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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TAI PAN Volume I / James Clavell
TAI PAN Volume I / James Clavell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 TA I   P A N

Volume I

 

Dirk Struan subiu ao tombadilho da nau capitânia H.M.S. Vengeance e caminhou em direção ao passadiço. O navio de linha, com seus 74 canhões, estava ancorado a meia milha de distância da praia. Em torno, encontrava-se o restante das belonaves da frota, embarcações para o transporte de tropas e clíperes de ópio dos negociantes chineses.

Amanhecia, naquela cinzenta e fria terça-feira, 26 de janeiro de 1841.

Enquanto Struan caminhava pelo convés principal, deu uma olhada em direção à costa e ficou todo excitado. A guerra com a China fora como ele planejara. A vitória havia sido alcançada de acordo com suas previsões. E o prêmio da vitória - a ilha - era algo que ele cobiçava há vinte anos. Agora, ia desembarcar para presenciar a cerimônia de posse, ver uma ilha chinesa tornar-se uma jóia na coroa de Sua Majestade, a Rainha Vitória da Grã-Bretanha.

A ilha era Hong Kong. Trinta milhas quadradas de pedra montanhosa, ao norte da embocadura do grande Rio Pérola, ao sul da China. A mil jardas de distância do continente. Inóspita. Árida. Desabitada, tendo apenas ao sul uma pequena vila de pescadores. Varrida pelas monstruosas tempestades que explodiam todo ano, originadas no Pacífico. Marginada a leste e oeste por perigosos baixios e recifes. Sem utilidade para o mandarim - nome dado a qualquer oficial do imperador chinês - em cujos domínios se situa.

Mas Hong Kong continha o maior porto da terra. E era o degrau de acesso de Struan à China.

- Amarrar os cabos! - bradou o jovem oficial de vigia para o fuzileiro de capote vermelho. - A chalupa do Sr. Struan no passadiço a meia-nau!

- Sim, senhor! - O fuzileiro inclinou-se por sobre a amurada e repetiu a ordem.

- Não vai demorar nem um minuto, senhor - disse o oficial, tentando conter seu pavor do príncipe dos mercadores, que era uma lenda nos mares da China.

-Não tem pressa, rapaz.

Struan era um homem gigantesco, com o rosto castigado por mil tempestades. Seu casaco azul de marinheiro tinha botões prateados e as calças brancas e apertadas estavam enfiadas, descuidadamente, em botinas navais. Estava armado da maneira usual - uma faca na prega às costas e outra na bota direita. Tinha quarenta e três anos, cabelos ruivos, olhos verdes-esmeralda.

- Está um dia lindo hoje - disse.

- Sim, senhor.

Struan desceu o passadiço, entrou na proa de sua chalupa e sorriu para seu meio-irmão mais moço, Robb, sentado a meia-nau.

- Estamos atrasados - disse Robb, sorrindo.

- Sim. Sua Excelência e o almirante falaram demais. - Struan olhou a ilha, por um momento. Depois, virou-se para o mestre. - Ao mar. Vamos até à praia, Sr. McKay!

- Sim, sim, senhorrr!

- Afinal, depois de tanto tempo, hein, Tai-Pan? - disse Robb. “Tai-Pan”, em chinês, significava “líder supremo”. Numa empresa, exército, armada ou nação só há um homem desses, o que exerce o poder absoluto.

- Sim - disse Struan.

Ele era o Tai-Pan da Casa Nobre.

 

 

- Esta ilha horrorosa que se dane - disse Brock, cujo olhar percorria a praia e se elevava pelas montanhas. - A China toda a nossos pés, e tudo que conseguimos é este rochedo estéril e inútil.

Ele estava na praia, acompanhado de dois de seus colegas negociantes na China. Espalhados em torno deles, havia outros grupos de negociantes e oficiais da força expedicionária. Estavam todos à espera de que o oficial da Marinha Real começasse a cerimônia. Uma guarda de honra de vinte fuzileiros encontrava-se formada em duas linhas bem arrumadas, junto ao mastro, o escarlate de seus uniformes como um repentino salpico de cor. Perto deles, havia grupos desarrumados de marinheiros que haviam acabado de lutar para trazer aquele mastro e sua bandeira até o solo pedregoso.

- As oito badaladas marcaram a hora de içar a bandeira - disse Brock, com a voz rouca de impaciência. - Já se passou uma hora. Por que diabo essa demora?

- É mau pagode praguejar na terça-feira, Sr. Brock - disse Jeff Cooper. Era um americano magro de Boston, com nariz adunco, e usava casaco negro e cartola de feltro, inclinada num ângulo elegante. - Muito mau!

O sócio de Cooper, Wilf Tillman, empertigou-se ligeiramente, sentindo as ocultas arestas da voz anasalada do companheiro mais jovem. Ele era baixote e corado, e vinha do Alabama.

- Digo-lhe com toda certeza, toda essa merda é um mau pagode! - disse Brock. Pagode era uma palavra chinesa significando sorte, destino, bom e mau, tudo junto. - Mau como diabo.

- Melhor que não seja, senhor - disse Tillman. - O futuro do comércio na China está aqui, agora... mau pagode ou bom pagode.

Brock olhou-o com firmeza.

- Hong Kong não tem futuro nenhum. É de portos abertos no continente chinês que precisamos, e você sabe disse, por Deus!

- O porto é o melhor que há nessas águas - disse Cooper. - Há espaço de sobra para querenar e reparar todos os nossos navios. Espaço de sobra para construir nossas casas e armazéns. E sem qualquer interferência chinesa, afinal.

- Uma colônia precisa ter terra arável e camponeses para trabalhar a terra, Sr. Cooper. E renda - disse Brock, com impaciência. - Já caminhei por aí tudo, e o senhor também. Não é possível cultivar nada aqui. Não há prados e nem rios, tampouco pastagens. Então, não haverá carne e nem colheita. Tudo aquilo que for necessário terá de vir por mar. Pense no preço. Ora, até os peixes apodrecerão. E quem vai pagar a manutenção de Hong Kong, hein? Nós e o nosso comércio, por Deus!

- Ah, é esse o tipo de colônia que deseja, Sr. Brock? - disse Cooper. - Pensei que o Império Britânico - ele cuspiu habilmente, na direção do vento - já tinha bastantes colônias desse tipo.

A mão de Brock aproximou-se de sua faca.

- Está cuspindo para limpar a garganta ou cuspindo no Império?

Tyler Brock tinha quase cinqüenta anos e era um homem grandalhão, tão duro e resistente como o ferro que fora obrigado a mascatear em Liverpool, quando jovem, e tão forte e perigoso como os navios mercantes, dos quais fugira e, afinal, aos quais chegara a comandar, como diretor da Brock e Filhos. Suas roupas eram opulentas e a faca que tinha à cintura era cravejada de pedras preciosas. Sua barba começava a ficar grisalha, como o cabelo.

- O dia está frio, Sr. Brock - disse Tillman depressa, aborrecido, interiormente, com a língua solta de seu jovem sócio. Brock não era homem para ser provocado, e eles não podiam permitir-se ainda uma aberta inimizade com ele. - O vento está um bocado frio, hein, Jeff?

Cooper fez um rápido sinal afirmativo com a cabeça. Mas não tirou os olhos de Brock. Não tinha faca, mas havia uma pistola em seu bolso. Era da mesma altura de Brock, porém mais magro, e destemido.

- Vou dar-lhe um conselho, Sr. Cooper - disse Brock. - É melhor não cuspir com muita freqüência depois de dizer “Império Britânico”. Talvez não lhe concedam o benefício da dúvida.

- Obrigado, Sr. Brock, eu me lembrarei - respondeu Cooper, despreocupadamente. - E vou dar-lhe também um conselho: é mau pagode praguejar numa terça-feira.

Brock conteve a raiva. Acabaria esmagando Cooper e Tillman e a companhia deles, a maior entre os negociantes americanos. Mas, agora, precisava dos dois como aliados contra Dirk e Robb Struan. Brock praguejou contra o pagode. O pagode tornara Struan e Companhia a maior casa de comércio da Ásia, tão rica e poderosa que os outros negociantes na China denominaram-na, com medo e inveja, a Casa Nobre - nobre porque era a primeira em riqueza, a primeira em tamanho, a primeira em comércio, a primeira em navios mas, principalmente, porque Dirk Struan era Tai-Pan, o Tai-Pan de todos os tai-pans da Ásia. E o pagode tirara de Brock um olho, há 17 anos, no ano em que Struan fundara seu império.

Aconteceu ao largo da Ilha Chushan. Chushan ficava logo ao sul do grande porto de Xangai, perto da embocadura do grande Rio Yang-tsé. Brock atravessara a monção com uma grande carga de ópio - e Dirk Struan vinha atrás dele, com um atraso de alguns dias, também carregando ópio. Brock chegou a Chushan primeiro, vendeu sua carga e começou a voltar, satisfeito por saber que agora Struan teria de ir mais para o norte, e tentar chegar a outro ponto da costa, com novos riscos. Brock seguiu velozmente em direção ao sul, onde morava - em Macau - com os cofres cheios de barras de ouro, o vento soprando favoravelmente. Mas, então, uma grande tempestade se formou sobre os mares da China. Os chineses chamavam essas tempestades de tai-fung, os ventos supremos. Os negociantes as designavam tufões. Eram o próprio terror.

O tufão castigou impiedosamente o navio de Brock e ele ficou preso entre os mastros e vergas caídos. Uma adriça cortada, impelida pelo vento, açoitara-o, enquanto ele se encontrava sem movimentos. Seus homens cortaram o madeirame, soltando-o, mas, antes, a corda partida, com um aro na ponta, vazou-lhe o olho esquerdo. O navio ficou inclinado sobre o costado, com perigo de naufragar, e ele os ajudou a cortar o cordame e os mastros que estavam ao sabor das ondas. Quase por milagre, a embarcação retomou o prumo. Então, ele derramou conhaque na órbita sangrenta; ainda se lembrava da dor.

E se recordava de como se arrastara até o porto, muito tempo depois de ter sido dado como perdido, com seu belo clíper de três mastros reduzido a um mero casco, as soldaduras soltas, sem mastros, sem canhões e nem cordame. E, quando Brock conseguiu substituir a mastreação, os cabos e as torres de amarração, bem como as armas e a pólvora, as balas e os homens, e comprara outra carga de ópio, todos os lucros daquela viagem já haviam desaparecido.

Struan fora atingido pelo mesmo tufão numa pequena lorcha - embarcação com casco chinês e cordame inglês, usada para fazer contrabando costeiro, em ocasiões de bom tempo. Mas Struan saíra da tempestade e, elegante e intocado como de hábito, já estava no cais para cumprimentar Brock, com seus estranhos olhos verdes zombando dele.

Dirk e seu maldito pagode, pensou Brock. Com esse pagode, Dirk transformara aquela única lorcha fedorenta numa frota de clíperes e centenas de lorchas, em armazéns e barras de ouro para entesourar. Na amaldiçoada Casa Nobre. E o pagode empurrou Brock e Filhos para o amaldiçoado segundo lugar. Segundo. E, ele pensou, o pagode o fez cair nas boas graças de nosso amaldiçoado e cagão plenipotenciário, o Ilustre Amaldiçoado Longstaff, todos esses anos. E agora, juntos, eles nos traíram. Hong Kong que se dane, e Struan também!

- Se não fosse o plano de Struan, vocês jamais teriam ganho essa guerra tão facilmente - disse Cooper.

A guerra começara em Cantão dois anos antes, quando o imperador chinês, decidido a controlar os europeus, tentara eliminar o contrabando de ópio, essencial ao comércio britânico. O Vice-Rei Ling cercou de tropas o núcleo dos estrangeiros em Cantão e pediu que fossem entregues todas as caixas de ópio existentes na Ásia, como resgate para as vidas dos indefesos negociantes ingleses. Finalmente, foram entregues e destruídas vinte mil caixas de ópio e os britânicos tiveram permissão para se refugiar em Macau. Mas os ingleses não poderiam aceitar interferências assim em seu comércio, ou ameaças a pessoas de sua nacionalidade. Seis meses depois, a Força Expedicionária Britânica chegara ao Oriente e fora colocada, ostensivamente, sob o comando de Longstaff, o Capitão-Superintendente do Comércio.

Mas foi Struan quem concebeu o inspirado plano de se desviarem de Cantão, onde o problema todo tinha começado, e enviarem, em vez disso, a força expedicionária ao norte, a Chushan. Seria simples tomar esta ilha sem perdas, teorizara Struan, porque os chineses não tinham preparo e nem defesa para enfrentar qualquer exército ou frota moderna européia. Deixando uma pequena força de resistência em Chushan, e alguns poucos navios bloqueando o Yang-tsé, a força expedicionária poderia navegar para o norte, até a boca do Rio Pei Ho, e ameaçar Pequim, a capital da China, que ficava a apenas uma centena de milhas rio acima. Struan sabia que só uma ameaça assim tão direta faria o imperador pedir paz imediatamente. Uma idéia soberba. E funcionara de maneira brilhante. A força expedicionária chegara ao Oriente em junho passado. Em julho, Chushan tinha sido tomada. Em agosto, a frota já estava fundeada no Pei Ho. Duas semanas mais tarde, o imperador enviava um oficial para negociar a paz - a primeira vez, na história, que qualquer imperador chinês reconhecia oficialmente uma nação européia. E a guerra terminara quase sem perdas de ambas as partes.

- Longstaff foi muito sábio ao seguir o plano - disse Cooper.

- Qualquer negociante na China saberia como fazer os chineses se ajoelharem - disse Brock, com a voz rouca. Ele empurrou mais para trás, sobre a testa, a sua cartola, e afrouxou a venda do olho. - Mas por que Longstaff e Struan concordaram em negociar lá em Cantão, hein? Qualquer tolo perceberia que “negociar” para o chinês quer dizer ganhar tempo. Deveríamos ter ficado no norte, no Pei Ho, até a paz ser firmada. Mas não, fizemos a frota voltar e, durante os últimos seis meses, estamos esperando interminavelmente que os patifes assinem alguma coisa. - Brock cuspiu. - Uma estupidez, uma louca estupidez. E toda essa perda de tempo e dinheiro por causa desta merda de rochedo. Deveríamos ter ficado com Chushan. Aquela ilha valia a pena. - Chushan tinha vinte milhas de comprimento e dez de largura e sua terra era fértil e rica com um bom porto e uma grande cidade, Ginghai. - Ali tem espaço para um homem respirar de verdade. Ora, de lá três ou quatro fragatas podem bloquear o Yang-tsé num abrir e fechar de olhos E quem controla aquele rio controla o coração da China. Pelo amor de Deus, é onde devíamos nos estabelecer.

- O senhor ainda tem Chushan, Sr. Brock.

- Sim. Mas não está citada no amaldiçoado tratado e, então não vai ser nossa. - Ele bateu os pés no chão, para aquecê-los, pois o vento ia ficando cada vez mais frio.

- Talvez devesse falar disso a Longstaff - disse Cooper. - Ele é sensível a conselhos.

-Não aos meus, aposto. Como sabe muito bem. Mas eu lhe digo, quando o Parlamento souber desse tratado, vai ser preciso pagar um dinheirão, pode ter certeza.

Cooper acendeu um charuto.

- Estou inclinado a concordar. É um espantoso pedaço de papel, Sr. Brock. Para os nossos tempos. Quando toda potência européia está louca por terra e poderes.

- E os Estados Unidos não, quer dizer? - O rosto de Brock se endureceu. - E os índios? A compra de Louisiana? Da Flórida espanhola? Vocês têm andado de olho no México e no Alasca russo. Segundo as últimas notícias, até tentaram roubar o Canadá. Hein?

- O Canadá é americano, não inglês. Não vamos fazer uma guerra no Canadá. Eles se juntarão a nós por vontade própria - disse Cooper, escondendo seu aborrecimento.

Ele puxou com força as suíças e envolveu mais apertadamente os ombros com seu casaco de marinheiro, para se proteger do vento, que esfriava mais ainda. Sabia que a guerra com o Império Britânico seria desastrosa naquela ocasião e arruinaria Cooper-Tillman. Malditas guerras. Ainda assim, tinha certeza de que os Estados Unidos precisariam ir fazer a guerra no México e no Canadá, a menos que fosse assinado um acordo. Exatamente como a Grã-Bretanha precisara guerrear com a China.

- Não haverá guerra - disse Tillman, tentando diplomaticamente acalmar Cooper.

Ele suspirou, e desejou estar de volta ao Alabama. Lá, um homem pode ser um cavalheiro, pensou. Lá, não é preciso lidar todo dia com os amaldiçoados ingleses, ou com gente da ralé, blasfemos e desbocados como Brock, ou um demônio em forma de homem, feito Struan, ou até com um jovem impetuoso, e sócio importante, como Jefferson Cooper, que tinha Boston como o centro do mundo.

- E esta guerra acabou, bem ou mal - acrescentou.

- Ouça bem o que eu digo, Sr. Tillman - disse Brock. - Esse maldito tratado não é bom nem para nós, nem para eles. Devíamos conservar Chushan e portos abertos no continente chinês. Estaremos em guerra outra vez, dentro de algumas semanas. Em junho, quando o vento estiver bem forte, a frota terá de navegar para o norte, novamente até Pei Ho. E, se estivermos de novo em guerra, como conseguiremos os chás e as sedas da temporada? Ano passado, quase não houve comércio, por causa da guerra. No ano anterior, comércio nenhum, e eles nos roubaram todo ópio. Só minhas, oito mil caixas. Isto me custou dois milhões de taéis de prata. Em dinheiro vivo.

- Aquele dinheiro não está perdido - disse Tillman. - Longstaff nos mandou entregá-lo. Para resgatar nossas vidas. Ele nos deu papel, em nome do Governo britânico. E há um acordo no tratado. Seis milhões de taéis de prata para pagar aquilo.

Brock riu, rudemente.

- Acha que o Parlamento vai respeitar o papel de Longstaff? Ora, qualquer governo seria derrubado na hora em que pedisse dinheiro para pagar ópio. Quanto aos seis milhões... servirão para custear as despesas da guerra. Conheço o Parlamento melhor do que o senhor. Despeça-se para sempre de seu meio milhão de taéis, é o conselho que eu dou aos dois. E, se estivermos em guerra outra vez, este ano, novamente não haverá comércio. Se não houver comércio este ano, entraremos todos em bancarrota. O senhor, eu e todos os que comerciam na China. Até a maldita Casa Nobre.

Puxou com impaciência o relógio. A cerimônia deveria ter começado há uma hora. O tempo expirava, pensou. Sim, mas não para Brock e Filhos, pelo amor de Deus. Dirk tivera um período de dezessete anos de bom pagode e agora era hora de mudar.

Brock se encantava ao pensar em seu segundo filho, Morgan, que controlava - com implacável competência - todos os seus interesses na Inglaterra. Ficou imaginando se Morgan tinha conseguido minar a influência de Struan no Parlamento e nos círculos bancários. Nós vamos fazer você naufragar, Dirk, pensou ele, e Hong Kong junto com você.

- Por que diabo será essa demora? - perguntou, aproximando-se apressadamente do oficial da Marinha que caminhava de um lado para outro, perto dos fuzileiros.

- Que há com você, Jeff? Sabe que ele está certo a respeito de Hong Kong - disse Tillman. - Devia entender que não deve arreliá-lo.

Cooper deu o seu magro sorriso.

- Brock tem uma maldita auto-suficiência. Não consegui conter-me.

- Se ele estiver certo com relação ao meio milhão de taéis, ficaremos arruinados.

- Sim. Mas Struan vai perder dez vezes isso, se não houver pagamento. Ele vai receber o dele, não tenha medo. Então, nós receberemos o nosso. - Cooper acompanhou Brock com o olhar. - Acha que ele sabe do nosso acordo com Struan?

Tillman encolheu os ombros.

- Não sei. Mas Brock tem razão quanto ao tratado. É estúpido. Vai nos custar um bocado de dinheiro.

Durante os últimos três meses, Cooper-Tillman tinham atuado como agentes secretos para a Casa Nobre. Belonaves britânicas bloqueavam Cantão e o Rio Pérola, e os comerciantes ingleses ficaram proibidos de negociar. Longstaff - a pedido de Struan - colocara em vigor o embargo, como outra medida para forçar o tratado de paz, sabendo que os armazéns de Cantão estavam repletos de chá e de sedas. Mas, como a América não declarara guerra à China, os navios americanos podiam atravessar livremente o bloqueio, passando pelos navios de guerra. Então, Cooper-Tillman haviam comprado quatro milhões de libras de chá a Chen-tsé Jin Arn - ou Jin-qua, como era apelidado - o mais rico dos mercadores chineses, e embarcaram-nas para Manilha, supostamente destinadas a comerciantes espanhóis. A autoridade espanhola local, em troca de um considerável suborno, emitira as necessárias licenças para importação e exportação e o chá fora transferido - livre de impostos - para os clíperes de Struan, que o levaram apressadamente para a Inglaterra. O pagamento a Jin-qua foi toda uma carga de ópio, entregue secretamente por Struan, em algum ponto da costa.

Um plano perfeito, pensou Cooper. Todos estão mais ricos e conseguem as mercadorias que querem. Mas teríamos feito uma fortuna, se nossos navios pudessem ter entregue o chá diretamente à Inglaterra. E ele amaldiçoou os Decretos de Navegação Britânica, que proibiam qualquer navio, com exceção dos britânicos, de levar mercadorias até portos ingleses. Malditos sejam, são os donos do mundo.

- Jeff!

Cooper acompanhou o olhar de seu sócio. Por um momento, não conseguiu entender o que Tillman queria que ele visse, no porto apinhado. Depois, viu a chalupa afastar-se da nau capitania, conduzindo o alto e ruivo escocês, tão poderoso a ponto de dobrar o Parlamento aos seus objetivos e fazer entrar em guerra a maior nação do mundo.

- Seria esperar muito ver Struan afogar-se - disse Tillman. Cooper riu.

- Você está enganado a respeito dele, Wilf. De qualquer maneira, o mar nunca ousaria fazer uma coisa dessas.

- Talvez sim, Jeff. Já é tempo. Por tudo que é sagrado.

 

Dirk Struan estava em pé à proa da chalupa, cavalgando a crista das ondas. E, embora já estivesse atrasado para a cerimônia, não apressou os remadores. Sabia que nada começaria até ele chegar.

A chalupa estava a trezentos metros da praia e as ordens de comando do mestre misturavam-se agradavelmente com a forte monção que vinha do nordeste. Lá longe, nas alturas, o vento ganhava força e impelia os cúmulus do continente para a ilha e, de lá, em direção ao oceano.

O porto estava cheio de navios, todos ingleses, com exceção de umas poucas embarcações americanas e portuguesas, barcos mercantes de todos os tamanhos. Antes da guerra, esses barcos mercantes teriam fundeado em Macau, a pequena colônia portuguesa, numa ponta do continente, quarenta milhas sudoeste, por sobre a grande embocadura do Rio Pérola. Ou ao largo da Ilha de Whampoa, treze milhas ao sul de Cantão. Esta era a maior aproximação de Cantão permitida a qualquer navio europeu, segundo a lei chinesa. De acordo com um decreto imperial, todo comércio europeu restringia-se a esta cidade. Dizia a lenda que mais de um milhão de chineses viviam dentro de suas muralhas. Mas europeu algum tinha certeza disto, porque nenhum deles caminhara jamais por aquelas ruas.

Desde a Antigüidade, os chineses tinham leis rígidas excluindo os europeus de seu país. A inflexibilidade dessas leis, a falta de liberdade, para os europeus, de irem onde queriam, e de comerciar como queriam, provocara a guerra.

Enquanto a chalupa passava perto de um navio mercante, algumas crianças acenaram para Struan, e ele respondeu ao aceno. Será bom para as crianças terem, afinal, os seus lares, em terra própria, pensou ele. Quando a guerra começara, todos os cidadãos britânicos haviam sido evacuados para os navios, a fim de ficarem em segurança. Havia aproximadamente cento e cinqüenta homens, sessenta esposas, oitenta crianças. Algumas das famílias ficaram a bordo de navios por quase um ano.

Em torno dos navios mercantes, estavam as belonaves da Força Expedicionária Britânica: navios de linha de 74 canhões, 44, 22, brigues, fragatas, uma pequena parte da mais poderosa armada que já existira no mundo.

E, entre esses navios, estavam os bonitos clíperes de ópio, com seu mastros enviesados, as mais velozes embarcações já construídas.

Struan sentiu um calor de excitação ao examinar a ilha, com sua montanha principal que se elevava a cento e oitenta pés, quase a prumo do mar.

Ele jamais pisara na ilha, embora soubesse mais a seu respeito do que qualquer outro homem. Jurara não desembarcar ali até o local pertencer aos britânicos. Agradava-lhe ser assim arrogante. Mas isto não o impedira de mandar seus capitães e o irmão mais moço, Robb, à terra, a fim de explorar a ilha. Conhecia os recifes, os rochedos, os vales e as colinas, e sabia onde ia construir seus armazéns e a Grande Casa, bem como o local em que passaria a estrada.

Virou-se para olhar o seu clíper, o China Cloud, de 22 canhões. Todos os clíperes de Struan e da companhia tinham Cloud como segundo nome, em honra de sua mãe, cujo sobrenome era McCloud, morta há anos. Marinheiros pintavam e limpavam a embarcação, que já reluzia. Os canhões eram examinados e o cordame testado. O pavilhão do Reino Unido tremulava orgulhosamente à popa, e a bandeira da companhia no alto da vela.

A bandeira da Casa Nobre era o real leão vermelho da Escócia, entrelaçado com o dragão verde imperial da China. Drapejava em vinte clíperes armados, espalhados pelos oceanos do mundo numa centena de velozes lorchas armadas que contrabandeavam ópio pela costa acima. E também em três grandes navios-depósitos para o abastecimento de ópio - antigos navios mercantes, atualmente ancorados no porto de Hong Kong. Drapejava ainda no Resting Cloud, embarcação na qual estava seu quartel-general, com quartos-fortes repletos de barras de ouro, escritórios, suítes luxuosas e salões de refeições.

É uma bela bandeira, pensou Struan, orgulhosamente.

O primeiro navio a içar a bandeira fora uma lorcha pirata carregada de ópio, que ele tomara à força. Piratas e corsários infestavam a costa, e as autoridades chinesas e portuguesas ofereciam uma recompensa em prata para quem os capturasse. Quando o vento impedia o contrabando de ópio, ou quando ele não tinha ópio algum para vender, esquadrinhava os mares da China. As barras de ouro ganhas com os piratas, investiu no ópio.

Maldito ópio, pensou. Mas sabia que sua vida estava inexoravelmente ligada ao ópio - e que, sem ele, nem a Casa Nobre e nem o Império Britânico poderiam existir.

A razão para tanto remontava a 1699, quando o primeiro navio britânico negociara pacificamente com a China e levara de volta sedas e, pela primeira vez, a inigualável planta chamada chá - que só a China, no mundo, produzia de maneira barata e em abundância. Em troca, o imperador só recebia barras de prata. E esta diretriz persistira, desde então.

Dentro de pouco mais de cinqüenta anos, o chá se tornara a bebida mais popular do mundo ocidental - particularmente na Grã-Bretanha, a maior nação comerciante da terra. Em setenta anos, o chá era a única fonte importante de renda interna de impostos para o Governo britânico. Num século, o fluxo de riqueza derramado na China esvaziara de maneira crítica o tesouro inglês, e a troca desequilibrada de chá por prata tornou-se uma catástrofe nacional.

No curso do século, a Companhia das índias Orientais Britânica - a gigantesca firma semiprivada, semipública que detinha, através de um decreto parlamentar, o monopólio do comércio indiano e asiático - oferecera de tudo, com crescente desespero - algodão, teares, até canhões e navios - em substituição à prata em barras. Mas os imperadores, autoritariamente, recusaram. Consideravam a China auto-suficiente, sentiam desprezo pelos “bárbaros”, como chamavam os não chineses, e encaravam todas as nações do mundo apenas como Estados vassalos da China.

E então, há trinta anos, um navio mercante britânico, o Vagrant Star, subira o Rio Pérola e ancorara ao largo da Ilha de Whampoa. Sua carga secreta era ópio, que a Bengala britânica produzia barato e abundante. Embora o ópio fosse usado na China há séculos - mas só os muito ricos o consumiam, e os moradores da Província de Yunnan, os locais onde a papoula também florescia - era considerado contrabando. A Companhia das índias Orientais autorizara clandestinamente o capitão do Vagrant Star a oferecer ópio. Mas só em troca de barras de prata. A Guilda de Mercadores Chineses que, por decreto imperial, monopolizava o comércio ocidental, comprou a carga e a vendeu em segredo, com grande lucro. O capitão do Vagrant Star, em particular, entregou as barras de prata a oficiais da Companhia, em Cantão, e tirou seu lucro em papel moeda, em Londres, voltando em seguida, às pressas, a Calcutá, a fim de conseguir mais ópio.

Struan lembrava-se bem do Vagrant Star. Ele fora camaroteiro a bordo. Nesta embarcação se tornara homem - e vira a Ásia. E jurara destruir Tyler Brock, na época terceiro-imediato do Vagrant Star. Struan tinha doze anos, Brock dezoito, e era muito forte. Brock o odiara à primeira vista e se deliciava em encontrar erros seus, cortar-lhe a ração de alimentos, mandá-lo fazer turnos extras, vigia de mastreação em ocasiões de mau tempo, em atormentá-lo, aguilhoá-lo. Ao menor engano, mandava amarrar Struan no cordame e açoitá-lo com os azorragues.

Struan ficara no Vagrant Star por dois anos. Então, certa noite, o navio bateu num recife, no Estreito de Málaca, e afundou. Struan nadou para a costa e conseguiu chegar a Cingapura. Mais tarde, soube que Brock sobrevivera também, e isto o fez sentir-se muito feliz. Queria vingança, à sua maneira, na ocasião oportuna.

Struan embarcou em outro navio. Agora, a Companhia das índias Orientais dava autorizações, secretamente, a muitos capitães negociantes independentes, cuidadosamente selecionados, e continuava a lhes vender com exclusividade o ópio de Bengala, a preços vantajosos. A Companhia começou a ter grandes lucros e adquiriu grande quantidade de barras de prata. A Guilda Chinesa de Mercadores e os mandarins fecharam os olhos para o comércio ilícito, porque também tinham grandes lucros. E estes lucros, sendo secretos, não estavam sujeitos aos impostos imperiais.

O ópio se tornou a mercadoria de comércio de torna-viagem. A Companhia, rapidamente, monopolizou o fornecimento mundial de ópio, fora da província de Yunnan e do Império Otomano. Em vinte anos, as barras de prata trocadas pelo ópio contrabandeado igualavam as barras devidas pelos chás e pelas sedas.

Afinal, o comércio se equilibrava. Depois, houve uma ultrapassagem, porque havia vinte vezes mais clientes chineses do que clientes ocidentais, e aí começou um pasmoso fluxo de barras que mesmo a China não poderia agüentar. A Companhia ofereceu outras mercadorias para represar a maré. Mas o imperador permaneceu inflexível: barras de prata em troca do chá.

Quando Struan chegou aos vinte anos, era capitão de seu próprio navio, no comércio do ópio. Brock era seu principal rival. Competiam implacavelmente. Dentro de seis anos, Struan e Brock dominavam o mercado.

Os contrabandistas de ópio ficaram conhecidos como negociantes da China. Eram um grupo intrépido, rijo e enérgico, de capitães-proprietários, individualistas - ingleses, escoceses e alguns americanos - que, sem pensar duas vezes, dirigiam seus pequenos navios para águas desconhecidas e perigos ignorados, fazendo disto um estilo de vida. Navegavam para comerciar pacificamente: a fim de tirar lucros e não conquistar. Mas, se enfrentavam um mar hostil, ou um decreto hostil, seus barcos se tornavam navios de guerra. E, se não combatiam bem, desapareciam e eram logo esquecidos.

Os comerciantes da China logo perceberam que, enquanto eles assumiam todos os riscos, a Companhia ficava com a maior parte dos lucros. Além disso, eram completamente excluídos do comércio legítimo - e altamente lucrativo - de chá e seda. Então, embora continuassem a competir ferozmente, persuadidos por Struan começaram a se agitar, coletivamente, contra a Companhia, a fim de romper seu monopólio. Sem o monopólio, os comerciantes poderiam converter ópio em barras de prata, barras de prata em chá e, depois, levar o chá para seu país e vendê-lo diretamente aos mercados mundiais. Os negociantes da China controlariam eles próprios o comércio mundial de chá e seus lucros se tornariam gigantescos.

O Parlamento se tornou seu foro de agitação. O Parlamento dera à Companhia seu monopólio exclusivo há dois séculos, e só o Parlamento poderia retirá-lo. Então, os negociantes da China jogavam pesadamente, comprando votos, apoiando membros do Parlamento que acreditavam na livre competição e no mercado livre, escrevendo para jornais e para membros do Governo. Estavam decididos e, com o aumento de sua riqueza, também cresceu seu poder. Eram pacientes, tenazes e indomáveis - como só conseguem ser os homens treinados no mar.

A Companhia ficou furiosa com os insurgentes e relutava em perder seu monopólio. Mas precisava desesperadamente que os comerciantes da China fornecessem as barras de prata, para pagarem o chá, e agora dependiam muito da grande renda decorrente da venda do ópio de Bengala. Então, lutou cuidadosamente para se defender no Parlamento. Este se encontrava em igual armadilha. Clamava contra a venda de ópio, mas precisava da renda dos chás e do Império Indiano. O Parlamento tentou ouvir os comerciantes da China e a Companhia, mas não satisfez a nenhum dos dois lados.

Então, a Companhia decidiu fazer de Struan e Brock, seus principais antagonistas, um exemplo. Retirou-lhes suas autorizações para negociar o ópio e as rompeu.

Brock ficou com seu navio, Struan sem nada. Brock entrou em sociedade secreta com outro comerciante da China e continuou a agitar. Struan e sua tripulação atacaram um refúgio de piratas ao sul de Macau, destroçaram-no e tomaram a lorcha mais veloz. Então, ele se tornou um negociante clandestino de ópio a serviço de outros negociantes e, incansavelmente, tomava outros navios piratas, ganhando cada vez mais dinheiro. Em associação com os outros negociantes da China, jogava de maneira cada vez mais pesada, comprando ainda mais votos e continuando a importunar, e exortar, até o Parlamento uivar pela total destruição da Companhia. Sete anos antes, o Parlamento aprovara o decreto que eliminava o monopólio da Companhia na Ásia, e abria o continente ao livre comércio. Mas permitira à Companhia conservar o direito exclusivo de negociar com a índia Britânica - e o monopólio mundial do ópio. O Parlamento lamentava a venda do ópio. A Companhia não queria negociar com ópio. Os próprios comerciantes da China teriam preferido outra mercadoria - se fosse igualmente lucrativa. Mas todos eles sabiam que, sem a balança do chá-barra de prata-ópio, o Império seria destruído. Era uma evidência do comércio mundial.

Com liberdade para negociar, Struan e Brock tornaram-se príncipes mercadores. Suas frotas armadas se expandiram. E a rivalidade aguçou ainda mais sua inimizade.

Para substituir o vácuo político deixado na Ásia, quando o controle da Companhia fora anulado e o comércio liberado, o Governo britânico nomeara um diplomata, o Nobre William Longstaff, como Capitão-Superintendente do Comércio, para proteger seus interesses. Os interesses da Corôa eram um volume crescente de comércio - para ganhar mais com o produto dos impostos - e a contínua exclusão de todas as outras potências européias. Longstaff era responsável pela segurança do comércio e dos cidadãos britânicos, mas seu mandato era vago e ele não recebeu nenhum poder real para colocar em vigor uma política.

Pobrezinho do Willie, pensou Struan, sem malícia. Mesmo com todas as minhas pacientes explicações, no curso dos últimos oito anos, nossa “exaltada” Excelência, o Capitão-Superintendente do Comércio, ainda não consegue enxergar um palmo adiante do nariz.

Struan olhou para a praia, enquanto o sol crestava as montanhas e banhava os homens ali reunidos com uma luz repentina: amigos e inimigos, todos rivais. Virou-se para Robb.

- Você acha que eles são um comitê de recepção? - Todos os anos afastado da Escócia não haviam apagado completamente seu sotaque escocês.

Robb Struan deu uma risadinha e colocou seu chapéu de feltro num ângulo mais definido.

- Eu acho que todos eles estão esperando ver-nos morrer afogados, Dirk. - Tinha trinta e três anos, cabelos escuros, rosto barbeado, com olhos fundos, nariz delgado e suíças bastas. Sua roupa era negra, com exceção de um manto de veludo verde, camisa branca pregueada e gravata branca. Os botões da camisa e do punho eram rubis. - Meu Deus, aquele é o Capitão Glessing? - perguntou, espiando a praia.

- Sim - disse Struan. - Achei oportuno que fosse ele a pessoa a ler a proclamação.

- O que disse Longstaff, quando você sugeriu o nome dele?

- “Tudo bem, Dirk, se você acha apropriado”.- Ele sorriu. - Por Deus, já percorremos uma longa estrada, desde que começamos.

- Você sim, Dirk. Já estava tudo pronto quando eu apareci aqui.

- Você é o cérebro, Robb. Eu sou apenas o músculo.

- Sim, Tai-Pan, apenas o músculo. - Robb sabia bem que seu meio-irmão era o Tai-Pan de Struan e Companhia e que, na Ásia, Dirk Struan era o Tai-Pan. - Um belo dia para içar a bandeira, não?

- Sim.

Robb ficou a observá-lo, enquanto ele virava as costas para a praia. Parecia tão grande, em pé ali na proa, maior do que as montanhas, e tão duro quanto elas. Eu queria ser como ele, pensou Robb.

Robb só fizera uma vez o contrabando do ópio, pouco depois de chegar ao Oriente. O navio em que os dois se encontravam fora atacado por piratas chineses e Robb ficara aterrorizado. Ainda sentia vergonha, embora Struan tivesse dito “não tem nada demais nisso, rapazinho. A primeira vez em que se combate é sempre ruim”. Mas Robb sabia que ele não era um combatente, nem um bravo. Servia a seu meio-irmão de outras maneiras. Comprando chás, sedas e ópio. Arranjando empréstimos e vigiando as barras de prata. Compreendendo os procedimentos modernos, cada vez mais complicados, do comércio e do financiamento internacional. Defendendo seu irmão, a companhia e sua frota, e dando-lhes segurança. Vendendo chás na Inglaterra. Fazendo a escrituração e todas as coisas necessárias para o funcionamento de uma companhia moderna. Sim, disse Robb a si próprio, mas sem Dirk você não é ninguém.

Struan estava observando os homens na praia. A chalupa ainda se encontrava a duzentos metros de distância. Mas ele via nitidamente os rostos. A maioria deles olhava para a chalupa. Struan sorriu de si para consigo.

Sim, pensou, estamos todos aqui, neste dia histórico.

 

O oficial de marinha, Capitão Glessing, esperava pacientemente pelo começo da cerimônia de hasteamento da bandeira. Tinha vinte e seis anos, era capitão de um navio de linha, filho de um vice-almirante, e a Marinha Real estava em seu sangue. A praia ficava cada vez mais iluminada, e mais longe, na direção leste, na linha do horizonte, o céu estava cheio de nuvens.

Haverá uma tempestade dentro de poucos dias, pensou Glessing, sentindo o vento. Afastou a vista de Struan e, automaticamente, verificou a posição de seu navio, uma fragata de 22 canhões. Aquele era um dia monumental em sua vida. Não acontecia sempre novas terras serem tomadas em nome da rainha, e o privilégio de ler a proclamação era promissor para sua carreira. Havia muitos capitães na frota de posição superior à dele. Mas sabia que fora escolhido por estar naquelas águas há mais tempo, e porque seu navio, o H.M.S. Mermaid, envolvera-se fortemente em toda a campanha. Que não fora absolutamente uma campanha, pensou ele, com desprezo. Mais um incidente. Tudo poderia ter sido ajeitado há dois anos, se o tolo do Longstaff possuísse alguma energia. E, com certeza, se eu tivesse tido permissão para levar minha fragata até os portões de Cantão. Diabo, afundei toda uma maldita frota de juncos de guerra, e o caminho estava livre. Poderia ter bombardeado Cantão, capturado aquele demônio pagão que é o Vice-rei Ling, e o enforcaria no laís de verga.

Glessing chutou a praia, com irritação. Não é que eu me importe com o fato de os pagãos roubarem o amaldiçoado ópio. É muito correto querer parar o contrabando. Um insulto à bandeira. Vidas de ingleses postas sob resgate por demônios pagãos! Longstaff deveria ter deixado que eu agisse imediatamente. Mas não. Ele humildemente, retirou-se, evacuou todos para a frota mercante, e depois me incapacitou. A mim, por Deus, que tinha de proteger toda frota mercante. Que um raio o parta! E maldito seja Struan, que o leva para o lado que quer.

Bom, acrescentou para si próprio, mesmo assim você tem sorte de estar aqui. Esta é a única guerra que temos, no momento. Pelo menos, a única guerra marítima. As outras são simples escaramuças; a mera tomada dos Estados indianos pagãos - caramba, eles adoram as vacas, queimam as viúvas e se curvam diante de ídolos - e as guerras afegãs. E ele sentiu uma irrupção de orgulho por integrar a maior armada da terra. Graças a Deus nascera inglês!

Abruptamente, notou que Brock se aproximava e ficou aliviado ao vê-lo interceptado por um homem baixo e gordo, sem pescoço, na casa dos trinta, com uma grande barriga que lhe sobrava por cima das calças. Era Morley Skinner, proprietário do Oriental Times, o mais importante entre os jornais ingleses do Oriente. Glessing lia todos os exemplares. Era bem escrito. É importante ter um bom jornal, pensou. Importante ter as campanhas bem registradas, para a glória da Inglaterra. Mas Skinner é um homem revoltante. E todo o resto deles. Bom, nem todos. O velho Aristotle Quance é uma exceção.

Deu uma olhada no homenzinho feio, sentado sozinho numa encosta de onde se descortinava a praia, num banco diante de um cavalete, obviamente pintando, sem parar. Glessing deu uma risadinha de si para consigo, lembrando os bons tempos que passara em Macau, com o pintor.

Além de Quance, Glessing não gostava de mais ninguém ali na praia, com exceção de Horatio Sinclair. Horatio era de sua idade, e Glessing tinha chegado a conhecê-lo muito bem, nos dois anos em que estivera no Oriente. Horatio era também auxiliar de Longstaff, seu intérprete e secretário - o único inglês no Oriente que falava e escrevia fluentemente o chinês - e eles tinham precisado trabalhar juntos.

Glessing perscrutou a praia e viu, com desagrado, que Horatio estava junto à rebentação, conversando com um austríaco, Wolfgang Mauss, um homem a quem ele desprezava. O reverendo Mauss era o único outro europeu no Oriente que escrevia e falava chinês. Era um homem grande, de barba negra - um padre renegado, intérprete e contrabandista de ópio de Struan. Havia pistolas em seu cinto e as abas de seu casaco de marinheiro estavam emboloradas. Seu nariz era vermelho e bulboso e o cabelo comprido, negro-acizentado, emaranhado e revolto como a barba. Os poucos dentes que lhe restavam estavam quebrados e escurecidos, e os olhos dominavam a obesidade do rosto.

Um contraste tão grande com Horatio, pensou Glessing. Horatio era louco, frágil e limpo como Nelson, a quem devia o nome - por causa de Trafalgar e porque ele perdera ali um tio.

Incluído na conversa dos dois, estava um eurasiano alto e esbelto, um rapaz que Glessing só conhecia de vista, Gordon Chen, bastardo de Struan.

Caramba, pensou Glessing, como podem os ingleses exibir tão abertamente bastardos mestiços? E este se vestia como todos os malditos pagãos, uma roupa comprida, com um rabicho horroroso caindo-lhe pelas costas. Se não fossem os olhos azuis e a pele clara, ninguém diria que ele tinha sequer uma gota de sangue inglês. Por que diabo não corta o cabelo como um homem? Nojento.

Glessing virou as costas para eles. Suponho que o mestiço nada tem de errado, não é culpa dele. Mas aquele maldito Mauss é má companhia. Má para Horatio e má para sua irmã, a querida Mary. Ah, uma moça que vale a pena conhecer! Será uma boa esposa, caramba.

Ele hesitou, em sua caminhada. Era a primeira vez que considerava realmente Mary como uma possível companheira.

Por que não? Perguntou a si próprio. Você a conhece há dois anos. Ela é a flor de Macau. Dirige a casa Sinclair impecavelmente e trata Horatio como um príncipe. A comida é a melhor da cidade e ela dirige os criados maravilhosamente. Toca harpa como um sonho e canta feito um anjo, Deus é testemunha. Obviamente, ela gosta de você - por que outra razão você teria um convite permanente para jantar, sempre que você e Horatio estão em Macau? Então, por que não casar, hein? Mas ela nunca esteve lá em nosso país. Passou a vida inteira entre pagãos. Não tem nenhuma renda. Os pais estão mortos. Mas que importância tem isso, hein? O reverendo Sinclair era respeitado em toda Ásia, quando vivo, e Mary é linda e tem apenas vinte anos. Minhas perspectivas são excelentes. Tenho quinhentas libras por ano e herdarei, um dia, a casa senhorial e as terras. Caramba, talvez ela seja a mulher indicada para mim. Poderíamos casar-nos em Macau, na igreja inglesa, e alugar uma casa até terminar esta incumbência, e então iremos para nossa terra. Quando chegar a hora, eu direi a Horatio - “Horatio, meu velho, há uma coisa a respeito da qual quero falar com você...”.

- Por que essa demora toda, Capitão Glessing? - A voz rouca de Brock encerrou seu sonho. - Oito toques do sino marcaram a hora de hastear a bandeira, e já se passou uma hora.

Glessing deu uma volta. Não estava acostumado com um tom de voz agressivo de pessoa alguma com escalão inferior a vice-almirante.

- A bandeira será içada, Sr. Brock, quando acontecerem uma ou duas coisas. Basta Sua Excelência desembarcar, ou um tiro de canhão dar o sinal, da nau capitania.

- E quando vai ser isso?

- Observo que não estão ainda com a representação completa.

- Refere-se a Struan?

- Claro. Ele não é o Tai-Pan da Casa Nobre? - Glessing disse isto deliberadamente, sabendo que irritaria Brock. Depois, acrescentou - sugiro que tenha paciência. Ninguém mandou nenhum de vocês, comerciantes, desembarcarem.

Brock enrubesceu.

- Seria melhor que aprendesse a diferença entre comerciantes e mercadores. - Movimentou seu naco de tabaco para mascar na bochecha, e cuspiu nas pedras, junto aos pés de Glessing. Alguns pingos de saliva mancharam o brilho dos sapatos de fivelas prateadas. - Perdão - disse Brock, com fingida humildade, e se afastou.

O rosto de Glessing gelou. Se não fosse o “perdão” ele o teria desafiado para um duelo. Miserável ralé, ele pensou, cheio de desprezo.

- Com licença, senhor - disse o mestre-d’armas, fazendo continência - o sinal da nau capitania.

Glessing semicerrou os olhos, ao vento forte. Diziam as bandeiras de sinalização: “Todos os capitães se apresentem a bordo, quando soarem quatro badaladas do sino.” Glessing estivera presente, a noite passada, numa reunião particular com o almirante e Longstaff. O almirante dissera que o contrabando de ópio era a causa de todos os problemas da Ásia. “Deus do céu, senhor, eles não têm nenhum senso de decência”, explodira ele. “Só pensam em dinheiro. Eliminem o ópio, e não teremos mais nenhum maldito problema com os malditos pagãos, ou os malditos negociantes. A Marinha Real cumprirá sua ordem, por Deus!” E Longstaff concordara, justificadamente. Suponho que a ordem será anunciada hoje, pensou Glessing, esforçando-se para conter sua satisfação. Bom. E estava na hora. Fico imaginando se Longstaff acabou de dizer a Struan que está dando a ordem.

Deu uma olhada para trás, em direção à chalupa que se aproximava, lentamente. Struan o fascinava. Ele o admirava e detestava - o marinheiro mestre que pilotara navios em todos os oceanos do mundo, que destruíra homens, companhias e navios para a glória da Casa Nobre. Tão diferente de Robb, pensou Glessing; eu gosto de Robb.

Estremeceu, sem querer. Talvez houvesse alguma verdade nas histórias sussurradas pelos marinheiros em todos os mares da China, histórias de que Struan cultuava em segredo o Demônio e, em troca, o Demônio lhe dera poder sobre a terra. De que outra maneira poderia um homem de sua idade ter um aspecto tão jovem e ser tão forte, com dentes brancos e todo o cabelo, e os reflexos de um rapaz, quando, na maioria, os homens estariam enfermos e gastos, e perto da morte? Por certo, os chineses sentiam terror de Struan. “O velho rato com os olhos verdes do Diabo”, eles o apelidaram, e puseram-lhe a cabeça a prêmio. Pois ninguém o apanharia vivo.

Glessing, com irritação, tentou mover os dedos do pé dentro dos sapatos afivelados. Seus pés doíam, e ele não se sentia confortável no uniforme com galões dourados. Maldita demora! Maldita ilha, e o porto, e o desperdício de bons navios, e de bons homens. Lembrou-se de seu pai, dizendo: “Amaldiçoados civis. Tudo que pensam é em dinheiro ou poder. Não têm o menor sentido de honra, o mínimo sequer. Cuidado com a bunda, filho, quando um civil estiver no comando. E não esqueça que até Nelson teve de colocar o telescópio em seu olho cego, quando havia um idiota no comando”. Como poderia um homem como Longstaff ser tão estúpido? Ele é de boa família, bem-nascido - seu pai era diplomata na corte de Espanha. Ou fora em Portugal?

E por que Struan compeliu Longstaff a parar a guerra? Com certeza conseguimos um porto onde podem fundear as armadas do mundo. Mas, o que mais?

Glessing observou os navios no porto. A nave de guerra de 22 canhões de Struan, o China Cloud. E o White Witch, 22 canhões, orgulho da armada de Brock. E o brigue americano de 20 canhões de Cooper-Tillman, Princess of Alabama. Todos umas belezas. Valia a pena era combater com eles, pensou. Sei que eu poderia afundar o americano. Brock? Ele é resistente, mas eu sou melhor do que Brock. Struan?

Glessing imaginou uma batalha naval com Struan. Então percebeu que tinha medo de Struan. E, por causa de seu medo, ficava cheio de raiva e repulsa, diante da pretensão de não serem piratas todos os comerciantes da China.

Por Deus, jurou para si próprio, logo que a ordem for oficializada, eu vou comandar uma flotilha que fará todos eles sumirem da água, com uma explosão.

 

Aristotle Quance estava sentado, cheio de mau humor, diante da pintura inacabada em seu cavalete. Era um homem pequeno, com o cabelo meio grisalho. Suas roupas, com relação às quais ele se mostrava incrivelmente exigente, eram da última moda: calças cinzentas justas, meias brancas de seda e sapatos negros amarrados com um laço. Colete de cetim-pérola e casaco de lã negra. Colarinho alto, gravata com alfinete de pérola. Meio inglês, meio irlandês, ele era, aos cinqüenta e oito anos, o mais velho europeu no Oriente.

Tirou os óculos de ouro e começou a limpá-los com um imaculado lenço de renda francesa. Este dia me causa desgosto, pensou. Maldito Dirk Struan. Se não fosse por ele, não existiria nenhuma amaldiçoada Hong Kong.

Sabia que testemunhava o fim de uma era. Hong Kong destruirá Macau, pensou. Roubará todo o comércio. Todos os tai-pans ingleses e americanos vão transferir para cá seus quartéis-generais. Viverão aqui e construirão aqui. Depois, virão todos os vendedores portugueses. E todos os chineses que vivem à custa dos ocidentais e do comércio ocidental. Bom, eu jamais viverei aqui, jurou. Terei de vir aqui para trabalhar, de vez em quando, a fim de ganhar dinheiro, mas Macau será sempre meu lar.

Macau era seu lar há mais de trinta anos. Apenas ele, entre todos os europeus, pensava no Oriente como um lar. Todos os outros vinham por uns poucos anos, e depois partiam. Só aqueles que morriam ficavam. Mesmo neste caso, quando podiam se dar ao luxo, determinavam em seus testamentos que seus corpos fossem levados de navio de volta para “casa”.

Serei enterrado em Macau, graças a Deus, ele disse a si próprio. Passei tão bons tempos ali, todos passamos. Mas acabou. Maldito seja o Imperador da China! Um louco em destruir uma estrutura construída de maneira tão inteligente, há um século.

Tudo estava funcionando tão bem, pensou Quance amargamente, mas agora acabou. Agora tomamos Hong Kong. E agora que a poderosa Inglaterra está comprometida no Oriente e os negociantes provaram o poder, não se satisfarão com Hong Kong apenas.

- Bom - disse ele, involuntariamente alto - o imperador vai colher o que semeou.

- Por que está tão mal-humorado, Sr. Quance?

Quance pôs os óculos. Morley Skinner estava em pé, à beira da encosta.

- Não mal-humorado, meu jovem. Triste. Os artistas têm o direito... sim, uma obrigação, de serem tristes. - Guardou a pintura inacabada e colocou no cavalete um pedaço de papel limpo.

- Concordo plenamente, concordo plenamente. - Skinner subiu arrastadamente a encosta, com os olhos castanhos claros parecendo resíduos de cerveja velha. - Só queria pedir sua opinião a respeito deste dia solene. Vou fazer uma edição especial. E não estaria completa sem algumas palavras de nossos cidadãos mais destacados.

- Tem toda razão, Sr. Skinner. Pode colocar - “O Sr. Aristotle Quance, nosso maior artista, bon vivant e querido amigo, não quis dar uma declaração, pois estava no processo de criação de outra obra-prima”. - Tomou uma pitada de rapé e espirrou com força. Depois, com o lenço, espanou o rapé acumulado em seu casaco e os respingos do espirro do papel. - Bom-dia, senhor. - Mais uma vez se concentrou no papel. - O senhor está perturbando a imortalidade.

- Sei exatamente como se sente - disse Skinner, com um amável aceno afirmativo de cabeça. - Exatamente como se sente. Sente-se do mesmo jeito que eu, quando tenho algo importante para escrever. - Ele se afastou, arrastando-se.

Quance não confiava em Skinner. Ninguém confiava. Pelo menos ninguém com algum segredo no passado, e todos ali tinham algo que queriam esconder. Skinner gostava de fazer o passado ressuscitar.

O passado. Quance pensou em sua mulher e estremeceu. Que um raio me parta! Como posso eu ter sido tão estúpido a ponto de pensar que aquele monstro irlandês daria uma boa companheira? Graças a Deus voltou para o detestável pantanal irlandês, e não vai mais perturbar minha vida. As mulheres são a causa de todas as tribulações do homem. Bom, ele acrescentou, cautelosamente, nem todas as mulheres. Não a queridinha Maria Tang. Ah, sim, aquela é uma tremenda gatinha. E se alguém conhece um cruzamento perfeito de português com chinês é você, querido e inteligente Quance. Diabo, tive uma vida maravilhosa.

E ele percebeu que, embora estivesse testemunhando o final de uma era, também fazia parte de outra, nova. Agora tinha uma nova história para testemunhar e pintar. Uma nova cidade para perpetuar. E novas moças para namorar e novos traseiros para beliscar.

- Triste? Nunca! - ele rugiu. - Vamos trabalhar, Aristotle, seu malandro velho!

 

Aqueles que, na praia, escutaram as palavras de Quance riram uns para os outros. Ele era muito popular e sua companhia disputada. E costumava falar sozinho.

- O dia não estaria completo sem o nosso querido velho Aristotle - disse Horatio Sinclair, com um sorriso.

- Sim. - Wolfgang Mauss coçou os piolhos da barba. - Ele é tão feio que seu rosto chega a ser suave.

- O Sr. Quance é um grande artista - disse Gordon Chen. - Por isso, ele é lindo.

Mauss movimentou o corpanzil e olhou para o eurasiano.

- A palavra é “simpático”, rapaz. Eu lhe ensinei durante anos e você ainda não sabe a diferença entre “simpático” e “lindo”, hein? E ele não é um grande artista. Seu estilo é excelente e ele é meu amigo, mas não tem a magia de um grande mestre.

- Eu quis dizer “lindo” num sentido artístico, senhor.

Horatio viu o momentâneo relâmpago de irritação passar através de Gordon Chen. Pobre Gordon, pensou, sentindo pena dele. Não pertencia a nenhum dos dois mundos. Tentando desesperadamente ser inglês, mas usando túnicas chinesas e um rabicho. Embora todos soubessem que era o bastardo do Tai-Pan, filho de uma prostituta chinesa, ninguém o reconhecia abertamente, nem mesmo o pai.

- Acho a pintura dele esplêndida - disse Horatio, com voz suave. - E ele também. É estranho como todos o adoram e, entretanto, meu pai o desprezava.

- Ah, seu pai - disse Mauss. - Ele era um santo entre os homens. Tinha elevados princípios cristãos, não era como nós, pobres pecadores. Que sua alma repouse em paz.

Não, pensou Horatio. Que sua alma arda no fogo do inferno para sempre.

O reverendo Sinclair era membro do primeiro grupo de missionários ingleses que se estabeleceu em Macau, há pouco mais de trinta anos. Ajudara a traduzir a Bíblia para o chinês e fora um dos professores na escola inglesa fundada pela missão. Toda sua vida o honraram como cidadão de destaque - menos o Tai-Pan - e, ao morrer, há sete anos, fora enterrado como um santo homem. Horatio conseguira perdoar o pai por levar sua mãe a uma morte precoce, porque seus elevados princípios lhe faziam ver a vida de uma maneira estreita e tirânica, por seu fanatismo ao adorar um Deus aterrorizador, pela coerência obsessiva de seu zelo missionário, e por todas as surras que dera no filho. Mas, mesmo depois de todo aquele tempo, não poderia jamais perdoar as surras que ele dera em Mary ou as maldições que acumulara sobre a cabeça do Tai-Pan.

Foi o Tai-Pan quem achou a pequena Mary quando, aos seis anos, ela fugiu aterrorizada. Ele a acalmara e depois levara-a para casa e, ao entregá-la ao pai, advertira-o de que, se tornasse a pôr as mãos nela, ele o arrancaria do púlpito e o chicotearia pelas ruas de Macau. Horatio, desde então, venerava o Tai-Pan. As surras pararam, mas foram impostos outros castigos. Pobre Mary.

Ao pensar em Mary, seu coração bateu mais rápido e ele olhou para a nau capitania onde estavam temporariamente instalados. Sabia que ela estaria observando a praia e, como ele, contava os dias que faltavam para chegarem em segurança a Macau. Apenas a quarenta milhas de distância, em direção ao sul, mas tão longe. Vivera todos os seus vinte e seis anos em Macau, com exceção de um período na escola, na Inglaterra. Detestava escola, tanto em seu país como em Macau. E detestara receber ensinamentos do pai; tentara desesperadamente satisfazê-lo, sem conseguir nunca. Ao contrário de Gordon Chen, o primeiro menino eurasiano aceito na escola de Macau. Gordon Chen era um aluno brilhante e sempre conseguira satisfazer o reverendo Sinclair. Mas Horatio não o invejava: Mauss fora o torturador de Gordon Chen. Por cada surra que seu pai lhe dera, Mauss havia dado três em Gordon Chen. Mauss era também um missionário; ensinava Inglês, Latim e História.

Horatio afrouxou as dragonas nos ombros. Viu que Mauss e Gordon Chen olhavam fixamente outra vez para a chalupa e ficou imaginando por que Mauss teria sido tão duro com o rapaz na escola - por que exigia tanto dele. Supôs que fora porque Wolfgang odiava o Tai-Pan. O Tai-Pan decifrava seus pensamentos e lhe oferecera dinheiro e o posto de intérprete em viagens para o contrabando de ópio, pela costa. A troco da permissão para Wolfgang distribuir bíblias chinesas e opúsculos e pregar para os pagãos, sempre que o navio parava - mas só depois de terminada a negociação do ópio. Supunha que Wolfgang desprezava a si mesmo por ser um hipócrita e estar associado a um demônio daqueles. E era forçado a fingir que o fim justificava os meios, quando sabia não ser verdade.

Você é um homem esquisito, Wolfgang, ele pensou. Lembrou-se de ter ido à Ilha de Chushan, no ano passado, enquanto estava ocupada. Com a aprovação do Tai-Pan, Longstaff indicara Mauss como magistrado temporário, para colocar em vigor a lei marcial e a justiça britânica.

Contra os costumes, ordens estritas haviam sido dadas em Chushan, proibindo o saque e a pilhagem. Mauss oferecera a todo saqueador - chinês, indiano, inglês - um julgamento justo e aberto e depois condenara cada um deles à forca, usando as mesmas palavras: “Gott im Himmel, perdoai este pobre pecador. Enforquem-no”. Logo a pilhagem acabou.

Como Mauss costumava entregar-se livremente às recordações, no tribunal, entre os enforcamentos, Horatio descobrira que ele fora casado três vezes, todas com moças inglesas; as duas primeiras morreram de corrimento e a atual não estava em boas condições. Que, embora Mauss fosse um marido dedicado, o Demônio ainda conseguia tentá-lo a ir ao prostíbulo e aos botequins de Macau. Que Mauss aprendera chinês com os pagãos em Cingapura, para onde fora enviado como jovem missionário. Que vivera vinte, de seus quarenta anos, na Ásia e jamais estivera em seu país durante todo esse tempo. Que carregava pistolas agora porque: “Nunca se sabe, Horatio, quando um dos demônios pagãos vai resolver matar a gente, ou os malditos piratas tentarão nos roubar”. Que ele considerava todos os homens pecadores - e ele próprio mais do que qualquer outro. E que seu único objetivo na vida era converter os pagãos e tornar a China uma nação cristã.

- Em que está pensando? - a frase interrompeu os pensamentos de Horatio.

Ele viu Mauss a observá-lo.

- Ah, em nada - disse, depressa. - Eu estava apenas... apenas pensando.

Mauss coçou a barba, pensativamente.

- Eu também. Este é um dia que faz a gente pensar, hein? A Ásia inteira vai mudar para sempre.

- Sim, creio que é verdade. Vai mudar-se de Macau para cá? Construir casa aqui?

- Sim. Será bom possuir terra, ter nosso próprio chão, longe daquele esgoto papista. Minha mulher vai gostar disso. Mas, e eu? Eu não sei. Pertenço àquele lugar - acrescentou Mauss, cheio de nostalgia, e sacudiu o grande punho em direção ao continente.

Horatio viu os olhos de Mauss carregarem-se, quando ele olhou para a distância. Por que a China é tão fascinante? Perguntou a si mesmo.

Esquadrinhou cansadamente a praia, com o olhar, sabendo que não havia nenhuma resposta. Queria ser rico. Não tão rico quanto o Tai-Pan, ou Brock. Mas rico o bastante para construir uma bela casa e receber todos os negociantes e levar Mary para uma luxuosa viagem à Inglaterra, percorrendo a Europa.

Gostava de ser intérprete e secretário particular de Sua Excelência, mas precisava de mais dinheiro. A pessoa é obrigada a ter dinheiro, neste mundo. Mary devia possuir vestidos de baile e diamantes. Sim. Mas, mesmo assim, estava satisfeito de não ter de ganhar seu pão de cada dia como os negociantes. Os negociantes precisavam ser implacáveis, implacáveis em excesso, e seu ganho era demasiado precário. Muitos que hoje se acreditavam ricos, dentro de um mês estariam arruinados. Bastaria perder um navio e poderiam estar liquidados. Até A Casa Nobre era ocasionalmente prejudicada. Seu navio Scarlet Cloud já estava um mês atrasado, talvez reduzido a um casco castigado, virado e sob reparos, em alguma ilha fora do mapa, entre o ponto onde se encontravam e a Terra Van Diemen, duas milhas fora do curso. Ou, mais provavelmente, no fundo do mar, com ópio no valor de meio milhão de guinéus no bojo.

E as coisas que um negociante precisava fazer aos homens em geral e aos amigos, a fim de sobreviver, quanto mais para prosperar! Terrível.

Viu o olhar fixo de Gordon Chen para a chalupa e ficou imaginando em que pensaria ele. Devia ser terrível a condição de mestiço, pensou. Suponho que, se a verdade viesse à tona, verificaríamos que também odeia o Tai-Pan, embora finja que não. Eu apostaria...

 

A mente de Gordon Chen estava voltada para o ópio e ele o abençoava. Sem ópio não haveria Hong Kong - e Hong Kong, ele pensava, com exultação, é a mais fantástica oportunidade para ganhar dinheiro que eu poderia ter e o mais inacreditável golpe de pagode para a China.

Se não existisse o ópio, disse a si mesmo, não haveria comércio na China. Se não houvesse comércio na China, então o Tai-Pan jamais teria tido dinheiro para comprar minha mãe e tirá-la do bordel, e eu jamais teria nascido. O ópio pagou a casa que o pai deu à mãe há anos, em Macau. O ópio pagou nossa comida e nossas roupas. O ópio pagou minha escola e os professores de inglês e de chinês e então, agora, hoje, eu sou o jovem mais educado do Oriente.

Deu uma olhada em Horatio Sinclair, cujo olhar percorria a praia, enquanto ele franzia a testa. Sentiu uma punhalada de inveja porque Horatio fora enviado à Inglaterra para estudar. Jamais estivera lá.

Mas afastou a inveja. A Inglaterra viria depois, prometeu a si mesmo, todo feliz. Dentro de poucos anos.

Virou-se para observar outra vez a chalupa. Adorava o Tai-Pan. Nunca chamara Struan de “pai” e jamais fora chamado de “meu filho” por ele. Na verdade, só falara com ele vinte ou trinta vezes na vida. Mas tentava tornar o pai muito orgulhoso dele, e sempre pensava em Struan, secretamente, como “pai”. Abençoou-o outra vez por vender sua mãe a Chen Sheng, como terceira esposa. Meu pagode foi grande, pensou.

Chen Sheng era compradore da Casa Nobre e quase um pai para Gordon Chen. O compradore era o agente chinês que comprava e vendia em nome de um estabelecimento estrangeiro. Cada mercadoria, grande ou pequena, passava pelas mãos do compradore. Segundo o costume, em cada mercadoria ele acrescentava uma percentagem. Esta se tornava seu lucro pessoal. Mas seus ganhos dependiam do sucesso da casa à qual pertencia e ele tinha de cobrir dívidas pesadas. Então, precisava ser muito cauteloso e nunca ficar rico.

Ah, pensou Gordon Chen, ser rico como Chen Sheng! Ou, melhor ainda, rico como Jin-qua, o tio de Chen Sheng. Ele sorriu para si próprio, achando divertido que os ingleses tivessem tanta dificuldade com os nomes chineses. O verdadeiro nome de Jin-qua era Chen-tsé Jin Arn, mas até o Tai-Pan, que conhecia Chen-tsé Jin Arn há quase trinta anos, ainda não conseguia pronunciar o nome. Então, há anos, o Tai-Pan o apelidara “Jin”. O “qua” era uma má pronúncia da palavra chinesa que significava “Sr.”.

Gordon Chen sabia que os chineses não se importavam com seus apelidos. Só se divertiam, por ser outro exemplo, para eles, de uma falta de cultura própria de bárbaros. Ele lembrou-se quando, anos atrás, ainda menino, observava Chen-tsé Jin Arn e Chen Sheng secretamente, através de um buraco no muro do jardim, enquanto os dois fumavam ópio. Ouvira-os rir juntos de Sua Excelência - os mandarins em Cantão haviam apelidado Longstaff “Odioso Pênis”, um trocadilho referente ao seu nome, e diziam como os caracteres chineses para a tradução cantonesa haviam sido usados em cartas oficiais endereçadas a Longstaff por mais de um ano - até Mauss explicar a Longstaff o que estava acontecendo e estragar uma brincadeira ótima.

Ele olhou disfarçadamente para Mauss. Respeitava-o por ser um professor implacável e lhe estava grato por forçá-lo a ser o melhor aluno da escola. Mas o desprezava por sua sujeira, por seu fedor e por sua crueldade.

Gordon Chen gostara da escola da missão e de aprender e de ser uma das crianças de lá. Mas, certo dia, descobrira que era diferente das outras crianças. Diante deles, Mauss lhe dissera o que significavam as palavras “bastardo”, “ilegítimo” e “mestiço”. Gordon Chen fugiu para casa, aterrorizado. E viu sua mãe com clareza pela primeira vez, e a desprezou por ser chinesa.

Depois, aprendeu com ela, através das suas lágrimas, que era bom ser meio-chinês, pois os chineses constituíam a raça mais pura da terra. E soube que o Tai-Pan era seu pai.

- Mas por que vivemos aqui, então? Por que é Chen Sheng o “pai”?

- Os bárbaros só têm uma esposa e não se casam com chinesas, meu filho - explicou Kai-sung.

- Por quê?

- É o costume deles. Um costume estúpido. Mas eles são assim.

- Odeio o Tai-Pan! Eu o odeio! Eu o odeio! - ele explodiu. Sua mãe lhe bateu no rosto, selvagemente. Jamais lhe batera antes.

- Ajoelhe-se e peça perdão! - disse, com raiva. - O Tai-Pan é seu pai. Ele lhe deu a vida. Ele é meu Deus. Ele me comprou para si mesmo e depois me abençoou, ao me vender para Chen Sheng como esposa. Por que Chen Sheng tomaria uma mulher com um filho impuro de dois anos como esposa, quando poderia comprar mil virgens, se não fosse porque o Tai-Pan assim o quis? Por que o Tai-Pan me daria propriedades, se não nos amasse? Por que o aluguel viria para mim, e não para Chen Sheng, se o Tai-Pan não determinasse que fosse assim? Por que Chen Sheng me trataria tão bem, mesmo já velha, se não fosse em troca do favor perpétuo do Tai-Pan? Por que Chen Sheng trata você como filho, seu estúpido ingrato, se não por causa do Tai-Pan? Vá para o templo e se ajoelhe com a testa no chão, implorando perdão. O Tai-Pan lhe deu vida. Então ame-o, honre-o e o abençoe, como eu faço. E, se você tornar a dizer isso, jamais voltarei a lhe dirigir a palavra.

Gordon Chen sorriu para si mesmo. Como a mãe estava certa, e como ele estava errado e era estúpido. Mas não tão estúpido quanto os mandarins e o maldito imperador, ao tentarem impedir a venda de ópio. Qualquer louco sabe que, sem ele, não haverá barras de prata para os chás e as sedas.

Uma vez, ele perguntara à sua mãe como o produto era feito, mas ela não sabia, e nem ninguém na casa. No dia seguinte, interrogou Mauss, que lhe informou ser o ópio a seiva - as lágrimas - da vagem madura contendo as sementes de papoula.

- O plantador de ópio faz um corte delicado na vagem e deste corte pinga uma lágrima de líquido branco, hein? A lágrima endurece dentro de poucas horas a sua cor muda, do branco para marrom-escuro. Então, a pessoa raspa a lágrima, guarda-a e faz um novo corte delicado. Depois, raspa a nova lágrima e faz um outro corte. As lágrimas são reunidas e modeladas em forma de bola - dez libras é o peso costumeiro. O melhor ópio vem de Bengala, na Índia Britânica, hein? Ou de Malwa. Onde fica Malwa, menino?

- Na Índia Portuguesa, senhor!

- Era portuguesa, mas agora pertence à Companhia das Índias Orientais. Que a tomou para completar seu monopólio mundial de todo ópio e assim arruinar os negociantes portugueses de ópio aqui em Macau. Você comete erros demais, menino, então pegue o chicote, hein?

Gordon Chen lembrava-se de como odiara o ópio, aquele dia. Mas agora o abençoava. E agradecia seu pagode por causa do pai e por causa de Hong Kong. Hong Kong ia enriquecê-lo. Muito.

- Vão ser ganhas fortunas aqui - disse ele a Horatio.

- Alguns dos negociantes vão prosperar - disse Horatio, distraído, olhando para a chalupa que se aproximava. - Uns poucos. O comércio é um negócio diabolicamente complicado.

- Sempre pensando em dinheiro, Gordon, hein? - A voz de Mauss era rouca. - Melhor pensar em sua alma imortal e em sua salvação, menino. O dinheiro não é importante.

- Claro, senhor. - Gordon Chen escondeu seu divertimento diante da estupidez do homem.

- O Tai-Pan parece um príncipe poderoso que vem reivindicar seu reinado - disse Horatio, quase para si mesmo.

Mauss tornou a olhar para Struan.

- É verdade, hein?

 

A chalupa estava nas ondas da praia.

- Remos ao alto! - gritou o mestre, e a tripulação guardou os remos na embarcação, escorregou por sobre o costado e arrastou a chalupa, habilmente, por sobre a rebentação.

Struan hesitou. Depois saltou da proa. No momento em que suas botas de marinheiro tocaram a praia, ele soube que a ilha ia ser a morte para ele.

- Santo Cristo!

Robb estava a seu lado e viu sua repentina palidez.

- O que está errado, Dirk?

- Nada. - Struan forçou um sorriso. - Nada, garoto.

Limpou da testa os respingos do mar e caminhou pela praia em direção ao mastro. Pelo sangue de Cristo, pensou, suei e planejei durante anos, para ter você, Ilha, e você não vai me derrotar agora. Não, por Deus.

Robb o observava, e a seu leve capengar. O pé dele deve estar doendo, pensou. Ficou imaginando como seria uma dor na metade do pé. A causa disto era um fato ocorrido na única viagem de contrabando feita por Robb. Ao salvar a vida de Robb, quando ele estava inerme e paralisado pelo medo, Struan ficou à mercê dos piratas. Uma bala de mosquete arrancou-lhe a parte externa do astrágalo e dois dos dedos menores do pé. Quando o ataque acabou de ser repelido, o médico de bordo cauterizou as feridas e derramou sobre elas breu derretido. Robb ainda podia sentir o fedor da carne queimada. Se não fosse por minha causa, pensou, isto jamais teria acontecido.

Seguiu Struan pela praia, consumido por um desgosto consigo mesmo.

- Bom-dia, cavalheiros - disse Struan, ao encontrar alguns dos negociantes, perto do mastro. - Bela manhã, por Deus.

- Está frio, Dirk - disse Brock. - E seria mais gentil de sua parte ser mais apressado.

- Cheguei cedo demais. Sua Excelência ainda não desembarcou e não foi dado o tiro como sinal.

- Sim, está com uma hora e meia de atraso, e aposto que foi tudo combinado entre você e aquele lacaio cagão.

- Eu lhe agradeceria, Sr. Brock, se não se referisse a Sua Excelência nesses termos - exclamou o Capitão Glessing.

- E eu lhe agradeceria se guardasse suas opiniões para si mesmo. Não estou na Marinha e nem sob seu comando. - Brock cuspiu acintosamente. - Melhor pensar a respeito da guerra que não está travando.

A mão de Glessing apertou sua espada.

- Jamais pensei que um dia a Marinha Real fosse chamada para proteger contrabandistas e piratas. É o que vocês são. - Olhou para Struan. - Todos vocês.

Fez-se um silêncio repentino e Struan riu.

- Sua Excelência não concorda com você.

- Temos decretos parlamentares, por Deus, os Decretos de Navegação. E um deles diz “Qualquer navio armado sem autorização pode ser tomado como prêmio pela marinha de qualquer nação”. A frota de vocês tem autorização?

- Há muitos piratas nessas águas, Capitão Glessing. Como sabe - disse Struan, descontraidamente. - Temos armas para nos proteger. Apenas isso.

- O ópio é contra a lei. Quantos milhares de fardos vocês contrabandearam para a China, pela costa, violando as leis da China e da humanidade? Três mil? Vinte mil?

- O que fazemos aqui é bem conhecido em todos os tribunais da Inglaterra.

- O “comércio” de vocês desonra a bandeira.

- É melhor agradecer a Deus por esse comércio, porque sem ele a Inglaterra não teria chá algum e nem seda, e sim uma pobreza generalizada, que a arruinaria.

- Tem razão, Dirk - disse Brock. Depois, virou-se de novo para Glessing. - É melhor meter logo em sua cabeça que sem negociantes não haverá Império Britânico e nem impostos para comprar navios de guerra e pólvora. - Olhou para o uniforme imaculado de Glessing e suas joelheiras e meias brancas, sapatos afivelados e chapéu de três bicos. - E dinheiro nenhum para pagar muito aos capitães!

Os fuzileiros piscaram os olhos e alguns dos marinheiros riram, mas muito cautelosamente.

- É melhor que agradeça a Deus a existência da Marinha Real, por Deus. Sem ela, não haveria negociantes por aqui.

Estrondeou um tiro de canhão da nau capitania, era o sinal. Abruptamente, Glessing marchou para o mastro.

- Apresentar armas!

Pegou a proclamação e a multidão silenciou. Então, com a raiva algo abrandada, começou a ler:

- “Por ordem de Sua Excelência, o Venerável William Longstaff, Capitão-Superintendente do Comércio na China de Sua Majestade Britânica, a Rainha Vitória. De acordo com o documento conhecido como o Tratado de Chuenpi, assinado em 20 de janeiro deste ano de Nosso Senhor, por Sua Excelência, em nome do Governo de Sua Majestade e por Sua Excelência Tin-sen, Plenipotenciário de Sua Majestade Tao Kuang, Imperador da China, eu, Capitão Glessing, RN, tomo, por meio deste, posse desta Ilha de Hong Kong, em nome de Sua Majestade Britânica, de seus herdeiros e cessionários, em caráter perpétuo, sem estorvo ou impedimento, neste dia 26 de janeiro, ano da Graça de 1841. O solo desta ilha é agora solo inglês. Deus Salve a Rainha!”

O pavilhão do Reino Unido irrompeu, desfraldado, no topo do mastro, e a guarda de honra dos fuzileiros disparou uma salva. Depois, os canhões rugiram em toda frota e o vento ficou espesso com o cheiro penetrante de pólvora. Os que se encontravam na praia deram vivas à rainha.

Agora, está feito, pensou Struan. Agora, estamos comprometidos. Agora, podemos começar. Afastou-se do grupo e foi até a linha da rebentação e, pela primeira vez, virou de costas para a ilha e olhou o grande porto e a terra, atrás: a China continental, a uns mil metros de distância.

A península continental era de terras baixas, com nove colinas achatadas, e projetava-se para dentro do porto que a cercava. Era chamada “Kau-lung” - “Kowloon”, como pronunciavam os mercadores - “Nove Dragões”. E ao norte ficava a ilimitada e desconhecida extensão da China.

Struan lera todos os livros já escritos pelos três europeus que tinham ido à China e voltado. Marco Polo, há quase seiscentos anos, e dois padres católicos, que haviam obtido permissão para entrar em Pequim, há duzentos anos. Os livros quase nada revelavam.

Durante duzentos anos, nenhum europeu tivera permissão para entrar na China. Uma vez - contra a lei - Struan fora até uma milha de distância da costa, para o interior, chegando perto de Swatow, isto quando vendia ópio, mas os chineses eram hostis e ele estava sozinho, apenas em companhia de seu primeiro-imediato. Não foi a hostilidade que o fez voltar. Simplesmente, a enormidade de seu número e a ilimitada extensão da terra.

Sangue de Cristo!, ele pensou. Nada sabemos a respeito da mais antiga e mais populosa nação da terra. O que existe dentro dela?

- Longstaff vai desembarcar? - Robb perguntou, quando ele se aproximou.

- Não, garoto. Sua Excelência tem coisas mais importantes para fazer.

- O quê?

- Coisas como ler e escrever despachos. E fazer acordos particulares com o almirante.

- Para quê?

- Para proibir o comércio de ópio. Robb riu.

- Não estou brincando. Era para isso que ele queria me ver... com o almirante. Queria pedir meu conselho a respeito de quando emitir a ordem. O almirante disse que a Marinha não teria nenhum problema para colocá-la em vigor.

- Deus do céu! Longstaff está louco?

- Não. É apenas um sujeito de mente simples. - Struan acendeu um charuto. - Eu lhe disse para emitir a ordem aos quatro toques do sino.

- Isto é loucura! - exclamou Robb.

- É muito sensato. A Marinha não colocará em vigor a ordem durante uma semana: “a fim de dar aos negociantes da China tempo para dispor de seus abastecimentos”.

- Mas então, o que vamos fazer? Sem ópio, estamos liquidados. O comércio na China está liquidado. Liquidado.

- Quanto dinheiro vivo nós temos, Robb?

Robb olhou em torno para se certificar de que não havia ninguém por perto, e baixou a voz.

- Existe o ouro na Escócia. Um milhão e cem mil libras esterlinas em nosso banco na Inglaterra. Cerca de cem mil em barras de prata, aqui. Devem-nos três milhões pelo ópio apreendido. Temos duzentos mil guinéus de ópio no Scarlet Cloud, de acordo com o atual preço do mercado. Existe...

- Cancele o Scarlet Cloud, garoto. Está perdido.

- Ainda há uma chance, Dirk. Vamos dar a ele mais um mês. Há cerca de cem mil guinéus em ópio no navio. Devemos nove mil em saques à vista.

- Quais são os custos de operação durante os próximos seis meses?

- Cem mil guinéus em pagamento por navios e salários e impostos.

Struan pensou um momento.

- Amanhã haverá pânico entre os negociantes. Nenhum deles, exceto Brock, talvez, pode vender seu ópio em uma semana. É melhor você embarcar todo nosso ópio para a costa esta tarde. Eu acho...

- Longstaff terá de mudar esta ordem - disse Robb, com crescente ansiedade. - Ele tem de fazer isso. Vai arruinar o erário e...

- Quer me ouvir? Quando o pânico estiver instalado, amanhã, pegue todo tael que tem, e todo tael que puder pedir emprestado, e compre ópio. Você deverá poder comprar a dez centavos de dólar.

- Não poderemos vender todo o nosso em uma semana, quanto mais uma quantidade maior.

Struan sacudiu a cinza de seu charuto.

- Um dia antes que a ordem seja colocada em vigor, Longstaff vai cancelá-la.

- Não compreendo.

- É uma questão de salvar as aparências, Robb. Depois que o almirante saiu, eu expliquei a Longstaff que proibir o ópio seria destruir todo o comércio. Pelo sangue de Deus, quantas vezes terei de explicar? Depois, observei que ele poderia muito bem cancelar a ordem imediatamente, sem se desmoralizar, e sem fazer o almirante, que é bem-intencionado, mas nada sabe a respeito de comércio, se desmoralizar. A única coisa a fazer seria dar a ordem e depois, para salvar a cara e o emprego do almirante, e o seu próprio, cancelá-la. Eu prometi explicar o “comércio” ao almirante, enquanto isso. A ordem também agradará aos chineses, e vai colocá-los em desvantagem. Haverá outro encontro com Ti-sen, dentro de três dias. Longstaff concordou inteiramente e me pediu para manter o assunto particular.

O rosto de Robb se iluminou.

- Ah, Tai-Pan, você é um grande homem! Mas que garantias há de que Longstaff cancelará a ordem?

Struan tinha no bolso uma proclamação, assinada e datada para dali a seis dias, que cancelava a ordem. Longstaff a empurrara em cima dele. “Olha aqui, Dirk, leve isso agora, senão posso esquecer. Diabo! Toda essa papelada, sabe... terrível. Mas é melhor manter em particular, até chegar a hora.”

- Você cancelaria uma ordem estúpida dessas, Robbie?

- Sim, claro. - Robb teve vontade de abraçar o irmão. - Se são seis dias e ninguém mais sabe disso com certeza, nós vamos ganhar uma fortuna.

- Sim.

Struan deixou os olhos vagarem até o porto. Ele o descobrira há mais de vinte anos. A borda externa de um tufão o apanhara e impelira para mar alto e, embora ele estivesse preparado para tempestades, não conseguiu escapar e foi empurrado inexoravelmente em direção à terra. Seu navio ficara ameaçado, enfrentando mar com dificuldade, no dia em que o céu e o horizonte se apagaram, sob os lençóis de água que os Ventos Supremos arrancaram do oceano e atiraram diante deles. Perto da praia, no mar tenebroso, as âncoras de tempestade cederam e Struan percebeu que o navio estava perdido. O mar agarrou a embarcação e atirou-a contra a praia. Por milagre, o vento alterou seu curso uma fração de grau e a impeliu para além dos rochedos, para dentro de um estreito canal não registrado no mapa, com menos de trezentos metros de largura, que a extremidade leste de Hong Kong formava com o continente - e eles entraram no porto que existia atrás. Em águas protegidas.

O tufão destroçou a maior parte da frota mercante em Macau e afundou dezenas de milhares de juncos pela costa. Mas o navio de Struan e os juncos que se abrigavam em Hong Kong conseguiram suportar a tempestade. Quando passou, Struan navegou em torno da ilha, mapeando-a. Depois guardou a informação em sua mente e começou a planejar em segredo.

E agora que você é nossa, agora eu posso partir, ele pensou, com a excitação aumentando. Agora, o Parlamento.

Há anos Struan sabia que o único meio de proteger a Casa Nobre e a nova colônia estava em Londres. O verdadeiro centro de poder na terra era o Parlamento. Como membro do Parlamento, apoiado pelo poder que lhe dava a grande riqueza da Casa Nobre, dominaria a política externa da Ásia, como dominara Longstaff. Sim.

Alguns poucos milhares de libras colocarão você no Parlamento, ele disse a si próprio. Bastava de trabalhar através de terceiros. Agora você poderá fazer o serviço por si mesmo. Sim, afinal, garoto. Uns poucos anos, e então um título de cavaleiro. Depois, o Gabinete. E então, por Deus, você dirigirá os caminhos do Império e da Ásia, e a Casa Nobre durará mil anos.

Robb estava a observá-lo. Sabia que tinha sido esquecido, mas não se importava. Gostava de espiar o irmão, quando seus pensamentos estavam distantes. Quando o rosto do Tai-Pan perdia sua dureza e seus olhos o verde frio, quando sua mente estava cheia de sonhos, que ele sabia jamais poderia partilhar, Robb se sentia muito próximo dele e muito seguro.

Struan quebrou o silêncio.

- Dentro de seis meses, você vai assumir como Tai-Pan. O estômago de Robb esfriou de pânico.

- Não. Não estou preparado.

- Você está preparado. Só no Parlamento eu posso nos proteger e a Hong Kong.

- Sim - disse Robb; depois acrescentou, tentando manter a voz no mesmo tom. - Mas isto deveria ser no futuro... dentro de dois ou três anos. Há coisas demais para fazer aqui.

- Você pode fazê-las.

- Não.

- Você pode. E não há dúvidas na mente de Sarah, Robb.

Robb olhou para o Resting Cloud, seu navio-depósito, onde sua mulher e filhos estavam vivendo, temporariamente. Sabia que Sarah era ambiciosa demais para ele.

- Não quero ainda. Há tempo bastante.

Struan pensou a respeito do tempo. Ele não lamentava os anos passados no Oriente, longe de seu país. Longe de sua mulher, Ronalda, e de Culum, Ian, Lechie e Winifred, seus filhos. Teria gostado que estivessem com ele, mas Ronalda odiava o Oriente. Casaram-se na Escócia, quando ele tinha vinte anos e Ronalda dezesseis, e partiram imediatamente para Macau. Seu primeiro filho morrera ao nascer e, no ano seguinte, quando o segundo filho, Culum, nasceu, também ficou doente. Então Struan mandou sua família para casa. A cada três ou quatro anos, voltava, de férias. Passava um mês ou dois em Glasgow, com eles, e depois voltava ao Oriente, porque havia muita coisa a fazer e era preciso construir uma Casa Nobre.

Não lamento um só dia, disse ele a si mesmo. Nem um dia. Um homem precisa sair pelo mundo, para fazer dele e de si próprio o máximo possível. Não é esta a finalidade da vida? Ainda que Ronalda seja uma moça bonita e eu ame meus filhos, um homem precisa fazer o que tem de fazer. Não foi para isso que nascemos? Se o antepassado dos Struans não tivesse tomado todas as terras do clã e as cercado, e expulsado a todos nós - a nós, seus parentes, que trabalhávamos as terras há gerações - então eu poderia ter sido um seareiro, como meu pai foi. Mas ele nos mandou para uma favela fedorenta em Glasgow, e tomou todas as terras para si, a fim de se tornar o Conde de Struan, e dispersou o clã. Então, quase morremos de fome, e eu fui para o mar e o pagode nos salvou e agora a família está próspera. Todos eles. Porque eu fui para o mar. E porque A Casa Nobre deu certo.

Struan aprendera muito rápido que dinheiro era poder. E ia usar seu poder para destruir o Conde de Struan e comprar de volta algumas das terras do clã. Não lamentava nada em sua vida. Descobrira a China, e a China lhe dera o que seu país nunca pôde dar. Não apenas riqueza. A riqueza por si própria era uma obscenidade. Mas riqueza é uma finalidade para ele. Tinha uma dívida para com a China.

E, ele sabia, ainda que fosse para a Inglaterra e se tornasse membro do Parlamento, ministro do Gabinete, destruísse o conde e cimentasse Hong Kong como uma jóia na corôa britânica, voltaria sempre. Pois seu verdadeiro objetivo - secreto para todos, quase secreto para ele mesmo, a maior parte do tempo - levaria anos para ser alcançado.

- Não há nunca tempo suficiente. - Olhou para a montanha mais elevada. - Vamos chamá-la “O Cume” - disse distraidamente, e outra vez teve a estranha e repentina sensação de que a ilha o odiava e queria que ele morresse. Sentia o ódio a cercá-lo, e ficava imaginando, perplexo, por quê?

- Dentro de seis meses, você dirigirá A Casa Nobre - repetiu, com voz rouca.

- Não posso. Sozinho não.

- Um Tai-pan está sempre sozinho. Esta é sua alegria e também seu sofrimento. - Por sobre o ombro de Robb viu o mestre de guarnição que se aproximava. - Sim, Sr. McKay?

- Com licença, senhorrr. Permissão para tomar uma bebida? - McKay era um homem atarracado e corpulento, com o cabelo amarrado num rabicho alcatroado e sórdido.

- Sim. Uma bebida dupla para todos os homens. Ajeite tudo como ficou combinado.

- Sim, sim senhorrr. - McKay saiu, apressadamente. Struan tornou a se virar para Robb e Robb teve consciência apenas dos estranhos olhos verdes, que pareciam despejar luz em cima dele.

- Vou mandar vir Culum, lá pelo fim do ano. Ele terá terminado então a universidade. Ian e Lechie irão para o mar e depois virão também. Nessa ocasião, seu filho Roddy estará com idade suficiente. Graças a Deus temos filhos em número suficiente para nos suceder. Escolha um deles para suceder você. O Tai-Pan deve sempre escolher quem vai sucedê-lo, e decidir quando. - Depois, com determinação, ele deu as costas para a China continental e disse - Seis meses! - E se afastou.

 

- Querem beber conosco, cavalheiros? - Struan perguntou a um grupo de negociantes. - Um brinde para nosso novo lar? Tem conhaque, rum, cerveja, vinho branco espanhol seco, uísque e champanha.

Ele apontou para sua chalupa, onde seus homens descarregavam barris e punham mesas. Outros estavam vergados ao peso de cargas de carne assada fria - frangos, traseiros de porco, vinte porquinhos de leite e um quarto de boi - além de pães, pastéis de porco frio, salgados, paneladas de repolho frio, cozido com presunto gordo, trinta ou quarenta presuntos defumados, cachos de banana de Cantão, tortas de frutas em conserva, copos finos e canecas de estanho, até mesmo baldes de gelo - que as lorchas e os clíperes tinham trazido do norte - e garrafas de champanha.

- Tem comida para quem quiser.

Houve vivas de aprovação e os negociantes começaram a convergir para as mesas. Quando todos já tinham pegado seus copos ou canecões, Struan ergueu o seu copo.

- Um brinde, cavalheiros.

- Vou beber com você, mas não por causa deste maldito rochedo. Vou beber à sua queda - disse Brock, erguendo um canecão de cerveja. - Pensando melhor, vou beber ao seu pequeno rochedo também. Eu lhe darei um nome: “A Extravagância de Struan”.

- Ah, é pequeno demais - respondeu Struan. - Mas suficientemente grande para Struan e o restante dos negociantes da China. Se é grande bastante para Struan e Brock... esta é outra questão.

- Vou lhe dizer com certeza, Dirk, meu rapaz: nem a China inteira é.

Brock esvaziou o canecão e atirou-o em direção ao interior da ilha. Depois caminhou altivamente para sua chalupa. Alguns dos negociantes o seguiram.

- Puxa vida, que maneiras horrorosas - disse Quance. Depois bradou, rindo. - Vamos, Tai-Pan, o brinde! O Sr. Quance tem uma sede imortal! Façamos a História!

- Desculpe, Sr. Struan - disse Horatio Sinclair. - Antes do brinde, não seria apropriado agradecer a Deus pela graça que nos concedeu neste dia?

- Claro, rapaz. Tolice minha esquecer. Quer conduzir a prece?

- O Reverendo Mauss está aqui, senhor.

Struan hesitou, apanhado desprevenido. Observou o jovem, gostando do profundo humor que se escondia no fundo dos olhos cinza-azulados. Depois disse, alto:

- Reverendo Mauss, onde está o senhor? Vamos rezar uma prece.

Mauss se elevava acima dos negociantes. Ele se movimentou, hesitante, diante da mesa e depôs o copo vazio, fingindo que sempre estivera vazio. Os homens tiraram os chapéus e esperaram, com as cabeças descobertas sob o vento frio.

Agora tudo estava tranqüilo na praia. Struan ergueu os olhos para os sopés das colinas, para um afloramento onde ficaria a igreja. Com os olhos da mente, viu a igreja, bem como a cidade, o cais, os armazéns, lares e jardins. A Casa Grande onde o Tai-Pan tomaria decisões referentes a sucessivas gerações. Outros lares para a hierarquia da casa e suas famílias. Pensou a respeito de sua atual amante, T'chung Jen May-may. Comprara May-may há cinco anos, quando ela tinha quinze e estava intocada.

Ayeeee yah, disse ele para si próprio, cheio de felicidade, empregando uma das expressões cantonesas dela, que significava prazer, raiva, desgosto, felicidade, desamparo, a depender de como era dita. É uma gata selvagem como não tem outra.

- Ó Deus cheio de brandura que rege os ventos selvagens, as ondas, e a beleza do amor, Deus dos grandes navios e da estrela do Norte e da beleza do lar, Deus Pai do Cristo menino, olhai por nós e tende piedade de nós. - Mauss, com os olhos fechados, erguia as mãos. Sua voz era sonora, e a profundeza de seu anelo envolveu-os. - Somos os filhos dos homens e nossos pais se preocuparam conosco como Vos preocupastes com o Vosso Filho ferido, Jesus. Santos são crucificados na terra e os pecadores se multiplicam. Contemplamos a glória de uma flor e não Vos vemos. Percorremos os poderosos oceanos e não Vos sentimos. Segamos a terra e não Vos tocamos. Comemos e bebemos, mas não Vos provamos. Vós sois todas essas coisas, e ainda mais. Sois a vida e a morte e o sucesso e o fracasso. Sois Deus e nós somos homens...

Fez uma pausa, com o rosto contorcido, enquanto lutava com sua alma torturada. Oh, Deus, perdoai meus pecados. Deixai que eu expie a minha fraqueza convertendo os pagãos. Deixai que eu seja um mártir da Vossa Santa Causa. Fazei com que eu mude, do que sou agora para o que era antes...

Mas Wolfgang Mauss sabia que não havia retorno, ao começar a servir Struan sua paz o abandonara, e as necessidades de sua carne o absorveram. Certamente, ó Deus, o que eu fiz era certo. Não havia nenhuma outra maneira de entrar na China.

Ele abriu os olhos e ficou fitando em torno, desamparadamente.

- Desculpem. Perdoem-me. Não sei as palavras. Posso vê-las, grandes palavras, para fazer que O conheçam, como outrora eu O conhecia, mas não posso mais dizer essas palavras. Perdoem-me. Ó Senhor, abençoai esta ilha. Amém.

Struan pegou um copo cheio de uísque e deu-o a Mauss.

- Acho que falou muito bem. Um brinde, cavalheiros. À rainha!

Beberam e, quando seus copos ficaram vazios, Struan mandou que fossem cheios novamente.

- Com sua permissão, Capitão Glessing, gostaria de oferecer a seus homens um duplo. E ao senhor, claro. Um brinde para a nova propriedade da rainha. O senhor entrou para a História hoje. - Ele bradou aos mercadores. - Devemos prestar uma homenagem ao capitão. Vamos chamar esta praia de “Cabo Glessing”.

Houve um bramido de aprovação.

- Dar nome a ilhas ou à parte de uma ilha é função do oficial de escalão mais elevado - disse Glessing.

- Vou mencionar isto a Sua Excelência.

Glessing fez um aceno brusco de cabeça e gritou para o mestre-d’armas:

- Marinheiros, um duplo, com os cumprimentos de Struan e Companhia. Fuzileiros, nada. Relaxar.

Apesar de sua fúria com Struan, Glessing não pôde deixar de se regozijar ao saber que, enquanto houvesse uma colônia em Hong Kong, seu nome seria lembrado. Porque Struan jamais dizia nada impensadamente.

Foi feito um brinde a Hong Kong, e dados três vivas. Depois, Struan fez um aceno de cabeça para o tocador de gaita de foles e o toque do clã Struan encheu a praia.

Robb nada bebeu. Struan tomou um copo de uísque e passeou por entre a multidão, cumprimentando aqueles a quem queria cumprimentar e fazendo acenos de cabeça para outros.

- Não está bebendo, Gordon?

- Não, obrigado, Sr. Struan. - Gordon Chen fez uma curvatura à moda chinesa, muito orgulhoso de ser notado.

- Como vai você?

- Muito bem, obrigado, senhor.

O garoto se transformara num belo jovem, pensou Struan. Quantos anos tem agora? Dezenove. O tempo passa tão depressa.

Lembrou-se com ternura de Kai-sung, a mãe do rapaz. Ela tinha sido sua primeira amante e era linda. Ayeeee yah, ela lhe ensinara uma porção de coisas.

- Como está sua mãe? - Perguntou.

- Está muito bem. - Gordon Chen sorriu. - Ela gostaria que eu lhe falasse de suas orações por sua segurança. Todo mês ela queima bastões do pagode em sua honra, no templo.

Struan ficou imaginando qual seria seu aspecto, agora. Há dezessete anos não a via. Mas se lembrava, nitidamente, de seu rosto.

- Mando-lhe as minhas saudações.

- O senhor lhe faz muita honra, Sr. Struan.

- Chen Sheng me contou que vocês estão trabalhando duro e lhe são muito úteis.

- Ele é por demais generoso comigo, senhor.

Chen Sheng não era jamais generoso com alguém que não fizesse mais do que ganhar seu sustento. Chen Sheng era um velho ladrão, Struan sabia, mas, por Deus, estaríamos perdidos sem ele.

- Bom - disse Struan - você não poderia ter um professor melhor do que Chen Sheng. Haverá uma porção de coisas a fazer nos próximos meses. Vai ser um aperto.

- Espero ser útil à Casa Nobre, senhor.

Struan sentiu que seu filho tinha algo em mente, mas simplesmente fez um aceno amável de cabeça e se afastou, sabendo que Gordon encontraria uma maneira de lhe dizer, quando chegasse a ocasião oportuna.

Gordon Chen curvou-se e, depois de um momento, aproximou-se de uma das mesas e ficou esperando, cortesmente, ao fundo até haver espaço para ele, consciente dos olhares, mas sem se importar; sabia que enquanto Struan fosse o Tai-Pan ele estava completamente seguro.

Os negociantes e marinheiros na praia fizeram em pedaços com as mãos os frangos e porquinhos de leite e se encheram de carne, a gordura a lhes escorrer pelo queixo. Que bando de selvagens, pensou Gordon Chen, e agradeceu seu pagode por ter sido criado como chinês e não como europeu.

Sim, pensou ele, meu pagode foi grande. Pagode lhe trouxera seu professor chinês secreto, há alguns anos. Ele não contara a ninguém sobre o professor, nem mesmo à sua mãe. Com esse homem, ele aprendera que nem todos os ensinamentos dos reverendos Sinclair e Mauss eram necessariamente verdadeiros. Aprendera sobre Buda e sobre a China e seu passado. E como pagar a dádiva da vida e usá-la para a glória de sua terra natal. Depois, no ano passado, o Professor o iniciara na mais poderosa, mais clandestina e mais militante das sociedades secretas chinesas, a Hung Mun Tong, que esteve disseminada por toda China e cujo empenho, através dos mais sagrados juramentos de irmandade de sangue, era derrubar os odiados Manchus, os Ch’ings estrangeiros a dinastia governante da China.

Por dois séculos, sob vários disfarces e nomes, a sociedade fomentara a insurreição. Haviam ocorrido revoltas em todo o Império Chinês - do Tibete à Formosa, da Mongólia à Indochina. Onde quer que houvesse fome, opressão ou descontentamento, a Hung Mun reunia os camponeses contra os Ch’ings e contra seus mandarins. Todas as insurreições fracassaram e foram selvagemente esmagadas pelos Ch’ings. Mas a sociedade sobrevivera.

Gordon Chen sentia-se orgulhoso com o fato de, sendo apenas parte chinês, ter sido considerado digno de ser um Hung Mun. Morte aos Ch’ings. Ele abençoou seu pagode por ter nascido naquela época da história, naquela parte da China, com o pai que tinha, pois sabia ter quase chegado a hora de uma revolta em toda a China.

E ele abençoou o Tai-Pan, pois dera a Hung Mun uma pérola de valor inestimável: Hong Kong. Afinal, a sociedade tinha uma base segura, longe da perpétua opressão dos mandarins. Hong Kong estaria sob controle dos bárbaros e ali, naquela pequena ilha, ele sabia que a sociedade floresceria. De Hong Kong, em segurança e secretamente, eles esquadrinhariam o território continental e atacariam os Ch’ings até chegar o Dia. E com pagode, pensou ele, eu posso usar o poder da Casa Nobre para a causa.

- Pula fora, pagão maldito!

Gordon Chen ergueu os olhos, espantado. Um marinheiro atarracado, rijo e baixinho o fitava. Tinha nas mãos um pedaço de porquinho de leite e o partia com seus dentes quebrados.

- Pula fora, senão eu vou enrolar seu rabicho em volta de seu maldito pescoço!

O mestre McKay aproximou-se às pressas, e afastou o marinheiro.

- Cala a boca, Ramsey, seu sujo - disse. - Ele não é perigoso, Sr. Chen.

- Sim, obrigado, Sr. McKay.

- Quer “bóia”? - McKay cortou um frango com a sua faca e ofereceu-o.

Gordon Chen, cuidadosamente, partiu o osso final da asa do frango, horrorizado com as maneiras bárbaras de McKay.

- Obrigado.

- Só vai querer isso?

- Sim. É a parte mais tenra. - Chen fez uma curvatura. - Obrigado outra vez. - Afastou-se.

McKay aproximou-se do marinheiro.

- Você está bom da cabeça, imediato?

- Eu devia arrancar seu coração de veado. É seu queridinho chinês, McKay?

- Fala baixo. Aquele chinês tem de ser deixado em paz. Se você quer apoquentar um bastardo pagão, existem muitos outros. Mas não aquele, pelo amor de Deus. Ele é o bastardo do Tai-Pan, nada mais, nada menos.

- Então por que não usa um maldito sinal... ou corta aquele maldito cabelo? - Ramsey baixou a voz e lançou olhares de soslaio. - Ouvi dizer que são diferentes... as bichas chinesas. Feitos de maneira diferente.

- Não sei. Nunca cheguei perto de um desses tipos. Tem uma porção de nossa raça em Macau.

 

Struan estava olhando uma sampana ancorada ao largo. Era um barco pequeno, com uma cabina bem-arrumada feita de finas esteiras de palhinha entrançada, esticada sobre arcos de bambu. O pescador e sua família eram Hoklos, gente que morava em barcos e vivia toda sua vida flutuando, raramente, ou nunca, indo à praia. Ele podia ver que havia quatro adultos e oito crianças na sampana. Algumas das crianças estavam amarradas no barco por cordas em torno da cintura. Deviam ser os filhos. As filhas não eram amarradas, porque não tinham nenhum valor.

- Quando acha que poderemos voltar para Macau, Sr. Struan? Ele se virou e sorriu para Horatio.

- Creio que amanhã, rapazinho. Mas acho que Sua Excelência vai precisar de você para o encontro com Ti-sen. Haverá mais documentos para traduzir.

- Quando será o encontro?

- Dentro de três dias, acredito.

- Se tiver um navio indo para Macau, dará uma passagem à minha irmã? A pobre Mary está a bordo há dois meses.

- Com a maior satisfação. - Struan ficou imaginando o que Horatio faria, quando soubesse a verdade a respeito de Mary. Struan descobrira a verdade sobre ela há pouco mais de três anos...

Ele estava num mercado apinhado, em Macau, e um chinês, de repente, empurrou-lhe um pedaço de papel nas mãos e fugiu correndo. Era uma nota escrita em chinês. Ele mostrou o papel a Wolfgang Mauss.

- É o endereço de uma casa, Sr. Struan. E um recado: “O Tai-Pan da Casa Nobre precisa de informações especiais, por causa de sua casa. Venha secretamente à entrada lateral, na Hora do Macaco.”

- O que é Hora do Macaco?

- Três horas da tarde.

- Onde é a casa?

Wolfgang lhe disse e depois acrescentou:

- Não vá. É uma armadilha, hein? Lembre-se de que sua cabeça foi posta a prêmio por cem mil taéis.

- A casa não fica no bairro chinês - disse Struan. - E à luz do dia não seria uma armadilha. Reúna a tripulação do meu navio. Se eu não tornar a aparecer, são e salvo, dentro de uma hora, venham procurar-me.

E então ele partiu, deixando Wolfgang e a tripulação do navio armada e por perto, de prontidão, caso fosse necessário. A casa ficava junto de outras, enfileiradas, numa rua tranqüila e arborizada. Struan entrou por uma porta no alto muro, e chegou a um jardim. Uma criada chinesa o esperava. Ela estava vestida de maneira asseada, com calças negras e casaco da mesma cor, e seu cabelo estava penteado num coque. Ela fez uma curvatura e um sinal para que ele ficasse em silêncio, e a seguisse. Mostrou-lhe o caminho através do jardim, até dentro da casa, subindo em seguida por um lance de escadas internas, que davam num quarto. Ele a acompanhou cautelosamente, pronto para qualquer problema.

O quarto estava ricamente mobiliado e as paredes de madeira eram cobertas de tapeçarias. Havia cadeiras, uma mesa e móveis chineses de teca. O quarto cheirava singularmente a limpo, com uma leve sugestão de sutil incenso. Havia uma janela que dava para o jardim.

A mulher foi até à extremidade de uma parede lateral e, cuidadosamente, movimentou um segmento de madeira. Havia um pequeno buraco na parede. Ela espiou por ali, e depois fez sinal para que ele fizesse a mesma coisa. Ele sabia que havia um antigo truque chinês para enganar um inimigo: fazê-lo colocar o olho num buraco assim, na parede, enquanto alguém esperava, do outro lado, com uma agulha. Então manteve o olho a algumas polegadas do buraco. Mesmo assim, podia ver o outro quarto, claramente.

Era um quarto de dormir. Wang Chu, o principal mandarim de Macau, encontrava-se na cama, nu e corpulento, roncando. Mary estava nua, a seu lado. Com a cabeça apoiada nos braços, ela olhava para o teto.

Struan espiava com um horror fascinado. Mary, langorosamente cutucou Wang Chu e acariciou-o até acordá-lo, rindo e conversando com ele. Struan não sabia que ela falava chinês, e ele a conhecia mais do que qualquer outra pessoa, com exceção do irmão. Ela tocou uma pequena sineta e uma criada entrou e começou a ajudar o mandarim a se vestir. Wang Chu não podia vestir a si mesmo porque suas unhas tinham quatro polegadas de comprimento e eram protegidas por folhas de metal cravejadas de jóias. Struan virou-se, cheio de repulsa.

Houve um repentino ruído de vozes, numa cadência monótona, vindas do jardim, e ele, cautelosamente, olhou pela janela. Os guardas de Wang estavam reunidos no jardim; poderiam impedir-lhe a saída. A criada fez-lhe um sinal para não se preocupar e esperar. Ela foi até à mesa e serviu-lhe chá; depois, fez uma curvatura e saiu.

Dentro de meia hora, os homens saíram do jardim e Struan viu que se enfileiravam diante de uma liteira, na rua. Wang Chu foi ajudado a entrar na liteira e carregado.

- Olá, Tai-Pan.

Struan fez um giro, puxando a faca. Mary estava em pé num pórtico antes escondido na parede. Usava um traje de tecido fino e diáfano, que nada escondia. Tinha o cabelo comprido e louro, olhos azuis e um queixo com uma covinha; longas pernas, cintura estreita e seios pequenos e firmes. Um pedaço de jade entalhado, de valor incalculável, estava pendurado numa corrente de ouro em torno de seu pescoço. Mary observava Struan com um sorriso curioso e aberto.

- Pode guardar a faca, Tai-Pan. Não está em perigo. - Sua voz era calma e zombeteira.

- Você devia ser chicoteada - disse ele.

- Conheço muito bem o chicote, não se lembra? - Ela se movimentou em direção ao quarto. - Teremos mais conforto aqui dentro. - Ela foi até uma escrivaninha e despejou uísque em dois copos. - Que é que há? - disse ela, com o mesmo sorriso perverso. - Nunca esteve no quarto de uma moça antes?

Ela lhe entregou um copo e ele o pegou.

- Somos iguais, Tai-Pan. Ambos preferimos amantes chineses.

- Por Deus, sua cadela maldita, você...

- Não seja hipócrita; não fica bem para você. Você é casado e tem filhos. Entretanto, tem muitas outras mulheres. Mulheres chinesas. Sei tudo a respeito delas. Empenhei-me em descobrir.

- É impossível que você seja Mary Sinclair - disse ele, mais ou menos para si mesmo.

- Não é impossível. Surpreendente, sim. - Ela bebia seu uísque calmamente. - Mandei buscá-lo porque queria que você me visse como eu sou.

- Por quê?

- Primeiro, é melhor você mandar seus homens embora.

- Como sabe a respeito deles?

- Você é muito cuidadoso. Como eu. Não viria aqui secretamente sem um guarda-costa. - Seus olhos zombavam dele.

- Em que você está metida?

- Quanto tempo disse a seus homens para esperarem?

- Uma hora.

- Preciso de um espaço maior de seu tempo. Mande-os embora. - Ela riu. - Eu esperarei.

- É melhor esperar. E vista alguma coisa.

Ele saiu da casa e disse a Wolfgang para esperar mais duas horas e então ir procurá-lo. Contou-lhe a respeito da porta secreta, mas não sobre Mary.

Quando ele voltou, Mary estava deitada na cama.

- Por favor, feche a porta, Tai-Pan - disse ela.

- Eu lhe disse para vestir alguma coisa.

- Eu lhe disse para fechar a porta.

Raivosamente, ele bateu a porta. Mary tirou o vestido transparente e o atirou para um lado.

- Acha que eu sou atraente?

- Não. Você me enoja.

- Você não me enoja, Tai-Pan. Você é o único homem que eu admiro no mundo.

- Horatio devia ver você agora.

- Ah, Horatio - disse ela, enigmaticamente. - Quanto tempo você disse a seus homens para esperarem, desta vez?

- Duas horas.

- Você lhes contou a respeito da porta secreta. Mas não a meu respeito.

- Por que tem tanta certeza?

- Conheço você, Tai-Pan. Por isso lhe confio o meu segredo. - Ela brincava com o copo de uísque, os olhos baixos. - Já tínhamos terminado, quando você espiou pelo buraco?

- Sangue de Deus! É melhor você...

- Tenha paciência comigo, Tai-Pan - disse ela. - Já tínhamos?

- Sim.

- Fico satisfeita. Satisfeita e aborrecida. Queria que você tivesse certeza.

- Não entendi.

- Queria que você tivesse certeza de que Wang Chu era meu amante.

- Por quê?

- Porque tenho informações que lhe podem ser úteis, Tai-Pan. Tenho muitos amantes. Chen Sheng vem aqui algumas vezes. Muitos dos mandarins de Cantão. O velho Jin-qua, uma vez. - Os olhos dela gelaram e pareceram mudar de cor. - Não me desagradam. Eles gostam da cor de minha pele e eu lhes dou prazer. Eles me dão prazer. Tenho de lhe dizer essas coisas, Tai-Pan. Não faço mais do que pagar a dívida que tenho com você.

- Que dívida?

- Você impediu os espancamentos. Você impediu tarde demais, mas não foi por culpa sua. - Ela se levantou da cama e vestiu um traje grosso. - Não quero aborrecê-lo mais. Por favor me ouça e depois pode fazer o que quiser.

- O que você quer me contar?

- O imperador indicou um novo vice-rei para Cantão. Esse Vice-rei Ling, leva um edito imperial para proibir o tráfico de ópio. Ele chegará dentro de duas semanas, e dentro de três semanas cercará a Colônia em Cantão. Nenhum europeu sairá de Cantão até todo o ópio ter sido entregue.

Struan riu com desprezo.

- Não acredito nisso.

- Se o ópio for entregue e destruído, qualquer pessoa que tenha cargas de ópio fora de Cantão ganharia uma fortuna - disse Mary.

- Não será entregue.

- Vamos dizer que toda a Colônia seja posta sob exigência de resgate, em troca do ópio. O que poderiam vocês fazer? Não há navios armados aqui. Vocês estão indefesos. Não estão?

- Sim.

- Mande um navio a Calcutá, com ordens de comprar ópio, todo que puder, dois meses depois de chegar. Se minha informação for falsa, isto lhe dará tempo suficiente para cancelar a ordem.

- Wang lhe disse isso?

- Só a respeito do vice-rei. O resto foi idéia minha. Queria pagar a dívida que tenho com você.

- Você não me deve nada.

- Você nunca foi chicoteado.

- Por que você não mandou alguém me contar, secretamente? Por que me trazer aqui? Para ver você assim? Por que me fazer passar por isto... este horror?

- Queria lhe contar. Eu mesma. Queria que alguém mais, além de mim mesma, soubesse quem eu sou. Você é o único homem em quem confio - ela disse, com uma inesperada e infantil inocência.

- Você está louca. Devia ser trancafiada.

- Por que gosto de ir para a cama com chineses?

- Deus do céu! Não entende quem você é?

- Sim. Uma vergonha para a Inglaterra. - A raiva aflorou em seu rosto, endurecendo-o, envelhecendo-o. - Vocês homens fazem o que lhes agrada, mas nós mulheres não podemos. Bom Deus, como posso ir para a cama com um europeu? Eles não conseguem se conter e vão contando logo aos outros, e me cobririam de vergonha diante de todos vocês. Desta maneira, ninguém se prejudica. A não ser eu, talvez, e isto aconteceu há muito tempo.

- O que aconteceu?

- É melhor você encarar uma verdade da vida, Tai-Pan. A mulher precisa de homens tanto quanto o homem precisa de mulheres. Por que deveríamos nos satisfazer com um homem apenas? Por quê?

- Há quanto tempo isto vem acontecendo?

- Desde que eu tinha quatorze anos. Não fique tão chocado! Quantos anos tinha May-may quando você a comprou?

- Isso é diferente.

- É sempre diferente para um homem. - Mary sentou-se à mesa, diante do espelho, e começou a escovar o cabelo. - Brock está negociando secretamente com os espanhóis em Manilha a compra da colheita de açúcar. Ele ofereceu a Carlos de Silvera dez por cento pelo monopólio.

Struan sentiu um assomo de fúria. Se Brock conseguisse fazer funcionar aquele truque com o açúcar, poderia dominar todo o mercado das Filipinas.

- Como você sabe?

- O compradore dele, Sze-tsin, me contou.

- Ele é outro dos seus... clientes?

- Sim.

- Tem mais alguma coisa que queira me contar?

- Você poderá ganhar cem mil taéis de prata com o que eu lhe contei.

- Acabou?

- Sim.

Struan levantou-se.

- O que vai fazer?

- Contar a seu irmão. É melhor que você seja mandada de volta para a Inglaterra.

- Deixe-me viver minha própria vida, Tai-Pan. Eu gosto do que eu sou e jamais mudarei. Nenhum europeu, e poucos chineses sabem que eu falo cantonês e mandarim, exceto Horatio e, agora, você. Mas só você conhece meu verdadeiro eu. Prometo que serei muito, muito útil a você.

- Você estará em casa, fora da Ásia.

- A Ásia é a minha casa. - Ela franziu a testa e seus olhos pareceram suavizar-se. - Por favor, deixe-me como eu sou. Nada mudou. Há dois dias, nós nos encontramos na rua e você foi gentil e bondoso. Ainda sou a mesma Mary.

- Você não é a mesma. Acha que isto não é nada?

- Somos todos pessoas diferentes, ao mesmo tempo. Este é um dos meus eus, e a outra moça, a doce e inocente virgenzinha, que conversa bobagens e adora a igreja, o cravo, cantar e bordar, também sou eu. Não sei por que, mas é verdade. Você é o Tai-Pan Struan, demônio, contrabandista, príncipe, assassino, marido, fornicador, santo e centenas de outras pessoas. Qual desses é, verdadeiramente, você?

- Não contarei a Horatio. Você pode simplesmente ir embora para casa. Eu lhe darei o dinheiro.

- Tenho dinheiro suficiente para minha própria passagem, Tai-Pan. Ganho muitos presentes. Possuo esta casa e a vizinha. E irei quando decidir, da maneira que decidir. Por favor, deixe que eu tenha o meu próprio pagode, Tai-Pan. Sou quem sou, e nada do que você fizer poderá mudar isso. Antigamente, você poderia ter-me ajudado. Não, isto também não é honesto. Ninguém poderia ter-me ajudado. Gosto do que eu sou. Juro que jamais mudarei. Serei o que sou: secretamente, sem que ninguém saiba, exceto você e eu... ou abertamente. Então por que ferir os outros? Por que ferir Horatio?

Struan observou-a. Sabia que ela estava falando sério.

- Sabe o perigo em que se encontra?

- Sim.

- Vamos dizer que você tenha um filho.

- O perigo dá tempero à vida, Tai-Pan. - Ela o olhou fixamente, com uma sombra nos olhos azuis. - Só uma coisa eu lamento, por ter trazido você aqui. Agora jamais poderei ser sua mulher. Eu teria gostado de tentar ser sua mulher.

Struan abandonou-a ao seu pagode. Tinha direito de viver como lhe agradava, e expô-la à comunidade nada resolveria. Pior, destruiria seu dedicado irmão.

Ele usara sua informação, com um lucro imenso. Por causa de Mary, A Casa Nobre teve monopólio quase total de ópio durante um ano e ganhos que ultrapassaram as despesas de sua parcela do ópio - doze mil caixas - que servira para resgatar a Colônia. E a informação de Mary a respeito de Brock era correta, e Brock foi impedido de executar seu plano. Struan abriu uma conta secreta para Mary na Inglaterra e depositou, nesta conta, uma proporção do lucro. Ela lhe agradecera, mas jamais parecera interessada no dinheiro. De vez em quando, dava-lhe mais informações. Mas jamais quis dizer-lhe como começara sua vida dupla, e nem por quê. Meu Deus do céu, pensara ele, jamais entenderei as pessoas...

E agora, na praia, ele estava imaginando o que Horatio faria quando descobrisse. Era impossível para Mary manter sua segunda vida secreta - com certeza, acabaria cometendo algum erro.

- O que há, Sr. Struan? - disse Horatio.

- Nada, rapaz. Estava apenas pensando.

- Tem algum navio que parta hoje ou amanhã?

- O quê?

- Que vá para Macau - disse Horatio, rindo. - A fim de levar Mary para Macau.

- Ah, sim, Mary. - Struan se recompôs. - Amanhã, provavelmente. Eu lhe informarei, rapaz.

Ele abriu caminho entre os negociantes, dirigindo-se para Robb, que estava de pé perto de uma das mesas, fitando o mar.

- Qual o próximo, Sr. Struan? - bradou Skinner.

- Ah?

- Temos a ilha. Qual o próximo passo da Casa Nobre?

- Construir, naturalmente. Os primeiros a construir serão os primeiros a lucrar, Sr. Skinner. - Struan fez um aceno bem-humorado de cabeça e seguiu adiante. Ficou imaginando o que os outros negociantes - até mesmo Robb - diriam se soubessem que ele era o proprietário do Oriental Times e Skinner seu empregado.

- Não vai comer, Robb?

- Mais tarde, Dirk. Há tempo bastante.

- Quer chá?

- Obrigado.

Cooper aproximou-se, e ergueu seu copo.

- Para a “Extravagância de Struan?”

- Se for, Jeff - disse Struan - todos vocês vão descer pelo cano conosco.

- E vai ser um cano caro, se Struan não tiver nada com isso. - disse Robb.

- A Casa Nobre realmente faz as coisas em alto estilo! Perfeito uísque, conhaque, champanha. E copos de vidro veneziano.

- Cooper bateu no vidro com a unha e a nota produzida era pura. - Lindo.

- Feito em Birmingham. Acabaram de descobrir um novo processo. Uma fábrica já faz mil por semana. Dentro de um ano, haverá dúzias de fábricas. - Struan fez uma pausa, por um momento.

- Entregarei quantos quiser em Boston. Dez centavos americanos por copo.

Cooper examinou o copo mais detidamente.

- Dez mil. Seis centavos.

- Dez centavos. Brock lhe cobraria doze.

- Quinze mil a sete centavos.

- Fechado, com uma ordem garantida de trinta mil, pelo mesmo preço, por ano, a partir de hoje e a garantia de que você só importará através de Struan.

- Fechado, se você fretar uma carga de algodão pelo mesmo navio, de Nova Orleans e Liverpool.

- Quantas toneladas?

- Trezentas. Nas condições de costume.

- Fechado, se você trabalhar como nosso agente em Cantão durante esta temporada do chá. Se for necessário.

Cooper ficou instantaneamente na defensiva.

- Mas a guerra acabou. Por que você iria precisar de um agente?

- Estamos de acordo?

A mente de Cooper estava fervilhando, como um vespeiro. O Tratado de Chuenpi abria Cantão imediatamente ao comércio. No dia seguinte, eles iam voltar à Colônia em Cantão, para fixar residência outra vez. Iriam assumir o controle de suas feitorias ou hongs, como suas casas de negócios no Oriente eram chamadas - e ficariam na Colônia, como sempre, até maio, quando terminasse a temporada de negócios. Mas A Casa Nobre necessitar de um agente, agora, em Cantão, era uma loucura tão grande como dizer que os Estados Unidos da América precisavam de uma família real.

- Negócio fechado, Jeff?

- Sim. Você está esperando uma nova guerra?

- A vida é sempre problemática, não? Não foi isto que Wolfgang estava tentando dizer?

- Não sei.

- Quando vai ficar pronto seu novo navio? - perguntou Struan, abruptamente.

Os olhos de Cooper se estreitaram.

- Como você descobriu a respeito disso? Ninguém sabe, fora da nossa companhia.

Robb riu.

- Nosso negócio é saber, Jeff. O navio pode representar uma competição injusta. Se navegar como Dirk pensa que navegará, talvez nós o compremos, tirando-o de seu controle. Ou podemos construir quatro outros parecidos.

- Vai ser algo diferente para os ingleses, comprarem navios americanos - disse Cooper, tenso.

- Ah, não vamos comprar, Jeff - disse Struan. - Já temos uma cópia do projeto. Construiremos onde sempre construímos. Em Glasgow. Se eu fosse você, daria aos mastros um caimento de mais um ponto, aumentaria o cordame e acrescentaria mastaréus de sobrejoanete ao mastro principal e à vela. Como é que vai batizá-lo?

- Independence.

- Então vamos chamar o nosso de Independent Cloud. Se o seu for digno disso.

- Vamos tirar vocês do mar. Já os derrotamos duas vezes na guerra, e agora vamos derrotar onde realmente dói. Vamos tomar seu comércio.

- Vocês não têm a mínima chance. - Struan notou que Tillman se afastava. Abruptamente, sua voz se endureceu. - E muito menos quando metade de seu país se baseia na escravidão.

- Isso vai mudar, no devido tempo. Foram os ingleses que começaram.

- Foi a ralé quem começou!

Sim, e os loucos continuam com isso, pensou Cooper, amargamente, lembrando-se das brigas particulares violentas que estava sempre tendo com seu sócio, que tinha escravos para a lavoura e fazia o tráfico negreiro. Como poderia Wilf ser tão cego?

- Vocês traficavam há cerca de oito anos.

- Struan jamais transportou carga humana, por Deus. E, em nome de Cristo, eu vou explodir qualquer navio que pegar fazendo isso. Dentro ou fora de águas britânicas. Fomos os pioneiros no mundo. A escravidão proibida. Pelo amor de Deus, demorou até 1833 para se conseguir isso, mas foi conseguido. Qualquer navio, lembre-se!

- Então faça outra coisa. Use sua influência para nos deixar comprar ópio da maldita Companhia das Índias Orientais. Por que todos, com exceção dos comerciantes ingleses, seriam totalmente excluídos dos leilões, hein? Por que devemos ser forçados a comprar ópio turco de má qualidade, quando há mais do que suficiente em Bengala para todos nós?

- Fiz mais do que podia para destruir a Companhia, como você sabe muito bem. Gaste algum dinheiro, rapaz. Jogue um pouco. Agite, em Washington. Pressione o irmão do seu sócio. Ele não é senador por Alabama? Ou será que está ocupado demais tomando conta de quatro malditos navios de tráfico de escravos e alguns “mercados” em Mobile?

- Você sabe minha opinião a respeito disso, por Deus - disse Cooper. - Abram os leilões de ópio e vamos derrotar vocês no comércio, no mundo inteiro. Acho que estão com medo de competir livremente, a verdade é essa. Por que motivo manter em vigor os Decretos de Navegação? Por que fazer uma lei dizendo que só navios ingleses podem levar mercadorias para a Inglaterra? Com que direito monopolizam o maior mercado consumidor do mundo?

- Não é por direito divino, rapaz - disse Struan asperamente - embora ele, segundo parece, esteja sempre presente no pensamento americano e em sua política externa.

- Em algumas coisas estamos certos e vocês errados. Vamos competir livremente. Malditas tarifas! Comércio livre e mares livres... isto é que está certo!

- Struan concorda com você, nesse ponto. Não lê os jornais? Não me incomodo de lhe dizer que compramos dez mil votos por ano para apoiar seis parlamentares dispostos a votar a favor da liberdade de comércio. Estamos fazendo um grande esforço.

- Um voto, um homem. Não compramos votos.

- Vocês têm seu sistema, e nós o nosso. E vou lhe dizer mais uma coisa. Os ingleses não eram a favor das guerras americanas, nenhuma das duas. Nem a favor daqueles malditos reis hanoverianos. Vocês não ganharam as guerras, nós as perdemos. Felizmente. Por que iríamos guerrear amigos e parentes? Mas se a gente das Ilhas decidir um dia fazer guerra aos Estados Unidos, cuidado, por Deus. Porque vocês estarão liquidados.

- Acho que está na hora de fazer um brinde - disse Robb. Os dois homens arrancaram os olhos um do outro e o fitaram.

Para espanto de ambos, ele encheu três copos.

- Você não vai beber, Robb - disse Struan, tendo na voz uma violência de chicote.

- Vou. Pela primeira vez em Hong Kong. A última vez. Robb entregou-lhes os copos. O uísque era marrom-dourado e destilado exclusivamente para a Casa Nobre em Loch Tannoch, onde eles tinham nascido. Robb precisava da bebida; um barril inteiro.

- Você fez um juramento sagrado!

- Eu sei. Mas traz má sorte brindar com água. E este brinde é importante. - A mão de Robb tremia, quando ele ergueu seu copo. - Ao nosso futuro. Ao Independence e ao Independent Cloud. À liberdade nos mares. À liberdade, contra todos os tiranos.

Ele tomou um gole e conservou a bebida, sentindo-a arder, com o corpo torcendo-se de necessidade dela. Depois cuspiu-a e despejou o que restava nas pedrinhas da praia.

- Se eu tornar a fazer isso, arranque o copo de minha mão com um soco. - Ele se virou, nauseado, e caminhou em direção à terra.

- Eu não teria força para tanto - disse Cooper.

- Robb é louco, de tentar o Demônio desse jeito - disse Struan.

Robb começara a beber até à loucura há seis anos. No ano anterior, Sarah viera a Macau, da Escócia, com seus filhos. Durante algum tempo, tudo fora ótimo, mas depois ela descobrira a respeito da amante chinesa que Robb tinha há anos, Ming Soo, e sobre a filha dos dois. Struan lembrou-se da raiva de Sarah e da angústia de Robb, e ficou triste por ambos. Eles deveriam ter-se divorciado há anos, ele pensou, e amaldiçoou o fato de que o divórcio só poderia ser obtido através de um decreto parlamentar. Afinal, Sarah concordou em perdoar Robb, mas só se ele jurasse por Deus livrar-se imediatamente de sua adorada amante e da filha de ambos. Odiando a si próprio, Robb concordara. Dera secretamente a Ming Soo quatro mil taéis de prata e ela e a filha partiram de Macau. Ele jamais tornara a vê-las, e nem ouvira novamente falar delas. Mas, embora Sarah cedesse, jamais esquecera a bela moça e a menina, e continuou a atirar sal na ferida aberta para sempre. Robb começou a beber muito. Logo a bebida dominara-o, e ele ficara embrutecido por meses a fio. Então, certo dia, desapareceu. Afinal, Struan encontrara-o, num dos fedorentos botequins de Macau, carregara-o para casa e lhe curara a bebedeira; depois, dera-lhe uma arma.

- Atire em si próprio, ou jure por Deus que não tocará em bebida outra vez. É veneno para você, Robb. Você esteve bêbado por quase um ano. Você tem de pensar em seus filhos. As pobres crianças estão aterrorizadas com você e têm razão; e eu estou cansado de tirar você da sarjeta. Olhe para você mesmo, Robb! Vá!

Struan forçou-o a se olhar num espelho. Robb jurara, e então Struan mandara-o para o mar, durante um mês, com ordem de que não lhe dessem nenhuma bebida. Robb quase morrera. Depois de algum tempo, voltara a ser o que era, e agradecera ao irmão, tornando então a viver com Sarah, após fazer as pazes. Mas jamais houvera paz outra vez entre eles - e nem amor. Pobre Robb, pensou Struan. Sim, e pobre Sarah. É terrível marido e mulher viverem assim.

- Por que diabo Robb fez isso?

- Acho que ele queria impedir uma briga - disse Cooper. - Eu estava começando a ficar zangado. Desculpe.

- Não peça desculpas, Jeff. Foi minha culpa. Bom - acrescentou Struan - não vamos desperdiçar a coragem de Robb, hein? E nem o brinde que ele fez.

Beberam, silenciosamente. Em torno, pela praia inteira, negociantes e marinheiros divertiam-se ruidosamente.

- Ei, Tai-Pan! E você, maldito colono! Cheguem aqui! Era Quance, sentado perto do mastro da bandeira. Ele acenou para ambos e gritou de novo.

- Diabo, venham cá!

Tomou uma pitada de rapé, espirrou duas vezes e tirou o pó, com impaciência, de cima de sua roupa, usando um lenço de renda francesa.

- Por Deus, senhor - disse ele a Struan, espiando-o por sobre seus óculos sem aros - como pode um homem trabalhar com toda essa barulhada e esse tumulto, com mil demônios? Vocês e sua maldita bebida!

- Já provou o conhaque, Sr. Quance?

- Impecável, meu caro camarada. Como as testas da Srta. Tillman. - Tirou a pintura do cavalete e segurou-a. - O que acham?

- De Shevaun Tillman?

- Da pintura. Débeis mentais, como podem pensar num rabo de saia, quando estão diante de uma obra-prima? - Quance tomou outra pitada de rapé, ficou sufocado, bebeu conhaque Napoleão em seu canecão e espirrou.

A pintura era uma aquarela mostrando a cerimônia daquele dia. Delicada. Fiel. E algo mais. Era fácil identificar Brock e Mauss, e Glessing estava lá, com a proclamação nas mãos.

- É muito boa, Sr. Quance - disse Struan.

- Cinqüenta guinéus.

- Comprei uma pintura a semana passada.

- Vinte guinéus.

- Não apareço aí.

- Por cinqüenta guinéus eu o pintarei lendo a proclamação.

- Não.

- Sr. Cooper. Uma obra-prima. Vinte guinéus.

- Salvo o Tai-Pan e Robb, eu tenho a maior coleção de Quance de todo Oriente.

- Diabo, cavalheiros, preciso arranjar algum dinheiro, em algum lugar.

- Venda a Brock. Consegue vê-lo com muita nitidez -; disse Struan.

- Maldito seja Brock! - Quance tomou um gole enorme de conhaque e disse, com a voz rouca. - Ele me recusou, que vá para o inferno! - Deu furiosas pinceladas, fazendo Brock sumir. - Por Deus, por que deveria eu torná-lo imortal? E malditos sejam vocês dois. Vou mandar o quadro para a Real Academia. Em seu próximo navio, Tai-Pan.

- Quem vai pagar o frete? E o seguro?

- Eu pagarei, meu rapaz.

- Com o quê?

Quance contemplou a pintura. Sabia que, mesmo na velhice, seria ainda capaz de pintar, e de se aperfeiçoar; seu talento não se deterioraria.

- Com o que, Sr. Quance?

Ele acenou para Struan uma mão imperiosa.

- Dinheiro. Taéis. O cobre. Dólares. À vista!

- Conseguiu mais crédito, Sr. Quance?

Mas Quance não respondeu. Continuou a admirar seu trabalho, sabendo que conseguira fisgar sua presa.

- Vamos, Aristotle, quem deu o crédito? - insistiu Struan. Quance bebeu um enorme gole de conhaque, tomou mais rapé e espirrou. Sussurrou, como quem conspira.

- Sente-se. - Verificou se não havia mais ninguém escutando. - Um segredo. - Ergueu a pintura. - Vinte guinéus?

- Muito bem - disse Struan. - Mas espero que valha esse preço.

- É um príncipe entre os homens, Tai-Pan. Quer rapé?

- Diga logo!

- Parece que uma certa senhora se admira muito. Num espelho. Sem roupa nenhuma. Fui contratado para pintá-la assim.

- Meu Deus do céu! Quem é?

- Ambos a conhecem muito bem. - Depois Quance acrescentou, com tristeza fingida. - Jurei não revelar seu nome. Mas vou colocar na história o seu traseiro. É soberbo. - Outro gole de conhaque. - Eu, anh, insisti em vê-la inteira. Antes de concordar em aceitar a incumbência. - Beijou os dedos, com êxtase. - Impecável, cavalheiros, impecável! E seus mamilos! Meu Deus, quase enlouqueci! - Outro gole de conhaque.

- Você pode nos contar. Vamos, quem foi?

- A regra principal com relação a nus é a mesma que vale para a fornicação. Nunca revelar o nome da senhora. - Quance acabou com pena o canecão. - Mas não existe um só homem, de vocês, que não pagasse mil guinéus para possuí-la. - Levantou-se, arrotou com gosto, espanou-se, fechou sua caixa de pintura e pegou seu cavalete, satisfeitíssimo consigo mesmo. - Bom, isso é negócio suficiente para esta semana. Vou cobrar trinta guinéus a seu compradore.

- Vinte guinéus - disse Struan.

- Um original de Quance retratando o dia mais importante da História do Oriente - disse Quance, com desdém - por quase o preço de um barril de Napoleão. - Voltou para sua chalupa e dançou uma giga, quando o saudaram com vivas, a bordo.

- Deus todo-poderoso, quem terá sido? - disse Cooper, afinal.

- Deve ser Shevaun - disse Struan, com uma curta risada. - É o tipo de coisa que aquela moça faria.

- Nunca. Ela é uma danada, mas nem tanto assim. - Cooper olhou pouco à vontade para o navio-depósito de Cooper-Tillman, onde estava alojada Shevaun Tillman. Ela era a sobrinha de seu sócio e viera para a Ásia há um ano, de Washington. Neste período, ela se tornara a favorita do continente. Era bonita, tinha dezenove anos, era ousada e desejável, e nenhum homem conseguia apanhá-la - nem para a cama e nem para casar. Todo solteirão da Ásia, incluindo Cooper, fizera-lhe propostas. E todos haviam sido recusados e, ao mesmo tempo, não recusados; mantidos numa rédea, como ela fazia com todos os seus admiradores. Mas Cooper não se importava. Sabia que ela ia ser sua mulher. Fora mandada para ficar sob a guarda de Wilf Tillman pelo pai dela, um senador do Alabama, na esperança de que Cooper gostasse dela e ela dele, a fim de cimentar mais solidamente os negócios da família. E ele se apaixonara por ela, no momento em que a vira.

- Então, anunciaremos os esponsais imediatamente - Tillman dissera, deliciado, há um ano.

- Não, Wilf. Não há pressa. Vamos deixar que ela se acostume com a Ásia e comigo.

Quando Cooper virou as costas para Struan, sorriu para si mesmo. Por uma gata selvagem como aquela valia a pena esperar.

- Deve ser uma das “moças” da Sra. Fortheringill.

- Aquelas coelhinhas fazem qualquer coisa.

- Claro. Mas não pagariam a Aristotle para fazer isso.

- A velha Cara de Cavalo poderia pagar. Faz bons negócios.

- Ela tem negócios a granel, agora. Sua clientela é a melhor da Ásia. Consegue imaginar aquela bruxa dando dinheiro a Aristotle? - Cooper puxou com impaciência as suíças. - O máximo que ela faria era dar o dinheiro a ele, para fazer negócio. Talvez ele esteja brincando conosco, não?

- Ele brinca a respeito de tudo e de todos. Mas jamais sobre a pintura.

- Uma das portuguesas?

- Impossível. Se for casada, o seu marido lhe arrancará a cabeça. - Se for viúva... isto faria cair toda a cúpula da igreja católica. - As rugas com que os ventos haviam marcado o rosto de Struan retorceram-se num sorriso. - Vou colocar todo o poder da Casa Nobre a serviço da descoberta de quem é. Aposto vinte guinéus com você que descubro primeiro!

- Fechado. Fico com a pintura, se ganhar.

- Diabo, eu gostei dela, agora que Brock foi apagado.

- O vencedor fica com a pintura, e pediremos a Aristotle para colocar nela o perdedor.

- Fechado. - Apertaram-se as mãos.

Houve um repentino disparo de canhão e eles olharam em direção ao mar.

Um navio se aproximava pelo canal leste, navegando a toda força. Suas velas soltas, quadradas, mastaréus e mastaréus de sobrejoanete estavam enfunados a sotavento, enquanto os brióis lhes davam formas redondas e o cordame esticado tornava-se mais tenso e cantava sob o vento forte. O clíper, com seus mastros inclinados, tinha uma grande extensão da amura a sotavento, e a onda formada pela sua proa se erguia muito alta, molhando a amurada. Sobre a espuma de sua esteira - muito branca, contra o verde-azulado do oceano - gaivotas gritavam suas boas-vindas.

Outra vez o canhão rugiu e uma baforada de fumaça agitou-se sobre a quadra da popa, onde drapejava o Pavilhão do Reino Unido, enquanto o Leão e o Dragão flutuavam no alto da mezena. Aqueles que, na praia, haviam ganho suas apostas deram altos vivas, pois grandes somas de dinheiro tinham sido apostadas no navio que chegaria primeiro na Inglaterra, e no primeiro a voltar.

- Sr. MacKay! - bradou Struan, mas o mestre já se aproximava correndo, com o duplo óculo de alcance.

- Três dias de avanço, tempo recorde, senhorrr - disse o Mestre McKay com um sorriso desdentado. - Olha lá o vôo dele. Vai custar a Brock um barril de prata! - Saiu correndo em direção à terra.

O navio, Thunder Cloud, saiu velozmente do canal e, agora que tinha o caminho livre, corria adiante do vento, ganhando rapidez.

Struan colocou diante dos olhos o curto óculo de alcance e focalizou as bandeiras de código que procurava. A mensagem dizia: “Crise não resolvida. Novo tratado com o Império Otomano contra a França. Conversa sobre guerra”. Depois, Struan examinou o navio; sua pintura estava boa, a cordame retesado, os canhões em seus lugares. E, num canto de sua vela dianteira, havia um pequeno remendo negro, sinal de código, usado apenas em emergências e cujo significado era: “Importantes despachos a bordo.”

Ele baixou o binóculo e ofereceu-o a Cooper.

- Quer emprestado?

- Obrigado.

- É chamado bi-óculo, ou binóculo Dois olhos. Você focaliza com a rosca central - disse Struan. - Mandei fazer especialmente.

Cooper espiou através do binóculo e viu as bandeiras de código. Ele sabia que todos na armada estavam tentando ler a mensagem e todas as companhias gastavam muito tempo e dinheiro tentando decifrar o código da Casa Nobre. O binóculo era mais poderoso do que um telescópio.

- Onde posso conseguir doze dúzias disso?

- Cem guinéus por peça. Um ano para entregar.

É pegar ou largar, pensou Cooper, amargamente, conhecendo aquela entonação de voz.

- Fechado.

Novas bandeiras de código foram erguidas e Cooper devolveu o binóculo.

A segunda mensagem era uma única palavra, “Zenith”, um código dentro do código principal.

- Se eu fosse você - disse Struan a Cooper - eu descarregaria o meu algodão da temporada. Depressa.

- Por quê? Struan deu de ombros.

- Só estou tentando ser útil. Com licença.

Cooper observou-o, enquanto se afastava para interceptar Robb, que se aproximava com o mestre. O que haverá naquelas malditas bandeiras? - perguntou a si mesmo. E o que ele queria dizer com relação ao nosso algodão? E por que diabo não chegou o navio-correio?

Era isso que tornava o comércio tão excitante. Comprava-se e se vendia para um mercado quatro meses antecipado, sabendo apenas a posição deste mercado quatro meses antes. Qualquer erro representava a ameaça de prisão por dívida. Um jogo calculado que, se perdido, resultava na aposentadoria e partida para sempre do Oriente. Sentiu uma dor de barriga. Uma dor do Oriente, que o acompanhava sempre - e à maioria deles - e também um estilo de vida. Teria sido uma informação amistosa do Tai-Pan ou uma manobra calculada?

 

O Capitão Glessing, acompanhado de Horatio, estava observando o Thunder Cloud com inveja. E também com impaciência. Era um prêmio que valia a pena conquistar, e o primeiro navio do ano a fazer a viagem da Inglaterra a Calcutá, com certeza com os porões cheios de ópio. Glessing ficou imaginando qual seria o significado das bandeiras. E por que havia um remendo negro na vela da frente.

- Belo navio - disse Horatio.

- Sim, é mesmo.

- Mesmo sendo pirata? - Horatio perguntou, ironicamente.

- A carga e os proprietários é que fazem com que seja pirata. Mas um navio é um navio, e este é um dos mais belos que já serviram ao homem - respondeu Glessing secamente, aborrecido com a brincadeira de Horatio. - Falando de coisas belas - disse ele, tentando não ser óbvio - será que você e a Srta. Sinclair aceitariam cear comigo esta noite? Gostaria de lhes mostrar o meu navio.

- É muita gentileza, George. Sim, aceito. E imagino que Mary ficará encantada. Ela nunca visitou uma fragata.

Talvez esta noite, disse Glessing a si mesmo, surja uma oportunidade para descobrir o que Mary sente a meu respeito.

- Mandarei uma chalupa buscá-los. Estará bem às três badaladas do sino... o último toque de três?

- É melhor às oito badaladas - disse Horatio, despreocupadamente, só para mostrar que sabia que às três badaladas seu relógio marcaria sete e meia, mas as oito horas seriam assinaladas por oito badaladas.

- Muito bem - disse Glessing. - A Srta. Sinclair será a primeira dama que vou receber a bordo.

Meu Deus, pensou Horatio, será que Glessing teria por Mary mais do que um interesse passageiro? Claro! O convite era realmente para ela, não para mim. Que coragem! Idiota enfarpelado! Pensar que Mary chegaria a considerar uma união dessas. Ou que eu permitiria que ela se casasse agora.

Um mosquete bateu ruidosamente nas pedras e eles deram uma olhadela em torno. Um dos fuzileiros desmaiara e estava caído na praia.

- Que diabo ele tem? - perguntou Glessing. O mestre-d’armas virou o jovem fuzileiro.

- Não sei, senhorrr. É o Norden, senhorrr. Há semanas que ele está se comportando de uma maneira esquisita. Talvez tenha a febre.

- Bom, deixe-o onde está. Reúna os marinheiros e fuzileiros ... aos botes! Quando todos estiverem a bordo, volte para pegá-lo.

- Sim, senhorrr. - O mestre-d’armas pegou o mosquete de Norden e o atirou para outro fuzileiro, fazendo em seguida os homens se afastarem, marchando.

Quando já era seguro mover-se, Norden - que tinha apenas fingido desmaiar - esgueirou-se e procurou abrigo sob alguns rochedos, escondendo-se. Oh, Cristo, protegei-me, até eu poder chegar ao Tai-Pan, ele rezava, desesperadamente. Jamais terei uma oportunidade como esta, outra vez. Protegei-me, ó Jesus abençoado, e ajudai-me a encontrá-lo antes que voltem à minha busca.

 

Brock estava em pé no tombadilho de seu navio, com o telescópio dirigido para as bandeiras. Ele decifrara o código de Struan há seis meses e entendeu a primeira mensagem. Agora, o que queria dizer aquele “Zenith”? Qual o significado? - perguntou a si mesmo. E o que haveria de tão importante com relação ao tratado otomano, a ponto de Struan se arriscar a ver a notícia dada assim abertamente, mesmo em código, em vez de em segredo, quando se encontrasse a bordo? Talvez saibam que decifrei o código. Talvez queiram que eu entenda, e “Zenith” signifique, para eles, que a mensagem é falsa. Crise e guerra significam que o preço do chá e da seda vai aumentar. E do algodão. É melhor comprar muito. Se for verdade. E talvez eu coloque a minha cabeça na armadilha de Struan. Onde diabo está o Gray Witch? Não é direito que tenha sido derrotado. Maldito Gorth! Ele me fez perder mil guinéus.

Gorth era seu filho mais velho, capitão do Gray Witch. Um filho que dava orgulho. Tão grande quanto ele, tão duro, tão forte, tão bom marinheiro como nunca houvera navegando pelos mares. Sim, um filho para sucedê-lo, e merecedor de ser o Tai-Pan dentro de um ano ou dois. Brock rezou silenciosamente pela segurança de Gorth e depois o amaldiçoou outra vez, por não estar à frente do Thunder Cloud.

Focalizou seu óculo de alcance na praia, onde Struan se encontrava com Robb, e desejou ouvir o que estavam dizendo.

- Com licença, Sr. Brock. - Nagrek Thumb era capitão do White Witch, um alto e robusto natural da Ilha de Man, com mãos grandes e um rosto da cor de carvalho em conserva.

- Sim, Nagrek?

- Está correndo um boato pela frota. Não creio muito nele, mas nunca se sabe. O boato é de que a Marinha está conseguindo poderes para nos fazer parar de contrabandear ópio. E assim poderemos ser presos como piratas.

Brock escarneceu.

- Seria mesmo uma coisa estrambólica.

- Também dei risada, Sr. Brock. Até ouvi dizer que a ordem vai ser dada às quatro badaladas. E até ouvi dizer que Struan disse a Longstaff que deveríamos ter, todos, seis dias de prazo para vender todo nosso estoque.

- Tem certeza? - Brock mal teve tempo de absorver a chocante notícia, quando foi distraído por uma movimentação no passadiço. Eliza Brock entrou pesadamente no convés. Era uma mulher grande, com braços grossos e a força de um homem; seu cabelo cinza-aço estava preso num coque frouxo. Estavam com ela suas duas filhas, Elizabeth e Tess.

- Bom-dia, Sr. Brock - disse Liza, batendo solidamente os pés no convés, com os braços cruzados sobre a enormidade de seu busto. - Dia bonito, puxa vida!

- Onde esteve, amor? Bom-dia, Tess. Olá, Lillibet, querida - disse Brock, com a adoração pelas filhas dominando-o.

Elizabeth Brock tinha seis anos e cabelos castanhos. Aproximou-se correndo de Brock e fez uma curvatura, quase caindo, depois pulou nos braços dele e o abraçou, fazendo-o rir.

- Estivemos em casa da Sra. Blair - disse Liza. - Ela está mesmo ruim.

- Vai perder o bebê?

- Não, se Deus quiser - disse Liza. - Bom-dia, Nagrek.

- Bom-dia, Madame - disse Thumb, tirando os olhos de Tess, que estava em pé na amurada, olhando em direção à ilha. Tess Brock tinha dezesseis anos, era alta e encurvada, com a cintura elegantemente fina. Seus traços eram marcados e ela não era bonita. Mas tinha um rosto forte e a vitalidade que nele existia tornava-o atraente. E muito desejável.

- Vou pegar um pouco de comida. - Liza notou a maneira como Nagrek olhara para Tess. Está em tempo de ela casar, pensou. Mas não com Nagrek Thumb, por Deus. - Desça daí, Tess. E cuide de você própria, Lillibet - disse, enquanto Elizabeth estendia os braços para ser carregada.

- Por favor, por favor, por favor, mãezinha. Por favor, por favor.

- Use suas próprias pernas, menina. - Mas, ainda assim, Liza acabou arrastando-a, com seu grande braço, e carregou-a para baixo. Tess seguiu-as e sorriu para o pai, fazendo com embaraço um aceno de cabeça para Nagrek.

- Tem certeza quanto a Struan e Longstaff? - perguntou Brock outra vez.

- Sim. - Nagrek virou-se para Brock, forçando a mente acalorada a não pensar na menina. - Um guinéu de ouro na mão de um homem torna longas suas orelhas. Tenho um espião na nau capitânia.

- Struan jamais iria concordar com isso. Não poderia. Ele iria ficar arruinado, como todos nós.

- Bom, foi dito com bastante certeza. Hoje de manhã.

- O que mais foi dito, Nagrek?

- Fui tudo que o espião ouviu.

- Então deve ser um truque... mais uma de suas sujas maldades.

- Sim. Mas o quê?

Brock começou a examinar possibilidades.

- Mande um recado para as lorchas. Levem todas as caixas de ópio para a costa. Enquanto isso, mande uma bolsa com vinte guinéus para nosso espião a bordo do China Cloud. Diga-lhe que receberá mais vinte se descobrir o que há por trás disso. Que tenha cuidado. Não queremos perdê-lo.

- Se Struan chegar a pegá-lo, ele vai nos mandar a sua língua.

- Junto com a cabeça. Aposto cinqüenta guinéus como Struan tem um homem seu a bordo do nosso navio.

- Aposto cem que está enganado - disse Thumb. - Todos os homens a bordo são de confiança!

- É melhor que eu nunca o pegue vivo em sua frente Nagrek.

 

- Mas por que ele sinalizaria “Zenith”? - Robb estava dizendo.

- Claro que iremos para bordo imediatamente.

- Não entendi - disse Struan. Zenith significava: “Proprietário venha para bordo - urgente.” Franziu a testa, olhando para o Thunder Cloud. O Mestre McKay estava fora do alcance da voz, na praia, mais adiante, esperando pacientemente.

- Vá você a bordo, Robb. Dê meus cumprimentos a Isaac e lhe diga para vir à praia imediatamente. Traga-o ao vale.

- Por quê?

- Há muitos ouvidos a bordo. Pode ser importante. - Depois, ele gritou - Mestre McKay!

- Sim, sim, senhorrr! Desculpe, senhorrr - disse Mestre McKay, desajeitadamente. - Tem um rapazola. Ramsey. No H.M.S. Mermaid, o navio de Glessing. Os Ramseys são parentes dos McKays. O primeiro-imediato acabou com o rapaz. Trinta chicotadas ontem e mais para amanhã. Ele foi recrutado em Glasgow.

- E daí? - Struan perguntou, com impaciência.

- Ouvi dizer, senhorrr - disse o mestre, cuidadosamente - que ele gostaria de encontrar emprego em algum lugar.

- Pelo sangue de Cristo, você é idiota? Não acolhemos desertores a bordo de nossos navios. Se recebermos um deles, sabendo o que é, poderíamos perder o navio... e com justiça!

- É verdade! Pensei que poderia comprá-lo - disse McKay depressa - porque vi como o Capitão Glessing é amigo seu. O dinheiro ganho por mim como prêmio iria ajudar, senhorrr. Ele é um bom rapaz e mudaria de navio, se não houvesse nenhum obstáculo.

- Vou pensar a respeito.

- Obrigado, senhorrr. - O mestre tocou em seu topete e disparou.

- Robb, se você fosse Tai-Pan, o que faria?

- Homens sob pressão são sempre perigosos, e jamais se deve confiar neles - disse Robb, imediatamente. - Então eu nunca o compraria. E agora vigiaria McKay. Talvez McKay seja agora um homem de Brock e tenha tramado tudo. Eu submeteria McKay a um teste e também um inimigo de McKay... e poria Ramsey na mesma lista, jamais voltando a confiar em suas informações.

- Você me disse o que eu faria - observou Struan com um toque de humor. - Eu perguntei o que você faria.

- Não sou Tai-Pan, então o problema não é meu. Se fosse, provavelmente não lhe diria, de qualquer jeito. Ou talvez dissesse e então faria o oposto. Para testar você. - Robb ficou satisfeito de poder odiar seu irmão, de vez em quando. Isto fazia com que gostasse muito mais do outro.

- Por que você tem medo, Robb?

- Eu lhe direi, dentro de um ano. - Robb caminhou atrás do mestre.

Durante algum tempo, Struan ficou pensando sobre seu irmão e o futuro da Casa Nobre; depois pegou uma garrafa de conhaque e começou a caminhar ao longo da abertura entre os rochedos, em direção ao vale.

A multidão dos negociantes diminuía, e alguns já partiram em suas chalupas. Outros ainda estavam comendo e bebendo e havia repentinas gargalhadas por causa de alguns que dançavam uma quadrilha escocesa.

- Senhor!

Struan parou e olhou para o jovem fuzileiro.

- Sim?

- Preciso de sua ajuda, senhor. Desesperadamente - disse Norden, com olhos estranhos e rosto pálido.

- Que ajuda? - Struan estava consciente, sombriamente, da arma à cintura do fuzileiro, uma baioneta.

- Estou com sífilis... apanhei com uma mulher. O senhor pode ajudar. Me dê o remédio, senhor. Farei tudo, qualquer coisa.

- Não sou médico, rapaz - disse Struan, com os pêlos do pescoço arrepiando-se. - Você já não deveria estar em seu barco?

- O senhor teve a mesma coisa. Mas tinha o remédio. Tudo que eu quero é o remédio. Farei qualquer coisa - a voz de Norden era um grasnido e seus lábios estavam com respingos de espuma.

- Jamais tive essa doença, rapaz. - Struan notou o mestre-d’armas que se encaminhava para eles, gritando algo que parecia um nome.

- É melhor você ir para seu barco, rapaz. Estão esperando você.

- O remédio. Diga-me como. Tenho minhas economias, senhor. - Norden puxou um trapo sujo, amarrado com um nó, e o ofereceu orgulhosamente, com o rosto coberto de suor. - Sou econômico e aqui está... tem cinco xelins completos e quatro pence, senhor, isto é tudo que tenho no mundo, e tem também o meu pagamento, vinte xelins por mês, que o senhor pode guardar. Pode ficar com tudo, senhor, juro por Cristo, senhor!

- Nunca tive essa doença apanhada com as mulheres, rapaz. Nunca.

Struan disse outra vez, com o coração oprimido à lembrança de sua infância, quando riqueza eram moedas e não barras de prata valendo dezenas de milhares de taéis. E vivendo outra vez o horror inesquecível de toda sua juventude - sem dinheiro, sem esperança, sem calor, sem teto, e os estômagos inchados e protuberantes das crianças. Deus do céu, eu posso esquecer minha própria fome, mas nunca a das crianças, nunca seus gritos, sob o vento enregelante, num canto de sarjeta.

- Farei tudo, tudo, senhor. Aqui. Posso pagar. Não quero nada por nada. Aqui, senhor.

O mestre-d’armas aproximava-se, pela praia.

- Norden! - gritou ele, zangado. - Você vai levar cinqüenta chicotadas por sair do alinhamento, por Deus!

- Seu nome é Norden?

- Sim, senhor. Bert Norden. Por favor. Só quero o remédio. Ajude-me, senhor. Aqui. Fique com o dinheiro. É todo seu, e haverá mais. Em nome de Jesus Cristo, ajude-me!

- Norden! - gritou o mestre-d’armas, a cem metros de distância, vermelho de raiva. - Pelo sangue de Deus, venha cá, seu filho da mãe!

- Por favor, senhor - dizia Norden, com crescente desespero - ouvi dizer que foi curado pelos pagãos. O senhor comprou o remédio aos pagãos!

- Você ouviu uma mentira. Não há remédio chinês, que eu saiba. Nenhum remédio. Nenhum. É melhor você voltar para seu navio.

- Claro que há remédio! - Norden gritou. Ele puxou sua baioneta. - Me diga onde conseguir, ou então vou abrir sua barriga a faca!

O mestre-d’armas começou a correr horrorizado.

- Norden!

Algumas pessoas na praia viraram-se, espantadas: Cooper, Horatio e um outro. Começaram a correr em direção a eles.

Então, a cabeça de Norden estalou e, balbuciando e espumando, ele se atirou contra Struan e dirigiu-lhe uma perversa cutilada, mas Struan deu um passo para o lado e esperou-o sem medo, sabendo que poderia matar Norden no momento que quisesse.

Pareceu a Norden que ele estava cercado de demônios gigantescos, todos com o mesmo rosto, mas não podia jamais tocar nenhum deles. Sentiu o ar explodir para fora de seus pulmões e a praia bateu-lhe no rosto, enquanto ele parecia suspenso numa agonia indolor. Depois, foi a escuridão.

O mestre-d’armas virou Norden de frente e tornou a lhe dar um soco. Agarrou Norden e sacudiu-o, como se fosse uma boneca de trapos, atirando-o em seguida outra vez ao chão.

- Que diabo aconteceu com ele? - perguntou, levantando-se, com o rosto turvo de raiva. - O senhor está bem, Sr. Struan?

- Sim.Cooper, Horatio e alguns dos negociantes aproximaram-se às carreiras.

- O que aconteceu?

Struan, cuidadosamente, virou Norden com o pé.

- O pobre louco apanhou a doença com mulheres.

- Cristo! - disse o mestre-d’armas, nauseado.

- É melhor se afastar dele, Tai-Pan - disse Cooper. - Se respirar seu fluxo poderá pegar a doença.

- O pobre louco pensou que eu tinha contraído a doença e me curara. Em nome de Deus, se eu soubesse a cura para isso, eu seria o homem mais rico da terra.

- Vou mandar pôr esse patife a ferros, Sr. Struan - disse o mestre-d’armas. - O Capitão Glessing vai fazer ele desejar nunca ter nascido.

- Basta arranjar uma pá - disse Struan. - Ele está morto. Cooper rompeu o silêncio.

- Primeiro dia, primeiro sangue. Mau pagode.

- De acordo com o costume chinês, não - disse Horatio, distraidamente, sentindo-se mal. - Agora seu fantasma vai velar este lugar.

- Seja bom ou mau agouro - disse Struan - o pobre rapaz está morto.

Ninguém lhe deu resposta.

- Que Deus tenha piedade de sua alma - disse Struan.

Depois virou-se e seguiu pela linha da arrebentação em direção a oeste, para o espinhaço de montanha que descia do alto da serraria e quase tocava o mar. Ele estava cheio de pressentimentos, enquanto bebia o ar limpo e bom, e sentia o cheiro penetrante da espuma do mar. Mau pagode, disse a si mesmo. Muito mau.

Ao se aproximar do espinhaço, sua premonição se intensificou e quando, afinal, chegou ao vale onde decidira que a cidade seria construída, sentiu pela terceira vez um imenso ódio rodeando-o.

- Bom Deus - disse alto. - O que há comigo?

Jamais sentira antes um terror tão grande. Tentando mantê-lo sob controle, enviesou os olhos em direção ao outeiro onde ficaria a Grande Casa e, abruptamente, percebeu por que a ilha era hostil. Riu alto.

- Se eu fosse você, ilha, eu odiaria a mim, também. Você odeia o plano! Bom, eu lhe digo, ilha, o plano é bom, por Deus! Bom, está ouvindo? A China precisa do mundo e o mundo precisa da China. E você é a chave para abrir os portões da China e sabe disso, e eu sei disso, e é o que eu vou fazer, e você vai ajudar!

Pare com isso, disse ele a si próprio. Você está agindo como um louco. Sim, e todos pensariam que você está louco, se lhes dissesse que sua intenção secreta não é apenas a de ficar rico com o comércio e ir embora. Mas usar as riquezas e o poder para abrir a China ao mundo e, particularmente, à cultura britânica e à lei britânica, de modo que cada um possa aprender com o outro e crescer, em benefício de ambos. Sim. É o sonho de um louco.

Mas ele tinha certeza de que a China possuía algo especial para oferecer ao mundo. O que, ele não sabia. Um dia, talvez fosse descobrir.

- E nós temos algo especial para oferecer também - Struan continuou, em voz alta - se você quiser receber. E se a oferta não for conspurcada na entrega. Você é solo britânico, seja isto bom ou ruim. Nós a trataremos com carinho e a transformaremos no centro da Ásia... que é o mundo. Empenho a Casa Nobre no plano. Se virar as costas para nós, será o que é agora. . . um insignificante pontinho árido, formado por um inútil rochedo estéril ... e você morrerá. E, finalmente, se a Casa Nobre algum dia virar as costas para você... pode destruí-la com a minha bênção.

Ele escalou o outeiro e, desembainhando seu punhal, cortou dois longos ramos. Partiu um deles ao meio, encravou-o ao chão e com o outro formou uma cruz tosca. Banhou a cruz com conhaque e ateou-lhe fogo.

Aqueles que, na armada, podiam ver o vale e notaram a fumaça e as chamas, pegaram seus óculos de alcance e viram a cruz em chamas e o Tai-Pan a seu lado, e estremeceram, supersticiosamente, a imaginar que feitiçaria ele estaria fazendo. Os escoceses sabiam que a queima de uma cruz era uma convocação do clã e de todos os parentes, de todos os clãs aparentados: um chamado para todos se reunirem diante da cruz, e partirem em combate.

E a cruz em chamas só era erguida pelo chefe do clã. Segundo a lei antiga, uma vez erguida, a cruz em chamas comprometia o clã a defender a terra até à extinção do clã.

 

- Bem-vindo a bordo, Robb - disse o Capitão Issac Perry. - Quer chá?

- Obrigado Isaac - Robb sentou-se, bem reclinado, aprazivelmente, na funda poltrona de couro, sentindo seu travoso perfume, e esperou. Ninguém conseguia apressar Perry, nem mesmo o Tai-Pan.

Perry despejou o chá em xícaras de porcelana.

Era magro, mas incrivelmente forte. Seu cabelo tinha a cor do cânhamo envelhecido, marrom com fios de prata e negro. Sua barba era grisalha e o rosto marcado de cicatrizes, e cheirava a cânhamo alcatroado e espuma salgada.

- A viagem foi boa? - perguntou Robb.

- Excelente.

Robb estava feliz, como sempre, por se encontrar na cabine principal. Era grande e luxuosa, como todos os alojamentos. As instalações, no navio inteiro, eram de latão, cobre e mogno, e as velas de tela de melhor qualidade, com cordas sempre novas. Canhões perfeitos. A melhor pólvora. A política do Tai-Pan, em toda sua frota, era dar aos oficiais - e homens - os melhores alojamentos e comida de qualidade superior, além de uma parcela nos lucros, havendo ainda, sempre um médico a bordo. E os açoites eram proibidos. Havia apenas um castigo para a covardia ou a desobediência, tanto para oficiais como para marinheiros: serem obrigados a desembarcar no primeiro porto e jamais receberem uma segunda chance. Então os marinheiros e oficiais lutavam para fazer parte da frota, e jamais havia um lugar vago.

O Tai-Pan nunca esquecera seus primeiros navios, e os castelos de proa e os chicoteamentos. Nem os homens que os ordenavam. Alguns haviam morrido, antes de encontrá-los. Os que encontrou, destruiu. Só em Brock não tinha tocado.

Robb não sabia por que seu irmão poupara Brock. Ele estremecia, sabendo que, fosse qual fosse a razão, um dia haveria um ajuste de contas.

Perry pôs uma colherada de açúcar e leite condensado. Entregou a Robb uma xícara e depois se sentou atrás da escrivaninha de mogno e ficou observando em torno, com seus olhos fundos sob sobrancelhas hirsutas.

- O Sr. Struan está com saúde?

- Como sempre. Esperava que ele estivesse doente?

- Não.

Houve uma batida na porta da cabina.

A porta se abriu e Robb abriu a boca diante do jovem que estava em pé ali.

- Deus do céu, Culum, meu rapaz, de onde você veio? - Levantou-se cheio de excitação, derrubando sua xícara. “Despachos muito importantes”, na verdade, e, naturalmente, “Zenith”!

Culum Struan entrou na cabina e fechou a porta. Robb segurou-o com afeto pelos ombros e depois notou sua palidez e as faces cavadas.

- O que há de errado, rapaz? - ele perguntou, cheio de ansiedade.

- Estou muito melhor, obrigado, tio - disse Culum, com a voz fraca.

- Melhor do que, meu filho?

- A peste, a peste de Bengala - disse Culum, confuso. Robb virou-se para Perry.

- Você tem peste a bordo? Em nome de Deus, por que não está com a bandeira amarela?

- Claro que não há peste a bordo! Foi na Escócia, meses atrás. - Perry parou. - Scarlet Cloud! Nunca chegou?

- Está com atraso de quatro semanas. Nem uma só notícia, nada. O que aconteceu? Diga, homem.

- Devo contar a ele, Culum, meu rapaz, ou você contará?

- Onde está papai? - perguntou Culum a Robb.

- Na praia. Ele está esperando por vocês na praia. No vale. Pelo amor de Deus, o que aconteceu, Culum?

- A peste chegou a Glasgow em junho - disse Culum, obtusamente. - Dizem que chegou outra vez num navio. De Bengala, na índia. Primeiro atingiu Sutherland, depois Edimburgo, e enfim chegou até nós, em Glasgow. Mamãe está morta, Ian, Lechie, Vovó... Winifred está tão fraca que não vai durar. Vovô está tomando conta dela. - Ele fez um gesto desamparado e se sentou no braço da cadeira. - Vovó está morta. Mamãe. Tia Uthenia e os bebês, e o marido dela. Dez, vinte mil pessoas morreram, entre junho e setembro. Depois, a peste desapareceu. Simplesmente desapareceu.

- Roddy? E Roddy? Meu filho está morto? - perguntou Robb, cheio de angústia.

- Não, tio. Roddy está ótimo. Ele não foi atingido.

- Tem certeza, tem, Culum? Meu filho está salvo?

- Sim. Eu o vi na véspera da minha partida. Muito poucos em sua escola contraíram a peste.

- Graças a Deus!

Robb estremeceu, lembrando-se da primeira onda de peste que misteriosamente varrera a Europa, há dez anos. Cinqüenta mil mortes, só na Inglaterra. Um milhão na Europa. Milhares em Nova York e em Nova Orleans. Alguns chamavam esta peste por um novo nome - cólera.

- Sua mãe está morta? - disse Robb, sem acreditar. - Ian, Lechie, a Vovó?

- Sim. E tia Susan e prima Clair, e tia Uthenia, e primo Donald e o pequeno Stewart e...

Houve um silêncio monstruoso. Perry rompeu-o, nervosamente.

- Quando ancorei em Glasgow, bom, o garoto Culum estava sozinho. Não sabia o que fazer, então achei melhor trazê-lo a bordo. Partimos um mês depois do Scarlet Cloud.

- Você fez bem, Isaac - Robb ouviu a si próprio dizer. Como iria comunicar a Dirk? - É melhor eu ir. Farei sinal a vocês para desembarcarem. Fiquem a bordo.

- Não. - Culum disse isso alto, como se falasse para si próprio, lá no fundo de si mesmo. - Não. Eu desembarcarei primeiro. Sozinho. É melhor. Verei papai sozinho. Devo contar a ele. Irei para a praia sozinho. - Ele se levantou e, tranquilamente, caminhou para a porta, com o navio balançando suavemente, ao doce ruído das ondas que o lambiam, e partiu. Depois, lembrou-se de alguma coisa e voltou para a cabina. - Levarei os despachos - disse ele com sua vozinha fraca. - Ele vai querer ver os despachos.

 

Quando a chalupa se afastou do Thunder Cloud, Struan estava no outeiro onde iria ficar a Grande Casa. Logo que viu seu filho mais velho no meio da nau, seu coração disparou.

- Culummmmm! - ele gritou exultante, do alto do outeiro. Arrancou seu casaco e acenou com ele, freneticamente, como um náufrago há seis anos isolado numa ilha e que vê o primeiro navio. - Culummmmmm!

Ele correu num ímpeto, através das ásperas sarças, sem se importar com os espinhos, e esquecido do caminho que levava da praia à vila de pescadores e aos refúgios de piratas na extremidade sul da ilha, passando por sobre a serrania. Esqueceu tudo, exceto que ali estava seu querido filho, no primeiro dia. Mais depressa. Agora ele estava correndo pela praia, cheio de êxtase.

Culum viu-o primeiro.

- Ali. Parem ali. - Apontou o local mais próximo de desembarque.

Mestre McKay girou a cana do leme.

- Força, queridos - disse, exortando os homens a remarem mais rápido para a praia.

Todos sabiam agora, e a notícia voava por toda a frota - e, com ela, a ansiedade. Entre Sutherland e Glasgow viviam muitos parentes de todos e, na cidade de Londres, a maioria do resto. Culum levantou-se e escorregou pela amurada, entrando na água rasa.

- Deixem-nos sós. - Ele, começou a caminhar em direção à praia.

Struan correu para as ondas que varriam a praia, dirigindo-se diretamente para seu filho, e viu as lágrimas, e gritou:

- Culum, meu garoto.

Culum parou por um momento, desamparado, afogando-se na abundância da alegria de seu pai. Depois, começou também a correr através das ondas e, finalmente, encontrou-se na segurança dos braços do pai. E todo, o horror daqueles meses explodiu como um abscesso e ele chorava, apertando-o, apertando-o, e então Struan acariciou o filho e carregou-o em seus braços para a praia, murmurando:

- Culum, meu garoto... Ah, meu menino... E Culum soluçava:

- Estamos mortos... estamos todos mortos... Mãezinha, Ian, Lechie, vovó, as tias, prima Clair... estamos todos mortos, papai. Só restaram eu e Winifred, e ela agora deve estar morta. - Ele repetia os nomes várias vezes, e eram facadas nas entranhas de Struan.

Mais tarde, Culum dormiu, exausto, afinal seguro, na força e no calor. Seu sono foi sem sonhos, pela primeira vez desde que a peste chegara. Dormiu aquele dia, e a noite, e parte do dia seguinte, e Struan o embalava, balançando-o suavemente.

Struan não notou a passagem do tempo. Algumas vezes falava com sua mulher e filhos - Ronalda, Ian, Lechie e Winifred - como se estivessem sentados na praia, a seu lado. Outras vezes, quando iam embora, ele os chamava, baixinho, para não acordar Culum e, mais tarde, eles voltavam. Em certos momentos, cantava as suaves canções de ninar que Ronalda usava para pôr seus filhos para dormir. Ou as gaélicas de sua mãe, ou de Catherine, sua segunda mãe. Acontecia também um nevoeiro cobrir-lhe a alma, e ele nada via.

Quando Culum acordou, sentia-se em paz.

- Olá, papai.

- Você está bem, rapaz?

- Agora, estou bem. - Ele se levantou.

Estava frio na praia, à sombra do rochedo, mas ao sol ficava mais quente. A frota estava tranqüilamente ancorada e os navios-tênderes navegavam velozmente, de um lado para outro. Havia menos navios do que antes.

- É ali que ficará a Grande Casa? - perguntou Culum, apontando para o outeiro.- Sim. É ali que podemos morar no outono, até à primavera. O clima é ótimo, então.

- Como se chama o vale?

- Não tem nome. - Struan movimentou-se para o sol e tentou dominar a dor entranhada em seus ombros e nas costas.

- Deveria ter um nome.

- A pequena Karen, sua prima Karen, a filha mais nova de Robb, quer chamá-lo Vale Feliz. Teríamos sido felizes ali. - voz de Struan ficou mais carregada. - Eles sofreram muito?

- Sim.

- Você vai me contar como foi?

- Agora não.

- A pequena Winifred. Ela morreu antes de você partir?

- Não. Mas estava muito fraca. Os médicos disseram que estando tão fraca... Os médicos só deram de ombros e foram embora.

- E o avô?

- A peste nunca o atingiu. Ele chegou como o vento até nós, e então levou Winifred. Fui para a casa de tia Uthenia para ajudar. Mas não ajudei.

Struan encarava o porto, sem vê-lo.

- Você contou ao tio Robb?

- Sim. Acho que sim.

- Pobre Robb. É melhor eu ir para bordo. - Struan estendeu a mão e pegou os despachos, meio enterrados na areia. Estavam fechados. Ele limpou a areia.

- Desculpe - disse Culum. - Eu esqueci de entregá-los a você.

- Nada, rapaz. Você os entregou - Struan viu uma chalupa dirigindo-se para a praia. Isaac Perry estava à popa.

- Boa-tarde, Sr. Struan - disse Perry, cautelosamente. - Meus pêsames pela perda que sofreu.

- Como está Robb?

Perry não respondeu. Ele caminhou para a praia e gritou à tripulação: “Depressa!” e Struan ficou imaginando, em sua mente ferida e obscurecida, por que Perry tinha medo dele. Não havia razão para ter medo. Nenhuma.

Os homens carregaram para a praia uma mesa, bancos, e alimento, chá, conhaque e roupas.

- Depressa! - Perry repetiu, com irritação. - E vão embora! Para longe daqui, para o inferno, mas fiquem afastados!

Os remadores empurraram rapidamente a chalupa, fazendo-a retroceder, ficaram por sobre as ondas, satisfeitos de estarem longe. Struan ajudou Culum a vestir roupas secas e depois enfiou-se numa camisa limpa, pregueada, e num jaquetão mais quente. Perry ajudou-o a tirar suas botas encharcadas.

- Obrigado - disse Struan.

- Está doendo? - perguntou Culum, vendo as botas.

- Não.

- Quanto ao Sr. Robb, senhor - disse Perry. - Depois que Culum saiu, ele foi procurar bebida. Eu lhe disse que não, mas não quis ouvir. - Ele continuou, com hesitação. - O senhor tinha dado ordens. Então, a cabina ficou meio torta, mas eu tirei a bebida de suas mãos. Quando ele voltou a si, estava bem. Eu o levei a bordo do China Cloud e entreguei-o à sua mulher.

- Fez bem, Isaac. Obrigado.

Struan ajudou Culum a se servir de alimento - carne cozida, bolinhos de massa, frango frio, batatas, biscoitos duros de bordo - e pegou um canecão de estanho cheio de chá quente e doce para si próprio.

- Sua Excelência envia suas condolências. Ele gostaria que o senhor subisse a bordo, quando lhe convier.

Struan esfregou o rosto e sentiu o espetar da barba, imaginando logo por que sempre se sentia sujo, quando tinha as faces não barbeadas e os dentes sem escovar.

- Sua navalha está ali - disse Perry, indicando uma mesa lateral. Ele previra a necessidade que Struan sentiria de se arrumar. O Tai-Pan tinha uma fanática obsessão com seu asseio pessoal. - Tem água quente.

- Obrigado.

Struan encharcou uma toalha na água e limpou o rosto e a cabeça. Em seguida, cobriu o rosto de sabão e se barbeou habilmente, sem espelho. Depois, mergulhou uma pequena escova em seu canecão de chá e começou a limpar os dentes, vigorosamente. Enxaguou a boca com chá e atirou fora o resíduo. Lavou o canecão com chá fresco e tornou a enchê-lo, bebendo grande quantidade. Havia um pequeno vidro de água-de-colônia junto às suas coisas de barbear, e ele derramou algumas gotas nas mãos, esfregando-as no rosto.

Sentou-se, reanimado. Culum só brincava com a comida.

- Você precisa comer, rapaz.

- Não tenho fome, obrigado.

- Coma, de qualquer jeito. - O vento agitou os cabelos vermelho-dourados de Struan, que os usava compridos e lisos, e ele os escovou para trás. - Minha tenda está armada, Isaac?

- Claro. O senhor deu ordens. Está num outeiro, acima do local onde se encontra o pau da bandeira.

- Diga a Chen Sheng, em meu nome, para ir a Macau comprar mel e ovos frescos. E conseguir ervas chinesas que curem as indisposições e seqüelas resultantes da peste de Bengala.

- Eu estou bem, pai, obrigado - Culum protestou, fracamente. - Não preciso de nenhuma infusão de feiticeiros pagãos.

- Não são feiticeiros iguais aos que conhecemos como tal - disse Struan. - E são chineses, não pagãos. Já me salvaram muitas vezes. O Oriente não é como a Europa.

- Não precisa se preocupar comigo, pai.

- Preciso, sim. O Oriente não é lugar para os fracos. Isaac, mande o China Cloud a Macau, com Chen Sheng e, se não voltar em tempo recorde, o Capitão Orlov e todos os oficiais estarão desligados. Chame a chalupa.

- Talvez Culum devesse ir para Macau no navio, Sr. Struan.

- Ele vai ficar sob minhas vistas até eu considerar que está bom.

- Ele seria bem tratado em Macau. A bordo não há...

- Pelo sangue de Deus, Isaac, não vai fazer o que eu disse? Chame a chalupa.

Perry enrijeceu-se instantaneamente e gritou para a chalupa vir à praia.

Struan, com Culum a seu lado, sentou-se a meia-nau, Perry estava atrás deles.

- Para a nau capitânia! - Struan ordenou, verificando automaticamente a posição de seus navios, o vento, e estudando as nuvens, numa tentativa de ler sua mensagem de tempo. O mar estava calmo. Mas ele pressentia perturbações.

A caminho da nau capitânia, Struan leu os despachos. Lucros relativos ao chá do ano passado, bom. Perry fizera uma viagem lucrativa, bom. Uma cópia da conta da carga do Scarlet Cloud, comprada por Perry em Calcutá, ruim: duzentas e dez mil libras esterlinas de ópio perdidas. Graças a Deus, o navio estava no seguro - embora isto não fosse substituir os homens e o tempo perdido, enquanto outro navio estava em construção. A carga de ópio era contrabando e não poderia ser segurada. Lucro de um ano desaparecera. O que acontecera com a embarcação? Tempestade ou pirataria? Tempestade, mais provavelmente. A não ser que tivesse deparado com um dos navios corsários espanhóis, franceses ou americanos - sim, ou ingleses - que infestavam os mares. Finalmente, ele rompeu o selo da carta de seu banqueiro. Leu-a e explodiu de raiva.

- O que é? - Culum perguntou, assustado.

- Apenas uma dor antiga. Nada. Não é nada. - Struan fingiu ler o próximo despacho enquanto, interiormente, estava cheio de raiva com o conteúdo da carta. - Meu Deus do céu! “Lamentamos informar-lhe que, inadvertida e momentaneamente, o crédito foi exageradamente ampliado e houve uma corrida ao banco, iniciada por malignos rivais. Por isso, não podemos mais manter nossas portas abertas. A junta diretiva determinou que poderemos pagar seis centavos por libra. Tenho a honra de ser, senhor, seu mais obediente criado...” E temos quase um milhão de libras esterlinas em letras deles. Vinte e cinco mil libras esterlinas por um milhão, e nossas dívidas elevando-se a quase um milhão de libras esterlinas. Estamos em bancarrota. Meu Deus, adverti Robb para não colocar todo o dinheiro num só banco. Principalmente com toda a especulação que estava sendo feita na Inglaterra, um banco podendo emitir papel-moeda na quantia que quisesse.

“Mas esse banco é seguro”, dissera Robb, “e precisamos do dinheiro num só bloco, para garantir empréstimos” - e Robb continuara explicando os detalhes de uma complicada estrutura financeira que envolvia bônus espanhóis, franceses e alemães e bônus da Dívida Nacional e, no final, dava a Struan e Companhia uma posição bancária internacionalmente segura e um enorme poder aquisitivo para expandir a frota, como Struan queria, e comprar para a Casa Nobre privilégios especiais em lucrativos mercados alemães, franceses e espanhóis.

- Muito bem, Robb - ele disse, sem entender as complicações, mas confiando que as palavras de Robb fossem sábias.

Agora, estavam quebrados. Bancarrota.

Deus do céu!

Ele ainda se achava espantado demais para pensar numa solução. Só conseguia se deter no que havia de terrível na Nova Era. A sua complexidade. Sua inacreditável velocidade. Uma nova rainha - Vitória - a primeira monarca popular em séculos. E seu marido, Albert - não sabia muita coisa a seu respeito ainda, pois ele era um maldito estrangeiro de Saxe-Coburg, mas agora o Parlamento se tornara forte e controlava a situação, e o desenvolvimento aumentara. Paz por vinte e seis anos e nenhuma grande guerra iminente - o que não ocorria há centenas de anos. O Demônio Bonaparte seguramente morto, a violenta França bem contida e a Inglaterra dominando o mundo pela primeira vez. A escravidão proibida há oito anos. Canais, um novo método de transporte. Estradas com pedágio, cujas superfícies eram de uma suavidade e permanência até então desconhecidas, fábricas, indústrias, teares, produção em massa, ferro e carvão, companhias de capital social e tantas outras coisas novas dentro dos últimos dez anos: o correio por vinténs, o primeiro correio barato do mundo, a primeira força policial, e o “magnetismo” - fosse isto que diabo fosse - e martelo mecânico a vapor, o primeiro Decreto das Fábricas e o Parlamento, afinal, tirado das mãos dos poucos ricos e aristocráticos proprietários de terras, de modo que, agora, inacreditavelmente, qualquer homem na Inglaterra que possuísse um negócio rendendo vinte libras por ano poderia votar, poderia realmente votar, e qualquer homem poderia tornar-se Primeiro-Ministro. E a incrível Revolução Industrial, e a Grã-Bretanha fantasticamente rica, e suas riquezas começando a se disseminar. Novas idéias sobre o governo e a humanidade rompendo barreiras de séculos. Todas britânicas, todas novas. E agora, a locomotiva!

- Essa é uma invenção que vai abalar o mundo - murmurou.

- O que disse, papai? - Culum perguntou. Struan voltou a si.

- Eu só estava pensando a respeito de nosso primeiro passeio num trem - ele inventou.

- Já esteve num trem, senhorrr? - perguntou McKay. - Como é? Quando foi isso?

- Fizemos a viagem inaugural da locomotiva de Stephenson, a Rocket. Eu tinha doze anos - Culum disse.

- Não, rapaz - disse Struan - você tinha onze. Foi em 1830. Há onze anos. Era a viagem inaugural da Rocket, o primeiro trem de passageiros do mundo. De Manchester a Liverpool. De diligência, demoraria um dia, mas fizemos a viagem em hora e meia.

E, outra vez, Struan começou a meditar sobre o destino da Casa Nobre. Depois lembrou-se das instruções que dera a Robb para pedir emprestado todo dinheiro que pudesse, a fim de açambarcarem o mercado do ópio. Vamos ver - poderíamos ganhar entre cinqüenta e cem mil libras esterlinas, com isso. Sim - mas é uma gota d'água, para o que precisamos. Os três milhões que nos devem pelo ópio roubado! Sim, mas não poderemos recebê-los, até o tratado ser ratificado - e isso levará entre seis e nove meses - e precisaremos saldar nossos saques dentro de três!

Como conseguir dinheiro à vista? Nossa posição é boa - nosso conceito é bom. Embora haja hienas salivando em nossos calcanhares. Brock em primeiro lugar. Cooper-Tillman também. Será que Brock iniciou a corrida ao banco? Ou foi seu lacaio Morgan? Os Brocks têm poder suficiente, e dinheiro suficiente. É de dinheiro à vista que precisamos. Ou um grande empréstimo. Apoiados por dinheiro vivo, não papéis. Estamos na bancarrota. Pelo menos estaremos na bancarrota, se nossos credores caírem em cima de nós.

Sentiu a mão do filho em seu braço.

- O que disse, rapaz? Estava falando do Rocket?

Culum estava muito perturbado com a palidez de Struan e o verde penetrante e luminoso de seus olhos.

- A nau capitânia. Já chegamos.

Culum seguiu seu pai, no convés. Jamais estivera a bordo de um navio de guerra, quanto mais uma embarcação capitânia. O H.M.S. Titan era uma das poderosas naves do mar. Era grande - três mastros - com 74 canhões montados em três conveses de tiro. Mas Culum não ficou impressionado. Não dava importância a navios e detestava o mar. Tinha medo da sua violência, do seu perigo e enormidade, e não sabia nadar. Ficou imaginando como seu pai poderia amar o mar.

Há tanta coisa que não sei a respeito de meu pai, pensou. Mas não é de estranhar. Só o vi umas poucas vezes em minha vida, e a última foi há seis anos. Papai não mudou. Mas eu, sim. Agora sei o que vou fazer com a minha vida. E agora que estou sozinho. Gosto de estar sozinho e, ao mesmo tempo, detesto.

Ele seguiu o pai pelo passadiço e entrou no principal convés de tiro. Tinha o teto baixo e eles precisavam curvar-se, enquanto caminhavam em direção à popa, onde se encontrava a cabina com a sentinela. O navio todo cheirava a pólvora, alcatrão, cânhamo e suor.

- Bom-dia, senhor - disse o fuzileiro a Struan, com o mosquete formalmente apontado para ele. - Mestre-d’armas!

O mestre-d’armas, com uniforme vermelho e resplendentes acessórios brancos, engomados, saiu batendo os pés da cabina do guarda. Ele era duro como uma bala de canhão e tinha a cabeça tão redonda quanto ela.

- Bom-dia, Sr. Struan. Espere um momento, senhor. - Ela bateu com deferência na porta de carvalho da cabina. Uma voz disse: “Entre”, e ele fechou a porta atrás de si.

Struan tirou um charuto e ofereceu-o a Culum.

- Já está fumando agora, meu rapaz?

- Sim. Obrigado, papai.

Struan acendeu o charuto de Culum e outro para si próprio. Ele se encostou num dos canhões de doze polegadas de comprimento. As balas do canhão estavam empilhadas ordenadamente, sempre à mão. Balas de trinta quilos.

A porta da cabina se abriu. Longstaff, homem esguio e buliçoso, saiu. Seu cabelo era escuro, com elegantes cachos e suíças bastas. Tinha uma testa alta e olhos escuros. A sentinela apresentou armas e o mestre-d’armas voltou para a cabina do guarda.

- Olá, Dirk, meu caro amigo. Como vai? Fiquei tão triste ao saber da notícia. - Longstaff apertou a mão de Struan, nervosamente, depois sorriu para Culum e ofereceu a mão outra vez. - Você deve ser Culum. Eu sou William Longstaff. Sinto que tenha vindo em circunstâncias tão terríveis.

- Obrigado, Excelência. - disse Culum, espantado com o fato de ser tão jovem o Capitão-Superintendente do Comércio.

- Incomoda-se de esperar um momento, Dirk? Uma conferência com o almirante e os capitães. Voltarei em poucos minutos. - Longstaff disse, com um bocejo. - Tenho uma porção de coisas para lhe falar. Se estiver preparado.

- Sim.

Longstaff olhou ansiosamente para o relógio de bolso de ouro, com pedras preciosas encravadas, que pendia de seu colete de brocado.

- Quase onze horas! Não parece nunca haver tempo suficiente! Gostaria de descer para o salão dos oficiais?

- Não. Esperaremos aqui.

- Fiquem à vontade. - Longstaff rapidamente tornou a entrar na cabina e fechou a porta.

- Ele é muito jovem para ser o plenipotenciário, não é? - perguntou Culum.

- Sim e não. Ele tem trinta e seis anos. Os impérios são construídos por jovens, Culum. São perdidos pelos velhos.

- Ele não parece inglês, absolutamente. Será galês?

- Sua mãe é espanhola. - O que explicava sua veia cruel, pensou Struan. - Ela era condessa. O pai era diplomata credenciado junto à corte espanhola. Foi um desses casamentos “de boa estirpe”. A família dele tem ligação com os condes de Toth.

Quando não se nasce aristocrata, pensou Culum, por mais inteligente que se seja não há esperança. Nenhuma esperança. A não ser com uma revolução.

- As coisas estão muito ruins na Inglaterra - disse ele ao pai.

- Como assim, rapaz?

- Os ricos estão ricos demais e os pobres demasiado pobres. As pessoas afluem em massa para as cidades, procurando emprego. E seu número é maior do que o das ocupações disponíveis. O povo está morrendo de fome. Os líderes do movimento de reforma democrática ainda se encontram na prisão.

- Também tem o seu lado positivo. Aqueles miseráveis agitadores deveriam ter sido enforcados ou deportados, não apenas colocados na prisão.

- Não aprova a Carta? - Culum ficou repentinamente em guarda. A Carta do Povo fora escrita há menos de três anos e agora se tornara o símbolo da luta pela liberdade, para todos os descontentes da Grã-Bretanha. A Carta pedia que todo homem tivesse o direito de votar, a abolição da qualificação à propriedade para os membros do Parlamento, distritos eleitorais equitativos, votação em pleito secreto, Parlamentos anuais e salários para os membros do Parlamento.

- Aprovo como um documento com reivindicações justas, mas não aprovo os cartistas e seus líderes. A Carta é como uma porção de boas idéias... que caem nas mãos dos líderes errados.

- Não é errado agitar para defender reformas. O Parlamento precisa fazer mudanças.

- Agitar, sim. Conversar, discutir, escrever petições, mas não incitar a violência e comandar revoluções. O Governo estava certo ao sufocar as rebeliões em Gales e Midlands. A insurreição não é uma solução, por Deus. Há histórias no sentido de que os cartistas ainda não aprenderam sua lição e estão comprando armas e mantendo reuniões secretas. Deveriam ser postos a correr, por Deus.

- Não se pode pôr a Carta a correr. Muitos a desejam e estão preparados para morrer por ela.

- Então haverá uma porção de mortes, rapaz. Se os cartistas não se encherem de paciência.

- Você não sabe o que são agora as Ilhas Britânicas, papai. Você ficou aqui muito tempo. É difícil ter paciência com a barriga vazia.

- A mesma coisa acontece na China. É igual no mundo inteiro. Mas a revolta e a insurreição não estão de acordo com a natureza britânica.

Logo estarão, pensou Culum, sombriamente, se não forem feitas reformas. Ele lamentava agora ter partido de Glasgow para o Oriente. Glasgow era o centro dos cartistas escoceses, e ele era líder dos estudantes que, em segredo, comprometeram-se a trabalhar e suar - morrer, se necessário - para a causa cartista.

A porta da cabina se abriu outra vez e a sentinela enrijeceu-se. O almirante, um homem corpulento, saiu com o rosto tenso e zangado, e se dirigiu para o passadiço, seguido por seus capitães: A maioria dos capitães era jovem, mas uns poucos tinham cabelos grisalhos. Todos estavam vestidos com uniforme naval, usavam chapéus de três bicos e suas espadas batiam ruidosamente.

O Capitão Glessing foi o último. Parou diante de Struan.

- Posso apresentar-lhe meus pêsames, Sr. Struan? Foi uma grande falta de sorte.

- Sim. - Foi só falta de sorte, pensou Struan, perder uma linda mulher e três lindos filhos? Ou será que Deus, ou o Diabo, meterem a mão no pagode? Ou são eles, Deus, o Diabo, sorte, pagode, apenas nomes diferentes para a mesma coisa?

-- Teve toda razão de matar aquele maldito fuzileiro - disse Glessing.

- Eu não o toquei.- Ah, é? Supus que tivesse tocado. Não pude ver o que aconteceu do ponto em que me encontrava. Não tem importância.

- Sepultou-o em terra?

- Não. Não valia a pena conspurcar a ilha com aquele tipo de doença. Será que o nome Ramsey significa alguma coisa para o senhor, Sr. Struan? - Glessing perguntou, encerrando as amenidades.

- Ramsey é um nome bastante comum. - Struan ficou em guarda.

- É verdade. Mas os escoceses mantêm-se unidos. Não é esta uma chave para o sucesso dos empreendimentos dominados por escoceses?

- É difícil encontrar pessoas de confiança, sim - disse Struan. - O nome Ramsey significa alguma coisa para o senhor?

- É o nome de um desertor do meu navio - disse Glessing com dureza. - Ele é primo de seu mestre, o Mestre McKay, eu acho.

- E então?

- Nada, só estou passando adiante a informação. Como sabe, naturalmente qualquer navio mercante que abrigar desertores, armado ou não, pode ser tomado como presa pela Marinha Real. - Glessing sorriu. - É uma estupidez desertar. Para onde pode ele ir, a não ser para outro navio?

- Para lugar nenhum. - Struan se sentiu preso numa armadilha. Tinha certeza de que Ramsey estava a bordo de um de seus navios e a convicção de que Brock tinha a ver com isso, e talvez Glessing também.

- Estamos fazendo uma busca na esquadra, hoje. Não tem nenhuma objeção, claro?

- Claro. Tomamos muito cuidado com a tripulação dos nossos navios.

- É muito sensato. O almirante achou que a Casa Nobre deveria ter prioridade, e então seus navios serão revistados imediatamente.

Nesse caso, pensou Struan, não há nada que eu possa fazer. Então tirou o problema da cabeça.

- Capitão, gostaria que conhecesse meu filho mais velho... meu filho Culum. Culum, este é nosso famoso Capitão Glessing, que ganhou para nós a batalha de Chuenpi.

- Bom-dia para você. - Glessing deu um aperto de mão, polidamente. A mão de Culum era macia e tinha dedos longos, com um leve toque feminino. Meio dândi, pensou Glessing. Casaco de marinheiro cintado, gravata azul-clara e colarinho alto. Deve ser um estudante. É curioso apertar a mão de alguém que teve a peste de Bengala e sobreviveu. Fico imaginando se eu sobreviveria. - Não foi uma batalha.

- Duas fragatas pequenas contra trinta juncos de guerra e trinta ou mais navios armados? Isto não é uma batalha?

- Uma escaramuça, Sr. Struan. Poderia ter sido uma batalha... - Se não fosse aquele maldito covarde Longstaff e você, seu maldito pirata, ele teve vontade de dizer.

- Nós negociantes achamos, Culum, que foi uma batalha - disse Struan, ironicamente. - Não compreendemos a diferença entre uma escaramuça e uma batalha. Somos apenas pacíficos mercadores. Mas a primeira vez em que as armas da Inglaterra foram contra as armas da China merece o título de “batalha”. Foi exatamente há um ano. Nós disparamos primeiro.

- E o que teria feito, Sr. Struan? Foi a decisão tática correta.

- Claro.

- O Capitão-Superintendente do Comércio concordou plenamente com minhas ações.

- Claro. Ele praticamente não poderia ter feito outra coisa.

- Travando velhos combates, Capitão Glessing? - Longstaff perguntou. Ele se achava à porta da cabina e estivera escutando, sem ser observado.

- Não, Excelência, apenas dando nova feição a uma antiga escaramuça. O Sr. Struan e eu jamais vimos Chuenpi com os mesmos olhos, como sabe.

- E por que deveriam? Se o Sr. Struan estivesse no comando, sua decisão poderia ter sido a mesma. Se estivesse no lugar do Sr. Struan, então poderia ter tido a certeza de que eles não atacariam, e arriscaria. - Longstaff bocejou e brincou com seu relógio de bolso.” - O que teria feito, Culum?

- Não sei, senhor. Ignoro as complicações que existiam.

- Muito bem dito. “Complicações” é uma boa palavra. - Longstaff deu uma risadinha. - Gostaria de se unir a nós, Capitão? Um copo de vinho?

- Obrigado, senhor, mas é melhor eu voltar para meu navio. - Glessing fez uma elegante continência e se afastou.

Longstaff levou os Struans para o salão de conferências que, atualmente, servia como quartel-general particular para o Capitão-Superintendente do Comércio. Era espartano e funcional, e as fundas poltronas de couro, mesas com mapas, cômodas e uma pesada mesa de carvalho estavam todas fortemente amarradas ao convés. A escrivaninha de carvalho, elaboradamente entalhada, tinha atrás o semicírculo das escotilhas da proa. A cabina cheirava a alcatrão, fumo velho, mar, e, inevitavelmente, a pólvora.

- Camaroteiro! - chamou Longstaff. Imediatamente, a porta da cabina se abriu.

- Sim, senhorrr.

Longstaff virou-se para Struan.

- Vinho? Conhaque? Porto?

- Vinho branco, seco, obrigado.

- A mesma coisa, por favor, senhor - disse Culum.

- Tomarei Porto. - Longstaff bocejou novamente.

- Sim, senhorrr. - O camaroteiro tirou as garrafas de um aparador e despejou os vinhos em finas taças de cristal.

- É sua primeira viagem de navio, Culum? - perguntou Longstaff.

- Sim, senhor.

- Mas suponho que está bem atualizado quanto às nossas recentes “complicações”?

- Não, Excelência. Papai não escreve muito, e a China não é mencionada nos jornais.

- Mas logo será, hein, Dirk?

O camaroteiro ofereceu as taças a Longstaff e a seus convidados.

- Não deixe que nos perturbem.

- Sim, senhorrr. - O camaroteiro colocou as garrafas num local ao alcance e saiu.

- Um brinde - disse Longstaff e Struan lembrou-se do brinde de Robb e lamentou que ele tivesse chegado primeiro à nau capitânia. - A uma agradável estada, Culum, e uma viagem segura de volta para a pátria.

Beberam. O vinho branco estava excelente.

- A história está sendo feita aqui, Culum. E não há ninguém melhor equipado para contá-la a você do que seu pai.

- Existe um velho ditado chinês, Culum: “A verdade tem muitas faces” - disse Struan.

- Não entendo.

- Apenas, minha versão dos “fatos” não é necessariamente a única. - Isto lembrou-lhe o vice-rei anterior, Ling, agora caído em desgraça em Cantão porque sua política precipitara conflito aberto com a Grã-Bretanha e, atualmente, condenado à morte. - Aquele demônio, Ling, ainda está em Cantão?

- Acho que sim. Sua Excelência, Ti-sen, sorriu quando lhe perguntei isso, há três dias, e respondeu, enigmaticamente - “O Escarlate é o Filho do Céu. Como pode o homem saber o que o Céu deseja?” O imperador chinês é chamado o Filho do Céu - Longstaff explicou, esclarecendo Culum. - “O Escarlate” é outro de seus nomes, porque ele sempre escreve com tinta vermelha.

- Gente estranha, muito estranha, os chineses, Culum - disse Struan. - Por exemplo, só o imperador, entre três milhões de pessoas, tem permissão para usar tinta escarlate. Imagine se a Rainha Vitória dissesse: - “De agora em diante, só eu tenho permissão para usar o escarlate”, por mais que a amemos, quarenta mil britânicos imediatamente repudiariam todas as outras tintas, menos a vermelha. Inclusive eu.

- E todos os negociantes da China - disse Longstaff com um inconsciente sorriso escarninho - imediatamente lhe enviariam um barril de tinta desta cor, pagamento contra entrega, e diriam a Sua Majestade Britânica que ficariam satisfeitos em abastecer a Coroa, ao preço tal. E escreveriam a Carta com tinta vermelha. Seria exatamente assim, suponho. Onde estaríamos, se não fosse o comércio?

Houve um pequeno silêncio e Culum ficou imaginando por que seu pai deixara passar o insulto. Ou não era um insulto? Não se tratava apenas de mais um fato corriqueiro, os aristocratas sorrirem sempre de maneira escarninha para qualquer pessoa que não fosse também aristocrata? Bom, a Carta resolveria o caso dos aristocratas de uma vez por todas.

- Queria me ver, Will? - Struan sentia-se mortalmente cansado. Seus pés doíam, e os ombros também.

- Sim. Algumas coisinhas aconteceram desde que... nos últimos dois dias. Culum, quer nos desculpar por um momento? Quero falar com seu pai a sós.

- Certamente, senhor. - Culum levantou-se.

- Não há necessidade disso, Will - disse Struan. Se não fosse o sorriso escarninho de Longstaff, ele teria deixado Culum sair. - Culum é sócio de Struan, agora. Um dia ele será o dirigente, o Tai-Pan. Pode confiar nele como confia em mim.

Culum queria dizer: “Jamais farei parte disto, jamais. Tenho outros planos.” Mas não podia falar nada.

- Devo congratulá-lo, Culum - disse Longstaff - por ser sócio da Casa Nobre. - Bom, este é um prêmio incalculável.

Não quando se está em bancarrota, Struan quase acrescentou.

- Sente-se, Culum.

Longstaff caminhou pela sala e começou:

- Está combinado para amanhã um encontro com o plenipotenciário chinês, a fim de discutir os detalhes do tratado.

- Ele sugeriu a ocasião e o lugar, ou foi você?

- Foi ele.

- Talvez seja melhor mudar. Escolha outro lugar e outra ocasião.

- Por quê?

- Porque, se concordar com sua sugestão, ele e todos os mandarins vão interpretar isso como fraqueza.

- Está bem. Se acha assim. Depois de amanhã, então? Em Cantão?

- Sim. Leve Horatio e Mauss. Irei com você, se quiser, e devemos chegar quatro horas atrasados.

- Mas diabos, Dirk, por que chegar a todos esses extremos ridículos? Quatro horas? Puxa vida!

- Não é ridículo. Agindo como superior diante de um inferior, você os colocará em desvantagem. - Struan deu uma olhada em Culum. - É preciso fazer o jogo oriental com regras orientais. Coisinhas se tornam muito importantes. Sua Excelência tem uma posição muito difícil aqui. Um pequeno erro agora, e o resultado durará cinqüenta anos. Ele precisa fazer as coisas depressa, mas com extrema cautela.

- Sim. E sem nenhuma ajuda, que inferno! - Longstaff esvaziou o copo e encheu outro. - Por que diabo eles não podem agir como gente civilizada, eu não sei. E nunca vou saber. Além de seu pai, não há ninguém que ajude. O Gabinete, em nosso país, não sabe os problemas que enfrento e não se preocupa com isso. Estou completamente sozinho aqui. Eles me dão instruções impossíveis e esperam que eu lide com pessoas impossíveis. Puxa vida, precisamos nos atrasar quatro horas para provar que somos “superiores”, quando é claro que todos sabem que somos superiores! - Ele tomou um pouco de rapé, cheio de irritação, e espirrou.

- Quando vai pôr as terras à venda, Will?

- Bom, ahn, quando o Gabinete aprovar o tratado, eu acho. Há tempo bastante. Digamos, em setembro.

- Não se lembra de sua idéia? Pensei que queria começar a construir em Hong Kong imediatamente.

Longstaff tentou lembrar-se. Parece que se recordava de ter falado a respeito com Struan. O que era mesmo?

- Bom, naturalmente, a cessão de Hong Kong não será oficial até os dois governos aprovarem o tratado... quero dizer, este é o costume, não?

- Sim. Mas essas circunstâncias não são usuais. - Struan brincava com seu copo. - Hong Kong é nossa. Quanto antes começarmos a construir, melhor, não foi isso que disse?- Bom, naturalmente é nossa. - Qual era o plano? Longstaff prendeu outro bocejo.

- Você disse que toda terra deveria pertencer à rainha. Que até você ser oficialmente o primeiro governador de Hong Kong, todo governo deveria ficar em suas mãos, como plenipotenciário. Se você fizer uma proclamação especial, então tudo será como planejou. Se eu fosse você, realizaria uma venda de terras no próximo mês. Não esqueça, Willy, de que você precisará de renda para a colônia. O Gabinete é sensível com relação a colônias que não pagam seus próprios gastos.

- Correto. Sim. Absolutamente correto. Naturalmente. Deveríamos começar logo que possível. Realizaremos a primeira venda de terra no próximo mês. Vejamos. Deverá ser no sistema de propriedade livre, arrendamento ou o quê?

- Arrendamentos de novecentos e noventa e nove anos. Os acordos costumeiros da Coroa.

- Excelente. - Longstaff fez um gesto de desamparo. - Como se não tivéssemos preocupações suficientes, Culum! Agora temos de agir como malditos comerciantes. Como se faz para construir uma colônia, ora? É preciso ter esgotos, ruas e prédios, Deus sabe o que mais. Um tribunal e uma prisão, por Júpiter! - Ele parou diante de Culum. - Você tem alguma prática legal?

- Não, Excelência - disse Culum. - Apenas metade de um curso universitário.

- Não tem importância. Precisarei ter um secretário colonial, um ajudante-geral, tesoureiro e Deus sabe quem mais. Será necessária uma força policial de algum tipo. Gostaria de ficar encarregado da polícia?

- Não, obrigado, senhor. - Culum tentou não demonstrar o choque que sentira.

- Bom, tenho certeza de que haverá algum lugar onde poderemos utilizá-lo. Todos terão de pôr mãos à obra. Não posso tomar conta de tudo. Pense a respeito do que gostaria de fazer, e me diga. Precisamos de pessoas em quem possamos confiar.

- Por que não colocá-lo em seu staff como suplente? - disse Struan. - Nós o emprestaremos a você por seis meses.

- Excelente. - Longstaff sorriu para Culum. - Bom. Você é agora vice-secretário colonial. Vejamos. Faça os acertos para a venda de terras. Esta é a sua primeira tarefa.

- Mas eu nada sei a respeito de venda de terras, senhor. Não sei nada a respeito...

- Sabe tanto quanto qualquer outra pessoa, e seu pai poderá orientá-lo. Você seria, ah, vice-secretário colonial. Excelente. Agora eu posso esquecer aquele problema. Descubra o que pode ser feito e como, e me informe o necessário para oficializar tudo. Faça um leilão. Esta é a maneira justa, eu imagino. - Longstaff tornou a encher seu copo. - Ah, a propósito, Dirk, eu determinei a evacuação da Ilha de Chushan. Struan sentiu o estômago revirar.

- Por que você fez isso, Will?

- Recebi uma carta especial de Sua Excelência, Ti-sen, há dois dias, pedindo que isto fosse feito, como um ato de boa fé.

- Você poderia ter esperado.

- Ele queria uma resposta imediata e não havia, bom... nenhuma maneira imediata de alcançar você.

- Imediata, no estilo chinês, significa até um século. - Ah, Willie, seu pobre louco, pensou ele, quantas vezes eu terei de explicar?

Longstaff sentiu o olhar de Struan a apunhalá-lo.

- Ele ia mandar uma cópia do tratado ao imperador, e queria incluir o fato de que havíamos ordenado a evacuação. Nós devolveríamos a ilha, de qualquer jeito, não? Era este o plano. Diabo, que diferença faz, agora, ou mais tarde?

- A escolha do momento é muito importante para os chineses. A ordem já seguiu?

- Sim, seguiu ontem. Ti-sen teve a gentileza de nos oferecer o correio montado imperial. Enviei a ordem por ele.

Maldito seja, pensou Struan. Seu louco impossível.

- É muito ruim usar o serviço deles para enviar nossas ordens. Perdemos prestígio e eles ganharam um ponto. Não adianta mandar um navio agora. - Sua voz estava fria e áspera. - Quando chegasse a Chushan, a evacuação estaria realizada. Bom, está feito, não adianta mais. Mas não foi sensato. Os chineses só vão interpretar isto como uma fraqueza.

- Achei o ato de boa fé uma esplêndida idéia, esplêndida - Longstaff prosseguiu, tentando vencer seu nervosismo. - Afinal, temos tudo que desejamos. A indenização deles é leve... apenas seis milhões de dólares, e isto mais do que cobre o custo do ópio que destruíram. Cantão está novamente aberta ao comércio. E temos Hong Kong. Afinal. - Seus olhos brilhavam, agora. - Tudo de acordo com o plano. A Ilha de Chushan não é importante. Você disse para tomá-la apenas como um recurso. Mas Hong Kong é nossa. E Ti-sen disse que nomearia um mandarim para Hong Kong, dentro de um mês, e eles vão...

- Ele o quê? - Struan estava horrorizado.

- Ele nomeará um mandarim para Hong Kong. O que há? Contenha seu gênio, Struan advertiu a si próprio, com um grande esforço. Você tem sido paciente todo esse tempo. Este incompetente de mente fraca é o instrumento mais necessário de que você dispõe.

- Will, se você permitir que faça isso, irá dar-lhe poder sobre Hong Kong.

- Absolutamente, meu caro, por quê? Hong Kong é britânica. Os pagãos ficarão sob nossa bandeira e sob nosso governo. Alguém precisa encarregar-se dos demônios, não? É preciso haver alguém a quem pagar as taxas alfandegárias. Onde melhor do que em Hong Kong? Eles terão sua própria alfândega, seus prédios e...

- Eles o quê? - A palavra estrondeou para além dos tabiques de carvalho. - Pelo sangue de Deus, você não concordou com isso, eu espero?

- Bom, não vejo nada errado nisso, Dirk, hein? Puxa vida, não muda nada, não é? E nos livra de uma porção de problemas. Não precisamos ir para Cantão. Podemos fazer tudo daqui.

Para evitar esmagar Longstaff como se fosse um piolho, Struan caminhou até à escrivaninha e se serviu de conhaque. Contenha-se. Não o destrua agora. A ocasião não é oportuna. Você precisa usá-lo.

- Você concordou com Ti-sen que ele pode nomear um mandarim para Hong Kong?

- Bom, meu caro camarada, não concordei exatamente. Não faz parte do tratado. Eu simplesmente disse que concordava que parecia uma boa idéia.

- Você fez isto por escrito?

- Sim. Ontem. - Longstaff estava perplexo com a violência de Struan. - Mas não é o que vínhamos tentando fazer há tanto tempo? Tratar diretamente com os mandarins, e não por intermédio dos donos de armazéns chineses?

- Sim. Mas não em nossa ilha, pelo amor de Deus! - Struan mantinha a voz baixa, mas estava pensando: “Seu maldito arremedo de líder, seu estúpido aristocrata indeciso, montão de esterco que só toma decisões erradas.” - Se permitirmos isso, afundaremos Hong Kong. Perderemos tudo.

Longstaff puxava o lobo da orelha, encolhendo-se sob o olhar de Struan.

- Por que, papai? - perguntou Culum.

Para alívio de Longstaff, os olhos viraram-se para Culum e ele pensou: sim, por quê? Por que perderemos tudo, hein? Achei que era um acerto simplesmente maravilhoso.

- Porque eles são chineses.

- Não compreendo.

- Eu sei, rapaz. - Para afastar a dor da perda de sua família, que repentinamente cresceu dentro dele, e para tirar da cabeça sua frenética preocupação com a perda de sua riqueza, ele decidiu explicar, tanto a Longstaff como a Culum. - A primeira coisa que é preciso compreender: durante cinqüenta séculos, os chineses vêm chamando a China de Império do Meio, a terra que os deuses colocaram entre o céu, acima, e a terra, abaixo. Por definição, um chinês é um ser de superioridade sem igual. Todos eles acreditam que qualquer outra pessoa, qualquer, é um bárbaro e não deve ser levado em consideração. E que eles sozinhos, como habitantes da única nação realmente civilizada, têm o direito divino de dominar a terra. No entender deles, a Rainha Vitória é uma vassala bárbara e deve pagar tributos. A China não tem armada, nem exército, e podemos fazer o que quisermos com ela... mas eles acreditam que vivem na mais civilizada, a mais poderosa e a mais rica, quanto a isto, acho que estão potencialmente certos, nação da terra. Conhece os Oito Regulamentos?

Culum abanou a cabeça.

- Bom, eram os termos através dos quais o imperador da China concordou em negociar com os “bárbaros”, há cento e cinqüenta anos. Os regulamentos confinavam todo comércio “bárbaro” a um único porto, o de Cantão. Todo o chá e a seda deveriam ser pagos com prata, não havia permissão para nenhum crédito e o contrabando era proibido. Os “bárbaros” foram autorizados a construir armazéns e fábricas num pedaço de terra de meia milha por duzentas jardas, em Cantão; e deviam permanecer totalmente confinados a essa área amuralhada, a Colônia de Cantão, mas só durante a temporada de inverno da navegação, de setembro a março, e depois precisavam sair e ir para Macau. Nenhuma família “bárbara” tinha permissão para ir à Colônia, em nenhuma circunstância, e o ingresso de todas as mulheres era proibido. Absolutamente não se podia levar armas para lá. Aprender chinês, andar de barco como divertimento, ou em liteiras, e misturar-se com os chineses, tudo era proibido; navios de guerra “bárbaros” eram proibidos de entrar no estuário do Rio Pérola. Todos os navios mercantes “bárbaros” deveriam ancorar em Whampoa, a treze milhas, rio abaixo, onde as cargas tinham de ser baldeadas e as tarefas de exportação pagas em prata. Todo comércio dos “bárbaros” deveria realizar-se exclusivamente através de um monopólio, uma guilda de dez mercadores chineses que chamamos a Co-hong. A Co-hong era também a única fornecedora de alimentos, a única autoridade a conceder licença para um número estabelecido de criados, barqueiros e compradores. E, finalmente, o regulamento que nos crucificava, e o tratado cancela, especificava que a Co-hong era a única recebedora de todas as petições dos “bárbaros”, seus pedidos e queixas, que seriam encaminhados aos mandarins exclusivamente através do órgão.” A intenção básica dos Regulamentos era nos manter ao alcance, a fim de nos incomodar, e tirar de nós cada centavo. Lembrem-se de outra coisa a respeito dos chineses: eles adoram dinheiro. Mas a sangria só beneficiou a classe dirigente dos manchus, não a todos os chineses. Os manchus acham que nossas idéias, Cristandade, Parlamento, votos e, acima de tudo, igualdade perante a lei e um sistema de júri, são revolucionárias, perigosas e más. Mas eles querem nossas barras de prata.

“Sob os Regulamentos, estávamos sem defesa, nosso comércio era controlado e poderia ser sangrado à vontade. Mesmo assim, ganhamos dinheiro. - Ele sorriu. - Ganhamos uma porção de dinheiro, e eles também. A maioria dos Regulamentos foi desobedecida por causa da cobiça das autoridades. Os importantes, relativos à proibição de navios de guerra, de contato oficial fora da alçada dos mercadores da Co-hong, da presença de esposas em Cantão, de ficar além de março e chegar antes de setembro, permaneceram em vigor.

“E, o que é tipicamente chinês, os pobres mercadores da Co-hong foram considerados responsáveis por nós. Quaisquer “complicações”, e a ira do imperador caía sobre eles. O que, outra vez, é tão completamente chinês. A Co-hong foi taxada pesadamente e está sendo taxada, até que vá à bancarrota a maioria de seus membros. Possuímos seiscentos mil guinéus de seu papel sem valor. Brock tem quase a mesma quantidade. De acordo com o costume chinês, a Co-hong tem de comprar suas posições ao imperador, e se espera que enviem continuamente grandes “presentes” para seus superiores... cinqüenta mil taéis de prata é o “presente” costumeiro, no dia do aniversário do imperador, de cada um dos membros.

“Acima da Co-hong, está a taxação do chefe de cobrança pessoal do imperador. Nós o chamamos Hoppo. Ele é o responsável pela sangria dos impostos cobrados aos mandarins de Cantão, à Co-hong, ou a qualquer pessoa. O Hoppo também compra sua posição... ele é o maior comerciante de ópio, aliás, e ganha uma fortuna com isso.

“Então, se permitirem a presença de um mandarim em Hong Kong, permitem a entrada de todo o sistema. O mandarim será um Hoppo. Todo chinês estará sujeito a ele. Todo comerciante chinês que vier negociar terá de “comprar” licenças e será obrigado a pagar impostos e, em troca, eles nos sangrarão. O Hoppo destruirá aqueles que nos ajudarem e ajudará aqueles que nos odiarem. E não desistirão até nos expulsarem.

- Por quê?

- Porque são chineses.

Struan se espreguiçou para aliviar os ombros, sentindo o cansaço dominá-lo, depois caminhou até o aparador e despejou outro conhaque. Gostaria de poder ser chinês mais ou menos por uma hora, pensou ele, exausto. Então, poderia manobrar para conseguir um milhão de taéis de alguma parte, sem nenhum problema. Se esta é a resposta, disse ele a si próprio, então tente pensar como um chinês. Você é o Tai-Pan dos “bárbaros”, o mandarim, com poder ilimitado. De que adianta o poder, se você não o utilizar para mudar o pagode e ajudar a si mesmo? Como pode você usar seu poder? Quem tem um milhão de taéis? A quem você poderá pressionar, para consegui-los? Quem lhe deve favores?

- O que deveremos fazer, Dirk? Quero dizer, concordo plenamente - disse Longstaff.

- É melhor você mandar a Ti-sen um despacho imediato. Diga-lhe... não, ordene-lhe...

Struan parou abruptamente, enquanto seu cérebro clareava. Sua fadiga desapareceu. Você é um lacaio estúpido, parlador e idiota! Ti-sen! Ti-sen é a sua chave. Um mandarim. É tudo que você precisa arranjar. Duas medidas simples: primeiro, cancelar seu acordo, Longstaff, como deve ser cancelado, de qualquer maneira; segundo, dentro de uma ou duas semanas, fazer uma oferta secreta a Ti-sen, dizendo que, em troca de um milhão, em barras de prata, você fará Longstaff modificar sua posição e permitir a presença de um mandarim em Hong Kong. Ti-sen vai aceitar correndo porque, imediatamente, terá de volta tudo o que a guerra o forçou a conceder; ele arrancará o milhão em impostos da Co-hong, e eles ficarão satisfeitíssimos em pagar, porque, imediatamente, acrescentarão isso ao preço do chá que estão loucos para nos vender, e nós estamos loucos para comprar. O pobrezinho do Willie não representa nenhum problema, e não haverá objeções, por parte dos outros negociantes, a um mandarim. Não chamaremos o homem “mandarim”, nós vamos inventar um novo nome, para afastar qualquer um da pista. “Comissário de Comércio”. Os negociantes não farão objeções ao “comissário de comércio” chinês, porque ele assistirá o comércio e simplificará o pagamento alfandegário. Agora, como fazer a oferta secreta? Obviamente, o velho Jin-qua. Ele é o mais rico e o mais astuto dos integrantes da Co-hong e nosso principal fornecedor, e você o conhece há vinte anos. Ele é o homem, sem a menor dúvida.

Um mandarim garantirá o futuro da Casa Nobre. Sim. Mas ele destruirá Hong Kong. E destruirá o plano. Quer apostar como você fará o trato, sabendo que terá de lográ-lo depois? É um risco terrível... você sabe que um mandarim significa todo o sistema. Você não pode deixar esse legado diabólico para Robb ou Culum, ou os filhos deles. Mas, sem o dinheiro, não haverá Casa Nobre, e nem futuro.

- Você dizia o que, Dirk?

- Ordene a Ti-sen, em nome da rainha, para esquecer a idéia de colocar um mandarim em Hong Kong.

- É exatamente a minha maneira de pensar. - Longstaff, todo feliz, sentou-se à escrivaninha e pegou a pena. - O que devo dizer?

E o que deverei eu fazer, pobre Willie, com relação à segunda medida?, Struan perguntou a si mesmo. Será que o fim justifica os meios?

- Escreva isto: “Para Ti-sen, em Cantão. Uma Proclamação Especial: Só Sua Majestade Britânica, a Rainha Vitória, tem a autoridade para nomear funcionários para a ilha britânica de Hong Kong. Não haverá funcionários chineses aqui, e nem alfândega nenhuma.” - Hesitou e depois continuou, deliberadamente, sentindo que a oportunidade era aquela. - “E todos os chineses residentes na Colônia de Sua Majestade, Hong Kong, serão doravante súditos britânicos e estarão submetidos apenas às leis da Inglaterra.”

- Mas isto ultrapassa minha autoridade!

- O costume é que os plenipotenciários ultrapassem sua autoridade. Por isso são tão cuidadosamente escolhidos, Will. Este é o motivo de termos um império. Raffles, Hastings, Clive, Raleigh, Wellington. Você tem a autoridade plenipotenciária do Governo de Sua Majestade para acertar um tratado com a China. O que eles sabem sobre a China em nosso país, ou o que se importam com ela? Mas você é um inovador, um artífice da História, Will. Estará disposto a aceitar uma pequena ilha, estéril, quase desabitada, quando é um costume mundial se apoderar de continentes inteiros, quando você poderia tomar toda a China, se quisesse? Você é inteligente demais para se contentar com tão pouco.

Longstaff hesitou e chupou o alto da pena.

- Sim, mas já concordei que os chineses em Hong Kong estariam submetidos à lei chinesa, com a proibição de todas as formas de tortura. - Uma gota de suor alcançou-lhe o queixo. - Era uma cláusula do tratado e eu emiti uma proclamação especial.

- Você mudou de idéia, Will. Do mesmo modo como Ti-sen mudou também. Não havia cláusulas para que fosse nomeado um mandarim.

- Mas ficou combinado.

- Em sua cabeça, não. E nem na minha. Ele está tentando enganar você. Como fez no caso de Chushan.

- Está certo - concordou Longstaff, feliz de ser convencido. - Você tem razão, Dirk. Absoluta. Se permitirmos qualquer controle... você tem razão. E eles voltarão aos seus antigos procedimentos incorretos, não é? Sim. E está na hora de os chineses verem o que a justiça realmente é. Lei e ordem. Tem razão.

- Conclua a carta como o imperador faria: “Tema, e obedeça tremulamente”, e assine com seu título completo - disse Struan, e abriu a porta da cabina.

- Mestre-d’armas!

- Sim, senhor?

- Sua Excelência quer que seu secretário, o Sr. Sinclair, venha até aqui correndo.

- Sim, senhorr.

Longstaff parou de escrever. Releu a carta.

- Não está um tanto dura, Dirk? Quero dizer, assim sem colocar nenhum dos títulos dele, e terminando como se fosse uma proclamação imperial?

- Aí é que está. Você vai querer publicá-la no jornal.

- Mas é um documento particular.

- É um documento histórico, Will. E você pode se orgulhar dele. E o almirante vai gostar de sua atuação. Aliás, por que estava ele aborrecido?

- Ah, os motivos de costume. - Longstaff imitou o almirante. - “Diabo, senhor, fomos enviados para cá a fim de combater os pagãos e, depois de duas incursões sem nenhuma resistência apreciável, o senhor assina um tratado desprezível, que nos dá ainda um pouco menos do que o Secretário de Relações Exteriores nos mandou pedir?” Você tem certeza, Dirk, de que pedir menos é o procedimento correto? Sei que você disse isso antes mas... bom, os mercadores parecem pensar que foi um erro terrível. Nenhum porto aberto, quero dizer.

- Hong Kong é mais importante, Will.

- Espero que você continue tendo certeza disso. O almirante também está muito irritado com algumas deserções e, ainda, com a demora da colocação em vigor da ordem contra o contrabando. E, bom, houve uma grande gritaria por parte de todos os negociantes.

- Encabeçados por Brock?

- Sim. Aquele patife mal-educado. O coração de Struan confrangeu-se.

- Você disse aos mercadores que ia cancelar a ordem?

- Bom, Dirk, não foi bem assim. Mas insinuei que seria cancelada.

- E insinuou ao almirante que cancelaria a ordem?

- Bom, eu sugeri que não era aconselhável levar aquilo avante. Ele ficou muito irritado e disse que ia levar seu ponto de vista ao conhecimento do Almirantado. - Longstaff suspirou e bocejou. - Puxa vida, ele não tem a menor visão dos problemas. Nenhuma, Eu ficaria muito grato, Dirk, se você explicasse “comércio” a ele, está bem? Eu tentei, mas não consegui meter nada em sua cabeça.

E eu não consigo meter nada na sua Willie, pensou Struan. Se Robb comprou o ópio, estamos numa confusão ainda maior. Se não comprou, ainda assim estamos liquidados. Só resta um negócio a fazer - um maldito mandarim por um maldito milhão.

- Não sei o que faria sem o conselho de seu pai, Culum. - Longstaff pegou rapé de uma caixinha ornamentada com pedras preciosas.

Diabo, pensou ele. Sou um diplomata, não um fomentador de guerras. Governador de Hong Kong é apenas o rótulo. Depois de ser governador de Hong Kong, então virá alguma coisa que valha a pena, Bengala, talvez. Jamaica... aquele é um bom lugar. Canadá. Não, é frio demais. Bengala, ou outro dos Estados indianos.

- É tudo muito complicado na Ásia, Culum. Ter de lidar com tantos e tão diferentes pontos de vista e interesses... da Coroa, dos negociantes, dos missionários, da Marinha Real, do Exército e dos chineses... todos em conflito. E, diabo, os chineses estão divididos em grupos que se chocam. Os mercadores, os mandarins e os soberanos manchus. - Ele encheu de rapé as duas narinas, cheirou profundamente e espirrou. - Creio que sabe que os dirigentes da China não são chineses?

- Não, senhor.

- Metade dos problemas vem daí, segundo nos disseram. São manchus. Da Manchúria. Bárbaros selvagens vindos do norte da Grande Muralha. Governam a China há dois séculos, segundo nos disseram. Devem pensar que somos idiotas. Disseram-nos que existe uma enorme muralha, como a Muralha de Adriano, uma fortificação atravessando todo o norte da China, para protegê-la das tribos selvagens. Supõe-se que tenha mais de três mil milhas e meia de comprimento, quarenta pés de altura e trinta pés de espessura e tem largura suficiente, no topo, para oito cavaleiros cavalgarem, lado a lado. E, segundo supõe, há postos de observação a cada trezentas jardas. É feita de tijolo e granito, e foi construída há dois mil anos. - Ele riu com desdém. - Ridículo!

- Eu acredito que exista - disse Struan.

- Ora, vamos, Dirk - disse Longstaff. Seria impossível construir tal fortificação há dois mil anos.

- Diz a lenda, Culum, que um em cada três homens na China foi recrutado para trabalhar na muralha. Foi construída em dez anos. Segundo contam, um milhão de homens morreu, e eles foram enterrados na muralha. Seus espíritos a protegem, também.Culum sorriu.

- Se é tão grande, papai, os manchus nunca teriam podido rompê-la. Não é possível que exista.

- A lenda conta que os manchus atravessaram a muralha usando um estratagema. O general chinês encarregado da muralha vendeu seu próprio povo.

- Isso é mais do que provável - disse Longstaff, com repulsa. - Não têm o menor sentido de honra esses orientais, hein? O general achou que poderia usurpar o trono usando o inimigo. Mas os manchus o usaram e depois o destruíram. Seja como for, a história é essa.

Culum disse:

- É uma história e tanto, senhor.

Os olhos de Struan se endureceram.

- É melhor você se acostumar com muitas histórias estranhas. E um novo pensamento, Culum: os chineses têm civilização há cinco mil anos. Livros, máquinas impressoras, arte, poetas, governo, seda, chá, pólvora e milhares de outras coisas. Há milhares de anos. Somos civilizados há quinhentos anos. Se é que podemos nos considerar assim.

Houve uma batida na porta. Horatio entrou apressadamente.

- Queria me ver, Excelência?

- Sim. Quero que traduza isto imediatamente para o chinês e envie por correio especial. E mande uma cópia ao Sr. Skinner, para publicação.

- Sim, senhor. - Horatio pegou o papel e se virou para Struan. - Senti muito ao saber da terrível notícia, Sr. Struan.

- Obrigado. Este é o meu filho Culum. Horatio Sinclair.

Apertaram-se as mãos, gostando imediatamente um do outro. Horatio leu a carta.

- Vou precisar de algum tempo para colocar isto nas frases certas da corte, senhor.

- Sua Excelência quer que seja enviada exatamente como está - disse Struan. - Exatamente.

A boca de Horatio se abriu completamente. Ele fez um fraco aceno afirmativo com a cabeça.

- Sim. Ahn, farei isto imediatamente. Mas Ti-sen jamais irá aceitá-la, Sr. Struan. Jamais, Excelência. Ele perderia prestígio demais.

Longstaff eriçou-se.

- Prestígio? Eu vou mostrar àquele pagão algum prestígio, por Deus. Apresente meus cumprimentos ao almirante e lhe peça para enviar a carta a Whampoa por um navio de linha, com ordens de seguir de imediato para Cantão, se não for aceita prontamente!

- Sim, senhor.

- Veja só, não a aceitarão! - disse Longstaff, após a partida de Horatio. - Maldita insolência. São todos bárbaros pagãos. Todos eles. Chineses. Manchus. Não têm nenhuma justiça, e seu desprezo pela vida humana é inacreditável. Vendem suas filhas, irmãs, irmãos. Inacreditável.

Culum repentinamente, pensou em sua mãe e em seus irmãos e em como haviam morrido. Vômito e fezes aguadas, mau cheiro, dores no ventre, agonia, olhos fundos e espasmos. E as convulsões, e mais mau cheiro e depois a morte por sufocação. E, depois da morte, os repentinos espasmos musculares - sua mãe, morta há uma hora, de súbito retorcendo-se na cama, os olhos mortos e abertos, a boca morta e aberta.

O medo antigo começou a fazê-lo sentir-se doente, e ele procurou algo em que pensar, qualquer coisa capaz de lhe tirar a lembrança de seu terror.

- Quanto à venda de terras, senhor. Em primeiro lugar, a terra precisa ser demarcada. Como vai fazer isso, senhor?

- Conseguirei alguém, não se preocupe.

- Talvez Glessing - disse Struan. - Ele tem experiência de mapeamento.

- Boa idéia. Falarei com o almirante. Ótimo.

- Você poderia considerar a possibilidade de designar a praia onde a bandeira foi içada como “Cabo Glessing”.

Longstaff ficou pasmo.

- Jamais eu o compreenderei. Por que se dar ao trabalho de perpetuar o nome de um homem que o odeia?

Por que bons inimigos são valiosos, pensou Struan. E tenho um serviço para Glessing. Ele morrerá para proteger o Cabo Glessing, e isto significa Hong Kong.

- Agradaria à Marinha - disse Struan. - É apenas uma idéia.

- É uma boa idéia. Estou satisfeito de que a sugestão tenha sido sua.

- Bom, obrigado, acho que vamos voltar para nosso navio - disse Struan. Ele estava cansado. E havia muitas coisas para fazer.

 

Isaac Perry estava no tombadilho do Thunder Cloud observando os fuzileiros fazerem uma revista sob longas alcatroadas, nas chalupas e no paiol. Ele detestava fuzileiros e oficiais da Marinha; mas fora pressionado a entrar nela.- Não há desertores a bordo - disse, outra vez.

- Claro - disse o jovem oficial.

- Por favor, mande seus homens não desarrumarem tudo, desse jeito. Vai ser preciso um turno inteiro de trabalho para limpar isso, depois que forem embora.

- Seu navio será uma bela presa, Capitão Perry. O navio e a carga - zombou o oficial.

Perry olhou para McKay, que estava junto à prancha de desembarque, sob guarda armada. Você é um homem morto, McKay, pensou Perry, se ajudou Ramsey a vir para bordo.

- Chalupa no passadiço da popa - gritou o terceiro-imediato. - O proprietário está Vindo para bordo.

Perry saiu correndo para receber Struan.

- Acham que temos um desertor a bordo, senhor.

- Eu sei - disse Struan, ao chegar ao convés. - Por que está o meu mestre sob guarda? - ele perguntou ao arrogante jovem oficial, com uma perigosa irritação na voz.

- Apenas uma precaução. Ele é parente de Ramsey e...

- Malditas sejam as precauções! Ele é inocente, até se provar que é culpado, por Deus - estrondeou Struan. - Vocês estão aqui para fazer uma busca, e não para incomodar e prender meus homens.

- Não sei de nada, senhorrr - explodiu McKay. - Ramsey não tá a bordo por ação minha. Ele não tá. Não tá.

- Que Deus lhe ajude, se ele estiver - disse Struan. - Você está confinado ao navio, até que eu mande o contrário. Vá para baixo!

- Sim, senhorrr - disse McKay, e fugiu.

- Pelo sangue de Deus, Isaac! - berrou Struan. - Você é ou não é capitão deste navio? Que lei autoriza a Marinha a prender um homem sem mandado, só como precaução?

- Nenhuma, senhor - Perry ficou intimidado, e preferiu não discutir.

- Saia do meu navio e vá para o inferno. Você está demitido!

Perry empalideceu.

- Mas, senhor...

- Saia do meu navio até o entardecer. - Struan caminhou para o passadiço que levava ao interior do navio. - Vamos, Culum.

Culum alcançou Struan no corredor que conduzia à cabina principal.

- Não é justo - ele disse. - Não é justo. O Capitão Perry é o melhor capitão que você tem. Você disse isso.- Ele era, rapaz - disse Struan. - Mas não defendeu os interesses de seu subordinado. E ele tem medo. Do que, eu não sei. Mas homens assustados são perigosos, e não temos lugar para eles.

- McKay não sofreu nada.

- A primeira norma a ser obedecida por um capitão meu é proteger seu navio. A segunda, seus homens. Assim, eles o protegerão. Pode-se comandar sozinho um navio, mas não se pode operá-lo sozinho.

- Perry não fez nada errado.

- Ele permitiu que a Marinha colocasse McKay sob guarda, contra a lei, por Deus - disse Struan, com dureza. - Um capitão precisa saber mais do que simplesmente fazer a embarcação navegar, por Deus! Isaac deveria ter enfrentado aquele jovem peralvilho. Mas ele teve medo e abandonou seus homens, numa ocasião importante. Da próxima vez, poderá abandonar o navio. Não vou me arriscar a isso.

- Mas ele está com você há anos. Isso não conta?

- Sim. Isto quer dizer que tivemos sorte por anos. Agora não confio mais nele. Então, agora ele vai embora e não se discute mais o assunto! - Struan abriu a porta da cabina.

Robb estava sentado à escrivaninha, espiando para fora através das escotilhas da proa. Caixas, arcas, roupas e brinquedos de crianças encontravam-se espalhados pelo chão. Sarah, a mulher de Robb, estava meio encolhida numa das cadeiras, cochilando. Era uma mulher pequena, estava grávida e, no sono, seu rosto apresentava-se marcado e cansado. Quando Robb notou Struan, e Culum, tentou sem sucesso forçar um sorriso.

- Olá, Dirk. Culum.

- Olá, Robb. - Struan pensou: “Ele envelheceu dez anos em dois dias.”

Sarah acordou, num sobressalto.

- Olá, Dirk. - Levantou-se pesadamente, e se aproximou da porta.

- Olá, Culum.

- Como vai, tia Sarah?

- Cansada, querido. Muito cansada. E detesto estar num navio. Gostaria de tomar um pouco de chá?

- Não, obrigado.

Robb observou Struan, com ansiedade.

- O que posso dizer?

- Nada, Robbie. Eles estão mortos e nós estamos vivos, não podemos fazer mais nada.

- Será, Dirk? - os olhos azuis de Sarah endureceram-se. Ela alisou o cabelo castanho-avermelhado e endireitou o longo vestido verde, com pufes. - Será?

- Sim. Dá licença, Sarah? Preciso falar com Robb.

- Sim, claro. - Ela olhou para o marido e desprezou sua fraqueza. - Estamos de partida, Dirk. Vamos deixar para sempre o Oriente. Já decidi. Dei a Struan e Companhia cinco anos de minha vida e um bebê. Agora, é tempo de ir embora.

- Acho uma boa decisão, Sarah. O Oriente não é lugar para uma família, atualmente. Dentro de um ano, quando Hong Kong estiver construída... bom, então será ótimo.

- Para algumas famílias, talvez, mas não para nós. Não para o meu Roddy, para Karen, Naomi ou Jamie. E nem para mim. Jamais moraremos em Hong Kong. - Ela saiu.

- Você comprou ópio, Robb?

- Comprei um pouco. Gastei todo nosso dinheiro à vista e tomei emprestado cerca de cem mil... não sei a soma exata. Os preços não baixaram muito. Então, bom, eu perdi o interesse.

Então afundamos mais no buraco, pensou Struan.

- Por que a nossa família? É terrível, terrível - disse Robb, com a voz atormentada. - Por que toda nossa família?

- Pagode.

- Maldito pagode. - Robb olhou para a porta da cabina. - Brock quer ver você, logo que possível.

- Por quê?

- Ele não disse.

Struan sentou-se, afrouxou a bota por um momento e pensou a respeito de Brock. Depois disse:

- Tornei Culum sócio.

- Ótimo - disse Robb. Mas sua voz estava arrasada. Ele ainda olhava para a porta.

- Papai - Culum interveio - quero falar com você a respeito disso.

- Mais tarde, garoto. Robb, existe mais alguma coisa. Estamos diante de problemas graves.

- Há uma coisa que eu preciso dizer imediatamente. - Robb afastou os olhos da porta. - Dirk, vou partir do Oriente com Sarah e as crianças. No próximo navio.

- O quê?

- Jamais serei um tai-pan, e nem quero ser.

- Você vai partir porque Culum é sócio?

- Você me conhece o bastante para saber que não é isso. Você devia ter discutido o assunto comigo, sim, mas não tem importância. Ouero ir embora.

- Por quê?

- Todas as mortes lá em nosso país me fizeram pensar. Sarah tem razão. A vida é breve demais para ficarmos aqui suando e morrendo. Quero alguma paz. E existem mais coisas além do dinheiro. Você pode comprar a minha parte. Quero partir no próximo navio.

- Por quê?

- Estou cansado. Cansado!

- Você é apenas fraco, Robb. Sarah deu em cima de você outra vez, não foi?

- Sim, sou fraco e... sim, ela deu em cima de mim outra vez, mas já decidi. São mortes demais. Em excesso.

- Não posso comprar sua parte. Estamos em bancarrota. - Struan entregou-lhe a carta do banqueiro.

Robb leu a carta. Seu rosto envelheceu ainda mais.

- Malditos!

- Sim. Mas isto não muda a situação... continuamos em bancarrota. - Struan enfiou outra vez as botas e se levantou.

- Sinto muito, Culum, a sociedade não tem valor. Houve uma corrida ao nosso banco.

O ar na cabina pareceu ficar mais espesso.

- Temos cem mil na Escócia - disse Robb. - Eu fico com a metade e você pega o resto.

- Obrigado, Robb. Falou como um homem. Robb esmurrou a escrivaninha.

- Não foi minha culpa se o banco fechou as portas!

- Sim. Então não peça metade do nosso dinheiro, quando precisamos de cada centavo.

- Você precisará, não eu. Você vai encontrar uma solução, sempre encontra.

- Cinqüenta mil libras não bastarão a Sarah por cinco anos.

- Isso é problema meu! O dinheiro não está nos livros, de maneira que é legalmente nosso. Vou pegar metade. Minha parcela nos negócios vale vinte vezes isso!

- Estamos em bancarrota! Será que não consegue meter isso na cabeça? Bancarrota!

A porta da cabina se abriu e entrou na sala uma menininha de cabelos dourados. Tinha nas mãos uma boneca de palha. Tinha o rosto contraído.

- Olá, paizinho. Olá, tio Dirk. - Ergueu os olhos para Struan. - Eu sou feia?

Com um esforço, Struan tirou os olhos de Robb.

- O quê? Karen, minha garotinha.

- Sou feia?

- Não. Não. Claro que não, Karen. - Struan levantou-a do chão. Quem andou dizendo essas coisas terríveis a você, garota?

- A gente estava brincando de escola no Resting Cloud. Foi Lilibet.

- Lilibet Brock?

- Ah, não. Ela é minha melhor amiga. Foi Lilibet Não-Sei-de-Quê.

- Bom, você não é feia. Diga a Lilibet Não-Sei-de-Quê que é falta de educação dizer uma coisa dessas. Você é muito bonita.

- Ah, bom! - Karen sorriu amplamente. - Meu papai sempre me diz que sou bonita, mas eu queria lhe perguntar, porque você sabe. Você sabe tudo. - Ela lhe deu um grande abraço.

- Obrigada, tio Dirk. Agora me ponha no chão. - Ela dançou até a porta. - Estou feliz de não ser feia.

Robb se deixou cair em sua cadeira. Afinal, disse:

- Malditos banqueiros. Sinto muito. É minha culpa... e sinto muito. Eu disse... sinto muito.

- Eu também sinto muito, rapaz. Robb tentava inutilmente pensar.

- O que poderemos fazer?

- Não sei. Será que você não pode fazer isso, Robb? Dar-me alguns meses. Enviaremos Sarah e as crianças pelo primeiro navio. Quanto antes, melhor, assim escaparão à temporada dos tufões.

- Talvez eu possa arranjar um empréstimo em algum lugar. Precisamos pagar as letras à vista. Perderemos os navios... tudo.

- Robb forçou a mente a parar de pensar em Sarah. - Mas como, no curto espaço de tempo de que dispomos? - Torceu nervosamente os dedos. - A correspondência chegou ontem. Nada importante para nós. Nenhuma notícia do nosso país. Talvez outros saibam da corrida ao nosso banco. Compramos algumas ações de Brock, para mantê-lo sob vigilância. Talvez ele saiba da corrida ao nosso. Será por isso que ele quer encontrar você?

- Talvez. De qualquer maneira, ele vai colocar a corda em nosso pescoço, e bem colocada, se descobrir. Se é que não foi ele quem começou tudo. Ele comprará nossas letras e nos arruinará.

- Por quê? - perguntou Culum.

- Porque eu o arruinarei, se tiver a mínima chance. Culum teve vontade de perguntar por que, e dizer a eles que também ia voltar para casa no próximo navio. Mas seu pai parecia tão triste e Robb estava tão taciturno. Amanhã ele lhe diria.

- Preciso dormir durante algumas horas - disse Struan. - Vou desembarcar. Você e Sarah voltem para o Resting Cloud, hein? Perry recebeu ordens de ir embora ao entardecer. Eu o demiti.

- Quem vai substituí-lo?

- Não sei - disse Struan, enquanto saía. - Mande um recado para Brock. Irei vê-lo em terra, ao entardecer.

 

Struan dormira um pouco. A comida, na mesa, estava intacta. Ele olhou, através da porta da tenda, para os navios ancorados. O sol se punha e uma lua nublada estava próxima à linha do horizonte. Grandes massas de cúmulo dominavam o céu. O vento prometia tempestade.

Ti-sen, sua mente continuava a repetir. Ti-sen. Ele é o único que pode salvar você. Sim, mas isto é traição para com tudo em que você acredita, tudo aquilo para que trabalhou.

McKay chegou com uma lanterna acesa e depositou-a sobre a mesa. A tenda era espaçosa e confortável. Havia tapetes no chão pedregoso.

- A chalupa de Brock se aproxima da praia, senhorrr.

- Leve os homens e se mantenha afastado, McKay.

- Sim, senhorrr.

- Sabe se já encontraram o Ramsey?

- Não, senhorrr.

- Onde está ele?

- Não sei, senhorrr.

Struan fez um sinal com a cabeça, distraidamente.

- Amanhã colocarei em ação todos os meus espiões, para descobrir onde ele está.

- Peço perdão, senhorrr, já espalhei a notícia, senhorrr. - McKay tentou esconder sua ansiedade. - Se ele estiver a bordo, é por maldade de alguém. - Depois, acrescentou - eu me sinto mal por causa do Capitão Perry, senhorrr.

Os olhos de Struan endureceram-se de repente.

- Vou lhe dar quinze dias para provar que eu tinha razão quanto a Isaac. Quinze dias, senão você vai ser demitido com ele.

- Sim, senhorrr. - McKay sentiu um espinho lhe subir dos testículos às tripas, e maldisse a si próprio por abrir a boca. Você nunca vai aprender, seu louco idiota?

Os passos de Brock eram pesados, na praia. Ele ficou em pé à entrada da tenda.

- Permissão para subir a bordo, Dirk?

- Sim, Tyler.

McKay saiu. Brock sentou-se à mesa e Struan serviu-lhe uma grande dose de conhaque.

- Foi horrível a perda de sua família. Sei como a gente se sente. Perdi duas mulheres de parto, as crianças também. Horrível.

- Sim.

- Não tem muito espaço para manobrar - disse Brock, examinando a tenda.

- Está com fome? - Struan indicou a comida.

- Muito obrigado. - Brock pegou um frango, partiu-o em dois e arrancou metade da carne branca. Usava no dedo mínimo um anel de ouro com uma grande esmeralda. Parece que o pagode da Casa Nobre acabou.

- Pagode é uma palavra forte demais.

Brock riu.

- Vamos, Dirk. Uma companhia precisa ter barras de ouro para sustentar seu crédito. Até a Casa Nobre.

- Sim.

- Gastei muito tempo, Dirk, e muito dinheiro, investigando vocês. - Brock retirou a outra metade do peito do frango e devorou-o. - Você tem um bom cozinheiro. Diga-lhe que lhe darei emprego.

- Ele gosta do que tem.

- Sem dinheiro não há emprego, meu caro. E nada de banco, nada de crédito, nada de navio, nada de nada! - Brock partiu outro frango. - Está guardando o champanha? Deve ser para uma ocasião especial, aposto.

Struan abriu com habilidade a garrafa e encheu copos limpos para Brock e para si mesmo.

- Está bem gelado, rapaz. No ponto. - Brock estalou os lábios. - Vinte e cinco mil não é grande coisa por um milhão, verdade?

Struan nada disse. Seu rosto estava impassível.

- Seis centavos a libra, eles disseram. Recebi uma carta no pacote de correspondência de ontem. Perdi dez mil mangos. É ruim. É muito ruim que um banco jogue com o dinheiro de seus clientes. - Brock deu uma risadinha. - Por acaso, encontrei aquele patife do Skinner. Ele também achou ruim. Vai escrever um artigo. A manchete do jornal, aposto. E com toda razão. Cortou um pedaço de torta de maçã e comeu com gosto.

- Ah, sim, a propósito, possuo oitocentas mil letras à vista de Struan e Companhia. Andei comprando, nos últimos seis meses, apesar das dificuldades. Pelo menos, meu filho Morgan e nossos agentes da cidade de Londres andaram comprando.

- Um bom investimento, Tyler. Muito bom.

- Sim. Skinner também achou isso, Dirk, meu rapaz. Ele ficou muito chocado com seu mau pagode, mas eu lhe disse que manterei os nomes de seus navios. É mau pagode mudar os nomes. Mas ele melhorarão sob minha bandeira.

- Você precisa conseguir esses navios, primeiro.

- Dentro de trinta dias, eles serão meus, rapaz. É quando as letras vão vencer. Todo mundo já saberá o que aconteceu. E você deixará de ter crédito no Oriente. Está liquidado, rapaz.

- Talvez eu destrua meus navios, antes de você ficar com ele.

- Você não faria uma coisa dessas, Dirk. Eu o conheço muito bem. Outros fariam, mas não você. Somos parecidos, quanto a isso. Navios são uma coisa toda especial. Melhor do que qualquer prostituta. - Ele terminou seu champanha. Struan tornou a encher o copo.

- Foi você quem começou a corrida ao banco?

- Não. Se tivesse pensado nisso eu teria começado, há muito tempo. Uma ótima idéia. Imagine você com os colhões presos no laço da armadilha.

- Se tiver sido proposital, eu descobrirei.

- Foi proposital, rapaz.

- Quem fez isso?

- Morgan - disse Brock. - Tenho de creditar a ele... o moleque está crescido. Sim. Foi meu filho, e estou orgulhosíssimo. - Ele coçou, todo satisfeito, os piolhos que representavam um estilo de vida. - Então, você está quebrado, Dirk. Depois de todos esses anos. Liquidado.

- Muita coisa pode acontecer, em trinta dias.

- Sim, pode. Ouvi dizer que seu filho está encarregado da venda das terras.

- Sim. Mas será honesta. Quem fizer a oferta mais alta fica com a terra. Não enganamos ninguém, Tyler. Outras pessoas, sim. Nós não precisamos.

- Um raio lhe parta! - Brock berrou. - Está querendo dizer que eu trapaceio?

- Você trapaceia o tempo todo - disse Struan, encolerizado. - Você trapaceia com seus homens, trapaceia com seus navios, e é isto que vai destruí-lo. Não se pode construir sempre com o chicote.

- Não faço nada além dos outros, por Deus. Só porque você andou recebendo umas merdas de idéias da moda, isto não quer dizer que os outros estejam errados. O chicote mantém a ralé em seu lugar. Ralé!

- Você vive do chicote e vai morrer através dele.

- Quer acertar nossas contas agora? Chicote contra chicote? Faca contra faca? Ora, por Deus! Ou será que é um covarde?

- Eu já lhe disse, um dia, e vou dizer-lhe pela última vez. Um dia, eu irei atrás de você, com um chicote... talvez esta noite, talvez amanhã, talvez no dia seguinte. Mas, por Deus, um dia eu irei atrás de você. E vou lhe dizer outra coisa. Se, por acaso, você morrer antes de eu estar preparado, irei atrás de Gorth e Morgan e destruirei sua companhia.

Brock puxara a faca.

- Talvez, rapaz, eu corte sua garganta agora.

Struan serviu mais champanha. Agora, a garrafa estava vazia.

- Abra outra garrafa. Há muitas mais.

Brock riu.

- Ah, Dirk, rapaz, você é um tipo único. Está falido e ainda quer fingir. Você está liquidado, está ouvindo, rapaz? Sua Casa Nobre está no fim da linha. E você é um covarde!

- Ah, não sou um covarde, Tyler. Você sabe disso.

- Sabe aquele outeiro onde ia ficar sua Grande Casa? - perguntou Brock, com os olhos reluzindo.

- Sim.

- É meu, rapaz. Eu vou comprá-lo. Você pode oferecer quanto quiser, eu vou oferecer mais.

Struan sentiu o sangue subir-lhe à cabeça, pois sabia que não tinha dinheiro para competir com Brock agora. A não ser que fizesse o pacto com Ti-sen. A não ser que entregasse Hong Kong.

- Vá para o inferno!

- Será meu, rapaz. E todo este rochedo maldito. - Brock esvaziou o copo e arrotou outra vez. - Depois que sua companhia falir, eu vou expulsar você e sua gente desses mares. - Ele pegou uma bolsa e contou vinte guinéus de ouro. Depois atirou as moedas no chão da tenda. - Compre um caixão para você.

Saiu da tenda, com arrogância.

- Com sua licença, senhorrr - disse McKay. Struan saiu de seu devaneio.

- Sim?

- O Sr. Culum está em terra. Ele quer falar com o senhor. Struan ficou espantado ao ver que a lua aguada estava alta no céu, e era noite fechada.

- Eu vou falar com ele.

- Vieram outras pessoas, senhorrr. Aquele chinês, Gordon Chen. A Srta. Sinclair. Um casal que não conheço. O velho Quance. Eu disse que o senhorrr ia falar com eles amanhã. Espero ter feito bem, deixando o Sr. Culum vir, sem pedir. - McKay viu os vinte guinéus de ouro no chão, mas nada disse.

- Enquanto obedecer às ordens, você nunca estará errado, McKay.

Culum apareceu à porta da tenda.

- Estou perturbando você, papai?

- Não, rapaz. Sente-se.

Culum viu as moedas no chão e começou a pegá-las.

- Deixe onde estão.

- Por quê?

- Porque quero que sejam deixadas aí. Culum sentou-se.

- Quero falar com você.

- Não estou com disposição para falar, rapaz.

- Falava sério, quando me tornou sócio?

- Sim.

- Não quero ser sócio. Não quero ficar no Oriente. Quero voltar para nossa terra.

- Sei disso mais do que você, Culum. Mas me dê tempo.

- O tempo não vai fazer diferença.

- Você é jovem, rapaz. Terá muito tempo. Tenha paciência comigo. E com a China. Robb lhe disse como proceder, quanto à venda de terras?

- Sim. - Maldito tio Robb, Culum pensou. Se, pelo menos, não tivesse explodido com papai e dito que ia embora. Maldito, maldito, maldito. Que vá para o inferno aquele banco amaldiçoado. Arruinou tudo. Pobre papai. - Acho que serei capaz de fazer tudo.

- Você não terá problema nenhum, se tudo for feito de maneira correta. Quem oferecer mais fica com a terra.

- Sim, claro. - Culum olhou para os guinéus. - Por que quer que as moedas fiquem aí?

- São o dinheiro para eu comprar meu caixão.

- Não compreendo.

Struan contou-lhe o que acontecera com Brock.

- É melhor você saber a respeito dele, Culum. Tenha cuidado, porque ele irá atrás de você, como eu vou atrás de Gorth.

- Os pecados do pai não são culpa do filho.

- Gorth Brock é igual ao pai.

- Cristo não ensina o perdão?

- Sim, rapaz. Mas eu não posso perdoá-los. Eles são o que há de mais podre sobre a face da terra. São tiranos e acreditam que o chicote responde a todas as perguntas. Uma coisa certa, na terra: dinheiro é poder... seja você rei, proprietário de terras, caudilho, mercador ou seareiro. Sem dinheiro, a pessoa não pode proteger o que tem, e nem melhorar a sorte de outrem.

- Então, está dizendo que os ensinamentos de Cristo estão errados?

- Não estão errados, rapaz. Estou dizendo que alguns homens são santos. Alguns são felizes sendo mansos, humildes e desprovidos de ambição. Alguns homens nascem contentes com o segundo lugar... mas não eu. E nem Brock. Você é assim?

- Não sei.

- Você será submetido ao teste, mais cedo ou mais tarde. Então conhecerá a si próprio.

- Então, quer dizer que o dinheiro é tudo?

- Quero dizer que sem poder não se pode ser santo, nos tempos que correm. O poder por si mesmo é um pecado. O dinheiro por si mesmo é um pecado.

- É tão importante assim ter dinheiro e poder?

- Não, rapazinho - disse Struan, com um sorriso irônico.

- O importante é a falta de dinheiro.

- Por que você quer poder?

- Por que você quer, Culum?

- Talvez eu não queira.

- Sim Talvez. Gostaria de tomar uma bebida, rapaz?

- Vou querer um pouquinho de champanha.

- Já comeu?

- Sim, obrigado. Ainda não conheço muito a mim mesmo. - disse Culum.

- Tem tempo, rapazinho. Estou tão satisfeito, de você se encontrar aqui! Muito satisfeito.

Culum tornou a olhar para as moedas.

- Realmente, não tem importância, não é? Eu ser sócio ou não, e todo o resto. A companhia está liquidada. O que você vai fazer?

- Por vinte e nove dias, ainda não estamos liquidados. Se o pagode estiver contra nós, esta versão da Casa Nobre morrerá. Então começaremos de novo. - Não se iluda, ele pensou, você não pode jamais começar outra vez.

- Uma batalha interminável?

- O que você pensa que é a vida, rapaz?

- Posso desistir de ser sócio se não estiver gostando, ou se achar que não sou bom, e não mereço o lugar? De acordo com meus desejos?

- Sim. Mas, se um dia chegar a ser Tai-Pan, não. O Tai-Pan não pode jamais renunciar, até ter certeza de que a casa está em boas mãos. Ele precisa ter certeza. É sua responsabilidade final.

- Se os mercadores chineses nos devem tanto, não podemos cobrar? Assim teremos o dinheiro para pagar a Brock.

- Eles não têm o dinheiro. - Com mil demônios, disse Struan a si próprio, você está numa armadilha. Decida. É Ti-sen ou nada.

- E Sua Excelência? Ele não pode adiantar alguma coisa? Do dinheiro do resgate?

- Pertence à Corôa. Talvez o Parlamento cumpra seu acordo, talvez o repudie. O dinheiro não nos chegará às mãos em menos de quase um ano.

- Mas nós o conseguiremos. Com certeza, Brock aceitará suas garantias, não?

A voz de Struan tornou-se áspera.

- Já lhe descrevi a medida da caridade de Brock. Eu não lhe daria vinte guinéus, se eu o tivesse preso em armadilha igual. Maldito seja, e maldita seja sua cria.

Culum mexeu-se, desajeitado, na cadeira. Seu sapato tocou num dos guinéus, e a moeda reluziu repentinamente.

- Sua Excelência não é muito... bom, ele não é um tanto tolo?

- Ele está deslocado na Ásia... isto é tudo. O homem errado para o posto. Eu estaria perdido, nas cortes da Europa. Mas ele é plenipotenciário. É tudo que importa. Sim, ele é tolo... mas tenha cuidado com ele também. Tenha cuidado com todo mundo.

- Ele sempre faz o que você manda?

Struan olhou a noite, lá fora, através da porta da tenda.

- Ele aceita meus conselhos, na maioria das vezes. Desde que eu seja o último a dá-los.

Culum mexeu em outro guinéu.- Deve haver alguma coisa... Alguém a quem recorrer. Você deve ter amigos.

Inexoravelmente, a mente de Struan estava cheia do nome da única pessoa que poderia desmontar a armadilha: Ti-sen. Brock vai tomar os navios com toda tranqüilidade, ele pensou, fervendo de raiva impotente. Sem os navios, você está perdido, rapazinho. A casa, Hong Kong, o plano. Sim, você pode começar outra vez, mas não se iluda. Você não pode construir e tripular uma armada assim, outra vez. Jamais se equiparará a Brock novamente. Jamais. Vai ficar em segundo lugar. Será o segundo lugar para sempre.

Struan sentiu pulsarem as veias de seu pescoço. Sua garganta estava seca. Não vou ficar em segundo lugar. Por Deus Nosso Senhor, eu não posso. Eu não posso. Eu não posso. Diante de Brock ou de qualquer outra pessoa.

- Amanhã, quando o China Cloud voltar, eu vou a Cantão. Você vai comigo.

- E a venda de terras? Não devo começar os procedimentos?

- O diabo carregue a venda de terras! Temos a casa para salvar, em primeiro lugar. Vá para bordo do Resting Cloud, rapaz. Partiremos logo que possível.

- Está bem. - Culum levantou-se.

- Boa-noite, rapazinho.

As moedas prenderam o olhar de Culum, hipnotizando-o. Ele começou a pegá-las.

- Eu lhe disse para deixar aí essas moedas!

- Não posso. - Havia gotas de suor na testa de Culum. As moedas pareciam queimar-lhe os dedos. - Eu preciso... eu preciso ficar com elas.

- Por que, pelo amor de Deus, hein?

- Não sei. Simplesmente, quero ficar com elas. - Ele pôs as moedas em seu bolso. - Agora são minhas. Boa-noite, papai.

 

Struan estava jantando sozinho no espaçoso salão de refeições da majestosa feitoria da companhia, na Colônia de Cantão. A grande mansão de três andares fora construída pela Companhia das índias Orientais, há quarenta anos. Struan sempre a cobiçara como o local perfeito para a Casa Nobre. Oito anos atrás, ele a comprara.

O salão de refeições ficava no segundo andar, com vista para o Rio Pérola. Abaixo deste piso, havia um labirinto de escritórios, armazéns e depósitos. Acima, aposentos residenciais e os cômodos particulares do Tai-Pan, cuidadosamente separados. Havia pátios, passeios, suítes e dormitórios em toda a extensão do interior. Entre quarenta e cinqüenta funcionários portugueses viviam e trabalhavam no prédio, e entre dez e quinze europeus de outras nacionalidades. Cem criados chineses do sexo masculino. As criadas não eram permitidas, de acordo com a lei chinesa.

Struan afastou da mesa sua cadeira entalhada, e acendeu um charuto, cheio de irritação. Uma grande lareira aquecia o mármore que revestia paredes e piso. À mesa poderiam sentar-se quarenta pessoas, a prataria era georgiana, e o candelabro de cristal, todo iluminado por velas. Ele caminhou até uma janela e ficou olhando para os negociantes que passeavam pelo jardim, lá embaixo.

Para além do jardim, havia uma praça que ia de um extremo a outro da Colônia, no sentido do comprimento, e era contígua aos cais, na margem do rio. A praça estava, como de hábito, apinhada de vendedores ambulantes chineses, transeuntes, negociantes e compradores, advinhos, escrevedores de cartas, mendigos e cachorros. Fora da feitoria da Companhia, apenas no Jardim Inglês - como era chamado - os mercadores podiam movimentar-se com relativa tranqüilidade. Os chineses, fora os criados, tinham acesso proibido ao jardim e às feitorias. Havia treze prédios no terraço, com colunas que iam de uma ponta a outra da Colônia, com exceção de duas estreitas vielas - a Rua Hog e o Beco Velha China. Só Struan e Brock possuíam prédios inteiros. Os outros negociantes dividiam os restantes, ocupando o espaço necessário às suas necessidades, e. pagavam aluguel à Companhia das índias Orientais, que construíra a Colônia há um século.

Ao norte, a Colônia tinha como fronteira a Rua Treze, das feitorias. As muralhas da cidade de Cantão ficavam à distância de um quarto de milha. Entre as muralhas da cidade e a Colônia havia um formigueiro de casas e galpões. O rio estava congestionado com as inevitáveis cidades flutuantes, dos moradores em barcos. E, acima de tudo, havia um perpétuo murmúrio, pulsante e monótono, sugerindo uma enorme colméia.

Num dos lados do jardim, Struan viu Brock absorto numa conversa com Cooper e Tillman. Ficou imaginando se estariam explicando as complexidades da venda espanhola de chá-ópio a Brock. Boa sorte para eles, pensou, sem rancor. Vale tudo no amor e no comércio.

- Onde estará, com mil demônios, Jin-qua? - Ele comentou, em voz alta.

Durante vinte e quatro dias, Struan tentara ver Jin-qua, mas a cada dia seu mensageiro voltava à Colônia com a mesma resposta:

- Eli num volto du mesmu jeito. Sinhô tem de espelá. Manhã devi tá di volta Cantão. Num si incomodi.

Culum passara dez dias na Colônia de Cantão com ele. No décimo primeiro, chegara uma mensagem urgente de Longstaff, pedindo a Culum para voltar a Hong Kong: havia problemas relativos à venda de terras.

Junto com a mensagem de Longstaff chegou uma carta de Robb. Robb escrevia que o editorial de Skinner a respeito da bancarrota de Struan provocara consternação entre os negociantes, e a maioria mandara despachos imediatos para seu país, espalhando seu dinheiro em vários bancos; que a maior parte estava esperando pelo décimo terceiro dia; que não haveria crédito, e as sugestões por ele feitas aos inimigos de Brock tinham sido inúteis; que a Marinha ficara enfurecida, quando foi divulgada a negativa oficial da ordem referente ao contrabando de ópio emitida por Longstaff, e o almirante despachara uma fragata para a Grã-Bretanha, com um pedido para que o Governo lhe desse a permissão desejada diretamente; e, finalmente, que Chen Sheng, o compradore da Companhia, fora procurado por inúmeros credores pedindo pagamento de dívidas de menor importância que, normalmente, seriam cobradas no devido tempo.

Struan sabia que seria derrotado, se não encontrasse Jin-qua dentro dos próximos seis dias, e perguntou a si próprio, outra vez, se Jin-qua o evitava, ou se estaria mesmo fora de Cantão. Ele é um velho ladrão, pensou Struan, mas não me evitaria nunca. E se você, realmente, o encontrar, rapazinho, vai mesmo fazer a oferta àquele demônio Ti-sen?

Houve um ruído de vozes cadenciadas, e a porta se abriu com violência, deixando entrar uma suja jovem Hoklo - a gente que vivia nos barcos - e um criado tentando segurá-la. A mulher usava o grande chapéu cônico costumeiro, o sampana, calça e blusa negras e encardidas e, sobre elas, um também encardido colete acolchoado.

- Ninguém pudê pará esta vaca cria aqui, sinhô - disse o criado, numa corruptela de inglês falado na China, enquanto segurava a moça que lutava. Só através dessa corruptela os negociantes podiam conversar com seus criados, e vice-versa. “Vaca” significava “mulher”. E “cria” era uma variante de “criança”. “Vaca cria” significava “jovem mulher”.

- Vaca cria sai! E bem depressa, entendido? - disse Struan.

- Quer vaca cria, quer? Vaca cria boa na cama. Dois dólar tá bom - gritou a moça.

O criado agarrou-a e o chapéu dela caiu, possibilitando a Struan ver seu rosto claramente, pela primeira vez. Ela quase não estava reconhecível, por causa da sujeira, e ele morreu de rir. O criado ficou boquiaberto, diante dele, como se ele estivesse louco, e soltou a moça.

- Essa cria de vaca - disse Struan, em meio às risadas - pode ficar, não se preocupe.

A moça limpou iradamente suas repugnantes roupas e gritou outra torrente de insultos para o criado que partia.

- Vaca cria muito boa, você vê, Tai-Pan.

- É você, May-may? - Struan olhou para ela. - Que diabo está fazendo aqui, e qual o motivo de toda essa sujeira?

- Vaca cria acha que você está fazendo pim-pim com nova vaca cria, né?

- Pelo sangue de Cristo, garota, estamos sozinhos, agora! Pare de usar inglês pidgin! Gastei bastante tempo e dinheiro ensinando a você o inglês da rainha! - Struan ergueu-a até onde seus braços alcançaram. - Meu Deus, May-may, você está fedendo tanto que se sente à distância.

- Você também fedê se usá estas roupas fedolentas!

- Federia, se usasse essas roupas fedorentas - ele disse, corrigindo-a, automaticamente. - O que está fazendo aqui, e qual o motivo de usar essas roupas fedorentas?

- Me bota no chão, Tai-Pan. - Ele assim fez, e ela se curvou, com tristeza. - Cheguei aqui em segredo e com grande tristeza pela sua perda da Suprema Senhora e de todas as crianças que ela teve, menos um filho. - As lágrimas faziam sulcos na sujeira em seu rosto. - Sinto muito, sinto muito.

- Obrigado, garota. Sim. Mas agora já aconteceu, e não há dor que possa trazê-los de volta. - Ele deu pancadinhas na cabeça da moça e acariciou-lhe o queixo, tocado por sua compaixão.

- Não conheço seus costumes. Como devo me vestir, em sinal de luto?

- Não ponha luto, May-may. Eles foram embora. Não adianta todo pranto e nem todo luto.

- Queimei incenso, para um perfeito renascimento.

- Obrigado. Agora, o que está fazendo aqui, e por que partiu de Macau? Eu lhe disse para ficar lá.

- Primeiro banho, depois mudar de roupa, depois conversar.

- Não temos roupas aqui, May-may.

- A tola da minha ama, Ah Gip, está lá embaixo. Ela carrega roupas, e minhas coisas, não se preocupe. Onde é o banheiro?

Struan puxou a corda do sino e, imediatamente, apareceu o servo, com os olhos arregalados.

- Vaca cria quer banho, sabe? Ama pode fazer tudo. Pegue comida! - E depois, para May-may - Diga que comida quer.

May-may conversou com o criado boquiaberto, em tom imperioso, e saiu.

Seu modo de caminhar oscilante jamais deixava de comover Struan. May-may tivera os pés atados. Eles tinham apenas três polegadas de comprimento. Quando Struan a comprara, há cinco anos, cortou as ataduras e ficou horrorizado com a deformidade que os antigos costumes tinham decretado ser um sinal essencial de beleza para uma moça - pés pequenos. Só uma moça com pés pequenos - pés de lótus - poderia ser uma esposa ou uma concubina. As que tinham pés normais tornavam-se camponesas, criadas, prostitutas de baixa classe, amas e operárias, e eram desprezadas.

Os pés de May-may eram aleijados. Sem o apertado envoltório das ataduras, a agonia que ela sentira causava pena. Então, Struan permitiu que as ataduras fossem recolocadas e, após um mês, a dor já diminuíra e May-may pudera andar outra vez. Só na velhice os pés atados se tornavam insensíveis à dor.

Struan perguntara-lhe, então, usando Gordon Chen como intérprete, como aquilo fora feito. Contara-lhe, orgulhosamente, que sua mãe começara a atar seus pés quando ela tinha seis anos.

- As ataduras eram bandagens de duas polegadas de largura e doze de comprimento, e úmidas. Minha mãe amarrou-as com força em torno dos meus pés... em volta dos calcanhares e sobre o peito e plantas dos pés, dobrando os quatro dedos menores para baixo da sola e deixando livre o dedo grande. Quando as bandagens secavam e se apertavam, a dor era terrível. No curso dos meses e anos, o calcanhar se aproxima do dedo e o peito se arqueia. Uma vez por semana, as bandagens são retiradas por alguns minutos, e os pés lavados. Depois de alguns anos, os dedos menores ficam encarquilhados e mortos, e são removidos. Quando eu tinha quase doze anos, podia andar muito bem, mas meus pés ainda não eram suficientemente pequenos. Foi então que minha mãe consultou uma mulher entendida na arte de atar os pés. No dia do meu décimo segundo aniversário, a sábia mulher veio para nossa casa com uma faca aguçada e óleos. Ela fez um profundo corte com a faca no meio da sola dos meus pés. Este corte fundo permitiu que o calcanhar fosse empurrado para mais perto dos dedos, quando as bandagens foram recolocadas.

- Que crueldade! Pergunte a ela como suportou a dor.

Struan lembrava-se de seu olhar trocista quando Chen traduziu a pergunta e de como ela respondeu numa cadência encantadora.

- Ela diz: “Para cada par de pés atados, há um lago de lágrimas. Mas, o que são as lágrimas e a dor! Agora não tenho vergonha de deixar ninguém medir meus pés.” Ela quer que o senhor os meça, Sr. Struan.

- Não vou fazer uma coisa dessas!

- Por favor, senhor. Isto a deixará muito orgulhosa. Eles são perfeitos, dentro do estilo chinês. Se não o fizer, ela vai pensar que o senhor está envergonhado dela. Perderá prestígio terrivelmente, diante do senhor.

- Por quê? .

- Acha que o senhor tirou as bandagens porque pensava que ela o estava enganando.

- Mas, por que eu pensaria assim?

- Porque o senhor é... bom, ela não conhecia nenhum europeu, antes. Por favor, senhor. Só o orgulho que sentir por ela compensará todas as lágrimas.

Então ele medira seus pés e manifestara uma alegria que não sentia, e ela se prosternara diante dele três vezes. Ele detestava ver homens e mulheres prosternando-se, com a testa a tocar o chão. Mas o costume antigo pedia este sinal de obediência de um inferior a um superior, e Struan não podia proibi-lo. Se protestasse, May-may ficaria assustada outra vez e se sentiria embaraçada diante de Gordon Chen.

- Pergunte se seus pés estão doendo agora.

- Vão doer sempre, senhor. Mas eu lhe garanto que ela sentiria muito mais dor se tivesse pés grandes e feios.

May-may então disse algo a Chen, e Struan reconheceu a palavra fan-quai, que significava “demônio bárbaro”.

- Ela quer saber o que fazer para agradar um não-chinês - disse Gordon.

- Diga a ela que os fan-quai não são diferentes dos chineses.

- Sim, senhor.

- E lhe diga que você vai lhe ensinar inglês. Imediatamente. Diga-lhe que ninguém pode saber que ela pode falar inglês. Diante dos outros, deve falar só chinês, ou pidgin, que você também lhe ensinará. Finalmente, você a protegerá com sua vida.

 

- Posso entrar agora? - May-may estava à porta, curvando-se delicadamente.

- Por favor.

O rosto dela era oval, os olhos amendoados, e as sobrancelhas perfeitos crescentes. Um perfume cercava-a agora, e seu vestido comprido e flutuante era do mais fino brocado de seda azul. Seu cabelo estava penteado em crescentes no alto da cabeça, e enfeitado com alfinetes de jade. Ela era alta, para uma chinesa, e sua pele tão branca a ponto de parecer quase translúcida. Era da província de Soochow.

Struan a comprara de Jin-qua, e discutira o preço por muitas semanas, mas sabia que, na realidade, Tchung May-may era um presente de Jin-qua, em troca de muitos favores, no curso de anos; que Jin-qua poderia tê-la vendido facilmente ao homem mais rico da China, a um príncipe manchu e até mesmo ao imperador, pelo seu peso em jade - e não apenas pelos quinze mil taéis de prata que, finalmente, acertaram. Ela era única, sem preço.

Struan ergueu-a e beijou-a, suavemente.

- Agora, conte-me o que está acontecendo. - Ele se sentou na poltrona, e segurou-a em seus braços.

- Em primeiro lugar, vim disfarçada por causa do perigo. Não apenas para mim, mas para você. Sua cabeça ainda está a prêmio. E o seqüestro em troca de resgate é um costume antigo.

- Onde deixou as crianças?

- Com a Irmã Mais Velha, claro - ela respondeu.

A Irmã Mais Velha era como May-may chamava a ex-amante de Struan, Kai-sung, de acordo com o costume, embora as duas não fossem parentes. E agora Kai-sung era a terceira esposa do compradore de Struan. Entretanto, entre May-may e Kai-sung havia um intenso afeto, e Struan sabia que as crianças estariam em segurança, e receberiam tantos carinhos como se fossem dela própria.

- Muito bem - disse. - E como estão eles?

- Duncan está com o olho machucado. Escorregou e caiu, e então eu chicoteei sua amaldiçoada ama, até ficar com o braço cansado. Duncan tem mau gênio, por causa do sangue bárbaro.

- É... o seu, não meu. E Kate?

- Nasceu seu segundo dente. Sinal de muita sorte. Antes do segundo aniversário. - Ela se aninhou em seus braços um momento. - Então, li jornal. Aquele homem, Skinner? Mais pagode ruim, não? Aquele maldito Brock quer falir você, usando grandes dívidas em dinheiro. É verdade?

- Em parte, é. Sim, a menos que aconteça uma mudança de pagode, estamos falidos. Não vai haver mais sedas, perfumes, jades e casas - ele brincou.

- Ayeeee yah! - disse ela, abanando a cabeça. - Você não é o único homem na China.

Ele lhe deu uma palmada no traseiro, e ela o espetou com suas unhas compridas, até ele lhe agarrar o pulso.

- Não diga isso outra vez - declarou ele, e beijou-a apaixonadamente.

- Sangue de Cristo - disse ela, tentando respirar outra vez. - Veja o que você fez com meu cabelo. Aquela puta preguiçosa, Ah Gip, passou uma hora fazendo esse penteado, e veja só!

Ela sabia que o agradava muito e tinha orgulho de poder agora, aos vinte anos, ler e escrever inglês e chinês e falar inglês e cantonês, bem como seu próprio dialeto de Soochow, e também mandarim, a língua de Pequim e da corte do imperador; e também por saber muitas coisas que Gordon Chen aprendera na escola, pois ele ensinara bem, e entre eles havia um grande afeto. May-may sabia que ela era única em toda a China.

Houve uma discreta batida na porta.

- Um europeu? - ela sussurrou.

- Não, garota. É apenas um criado. Eles têm ordem para anunciar todos que chegam. Sim?

O criado estava acompanhado de dois outros, e todos afastaram os olhos de Struan e da moça. Mas sua curiosidade era óbvia, e eles gastaram mais tempo do que o necessário para pôr os pratos contendo comida chinesa e os pauzinhos.

May-may atacou-os com uma torrente de cantonês e eles curvaram-se nervosamente e saíram às pressas.

- O que você disse a eles? - perguntou Struan.

- Eu simplesmente os avisei, por Deus, que se dissessem a alguém que eu estava aqui eu cortaria pessoalmente suas línguas e lhes arrancaria os olhos, e depois convenceria você a acorrentá-los num de seus navios e o afundaria no mar, junto com suas malditas esposas e filhos e parentes e, antes disso, você colocaria mau-olhado nesses malditos patifes e em sua maldita descendência, para sempre.

- Pare de praguejar, sua diabinha. E pare de brincar a respeito de mau-olhado.

- Não é brincadeira. Você tem isso, seu demônio bárbaro. Para todo mundo, menos para mim. Eu sei lidar com você.

- O diabo carregue você, May-may. - Ele interceptou-lhe as mãos e a carícia íntima. - Coma, enquanto a comida está quente e, mais tarde, eu vou cuidar de você. - Ele a pegou e carregou-a até à mesa.

Ela o serviu de camarões fritos, porco magro, cogumelos cozidos requintadamente em soja, noz-moscada, mostarda e mel, e depois serviu a si própria.

- Pela morte de Cristo, estou faminta - disse ela.

- Faça o favor de parar de praguejar!

- Você se esquece do seu “por Deus”, Tai-Pan! - Ela estava exultante, e começou a comer com grande gosto.

Ele pegou os pauzinhos e começou a usá-los, habilmente. Achou a comida soberba. Levara meses para se acostumar com o sabor. Nenhum dos europeus comia comida chinesa. Struan também, antes, preferia a cozinha sólida da velha Inglaterra, mas May-may lhe ensinara que era mais saudável comer como os chineses.

- Como você chegou até aqui? - perguntou Struan. May-may escolheu um dos grandes camarões fritos e cozidos em seguida em molho e verduras com gosto de soja, e elegantemente o decapitou, começando a lhe tirar a casca.

- Comprei passagem numa lorcha. Comprei um bilhete fantasticamente barato, de terceira classe, e me sujei para maior segurança. Você me deve cinqüenta mangos.

- Tire de sua mesada. Não pedi a você para vir aqui.

- Esta vaca cria faz dinheilo bem fácil, não se incomodi.

- Pare com isso e se comporte.

Ela riu, ofereceu-lhe o camarão e começou a tirar a casca de outro.

- Obrigado, não quero mais.

- Coma tudo. Fazem muito bem a você. Eu já lhe disse muitas vezes que eles dão muita saúde e muita potência a você.

- Desista, garota.

- É verdade - disse ela, muito séria. - Os camarões contribuem muito para seu vigor. É muito importante ter bastante vigor! Uma esposa precisa cuidar de seu marido. - Ela limpou os dedos num guardanapo bordado e, depois, pegou uma das cabeças dos camarões com seus pauzinhos.

- Diabo, May-may, você precisa comer as cabeças?

- Sim, por Deus, você não sabe que são a melhor parte? - ela disse, imitando-o, e riu tanto que sufocou. Ele lhe bateu nas costas, mas suavemente, e depois ela bebeu um pouco de chá.

- Bem feito - disse ele.

- Mesmo assim, as cabeças são a melhor parte, pode ter certeza.

- Mesmo assim, são horrorosas, pode ter certeza.

Ela comeu, em silêncio por um momento.

- Brock tem sido duro de roer?

- Duro.

- É terrivelmente simples resolver essa dureza. Mate Brock. Chegou a hora.

- É uma das maneiras de resolver.

- De uma maneira ou de outra, você achará um jeito.

- O que faz você ter tanta certeza?

- Você não quer me perder.

- Por que deveria eu perder você?

- Eu também não gosto de segundo lugar. Pertenço ao Tai-Pan. Não sou uma maldita Hakka, ou mulher de barco, ou puta cantonesa. Quer chá?

- Sim.

- Beber chá com a comida é muito bom para você. Assim você nunca vai ficar gordo. - Ela despejou o chá e lhe ofereceu a xícara graciosamente. - Eu gosto de você, quando você está zangado, Tai-Pan. Mas você não me assusta. Sei que agrado a você por demais, como você me agrada por demais. Quando ficar em segundo lugar, outra me substituirá, tenho certeza. Isto é pagode. Para mim. E também para você.

- Talvez você já esteja em segundo lugar agora, May-may.

- Não, Tai-Pan, agora não. Mais tarde, sim, mas agora não. Ela se curvou sobre ele e o beijou, e fugiu, enquanto ele tentava agarrá-la.

- Ayeeee yah, não posso dar tantos camarões a você! - Correu para longe dele, rindo, mas ele a agarrou, e ela colocou os braços em torno de seu pescoço e o beijou. - Você me deve cinqüenta mangos!

- O diabo a carregue! - Ele a beijou, sentindo necessidade dela, tanto quanto ela necessitava dele.

- Seu gosto é tão bom. Primeiro vamos jogar gamão.

- Não.

- Primeiro jogamos gamão e depois fazemos amor. Há tempo de sobra. Eu fico com você agora. Jogamos por um dólar o ponto.

- Não.

- Um dóla ponto. Talvez eu tenha dor de cabeça, estou cansada demais.

- Talvez eu não lhe dê o presente de Ano-Novo que eu estava pensando dar.

- Que presente?

- Deixa p'ra lá.

- Por favor, Tai-Pan, eu não vou mais aborrecer você. Que presente?

- Deixa p'ra lá.

- Por favor, me diga. Por favor. Era um alfinete de jade? Ou uma pulseira de ouro? Ou sedas?

- Como está sua dor de cabeça?

Ela lhe deu um tapa, zangada, e depois abraçou-lhe apertadamente o pescoço.

- Você é tão ruim para mim e eu sou tão boa para você. Vamos fazer amor, então.

- Jogaremos quatro partidas. Mil dóla ponto.

- Mas assim é jogo demais! - Ela viu o desafio trocista no rosto dele e seus olhos lampejaram. - Quatro jogos. Vou derrotar você, por Deus.

- Ah, não, por Deus.

Então, eles disputaram quatro partidas, e ela amaldiçoava e dava vivas, chorava e ria, e arquejava, consumida pela excitação, enquanto sua sorte mudava. Ela perdeu dezoito mil dólares.

- Pela morte de Cristo! Estou arruinada, Tai-Pan. Arruinada. Ah, que infelicidade, infelicidade, infelicidade. Todas as minhas economias e mais. Minha casa! Mais um jogo - ela implorou. - Você deve deixar-me tentar recuperar o dinheiro.

- Amanhã. Ao mesmo preço por ponto.

- Jamais jogarei outra vez com esses preços. Nunca, nunca, nunca. Só mais uma vez, amanhã.

 

Após fazerem amor, May-may saiu da cama de armação e foi até à lareira. Uma chaleira de ferro sibilava suavemente, na pequena prateleira de ferro perto das chamas.

Ela se ajoelhou e despejou a água quente da chaleira nas toalhas brancas limpas. As chamas dançaram sobre a pureza de seu corpo. Tinha os pés metidos em pequenas chinelas de dormir, e as ataduras estavam limpas, em torno de seus tornozelos. Suas pernas eram longas e bonitas. Ela escovou o cabelo negro-azulado e brilhante, que lhe caía pelas costas, e voltou para a cama.

Struan estendeu as mãos para pegar uma das toalhas.

- Não - disse May-may. - Deixe que eu faço. Me dá prazer, e é meu dever.

Quando acabou de enxugá-lo, ela lavou a si própria e, depois, instalou-se pacificamente ao lado dele, sob os cobertores. Um vento forte fez as cortinas de damasco farfalharem, e crepitarem as chamas na lareira. As sombras dançaram nas paredes e no teto alto.

- Veja, ali está um dragão - disse May-may.

- Não, é um navio. Você está bem aquecida?

- Como sempre, quando me encontro perto de você. E ali está um templo.

- Sim. - Ele pôs um braço em torno dela, exultando com o suave frescor de sua pele.

- Ah Gip está fazendo o chá.

- Ótimo. Chá será muito bom.

Depois do chá, ambos se sentiram reanimados, voltaram a se deitar na cama e ela apagou a lâmpada. Eles observaram, novamente, as sombras.

- O costume de vocês é que tenham só uma esposa, não é?

- Sim.

- O costume chinês é melhor. Uma Tai-tai é mais sensato.

- O que quer dizer isso, garota?

- “Suprema entre as supremas”. O marido é o supremo na família, naturalmente, mas no lar a primeira esposa é a suprema entre as supremas. Esta é a lei chinesa. A lei também fala em muitas esposas, mas uma delas é Tai-tai. - Ela movimentou para uma posição mais confortável seu longo cabelo. - Quando você se casará? Qual é seu costume?

- Acho que não tornarei a me casar.

- Você deve casar. Uma escocesa, ou uma inglesa. Mas, primeiro, deve casar comigo.

- Sim - disse Struan. - Talvez eu deva.

- Sim, talvez você deva. Eu sou a sua Tai-tai - e depois ela se aninhou mais próxima a ele e se deixou mergulhar num sono tranqüilo.

Struan ficou olhando as sombras, por muito tempo. Depois, dormiu.

 

Pouco depois do amanhecer, ele acordou, sentindo perigo. Tirando e face de debaixo do travesseiro, caminhou sem fazer ruído até à janela e abriu as cortinas. Para pasmo seu, viu que a praça estava deserta. Além da praça, no rio, um silêncio estranho parecia pairar sobre as cidades flutuantes.

Depois, ouviu passos abafados que se dirigiam para o quarto. Ele olhou para May-may. Ela ainda dormia tranqüilamente. Com sua faca em riste, Struan encostou-se à parede atrás da porta e esperou.

Os passos pararam. Uma batida suave.

- Sim?

O criado entrou no quarto sem fazer barulho. Estava assustado e, quando viu Struan nu, com a faca na mão, falou com voz entrecortada:

- Sinhô! Tem um sinhô de naliz de gancho e um sinhô de cabelo pleto aqui. Dizem pla sinhô ir diplessa.

- Diz que vô diplessa.

Struan se vestiu, rapidamente. Deixou cair uma escova de cabelo e May-may quase acordou.

- É cedo demais para se levantar. Volte para a cama - disse ela, sonolenta. E se encolheu mais, embaixo dos cobertores, tornando a dormir imediatamente.

Struan abriu a porta. Ah Gip estava pacientemente acocorada no corredor, onde dormira. Struan desistira de mandá-la dormir em outro lugar, porque Ah Gip simplesmente sorria, fazia um sinal afirmativo com a cabeça, dizia: “Sim, sinhô.” E dormia do lado de fora da porta. Era baixa e robusta, e um sorriso parecia permanentemente fixado em seu rosto redondo, com marcas de bexiga. Há três anos era a escrava pessoal de May-may. Struan pagara por ela três taéis de prata.

Ele a convidou para entrar no quarto.

- Senhola pode dulmi. Você espelá dentlo quarto, intende?

- Intende, sinhô...

Ele desceu as escadas, apressadamente.

Cooper e Wolfgang Mauss estavam a esperá-lo na sala de jantar. Mauss examinava soturnamente suas pistolas.

- Desculpe incomodá-lo, Tai-Pan. Há problemas - disse Cooper.

- O quê?

- Está circulando um boato de que dois mil soldados manchus com bandeiras de guerra entraram em Cantão, a noite passada.

- Tem certeza?

- Não - disse Cooper. - Mas, se for verdade, haverá problemas.

- How-qua mandou me chamar esta manhã - disse Mauss, pesadamente.

- Ele disse se Jin-qua já voltou?

- Não, Tai-Pan. Ele ainda diz que seu pai está viajando. Quanto a mim, não acredito nisso, hein? How-qua estava com muito medo. Contou que fora acordado muito cedo, aquela manhã. Um edito imperial, assinado pelo próprio imperador, havia sido entregue a ele, e dizia que todo comércio conosco deveria cessar, de imediato. Eu o li. Os selos estavam corretos. Toda a Co-hong está num rebuliço.

Houve um estardalhaço lá embaixo. Eles correram à janela. Uma companhia de soldados montados manchus trotou para a extremidade leste da praça e desmontou. Eram homens altos, fortemente armados - mosquetes, longos arcos, espadas e lanças embandeiradas. Alguns eram barbados. Eram chamados bandeireiros por serem soldados imperiais e conduzirem as bandeiras imperiais. Os chineses não tinham permissão para ingressar em seus regimentos; eram a elite do exército do imperador.

- Bom, há com certeza quarenta ou cinqüenta em Cantão - disse Struan.

- E se houver dois mil? - perguntou Cooper.

- É melhor nos prepararmos para partir da Colônia.

- Bandeireiros são um mau sinal - disse Mauss. Ele não queria sair da Colônia; queria ficar com seus convertidos chineses e continuar a pregar para os pagãos, o que ocupava todo seu tempo, quando não estava servindo de intérprete para Struan. - Schrechlich mau.

Struan considerou as possibilidades e depois tocou a campanhia, para chamar um criado.

- Traz bastante comida, diplessa, diplessa. Caie, chá, ovos, carne... diplessa, diplessa.

- Há bandeireiros na praça e você só pensa em tomar o desjejum? - perguntou Cooper.

- Não adianta se preocupar com o estômago vazio - disse Struan. - Estou com muita fome, hoje de manhã.

Mauss riu. Ele ouvira o rumor, sussurrado entre os criados, de que a legendária amante do Tai-Pan chegara em segredo. Por sugestão de Struan, há dois anos ele secretamente ensinara o cristianismo a May-may e a convertera. Sim, pensou, com orgulho, o Tai-Pan confia em mim. Por causa dele, ó Senhor, pelo menos uma foi salva. Por causa dele, outros estão sendo salvos por Vossa divina mercê.

- O café é uma boa idéia.

Sentado junto à janela, Cooper via os negociantes esgueirando-se pelo jardim e entrando em suas feitorias. Os bandeireiros estavam reunidos numa massa desarrumada, acocorados e conversando.

- Talvez seja como da última vez. Os mandarins vão nos prender, em troca de resgate - disse Cooper.

- Não desta vez, rapazinho. Se começarem alguma coisa, vai ser nos liquidando.

- Por quê?

- Qual o motivo de mandarem soldados imperiais a Cantão? São combatentes... e não como o exército chinês local.

Os criados entraram e começaram a pôr a grande mesa. Mais tarde, a comida foi trazida. Havia frangos frios e ovos cozidos, pão, carne quente, bolinhos e tortas de carne quente, além de manteiga, marmelada e geléia.

Struan comeu com gosto e Mauss também. Mas Cooper estava sem vontade de provar sua comida.

- Sinhô? - disse um criado.

- Sim?

- Sinhô de um olho só está aqui. Pode?

- Pode.

Brock caminhou para dentro da sala. Seu filho Gorth estava com ele.

- Bom-dia, senhores. Bom-dia, meu caro Dirk.

- Quer café?

- Ah, muito obrigado.

- Fez boa viagem, Gorth?

- Sim, obrigado, Sr. Struan. - Gorth era da mesma altura do pai, um homem rijo, marcado por cicatrizes e com o nariz quebrado, cabelo grisalho e barba. - Da próxima vez, eu vencerei o Thunder Cloud.

- Da próxima vez, rapaz - disse Brock, com uma risada. - você será o capitão desse navio.

Ele se sentou e começou a se fartar.

- Quer passar a carne, Sr. Cooper? - Estendeu o polegar esticado em direção à janela. - Aqueles filhos da mãe não significam nada de bom.

- Sim. O que acha, Brock? - perguntou Struan.

- O pessoal da Co-hong está arrancando os rabichos. O comércio está interrompido, no momento. É a primeira vez que vejo esses malditos bandeireiros.

- Vão evacuar a Colônia?

- Eu não serei expulso por chineses ou por bandeireiros.

- Brock se serviu de mais carne. - Claro que posso me afastar um pouco. Quando eu quiser. A maioria de nós vai sair amanhã para a venda de terras. Mas faremos bem convocando um conselho imediatamente. Têm armas aqui?

- Não suficientes.

- Temos o bastante para um cerco. Gorth as trouxe. Este lugar é o melhor para a defesa. Já é quase nosso, de qualquer jeito - acrescentou.

- Quantos guarda-costas você tem?

- Vinte. São rapazes do Gorth. São capazes, cada um, de derrubar cem chineses.

- Eu tenho trinta, contando os portugueses.

- Esqueça os portugueses. É melhor nós sozinhos. - Brock limpou a boca e partiu em dois um pequeno pão, passando nele, em seguida, manteiga e marmelada.

- Você não pode defender a Colônia, Brock - disse Cooper.

- Podemos defender esta feitoria, rapaz. Não se preocupe conosco. Você e o resto dos americanos vão se entocar na sua. Eles não vão tocar em vocês... é atrás de nós que estão.

- Sim - disse Struan. - E vamos precisar de vocês para vigiar nosso comércio, se tivermos de partir.

- Essa é outra razão que me fez vir aqui, Dirk. Queria falar francamente sobre o comércio e sobre Cooper-Tillman. Fiz uma proposta que foi aceita.

- A proposta foi aceita a depender o fato de Struan e Companhia não poderem cumprir acertos anteriores -- disse Cooper. - Vamos dar a você trinta dias, Dirk. Depois dos trinta dias...

- Obrigado, Jeff. É generoso de sua parte.

- Isso é estúpido, rapaz. Mas eu não me incomodo quanto à ocasião. Sou generoso também com seu tempo. Mais cinco dias, Dirk, hein?

Struan virou-se para Mauss.

- Volte para a Co-hong e descubra o que puder. Tenha cuidado e leve um dos meus homens.

- Não preciso de um homem comigo. - Mauss arrancou o corpanzil da cadeira e partiu.

- Nós vamos realizar o conselho no andar de baixo - disse Struan.

- Ótimo. Talvez todos devam vir para cá. Haverá espaço suficiente.

- Isso nos denunciaria. É melhor nos prepararmos e esperarmos. Talvez seja apenas um truque.

- Você tem razão, rapaz. Estamos em segurança até os criados desaparecerem. Vamos, Gorth. Conferência dentro de uma hora? No andar de baixo?

- Sim.

Brock e Gorth partiram. Cooper rompeu o silêncio.

- O que significa tudo isso?

- Acho que é um plano de Ti-sen para nos deixar nervosos. A fim de nos preparar para algumas concessões que ele deseja. - Struan pôs a mão no ombro de Cooper. - Obrigado pelos trinta dias. Eu não vou esquecer.

- Moisés teve quarenta dias. Achei que trinta seriam adequados para você.

 

A conferência foi barulhenta e todos estavam irados, mas Brock e Struan dominaram as conversações.

Todos os negociantes - com exceção dos americanos - estavam no grande salão nobre que Struan usava como seu escritório particular. Barriletes de conhaque, uísque, rum e cerveja enfileiravam-se numa das paredes. Havia prateleiras com livros e volumes de escrituração na outra. Pinturas de Quance enchiam as paredes - paisagens de Macau, retratos e navios. Arcas com tampo de vidro, contendo canecas de estanho e canecões de prata. E armeiros com espadas e mosquetes, pólvora e balas.

- Não é nada, garanto a vocês - Masterson disse, bufando. Era um homem com o rosto vermelho e papada, no início da casa dos trinta, diretor da firma de Masterson, Roach e Roach. Ele estava vestido como os outros homens - casaco de marinheiro de tecido de lã inglês, colete resplandecente e cartola de feltro.

- Os chineses jamais molestaram a Colônia, desde sua criação, por Deus.

- Sim. Mas isso foi antes de entrarmos em guerra com eles e ganharmos. - Struan queria que todos chegassem a um acordo e fossem embora. Segurava um lenço perfumado contra o nariz, para se proteger do fedor rançoso de seus corpos.

- Eu digo, vamos arrancar da praça os malditos bandeireiros agora mesmo - disse Gorth, tornando a encher seu canecão de cerveja.

- Vamos fazer isso, se for necessário - Brock cuspiu na escarradeira de estanho. - Estou cansado de toda essa conversa. Agora, vamos concordar com o plano de Dirk, ou não?

Ele olhou fixamente em torno do salão.

A maioria dos negociantes devolveu o olhar. Havia quarenta ali reunidos - ingleses e escoceses, com exceção de Eliksen, o Dinamarquês, que era agente comercial de uma firma londrina, e um corpulento parse, com um traje flutuante. Rumajee, da Índia. MacDonald, Kerney, Maltby, de Glasgow, e Messer, Vivien, Tobe, Smith, de Londres, eram os principais negociantes, todos homens rijos, com uma dureza de carvalho, na casa dos trinta.

- Estou farejando problemas, senhor - disse Rumajee, e puxou seu grande bigode. - Aconselho uma retirada imediata.

- Pelo amor de Deus, o ponto central de todo o plano, Rumajee, é não nos retirarmos - disse Roach, causticamente. - Só nos retiraremos se necessário. Eu voto a favor do plano. E concordo com o Sr. Brock. Chega dessa maldita conversa, estou cansado. Retirar-se diante de pagãos? Nunca, por Deus.

O plano de Struan era simples. Eles esperariam em suas próprias feitorias; se começassem perturbações, a um sinal de Struan convergiriam para sua feitoria, sob fogo de cobertura de seus homens, se necessário.

- Posso sugerir algo, Sr. Struan? - perguntou Eliksen. Struan fez um aceno afirmativo de cabeça para o homem alto, de cabelos claros e taciturno.

- Claro.

- Talvez um de nós deva apresentar-se como voluntário para levar a notícia a Whampoa. De lá uma lorcha veloz pode ir procurar a armada, em Hong Kong. Só para o caso de eles nos cercarem e nos isolarem, como antes.

- Boa idéia - disse Vivien. Ele era alto, pálido e estava muito embriagado. - Vamos todos nos apresentar como voluntários. Posso tomar um uísque? Esse é um bom sujeito.

Então, de imediato, todos começaram a falar outra vez e a discutir sobre quem deveria apresentar-se como voluntário, e afinal Struan os pacificou.

- Foi sugestão do Sr. Eliksen. Se ele pensou nisso, por que não o deixar ter essa honra?

Eles se reuniram no jardim e espiaram quando Struan e Brock escoltaram Eliksen através da praça, até à lorcha que Struan colocara à sua disposição. Os bandeireiros não lhes prestaram a menor atenção, limitando-se a apontar e fazer troça.

A lorcha seguiu pelo rio.

- Talvez nós não tornemos a vê-lo - disse Brock.

- Não acredito que vão tocar nele, senão não o deixaria nunca partir.

Brock resmungou.

- Para um estrangeiro, ele não é um mau sujeito. - Voltou com Gorth para sua própria feitoria. Os outros negociantes seguiram para as suas.

Quando Struan ficou satisfeito com a disposição da guarda armada no jardim, e diante da porta dos fundos, que dava para a Rua Hog, voltou para sua suíte.

May-may fora embora. E Ah Gip.

- Onde está a senhora?

- Num sei, sinhô. Num vi mais vaca cria. Ele procurou por todo o prédio, mas elas haviam desaparecido. Era quase como se jamais tivessem estado ali.

 

Struan estava no jardim. Era pouco antes da meia-noite. Havia uma estranha quietude no ar. Ele sabia que a maioria dos negociantes devia estar dormindo vestida, e com as armas ao lado. Espiou, através do portão, os bandeireiros. Alguns dormiam, outros tagarelavam por sobre uma fogueira que haviam feito na praça. A noite estava fria. Havia pouco movimento no rio.

Struan saiu do portão e perambulou, pensativo, pelo jardim. Onde diabo estaria May-may? Sabia que ela não deixaria a Colônia sem motivo. Talvez tivesse sido atraída para isso. Talvez - ah, sangue de Cristo, isso não era maneira de pensar. Mas ele sabia que o mais rico senhor da China não hesitaria em tomá-la - pela força, se necessário - assim que a visse.

Uma sombra pulou por sobre o muro lateral e a faca de Struan, instantaneamente, estava em sua mão.

Era um chinês que, tremulamente, estendeu um pedaço de papel. Era um homem de baixa estatura, esbelto, com os dentes quebrados, o rosto esticado e amarelado pelo ópio. Impresso no papel, estava o carimbo de Jin-qua, um selo particular usado apenas em contratos e documentos especiais.

- Sinhô - disse o chinês baixinho. - Ninguém segue sinhô. Sozinho.

Struan hesitou. Era perigoso deixar a proteção da Colônia e de seus homens. Temeridade.

- Não poder. Jin-qua pode aqui vir.

- Não poder. Sem ninguém seguir. - O chinês apontou o selo. - Jin-qua quer ver, diplessa, diplessa.

- Amanhã - disse Struan. O chinês abanou a cabeça.

- Agola. Diplessa, diplessa, sabe.

Struan pensou que, possivelmente, o selo de Jin-qua caíra em outras mãos e isto poderia muito bem ser uma armadilha. Mas ele não ousava levar Mauss ou qualquer de seus homens, porque o encontro poderia ser muito secreto. E quanto antes melhor. Estudou o papel sob a lanterna e se certificou inteiramente de que o carimbo estava correto.

Fez um sinal afirmativo com a cabeça.

- Pode.

O chinês seguiu na frente até o muro lateral e escalou-o. Struan seguiu-o, pronto para uma traição. O chinês andou apressadamente ao longo da parede lateral da feitoria, e dobrou na Rua Hog. Inacreditavelmente, a rua estava deserta. Mas Struan sentia olhos observando-o.

No final da Rua Hog, o chinês virou em direção leste. Havia duas liteiras, com cortinas, à espera. Os cules das liteiras estavam aterrorizados. O seu terror se intensificou quando viram Struan.

Struan entrou numa das liteiras, o chinês na outra. Imediatamente, os cules ergueram as cadeiras e seguiram a galope pela Rua da Décima Terceira Feitoria. Viraram em direção sul, por estreitas e desertas passagens entre edifícios, desconhecidos para Struan. Logo ele havia perdido todo o sentido de direção. Recostou-se e amaldiçoou sua estupidez, ao mesmo tempo exultando com a expectativa do perigo. Finalmente, os cules pararam numa suja viela de altos muros, cheia de lixo apodrecido. Um cão sarnento banqueteava-se.

O chinês deu aos cules algum dinheiro e, quando eles já se haviam evaporado na escuridão, bateu numa porta. Ela se abriu e ele se afastou lateralmente, para que Struan entrasse, Struan fez-lhe sinal para ir primeiro e depois, cautelosamente, seguiu-o até um rançoso estábulo, onde outro chinês estava à espera, com uma lanterna. Este homem virou-se e caminhou silenciosamente através do estábulo, passando por outra porta, sem olhar para trás. Agora, seguiam através de um grande armazém e, em seguida, subiram vacilantes escadas e desceram outras, indo dar em novo armazém. Ratos corriam pela escuridão.

Struan sabia que estavam em alguma parte próxima ao rio, porque ouvia um ruído de água batendo e cordas rangendo. Estava pronto para uma briga a qualquer momento, e tinha o cabo da faca dentro da mão fechada, enquanto a lâmina estava escondida em sua manga.

O homem com a lanterna mergulhou sob uma ponte de caixotes de embalagem e foi seguindo até outra porta, meio escondida. Bateu, e então abriram.

- Olá, Tai-Pan - disse Jin-qua. - Fazia tempo que nós num si via. Struan entrou na sala. Era outro armazém cheio de sujeira, fracamente iluminado por velas e cheio de caixotes de embalagem e redes de pescar emboloradas.

- Olá, Jin-qua - disse ele, aliviado. - Num si via faz tempo.

Jin-qua era velho, frágil, pequeno. Sua pele era como pergaminho. Mechas finas de barba grisalha caíam-lhe sobre o peito. Sua roupa era de um rico brocado e o chapéu tinha jóias. Usava sapatos bordados, de grossas solas, e seu rabicho era longo e brilhante. As unhas de seus pequenos dedos estavam protegidas por lâminas cravejadas de pedras preciosas.

Jin-qua fez um sinal afirmativo com a cabeça, todo satisfeito, e se encaminhou para um canto do armazém, sentando-se a uma mesa posta, com comida e chá.

Struan sentou-se diante dele, de costas para a parede. Jin-qua sorriu. Tinha apenas três dentes. Eram cobertos de ouro. Jin-qua disse alguma coisa em chinês ao homem que trouxera Struan, e ele saiu por outra porta.

- Chá? - perguntou Jin-qua.

- Sim.

Jin-qua fez um sinal com a cabeça ao criado que carregara a lanterna e ele despejou o chá e serviu Jin-qua e Struan de alguma comida. Depois, foi para um lado e ficou observando Jin-qua. Struan notou que o homem era musculoso e estava armado, com uma faca ao cinto.

- Favo - disse Jin-qua, fazendo sinal a Struan para que se servisse.

- Obrigado.

Struan beliscou a comida e bebeu um pouco de chá, ficando à espera. Era preciso deixar Jin-qua fazer a primeira abertura. Depois de comerem em silêncio, Jin-qua disse:

- Quelia mi vê?

- Jin-qua fez bom negócio em Cantão?

- Negócio bom e ruim ao mesmo tempo, não se incomode.

- Comércio parou agora?

- Palou agola. Hoppo mandalim muito ruim. Soldados muitos, muitos. Meu lucro tem glandes impostos pala soldados. Ayeeee yah!

- Ruim.

Struan bebia seu chá! É agora ou nunca, ele disse a si próprio. E, agora que o momento certo, afinal, chegara, sabia que jamais poderia entregar Hong Kong. Maldito mandarim! Enquanto eu estiver vivo, não haverá nem um maldito mandarim em Hong Kong. Terá de ser Brock. Mas o assassinato não é maneira de resolver a bancarrota. Então, Brock está salvo porque todos esperam que eu solucione o problema dessa maneira. Mas estará mesmo salvo? Onde diabo se encontrará May-may?

- Ouvi dizer que Brock, o Demônio de Um Olho Só, botou o Tai-Pan com a corda no pescoço.

- Ouvi dizer que o Demônio Hoppo botou a Co-hong com a corda no pescoço - disse Struan. Agora que decidira não fazer um acordo, sentia-se muito melhor. - Ayeeee yah!

- Tudo mesma coisa. Mandalim Ti-sen tem raiva.

- Por quê?

- Sinhô “Pênis odioso” escleveu calta muito ruim.

- O chá está excelente.

- Sinhô “Pênis odioso” faz o que Tai-Pan diz, não é?

- Às vezes.

- É ruim quando Ti-sen tem raiva.

- É ruim quando Sinhô Longstaff tem raiva.

- Ayeeee yah. - Jin-qua, fastidiosamente, pegou alguma comida e a comeu, com os olhos estreitando-se ainda mais. - Sabe Kung Hay Fat Choy?

- O Ano-Novo chinês? Sim.

- Ano-Novo começa logo. Co-hong tem dívidas glandes de anos antigos. Bom pagode começa Ano-Novo quando não tem dívidas. Tai-Pan tem muito papel da Co-hong.

- Não se incomode. Pode espelá. - Jin-qua e os outros mercadores da Co-hong deviam a Struan seiscentos mil.

- Demônio de Um Olho Só pode espelá?

- Papel de Jin-qua pode espelá. Terminado. Comida muito boa.

- Muito ruim. - Jin-qua bebia seu chá. - Ouvi dizer que Suprema Senhora e filhos de Tai-Pan mortos. Mau pagode, sinto.

- Mau pagode, muito.

.- Não se incomode. - Muito jovem, tem muitas outras jovens. Sua jovem May-may. Por que Tai-Pan tem só um filho homem? Tai-Pan deve tomar remédio, talvez. Precisa.

- Quando quiser, eu peço. - Struan disse, afavelmente. - Ouvi dizer que Jin-qua tem novo filho homem. Que número é esse filho?

- Dez e sete - disse Jin-qua, radiante.

Deus do céu, Struan pensou, dezessete filhos - e provavelmente o mesmo número de filhas, que Jin-qua não conta. Ele curvou a cabeça e assobiou, apreciativamente.

Jin-qua riu.

- Quanto chá quer esta temporada?

- Comércio parou. Como pode negociar? - Jin-qua piscou.

- Pode.

- Não sei. Venda a Brock. Quando eu querer chá eu pedir, está bem?

- Preciso saber em dois dias.

- Não pode.

Jin-qua disse alguma coisa, rudemente, a seu criado, que foi até um dos caixotes de embalagem embolorados e tirou a tampa. Estava cheio de barras de prata. Jin-qua apontou para os outros caixotes de embalagem.

- Aqui tem quarenta dólares laque (Cem mil rúpias – N. Do T.).

Um laque representava aproximadamente vinte cinco mil libras esterlinas. Quarenta laques eram um milhão de esterlinas. Os olhos de Jin-qua estreitaram-se ainda mais.

- Eu tomei emprestado. Muito difícil. Muito caro. Quer? Jin-qua empresta, talvez.

Struan tentou esconder seu choque. Sabia que haveria algum acordo difícil, vinculado a qualquer empréstimo. Sabia que Jin-qua devia ter arriscado sua vida, sua alma, sua casa, seu futuro e o de seus amigos e filhos, para reunir tanto dinheiro secretamente. O dinheiro tinha de ser secreto, senão o Hoppo o roubaria e Jin-qua, simplesmente, teria desaparecido. Se chegasse aos ouvidos dos piratas e bandidos, cujos refúgios abundavam dentro de Cantão ou nas imediações, a notícia de que havia até uma centésima parte de um tesouro assim nas proximidades, Jin-qua teria sido eliminado.

- São muitos laques de dólar - disse Struan. - Homem que recebe favor deve retribuir favor.

- Compre este ano duplo do chá ano passado, mesmo preço ano passado, pode?

- Pode.

- Venda duplo do ópio este ano mesmo preço ano passado Pode?

- Pode.

Struan pagaria pelo chá acima do preço do mercado e teria de vender o ópio a menos do que o preço atual, mas ainda teria um grande lucro. Se as outras condições forem possíveis, ele lembrou a si próprio. Talvez não estivesse liquidado, afinal de contas. Se Jin-qua não quisesse o mandarim. Struan rezou silenciosamente para que um mandarim não fizesse parte do acordo. Mas ele sabia que, se não houvesse mandarim em Hong Kong, não

poderia haver Co-hong. E, se não houvesse Co-hong e nem monopólio, Jin-qua e os demais estariam fora do comércio. Eles também precisavam do sistema.

- Só compre a Jin-qua ou ao filho de Jin-qua, dez anos. Pode?

Meu Deus, pensou Struan, se eu lhe der um monopólio sobre nossa casa, ele poderá nos apertar à vontade.

- Pode... se o preço do chá e o preço da seda forem os mesmos do resto da Co-hong.

- Vinte por ano. Preço do mercado mais dez por cento.

- Mais cinco por cento... acrescente cinco por cento. Pode.

- Oito.

- Cinco.

- Sete.

- Não pode. Não dá lucro. É demais - disse Struan.

- Ayeeee yah. É muito, muito lucro. Sete!

- Dez anos, seis por cento... dez anos, cinco por cento.

- Ayeeee yah - Jin-qua respondeu, acaloradamente. - Ruim, muito ruim. - Ele acenou a frágil mão em direção às arcas. - Grande custo! Grande juro. É muito. Dez anos seis, dez anos cinco, acrescente mais dez anos cinco.

Struan ficou imaginando se a raiva era real ou fingida.

- Suponha nenhum Jin-qua, nenhum filho de Jin-qua?

- Muito filho... muito filho de filho. Pode?

- Mais dez anos, acrescente quatro por cento.

- Cinco.

- Quatro.

- Ruim, ruim. Juro muito alto, muito. Cinco.

Struan manteve os olhos afastados das barras, mas sentia que o cercavam. Não seja tolo. Aceite. Concorde com tudo. Você está salvo, rapazinho. Você tem tudo.

- Mandarim Ti-sen diz um mandarim Hong Kong - disse Jin-qua, bruscamente. - Por que você diz não?

- Jin-qua não gosta mandarim, hein? Por que eu gostar de mandarim, hein? - Struan respondeu, com um bolo no estômago.

- Quarenta laques de dólar, um mandarim. Pode?

- Não pode.

- É fácil. Por que você diz não pode? Pode.

- Não pode. - Os olhos de Struan não vacilaram nunca. - Mandarim não pode.

- Quarenta laques de dólar. Um mandarim. Barato.

- Quarenta vezes dez laques de dólar e não pode. Morrer primeiro. - Struan decidiu encerrar a barganha. - Acabou. - Ele disse, abruptamente. - Por meus pais, acabou. - Ele se levantou e caminhou para a porta.

- Por que ir? - perguntou Jin-qua.

- Nenhum mandarim... nenhum dólar. Para que conversar, hein?

Para espanto de Struan, Jin-qua riu e disse:

- Ti-sen quer mandarim. Jin-qua não empresta dinheiro de Ti-sen. Jin-qua empresta dinheiro de Jin-qua. Acrescente mais dez anos cinco por cento. Pode?

- Pode. - Struan sentou-se outra vez, tonto.

- Cinco laques de dólar compram para Jin-qua terra em Hong Kong. Pode?

Por quê? - perguntou Struan a si próprio, desamparadamente. Se Jin-qua me emprestar o dinheiro, ele deve saber que a Co-hong está liquidada. Por que ele iria destruir a si mesmo? Por que comprar terra em Hong Kong?

- Pode? - Jin-qua disse outra vez.

- Pode.

- Cinco laques de dólar ficam seguros.

Jin-qua abriu uma pequena caixa de teca e tirou dois carimbos. Os carimbos eram pequenos bastões quadrados de marfim, com duas polegadas de comprimento. O velho juntou-os habilmente e mergulhou-lhes as extremidades, que tinham elaborados entalhes, na grossa tinta. Imprimiu um carimbo numa folha de papel. Jin-qua deu a Struan um dos carimbos e colocou o outro de volta na caixa.

- Homem levá este pedaço de carimbo dá terra e dólar, cinco laques, está bem?

- Está bem.

- Seu filho homem Gordon Chen. Bom? Ruim, talvez?

- Bom filho. Chen Sheng diz que ele tem muitos pensamentos bons: - Obviamente, supunha-se que Struan fizesse alguma coisa por Gordon Chen. Mas por que, e como, Gordon Chen entrava nas maquinações de Jin-qua? - Penso dar Gordon talvez emprego melhor.

- Para que emprego melhor? - disse Jin-qua com desprezo. - Pense em emprestar um laque de dólar ao filho Chen.

- Com que juro?

- Metade do lucro.

Lucro em quê? Struan sentiu que Jin-qua estava brincando com ele, como se fosse um peixe. Mas você está fora do anzol, rapazinho, ele teve vontade de gritar. Vai conseguir o dinheiro sem o mandarim.

- Pode.

Jin-qua suspirou e Struan supôs que o acordo estava concluído. Mas não estava. Jin-qua pôs a mão no bolso de sua manga e tirou oito meias moedas e colocou-as sobre a mesa. Cada uma das quatro moedas fora toscamente partida em duas. Com um de seus protetores de unhas, Jin-qua empurrou metade de cada moeda através da mesa.

- Final. Quatro favores. Homem leva uma dessas, você faz favor.

- Que favor?

Jin-qua recostou-se em sua cadeira.

- Não sei, Tai-Pan - disse ele. - Quatro favores, em alguma ocasião. Não minha vida talvez, filho talvez. Não sei quando, mas peço quatro favores. Metade de cada moeda, um favor. Pode?

Struan sentia os ombros molhados por um suor frio. Concordar com um pedido assim era um convite aberto ao desastre. Mas, se recusasse, o dinheiro estava perdido para ele. Você colocou sua cabeça numa armadilha diabólica, ele disse a si mesmo. Aye, mas decida. Quer o futuro ou não? Você conhece Jin-qua há vinte anos. Ele sempre foi correto. Aye, e o homem mais astuto de Cantão. Por vinte anos, ele o ajudou e guiou - e juntos vocês conquistaram cada vez mais poder e riqueza. Então, confie nele; você pode confiar nele. Não, você não pode confiar em homem nenhum, e muito menos em Jin-qua. Você prosperou com ele apenas porque sempre guardou a cartada final. Agora, pedem-lhe para dar a Jin-qua quatro coringas, em seu baralho de vida ou morte.

Mais uma vez, Struan ficou aterrorizado diante da sutileza e da esperteza diabólica de uma mente chinesa. Diante de sua majestade. Da crueldade. Mas então, disse Struan a si mesmo, eles estavam ambos jogando com apostas altas. Ambos jogando com a honestidade um do outro, porque nada havia para garantir que os favores seriam feitos. Exceto que você os fará e deve jazê-los, porque um trato é um trato.

- Pode - disse ele, estendendo a mão. - Meu costume, apertar mão. Não é costume chinês, não se incomode. - Jamais apertara a mão de Jin-qua antes, e sabia que o aperto de mão era considerado uma coisa bárbara.

Jin-qua disse:

- Favor talvez contra lei. Minha, sua, entendido?

- Entendido. Você amigo. Você ou seu filho não mandam moeda pedir mau favor.

Jin-qua fechou os olhos por um momento, e pensou a respeito dos bárbaros europeus. Eles eram cabeludos feito macacos. Suas maneiras eram repulsivas e feias. Fediam inacreditavelmente. Não tinham nenhuma cultura, nem maneira, nem graça. Mesmo o mais ínfimo cule era dez mil vezes melhor do que o melhor europeu. E o que se aplicava aos homens aplicava-se ainda mais às mulheres.

Ele lembrou-se de sua única visita à prostituta inglesa, que falava inglês, de Macau. Ele a visitara mais por curiosidade do que por satisfação, encorajado por seus amigos, que diziam ser uma experiência inesquecível, pois não havia refinamento que ela não praticasse diligentemente, se encorajada.

Ele estremeceu ao pensar em seus braços cabeludos e em seus sovacos cabeludos, nas pernas e no sexo cabeludos, na aspereza de sua pele e do resto e no fedor de suor misturado com o sujo perfume.

E a comida que os bárbaros comem - horrorosa. Ele estivera em seus jantares muitas vezes e tivera de ficar sentado, enquanto eram servidos os vários pratos, quase desmaiando de nojo e fingindo não estar com fome. Observando, horrorizado, as estupendas quantidades de carne meio crua que eles enfiavam na boca, após cortar, com o caldo sanguinolento escorregando-lhes pelo queixo. E as quantidades de bebidas enlouquecedoras que eles tomavam em grandes goles. E seus repugnantes vegetais cozidos, sem gosto. E as indigestas empadas duras. Tudo em quantidades monstruosas. Como porcos - como suados e glutões demônios gargantuescos. Inacreditável!

Não têm nenhuma qualidade que possa recomendá-los, pensou. Exceto sua tendência a matar, e isto eles podem fazer com incrível brutalidade, embora sem o menor refinamento. Pelo menos, são o meio que temos para ganhar dinheiro.

Os bárbaros são o Mal personificado. Todos, com exceção deste homem - este Dirk Struan. Antigamente, Struan era como os outros bárbaros. Agora, ele é parcialmente chinês. Em sua mente. A mente é importante, pois ser chinês é, em parte, uma atitude mental. E ele é limpo e cheira a asseio. E aprendeu algumas de nossas maneiras. Ainda é violento, bárbaro, um assassino. Mas está um pouco mudado. E, se um bárbaro pode ser transformado numa pessoa civilizada, por que isto também não poderá acontecer com muitos?

Seu plano é sábio, Jin-qua disse a si próprio. Abriu os olhos, estendeu a mão e delicadamente tocou a de Struan.

- Amigo.

Jin-qua fez sinal ao criado para servir chá.- Meus homens levam barras para sua feitoria. Dois dias. Noite. Muito segredo. - Jin-qua disse. - Muito perigo, entende? Muito, muito.

- Entendo. Dou papel e carimbo meu pelas barras. Mande amanhã.

- Nenhum carimbo, nenhum papel. Palavra melhor, hein? Struan fez um aceno afirmativo com a cabeça. Como seria possível explicar - digamos, para Culum - que Jin-qua lhe dera um milhão em prata e um acordo justo, sabendo que poderia pedir quaisquer condições, que lhe dará todo o necessário, com um aperto de mão?

- Três vezes dez dólares laque paga Jin-qua, dívidas da Co-hong. Agora ano novo, nenhuma dívida. Bom pagode - disse Jin-qua orgulhosamente.

- Sim - disse Struan. - Bom pagode para mim.

- Muito peligo, Tai-Pan. Não pode ajudá.

- Sim.

- Muito, muito peligo. Deve esperar duas noites.

- Ayeeee yah perigo! - disse Struan. Ele pegou as quatro metades das moedas. - Obrigado, Chen-tsé Jin Arn. Muito obrigado.

- Não agladece, Dirk Struan. Amigo.

De repente, o homem que guiara Struan até Jin-qua apareceu correndo. Ele falou com urgência a Jin-qua, que se virou para Struan, assustado.

- Cliados folam embola! Folam embola da Colônia. Todos folam!

 

Struan sentou-se na liteira e ficou a se balançar, descontraidamente, ao sabor de suas oscilações, enquanto os cules que a carregavam iam trotando pelas vielas silenciosas. O interior do compartimento, fechado com cortinas, estava encardido e com manchas de suor. De vez em quando, ele espiava as vielas através das janelas laterais, que eram simples aberturas vedadas pelas cortinas. Não conseguia ver o céu, mas sabia que o amanhecer estava próximo. O vento carregava o fedor de frutas podres, de fezes, lixo, de cozinha e de temperos e, misturado com ele, o cheiro do suor dos cules.

Ele elaborara com Jin-qua um plano seguro para fazer as barras de ouro chegarem a Hong Kong. Combinara que Jin-qua as colocaria, em seus engradados, numa lorcha armada. Em duas noites, a lorcha deveria ser levada secretamente às docas da Colônia. Exatamente à meia-noite. Se isto não fosse possível, a lorcha deveria ser deixada perto da extremidade sul do cais, com uma lanterna no mastro dianteiro e outra na proa. Para garantir que não haveria erro, Jin-qua dissera que, como sinal, pintaria o olho do lado esquerdo da lorcha de vermelho. Toda lorcha tinha dois olhos entalhados na teca de suas proas. Os olhos eram para dar pagode e também para ajudar a alma do barco a ver em frente. Os chineses achavam que era essencial um barco ter olhos, para enxergar com eles.

Mas, por que Jin-qua me deixou ter Hong Kong segura? - perguntou a si mesmo. Certamente, Jin-qua deve perceber a importância de um mandarim. E por que desejará um filho educado em Londres? Será que Jin-qua, entre todos os chineses que conhecia, era o único com uma visão tão ampla a ponto de entender que, a longo prazo, haveria uma ligação permanente entre os destinos da China e os destinos da Grã-Bretanha?

Ele ouviu cachorros latindo e, através das cortinas, viu-os atacarem as pernas do cule da frente. Mas o cule, que carregava a lanterna adiante da liteira, correu para trás e, com uma habilidade advinda da prática, furou os cães com sua vara de ponta de ferro. Os cachorros fugiram correndo, a ganir, para dentro da escuridão.

Então Struan notou um grupo de bandeireiros desmontados - talvez cem deles - sentados num cruzamento distante. Estavam armados e tinham lanternas. Permaneciam agourentamente quietos. Vários dos homens levantaram-se e começaram a caminhar em direção à liteira. Os cules desviaram-se por uma viela, fazendo Struan sentir um grande alívio. Agora, tudo que você tem de fazer, rapazinho, ele disse a si próprio, é garantir a chegada das barras de prata a Hong Kong em segurança. Ou a Whampoa, de onde você pode transferi-las para o China Cloud. Mas até estarem em segurança a bordo, você não está seguro, rapazinho.

A liteira deu uma guinada, quando um cule quase tropeçou num dos buracos que pontilhavam o leito da estrada. Struan balançou-se dentro do espaço confinado, tentando segurar-se. Mais tarde viu mastros de navios, meio escondidos por choupanas. Em frente, não havia ainda nada reconhecível. A cadeira virou numa esquina, encaminhando-se em direção ao rio, depois cruzou uma estreita viela e entrou em outra. Afinal, mais adiante, por sobre as coberturas das choupanas, ele descortinou parte das edificações da Colônia, banhadas pelo luar.

Abruptamente, a liteira parou e foi posta no chão, atirando Struan para um lado. Ele abriu bruscamente as cortinas e saltou, com a faca na mão, justamente quando três lanças atravessavam os frágeis lados da cadeira.

Os três lanceiros tentavam desesperadamente libertar suas armas, quando Struan se atirou sobre o mais próximo, enfiou sua faca entre as costelas do homem e rodopiou, enquanto outro o atacava com um machado militar de lâmina dupla. A lâmina do machado cortou-lhe o ombro e ele fez uma careta de dor, mas desviou-se para um lado e lutou com o homem pela posse do machado. Arrancou-o da mão do homem e ele gritou, quando uma lança dirigida contra Struan espetou-o. Struan encostou-se à parede. O lanceiro restante cercou-o, arquejando e a praguejar. Struan negaceou e investiu contra ele com o machado, mas não acertou o alvo e o homem arremeteu. Sua lança furou o casaco de Struan, mas Struan rasgou-o, libertando-se, e enterrou sua faca até o cabo no estômago do homem e a torceu, estripando-o.

Struan pulou por sobre os corpos, mantendo as costas protegidas contra a parede, e ficou esperando. O homem que ele esfaqueara estava gemendo. Outro permanecia inerte. O que ele estripara, estava segurando o estômago e rastejava para mais longe.

Struan esperou um instante, recobrando as forças, e então uma flecha bateu no muro acima de sua cabeça. Ele pegou uma das lanças e desceu correndo a viela, em direção à Colônia. Ouviu ruídos de passos atrás dele, e correu mais depressa. Ao virar na esquina, viu que a Rua da Décima Terceira Feitoria estava logo adiante. Jogou fora a lança e ziguezagueou pela rua, entrando na Rua Hog, que percorreu até à praça, mais cheia de bandeireiros do que antes.

Antes que os bandeireiros pudessem interceptá-lo, cruzou o portão do jardim. Um mosquete deu-lhe uma pancada no estômago.

- Ah, é você, Dirk - disse Brock. - Onde diabo você estava?

- Fora. - Struan arquejava, procurando recuperar o fôlego. - Pelo sangue de Cristo, fui atacado por malditos salteadores de estrada.

- Esse sangue é seu, ou deles?

À luz de lanterna, Struan rasgou o casaco e a camisa, descobrindo o ombro ferido. O corte era nítido e raso, através do músculo do ombro.- Uma mordida de inseto - zombou Brock. Ele pegou uma garrafa de rum e derramou um pouco na ferida, sorrindo quando Struan piscou. Quantos eram?

- Três.

- E você deixou cortarem seu ombro? Está ficando velho! - Brock encheu dois copos de rum.

Struan bebeu e se sentiu melhor.

- Pensei que você estava dormindo. Sua porta estava trancada. Para onde foi?

- O que está acontecendo aqui?

- Os criados sumiram há cerca de uma hora. É isso. Achei melhor não trazer todo mundo para cá antes do amanhecer. Quase meia centena de armas de fogo estavam cobrindo você, enquanto corria.

- Então, por que diabo enfiar um mosquete em minha barriga?

- Só queria lhe dar uma boa acolhida. - Brock tomou uns goles de rum. - Só queria que você soubesse que estávamos acordados.

- Alguém sabe por que os criados foram embora?

- Não. - Brock se aproximou do portão. Os bandeireiros se preparavam para voltar a dormir. Um nervoso amanhecer hesitava no horizonte. - O negócio parece muito ruim - disse ele, com o rosto sombrio. - Não gosto disso aqui nem um pouquinho. Esses filhos da mãe não fazem nada, mas ficam ali sentados e, de vez em quando, batem seus tambores. Acho melhor nos retirarmos, enquanto ainda podemos.

- Estamos seguros por uns poucos dias. Brock abanou a cabeça.

- Tenho um mau pressentimento. Alguma coisa está completamente errada. Melhor a gente ir embora.

- É uma manobra, Brock. - Struan arrancou um pedaço da camisa e enxugou com ele o suor do rosto.

- Talvez. Mas tenho esse pressentimento e, quando eu tenho um pressentimento assim, é melhor dar o fora. - Brock apontou com o polegar os bandeireiros. - Nós os contamos. Cento e cinqüenta. How-qua disse que deve ter mais uns mil, espalhados em torno da Colônia.

- Eu vi talvez duzentos ou trezentos. A leste.

- Onde você esteve?

- Fora. - Struan teve a tentação de contar a ele. Mas isso não vai ajudar, pensou. Brock fará tudo a seu alcance para impedir as barras de chegarem em segurança. E, sem as barras, você está mais morto do que nunca. - Tem uma garota ali do outro lado - ele disse em tom petulante.

- Maldita seja uma garota! Não pensei que você fosse tão estúpido a ponto de sair por causa de alguma putinha. - Brock puxou a barba, mal-humorado. - Pode me substituir, dentro de uma hora?

- Sim.

- Ao meio-dia, vamos embora.

- Não.

- Ao meio-dia, estou dizendo.

- Não.

Brock franziu a testa.

- O que está segurando você aqui?

- Se sairmos antes de haver algum problema concreto, perdemos muito prestígio.

- Sim, eu sei. Não me agrada fugir. Mas alguma coisa me diz que é melhor.

- Vamos esperar alguns dias.

Brock estava cheio de suspeitas.

- Você sabe que eu nunca me enganei a respeito da hora de fugir. Por que quer ficar?

- É apenas mais um dos velhos truques de Ti-sen. Desta vez, você está errado. Venho substituir você dentro de uma hora - disse Struan, e foi para dentro.

Ora, em que Dirk estará metido? Brock ficou matutando. Ele pigarreou alto, odiando o fedor de perigo que parecia vir da noite agonizante.

 

Struan subiu a escadaria de mármore até seus aposentos. As paredes estavam cheias de pinturas de Quance e rolos de seda chineses. Nos patamares, havia gigantescos dragões Ming em teca e arcas de teca. Os corredores que começavam no primeiro patamar tinham pinturas de navios e batalhas navais e, sobre um pedestal, estava um modelo bem proporcionado do H.M.S. Victory. Struan encontrou trancada a sua porta.

- Abram a porta - disse ele, e esperou. Ah Gip conduziu-o para dentro.

- Onde diabo esteve você, May-may? - disse ele, tentando não demonstrar seu alívio.

Ela estava em pé, nas sombras próximas à janela. Falou com Ah Gip e depois fez-lhe sinal para sair. Struan aferrolhou a porta.

- Onde diabo estava você?

Ela se movimentou para a luz da lanterna e ele ficou chocado com a sua palidez.

- O que há de errado?

- Há muitos boatos, Tai-Pan. Dizem que todos os bárbaros vão ser mortos a espada.

- Não há nenhuma novidade nisso. Onde você esteve?

- Os bandeireiros são uma novidade. Há rumores de que Ti-sen caiu em desgraça. De que ele foi condenado à morte.

- Isso é tolice. Ele é primo do imperador e o segundo homem mais rico da China.

- Dizem os boatos que o imperador ficou tão aborrecido, porque Ti-sen fez um tratado, que Ti-sen vai ser torturado publicamente.

- Isso é loucura. - Struan ficou em pé junto ao fogo e tirou o casaco e a camisa. - Onde você esteve?

- O que aconteceu com você? - ela exclamou, vendo o corte.

- Fui atacado por salteadores de estrada.

- Você se encontrou com Jin-qua?

Struan ficou pasmo.

- Como sabe a respeito de Jin-qua?

- Fui prosternar-me, e apresentar meus respeitos, diante de sua Suprema Senhora. Ela me disse que ele acabara de voltar e mandara chamar você.

Struan esquecera que May-may conhecia a primeira mulher de Jin-qua, mas ficou tão furioso que tirou isso da cabeça.

- Por que diabo você não me disse para onde ia?

- Porque você teria proibido - retrucou May-may. - Eu queria encontrar com ela. Também tinha de fazer meu cabelo e consultar o astrólogo.

- O quê?

- Há uma cabeleireira ótima, à qual vão as mulheres de Jin-qua. Ela é maravilhosa para fazer o cabelo. Essa mulher é famosa em toda Kwangtung. Muito cara. Já o astrólogo disse que o pagode era bom. Muito bom. Mas para ter cuidado com a construção das casas.

- Você arrisca a vida para falar com adivinhos e tratar do cabelo? - ele bradou. - Que diabo há com seu cabelo? Está ótimo, como sempre!

- Você não entende dessas coisas, Tai-Pan - ela disse, com frieza. - Foi lá que ouvi os rumores. No cabeleireiro. - Ela pegou na mão dele, e o fez tocar em seu cabelo. - Veja. Está muito mais macio, não?

- Não! Não está! Deus do céu, se você tornar a sair sem primeiro me dizer para onde vai, eu lhe dou uma surra tão forte que você vai ficar sem poder se sentar por uma semana.

- Ah, experimente só, Tai-Pan - disse ela, e devolveu o olhar que ele lhe lançava.

Ele a agarrou depressa e a carregou, lutando, para a cama, arrancou-lhe o vestido e a anágua e lhe deu uma palmada nas nádegas que lhe fez doer a mão, atirando May-may, em seguida, na cama. Ele jamais lhe batera antes. May-may pulou da cama e investiu contra ele, arranhando-lhe perversamente o rosto, com suas longas unhas. Uma lanterna caiu no chão, quebrando-se, quando Struan a ergueu outra vez e recomeçou seu espancamento. Ela lutou para se libertar de seu braços e suas unhas projetaram-se em direção aos olhos dele, errando o alvo por uma fração de polegada e cortando-lhe o rosto. Ele prendeu-lhe os pulsos, virou-a de costas, rasgou-lhe o vestido e a roupa interna, e bateu em suas nádegas nuas com a palma da mão. Ela lutou ferozmente, dando-lhe uma cotovelada na virilha e arranhando outra vez o rosto dele. Reunindo todas as suas forças, ele a prendeu na cama, mas ela livrou a cabeça e afundou os dentes em seu braço. Ele arquejou de dor e lhe bateu nas nádegas outra vez, com a palma da mão livre. Ela mordeu com mais força.

- Por Deus, nunca mais me morda outra vez - disse ele, através dos dentes cerrados.

Os dentes dela afundaram mais, porém ele, deliberadamente, não retirou o braço. A dor fazia seus olhos lacrimejarem, mas ele batia em May-may cada vez com mais força, sempre nas nádegas, até sua mão doer. Finalmente, ela abriu os dentes.

- Pare... não bata mais... por favor, por favor - ela soluçou e abriu em prantos, com o rosto enfiado no travesseiro, indefesa.

Struan recuperou o fôlego.

- Agora, peça desculpas por ter saído sem permissão.

As nádegas dela, sarapintadas e avermelhadas, endureceram-se, e ela se retraiu como quem se protege da esperada pancada, mas ele não levantara a mão. Sabia que o temperamento de um puro-sangue deve ser apenas domado, nunca quebrado.

- Eu lhe dou três segundos.

- Desculpe... desculpe. Você está me magoando... você está me magoando - ela soluçou.

Ele saiu da cama e, segurando o braço sob a luz, examinou a ferida. Os dentes de May-may tinham penetrado profundamente, e o sangue escorria.

- Venha cá - disse ele, tranqüilamente. Ela não se moveu, mas continuou a chorar. - Venha cá - ele repetiu, mas desta vez sua voz era um açoite, e ela deu um pulo. Ele não a olhou. Ela, rapidamente, enrolou em torno de si o que restava do vestido e começou a sair da cama.

- Eu não lhe disse para se vestir! Eu disse venha cá.

Ela se aproximou dele às pressas, com os olhos vermelhos e o pó-de-arroz e a maquilagem dos olhos manchados.

Ele firmou o braço contra a mesa, limpou o sangue que escorria e despejou conhaque em cada ferida. Acendeu um fósforo e entregou a ela. - Toque fogo nas feridas, uma a uma.

- Não!

- Uma por uma - ele disse. - A mordida humana é tão venenosa como a de um cão raivoso. Depressa.

Foram precisos três fósforos e, de cada vez, ela chorava um pouco mais, nauseada com o cheiro da carne queimada, mas manteve a mão firme. E em todas as ocasiões em que o conhaque se inflamava, Struan cerrava os dentes e nada dizia.

Quando tudo terminou, ele derramou mais conhaque sobre as feridas enegrecidas e May-may pegou um urinol, sentindo-se muito enjoada. Struan, rapidamente, despejou um pouco de água quente da chaleira numa toalha e deu pancadinhas no traseiro de May-may, suavemente. Quando ela terminou, ele lhe lavou o rosto, com ternura, e fez com que ela lavasse a boca com um pouco da água quente. Depois, ergueu-a e a colocou na cama, e se preparou para ir embora. Mas ela agarrou-se a ele e começou a chorar, com aquele profundo choro interior que limpa o ódio.

Struan a acalmou e acariciou, até ela dormir. Então saiu e substituiu Brock na vigília.

 

Ao meio-dia, houve outro encontro. Muitos queriam partir imediatamente. Mas Struan dominou Brock e persuadiu os mercadores a esperarem até o dia seguinte. Eles concordaram relutantes, e decidiram mudar-se para a feitoria, a fim de se protegerem mutuamente. Cooper e os americanos foram para sua própria feitoria.

Struan voltou para sua suíte.

May-may deu-lhe boas-vindas apaixonadas. Mais tarde, dormiram, em paz. Quando acordaram juntos, ela o beijou, sonolenta, e sussurrou:

- Você tinha razão de me bater. Eu estava errada, Tai-Pan. Mas nunca me bata, quando eu não estiver errada. Porque, em alguma ocasião, você pode dormir, e então eu o matarei. No meio da vigília, a paz de ambos foi interrompida. Wolfgang Mauss batia à porta.

- Tai-Pan! Tai-Pan!

- Sim?

- Depressa! Lá embaixo! Depressa!

Agora eles podiam ouvir a turba aglomerando-se na praça.

 

- Meu pai avisou vocês todos, malditos sejam! - disse Gorth, afastando-se da janela da sala de jantar e abrindo caminho entre os mercadores.

- Já tivemos turbas assim, antes - disse Struan, bruscamente. - E você sabe que foram sempre controladas, e só se formaram por ordem dos mandarins.

- Sim, mas nenhuma como esta - disse Brock.

- Deve haver alguma razão especial. Não há ainda nenhum motivo para se preocupar.

A praça lá embaixo estava apinhada com uma massa crescente de chineses. Alguns carregavam lanternas, outros tochas. Uns poucos estavam armados. E eles gritavam em uníssono.

- Deve haver dois ou três mil desses vagabundos - disse Brock, e depois bradou - Ei, Wolfgang! O que esses diabos pagãos estão gritando?

- “Morte aos demônios bárbaros.”

- Mas que ousadia! - disse Roach. Era um homem pequeno, parecendo um pardal, com um mosquete mais alto do que o dono.

Mauss tornou a olhar para a multidão, com o coração batendo penosamente, os flancos úmidos de suor. Será esta a Vossa hora, ó Senhor? A hora do Vosso incomparável martírio?

- Vou falar a eles, pregar para eles - disse, com voz rouca, desejando a paz de tal sacrifício, mas aterrorizado diante dele.

- Uma idéia respeitável, Sr. Mauss - disse Rumajee, agressivo, com os olhos negros movendo-se nervosamente de Mauss para a turba, e outra vez para ele. - Certamente, escutarão alguém com o seu poder de persuasão, senhor.

Struan viu o suor que escorria de Mauss, e sua estranha palidez, e o interceptou perto da porta.- Você não vai fazer uma coisa dessas.

- Chegou a hora, Tai-Pan.

- Você não vai comprar a salvação de maneira assim tão fácil.

- Quem é você para julgar? - Mauss começou a fazer força para passar, mas Struan ficou em sua frente.

- Eu queria dizer que a salvação é um longo e doloroso processo - declarou ele, gentilmente. Duas vezes, antes, vira a mesma esquisitice em Mauss. Tinham sido antes de um combate com piratas e, mais tarde, durante a batalha, Mauss deixara cair suas armas e fora em direção ao inimigo, num êxtase religioso, procurando a morte. - É um longo processo.

- A... a paz do Senhor é... difícil de encontrar - murmurou Mauss, com a garganta apertada sufocando-o, satisfeito por ser detido e odiando-se por estar satisfeito. - Eu só queria...

- Muito bem. Eu sei tudo a respeito de salvação - Masterson se intrometeu. Ele juntou as mãos e sua atitude era piedosa. - Deus nos salve dos malditos pagãos! Concordo inteiramente, Tai-Pan. Maldito seja esse barulho, não?

Mauss se recompôs com um esforço, sentindo-se nu diante de Struan que, mais uma vez, enxergara as profundezas de sua alma.

- Você... você está certo. Sim. Certo.

- Afinal, se nós o perdermos, quem vai restar para pregar a Palavra? - disse Struan, e decidiu ficar vigiando Mauss, no caso de haver verdadeiro problema.

- Completamente certo - disse Masterson, assoando o nariz com os dedos. - De que vale atirar um vaidoso cristão aos lobos? Aquele maldito bando de velhacos entrou em frenesi, e não está em estado de espírito para ouvir pregações. Que o Senhor nos proteja! Diabo, Tai-Pan, eu lhe disse que haveria um ataque.

- Disse coisa nenhuma! - gritou Roach, do outro lado da sala.

- Quem, com mil demônios, pediu sua opinião, por Deus? Estou tendo uma conversa tranqüila com o Tai-Pan e o Reverendo Mauss - gritou Masterson em resposta. E depois, para Mauss: - Por que você não reza uma prece para nós, hein? Afinal de contas, somos todos cristãos, por Deus! - Ele aproximou-se apressadamente da janela. - Será que não se pode ver o que está acontecendo, hein?

Mauss enxugou o suor da testa. Ah, bom Deus e doce Jesus, Vosso único filho, dai-me Vossa Paz. Enviai-me discípulos e missionários, para que eu possa depositar Vossa carga. E eu Vos abençôo por me enviar o Tai-Pan, que é minha consciência e que me vê como eu sou.- Obrigado, Tai-Pan.

A porta foi aberta violentamente e mais comerciantes afluíram para dentro da sala. Todos estavam armados.

- Que diabo está acontecendo? O que houve de errado?

- Ninguém sabe - disse Roach. - Estava tudo calmo; de repente, eles começaram a chegar.

- Aposto que não veremos jamais o pobre velho Elikson. O coitado, provavelmente, teve já a garganta cortada - disse Masterson, escorvando malevolamente seu mosquete. - Vamos morrer em nossas camas, esta noite.

- Ah, cale a boca, pelo amor de Deus - disse Roach.

- Você é um prenunciador de doçura e conforto, não? - Vivien, um negociante com aparência de boi, franziu a testa para Masterson. - Por que não mija em seu chapéu? Ou vai tomar na bunda?

Os outros negociantes vociferaram, e então Gorth abriu caminho aos empurrões em direção à porta.

- Vou pegar meus guarda-costas e mandar todo mundo pelos ares!

- Não! - a voz de Struan era uma chicotada. Fez-se silêncio. - Eles ainda não nos estão causando nenhum dano. O que há, Gorth? Está com medo porque um grupinho de homens amaldiçoa você?

Gorth ficou vermelho e partiu para Struan, mas Brock se meteu no meio.

- Desça - ordenou. - Monte guarda no jardim e o primeiro chinês que entrar, você lhe explode a maldita cabeça!

Com esforço, Gorth controlou sua raiva e saiu. Todos começaram a falar outra vez.

- Não foi correto falar assim com o rapaz, Dirk. - Brock serviu-se de um canecão de cerveja e bebeu-o, sedentamente. - Ele poderia estar agora entregando sua cabeça a você.

- Poderia. E também poderia ter-lhe ensinado um pouco de boas maneiras.

- Desculpe-me, Sr. Struan - Rumajee interrompeu, com o nervosismo a superar sua polidez. - Há guardas na entrada traseira?

- Sim. Três dos meus homens. Eles podem resistir a um exército formado por essa ralé.

Irrompeu uma discussão entre os comerciantes e depois Roach disse:

- Estou com Gorth. Digo que devíamos lutar para sair daqui, imediatamente.

- Nós faremos isso. Se for necessário - disse Struan.

- Sim - disse Brock. - Fazer isso agora é comprar barulho. Vamos esperar e nos manter em guarda, até o dia amanhecer. Talvez então já tenham ido embora.

- E se não forem? Hein? É isso que eu gostaria de saber.

- Então vamos derramar um bocado de sangue. Meto três dos meus homens em nossa lorcha e a coloco no meio da corrente. Tem um canhão pesado a bordo.

Struan riu.

- Acho que o Sr. Brock merece um voto de confiança.

- Por Deus, Sr. Brock, o senhor é muito dinâmico - disse Masterson. Três vivas para o Sr. Brock!

Foram dados vivas e Brock sorriu.

- Obrigado, muito obrigado, rapazes. Agora, é melhor dormir um pouco. Estamos com segurança suficiente.

- Gott im Himmel! Vejam! - Mauss apontava pela janela, com os olhos esbugalhados.

Uma procissão com lanternas, gongos e tambores saía maciçamente da Rua Hog e entrava na praça. Bandeireiros carregando manguais a precediam, abrindo caminho através da turba. À frente da procissão, ia um homem rotundo. Suas roupas eram ricas, mas ele estava descalço e sem chapéu, e caminhava com dificuldade ao peso de correntes.

- Deus do céu! - disse Struan. - É Ti-sen!

A procissão deu uma volta no centro da praça e parou. Todos os mercadores da Co-hong, com exceção de Jin-qua, a integravam. Não tinham nos chapéus os botões cerimoniais indicadores de sua posição, e tremiam. A multidão começou a zombar e assobiar. Depois, o bandeireiro-chefe, um guerreiro alto, com barba negra, fez soar um enorme gongo e a turba mais uma vez silenciou.

Uma liteira aberta, tendo à frente e atrás bandeireiros montados, foi carregada para a praça. Sentado na cadeira, com um traje cerimonial cinzento e vermelho completo, estava Hi’pia-kho, o Hoppo imperial. Ele era um atarracado e obeso mandarim manchu, quase sem pescoço, e tinha na mão o leque imperial que simbolizava seu posto. O leque era de marfim, com incrustações de jade.

A cadeira do Hoppo foi depositada no centro da praça e o bandeireiro-chefe gritou uma ordem. Todos na praça se prosternaram três vezes, tocando a cabeça no chão, e depois tornaram a se levantar.

O Hoppo desenrolou um papel e, sob a luz de uma lanterna segura por um guarda, começou a ler em voz muito alta.

- O que ele está dizendo? - perguntou Brock a Mauss.- Vejam, é o velho How-qua - disse Masterson, com uma risadinha. - Ele não pára de tremer...

- Por favor. Quietos. Não posso ouvir - disse Mauss. Ele se espichou para fora da janela. Todos ficaram à escuta.

- É uma proclamação do imperador - disse Mauss, depressa. - “E o traidor Ti-sen, nosso ex-primo, deve ser imediatamente acorrentado e enviado para nossa capital sob sentença de morte e...” Não consigo escutar. Esperem um momento... “e o desprezível tratado chamado Convenção de Chuenpi, que ele assinou sem nossa autoridade, está revogado. Os bárbaros têm ordem para sair do nosso reinado e de Cantão e de Hong Kong, sob pena de morte imediata e sob tortura e...”

- Eu não acredito nisso - zombou Roach.

- Cala a boca! Como pode Wolfgang escutar?

Mauss ouviu atentamente a voz alta e fantasmagórica que cortava o silêncio sombrio.

- Temos ordem de ir embora - disse ele. - E deveremos pagar uma indenização por todos os problemas que causamos. Não será permitido nenhum comércio, a não ser regido pelos Oito Regulamentos. A Rainha Vitória tem ordem de se apresentar pessoalmente em Cantão, em sinal de luto... algo a respeito... parece que nossas cabeças estão a prêmio e... “como símbolo do nosso desprazer, o criminoso Ti-sen será açoitado publicamente, e todas as suas propriedades serão confiscadas. Temam e obedeçam tremendo.”

O chefe dos bandeireiros aproximou-se de Ti-sen e apontou para o chão, com seu chicote. Ti-sen, branco como cera, ajoelhou-se, e o bandeireiro-chefe ergueu seu açoite e o fez estalar sobre as costas de Ti-sen. Repetidas vezes. Não havia som algum na praça, a não ser o estalar do chicote. Ti-sen caiu para a frente, com o rosto no chão, e os bandeireiros continuaram a açoitá-lo.

- Eu não acredito nisso - disse Masterson.

- É impossível - disse Mauss.

- Se fizeram isso com Ti-sen... meu Deus, eles vão nos matar a todos.

- Tolice! Podemos tomar a China inteira... em qualquer ocasião.

Brock começou a gargalhar.

- O que é tão engraçado, hein? - Mauss perguntou, com impaciência.

- Isto significa guerra outra vez - disse Brock. - ótimo, digo eu. - Olhou para Struan, zombando dele. - Eu lhe disse, rapaz. É isso que você consegue, fazendo um tratado mole com a ralé.

- É algum truque - disse Struan, calmamente. Mas, por dentro, estava pasmado com os acontecimentos. - Ti-sen é o homem mais rico da China. O imperador conseguiu um saco de pancadas, um bode expiatório. E toda a riqueza de Ti-sen. É uma questão de prestígio. O imperador está defendendo seu prestígio.

- Você e o seu prestígio, rapaz - disse Brock, que não se divertia mais. - É seu prestígio que anda ruim. O tratado foi cancelado, o comércio cancelado, Hong Kong cancelada, você está liquidado e tudo que fez é falar sobre prestígio.

- Você está completamente enganado, Tyler. Hong Kong mal começou - disse Struan. - Uma porção de coisas apenas começou.

- Sim, a guerra, por Deus.

- E, se houver guerra, onde estará a base para a armada, hein? Macau é inútil, como sempre foi... faz parte do território continental, e os chineses podem atacar aquilo quando quiserem. Mas não nossa ilha, por Deus. Não com a armada protegendo-a. Concordo que, sem Hong Kong, estaríamos liquidados. Que, sem ela, não poderíamos lançar uma campanha para o norte outra vez. Nunca. Nem proteger quaisquer portos continentais, ou colônias que conseguirmos no futuro. Está ouvindo, Tyler? Hong Kong é a chave para a China. Hong Kong pegou você pelo pé.

- Sei tudo a respeito de fortaleza em ilha, por Deus. - Brock esbravejou, por sobre o coro de aprovação. - Hong Kong não é o único lugar, estou dizendo. Chushan seria melhor.

- Não se pode proteger Chushan como Hong Kong - disse Struan, exultante, sabendo que Brock estava comprometido, como todos eles estavam comprometidos. - Este “rochedo árido e estéril” , como você a chama, é todo nosso maldito futuro.

- Talvez sim, talvez não - disse Brock, com impertinência. - Vamos ver isso. Mas você não vai apreciar Hong Kong, de qualquer jeito. Eu vou ficar com aquele outeiro, e você está liquidado.

- Não tenha tanta certeza assim.

Struan espiou a praça, outra vez. O açoite ainda se elevava e caía. Ele teve pena de Ti-sen, que fora apanhado numa armadilha, não por escolha própria. Ele não procurara o posto de Plenipotenciário Chinês - recebera ordens para ocupá-lo. Tinha caído na armadilha da era em que vivia. Exatamente como Struan, Longstaff e Brock, e o Hoppo, todos eles estavam agora na armadilha, pois o primeiro passo fora dado. O resultado seria tão inexorável como o açoite. Haveria um ataque a Cantão, exatamente como antes. Primeiro, seriam tomados os fortes nas imediações de Cantão e, depois, a cidade seria apenas ameaçada. Não haveria necessidade de capturá-la, porque Cantão pagaria resgate primeiro. Depois, quando houvesse bons ventos, no verão, seguiriam mais uma vez em direção ao norte, à embocadura e aos pontos de desembarque do Rio Pei Ho e, novamente, o imperador, preso na armadilha, como todos os demais, imediatamente pediria paz. O tratado continuaria em vigor, porque era justo. Então, no curso dos anos, os chineses aos poucos iriam abrindo seus portos, por vontade própria - vendo que os ingleses tinham muito a oferecer: lei, justiça, a inviolabilidade da propriedade, liberdade.

Porque o chinês comum quer o que nós queremos, pensou ele, e não há nenhuma diferença entre nós. Podemos trabalhar juntos, para o benefício de todos. Talvez nós vamos ajudar os chineses a derrubar os bárbaros manchus. É o que acontecerá, enquanto existir um tratado razoável, e nós somos pacientes, e jogamos o jogo chinês com regras chinesas, no tempo chinês. O tempo não é medido em dias ou anos, mas em gerações. Basta que nos deixem negociar, durante o período de espera. Sem comércio, o mundo se tornará como antes - um inferno, onde só o braço mais forte e o chicote mais pesado eram a lei. Os mansos jamais herdarão a terra. Sim, mas pelo menos podem ser protegidos pela lei, para viverem suas vidas como desejarem.

Quando Ti-sen já levara cem chicotadas, os bandeireiros o levantaram. O sangue escorria de seu rosto e de seu pescoço, e a parte de trás de seu traje estava em farrapos e ensangüentada. A multidão zombava e vaiava. Um bandeireiro fez soar o gongo, mas a turba não prestou a menor atenção, e o bandeireiro investiu contra ela, dando chicotadas e machadadas. Houve gritos, e a multidão recuou e fez silêncio outra vez.

O Hoppo acenou imperiosamente com a mão em direção ao jardim. A liteira foi erguida, e os bandeireiros seguiram em frente dela, agitando seus chicotes, a fim de abrir caminho até o local onde se encontravam os negociantes.

- Vamos - disse Struan a Mauss e a Brock. - O resto de vocês se prepare para o caso de haver um ataque. - Ele correu para o jardim, com Brock e Mauss logo atrás.

- Está com dor de cabeça? - perguntou Brock.

- Não.

Eles espiaram, cheios de tensão, a multidão se dividir e os bandeireiros aparecerem no portão do jardim. O Hoppo ficou em sua cadeira, mas se dirigiu a eles gritando imperiosamente.- Ele lhe ordena para pegar uma cópia da proclamação, Sr. Struan - disse Mauss.

- Diga-lhe que não estamos vestidos em roupas cerimoniais. Uma questão tão importante precisa de grande cerimônia, para lhe dar a dignidade que ela merece.

O Hoppo pareceu confuso. Depois de um momento, falou outra vez.

- Ele diz: “Bárbaros não têm nenhuma cerimônia e são mais do que desprezíveis. Entretanto, o Filho do Céu pediu clemência para todos os que o temem. Uma delegação virá ao meu palácio pela manhã, na Hora da Serpente.”

- Que diabo é isso? - perguntou Brock.

- Sete da manhã - disse Mauss.

- Não vamos colocar nossas cabeças nessa maldita armadilha. Diga a ele para ir à merda.

- Diga-lhe - falou Struan - que, de acordo com os Oito Regulamentos, não temos permissão para nos encontrarmos pessoalmente com o louvado Hoppo, mas devemos receber documentos através da Co-hong, aqui na Colônia. A Hora da Serpente não nos dá tempo suficiente. - Ele ergueu os olhos. O amanhecer clareava o céu - Que hora chinesa corresponde às onze da noite?

- A Hora do Rato - disse Mauss.

- Então diga-lhe que receberemos o documento da Co-hong aqui, com a “devida cerimônia”, na Hora do Rato. Amanhã à noite.

- “Devida cerimônia”, seja inteligente, Dirk - disse Brock. - Haverá tempo bastante para preparar um acolhimento sangrento!

Mauss escutou o que dizia o Hoppo.

- Ele diz que a Co-hong vai entregar a proclamação na Hora da Serpente... às nove da manhã, de hoje. E todos os bárbaros ingleses terão de sair da Colónia na Hora do Carneiro ... ou seja, uma da tarde... hoje.

- Diga-lhe que uma da tarde de hoje não nos dá tempo suficiente. Na Hora do Carneiro, amanhã.

- Ele diz que deveremos evacuar a Colónia às três da tarde de hoje, a Hora do Macaco, e nossas vidas serão poupadas até essa hora, até à qual poderemos partir sem nenhum perigo.

- Diga-lhe: na Hora do Macaco, amanhã.

O Hoppo respondeu a Mauss, e gritou uma ordem. Sua cadeira foi erguida e o cortejo começou a se formar outra vez.

- Ele disse que devemos partir hoje. Na Hora do Macaco. Às três da tarde de hoje.

- Maldito seja! - disse Struan, enraivecido.

O cortejo dirigia-se para a Rua Hog. Um dos bandeireiros empurrou Ti-sen para trás da liteira e chicoteou-o, quando tropeçou nela; outros começaram a se aproximar da multidão, que correu para fora da praça. Os bandeireiros restantes dividiram-se em dois grupos. Um deles aproximou-se da feitoria, isolando-a da Rua Hog; o outro postou-se a oeste. A feitoria estava cercada.

- Por que você insistiu num retardamento? - perguntou Brock.

- Apenas uma negociação normal.

- Você devia saber que valia mais a pena esperar, do ponto de vista do Hoppo, depois do que aconteceu com Ti-sen! Por que achou tão importante ficar mais uma noite, hein? A maioria de nós ia embora hoje, de qualquer jeito. Para a venda de terras.

Deus do céu! Struan pensou, sabendo que Brock tinha razão. Como posso eu esperar pelo dinheiro?

- Hein? - Brock repetiu.

- Não havia razão.

- Há uma razão - disse Brock e entrou na feitoria.

 

Pontualmente, na Hora da Serpente, a totalidade dos mercadores da Co-hong entrou na praça, com uma escolta de cinqüenta bandeireiros que faziam soar gongos e tambores. A guarda de bandeireiros deixou-os passarem e depois fechou outra vez as fileiras. Novamente Jin-qua estava ausente. Mas seu filho How-qua, o principal mercador da Co-hong, encontrava-se ali. How-qua, um homem de meia-idade, rechonchudo, sorria sempre. Mas, naquele dia, estava sombrio e suado, tão aterrorizado que quase deixou cair a bem enrolada proclamação imperial, atada com uma fita escarlate. Seus companheiros negociantes estavam igualmente tomados de pânico.

Struan e Brock esperavam para recebê-los no jardim, vestidos com seus melhores casacos navais, gravatas brancas e cartolas. Struan acabara de barbear-se e Brock mandara pentear a barba. Ambos usavam aparatosas flores na lapela. Sabiam que aquela cerimônia os fazia ganhar muito prestígio e que o Hoppo perdia.

- Tem razão - dissera Brock, com uma risada rouca. - Struan e eu vamos pegar a maldita proclamação. Se não tivéssemos agido de maneira correta, então talvez nos queimassem como ratos numa ratoeira e não nos dessem esse prazo. Agora, vamos fazer exatamente como disse Struan.

O grupo parou no portão. Mauss abriu-o e Struan e Brock foram até o umbral. Os bandeireiros franziram a testa para eles. Struan e Brock estavam tristemente conscientes de que suas cabeças ainda se encontravam a prêmio, mas não demonstraram nenhum medo, pois tinham a proteção de armas escondidas nas janelas, atrás deles, e do canhão na lorcha de Brock, ancorada no meio do mar.

O bandeireiro-chefe falou acaloradamente, agitando seu chicote.

- Ele diz para sair e pegar a proclamação - interpretou Mauss.

Struan simplesmente ergueu o chapéu e estendeu a mão, ficando com os pés firmemente plantados.

- O Hoppo disse que a proclamação era para ser entregue. Entreguem-na. - Manteve a mão estendida.

Mauss traduziu o que ele dissera, e então, depois de um momento de nervosismo, os bandeireiros cobriram How-qua de imprecações, e How-qua correu para a frente e deu a Struan o papel enrolado.

Struan, Brock e Mauss imediatamente tiraram suas cartolas e gritaram o mais alto que podiam: “Deus salve a Rainha.” A este sinal, Gorth aproximou uma lamparina de alguns fogos de artifício e atirou-os no jardim. Os mercadores da Co-hong deram um salto para trás e os bandeireiros puxaram seus arcos e espadas, mas Struan e Brock, com os rostos solenes, ficaram perfeitamente quietos, segurando seus chapéus no ar.

Os fogos de artifício, ao explodirem, encheram o jardim de fumaça. Quando as explosões pararam, para horror da Co-hong, Mauss, Struan e Brock gritaram: “Malditos sejam todos os manchus!” e, de dentro da feitoria, foram proferidos três ressoantes vivas.

O bandeireiro-chefe caminhou para a frente, beligerantemente, e falou com Mauss.

- Ele pergunta para que tudo isso, Tai-Pan.

- Diga-lhe, exatamente como eu lhe disse. - Struan captou o olhar de How-qua e piscou-lhe às escondidas, sabendo do seu horror aos manchus.

Mauss disse em mandarim alto e sonoro:

- Este é nosso costume, numa ocasião muito importante. Nem todo dia temos o privilégio de receber um documento tão estimável.

Os bandeireiros o amaldiçoaram por um momento e, depois, ordenaram que o pessoal da Co-hong se afastasse. A Co-hong foi embora, mas agora, eles estavam mais ousados.

Brock começou a rir. E a risada espalhou-se por toda feitoria e ecoou na extremidade mais afastada da praça, onde estava situada a feitoria americana. Um pavilhão do Reino Unido apareceu numa de suas janelas e se agitou com bravura.

- É melhor nos prepararmos para ir embora - disse Brock. - Isso foi muito bom.

Struan não respondeu. Atirou a proclamação a Mauss.

- Entregue-me uma tradução exata, Wolfgang - disse, e voltou para sua suíte.

Ah Gip fez uma curvatura diante dele e retornou para suas panelas. May-may estava vestida, mas permanecia deitada na cama.

- O que há, May-may?

Ela o olhou fixamente e virou-lhe as costas, erguendo o vestido e revelando as nádegas cheias de machucaduras.

- O que há! - disse, com raiva fingida. - Veja o que você fez, seu bruto bárbaro fan-quai. Preciso ficar em pé, ou então dei­tada de bruços.

- Deve ficar deitada - disse ele, e afundou soturnamente numa cadeira.

May-may deixou cair o vestido e, cuidadosamente, saiu da cama.

- Por que você não ri? Pensei que isso faria você rir.

- Desculpe, garota. Eu deveria ter rido. Mas tenho uma porção de coisas em que pensar.

- O quê?

Ele fez um sinal para Ah Gip.

- Você deve sair, entende? - e aferrolhou a porta. May-may ajoelhou-se ao lado da panela e mexeu o conteúdo com um pauzinho.

- Precisamos partir às três horas - disse Struan. - Mas, vamos dizer que você quisesse ficar na Colônia até amanhã, o que faria?

- Eu me esconderia - disse ela, imediatamente. - Num... como é que se diz... num pequeno quarto lá em cima, perto do telhado.

- Sótão?

- Sim. Sótão. Por que você quer ficar?

- Acha que revistarão a feitoria, quando tivermos partido?

- Por que ficar? Não é nada bom ficar.

- Acha que os bandeireiros vão contar nosso grupo quando formos embora?

- Aquela maldita ralé não sabe contar. - Ela pigarreou ruidosamente e escarrou no fogo.

- Quer fazer o favor de não cuspir?

- Eu já lhe disse muitas vezes, Tai-Pan, é importante, um costume chinês sábio - ela respondeu. - Há sempre veneno na garganta. E a pessoa fica muito doente, se não o expectorar. É aconselhável expectorar esse veneno. Quanto mais alto o pigarro, mais o deus do veneno do cuspe fica assustado.

- Isso é tolice, e é um hábito desagradável.

- Ayeee yah - disse ela, com impaciência. - Você não entende inglês? Algumas vezes eu fico imaginando por que me dou ao trabalho de explicar toda a sabedoria tão civilizada da China a você. Por que deveríamos nos esconder aqui? É perigoso não ir com os outros. Será muito perigoso, se os bandeireiros me virem. Vamos precisar nos proteger. Por que nos esconder?

Ele lhe contou a respeito da lorcha. E a respeito das barras de prata.

- Você precisa confiar muito em mim - disse ela, com muita seriedade.

- Sim.

- O que você deve dar a Jin-qua, em troca?

- Concessões de negócios.

- Claro. Mas, o que mais?

- Apenas concessões de negócios. Houve um silêncio.

- Jin-qua é um homem inteligente. Ele não ia querer só concessões de negócios - ela observou. - Que concessões eu pediria, se fosse Jin-qua! E você deveria concordar com tudo. Tudo.

- O que você iria querer?

Ela ficou olhando para as chamas, a imaginar o que diria Struan, se soubesse que ela era a neta de Jin-qua - a segunda filha da quinta esposa de seu filho mais velho How-qua. E ficou imaginando por que fora proibida de dizer isto a Struan - sob pena de retirada de seu nome para sempre dos pergaminhos ancestrais. Estranho, disse a si mesma, e estremeceu ao pensamento de ser expulsa da família, pois isto significava que não apenas ela, mas sua descendência e a descendência deles para sempre estariam desligadas da corrente central, e assim privadas da ajuda mútua protetora que era o único amparo na sociedade chinesa. Um amparo perpétuo. A única coisa de valor verdadeiro que cinco mil anos de civilização e experimentação tinham ensinado ser segura e valiosa. A família.

E ela ficou imaginando por que, na verdade, fora dada a Struan.

- Segunda filha da quinta mãe - seu pai lhe dissera em seu décimo quinto aniversário. - Meu ilustre pai concebeu para você uma grande honra. Você será dada ao Tai-Pan dos bárbaros. Ficara aterrorizada. Jamais vira um bárbaro e acreditava que eles eram sujos e repugnantes canibais. Chorara e implorara perdão, mas depois, em segredo, mostraram-lhe Struan, quando ele estava com Jin-qua. O gigante Struan a assustara, mas ela vira que não era um macaco. Mesmo assim, ainda suplicara para se casar com um chinês.

Mas seu pai mostrara-se inflexível e lhe dera uma escolha:

- Obedeça, ou deixe esta casa e se considere expulsa para sempre.

Então ela fora para Macau e para a casa de Struan, com instruções de agradá-lo. De aprender o idioma dos bárbaros. E de ensinar a Struan coisas chinesas, sem ele saber que estava sendo ensinado.

Uma vez por ano, Jin-qua e seu pai enviavam alguém até ela, a fim de saber seus progressos e levar notícias da família.

Muito estranho, pensou May-may. Certamente, eu não fui enviada como espiã, mas para ser a concubina de Struan. E, certamente, nem meu pai e nem meu avô fariam uma coisa dessa sem seriedade - com alguém do seu próprio sangue. Eu não era a neta favorita de Jin-qua?

- Tanto dinheiro - disse ela, evitando responder à pergunta dele. - Tanto assim, representa uma tentação imensa. Imensa. Todo num lugar só... com um simples roubo, vinte ou quarenta gerações estariam com a vida ganha. - Como fui tola de ter medo do Tai-Pan. Ele é um homem como qualquer outro, e meu senhor. Muito homem. E logo eu serei Tai-tai. Afinal. E terei prestígio, afinal.

Ela fez uma grande curvatura.

- Estou honrada porque você confia em mim. Eu abençoarei seu pagode, Tai-Pan, para sempre. Você me concedeu uma grande honra e me dá tanto prestígio. Porque qualquer pessoa iria considerar como roubar esse dinheiro. Qualquer pessoa.

- Como você faria isso?

- Mandaria Ah Gip ao Hoppo - disse ela, imediatamente, e voltou a mexer a panela. - Em troca de cinqüenta por cento garantidos, ele desconsideraria até o imperador. Permitiria que você ficasse, secretamente, se você quisesse, até a lorcha chegar. Quando tivesse certeza de que era a lorcha certa, deixaria você ir a bordo, em segredo, e interceptaria a embarcação no rio. E cortaria sua garganta. Mas então ele me enganaria, tirando-me minha parte, e eu ia ter de ser mulher dele. Porco sujo! Nem por todo chá da China, com aquele porco fornicador, não. Ele tem truques sujos. Sabe que é quase impotente?

- O quê? - disse Struan, sem realmente escutá-la.

- Todo mundo sabe - disse ela. Provou o cozido afetadamente e adicionou um pouco de molho de soja. - Ele precisa ter duas moças ao mesmo tempo. Uma tem de brincar com ele, enquanto a outra trabalha. Além disso, tem o órgão tão pequeno que coloca coisas em si mesmo, coisas enormes. E gosta de fazer sexo com patos.

- Não diga essas sandices.

- O que quer dizer “sandices”?

- Tolices.

- Ah, não é tolice. Todo mundo sabe - ela sacudiu a cabeça, com graça, e a longa pluma de seus cabelos dançou. - Eu não entendo você, de maneira nenhuma, Tai-Pan. Fica chocado, quando lhe digo coisas comuns. Muitas pessoas usam coisas para melhorar o sexo. É muito importante melhorar, quando se pode. Comer as comidas certas, usar os remédios certos. Quando a pessoa tem pequeno, ayeee yah, não há nada de mau em melhorar o pagode e dar mais prazer à garota da gente. Mas não como aquele porco sujo! Ele fez essas coisas só para ferir.

- Quer calar a boca, mulher?

Ela parou de mexer a comida e olhou-o. Franziu ligeiramente a testa.

- Todos os europeus são como você, Tai-Pan? Não gostam de falar abertamente sobre o relacionamento homem-mulher, não é?

- Sobre certas coisas não se fala. Ela abanou a cabeça.

- Isto é errado. É bom falar. Como se pode melhorar, se não for assim? Homem é homem, e mulher é mulher. Você não fica chocado por causa de comida! Por que tanta loucura, hein? Sexo é comida, pode ter certeza. - Os olhos dela se franziram, maliciosamente, e ela o examinou de alto a baixo. - Com tudo isso, o sinhozinho dá trepadinha do mesmo jeito, né?

- Todas as moças chinesas são como você, é?

- Sim - disse ela, calmamente. - A maioria. Como eu, mas não tão boas. Eu espero. - Ela riu. - Acho que você deve ser muito especial. Eu também sou especial.

- E modesta.

- Maldito seja esse tipo de modéstia. Eu sou honesta, Tai-Pan. Os chineses são honestos. Por que eu não apreciaria a mim mesma? E a você. Eu gosto de você, como você gosta de mim. É estúpido fingir que não. - Ela deu uma espiada para dentro da panela e pegou um pedaço de carne com os pauzinhos, provando-o em seguida. Depois, tirou a panela do fogo e colocou-a perto das chamas o bastante para mantê-la aquecida. Abriu a porta e sussurrou algo para Ah Gip. Ela se afastou, arrastando-se. May-may voltou para o fogo.

- Onde ela foi?

- Descobrir um lugar para nos escondermos.

- Eu vou fazer isso.

- Ela sabe fazer isso melhor do que você. Primeiro, vamos comer, depois você decide a respeito de Brock.

- O que quer dizer?

- Ele não vai deixar você se esconder e ficar aqui assim facilmente, não é?

- Já decidi o que fazer com ele. - O rosto de Struan enrugou-se, com o amplo sorriso que deu. -- Você é muito, muito especial, May-may.

- Especial o suficiente para você fazer de mim Tai-tai? Sua Suprema Senhora, de acordo com seu costume.

- Vou decidir a respeito disso, depois que tiver realizado três coisas.

- Que três coisas?

- A primeira é levar as barras a salvo para o China Cloud.

- E a outra?

- A segunda é garantir uma segurança absoluta para Hong Kong.

- A última?

- Não tenho certeza. Você vai ter de ser paciente com relação a esta.

- Vou ajudar você nas duas primeiras. A última eu não entendo. Sou chinesa. Os chineses são muito pacientes. Mas também sou uma mulher.

- Sim - disse ele, depois de um longo momento.

 

Struan estava em seu escritório particular, no térreo, escrevendo um despacho para Robb. Eram quase duas horas. Lá fora, os negociantes, seus funcionários, cules e criados carregavam pertences de suas feitorias para suas lorchas. O Hoppo relaxara a ordem de retirada de todos os criados. Os criados e cules teriam permissão para ficar até a Hora do Macaco - três horas - ocasião em que a Colônia deveria ser abandonada. Os bandeireiros ainda estavam na praça, impedindo o acesso à feitoria americana.

Struan terminou a carta, afixou nela seu carimbo especial e selou-a com cera e o anel de sinete. Ele dissera a Robb para não se preocupar, pois levaria boas notícias para Hong Kong e, caso se atrasasse, Robb deveria ir para o leilão e comprar todas as terras que haviam escolhido há muito tempo. E comprar o outeiro, custasse o que custasse. Não importava a oferta de Brock, Robb deveria fazer o lance de um dólar a mais.

Em seguida, Struan recostou-se em sua cadeira, esfregou os olhos, para se livrar da fadiga, e começou a reconsiderar de novo o seu plano, tentando descobrir que falhas teria. Como todos os planos que envolviam as reações de outras pessoas, sempre seria preciso algum pagode. Mas sentiu que o cata-vento do seu pagode voltara à posição antiga, quando ele estava sempre protegido, e as coisas aconteciam como queria.

O alto relógio de pêndulo bateu três vezes. Struan levantou-se da escrivaninha de teca lavrada e uniu-se aos criados, que entravam e saíam da feitoria, sob a supervisão dos funcionários portugueses.

- Quase já terminamos, Sr. Struan - disse Manoel de Vargas.

Era um português idoso, de cabelos grisalhos e pálido, com grande dignidade. Trabalhava na Casa Nobre há onze anos, e era o chefe dos funcionários. Antes disso, tivera sua própria companhia, com sede em Macau, mas não conseguira competir com os negociantes ingleses e americanos. Mas não tinha nenhuma queixa deles. É a vontade de Deus, dissera, sem rancor, reunira em torno de si sua mulher e filhos e fora à missa, agradecer à Virgem todas as suas bênçãos. Ele era como a maioria dos portugueses - leal, calmo, contente e sem pressa.

- Poderemos ir logo que o senhor disser - declarou, cansadamente.

- Está se sentindo bem, Vargas?

- Um tanto febril, senhor. Mas, quando nos acomodarmos, eu vou ficar bem outra vez. - Vargas abanou a cabeça. - É ruim a gente não parar de se mudar de um lugar para outro. - Falou com dureza, em cantonês, com um cule que se demorava, ao passar, sob o peso de livros de escrituração, e apontou para uma lorcha. - Esta é a parte final dos livros, Sr. Struan.

- Ótimo.

- Hoje é um dia triste. Há muitos boatos ruins. Alguns estúpidos.

- Quais?

- De que seremos interceptados em nosso caminho, e mortos. Que Macau vai ser acabada, e seremos expulsos do Oriente, de uma vez por todas. E os costumeiros boatos de que voltaremos dentro de um mês, e o comércio será melhor do que nunca. Circula até um boato de que há quarenta laques de barras de prata em Cantão.

Struan manteve o sorriso no rosto.

- Não há tantos laques assim, nem em toda província de Kwangtung!

- Claro. É estupidez, mas é divertido contar. Supõe-se que as barras foram coletadas pela Co-hong, como uma dádiva para aplacar o imperador.

- Bobagem.

- Claro, bobagem. Ninguém ousaria ter tanto dinheiro num lugar só. Todos os bandidos da China cairiam em cima.

- Leve esta carta e entregue-a nas mãos do Sr. Robb. Logo que possível - disse Struan. - Depois, vá imediatamente para Macau. Quero que você reúna equipes de trabalhadores em construção. Quero que estejam na Ilha de Hong Kong daqui a duas semanas. Quinhentos homens.

- Sim, senhor. - Vargas suspirou e ficou imaginando por quanto tempo teria de manter o fingimento. Todos sabemos que a Casa Nobre está liquidada. Quinhentos homens? Para que precisamos de homens, quando não há dinheiro para comprar terra? - Será difícil, senhor.

- Dentro de duas semanas - repetiu Struan.

- Será difícil conseguir bons operários - disse Vargas, cortesmente. - Todos os negociantes estarão competindo por seus serviços... e a proclamação do imperador revogou o tratado. Talvez eles não concordem em trabalhar em Hong Kong.

- Bons salários farão com que mudem de idéia. Quero quinhentos homens. Os melhores. Paguem salários dobrados, se necessário.

- Sim, senhor.

- Se não tivermos dinheiro para pagar a eles - acrescentou Struan com um sorriso triste - Brock pagará você bem. Não há necessidade de se preocupar.

- Não estou preocupado com meu próprio trabalho - disse Vargas, com grande dignidade - mas estou preocupado com a segurança da casa. Não queria que a Casa Nobre deixasse de existir.

- Sim, eu sei. Você me serviu bem, Vargas, e eu aprecio isso. Leve todos os funcionários com você, agora. Eu irei com Mauss e meus homens.

- Devo trancar a porta, ou o senhor mesmo tranca?

- Faça isso quando todos os seus funcionários estiverem a bordo.

- Muito bem. Vá com Deus, senhor.

- E você também, Vargas.

Struan atravessou a praça. Em torno, todos se apressavam, fazendo acréscimos de última hora à carga das lorchas atulhadas, ao longo do cais. Mas acima, no cais, ele viu Brock e Gorth exortando com blasfêmias seus marinheiros e funcionários. Alguns dos negociantes já haviam partido, e ele acenou alegremente e para uma lorcha, enquanto seguia pelas águas. Do outro lado do rio, os moradores nos barcos espiavam o êxodo, bradando ofertas de suas sampanas para fazer cargas até o meio da água, pois a direção do vento tornava difícil a partida do cais.

A lorcha de Struan tinha dois mastros, quarenta pés de comprimento e era cômoda. Mauss já se encontrava à popa.

- Tudo ajeitado, Tai-Pan. Há um boato de que o Hoppo invadiu a casa de Ti-sen. Quarenta laques de barras de prata estavam lá.

- E daí?

- Nada, Tai-Pan. Um boato, hein? - Mauss parecia cansado. - Todos os meus convertidos desapareceram.

- Eles voltarão, não se preocupe. E haverá uma porção de gente para converter em Hong Kong - disse Struan, sentindo pena dele.

- Hong Kong é nossa única esperança, não?

- Sim. - Struan seguia ao longo do cais. Viu um cule alto sair da feitoria americana e unir-se à massa na praça. Mudou de direção. - Ei, o que você quer, ianque? - gritou para o cule.

- Vá para o inferno, Tai-Pan. - Cooper disse, sob o chapéu de cule. - Meu disfarce está tão ruim assim?

- É sua altura, rapaz.

- Só queria desejar a você feliz viagem. Não sei quando o verei outra vez. Você tem trinta dias, naturalmente.

- Não acha que são preciosos?

- Vou descobrir isso dentro de trinta dias, não é?

- Enquanto isso, compre oito milhões de libras de chá para nós.

- Com o que, Tai-Pan?

- Você paga o chá com o que, habitualmente?

- Somos seus agentes, certamente. Durante os próximos trinta dias. Mas não posso comprar para você sem barras de prata.

- Você vendeu todo seu algodão?

- Ainda não.

- É melhor vender depressa, rapaz.

- Por quê?

- Talvez as sobras não encontrem mercado.

- Se for assim, lá sé vai o Independence.

- Seria uma pena, não?

- Espero que você acerte com Brock, de alguma maneira. E construa seu Independent Cloud. Quero ter a satisfação de derrotá-lo eu mesmo.

- Fique na fila, rapaz - disse Struan, de bom humor. - Prepare-se para comprar muito, e depressa. Vou mandar notícias para você.

- Não seria a mesma coisa sem você, Tai-Pan. Se você for embora, todos perderemos um pouco.

- Talvez eu não vá, afinal de contas.

- Tem uma metade minha que quer ver você fora. Você, mais do que qualquer outro, teve uma fatia grande demais no mercado, por demasiado tempo. É hora de liberdade nos mares.

- Liberdade para navios americanos?

- E outros. Mas não em termos britânicos.

- Sempre dominaremos os mares, rapaz. Nós precisamos. Vocês têm um país agrícola. Nós somos industriais. Precisamos dos mares.

- Um dia, tomaremos os mares.

- Nessa ocasião, talvez não precisemos mais dos mares, porque dominaremos os ares.

Cooper deu uma risadinha.

- Não se esqueça de nossa aposta.

- Estou lembrado. Recebi uma carta de Aristotle, há alguns dias. Ele me pedia um empréstimo para sustentá-lo porque “aquela adorável tarefa precisa esperar até o verão, devido ao fato de estar ela sofrendo de arrepios na pele”. Temos tempo suficiente para descobrir quem é... vamos procurá-la até na cama.

- Não pode ser Shevaun. Aquela tem gelo nas veias, em vez de sangue.

- Ela lhe disse não, outra vez?

- Sim. Diga alguma coisa a meu favor, sim?

- Eu não vou me meter numa negociação dessas.

Por sobre o ombro de Struan, Cooper viu Brock e Gorth se aproximando.

- Se os Brocks jamais chegarem a Hong Kong, você terá o tempo de que precisa, não é?

- Será que você está sugerindo um homicidiozinho?

- Não seria um homicidiozinho, mas um grande crime, Tai-Pan. Boa-tarde, Sr. Brock.

- Achei que era o senhor, Sr. Cooper - disso Brock maliciosamente. - Que gentileza vir ao nosso bota-fora. - Depois, para Struan - vai partir agora?

- Sim. Mostrarei a Gorth a popa do meu navio por todo o caminho até Whampoa. E depois, no China Cloud, por todo o caminho até Hong Kong. Como de costume.

- A única popa que você vai nos mostrar é a sua, dentro de quatro dias, quando será atirado na prisão por dívidas, que é o seu lugar. - disse Gorth, grosseiramente.

- O caminho todo, até Hong Kong, Gorth. Mas não adianta apostar corrida com você. Como marinheiro, você não tem condições para conduzir um barco.

- Sou melhor do que você, ora essa.

- Se não fosse seu pai, você seria alvo de riso da Ásia inteira.

- Por Deus, seu filho da...

- Cala essa boca! - gritou Brock. Ele sabia que Struan ficaria encantado de ser chamado de filho da puta publicamente por Gorth, porque assim poderia desafiá-lo para um duelo. - Por que provocar o rapaz, hein?

- Não o estou provocando, Tyler, mas apenas constatando um fato. É melhor você lhe ensinar algumas maneiras, bem como a navegar.

Brock manteve-se contido. Gorth ainda não era páreo para Struan. Ainda. Dentro de um ano ou dois, quando já fosse mais esperto, seria diferente. Mas não agora, por Deus. E não é próprio de um inglês dar um chute na barriga do inimigo, quando ele está deitado de costas, indefeso. Como o maldito Struan.

- Aposta amistosa. Aposto cem guinéus que meu rapaz pode derrotar você. Vamos ver quem é o primeiro a tocar o mastro da bandeira em Hong Kong.

- Vinte mil guinéus. O dinheiro dele, não o seu - disse Struan, zombando de Gorth com o olhar.

- Como você vai pagar, Tai-Pan? - perguntou Gorth, com desprezo, e Brock ferveu, diante da estupidez do filho.

- Ele está só brincando, Dirk - declarou Brock, depressa. - Vinte mil, tudo bem.

- Sim, uma brincadeira. Se você diz que é, Tyler. Struan estava frio por fora, mas interiormente exultante. Eles haviam engolido a isca! Agora Gorth e Brock iriam seguir às pressas para Hong Kong - vinte mil guinéus eram uma fortuna considerável, mas nada representavam, em comparação com quarenta laques salvos no China Cloud. Brock estava seguramente fora do caminho. Um jogo perigoso, entretanto. Gorth quase fora longe demais, e então sangue teria sido derramado. Era demasiado fácil matar Gorth.

Ele estendeu a mão a Cooper.

- Quero que mantenha o compromisso de trinta dias. - Eles se apertaram as mãos. Depois, Struan olhou para Gorth. - O mastro da bandeira em Hong Kong! Boa viagem, Tyler! - e correu para sua lorcha, que já desatracara e estava embicando para o meio da corrente.

Ele saltou por sobre a amurada, virou-se e acenou, zombeteiramente. Depois, desapareceu embaixo do convés.

- Com licença Sr. Cooper - disse Brock, puxando Gorth pelo braço. - Nós nos veremos!

Ele puxou Gorth em direção à sua lorcha. No convés da popa, empurrou-o violentamente contra a amurada.

- Seu debilóide, seu cretino! Quer que sua garganta seja cortada, de uma orelha a outra? Chame um homem de filho da puta aqui, e terá de lutar. Chame desse nome e ele terá o direito de matar você! - Deu uma bofetada em Gorth, com as costas da mão, e o sangue escorreu da boca do rapaz. - Eu já lhe disse cinqüenta vezes para ter cuidado com aquele demônio. Se eu preciso ter cuidado com ele, por Deus, quanto mais você!

- Eu posso matá-lo, papai, sei que posso!

- Eu já lhe disse, cinqüenta vezes, trate-o bem! Ele está esperando para liquidar você, seu idiota. E ele pode. Não se luta mais de uma vez com aquele demônio. Entendeu?

- Sim. - Gorth sentiu o sangue em sua boca, e o gosto fez sua raiva aumentar.

- Da próxima vez, eu deixo ele matar você, seu idiota. E mais uma coisa. Jamais aposte com um homem como ele, que é devedor. Nem lhe dê um chute na virilha, quando ele está derrotado e indefeso. Não se age dessa maneira!

- Malditas sejam as maneiras de agir!

Brock esbofeteou-o outra vez, com as costas da mão.

- Os Brocks obedecem a um código de honra. Aberto. De homem para homem. Desobedeça a esse código, e ponho você para fora de Brock and Sons!

Gorth enxugou o sangue da boca.

- Não me bata de novo, papai!

Brock sentiu o tom de violência na voz do filho e seu rosto endureceu.

- Não faça mais isso, papai. Juro por Deus que bato em você de volta - disse Gorth, apoiado solidamente nas duas pernas, com os punhos como se fossem de granito. - Você me bateu pela última vez. Se me bater de novo, eu não vou ficar parado. Por Deus, você me bateu pela última vez.

As veias na garganta de Brock se enegreceram e pulsaram, enquanto ele se preparava para brigar com o filho, não mais como filho, porém como inimigo. Não, um inimigo, não. Apenas um filho que não era mais nenhuma criança. Um filho que desafiara seu pai, como todos os filhos desafiam todos os pais. Brock sabia, e Gorth também sabia, que se eles brigassem seria derramado sangue, e alguém seria expulso. Nenhum dos dois queria uma expulsão mas, se acontecesse, tanto o pai como o filho sabiam que se tornariam inimigos do mesmo sangue.

Brock odiou Gorth, por fazê-lo sentir-se velho. E o amou por resistir a ele, quando sabia, sem a menor dúvida, que ele era mais astuto na arte de matar em combate do que Gorth jamais seria.

- É melhor você chegar a Hong Kong. Gorth descerrou os punhos, com esforço.

- Sim - disse, com voz rouca. - Mas é melhor você ajustar contas com aquele filho da mãe bem direitinho, se é que tem a cabeça no lugar... porque senão, da próxima vez, eu vou fazer tudo à minha maneira. - Olhou para o mestre. - Que diabo vocês estão esperando, seus miseráveis? Vamos embora!

Ele enxugou o sangue do queixo e cuspiu por sobre a amurada. Mas seu coração ainda batia muito forte e, ficou com pena de não ter havido uma terceira pancada. Eu estava preparado, por Deus, e poderia ter batido nele - como posso derrotar aquele filho da puta de olhos verdes. Eu sei que posso.

- Que rumo vamos seguir, papai? - perguntou, porque havia vários caminhos diferentes para se chegar lá. As abordagens a Cantão pelo rio eram através de um labirinto de ilhas, grandes e pequenas, e inumeráveis cursos d’água.

- Você se meteu nessa confusão. Escolha seu próprio caminho.

Brock caminhou para a amurada. Sentia-se muito velho e muito cansado. Lembrou-se de seu próprio pai, que era ferreiro, e de como, em menino, ele tivera de receber pancadas e ordens e tomar cuidado com o próprio gênio e fazer o que lhe diziam, até ter quinze anos e o sangue lhe subir à cabeça. Quando recuperou a calma, viu que estava em pé sobre o corpo inerte do pai.

Meu Deus, ele pensou, aquilo não está assim tão distante. Fico satisfeito de não ter precisado lutar com ele para valer. Não quero perder meu filho.

- Não chegue depois de Dirk Struan, Gorth - disse ele, com algo de gentil na voz. Gorth não disse nada. Brock esfregou a órbita vazia e substituiu o pano preto. Observou a lorcha de Struan. Já se encontrava no meio do rio, e Struan não estava à vista. A sampana, num impulso, deu uma volta, e depois partiu, precipitadamente, para o outro lado. Um grupo de homens de Struan estava inclinado por sobre as cordas, e cantava, enquanto as velas eram erguidas. A sampana voltou em direção à lorcha de Vargas.

Não é próprio de Dirk partir tão depressa, Brock refletiu. Não está certo, de maneira alguma. Ele deu uma olhada no cais e viu que Vargas e todos os funcionários de Struan estavam lá, a lorcha ainda amarrada. Ora, nem parece coisa de Dirk. Ir embora antes de seus funcionários. Dirk é estranho com essas coisas. Sim.

 

Struan estava escondido na cabina da sampana. Enquanto o barco circulava em torno da lorcha de Vargas, Struan enterrou bem fundo na cabeça o chapéu cule, e puxou mais apertado em torno de si o casaco chinês acolchoado. O proprietário da sampana e sua família não pareceram notá-lo. Eles tinham sido bem pagos para não ouvir e nem ver.

O plano que ele articulara com Mauss era o mais seguro, nas circunstâncias. Dissera a Mauss para ir apressadamente ao China Cloud, que estava ancorado ao largo da Ilha de Whampoa, a treze milhas de distância; para tomar a passagem mais curta em direção ao norte, ao chegar lá, e depois ordenar ao Capitão Orlov para navegar a velas plenas e seguir a toda para a extremidade da ilha; para mudar de curso ali, e dar uma volta, dirigindo-se pelo canal sul outra vez, em direção a Cantão; ele advertira que era da máxima importância a manobra não ser observada por Brock. Struan, enquanto isso, esperaria pela lorcha com as barras de prata e depois tomaria o caminho longo e se esgueiraria por tortuosos cursos d’água, até o lado sul da ilha, onde se encontrariam. Junto ao Pagode de Mármore. O pagode tinha duzentos pés de altura e era visto com facilidade.

- Mas por que, Tai-Pan? - perguntara Mauss. - É perigoso. Por que todo o risco, hein?

- Faça o que lhe disse, Mauss, apenas isso - declarara ele.

Quando a sampana chegou ao cais, Struan pegou alguns cestos que preparara e correu, através da multidão, até o portão do jardim. Ninguém lhe prestou a menor atenção. Uma vez lá dentro, ele atirou para um lado os cestos, correu para a janela da sala de jantar e espiou cuidadosamente através das cortinas. Sua lorcha estava bem afastada. Brock encontrava-se no meio do canal, ganhando distância, as velas inchando ao sabor da brisa. Gorth estava em pé à popa e Struan ouvia fracamente as obscenidades que ele dizia. Brock estava na amurada, a bombordo, olhando para as águas. Vargas acabara de checar os funcionários e voltava pelo jardim.

Struan saiu rapidamente da sala de jantar e correu para o andar de cima. Do patamar, viu Vargas entrar no saguão, fazer uma verificação final e sair. Struan ouviu a chave virar na porta. Relaxou e subiu por uma estreita escada, até o sótão. Seguiu mais devagar, enquanto passava por velhas caixas de embalagem, e caminhou cautelosamente em direção à frente do edifício.

- Olá, Tai-Pan - disse May-may.

Ela estava vestida com suas imundas calças Hoklo e colete acolchoado, mas não sujara o rosto. Encontrava-se ajoelhada numa almofada, perto de algumas caixas de embalagem. Ah Gip levantou-se e, depois, tornou a se acocorar, perto da pequena trouxa de roupas e utensílios de cozinha. May-may indicou outra almofada, diante dela, e a prancha de gamão montada.

- Vamos jogar, fazer algumas apostas, está bem?

- Espere só um momento, garota.

Havia uma clarabóia no sótão e outra na parede da frente. Struan podia examinar claramente toda a praça, em segurança. As pessoas ainda corriam de um lado para outro, praguejando e fazendo preparativos de última hora.

- Você me viu?

- Ah, sim, muito bem - disse ela. - Mas estávamos observando de cima. Lá embaixo, talvez ninguém tenha visto. Por que Brock bateu no filho, hein?

- Eu não sabia que ele tinha batido.

- Sim. Duas vezes. Por que aquelas bofetadas! Rimos até sufocar. O filho quase bateu de volta. Espero que lutem... matem um ao outro... e então não vai ser preciso pagar dinheiro nenhum. Eu ainda acho que você é muito louco de não pagar a algum pirata para assassiná-lo. - Ela se sentou na almofada, mas depois tornou a se ajoelhar, com uma praga.

- O que há?

- Minha bunda ainda está duendo.

- Doendo - disse ele.

- Foi só brincadeira. Ayeee yah, desta vez vou ganhar longe de você e recuperar todos os meu dólar. - Ela acrescentou, inocentemente. - Quanto devo? Catorze mil?

- Você se lembra muito bem.

Ele se sentou e pegou o copo dos dados.- Quatro jogos. E depois vamos dormir. Temos uma longa noite pela frente. - Ele lançou os dados e ela praguejou.

- Que pagode você tem! Duplo seis, duplo seis, maldito seja o seis duplo! - Ela lançou os dados, igualou-se com ele, jogou o copo para um lado e gritou - Ah, maravilhoso duplo seis!

- Fale baixo, senão não podemos jogar.

- Estamos seguros, Tai-Pan. Meu pagode está bom, hoje!

- Vamos esperar que esteja muito bom - disse ele. - E amanhã também.

- Ayeeee yah para o amanhã, Tai-Pan! Hoje. Hoje é que importa. - Ela tornou a lançar os dados. Outro seis duplo. - Dadozinhos queridos, eu adoro vocês. - E então franziu a testa. - O que quer dizer “adoro”?

- Amo.

- E “amo”?

Os olhos de Struan se enrugaram e ele esticou o dedo para ela.

- Não vou entrar nessa discussão outra vez.

Certa feita, ele tinha tentado explicar o que significava amor. Mas não havia nenhuma palavra chinesa para o conceito europeu.

 

O relógio antigo começou a badalar às onze. Struan mudou cansadamente de posição, junto à clarabóia da parede. May-may estava dormindo, encolhida, Ah Gip despencara em cima de uma caixa de embalagem embolorada. Há algumas horas, ele caíra no sono por um momento, mas seus sonhos eram bizarros e misturados com a realidade. Estava a bordo do China Cloud, esmagado ao peso de barras de prata. Jin-qua entrara na sala, tirara as barras de cima dele, e levara tudo, em troca de um caixão de defunto e vinte guinéus de ouro. Depois, não estava mais em seu navio, mas na praia, na Grande Casa sobre o outeiro. Winifred levou-lhe três ovos e ele comia seu desjejum quando May-may disse, atrás dele: “Pelo sangue de Cristo, como pode você comer os filhos ainda não nascidos de uma galinha?” Ele se virou, viu que ela estava sem roupa nenhuma, e lindíssima. Winifred dissera: “Mamãe era assim tão bonita, quando estava sem roupa?” E ele respondeu: “Sim, mas de maneira diferente”, e acordara, de repente.

Sonhar com sua família o entristecera. Tenho de voltar logo para minha terra, pensou. Não sei nem mesmo onde estão enterrados.

Ele se espichou e ficou olhando o movimento no rio, a pensar em Ronalda e May-may. São diferentes, muito diferentes - eram diferentes. Eu amei a ambas, igualmente. Ronalda teria gostado de Londres numa bela mansão, com temporadas em Brighton ou Bath. Teria sido uma perfeita anfitriã em todos os jantares e bailes. Mas agora eu estou sozinho.

Levarei May-may para a Inglaterra comigo? Talvez. Como Tai-tai? Impossível. Porque isto me afastaria daqueles que eu preciso usar.

Parou de meditar e se concentrou na praça. Estava deserta. Pouco antes do entardecer, os bandeireiros partiram. Agora, havia apenas o fosco luar e as sombras borradas, um vazio que Struan achava fantasmagórico e cruel.

Ele queria dormir. Você não pode dormir agora disse a si mesmo. Sim, mas estou cansado.

Ficou em pé, espichou-se e, depois, se colocou mais uma vez na posição de vigia. Os carrilhões bateram o quarto de hora e, depois, a meia hora, e ele decidiu acordar May-may e Ah Gip dentro de quinze minutos. Não há pressa, pensou. Não se permitiu especular sobre o que aconteceria, se a lorcha de Jin-qua não chegasse. Com os dedos tocando as quatro metades de moeda, em seu bolso, ficou meditando outra vez sobre Jin-qua. Que favores, e quando?

Agora compreendia parcialmente os motivos que haviam levado Jin-qua a fazer tudo aquilo. A queda de Ti-sen o esclarecera. Obviamente, haveria guerra. Obviamente, os ingleses iriam ganhá-la. Obviamente, o comércio começaria outra vez. Mas nunca sob os Oito Regulamentos. Então, a Co-hong perderia seu monopólio e ficaria cada um por si. Daí a extensão do comércio para trinta anos: Jin-qua, simplesmente, estava cimentando suas relações comerciais para as próximas três décadas. Essa era a maneira chinesa de agir, pensou: não se preocupar com o lucro imediato, mas com o lucro no curso de anos a fio.

Sim, mas o que realmente teria Jin-qua em mente? Por que comprar terra em Hong Kong? Por que educar um filho à maneira “bárbara”, com que objetivo? E quais seriam os favores? E agora que você concordou e prometeu, como vai fazer esses favores? Como pode garantir que Robb e Culum cumprirão a barganha?

Struan começou a pensar nisso. Ruminou uma dúzia de possibilidades, antes de chegar a uma resposta. Detestava o que sabia ser necessário fazer. Depois, tendo decidido, dirigiu os pensamentos para outros problemas.

O que fazer com Brock? E com Gorth? Por um momento, no cais, estivera pronto para ir atrás de Gorth. Mais uma palavra e ele iria ter de desafiá-lo abertamente. A honra teria obrigado - e permitido - que humilhasse Gorth. Com uma faca nas tripas. Ou com o chicote.

E Culum. Em que anda metido? Por que não escreveu? Sim, e Robb, também. E que tolice terá feito Longstaff?

Os carrilhões bateram às onze. Struan acordou May-may. Ela bocejou e se espreguiçou voluptuosamente, como um gato. Ah Gip levantara-se no momento em que Struan se mexera e já estava juntando as trouxas.

- A lorcha chegou? - perguntou May-may.

- Não. Mas podemos descer e ficar preparados. May-may sussurrou algo para Ah Gip, e esta soltou-lhe os cabelos e escovou-os vigorosamente. May-may fechou os olhos e se deliciou. Depois, Ah Gip entrançou os cabelos, como faria uma Hoklo, e atou-os com um pedaço de fita vermelha, deixando a trança cair-lhe às costas.

May-may esfregou as mãos na poeira e sujou o rosto.

- O que vou fazer com você, Tai-Pan? Esta poeira suja vai destruir a perfeição da minha bela pele. Vou precisar de muito dinheiro para consertar isso. Quanto, hein?

- Mexa-se!

Ele seguiu em frente, com cuidado, desceu as escadas até a sala de jantar e depois, fazendo sinal para que as duas se sentassem, pacientemente, foi até a janela. A praça ainda estava deserta. Havia lâmpadas a óleo nas sampanas aglomeradas das cidades flutuantes. Vez por outra, cães ladravam, soavam fogos de artifício e vozes se elevavam, em discussões, e eram silenciadas, mas algumas vezes também eram vozes felizes - além do sempre presente cla-que-claque das pedras do mah-jong, atiradas sobre um convés ou uma mesa, e da cantilena das conversas. Erguia-se fumaça das fogueiras onde se cozinhava. Juncos, lorchas e sampanas enchiam o estuário. Tudo - os ruídos, cheiros e visões - parecia normal a Struan. Exceto o vazio da praça - ele supusera que estaria cheia de gente. Agora, tinham de atravessar uma extensão deserta e, ao luar, poderiam ser vistos a centenas de metros.

O relógio bateu meia-noite.

Ele espiou a praça, repetidas vezes, e ficou esperando.

Os minutos se tornaram mais longos e, depois de uma eternidade, os carrilhões bateram o quarto de hora. Depois, a meia hora.

- Talvez a lorcha esteja no sul - disse May-may, sufocando um bocejo.

- Sim. Vamos esperar mais meia hora e, depois, iremos olhar.

Quase na hora, ele viu as duas lanternas numa lorcha que descia o rio. O barco estava distante demais para ele poder ver o olho pintado de vermelho, e prendeu a respiração, à espera. A lorcha navegava devagar, lenta e vagarosa na água. Era um sinal favorável para ele, porque as barras de prata pesariam muitas toneladas. Depois que o barco passou pela extremidade norte da Colônia, mudou de curso e se aproximou do cais. Dois dos tripulantes chineses saltaram em terra, com amarrações e as prenderam. Para alívio dele, outro chinês foi com a lanterna à proa, apagou-a e tornou a acendê-la, de acordo com o sinal combinado.

Struan observou a semi-escuridão, verificando se havia perigo. Não percebeu nenhum. Testou a escorva de suas pistolas e colocou-as à cinta.

- Sigam-me, depressa, agora!

Silenciosamente, foi até a porta da frente, destrancou-a, e guiou-as cautelosamente através do jardim. Abriu o portão, e os três seguiram depressa pela praça. Struan se sentia como se toda Cantão estivesse a observá-los. Ao chegar à lorcha, viu o olho pintado de vermelho e reconheceu à popa o homem que o levara até Jin-qua. Ajudou May-may a subir a bordo. Ah Gip pulou para dentro, com facilidade.

- Por que duas vaca cria, hein? Não poder.

- Como é seu nome? - perguntou Struan.

- Wung!

- Vaca cria minha. Desatraque, Wung!

Wung notou os pés pequenos de May-may e seus olhos se estreitaram. Ele não podia ver o rosto de May-may, porque ela mantinha o chapéu sampana bem baixo por sobre a testa. Struan não gostou da maneira como Wung hesitava, e nem de como olhava para May-may.

- Desatraque! - disse, asperamente, e cerrou o punho. Wung deu uma ordem brusca. As amarras foram retiradas e a lorcha afastou-se do cais. Struan levou May-may e Ah Gip pelo passadiço até o convés inferior. Virou em direção à popa, onde deveria estar a cabina principal, e abriu a porta. Havia cinco chineses lá dentro. Fez sinal para que saíssem. Hesitantes, eles se levantaram e foram embora, olhando May-may de alto a baixo. Também espiaram seus pés.

A cabina era pequena, com quatro beliches e uma mesa tosca, com bancos. Cheirava a cânhamo e a peixe podre. Wung apareceu à porta da cabina e ficou examinando May-may.

- Para que vaca cria? Não pode.

Struan não prestou nenhuma atenção a ele.

- May-may, você tranca porta, hein? Só abre porta quando eu bater, entende?

- Entende, sinhô. Struan foi até a porta e convidou Wung a sair, com um sinal. Ouviu o trinco ser passado, atrás deles, e então disse:

- Vamos para o porão!

Wung levou-o ao porão. Os quarenta engradados estavam empilhados em duas fileiras certinhas, contra os lados do navio, deixando uma ampla passagem entre eles.

- Que tem nas caixa, hein?

Wung parecia confuso.

- Pra quê dizê, hein? Tudo que disse Sinhô Jin-qua.

- Quantos homem sabe?

- Só os meu Todos que sabe, ayeeee yah! - disse Wung passando o dedo pela garganta.

Struan grunhiu.

- Guarde a porta.

Escolheu um engradado, ao acaso, e o abriu, com um pé de cabra. Ficou olhando para as barras de prata e, depois, tirou um dos tijolos de prata da camada superior. Sentiu a tensão de Wung e isto aumentou a sua própria. Recolocou o tijolo e a tampa do cesto.

- Para que vaca cria, hein? - perguntou Wung.

- Vaca cria minha. É isso. - Struan certificou-se de que a tampa estava bem presa, outra vez.

Wung enfiou os polegares na cintura de sua calça esfarrapada.

- Comida? Pode?

- Pode.

Struan foi para o convés e testou o cordame e as velas. Havia um canhão de quatro libras na proa e outro na popa. Verificou se os dois estavam carregados e escorvados e viu se o barrilete de pólvora estava cheio e a pólvora seca. A metralha e as balas estavam prontas, e ao alcance. Ele ordenou a Wung para reunir a tripulação e pegou uma malagueta. Havia oito homens a bordo.

- Diz para trazer - disse ele a Wung - todas as facas, todas as armas de fogo para o convés, depressa.

- Ayeee yah, não pode - protestou Wung. - Tem muito pirata no rio. Muito...

O punho de Struan alcançou-o na garganta e atirou-o contra a amurada. A tripulação conversou entre si, cheia de raiva, e se preparou para avançar contra Struan, mas a malagueta erguida desencorajou-os.

- Todas as facas, todas as armas de fogo no convés, bem depressa - repetiu Struan, com voz dura.

Wung soergueu-se com dificuldade e murmurou alguma coisa em cantonês. Depois de um agourento silêncio, atirou sua faca no convés e, com má vontade, os outros fizeram o mesmo, em seguida. Struan disse a Wung para reunir as facas e amarrá-las num pedaço de saco que se encontrava no convés. Em seguida, fez a tripulação dar a volta e começou a revistar a todos. Encontrou uma pequena pistola em poder do terceiro homem e, com a ponta da coronha, bateu-lhe no lado da cabeça. Mais quatro facas caíram com ruído sobre o convés, atiradas pelos outros homens. Pelo canto do olho, Struan viu Wung atirar por sobre a amurada uma machadinha militar.

Depois de revistar os homens, ordenou-lhes para permanecerem no convés e, levando as armas consigo, cuidadosamente revistou o resto da embarcação. Não havia ninguém escondido embaixo do convés. Descobriu um esconderijo com quatro mosquetes, seis espadas, quatro arcos e flechas e três armas de ferro, atrás de algumas embalagens, e levou tudo para a cabina.

- May-may, você consegue escuta o que se passa lá em cima? - ele sussurrou,

- Sim - disse ela, também baixinho. - Você diz que podemos falar inglês certo em frente de Ah Gip. Por que não fala, agora?

- Esqueci. Hábito. Ora, garota, está tudo bem.

- Por que bateu em Wung? Ele é da confiança de Jin-qua, não?

- A carga é o imã desta viagem.

- Imã?

- Magneto. Agulha de bússola.

- Ah, entendo. - May-may estava sentada no beliche, com os cílios piscando, por causa do cheiro de peixe podre. - Vou ficar muito enjoada, se continuar aqui. Não posso subir para o convés?

- Espere até nos afastarmos de Cantão. Você está mais segura aqui. Muito mais segura.

- Quanto tempo vai demorar, antes de encontrarmos o China Cloudi?

- Pouco depois do amanhecer... se Wolfgang não cometer nenhum erro, com relação ao que combinamos quanto ao nosso encontro.

- E isso é possível?

- Com essa carga, tudo é possível. - Struan pegou um dos mosquetes. - Sabe como usar isto?

- Por que eu iria atirar com armas de fogo? Eu sou uma velha mulher cheia de medo da civilização... de grande beleza, eu concordo, mas que não quer nada com revólveres.

Ele lhe mostrou como fazer.- Se alguém, além de mim, vier à cabina, você o mata. - Ele voltou para o convés, carregando outro mosquete.

A lorcha agora estava no meio do canal, sob a lua que se erguia, pesada e funda dentro d’água, viajando cerca de quatro nós. Ainda passavam pelos subúrbios de Cantão, e ambos os lados do rio estavam cheios de vilas flutuantes enfileiradas. De vez em quando, cruzavam com barcos, sampanas e juncos, que seguiam rio acima. O rio tinha ali meia milha de largura e havia embarcações de todos os tamanhos adiante e atrás deles, descendo a corrente.

O céu dizia a Struan que o tempo ia ser bom, mas o travo do vento era suave, seco e sem frescor, incorpóreo. Sabia que esse vento iria diminuir e, mais tarde, reduziria a velocidade em que navegavam. Mas não ficou preocupado; fizera a viagem tantas vezes que conhecia intimamente os baixios, os rios e afluentes, bem como os pontos onde poderiam surgir dificuldades.

A aproximação a Cantão era feita através de um labirinto de cursos de água e ilhas, grandes e pequenas, cobrindo uma área de cinco por vinte milhas. Havia muitos caminhos diferentes para subir o rio. E descê-lo.

Struan ficou satisfeito por estar outra vez navegando. E feliz com o fato de ter começado a viagem para o Pagode de Mármore. Oscilava, descontraidamente, de acordo com os movimentos da lorcha. Wung estava perto do timoneiro, e a tripulação espalhada pelo convés, malévola e sombria. Struan viu que o vigia da proa estava em seu lugar.

Em frente, a meia milha, o rio se bifurcava em torno de uma ilha. Nas imediações da forquilha, havia um baixio que deveria ser evitado. Struan nada disse e esperou. Ouviu Wung falar com o timoneiro, que virou a cana do leme e desviou a lorcha do baixio. Ótimo, pensou Struan. Pelo menos Wung conhecia parte dos cursos de água. Estava ansioso para ver que itinerário Wung seguiria, em torno da ilha. Ambos os itinerários eram bons, mas o do norte melhor do que o do sul. A lorcha manteve seu curso e se encaminhou para o canal norte. Struan virou-se e balançou a cabeça, apontando para o canal sul, simplesmente para o caso de Wung ter armado uma emboscada.

O timoneiro olhou para Wung, pedindo confirmação. Struan fez apenas um levíssimo movimento em direção ao timoneiro. O leme foi virado depressa e as velas adejaram momentaneamente, enquanto a lorcha tomava o novo curso.

- Pra que toma esse caminho, hein? Pra que me bate? Muito ruim. Muito. - Wung foi até a amurada e olhou a noite. O vento refrescara ligeiramente e a lorcha aumentava de velocidade, enquanto eles se movimentavam em direção ao canal sul. No limite da amura, Struan fez sinal ao timoneiro para virar o leme. O barco deu a volta devagar e então, na nova amura, o vento pegou as velas adejantes. As retrancas rangeram por sobre o convés e o barco deu uma ligeira guinada, e começou a seguir em frente outra vez.

Ele mandou que as velas fossem mareadas, e navegaram suavemente por meia hora, em meio do tráfego do rio. Então, pelo canto do olho, Struan viu uma grande lorcha aproximar-se deles rapidamente, a barlavento. Brock estava em pé à proa. Struan agachou-se e disparou em direção ao leme, afastando o timoneiro. Wung e o timoneiro ficaram pasmados e começaram a conversar excitadamente, enquanto toda tripulação observava Struan.

Ele virou o leme, com toda força, a estibordo, e rezou para que a lorcha respondesse rapidamente. Ouviu a voz de Brock, fracamente: “Leme a estibordo!” e sentiu o vento fugir de suas velas. Struan virou a toda o timão, cambando na direção oposta; mas a lorcha não respondeu, e a embarcação de Brock colocou-se ao lado. Ele viu os ganchos agarrarem sua lorcha, prendendo-a firmemente. Levantou um mosquete.

- Ah, é você, Dirk, por Deus! - gritou Brock, fingindo espanto. Estava debruçado na amurada, com um largo sorriso no rosto.

- Enganchar é ato de pirataria, Brock! - Struan atirou sua faca, com o cabo na frente, para Wung. - Corte os ganchos depressa, depressa!

- Você está certo, rapaz. Peço perdão pelos ganchos - disse Brock. - Pensei que sua lorcha precisasse de um reboque. Não vejo uma bandeira no alto. Talvez tenha vergonha dela, quem sabe?

Struan viu que a tripulação de Brock estava armada e em posição de quem se prepara para agir. Gorth se encontrava no convés da popa, junto a um pequeno canhão de rodízio, e embora a arma não estivesse apontada para ele, sabia que devia achar-se escorvada e pronta para disparar.

- Da próxima vez que engancharem um navio meu, vou supor que são piratas e estourarei a cabeça de vocês.

- Permissão para ir a bordo, Dirk?

- Sim.

Brock esgueirou-se por entre o cordame de seu navio e pulou a bordo. Três homens pularam na amurada para segui-lo, mas Struan ergueu o mosquete e gritou:

- Parem aí! Liquido quem entrar a bordo sem permissão.Os homens pararam no meio do caminho.

- Muito bem - disse Brock, sardonicamente. - Esta é a lei do mar. Um capitão convida a quem gosta ou a quem quer. Fiquem onde estão!

Struan empurrou Wung para a frente.

- Corte os ganchos!

O assustado chinês correu até lá e começou a cortar as cordas. Gorth virou o canhão de rodízio e Struan fez pontaria para ele.

- Afaste-se, Gorth! - disse Brock, com voz dura.

A lei do mar estava ao lado de Struan: enganchar era um ato de pirataria. E entrar a bordo armado, sem permissão, constituía pirataria, e nenhuma das leis inglesas era tão zelosamente protegida ou colocada em vigor como as referentes a navios no mar e aos poderes de um capitão, enquanto navegasse. Para a pirataria, só havia uma punição: enforcamento.

Wung cortou o último cabo e os barcos começaram a se afastar um do outro. Quando a lorcha de Brock estava a trinta pés de distância, Struan depôs o mosquete e gritou:

- Se chegar a cinqüenta pés de distância sem permissão, por Deus, vou acusar você de pirataria! - Depois, recostou-se na amurada. - O que quer dizer tudo isso, Tyler?

- Eu poderia fazer a mesma pergunta a você, Dirk - disse Brock, em tom despreocupado. - Eu vi você se enfiar naquela sampana ontem. - Seus olhos brilharam, à luz da lanterna. - Vi você, vestido estranhamente como um cule, voltar para a feitoria. Estranho, disse eu. Talvez o velho Dirk tenha enlouquecido. Ou talvez o velho Dirk precise de uma mão, para sair a salvo de Cantão. Então seguimos pelo rio e depois voltamos e ancoramos ao norte da Colônia. Vimos você a bordo desta embarcação fedorenta. Você e duas putas.

- O que eu faço só interessa a mim.

- Sim, é verdade.

A mente de Struan estava fervendo. Sabia que a lorcha de Brock era muito mais veloz do que a sua, a tripulação perigosa e bem armada, e não poderia enfrentá-la sozinho. Amaldiçoou a si mesmo por ter sido tão confiante e não se manter vigilante.

Mas, mesmo assim, você não poderia ter visto Brock esgueirar-se rio acima. Como escapar de Brock? Deve haver alguma maneira. Ele pode facilmente cair em cima de você durante a noite e, mesmo que você sobreviva, poderá provar muito pouco. Brock alegaria ter sido um acidente. Além disso, May-may não sabe nadar.- Esta banheira velha está lenta na água. Será que está vazando? Ou não será o peso da carga?

- O que tem na cabeça, Tyler?

- Boatos, rapaz. Havia boatos a manhã inteira, ontem. Antes de partirmos. Boatos a respeito da prata de Ti-sen. Ouviu falar nisso?

- Havia dúzias de boatos.

- Sim. Mas todos diziam que havia um resgate de rei em Cantão. Andei pensando a respeito. Até ver você voltar. E achei muito interessante. Depois da aposta de vinte mil guinéus. Muito interessante. Você entra numa lorcha pesada, como um ladrão de noite, e se dirige para o sul, pelo canal errado. - Brock espichou-se e, depois, coçou a barba, vigorosamente. - O velho Jin-qua não está por aí, está?

- Ele está fora de Cantão.

- O velho Jin-qua é um cão seu. Ou melhor - disse Brock, com um olhar astuto - ele é um empregado seu, não?

- Vá direto à questão.

- Não tem pressa, rapaz. Não, por Deus! - Brock olhou para a proa de sua lorcha. - Tem o nariz leve, não?

Ele referia-se ao espigão de ferro de um pé quadrado que se projetava até uma distância de seis pés da proa, logo abaixo da linha-d’água. Struan inventara o esporão, há muitos anos, como método simples de perfurar e afundar um navio. Brock e muitos comerciantes da China o adotaram.

- Sim. E nós estamos pesados. Mas também estamos bem armados.

- Sim, já vi. Canhão de popa e canhão de proa, mas nenhum de rodízio. - Um silêncio cheio de escárnio. - Cinco dias e suas promissórias estão vencidas. Certo?

- Sim.

- Vai saldá-las?

- Você vai descobrir isso dentro de cinco dias.

- Quarenta ou cinqüenta laques de barras representam muitas toneladas de prata.

- Deve ser, sim.

- Eu perguntei a Gorth: “Ora, o que faria o velho Dirk, se ele tivesse algum mau pagode!” Gorth disse: “Ele ia tentar mudar esse pagode”. “Sim, eu disse, mas como?” “Pedir emprestado”, disse ele. “Ah, é mesmo, um empréstimo. Mas onde?” Então, Dirk, meu rapaz, pensei em Jin-qua e em Ti-sen. Ti-sen está liquidado, então tinha de ser Jin-qua. - Ele ficou ruminando por um momento. - Há duas mulheres a bordo. Eu ficaria satisfeito de levá-las a Whampoa ou Macau. Para onde você disser.

- Elas já têm passagem.

- Sim, mas essa banheira velha pode afundar. Não gosto de ver duas mulheres se afogarem sem necessidade.

- Não vamos afundar, Tyler.

Brock se espreguiçou outra vez e gritou para sua lorcha, pedindo uma chalupa. Depois, abanou a cabeça, tristemente.

- Bom, rapaz, eu só queria oferecer passagem às mulheres. E a você, é claro. Esta banheira não parece muito firme no mar. Estranhamente pouco firme.

- Tem muito pirata nestas águas. Se algum navio chegar perto demais, vou usar meu canhão.

- Será uma boa coisa, Dirk. Mas se, na escuridão da noite, eu enxergar de repente um navio adiante, tentando me evitar, e se esse navio for tão impertinente a ponto de disparar um canhão contra mim, bom, rapaz, você faria o mesmo que eu. Vou supor que é um navio pirata e acabar com ele. Certo?

- Isso se você ainda estiver vivo, depois do primeiro tiro.

- Sim. É um mundo cruel, este em que vivemos. Não é coisa boa disparar canhões.

A chalupa parou ao lado.

- Obrigado, Dirk. É melhor você içar logo essa bandeira, enquanto ainda tem uma. Porque assim não vão acontecer malditos equívocos. Peço perdão pelos ganchos. Vejo você em Hong Kong.

Brock deslizou por sobre a amurada da lorcha e ficou em pé na chalupa. Ele acenou com desdém e se afastou, conduzido pelos remadores.

- O que o sinhô de um olho só quelia? - perguntou Wung, abalado. A tripulação estava horrorizada, diante da lorcha de Brock.

- O que você acha, hein? Façam todos o que eu disser, para não morrer - disse Struan, abruptamente. - A todo pano, depressa. Apaguem as lanternas, já!

Tomando impulso, eles apagaram as lanternas e correram ao sabor do vento.

Quando Brock pulou para bordo de sua própria lorcha, ficou olhando a escuridão. Não conseguia distinguir a lorcha de Struan, no meio das muitas que navegavam como fantasma em direção ao sul, descendo a correnteza.

- Você a vê?

- Sim, papai.

- Eu vou para baixo. Se acontecer você afundar uma lorcha com o ferrão, isso será ruim. Muito ruim.

- As barras de prata estão a bordo?

- Barras, Gorth? - disse Brock, com surpresa fingida. - Eu não sei o que você quer dizer. - Baixou a voz. - Se você precisar de ajuda, me chame. Mas não use canhões, veja bem, a não ser que ele dispare em nós. Não vamos fazer pirataria com ele. Temos muitos inimigos que gostariam de nos marcar como piratas.

- Durma bem, papai - disse Gorth.

 

Durante três horas, Struan deu voltas por entre o tráfego do rio, recuando, mudando de curso, contornando perigosamente os bancos de areia, sempre se certificando de que havia embarcações entre ele e a lorcha de Brock, que o perseguia bem de perto, incansavelmente. Agora estavam saindo do canal sul dando a volta pela pequena ilha e entrando mais uma vez no rio principal. Ele sabia que ali haveria mais espaço para manobrar, mas isto ajudaria Brock mais do que a ele.

Uma vez no canal sul, Brock poderia passar ao largo, a barlavento, com toda facilidade, e depois atacá-lo, quando ele estivesse na amura a sotavento. Struan não teria vento para impeli-lo e ficaria preso a meia-nau. Um golpe direto, ou de raspão, com a sonda de ferro, poderia furar sua embarcação e fazê-la afundar como uma pedra. Como seus canhões eram solidamente presos na proa e na popa, não poderia virá-los para o meio da nau, a fim de se proteger. Se tivesse sua própria tripulação, seria diferente; ficaria manobrando até o amanhecer, certo de que seus homens poderiam usar suas armas para evitar qualquer tentativa de aproximação maior. Mas tinha dúvidas quanto à tripulação chinesa, e quanto aos antigos mosquetes que podiam, provavelmente, explodir no rosto de quem puxasse o gatilho. E Brock tinha razão, também. Se disparasse primeiro, na escuridão, Brock tinha o direito de devolver o tiro. E, se fosse dado com habilidade, no costado, iriam pelos ares.

Ele olhou para o céu, pela milésima vez. Precisava desesperadamente de uma repentina tempestade, com chuva, ou de nuvens que pudessem esconder a lua. Mas não havia nenhum sinal de tempestade, de chuva ou de nuvem.

Espiou em direção à popa e viu a lorcha aproximar-se deles. Estava cerca de cem jardas, à popa, e adiantava-se a barlavento, com a amura mais próxima ao vento do que eles, ganhando distância.

Struan esgaravatou os miolos, em busca de um plano viável. Sabia que só poderia escapar facilmente se tornasse o navio mais leve, atirando ao mar as barras de prata. Meia milha adiante, o rio iria bifurcar-se outra vez, em torno da Ilha de Whampoa. Se tomasse o canal norte, estaria mais seguro, porque a maior parte do tráfego do rio era por aquele canal, e ele poderia evitar o esporão. Mas jamais poderia escapar em tempo suficiente para navegar ao longo de Whampoa, e em torno da ilha, a fim de se encontrar com o China Cloud, na extremidade sul. Era forçado a usar o canal sul.

Não conseguia ver nenhuma maneira de escapar à armadilha. A alvorada romperia dentro de duas ou três horas, e ele estaria perdido. De alguma maneira, tinha de escapar em meio à escuridão e se esconder, e depois deslizar, sub-repticiamente, até o seu local de encontro. Mas como?

Na escuridão, mais adiante, podia ver a bifurcação do rio, que reluzia, todo prateado, em torno da Ilha de Whampoa. Então notou Ah Gip no passadiço. Ela lhe fazia sinais. À popa, a lorcha de Brock estava bem afastada, ainda arribando a barlavento, preparando-se para correr em frente ao vento, se ele tomasse o canal norte.

Apontou para um pequeno pagode, na margem sul, dando ao timoneiro um rumo.

- Entendido?

- Entendido, sinhô!

- É bom ter entendido! - Struan fez um sinal com o dedo de um lado para outro da garganta. Desceu às pressas.

May-may estava muito enjoada. O fedor de peixe e o aperto da cabina, além do balanço do navio, fizeram-na quase desmaiar de náusea. Mas ainda segurava o mosquete. Struan ergueu-a e começou a carregá-la para o convés.

- Não - disse May-may, fracamente. - Chamei você por causa de Ah Gip.

- O que há com ela?

- Mandei que saísse, em segredo. Para escutar o que dizem os tripulantes. - May-may teve uma ânsia de vômito, mas se conteve. Quando o espasmo passara, disse - ela ouviu um homem falando com outro. Estavam falando sobre as barras de prata. Acho que todos sabem.

- Sim - disse Struan. - Tenho certeza de que sabem. - Ele deu pancadinhas no ombro de Ah Gip. - Seu pagamento grande vai chegar logo.

- Ayeeee yah - disse Ah Gip. - Para que pagamento, hein?

- Brock ainda está em nossos calcanhares? - perguntou May-may.

- Sim.

- Talvez um raio o parta.

- Sim, talvez. Ah Gip, faça comida que a senhora possa comer! Sopa. Entendido? Sopa.

Ah Gip fez um sinal afirmativo com a cabeça.

- Sopa não. Chá bom.

- Sopa!

- Chá.

- Ah, tudo bem - disse Struan, irritado, sabendo que seria chá, por mais vezes que ele dissesse sopa.

Carregou May-may para o convés e instalou-a no barrilete de pólvora. Wung, o timoneiro e os tripulantes não olharam para ela. Mas Struan sabia que estavam agudamente conscientes de sua presença e que ela fazia aumentar a tensão no convés. Então, lembrou-se do que ela falara a respeito de um raio, e isto deflagrou nele um plano. Sua preocupação o abandonou, e ele riu alto.

- Por que esse ha-ha, hein? - perguntou May-may, respirando fundo o ar marinho, com o estômago começando a se acalmar.

- Pensei numa boa maneira de liquidar o Sinhô de Um Olho Só - disse Struan. - Ei, Wung! Vem cá. - Struan deu a May-may uma de suas pistolas. - Homem chegar perto, matar, entendido?

- Entendido, sinhô.

Struan fez sinal a Wung para acompanhá-lo e seguiu adiante. Ao caminhar, descontraidamente, pelo convés, a tripulação chinesa se afastava, para lhe abrir caminho. Parou no castelo de proa, verificando pela última vez se a lorcha de Brock estava bem visível, e correu para baixo, com Wung logo atrás. Os alojamentos dos tripulantes consistiam numa única cabina ampla, abrangendo a largura da embarcação, com beliches alinhando-se de cada lado. Havia uma tosca lareira, feita de tijolos, sob uma portinhola gradeada e aberta. Uma chaleira pendia sobre os carvões, que brilhavam fracamente. Molhos de ervas e cogumelos secos, peixe seco e fresco e verduras frescas, além de um saco de arroz, estavam nas proximidades, junto a grandes e pequenos jarros de cerâmica.

Ele tirou as tampas dos jarros e cheirou seu conteúdo.

- Sinhô quer comida? Pode.

Struan abanou a cabeça. No primeiro jarro, havia soja. No segundo, gengibre em calda. Depois, raiz de ginseng em vinagre, e temperos. Havia óleos de cozinha, um jarro com óleo de amendoim e outro com óleo de milho. Struan despejou algumas gotas de ambos os jarros no fogo. O óleo de milho ardia mais do que o de amendoim.

- Wung, leve para cima - ele disse, apontando o jarro de óleo de milho.

- Pra que, hein?

Struan voltou correndo para o convés. A lorcha aproximava-se do ponto da forquilha onde teriam de virar para o canal norte ou o canal sul. Struan apontou para o sul.- Por que caminho longo, hein? - Wung perguntou, pondo o jarro no chão.

Struan olhou para ele e Wung recuou um pouquinho. O timoneiro já virará a cana do leme. Eles se encaminhavam para o lado sul da forquilha. A lorcha de Brock seguiu rapidamente na mesma amura. Havia ainda muitos barcos entre as duas lorchas e Struan estava salvo por algum tempo.

- Você fica - disse ele a Wung. - Ei, vaca cria. Você fica. Use pau de jogo do mesmo jeito.

- Entendido, sinhô - disse May-may. Ela se sentia muito melhor.

Struan entrou na cabina principal e reuniu todas as armas, levando-as em seguida de volta para a popa. Escolheu um mosquete, os dois arcos e flechas, e um chicote de ferro, e atirou o resto das armas por sobre a amurada.

- Pirata pode, não tem arma de fogo - Wung murmurou sombriamente.

Struan pegou o chicote de ferro e volteou-o sem rumo. Era um açoite feito de metal encadeado, uma arma mortal, se usada de perto - hastes de ferro de três pés de comprimento ligadas entre si e, na extremidade, uma bola de ferro com farpas. O cabo curto de ferro encaixava-se comodamente na mão, e uma correia protetora de couro passava por sobre o pulso.

- Pirata vem, vai ter muita morte - disse Struan, duramente. Wung apontou furiosamente para a lorcha de Brock.

- Ele a gente não pode pará, não é? - Apontou para a praia mais próximas. - Ali. Corremos praia... salvos!

- Ayeeee yah - Struan virou as costas, com desprezo. Ele sentou-se no convés, com a correia de couro do chicote de ferro amarrada ao pulso. A assustada tripulação observou, pasmada, quando Struan arrancou a manga de seu paletó acolchoado de cule e rasgou-a em tiras, cuidadosamente amarrando-as em torno da cabeça e uma flecha com ponta de ferro. Recuaram quando ele ajustou a flecha no arco, mirou ao longo do convés, em direção ao mastro, e disparou. A flecha não acertou no mastro, mas se encravou na porta de teca do castelo de proa. Arrancou a flecha com dificuldade.

Voltou e desatou a tira do tecido acolchoado e molhou-a no óleo. Em seguida, cuidadosamente pulverizou-a com pólvora, tornou a amarrá-la em torno à ponta da flecha e amarrou uma segunda tira por fora.

- Olá! - o vigia da popa gritou. A lorcha de Brock aproximava-se, perigosamente. Struan pegou o leme e pilotou a embarcação, por um momento. Deslizou arriscadamente por trás de um pesado junco e mudou de direção habilmente, de maneira que, ao navegar sem obstáculos, corria na amura oposta. A lorcha de Brock se virou depressa, para interceptá-lo, mas teve de se desviar, a fim de evitar um comboio de juncos que se dirigia para o norte. Struan entregou o leme a um dos tripulantes e terminou de preparar quatro flechas. Wung não conseguia mais se conter.

- Ei, sinhô o que pode?

- Vai pagar o fogo de clarear.

Murmurando xingamentos, Wung foi embora e voltou com uma lanterna.

- Fogo de clarear!

Struan fez uma pantomima, como se mergulhasse a flecha na chama da lanterna e disparasse a haste inflamada na vela grande da lorcha de Brock.

- Muito fogo, hein? Eles param, nós vamos, hein?

A boca de Wung se escancarou. Depois, ele estourou de rir. Quando conseguiu falar, explicou tudo à tripulação e eles olharam radiantes para Struan.

- Você muito... muito Tai-Pan. Ayeeee yah! - disse Wung.

- Muito fantástico você - disse May-may, rindo também. - Sinhô de Olho Só tá perdido!

- Olá - o vigia chamou.

A lorcha de Brock já fizera a manobra, desviando-se, e se aproximava. Struan tomou a cana do leme e começou a fazer mil curvas, através do tráfego, chegando cada vez mais perto do canal sul. A lorcha de Brock se aproximava, inexoravelmente, quase já se colocando a barlavento. Struan sabia que Brock estava esperando o tráfego diminuir, antes de dar sua fatal estocada. Struan estava um pouco mais confiante agora. Se a flecha atingir |sua vela, disse a si mesmo, e se não a atravessar, se permanecer acesa enquanto estiver no ar, se a vela principal estiver suficientemente seca para pegar fogo, se eles esperarem pelo menos quatro milhas, antes de fazerem a primeira aproximação final, e se meu pagode estiver bom, então posso acabar com eles.

- Maldito seja Brock! - disse.

O tráfego do rio diminuía bastante. Struan moveu o leme e encaminhou-se a barlavento a fim de chegar tão perto quanto possível do lado sul do rio, de modo que, ao se virar outra vez, o vento estivesse para a ré do través, e ele pudesse ser impelido diretamente. O lado sul do rio era cheio de baixios perigosos. Colocando-se numa amura tão a barlavento, Struan ficou em posição perigosamente aberta. A lorcha de Brock estava esperando para investir. Mas Struan queria que ele atacasse agora. Era tempo. Há muito, aprendera uma lei básica de sobrevivência: traga seu inimigo para o combate só em seus termos, jamais nos dele.

- Ei, May-may, vá para baixo.

- Quero espiá. Pode, não se preocupe.

Struan pegou o segundo mosquete e entregou-o a Ah Gip.

- Vão para baixo, agora! As mulheres obedeceram.

- Wung, pegue fogo de clarear, dois!

Wung trouxe uma segunda lanterna e Struan acendeu as duas. Aprontou as flechas, e os dois arcos. Agora estamos comprometidos, disse a si mesmo.

A lorcha de Brock estava a duzentas jardas de distância, a barlavento. Gradualmente, o tráfego do rio desapareceu. Os dois barcos estavam sós. Instantaneamente, a lorcha de Brock virou de quilha para a frente e se atirou sobre ele. A tripulação de Struan se espalhou e correu para o passadiço mais afastado. Eles se penduraram no cordame e se prepararam para pular no mar. Só Wung permaneceu com Struan na popa.

Struan via Gorth nitidamente agora, pilotando a lorcha, com seus tripulantes em posições de ação. Examinou o convés, à procura de Brock, mas não conseguiu vê-lo, e ficou imaginando em que maldade estaria empenhado. Quando as lorchas estavam a cinqüenta metros de distância, Struan virou o leme e moveu-se pesadamente diante do vento, virando a popa para Gorth. Gorth avançava rapidamente, permanecendo a barlavento, e Struan sabia que ele era esperto demais para fazer uma investida do seu lado abrigado do vento. Fez sinal a Wung para tomar o leme e manter o curso. Aprontou o arco e as flechas e mergulhou sob o passadiço. Via os mastros da lorcha avançando sobre ele rapidamente. Enfiou uma das cabeças de flechas na chama da lanterna. O tecido acolchoado, embebido de óleo, incendiou-se imediatamente e ele ficou em pé e fez pontaria. A lorcha estava a trinta jardas de distância. A flecha descreveu um arco inflamado, em meio a gritos de advertência, e atingiu em cheio a vela principal. Mas a força do impacto apagou a chama.

Gorth gritou para sua tripulação e ainda avançava, quando a segunda flecha atingiu sua lorcha. Esta bateu na vela principal e ficou presa ali, espalhando centelhas pelo convés. A pólvora que estava dentro do tecido acolchoado inflamou-se e explodiu. Involuntariamente, Gorth virou o leme e o navio se desviou, balançando com a violência da guinada.

Struan tinha uma terceira flecha pronta e, quando a lorcha passou, velozmente, ele a disparou e viu-a bater na grande vela principal. As chamas começaram a lamber o convés. Alegremente, virou o leme, afastando-se a barlavento, e viu Brock subir correndo de debaixo do convés, dar um empurrão em Gorth, agarrar o leme, virando o navio. Então, Brock deu um safanão ainda mais forte no leme, virando agora a embarcação para estibordo de Struan, a meia-nau, cortando-lhe a fuga.

Struan previra o movimento de Brock, mas sua lorcha não respondeu ao leme e ele sentiu que estava liquidado. Acendeu a última flecha e esperou, com seu peso pressionado de encontro ao leme, rezando para que a lorcha se virasse. Brock estava em pé à popa, gritando à tripulação, que tentava desesperadamente apagar o fogo. Uma massa de cordame em chamas caiu perto de Brock, mas ele não prestou a menor atenção, concentrando-se apenas no ponto a estibordo, a meia-nau, que ele escolhera para o impacto.

Struan fez pontaria cuidadosamente e, quando a lorcha estava a quinze jardas de distância, disparou. A flecha encravou-se no tabique junto à cabeça de Brock, mas a lorcha manteve seu curso. O barco de Struan começou a se virar, mas era tarde demais. Struan sentiu um forte impacto e ouviu o doloroso rangido de madeira se despedaçando, enquanto a farpa da lorcha de Brock cortava seu barco a bombordo. A embarcação de Struan balançou para um lado e quase virou, atirando Struan no convés.

Salpicado de centelhas do cordame e das velas em chamas, Struan se ergueu. Houve gritos dos chineses em pânico e roucos berros dos homens de Brock, enquanto ambas as tripulações lutavam para se livrar do terrível emaranhamento. No meio do barulho, Struan ouviu Brock gritar: “Peça perdão”, e os dois barcos se separaram, com a lorcha de Brock movimentando-se em frente, as velas em chamas. A embarcação de Struan se endireitou, inclinou-se às tontas para estibordo, voltou a se endireitar, mas perigosamente adernada a bombordo.

Struan agarrou o leme e virou-o com toda sua força. A lorcha obedeceu vagarosamente e, quando o vento lhe apanhou as velas, Struan seguiu em direção à praia, esperando freneticamente poder alcançá-la antes que a embarcação afundasse.

Via que as duas velas de Brock estavam em chamas. Sabia que teriam de ser atiradas às ondas, cortadas, e depois substituídas. De repente, notou que seu convés estava num ângulo de dez graus a bombordo - o lado oposto ao impacto. Caminhou com dificuldade pelo convés inclinado e olhou por sobre a amurada o grande talho que fora aberto. A parte inferior do corte estava apenas uma polegada sob a linha-d’água e Struan percebeu que o choque do impacto mudara a posição dos engradados com as barras, no porão. O peso das barras estava mantendo o barco nesse adernamento permanente.

Ele gritou a Wung que tomasse o leme e o mantivesse no mesmo curso.

Então pegou o chicote de ferro, saiu engatinhando e, fazendo girar a arma, foi levando para baixo vários tripulantes. A caminho do porão, viu May-may e Ah Gip, ilesas, mas abaladas, em meio aos destroços da cabina principal.

- Subam! Segurem arma!

O porão estava em pedaços. Os engradados encontravam-se espalhados e havia tijolos de prata por toda parte. Os caixotes intactos estavam empilhados do lado a bombordo. A água entrava aos jorros pelo corte. Os tripulantes deram a volta, assustados, mas ele os impeliu para mais adiante, dentro do porão, e os fez apagar os pequenos incêndios provocados pelos carvões espalhados.

Praguejando e fazendo gestos, ele lhes mostrou que queria os engradados deslocados daquele lugar e empilhados mais adiante, a bombordo. Com água até os tornozelos, os chineses estavam mortos de medo de se afogar, porém mais assustados ainda diante do chicote de ferro que girava no ar, e então fizeram o que Struan ordenava. A lorcha inclinou-se perigosamente, rangendo, e o corte saiu da água por questão de poucas polegadas. Struan pegou a vela de reserva e começou a enfiar a lona no lado cortado da embarcação, usando como cunhas alguns poucos tijolos de prata.

- Pelo sangue de Cristo! - bradou. - Depressa, depressa! Os tripulantes pularam para ajudar e logo o corte estava fechado e protegido da água. Struan fez sinal à tripulação para pegar a vela que sobrara e conduziu-os de volta ao convés.

May-may e Ah Gip estavam abaladas, mas não haviam sofrido nada. May-may ainda agarrava a pistola, Ah Gip o mosquete. Wung, paralisado de terror, mantinha o curso. Struan impeliu os homens para a frente e, com a ajuda deles, passou a lona da vela sob a proa do navio, debaixo do casco, e depois atou-a fortemente por sobre o talho. A sucção da água endureceu a vela sobre o corte, enquanto o barco balançava loucamente, quase virando.

Mais uma vez, ele forçou os homens a descerem e, depois de prender com mais força a lona que servia para calafetar, fez com que tornassem a ajeitar o resto dos engradados, a fim de manter uma inclinação menos perigosa a bombordo.

Voltou para o convés e examinou as amarras da vela principal. Quando se certificou de que estavam firmes, tesas, prendendo bem, começou a respirar livremente outra vez.

- Você está bem, May-may?

- O quê? - perguntou ela.

- Feriu-se?

- Sim.

Ela apontou o pulso. Estava cortado e sangrando. Ele o examinou cuidadosamente. Embora doesse, não parecia estar quebrado. Ele despejou rum sobre as feridas e depois o bebeu em grandes goles e olhou em direção à popa. A lorcha de Brock estava à deriva, com a vela principal e a dianteira ardendo furiosamente. Ele espiou a tripulação cortar os cordames e as velas caíram no mar. Arderam por um momento, na água. Depois, ficaram completamente negras. Alguns juncos e sampanas estavam nas proximidades, mas nenhum deu assistência à lorcha em chamas.

Struan olhou para a frente. O Canal dos Seis Rochedos - um curso de água pouco conhecido, estava a sotavento. Experimentou o leme cautelosamente e o barco arriou alguns pontos. O vento empurrou as velas e o navio adernou bastante, fazendo o corte submergir. Houve um grito de advertência da tripulação e Struan corrigiu o adernamento. É perigoso navegar assim, pensou. Não ouso levar a amura a estibordo. As ondas podem rasgar a cobertura e nós afundaremos como uma pedra. Se eu chegasse ao Canal dos Seis Rochedos, Brock jamais me encontraria, mas não posso fazer essa manobra de amura. Então, tenho de ficar no rio. Correr na frente do vento, tão diretamente quanto possível.

Verificou sua posição. O Pagode de Mármore ficava a oito ou nove milhas, rio abaixo.

Com a vela protetora em torno à quilha funcionando como uma âncora de tempestade, a lorcha andava apenas a dois ou três nós. Ter de manter o curso do vento, a fim de evitar a amura, reduziria mais sua velocidade. Com pagode, eu não vou ter de colocar a amura a estibordo. Baixarei as velas, vou deixar o barco à deriva, e levantarei as velas outra vez quando estiver em posição.

Deu o leme a Wung e desceu, verificando outra vez como ia a lona que servia como calafate. Vai agüentar por algum tempo - com pagode - pensou ele. Pegou algumas xícaras de chá e subiu para o convés.

A tripulação estava reunida de um lado, segurando-se sombriamente. Havia apenas seis homens.

- Ei! Seis bois só. Onde estão os outros dois? Wung apontou por sobre a amurada e riu.

- Plaft, caíram! - Depois fez um aceno a popa e deu de ombros. - Não tem importância.

- Pelo sangue de Cristo, por que não os salvou, hein?

- Pra que salvá, hein?

Struan sabia que era inútil tentar explicar. Segundo os chineses, era pagode o fato de que os homens tinham caído por sobre a amurada. Simplesmente pagode - o pagode deles - se afogarem, e também vontade dos deuses. Muito pouco aconselhável interferir na vontade dos deuses. Salvando um homem de morrer, fica-se responsável por ele pelo resto da vida deste homem. É certo. Porque, quando se interfere com a vontade dos deuses, deve-se estar preparado para assumir a responsabilidade deles.

Struan encheu uma taça de rum e deu-a a May-may. Ofereceu aos tripulantes, um de cada vez, uma dose dupla, sem esperar nenhum agradecimento, como de fato aconteceu. Estranho, disse a si mesmo, mas bem próprio dos chineses. Por que deveriam agradecer-me, por salvar suas vidas? Foi por pagode que não afundamos.

- Obrigado, meu Deus, por meu pagode, obrigado.

- Olá! - gritou um dos tripulantes, ansiosamente, olhando por sobre a amurada.

A lona da calafetação saía e flutuava. Struan foi correndo para baixo. Tirou do pulso o chicote de ferro e empurrou mais a vela ensopada na ferida do navio. Água com a altura de três pés enchia todo o fundo do casco. Empurrou um engradado mais para perto da lona e enfiou outros tijolos de prata nas fendas.

- Vai agüentar - disse ele, alto. - Sim, talvez.

Pegou o ferro de combate e foi para a cabina principal. Estava completamente destroçada. Olhou para o beliche, saudosamente, apanhou um colchão de palha e subiu o passadiço.

Ficou gelado, no alto da escada. Wung apontava uma pistola para ele. Um segundo chinês segurava o mosquete e Ah Gip estava inerte a seus pés. Um dos tripulantes agarrava May-may com um braço e mantinha uma mão sobre sua boca. Wung puxou o gatilho, enquanto Struan instintivamente erguia o colchão de palha e se arremessava para um lado do passadiço. Sentiu a bala arranhar-lhe o pescoço e mergulhou sobre o convés com o rosto mordido pela pólvora e o colchão de palha como patético escudo. O segundo chinês disparou à queima-roupa, mas o mosquete explodiu e lhe arrancou as mãos. Ele ficou olhando para os tocos dos braços, pasmado, e gritou.

Struan fazia girar o chicote de ferro, enquanto Wung e a tripulação atacavam. A bola farpada alcançou Wung em cheio do lado do rosto, arrancando-lhe metade da boca, e ele se afastou. Struan brandiu o chicote e outro homem caiu, e ainda outro pulou sobre suas costas, tentando sufocá-lo, a usar seu próprio rabicho como garrote, mas Struan atirou-o para um lado. O homem que segurava May-may deu um salto para a frente e Struan bateu com o cabo do chicote de ferro em sua cara e então, quando o homem gritou e caiu, Struan pisoteou-o.

Os dois homens que estavam ilesos fugiram para a proa. Arquejando, numa tentativa de recuperar o fôlego, Struan imediatamente correu atrás deles. Eles pularam no mar. Houve um grito na popa. Wung, grotesco, com o sangue jorrando da metade do rosto, tentava cegamente agarrar May-may. Ela escapou às suas mãos e saiu manquejando à procura de proteção.

Struan recuou e matou-o.

O homem sem mãos gritava horrivelmente. Struan matou-o rapidamente, de maneira indolor.

Fez-se silêncio no convés.

May-may olhou para uma mão arrancada, caída ao chão, e ficou violentamente enjoada. Struan chutou a mão por sobre a amurada. Quando recuperou sua força, atirou todos os corpos, com exceção de um, pela amurada. Examinou Ah Gip. Ela respirava pela boca, com sangue escorrendo pelo nariz.

- Acho que vai ficar boa - disse ele, e ficou espantado com a rouquidão da própria voz. Apalpou o rosto. A dor ia chegando em ondas violentas. Ele despencou ao lado de May-may. - O que aconteceu?

- Não sei - disse ela, que já não tinha lágrimas. - Num momento, eu estava com a pistola, no próximo havia uma mão em cima de minha boca, e eles dispararam em você. Por que não o mataram?

- Eu me sinto inteiro - disse ele. O lado esquerdo de seu rosto encontrava-se muito chamuscado. O cabelo estava crestado e faltava metade de uma sobrancelha. A dor no peito diminuía.

- Por que eles... Wung e eles... fizeram isso? Por quê? Ele era da confiança de Jin-qua - disse ela.

- Você própria falou que qualquer pessoa tentaria roubar o dinheiro. Sim. Qualquer uma. Não os culpo. Fui um louco em descer. Ele verificou se o curso continuava para a frente. Ainda seguiam, dificultosamente, na direção certa. May-may viu a marca no pescoço dele.

- Mais uma polegada, meia polegada - ela sussurrou. - Agradeça aos deuses pelo seu pagode. Eu vou fazer uma grande dádiva.

Struan estava sentindo o doce fedor de sangue e, agora que estava salvo, seu estômago se revirou e ele se agarrou à amurada e vomitou. Em seguida, pegou um balde de madeira e limpou o convés. Depois, limpou o chicote de ferro.

- Por que você deixou aquele homem? - perguntou May-may.

- Ele não está morto.

- Atire-o na água.

- Quando estiver morto. Ou quando acordar, se chegar a isso, ele pode pular. - Struan respirou profundamente e sua náusea passou. Com as pernas doendo de cansaço, aproximou-se de Ah Gip e levou-a para o alojamento central. - Você viu onde ela foi atingida.

- Não.

Struan abriu-lhe o casaco acolchoado e examinou-a cuidadosamente. Seu peito e as costas estavam sem nenhuma marca, mas havia um sinal de sangue na base do seu rabicho. Ele a embrulhou nas roupas outra vez e ajeitou-a o melhor que pôde. O rosto dela estava cinzento e sarapintado; sua respiração era difícil.

- Ela não está com bom aspecto.

- Vamos ter de viajar ainda por quanto tempo? - perguntou May-may.

- Mais duas ou três horas. - Pegou o leme. - Não sei. Talvez mais.

May-may deitou-se de costas e deixou o vento e o ar fresco lhe desanuviarem a cabeça.

Struan viu a garrafa quebrada de rum rolando nos embornais.

- Vá lá embaixo. Veja se há outra garrafa de rum, por favor. Acho que havia duas, não?

- Desculpe, Tai-Pan. Quase mato nós dois, por causa de minha estupidez.

- Que nada, garota. Foi o dinheiro. Vá dar uma olhada no porão.

Ela seguiu para baixo. Ficou por lá um longo tempo.Quando voltou, carregava um bule de chá e duas xícaras.

- Fiz chá - disse, orgulhosamente. - Fiz fogo e fiz chá. A garrafa de rum estava quebrada. Então, vamos tomar chá.

- Não sabia que você sequer era capaz de fazer chá, quanto mais acender fogo - disse ele, brincando com ela.

- Quando ficar velha e desdentada, eu vou ser ama. - Ela notou, distraidamente, que o último marinheiro chinês não estava mais no convés. Serviu o chá e lhe ofereceu uma xícara, sorrindo palidamente.

- Obrigado.

Ah Gip recuperou a consciência. Vomitou e depois tornou a desmaiar.

- Não gosto do aspecto dela, de maneira nenhuma.

- Ela é uma ótima escrava. Ele bebeu o chá, agradecido.

- Quanta água há no porão?

- O chão está cheio de água. - May-may bebia seu chá.

- Acho que seria bom... não sei como dizer... “comprar” o deus do mar para nosso lado.

- Fazer um pedido? Sim, pedido.

Ela fez um sinal afirmativo com a cabeça.

- Sim, seria bom fazer um pedido ao deus do mar.

- Como você faz isso?

- Tem barras de prata demais, lá embaixo. Uma barra seria muito bom.

- Seria muito mau. Grande desperdício de prata. Já falamos nisso milhares de vezes. Não há deuses, mas um Deus.

- É verdade. Mas, por favor. Por favor, Tai-Pan. Por favor.

- Os olhos dela lhe imploravam. - Precisamos de uma ajuda fantástica e total. Acho aconselhável pedir imediatamente ao deus do mar bênçãos particulares.

Struan desistira de tentar fazê-la compreender que havia apenas um Deus, Jesus era o Filho de Deus, o cristianismo era a única religião verdadeira. Há dois anos, ele tentara explicar-lhe o cristianismo.

- Quer que eu seja cristã? Então, sou cristã - disse ela, alegremente.

- Mas não é tão fácil assim, May-may. Você tem de acreditar.

- Claro. Acredito no que você quiser. Só há um Deus. O Deus bárbaro cristão. O novo Deus.

- Não é um Deus bárbaro e não é um novo Deus. É...

- Seu Senhor Jesus não era chinês, hein? Então, ele é um bárbaro. E o que adianta dizer-me que este Deus Jesus não é novo, quando ele nasceu há apenas dois mil anos, hein? É mesmo muito novo. Ayeee yah, nossos deuses têm cinco, dez mil anos de idade.

Struan ficara desnorteado, porque embora fosse cristão, freqüentasse a igreja, algumas vezes rezasse e conhecesse a Bíblia tão bem quanto a maioria dos homens, homens comuns, não tivera prática e nem habilidade para ensiná-la. Então, mandou Wolfgang Mauss explicar a ela o Evangelho em mandarim. Mas, depois de Mauss ensinar-lhe e batizá-la, Struan descobrira que ela ainda ia ao templo chinês.

- Mas por que ir lá? Isto significa que você se tornou pagã outra vez. Você se ajoelha diante de ídolos.

- Mas, para que serve a estátua de madeira do Senhor Jesus na Cruz, que está na igreja, se não for um ídolo? Ou a própria cruz? Tudo não é a mesma coisa que um ídolo?

- Não é a mesma coisa.

- O Buda é o único símbolo de Buda. Eu não adoro um ídolo. Sou chinesa. Os chineses não adoram ídolos, só a idéia da estátua. Nós, chineses, não somos estúpidos. Somos terrivelmente inteligentes a respeito dessas coisas de deuses. E como posso saber se o Senhor Jesus, que é bárbaro, gosta de chineses, hein?

- Quer fazer o favor de não dizer essas coisas? Isto é blasfêmia. Wolfgang explicou o Evangelho inteiro a você, nesses últimos meses. Claro que Jesus ama todos os povos do mesmo jeito.

- Então, por que os padres cristãos que usam saias compridas e não têm mulheres dizem que os outros padres cristãos, que se vestem como homens e geram muitos filhos, só são ouvidos pelos tolos, hein? Sinhô Mauss diz que antes havia muitas guerras e muitas mortes. Ayeee yah, os demônios de saias compridas queimam homens e mulheres em fogueiras. - Ela abanou a cabeça, com firmeza. - Melhor mudarmos agora mesmo, Tai-Pan. Vamos ser cristãos de saias compridas; depois, se perdermos, para eles, não vamos ser queimados. Seus cristãos bonzinhos não queimam gente, hein?

- Não se muda assim, por essa razão. Os católicos estão errados. Eles...

- Eu lhe digo, Tai-Pan. Acho que deveríamos ser cristãos de saias compridas. E, também acho, você cuida de seu novo Deus Jesus com muito cuidado e eu cuido do Deus Jesus o melhor que eu puder e, ao mesmo tempo, presto atenção aos nossos deuses chineses, próprios para nós, também com muito cuidado. - Ela balançou a cabeça com muita firmeza e depois sorriu, maravilhosamente. - Então o deus mais forte tomará conta de nós.

- Você não pode fazer uma coisa dessas. Só há um Deus. Um!

- Prove isso - dissera ela.

- Não posso.

- Está vendo? Como pode o homem mortal provar a existência de Deus, qualquer deus? Eu sou cristã, como você. Porém, felizmente, também chinesa, e nessas coisas de deus é melhor pensar um pouco como chinesa. É muito aconselhável manter uma mente muito aberta. Muito. É pagode para você que eu seja chinesa; assim, em nosso favor, eu também posso fazer pedidos aos deuses chineses. - Ela acrescentou, apressadamente. - Que, é claro, não existem. - Sorriu. - Não é ótimo?

- Não.

- Claro, se eu pudesse escolher... e não posso, porque só existe um Deus... eu preferiria um deus chinês. Não quer que seus devotos matem outros deuses, ou matem todas as pessoas que não se ajoelham diante deles. - E prosseguira, rapidamente. - O Deus bárbaro cristão, que é o único, o único Deus, me parece, a mim, uma pobre e simples mulher, muito sanguinário e difícil de se conviver mas, naturalmente, eu acredito n’Ele. É isso - ela concluíra, enfaticamente.

- Não tem nada de “é isso”.

- Acho que o céu de vocês é infernalmente estranho, Tai-Pan. Todo mundo voando feito pássaro, e todo mundo de barba. Vocês fazem amor no céu?

- Não entendo.

- Se não podem fazer amor, eu não vou para o céu de vocês. Ah, não, absolutamente. Deus verdadeiro, ou não. Deve ser um lugar muito ruim, assim. Preciso descobrir, antes de ir para lá. Sim, de verdade. E, outra coisa, Tai-Pan. Por que deveria o único Deus verdadeiro, portanto fantasticamente inteligente, permitir só uma única esposa, hein, o que é terrivelmente estúpido? E, se você é cristão, por que somos como marido e mulher, quando você já tem mulher? Adultério, hein? Muito ruim. Por que você desobedece a tantos dos Dez Mandamentos, hein, e ainda assim chama a si próprio, todo convencido de cristão?

- Bom, May-may, alguns de nós somos pecadores e fracos. Jesus Cristo perdoará alguns de nós. Ele prometeu nos perdoar, se nos arrependermos.

- Se fosse eu, não perdoava - disse ela, com muita firmeza. - Não perdoava, se fosse o Deus Supremo e Único. Não, de verdade. E, outra coisa, Tai-Pan. Como pode Deus ser Trindade e ter também filho número um que também é Deus e nasceu de uma mulher de verdade, sem ajuda de homem de verdade, e ela então se torna Mãe de Deus? Isto é que eu não compreendo. Mas, não me confunda, Tai-Pan, sou tão cristã como qualquer outra pessoa, por Deus. Hein?

Tiveram muitas conversas assim e, a cada vez, ele se encontrava preso numa discussão sem pé e nem cabeça, a não ser pelo fato de que sabia só existir um Deus, o verdadeiro Deus, mas sabia, também, que May-may jamais compreenderia. Esperara que talvez Ele se tornasse claro para ela, quando assim a desejasse.

- Por favor, Tai-Pan - disse May-may outra vez. - Um pouco de fingimento não vai fazer mal a ninguém. Eu já disse: uma oração para o Único Deus. Não se esqueça de que estamos, na China, e este é um rio chinês.

- Mas isso não vai fazer bem nenhum.

- Eu sei. Ah, sim, Tai-Pan, eu sei, é claro. Mas sou cristã há apenas dois anos, então você e seu Deus precisam ser pacientes comigo. Ele me perdoará - concluiu, triunfantemente.

- Está bem - disse Struan.

Ela desceu. Quando voltou, tinha lavado o rosto e as mãos, e seu cabelo estava entrançado. Em suas mãos havia um tijolo de prata embrulhado em papel. O papel estava coberto com caracteres chineses.

- Você escreveu os caracteres?

- Sim. Achei caneta e tinta. Escrevi uma oração para o deus das águas.

- O que diz?

- “Ó grande, Sábio e Poderoso Deus do Mar, em troca desta enorme dádiva, quase cem taéis de prata, por favor nos leve a salvo para um navio bárbaro chamado China Cloud, pertencente ao meu bárbaro, e depois para a ilha de Hong Kong, que os bárbaros roubaram de nós.”

- Não gostei muito dessa oração - disse ele. - Afinal de contas, garota, é minha prata, e não gosto de ser chamado de bárbaro.

- É uma oração cortês, e diz a verdade. É um deus do mar chinês. Para um chinês, você é bárbaro. É da maior importância dizer a verdade, nas orações. - Ela caminhou, cautelosamente, pelo lado adernado do navio e, com grande dificuldade segurou o pesado tijolo de prata coberto de papel com o braço esticado, dizendo a oração que escrevera. Depois, com os olhos ainda fechados, desembrulhou o tijolo de prata, deixou o papel cair na água e enfiou o tijolo depressa nas dobras de seu casaco. Abriu os olhos e espiou o papel sendo sugado pelo rio, na esteira do barco.

Voltou alegremente, com a prata salva em seus braços.

- É isso. Agora, podemos descansar.

- Isso é uma trapaça, por Deus - disse Struan, explodindo.

- O quê?

- Você não jogou a prata na água.

- Psiuuu! Não fale tão alto! Você estraga tudo! - Depois sussurrou. - Claro que não. Acha que sou louca?

- Pensei que você queria fazer uma oferta.

- Eu fiz - ela sussurrou, perplexa. - Você não achou que eu ia realmente jogar toda essa prata no rio, achou? Pelo sangue de Cristo, sou alguma idiota? Sou maluca?

- Então por que fazer toda essa...

- Psssiuuu! - disse May-may, com premência. - Não fale tão alto! O deus do mar pode ouvir o que você está dizendo.

- Por que fingir atirar a prata ao mar? Isto não é uma oferenda.

- Juro por Deus, Tai-Pan, não entendo você de jeito nenhum. Para que os deuses precisam de verdadeira prata, hein? Para que usariam verdadeira prata? Para comprar roupas de verdade e comida de verdade? Os deuses são os deuses, e os chineses são os chineses. Fiz a oferenda e salvei sua prata. Juro por Deus, os bárbaros são pessoas estranhas.

E ela desceu, murmurando para si própria em dialeto de Soochow:

- Como se eu fosse destruir tanta prata! Será que sou uma imperatriz, para poder jogar prata fora? Ayeeee yah - disse ela, atravessando o corredor e chegando ao porão. - Até a imperatriz do demônio não seria tão louca! - Ela colocou a prata no fundo do casco, onde a havia encontrado, e voltou para o convés.

Struan ouviu-a voltar, ainda murmurando irritadamente em chinês.

- O que você está dizendo? - perguntou ele.

- Sou tão louca a ponto de gastar tanto dinheiro, ganho de maneira tão difícil? Sou uma bárbara? Sou uma gastadora...

- Muito bem. Mas ainda não entendo por que você achou que o deus do mar iria responder às suas preces, quando foi tão obviamente logrado. Essa história inteira é fantasticamente estúpida.

- Quer fazer o favor de não dizer essas coisas tão alto - disse ela. - Ele recebeu a oferenda. Agora, vai nos proteger. Não é prata verdadeira que o deus deseja, mas apenas a idéia. Foi o que ele recebeu. - Ela abanou a cabeça. - Os deuses são como as pessoas. Eles acreditam em tudo, se você disser da maneira certa. - Depois, acrescentou - Talvez o deus tenha saído, e ele não vai nos ajudar, de qualquer maneira, e então nós naufragaremos, não tem importância.

- Outra coisa - disse Struan, severamente. - Por que precisamos sussurrar, hein? É um deus do mar chinês. Como ele pode, ora essa, entender inglês, hein?

Isso deixou May-may confusa. Ela franziu a testa, pensando muito. Depois, encolheu os ombros.

- Um deus é um deus. Talvez fale a língua dos bárbaros. Quer mais chá?

- Obrigado.

Ela despejou o chá na xícara dele e na sua. Depois, juntou as mãos, entrelaçando os dedos em torno dos joelhos, instalada sobre uma escotilha, cantarolando uma cançãozinha.

A lorcha chafurdava na corrente do rio. Amanhecia.

- Você é uma mulher e tanto, May-may - disse Struan.

- Eu também gosto de você. - Ela se aninhou contra ele. - Quantos homens são como você, em seu país?

- Cerca de vinte milhões de homens, mulheres e crianças.

- Existem, segundo dizem, trezentos milhões de chineses.

- Isto significaria que uma entre quatro pessoas na terra é chinesa.

- Eu fico preocupada com meu povo, se todos os bárbaros são como você. Você mata tanta gente, com tanta facilidade.

- Eu os matei porque eles estavam tentando matar-me. E não somos bárbaros.

- Estou satisfeita de ter visto você matando - disse ela, misteriosamente, com os olhos luminosos, a cabeça emoldurada pela luz crescente do amanhecer. - E estou muito satisfeita de você não ter sido morto.

- Um dia, eu serei morto.

- Claro. Mas estou satisfeita de ter visto você matando. Nosso filho Duncan vai ser digno de você.

- Quando ele tiver crescido, já não será preciso matar.

- Quando os filhos dos filhos dele estiverem crescidos, ainda haverá matança. O homem é um animal matador. A maioria dos homens. Nós chineses sabemos. Mas os bárbaros são piores do que nós. Piores.

- Você pensa assim porque é chinesa. Vocês têm muito mais costumes bárbaros do que nós. Os povos mudam, May-may.

Então ela disse, simplesmente:

- Aprenda conosco, com as lições da China, Dirk Struan. Os povos nunca mudam.

- Aprenda conosco, com as lições da Inglaterra, garota. O mundo pode transformar-se num lugar ordeiro, onde todos serão iguais perante a lei. E a lei é justa. Honesta. Sem desvios.

- Será que isso é tão importante assim, quando se está morrendo de fome?

Ele ficou pensando a respeito disso, por um longo tempo.

A lorcha se arrastava pelo rio abaixo. Outras embarcações passavam, subindo ou descendo o rio, e as tripulações olhavam para a lorcha com curiosidade, mas nada diziam. Adiante, o rio dava uma volta e Struan diminuiu a velocidade da lorcha, ao entrar no canal. O remendo de lona parecia estar resistindo.

- Acho que sim - respondeu ele, afinal. - Sim. Acho que é muito importante. Ah, sim, eu queria perguntar a você uma coisa. Você disse que foi visitar a Suprema Senhora de Jin-qua. Onde você a conheceu?

- Fui escrava em casa dela - disse May-may, calmamente. - Logo antes de Jin-qua me vender a você. - Ela o olhou nos olhos. - Você me comprou, não foi?

- Adquiri você, segundo seu costume, sim. Mas você não é nenhuma escrava. Você pode ir embora ou ficar, livremente. Eu lhe disse isso no primeiro dia.

- Eu não acreditei em você. Acredito agora, Tai-Pan. - Ela olhou para a praia e para os barcos que passavam. - Eu nunca tinha visto mortes antes. Não gosto de matança. Será porque sou uma mulher?

- Sim. E não. Eu não sei.

- Você gosta de matança?

- Não.

- É uma pena que sua flecha não tenha acertado em Brock.

- Eu não fiz pontaria nele. Não estava tentando matá-lo, apenas queria que se desviasse.

Ela estava cheia de pasmo.

- Juro por Deus, Tai-Pan, você é realmente incrível.

- Juro por Deus, May-may - disse ele, com os olhos se enrugando, enquanto sorria - que você é realmente incrível.

Ela ficou deitada de lado, espiando-o, acariciando-o. Depois, dormiu.

Quando ela acordou, o sol estava alto. As terras à margem do rio eram baixas e se estendiam até horizontes cheios de neblina. Uma terra abundante, coberta por inúmeros arrozais, verdes e cheios do arroz de inverno pendente. Montanhas coroadas por nuvens, muito distantes.

O Pagode de Mármore estava bem à frente. Logo abaixo encontrava-se o China Cloud.

 

Quatro dias depois, o China Cloud estava secretamente ancorado na Baía Deepwater, na extremidade sul da Ilha de Hong Kong. Era uma manhã fria, com um céu coberto de nuvens e mar acinzentado.

Struan estava em pé junto às janelas em forma de diamante da cabina principal, olhando para a ilha. As montanhas áridas desciam abruptamente até o mar, em torno da baía, com os cumes envoltos em nuvens. Havia uma pequena praia de areia no vértice da baía e depois a terra se erguia rapidamente mais uma vez, até as nuvens, agreste e solitária. Gaivotas grasnavam. As ondas lambiam suavemente o casco do navio e a sineta de bordo soou seis vezes.

- Sim? - disse Struan, em resposta a uma batida na porta.

- O cúter voltou - disse o Capitão Orlov, cansadamente. Era um corcunda musculoso e cabeça grande. Um chicote de ferro estava amarrado ao seu pulso, pela correia de couro. Desde que as barras de prata haviam chegado a bordo, ele usava o chicote de ferro dia e noite, e até dormia com ele.

- Pelas barbas de Odin, nossa carga é pior do que a peste negra.

- Mais problemas?

- Problemas, diz? Jamais num navio meu, pela cabeça da mãe de Jesus Cristo! - O homenzinho deformado riu com alegria malévola. Pelo menos, não enquanto eu estiver acordado, hein, Olhos Verdes?

Struan encontrava Orlov vagueando pelas docas de Glasgow, há muitos anos. Era um norueguês que sofrerá um naufrágio nas perigosas Orkneys, e não conseguia encontrar um novo navio. Embora os marinheiros não fizessem distinção entre nacionalidades, nenhum proprietário confiaria um navio a um homem tão estranho, que não chamava ninguém de “sir” e nem de “mister” e servia só como capitão - nenhum escalão inferior a este.

- Sou o melhor do mundo - Orlov gritava, com seu rosto sarapintado, de nariz comprido, tremendo de fúria. - Já cumpri meu período de marinheiro... não volto mais! Faça um teste comigo e vou provar isso, pelo sangue de Thor!

Struan testara os conhecimentos de Orlov quanto ao mar e ao vento, e testara sua força e sua coragem, nada encontrando que deixasse a desejar. Orlov falava inglês, francês, russo, finlandês e norueguês. Sua mente era brilhante e sua memória espantosa. E, embora parecesse um diabrete e fosse capaz de matar como um tubarão, se necessário, era justo e completamente digno de confiança. Struan dera-lhe um navio pequeno, e depois um maior. Em seguida, um clíper. Ano passado, fizera-o capitão do China Cloud e sabia que Orlov correspondia a tudo que esperava.

Struan despejou mais chá, quente e doce, e temperou com rum.

- Logo que o Sr. Robb e Culum chegarem a bordo, parta para o porto de Hong Kong.

- Quanto antes melhor, hein?

- Onde está Wolfgang?

- Em sua cabina. Quer falar com ele?

- Não. E providencie para não sermos perturbados. Orlov ajeitou, irritado, suas roupas úmidas do mar, ao sair.

- Quanto antes nos livrarmos dessa carga empesteada, melhor. É a mais terrível que já transportei.

Struan não respondeu. Embora exausto, seu cérebro se mantinha alerta. Quase em casa, disse a si próprio. Mais algumas horas e você estará a salvo no porto. Graças a Deus existe a Marinha Real. Junto de uma das fragatas, você pode descansar.

A cabina central era luxuosa e ampla. Mas agora se encontrava repleta de mosquetes, facas, chicotes de ferro, espadas e punhais. Ele desarmara toda sua tripulação, antes de levar as barras de prata para bordo. Agora, só ele e o Capitão Orlov portavam armas. Struan podia sentir a violenta tensão que invadia o navio. As barras de prata haviam contagiado a todos. Sim, pensou, não deixarão nenhum homem intocado. Nem mesmo Robb. Nem mesmo Culum. Talvez nem mesmo Orlov.

 

Após a partida do Pagode de Mármore, Ah Gip entrara em coma e morrera. Struan desejara enterrá-la no mar, mas May-may pedira-lhe que não.

- Ah Gip era uma escrava fiel - dissera ela. - Seria mau pagode não devolvê-la a seus pais, e nem enterrá-la como chinesa, ah, seria uma coisa terrível, Tai-Pan.

Então, Struan mudara de curso e seguira para Macau. Ali, com a ajuda de Mauss, comprara para Ah Gip um belo esquife e o entregara a seus pais. Também lhes dera dez taéis de prata para seu funeral. Os pais eram gente Hoklo, moradores em barcos, e lhe agradeceram. Insistiram também para que levasse a irmã mais moça de Ah Gip, Ah Sam, no lugar dela. Ah Sam tinha quinze anos, uma mocinha alegre, de rosto redondo, que também falava pidgin e, o que não era costumeiro para uma Hoklo, tinha os pés atados. May-may conhecera Ah Sam e a aprovara, e então Struan concordara. Os pais pediram três mil taéis de prata por Ah Sam. Struan lhes teria dado o dinheiro, mas May-may dissera que ele e ela perderiam grande prestígio se pagassem o primeiro preço pedido. Então, barganhou com os pais e diminuiu o preço para cento e dezesseis taéis.

Struan enfrentara a formalidade da compra da moça, porque era o costume. Mas depois, quando a venda estava concluída e ele, segundo a lei chinesa, possuía uma escrava, rasgou o documento diante de Ah Sam e lhe disse que ela não era uma escrava, mas uma criada. Ah Sam não entendera. Struan sabia que, mais tarde, ela perguntaria a May-may por que ele rasgara o papel e May-may diria que era uma das esquisitices dos bárbaros. Ah Sam concordaria com ela, e o medo que sentia dele iria aumentar.

Enquanto o China Cloud estava em Macau, Struan confinou sua tripulação a bordo - com exceção de Wolfgang Mauss. Ele temia que a notícia da existência das barras já se houvesse espalhado e, embora habitualmente confiasse em sua tripulação, não confiava quando havia tanto dinheiro pronto para ser apanhado. Esperava ser alvo de pirataria, tanto interna como externa. Em Macau, houve quase um motim e, pela primeira vez, ele e seus oficiais tiveram de usar o chicote indiscriminadamente, colocar guardas no tombadilho e ancorar num ponto afastado do porto raso. Todas as sampanas foram proibidas de chegar à distância de cem metros do China Cloud.

Ele enviara seu primeiro imediato, Cudahy, a Hong Kong na frente, para levar Robb e Culum ao local de encontro secreto, em Deepwater Bay, com instruções estritas para nada dizer a respeito das barras de prata. Sabia que isto aumentava o perigo, mas tinha de correr o risco. Com as barras de prata a salvo no China Cloud, teria tempo para pensar a respeito de Jin-qua e da Casa Nobre, de Robb e de Culum, e do que faria no futuro. Sabia que agora era o momento de determinar os moldes futuros da companhia. Com ou sem Robb e Culum. Custasse o que custasse.

Deixara May-may em Macau, na casa que lhe havia dado. Antes de embarcar, ele e May-may foram à casa de Chen Sheng.

Duncan, seu filho de três anos, começara a se prosternar, encostando a cabeça no chão, mas ele o erguera e lhe dissera que não devia jamais fazer aquilo outra vez, diante de homem nenhum. Duncan dissera: “Sim, Tai-Pan”, e o abraçara, bem como a May-may.

Kate, o bebê, fora tão acariciado quanto Duncan, e Chen Sheng se agitava como uma galinha velha. Foram trazidos alimento e chá e, depois, Chen Sheng pedira a Struan permissão para apresentar Kai-sung, que queria prosternar-se diante do Tai-Pan.

Kai-sung tinha agora trinta e seis anos. Estava lindamente trajada, com vestes em dourado e vermelho, tendo alfinetes de jade e prata no cabelo esticado. Era quase como se aqueles dezessete anos não houvessem passado. Seu rosto era como alabastro e os olhos tão penetrantes quanto em sua juventude.

Mas havia lágrimas escorrendo pelo seu rosto, e ela sussurrou algo em cantonês, que May-may traduziu, alegremente.

- A Irmã Mais Velha está triste porque sua Tai-tai morreu, Tai-Pan. A Irmã Mais Velha diz que sempre, quando quiser que as crianças venham para cá, serão como se fossem dela. E lhe agradece por ter sido generoso para com ela e seu filho.

- Diga-lhe que está muito bonita e lhe agradeça.

May-may fez isso e, depois, chorou um pouco com Kai-sung, mas em seguida ficaram felizes. Kai-sung ajoelhou-se novamente e partiu.

Chen Sheng afastara Struan para um lado.

- Ouvi dizer que talvez você tenha tido bom pagode, Tai-Pan. - Seu rosto grande abria-se num sorriso total.

- Talvez.

- Compro homens construir Hong Kong muito balato, se tem bom pagode! - Chen Sheng segurou seu grande estômago e estourou de rir. - Ei, Tai-Pan! Tenho escrava virgem. Quer? Compro para você, hein? Balato, balato.

- Ayeeee yah, que virgem! Já tenho problemas demais!

Struan e May-may pegaram seus filhos e voltaram para casa.

O dinheiro que May-may perdera para ele era superior ao valor da casa. Ela, formalmente, entregou-lhe a escritura, com grande cerimônia e, simultaneamente, ofereceu-lhe um baralho.

- O dobro ou nada, Tai-Pan, no que se refere a dívidas. Ele tirou um valete e ela gemeu e arrancou o cabelo.

- Que horror, que horror! Sou uma louca, uma idiota! Para que fui abrir a droga da minha boca?

Em profunda agonia, ela fechou os olhos, pegou uma carta, encolheu-se e abriu os olhos pela metade. Era uma rainha e ela gritou de felicidade e se atirou nos braços dele. Ele combinou com May-may que voltaria depressa de Hong Kong ou enviaria o China Cloud para buscá-la, e depois navegou para a Baía Deepwater.

 

A porta da cabina se abriu.

- Olá, papai - disse Culum.

- Olá, Dirk - disse Robb.

- Bem-vindos a bordo. Fizeram boa viagem?

- Bastante boa. - Robb deixou-se cair numa cadeira. Havia círculos escuros sob seus olhos.

- Você parece exausto, Robb.

- Estou. Tentei tudo, tudo. - Afrouxou seu pesado e quente sobretudo. - Ninguém quer dar-nos crédito. Estamos perdidos. Que boas notícias poderia você trazer, Dirk? - Apalpou o bolso de seu jaquetão e tirou de lá uma carta. - Temo também não trazer boas notícias. Isto chegou para você no pacote de correspondência de ontem. É de papai.

Toda a excitação e a felicidade de Struan com o que ele conseguira desapareceu. Winifred, pensou ele, deve ser a respeito dela. Pegou a carta. O selo estava intacto. Reconheceu a elaborada caligrafia de seu pai.

- Quais são as notícias de casa? - perguntou ele, tentando manter a voz sem alteração.

- Isso foi tudo que chegou, Dirk. Nada recebi. Sinto muito. Como está você? O que aconteceu com seu rosto? Você o queimou? Sinto muito ter ajudado tão pouco.

Struan pôs a carta sobre a escrivaninha.

- Você comprou a terra?

- Não. A venda de terras foi adiada. - Robb tentou manter os olhos afastados da carta.

- Será amanhã, papai. Não houve tempo suficiente para examinar os lotes. Então, foi adiada. - Culum cambaleou, enquanto o navio adernava a uma pressão das velas. Ele se segurou na escrivaninha. - Posso abrir a carta para você?

- Não, obrigado. Você viu Brock?

- O White Witch voltou de Whampoa há dois dias - disse Robb. - Mas eu ainda não o vi. Estamos realmente em guerra outra vez?

- Sim - disse Struan. - A frota ainda está em Hong Kong?

- Sim. Mas quando Eliksen chegou com a notícia, os navios fizeram manobras de guerra. Patrulhas foram enviadas para proteger as entradas a leste e oeste. Será que atacarão Hong Kong?

- Não seja ridículo, Robbie. Robb ficou espiando a esteira do navio. Dirk parece diferente, pensou. Depois, notou a barafunda da cabina.

- Por que há tantas armas aqui, Dirk? O que está errado?

- O que Longstaff andou fazendo, Culum? - perguntou Struan.

- Não sei - disse Culum. - Eu o vi só uma vez, e foi para conseguir sua aprovação para o adiamento.

- Também não o vi, Dirk. Depois da matéria a nosso respeito no jornal tive grande dificuldade para ver uma porção de pessoas. Especialmente Longstaff.

- Ah, é? O que aconteceu?

- Eu o encontrei no dia seguinte. Ele disse: “Puxa vida, é verdade?” E, quando eu lhe respondi “Sim”, tomou uma pitada de rape e disse “Que pena. Bom, estou muito ocupado, Robb. Bom-dia”, e tomou outro cálice de Porto.

- O que você esperava?

- Não sei, Dirk. Suponho que esperava simpatia. Ou alguma ajuda.

- Longstaff não demitiu Culum. Isto está a seu favor.

- Ele me quis de volta só porque não havia nenhuma outra pessoa disponível, no momento, para fazer isto - disse Culum. Começara a engordar, nas duas últimas semanas, e estava perdendo a palidez provocada pela peste. - Acho que ele gosta do fato de estarmos falidos. - Quero dizer - acrescentou Culum, depressa - não que eu tenha alguma importância. Refiro-me ao fato de a Casa Nobre estar falida.

- Se não existirmos nós, existirá uma outra companhia, Culum.

- Sim, eu sei, papai. Queria dizer que... bom, eu acho que você foi muito especial para Longstaff. Ele se ajoelhava diante de seu conhecimento por causa de sua riqueza. Mas, sem riqueza, você não tem nenhum cultivo. Sem cultivo, não pode ser igual. Sem igualdade, você não pode ter conhecimento. Nenhum. Acho isso bastante triste.

- Onde você aprendeu essa de se “ajoelhar”?

- Espere até ver Hong Kong.

- O que isso significa, rapaz?

- Estaremos lá dentro de poucas horas. Você poderá verificar por si mesmo. -- Depois, a voz de Culum se endureceu. - Por favor, abra a carta, papai.

- A notícia pode esperar. Winifred estava combalida, quando você partiu. Espera um milagre?

- Espero, sim. Rezei, sim para que acontecesse.

- Vamos para baixo - disse Struan.

As pilhas bem-arrumadas de tijolos de prata reluziam fantasmagoricamente, sob a lanterna vacilante do porão. O ar estava abafado e penetrado pelo cheiro enjoativamente doce de ópio cru. Baratas pululavam.

- É impossível - sussurrou Robb, tocando as barras de prata.

- Não sabia que existia tanta prata assim num só lugar da terra - disse Culum, também estarrecido.

- Está aqui, bem aqui - disse Struan.

Para se convencer, Robb pegou um dos tijolos, com a mão trêmula.

- É inacreditável.

Struan contou-lhe como obtivera as barras de prata. Contou tudo que Jin-qua dissera, exceto a respeito da barganha das quatro moedas, dos cinco laques a serem postos na terra de Hong Kong e os cinco laques a serem mantidos seguros e um laque para Gordon Chen. Descreveu a batalha naval com Brock. Mas não fez nenhuma menção a May-may.

- Aquele maldito pirata! - bradou Culum. - Longstaff vai mandar enforcar Brock e Gorth, quando ouvir falar disso.

- Por quê? - perguntou Struan. - Brock não fez mais do que eu fiz. Simplesmente, colidiu comigo.

- Mas isso é uma mentira. Você pode provar que ele...

- Não posso provar, e nada provarei. Brock tentou e falhou, foi tudo. É problema nosso, de mais ninguém.

- Não gosto disso - disse Culum. - Não é uma maneira legal de encarar um ato de deliberada pirataria.

- Haverá um ajuste de contas. Quando eu achar que chegou a hora.

- Por Deus, estamos salvos - disse Robb, com voz fraca. - Agora, todos os planos internacionais referentes a dinheiro serão executados. Seremos a mais rica companhia do Oriente. Deus o abençoe, Dirk. Você é incrível.

Agora, o futuro está garantido, exultou Robb, interiormente. Agora, haverá o suficiente até para os gastos extravagantes de Sarah. Agora, eu posso ir para casa imediatamente. Talvez Dirk mude de idéia e nunca parta, nunca vá para nosso país, esqueça o Parlamento. Não haverá mais preocupações. Posso comprar um castelo e viver como um proprietário de terras, em paz. As crianças se casarão e viverão bem e haverá o suficiente para os filhos de seus filhos. Roddy pode terminar a universidade, ingressar no setor bancário e jamais se preocupará com o Oriente.

- Deus o abençoe, Dirk! Culum também ficou extasiado. Sua mente gritava. Isto não é prata, é poder. Poder para comprar armas ou para comprar votos, a fim de dominar o Parlamento. Aqui está a resposta para a Carta e para os cartistas. Como Tai-Pan, posso usar o poder de toda essa riqueza - e mais - com finalidades positivas. Agradeço-lhe, ó Senhor, ele rezava ardorosamente, por nos ajudar em nosso momento de necessidade.

Culum via o pai de maneira muito diferente, agora. Nas últimas semanas, pensara muito a respeito do que seu pai dissera a respeito da riqueza, do poder, e de seus usos. Ficando próximo de Glessing e à beira do poder de Longstaff, e sentindo os sorrisos escondidos e o divertimento evidente com a morte da Casa Nobre, ele percebera que um homem sozinho, sem nascimento nobre e nem poder, estava indefeso.

Struan podia sentir a avareza de Robb e de Culum. Sim, ele disse a si próprio. Mas sejam honestos. Isto é o que a prata causaria a qualquer pessoa. Examine a si próprio. Você matou oito, dez homens para protegê-la. Sim, e mataria mais cem. Veja lá o que ela está forçando você a fazer com seu filho e seu irmão.

- Existe uma coisa que quero deixar bem clara a vocês dois - disse ele. - Esta prata foi emprestada a mim. Dei a minha palavra, como garantia. Sou responsável por ela perante Jin-qua. Eu sou. Não a Casa Nobre.

- Não compreendo, Dirk - disse Robb.

- O que disse, papai? Struan pegou uma Bíblia.

- Primeiro, jurem sobre o Livro Sagrado que minhas palavras serão um segredo entre nós três.

- Será necessário jurar? - perguntou Robb. - Claro que eu jamais contarei a ninguém.

- Você vai jurar, Robb?

- Claro.

Ele e Culum juraram segredo. Struan colocou a Bíblia sobre a prata.

- Estas barras serão usadas para salvar a Casa Nobre apenas com a condição de que, quando algum de vocês se tornar Tai-Pan, se isto acontecer, concordará, em primeiro lugar, em comprometer a companhia totalmente no apoio ao comércio com Hong Kong e com a China; em segundo lugar, o quartel-general da companhia será permanentemente em Hong Kong; em terceiro, deverão assumir minha responsabilidade e minha palavra para com Jin-qua e seus sucessores; em quarto, garantirão que o sucessor que escolherem para Tai-Pan fará o mesmo; finalmente - Struan apontou a Bíblia - concordarão que só um cristão, um parente, poderá algum dia ser Tai-Pan. Jurem sobre o Livro Sagrado, e concordem em fazer seu sucessor jurar sobre o Livro Sagrado, com relação às mesmas condições, antes de lhe passarem o controle.

Houve um silêncio. Depois Robb disse, sabendo como funcionava a mente de seu irmão.

- Podemos saber todas as condições que Jin-qua impôs?

- Não.

- Quais são as outras?

- Direi, depois que jurarem. Podem confiar em mim ou não, como preferirem.

- Isso não é lá muito correto.

- A prata não é lá muito correta, Robb. Preciso ter certeza. Não se trata de nenhuma brincadeira para crianças. E não estou pensando em nenhum de vocês dois como parente, neste momento. Lidamos agora com centenas de anos. Com duzentos anos. - Os olhos de Struan estavam de um verde luminoso, à meia-luz da lanterna balouçante. - Estou comprometendo a Casa Nobre com uma medida de tempo chinesa. E isto será feito com ou sem algum de vocês dois.

A atmosfera tornou-se perceptivamente mais carregada. Robb sentiu que seus ombros e o pescoço estavam úmidos. Culum olhou para o pai, espantado.

Robb disse:

- O que significa para você “comprometer a companhia totalmente no apoio a Hong Kong”?

- Defendê-la, protegê-la, torná-la uma base permanente para o comércio. E o comércio significa abrir a China. Toda a China. Trazer a China para a família das nações.

- Isso é impossível - disse Robb. - Impossível!

- Sim, talvez. Mas é o que a Casa Nobre vai tentar fazer.

- Você quer dizer, ajudar a China a se tornar uma potência mundial? - perguntou Culum.

- Sim.

- Isso é perigoso! - replicou Robb. - É loucura! Já existem problemas suficientes na terra sem se ajudar a essa massa paga da humanidade! Eles vão nos engolir. Todos nós. A Europa inteira!

- Uma entre quatro pessoas na terra é chinesa, Robb. Temos a maior chance de ajudá-los, agora. A aprender nosso estilo de vida. O estilo de vida inglês. Lei, ordem, justiça. Cristianismo. Eles vão sair aos bandos um dia, por conta própria. Acho que precisamos mostrar-lhes nossa maneira de ser.

- É impossível. Você jamais conseguirá modificá-los, é inútil.

- São essas as condições. Dentro de cinco meses, você será Tai-Pan. Culum irá substituí-lo no devido tempo... se for digno disso.

- Deus do céu! - Robb explodiu. - Foi para isso que você lutou, todos esses anos?

- Sim.

- Eu sempre soube que você tinha sonhos, Dirk. Mas esse ... é demais. Não sei se é monstruoso, ou maravilhoso. Está além de mim.

- Talvez - disse Struan, com voz severa. - Mas é uma condição para sua sobrevivência, Robbie, e de sua família, e o futuro deles. Você será Tai-Pan dentro de cinco meses. Durante um ano, pelo menos.

- Eu já lhe disse antes, acho que essa é outra decisão pouco aconselhável - explodiu Robb, com o rosto contorcido. - Eu não tenho o conhecimento e nem a astúcia para lidar com Longstaff, ou manter a Casa Nobre na dianteira de toda essa intriga, de guerra. E nem para tratar com os chineses.

- Eu sei. E sei o risco que estou assumindo. Mas Hong Kong é nossa, agora. A guerra vai terminar tão depressa quanto a última. - Struan fez um aceno de mão em direção às barras de prata. - Tudo isso é uma defesa que não pode ser dissipada facilmente. De agora em diante, é uma questão de comércio. E você é um bom comerciante.

- Não é apenas comércio. Há navios para navegarem, piratas a serem combatidos, Brock para ser enfrentado e milhares de outras coisas.

- Cinco meses vão limpar as importantes. O resto é problema seu.

- Será?

- Sim. Porque, de toda essa prata, você terá mais de três milhões. Quando eu sair, pegarei um. E vinte por cento do lucro para o resto de minha vida. Você fará o mesmo. - Olhou para Culum. - No fim de seu período, estaremos merecendo dez milhões, porque vou proteger você e a Casa Nobre, no Parlamento, e torná-la mais rica do que você jamais sonhou. Não vamos mais precisar depender de Sir Charles Crosse, Donald MacDonald, McFee, Smythe, Ross, ou de todos os outros que apoiamos, para os nossos lances... eu vou fazer isso pessoalmente. E ficarei indo e vindo para Hong Kong, de maneira que vocês dois não vão precisar se preocupar.

- Quero apenas o dinheiro suficiente para sonhar tranqüilamente e acordar em paz - disse Robb. - Na Escócia. Não no Oriente. Não quero morrer aqui. Vou embora no navio seguinte.

- Um ano e cinco meses não é tanto tempo assim para se pedir.

- É uma exigência, não um pedido, Dirk.

- Não estou obrigando você a nada. Há um mês, Robb, você estava disposto a aceitar cinqüenta mil e partir. Muito bem. Essa oferta ainda está de pé. Se você desejar o que é seu de direito, mais de um milhão, você conseguirá, dentro de dois anos. - Struan virou-se para Culum - De você, rapaz, quero dois anos de sua vida. Se você se tornar Tai-Pan, mais três anos. Cinco anos, no total.

- Se eu não concordar com as condições, então terei de partir? - perguntou Culum, com a boca seca, o coração doendo.

- Não. Você ainda é sócio, embora subordinado. Mas você não será mais Tai-Pan. Nunca. Terei de encontrar e treinar uma outra pessoa. Um ano é o período justo a pedir... exigir, de Robb. Ele já passou onze anos trabalhando. - Pegou um dos tijolos. - Você terá de provar seu próprio valor, Culum, mesmo se concordar agora. Será herdeiro aparente, é tudo. Não vai se aproveitar do meu suor, e nem de Robb. É a lei do clã, e uma boa lei para a vida. Todo homem tem de caminhar com os próprios pés. Claro que vou ajudar você, o quanto puder, enquanto estiver vivo, mas cabe a você provar o seu valor. Só um verdadeiro homem tem o direito de ficar em pé no pináculo.

Culum corou.

Robb estava olhando para Struan, detestando-o.

- Você não quer um Tai-Pan dentro de cinco meses, Dirk. Apenas uma ama-seca por um ano, não é isso?

- Garanta que assumirá por cinco anos e você escolherá a quem quiser.

- Posso eliminar Culum agora, em troca de uma promessa de cinco anos?

- Sim - disse Struan, imediatamente. - Acho que seria um desperdício, mas cabe a você decidir. Sim.

- Vê o que o poder faz a um homem, Culum? - disse Robb, com a voz tensa.

- A atual forma da Casa Nobre estaria morta, sem esta prata - disse Struan, sem rancor. - Eu já lhe dei minhas condições. Decida.

- Compreendo por que você é odiado nesses mares - disse Culum.

- É mesmo, rapaz?

- Sim.

- Você jamais saberá, verdadeiramente, até concluir seus cinco anos.

- Então, não tenho escolha, papai? São cinco anos, ou nada?

- É tudo ou nada, Culum. Se você está preparado para ser o segundo lugar, assuma o poder agora. O que estou tentando fazer você entender é que, para ser o Tai-Pan da Casa Nobre, você precisa estar preparado para existir sozinho, para ser odiado, para ter algum objetivo de valor imortal e para sacrificar qualquer pessoa que não lhe inspirar completa confiança. Devido ao fato de ser meu filho, estou oferecendo a você hoje, sem experimentá-lo, a chance de ter o supremo poder na Ásia. Ou seja, um poder de fazer quase tudo nesta terra. Eu não ofereci isto impensadamente. Sei o que significa ser o Tai-Pan. Escolha, por Deus!

Os olhos de Culum estavam presos à Bíblia. E à prata. Não quero ficar em segundo lugar, disse a si próprio. Sei isto agora. O segundo lugar não permitirá que sejam feitas coisas que valem a pena. Haverá todo tempo do mundo para se preocupar com as condições, com Jin-qua, com os chineses e com os problemas do mundo. Talvez eu não vá ter de me preocupar em ser Tai-Pan; talvez Robb não ache que eu sou suficientemente bom. Ó Deus, deixai que eu mostre ser capaz de me tornar Tai-Pan, para poder usar esse poder para o bem. Deixai que isto seja um meio para Vossos fins. A Carta deve ser aprovada. É o único meio.

O suor brotava-lhe da testa. Ele pegou a Bíblia.

- Juro por Deus obedecer a essas condições. Se eu me tornar Tai-Pan, e quando isto acontecer. Então, que Deus me ajude. - Seus dedos tremiam, quando ele recolocou a Bíblia no lugar.

- Robb? - disse Struan, sem levantar os olhos.

- Cinco anos como Tai-Pan e posso mandar Culum de volta para a Escócia? Agora? Mudar tudo que eu quiser?

- Sim, por Deus. Terei de repetir tudo? Dentro de cinco meses, você fará o que quiser. Se concordar com as outras condições. Sim.

Fez-se um silêncio no porão, só quebrado pelas constantes corridas dos ratos, na escuridão.

- Por que você iria querer que eu saísse do negócio, tio? - perguntou Culum.

- Para magoar seu pai. Você é o último descendente.

- Sim, Robb. Ele é.

- Isso é uma coisa terrível para se dizer! Terrível. - Culum estava horrorizado. - Somos parentes. Parentes.

- Sim - disse Robb, angustiado. - Mas estivemos falando verdades. Seu pai me sacrificaria, a você e a meus filhos, pelos objetivos dele. Por que eu não deveria fazer a mesma coisa?

- Talvez você faça, Robb. Talvez você faça - disse Struan.

- Você sabe que eu não faria nada para ferir você. Ó, meu Deus do céu, o que está acontecendo conosco? Adquirimos alguma prata e, de repente, estamos podres de cobiça e Deus sabe de que mais. Por favor, deixe que eu vá embora. Dentro de cinco meses. Por favor, Dirk.

- Eu preciso partir. Só no Parlamento posso realmente controlar Longstaff e seus sucessores... como você fará, quando deixar a Ásia. É assim que poderemos colocar o plano em execução. Mas Culum precisa ser treinado. Um ano como Tai-Pan e você partirá.

- Como pode ele ser treinado, num período tão curto?

- Eu saberei, dentro de cinco meses, se ele pode ser Tai-Pan. Se não puder, farei outros acertos.

- Que acertos?

- Você está pronto a concordar com as condições, Robb? Se estiver, jure sobre o Livro e vamos para cima.

- Que acertos?

- Cristo crucificado! Concorda, Robb, ou não? Será um ano, serão cinco? Ou nada?

Robb mexeu-se, mudando o apoio de uma perna para outra, enquanto o navio jogava, sob o vento mais forte. Todo seu ser o advertia a não fazer o juramento. Mas precisava fazer. Por causa de sua família, precisava. Pegou a Bíblia, que era pesada.

- Embora eu odeie o Oriente, e tudo que ele representa, juro por Deus obedecer às condições com o melhor das minhas capacidades, e que Deus me ajude a fazer isto. - Entregou a Bíblia a Struan. - Acho que você vai lamentar fazer-me Tai-Pan, por um ano.

- Talvez. Hong Kong não.

Struan abriu a Bíblia e lhes mostrou as quatro moedas pela metade que prendera na parte interna da capa, com cera de carimbar. Enumerou todas as condições de Jin-qua, com exceção do laque destinado a Gordon Chen. Esse é um negócio meu, disse Struan a si próprio, e ficou imaginando, rapidamente, o que Culum pensaria de seu meio-irmão - e de May-may - quando ouvisse falar deles. Robb sabia a respeito de May-may, embora jamais a tivesse encontrado. Struan ficou imaginando se seus inimigos já teriam contado a Culum a respeito de Gordon e de May-may.- Acho que você tinha razão em nos fazer jurar, Dirk - disse Robb. - Sabe Deus que horror significarão essas moedas.

 

Quando voltaram para a cabina, Struan foi até a escrivaninha e rompeu o selo da carta. Leu o primeiro parágrafo e gritou de alegria.

- Ela está viva! Winifred está viva, por Deus. Ela ficou boa!

Robb agarrou a carta. Struan estava fora de si e abraçou Culum e começou a dançar uma giga, e a giga se transformou em escocesa, e Struan juntou os braços aos de Culum e puxaram consigo Robb e, imediatamente, desvaneceram-se o ódio e a desconfiança entre eles.

Depois, Struan manteve-os quietos, com a enormidade de sua força.

- Agora, juntos! Um, dois, três - e deram o grito de guerra do clã, o mais alto que podiam.

- Feri! Golpe certeiro!

Depois se abraçaram novamente e gritaram:

- Camaroteiro!

Um marinheiro apareceu correndo.

- Sim, sim, sinhô!

- Um duplo para todos. Ordene ao tocador de gaita que vá para o tombadilho! Traga uma garrafa de champanha e outro bule de chá, por Deus!

- Sim, sim, senhorrr!

Então os três homens fizeram as pazes. Mas todos sabiam, nas secretas profundezas de suas mentes, que tudo mudara entre eles. Tinham sido ditas coisas demais. Logo eles seguiriam caminhos separados. Sozinhos.

- Graças a Deus você abriu a carta em seguida, Dirk - disse Robb. - Graças a Deus pela carta. Eu estava me sentindo terrível. Terrível.

- E eu - disse Culum. - Leia a carta, papai.

Struan se instalou na funda poltrona de couro e leu a carta para eles. Era em gaélico e datada de quatro meses antes, um mês depois de Culum partir de Glasgow.

Parlan Struan escrevia que a vida de Winifred estivera em perigo durante duas semanas e, depois, ela começara a se recuperar. Os médicos não conseguiram explicar o motivo, e apenas encolheram os ombros e disseram: “É a vontade de Deus.” Ela estava morando com ele, no pequeno sítio que Struan lhe dera há muitos anos.- Ela vai ficar feliz ali - disse Culum. - Mas há apenas os criados e as cabras para conversar. Onde ela vai freqüentar a escola?

- Primeiro, vamos deixar que se recupere bem. Depois, poderemos nos preocupar com isso - disse Robb. - Continue, Dirk.

Em seguida, a carta dava notícia da família. Parlan Struan tivera dois irmãos e três irmãs, e todos eles se casaram e agora seus filhos estavam casados, e tinham filhos. E também seus próprios filhos, Dirk e Flora, de seu primeiro casamento, e Robb, Uthenia e Susan, do segundo, formaram suas famílias.

Muitos de seus descendentes haviam emigrado: para as colônias canadenses, para os Estados Unidos da América. Alguns poucos estavam espalhados nas índias e na América do Sul espanhola.

Parlan Struan escrevia que Alastair McCloud, que se casara com a irmã de Robb, Susan, voltara de Londres com seu filho Hector, para viver outra vez na Escócia - a perda de Susan e de sua filha, Clair, com a cólera, lhe pesara muito, e quase o destruíra; ele recebera uma carta dos Kerns - Flora, irmã de Dirk, casara-se com Farran Kern, e, no ano passado, eles viajaram para Norfolk, Virgínia, de navio. Chegaram bem, a viagem fora boa e eles, e seus três filhos, estavam com boa saúde e felizes.

A carta continuava: “Conte a Robb que Roddy foi para a universidade ontem. Eu o coloquei na diligência para Edimburgo com seis xelins no bolso e comida para quatro dias. Seu primo, Dougall Struan, escreveu que vai ficar com ele nas férias e será seu guardião, até Robb voltar para casa. Tomei a liberdade de enviar uma ordem de pagamento à vista em nome de Robb, de cinqüenta guinéus, para pagar quarto e pensão por um ano, e um xelim por semana para os pequenos gastos. Também lhe dei uma Bíblia e o adverti contra as mulheres fáceis, a bebedeira e o jogo, e li para ele um trecho do Hamlet de Will Shakespeare, a respeito de ‘não ser devedor e nem fazer empréstimos’, e fiz o rapaz escrever isto e pregar na capa do Livro Sagrado. Ele tem boa caligrafia.

“Sua querida Ronalda e as crianças estão enterradas numa das covas destinadas às vítimas da peste. Sinto muito, Dirk, meu filho, mas a lei dizia que todos os que morriam tinham de ser enterrados assim, e cremados e cobertos com cal, para a segurança dos vivos. Mas o enterro foi consagrado de acordo com nossa fé, e a terra isolada como terreno bendito. Que suas almas repousem em Deus”. Não se preocupe com Winnie. A garota está verdadeiramente linda, e aqui em Loch Lomond, onde Deus pousou seu pé, ela crescerá e se transformará numa bela mulher, temente a Deus. Ouça bem, agora: não deixe os bárbaros pagãos da Cathay indiana dominarem sua alma e tranque sua porta cuidadosamente contra o mal que prolifera nessas terras diabólicas. Será que você não vai voltar logo para casa? Minha saúde está muito boa e o Senhor Deus me abençoou. Já tenho idade e poucos conseguem escapar, nesses dias terríveis, mas eu estou muito bem. Houve grandes tumultos em Glasgow e em Birmingham e Edimburgo, segundo dizem os jornais. Novos levantes cartistas. Os operários das fábricas pedem mais dinheiro, em troca de seus serviços. Houve um bom enforcamento há dois dias, em Glasgow, por roubo de carneiros. Malditos ingleses! Em que mundo estamos vivendo, quando um escocês é enforcado apenas por roubar um carneiro inglês, condenado por um juiz escocês. Terrível. Na mesma sessão do tribunal, centenas foram deportados para a terra australiana de Van Diemen, como punição por tumultos e greves e por queimarem fábricas. O amigo de Culum, Bartholomew Angus, foi condenado ao exílio por dez anos, em Nova Gales do Sul, por liderar uma manifestação cartista em Edimburgo. Ainda chegam pessoas...”

- Ah, meu Deus! - disse Culum.

- Quem é Bartholomew, Culum? - perguntou Struan.

- Morávamos no mesmo quarto, na universidade. Pobre Bart!

Struan disse, com voz dura:

- Você sabia que ele era um cartista?

- Claro. - Culum foi até à janela e ficou olhando para a esteira do navio.

- Você é cartista, Culum?

- Você próprio disse que a Carta era boa.

- Sim. Mas também lhe falei dos meus pontos de vista a respeito de insurreição. Você é cartista militante?

- Se estivesse em meu país, seria. A maioria dos estudantes universitários é a favor da Carta.

- Então é bom que você esteja por aqui, por Deus! Bartholomew liderou uma manifestação e pegou dez anos. Temos boas leis e o melhor sistema parlamentar do mundo. Insurreição, tumultos e greves não são a maneira certa de alcançar as modificações.

- O que mais diz a carta, papai?

Struan ficou olhando para as costas do filho, por um momento, ouvindo um eco do tom de voz de Ronalda. Ele fez uma anotação mental no sentido de examinar com mais cuidado, no futuro, a movimentação cartista. Depois, começou a ler novamente: “Ainda chegam pessoas diariamente a Glasgow, vindas dos Highlands, onde os proprietários rurais ainda cercam as terras dos clãs e mandam embora os membros do clã que teriam direito a elas, por nascimento. Aquele demônio de coração negro, o Conde de Struan, que Deus o faça cair morto, está formando um regimento para combater nas colônias indianas. Os homens correm para sua bandeira, atraídos por promessas de pilhagem e terras. Há um boato de que ele vai ter de entrar em guerra outra vez com os malditos americanos, pelas colônias canadenses, e circulam rumores de que a guerra eclodiu entre aqueles demônios e os franceses e russos, por causa dos turcos otomanos.. Aqueles malditos franceses! Como se não já tivéssemos sofrido bastante com aquele satanás Bonaparte.

“Vivemos uma situação lamentável, meu filho. Ah, esqueci de mencionar que foram feitos planos para a construção de uma ferrovia unindo Glasgow e Edimburgo, dentro de cinco anos. Não será ótimo? Então, talvez, nós escoceses poderemos nos unir e derrubar os demônios ingleses e ter o nosso próprio rei. Beijo você e seu irmão, e abrace Culum por mim. Seu pai respeitoso, Parlan Struan.”

Struan ergueu os olhos, com um sorriso seco.

- Tão sanguinário como sempre.

- Se o conde forma um regimento para ir à Índia, poderá aparecer por aqui - disse Robb.

- Sim. Tive o mesmo pensamento. Bom, rapaz, se chegar algum dia aos domínios da Casa Nobre, esse regimento voltará para casa sem líder, com a ajuda de Deus.

- Com a ajuda de Deus - ecoou Culum.

Houve uma batida na porta e o camaroteiro entrou às pressas com o champanha, copos e chá.

- O Capitão Orlov lhe agradece em nome da tripulação, senhorrr.

- Convide-o, e também a Wolfgang, para virem ter conosco depois da vigília.

- Sim, sim, senhorrr!

Depois de terem sido servidos o vinho e o chá, Struan ergueu o copo.

- Um brinde. Para Winifred, que retornou de entre os mortos!

Beberam, e Robb disse:

- Outro brinde. Este é para a Casa Nobre. Que nunca mais tornemos a pensar mal ou fazer mal um ao outro.

- Sim.

Beberam outra vez.

- Robb, quando chegarmos a Hong Kong escreva aos nossos agentes. Diga-lhes para descobrirem quem eram os dirigentes do nosso banco e quem foi responsável pelo abuso na concessão de créditos.

- Está bem, Dirk.

- E então, papai? - perguntou Culum,

- Então vamos destruir esses responsáveis - disse Struan. E as suas famílias.

Culum sentiu um arrepio, diante da determinação implacável da sentença.

- Por que suas famílias?

- O que a cobiça deles fez com a nossa família? Conosco? Com nosso futuro? Teremos de pagar durante anos a sua cobiça. Então, eles terão de pagar em igual medida. Todos eles.

Culum levantou-se e caminhou para a porta.

- O que você quer, rapazinho?

- A latrina. Quero dizer, o “toalete”. A porta fechou-se atrás dele.

- Desculpe ter dito tudo aquilo - suspirou Struan. - Tinha de ser feito daquela maneira.

- Eu sei. Também sinto muito. Mas você tem razão, quanto ao Parlamento. Mais e mais poder passará para o Parlamento, e ali vão ser resolvidas as grandes transações de negócios. Eu supervisionarei o financiamento, e ambos poderemos supervisionar Culum e ajudá-lo. Não foi maravilhoso o que aconteceu com Winifred?

- Sim.

- Culum tem idéias muito próprias a respeito de algumas coisas, não é?

- Ele é muito novo. Ronalda os criou... bem, ela tomou as Escrituras ao pé da letra, como você sabe muito bem. Culum terá de amadurecer, algum dia.

- O que você vai fazer com relação a Gordon Chen?

- Você quer dizer, com relação a ele e Culum? - Struan observou as gaivotas grasnando. - Isto vai ter de ser pensado logo que voltarmos a Hong Kong.

- Pobre Culum. Amadurecer não é fácil. Struan abanou a cabeça.

- Nunca é fácil.

Depois de um momento, Robb disse:

- Lembra-se de minha mulher Ming Soo?

- Sim.- Muitas vezes ficou imaginando o que aconteceu com ela e com a criança.

- O dinheiro que você lhe entregou daria para se instalar como uma princesa e encontrar um ótimo marido, Robb. Ela deve ser a mulher de um mandarim, em alguma parte. Não precisa se preocupar com elas.

- A pequena Isabel deve ter dez anos, agora.

Robb se deixou mergulhar outra vez na lembrança sempre agradável de sua risada e da gratificação que lhe dava Ming Soo. Tanta, pensou ele. Ela lhe dava mais amor e bondade, gentileza e compaixão num só dia do que Sarah lhe dera durante todo o casamento dos dois.

- Você deveria casar-se outra vez, Dirk.

- Há tempo para pensar a respeito disso. - Struan disse, distraidamente, examinando o barômetro. Marcava 30.1, bom tempo. - Trate Culum de maneira bastante dura, quando você for Tai-Pan, Robb.

- Vou fazer isso - disse Robb.

 

Quando Culum chegou ao convés, o China Cloud deu a volta e saiu do canal que a pequena ilha de Tung Ku Chau, em alto-mar, formava com Hong Kong. O navio saiu velozmente do estreito, na via dominada pelas montanhas, e entrou em mar aberto, dobrando em direção sudoeste. Outra ilha maior, Pokliu Chau, ficava duas milhas a bombordo. Uma forte monção nordeste mosqueava as ondas, e acima havia um opaco lençol de nuvens.

Culum seguiu em frente, evitando cuidadosamente os círculos de cordas e amarras bem-arrumados. Caminhou ao longo das reluzentes fileiras de canhões, maravilhando-se com a limpeza de tudo. Estivera a bordo de outros navios mercantes no porto de Hong Kong e eram todos imundos.

O trecho da proa até estibordo estava ocupado por dois marinheiros, então ele passou por sobre a amurada e se instalou a estibordo. Segurou-se nas cordas dos salva-vidas e, com grande dificuldade, tirou as calças e se acocorou precariamente na rede.

Um jovem marinheiro ruivo aproximou-se, pulou por sobre o passadiço e entrou na proa, tirando as calças. Ele estava descalço e não se segurou nas cordas, ao se acocorar.

- Bom-dia, senhorrr - disse o marinheiro.

- Para você também - disse Culum, segurando-se sombriamente nas cordas.

O marinheiro terminou depressa. Inclinou-se para a frente, em direção ao passadiço, e tirou um quadrado de papel de uma caixa, limpando-se em seguida. Depois, cuidadosamente, atirou o papel para baixo e ajeitou as calças em tomo da cintura.

- O que você está fazendo? - perguntou Culum.

- Hein? Ah, o papel, senhorrr! Que um raio me parta se eu sei, senhorrr. São ordens do Tai-Pan. Limpe a bunda com papel, ou então perca dois meses de pagamento e passe dez dias na maldita casa da guarda. - O marinheiro riu. - O Tai-Pan é muito correto, com seu perdão. Este é seu navio, então é bom limpar a maldita bunda. - Pulou para bordo, com facilidade, e mergulhou as mãos num balde de água do mar, atirando-a em seguida sobre os pés. - Lave também as malditas mãos, por Deus, e depois os pés, senão vai para a maldita prisão! É muito estranho. É um disparate completo... com seu perdão, senhorrr. Mas, com essa coisa de lavar as malditas mãos, e limpar a maldita bunda, e tomar banho uma vez toda maldita semana, e roupas limpas uma vez a cada maldita semana, a vida é mesmo uma merda.

- Merda total - disse outro marinheiro, debruçando-se no passadiço, a mastigar um naco de fumo. - O pagamento é em boa prata? Quando chegar o dia, por Deus! Comer como um maldito príncipe? Dinheiro da presa, além disso. Que mais você quer, Charlie? - Depois, para Culum: - Não sei como o Tai-Pan consegue isso, senhorrr, mas nos navio dele tem menos sífilis e menos escorbuto do que em qualquer outro, por esses mares. - Ele cuspiu em direção a estibordo o sumo do tabaco. - Então eu limpo a bunda e faço isso com gosto. Com seu perdão, senhorrr, se fosse o senhorrr eu fazia a mesma coisa. O Tai-Pan gosta muito que obedeçam às orde dele!

- Rizar a gávea e mastaréu de sobrejoanete - gritou o Capitão Orlov do tombadilho, com um vozeirão, para um homem tão pequeno.

Os marinheiros bateram continência para Culum e uniram-se aos homens que estavam escalando os cabos.

Culum usou o papel e lavou as mãos, desceu e esperou uma oportunidade para intervir na conversa.

- De que adianta usar papel?

- Hein? - perguntou Struan.

- Na proa. Usar papel, ou dez dias de prisão na casa da guarda.

- Ah, eu esqueci de lhe dizer, menino. Os chineses acham que existe alguma ligação entre as fezes e as doenças.

- É ridículo - zombou Culum.

- Os chineses não pensam assim. Nem eu. - Struan virou-se para Robb. - Experimentei o sistema por três meses no China Cloud. O número de casos de doença diminuiu.

- Mesmo em comparação com o Thunder Cloud? - perguntou Robb.

- Sim.

- É uma coincidência - disse Culum.

Robb grunhiu.

- Você vai encontrar uma porção de coincidências em nossos navios, Culum. Faz apenas um pouco mais de cinqüenta anos desde que o Capitão Cook descobriu que limões e verduras frescas curavam o escorbuto. Talvez as fezes tenham alguma coisa a ver com as doenças.

- Quando você tomou banho pela última vez, Culum? - perguntou Struan.

- Não sei... um mês... não, eu me lembro. O Capitão Perry insistia para que eu tomasse banho junto com a tripulação uma vez por semana no Thunder Cloud. Quase morri de frio. Por quê?

- Quando você lavou suas roupas, pela última vez? Culum piscou para o pai e olhou para suas grossas calças de lã marrom e casaco de marinheiro.

- Nunca foram lavadas! Por que deveriam ser lavadas? Os olhos de Struan brilharam.

- De agora em diante, em terra ou a bordo, você banha seu corpo inteiro uma vez por semana. Use papel e lave as mãos. Mande lavar as roupas uma vez por semana. Não beba água, apenas chá. E escove os dentes todos os dias.

- Por quê? Não beber água? Isto é loucura. Lavar minhas roupas? Ora, elas vão encolher, perder o corte e Deus sabe o quê!

- É isto que você vai fazer. Assim é o Oriente. Quero você vivo. E bem. E saudável.

- Não vou fazer nada disso. Não sou uma criança e nem um de seus marinheiros.

- É melhor você fazer o que seu pai diz - falou Robb. - Eu lutei contra ele, também. Contra todas as idéias novas que ele pôs em prática. Até ele provar que essas coisas funcionavam. Por que, ninguém sabe. Mas, em locais onde morria gente feito mosca, nós escapamos.

- Você, nem tanto assim - disse Culum. - Você me disse que está doente o tempo todo.

- Sim, mas isso vem de anos. Nunca acreditei no que seu pai dizia a respeito da água, e então continuei a bebê-la. Agora, minhas tripas sangram e sangrarão sempre. É tarde demais para mim, mas, por Deus, eu gostaria de ter experimentado. Talvez estivesse sem esse problema. Dirk jamais bebe água. Só chá.

- É o que os chineses fazem, rapaz.

- Não acredito nisso.

- Bom, enquanto você está descobrindo se é verdade ou não, - replicou Struan - obedecerá a essas ordens. São ordens.

Culum fechou a cara.

- Só por causa de alguns costumes chineses pagãos, tenho de mudar todo meu estilo de vida. É isso que você está dizendo?

- Estou preparado para aprender com eles. Sim. Tentarei tudo para manter minha saúde, e você vai fazer a mesma coisa, por Deus. - Struan deu um grito. - Camaroteiro!

A porta se abriu.

- Sim, sim, senhorrr.

- Prepare um banho para o Sr. Culum. Em minha cabina. E roupas limpas.

- Sim, sim, senhorrr.

Struan atravessou a cabina, e se debruçou sobre Culum. Examinou a cabeça do filho.

- Você tem piolhos no cabelo.

- Eu não entendo você, de maneira nenhuma! - explodiu Culum. - Todo mundo tem piolhos. Os piolhos nos acompanham, gostemos ou não. A pessoa se coca um pouco, e é tudo.

- Eu não tenho piolhos, e nem Robb.

- Então vocês são esquisitos. Únicos. - Culum tomou um gole de champanha, cheio de irritação. - Tomar banho é um risco estúpido para a saúde, como todo mundo sabe.

- Você está fedendo, Culum.

- Como todo mundo - disse Culum, cheio de impaciência. - Não é por isso que sempre usamos pomadas? Feder também é um estilo de vida. Os piolhos são uma maldição que acompanha as pessoas, e daí?

- Eu não fedo, e nem Robb, e nem a família dele, e nem os meus homens, e nossa saúde é a melhor do Oriente. Você vai fazer o que eu lhe disser. Os piolhos não são necessários, e nem tampouco feder.

- É melhor você ir para Londres, papai. É o maior fedor do mundo. Se as pessoas ouvirem você falar a respeito de piolhos e de feder, vão pensar que está louco.

Pai e filho olharam um para o outro.

- Você vai obedecer às ordens. Vai se limpar, por Deus, ou então mandarei o mestre fazer isto por você. Para o convés!

- Faça isso, Culum - intercedeu Robb. Ele sentia o ressentimento de Culum e a inflexibilidade de Struan. - Que importa? Um acordo. Experimente durante cinco meses, hein? Se não se sentir melhor até então, volte para o estilo habitual.

- E se eu me recusar?

Struan olhou-o implacavelmente.

- Eu mimo você, Culum, como nunca fiz com ninguém. Mas algumas coisas você vai fazer. Senão, vou tratá-lo como a um marinheiro desobediente.

- O que, quer dizer isso?

- Levo você a reboque atrás do navio por dez minutos e assim você fica lavado.

- Em vez de dar ordens - Culum bradou, indignado - por que você não diz simplesmente “por favor”, de vez em quando?

Struan deu uma boa risada.

- Por Deus, você tem razão, rapaz. - Bateu nas costas de Culum. - Quer, por favor, fazer o que eu digo? Por Deus, você tem razão. Vou dizer “por favor” com mais freqüência. E não se preocupe com as roupas. Vamos contratar para você o melhor alfaiate da Ásia. Você precisa de mais roupas, de qualquer jeito. - Struan olhou para Robb. - Seu alfaiate, Robb?

- Sim. - Logo que nos instalarmos em Hong Kong.

- Vamos mandar chamá-lo amanhã, para que venha de Macau, com seus ajudantes. A menos que já esteja em Hong Kong. Por cinco meses, rapaz?

- Está bem. Mas ainda acho esquisito.

Struan tornou a encher os copos.

- Agora, acho que deveríamos comemorar o renascimento da Casa Nobre.

- Como, Dirk? - perguntou Robb.

- Daremos uma festa.

- O quê? - Culum ergueu os olhos, excitadíssimo, com a indignação esquecida.

- Sim. Um baile. Para toda população européia. Em estilo principesco. Daqui a um mês.

- Isso vai causar o maior corre-corre! - disse Robb.

- O que quer dizer, tio?

- Haverá o maior pânico entre as senhoras. Todas competirão pela honra de ser a mais bem-vestida... segundo a última moda! Vão dar em cima dos maridos e tentar roubar os costureiros das outras! Meu Deus, um baile é uma idéia maravilhosa. Fico imaginando o que Shevaun vai usar.

- Nada... se isto lhe agradar! - Os olhos de Struan brilharam. - Sim, um baile. Daremos um prêmio para a senhora que estiver mais bem-vestida. Acho que o prêmio...

- Não ouviu falar do julgamento de Paris? - perguntou Robb, horrorizado.

- Sim, mas Aristotle será o juiz.

- Ele é inteligente demais para aceitar um encargo desses.

- Veremos. - Struan refletiu por um momento. - O prêmio tem de ser valioso. Mil guinéus.

- Você deve estar brincando! - disse Culum.

- Mil guinéus.

Culum ficou acabrunhado com a idéia de tal extravagância. Era obsceno. Criminoso. Mil guinéus na Inglaterra, hoje, e a pessoa poderia viver como um rei por cinco ou dez anos. O salário de um operário de fábrica, que trabalhava do amanhecer até o entardecer, e continuando pela noite adentro, seis dias por semana, durante todas as semanas do ano, era entre quinze e vinte libras anuais - e com isso tinha um lar e os filhos eram criados e mantida sua mulher, com pagamento de aluguel, comida, roupas, carvão. Meu pai está louco, pensou ele, embriagado pelo dinheiro. Pense nos vinte mil guinéus que arriscou na estúpida aposta com Brock e Gorth. Mas aquilo foi um jogo para se livrar de Brock. Um jogo que valeria a pena, se desse certo, e, de certo modo, deu - as barras de prata encontram-se no China Cloud e estamos ricos outra vez. Ricos.

Agora, Culum sabia que ser rico significava não ser mais pobre. Sabia que seu pai estava certo - não era o dinheiro que importava. Só a falta dele.

- É demais, demais - disse Robb, chocado.

- Sim. De certa maneira, é. - Struan acendeu um charuto. - Mas é dever da Casa Nobre ser principesca. A notícia vai se espalhar como nenhuma outra antes. E os relatos a respeito circularão por cem anos. - Pôs a mão no ombro de Culum. - Jamais esqueça outra regra, rapazinho: quando você está fazendo apostas altas, tem de assumir grandes riscos. Se não está preparado para arriscar muito, não faz parte do jogo.

- Uma soma tão grande pode fazer, digamos, algumas pessoas arriscarem mais dinheiro do que poderiam gastar. Isso não é bom, verdade?

- Dinheiro é para ser gasto. Eu diria que este vai ser um dinheiro bem gasto.

- Mas o que você está disputando?

- Prestígio, rapaz. - Struan virou-se para Robb. - Quem será a vencedora?

Robb balançou a cabeça, atarantado.

- Não sei. Beleza... Shevaun. Mas a melhor vestida? Algumas arriscariam uma fortuna para conseguir essa honra, quanto mais o prêmio.

- Você já conhece Shevaun, Culum?

- Não, papai. Eu a vi uma vez passeando na estrada que George... George Glessing, construiu, do Cabo Glessing ao Vale Feliz. A Srta. Tillman é linda. Mas acho a Srta. Sinclair muito mais atraente. Tão encantadora... George e eu passamos algum tempo em sua companhia.

- É verdade? - Struan reprimiu seu repentino interesse.

- Sim - replicou Culum, ingenuamente. - Tivemos um jantar de despedida com a Srta. Sinclair e Horatio, no navio de George. O pobre George teve seu navio tomado. Ele estava muito aborrecido. Vamos realmente ter um baile?

- Por que Glessing perdeu o navio?

- Longstaff nomeou-o chefe e superintendente principal do porto, e o almirante ordenou-lhe que aceitasse. A Srta. Sinclair concordou comigo que era uma boa oportunidade para ele... mas ele não pensa assim.

- Você gosta dele?

- Ah, sim. Foi muito gentil comigo. - Culum quase acrescentou: mesmo sendo eu o filho do Tai-Pan. Ele agradecia sua sorte por Glessing e ele terem um interesse em comum. Ambos eram ótimos jogadores de críquete - Culum fora o capitão do time na universidade e, no ano anterior, jogara por seu condado.

- Por Júpiter - dissera Glessing - você deve ser ótimo. Eu só joguei pela marinha. Que posição você ocupava?

- Defesa da meta, primeira posição.

- Por Deus... eu só consegui até agora ficar em segunda. Diabo, Culum, meu velho, talvez devêssemos separar um lugar para um campo de críquete, hein? Praticar um pouco, não é?

Culum sorriu para si mesmo, muito alegre por ser um jogador de críquete. Sem isso, ele sabia que Glessing o teria afastado, e então não teria tido o prazer de estar perto de Mary. Ficou imaginando se não poderia acompanhá-la ao baile.

- A Srta. Sinclair e Horatio gostam muito de você, papai.

- Pensei que Mary estivesse em Macau.

- Ela estava, papai. Mas voltou a Hong Kong há alguns dias, uma semana, mais ou menos. Ela é linda, não é?

Houve um repentino soar de sino do navio e ruído de pés correndo e o grito: “Todos os homens ao convés!” Struan saiu como um raio da cabina.

Robb começou a segui-lo, mas parou à porta da cabina.

- Duas coisas, rapidamente, enquanto estamos sozinhos, Culum. Primeiro, faça o que o seu pai diz e seja paciente com ele. Ele é um homem estranho, com idéias estranhas, mas a maior parte delas funciona. Em segundo lugar, eu o ajudarei em tudo o que puder a se tornar Tai-Pan. - Depois, saiu correndo da cabina, com Culum atrás dele.

Quando Struan irrompeu no tombadilho, a tripulação já estava em posições de ação e abrindo as janelas de tiro e, lá em cima, os homens subiam pelo cordame.

Bem em frente, espalhado contra o horizonte, estava uma ameaçadora frota de juncos de guerra.

- Pela bunda de Thor, é uma maldita frota! - disse o Capitão Orlov. - Contei mais de cem, Tai-Pan. Viramos e fugimos?

- Mantenha seu curso, Capitão. Temos a velocidade deles, Desocupar o convés! Vamos nos aproximar e dar uma olhada. Içar velas no mastaréu e sobre a proa!

Orlov berrou para cima:

- Içar velas no mastaréu e na proa! A todo pano! - Os oficiais escutaram os gritos e os marinheiros correram para os ovéns e desdobraram as velas, fazendo o China Cloud ganhar velocidade e cortar as águas.

O navio se encontrava no canal entre a grande Ilha de Pokliu Chau, duas milhas a bombordo e a Ilha de Ap Li Chau, de menores dimensões, meia milha a estibordo. Ap Li Chau ficava a um quarto de milha ao lago da costa da Ilha de Hong Kong e formava uma bela baía que fora designada Aberdeen. Na costa de Aberdeen, havia uma pequena vila de pescadores. Struan observou mais sampanas e juncos de pesca do que existiam ali há um mês.

Robb e Culum subiram ao tombadilho. Robb viu os juncos e seu couro cabeludo formigou.

- Quem são eles, Dirk?

- Não sei. Saiam daí!

Culum e Robb se afastaram com um pulo, quando um grupo de marinheiros desceu pelo cordame e deu nós mais fortes nas amarras, correndo em seguida à popa, para posições de ação. Struan passou os binóculos para Mauss, que se arrastara a seu lado.

- Consegue distinguir a bandeira, Wolfgang?

- Não, ainda não, Tai-Pan. - Wolfgang, com a boca seca, espiava um grande e pesado junco de guerra, à frente dos outros, um dos maiores que já vira, mais de duzentos pés de comprimento e cerca de quinhentas toneladas, com a proa dominadora adernando lentamente, sob a pressão de três imensas velas. - Gott im Himmel, o número deles é grande demais para ser uma frota de piratas. Serão uma armada invasora? Com certeza, não ousariam atacar Hong Kong, estando tão próxima a nossa frota.

- Logo descobriremos - disse Struan. - Dois pontos a estibordo!

- Dois pontos a estibordo - bradou o timoneiro.

- Manter o curso! - Struan verificou a posição das velas. O palpitar do vento e o cordame esticado enchiam-no de excitação.

- Vejam! - Capitão Orlov gritou, apontando em direção à popa.

Outra flotilha de juncos arremeda, saindo de trás da extremidade sul de Pokliu Chau, preparando-se para cortar a retirada deles.

- É uma emboscada! Preparar para virar de bordo...

- Alto, Capitão! Eu estou no tombadilho!

O Capitão Orlov se aproximou mal-humorado do timoneiro, e ficou junto à bitácula, maldizendo a regra segundo a qual quando o Tai-Pan estava no tombadilho de qualquer navio da Casa Nobre, ele era o capitão.

Bom, pensou Orlov, boa sorte, Tai-Pan. Se não dermos a volta e corrermos, aqueles juncos emboscados vão cortar nosso curso e os outros, adiante, nos farão afundar, acabando com meu belo navio. Ah, não acabam, não! Vamos fazer trinta deles voarem para as covas em chamas do Valhala, e passaremos navegando entre eles, como uma Valquíria.

E, pela primeira vez, em quatro dias, esqueceu-se das barras de prata e, cheio de júbilo, pensou apenas na luta que ia começar.

A sineta do navio tocou oito vezes.

- Permissão para descer, Capitão! - disse Orlov.

- Sim. Leve o Sr. Culum e lhe mostre o que fazer. Orlov seguiu adiante de Culum, agilmente, até as profundezas do navio.

- Aos oito toques de sineta, na vigília da manhã, isto significa meio-dia, na contagem do tempo feita em terra, é dever do capitão dar corda no cronômetro - disse ele, aliviado de estar afastado do tombadilho, agora que Struan usurpara o comando. Mas também, ele disse a si próprio, se você fosse o Tai-Pan, faria o mesmo. Jamais permitiria que qualquer outra pessoa executasse a tarefa mais bela do mundo, enquanto você se encontrava ali.

Seus pequenos olhos azuis examinavam Culum. Ele vira o imediato desagrado de Culum e seus olhares disfarçados para suas costas e as pequenas pernas. Mesmo depois de quarenta anos suportando olhares assim, ele ainda detestava que o considerassem uma monstruosidade.

- Nasci durante uma tempestade de neve, num bloco de gelo flutuante. Minha mãe disse que era tão bonito que o espírito do mal, Vorg, esmagou-me com seus cascos, uma hora depois do meu nascimento.

Culum se mexeu, desajeitado, na semi-obscuridade.

- Ah?

- Vorg tem cascos fendidos. - Orlov deu uma risadinha. - Você acredita em espíritos?

- Não. Acho que não.

- Mas acredita no Demônio? Como todos os bons cristãos?

- Sim. - Culum tentava não demonstrar medo em sua expressão facial. - O que precisa ser feito com o cronômetro?

- É preciso dar corda nele. - Outra vez, Orlov deu uma risadinha. - Se você tivesse nascido como eu, talvez fosse Culum, o Corcunda, em vez de Culum, o Alto e Louro, hein? Então olharia as coisas de maneira diferente.

- Sinto muito... deve ter sido duro para você.

- Não foi duro... o Shakespeare de vocês teve palavras mais expressivas. Mas não se preocupe, Culum, o Forte. Posso matar um homem duas vezes maior do que eu com a maior facilidade. Gostaria que lhe ensinasse a matar? Não poderia ter melhor professor do que eu, a não ser o Tai-Pan.

- Não. Não, obrigado.

- É bom aprender. Muito bom. Pergunte a seu pai. Um dia, você vai precisar saber isso. Sim, muito breve. Sabia que eu tenho o dom da profecia?

Culum estremeceu.

- Não.

Os olhos de Orlov brilharam e seu sorriso fez que se parecesse ainda mais com um duende maléfico.

- Você tem uma porção de coisas para aprender. Quer ser Tai-Pan, não é?

- Sim. Espero ser. Um dia.

- Haverá sangue em suas mãos, nesse dia.

Culum tentou controlar seu repentino sobressalto.

- O que quer dizer com isso?

- Você ouviu. Terá sangue nas mãos, nesse dia. Sim. E logo vai precisar de alguém em quem possa confiar por muito tempo. Enquanto Norstedt Stride Orlov, o corcunda, for capitão de um de seus navios, você pode confiar nele.

- Eu me lembrarei disso, Capitão Orlov - disse Culum, e prometeu a si mesmo que, quando realmente se tornasse Tai-Pan, Orlov jamais seria um de seus capitães. Depois, ao tornar a olhar para o rosto do homem, teve a sensação esquisita de que Orlov adivinhara seus pensamentos.

- O que há, Capitão?

- Pergunte isso a você mesmo. - Orlov destrancou a caixa do cronômetro. Para fazer isso, precisava ficar em pé num degrau da escada. Em seguida, começou a dar corda no relógio, cuidadosamente, com uma grande chave. - É preciso dar trinta e três voltas.

- Por que você faz isso? E não um dos oficiais? - perguntou Culum, sem dar realmente muita importância àquilo.

- É dever do capitão. Um dos deveres. A pilotagem é uma das coisas secretas. Se todos a bordo soubessem pilotar, haveria um motim atrás do outro. É melhor que só o capitão e uns poucos oficiais saibam. Então, sem eles, os marinheiros estariam perdidos e indefesos. Mantemos o cronômetro trancado, neste local, por uma questão de segurança. Não é bonita? A feitura? Feito por bons cérebros ingleses e boas mãos inglesas. Marca com exatidão a hora de Londres.

Culum sentiu a proximidade do passadiço e a náusea crescendo dentro dele - sobrecarregada pelo medo de Orlov e da batalha que ia começar. Mas se controlou e decidiu que não permitiria a Orlov irritá-lo, até lhe fazer perder a cabeça, e tentou fechar as narinas para não sentir o cheiro ácido e penetrante da água suja do fundo do casco. Mais tarde, haverá um ajuste de contas, jurou.

- O cronômetro é tão importante assim?

- Esteve na universidade e pergunta isso? Sem essa beleza, estaríamos perdidos. Já ouviu falar no Capitão Cook? Ele usou o primeiro cronômetro, e o testou, há sessenta anos. Até aquela data, não tínhamos nenhum meio de descobrir em que longitude nos encontrávamos. Mas agora, com a hora exata de Londres e o sextante, sabemos onde estamos, milha por milha. - Orlov tornou a fechar a caixa e lançou um olhar abrupto para Culum. - Sabe usar um sextante?

- Não.

- Quando tivermos afundado os juncos, eu vou lhe mostrar. Acha que pode ser Tai-Pan da Casa Nobre em terra? Hein?

Houve um ruído de pés correndo no convés, e eles sentiram o China Cloud pular ainda mais rápido, através das ondas. Ali embaixo, todo o navio parecia pulsar, cheio de vida.

Culum lambeu os lábios secos.

- Poderemos afundar tantas embarcações e escapar?

- Se não, nós nadaremos. - O homenzinho olhou radiante para Culum. - Já naufragou, ou afundou?

- Não. E não sei nadar.

- Se é marinheiro, melhor não saber nadar. Nadar só prolonga o inevitável... se o mar quer você, e se sua hora chegou. - Orlov puxou a corrente, para se certificar de que o cadeado estava seguro. - Há trinta anos que estou no mar e não sei nadar. Já naufraguei mais de dez vezes, dos mares da China ao Estreito de Bhering, mas sempre encontrei algum pedaço de mastro ou bote. Um dia, o mar vai me pegar. Quando chegar a hora. - Afrouxou o chicote de ferro, no pulso. - Vou ficar satisfeito de voltar ao porto.

Culum, cheio de reconhecimento, seguiu-o pelo passadiço acima.

- Você não confia nos homens que estão a bordo?

- Um capitão confia em seu navio, só em seu navio. E em si mesmo, apenas.

- Você confia em meu pai?

- Ele é o capitão.

- Não entendo.

Orlov não respondeu. Ao chegar ao tombadilho, observou as velas e franziu a testa. Pano demais, muito perto da costa. Um número excessivo de recifes desconhecidos e um cheiro de borrasca, em alguma parte. A linha invasora de juncos encontrava-se duas milhas à frente: implacável, silenciosa, aproximando-se deles.

O navio estava a todo pano, as velas principais ainda rizadas, toda a embarcação pulsando de alegria. Esta alegria tomava conta da tripulação. Quando Struan ordenou que as rizes fossem soltas, eles pularam para o cordame, cantaram enquanto colocavam as velas nos lugares e esqueceram as barras de prata que os contaminavam. O vento se tornou mais forte e as velas estalejaram. O navio adernou e ganhou velocidade, com a água do mar espumando como fermento nos embornais.

- Sr. Cudahy! Dê uma olhada lá embaixo e traga as armas para cima!

- Sim, sim, senhorrr - Cudahy, o primeiro-imediato, era um irlandês de cabelos negros, com olhos que dançavam, e usava um brinco de ouro.

- Manter o rumo! Vigia nos convés! Preparar canhão! Carregar a metralha!

Os homens se atiraram aos canhões, fizeram-nos girar para fora das portinholas das canhoneiras, carregaram-nos com a metralha e, outra vez girando-os, recolocaram-nos em seus lugares.

- Grupo de tiro número três, dose dupla extra de rum! Número dezoito, limpar o fundo do casco!

Houve vivas e pragas.

Era um hábito que Struan iniciara há muitos anos. Quando ia haver uma luta, o primeiro grupo de tiro da tripulação era recompensado e o último incumbido de executar a tarefa mais suja do navio.

Struan examinou o céu e o esticamento das velas e virou o binóculo em direção ao grande junco de guerra. Tinha muitas portinholas de canhoneiras, um dragão como figura de proa e uma bandeira que, àquela distância, ainda era indistinta. Struan via dúzias de chineses no convés e tochas acesas.

- Aprontem os barris de água! - gritou Orlov.

- Para que são os barris de água, papai? - perguntou Culum.

- Para apagar incêndios, rapaz. Os juncos têm tochas ardendo. Devem ter um bom estoque de foguetes acesos e bombas de mau cheiro. As bombas de mau cheiro são feitas de piche e enxofre. Podem causar devastação num clíper, quando não se está preparado. - Olhou em direção à popa. A outra flotilha de juncos entrava no canal, atrás deles.

- Estamos cercados, não? - perguntou Culum, “com o estômago dando voltas.”

- Sim. Mas só um louco iria por aquele caminho. Olhe para o vento, rapaz. Por aquele caminho teríamos de navegar contra ele, e algo me diz que ele logo vai mudar contra nós. Mas, para a frente, temos o vento e a velocidade de qualquer junco. Veja como são pesados, rapazinho! Como cavalos de carreta contra nós... um navio veloz. Temos dez vezes mais poder de disparo, navio contra navio.

Uma das adriças no alto do mastro principal se partiu abruptamente e a verga rangeu, batendo contra o mastro e deixando a vela solta a adejar.

- Vigia de bombordo para cima! - berrou Struan. - Mandem subir a corda de sustentação do sobrejoanete!

Culum observou os marinheiros agarrarem-se à verga, quase no alto do mastro principal, com o vento açoitando-os, a se segurarem com unhas e dentes, sabendo que ele jamais faria aquilo. Sentiu a bílis do medo em seu estômago. Não conseguiu esquecer o que Orlov dissera: sangue em suas mãos. Sangue de quem? Cambaleou até a amurada e vomitou.

- Toma aqui, rapazinho - disse Struan, oferecendo a bolsa de água que estava pendurada numa malagueta.

Culum empurrou-a, detestando o pai por ter notado que ele estava enjoado.

- Limpe a boca, pelo amor de Deus! - a voz de Struan era áspera.

Culum obedeceu, desconsoladamente, e não notou que a água, na verdade, era chá frio. Bebeu um pouco e se sentiu enjoado outra vez. Então, lavou a boca e sorveu um pouquinho do líquido, sentindo-se péssimo.

- A primeira vez em que entrei em combate, estava enjoado como um criado bêbado... mais enjoado do que você pode imaginar. E mortalmente assustado.

- Não acredito - respondeu Culum, com voz fraca. - Você nunca esteve amedrontado e nem enjoado em sua vida.

Struan resmungou:

- Bom, você pode crer. Foi em Trafalgar.

- Eu não sabia que você tinha estado lá! - De tão pasmado, Culum, por um momento, esqueceu seu enjôo.

- Eu era carregador de pólvora. A Marinha usa crianças nas naus capitânias para levar pólvora do depósito até o convés de tiro. A passagem tinha de ser tão pequena quanto possível, para diminuir as chances de ser atingida por um disparo, fazendo todo o navio explodir.

Struan lembrava-se das armas que rugiam, dos gritos dos feridos, dos membros humanos espalhados pelo convés, escorregadios com o sangue - do fedor do san