? Onde é que ela está?

— Onde é que a senhora está?

— Em Kloten.

—  Onde?

— Aeroporto de Zurique. Se chama Kloten — ou não?

De repente, começou a música. Baixinho. Lenta, antiquada, doída. Uma voz misteriosa de mulher cantava: “... se eu pudesse desejar alguma coisa...”. Sibylle. Nossa canção,lembrou ele. Como é que essa música entrou na linha?

Agora, todo o seu corpo estava tremendo de susto. Mas o que é isso, pensou apavorado. Estarei ouvindo de novo uma voz, assim como eu ouvia a voz de Fritz? E ainda com música? Nossa canção? E uma segunda voz? Será o maldito Nobilam? E se as visões começarem novamente? Será um delírio do medicamento? Agora, sábado à noite? Com todo o Nembutal na barriga? Ele entrou em pânico, saltou da cadeira e gritou:

— A senhora é mesmo...?

— Não estou entendendo.

“... se eu ficasse confusa...” cantou a voz de mulher, entrando ruidosamente uma orquestra.

Oh, não, por favor. Não, não, pensou desesperado. Mordeu o lábio inferior. Sentou-se de novo. De repente, sentiu um mal-estar. Isso acontecia com freqüência, subitamente. Podia agradecer isso também ao Nobilam. Mas sem esse desgraçado desse Nobilam não consigo viver! Cada vez pior. Está ficando cada vez pior. Loucura! Eu não quero viver! Morrer é o que eu quero. Bebeu, serviu-se de mais uísque, bebeu de novo. A garrafa bateu no copo, de tanto que sua mão tremia.

— Alô! — agora a voz da mulher estava inquieta. — Alô! O que tem o senhor? Está doente? Está precisando de alguma coisa, Sr. Ross?

— Eu... estou... ótimo... A senhora está mesmo... — Ele engoliu, o mal-estar havia desaparecido.

— O que significa: a senhora está mesmo?

— A senhora está mesmo... em... Kloten? — Controle-se, homem. Sujeito de merda. Neurótico. Histérico, desgraçado, você tem é de se controlar.

— É o que estou lhe dizendo! Estou falando aqui de um bar. O barman teve a gentileza...

“...o que eu então desejaria...”

Isso eu não agüento. Não agüento mais. Ele gritou:

— Tem música por aí?

—, Sim. O barman botou um cassette no toca-fitas. Está dando para ouvir a música?

— Ah... — Ele sentiu imenso alívio. Seu humor mudava de um segundo para o outro. Havia essa mulher. Havia também:

“Se eu pudesse desejar alguma coisa.” Tudo era real. Nenhum delírio lhe iria estragar a morte. Mas por que queria essa mulher falar com ele?

“...nos tempos bons ou maus...” A misteriosa voz feminina. A orquestra. Um piano. Sibylle. Naquele tempo em Viena, quando éramos tão jovens e felizes. E agora? Logo agora? Ah, Sibylle...

— Eu acabei de chegar, Sr. Ross.

— De onde está chegando?

— De Buenos Aires.

“...se eu pudesse desejar alguma coisa...” Era a Dietrich, ela estava cantando! Claro, a Dietrich. Marlene Dietrich.

— De onde?

— De Buenos Aires.

“...quero ser um pouquinho feliz...”

— É da mais alta importância. Preciso falar logo com o senhor.

“...porque se eu fosse por demais feliz...“

— Não conheço a senhora.

“...se eu tivesse nostalgia de estar triste”, cantava Marlene Dietrich. A orquestra tocou mais alto e terminou a canção. Entrou outra música.

— Mas eu conheço o senhor!

Não, isso ser humano nenhum podia agüentar. Era insuportável. Deixou cair o fone. Caiu-lhe no colo. Colocou-o no gancho e voltou a beber novamente, em goles longos. Ofegava um pouco. Subitamente, sentiu asco do pijama úmido. Levantou-se, inseguro, e caminhou através do grande escritório escuro com suas estantes de livros. Entrou no seu quarto, onde acendeu uma das lâmpadas de cabeceira, à esquerda e à direita da cama. Tirou um pijama do armário embutido, despiu o outro e, no banheiro, secou o corpo, esfregou-se com água-de-colônia e vestiu o pijama novo. Como uma onda poderosa, o cansaço abateu-se sobre ele. Para a cama. Já para a cama. Já tinha afastado as cobertas, quando lhe ocorreu algo. As cápsulas! Tinha de tomá-las todas, até a última. E trancar a porta! Voltou cambaleante pelo mesmo caminho até a escrivaninha. Quando tinha acabado de engolir as últimas cápsulas com uísque, o telefone começou a tocar novamente. Completamente atordoado, ergueu o fone e ouviu de novo a voz dela:

— Aqui é...

— Sim, já sei. Vá para o inferno! - Ele estava farto. Para a cama. Queria ir para a cama. Dormir. Morte. Paz.

— Sr. Ross. Eu lhe suplico!

— Sim, sim — disse ele e pensou: a Dietrich não está cantando mais. Essa outra música, eu não conheço.

— Precisamos fazer uma viagem juntos.

— Coisa nenhuma — replicou ele.

— O quê?

— Coisa nenhuma. Estou de partida.

— Mas... mas... O senhor não pode fazer isso! — gritou ela. Agora era ela quem estava gritando.

Ele riu com malvadeza.

— Não ria! O senhor nem sabe de que se trata!

— Tudo bem — disse ele, repondo o telefone no gancho.

Abaixou-se em seguida e desconectou o telefone da parede. Pronto. Agora a maluca não podia mais chamar. Ninguém mais poderia. Foi até o vestíbulo, girou a fechadura de segurança da porta de entrada, trancou-a e passou a corrente. Do quarto vinha uma réstia de luz para dentro do escritório. Ross apagou a luz da escrivaninha e cambaleou de volta para o quarto. Também aqui a janela abria para o jardim. O gato e a gata no cio continuavam estridentes. Ross precisava ir ao banheiro. O misterioso telefonema daquela mulher, ele já havia esquecido. Estava bastante embriagado e sonolento. Repentinamente lhe vieram à cabeça as palavras de Bertrand Russell, e ele pensou no demônio que, de propósito, havia produzido este mundo de caos e de acaso. Sorriu. Agora você vai morrer, disse, e uma grande felicidade o invadiu. Acalmava a cada minuto que passava. Dormir, pensou. Dormir e nunca mais precisar acordar. Sorriu mais. Não há vida após a morte e não existe nenhum Deus. O argumento dos que nele acreditam, pensou, a causa original, é bobagem. Afirmam que tudo o que ocorre neste mundo tem uma causa e que se chega necessariamente a uma causa original quando se faz o caminho de volta que liga cada efeito à sua causa. E essa causa original é Deus. Mas se tudo tem de ter uma causa, também Deus necessita de uma. E se existe alguma coisa que não tenha uma causa, então tanto pode ser Deus como o mundo. Qual o desgraçado, pensou ele, que é capaz de me indicar um motivo por que também o mundo não poderia ter começado a existir sem uma causa original ou por que ele não pode ter sempre existido? Quem disse que o mundo precisa de ter tido um começo? Por quê? Essa idéia fixa, de que tudo precisa ter tido um começo, é simplesmente uma conseqüência de nossa capacidade de imaginação ridiculamente limitada.

Deixou o banheiro, deitou-se e apagou a luz. Afinal, tudo acabou mesmo dando certo, refletiu. No jardim, os gatos faziam grande estardalhaço e do céu leitoso pelas luzes da cidade caíam flocos de neve sobre a terra imunda. Alguns minutos, e ele adormeceu. E sonhou com o demônio que inventara o mundo.

— É evidente que nunca iremos impor nosso direito por intermédio da violência, mas insistiremos nele, e consideramos óbvio que esse direito de termos uma pátria e a reunificação de nossa terra natal, na paz e na liberdade, é para todos os políticos que efetivamente pensam em termos alemães uma conditio sine qua non e que igualmente o é para todos os políticos decentes de outros países. Por isso, continuamos a reagir com ardorosa indignação contra a chamada Ostpolitik* que o Sr. Brandt pôs em prática, assim como contra o escandaloso reconhecimento da linha Oder—Neisse. Nós não reconhecemos esta linha e nunca o faremos!

Essas palavras foram proferidas na terça-feira, 8 de novembro de 1983, no estúdio III da emissora de televisão de Frankfurt, por um homem chamado Siegfried Woitech, vice-presidente da União das Federações dos Expatriados da Alemanha.

Daniel Ross, um homem esguio e quase magro de quarenta e seis anos, com cabelos espessos embora já completamente brancos, melancólicos olhos cinzentos e uma larga boca num rosto estreito, estava sentado à mesa, em frente ao funcionário. O programa quinzenal FOCUS, de que Ross era redator e apresentador fazia já seis anos, começara há cinco minutos. Esse programa, extraordinariamente apreciado pelos telespectadores em virtude de sua absoluta naturalidade, somente apresentava entrevistas a respeito de temas atuais, e todas as discussões eram transmitidas ao vivo, sem ensaio prévio. Ele se ocupava, tal como o programa SINAL D, da emissora Berlim Livre, com acontecimentos de interesse para os dois Estados alemães. Nos três quartos de hora em que ia ao ar, entre 21 e 2lh45m, FOCUS contava com um número crescente de colaborações, e Ross sempre conversava com diversas pessoas. Siegfried Woitech havia sido convidado porque sua Federação organizara no dia 4 de novembro uma grande manifestação no Pavilhão da Westfália, em Dortmund, que resultara em tumultos e grande pancadaria entre ouvintes de orientações muito diferentes. Dois pelotões de policiais

 

 *Política de abertura para os países do Pacto de Varsóvia. (N. do R.)

 

tiveram de intervir, e o resultado foram onze feridos em estado grave e um grande número com ferimentos leves. Uma série de pessoas fora detida provisoriamente. Jornais, rádio e televisão noticiaram a respeito, cada um enfocando à sua maneira, desde “contingentes do terrorismo comunista” até “excessos da mais perigosa espécie, provocados pela direita radical”. Siegfried Woitech foi o primeiro convidado de Daniel Ross no FOCUS de 8 de novembro de 1983. Três câmeras eletrônicas registraram a conversa. Antes da emissão do programa, Ross conduzira Woitech para a sala da produção, que se situava no andar superior e através de cujas grandes janelas se podia ver lá embaixo o estúdio. Ele apresentou o convidado ao diretor, à coordenadora de imagens e ao engenheiro de produção, e Woitech ficou assim sabendo que as coordenadoras de imagens, por indicação do diretor, escolhiam nos monitores entre as tomadas que os câmeras transmitiam com seus pesados aparelhos. Todos esses monitores se achavam acima da mesa de produção. A qualidade de som era controlada de outra sala.

— Quando na câmera que estiver dirigida para o senhor se acender uma luz vermelha, isso significa que a sua imagem foi escolhida e vai diretamente ao ar. O senhor será então visto em todas as telas de televisão ligadas em FOCUS — explicara Ross ao funcionário Woitech. Então, quando este fez sua declaração de princípios e manifestou sua ardorosa indignação a propósito da política do Leste de Willy Brandt, piscou a luz vermelha da câmera que estava à sua frente, sobre um pesado tripé. A idéia de que muitas centenas de milhares de pessoas no país o tinham, por assim dizer, em suas salas, pôs Woitech quase em estado de êxtase.

Como a lampadazinha da câmera à sua frente continuava piscando, ele acrescentou:

— O Sr. Brandt não estava aqui durante a guerra. Não sabemos o que ele fazia lá fora. Nós, nós estávamos aqui. Sabemos o que fizemos aqui dentro. Para meus amigos e para mim, em todo caso — aí Woitech ergueu a voz e a cabeça redonda —, estas palavras continuam sendo ainda sagradas. . . — ele pigarreou, encarou sério diretamente a objetiva da câmera que o fixava e via-se como seus olhos ficavam úmidos: — Eu me dei de corpo e alma a ti, terra plena de amor e vida, minha querida pátria!

Enquanto prosseguiam essas longas declarações, durante as quais só Woitech estava no ar, uma maquiladora. que acabara de retocar o rosto de Ross com um diluente, notou preocupada que o moderador estava tendo uma violenta transpiração. Gotas

escorriam-lhe da cabeça para a nuca e para dentro do colarinho da camisa. Os lábios de Ross estremeciam. Seus dedos tremiam e ele cruzava as mãos sobre os joelhos.

— O que houve? — cochichou a maquiladora. assustada. O apresentador era apreciado por todos. Gostavam dele.

Diante da pergunta da moça, ele limitou-se a balançar a cabeça.

— Tudo em ordem?

Ele assentiu com a cabeça e fez um sinal para ser deixado sozinho. A maquiladora desapareceu atrás da cortina do estúdio. Para os operários do estúdio e dois convidados de Ross que estavam ali esperando, ela disse preocupada:

— Ele está tendo alguma coisa. Um médico, talvez, a gente...

— Bobagem — disse um operário. — Isso já aconteceu algumas vezes, Olga. Vive tomando pílulas, você sabe, antes de qualquer FOCUS. São as pílulas. Precisa de médico coisa nenhuma.

De fato, Ross já havia sofrido tais assomos de transpiração durante a emissão, e eram devidos, e nisso o funcionário estava inteiramente certo, a uma grande quantidade do psicotrópico Nobilam, que Ross, há doze anos, regularmente tomava todas as manhãs, em dosagens demasiado elevadas. Antes de qualquer de seus programas e também em qualquer oportunidade que exigisse grande concentração e trabalho, ele tomava uma ração adicional. Essa noite, entretanto, e ele o notava no maior nervosismo, a droga que sempre o acalmava e o fazia seguro de si, estava tendo efeitos opostos. Ela o estava excitando! Ele sentia o suor lhe banhar o corpo inteiro, seu coração batia disparado, e sentia-se dominado por uma cólera cega por tudo o que Woitech dissera. Por último, acrescentara ainda a seu poema as palavras “Pobre Pátria dividida!”

Ross inclinou-se para a frente. Sobre a testa já havia nova mente algumas gotas de suor. Sua face tremia.

— Aiaiaiai — disse lá em cima o diretor em sua cabine. Vergou o microfone que saía do painel à sua frente, aproximou-o e disse: — Dois, Charley, chegue bem perto de Daniel!

O homem atrás da câmera 2 usava, como seus colegas, os fones de ouvido. Logo em seguida apareceu o rosto de Ross ocupando inteiramente a tela do monitor.

— Dois — ordenou o diretor para a coordenadora de imagens. Ela fez que sim, inclinou-se sobre o painel com os muitos botões reguladores, pequenas lâmpadas e comutadores, e imediatamente se acendeu a luzinha vermelha na câmera 2,

Ross dizia muito excitado:

— Nossa pobre pátria, meu caro Sr. Woitech, está dividida porque nós alemães, sob um regime de criminosos, sob os maiores criminosos que conheci na História, começamos uma guerra criminosa, a maior que conheci na História...

— Epa! — exclamou o diretor diante do seu painel no andar de cima. Chamava-se Kramsky e estava um tanto embriagado. Isso acontecia com freqüência. Muitos membros da equipe da emissora de Frankfurt — e também de outras estações — estavam freqüentemente mais ou menos bêbados.

— ... uma guerra — prosseguia Ross cada vez mais alto e indignado enquanto sentia o sangue latejando em seu corpo e o maldito Nobilam atuando às avessas — em que sessenta milhões de pessoas pereceram, dos quais quatro vírgula oito milhões de alemães e vinte milhões de russos... - uma guerra.

— Um momento, por favor — disse o funcionário Woitech bem calmo.

— Agora falo eu, Sr. Woitech. Eu também o deixei falar... uma guerra na qual grandes, antigas e belas cidades, entre as quais a nossa, afundaram em escombros e cinzas..

— Dê-lhe duro! — exclamou Kramsky satisfeito, e para dentro do microfone: — Se der jeito, Charley, chegue mais perto de Daniel!

Lá embaixo no estúdio, atrás da câmera 2, Charley fez que sim com a cabeça. A imagem de Ross ficou enorme no monitor. E a luz vermelha da câmera 2 piscava, piscava, piscava.

Ross estava fora de si.

— ... uma guerra, em que países prósperos, entre os quais a nossa pobre pátria, foram totalmente devastados e em que nós não deixamos aos infelizes habitantes de todos esses países senão os olhos para chorar; uma guerra na qual, em campos de concentração, alemães assassinaram seus irmãos alemães e seis milhões de judeus... uma guerra na qual...

Woitech sacudia a cabeça.

— Até o senhor começa de novo com essa revoltante asneira, Sr. Ross! Um apresentador alemão numa televisão alemã quer atestar de qualquer maneira a culpa alemã, tst, tst, tst.

— Jorge — disse o bêbado Kramsky encantado — agora você, rápido! Chegue também bem perto do sujeito!

A coordenadora de imagens, uma bonita jovem em seu comprido avental azul, começou a tremer.

— Parem! — gritou ela. — Chega!

— Parar merda nenhuma — disse Kramsky. — Quando é que acontece uma coisa dessas? — E bateu na mão da moça, que queria girar um botão. — Você quer largar isso aí, sua vaca? Caia fora! Fora, eu estou dizendo! — E a empurrou. Ela escorregou do assento, cambaleou. atrapalhou-se e foi parar com as costas contra a parede da cabine, onde continuou de pé, os dois punhos fechados, apertados contra a boca.

Enquanto isso — ouvia-se tudo pelos alto-falantes da cabine — Woitech continuara a falar baixinho, numa quase advertência:

— Mas quanta coisa irresponsável está o senhor dizendo aí. Sr. Ross! Historiadores americanos e ingleses mundialmente reconhecidos e respeitados, como Toland e Irving, comprovaram em suas obras que esta guerra nos foi imposta. E já chega com essa história dos judeus! Não há dúvida, alguns foram mortos. Mas nunca seis milhões. No máximo, dois. A velha mentira, para que também os nossos netos se sintam culpados perante Israel e continuem pagando, pagando, pagando... — E levantando uma das mãos: — E quantos alemães não foram expulsos de suas casas e terras pelos russos, poloneses e tchecos? A quantos não foi tomado o torrão natal? Posso lhe dizer, Sr. Ross: doze milhões! Sim, senhor, doze milhões de expatriados! Quantos alemães não morreram na fuga, na expulsão, nos deslocamentos forçados? Quase três milhões! E quantos foram abatidos como animais depois de 45? Centenas de milhares, muitas centenas de milhares! Ê preciso pôr um ponto final nessa história de arrastar nosso povo pela lama!

Enquanto Woitech falava, a maquiladora tentava restaurar novamente o rosto de Daniel Ross. Estava fora das objetivas. Ela espalhava um pó de maquilagem com um pompom e sussurrava suplicante:

— Por favor, Sr. Ross, deixe isso! Pare com isso! O senhor está estragando a sua vida.

Ele abanava mudamente a cabeça, exasperado.

— Ele está tendo alguma coisa — gritou a coordenadora lá em cima na cabine. — Vocês não estão vendo como ele está mal? Corta, corta!

— Eu também acho — disse o engenheiro de produção, sentado num canto. — Kramsky, você está arrumando encrenca, estou lhe dizendo.

— E os jornais amanhã? E o escândalo, homem? E você acha que eu vou deixar escapar essa chance?

— Você está maluco! Você vai é para a rua!

— Eu estou de porre. Você conhece um só cara que eles tenham chutado só porque estivesse de porre? Chegue mais junto do Woitech, um!

B a câmera 1 se aproximou mais de Woitech, que havia continuado a falar:

— Quem eram os verdadeiros criminosos? Quem assassinou os oficiais poloneses em Katyn? Quem destruiu Dresden, que estava entupida de refugiados? Quem violentou nossas mulheres e filhas? Quem pregou gente nos portões de nossos celeiros? E os jogou pelas janelas? E os jogou amarrados uns nos outros dentro dos rios? Quem espancou, pisoteou e torturou até a morte? Essas hordas asiáticas.

Na cabine de direção tocou o telefone. O engenheiro de produção foi atender. Uma voz alta explodiu de dentro do aparelho. Ele se empertigou, assustado.

— Aqui é Colledo — berrou a voz masculina. — Quem é o senhor?

— Zettler. Engenheiro de produção, Sr. Colledo.

Do alto-falante saía a voz de Ross, lá embaixo no estúdio.

— As hordas asiáticas... Aí temos de novo a velha história de sempre! E exatamente o senhor quer uma reunificação na paz e na liberdade, um homem como o senhor?

— Quem está dirigindo?

— Kramsky.

— Me passe ele! Ande, vamos, vamos!

O Zettler estendeu o fone ao diretor.

— Agora a merda está feita — disse ele. — Colledo.

O diretor atendeu ao telefone

— Kramsky! — berrou Conrad Colledo, chefe da divisão de política e atualidades da emissora. — O que está acontecendo com você? Bêbado de novo, não é?

— Sim, Sr. Co

Enquanto isso, Ross continuava aos berros. A maquilagem escorria pelo seu rosto junto com o suor e lhe pingava na camisa. De vez em quando, arquejava lutando por ar.

— Reunificação! Ouça aqui, em setenta anos, nós começamos três guerras! Uma Alemanha unificada é perigosa demais. Precisa continuar dividida. Essa é a opinião do mundo inteiro.

— Como é que isso continua ainda? — ouviu-se do fone a voz de Colledo.

— Eu tenho... Nós estamos... estamos inteiramente perplexos... Nós. .. O senhor nos desculpe, Sr. Colledo queira nos desculpar!

— Desligue tudo, estou dizendo! — gritou Colledo.

— Nem o senhor, Sr. Woitech, nem o senhor quer a reunificação, seja honesto! Qual é a sua remuneração como...

A voz de Ross foi interrompida. Os monitores da cabine tremiam, escuros. Kramsky interrompeu finalmente a transmissão. Através do grande vidro ele viu como os três câmeras, as maquiladoras e os ajudantes de palco acorreram em direção aos dois homens à mesa do cenário para tentar acalmá-los. Nas telas dos monitores aparecia a indicação: DEFEITO TËCNICO. Foi colocada música.

- Graças a Deus, pelo menos uma pessoa normal no estúdio — soou a voz de Colledo ao telefone. — Quem é a locutora da noite?

— A Ilse.

— Já vou ligar para ela e dizer o que ela deve falar. E o senhor vá tratar de Ross e desse Woitech. Ele não deve sair da emissora em hipótese alguma. Esconda-o dentro de um camarim. O homem precisa ser vigiado. Dê champanha para ele, caviar, sei lá eu o quê... os jornalistas não podem se aproximar dele de jeito nenhum antes que eu tenha falado com ele.

— Todos os portões estão trancados, Sr. Colledo.

— Eu quero dizer, pelo telefone, seu cafajeste beberrão! Confesse que o senhor fez tudo isso de propósito!

— Sr. Colledo, eu juro...

— Tá, tá. Nenhum de vocês me saia daí! Já estou a caminho. Dentro de meia hora estarei aí.

— Santo Deus... — Kramsky vira o estúdio através do vidro,

— Santo Deus, por quê?

— O Sr. Ross não está passando bem. Dois ajudantes de palco o estão segurando de pé. Ele está ruim mesmo, Sr. Colledo.

— O senhor deve levá-lo para o médico do estúdio!

Kramsky ligou o circuito de alto-falantes para o estúdio e chamou pelo microfone:

— Levem-no ao médico.

— Pelo teu palpite é que a gente estava esperando — gritou um ajudante.

— O senhor — vociferou Colledo —, vá também imediatamente para o médico. E vai soprar o canudinho, Kramsky! Imediatamente, está me entendendo. O Zettler também. Estão me entendendo? — A ligação foi interrompida.

A coordenadora de imagens soluçou alto.

— Cale a boca, sua vaca — disse Kramsky; e para o engenheiro de produção: — Como é que é, então, vamos?

— Vou indo em seguida.

Kramsky desapareceu. A porta fechou-se atrás dele.

O engenheiro de produção abaixou-se até o chão e tirou uma garrafa de conhaque de dentro de um alçapão do piso. Tirou-lhe a rolha e tomou um bom gole.

— Que está fazendo? — gritou a mulher, horrorizada.

— Não está enxergando? Estou enchendo a cara. Também tenho que ficar de porre. Se não ficar, não há desculpa por não ter desligado mais cedo. — Ergueu novamente a garrafa. Depois disse: — Somos uns idiotas.

 

— Kramsky e Zettler tinham ambos acima de um e meio por mil — disse Conrad Colledo enquanto andava rapidamente de um lado para o outro dentro de seu grande gabinete. — Você, absolutamente nada. Dá vontade de chorar, homem. Por que você não pôde também encher a cara?

Daniel Ross não respondeu.

Ele estava sentado numa poltrona de tubos de aço, olhando fixamente uma litografia de Picasso pendurada na parede. Representava uma cabeça de mulher de perfil e, ao mesmo tempo, de frente. A mulher tinha apenas um olho.

O grande edifício da administração estava ligado aos estúdios de gravação por uma passarela fechada. A estação de Frankfurt ficava nas proximidades da cidade de Königstein, nos montes Taunus, ao pé do grande Feldberg, a vinte e cinco minutos de carro de Frankfurt.

— Se você estivesse embriagado, não aconteceria nada. Você sabe muito bem que nas emissoras se bebe de tal forma que se instalou uma poderosa rede de assistência social para alcoólatras. Ninguém é demitido por estar bêbado, mesmo que provoque o maior inconveniente. Veja o caso do Juhnke, por exemplo. O que ele já não estragou em matéria de programas! E daí? Todo mundo gosta dele. Você, com suas pílulas de merda. Agora a catástrofe está aí.

Ross continuava sem responder.

Estava muito pálido e seu rosto brilhava de tanto creme com que a maquiladora tinha limpado a pintura. Ela pusera creme em excesso, e quando tentou limpar o que sobrava com um lenço de papel, Ross, tremendo de inquietação, a empurrara para o lado e fora embora. A pintura manchava o colarinho branco da camisa que Ross trazia aberta, com a gravata desapertada, e sem paletó, já que estava novamente sentindo calor. Sob os olhos cinzentos havia olheiras escuras, e seu cabelo branco luzia sob a forte luminosidade vinda do teto.

Já passava de meia-noite. Colledo ficara horas com um Siegfried Woitech exaltado, e mobilizara toda a sua arte de persuasão. Nesse ínterim, havia sido informado dos resultados dos exames de teor alcoólico sangüíneo de Kramsky e Zettler, e praguejara silenciosamente ante o formulário que trazia o nome de seu velho amigo Daniel Ross, onde se via assinalado, do lado, um zero cortado pelo meio.

Em seguida, voltara-se de novo para o funcionário Woitech, que se encontrava profundamente atingido em sua honra de íntegro democrata — palavras com que ele mesmo se autodefinia. Colledo sabia que tinha de fazer tudo para acalmar o homem. Nenhuma pessoa sensata iria comprar briga com as Federações de Expatriados. Ainda em casa, Colledo telefonara para o superintendente, Sr. von Karrelis, conversando a respeito do futuro de Daniel Ross. Depois, explicara a um superexcitado Siegfried Woitech que o superintendente da emissora assegurara que Ross, no dia seguinte, quarta-feira, durante o horário nobre, logo após o noticiário das 20 horas, iria, perante as câmeras, pedir desculpas pelo seu grave deslize.

— Fará ele isso de fato? — perguntou o funcionário incrédulo.

— O senhor tem a palavra do superintendente, Sr. Woitech. Daniel Ross irá formalmente apresentar suas desculpas e dar uma satisfação tanto ao senhor quanto às Federações de Expatriados. Com isso, a sua honra terá sido efetivamente restabelecida — ou não?

— Bem, estará sim — disse Woitech. De repente, ele riu.

- O que há? — perguntou Colledo.

— O senhor me ofereceu champanha o tempo todo, Sr. Colledo, e eu, naturalmente, recusei. Mas, já que é assim... realmente, acho que vou tomar uma taça, depois de toda essa agitação. Mas o senhor terá de beber comigo.

— Com muito gosto.. — Colledo pegou uma garrafa de dentro de um balde que uma moça trouxera da cantina há horas, junto com duas taças. Colledo abriu a garrafa e encheu os cristais até a metade, estendendo um para o homem da cabeça redonda.

— Vamos tocar? — exclamou Woitech.

Tocaram-se, então, os copos e eles beberam, depois de Woitech ainda ter erguido o seu e olhado Colledo seriamente nos olhos, enquanto lhe desejava “saúde!”.

Após a terceira taça, já se sentia comovido e festivo.

- O senhor é uma pessoa extremamente decente, Sr. Colledo. E o seu superintendente também. Vou evidentemente dizer aos meus camaradas de que modo o senhor se comportou, como tomou suas enérgicas medidas. Tiro meu chapéu, Sr. Colledo! Muito correto! Também o direi a todos os jornalistas. Dá-me pena o Sr. Ross, mas um homem que não sabe conduzir uma entrevista é totalmente inconcebível num programa desses. Não é verdade?

— O Sr. Ross é um homem muito competente, apenas doente.

— Mas qual é o seu problema?

— Os nervos, Sr. Woítech.

— Ah, é isso. Mas então ainda é pior! O senhor não pode deixar um doente dos nervos ficar delirando por aqui!

Estas últimas frases Conrad Colledo não repetiu mais tarde, em seu escritório, para Daniel Ross. Todo o resto, sim. Ross ficou sentado, sem qualquer reação, escutando sem replicar. Colledo corria ainda de um lado para o outro.

— Você se incomodaria muito em se sentar, Conny? — perguntou Rosa com voz rouca.

— Desculpe-me.

— Eu é que lhe peço desculpas. Estou com uma dor de cabeça de enlouquecer.

Colledo deixou-se cair numa cadeira de tubos de aço atrás da escrivaninha do mesmo estilo, coberta com um grosso tampo de cristal. A enorme sala estava decorada em estilo moderno e tinha quatro janelas, que não podiam ser abertas por causa do sistema de ar condicionado. As quatro janelas eram um símbolo de status. Mostravam que Colledo estava investido de uma alta posição dentro da hierarquia da emissora. Havia funcionários com três janelas, duas, e muitos de uma só. A sala do superintendente possuía seis janelas e era gigantesca.

— Você vai, então, desculpar-se hoje à noite, Danny — disse Colledo baixinho. Soava quase como um pedido.

— Naturalmente — respondeu Ross sem levantar a cabeça. — Eu faço tudo. Realmente, eu também lamento muito.

— E que você, depois disso, não vai mais poder ficar à frente das câmeras, você também compreende.

— Entendo. Afeiçoei-me muito a FOCUS. Era o meu programa. Eu o construí. Seis longos anos; graças a você, ninguém jamais se intrometeu uma só vez.

— Sim, mas agora...

— .. . acabou. Claro. Perfeitamente claro. — E Ross perguntou: — E o que vai acontecer comigo?

— Programa infantil — disse Colledo exausto. Também ele puxou para baixo a gravata e abriu o colarinho.

— O quê?

— Claro que não! — Colledo bateu com a mão sobre o tampo de cristal. — Eu queria dizer alguma coisa igualmente atraente. Qualquer coisa absolutamente sem importância em um departamento absolutamente sem importância.

— Acho que está claro para você — disse Ross enquanto finalmente passou a encarar o amigo — que eu não me posso dar a esse luxo. Por causa dos colegas nas outras emissoras. E por motivos — desculpe-me a palavra dura — de amor-próprio. Isso também está claro para você?

— Evidente.

— O que acontece então se eu me recusar a aceitar uma tal posição?

— Então você precisa demitir-se. Não fique me olhando assim. homem — exclamou Colledo — Poxa, não olhe assim! Sou seu amigo! Trabalhamos juntos durante vinte e um anos. Graças a você, estou sentado nesta cadeira. Você me trouxe da Süddeutsche* quando o lugar aqui ficou vago. Você acredita que eu possa esquecer isso? Esses seus malditos comprimidos!

* Grande jornal de Munique. (N. do R)

 

— Você tem mesmo de tomá-los, sem apelação? Não pode viver sem essa porcaria?

— Não — respondeu Ross. — Não posso.

— Desculpe-me.

Depois disso, ambos ficaram em silêncio. Ouviam uma sirene de ambulância que crescia e decrescia.

— Se eu pedir demissão, serei indenizado? — perguntou Ross finalmente.

— Não.

— E se eu não me deixar transferir e não pedir demissão?

— Já combinei tudo com o superintendente. Você trabalhou tão bem por tanto tempo, Danny. A emissora vai demiti-lo. Neste caso, você recebe uma indenização. Mas cair fora, você precisa. No seu estado, vai acontecer a mesma coisa da próxima vez. Meu Deus, que história indecente e imunda! Seus comprimidos! Essa coisa de você ficar devorando seus comprimidos é que é responsável por tudo! Você está arruinando sua carreira com esse troço, sua saúde, sua capacidade de trabalho!

— Não é correto — disse Ross. Isso soou altivamente. — Tomo isso há doze anos. Alguma vez você notou que eu, por isso, não podia trabalhar decentemente? Nunca! Sem esses comprimidos eu não conseguiria trabalhar.

— Porque você está viciado.

— Não estou viciado. Só preciso de minha dose. Não fica maior. Fica sempre igual. O que você acha, quantas pessoas tomam tranqüilizantes? De que é feita a nossa vida? De nervosismo, tensão, medo de não acertar, medo indeterminado, medo da próxima catástrofe. Medo! Medo! Medo! A gente precisa então se ajudar, quando se é inclinado para isso. Você não tem essa propensão, considere-se feliz! Muitos bebem, você bem sabe, toda a televisão está submersa em aguardente. Outros tomam tranqüilizantes. Eu, por exemplo.

— As circunstâncias que você acaba de enumerar fazem parte da vida. Medo é muitas vezes um mecanismo de segurança importante. Tensão pode elevar a produtividade.

— E quando você não agüenta mais o estresse? A pressa? O medo? Qual, isso você não entende mesmo. Eu também preferiria encher a cara, pode crer. Todo mundo seria bonzinho para mim. E tão preocupados. Beber à vontade é permitido, pílulas são proibidas.

— Você não pode libertar as pessoas, mas pode ajudá-las a se sentirem menos mal — disse Colledo.

— Que significa isso?

— Texto publicitário americano para médicos. Li isso quando estive a última vez em Nova Iorque. Pretende motivar os médicos a receitarem tranqüilizantes — o maior negócio farmacêutico do mundo.

Ross interrompeu, irritado.

— Não vamos discutir, por favor. Pedirei desculpas hoje à noite. Quanto a demitir-me, faço-o neste momento. — Ele mexera no bolso de sua calça, tirando finalmente uma embalagem de Nobilam e um pedaço de papel impresso. — Só ainda uma coisa: agora eu sei por que me aconteceu isso agora à noite. Acontece uma vez em cada dez mil casos. Tinha de atingir exatamente a mim.

— Do que você está falando? Que inferno!

— Aqui! — E Ross segurava o papel. Isto é uma bula. Acompanha qualquer medicamento. Este aqui também. Sim, olhe isso! Nobilam é como se chama a droga sem a qual eu não posso trabalhar — e não posso viver. Olhe bem para ele!

— Não fale assim comigo, homem!

— Desculpe-me. Lamento. Realmente. Preste atenção, Conny. Depois que eu esculhambei com o programa, ocorreu-me haver lido uma vez alguma coisa na bula. E aqui está escrito! Aqui está... Rosa acompanhou as linhas com o dedo. — Aqui! —. E leu alto: — Alertamos para a possibilidade de uma reação paradoxal, excitação ao invés de sedação — está entendendo? Excitação em vez de sedação! — ...reação que pode ocorrer com medicamentos sedativos comparáveis! — Ross bateu o papel com a mão. — Excitação ao invés de sedução! O troço reagiu ao contrário, hoje à noite. Durante doze anos eu tomo isso, e sempre correu tudo muito bem. E depois acontece isso. E, naturalmente, logo na hora do programa!

— Danny! Por favor! Eu sou seu amigo. Não agüento ver como essa droga o está matando. Sim, fique quieto, você está morrendo, eu disse, é isso mesmo. Agora, sem emprego, o medo vai ficar cada vez maior. A inquietação. O nervosismo. Fique quieto, não interrompa! Você pensa que no nosso ramo alguém cala o bico? Você calcula quantos colegas já sabem que você vive tomando comprimidos? A maioria, Danny, a maioria. E aqueles que ainda não o sabem, agora vão descobrir. Deixe apenas que os rapazes da imprensa marrom comecem! Espere, até que apareça você-sabe-muito-bem-quem! Depois do que aconteceu, não será possível você achar um outro emprego — na situação em que você se encontra. Você precisa, está me ouvindo, você precisa fazer simp!esmente uma terapia de desintoxicação! Essa é a primeira coisa que você tem de fazer. Eu lhe peço isso. Eu lhe suplico, vá a uma clínica, faça um tratamento para perder o vício, faça-o por mim, está certo, Danny?

- Não — disse Ross e olhou novamente para o chão.

— Mas por que não?

— Porque eu já fiz uma.

— Você já...

— Sim.

— Quando?

— Há doze anos.

— Há doze anos? 1971? Você ainda dirigia o Estúdio Sudeste da Europa, em Viena!

- Fiz o tratamento em Viena. Por isso você não sabe de nada. Ninguém aqui sabe disso. Sim, em Viena. Psiquiatria das Clínicas da Universidade. Hospital Geral.

— Mas... mas... Você disse que já toma esse troço há doze anos. Não estou entendendo. De que foi então que eles curaram você em Viena?

— Oxazepam — disse Rosa.

— Ora... -

- Oxazepam. Uma outra droga. Muito boa. Só a tomei durante um ano. Tomei demais. Do Oxazepam eu tinha de me livrar mesmo. Não podia continuar. Assim como aconteceu hoje à noite, naquela época podia ocorrer todos os dias.

— Então, há doze anos, eles lhe deram o Nobilam no lugar do Oxazepam?

— Isso — disse Ross. — E, antes do Oxazepam, tomei Vallium durante sete anos.

Colledp sussurrou:

— E depois dos sete anos de Valium você já fez um tratamento?

— Sim. Também em Viena. Também no Hospital Geral. Gente formidável. Reconheceram que eu simplesmente não tenho condições de suportar minha vida alucinada sem qualquer droga. Não posso suportar! Por isso, tentaram desintoxicar-me gradualmente. Foi assim que me deram o Nobilam. Que é que você tem, Conny? Conny, o que está acontecendo com você?

Colledo se levantara e se aproximara de uma das janelas escuras pela noite. Sua sala se situava no oitavo andar do edifício. Ele contemplou o grandioso tapete de luzes de Frankfurt. A chuva contra a vidraça.

— Meu Deus — disse ele, sufocado —. você é mesmo um pobre-diabo.

Seguiu-se um novo silêncio. — Então, Colledo voltou a falar, mirando os milhões de luzes coloridas da cidade a distância:

— Volte para Viena, Danny! Por favor! Vá de novo àqueles especialistas! Faça de novo um tratamento!

— Não — respondeu Ross, e agora sua voz se tornara dura de repente. — Não, eu não irei para Viena. Nunca mais.

— Mas por que não? Por que não, Danny?

— Porque lá trabalham os únicos em quem eu confio, que me conhecem, que sabem o que está acontecendo comigo.

— Você quer dizer: por isso você não vai procurar nenhuma outra pessoa?

— Sim.

— Não compreendo. Mas por que então não para Viena? Para seus amigos, para o médico que goza de sua confiança, que conhece você tão bem. Por que não, Danny? Por que não?

— Não é um médico — disse Ross, baixinho. — Ë uma médica. E eu... eu me envergonho demais diante dela.

Ali havia calor, uma luz dourada e quietude.

Ali havia nuvens prateadas e poderosas, de formas fantasmagóricas.

E ali não havia mais cuidados nem fadigas, correrias ou tristezas. Não existia mais nenhum medo, não, medo algum.

Ali havia a rosa vermelha.

Ele a observava feliz, e pensava: a rosa sou eu. Meu corpo, encravado na terra, desfez-se. Uma parte dele, suas partes orgânicas, transformou-se em gás carbônico e amoníaco e espalhou-se pelo mundo inteiro. As partes inorgânicas, os diversos sais, entraram pela terra adentro, onde estou deitado, e fizeram crescer essa rosa, essa extraordinária rosa. Transformei-me numa rosa. Uma rosa e também uma nuvem, pois os gases em meu corpo subiram aos céus. Sou uma nuvem.

Começou a chover, suave, levemente. Eu sou a chuva, pensou ele, também a chuva. Existe uma energia do mundo, cuja dimensão está fixada com precisão. Nem a mais ínfima partícula dessa energia se pode perder jamais. Só pode é transformar-se. Em outra energia. Numa infinidade de outras energias. A energia que deixou o meu corpo quando morri tornou-se calor, calor que eu sinto, luz dourada que ilumina a rosa. Eu sou a luz, pensou. Cada árvore, cada folha, cada pedra contém uma parte de mim. Porque as partes de meu corpo estão por toda parte, no céu e na terra. Sou a terra. Sou o rio. Sou o mar. Sou um pouco de cada coisa que existe no cosmo infinito. Sou o universo. O universo que sempre houve, que jamais começou, que jamais precisou ter um começo. Nada mais sou, mas sou tudo. E tenho finalmente a paz.

Como isso é belo, pensou ele. Como é bela a morte, como é bela a eternidade. Sim, agora eu sou até a eternidade. Por que não soube isso antes? Por que não pude imaginar isso mais cedo? Gostaria de ter morrido logo depois de nascido. Não, refletiu, esse pensamento está errado. Não poderia morrer logo. Deveria crescer, para que meu corpo recebesse todas as suas panes que agora se transformaram. Precisei viver a fim de poder dessa forma ser universal: uma parte do todo que floresce e vive e prospera, sim, que acontece neste mundo, neste universo, pois com certeza eu gerei energia com minha vivência, boa e má, com meu pensamento e com meu trabalho, criei energia e entreguei-a à morte para que venha a ser parte da energia do mundo.

E viu novamente a rosa, e ali havia calor, luz dourada e quietude.

Aconteceu, então, uma coisa terrível. Não sabia o quê. Mas a calma foi repentinamente perturbada por uma confusão ruidosa e horrível de sons pavorosos, um barulho infernal, e já não havia mais nenhuma luz dourada, apenas escuridão, oh, pavorosa escuridão, e já não havia mais calor porém frio, um frio terrível que o deixava horrorizado.

Na felicidade, ele era destituído de peso. Agora, de repente, sentia de novo o corpo. Seu corpo era puxado de um lado para o outro, levantado, atirado para baixo. Um número cada vez maior de sensações se fazia notar — dor de cabeça, dores no corpo, e frio, o frio, o grande frio glacial. Cheio de horror, pensou: isto não é a morte.

Em seguida, alguém lhe bateu violentamente no rosto e uma voz de mulher gritou: Engula isto! Logo depois achou que ia ficar asfixiado. Seu nariz estava tampado, as narinas eram apertadas, com dor. Ar! Preciso de ar! Até há pouco não precisara de ar, agora precisava. Sentiu de novo o medo, um medo desgraçado. Sentia seu corpo se contorcendo. Escancarou a boca para poder respirar. Mas, antes que o conseguisse, um líquido quente de gosto asqueroso escorreu para dentro de sua garganta. O gosto era tão horrível que quis cuspi-lo. Em vez disso, engoliu-o. O líquido fétido vinha num fluxo cada vez maior, e ele engolia, engolia, pois precisava respirar, respirar pela boca aberta. Gemia. Não agüentava mais. Ninguém agüentaria. Era demais. Demais. O líquido havia atingido o estômago, que logo se revoltou. Tudo retomou como um tiro. Sentia como vomitava, com o maior ímpeto. O nojo o sacudia todo. Foi abrindo os olhos, com enorme dificuldade. Via tudo enevoado. Sua cabeça doía a ponto de estourar. Onde estava? Na banheira. Como tinha ido parar na banheira? Distinguiu uma mulher, curvada sobre ele. Ela parecia estar nua como ele. Água quente bateu em seu corpo. Essa mulher.., essa mulher... Ela o lavava com o chuveirinho.

Só agora notava que estava sentado com as costas apoiadas na parede da banheira. Aspirou fundamente o ar, o nariz já estava livre.

Logo depois a mulher fechou-o de novo, apertando as narinas. Ele abriu a boca. E, num instante, o líquido entrava em sua garganta, quente, fétido. A mulher dizia alguma coisa. Ele não entendia nada. Recomeçou a vomitar. Não agüento mais, pensou. É demais. Não posso suportar. Morto! Morto! Quero estar morto.

Uma terrível suspeita o assaltou: Estavam tentando salvá-lo! Trazê-lo de volta para esta vida imunda e miserável. Do universo dos mortos. Por aquela mulher despida, com seus grandes seios, que novamente se debruçava sobre ele, enquanto o chuveirinho lavava tudo.

Aspirou estertorando pela boca. Chorava agora de raiva e desamparo. E mais uma vez a mulher lhe dizia alguma coisa e ele nada entendia. Ela não tinha piedade. Sem dó, lhe apertava as narinas, obrigava-o a abrir a boca, e o líquido fétido entrava em sua garganta, fazia com que ele vomitasse e vomitasse.

Sentia-se terrivelmente fraco. Seu coração batia em disparada. Então, passava a tortura. Conseguia respirar. A água do chuveiro lhe escorria, quente, sobre o peito. Uma mão tocava a sua. Demorou até que compreendesse que ela lhe tomava o pulso. De repente, ficou sozinho. Ela deixara o banheiro. Sua cabeça escorregou de lado sobre os frios azulejos da borda da banheira. Estava tão fraco que não conseguia mais manter seus olhos abertos. O crânio estourava de dor. E ele pensou na rosa.

Então, a mulher voltou.

Segurou-o pelos cabelos e colocou sua cabeça de novo no lugar. Apertou-lhe de novo as narinas. Ele abriu a boca. O tormento recomeçava. De novo a coisa asquerosa lhe descia pela garganta abaixo, e ele vomitava. Outra chuveirada e ela dizia alguma coisa. Dessa vez, gritando. Todo o seu corpo tremia. Diante de seus olhos giravam traços e círculos negros. Ele ouvia a mulher ofegar. O que ela estava fazendo devia custar-lhe um grande esforço. Ela segurava sua cabeça, impedindo que ele deslizasse para dentro da banheira. Na outra mão segurava uma vasilha com aquele líquido repugnante. Sim, ela ofegava de tanto esforço. Mas só desistiu no momento em que ele perdeu a consciência.

Ele voltou a si e ela logo lhe apertou o nariz. Tudo recomeçou. Ele estava ficando cada vez mais débil. Ela derramou o líquido fétido em sua boca e ele vomitou. Ficou inconsciente. Voltou a si. Tudo recomeçou mais uma vez. Após o primeiro segundo da eternidade, chegou o momento em que ele só cuspia bílis. Seguiu-se um momento de calma. E a mulher lhe entornou água quente na garganta. Nem isso ele reteve. Por três vezes, água quente. Então, sentiu seu coração parar. Ela te matou, pensou ele. Obrigado. Tudo enegreceu à sua volta. Retornou a calma. Bem-vinda a morte, pensou.

Ele abriu os olhos.

Agora, enxergava com nitidez. Ela se achava sentada à borda da cama. Ele, deitado, estava coberto até o pescoço. Ela não estava mais despida, usava um slip e um sutiã cor de carne. Tinha cabelos negros e brilhantes, e olhos azuis, luminosos. Sua pele era profundamente bronzeada.

— Quem é a senhora? — Ele mal conseguia articular as palavras.

— Não pode falar!

— Como entrou aqui?

Ela sacudiu a cabeça e pós o indicador sobre os lábios cheios, lindamente arqueados lábios.

— Quer dizer que eu vou ter de viver?

— Não pode falar! — disse ela.

Tudo ficou escuro de novo.

Ele acordou. Ela, de négligé azul, estava sentada na cama. Seu rosto estava macilento, parecia exausta. A lâmpada ao lado da cama ainda estava acesa, mas era dia. Pela janela, via-se que nevava forte. A tempestade rugia levantando redemoinhos. Ele ouvia as venezianas batendo.

— Alô — disse ela.

Ele não respondeu.

— O senhor dormiu bastante. Treze horas. Catorze. São quase onze horas. — Ela olhara para a mesinha-de-cabeceira sobre a qual se achava um despertador elétrico com música.

— Quase catorze horas? — Sua cabeça ainda doía.

— Sim, Sr. Ross.

— A senhora conhece meu... — Ele fez uma interrupção.

— Eu sou Mercedes Olivera.

Ele encolheu os ombros. Sua cabeça doía cada vez mais.

— Não está mais lembrado?

— De quê?

— Eu telefonei. Ontem.

Ele a olhou, mudo.

— De Zurique. Do aeroporto.

— Oh... — Ele gemeu. Tudo lhe voltou à cabeça.

— Está lembrado agora, não é?

— Sim.

— O senhor queria se matar. Por quê?

— A senhora não tem nada com isso. Trouxe-me de volta. Por quê?

— Mas eu não poderia deixá-lo morrer, meu Deus!

— Por que não?

— Sr. Ross, por favor! — E ela pôs sua mão na face dele.

— Não — disse ele.

— O quê, não?

— Tire sua mão! Não gosto.

Ela retirou a mão.

— O que tem a senhora a ver com isso, se eu quero morrer? A senhora destruiu tudo.

— O senhor ainda está muito fraco, Sr. Ross. Tenho a ver com qualquer pessoa que esteja à morte.

— Florence Nightingale — disse ele. — Caridosa enfermeira. Boa Alma. Destruiu tudo, foi isso o que a senhora fez.

— Deixe-me tomar o seu pulso!

— Não me toque! — E disse encolerizado: — Sem a senhora eu teria agora a minha paz. Infame. É infame aquilo que a senhora fez.

— O senhor se encontra diante do momento mais importante de sua vida. O senhor precisa viver!

— Eu a odeio — disse ele. E adormeceu novamente.

Quando despertou, estava escuro lá fora. A tempestade ainda bramia, açoitava com neve as vidraças. A jovem estava de novo

sentada junto da cama. Parecia extremamente cansada. Sorria, porém.

— Então, dorminhoco?

— Por quanto tempo dormi agora?

— Mais de sete horas. São seis da tarde.

Ele tentou endireitar-se e se erguer, gemeu e caiu de vo1ta no travesseiro.

— O que é?

— Preciso ir ao banheiro.

Ela se curvou para diante.

— Espere, vou apoiá-lo.

— Posso ir sozinho.

— Não, não pode, não. — O rosto dela estava agora bem junto do seu. O négligé estava aberto, e ele viu os grandes e belos seios no decote do sutiã, mas não sentiu nenhum desejo, estava fraco demais. Ela o levantou pelos ombros. Por um mo mento, ele descansou a cabeça no ombro dela. Sentia o seu per fume.

— Assim — disse ela —, agora ponha as pernas para fora da cama! Devagar! Sua circulação. — Em seguida, ele deixou suas pernas escorregarem lentamente, até os pés chegarem ao chão. — Eu o conduzo.

— Não precisa... – Ele se ergueu. Tudo rodou violentamente ao seu redor.

— Sim, por favor — disse ele. Só então percebeu que estava inteiramente despido. Pé ante pé ela o guiou até o banheiro. Ele deixou-se largar sobre o assento da privada. Ela ainda o apoiava.

— Posso deixá-lo sozinho?

— Ë melhor ficar por aqui! Estou bastante mal. Sei que estou abusando. Desculpe-me!

— Eu já vi um homem nu, Sr. Ross. Na mesma situação.

O banheiro estava limpo. Ele disse:

— Foi dentro da banheira que a senhora me entornou aquela porcaria pela boca, para esvaziar meu estômago, não é?

— Sim, Sr. Ross. Foi um trabalho pesado, infernal. Primeiro, tive de arrastá-lo da cama até aqui. Estava tão pesado que o deixei cair por duas vezes. Depois, tive de tirar minha roupa por que estava começando a sentir um calor enorme. E também para proteger minhas coisas. O pior foi conseguir passá-lo por cima da borda da banheira. E para fora de novo. Mas tinha de ser na banheira, por causa da água. Enquanto dormia, limpei tudo por aqui e tomei um banho.

— Mas que gênero de conversa — disse ele.

— O senhor acha que agora poderá comer alguma coisa? Caldo de carne?

— Não sei.

— O senhor precisa. Tomou algumas garrafas de água mineral.

— Quando?

— Sempre que acordava um instantinho, eu lhe dava um pouco.

— Não faço idéia.

— O senhor perdeu enorme quantidade de líquido. Tínhamos de repô-lo.

— Bebi muito?

— E não está notando? — Ela o olhou sorridente.

Ele respondeu ao sorriso, seus lábios tremiam:

— Qual é a sua idade?

— Trinta e três. Por quê?

— Bastante sem vergonha para trinta e três anos.

— Totalmente. Deus, como estou contente!

— E com quê?

— Que o senhor já esteja tão melhor.

— O que fez a senhora com o meu pijama?

— Tirei do senhor. Eu não poderia colocá-lo com o pijama na banheira.

— Claro que não. — Ele se ergueu. Os joelhos tremiam violentamente. — Posso pedir-lhe mais uma vez o favor?

Ela o ajudou novamente no caminho de volta para a cama e ele sentiu mais uma vez o perfume e o cheiro de sua pele.

— E que foi mesmo que entornou para dentro de mim? — perguntou depois que já estava deitado.

— Tudo o que possa imaginar. Quando eu o vi...

— Como conseguiu entrar?

— Arrombei uma janela da cozinha, do jardim, e abri o trinco. Ainda bem que o senhor mora no térreo! Naturalmente primeiro eu toquei a campainha — por bastante tempo. Como o senhor não vinha abrir, comecei a ficar com receio. Estava com uma voz tão estranha ao telefone! Mora gente aqui em cima, não?

— Um casal de velhos e um homem solitário.

— Eu tinha uma sensação muito desagradável. Não queria chamar atenção em hipótese alguma. Senão os outros moradores iriam ficar desconfiados. Com certeza teriam chamado a polícia — em todo caso o perigo era bem grande — e ela teria arrombado sua porta de entrada. O senhor poderia acabar na psiquiatria. E para lá que são levados os suicidas, não é verdade?

— Está bem perto daqui.

— Quem?

— A psiquiatria. Nem meio quilômetro de distância.

— O senhor está vendo? É evidente que o teriam conservado por lá. Semanas a fio. E isso é simplesmente impossível.

— E por quê?

— Seu pai o está esperando.

Ele engoliu com dificuldade e a encarou Tentava falar. A tentativa frustrou-se. O choque tinha sido grande demais.

— O que tem o senhor?

— Meu pai...

— Sim?

— Meu pai tombou em março de 1945.

— Não, não.

— Não, o quê?

— Não, ele não morreu. Ele vive. Em Buenos Aires. Agora seu nome é Olivera e está esperando pelo senhor, Por isso é que eu vim para a Alemanha.

— Por quê?

— Para levá-lo até ele.

— A senhora não me pode levar até ele. Que bobagem é essa?

— Estava ficando exaltado. — Meu pai morreu há trinta e nove

anos.

— Ele não morreu. Ele está vivo. Vivo. Acredite! Por favor, por favor! Ele vive e quer lhe dar uma coisa. O mais rápido possível.

Tudo isso era demais para ele. Calou-se e ficou olhando-a fixamente.

— O que houve? Por que não diz nada?

— Quem... quem é a senhora, afinal?

— Sou filha dele — respondeu ela lenta e calmamente. — Sua enteada, quero dizer. Ele casou com minha mãe. Sou, portanto, sua meia-irmã, Sr. Ross.

Ele fechou os olhos.

— E o que quer ele me dar?

— Um acordo secreto internacional. Eu tinha de arrombar a janela da cozinha. Depois, tinha de me apressar enormemente. Felizmente, achei tudo na cozinha. Sabão, sal, vinagre, mostarda.

— Não estou entendendo nada.

— Pois eu tinha de esvaziar seu estômago, tirar todo aquele Nembutal lá de dentro!

Ele abriu novamente os olhos.

— Como é que sabe que eu...

— As embalagens estavam em cima da escrivaninha. Enchi um panelão com água e o coloquei sobre a chapa mais forte. Depois, tudo lá para dentro, muito sal, muito vinagre, mostarda, o que havia. O sabão eu cortei em fatias bem finas, quase como flocos. Depois, tive de cozinhar tudo e deixar esfriar. Sempre despejando de uma panela para outra. Até o senhor poder suportar tomar aquilo.

— Eu tomei raspa de sabão.

— Sim, e tudo o mais.

— De onde é o truque?

— Curso de primeiros socorros.

— E se eu tivesse batido as botas? A despeito de tudo?

— Então eu ficaria encrencada. Morte por negligência. Mas precisava arriscar. Simplesmente precisava. Tive sorte. O senhor também.

— Eu não. — Ainda há pouco ele se sentira bem. De repente, começou a passar mal de novo.

— O senhor vai me contar tudo.

Ele fez que não com a cabeça.

— Mas claro que sim. Mais tarde, Daniel. Quando estiver bem de novo. Posso chamá-lo de Daniel, não?

— Mas é claro, Mercedes — se me for permitido.

— Ë evidente. — Ela continuou: — Sabe, Daniel, nós temos realmente uma sorte gigantesca, nós dois. Vinte minutos depois de eu haver telefonado, saía um avião para cá. Ainda consegui um lugar. Às oito e meia já tinha chegado. — Ela se levantou. — E agora você vai tomar um fino e nutritivo caldo de carne. — Foi até a porta. A ele parecia que, de repente, estava acordando de um sonho profundo.

— Mercedes!

— Sim? — Ela se virou e sorriu,

— O que foi mesmo que você disse?

— Que você ia tomar agora um fino e nutritivo caldo de carne.

— Não, antes disso. Que quer meu pai, morto há trinta e nove anos, dar-me com toda a urgência em Buenos Aires?

— O acordo secreto internacional. Já está tudo pronto na cozinha. Volto já.

Ele ficou olhando o teto, imóvel. Lá fora, a tempestade continuava, com seus uivos, seus bramidos, seus gemidos. Se eu fiquei maluco, também não tem importância, pensou Ross.

 

Na capa estava impressa em tinta negra a águia que segurava nas garras a cruz suástica. Embaixo se lia: LIVRO DE SOLDO.

Ross abriu o velho e fino caderno.

Ali estava a fotografia de seu pai. Um rosto estreito, olhos grandes e lábios finos. Os cabelos grisalhos cortados rente. Ross percebeu que sua mão tremia. Leu na página com a foto os dados sobre a pessoa. Nome: Ross, Georg. Nascido: 11 de janeiro de 1907. Local: Viena/Ostmark. Patente: Major. Virou as folhas. As páginas estavam amarelecidas e mofadas.

— Esse é seu pai?

— Sim — e sua voz oscilava.

— Não tem a menor dúvida?

— Não. — Ele a encarou. — Como é que isso chegou às suas mãos?

— Ora, ele me deu para trazer, meu Deus! Senão como ficaria eu de posse disso? Do reino dos mortos? Seu pai está vivo, assim pelo menos você acredita em mim!

Ele não respondeu. Fitava a foto no livro de soldo.

Mercedes voltou a sentar-se a sua frente. Uma almofada apoiava as costas dele. Tinha vestido um pijama novo, tomara três xícaras do caldo de carne e continuava a se sentir ainda muito fraco, mas muito melhor e perfeitamente lúcido. Mercedes trajava um costume cinzento com um lenço azul-claro no decote. Tinha feito a maquilagem.

— Aqui — disse ela ao lhe estender uma foto amarelada e pálida. Ele a olhava boquiaberto. Ali estava ele próprio! Um menino de calças curtas e uma camisinha leve, cabelos cortados como pajem. Sorridente e feliz, a foto o mostrava sobre o ombro do pai, em uniforme de major da Wehrmacht alemã, com um cachimbo na boca. Estavam em frente a uma mansão coberta por uma parreira e cercada de grande jardim.

— Está lembrado da foto? — indagou Mercedes.

— Sim. Quem a tirou foi minha mãe. Nós moramos nessa casa. Alugada. Rua Sterwarte. Décimo oitavo distrito. No Cottage. Lembro-me do cachimbo de meu pai. Lá pelo fim da guerra só havia poucos cigarros, e aí ele passou a fumar cachimbo. Esta foto deve ter sido tirada durante sua última licença antes de morrer.

Ela disse então, pacientemente:

— Ele me deu esta foto três dias atrás. Ele não morreu. Com ela eu tenho de convencê-lo.

— Mas nós recebemos a notícia oficial do óbito! — E recitou escandindo as palavras: — “Tombou no leal cumprimento do dever ao Führer, ao Povo e à Pátria em duros combates de defesa, a 2 de março de 1945, na região de Kütrin.” Como pode viver ainda? E por que nós nunca mais tivemos notícia dele — nunca, durante todos estes anos? -

— Isso, ele vai lhe contar pessoalmente. Aqui, quem é esse aí? — E estendeu-lhe uma segunda foto.

Ele se viu, ainda menino, ao lado de uma frágil mulher que tentava sorrir. Estavam sentados juntos sobre um sofá, ao lado de um aparelho de rádio.

— Minha mãe, e isso era um daqueles chamada Receptores Populares.* Existiam aos milhões. Tínhamos ainda um outro aparelho, grande, com o qual minha mãe ouvia sempre Londres à noite. É claro que ela só ouvia Londres quando meu pai não estava em casa. Ele simplesmente teria dado parte à polícia. Era um nazista fanático. Estou seguro de que ele denunciou uma porção de gente. Cara nojento. Canalha. Ah, como eu o odiei!

— Por ter sido um nazista fanático?

— Naquele tempo eu era muito pequeno, não tinha sequer sete anos de idade. Ainda não tinha entendimento. Ficava, então, sempre feliz quando ele vinha de licença. Naquele tempo eu ainda gostava dele. Veja como estou sorrindo de satisfação na foto. Não, foi mais tarde, anos depois, quando eu estava ficando crescido e podia compreender, e a coitada da minha mãe me contou tudo a respeito dele. Que pavoroso nazista ele fora! E que inferno fora a vida dela. Que ela chorava às escondidas, dias a fio, de medo antes que ele chegasse. Porque ele ficava fazendo cenas, as piores cenas. À noite, enquanto eu dormia, fazia um escarcéu. Evidentemente eu não ouvia isso... um meninote. Só mais tarde é que eu entendi tudo. O casamento estava destroçado. Ele queria se separar, tão logo terminasse a guerra. Coitada de minha mãe. Aí é que comecei a odiá-lo. Você certamente sabe tudo sobre mim, ele e minha mãe, não é?

— Sim.

— Então me diga onde ele trabalhou, antes de ter de ir para a Wehrmacht!

A resposta veio rápida:

— Ele era gerente de uma filial da Caixa Econômica da Áustria.

Ross a mirou por longo tempo.

* Votksempf&tge — iniciativa do III Reich análoga à do carro popular Volkswagen, na época produzido em poucas unidades. (N. do T.)

 

Muito bem, então ele está vivo. Esse maldito canalha está vivo. Continuo sem entender. Por que não se chama mais Ross? Por que agora é Olivera? Como foi parar na Argentina? Esse imundo! Oh, agora mesmo é que eu o odeio! Mas, ao mesmo tempo, ele sabia ser tão charmoso, tão carinhoso, tão amável, quando queria. Também para minha mãe, coitada. — E voltou a olhar para a foto. — Está vendo aqui? As sandálias de couro com os grossos saltos! Eram chamados de “sapatos de cortiça”. Engraçado, como a gente se lembra de certas coisas. Recordo-me da história inteira... Certa vez, meu pai trouxe consigo esses tais sapatos de cortiça quando veio de licença. Eles eram da Itália. Tudo isso minha mãe me contou mais tarde, e só agora me ocorre, depois de tanto tempo. O pai deve tê-los recebido de algum camarada, pois ele ficava o tempo todo na frente oriental. Foi uma grande sensação naquele tempo: sandálias italianas! Está vendo, a cortiça está revestida com couro. A mãe ficou tão contente quando o pai lhe deu de presente! Duas horas depois ela estava chorando. Por causa dele. Um sádico. Divertia-se quando minha mãe chorava. Olhe só para ela aqui! Por volta dos trinta e cinco, um pouquinho mais velha que você, Mercedes. Uma mulher velha, sem esperanças.

— Ele a recriminava de quê?

— Nada! Estava simplesmente farto dela. A mãe estava segura de que existia uma outra mulher na vida dele. Eu também.

— O que quer dizer eu também?

— Eu também estava certo disso, mais tarde, quando já tinha juízo e minha mãe me contou tudo.

— Mas por que, no fim das contas, seu pai vinha para Viena, de licença, quando ali só havia lágrimas e cenas?

— Estava louco por mim. Eu era seu tesouro.

— Mas, no caso de separação, você seria entregue a sua mãe.

— Sim — disse ele perplexo. — Claro.

— Ele deveria saber disso.

— É... Talvez também lhe fosse indiferente e ele só estivesse fazendo teatro. Talvez tivesse um motivo totalmente diferente para vir a Viena.

— Pode ser — disse ela.

— Você sabe a razão?

— Sim.

— Ou seja?

— Seu pai — disse Mercedes —, seu pai vai contar tudo a você. Seu pai, eu não. Ele me proibiu.

— Por que você está fazendo tudo isso?

— Porque gosto dele — disse ela com firmeza. — É uma pessoa maravilhosa, a mais admirável que conheço.

— Então deve ser um outro homem. Um sósia. Que loucura! Um patife, meu pai é um patife miserável.

— O homem mais extraordinário do mundo — disse ela fervorosamente.

Entreolharam-se, mudos. A tempestade continuava uivando. Mercedes estendeu-lhe uma série de papéis amarelecidos.

— Cartas — disse Ross. — Cartas que eu lhe mandei.

— Sim, cartas suas. Ele as conservou. Durante quarenta anos. Há três dias ele as entregou a mim. Ele me contou que você já sabia ler e escrever bastante bem com pouquíssima idade. — Ross ficou olhando para uma velha folha de papel coberta com a desajeitada escrita de criança.

Querido paizinho! Mamãe disse que onde você está houve uma grande batalha. Se Deus quiser não aconteceu nada com você. Por favor, escreva bem depressa... Ross virou a folha e leu:

14 de setembro de 1943. Pegou uma outra carta e pulou algumas linhas. 21 de fevereiro de 1943 ... Aconteceu uma coisa horrível. No dia 13 de fevereiro houve de novo um ataque pela manhã, dessa vez também em nosso bairro. Nossa casa foi atingida. Quebrou tudo e todas as nossas lindas coisas também quebraram. Mamãe chora sem parar e eu também tenho de chorar porque perdi a bicicleta e o ursinho também. Ficamos no bunker do cinema Apollo, você sabe, senão estávamos mortos agora. Encaminharam a gente para pessoas estranhas. Mamãe está escrevendo certo aonde. Essa gente estranha é nojenta conosco...

— É, fomos bombardeados — disse ele — e perdemos tudo. Pouquinho antes do fim da guerra. Durante vários anos ficamos morando em casas de estranhos, dentro de um quarto... — E fitando a jovem: — Mas isso é impossível.

— O quê?

— Que agora você me traga essas cartas. — E disse em voz alta: — De onde você tirou essas coisas? Diga a verdade! Você trabalha para quem?

Ela lhe devolveu o olhar, em silêncio.

Ross murmurou:

— Desculpe-me... Mas se você tivesse acreditado durante trinta e nove anos que seu pai está morto, e de repente viesse alguém e dissesse ... Lamento muito. .. Por favor, me perdoe!

Ela fez que sim com a cabeça.

Ele agarrou uma outra carta: 6 de janeiro de 1943... - Querido paizinho! Pelo seu aniversário desejo-lhe muita felicidade e saúde e que você volte para nós bem. Mamãe escreve também uma carta para você. Ela tem um chapéu novo muito bonito. Ela disse que é do Panamá, é uma fazenda que até parece casca de ovo. Na frente, ele cobre um pouco a testa e atrás cai um pouquinho também e é pequenininho e muito engraçado. Mamãe disse que faz parecer jovem e ele se chama chapéu de Koletsch...

— É college — explicou Ross fitando a velha folha de papel. — Lembro-me muito bem dele. É mesmo, ele rejuvenesce, tinha dito minha mãe. Anos mais tarde ainda falávamos do tal chapéu... — Sua voz se perdeu. E leu: — Para o aniversário eu pintei para você uma porção de flores. — Ele observou a carta toda emoldurada por desenhos coloridos. — ... As vermelhas são tulipas, as azuis são campânulas e as marrons são margaridas. Peguei o amarelo em vez do marrom porque nãotenho mais lápis amarelo e nem existe mais. E os dois corações são o de mamãe e o meu... Seu querido Daniel.

Olhou-a desamparado. Sua voz soava suplicante:

— Em que devo acreditar? Em quem devo crer?

— Em mim — disse ela. — Seu pai vive e precisa vê-lo logo. Essa é a verdade.

— Por que você não me conta que história é essa de pacto secreto internacional?

— Porque ele quer lhe contar. Em mim você não iria acreditar. Ê um acordo colossal demais. Você precisa lê-lo. É a respeito da paz. Pelo amor de Deus, pode existir alguma coisa mais importante que esta? Todos nós temos de fazer o máximo para que não venha uma guerra nuclear por aí. — Ele a olhava espantado, pois sua voz de repente ficara muito alta. O seu rosto tremia. — Você também é a favor da paz!

* Votksempf&tge — iniciativa do III Reich análoga à do carro popular Volkswagen, na época produzido em poucas unidades. (N. do T.)

- Não, eu sou a favor da guerra. Quero que um SS-20 caia direto em cima da cabeça.

A expressão facial dela ficara gelada.

— Muito bem — disse Mercedes. Mas ela estava ferida. — Aqui.

— Estendeu-lhe uma grande foto colorida. — Eu a tirei há uma semana.

Ross viu, entre duas velhas palmeiras muito altas, um homem de terno claro e sapatos brancos. Estava postado sobre um gramado cortado bem rente ao chão diante de um sobrado branco de teto plano. A casa ficava num parque repleto de árvores exóticas e tinha altas janelas francesas. Podiam-se distinguir caminhos ensaibrados e cercas vivas bem aparadas, além de grandes canteiros de flores que esplendiam em todas as cores. O homem encarava diretamente a objetiva E sorria. Tinha dentes fortes, saudáveis. Era esbelto, de rosto estreito com olhos cinzentos e lábios finos. Sua cabeleira, ainda espessa como a de Ross, era branca como a neve. Na têmpora direita corria verticalmente o que restava de uma profunda cicatriz: era um traço mais claro contrastando com a pele bronzeada pelo sol.

— Está reconhecendo seu pai?

— Talvez — respondeu ele, sentindo aquele impreciso temor, o temor que não podia descrever mas que conhecia tão bem, já há tantos anos, crescia lentamente dentro dele, ainda bem devagar. — Sim, é ele mesmo. A cicatriz na têmpora. - Ele sofreu um grave acidente de moto quando ainda era jovem. Quase morreu naquela ocasião. A cicatriz... É essa a casa em que ele mora?

— Sim.

— Parece que ele está bem de vida. Como é que o Sr. Olivera tem tanto dinheiro?

— Por favor, Daniel. Ele deu duro a vida inteira.

— Sim? Trabalhando em quê?

— Ele era banqueiro.

— Era?

— Está com setenta e sete anos! — E ela deu a Ross uma outra foto. — Esta eu tirei de bem perto. Olhe a data do jornal que ele está segurando.

Na foto, o homem segurava um jornal de tal modo que se podia ler claramente o título bem como as linhas que ficavam abaixo. O jornal se chamava La Prensa.

— A data — repetiu Mercedes mais uma vez. Ele leu:

3. Febrero 1984.

— Acredita agora que ele vive?

— Ele vive... — Sua voz era apenas um sussurro. — O patife vive... — E o medo voltou, o medo sem nome dentro dele, ainda bem longe mas que se aproximava aos poucos, mais perto, mais perto. — Maldição — disse ele e, olhando para Mercedes: — Por que não me deixou morrer!

Em vez de responder, ela lhe passou um envelope fechado.

Ele o rasgou e desdobrou a folha coberta com uma letra minúscula mas nítida e exata que, à esquerda no alto, trazia a indicação do endereço do remetente, impresso em alto-relevo.

EDUARDO OLIVERA

CÊSPEDE 1006

BUENOS AIRES

8 de fevereiro de 1984

 

Meu querido filho Daniel.

A presente carta lhe será entregue por sua meia-irmã Mercedes. Certamente se trata para você de um choque ficar sabendo que ainda me encontro vivo, mas para mim não existia, em 1945, nenhuma outra possibilidade senão a de estar oficialmente morto. Trata-se de uma longa e aventurosa história que só estarei em condições de lhe contar na ocasião em que você estiver sentado diante de mim. Poderei, então, esclarecer também a razão pela qual somente agora, após tantos anos, eu me manifesto e por que não o fiz mais cedo.

Nesse ínterim, encareço-lhe vir ao meu encontro imediatamente em companhia de Mercedes, uma vez que estou de posse de um documento secreto cuja publicação desferirá nos detentores do poder de ambas as superpotências um golpe mortal e banirá o terrível perigo de uma guerra nuclear.

Tenho conhecimento de que você trabalha em Frankfurt na televisão. Aquilo que tenho a lhe dar proporcionaria a você e à sua emissora uma enorme sensação que transformaria o mundo. Bem pode compreender que eu preciso falar pessoalmente com você a respeito. Sei que, quando lhe tiver contado tudo, você também entenderá o que aconteceu e me perdoará. Já tenho se- tenta e sete anos de idade. Quero fazer as pazes com você, Daniel — e também quero presenciar como a publicação do material que vou lhe dar fará com que os indivíduos de todas as nações descubram o jogo diabólico de que são vítimas. Por favor, não me considere um fantasista. Além de tudo, estou velho demais para mentir. Suplico-lhe, meu filho, venha ver-me!

Seu pai

 

Ele deixou a carta cair.

- O que é? – Mercedes o olhou assustada... – Você está totalmente pálido. Está tremendo, Daniel.

- Você poderia... – Ele engolia com dificuldade. – Você poderia por favor ir até o banheiro... ali está dependurado um armário de medicamentos...

- E então?

- Lá você vai encontrar um remédio, se chama Nobilam...

— Nobilam...

- Sim... por favor... me traga... uma... embalagem.... rápido!

O medo subia dentro dele como água que jorra de um chafariz. Ele sentia que estava ficando tonto. Deixou-se cair de volta na cama. Em seu peito batia alguma coisa que ele não podia localizar nem designar — como já tantas vezes, tantas.

Tanto tempo sem tomar nada... falei demasiado... me excitei demais, pensava ele.

Mercedes retornou com a embalagem e um copo cheio de água. Rasgou a cartolina e tirou a tampa de plástico do tubinho de vidro. Ele lhe estendeu a mão trêmula, em concha.

— Quantos?

— Cinco... seis... oito.

Os comprimidos caíam do tubinho. Ross os jogou na boca e os engoliu com água.

Mercedes o olhou assombrada.

— O que é?

— Por isso... eu queria... me matar. — Falar custava-lhe desmesurado esforço. — Espere... uma meia hora... Aí o troço... faz efeito... Então lhe contarei tudo... A maldita... história inteira.

 

Ninguém falava.

Lá fora estrugia a tormenta. Ross jazia, quieto, de costas, e mantinha os olhos fechados. Como uma potente bolha de ar o medo pulsava contra seu esterno, na altura do coração. Ele conhecia isso, mas sempre se assustava. Plop. Plop. Plop. Depois, alguns minutos de calma. E então na garganta. Plop. Plop Plop. Ele engolia em seco, sem parar. Mas as palpitações ele não podia engolir. Os músculos dos seus braços e pernas tremiam. Isso também era um sinal. Engraçado, pensou ele, quando a coisa está mesmo péssima eu não transpiro. Lá estava a tortura novamente. Encarou Mercedes. Precisava de um ponto em que se pudesse fixar.

— Muito ruim?

Ele fez que sim com a cabeça.

Ergueu as mãos e esticou os dedos. Agitavam-se bastante. Tremor bonito, grosseiro, pensou. Mas não conseguia dizê-lo. Não teria dito sequer uma sílaba. Em sua boca se acumulava saliva. Engoliu-a com a maior dificuldade. Era como se não tivesse mais músculo algum.

— Você é viciado? Balançou a cabeça.

Lá estava a bolha de ar. Plop. Plop. Plop.

Deixou cair as mãos sobre a coberta. Mercedes afagou-as com seus dedos frescos e lisos, cautelosamente. Ela sorria. A palpitação da bolha de ar inexistente manifestou-se de novo na garganta. Ele queria dizer alguma coisa.

— Não diga nada — sussurrou ela.

Plop, plop, plop, plop

Ele se virou na cama. Seus artelhos se crisparam. Ele escorregava para cá e para lá. O rosto dela não lhe saía dos olhos.

— Isso vai passar — disse ela. — Eu vou rezar, para que passe.

Nos olhos dele se refletia o espanto quando viu que ela baixava a cabeça. Após um longo tempo, ela o olhou novamente.

— Melhor?

Ele queria sacudir a cabeça, mas depois fez que sim e sorriu amarelo como um pobre idiota. Sentia-se, de fato, melhor. A imaginária bolha de ar não mais palpitava. O medo, o medo imaginário, recolheu-se. Dez minutos mais tarde, tudo havia passado.

— Seu rosto tem cor novamente.

— Agradeço-lhe a oração.

— Você nunca reza?

— Eu? — De repente estava tudo em ordem de novo, de repente conseguia falar novamente com fluência. — Sou um pobre pagão que não encontra salvação.

— Mesmo assim. E um pobre pagão não reza, num estado desses?

Ele a fitou.

— O que é?

— Você é formidável.

— Por que eu adivinhei?

— Sim.

— Não foi difícil. Você tinha um medo terrível, não é verdade?

Ele concordou.

— Quem é que, então, não reza?

— Decerto — disse ele. — Mas comigo, ainda não funcionou. — Ross pensou: Como pode funcionar uma coisa que não existe? E disse: — Bem, ouça aqui, Mercedes... — Ela o interrompeu:

— Você não quer me contar tudo amanhã? Seu rosto está com jeito doente. Você precisa dormir. -

— Não... Eu... eu quero contar agora. Não estou cansado. O Nobilam ajudou... quero dizer: sua oração.

— Foi mesmo o Nobilam.

— Se eu pudesse desejar alguma coisa... — disse ele.

— Como?

— Quando você me telefonou do bar do aeroporto, ouvi a Dietrich cantando aquela canção. Você me disse que o barman colocara um cassete no estereofônico. Eu já estava dopado de Nembutal e uísque. Mas quando eu ouvi a melodia, levei um susto para valer “Se eu pudesse desejar alguma coisa.” Marlene Dietrich fez essa canção ficar famosa no mundo inteiro - Uma mulher extraordinária... Eu a venero... Sabe o que Hemingway escreveu a respeito dela?

— Hemingway?

— “Mesmo que ela só tivesse a sua voz, ela poderia com isso partir teu coração — citou ele.

— Ë — concordou Mercedes — £ isso mesmo.

— “... mas além disso ela tem esse belo corpo e a beleza eterna do seu rosto” — prosseguiu ele. — “É indiferente com o que ela parte os corações, basta que ela venha refazê-los. É grandioso. não é?

— Ë, sim — disse Mercedes.

— E é verdade — disse ele. — Todo o mundo deve sentir isso. Desejaria havê-la conhecido. Ou falado com ela, nem que fosse ao telefone. — De novo empregava palavras de Hemingway:

“Eu sei que nunca podia ver Marlene sem que ela mexesse com meu coração e sem que ela me fizesse feliz. Se é isso que a torna misteriosa, trata-se de um lindo mistério”... Um lindo mistério — ele repetiu. — Sim, assim é Marlene Dietrich!

— Você está falando demais — ponderou Mercedes.

— “Se eu pudesse desejar alguma coisa!” Veja, em 1931, num filme da UFA (ele se chamava “O homem que busca seu assassino”, com direção de Robert Siodmak) uma outra cantou pela primeira vez essa canção... uma outra... Nós colecionávamos discos antigos, de setenta e oito rotações, está entendendo? E exatamente desse disco de laca haviam sido raspados os selos dos dois lados. Mesmo assim, nós descobrimos, uma mulher e eu, tudo a respeito, com exceção de quem havia cantado essa música. Em Viena, perguntamos à proprietária do cinema Bel que apresenta regularmente reprises de filmes bem antigos. Quem cantou foi uma mocinha, disse a senhora. Mas do nome ela não mais se lembrava... Isso foi bastante estranho. . . Nunca ficamos sabendo o nome. . . Mas já faz tanto tempo. . . tantos anos.. . E então ouvi novamente essa canção... Isso deve ter um significado, não?

— Você é supersticioso, Daniel?

— Se alguém não consegue crer, torna-se supersticioso. — E repetiu: — “Se eu pudesse desejar alguma coisa”. . . E deu um sorriso.

— Vocês se amaram muito — disse ela baixinho.

— Sim, muito. Ela foi a mulher que me... salvou. — A voz dele ia ficando cada vez mais vagarosa. Fechou os olhos. — Sempre me salvou novamente... Há muito eu já teria morrido, sem ela... Vida e amor.., foi o que ela me deu... tanto amor..

“Se eu pudesse desejar nossa canção... em Viena. E agora eu a ouvi de novo.., com seu telefonema... estranho... não é verdade? Sibylle me conhece como nenhuma outra pessoa. Mas eu não posso ir ter com Sibylle. Não posso... no fim... no fim, nós nos matamos um ao outro... — Agora mal se entendiam suas palavras. — Sempre se mata aquilo que se ama.

Mercedes curvou-se sobre ele, que respirava fundo. Tinha adormecido. A jovem ajeitou a coberta. Sentou-se de novo, ereta, e ficou observando Ross. Seu rosto estava sério.

 

Sibylle se erguera e agora se encontrava de pé, com as costas voltadas para ele, junto à escrivaninha. Ela completara trinta e seis anos de idade. Era de estatura mediana e esguia. Tinha cabelos castanhos e olhos muito grandes, da mesma cor. Sua boca era larga, de lábios suavemente delineados, criados para rir. Daniel tinha trinta e três, e seus cabelos ainda eram louros. Parecia recuperado e saudável. Estava tudo quieto no consultório de Sibylle, situado no primeiro andar da Clínica de Psiquiatria e Neurologia no imenso conjunto do Hospital Geral de Viena.

— Conseguimos, portanto, verificar que sua dependência em relação ao Vallium e, de um modo geral, seu comportamento como viciado, pouco tem a ver com estresse ou a loucura de sua profissão. Ele vem de fatores ligados ao seu desenvolvimento na infância e de uma vinculação materna exagerada.

— Doutora... — disse Ross, erguendo-se também.

— Sim? — E ela se virou. Ele estava bem próximo a ela e disse: — Existe mais uma complicação, que eu gostaria de lhe contar.

— Qual?

— Eu amo você, Sibylle. Desde que a conheço. Adoro você.

Os olhos dela se arregalaram. Ele a envolveu nos braços e a apertou contra seu corpo. Ela se defendeu em vão. Os lábios se encontraram, e ele a beijou com dureza. Também a boca de Sibylle permaneceu rígida. Mas depois, seus lábios se abriram, ficando macios, admiráveis. Foi um longo beijo. Por fim, ela deitou sua cabeça sobre seu ombro, sua face encostada na dele.

— Eu o compreendo, Daniel — murmurou ela. Seus braços o enlaçaram. Beijaram-se novamente. Depois, se olharam nos olhos.

— Para sempre — disse ele.

— Para sempre.

Sibylle sorriu de repente.

— O que é? — indagou ele.

— Nada, querido.

— Como não!? Por que você sorriu?

— Por favor, não.

— Por favor, sim! Em que você pensou?

— Pensei: vinculação materna! Ê evidente que eu sou mais velha — disse ela, sorrindo novamente.

Ele sentiu um frio súbito e acordou num segundo. Mercedes estava sentada ‘a beira da cama. Trajava um pijama negro e reluzente,

— O que é... Como... — Ele ainda estava muito longe. O sol invadia o dormitório. — Eu adormeci de novo, não é?

Ela concordou.

— Pois eu queria lhe contar em que situação me encontro. Por que não posso ir para Viena. . . mas deveria. . . Eu contei isso?

— Você estava simplesmente fraco demais.

Ele olhou para o despertador de música sobre a mesinha-de-cabeceira.

— Nove e meia. Dormi novamente dez horas.

— Treze. Como está se sentindo hoje, nesta maravilhosa segunda-feira?

— Bem — disse ele. — Mas, e você... onde dormiu?

— A seu lado.

— O quê?

Ela sacudiu os ombros.

— Se houvesse um divã em sua casa... Mas só há esta cama. Esta cama bem larga. Com uma segunda coberta e outro travesseiro. Assim, vesti também um pijama e deitei-me a seu lado. Está chocado?

— Não. — Ele a encarou. Um raio de sol refletia-se em seus cabelos pretos, dando-lhes um brilho avermelhado.

— A mulher também não ficou.

— Que mulher?

— Não a conheço. Chegou pontualmente às nove. Uma senhora já idosa. Casaco grosso e chapéu de caçador. E uma imensa bolsa de compras, cheia de mantimentos.

— Era a Sra. Glanzer. Minha governanta.

— Sim, foi o que logo pensei. Muito enérgica. Usa sapatos ortopédicos.

— Como sabe... Ah, sim, eles fazem muito barulho quando ela caminha.

— Eu pelo menos acordei por causa deles.

— O que disse ela?

— “De novo uma outra.”

— Muito inconveniente.

— Como assim? Eu estava deitada com você na cama. Parece que você leva uma vida particular agitada.

- Mercedes, francamente... — Muito embaraçado ele disse:

— Às vezes não suporto ficar sozinho. O medo. Tenho medo de tudo. De gente. Mudanças do tempo. Da vida. Medo do medo. Já há uma eternidade acordo à noite e me sinto extremamente mal... E quando alguém está deitado ao meu lado... uma moça... carne jovem, firme, quente, em que me posso aconchegar, sem acordar a moça... Só para saber: aí há vida, despreocupação, saúde... então...

— Então?

— ... então penso que afinal não preciso morrer.

— Quando você acorda à noite, acredita que precisa morrer?

— Muito freqüentemente, sim.

— Morrer de quê?

— Não sei. As noites são piores do que os dias... Daí as meninas... Você está sorrindo...

— Claro que não!

— Está sim! — Ele sentou-se. — Por favor, não fique sorrindo. Estou liquidado. Mercedes. A emissora de televisão me demitiu, por causa de algo que aconteceu. Nenhuma outra televisão me aceita. A sociedade produtora onde me candidatei para trabalhar não existe mais... — e, curvando-se para diante: — Ainda tenho algum dinheiro no banco. Essa porcaria do meu pai! Mas o que ele escreve... e o que você diz desse pacto... Se você afirma que se trata de uma sensação... Isso poderia ser a minha chance... Portanto, preciso pegar o avião para ir ver meu pai... — Ele interrompeu-se: — Você conseguiu o que queria. Minhas congratulações! -

Ela o olhou, radiante.

— Mas estou numa tal fossa... E o que acontece se eu não agüentar mais o vôo.., se eu passar mal por lá...

— Telefone, então, para a sua Sibylle. Telefonar não significa ir até lá. Telefonar, isso você há de conseguir! Caso ela seja o único médico em quem você confia. A ela você pode contar tudo — somente sobre o seu estado, claro. Fora isso, apenas o absolutamente indispensável. Uma palavra a mais seria suicídio. Diga-lhe que seu telefone está grampeado.

Ele a interrompeu, nervoso:

— Não sou nenhum idiota.

— Desculpe-me! Mas é que há tanta coisa em jogo. Entre outras coisas, nossas próprias vidas. Sei que você fará tudo direito. Sibylle vai aconselhá-lo, vai descobrir uma saída para você. Ande, venha! -

— Para onde?

— Ao telefone. Falar com Sibylle. — Ela viu que o rosto dele se torcia. — Daniel! Você não deve exagerar na maluquice, está bem?

— Mas eu nem quero. Eu vou ligar. Com certeza. Mas é que estou... Preciso de café. Depois do café, vou telefonar.

— Palavra de honra, seu pagão!

— Palavra.

Ela estendeu sua mão direita e ele a apertou. Algo lhe ocorreu.

— Como é que a Sra. Glanzer entrou na casa? Eu havia trancado a porta e passado a corrente.

— E eu a abri novamente, depois de entrar pela janela da cozinha. Minhas malas estavam no meio da rua. Bem, vou fazer o café. Você precisa de alguma coisa no estômago. Você consegue lavar-se sozinho e fazer a barba?

Ross levantou-se. Seus joelhos só tremiam de leve.

— Sim — disse ele. — Mas a Sra. Glanzer...

— Contei-lhe que você comera alguma coisa estragada e teve uma ligeira intoxicação. Que eu iria ficar cuidando de você. E que o médico já tinha vindo. Calma. Absoluta calma.

— E ela acreditou em você?

— Cada palavra. Ela só voltará na quarta-feira. Sou muito convincente, está sabendo? Vamos, já para o banho!

A luz do sol entrava no quarto, ofuscante. Sobre a casa, um avião passou em vôo baixo. Tudo lhe pareceu irreal, absoluta-

mente irreal.

 

Tomaram o café da manhã na cozinha.

Ambos estavam de roupão. Diante da vidraça arrombada Mercedes fixara um grande papelão. Havia café, suco de laranja. pãezinhos frescos, manteiga, presunto, queijo, geléia e ovos quentes. Ross estava de repente, com enorme apetite. Mercedes ficou contente com isso.

Entre ambos estava o jornal Frankfurter Aligemeine do dia. A Sra. Glanzer o trouxera. O olhar dele fixou-se no cabeçalho.

— Andropov morreu!

— Morreu na quinta-feira. Você não sabia?

Ross sacudiu a cabeça.

— Ah, bem! — disse ela. — Os russos só anunciaram na sexta à noite. Saiu nos jornais de sábado. Eu vi as manchetes quando aterrissamos em Zurique.

— No sábado não li jornal algum... — Interrompeu-se, pegou o jornal e começou a ler.

Iuri Andropov morrera de fato em Moscou na última quinta- feira, aos sessenta e nove anos de idade, às l6h5Om, hora local, após longa enfermidade e curto tempo de serviço: quatrocentos e cinqüenta e quatro dias antes, em 12 de novembro de 1982, o Comitê Central o elegera para o cargo de secretário-geral, um pouco mais tarde para a chefia do partido e do Estado. Nos últimos cento e setenta e quatro dias, Andropov, sucessor de Leonid Brejniev, não fora visto em público — desde 18 de agosto de 1983.

— Será sepultado amanhã — disse Ross com o jornal nas mãos. — Seu sucessor será escolhido hoje. Já se sabe que será Konstantin Chernenko, um filho de camponeses siberianos, setenta e dois anos de idade. Nunca ouvi falar.

— Nós já — disse Mercedes.

— Quem, nós?

— O pai e eu. Chernenko é o funcionário mais idoso que já se tenha tornado chefe do partido, é apenas um ano mais novo do que Stalin por ocasião de sua morte, após quase trinta anos no comando do poder.

— E você sabe isso?

— Estudei Política na Universidade, Daniel. Trabalho e penso politicamente desde que comecei a pensar.

— O que quer dizer: você trabalha? — Ele a olhava por cima do jornal.

- No movimento internacional a favor da paz. — Ela agora falava mais alto e os seus olhos estavam brilhantes.

— Ai, minha Nossa Senhora — disse ele. — Movimento internacional a favor da paz! Criar a paz sem armas! Quatro vírgula seis bilhões de seres humanos não podem permitir que duzentos velhos decrépitos os levem à morte nuclear! Transformar espadas em arados... — E ele interrompeu espantado o que dizia, pois Mercedes havia exclamado alguma coisa. Seu rosto estava inteiramente desfigurado. Os músculos tremiam, as sobrancelhas se haviam juntado, uma expressão de paixão alucinada se manifestava em seus olhos.

- Cale-se! — exclamou ela. E acrescentou: — Você se diverte com o movimento a favor da paz? Está achando que somos ingênuos, pirados e escravos de Moscou, não? Sonhadores e sectários, hem?

— Nada disso...

— Claro! Mas o senhor está equivocado. Sr. Ross! Agora, exatamente agora, quando o senhor vir o documento, vai reconhecer que o movimento pacifista (tanto mais com o material de que meu pai dispõe) é de qualquer forma o movimento mais importante do mundo. Na Argentina, até pouco tempo atrás, nós tivemos dificuldades. Oito anos de ditadura militar! Mas depois vieram as eleições em 30 de outubro. Desde então, a Argentina é uma democracia. Já em 13 de dezembro, três dias após seu juramento de posse, o Presidente Alfonsín decretou novas leis. No dia 15, ele mandou quarenta e oito oficiais de alta patente para a reserva, prematuramente. No dia 29, ele começou o gigantesco processo contra os membros das três Juntas militares. Agora, tudo é mais fácil. Agora poderemos afinal trabalhar direito. — Viu a cara assustada dele. — Desculpe-me essa explosão, mas...

— Você é uma fanática, Mercedes.

— Em favor da paz, sim. Para a paz, tudo. Minha vida, imediatamente!, se for para ajudar a preservar a paz.

— Lamento muito — disse ele enquanto pensava: presumivelmente não só a vida dela. Qualquer outra também. Meu Deus, em que coisa estão querendo me meter.

Ela disse então, mais calma novamente:

— Chernenko é um modelo de apparatschik. Por sinal, ele nunca dirigiu uma empresa do Estado ou administrou um departamento do governo. Ninguém tem idéia do que ele vai fazer depois que tomar conta do poder. Quem está realmente no poder? Ele ou os homens que estão por trás dele? Será meramente uma solução transitória! Andropov tinha sessenta e nove, Chernenko já tem setenta e dois. Corre em Moscou a maledicência de que o partido é uma empresa funerária.

- E Reagan? — perguntou ele. — Ele tem setenta e três.

— E a América vota este ano. — Mercedes tinha novamente a expressão de férrea decisão em seu rosto. — Você não pode me compreender porque não pode saber o que o espera em Buenos Aires. Mas irá compreender-me. Por isso mesmo é que eu vim até aqui, para buscá-lo, o mais rápido possível. Meu Deus, o tempo urge! O tempo urge!

— Você me provoca arrepios — disse ele.

— Não, não sou eu quem provoca arrepios. — Mercedes sacudiu a cabeça. — São os governos das superpotências! E os provocam sempre mais. Cada vez mais sinistros. Cada dia mais imprevisíveis — em virtude desse acordo. Você precisa lê-lo! Não dá para explicar. Velhos! Velhos, que já viveram as suas vidas. Você sabia que durante vinte e dois dos sessenta e anos de sua existência o Estado Soviético foi governado por doentes?

Então Ross disse:

— George Orwell escreveu em 1984: “Não tem importância se o Grande Irmão vive ou não.”

— Orwell! Se Orwell tivesse encontrado meu pai, ele não teria escrito isso.

Ele a observava, assombrado. Essa mulher está realmente possuída, pensou ele. Possuída por sua convicção de que ela e o vagabundo do meu pai detêm a paz do mundo nas mãos, que podem preservar o mundo de uma guerra terrível que traria o fim de todos nós. Ela está com uma pressa frenética. Tem medo de que nosso tempo se esgote.

Mercedes exclamou:

— Orwell não teria escrito nem uma linha desse livro inofensivo e simpático romance de conversa mole — que comparado com a verdade de 1984, é apenas um simpático romance água-com-açúcar. — Os lábios dela tremiam. — Você vai conhecer esta verdade — disse Mercedes Olivera. — Agora vai conhecê-la.

 

— Hospital Geral.

— Puxa! Finalmente.

— Como é, por favor?

— Nada, nada. Estou falando de Frankfurt. Por favor a Dra. Mannholz, da psiquiatria.

— Não trabalha aqui.

— Bobagem. Claro que trabalha aí. Ela tratou de mim.

— E eu lhe estou dizendo que não temos nenhuma Dra. Mannholz.

— Minha cara senhorita, estou perfeitamente seguro de que vocês têm uma Dra. Mannholz. Na Clínica Psiquiátrica da Universidade.

Ele ouviu a mistura de vozes das moças na central telefônica.

— A senhorita está sobrecarregada. Naturalmente. É muito importante. Talvez a senhorita não trabalhe aí há muito tempo. Poderia pedir-lhe que perguntasse a alguma de suas colegas?

— Eu trabalho aqui na mesa telefônica há onze anos. Mas muito bem... Um momento... — Ele ouvia como a telefonista falava indistintamente com uma colega.

— Alguma coisa que não está em ordem? — indagou Mercedes. Ela estava de pé junto a Ross, ao lado da escrivaninha, sobre a qual ainda se encontravam as embalagens abertas de Nembutal. Entre um copo cheio de uísque aguado e a garrafa de Chivas brilhava a plaqueta de prata polida com as palavras de Bertrand Russell que Sibylle dera de presente a ele em 1971, há treze anos. Mercedes leu o texto gravado enquanto seus dedos tamborilavam nervosamente sobre o tampo da mesa.

— Isso é formidável.

— O quê? Alô! Alô! Senhorita... O que é formidável?

Mercedes apontou a plaqueta com o queixo.

— Mesmo que não se tenha a mesma opinião — disse ela. — Sibylle tinha?

— O quê?

— Se ela era da opinião de Russell?

— Não. Ela acreditava que... Alô! Sim, senhorita?

— Agora nós a encontramos — dizia a voz de Viena.

— Ah, muito bem.

— A Dra. Mannholz já não trabalha mais aqui há oito anos.

— Não trabalha mais no Hospital Geral?

— Não, ela trabalha em outro lugar. Eu posso lhe passar o endereço e o telefone dela.

— Ótimo, obrigado. — Ele pegou um lápis.

— Então: Sanatório Particular Kingston em Heiligenkreuz, telefone: nove-três-quatro. Prefixo: zero-dois, dois-cinco, oito. Conseguiu pegar?

— Sim. Eu lhe agradeço muito, senhorita.

— Não há de quê. Grüss Gott! (Saudação nacional austríaca: “Que Deus o abençoe!”

Ele pousou o fone no gancho.

Mercedes sentou-se numa poltrona ao lado da escrivaninha.

— Estranho. — Ele fitava a placa de prata.

— Que ela trabalhe em outro lugar? O que tem isso de estranho?

— Ela gostava tanto dessa clinica. Ela não podia imaginar deixá-la um dia. — Ergueu os ombros e apertou o código da Áustria, 0043, em seguida o de Heiligenkreuz e, por último, o número do sanatório.

Atenderam imediatamente. Era uma voz masculina.

— Sanatório Kingston, bom dia.

— Bom dia. Desejava falar com a Dra. Mannholz. É uma chamada de Frankfurt.

— Vou ligar com a recepção.

— Obrigado

Uma voz feminina: — Recepção da Médica-Chefe Mannholz.

Ele repetiu seu pedido.

— Como é o seu nome?

— Ross. Daniel Ross, de Frankfurt

- Um momento, por favor. Ela não está na sala dela. Espere um instantinho, sim?

- Pois não.

- O que é? – perguntou Mercedes.

— Tenho de esperar um instantinho. A senhora médica-chefe foi chamada com o bip. Não se encontra em sua sala. Líbano em batalha mortal.

— Como?

Ele indicou um número do Time.

— Está escrito ali.

— Ouça, Daniel, não se pode também exagerar. Afinal, a sua amiga não esperava a sua chamada.

— Tudo bem. Tudo bem. — E passou a mão pelos cabelos brancos.

— Alô, Sr. Ross?

— Ela está aí agora?

— Nós a chamamos pelo bip-bip. A médica-chefe já vem. Ainda um momento, por favor.

— Certamente. — E ele começou a assoviar. Mercedes o observava.

— Danny! — Ele se encolheu como se tivesse levado um choque quando ela o chamou pelo nome.

— Sibylle! Enfim. Como estou feliz de ouvir sua voz.

— E eu, Danny! E eu! Meu Deus, desde aquela época você nunca mais deu sinal de vida. — A voz estacou. — Quase treze anos, Danny.

— Você também não se manifestou — disse ele penosamente.

— Mas isso nós havíamos combinado. Você disse que precisava ser assim. Nós não deveríamos ter nenhum contato, nunca mais. Veja se se lembra disso!

— Eu me lembro direitinho. Nós dois agimos de acordo com o combinado.

— Pois é. — Os olhos dele começaram de repente a arder.

— Meus olhos estão ardendo. — Aí veio a voz, que ele tanto havia amado, da Áustria para o seu ouvido:

— O que está acontecendo, Danny? Houve alguma coisa? Você está passando mal?

— Sim — disse Ross.

— O Nobilam. Tomou novamente demais?

— Demais, mesmo.

— Você toma o primeiro avião e vem para Viena! Heiligenkreuz está a vinte e nove quilômetros ao sul. Meta-se num táxi! Por que você não telefonou há mais tempo?

— Tive vergonha, Sibylle. Por causa de minha fraqueza, meu vício. Foi ele que nos separou...

— Isso não é verdade!

— Claro que é verdade! — Ross estava falando mais alto agora. Parecia ter esquecido que Mercedes ouvia tudo. — Nós tivemos nosso tempo. Foi um tempo maravilhoso. Mas não poderia dar certo conosco. .. Com um sujeito como eu... que é covarde, inseguro e cheio de medos... que vive choramingando e não consegue viver sem os malditos comprimidos... Sempre outros... sempre novos...

— Danny! Danny! Não fale assim! Você agora está na fossa, está num baixo astral. Por isso você vem imediatamente para cá! Você é o homem mais fantástico do mundo quando você não se arrebenta todo...

— Sou um porcaria, isso sim. Exagerada vinculação com a mãe! Coisa nenhuma! É só uma desculpa para engolir mais comprimidos. Belo pretexto. Boa desculpa, Sibylle... Você também me deu Oxazepam e eu logo comecei a exagerar como antes com o Valium. E de novo dei de cara no chão, e a boa doutora teve de me ajudar... uma vez, duas vezes... Isso destruiu o maior amor! É isso que acabou enchendo a paciência até da boa Sibylle, que é tão compreensiva.

Mercedes o olhava, assustada. Ele não sabe mais que eu estou aqui, pensou ela. É evidente que ele ainda ama essa mulher. E ela?

EM GRANDE AMOR. SIBYLLE

— Danny! — dissera Sibylle nesse entretempo. — Por favor! Você bem sabe que não foi assim.

— Exatamente assim é que aconteceu. Ouça isto! Uma piadinha. Um menininho volta da escola e chora: “Mãe, mãe, o professor disse para um outro professor que eu tinha um complexo de Édipo. Diz a mãe: Mas isso é bobagem! Você nem precisa prestar atenção, querido. Basta você gostar de sua mãezinha!” — Ele caiu na gargalhada, e as lágrimas lhe desciam pelas faces. Mercedes o olhava preocupada. — Você nem está rindo, Sibylle? Não é engraçado?

— Não. E agora chega. Quando você estará aqui?

— Aí é que está. Por isso é que estou telefonando para você. Eu não posso ir.

— E por que você não pode vir?

— Isso não lhe posso dizer.

— Danny, que bobagem é essa!

— Não é bobagem nenhuma, Sibylle. Preciso partir da premissa de que nossa ligação está sendo ouvida. Talvez não a sua. Mas o meu telefone é muito provável. Eles tiveram bastante tempo desde... — Aí, ele interrompeu.

— Desde o quê? Danny, não fique fazendo teatro!

— Por favor, por favor, acredite em mim! Aí, ninguém está escutando junto com você, não?

— Não.

— Certeza que não?

— Com toda certeza, Danny. Assim, você me ofende.

— Perdão! Isso eu não queria. Então, com certeza, ninguém?

— Não! — gritou ela, fora de si.

A quase seiscentos quilômetros de distância de Daniel, em linha reta, a Dra. Sibylle Mannholz estava de pé, diante de sua escrivaninha recoberta de papéis, dentro de sua enorme sala de conferências, inteiramente pintada de branco. Segurando o fone ao ouvido, ela estava com os olhos arregalados de excitação. Passou a mão sobre os curtos cabelos castanhos. Ao seu lado estava postado um homem alto. Esse homem vestia, como ela, um avental branco de médico. Seu rosto regular, muito pálido, estava impassível. Ele segurava um segundo receptor do aparelho telefônico junto ao ouvido. Desse modo, registrava cada palavra que Daniel dizia, tão nitidamente quanto a médica. Esse homem alto e pálido tinha espessos cabelos pretos, esticados para trás, e olhos que revelavam ao observador uma rara combinação de duas características: frio glacial e melancolia.

— Bem, está bem, eu acredito em você! É que eu agora preciso tomar cuidado. Muito cuidado. Contarei tudo o que puder contar.

Relatou-lhe que havia perdido sua posição na emissora e, também. porque, disse que durante semanas procurara inutilmente um novo trabalho. Descreveu os efeitos colaterais do Nobilam, seu desespero, sua malograda tentativa de suicídio. Contou da mulher que lhe salvara a vida. Sibylle e o grande homem pálido escutavam atentamente. O médico via lá fora um parque densamente coberto de neve, cercado por altos muros. Um enfermeiro e seu paciente caminhavam pesadamente pela neve.

— ...bem, isso é tudo — soou a voz de Ross nos dois fones.

— O que quer dizer “isso é tudo”? Por que você não pode vir imediatamente me ver?

O homem grande e pálido de cabelos negros escreveu em um bloco de papel:

QUEM E A MULHER? O QUE É QUE ELA QUER?

— É porque antes eu tenho que terminar uma coisa, Sibylle. Tenho mesmo! De qualquer modo!

— Tem alguma relação com essa mulher?

Pausa, depois:

— Sim.

— E quem é essa mulher, Danny? Como pôde ela salvar a sua vida?

— Lamento muito, mas isso não lhe posso dizer.

— E o que ela quer de você, também não?

— Ela veio me trazer uma notícia.

— Notícia? De quem?

— Não ao telefone.

Sibylle olhou o médico, com uma expressão de imenso triunfo em seu rosto. Também ele a olhou — triste e glacial.

Ele escreveu, então, sobre o bloco:

DE ONDE?

— E de onde, também não?

— Sim, isso sim. Isso eu preciso dizer. Esse é o meu problema. Preciso ir para lá. A noticia veio de Buenos Aires.

— De onde?

— De Buenos Aires.

BUENOS AIRES

escreveu o médico pálido sobre o bloco. Então, voltou a olhar para o parque coberto de neve. Os dois homens estavam metidos em pesados capotes e gorros de pele. Lá fora, fazia um frio de rachar, embora o sol brilhasse, banhando com seus raios as paredes brancas da sala,

— E — soou a voz de Ross — eu não sei se vou agüentar o longo vôo até lá. Expliquei a você meus sintomas, o que o Nobilam fez de mim. Quero dizer: o que eu fiz de mim, usando o Nobilam. E, ainda por cima, a tentativa de suicídio.

—. Você está muito fraco?

— Um bocado. Lá em Buenos Aires é agora a estação mais quente do ano, Sibylle.

— Eu sei.

Sobre a escrivaninha, em meio a montanhas de pastas com papéis, livros e embalagens de medicamentos, havia um grande retrato a cores dentro de uma moldura larga. Mostrava um quarentão de olhos e cabelos castanhos. O homem do retrato ria. Parecia-se muito com Sibylle.

— Mas eu preciso ir lá! — acrescentou Ross.

— Por quê?

— Por causa de um homem que tem trabalho para mim.

— E que trabalho é esse?

— Meu trabalho de sempre. Notícias. Uma história. Fui posto na rua, Sibylle.  Aqui, eu não arranjo mais nada. É a última chance. Esse homem vai me conseguir um trabalho. Um trabalho formidável, Sibylle.

— E ele não pode fazer isso depois que você tiver estado comigo?

— Não, aí é que está. Preciso vê-lo o mais rápido possível. Tanta coisa para mim depende disso, Sibylle.

O homem de cabeleira negra, pálido e de sobrancelhas cerradas, voltou a escrever no bloco:

ELE TEM DE IR A B.A. IMPRETERIVELMENTE

— Eu compreendo o que isso significa para você, Danny, na sua situação — disse Sibylle. — Não há dúvida de que você precisa ir. — Ross não chegou a perceber o tremor de sua voz.

— Não é mesmo, Sibylle, não é mesmo?

Ela o ouviu rir, aliviado, O médico também ouviu a risada. E escreveu no bloco:

MAS DEPOIS IMEDIATAMENTE PARA CÁ! IMEDIATAMENTE!

E sublinhou a última palavra. Em seguida, bateu com o lápis sobre o bloco.

Sibylle o encarou. Em seu olhar misturavam-se ódio e impotência.

— Mas, depois disso, você vem imediatamente me ver, Danny — disse ela. — Você precisa me prometer isso! Já dei um jeito em você duas vezes. Vou fazê-lo uma terceira. Você não deve em hipótese alguma procurar um médico que não o conheça como eu!

— É claro que eu então irei imediatamente ver você. Mas estou lhe dizendo, pode ser que não consiga nem mesmo chegar a Buenos Aires. Talvez você possa me ajudar. Eu não tenho a menor idéia. Que acha?

O homem de cabelos pretos escreveu:

REINSTEIN! REINSTEIN PRECISA EXAMINÁ-LO MUITO BEM! PRECISAMOS DO HOMEM VIVO — E DA MULHER!

Sibylle vacilou. Olhou o médico com olhar suplicante. Ele encarou-a com seus olhos estranhos, dos quais a tristeza desaparecera: só sobrara aquela frieza gélida.

— Sibylle! Você ainda está aí?

Com um movimento brutal, o homem pálido colocou diretamente diante de Sibylle aquela fotografia grande e colorida do jovem sorridente. Ela estremeceu.

— Estou sim Danny...

— O que houve?

— Por quê? Houve alguma coisa?

— Por que você não respondeu? Há alguém com você, escutando?

— Se alguém... Danny! Eu já lhe disse, estou sozinha!

O homem ao seu lado sorriu pela primeira vez. Ele se divertia. E estava muito excitado, mas controlava-se perfeitamente. Durante cinco anos de formação especializada, tinham-no educado para se controlar totalmente perante qualquer situação.

— Você está mesmo sozinha?

— Danny! — disse ela com desespero na voz, um desespero que ele não notou. — Você acredita que estou lhe mentindo? Você acha, hem?

— Não... não... por favor! — disse ele, precipitado. — Não disse isso nesse sentido. Por aí você vê qual é meu estado. Você pode me ajudar de alguma forma?

O médico bateu com o lápis sobre a palavra que havia escrito: REINSTEIN.

Lutando com todas as forças para se controlar, Sibylle disse:

— Está bem, Danny. Você tem de estar tranqüilo quando for voar. Sim, eu acho que posso ajudá-lo.

— Ah, Sibylle!

— Agora que você tem um novo emprego em vista, é claro que não vai novamente tentar se matar, não é?

— Claro que não. Por quê?

— Eu pensei exatamente em mandar você à clínica psiquiátrica de Frankfurt e telefonar para um médico de lá que trabalhou comigo em Viena.

— Não, nada de psiquiatria! Eles me seguram por semanas, meses a fio. Isso agora tem de ser rápido, Sibylle, o mais rápido possível.

— Isso mesmo. Era nisso que eu estava pensando. No fundo, basta que se faça um exame geral. Coração, circulação, sangue, radiografia dos pulmões, após a tentativa de suicídio. Rins, por aí afora. Um check-up completo. Tenho um velho amigo. Um médico formidável. No Primeiro Hospital das Clínicas da Universidade.

— Eu moro quase ao lado.

O médico balançou a cabeça, satisfeito.

— O homem se chama Reinstein. Dr. Ernst Reinstein. Vou ligar imediatamente para ele. Amanhã você já deve poder caminhar de novo. Você pode confiar integralmente nesse Reinstein. Você pode imaginar o que os médicos às vezes são obrigados a fazer, em que situações são metidos, não é verdade? Muitas vezes ajudei Reinstein, e ele a mim. Ele nos poderá dizer exatamente como você se encontra. Todos os dados ele me passa pelo telefone. Se nós dois dissermos que você pode voar para Buenos Aires antes de vir aqui, então pode ir sossegado.

— Eu lhe agradeço, Sibylle!

— Não seja por isso — disse ela com uma voz neutra.

O homem grande e pálido de olhos esquisitos escreveu sobre o bloco:

NOME E ENDEREÇO DO HOMEM EM B. A.

— Quanto tempo vão levar esses exames? — indagou Ross.

— Um dia inteiro. De manhã até a noite. Vão passar você pelo moedor de carne! Reinstein só faz isso para mim. Senão leva muito mais tempo. A amostra de sangue é tirada bem cedo. Você tem de estar em absoluto jejum. Sem Nobilam! Em hipótese alguma! Você já tem bastante no corpo, infelizmente. Depois do exame de sangue, você pode voltar a tomar o Nobilam! Esse pouco tempo também não tem mais grande importância. Tão logo você se sinta mal, vá em frente, seu velho viciado! Vou conversar com Reinstein a respeito. E onde mora esse homem?

— Em Buenos Aires. Eu já lhe tinha dito, Sibylle.

O médico ergueu a foto com a larga moldura e a colocou diretamente diante do rosto de Sibylle. Agora, todo o corpo dela estremecia.

— Buenos Aires, mas onde?

— Lamento.

— Você não quer me dar o endereço?

— Não posso. E o nome tampouco. Mas isso também não tem importância.

— Claro que não. Seria apenas uma medida de precaução. Caso viesse a acontecer alguma coisa. — E Sibylle olhou o homem do cabelo preto, cujo rosto de novo expressava triunfo. Um triunfo mesquinho. O médico ergueu com indiferença os ombros e deixou-os de novo cair. — Agora me dê seu número de telefone! Eu ligo imediatamente para Reinstein e, em seguida, para você.

Ross lhe passou o número.

— Até já, Danny!

— Fico esperando.

Ela desligou e afundou-se numa poltrona branca. Sua respiração era irregular. Apertava as faces com as duas mãos.

— Vamos, doutora-chefe! — disse o pálido médico. Tirou o fone do aparelho e o estendeu para ela. — Em frente! Ligue para Reinstein!

— Eu ... não... posso.

— Ê claro que pode! E com a outra mão, voltou a segurar a foto do jovem sorridente diante do rosto dela. — Pense nele!

— Mas eu estou pensando nele...

— Então, vamos! Eu disco o número. — E já tinha começado a discar. — Só precisa falar!

Sibylle pegou o receptor. Ouviu os algarismos sendo registrados. Em seguida, escutou o sinal. E logo uma voz de mulher:

— Clínicas da Universidade.

— Por... favor ... o Dr. .... Reinstein! — Sibylle fazia esforço para respirar.

Em Frankfurt, Ross dizia a Mercedes:

— Ela é formidável, não acha?

— É — respondeu ela, e seus olhos de um azul luminoso estavam serenos. — Formidável mesmo.

Ele foi à cozinha e trouxe um copo d’água. Pegou então o tubinho de Nobilam e engoliu com água cinco comprimidos.

— Sibylle disse que agora dá na mesma. Posso tomar esse troço assim que sentir qualquer coisa. E eu estava começando a sentir. Grande novidade!

— Se você conseguir marcar para amanhã, vai dar tudo certinho — disse Mercedes.

— O que você quer dizer com isso?

— Amanhã é terça-feira. Na quarta, sua amiga tem os resultados. O primeiro vôo direto de Frankfurt para Buenos Aires só segue na quinta. LUFTHANSA. Sextas e domingos há vôos da AEROLINEAS ARGENTINAS. Sábados, LUFTHANSA.

— Você já se informou?

— Como você vê...

— Quando?

— Antes de minha partida de Buenos Aires.

Ele a olhou em silêncio.

— Eu também sou formidável — disse ela. — Preste atenção e verá como ainda serei formidável.

Ele se sentou.

— Daniel?

— Sim?!

— Sua mãe, Thea Ross, já faleceu em 1969, não é?

— Correto. Por quê?

— E mesmo assim... — E calou-se.

— Mesmo assim o quê?

Ela abanou a cabeça.

— Não, eu quero saber — exclamou ele.

O telefone soou.

— Atenda! — disse Mercedes. Ele pegou o receptor e percebeu a mesma voz de homem de antes.

— Grüss Gott! Sanatório Kingston. Sr. Ross, em Frankfurt?

— Sim.

— Um momento, vou ligar com a doutora-chefe.

Um estalido na ligação. Então. ouviu a voz de Sibylle:

— Danny?

— Sim.

— Bem, falei com Reinstein. Tudo OK. Amanhã de manhã às sete e meia, em jejum. vou lhe dar o número dele na clínica. — Assim o fez e ele anotou. — Quando eu tiver desligado, ligue para lá! Ele lhe dirá tudo o que é necessário: aonde você deve ir e o que será examinado.

— Ótimo!

— Mas só na quarta à tarde é que ele terá todos os resultados.

— Não importa, Sibylle. O vôo direto só parte mesmo na quinta.

O médico grande e pálido sorria de novo. Escreveu no bloco:

QUINTA-FEIRA

E emabixo:

ISTO BASTA

Então, rasgou a parte superior da folha e colocou-a no bolso.

— Amanhã à noite, quando você tiver terminado, ligue sem falta para mim!

— Por que sem falta?

— Preciso saber como você está se sentindo a fim de que eu possa combinar com Reinstein o que vamos lhe dar para a viagem. E na quarta à tarde ficarei em casa. Tio logo tenha os resultados e saiba de tudo, eu telefonarei para você.

— Eu lhe agradeço, muito obrigado, Sibylle. Ah...

— Sim?

— Já ia esquecendo. Diga-me: Que você está fazendo aí em Heiligenblut?

— Heiligenkreuz.

— Kreuz. Dá na mesma. Que faz você aí? Por que não está mais no Hospital Geral?

— Você sabe, foi uma oferta de emprego formidável. Eu simplesmente tinha de aceitar.

— Mas você não queria sair nunca do Hospital Geral!

— Isso era outra coisa. Depois eu lhe conto, quando você vier. E essa mulher tem de vir junto! Ela agora tem de ficar sempre junto a você. No caso de você se sentir mal. E venha o mais rápido possível! Você prometeu. Pense no amor que tivemos. Por esse amor, Danny! Jura que logo em seguida você vem?

— Juro, Sibylle.

— Então, até mais tarde! Passe bem, Danny!

— Você também, Sibylle! Um abraço. — Pousou o receptor no aparelho e olhou para Mercedes. — Por favor, reze por mim, para que os resultados sejam bons! Aí dará certo.

— Precisa dar certo — disse Mercedes. — Já estou rezando o tempo todo.

— Agora, esse Reinstein. -. — Ross olhou o número que havia anotado e começou a discar.

Nesse mesmo instante, aquele médico grande e muito pálido de cabelos pretos atravessava com passos rápidos um corredor do primeiro andar do sanatório. Chegou à sua sala de trabalho e abriu a porta, deixando em seguida bater às suas costas. Havia nela uma placa. Gravado em letras de imprensa, lia-se: DR. GERD HERDEGEN. O homem que se chamava Herdegen aproximou-se de sua escrivaninha. Também aqui tudo era branco. O homem que se chamava Herdegen sentou-se e puxou o telefone para junto de si, depois de ligá-lo a um pequeno aparelho, denominado misturador. Tudo o que dissesse agora, seria, para qualquer um que ficasse à escuta, uma seqüência ininteligível de sons. Somente uma pessoa, cujo aparelho estivesse ligado ao misturador correspondente, poderia entender Herdegen. E vice-versa, ninguém afora Herdegen poderia entender o que essa outra pessoa dissesse ao telefone, cujo número ele agora chamava na maior precipitação. Começava com 00441...

00441 era o prefixo de Londres.

Em sua sala, Sibylle estava sentada diante da fotografia do jovem sorridente e chorava. Com um lenço, ela enxugava suas lágrimas. Mas sempre lhe vinham outras. A Dra. Sibylle Mannholz chorava como se nunca mais fosse parar de chorar.

— Atenção, por favor! — dizia uma voz de moça saindo de vários alto-falantes. — LUFTHANSA anuncia a chegada do seu vôo novecentos e dezessete, procedente de Frankfurt com escalas no Rio de Janeiro e São Paulo. — A voz repetia a informação em inglês e em português.

Um gigantesco Jumbo do tipo Boeing 747 E corria ao longe sobre uma das pistas de aterrissagem. Em seguida, diminuiu a velocidade e foi rolando até taxiar. Era sexta-feira, 17 de fevereiro de 1984, e 11h45m e fazia um calor infernal em Ezeiza, o maior aeroporto da América do Sul, situado a trinta e três quilômetros de Buenos Aires. Os termômetros marcavam quarenta e dois graus centígrados à sombra. O ar fervia e o asfalto estava mole. Ônibus se aproximavam do Jumbo pousado, que viera quase lotado, trazendo duzentos e setenta e um passageiros. Quando Daniel Ross saiu do interior refrigerado do avião e pôs os pés na plataforma superior da escada, o calor do sol o atingiu como uma martelada no crânio. Ele soltou um gemido e chegou a cambalear.

— Muito mal? — indagou Mercedes bem junto dele, pousando, preocupada, a mão sobre seu ombro.

— Está indo — respondeu ele.

Ambos usavam roupas bem leves e chapéus de linho branco.

Mercedes trouxera um desses chapéus para Frankfurt, destinado a Daniel. Era necessário, dizia ela. Todas as pessoas cobriam a cabeça, com um calor desses. Seria um risco de vida andar com a cabeça descoberta, mesmo que apenas por pouco tempo.

O corrimão estava em brasa. Quatro degraus atrás de Ross vinha um homem jovem, vestindo um temo de tropical bege. Usava um boné de tecido da mesma cor, com guarda-sol, e parecia-se com o ator Alain Delon.

Nos ônibus destinados aos passageiros a temperatura era seguramente de mais de cinqüenta graus. Os passageiros recém-chegados tinham todos, sem exceção, rostos pálidos e exaustos. Ross sentia-se entontecido. O ônibus em que vinha balançava. Ross praguejava baixinho.

— Isso já vai passar — disse Mercedes. — Meu carro está aqui.

Mas é evidente que ainda demorou um bom tempo até que tivessem passado pelo controle de passaportes e bagagens. Ross levava seu capote de inverno dobrado sobre o braço, Mercedes, um vison. No lugar onde essas peças pousavam, as mangas das roupas estavam empapadas de suor. O imenso salão do aeroporto estava climatizado, os aparelhos de ar condicionado funcionavam a todo vapor, mas não conseguiam vencer o calor. O ar estava úmido e abafado.

Na noite da véspera, quinta-feira, o avião partira às 22h de Frankfurt em pleno inverno, decolando de uma pista da qual montanhas de neve acabavam de ser removidas. A diferença de fusos horários entre Frankfurt e Buenos Aires é de quatro horas, e a viagem durara, portanto, dezessete horas e quarenta e cinco minutos, inclusive escalas.

Muitos funcionários atendiam os passageiros em numerosos balcões. O jovem de terno bege, que parecia com Alain Delon, conseguiu passar habilmente pelo controle de passaportes, à frente de Mercedes e Ross. Ele dirigiu-se para a esteira metálica que circulava trazendo as bagagens. A meio caminho, passou junto a dois rapazes que vestiam calças brancas de linho e camisas coloridas de algodão de manga arregaçada, uma vermelha e a outra verde. O homem parecido com Alain Delon parou e virou-se para trás por um momento.

— Balcão oito — disse ele. — Os dois, com quem o funcionário está falando agora. Ela está de vestido lilás, ele de camisa branca e calça azul. Os dois com chapéu de linho branco. Estão com os abrigos sobre o braço. Estão vendo?

Os dois homens fizeram que sim. Usavam chapéus de ráfia.

— Vocês sabem o que têm a fazer?

— Naturalmente — disse o de camisa vermelha.

— Vocês vão acabar no inferno, se eles escaparem de vocês. Eu os acompanhei até aqui. Agora, são de vocês.

O homem de terno de tropical prosseguiu em direção à esteira rolante das bagagens, atrás da qual esperavam muitos funcionários da alfândega.

Por volta das 13h15m — uma hora e meia mais tarde — um Cadillac Sevil castanho metálico seguia de Ezeiza em direção a Buenos Aires por uma auto-estrada hipermoderna. Chamava-se Autopista Tte. General Riccheri, conforme Rosa tinha lido em diversos grandes painéis.

A autopista estava movimentada, A grande distância, o Cadillac era seguido por um Ferrari vermelho. Na direção, encontrava-se o rapaz da camisa vermelha, que, junto com seu amigo de camisa verde, estivera no salão do aeroporto. Atrás, a conveniente distância, seguia um Chevrolet branco, em cujo volante se achava o rapaz de camisa verde. De ambos os lados da auto-estrada estendia-se uma densa vegetação. Ross via bosques de cedros, ciprestes, palmeiras, pinheiros, eucaliptos e cactos, altos como carvalhos. Mercedes dirigia rapidamente, mas com segurança. Usava agora óculos escuros. Dentro do carro estava fresco. O ar condicionado sussurrava baixinho.

— Daniel?

— Sim?

— Quero lhe pedir uma coisa. Mas não fique logo zangado!

— Claro que não. Que é?

Ela olhava a pista ofuscante que se alongava à sua frente e lhes vinha ao encontro. De vez em quando vigiava o retrovisor.

— Eu sei que você detesta seu pai. Eu sei quanto e por quê. Peço-lhe de todo o coração, no interesse da causa: não o ataque imediatamente, não lhe caia logo em cima com acusações e xingamentos! Eu o compreendo muito bem, realmente. Você tem que odiar seu pai. Mas, por favor, controle-se o máximo que puder. Considere-o como parceiro em um grande negócio! Você não precisa gostar dele. Precisa trabalhar com ele. Para isso se faz necessário um mínimo de receptividade e compreensão de ambos os lados. Você acredita poder conseguir esse mínimo?

Ele pousou sua mão sobre a mão direita dela, que segurava o volante.

— Prometo comportar-me normalmente, Mercedes.

— Eu lhe agradeço — disse ela.

— Bem, e... Mercedes?

— Sim?

— Eu também tenho um pedido a fazer. Não contaremos nada do meu vício e minha tentativa de suicídio, está bem?

— Nem uma palavra. Fica sendo um segredo entre nós dois.

— Também eu lhe agradeço — disse Ross.

O Cadillac alcançava os arrabaldes de Buenos Aires. Quanto mais avançavam, tanto mais Ross se sentia subjugado. Ele visitara diversas vezes a América do Norte, mas nunca a do Sul. Buenos Aires era uma cidade gigantesca, cujo tamanho ultrapassava todas as expectativas, inimaginável. A autopista descia lentamente. Ross via agora um mar de casas. Tinha lido num folheto do avião que ali moravam dez milhões de pessoas. A cidade crescera explosivamente, o que tornara necessário construí-la de novo, literalmente de novo, no começo deste século. Somente a cidade velha permanecera em certa medida intocada. Quase todas as ruas eram traçadas em retas paralelas, infindáveis, por sua vez cortadas por outras ruas igualmente retilíneas e paralelas. A despeito desse ordenamento quase que matemático das avenidas e dos blocos de casas, Buenos Aires era uma das mais belas cidades do mundo. Não sufocava em concreto, arranha-céus ou vias de acesso sobrecarregadas com trânsito excessivo. Por todos os lados, assim lera Ross, parques e jardins desanuviavam o perfil da cidade, e agora que eles entravam nela, vindo de sudoeste, viu o primeiro deles, viu palmeiras, o verde profundo dos ciprestes, carvalhos, figueiras-da-índia, grandes quantidades de flores vermelhas, brancas, azuis, amarelas e mesmo douradas — e um lago onde nadavam cisnes.

— O lago! — disse ele assombrado.

— Há centenas deles, grandes e pequenos. — Mercedes dirigia com a segura desenvoltura de um chofer de táxi.

A Autopista Tte. General Riccheri seguia por um longo trecho para leste, cidade adentro, cercada à direita e à esquerda por árvores, arbustos, flores e gramados. Atingiram um enorme trevo com pistas superpostas. Diretamente na direção norte-sul, seguia a via expressa Avenida General Paz, também ela ladeada por um verde luminoso. Mercedes seguiu adiante, na direção leste. A autopista trocava, então, de nome, passando a chamar-se Avenida Tte. General Dellepiane, e servia como outra auto-estrada urbana. Era margeada por palmeiras, ciprestes e canteiros em flor.

— O que não falta é general — disse Roas.

— Por oito anos tivemos uma quantidade bastante deles — respondeu Mercedes. — Mas esses que dão os nomes às avenidas e auto-estradas foram os fundadores do Estado argentino. E olhou novamente pelo espelho retrovisor.

— Algum problema?

— Espero que não. Um Ferrari vermelho está nos seguindo desde o aeroporto. Eu o estou observando o tempo todo. Espere aí... — Mercedes pisou no freio e andou mais devagar. O Ferrari aproximou-se com rapidez. O jovem de camisa verme lha ergueu a mão e sorriu amigavelmente para Mercedes no momento em que os dois carros estavam emparelhados. Ela devolveu-lhe o aceno. O Ferrari então disparou e logo desapareceu no meio do tráfego.

— Sujeito simpático — disse Mercedes.

— Uma mulher maravilhosa — disse Ross. — Eu também teria acenado se estivesse no lugar dele.

Ela o olhou sorridente e afagou seus cabelos brancos com a mão direita.

— Obrigada, Daniel — disse ela.

— Mas, por favor, prezada senhora.

— Eu me enganei, graças a Deus — observou ela.

— Estamos os dois nervosos — disse Ross.

Nenhum dos dois notava o Chevrolet branco que agora os seguia em lugar do Ferrari.

A Avenida Tte. General Dellepiane terminava num anel circular. Mercedes seguiu, então, um largo trecho da Avenida San Pedrito na direção norte e de novo para leste pela interminável Avenida J. B. Justo, que parecia interminável. O Chevrolet branco a acompanhava.

Ross sabia que a cidade era limitada no extremo leste pelo rio da Prata. Via novamente palmeiras de um tamanho e idade que lhe pareciam fantásticos. Tudo é fantástico, pensou ele. Esta cidade gigante. A quantidade de flores. Os parques e os lagos. O trânsito louco. A mulher calma e prudente a meu lado. Há menos de uma semana tomei Nembutal para morrer. Agora estou aqui, do outro lado da Terra, e aguardo a maior sensação de minha vida. Todos os resultados dos exames foram mais ou menos bons. Sibylle disse que eu poderia enfrentar o vôo sem perigo. Vou rever um homem que durante trinta e nove anos considerei morto. Um homem com um segredo que fará o mundo estremecer. O vento do ar condicionado soprava baixinho. Fantástico, pensou ele. Totalmente fantástico. O Cadillac continuava seguindo pela Avenida J. B. Justo. O Chevrolet branco ainda os seguia.

— Daniel?

— Sim?

Ela olhava para a frente enquanto falava:

— Então vamos trabalhar juntos. Voltaremos juntos para a Europa. Vamos conviver quem sabe por quanto tempo. Só queria lhe dizer: estou muito feliz em poder trabalhar com você. Você é tão inteligente. Tão simpático.

— Obrigado — respondeu Ross. — Você é muito amável. Eu sinto a mesma coisa. Admirei-a desde o primeiro instante. Estou contente por havê-la conhecido. Sem você eu estaria morto.

— Não pense mais nisso! Juntos, nós vamos conseguir. Não existe nada que juntos não possamos levar a cabo, eu sei disso. — E ela o olhou através dos óculos escuros e sorriu. Logo em seguida, ela dobrou à esquerda, de novo na direção norte, entrando na Avenida Cabildo. Ele viu mansões pomposas, amplos jardins que esbraseavam em todas as cores, pequenos bosques, de novo dois parques com lagos no meio e em cuja superfície o sol ofuscava. O ruído do tráfego ficara para trás. O carro deslizava murmurante por ruas mais estreitas.

— Este bairro se chama Palermo — disse Mercedes. — Atrás de nós ficam o Jardim Botânico e o Zoológico, à direita o clube de pólo e atrás dele o Parque Três de Fevereiro com seus lagos, o velódromo e o planetário. Acho que é o parque maior e mais bonito da cidade. Do planetário já dá para enxergar lá embaixo as docas e o rio da Prata. — E entrou à esquerda numa rua comprida. De ambos os lados erguiam-se palmeiras.

Finalmente, Mercedes parou diante de um portão de ferro batido com painéis de placas douradas que se achava num alto muro de pedras que cercava um grande terreno. De lado, no muro, estavam fixadas letras e algarismos em ferro batido, e Ross leu: CÉSPEDES 1.006.

Mercedes pegou um pequeno emissor eletrônico, do tamanho de um maço de cigarros, e apertou um botão. As duas metades do portão se abriram para os lados. Mercedes entrou num parque, por um largo caminho, também ele ladeado de palmeiras.

Ross se virou. Através do vidro traseiro viu os portões se fecharem novamente. O que ele não viu mais foi o Chevrolet branco que os havia seguido até ali. O jovem vestido com a camisa verde de algodão sentado ao volante observou a entrada um instante e logo arrancou em frente.

O Cadillac avançou com certeza uns cinco minutos por dentro do parque. Só então apareceu a casa branca de dois andares, com o teto rebaixado e as janelas francesas, que Ross conhecia da fotografia que vira. Um grande balcão no primeiro andar, para o qual abriam diversas janelas agora fechadas, era sustentado por pesadas colunas de mármore.

Mercedes dirigiu o carro até diante da entrada e parou. Saltaram os dois. Um homem e duas mulheres, vestidos com leves roupas claras, saíram de dentro da casa. Saudaram-nos risonhos. Mercedes lhes disse, então, que retirassem as bagagens de dentro do porta-malas.

Ross pisou no raso gramado ao lado do caminho de cascalho. Estava em pleno parque. De novo lhe chamaram a atenção as numerosas espécies de árvores, além dos canteiros de flores onde resplandeciam gladíolos brancos, amarelos, vermelhos e de um violeta-escuro, gerânios vermelhos, brancos e lilás, e minúsculas rosas das mais variadas cores. Muitos dos poderosos troncos das árvores estavam envoltos de hera, de exuberante jasmim florido de branco, de buganvílias. essas trepadeiras espinhentas com suas folhas pequenas e ovais e florescências de todos os matizes entre vermelho, violeta e laranja. E, como num sonho psicodélico, de penduravam-se das árvores grandes tufos de orquídeas de tais formas e de tanta beleza como Ross jamais tinha visto.

À direita da casa achava-se um campo de tênis, na frente do qual se via uma grande piscina, cujos azulejos davam à água uma coloração de luminoso azul. Móveis de vime branco e pára-sóis se espalhavam à sua borda. Um homem saía naquele momento da água. Tinha um corpo esbelto, musculoso e bronzeado; o cabelo completamente branco, cortado rente, era espesso. Tinha um rosto estreito e olhos penetrantes e altivos. Os lábios eram finos. Os dentes brancos e reluzentes apareceram quando ele riu, levantando os braços e vindo ao encontro de Ross, Este permanecia imóvel. Sentia seu coração bater acelerado e forte. Pela primeira vez depois de quarenta anos, via novamente seu pai. Queria ir ao seu encontro, mas não conseguia mover-se do lugar, como que colado ao chão. Seu pai se aproximava mais e mais, a passos largos e seguros, com um andar muito ereto e desenvolto. Deixara baixar os braços, mas continuava a sorrir. Era assim que ele vinha, com um ímpeto quase juvenil, a cabeça jogada para trás. E de repente ocorreu a Ross a palavra que descrevia um homem daquela espécie, palavra que ele buscava desde o momento em que revira seu pai. Lembrou aquela palavra horrível. O homem que vinha em sua direção, sorridente e na aparência tão forte, tão invencível, era um Herrenmensch, um “membro da raça dominadora” no linguajar nazista.

— Daniel!

Ross continuava imóvel, incapaz de mexer um dedo.

O homem, com os cabelos brancos e o peito bronzeado salpicados de gotas d’água faiscantes, pegou a mão direita de Ross em suas mãos fortes e bronzeadas, cobertas de pêlos brancos, apertando-a e sacudindo-a com tanta força que Daniel chegou a sentir dor.

— Bom dia — disse ele, pensando no que havia prometido a Mercedes. Ela estava a seu lado e contemplava os dois homens, sorridente, mas com olhos sérios. Manterei minha palavra, preciso mantê-la, dizia Daniel Ross para si mesmo, O homem que num passado distante se chamara Georg Ross e que, de há muito, passara a chamar-se Eduardo Olivera, segurou Ross pelos braços e apertou-o contra seu corpo. Com os punhos, bateu-lhe nas costas estreitas. Ross deixou-se ficar. Com o rosto diretamente diante do rosto de seu filho, o pai disse no ritmo das batidas:

— Menino... meu menino... — olhou-o bem de perto, dentro dos olhos, pleno de emoção e amor, sem falsidade. — Você veio! Eu lhe agradeço! — Largou Ross e abraçou Mercedes. — Muito obrigado, meu coração. Você o trouxe para mim. — Deixou cair os braços e disse (não, pensou Ross, não!) com os olhos voltados para o céu: — E eu agradeço a Ele. Tantos anos... Minha vida está quase no fim - . . E isso ainda se torna realidade... Um milagre... — E, recuando um passo, disse: — Desculpem-me, estou comovido. — Calou-se em seguida, e tanto Mercedes quando Ross também ficaram calados. Os empregados estavam tirando as bagagens de dentro do Cadillac. Um papagaio, que se encontrava encarapitado numa palmeira, um bicho grande e com colorido de circo, dava gritos longos e excitados. Outros papagaios responderam no parque.

Eduardo Olivera segurou as mãos de seu filho e da enteada.

— Meus filhos! — disse ele.

Isso eu não agüento, pensou Ross.

Olivera devia ter um sexto sentido. Largou imediatamente as mãos de Ross e, com voz subitamente alegre e normal, passou a se informar se o vôo havia sido bom — o que eles confirmaram — e se desejavam repousar. Diante da negativa, indagou:

— Vocês estão com fome?

— Nós já comemos no avião, pai — disse Mercedes.

— Quer dizer que não estão com fome?

—Não.

— Eu tampouco — disse Olivera. — Tomei café muito tarde, hoje. Muito bem, não almoçamos. Mas com certeza vocês vão querer refrescar-se. Venham para a piscina! A água está maravilhosa. Vocês precisam nadar! Vai fazer-lhes bem. Em seguida. a sesta. Todos vão dormir. E depois do chá, conversaremos. Que querem beber? — E, voltando-se para Ross: — Uísque não é bom, com esse calor. Derruba qualquer um. Aconselho gim-tônica com muito gelo. OK?

— OK — concordou Mercedes. Ross balançou a cabeça sem dizer uma palavra.

— Miguel! — Olivera dirigiu-se a um homem jovem e moreno que se achava junto ao carro e encomendou-lhe os drinques. Miguel deu uma resposta curta e muito polida, fazendo uma reverência.

— Venham — disse Olivera caminhando sobre o gramado em direção à piscina. Indicou uma série de ‘cabines brancas de madeira. — Vá na da direita, Daniel. Lá há tudo de que você precisa. Mercedes guarda suas coisas sempre aqui embaixo. Os chuveiros estão atrás das cabines.

Ross viu que no parque havia figuras de mármore de tamanho natural, assentadas sobre pedestais. Elas esplendiam vivamente à luz inclemente do sol. Sobre a cabeça de uma deusa instalara-se um colibri.

— Daniel!

Ross se virou. O pai já estava na piscina e Mercedes acabava de desaparecer em sua cabina. O pai acenou, pisou sobre o trampolim, estendeu os braços, saltitou algumas vezes para cima e para baixo, e então pulou com elegância, com muita elegância, para dentro da água faiscante. Retornou à superfície e nadou com fortes braçadas ao longo de todo o comprimento da piscina. Um atordoante ressoar interrompeu repentinamente a quietude e fez estremecer o ar e também o chão sobre o qual Ross estava pisando. Sombras passaram rapidíssimas sobre sua cabeça. Uma formação de caças a jato da força aérea argentina passava vertiginosamente, em vôo rasante, O Herrenmensch, pensou Daniel, e os cavaleiros do apocalipse: O mundo tremerá quando a raça germânica sucumbir. Sucumbir? Será que um tipo desses vai sucumbir?

 

Enquanto isso, o Chevrolet branco que havia seguido Mercedes e Ross ao aeroporto até a propriedade de Olivera em Céspedes 1.006 parara a uma boa distância a oeste dali, defronte à entrada principal do gigantesco cemitério Federico Lacroze. no bairro de Chacarta. O rapaz de camisa verde saltou e dirigiu-se à cabine telefônica. Introduziu as moedas no aparelho e discou. Ao primeiro chamado já haviam atendido.

— Sim? — perguntou uma voz masculina.

— Aqui é o Roberto. O endereço é Céspedes, 1.006.

— Céspedes, 1.006.

— Não havia nome no portão.

— Não faz mal. Fim.

Clique. A ligação estava interrompida.

O homem que se chamava Roberto abandonou rapidamente a cabina em brasa e retornou ao Chevrolet estacionado. Sentou-se ao volante e partiu.

Bem mais longe, no noroeste da cidade, apenas coberto com uma toalha nos quadris por causa do forte calor, um homem estava sentado num quarto de seu pequeno apartamento numa rua chamada Husares. Diante da janela situavam-se as desoladoras casernas e praças de exercícios do Regimento 3 de Infantería General Belgrano. Com o calor abrasador e mortal do começo da tarde não se enxergava vivalma. O ar fervia sobre as praças desertas. O homem solitário — tinha cerca de sessenta anos de idade e era inteiramente calvo — estava com os pés em cima da mesa e segurava um fone junto ao ouvido. Possuía um bom amigo no departamento de registro de habitantes da cidade, órgão que dispunha de um bom computador.

Não se passaram nem mesmo cinco minutos até seu amigo ligar:

— Cristóbal?

— Sim.

— Céspedes, 1.006 pertence a um tal de Eduardo Olivera.

— Eu lhe agradeço, Ruiz — disse Cristóbal. Desligou o telefone e apertou o botão de um ventilador para que pelo menos o ar quente se movesse, soprando-lhe diretamente no rosto. Tirou os pés de cima da mesa. Em seguida ligou um misturador a seu aparelho, o que faria sua voz tornar-se ininteligível para terceiros, pegou novamente o fone e começou a discar um número comprido. Começava com 00441.

Para o mundo inteiro, 00441 é o código da cidade do Londres.

 

Agora estavam nadando os três.

Mercedes vestia um minúsculo biquíni que quase mostrava todo o seu corpo, que era muito bonito, embora um tanto exuberante. Ross escolhera um calção de banho preto, do qual havia vários em sua cabine. Envergonhava-se um pouco. A pele de seu corpo estava branca enquanto as dos outros estavam bem bronzeadas. Com Mercedes, Ross nadou dois comprimentos, mas depois ficou com dores no coração. Ele pensava no que lhe dissera há um ano um médico de emergência num hotel em Istambul. Mandara-o chamar porque acordara à uma hora da manhã, pensando, como tantas vezes, que ia morrer.

— O senhor não tem absolutamente nada — dissera aquele médico — apenas esforço corporal. O senhor não pratica nenhum esporte, não é? Nunca, não é verdade? Só fica o tempo todo atrás da escrivaninha, ou no avião e no carro. Pelo amor de Deus, não dá sequer um passo! Bem, muito bem. Sabe por que o senhor está se sentindo tão mal? Porque seu aparelho circula tório está inteiramente arruinado. Sim senhor, não fique me olhando assim! Eu lhe dou agora uma injeção. O senhor vai dormir. Mas isso não adianta nada, meu amigo, absolutamente nada. Tem quarenta e seis, diz o senhor? Pois mais parece ter sessenta. O senhor precisa mudar imediatamente sua vida!

Disso eu sei, espertinho, pensara Ross. Você não suspeita do Nobilam? Você agüentaria sofrer o que eu sofro? Ainda estaria vivo?

Tal lhe ocorreu no momento em que sentiu o coração. Dava pontadas. O acesso do sangue ficara irregular. Estou mesmo um caco, pensou. O contrário de meu pai. Estou mais velho e desgastado que esse maldito cachorro. Não! Não! Prometi a Mercedes.

— Vamos apostar uma corrida! — gritou Olivera.

Para o diabo com as pontadas, pensou Ross. Claro, nós dois, para ver quem chega primeiro, seu crápula imundo. Sempre nós dois! O pai se achava a seu lado na metade da piscina. De repente, sentiu um doloroso impacto no peito e, dentro da água, foi empurrado para trás. Olivera ria em voz alta. Mercedes saiu da piscina e ficou em pé na borda, com o rosto imóvel. Grandes e rijos, os seios escapavam da estreita faixa de pano.

Ross compreendeu: o pai abrira um registro lateral de água com força total. Da parte frontal da piscina vinha-lhe agora de encontro uma torrente sob forte pressão.

— Vamos, meu filho! Quem primeiro chegar lá! — Com um empurrão, o pai afastou-se da parede lateral para o meio da piscina e começou a lutar contra o forte jato de água Ross tomou profundo fôlego e em seguida jogou-se contra o turbilhão. Afundou e voltou à tona, engoliu água e a cuspiu fora, e pôs-se a nadar como se fosse para salvar sua vida. O corpo lhe doía, cada músculo doía. O coração lhe batia na garganta. Ante seus olhos giravam rodas de fogo. Mas ele não desistiu. Isso vai acabar, Herrenmensch, pensava ele. Um dia, isso vai acabar. Nem que eu agora morra, com meu corpo escangalhado pelo vício, minha circulação arruinada, e que você tenha de me pescar morto de dentro dessa sua piscina de ostentação. Sujeitinho de merda, você não pode vencer, não pode vencer!

Ele começou o seu crawl. O pai também. Estavam agora emparelhados. Ross pensou: pelo menos ele não ri mais. Ross girava os braços com selvageria. A pressão contrária do jato ficava cada vez mais forte, quanto mais se aproximava do bocal. Ele tinha a sensação de que a água, de repente gelada, lhe arrancava a carne dos ossos. Sua cabeça doía horrivelmente e ele sentia uma leve câimbra na perna direita, mas não desistiu. Ele viu triunfante como seu pai ia ficando para trás, meio metro, um metro. Rosa esforçou-se ainda mais. As ondas cortantes da torrente lhe açoitavam o corpo, que ficara vermelho como um caranguejo. A espuma espirrava alto. Nunca senti nada de especial em relação a lutadores, pensou ele, mas às vezes a gente simplesmente tem de ser um deles. Ele mergulhou e nadou por debaixo do impetuoso fluxo de água. Voltou de novo à superfície, recebeu um golpe, submergiu, voltou à tona, submergiu de novo. Em sua cabeça soavam sinos. Não enxergava quase mais nada, quando subitamente bateu com a cabeça na parede frontal da piscina. Segurou-se num apoio e virou para trás. Enquanto massas de água despencavam sobre ele, Rosa viu seu pai, que estava pelo menos seis metros para trás, derrotado. E então! pensou. De repente, sentiu-se magnífico.

Eles descansavam nas cadeiras brancas de vime. Miguel havia servido os drinques. Os copos transpiravam com o calor. Todos os três estavam de roupão branco. Mercedes enrolara os cabelos molhados numa toalha vermelha.

— Ao vencedor! — disse Eduardo Olivera.

Eles beberam.

O drinque estava tão frio que os dentes de Rosa chegaram a doer. Era um copo grande com quatro cubos de gelo. Em cima boiava uma metade de um limão pequenino e verde. O gim-tônica tinha um sabor amargo e delicioso, após o esforço. Ross sentia suas pernas tremendo sob o tecido do roupão.

— Todo mundo gosta dos vencedores — disse Olivera. Ross via agora a cicatriz na sua têmpora direita, o vestígio esbranquiçado da velha cicatriz. — Ninguém gosta do perdedor. Sentimo-nos mal em sua companhia. Espera-se que ele nos provoque pena, que ele goze de nossa simpatia. Comiseração e consolo: é isso que se espera de nós para com o derrotado. Onde está o colo sobre o qual ele pode pousar a cabeça e chorar? Eu tive esperança que você conseguisse, Daniel. Eu senti sua força. Senão eu não teria enviado Mercedes para buscá-lo. Você é forte, embora esteja com uma cara horrível. Mas quando é preciso, você tem isso dentro de você. Sim, isso eu senti. Afinal, você é o meu filho. Agora eu preciso deixar você fazer o trabalho. Também a aposta de nadar foi um teste, não foi um desafio. Você a tomou como um desafio porque me odeia. Você me odeia, não é verdade?

Mercedes olhou Ross, aflita e suplicante. Ele disse alto:

— Sim.

Olivera deu uma gargalhada. Perguntou:

— Muito?

— Muito, sim — disse Ross. — Mercedes, eu lamento.

— Não precisa se desculpar, filho — disse o pai. — Eu o sei. Como poderia ser diferente? Você me odeia demais, certo?

— Certo, demais — respondeu Ross.

— Por isso, você também pensou dentro da piscina: ele não pode ganhar! Nem que eu morra. Você pensou isto mesmo, não é, filho?

— Sim.

— E por isso você me venceu, O ódio fortalece. Quem odeia é capaz de tudo, das coisas mais difíceis. Vamos beber ao ódio, filho?

— Com prazer — disse Ross.

— Por favor... — começou Mercedes, entristecida.

— Você não! Isso é uma coisa entre homens. Uma coisa entre pai e filho. Pai e filho perdidos, devo dizer. Pai e filho reencontrados. A tu salud, filho, ao ódio!

— Ao ódio! — disse Ross e bebeu o copo inteiro.

Olivera pegou seu interfone que se encontrava sobre a mesa e chamou pelo nome de Miguel. Ele atendeu. Olivera pediu novos drinques. o que Ross entendeu.

— Si, senor — veio a voz do empregado.

— Que disse você por último? — perguntou Ross.

— Com um pouquinho mais de gim, por favor. Excelentes os drinques, mas um pouco mais de gim ainda é melhor, acho eu. Mercedes, você é a mais bela mulher da Argentina. Fique quieta! Não se responde ao pai. Ela não é maravilhosa, Daniel?

— Perfeitamente maravilhosa — respondeu ele. — Como é que você está vivo?

— Mas você me prometeu. . . — exclamou Mercedes.

— Eu mantenho a minha palavra — disse Ross. — Eu me comporto de forma perfeitamente amável e nada agressiva. Ele sabe que eu o odeio. Minha resposta não foi nenhuma surpresa para ele. Ao contrário. Ficou contente com isso. Ele viu que eu não minto. Fique tranqüila. Mercedes. Não há nenhuma briga, não é mesmo?

— Briga? — disse Olivera. — O que é isso?

Nas árvores, cantavam muitos passarinhos. Ross olhou para o alto. As aves estavam pousadas no alto das velhas palmeiras, nos ciprestes e pinheiros, eucaliptos e cactos, que eram altos como carvalhos. Os pássaros tinham penas de todas as cores.

— Então — disse Ross — como é que você está vivo? Houve um tempo em que você se chamava Georg Ross e era gerente de uma filial da Caixa Econômica austríaca em Viena. Durante a guerra você era major. O major Georg Ross tombou no leal cumprimento do dever para com o Führer e a Pátria em duros combates de defesa no dia 2 de março de 1945 na região de Küstrin. Foi o que escreveram à minha mãe, e ela chorou muito.

— Realmente? — Olivera ergueu as sobrancelhas. — O que é para ele Hécuba, o que é ele para ela, para que ela tanto o chore? Hamlet um pouco mudado. Ela chorou? Até mesmo muito?

— Quando fiquei mais velho e com capacidade de entender o que a mãe me contou a seu respeito, também não pude entender as lágrimas dela. — Ross fitou Mercedes. — Isto é uma conversação cortês entre nós dois.

Miguel se aproximava pelo gramado. Trazia os novos drinques sobre uma bandeja de prata. Tirou-os com habilidade e levou consigo os copos vazios.

— Eu lhe agradeço, Miguel — disse Olivera.

— Às suas ordens, señor — disse Miguel afastando-se de volta à casa.

Olivera o acompanhou com o olhar.

— Um bom homem — disse ele. — Motorista, jardineiro, sabe servir com perfeição. Compreende alguma coisa de técnica. É um massagista de primeira ordem. Por mim, se deixaria cortar em pedaços. Nem está há tanto tempo comigo. Eu o peguei do Carlo Alvarez.

— Quem é esse?

— O General Álvarez foi um dos chefes da Junta militar. Velho amigo meu. Agora está sendo processado. Você sabe que isso aqui agora virou democracia.

— E você não dá nada pela democracia?

Olivera encarou Ross espantado.

— Que quer você dizer com isso, Daniel? Acho a democracia a melhor forma possível de governo.

— Logo você? — riu Ross.

— Eu, sim — respondeu Olivera muito sério.

— Mas você era um nazista sem escrúpulos!

— Quando? Há quase quarenta anos! Há muitos anos que não sou mais um nazista. O que eu vivi, o que ouvi, o que vi e o que eu li abriram-me os olhos para os indizíveis crimes praticados pelos nazistas. Tomei-me um outro. Essa risada foi muito boba, Daniel. Só um idiota conserva ao longo de toda a sua vida a mesma convicção.

Ross fitou Olivera longamente.

— Então, você é um democrata — disse ele afinal, convencido.

— Com certeza — insistiu Olivera.

— Você acha que nós de outra forma iríamos nos dar tão bem? — perguntou Mercedes.

— Ah, Mercedes... — observou Ross.

— O que quer dizer isso? Se há alguém que conhece o pai, esse alguém sou eu. Eu o conheci quando tinha três anos. Desde então, ele cuidou de mim. Na medida em que eu ia crescendo, cuidou da minha educação, de meus pontos de vista. Nunca me tutelou. Deu-me livros. Levou-me a conferências, a teatros, ao cinema. Queria que eu formasse minha própria concepção dai coisas. Educou-me de uma forma democrática. Ele se arrependeu, penitenciou-se. Ele é outra pessoa! Olhe bem para mim! Eu sou uma adepta convicta da democracia. Você acredita nisso?

— Acredito, Mercedes.

— Então o pai também necessariamente o é! — exclamou ela. Ross se calou.

— E sou mesmo. E mais: o Presidente Alfonsin está rodeado de gente muito boa. Freqüentemente sou convidado pelos mais importantes dentre eles, e, muito mais vezes ainda, eles vêm aqui me contar suas dificuldades e planos e me pedir algum conselho.

— A você? — perguntou Ross. — Com seu amigo, o General?

— Eles sabem perfeitamente que ele é meu amigo, embora seja general. Sou conhecido como verdadeiro democrata, Daniel. Naturalmente estou tentando ajudar o pessoal do Alfonsín onde posso. Mas eu acho que para a Argentina a democracia não serve — disse Olivera.

— E por quê?

— Aqui o pessoal é selvagem. Precisam de uma mão forte.

— Você quer dizer uma ditadura. — Olivera sacudiu os ombros.

— Nós vamos ver quanto tempo vai durar essa democracia. Plop, fez a imaginária bolha de ar no peito de Ross. Plop plop.

— O que está havendo com você? Você está pálido. Minha honestidade está irritando você tanto assim?

— Deve ser. Honestidade em você! — revidou Ross.

— Daniel! — exclamou Mercedes. Olivera riu.

— Meu filho — disse ele. — Nós vamos brindar a sua inteligência; e a sua beleza, filha.

Eles beberam.

— A tu salud — disse Olivera de novo.

— Mas voltemos novamente a você! — disse Ross.

— Você já viu limões tão minúsculos assim? Só crescem aqui. Voltemos a mim. Em dois de março de mil novecentos e quarenta e cinco, Georg Ross, Major e gerente de filial da Caixa Econômica austríaca tombou em dura luta defensiva na região de Küstrin — no leal cumprimento do dever para com o Führer e a Pátria. Então, ele ressuscitou. Lázaro também ressuscitou.

— Você ressuscitou como Eduardo Olivera — disse Ross.

— E como banqueiro — disse seu pai. — Em 1945 houve muitos Lázaros.

— Isto é fato — concordou Rosa.

— Agora você entende como?

— Agora eu entendo — disse Ross..

— Primeiro, fui um pequeno banqueiro. Não morava ainda aqui. Depois me tornei um grande banqueiro- Aí me transferi para cá.

De novo, o ar encheu-se com um estrondo trovejante. Nova mente tremia o chão. Uma nova esquadrilha de caças a jato passava em vertiginoso vôo rasante por cima do parque. Os copos tiniam.

— Esses caças — disse Olivera — também voaram às vezes por cima da casa quando meu amigo, o General Álvarez. ainda era o patrão de Miguel. Voam agora, quando ele não mais precisa dele, quando Miguel está comigo e este país é uma democracia. Os mesmos aparelhos e os mesmos pilotos. O país continua a ser o mesmo. Eles precisam estar prontos para proteger nosso país- — Olivera abriu largamente os braços. — Meus filhos! Como estou feliz em tê-los comigo todos os dois! Venham, vamos de novo para a água!

— Eu quero lhe perguntar...

— Não — disse Olivera levantando-se e tirando o roupão branco. — Agora não há mais perguntas, Daniel. Depois da siesta eu vou lhe mostrar o documento. Então, vou responder a qualquer pergunta. Você viu as orquídeas nas árvores? Aquelas amarelas e marrons com as bordas violeta? Elas não são uma maravilha? Chamam-se Vanda tricolor. Eu gosto de orquídeas...

Plop, plop, plop.

Ross apertou os lábios. Era o medo, o medo que era irreal mas muito pior do que o medo explicável. Estava ainda ao longe, mas já estava a caminho. Ross ergueu-se rapidamente. Mercedes o mirou, preocupada. Ele sacudiu a cabeça, sorrindo, e seguiu rumo às cabines do vestiário.

— O que está se passando? — indagou Olivera.

— Nada. Eu volto já. Só preciso...

— Ah, bom.

Ross chegou às cabines. Entrou na sua e trancou a porta. Do bolso do paletó, retirou um tubinho de vidro e derramou cinco comprimidos sobre a palma da mão. Abriu a boca e engoliu o Nobilam. Há anos conseguia tomar pílulas de qualquer espécie sem tomar água junto. Sibylle disse que eu posso tomar Nobilam assim que achar que preciso, tranqüilizou-se ele. Em seguida colocou o tubinho de volta no bolso e foi para o ar livre. Dentro de quinze minutos tudo estará em ordem, pensou, a caminho da piscina. Olivera e Mercedes já estavam dentro da água. Jogavam água um no outro e riam. Ross observou longamente o pai que remava com as mãos e gritava alguma coisa para Mercedes. Ross percebeu que já estava se sentindo melhor. O ódio era uma coisa fina.

O homem cujo nome já fora Georg Ross e que agora se chamava Eduardo Olivera estava na grande biblioteca de sua casa. Ele passava de uma das altas janelas francesas para outra, apertando um botão a fim de baixar as pesadas persianas corrediças de ferro, movidas eletricamente. Na biblioteca iluminada. Mercedes e Daniel estavam sentados em fundas poltronas. Ela vestia um traje caseiro de tecido fino e dourado — calças compridas e blusa folgada — bem como slippers no mesmo tom. A casa inteira era climatizada, e na biblioteca, com seus vários milhares de volumes, reinava uma temperatura fresca e agradável. Um antigo relógio pousado na cornija da lareira mostrava a hora: eram 6h04m. Ross sentia-se descansado. Havia dormido pesado e sem sonhos. Depois, tomaram chá na biblioteca. Miguel, de calças e jaqueta branca, fechada no pescoço, tirava as xícaras, o bule e tudo o que sobrara de cima de uma mesa baixa de mármore diante da lareira aberta e punha em cima de um carrinho de serviço. Deixou uma colher cair sobre o tapete. Miguel se ajoelhou. Passaram-se vários segundos até que ele a tivesse encontrado.

— Peço-lhe perdão, señorita — disse ele para Mercedes e se ergueu.

— Mas Miguel!

— Não, foi desajeitado de minha parte. — Ele tinha boa aparência, era um rapaz moreno e esbelto, de grandes olhos amendoados e lábios cheios. Sua voz soava quente e agradável.

— Está bem — disse Mercedes. — Está tudo bem.

— Deseja mais alguma coisa, señorita?

— Nada, obrigada, Miguel.

— Meus senhores?

— Você pode ir — disse Olivera diante de uma janela. — Bebidas nós temos aqui. O jantar dentro de duas horas, por favor. Você informa a Maria?

— Sim, señor. Dentro de duas horas. Às suas ordens.

E Miguel desapareceu empurrando à sua frente o carrinho com a louça do chá, com todo o cuidado. A grande porta da biblioteca fechou-se silenciosamente atrás dele. Mercedes serviu-se de um cigarro de uma caixa de prata que se achava sobre uma mesa baixa de mármore. Ross se ergueu e ofereceu-lhe fogo.

— Obrigada, Daniel. — Ela o olhou com um sorriso.

Ele sentou-se novamente.

— Você agora vai assistir a um filme, Daniel — disse Olivera, ainda ocupado com as persianas de ferro. — Esse filme se passa em Teerã, a capital do atual Irã. Antes de mostrá-lo, preciso dizer-lhe ainda algumas palavras para facilitar a compreensão. — Olivera usava uma calça de linho branca e uma camisa azul pelo lado de fora. A terceira persiana de ferro acabara de descer ao aperto de um botão ligado a pequenos e invisíveis motores elétricos. — Até 1953, o Irá era chamado de Império Persa. Esse império foi, em mil novecentos e sete, dividido em uma esfera de interesses britânicos e outra de interesses russos. Desde mil novecentos e vinte e um, existia um tratado de defesa com a União Soviética. — Olivera seguiu até a quarta janela e abaixou a pesada persiana. — De 28 de novembro até l de dezembro de 1943, teve lugar em Teerã uma conferência dos chamados Três Grandes: Stalin, Roosevelt e Churchill. Era a primeira vez que Roosevelt e Churchill se encontravam com Stalin. — Olivera chegou diante da quinta e última janela. — Stalin tinha feito questão de Teerã e nenhuma conferência de guerra entre os aliados havia provocado antes uma luta tão longa e tenaz para determinar o local e momento de sua realização. Churchill sugerira o nome de Eureka para designar em código a conferência. — Finalmente, a quinta veneziana descansava sobre o peitoril. — Pronto — disse Olivera — agora a sala está à absoluta prova de som. -

Dirigiu-se a uma estante ao lado da lareira e apertou uma mola escondida. Uma parte da estante deslocou-se para o lado e um grande cofre embutido munido de segredo, surgiu aos olhos deles. Encobrindo a instalação com suas largas costas, Olivera formou a combinação de algarismos correta. Ao mesmo tempo, ele prosseguia:

— A persistência de Stalin quanto ao Teerã teve, aliás, seus inconvenientes. Lá, nessa época do ano, o tempo é extremamente incerto. E foi o tempo que imediatamente obrigou o Presidente Roosevelt, então já gravemente enfermo, a abandonar o local da conferência antes do previsto. Em decorrência dos conselhos de seu médico pessoal, ele queria evitar ter de voar a grande altitude por causa da aproximação de uma frente de mau tempo. As conversações do dia primeiro de dezembro foram, por isso, excessivamente comprimidas, apenas para assegurar que Roosevelt, no dia seguinte, pudesse encetar sua viagem de volta através do Egito. — A pesada porta blindada, de uns trinta centímetros de espessura, abriu-se por inteiro. Do espaçoso interior do cofre, Olivera retirou um objeto parecido com um livro estreito, metido em um estojo. — Hoje nós sabemos — prosseguiu ele — que na conferência de Teerã falou-se a respeito da abertura definida de uma segunda frente de guerra na França. Isso levou mais tarde ao desembarque aliado na Normandia a 6 de junho de 1944. Em Teerã chegou-se praticamente a um acordo, segundo o qual a abertura desse segundo front deveria ser coordenada com uma contra-ofensiva russa na primavera desse mesmo ano. Planos completos não existiam ainda. Além disso, segundo a historiografia oficial, os Três Grandes tentaram, aliás sem resultado, traçar as linhas mestras de sua política para o pós-guerra.

Olivera havia trancado novamente o cofre. Ross constatou que aquilo que ele tinha nas mãos era um vídeo-cassete. Olivera levou-o para um grande bar embutido do outro lado da lareira e abriu as duas portas de mogno. Surgiu um receptor de TV. Olivera puxou-o um pouco para fora. Ao lado da televisão havia um moderno aparelho de vídeo, sobre o qual estava pousado um pequeno e gracioso abajur. Olivera o acendeu, apagando simultaneamente a luz ambiente. A luz vinha agora de um ponto somente. A gigantesca biblioteca ficou reduzida à escuridão e uma vaga penumbra.

— Naquela época — disse Olivera enquanto se ocupava com o equipamento de vídeo — acorreram naturalmente numerosas equipes de cinema que filmavam para os noticiários semanais dos cinemas ocidentais e soviéticos. Paralelamente, porém, foi feito um filme de trinta e quatro minutos de duração, de cuja produção ninguém teve conhecimento com exceção de seus realizadores, além de Roosevelt e Stalin e de seus dois conselheiros políticos. Até este momento, ninguém no mundo sabe nada da existência desse filme, a não ser alguns homens, que pertenciam ao círculo mais restrito de colaboradores de Stalin e de Roosevelt — caso ainda estejam vivos —, além dos sucessores de Roosevelt e Stalin como dirigentes das duas maiores potências e de seus mais íntimos colaboradores. E Mercedes e eu. Preciso corrigir- me: o Ministro do Exterior Joachim von Ribbentrop, o Ministro da Propaganda do Reich Joseph Goebbels, e Heinrich Himmler, o chefe dos SS, também sabiam naturalmente da existência desse filme o qual, como Stalin e Roosevelt acreditavam, só havia sido feito em duas cópias por especialistas americanos escolhidos a dedo, de absoluta confiança e integridade a toda prova: uma versão com texto e locutor russos e outra com texto e locução em inglês. O que tenho aqui é uma cópia do exemplar americano.

— Como, uma cópia? Em 1943 não havia gravação em vídeo! Os filmes eram rodados na época em fitas de trinta e cinco milímetros.

— Isso é correto, Daniel. Eu possuía primeiro também um filme Kodak de trinta e cinco. Somente mais tarde é que mandei passar esse filme para vídeo-cassete.

— Por quê?

— Por dois motivos: o material da Kodak naturalmente não duraria eternamente. 1943, são quarenta e um anos atrás! Nem o melhor material permanece intacto por tanto tempo. Eu precisava fazer uma cópia em vídeo. Estou seguro de que também o devem ter feito no Kremlin e na Casa Branca. O filme original, com cerca de seiscentos metros de comprimento, chegava a seis quilos de peso e estava acondicionado num grande tambor de alumínio. Com aquilo, nenhuma alma conseguiria passar por nenhum controle aduaneiro. Aliás, mandei copiar em três vias esse original, por um alemão, aqui mesmo em seu laboratório. O homem faleceu já há uns cinco anos. Chamava-se Klein. Paulo Klein. Um amigo digno de toda a confiança.

— Por que motivo queria você cópias de sua cópia?

— Para minha proteção. O segundo cassete está numa casa- forte de um banco. Se alguma coisa me acontecer, se de repente eu morrer de morte não-natural, meu advogado tem procuração para retirar essa cópia do cofre e exibi-la numa conferência de imprensa internacional. Isso vale também para o caso de eu ficar mais que duas semanas desaparecido ou não der sinais de vida. Todo cuidado é pouco. Você também vai ter de tomar cuidado, Daniel quando receber agora o filme.

— Como é que devo proceder?

— Do mesmo modo que eu — disse Olivera. — A terceira cópia está aqui no cofre. Você receberá, portanto, duas cópias e também depositará uma, imediatamente, com as instruções necessárias para torná-la pública.

— E como é que esse filme chegou afinal em suas mãos?

Olivera encostou-se na parede de livros e enfiou as mãos nos bolsos da calça de linho.

— O Ministro do Exterior Joachim von Ribbentrop era um idiota. Ele só dispunha de um único talento: conseguir colaboradores de altíssimo gabarito. Dessa forma, seu Ministério dispunha de longe do serviço secreto que melhor funcionava — até mesmo melhor que o de Canaris. O serviço de Ribbentrop tinha gente de primeira classe em todos os pontos importantes do planeta. No final de 1945 esse aparelho ainda estava perfeitamente intacto. Na República Federal existem diversos serviços secretos concorrendo entre si, não é mesmo? Pois no Terceiro Reich era a mesma coisa. E também no Império do Irã fora há muito montada uma rede de espionagem como parte de um sistema muito maior, que cobria todo o Oriente Médio. E um homem tinha criado essa poderosa rede.

— Você? — perguntou Ross.

— Sim, eu — disse Eduardo Olivera, que muito tempo atrás se chamara Georg Ross.

— Então, quer dizer que você nunca foi soldado?

— Jamais. — Olivera sacudia a cabeça. — Em todas as cidades importantes dos países do Oriente Médio e em todos os pontos de apoio eu havia colocado residentes absolutamente confiáveis. Eram sempre naturais do país. Em Teerã residia um homem de nome Chan Ragai. muito jovem, muito dinâmico, muito bem-sucedido. Os agentes dele eu não conhecia — conforme uma antiga lei de todos os serviços. Só se conhece sempre um outro homem da respectiva rede.

— Como é que você se comunicava com esse Chan Ragai?

— Pelo rádio ou por mensageiro. O Ministério do Exterior de Ribbentrop achava-se instalado na Wilhelmstrasse, em Berlim. Meu escritório era ali. No prédio estavam instaladas também enormes estações transmissoras e receptoras. Chang Rai recebera de mim a tarefa de acompanhar o mais exatamente possível tudo o que ocorresse nessa conferência dos Três Grandes. Seus homens fizeram trabalhos notáveis. Especialmente um agente, que até hoje só me é conhecido sob o logograma CX-21. CX-21 acabou conseguindo uma cópia do filme que eu agora lhe mostrarei, Daniel.

Olivera deixou-se cair sobre um divã diante da lareira e pressionou a tecla de um minúsculo controle remoto que agora tinha na mão. Na tela do receptor de TV começou a passar um filme preto, levemente desgastado.

Acompanhados de curtos apitos, aparecem os algarismos 3, 2 e 1. Em seguida — trata-se de um filme preto-e-branco — vêem-se as armas dos Estados Unidos: uma águia estilizada com um ramo de oliveira na garra direita e um feixe de lictores, igualmente estilizado, na garra esquerda; sobre o peito, quadrada e estilizada, a bandeira americana; acima da cabeça da águia, uma faixa tremulante com as palavras E PLURIBUS UNUM. Ao redor da águia há uma circunferência fechada. Lê-se: SEAL OF THE PRESIDENT OF THE UNITED STATES. As armas ficam um tempo paradas. Seguem-se, em letras bem grandes, as palavras TOP SECRET e, em seguida, em língua inglesa, as palavras:

DO PRESENTE FILME EXISTE APENAS UM OUTRO EXEM PLAR COM TEXTO RUSSO E COMENTÁRIO EM IDIOMA RUSSO. A VERSÃO EM INGLÊS É DESTINADA AO ARQUIVO SECRETO DO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, CASA BRANCA, WASHINGTON, DC. A VERSÃO RUSSA É DESTINADA AO ARQUIVO SECRETO DO SECRETÁRIO-GERAL DO COMITÊ CENTRAL DO PARTIDO COMUNISTA DA UNIÃO SOVIÉTICA E CHEFE DO ESTADO DA UNIÃO DAS REPÚBLICAS SOCIALISTAS SOVIÉTICAS. NO KREMLIN, MOSCOU. SOB JURAMENTO DE MANUTENÇÃO DE SEGREDO, TOMARÃO CONHECIMENTO DESTE FILME E DE SEU CON TEÚDO APENAS OS MAIS PRÓXIMOS COLABORADORES DOS DOIS CHEFES DE ESTADO ATUAIS, BEM COMO OS MAIS PRÓXIMOS COLABORADORES DE SEUS SUCESSORES COMO CHEFES DE ESTADO. JAMAIS OUTRA PESSOA PODERÁ VER OU TOMAR CONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA DESTE FILME DOCUMENTÁRIO. OS DOIS EXEMPLARES DO PRESENTE FILME DEVERÃO SER GUARDADOS PARA SEMPRE.

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APARECE NOVA IMAGEM

Uma panorâmica da cidade de Teerã. Entra falando inglês com sotaque americano um

NARRADOR

Esta é a cidade de Teerã, capital do Império do Irã, com cenas tomadas na manhã de 27 de novembro de 1943. Amanhã, 28 de novembro de 1943, inicia-se aqui a conferência dos Três Grandes: o Primeiro-Ministro do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte, Winston Churchill, o Presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Delano Roosevelt, e o Presidente do Conselho dos Comissários do Povo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, Marechal Josef Vissarionovitch Stalin.

Um aeroporto militar à entrada da cidade. Ao fundo, poderosa e sinistra, a alta cordilheira coberta de neve das montanhas Elburz. Um grande quadrimotor, do tipo Liberator, pousa nesse instante e sai da pista. A escada de acesso é aproximada. Parece estar fazendo muito frio, pois os poucos homens que aparecem para a recepção, civis e militares, vestem pesados capotes e coberturas para a cabeça, a maioria gorros de peles. Vê-se um grande número de carros militares soviéticos e soldados com pistolas automáticas ao redor do terreno do aeroporto. As mais rigorosas medidas de segurança foram tomadas. A porta do avião se abre. Aparece ao alto da escada, de capote militar e boné, Winston Churchill. Traz um grosso charuto na boca, dá um largo sorriso e ergue o dedo indicador e o médio da mão direita no gesto, que se tornou famoso, do “V” da vitória. As forças soviéticas de segurança na mais alta prontidão. Atmosfera agitada e nervosa. O reduzido grupo de homens saúda Churchill, que desceu a escada. Cerca de uma dúzia de outras pessoas deixa o avião que acabou de pousar.

NARRADOR

14h35m. hora local. Nesse momento mantido em sigilo pousa o avião do Primeiro-Ministro Churchill — por motivos de segurança, não no aeroporto civil de Mehrabad, e sim no aeroporto militar soviético. O Premier desembarcou com uma pequena equipe de colaboradores. Está sendo cumprimentado pelo Embaixador britânico em Teerã. O Primeiro- Ministro Churchill é conduzido em seu carro para a sede da Embaixada britânica.

Churchill embarca em um carro estacionado no campo de pouso e é seguido pelo Embaixador britânico. A comitiva de Churchill utiliza três outros automóveis que chegaram à pista. A reduzida coluna põe-se em movimento. À frente de todos, um grande carro da polícia com pisca-piscas azuis. Sobre os estribos, seguem de pé fortemente armados, policiais persas.

— Quem fez essas tomadas? — indagou Ross, que olhava enfeitiçado a tela de TV.

— Cinegrafistas do exército, escolhidos entre americanos e soviéticos — informou Olivera. — Os repórteres, operadores de noticiários semanais de cinema e fotógrafos só aterrissaram mais tarde no aeroporto civil de Mehrabad. — Olivera acendera um abajur, e Ross viu que havia um livro ao lado de seu pai. Ele mantinha um outro aberto sobre os joelhos.

— Embora Churchill risse diante das câmeras, na realidade ele estava furioso — disse Mercedes. Ela havia descalçado seus slipers e puxara as pernas para cima, aconchegando-se em sua poltrona.

— Por que furioso? — perguntou Ross. A imagem havia mudado.

O pequeno comboio segue por uma estrada que liga o aeroporto militar à cidade. O caminho é guardado por cavalarianos persas separados entre si por pequenos intervalos. A princípio. são vistas poucas pessoas acenando.

— Ele estava insatisfeito com as medidas de segurança — disse Olivera e colocou os óculos de tartaruga. — Tenho aqui um volume de suas memórias. Churchill escreve: “. . - À medida que nos aproximávamos da cidade, a estrada, por cinco quilômetros, estava ladeada por postos de cavalaria persa a cada cinqüenta metros. Pessoas de má-fé poderiam deduzir sem dificuldade que uma alta personalidade era esperada e qual o itinerário que ela iria seguir. . . A velocidade era lenta e logo muita gente encheu os espaços entre os cavalarianos: policiais, quando os havia, eram escassos O filme corrobora o que Churchill iria escrever mais tarde.

Subúrbios de Teerã. De repente, muitas pessoas entre os cavaleiros. A maioria surpresa e séria. A câmera mostra uma menininha sentada nas costas do pai e que acena. várias imagens focalizam a viagem através do centro da cidade. Aqui, as pessoas se comprimem de maneira aterrorizante. Sem qualquer impedimento, elas chegam bem junto dos carros.

Olivera disse, com o livro sobre os joelhos:

— Churchill continua: “No centro da cidade, a multidão se comprimia em quatro e até cinco fileiras. Chegavam até poucos passos junto dos carros, de maneira amigável mas reservada. Contra dois ou três indivíduos resolutos, munidos de revólveres ou bombas, não teria havido proteção alguma...“

A multidão vai ficando cada vez mais compacta. A comitiva segue a baixíssima velocidade. Num cruzamento, chega a ter de parar. A rua está entupida de gente. Os soldados persas só a muito custo se tornam senhores da situação. As pessoas recuam hesitantes e contrafeitas.

Ouviu-se a voz de Olivera: -

— Churchill escreve e eu cito: “No cruzamento que leva à Embaixada ocorreu uma parada; ficamos imóveis por cerca de três a quatro minutos, no meio da multidão de persas embasbacados. Se se tivesse decidido correr o máximo perigo, dispensando tanto a proteção de uma chegada sigilosa quanto a cobertura de uma forte escolta, a solução encontrada teria sido a melhor possível. De qualquer modo, nada aconteceu. Eu sorria para a multidão e a maioria retribuía meu sorriso...”

A imagem na televisão mostra um inabalável e tranqüilo Churchill com o charuto na boca. Acena para as pessoas que se comprimem ao redor de seu carro, e ri. Muitos acenam para ele e riem também. Sem tirar o charuto da boca, Churchill diz alguma coisa para o Embaixador britânico sentado ao seu lado. Este balança afirmativamente a cabeça e faz uma cara de raiva. Finalmente, o cruzamento é desimpedido e os carros podem seguir. Ruas estreitas que finalmente conduzem a uma mais larga. O comboio chega a uma grande mansão situada no meio de um parque. O portão do jardim está aberto. Soldados britânicos da Índia vigiam todo o terreno, a entrada, o caminho através do jardim bem como o prédio. Usam turbantes brancos. Todos estão fortemente armados. O comboio avança em direção à mansão. A câmera se desvia e mostra a propriedade vizinha, num parque gigantesco em comparação com o jardim da Missão britânica, no qual se encontram diversos edifícios de grande porte, guardados por soldados soviéticos que fervilham por toda parte.

NARRADOR

A fila de carros com o Primeiro-Ministro Churchill chegou à Embaixada britânica. Churchill e sua comitiva irão ficar hospedados aqui. A residência é guardada por soldados britânicos provenientes da Índia. (E após um movimento da câmera:) Logo ao lado se encontra a Embaixada soviética, onde já estão hospedados o Marechal Stalin e sua comitiva.

Depois de ajustar os óculos, Olivera prosseguiu na leitura:

— “Os edifícios, escreve Churchill, se encontravam um ao lado do outro. A brigada indo-britânica que nos protegia entrou por isso mesmo em contato com os russos, que eram ainda mais numerosos e isolavam completamente sua própria área. Assim, entraram logo em acordo, de tal forma que nos encontrávamos num território isolado, protegido como que para uma guerra...”

Novamente o aeroporto militar soviético. Um avião do tipo Fortaleza Voadora aterrissa e rola até o mesmo ponto onde havia parado a aeronave de Churchill. A área do campo de pouso está de novo hermeticamente fechada. Uma longa coluna de grandes carros americanos — Chevrolets, Buicks. Chryslers, Lincolns e Cadillacs — aproxima-se do avião. A porta da Fortaleza Voadora se abre e a escada encosta no aparelho. A câmera mostra desapiedadamente como o Presidente Roosevelt é carregado escada abaixo por dois seguranças americanos e sentado dentro de uma cadeira de rodas. (Após haver contraído poliomielite, o Presidente não consegue mais caminhar, só conseguindo ficar de pé, mediante muito esforço, por muito pouco tempo.) Numerosos civis e militares o saúdam. A cadeira de rodas desaparece atrás de uma limusine. Evidentemente, o Presidente será levantado para dentro de um autom6vel. Logo em seguida vê-se seu pálido rosto marcado pela doença, através do vidro traseiro de um veículo.

NARRADOR

16h47m. Neste momento, também mantido sigiloso, o aparelho com o Presidente Roosevelt pousa na pista do aeroporto militar russo. O Presidente vem à Conferência Eureka, conforme é chamada por sugestão do Premier britânico, com uma comitiva de setenta e seis pessoas.

Vemos agora essa enorme quantidade de acompanhantes. Um número cada vez maior de civis e militares sai do avião e desce a escada. Os homens embarcam nos carros. Como com Churchill, um carro da polícia segue à frente, piscando uma luz azul, desta feita na ponta de um comboio bastante grande.

— Meu Deus — disse Ross. — Comitiva de setenta e seis pessoas!

As imagens que o vídeo agora mostrava correspondiam no fundo às da chegada de Churchill e de seu deslocamento até a cidade. Pelo controle remoto, Olivera baixou um pouco o volume da voz do narrador. Enquanto eram mostradas as imagens da delegação americana em seu caminho para a cidade e através dela, Olivera disse, tomando nas mãos o outro livro:

— Tenho aqui um trabalho sobre a História Contemporânea, de Gottfried Zieger, que, por sinal, é excelente. O autor deste livro, publicado em 1967 com o título de A Conferência de Teerã em 1943, desenvolvia outrora atividades no Instituto de Direito Internacional da Universidade de Göttingen. Ele escreve no capítulo III: “... afora as dificuldades de acomodação dessa gigantesca equipe, verificou-se logo que as instalações dos norte- americanos eram inadequadas...”

O filme mostra a chegada da fila de carros do Presidente diante da Embaixada americana, um edifício grande e branco que, como os outros, estava situado num jardim. Muitos soldados americanos, bem armados, guardam a propriedade.

— “...A Missão diplomática dos Estados Unidos achava-se aliás a quase dois quilômetros de distância das Embaixadas da Grã-Bretanha e da União Soviética”, escreve Zieger. “Transpareciam temores de que poderia acontecer alguma coisa com o Presidente em conseqüência dos deslocamentos diários para aqueles locais...” E, em outro ponto, observa Zieger: “Conforme o Diário do Presidente, verifica-se que era do conhecimento dos americanos que Teerã até há bem pouco tempo tinha estado ‘sob completo controle alemão’” — Olivera, primeiro contido, se pôs a rir, enquanto prosseguia na leitura — “ou, como se expressava drasticamente Roosevelt, que o quartel-general de toda a espionagem do Eixo no Oriente Médio se achava na capital persa, onde residiria inclusive ponderável número de simpatizantes da Alemanha...” — Então Olivera riu abertamente. Ele se acalmou e disse, sempre interrompido por ataques de riso:

— Espertinhos, hem? Tinham mesmo descoberto que nós estávamos em ação em Teerã! Não que eu queira me gabar...

— Nem precisa — disse Ross entre os dentes. — Roosevelt já o faz.

— Oh, Daniel — suspirou Olivera — será isso um cumprimento?

Ross viu que Mercedes o olhava suplicante. Os olhos dela lhe solicitavam: Por favor, não! Você prometeu controlar os seus nervos. Ross concordou levemente com a cabeça. Ela lhe sorria. E ele voltou a fitar a tevê.

O filme mostra então uma sala numa das mansões pertencentes à Embaixada soviética. Muito luxuosa. Vêem-se, conversando: Stalin de uniforme (dólmã branco), um homem pequeno com um antiquado pincenê sobre o nariz e um outro homem forte de uniforme.

Olivera aumentara novamente o volume do som por meio do botão.

NARRADOR

As equipes dos órgãos soviéticos de segurança, que já haviam desembarcado anteriormente, asseguraram ao fim da tarde de 27 de novembro haverem detectado um complô contra um dos Três Grandes. O Marechal Stalin ouviu seu Ministro do Exterior Viacheslav Mikhailovitch Molotov e seu conselheiro político pessoal, General Kliment Iefremovitch Voroshilov...

É noite. O Ministro do Exterior Molotov vai de carro da Embaixada soviética para a Missão diplomática americana, desce do automóvel e é conduzido por civis para dentro da casa e introduzido num salão onde é recebido por um homem à paisana de cinqüenta anos de idade.

NARRADOR

Ainda na noite do dia da chegada o Ministro do Exterior Molotov dirige-se à Embaixada Americana e alerta expressamente o Conselheiro político pessoal do Presidente Roosevelt, Harry Lloyd Hopkins, para a existência de agentes alemães e suas intrigas criminosas.

Olivera havia empunhado novamente o primeiro livro. Enquanto passavam as imagens pormenorizadas da mudança, ele leu, baixando o volume do som:

— Novamente Churchill: “Guardada por tropas americanas, a Embaixada dos Estados Unidos distava mais de dois quilômetros de nós, o que significava que ou o Presidente ou Stalin e eu deveríamos passar pelas estreitas ruas de Teerã duas ou três vezes por dia, nas duas direções. Para piorar as coisas, Molotov, que havia chegado vinte e quatro horas antes de nós, anunciou que o serviço de segurança russo tinha indícios de um complô para matar um dos Três Grandes, como éramos chamados. O mero pensamento de que nós constantemente deveríamos passar pelas ruas enchia-o de terror. Um acontecimento dessa natureza daria a pior impressão possível, pensava ele. Isso era incontestável. Apoiei por isso com toda a energia o apelo ao Presidente para que ele se instalasse na Embaixada soviética, que, em matéria de espaço, era três a quatro vezes maior que as outras missões e ficava dentro de um grande parque e cercado pelas tropas e a polícia soviéticas...”

Exatamente nesse ponto o filme mostra a inacreditável quantidade de forças de segurança soviéticas no decorrer da mudança do americano.

— “...Conseguimos convencer o Presidente a aceitar esse bom conselho”, escreve Churchill, “e no dia seguinte, à tarde, ele transferiu-se com seu staff pessoal, que incluía os excepcionais cozinheiros filipinos de seu iate, para a propriedade russa, onde lhe foi oferecida uma régia e confortável hospedagem.”

Cenas da mudança dos americanos para a Embaixada soviética. A câmera mostra de novo, em primeiro plano, o conselheiro pessoal de Roosevelt, Harry Hopkins.

— Como vê, Daniel — disse Olivera —, o tato do narrador e o das memórias de Churchill, neste ponto são quase idênticos. Só que Churchill começou a escrever suas memórias muitos anos mais tarde. Quanto à veracidade das imagens e dos comentários do filme não pode persistir nenhuma dúvida. Churchill escreve ainda: “Assim nos encontrávamos todos dentro de um pequeno bairro, onde, sem o perigo de uma perturbação, podíamos tratar dos problemas da guerra mundial. Isso se tornou para mim, na Embaixada britânica, muito confortável; e até o palácio dos soviéticos, do qual se poderia muito bem dizer que, no momento, constituía o ponto central do mundo, eu só precisava percorrer algumas centenas de metros. Eu me sentia ainda muito mal; meu resfriado e minha garganta dolorida pioraram tanto que eu, muitas vezes, mal conseguia falar. De qualquer modo, com pincelamentos e infatigáveis cuidados, Lorde Moran me pôs em condições de expressar o que eu tinha a dizer — e era muita coisa!”

Olivera tirou os óculos e fechou o livro.

A CÂMERA mostra então EM PRIMEIRO PLANO o edifício da Embaixada soviética e se aproxima bastante dele.

A IMAGEM DESAPARECE

APARECE NOVA IMAGEM

Um salão com gigantescos tapetes, tapeçarias, velhas pinturas e móveis antigos. Sentados um defronte do outro, posando para fotógrafos e cinegrafistas: Roosevelt e Stalin.

Olivera aumentou novamente o volume.

NARRADOR

28 de novembro de 1943: primeira entrevista Stalin-Roosevelt, na Embaixada soviética. Início: 15h, hora local; término: 16h, hora local. Presentes também: dois intérpretes e um estenógrafo.

CORTE

Um grande salão de reuniões. Cerca de duas dúzias de homens, alguns de uniforme, outros em traje civil.

NARRADOR

Primeira sessão plenária, em 28 de novembro de 1943, na Embaixada soviética. Início: l6h. Término: l9h3Om. Participantes: o Presidente Roosevelt, seu conselheiro pessoal Harry Hopkins, Almirante Leahy, Almirante King, General- de-Divisão Deane, Capitão Royal e Charles Bohlen. — Primeiro-Ministro Churchill, Ministro do Exterior Anthony Eden, Marechal-de-Campo Dili, General Brooke, Almirante- de-Esquadra Cunningham, Marechal-em-chefe-do-Ar Portal, Tenente-General Ismay, Major Birse. — Marechal Stalin, Comissário do Povo para Assuntos Estrangeiros Molotov, General Voroshilov, Pavlov e Berezkov.

CORTE

— A respeito dessas reuniões — disse Olivera — Zieger relata em seu livro com exatidão, indicando as mesmas datas e horários. Sobre o próximo encontro ele não menciona nada, naturalmente.

Um pequeno aposento. Lá dentro, Harry Hopkins e o General Voroshilov. Ambos muito sérios.

NARRADOR

29 de novembro de 1943. 2h. Primeiro encontro secreto entre Harry Hopkins e General Voroshilov, conselheiros políticos pessoais, respectivamente, do Presidente Roosevelt e do Marechal Stalin, em um salão afastado da Embaixada soviética. Mais tarde presentes: dois intérpretes e um estenógrafo. A respeito desse encontro só estão informados Roosevelt e Stalin. Estende-se até 4h30m da madrugada. Primeira troca de idéias e primeira sugestão para um protocolo bilateral secreto entre a União Soviética e os Estados Unidos da América...

CORTE

Daniel Ross, que trajava blue jeans e uma malha branca, ergueu-se de um salto. Quase sem fôlego, ele disse:

— Protocolo bilateral secreto, já em 1943?

— Certamente. E que protocolo! Você acha que eu mandei Mercedes buscá-lo só de brincadeira? Você acha que está errado o meu ponto de vista de que, com este filme se pode sacudir o mundo? Fique calmo e ouça!

Ross afundou novamente na poltrona.

— Isso avisei — sussurrou Mercedes.

Nesse ínterim, havia mudado a imagem na televisão, mostrando agora a primeira reunião conjunta dos representantes militares das três grandes potências, em 29 de novembro de 1943, de novo na Embaixada da URSS, início às lOh3Om, término, por volta de 13h30m.

Seguiam-se imagens da segunda entrevista Stalin-Roosevelt, em 29 de novembro de 1943, na Missão russa, início às 14h. Término: 15h30m.

Em seguida, eram tomadas da segunda reunião plena, em 29 de novembro de 1943. Início: 16h. Término: 19h30m.

Olivera comentou: — Também estes encontros são minuciosamente apresentados no trabalho de Zieger — comentou Olivera.

— O que se segue, é evidente que não.

CORTE

O pequeno aposento da Embaixada, onde se encontram Harry Hopkins e o General Voroshilov. Uma escrivaninha recoberta de muitos papéis, junto à qual estão sentados os dois, um defronte do outro.

NARRADOR

30 de novembro de 1943, 6h30m. Segundo encontro secreto entre Harry Hopkins e o General Voroshilov no salão afastado da Embaixada soviética. Mais tarde presentes: os dois intérpretes e um estenógrafo. Dois especialistas absolutamente confiáveis do Ministério americano do Exterior fizeram as tomadas deste encontro assim como do primeiro. Ficou acordado entre Roosevelt e Stalin que esses encontros secretos deverão ser gravados em imagens. Os especialistas estavam ali, evidentemente, sob juramento de silêncio. Objetivo do encontro: elaboração definitiva do protocolo secreto bilateral. Término do encontro: 3h45m

CORTE

— Fantástico — disse Ross.

— Espere um pouco — disse Olivera.

Seguiram-se imagens da conferência Stalin-Churchill, em 30 de novembro, início às l2h4Om, término por volta de l3h3Om.

Local: Embaixada britânica; em seguida, tomadas de uma conferência durante o almoço, em 30 de novembro de 1943, no salão de banquetes da Embaixada soviética, início 13h3O, término, 15h45m; então vieram imagens da terceira reunião plenária, de 30 de novembro de 1943, com início às l6h e término às l8hl5m. Local: Embaixada soviética; logo em seguida, uma sessão em mesa-redonda, ainda a 30 de novembro, também na Embaixada soviética. Seu começo foi às 18h, e término às 19h40m.

— Tudo isso — disse Olivera — pode-se ler no livro de Zieger, A Conferência de Teerã em 1943. Datas e horas são precisamente as mesmas. O que se segue não é mencionado, pois Zieger não tinha idéia disto.

A tela do vídeo mostra o pequeno salão da Embaixada soviética. Presentes: Stalin, Roosevelt, Harry Hopkins, Voroshilov, dois intérpretes. Roosevelt e Stalin estão sentados juntos à escrivaninha. Cada um assina um fino documento numa pasta de couro. Trocam de pastas e assinam novamente.

NARRADOR

1° de dezembro de 1943, 6h da manhã. Stalin e Roosevelt assinam o protocolo secreto elaborado por seus respectivos conselheiros pessoais, nas versões datilografadas nos idiomas inglês e russo. Por vontade de ambos os Chefes de Estado, as tomadas foram feitas pelos já mencionados especialistas. Igualmente por desejo de Roosevelt e Stalin, o próprio protocolo foi filmado, desfilando página por página, tão devagar que é possível acompanhar-se o texto sem maior dificuldade. Eis o referido texto.

CORTE

A primeira página do protocolo, parte superior de leitura, muito nítida, embora esta parte, bem como, de resto, todo o filme, esteja gasta em virtude de sua idade e apresente um leve “chuvisco”, alguns rasgões e falhas de som, além de arranhões e manchas.

Fez-se um silêncio mortal na biblioteca. Ross lê.

PROTOCOLO BILATERAL (ULTRA-SECRETO)

O Presidente dos Estados Unidos da América e o Presidente do Conselho dos Comissários do Povo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas incumbiram seus conselheiros políticos de formular as perspectivas a longo prazo para a política de seus respectivos Estados. Por ocasião da assinatura da declaração de 1o de dezembro de 1943 sobre o desenvolvimento e as conclusões da Conferência dos Altos Aliados em Teerã, o Governo dos Estados Unidos da América e o Governo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas — a seguir denominadas Potências — afirmam os seguintes princípios de sua política futura:

A CÂMERA ACOMPANHA LENTAMENTE LINHA POR LINHA

Os Governos dos Estados Unidos da América e da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

— na consciência de que sobre eles recaem os mais pesados encargos no combate contra a Alemanha nazista e seus aliados,

— unidos na decisão de, depois de cessados os embates armados desse conflito, não se esquivarem da responsabilidade pela paz no mundo e, em conjunto, de a manterem,

— na convicção de que apenas duas potências fortes e independentes podem efetivamente assegurar o exclusivo objetivo da manutenção da paz, da justiça e do bem-estar em todo o mundo,

— cônscios de sua responsabilidade de libertarem a si mesmos e aos povos do mundo da ameaça de qualquer política de agressão,

— no reconhecimento da necessidade de assegurar uma transição ordenada da guerra para a paz e de garantir futuramente a segurança internacional,

declaram conjuntamente que:

As Potências se obrigam a abster-se, em suas relações mútuas, de qualquer ato de força, qualquer posição agressiva e qualquer ataque entre si, quer isoladamente quer em conjunto com outras potências.

No caso de uma das Potências vir a ser alvo de ação agressiva por parte de um terceiro Estado, a outra Potência não apoiará, de forma alguma, este terceiro Estado. Este acordo não impede nenhuma das Potências de... (A primeira página é afastada e a CÂMERA fotografa a parte superior da página...vir em ajuda de um terceiro Estado, mesmo que essas atividades estejam dirigidas contra a outra Potência ou contra grupo de potências ao qual ela pertença. Em tal situação, as duas Potências evitarão, no entanto, qualquer confrontação direta e imediata entre suas tropas e seu pessoal militar.

As Potências reconhecem mutuamente a especial responsabilidade que cada Potência possui em relação a determinadas regiões.

As regiões de especial responsabilidade da União das Re públicas Socialistas Soviéticas serão delimitadas na Europa pela linha que as tropas soviéticas tiverem alcançado por ocasião do armistício que se registrar com a Alemanha do Terceiro Reich, ou bem, por uma linha de demarcação a ser ajustada entre os Aliados e as forças a eles associadas. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas busca um remanejamento político e territorial das referidas regiões.

— E, por Deus, a União Soviética realmente remanejou essa região, política e territorialmente! — disse Mercedes. Ela se levantara e interrompera o filme, pressionando a tecla do stop do aparelho de vídeo. Sua voz soava extremamente neutra.

— Hungria! Gigantescas trocas de populações com a Tchecoslováquia. Latifúndios, bancos e indústria, estatizados. Escolas religiosas e particulares, estatizadas; agricultura brutalmente estatizada. Em 1947, os comunistas conseguiram, apoiados no Exército Vermelho, eliminar a oposição. E, para quebrar a resistência do clero, o Cardeal Mindszenty é condenado à prisão perpétua. Políticos incômodos são acusados de “titoístas” e “agentes do imperialismo” em processos sinistros e fictícios, condenados à morte e executados. Sob Imre Nagy são, mais tarde, reabilitados. Que escárnio, quando se pensa que, em fins de 1956, as tropas do Exército Vermelho invadem o país, fazem cair Imre Nagy, que mais tarde é morto. Diante de tudo isso, mexeram os americanos um dedo que fosse? Nem um único! Ajudaram a Hungria? Nem com um gesto. E por que não? Porque assim havia sido combinado em Teerã!

Mercedes acendeu um novo cigarro. Ross a observava, fascinado.

— Tchecoslováquia! — continuou Mercedes sempre neutra. — Uma parte, a Ucrânia carpática, passa (é evidente que sob pressão) para a Rússia. Desentendimentos entre partidos não- socialistas possibilitam aos comunistas, dois anos mais tarde, o domínio do Estado. O Ministro do Exterior Jan Masaryk, o filho do grande Tomas Masaryk, tomba em circunstâncias misteriosas da janela de seu escritório para a morte. Suicídio? Homicídio? Por desejo de Stalin, é aberto processo contra proeminentes comunistas, acusados de “ações titoístas e sionistas”. Todos são executados. Muitos milhares são assassinados. Os americanos? Mexeram um único dedo? Nenhum. Ajudaram? Nem com um gesto. E por que não? Havia ficado combinado em Teerã.

A fosca tela da tevê lançava uma luz trêmula sobre Mercedes.

O dourado traje caseiro brilhava. Ela falava com uniformidade — aparentemente tranqüila e fria por fora. Ross a fixava, subjugado.

— Polônia! — prosseguiu Mercedes. — A partir de julho de 1945, o governo no eixo não é mais reconhecido, sendo dissolvido. Eleições livres não são realizadas e a sovietização da Polônia é irresistível. A União Soviética obriga à troca de valiosos territórios (em termos comerciais e de riqueza do subsolo) por outros sem qualquer significação. Após a assimilação, segue-se, a partir de quarenta e nove, a submissão total à política soviética. Em 1955, a Polônia, assim como a República Democrática Alemã, a Tchecoslováquia, a Hungria e outros países do bloco oriental entram no Pacto de Varsóvia. Todos esses países tornaram-se satélites da URSS. A Cortina de Ferro já desceu há muito tempo. Fizeram os americanos a menor objeção, a mínima que fosse? Nada e nunca. E por que não? Pois ficara assim tratado em Teerã! — E Mercedes acrescentou: — Não sou nenhuma anticomunista fanática. Logo chegará a vez dos americanos. Apenas vamos acompanhar, na ordem, este maravilhoso protocolo. — Apertou uma outra tecla e o filme voltou a rodar.

A CÂMERA desliza para o pé da página 2. Na tela, pode- se ler: Os Estados Unidos da América assumem a especial responsabilidade no que se refere aos territórios europeus situados a oeste e ao sul desta linha.

Mercedes interrompeu novamente o filme.

— E como eles exerceram essa “especial responsabilidade!” — exclamou ela. — Aquilo que os soviéticos tiveram de executar mediante a força, porque não possuíam os bilhões, os americanos fizeram sem violência, pois possuem os bilhões. O Plano Marshall. A Europa é de novo reconstruída, especialmente a Alemanha, a fim de que nenhum país, na miséria, se torne comunista. Criam a Bundeswehr, o exército da Alemanha Ocidental, sob o comando de velhos generais nazistas, já que não existem outros. Isso importa alguma coisa aos americanos? Absolutamente nada. Muito pelo contrário: eles sabem que os generais nazistas são aliados extraordinariamente confiáveis, Em conseqüência da criação da Bundeswehr ocidental, naturalmente logo se cria no Leste o Exército Nacional do Povo da República Democrática da Alemanha. Igualmente com velhos generais nazistas. Ser general é que é bom. De preferência general alemão. Sempre tem utilidade. É sempre estimado. Pelo amigo e pelo inimigo. É estimado quer ganhe quer perca a guerra. Por quê? Porque logo se irá precisar dele! Por que você não é general, Daniel?! Imperdoável. Você teria uma vida excelente, e nenhuma preocupação. Viva! Chegou o milagre econômico. Com dinheiro americano e a velha administração germânica da economia de guerra! E daí? O Secretário de Estado Globke, consultor pessoal de Adenauer, é autor de normas de aplicação das leis anti-semitas de Nuremberg. “Não posso abrir mão desse homem”, diz Adenauer. É, se ele não pode abrir mão dele! Amizade com o Ditador fascista Franco: Basta que ele ponha algumas bases à disposição da Força Aérea dos Estados Unidos, pelo que ele, aliás ganhou centenas de milhões de dólares por ano. Amizade com os tipos mais asquerosos da Turquia e da Grécia. Milhões também para eles. Basta que os seus governos sejam ferreamente anticomunistas. Basta que eles mais tarde entrem todos na OTAN ou pelo menos aluguem bases para os bombardeiros e navios de guerra do “mundo livre”! Protesto dos russos? Protesto sério? De jeito nenhum. Porque assim foi combinado em Teerã!

O filme continua passando.

Como regiões de especial responsabilidade dos Estados Unidos da América as Potências consideram o duplo continente americano, inclusive as ilhas que lhe ficam defronte, bem como a Groenlândia e a Islândia.

As Potências exercerão toda a sua influência no sentido de que as regiões africanas que estão atualmente sob a administração das potências européias obtenham uma total independência. As Potências declaram que não defenderão no continente africano interesses unilaterais e não aspirarão ali a posições contrárias aos interesses da outra Potência. Iniciativas análogas de terceiros Estados serão rechaçadas com os meios adequados.

— Rechaçar com os meios adequados, Daniel! Em Angola e no Congo os soviéticos rechaçaram iniciativas análogas com os meios apropriados. Os americanos não disseram uma palavra. Isto é, disseram muito, mas fazer, não fizeram nada. Porque estavam de acordo com os soviéticos. — Mercedes aproximou-se do televisor.

Não, pensou Ross, não.

Com a concordância da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas os Estados Unidos da América consideram a Turquia e os países do Oriente Próximo, ao sul da fronteira meridional da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas até a fronteira leste do Império do Irã como territórios da responsabilidade especial dos Estados Unidos da América. As Potências estão concordes em que o problema do povo judeu sem pátria precisa receber uma solução e estão de acordo em apoiar a fundação de um Estado judaico na Palestina.

— Isso elas fizeram — disse Mercedes, sempre com a mesma voz uniforme. — Os americanos apoiaram Israel com dinheiro, com armas e com conselheiros, e os soviéticos ajudaram os árabes e os sírios com conselheiros com armas e com dinheiro. Exatamente como reza o protocolo: “Esta convenção não impede que qualquer das Potências venha em ajuda de um terceiro Estado, mesmo quando essa iniciativa seja dirigida contra a outra Potência.” — Ela apagou o cigarro. — “Em tal situação”, como você mesmo já leu, “ambas as Potências evitarão qualquer confrontação direta e imediata entre suas tropas e seu pessoal militar!” E como isso funcionou. Bravo! Tudo se passou às mil maravilhas. Alguma vez, no Oriente Próximo ou em qualquer outro lugar do planeta, desde o fim da guerra, qualquer soldado americano atirou em qualquer soldado soviético, ou vice-versa? Mesmo quando se tenha tratado de uma região crítica como Israel? Jamais. Isto os cavalheiros não fazem. Mutuamente nunca se fazem nada. Desde 1945 houve cento e cinqüenta e seis guerras. Guerras pequenas. Milhões pereceram nessas guerrinhas. Cento e cinqüenta e seis guerras, nas quais um lado ou os dois foram sustentados pelos soviéticos e americanos, naturalmente sem que suas tropas jamais tenham chegado a uma “confrontação direta e imediata”. — Como sempre, Mercedes prosseguia impassível. — Novos sistemas de armamentos foram testados nessas guerras pelas duas potências! Ambas precisavam de campos de treinamento. Tinham de ficar igualmente fortes, não é mesmo, senão este protocolo teria ficado sem sentido. Você agora está vendo, Daniel, o que os soviéticos e os americanos fizeram em Teerã, em 1943? Dividiram o mundo entre si! As superpotências precisam se pôr de acordo, gritam todos hoje. Pôr-se de acordo? Pois se já o estão há tanto tempo! — Mercedes tinha apertado a tecla de stop do equipamento de vídeo enquanto falava. Agora, deixou o cassete prosseguir. A câmera filmava a parte inferior da página 3.

A delimitação da responsabilidade no subcontinente indiano e no Extremo Oriente será objeto de um acordo especial entre as Potências depois da derrota definitiva do Império do Japão. As potências solucionarão essa questão por meio de um entendimento amigável. Ao fazê-lo, atribuirão um peso especial ao futuro papel a ser desempenhado pela China. Elas partem do princípio que a Coréia e os países da península indochinesa assim como dos arquipélagos do Sudeste asiático

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... irão obter sua total independência política.

Mercedes apertou de novo a tecla, parando o aparelho de vídeo.

— Total independência política! — disse ela. — Enquanto se cortava esses países pelo meio. Coréia! Paralelo trinta e oito. Coréia do Norte e do Sul. Cada um a sua. Em amigável entendimento”. Vietnã! Vietnã do Norte e do Sul, até os americanos invadirem. Em “amigável entendimento”. Dividir! A idéia mais brilhante da política do nosso tempo. Berlim. Alemanha. Leste e Oeste. Tudo em “entendimento amigável!” — E ela fez seguir o filme.

A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas reconhece a especial responsabilidade dos Estados Unidos da América no que se refere à Austrália, Nova Zelândia e às ilhas do Oceano Pacifico.

As Potências partilham integralmente a concepção de que, após a total derrocada militar e política do Reich Alemão, a formação de um novo Estado alemão unificado somente poderá ocorrer quando existir a segurança de que deste Estado não possa partir qualquer ameaça à paz mundial e ao ordenamento criado pelo presente acordo.

— Portanto nunca — disse Mercedes. — A Alemanha precisa ficar dividida para sempre. Como dois campos de treinamento!

As Potências consideram o Ártico e a Antártida como insuscetíveis de precisarem de uma responsabilidade especial. Elas se oporão a quaisquer reivindicações provenientes de terceiros Estados. Quanto às atividades futuras no continente antártico, será tentada uma solução internacional com participação de terceiros Estados interessados.

A liberdade dos mares permanece intocada. Contudo, as Potências se reservam o direito de declarar as águas existentes ao longo de suas costas como zonas nas quais podem exercer competências especiais. As Potências concordam que o princípio da liberdade dos mares inclui especialmente a exploração de recursos ou jazidas aproveitáveis que se encontrem dentro ou no fundo dos mares.

A vídeo-cópia do velho filme ficou levemente trêmula. A imagem estava amarelecida. Mas a escrita da máquina de escrever podia ser reconhecida nitidamente. No divã, Olivera recostou se para trás.

— Que beleza, hem, Daniel? — disse ele. — Ah, mas vai ficar mais bonito ainda. — E distendeu-se, satisfeito.

Abre-se a página 5.

Na hipótese de que venham a ocorrer disparidades de pontos de vista sobre a expansão das regiões de responsabilidade especial das duas Potências, as referidas disparidades deverão imediatamente ser objeto de negociações sendo solucionadas mediante entendimento amigável.

— Amigável! De novo esta palavra — disse Mercedes interrompendo a projeção. — Você está entendendo, Daniel? Elas são amigas, as duas superinimigas, que desde o fim da guerra e até hoje se insultam, ameaçam e amaldiçoam mutuamente de forma cada vez mais grosseira e mais infame. Uma chama a outra de “antro do mal”, ou “antro de criminosos capitalistas”, de assassinos e bandidos com sede de poder. Uma diz que a outra é um perigo mortal para a humanidade, e que ela por isso precisa de mais armamentos, sempre mais armamentos, para evitar que o mundo pereça. Teatro, Daniel, puro teatro! Teatro de marionetes! As infrutíferas conferências de desarmamento: teatro! Queiram entrar, meus senhores, entrem, entrem! Vejam o superteatro do mundo! Venham ver como nós nos odiamos! Venham ver como o outro é um criminoso inescrupuloso da mais alta periculosidade! E, por isso, é preciso suprimi-lo, cauterizá-lo, extirpá-lo da face da Terra. E nós todos, bilhões de seres humanos, vivemos nesse circo da mistificação, acreditamos nos embusteiros, trememos por nosso mundo. Concordamos que seja armado cada vez mais, e mais e mais. Somente assim ainda teremos a chance de nocautear um dos dois malvados, manter, um ou outro, em xeque. Queiram escolher, meus senhores, é só escolher! Pouco importa a quem vão eleger. Os Grandes já se entenderam, em 1943, em Teerã, quando dividiram o mundo entre si. O jogo já foi feito naquela época. Rien ne vas plus!

- Mas eu não estou entendendo...

- O que você não entende, Daniel?

- Armar-se, armar-se!, você diz. Mas as superpotências se armam efetivamente, de forma tão louca, que sua economia fica arruinada.

- Mas é claro!

- Sim, mas por que diabo, se elas já dividiram o mundo e estão de acordo em tudo, desprezando cinicamente o gênero humano?

- Ah — disse Olivera que se esticava de novo- — Uma pergunta muito boa. Você vai ter uma resposta muito boa, Daniel, no momento que tiver lido o ponto quinze. Aí você vai entender tudo o que Mercedes diz. Ponto número quinze. Espere por ele. Segue adiante, Mercedes, minha querida, por favor!

- Pontos sete e oito, Daniel, e preste bastante atenção! — observou Mercedes, deixando o filme prosseguir.

Caso nos territórios sob especial responsabilidade de uma das Potências venham a ocorrer situações exigindo que ela exerça ativamente esta responsabilidade, ela tomará todas as medidas que julgar necessárias para preservar a paz e a segurança contra quaisquer danos. A outra Potência respeitará tais medidas e, caso se veja obrigada a. por sua vez, tomar quaisquer medidas, levará em consideração os deveres assumidos no presente ajuste, nada empreendendo que possa prejudicar a posição da outra Potência.

- E então! — Mercedes apertou mais uma vez o botão para parar. — De forma mais clara realmente não poderia ter sido formulado! E tais situações não vivem ocorrendo? Na Primavera de Praga, quando foi esmagada pelos tanques soviéticos? A Tchecoslováquia inteira foi ocupada pelo Exército Vermelho e a “Primavera” foi mergulhada num mar de sangue e lágrimas! Os americanos já sabiam com antecedência do ataque, por intermédio do serviço secreto da República Federal da Alemanha. Os soviéticos lhes comunicaram indiretamente. O ataque era simplesmente inevitável, a fim de tomar medidas “para preservar a paz e a segurança”! Que fizeram os americanos? Eles se ativeram ao Protocolo, do mesmo modo que os soviéticos se ativeram a ele, aceitando que os americanos, na Nicarágua, Granada e em toda a América Central, tomem medidas “para preservar a paz e a segurança contra quaisquer danos”. Os soviéticos comportam-se tão corretamente como os americanos. Tire-se o chapéu! É o que se espera de cavalheiros.

Mercedes apagou o cigarro.

- 1950, Coréia! Tropas norte-coreanas ultrapassam o paralelo trinta e oito entrando na Coréia do Sul. Fica ameaçado o status quo que separava as áreas de influência das duas super-potências, tanto militar quanto politicamente. O Conselho de Segurança da ONU condena a Coréia do Norte como agressora. Organiza-se uma Força militar de Paz das Nações Unidas contra o agressor. Os americanos, que têm um especial interesse na manutenção do status quo na Coréia, arcam com o maior ônus da guerra. Segundo o teor do protocolo! “Paz e Segurança” de um território de sua “especial responsabilidade” estão em jogo! Os soviéticos reconhecem isso. Não apóiam a Coréia do Norte. No máximo com armamento e dinheiro. Centenas de milhares de pessoas morrem — em nome da paz e da segurança. — Mercedes passou a mão na testa. — Líbano! — disse ela com a mesma voz neutra, artificialmente tranqüila. — O Líbano em 1958 e o de agora. Em 1958, os fuzileiros navais americanos precisam desembarcar lá a fim de “conciliar” uma guerra civil! Hoje, precisam de novo. Trata-se da paz e da segurança - Os soviéticos compreendem. Por quê? Porque assim ficou combinado em Teerã!

Ross continuava encarando Mercedes.

— Hungria, 1956! — prosseguiu ela, — Levante contra os comunistas detentores do poder. Tanques e tropas soviéticas reprimem o levante sanguinariamente. Dezenas de milhares de mortos. Centenas de milhares escapam para o exterior. O que faz a América? A América não faz nada. Respeita o procedimento soviético. Atém-se rigorosamente ao ponto sete do protocolo secreto. “Paz e segurança” num território de sua “especial responsabilidade”! E a paz e a segurança entram pela Hungria adentro — como na Coréia, como na Tchecoslováquia...

— E no Afeganistão — disse Olivera. — Após a expulsão do rei há diferentes partidos comunistas, que não querem saber nada de Moscou. Os comunistas leais a Moscou, porém, resvalam cada vez mais para uma posição desvantajosa e correm o perigo de serem expulsos do país. Trata-se apenas de um grupo diminuto, uma pequena fração. Mas por favor: basta um telefonema e já chegam os amigos ao Afeganistão. — Olivera pigarreou. — Especulações no ocidente supõem que os soviéticos certamente querem um acesso para o Oceano Indico. O “caminho para os mares quentes” já fazia parte das prioridades da política tzarista. Temos todos que agradecer à União Soviética o fato de haver trazido para o Afeganistão a paz e a segurança.

— Não sem antes, como sempre, haverem comunicado tudo aos americanos e obtido a sua concordância — disse Mercedes.

— E o que fazem os americanos? Por meio dos seus mídias protestam indignadamente, da mesma forma que os mídias soviéticos reagem sempre com indignação. Agir? Qual a ação dos americanos? Nada. Realmente, eles são sócios honestos. Cada um com sua metade do mundo! — Ela retomou fôlego. — 17 de junho de 1953: Levante na RDA (República Democrática Alemã) contra o regime do SED.** (Sozialistische Einheitspartei Deutchlands – Partido da Unidade Socialista Alemã, o partido comunista da RDA) Soldados e tanques soviéticos o esmagam brutalmente. — Mercedes ficava cada vez mais rouca. — O que fazem os americanos? Nada.

— 13 de agosto de 1961. É constituído o Muro de Berlim O que fazem os americanos? — perguntou Olivera. — Nada. Uma dúzia de tanques, nem isso, meia dúzia bastavam para derrubar o Muro. Aparece um só desses tanques? Naturalmente que não. De novo os soviéticos alertaram previamente seus parceiros contratuais e agiram segundo o protocolo. Os americanos compreendem que o Muro é necessário para os soviéticos, como para si próprios a Coréia do Sul. Mas, por obséquio, dizem os americanos, sirvam-se, construam o muro! Aquilo ali é um foco de crises - Criem “paz e segurança”! Desejamos tudo de bom.

Ele havia falado cada vez mais depressa, e Mercedes tomou a palavra, mais depressa ainda:

- Vietnã! Novamente uma situação que estimula a América a cumprir seu dever. Uma longa, longa guerra! Centenas de milhares de mortos, aleijados, queimados pelo napalm, de pessoas mortas com veneno derramado do alto! Gente miúda e sem importância. E também americanos. Um país destroçado. Destruída uma cultura milenar. Insignificante! A América precisa cumprir com seu dever, proporcionar “paz e segurança” num território de sua especial responsabilidade”. Por meio de uma guerra bestial. Os soviéticos aceitam. Fornecem armas ao Norte, mas não participam ativamente. Os soviéticos podem ficar tranqüilos. Tudo foi estabelecido em Teerã. Cada um tem o seu. Cada um respeita o que pertence ao outro. Que pereçam milhões de pessoas, se for necessário! A América e a União Soviética são os proprietários do mundo! O mundo lhes pertence, cada um tem uma metade. E a humanidade, essa carne de canhão, não pode saber isso. Nunca! Jamais!

— Setembro de 1983 — disse Olivera. — Caças soviéticos atiram num Jumbo da companhia sul-coreana KAL, com duzentas e sessenta e nove pessoas a bordo, porque ele penetrara no espaço aéreo soviético, a sudoeste das ilhas Sacalinas. Primeiro, uma gigantesca indignação. O presidente americano ameaça com o pior. Mas então, muito rapidamente, fica tudo tranqüilo, muito tranqüilo em tomo desse assassinato em massa. Não estava voando à sombra do Jumbo um aparelho de espionagem americano? Não falemos mais nisso! Seravejo e o pretenso ataque polonês à emissora de Gleiwitz desencadearam respectivamente a Primeira e a Segunda Guerra Mundiais. E desta vez? Não aconteceu nada. Absolutamente nada. Que bênção para a humanidade não constitui o protocolo bilateral secreto de Teerã!

O filme prossegue.

As Potências partem do princípio de que os Estados europeus buscarão, em decorrência dos acontecimentos da presente guerra, reconquistar sua perdida significação política.

— Agora, preste atenção, Daniel! — disse Olivera.

Caso daí decorram situações que possam constituir perigo para a paz e a segurança da ordem edificada com o presente acordo — como, por exemplo, na Alemanha, que é um foco de permanente agitação —, cada uma das Potências se comportará com compreensão ante as medidas tomadas pela outra Potência, e as duas Potências poderão. quando assim se fizer necessário, agir conjuntamente contra esta ameaça à paz e à segurança.

— Se necessário, agir conjuntamente! — exclamou Mercedes.

— E isso não acontece? Elas não agem assim com toda a sua energia? O rearmamento não trouxe, ainda uma vez, centenas de armas atômicas para a Alemanha, foco de constante agitação, que constitui um perigo para a paz e a segurança? Mísseis Pershing I e Cruise? Para a mesma Alemanha, na qual já estão estocadas cinco mil ogivas nucleares, mais do que em qualquer outro país da Europa? E os soviéticos não montaram imediatamente na RDA novas rampas de lançamento para os seus SS-20? A Alemanha inteira não é uma rampa atômica? Ninguém sabe realmente o que sucederá se uma bomba atômica, com a força atual, explodir, já que em comparação a bomba de Hiroxima é uma piada. Ninguém! Ninguém tem idéia do que vai acontecer quando cinqüenta, cem, duzentas bombas de hidrogênio explodirem. Os cientistas não têm a menor idéia. E os militares, muito menos. Mas é preciso saber! É preciso estar informado! Há guerras atômicas circunscritas, limitadas, diz Reagan. Podem até ser ganhas. Então, vamos começar! Vamos deixar esta Alemanha permanentemente agitada, vamos deixar toda a maldita Europa ir pelos ares! Com isso, seiscentos milhões de pessoas vão esticar as canelas! E daí? A Terra não está super-povoada? Já é tempo de acontecer alguma coisa. Seiscentos milhões. Mas o que significa isso? Uma gota sobre uma chapa quente. Então, vamos em frente! Viva os Pershing I Viva os SS-20! Viva os mísseis Cruise! Depois veremos o que sucede.

Mercedes se apoiava no aparelho de televisão sufocando um tremor em seu corpo. Ross lembrou-se da explosão dela em Frankfurt. Ela era fanática.

Para a paz, sim. Para a paz, tudo. Minha vida — imediata mente —, se isso ajudar a preservar a paz. Era isso que ela havia exclamado, ele se lembrava nitidamente. Olhou-a assombrado. Mas que mulher!

— Mas eu não compreendo... — Ross olhava para Olivera.

— Por que uma guerra atômica na Alemanha?... Na Europa? As duas superpotências não querem uma guerra atômica, na qual elas próprios acabariam envolvidas! Guerra convencional, vá lá! Vietnã, OK, mas não uma guerra nuclear, que também os deverá atingir!

— Ë claro que eles não a desejam, Daniel — disse Olivera.

— Mas Mercedes...

— ... perdeu a cabeça. Vê a guerra chegando. Ela se aproxima, é verdade. Mas não está perto demais. Nenhum dos dois grandes está seguro se pode liquidar o outro ou não. Eles se preparam, isso com certeza, entopem o mundo inteiro com foguetes nucleares, especialmente a Europa. Mas eles querem estar absolutamente protegidos de um ataque atômico em seu próprio território. Aguarde o ponto 15, Daniel, então você vai compreender. Por favor, Mercedes, deixe correr o filme! E acalme- se, você precisa acalmar-se...

— Eu não preciso me acalmar, preciso me agitar! — bra dou ela.

O filme prossegue.

Em situações em que uma das Potências tenha de tomar medidas no exercício de sua especial responsabilidade, ela informará previamente...

A página 6 aparece agora no televisor.

..a outra Potência, na forma apropriada.

— Bem, isso sempre tem ocorrido — disse Olivera. Mercedes se arriara sobre um banquinho ao lado do aparelho de vídeo. — Além do quê, não podemos esquecer a pobre Polônia. Quando a coisa começou a esquentar e os soviéticos estavam prontos para invadir o país com seus tanques, por ocasião da eclosão dos choques entre civis poloneses e os respectivos militares, comunicaram naturalmente o fato ao governo Reagan. Os americanos só poderiam achar acertada uma postura rígida em relação à Polônia. Compreenderam que os soviéticos não poderiam deixar um território de sua “especial responsabilidade” sair da linha dos países do bloco oriental, com um sindicato livre e outras liberdades. Desse modo, os americanos cancelaram o fornecimento de víveres aos polonesa, conquanto soubessem que as pessoas passavam fome. Continuaram, porém, a fornecer quantidades gigantescas de cereais aos soviéticos. Também aí tudo tinha sua razão de ser. Rigorosamente de acordo com o protocolo.

Para a transmissão de informações urgentes relacionadas com situações que demandem imediato esclarecimento, as Potências instalarão uma ligação direta de comunicação a distância entre o governo dos Estados Unidos da América e o governo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Além disso, as Potências trocarão outras informações necessárias por qualquer outro meio, inclusive canais diplomáticos, observando seu caráter estritamente confidencial. Os Embaixadores das Potências têm, a qualquer momento, o direito prioritário de entrar em contacto com os governos junto aos quais se achem credenciados. Os Chefes de Governo das Potências se encontrarão toda vez que a situação assim o exigir.

As Potências reconhecem a necessidade de ser criada uma organização internacional global para a manutenção da paz e da segurança entre as nações. No quadro dessa futura Organização das Nações Unidas, as Potências colaborarão na medida de suas forças.

— Colaborarão na medida de suas forças! — disse Mercedes, que se havia controlado e falava com voz tranqüila. — E como colaboram! Que êxitos, que formidáveis êxitos pode a ONU registrar!

Estão, contudo, conscientes de que a existência de tal organização não as desobrigará das responsabilidades especiais de que estão investidas pelo conteúdo do presente acordo.

— Com o que, o valor da ONU é igual a zero, conforme se pode ver todos os dias — disse Olivera. Ele riu. — Agrada-lhe o que estou lhe proporcionando, Daniel? Um bocado de coisas, não é?

Ross nada respondeu.

Na futura elaboração do estatuto da referida organização, as Potências cuidarão para que nem a Organização das Nações Unidas nem um terceiro Estado venham a causar prejuízo a qualquer medida tomada por uma delas no exercício de sua responsabilidade especial.

— Para mim, é este o trecho mais bonito - disse Olivera. — Não me canso de lê-lo.

De repente, o medo voltou. Jorrava dentro dele como uma fonte. Medo... medo... Ele engoliu em seco. A bolha de ar imaginária batia contra seu coração... Rápido. pegou o tubinho, abriu-o, deixou os comprimidos caírem na mão — cinco, seis, sete, oito — e os engoliu. Os joelhos tremiam. Ele viu que Mercedes o percebera. Pouco importa, ela sabe o que ocorre comigo, pensou. Esse vagabundo não viu nada. Isso é o que conta.

No que se refere aos territórios de sua responsabilidade especial, as Potências criarão, a fim de manter e assegurar a paz e a segurança, associações adequadas de Estados...

— A OTAN, o Pacto de Varsóvia! Organizações que ambos os lados fundaram para defesa e ataque recíproco. E sua formação foi decidida em Teerã, em amigável entendimento a fim de partilhar o mundo — disse Mercedes.

...a fim de, por intermédio dessas associações com objetivos militares, políticos ou econômicos, praticar no futuro uma política a longo prazo em suas respectivas regiões.

Ross respirava com cuidado, aspirando pouco ar. Estava passando um pouco melhor. Não, pensava ele, primeiro preciso procurar Sibylle o mais rápido possível e entrar de novo nos eixos. Só então eu vou ter forças para me ocupar dessa história. A maior história do século.

Aparece a imagem da página 7.

Na consciência de que a longo prazo, suas necessidades de petróleo e outros metais crescerão substancialmente, as Potências consideram seu abastecimento com essas matérias-primas como um assunto de interesse comum.

Na expectativa de grandes avanços na exploração e aproveitamento do espaço sideral, as Potências consideram o referido espaço e as possibilidades que aí se abrem como um assunto de interesse comum.

As Potências têm a expectativa de um rápido desenvolvimento dos artefatos voadores não tripulados com propulsão de foguetes para fins militares assim como dos armamentos baseados no emprego da fissão nuclear. A fim de que esta evolução não venha a ameaçar os objetivos do presente acordo, nenhuma das duas Potências tentará atingir nesse campo uma supremacia decisiva em relação à outra. Por outro lado, as Potências envidarão esforços comuns para que essas novas possibilidades técnicas não caiam no domínio de terceiros Estados. Na hipótese de se verem as Potências levadas a empregar as mencionadas armas, seu emprego será feito de tal modo que o território nacional das Potências em caso algum se veja envolvido.

— Bombas de hidrogênio, foguetes atômicos sobre o mundo inteiro, sobre a maldita Europa, porém jamais um foguete soviético sobre a América, ou uma ogiva americana sobre a Rússia soviética! — exclamou Mercedes, novamente excitada — Que Hopkins e Voroshilov não tenham morrido asfixiados por ocasião dessa formulação! Eles sabiam perfeitamente que todas as pesquisas espaciais serviriam exclusivamente para objetivos militares! Hoje, nós temos satélites no espaço que conduzem ogivas nucleares recuperáveis. Temos espiões do céu que, de sua altitude alucinante, podem até mesmo fotografar e transmitir os números das placas de um automóvel sobre um território que estejam cruzando no momento. Dispomos de satélites assassinos que destroem no ar foguetes que se aproximam. Você já vai compreender tudo, Daniel, toda a pavorosa infâmia, a verdadeira infâmia desse convênio, o verdadeiro motivo por que esse acordo foi feito em mil novecentos e quarenta e três. É pior do que um cérebro humano pode conceber. Espere só! Um momento... Aguarde o ponto quinze!

Disposições finais:

O presente acordo terá validade até o dia 19 de janeiro do ano 2000. Até essa data, ele une os atuais e futuros governos das duas Potências. Como Estados soberanos, cada Potência tem individualmente o direito de abandonar este acordo a l de janeiro de 2000, caso determine que seus mais altos interesses foram prejudicados por acontecimentos excepcionais, relacionados com o conteúdo deste acordo. Neste caso, tem de ser observado um prazo de aviso prévio de cinco anos, que vencerá portanto a 1 de janeiro de 1995. Este será o último dia para a comunicação, à outra Potência, de uma eventual denúncia do presente acordo. A comunicação deverá conter uma exposição dos acontecimentos excepcionais que na opinião da Potência denunciante prejudicaram seus interesses vitais.

Mercedes pressionou o botão de parada, imobilizando a imagem.

— É isso — disse ela —, chegamos ao ponto. Agora você pode entender por que este acordo bilateral foi subscrito, em Teerã.

— Porque a América e a Rússia soviética precisavam de uma pausa para tomar fôlego — disse Ross, e sua voz soava oca. Apertava as mãos uma contra a outra.

— Isso mesmo! Porque elas precisavam dessa pausa, e sabiam disso. — A esta altura, Mercedes estava muito excitada.

Ele pensou: Se alguém no mundo imagina o que nós três aqui sabemos, o que temos como provas... Se alguém, uma pessoa, dá esta informação a uma das duas Potências, meramente como conjetura...

— A Alemanha ainda não estava derrotada! — exclamou Mercedes. — Os Estados Unidos sabiam que a invasão seria para eles um exorbitante esforço militar, o maior da História. A leste, a luta dos soviéticos contra a Alemanha ainda estava longe de terminar, O serviço secreto dos russos constatou (isto, hoje, é certo) que os americanos já estavam construindo uma bomba atômica. As pesquisas soviéticas estavam atrasadas, muito atrasadas. Os soviéticos precisavam avançar nesse campo, deveriam igualmente possuir a bomba, com vistas a um equilíbrio entre as Potências. A Rússia se encontrava destruída até o Cáucaso. Vinte milhões de pessoas haviam perecido. Os soviéticos sabiam que seu país estava próximo do colapso, e também sabiam que os americanos sabiam desse fato. E, por seu lado, os americanos sabiam perfeitamente que os soviéticos tinham conhecimento de que os Estados Unidos, após a capitulação dos alemães, teriam de investir quase todos os seus recursos na Europa destruída, em todo caso na parte ocidental, a fim de ajudar a reconstruir os países devastados, para fazer das populações desses países adversários do comunismo, para criar novos exércitos europeus, inclusive um alemão, que, com eles, iriam lutar contra os soviéticos. O mesmo sabiam os russos em relação aos países que ficavam sob seu domínio com a partilha do mundo. Também eles precisavam de novas forças armadas nesses países, entre as quais um exército alemão, que com eles enfrentassem os americanos. Exércitos alemães, precisava-se de dois deles! Os soviéticos sabiam que tinham de manter sua população viva. E os americanos temiam que as fantásticas despesas com armamentos levassem ao desemprego de muitos milhões de pessoas e ao desmoronamento da economia. Sim, eles precisavam de um tempo para respirar. O tempo suficiente para que de novo estivessem por cima. Fortes, armados até os dentes. Até o limite do possível, invulneráveis em seus próprios territórios — os demais lhes eram indiferentes.

— Você acredita mesmo nisso? — indagou Ross abalado.

— Quero dizer, você acredita mesmo que Hopkins e Voroshilov, em Teerã, já partiam da premissa de que seus dois países gigantes iriam travar uma nova guerra colossal? Já foi ruim bastante quando se puseram a partilhar o mundo, mas isso eu ainda consigo imaginar. Pois talvez Roosevelt e Stalin pensassem evitar, assim, que se repetisse uma catástrofe das dimensões da última guerra, embora eles ao mesmo tempo tratassem vários milhões de pessoas de uma forma despótica e arbitrária, o que também é insuportável. Eles precisavam de um tempo para respirar, dizia eu — com uma visão de hoje. Naquela época... talvez Roosevelt e Stalin quisessem efetivamente assegurar a paz, delimitando de saída os seus interesses, os interesses das duas super-potências. Não poderá ter sido assim?

— Talvez, Daniel — disse Mercedes. hesitante. — Vá que seja, é uma possibilidade. Eu não acredito nela, mas é uma possibilidade. Os dois grandes queriam, de uma vez por todas, arranjar-se à custa do resto do mundo, então haveria paz ou apenas pequena guerras localizadas. Deixe-nos supor que os autores desse protocolo pelo menos ainda fossem capazes de um tal sentimento humano, que, aliás, já é um sentimento muito duvidoso. Uma coisa é certa: eles tinham a mais profunda desconfiança mútua! Com toda certeza pessoa alguma de ambos os lados podia prever com certa segurança se dois sistemas sociais tão diferentes poderiam coexistir ao longo do tempo. Eles não podem, como deu para ver. Já em 1948 houve o bloqueio de Berlim, e as duas potências se chocaram pela primeira vez. Após três anos de calma apenas, somente três anos! Você bem sabe o que Churchill, a quem não deixaram participar (não deixavam ninguém participar) afirmou a propósito. Ele disse: “Eu temo que nós tenhamos abatido o porco errado.” Muito, muito desesperado o cinismo dele. O que aconteceu em 48? Nada. Cada um dos dois gigantes ainda estava fraco demais para aplicar o golpe mortal no outro. O mais tardar a partir de então, até mesmo a pessoa mais ingênua teria de compreender o protocolo como você, Daniel, compreendeu instintivamente.

— Com a visão de hoje! — repetiu ele alto. — E porque eu me recuso a acreditar que. . . — E aí estacou.

— Porque você se recusa a acreditar que o ser humano chegue a esse ponto. Daniel, querido Daniel, eu acho que o homem é essa coisa pavorosa. Se os autores e subscritores desse protocolo realmente não pensaram nessa “pausa para respirar”, no seu inconsciente, in the back of their minds, se escondia essa idéia. Estou convencida disso. Posso imaginar que todos os participantes sentiram-se tomados pela mais profunda tristeza a respeito do futuro da raça humana. Tristeza autêntica. Tristeza desesperada. O resumo, porém, era responsabilidade apenas perante as próprias nações. E ilimitada ingenuidade: que o resto do mundo vá para o diabo, nossas duas nações precisam sobreviver! E, para tanto, as duas potências precisavam de um tempo de calma, que não fosse perturbado por querelas no resto do mundo, e (que pesadelo numa época de armas atômicas!) por uma nova guerra prematura, para a qual fossem arrastadas, embora não estivessem ainda perfeitamente invulneráveis e super-fortes. O protocolo deveria impedir a qualquer preço este perigo. E, por isso mesmo, ambos os lados por tanto tempo a ele se ativeram.

— E a astronáutica deveria torná-las absolutamente invulneráveis e superiores - disse Ross.

— Sim, Daniel, isso mesmo. Não só a pacífica, que servia a fins científicos, mas também a viagem espacial que atendia a fins militares, mortíferos. Quando é que seriam investidas somas de dinheiro tão absurdas apenas para objetivos pacíficos, razoáveis, que servissem à humanidade? Ciência? Progresso? Ridículo! Guerra! Guerra! Guerra! Para isso havia naturalmente dinheiro, sempre houve dinheiro!

— E assim soviéticos e americanos competiram e continuam competindo pela supremacia no universo até o momento presente — disse Daniel, e ele tinha a sensação de estar falando num sonho.

— Assim é, Daniel. — Mercedes concordava com a cabeça.

— Ambos já têm a bomba. Os foguetes também. Mas os sistemas de defesa espacial, os satélites assassinos e muitos outros instrumentos fantásticos que hoje circulam pelo espaço afora para formar uma espécie de muro, de barreira contra foguetes que se aproximem, tudo isso ainda não é suficiente. A barreira é ainda permeável. Os satélites assassinos ainda não são a solução. Já existem assassinos de satélites assassinos! Oh, vai-se conseguir fazer a barreira intransponível. Não tenha medo! Não demora mais muito tempo. Veja você, por isso já está sendo preparado tudo para uma guerra atômica, por isso a Europa e especialmente a Alemanha (as duas Alemanhas) estão repletas de foguetes com ogivas nucleares, por isso a situação política fica cada dia mais perigosa. — Mercedes, cheia de paixão, exclamou: — Para que, no momento preciso em que uma das duas potências tiver encontrado a total proteção para seu território, ela possa imediatamente, no minuto seguinte, desencadear o ataque atômico contra a outra potência. l de janeiro do ano 2000! Coisíssima nenhuma! As duas superpotências nunca irão se ater à vigência do acordo e ao primeiro de janeiro de noventa e cinco, data limite para denúncia do ajuste. Mais um ano. Mais dois. Em todo caso, não falta muito tempo. Aí, então, uma das duas potências estará mais avançada na defesa de seu país. Aí será esquecido este protocolo. Essa potência desfere o golpe. E ambos sabem disso. E quatro bilhões de pessoas não sabem disso e rezam pela paz, têm esperanças de paz, lutam em favor da paz. Porque ignoram a verdade... — E o corpo dela tremia novamente.

Ross se levantou e aproximou-se dela, apertou-a contra si e lhe afagou as costas.

— Até o demônio é obrigado a chorar — disse Mercedes — e a desviar-se com horror diante de tamanha monstruosidade humana. As duas superpotências trabalham febrilmente para defender totalmente seus respectivos países. E vão consegui-lo. Claro que sim. A possibilidade existe. Não demora muito tempo, e já o terão conseguido. Aí o primeiro começa. E então vem o apocalipse. E, por isso, precisamos agir depressa. Rápido, rápido. Você entende agora a razão por que o tempo urge? O tempo nos acossa, realmente,

— Compreendo — disse Ross.

— Então leia ainda até o fim — disse Mercedes, deixando o filme prosseguir.

Este acordo é rubricado em dois exemplares, dos quais um é redigido em idioma inglês e o outro em russo. As versões são idênticas. Este instrumento entra em vigor no momento de sua assinatura. Será tratado agora e para todo o sempre como ultra-secreto. Para esse efeito, os dois exemplares, tão logo assinados, serão registrados em filme e, na presença dos signatários, serão destruídos. Cada Potência receberá o seu exemplar do filme. As duas Potências tratarão o documento de tal modo que ele nunca venha a ser divulgado, nem mesmo nos casos de abertura dos arquivos normais de Estado.

Assinado em Teerã em l de dezembro de 1943.

Em nome do Conselho dos Comissários do Povo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

Assinatura

(J. V. Stalin)

O Presidente dos Estados Unidos da América

Assinatura

(Franklin Delano Roosevelt)

 

A imagem da parte inferior da página 8 fica ainda parada por algum tempo e então se apaga.

Olivera levantou-se e desligou o gravador de vídeo e o aparelho de televisão. Acendeu as luzes de dois grandes lustres. Ninguém disse nada enquanto ele depositava o cassete novamente no cofre. Tampouco alguém falou enquanto ele seguia de janela em janela para suspender as pesadas persianas de ferro. Em seguida, abriu uma das janelas. Sentou-se depois sobre o divã e passou a fitar o interior da escura lareira.

— Você deve estar se perguntando, Daniel, por que este protocolo teria sido filmado, não é mesmo? — disse Mercedes.

— Sim — respondeu ele. — De fato, eu me pergunto isso. A versão escrita teria sido suficiente.

— Isso é que não — retrucou Mercedes.

— Não estou entendendo.

— Já naquela época os americanos não confiavam nos russos. Eles receavam que os soviéticos iriam desmentir a existência desse protocolo caso ele apenas existisse por escrito e na hipótese de que ele lhes causasse problemas. Esse protocolo nós nunca assinamos, ele jamais existiu, poderiam dizer os soviéticos. Isso é uma invenção dos americanos e as assinaturas não são verdadeiras. Sem o filme, também os americanos poderiam negar a existência do acordo. Por isso, está entendendo, Daniel, é que o filme foi rodado. O filme inteiro! Os encontros entre Hopkins e Voroshilov. A assinatura do protocolo por Roosevelt e Stalin. O filme mostra as personagens mais importantes. Aquilo que o filme mostra não se pode facilmente desmentir. Não se pode dizer que nunca se tenham encontrado para subscrever o protocolo. E tampouco que o protocolo filmado nunca tivesse existido.

— É verdade — concordou Ross. — Mas os soviéticos ou os americanos, ou ambos, poderiam dizer, a despeito de tudo (e por sinal, eles podem fazê-lo ainda hoje): “O filme inteiro, conjuntamente com o protocolo, é uma falsificação.” Uma falsificação dos nazistas, em primeiro lugar.

— Isso eles vão dizer de qualquer modo, tão logo o público tome conhecimento do filme — interveio Olivera. — Muito bem pensado, Daniel. Eles serão obrigados a dizê-lo, não lhes resta outra alternativa. Mesmo que ele seja mil vezes verdadeiro.

— E igualmente se ele for mil vezes falsificado — disse Ross.

— Ele é verdadeiro, Daniel — disse Olivera. — As imagens não podem ser negadas. Os homens foram filmados. Como já foi dito, os americanos, que afinal rodaram o filme, queriam evitar que os russos simplesmente contestassem a existência do protocolo. Daí um acordo filmado junto com um filme sobre a história dos precedentes.

Ross dirigiu-se para a janela aberta. Diante dele estava o parque escurecendo, com suas maravilhosas árvores, arbustos e flores. O ar estava docemente dominado pelo aroma dos jasmins. Ross respirou fundo. Percebeu então que Mercedes estava a seu lado. Ela pegou a mão de Ross e apertou-a. E assim ficaram, mudos, por um longo tempo.

Eles jantaram às oito da noite. Os raios de luz do sol que se punha ainda banhavam o parque e se escoavam para dentro da sala de jantar com seus painéis de madeira escura, suas tapeçarias, a grande mesa e as cadeiras de ébano negro com seus encostos altos e trabalhados. Na comprida mesa quadrangular cabiam dezesseis pessoas. Miguel só preparara a mesa numa extremidade. Mercedes sentava-se entre Ross e Olivera. Eles se haviam trocado o traje.

O bonito empregado Miguel, ainda no seu traje da tarde, todo de branco e com um dólmã fechado no pescoço, servia com a discreta habilidade de um maître de restaurante de luxo. Pesados tapetes faziam seus passos inaudíveis. Os pratos subiam da cozinha por um elevador, e eram postos em cima de um aparador também ele entalhado. O empregado procedia com a maior gentileza. Ross foi informado por que se jantava tão cedo: de sextas à noite até domingos de manhã Miguel estava liberado. Olivera, sempre entusiasmado com seu empregado, explicou que não deixava nunca que ele terminasse atrasado seu serviço. Em ocasiões especiais, como quando Olivera recebia às sextas-feiras e precisava de Miguel Morales, o empregado naturalmente adiava para mais tarde sua saída.

Miguel oferecia o segundo prato. Mercedes serviu-se de muito pouco e o mesmo fez Ross. Olivera tinha bom apetite.

— Mas assim também não pode ser — disse ele. — Vocês precisam comer direito, meus filhos!

— Eu sempre me sinto mal quando vejo o filme — disse Mercedes. Ela agora estava com um vestido verde-escuro.

Ross olhou para Miguel, que voltava com a pesada bandeja de prata em direção ao aparador, e em seguida para Olivera -

— Será que ele não entende mesmo o alemão?

— Nem uma só palavra, Daniel. Delicioso o peixe. Verdadeiramente delicioso. — Olivera falava espanhol com Miguel, que sorria satisfeito, fazendo pequenas reverências. O empregado dizia alguma coisa. — Ele está muito perturbado com o fato de vocês comerem tão pouco — traduziu Olivera. E de novo para o em pregado em castelhano: — É o vôo muito longo, sabe. A mudança de clima.

— Oh, naturalmente, señor. Bobagem minha não ter pensado nisso.

Veio o terceiro prato: carne. Olivera serviu-se de um grande pedaço. Parecia estar de ótimo humor. Mercedes e Ross recusaram. Mercedes dirigiu-se a Miguel:

— Amanhã já estará tudo em ordem novamente.

— Desejo de todo o coração, señorita — disse o empregado muito sério.

Também do queijo e da sobremesa somente Olivera se serviu. Café, tomaram todos. Antes disso, Miguel havia retirado pratos e talheres e, junto com as bandejas, descera tudo pelo elevador para a cozinha.

Olivera fitou o relógio. Faltavam quinze minutos para as nove.

— Bem — disse ele — encerrado para você, Miguel. Nós voltaremos em seguida para a biblioteca. Drinques posso fazer pessoalmente. E agora vamos, desapareça!

— Obrigado, señor.

— Qual é seu programa hoje à noite?

— Em Chacarta existe uma nova discoteca. — Olivera traduzia para Ross, e disse:

— É um bairro da cidade, mais para oeste. — E de novo em castelhano para Miguel: — Você ainda está com aquela ruivinha bonita?

— Carmelita? Não, señor. — Miguel ficou encabulado. — Eu terminei com ela.

— E por quê?

— Ela era muito ciumenta.

— Naturalmente você já tem uma outra.

— Sim, señor. Ela se chama Maria Perichole.

— Morena?

— Loura. Quase de ouro. Cabelos compridos e dourados.

— O rapaz troca de meninas, as mais belas da cidade, como quem troca de camisa. Também, não é grande coisa quando se tem essa aparência!

Miguel curvou-se ainda uma vez e disse algumas palavras.

— Ele nos desejou a todos uma boa-noite — traduziu Mercedes.

— Seja bem-comportado, menino! — disse Olivera. — E, se não conseguir, pelo menos tome cuidado!

Miguel riu, mostrando seus belos dentes, e desapareceu.

— Em todo o país você não encontra um empregado como Miguel — disse Olivera. — Preciso realmente estar agradecido ao meu amigo, o General Álvarez, por ter me mandado o rapaz. Tamanha lealdade, tanta dedicação. Não serviu com perfeição? É igualmente perfeito no volante do carro. Mantém o jardim em ordem. Conserta simplesmente tudo o que quebra. E é um fantástico massagista, realmente. — E, voltando-se para Rosa: — Ele precisa fazer massagens em você também, Daniel. O seu corpo está precisando com urgência.

— Sim, sim — respondeu Ross.

— Não, não! Você também não é mais tão jovem assim. Seu coração, sua circulação. Olhe para mim! Não passa sequer um dia sem que eu não faça algo, pelo menos por duas horas, por minha saúde, Você simplesmente tem de fazer a mesma coisa. Prometa-me isso, está bem?

— Sim — disse Ross. — Sim, poxa.

Olivera riu.

— Não olhe assim tão assustada, Mercedes! Daniel vai agora trabalhar com seu odiado pai. Isso já deve ser horrível. Não, real mente, eu posso me pôr no seu lugar, Daniel. — Olivera riu de novo.

Miguel Morales o escutava. Acabava de entrar na biblioteca e havia acendido a luz. Rastejou para debaixo da mesa de mármore que ficava à frente da lareira, deitou-se de costas e procurou algo por pouco tempo. Da parte inferior da tampa de mármore retirou um objeto com a forma de meia esfera. Era de metal e do tamanho de uma ficha telefônica. Era um grampo, um minúsculo instrumento eletrônico, que possuía um microfone ultra-sensível e um potente transmissor. O grampo — produto japonês — podia transmitir conversas captadas pelo microfone até uma distância de trezentos metros, mesmo através de paredes ou laje de concreto - Miguel o havia colado na parte inferior da mesa de mármore quando à tarde arrumava as xícaras de chá. Ao deixar cair uma colher como pretexto para a busca, abaixou-se até o chão e assim não fora notado por ninguém. Olivera tinha razão: Miguel era de fato de habilidade incomum.

O moço com a pele lisa e morena e os grandes olhos amendoados botou o aparelho no bolso de seu temo branco. De outro, retirou um novo, ainda nunca usado, e o prendeu no lugar do antigo, sob a mesa de mármore. Deixou a biblioteca e se dirigiu para o segundo andar, onde os empregados tinham os seus quartos. Miguel abriu o seu com a chave e trancou a porta atrás de si. O dormitório era grande e tinha ao lado um banheiro, As paredes do quarto estavam recobertas de fotos e cartazes com os retratos de artistas de cinema famosos assim como os mais populares cantores argentinos. Em um canto encontrava-se uma mesinha com uma Nossa Senhora muito colorida. Ao lado, um vaso com flores; Miguel sempre as tinha bem frescas. Com freqüência, se ajoelhava diante da mesa. Miguel era devoto.

Dirigiu-se ao banheiro. De novo agachou-se no chão, junto ao sanitário. Puxou um receptor eletrônico do tamanho de um maço de cigarros detrás do vaso, assim como um gravador ligeiramente maior. Os dois aparelhos estavam ligados por um fiozinho, e eram igualmente fabricado no Japão. Tratava-se de um produto especial, ao qual pertenciam cassetes maiores. Um lado podia gravar até três horas e não se precisava virar a fita decorrido esse tempo. Sem troca alguma o gravador funcionava outras três horas em uma segunda faixa. Além disso, o aparelho ligava automaticamente tão logo o receptor transmitisse ruídos, conversas ou vozes isoladas, recebidos do grampo. O gravador desligava automaticamente se por cinco minutos não recebesse impulsos, mas ligava imediata mente tão logo o grampo enviasse ao receptor novos sons para registro.

Miguel abriu o gravador e tirou o cassete. Voltou para o seu quarto, arrumado com móveis de sua propriedade que havia trazido consigo e que incluíam um armário de roupas com duas gavetas para roupa íntima e meias. Miguel tirou a gaveta da esquerda, inteira. Com o polegar, bateu três vezes com força sobre um canto do forro de madeira do fundo, o qual logo se abriu. A chapa se levantou tomando visível um compartimento de uns dez centímetros de profundidade do tamanho da gaveta, onde se encontravam numerosos cassetes iguais ao que Miguel retirara do gravador assim como numerosos aparelhos de escuta. Num pequeno saco branco de plástico que Miguel tirou lá de dentro, havia dois cassetes, aparentemente gravados, pois juntou a eles o que trouxera consigo. Em seguida, rasgou o invólucro de proteção de um cassete novo e o introduziu, já de volta ao banheiro, no gravador, pronto para ser usado. Quando Olivera, conforme havia anunciado, voltasse para a biblioteca com sua filha e o homem que supostamente era seu filho, o novo cassete registraria a conversa. Miguel não acre ditara em momento algum que aquele homem fosse filho de Olivera: uma pessoa proveniente do outro lado da terra com quem Olivera se trancou durante horas com as persianas de ferro baixadas!...

Miguel colocou novamente o gravador atrás do vaso sanitário, foi para seu quarto e trancou o esconderijo, pressionando a chapa de madeira e repondo a gaveta no armário.

Tirou do armário uma camisa listrada vermelho e azul e uma calça azul, e pegou além disso meias e slippers de pano azul. Após um banho de chuveiro, vestiu-se com as peças escolhidas. Com todo o cuidado pendurou seu temo branco no cabide. Antes de deixar o quarto, ajoelhou-se diante da Virgem colorida e murmurou de mãos postas, uma oração de agradecimento pela ajuda e proteção até então recebidas e que terminou com o pedido de contínua proteção e infinita misericórdia.

Em seguida, levantou-se, pegou o cartucho de plástico com os cassetes e uma bolsa de couro idêntica à que todos os homens aqui usavam, onde guardara seu dinheiro, documentos e chaves do carro. Trancou a porta atrás de si. Poucos minutos mais tarde seguiu em seu Volkswagen através do parque em direção ao portão.

— Ai! — fez o homem grande, que estava deitado de bruços, inteiramente despido. — Menos força, garoto! Você está me machucando.

— Peço perdão, meu general — disse Miguel Morales. — Mas eu preciso pegar mais forte. Seus músculos da nuca já estão de novo inteiramente contraídos.

O homem despido, que tinha tendências para a obesidade encontrava-se deitado sobre uma mesa de massagens, cujo colchão de espuma de borracha estava coberto por um lençol branco. Miguel, todo de branco, de camisa de manga curta e sandálias, estava ao lado da mesa no grande banheiro do general Carlo Maria Álvarez e lhe fazia massagens. Isso ocorria quase quatro meses antes, na manhã de 25 de outubro de 1983 uma terça-feira.

Miguel cobriu as palmas das mãos com talco e continuou a massagear os músculos da nuca do general.

— Agora, preste bastante atenção — disse Álvarez. — Isso é muito importante. Você, na verdade, me é realmente dedicado, com sinceridade, hem, garoto?

— Sim, meu general.

— Você faz tudo o que eu quero de você, sem condições.

— Tudo sem condições, meu general.

— Eu também gosto de você. Nunca encontrei um rapaz com tão bom caráter e tamanha lealdade. Não se esqueça de que fui eu quem tirou você da miséria.

— Nunca, meu general, nunca vou esquecer-me disso.

— Bem, bem. Você conhece o Sr. Olivera, garoto? Meu bom amigo Eduardo Olivera?

— Certamente, meu general. — Miguel estava trabalhando agora as costas do gordo homem.

— Ele gostaria muito que você fosse para lá. Se ele realmente é meu amigo — poxa, como está doendo!

— Precisa ser assim, meu general.

— Está bem. É isso que eu não sei, se ele é realmente meu amigo. Não esqueça: faça de novo as coxas, direitinho, sim? As pernas ficam cansadas tão depressa.

— Sim, meu general. — Miguel gastava muito talco. Estava ficando com calor. Era trabalho bastante pesado. — Isso agora eu não entendi — disse ele. — O senhor não sabe se o Sr. Olivera realmente é seu bom amigo?

— Isso mesmo. — Álvarez grunhiu. — Ai! Sim, aí mesmo! Continua aí mesmo! Isso faz bem. — Olivera é um homem estranho, sabe. Ele sempre me ajudou muito, a mim e aos camaradas. Não só como banqueiro. Com informações também. — Miguel calcava agora as nádegas de Álvarez. O general continuava falando: — Mas será ele leal? Leal como você, meu garoto? Ou só pela metade? Mais forte! Aí você pode agarrar mais forte. Será que ele agora não vai trocar de lado e ficar amigo dos nossos adversários?

— Não estou entendendo, meu general...

— N6s estamos antes das eleições — disse Alvura. — Vão ser daqui a cinco dias. Nós vamos perdê-las. Alfonsín vai ganhar.

— Virgem Santa! Não, não acredito nunca! — exclamou Miguel.

— Você vai ver. Esperamos pela derrota. Desde a guerra das Malvinas, o povo nos odeia. Também antes as pessoas nos odiavam, mas nos temiam. Agora, somente nos odeiam. A coxa, mais uma vez, por favor!

— Sim, meu general. — Miguel batia rapidamente com as bordas das mãos ao longo da coxa direita e depois da esquerda, por várias vezes.

— Alfonsín vai se vingar — disse Álvarez. — E é claro que vai abrir um processo contra a Junta.

— Também o senhor, meu general? — Miguel estava horrorizado. Parou até com a massagem. Começou a chorar.

— Não chore, querido! Não adianta nada. Vão fazer o processo, com toda a certeza.

— Quer dizer... O senhor vai para a cadeia? — Miguel continuava parado, perplexo. Passou um braço na face molhada.

— Sim, certamente, meu garoto. Não faz sentido fechar os olhos diante disso. Sei que você está de acordo com tudo o que faço, não é verdade?

— Com tudo, meu general. Minha gratidão e carinho para com o senhor não têm limites. Estou sempre às suas ordens.

Carlo Maria Álvarez virou-se de costas, gemendo. Tinha um peito quase feminino. Miguel começou a massageá-lo.

— Eu já leguei você para ele, meu querido — disse o general.

— O senhor general já...

— Quando eles vierem e me levarem, você pode começar logo a trabalhar para ele. Leve todas as suas coisas: isso vai demorar.

O general Álvarez habitava uma grande mansão na Rua Dorrego, no eminente bairro de Palermo. Dez quadras adiante, corria comprida a Céspedes, onde Olivera tinha sua casa.

— Mas... mas eu não quero, meu general! Não quem trabalhar para o Sr. Olivera. Se o senhor for mesmo preso e condenado, vou me matar. — Miguel tinha de novo lágrimas nos olhos.

— Isso seria muito bonito de sua parte, mas muito bobo também — disse Álvarez. — Como morto você não pode ser útil a ninguém. Como vivo, exatamente ao lado de Olivera, meu bom amigo, você pode ser utilíssimo — para nós.

— Para o senhor? — Miguel descia as suas massagens em direção da grande e flácida barriga do general.

— Para nós, querido — repetiu Álvarez. — Para nós todos que estamos agora caindo. Isto aqui não vai continuar sendo uma democracia, acredite! Nós voltaremos.

— Voltarão? — Miguel aplicava sonoras palmadas na barriga mole. As murchas carnes escorregavam de um lado para outro.

— Nós sempre voltamos. Por mais pessoas que prendam, eles não podem prender todos. Sobram muitos em liberdade, em ação. A isso se junta nosso poderoso agrupamento de camaradas em todo o país. Ninguém conhece esse agrupamento e por isso também ele permanece intacto. Para a resistência. Para grandes atentados. Para disseminar insegurança e terror. Para preparar o campo para nossa volta. Você vê como tem realmente toda minha confiança, meu garoto.

— Essa o senhor me pode conceder, meu general. Pela Virgem Mãe, eu lhe daria a minha vida.

— Caso você, mesmo assim, me desiludisse, não sobreviveria um dia depois da traição, meu querido. É óbvio que você não é o único homem de confiança. Temos milhares deles, como você há de imaginar. Mas você seria um dos mais importantes. Todos serão vigiados pelos nossos homens, cada um. E é absolutamente necessário que alguém vigie Olivera. Preciso emagrecer, eu sei, eu sei. Bem, agora vou ter oportunidade para isso. A parte da frente da coxa, por favor!

Miguel trabalhava arfando. Estava dominado por aquilo que acabara de ouvir.

— Olivera foi muito nosso amigo. Nesse meio-tempo, ouço dizer de fonte segura que ele já entrou em contato com homens que parecem pertencer ao grupo do Alfonsín.

— Não!

— Você não conhece as pessoas, pequeno inocente. Aparentemente, Olivera já passou para o outro lado. Vai passar a ser agora o bom amigo dos nossos adversários, vai ajudá-los — como banqueiro e com informações. Ele vai convidá-los para sua casa. Ele é muito inteligente. Eles vão procurar seu conselho. Vão considerá-lo como um deles mesmos. E por isso você precisa ir agora para junto dele. — Álvarez passou levemente a mão entre as pernas de Miguel enquanto este lhe fazia massagens na coxa, voltando-lhe as costas. — Você vai fazer isto para mim, meu querido. Através de você ficaremos sabendo na prisão de muitas coisas, o que os novos senhores estão planejando, querendo, pretendendo. E nós precisamos estar informados. você compreende, não é mesmo? Só assim é possível uma luta na escuridão... um levante...mais tarde um golpe de Estado...

— Mas.., mas que tenho de fazer, meu general? Sou simples mente um menino bobo que o senhor, na sua infinita misericórdia, tirou da imundície.

— Você é um menino esperto, meu querido. Vai fazer a escuta das conversas que Olivera mantiver com portas trancadas. Tudo o que lhe parecer importante. Você fará isso?

— Faço qualquer coisa, meu general.

— Matar também?

— Se for necessário, também matar, meu general. Mas como é que eu vou escutar essas conversas?

— Bem, há aparelhos excelentes. Você vai receber o de que precisa. Vão lhe explicar tudo. Meus amigos e eu pensamos num equipamento moderno. Você sabe mexer com essas coisas! Eu já disse a Olivera que você aqui em casa sempre esteve livre de sextas à noite até domingos de manhã e que ele teria de fazer o mesmo. Ele o fará com prazer. Está louco para conseguir você. Fique inteiramente tranqüilo! Ele não é assim como nós somos. Você não vai correr o perigo de me trair.

— Eu jamais faria isso! — Miguel se voltou. Seu rosto bonito e franco mostrava autêntica indignação.

— Disso eu sei. Foi só uma brincadeira — disse o general e de novo pegou em Miguel. — Meu querido, meu amor! O que eu queria dizer: no seu tempo livre você vai trazer sempre a colheita da semana para um determinado local... Você ainda será informado para onde... Você deverá receber os méritos pela revolução, meu garoto. Você vai querer isso, se me for útil.

— Tudo, meu general — disse Miguel, vencido. — Tudo o que o senhor exigir de mim.

No seu Volkswagen, Miguel atingiu o portão de ferro da entrada. Também ele possuía uma pequena caixinha plástica com cuja ajuda eletrônica os portões abriram-se lentamente. Miguel deixou o carro rolar até a rua. A entrada fechou-se atrás dele. Dobrou em seguida à esquerda. Ao longo da Céspedes havia estacionados, dos dois lados da rua, muitos carros embaixo das velhas paineiras. O rapaz viu que vizinhos davam uma grande festa no jardim. Ouvia a música trazida pelo vento e vislumbrou alguns pares que dançavam ao ar livre sobre um piso de acrílico.

Um Buick preto e um Lincoln azul, dentro dos quais se achavam sentados dois moços, estavam manobrando a alguma distância para estacionar em sentidos opostos; o Lincoln na mesma direção que Miguel havia tomado. O homem ao volante tirou um pequeno microfone de seu suporte e disse:

— Peru, aqui é Cuba.

No Buick negro um homem respondeu pelo microfone:

— Aqui Peru. O que houve, Cuba? Vocês vão seguir o fusca?

— Sim. Se alguém ainda for sair, siga-º Continuamos mantendo contato.

— OK, boa sorte! Fim.

O Lincoln azul deslizou para fora da sua vaga. Seu motorista, que no telefonema com o velho chamado Cristóbal se havia identificado como Roberto, usava ainda a mesma camisa verde da manhã, além de suas calças brancas. A seu lado estava sentado o jovem da camisa vermelha. Quando eles haviam seguido Mercedes e Daniel Ross do aeroporto até a cidade, ele estivera ao volante de um Ferrari vermelho. A organização dispunha de uma frota com muitos automóveis. Ainda estava claro e muito quente, mas o sol se punha no horizonte. Logo ficaria escuro.

Na Avenida Cabildo, Miguel entrou à direita. Desceu a larga rua em direção sul. O Lincoln azul o seguia. Miguel atingiu o clube de pólo que ficava à sua esquerda, e o cruzamento com a Avenida J. B. Justo. Neste ponto, a Avenida Cabildo mudava seu nome para Avenida Santa Fé e continuava mais para o sul, margeando o Zoológico e o Jardim Botânico, além de muitos parques com lagos. Depois, virava suavemente para sudoeste.

— Chamando Peru — disse Roberto no microfone. — Chamando Peru. Aqui é Cuba.

— Aqui Peru. O que há?

— O fusca está descendo toda a Santa Fé. Se continuar assim, logo vai chegar nas docas e no porto. Fique na escuta! Há alguma coisa de estranho.

— Fico, na escuta, Cuba. Fim.

— Que vai querer esse cara no porto, Esteban? — perguntou Roberto ao jovem de camisa vermelha.

— Não faço idéia — respondeu Esteban. Ele estava irritado. — O velho Cristóbal já nos deveria ter dispensado há muito tempo. Homem, isso já está se arrastando desde a manhã! Agora já são nove e meia. Estou cansado. Isto é um serviço de merda.

— O cara está indo para o Retiro, Esteban! Para o Retiro!

Efetivamente, Miguel, agora na altura da Plaza General San Martín e da Plaza Britania, atrás das quais de novo havia parques, entrou à esquerda e atingiu o gigantesco estacionamento diante do maciço edifício da estação principal de Buenos Aires. Das seis diferentes redes de estradas de ferro da Argentina, cinco delas têm nomes de generais acompanhados de seus títulos, e três convergem para o Retiro, enquanto as outras três têm suas próprias estações em Constitución, Once e Lacroze. O estacionamento em frente ao Retiro estava praticamente lotado. Muitas pessoas se esgueiravam por ali, apressadas. Roberto achou ainda uma vaga bem próxima da do Volkswagen. Manobrou habilmente o grande carro para dentro do espaço, enquanto Esteban pegava o microfone.

— Chamando Peru, aqui Cuba.

— Aqui Peru.

— Estamos agora no estacionamento do Retiro. O fusca parou aqui. Há um jovem saltando dele. Segura um capanga e um saco de plástico branco. Está indo para o Retiro. Nós vamos grudar nele.

Miguel abriu caminho por entre os numerosos carros. A alguma distância o seguiam Esteban e Roberto. Miguel alcançou o grandioso bloco da Estação central e as plataformas ante o grande salão com suas muitas lojas ainda abertas. Passou ao lado das bancas de jornais, vendedores ambulantes e bancas com provisões de viagem até uma grande parede com os compartimentos de guarda-volumes. Estava sendo observado cuidadosamente pelos seus seguidores que se achavam atrás de uma cortina de revistas pornográficas dependurada em uma banca. Miguel pegou uma chave recortada de forma bizarra de dentro de sua bolsa de couro e abriu o compartimento duzentos e catorze. Isso ele fazia todas as sextas-feiras a essa hora, desde que trabalhava na casa de Olivera. Deitou o saco de plástico dentro do compartimento. Já depositara muitos cassetes ali. Eram retirados por um homem de confiança do general Álvarez, que agora já estava sendo processado. Miguel não conhecia este homem. O plano havia ainda sido combinado com Álvarez, de quem ele recebera a chave e as explicações — o homem que ele amava e venerava.

— Esse guarda-volumes duzentos e catorze precisa, como todos os demais, ser alimentado com moedas, a fim de que possa ser trancado. O mais tardar a cada setenta e duas horas precisam ser colocadas novas moedas, senão termina a corda do relógio e somente a fiscalização poderá abri-lo. Mas você não precisará se incomodar com isso, meu garoto. Disso tratarão os outros. Outra coisa ainda: toda vez que depuser os cassetes, antes de trancar, você poderá colocar moedas na fenda. As pessoas que forem apanhar os cassetes naturalmente terão de proceder do mesmo modo, meu querido...

Miguel apertou a porta do guarda-volumes, jogou as moedas pela fenda e trancou tudo. A chave que ele meteu de volta em sua bolsa de couro trazia gravada as letras RETIRO e o número 214. Poucos minutos mais tarde Miguel estava novamente no estacionamento superlotado. Sentou-se atrás do volante do Volkswagen. Deu a partida no motor e dirigiu o carro para fora de sua vaga. No instante seguinte. bateu contra um grande Lincoln azul que subitamente surgiu diante dele. Miguel não o tinha visto. Os dois veículos chocaram-se ruidosamente com os pára-lamas dianteiros. Ouviu-se o barulho estridente de metais. De susto, Miguel deixou o motor morrer. Do Lincoln desembarcara um homem com uma camisa verde e vinha em sua direção.

— O senhor está bêbado, não é? — gritou ele.

— Logo o senhor! — berrou Miguel. — Isto não é nenhuma pista de corridas! O senhor estava no mínimo a oitenta por hora!

— Ora! Não se faça de engraçadinho!

— Sim, o senhor tem razão! — gritou uma mulher que passou a atacar Roberto. — O senhor vinha dirigindo muito depressa!

— É isto mesmo. Eu sou testemunha!

— Eu também

De repente, ajuntou-se um bando de gente. O calor, que tampouco à noite ficava mais suportável, fazia todos ficarem nervosos e irritados.

No meio de toda confusão, Esteban aproximara-se do Volkswagen, cuja porta esquerda se mantinha aberta. Sobre o assento à direita estava a bolsa de couro. A parte externa da bolsa tinha um fecho de correr. Esteban era um observador arguto. Ele sabia que o jovem de pele morena pusera a chave do guarda-volumes no compartimento externo da bolsa. Agarrou-a e abriu o seu zíper, enquanto atrás dele a gritaria se tornava cada vez mais veemente.

Aí estava ela — a chave! Esteban saiu de fininho. Correu até a plataforma, chocou-se com várias pessoas, foi devidamente xingado, correu adiante e atingiu a parede com os guarda-volumes. Logo em seguida havia aberto a duzentos e catorze e retirava o saco plástico. Introduziu as moedas devidas, trancou a caixa e disparou o mais rápido que podia em direção ao estacionamento. Escutou, aliviado, a raivosa confusão de vozes. Continuavam ainda a discutir, e maior número de pessoas se havia aglomerado. O fusca de Miguel havia afundado bastante o pára-lama direito dianteiro do Lincoln. Ele e Roberto examinavam uma vez mais os estragos. Os assistentes faziam comentários. Esteban esgueirou-se para diante; chegou ao Volkswagen com a porta aberta e, despercebidamente, deixou a chave cair no compartimento externo da bolsa, cujo zíper fechou. O saco de plástico ele escondeu por debaixo da camisa.

Nesse ínterim, um homem havia sugerido que se chamasse a polícia. Merda, pensava Esteban, e Roberto também, quando Miguel exclamou assustado:

— Não, a polícia, não!

— E por que não? O Lincoln estava inteiramente errado!

— Mesmo assim... — gaguejava, nervoso, Miguel. Polícia coisa nenhuma, pensou ele. E se eles me perguntam que eu estava fazendo aqui. Ele disse com esforço: —. Este carro não é meu... - Eu...- o tomei emprestado...- Não quem agora nenhum aborrecimento com meu amigo... Eu lhe dou meu endereço... O senhor conserta o carro e me manda a conta por favor, sim? — Olhou Roberto com ar suplicante.

— Endereço falso, hem?

—. Não, não! Eu lhe mostro meus documentos. — Miguel fez meia-volta, curvou-se dentro do Volkswagen, apanhou a bolsa de couro e apresentou a carteira de motorista e outros documentos. — Por favor, veja o senhor... Moro na Céspedes mil e seis... na casa do Sr. Olivera... trabalho lá... aqui... o registro... Estou lá há apenas algumas semanas... — Oh, maldição, pensou ele, que me tenha de acontecer isso. Ajude-me, Mãe Maria!

— Está bem — disse Roberto — já que o senhor quer pagar. Pegou um bloco e lápis de seu bolso traseiro. — Mostre-me Sr...

—. Miguel Morales.

— O senhor ficou maluco! — exclamou uma mulher. — O senhor paga quando é ele o culpado!

Concordância generalizada.

— Isso é assunto meu. Eu já disse que o carro é emprestado.

Enquanto isso, Roberto se havia apoiado sobre a capota do motor do Lincoln e anotado o endereço de Miguel e o número de seu seguro.

— Então, OK, o senhor recebe a conta. Queira prestar mais atenção da próxima vez! Boa noite.

—. Boa noite.., e muito obrigado por sua compreensão — balbuciou Miguel.

Os observadores dispersaram-se, debatendo. Não estavam de acordo com essa solução.

— O miserável com seu Lincoln metido a besta — dizia uma mulher para o homem que seguia a seu lado. — O garoto no seu fusquinha fez nas calças, é claro. Não quis se meter com os figurões! Assim somos todos nós. Por isso jamais chegamos a coisa nenhuma.

— Agora já chega. Evita! — disse seu acompanhante. — Vamos chegar atrasados ao cinema. Não é possível, você precisa sempre assistir a uma discussão dessas.

Na casa de Cristóbal, no segundo andar do número 25 da Rua Husares, na parte ocidental da cidade, o telefone tocou, estridente. O calvo sessentão a quem Roberto, ao meio-dia, informara por telefone que o carro que havia seguido desde o aeroporto havia penetrado no parque da mansão da Calle Céspedes 1.006 estava sentado numa esfarrapada cadeira de balanço da sala de estar, sob um abajur de pé alto, diante de um velho aparelho de rádio que terminava de apresentar uma dramatização de A ponte de San Luiz Rey, de Thornton Wilder.

O telefone continuava a tocar. Cristóbal se ergueu e correu para o quarto vizinho, cuja janela dava para a gigantesca área do Regimento 3 de infantaria General Belgrano, com suas praças de exercício e suas casernas, Todo o terreno estava inteiramente iluminado por holofotes presos no topo de altos postes. O velho homem trazia uma toalha enrolada à cintura. Abrira todas as janelas para receber pelo menos um pouco de corrente de ar. Finalmente, levantou o receptor.

— Sim?

— Aqui é Roberto — dizia uma voz que ele conhecia. — Temos aqui uma coisa que o senhor precisa receber imediatamente.

— O que é? — Só se podia alcançar Cristóbal telefonicamente. Técnicos da organização haviam preparado a instalação de tal forma que conversas não poderiam ser escutadas por terceiros. Transmissões pelo rádio teriam sido arriscadas demais.

Roberto narrou o que ocorrera. Cristóbal ficou animado.

— Traga imediatamente os cassetes para cá! Eu vou descer. Quanto tempo vocês precisam para chegar aqui?

— Uns trinta minutos. Muito tráfego.

- Bem. Ficarei em pé, na sombra do portão. Vocês passam devagar e me estendem o saco de plástico do carro mesmo.

O velho desligou, retomou à sala com seus móveis destroçados e tomou a sentar-se. Ouvia uma voz de locutor de rádio, que encerrava a adaptação da Ponte de San Luiz Rey.

“Logo estaremos todos mortos e toda recordação daqueles cinco terá assim desaparecido da face da terra, e nós mesmos seremos amados por um curto instante e, então, esquecidos. Mas o amor terá sido suficiente; todas essas emoções de amor voltam à sua Origem. Nem mesmo de uma recordação o amor precisa. Há uma terra dos vivos e uma terra dos mortos, e a ponte entre elas é o amor — a única coisa duradoura, a única razão.”

Cristóbal desligou o aparelho. Seus lábios se mexiam, mudos. Ele repetia a última frase e olhava o vazio. Era um velho homem, muito triste e muito solitário.

No momento em que o Lincoln azul começou, trinta e cinco minutos mais tarde, a deslizar lentamente de faróis ligados pela Rua Husares, já lá se encontrava Cristóbal na escuridão do portal de entrada da casa. Da janela do carro, uma mão se estendeu para ele. Habilmente, o velho pegou o pequeno saco de plástico branco na mão. O Lincoln seguiu adiante e logo dobrou a primeira esquina.

Cristóbal trancou a porta de casa e retornou para seus aposentos. Sofria de artrose e com fortes dores subiu as escadas. Na verdade, sempre sentia dores, mas pioravam tão logo subisse .

Em seu escritório, examinou os três cassetes. Ele possuía toca-fitas dos mais variados tipos, mas os cassetes não cabiam em nenhum, o que ele já sabia de antemão. Tão logo os viu, percebeu que haviam sido produzidos para uma finalidade especial e um equipamento específico. No comércio, com certeza, não se encontraria tal aparelho para comprar.

Ele se ergueu e cerrou todas as janelas. Sentou-se ao telefone, acoplou o misturador de vozes e discou 0041, o código de Londres, e, em seguida, um número de sete algarismos.

Tão logo soou o sinal de chamada, uma macia voz masculina atendeu. Cristóbal agora falava em inglês. Deu logo seu nome e escusou-se por perturbar tão tarde da noite.

— Não há por quê! — disse gentilmente a voz lá de Londres.

— Um momento! — Ouviu-se um estalido na ligação. — Pronto, colocado o misturador. O que houve?

— Lamento realmente, Mr. Morley. Aqui são onze e meia. Aí já são duas e meia. Certamente já havia começado a dormir.

— Não importa. Eu já lhe disse que o senhor deve me chamar imediatamente, de dia ou de noite, tão logo aconteça alguma coisa. Então o senhor descobriu o nome do homem que guardou os cassetes no guarda-volumes da estação?

— Sim. Pela carteira de motorista e o registro. Miguel Morales é o nome dele. Nascido em quinze de maio de mil novecentos e sessenta, em Buenos Aires. Meus homens são bastante confiáveis. Do registro constava também o endereço anterior e o nome de seu último patrão. General Carlo Maria Álvarez, Rua Dorrego, 870, bairro de Palermo. É bem perto da casa de Olivera.

Mr. Morley soltou um assovio.

— Álvarez, o general da Junta?

— Yes, Sir. Verifiquei na lista telefônica. E o endereço dele. Melhor: era. Há semanas que está preso. Pegaram-no em 20 de dezembro. No dia 21, Morales se transferiu para a casa de Olivera.

— Está parecendo que ele estava incumbido de alguma coisa, hem, Cristóbal?

— Parece que sim, Sir.

— Instalar um equipamento de escuta e gravar as conversas de seu novo patrão. De quem terá ele recebido esse complicado equipamento especial? Só pode ter sido de Álvarez e dos seus amigos. Foi introduzido na casa do Olivera, não lhe parece?

— Está parecendo sim, Sir.

— Diga-me, Cristóbal, esses cassetes... não têm eles, na etiqueta, em cima, à esquerda, três pequenos anéis entrelaçados — como os das olimpíadas, só que com dois a menos?

O velho foi verificar.

— Isso mesmo, Sir. E embaixo dos anéis há duas letras: um E e um X.

— Merda. Já presumia isso. Fabricação particular. Ninguém pode tocá-los. Somente técnicos, num laboratório especial. Ouça aqui, sabe Deus, o que contêm esses cassetes — preciso deles imediatamente. O mais rápido possível, está me entendendo?

— Sim, Sir — respondeu Cristóbal. Sua voz soava cansada e submissa,

— Mande-os para mim com seu melhor homem, aquele que se parece tanto com o Alain Delon. Como é que se chama?

— García, Sir. García Lopez.

— Onde é que ele está metido?

— Está na cidade, Sir. Ele veio com os dois lá de Frankfurt. Apresentou-se há algumas horas, na hora marcada. Ele mora com sua amiga. Tenho o número do telefone. Mas antes de amanhã cedo não sai avião algum.

— Pouco me importa como ele voe e quantas vezes terá de trocar de avião, caso não haja logo um vôo direto. Amanhã de manhã ele embarca, está claro?

— Perfeitamente claro, Sir — disse Cristóbal, resignado. — Ele vai tomar o primeiro avião possível. Mesmo que tenha de fazer vários transbordos. Ele lhe entregará os cassetes sem demora, tão logo chegue a Londres, Sir.

— Conto com isso, Cristóbal. Precisamos ficar finalmente sabendo o que acontece.

Em Londres, o receptor foi reposto em seu lugar. O mesmo fez Cristóbal. Poderia pelo menos ter dado boa-noite, esse Mr. Morley, pensou ele, enquanto desligava o misturador de vozes. Como eu odeio tudo isso. Mas a gente precisa viver. Vou acordar Garcia às cinco da manhã. Não consigo mesmo dormir. Há anos não posso dormir direito. No máximo, uma ou duas horas. Isso, quando tenho sorte. Às cinco vou despertar o Garcia e dizer-lhe que precisa vir aqui falar comigo e apanhar os cassetes. E voar imediatamente para Londres. Agora vou dar-lhe um pouco de tempo para o amor, disse o velho para si mesmo. Um pouquinho só.

O COMANDANTE SUPREMO SS E CHEFE DA POLÍCIA DA ALEMANHA

Berlim, 31 de março de 1944

Ao Chefe-de-Divisão SS Prof. Dr. Walther Wüst,

Curador do Patrimônio Ancestral e

Chefe do Dep. de Patrimônio Ancestral/Assessor Pess C.S.SS

e

Chefe-de-esquadrão 55 Wolfram Sievers,

Gerente Supremo do Patrimônio Ancestral

Por ocasião das futuras pesquisas meteorológicas que desejamos fazer sistematicamente, logo após a guerra, por meio da organização de inúmeras observações isoladas, peço ter em vista o seguinte fato:

As raízes, ou melhor, os bulbos dos cólquicos, estão, nos diversos anos, a profundidades diferentes dentro do solo. Quanto mais fundo eles estiverem; tanto mais forte será o inverno; mais próximos à superfície, mais suave será o tempo frio.

Para este fato fui alertado pelo Führer.

ass. H. Himmler

Eduardo Olivera, que havia lido em voz alta essa carta, baixou um livro de bolso e tirou seus óculos de aros de tartaruga.

— Que quer dizer isso? — perguntou Daniel Ross. Ele, Olivera e Mercedes encontravam-se novamente sentados nos assento de vime à borda da piscina, em cujo fundo estavam instaladas fortes lâmpadas por detrás de vidros espessos e que, agora acesas, clareavam a água com uma tonalidade azul. A luz se espalhava também sobre os três. Tinham desejado retornar primeiro para a biblioteca, mas então Olivera sugeriu que fossem ainda uma vez para o ar livre. Um carrinho de bebidas achava-se ao lado deles. Tomavam uísque. A biblioteca jazia abandonada. O gravador escondido atrás do vaso da privada do banheiro de Miguel não se havia ligado sequer uma vez. Eram quase nove e meia.

A essa hora, os dois rapazes seguiam com o Lincoln azul o fusca do empregado pela Avenida Santa Fé em direção à estação de Retiro.

— Isto é para lhe mostrar por que Himmler me fez esperar no dia 31 de março de 1944 quando fui buscá-lo para o levar ao Ministério do Exterior; e que tipo de preocupações ele tinha àquela altura, fim de março de quarenta e quatro. Ele me saudou em seu escritório, desculpou-se e ditou ainda para sua secretária, com quem trabalhava antes de minha chegada, esta nota imbecil para o “Patrimônio Ancestral” do qual era chefe. Ribbentrop lhe dissera ao telefone que ele e Goebbels precisavam falar-lhe sobre um assunto da maior importância Desse modo, Himmler queria mostrar-me também em que conta ele tinha Ribbentrop. Jamais me esqueci dessa informação sobre os cólquicos, pois eu estava extremamente furioso com o comportamento de Himmler. Mais tarde encontrei o texto exato dessa nota nesse livro de bolso com quase quatrocentas cartas endereçadas a Himmler ou escritas por ele. Sob o número trezentos e cinco, de fato, se registra a extraordinariamente importante colaboração de Hitler para a pesquisa meteorológica, sendo que, para ditá-la, Himmler me fez esperar de pé. — Olivera pousou o livro sobre a mesa do jardim. — Era para eu apanhar Himmler às quatro da tarde. Depois que havia terminado com essa idiotice, mandou trazerem ainda uma gorda pasta e assinou cartas. Finalmente, por volta das quatro e meia, deixamos o Comando Supremo da Rua Prinz Albert, 8. O número 9 era a sede central da Gestapo. Seguimos em um carro, com um homem das SS ao volante e outro a seu lado, em direção ao Ministério do Exterior, na Wilhelmstrasse, 74 a 76. Também Himmler usava o uniforme negro com a caveira de prata sobre a pala. O tempo estava bonito e por isso tinha havido, ao meio-dia, um ataque americano. Os americanos só vinham com tempo bom e sempre de dia, enquanto os ingleses vinham com qualquer tempo à noite, até mesmo duas vezes. Eu me recordo de que muitos incêndios ainda não haviam sido controlados. Uma imensa nuvem de fumaça pairava sobre a cidade. Ademais (é inconcebível quando se olha retrospectivamcnte) os locais de trabalho de Ribbentrop, Goebbels e Himmler, a despeito dos ininterruptos ataques aéreos, nos quais pouco a pouco toda a gigantesca cidade, de milhões de habitantes, ia sendo reduzida a ruínas, com milhares de mortos; bem, esses locais continuavam (afora freqüentes estilhaçamentos de vidraças, logo respostas) completamente intactos, lá dentro se trabalhando sem a menor perturbação. Apenas o Ministério da Propaganda tinha sido levemente atingido por bombas, em fins de janeiro de quarenta e quatro. Os danos foram sanados. Inconcebível, realmente. Como se o próprio Deus tivesse desejado que aqueles senhores não fossem impedidos de conduzir o povo para dentro do abismo infernal, no qual finalmente acabou no fim da guerra...

Olivera, o democrata, sorveu um bom gole — por assim dizer in memoriam germaniae patriae. E prosseguiu:

— No Ministério do Exterior, conduzi Himmler para o subterrâneo. Ali nós tínhamos diversas cabines de cinema. Ribbentrop e Goebbels já esperavam. ambos, como eu, em trajes civis. Saudações glaciais. Goebbels e Ribbentrop estavam irritados com o atraso de Himmler, que novamente exibiu seu desprezo frente a Ribbentrop assim como seu pavor diante de Goebbels, a quem admirava e invejava em decorrência da confiança que Hitler nele depositava, portando-se, no seu caso, de maneira típica: pisando duro. Na presença de Hitler, sentia regularmente os joelhos frouxos e não conseguia formular sequer uma frase coerente.

— Sujeito de muitas caras esse Himmler — disse Daniel Ross. Olivera repôs os óculos, folheou o livro de bolso e fez que sim com a cabeça.

— Ele é descrito aqui como “mestre-escola” e “assassino de gabinete” responsável por quase dez milhões de mortos; como um “subalterno” e, no entanto, “generalíssimo”; um “ocultista”, “jardineiro de ervas” e “possesso”. — Olivera deixou cair o livro e tomou um gole. — Sim — acrescentou ele — e tinha centenas de outros rostos.

— Um vampiresco pequeno-burguês — disse Ross. — Meu Deus, como seus colegas eram psicopatas, existências arruinadas, doidos e criminosos da mais alta periculosidade! — E, voltando- se para Mercedes: — Você estudou Política na faculdade. Você sabe que uma das mais importantes matérias universitárias não existe? Quero dizer a psicologia política. Deveria ser ensinada em todas as universidades! Os bastidores psicológicos de acontecimentos históricos. Oual é a explicação psicológica para que um tipo sem teto e associal seja eleito pelo povo alemão para chefe supremo e que esse povo traga então infelicidade ao mundo inteiro? Desculpe-me! — disse a Olivera — eu o interrompi.

— Mas, por favor, Daniel, fale mais! Isso é muito interessante. Então?!

— Então — prosseguiu Ross — com psicologia política eu quero dizer a apreciação psicológica da história da humanidade. Nela se repetem sempre os mesmos conflitos, sempre os mesmos desfechos, análogas personalidades, os mesmos motivos fúteis que conduzem à ruína mas que deveriam ser estudados em profundidade. Nós só poderemos, por exemplo, evitar o retorno do fascismo se nos ocuparmos com exatidão psicológica das situações de origem e das pessoas.

— Há historiadores e existem psicólogos, mas não temos os psicólogos da História. E isso é surpreendente porque a humanidade não está reconhecidamente em condições de aprender com a História, e também não desenvolve quaisquer esforços para aprender alguma coisa. Diante disso, a psicologia da história seria a única chance de que ainda dispomos para, prospectivamente, portanto, com vistas para o futuro, enfrentarmos o mal. E esta chance a humanidade no mundo inteiro, sem exceção, não leva em consideração. Incompreensível, não é? O interessante na História não são os eventos em si, mas o conjunto integrado das inter-relações psicológicas que levaram aos acontecimentos! Isso seria a única coisa instrutiva para nós. A única salvadora. Mas ninguém pensa em criar uma tal ciência. — E se fez, então, uma longa pausa. Mercedes olhou Ross fixamente. Ele percebeu o olhar e disse levemente constrangido para Olivera: — O que aconteceu, então, em Berlim?

— Pois bem — disse ele — Ribbentrop esclareceu que eu (ou melhor, meu serviço, naturalmente) estava de posse de um extraordinário filme e ele o queria mostrar imediatamente a Goebbels e Himmler...

— ...Ao senhor, meu caro doutor, e ao senhor, comandante do Reich, uma vez que eu só gostaria de exibir este filme ao Führer acompanhado de uma precisa sugestão nossa — disse Ribbentrop. — Por favor, tomem assento! — Goebbels saiu mancando até o seu assento estofado na primeira fila da cabine, Ross e Ribbentrop sentaram-se a seu lado, Himmler tomou lugar na outra extremidade da mesma fila. Ribbentrop ergueu a mão para o funcionário que fazia a projeção. A luz da cabine se foi apagando aos poucos e o filme começou a rodar. Durante os trinta e quatro minutos seguintes nenhum dos homens disse uma só palavra. Ninguém se mexia. Georg Ross observava a fileira buscando a expressão de seus rostos. O de Goebbels parecia uma máscara. Nos lábios de Ribbentrop desenhava-se um sorriso vaidoso e bobo. Himmler estava subjugado. Sua boca permanecia aberta. Uma vez caiu-lhe o pincenê sobre os joelhos. Sua mão tremia quando o repôs sobre o nariz. Ross, que já vira o filme por três vezes, sentia novamente crescer dentro de si uma grande tensão. A respiração se fazia difícil e suas mãos estavam ficando úmidas. Então, terminou o filme, a tela ficou branca e brilhante, depois opaca, e as luzes da cabine voltaram a se acender. Ainda ninguém falava, ainda ninguém se mexia. Somente após alguns minutos quebrou-se o feitiço. Goebbels ergueu-se e disse: — Vamos subir até sua sala Ribbentrop!

— “Vamos subir até sua sala, Ribbentrop!” — repetiu Olivera quarenta anos depois. — Isto foi tudo o que Goebbels disse primeiramente. Himmler começou: “Quem nos garante...” mas Goebbels o interrompeu, cortante: “Aqui não! Fique quieto, Comandante!” Ele claudicava à frente, em direção à saída. Pelo elevador, chegaram ao imenso e aparatoso escritório. Tudo naquele ministério era imenso, ostentatório e de mau gosto. Políticos e diplomatas estrangeiros deveriam, diante das colossais galerias, imensos salões de colunas, das estátuas e tapeçarias, ficar impressionados e, ao mesmo tempo, intimidados. Só junto a Hitler tudo era mais exorbitante ainda... Um gole, Mercedes?

— Por favor.

— E você, Daniel?

— Sim.

— De novo puro, só com gelo?

— Puro, com gelo, sim — disse Ross. Ele observava Olivera que preparava os novos drinques. — Presumo que todos devessem estar excitados — disse ele.

— Naturalmente — disse Olivera, e deixou um cubo de gelo escorregar para dentro de um copo. — Goebbels me perguntou..

— Como foi que este filme veio parar em suas mãos, caro Sr. Ross? — Goebbels ia de um lado para outro sobre um gigantesco tapete, entre uma escrivaninha de mármore e uma coluna, igualmente de mármore, sobre a qual estava assentada uma cabeça de Hitler, fundida em bronze, e maior que o tamanho natural. Escrivaninha e cabeça de bronze estavam bem uns trinta metros distantes uma da outra. Os outros três homens estavam sentados em grandes poltronas de couro. Ross queria erguer-se, mas Goebbels fez sinal que não. Ross disse: — Sr. Ministro, o senhor sabe que eu sou responsável pelo serviço do Oriente Médio. Nós... — Goebbels o interrompeu: — Seus homens em Teerã se apoderaram do filme, visivelmente uma cópia. Eu felicito essas pessoas. Notável mérito. Eu queria dizer: Como este filme chegou às suas mãos aqui em Berlim?

— Da forma habitual, Sr. Ministro. O residente em Teerã fez-me saber (em código naturalmente) pelo rádio, que uma cópia deste filme havia sido apresada. Como de costume não esclareceu o método de trabalho.

— Disto também sabemos — disse Himmler agressivo. — Prossiga, Sr. Ross!

Goebbels olhou para Himmler com desprezo. Seguiu em frente claudicante, em cima do grande tapete.

— Hoje é sexta-feira — disse Georg Ross. — A emissão de rádio chegou na segunda à noite, às três e quarenta. A comunicação foi feita: agente CX-2 1 com o rolo do filme. Sua chegada exata não foi fixada. Tão logo estivesse em Berlim, disse pelo rádio, iria depositar o filme no guarda-volumes da estação do Zoológico, acondicionado dentro de uma mala com fechadura de algarismos. O comprovante de depósito ele poria dentro de um envelope com um remetente fingido e o enviaria para meu endereço particular em Dahlem. Hoje, pela manhã, chegou uma carta. Eu havia solicitado à minha governanta que em tal caso, me telefonasse imediatamente. Ela me ligou, segui até Dahlem, apanhei a carta: havia realmente lá dentro um comprovante de depósito de bagagem. Fui à estação do Zoológico e recolhi a mala. Em seguida vim até aqui e abri o segredo. Os algarismos foram informados pelo rádio. Na mala havia um filme, embrulhado cuidadosamente. Além disso, um longo texto em código. Meu departamento decifrou-o imediatamente. Era uma comunicação de CX-21 a respeito de como ele se apoderou da cópia.

— E de que maneira? — perguntou Himmler. — Por que caminho? Por meio de quem? Diga nomes e pormenores!

— É usual — atalhou Ribbentrop altivamente — que um serviço proteja seus agentes, Comandante.

— Disso eu sei — disse este, raivoso. — Não sou nenhum idiota, Ribbentrop. Se nós temos de fazer alguma coisa com isso, pre cisaremos dizer às pessoas de onde veio e como chegou a nosso poder.

— Não necessariamente — disse Goebbels. — Quero dizer: Não precisamos dizer a verdade às pessoas. Quem é que faz isso, Himmler? Não seja infantil! — E dirigiu-se a Ross: — O que mais me interessa é como seu pessoal procedeu.

— Já em 29 de novembro do ano passado recebi um radiograma do meu residente em Teerã — disse Georg Ross. — Ele indicava que o agente CX-21...

— Mas quem é ele, que diabo? — exclamou Himmler.

— Isso eu não sei, Sr. Comandante. Isso ninguém sabe, apenas o residente em Teerã. Um membro de uma rede não conhece além de um outro membro.

— Queira fazer-me a fineza de não me dar lições! Disso eu sei muito bem.

— Então, por que pergunta, Himmler? — De passagem, Goebbels olhou-o ironicamente.

— Eu... Por favor, não nesse tom, doutor, está bem?

Goebbels não reagiu. Disse para Ross:

— O senhor foi interrompido. Oueira desculpar!

Ross curvou-se, sentado.

— Eu queria dizer: No radiograma de 29 de novembro meu residente em Teerã indicava que o agente CX-2 1 havia conseguido fazer um contato com um americano, envolvido na produção desse filme. Bem, esse americano parecia encontrar-se em grandes dificuldades financeiras. Ele se prontificava a providenciar para CX-21 uma cópia do filme mediante o depósito, em sua conta na Súiça, da soma de cinco milhões de dólares.

— Quanto? — Himmler tirou incrédulo o pincenê.

— Cinco milhões de dólares — disse Goebbels irritado. — Está lhe parecendo demais por um documento dessa ordem? — Então perguntou a Ross, sem mais dar atenção a Himmler: — E então?

— Discuti a coisa com o chefe do serviço bem como com o senhor Ministro. Fomos de opinião que deveríamos arriscar, O homem responsável pela Suíça providenciou o necessário.

— Graças a Deus! — disse Goebbels. Olhou para Himmler. Ele recolocara seu pincenê e fazia cara de criança ofendida.

— O senhor não sabe naturalmente o nome desse americano.

— Naturalmente não — disse Ross. — Mas se nós o quisermos saber, se precisarmos, muito contra os nossos princípios, revelar o nome, eu posso evidentemente mandar verificar a identidade do homem e sua posição, a qualquer momento, Sr. Doutor.

— Bem. Prossiga, Ross!

— Depois que a mensagem havia sido decifrada, levei-a ao co nhecimento do Sr. Ministro imediatamente, e nós sasistimos ao filme.

— Duas vezes — completou Ribbentrop. — Logo em seguida eu liguei para os senhores. Sou de opinião que, com está filme, poderemos ganhar a guerra, e isso rapidamente.

— Eu partilho essa opinião — disse Goebbels. Seu rosto ficara vermelho. — Esta é a coisa mais extraordinária que já vi. Não se podem calcular as conseqüências da chegada ao conhecimento do público desse filme, basta fazer-se isso com habilidade. — Ele retomou a sua dificultosa mas rápida caminhada por sobre o tapete, as mãos cruzadas às costas. — Em primeiro lugar, precisamos tirar muitas cópias — disse ele. — O filme deverá ser apresentado pelas Missões diplomáticas do Reich alemão em todos os países neutros: na Suíça, na Suécia, na Espanha, Portugal, toda a América do Sul, na Turquia, etcétera, etcétera; perante todos os Embaixadores ou Plenipotenciários ali creditados e cujos países se encontrem em estado de guerra conosco. — Goebbels riu. — Que bela surpresa não será para Churchill, por exemplol — Ele falava cada vez mais rapidamente. Além disso, devem assistir a este filme todos os prepostos que colocamos nos países que conquistamos e mantemos ocupados: França, Polônia, Noruega, Grécia, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Hungria, região ocupada da União Soviética. Os políticos bem como os milhões de habitantes. — Ele havia parado diante da cabeça de bronze e a fitava. Depois se virou novamente e saiu mancando. — Além disso, nos países que combatem a nosso lado: Romênia, Bulgária, isso precisa ser feito rapidamente, meus senhores! Os senhores todos conhecem a situação. Teremos de abandonar a Bulgária e a Romênia dentro de alguns meses. Mas é da maior importância que exatamente as pessoas da Europa oriental vejam esse filme, porque segundo o protocolo secreto elas deverão ser escravizadas pelos soviéticos. Imaginem os senhores, que pânico não vai ali explodir!

— Exatamente nisto é que estávamos pensando — disse Ribbentrop. — Por isso solicitamos a presença dos senhores aqui. O senhor, Doutor, porque o senhor, melhor que ninguém, sabe como se monta algo assim de forma a se obter o maior efeito, e o senhor, Comandante, porque o senhor dispõe do poder, tanto na Alemanha quanto em diversos países ocupados, para implantar tudo o que o doutor deseja. Desta forma poderemos mostrar praticamente a todo o mundo (o filme penetrará nos Estados Unidos pela América do Sul e na Rússia pela parte ocupada), a todo o mundo, repito, e de forma exemplar, de que modo dois homens: dois homens, digo eu! se puseram de acordo sobre o futuro de milhões e milhões de seres. Poderemos mostrar com que desdém pelas pessoas, com que cinismo e brutalidade eles partilharam o mundo entre si, em Teerã. O senhor não acha, doutor?

— Eu sou de opinião — disse o pequeno homem de pé disforme que havia parado — de que a idéia de que a Rússia e os Estados Unidos tenham realmente dividido o mundo, de fato, não é tão despropositada assim. Um homem como Churchill, por exemplo, pode com certeza imaginar isso tão bem como eu. Tanto mais que os americanos e russos vão protestar energicamente, acusando o filme de propaganda alemã, coisa que eles naturalmente irão fazer, precisam fazer. — E continuou. — Permitam-me tecer meus pensamentos até o fim. Teremos de exibir esse filme, sobretudo, nos grandes cinemas do Reich. Nosso povo precisa ser informado do que se pretende fazer com ele e com seu país. Que querem dividi-lo, dividi-lo para sempre. Que a parte oriental deve sair nas mãos dos bolcheviques. Que as pessoas nessa parte do leste, assim como todo o leste e sudeste europeu, deverão ser subjugadas e escravizadas pela Rússia. Façam idéia de qual será o efeito sobre o povo alemão! A pátria cortada em pedaços! Dilacerada! Ocupada! — Ele respirava ofegante. — Esse filme, além disso, terá de ser mostrado nos países neutros do Extremo Oriente, sobretudo no Japão, que desenvolve uma guerra heróica contra os americanos. Pensem apenas um pouco como essa orgulhosa nação irá reagir ante tal filme! Imaginem como reagirão as mulheres, filhos, filhas e noivas nos países por nós conquistados e que perderam o marido, o pai, o noivo! Extraordinário... lncrível... — Ele agora mancava quase aos tropeções. — Quanta fanática determinação para lutar por cada casa, por cada árvore, não dominará cada cidadão alemão e qualquer pessoa no sudeste europeu quando pensarem no que têm à sua frente! Como reagirão os mutilados, os aleijados, os amputados, esse exército de milhões de pessoas de tantas nações? Por que terão lutado? Para libertar-se do temor e da necessidade? Não! Para a maior glória de dois homens que julgam que o mundo lhes pertence.

— Naturalmente precisamos dublar o filme nas línguas dos respectivos países — disse Ribbentrop.

Goebbels o olhou com ironia.

— Acha mesmo, Ribbentrop? Nós sabemos que os anglo-americanos planejam uma invasão da costa francesa. Uma operação poderosa! Teríamos então duas frentes, caso essa invasão seja bem- sucedida. Por isso mesmo, tudo precisa ser feito agora rapidamente, bem depressa, digo mais uma vez. Os soldados americanos, britânicos e canadenses precisam ficar sabendo desse filme antes que passem a atacar a fortaleza européia. O que se operará então dentro deles, o que precisa ocorrer no seu íntimo? Com que sentimentos empenharão eles suas vidas no mais perigoso empreendimento da história da guerra? Com que sentimentos vão continuar a combater os já mortalmente exaustos soldados do Exército Vermelho? Como irão reagir todos aqueles que lutam contra nós? A Itália capitulou. Mas as nossas tropas ainda lá se encontram em luta com os anglo-americanos. Também na Alta Itália teremos de exibir esse filme! As pessoas! O que farão as pessoas?! Se agirmos habilmente, exércitos inteiros se revoltarão, povos inteiros se erguerão. Então, o pacto dos aliados irá desmoronar... — Ele se calou, sem fôlego.

Em meio ao silêncio, Himmler disse:

— Formidável! Maravilhoso! Mas se o filme for uma falsificação?

— Há muito tempo eu queria perguntar o mesmo — disse Daniel. E apontou na direção de Olivera. — E se o filme que você me mostrou for mesmo uma falsificação?

— A isso só posso responder com as palavras do doutor Goebbels, Daniel — disse Olivera sorrindo.

— O que significa falsificação, Himmler? — exclamou Goebbels. — Eu repito: os americanos e os russos vão dizer de qualquer maneira que se trata de uma falsificação, precisam dizê-lo. Mas agora entre nós: quem iria falsificar o filme? Aqui entre nós, repito! Sr. Ross, seu pessoal aqui em Berlim falsificou o filme?

— Não, Sr. Ministro. Eu já contei de que modo ele chegou em minhas mãos.

— Ribbentrop?

— Não. Doutor. Hoje pela manhã, pela primeira vez, fui informado de sua existência.

— Então só poderá ter sido falsificado em Teerã — disse Goebbels. — A possibilidade existe. É improvável, mas existe. Por que motivo teria o seu pessoal em Teerã se dado a tão imenso trabalho, Sr. Ross? Teriam eles pelo menos os meios para tanto? Eu acho que num ponto estamos de acordo, Himmler: as tomadas das pessoas não são falsificadas. Todos nós sabemos como se parecem Stalin,Churchill e Roosevelt, não é mesmo? Também as cenas onde aparecem Harry Hopkins e Voroshilov. Os dois devem ter se encontrado. Ou acha que tenham sido atores, Himmler? Por favor!

O Reichsführer replicou furioso:

— Está bem, está bem. Mas quem nos diz que nesse encontro os dois não tenham discutido uma outra coisa, bem diferente? Alguma coisa totalmente inofensiva! Quem nos diz que Roosevelt e Stalin não subscreveram qualquer documento sem maior importância, qualquer entendimento entre os seus dois Estados? E aí então? O senhor, Ribbentrop, assinou com a Rússia o Pacto de Não-Agressão, sendo filmado com Molotov, bem ostensivamente. Embora nesse caso fosse um tratado realmente importante, porque simplesmente não estávamos ainda prontos para atacar a Rússia.

— Aonde está querendo chegar, Himmler? — perguntou Goebbels.

— Do meu ponto de vista, todas as imagens de pessoas são verdadeiras Mas e o comentário falado? Quer dizer: diz o locutor a verdade? E, sobretudo: será verdadeiro o Protocolo Secreto? Pois isso seria a coisa mais simples para um falsificador, qual seja montar imagens verdadeiras com um documento falso. Ou não?

— Quero dizer-lhe uma coisa, Himmler — explicou Goebbels. — É evidente que mandaremos examinar o protocolo inteiro por nossos melhores especialistas, a fim de verificar se se trata de um documento verdadeiro. Isso é óbvio. Antes disso, a ninguém será permitido ver o filme, é claro! Parto da premissa de que o protocolo pelo menos está redigido exatamente no vocabulário e no estilo em que documentos dessa natureza são elaborados. Mesmo que aceitemos que o todo é uma falsificação: o senhor acha que o falsificador (ou os falsificadores) se daria tamanho trabalho se o protocolo não desse a impressão de ser absolutamente verdadeiro? Nunca! Além disso: Quem, Himmler, quem pode ter falsificado? E caso seja uma falsificação, eu lhe digo: isto não faz a menor diferença para uma platéia de inúmeros milhões de espectadores. E por que não? Porque qualquer pessoa pode conceber que um tal acordo entre americanos e russos tenha sido concretizado. Porque é plausível! Por esse motivo se considerará também a falsificação como verdade. E mais: por isso é inteiramente indiferente se o filme é verdadeiro ou falso.

— Certíssimo! — exclamou Ribbentrop. Goebbels continuou:

— Nada é tão eficiente quanto o visual. Possui o maior poder de persuasão. Da autenticidade das imagens de pessoas ninguém poderá duvidar. Falsificação dessa ordem ninguém conseguirá fazer. Portanto, as pessoas também acreditarão na autenticidade do protocolo. Porque ele é tão provável!

— Porque ele é tão provável, Daniel — disse Eduardo Olivera. E tomou um gole de uísque. — Aí está a resposta à sua pergunta. Porque hoje mil vezes mais que outrora é tão espantosamente provável que tal protocolo tenha sido, de fato, elaborado.

— Mas é que os tempos mudaram! — exclamou Ross. — Com a televisão, o mundo ficou pequeno. Nenhuma estação de televisão do mundo iria ousar promover a emissão desse filme sem antes pesquisar com exatidão se há ou não testemunhas de sua autenticidade. Ou de sua falsificação, não sei por quem. Na Alemanha, ainda se está chocado com o escândalo que a STERN provocou com o diário falsificado de Hitler.

— Mas isso foi uma falsificação feita por idiotas — explodiu Olivera. — Tão idiota que eu nunca consegui me livrar da suspeita de que, por detrás dos bastidores, eram outras coisas que estavam em jogo.

— Não creio — replicou Ross. — Houve uma indignação de dimensões mundiais e danos, também mundiais, para a STERN. Se esse filme for uma falsificação, então trata-se de uma falsificação incomparavelmente mais refinada, e que provocará uma indignação incomparavelmente maior. Disso ninguém quer saber. Muito menos uma emissora de televisão. Não, não. Isto tem de ficar bem claro para você: Ninguém vai passar esse filme sem mais nem menos. Em quaisquer circunstâncias, a primeira coisa que vai acontecer é que serão despendidos os maiores esforços para encontrar testemunhas confiáveis — para a falsificação ou para a autenticidade. Isso será difícil, pois tudo já aconteceu há muito tempo e a maioria das pessoas que tinham a ver com esse negócio já estão mortas. Você ainda está vivo, pai. Mas outros também terão de estar. Precisamos achá-los! Pode muito bem ser que existam pessoas que digam que o filme é verdadeiro, e outras que jurem que ele é falso. Nós apresentamos então ao espectador o filme com ambas as versões. Deixamos para ele a tarefa de julgar. Por que está me olhando assim?

Olivera disse, então, com voz sufocada:

— Pela primeira vez você me chamou de pai.

— É, chamei. — Ross levantou-se, foi até o bar e preparou um novo drinque. Bebeu apressado e falou logo em seguida: — E o mais decisivo, e porque precisamos pesquisar de qualquer maneira: tudo o que agora sei — e Mercedes já sabe há muito tempo — sabemos apenas de você. Você acabou de contar como era Berlim naquele tempo, o que você disse, o que Goebbels, Ribbentrop e Himmler disseram. Esses três já morreram há muito tempo. E se você estiver mentindo? E se as coisas tiverem acontecido de um modo inteiramente diferente?

— Por qual motivo haveria eu de mentir? Como haveriam de suceder as coisas?

— Por exemplo assim — disse Ross: - com base no material autêntico remetido de Teerã e com material falsificado (que dizer, o protocolo) na própria Alemanha, foi montado em Berlim, por pessoal especializado, um filme com todo refinamento, E, a respeito do filme e das possibilidade que se abriam com sua divulgação, vocês então conversaram. Eu me vejo obrigado a dizer que esta versão me parece extremamente possível, apesar de a cópia agora, quarenta anos mais tarde, com tudo o que aconteceu no mundo durante esse tempo, parecer autêntica e não falsificada.

— O filme é autêntico — disse Olivera com ênfase.

— Isso diz você. Alto e bom som. Precisa-se acreditar em você? Você, na verdade, quer vender o filme. Por muito dinheiro, não é mesmo? Ou você quer dá-lo de graça?

— E claro que eu quero vendê-lo, O que fazia você, Daniel, se tivesse um filme desses, nos dias atuais?

— Faria o mesmo.

— Está vendo!

— Sim, estou vendo. E por isso você precisa insistir em dizer que o filme é verdadeiro, mesmo que você saiba, ou presuma, que ele tenha sido falsificado.

— Ele não foi falsificado - disse Olivera, agora bem baixo.

— E por que então Goebbels não cuidou de mostrá-lo em centenas de cópias em todos os lugares onde supostamente queria exibi-lo?

— Isso eu vou contar em um instante, filho. Mesmo que você considere seu pai um mentiroso. Não tem importância. Você está no seu direito. Em um caso tão decisivo, é direito seu. Mesmo que eu não fique lá muito satisfeito com a sua postura.

— Agora não vem ao caso se você está satisfeito ou não. Por que esse filme nunca foi mostrado pelos nazistas? — perguntou Ross irritado.

— Goebbels disse naquela tarde...

— O trabalho vai ser iniciado imediatamente. Primeiramente, especialistas precisam examinar o texto do protocolo. Se os peritos o aprovarem, então poderemos começar a tirar cópias e preparar os comentários em outros idiomas em Babelsberg. A cópia que temos conosco precisa ser guardada em lugar absolutamente seguro.

— Nós temos uma casa na Rua Meineke, doutor — disse Ribbentrop. — Alguns departamentos foram transferidos. O prédio tem quatro andares além de três pavimentos subterrâneos. Em cada piso desses pavimentos foram embutidas chapas de aço. Três pavimentos debaixo do solo, existem armários blindados com nossos mais importantes documentos. Nenhuma bomba destrói isso aí, nem mesmo a mais forte.

— Bem, então para a Rua Meineke com o rolo do filme! — determinou Goebbels.

Uma hora mais tarde o Mercedes de Himmler e um Opel Modelo P 4, o carro de serviço que fora posto à disposição de Ross, chegavam ao Kurfürstendamm e dobravam para dentro da Rua Meineke. Pararam à frente da casa que pertencia ao Ministério do Exterior. Os dois elementos da SS que acompanhavam Himmler desembarcaram do carro. Himmler permaneceu sentado no fundo do Mercedes e fechou as cortinas das janelas laterais, pois não queria ser visto. Ele tinha a maior inibição em aparecer em público de forma tão inesperada. Os elementos da SS, dois gigantescos sujeitos, foram buscar uma mala do fundo do P 4. Um carregou-a e acompanhou Ross para dentro da casa, enquanto o outro retornou para o Mercedes.

Ross e seu acompanhante desceram os muitos degraus até o terceiro subsolo. Um policial que estava postado ao lado da portaria seguia à frente. Ele conhecia Ross, que, por isso, não precisou identificar-se. No patamar de cada lance da escada estavam colocadas duas portas de aço que o policial destrancava com dificuldade. No terceiro subsolo o assombrado SS viu então embutidos nos muros os armários blindados. Fortes lâmpadas clareavam o aposento. Ross tomou a mala do moço.

— Agora dê meia-volta! — disse ele.

O elemento das SS e o policial lhe voltaram as costas. Ross compôs o segredo da porta de um dos armários blindados, e ela abriu-se. Ross colocou a mala sobre uma prateleira vazia de aço espesso. Em seguida fechou novamente a porta e girou a roda numerada. Os três homens voltaram a subir. O policial apagava as luzes de cada andar à medida que os iam deixando, além de trancar as portas de aço atrás de si.

O homem da SS voltou a sentar-se ao lado de seu colega atrás do volante do Mercedes enquanto Ross abria a porta traseira. O homem de pincenê com cara de mestre-escola recuou amedrontado, erguendo uma das mãos como que para aparar um golpe.

— Só queria dizer-lhe um Heil Hitler — explicou Ross.

— Sim... ah, sim. Heil Hitler, Herr Ross! — Himmler levantou a mão para a denominada “saudação alemã”, e Ross o fez igualmente.

— Telefonaremos amanhã de manhã para o senhor, Reichsführer — disse ele, fechando a porta da limusine e fazendo um sinal para o homem da SS ao volante. O Mercedes partiu. Ross retornou lentamente para seu Opel. Eram seis e meia da tarde. Rumou em direção a Dahlem, onde morava numa casa na Rua Im Dohl, implantada dentro de um grande jardim. Todas as grandes residências ao redor pertenciam a numerosos nazistas importantes e altos funcionários dos mais diversos Ministérios e Organizações que tinham seus escritórios no centro da cidade. Ross atravessou o jardim no qual já desabrochavam as primeiras flores. Era um morno e bonito começo de noite primaveril. A casa, como muitas outras aqui, havia pertencido a um judeu. Na chamada “Noite de Cristal”, de 9 para 10 de novembro de 1938, sua joalheria no Kurfürstendamm, como muitas outras lojas de judeus em toda a Alemanha, foi saqueada. Ele e sua mulher foram abatidos pelo pessoal das SA — como muitos outros judeus. O Ministério do Exterior havia encaminhado Georg Ross para aqui durante sua estada em Berlim. A mansão estava ainda montada com os belos e valiosos móveis, tapetes e quadros do proprietário de outrora.

Enquanto Ross tirava sua capa de chuva, surgiu no vestíbulo a Sra. Valerie von Tresken, a governanta. Ross trajava um terno cinza da mais fina flanela inglesa, uma camisa de seda com monograma bordado e uma gravata-foulard. Seu andar ereto e elástico denotava autoconfiança e consciência de sua significativa posição. O submisso e simultaneamente colérico gerente de uma filial da Caixa Econômica austríaca em Viena não tinha com ele a menor semelhança.

— Heil Hitler, Frau von Tresken! — Ele lhe dedicou um sorriso.

— Heil Hitler, Herr Ross! — A Sra. von Tresken era alta e magra, trazendo os cabelos puxados para cima e seguros por um nó; vestia-se com roupas negras e nunca usava maquilagem. Ela disse:

— A Srta. HoIm já chegou.

— Como assim, tão cedo?

— Diz ela que não havia mais nada para fazer.

— Onde está Dora?

— Está no banho. — A Sra. von Tresken desaprovava tudo o que pudesse fazer a jovem atriz de quem estavam falando. Desaprovava principalmente a permanente presença de Dora HoIm naquela casa. A Sra. von Tresken provinha da Prússia oriental e falava com o sotaque daquela região. Assim como a cozinheira e a arrumadeira, ela vivia há cinco anos naquela casa que servia de lar para Ross durante sua permanência em Berlim. O primeiro semestre havia sido maravilhoso para a Sra. von Tresken. Podia sentir-se como dona da casa e dispensar a Ross todo o carinho e a admiração que desde logo sentira por ele. Ela era da idade dele e no seu desesperado retraimento, produto de uma rígida educação, sempre esperou ser correspondida por ele em seus sentimentos. Mas então veio essa mocinha, essa mulherzinha à-toa, e Ross não deu mais atenção a mulher alguma. A Sra. von Tresken jamais compreendeu como um homem com tamanho charme e tal maneira de viver podia perder a cabeça nessa proporção por uma mocinha dez anos mais jovem e tão exageradamente vulgar. Amarga, observou Ross quando este subia escada acima, saltando dois a dois os degraus.

Ele seguiu pelo primeiro andar até um quarto de vestir, onde trocou de roupa. Pendurou o terno sobre um criado mudo e escolheu uma calça leve e uma camisa de algodão. Enquanto tirava essas peças do armário, viu a um canto um uniforme de major da Wehrmacht alemã. Fechou imediatamente o armário e dirigiu-se rápido para a porta do banheiro. Bateu.

— Sou eu, Georg.

— Entre!

Dora Holm estava sentada dentro da banheira e lhe sorria. Ele olhou seu bonito rosto, seus belos seios, sua delicada pele molhada, e sentiu-se feliz e descansado, dez anos mais jovem.

— Bom dia, meu amor! — Beijou-lhe a boca molhada e, em seguida, os bicos dos seios.

— Mais... faz mais.., isso faz bem... — Ela avançou o busto em sua direção, erguendo o corpo fora da água com o apoio dos cotovelos. — Aqui também... — Ele beijava e lambia a carne rosada. — Oh... oh..., você sabe certinho aonde! — Ela ofegava.

— Hoje vamos brincar bem bonito, está bem, meu amor? Estou tão a fim de brincar.

— Eu também. — Ele levantou-se. — Agora chega! Senão a coisa continua.

— Nada tenho contra isso.

Ele sentou-se num tamborete.

— Não, não é mesmo?

— Mais tarde, amor! Mais tarde, o tempo que você quiser.

— Mas eu quero agora! Se você não quiser, começo sem você!

— Sua mão desapareceu sob a superfície de espuma. Mexeu-se algum tempo e então riu. — O que aconteceu com sua calça, Sr. Ross?

Ele também riu.

— Não — disse ela. — Mas agora eu não quero. Agora já estou tão acesa. Assim eu vou ficar até depois do jantar. Então vamos brincar, está bem?

— Sim, meu amor. — Oh, meu Deus, como gosto dela, pensou ele. — Como é que você já está em casa? Pensei que iam filmar até às seis.

Ela riu novamente. Uma mulher que sempre ri, uma jovem e bela mulher, ponderou ele. E Thea em Viena. Não, nem é bom pensar nisso!

— Tudo por causa do salame — disse Dora.

— Não estou entendendo.

— Gosta dos meus seios, hem?

— Sim, meu doce.

— Não são grandes demais? Às vezes eu tenho medo de que sejam grandes demais.

— São do tamanho certo.

— Que bom! Isso é importante. Têm de ser certinhos para você, meu querido. — Ela acariciou os seios.

Ele pensou: vai fazer cinco anos que nos conhecemos. Quando nos encontramos no bar Königin ela ainda estava na Escola de Atores da UFA. (Universum-Film-Aktiengesellschaft, Sociedade Cinematográfica Universo). Agora ela já tem até grandes papéis com parceiros famosos. Os pais dela, em Hamburgo, sabem de nossas reIações e que Dora mora comigo. Doce Dora.

— E essa história de salame? — perguntou ele,

Ela riu novamente. Por debaixo da toalha com que ela enrolara a cabeça saíam cabelos pretos. Tinha olhos azul-claros e uma boca bem larga.

Talvez, refletiu Eduardo Olivera, seja por isso que eu tenha loucura por minha enteada Mercedes.

— Agora estamos rodando As águas subterrâneas, segundo a novela do húngaro Harsanyi, não é mesmo? Pois então hoje chegou a vez de uma cena em que o Heinrich George toma um lanche com seu vizinho e comigo. Tanto na novela quanto no roteiro consta que a mesa está repleta de carne, pão, queijo, manteiga, uvas e por aí vai. .. e George tem de comer um salame. Um salame, disse eu, meu querido!

— Eu escutei, querida. E aí?

— E aí? Quando é que você comeu salame pela última vez? Do verdadeiro, do húngaro? Pois é, está entendendo? Já não existe mais há uma eternidade.

Ela riu de novo. E ele pensou: como eu a amo.

— Mas na novela e no roteiro está escrito: salame húngaro! Pois é, George faz talvez uma confusão, vou lhe contar. Ele já começou com isso há umas duas semanas. Ele pode se dar a esse luxo. — Ela imitava Heinrich George: — Aqui está escrito que eu como salame húngaro, então, que venham com o salame húngaro! Podem ir dando o fora com suas lingüiças de terceira! Eu sou um artista que jura sobre a fidelidade à obra. Se eu não receber um salame húngaro, podemos riscar desde já esta cena. — Dora estendeu uma perna para fora da água, depois a outra. Ross beijou rápido seus pés. — Pois é, que vão eles fazer? Primeiro eles perguntam no Rollenhagen. Claro que não tinham. Perguntaram então por toda a parte. Salame nenhum. Aí telefonaram para a Embaixada húngara.

— Não é possível!

— Sim, meu querido! Mas espere, que vem coisa pior! A Embaixada da Hungria também não tem nenhum salame húngaro. Telefona-se para Budapeste. Vem um portador de avião, de Budapeste para Berlim, com um salame húngaro na mala diplomática!

— Isso não é verdade!

— Até a última vírgula! O correio diplomático traz o salame para a Embaixada húngara. Ele fora emprestado por Sua Excelência o Administrador do Reich. von Horthy. Emprestado, repito, apenas emprestado. Sob palavra de honra, de que lhe seria devolvido o pedaço maior. Grande palavra de honra alemã, da UFA.

— Chega, Dora!

— O salame húngaro é trazido para Babelsberg acompanhado por um adido da Embaixada. Fica combinado que George, no ensaio, só simule e que depois, na filmagem, só coma um pequeno pedaço. Pois bem, aí começa o rolo. Primeiro, nada acontece. Então, primeira tomada: George decepa para si um pedaço imenso, mastiga, estala a língua e se engana na fala — obviamente de propósito.

Ross começou a rir.

— Trezentos e quatro, segunda tomada — E Dora imita o continuísta — George papa de novo o que lhe cabe na garganta, se engasga e tem um acesso de tosse. Pára tudo. O adido da Embaixada fica cada vez mais inquieto. Ucicky tem lágrimas nos olhos — o diretor, você sabe. Ele suplica a George: “Heinrich, faça-o por mim, por favor, faça direito agora, está bem?” Cena trezentos e quatro, terceira tomada! — Dora bate as palmas das mãos mais uma vez. — George come com a boca cheia. Tudo vai bem. Faltam três segundos. Dois segundos. George se engasga e perde o ar.

— Por Deus, não!

— Por Deus, sim! O engenheiro de som explode. “O que foi desta vez?”, grita ele. Então: trezentos e quatro, quarta tomada! Desta vez George começa a rir bem no meio, como se fosse louco. Bem, para terminar: Liquidou com o salame inteirinho, ele é touro, não é, e só no último pedaço é que a tomada trezentos e quatro ficou finalmente pronta. Mas o homenzinho da embaixada teve um ataque de furor e Ucicky também, e aí George se levantou e disse: “Pois bem, meus senhores, isto é tudo, o expediente acabou!” E foi embora. Por isso as filmagens terminaram hoje mais cedo. Você acha que agora a Hungria nos declara guerra, querido?

Quando horas mais tarde estavam deitados lado a lado, despidos e exaustos sobre a larga cama e fumando um cigarro, interrompeu- se a suave música que estavam ouvindo e uma voz masculina anunciou: “Aqui é a Rádio Berlim. Atenção, um aviso sobre a situação aérea no momento. Fortes esquadrilhas inimigas de combate aproximam-se sobrevoando o mar do Norte e a província de Brandemburgo.” O locutor repetiu o aviso. E voltou a música suave.

Dora deixou-se rolar para fora da cama. Ross levantou-se. Vestiram apenas roupas de dormir e roupões. Dora pegou uma bolsa de crocodilo na qual carregava suas jóias e documentos, Ross pegou uma grande pasta com documentos e deixaram a casa atravessando o jardim escuro em direção a um pequeno bunker de espessas paredes de concreto enterrado no gramado. Ribbentrop havia insistido para que Ross o mandasse construir. Desceram os degraus. Lá embaixo já se encontravam sentadas a Sra. von Tresken, a cozinheira Pikuwelt e a arrumadeira Havia bastante espaço. Aqui também havia um rádio e um aparelho telefônico, extensão do existente na casa.

Nesse intervalo, a Rádio Berlim se havia desligado e só se ouvia o tique-taque do chamado radiotelégrafo. De tempos em tempos uma voz de mocinha informava do posto de comando do Gauleiter* (Chefe de comarca na administração nazista) onde se encontravam os aviões inimigos. Às primeiras esquadrilhas seguiam-se outras. Logo se ouviam o profundo roncar de muitos motores e os ganidos da artilharia antiaérea, então veio a primeira explosão, bem ao longe. A luz dentro do bunker apagava e acendia, piscando. A cozinheira chorava.

Dora tentava soerguer-lhe o ânimo e dizia:

— Sra. Pikuweit. Não precisa ter medo. Aqui em Dahlem não acontece nada. E também não em Grunewald.

— E como é que está sabendo disso? — perguntou sarcástica a Sra. von Tresken.

— E já aconteceu alguma vez? Algumas bombas, sim. Mas, acontecer mesmo? Não! E sabe por que não, Sra. Pikuweit? Um iluminador no estúdio me disse e eu acredito. Eles querem ganhar a guerra, os americanos e os ingleses. Bem, se eles ganharem, então virão aqui para Berlim, não é mesmo? E aí eles vão querer vir morar nas melhores casas dos mais belos bairros, onde agora estão os chefões: em Dahlem e em Grunewald. E as mais belas mansões eles não vão querer bombardear. Não é lógico?

— Não fale assim! — disse Ross, de repente seriamente zangado.

— Eu só estou contando o que o iluminador falou. E porque a Sra. Pikuweit está com tamanho medo.

— Ai, minha boa senhorita — disse a pálida cozinheira com os olhos vermelhos de choro. — Mas eu não tô me borrando de medo não. Tô chorando é pelo Oscar. Tem cinco semanas que ele não dá notícias. Primeiro, meu homem. E agora ainda o menino. Só tem vinte anos, só vinte... — E desmanchou-se novamente em lágrimas. Dora apertou-a contra si e falou-lhe com carinho, mas a macilenta mulher não podia ser consolada. Então a atmosfera passou a tremer com as contínuas explosões. O piso tremia. De novo a luz acendia e apagava. A voz da moça falava de atividades de defesa e maciços bombardeios no centro e no norte da cidade. E cada vez maior número de esquadrilhas se aproximavam de Berlim.

Subitamente, a cozinheira perdeu os nervos. Ela gritou: — Joga mais! Joga mais! Quebra tudo! É Deus castigando a gente. Porque a gente ficou gritando viva pra que o Hitler fez, esse demônio. Reduz a entulho! Esse é o castigo de Deus! Quando ele atacou os tchecos e a Polônia e a Bélgica e a Holanda e a França e a Noruega e a Rússia! E os judeus! Ninguém abriu a boca contra ele. E por que não? É porque ele é forte e nós somos covardes. Deus do céu tá nos castigando é por isso. Sem piedade. E por isso que eles tão morrendo, na frente da batalha e aqui, o Paulinho, coitado, e o Oscar, coitadinho do meu filho, e tantos, tantos outros... — A Sra. Pikuweit passou a mão sobre a testa como alguém que acorda.

— Desculpe-me, meu senhor. Não sei o que deu em mim, perdi a cabeça de tanta preocupação, perdoe-me, por favor!

— Perdoar? — gritou Ross com o rosto roxo de cólera e fora de si. — A senhora bem que gostaria não é, Sra. Pikuweit! Ousou insultar nosso Führer! Isso é incrível! Isso é criminoso!

— Ora, deixe disso, Georg — disse Dora baixinho. — A pobre mulher. Perdeu o marido. O filho provavelmente está morto também. Nem sabia o que estava dizendo.

— Não se meta nisso, está bem? — berrou Ross. — Não sabia o que estava dizendo! O que quer dizer isso? Centenas de milhares perdem os seus entes mais queridos em nossa luta heróica. E a Sra. Piku’weit acha que pode jogar lama no Führer. Muito bem, mas aí ela se enganou. E se enganou muito mesmo, a Sra. Pikuweit!

— Isso mesmo, se enganou sim — exclamou Valerie von Tresken.

— Pelo amor de Deus, o senhor não vai me denunciar, não é, Sr. Ross! — A cozinheira caiu de joelhos. — Por favor, não me denuncie! — e agarrou-se aos joelhos dele.

— Mas é claro que eu vou denunciar! — berrou Ross. — Esse é meu dever. Isto é alta traição!

— Meu Jesus, se o senhor me denunciar, minha cabeça vai rolar! Eu lhe suplico, tenha piedade, Sr. Ross! Não queria dizer isso! Eu só estava fora de mim.

— Largue imediatamente meus joelhos! — gritou Ross. E avançou para ela, que caiu de costas.

— Não denuncia! — exclamou ela. — Por favor por favor, não denuncia!

O telefone tilintou.

— Quieta! — berrou Ross. — Cale a boca, e já! – Tirou o fone do gancho e disse: — Sim?

— Sr. Ross?

— Quem está aí?

— Ligação do Ministério do Exterior.

— O que houve?

— Nossa casa da Rua Meineke recebeu um tiro certeiro. A casa vizinha também. Tudo virou um único e grande montão de escombros.

O Doca-Sul penetrava como uma comprida e estreita lingüeta pela periferia de Buenos Aires. Do lado que se dirigia para o rio da Prata erguiam-se grandes refinarias e tanques de petróleo. Aqui havia ainda muitas áreas vazias com montões de entulhos, cemitérios de carros, barracas apodrecendo e milhares de ratos. Eram bichos gigantescos e as pessoas que moravam lá temiam-nos muito, pois os ratos tinham o costume de atacar crianças pequenas que dormissem, mordendo-lhes a garganta para depois começar a roê-las. Aqui moravam os mais pobres dos miseráveis.

Do outro lado da Doca-Sul, depois da Rua Debenedetti, elevavam-se, em compridos blocos, os prédios cinzentos e feios do programa de habitação social. Seus moradores pertenciam igualmente à classe dos pobres, porém não mais à dos pobres mais pobres.

A Debenedetti era uma fronteira social que todos respeitavam, inclusive os ratos.

 

Um Ford de cor verde pulou por cima dos buracos da Rua Olímpia e parou diante de uma casa de três andares. Dentro, havia dois homens sentados.

— Número quinze. Aqui moram os pais dele, Pio — disse o homem ao volante. — Ali está o Volkswagen dele. Mora no terceiro andar, bem à esquerda. A janela aberta.

— O.K. — disse o homem que se chamava Pio. Saltou deixando a porta do carro aberta, aproximando-se da cerca de madeira que delimitava o reduzido jardim frente ao prédio. Abaixou-se para pegar algumas pedrinhas e jogou-as através da janela aberta do terceiro andar. Não demorou muito e surgiu Miguel. Seu tórax estava despido. Tinha a aparência assustada.

— O que houve?

— Miguel Morales?

— Sim. Quem são vocês?

— Já vou lhe dizer. Desça logo! É urgente.

— Quero saber quem são vocês.

— Silêncio! Não acorde seus pais! O que disse a formiga para a libélula?

Miguel respirou novamente. Aliviado respondeu:

— Fica dançando, fica! No inverno você vai amargar muita fome. — Logo seu rosto ficou de novo sombrio. — Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Mas desça logo!

— Estou indo.

Logo em seguida Miguel surgiu à porta. Por causa do calor só vestia um slip e tinha cara de sono.

— Entre no carro! — disse Pio. Miguel o seguiu.

— Boa noite — disse ele para o homem ao volante.

— Boa noite. Meu nome é Emesto. Esse é o Pio. — E se apertaram as mãos. Miguel sentou-se com Pio no banco de trás. Ernesto apagou os faróis. Falavam baixinho.

— Você esteve hoje no Retiro?

— Como todas as sextas.

- E botou alguma coisa na caixa?

- Três cassetes.

— Merda.

— Merda por quê?

— A que horas você os colocou lá?

— Nove e meia, ou um pouco mais tarde.

— Nós estivemos lá às dez. Como sempre. A caixa estava vazia.

Miguel apertou os dois punhos contra o peito. De repente começou a tremer como que com frio.

— Informamos ao oficial-chefe. Ele nos mandou aqui. Disse que você sempre passa os fins de semana aqui quando está livre. Traz para seus pais comida e dinheiro. Bom menino. Bom menino teve má sorte.

— Minha Nossa Senhora! Agora estou entendendo.

— O que é que você está entendendo?

— Os filhos da mãe.

— Quem?

— Os malditos filhos da puta! Eles arrumaram a colisão de propósito.

— Que colisão?

— No estacionamento do Retiro... — E Miguel relatou o que ali havia acontecido. Terminou dizendo: — Enquanto eu estava tratando com um dos sujeitos, o outro deve ter ido até a e pegado os cassetes. Bem rápido.

— Bem rápido! Como, bem rápido, cara? Você trancou a caixa depois, não foi?

— Claro. Botei as moedas e tranquei. Senão nem conseguiria tirar mais a chave.

— Mas você tirou mesmo a chave?

— Espere aí...

— Tirou mesmo? Miguel, eles têm três cassetes! Nem pensar no que eles vão fazer agora. Se você realmente trancou, então deve estar com a chave.

— É evidente que estou.

— Onde?

— Dentro da minha capanga.

o que estava caixa

— Vá buscar.

— Ora, vocês...

— Vá buscar, seu filho da puta! Você ainda não entendeu que você é um sujeito meio morto?

— Meio... — Miguel olhava fixo o Pio. Então pulou para fora. Correu silenciosamente para dentro da casa. Pouco tempo depois já voltava, enfiando-se de novo dentro do carro. Tinha sua bolsa de couro consigo. A chave de recorte bizarro estava na mão.

— Aqui está!

— Então os caras tinham uma duplicata. Devem haver observado você há muito tempo. Conheciam o número da caixa.

— Com isso não ganham duplicata nenhuma.

— Eu lá sei como é que eles fizeram? — disse Ernesto. — Mas o fato é que fizeram. O gravador está funcionando agora?

— Sim.

— Maldito idiota!

— Não me chame de idiota, está bem? Olivera disse que voltaria de novo com o homem para a biblioteca. Eu gravei a primeira longa conversa. Pensei que iam precisar também da segunda.

— Pensou o seu rabo. Você foi descoberto. Talvez Olivera já saiba de tudo há muito tempo. E lá está um grampo colado e um gravador rodando!

— Eu não tenho culpa de nada. — Miguel começou a teimar. — Eu fiz sempre tudo aquilo que me disseram para fazer.

Ernesto botou a mão sobre o ombro do rapaz.

— Pio não está querendo dizer isso. Nós estamos todos nervosos. Claro que você não tem culpa alguma. Mas você tem de fazer agora o que vamos dizer. Disso nos incumbiu o oficial-chefe. Você vai se vestir e seguir para Céspedes.

— O quê? Agora?

— Agora. Quando Olivera ou alguém perguntar, qualquer desculpa serve. Você prefere dormir na mansão. Logo que possível você tira o grampo. O gravador e o receptor também. Arruma tudo junto. O que ainda tiver. Tem de sumir tudo. Sem qualquer vestígio.

Miguel ficou furioso.

— Sem qualquer vestígio! Olivera está farto de saber que fui eu! Ele já deve ter revirado o meu quarto e encontrado tudo. Ele ou os seus novos amigos, aquele da Europa, por exemplo. A polícia já deve estar lá esperando por mim. Vocês estão é loucos. Nunca mais vou poder voltar.

— O oficial-chefe diz...

— Estou cagando para o oficial! Ele então que vá lá!

De repente, Pio tinha uma pesada pistola na mão. Encostou a boca da arma contra a barriga de Miguel.

— Você pega o seu carro e volta para lá, e faz tudo o que nós lhe dissemos para fazer. Pode ser, talvez, que Olivera não saiba de nada.

— Não saiba de nada! Quando os cassetes já foram roubados há mais de duas horas! Não saiba de nada, seus cretinos! Claro que ele sabe. Claro que os homens estão lá. E que pego eu? Três anos? Cinco? — Miguel estava ficando histérico.

Ernesto encostou-se para trás e lhe deu duas bofetadas no rosto, à direita e à esquerda, o mais forte que pôde.

— Cale a boca!

Miguel tremia de novo.

— Você vai, agora mesmo! Nós vamos atrás de você. O oficial diz que nós temos de liquidar você caso se recuse a voltar para a casa. Pelo menos você não pode dizer asneira, caso Olivera realmente já saiba de tudo.

— Mas não é certo que ele saiba, diz o oficial-chefe. E você é o único que pode entrar na casa.

O frio aço da pistola de Pio machucava o estômago de Miguel.

Miguel ofegava.

— Pense no General Álvarez. Você jurou pela Virgem na frente dele que você daria sua vida se isso fosse necessário. Então: sim ou não? Se não, vamos acabar logo com isso.

Miguel ficou mudo.

— Seu porco! — disse Pio indignado de repente.

— O que houve? — perguntou Ernesto.

— Mijou-se todo. Está tudo boiando. Que maldita porcaria!

Pio se havia levantado um pouco. Com uma das mãos se agüentava.

— Sinto muito... Eu limpo tudo... É só porque eu senti tanto medo... um medo pavoroso — exclamou desesperado o bonito menino da pele morena e dos olhos amendoados.

— Quieto! No porta-malas há uns panos — disse Pio empurrando Miguel para fora do carro. — Vamos! Limpe esse mijo, seu porco!

— Esse foi o ataque na noite para o 1º de abril de 44 — disse Eduardo Olivera. — Os escombros das duas casas da Rua Meineke acumulados uns sobre os outros. O rolo do filme, lá embaixo, três pavimentos abaixo do solo. No piso de cada andar, placas blindadas embutidas. E dia e noite lá vinham os bandidos, dia e noite.

— É melhor não falarmos de bandidos — disse Ross. — Você agora é um democrata, não mais nazista, segundo me explicou. Quem é que começou com os bombardeios? Quem é que tem Rotterdam, Varsóvia e Coventry pesando na consciência? Quem é que gritou, para júbilo de seus ouvintes, a informação de que estas cidades haviam sido apagadas do mapa?

— Foi desumano, Daniel. Desumano, estou lhe dizendo — sussurrou Olivera cobrindo os olhos com uma das mãos que ele punha em pala à frente de sua testa.

— Quando é que vocês foram humanos?

— Daniel, por favor...

— Não, Mercedes, não! Essa maldita corja de criminosos, e meu pai junto deles como grande chefão! Com entusiasmo! No luxo de uma casa que pertencia a judeus que se presume tenham sido assassinados. Meu pai se perturbou com isso? Não se perturbou porcaria nenhuma! Em companhia de uma prostituta do cinema levava uma vida gostosa. Qual é o problema?! Não foi o mais belo período da vida dele?! A ele não aconteceu nada! Cinqüenta milhões pereceram! Ele não! — As últimas frases Ross havia gritado. Ele se levantou. De repente começou a sentir-se mal e com muito calor. — Ele estava, o meu pai, do lado dos assassinos e não dos assassinados. Agora eu disse a palavra pai por quatro vezes. Você está comovido, não? Já lhe chegam as lágrimas aos olhos, não? Ó Deus, uma coisa dessas é meu pai! Uma coisa dessas... — E caminhou balançando até a piscina.

- Aonde vai? — exclamou Mercedes.

— Embora! Para longe desse cara! — E isso foi tudo o que Ross conseguiu dizer ainda, pois em seguida o famoso medo subiu- lhe pela garganta e ele ficou imobilizado. Com as duas mãos segurou-se no tronco de uma palmeira. O sangue lhe martelava tão forte nas têmporas que estas chegavam a doer. Tudo isso é demais para mim, já há muito tempo, disse ele de si para si — e ainda vai piorar, eu sei. E eu preciso escutar tudo pois preciso saber de tudo, de toda essa suja verdade se agora eu quiser ir em frente com o filme. E isso eu quero, isso é a story da minha vida, o filme e meu pai junto aos nazistas, ao lado do carrasco Himmler, do demônio do Goebbels, do ordinário do Ribbentrop. Esse aí assinou  um Pacto de Não-Agressão com a Rússia, que um ano mais tarde foi invadida pelos nazistas, esses criminosos do milênio, e meu pai foi um dentre eles, um dos grandes...

Daniel Ross seguiu até a piscina, ajoelhou-se e lavou seu rosto com a água fria. Sentia-se péssimo. Então tomou Nobilam. Nem sabia quantos comprimidos. Derramou-os do tubinho para dentro da concha da mão, jogou-os na boca e engoliu sem água. Não importa se o sujeito viu, pouco importa, você tem de resistir, falava ele consigo, é a única coisa importante, você precisa resistir. Voltou para junto da mesa, encheu meio copo com uísque e bebeu até seus olhos lacrimejarem. Deixou-se cair em sua cadeira.

— Assim não vai não, filho — disse Olivera. — Eu preciso de você e você, de mim. Então.

— Está bem. Foi simplesmente muito mais do que eu podia suportar. Não vai mais acontecer, pai! Por Deus, tome isso como um insulto se eu o chamar de pai e não como demonstração de amor filial, sim? — E fitou Olivera que empalidecera. Os já finos lábios do velho tomaram-se apenas um traço. — Adiante — disse Ross. — Você denunciou a cozinheira?

— É óbvio. Essa era minha obrigação.

— Esse era seu dever de nazista!

Olivera controlou-se enormemente e disse:

— Eu sou hoje um outro homem. Você deve me crer. Antigamente, eu era um nazista fanático, confesso. Confesso tudo. Não escondo nada. Conto tudo. Também Mercedes não sabia disso. É muito... muito difícil contar tudo o que aconteceu. Pode crer.

— Isso tudo eu acredito, pai!

— Não me chame de pai! — gritou Olivera.

Ross deu uma risada.

— Pare de rir!

Ross parou.

— Eu acreditei mesmo em Hitler. Eu... para mim ele era alguma coisa como Deus... Há muito eu sei que ele foi o demônio... mas outrora...

— Que sucedeu com a cozinheira?

— Foi detida, naturalmente. Ainda na mesma noite.

— Parabéns! Marido perdido, filho perdido. Para a mulher, a guilhotina, não é?

— Presumo que sim — disse Olivera. — Eu não precisava lhes haver contado a respeito da cozinheira. Não tinha necessidade de contar uma porção de coisas. Mas eu quero lhes narrar tudo. Você pensa que isso seja fácil para mim?

— Foi fácil para você denunciar a cozinheira.

— Nós podemos prosseguir na conversa nesse tom — disse Olivera — O problema é que só perdemos tempo com isso. E não faz o menor sentido.

— Isso está certo — disse Ross. — Nesse ponto você tem razão. Deixemos de lado. Então minha mãe sabia: havia uma outra mulher. Por isso você queria separar-se dela. Por isso você atormentava a mãe, a ofendia, fazia cenas toda vez que vinha a Viena de licença. Por que você vinha ainda, afinal?

— Primeiro, porque, oficialmente, eu era soldado. Major na Rússia. Minha camuflagem. O serviço insistia para que eu viesse “de licença”. Em segundo lugar, eu também me ocupava sempre do escritório de Viena. Estava subordinado a mim. Viena era o trampolim para o Oriente Médio. Você vê que eu tinha de vir.

— Sim, estou vendo. Profissionalmente, você tinha de vir. E nós aporrinhávamos você, os dois.

— Você, não. De você eu gostava muito.

— Mas, para você, a mãe era um horror.

— É evidente — disse Olivera. — A noite da verdade. Menti o suficiente em minha vida. Eu não minto mais. Você quer escutar a verdade? Pois seja. No fundo, você também me aporrinhava naquela época, porque, como sua mãe, você era um peso para mim. Pois estou dizendo que eu amava essa moça, essa atriz, Dora Holm. — E subitamente cintilaram lágrimas em seus olhos.

Ross o fitava boquiaberto.

— Pai! — Mercedes havia saltado da cadeira e correra para Olivera. Ela o abraçou e deu-lhe um beijo. — Não chore, por favor!

Olivera passou a mão sobre seus cabelos negros. Ele a olhou nos olhos. Os cabelos de Dora, pensou ele, os olhos de Dora.

— Ela era como oxigênio para mim. Eu também amei sua mãe, Mercedes. Com a mesma intensidade. Mas de outra maneira. E eu amo você. Esse aí, ele não sabe o que é o amor.

— Não — disse Ross —, nunca ouvi falar.

— Se ele soubesse o quanto gosto dele, e há muitos anos. Desde que me tornei um outro homem. Com que freqüência eu não falei dele cheio de amor e de saudade, Mercedes, quantas vezes!

— Sim, isso é verdade, Daniel — disse Mercedes. Ela foi até Ross e, toda tímida, também lhe deu um beijo. Então tomou a sentar-se.

— Desde quando? — perguntou Ross.

Mas não recebeu qualquer resposta.

— E minha mãe, coitada? Dela você jamais gostou, não é?

— Nunca. Ou melhor, sim. Uns seis meses, talvez. Mas isso não era amor — disse Olivera. — Isso era -

— Eu já sei o que era isso — interrompeu Ross. E mirando Olivera: — A essa mulher você fez infeliz, você a deixou na mão. Com isso, você me estragou. A mim você com isso... — E estacou.

— Com isso eu lhe fiz o quê?

— Nada — disse Ross. Tenho de tomar cuidado com a bebida, pensou ele. E para o velho: — E o número de campanha, as cartas da Rússia, tudo foi organizado com precisão, é isso?

— Tudo. Pois eu estava convicto de que precisava fazer tudo isso a fim de que ganhássemos a guerra.

— Então você iria se separar e casar com essa atriz.

— Sim. — Olivera encheu por sua vez o copo até a metade e o tomou quase de um gole. E disse, perdido em pensamentos: — Então eu e Dora... — Recostou-se para trás. Sua voz voltou a ficar fria e neutra. — Bem, com as casas da rua Meineke, isso virou uma autêntica catástrofe.

— O.K., prossiga, para acabarmos esta história. Como catástrofe?

— Você bem pode imaginar que nós fizemos tudo para chegar lá embaixo, até o terceiro pavimento. O filme! Um dia após o outro perdia-se nisso. Nós precisávamos do filme! Dispúnhamos de tanta gente quanto necessitássemos. Tínhamos as melhores máquinas. Mas simplesmente não estávamos com sorte. Primeiro, passou-se uma eternidade até que tivéssemos podido tirar todo o entulho e as ruínas e pudéssemos atacar a primeira chapa de aço com o maçarico. Desse profundo subterrâneo naturalmente não havia mais nenhuma passagem para outros porões. Quando atacamos, então, a primeira chapa, os americanos lançaram minas aéreas, um tapete delas, desde a Rua Uhland até a Gedächniskirche*. Tudo destruído de novo. As máquinas, os equipamentos. Um monte de mortos. Tivemos de começar tudo outra vez. Isso foi em vinte e quatro de abril. Nos meados de maio, havíamos chegado de novo ao primeiro subsolo. Então, no dia quinze, os americanos arrebentaram novamente com tudo nos arredores, em que, aliás, só havia escombros. Os alicerces das casas saíam fora do lugar. Trabalhar ali se tomara um perigo de vida.

* (Igreja em Memória do Imperador Guilherme, no começo do Kurfürstendamm A Rua Meineke fica entre a Rua Uhland e Gedëchtniskirche. N. do R.)

— Então vocês só usaram prisioneiros de guerra ou presos políticos!

— Naturalmente. Mas eles sabotavam o trabalho. Precisava vir de novo nosso pessoal. Chegou junho. Veio a invasão da Normandia. Veio uma enorme inundação, havia estourado uma tubulação principal. O terreno inteiro estava um lago. A semana inteira bombeando água antes que pudéssemos prosseguir. Paredes empapadas de água. A terra começara a deslizar. Tudo se esfacelava novamente. Veio julho.

— E assim por diante. Quando chegaram lá embaixo, finalmente?

— Dia 29. Dia 20 havia sido o atentado contra Hitler. Os ânimos estavam a zero. Os americanos e ingleses na ofensiva pela França. Grande ofensiva do Exército Vermelho. Trinta e oito divisões alemãs aniquiladas em poucos dias. Os soviéticos já estavam em Brest-Litovsk. Lindo dia, aquele 29 de julho. Eu me recordo ainda de como eu desci até o terceiro subsolo através dos buracos recortados nas chapas de aço. Só havia uma escada de cordas. Fora preciso abrir o armário blindado com o maçarico. A combinação do segredo não funcionava mais. A mala estava lá. Eu a tirei e, com um cabo, a puxamos para cima. Lá em cima, naturalmente, estava tudo cercado. E lá fui eu para dentro do Banco do Reich com uma escolta das SS. Ali, bem no fundo do cofre principal, a depositamos.

— Por que depositou o filme mais uma vez?

— Goebbels e Himmler não estavam em Berlim. Enquanto eu estava na Reichsbank, começou um bombardeio americano. Ataque ao centro da cidade. O banco foi atingido algumas vezes, mas resistiu. Três noites mais tarde...

... atacaram Berlim setecentos bombardeiros da Royal Air Force, em ondas sucessivas. Ross, a jovem Dora Holm, a governanta Sra. von Tresken, a arrumadeira e uma nova cozinheira chamada Emma Siedeleben estavam sentados no pequeno e sólido bunker no jardim atrás da casa na Rua Im Dohl. Desta vez, a luz apagou-se inteiramente, depois de uma meia hora. O bunker possuía um gerador de emergência. Ross o ligou. Assim, havia luz novamente e podiam de novo ouvir o radiotelégrafo.

O ruído dos motores das esquadrilhas que se sucediam, intermináveis, enchia o ar, misturando-se com ganidos enlouquecidos da artilharia antiaérea e as sinistras e ininterruptas explosões em seqüência vindas de um pouco mais longe. A locutora informava que caças noturnos alemães haviam levantado vôo e já tinham abatido doze bombardeiros. Um terrível combate aéreo se desenrolava entre eles e os Mosquitos, os caças de acompanhamento britânicos. Outras unidades de caças alemães já atacavam os bombardeiros bem antes de chegarem próximo à capital do Reich.

Entre as informações soava o tique-taque da emissora.

Dora HoIm fazia de tudo para distrair as pessoas que estavam dentro do bunker. Contava uma história engraçada atrás da outra. A nova cozinheira reagia direitinho: ela ria. A Sra. von Tresken não ria nunca, e agora tampouco. Ficava ali sentada, imóvel, com as sobrancelhas erguidas. Seu rosto era uma máscara de desdém. Ela odiava aquela mulher alegre, bonita e jovem. Georg Ross também ria. Ele pensava: com certeza Dora está com medo, mas ela o combate, ela faz seu teatro, a fim de que esqueçamos nosso próprio temor. Ah, Dora...

— . . . é uma perfeita chanchada o que estamos rodando com Willy Birgel. Ouvi dizer que a história original é de um americano. Ben Hecht é o nome dele. Eles conseguiram se apossar do filme americano. Goebbels o viu e determinou que simplesmente surrupiássemos a história.

— Dora, por favor! — disse Ross melindrado. O ressoar ensurdecedor das esquadrilhas de bombardeiros, os estouros das explosões, os disparos antiaéreos sublinhavam sem interrupção a conversa. — Desse modo você não pode falar! Não tolero isso. Além disso, isto não é verdade. Nós não plagiamos filmes aliados.

— Não? Ah, não? — Dora jogou seus cabelos pretos para trás. Ela ria — E Serenata? Willi Forst diz que ele não sabia que roteiro era aquele que lhe tinham dado. Ora, eu li o romance, em inglês, numa edição americana do exército: Rebeca. Daphne du Maurier é a autora. Uma inglesa. E Serenata é exatamente igual a Rebeca! E por que não? Pegamos o que dá. — As explosões ficaram por um momento muito altas, depois mais baixas. — Após a vitória final poderemos pagar os direitos — ou não. — E ria de novo.

Deixe ela! disse Ross para si mesmo. Deixe para lá! É muito mais importante que ela nos faça rir. A Siedeleben está ficando de novo toda cinzenta de medo.

— Goebbels é esperto — tagarelava Dora sem parar, enquanto a locutora informava a respeito dos mais pesados combates sobre o centro da cidade assim como ao norte e a leste de Berlim. — Ele sabe muito bem que no meio de todo esse tumulto ninguém quer ficar o tempo todo vendo propaganda. O pessoal quer é rir, nem que seja um pouquinho só. Por isso, agora, só comédia! Nessa agora, roubada, que eu estou rodando com Birgel, ele me conhece no metrô. Toda a história se passa nos anos 30. Muito bem pensado por Goebbels: nada de entulhos nem ruínas, nada de guerra, existe de tudo para comprar, ninguém diz ‘Heil Hitler’! — Uma esquadrilha sobrevoou Dahlem. O ruído dos motores ficou bastante alto. Dora continuava a falar despreocupadamente: — Pois bem, isso foi o que rodamos ontem. A cena em que nos conhecemos no metrô. Birgel está sentado defronte a mim e quer puxar papo de qualquer maneira. Tempos atrás, existia uma revista famosa, chamada A Corujinha. Ele segura na mão um exemplar dessa revista e diz: — Ah, cara senhorita, posso lhe mostrar minha Corujinha? — O ruído dos motores dos aviões que se aproximavam estava insuportável. — E eu respondo indignada: — Se o senhor abrir o primeiro botão eu puxo o freio de emergência!

A Sra. Siedeleben ri, até mesmo a Sra. Tresken sorri, pensou Ross. Também ele riu. Mais que todos riu Dora de sua própria história. Por meio da risada e do barulho dos motores atravessou um assovio agudo que rapidamente ficou mais alto tomando-se de uma pavorosa estridência. A isso se acrescentou um estranho som, um segundo apito, um terceiro. O barulho tornou-se ensurdecedor e, então, as bombas caíram a pouquíssima distância — e explodiram. O piso do bunker sacudiu com violência. As cinco pessoas voaram contra a parede de concreto. O gerador de emergência parou. Parecia que o bunker estava sendo jogado de um lado para o outro. As mulheres gritavam. Ross estava jogado ao chão. Tinha batido com a cabeça e estava completamente tonto.

E assim, quase sem sentidos, ouviu acima de todo aquele inferno a voz aguda e estridente de Dora, de repente dominada pelo pânico:

— Abra! Eu quero sair daqui! Aqui dentro nós vamos morrer!

Na escuridão. ela pisou em cima dele. Ele tentou segurá-la pelas pernas. O bunker conkinuava a ser sacudido pelo tremendo ímpeto das bombas que explodiam. O clarão de fogo chegava até lá embaixo.

- Fique aqui! — berrou Ross. — Você não pode sair agora! Você não pode agora...

E, contra o clarão do fogo, ele a viu correndo para fora do bunker.

— Dora! — Ele não conseguia pensar em outra coisa a não ser: - Preciso trazê-la de volta! Preciso trazê-la de volta! Eles estão sobre a gente! Ela está correndo para a morte.

— Sr. Ross! — gritou a Sra. von Tresken.

Ele ainda ouviu sua voz. Já estava ao ar livre. Ele viu que a casa havia sido atingida. Estava queimando. Ele se virou. Muitas outras casas queimavam também.

— Dora! — gritou ele. — Dora, po... — Não terminou a palavra. No jardim detonou outra bomba, O deslocamento de ar atingiu Ross como um gigantesco soco, ergueu-o e o lançou a distância, dentro de um canteiro de rosas. Ele ainda sentiu a dor do golpe, em seguida perdeu os sentidos.

Quando voltou a si, estava com o rosto no chão. Demorou muito até recobrar novamente a consciência. Ao clarão do incêndio da casa ele viu que só tinha ainda as calças e a camisa em tiras. Paletó e sapatos haviam sido arrancados pela pressão do ar. Passou a mão pelo rosto. Viu-a vermelha de sangue. Seu peito estava igualmente rasgado, coberto de sangue morno e pegajoso. Não ouvia mais nenhum ruído de motor. A formação havia voado embora. Por todos os lados só se ouviam os lamentos das sirenes. As vigas caíam na casa com estrondo. Ross tentou se erguer mas logo caiu ao chão. Somente na terceira tentativa conseguiu ficar de pé com as pernas bambas. Ele cambaleava através do jardim. Chamou novamente o nome de Dora, gritando repetidas vezes. Não lhe veio nenhuma resposta. Aos tropeços errava através do jardim destroçado. Bombeiros e ambulâncias haviam chegado. Pessoas de uniforme e médicos passaram por ele correndo. Ele mal os notava. Ó Deus, pensava ele, deixe-a com vida! Que ela esteja só sem sentidos. Por favor, meu Deus, por favor! Então, caiu sobre ela. Dora estava deitada na borda da cratera de uma bomba, e só alguns trapos cobriam o seu belo corpo, que agora se reduzia a uma única massa ensangüentada. Ross ergueu-se de novo. Estremeceu de pavor. A boca e os olhos de Dora estavam abertos. Por cima do olho direito passava apressada uma formiga.

Olivera calou-se. Esiava sentado ali, completamente abatido, com o olhar perdido dentro do parque escuro.

Mercedes e Ross trocaram olhares.

— Eu a sepultei — disse Olivera. — No cemitério Schmargendorf. Os pais dela não puderam vir de Hamburgo. A linha férrea fora bombardeada. Não havia sacerdote. Somente os coveiros. Enquanto trabalhavam com as pás, começou o ataque diário americano. Buscamos abrigo debaixo da placa de mármore de um grande mausoléu, de um mau gosto inaudito. Muitas bombas caíram sobre o cemitério e revolveram as velhas covas. Aquele mausoléu nos salvou as vidas. Passado o ataque, pedaços de esqueleto se achavam dependurados nos galhos das árvores, com seus crânios sorridentes. Eu... — E ele parou de contar, pois um Volkswagen se aproximava da entrada da casa. — É o Miguel! — exclamou Olivera. O carro parou. Miguel Morales saltou e veio para junto da piscina. Tinha um ar embaraçado.

- Que há com você, menino? Por que está de volta?

Calado, Miguel olhou para os seus sapatos.

— Você não está bem?

— Sim, señor.

— Então, que é?

- Eu tive uma discussão, señor — disse Miguel e olhou francamente para Olivera. — Com minha namorada.

— Com a nova? Aquela de cabelos dourados?

- Com Maria Perichole. Sim, señor. Havia um outro sujeito. E ela flertava. Ficaram rindo o tempo todo, falando baixinho. Chamei-a às falas. Aí, discutimos. No final, ela foi embora com o outro rapaz.

- Ela o abandonou? — observou espantado Olivera.

— Sim, señor.

— Mas isso com certeza nunca aconteceu antes com você em toda a vida, não é?

— Não, señor. Eu estava tão furioso que... que pensei que seria melhor eu voltar logo, antes que eu aprontasse alguma.

— Muito sensato de sua parte — louvou Olivera. — E agora você fica por aqui.

— Sim, señor. Vou dormir. Agora já estou mais calmo.

— Está mesmo?

— Realmente, señor. — Miguel deu um sorriso e se inclinou. — Boa noite, señorita, boa noite, señores!

Seguiu para o carro e dirigiu-o para os fundos da casa.

Olivera, que o havia acompanhado com o olhar, voltou-se de novo. Levou um susto. Ross estava sentado torto na cadeira de vime e segurava a testa com uma das mãos. Ele se controlara com o maior esforço — Mercedes o vigiara, preocupada — mas agora simplesmente não dava mais para agüentar. O medo. O medo irreal estrangulava seu peito, dominava a garganta, lhe penetrava o cérebro.

— Que há com você, Daniel?

— Nada — disse Ross penosamente. — Realmente nada. É o calor. E naturalmente eu fiquei muito nervoso. Eu... eu estou ficando tonto... Dor de cabeça... — Olivera não poderia imaginar quanto lhe custava cada palavra. Mercedes o sabia pois já havia presenciado isso com Ross.

— Você não quer se deitar uns minutos, Daniel? — perguntou ela.

— É, acho que seria bom.

— Se já for demais para você, filho, nós também podemos ir dormir. Já são, aliás, onze horas.

— Não, dormir não! Você tem de continuar a contar! De qualquer jeito. Somente uns quinze minutos, uma meia hora, aí já estarei bem de novo! — Ross levantou-se. Mas cambaleou. Mercedes rapidamente o segurou.

— Vamos para a biblioteca — disse ela. — Lá está fresco. Você não quer deitar-se na biblioteca? No sofá, em frente à lareira? Nós estamos por perto. Só precisa chamar...

— É, é uma boa idéia. — Ross concordou com a cabeça.

— Sim, tudo isso cansa bastante — disse Olivera. — A mim também. — Encheu um copo e bebeu. — Maldita história. Eu também preciso de uma pausa. Melhoras para você, Daniel!

— Obrigado.

Olivera não poderia supor o quanto Ross se apoiava em Mercedes para andar. O chão balançava debaixo dele. Tudo girava. E ele gemia.

— Pobre Daniel... Vou rezar... Eu já o fiz todo o tempo.. - Estava vendo o que se passava com você... Mas sua amiga Sibylle e esse Dr. Reinstein disseram que você vai suportar tudo, com certeza.

— E vou mesmo, Mercedes.

Chegaram à casa e logo em seguida à biblioteca. Mercedes conduziu Ross até o sofá. Lá dentro estava realmente agradável, enquanto no parque, nessa época do ano, mesmo à noite a temperatura não baixava. Ross desfez-se dos slippers e deitou com as pernas para cima. Mercedes empurrou-lhe uma almofada para debaixo da cabeça e abriu-lhe a camisa.

— O Dr. Reinstein me deu umas gotas — disse Roas. — Você se recorda que Sibylle havia sugerido isso para o caso de as coisas ficarem muito feias. O frasquinho está na minha sacola de banho. Você me fez o favor de apanhá-lo, Mercedes? E um copo com água. Com as gotas certamente irá tudo melhor.

— Já, já, Daniel. — E ela foi bem depressa.

Ele sentia a bolha de ar inexistente batendo dentro do peito. Você tem de agüentar-se sobre as pernas, disse ele para si mesmo. Ainda mais dois ou três dias, você tem de agüentar. Simplesmente precisa. Esse caso tem de ser seu.

Mercedes veio de volta. Trazia o vidrinho e um copo meio cheio com água.

— Quantas gotas?

— De dez a quinze, disse o doutor. Mas dê vinte, por favor.

À luz dos dois lustres, Mercedes deixou pingar as gotas na água. Ele bebeu todo o copo e torceu o nariz

— Obrigado — disse Ross.

Ela se ajoelhou ao seu lado. O rosto dela estava agora bem junto do seu. De novo, ele sentiu o suave perfume de sua pele.

 

Ela acariciou suas faces e depois seus cabelos. Seus olhos azuis estavam imensos.

— Danny — sussurrou ela. — Por favor, querido Danny, agüente firme! Eu posso chamar você de Danny, não posso?

— Mas é claro.

Ela sorriu.

— Você é tão gentil, Danny.

— Você também, Mercedes.

De repente, ela apertou seus lábios contra os dele e seu busto contra o peito sem camisa. Ele retribuiu o beijo com ardor e ante a felicidade daquele momento sumiram o medo e a fraqueza como que por encanto. Um milagre, pensou ele.

Bruscamente, ela se afastou.

— Nada vai acontecer a você enquanto eu estiver aqui — disse.

— Enquanto você estiver aqui — repetiu ele.

Ela voltou a afagar-lhe a testa.

— Você quer a luz acesa?

— Não, por favor, não.

Ela apagou as luzes, e dirigiu-se a uma das janelas francesas a fim de abri-la.

— Eu deixo um lado aberto — disse ela. — Logo estarei de volta e venho ver como você está. Só não quero que papai fique inquieto e acabe chamando um médico.

— Não, médico não! — disse ele. — É a coisa de que menos preciso agora.

— Até já, Danny!

— Obrigado, Mercedes.

Ele ouviu quando seus passos se afastavam sobre o cascalho. Depois, percebeu que ela alcançara o gramado, que absorvia todos os ruídos.

De costas, Ross estava deitado imóvel. Ainda pairava no ar seu doce perfume. Ele respirou fundo. Fechou os olhos. E se isso acaba virando amor? — pensou ele. Um amor depois de tantos anos? Um amor como aquele que havia vivido com Sibylle? Naquela epoca eu havia jurado para mim mesmo que isso nunca mais me aconteceria. Nunca mais. É, pensou ele, mas agora...

Bem baixinho e devagar abriu-se a porta.

Ross não se mexeu.

Uma sombra deslizou no salão.

Miguel! Ross soergueu-se um pouco.

O jovem ficou estarrecido. Levara um susto mortal. Pronto, pensou ele. Estragou tudo!

— Miguel — disse Ross assombrado.

— Si, señor... — a voz de Miguel saiu sussurrada.

— What are you doing here? — Talvez ele entenda inglês, pensou Ross.

— Vim cuidar do senhor, Sir — respondeu Miguel em inglês. Ele havia dominado seu choque. — O senhor está se sentindo mal, Sir?

— Não, só um pouco cansado.

— Posso fazer alguma coisa para o senhor? — disse Miguel se aproximando. Lnclinou-se bastante em reverência, como sempre fazia.

— Não, obrigado, Miguel. Está tudo bem.

— Como desejar, Sir. Sempre às ordens. — Nova reverência. Miguel deu alguns passos atrás, depois se agachou decidido, apalpou a parte inferior do tampo de mármore da mesinha, achou o grampo e o arrancou. E esgueirou-se para a porta.

— Até logo, Sir!

— Até logo! — disse Ross.

E vai virar amor. Com tanto ódio, precisa também haver amor, pensou ele e sentiu como ficava cada vez mais apagado. Volte, amor, pensou ainda. Logo em seguida, adormeceu.

Sonhou com a rosa vermelha que tinha visto quando pairava entre a vida e a morte. Então sentiu que alguém o observava. Rapidamente voltou a si e abriu os olhos. Mercedes estava ajoelhada a seu lado. Ela sorria.

— Alô, Danny — disse ela baixinho acariciando sua mão.

— Alô — disse ele, pensando na rosa vermelha entre a vida e a morte. Mercedes é a vida, pensou. A linda vida. Talvez a vida possa ser tão bela quanto a morte. E por que não? — Eu dormi muito?

— Nem vinte minutos. Vim olhar por três vezes. Como está se sentindo?

— Maravilhosamente — disse ele, e era verdade, reconhecia espantado. — Venha cá!

Colocou os braços ao redor dela e tornou a beijá-la. Os lábios dela logo se abriram.

— Meu querido — disse ela. — Teremos um vida boa quando tudo isso tiver passado.

— Sim — disse Ross. — Quando tudo tiver passado.

— Você acha que pode levantar novamente e vir até papai?

— Acho que sim. — Levantou-se. — Tudo em ordem.

— Essas gotas são excelentes — disse Mercedes.

— Suas orações também.

— Tarde demais — disse o Dr. Joseph Goebbels. Caminhava para lá e para cá, dessa vez sobre o tapete do seu gabinete no Ministério da Propaganda do Reich, na Wilhelmsplatz, 8 e 9. O homenzinho precisava de movimento quando estava excitado. — Tarde demais — repetiu.

— Por quê? — indagou Ribbentrop.

— O momento oportuno já passou — explicou Goebbels. — Os anglo-americanos  estão diante de Paris. A leste, só andamos para trás, para trás. Os russos estão em frente a Varsóvia e nos Cárpatos. Nos próximos dias invadirão a Romênia e também a Bulgária. Minsk, Vilna, Grodno, Lublin, nas mãos dos bolcheviques. Lemberg já caiu. A baía de Riga alcançada pelo Exército Vermelho e com isso cortada toda a Divisão norte. O Führer disse que vai ser necessário abandonar a Grécia, a Albânia e Montenegro o mais rápido possível.

— Quando é que ele disse isso? — perguntou Hiinmler furioso.

— Ontem — Goebbels parou e olhou-o com imenso desdém. —A mim.

— Desde quando ele discute operações militares com o senhor? — Himmler exaltou-se. — Eu sou o homem dele! Foi a mim que ele designou, depois do atentado, para ser o Comandante Supremo das forças militares de reserva.

— E eu terei o prazer de proclamar amanhã, no Palácio dos Esportes, e pela segunda vez, a “Guerra Total”. Todos os planos foram elaborados para dentro do mais breve prazo poder convocar todos os homens entre dezesseis e sessenta anos capazes de empunhar armas para o “Assalto Popular Alemão”.

— Para quê?

— Para o “Assalto Popular Alemão” — disse Goebbels, voltando a mancar e de mãos às costas. — Soa bem, não é? É meu. Dou-lhe de presente. Nossas cidades submergem sob ruínas e cinzas. E aí pensam os senhores que ainda é possível utilizar o filme de Teerã? Os senhores pensam isso seriamente? De fato? — Deu um risinho curto e maligno.

— Ainda assim, teria o seu efeito — disse Himmler furioso.

Goebbels estacara novamente.

— Seria um efeito de bosta, senhor Comandante Supremo — disse ele bem baixo e escondido. — Seria uma merda. Infelizmente a situação virou-se contra nós nos últimos meses. Como eu previra. Antes, em março, quando Ross nos surgiu com o filme, eu disse que precisávamos utilizá-lo rapidamente, na maior pressa e no mais curto espaço de tempo. Caso tenha a bondade de recordar minhas palavras. Um azar que demorasse tanto até termos o filme de volta. A sorte e o sucesso nos abandonaram. Por um momento — acrescentou, mudando o quadro com a habilidade de costume.

— Mas voltarão! A vitória final será nossa. Claro. Natural. E por quê? Porque precisamos triunfar.

Os outros homens, inclusive Ross, assentiram sérios com a cabeça. Ah, seus idiotas, pensou o homenzinho.

— Então — disse ele —, quando tivermos triunfado, iremos mostrar o filme. Em todos os lugares. No mundo inteiro. Como coroamento de nossa vitória, por assim dizer. Se agora o fizéssemos, toparíamos com desprezo e escárnio. Na presente situação, quando estamos sendo batidos em todas as frentes por esses aliados que estão unidos como nunca... — fique quieto, Himmler! Estamos aqui entre nós, creio me ser ainda permitido dizer a verdade. O senhor pode ir logo denunciar meu ponto de vista ao Führer! Bem, em tal situação, não podemos mais afirmar que o filme é autêntico, mesmo que isso seja a pura verdade. Ninguém acreditaria. Há instantes nos quais se pode arriscar qualquer mentira e qualquer verdade. E ambas merecerão crédito. Mas há momentos em que ninguém acredita, nem na mentira, nem na verdade. Stalin e Roosevelt teriam acessos de riso caso viéssemos agora com o filme. E não apenas eles. Todos aqueles que a ele assistissem. Eles se esculhambariam de rir, meus prezados companheiros de partido!

Estava falando mais depressa.

— Esses nazistas estão na pior. É isso que todo mundo iria dizer. Estão batidos, quebrados, liquidados. E aí resolvem nos ser vir esse estúpido filme mentiroso, essa falsificação infantil! Não, meu senhores, queiram me ouvir, não deveremos exibir esse filme! Sobretudo não na Alemanha. Em hipótese alguma na Alemanha. As conseqüências seriam imprevisíveis. Mais tarde, após a vitória final: em qualquer lugar! Agora, não!

Sobre a escrivaninha tocou o telefone. Ele atendeu.

— Sim — disse ele — sim, obrigado. — E desligou. — Posto de comando do Gauleiter. Fortes esquadrilhas de combate americanas se aproximando da capital do Reich. Em dez minutos será dado o alarme. Os senhores estão cordialmente convidados a descerem ao meu subterrâneo. Ele é seguro.

Os homens se ergueram.

— Essa maldita ninhada de facínoras — disse Himmler.

— Quem? — Goebbels olhou para ele. — Ah, sim — disse então — sim, sim, claro. — Ele arrumou seus papéis e os documentos que se encontravam sobre a mesa e os pôs dentro de uma grande pasta de couro que levaria para dentro do bunker.

Himmler e Ribbentrop já seguiam apressados à frente. Goebbels os acompanhou com o olhar.

— Fizeram nas calças de tanta coragem — disse o homenzinho. — E o senhor, que faz aqui ainda?

— Estou esperando pelo senhor, Ministro — disse Ross.

— Obrigado.

Ross usava temo e gravata pretos. Era proibido pôr luto, mas ele não se incomodava. No momento não se importava com nada. Tudo lhe era indiferente. Tanto fazia ir para o refúgio ou ficar ali em cima. Ser abatido por bombas ou continuar vivo. Indiferente. Totalmente indiferente.

— O senhor sofreu uma perda terrível — disse Goebbels, ainda ocupado com os documentos. — Eu sei. O senhor gostava muito da Srta. HoIm, disso eu também sei. Meus sinceros pêsames!

Ross assentiu e ficou em silêncio.

— O senhor já tem um novo lugar onde ficar?

— Moro com um amigo.

— Se puder ajudá-lo em alguma coisa...

— Muito obrigado! Mas já tenho tudo.

— Ninguém pode ajudá-lo. — Goebbels balançou a cabeça.

— Não. — disse Ross. — Ninguém. Permite-me levar a pasta, Sr. Ministro?

Dirigiram-se para a porta.

— O senhor tem muito que fazer esta tarde? — perguntou Goebbels.

— Sim. Não. Por que me pergunta?

— Preciso lhe falar ainda. Não poderia dizer tudo aqui diante desses... senhores. Mais tarde vou ter de fazê-lo. Agora, ainda não. Somente com o senhor quero falar desde já. Pode vir ver-me à tarde?

— É evidente, Sr. Ministro.

— Digamos, às cinco?

— Está certo, às cinco.

As sirenes começaram a soar.

Uma conversa telefônica.

— Sim, alô?

— É você, Cristóbal?

— Quem está falando?

— Franco. Eu rendi Roberto e Esteban. Emilio está junto comigo.

— E que há? Esse tal de Miguel Morales já voltou à casa de Olivera?

— Sim. E atrás dele um Ford com dois caras. Miguel entrou pela frente, pela entrada principal. O Ford entrou na rua depois da Céspedes. Zabala é o nome dela. O parque de Olivera chega até ela. Ali o Ford aguardou, junto da grande igreja.

— E aí?

— Depois de uns quinze minutos, Morales apareceu, trepando por cima do muro. Os caras o ajudaram. Ele trazia uma bolsa preta de viagem e uma mala comum. Foram todos juntos para o Retiro.

— Para onde?

— Para a Estação central. Compraram uma passagem para Tucumán. Para o trem de meia-noite e quinze.

— Tucumán? Mas isso é bem lá no norte Ele vai levar umas vinte horas de viagem.

— Vinte e duas. Parece que eles querem o rapaz o mais longe possível daqui. Mas quem é que quer, Cristóbal? Quem?

— Idiota! Ele estava grampeando Olivera, certo? Depositou os cassetes numa caixa da estação. Com certeza não fez isso pela primeira vez. Só que hoje foi flagrado pelo Roberto e pelo Esteban. Quando os mandantes souberam pelo seu pessoal que os cassetes haviam sumido, eles tiveram de fazer desaparecer todo o equipamento de escuta, além do próprio Miguel. Antes que Olivera percebesse alguma coisa. Somos nós que estamos de posse dos cassetes.

— Mas não fomos nós que o fizemos espionar Olivera?!

— Virgem santa! Não, claro que não fomos nós. Foram outros, que estão com medo de que se descubra isso.

— Mas que outros são esses, Cristóbal?

— Isso nós vamos saber quando soubermos o que está gravado nos cassetes. E quem, afora Olivera, participa do papo. Meia-noite e vinte. Quer dizer que o trem para Tucumán já partiu.

- Sim. Com Morales. Nós vigiamos até o fim. E agora?

— Vocês voltam para Céspedes. Eu não creio que hoje à noite alguém ainda vá sair de casa. Mas em todo o caso... às sete vocês vão ser rendidos.

— O ataque durou até duas e meia — disse Olivera junto da piscina, à noite. — Sobre o centro. Quando finalmente subimos após o sinal de fim de alarme, estava escuro como a noite, embora o sol brilhasse. Uma espessa fumaça dos prédios em chamas cobria toda a cidade. Eu segui para meu gabinete no Ministério do Exterior. Apenas informes catastróficos pelo rádio, vindo de todos os cantos. Muito deprimente. Goebbels tinha razão. O filme não poderia mais ser exibido. — E, dando uma curta risada: — Somente após a vitória final! Às cinco da tarde eu estava de novo no Ministério da Propaganda...

Goebbels recebeu Ross imediatamente. Sentaram-se em um pequeno salão. No gabinete do Ministro as vidraças estavam de novo em cacos. A luz estava acesa, pois a fumaça ainda transformava o dia em noite. De instante a instante ouvia-se uma explosão das bombas de detonação retardada, os alarmes dos bombeiros e as sirenes das ambulâncias. Goebbels estava pálido. Foi apanhar uma garrafa de conhaque francês e dois copos de dentro de um armário. Sentaram-se ao lado de uma pequena mesa redonda junto à janela e beberam.

— Há quanto tempo nos conhecemos, Ross?

— Desde que eu estou no serviço, Sr. Ministro. Desde 1939. Cinco anos. Incompletos.

— Eu sempre admirei muito seu trabalho. E sua fanática crença no Führer, no movimento, na concepção nacional-socialista do mundo. Eu não poderia ser mais fiel. O senhor é um homem instruído. Com todo o entusiasmo e devotamento por nossa causa, o senhor demonstrou ter a aptidão para avaliar os acontecimentos dentro da mais estrita lógica, e diria ainda, cientificamente. Em sua posição, o senhor precisa possuir essa capacidade. Também eu preciso tê-la, na minha. — Ele tomou um gole. — Nós lutaremos como um povo jamais combateu. As armas milagrosas vão mudar o rumo dos eventos em nosso favor. Se ficarem prontas a tempo. Será esse o caso? Ninguém sabe. Vai ser pavoroso aquilo que está para vir, Ross, e disso o senhor muito bem sabe. O senhor pode falar abertamente. Isso permanece uma troca de idéias entre nós dois. Eu preciso poder falar assim com alguém. A respeito de fatos, Ross! Fatos são a sua profissão. Por isso, a minha escolha recaiu no senhor. E porque eu tenho confiança no senhor. Na intensidade de sua convicção. E na sua fria e analítica maneira de raciocinar.

— Não estou entendendo... — começou Ross, mas Goebbels fez sinal que parasse.

— Espere, meu caro. Nós lutaremos, sim. E se tiver de ser, também morreremos. Sabe tão bem quanto eu, Ross: a idéia não morre conosco. A idéia continua em vida. Mesmo que, nesta luta devêssemos submergir (estou falando assim com o senhor porque, por profissão, está habituado a levar em conta todas as possibilidades, friamente e sem qualquer emoção, e eu lhe recomendo estritamente, é óbvio, a não dizer uma só palavra com quem quer que seja a respeito desta nossa conversa), mesmo que tivéssemos que naufragar, a idéia sobreviverá em milhões de cérebros. Tenho razão?

— Inteiramente, Sr. Ministro — disse Ross. — Basta pensar quanto tempo e quanto sangue correu até o Cristianismo, essa doutrina da misericórdia, vencer.

— Perfeito — disse o pequeno Goebbels, educado pelos jesuítas. — Falamos a mesma língua. Se tivéssemos que desmoronar sob o peso da superioridade dos inimigos, mesmo que viéssemos aparentemente a submergir, isso só seria uma fraqueza temporária. Também os primeiros cristãos tiveram de pagar com suas vidas. Na verdade, nossa derrota coincidirá com o nascimento do nacional-socialismo universal. In my end is my beginning, meu fim é meu começo.

— É a divisa dos Tudors.

— Ah! Como faz bem falar com uma pessoa instruída! — Goebbels suspirou. — Inicialmente, durante os primeiros anos, os vencedores serão onipotentes e qualquer oposição será vã. Oh! Mas aqueles que sobreviverem, saberão esperar! Esperar por sua hora. E essa hora chegará quando a humanidade duplamente escravizada enxergar claramente o que dois Estados criminosos com ela fizeram. Partilharam o mundo entre si! Cada um deles pode, em sua respectiva metade, cometer as maiores atrocidades contra povos desarmados, quando e quanto desejarem. Os povos sob o açoite americano. Mais ainda, as nações sob o chicote bolchevique. Serão explorados. Serão tratados como animais. Todos eles, os muitos povos do Ocidente e do Oriente, serão servos, terão perdido a liberdade. Estarão entregues a dois poderosos ditadores, desamparados e sem direitos.

Goebbels estava agora muito excitado.

— Somente então, meu caro Ross, somente então, quando os povos do mundo tiverem acumulado um ódio monstruoso, uma cólera enorme e extraordinária sensação de impotência, somente então se deverá mostrar a eles o filme de Teerã! A fim de lhes exibir esses dois monstruosos bandidos em sua integral ignomínia e brutalidade. Aos homens de nossa querida pátria, que então estará dilacerada e dividida conforme prevê o protocolo, é que se deve mostrar primeiro o filme. Qual será o efeito sobre o povo alemão quando vir e ler aquilo que se pretendia fazer com ele, já mesmo em 1943? Qual será o efeito sobre todas as outras nações, igualmente dilaceradas, divididas e esmagadas?

Goebbels tomou fôlego.

— Então, Ross, só então todo o mundo, sem exceção, vai reconhecer que nós, nacional-socialistas, fomos os únicos que combatemos contra os patifes de Washington e Mascou. Só então todo o mundo vai constatar horrorizado com que heroísmo único na História tentamos coibir um crime, também único na História. Todo o mundo compreenderá que, de toda maneira, nós tivemos de fazer o que fizemos, tudo, tudo o que logo após o nosso aparente aniquilamento será apresentado como um crime bestial contra a humanidade. Então todo o mundo verá quem cometeu o crime bestial que nós previmos e queríamos evitar, sacrificando até mesmo nossas vidas. Não só o Ocidente, não. Queríamos libertar o mundo inteiro, e para sempre, dessas inescrupulosas criaturas surgidas do inferno. A Alemanha se tomará uma palavra sagrada. O Führer, seus seguidores, os soldados alemães, todo o povo alemão vão entrar para a história como sinônimos de honra, de intrepidez e de heroísmo. E o nacional-socialismo figurará então nos olhos dos pobres homens desse mundo dividido em dois como o maior ensinamento de salvação que jamais existiu, O mundo será dominado por um vendaval de cólera que varrerá aquelas criaturas e os seus bajuladores. O nacional-socialismo não somente será reabilitado mas também começará seu avanço triunfal ao redor do globo terrestre. E a Terra será nacional-socialista!

Goebbels se calou, respirando com dificuldade.

— A terra inteira: nacional-socialista. Por Deus, o senhor tem razão — sussurrou Ross fascinado.

— Assim será nossa vitória. Assim terá de ser. O nacional-socialismo viverá, mesmo que tenhamos todos de morrer. Com isso se tornará a nova religião do mundo. Por meio de nosso sacrifício e por intermédio desse filme. Um dentre os homens mais valentes, mais merecedores de confiança, precisa preservar esse filme como o Santo Graal. O filme precisa ficar protegido no mais profundo dos bunkers para que ele o possa exibir tão logo a Providência seja clemente e nós, a despeito de tudo, triunfemos. Assim que ficar claro, sem qualquer dúvida, que nós teremos de fazer o maior sacrifício que se pode exigir dos homens, quando se constatar que a guerra está perdida, então esse homem, com o filme, precisa deixar a Alemanha. Precisa esconder-se num país longínquo. Ele precisa devotar sua vida a essa missão realmente sobre-humana, qual seja a de disseminar por toda a terra o nacional-socialismo.

Goebbels se levantara. Caminhava de um lado para outro. Lá fora, a escuridão volta e meia se iluminava com os clarões de vermelho-sujo dos incêndios que grassavam nas proximidades. Também Ross se levantou sem perceber. Seus olhos estavam fixos em Goebbels, como se ele estivesse hipnotizado.

— Esse homem precisa saber esperar, muitos anos talvez. Até o momento chegar. Até ele receber de nossos combatentes, que estarão ocultos na clandestinidade, a incumbência de vir a público com o filme! Uma extraordinária responsabilidade histórica pesará sobre seus ombros, não é verdade?

- Sim — disse Ross sem fôlego.

— E então lhe pergunto, meu caro, o senhor que está sofrendo tanto, que perdeu a mulher que era toda sua paixão: deseja ser esse homem?

— Desejo ser esse homem — disse Ross.

Por muito tempo fez-se silêncio junto à piscina.

Finalmente, Mercedes disse:

— O mal absoluto talvez agora se torne o bem absoluto.

— Espero que sim — disse Olivera.

— Esperem um momento! — interveio Daniel. — Não chegamos ainda a esse ponto. Ainda tenho algumas perguntas a fazer. Como é que você veio parar aqui? Quando? E como é que sua transformação durou de quarenta e cinco até hoje? E que aconteceu ao longo de todos esses trinta e nove anos? Por que você não mostrou o filme ao público antes de sua transformação, para fazer o mundo inteiro virar um campo de concentração?

— Eu vou contar, Daniel. Contarei tudo — disse Olivera.

 

- Os cadáveres dos três e todos os vídeos que houver. É isso?

— Isso mesmo, Mr. Hyde. E rápido. O mais rápido possível.

— Os três não são problema, Mr. Morley. Mas os vídeos são. Porque se podem tirar cópias de cópias, quantas se desejar.

— Nossa esperança, Mr. Hyde, é que ninguém mais terá muita vontade de tirar cópias assim que houver mortos.

— Decerto, Mr. Morley. Mas perfeitamente tranqüilos seus chefes só poderão estar no momento em que estiverem de posse de todas as cópias.

— Naturalmente. Permita-me ainda observar que muito provavelmente o senhor se verá obrigado a .. hum... eliminar mais do que três pessoas.

Esta conversa teve lugar na tarde de 20 de fevereiro de 1984, uma segunda-feira, três dias após Daniel Ross, com quarenta anos de atraso, ter reencontrado seu pai em Buenos Aires. Foi num escritório de uma casa na Chancery Lane, nas proximidades do quarteirão da imprensa em Fleet Street, Londres. Apenas um quarteirão mais para oeste erguia-se o poderoso edifício, com quatro torres, das Royal Courts of Justice. Nevava em Londres e fazia bastante frio. Cerca de duas horas antes, às 14h30m, havia chegado ao aeroporto de Heathrow, no horário, o avião da Pan American World Airways, vôo 856, procedente de Chicago. A nevasca forte criava grandes obstáculos lá fora. Máquinas niveladoras em permanente operação mantinham funcionando as pistas do aeroporto, e na auto-estrada em direção à cidade já se haviam registrado numerosas colisões de veículos. A neve caía sobre gelo, pois o tempo de inverno já se vinha estendendo há várias semanas.

Entre os passageiros achava-se um homem alto e magro com rosto curtido de chuva e de sol, de olhos muito claros e cabelo louro cortado bem rente. Vestia um pesado capote forrado de peles. No controle de chegada para estrangeiros exibiu ao funcionário um passaporte americano. Este passaporte, que naturalmente poderia ter sido falsificado, dizia que o viajante era um certo Wayne Hyde, nascido a 12 de agosto de 1948 em Chicago, residência ao tempo da emissão do passaporte igualmente Chicago, solteiro.

Hyde trazia dois grandes sacos de roupas. Eram de motivos escoceses e de boa qualidade, mas via-se que já eram usados há muito tempo e com freqüência. Seguiu para um táxi cujo motorista logo acomodou as bagagens enquanto Hyde sentava ao fundo do carro indicando um número em Chancery Lane. Em seguida, encostou-se para trás, juntou as mãos e fechou os olhos. Enquanto isso, as condições sobre as pistas da auto-estrada tinham se toma do caóticas. Por causa das colisões, os policiais conduziam o tráfego sempre de uma pista para outra. O táxi escorregava sobre placas de gelo. O motorista do carro da frente deu uma freada e quase o táxi colidiu com ele.

O chover praguejou.

— Pare com isso! — disse Hyde de olhos fechados.

— Que houve?

— Chega de palavrão! Eu não gosto.

— Ei, espere aí! O senhor viu o que fez esse idiota aí na frente? Quase que entramos nele.

- Pare com isso! — disse Hyde.

— Parar com quê?

— Pare de falar. Difícil de dirigir? Sim. E daí? É sua profissão, não é? Então, fique quieto.

— Como quiser. — O chofer do táxi ficara magoado. Mexia os lábios e xingava esses desgraçados de americanos. Que seu passageiro era um deles ele logo reconhecera pelo sotaque aberto.

Uma cambada de vagabundos, esses americanos, pensou o chofer. Acabam de nos dar de presente novos foguetes. Mísseis Cruise e Pershing II, ali em Greenham Common. Estive por lá, semana passada. E ainda um monte de gente. Pelo menos duzentos. Por detrás da cerca de arame farpado, soldados americanos. Os animais abriram a boca e disseram alguma coisa como yellow. Yellow é a mesma coisa que covarde. Um de nós arriou as calças. E outro. E outro. Um minuto mais tarde, os americanos viram duzentas bundas britânicas peladas. Muito bem, porque é verdade! Quando começa, quem leva na cabeça? Nós e os alemães. Estou me lixando para os alemães. Mas eles lá na América, nunca viram uma única bomba caindo. Não seriam tão metidos se tivessem passado pelo que Londres passou na blitz. Segue à esquerda, seu idiota, tem de andar à esquerda! O Jesus! O calhambeque está girando em torno de si mesmo!

O motorista moveu os lábios até chegar ao final da corrida. Praguejara durante todo o percurso — em silêncio.

Em Chancery Lane ele saltou, abriu a porta traseira e ficou mudo. Foi ao porta-malas e trouxe os dois sacos de roupa. Mudo. Depois, disse o preço da corrida. Hyde pagou e esperou até o último pêni do troco. Pegou os dois sacos e dirigiu-se à entrada da casa, sem dizer uma só palavra. O chofer o acompanhou com o olhar, deu uma cusparada na neve e sentou-se ao volante. Quando arrancou, lá estava xingando de novo — agora em voz alta.

Wayne Hyde subiu com sua bagagem até o segundo andar da quieta e distinta casa. A luz estava acesa. Uma placa de latão estava fixada a uma porta:

ROGER MORLEY

SOLICITOR

Advogado consultor, então. Nenhum desses que defende causas perante um tribunal, pensou Hyde. Senão ele seria um Barrister at-law. Na minha terra são chamados de Attorney-at-law. É claro que tinha de ser solicitor! Bem que sabia, senti pelo cheiro. Aqui não se trata de um desses casos que tenho de arrumar provas para a justiça. Ou de fazê-las desaparecer.

Ele apertou a campainha. Ouviu um zumbido e a porta se abriu. Hyde entrou. O escritório era bem grande e decorado com solidez, à antiga. Só precisou aguardar um instante e logo apareceu Roger Morley: pequeno, ágil, com rosto rosado, bochechudo, ventre protuberante e cabelo grisalho e desordenado, boca redonda, dentinhos de rato, alegre e cordial. Personagem de Dickens, pensou Hyde. Lera todas as obras de Dickens. Ele conhecia muitos escritores. Wayne Hyde lia sempre que dispunha de tempo.

Morley saudou seu convidado.

— Que bom que o senhor tenha vindo, mister Hyde! — E ajudou-o a tirar o capote. — As sacolas, deixamos na secretaria. Por favor, acompanhe-me!

Seguiu na frente para seu escritório. Hyde divisou altos painéis de mogno, que encobriam a parede até a metade de sua altura, belos móveis antigos e uma forte lâmpada com um artístico abajur de vidro verde pousado sobre a escrivaninha, além de estantes cheias de livros que luziam cheios de magia. O escritório de Roger Morley estava aquecido e transpirava tranqüilidade. Sobre a grande mesa trabalhada havia fotos, revistas e um pequeno gravador.

— O que toma o senhor Mr. Hyde? Uísque? Conhaque? Xerez? Vodka?

— Eu nunca tomo álcool, Mr. Morley.

— Não diga! Isso eu acho fabuloso. — O advogado esfregou as mãozinhas rosadas. — Mas então chá, certamente?

— Chá, com prazer. Morley desabrochou.

— Ah, ótimo! Qual seria mais de seu gosto? — E abriu a porta para uma minúscula cozinha. Sobre o fogão elétrico havia uma prateleira com diversas latas das mais variadas cores. Que tal um Finest China Keemun, suavemente perfumado? Ou um China Jasmin with Flowers, clarinho, com o adorável aroma de botões de jasmim? — Indicou as latas coloridas: — Flowery Orange Tea? Uma seleção sino-indiana com o aroma de laranjas maduras? Oh, ou então este: Assam Herrentee. Da melhor procedência indiana, muito castiço. Talvez deva experimentar também um Special Earl Grey, extravagante mistura de espécies indo-chinesas com o especial perfume do óleo de bergamota? Ou, ah, um Finest Highgrown Darjeeling! Também é chamado de Flowery Orange Pekoe. Trata-se de uma planta de altitude, cultivada nas encostas meridionais do Himalaia, com brilhante sabor moscatel. Ou...

— Highgrown Darjeeling, Mr. Morley, se me permite.

Roger Morley bateu as mãozinhas rosadas uma contra a outra.

— Excelente! Highgrown Darjeeling! — Tirou uma das latinhas da prateleira e a abriu. Durante a conversa que se seguiu, Roger Morley, advogado consultor, preparava o chá com o amor do verdadeiro entendido. Primeiro, encheu uma chaleira com água e a pousou sobre uma chapa do fogão.

O homem chamado Wayne Hyde, que o observava, disse:

— Eu recebi sua carta e uma passagem de avião. É claro que não era carta sua. Só dizia que o senhor me esperava imediatamente. A carta veio de uma fábrica de conservas de carne, de Nova lorque.

— O senhor não vai trabalhar nem para essa gente nem tampouco para mim — disse o rosado advogado enquanto trazia xícaras de porcelana chinesa da espessura de uma folha de papel, pires, colheres e um recipiente de prata contendo açúcar-cande. — Eu sou meramente intermediário.

- Compreendo. Coisa grande?

— Coisa muito grande, Mr. Hyde.

— Cliente de alto nível?

— Do mais alto nível, Mr. Hyde.

— Os cavalheiros não desejam sujar suas mãos, não é?

- Não o podem, Mr. Hyde, não o podem. E ninguém em seus serviços tampouco. Logo irá entendê-lo. No que se refere aos cavalheiros, o seu problema é de tal modo delicado que ninguém, de fato, os pode ajudar senão um MERC. O melhor que existir. O senhor, Mr. Hyde.

— Como sabe o senhor que eu sou o melhor?

— Oh, tomamos naturalmente informações a seu respeito - disse Morley e trouxe um pequeno coador de prata com seu suporte.

- Quem forneceu informações a meu respeito, Mr. Morley?

— Bem, o Serviço Secreto americano...

- Ahã...

— ... e o soviético.

— Mhm.

Na kitchenette o advogado aquecia um belo bule antigo de prata. Ele sorria para Hyde. Roger Morley lembrava um sadio bebezinho feliz,

— O senhor sabe como é, Mr. Hyde. Não se pode confiar nas pessoas, mesmo quando juram por tudo que é sagrado de que vão liquidar alguém. Pessoas comuns, quero dizer, Leigos. Por isso eu lhe pedi para vir até aqui. O senhor é realmente um assassino profissional de confiança.

— Essa é a minha profissão, Mr. Morley — disse Hyde. — Essa é a profissão de um MERC.

— Eu fico orgulhoso e feliz em conhecê-lo, Mr. Hyde. — Morley trouxe uma chapa elétrica para manter quente o bule. — Se existe alguém que pode dar um jeito nessa história horrenda, esse alguém é o senhor. Eu logo vi. Graças aos céus! De fato, uma coisa realmente horripilante.

Ele pegou uma das revistas que se encontravam à sua frente. Eram grossas publicações encadernadas, impressas no melhor papel, com fotos coloridas, mesmo nas páginas internas, e recordavam revistas pornográficas, do gênero caro e exclusivo. O gritante título em vermelho indicava MERCENARIES e o subtítulo, na mesma cor, era THE JOURNAL OF PROFESSIONAL ADVENTURES ou, em português, o jornal dos aventureiros profissionais. A página de rosto do caderno que Morley segurava na mão mostrava três desses mercenários, fortemente armados e com capacetes de aço, no momento em que faziam, em escadas de gancho, a abordagem de um edifício de cujo interior disparavam terríveis línguas de fogo cor de laranja. À esquerda, cabeçalhos impressos em cor, informavam sobre os temas contidos no número: EXCLUSIVO: NOSSOS HOMENS EM HONDURAS — AFINAL: A HISTÓRIA DO SAS — A LEGIÃO NA SÍRIA — A CORÉIA AGUARDA NOVA GUERRA — MERCS NO LÍBANO — CHARADA DO VIETNÃ — POMOS ANGOLA EM ORDEM — O MESTRE DOS MERCS NA FRANÇA — MATAR PARA A LÍBIA — ATAQUE NOTURNO EM CUBA.

Cento e oitenta páginas! anunciava a capa em amarelo penetrante. O exemplar custava três dólares, no Reino Unido, uma libra e setenta e cinco. Esse e os outros cadernos transbordavam de sanguinárias descrições de mercenários em ação nos mais variados teatros de guerra, honradas e respeitáveis séries sobre superfamosos ou temíveis mercenários e com precisas indicações ensinando as mais rápidas, pavorosas e temerárias maneiras de matar uma pessoa. Em outros artigos, os autores empregavam os mais puros epítetos para as arrebatadas descrições de novas armas, entre as quais também aquelas de que qualquer particular se poderia (ou deveria) munir: fantásticas pistolas automáticas de tiro rápido, pistolas de grosso calibre com nove milímetros, granadas de mão, projéteis com gás irritante, e preciosidades como as imitações oficialmente autorizadas dos estiletes utilizados pelos fuzileiros americanos em ataques de surpresa (atravessam a carne como se penetrassem em nata), mas limitados no mundo todo a duas mil e quinhentas unidades.

A metade do caderno era tomada por anúncios — em parte camuflados sob a forma de notícias horrendas — nos quais mercenários de muitas nações testemunhavam pessoalmente que deviam suas vidas a um determinado helicóptero de combate, blindado de assalto ou fuzil com telescópio para visão noturna. Muitas páginas pareciam particularmente discretas, Nelas, mercenários eram procurados por clientes anônimos, e mercenários que no momento se encontravam desocupados ofereciam seus serviços.

Podia-se ler ali, por exemplo:

MERCENÁRIO PARA ALUGAR. Para todos os fins. Em qualquer parte. Assassinato inclusive. Não se preocupe, ele acerta as contas. Trabalha sozinho. No mais curto prazo. Toda confiança. Não deixa vestígios. Para: SKIPPER, Caixa Postal 546455, SURFSIDE, FLÓRIDA 33154.

Ou:

EX-TENENTE DA MARINHA. Veterano do Vietnã, pára-quedista, procura serviço. Oferece proteção pessoas e propriedade. Segurança. Ajuda rápida. Operações secretas de salvamento. Para: MALDONADO, Caixa Postal 267, COLBY, KANSAS 67701.

Ou:

BUSCO EMPREGO. Veterano sudeste asiático 66-70, com ações internacionais e experiências correspondentes. Instrução, seqüestro, ação de combate e serviço de correio. Começo imediato. Para: VGA, Caixa Postal 309, SCHENECTADY, NY 12301.

O advogado Morley havia encontrado o que procurava. Encarou seu interlocutor, sorriu com seu sorriso de bebê e leu em voz alta:

“NAMVET para serviços de alto risco. Trabalha para governos, pessoas físicas ou organizações- Garante perfeita eliminação de objetos e/ou indivíduos. Faço tudo. Em qualquer parte. Diga o que precisa. Eu resolvo. Falo alemão, espanhol e francês fluentes. Também problemas militares e políticos. Para: COPLAND. Caixa Postal 41051, CHICAGO ILLINOIS 60641.

Na cozinha, a chaleira começou a apitar. Morley se ergueu, correu para o fogão e colocou a chaleira sobre uma outra chapa. Depois, com uma colherinha, pôs várias porções do Highbrown Darjee no bule de prata aquecido e derramou água fervente sobre as folhas pretas do chá e também numa outra vasilha sem tampa. Enquanto isso, dizia:

— Copland é o senhor, Mr. Hyde, Nam-Vet; veterano do Vietnã. E sobre o senhor recaiu finalmente a nossa escolha. Precisamos esperar que a infusão se complete. Eu não lhe quero ocultar que também consideramos alguns de seus colegas. O senhor possuía de longe o melhor currículo. E seus conhecimentos de idiomas foram decisivos. Tive conhecimento das operações de que o senhor já participou. Confesso que muitas coisas tive de ler duas vezes. Bastaria o que o senhor fez em Beirute. No massacre de Chatilla. Que o senhor tenha saído vivo dali!

— Sorte — disse Hyde modesto. — Também somos chamados de “Cavaleiros da Sorte”. Sim. agora que já nos conhecemos, Sir, em que lhe posso ser útil? Quem são os meus empregadores? Tenho a impressão de que se trata de um governo.

— Sua impressão é inteiramente acertada, Mr. Hyde. Trata-se dos governos dos dois mais poderosos Estados do mundo.

— Se bem estou entendendo, deles recebo em conjunto uma incumbência?

— Perfeitamente correto, Mr. Hyde. Pavorosa, essa neve. Ouça só como uiva a tempestade! Olhe só pela janela! — Já há muito estava escuro lá fora. Duras pancadas batiam contra as vidraças. - O trânsito vai sofrer um colapso. Felizmente eu habito neste mesmo prédio. Penso que à noite ainda verei televisão. Patinação no gelo. Ah, como eu gosto! Posso ficar olhando durante horas. É, exatamente os Estados Unidos e a União Soviética. — Morley empurrou diversas fotos brilhantes por cima da mesa. — Primeiro se trata desse homem. Hoje se chama Eduardo Olivera. Antigamente seu nome era Georg Ross.

— Antigamente, quando?

— No tempo dos nazistas. Até 1945. Esta aqui é sua enteada, Mercedes Olivera, trinta e três anos. A mãe, falecida desde 76. E este é Daniel Ross, filho de Georg Ross. Vive em Frankfut-do-Meno, Alemanha Ocidental. Mercedes, a enteada de Rosa, foi buscar o filho no dia 16 de fevereiro, portanto, há quatro dias, para levá-lo a Buenos Aires. Seu pai tem em vista vender um vídeo-filme para a televisão. Esse filme não deve jamais ser posto no ar. Ninguém pode ter conhecimento de seu conteúdo. Eu acho que o chá já está pronto. — Morley foi à cozinha com passinhos miúdos e voltou com os bules em cima de uma bandeja de prata, que colocou no meio da escrivaninha. — Em primeiro lugar, por favor, meu caro Mr. Hyde, sirva-se do açúcar-cande! Um ou dois cubinhos, conforme desejar. Aí está uma pinça. Sempre o açúcar em primeiro lugar, só depois o chá. Queira segurar o coador! Assim está bem! E agora, se o senhor me permitir... — Morley encheu a xícara que se achava diante de Hyde quase até em cima. — Acrescente somente um pouquinho de água quente, porque nesse grau de concentração o sabor moscatel será mais suave... E passou a preparar o seu chá, depois de se haver servido de três cubinhos. — Gosto muito de doce.

— Por que ninguém deve tomar conhecimento do conteúdo desse filme, Mr. Morley? — Hyde mexia seu chá.

— Seria uma catástrofe, Mr. Hyde.— Morley sentou-se.

— Para os Estados Unidos ou para a União Soviética?

— Talvez para ambas. — O advogado pegou o gravador, dentro do qual se achava um cassete. — Aqui está uma gravação clandestina da conversa dessas três pessoas na biblioteca de Olivera em sua casa na Rua Céspedes, 1.006, no bairro de Palermo, Buenos Aires. Essa conversa foi gravada, por assim dizer, erroneamente por alguém que tinha uma missão inteiramente diversa. Vou explicar-lhe depois. O equipamento de escuta deve ser dos mais modernos do mundo. Com cassetes especiais. Em Washington tiveram de passar essa conversa, da forma mais complicada, para um cassete normal. É melhor ouvirmos a conversa, Mr. Hyde. Depois, muitas de suas perguntas vão se revelar supérfluas.

O advogado pressionou o botão de reprodução. Soou a voz de Eduardo Olivera: — . . - Você agora vai assistir a um filme, Daniel, Esse filme se passa em Teerã, a capital do atual Irã...

O advogado havia preparado um outro bule de chá, trocado as xícaras e o coador e, enquanto servia, ele disse:

— O senhor é uma pessoa inteligente, Mr. Hyde. O senhor ouviu a voz do narrador do filme. Realmente uma escolha excepcional a sua quando preferiu o Highgrown Darjee A voz do narrador e os comentários da moça e de Olivera a propósito dos diversos pontos do protocolo bilateral secreto. Mesmo que o senhor não conheça o protocolo na íntegra, pelo menos já sabe do que ele trata.

— Exato, Mr. Morley.

— É claro que teoricamente o senhor poderia deixar escapar uma palavra a respeito do assunto com alguém, Mr. Hyde. Acho que não deveria colocar mais água para diluir. Por causa do sabor de moscatel. Uma hora mais tarde, o senhor seria um homem morto.

— Não sou nenhum idiota, Mr. Morley. Meu quociente de inteligência é da ordem...

— ... de cento e trinta e dois, eu sei.

— De onde? Ah, claro, sua verificação.

— Conheço tudo a seu respeito, Mr. Hyde. Sobre sua saúde. Sua vida privada. Sua atividade até agora. As doenças de infância. Pois o senhor esteve no Exército. Dele o Serviço Secreto americano recebeu todas as informações de que ainda não dispunha. O resto veio do banco de dados dos dois grandes.

— Eles têm um banco de dados comum? Disso eu não sabia.

— Só o têm há cinco anos. Os tempos vão se tomando cada vez mais explosivos. Por isso, as duas superpotências precisam saber em conjunto o que planejam terceiros em termos políticos e militares. E sobre pessoas. Pessoas são mais perigosas do que ogivas nucleares. É o que há de mais perigoso. Para preservar a paz, faz-se necessário conhecer as pessoas. Não todas. Mas muitas: Idealistas, ideólogos, fanáticos. Militantes pacifistas. Militares. Pessoas como o senhor. Formidável o chá, não é?

— Excelente, sim. O senhor sabe, eu acho que essa história é uma invenção.

— Seu quociente de inteligência, Mr. Hyde! — Morley estava encantado. — Seu QI! É evidente que esse filme é forjado! Mas o senhor está vendo que o consideram verdadeiro. — Mexeu o chá dentro de sua xícara. — Preste atenção: em mil novecentos e setenta e nove, há cinco anos, morreu em Buenos Aires um certo Paulo Klein. Judeu alemão, cujos pais, juntamente com ele, emigraram da Alemanha em trinta e quatro. Seu pai herdou um grande laboratório copiador de filmes em Buenos Aires, que por sua vez o filho herdou. Quando Paulo Klein já se encontrava há seis meses no Hospital Dr. Zubizareta, com câncer no estômago e metástase por todo lado, pediu aos médicos que lhe mandassem um homem da Embaixada americana. Nenhum figurão. Um homenzinho que não chamasse atenção. Então um secretário foi lá. Chamava-se Maltravers. Timothy Maltravers. E a esse Maltravers, Klein contou que, cinco anos antes, em junho de setenta e dois, tinha copiado em segredo, um velho filme de trinta e cinco milímetros, com seiscentos metros de comprimento, para três cassetes de vídeo. Para um amigo...

— E como se chama o amigo? — perguntou Timothy Maltravers. Ele tinha vinte e oito anos de idade, era magro e usava óculos de lentes bem fortes.

— Isto eu não vou lhe contar — explicou Paulo Klein, que acabara de completar cinqüenta e cinco anos de idade. Jazia numa cama no último quarto de um comprido corredor no setor de cancerologia do Hospital Dr. Zubizareta, na Avenida Lincoln. Klein linha sido um homem de grande estatura e muito forte. Agora se achava extremamente magro, só pele e osso. Parecia ter apenas dez anos de idade. Principalmente sua cabeça parecia minúscula. Sua pele tinha a cor amarelo-pálida. Assim que Maltravers chegara, ele lhe mostrou de que modo as radiações da bomba de cobalto lhe haviam destruído a pele. Horrorizado, o jovem americano viu uma cratera rasa do tamanho de um prato, de um negro violáceo, que se destacava na barriga de Klein quando este levantou o lençol. Faixas de gaze encobriam a pele queimada. Um forte mau cheiro impregnava o quartinho cuja estreita janela se abria para o pátio. Era o fedor da doença de Klein. A carne queimada fedia. Maltravers respirava pela boca.

— Estou fedendo, não é? — perguntou Klein. Suas pupilas estavam diminutas. Falava com voz rouca. As cordas vocais e a laringe também haviam sido acometidas.

— Mas não...

— Estou sim, eu sei. Malditas radiações. Estou apodrecendo vivo. É, não vai mesmo durar muito tempo. Já me deitaram aqui no quarto da morte.

— Mas que bobagem é essa!

— Ponha logo o seu lenço diante do nariz. Bobagem coisa nenhuma. Esses quartos pequenos, no final de um corredor são os quartos onde se morre. Quem me disse foi a enfermeira da noite. Uma enfermeira muito burra. É daí que eu sei. Vamos, pegue seu lenço! A janela permanece aberta dia e noite, mas o mau cheiro não vai embora...

Essa havia sido a saudação de chegada.

Maltravers estava sentado em sua cadeira junto à cama, segurando realmente um lenço à frente da boca.

— E como se chama seu amigo? — perguntou.

— Isso eu não lhe direi — explicou com sua voz rouca o emagrecido e esquelético Klein. — Eu lhe direi o que havia no filme... o que há... — E contou-o a Maltravers, cujo rosto permaneceu imóvel.

— É algo forjado, naturalmente — disse ele por fim.

— Não, o filme é verdadeiro!

— Impossível.

— Ah, o senhor, evidentemente, nada sabe de sua existência, é claro. — Klein tossiu. — Da existência só sabem algumas pessoas no Kremlin e em Washington. Não me conteste! Eu só disponho de pouco tempo. E falar me exige muito esforço. Meu amigo é alemão, como eu. Quero dizer: éramos ambos. Meus pais eram de Munique. Ali eu nasci. Em mil novecentos e trinta e quatro fugimos da Alemanha. Em Lisboa recebemos um visto de entrada americano. Assim foram salvas as nossas vidas. E é por isso que eu lhe conto que há cópias desse protocolo secreto. Para que seu país saiba da traição que ali foi cometida em quarenta e três.

— Sr. Klein, eu lhe juro que não existe esse tal de protocolo secreto.

— Meu jovem, quem é o senhor? Secretário na Embaixada. Como é que logo o senhor quer saber se tal protocolo existe não? Não comece de novo com isso! Preste atenção ao que eu digo! Cada minuto conta. Não agüento mais por muito tempo.

— Desculpe-me, Sr. Klein — disse Maltravers e apertou o lenço com mais força contra o nariz. Eu tampouco agüento por mais muito tempo, pensou ele. Pobre-diabo. Mas esse cheiro...

— Está bem. — Tosse. — Veja: aquele homem, meu amigo, foi nazista muito importante. Ele mesmo me confessou com toda a franqueza. O serviço secreto nazista, no fim da guerra, ficou de posse de uma cópia desse filme. Um americano se tornou traidor e deve ter recebido muito dinheiro. Em todo caso, a cópia é verdadeira! Além do mais, nem acho que a coisa seja tão terrível assim. Todo mundo vive exigindo que os dois grandes se ponham de acordo. Pois muito bem, eles já estão de acordo desde quarenta e três. Pelo menos, jamais haverá uma grande guerra atômica.

— Sr. Klein...

— Não me interrompa! Os nazistas receberam o filme tarde demais para ainda poderem utilizá-lo para fins de propaganda. Já estavam quase vencidos. Ninguém na Alemanha, nos territórios ainda ocupados ou no exterior em posição de neutralidade teria acreditado que o filme era verdadeiro. Embuste! teriam todos gritado.

— Mas se trata mesmo de... Perdão, Sr. Klein. Prossiga, por favor!

— Prossiga... — O homem na cama arquejava. — Portanto, na guerra, os nazistas não podiam mais utilizar o filme. Muito bem, disseram eles, nós afundamos mas o mundo inteiro pertencerá ao nacional-socialismo por ocasião da segunda arrancada. Assim me explicou meu amigo.

— Segunda arrancada?

— Sim, Mr. Maltravers. Os nazistas, ao fim da guerra, mandaram meu amigo com o filme para cá. Documentos falsos, tudo obviamente preparado. Ele deveria esperar até que a ordem viesse, e, então, exibir o filme a jornalistas internacionais. A idéia era que às pessoas não agradaria serem agora escravas dos americanos ou dos soviéticos, todos se sublevam — o mundo inteiro se torna marrom, a cor do nazismo. — Klein tossia fortemente. Quando o fazia, virava a cabeça para o lado.

— Mas por que seu amigo não fez isso então?

— Porque ele se tornou um outro homem.

— Tornou-se o quê?

— Uma pessoa inteiramente diferente. Logo depois da chegada aqui. Nada sabia dos crimes nazistas. Era um idealista. Então descobriu a verdade. Ficou inteiramente transtornado. Crises nervosas. Clínica. Realmente! Eu o conheci em setenta e três, numa recepção. Pois nós fugíramos primeiro para Nova lorque, não é mesmo? Meu pai herdou uma firma copiadora de filmes, aqui na cidade. Então viemos para cá em cinqüenta e dois. Em sessenta, perdi meus país. Ambos em um ano. Eu me sentia muito solitário. E esse homem, que conheci em 73, agradou-me. Um alemão — como eu. Eu tinha saudades da Alemanha. O senhor sabe, não é, nós judeus...

— Os senhores se conhecem há seis anos?

— Sim. Há seis anos nos conhecemos. Naquela época, há muito ele já tinha se tornado um outro homem. Senão eu nem poderia ter feito amizade com ele, não é mesmo? O senhor está se sentindo mal, estou vendo. Mas não vá ainda não! Quem sabe se ainda estarei vivo amanhã.

— Fico aqui o tempo que o senhor desejar.

— Obrigado, meu jovem. Deus o protegerá! Meu amigo, desde há muitos anos, tentou fazer reparações. Fez doações. A organizações judaicas. A Israel. Aos hospícios de lá. O senhor sabe que em Israel, em proporção ao tamanho do país, há mais hospícios do que em qualquer outro país do mundo? E continuamente precisam construir novos. Tudo superlotado. Gente mais velha, gente idosa, que sobreviveu ao holocausto, aos campos de concentração. Depressões, psicoses, os piores padecimentos da alma — só agora é que estão saindo. Bem, e meu amigo deu uma verdadeira fortuna. Como posso traí-lo?

— Mas por que o senhor está me contando tudo isso?

— Porque a situação do mundo está muito ruim. Estamos tão próximos de uma guerra nuclear. Meu amigo tem o velho filme. Tenho medo de que ele o mostre. Não como nazista. Como alguém que abre os olhos das pessoas, que quer salvar a paz! Todo o mundo agredirá os Estados Unidos e a União Soviética. E isso eu não quero. É evidente que não quero a guerra atômica, mas também não quero que as pessoas digam que os americanos são criminosos. Não, eu não posso morrer quando imagino que as pessoas dirão isso. Os americanos salvaram minha vida e a de meus pais —. Poderei esquecer isso? Com os soviéticos e os ingleses triunfaram sobre os nazistas. Também não posso esquecer. Estou num dilema. Eu disse para mim mesmo: os americanos e os soviéticos têm, pelo menos, de saber que alguém tem a cópia desse filme. Para que não estejam despreparados quando meu amigo mostrar as cópias. Para que possam tomar providências. Para que montem uma prova de que o filme foi forjado pelos nazistas.

— Por Deus, ele foi...

— Pst, Pst. Não conteste! O filme é verdadeiro. A cópia também. Assim jurou meu amigo pela vida sua filha. Acredito nele, quando jura assim. O senhor não o faria? Está vendo!

— Sr. Klein, que foi feito do original do filme, o de trinta e cinco milímetros?

Klein tossiu novamente.

— Ele é boa pessoa. Mas pode ser perigoso para os americanos. E os americanos também são boa gente. Ajudaram com vistos a tantos judeus e outros que estavam na maior dificuldade... — Súbito, Klein cuspiu sangue. Jorrou de sua boca como um jato.

Fora de si de terror, Maltravers precipitou-se para o corredor.

— Um médico! — gritou. — Um médico! Rápido, um médico!

— Ainda levou uns três dias até que ele morresse, o pobre sujeito — disse o advogado Roger Morley. — Maltravers relatou imediatamente na Embaixada o que Klein lhe havia contado. Eles levaram a coisa a sério. Horas depois sabia-se de tudo em Washington e Moscou. No enterro de Klein havia um monte de agentes. Fotografaram todos os presentes. Todos foram identificados. Resultado: zero. Nenhuma das pessoas que estavam no cemitério judaico era o “amigo” de Klein.

— Conclusão: o homem não foi ao enterro. A filha, também não — disse Wayne Hyde.

— Correto. Aí nós começamos a levar a coisa terrivelmente a sério.

— Nós?

O advogado que parecia haver saltado de dentro de um romance de Dickens sorria.

— Cheguei ao ponto de representar alguns órgãos de Washington. Desde então eu dirijo a pequena organização.

- Que organização?

— Logo direi. Veja, em Buenos Aires e Israel continuou-se a pesquisar. Ninguém na cidade de dez milhões de habitantes doara dinheiro para hospícios em Israel. Para judeus, sim. Para Israel também. Para todas as instituições imagináveis, mas não para asilos de loucos. Portanto, o amigo de Klein havia mentido. Adiante: perguntamos a todos os outros amigos de Klein a respeito do tal homem. Ninguém o conhecia. Ele era, portanto, um amigo muito cuidadoso, que nunca veio à casa de Klein. Devem haver-se encontrado na casa desse amigo ou em um terceiro lugar.

— E os parentes de Klein?

— Ele não tinha mais parentes. Nunca se casou. Vivia sozinho. Foi sepultado ao lado dos pais. E não há dúvida de que ele, em seu dilema de lealdade, disse a verdade a Maltravers. Podia-se partir desse pressuposto.

É mesmo? pensou o seco e alto Hyde, com seu rosto curtido pelo tempo. Verdade? O que é a verdade?

— O senhor precisa refletir, meu caro — prosseguiu o advogado — que os Estados Unidos e a União Soviética se encontraram realmente em uma situação desagradável. E se encontram. Seus esforços em matéria de armamentos se tornam cada vez mais desvairados Cada vez fica maior o medo das pessoas. Cada dia mais fortes os movimentos pacifistas. Preciso descrever-lhe o que acontece se o filme que o pobre Klein copiou em vídeo for irradiado por exemplo, hoje à noite, para todo o mundo pela televisão? Simplesmente inimaginável!

— Por quê? Pois se foi uma peça forjada pelos nazistas para um objetivo inteiramente diverso?

— Disso sabe o senhor, e eu, e o homem que possui as cópias. Mas os milhões de pessoas que assistissem ao filme hoje à noite, não o saberiam. É evidente que Washington e Moscou explicariam imediatamente que se trata de uma invenção. E daí? As pessoas não iriam acreditar neles. E mesmo que houvesse alguns que acreditassem, onde está a diferença? O que o filme mostra é possível e todo mundo iria dar curso às suas próprias reflexões. Também os soviéticos e americanos. Em outras palavras: não tem a menor importância se o filme é um embuste ou não. Não tem a mínima importância. E, por isso mesmo, ele jamais deverá ser mostrado! Foi também por isso que Washington e Moscou criaram sua pequena organização. É uma organização “tomara-que-funcione”.

— Que quer dizer isso?

— Bem, tudo o que nós sabíamos, era: em Buenos Aires mora um ex-nazista alemão de alto coturno, que possui três vídeo-cópias desse filme. E uma filha. Paulo Klein, o pobre sujeito, tinha o temor de que o desconhecido, nestes tempos de overkill (Quantidade de armamentos nucleares capaz de destruir várias vezes a humanidade. (N. do R.)e de superarmamentismo viesse a público e mostrasse o filme. Quando? Ninguém poderia dizê-lo. Era possível qualquer dia. Por esse motivo criou-se a organização. Limitava-se principalmente a Buenos Aires. Lá, um grupo de homens seguia, obedecendo às minhas indicações, todos os indícios. Ficou atento por anos a fio ao menor sinal com o que um homem dentre dez milhões poderia tornar-se suspeito. O senhor não pode imaginar quantos milhares de rastros esses homens não seguiram. Tudo em vão. Por todos os lados apenas alarmes falsos. Simultaneamente, as duas superpotências verificaram que nesses tempos. em que são cada vez mais temidas e odiadas, se fazia necessário criar instituições onde pudessem facilmente vir a saber de coisas de interesse para os dois lados. Isso está claro?

— Cristalino.

— Essas instituições são, por exemplo, clínicas particulares. Há em toda a Europa, inclusive no bloco oriental, sanatórios particulares, pretensamente construídos com o dinheiro de um milionário americano chamado Kingston. Eles dão lucro, a despeito de seus altos custos, ao contrário de hospitais do Estado. Os chamados sanatórios Kingston servem, em primeiro lugar, para receber informações sobre os pontos de vista e maneiras de pensar de políticos de alto nível e militares, mas também de personalidades do campo cultural, sobre seu estado de saúde, sua atividade, seus segredos. Esses sanatórios foram além disso instalados como esconderijo e quartel de agentes, e outros agentes (médicos, pessoal de laboratório e enfermagem) são responsáveis pelo seu funcionamento. Um instituto e um agente dessa natureza encontram-se também nas proximidades de Heiligenkreuz, uma pequena localidade nos arredores de Viena. Como todos os agentes nesses sanatórios, também ele sabia da história desse filme. Há anos. Finalmente agora tivemos sorte. — Morley bateu com um dedo sobre a foto de Daniel Ross. — O filho!

— O quê, o filho?

— Olivera enviou a filha à Europa para buscar o filho. Ele trabalha na televisão.

Hyde assoviou por entre os dentes.

— Isto é, ele não está mais na televisão, foi posto para fora. É viciado em medicamentos. Mal consegue ficar em pé. É apegado a um antigo amor, que já o ajudou algumas vezes, uma certa Dra. Sibylle Mannholz. Ela trabalha no sanatório Kingston, em Heiligenkreuz. Daniel Ross lhe telefonou porque precisava de seu auxílio, a fim de suportar o vôo até Buenos Aires, antes de ir tratar-se com ela.

— Tudo isso o senhor sabe por intermédio dessa Dra. Mannholz?

Morley riu.

— Não, de seu chefe. Esse é nosso agente. Ouviu a conversa.

— E essa Mannholz nada teve contra?

— Não.

- Como não?

— Existem motivos — disse Morley.

— Oh — disse Hyde.

— O filho e a enteada já foram seguidos durante o vôo para a Argentina. Descobrimos, então, onde mora o pai e como ele se chama. Mas algo bem maluco veio ainda em nossa ajuda. Olivera foi espionado. Conforme sabemos hoje, por incumbência da última Junta Militar. Nossos jovens amigos em Buenos Aires capturaram três cassetes, enviaram-nos para Washington, onde foram repassados para cassetes normais. Dois deles contêm conversas com políticos. O terceiro, sobre o qual está a conversa que Olivera manteve com seu hóspede, o senhor ouviu agora mesmo. Agora chegou a sua vez, Sr. Hyde. O senhor tem armas, proteção, documentos, esconderijo e o resto, em outros países?

— Não precisa se preocupar — disse o mercenário. — Gente como eu existe por toda parte. Nós também temos nossa rede. Eu não posso, por exemplo, viajar com uma arma. Desse modo recebo em cada país exatamente aquilo de que necessito.

— Bem, isso é então por sua conta.

— Haveria também o pagamento.

Morley riu.

— Certamente. Quase ia esquecendo. Quanto é?

— Cinco milhões de dólares a serem depositados numa conta numerada na Suíça.

— Isso não é um pouco...

Hyde se levantou.

— Agradeço-lhe pelo chá. Foi um prazer havê-lo conhecido.

— Mas fique sentado, caramba! Cinco milhões. Bem. Afinal o senhor não arrisca sua vida apenas uma vez.

— A metade é transferida imediatamente. A outra metade, quando eu me afastar do negócio. — Hyde ergueu sua voz. — E por sinal, independente do fato de eu haver satisfeito todos os seus desejos. Tento liquidar tudo conforme previsto. Pode ser também que chegue um momento em que o senhor ache que a partida está perdida e que eu deva me retirar, embora não tenha terminado completamente o serviço. Em ambos os casos, a segunda metade é considerada vencida. Caso o senhor não pague ...

— Não! — disse Morley e olhou cabisbaixo para seus reluzentes sapatos.

— O que não?

— Não ameace, por favor! Compreendo sua exigência. O senhor corre um grande risco. Nós também teremos de correr. — Morley deu a Hyde três grandes envelopes. — Aqui estão todos os dados que obtivemos a respeito dos três — Olivera, filho e enteada. Coisas pequenas e grandes. Terá uma imagem perfeita. Leia tudo até que saiba de cor, depois destrua os papéis, antes de deixar Londres!

Hyde empurrou-lhe um papelucho.

- Este é o número da conta na Sociedade de Bancos Suíços, em Zurique. Depois de amanhã de manhã eu telefono para lá. Se os dois milhões e meio ainda não estiverem depositados na conta, tomo o avião de volta para Chicago.

— Eles estarão na conta — prometeu Morley. Abriu em seguida a gaveta da escrivaninha e retirou um objeto em um invólucro de plástico que parecia um pequeno aparelho elétrico de barbear.

— O que é isso? — indagou Hyde.

— Isto é um decodificador de bolso — disse o rosado advogado.

— Pode usar um decodificador desses para regular o aquecimento numa casa de férias, por exemplo. — Ele se ergueu. — Venha até aqui! — Morley encaminhou-se para uma caixa cinzenta e achatada que estava sobre uma mesinha. — E isto aqui é uma secretária eletrônica. Para meu número secreto que eu vou lhe dar. — E estendeu a Hyde um cartão. — Decorar e destruir o cartão! — Hyde assentiu.

— Olhe aqui! — Morley deslocou a caixa, cujo verso tornou-se visível. — Aqui atrás se acham três interruptores rotativos que o senhor poderá, à vontade, colocar cada um em cinco posições. Coloque uma vez! Mas não duas posições iguais uma ao lado da outra!

Hyde girou os três interruptores para posições entre um e cinco.

— Bem — disse Morley. — Agora, abra seu decodificador! Aperte no meio e ele se abre em dois.

Hyde apertou. O aparelho se abriu em duas metades. Uma delas possuía, só que menores, três interruptores análogos aos da secretária eletrônica.

— Agora ajuste os interruptores nas mesmas posições da secretária eletrônica.

Hyde obedeceu.

— Feche o aparelho! Assim.

— E agora?

— E agora está tudo pronto. O decodificador é alimentado por uma bateria de quinze volts. O senhor pode agora voar para Tóquio, Johannesburg ou o Rio de Janeiro, simplesmente para qualquer lugar do mundo. Se o senhor, o que deverá ser freqüentemente o caso, quiser entrar em contato comigo, procure qualquer telefone, disque o número secreto e segure o decodificador com a parte superior preta diante do microfone do bocal. Primeiro vem o meu prefixo. Depois um tom de apito. Em seguida, aperte este botão preto do seu decodificador. Agora ouvem-se três sons que variam segundo a programação do decodificador e que meu aparelho de resposta reconhece, pois está programado do mesmo modo. Com isso, meu aparelho estará pronto para gravar sua mensagem, a qual (não se espante!) em hipótese nenhuma poderá ser interceptada.

— O senhor quer dizer...

— Sim, Sr. Hyde! Meu aparelho evidentemente dispõe de um misturador. Seu pequeno decodificador — e isso é que é interessante! — também tem um. Está à venda há um ano. Um milagre da técnica, não é?

— É, sim.

— Coisa maravilhosa! — entusiasmou-se Morley. — É preciso que o senhor possa falar comigo de qualquer parte. Aí, um minúsculo misturador de vozes dentro do decodificador vale ouro.

— Ouro puro — disse Hyde.

— O senhor poderá dizer-me tudo o que lhe vier à cabeça e eu depois escutarei. Mas isso também funciona às avessas: Eu tenho uma mensagem para o senhor. OK, eu registro na fita. O senhor chama o telefone secreto, segura seu decodificador junto ao bocal, aqui em Londres a fita retrocede depois que o decodificador reconheceu seu sinal, e o senhor pode ouvir de qualquer parte do mundo o que eu falei na fita. Naturalmente que os interruptores, se assim o desejarmos, a qualquer momento poderão ser dispostos de outra forma mas sempre se correspondendo. — Bateu na caixa.

— Eu já lhe disse que moro nesta casa. Estarei praticamente sempre perto do aparelho, enquanto correr o caso. Penso que isso é tudo.

— Onde se encontram agora Daniel Ross e Mercedes Olivera?

O advogado olhou para um antigo relógio de bolso que havia tirado do bolso do paletó e cujo tempo fizera saltar.

— Agora são 19h30m. Em Buenos Aires ainda são 16h30m. Entre Londres-GMT e lá há uma diferença de três horas. Entre o continente e lá são quatro horas de diferença. Ross e Mercedes voam hoje às 20h, hora de Buenos Aires, com um Jumbo das Aerolineas Argentinas, partindo de Ezeiza. Estas são as minhas últimas informações. Chegam amanhã às 17h25m, hora da Europa central, ao aeroporto de Frankfurt. Ross precisa seguir urgente para o sanatório em Heiligenkreuz. Aqui está um papelzinho com os nomes da médica e do médico, o endereço e o telefone da clínica. Esse Dr. Herdegen merece toda sua confiança. Ele dirá tudo o que o senhor precisa saber.

— Sabe se os dois vão voar diretamente de Frankfurt para Viena?

— Penso que não — disse Morley. — Eles têm dois dos três videocassetes consigo. O terceiro se encontra, conforme ouviu — e indicou o gravador — num cofre do banco, para proteção de Olivera. Os dois marcaram viagem até Frankfurt porque certamente vão querer pôr os dois cassetes em lugar seguro, antes de seguirem viagem até Viena. Esta seria a sua primeira grande chance, Mr. Hyde. Segundo o boletim de meteorologia, a queda de neve deverá cessar hoje à noite. Há diversos aviões diários entre Londres e Frankfurt, o primeiro já de manhã, bem cedo. O senhor dispõe de tempo suficiente.

— Na hipótese de não continuar a nevar e de o aeroporto não estar fechado — disse Hyde.

— Isso, por sinal, poderia interferir — disse Morley. — O senhor há de ter sorte, como “Cavaleiro da Sorte”! Pernoite aqui comigo e poderemos assistir juntos à patinação no gelo!

— Prefiro ir para um hotel.

— Como desejar. Nesse caso, eu lhe aconselharia o RICHMOND. É pequeno e agradável, além de ficar bem perto daqui.

— Obrigado. E obrigado também pelo chá!

— Oh, por favor! Fico satisfeito em saber que gostou. Nós nunca mais nos veremos, Mr. Hyde. Permita-me que lhe dê um presente. E lhe deu uma lista impressa no melhor papel feito à mão. — Aí o senhor encontra informações sobre meus chás preferidos. China smiokey. Finest Colong. Queen’s Tea. E por aí vai. Simplesmente notáveis. O senhor vai ver.., ah, sim, Mr. Hyde, ainda uma coisa!

— Sim, por favor?

— Nós estamos muito contentes em tê-lo ganho para nossa tarefa. Entretanto, caso no curso de seu trabalho tenha dificuldades com funcionários governamentais ou com a polícia, nem eu nem quem quer que seja da Organização teremos a menor idéia de quem seja o senhor. Seria em vão apelar para nós. Não deve contar com a mínima ajuda, minha ou de quem quer que seja.

Hamburgo está ocupada pelo Exército Vermelho, Hanôver também — os soviéticos vieram pela Dinamarca, penetraram em Schleswig-Holstein, conquistaram Lübeck e Kiel. Somente atrás do rio Weser é que forças armadas da OTAN montam posições de defesa para a região do Ruhr.

— O mapa — disse o menino com sardas e cabelos louríssimos. Usava calças curtas e uma camisa solta. Ao lado de seu pai, um gigante também em mangas de camisa e com rosto bem vermelho, estava ele sentado na seção média, na primeira fila de poltronas da classe turista, justo em frente a uma das telas de projeção. O Boeing 747. E. da Aerolineas Argentinas, saído de Buenos Aires às 20h, hora local, já estava voando há cerca de quarenta minutos, com apenas metade de sua lotação. Através das janelas à esquerda, vinham os raios do sol poente.

Sobre o assento vazio que ficava entre eles, pai e filho haviam armado um tabuleiro desdobrável. Nele estava impresso um mapa da Europa. Faziam parte do jogo uma série de peças de plástico em forma de pequenas coroas de fogo, tanques, foguetes e aviões, todas em cores bem vivas. Entre o pai e o filho estava, meio encoberto, um pacotinho com cartas, O menino lourinho havia tirado uma.

— Que bom — disse ele. — Três, coroa.

— Droga — reagiu o pai.

— Você já está vendo o que vai acontecer, Dad — disse o Júnior. — Sinto muito. Agora chegou o momento das nukes. (Abrev. popular de “Nuclear Weapons” — Armas nucleares (N. do R.) — Com foguetes que se encontravam estacionados na região da Polônia e da RDA, ele investiu contra as vizinhanças das cidades de Dortmund, Essen e Duisburg. Seus foguetes de plástico eram amarelos, os do pai, verdes, O guri instalou as coroas de chamas vermelhas junto aos foguetes movidos. Percebeu que Mercedes e Ross, que estavam sentados à mesma altura na seção da esquerda, observavam o jogo. — Eu elimino as rampas dos Pershing e dos mísseis Cruise ao redor das cidades — explicou ele. — Vocês falam inglês, não? Okay. Isso é o mais importante, estão sabendo? Sempre as rampas de lançamento em primeiro lugar. Estão entendendo?

— Estamos — disse Mercedes.

Daniel nada disse. Estava muito pálido.

Junto a ele, no lugar da janela, estava sentado um velho sacerdote de hábito branco. Dava a impressão de estar perturbado. — Ó Deus onipotente — murmurou.

O pai riu para Mercedes e Ross. Tinha olhos simpáticos.

— Que acha desse guri espertinho, madame? Só tem onze anos. Mas tem uma cabecinha. Até que os comunas gostariam de ter o meu júnior lá no Estado-Maior deles.

— Com isso, as cidades estão liquidadas de qualquer jeito — disse Júnior. — Usava um aparelho para fazer recuar seus dentes salientes. — Vai desmoronar tudo. Além disso, a contaminação radioativa. Pode esquecer a região do Ruhr, Dad. E as tropas no Weser, também. Acabaram-se pelo menos uns dez milhões de krauts. (Designação pejorativa americana para alemães. (N. do T.) Espera só até eu tirar uma outra coroa vermelha!

— Só quem tirar uma carta com uma coroa vermelha pode usar nukes — explicou Dad.

— Pode usar o quê? — perguntou Mercedes.

— Ora, armas atômicas — disse Júnior, — Você disse que falava inglês!

Dad havia puxado uma carta. Exibiu-a triunfante ao filho.

— Quatro, coroa!

— Maldição — disse Júnior.

Dad empurrou quatro foguetes verdes para a região oriental.

— Então, eu liquido primeiro com Leipzig, Rostock, Varsóvia e Praga — disse ele colocando os símbolos plásticos para armas atômicas nos respectivos lugares do mapa. E disse bem sério para Mercedes: — O Pacto de Varsóvia é muito maior que a República Federal da Alemanha. No leste, as rampas de lançamento estão mais espalhadas. Daí a minha tática: tirar cidades do mapa. Pânico total. Caos absoluto. Só faço isso naturalmente quando eu sou a OTAN e o Júnior o Pacto de Varsóvia.

— Suas nukes nessas cidades de titica, eu nem estou ligando — disse Júnior. — Tenho meus foguetes mais atrás, na União Soviética. Os grandes! Esses é que importam. Você está cometendo um erro, Dad, sempre lhe digo isso. Primeiro tirar as rampas, creia! Claro que é mais fácil na República Federal. Ela está toda entupida de rampas, numa área tão pequena. Por isso é que a República Federal tem de ser arrasada em primeiro lugar. Até um bebê sabe disso. Com as cinco ou seis coroas que vêm ela vai virar cinzas.

— Que idéias tem hoje essa gente, não é? — disse Dad com os olhos simpáticos para Mercedes. — Comprei em Nova lorque. OTAN — A Guerra na Europa, é como se chama essa coisa. Doze dólares. Venderam em dois meses mais de trezentos mil deles. Incrível, não? Ora, mas diverte, não é? É uma coisa diferente. Incrível, não é?

— Incrível, sim — disse Mercedes.

Mercedes o olhou assustada.

— É claro que a concorrência não dorme — disse Dad enquanto Júnior tirava outra carta. — Já existe uma quantidade desses jogos. Estão vendendo adoidado. A maioria trata da Europa. Holocausto Europeu ou Europa Tática, O que você tirou?

— Dois aviões azuis — disse Júnior.

— Bombardeio prolongado e em seguida pára-quedistas — explicou Dad.

— Ãhã — disse Mercedes.

Júnior cobriu o mapa com novas figuras de plástico.

— Vou arrebentar o sul — ia dizendo ele. — A Floresta da Baviera está atravancada de rampas. Ao mesmo tempo, vou logo acabar com Munique, Stuttgart e Nuremberg. — Olhou para Mercedes. O grampo nos dentes o prejudicava um pouco para falar.

— Dad comprou todos esses jogos. Todos o mesmo princípio, disso eu sei. A graça está em reduzir a República Federal a cinzas o mais rápido possível. Quando o Pacto de Varsóvia conseguir isso, ele vai conquistar toda a Europa, de Moscou até Londres.

— Que me diz disso, de como o guri está por dentro de tudo isso? — Dad estava radiante. — De repente começou a tirar notas boas em Geografia.

— Vamos apostar como eu, com sete coroas, vou chegar até o Atlântico? E ainda por cima com a Inglaterra?

— Okay — disse Dad. — Dez cents. Nada mais. — Para Mercedes acrescentou: — Adora apostar. Preciso cuidar para que Júnior não se tome um jogador, haha. — Tirou uma carta com a imagem de um palhaço colorido. — Droga — disse ele.

— Coringa — comentou Júnior. — Azar. Você acabou de ganhar três mega-nukes sobre rampas na Floresta Negra e atrás de Bonn. — Ele tratou de colocar as peças de plástico nos respectivos lugares. — Por causa da radiação você precisa recuar. Nova posição. Vai ser muito certamente sua última. Você está vendo que eu agora preciso empregar os SS-20 da União Soviética, assim que tirar novamente coroas. A coisa está numa escalada de primeira ordem.

Daniel gemeu baixinho.

—Mal?

— Sim. Péssimo.

— As gotas! — Ergueu-se rápida e disse para uma aeromoça que passava apressada: — Um copo d’água, por favor!

— Imediatamente, madame!

Mercedes pegou do porta-bagagens de cima dos assentos uma bolsa de viagem com o logotipo da empresa aérea, abriu o zíper e procurou o frasquinho com as gotas. Para isso tirou dois vídeo-cassetes de lá de dentro, segurando-os com a mão esquerda enquanto continuava a procurar.

Seis filas atrás dela estava sentado um homem jovem, na seção intermediária, que a observava com atenção. Era muito alto e esguio, de rosto bronzeado e usava óculos sem aro. Já vinha espreitando Mercedes e Daniel desde que chegaram ao aeroporto de Ezeiza em companhia de Olivera. Nada se mexeu em seu rosto quando avistou os dois video-cassetes.

Mercedes achara o vidrinho. Repôs os cassetes na bolsa, fechou-a de novo e a colocou no porta-bagagens.

O sacerdote à esquerda de Daniel lia seu breviário. De quando em vez suspirava fundamente. A aeromoça já vinha com uma bandeja, sobre a qual trazia um copo com água em que Mercedes pingou vinte gotas. Daniel bebeu tudo de uma vez e se recostou. Mercedes limpou com um lenço a testa dele coberta de suor.

— Não esmoreça, Danny! Por favor, por favor, agüente firme!

— Sim, Mercedes. — Fez que sim com a cabeça e afagou à mão dela.

— E um mega-nuke em cima da grande base de mísseis Cruise atrás de Baden-Baden — disse Júnior Ele ria. Uma criança contente.

Daniel não agüentava mais esse jogo. Pegou os fones de ouvido de dentro da bolsa de seu assento e colocou-os sobre as orelhas. O arco de plástico desceu por debaixo do queixo. Ouviu música de ópera. Na extremidade do braço esquerdo de sua poltrona havia um botão giratório que Daniel virou enquanto se esforçava para respirar fundo a fim de poder suportar a imaginária bolha de ar em seu peito. Veio uma melodia de Cole Porter. Girou mais um pouco o botão e ficou repentinamente imóvel. Ouvia a vibrante e profunda voz de Marlene Dietrich: “.. . se eu ficasse em apuros...”

— Mercedes!

Ela o olhou assustada. Ele lhe estendeu os fones que estavam pendurados em frente ao seu assento enquanto sintonizava o botão da poltrona dela na mesma posição que o dele. Instalados os fones, no instante seguinte seus olhos se arregalaram.

  “...se eu pudesse desejar alguma coisa...” – cantou a Dietrich.

Um piano. Um saxofone. Violinos.

Daniel levantou um dos fones, Mercedes também.

— Estranho, Mercedes, não é?

Ela engoliu em seco e assentiu. Não conseguia falar.

— Quando você, pela primeira vez, me telefonou... do aeroporto de Zurique... do bar...

— Sim.., e agora de novo. Estranho. A velha canção...

“... tempos bons ou maus — cantou a Dietrich.

— Mas era a canção de vocês — disse Mercedes. — Como é que nós a estamos ouvindo? E de novo?

— Talvez a canção queira vir até nós — disse Daniel.

“... se eu pudesse desejar alguma coisa, quero ser um pouquinho feliz ...”

— Mas você continua a amar Sibylle... — A voz dela era apenas um sopro.

Ele abraçou-a. De repente, o medo e a opressão haviam desaparecido, de repente ele estava se sentindo bem. Ele a puxou para si e apertou seus lábios contra os dela, que estavam macios e quentes. Ela o envolveu com os braços.

“...porque se eu fosse por demais feliz, se eu tivesse a nostalgia de estar triste” — cantava Marlene. A orquestra tocou mais forte e encerrou a música. O beijo prosseguia. Outra velha canção começou: Charmaine.

Mercedes se desprendeu de Daniel. Os dois podiam ser rostos refletidos em miniatura um nos olhos do outro, já que os últimos raios do sol poente caíam sobre eles. Em seguida, recostaram-se em seus assentos, seguraram-se fortemente as mãos e ficaram se olhando, sempre com a mesma expressão, ouvindo a bela e melancólica melodia. O avião voava ao longo do leito de um rio que corria por entre uma selva. Em contraste com o verde-escuro da floresta, a água parecia avermelhada e lamacenta. Era um rio bem grande, havia várias ilhas dentro dele.

As gotas fizeram Daniel ficar calmo e atordoado. Mantinha os olhos cerrados.

Goebbels deu a meu pai cianureto, pensou ele. Vinte cápsulas. No bunker da Chancelaria do Reich, onde Hitler e seus assessores já se encontravam desde 16 de janeiro de 1945. Eles se esforçavam em vão para reconstruir as frentes de guerra que desmoronavam. Goebbels havia trazido sua família inteira para dentro do bunker, e Hitler a sua Eva Braun. Militares ali se haviam instalado. Ligações de rádio e de telex ainda funcionavam parcialmente. Tarde da noite de 7 de abril apareceu Georg Ross, a chamado de Goebbels no gigantesco e último posto de comando do Terceiro Reich, construído à prova de bombas. Em todos os corredores e diante de todas as portas para as diversas alas postavam-se homens das SS, de armas embaladas. Para conseguir entrar no bunker, Ross havia precisado, aliás, de quase 1h. Em uma estreita ante-sala dos seus aposentos privados, encontrou-se finalmente com o Ministro da Propaganda do Reich. Goebbels parecia morto de exausto.

— Aqui, Ross. — Ele deu ao pai de Daniel uma pequena mala com fechadura de algarismos. — O tambor com os filmes está bem acondicionado. — Mostrou-a a Ross. Em seguida fechou a tampa.

— Escolha agora um número de quatro algarismos, dos quais se possa lembrar, e tranque-a logo. E Rosa escolheu a data de nascimento de Dora Holm, 3.7.17.

Goebbels tirou uma foto autografada de Hitler de dentro do bolso e a rasgou com vagar, mudando de direção, em duas partes cujas bordas ficaram com um perfil bizarro.

— Uma das metades é para o senhor. Quem vier fazer contato com o senhor em Buenos Aires terá de possuir a segunda metade — disse o pequeno homem de pé disforme. Finalmente deu a Ross um frasquinho de vidro cheio de cápsulas de cianureto. — Para qualquer eventualidade — disse ele. — Isso dura uma eternidade. No caso de dispor de tempo bastante diante de uma emergência, é melhor quebrar uma cápsula e dissolver o cianureto em água. Ficará mais fácil para o senhor. Se precisar morder a cápsula, essa droga vai dilacerar sua garganta. Em ambos os casos, de qualquer forma, estará tudo acabado, no máximo, em meio minuto.

Do quarto contíguo ouvia-se o riso das crianças de Goebbels. Era uma noite tranqüila. Já há duas noites, americanos e ingleses não atacavam a cidade, a fim de não perturbar as operações soviéticas. Em 25 de abril, Berlim deveria estar cercada pelo Exército Vermelho.

Ross enfiou o pequeno vidrinho com as cápsulas de veneno em um bolso interno de seu paletó.

Trinta e nove anos mais tarde, sentado à beira da piscina de sua casa em Buenos Aires, tirou-o do bolso de sua camisa.

— Aqui estão as cápsulas — disse ele.

— Você ainda conserva essa coisa?

— Sim, Daniel.

— E por quê?

— Nunca se pode saber — disse o homem que se chamava há trinta e nove anos Eduardo Olivera.

Já naquela noite de 7 para 8 de abril de 1945 ele trazia consigo documentos perfeitamente falsificados com esse nome. Na tarde daquele mesmo dia, ele os buscara no subterrâneo do Ministério do Exterior que se transferira para o Tirol meridional mas ainda deixara em Berlim alguns homens do Serviço Secreto de Ribbentrop.

— Precisa de mais alguma coisa, Sr. Ross — indagou Goebbels.

— Não, tenho tudo, Sr. Ministro.

— O senhor precisa partir ainda esta noite, de qualquer maneira. A qualquer momento poderá ocorrer a irrupção soviética.

— Deu a Ross sua frouxa mão. — Tudo de bom, meu caro! A mim o senhor não precisa desejar isso. — Seus lábios se contorceram. — Preserve o filme! Ele mudará o mundo. — Os lábios se contorceram ainda mais. — E se ele não o fizer — Goebbels deu de ombros — então, pelo menos, o senhor terá saído com vida.

Uma menina pequena de cabelos louros precipitou-se chorando para dentro da sala. Erguia, acusadora, uma boneca.

— Papai, papai, Hans destroncou o braço da Tina!

— Ora, onde já se viu! Não chore! Já vou sarar logo a Tina de novo!

Goebbels bateu no ombro de Ross e caminhou mancando para fora do minúsculo aposento do bunker sem dizer mais palavra. De longe, Ross ouvia cantar uma voz de mulher bastante embriagada e também de um homem inteiramente bêbado.

“Tudo passa, tudo passará...”

Pouco antes das 3h da manhã de 8 de abril de 1945 um carro cinzento com as armas das SS entrou no aeroporto militar de caças noturnos ao sul de Berlim. Não havia nenhuma luz acesa. Os faróis do carro estavam vedados por discos de baquelite preta, nos quais haviam sido recortadas estreitas fendas. Duas das três pistas de decolagem estavam completamente destroçadas por bombas e a terceira tinha sido consertada precariamente para casos de necessidade. Um avião do tipo JU-52 da força aérea alemã esperava na cabeceira dessa pista. Pelo caminho liberado dos escombros do edifício principal, o carro seguia devagar em virtude das crateras das bombas, aproximando-se do avião, aos solavancos.

Ross saltou. Vestia uma capa de chuva forrada e um chapéu de abas largas. O homem das SS que havia dirigido o carro e o radio-telegrafista do JU-52 ajudaram-no com sua bagagem, duas pesadas malas, e as carregaram até dentro do aparelho. A terceira peça, a mala pequena que Goebbels lhe havia dado, Ross conservou na mão. A noite estava clara. Sem interrupção se ouvia o ruído do fogo de artilharia, às vezes mais baixo, às vezes mais alto. A pálida luz da lua cheia fazia tudo parecer sem sentido e irreal: pessoas, ruínas, o avião.

Ninguém disse uma só palavra. O homem das SS retomou a seu carro, Ross entrou no aparelho e o telegrafista desapareceu na cabine do piloto. Os motores se puseram em movimento. Minutos depois, o JU-52 já fazia uma curva por cima de Berlim. Ross olhou para baixo. Enxergou um pesadelo de cidade em escombros. De repente, teve uma morna sensação de felicidade. Estavam-no fazendo escapar. Escapava com vida. Essa sensação dominou-o por inteiro. Recostou-se. respirou profundamente e percebeu o frasquinho de cápsulas de cianureto apertado contra o peito. Naquele bunker logo muitos irão tomar o veneno, pensou ele. A mim, Goebbels escolheu para uma importante missão. Eu farei o que posso. Mas o mais importante não é a missão. O mais importante é a vida. E eu vou conservar a minha.

Estava começando a clarear o dia quando o JU-52 pousava na única pista de aterrissagem ainda intacta do também quase destruído aeroporto de Bergen. O mais importante porto da costa ocidental da Noruega, cidade rica em tradições, deveria ser a primeira escala da longa viagem de Ross. Quando o avião baixava, Ross constatara que o centro de Bergen havia sido consideravelmente poupado pelos incêndios e ataques de bombas.

O aparelho parou. Um Mercedes verde-opaco veio vindo em sua direção. Também aqui se encontrava um elemento das SS atrás do volante. Ele ergueu desleixadamente o braço direito. O mesmo fez Ross. Nada se falou. De novo, o telegrafista ajudou nas bagagens. Os dois pilotos não se deixaram ver. Logo em seguida Ross estava sendo conduzido para o porto, por caminhos recém-desimpedidos, através dos sórdidos montes de escombros e ruínas da periferia. Fazia um frio glacial. Ross tremia de frio. Bergen se encontrava sobre uma baixa península inteiramente cercada por altas montanhas. Os braços das docas eram ramificados como um labirinto. Essa foi a visão que ele teve, à medida que se aproximava da água.

O lugar se tomava cada vez mais sinistro. Havia muitos equipamentos destroçados por bombas. O motorista descia a ínfima velocidade. Surgiu então diante deles uma gigantesca muralha de concreto de muitos metros de altura. Parecia comprida, sem fim. A névoa do gelo convertia tudo num fantasmagórico cenário de mistério.

O motorista parou.

— O que é? — perguntou Ross.

— A estrada se danou, olhe só. Precisamos ir a pé até o bunker.

Saltaram. A ventania era tão forte que quase jogou Ross ao chão. Com a ajuda do homem, arrastou sua bagagem através desse cenário lunar. Alcançaram sem fôlego a estreita entrada para o bunker de concreto. Aqui se postavam dois homens da polícia do Exército. Seus rostos estavam azuis de frio.

— Estou sendo esperado — disse Ross. — Submarino Swine-münde.

— Senha?

— Retorne, aurora — gritou Ross. A tormenta era aqui muito forte, ela lhe levava as palavras da boca.

— Momento. — Um dos soldados pegou no receptor de um telefone que se achava pendurado num invólucro de couro na parede a seu lado, girou uma manivela e gritou ao aparelho: — O sétimo homem agora está aqui... Sim... Certo. — Pôs de novo o fone no gancho e berrou para Ross: — Já estão vindo pegar suas malas. O tenente-capitão vem também. Espere!

Ross fez que sim. Seu rosto queimava, dos seus olhos escorriam lágrimas. O motorista a seu lado praguejava. Após alguns minutos surgiram dois rapazes com capotes de uniforme forrados de pele. Fizeram um sinal com a cabeça, e desapareceram com as duas pesadas malas. O motorista levou a mão levemente ao boné e se foi. Da entrada do bunker saiu um homem jovem em uniforme de tenente-capitão. Era magro, de estatura mediana e seu rosto estava sulcado de rugas. Puxou Ross para dentro do bunker.

Após o bramido da tempestade lá fora, reinava um silêncio mortal no gigantesco edifício. Assim lhe parecia. Olhou ao redor de si. Nos diques flutuantes estavam atracados quatro submarinos, dos quais três seriamente danificados. Dois outros se encontravam sobre diques secos, na extremidade inferior do imenso bunker. Ali Ross divisou também oficinas colossais. Não se havia começado ainda a trabalhar.

— Sr. Eduardo Olivera? — O tenente-capitão vestia um pulôver cinzento de colarinho enrolado por debaixo do dólmã de seu uniforme.

— Sim. — Apertaram-se as mãos.

— Meu nome é Jonson — disse o oficial que era tão jovem mas parecia tão idoso. — Esperamos pelo senhor. Venha! Temos de sumir.

Suas vozes ecoavam. Ross seguiu os passos de Jonson sobre oscilantes placas de aço. Exalava o mau cheiro de óleo e de metal incandescente.

— Cuidado! — disse Jonson. Ross concordou com a cabeça. Olhou para cima. O bunker era alto. Jonson percebeu o olhar. — O teto tem a espessura de sete metros — disse ele. — Concreto armado. Até agora, nem a maior bomba conseguiu atravessar. — Caminhavam sobre rampas de concreto. Depois se seguiram outras placas de aço. Lá estava o submarino Swinemünde. Olivera fitava a embarcação. Os dois homens que haviam trazido suas malas estavam postados sobre o convés estreito e liso, ao lado da torre.

Ross se recordou do esclarecimento que Goebbels lhe dera há algumas semanas em Berlim:

— O Swinemünde vai levá-lo até o outro lado. É um submarino de carga de longo curso. Nos últimos anos levou preciosos carregamentos para o Japão e de lá para cá. Minérios, por exemplo. Não foi construído para torpedos. Tem apenas a proteção usual. —  Olivera sabia: a tripulação inteira era composta de voluntários, inclusive o comandante. Isso também lhe havia contado Goebbels. Era uma equipagem formada de elementos das tripulações de diversos outros submarinos.

— Apenas gente de primeiríssima ordem — tinha dito Goebbels — Por muitas e muitas vezes passaram pelo crivo. Todos perderam a família. Não querem voltar à pátria. De acordo com as circunstâncias, sabem que vão acabar presos. Esperam uma vida melhor do outro lado do oceano. Conhecem todos os riscos caso no caminho sejam descobertos. Seguem junto ainda seis civis. Cada um tem sua missão...

Os dois tripulantes que estavam no convés se adiantaram. Ajudaram Ross a subir a bordo. Estava inseguro e temia cair dentro da água imunda do bunker. A mala com o tambor do filme, ele segurava com mão de ferro.

— O senhor precisa subir a escada da torre e entrar no barco através da escotilha Não existe outro caminho — disse o comandante, tenente-capitão Jonson.

Olivera subiu a escada. Deu a mala a um dos homem que o seguia. Chegou balançando à escotilha e entrou, descendo os degraus internos. E ficou sem ar. Os piores sonhos de sua vida não o haviam preparado para aquilo que era o interior de um submarino. Tão apertado. Tão opressivo. Tão pavoroso. Olhava e via por todos os lados aparelhos, máquinas e painéis de instrumentos com uma massa imensa de incontáveis mostradores sob vidro. Por Deus! pensou ele.

— Siga em frente! — disse o homem que o acompanhava na descida da escada da torre. — Eu levo sua mala. Tem de seguir para os beliches. Através dos compartimentos. — Ross deu um passo, tateando, e continuou assim. O primeiro compartimento. Atravessou, passando os pés por cima. Uma luz fraca estava acesa. Homens de casaco, pulôver, cueca passavam apertados a seu lado. Apertado. Apertado. Uma angústia opressiva apoderou-se de Olivera, e crescia, e crescia. O homem com a mala o empurrou. Vamos! O próximo compartimento. Ross chegou a um compartimento com estreitos beliches, sempre um sobre o outro, de ambos os lados. Sobre seis desses deploráveis catres, em cima e embaixo, estavam sentados seis civis.

— Bom dia — disse Ross.

Os seis o fitaram. Nenhum respondeu. O cabo com a mala lhe disse:

— Lá em cima, ali é seu beliche.—Jogou para lá a mala com o filme e saiu do compartimento. Olivera viu que suas malas grandes já haviam sido, como numerosas outras, empurradas para baixo dos beliches. Tirou, então, o capote, não sabia o que fazer com ele e com seu chapéu, acabou jogando os dois no beliche, onde também trepou. Enquanto isso, os seis homens o olhavam. Olivera deitou-se sobre o leito estreito e fixou seus olhos no teto de aço que tinha diretamente sobre si. Embaixo, marinheiros corriam de cá para lá. Ouvia ordens e chamados. Parecia que aprontavam a embarcação para zarpar. Ninguém se importava com os sete civis. Nenhum deles falava. Eram senhores extraordinariamente silenciosos.

Meia hora mais tarde ligaram os motores diesel. Olivera sentiu como o submarino se punha vagarosamente em movimento. Eram 6h35m de 8 de abril. Olivera lembrou-se da frase de um clássico britânico, mas não de seu nome: Hell must be a place like London. Ele pensou: “O inferno deve ser um lugar como este aqui, isso sim. Até esse momento ele ainda não imaginava que deveria permanecer nesse inferno os próximos setenta e seis dias e setenta e seis noites, até a madrugada de 23 de junho de 1945.

Durante o dia, o submarino anda por debaixo d’água para economizar combustível. Por isso também navega muito rapidamente. Somente à noite é que sobe. Os motores elétricos precisam ser recarregados. E somente à noite é que eles podem, por algumas horas, deixar para trás o ar viciado do interior da embarcação e aspirar ar fresco. Setenta e seis dias e setenta e seis noites. Até mesmo para antigos tripulantes de submarinos, isso é quase demais. Os sete civis silenciosos, que nunca antes haviam passado sequer cinco minutos em um submersível, lutavam pela mera sobrevivência. Ficavam com enjôo. Vomitavam imediatamente o que comiam. Depois, já vomitavam mesmo sem comer, apenas ao sentir cheiro de alimento. Tinham de limpar tudo logo em seguida, a fim de não sufocarem com o próprio mau cheiro. Tinham medo da morte. Setenta e seis dias e setenta e seis noites com medo da morte. Ninguém se importava com eles. Eram desprezados pela tripulação como altos chefões nazistas. Todos a bordo deixam a barba crescer. Não podem lavar-se direito. Têm nojo do seu próprio corpo. O ambiente fica cada vez mais irritado, até mesmo para os macacos velhos da tripulação do submarino.

O único a quem nada daquilo parece afetar é o comandante Heinz Jonson, de uns trinta anos. Permanece completamente inalterado. Lacônico. Esperto. Vê tudo. Ouve tudo. Apazigua imediatamente qualquer rixa, afasta com rapidez dois que começam uma pancadaria. Impõe-se sem dificuldade contra qualquer implicante, amotinado, intrigante. Fica debruçado dia e noite — mas quando é dia e quando é noite? — sobre sua mesa de mapas, lê todas as informações que o radiotelegrafista capta em seu boxe e passa adiante aquelas que considera de interesse.

Já em 25 de abril os soldados russos e americanos estendem-se as mãos em Torgau, no rio Elba — e três dos sete civis estão há dez dias com diarréia, que piora mais ainda após esse encontro histórico. Em 30 de abril, Hitler designa para seu sucessor o comandante dos submarinos, Almirante Dönitz, e manda matar seu cachorro, sua Eva Braun e a si mesmo. As notícias provêm dos navios de guerra aliados que enxameiam na rota do Swinemünde, que não pode ser detectado e por isso mantém em silêncio seu rádio.

Algumas horas depois do fim de Hitler, Goebbels mata sua mulher, seus quatro filhos e a si mesmo, e Olivera, enquanto ouve isso, tem de pensar na pequena menina loura com a boneca Tina, cujo braço havia sido destroncado pelo irmãozinho Hans. Teria Goebbels perdido tempo dissolvendo o cianureto para toda a família? refletiu Olivera. É provável que sim. Que criança morde voluntariamente uma ampola de vidro?

A maior parte do dia, Olivera permanece deitado em seu beliche. A mala com o tambor do filme está a seu lado, presa com uma algema a um suporte de aço no revestimento externo da parede. Ele se cuida muito bem e mantém-se limpo o mais que pode. Obriga-se a comer. À noite, faz exercícios ao ar livre sobre o convés até escorrer suor. Eu sobrevivo a essa viagem infernal, prometeu a si mesmo. A maioria dos outros seis cavalheiros está mal, e tomou-se apática ou histérica. Todos sofrem de estomatite.

No dia 7 de maio Dönitz manda, às 2h41m, o General Jodl assinar a capitulação incondicional da Alemanha no quartel-general de Eisenhower, em Reims.

No dia 9 de maio, pensa Daniel, enquanto está voando num Jumbo da Aerolineas Argentinas com destino à cidade de São Paulo, foi assinada e confirmada a capitulação no quartel-general soviético em Berlim-Karlshorst, desta vez com a assinatura dos documentos pelo Marechal-de-Campo Keitel, novamente por ordem de Dönitz. Keitel e Jodl foram enforcados pelos vencedores mais tarde em Nuremberg, pondera Daniel. O Almirante Dönitz recebeu dez aninhos que cumpriu gentilmente sentado em Spandau, tendo sido libertado a 1° de outubro de 1956, e ainda escreveu um livrinho bonito, esse homem que simplesmente levou à morte trinta mil dos quarenta mil alemães que tripulavam submarinos. Dez anos e vinte dias, chamava-se a bela obra. Morrer, Dönitz só foi no dia 24 de dezembro de 1980. Iria completar 89 anos, a idade é respeitável. Agiu com rara inteligência em 1945. Não, com instinto! Reflexo condicionado. Como com os cachorros de Pavlov. Mandar os outros assinarem a derrota como representantes, quando tudo já está na merda — pensou Daniel — é um tipo de comportamento que em nosso país sempre ajudou a prolongar a vida.

A bordo da embarcação a capitulação foi festejada a 9 de maio de 1945, no mesmo dia em que ela, a partir de meia-noite e um entrou em vigor. O cozinheiro preparou uma gororoba especial e cada um recebeu uma banana e uma laranja. O jovem-velho comandante disse: — Maldição. E nunca mais uma guerra! Que Deus proteja a todos e a cada um em especial. — Bom sujeito, o velho. Que terá sido feito dele? Guerra, nunca mais — ai! meu Deus do céu!

No dia 23 de maio, o “Governo Dönitz” foi preso em Flensburg, e o mais idoso dos cavalheiros silenciosos a bordo teve um furúnculo em um lugar extremamente doloroso. Mais de dez milhões de soldados alemães encontram-se em cativeiro. Mais da metade do exército oriental, quase dois milhões de homens, alcança ainda a área sob jurisdição ocidental nos últimos dias da guerra. E a Marinha de guerra transporta de 23 de janeiro até 9 de maio, mais de dois milhões de fugitivos para o ocidente, desde as cabeças-de-ponte do mar Báltico.

E prossegue a viagem. Parece sem fim. Os outros taciturnos civis também têm agora furúnculos, eczemas e inflamações nos olhos. Somente Olivera é poupado, ao contrário de alguns homens da tripulação, que praguejam contra os altos chefões de merda, esses cães nazistas. Agora já se pode dizer a verdade sem medo, não é? Uma raiva furiosa explode entre esses pobres rapazes maltratados que ainda puderam escapar da matança final. Teriam mesmo escapado? Só haviam passado cinqüenta dos setenta e seis dias.

No qüinquagésimo primeiro dia, um dos silenciosos civis tem um ataque de furor e precisa ser amarrado aos trilhos de seu beliche. Começa, então, a bater com a cabeça na parede de aço, até que sangra como um porco, o que obriga a lhe amarrarem também a cabeça. Que porcaria! É contagiante. Uma semana depois dois outros senhores começam a delirar e precisam ser amarrados. Todos têm convulsões de choro, exceto Olivera. Quando permanece deitado em seu beliche está sempre quieto, calmo, polido. No JU-52 que o trouxe para Bergen ele descobrira um livro que alguém ali tinha abandonado. Chamava-se Grande Livro de Xadrez, e nele estavam descritas as duzentas e cinqüenta melhores partidas dos mais famosos mestres enxadristas do mundo, lance a lance. Como o livro fora impresso em 1930, ali se encontravam também as grandes partidas de judeus e russos, e Georg Ross, agora chamado Eduardo Olivera, estudou o volume, linha após linha. Lance por lance ele acompanhou mentalmente partidas geniais, a maioria delas disputadas entre Bernstein e Janovski, Alekhine e Marshall, Tarrash e Gunsberg, Lasker e Napier, Capablanca e Bogolibov e tantos e tantos outros. Esse livro de xadrez, P4D — C3BR, P4BD — P3R, por assim dizer, salvou sua vida, P/CR — P4D, B2C — B2R, porque dessa forma ele preservou seus nervos, não ficou louco e suportou inteiramente incólume setenta e seis dias e setenta e seis noites dentro do inferno, C3BR — 0—0, 2DB — PXP.

No qüinquagésimo nono dia de viagem, Olivera foi acordado pelos frenéticos gemidos de um civil, que se deitava no beliche debaixo do seu. Ele saltou da ratoeira. O homem estava com o rosto azul, olhos revirados e espuma na boca aberta. Um minuto mais tarde acabam os gemidos e o homem também. Começa a cheirar mal, dessa vez excepcionalmente com um outro fedor — o de amêndoas amargas. O sujeito mordera uma cápsula de cianureto, das que Olivera também possuía. Parece que todos as têm, esses sujeitos calados. Então, passaram a ser só seis. Dois marinheiros bem como seu chefe enfiaram o morto num saco de aniagem, juntaram pedaços de ferro ao cadáver e amarraram bem o volume. À noite, quando o barco emergiu, jogaram o saco ao mar bem como toda a bagagem que o homem trazia: os documentos secretos que se danem! Já foi tarde! Não se fez nenhuma oração: Pode deixar que ele vai para o céu. Logo em seguida Olivera fez sua ginástica. Como sempre. B4B — B3D, C5R — C4D.

Durante a noite antes do sexagésimo dia de sua viagem, outro civil perdeu inteiramente a razão. Já há uma semana não estava bom da cabeça e falava o tempo todo de raios X e de Martinho Lutero. Nessa noite, ele pulou da cama repentinamente e caminhou a esmo pelo resto da embarcação, tendo na mão uma faca de mola, C3BD —. CXB, PXC — C2D, sabe Deus de onde a sacou, PXC — C2D, P3R — D2R. Saiu com ela espetando quem se atravessava em seu caminho e até mesmo quem ressonava pacificamente (eram quatro horas da manhã). Uivava como uma fera: quero sair, sair, sair. O-O — T1C, C4R — C3B. Não conseguiram subjugá-lo, e então o Comandante sacou de uma pistola — era o único que podia possuir uma arma — e atirou três projéteis na barriga do alucinado. E como o homem custasse a morrer, esvaziou o pente de balas. Isso foi suficiente. E novamente precisaram enfiar um morto desconhecido num saco de juta com ferros, amarrar o saco, e à noite jogá-lo ao mar com todas as suas coisas. O enfermeiro de bordo medicou os feridos — por sorte eram apenas ferimentos na carne, inofensivos, só precisou desinfetá-los com vigor — e Olivera estava de novo ocupado com suas flexões de pernas e braços e exercícios de respiração, P5B — P3CR, PXPR — DXP. Era apenas o sexagésimo dia de viagem.

Passou então a fazer cada vez mais calor, um calor terrível. A bordo, todos estão quase despidos e suam como animais, noite e dia, porque agora também as noites são quentes. Quase todos têm furúnculos, aftas e eczemas. Apenas Olivera não tem, T5-5C— P4B, P4T — R2B. Rubinstein fez um jogo fantástico, simplesmente notável!

E vejam só, chegou a noite antes do septuagésimo sexto dia e todos sabiam: agora chegou o momento! Os mais doentios e desgraçados começaram a rir amarelo, o comandante Jonson está olhando pelo periscópio e observa a costa que se estende a umas trinta milhas marítimas de distância. Então — são três da madrugada — ele recolhe o periscópio e dá ordem de emergir. Todos escalam a escada para o convés, até mesmo os que estão de serviço. Vêem luzes perdidas a distância e sabem que são de um lugarejo chamado Bartolomé Bavio, que fica na margem direita do rio da Prata, portanto à esquerda deles, e que atingiram o objetivo, pelo menos os civis. Jonson já combinara com os seus homens: quando os civis tivessem ido embora ele iria entrar na foz até Buenos Aires e se entregar no porto aos americanos. Ele sabia que navios americanos estavam no porto. O comandante diria que eles fugiram com o submarino porque estavam de saco cheio de seu país, e, como comprovação de sua sinceridade e boa vontade, trouxeram um submarino de longo curso alemão, inteirinho, lançado ao mar em 1941, no estaleiro de Blohm & Voss, em Hamburgo, por assim dizer, um presente de convidado. E que desejavam ir para os Estados Unidos. Se fosse necessário, primeiramente na qualidade de prioneiros de guerra. Mas depois, pelo amor de Deus, que os deixassem ficar no país, pois seriam bons cidadãos. Só queriam mesmo viver na América e em paz. Lá ainda havia esperança para eles. Na Alemanha, não Por isso, arriscaram esse louca viagem, que durara setenta e seis dias e setenta e seis noites.

O barco aproxima-se lentamente da costa. Depois de algum tempo começa a dar o sinal de visitante. Emite um sinal combinado com luz vermelha.

E vejam! O sinal é respondido! Da costa vem trêmulo um sinal, igualmente vermelho, repetidas vezes. Eles vêm buscar a homens silenciosos. Diabo, talvez tudo tenha dado certo! E ainda por cima perdemos a guerra. P6R — P7B, B4B -  (1-0).

Cerca de duas horas mais tarde, aproximou-se um grande barco a motor, muito veloz. Soam vozes em alemão. Rápido! Precisa ser rápido, porque a guarda costeira está atenta por toda a parte. Os cinco civis e suas bagagens são içados para bordo do grande barco chegado. Como vocês são só cinco? Onde se encontram os outros dois? Eles... Baixo, baixo. Sussurros. E as malas deles? No mar. Que maldita porcaria! O comandante estava junto à torre, apertou a mão de cada um dos indesejados hóspedes e repetiu cinco vezes: então boa sorte. As amarras foram soltas. O barco a motor logo girou e tomou a direção da costa, na mais alta velocidade. Olivera virou-se ainda uma vez. Na penumbra, viu Heinz Jonson de pé junto à torre.

Um quarto de hora meis tarde o barco chegou à costa. O rio da Prata era raso ali, e a praia era de areia fina, e branca. Foram obrigados a correr um trecho chapinhando na água, mas, então, pisam solo argentino. O barco a motor vai embora. Em ternos imundos, os cinco permanecem imóveis de pé, chapéus na cabeça. Sem qualquer movimento, sentem o ar úmido e quente. Seis minutos e meio depois aparecem sete automóveis, entre os quais dois jipes. De novo as perguntas, onde se encontram os dois que faltam, as mesmas respostas, outros tantos palavrões.

Vamos embora, temos de ir o mais rápido possível! Cada um dos cavalheiros é enfiado num carro com sua bagagem. Dois carros ficam sem passageiro. Eduardo Olivera está sentado na frente, ao lado de um homem alto de calça e camisa brancas que dirige o jipe. No banco de trás está a bagagem, mas a mala com o filme e o livro de xadrez, Olivera conserva sobre os joelhos.

— Nós vamos para Bartolomé Bavio — disse o homem ao volante. — Lá o senhor passará o dia. Escondido. Com amigos. — Fala agora em espanhol, e é nessa língua que Olivera responde:

— Por que não vamos direto para Buenos Aires?

O motorista ficou satisfeito com a pronúncia de Olivera.

— Perigoso demais — respondeu. — Muitos milhares espalhados. À noite eu o levo adiante. Para sua casa. Está tudo preparado! — E deu a partida, rodando sobre a fina areia branca como pérolas. Os outros carros já desapareceram. Olivera foi levemente pressionado para trás em seu assento. Uma indescritível sensação de felicidade o invade, forte, muitas vezes mais forte que aquela que sentira a bordo do JU-52. Salvo! Em segurança! Sobreviveu! Começou então a rir. E riu, riu muito. O motorista nem prestou atenção. Dirigia sem luz, claro. Agora já estavam numa estrada. E ali, quando o jipe disparou numa curva, o Grande Livro de Xadrez deslizou de cima da mala que Olivera trazia sobre os joelhos e caiu do carro, na escuridão, enterrando-se na areia da praia. E Olivera queria tanto conservá-lo, guardá-lo para sempre: o livro que o protegera da loucura e da morte.

— Que foi isso?

— Isso o quê?

— Voou agora mesmo alguma coisa para fora.

— Ah, é sim.

— Mas, o quê?

— Nada de importante — disse Olivera.

— Senhoras e senhores, sua atenção, por favor!

Uma aeromoça chegara a um microfone telefônico. Sua voz soava dos alto-falantes para toda a imensa cabine, mas também dos fones de ouvido de cada assento. Quando eles estavam ligados à música, esta era automaticamente interrompida. Daniel abriu os olhos e precisou de um momento até que soubesse de novo onde se encontrava. Ainda agora sonhara acordado com a chegada do pai na Argentina. Percebeu que Mercedes estava segurando sua mão.

A aeromoça continuava falando:

— Em poucos minutos iremos pousar no Aeroporto Internacional de São Paulo. Temos um pequeno defeito no condicionamento de ar, que desejamos afastar antes de prosseguirmos com o vôo. Isso deverá demorar cerca de trinta minutos. Solicitamos aos senhores passageiros que abandonem a aeronave e aguardem a partida nas salas de trânsito. Todos estão cordialmente convidados a tomar um drinque. Após a partida, serviremos o jantar. Pedimos encarecidamente aos senhores passageiros que apertem os cintos e se abstenham de fumar. Obrigada!

E repetiu sua mensagem em três outros idiomas.

Lá fora já estava escuro. A luz estava acesa na cabine.

— Como está, Danny?

— Muito melhor — disse ele. — Estou bastante dopado, mas está muito melhor, Mercedes.

Ela acariciou a mão dele.

— Você dormiu.

— Sim.

— Você fica maravilhoso quando está dormindo.

— Mercedes!

— Não, realmente. E eu velei o seu sono.

— Você foi muito boazinha. Fica maravilhosa quando vigia.

— Ambos somos lindos. — Ela lhe havia tirado os fones do ouvido e o beijava na face. O sacerdote, que olhava para fora pela janela, disse em inglês para Daniel:

— Esta é a maior cidade do Brasil. É o centro da vida científica. Três universidades do Estado e uma católica. — Mercedes e Daniel olharam para baixo, O aparelho sobrevoava um imenso mar de luzes. O sistema de ruas se assemelhava ao de Buenos Aires.

— Uma quantidade de indústrias — prosseguiu o reverendo. — A maioria dos filmes brasileiros é rodada aqui. Dois aeroportos. Muitas auto-estradas. Para o porto de Santos. Até o Rio. São Paulo foi fundada pelos jesuítas em 1554 — disse ele orgulhoso. — Hoje em dia é chamada de Chicago da América do Sul. Senhor, Tu nos deste, em Tua misericórdia, a Tua proteção até agora. Continua a proteger-nos, nós Te pedimos, Amém.

O Jumbo perdia altura rapidamente.

— O senhor vai prosseguir no vôo? — indagou Mercedes.

- Oh, sim. Até Frankfurt. E, depois, até Colônia. O Arcebispo me chamou de volta para casa.

- O senhor é alemão?

— Sou — disse o sacerdote enquanto o Jumbo pousava e corria pela pista, demarcada dos dois lados pelas fortes luzes. Passou a falar alemão: — De Colônia. A senhora o percebe pelo sotaque. Meu nome é Heinrich Sander.

— Quanto tempo ficou na América do Sul?

— Em Buenos Aires, apenas em Buenos Aires — disse o padre Sander —, vinte e cinco anos. — Ele sorria, e era o mais bondoso sorriso do mundo, pensou Ross. — Agora estou velho. Agora posso pensar em mim. Finalmente terei tempo para ler. E trabalhar em um grande jardim. Sou muito bom jardineiro, sabia?

Mal o avião desligou as turbinas, o condicionamento de ar foi desligado. Imediatamente, todos os passageiros começaram a suar. Apressaram-se em deixar o avião. Ergueu-se igualmente o rapaz alto, esguio e bronzeado que, seis filas atrás de Mercedes e Daniel, estava sentado observando os dois, desde a partida. Ele viu que Mercedes tirou do porta-bagagens a bolsa vermelha onde pusera os dois vídeo-cassetes. Seus olhos quase se fecharam. O velho padre seguiu à frente de Mercedes e Daniel, apoiado em uma pesada bengala de madeira negra e trabalhada em prata.

Ao ar livre, o calor era tão insuportável quanto em Buenos Aires. Os ônibus de passageiros seguiram rapidamente. Uma aeromoça havia afirmado que as salas de trânsito eram climatizadas. Mercedes tomara o braço de Daniel e o apoiava enquanto caminhavam ao longo de um comprido e iluminado corredor do aeroporto; o padre seguia ao lado deles. Daniel vacilava um pouco. Seu rosto estava abatido e muito pálido. Súbito, no instante em que queria entrar na sala de trânsito, ele foi girado com força.

Mercedes lançou um grito estridente. Daniel viu que um homem jovem, de grande estatura e óculos sem aros, tentava arrancar-lhe a bolsa vermelha. Ela se defendeu, desesperada. O homem era mais forte. Finalmente, estava com a bolsa. Já queria fugir quando soltou um gemido, caindo de joelhos. O velho sacerdote o havia atingido na cabeça com o castão de sua bengala.

Vários passageiros começaram a gritar. Dois policiais vieram correndo do salão. O velho padre abaixou-se com uma rapidez que ninguém poderia imaginar e arrancou a bolsa vermelha das mãos do rapaz, por cujo rosto o sangue corria, vindo de um ferimento coberto por seus cabelos.

— Polícia — gritou ele —, polícia! Socorro! Socorro!

O homem conseguiu pôr-se de pé, jogou-se para a frente abrindo caminho de qualquer maneira e correu para fora do salão através de uma entrada lateral. Os dois policiais ocuparam-se de Mercedes. O padre contou-lhes o ocorrido. Mercedes estava nervosa demais para que pudesse falar. Daniel balançava. Os policiais puseram-se a correr atrás do fugitivo. No corredor entupido de gente só conseguiam avançar devagar.

— A senhora precisa tomar alguma coisa contra o susto — disse o padre Sander em idioma alemão com sotaque de Colônia.

— Deixe que eu trato disso. Tanta gente. Encomendo direto no bar. Sente-se aqui e não vá embora! Volto em seguida.

Daniel esforçava-se para acalmá-la. Ela tremia toda, e abriu com dificuldade a bolsa para assegurar-se de que os dois cassetes ainda se encontravam lá.

— É porque eu também adormeci um pouquinho a seu lado — disse ela a Daniel.

— Ele não iria tentar arrancar-lhe a bolsa se já tivesse os cassetes consigo — disse Daniel.

— O cachorro — disse Mercedes —, cachorro imundo. — Fechou então a bolsa vermelha e abraçou-a com os dois braços. Logo em seguida surgiu o padre com uma bandeja e três copos compridos.

— Gim-tônica — disse Sander. — Peguei logo duplos. — Ele sentou-se.

Os pequenos limões verdes, pensou Daniel olhando para dentro de seu copo, como na casa de meu pai.

— Dentro de cinco minutos o garçom nos trará o mesmo mais uma vez — disse o padre. — Tem algo de valioso dentro da bolsa?

— Sim — volveu Mercedes.

— Todos esses sujeitos roubam — disse o velho padre. — De preferência no metrô, ou num aperto como esse.

— O senhor foi simplesmente formidável, reverendo — disse Mercedes. — Eu lhe agradeço.

— Não seja por isso — disse o ancião. — Foi uma satisfação. Se tivesse alguns anos menos, esse menino não teria tido chance de escapar. Cheerio, a esse susto! — Ergueu o copo. Beberam a ele. — Já fui o melhor lutador de boxe da Ordem. E o melhor corredor nos mil metros. Os novos drinques têm de vir logo.

Nesse momento, o jovem de óculos sem aros estava sentado num Peugeot preto estacionado à frente do aeroporto. Um outro rapaz, mais baixo e de longos cabelos pretos, estava sentado atrás do volante e tratava da ferida. Segurava em cima dos joelhos uma caixa de lata para primeiros socorros. Depois de desinfetá-la, colocou uma atadura por cima dos cabelos e da testa do outro. Em seguida, limpou seu rosto com álcool. Enquanto fazia isso, os dois conversavam.

— Então, agora você sabe onde eles estão sentados Pablo. E onde eu me sentei. Você tem de arranjar um outro lugar. O avião está meio vazio.

— Agora, naturalmente, vão tratar de botar a bolsa entre eles — disse Pablo. — Você pega o carro e vai para a cidade, León. Correio central. Perigo nenhum. De lá, telefona para Cristóbal. Ele me disse que Londres já havia encontrado o homem certo. Esse agora vai assumir. Ele vai estar em Frankfurt quando pousarmos, me informou Cristóbal, e vai falar comigo. Sabe qual é minha aparência. Estarei segurando uma orquídea na mão. Conte a Cristóbal o que aconteceu. Para que esse homem já saiba de tudo. Fotos dos dois já lhe foram mostradas, segundo Cristóbal. Isso, a atadura está presa. Trata agora de sumir daqui, León! — Ele fechou a caixa de primeiros socorros e jogou-a para cima do banco traseiro. — Vou entrando agora. Já fiz o check-in. Até logo, León, boa sorte!

— Para você também, Pablo. — Saltaram ambos do carro e deram-se as mãos. León acompanhou Pablo com o olhar, vendo-o encaminhar-se para a entrada do aeroporto, sentou-se em seguida ao volante do Peugeot e deu a partida. Logo estava entrando numa auto-estrada que o conduziria até a cidade.

Na habitação do solitário velho de nome Cristóbal na casa de número 25 da Rua Husares defronte às casernas e praças de exercícios do Regimento 3 de Infantería General Belgrano em Buenos Aires tocou o telefone. Cristóbal, que só estava vestido nas últimas semanas com uma toalha à cintura porque o calor quase dava cabo dele, saiu correndo do quarto dos fundos e atendeu.

— Sim?

— Aqui é León.

— Onde você está?

— São Paulo. Correio central.

— Que houve?

León contou o que havia. Cristóbal praguejou:

— Seu imundo filho da puta, quem foi que lhe disse que você deveria entrar em ação? Você tinha de acompanhar os dois até São Paulo, nada mais.

— Eu sei. Mas é que vi os cassetes. Isso me deixou simplesmente maluco, Cristóbal. Será que você não pode entender isso? Pensei que pudesse resolver a coisa facilmente. E eu teria conseguido se não fosse aquele maldito padreco.

— Se... se... Se vocês tivessem pelo menos um pouquinho de massa cinzenta, vocês todos! — Cristóbal xingava novamente. — Mas não, um merdinha como você vai logo querer brincar de 007. Bastava você ter informado que os cassetes se encontram dentro da bolsa e você já seria um grande homem, seu merda. Você vai naturalmente pegar o avião de volta no outro aeroporto.

— Claro. Sinto muito.

— Sente porcaria nenhuma! Pablo está no avião?

— Sim.

— Pernoite numa pensãozinha qualquer! Devolva o carro de aluguel! Voe amanhã cedo! Boa noite, idiota!

Cristóbal desligou, acoplou o misturador de vozes, respirou fundo e ligou para o advogado Roger Morley, em Londres.

O mercenário Wayne Hyde repousava na cama de seu quarto no hotel RICHMOND e lia sonetos de Shakespeare. Já estava lendo há mais de uma hora. Eram três e meia da manhã e Hyde não conseguia dormir. Presumivelmente ninguém o conseguia em toda Londres. Um temporal de uma força que Hyde só vira em nevascas nos Estados Unidos, onde eram chamadas de blizzards e que já rugia há duas horas sobre a cidade. Levantava telhados, fazia paredes desabarem, desenraizava grandes e velhas árvores e aturdia com o barulho de uma esquadrilha de bombardeiros. A tempestade, que era acompanhada de inacreditáveis quedas de neve, era de fato ensurdecedora. Embora as janelas estivessem trancadas, as cortinas voavam e um ar gelado envolvia o quarto. Mesmo o antigo hotel com suas espessas paredes tremia, a ponto de Hyde poder senti-lo na cama. Sentia dor de cabeça e mesmo tendo tomado dois comprimidos, eles não surtiam efeito.

“Como as ondas do mar correm pra areia, / Nossas horas se perdem, consumidas...“

(A tradução dos versos de Shakespeare citados neste livro é de Carlos Sergio Abbenseth.N. da E.)

Este era o começo do soneto número 60. Hyde o conhecia e adorava. Para esse homem, que lia em cada minuto livre, lia como um sedento, como um maníaco, a literatura era o que a religião significa para pessoas devotas, e a ideologia para os fanáticos. Sim, Wayne Hyde, aquele assassino de aluguel com muitas mortes nas costas, era um leitor fanático.

“... E vão, maré vazia, maré cheia, / Sempre adiante, uma a uma, em duras lidas. / Do nascimento, luz por toda a Terra, / Vem lenta a madureza, e é coroada / No umbral da noite que lhe faz a guerra: / O tempo deu, para deixar um nada...”

O telefone tocou na mesinha-de-cabeceira. Hyde atendeu.

— Sim?

— Aqui é o porteiro da noite. Desculpe incomodá-lo, Sir. Mas um cavalheiro telefonou e pede que o chame urgente de volta. Vou lhe dar o número dele. — Passou a ditá-lo. Hyde percebeu após o terceiro algarismo que se tratava do número da secretária eletrônica de Roger Morley. Ele agradeceu, desligou, sentou-se na cama e, enquanto lá fora desabava o temporal, discou o número de Morley. Sobre a mesa-de-cabeceira estava pousado o pequeno decodificador branco. Pegou-o com a mão livre.

A voz de Morley se anunciou no aparelho e deu o nome e o endereço do proprietário, que aparentemente não se encontrava em casa. Mas se poderia deixar um recado.

— Por favor, fale agora — disse a voz de Morley na fita.

Hyde segurou a parte preta superior do decodificador diante do microfone do seu receptor telefônico e apertou o botão negro de seu pequeno aparelho. Nesse instante, o decodificador emitiu três sons de diferentes alturas e durações. Hyde tornou a colocar o receptor ao ouvido. Notou como uma fita retrocedia, depois soou a voz de Morley:

— Morning, morning. Lamento caso esteja incomodando mas presumo que o senhor, como eu, não esteja dormindo. Novidades para o senhor... — A voz de Morley relatou na fita o que o velho e solitário Cristóbal em Buenos Aires lhe acabara de informar. Ele concluía: — Infelizmente, nós também temos de lidar com idiotas, meu caro. Bem, no fim mais uma vez deu certo. Portanto, os cassetes estão a bordo e agora também sabemos em que lugar. Pelos documentos que leu, o senhor poderá reconhecer em Frankfurt o homem que acompanha os dois até a Europa. Ele se chama Pablo. Grande falta de sorte, essa tempestade de neve. Telefonei para Heathrow. Eles informam que vai continuar assim ainda por duas, três horas. Até o meio-dia não parte nenhum avião, isso é certo. Quase certo que também na parte da tarde nenhum avião decolará. Lufadas de neve acumularam-se em todas as pistas com altura de mais de dois metros. E está piorando cada vez mais. As chances de que o senhor chegue a tempo em Frankfurt são agora de vinte para oitenta, na melhor das hipóteses. Good Luck. Fim.

A fita parou com um leve dique. Hyde repôs o telefone no gancho e o decodificador sobre a mesa-de-cabeceira. Deixou-se cair para trás em sua cama, pegou o livro e retomou a leitura.

“...O tempo abate a verde juventude, / Rasga sulcos na fronte outrora bela, / Consome a natureza, em fome rude, / Tudo o que é, foice em punho ele debela. I Mas meu verso se opõe à mão que avança: / Pra te cantar, resiste na esperança.”

Maravilhoso, pensou Hyde. simplesmente maravilhoso. Vinte para oitenta? Deus sabe, já tive chances menores. Bem menores...

— É óbvio que o homem que me apanhou com o jipe não me trouxe imediatamente aqui para essa mansão — dissera Olivera alguns dias antes, tarde da noite, à luz azulada da piscina no parque. — Eles tinham providenciado um grande apartamento para mim, no centro. Nada de extraordinário, mas limpo e sólido. Uma governante, uma senhora de idade, esperava por mim. Fui introduzido oficialmente como novo diretor de um banco pequeno, que se chamava Banca Imperiale.

Daniel pensava nessas palavras de seu pai enquanto se encontrava em seu assento. Eles estavam de novo no ar e voavam agora- em direção ao Rio de Janeiro. O jantar fora servido. Daniel não tinha nenhum apetite e não comeu quase nada. O tremor de suas mos ficava cada vez mais forte, sua cabeça doía de estourar e ele sentia novamente o medo, o medo... Ainda não chegara, mas já estava à espreita, pronto para o salto. Mercedes o observava, presa da maior preocupação.

— Mal, não? — perguntou ela baixo.

— Sim.

— Você tem de agüentar, Danny! Pense naquilo que está em jogo!

— É nisso que estou pensando. — Esforçou-se para sorrir. — O chato é que o Nobilam não faz mais efeito. Em São Paulo engoli vinte comprimidos. E os dois gim-tônica. Nenhum efeito. — Ele acariciou a mão dela. — Mas vou conseguir. — Virou-se para o padre, que tinha diante de si uma meia garrafa de vinho que sorvia com vagar. — Poderia passar-me um instante a bolsa?

— Mas, certamente. — O padre chamado Sander deu-lhe a bolsa. Ela se achava à sua esquerda, entre seu corpo e a parede da cabina, O jovem de longos cabelos pretos, cujo nome era Pablo e que se achava sentado três bancos atrás, na seção esquerda portanto, viu quando o sacerdote passou a bolsa vermelha para Daniel. Este a abriu, retirou seu frasquinho e falou com uma aeromoça. Ela fez que sim com a cabeça, dirigiu-se à copa mais próxima e retornou com um copo d’água. Pablo não podia ver que Daniel pingava vinte gotas na água nem que a bebeu em seguida. Só pôde ver que a aeromoça se retirou e que Daniel devolveu ao padre a bolsa vermelha. Voltou ao lugar entre ele e a parede. León, maldito cagão! pensou Pablo, ninguém mais chega nem perto da bolsa. É claro que seria loucura tentar alguma coisa no Rio. Mas espero que dê certo depois que pousarmos em Frankfurt, com a ajuda desse homem que espera por mim. Pablo segurava uma pequena caixa transparente. Lá dentro se achava uma orquídea marrom-esverdeada com pintinhas, chamada de Sandália de Dama — o sinal de identificação. Daniel disse:

— Em todo o caso, tomei as gotas antes que fique pior. Ainda há bastante. Mesmo que eu tenha de tomar todas, eu vou agüentar firme, Mercedes. — Ele apertou a mão dela que estava pousada no braço da poltrona entre os dois e fechou os olhos. Novamente pensou na narrativa de seu pai...

A Banca Imperiale empregava principalmente descendentes de alemães. Cuidava de muitos clientes especiais. Olivera sabia o que o esperava. Logo após a queda do Terceiro Reich, começou a funcionar uma empresa de nome ODESSA, extraordinariamente bem preparada e montada. ODESSA era a abreviação para as iniciais de Organization Derehemaligen SS-Angehõrigen, organização dos ex-membros das SS. Tinha associados e colaboradores praticamente em todos os lugares e nos primeiros anos do pós-guerra ela trabalhava em ritmo de alta rotação; mais tarde, foi progressivamente reduzindo seu ímpeto. Com a ajuda de órgãos oficiais dos mais diferentes Estados, de pessoas ricas, de políticos e de altos dignitários da Igreja católica que, em parte, se achavam até mesmo no Vaticano. ODESSA se propunha à tarefa de remover nazistas de alto nível em risco de vida, assim como criminosos de guerra, da Alemanha para o ultramar, em primeiro lugar para a América do Sul e particularmente para a Argentina. Assim sucedeu, por exemplo, com Adolf Eichmann. A SS, que agora trabalhava na clandestinidade, possuía dinheiro e ouro em profusão. Os homens que eram levados para fora da Alemanha tomavam seu caminho na maioria das vezes via Áustria, sul da França, Espanha e Portugal. Daí, seguiam de navio. Naturalmente que tudo tinha de estar preparado na nova pátria, como no caso de Ross, aliás Olivera, para abrigar o fugitivo. Hoje existe documentação precisa sobre a ODESSA. Também Banca Imperiale fora montada por ela. Por pequena que fosse essa instituição, as somas que tinha a sua disposição eram astronômicas. As ordens de depósito procediam na sua maior parte da Suíça, mas também da República Federal da Alemanha. Um ponderável papel nas atividades da ODESSA foi desempenhado pela indústria alemã do pós-guerra. Dentre os seus novos chefões contava-se suficiente número de ex-dirigentes da economia de guerra e elementos das SS.

O banco de Olivera servia no país como novo ponto de apoio para que os fugitivos pudessem começar uma nova vida. Aqui recebiam dinheiro e importantes informações. Havia ainda outros onze bancos na Argentina com idênticas funções. Todos eles pertenciam à ODESSA.

Olivera se julgava feliz em poder ajudar esses genocidas foragidos e importantes figuras do nacional-socialismo procuradas pela policia. Afinal, também era um fugitivo. O tambor de alumínio que continha o filme de trinta e cinco milímetros, ele o guardou em seu cofre privativo dentro do banco. Levava uma vida extremamente reservada e aguardava a ordem para trazer a público seu conteúdo. Sabia que teria de esperar alguns anos, muitos anos. Talvez a vida inteira. Seus clientes da ODESSA não deixavam de criar, de tempos em tempos, exaustivos incidentes, não havendo lugar para monotonia. Olivera apreciava viver sozinho. Naturalmente precisava de vez em quando de uma mulher. Havia casas muito discretas na cidade.

Passaram-se os anos. Veio o bloqueio de Berlim, chegou a guerra fria e, em 25 de junho de 1950, a primeira guerra quente, na Coréia. A evolução que Goebbels havia previsto começava. Por volta do meio-dia de 12 de julho de 1950, Olivera recebeu a chamada telefônica de um desconhecido que o convocou em fluente castelhano para um encontro no mesmo dia, pontualmente às l5h, no SKAL..CLUB internacional, em Viamonte 867. Um ho mem com um cravo branco na lapela de um temo azul o iria abordar. Olivera deveria trazer consigo a metade do retrato autografado rasgado.

Sentou-se a um canto do salão de chá do Skal-Club, havia chegado um tanto cedo demais. Pontualmente às l5h, entrou um homem baixote, de cerca de cinqüenta anos de idade, com escuros e pesados sacos lacrimais embaixo dos olhos. Trazia o cravo branco preso na lapela de um temo azul-claro de seda de shantung..

O indivíduo veio direto em direção a Olivera e lhe estendeu uma mão flácida e úmida. Disse baixinho, em alemão: — Heil, Kamerad!

— Heil — disse Olivera. Um garçom aproximou-se rápido. Eram, no momento, os únicos no salão. O homem do cravo também pediu chá. Depois ficou sentado em silêncio por nove minutos, o tempo de que o garçom precisou para trazer o chá e desa parecer novamente.

— Então — disse ele, pondo sobre a mesa uma metade da foto de Adolf Hitler, no tamanho de um cartão-postal, que Goebbels havia rasgado de maneira tão bizarra no bunker da Chancelaria do Reich. Olivera tirou a outra metade do bolso interno de seu paletó e justapôs as duas partes do retrato. — Bem. Tudo em ordem com o filme? — O gordo falava com um estranho chiado na voz, lançando perdigotos. Seu rosto estava torcido pela dor, e um lado estava inchado.

— Claro — disse Olivera. — Que tem o senhor?

— Supuração de raiz. Estou vindo direto do dentista. O senhor não faz a menor idéia de como isso dói, camarada. Onde se encontra o filme? — E espalhava perdigotos por todos os lados, sobre a mesa, as xícaras e o rosto de Olivera.

— Num cofre de meu banco.

— Bom, Kwnerad. Cheguei ontem. Fiquei com essa maldita supuração a bordo do cargueiro. Há duas semanas não prego o olho. — Tomou um gole de chá, gemendo bem alto.

— Merda, quente demais. A central ODESSA tem ordens para o senhor.

— Sim? — Durante um louco instante, Olivera pensou que o estranho iria dizer-lhe que o momento havia chegado. O sangue lhe subiu ao rosto.

— A situação internacional não está nem de longe suficientemente ruim. O senhor precisa continuar a esperar. Essa coisa é da mais alta significação. O senhor voltará a ser contatado por nós.

O homem do cravo colocou novamente no bolso sua metade da foto, entendeu outra vez sua flácida mão para Olivera, levantou-se e saiu rapidamente do salão de chá.

Nos trinta e quatro anos subseqüentes, Olivera nunca mais ouviu uma só palavra a respeito do filme.

— Você chegou a pensar alguma vez em minha mãe ou em mim? — havia perguntado Daniel a seu pai, após a conclusão desse relato. Eram quase duas e meia da madrugada e só então o ar ficara mais fresco. Estavam ainda sentados à borda da piscina iluminada.

— Às vezes. Não muito.

— Você tentou descobrir se nós ainda vivíamos e como estávamos passando?

— Não, nunca. E como estavam vocês? — perguntou Olivera polidamente.

— Muito mal durante bastante tempo. Até que eu pudesse começar a trabalhar.

— Dora — disse Olivera e olhou para a água da piscina. — Eu pensava em Dora. Apenas em Dora. Dia e noite pensava nela. Com freqüência sonhei com ela. Com sua risada. Com seu fim. Eu a amei muito. Sempre tinha de pensar que ela poderia ter vindo comigo para a Argentina. Teríamos sido muito felizes juntos. Muito mais do que em Berlim... — Sua voz se esvaiu.

— Mamãe faleceu em 1969. Dia 12 de dezembro — disse Daniel.

Olivera não reagiu.

— Eu disse que mamãe...

— Sim, sim, eu sei. De quê?

— Leucemia.

— Durou muito tempo?

— Quase um ano. Ela sofreu muito, pai.

— Não sou tão insensível quanto você está pensando, Daniel. Tudo o que fiz a vocês dois, eu lamento muito, lamento muitissimo. Mas eu continuava a amar Dora. Embora ela estivesse morta já há tanto tempo. Em cinqüenta e quatro eu a vi novamente.

— Você viu o quê?

— Eu vi Dora outra vez — repetiu Olivera.

A bola azul rolou dIretamente para os pés de Olivera.

Uma pequena menina com vestidinho branco, sapatos e soquetes brancas tropeçou no caminho coberto de saibro. Foi na tarde de 5 de maio de 1954. Olivera caminhava através do grande Parque de Febrero. Estava saindo do planetário onde tinha ouvido uma palestra.

Ele abaixou-se e apanhou a bola. A menininha veio em sua direção de braços abertos. Ela ainda era muito pequena.

— Mas que bola bonita — disse Olivera.

— Tenho mais duas, uma verde e uma vermelha — disse a garotinha. — Mas eu gosto mesmo é da azul. Como é que você se chama?

— Escute, você não pode ir perguntando assim o nome do cavalheiro — disse uma grave voz de mulher. Olivera ergueu o olhar e se levantou. Sentiu um imenso calor e logo em seguida um calafrio. Diante dele estava Dora HoIm. Seu cabelo negro faiscava ao sol, seus olhos azuis brilhavam e ela lhe sorria com seus lindos lábios. Perdeu o fôlego. Dora, pensou ele, minha Dora!

É claro que não era Dora Holm.

Era uma mulher incrivelmente parecida com Dora HoIm. Devia ser uns dez anos mais velha e sua pele não era tão branca, e sim bronzeada pelo sol. Estava com um vestido azul com pontinhos brancos, colarinho, luvas e sapatos brancos. Olivera queria falar mas gaguejava.

— Obrigada por haver pego a bola — disse a jovem mulher.

— Mas por favor! — Ele levantou o chapéu de linho. — Uma garotinha tão encantadora. E uma tão... encantadora mamãe. Meu nome é Eduardo Olivera.

— Eu me chamo Mangalez. Eliza Mangalez.

— E eu me chamo Mercedes — disse a menininha.

Olivera notou que ela também tinha cabelos pretos e olhos azuis. Mercedes trazia uma fita vermelha nos cabelos. A mulher parecida com Dora HoIm riu novamente.

— Por que está me olhando tão espantado, Sr. Olivera?

Falavam espanhol.

— Porque a senhora me... Porque a senhora é tão bela — emendou-se ele. — Tão maravilhosa, que eu...

— Sim? — indagou ela.

— Nada — disse ele. — Posso acompanhá-la por um trecho do caminho? Ali há um restaurante. Você gosta de sorvete, Mercedes?

— Oh, sim! É a melhor coisa do mundo.

— Então, senhora? Vamos tomar alguma coisa? Está muito quente... Quero dizer, só se a senhora quiser. Eu ficaria muito feliz... Mas talvez a senhora tenha de ir para casa... Talvez seu marido esteja esperando...

O riso desapareceu dos lábios dela.

— Meu marido não está me esperando.

— Desculpe, senhora.

— Meu marido desquitou-se de mim há um ano e meio — disse ela, tranqüila. — Por causa de uma outra mulher. Foi-se embora com ela para muito longe. Trabalha agora na Venezuela.

— Você está ouvindo? — disse Mercedes. — Papai foi embora. Não está esperando em casa. Podemos ir tomar um sorvete. Eu quero de morango com chocolate. É o melhor que tem.

Olivera olhou Eliza Mangalez dentro dos imensos olhos azuis. Ela respondeu seu olhar e sorriu novamente. Menos de três meses mais tarde, eles se casaram,

— Você ainda não tinha quatro anos — disse Olivera à moça a seu lado, naquela noite junto à piscina do grande parque. — Você nem pode se lembrar de tudo isso, naturalmente.

— Mas claro que sim — disse ela. — O sorvete estava ótimo. Acho até que tomei uma dupla porção. E uma semana depois eu lhe perguntei: “Você vai casar com minha mãe?” Mamãe me contou mais tarde que só faltou morrer de vergonha.

— Sim — disse Olivera — ficou famosa essa sua frase, Mercedes. Com vocês duas, voltei a ser feliz. Não só na vida particular, mas nos negócios também. Em 1955, uma junta militar assumiu o poder no país. O General Lonardi foi eleito Presidente. Eu já o conhecia há três anos. Pode-se dizer que mantínhamos uma boa amizade. Nos limites das possibilidades do meu banco, eu o ajudei bastante, tanto a ele quanto a seu pessoal.

— Eu pensava que você tinha se tornado um democrata — disse Daniel.

— Tinha mesmo — disse Olivera sério. — Mas, como eu já disse antes, estou convencido de que uma democracia nunca vai funcionar na Argentina. Pense no que ocorreu desde cinqüenta e cinco. Governos democráticos voltaram sempre. Mas quanto tempo duraram? E quanto vai durar Alfonsín?

- Compreendo — disse Daniel. — E seus amigos, a quem você tanto ajudou, mostraram-se reconhecidos.

— Isso mesmo, Daniel. — Olivera tomou um gole de uísque e acendeu um cigarro. — Mostraram-se muito reconhecidos. Foi-me dada a possibilidade de abrir meu próprio banco. Naquele tempo, eu ganhava enormes somas de dinheiro em muito curto prazo. Foi quando nos mudamos para esta mansão. — Fez com a mão um movimento circular. — Como éramos felizes os três. Com seis anos, Mercedes precisava ir à escola. Aqui no bairro fica a melhor de Buenos Aires, incluído o Liceu. Mercedes foi uma aluna formidável. O secundário, terminou com distinção. Então foi para a universidade... — Olivera parou de falar. Colocou sua mão diante dos olhos.

— Que foi?

— Nós três éramos tão infinitamente felizes — disse o velho baixinho. — Tantos anos. Vinte anos de felicidade. Quem já teve tudo isso, Daniel? Então, no dia 17 de janeiro de 1974... — Calou-se.

— ... mamãe sofreu um acidente de automóvel no caminho para o aeroporto — prosseguiu Mercedes. — Ela queria ir buscar uma amiga. Um bêbado bateu no carro dela. Ele capotou e pegou fogo. Mamãe deve ter morrido na hora. Quebrou o pescoço.

... Moscou: Foi com as mais cortantes palavras que um porta- voz do Ministério do Exterior soviético condenou os planos do Ministro da Defesa Weinberger, dos Estados Unidos, de estender os armamentos ao espaço... Uma voz de locutor inglês saía dos fones de ouvido de Mercedes e de Daniel. Eles haviam sintonizado o botão na estação de número cinco.

Após a escala intermediária, o Jumbo havia levantado vôo, às 3h55m, de uma pista do aeroporto do Rio de janeiro, cercada por águas paradas, e havia sobrevoado a cidade fazendo um largo círculo. Agora, o avião tomava a direção do gigantesco Cristo de pedra branca que se erguia no alto do Corcovado, uma montanha que já desaparecia em meio à selva. A estátua era iluminada por possantes holofotes. O Cristo faiscava. Muitos passageiros olhavam pelas janelas e tiravam fotografias.

... O porta-voz soviético classificou os mencionados planos de “criminosa loucura nascida de um cérebro enfermo”... De hora em hora, o serviço internacional da BBC transmitia um boletim com as notícias mais recentes.

Cada vez mais se aproximava o Cristo iluminado. O Jumbo inclinou-se e começou a traçar um laço no ar

O velho sacerdote orava em voz alta:

— Senhor de todos os povos, ouve nossa voz, com a qual imploramos que nos concedas a verdadeira paz...

... Washington. Conforme já informado, o Presidente Reagan apóia com todo o vigor os planos de Weinberger perante o Congresso norte-americano, disse a voz do locutor do estúdio londrino da BBC.

— ... para que liberte o coração dos homens de todo ódio, toda inveja e toda discórdia — orava o padre.

...O Senador Edward Kennedy classificou por isso o Presidente Reagan como o “mais perigoso Presidente da Era Nuclear”, num programa nacional em que foi entrevistado há duas horas pela rede de televisão NBC...

Mercedes e Daniel se entreolharam.

— Nós te pedimos que dês forças e apoio a nós e a todos os povos a serviço da Justiça...

O maciço Jumbo fez um longo vôo circular ao redor do Cristo que abençoava.

- Olhe, Dad! Os Pershings da terceira geração têm uma tal precisão de tiro que eles conseguiriam, numa probabilidade de noventa para dez, acertar nesse Jesus ai, a cinco mil milhas de distância — disse o guri americano de calças curtas com camisa para fora, que tinha sido parceiro do pai de cara vermelha no longo jogo OTAN — A Guerra na Europa.

— Você tem mesmo razão — disse Dad. Os dois se haviam levantado. Uma das mãos do Cristo apontava diretamente para eles. Dad fotografou, incansável.

O padre idoso rezava:

— ... que a todos os governantes de todos os países e povos Tu dês verdadeiro senso e juízo e acertadas decisões e que guardes os frutos da Terra...

... Bonn. Na capital da República Federal, o armamento espacial planejado pelos americanos transformando o espaço sideral em palco de guerras foi recebido com a mais forte reserva por todos os partidos políticos, prosseguiu a BBC através dos fones de ouvido.

— ...que a todos os sem teto dês segurança e tranqüilidade em nosso meio, nós Te pedimos, Senhor, escuta-nos!

... A bancada social-democrática do parlamento alemão exigiu do governo que recusasse expressamente os planos do Ministro da Defesa Weinberger de produzir armas anti-satélite ...

— Que despertes em nós o amor que socorre os que têm fome e os que sofrem....

... O fundamento apresentado por Weinberg, segundo o qual a União Soviética já dispõe de tal sistema de armamento e do grande número de destruidores de satélites foi qualificado pelo vice-presidente do Grupo de Trabalho de Política Exterior e Segurança, Jungmann, de “pretexto esfarrapado”...

O avião já havia deixado para trás o Cristo com seus braços abertos em bênção e tomou o curso nordeste, por cima do mar. Mas a estátua ainda pôde ser vista por longo tempo.

- ... nós te pedimos, Senhor, que tragas de volta às famílias que os esperam os irmãos e irmãs ausentes.

... O jornal Suddeutsche Zeitung escreve em seu último número um artigo de quatro colunas sob o título de ‘Corrida armamentista agora também no espaço’, onde se lê que o governo da República Federal já se declarou contrário a uma corrida armamentista no espaço. Embora a União Soviética se encontre um passo adiante no campo dos denominados satélites-assassinos em termos militares...

De novo Mercedes e Daniel se entreolharam.

— Que o Senhor receba em seu reino eterno nossos mortos...

... os Estados Unidos não podem tomar medidas retaliatórias sem considerar a preservação da unidade estratégica da OTAN. Essa unidade estaria seriamente ameaçada caso prossiga o curso armamentista no espaço sideral, concluiu a BBC.

— ... e concede-nos a paz, Senhor, imploramo-Te com todo o fervor, concede-nos a paz, amém.

O Cristo havia desaparecido. A escuridão tornava a Terra invisível.

Mercedes soltou a mão de Daniel e sussurrou:

— Estou com medo.

— Eu também — respondeu ele.

— Você está mal novamente?

— Bastante.

— Tudo vai ficar bem, Danny!

— Sim, com certeza.

Na cabine, foi baixada a intensidade da luz.

Daniel finalmente caiu numa confusa sonolência, a cabeça apoia da no ombro de Mercedes. Sonhava com seu pai. Naquela noite, todos foram afinal deitar-se, mortos de sono, após a longa permanência junto à piscina. Na manhã seguinte, descobriram o desaparecimento de Miguel. Olivera estava fora de si, de preocupação e de medo. Chamou a polícia. Vieram funcionários e fizeram muitas perguntas. Procuravam vestígios. Não encontraram nenhum. Às suas indagações, Olivera não pôde responder. Não conseguia imaginar como e por que Miguel havia sumido. Estaria relacionado com ele próprio? Por que com ele? queriam saber os homens da lei. Para isso, Olivera não tinha resposta.

Ao fim da tarde, ele fez um longo passeio pelo grande parque, em companhia de Daniel. Contou o fim de sua história e como, após a morte da mulher que tanto amava, procurou um sentido para sua vida e, então, recordou-se do velho filme. Naquela época, a situação mundial já se havia tomado de fato caótica. Havia chegado o momento de tratar do assunto.

— Tinha chegado o momento de tratar do assunto — contou Olivera, que caminhava ao lado de Daniel. Ambos trajavam calças bem leves, camisas abertas e sandálias. Novamente fazia um insuportável calor, mesmo sob as árvores, as velhas árvores em cujas copas cantavam os pássaros. — A vida me era indiferente. Eu teria arriscado qualquer coisa, mas havia Mercedes, minha querida Mercedes. Eu tinha de fazer as coisas de modo diverso. Não sozinho. Você está me olhando, Daniel. Sei que você está pensando: naquele tempo, ele começou a pesquisar o que tinha sido feito de seu filho na Áustria.

— Sim, mas foi isso que você fez — disse Daniel.

— Sim, foi isso o que eu fiz — confirmou Olivera. Olhou o filho, suplicante. — Com todo o ódio que você sente por mim, e que eu posso compreender, Daniel, com toda a amargura: procure, pelo menos, compreender o que fiz. Você não me precisa perdoar. Você só precisa tomar conhecimento de tudo o que pode acontecer na vida de uma pessoa, por que eu agi da forma como agi. Fiz infelizes sua mãe e você. Eu os deixei na mão- E mais. Muito mais. Concordo com tudo. Me chame de canalha! Um vagabundo. Que posso dizer em minha defesa? Que eu amei uma mulher acima de todas as coisas no mundo: Dora. Que ela era a vida para mim. Que eu fui um nazista fanático, que após a morte de Dora aceitou a incumbência de Goebbels, porque queria ir embora, embora, embora da Alemanha. Que acreditei reencontrar Dora em Eliza. E que fui feliz. Durante vinte anos. Você pode me odiar! Me desprezar! Mas diga que concorda que tudo isso pode acontecer na vida de um homem- Diga apenas que tal coisa pode acontecer!

— Bem — disse Daniel —, uma coisa assim pode acontecer. Mas vamos nos ater aos fatos. Você precisa me contar tudo, caso queira que trabalhemos juntos. Vou registrar tudo, de agora em diante sem fazer nenhuma apreciação.

— Obrigado — disse Olivera. Como se de repente se sentisse fatigado, desabou sobre a grama e encostou-se num tronco de eucalipto. Daniel sentou-se a seu lado. Achavam-se agora distantes da casa.

— Então você providenciou investigações a respeito de mamãe e de mim.

— Sim, Daniel.

— Depois da morte de sua mulher, Eliza. Você diz que isso foi em 74.

 — Isso, 74. Por intermédio de amigos na Alemanha, e de uma agência. Você entende isso, não é mesmo? A morte de Eliza. Meu desespero. O vazio. Precisava fazer alguma coisa. Fazer! Aí estava esse mundo, onde tudo ia de mal a pior. Aí estava a catástrofe definitiva, para onde nos conduzíamos. E aí estava eu com meu filme, esse monstruoso documento. Tratei de me convencer de que era meu dever vir com ele a público e talvez — talvez — evitar o pior. Eu tinha ainda uma tarefa a cumprir. Minha vida ainda não estava sem sentido. Mercedes estudava. Nesse meio- tempo, ela já tinha vinte e três anos de idade. Mostrei-lhe o filme. Você pode imaginar a maneira como ela reagiu. Então, ficamos ambos possuídos por nossa idéia, ela muito mais do que eu.

Daniel tinha agora um graveto na mão e brincava com ele.

— Então você nos fez procurar de 1974 até 1984, portanto durante dez anos, até me encontrar.

Olivera calou-se.

— Então! Você decidiu contar-me toda a verdade! Até agora, você até que fez bem direitinho o striptease de sua alma...

— Por favor, Daniel!

— Sim, sim, foi notável. A busca demorou dez anos, não é?

— Não — disse Olivera. — Sabia, é claro, já depois de dois meses onde você vivia, que Thea havia morrido e que você estava na televisão.

— E por que então você não me mandou buscar por Mercedes já há dez anos atrás? Não fique calado de novo! Olhe para mim! Por que você deixou passar ainda dez anos, pai?

Olivera disse:

— Mas nada disso é verdade.

— O que não é verdade?

— O que eu contei por último. A respeito do filme. Sobre minha idéia fixa, de que eu teria uma missão a cumprir. Foi tudo muito diferente.

— Como é que foi? A verdade! Diga a verdade!

— A verdade... — Olivera levantou sua mão. — Muito bem, então vamos lá! No fundo, dá tudo na mesma. Você afinal não pode me odiar e desprezar mais ainda. Eu menti quando lhe disse que graças às juntas militares e a Perón eu ia ficando mais rico. Em 74, eu estava numa situação desesperadora. No verão, Isabel Perón se tornou Presidenta. Eu tinha dado aos militares créditos gigantescos. A maioria dos generais era corrupta. Sim, uns porcos corruptos é que eram meus amigos. E eu fazia meus negócios com eles, à custa do país, que cada vez mais ia ficando na miséria. Olhe para ele hoje! Os militares e os peronistas o empurraram para a beira de uma falência do Estado. O Presidente Alfonsín tem de lidar com uma pavorosa herança.

— Você, o íntimo amigo dos generais, os chama de porcos corruptos? — disse Daniel com voz insegura.

— E chamo a mim mesmo de porco corrupto. Com os canalhas dos meus amigos abocanhamos o que havia de melhor no país e o devoramos juntos. Esse striptease da alma, como você o chama, não estará ficando um pouco demais para você? Eu lhe prometi a verdade. Aí está ela, meu caro filho.

— Nada daquilo que você fez me surpreende mais. Então, em 74 a sua situação era desesperada. E daí?

— E daí, e daí! E daí que me veio à cabeça o negócio do velho filme. Eu quase me havia esquecido dele. Aí tive a idéia de rifá-lo. Por muito dinheiro. Eu teria ganho muito dinheiro por ele, você também não acha?

— Acho. Então também mentiu com toda aquela conversa de que se sentia chamado para uma missão moral?

— Tudo mentira. Eu estava me lixando para o que acontecesse com este mundo. O que acontecia comigo e com Mercedes, isso era importante, apenas isso. Veja — e com um gesto amplo da mão direita Olivera abarcou toda a propriedade. — Esta man são, este luxo, era isso que eu queria manter de qualquer maneira. Não queria me ver obrigado a abrir mão de tudo. Não queria ir à bancarrota. Não queria cair na miséria depois de me haver habituado à riqueza durante tantos anos. E só vi, então, uma salvação: vender o filme!

— E por que você não fez isso? Por que não me chamou logo para cá?

— Alvarez — disse Olivera

— Que Alvarez?

— Meu amigo, o General Carlo Álvarez. Que me passou o Miguel, nove anos mais tarde. Foi membro da última Junta. Alvarez me ajudou. Recebi meu dinheiro de volta. Ele deu um jeito em tudo.

— Como é que ele conseguiu arranjar tudo?

— Ora, como? Com chantagem. Houve dois suicídios de membros da Junta, na época. Então foram devolvidos todos os créditos. Agrada-lhe a verdade, Daniel, hem? — Olivera ria. — Você sempre precisa dos maiores porcos para pegar os maiores bocados Recebi meu dinheiro de volta. Então, por que vender o filme? Era perigoso demais.

— Você tinha medo de que o matassem?

— É claro. Antes de receber meu dinheiro de volta, meu medo da ruína era muito maior. Naquela época havia mandado fazer os videocassetes pelo judeu Paolo Klein. Naquele tempo, eu estava decidido a tudo.

— Mas aí veio a grana — disse Daniel.

— Aí veio a grana. — Olivera riu. — Você bem que entendeu, Daniel. E também veio o medo de que o filme pudesse trazer-me má sorte. Portanto, as cópias voltaram para dentro do cofre! Por sinal, naquela época eu não havia mostrado o filme a Mercedes. Ela não tinha idéia de sua existência. Como adepta entusiasta de movimentos pacifistas ela só teria enchido meu saco, não é? É claro.

- Perfeitamente claro. Mas agora ela conhece o filme. Desde quando? Por que o mostrou a ela? Por que me chamou agora?

— Porque, mais uma vez, fui enrolado pelos generais — disse Olivera, subitamente muito calmo. — Porque esses cachorros me enganaram mais uma vez. E porque desta vez meu amigo Álvarez não me pôde ajudar. Meu bom amigo Álvarez está na cadeia. Metade da Junta está. Mas aqueles que me passaram a perna, esses saíram do país a tempo. O homem que está diante de você, Daniel — e, aliás, já há tempos, mas ninguém o sabe ainda — está liquidado. Inteiramente liquidado. Minhas promissórias ainda estão sendo aceitas. Os grandes bancos ainda trabalham comigo. Ainda! Talvez ainda um mês, talvez dois. Três, não mais. Se até lá tudo não estiver em ordem, vão tirar-me tudo o que tenho, e também vou parar na cadeia como meu amigo Álvarez, embora por outros motivos. Por falência fraudulenta. Por desfalque de milhões. Tenho setenta e sete anos de idade, Daniel. Não quero ir para a prisão. Não quero ser liquidado. Estou cagando para este mundo; realmente, me é indiferente o que vai acontecer com ele. Mas eu possuo um filme que iria interessar imensamente todas as pessoas deste mundo. Você viu o filme. Ele não seria de imenso interesse, hem?

— Sim — disse Daniel. Ele havia deixado cair o graveto.

— Daí toda a pressa, entende?

— Entendo.

— Por isso mostrei o filme a Mercedes e a fiz ficar louca com ele.

— Compreendo.

— Por isso você precisa levar o filme para a Alemanha e vendê-lo! A sua emissora de televisão, Você mesmo lá disse que eu poderia receber muito dinheiro por ele.

Daniel assentiu.

— Então, só que agora o striptease acabou. Agora você conhece toda a verdade, menino.

— Quanto você quer pelo filme?

— Dez milhões de dólares — disse Olivera.

— Você perdeu o juízo — disse Daniel.

— Como assim?

— Porque é uma soma totalmente absurda.

Olivera riu como se alguém lhe estivesse fazendo cócegas.

— Totalmente absurda? E quanto foi que aqueles caras espertíssimos da revista Stern pagaram pelos diários falsificados de Hitler, mesmo que não houvesse neles nem uma só frase interessante? Nove milhões e meio de marcos. Marcos, sim, não dólares. Mas mesmo assim.

— Mas isso você não pode comparar! Aquilo foi vigarice, foi um negócio criminoso.

— Ora, os alemães preferem pagar quando é um embuste, é  criminoso?

— Pai, pare com isso! Dez milhões de dólares! Por vinte milhões de dólares a televisão alemã pode comprar da rede ABC os direitos de transmissão ao vivo de toda a Olimpíada de Los Angeles.

— Mas meu filme tem mais valor do que a transmissão da Olimpíada. Concordo, dez milhões de dólares é muito dinheiro. Tem que ser muito dinheiro. Aumenta ainda mais o valor do filme. Ele tem um inacreditável valor, é quase impossível de ser pago. Dez milhões, isso mesmo.

— Isso você não ganha nunca! No máximo, um.

— Um? Ridículo! Eu preciso de dez, só para conseguir sair da emboscada em que estou.

— Mas isso não interessa à televisão.

Olivera tornou-se malévolo.

— Então vamos cagar para a televisão alemã. E cago para você também. Continue sendo aquilo que você é: um pequeno redator. E eu, com um pequeno gesto, tenho doze milhões, quinze, vinte, quanto eu pedir.

— De quem?

— Dos americanos, por exemplo. — Olivera estava com o rosto dum como pedra. — Para que eu lhes dê o filme e todas as cópias, para que eles possam dar sumiço em tudo e ninguém esteja em condição de poder exibi-lo.

Daniel engoliu em seco.

— Você não deve considerar seu pai um idiota — queixou-se Olivera. — Você acha que eu não receberia dos americanos dez milhões de dólares, Daniel?

— Sim, e depois seis balas na barriga.

- Ah, você não deve me julgar um idiota, Daniel! Uma cópia está depositada no banco, eu já lhe disse. É minha proteção. Se algo me acontecer, quem recebe o filme é Khadaffi. E isso eu digo aos americanos.

— Quem o recebe então?

— Coronel Muhammad Khadaffi, Presidente da Líbia. Ele odeia os americanos como nenhuma outra pessoa no mundo, Ele o compraria por cem milhões e ainda daria a todos os países do mundo de presente, além dos direitos de emissão. E ainda ficava louco de alegria. Mais maluco ainda do que já é. Ou você acha que ele diria não, preferindo gastar o dinheiro com uma transmissão da Olimpíada?

Daniel Ross fitava o pai como se nunca o houvesse visto.

— Você está vendo, isso já está fazendo efeito, garoto. Eu poderia me aproximar logo de Khadaffi, indo diretamente à Líbia. Estaria em segurança total. Tenho a sensação do século! Ofereço um filme pronto para ser exibido. Nenhum custo de produção. A emissora não precisa despender nem mais um dólar. Mas pode vender os direitos a outros países no mundo inteiro. Quanto tempo você acha que a emissora vai precisar para faturar de volta seus dez milhões? Ou você duvida disso, meu caro filho? Esses dez milhões já são meus. E medo? Na minha idade? Todo mundo tem de morrer. E perigo é o que não falta. Medo, só tenho agora da miséria, da desgraça, da cadeia. E por isso eu preciso dos dez milhões de dólares. E por isso eu vou ganhá-los. Com ou sem você. Bem, você quer levar o filme para sua emissora e ver como ela o compra avidamente e você faz carreira, uma brilhante carreira? Ou você prefere que eu mesmo trate de tudo?

— Eu levo o filme comigo — disse Daniel, e percebeu que suas mãos tremiam. Ele cruzou os dedos. Mas Olivera já o tinha notado.

Olivera riu novamente.

Às 12h35m do dia 21 de fevereiro de 1984, o Jumbo das Aerolineas Argentinas sobrevoava a cidade africana de Dakar e tomava a direção da Europa. Fazia muito frio na capital do Senegal. O ar condicionado fornecia agora ar quente. Quando mais tarde cruzaram Gibraltar e penetraram no espaço aéreo espanhol enfrentaram a primeira tempestade de neve. O louríssimo menino e seu Dad jogavam de novo OTAN — A Guerra na Europa, e Júnior ganhava novamente. Estava entusiasmado consigo mesmo e olhava em torno buscando aplauso Nisso, percebeu que a jovem senhora do lado esquerdo lhe voltava as costas. Isso o irritou.

— Ei! — exclamou ele. — Então não se interessa, não é?

Mercedes não respondeu. Ela e o padre Sanders observavam Daniel com muita preocupação. Ele estava deitado, todo encolhido, entre os assentos dos dois. Durante a noite, ele tinha ido algumas vezes ao toalete para vomitar. Havia tomado um frasquinho de gotas por inteiro. Elas não mais faziam efeito. Três fileiras atrás, o moço dos negros cabelos compridos observava tudo com muita atenção.

— Só faltam poucas horas — disse Mercedes desesperada — e então estaremos em Frankfurt. Ainda vai dar, Danny? Danny! — Da segunda vez, ela havia gritado o nome pois o rosto de Daniel ficara branco de repente, e os lábios azulados. Ele gemia. Então, de repente, seus braços e pernas começaram a tremer terrivelmente. A tremedeira crescia, chegando a verdadeiros espasmos que sacudiam seu corpo de um lado para outro.

- Danny! — gritou Mercedes de novo.

No momento seguinte, Daniel desabou para a frente, um pouco de lado. Com a ajuda do padre. Mercedes o repôs no lugar com muito esforço. Daniel perdera os sentidos. Outros passageiros que haviam assistido ao ocorrido começaram, por sua vez, a gritar. Fez-se pânico. Dois aeromoços e uma aeromoça se desdobravam para fazer as pessoas voltarem aos seus lugares. Daniel voltara a si. Fitava o vazio. Seus lábios continuavam azulados e o rosto branco.

— Danny! Danny! Que foi isso?

— Não sei — custou a dizer.

— Um conhaque grande! — gritou o padre à aeromoça. Esta desapareceu e logo retornou com um copo de conhaque, cheio até a metade. Daniel o segurou com as mãos trêmulas e o bebeu de um gole. Ele acenou com a cabeça e estendeu o copo vazio. Logo em seguida seus braços e pernas voltaram a estremecer, outra convulsão, mais forte que a primeira, sacudiu-o, e ele novamente per deu os sentidos.

A aeromoça dirigiu-se ao microfone mais próximo, retirou o aparelho de seu suporte e disse pelo alto-falante:

— Minhas senhoras e meus senhores, um de nossos passageiros está se sentindo mal. Há algum médico a bordo?

Ela repetiu as duas frases em quatro idiomas.

Depois da versão francesa, ergueu-se um homem pequeno com reluzentes cabelos pretos, bem ao fundo do aparelho.

— Sanatório Kingston em Heiligenkreuz.

— Bom dia. Aqui é a Primeira Clínica Médica da Universidade de Frankfurt. O Dr. Reinstein necessita falar com urgência com a Dra. Mannholz.

Eram 15h59m do dia 21 de fevereiro de 1984.

— Um momentinho, já vou ligar.

Quando o telefone tocou desta vez, Sibylle Mannholz estava sozinha em sua sala. Ela atendeu. Dois segundos depois, ela ouviu uma voz masculina:

— Dra. Mannholz?

— Sim.

— Aqui é Reinstein, de Frankfurt.

— Oh, bom dia, caro colega. Que há?

— Trata-se de seu paciente Daniel Ross, a quem examinei.

Sibylle segurou o fone com ambas as mãos.

— Ross? Que há com ele?

— Ele está nesse momento voando de volta de Buenos Aires, sobre a Espanha. Há cerca de meia hora ele teve convulsões e perdeu os sentidos.

— Oh! Meu Deus!

A porta se abriu, O médico Herdegen entrou sem bater. Sem dizer uma só palavra, acercou-se da escrivaninha e segurou o segundo receptor junto ao ouvido. Como sempre, seu rosto pálido estava imóvel e podia ver-se a curiosa expressão de seus olhos que transmitiam uma combinação de duas características: frieza glacial e tristeza.

— Como o senhor sabe disso? — perguntou Sibylle. Afastou seus cabelos castanhos de cima da testa.

— Vamos pela ordem, espere! Há um médico francês a bordo.

— Graças a Deus!

— É um ginecologista. Mas, de acordo com os sintomas, ele diagnostica um ataque epiléptico com conseqüência de grave uso indevido de medicamentos. Ross lhe disse a verdade.

— O diagnóstico está correto. E que é que o médico fez?

— Antes que o tivessem chamado, uma aeromoça havia trazido para Ross, depois de um primeiro ataque, um copo com conhaque. E ele o tomou...

— Oh, não!

— E logo em seguida sofreu um segundo ataque epiléptico.

— Naturalmente! — exclamou Sibylle. — Conhaque foi a coisa mais errada que se poderia ter dado a ele. O conhaque provocou o segundo ataque.

— É, o ginecologista também diz isso. Ele lhe injetou alumina. Intravenosa.

— Alumina?

— Ele sabe que isso pouco vai ajudar. Mas não tinha coisa melhor em sua bolsa. Se os ataques se repetirem, vai novamente injetar alumina, segundo declarou ao primeiro-piloto. Desse modo, pelo menos Ross chega até Frankfurt e o avião não precisa mais pousar em lugar nenhum. Não existe risco grave de vida. Ao que parece, Ross só está todo estropiado.

 

 

Segunda Parte

 

 

 

 

JÁ PARA CÁ DE QUALQUER JEITO!

escreveu Herdegen num bloco.

— Além disso, o médico acha que ele precisa ser internado imediatamente numa clínica logo após a aterrissagem.

— Como é que o senhor sabe de tudo isso?

— O piloto falou com a torre de Frankfurt por ondas curtas e fez um relatório. E a torre telefonou para mim porque a Sra. Olivera, que está acompanhando o Sr. Ross, disse ao piloto que eu, há pouco tempo, o havia examinado e saberia melhor que ninguém o que deveria ser feito com ele após o pouso da aeronave. Ela queria evidentemente evitar que o médico do aeroporto assumisse o caso. Telefonei para esse colega e lhe expliquei que de fato conhecia o Sr. Ross. O médico concorda que eu prossiga o tratamento de Ross após a chegada e decida o que fazer desde que eu assuma toda a responsabilidade. Eu disse que o Sr. Ross está a caminho daí para fazer um tratamento que o livre da dependência de drogas. Avisei-o de que entraria em contato com a senhora a fim de pedir-lhe as indicações médicas necessárias- Não sou psiquiatra, a senhora precisa entender. Se eu, de fato, assumir a responsabilidade e depois acontecer alguma coisa...

ORGOLAN!

escreveu Herdegen no bloco e, embaixo:

ENTÃO ROSS AGÜENTA. PRECISAR VIR PARA CÁ!

— Eu o compreendo perfeitamente, prezado colega. Estou muitíssimo agradecida por sua ajuda.

— Mas a senhora também já me ajudou. Muitas vezes.

— Ele precisa vir logo para cá. De qualquer maneira. Eu o conheço há uma eternidade e já tratei dele por duas vezes.

Herdegen, que se achava postado ao lado de Sibylle, mexeu a cabeça em sinal de aprovação e passou um dedo sobre a moldura da grande foto colorida que se achava colocada sobre a mesa e em que aparecia um homem quarentão, de olhos e cabelos castanhos. Guardava grande semelhança com a Dra. Maànholz.

— Muito bem, minha cara colega. Diga então o que devo fazer, e em seguida seguirei para o aeroporto. Confio na senhora.

— Quando pousa o avião?

— Às l7h45m. Dentro de três quartos de hora, portanto.

— Até lá o médico do avião vai agüentando a coisa, com alumina. Provavelmente ele nem vai mais precisar disso. Ross vai dormir. O senhor sabe a que horas vai partir daí a  conexão para Viena?

— Eu já me informei. Às 18h30m. Chega em Viena às 19h50m.

— Então Ross pode voar logo em seguida. Assim está bem. O senhor lhe dê dez centímetros cúbicos de Orgolan, na veia. Não, injete-lhe vinte! Assim ele ficará absolutamente calmo. E seu aparelho circulatório não desmorona. Assumo também a responsabilidade por isso. Passe-me, por favor, o número e o nome do médico do aeroporto; eu falo com ele. Nós mandaremos daqui uma ambulância para o aeroporto em Viena. Aqui parou de nevar. Em Frankfurt também?

— Sim. O avião está em contato permanente com Frankfurt. Telefonarei logo caso algo de imprevisto venha a ocorrer. Agora só falta o médico do aeroporto, anote aí...

Depois da tempestade de neve noturna, o aeroporto de Heathrow ficou fechado até as 15h do dia 21 de fevereiro. Então finalmente tratores e removedores de neve limparam uma das pistas e um primeiro avião — da Pan Arnerican Airways, com destino a Nova lorque — pôde levantar vôo às 15h15m. Wayne Hyde chegou em Frankfurt às 19h05m, a bordo de um Airbus da British Airways.

O alto e magro homem com o rosto curtido pelas intempéries foi o último a deixar o aparelho. Após o controle de passaportes, caminhou sem pressa em direção às bagagens. Em meio aos vários passageiros que esperavam, detectou imediatamente o homem que buscava. Com seus longos cabelos pretos, Pablo vestia um sobretudo muito leve e tremia deploravelmente de frio. Estava de pé, um tanto afastado, e trazia em sua mão direita uma caixa transparente com a orquídea. Hyde passou junto dele e disse bem baixo, em inglês:

— Vou pegar minha bagagem. Depois me acompanhe até o Bar Azul... — Mal passado um quarto de hora, ele estava sentado com Pablo a um canto do bar. Os dois grandes sacos de roupas jaziam no chão. Hyde havia pedido um chá, e Pablo, o chá com rum branco. Há muito já estava escuro. Através da janela do bar, viam o agitado movimento das pistas e os aviões que em rápida seqüência pousavam ou rugiam com poderoso ímpeto levantando vôo e perdendo-se no céu escuro.

Pablo narrava para Hyde todas as peripécias a que assistira antes e depois da partida do Jumbo do Rio de Janeiro. Hyde escutava em silêncio.

— Depois do pouso aqui, puseram Ross imediatamente dentro de uma ambulância do aeroporto. Junto com um médico. Ele já estava à espera no portão de chegada. Essa Olivera havia pedido que ele fosse avisado, por já conhecer Ross. Foi o que consegui depreender no meio de toda a confusão dentro do avião. Mandaram chamá-lo pelo rádio. Chama-se Reinstein. Dr. Reinstein... — E Pablo emudeceu porque já vinha se aproximando o garçom com as bebidas encomendadas.

— Sim? — disse Hyde, mal o garçom se afastara.

- Esse Dr. Reinstein deve ser um médico espetacular. Ou Ter um medicamento realmente espantoso. Ainda no ar, eu pensei que Ross iria capotar, tão lamentável era seu estado. Também quando pousamos. Eu fiquei circulando por aqui diante do posto da Cruz Vermelha. Depois de vinte minutos Ross saiu. Com a Olivera. Já podia andar sem apoio, e tinha cor no rosto. Havia desaparecido aquela tremedeira horrível. Parecia apenas muito tonto.

— Claro — disse Hyde e tomou um gole de chá.

— A bolsa vermelha, a Olivera não a largou nem um segundo. Carregava-a de um lado para outro. O velho padre que tinha quebrado a cara de León ficou sentado no avião ao lado dos dois. Depois da chegada. tomou conta de Ross. Ficou dentro do posto da Cruz Vermelha. Saíram todos juntos lá de dentro, também esse Dr. Reinstein. — Pablo tremia. — Que diabo de frio. Lá no Rio fazia mais de quarenta graus.

— Quando é que vai voltar para lá?

— Só amanhã, às 22h. Infelizmente não há outro avião mais cedo. Arrumei um quarto aqui mesmo no hotel do aeroporto.

— Mande comprar Corofax. Tome o dobro do que está escrito na bula.

— Que é isso?

— É o melhor remédio contra diarréia. Senão, ela virá de qualquer jeito, com essas diferenças de temperatura. É horrível voar com cólicas. Eu sempre tomo.

- Corofax. Okay. Então vamos adiante. Eles foram todos juntos para o balcão da Austrian Airlines, onde Ross e a Olivera marcaram passagens para Viena no vôo de 18h30. O padre ficou cuidando das bagagens dos dois. E assim, nesse momento já estão a caminho da Áustria. No que eu pude observar, Ross deverá ir imediatamente para um sanatório.

— Sim. Já estou sabendo. Felizmente hoje ainda segue um avião para Viena. Lufthansa. Vindo de Paris. Sai daqui às 21h10m. Tem certeza de que a Olivera carregou consigo a bolsa vermelha?

— Com toda a certeza! Esse Dr. Reinstein, com Ross e a mulher, foram todos de ambulância até o avião. Eu os vi embarcando. A Olivera estava com a sacola vermelha na mão.

— E os cassetes estavam lá dentro?

— Isso naturalmente eu não sei — disse Pablo, assustado. E ficou nervoso. — O senhor tem razão! Não estava previsto que o sujeito fosse ter um colapso. Com certeza os dois tinham em vista deixar os cassetes em algum lugar seguro aqui em Frankfurt. Mierda! Sabe Deus onde estarão agora os cassetes! O padre pode estar com eles, o médico, sei lá eu. Que faremos agora?

— Você fica aqui, Pablo — disse Hyde. — Preciso telefonar. Logo estarei de volta.

E ele saiu do bar e seguiu para o posto telefônico do aeroporto. Levou consigo as bolsas de roupas. Na cabine, alguém havia escrito na parede em grandes letras vermelhas: FRESSEN, FICKEN, FERNSEHEN, o negócio é comer, trepar e ver televisão. Manteve duas conversas ao telefone e dirigiu-se em seguida para o balcão da Lufthansa. Reservou um lugar no avião de 21h e registrou sua bagagem. Ao lado do balcão estava um rapaz de uns vinte anos sentado no chão. Havia aberto um tapete e estava enrolado numa manta colorida. Tocava guitarra e cantava com bela voz quente:

— O boom de armamentos é muito clemente. A guerra ainda vai demorar, minha gente. Quem der azar vai virar marmelada. E com napalm faz-se a melhor fritada..,

Algumas pessoas o rodeavam. Estavam excitadas. Um senhor mais idoso exclamou:

— Você cantando essa merda! Se não gosta daqui, vai para o lado de lá.

— É de lá que estou vindo — disse o rapaz. — Também não me queriam.

Hyde retornou ao bar.

— Logo ficaremos sabendo se os cassetes ainda estão com a Olivera — disse ele para Pablo, que agora tremia de corpo inteiro.

— Quando?

— Tão logo Ross tiver pousado em Viena. — Hyde olhou o jovem Pablo preocupado. — Você vai agora bem rápido para a cama! Continue tomando chá com rum! Sobretudo não esqueça Corofax! Eu ligo para você logo que eu souber de alguma coisa. Realmente, você não pode continuar sentado por aqui.

— Sim, então... - Eu estou péssimo... - Mas o senhor telefona está bem? Prometido?

— Prometido. — Estendeu a mão para o moço. — Muito obrigado e melhoras para você, tudo de bom!

Quando ficou sozinho, o mercenário pediu mais um chá e tirou o volume com os sonetos de Shakespeare de um grande bolso de seu espesso casacão. Encostou-se para trás, folheou um pouco o livro e então leu enternecido estas palavras: “Desabam, apesar de sua crueza, / Ferro, granito e a onda revoltosa; / E a tal fúria deve opor-se à beleza,/ Se ela só tem a força de uma rosa?”

Ah, pensou Wayne Hyde, que beleza. Como é belo.

Às 20h40m tocou o telefone no Bar Azul. O barman atendeu. Disse qualquer coisa e lançou um olhar pelo salão, onde cerca de um dúzia de pessoas se encontravam. Ele chamou:

— Meus senhores, aqui há uma ligação para...

Hyde já havia saltado de seu lugar e acorrido ao balcão.

— Wayne Hyde — disse ele — não é?

— Sim, senhor. — E o barman lhe estendeu o fone. As pessoas no bar falavam bastante alto.

— Herdegen — disse uma voz masculina.

- Hyde. Sim?

— Os cassetes estão com eles.

— Tem certeza?

— Foi na Alfândega. Eu cheguei lá com uma ambulância e eles nos deixaram seguir até o campo de pouso para apanhar o homem. Mas a Alfândega depois revistou a mulher. E a bolsa também. Eu estava bem próximo.

— Okay, ótimo. Voarei pouco depois das 21h e chegarei a Viena por volta das 22h30m.

— Está certo.

— Como está ele?

— Mal.

— Bom — disse Hyde. Saudou brevemente e desligou. Depois escutou a chamada de seu nome. Tinha de seguir para os controles de passaporte e da Alfândega. — Como posso chamar daqui um hóspede do hotel? — perguntou ao barman.

— Disque o número nove e terá a telefonista central.

Poucos segundos depois, Hyde estava ligado com Pablo.

— Aqui é Hyde. Eles estão com os cassetes.

— Graças a Deus! Faça bom vôo, Mr. Hyde!

— Obrigado. E tudo de bom para você, menino!

Hyde pagou. Saudou levemente o barman e deixou o lugar. Estava pensando nas últimas palavras do soneto que havia lido na luta contra o tempo: “Mas que mão firme retém sua carreira? / Quem lhe proíbe o saque à beleza? // Ah! ninguém — fora o milagre, que pinta / Teu brilho claro, amor, com negra tinta.”

Tomara que o Franz traga uma Springfield, pensou Hyde. Isso é uma arma americana. Eu me sinto muito mais seguro com ela do que com uma 98-k alemã.

— Fique inteiramente despreocupado — disse o Dr. Gerd Herdegen. E limpou as gotas de suor na testa de Daniel Ross. — Tudo vai ficar melhor rapidamente. — Ele sorria. Em seus olhos estranhos agora prevalecia a impressão de tristeza sobre a de frieza. Daniel ficou olhando o homem de avental branco que se achava sentado a seu lado. Ele mesmo estava deitado de calça e camisa em cima de uma maca na ambulância que se dirigia velozmente do aeroporto em direção sudeste por uma estrada dentro da escuridão da noite.

Defronte a Daniel se achava Mercedes. Ela havia tirado seu casaco de peles. O carro estava aquecido. Mercedes segurava no colo a bolsa vermelha. A sirene da ambulância cantava. Uma luz azul, que girava piscando em cima do teto, lançava a curtos intervalos reflexos de luz para dentro do carro.

— Falta muito ainda? — indagou Mercedes.

— Nem vinte quilômetros, minha senhora — respondeu o médico.

A ambulância seguia através de espessa floresta. Nevava agora bem forte. De vez em quando, o carro derrapava, mas o motorista não reduzia a velocidade.

— Ele tem de andar mais devagar — disse Daniel.

— Ele é muito seguro. Já foi corredor de automóveis — disse o médico.

— Pouco me importa o que tenha sido antes. Ele tem de andar mais devagar.

— O senhor precisa chegar o mais rápido possível ao sanatório — insistiu Herdegen. — O senhor não está bem. Quer ter outra crise?

— Sim — replicou Daniel. — Quero ter outro ataque. Melhor ainda dois mais. Aqui na maca.

— Danny! — disse Mercedes. E, dirigindo-se ao médico: — O senhor me desculpe, por favor.

Herdegen sorriu para ela, pousou sua mão sobre a dela, e em seguida ergueu-se, empurrou para o lado a janela que dava para o assento do motorista e falou com o chofer. Fechou novamente a janela e tomou a sentar-se ao lado de Daniel.

— Está andando mais devagar. Está percebendo? Satisfeito?

Daniel não deu nenhuma resposta.

A sirene continuava cantando e a luz azul continuava lançando reflexos para dentro do carro.

Algum tempo depois, ficou claro lá fora. Através de uma faixa transparente ao alto da janela fosca, Mercedes viu ruas iluminadas e casas. Estavam passando à frente de uma prefeitura.

— Já nos encontramos em Mödling — disse o médico. — É um local de excursões muito freqüentado, ao lado do Bosque de Viena. E também um centro cultural. Aqui trabalharam Schubert, Hugo Wolf, Wildgirin. e Grillparzer. Estamos passando pela rua principal. Ali, está vendo aquele edifício iluminado. Chama-se Hafnerhaus e é um monumento histórico. Foi ali que nos meses de verão de 1818 e 1819 Beethoven compôs a Missa solemnis.

— O cofre — disse Daniel de forma quase ininteligível.

— Como? — perguntou Herdegen.

Daniel apontou para Mercedes.

— Falo com muita dificuldade — balbuciou.

— Com certeza há um cofre em seu sanatório, não, doutor? — disse Mercedes.

— Na sala da Dra. Mannholz, sim. Por quê?

As luzes tinham ficado para trás. Voltaram a passar no meio da mata. Mercedes bateu sobre sua bolsa de viagem.

— Tenho aqui documentos importantes. Queríamos deixá-los num banco em Frankfurt, mas isso foi impossível. Não podíamos adiar o vôo para Viena. Por isso ainda trago comigo esses documentos.

— Mas é evidente que o cofre está à sua disposição — disse Herdegen sorrindo. — Fique inteiramente despreocupada!

Depois de mais algum tempo surgiram novamente algumas luzinhas.

— Hinterbrühl — esclareceu o médico. — Aqui há uma jazida de gesso abandonada aberta, com o maior lago subterrâneo da Europa. Durante a estação, barcos elétricos navegam lá dentro. É uma grande atração turística.

— Tenho medo pelo Sr. Ross — disse Mercedes baixinho.

— Não precisa ter medo, minha senhora. Está nas melhores mãos. Logo ele estará recuperado. — Ele sorriu para Daniel, to mando-lhe o pulso.

— Quanto? — perguntou Daniel.

Alto — disse Herdegen. — Mas isso é perfeitamente natural. Estamos quase chegando. Ali já está Heiligenkreuz. — E dirigindo-se para Mercedes; — Está vendo aquela igreja iluminada por holofotes? Ali se encontra o mais antigo convento cisterciense da Áustria. — A neve caía violenta, em flocos grandes. Mercedes observava uma enorme construção ao lado da igreja. — Foi fundado em 1135 pelo Margrave Leopoldo, o Santo. Fabuloso! Quando já tiver passado pela desintoxicação, Sr. Ross, vai poder visitar tudo isso em companhia da prezada senhora. Aqui se achan os mausoléus dos velhos senhores feudais da Áustria. O mosteiro de Heiligenkreuz também é um local de peregrinação... - — O carro derrapou novamente, desta vez com bastante ímpeto.

— Realmente, um grande motorista — disse Daniel.

Logo adiante, Herdegen avisou:

— Nós chegamos.

O motorista buzinou.

Com a face colada ao vidro frio da janela, Mercedes enxergou à luz dos faróis um alto portão de ferro batido, no meio de um muro elevado. Atrás dele, ela divisou uma parte da casa do vigia da qual estava saindo um homem de botas e anoraque para abrir o portão. Este se abriu para os lados e a ambulância atravessou um grande parque todo coberto de neve e minutos depois parou diante de um prédio branco.

Tudo se passou muito rápido. O motorista e seu colega desembarcaram e abriram as portas traseiras do veículo. Herdegen havia ajudado Mercedes a vestir seu casaco de peles e cobrira Daniel com uma coberta. Em seguida, ajudou-a a descer, enquanto ela se agarrava a sua bolsa de v