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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


RELÂMPAGO / Robert Somerlott
RELÂMPAGO / Robert Somerlott

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

RELÂMPAGO

 

EM POUCOS quilómetros, a estrada saíra das montanhas e penetrara a direito no deserto do Mojave, e a carrinha encontrava‑se numa região árida e hostil onde não havia sinal de água nem de abrigo. O viajante começou a suspeitar de que o velhote que Lhe dera boleia era demente.

        O viajante, estudante universitário, tivera algumas dúvidas em aceitar a boleia na cabina daquela autocaravana a cair aos bocados; apercebera‑se de que tanto o veículo como o seu dono eram muito estranhos.

        Ficara encalhado perto de uma aldeia num cruzamento de estradas, precisamente a última aldeia de montanha na orla noroeste do deserto do Mojave, e lentamente o calor da tarde aumentara até se tornar insuportavelmente quente. Aliviando o peso da sua mochila, procurou refúgio à sombra de um arbusto, e quase perdera a esperança de encontrar qualquer veículo naquela estrada quando subitamente ouviu à distância uma enorme chiadeira de um motor e três ruidosos ratés. Em seguida, apareceu o veículo, descrevendo uma

grande curva. Era uma carrinha Ford que fora convertida numa

enorme autocaravana através do acrescento de paredes de contraplacado e de um telhado de chapa que a haviam transformado numa caixa bizarra, a qual sobressaía dos dois lados da cabina e se elevava bastante acima dela.

        O viajante acenou vigorosamente com o polegar pedindo boleia. A carrinha abrandou e parou poucos metros à sua frente. Ele correu para a porta do lado do passageiro. O veículo fora em tempos pintado em tons de rosa, vermelho e amarelo flamejantes, mas a tinta já

estava descorada e a saltar. Havia uma figura esbatida de um insecto qualquer com o nome cuidadosamente escrito ao lado: o VESPÃO VERDE.

        A porta abriu‑se repentinamente e o viajante deparou com um homem idoso de olhar feroz inclinado sobre o assento. Uns olhos azuis penetrantes estudaram o viajante, olhos esses implantados num rosto tão curtido pelo tempo, tão enrugado e escurecido como o tronco de um carvalho. A farta cabeleira e a barba curta e pontiaguda eram cinzento‑escuras, só de cada lado das têmporas é que se viam uns fios prateados. Na cabeça, enfiado de modo garboso, trazia um boné azul com viseira contra o sol que Lhe dava o aspecto de um oficial de marinha.

- Quer boleia? - perguntou o velho asperamente.

        - Sim, se faz favor - respondeu o viajante, perguntando depois: - Para onde vai?

- Para leste - foi a resposta vaga.

- Vai atravessar o deserto?

        - Assim o espero e tenciono. - O velho arqueou as sobrancelhas de modo pessimista. - Se Deus quiser, sairemos da desolação da Califórnia e chegaremos à terra prometida.

        O viajante depositou a mochila no chão da cabina e subiu. Entretanto, o velho estava atarefado com uns fios soltos por baixo do tablier. Quando juntou dois fios, o motor começou a trabalhar com um ronco que rapidamente se transformou em ganidos, tossidelas e rangidos.

        A embraiagem, ao ser largada, emitiu um guincho ensurdecedor e o Vespão Verde deu um esticão e depois um solavanco em frente.

        O vidro traseiro da cabina fora substituído por uma rede de arame enquadrada por uma moldura de madeira. A abertura não era grande: teria pouco mais de trinta centímetros de largura e menos de metade de altura; mas, olhando por cima do ombro, o viajante apercebeu‑se do que parecia ser uma grande caixa de madeira - não, não era uma caixa, concluiu, era uma grande jaula com os lados de madeira e uma porta de grade metálica. Ao lado desta havia uma outra jaula idêntica. O que é que estaria ali aprisionado? Animais para o jardim zoológico? Naquele preciso momento, ouviu‑se lá atrás um rosnar selvagem, seguido de pancadas e estrondos, como se algum animal estivesse a atirar‑se contra a porta da jaula.

        Quando o rosnar atingiu um timbre frenético, o viajante perguntou alto:

- É um lobo?

- O quê?

- O grande animal que está lá atrás. É um lobo?

        - Santo Deus, não! - disse o velho, acrescentando em seguida com firmeza: - Os lobos, meu jovem, só são animais grandes no Norte. Os desta região são pouco maiores que raposas. O que eu levo de volta para sua casa é um jovem delinquente perigoso, por assim dizer. Não é uma tarefa que eu quisesse ou esperasse.

        Naquela altura, o viajante começou a interrogar‑se se o velho não seria um pouco louco. As investidas acalmaram, e até o motor se acalmou na longa descida em direcção ao deserto. Seguiam sem falar. Uma disposição sombria apossara‑se do velhote. Parecia nem dar pelo viajante a seu lado, que, recostado no banco, tentava dormitar.

        Passou pelo sono durante uns minutos e depois despertou lentamente. Sonolento, deu por si a olhar para o espelho retrovisor. Com os safanões do camião, o espelho ficara numa posição tal que o viajante viu um reflexo da janela coberta de rede e, subitamente, o rosto de uma criança, um rapazinho, que olhava fixa e silenciosamente para a cabina através das grades. O viajante teve a impressão de avistar uma cabeleira farta e escura, um rosto pálido e uns grandes olhos cinzentos.

        A impressão desvaneceu‑se, e o viajante endireitou‑se, pestanejando, subitamente bem acordado, consciente de que o que acabara de ver não fazia parte de um sonho; no entanto, havia uma certa faceta de irrealidade no estranho e inesperado aparecimento da criança vigilante.

        Voltou a cabeça, tentando espreitar pela rede, mas o rapaz desaparecera. O condutor dissera que transportava um jovem delinquente. Seria aquele rapazinho?

        O velhote começou a cantar, e a sua voz, rude e ríspida quando falava, elevou‑se num tom surpreendentemente caloroso. Não cantava para si próprio. Com a cabeça ligeiramente virada para a rede, parecia cantar para a traseira do veículo, para a caixa que aprisionava o rapaz e o animal. Acabou de cantar e, ainda falando por cima do ombro, disse:

        - Já faltam poucos quilómetros, rapaz, e chegaremos à fronteira do Arizona. Vamos ficar contentes por sair da Califórnia, não é verdade, meu rapaz?

O velhote, ao notar a expressão de dúvida do viajante, explicou:

        - Todos gostam que se fale com eles, é assim que se socializam. Fala‑se ou canta‑se. Talvez eu consiga comunicar com aquele camarada lá atrás. - Com o polegar, apontou para a traseira da carrinha. - A menos que já esteja completamente passado... enlouquecido pelos maus tratos. - Repentinamente, o velhote bateu com o punho contra o volante. - Pessoas! A maior parte delas nem merecem que Lhes chamem animais, quanto mais pessoas.

- O rapaz que tem ali atrás é muito bem‑parecido.

        - Bem‑parecido? - A sua voz soou como um ronco. - Na

minha vida vi poucas criaturas de Deus tão bonitas como aquela. Isso é fogo puro. Relâmpago, aço e mercúrio. Uma pantera teria inveja do modo como ele se movimenta...

Mas como é que sabe qual é o aspecto dele? Você não o viu.

- Avistei‑o há minutos... quando ele olhou pela janela.

        - Olhou pela janela? - O velhote, com ar duvidoso, olhou de relance para o viajante. - De que diabo está você a falar?

- Do rapazinho que está lá atrás. Eu vi‑o pelo retrovisor.

        - Bem, você estava a sonhar. Lá atrás não está ninguém além do Relâmpago.

- Decerto sonhei - disse o viajante sem convicção.

        Agora encontravam‑se bem no coração do Mojave, e a paisagem de ambos os lados era de aridez e hostilidade. Os planaltos escuros emparedavam o céu com o seu xisto e arenito ardendo ao sol. Estava‑se no fim da Primavera e o deserto florescia, o mato agreste estava salpicado de amarelo, os cornilhões exibiam um amarelo suave que desmentia o seu nome sinistro, e sempre que surgia um pedaço de terra que cobria o solo rochoso, as flores cor de laranja da

ocotilla disputavam terreno ao tremoço azul‑celeste.

        Mas nem as flores conseguiam disfarçar a desolação da terra, lugar de luta tão feroz que até as plantas eram espinhosas, couraçadas e ásperas.

        O velhote elevou a voz acima do ruído do motor, meio a falar, meio a cantar:

        -... No meio do vale cheio de ossos. Os nossos ossos estão ressequidos e a esperança perdida... - Suspirou e disse calmamente: - As palavras não têm grande importância. O que importa é o tom de voz: tem de ser forte e interessado, e sempre, e acima de tudo, deve soar como o amor...

        RELâmpago estava agachado nas sombras profundas do chão da jaula, inquieto, vigilante e atento como um caçador.

        Com apenas dez meses de idade, já tinha o corpo flexível e possante de um pastor alemão adulto. O corpo magnífico ultrapassara o cérebro. O espírito e as emoções permaneciam confusos e indistintos. Relâmpago ainda não tinha noção do seu lugar no Mundo. Estava familiarizado com os maus tratos, mas não tinha qualquer experiência de amabilidade, e assim, à medida que a sua força crescera, crescera também a raiva. Nunca correra livre pelos prados, nem vagueara pelos bosques, nem sequer conhecia o companheirismo de um ser humano nem de nenhum da sua espécie.

        Só o instinto vago e a experiência colectiva de gerações o impediam de ser selvagem; encontrava‑se subdesenvolvido em tudo, excepto como arma soberbamente concebida para o ataque e a destruição, mas uma arma sem orientação nem controle. E, ao contrário de uma arma, o Relâmpago conhecia a dor e a saudade.

        Na véspera de manhã, a rotina invariável da sua vida fora quebrada; ele fora retirado ao meio que sempre conhecera, e na estranheza do novo ambiente inesperado a jaula oferecia‑lhe uma certa intimidade, parecia oferecer‑lhe segurança e protecção - era a sua própria toca.

        As suas memórias conscientes cobriam oito meses da sua vida de dez, e durante todo esse tempo vivera num subúrbio de S. Francisco, numa de pequenas casas térreas em talhões de terreno idênticos. Não havia nem caminhos nem passeios, visto que não era de esperar que alguém andasse por ali a pé e aos cães não era permitido. Os pátios planos à frente das casas terminavam em lancis de cimento

que delimitavam o botume.

        O Relâmpago passara quase todos os dias da sua vida preso a uma corrente, por sua vez presa a uma argola que deslizava ao longo de um grande tubo metálico que se encontrava entre a esquina da casa e um poste de electricidade do seu pátio. A argola deslizante permitia‑lhe liberdade de movimentos para ½defender o seu domínio, o único chão que as suas patas sempre pisavam, correndo diagonalmente até à rua, exactamente vinte metros de comprimento e seis metros de largura.

        Correndo selvaticamente ao longo do cabo para trás e para a frente, centenas de vezes por dia, percorria o equivalente a vários quilómetros. As suas omoplatas tornaram‑se poderosas e os musculosos quadris, que o propulsionavam.no incessante caminho de trás para a frente, tornaram‑se fortes como molas de aço.

        Durante todo o tempo, o Relâmpago sofrera física e emocionalmente. O forte afecto natural do cão não era correspondido e era até ignorado; foi sendo assolado por uma confusão de emoções e tornou‑se indiferente antes de ficar enraivecido. Sentia que não pertencia a ninguém nem vivia com ninguém, mas apenas que a casa atrás do seu território era acidentalmente ocupada por duas pessoas, a

Mulher Jasmim, que cheirava a uma imitação fraca de uma planta

que crescia do outro lado da rua, e o Homem Cebola, que cheirava ao vegetal que crescia a esmo atrás do telheiro do carro. O Homem Cebola ou, por vezes, a Mulher Jasmim davam‑lhe comida, que habitualmente era suficiente, excepto nos dias em que a casa tresandava a álcool. Nessas alturas, esqueciam‑se de que ele existia.

        Ele não tinha consciência de que eles tinham nomes, que se chamavam George e Wilma Blount. Os Blounts nunca falavam com ele e raramente um com o outro, achando mais fácil comunicarem umas quantas necessidades essenciais por acenos, grunhidos e gestos incompletos.

        George Blount, que nunca possuíra um cão, adquirira este cachorro pastor alemão por mero acaso. Era capataz da secção de transporte de uma fábrica de alimentos na cidade, e um dia, quando almoçava na cantina com outros colegas, entrou um homem do departamento de vendas chamado Arthur Wheeler, que se sentou à mesa deles. Isto foi muito lisonjeiro para George porque Wheeler era considerado um dos jovens mais importantes da empresa: era o vendedor principal de uma vasta região. Raramente aparecia na cantina, mas quando o fazia a sua atitude era sempre jovial e de camaradagem.

        Ao café, a conversa à mesa voltou‑se para o súbito aumento do crime em subúrbios que antes eram seguros, e George, que estava preocupado com isso, contava dois assaltos ocorridos durante o dia na sua vizinhança quando Arthur Wheeler o interrompeu:

        - George, hoje é o teu dia de sorte. Eu tenho a resposta perfeita para o teu problema.

George ficou com uma expressão inquiridora.

        - Um cão de guarda! Um sobrinho da minha mulher vive connosco desde que os pais morreram num acidente de viação. Precisamente ontem, o avô do rapaz mandou‑lhe um cachorro, um pastor alemão de primeira categoria de uma das melhores criações do país. Um cão muito valioso.

- Quer vendê‑lo? - perguntou George num tom alarmado.

        - Claro que não! O avô do meu sobrinho é louco por estes cães. Ele cria‑os num rancho nas Montanhas Rochosas, treina‑os, põe‑os à prova em algumas competições. É famoso entre os apreciadores dessas coisas. Se calhar, já ouviu falar dele: Cappy Holland.

- Não. Cappy é um nome estranho para um homem.

        - É um diminutivo. Ele é o capitão Elias Holland, que em tempos pertenceu ao Exército. Acho que foi o fundador do corpo de cães treinados para o serviço militar. Toda a gente Lhe chama Cappy. Em resumo, ele mandou ao David, que é o meu sobrinho, o tal cachorro, mas não podemos mantê‑lo no nosso apartamento porque o contrato proíbe cães no edifício. Se o devolver ou vender vou ofender o velhote. Na Primavera, ele virá à Califórnia, e a primeira coisa que pedirá será para ver o cão. Por isso, eu esperava encontrar uma casa boa nos arredores onde o meu sobrinho possa visitá‑lo de vez em quando. E parece que tu estás a precisar de um cão de guarda.

Arthur Wheeler fez um gesto indicativo de que tinham os problemas de ambos resolvidos.

        Algo se agitou na imaginação dormente de George. Viu‑se como o proprietário de um animal de grande distinção, um canino valioso criado para guardar os tesouros dos ricos e famosos.

        - Eu fico com o cão - disse ele, e subitamente deu por si a apertar a mão de Arthur.

        Três dias depois, o cachorro, Relâmpago, foi agrilhoado no pedaço de relva de George Blount. Arthur Wheeler, exibindo um sorriso, acenou um adeus a George, prometendo trazer o sobrinho para brincar com o cão numa altura indefinida. Mas, na noite anterior, Arthur e a sua mulher, Nadine, já tinham concluído que tais visitas só iriam perturbar o rapaz, que poderia ficar demasiado ligado ao cachorro.

        Durante os meses do seu crescimento, Relâmpago viveu uma vida sempre igual. Todos os dias úteis de manhã, George Blount tirava‑o do canil e prendia‑lhe a coleira à corrente no pátio. Normalmente, George lembrava‑se de encher o prato da água do Relâmpago, mas quando se esquecia, à tarde ele passava pelo tormento da sede abrasadora.

        Mesmo quando o prato ficava cheio, um dia quente era sinónimo de sofrimento. Como não havia qualquer sombra, Relâmpago escavava buracos no quintal para poder deitar‑se perto da terra mais fria. Arrastava‑se, arquejava e transpirava com a língua de fora e arranhando com as patas. O Relâmpago tinha apenas três meses quando George Blount chegou a casa e, encontrando a relva estragada, bateu no cachorro com uma correia de couro. O cão não ofereceu resistência porque George, o Homem Cebola, era quem Lhe dava a comida. Porém, quando o sol recomeçou a escaldar, o Relâmpago

sentiu‑se compelido a escavar de novo. Finalmente, George desistiu, concluindo que o cão era estúpido. A ideia da sombra nunca Lhe passou pela cabeça. Os tormentos do calor, da sede e do encarceramento eram difíceis de suportar, mas a solidão do Relâmpago não era menos brutalizante. A dor da solidão era vaga e disforme, era um sofrimento agudo e indefinido que o levava à raiva.

        E às vezes, quando dormitava no pátio, sonhava que corria livremente, selvagem e alegre, lançando‑se de relvado em relvado como vira os esquilos fazer. Este sonho de liberdade era o seu maior prazer, e o seu maior castigo era o tormento infligido pelos seus inimigos: as três crianças que apareciam muitas vezes ao fim da tarde.

        A primeira vez que Relâmpago as viu aproximarem‑se do pátio, sentiu‑se instintivamente gentil. Uma voz interior assegurava‑lhe que não devia fazer mal nem assustar aquelas pequenas criaturas. Mas depressa aprendeu dolorosamente que elas apareciam apenas para se divertirem a fazer‑lhe mal. Mantinha‑se em segurança fora do alcance delas, mas as crianças atiravam‑lhe pedras e paus. Uma delas tinha um arco e setas com ponta de metal, que, apesar de não serem afiadas, magoavam. O Relâmpago partia as setas com um fechar das mandíbulas.

        As crianças aproximavam‑se, pisando a relva, mesmo até ao

limite da sua corrente, e o rapazinho mais velho, que percebia de fósforos, ateava jornais enrolados e arremessava‑os a arder para o enlouquecido animal, gritando de triunfo.

        As crianças voltavam frequentemente, e a pouco e pouco o espírito assediado do Relâmpago começou a estreitar‑se, a fixar‑se numa única coisa: elas eram o inimigo, e aprendeu a odiá‑las.

        De vez em quando, à noite ou aos fins‑de‑semana, apareciam visitas lá em casa. O cão apercebia‑se do prazer do Homem Cebola quando os visitantes só podiam acercar‑se do carreiro ou atravessar o pátio depois de ele Lhe agarrar ostensivamente a coleira; e o Homem Cebola evidenciava igual prazer quando os convidados só conseguiam sair de casa escoltados por ele na travessia dos temíveis

domínios do Relâmpago.

        - É um assassino nato! - alardeava o Homem Cebola. - Eu só consigo lidar com ele porque Lhe dou de comer.

        O Relâmpago não compreendia as palavras, mas reconhecia o

orgulho e a aprovação na voz do homem e percebia que o que fizera para atemorizar os visitantes estava certo.

        Então, uma noite de Primavera, apareceu uma mulher. Trazia jóias de prata ruidosas e um casaco de fazenda que resplandecia e ondulava atrás dela. A mulher deixou o carro na rua, como faziam todos os visitantes, e aproximou‑se do carreiro exactamente no momento em que o Homem Cebola saía de casa e se aproximava do telheiro do carro, gritando:

- Espere um pouco, Marian, para eu segurar o cão.

        - Oh, quem é que tem medo de um cão! - retorquiu ela, avançando de queixo erguido. - Cala‑te, estúpido!

        O Relâmpago, rosnando e exibindo os dentes, investiu contra a intrusa, arremessando‑se com toda a sua força. Gritando em pânico, a mulher saltou para trás, tropeçou e caiu no caminho de cimento. Ficou fora do alcance do cão, mas ele apanhou‑lhe o casaco com os dentes e arrancou‑lhe uma grande tira.

- Malvado! - gritou ela, depois soltou pequenos gemidos.

        O Relâmpago, reagindo aos gemidos, investiu de novo, ladrando furiosamente.

- Quieto, quieto! - gritou o Homem Cebola completamente

em pânico. - Lamento, Marian. Deixe‑me ajudá‑la. Entre e lave‑se que eu vou preparar‑lhe uma bebida. Oh, eu vou castigar o cão, prometo‑lhe. Hei‑de bater‑lhe em cada centímetro do seu corpo.

- Espero bem que sim!

        - Por favor, não deixe que isto estrague o nosso serão. Wilma tem o jantar pronto. Vá lá, agarre‑se à minha mão.

A mulher desprezou a ajuda dele.

        - O meu casaco novo está estragado! Faz alguma ideia de

quanto me custou este casaco? Alguém vai pagar isto e pagar bem, isso posso garantir‑lhe. Você convidou‑me para vir aqui, George Blount, é você o responsável pelo que aquele malvado vira‑latas faz! Amanhã, vou falar com o meu advogado. - Depois, saltou para dentro do carro, continuando a soltar gemidos de perturbação.

        Depois de ela partir, o Homem Cebola entrou em fúria. Amaldiçoou e pontapeou o Relâmpago, perseguindo‑o de um lado ao outro do cabo, esbracejando e gritando. O Relâmpago suportou o castigo, pensando que Lhe estavam a bater por ter deixado escapar a mulher, e percebeu que no futuro tinha que saltar mais rapidamente.

        Dois dias depois, o advogado da mulher telefonou para o emprego do George Blount exigindo uma elevada soma de dinheiro, avisando‑o de que iria processá‑lo e ameaçando George de um processo penal por albergar um animal perigoso. Desvairado, George tentou encontrar Arthur Wheeler, mas o vendedor estava fora em serviço e George teve que esperar, apavorado, três dias.

        Ao quarto dia, Arthur apareceu resplandecente num fato de xadrez e foi encontrar George a trabalhar junto de umas caixas de cebolas e outros vegetais.

        - George, meu rapaz, dá‑me os parabéns! - disse Arthur, sorridente. - Vou ser pai após seis anos de espera. Nadine e eu Ja tínhamos perdido as esperanças, mas agora esperamos um feliz acontecimento.

George murmurou os parabéns, depois desatou a contar a sua história.

        - O cão é louco, é naturalmente mau - explicou ele. - Amanhã, vou livrar‑me dele. Chamo um veterinário... ou ponho a Polícia a tratar do caso?

O rosto normalmente resplandecente de Arthur, ensombrara‑se.

        - Espera aí! Eu disse‑te há uns tempos que o avô do meu sobrinho vinha a S. Francisco. Bem, dentro de duas semanas vem cá para ser júri de um concurso qualquer de cães e vai querer ver o cachorro. Depois disso, podes fazer o que quiseres. Eu falo à mulher para a acalmar, mas ficas com o cão mais duas semanas, entendido?

Dois domingos depois, apareceu na rua uma ruidosa autocaravana que parou junto à casa. Da cabina saiu um velhote com uns olhos azuis muito brilhantes. O Relâmpago desafiou‑o, correndo de um lado ao outro da corrente, ladrando ameaçadoramente, mas o velhote não pareceu ficar perturbado. Permaneceu imóvel no lancil e observou o Relâmpago atentamente, seguindo todos os seus movimentos, saltos e arremetidas. Por fim, abanou a cabeça e deu um grande suspiro. Baixou‑se apoiado num joelho e começou a falar num tom simpático e descontraído, quase como se estivesse a cantar.

        O Relâmpago, subitamente curioso pela suavidade do som e pela imobilidade do homem, parou de ladrar e escutou intrigado, porque nunca ninguém Lhe dirigira mais do que duas ou três palavras. Tanto o homem como a autocaravana exalavam um cheiro antigo de cães, e as botas do homem tinham cheiros mais recentes de animais estranhos que Relâmpago nunca vira. Outra coisa estranha era o facto de o velhote não mostrar o mínimo sinal de medo, apesar de ele, Relâmpago, rosnar selvaticamente.

        - Tu és lindo, apesar de dizerem que és louco! Demasiado belo para seres posto a dormir, se se puder evitar. Mas que posso eu fazer contigo? Estou demasiado velho para começar com outro cão. Velho e cansado... e demasiado amargurado.

        O homem tirou do bolso da camisa uma pequena bola de carne. Com um gesto lento e suave, atirou‑a para os pés do Relâmpago. Satisfeito com o perfume tentador do hamburger, o animal engoliu a oferta de um só trago.

        - Era bom, Relâmpago? Tinha um medicamento. Uma coisa que te vai fazer sentir calmo e um pouco ensonado.

        A porta bateu quando George Blount saiu de casa e atravessou o relvado, sorrindo.

- Capitão Holland?

O velhote fez um ligeiro aceno.

        - Eu li aquele artigo sobre o senhor no Chronicle ontem. - George esforçava‑se por ser afável. - Bela fotografia também. Parece que o senhor já fez tudo o que é possível fazer com cães.

        - Não, senhor, nem tudo. Nunca maltratei nenhum. - Cappy

Holland olhou para a corrente e para o cabo com um olhar terrível.

George pestanejou.

        - Bem, capitão, aqui está o cão. Treinei‑o para cão de guarda. Acho que o treinei demasiado bem. Gastei uma fortuna para o alimentar, depois ele tornou‑se um malvado e atacou uma senhora.

        Relâmpago, entretanto, parara de rosnar. Sentiu gradualmente uma sensação de calma e bem‑estar invadir‑lhe o corpo.

Quando o velhote se aproximou, ele manteve‑se calmo enquanto

era substituída a correia de cabedal, que servia como imitação de coleira eriçada, por uma simples corrente com um nó de correr. O Relâmpago viu o Homem Cebola retirar‑se apressadamente em direcção à casa e depois dirigiu‑se docilmente para a carrinha e entrou na jaula aberta sem protestar.

        Adormeceu, e quando acordou, a meio da tarde, continuava a sentir‑se tranquilamente seguro, mas a vivacidade dos seus sentidos estava a regressar. Como ele não via para fora da carrinha, levou algum tempo a entender que estava em movimento, e só se apercebeu disso devido à súbita alteração de cheiros e sons, uma festa variada de odores como nunca conhecera. Ele ouvia o velhote dizer e por vezes cantar na cabina palavras sem significado. Mas havia uma que ele repetia vezes e vezes sem conta: ½Relâmpago... Relâmpago... Relâmpago.... Era um som apaziguador, no entanto sentia‑se invadir por uma sensação de inquietação e desconfiança e, finalmente, percebeu que não estava sozinho com o velhote. Havia uma outra pessoa na autocaravana, alguém que não se mexia nem falava e que só era detectável pelo cheiro.

        Pouco depois, ele avistou o tal passageiro secreto. Pararam num lugar que cheirava bastante a gasolina e a óleo. O velhote saiu, batendo com a porta atrás de si, e por momentos ouviu‑se um suave remexer na outra extremidade da carrinha, seguido de passos cautelosos. A seguir, o Relâmpago viu‑o então através das grades. Era um rapaz, que exalava o cheiro do medo ao esticar‑se para apanhar o grande jarro de plástico com água que estava no chão perto da jaula. O animal recuou, depois atirou‑se para a frente, rosnando, contra a porta da jaula. O rapaz fugiu e escondeu‑se, enquanto Relâmpago fincava na rede as unhas e os dentes, atacando mentalmente um outro rapaz que o magoava com pedras e Lhe atirava jornais a arder.

        Finalmente, quando voltaram à estrada, o som da voz do velhote acalmou‑o, e à medida que escurecia, ele deixou‑se dormir. Mas foi um sono agitado, porque ele sabia que tinha de manter‑se alerta. Em breve, o rapaz atacaria a jaula e iria fazer‑lhe mal.

        A noite caiu e eles continuaram a avançar para sul pelo grande vale central da Califórnia. Já bastante tarde, pararam num lugar perto de um rio. O velhote saiu da carrinha para dormir umas horas num alojamento turístico, mas regressou ainda antes do alvorecer. Durante a noite, o rapaz voltou a pegar no cantil da água, mas nessa altura o cão, em vez de o provocar, fingiu que dormia, pronto a atirar‑se com os dentes dilacerantes.

        Nessa manhã, continuaram em direcção ao Sul; no meio da

madrugada amarelo‑pálida, foram virando para leste. Finalmente, o velhote parou na berma da estrada e deu ao Relâmpago outra bola de carne. Quando a paz e a calma suplantaram a fúria do Relâmpago, o homem abriu a jaula e pôs lá dentro comida e água, demorando uns minutos a limpar o chão.

        à tarde, deixaram a estrada principal e seguiram por uma que ia para as montanhas.

        - É um pouco isolada e tem muitas curvas - informou Cappy Holland ao Relâmpago, falando animadamente da cabina. - Mas no fim desta estrada irás ver a mulher mais bonita e simpática da Califórnia.

Mais tarde, disse:

        - Olha ali um viajante a pedir boleia, Relâmpago. E melhor pararmos; mais uma hora ao sol e ficará desidratado.

        E naquela altura, já com o tal viajante, embrenhavam‑se mais profundamente no deserto.

 

A ESTRADA serpenteava ao longo das encostas meridionais, dentadas, das montanhas Providence, contornando a orla de um vale inóspito e desolado. O Vespão mergulhava em depressões súbitas, balançava, abanava e estremecia na estrada deformada e degradada.

        Na retaguarda da carrinha, escondido por um armário sem porta, atrás de uma manta de navajo pendurada, o rapaz, David, tentava manter‑se no mínimo meio adormecido e também sonhar com neve.

        Ele vira neve, neve a sério, apenas uma vez, há dois anos, quando o seu pai, apercebendo‑se de que ele chegara ao seu oitavo aniversário sem conhecer o verdadeiro Inverno, o levou, a ele e à sua mãe, a ver a grande serra em Março. Passaram três dias numa estância de esqui. A mãe geralmente ficava em casa junto à lareira, mas ele e o pai quase viviam nas encostas a andar de trenó, a fazer um boneco de neve gigante e a explorar os pinheiros brancos. Apenas três dias, mas sempre que David os recordava, parecia‑lhe que ele e o pai tinham passado semanas naquela brancura deslumbrante.

        A sua vida mudara por completo no fim daquele fim‑de‑semana. Quando voltavam para S. Francisco, o carro colidiu de frente com um camião. A mãe de David morreu instantaneamente; o próprio David passou um ano em vários hospitais, aprendeu a andar de novo e foi mandado para casa no mesmo mês em que o seu pai, Ben Holland, morreu em consequência do acidente.

        Nos últimos dois anos, desde o acidente, ele aprendera a ser paciente: primeiro imobilizado nas camas dos hospitais e depois numa cadeira de rodas. Estivera manietado em talas e ligaduras. Fora libertado daqueles constrangimentos, segundo Lhe parecia, já há muito tempo; aprendera mesmo a correr, embora ainda não muito depressa. Mas sabia bem como manter‑se quieto.

        A carrinha mergulhava num novo arroio, balançando e chocalhando, e a cabeça de David saltava sobre a fina almofada que ele fizera dobrando o casaco de xadrez que a tia Nadine insistira que ele vestisse quando, na véspera de manhã, Lhe preparara a roupa para a viagem de camioneta para o acampamento de rapazes no Rancho Redwood. Na lapela do casaco, estava um alfinete‑de‑ama, que segurara um cartão branco com uma mensagem: Senhor Motorista, esta é a primeira vez que David viaja sozinho. Por favor, veja se ele sai em Ukiah, onde haverá gente à espera dele. Muito bom dia para si. Nadine Wheeler. Que recado tão estúpido! Como se ele fosse um bebé... até parecia que ele não sabia ler as placas das paragens, apesar de já ter feito dez anos.

        Mas David não disse nada à tia Nadine, pois pensou que, logo que desaparecesse da vista, rasgaria o bilhete. Na altura em que ela Lhe pregou o bilhete com o alfinete, ainda era possível ele ir realmente para o acampamento de rapazes no Rancho Redwood.

        A manhã da véspera fora um mau bocado. Durante quase três horas, David fingira estar desgostoso de ir para o acampamento, enquanto a sua tia tentava esconder a alegria perante os seus planos de sair da cidade logo que David partisse. Para complicar as coisas, o avô ia fazer‑lhes uma rápida visita.

- Logo hoje! - comentara a tia Nadine amargamente.

        As roupas, recentemente marcadas com o nome dele, e as outras coisas necessárias para três semanas estavam emaladas numa mochila às riscas azuis e brancas.

        - Uma mochila como as dos marinheiros - exclamou a tia alegremente, disfarçando os nervos com o entusiasmo.

        Mas David sabia bem como era. Nos últimos tempos, fizera várias visitas secretas ao cais de S. Francisco para avaliar as possibilidades de partir escondido num barco. Vira muitos marinheiros, eles transportavam variadíssimas mochilas, mas nunca vira nenhuma às riscas.

        - Olha, David! - disse ela alegremente. - O teu saco está pronto e arranjei‑te um enorme almoço delicioso. O bilhete de autocarro está espetado no teu bolso, e o recado, no teu casaco. Tens dinheiro para o táxi e para despesas. Portanto, estás pronto!

        Ele fitou‑a em silêncio, incapaz de falar, porque sabia como ela estava feliz por ter a sua própria mala já feita, no quarto, pronta para ir ter com o tio Arthur ao lago Tahoe.

- Uma segunda lua‑de‑mel! - fora a descrição dela ao telefone com uma amiga. - Apenas Arthur e eu! Apenas nós dois! – David apanhara a conversa no telefone portátil.

        Também escutara a conversa quando ela e o tio Arthur tinham decidido não Lhe falarem naquelas férias. Eles tinham dito que não queriam que ele se sentisse posto de lado, mas a tia Nadine acrescentara:

        - Eu não consigo suportar outra cena com ele agora.

As cenas a que ela se referia eram habitualmente momentos de raiva silenciosa que surgiam depois de ele a ter ouvido falar arrebatadamente sobre ½o novo bebé que vem para Novembro. Ele nunca fora o que eles queriam, fora um substituto, e agora era um substituto desnecessário.

        Quando estes pensamentos o assaltavam, sentia‑se sufocado. O seu pai morrera há um ano. A tia Nadine levara‑o para casa dela e tentara ajudá‑lo a esquecer a perda dos pais. Mas agora que ela ia ter o seu próprio filho, muitas vezes parecia que se tornara um esforço ser amável com ele.

        Então, na noite anterior à sua partida para o acampamento, o tio Arthur telefonara de Denver, e David, escondido, ouvira de novo a conversa.

        - Sabes, Nadine, desde que o David foi viver connosco que não viajamos juntos - dissera o seu tio, e pareceu a David que havia um tom de ressentimento na sua voz que ele nunca notara antes do anúncio da vinda do bebé.

        De manhã, ao pequeno‑almoço, a tia passara o tempo a olhar para o relógio, ansiosa, supunha ele, que chegasse a altura de ele se ir embora, mas a conversa dela foi sobre o avô de David.

        - É um homem que não tem consideração nenhuma! Está na cidade há quase uma semana e espera até ao último segundo para vir cá a casa. Eu disse‑lhe que tu tinhas que apanhar a camioneta cedo e que eu tinha um milhão de coisas para fazer. Ele não se importa absolutamente nada! Oh, os problemas que Alice teve com aquele homem!

        Alice era a mãe de David, e a tia Nadine nunca escondia a falta de afecto entre Alice e Cappy Holland. David sabia muito pouco sobre o seu avô, mas no seu espírito o velhote era uma figura relacionada com desgraça e tragédia. Tanto quanto se lembrava, vira o avô apenas três vezes. Há muito tempo, quando ainda era pequeno demais para perceber, ele estivera com os pais e o avô num parque, e havia centenas, ou talvez milhares, de cães a ladrar num campo aberto.

Depois, passado muito tempo, quando ele e o pai estavam em quartos separados no mesmo hospital, o avô fora visitá‑los, mas David não se recordava de nada da visita, excepto de três balões vermelhos atados a um pé da cama.

        A última visita fora há um ano, na altura do funeral do seu pai. O velhote olhara para ele lá do alto e dissera:

        - Estás com melhor aspecto que da última vez que te vi. Já não usas ligaduras nem muletas?

- Não - respondeu David. - E corro cada vez melhor.

        Mais tarde, nesse mesmo dia, o avô depositou nas mãos de David um pequeno embrulho. Começou a falar, depois abanou a cabeça e, dando meia volta, foi‑se embora.

        O embrulho continha um presente estranho: uma bola, pouco mais pequena que uma bola de ténis, feita de uma borracha muito dura. Quando se deixava cair, a bola emitia um som como um toque de sino abafado. Era muito velha, cheia de amolgadelas e marcas e com apenas alguns vestígios de que fora verde.

A tia Nadine olhara para a bola com desagrado.

        - Marcas de dentes! - exclamara. - Só Deus sabe quantos

cães já abocanharam essa coisa... e que parasitas eles tinham. - Levou‑a para a cozinha, segurando‑a desajeitadamente entre o polggar e o dedo médio.

David nunca mais voltou a ver a bola.

        Julgava, embora não tivesse bem a certeza, que fora nesse

mesmo dia que o tio Arthur e a tia Nadine Lhe tinham dito que ele ficaria a viver com eles para sempre, iria ser o filho deles. Haviam‑Lhe explicado que era maravilhoso para eles, porque sempre tinham querido ter um filho e que assim tinham um filho perfeito, já pronto.

        David mal pensara de novo no avô, até que no fim do Verão, uma vez ao almoço, a tia Nadine fez um anúncio seco:

- O teu avô mandou‑nos um cão.

        - Um cão? - Os olhos de David dilataram‑se de entusiasmo. - Onde é que ele está?

        - Ainda está no aeroporto, mas vão trazê‑lo cá. Graças a Deus, o teu tio volta amanhã.

- Podemos ficar com ele? - perguntou David em expectativa.

        - Oh, David, sabes muito bem que não podemos - disse ela

amavelmente. - Não são permitidos cães neste edifício, está escrito no contrato. Acredita, David, tenho muita pena.

        David viu o cachorro uma única vez. Quando vieram entregar o cão, ele foi guardado na cave do edifício numa caixa de fibra de vidro com uma porta de grades. Os uivos de solidão do animal provocaram em David emoções estranhas e perturbadoras. Aproximou‑se cautelosamente. Quando enfiou os dedos por entre as barras, o cachorro deixou de uivar e uma língua pequena e vermelha lambeu os dedos de David.

        Dois dias depois, quando o tio Arthur lhe disse que o cão ½tinha uma casa maravilhosa nos subúrbios , os olhos de David encheram‑se de lágrimas, e o tio Arthur percebeu que ele estava prestes a chorar.

        - Não deves ser egoísta! - disse Arthur Wheeler com firmeza. - O cachorro vai ter um grande pátio para brincar. Pode passar o tempo todo fora de casa na relva. Como podes estar triste sabendo que ele lá irá ter uma vida feliz e que aqui viveria engaiolado?

        Não se voltou a falar no cachorro, mas de vez em quando David pensava no avô e no rancho na montanha de onde o cachorro viera.

        "Vive rodeado por cães. Cães no sofá, cães no quarto e até cães na cozinha, suponho eu."

        Em Março, dois dias depois do décimo aniversário de David, chegou uma encomenda do avô. Continha um apito comprido e estreito de metal brilhante atado a uma forte corrente.

        Mas o apito era defeituoso: por mais que David soprasse, só emitia um ligeiríssimo som. A tia Nadine comprou‑lhe dominós coloridos para o compensar da decepção.

        David guardou o apito na caixa de charutos juntamente com a bússola partida, o carro de corrida a pilhas que não funcionava, o cadeado sem chave e outras preciosidades. Ele pressentia algum mistério no apito, tinha o pressentimento de que o avô não lhe mandara apenas um brinquedo estragado.

Esqueceu‑se do avô, até que um dia a tia Nadine disse:

        - O teu avô vem a S. Francisco, mas não sei se poderás passar muito tempo com ele. Tens os ensaios para o teatro da escola, depois a representação na sexta‑feira, o piquenique do fim de período no sábado e depois no domingo partes para o acampamento.

        Mas nos dias que se seguiram, David esqueceu‑se praticamente do avô, e até no domingo de manhã, altura em que ele era esperado, outras coisas ocupavam o espírito de David. O acampamento no Rancho Redwood seria mesmo só um acampamento ou seria um orfanato, uma casa para crianças indesejadas que tinham sido substituídas?

Mas depois chegou o avô.

        - Olá, Nadine. Como está? - A voz dele trazia o ar livre para dentro de casa, e a sala, que pouco tempo antes era grande, subitamente ficou acanhada.

        - Cappy, que bom vê‑lo! - A tia Nadine apertou‑lhe a mão

estendida.

- Olá, David, soube que tens estado muito ocupado esta semana. Foi pena. Tivemos ontem uma bela prova de obediência.

Esperava que pudesses assistir, mas a tua tia disse que ficarias muito triste se perdesses o piquenique da escola.

        David olhou para o rosto curtido enquanto apertavam as mãos. Como não Lhe ocorreu mais nada para dizer, disse apenas:

- Obrigado pelo apito, apesar de não funcionar.

        - Não funciona? - O avô franziu o sobrolho. - Como havias de saber? Isso é um apito que só os cães conseguem ouvir Quando te mandei o apito, pensei que ainda tinhas um cão. Depois, soube pelo telefone que estava enganado.

        - Quer tomar um café? - perguntou a tia com a voz bastante tensa. - Tenho pena de que Arthur não esteja cá. Eu já Lhe disse que ele está em Denver, não disse?

        Enquanto tomavam café, o avô e a tia falaram de pessoas e de tempos que David não conhecia. Era uma conversa incómoda, pontuada por silêncios embaraçosos. David sentia medo do avô -

medo e respeito. Contudo, sentia um grande desejo de aceitação por parte do velhote. Tentou pensar em algo para dizer que fizesse recair a atenção sobre ele, algo de inteligente que fizesse o velho sorrir ou mesmo acenar de admiração, mas continuou sentado a olhar estupidamente para os seus atacadores. Entretanto, ao escutar, reconheceu na voz de Cappy algo que Lhe era inquietantemente familiar. Lembrou‑se do pai, lembrou‑se outra vez da neve.

A tia Nadine olhou para o relógio.

        - Oh céus! Acho que David tem de se apressar, senão vai perder a camioneta.

        Levantaram‑se todos. David percebeu que o momento da expulsão chegara. Resistiu a um impulso súbito e selvagem de se atirar para o chão e bater com os calcanhares no tapete, gritando a sua raiva e desespero, e dizer que não ia.

        - Eu também vou andando, Nadine. Tenho uma grande viagem à minha frente. Mas primeiro preciso da morada do fulano que tem o meu cão.

- O seu cão?

        - Claro. Os documentos ainda estão em meu nome. Na verdade, eu sou o co‑proprietário com David. Eu nunca abdico de um bom cão sem ter absoluta certeza.

        - Claro, eu dou‑lhe um mapa com o caminho para lá logo que David parta.

David deu um aperto de mão solene ao avô.

- Volte em breve - sussurrou ele.

        - Não, eu não volto cá - disse o velhote. - Talvez um dia tu vás até Spirit Canyon.

A tia Nadine bombardeou David com as preocupações de última hora e deu‑lhe um beijo fugaz. Com a mochila às costas, David saiu para o vestíbulo e depois para a rua. O clique do trinco da porta nas suas costas foi como que um sinal. Arrancou o bilhete que levava na lapela e rasgou‑o em pedaços minúsculos, deixando que a brisa os levasse para longe.

        David deu alguns passos, depois parou subitamente com a atenção presa pela velha carrinha. As cores dos girassóis pintados nos lados estavam desmaiadas, mas eram alegres e sorriam a David. Seria possível um homem tão rabugento como o seu avô ter feito aquela pintura? E mesmo ter imaginado o grande insecto verde‑esmeralda, com os olhos cor‑de‑rosa com longas pestanas, escondido entre as flores?

        Sem pensar, David girou a maçaneta da porta traseira da carrinha e ficou espantado quando ela se abriu de modo convidativo. Depois, continuando a agir inconscientemente, largou a sua mochila às riscas lá dentro, no chão, e seguro de que era aquilo o que tinha de fazer, subiu os dois degraus.

        QUANDO se aproximaram de um cacto gigante, Cappy Holland parou a carripana cuidadosamente numa saliência estreita.

        Procurou debaixo do banco e puxou um termo de boca larga, de onde tirou três pequenos cubos de carne escura cozinhada.

- O fígado frito continua a ser o melhor engodo do Mundo.

        - Engodo? - O viajante olhou, desconfiado. Cappy tirou do porta‑luvas um frasco de comprimidos e um canivete suíço. Partiu um comprimido ao meio e com muita perícia fez um golpe num dos cubos de fígado e inseriu nele a metade do comprimido.

        - É um tranquilizante - explicou ele. - Quero que o rapaz lá atrás saia para dar uma volta daqui a uns vinte minutos e não quero correr riscos desnecessários.

        O viajante fitou‑o com uma expressão apreensiva. Então ele mantinha o rapazinho drogado!

        O velho saiu da cabina, abriu a porta traseira da carrinha e voltou instantes depois.

        - Atirou‑se a ele como um crocodilo esfomeado. - Bastante satisfeito, sentou‑se ao volante e continuou a viagem.

        Aproximaram‑se de uma placa antiga. Faltavam apenas cinquenta quilómetros para a estalagem Miss Myrna Best Beer & Wine!

O velhote apontou para a placa.

        - Eu vou parar lá para passar a noite. Você provavelmente consegue arranjar lá uma boleia.

- óptimo.

Daí a meia hora, a carrinha estremeceu e parou.

        - São horas de dar uma volta com o Relâmpago. Espero que os comprimidos estejam a fazer efeito - disse o velhote, suspirando.

        - Eu vou esticar as pernas - disse o viajante, deitando a mão à maçaneta da porta.

        - Espere aí, jovem! Se tem uma grande necessidade de sair, faça‑o agora enquanto ele ainda está fechado, que eu espero por si. Mas quando ele estiver lá fora, você fica cá dentro!

        O viajante assentiu de imediato, negando a sua necessidade de sair da cabina. Quando o velhote desceu, fechando cuidadosamente a porta atrás de si, o viajante virou‑se para trás e espreitou pela abertura coberta de rede.

        A porta da carrinha abriu‑se e a luz do Sol inundou o seu interior. O velhote sentou‑se no limiar perto da primeira jaula e inclinou‑se para as grades. Foi saudado com rugidos e rosnadelas, mas falou calmamente com o animal enjaulado. Quando este deixou de rosnar, ele aproximou‑se muito lentamente e abriu o trinco da porta. O viajante susteve a respiração, com receio do que iria passar‑se.

        A cabeça e parte do corpo do animal apareceram, e o viajante reconheceu na besta aquilo a que chamava um "cão‑polícia". Tínha um medo terrível daqueles animais, mas era obrigado a admitir que o cão era estranhamente belo. O animal irradiava uma expressão atenta, um ar de estar pronto para agir. O pêlo espesso brilhava, e o dorso, que à primeira vista parecia preto‑azeviche, era na realidade salpicado de fios prateados; no pescoço, por baixo do focinho comprido, sobressaía uma mancha branca. Quando o cão se deslocava, lenta e desconfiadamente, para fora da jaula, o viajante viu que as patas e a parte de baixo do peito tinham uma cor acobreada.

        Surpreendido pela aparência, pelo lampejo prateado e branco e pelo brilho dourado‑escuro, o viajante esqueceu momentaneamente o seu medo e observou, fascinado, o velhote a passar uma corrente fina pela cabeça do cão, continuando sempre com uma lengalenga tranquilizante e apaziguadora.

        - Relâmpago, meu rapaz, vamos andar por entre as flores... mas tu não sabes o que são passeios, pois não? Nem trelas e coleiras... Vamos lá agora, Relâmpago... Oh, tu também não sabes o que são degraus, pois não? Nem como descer por eles!... Vamos lá, Relâmpago... Vês o que eu tenho aqui? É fígado. Cheira bem, não cheira? Vem apanhá‑lo... Isso mesmo. Lindo menino!

 

        A seguir, dirigiram‑se os dois lado a lado em direcção a um campo de malmequeres. E subitamente, para surpresa do viajante, o velhote começou a correr em grandes e suaves passadas.

O cão, apesar de confuso pela trela de couro presa à coleira, movia‑se animadamente atrás dele e depois começou a correr à sua frente. O velhote largou a trela e sentou‑se no chão, ofegando e limpando o suor da testa, enquanto o cão corria em grandes círculos, ladrando alegremente. Com um latido de puro abandono, arremessou‑se ao ar, virou‑se ao cair no chão, aterrando de costas e esperneando de puro contentamento.

        Depois, de novo em pé, correu, deu pinotes e cambalhotas, perseguindo uma borboleta, lançando‑se sobre um gafanhoto, embriagado de liberdade.

        Passados uns minutos, o velhote voltou e o cão seguiu‑o, parecendo contente por regressar à jaula. Quando o velho entrou na cabina, levava um chapéu cheio de malmequeres.

        - São para uma senhora - explicou ele, e pôs o motor a trabalhar.

- É um belo cão‑polícia, não é? - disse o viajante.

        - Não - replicou o velho duramente. - É um pastor alemão... e é talvez o melhor cão que você verá na vida, meu jovem. - Depois, acalmando um pouco prosseguiu: - Claro que também são utilizados como cães da Polícia.

O viajante pensou na segunda jaula atrás dele.

- O senhor tem muitos cães destes?

- Não - disse o velho asperamente. - Já não.

        O céu enchia‑se de nuvens de trovoada a sudoeste quando chegaram a um cruzamento. Faltava uma hora para o crepúsculo, mas o dia já perdera a claridade e arrefecera subitamente. à esquerda, amontoava‑se um aglomerado de pequenas casas em ruínas dominadas por uma placa enorme.

 

         FINALMENTE A ESTALAGEM DE MISS MYRNA

         Quartos, Restaurante, Curiosidades

         A Mais Famosa Cadeia de áreas de Serviço

         Bebidas Frescas, Verificação de Pneus, Leitura da Sina

 

        Havia um camião parado perto da única bomba de gasolina e um homem, aparentemente o condutor, circundava o veículo, verificando os pneus.

        - Sugiro que peça uma boleia àquele senhor - disse Cappy ao viajante. - Se ele recusar, eu levo‑o até à estrada principal. Lá há muito trânsito.

        - Obrigado - disse o viajante, pegando apressadamente na sua mochila. Saiu da cabina e, depois de falar brevemente com o motorista, disse adeus a Cappy.

Cappy estacionou a carrinha onde não bloqueava o acesso à

bomba de gasolina nem à entrada para o restaurante, depois, por instantes, deixou‑se ficar sentado calmamente, inclinado sobre o volante, observando aquele lugar inóspito que Lhe era tão ternamente familiar.

        Pouco parecia ter mudado nos cinco anos passados desde a última vez que ali parara. Os edifícios estavam ligeiramente mais velhos, ligeiramente mais degradados - "Tal como eu", pensou.

        Porquê esperar grandes mudanças? Afinal, cinco anos era tão pouco tempo, comparado com os mais de quarenta passados desde a primeira vez em que ele entrara no acesso de cascalho da Estalagem de Miss Myrna. Nessa altura, era tudo novo. O pai de Miss Myrna morrera no ano anterior e ela investira a sua pequena herança naquele belo sonho, que logo definhou quando a nova estrada foi construída mais para sul. Porque ficara ela ali?, perguntara‑lhe ele Um dia.

        "Oh, eu acho que o deserto nos prende", fora a resposta vaga de Miss Myrna.

        A carrinha que ele conduzia na altura não estava em melhor ou pior estado do que a que tinha agora. Levava quatro pastores alemães lá atrás, o seu já relativamente famoso quarteto canino de campeões amestrados, todos eles a caminho de Hollywood para se transformarem em estrelas de cinema. No bolso do casaco do seu melhor fato azul, pendurado e envolto em jornais, estava a carta do grande produtor de cinema que tinha acidentalmente assistido à actuação dos seus cães num concurso.

        E como era belo esse quarteto! Heidi, que era capaz de dar saltos com uma amplitude de quatro metros e meio e altura superior a um metro, voando como o Pégaso; Inga, que executava as ordens tão rapidamente que parecia ler‑lhe o pensamento, e os dois magníficos machos, ambos bicampeões em adestramento e beleza, Donner e Blitzen. Que espectáculo eles faziam: seguindo pistas, saltando, buscando objectos, escalando paredes.

        Tivera muitos outros cachorros desde então, mas aqueles quatro, os seus primeiros amores, continuavam indisputados no seu coração. Ele ainda sentia o nariz macio de Donner a tocar‑lhe no braço para o acordar de manhã, e quando abria os olhos, via o brilho dourado do olhar de Donner observando‑o terna e pensativamente.

Donner era o pensativo, o calmo intelectual do grupo, tal como Heidi era um palhaço amoroso, enquanto Inga era minuciosa e precisa, não tendo o mínimo sentido de humor. Blitzen era um desordeiro que os atrapalhava com as suas brincadeiras, mas compensava tudo isso com a adoração que tinha por Cappy.

Assim, depois das primeiras vitórias, iam ser estrelas de Hollywood. Naquele tempo, Cappy acreditava nessas coisas.

        A primeira vez que entrara no restaurante, a obscuridade, a seguir ao brilho intenso do sol lá fora, cegara‑o. Quando a porta se abriu, tocou uma campainha, pendurada por cima dela, e como que reagindo a um sinal, uma matilha de pequenos cães saltou de trás do balcão, um bando de canichos‑miniatura girando à volta dele, abocanhando‑lhe as botas, saltando no ar como se tivessem molas em vez de patas, tudo isto no meio de um tremendo arrazoado.

Uma voz de mulher gritou:

        - Annette, Cecile! Yvonne! Marie! Calem‑se todas! Quieta, Emilie!

        Ele olhou então para a mulher atrás do balcão, para o rosto estranho e impressionante que nunca mais esqueceria, mas que, contudo, não conseguia descrever ou definir.

        à primeira vista, os traços dela eram muito severos, as sobrancelhas austeras, o cabelo demasiado repuxado para trás num carrapito muito compacto. O nariz e as maçãs do rosto eram bastante proeminentes, dando‑lhe também um ar exótico. Ela acentuara propositadamente esse ar com pequenas argolas de ouro nas orelhas e um toque de sombra berrante nos olhos.

        - Espero que o senhor goste de cães - disse ela. - Porque cães é o que nós mais temos.

- Eu gosto de cães - disse‑lhe ele enfaticamente.

        Voltara dois anos depois, derrotado, detestando‑se porque o seu sonho sobre Hollywood se revelara infantil e aprendera que era ignorante e indefeso, incapaz de enfrentar o mundo selvagem. Blitzen, o desordeiro carinhoso, morrera, e quando ele olhava para os três sobreviventes do seu quarteto maravilhoso, sentia dor e desespero ao ver que eles estavam quase tão magros como ele.

        Miss Myrna ajudou‑o a recuperar a confiança e a sentir‑se novamente um homem. Ela representava os marcos da sua vida, embora ele só raramente a visse. Ela tinha‑o admirado com o seu uniforme militar, excitada com os seus galões de capitão, e escutava a sua bazófia descarada sobre os cães que ele estava a treinar para a guerra. Miss Myrna nunca conhecera a mulher dele, mas conhecera Ben, o seu filho; no entanto, a seguir à morte da mulher, ele viera ali e durante algum tempo sentira‑se menos só.

E agora era a última visita.

        Tirou os malmequeres do seu boné e arranjou‑os num arremedo de bouquet. De súbito, sentiu‑se cansado, exausto da longa viagem, e os ossos doíam‑lhe da corrida que fizera com o Relâmpago.

E sentia‑se esfomeado, chegando a imaginar que se apercebia do aroma do café quente do restaurante. Mas ao descer da cabina, achou que as necessidades do cão estavam primeiro que as dele, por isso foi até à traseira da carrinha e abriu a porta.

        Os trovões ribombavam no céu, e o Relâmpago, observando atentamente Cappy através da porta gradeada, o único sinal que deu foi espetar as orelhas.

        - Então, não estás assombrado pela trovoada? Isso é bom - comentou Cappy, misturando com destreza a comida num prato de metal. - Vejo que tens fome. Bem, também eu.

        Cappy destrancou a porta da jaula sem recear o cão, consciente de que naquelas circunstâncias era identificado no espírito do Relâmpago como o portador de comida. Mesmo assim, colocou o prato no chão antes de abrir a porta.

Cappy esquadrinhou com o olhar o interior da carrinha.

        - Bem, acho que não há razão para voltares já para a jaula, e eu também não vou ficar à espera que acabes de comer. Podes dar umas voltas aqui dentro.

        David, agachado no armário, ouviu as palavras, mas não percebeu o seu significado. Nem sequer percebeu que o cão não se encontrava na jaula quando o seu avô saiu e fechou a porta da carrinha atrás de si.

 

CAPPY, avistando‑a através da porta envidraçada, parou na soleira da porta, surpreendido. Como uma cortina de gaze, a rede de arame suavizava e obscurecia ligeiramente a sua panorâmica da sala em frente. Miss Myrna, magra como uma jovem, encontrava‑se atrás do balcão de fórmica da sala de refeições, franzindo o sobrolho por detrás dos óculos grossos, enquanto deitava sal de uma caixa de papelão para um saleiro. Com excepção dos óculos grossos, que ele nunca vira, parecia que os anos não tinham passado por ela: o cabelo preto continuava farto e lustroso como sempre e a testa sem uma ruga; nas orelhas e nos pulsos, as argolas de ouro brilhavam à luz fria fluorescente.

        Empurrando a porta, Cappy ouviu o tilintar da campainha, seguido do ladrar estridente de uma quantidade de pequenos cães que saíram como um furacão de trás do balcão. Seis cães'? Não, sete investiram contra ele, latindo de excitação e dando as boas‑vindas. As suas patas delicadas e olhos brilhantes eram como as de caniches, mas com os anos os cães de Miss Myrna tinham‑se tornado numa raça à parte.

Continuando concentrada a encher o saleiro, ela fez um aceno de cabeça automático de saudação.

        - Espero que o senhor goste de cães. Porque cães é o que nós mais temos.

        Enquanto as palavras ecoavam como há quarenta anos, Cappy aguardou em silêncio, sentindo‑se por momentos um jovem, quase um garoto, ali de pé segurando o seu bouquet desordenado de flores silvestres.

        - Cappy! - exclamou ela, saindo a correr de trás do balcão e abraçando‑o. Miss Myrna enfiou sorrateiramente os óculos grossos dentro do bolso do avental.

        Mais tarde, ela preparou‑lhe o jantar e serviu‑lho num dos dois compartimentos existentes, sentando‑se à frente dele com uma caneca de café, deliciada por vê‑lo apreciar a sua comida e emocionada pela oferta das flores.

        - Estás com óptimo aspecto - disse‑lhe ela. - Conta‑me tudo - continuou. - A última vez que cá estiveste foi há cinco anos, não foi?

        Lá fora começou a chover. As grandes gotas batiam contra as vidraças.

        - Ben e Alice tiveram um acidente - disse ele por fim. - Ela morreu logo, ele morreu há cerca de um ano.

        - Eu sei. Tu escreveste‑me um bilhete. E o teu neto? Chama‑se David, não é?

        - Sim, chama‑se David. Ele está bem, vi‑o a ele e à tia ontem de manhã. Fui fazer de júri de um concurso em S. Francisco na semana passada.

- Aposto que David se orgulha do avô!

        - Não sei bem - Cappy encolheu os ombros. - Ele não foi, tinha outras coisas para fazer. - Olhou atentamente para o seu prato, depois acrescentou: - Acho que foi Nadine quem Lhe arranjou os afazeres. Ela sabe que eu nunca gostei da irmã dela e não me perdoa. Mas não importa, eu e o rapaz não temos nada em comum. Ele é mais parecido com a Alice que com Ben.

        - Então, Cappy! Falas com se tivesses alguma coisa contra o rapaz.

        - Oh, não é que eu não goste dele - explicou Cappy. - Discuti com Ben por causa do casamento... tu sabes disso. Esperava que ele acabasse o curso de Medicina e que um dia casasse, mas com uma mulher que se encaixasse nos planos que eu e Ben tínhamos para o Rancho San Pascual. Bem, Alice veio mudar tudo e eu fiquei zangado. É claro que eu não cobro isso ao David, embora, francamente, me pareça que ele não tem muita força de carácter. Mas, sobretudo, eu não o conheço e agora é demasiado tarde para nos conhecermos. É melhor deixar as coisas como estão.

        - Demasiado tarde? Nunca é demasiado tarde para as coisas importantes.

        Ela trouxe‑lhe uma fatia de tarte de cereja, levantou os pratos sujos e depois juntou‑se‑lhe novamente.

        - Agora, fala‑me lá da tua verdadeira família... os de quatro patas, quero eu dizer - explicou ela com uma risada. - Da última vez trazias um lindo cachorro... Lembro‑me do seu tom prateado. Chamavas‑lhe Estrela Cadente.

        - Sim, Estrela Cadente. - Cappy evitou os olhos dela. - Fez‑se um bom cão.

        - Com certeza que ganha todos os prémios e que tem filhos que vendes por uma fortuna.

        - Sim, tornou‑se um bom cão de guarda. Duas das filhas são cães‑guias para cegos. - O capitão não conseguiu esconder a emoção na sua voz. - Todos eles saíram bons. As coisas nunca estiveram tão bem.

        - Cappy, o que é que aconteceu? - O tom dela era firme. - Alguma coisa se passa. Sinto‑o na tua voz. Conta‑me!

        Ele não fizera tenções de falar sobre o que acontecera. Contudo, para que fora ali senão para desabafar? Nos últimos seis meses, não falara com ninguém sobre a sua perda. Era um homem que vivia apenas consigo próprio, e a simples hipótese de alguém poder sentir pena dele era‑lhe intolerável. Por outro lado, não acreditava que outra pessoa compreendesse a tragédia que o atingira, mas naquela altura e pela primeira vez sentiu‑se capaz de falar sobre o que acontecera.

        - Desapareceram, todos eles. Foram mortos, destruídos. Os catorze pastores alemães mais belos que Deus jamais criou. O trabalho de uma vida... arrebatado numa hora. Ainda não consigo acreditar.

        Falava calmamente, quase sem emoção, mas o seu maxilar denotava tensão.

        - Começou com uma coisa sem importância. Houve um problema na canalização do canil. Havia falta de água. Por isso, eu passei os cães para um velho celeiro construído há muitos anos, quando eu e Ben tínhamos cavalos. O tempo estava quente e seco... seriam só uns dois dias, por isso não pensei muito no assunto. - Fechou os olhos e respirou fundo. - Eu tinha aquela bela cadela, a Shenandoah, tivera a segunda ninhada do Estrela Cadente... e que belos eram aqueles cachorros. Eu ficara com um, um pequeno duende chamado Sombra das Estrelas. Vendi os outros quatro pelo correio e naquela manhã ia à cidade, ao aeroporto, para os embarcar para as novas casas. E também ia embarcar o Relâmpago para S. Francisco, para o David. O Relâmpago era de outra ninhada.

- Relâmpago? - perguntou ela.

        - Sim, o meu último problema, já lá vou. - Ele abanou a cabeça e continuou a sua história. - Enfiei os cinco cachorros em caixas para transporte aéreo e levei três horas até ao aeroporto. As coisas correram mal e já era quase noite quando o último cachorro partiu. Eu estava cansado e decidi passar a noite na cidade. Não tinha razões para me preocupar: Mrs. Littlefoot, a minha governanta, e o sobrinho tomariam conta das coisas lá em casa.

        Cappy fez uma pausa e olhou para a chuva que escorria pelas janelas.

        - Eram três e cinco da manhã quando o telefone tocou no quarto do hotel. Era Mrs. Littlefoot, soluçando e sibilando, mas por fim lá consegui perceber: houvera um fogo no estábulo, que ardera completamente em dez minutos, como se fosse uma caixa de fósforos. Eu nunca pensara na possibilidade de um incêndio porque o chão e as paredes eram de tijolo. Nunca tinha pensado no telhado de madeira, nem nas vigas, nem no sótão de madeira.

Ele encostou‑se à divisória do compartimento e fechou os olhos.

        - Ficaram encurralados lá dentro... todos eles. O Estrela Cadente, a Shenandoah e os seis cachorros. A Cheyenne morreu, e a minha bela Astrid e o Lancer também... e todos os outros. Todos mortos... desaparecidos.

        A voz silenciou‑se e ele ficou sentado imóvel, com a testa apoiada nas mãos. Ninguém ao cimo da Terra podia imaginar o que ele sentiu quando viu as cinzas ainda fumegantes à luz pálida da madrugada. Aquelas eram as ruínas carbonizadas da sua vida, tanto tempo para as construir e tão rapidamente desaparecidas.

        Miss Myrna deu‑lhe uns momentos de silêncio, respeitando o seu desgosto, depois perguntou:

- Então, e como é que vais recomeçar?

        - Recomeçar? - Ele olhou fixamente para ela. - Não há qualquer possibilidade. Está tudo acabado. Eu estou acabado.

        Ele não conseguia explicar‑lhe que recomeçar não era apenas uma questão de comprar novos animais para criação. Os animais que tinham morrido eram o culminar de gerações de trabalho. Não eram apenas bons pastores alemães, eram os seus bons pastores alemães. Mesmo que dispusesse de tempo para os recriar, sentia‑se demasiado amargurado, demasiado cansado

        Impulsivamente, Miss Myrna pegou‑lhe na mão e abriu‑lhe os dedos fechados; não olhou para a palma da mão dele, mas tacteou os sulcos e as rugas.

- Não, já não há futuro para ler na minha mão - disse‑lhe ele.

        Os olhos dela pareciam estranhamente brilhantes e fixaram‑se nele atentamente.

        - Terás amor e felicidade que não esperavas, mas não deves ter receio de aceitar o que vai acontecer.

Ele afastou amavelmente a mão.

- Obrigado, cigana - disse. - As tuas intenções são boas.

        Miss Myrna inclinou a cabeça na direcção do parque de estacionamento.

        - Que bom tornar a ver a tua caravana lá fora! Mas é estranho pensar que pela primeira vez não tenha nenhum cão lá dentro.

        - Mas está lá um cão: o Relâmpago, o cachorro que eu enviei a David. Vou levá‑lo de volta.

- Levar de volta o cachorro do teu neto? Porquê, Cappy?

        - Ele não ficou com ele - disse o velhote num tom áspero. - A tia dele não gosta de cães, e eu acho que David não se Lhe opôs.

- Bem, então sempre vais ter um cão no rancho.

        - Só ficarei com ele o tempo suficiente para perceber se é seguro entregá‑lo a qualquer outra pessoa. - Cappy franziu o sobrolho. - Pobre Relâmpago! É demasiado perigoso para se ficar com ele e demasiado belo para ser destruído. Queres vê‑lo?

- Sim, gostaria muito.

- Está bem. Logo que eu acabe de tomar o café e a chuva pare.

        - óptimo - disse ela, enchendo uma caneca da enorme cafeteira de metal. - Não há pressa.

        DAVID, enroscado contra a parede da caravana, sentiu uma nova onda de medo quando se apercebeu que os olhos do cão estavam fixos nele.

        Lá dentro estava tão escuro que ele só distinguia sombras vagas e contornos, mas pela janela da cabina entrava um feixe de luz vindo da estrada que projectava uma mancha cinzenta no chão, no sítio onde o cão descansava a cabeça sobre as suas fortes patas. Acima do focinho preto e do brilho dos dentes brancos, David vislumbrava o brilho dos olhos abertos, revelando que o Relâmpago acordara de novo e, portanto, que o tranquilizante estava a perder efeito rapidamente.

        David pressentia que o animal estava agitado, mas não podia imaginar os conflitos internos do cão.

        O Relâmpago tinha a certeza de que ali se encontrava um daqueles seres miniaturas que o tinham atormentado no passado, um inimigo para ser atacado e destruído. Simultaneamente, outra voz, quase abafada pelo que ele sofrera, murmurava‑lhe que aquela criatura era um dos seres especiais a quem ele devia delicadeza e protecção. O cão não sabia o que fazer e permanecia quieto, esperando.

        Assim, o cão e o rapaz observavam‑se mutuamente, ambos imóveis.

        Quando Cappy saíra, fechando a caravana atrás de si, David não se apercebera de imediato de que o Relâmpago não estava fechado na jaula. Depois, subitamente, sentindo como que um choque frio de medo, ouviu o animal andando e farejando junto à porta traseira. David susteve a respiração, encolhendo‑se ao canto, atrás da cortina de serapilheira, fazendo‑se o mais pequeno possível.

        Passaram uns minutos, uma eternidade, e depois o cão pareceu ter adormecido, respirando pesada e regularmente. Afastando a cortina para o lado, David espreitou cuidadosamente o Relâmpago. Sentiu um medo terrível do cão, e por tudo o que Cappy dissera, ele sabia como o animal podia ser perigoso. à mistura com este medo, David sentia um desejo quase desesperado de que o cão gostasse dele. Há umas horas atrás, olhando por detrás da cortina, ele vira o Relâmpago correndo e dando pulos vigorosos no deserto; era o animal mais maravilhosamente livre e belo que jamais vira. Na altura, pensara que até ele seria capaz de correr assim se o Relâmpago corresse a seu lado.

        E, afinal, o Relâmpago era o seu cão, pertencia‑lhe. O Relampago devia amá‑lo, eles deviam ser companheiros e amigos. No entanto, ele sabia que não era assim e tentou encontrar um esconderijo mais seguro.

        Perto do tecto, encontrava‑se uma prateleira de madeira estreita, e se ele conseguisse chegar lá, trepando para o cimo do armário e depois se encostasse lá bem para trás, ficaria fora de alcance? Que altura conseguiria o cão saltar?

        David avançou silenciosamente, apoiando‑se com firmeza,

colocou a mão no cimo do armário e susteve a respiração quando os seus dedos tocaram num púcaro de lata vazio que caiu ao chão com um estrondo. De súbito, aterradoramente, o cão rosnou.

        David sentiu a boca seca; o seu coração batia descompassadamente enquanto tentava lembrar‑se do que o avô dissera.

        "Eles gostam de que Lhes falemos, gostam de ouvir a nossa voz ... as palavras não importam..."

        Ele ia falar com o Relâmpago, mostrar‑lhe que era amigo dele, e o cão tinha que perceber. Porfavor, Relâmpago, não me faças mal!

        Enquanto esperava, David tremia. O rosnar transformou‑se num arreganhar de dentes e, por fim, a caravana ecoava com um ladrar furioso. Depois, inesperadamente, a cortina de serapilheira foi arrancada da corda, o Relâmpago puxou o tecido com os dentes, rasgando‑o violentamente, depois atirou a cortina amachucada para o lado para enfrentar o seu inimigo humano.

        David, fugindo dos dentes aguçados como facas, instintivamente saltou do armário, ficando de costas contra a janela de rede da cabina e de braços esticados contra a parede, como se estivessem lá pregados. Tremendo, conseguiu articular:

        - Relâmpago... Calma, Relâmpago. Não vais fazer‑me mal,

pois não, Relâmpago? Eu sou o David, lembras‑te?... Nós somos

amigos, Relâmpago, amigos...

CAPPY acabou de beber o café e levantou‑se.

        - Parou de chover. São horas de deixar o rufia apanhar um pouco de ar. Se queres vê‑lo, anda daí.

Ela tinha uma expressão de dúvida.

        - Talvez fosse mais seguro eu vê‑lo através da janela. Não podes trazê‑lo até aqui?

        - Podes sentar‑te na cabina. Eu não quero que ele apanhe o cheiro da tua matilha de rafeiros.

        Ela carregou num botão e uma luz exterior iluminou vivamente a área do parque de estacionamento, onde, a alguma distância, se encontrava a caravana.

        - Ainda é a mesma caravana? - Ela fixou os olhos à distância. - Estou a reconhecer os girassóis.

        - Sim, Ben pintou aquelas flores loucas no último Verão que passou em casa.

        Aproximavam‑se da traseira da caravana, e Cappy levantou a cabeça repentinamente ao ouvir o ladrar furioso que vinha de lá de dentro.

- Bem, parece que o meu amigo está alerta.

        Miss Myrna não notou a insegurança na voz de Cappy. Ele apercebeu‑se de algo de estranho no ladrar do Relâmpago. Os cães não ladram simplesmente: eles chamam, saúdam, pedem, queixam‑se, aplaudem. Além disso, havia todo um dicionário de avisos. O velhote ficou preocupado porque o ladrar que ouvia significava um assunto perigoso.

Cappy passou rapidamente uma chave a Miss Myrna.

        - Entra na cabina e fecha a porta. Eu quero conversar com este camarada antes de estarmos frente a frente. Alguma coisa o pôs histérico.

        Então, Cappy parou, de olhos esbugalhados e expressão incrédula. Fraca mas inconfundível, ele ouviu uma voz aguda, uma voz de criança, falando dentro da caravana. A parede de madeira abafava as palavras, só se percebia "Relâmpago", que era repetida vezes sem conta.

        Cappy correu para a porta e abriu o cadeado. O manípulo da porta rodou com ruído e ele esperou um ou dois segundos antes de dizer:

        - Relâmpago, Relâmpago, meu velho - chamou ele. - Qual é o problema? Eu já aqui estou. Está tudo bem. Calma, Relâmpago.

Acalma‑te.

        O silêncio na carrinha era sinistro. Ele abriu a porta muito devagar, aos poucos e poucos. O cão movia‑se furiosamente, de trás para a frente, no espaço estreito da caravana e pareceu não dar pela presença de Cappy. A sua atenção estava concentrada num pequeno prisioneiro que ele encurralara contra a cabina. O rosto do rapazinho estava oculto pela sombra.

        - Tu aí, filho! Não te mexas. - Cappy falou no mesmo tom

calmo e jovial que utilizava com o cão. - Relâmpago! Eh, Relâmpago!

        Ignorando Cappy, o cão parou o movimento frenético e baixou o corpo, agachando‑se, preparado para saltar, com a cauda armada em chicote.

- Eh, Relâmpago! - gritou ele, batendo palmas com força.

        O cão rodou um pouco a cabeça, apercebendo‑se de que Cappy ali estava.

        ‑ As senhoras da cidade cantam esta canção, du‑dá, du‑da... - cantava alegremente Cappy. Levou a mão ao bolso da camisa, procurando o isco de fígado que lá se encontrava, mas lembrou‑se de que estava dentro da cabina. No entanto, no chão, perto da porta, estava o prato vazio do Relâmpago. O capitão apanhou‑o cuidadosamente e bateu com ele na jaula.

- Relâmpago, anda cá, rapaz. Olha o que eu tenho aqui para ti.

        O cão ficou parado, depois voltou‑se para ele confuso, não querendo desistir do seu ataque, mas ao mesmo tempo fascinado por Cappy.

        - Não podemos esperar a noite toda, Relâmpago, meu rapaz! Relâmpago!...

        Lentamente, o cão dirigiu‑se a ele. Cappy estendeu a mão abaixo do focinho do cão, com a palma virada para cima. Quando o Relâmpago chegou junto dele, afagou‑lhe ternamente o peito, enquanto com a outra mão empurrava o prato da comida para dentro da jaula aberta.

        - Vamos lá, Relâmpago. São horas de ir para a cama, entra lá. Isso, lindo menino!

Ele persuadia o cão com a voz e as mãos, calmamente, instigando‑o a entrar. E o Relâmpago, confiante com as palavras e gestos de Cappy, entrou pacificamente na jaula, deu duas voltas e deitou‑se confortavelmente, enquanto Cappy aferrolhava a porta.

        - Oh, Deus seja louvado, Deus seja louvado! - exclamou Miss Myrna, e, pela primeira vez, Cappy apercebeu‑se de que ela observara tudo, mesmo atrás dele, com uma grande pedra em cada mão.

O garoto deu um passo em frente e deixou‑se cair no chão.

        - David! Oh, meu Deus, David! Como...? - Cappy pegou no

rapaz ao colo, levando‑o para fora da carrinha. O corpo de David parecia surpreendentemente frágil e magro. Confuso, Cappy explicou a Miss Myrna: - É David, o filho de Ben. Eu não sabia...!

        - Leva‑o lá para dentro, Cappy - disse ela. - Vamos lá. Está a começar a chover. - Ela fechou o cadeado da porta da caravana.

        Quando se dirigiam para a sala de refeições, David levantou o olhar para Cappy, com os seus olhos escuros muito abertos, e sussurrou:

        - Eu não estava com muito medo dele, só estava cansado de estar naquela posição... mas não estava com medo. O Relâmpago não ia morder‑me de certeza.

        Cappy, ainda perturbado, não respondeu, mas Miss Myrna fez uma festa na mão de David, dizendo:

- Claro que não estavas com medo, qualquer pessoa percebia isso.

Inconscientemente, Cappy apertou David mais contra si.

- Vens ali desde S. Francisco? - perguntou ele.

- Venho.

- Porque não me disseste que lá estavas?

- Tinha medo de si.

        - Compreendo; não tens medo do Relâmpago, mas tens medo de mim? - Para grande surpresa de Cappy, o rapaz acenou afirmativamente. - Porque fugiste, David? Porquê?

- Não sei. Talvez tenha sido só para estar com o meu cão.

        - Não há mais perguntas esta noite - disse Miss Myrna. - É preciso é uma comidinha quente e uma boa cama para este jovem.

        Uma hora depois, Cappy andava lentamente de um lado para o outro na sala das refeições quando Miss Myrna se lhe juntou, depois de ter deitado David num dos compartimentos.

        - Demoraste muito tempo - disse Cappy. - Ele conversou

contigo?

        - Conversou. - Ela sorriu. - Podes esquecer a ideia de telefonar à tia dele. Ela pensa que ele está num acampamento qualquer, e ela própria estará fora duas ou três semanas, portanto não há ninguém preocupado.

Miss Myrna pôs os óculos e, sentada ao balcão, começou a tirar cartas de um baralho muito gasto, virando três de cada vez e dispondo‑as em forma de estrela.

        - O teu neto é tão teimoso como tu. Cheio de medo como estava, queria voltar à caravana e falar com o Relâmpago... para mostrar que não havia ressentimentos. - Cappy sentou‑se no banco ao lado de Miss Myrna. - As cartas dizem‑me uma coisa - afirmou ela. - Diz aqui que um certo garoto, daqui a pouco, vai escapar‑se do quarto e dar as boas‑noites àquele cão.

        - Eu que o apanhe a fazer isso! Já fez o mal que tinha a fazer para o ano inteiro.

        - Não, Cappy, deixa‑o fazer o que ele quer. Não faz mal nenhum. É como querer montar num cavalo depois de se cair dele, não é verdade?

        - Bem, ele devia pedir autorização - resmungou Cappy. -

Ele disse‑te porque é que se escondeu na caravana?

        - Ele disse‑me que ia contigo para o rancho... que ele e oRelâmpago iam viver para lá.

        - O quê?! A tia nunca o permitiria. Além disso, eu já esqueci tudo o que sabia sobre miúdos e não tenciono aprender de novo.

        - Oh, eu acho que eles são um pouco como os pastores alemães: quando se Lhes dá atenção e paciência, desenvolvem‑se bem. - Miss Myrna pegou nas mãos dele e segurou‑as firmemente. - Fica com ele o máximo de tempo possível, Cappy.

Ele abanou a cabeça.

        - Assim que eu falar com a tia dele, mando‑o de volta! Mas agora parece que não tenho escolha.

Miss Myrna levantou‑se.

- Vocês partem de manhã cedo?

- Sim, nessa altura vimos despedir‑nos.

        - Não, eu estarei a dormir. Tratas do teu pequeno‑almoço... e do do rapaz, claro.

        - Do do rapaz? Arranjar‑lhe o pequeno‑almoço? - A expressão de Cappy espelhava choque.

        Das traseiras do edifício chegou um ladrar agudo, abafado pela porta fechada. Miss Myrna voltou‑se para a janela.

        - Ouve, alguém está a atravessar o parque, os cães pressentem sempre.

        - É David. Escapou‑se do quarto. - Cappy deu um passo em direcção à porta, mas depois parou. - Bem, como dizes, não faz mal nenhum.

Instantes depois, o aviso do Labareda ressoava na caravana.

- Vamos ter isto por mais uma hora - resmungou Cappy.

Uma nuvem deslocou‑se para oeste, revelando a Lua, e Cappy distinguiu a custo uma pequena figura com um pijama de mulher às bolas junto à caravana. "Uma situação ridícula", pensou Cappy, suspirando, e decidiu despachar o rapaz para S. Francisco no primeiro aeroporto.

        Contudo, ao mesmo tempo, enquanto recordava a figura silenciosa de David, imóvel perante o cão enraivecido, Cappy sentiu uma emoção estranha, quase uma certa ansiedade, mas não de tristeza e sim de contentamento, uma sensação que ele já experimentava, mas há tanto tempo que nem se lembrava quando.

 

CAPPY acordou de madrugada, fresco e revigorado. Aparou cuidadosamente a barba e deu por si a cantarolar às 6 da manhã, decidiu que era altura de arrancar David da sua cama no quarto ao lado, e encontrou‑o já vestido, esperando à porta.

        - Pensei que quiséssemos partir cedo para chegarmos a casa logo à noite - disse David alegremente.

"A casa?" Cappy abanou a cabeça.

        - Com aquela minha carripana, tenho sorte se conseguir avistar o Rancho San Pascual amanhã à tarde. Agora, vai à cozinha e arranja qualquer coisa para comeres que eu já lá vou ter. Relativamente ao pequeno‑almoço, é cada um por si - declarou com firmeza. - Eu vou à caravana limpar a jaula e dar de comer ao Relâmpago.

- De quanto em quanto tempo é que ele come?

        - Basta‑lhe uma refeição por dia, mas estou a dar‑lhe duas ou três, porque é uma maneira de nos irmos conhecendo.

- Posso ir consigo e ajudar?

- Desta vez, não. Estou com pressa.

David anuiu, escondendo o seu desapontamento.

- Está bem. Então, vou tomar o pequeno‑almoço, vovô.

Cappy estremeceu.

        - Calma aí, David! É verdade que sou teu avô, de sangue e de lei, mas não sou vovô de ninguém. Eu chamo‑me Cappy, não te esqueças!

        - Sim, Cappy, com certeza! - David fez‑lhe uma ligeira continência, deu meia volta e dirigiu‑se à sala de refeições.

        O Relâmpago estava bem‑disposto e brincalhão: todos os sinais de fúria da noite anterior tinham desaparecido. Cappy deixou‑o correr livremente, confiando que nenhum animal estranho vaguearia por ali. O cão regressou de livre vontade à jaula já limpa, e Cappy dirigiu‑se à sala de refeições, pensando com pouco entusiasmo em donuts do dia anterior e sumo de lata. David esperava‑o:

        - Cappy, fiz‑lhe uns ovos mexidos, umas torradas e sumo de laranja.

- Quando é que aprendeste a fazer ovos mexidos?

        - A tia Nadine odeia levantar‑se cedo quando o tio Arthur não está em casa. Eu trato de mim.

        - Bons ovos! Bem melhores do que os que eu faço - comentou Cappy com um aceno de cabeça.

        David lavou a louça enquanto Cappy escrevia um bilhete estranho a Miss Myrna, acabando como sempre acabava aqueles bilhetes com um "Até breve", mas interrogando‑se se assim seria. Deixou o bilhete em cima do balcão e o dinheiro na caixa registadora pela comida e o alojamento.

        Algumas horas depois, atravessavam o planalto do Arizona.

Cappy tentara por duas vezes falar com Nadine, para S. Francisco, mas ninguém atendera.

        - Eu disse‑lhe, Cappy, ela não está lá. Ela e o tio Arthur não estarão em casa nas próximas semanas. - O rapaz não dissera porque é que eles estavam fora e evitara todas as perguntas sobre a sua fuga de casa.

        - Sabes, não é correcto andares assim a fugir - disse Cappy. - As pessoas do acampamento para onde devias ter ido devem estar terrivelmente preocupadas. Na próxima cidade, telefono‑lhes. Como disseste que se chamava o acampamento?

        - Não disse. - David fitou‑o, desconfiado. - Cappy, está a pensar meter‑me num avião em Flagstaff e mandar‑me para o acampamento'?

        - Bem, creio que é a única coisa acertada a fazer - respondeu Cappy.

        Seguiram um bocado em silêncio, cada um evitando o olhar do outro.

        - Pronto, David - disse Cappy, entrando numa estação de serviço. - Diz‑me lá o nome do acampamento. Eu não te mando para lá, mas tenho que Lhes telefonar.

- Promete? - David continuava desconfiado.

        - Quando eu digo que faço ou não faço qualquer coisa, é sempre uma promessa. E é bom que contigo seja também assim. Entendido?

        - Entendido, Cappy. - Tirou do bolso um pedaço de papel amarrotado. - Aqui está o número.

Era quase noite quando deixaram a estrada principal e entraram numa estrada sinuosa de terra batida que acabou por levá‑los até à fazenda onde passariam a noite.

        De manhã, Cappy e David voltaram a levantar‑se ao nascer do Sol e, na manhã clara, rumaram a uns picos distantes encimados de neve, recordando a David o mundo branco e o seu pai. Mas esses pensamentos foram ultrapassados pela excitação de estarem a cada hora mais próximo do Rancho San Pascual.

- Porque é que tem esse nome esquisito? San Pascual?

        - Porque nesta parte do Mundo o santo protector das ovelhas e dos pastores chama‑se San Pascual.

        - Compreendo. E a maior parte dos cães de San Pascual eram cães‑pastores?

        - Não, só alguns. Os pastores alemães guardam as ovelhas naturalmente, e não há melhores cães‑pastores no Mundo, mas alguns rancheiros querem cães mais pequenos, cuja alimentação sai mais barata, ou então têm rebanhos muito pequenos e não podem comprar os melhores cães. Em geral, eu crio os cachorros para serem cães de guarda, guias de pessoas cegas ou simplesmente animais de estimação.

Seguiram caminho, passando pelos subúrbios de uma cidade.

        - Há ali um aeroporto - disse Cappy firmemente. - É de lá que vais partir para S. Francisco um dia destes.

        A aldeia perto da cordilheira ficava no sopé de uma montanha, e uma planta da povoação pareceria um jogo do galo, com quatro ruas direitas que se cruzavam formando uma praça central. Para esta praça, davam a igreja da missão, um armazém, um bar, os Correios e um celeiro de tijolo de dois andares que servia de mercearia. Era uma terra pobre, mas modestamente bonita, em que os habitantes não tinham vergonha de pôr as sardinheiras em latas de café no parapeito das janelas, nem de deixarem as galinhas andarem à solta pelas ruas.

        Cappy atravessou lentamente a praça, acenando aos trânseuntes e saudando o grupo de anciãos, de chapéu de abas largas e botas de tacão alto, sentado no alpendre do Hotel Hacienda.

        Quando deixaram a vila e a planície, a carrinha começou a chiar, porque a estrada subia cada vez mais na direcção de um bosque de faias na vertente sul da grande montanha.

        O desfiladeiro alargou‑se gradualmente e suavizou‑se num vale verdejante salpicado de bosques de pinheiros e abetos. Por entre os bosques, estendiam‑se prados serpenteantes de erva alta. à direita, mesmo na berma da estrada, havia um muro alto de pedra. Ao transporem os grandes portões de ferro, David avistou um relvado que rodeava uma piscina e para lá dele um jardim tratado. Uma pequena tabuleta por cima do portão dizia: "Propriedade Spirit Canyon."

- Um hotel? - perguntou David.

        - Não, apenas uma casa nova e cara com um nome elegante. Foi construída este ano por uma viúva rica da cidade.

        Um jipe aproximava‑se em sentido contrário, e Cappy encostou à sombra do muro de pedra para deixar o outro veículo passar, pois a estrada era apertada.

- E esta é a dita senhora - informou.

Em vez de passar, o jipe parou ao lado deles.

        - Oh, capitão Holland - chilreou uma voz de mulher -, por favor, espere só um minuto!

        David olhou primeiro para o jipe, que estava decorado com franjas cor‑de‑rosa e margaridas de plástico, e depois para os dois ocupantes, que o impressionaram por serem invulgares. O condutor tinha o cabelo escuro e um rosto doentio. Tudo nele era estreito ou magro: o bigode parecia dois pequenos riscos feitos com lápis de carvão, tal como as sobrancelhas, que se dispunham sobre uns olhos de ave de rapina numa cara de ave de rapina; uma mão delgada com dedos delicados estava elegantemente pousada na porta sem janela do jipe; o pulso, firmemente apertado pelo punho à francesa de uma camisa de seda cinzenta, a mão cintilava: pulseira, relógio e anel resplandeciam como diamantes ao sol.

        A mulher, sentada no lugar do passageiro, tinha um enorme

chapéu. O seu cabelo caía‑lhe em ondas cinzentas abaixo dos ombros. Por baixo das camadas de maquilhagem, tinha uma cara bastante bonita, de boneca. David não fazia ideia de qual seria a idade dela, mas não devia ser nada nova.

        - Capitão Holland, que bom vê‑lo de novo! Ouvi dizer que tem estado na Costa Oeste a coleccionar troféus - gritou ela.

        - Boa tarde, Mrs. Bradley. - Cappy fez um aceno cortês, tocando na pala do boné.

        - Suponho que já conhece Carlos Jones? - perguntou ela, indicando o condutor.

        - Sim. - Cappy olhou para o homem com uma expressão empedernida.

        Jones murmurou um cumprimento inaudível e depois concentrou a sua atenção na inspecção das suas unhas.

        Parecendo não se aperceber da animosidade entre os dois homens, Mrs. Bradley prosseguiu:

        - Carlos tem estado a ajudar‑me a encontrar pedras para o meu pequeno jardim japonês. Capitão Holland, de domingo a uma semana vou dar uma festa de inauguração da casa. Mandei‑lhe um convite, claro. Vem muita gente da capital, mas eu ficaria muito desgostosa se o meu vizinho mais próximo não comparecesse. Virá, não é verdade?

- Não vou esquecer‑me da data - respondeu Cappy.

        - óptimo! - exclamou ela. - Pensava que o senhor por vezes era bastante anti‑social, capitão, mas espero que não seja nada de pessoal por eu ser uma amante de gatos.

        - Gostar de cães não exclui gostar de gatos, Mrs. Bradley. Eu gosto de quase todos os animais.

        - Nesse caso, tenho que Lhe mostrar Flossie! - Enfiando o braço por debaixo do banco, Mrs. Bradley puxou um enorme tut`o de pêlo branco, que se endireitou tomando a forma de um gordo e irascível gato persa.

- Não é bonita?! Flossie‑Flossie!

- Pffff! - bufou a gata, ficando com o pêlo branco todo eriçado.

- Tenho seis gatos agora, e Flossie é a mais bonita.

        De repente, Relâmpago, sentindo‑lhe o cheiro, desatou a ladrar furiosamente, atirando‑se contra a porta de metal e depois contra o painel de madeira. O sorriso de Mrs. Bradley desvaneceu‑se.

- Um cão? - gritou muito alto.

        Cappy fez um aceno de cabeça com ar grave, e Mrs. Bradley escondeu rapidamente o enervado gato no chão do jipe.

        Carlos Jones pareceu interessar‑se então pela carrinha. Por instantes, os olhares de Jones e de Cappy cruzaram‑se, mas depois Jones desviou o seu.

        - Bem, temos que ir andando - disse Mrs. Bradley, constrangida. - Até de domingo a uma semana, capitão! - Pela primeira vez, reparou em David. - Adeus, meu pequeno! - Sorriu afectadamente, e David percebeu imediatamente que ela se sentia pouco à vontade com crianças.

Enquanto o jipe se afastava, David perguntou:

- Quem são estes? Acha que ela tem mesmo seis gatos?

        - Agora não, David, agora não quero falar sobre eles. Isso iria estragar‑me o regresso a casa. Só uma coisa: mantém‑te longe de Carlos Jones.

- Ele tem um aspecto engraçado - disse David.

        - É tão engraçado como teres uma cascavel no armário. Já tive problemas com ele. Ele organizava lutas de cães para ganhar dinheiro. Tinha um ringue num velho rancho.

        - Cães a lutar num ringue?! Uau! Deve ser excitante! Mas eram lutas tipo campeonato? Aposto que o Relâmpago seria um campeão!

        - Gostavas que isso acontecesse? - perguntou Cappy calmamente. - Gostavas de ver o Relâmpago coberto com sangue de um cão mais fraco? Querias que ele fosse um assassino, quando não é essa a sua natureza?

- Mas, Cappy, os cães não lutavam até à morte, pois não?

        - Até à morte ou quase. E só o fazem porque homens perversos como Carlos Jones os treinam para isso através de torturas e brutalidades. - Na voz de Cappy transparecia uma raiva calma.

        Pouco depois, Cappy parou a caravana sem desligar o motor. Estavam no cimo de uma pequena elevação, uma pequena colina onde um rio abrira uma cascata cuja neblina formava um arco‑íris ao sol. Mais abaixo, uma ponte de pedra atravessava o rio e quatro árvores marcavam a entrada para uma estrada de acesso a uma casa de adobe com um alpendre de troncos desengonçados e uma chaminé de pedra por onde uma trepadeira serpenteava até ao telhado. Perto da casa, havia outro edifício baixo de tijolos velhos e desbotados. De ambos os lados deste edifício, abrigadas por freixos e disfarçadas por arbustos, vedações de arame delimitavam uma série de canis que se encontravam agora vazios.

        David sorriu ao ver um grande moinho de vento que chiava acima de uma construção de tijolos sobre o rio, e havia girassóis, tal como o pai Lhe dissera uma vez, e uma árvore enorme onde em tempos houvera uma casa de brincar. Perto da árvore, havia umas traves formando um círculo, que David pensou ser um cercado, e bastante para lá deste, numa encosta, duas rapariguinhas com chapéus de palha e vestidos de algodão guardavam um rebanho de ovelhas. Era tudo tal e qual como ele imaginara.

        - Rancho San Pascual - disse Cappy. - Gosto de parar aqui um bocado depois de estar fora uns tempos. Isto é o sítio mais bonito do Mundo.

        Na ponte, passaram por cima da grade de protecção para o gado, deitada, e o barulho dos seus tubos foi como que um sinal que desencadeou um uivo alto e triste que se fez ouvir em todo o caminho até à casa.

- Não sabia que havia aqui cães - disse David.

        - Não há - respondeu Cappy, e soltou uma risada. - Não contando com a velha Xenia, que é a cadela da casa, aquela que sempre dormiu aos pés da minha cama... ou em cima da minha cama.

- Deve ser muito bonita.

        - Não, nem por isso. O pêlo é fino. As orelhas também não são das melhores.

- Então, porque é que é assim tão especial?

Cappy ponderou o assunto enquanto se dirigiam para casa.

        - Bem, a Xenia percebeu, desde o dia em que abriu os olhos, que me amava acima de tudo, que era a minha cadela. E quando eu me apercebi disso, não tinha grande importância ela não ser muito bonita, nem hábil, nem saber fazer grande coisa.

        Relâmpago, ouvindo Xenia, começou também a latir, aumentando o timbre até igualar o de Xenia, que vinha a coxear de casa. Para Cappy, aqueles eram os sons da sua casa.

        MRS. LITTLEFOOT, viúva desde que havia memória, fora como lavadeira para o Rancho San Pascual há um quarto de século, depois cuidara da mulher de Cappy quando ela estava moribunda e desde aí reinara como cozinheira e governanta. O seu cabelo preto, agora com madeixas prateadas, pendia em duas grossas tranças até meio do peito, atadas com pequenos laços a condizer com os vestidos de padrão florido que sempre usava aos dias de semana.

        Dado que um dos seus antepassados era espanhol, Mrs. Littlefoot considerava‑se uma "nativa", tal como a maioria das pessoas que viviam em Spirit Canyon e nas três aldeias circundantes. Os outros habitantes ou eram índios, como muitos dos primos dela, ou anglo‑saxónicos, como Cappy.

        Mrs. Littlefoot não mostrou nem surpresa nem prazer perante a chegada de David, no entanto ele sentiu que, na sua atitude silenciosa, ela Lhe dava as boas‑vindas, apesar de apenas ter dito:

        - Tens as sobrancelhas e as orelhas do teu pai, por isso já sei com o que hei‑de tomar cuidado. E tão magricela! Como o teu pai, que Deus o tenha em descanso. Vais beber um grande copo de leite de cabra todos os dias.

        Levou David até a um quarto comprido e estreito com um telhado suportado por barrotes de faia. As janelas altas tinham os parapeitos logo acima do chão, e, olhando através delas, David viu Cappy de pé, perto da vedação de arame de um canil, falando com Relâmpago, que estava sentado calmamente no seu novo lar.

Mrs. Littlefoot apontou para um armário.

        - Pendura aqui a tua roupa. Agora, tenho que ir fazer o jantar. Se precisares de alguma coisa, estou na cozinha. - Depois, ela hesitou, pôs‑lhe a mão no ombro, observando‑o, fez um aceno de cabeça aprovador e foi‑se embora.

        Olhando de relance para o chão junto à sua nova cama, David reconheceu o tapete colorido de que o pai Lhe falara quando Lhe contava a sua vida enquanto jovem nas montanhas. O cão do pai dormira ali - o cão do pai, a cama do pai. Por instantes, as recordações da montanha branca e o esplendor da neve voltaram, mas tudo se desvaneceu ao ouvir o avô chamá‑lo.

        - Sim, Cappy! Vou já! - respondeu, transpondo a janela sem rede.

Cappy estava de pé à porta do edifício de tijolo que abrigava os canis.

        - Quero que dês de comer ao Relâmpago e depois vamos dar um passeio com ele antes do jantar.

- Posso, Cappy? E ele deixa‑me?

- Sim, acho que sim. Eu fico ao pé de ti.

        A cozinha no edifício dos canis ostentava o brilho do aço inoxidável e do esmalte. David inspeccionou as balanças e os instrumentos de pesagem, os armários à prova de poeiras e as latas. A divisão parecia um laboratório de cientista, totalmente diferente da cozinha da casa, onde tudo era vulgar e um pouco velho.

        - Mede‑se a mistura de comida assim, David. Junta‑se alguma carne. Aqui, a carne, habitualmente, são aparas de carne de carneiro, porque estamos na região dos carneiros. - Cappy misturou a comida e deitou‑a para dentro de uma tigela de metal. - Nunca, mas mesmo nunca, se dá de comer nem de beber a um pastor alemão num prato de plástico. Lembra‑te disto!

- Porquê, Cappy? Na televisão...

        - Mas o que não vês na televisão são cães a serem abertos por um veterinário por terem mastigado um prato de plástico. Bocados de plástico afiado são como vidros partidos. Anda. como só temos um cão, vamos dar‑lhe de comer no pátio.

- Então, e a Xenia?

        - A Xenia come na cozinha perto do fogão. Não toca em comida nenhuma noutro lado.

        Cappy deixou o prato da comida dentro do canil, mas mesmo à porta, e abriu um portão baixo, soltando Relâmpago do recinto vedado. O cão pulava e ladrava, uivando de alegria por estar de novo com Cappy. Saltava, tentando pôr as patas nos ombros de Cappy, e não pareceu nada ofendido quando ele o repeliu firmemente de punho erguido, dizendo:

- Para baixo, Relâmpago! Para baixo!

        Mas Relâmpago observava David, desconfiado, e mantinha‑se à distância.

        - Senta‑te no chão - disse Cappy, e David obedeceu. Ele sentou‑se também ao lado do garoto. - Fala com ele, David.

        David começou a falar, mas ao ouvir‑lhe a voz, Relâmpago ladrou. David ficou muito desanimado.

        - Este ladrar não é um aviso - explicou Cappy. - Escuta bem! É um ladrar de confusão. Ele não sabe o que fazer, por isso ladra para disfarçar a confusão.

        De repente, Relâmpago começou a correr descrevendo um círculo largo, sempre a ladrar, embora o tom tivesse mudado. Sempre a grande velocidade, deu um grande salto e rebolou duas vezes no chão, com as patas pontapeando o ar selvaticamente.

        - Um verdadeiro actor! - exclamou Cappy. - Está a exibir‑se para nós!

        Tendo acabado a sua actuação, Relâmpago aproximou‑se, confiante, de Cappy, abanando a cauda, orgulhoso da sua habilidade artística. Ignorou David.

        - Lindo! Lindo menino! - elogiou‑o Cappy, dirigindo‑se depois a David. - Toca‑lhe agora. Faz‑lhe cócegas no peito. Com firmeza, sem a mínima ponta de acanhamento.

        David estendeu a mão disfarçando mal a sua timidez. Relâmpago era tão grande assim de pé, acima de David, que estava sentado no chão. Quando pôs a mão no pêlo do cão, pareceu‑lhe que a mergulhava num grande tapete de seda fina. Relâmpago, olhando Cappy, não prestava atenção, mas parecia contente, por isso David mergulhou ainda mais a mão, sentindo por baixo do pêlo farto e da pele macia os ossos robustos; era como se tocasse numa rocha. Então, o cão virou lentamente a sua enorme cabeça e olhou para ele, estudando‑o com um olhar avaliador.

- Relâmpago, Relâmpago - murmurou David.

        Os olhos do cão pareciam evidenciar uma profunda sabedoria. Instantes depois, pousou a cabeça no ombro de David e tocou com a língua grande e húmida ao de leve na sua orelha.

        - Acho que é o princípio de uma grande amizade - comentou Cappy. - Agora, dá‑lhe a comida, mas movimenta‑te devagar. Não faças nada que o possa assustar.

Enquanto David ia buscar o prato da comida, Cappy avisou‑o:

        - Põe o prato no chão depressa. Ele ainda não tem maneiras à mesa, e se o fizeres muito devagar, ele pode atirar‑te ao chão acidentalmente quando correr para a comida.

        Como Cappy suspeitava, David escapou por pouco quando Relâmpago cheirou a comida e correu para ela.

        Ficaram ambos de pé, observando Labareda. Cappy, de sobrolho franzido, abanava desaprovadoramente a cabeça.

        - Ele come como um porco. Meu Deus, ele precisa de ser civilizado!

        - Quando começamos Cappy? - indagou David com um aceno de cabeça.

- Começamos o quê'?

        - A civilizá‑lo. - David não se atreveu a olhar para Cappy, e os segundos que se seguiram pareceram‑lhe os mais longos da sua vida.

Cappy estudava Relâmpago. O cão acabara de comer e estava alerta, observando os seus companheiros humanos. O seu pêlo tinha reflexos pretos e dourados sob a luz espessa; os seus olhos tristes, agora na sombra, já não eram de tom dourado‑escuro, mas sim dois pontos negros brilhantes.

        De todos os pastores alemães que Cappy criara, Relâmpago parecia‑lhe o mais belo de todos, o mais perto da perfeição. Relâmpago era o clímax, mas aparecera demasiado tarde e a sua mente havia sido distorcida e maltratada. O seu olhar passou do cão para o rapaz expectante. Aqueles dois seres eram os produtos finais da sua vida: um rapaz que ele não compreendia e um cão em que não confiava.

        Relâmpago dirigiu‑se lentamente para junto de David e sentou‑se a seu lado.

        - Penso que devemos começar amanhã de manhã - disse

Cappy por fim.

        MRS. LITTLEFOOT serviu‑lhes o jantar na grande mesa redonda da cozinha, enchendo‑lhes os pratos com um guisado que rescendia. Ela comeu de pé, junto ao lava‑louça. Xenia, deitada a um canto, esperava impacientemente pelo cheiro do café a ser servido, que era o sinal de que a refeição terminara, altura em que podia aproximar‑se e deitar‑se aos pés de Cappy.

- Quais são as novidades do desfiladeiro? - perguntou Cappy.

Mrs. Littlefoot pensou um pouco.

- Carlos Jones está de volta e foi trabalhar para a Mulher.

        Como Mrs. Bradley era o tema do falatório naquele ano, não havia necessidade de mencionar o nome dela.

- Eu sei, passei por eles na estrada.

        - Ele está a viver numa cabana na propriedade dela. É perigoso ter um homem daqueles como vizinho - disse ela. - Ele ainda vai acabar pior que o pai, que levou um tiro quando estava a roubar coelhos numa quinta.

- Não se preocupe - respondeu ele. - Eu fico alerta.

        Quando Mrs. Littlefoot serviu o café, Xenia aproximou‑se, confiante, da mesa e Cappy fez‑lhe festas atrás das orelhas. Ela esfregou a cabeça no joelho dele, muito contente, e David imaginou Relâmpago sentado ao lado da cadeira dele, magnífico e devotado. Mas Cappy já Lhe explicara que Relâmpago nunca deveria estar na mesma divisão que Xenia, porque ela ficana com ciúmes e provavelmente atacaria Relâmpago, que era bem mais forte e robusto que ela.

        Depois do jantar, Cappy deu uma vista de olhos pelo correio acumulado, deitando para o lixo o convite para o cocktail de Mrs. Bradley.

David observou Mrs. Littlefoot a cozinhar fígado como Cappy

Lhe pedira para poder premiar Relâmpago se ele se portasse bem no treino do dia seguinte. às 9 da noite, Cappy tentou telefonar para o apartamento de S. Francisco, mas voltou a não ter resposta, e às 9.30 David foi deitar‑se no seu quarto comprido e estreito.

        Estava cansado, mas não ainda pronto para dormir, e ficou bastante tempo a olhar para a escuridão. Depois, de repente, percebeu o que tinha de fazer. Deslizando para fora da cama, foi até à janela e abriu as persianas que Mrs. Littlefoot fechara ao anoitecer. Um vento frio soprava do alto da montanha e agitou as cortinas.

        Saltou o parapeito baixo e avançou para o luar e as sombras. A erva dura picava‑lhe os pés descalços enquanto atravessava o pátio em direcção aos canis, onde Relâmpago o esperava sentado, de orelhas no ar, e expectante, alerta pelo barulho da corrida do garoto. David abriu o ferrolho enquanto Relâmpago o observava imóvel.

- Anda, Relâmpago! Anda, comigo!

        E lá foram os dois a correr pela noite dentro, à volta do círculo escuro do cercado vazio, passando pelo moinho e pela casa do poço fechada. Corriam como David apenas em imaginação sonhara conseguir: sentia o corpo leve como o ar, as pernas fortes e completamente recuperadas. Rindo de contentamento, David saltou com Relâmpago pelos prados e foi até à janela do seu quarto, por onde deixou Relâmpago entrar. Enquanto David o seguia, acendia a luz e fechava as persianas, Relâmpago inspeccionava todos os cantos, espreitando por baixo da cama e dentro do armário. Quando David se sentou no tapete colorido desbotado, Relâmpago, depois de dar duas voltas, deitou‑se a seu lado. Assim ficou, quieto, enquanto David

fechou a luz, deslizou para dentro dos lençóis e, pousando a cabeça na almofada branca, adormeceu. A mão do garoto deslizou do colchão para o dorso de Relâmpago. O cão agitou‑se ligeiramente, mas não acordou. Foi assim que Cappy os encontrou de manhã.

 

às 6.30, IGNORANDO a mudança de local de dormida do Relâmpago,

Cappy abriu a porta do quarto de David. Abriu‑a silenciosamente e entrou muito devagar. O quarto, com as persianas fechadas, estava às escuras, mas com a luz ténue que entrava pela porta entreaberta Cappy viu a cabeça desgrenhada de David na almofada e o cão a dormir no tapete.

        Cappy apercebeu‑se com alguma consternação de que David

introduzira o cão secretamente em casa, revelando novamente mais determinação e independência do que bom‑senso. Deviam ter passado uma grande noite, a julgar pelo modo como ambos dormiam profundamente, pensou Cappy. Bem, seria a última aventura nocturna de David em San Pascual.

        Cappy decidiu deixar o rapaz dormir um pouco mais e virou‑se para sair do quarto. Quando tocou na porta, uma dobradiça rangeu e o som agudo chegou vagamente aos ouvidos do Relâmpago, que entreabriu os olhos. Uma porta que não fora aberta na noite anterior estava agora estranhamente aberta, e em contraluz Relâmpago VIU a figura ameaçadora de um homem que espreitava para o quarto, e não reconheceu o intruso. Ainda a rosnadela se formava na sua garganta, já o cão se lançava ao ataque.

        Cappy, apercebendo‑se do que estava prestes a acontecer, levantou uma cadeira de madeira que estava ao lado da porta para deter a investida antes de o Relâmpago estar completamente em movimento; mesmo assim, a força do cão arremessou‑o contra a parede.

- Relâmpago! - gritou. - Relâmpago!

        O cão, retrocedendo para um novo ataque, reconheceu instantaneamente a voz. Pestanejou, o seu pêlo eriçado amaciou‑se e avançou, feliz, ansioso por dar os bons‑dias ao seu amigo.

David sentou‑se na cama, de olhos muito abertos.

- O que aconteceu?

        Cappy, depois de abrir as persianas, olhou furioso para o rapaz e para o cão.

        - Bem, é agradável começar o dia com uma pequena surpresa! Entrei sem avisar e o Relâmpago saltou‑me para cima.

        - Tenho a certeza de que o Relâmpago não teve más intenções. Suponho que, se tivesse batido à porta, ele já estaria à sua espera.

        - à minha espera! - Cappy ficou boquiaberto e corado, mas depois conseguiu abafar a explosão que estava prestes a deixar escapar. Não, realmente não Lhe ocorrera bater à porta. - Então, da próxima vez eu bato à porta - disse asperamente. - Mas não fazes mais alterações às regras da casa sem me consultares. Percebeste bem, garoto?

- Sim, Cappy - disse David com moderação.

        Depois do pequeno‑almoço, foram para o cercado, a que Cappy chamava "recinto de treino". Relâmpago pulava ao lado deles, corria para apanhar uma borboleta, alegre e bem‑intencionado, como um cachorro. Cappy avisou David:

        - Não tenhas muita esperança. É difícil recuperar um cão ou uma criança que foi maltratada durante muito tempo.

        Mas, no princípio, correu tudo tão bem que Cappy imaginou que subestimara Relâmpago. O cão sentou‑se elegantemente à esquerda de Cappy enquanto Lhe era enfiada uma coleira metálica sobre a cabeça, parecendo estar quase em posição de sentido, excepto pelo abanar da cauda. Cappy deixou‑o com a coleira apenas uns minutos e depois retirou‑lha e mostrou a David como ela funcionava.

- As argolas de aço são leves mas fortes. A coleira dá‑nos controle... depois de se perceber como utilizá‑la.

- Julgava que as coleiras para treino tinham espigões ou bicos do lado de dentro para o cão obedecer - disse David.

        - Em San Pascual, nunca! Imagina que tinhas sido ensinado com instrumentos de tortura. Como te sentirias em relação ao Mundo? Capaz de o engolir, aposto.

        Cappy pediu a David para pôr a coleira ao Relâmpago.

        - Agora, a trela. É de couro vulgar e tão comprida como eu. É demasiado comprida para ti, mas nunca a enroles à volta do braço.

        Mostrou a David como segurar a trela enquanto Relâmpago brincava e pulava com uma energia que parecia inesgotável.

        - Parece que o Relâmpago sabe o que é uma trela, por isso não nos devemos preocupar por ela não Lhe ser familiar. Mas lembra‑te de que ele é mais pesado do que tu e tem quatro patas que Lhe dão força e equilíbrio. Não consegues controlá‑lo puxando a trela, por tanto sacode‑a, não a puxes.

        - Sacudir, não puxar - repetiu David.

        - Quando ele se portar bem, elogia‑o. Quando se portar mal, grita‑lhe o mais alto que conseguires.

        David chamou, e Relâmpago correu para o seu lado e ficou calmamente sentado enquanto David enfiava a mola da trela na argola apropriada da coleira.

        - Vai dar uma pequena volta - disse Cappy.

        Andaram à volta do recinto, e David, confiando em Relâmpago e achando a trela demasiado comprida, deixou‑a enlaçar‑se no seu braço.

        - David, não largues a trela.

        Relâmpago avançou e a coleira apertou‑se violentamente. Sentindo o puxão da trela, ocorreu‑lhe uma odiosa recordação: a sufocante corrente que deslizava ao longo do tubo metálico no quintal de George Blount. Quando a coisa à volta do pescoço o apertou, Relâmpago combateu‑a, arremessando‑se selvaticamente para a frente. Simultaneamente, virou a cabeça para morder a trela, esforçando‑se para conseguir cortar com os dentes aquela correia apertada e enlouquecedora.

        A primeira investida do Relâmpago atirou David ao chão, e ele, incapaz de largar a trela enrolada, foi arrastado de cara para baixo pelo recinto.

Cappy atirou‑se para cima de David para imobilizar a trela no

chão com o peso do seu corpo. Durante segundos, o cão debateu‑se, mas depois, com um ligeiro estalido, a coleira de aço partiu‑se, libertando Relâmpago, que se lançou a correr em círculos desvairados à volta do recinto.

Cappy pôs‑se de joelhos.

- Estás bem, rapaz?

        - Uh, uh - murmurou David, tocando cautelosamente no sítio do braço onde o couro Lhe queimara a pele. Os arranhões no rosto e na testa ardiam‑lhe, e quando tocou no queixo, sacudiu pedrinhas de cascalho.

        - Vamos para casa lavar isso - disse‑lhe Cappy. - É melhor desinfectar esses arranhões. Mrs. Littlefoot pode remendar essa camisa.

        Quando Cappy se levantou, apercebeu‑se de que naquela noite Lhe iriam doer todas as articulações do corpo. Parecia‑lhe ter qualquer coisa solta no ombro esquerdo e tinha ambos os joelhos esfolados. Já estava velho para aquilo: demasiado velho para lutar e para se atirar para o chão. Nunca deveria ter iniciado aquele trabalho inglório.

        Relâmpago aproximou‑se, novamente de bom‑humor, esfregou o nariz na mão de Cappy, deitou‑se e rebolou‑se, dando pontapés no ar na brincadeira.

        Nessa tarde, Cappy, apesar da rigidez das articulações, decidiu testar novamente Relâmpago, trabalhando com ele durante uma hora, apesar de ter pouca esperança de que o cão reagisse. David podia ficar a ver, mas seria Cappy a controlar Relâmpago.

        Após uns minutos de voltas ao recinto com Relâmpago, Cappy esqueceu os ossos doridos. Relâmpago, na altura calmo e seguro, não mostrava o mínimo nervosismo, nem sequer ao aceitar a trela, depois de o terem deixado inspeccioná‑la cuidadosamente e arrastá‑la atrás de si.

        - Era isto o que eu devia ter feito esta manhã - disse Cappy. - Deve deixar‑se um cachorro descobrir ele próprio a trela. Mas não pensei no Relâmpago como um cachorro... o erro foi meu.

        Relâmpago estava sentado com a cabeça inclinada, orelhas alerta e olhos brilhantes, concentrado em cada palavra de Cappy. Até há poucos dias, nenhum ser humano falara com ele sem ser aos gritos, por isso ouvir vozes calmas parecia‑lhe tranquilizante e inspirador de confiança.

        Mas ainda mais importante do que a descoberta da linguagem era a descoberta do amor. Quando vira Cappy pela primeira vez, sentira um impulso de emoção e, pouco depois, uma vaga sensação de pertença. No dia anterior, aquela nova sensação alargara‑se para incluir David, e à noite, depois de correr com este no prado, adormecera contente, percebendo que finalmente chegara a casa.

        Cappy sentia também uma invulgar satisfação ao trabalhar com Relâmpago sob o olhar admirador de David, que estava sentado numa trave do cercado. Cappy sentia‑se revigorado e animado e apercebeu‑se vagamente de que, apesar das dores, aquela era a primeira vez desde há meses que não tinha a mais ligeira sensação de estar um pouco gasto. Estava a fazer aquilo de que sempre mais gostara: trabalhar com um cão inteligente e com vivacidade num dia belo e luminoso.

        A hora prevista passou, transformando‑se em hora e meia, e só passadas quase duas horas é que Cappy olhou para o relógio.

        - Basta. De facto, até já é demais. Nunca se deve permitir que o treino se transforme num trabalho pesado.

        Naquela noite, ao jantar, falaram de todos os pormenores o que acontecera durante o dia. Mrs. Littlefoot, de pé junto ao lava‑louça observava‑os sem nada dizer.

        Depois de a mesa ter sido levantada e de Xenia receber a devida atenção, Cappy foi buscar um velho manual e mostrou a David desenhos de vários sinais de mãos utilizados no treino de cães. Folhearam o livro todo, praticando cada gesto, enquanto Xenia, meio adormecida, os observava, batendo de vez em quando com a cauda para mostrar que aprovava e até compreendia algumas das ordens, apesar de não tencionar obedecer a nenhuma delas.

        à hora de deitar, David, daquela vez com autorização, foi buscar Relâmpago ao canil para dormir no tapete desbotado ao lado da sua cama.

        Naquela noite, Cappy esqueceu‑se de tentar telefonar para

  1. Francisco, e Mrs. Littlefoot, apesar de o notar, não Lho lembrou.

        Nos DIAS seguintes, David tomou conhecimento daquele novo mundo onde entrara, um pequeno universo delimitado de um lado pelo rio veloz e raso e dos outros três por vedações irregulares de rede que assinalavam a área do Rancho San Pascual. David e Relâmpago conseguiam percorrer esses limites em meia hora.

        O cão e o rapaz andavam sempre juntos, pois, contrariamente ao que Cappy receara, a partir do momento em que Relâmpago concedia o seu afecto, este mantinha‑se leal e fiel.

        Surpreendentemente, David nunca se sentia só, apesar de o seu mundo ter apenas três habitantes além dele: Cappy, Relâmpago e Mrs. Littlefoot. Xenia não contava, porque se retirava para a sua esfera privada e apenas se interessava em observar e por vezes em seguir obstinadamente Cappy; tolerava Mrs. Littlefoot e ignorava David.

        Na orla deste mundo, passavam outros seres. Todos os dias, David via à distância as duas rapariguinhas índias cuidando do seu rebanho de carneiros acinzentados, sem que alguma vez se aproximassem dos limites de San Pascual. Por duas vezes, viu na estrada o jipe com flores de Mrs. Bradley, mas demasiado à distância para saber se quem ia a guiar era Carlos Jones, o homem com cara de ave de rapina.

        Uma tarde, David foi até ao rio, fazendo tenções de apanhar uma truta, uma ambição condenada porque Relâmpago rapidamente descobriu a alegria de saltar para a água pouco profunda e chapinhar nela com a cabeça, afugentando todos os peixes.

        Ao pôr do Sol, voltaram para casa. Cappy estava sentado na escada das traseiras, olhando pensativamente para o céu que mudava. Encurtava uma trela de treino, de modo a ficar com o comprimento adequado para David a manipular. O garoto sentou‑se a seu lado e, após um silêncio, Cappy disse:

- O teu tio telefonou há uma hora.

O coração de David pareceu dar um salto.

- De S. Francisco?

        - Não. De um hotel no lago Tahoe. Tinha telefonado para o acampamento onde deverias estar e de lá disseram‑lhe para tentar para aqui.

- Como está o tio Arthur? - perguntou cautelosamente David.

        - Tão furioso que era capaz de fumegar! Por momentos, pensei que ele ia apanhar o primeiro avião, chegar cá e arrastar‑te pelos cabelos até à Califórnia. Mas convenci‑o a não tomar qualquer atitude violenta.

        A cólera de Arthur Wheeler surpreendera Cappy, que sempre o considerara tão amável como superficial, um homem inofensivo e fútil com a característica autoconfiança de vendedor. Mas a deserção de David atingira Arthur como um ataque pessoal.

- O que queria o tio Arthur?

        - Que pergunta descabida! - atalhou Cappy. - Ele queria saber se, por acaso, ainda estavas vivo. Apesar de neste momento não te ter exactamente em grande conta, o teu tio tem algum interesse pela tua saúde e o teu paradeiro.

David evitou o olhar fixo de Cappy.

        - Ele quer que eu vá para o tal acampamento? Que eu regresse a S. Francisco?

        - Ele não se importa com o acampamento, apesar de não estar muito satisfeito com o dinheiro desperdiçado no seu pagamento. Mas claro que quer que voltes para S. Francisco. O que é que te faria pensar que não? - Cappy hesitou. - Mas furioso como ele parecia estar, pensei que era melhor dar‑lhe um tempo para acalmar, por isso eu disse‑lhe que precisava de ti este Verão para me ajudares a treinar o Relâmpago. Podes ficar cá até à semana antes do recomeço das aulas, em Outubro. Isto se tu quiseres, claro.

        - Claro que quero - disse David, respirando a custo. Até Outubro? Outubro era uma data no futuro muito longínquo, que podia até nunca chegar. Apetecia‑lhe dizer a Cappy como gostava dele, mas as palavras não lhe saíram, e, subitamente, Cappy assumiu uma atitude estranha e tensa, evitando o olhar dele.

 

O DOMINGO seguinte transformou‑se num dia memorável na vida de David - um dia que ninguém em Spirit Canyon jamais esqueceria -, embora de manhã, no Rancho de San Pascual, não houvesse qualquer indício do que viria a acontecer.

        Ao contrário do habitual, Mrs. Littlefoot, encostada ao lava‑louça, beberricando café de uma caneca, estava muito faladora.

        - A Mulher contratou metade da aldeia para trabalhar na festa dela hoje - informou. - Ontem veio um camião da cidade com um carregamento de coisas decorativas e uma estátua esculpida num bloco de gelo! Até vai haver orquestra!

        Acabou rapidamente de lavar os pratos do pequeno‑almoço e, depois de prender o seu chapéu com um grande lenço de seda preta, partiu para a missa na igreja da aldeia.

        - Hoje não vamos treinar o Relâmpago - disse Cappy. - Esta tarde levamo‑lo a passear até à queda‑d'água.

Então, David perguntou:

        - Cappy, será que o Relâmpago podia aprender a localizar pessoas seguindo‑lhes o rasto? Quer dizer, dar com os ladrões seguindo‑lhes o cheiro?

        - Gostava que não pensasses sempre no Relâmpago como um cão‑polícia ou cão de guarda - disse Cappy. - Sim, ele poderia fazer isso, mas eu preferia que ele fosse um cão salva‑vidas, procurando e salvando pessoas perdidas.

- Assim seja. Então, podíamos treiná‑lo para isso?

        - Podíamos, mas não o faremos. Se passássemos uma hora por dia a treinar a busca, levaria cerca de quatro meses para o Relâmpago se tornar num bom cão de busca, e muito antes disso terás que partir para S. Francisco. - Cappy, ao ver o rosto de David, apressou‑se a baixar os olhos para o jornal de domingo. Passados instantes, sem levantar os olhos, disse: - Ouve, amanhã começas a jogar às escondidas com o Relâmpago. Não se trata bem de treino para buscas, mas é parecido. Há cães que nem precisam de treino, buscam naturalmente logo que se apercebem do que se pretende deles.

        NESSA tarde, quando partiram para a catarata, Cappy desapertou a trela, enrolou‑a e prendeu‑a ao cinto.

- Ele precisa de uma certa liberdade para poder explorar.

        Estava um dia lindo, de céu claro e luminoso. Uma truta, um lampejo prateado, saltou no ribeiro, desaparecendo logo em seguida na espuma branca. Relâmpago, esquecendo a compostura, mergulhou o focinho na água e, como habitualmente, molhou as calças de David.

        - Vamos até um pouco mais adiante - disse Cappy, de pé junto à margem. - Até à estrema da propriedade de Mrs. Bradley, depois voltamos.

        Já se encontravam perto da Propriedade Spirit Canyon, e David viu uma grande fila de carros dispendiosos estacionados ao longo da estrada. Cappy preparava‑se para colocar a trela ao Relâmpago quando David Lhe chamou a atenção, gritando:

- Olhe, Cappy! Estão ali as miudinhas.

        Havia um carreiro que partia da estrada, à esquerda deles, e subia uma encosta ao longo do muro da propriedade de Mrs. Bradley. As duas rapariguinhas índias, vestidas com as habituais saias de algodão, debatiam‑se para conseguir trazer o seu rebanho, mais de meia centena de cabeças, até ao pasto da margem do rio.

        No momento em que os carneiros chegavam à estrada, Cappy desapertou a trela do cinto e ia chamar Relâmpago, mas já era demasiado tarde.

        Relâmpago, tal como David, avistara os carneiros muito ao longe, nos limites desfocados da sua visão, mas o cheiro era‑lhe bastante familiar. Mesmo à distância, aquele cheiro forte invocava‑lhe sempre um vago instinto, uma memória ancestral implantada no seu cérebro e no seu sangue.

        Naquela altura, avistando e farejando os carneiros, esse instinto vago tomou forma. Relâmpago soltou um latido e arrancou, fazendo juntar ao rebanho os carneiros tresmalhados, passando rente a uma das rapariguinhas, que tropeçou no grande cajado que levava. A garota gritou, alarmada, incitando os carneiros mais próximos, que empurraram os da frente, até que de repente os líderes partiram à desfilada estrada abaixo. Mas, segundos depois, a debandada estava perfeitamente controlada, flanqueada do lado esquerdo pelo muro da Propriedade Spirit Canyon e do direito por Relâmpago, que corria ao longo da torrente ovina, ladrando feroz e alegremente, eufórico no desempenho da sua missão natural e profundamente surdo às ordens gritadas por Cappy e aos gritos de David.

        Relâmpago seguia adiante do rebanho, e lá à frente encontrou uns portões abertos para lá dos quais havia erva, água e abrigo. Ladrando com a satisfação da missão cumprida, Relâmpago conduziu a torrente de gado, transpondo os portões da Propriedade Spirit Canyon para se juntar aos convidados do cocktail ao ar livre de Mrs. Bradley.

        Esta encontrava‑se na varanda observando a cerimónia. Lá em baixo, o relvado que ladeava a piscina estava apinhado de convidados beberricando cocktails e mordiscando aperitivos, enquanto outros vagueavam à volta da sumptuosa mesa do bufete em busca de algo mais substancial. O pátio cercado estava tão apinhado que os criados, com as bandejas de comida e bebidas, tinham de abrir caminho à cotovelada, mas era precisamente como Mrs. Bradley planeara.

        Para aquela festa, Mrs. Bradley arrebanhara três senadores estaduais, um punhado de juízes, uma família da nobreza iraniana exilada, um grande empresário de madeiras e outro de exploração mineira. Estes e outras oitenta pessoas notáveis tinham viajado até Spirit Canyon para desfrutar da sua famosa hospitalidade. Ela apreciava o papel de famosa anfitriã e considerava as festas como um desporto competitivo de contactos.

        Carlos Jones fazia naquele dia a sua entrada na sociedade como cantor e guitarrista e subira para um banco, flectindo os seus longos dedos e preparando‑se para tocar.

        O chefe da banda, resplandecente em lamé dourado, falou ao microfone depois de terem tocado uma fanfarra.

- Minhas senhoras e meus senhores, temos a honra...

E nessa altura eclodiu a catástrofe.

        Uma maré acinzentada varreu a festa, e Mrs. Bradley, apossada de um fascínio horrorizado, ficou paralisada, olhando espantada para o pandemónio sob uma ligeira névoa. Os convidados, literalmente submersos pela avalancha de carneiros, encurralados por todos os lados, não tinham para onde recuar, a não ser amontoando‑se. Um poste enfeitado com serpentinas rodopiou, apanhando cinco músicos na sua teia, enquanto pratos de plástico voavam pelos ares como discos, provocando uma chuva de bocados de ovo, caviar, azeitonas e arenque em molho de natas sobre a confusão instalada lá em baixo.

Os desafortunados convivas que vagueavam à volta da mesa do bufete encontraram‑se subitamente em cima dela, agarrando areias movediças de saladas, impotentes contra os molhos gordurosos que formavam uma massa gelatinosa sobre as suas indumentárias de Verão.

        Depois, a mesa foi virada, caindo no mesmo instante em que o bar desmontável se desmoronou, libertando um dilúvio de whisk e uma erupção de soda.

        Carlos Jones, empoleirado no banco, foi uma das primeiras baixas da investida das ovelhas. Empurrado para trás, caiu de chapão na piscina, levando a guitarra e o banco atrás dele, que foram a sua salvação, pois flutuavam e ele não sabia fazê‑lo.

        A sua volta, a piscina pululava de convidados e de carneiros chapinhando.

        Mrs. Bradley registou toda a cena superficialmente, mas houve um pormenor que a impressionou muito. No meio dos portões abertos, bem direito sobre as patas e orgulhoso como um marechal‑de‑campo, estava um pastor alemão. De cabeça ligeiramente erguida, inspeccionava o pátio conquistado, soltando em seguida um latido de triunfo curto mas muito concreto.

Foi nessa altura que Mrs. Bradley entrou em histeria.

NESSA noite, no Rancho de San Pascual, jantou‑se em silêncio.

        David não sabia como devia sentir‑se: o que se esperava dele. Parecia adequado sentirem‑se todos mortificados pelo mau comportamento do Relâmpago, mas para o rapaz era difícil ter vergonha quando secretamente sentia um enorme orgulho pelo talento natural de Relâmpago como cão‑pastor.

Finalmente, Cappy falou.

        - De qualquer modo, ela não pode processar‑nos. Estamos defendidos pela legislação sobre portões e vedações. Isto é uma região de pastoreio... Se Mrs. Bradley deixa um portão aberto, quando carneiros ou bovinos o transpõem a culpa é dela.

        - O meu sobrinho ouviu pessoas a dizer que o Relâmpago devia ser abatido ou envenenado - disse Mrs. Littlefoot num tom lúgubre.

        - Pois eu também ouvi. Mas estou certo de que isso não quer dizer nada. Na altura, toda a gente ficou um pouco histérica. - Cappy baixou o olhar para o café que Mrs. Littlefoot Lhe deitava na chávena. - Não podemos censurar isso: eles têm tão poucas coisas com que ficar histéricos! - Os cantos da boca de Cappy torceram‑se, mas depois ele forçou os lábios a firmarem‑se numa linha direita. - Amanhã, vou visitar Mrs. Bradley para Lhe apresentar as minhas... as minhas... uh... condolências, digamos.

        Subitamente, Mrs. Littlefoot não se conteve mais. A sua noção de dignidade raramente lhe permitia sorrir, quanto mais rir, mas naquele momento foi dominada por gargalhadas de tal modo violentas que teve de agarrar‑se ao balcão do lava‑louça.

        - Aquele Relâmpago é um cão dos diabos! - gritou ela, batendo na anca.

        Cappy e David desataram também a rir de tal forma que a mesa tremia. Xenia ladrava num grande contentamento, abanando a cauda de excitação.

        Apesar do riso, Cappy não se sentiu descansado enquanto não falou com Mrs. Bradley na manhã seguinte. Regressou a San Pascual bastante aliviado.

        - Ela é uma pessoa bem‑disposta - disse ele. - Nunca imaginei que tivesse muito sentido de humor, mas tem.

        Mrs. Littlefoot acenou com a cabeça, mas estava com uma expressão sombria. David esqueceu‑se rapidamente de Marcella Bradley com o entusiasmo do jogo que estavam a aprender.

        COMEçARAM O treino do jogo das escondidas ensinando Relâmpago a procurar e a trazer uma bola especial feita de borracha muito dura para resistir à pressão das suas fortes mandíbulas. Cappy explicou a David que, depois de Relâmpago apreender a ideia de encontrar a bola, iriam gradualmente modificando o jogo para ele localizar David, que se esconderia segurando a bola.

        - A ordem será "Relâmpago, busca David" - disse Cappy, fazendo um gesto amplo e circular com a mão como sinal. - É muito difícil um cão aprender o nome de uma pessoa, por isso usamos a bola para o ajudar a identificar‑te.

        David tinha a certeza absoluta de que nome, mas não disse nada.

        As lições não eram fáceis e, nos dias que se seguiram, David aprendeu sobretudo a ser paciente. Na sexta‑feira, Cappy começou a utilizar umas das sandálias de David, fazendo Relâmpago cheirá‑la antes de dar a ordem e o sinal de busca.

- Isto é o localizar - disse David com satisfação.

        - Apenas de certo modo. Para se ensinar a localizar correctamente, teríamos de usar arreios e uma trela muito comprida. Seria muito mais lento.

        Nessa tarde, Relâmpago encontrou David sem hesitações por três vezes: atrás de um barracão, na casa do rio e debaixo da ponte.

        - Mais umas lições e ele ficará um verdadeiro cão de busca e salva‑vidas - disse David, orgulhoso.

        - Hum... - Cappy não quis desiludir David dizendo‑lhe que demorava um ano o treino de um bom pastor alemão para ser eficiente e de confiança no salvamento de pessoas perdidas.

        Passaram uma semana alegre e calma; nada de invulgar aconteceu até sábado à noite. à meia‑noite, Relâmpago acordou repentinamente David, ladrando muito alto. As persianas estavam abertas e a luz do luar entrava pela janela junto à qual Relâmpago se encontrava alerta, em guarda. Vendo que David acordara, o cão parou de ladrar e esperou, pronto a agir.

        Quando se ouviu o barulho do arranque de um motor, o animal voltou a ladrar e David correu para a janela mesmo a tempo de ver um veículo - que Lhe pareceu ser o jipe de Mrs. Bradley - passar pelo caminho junto à ponte de Cappy e seguir em direcção à aldeia. Visto que Relâmpago, quer de noite, quer de dia, ignorava os poucos carros e camiões que passavam na estrada do outro lado do rio, David concluiu que o jipe devia ter parado por momentos, mas como desaparecera estrada abaixo, voltou para a cama.

        - Esquisito! - disse ele a Cappy no dia seguinte. - Ontem à noite, não me apercebi, mas o carro não tinha os faróis acesos.

        - Não é muito invulgar - disse Cappy. - Algumas das carrinhas e dos carros que as pessoas daqui conduzem não têm luzes.

        - Se fosse Mrs. Bradley, porque viria ela da parte de cima do desfiladeiro? No outro dia, disse‑me que praticamente ninguém lá vive.

- O motorista dela utiliza essa estrada como atalho até à cidade. É muito perigosa porque é uma zona de desabamento de pedras, mas há pessoas que arriscam a vida para poupar cinco minutos.

        Era domingo, estava um dia quente, de indolência, e à tarde David levou Relâmpago até ao rio, onde fez de novo uma tentativa inglória de apanhar um peixe.

        Por causa do calor Relâmpago sentia‑se menos enérgico que o habitual e deixou‑se ficar deitado ao lado de David, levantando de vez em quando a cabeça para fitar o rosto do rapaz com um olhar estranho. Cappy referia muitas vezes o amor que existia entre os seres humanos e os cães. Quando David passou a mão pelo pêlo de Relâmpago, sentiu‑se inundado por esse amor: um companheirismo e uma compreensão profundos mas incondicionais, um amor sem rivalidades, nem objecções, nem limites; e comunicavam sem necessitar de palavras.

        David deitou a cabeça no dorso de Relâmpago e ficou a olhar o céu através dos ramos cheios de folhas de um salgueiro, observando um falcão que voava em círculos. Sentia‑se cheio de amor e segurança e estava admirado por a felicidade ser um sentimento calmo.

        Minutos depois, enrolou a linha de pesca e retirou o isco do anzol. Relâmpago investigava os arbustos vizinhos e parecia estar a mastigar qualquer coisa, mas David não prestou atenção.

        - Para casa, Relâmpago, para casa! - Era uma nova ordem, e David repetiu‑a duas vezes enquanto se dirigiam para casa.

        Cappy encontrava‑se na cozinha do canil fervendo um caldo para humidificar a ração, mexendo numa grande caldeira uma quantidade para três dias. Voltou‑se quando David e Relâmpago entraram.

        Cappy estivera a observar David e Relâmpago na margem do rio, maravilhado por ver como o rapaz e o cão tinham mudado e desabrochado tanto em menos de um mês. David já não era o mesmo rapaz pálido e silencioso recolhido no mundo da sua imaginação. De facto, quando David estava a sós com Relâmpago, tornava‑se de imediato falador; Cappy ouvia muitas vezes David lá fora a falar com o Relâmpago de modo tão natural que quase esperava que o cão participasse na conversa. E Cappy sentia‑se orgulhoso do neto, que se tornara tão seguro.

        Cappy ajoelhou‑se para inspeccionar as patas dianteiras do Relâmpago.

        - Que belas unhas pretas - comentou ele -, mas precisam de ser aparadas. Amanhã, meu velho Relâmpago, tens pedicuro.

        Olhou para Relâmpago de frente, fazendo‑lhe ligeiras cócegas por baixo do focinho. De súbito, o Relâmpago estremeceu e o seu pêlo eriçou‑se. Levantou a cabeça, esticou o pescoço numa feia simulação de alerta, com as patas dianteiras tensas e imóveis. Relâmpago soltou um uivo, um uivo de terror, que terminou num som de estrangulamento. As patas rígidas cederam e Relâmpago caiu e ficou estendido no oleado do chão, com o corpo subitamente flácido mas a tremer.

        Cappy reconheceu aqueles sintomas; contudo, por momentos, as recordações despertas pela convulsão do cão paralisaram‑no, deixando‑o incapaz de agir. Pensou desesperadamente que era impossível, era demasiado terrível para acontecer.

        - Relâmpago! - gritava David. - Oh, Cappy, o que se passa com ele? Qual é o problema?

        - Está calado! - Cappy recuperou a lucidez, mas a sua voz era um sussurro rouco. - Nem um som... entendes?

        David acenou, entorpecido, percebendo simplesmente que algo de terrível se passava. Estendeu a mão para tocar no Relâmpago, para Lhe dar amor e conforto, mas Cappy segurou‑lhe o pulso.

- Não, deixa‑o sossegado.

        Relâmpago agitou‑se e tremeu durante alguns segundos, depois todo o seu corpo se contorceu como se tivesse tocado num fio eléctrico. Rebolou sobre as costas e a sua coluna arqueou‑se de tal forma que apenas o topo da cabeça e a extremidade da coluna assentavam no chão. Os músculos contorciam‑se de modo tão hórrível que David apertou os pulsos contra a boca para não gritar, enquanto as lágrimas Lhe rolavam pela face. Ainda há momentos, vinham a brincar descuidadamente pelo caminho, e agora aquele pesadelo.

        Relâmpago ficou de novo inerte, mas os seus olhos rolavam selvaticamente e o corpo era sacudido por pequenos espasmos, como num soluçar violento.

        Cappy dirigiu‑se rapidamente ao armário dos medicamentos

enquanto falava em voz baixa com David.

        - Vai a casa e diz a Mrs. Littlefoot que telefone para a cidade a chamar o Dr. Matson ou o Dr. Gomez. Se ela não conseguir apanhá‑los, tem de vir outro veterinário. Diz que é uma urgência... Relâmpago foi envenenado com estricnina. E nada de barulho, David.

- Estricnina? - perguntou David em voz fraca.

        - Sim. É um veneno normalmente utilizado contra os ratos. Agora, vai depressa, David, não podemos perder tempo.

        Cappy não Lhe disse que para o Relâmpago, provavelmente, o tempo já se esgotara e que, quando o médico chegasse da cidade, seria demasiado tarde. Supunha que Relâmpago morreria dentro de meia hora, e seria a triste perda de uma vida inocente. Depois, lutando contra o desespero, Cappy começou a fazer o que podia.

        David tropeçou na soleira da porta, mal conseguindo transmitir a sua mensagem, mas Mrs. Littlefoot percebeu imediatamente dirigiu‑se ao telefone, onde consultou uma lista de nomes e de números pregada à velha secretária.

        - O médico virá rapidamente? - perguntou David, com o rosto branco como a cal, quando ela começou a fazer a ligação.

        - Sim, virá rapidamente - respondeu ela. Ligou número atrás de número, conseguindo apenas entrar em contacto com os serviços de atendimento, que prometiam tentar encontrar um veterinário.

David observava‑a com um pavor crescente, até que ela disse:

        - Despacha‑te! Bombeia um bocado de água da chuva da cisterna e põe‑na ao lume a ferver. Junta‑lhe sal e mexe sempre lentamente. Liga o forno no mínimo para o caso de precisarmos de aquecer cobertores ou toalhas.

        David correu a fazer aquelas tarefas, sem suspeitar que o que fazia era trabalho inútil inventado por Mrs. Littlefoot para Lhe entreter o espírito e Lhe ocupar as mãos até Lhe passar aquele primeiro pânico. Ela percebeu como ele necessitava desesperadamente de sentir que estava a ajudar Relâmpago.

        A água já fervia fortemente quando Mrs. Littlefoot desligou o telefone e disse:

- Vai ter com o teu avô. Daqui a pouco chega um médico.

Na soleira da porta, David voltou‑se para trás.

        - Mrs. Littlefoot, já viu outros cães que tivessem comido aquilo? Engolido estricnina?

- Claro. Foi terrível, mas melhoraram passado um ou dois dias.

        Respondeu‑lhe com aquela mentira porque não suportava dizer‑Lhe a verdade. Quem engole estricnina quase sempre morre rapidamente, seja cão, gato, rato ou pessoa.

        A atmosfera no canil estava pesada devido ao clorofórmio que Cappy usara para manter Relâmpago quieto, tentando retardar as convulsões mortais. David, sentado, quieto e tenso, num banco a um canto, lutava contra as ondas de náusea que o cheiro Lhe provocava. As janelas do lado oeste estavam agora tingidas de tons carmesins: a luz do pôr do Sol escurecendo para a noite. David ouviu ao longe o ribombar abafado de um trovão: aproximava‑se uma tempestade.

Relâmpago pareceu estremecer com o barulho do trovão, e David juntou as mãos, articulando com os lábios palavras silenciosas.

- Não morras, Relâmpago. Por favor, Relâmpago, não morras.

        Cappy limpou os últimos fluidos e partículas que haviam brotado do estômago do cão. Foi em bicos de pés até ao balcão metálico e examinou o que encontrara: dois bocados de carne, ambos com grânulos de veneno, grânulos letais vendidos em lojas por todo o lado como mata‑ratos. As piores suspeitas de Cappy confirmavam‑se: Relâmpago não comera uma das plantas venenosas que por vezes cresciam no desfiladeiro, ele fora deliberadamente envenenado por alguém.

        Cappy sentiu o olhar inquiridor de David fixo em si e fez‑lhe um sinal. Saíram os dois de mansinho lá para fora e afastaram‑se um pouco do canil.

        - O Relâmpago está a morrer - disse David. A sua voz retomara o tom solitário e distante que Cappy não lhe ouvia há semanas.

        O velhote pôs o braço sobre os ombros de David, percebendo de novo como o corpo do garoto era frágil.

        - Não, ele ainda está vivo, David. A partir de agora, cada momento que ele passe vivo conta. Já passou mais de uma hora depois da primeira convulsão e isso é um bom sinal, uma razão para ter esperança.

- Porque é que ela fez isto? - perguntou David subitamente.

- O que é que queres dizer com isso?

        - Mrs. Bradley. Eu vi o jipe dela na estrada na noite passada, e hoje Relâmpago estava a mastigar qualquer coisa perto da ponte.

        - David, não podemos acusar ninguém sem termos a certeza... e nós não sabemos.

David ficou em silêncio, reflectindo, e depois disse:

        - É melhor eu voltar lá para dentro, Cappy. Eu não quero que Relâmpago esteja sozinho agora.

        David deitou‑se num cobertor perto do Relâmpago. Ficaram de vigia noite dentro. Cada minuto que passava parecia uma eternidade repleta de terror. Passaram quase três horas, e Relâmpago continuava imóvel como se estivesse morto. Ouviram o motor de um carro na estrada, e Cappy, percebendo que devia ser o veterinário vindo da cidade, saiu ao seu encontro.

        O JOVEM veterinário depressa viu que Relâmpago sobrevivera ao pior, mas decidiu passar lá a noite para poder fazer um exame completo ao cão quando já não houvesse perigo de espasmos.

        - O ritmo cardíaco está bom - disse ele. - Não há danos aparentes. Este amigo deve ser de ferro.

        Por ordem do veterinário, Relâmpago passou a maior parte dos três dias que se seguiram numa jaula que Cappy retirou da carrinha. O corpo do Relâmpago eliminara o veneno, mas ele precisava de muitas horas de descanso para recuperar das fortes convulsões que Lhe tinham esforçado todos os músculos até ao ponto de ruptura.

        Como Xenia estava muito velha, Cappy pediu um cão de caça emprestado a um amigo da aldeia. Colocaram‑lhe um açaime para o proteger de algum petisco tentador mas letal, e ele ajudou Cappy e David a fazerem uma busca ao terreno de ambas as margens do rio.

- O que é que nós podemos fazer? - perguntou David, angustiado. - E se ela volta a pôr mais veneno?

- David! Nós não sabemos quem fez isto.

        - Talvez uma vedação alta - continuou David. - Com buracos pequeninos, tipo rede, para que nada possa ser introduzido através deles. Ou talvez um muro.

Cappy abanou a cabeça.

        - Nenhuma vedação mais pequena que a Grande Muralha da China poderia impedi‑los. Normalmente, os envenenadores de cães são pessoas doentes. Se calhar, pensam que estão a agir por vingança ou medo ou porque o ladrar de um cão os manteve acordados toda a noite. Não há protecção contra todas as possibilidades de ataques através de vedações e muros.

- Mas temos que fazer alguma coisa!

        - Sim, vamos fazer alguma coisa. Assim que o Relâmpago estiver suficientemente forte, ensinamo‑lo a não comer nada desconhecido. É uma lição difícil... mas não há outra hipótese.

        O treino começou uma semana depois. Joey, o sobrinho de catorze anos de Mrs. Littlefoot, chegou com o seu amigo Sam Raindancer. Ambos montavam pequenos póneis de montanha e tinham camisas de franjas e chapéus de abas com contas.

        Cappy cortou um ramo comprido, deixando um tufo de folhas na extremidade. Depois, explicou o que iam fazer enquanto desenhava marcas no chão para mostrar onde ficar e onde retroceder quando fosse a altura. Trouxe Relâmpago do canil usando uma trela muito comprida. Relâmpago, desconfiado de estranhos, soltou uma rosnadela ameaçadora quando viu Joey, mas acalmou‑se um pouco quando captou o cheiro do bocado de carne que Joey tinha na mão esquerda. Joey aproximou‑se, estendeu o naco, depois deixou‑o cair no chão e recuou. No momento em que Relâmpago baixou a cabeça para cheirar o presente inesperado, Joey bateu‑lhe através do açaime com a vara, que mantivera escondida atrás das costas. Simultaneamente, Cappy sacudiu a trela, gritando:

- Não!

        Relâmpago soltou um latido de surpresa, porque a vara com as folhas era mais inesperada do que dolorosa. Quando ele tentou atirar‑se a Joey, Cappy puxou‑lhe a trela bem curta. Naquela manhã, repetiram a operação seis vezes com intervalos, alternando Joey com Sam Raindancer, e das duas últimas vezes, quando o cão recusou o isco, Cappy fez‑lhe muitas festas e elogiou‑o profusamente, premiando‑o com um pequeno pedaço de fígado.

        Joey e Sam voltaram várias manhãs e mandaram amigos para fazerem o papel do dador fraudulento.

- Esta é a parte fácil - disse Cappy. - Estamos a ensiná‑lo a não aceitar subornos. Será mais difícil para ele aprender que não deve aceitar presentes deixados no chão sem que estejam estranhos por perto.

        Trabalhando com luvas de borracha para que o seu odor não passasse para os objectos, Cappy preparou pequenas ratoeiras com pedaços de carne. As molas das ratoeiras eram demasiado fracas para magoarem o focinho de Relâmpago, mas suficientemente fortes para darem um grande estalido, e a ratoeira ao fechar‑se rebentava um pequeno saco de quinino que presenteava a carne e o nariz que a farejava com um esguicho acre.

        Cappy também fez uns cortes em pedaços de carne de carneiro que encheu com o chili mais picante que Mrs. Littlefoot conseguiu fazer. Fechou os cortes para reterem o odor e escondeu aqueles mimos de queimar a boca num sítio onde Relâmpago os encontrava de certeza.

        Cappy e David colocaram os iscos ao longo de um percurso

marcado por onde conduziram Relâmpago, e sempre que ele baixava a cabeça para apanhar aquelas descobertas, sacudiam fortemente a trela, gritando:

- Não! Não!

        - Acho que estamos a ganhar a batalha - disse Cappy um dia, depois de Labareda ter passado por três das tentações sem sucumbir.

- Mas nunca estaremos completamente a salvo, David. Recusar a comida que encontra vai contra a natureza de Relâmpago, por isso o treino nunca é completamente seguro.

 

AGOSTO chegou e com ele as semanas douradas de fim de Verão em Spirit Canyon - tardes calmas em que nem os choupos se agitavam, e o falcão descrevendo círculos parecia nadar contra uma corrente invisível através da luz intensa. Na propriedade de Cappy, os melões estavam maduros e Mrs. Littlefoot decorava a mesa com ancólias‑azuis. Labareda dominava a técnica de seguir no encalço, descrevendo oitos, e David apanhou uma truta.

        O comandante dos bombeiros, um grande homem de botas pesadas, veio afixar umas tabuletas. Ficou para almoçar, queixando‑se da falta de chuva e do descuido dos campistas. Depois de ele partir Cappy ficou de pé olhando as fundações enegrecidas que haviam suportado o celeiro.

A meio do mês, Cappy passou dois dias fora para fazer parte do júri de um concurso de cães, e nenhum cão dos que viu era tão rápido nem tão vivo como o Relâmpago.

        David viveu os mágicos dias de Agosto com a inconsciência do tempo próprio de um rapaz. Aprendeu a fazer um apito de duas notas com um ramo de salgueiro e deu a primeira volta no pónei de Joey. Vivia alegremente o presente sem pensar no futuro, para além dos planos para a manhã seguinte. O passado também não interferia na sua vida, mesmo quando Cappy o obrigava a escrever postais à tia Nadine e ao tio Arthur.

        Mas com a passagem dos dias, Cappy sentia uma apreensão crescente. O Verão estava a acabar, era altura de David regressar a S. Francisco, de se preparar para o início das aulas. Lamentava a partida do rapaz e culpava‑se por se ter envolvido emocionalmente de forma tão intensa - algo que ele um dia jurara que nunca mais havia de acontecer‑lhe. No entanto, não questionava a justeza da partida de David. O lugar do rapaz era junto de Nadine e de Arthur, como fora acordado há muito tempo, e não se voltava atrás num acordo.

        Mas a perspectiva insuportável era a de separar Relâmpago e David. A separação parecia ainda mais amarga porque seria desnecessária. O apartamento de Arthur Wheeler era grande e nas proximidades havia um parque com espaço suficiente para correr e brincar. Apesar do seu tamanho, os pastores alemães dão excelentes animais de estimação em apartamentos, porque são sossegados, nada propensos a uivar, e, ao contrário de outras raças, não ficam infelizes quando não podem ir à rua dar uma volta. O problema para Cappy não era o cão, mas sim Arthur e Nadine com os seus medos e preconceitos.

        "Se ao menos eles viessem ver David e Relâmpago juntos", pensou Cappy. "Ver o rapaz com o cão derrete até um coração de pedra", disse Cappy para consigo.

        Ponderou o problema, chegou a uma conclusão e no último dia de Agosto, um domingo, telefonou para S. Francisco enquanto David estava a brincar lá fora e apanhou Arthur Wheeler em casa.

        - Penso que você e Nadine deviam vir cá buscar David - disse Cappy, escondendo o verdadeiro motivo. - David sentir‑se‑ia mais seguro, mais desejado, se vocês viessem cá.

        - Mas isso é impossível - replicou Arthur. - Nadine não pode viajar. O bebé está para nascer na primeira semana de Outubro. Bom, mas se é absolutamente necessário, eu vou aí buscar David na terça‑feira.

        - Boa ideia! Nós vamos buscá‑lo ao aeroporto, passa aqui à noite e volta no dia seguinte. Então, fica combinado.

- Bem, suponho que é o melhor. A propósito, Cappy, estava a pensar mandar‑lhe um cheque pelo alojamento e alimentação de David. A companhia de seguros suporta as despesas dele, como certamente se lembra. Claro que terei de deduzir o dinheiro pago pelo acampamento a que ele não chegou a ir e depois também o bilhete de avião dele e o meu e...

- Não se preocupe, Arthur! Vemo‑nos na terça‑feira!

        Cappy desligou, algo perturbado pelo rumo final que a conversa tomara. Sabia que David tinha segurança financeira, mas nunca pensara na importância que esse dinheiro tinha para Arthur. Pelo menos, pensou Cappy aborrecido, Arthur não argumentaria que era muito caro alimentar Relâmpago. O dinheiro era de David, e havia bastante.

        Cappy nada disse a David nessa noite nem no dia seguinte, segunda‑feira. Por duas vezes, tentou falar sobre o assunto, mas a boca secava‑se‑lhe e, por qualquer razão, as ocasiões não Lhe pareciam apropriadas. Depois, sabendo que era impossível adiar por mais tempo a conversa, obrigou‑se a falar.

        A seguir ao jantar, foram até ao alpendre. Cappy fez um esforço para abordar o desagradável assunto.

- Tenho boas notícias, David. O teu tio Arthur chega amanhã.

        - Amanhã? - David pareceu ficar atordoado. - Vem fazer uma visita?

        - Vem para te levar para casa. Ele e a tua tia Nadine têm tido muitas saudades tuas, e agora que o Verão está a acabar...

        - Para casa? - O rapaz parecia ainda não ter percebido bem. - Vem para me levar? - Subitamente, David pousou a mão no dorso de Relâmpago.

- Bem, a escola começa para a semana, suponho, e...

        Repentinamente, David soltou um grito abafado, pôs‑se em pé de um salto e correu para dentro de casa, deixando a porta de rede bater atrás de si, e atravessou a cozinha a correr, seguindo pelo corredor até ao seu quarto.

        Cappy ficou calmamente sentado, dominado por uma sensação de inutilidade, recriminando‑se por não ter preparado David convenientemente para as notícias.

        Cappy percebeu que o Relâmpago ficara confuso e preocupado com o estranho comportamento de David e tentou consolar o cão coçando‑o atrás das orelhas e falando‑lhe calmamente. Mas até nisso falhou, e Relâmpago deixou‑o para ir até à janela do quarto de David e arranhar as portadas. Estas abriram‑se para deixar entrar o cão e voltaram a fechar‑se rapidamente.

Cappy entrou na cozinha, onde Mrs. Littlefoot, que ouvira tudo, pendurou cuidadosamente o pano da louça molhado sem se virar para olhar para ele. Cappy dirigiu‑se para o quarto de David para conversar com o garoto, mas no corredor hesitou. A pior pergunta ainda não fora feita. E o Relâmpago? Cappy não tinha resposta e subitamente a raiva cresceu dentro dele. "Deixa Arthur Wheeler dizer a David o que tiver que ser dito". Ele não suportava ter que dizer a David que o cão tinha que ficar.

        De manhã, David respondeu ao chamamento de Mrs. Littlefoot através da porta fechada, mas não apareceu para tomar o pequeno‑almoço. Cappy foi encontrar o garoto, completamente vestido, sentado na borda da cama, com Relâmpago deitado no tapete, vigilante.

        - São horas de irmos, horas de irmos para o aeroporto ter com o tio Arthur - disse Cappy.

        - Vá o senhor. Eu não quero ir. - David estava pálido, mas o pequeno queixo permanecia firme.

Cappy analisou a situação.

        - Está bem - disse ele. - Não vou obrigar‑te a ir, embora esperasse que fosses, pois vou levar o Relâmpago.

David levantou os olhos rapidamente, alarmado.

        - Quero que o teu tio conheça logo o Relâmpago para ver como ele é bem comportado.

David acenou com a cabeça, desviando o olhar.

- Não quero ir.

        - Muito bem, mas não sais da propriedade até nós chegarmos, e espero que tenhas boas maneiras quando o teu tio chegar.

        Cappy foi‑se embora, levando Relâmpago. Depois de ele partir, Mrs. Littlefoot tentou atrair David à cozinha com a promessa de uma tarte de maçã, mas ele mal Lhe respondeu.

        - Vou à aldeia... à mercearia. Queres que te traga alguma coisa?

- Não, nada.

        Minutos depois, o motor da mota dela começou a trabalhar aos soluços, e ela partiu, deixando David sozinho.

        Ele permaneceu sentado na cama em silêncio, olhando fixamente para o tapete. Aquela seria a sua última noite no Rancho San Pascual. Até ali, não tinha apreendido o facto de que tinha de partir, e naquele instante percebeu porque é que Cappy levara Relâmpago para conhecer o tio Arthur. Relâmpago ia ser julgado, e ele tinha poucas dúvidas sobre a decisão do tio Arthur.

        Levantou‑se e dirigiu‑se lentamente à cozinha, sabendo vagamente o que tinha a fazer. De uma gaveta, tirou um saco de pano com atilhos e meteu nele as poucas coisas de que precisaria: pão, queijo, linha de pesca e anzol com o seu melhor isco. Pegou num dos apitos especiais que só os cães conseguem ouvir e encheu uma das divisórias com biscoitos para cão.

        Não precisaria de mais nada. Havia nozes e bagas no cimo do vale. Encontraria uma gruta ou uma árvore para se abrigar e ficaria lá por uns dias, no máximo uma semana; só até o tio Arthur voltar para S. Francisco. O tio Arthur, que tantas vezes se descrevia a si próprio como um homem muito ocupado, não poderia esperar eternamente. David agarrou numa caixa de fósforos "proibidos" para acender fogueiras e saiu de casa.

        Meia hora depois, parou para beber um pouco de água do rio, fazendo uma concha com as mãos e bebendo a água, que sabia a folhas. O prazer pela aventura suplantava agora todos os outros sentimentos, e cheio de confiança prosseguiu. Pouco depois, o rio afastava‑se da estrada. David caminhou a direito por um carreiro e, de repente, parou alarmado. Olhou para a esquerda e para a direita sem saber onde se esconder. à sua frente, a alguma distância, vinha Sam Raindancer no seu pónei. Sam iria com certeza fazer‑lhe perguntas e, provavelmente, obrigá‑lo a voltar para casa.

        David estava tão preocupado com Sam Raindancer que nem ouviu um veículo a aproximar‑se por detrás dele senão quando uma buzinadela o fez saltar para a berma. Mrs. Bradley, sozinha, parou ao seu lado e, inclinando‑se sobre o banco do lado, abriu a porta do jipe.

- Queres boleia, rapaz? - perguntou ela.

Ele olhou fixamente para a sua maquilhada cara de boneca.

        - Salta cá para dentro - disse ela, sorrindo. - Eu não te mordo.

        David subiu para o jipe, impelido não pelo convite dela, mas pelo barulho do trote do pónei. O jipe constituía um refúgio: pareceria que Mrs. Bradley ia a passear com David, e Sam não o questionaria. Quando o veículo arrancou, David enterrou‑se no banco, esperando não ser detectado. No instante seguinte, passavam por Sam.

- És o Davy Holland, não és? - perguntou Mrs. Bradley.

        - David - ele acentuou a correcção, mantendo a cara virada para o outro lado, pensando quando poderia escapar sem levantar suspeitas.

- David, é isso? E onde vais, se não é indiscrição?

David disse as primeiras palavras que Lhe vieram à cabeça:

- Para perto das Três Grutas. Tenho um amigo que mora lá.

        - Bem, estou contente por ter encontrado um rapaz tão simpático. - Ela parecia decididamente alegre. - Faz‑me sentir melhor numa manhã como a de hoje em que estou tão preocupada que nem deveria ir de carro sozinha até à cidade.

- Para a cidade? Está a ir pelo caminho errado! – exclamou David.

        - Não. Vou pelo atalho da parte superior do desfiladeiro. Espero que conheças todos os desvios, porque é a primeira vez que faço este caminho sozinha.

        David olhou‑a, preocupado: estavam a seguir pelo caminho que Cappy dissera que era perigoso.

        Mrs. Bradley, que não estivera a prestar atenção à estrada, travou de repente, e ambos deram um forte solavanco para a frente.

- Aqui está... é isto mesmo.

        Alguns metros à frente, a estrada bifurcava‑se, indo um dos braços para o alto da montanha enquanto o outro mergulhava numa floresta num vale mais abaixo.

        - Por onde é? - perguntou ela. - Visto que o teu avô te deixa passear por aqui, suponho que conheces a estrada. - Tirou uma lata de spray de uma mala que estava no banco ao lado dela e envolveu‑se num esguicho cinzento que tresandava a lilás.

        - A estrada para a cidade, não - respondeu David por fim. - Eu saio aqui, o meu amigo mora ali à frente. - Apontou na direcção do caminho da esquerda. - Bom dia, Mrs. Bradley.

Mas o jipe já estava em movimento antes de ele abrir a porta.

        - Não sejas tonto, David Holland. Eu levo‑te lá. Não custa nada.

        Quando a estrada voltou a bifurcar‑se, David fez sinal para a esquerda enquanto tentava freneticamente discernir um modo de se escapar sem parecer estranho. Nessa altura, seguiam por um caminho serpenteante com grandes sulcos dos lados e ervas altas no centro.

        Um ramo baixo varreu o pára‑brisas e saltou para trás. A folhagem densa que quase obstruía a estrada impossibilitava a visão para além de poucos metros.

        - Mrs. Bradley, é melhor voltar para trás - disse David, subitamente bastante assustado. - Acho que não é este o caminho, se calhar enganei‑me.

        - Valha‑me Deus! Bom, suponho que daqui a pouco havemos de encontrar um sítio onde dar a volta.

        Mas tal sítio não existia. O caminho virava, subia e descia abruptamente, mas nunca era suficientemente largo para permitir que o jipe desse a volta. Enquanto os ramos mais fortes eram empurrados para trás à passagem do jipe, os galhos mais fracos partiam‑se e entravam pela janela folhas arrancadas que caíam no colo do David. Este perdera completamente o sentido de orientação.

Mrs. Bradley guinou para o lado para rodear uma súbita saliência de granito que se erguia como um recife escondido na floresta. Inesperadamente, a estrada terminou numa inclinação que dava para o leito seco de um riacho, e as rodas da frente do jipe ficaram suspensas na margem antes de Mrs. Bradley conseguir travar. Ela foi atirada contra o volante, David bateu no tablier, as rodas da frente rodavam, impotentes, na areia do riacho, e as de trás no ar a um palmo do chão. O jipe ficou imobilizado.

        Por momentos, Mrs. Bradley ficou sentada em absoluta quietude. David inclinou‑se e girou a chave.

        - Talvez devesse puxar o travão de mão - aconselhou cautelosamente.

        - O quê? Ah, sim. - Mas não o fez, limitando‑se a esboçar um sorriso amarelo. - O teu amigo mora aqui perto? Será que podemos ir a pé até casa dele e telefonarmos para a oficina da aldeia?

        David ficou espantado por ela não saber que ela e Cappy possuíam os únicos telefones de Spirit Canyon.

- O teu amigo? - repetiu. - Onde é que mora?

- Não sei, Mrs. Bradley, mas há uma casa aqui perto.

- Como é que sabes?

- Cheira‑me a fumo - afirmou ele, saindo do jipe.

        Encontraram um caminho na margem oposta do riacho, um trilho de veados. David já não sentia o cheiro do fumo, mas apenas o aroma de lilases de Mrs. Bradley, e lamentou que ela não tivesse ficado no jipe.

        Seguiram a custo um pouco mais. Depressa avistaram à sua frente a luz brilhante e límpida de uma clareira, e o aroma de fumo tornou‑se muito intenso.

        David sentiu o calor súbito do Sol quando passou das sombras para a claridade e, por instantes, ficou ofuscado pela intensidade da luz. No entanto, pressentiu imediatamente algo de estranho. A clareira era muito pequena para ser o local de uma cabana, e o fumo era demasiado disperso para vir de uma chaminé. Foi então que viu a aparição.

        A figura de um fantasma, um homem envolto em teias de aranha, estava voltada de costas para David, apenas a alguns metros. Numa das mãos segurava um ramo de pinheiro a arder e na outra um trapo velho que agitava no ar para espalhar o fumo que saía do tronco de uma árvore oca. Ali perto, estava um balde de água e vários sacos de serapilheira molhados. David percebeu que os estranhos farrapos cinzentos que envolviam o homem não eram teias de aranha, mas sim bocados de cortinas velhas, torcidas e enegrecidas pelo fumo.

        David fitou‑o, mais intrigado do que assustado. Não conseguiu entender nada daquela cena confusa até ouvir o zumbido furioso de abelhas. Percebeu então que não se tratava de um fantasma, mas simplesmente de um homem tentando afastar abelhas selvagens de uma colmeia para Lhes tirar o mel. O homem agitava o ar para que o fumo da sua fogueira ilegal não atraísse as atenções de longe.

        O vulto virou‑se. Olharam‑se mutuamente, espantados, e em seguida o ladrão de mel deu um passo ameaçador em frente, levantando bem alto a tocha. Nessa altura, Mrs. Bradley, empurrando as ramagens dos arbustos, entrou na clareira, vendo a figura grotesca a avançar para David. Levantando a cabeça, ela deu um grito de gelar o sangue, tirou da mala o spray que cheirava a lilases, apontou‑o como uma arma e, atirando um longo jacto, gritou de novo.

        De repente, uma nuvem de abelhas enlouquecidas irrompeu da árvore fumegante. O homem gritou em pânico, arremessou o bocado de madeira a arder na direcção de David e rodopiou para fugir pelo meio do mato.

        De mãos dadas, David e Mrs. Bradley retrocederam às cegas, David arrastando a sua companheira cambaleante atrás de si ao longo de um trilho vago que julgava ser aquele que tinham percorrido antes.

        Entretanto, o bocado de madeira ardente parecia ter‑se apagado. Mas um pedaço de carvão ainda fumegava perto das raízes nuas de um espinheiro.

        DAviD e Mrs. Bradley corriam o mais depressa que podiam, arranhando as mãos e a cara e rasgando a roupa nos ramos. Mrs. Bradley começou a soltar pequenos gemidos de medo e confusão.

        - Por favor, pare de chorar, Mrs. Bradley - disse David. - Não serve de nada. Temos é que descobrir como voltar à estrada... Ou talvez encontrar o riacho e segui‑lo.

        - Oh, onde estamos? - perguntou ela. - Não estamos quase

ao pé do jipe? Quando chegarmos ao jipe, não paramos de tocar a buzina, e de certeza que alguém nos encontrará.

        Ela tentou sorrir, mas havia um tom indefeso na sua voz que preocupava David. A adulta era ela, era ela quem deveria assumir o comando, no entanto ele sentiu que ela contava que fosse ele a decidir qual daqueles dois carreiros, quase invisíveis que se cruzavam, deveriam seguir.

        - Isto é terrível! - gritou ela, olhando para o seu delicado relógio de ouro. - Há duas horas que andamos perdidos nesta selva.

        Duas horas? Cappy já devia estar em casa, pensou David, de volta e preparando‑se para ir procurá‑lo.

        As árvores separavam‑se e, tanto à direita como à esquerda, erguiam‑se enormes blocos de granito, paredes altas e escuras que formavam um gigantesco corredor. Ali, as árvores eram raras, as rochas impediam o crescimento dos arbustos.

- Que sítio tenebroso! - murmurou Mrs. Bradley.

        PARA Cappy Holland, a viagem de regresso do aeroporto a San Pascual com Arthur Wheeler fora uma experiência dura. O encontro deles correra mal desde o primeiro momento.

        Relâmpago, com a trela posta convenientemente e de orelhas espetadas em alerta, mantivera‑se encantadoramente ao lado de Cappy, um modelo de beleza e obediência canina. Mas Arthur Wheeler empalideceu visivelmente ao ver o cão.

        - Olá! Olá! - exclamou, começando a dar palmadinhas nas

costas de Cappy, mas olhando de relance para o cão, mudou rapidamente de ideias. - Prazer em vê‑lo, Cappy - disse, por fim, inseguro.

        - Arthur! - Cappy retribuiu o cumprimento, explicou que David os aguardava no rancho e depois tentou apresentar Relâmpago.

        - Lá grande é ele! - disse Arthur, sem se aproximar mais. - Aposto que come cinco quilos de carne por dia! Bom, onde está o seu carro?

        Durante a longa viagem de regresso a Spirit Canyon, Cappy fez várias tentativas para explicar a devoção de David a Relâmpago, mas apercebeu‑se de que não estava a ser bem‑sucedido.

        - Parece‑me uma relação algo doentia. O rapaz tem‑se sentido demasiado só - comentou Arthur com complacência. - Mas agora vai ter um irmão para lhe fazer companhia.

        Quando chegaram a San Pascual, Cappy não ficou surpreendido ao saber que David tinha saído.

        - Anda a brincar por aí - disse a Arthur. - Ele volta mal perceba que o Relâmpago está aqui. É incrível como eles são unidos!

        Mas Arthur não ouviu este último comentário, pois a velha Xenia, após inspeccionar o recém‑chegado com os seus olhos aguados, decidiu rosnar a sua opinião, forçando Arthur a deslocar‑se para o outro lado da mesa.

        No jardim, Cappy gritou a chamar David e depois parou para cumprimentar Sam Raindancer, que estava a rachar lenha perto da casa do rio.

- Viste o David, Sam?

        - Sim, senhor. Aí há umas duas horas, quando eu vinha a caminho daqui, ia ele para a parte de cima do desfiladeiro.

- Para a parte de cima do desfiladeiro?

        - Exacto. Ia com Mrs. Bradley... no jipe dela. Eu disse‑lhe adeus, mas ele não me viu.

Espantado, Cappy voltou para dentro de casa, onde Mrs. Littlefoot, com um ar preocupado, o deteve à porta da cozinha.

        - Desapareceu muito queijo - disse ela em voz baixa - e eu sei qual foi o rato que fugiu com ele.

        Felizmente, Arthur fora para o quarto de hóspedes desfazer o saco da sua roupa e não ouviu Cappy a telefonar para a Propriedade Spirit Canyon, de onde a governanta o informou que Mrs. Bradley saíra de manhã para um encontro na cidade e que, sim, tinha ido pela parte superior do desfiladeiro.

- Obrigado - disse Cappy, desligando.

        Era óbvio que David tinha fugido. Talvez ele o devesse ter previsto, mas parecera‑lhe improvável que David partisse sem o Relâmpago. No entanto, o rapaz fugira e aceitara uma boleia de Mrs. Bradley, por estranho que isso parecesse.

        Mas a estrada da parte de cima do desfiladeiro, o chamado "atalho" para a cidade! Era isto que ele não conseguia tirar da cabeça enquanto caminhava do telefone até à janela, e vice‑versa. Toda a zona superior do desfiladeiro, para aqueles que não o conheciam, era uma selva traiçoeira. Avalanchas de pedra rolavam como trovões pelas encostas cinzentas; incêndios repentinos podiam transformar os seus becos sem saída em fornalhas, mas o mais perigoso de tudo era que o cimo do desfiladeiro era uma verdadeira selva. Ninguém sabia quantos homens e mulheres - investigadores, rancheiros, caçadores ou inocentes passeantes - haviam vagueado até encontrarem a morte naquele território hostil.

        Atravessando a cozinha, Cappy disse a Mrs. Littlefoot para servir o almoço a Arthur.

- Diga‑lhe que eu fui buscar David.

        Atravessou rapidamente o jardim até ao canil e abriu o de Relâmpago.

        - Anda, rapaz, vamos dar mais uma volta. - O cão olhou‑o e ganiu inquiridoramente.

        O CORREDOR entre as falésias era mais ardiloso do que David julgara a princípio. Havia pedras espalhadas por todo o lado; trepadeiras finas mas duras pareciam ratoeiras; maciços de mato raquítico e troncos retorcidos de árvores velhas espalhavam‑se num emaranhado formidável. Mrs. Bradley movia‑se hesitante a seu lado, sorrindo debilmente quando ele Lhe fazia sinais de encorajamento.

        - Está a andar melhor - disse‑lhe ele -, quase que já não coxeia.

        Ela pareceu ficar agradecida pelo elogio e em seguida, inesperadamente, cambaleou, levando a mão à testa.

- Tenho a impressão de que estou um pouco fraca. Estou a fazer dieta e não como nada desde o meio‑dia de ontem. Estou a morrer de fome.

David meteu a mão no saco que trazia pendurado no cinto.

- Tome um pedaço de queijo.

        Ela olhou o queijo, esfomeada. O seu braço, parecendo ter vontade própria, saiu disparado e agarrou a fatia. Sem dizer palavra, engoliu‑a e depois aceitou silenciosamente o naco de pão que David Lhe deu.

        - Eu também tenho fome. Podemos comer ali... há uma sombra. - Ele apontou para um gigantesco bloco de granito mesmo à frente deles.

        - Claro! Um piquenique. - A perspectiva da comida pareceu restabelecê‑la consideravelmente.

        Enquanto se aproximavam do rochedo, David soltou o saco do cinto e avaliou as provisões que tinham. Concluiu que não era muito para duas pessoas. Quem Lhe dera ter trazido água.

        Junto aos pés de David, irrompeu um som aterrador, um silvo estridente. David olhou para baixo, viu os pequenos olhos brilhantes de uma serpente que se encontrava enrolada a menos de um metro dele e ficou petrificado. Como que pregado ao chão, ficou hipnotizado a olhar para o ser horrível, vendo as presas brancas curvadas e a pequena língua que se agitava entre elas. De novo, a cobra assobiou ameaçadoramente, prestes a atacar, mas ele continuava boquiaberto, mudo e paralisado.

        Gritando, Mrs. Bradley atirou a sua mala à cobra, falhando completamente. Mas o réptil viu uma forma branca e cinzenta rodopiando para baixo. Atacou. O seu corpo poderoso, disparando num impulso vigoroso, desenrolando‑se, virou a cabeça de repente na direcção dos tornozelos de David para fincar as presas no cabedal do saco, trespassando‑o como se fosse algodão.

        David deu um pulo para trás. A fuga era o seu único pensamento. Pelo canto do olho, viu que a cobra estava enrolada de novo, pronta a atacar.

        Eles fugiram, tropeçando e embatendo nas pedras. Arranhados e ofegantes, engolindo ar às golfadas, chegaram a um bosque de faias, e aí Mrs. Bradley caiu por terra, incapaz de correr mais um passo. Durante uns minutos, nenhum deles conseguiu falar, até que David disse:

- Obrigado.

Ela fez um aceno de cabeça, ainda ofegando.

        - Perdi o pão e o queijo - disse David num tom subitamente humilde.

- Também já não tenho fome. - Ela engoliu em seco com força, pigarreou e as lágrimas começaram a rolar‑lhe pelas faces. - Este é o pior dia da minha vida!

        David olhou para ela, desprezando‑se por aquela mulher, a sua inimiga, Lhe ter salvo a vida. Pior ainda, agora sentia pena dela.

        - É terrível estar‑se perdido - disse ele delicadamente -, mas havemos de encontrar o caminho.

        - Não é só isso! Este dia terrível começou quando encontrei o Taffy e o Fluffy, os meus gatinhos, mortos! Envenenados! Deve ter sido aquele homem, o Jones. Ele ameaçou‑me ontem quando o despedi, disse‑me que tivesse cuidado com os meus gatos. Mas eu não liguei, não acreditei que ele fosse mesmo capaz de fazer mal a um pequeno animal inocente. Como é que alguém pode fazer uma coisa assim? Oh, é perverso!

        David, vendo‑a a chorar, percebeu que ela teria sido incapaz de fazer mal ao Relâmpago e sentiu‑se envergonhado. Esticando timidamente o braço para Lhe tocar na mão, disse‑lhe:

- Lamento muito, Mrs. Bradley. Compreendo o que sente.

        Apanharam água de uma poça, o suficiente para molhar os lábios, mas estava demasiado lamacenta para ser bebida.

        Antes de continuarem, David encontrou um ramo partido suficientemente grosso para servir de arma.

 

SEGUIR o percurso matinal de David revelou‑se muito mais fácil do que Cappy imaginara. A estrada do desfiladeiro, de terra batida com alguma gravilha, era bastante reveladora. Os cascos do pónei de Sam Raindancer estavam nitidamente marcados, e apenas um veículo, que fora de certeza o jipe de Mrs. Bradley, deixara marcas recentes de pneus na terra mole ao longo da berma direita. Em vários sítios, os pequenos sapatos de corvida de David tinham imprimido no pó linhas onduladas.

        Cappy descreveu uma curva e chegou a um local onde o jipe parara à beira da estrada. Cappy suspeitou que fora ali que David apanhara boleia, suspeita que se confirmou uns cem metros à frente, onde as marcas de pneus se desviavam para a direita e as marcas dos cascos para a esquerda, indicando que o pónei e o jipe se tinham cruzado naquele ponto. Cappy acelerou.

        - Eles foram por aqui, Relâmpago - disse ele. - Não pararam, passaram neste trilho em direcção ao rancho de Raindancer. Estás a ver? Depois, chegaram à bifurcação da estrada... oh, não!

As marcas do jipe seguiam para a esquerda, e não para a direita, por uma estrada coberta de vegetação sem cor que não levava a lado nenhum, excepto ao meio da selva densa.

        Cappy conduziu estrada abaixo a passo de caracol. Era agora fácil seguir o jipe: deixara cicatrizes nas folhas revoltas, no pó, nas agulhas de pinheiro caídas; mas penetrar mais na floresta com a carrinha seria uma aventura arriscada.

        - É melhor seguirmos a pé, Relâmpago - disse Cappy ao cão, desligando a ignição e enfiando as chaves no bolso. Retirou uma pequena bússola do tablier e pendurou‑a à correia do relógio. O Relâmpago saltou para o chão mal Cappy abriu a porta.

        Cappy seguiu os ramos partidos e as folhas arrancadas, as profundas marcas nas cascas das árvores. Uma grande saliência granítica elevou‑se à sua frente, e Cappy reparou que o jipe, ao desviar‑se para a contornar, tinha espalhado um montículo espesso de agulhas de pinheiro secas e pinhas. O terreno inclinava‑se ligeiramente para baixo, o que levou Cappy a supor que em breve encontrariam um curso de água seco.

        Relâmpago, subitamente alerta, seguia à frente de Cappy, rodeando a formação rochosa, e soltou então um pequeno latido de aviso. Segundos depois, Cappy avistou o jipe imobilizado, desamparado na margem do ribeiro, e largou a correr, mas mesmo antes de chegar perto das portas abertas, compreendeu que David, pelo menos, não estava lá, porque Relâmpago ficou calmamente sentado à espera dele.

Cappy apanhou do chão um pente.

- É do David. Deve ter‑lhe caído do bolso.

        Cheirando o pente, Relâmpago abanou a cauda entusiasticamente.

        Viam‑se claramente pegadas de dois tipos de sapatos na areia seca do ribeiro.

        - Porque é que teriam ido naquela direcção? David devia perceber que tinha de descer pelo curso de água monte abaixo. Este ribeiro havia de ir ter a um rio algures! Mas, em vez disso, eles seguiram pelo raio do trilho dos veados.

        Então, ainda não tinha avançado uma dúzia de passos, Cappy obteve a resposta.

        - Fumo! O rapaz sentiu o cheiro do fumo e pensou que devia haver uma cabana ou um acampamento naquela direcção!

        Cappy sentiu‑se aliviado. David estava salvo e haviam de encontrá‑lo dentro de poucos minutos. Mas depois, um pouco mais à frente no trilho emaranhado, a sua recente confiança começou a esmorecer quando percebeu que o cheiro a fumo não era do que ele pensara. A verdade penetrou lentamente na mente de Cappy - à sua frente estava um fogo no chão, crepitando por entre folhas mortas e agulhas de pinheiro.

        Cappy atravessou um arbusto e entrou na clareira. Compreendeu de imediato o que se passava: em dois dos lados, a clareira ardera sem labaredas, sem faúlhas; ele viu apenas novelos finos de fumo quase transparente e no chão montes de cinza branca. Naquela altura, o ar estava absolutamente calmo, mas ao menor sopro de vento os terrenos circundantes começariam a arder como uma tocha gigante.

        Viu um balde meio de água e uns trapos. Dirigiu‑se rapidamente para eles - podia ser suficiente para molhar as suas roupas e o pêlo do Relâmpago. Com a pressa, não prestou atenção ao piso e subitamente torceu a bota direita, estatelando‑se no chão. Bateu com a cabeça na raiz de um tronco morto e durante alguns segundos ficou atordoado, depois sentiu Relâmpago a lamber‑lhe o rosto.

- Eu estou bem, meu velho - disse Cappy.

        Mas não era verdade: a mínima pressão no joelho direito provocava‑lhe uma dor insuportável. Tentou andar ao pé coxinho, mas o joelho torcido revoltou‑se por ter de suportar o peso do pé levantado, e Cappy caiu de novo no chão.

        Ficou por momentos sentado, completamente imóvel, com a cabeça inclinada.

- Há um caminho - disse ele -, só tenho que o encontrar.

        Não havia a menor esperança de ele poder continuar a procurar David e Mrs. Bradley na selva. Mesmo que não tivesse o joelho magoado, não tinha o direito de o fazer: o seu dever era voltar para trás e dar o alarme; as pessoas do desfiladeiro tinham de ser avisadas.

        Mas havia David - David perdido algures na selva e correndo grande perigo quando aqueles tições irrompessem num fogo devastador, varrendo o desfiladeiro. Cappy sabia que isso ia acontecer em breve.

        - Relâmpago, anda cá! - Deu a ordem, esforçando‑se por ficar de pé por instantes. - Senta‑te! - Cappy abriu as mãos em frente dos olhos do cão, como fazia em casa quando brincavam às escondidas. Depois, tirou o pente de David do bolso da camisa e deu‑o a cheirar a Relâmpago.

        - Relâmpago, busca David! - disse, girando o braço num

grande arco.

        O cão não se mexeu. Cappy percebeu nos seus olhos escuros uma luta intensa para compreender, um desejo desesperado de perceber e obedecer.

        O joelho de Cappy latejava, mas ele manteve‑se em pé e fez outra tentativa, mostrando o pente, gesticulando e dando a ordem numa voz que era quase um grito.

- Relâmpago, busca David! Busca David, Relâmpago!

        Relâmpago hesitou, olhou para o chão fumegante, escutou o leve crepitar do fogo. Lentamente, muito lentamente, avançou em direcção ao trilho de veados num passo cauteloso, evitando os carvões cinzentos espalhados pela clareira. Depois, voltou‑se e fitou demoradamente Cappy com os seus olhos escuros e trágicos. Aquele olhar, repleto de obediência e de despedida, transmitiram palavras que Cappy nunca mais esqueceria.

        - Busca, busca - ofegou Cappy enquanto o cão desaparecia nos arbustos. A seguir, ele começou a rastejar.

        Interrogou‑se a que distância estaria da carrinha. Três quilómetros? E arrastou‑se mais uns centímetros.

        RELâmpago encontrou melhor piso uns cem metros à frente.

Hesitante, levantou a cabeça, deixando que uma combinação particular de cheiros suplantasse muitas outras. Compreendeu que era uma mistura de cheiros de David, um certo odor do seu corpo, outro do cabelo.

        Relâmpago avançava cautelosamente, de cabeça baixa, perturbado pelo forte cheiro a lilás deixado por Mrs. Bradley. Não era um cheiro natural, por isso deixava‑o desconfiado. Apesar disso, seguiu teimosamente o cheiro de David, ansioso para se juntar ao seu amigo.

        Não soprava qualquer brisa, e o céu carregado parecia abater‑se sobre o desfiladeiro como uma grande campânula de vidro escuro. Relâmpago avançava rapidamente.

        Depois, um barulho sibilante, assolador, estrondoso, como uma explosão, agitou as folhas. Relâmpago parou, voltou‑se de cabeça erguida e todos os músculos em tensão. O terreno fumegante atrás de si irrompera em chamas, que se elevavam no ar, uma tempestade de fogo que lançava a folhagem seca no ar, uma onda de calor que consumia muitos hectares de folhas, galhos e pequenos ramos, deixando os troncos mais pesados de pé, enegrecidos como tochas.

        Uma onda gigantesca de calor subia em espiral até às nuvens, provocando rajadas de vento no desfiladeiro nos dois sentidos. Debaixo dos pés de Relâmpago levantou‑se um rodopio de agulhas de pinheiro que se elevou até aos ramos de um grande choupo.

        Uma emoção nova e profunda percorreu Relâmpago. Antes, elesentira vontade de encontrar David; agora, a percepção do perigo dizia‑lhe que tinha de encontrá‑lo. Mas, à medida que avançava, o cheiro ficava mais fraco. Utilizando os olhos, recurso de que quase nunca se servira até ali, viu um pedaço de terra revolta onde o salto afiado de Mrs. Bradley deixara a sua marca. Intrigava‑o que ali, onde o cheiro devia ser mais intenso, não sentisse praticamente nada. Detectou então um desvio do cheiro, um desvio para a esquerda, seguindo a direcção do vento, rumo a um tufo de roseiras‑bravas.

        De cabeça baixa, seguiu aquele novo trilho até que o cheiro de David penetrou de novo nas suas narinas mais forte que nunca.

        Relâmpago recomeçou novamente, seguindo outro tipo de caminho, não rente às árvores nem ao chão que David de facto pisara, mas um trilho invisível de partículas de cheiro flutuando no ar e que descia para o solo numa rota paralela à que David seguira.

        Quando encontrava barreiras intransponíveis, ele contornava‑as e retomava o trilho mais à frente, onde era menos ardiloso, desbravando caminho, enfiando‑se pelo meio dos arbustos e dos ramos baixos das coníferas que lhe barravam o caminho. E por causa dos constantes desvios, Relâmpago percorreu na hora seguinte dez vezes a distância que David realmente andara. Atrás de si, Relâmpago ouvia a crepitação do fogo, os estalidos dos troncos de árvores queimados, a queda dos ramos.

        Por fim, emergiu da vegetação para campo aberto num terreno rochoso. Ali, perdeu o cheiro, mas encontrou‑o de novo junto a uma grande saliência de rocha granítica, agora profundamente embrenhada nas sombras profundas do fim do dia.

        A CASCAVEL, depois de atacar David e Mrs. Bradley, retirara‑se, escondendo‑se durante muito tempo numa fenda profunda nas rochas. Enrolara‑se numa espiral rígida quando sentiu os movimentos de aproximação de um grande animal. Ao sentir as vibrações das passadas, pensou que o recém‑chegado devia ser um coiote invulgarmente pesado; não era presa para ela, mas também não constituia perigo.

        O intruso vinha na sua direcção. Levantando os vibradores da cauda, a cobra soltou um silvo agudo de aviso.

        Relâmpago hesitou, perplexo. O instinto dizia‑lhe que aquele réptil era o ser mais mortal que jamais encontrara e que a retirada era o único caminho seguro. Porém, a passagem entre as rochas que a cobra guardava exalava a presença de David. Migalhas de biscoitos caídas logo à frente, pão e queijo em que David tocara, mesmo aos pés dele. Sabia que tinha que prosseguir.

        Ladrou ferozmente, uma terrível ameaça para repelir a criatura de presas compridas, mas só a espicaçou, fazendo‑a elevar mais a sua cabeça diabólica. Relâmpago agachou‑se, pronto a investir, mas nessa altura a cabeça aproximou‑se ameaçadoramente dele, tão perto que as presas lhe roçaram o pÊlo do peito; mas Relâmpago desviara‑se rapidamente para o lado e para trás no exacto momento da investida, e agora movia‑se para trás e para a frente um pouco afastado, enquanto a cobra instantaneamente se enrolou nos seus anéis.

        Relâmpago já sabia como ela atacava, apercebera‑se da velocidade e da distância de investida. Começou a saltar para a esquerda, depois para a direita, rosnando, fazendo fintas, até que o réptil, enfurecido, voltou a atacar. O seu desenrolar foi um pouco mais lento desta vez, e, percebendo isto, Relâmpago elevou‑se sobre as patas traseiras como se fosse lançar‑se contra a cascavel, mas em vez disso, no momento crucial, atirou‑se para a esquerda enquanto a cobra investia a direito, tentando enterrar as presas junto ao coração do cão num golpe que era morte instantânea. A cabeça da cobra ainda não tocara bem o chão quando Relâmpago, atacando de lado, a agarrou mesmo atrás da cabeça, esmagando‑lhe a base do crânio com as suas mandíbulas. O corpo comprido e musculado do réptil vibrou como um chicote e estremeceu. Com um violento arremesso da cabeça, Relâmpago atirou a cobra para longe e ficou a observá‑la contorcendo‑se sobre as rochas, escorregando pela encosta abaixo. O cão ficou por momentos deitado, ofegante, mas depois levantou‑se a custo para prosseguir a sua missão através da passagem que conquistara.

        A escuridão abateu‑se rapidamente; era noite escura e enevoada, excepto a leste e a norte, onde o céu tinha uma cercadura carmim e amarela. Estava lua cheia, e quando as nuvens se afastavam por instantes, todo o desfiladeiro ficava iluminado.

Relâmpago descansou junto à nascente lamacenta. O seu pêlo era um emaranhado de silvas, a pata anterior direita estava inchada por causa de um espinho que acabara de arrancar com a língua. Durante meia hora, ficara ali a tratar da pata e a recuperar forças. O fogo parecia não estar mais perto e ele não sentia calor, mas o vento dizia‑lhe que as chamas crepitavam, varrendo o chão. Os animais que habitavam a passagem já iam em fuga; uma corça irrompeu na clareira perto da nascente e saltou sobre Relâmpago como se ele fosse um ramo, e um guaxinim fugiu apressado, ignorando o cão.

        Relâmpago levantou‑se, afastou‑se um pouco da nascente e depois parou, hesitante. Não Lhe chegava nenhum cheiro familiar. Saltou para uma plataforma de rocha um pouco acima dele e começou a subir, esperando que uma brisa mais acima Lhe indicasse para onde ir. Uns olhos amarelos chisparam subitamente contra os seus, apenas a centímetros de distância, e um focinho rosnante e silvante encarou‑o: era o focinho de uma fêmea de lince de cuja toca ele se aproximara. Atrás dela, aninhavam‑se duas crias, e naquele momento, o lince, pequeno em comparação com Relâmpago, teve a coragem de um tigre.

        - Sccrrtt...! - rosnou ele, fincando‑lhe as garras no rosto. As unhas aguçadas rasgaram a carne do Relâmpago junto ao olho esquerdo e no focinho. Balançando, o cão caiu para trás, perdendo o equilíbrio, e rolou sobre a beira da plataforma de rocha, rodopiando desamparado sobre as pedras angulosas até o seu corpo se estatelar no chão da passagem.

        O RELóGIO suíço cinzelado bateu as 2 horas, mas Cappy, sentado perto do telefone com a perna levantada, não pensava em dormir, com o rádio baixo emitindo reportagens e avisos de cada vez que o fogo mudava de direcção ou avançava. Já tinha devastado a maior parte da zona superior do desfiladeiro.

        Cappy marcava todas as mudanças num mapa militar pregado à mesa a seu lado, e sempre que desenhava uma linha vermelha no mapa, pensava: "Estará David em perigo?" Deus permitisse que ele não se tivesse aventurado na zona da velha mina de Lodestone, transformada num inferno de uns dois quilómetros quadrados onde não havia vida. Ou teria ele ido para as Três Grutas, uma faixa estreita do desfiladeiro que podia irromper em chamas a qualquer momento?

        A zona inferior do desfiladeiro ainda não fora atingida pelo fogo e parecia estar livre de perigo, mas vizinhos que viviam um pouco mais longe tinham ficado feridos, sem casa ou encontravam‑se desaparecidos.

Arthur Wheeler chegara, cambaleante, há minutos atrás, com o rosto afogueado e as mãos queimadas, depois de ter combatido o fogo durante meio turno. Perguntara se havia notícias de David, depois afundara‑se na cama do quarto de hóspedes e, naquela altura, ressonava, exausto.

        Mrs. Littlefoot dera um termo com café fumegante ao guarda‑florestal que trouxera Arthur a casa, e ele levou‑o aos seus colegas que combatiam o fogo a poucos quilómetros dali. Em seguida, ela começou a encher dois grandes cestos com comida, toalhas, sabão e ligaduras destinados ao abrigo temporário instalado na escola da aldeia. Cappy observou‑a por momentos, depois disse:

- Se o rapaz escapar, fica a viver connosco.

Ela fez um aceno de cabeça.

        - Já fez tantas coisas hoje e continua à espera. Repare bem quem está a dormir e quem está sentado, vigilante. Precisa de alguma coisa antes de eu me ir embora?

Cappy abanou a cabeça, cansado.

        - Tenha esperança num milagre, que é o que eu faço - disse ele calmamente.

        Depois de ela partir, Cappy ficou sozinho, assombrado pelos seus medos por David e simultaneamente tentando avaliar o que de estranho acontecera naquele dia. Recordou o seu rastejar por entre as silvas e troncos, o transpor doloroso de um monte de formigas onde os insectos pareciam untados com ácido; houve momentos em que pensou que não seria capaz de arrastar‑se nem mais um centímetro. Recordou a luta grotesca para levar a carrinha de volta à estrada e para a conduzir e, depois de tudo aquilo, as terríveis horas à espera de notícias de David.

        David tinha que voltar são e salvo - David e Relâmpago. Eles tinham que regressar, porque era a altura de começar vida nova, de reconstruir, de olhar em frente.

        SOB A LUZ bruxuleante de uma pequena fogueira, David contemplava uma mão‑cheia de biscoitos para cão.

        - Acho que, se os molharmos até ficarem moles, talvez não saibam tão mal.

        Mrs. Bradley tossiu e esfregou os olhos. O fumo estava a incomodá‑la mais do que ela admitia.

        - Tenho a certeza de que esses biscoitos ficarão deliciosos - concordou ela.

        Tinham encontrado uma gruta quase no cimo da encosta do desfiladeiro mesmo antes de anoitecer. Haviam praticamente tropeçado nela, porque a sua entrada estava encoberta por arbustos.

David quase atingira a exaustão, e Mrs. Bradley declarara que já não conseguia pôr um pé à frente do outro. Tinham concordado ambos em ficar ali abrigados até de manhã.

        A gruta era grande e limpa; do tecto pingava um pouco de água. Na penumbra, David lembrou‑se dos fósforos que tinha no bolso, juntou musgo e ramos secos e fez uma pequena fogueira à entrada.

        - Deve rodear‑se a fogueira com um círculo de pedras - disse Mrs. Bradley com uma expressão ausente.

- A sério? Como é que sabe, Mrs. Bradley?

        - Fui escuteira. - O seu rosto contraiu‑se, mas ela não voltou a chorar. - Fui escuteira há séculos... e agora nem consigo descobrir o caminho para minha casa!

        David amoleceu os biscoitos de cão com água, e Mrs. Bradley comeu um sem o saborear.

        - É bom! - Engoliu. - Posso comer outro, por favor? Sabem um pouco a pasta de fígado.

        David deixou‑a e voltou à entrada da gruta, onde quebrou alguns arbustos, de modo a poder observar o terrível avanço para leste do arco infernal. Passou uma hora e mais outra. Mrs. Bradley dormitou e David também, mas de cada vez que abria os olhos o fogo estava mais perto e mais espalhado. Supunha que o fogo lhes estaria a abrir o caminho para casa. Contudo, não acreditava que pudessem continuar a fugir dele.

        Entristecia‑o pensar que nem Cappy nem Relâmpago tinham vindo à sua procura. Nas últimas horas, acreditara que a qualquer momento eles apareceriam para o levar para casa. Tivera vontade de chorar, mas Mrs. Bradley estava ali e não queria que ela pensasse que ele era fraco e medroso.

        Enterrando a cabeça nas mãos, de modo a abafar qualquer som, David deixou os soluços sacudirem‑lhe os ombros.

        Sentiu uma coisa dura no bolso fazendo pressão contra a sua perna e tirou o apito de metal para cães. Levou o apito aos lábios e emitiu um assobio curto seguido de um longo, um curto seguido de outro longo: o sinal que costumava utilizar para chamar Relâmpago em San Pascual.

        Fechou os olhos e cabeceou; o fumo tornava‑o sonolento. Começou a sonhar, com a preocupação de ter que se levantar em breve porque Mrs. Bradley precisava dele. Mas, por momentos, encontrou‑se nas sombras frescas da ponte, a água banhava‑lhe agradavelmente os pés nus, reconfortando‑o. Ali perto, o Relâmpago procurava‑o, era o jogo das escondidas, mas ele não fazia barulho. Depois, Relâmpago, com um latido de júbilo, encontrou‑o e lambia‑lhe o rosto e as mãos, beijando‑o.

David acordou do sonho e deparou com o focinho do Relâmpago. Tinha sangue seco perto do olho esquerdo, que estava em carne

viva e infectado, e quando David esticou o braço para tocar no peito do Relâmpago, para se certificar de que ele era real, as suas mãos tocaram em mais sangue seco e nós de silvas.

        - Relâmpago! Vieste buscar‑me, Relâmpago! - O seu coração cresceu tanto que parecia querer rebentar.

        RELâmpago conduziu David e Mrs. Bradley cuidadosamente pela encosta abaixo, contornando a orla do fogo, e quando a mulher ficava para trás ou parecia demasiado cansada para continuar, ele aproximava‑se dela e empurrava‑a suavemente com o focinho, como se ela fosse um carneiro perdido; e quando uma vez ela tentou sentar‑se no chão, ele rosnou e não permitiu que ela parasse.

        Começou a cair uma chuva miudinha, suficiente para humedecer o terreno, mas decerto insuficiente para desencorajar o fogo atroador à esquerda deles. Na realidade, acima das labaredas a chuva transformava‑se em vapor branco antes de tocar as copas das árvores em chamas.

        Mas iria a chuva apagar o trilho que Relâmpago seguia? David tinha muito receio de que isso acontecesse, pois parecia impossível que Relâmpago conseguisse detectar os cheiros através da lama que cobria o chão.

        Relâmpago, coxeando, mas conduzindo sem desfalecer os seus protegidos, começou a recuperar as forças com aquela nova frescura, e a lama conservava as partículas de cheiro junto ao chão. Ao contrário do que David pensava, ele não estava a andar para trás. A estrada velha estava envolvida pelo fogo. Dos milhares de árvores pelas quais tinham passado naquele dia, nenhuma estava de pé, a não ser como braseiros ou troncos enegrecidos. Relâmpago conduzia‑os agora por uma outra direcção que os levaria à água, ao rio do desfiladeiro que marcava o caminho para San Pascual.

        Caminharam durante a noite até de madrugada. Finalmente, descobriram que já não estavam sozinhos no desfiladeiro. Por cima deles, pairavam helicópteros e desabrochavam pára‑quedas à medida que os bombeiros eram largados na selva como tropas invasoras atrás das linhas do inimigo, homens que iriam abrir clareiras e atear contrafogos.

        Quando chegaram à estrada da zona inferior do desfiladeiro, ela estava apinhada de homens com mulas carregadas com todo o tipo de equipamento.

        Apesar de completamente exaustos, nem David nem Mrs. Bradley pediram a esses homens que os levassem até casa. Ajudados por Relâmpago, tinham chegado até ali por si próprios, saindo do coração do desfiladeiro em chamas, e agora haviam de percorrer os últimos três quilómetros sozinhos. Coxeavam, estavam sujos e enfarruscados, meio cegos pelo fumo - contudo, caminhavam orgulhosamente. Tinham feito algo de especial.

        Pararam no cimo de uma pequena elevação, e David contemplou o Rancho de San Pascual lá em baixo. O moinho de vento girava calmamente, a casa com a sua chaminé de pedra parecia forte e segura; era mesmo mais bonita do que Lhe parecera no dia em que a vira pela primeira vez, há um verão atrás, há uma vida, quando era uma criança.

        Junto à grade de protecção para o gado, Mrs. Bradley deixou que David Lhe pegasse no braço, não fosse ela tropeçar. Ele apoiou‑lhe o cotovelo com a mão e avançaram os dois.

        Erguendo a cabeça, Relâmpago ladrou para proclamar o regresso, para dizer à velha Xenia, a Mrs. Littlefoot e a Cappy - que estava sentado junto ao telefone com a cabeça entre as mãos -, para dizer a todos eles que cumprira a sua missão, trazendo‑os para casa. Não os decepcionara.

 

                                                                                Robert Somerlott  

 

                      

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